Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites
O Idiota
Estamos sempre ouvindo queixas quanto à ausência de gente prática na Rússia. Apregoam que não nos faltam políticos aos punhados, generais às grosas e que a qualquer momento farta quantidade de homens de negócios de todas as categorias pode ser encontrada. Mas gente prática, lá isso não há - pelo menos todo o mundo se anda queixando de tal escassez. Fartamo-nos de ouvir que não há técnicos eficientes nas estradas de ferro, pelo menos em muitas linhas. Que não é possível sequer instalar e dirigir decentemente uma companhia de vapores. A todo momento ouvimos dizer que houve um encontro de trens ou que ruiu uma ponte à passagem de um comboio, de uma linha de estrada de ferro inaugurada pouco antes. Ou então se escuta comentar que um trem de ferro ficou bloqueado pelo gelo e que, devido a isso, uma viagem que mesmo no inverno dura quatro horas se atrasou cinco dias. Fala-se de centenas de toneladas de víveres apodrecendo durante dois ou três meses por dificuldade de despacho. E até se conta (muito embora pareça quase incrível) que o encarregado de um comerciante apanhou com um caixote pelas trombas somente pelo fato de ter pretendido promover um despacho de mercadorias. E que o superintendente, autor da façanha, tentou justificar essa demonstração de eficiência sob o fundamento de que perdera a paciência. Tantas são as repartições do Governo que até fazem uma pessoa cambalear ao pensar nelas. Isso de serviço público representa tal variedade de cargos que toda gente ou já ocupou um, ou ainda está ocupando, ou pretende arranjar nomeação breve. Assim, natural é que com tanta abundância de material fiquemos admirados que ainda não tenha sido possível instalar uma repartição técnica decente, de maneira a fazer correr no horário uma estrada de ferro ou funcionar direito uma linha de navegação.
Tal estado de coisas sugere muitas vezes uma simples resposta - tão simples de fato que o difícil é acreditar, isso sim, na explicação. É verdade, dizem-nos, que todo o mundo na Rússia esteve, está ou pretende se empregar em repartições governamentais, e que tal sistema vem sendo seguido há mais de duzentos anos, segundo os mais rígidos padrões germânicos, isto é, de avô a neto... Mas também é verdade que isso de funcionário público é o indivíduo mais negativamente prático do mundo, e que as coisas chegaram a tal ponto que um caráter puramente teórico e a negação absoluta de qualquer conhecimento técnico vêm sendo encarados cada vez mais, mesmo nos círculos oficiais, como os atributos e prerrogativas que recomendam uma promoção. Mas nem é preciso discutir sobre funcionários; restrinjamo-nos a falar sobre homens práticos. Não resta dúvida que incompetência e completa falta de iniciativa sempre foram consideradas como principal indício de um homem prático, sendo assim ainda mesmo hoje. Mas por que nos censuramos se esta opinião já por si só constitui uma acusação?! Sempiternamente, por este mundo afora, a falta de originalidade sempre foi avaliada como a principal característica e a melhor recomendação de um homem prático, ativo e diligente, e no mínimo noventa e nove por cento da humanidade - para só avaliarmos modestamente - manteve sempre esta opinião e, no máximo, um por cento divergindo dela.
Inventores e gênios foram quase sempre considerados apenas como loucos, no começo de suas carreiras; e não raro até ao fim delas, também. Esta é uma observação corriqueira, familiar a toda gente. Citemos um exemplo: os bancos. Há anos e anos que uma porção de gente deposita seu dinheiro em bancos, muitíssimos milhões estando investidos assim, a quatro por cento. Ora muito bem. Suponhamos que os bancos cessem de existir e que o povo seja deixado, economicamente, sob a sua própria iniciativa pessoal. Que sucederia? A maior parte desses milhões se perderia infalivelmente em especulações desenfreadas ou na mão de tratantes. Assim pois, tal hábito, o dos bancos, por exemplo, está deveras de acordo com os ditames da propriedade e da decência. Sim, se uma absoluta incompetência e uma indecorosa falta de originalidade foram aceitas universalmente como os atributos essenciais de um homem prático e de um gentleman, uma repentina transformação nesse sistema seria de todo indecente e grosseira. Qual a mãe terna e devotada que não desmaiaria e não ficaria de cama ao ver o filho ou a filha se afastar uma polegada dessa trilha obrigatória? “Não, melhor será que ele viva feliz e bem, embora sem originalidade, e o que toda mãe pensa enquanto embala um berço. Já desde os mais remotos tempos que as nossas amas cantavam ninando bebês:
“Dorme, dorme, criança chorona, que ainda te hei de ver de dragona!” Isso prova que já as nossas velhas amas consideravam o posto de general como sendo o pináculo mais alto da felicidade russa, e louvado seja Deus, que isso ainda continue sendo o ideal russo mais popular de ventura pacífica e benfazeja. E, realmente quem, na Rússia, após atravessar um curso, mesmo sem distinção, e servir durante trinta e cinco anos, não conseguirá finalmente ser general e não investirá uma soma decente em um banco? É assim que o russo acaba adquirindo a reputação de homem prático e diligente, e quase sem esforço. Entre nós a única pessoa que malogrará no intento de vir a ser general é o homem de individualidade própria... ou, por outras palavras, o homem que não suporta a rotina. Possível é que haja em tudo algum engano meu ou uma exceção estatística; mas, falando de um modo geral, a verdade é esta. Assim, a nossa sociedade tem sido perfeitamente correta na sua definição do que seja um homem prático.
Mas muito do que aqui está é supérfluo. O que eu pretendia era simplesmente dizer umas poucas palavras que explicassem os nossos amigos Epantchín. Tal família, ou pelo menos os seus membros mais representativos, sofriam de uma característica familiar específica, bem oposta às virtudes que estivemos discutindo acima. Muito embora não se capacitassem nitidamente do fenômeno (nem ele é tão fácil de ser compreendido), ainda assim suspeitavam freqüentemente que em sua família tudo era diferente de quanto nas outras se encontrava. Nas outras as coisas aconteciam serenamente, já na deles os fatos se passavam aos solavancos; os outros timbravam em seguir a rotina.., ao passo que eles sentiam atração pelo excepcional. Toda a gente se comporta de modo decorosamente tímido, optando eles por via bem inversa. Lizavéta Prokófievna era, de fato, muito propensa (demasiadamente até) a alarmar-se à toa; não que houvesse nisso desejo veemente ou saudoso daquela timidez convencional geralmente adotada. Mas na família talvez somente ela captasse tal ansiedade aflitiva, pois as moças eram ainda muito novas, não obstante possuírem boa dose de penetrante ironia; o general, esse então, conquanto arguto (o que todavia lhe custava certo esforço), o mais que fazia era murmurar “Hum!” diante das circunstâncias estarrecedoras, quanto ao mais confiando no expediente da mulher. Assim, pois, a responsabilidade de tudo cabia a ela. Não se infira daí que essa família se distinguisse por iniciativas notáveis, ou se tivesse livrado da bitola da rotina mediante uma inclinação consciente para a originalidade, o que significaria uma completa infração às normas das faculdades habituais. Oh! Longe disso! De maneira alguma agiam assim mercê de um propósito consciente. E, todavia, a despeito de tudo, a família Epantchín, apesar de altamente respeitável, não era bem o que toda família respeitável devia ser. Ultimamente dera Lizavéta Prokófievna em se queixar de si própria, sozinha, e do seu “desafortunado” caráter ante tal estado de coisas, o que aumentava a sua angústia. Dera em se culpar continuamente de ser “uma velha excêntrica e maluca que não sabia como se comportar”, afligindo-se com perturbações imaginárias, andando sempre em estado de perplexidade, atarantadamente. sem saber como agir em face das mais corriqueiras contingências. multiplicando sempre toda a sua desventura.
No começo de nossa narrativa mencionamos já que a família Epantchín desfrutava da estima sincera de todos. O próprio general, conquanto de origem obscura, era recebido em toda a parte e tratado com respeito. E de fato merecia esse respeito - em primeiro lugar como homem de fortuna e de reputação, e, em segundo lugar por ser pessoa, muito decente, apesar de não ter, de modo algum. grande inteligência. É que uma certa estupidez de espírito parece ser as vezes uma qualificação necessária se não para todo homem público, ao menos para aquele que seriamente se propõe a ganhar dinheiro. E, finalmente, o general tinha boas maneiras, era modesto, sabia como e quando conter a língua, sem todavia permitir que lhe pisassem nos calos; não somente era homem de posição, mas também de bons sentimentos. O mais importante, porém, é que era fortemente protegido. Quanto à sua mulher, como já explicamos, era de boa família, o que, aliás, não é motivo para grande consideração entre nós a não ser que haja poderosos amigos, no caso. De tais amigos poderosos, porém, ela soubera adquirir um círculo razoável. Era respeitada e no fim as pessoas de importância acabavam gostando dela, tendo sido pois natural que os demais seguissem tal exemplo, considerando-a e recebendo-a. Não havia dúvida que todas as ansiedades dela pela família eram sem fundamento. Poucos motivos havia para esses afoitamentos que eram ridiculamente exagerados. Mas é sempre a mesma história com todos nós: se temos uma verruga na testa ou no nariz, cuidamos sempre que ninguém tenha mais nada a fazer, no mundo, senão ficar pasmado para a nossa verruga, achar graça nela e por causa dela nos desprezar, mesmo que tenhamos descoberto a América. Sem dúvida Lizavéta Prokófievna era considerada geralmente “uma excêntrica”, o que não era questão que a impedisse de ser estimada; -mas o caso é que acabou por não acreditar mais nessa estima, todo o seu tormento jazendo nisso. Encarando as filhas, ela se consumia pela suspeita de que estava arruinando o futuro delas, pois era ridícula, insuportável, ignorando como comportar-se. E por tudo isso estava sempre censurando as filhas e o marido, brigando com eles o dia inteiro, embora os amasse com uma afeição apaixonada, a ponto de se sacrificar.
O que mais que tudo a incomodava era a desconfiança de que as filhas se estavam tornando quase tão excêntricas quanto ela, e que moças de sociedade não deviam e não podiam ser assim. “Elas estão mais é dando para niilistas, isso é que é!” - repetia a si mesma a todo instante. Neste ano que passou, e de então para cá, esta melancólica noção cada vez se fixava mais em seu espírito. “E para começar, por que é que não se casam? - não cessava de se interrogar. “Para atormentarem a mãe fazem disso o fim e a razão de suas existências; e isso tudo advém dessas idéias novas, desses amaldiçoados direitos da mulher! Pois não meteu Agláia na cabeça, há seis meses, cortar o cabelo, aquele seu magnífico cabelo? (Deus do Céu, nem mesmo eu, quando moça, tive cabelos assim!) Estava com a tesoura na mão; tive de me ajoelhar aos pés dela... Pois bem, fez; e fez por despeito, sem dúvida para martirizar sua mãe, pois é uma menina ruim. voluntariosa, mimada e acima de tudo é ruim, ruim, ruim! Pois não quis essa gorducha, a Aleksándra, seguir o exemplo da outra, e não é que tentou cortar as tranças, e não por birra, não por capricho, e sim só por simplicidade, por burrice, só Porque Agláia a persuadiu de que sem aqueles balandraus dormiria melhor e se livraria de ter dor de cabeça? E o número sem conta de pretendentes que tiveram nestes cinco anos? E olhem lá que havia uns rapagões de primeira ordem, entre eles! Elas estão esperando o quê? Por que é que não se casam? Simplesmente, para aborrecerem sua pobre mãe, não há outra razão, nenhuma, absolutamente!”
Até que enfim o sol parece que ia raiar, para o seu coração materno. Até que enfim uma filha, até que enfim Adelaída se tinha arranjado. “Ao menos uma nos sai das mãos!”, dissera a Sra. Epantchiná, quando teve ensejo de se referir ao fato, em voz alta (em suas reflexões ela conversava consigo mesma com a maior das ternuras!). E como a coisa se dera bem, como calhara tudo tão direito! Até na sociedade se comentava isso com respeito. Ele era um homem de altas maneiras; um príncipe, um ricaço, um rapagão, e, o que é mais, se tratava de um casamento por amor. Que poderia ser melhor? Mas sempre tivera menos cuidados com Adelaída do que com as outras duas, muito embora suas propensões artísticas às vezes mexessem gravemente com o apreensivo coração da mãe. “Mas Adelaída tem um temperamento prazenteiro e muito juízo, e, além disso, trata-se de uma menina que irá longe, com as próprias pernas”, tal era a reflexão consoladora. Por quem ela mais receava, entre todas, era por Agláia. Relativamente à filha mais velha, Aleksándra, a mãe ainda não soubera direito se devia ter, ou não, apreensões. Muitas vezes imaginava que para essa “não restavam mais esperanças”. “Está com vinte e cinco anos, portanto acaba mais é solteirona. E com aquela beleza toda!” E pensando nela, Lizavéta Prokófievna derramava lágrimas, de noite - é a pura verdade -, enquanto Aleksándra dormia que era um regalo! Que há de ser dela? Será apenas niilista ou simplesmente uma espinoteada?” Que nem mesmo espinoteada ela era, Lizavéta Prokófievna estava farta de saber; tanto que levava muito em conta os seus julgamentos e não cessava de lhe pedir conselhos. Mas que ela era uma “água morna” em momento algum tivera dúvidas.
“ Que se há de fazer com uma criatura que nem se mexe? E nem se liga que uma “água morna” seja quieta! Ah!... eu acabo tonta com estas meninas!”
Lizavéta Prokófievna tinha um inexplicável sentimento (de simpatia e de comiseração por Aleksándra – mais até do que por Agláia, a quem idolatrava. Mas os piores epítetos (pelos quais demonstrava a sua maternal solicitude), ironias e apelidos, como água morna”, só alegravam Aleksándra. E a coisa chegou a tal estado que, certas vezes, casos insignificantes punham a Sra. Epantchiná terrivelmente zangada, fazendo-a chegar a um perfeito frenesi. Aleksándra, por exemplo, gostava de dormir até tarde e era dada a sonhar muito. Mas os seus sonhos eram sempre marcados por uma extraordinária inépcia e inocência, podiam ser sonhos de uma criança de sete anos. Pois essa inocência mesma dos seus sonhos tornava-se uma fonte de irritação para a mãe. Certa vez sonhou Aleksándra com nove galinhas, o que deu azo a séria briga entre a mãe e a filha. Por quê? Seria difícil explicar. Outra vez, e não se repetiu, conseguira ela sonhar com qualquer coisa que podia ser chamada original - sonhara com um monge que estava sozinho em um quarto escuro onde ela sentia medo de entrar. Tal sonho foi imediatamente transmitido à mãe, em triunfo, pelas duas irmãs a rirem; mas a mãe ainda ficou mais zangada, chamando as três de “malucas”.
- Hum! Tanto tem ela de moleirona quanto de maluca e não passa de uma galinha choca! Não há meios de espevitá-la. E não éque deu para ficar triste? Que estará ela sentindo? Que é?
- Às vezes fazia essa pergunta ao marido e, como de hábito, perguntava histericamente, ameaçadoramente, exigindo uma resposta súbita. Iván Fiódorovitch dizia “Hum!”, franzia a testa, encolhia os ombros, e com um gesto descoroçoado se saía com uma frase destas:
- Do que ela precisa é de marido!
- Pois que Nosso Senhor lhe conceda um que não seja como tu, Iván Fiódorovitch! - desandava Lizavéta Prokófievna, por fim, como uma bomba. - Que não seja como tu no falar nem no julgar, Iván Fiódorovitch. Que não seja um vilão grosseiro como tu, Iván Fiódorovitch...
Iván Fiódorovitch imediatamente arranjou meios de fugir, e Lizavéta Prokófievna se acalmou, depois da “explosão”. Nessa mesma noite, naturalmente se tornou, como invariavelmente se dava, atenciosa, gentil e prazenteira para com o marido, “o grosseirão” Iván Fiódorovitch, o seu bom, querido e adorado Iván Fiódorovitch, pois sempre o amara e sempre estivera apaixonada por ele, toda a vida - fato esse de que ele estava perfeitamente ciente, e pelo qual lhe dispensava ilimitado respeito. Mas a sua principal e contínua ansiedade era Agláia.
“Ela é direitinho, direitinho eu, sob qualquer aspecto é o meu retrato”, costumava dizer a mãe consigo mesma. “Cabeçuda, um perfeito diabinho! Niilista, excêntrica, maluca e ruim, ruim, ruim! Senhor Deus, como ela vai ser infeliz!”
Mas, como íamos dizendo, um mágico sol fulgurante tinha abrandado e iluminado tudo, de repente. Pelo espaço de quase um mês, Lizavéta Prokófievna teve uma folga em suas ansiedades. O próximo casamento de Adelaída fez com que na sociedade também se viesse a falar em Agláia. E os modos de Agláia eram tão bons, tão harmoniosos, tão vivos, tão encantadores! Um nada altiva, mas isso até lhe ia bem! Portara-se, todo esse mês, tão carinhosa, tão gentil com sua mãe! (Verdade é que era necessário ter muito cuidado, estar muito atenta a Evguénii Pávlovitch, para lhe perscrutar o ínfimo, mas Agláia nem por isso o favoreceu mais do que aos outros.) Fosse lá como fosse, como se tinha ela de repente tornado uma jovem tão radiante! E que linda estava, louvado seja Deus, que linda estava! Cada dia ficava mais bela. E nisto...
Nisto aquele desventurado principezinho, aquele miserável idiotazinho, nem acabara de surgir e já tudo estava de novo uma barafunda, a casa inteira de pernas para o ar.
Que teria, pois, acontecido?
Não tinha acontecido nada a ninguém, eis a verdade. Mas Lizavéta Prokófievna possuía tal peculiaridade: armava combinações e concatenações das coisas mais triviais até chegar a ver, através da sua onipresente ansiedade, alguma coisa que a alarmasse a ponto tal que, além de a tornar doente, lhe inspirava terror totalmente exagerado e inexplicável, a todo ponto insuportável. Imagi ne-se, agora, qual não seria o seu sentimento quando, através do emaranhado de absurdos e infundados aborrecimentos, verificou qualquer coisa que realmente era importante e que desta vez sim podia com toda a seriedade causar ansiedade, hesitação e desconfiança?
“E que insolência me escreverem, naquela amaldiçoada carta anônima, que aquela marafona anda em comunicação com Agláia!” Nisto pensava Lizavéta Prokófievna, durante o percurso para casa quando trouxe consigo o príncipe e mesmo depois, quando o fez sentar-se em torno da mesa redonda, com a família inteira ali reunida. “Como se atreveram a pensar em uma tal coisa? Se eu acreditasse em uma sílaba sequer, morreria de vergonha, e ainda bem que não mostrei a carta a Agláia! Estão querendo fazer de nós, as Epantchín, uma fábrica de gargalhadas. E a culpa toda é de Iván Fiódorovitch! Ah! Por que não fomos nós passar o verão na Ilha Ieláguin? Bem dizia eu que devíamos ir para Ieláguin! Deve ter sido essa implicante Vária quem escreveu a carta, ou... talvez... mas toda a culpa, todinha, é de Iván Fiódorovitch! Foi para dar na vista que essa marafona reergueu isso outra vez, como lembrança de suas primitivas relações, para o fazer de idiota, como já judiou dele antes, aquela vez, arrastando-o pelo nariz quando ele lhe levou as pérolas... E o máximo e o mínimo, em tudo isso, é que nos comprometeu. Sim, tuas filhas, Iván Fiódorovitch, foram metidas nisso, umas moças, umas donzelas, que freqüentam a melhor sociedade, em via de se casarem; sim, elas estavam lá, estavam perto, ouviram tudo, e foram arrastadas à cena com aqueles rapazes indecorosos! Sim, tu te podes felicitar! Elas estavam lá e também ouviram! Jamais perdoarei, jamais perdoarei a este desditoso principezinho! E por que esteve Agláia com sua histeria estes três últimos dias? Por que foi que esteve a ponto até de brigar com as irmãs, até mesmo com Aleksándra cujas mãos sempre andava, antes, beijando, como se fosse Aleksándra sua mãe, tanto e tanto a respeitava? Por que se comportou ela de maneira tão enigmática com todo o mundo, estes três dias? Que tem Gavril Ardaliónovitch com isso? Por que hoje e ontem elogiou ela tanto Ívolguin e rompeu, depois, em pranto? Por que é que esse amaldiçoado “pobre cavaleiro” é citado naquela carta anônima, e por que não mostrou ela, nunca, às irmãs, a carta do príncipe?... E por que... foi que me induziu a correr à casa dele, como uma gata com ataque, e a arrastá-lo até aqui? Deus nos acuda! Eu devia estar fora do meu juízo, para poder ter feito isso! Falar a um jovem dos segredos de minha filha! E segredos que a ele dizem respeito! Deus do Céu, foi, neste caso, uma graça divina ser ele um idiota e... e... um amigo da família, se não?!... Mas será possível que Agláia se tenha deixado fascinar por um “peixe-boi” destes? Céus, que estou eu tagarelando? Arre!... Somos uma súcia de esquisitos! O que deviam era colocar-nos em uma redoma - principalmente eu - e exibir-nos a dois copeques cada um. Nunca te perdoarei isso, Iván Fiódorovitch, nunca! E por que é que ela, a minha filha, não o põe a ridículo agora? Dizia tanto que estava troçando dele e por que parou? Lá está ela, de boca aberta para ele; e nem fala nem sai de lá, planta-se, apesar de lhe ter dito que não viesse mais!... Vejam só como ele está pálido. E aquele insigne tagarela Evguénii Pávlovitch açambarcou toda a conversa. Que corda que ele tem, não pára, não deixa que ninguém se intrometa. Eu logo descobriria alguma coisa se me fosse dado converter a conversa no que eu muito bem sei!...”
O príncipe, de fato, estava bastante pálido, sentado lá rente àmesa redonda. E parecia bastante preocupado; momentos havia em que uma espécie de arrebatamento inundava a sua alma, sem que ele soubesse qual, e por quê. Oh! Com que cuidado, com que medo relanceava, às vezes, o olhar para um canto, lá donde uns olhos negros o estavam intencionalmente fitando! E ao mesmo tempo como o seu coração palpitava com delícia por poder estar sentado ali entre eles, de novo, por poder ouvir aquela voz familiar, depois do que ela lhe tinha escrito! Céus! Que lhe diria ela agora? Ele ainda não tinha pronunciado uma palavra e escutava com desmedida atenção a “disparada” de Evguénii Pávlovitch que raramente estava de ânimo tão disposto, feliz e excitado como aquela noite. O príncipe escutava-o, mas mal apreendia uma só palavra do que ele estava a contar desde muito. A exceção de Iván Fiódorovitch, que ainda não tinha voltado de Petersburgo, toda a família se achava reunida ali, como em assembléia. O Príncipe Chtch... também. Tinham já demonstrado querer sair um pouco para ouvir a banda do jardim, antes do chá. Evidentemente a conversa começara antes da chegada do príncipe. Um pouco depois Kólia fizera a sua aparição na varanda. “Ele então é recebido aqui da mesma forma que antes”, verificou o príncipe, mentalmente.
A vila dos Epantchín era luxuosa, construída em forma de chalé suíço, pitorescamente coberta por trepadeiras em flor e rodeada de um jardim, bem tratado. Estavam todos na varanda. como na casa do príncipe. mas a varanda aí era um pouco mais ampla e mais suntuosa.
O tema da conversa parecia agradar a poucos do grupo. Tinha nascido de um acalorado argumento, e não havia dúvida de que todos gostariam bem de mudar de assunto. Mas Evguénii Pávlovitch persistia cada vez mais obstinadamente, sem se importar com a impressão que estava causando; a chegada do príncipe parece que o tornou ainda mais impetuoso; Lizavéta Prokófievna já estava de cara fechada, muito embora não o estivesse quase entendendo. Agláia, sentada para um dos lados. quase em um canto, continuava a escutar, obstinadamente silenciosa.
- Ora, mas por quem são - estava Evguéníi Pávlovitch protestando veementemente - quanto ao liberalismo, não o ataco. O liberalismo não é um pecado. É uma parte essencial de um todo que sem essa parte se espatifaria, perecendo. O liberalismo tem tanto direito a existir como o mais judicioso conservadorismo. Mas eu estou atacando o liberalismo russo! E torno a repetir que o ataco justamente pela razão de que o liberal russo não é um liberal russo, mas um liberal anti-russo. Mostrem-me um liberal russo e eu o beijarei diante de todos aqui.
- Isto é se ele deixar que o senhor o beije! - disse Aleksándra que se mostrava excepcionalmente animada, a ponto de suas faces estarem mais coradas do que habitualmente.
“Ora essa, pensou Lizavéta Prokófievna, não faz senão dormir e comer, e não há meios de ninguém a despertar, senão quando, lá de ano em ano, se levanta como se tivesse uma mola e se sai com uma destas, de tal maneira que se tem de ficar de boca aberta a olhá-la.”
O príncipe instantaneamente notara, desde o começo, que Aleksándra não estava gostando da maneira um tanto jactanciosa. por que Evguénii Pávlovitch estava falando. Discorria ele sobre um assunto sério e parecia preso a isso, mas ao mesmo tempo se via que estava brincando.
- Estava eu sustentando, na hora mesmo em que o senhor chegou, príncipe - prosseguiu Evguénii Pávlovitch -, que os liberais sempre nos vieram de duas classes da sociedade: da classe dos antigos proprietários de terras, o que hoje é coisa de antanho, e de famílias clericais. E que como estas duas classes se foram transformando em castas, algo como coisa à parte da nação, e cada vez mais, assim, geração após geração; tudo quanto têm feito éabsolutamente antinacional.
- O quê? Então tudo quanto tem sido feito é antinacional? - protestou o Príncipe Chtch...
- Antinacional. Conquanto seja russo, não é nacional. Entre nós, os liberais não são russos e os conservadores tampouco são russos quaisquer deles... E podem ficar certos de que a nação não aceitará nada do que tem sido feito pelos proprietários de terras e pelos estudantes eclesiásticos, nem agora, nem mais tarde.
- Bem, isso é demais! Como pode você manter tal paradoxo -se é que está falando sério!? Protesto contra tal interpretação disparatada sobre o proprietário de terras russo. Você mesmo é um latifundiário russo - objetou calorosamente o Príncipe Chtch...
- Não estou falando do proprietário de terras russo no sentido em que você o está tomando. Essa é uma classe respeitabilíssima, e, não porque eu pertença a ela. Especialmente agora, desde que deixou de ser uma casta.
- Então quer dizer que não tem havido nada de nacionalismo em literatura? - aparteou Aleksándra.
- Não sou nenhuma autoridade em literatura, mas até a literatura russa, na minha opinião, não é absolutamente russa, a não ser, talvez, Lomonóssov, Púchkin e Gógol. Esses são nacionais.
- Não está mal, como começo; e além disso um -desses foi camponês; os outros dois eram proprietários de terras - disse Adelaída, sorrindo.
- Justamente, mas não fique triunfante. Como, de todos os escritores russos, esses foram os únicos capazes de dizer algo de seu, algo não emprestado, eles, por tal fato, se tornaram nacionais. Qualquer russo que diga ou que escreva ou mesmo que faça algo seu, algo original, e não alheio, inevitavelmente se torna nacional, mesmo que não possa falar escorreitamente o russo. Eu encaro isso como um axioma. Mas, no começo, nós não estávamos falando de literatura. Falávamos dos socialistas, antes. Ora bem, continuo a sustentar que nós não temos um único socialista russo; não há nenhum, nem nunca houve, pois todos os nossos socialistas também são proprietários de terras ou estudantes canônicos. Todos os nossos conhecidos e declarados socialistas, tanto aqui como no estrangeiro, não são mais do que liberais da fidalguia agrária ou dos tempos dos donos de servos. Por que está rindo? Mostre-me os livros deles, mostre-me as teorias deles, as memórias deles. E muito embora eu não seja crítico literário, posso lhe escrever a crítica mais conveniente pela qual lhe mostrarei, tão claro como o dia, que cada página dos livros deles, panfletos ou reminiscências, foi escrita por proprietários de terras russos da velha escola. A raiva, a indignação, o talento, tudo é típico daquela classe, como se ainda se estivesse na fase pré-Fámussov. Seus arroubos, suas lágrimas, conquanto talvez reais e sinceras, são lágrimas de proprietários de terras e de estudantes de patrologia. A senhora está rindo, outra vez? E o senhor também, príncipe? Então não concordam ambos comigo?
Estavam realmente todos rindo; e Míchkin também sorriu.
- Não posso dizer, à queima-roupa, se concordo ou não - disse o príncipe, deixando logo de sorrir e ficando na atitude do colegial apanhado em falta -, mas eu lhe asseguro que o estou escutando com o maior prazer...
Disse isso e quase que ficou sem ar, um suor frio a lhe escorrer pela testa. Estas eram as suas primeiras palavras, desde que estava ali, sentado; experimentou olhar para todo o grupo, mas não teve coragem; Evguénii Pávlovitch percebeu a atrapalhação dele e sorriu.
Vou dizer-lhes uma coisa, senhores - prosseguiu ele no mesmo tom de antes, com extraordinária bonomia e vivacidade, mas ao mesmo tempo quase não podendo conter a vontade de rir, provavelmente de suas próprias palavras - uma coisa cuja descoberta e observação tenho a honra de adjudicar a mim mesmo somente; nada foi ainda dito ou escrito sobre ela, garanto. E essa coisa, ou melhor, esse fato exprime toda a essência do liberalismo russo de cuja espécie estou tratando. Em primeiro lugar, que é o liberalismo, falando de um modo geral, senão um ataque (se judicioso ou errôneo, já é outra questão) à ordem estabelecida de coisas? É assim, ou não? Ora bem, o meu fato é que o liberalismo russo não é um ataque contra a ordem existente das coisas, mas um ataque contra a essência mesma das coisas, das coisas em si, não meramente contra a ordem das coisas; não contra o regíme russo, mas contra a própria Rússia, isto é, detesta e espanca a própria mãe. Todo e qualquer fato desastroso e infeliz na Rússia excita a sua gargalhada e quase o seu contentamento. Detesta hábitos nacionais, a história russa, tudo. Se alguma justificação há para ele é que não sabe o que está fazendo e toma esse ódio pela Rússia como sendo liberalismo da mais viçosa espécie. (Oh! muitas vezes, entre nós, se encontram liberais que são aplaudidos por todos e que no fundo são os mais absurdos, os mais estúpidos e mais perigosos conservadores e que não se dão conta disso, eles mesmos.) Este ódio pela Rússia chegou até, ultimamente, a ser tomado por alguns dos nossos liberais como um sincero amor por seu país. Proclamavam que sabiam melhor do que os outros como esse amor devia ser mostrado; agora, porém, se tornaram mais cândidos e se sentem envergonhados com aquela idéia de “amar alguém a sua pátria.
Baniram a própria concepção dela, como trivial e perniciosa. Isto é um fato. Insisto sobre isto... e a verdade será dita mais cedo ou mais tarde, inteira, simples e francamente. Mas se trata de um fato que nunca foi ouvido e que nunca existiu em nenhum outro povo desde que o mundo começou, portanto se trata de um fenômeno acidental e não deverá ser permanente, cuido eu. Não pode haver em mais parte alguma um liberal que odeie o seu próprio país. Como poderemos explicar isso entre nós? Ora, pelo mesmo fato de antes, que o russo liberal até aqui não tem sido russo, nenhuma outra coisa mais explica isso, a meu pensar.
- Tomo tudo quanto você disse como brincadeira, Evguénii Pávlovitch - replicou o Príncipe Chtch... seriamente.
- Ainda não vi um liberal, portanto não me abalanço a julgar - disse Aleksándra. - Mas ouvi, indignada, as suas idéias; o senhor tomou um caso individual e através dele generalizou; logo, não foi senão injusto.
- Um caso individual? Ah! Essa era a palavra esperada! - esgrimiu Evguénii Pávlovitch.
- Príncipe, que pensa disso? Será que eu tomei um caso individual, ou não?
- Devo dizer, também eu, que pouco tenho estado com liberais, só tendo visto um ou outro - disse o príncipe - mas me parece que parcialmente o senhor tem razão e que essa espécie de liberalismo russo de que o senhor está falando realmente está disposta a odiar a Rússia, e não apenas as suas instituições.
Naturalmente isso só é verídico em parte... Naturalmente que não éverídico no todo.
E, confuso, parou. A despeito de sua excitação, estava grande-mente interessado na conversação. Uma das mais impressionantes características do príncipe era a extraordinária ingenuidade de sua atenção, a forma com que se punha sempre a escutar o que o interessava e as respostas que dava quando alguém lhe fazia perguntas. O seu rosto, e mesmo a sua atitude, de modo suigeneris refletiam essa ingenuidade, essa boa-fé sem desconfiança de zombaria ou humor alheio. Mas, conquanto Evguénii Pávlovitch desde antes se comportasse para com ele com certa ironia, ao lhe ouvir agora essa resposta, ficou a olhá-lo gravemente como se não tivesse esperado isso dele.
- Mas... como o amigo é estranho! - disse ele. - O senhor realmente me respondeu falando sério, príncipe?
- Como assim, e o senhor não perguntou sério? - replicou Míchkin, surpreso.
Todos riram.
- Vá a gente confiar nele - disse Adelaída. - Evguénii Pavlovitch sempre quer troçar com alguém! Se vissem que histórias ele conta às vezes, com perfeita seriedade!
- Acho que esta conversa está mais é cacete e que nem valia a pena ter começado - comentou Aleksándra, sem ninguém esperar.
E a nossa idéia de darmos um passeio?
- Então, vamos. Está uma noite admirável - exclamou Evguénii Pávlovitch.
- Mas para lhe mostrar que desta vez eu estava falando sério e, mais ainda, para mostrar ao príncipe isso (o que o senhor disse me interessou extremamente, príncipe, e lhe asseguro que não sou de modo algum um camarada pateta, como lhe devo ter parecido, embora, de certo modo, eu o seja, um tanto!, e se aqui as senhoras me permitem e os senhores também, farei ao príncipe uma última interrogação para satisfazer a minha própria curiosidade; depois do que, ponto final! Tal pergunta me ocorreu propriamente há duas horas. Vai ver, príncipe, como também, às vezes, penso em coisas sérias; à tal pergunta já eu respondi, mas vejamos como a responde o príncipe. Falou-se, ainda agora, sobre um “caso individual”. Tal frase aqui dita há pouco, é muito significativa; a todo passo a estamos ouvindo. Todo o mundo falou e comentou, ultimamente, um hediondo assassinato de seis pessoas. por um certo jovem, e o estranho discurso feito pelo conselho de defesa, no qual foi dito que considerando bem a pobreza do criminoso, devia ter sido natural para ele pensar em matar as pessoas. Não foram estas, propriamente, as palavras usadas, mas o sentido, penso eu, foi este, ou quase assim. A minha opinião privada é que o advogado que deu expressão a essa tão estranha idéia estava convicto de exprimir o sentimento mais liberal, mais humano e mais progressista que podia ser articulado em nossos dias. Ora, que fazer então disso? E esta corrupção de idéias e de convicções, a possibilidade de um ponto de vista assim deformado e extraordinário, um “caso individual”, ou um exemplo típico?
Todos riram, outra vez.
- Individual, naturalmente, individual! - disseram, rindo, Aleksándra e Adelaída.
- Deixe que lhe previna de novo, Evguénii Pávlovitch - disse o Príncipe Chtch... - que a sua brincadeira continua, e muito, chocha.
- Que é que o senhor acha, príncipe? - prosseguiu Evguénii Pávlovitch, sem escutar, mas vigiando os olhos com que Míchkin, muito sério e interessado, o encarava. - Acha o senhor que é um caso individual, ou genérico? E devo confessar que foi por sua causa que pensei nisso.
- Não. Individual, não! - respondeu o príncipe, com gentíleza, mas firmemente.
- Mas, palavra de honra, Liév Nikoláievitch! - exclamou o Príncipe Chtch..., desapontado. - Pois não vê o senhor que ele o quer apanhar em falso? Ele está troçando e quer brincar com o senhor!
- Pensei que Evguénii Pávlovitch estivesse falando sério - respondeu Míchkin, enrubescendo e abaixando os olhos.
- Meu caro príncipe - continuou o Príncipe Chtch... lembre-se do que estivemos a conversar uma vez, deve haver uns três meses. Disse-me o senhor que se podiam apontar notáveis e alentosos advogados em nossos tribunais recentemente criados! E que muitíssimos veredictos altamente magistrais tinham sido exarados! Quanto isso o alegrava e como eu estava satisfeito de ver esse prazer! Dizia-me o senhor que nos tínhamos de nos orgulhar do nosso Direito!... Logo, esta inepta defesa, este estranho argumento naturalmente, uma casual exceção, uma entre mil certas.
O príncipe pensou um momento, e com um ar de perfeita convicção, apesar de se pôr a falar serenamente e até um pouco tímido, respondeu:
- Apenas quis significar que uma perversão de idéias e de concepções - conforme se expressou Evguénii Pávlovitch - com a qual nos defrontamos muitas vezes, é, infelizmente, muito mais a regra geral de que um caso excepcional. E tanto que se esse não fosse um fenômeno tão geral talvez não fosse possível haver tantos crimes como esse.
- Crimes impossíveis? Mas lhe afirmo que crimes destes e talvez até ainda mais terríveis, existiram no passado e em todos os tempos, e não só entre nós senão por toda a parte e, na minha opinião, ocorrerão muitas e muitas vezes durante muito tempo. A diferença está em que havia muito menos publicidade na Rússia, outrora, ao passo que agora se começou a falar e mesmo a escrever sobre tais casos a ponto tal que é como se esses criminosos fossem um fenômeno recente. Eis como advém o seu engano, engano extremamente ingênuo, príncipe, fique sabendo - disse o Príncipe Chtch... com um sorriso irônico.
- Não deixo de reconhecer que houvesse outrora muitíssimos crimes e bem terríveis. Estive ultimamente visitando prisões e consegui travar conhecimento com alguns criminosos convictos. Há mesmo criminosos muito maiores do que esse, homens que cometeram uma dúzia de assassinatos e que todavia nem sentem o menor remorso. Mas vou dizer o que observei: reparei que o mais feroz e impenitente assassino, apesar de tudo, sabe que é um criminoso”, isto é, considera em sua consciência que agiu mal, mesmo que não se arrependa.
Verifiquei tal, em um por um. Ao passo que aqueles, de que Evguénii Pávlovitch estava falando, se recusam a se considerar criminosos, e acham que estão no seu direito - e que agiram certo; esta é a atitude deles. E eis em que consiste a diferença. E observe, são todos eles jovens, isto é, estão na idade em que se pode mais fácil e inexoravelmente tombar sob a influência de idéias pervertidas.
O Príncipe Chtch... parou de sorrir, e ficou escutando Míchkin com um ar espantado. Aleksándra, que ia dizer qualquer coisa, mudou de idéia, como se um pensamento especial a tivesse detido. Evguénii Pávlovitch olhava para Míchkin com verdadeiro pasmo, sem vestígio de gracejo.
- Mas, meu bom senhor, diga lá por que o está olhando tão surpreso? - interveio Lizavéta Prokófievna, inesperadamente. - Por que cuidava que ele não fosse tão inteligente quanto o senhor e não pudesse raciocinar como o senhor pode?
- Nunca pensei nisso, absolutamente - disse Evguénii Pávlovitch.
- Apenas, como é que, desculpe a pergunta, já que vê tão claramente, como é que o senhor, desculpe-me outra vez, não notou a mesma perversão de idéias e de convicções morais naquele estranho caso.., o outro dia, lembra-se.., o caso de Burdóvskii lembra-se? É exatamente a mesma coisa. Parece-me que naquela ocasião não viu isso, absolutamente.
- Mas consinta que lhe diga, meu caro - interrompeu Lizavéta Prokófievna, esquentando-se -, que todos nós notamos. Aqui estamos sentados, julgando-nos superiores a ele. Pois recebeu uma carta de um desses daquela noite, do pior do bloco, o escrofuloso, lembras-te, Aleksándra? E na carta pede perdão, lógico que à sua maneira, naturalmente, e declara que rompeu com os companheiros que o instigaram naquela ocasião, lembraste, Aleksándra? E que deposita total confiança no príncipe. Nós, porém, não tivemos carta, embora estivéssemos de nariz voltado para ele.
- E Ippolít acaba de se mudar para a nossa vila, também - contou Kólia.
- O quê? Já está lá? - perguntou o príncipe, afogueado.
- Chegou logo que o senhor saiu com Lizavéta Prokófievna. Eu o levei.
- Bem, pois eu aposto uma coisa - disse Lizavéta Prokófievna, inflamando-se repentínamente, esquecida já de que estivera elogiando o príncipe. - Aposto que este aqui foi vê-lo a noite passada na sua água-furtada e lhe pediu perdão de joelhos, a fim de que esse rancoroso espalha-brasas se pudesse mudar para a sua vila. Você não esteve lá, ontem? Você mesmo confessou. É ou não é verdade? E não se ajoelhou?
- Não fez nada disso - gritou Kólia. - Muito ao contrário.
Foi Ippolít quem segurou a mão do príncipe ontem e a beijou duas vezes. Eu vi. Foi como a entrevista acabou, e mais, o príncipe lhe disse apenas que ele ficaria mais confortavelmente lá na vila, concordando ele em ir logo que se sentisse melhor.
- Kólia, não precisa você... - balbuciou o príncipe, levantando-se e pegando no chapéu.
- Para que há de você estar a falar nisso? Eu...
- Onde é que vai? - perguntou Lizavéta Prokófievna, interceptando-o.
- Não se amofine, príncipe - continuou Kólia, vivamente. - Se o senhor for lá agora o incomodará. Ele ficou a dormir, depois da viagem. Está satisfeito e - quer saber de uma coisa, príncipe? - acho até que será melhor o senhor não ir vê-lo hoje, senão ele torna a ficar desapontado. Ainda esta manhã me dizia que nunca se sentira tão forte e tão bem, nestes últimos meses, como agora. Já não tosse nem a metade do que tossia.
Notou o príncipe que Agláia deixara o seu lugar e se aproximava da mesa. Não teve coragem de olhá-la, mas sentiu em todo o seu ser que ela o estava olhando naquele instante e que, decerto, o estava olhando colericamente, que devia haver indignação em seus olhos negros e que o seu rosto devia estar vermelho.
- Mas eu acho que fez mal em o fazer vir para cá, Nikolái Ardaliónovitch, se é que se está referindo àquele rapaz tuberculoso que chorou e que nos convidou para o seu enterro - comentou Evguénii Pávlovitch.
- Ele falava com tamanha eloquência da parede da casa fronteira à sua, que certamente morrerá de saudades dessa parede; fique certo disso.
- Tal e qual. E brigará e romperá com o senhor e irá embora outra vez; esse é que vai ser o fim.
- E Lizavéta Prokófievna puxou para perto de si a cesta de costuras, com um ar de dignidade, esquecendo-se de que todo o mundo se estava preparando para ir dar um passeio.
- Lembro-me quanto ele alardeou sobre a tal parede - recomeçou Evguénii Pávlovitch.
- E sem aquela parede ele não conseguirá morrer eloqüentemente! E o diabo é que está ansioso por uma cena de morte com bastante retórica.
- Como? - perguntou o príncipe, que prosseguiu: - Se o senhor não o perdoar, há de ele então morrer sem o seu perdão.. Pois olhe, ele veio para cá, por causa das árvores.
- Oh! Quanto a mim, perdôo-lhe tudo por tudo. Pode até lhe dizer isso.
- Não é bem essa a maneira - respondeu o príncipe, mansamente, e como que com relutância, com os olhos fixos em um ponto do assoalho, sem os levantar. - O senhor devia estar preparado para receber o perdão dele também.
- Não vejo porquê! Que lhe fiz eu de mal?
- Se o senhor não compreende, então... Mas o senhor compreende; ele desejava abençoar todos e que todos o abençoassem. E era só.
- Caro príncipe - apressou-se a se interpor o Príncipe Chtch... com certa apreensão, e trocando olhares com alguns dos demais não é fácil atingir o paraíso aqui na terra - mas o senhor teima em contar encontrá-lo. O paraíso é um negócio difícil, príncipe, muito mais difícil do que parece ao seu bom coração. O melhor é pormos o assunto de lado, senão acabaremos nos sentindo atrapalhados também, e então...
- Vamos Ouvir música! - aconselhou Lizavéta Prokófievna com entusiasmo, levantando-se do seu lugar espetacularmente. Saiu; e todos seguiram o seu exemplo.
De repente Míchkin se aproximou de Evguénii Pávlovitch.
- Evguénii Pávlovitch - disse ele, com estranha vivacidade, apertando-lhe a mão -, creia que eu o considero como o melhor e o mais honrado dos homens, apesar de tudo. Pode ficar certo disso!... - Evguénii Pávlovitch recuou um passo, surpreendido Teve de lutar, um momento, com uma irresistível vontade de rir. Mas, reparando melhor, notou que o príncipe parecia outro, ou, no mínimo, estava em um estado de espírito todo especial.
- Não tenciono apostar, príncipe - disse ele -, que o senhor não quisesse dizer o que disse e nem tampouco deixar de falar comigo, absolutamente. Mas de que é que se trata? Não está se dando bem, aqui?
- Talvez, talvez. E o senhor foi muito hábil em perceber que talvez não fosse ao senhor que eu quisesse me dirigir. - Disse isso com um sorriso estranho e até mesmo absurdo; mas logo, como que repentinamente excitado, ajuntou:
- Não me queira relembrar a minha conduta de há três dias atrás. Só eu sei quanto vivi envergonhado estes três últimos dias... Sei que fui culpado!...
- Mas que foi que o senhor fez assim de tão terrível?
- Vejo que está mais sentido comigo do que qualquer outra pessoa, Evguénii Pávlovitch. Está até corando; isso é sinal de bom coração. Vou-me embora, dentro em breve, pode ficar certo disso.
- Que foi que lhe aconteceu? Porventura irá ter um ataque? - perguntou Lizavéta Prokófievna a Kólia, muito espantada.
- Não se assuste, Lizavéta Prokófievna. Não estou com um ataque. O que há é que estou resolvido a sumir. Eu sei que sou um desfavorecido da natureza. Estive doente durante vinte e quatro anos, desde o meu nascimento até completar vinte e quatro anos. Deve tomar tudo quanto eu digo agora, como coisa de um homem doente. Vou-me embora, imediatamente, imediatamente. Pode ficar certa disso. Não me sinto envergonhado, não, pois seria estranho que eu estivesse envergonhado disto, não seria? Mas estou deslocado na sociedade... Falo, não por vaidade ferida! ... Estive a refletir durante estes três dias e achei cá comigo que lhe devia explicar certas coisas sinceramente e de modo bem digno para com a senhora, na primeira oportunidade que eu tivesse. Há idéias, grandes idéias, sobre as quais eu não devo começar a falar, porque na certa faria todo o mundo rir, O Príncipe Chtch... ainda agora me avisou sobre tal coisa. Minha atitude não é conveniente. Não tenho nenhum senso de proporção. Minhas palavras são incoerentes, não se enquadrando no assunto; e isso é uma degradação para tais idéias. Portanto, não tenho nenhum direito!... Além disso, sou sensível morbidamente... Estou mais do que certo de que ninguém, aqui nesta casa, feriria meus sentimentos e que sou mais querido aqui do que mereço. Mas eu sei (e sei ao certo) que vinte anos de doença devem deixar traços, e que por conseguinte é impossível a qualquer pessoa deixar de rir de mim... as vezes. - Não é assim, não é mesmo?
E ficou como que à espera de uma resposta, olhando à sua volta. Todos se detiveram, em uma difícil perplexidade, ante esta explosão inesperada, mórbida e, em todo o caso, aparentemente sem causa. Mas esta explosão acabou por produzir um estranho episódio.
- Mas por que está dizendo isto aqui?! - exclamou Agláia, de repente.
- Por que está dizendo isso a eles? A eles? A eles? - Parecia irritada até ao ápice de indignação. Seus olhos faiscavam.
O príncipe ficou a olhá-la, mudo, atarantado, cada vez mais lívido.
- Não há aqui ninguém que mereça tais palavras - rompeu Agláia.
- Não há aqui ninguém, ninguém que valha o seu dedo mínimo, nem o seu espírito, nem o seu coração! É mais honrado do que qualquer deles, mais nobre, melhor, mais bondoso, mais inteligente do que qualquer deles! Alguns nem mereceriam se abaixar para levantar o lenço que o senhor deixasse cair!... Por que humilhar se, pôr-se abaixo deles? Por que há de falsear tudo que é seu? Por que é que não tem orgulho?
- Deus nos acuda! Quem esperaria uma coisa destas? - gritou Lizavéta Prokófievna
- Salve, “pobre cavaleiro”! - gritou Kólia, entusiasmado.
- Cale a boca!... Como Ousam eles insultar-me em sua casa? - disse Agláia, correndo para perto de sua mãe e a ela se dirigindo, sem que ninguém esperasse. Estava agora naquele estado histérico em que não há mais diferenciação nem conveniência a respeitar.
- Por que é que todos me torturam todos, todos? Por que estiveram me importunando estes três últimos dias, por sua causa, príncipe? Nada me induziria a casar-me com o senhor! Consinta que lhe diga que Jamais o faria, sob consideração de espécie alguma. Mas compreenda bem! Então pode lá alguém casar com uma criatura como o senhor? Mire-se em um espelho, veja com o que se parece aí, parado! Por que me martirizam e não param de dizer que me hei de casar com o senhor? O senhor deve saber. O senhor está dentro do conluio, com eles, também!
- Mas nunca ninguém te martirizou a tal respeito! - murmurou Adelaída assombrada.
E Aleksándra, por sua vez, disse:
- Mas nunca ninguém pensou em tal coisa! Nunca se disse uma palavra quanto a isso!
- Quem a andou atormentando? Quando foi atormentada? Quem podia ter dito tal coisa? Não estará ela delirando? - E a generala se dirigiu para a sala, trêmula de raiva.
- Todo o mundo anda falando, todo o mundo, nestes três últimos dias! Não quero me casar com ele, absolutamente, jamais!
- E ao gritar assim, rompeu em pranto, e escondendo o rosto no lenço, caiu sobre uma cadeira.
- Mas nem ele próprio...
E inesperadamente o príncipe titubeou:
- Mas eu não vos pedi... Agláia Ivánovna!
- O... quê? - aparteou Lizavéta Prokófievna indignada, toda espanto e horror. - Que é isso? - E não podia dar crédito aos seus ouvidos.
- Quero dizer que... quero dizer que... - gaguejou o príncipe.
- Eu apenas quis explicar a Agláia Ivánovna... isto é, só quis ter a honra de aclarar bem que não tive a intenção.., a honra de pedir a mão dela... em tempo algum. A culpa não é minha, a culpa não éminha, com efeito, Agláia Ivánovna. Eu nunca desejei, nunca isso me entrou na cabeça. E nunca hei de querer, vós mesma vereis isso por vós. Podeis ficar certa. Alguma pessoa por vingança me deve ter caluniado. Por que estardes aborrecida?
- E dizendo isso, se aproximou de Agláia.
Afastando o lenço com que cobria o rosto, Agláia olhou de esguelha para aquele rosto aparvalhado, entendeu bem a significação do que ele dizia e caiu repentinamente em um acesso de riso. Mas um riso tão alegre, tão irresistível, tão engraçado e tão gostoso que Adelaída não se pôde conter, principalmente quando olhou também para o príncipe. Atirou-se para a irmã, abraçou-a e rompeu no mesmo riso de meninas de escola, um riso que era um prazer. Olhando-as, o príncipe também se pôs a rir, repetindo várias vezes, com uma expressão de júbilo e de felicidade:
- Isso! Assim! Muito bem! Muito bem! Deus seja louvado!
Aleksándra também se juntou a eles, rindo de todo o coração. Parecia que as três não parariam mais de tanto rir.
- Coisas mesmo de loucos! - sentenciou Lizavéta Prokófievna. - Primeiro assustam a gente, depois então...
Agora dera o Príncipe Chtch... em rir também, o mesmo fazendo Evguénii Pávlovitch. Kólia, esse então ria sem parar. o mesmo se dando com Míchkin, que olhava para todos eles.
- Vamos dar um passeio, vamos dar um passeio! - exclamou Adelaída.
- Nós todas, e o príncipe vem conosco. Por que há de ir embora, excelente amigo? Ele não é formidável. Agláia? Não é. mamãe? Vou até lhe dar um beijo e abraçá-lo, por causa da explicação que deu ainda agora a Agláia. Mamãe, deixas-me dar um beijo nele? Agláia, deixas que eu dê um beijo no teu príncipe? - ia dizendo a estouvada rapariga. E imediatamente saltou para o príncipe e o beijou na testa.
Ele lhe agarrou as mãos, apertando-as com tanta força que ela quase gritou. Olhou-a com infinito contentamento e apressadamente lhe puxou a mão que três vezes beijou.
- Vamos! - chamava Agláia. - Príncipe, escolte-me! Deixa, mamãe, apesar dele me ter recusado? O senhor me recusou foi por bem, não é, príncipe? Mas não é assim que se oferece o braço a uma dama. Não sabe como é que se dá o braço a uma dama? Assim, sim. Vamos; nós é que abriremos o caminho. Não quer que nós dois sigamos na frente, téte-à-téte?
Não parava de falar, sempre rindo, espasmodicamente.
- Louvado Deus! Louvado Deus! - repetia Lizavéta Prokófievna, embora não soubesse com o que se estava alegrando tanto.
“Que gente extraordinariamente engraçada!” - pensava o Príncipe Chtch..., talvez pela centésima vez desde que os conhecia; mas gostava dessa gente engraçada. Quanto a Míchkin, não se sentia lá muito atraído por ele. E ao saírem, o príncipe parecia meio sem jeito e, por certo, um tanto preocupado.
Quanto a Evguénii Pávlovitch, esse estava no mais franco bom-humor. Em todo o caminho para a estação da estrada de ferro brincava com Adelaída e Aleksándra que riam de suas graças com tão acentuada presteza que logo desconfiou que elas não estavam mais era ouvindo o que ele dizia. E ao pensar nisso, rompeu de repente em uma risada franca, cujo motivo não houve meio de elas compreenderem. Esse modo divertido era característico do homem que ele era. Conquanto as duas irmãs continuassem de disposição hilariante, não deixavam de olhar para Agláia e Míchkin que seguiam na frente. Evidente era que a conduta da irmã mais moça constituía um completo enigma. O Príncipe Chtch... tentava conversar sobre outros assuntos com Lizavéta Prokófievna, com a intenção, decerto, de lhe distrair o espírito, só conseguindo amolá-la terrivelmente. Parecia estar ofuscada, respondia ao acaso, e às vezes nem mesmo isso. Mas esse não seria o fim dos enigmas de Agláia, aquela noite. O último coube como quinhão ao príncipe, sozinho. Quando se tinham distanciado cerca de uns cem passos da casa, Agláia disse, quase ciciando, de tão baixo, ao seu obstinadamente mudo cavalheiro:
- Olhe ali, à direita.
O príncipe olhou.
- Mas olhe com mais atenção. Está vendo ali no parque, aquele banco lá onde estão aquelas três grandes árvores?... Um banco verde?
Míchkin respondeu que estava vendo.
- Gosta do lugar? Muitas vezes vou me sentar lá, sozinha, às sete horas da manhã, quando todo o mundo está dormindo.
O príncipe sussurrou que o local era encantador.
- E agora pode me deixar. Não quero mais continuar andando de braço dado. Ou melhor, pode continuar de braço comigo, mas não me dirija a palavra, uma só vez que seja. Quero ir pensando só.
Tal aviso era desnecessário, porém. O príncipe não teria proferido, em caso algum, uma só palavra, pois o seu coração começara a palpitar violentamente desde que ela lhe mostrara o banco lá no parque. Depois de um minuto de atarantamento, enxotou, com vergonha, certa idéia inconcebível. É um fato mais do que sabido já por todo o mundo que o público que se ajunta em volta do coreto de música de Pávlovsk é mais “seleto” nos dias de semana do que nos domingos e feriados ou dias santos, em que “toda espécie de gente” acorre para lá, vinda da cidade. E a moda é juntarem-se perto do coreto de música no Vauxhall. A orquestra é a melhor das nossas bandas de parques e quase sempre toca peças novas. Há muito decoro e decência de comportamento nos jardins, embora haja um ar de simplicidade e de convívio. Esses veranistas reúnem-se ali com o fim de encontrar conhecidos. Muitos o fazem com real prazer e freqüentam os jardins só com esse fim. Outros há que vão apenas por causa da música. Cenas desagradáveis são ali muito raras, embora possam ocorrer ocasionalmente, até mesmo em dias de semana. O que, aliás, é inevitável. Estava uma noite propícia e havia muita gente no jardim. Todos os lugares perto da orquestra estavam tomados. O nosso grupo sentou-se nas cadeiras um pouco mais ao lado, perto da saída, àesquerda do edifício.
Todo aquele povo e mais a música reavivavam um pouco Lizavéta Prokófievna e divertiam as moças. Já tinham trocado olhares com alguns veranistas e acenado afavelmente para vários conhecidos, examinado vestidos, notado os que lhes pareciam excentricos, discutindo-os com sorrisos sarcásticos. Evguénii Pávlovitch também, a cada instante, se curvava, saudando pessoas de suas relações. Agláia e Míchkin, sempre juntos, já estavam começando a atrair atenções. E logo vários rapazes vieram ter com as moças e a generala, uns dois ou três ficando a conversar com elas. Eram amigos de Evguénii Pávlovitch. Entre eles estava um belo e jovem oficial, de muito bom-humor e que conversava muito. Apressou-se em se dirigir a Agláia e fazia o possível para despertar a atenção dela. Ela se portou muito graciosamente, e com desembaraço, perante ele, Evguénii Pávlovitch pediu licença ao príncipe para apresentar-lhe esse seu amigo.
Míchkin a custo compreendeu o que queriam dele, mas a apresentação foi feita, tendo ambos se inclinado e apertado as mãos. O amigo de Evguénii Pávlovitch fez logo uma pergunta ao príncipe que, ou não respondeu, ou gaguejow qualquer coisa de modo tão estranho que o oficial ficou a olhar para ele um pouco, depois para Evguénii Pávlovitch, de soslaio, compreendendo logo por que fora feita a apresentação; sorriu, altivamente, e se voltou de novo para Agláia. O único a notar que Agláia havia enrubescido, foi Evguénii Pávlovitch.
O príncipe nem sequer observou que outras pessoas estavam conversando e prestando atenção em Agláia. Achava-se talvez inconsciente ou, pelo menos, durante momentos e momentos esteve ali como se não estivesse sentado ao lado dela. Agora, por exemplo, aspirava estar muito longe, poder desaparecer dali completamente.
É indubitável que se sentiria bem melhor em um lugar ermo e triste onde pudesse ficar sozinho com os seus pensamentos, sem que ninguém soubesse do seu paradeiro. Ou, no mínimo, estar em casa, na varanda, sem mais ninguém, acolá, sem Liébediev e nem os filhos dele; estirado no sofá, com a cabeça enterrada no travesseiro e assim permanecer um dia, uma noite e mais outro dia. Pensava e sonhava com as montanhas e, de modo muito particular, com um sítio em que sempre gostava de pensar, um sítio onde sempre gostara de ir e donde costumava contemplar a aldeia lá embaixo; a cascata brilhando como um filete branco, a cair; as nuvens brancas, e aquele castelo em ruínas. Oh, que saudades! Por que não estava agora lá. sem pensar em nada? Oh! A não pensar em coisa alguma, pelo resto da vida! E então mil anos não seriam demasiado longos! E ser completamente esquecido aqui! Oh! Sim, completamente. Teria sido bem melhor, com efeito, que o não tivessem conhecido, e que tudo não passasse de um sonho. Pois não dava justamente ao mesmo, sonho ou realidade? De vez em quando olhava para Agláia, e por cinco minutos não retirou o olhar de cima do seu rosto.
Mas era um olhar estranho. Parecia olhar não para ela e sim para um objeto a quilômetros de distância, ou para um retrato.
- Por que é que está me olhando assim, príncipe? - perguntou ela, de repente, interrompendo a palestra e a risada com o grupo que a rodeava. - Estou com medo; chego a sentir que quereria me tocar o rosto com os dedos, para senti-lo bem. O modo dele olhar não lembra isso, Evguénii Pávlovitch?
O príncipe pareceu surpreendido de que lhe estivessem a falar; fez assim um ar de ponderação; decerto não compreendeu absolutamente nada, e por isso não respondeu.
Notando, porém, que ela e os demais se puseram a rir, entreabriu a boca e riu também. A risada aumentou. O oficial, que devia estar de ânimo jovial, esse então não parava de rir. E imediatamente Agláia balbuciou, colericamente, lá consigo mesma: “Imbecil.”
- Ó Céus! Seguramente ela não deve... Um homem assim!... Pois não estará ela completamente louca? - pronunciou a mãe, raciocinando.
- É brincadeira dela. O mesmo que aquela história de “pobre cavaleiro”! Não passa de brincadeira - ciciou, no ouvido materno, Aleksándra, com decisão. - Está fazendo o príncipe de bobo, outra vez, aliás como sempre.
Mas agora está se excedendo. Devemos pôr um ponto nisso, mamãe. Ela teima, como uma atriz, e nos está espantando por pura maldade...
A mãe respondeu, baixinho:
- Ainda bem que se atira a um idiota como ele. - A advertência da filha a aliviou um pouco.
Não obstante, o príncipe ouviu que o chamavam de idiota. Sobressaltou-se; não, porém, por estar sendo chamado de idiota, qualificativo que imediatamente esqueceu. E que, entre a multidão, não longe do lugar onde estava sentado (não saberia apontar para o ponto exato), surpreendeu, em um relance, um rosto, um rosto lívido, com cabelos negros e crespos, com um sorriso e uma expressão já bem conhecidos, muito conhecidos. Foi apenas um relance, pois aquele rosto logo sumiu. Muito provavelmente se tratava de mera imaginação sua. Tudo quanto lhe ficou foi o vislumbre de um sorriso disforme, de uns olhos, em uma gravata verde, espalhafatosa.
Mas se o vulto desaparecera por entre o povo, ou se se esgueirara para dentro do edifício, não poderia garantir.
Um minuto depois, recomeçou o príncipe a olhar vivamente em redor, muito preocupado. Essa primeira aparição devia ser precursora de uma segunda. E certamente que era. Poderia ele ter esquecido a possibilidade de um encontro, ao entrar no jardim? Verdade é que o fizera automaticamente, sem a menor noção do que estava praticando, tal o seu estado de espírito.
Se a sua capacidade de observação fosse maior, teria reparado que já há um bom quarto de hora Agláia também estava olhando em torno, um tanto inquieta, como à procura de alguém. E, à medida que a preocupação de Míchkin se tornava mais evidente, a de Agláia aumentava. Tanto que, mal movia os olhos para qualquer ponto, ela o imitava. A explicação disso se seguiu quase imediatamente.
Um grupo de pessoas, umas dez, inesperadamente apareceu do lado da entrada perto da qual o príncipe e as Epantchín se haviam sentado. Vinham à frente do grupo três mulheres, duas das quais de uma aparência notoriamente esplêndida; não era, portanto, de admirar, que estivessem seguidas de tantos admiradores. Mas havia algo de especial tanto nas mulheres como nos homens que vinham com elas, algo bem diverso das pessoas que estavam reunidas ali para ouvir música. E imediatamente chamaram a atenção de todos os presentes, que olharam, por lhes ter parecido não ser gente até então vista por ali; somente alguns dos rapazes sorriram, trocando palavras baixas, no ouvido uns dos outros. De mais a mais era impossível não reparar nessa gente, pois se apresentava de modo sensacional, falando alto e rindo. Podia-se até pensar que alguns dentre o grupo estivessem embriagados, muito embora se tratasse de gente muito bem vestida e distinta, O que não quer dizer que entre eles não houvesse pessoas extravagantes, quer pelas roupas, quer pelas caras demasiado vermelhas.
Havia até alguns oficiais e não muito Jovens. Estavam eles muito bem trajados com roupas muito bem cortadas e confortáveis, com anéis, abotoaduras, esplêndidas cabeleiras pretas, belos bigodes, com uma dignidade toda jactanciosa em suas faces, gente que decerto era evitada na sociedade como praga. Entre os nossos lugares suburbanos de reunião há vários, naturalmente, que são tidos, e fundamentalmente, como de excepcional respeitabilidade, gozando, por isso, de uma boa reputação. Mas mesmo a pessoa mais precavida pode ser apanhada por uma telha que tomba do telhado do vizinho. Uma telha dessas estava para se despenhar sobre o público escolhido que ali se reunira para escutar a banda.
No caminho que vai do edifício ao coreto havia três degraus. E o grupo estava parado justamente no alto desses três degraus; esitavam em descer, mas uma das mulheres deu um passo à frente; e só duas pessoas do seu acompanhamento a imitaram. Uma era um homem de meia-idade e de aparência um pouco modesta. Tinha o ar de um cavalheiro a todos os respeitos, apesar do seu feitil decaído de indivíduo que ninguém conhece e que não conhece ninguém. A outra era um sujeito de ar duvidoso, de cotovelos coçados. Mais ninguém seguiu a dama excêntrica. Ao descer os degraus, não olhou para trás, dando a entender que pouco se importava em ser ou não seguida. Ria e falava alto, como antes. Estava ricamente vestida, com excelente gosto, mas um tanto esplendidamente demais. Virou-se para o outro lado do coreto, onde uma carruagem particular esperava alguém.
Havia três meses que o príncipe não a via. Desde que chegara a Petersburgo estava tencionando ir vê-la; mas, talvez, um secreto pressentimento o tolhesse. Não podia, ainda assim, avaliar que impressão lhe causaria o seu encontro, muito embora, muitas vezes, tivesse tentado imaginar, com pavor. Mas uma coisa era mais que clara: que tal encontro lhe seria penoso. Diversas vezes, durante os últimos seis meses, se tinha recordado da primeira impressão que aquele rosto lhe causara quando o vira apenas em fotografia. Mas. mesmo a impressão causada pela fotografia era, lembrava-se muito bem, angustiante. Aquele mês na província, em que a via quase quotidianamente, havia exercido um pavoroso efeito sobre ele, tamanho que, muitas vezes, tentara afastar de si toda essa reminiscência. Havia no rosto daquela mulher qualquer coisa que sempre o torturava. Em conversa com Rogójin, tinha considerado essa sensação como infinita piedade para com ela, e isso era a verdade. Aquele rosto, mesmo em retrato, só fizera nascer no seu íntimo um verdadeiro martírio de piedade: o sentimento de compaixão e até mesmo de sofrimento para com aquela mulher nunca abandonara o seu coração, nem abandonaria. Oh! Não, esse sentimento era maior do que nunca! Mas o que falara a Rogójin não o satisfizera; e somente agora, ante o súbito aparecimento dela, compreendeu o príncipe, através decerto de sua imediata intuição, o que tinha faltado em suas palavras. E as palavras que faltavam só expressariam horror - sim, horror!
Agora, bem neste momento, tinha sentido isso, plenamente. Estava certo, estava plenamente convencido; e ele sabia as razões por que aquela mulher era louca. Se, amando uma mulher mais do que a tudo no mundo, ou antevendo a possibilidade de vir a amá-la assim, alguém, inesperadamente, desse com tal mulher acorrentada, atrás de grades e debaixo do açoite do vigia da prisão. esse alguém sentiria o que o príncipe sentiu naquele momento.
Que é que o príncipe tem? - disse-lhe baixo Agláia, prontamente, olhando-o e ingenuamente lhe segurando o braço. Ele virou a cabeça, olhou para ela, mirou bem dentro daqueles olhos negros que brilhavam nesse instante com uma luz que para ele era mistério: tentou sorrir mas, imediatamente, como a esquecendo logo. Volveu os olhos para a direita e recomeçou a procurar a espantosa aparição. Nesse momento Nastássia Filíppovna passava perto das cadeiras das jovens. Evguénii Pávlovitch continuava a falar qualquer coisa com Aleksándra, e devia ser coisa interessante e divertida. Falava apressadamente, com ímpeto. O príncipe lembrou-se (depois) que Agláia sussurrara estas palavras: “Mas que...”, início de uma frase vaga e incompleta, logo se tendo contido e ficado calada; mas isso bastou.
Nastássia Filíppovna, que ia passando, sem reparar em ninguém, subitamente se virou para eles e pareceu observar apenas a presença de Evguénii Pávlovitch.
- Olá! Então, estás aqui? - exclamou, inopinadamente, parando. - Se mandassem um mensageiro procurar-te, como haveria o homem de te achar, se estás aqui onde ninguém poderia supor?!... Pensei que estivesses em casa de teu tio.
Evguénii Pávlovitch, rubro, encarou, furioso, Nastássia Filíppovna, logo, porém, se virando para o outro lado.
- Como? Então não sabes? Calculem só, ele ainda não sabe! Pois o homem se matou! Com um tiro! O teu tio se suicidou esta madrugada. Contaram-me isso às duas da madrugada! E metade da cidade já sabe. Lá se foram trezentos e cinqüenta mil rublos do Estado; é o que dizem. Mas há quem garanta que fossem quinhentos mil. E eu que sempre contava que ele te deixasse uma fortuna. Jogou tudo fora! Que velho dissipado! Bem, adeus, bonne chance! Então, deveras, não vais até lá? Soubeste introduzir os teus papéis mesmo na hora, hein? Que camarada manhoso! Bobagem. Tu sabias, se sabias! Provavelmente ontem já sabias!
Posto que em sua insolente atitude persistisse uma proclamação pública de um conhecimento e de uma intimidade que não existiam, ainda assim devia haver, para isso, um motivo, sem dúvida nenhuma. Evguénii Pávlovitch pensou logo em escapar sem dar na vista dessa que o assaltava. Mas as palavras de Nastássia Filíppovna caíram sobre ele como um raio. Ao ouvir falar na morte do tio ficou branco como uma folha de papel e se virou para sua informante. Nisto Lizavéta Prokófievna precipitadamente se ergueu da sua cadeira, fazendo todos os outros se levantarem e logo se foram embora. Apenas o príncipe permaneceu por um momento em indecisão, e Evguénii Pávlovitch continuava em pé, sem poder dar conta de si. Não estavam os Epantchín nem a vinte passos de distância, quando se seguiu um incidente escandaloso e ultrajante.
O oficial, que era um grande amigo de Evguénii Pávlovitch e que estivera conversando com Agláia, ficou indignadíssimo.
- Para se tratar com uma mulher desta ordem só mesmo um chicote! - exclamou ele quase gritando.
(Evidentemente devera ter sido antigo confidente de Evguénii Pávlovitch.)
Instantaneamente Nastássia Filíppovna se voltou para ele. Os seus olhos fulguraram. Correu para o moço que lhe era completamente estranho e que estava a uns dois passos dela, arrebatou-lhe da mão um fino chicote de montaria, desses trançados, e desandou a golpear na cara o seu insultador. Tudo isso aconteceu em um momento!... O oficial, fora de si, avançou para ela. O bando de acompanhantes de Nastássia Filíppovna já não estava mais junto dela. Aquele cavalheiro idoso, cheio de decoro, tratou de desaparecer totalmente. E o outro, o folgazão, ficou de lado, rindo a bom rir. Mais um minuto e a polícia apareceria e Nastássia Filíppovna seria posta fora dali, à força, caso uma inesperada ajuda não estivesse à mão.
O príncipe, que também estava parado a uns dois passos, conseguiu segurar o oficial pelos dois braços, por detrás. Desvencilhando os braços, o oficial lhe deu um violento empurrão no peito. Míchkin foi atirado a três passos, para trás, indo cair em uma cadeira. E nisto mais dois campeões avançaram para defender Nastássia Filíppovna. Defrontando o oficial atacante surgiu o boxeador, aquele autor do artigo já conhecido do leitor, e primitivamente membro da comitiva de Rogójin, o qual logo se foi apresentando, enfaticamente:
O ex-tenente Keller! Já que o capitão quer brigar, aqui estou. suas ordens, como substituto do sexo fraco.
Tirei o meu curso de boxing inglês. Não empurre, capitão, veja lá! Lastimo-o, pelo mortal insulto que o capitão teve de receber, mas não posso permitir, de modo algum, que use os punhos contra uma mulher. E, de mais a mais, em público. Se, como homem de honra e como cavalheiro, o capitão prefere outro sistema, já sabe o que eu quero dizer, capitão! Mas o capitão tinha caído em si e nem o escutou. Foi quando Rogój in apareceu no meio do povo e segurando Nastássia Filíppovna pelo braço a carregou dali. Também Rogójin parecia terrivelmente abalado; estava branco e tremia. E ao retirar Nastássia Filíppovna, ainda teve tempo para rir bem na cara do oficial, com desprezo, dizendo-lhe, em seu vulgar triunfo:
“Fiau! Apanhou! Está com as fuças escorrendo sangue! Fiau!”
Como que voltando a si e já sabendo a quem se dirigir, para tratar do caso, o oficial (embora cobrindo o rosto com um lenço) se virou para o príncipe que estava se levantando da cadeira onde tombara.
- O Príncipe Míchkin, cujo conhecimento tive a honra de travar ainda agora mesmo?
- Ela é louca! É uma insana! Dou-lhe minha palavra! - respondeu o príncipe, com voz abalada, gesticulando com as mãos trêmulas.
- Eu, naturalmente não me posso jactar de muitos conhecimentos a tal respeito. O que me compete é saber o nome do senhor.
Curvou-se e foi embora. A polícia compareceu apressadamente cinco minutos depois que a última pessoa interessada tinha desaparecido. Mas a cena não durara mais do que dois minutos. Muitos da assistência se tinham levantado e ido embora; outros apenas mudaram de lugar, escolhendo outro. Enquanto a alguns a cena distraíra, estavam outros ainda fazendo perguntas e conversando a respeito. O incidente acabou, de fato, da maneira de sempre. A banda recomeçou a tocar. O príncipe seguiu os Epantchín. Se lhe tivesse vindo o pensamento de olhar para o lado esquerdo, quando estava sentado na cadeira sobre a qual fora atirado, teria visto, então, a uns vinte passos, Agláia, que tinha ficado parada a presenciar a cena escandalosa, indiferente aos apelos da mãe e das irmãs. O Príncipe Chtch.. precipitara-se até ela, persuadindo-a, finalmente, a ir embora. A mãe recordou, depois, que ela chegara onde eles estavam tão excitada que mal pudera com certeza tê-las ouvido quando a chamavam. Mas, dois minutos depois, quando regressavam por dentro do parque, Agláia explicou, com aquele seu tom descuidado e caprichoso:
- Eu só queria ver como ia acabar a farsa!
A Cena no jardim impressionou mãe e filhas a ponto de as orrorizar. Excitada e em pânico, Lizavéta Prokófievna só faltou morrer. com as filhas, de volta para casa. Segundo o modo dela em pensar e discernir, o que tinha acontecido era tanto, e tanta coisa que tinha sido trazida à luz pelo incidente, que certas idéias tomaram forma definitiva em seu cérebro, apesar de sua confusão e atarantamento.
Todo o mundo percebera que tinha acontecido qualquer coisa fora do comum e que, ocasionalmente também, um extraordinário segredo estava na iminência de vir a furo.
Apesar de todas as anteriores explicações e afirmativas do Príncipe Chtch..., Evguénii Pávlovitch fora “desmascarado”, posto à mostra, revelado “e publicamente descoberto em suas ligações com aquela criatura”.
Assim pensavam a mãe e as duas filhas mais velhas. O único efeito dessa conclusão era que o mistério assim se ia intensificando mais. E embora as moças estivessem secretamente indignadas, até certo ponto, com a mãe, ante o seu extremo alarma e sua tão precipitada corrida, ainda assim não se aventuraram a aborrecê-la com perguntas durante o primeiro embate com o tumulto. No entanto algo as fez supor que sua irmã Agláia sabia mais do caso do que a própria mãe e todas elas juntas. O Príncipe Chtch... também se viu nas trevas; também ele mergulhou em seus pensamentos. De volta para casa. Lizavéta Prokófievna não trocou uma palavra com ele e nem deu um sinal de o querer fazer. Adelaída fez uma tentativa de interrogação: “Que tio é esse, de que se falou agora mesmo? E que foi que houve em Petersburgo?” Ele apenas murmurou qualquer coisa, com uma cara muito desenxabida, a propósito de colher informações e de tudo ser invencionice.
- Sem dúvida - concordou Adelaída e não perguntou mais nada.
Agláia tornou-se excepcionalmente quieta, só tendo feito a observação no caminho, que eles estavam andando depressa demais. Uma vez se virou, procurando o príncipe com a vista, tendo-o descoberto quando este vinha apressadamente para eles. Sorriu ironicamente dos esforços que ele fazia para alcançá-las e não se tornou a virar mais.
Por fim, quando já estavam quase chegando à vila, viram Iván Fiódorovitch, que chegava de Petersburgo e que lhes veio ao encontro. Suas primeiras palavras foram perguntar por Evguénii Pávlovitch. Mas a mulher se afastou dele, colericamente, sem responder e sem sequer o olhar. Pelo rosto das filhas e do Príncipe Chtch... adivinhou logo que uma tempestade estava se juntando. Mas, fora disso, já havia uma expressão diferente da costumeira em çuas faces. Tomou o braço do Príncipe Chtch.... parou com ele, à entrada, e trocaram umas poucas palavras quase em sussurro. Pelo ar inquieto com que ambos depois entraram para a varanda e subiram para os cômodos de Lizavéta Prokófievna, se podia deduzir que ambos estavam a par de certas extraordinárias notícias.
Uma por uma, se foram todas juntando lá em cima, nas peças de Lizavéta Prokófievna, não ficando, afinal, ninguém na varanda, a não ser o príncipe. Embora não tivesse nenhum motivo justificado para ficar ali, se sentou a um canto, à espera de qualquer coisa. Não lhe ocorreu sequer, já que elas estavam tão transtornadas, ser melhor ir embora. Parecia completamente esquecido do universo inteiro e poderia continuar a ficar ali, sentado, ainda uns dois anos, se isso fosse possível. De quando em quando chegavam até ele vozes de exaltada conversa. Ser-lhe-ia impossível, depois, dizer quanto tempo estivera ali, sentado. E já se ia tornando tarde e completamente escuro quando, inopinadamente, Agláia apareceu na varanda. Aparentava calma embora estivesse um tanto pálida. Ao ver o príncipe, com quem não contava, não tendo sequer desconfiado que estaria sentado ali a um canto, sorriu, admirada.
- Que é que está fazendo aí?
O príncipe, muito confuso, murmurou qualquer coisa e logo se levantou. Mas Agláia sentou-se ao lado dele, o que o fez sentar de novo. Então ela o examinou bem, depois olhou vagarnente para a janela e outra vez para ele.
Míchkin pensava: “Decerto ela se quer rir de mim. Não; teria então rido antes, naquela ocasião.”
- Quem sabe se quer um pouco de chá? Vou mandar vir - disse ela, depois daquele seu silêncio.
- N... ão. Acho que não.
- Como é isso? Acha que não? Oh! Aproveite e ouça. Se alguém o desafiar para um duelo, que fará? Quis lhe perguntar isto antes.
- Ora... Quem?... Ninguém me desafiará para um duelo.
- Mas se desafiarem? Ficaria muito assustado?
- Acho que ficaria muito... muitíssimo amedrontado.
- Que é que está dizendo? Então é um covarde?
- N... ão. Acho que não. Um covarde é quem tem medo e foge. Mas se alguém tem medo, mas não foge, não é um covarde - disse o príncipe, sorrindo, depois de pensar um momento.
- E não fugiria?
- Acho que não fugiria - e começou, depois, a rir das perguntas de Agláia.
- Apesar de eu ser mulher, nada me faria fugir - observou ela, quase ofendida.
- Mas está rindo e pretendendo, como aliás faz sempre, tornar-se mais interessante. Diga-me, é verdade que atiram a doze passos de distância, não é, e às vezes só a dez, ficando feridos ou morrendo, não é?
- Nem sempre se morre em duelo, acho eu.
- Nem sempre? Púchkin foi morto.
- Pode ter sido acidentalmente.
- Não foi acidentalmente, não. Era um duelo de morte e ele foi morto.
- A bala feriu-o tão baixo que sem dúvida Dantês, o seu rival, alvejou mais alto, para a cabeça ou para o peito. Ninguém alveja assim, portanto é mais provável que a bala prostrasse Púchkin por acidente. Gente entendida me contou assim.
- Mas um soldado, com quem falei uma vez, disse que eles eram obrigados pelo regulamento a disparar “do meio para cima”; a frase dele foi “do meio para cima”. Perguntei, depois, a um oficial, que me respondeu que era perfeitamente certo.
- Isso é provavelmente porque atiram de longe.
- Sabe atirar?
- Nunca atirei.
- Não sabe, ao menos, carregar uma pistola?
- Não. Isto é, sei como isso é feito, mas nunca fiz.
- É o mesmo que dizer que não sabe, pois é preciso prática. Ouça e guarde: primeiro tem de comprar um pouco de pólvora, não úmida, mas bem seca (dizem que úmida não serve); uma pólvora bem fina; peça para lhe darem dessa e não da que é usada nos canhões. Quanto às balas as pessoas mesmas as fazem. Tem pistolas?
- Não, e nem quero - riu o príncipe.
- Mas que bobagem! Deve comprar uma, francesa, ou inglesa. Consta-me que são as melhores. Pegue, então, um dedal cheio de pólvora, ou mesmo dois, e vá derramando lá dentro. Será melhor encher. Calque com feltro (dizem que é preciso que seja com feltro, não sei por quê); pode consegui-lo nos colchões, ou nas portas - usam feltro para tapar as frestas. Depois, quando tiver socado bem o feltro, meta a bala, está ouvindo? A bala depois, a pólvora primeiro, do contrário nada de tiro. Por que é que está rindo? Quero que se exercite, no tiro, todos os dias, e aprenda a acertar em um alvo. Não quer?
O príncipe ria. Agláia bateu com o pé, zangada. O ar sério que ela tomou durante essa conversa o surpreendeu um pouco. Achou preferível procurar outro assunto, perguntar por qualquer coisa. Algo que fosse mais sério, em todo o caso, do que carregar uma pistola. Mas tudo desertou da sua cabeça, exceto que ela ali estava, sentada ao seu lado, e que a podia estar olhando e lhe era indiferente, nessa ocasião, que ela falasse sobre o que quer que fosse.
Iván Fiódorovitch, em pessoa, desceu as escadas, acabando por aparecer na varanda. E ia sair, com uma cara carrancuda, atormentada e resoluta.
- Ah! É Liév Nikoláievitch, é você? Para onde se dirige você, agora? - perguntou, apesar de Míchkin estar sentado sem se mexer. - Venha, tenho uma palavra a dar-lhe.
- Adeus - disse Agláia, estendendo a mão para o príncipe. Já agora estava um tanto escuro na varanda. Ele não pôde distinguir bem o rosto dela. E um minuto depois, ao deixar a vila com o general, enrubesceu demasiado, e apertava a mão, fechando-a firmemente.
Aconteceu que Iván Fiódorovitch tinha de tomar o mesmo rumo. Apesar do adiantado da hora ele se estava apressando para discutir alguma coisa com alguém. Mas, enquanto isso, a caminho, começou a falar com o príncipe de modo excitado e rápido e como que sem nexo, freqüentemente se referindo a Lizavéta Prokófievna.
Se Míchkin fosse mais arguto teria, nesse momento, adivinhado que o general queria saber algo através dele, ou melhor, queria perguntar-lhe uma coisa determinada, não conseguindo, porém, enveredar para esse ponto. O príncipe sentia-se tão confuso que no começo não escutou absolutamente nada, e quando o general parou, na frente dele, com uma pergunta vivaz, teve de confessar, muito envergonhado, que não tinha entendido uma só palavra.
O general encolheu os ombros.
- Mas que raio de gente extravagante que vocês todos são! - recomeçou ele.
- Estou lhe dizendo que não há meios de eu entender os motivos de alarma de Lizavéta Prokófievna. Ela está lá, como uma histérica, a chorar e a declarar que nós fomos envergonhados, que estamos desgraçados. Quem? Como? Por quem? Confesso que sou culpado. (Reconheço isso.) Sou culpado e muitíssimo, mas as perseguições dessa mulher impertinente (que aliás se está conduzindo mal neste ajuste) podem ser contidas pela polícia, na pior das hipóteses, e pretendo avistar-me com alguém nesse sentido e dar uns passos. Tudo pode ser feito com calma, decentemente, bondosamente até, da maneira mais amistosa, sem sopro de escândalo. Creio que muitas coisas possam acontecer no futuro, e que ainda há algo que não ficou e nem está explicado; em tudo isso há uma intriga. Mas já que há confusão agora, mistério haverá sempre. Se eu não ouvi nada, e o senhor não ouviu nada, e ela não ouviu nada, e ele tampouco nada ouviu, então quem ouviu? Aprazer-me-ia perguntar.
Como explicar isso, senão que é menos do que miragem, irreal, algo como o luar ou como qualquer alucinação!?
- Ela está louca - murmurou o príncipe, recordando, com angústia, a recente cena.
- Tal e qual o que eu digo, se é que você se está referindo àmesma pessoa. Tal idéia me ocorreu a mim também e dormi em beatífica paz. Mas agora vejo que a opinião deles é que é a mais correta, e não acredito que seja loucura. Ela é uma mulher espinoteada, estou certo, mas também é artificiosa e está longe de ser maluca. A sua veneta hoje, a respeito de Kapitón Aleksiéitch, mostra isso demasiado claramente. Trata-se de um caso de fraude, ou, no mínimo, um caso jesuítico de conveniência dela.
- Qual Kapitón Aleksiéitch?
- Mas, por misericórdia, Liév Nikoláievitch, você não está me ouvindo! Foi no começo que eu falei sobre Kapitón Aleksiéitch. Fiquei tão confuso que ainda estou com os nervos estragados. Foi o que me reteve até tarde, na cidade, hoje. Kapitón Aleksiéitch Radómskii, o tio de Evguénii Pávlovitch...
- Ah! - exclamou o príncipe.
- Disparou um tiro em si mesmo, ao raiar do dia, hoje, às sete horas. Um velho altamente conceituado, de setenta anos, um epicurista. É verdade o que ela disse, também: uma enorme soma de dinheiros públicos posta fora.
- Mas onde pôde ela...
- Ouvir isso? Ah! Ah! Ora essa. ela dispõe de todo um regimento à sua volta, desde que chegou aqui. Você sabe que classe de gente deu para visitá-la agora e que busca “a honra de se dar com ela”. Deve naturalmente ter ouvido isso esta manhã de alguém que chegou da cidade; pois meia Petersburgo já está a par disso, agora, bem como meia Pávlovsk, ou toda, talvez. Mas que observação mentirosa a que ela fez sobre o uniforme, segundo me repetiram, Dizendo que Evguénii Pávlovitch introduzira os seus papéis no tempo exato! Que insinuação demoníaca! Não, isto não sabe a loucura. Recuso-me a acreditar, é lógico, que Evguénii Pávlovitch pudesse prever a catástrofe de antemão, isto é, adivinhar que às sete horas da manhã de um determinado dia etc. etc... O que se podia ter dado é ter ele tido um pressentimento E eu, e todos nós, e o Príncipe Chtch... contávamos que o tio lhe deixasse uma fortuna. É terrível! Terrível! Mas compreenda-me, não faço carga sobre Evguénii Pávlovitch seja no que for, e apresso-me em tornar isso bem claro, mas ainda assim tudo isto é muito suspeitoso, devo confessar O Príncipe Chtch... está tremendamente impressionado. O caso rebentou tão estranhamente!
- Mas em que faz isso desconfiarse da conduta de Evguénii Pávlovitch?
Em nada. Ele se comportou muito honradamente. Eu não insinuei nada a tal propósito Nas suas propriedades creio eu, ninguém lhe toca. Lizavéta Prokófievna, naturalmente, não quis ouvir nada. Mas, o que é pior, todo esse rebuliço de família ou antes, este disse-que-disse, fica-se sem saber como chamá-lo. Você é um amigo da família, em um sentido bem exato, Liév Nikoláievitch e acredite-me, agora vim a saber que Evguénii Pávlovitch embora não tenha a certeza, há cerca de um mês, propôs casamento a Agláia e ela se recusou a ser noiva dele.
- Não é possível! - exclamou o Príncipe com veemência.
- Ora essa. Você sabe alguma coisa a respeito? Você está vendo, meu caro! - exclamou o general, Sobressaltado e surpreso parando como que petrificado - devo lhe ter falado mais do que devia. E isso porque você.. porque você.., é um camarada tão excepcional. Talvez você saiba alguma coisa?
- Quanto a Evguénii Pávlovitch não sei nada - balbuciou o Príncipe.
- Nem eu, tampouco. Quanto a mim, meu rapaz, eles certamente desejam ver-me morto e enterrado e não se dão conta de quanto isso é pungente para um homem e que não Suportarei tal.
Presenciei agora mesmo uma cena terrível! Estou lhe falando como se você fosse meu filho o pior de tudo é que Agláia parece zombar da mãe. As irmãs contaram à mãe, como mero palpite, e aliás acertado, que ela disse “não” a Evguénii Pávlovitch e que teve uma explicação um tanto formal com ele. Mas que ela é uma criatura voluntáriosa e caprichosa é, não há palavras que a qualifiquem.
Generosidade e todas as demais qualidades brilhantes de espírito e de coração ela possui, mas é Caprichosa, escarnecedora, deveras um pequeno demónio, e cheia de fantasias, ainda por cima. Riu na cara da mãe, ainda agora e riu das irmãs e riu também do Príncipe Chtch... Eu, nem conto naturalmente, pois outra coisa não me tem ela feito senão rir de mim. Todavia, é claro, eu a amo. Eu a amo mesmo rindo de mim, e acredito que ela, esse pequeno demônio, me ama também, especialmente por causa disso, isto é, mais do que a qualquer outra pessoa, creio eu. Aposto o que quiser como também faz você de truão. Pois não é que a fui encontrar agora mesmo, conversando com você, logo imediatamente depois da tempestade Lá em cima? Dei com ela sentada ao seu lado, como se nada tivesse acontecido.
O príncipe ficou vermelho e fechou mais a mão direita; mas não disse nada.
- Meu bom e caro Liév Nikoláievitch - recomeçou o general com brio e sentimento -, eu... e Lizavéta Prokófievna (muito embora ela esteja abusando de você e de mim também, por sua causa, sem que eu compreenda por quê), nós o amamos muito, nós amamos você muito e o respeitamos, a despeito de tudo, quero dizer, a despeito de todas as aparências. Mas você mesmo há de concordar comigo que é irritante e que acabrunha ouvir e ver aquele demoniozinho de sangue-frio inesperadamente (sim, estava diante da mãe com uma expressão de profundo desdém para com todas as nossas perguntas, principalmente as minhas, pois – diabos me levem! - fui tão tolo que me deu no bestunto demonstrar severidade, visto ser o chefe da família - bem, que fiz papel de tolo, fiz), ver, dizia eu, aquele demoniozinho de sangue-frio inesperadamente declarar, com uma risada: “Aquela “maluca” (foi esse o termo que empregou, e eu tive a surpresa de a ouvir repetir a própria frase usada por você: “Como é que ainda não notaram isso?”) meteu na cabeça que me há de casar, custe o que custar, com o Príncipe Liév Nikoláievitch, e para tal fim está fazendo tudo para pôr Evguénii Pavlovitch fora de nossa casa”... Ela disse apenas isto: não deu maiores explicações, continuou a rir e nós ficamos de boca aberta; ela então escancarou a porta e saiu. Depois foi que me contaram o que se passou entre ela e você, esta tarde. E... e ouça. caro príncipe você não é um homem sensível, não se ofende à toa. Observei isso em você, mas... não fique zangado. Sou obrigado a crer que ela está fazendo você de truão. Ela se ri como uma criança, por isso não vá se zangar com ela, mas é o que se passa. Não pense nada quanto a isto - ela está simplesmente nos pondo a todos, a você e a nós, malucos, sem maldade. Bem, adeus. Você conhece os nossos sentimentos a seu respeito, não é?
Jamais mudarão, de forma alguma. Mas, agora, tenho de ir por aqui. Adeus! Poucas vezes me vi metido assim, em um beco sem saída, como desta vez. Nem sei como dizer!... Que lindo dia de verão!
Deixado sozinho na encruzilhada, Míchkin olhou em torno, atravessou rapidamente a estrada, aproximou-se o mais que pôde para debaixo da janela acesa em uma vila, desdobrou o pedaço de papel que guardara bem apertado em sua mão direita todo aquele tempo em que estivera conversando com Iván Fiódorovitch e, aproveitando um fraco feixe de luz, leu:
Amanhã de manhã, às sete horas, achar-me-ei no banco verde, lá no jardim, esperando por você. Resolvi falar-lhe a respeito de um assunto excessivamente importante que nos diz respeito, diretamente.
P.S. Espero que não mostre esta carta a ninguém. Embora me envergonhe ter de lhe recomendar essa cautela, parece-me que você necessita dessa recomendação, e a escrevo enrubescendo de vergonha ante o seu absurdo caráter.
P.P.S. Refiro-me ao banco verde que lhe mostrei esta manhã. Devia se envergonhar de eu precisar lhe escrever também isto.
A carta fora rabiscada às pressas e dobrada de qualquer forma, e mais provavelmente antes um pouco de Agláia ter vindo para a varanda. Em uma indescritível agitação, que tocava às raias do terror, o príncipe apertou o papel que tinha outra vez preso na mão direita e precipitadamente se afastou da janela, como um ladrão fugindo da luz. Mas ao fazer isso deu um encontrão em um indivíduo que estava por detrás dele.
- Eu o estive seguindo, príncipe - disse o homem.
- Ah! É você, Keller? exclamou o príncipe, admirado.
Eu o estive procurando, príncipe. Estive a vigiá-lo, diante da casa dos Epantchín. Naturalmente que não pude entrar. Vim caminhando atrás do senhor enquanto estava com o general. Estou a seu serviço, príncipe, disponha de mim. Estou pronto a não importa qual sacrifício. A própria morte, se necessário for.
Oh! Para quê?
Ora, é que, sem dúvida, vai se dar um desafio. Aquele tenente... Eu o conheço, conquanto muito por alto.., e ele não engole uma afronta. Quanto aos como nós, isto é, como Rogójin e eu, o tenente estará inclinado a olhar como sujos, e talvez merecidamente; de maneira que o senhor será o único escolhido.
O senhor é quem tem de “pagar o pato”, príncipe. O gajo esteve a informar-se a seu respeito; ouvi dizer, e sem dúvida um amigo dele irá em visita ao senhor, amanhã, e pode bem ser que já esteja à sua espera, agora. Se o senhor me quer dar a honra de me escolher como testemunha sua, estou pronto a ser rebaixado nas fileiras, pelo senhor. Ora aí está porque o estive procurando, príncipe.
- Então, até você me fala em um duelo! - E o príncipe riu, para grande pasmo de Keller. E riu cordialmente.
Keller, que tinha estado em palpos de aranha enquanto não se satisfizera a si próprio, oferecendo-se a Míchkin como testemunha, ficou por assim dizer ofendido à vista da alegria franca do príncipe.
- Mas o senhor lhe segurou os braços, esta tarde, príncipe. E isso é difícil, a um homem de honra, suportar em um lugar público.
- E ele me deu um soco no peito! - exclamou o príncipe, rindo. - Não temos mais por que brigar! Pedir-lhe-ei que me desculpe e é tudo. Mas se devemos lutar, então lutaremos. Deixá-lo atirar, gostarei disso. Ah! Ah! Agora já sei como carregar uma pistola. Sabe que já aprendi a carregar uma pistola? Sabe como éque se carrega uma pistola, Keller? Primeiro você tem de adquirir pólvora, pólvora para pistola, não úmida e não da grossa como de canhão. Depois tem de enfiar a pólvora primeiro e arranjar o feltro de uma porta. Depois tem de enfiar a bala lá para dentro; depois e não antes da pólvora, do contrário a coisa não serve. Ouviu bem. KelLer? Senão a coisa não vai lá das pernas. Ah! Ah! Não é esta uma magnífica razão, amigo Keller? Arte, Keller, você sabe que eu devo abraçá-lo e lhe dar um beijo, agora mesmo? Ah! Ah! Ah! Pois não é que você me veio a calhar, e tão inesperadamente, esta tarde! Venha ver-me de vez em quando, logo mais dar-lhe-ei champanha. Ficaremos ambos bêbados. Você não sabe que eu tenho doze garrafas de champanha em casa, na adega de Liébediev? Ele as arranjou não sei como e mas vendeu anteontem. Justamente no dia em que mudei para a vila. Comprei-lhas todas. Acabaremos com toda a remessa, juntos. Você está indo para casa, para dormir?
- Como faço todas as noites, príncipe.
- Bravos, neste caso, sonhe bonito! Ah! Ah! Ah!
E, atravessando a estrada, Míchkin sumiu dentro do parque, deixando Keller mais do que perplexo. Jamais vira o príncipe com tão estranha disposição e nunca poderia imaginá-lo assim.
“Decerto é febre, pois que se trata de um homem nervoso e tudo isso deve tê-lo afetado. Ou, talvez, também seja medo. Mas estou certo que gente dessa ordem não é covarde, por Júpiter!” - E Keller continuava pensando: “Hum! Champanha! Em todo o caso, não é nada mau! Doze garrafas, uma dúzia; uma provisãozinha razoável. Aposto como Liébediev arranjou esse champanha de alguém, como garantia. Hum! Excelente tipo, este príncipe! Gosto de gente assim. Mas, não há tempo a perder. E... uma vez que há champanha, este é o momento para...”
Que Míchkin estava com febre, era, naturalmente, uma suposição correta. Vagabundeou uma porção de tempo pelo parque, no escuro, até que foi “dar consigo” a caminhar ao longo de uma avenida. A impressão ficara em sua consciência de ter caminhado umas trinta ou quarenta vezes para cima e para baixo, nessa avenida, de um banco até uma alta e notável árvore velha, distanciados um do outro cerca de uns cem passos. Não poderia, mesmo que tentasse, recordar-se do que estivera a pensar, todo esse tempo, isto é, no mínimo uma hora. Mas eis que lhe veio agora um pensamento que o fez dar uma risada; e conquanto não houvesse motivo para isso, continuou querendo rir. É que lhe ocorreu que a sugestão em um duelo não nascera apenas no espírito de Keller e que, por conseguinte, a conversa sobre a maneira de carregar uma pistola não deixara de ter fundamento.
“Essa é boa!” E parou imediatamente. Surpreendeu-o uma outra idéia. “Ela saiu para a varanda na hora mesmo em que eu estava sentado lá em um canto e ficou muito admirada de me encontrar, tendo então – como ela ria! - me oferecido chá; e já estava com o bilhete na mão, todo esse tempo, decerto. Logo, ela sabia que eu estava sentado na varanda. Por que, então, se admirou? Ah! Ah!”
Tirou a carta do bolso e a beijou; mas logo se refez e começou a refletir. “Como tudo isso é estranho! Como tudo isso é estranho!”, pensou um minuto mais tarde, já tomado de uma certa tristeza. Nos momentos de intenso júbilo sempre o acometia uma tristeza que nem ele próprio poderia dizer porquê. Olhou em redor e ficou espantado de se achar ali. Sentia-se exausto; dirigiu-se até ao banco e se sentou. Havia, em volta, uma tranqüilidade extraordinária. Já tinha cessado a música no jardim e talvez não restasse uma só pessoa no parque.
Devia passar das onze e meia, no mínimo. E que noite quente, clara e macia! Uma dessas noites de começo de junho, em Petersburgo. Todavia, na espessa alameda onde ele estava sentado, reinava a escuridão.
Se alguém lhe viesse dizer, agora, que ele estava apaixonado, seriamente apaixonado, repeliria a idéia com surpresa e até mesmo com indignação. E se acrescentassem que a carta de Agláia era uma carta de amor, marcando uma entrevista com um amante, ele coraria com vergonha dessa pessoa e talvez a desafiasse para um duelo. Tudo isso era perfeitamente sincero e jamais, em momento algum, ele duvidou disso ou admitiu sequer a sombra de um pensamento ambíguo, quanto à possibilidade da moça o amar, ou vice-versa. Envergonhar-se-ia de uma tal idéia. A possibilidade de ser amado, ou de amar, para ele, “para um homem como ele era”, olharia sempre como a uma coisa monstruosa. Parecia-lhe apenas uma travessura da parte dela, supondo que houvesse alguma coisa de sério em tudo isso. Mas tal consideração o desconcertou completamente e imaginou isso tudo na ordem natural das coisas. Absorveu-o agora um outro pensamento. Acreditava piamente na declaração feita pelo general de que ela fazia todo o mundo de palhaço, principalmente a ele. Não se sentia nem um pouco insultado por isso; a seu ver era justamente como tinha de ser. O que contava agora, para ele, era que no dia seguinte a veria de novo, bem cedo, de manhã, e que se sentaria ao seu lado no banco verde e aprenderia como carregar uma pistola e poderia olhar para ela. Que mais poderia querer? Ocorreu-lhe uma ou duas vezes ficar pasmado ante a expectativa do que ela lhe pretenderia dizer. Qual seria esse assunto importante que lhe dizia respeito assim tão diretamente? Fosse como fosse, jamais teve um momento de dúvida sobre a existência real desse “assunto importante” para o qual fora intimado. Mas estava longe de considerar esse “assunto importante”, agora. Não sentia, com efeito, a menor inclinação para pensar nisso.
O ruído de passos vagarosos na areia da alameda fez com que erguesse a cabeça. Um homem, cujo rosto era difícil distinguir no escuro, veio na direção do banco onde acabou por se sentar. O príncipe precipitadamente se virou quase esbarrando nessa pessoa em quem imediatamente reconheceu Rogójin.
- Eu sabia que estava vagabundeando mais ou menos por aqui. Não foi preciso muito tempo para achá-lo - disse Rogójin, por entre os dentes.
Era a primeira vez que eles se estavam vendo depois daquele encontro no corredor do hotel. Espantado com o súbito aparecimento de Rogójín, não pôde o príncipe durante algum tempo ligar seus pensamentos; uma pungente sensação sobreveio em seu coração. Rogójin viuo efeito que a sua vinda produzira e apesar de no começo haver ficado sem jeito e se ter posto a falar aparentando naturalidade, Míchkin teve a impressão de que não havia nele nada de estudado nem qualquer embaraço especial. Se existia qualquer falta de jeito em seus modos e em suas palavras, era apenas superficialmente, pois, quanto ao ânimo, era imutável.
- Como foi.., que me encontrou aqui? - perguntou o príncipe, só para dizer qualquer coisa.
- Ia eu procurá-lo, quando Keller me disse: “Foi para o parque.” Bem, pensei, então é isso.
- Isso o quê? - perguntou o príncipe com inquietação. Rogójin riu disfarçadamente e não deu explicação.
- Recebi sua carta, Liév Nikoláievitch. Não vale nada. Cada vez mais me espanto com o senhor. Más agora lhe vim falar da parte dela. Intimou-me a levá-lo sem falta. Está precisando lhe falar. E muito. Quer vê-lo hoje.
- Amanhã, irei amanhã. Agora vou para casa. Quer vir comigo?
- Para quê? Já lhe disse o que tinha de dizer. Adeus.
- Então, não vem? - perguntou o príncipe, cortesmente.
- É um camarada esquisito, Liév Nikoláievitch. A gente não pode deixar de ficar admirado.
- E Rogójin riu com maldade.
- Por quê? Por que está você tão amargo contra mim, agora? - perguntou o príncipe, calorosamente e com ar entristecido. - Você agora já sabe muito bem que tudo quanto pensou era falso. Mas tenho a impressão de que ainda está zangado comigo. E quer saber por quê? Porque você me atacou. Digo-lhe que o único Parfión Rogójin de que eu me recordo é aquele com quem troquei as cruzes aquele dia. Escrevi-lhe a noite passada que esquecesse toda aquela loucura e que não falasse nela vez nenhuma.
Por que é que você está se afastando? Por que retira e esconde a sua mão? Digo-lhe que considero tudo o que se passou como loucura. Compreendo o que era que você estava sentindo aquele dia. Como se fosse eu! O que você imaginou não existe. Por que haveríamos de ficar zangados?
- Como se pudesse se zangar! - E Rogójin tornou a rir em resposta às palavras ardentes de Míchkin.
Ele tinha recuado um pouco para o lado e estava agora com a cara virada e as mãos escondidas para trás.
- Não se trata mais, para mim, de ir vê-lo, Liév Nikoláievitch - acrescentou, falando devagar e terminando com uma espécie de tom sentencioso.
- Você então ainda me odeia tanto?
- Não sou seu amigo, Liév Nikoláievitch; como, pois, haveria de ir vê-lo? Ah, príncipe, não passa de uma criança! Está querendo um joguete e o quer imediatamente, mas, compreender as coisas, não, não compreende.
O que me está dizendo é o mesmo que me escreveu na sua carta. Está pensando que não acredito no senhor? Acredito sim, palavra por palavra; nunca me enganou, nem nunca me há de enganar no futuro. Mas, apesar de tudo, ainda assim, não sou seu amigo. Escreveu-me que se tinha esquecido de tudo e que só se lembrava do irmão Rogójin com o qual tinha trocado as cruzes e não daquele Rogójin que lhe erguera uma faca. Os meus sentimentos, porém, pensa que os conhece? (Tornou a rir.) Ora, talvez eu nunca me venha a arrepender do que fiz, muito embora já tenha recebido o seu perdão. Talvez até eu estivesse pensando já em uma outra coisa mais, esta noite; mas, quanto a isso...
- Você esqueceu de pensar! - atalhou o príncipe. - É o que parece. Aposto em como você tomou logo o trem e foi até Pávlovsk, lá para o coreto, segui-la por entre a multidão, vigiando-a, como andou fazendo hoje. Isso não me surpreende! Se você não tivesse chegado a um tal estado, naquela ocasião, em que não lhe era possível pensar em mais nada, talvez você não me atacasse com aquela faca. Eu tive o pressentimento, antes, só em olhar para você. Você nem sabe como estava! Já quando trocamos as nossas cruzes, aquela idéia devia estar atrás do seu espírito. Mas por que, então, me levou você até a sua mãe? Achou, talvez, com isso, que poria um freio em si próprio? Não, você não podia ter pensado nisso, mas talvez sentisse, como eu... Estávamos ambos sentindo o mesmo. Se você não tivesse cometido aquela agressão (que Deus evitou), que pena de mim, então? Eu suspeitei, sim, suspeitei que você era capaz disso; logo, nossos pecados foram os mesmos, em verdade. Sim, não emburre.
E por que está rindo?) Diz você que “não se arrependeu”. Talvez, mesmo que quisesse, não conseguisse, visto não gostar de mim, ainda por cima! E se eu, para você, não passasse de um inocente anjo, ainda assim você continuaria a me detestar. Emquanto pensasse que ela me ama a mim e não a você. Isso deve ser ciúme. Mas eu estive pensando bem toda a semana, Parfión, ejá lhe vou dar a minha opinião. Você sabe que ela agora deve amá-lo mais do que a qualquer outro e de tal modo que quanto mais ela o atormenta mais o ama? Ela não lhe dirá; a você cumpre saber de que modo ver isso. Quando tudo está dito e feito, por que então só se preocupar você com essa história de casamento? Algum dia ela lhe esclarecerá tudo.
Mulheres há que querem ser amadas dessa forma, e esse é justamente o caráter dela. E também o amor e o caráter de você devem impressioná-la! Você sabe que há mulheres capazes de torturar um homem, com sua crueldade e desdém, sem a menor aflição de consciência, porque cada vez que olham o amante pensam: Agora eu judio dele até a morte, mas depois o indenizo com o meu amor!”
Rogójin ria, escutando o príncipe.
- Pelo que vejo, príncipe, já foi submetido também a esse tratamento... Se não me engano ouvi qualquer alusão a isso...
- Uma alusão a isso? A mim?
Sobressaltou-se, logo ficando calado, em uma extrema confusão. Rogójin continuava a rir. Ouvira atento e com sinais de prazer a pergunta do príncipe. Já antes a conversa cordial o impressionara, por causa da veemência notada; e foi isso que o encorajou.
- Não somente ouvi como estou vendo agora que é verdade - acrescentou.
- Basta prestar atenção ao seu modo esta noite. Antes, nunca esteve assim nem me tratou conforme me está tratando agora. Alusão... Claro que ouvi alguma alusão. Tanto ouvi que vim até aqui, a este parque, a tais horas, quase meia-noite.
- Seja mais explícito, Parfión Semiónovitch.
- Ela já me havia dito, tempos atrás, e hoje vi com os meus olhos, quando dei com o senhor esta tarde sentado no parque ao lado daquela jovem, escutando a banda. Quer saber? Pois ouça: hoje e todo o dia de ontem ela não parou de me asseverar, chegando a jurar por Deus, que o senhor está apaixonadíssimo por Agláia Epantchiná. Pouco se me dá, príncipe, e não tenho nada com isso. Mas de uma coisa eu sei: se deixou de amar Nastássia Filíppovna, ela ainda o ama. Bem sabe o senhor que ela está resolvida a casá-lo com a outra. Jurou que haveria de fazer isso. Há, há, parece pilhéria mas jurou. Disse-me com aquela voz:
- Avise-os. pois sem isso não me caso com você. No dia em que eles forem para a igreja, nós dois também iremos”. Não consigo compreender essa pirraça. Será mania, ou o quê? Se ela o ama para lá de todas as medidas... isto é, se o quer como doida, por que raios há de querer casá-lo com a outra? Disse-me:
“Quero vê-lo feliz”. Logo, ela deve amá-lo.
- Ora, isso prova o que eu já disse e escrevi a você. Que ela está fora do seu juízo normal - afirmou o príncipe, com ar de verdadeira mágoa, depois de escutar Parfión.
- Lá isso é Deus quem sabe. Só Ele. O príncipe deve estar enganado... Mas hoje ela marcou a data do casamento, quando a levei do Vauxhall para casa, através do jardim. “Dentro de três semanas, ou talvez antes mesmo”, disse ela, “é provável que nos casemos”. Jurou e beijou a imagem sagrada. Parece pois que tudo agora depende do senhor, príncipe. Há!
- Está vendo você? Loucura típica! O que você insinuou aí, por mim nunca se dará. Amanhã irei ver vocês.
- Não sei por que há de teimar em chamá-la de doida - observou Rogójín.
- Se todos a acham normal, por que há de insistir em considerá-la assim? Como foi então que ela pôde escrever cartas à outra? Se estivesse maluca, isso seria fácil de perceber nas cartas!
- Que cartas? - perguntou Míchkin, espantado.
- Ora essa! As que escreve à outra, àquela jovem, que as recebe e lê. Então não sabe? Pois trate de verificar. Naturalmente ela lhas há de mostrar.
- Não posso acreditar em uma coisa dessas! - exclamou o príncipe.
- Ora, Liév Nikoláievitch! Tem andado no mundo da lua? É o que está parecendo. Mexa-se, homem, já não é sem tempo. Ponha os seus detetives na pista e fique de olho dia e noite a ver os passos que ela dá, pois do contrário...
- Cale-se e nunca mais fale nisso! - ordenou Míchkin. - Escute, Parfión: pouco antes de você aparecer eu estava aqui e de repente comecei a rir sem saber o motivo. Decerto porque me lembrei que amanhã é dia do meu aniversário. Já é quase meia-noite. Nosso encontro veio bem a propósito. Venha comigo. Vamos esperar a passagem de hoje para amanhã. Tenho vinho lá em casa podemos beber. Você me formulará os votos que eu não sei como desejar a mim mesmo. Faça isso que eu, por minha vez, lhe desejarei toda a felicidade. Do contrário me devolva a minha cruz. Você, no outro dia, ficou com ela e a tem aí consigo, não tem?
- Está aqui no meu peito - disse Rogójin.
- Está bem, então vamos. Não quero ir ao encontro da minha nova vida sem você. Sim, porque para mim começou uma outra vida. Fique sabendo, Parfión, que comecei a viver hoje uma vida nova.
- Estou vendo com os meus olhos e sei que começou, sim. E direi isso a ela. Não me parece absolutamente o mesmo, Liév Nikoláievitch.
Ao chegar próximo da vila, Míchkin notou com surpresa que a varanda estava profusamente iluminada e que um grupo numeroso e turbulento a enchia. Gente alegre que falava alto, dando a impressão, com suas vozes e risadas, de uma formidável pândega. Ao subir para a varanda pôde ver que estavam bebendo. Decerto era champanha, várias garrafas já tendo sido esvaziadas, pois o grupo se mostrava alegre demais. Reconheceu logo as fisionomias. Por que estariam reunidos ali? Quem os teria convidado? Ele, Míchkin, não, pois só ainda agora, por acaso, é que se lembrara do seu aniversário. Acompanhando-o escada acima, Rogójin murmurou:
- Se estes patuscos correram para cá, algum aviso tiveram de que o senhor ia abrir champanha. Basta um assobio: aparecem de todos os cantos.
Disse isso irritado; é que possuía bastante experiência própria para fazer tal observação.
Todos logo rodearam o príncipe, com exclamações e cumprimentos, aumentando assim a algazarra. E os que só nesse momento ficaram sabendo que era o aniversário dele, se apressaram em lhe dar parabéns.
O príncipe ficou admirado com a presença de certas pessoas, como, por exemplo, a de Burdóvskii. Mas o que mais o surpreendeu foi deparar com Evguénii Pávlovitch no meio daquele bando: isso era inacreditável e pasmoso.
Muito vermelho e alvoroçado, Liébediev tratou de explicar o caso, armando uma lengalenga de bêbado. Ainda assim, o príncipe percebeu de todo aquele arrazoado que o ajuntamento se fizera ao acaso e pouco a pouco. Que, à noitinha, primeiro chegou Ippolít que, se sentindo bastante melhor, expressou o desejo de ficar ali na varanda aguardando a volta do príncipe. De fato, havia horas e horas que ali estava estirado no sofá. Depois viera juntar-se a ele o próprio Liébediev, com todos os de casa, isto é, a filharada e o General Ivolguin.
Burdóvskii ali se achava porque fora quem trouxera Ippolít. Mais tarde, após o escândalo no parque, Gánia e Ptítsín, passando, acabaram entrando também. E finalmente Keller, ao chegar, contou que era o aniversário de Liév Nikoláievitch, atiçando a idéia de abrirem champanha. Evguénii Pávlovitch aparecera à procura de Míchkin, haveria no máximo meia hora.
A lembrança de abrir champanha fora incentivada principalmente por Kólia, a pretexto de ser festejada essa data. Que ele, Liébediev, à vista disso, anuíra.
- Então mandei abrir champanha! Mas da minha! À minha custa, para comemorar o seu aniversário e me congratular com o senhor. E haverá ceia e refrescos! Minha filha está preparando. Pois é. E conversávamos todos. Adivinhe, príncipe, em que é que estávamos falando? Lembra-se do “Ser ou não ser...” do Hamlet? Pois era o assunto. Aliás, tema bem hodierno. Perguntas e respostas... E o Sr. Tieriéntiev interessou-se mais do que todos. Não quis ir deitar-se. Apenas deixei que ele bebesse um pequeno gole. Um gole só não faz mal... Venha cá para o meio, príncipe. Dirija, assuma o comando! Estávamos todos à sua espera... Ansiávamos por sua inteligência fulgurante...
No meio daquela barafunda, o príncipe deu com os olhos meigos e suaves de Vera Liébediev que procurava se aproximar através daquela gente toda. Sem se importar com os demais, o príncipe foi estender-lhe a mão. Ela enrubesceu de contentamento e lhe desejou uma vida muito feliz “de hoje por diante”, feito o que, voltou depressa para a cozinha para preparar a ceia e os refrescos. E que, minutos antes da chegada de Liév Nikoláievitch, a filha mais velha de Liébediev, atraída pela interminável discussão dos convivas alegres, viera escutá-los, ali tendo ficado, muito embora aqueles assuntos da mais abstrata natureza lhe parecessem sobremodo misteriosos. A irmã menorzinha acabara dormindo em cima da arca, na sala contígua, e lá estava de boca aberta, resfolegando. Quanto ao filho de Liébediev, o garoto que já freqüentava a escola, esse permanecia entre Kólia e Ippolít, sua cara muito viva demonstrando que não iria embora tão cedo; escutava, atento esperto, decidido a ficar horas a fio.
Quando Míchkin foi apertar a mão de Ippolít, imediatamente depois da de Vera, este lhe disse:
- Fiquei aqui de propósito, à sua espera. Folgo em ver que chegou com ótima disposição.
- Como sabe que estou de ótima disposição?
- Basta olhá-lo. Quando acabar de receber os cumprimentos dos outros, venha sentar-se aqui. - E repetiu, como querendo que o fato ficasse bem explícito:
- Fiquei aqui de propósito à sua espera.
Ainda assim o príncipe o censurou delicadamente por não se ter ido deitar, fazendo ver quanto era tarde da noite. E ele, em resposta a essa advertência, confessou que não podia compreender como era que, tendo três dias antes estado quase à morte, se sentia agora melhor do que nunca em toda a sua vida.
Burdóvskii levantou-se só para vir explicar que fora ele quem trouxera Ippolít; e que estava radiante; que, de fato, escrevera muita asneira naquela carta, mas que estava, agora, simplesmente radiante... E sem acabar de dizer porque estava radiante, calorosamente apertou a mão do príncipe e voltou a sentar-se...
O último que Míchkin cumprimentou foi Evguénii Pávlovitch que imediatamente o segurou pelo braço.
- Tenho duas palavras a dar-lhe - ciciou - é sobre um caso importante. Venha comigo aqui para um lado, um momento.
- Duas palavras - ciciou uma outra voz na outra orelha do príncipe; e uma outra pessoa o segurou pelo outro braço. Assustado, deu Míchkin com uma cara descabelada que ria e que pestanejava.
Instantaneamente reconheceu Ferdichtchenko surgido só Deus sabia de onde. E ele próprio interrogou Míchkin.
- Porventura se recordará de Ferdichtchénko?
- De onde está vindo você?
- Ele está arrependido - veio explicar Keller, a correr. - Estava escondido. Não queria vir conosco. Estava escondido lá na esquina. Não queria, príncipe, estava arrependido...
- Mas de quê? De quê?
- Mas eu dei com ele. Dei com ele e o trouxe. É entre todos os meus amigos o homem mais raro que conheço. Mas está arrependido...
- Obrigado por tudo, cavalheiros; sentem-se com os demais. Volto já - disse o príncipe, conseguindo finalmente se retirar com Evguénii Pávlovitch.
- Estou gostando disto aqui - observou este último. - Eu os estive apreciando-por uma meia hora, enquanto o esperava. Escute uma coisa, Liév Nikoláievitch, já arrumei tudo com Kurmíchov e vim justamente para tranqüilizar o seu espírito. Não precisa ficar preocupado. A meu ver ele está tomando a coisa por um lado muito sensível.
- Mas, qual Kurmíchov?
- Ora, o indivíduo que o príncipe segurou pelos braços esta tarde. Ficou tão furioso que queria vir pedir-lhe amanhã mesmo uma satisfação.
- Que é que me está dizendo? Que tolice desse moço!
- Lógico que é uma asneira e só podia acabar em outra, pior. Essa gente...
- Mas não veio por causa de mais alguma coisa, Evguénii Pávlovitch?
O outro respondeu prontamente, a rir:
- Sim, realmente vim por outro motivo mais. Devo partir esta madrugada para Petersburgo, meu caro príncipe, por causa desse caso infeliz.., o caso de meu tio. E, quer saber, tudo era verdade, e todo o mundo sabia, exceto eu. Sinto-me tão acabrunhado que nem tive coragem de permanecer com a família Epantchín. E nem poderei me despedir deles amanhã, pois partirei muito cedo para Petersburgo. Está compreendendo? Tenho de ausentar-me por uns três dias, no mínimo. Resumindo: as coisas, para mim, vão mal. E já que o caso é da mais alta importância, cuidei conveniente lhe falar francamente umas tantas coisas inadiáveis, não devendo deixá-las para o meu regresso. Talvez seja melhor eu ficar sentado àespera de que esta reunião acabe; mesmo porque não tenho onde ficar. Estou em tal estado que não me apetece ir dormir. E desde já o informo que vim solicitar os préstimos da sua amizade, meu caro príncipe. Considero-o uma pessoa rara, incapaz, absolutamente, de falsidades ou mentiras. Ora, se há pessoa que, dadas umas quantas circunstâncias, necessita de um amigo e de um conselheiro da sua categoria, sou eu. Mesmo porque atravesso um péssimo momento...
Tornou a sorrir.
Depois de pensar um pouco, o príncipe propôs:
- A dificuldade está no seguinte: o senhor acha preferível esperar que esta gente se retire. Mas só Deus sabe a que horas se retirarão. Não seria melhor, por conseguinte, darmos agora mesmo uma volta pelo parque? Ao voltar eu inventaria uma desculpa qualquer por me haver ausentado.
- Não, não! Tenho minhas razões para não querer que se suspeite que estivemos ambos a conversar sobre qualquer assunto a parte. Aqui há gente curiosa quanto às nossas relações. Não percebeu isso ainda, príncipe? Convém muito mais que pensem que vim cumprimentá-lo como camarada do que percebam que tivemos um entendimento particular. Concorda com a minha proposta? Que éque eles podem demorar aqui? Quanto? Umas duas horas?... Espero. Depois então eu muito me honraria com um colóquio de uns vinte minutos ou meia hora...
- De qualquer maneira, seja muito bem-vindo. Fico muito satisfeito de o ver aqui, mesmo que seja principalmente com a finalidade de um colóquio. Agradeço também as bondosas palavras sobre as nossas cordiais relações. Aproveito para lhe pedir desculpas por não lhe ter prestado hoje a atenção que me merece. E lhe explico: é que, de certo modo, ultimamente ando meio aéreo às Coisas... Mesmo hoje, mesmo agora...
- Estou compreendendo, estou compreendendo - murmurou Evguénii Pávlovitch, com um sorriso dissimulado.
Esta noite ele se sentia capaz de achar tudo inefável.
- Está compreendendo o quê? - perguntou o príncipe com uma desconfiança jovial.
- Pois ainda não suspeitou, meu caro Príncipe - disse Radómskii, Sorrindo mais e sem responder diretamente à pergunta, ainda não Suspeitou que vim simplesmente para o pegar e, com ar de quem não quer, lhe extrair uma solicitação?
- Que veio para obter de mim uma vantagem qualquer, nem tenho dúvida - concordou Míchkin rindo também. - Está, talvez, tentando ludibriarme um pouco Mas, que importa? Nada receio. Além disso, meu ânimo se afaz a tudo, acredita? Estou convencido que é um esplêndido camarada e que decerto nos tornaremos cada vez mais amigos. Eu o aprecio muito, Evguénii Pávlovitch. Considero-o , um excelente cavalheiro - Mais uma confirmação de que constituI um autêntico prazer, ter-se alguma coisa seja la qual for a tratar com a sua pessoa - concluiu Radómskii - Vamos beber uma taça a sua saúde. Estou contentíssimo de ter vindo a sua casa - Parou um segundo no máximo perguntando logo outra coisa - Esse Jovem Ippolit tenciona instalar-se aqui?
- Convidei-o provisoriamente.
- Ele não vai morrer assim ex-abrupto, não é?
- Por que esse receio?
- À toa. É que passei meia hora com ele...
Enquanto isso Ippolit, a parte, aguardando para falar com o príncipe, prestava atenção em ambos, mostrando se febrilmente excitado quando os viu voltar para perto da mesa. Sua inquietação era quase convulsiva, e tinha a fronte perlada de suor. Em seus olhos brilhantes, errando de objeto para objeto e de rosto para rosto, além de uma impaciência incontida, se lia uma preocupação difusa. Apesar de ter tomado parte preponderante na ruidosa conversa generalizada, sua irrequietude provinha mais da febre do que da aglomeração. Agora já prestava pouca atenção aos diálogos, apenas dando um ou outro aparte incoerente, com atitude irônica e efeito paradoxal, às vezes até os deixando incompletos apesar de intervir com ardor. O príncipe veio a descobrir, com mágoa e surpresa, que o tinham deixado beber duas taças de champanha, sem nenhum protesto, e que essa que permanecia já esvaziada de todo na sua frente, era a terceira. Mas ao verificar isso, já era tarde; antes, tal leviandade lhe passara despercebida.
As primeiras palavras de Ippolít foram estas:
- Calhou, calhou magnificamente ser hoje seu aniversário! Estou radiante!
- Sim? Mas... por quê?
- Não tardará a saber. Antes, porém, sente-se. Em primeiro lugar, por se acharem reunidos aqui todos os seus amigos. Aliás, ao vir para cá eu já calculava que isto aqui devia estar sempre assim, concorrido; pela primeira vez na vida uma suposição minha deu certo! Que pena não saber que era seu aniversário! Ter-lhe-ia trazido um presente! Ah! Ah!... Mas quem sabe se não lhe trouxe eu um presente? Ainda demora muito a clarear?
Ouvindo, e consultando o relógio, Ptítsin, que estava perto, teve a bondade de informar:
- Daqui a umas duas horas nascerá o sol,
E uma outra pessoa qualquer comentou:
- Para que essa pressa de sol? Já se pode ler aqui fora!
- Quero vê-lo raiar. Podemos beber em saudação ao sol, príncipe? Que acha o senhor?
E Ippolít falava abruptamente, voltando-se para o grupo, com ar desenvolto e quase imperioso, não por ostentação e sim por temperamento.
- Se assim deseja, podemos fazer isso. Mas devia ficar mais quieto, Ippolít. Calma!
- Descansar! Dormir! É só o que o senhor me aconselha. Será acaso meu tutor, ou aio, príncipe? Somente depois que o sol surgir e “ressoar na abóbada” (qual foi o vate que escreveu que “o sol ressoa na abóbada”? É besteira mas é bonito!) é que iremos dormir.
- Você aí, Liébediev, é exato que o sol é a fonte da vida? Que significa isto, “fonte da vida”, no Apocalipse? Já o ouviu falar na “estrela que é chamada Absinto”, príncipe?
- Ouvi dizer que aqui o nosso Liébediev identifica a “estrela que se chama Absinto” como sendo a rede de estradas de ferro disseminadas por toda a Europa.
Ante o coro de gargalhadas que se ergueu, Liébediev se levantou, gesticulando, tentando querer deter tal onda:
- Desculpem-me, desculpem-me, mas já é demais! Desculpem-me, cavalheiros, mas isso já é atrevimento.
- Voltou-se para Míchkin, como a excluí-lo da sua reprimenda: - Ao senhor, príncipe, tão só ao senhor, digo e explico que, em certos pontos, representa isso...
E bateu duas vezes sobre a mesa, sem a menor cerimônia, o que aumentou a alegria geral.
Embora ele, Liébediev, se achasse no seu habitual estado de carraspana noturna”, aquela discussão demorada e difícil o super-excitou; sempre, em tais circunstâncias, tratava com ilimitado desprezo os que não concordassem com ele. Prosseguiu:
- Assim não vale! Há meia hora, príncipe, fizemos uma combinação aqui: ninguém poderia interromper nem rir enquanto o outro estivesse falando, deixando-o expressar-se à vontade. E depois então, sim, seria permitido aos ateus se manifestarem, caso quisessem. Escolhemos como presidente o general, para desta forma cada qual, mediante a autoridade da mesa, poder berrar a sua idéia, a sua profunda idéia.., sem ser interrompido.
- Pois então fale, fale! Quem o mandou calar?! - gritaram diversas vozes.
- Fale! Mas não diga asneira!
- E que vem a ser essa história de “estrela que tem por nome Absinto”? - indagou uma voz isolada.
- Eu cá não tenho a menor idéia! - declarou taxativamente o general. enquanto com ar insigne reassumia o seu primitivo posto de presidente.
Nesse ínterim Keller, remexendo-se na sua cadeira com impaciência e sofreguidão, ciciou quase ao ouvido do príncipe:
- Gosto que me pelo de todos esses argumentos e discussões... Naturalmente quando é coisa elevada, é claro! - Voltou-se inesperadamente para Evguénii Pávlovitch, que estava sentado ao seu lado, acrescentando:
- Assuntos culturais e políticos. O senhor não sabe quanto eu dou a vida, por exemplo, para ler nos jornais os debates no Parlamento inglês! Não me refiro ao que eles discutem (não sou político, é claro!), mas aprecio o modo com que falam uns com os outros e se comportam como políticos, se bem me exprimo. “O nobre visconde coloca-se em campo oposto”, “o nobre duque está corroborando o meu ponto de vista”, “o meu honrado aparteante acaba fazendo a Europa inteira pasmar com uma tal proposta”, todas estas expressões, todo este parlamentarismo de um povo livre, eis o que me fascina! Lambo-me todo, príncipe! Sempre fui um artista, cá no âmago, palavra de honra, Evguénii Pávlovitch!...
Na outra extremidade, Gánia, todo acalorado, aparteava Liébediev:
- Ora! Então se deve depreender do que você diz, Liébediev. que as estradas de ferro são uma praga, a ruína da espécie humana, uma calamidade que caiu sobre a terra para poluir as “fontes da vida”!?
Essa noite Gavríl Ardaliónovitch estava em estado otimista e ânimo triunfante, segundo já Míchkin reparara.
Dera em brincar com Liébedíev, prazenteiramente, atiçando-o; mas a verdade é que acabou se inflamando também.
- Somente as estradas de ferro, não! - retorquiu Líébediev. perdendo cada vez mais a compostura e gostando, ao mesmo tempo, tremendamente da discussão. - Fique sabendo que não são somente as estradas de ferro que poluem as “fontes da vida”, e sim tudo, tudo que é amaldiçoado. A conceituação científica e materialista dos últimos séculos em geral, a meu ver, é deveras amaldiçoada!
- A seu ver, ou realmente? É importante esclarecer isso, vamos e venhamos - aparteou também Evguénii Pávlovitch.
- Amaldiçoada! Amaldiçoada! Com toda a segurança amaldiçoada no consenso divino! Amaldiçoada, sim senhor! - sustentou Liébedíev, com veemência.
- Calma! Calma, Liébediev. Pela manhã cumpre ser mais moderado - fez Ptítsin, com um sorriso.
- Perfeitamente! A noite, porém, há de ser sincero! Há de ser mais ardente e franco! - volveu Liébediev, inflamado. - Mais leal, mais categórico, mais honesto e honrado! E mesmo que perante todos eu esteja expondo o meu lado fraco, não importa. Seus ateus, lanço-lhes meu desafio. A um por um, sem exceção! Com que é que pretendem salvar o mundo? Onde foi que descobriram que tem de ser mediante uma norma de progresso retilíneo? Respondam, provêm, vocês e mais os seus homens de ciência, de indústria, de cooperação, de trabalho remunerado e tudo o mais! E me atiram com o crédito? Que vem a ser crédito? Aonde os levará o crédito?
- Arre! O senhor deu para altas elucubrações...
- Quer saber de uma coisa, prezado senhor? A minha opinião éque quem não se interessa em tais questões é um requintado patife, um folgazão.
- Mas essas coisas que você citou pelo menos levam à solidariedade geral e a um equilíbrio de interesses - observou Ptítsin.
- Ora aí está! Ora aí está! Não reconhecem nenhuma base moral! Apenas a satisfação do egoísmo individual e da necessidade material! Paz universal, felicidade universal, sim, mas por necessidade. Tê-lo-ei compreendido direito, meu caro senhor, consente que pergunte?
- Mas a necessidade de comer, de beber, de viver, assim como uma convicção completa e realmente científica de que essa contingência só pode ser satisfeita mediante associação e solidariedade de interesses, eis o que, acho eu, constitui já uma idéia suficientemente poderosa para servir como fundamento e “fonte de vida” às futuras idades da humanidade - observou Gánia, exaltando-se de verdade.
- A necessidade de comer e beber é simplesmente o instinto de autoconservação!
- Mas não acha que esse instinto de autopreservação por si só é importante? Ora, o instinto de autoconservação é a lei normal da humanidade!...
- Quem lhe disse isso? - perguntou Evguénii Pávlovitch. - Que é uma lei, não há dúvida. Mas não é mais normal do que a lei de destruição, ou mesmo a de autodestruição. Acha que a autoconservação seja a única lei da espécie humana?
- Boa! Há, há! - exclamou Ippolít, virando-se prontamente para Evguénii Pávlovitch e o examinando com uma curiosidade insolente. Vendo porém que este começou a rir, deu em rir também; em seguida cutucou Kólia que se achava em pé ao seu lado e lhe tornou a perguntar que horas eram. Vendo Kólía tirar o relógio de prata, se apossou dele, consultando as horas com muita atenção. A seguir, como se tudo se lhe tornasse indiferente, se escarrapachou no sofá, pôs os punhos por baixo da nuca e ficou fitando o teto. Minutos depois se sentou outra vez, com o peito bem rente da mesa, coçando-se e prestando atenção no aranzel de Liébediev, cuja excitação chegara ao auge, segurando vorazmente o paradoxo de Evguénii Pávlovitch e redargüindo logo:
- Ora aí está uma idéia insidiosa, porque é hábil e irônica. Parece areia fina querendo entravar o funcionamento de molas! Não passa, aparentemente, de uma interferência de neutros se imiscuindo entre batalhadores a fim de estarrecê-los. No fundo, porém, é uma idéia exata! Nem o senhor, um ás notório da ironia e um oficial de cavalaria (dotado aliás de cérebro), nem mesmo o senhor se dá conta de quão profunda e exata é a sua idéia. Realmente, cavalheiro, a lei de autodestruição e a lei de autopreservação são igualmente fortes na humanidade! Foi concedido ao diabo domínio igual sobre a humanidade até um tempo que não nos é dado saber. O senhor está rindo? Não acredita no diabo? Fazer pouco do diabo é uma idéia francesa, aliás bem frívola. Sabe o senhor quem é o diabo? Sabe o nome dele? Nem sequer lhe sabe o nome, o senhor, e, se ri, é porque segue o exemplo de Voltaire, isto é, acha graça nos cascos, nos chifres, no rabo, enfim na forma alegórica inventada pelos senhores mesmos. Todavia lhe asseguro que o diabo é um espírito, e que esse espírito diabólico é sobremaneira ameaçador e nocivo, mesmo sem ter os cascos e os chifres que os senhores lhe inventaram. Mas... não é dele que se trata agora.
- Tem certeza mesmo que não é dele que se trata agora? - perguntou Ippolít apondo às próprias palavras uma risada estentórica.
- Mais outro aparte perspicaz e incisivo! - aceitou Liébediev. - Mas, repito, não é dele que se trata agora. A nossa questão é se as “fontes da vida” não se enfraqueceram com o alimento das...
- Estradas de ferro! - goelou Kólia.
- Comunicações ferroviárias não, jovem e impetuoso mancebo, mas sim por causa dessa tendência genérica da qual as estradas de ferro são, por assim dizer, a expressão mais vivaz e dinâmica. Há quem diga que elas correm por aí fora com todo o seu estrépito, fumaça e velocidade em prol do bem-estar da espécie humana.
Eis que acode um pensador dado a elucubrações, como diria o meu nobre amigo e pondera: “Esta humanidade quanto mais barulhenta e comercial fica, menos paz de espírito desfruta!” “Perfeitamente, mas bendito seja o ruído dos vagões levando pão para a humanidade! Três e quatro vezes bendito, pois tal estrépito resolve a fome, ao passo que a paz espiritual não resolve o problema do estômago!”, retruca violentamente um segundo pensador dialético, desses que se bamboleiam pelas assembléias; brada e se retira triunfante... A mim, porém, vil que sou, pequenino conforme me reconheço, a mim não me engambelam os vagões que levam pão para a humanidade! Sim, porque os vagões que levam pão para a humanidade, se não estiverem cautelosamente consignados sob uma base moral, podem estar friamente excluindo da felicidade desse pão uma outra parte considerável da humanidade, aquela donde esse pão foi tirado, ora esta é muito boa! E isso há de suceder com freqüência!
Mas houve quem não compreendesse, pois se ouviu este raciocínio:
- Os vagões podem friamente excluir...?
- E isso há de suceder com freqüência - repetiu Liébediev, não se dignando explicar a dúvida.
- Já tivemos Malthus, amigo da humanidade. Mas isso de amigo da humanidade, em lhe faltando princípios morais explícitos, acaba em antropófago! E olhem que deixo de lado a vaidade dele. Sim, porque se ferirmos a vaidade de um desses muitíssimos amigos da humanidade, ele imediatamente porá fogo no mundo, por simples vingança, reflexa, como alias todos nós, de fato, cumpre ser claro! Como eu, o ínfimo de todos, pois cá o degas seria o primeiro a trazer a lenha e safar-se. Mas ainda isto não é o ponto a que queríamos chegar.
- Qual é ele então?
- Deixe-se de lérias!...
- O ponto prová-lo-á o que segue: uma velha anedota. Sim, pois inevitavelmente tenho de lhes chapar com uma história dos tempos antigos. Em nossa era, em nosso país que, estou convencido, os senhores amam como eu, pois que até estou pronto a derramar a minha última gota de sangue...
- Toque para diante! Não divague!
- No nosso país, como em todo o resto da Europa, vastas e terríveis carestias assolam a humanidade e tanto quanto tem sido verificado, e tanto quanto me possa eu lembrar, isso nunca sucede mais do que quatro vezes cada século, ou, em outras palavras, cada vinte e cinco anos. Não quero disputar o número exato, mas são comparativamente raras.
- Comparadas com quê?
- Comparadas com o século XII, ou os próximos dele, seja o anterior ou o posterior a ele, pois que naquela época as grandes carestias, como escrevem e como asseveram os escritores, vinham periodicamente cada dois anos, ou no máximo, cada três anos, a tal ponto que devido a isso tamanha era a conjuntura, que os homens chegaram a recorrer ao canibalismo, conquanto às ocultas. Um desses canibais anunciou, espontaneamente, já depois de velho, que no curso de sua longa vida de famélico, tinha matado e comido, no mais absoluto segredo, sessenta monges e mais alguns leigos, mas estes mesmos, crianças, obra de seis, se tanto. Isso éextraordinariamente pouco, comparado com a imensa massa de eclesiásticos a que tinha dado consumo. De leigos crescidos, ao que consta, nunca os atacara com tal intento.
- Isso não pode ser verdade! - berrou o presidente, o general, com voz de ressentimento.
- Não me farto de discutir com esse indivíduo, senhores, a respeito dessas coisas; ele sempre nos traz destas histórias absurdas; e tão absurdas que nossas orelhas chegam a doer. E sem nenhuma partícula de veracidade.
- General! Contente-se em se lembrar do assédio de Kars! Quanto aos senhores, deixem que lhes diga que a minha história éverídica. Apenas observei que toda e qualquer realidade, mesmo através de suas inalteráveis leis, sempre, ou quase sempre, dificilmente é crível, muitas vezes. Até, com efeito, quanto mais real for, mais improvável parece!
- Mas como pôde ele comer sessenta monges? - perguntaram, rindo, em volta.
- É que não os comeu de uma só vez, é claro. Se, porém, eu explicar que os digeriu no decorrer de quinze ou vinte anos, fica tudo perfeitamente compreensível e natural!...
- Natural?
- Sim, natural! - repetiu Liébediev, com pedante insistência.
- De mais a mais, todo monge católico é, por sua própria natureza, facilmente maleável e curioso e não seria difícil o ir levando para dentro da floresta, ou para qualquer lugar secreto e então agir com ele como já foi dito. Não nego, porém, que o número de pessoas devoradas pareça excessivo quanto ao ponto de vista da voracidade.
- Pode bem ser, meus senhores - observou, inopinadamente Míchkin, que até então tinha escutado em silêncio os antagonistas diversos, sem tomar parte na conversa, só algumas vezes se juntando cordialmente às gargalhadas gerais. Evidentemente estava contente com a alegria e a barulhada que todos faziam, e até mesmo por estarem a beber bastante. Talvez não viesse a articular uma só palavra que fosse toda a noite; mas, de repente, não se pôde conter.
Falou com tanta gravidade que todos logo se viraram para ele, com a maior atenção.
- O que eu quero dizer, senhores, é que as carestias costumavam ser freqüentes. Sempre ouvi isso, apesar de conhecer pouco História. E acho que devam ter sido. Quando eu me achava entre as montanhas suíças fiquei surpreendido ante as ruínas de castelos feudais, construídos nas faldas das montanhas ou nas rochas escarpadas que têm no mínimo meia milha de altura (o que quer dizer algumas milhas de caminho nas montanhas). Os senhores sabem o que é um castelo: uma perfeita montanha de pedras; representam um formidável, um incrível trabalho. E, naturalmente, todos foram construídos pela gente pobre, pelos vassalos. Além disso, tinham estes de pagar todas as taxas e sustentar o clero. Como haveriam eles de se prover a si próprios, e lavrar a terra? Nessa época, não deviam ser em grande número; morreram terrivelmente, com as calamidades, e muita vez não deveriam ter literalmente nada para comer. Muita vez, com efeito, pasmei como foi que essas criaturas não se extinguiram todas; como foi que aturaram e como fizeram para suportar isso e sobreviver. Sem dúvida Liébediev tem razão em que houve canibais, e talvez muitos; só o que eu não compreendo é por que trouxe para essa história monges e o que quer ele dizer com eles.
- Na certa porque no século XII eram só os monges que conseguiam comer; e por conseguinte as únicas pessoas que eram gordas - observou Gavríl Ardaliónovitch.
- Ora aí está uma exata e magnífica dedução! - exclamou Liébediev.
- Observando-se que o tal indivíduo poupou os leigos, isto é, os seculares, não se chegando a computar um leigo para sessenta eclesiásticos, que é que se infere? Infere-se, deduz-se uma verificação terrível, uma assertiva histórica, uma informação estatística, enfim um desses fatos que permitem tirar da história uma ilação bastante eloqüente por parte de quem tem espírito crítico. Sim, pois daí se depreende com exatidão matemática que os eclesiásticos viviam sessenta vezes mais felizes e com mais conforto do que o resto da humanidade daquele período. E quem nos diz a nós que de fato não eram sessenta vezes mais gordos?...
- Exagero... Exagero seu, Liébediev.
E todos riram.
- Concordo que seja uma conjetura emanada de um dado histórico: mas a que nos quer você levar com ela? - perguntou o príncipe, intervindo de novo. (Falava com tamanha gravidade, sem absolutamente zombar ou troçar de Liébediev, de quem todos riam, que as suas palavras e modos, justamente por contrastarem com o tom dos demais, acabavam por assumir um efeito cômico. Todos estavam na iminência de rir também dele, circunstância que ele não percebeu.)
Evguénii Pávlovitch inclinou-se e disse:
- Ora, príncipe! Não vê que esse sujeito é um louco varrido? Ainda agora mesmo me contaram que lhe deu na telha advogar, fazer Libelos e defesas judiciais, tirar carta de rábula. Estou esperando um remate funambulesco!
Enquanto isso Liébediev aumentava de timbre, estentoricamente:
- Ao que eu quero chegar? Não foi a pergunta que me fizeram? Respondo de chofre: quero e vou chegar a formidáveis deduções. Mas, antes de mais nada, passemos a analisar a situação psicológica e legal do criminoso. Estamos vendo que o criminoso, ou - como hei de chamá-lo? - que o meu cliente, a despeito da impossibilidade de achar qualquer outro comestível, muitas vezes, no decorrer da sua interessante e atribulada carreira, evidenciou sinais de um desejo de arrependimento e de querer evitar, isto é, poupar o clero. Isto nos é claramente patenteado pelos autos! Convém a esta altura relembrar que ele, afinal de contas, deu cabo de cinco ou seis crianças - um número relativamente insignificante conquanto enorme sob outros pontos de vista sentimentais. É evidente por conseguinte que, atormentado por terríveis problemas de consciência (pois o meu cliente é um homem religioso e de consciência, como provarei mais adiante) e para ressarcir o seu pecado tanto quanto lhe fosse possível, trocou a sua dieta, o seu regime clerical pelo laico, ou secular, se bem me estou fazendo entender. Que o tivesse feito por mera experiência é calúnia que não se lhe pode fazer. Absolutamente não se tendo tratado de uma variação gastronômica, já que o número de seis é indubitavelmente insignificante.
Por que somente seis? Por que não trinta? (A metade padres, a metade leigos.) Mas, se nem experiência foi e sim apenas uma “variação” despertada simplesmente pelo desespero e medo do sacrilégio, e para não ofender a igreja, então o número seis se torna perfeitamente Inteligível; pois seis tentativas de apaziguar os rebates da consciência são mais do que bastantes, já que tais tentativas não foram vãs. E. em primeiro lugar, na minha opinião uma criança é uma coisa demasiado pequenina - isto é, insuficiente, e portanto ele precisaria de três ou cinco vezes mais crianças, ou rebentos laicos, para o mesmo período de tempo em um eclesiástico. E, por conseguinte, o pecado, embora menor, por um lado, seria maior por outro, não em qualidade, mas em quantidade. Mercê de tais considerações, senhores, me vejo eu entrando pelos sentimentos adentro de um criminoso do século XII. Quanto a mim, homem do século XIX, eu teria arrazoado diferentemente, concedam que lhes diga; e, por conseguinte, não acho que seja preciso se estarem arreganhando diante de mim, senhores, e nem é este o momento propício, general, para o senhor também se arreganhar. Em segundo lugar, uma criança, no meu modo de pensar, é uma coisinha insuficientemente nutritiva e talvez doce demais e enjoativa; portanto o apetite do meu cliente não ficaria satisfeito, muito embora ficassem os rebates da consciência.
E agora como conclusão, senhores, o final; nele repousa a solução de uma das maiores questões daquela e desta idade. O criminoso acaba indo dar informações contra si ao clero! E acaba entregando-se às autoridades. E então pasmamos ante as torturas, que, naquela época, o esperavam - a roda, o pelourinho e o fogo. Quem o induziu a ir dar queixas de si mesmo? Por que não parou ele, simplesmente, nos sessenta, e não guardou segredo até o seu último suspiro? Por que simplesmente não deixar o clero em paz viver em penitência, como eremita?
Por que, afinal de contas, não entrar ele próprio para um mosteiro? Seria uma solução.
É que deve ter havido algo mais forte do que o pelourinho e do que o fogo, mais forte até do que o seu costume de vinte anos! Deve ter havido uma idéia mais forte do que qualquer miséria, calamidade, tortura, praga, lepra, e todo esse inferno sem o qual a humanidade inteira não suportaria o mundo e a vida, idéia que reuniu todos os homens, que lhes guiou o coração, e que fez frutificar as “fontes da vida”. Mostrem-me algo que seja igual a essa força, nesta nossa era de vícios e de estradas de ferro... Eu deveria dizer de navios e de treM, mas digo vícios e estradas de ferro, porque estou bêbado, mas sou sincero. Mostrem-me qualquer idéia que ligue a humanidade de hoje e que tenha o poder dessa outra naqueles séculos. E ousem dizer-me que as “fontes da vida” não se enfraqueceram e não se conspurcaram debaixo da “estrela”, debaixo das teias em que os homens estão enrodilhados. E nem me venham querer assustar, com a prosperidade, a saúde, a diminuição da carestia e a rapidez dos meios de comunicação.
Há mais saúde, mas há menos vigor, não há mais idéia sólida; tudo se tornou mais mole, tudo é dúctil, todo o mundo é maleável! Todos nós, todos nós estamos ficando mais moles... Mas, quanto a isso, basta. Este ainda não é o ponto. O ponto, honrado príncipe, é se não nos devíamos aprontar para a ceia que está sendo preparada para as nossas visitas?
Liébediev tinha levado os seus ouvintes a um verdadeiro estado de indignação. (Deve-se acentuar que rolhas lhe foram arremessadas incessantemente todo o tempo.) Mas essa inesperada referência àceia logo conciliou todos os seus antagonistas. Ele chamou essa conclusão de “galharda conclusão jurídica”. Risadas bem-humoradas ecoaram outra vez; as visitas ficaram mais alegres, e todos se ergueram de ao pé da mesa, para desentorpecer as pernas e caminhar pela varanda. Apenas Keller não gostou do discurso de Liébediev e estava tenebroso.
- Ele ataca o progresso e gaba o carolismo do século XII. Está se pavoneando; não há sinceridade nenhuma no que disse. E como foi que ele conseguiu, por exemplo, vir para esta casa aqui? Ora aí está uma coisa que eu queria que ele me explicasse! - disse alto, tomando cada qual e todos como testemunhas.
- Eu sim, eu conheci um intérprete de mão-cheia do Apocalipse. - põs-se a dizer o general, lá em um canto, a um outro grupo de ouvintes, entre os quais Ptítsin cujos botões segurava, distraidamente. - O falecido Grigórii Semiónovitch Burmístrov. Esse sim, fazia o coração da gente se abrasar. Primeiro punha os óculos, e abria um grande livro encadernado em couro negro; tinha uma barba incomensurável e duas medalhas em reconhecimento às duas munificentes caridades. Começava devagar e em tom severo. Os generais se inclinavam diante dele e as senhoras caíam em faniquitos. Ao passo que este camarada aqui concluiu com uma ceia! Isto é o cúmulo!
Ptítsin escutou o general, sorriu e foi à cata do chapéu, como se quisesse ir embora; mas ou ficou sem disposição para isso, ou se esqueceu. Gánia já antes de todos se levantarem tinha acabado de beber e afastado o copo. Uma sombra de tristeza lhe envolvia o rosto, agora. Depois que todos abandonaram a mesa, ele se dirigiu para perto de Rogójin e se sentou ao seu lado. Dir-se-ia que ambos estavam na mais amistosa das relações. Rogójin, que antes fizera menção, repetidamente, de se levantar e ir embora, permanecia sentado, quieto e de cabeça pendida. Era como se também ele tivesse esquecido sua decisão tantas vezes ensaiada. Não bebera sequer uma gota de vinho, a noite inteira, e conservava um ar muito taciturno. De vez em quando erguia os olhos e contemplava ora um, ora outro. Estaria ele à espera de alguma coisa de grande importância, a ponto de no seu foro íntimo ter resolvido aguardar?
O príncipe não bebera ao todo mais do que umas duas ou três taças de champanha que apenas o tinham conseguido tornar um tanto jovial. Ao sair de perto da mesa deu com o olhar de Evguénii Pávlovitch e então se lembrou da conversa que deviam ter a sós e lhe sorriu cordialmente Em resposta, Evguénii Pávlovitch lhe fez um gesto, mostrando Ippolít em quem se pusera a prestar atenção. O rapaz dormia estirado no sofá.
- Diga-me uma coisa, príncipe: por que motivo se teria este rapaz instalado aqui na sua casa? Aposto como veio com alguma intenção má - disse de chofre, com uma tal implicância e demonstrando tamanha antipatia, que Míchkin, surpreendido não pôde deixar de redargü ir:
- Reparei, ou pelo menos me pareceu, que se preocupou demasiado Com ele, esta noite, Evguénii Pávlovitch.Não é verdade?
- E acrescente mesmo que dada a minha situação por causa de meu tio não me faltariam motivos para preocupações muito outras que não esta. Na verdade, nem eu mesmo me explico a razão pela qual esse rosto antipático atraiu a minha atenção a noite inteira.
- Tem um rosto bonito...
Nisto Evguénii Pávlovitch puxou o príncipe pelo braço, exclamando:
- Veja! Veja!...
O príncipe, todavia, olhou, mas foi para Radómskii, com admiração ainda maior.
Ippolít. que lá pelo fim da arenga de Liébediev adormecera repentinamente sobre o sofá, acordou de súbito, como se lhe tivessem dado um empurrão.
Sobressaltado sentou-se olhou em redor e ficou muito branco, parecendo muito espantado de se achar ali; e quando se lembrou de tudo e refletiu uns segundos, uma expressão de horror lhe veio ao semblante - Como? Estão saindo? Já acabou? Terminou? O sol já nasce? - pôs-se a perguntar, inquieto, agarrando a mão do príncipe. - Que horas são? Pelo amor de Deus, que horas são? Peguei no sono sem querer... Dormi muito tempo? - continuou a indagar como se uma coisa lhe tivesse arrebatado o destino enquanto dormia.
- Dormiu... quer saber... apenas uns sete ou oito minutos! - acalmou-o Evguénii Pávlovitch.
Ippolít fixou-o avidamente, distendendo por alguns momentos um raciocínio vagaroso.
- Só? Então eu...
E deu um suspiro ardente e profundo, como aliviando algum peso. Verificou que o grupo não se dissolvera, que tinha abandonado a mesa apenas para sentar a uma outra na peça contígua diante da ceia, que a aurora ainda não chegara e que, afinal de contas, a unica coisa terminada de fato fora o bestialógico de Liébediev. Sorriu e um fluxo vermelho, característico da tuberculose, lhe tingiu as faces. Comentou com ironia a afirmativa de Radómskii:
- Esteve contando os minutos enquanto eu dormia, hein, Evguénii Pávlovitch? Bem reparei esta noite que o senhor não tirava os olhos de cima de mim. Olá, Rogójin! Vi-o em sonhos agora mesmo.
- Franziu uma sobrancelha na direção do príncipe. como a mostrar-lhe Parfión que ainda permanecia sentado diante da mesa.
Logo mudou de assunto. - Onde está o orador? Que fim levou Liébediev? Então ele já finalizou aquela xaropada? Como foi a peroração? É verdade, príncipe, que o senhor disse uma vez que a Beleza salvaria o mundo? Senhores! - exclamou bem alto, dirigindo-se para o grupo inteiro - aqui o príncipe afirma que a Beleza salvará o mundo! Participo-lhes que a razão desta sua idéia tão radiosa advém do fato de estar ele apaixonado.
Mal embarafustou por aqui adentro esta noite, logo vi isso na fisionomia dele. Não desaponte. príncipe, senão me enternecerá ainda mais. Afinal, que spécie de beleza é que salvará o orbe? O senhor é um cristão fervoroso?
Kólia me garantiu que o senhor é cristão convicto.
O príncipe olhava-o atentamente, sem responder.
- Ah! Não responde? - E bruscamente Ippolít acrescentou: - Cuida porventura que sou muito seu amigo?
- Não, não julgo. Já percebi que não gosta de mim grande coisa.
- Como? Mesmo depois de ontem? Ontem fui sincero com você.
- Eu sabia, ontem também, que você não gostava de mim.
- E por que será? Inveja? Pensou, desde que me conhece, que fosse por causa disso, não pensou? Mas, por que estou eu interpelando-o assim na sua própria casa? Quero um pouco mais de champanha. Keller, torne a encher a minha taça.
- Você não deve beber mais, Ippolít. Não consinto - e o príncipe lhe arredou para longe a taça.
- Tem toda a razão. - E concordando, foi assumindo gradualmente um feitio de quem se torna mais lúcido.
- Comentariam.., chamar-me-iam de bêbado, ainda por cima... ou de romântico. Tanto se me dá. Pois comentem.., ou deixem de comentar! Não concorda comigo, príncipe? Hei de me importar muito com o que digam depois, hein? Que pode interessar a qualquer um de nós o que acontece depois? Parece que ainda não acordei direito... Tive um sonho.., credo! Ainda não se desfez direito. Não lhe desejaria um sonho destes, príncipe, apesar de nossa antipatia recíproca. Eu cá adoto o seguinte sistema: não desejo o mal para uma pessoa mesmo que embirre com ela. Mas.., chega de perguntas e declarações. Príncipe, dê-me a sua mão. Quero apertá-la calorosamente. Assim! Ainda bem que o senhor ma estendeu. Portanto acreditem que quando aperto a mão de alguém o faço com sinceridade. Não beberei mais, já que esse é o seu desejo. Que horas serão?
Outra pergunta vã. Se aqui há uma criatura que sabe a hora, e que hora é esta, exatamente esta, sou eu. Sim, porque ela, a hora, ei-la!... Ese é o tempo exato. Armaram a ceia acolá naquele canto?! Então isso significa que esta mesa aqui está livre? Ótimo. Ora muito bem, cavalheiros, eu... Mas os senhores querem ouvir, ou não querem?... Príncipe, era meu intento ler um pequeno ensaio. Bem sei que cear é bem mais interessante; ainda assim...
E de súbito, da maneira mais inesperada, sacou do bolso de dentro do paletó um envelope grande, selado com uma rodela de lacre, e o depôs em cima da mesa, na sua frente.
Tal gesto inopinado alarmou a assistência que não esperava por uma coisa dessas e que, além de um tanto bebida, tinha fome. Evguénii Pávlovitch quase deu um pulo da cadeira. Gánia caminhou depressa para a mesa.
Rogójin fez o mesmo, mas com uma espécie de raiva sinistra, como se estivesse pressentindo o que ia acontecer.
Liébediev, que já se achava perto, abaixou os olhos perscrutadores arregalando-os por sobre o envelope, querendo adivinhar o que seria aquilo.
Foi então que o príncipe perguntou com certo receio:
- Isso aí o que é?
- Ao primeiro clarão do sol nascente me “prostrarei”, príncipe. Já lhe disse. Palavra de honra. O senhor verá! - exclamou Ippolít. - Mas.., mas... Cuidam que não serei capaz de abrir este envelope? – acrescentou volvendo os olhos para os assistentes, encarando-os um por um, como a desafiá-los indistintamente.
Míchkin reparou que ele tremia de modo quase convulsivo.
- Por que havemos de pensar uma coisa dessas? - respondeu o príncipe por todos.
- E por que pensa você isso da gente? Que idéia é essa.., que idéia é essa de ler isso a estas horas? Que é que tem aí nesse envelope, Ippolít?
- Sim, que é? - perguntavam todos, entre si. - Que foi que lhe aconteceu? Está querendo o quê?
Em breve o rodearam todos, alguns ainda comendo. Aquele envelope com o lacre vermelho parecia um imã.
- Escrevi isto anteontem, príncipe, logo depois que prometi vir passar uma temporada na sua casa. Passei o dia inteiro escrevendo, fui pela noite adentro, e só ontem foi que acabei. Depois me deitei e tive um sonho...
- Não seria muito melhor adiar isto para amanhã?
- Amanhã “não haverá mais tempo” - disse Ippolít ejaculando uma risada histérica.
- Mas não se assustem. Levarei apenas uns quarenta minutos a ler. Uma hora, no máximo. E por que não hei de ler se noto tamanha curiosidade, se todos não tiram os olhos de cima do lacre? Ah! Como um envelope grande, lacrado, causa sensação, gente! Hum! Vejam só o que é o mistério! Devo soltar o lacre, ou não, senhores? - perguntou, fixando-os com olhos fulgurantes e rindo de modo esquisitíssimo. É segredo, gente, segredo! Lembra-se, príncipe, quem foi que proclamou que já não haveria “mais tempo”? Foi o grande e poderoso arcanjo do Apocalipse.
- É melhor não ler! - exclamou de repente Evguénii Pávlovitch com um timbre de tamanha preocupação que alvoroçou os demais.
- Deixe dessa idéia. Não leia, não! - aconselhou o príncipe também, pondo a mão sobre o envelope.
- Ler para quê? É hora de cear, isso sim - declarou alguém.
- É algum artigo? Colaboração para alguma revista? - perguntou um outro.
- Alguma droga, na certa - aventou um terceiro.
O gesto de Míchkin, conquanto tímido, pareceu haver arrefecido Ippolít.
- Então.., não querem que eu leia? - disse quase a sUssurrar, com certa apreensão os lábios lívidos repuxados por um sorriso em esgar. - Acham que não convém ler? - murmurou, esquadrinhando vagarosamente as fisionomias dos demais, como a querer cobrar ânimo para investir sobre todos com um único arremesso difuso. Estão com medo de quê? - Depois ficou a consultar a indecisão do príncipe.
- Por que haveríamos nós de ter medo? - redargüiu este último, mudando de fisionomia cada vez mais.
Então, dando um salto da cadeira, como se alguma mola o tivesse arrojado, Ippolít perguntou ao acaso:
Alguém terá aí uma moeda de vinte Copeques? Ou qualquer outra?
- Tome - disse Liébediev, entregando imediatamente uma.
E o fez certo de que o rapaz, devido ao seu estado de saúde, estivesse em algum delírio.
Voltando-se depressa para a menina, Ippolít pediu:
- Vera Lukiánovna pegue esta moeda, atire-a para o ar... Cara ou coroa. Se for cara, então quererá dizer que posso ler!
Vera olhou muito espantada para a moeda, depois para Ippolít, por último para o pai e amedrontadamente recuando a cabeça, como se achasse que não devia olhar para a moeda, arremessoua para o ar. Esta caiu na mesa, com a efígie virada para cima.
- Ler! Vou ler- grunhiu Ippolít como varado pela decisão do destino. Mais pálido do que estava era impossível. Nem que aquilo fosse a sua sentença de morte.
- Mas... - irrompeu ele despropositadamente metendo-se entre os mais próximos, após meio minuto de silêncio - como?! Então ganhei? Foi mesmo “cara”? - E com um pasmo que era quase súplica, tomando a todos como testemunhas os encarou. Depois tornou a se voltar para Míchkin com um legítimo ar de assombro - Mas isto é prova da força psicológica E... deveras inacreditável, príncipe! - disse e repetiu, forçando o hausto e parecendo recobrar ânimo. - Guarde bem este fato, príncipe não esqueça, alteza, já que, segundo creio, o senhor costuma colecionar episódios referentes às sentenças de morte... Pelo menos me contaram ah, ah!... Deus do Céu, que absurdo sem pé nem cabeça!
Sentou-se no sofá, fincou os cotovelos sobre a mesa e apoiou a cabeça.
- Ora, isto é positivamente vergonhoso! Importa-me lá que seja vergonhoso!
- Imediatamente ergueu a cabeça outra vez. - Senhores, senhores! Vou romper o Lacre do meu envelope - exclamou com repentina decisão.
- O que aliás não obriga ninguém a ficar para ouvir.
Com as mãos trêmulas de tanta excitação, abriu o envelope, tirou diversas tiras de papel escritas em letra miúda; começou a arrumá-las, colocando-as na sua frente.
- Mas de que se trata? Que é que ele vai ler? - murmurou alguém, soturnamente; mas os outros ficaram calados, sentando-se e espiando com curiosidade. Contavam com alguma coisa fora do comum. Vera grudou-se à cadeira do pai, amedrontada, com vontade de chorar. Kólia não deixava também de estar assustado. Liébediev, que já se tinha sentado, tornou a se levantar e trouxe as velas para perto de Ippolít, para clarear mais.
- Senhores, o que isto seja, os senhores vão ver já, por si mesmos - começou Ippolít que bem sabia por que começava assim. E logo desandou a ler: - “Explicação indispensável”. Mote:
“Après moi le déluge”. Hum! Não estou gostando! Será que escrevi seriamente um mote tão estúpido? Ouçam, senhores!... Asseguro-lhes que tudo isto não passa afinal de uma algaravia!
Uns pensamentos meus... E se porventura pensam que há qualquer coisa misteriosa, qualquer coisa proibida, então, de fato...
- Por que é que não lê isso sem prefácio? - interrompeu-o Gánia.
- E afetação - ajuntou outra pessoa.
- E muita falação - disse Rogójin que até ali estivera calado.
Ippolít o encarou de repente e quando os seus olhos se encontraram, Rogójin fez um arreganho vagoroso e ácido, pronunciando arrastadamente esta opinião:
- Não é por este caminho que vais lá das pernas, rapaz, digo-te.
Ninguém naturalmente entendeu o que Rogójin quis dizer. Pensaram todos que fosse uma idéia qualquer vinda em um relance. Mas essa frase causou terrível impressão em Ippolít que ficou tão trêmulo que o príncipe chegou a estender a mão para ampará-lo, e até quis gritar, só não o tendo feito porque a voz lhe faltou. Ippolít levou quase um minuto fixando Rogójin, calado, a respiração presa.
Por fim, retomando o folêgo, pronunciou, com tremendo esforço:
- Com que então era você? Sim, você?
- Fui eu o quê? Fui eu o quê? - retrucou Rogójin, espantado.
Ippolít, inflamando-se exclamou tomado de fúria, violentamente:
- Você esteve no meu quarto, à noite, na semana transacta, à uma hora da madrugada, depois que fui a sua casa de manhã! Você! Sim, confesse; foi você.
- A semana passada? De madrugada? Você não está com as idéias muito claras, rapaz!
Ao que o “rapaz”, sem responder, ficou durante um minuto refletindo, com o indicador na testa. Mas havia qualquer brilho dissimulado e quase triunfante no seu sorriso pálido e um pouco destorcido pelo medo.
- Foi você! - repetiu, em um sussurro, com intensa convicção.
- Você entrou e se sentou no meu quarto, sem dizer nada, na cadeira perto da janela, durante uma hora inteira; mais, entre meia-noite e duas da madrugada. Depois, entre duas e três horas, você se levantou e foi embora... Foi você, foi você! Por que quis você me amedrontar? Por que foi me afligir? Não compreendo, mas foi você!
E apesar de ainda estar tremendo de medo, havia fulguração de ódio em seu olhar.
- Os senhores virão a saber de tudo isso, diretamente... Eu... eu... Escutem...
Mais uma vez, com encarniçada pressa, agarrou as tiras de papel que tinham corrido para os lados, procurando ajuntá-las; mas tremiam em suas mãos convulsas, e por isso custou-lhe endireitálas.
- Ou é maluqueira ou delírio - rosnou Rogójin de maneira quase inaudível.
Afinal a leitura começou. Nos primeiros cinco minutos o autor do inesperado artigo estava sem ar e leu aos supetões, incoerente-mente. Mas, com a continuação a sua voz ficou mais forte e começou a exprimir melhor o sentido. Um violento acesso de tosse o interrompia, às vezes. Lá pela metade do artigo já estava rouco. E no fim a sua excitação febril, que ia aumentando com a leitura, alcançou tal ápice que produziu penosa impressão na assistência. Eis aqui o artigo inteiro:
“EXPLICAÇÃO INDISPENSÁVEL
Aprês moi le déluge!”
“O príncipe esteve aqui ontem, de manhã. Entre outras coisas me persuadiu a que me mudasse para a sua vila. Eu tinha certeza de que ele insistiria sobre isso e falaria pelos cotovelos até me convencer que era ‘mais suportável morrer entre arvores e gente’, conforme sua expressão. Mas hoje já não disse ‘morrer’ e sim ‘viver’, o que no meu caso vem a dar no mesmo. Perguntei-lhe que queria dizer com aquelas ‘árvores’ e por que meamolava tanto com elas. E vim a saber, então, com grande surpresa para mim, que eu próprio dissera naquela tarde que seria capaz de vir para Pávlovsk só para olhar para as árvores pela última vez. Quando lhe disse que tanto se me dava morrer olhando para árvores como para os muros de tijolos que dão para a minha janela, não sendo, pois, preciso tanta bulha por causa de uns quinze dias, ele imediatamente concordou; mas o verde e o ar fresco, segundo ele, deveriam produzir, seguramente, uma mudança física em mim, até talvez aliviando a minha excitação e os meus sonhos. Redargüi-lhe, a rir, que estava falando como um materialista. Como ele jamais mente, essas suas palavras devem valer alguma coisa. Tem um belo sorriso; examinei-o agora. cuidadosamente.
Não sei se gosto dele, ou não. Nem disponho de tempo para perder com isso. Devo observar, porém, que o ódio que senti por ele, durante cinco meses, começou a se desfazer este mês. Mas.., então, por que deixei o meu quarto? Um homem condenado à morte não deve deixar o seu canto. Talvez, quem sabe, tenha eu decidido ir a Pávlovsk para ver o príncipe, apenas? Se não fosse ter tomado, como tomei, a minha decisão final, deixando de me consumir aos poucos até ao último instante, nada me teria induzido a deixar o meu quarto e eu não aceitaria o seu convite para ir morar com ele, para morrer em Pávlovsk. Devo apressar-me a acabar esta “explicação” antes de amanhã, seja como for. Não terei, pois. tempo para relê-la, nem para emendá-la. Só a relerei amanhã, quando for mostrá-la ao príncipe e a duas ou três testemunhas que porventura encontre por lá. Portanto, não deve haver por aqui uma só palavra falsa, tudo tem de ser a verdade última e solene. E já estou curioso para saber que impressão isto causará na hora e no minuto da sua leitura. Fiz mal em escrever, penso eu, que esta é a última e solene verdade; não vale a pena dizer mentiras por uns quinze dias, já que, de qualquer maneira, não vale a pena viver quinze dias. Esta é a prova evidente de que não quero senão escrever a verdade. (N.B.: Não esquecer o pensamento: não estarei maluco neste instante, ou melhor, nestes minutos? Já me asseguraram, positivamente, que os tuberculosos, em seu último estágio, perdem a cabeça por tempos. Devo verificar isto amanhã, pela impressão que causar no meu auditório. Ora aí está um caso que tenho de verificar, do contrário, como agirei?)
Está me parecendo que escrevi algo terrivelmente estúpido; mas, como já disse, não tive tempo para corrigir.
Além disso prometi a mim mesmo, de propósito, não emendar uma linha sequer deste manuscrito, mesmo se perceber que me contradigo em cada cinco linhas. O que desejo decidir depois, com a leitura de amanhã, e Justamente se a seqüência lógica de minhas idéias está correta; quero perceber os meus erros e por conseguinte se tudo quanto andei pensando aqui neste quarto é verdade ou delírio.
Se eu devesse deixar o meu quarto, há dois meses atrás, e tivesse dito adeus às paredes de Meyer, estou certo que teria ficado triste. Mas agora não sinto nada. Sei que vou deixar o meu quarto e aquela parede para sempre.
Portanto, a minha convicção de que quinze dias não valem nada, e que não adianta sentir nem lastimar coisa alguma, se assenhoreou de toda a minha natureza e já pode ditar os meus sentimentos. Mas é isso certo? É verdade que a minha natureza já se deixou vencer? Se eu for torturado por alguém, agora, naturalmente que ainda darei gritos, vociferarei e não direi que é indiferente sofrer só porque tenho apenas duas semanas de vida.
Mas, na verdade, só tenho mesmo duas semanas para viver, e não mais? Aquele dia, em Pávlovsk, eu menti.
E... não me disse nada, pois nunca me viu. Mas, há cerca de uma semana, me trouxeram um estudante chamado Kisloródov. Por suas convicções se trata de um materialista, de um ateu, de um niilista. E foi por isso que o mandei chamar. Eu precisava de um homem que me dissesse a verdade nua, isto é, sem cerimônia nem brandura. E foi o que ele fez, não só com desembaraço e sem preâmbulo, mas com satisfação óbvia (que excedeu ao que eu pensava). Provou-me que eu tenho mais ou menos um mês de vida, talvez um pouco mais, caso as circunstâncias me sejam favoráveis, sendo porém mais provável que morra antes. Em sua opinião posso môrrer subitamente, amanhã, por exemplo. Há casos assim, e antes de ontem, por exemplo, em Kolómna, uma jovem senhora tuberculosa, cujas condições eram idênticas às minhas, ia sair para ir ao mercado comprar seus mantimentos quando repentinamente se sentiu mal e caiu sobre um sofá; deu um suspiro e morreu.
Tudo isso Kisloródov me disse sem rodeios e insensivelmente, como se me estivesse fazendo uma honra, ou melhor, como que dando-me a entender que me considerava, a mim também, um ser superior, igual a ele, imbuído do mesmo espírito de negação, e que, é claro, não se importa de morrer. De qualquer modo o fato é verdadeiro: um mês, não mais. E estou perfeitamente convencido de que ele não se equivocou.
Admirei muito ter o príncipe adivinhado que eu tinha ‘maus sonhos’. Expressou estas palavras sinceras: que em Pávlovsk a minha excitação e os meus sonhos se modificariam. E por que sonhos? Ou ele é um pouco doutor, ou excepcionalmente inteligente, e vê habilmente as coisas (mas o que ele é, depois de tudo quanto disse e fez, é um idiota; quanto a isso não pode haver dúvida). Antes dele entrar eu tive, e até parece coincidência, um lindo sonho (apesar de, a falar verdade, ter sempre milhares de sonhos como esse). Adormeci, creio que uma hora antes dele chegar, e sonhei que estava em um quarto que não era o meu, melhor mobiliado e mais claro.
Havia um sofá, uma cômoda, um guarda-roupa e a minha cama que era grande e larga, coberta com uma colcha de seda verde. Mas no quarto deparei com um bicho asqueroso, uma espécie de monstro. Parecia um escorpião, mas não era um escorpião; era mais asqueroso e mais horripilante. Assim julguei porque não havia nada semelhante a ele na natureza e parecia ter vindo ali por encomenda, expressamente, havendo portanto, nisso, qualquer coisa de misterioso. Examinei-o com muito cuidado. Era pardo, coberto com uma carapaça; tratava-se de um réptil com sete polegadas de comprido, dois dedos de espessura na cabeça, rematando em ponta na cauda, de forma que esta só tinha um sexto de polegada de largura. Quase duas polegadas para baixo da cabeça e em ângulo de quarenta e cinco graus com o corpo saíam duas pernas, uma de cada lado, do comprimento aproximado de quatro polegadas; de maneira que toda a criatura tinha a forma de um tridente, olhada de cima.
Não pude verificar bem a cabeça. mas saíam dela dois fiapos duros, como bigodes, curtos, também marrom, lembrando duas agulhas fortes. Havia dois fios iguais àqueles na cauda e na extremidade de cada perna perfazendo oito, ao todo. O bicho corria pelo quarto, muito depressa, com a sua cauda e as suas pernas; e quando corria o corpo e as pernas rastejavam como serpente, com extraordinária desenvoltura, apesar da carapaça; e era horrível de ver-se. Eu estava com um medo terrível de ser mordido.
Sabia que ele era venenoso, mas o que mais que tudo me aterrorizava era ignorar quem o teria posto no meu quarto, qual a intenção e qual o segredo. Meteu-se debaixo da cômoda; depois debaixo do guarda-roupa e trepou pelos cantos. Sentei-me em uma cadeira e ergui as pernas. O bicho andava àvontade pelo quarto e sumiu perto da minha cadeira. Procurei-o com terror e como estava sentado com as pernas erguidas calculei que não subisse por mim acima. De repente ouvi, atrás de mim, quase à altura da minha cabeça, um ruído, como de uma coisa que estivesse sendo raspada. Voltei-me e vi que o réptil subia pela parede, já estando ao nível da minha cabeça e tocando o meu cabelo com a cauda que se virava e enrolava com extraordinária rapidez. Dei um pulo e o bicho desapareceu. Fiquei com medo de ir para a cama, durante a noite, pois podia ser que ele se insinuasse debaixo do travesseiro. Minha mãe entrou no quarto com um conhecido dela e tentou pegar o bicho. Eles estavam muito mais calmos do que eu poderia estar, sem medo absolutamente. E não perceberam o meu pavor. O réptil recomeçou a rastejar. O demoniozinho queria alguma coisa! E correu desta vez do quarto para a porta, rastejando de modo mais revoltante ainda. Então minha mãe abriu a porta e chamou Norma, a nossa cachorra felpuda terra-nova (que já morreu há mais de cinco anos). Arremessou-se ela para o quarto e estacou diante do réptil. O bicho parou também, mas ainda se contorcendo; e raspava o chão com as patas e a cauda. Os animais não sentem terror pelo mistério, a não ser que eu esteja enganado. Mas naquele momento me pareceu que havia um terror extraordinário em Norma. Um terror deprimente, como se a cadela também tivesse notado que ali estava algo de poderoso e estranho. Começou a recuar aos poucos, diante do réptil que deu em rastejar também vagarosamente para ela, querendo decerto pegá-la para a picar. Apesar de apavorada, Norma olhava para aquilo com fúria, embora tremendo. De repente abriu com certo jeito os dentes, mostrando as tremendas mandíbulas vermelhas, agachou-se, preparada para o salto, e subitamente pegou o bicho com os dentes. O réptil lutou para se livrar e Norma outra vez o agarrou quando já escapulia, duas vezes prendendo-o todo nas mandíbulas, parecendo engoli-lo enquanto dava safanões, moendo a carapaça entre os dentes, com as pernas e a cauda dependuradas para fora da bocarra. E como aquilo ainda assim se mexia horrípilantemente! Nisto Norma deu um grito agudo e lancinante. O animal conseguira picar-lhe a língua.
Ganindo e latindo, abriu a boca, por causa da dor, e eu vi o bicho, apesar de cortado em dois, ainda mexer lá dentro, lançando do seu corpo esmagado uma porção de um fluido branco como o que sai quando se esmaga uma barata... Nisto acordei e o príncipe chegou.”
- Senhores - disse Ippolít, interrompendo inesperadamente a leitura e parecendo envergonhado, quase -, não tive tempo de reler isto e acho que escrevi demais, muita coisa até sem necessidade. Este sonho, por exemplo...
- De pleno acordo - apressou-se Gánia em concordar.
- Há aqui muita coisa demasiado pessoal, devo confessar. Isto é. quase que só falo de mim.
E dizendo isso, Ippolít fez um ar de enfado e de cansaço, limpando o suor da fronte com um lenço.
Liébediev anuiu:
- Realmente você está interessado demais na sua pessoa.
- Não estou forçando ninguém a escutar, permitam que lhes diga, senhores. Quem não quiser ouvir pode ir embora.
- Hum! Está mandando a gente embora da casa do outro! - comentou Rogójin de modo perfeitamente audível.
- E se nos levantássemos e fôssemos embora? - propôs Ferdichtchénko, de repente, bem alto. Ele não tinha ousado falar até agora.
Ippolít baixou os olhos e prontamente agarrou o manuscrito. Mas no mesmo segundo ergueu a cabeça de novo e disse olhando fixamente para Ferdichtchénko, com olhos flamejantes e duas nódoas de sangue nas faces:
- Tu me detestas, eu sei.
Houve risadas, mas não de todos. Ippolít enrubesceu ainda mais; e então Míchkin interveio:
- Ippolít, dobre o seu manuscrito e entregue-mo. Vá deitar-se no meu quarto. Conversaremos antes de dormir. Conversaremos amanhã. Mas sob a condição de que nunca mais abra essas folhas. Está feito?
Ippolít o encarou demonstrando nitidamente um assombro incontido.
- Impossível. Senhores, aqui está uma situação estúpida na qual não sei como deva me comportar! - exclamou, tornando-se cada vez mais febrilmente excitado. - Não vou interromper mais a minha leitura. Portanto, se alguém não quer me ouvir, que se vá.
Tomou apressadamente um gole da água do copo, fincou os cotovelos sobre a mesa para amparar o rosto e esconder os olhos, e continuou a ler, passando-lhe logo o vexame.
“A idéia, prosseguiu ele, de que não vale a pena viver poucas semanas começou a me vir seguramente há um mês, quando eu dispunha apenas desse mês para viver. Mas só passou a me obcecar, creio eu, há três dias atrás, quando passei aquela noite em Pávlovsk. A primeira vez que tal pensamento me arrebatou plenamente eu me achava na varanda do príncipe, na ocasião mesmo em que tentava uma experiência e um julgamento sobre a vida, ainda tolerando ver pessoas e árvores (não nego que me propus, a mim próprio, isso). Exatamente quando me excitei insistindo pelos direitos do ‘meu semelhante’ Burdóvskií, quando ainda sonhava que todos me abririam os braços para me acolher e me pedir perdão pelos erros do mundo e da vida, o mesmo estando eu disposto a fazer com todos! Resumindo, exatamente quando eu me comportei, mais do que nunca, como um rematado imbecil. E foi então que me assaltou esta minha ‘última convicção’. Admirei-me de ter podido viver seis meses sem que ela me tivesse vindo antes. Estava farto de saber que era um tuberculoso sem possibilidade de cura. Quanto a isso nunca procurei me enganar. Compreendia a minha situação, claramente. Mas a verdade é que quanto mais claramente a compreendia mais desejo tinha de que a minha vida se prolongasse. Agarrei-me à vida, queria viver apesar de tudo. Admitindo que eu percebia muito bem a nefanda e obscura fatalidade que estava para me esmagar como a um inseto e, ainda por cima, sem a menor culpa de minha parte, por que foi que, ainda assim, não me insurgi contra a minha involuntária passividade? Por que haveria de querer começar a viver deveras sabendo que estava no fim? Por que tentei isso antes e haveria de tentar então, sabendo que seria inútil optar fosse lá pelo que fosse? Pois se nem ler eu podia, tendo desistido dos livros! Que me adiantava ler, de que me valia aprender por seis meses? Quantas vezes a evidência dessa verificação não me fez jogar os livros para um lado?
Sim, aquelas paredes de Meyer poderiam contar uma história. Muito poderia eu escrever sobre elas. Não há um pedaço daquelas paredes imundas que eu não tenha estudado. Raios as partam! E todavia ainda me são mais caras do que as árvores de Pávlovsk. Ou melhor: seriam, se tudo já agora não me fosse indiferente.
Lembro-me com que interesse voraz andei, nesse tempo, prestando atenção na vida de todos, coisa com que antes jamais me importara. Quando a doença me impossibilitava de sair, ficava a olhar para a rua, esperando, nervosamente, por entre maldições e pragas, a vinda de Kólia. Tudo, tudo eu esquadrinhava; não me escapulia a menor novidade, fato, palavra. Virei um tagarela, criticava toda gente! Não havia meios, por exemplo, de compreender como é que quem dispõe de tanta vida diante de si, longe estando a morte, não se torna rico (e com efeito ainda hoje não entendo isso!). Conheci um pobre diabo que (segundo me contaram) veio a morrer de fome. Lembro-me de que, ao saber disso, fiquei furioso: minha vontade era ressuscitá-lo, se eu tivesse tal dom, somente para o executar! As vezes, por aquele tempo, eu ficava um pouco melhor, uma semana ou outra, e me dava ao luxo de sair um pouco; mas as ruas me exasperavam a tal ponto que acabava me trancando dentro do quarto, de propósito, dias e dias seguidos, embora pudesse sair como qualquer outra pessoa. Não podia suportar a multidão apressada, barulhenta, preocupada, pensativa, impaciente, desfilando em duplo sentido, atropelando-me pelas calçadas. Por que essa taciturnidade, essa preocupação, esse alarido, esse eterno e teimoso rancor (pois a multidão tem rancor, tem rancor, tem rancor!)? De quem é a culpa se ela é miserável e não sabe como viver, embora tenha sessenta anos de vida pela frente? Por que foi que Zarnítzin se deixou morrer de fome se tinha sessenta anos de vida à sua disposição?
Toda a gente mostra os seus andrajos, as suas mãos escalavradas e calosas e grita selvagemente: ‘Trabalhamos que nem bois de arado, somos pobres e famintos que nem cães, ao passo que tantos há por aí que não fazem nada e são ricos!’ (A eterna lamúria!) E por entre a turba que vai e vem desde manhã até à noite, eis que surgem sujeitos lerdos e ranhentos, como esse amanuense suplente, Iván Fomítch Súrikov, ‘fidalgo de nascença’. Que vive no meu quarteirão, em uma mansarda e que me farto de ver com os cotovelos coçados, os botões querendo cair, indo e vindo pelo bairro desempenhando tarefas insignificantes, levando e trazendo recados e sempre a se queixar! É pobre, não tem amigos. passa fome, morreu-lhe a mulher à míngua de remédios, o filhinho morreu enregelado em um inverno destes, a filha já moça é amásia não sei de quem.. Iván Fomítch Súríkov! Sempre a se lastimar, o estupor!... Oh! Nunca senti a menor, a mínima piedade por esses estúpidos e nem sinto agora, digo com orgulho! Por que não é ele um Rothschild? De quem é a culpa se ele não tem milhões como Rothschild, se não tem pilhas e pilhas de fredericos de ouro e de napoleões de ouro, tão altas como estas montanhas que se vêem nas festas de carnaval? Pois se está vivo que raio faz ele com tamanho poder como é o da vida? É de quem a culpa se o estupor não compreende isso?
Oh! Agora já não me importo mais, não me resta tempo nem mesmo para me irritar. Mas então, repito, naquele tempo, ah!... eu me crispava no meu travesseiro, mordia com raiva a orla da minha colcha! E que devaneios, que sonhos, que projetos! Que vontade que me vinha de me ver solto na rua, apenas com os meus dezoito anos, sem roupa, sem teto, completamente abandonado e só, sem trabalho, sem quarto, sem uma côdea de pão, sem um conhecido único, sem parentes de qualquer espécie, largado em uma grande cidade, sentindo fome, desdenhado (quanto mais, melhor!) mas com saúde, pois então haveria de mostrar a todos...
- Que é que eu poderia mostrar...?
Oh, sem dúvida cuidam que ignoro quanto me humilhei a mim próprio, conforme se depreende desta minha “Explicação”. Decerto, um por um, todos me olham como um choramingas que não sabe nada da vida, e esquecem que ainda tenho somente dezoito anos, e que viver do modo por que vivi durante esses seis meses significa o mesmo que já estar com os cabelos grisalhos! Pois riam e digam que isso tudo não passa de contos de fadas. De fato a mim mesmo outra coisa não fiz senão contar histórias da carochinha, enchendo noites a fio com esses contos fantasmagóricos. Ainda hoje não os esqueci.
Mas hei de porventura contá-los agora que o tempo das histórias de fadas já acabou, mesmo para mim? Ora, contá-los a quem?
Distraía-me com eles porque já tinha visto perfeitamente que me era vedado até mesmo aprender a gramática grega, como me deu na veneta certa vez. ‘Morrerei sem sequer haver chegado à sintaxe’, pensei, logo na primeira página, e joguei o livro para baixo da mesa. Lá ainda deve estar ele, pois proibi Matrióna de o pegar do chão.
Qualquer pessoa, em cujas mãos esta minha ‘Explicação’ vier a cair, acabará, caso tenha paciência bastante para lhe lançar os olhos, por me considerar como um sujeito maluco, um garoto de escola ou, mais provavelmente ainda, como um homem condenado à morte, propenso por isso a acreditar que todos os demais pensam pouco, pouquíssimo da vida e que não fazem senão dissipá-la à toa, vivendo assaz preguiçosamente, apaticamente, nenhum deles sequer merecendo vivê-la. Bem, protesto contra o meu leitor, pois se equivocou; e esta minha convicção não é de forma alguma uma conseqüência de estar eu condenado à morte. Pergunte-se a essa gente, pergunte-se o que essa gente toda entende por felicidade. Fique o mundo sabendo que Colombo foi feliz não quando descobriu a América, mas sim quando a estava por descobrir. Em verdade afirmo que o trecho mais alto da sua felicidade foram aqueles três dias antes da descoberta do Novo Mundo, quando a equipagem amotinada e desiludida esteve a ponto de aproar de volta para a Europa. Não era o Novo Mundo que importava, mesmo que de tão real lhe caísse ombros abaixo.
Colombo morreu sem quase o haver visto direito, e sem saber ao certo o que havia descoberto. É a vida que vale, que importa, a vida e nada mais, o processo, a maneira de descobrir, a tarefa perpétua e imorredoura. E não a descoberta em si, absolutamente. Mas que adianta estar aqui a falar! Decerto o que aqui estou dizendo ou escrevendo não passa de um lugar-comum e me hão de tomar como um colegial desenvolvendo o tema da composição de sabatina. ‘O nascer do sol’. Ou, no máximo, dirão talvez que de fato alguma coisa tinha eu a dizer mas que não soube me ‘explicar’. Acrescentarei, todavia, que sempre no fundo de cada novo pensamento humano, de cada pensamento de gênio ou mesmo de cada pensamento que emerge do cérebro como altíssima centelha, alguma coisa há que não pode ser comunicada aos outros, mesmo que fossem precisos volumes e mais volumes a respeito e que se levasse mais de trinta e cinco anos a querer explicar; alguma coisa que não sai do cérebro, que não pode emergir, que aí fica para sempre intata e incomunicável. Morre-se com ela, sem poder participá-la a quem quer que seja. E todavia bem pode ser que essa seja a idéia mais importante entre todas. Se também eu falhei ao querer transmitir tudo quanto me andou atormentando nestes últimos seis meses, ainda assim cumpre ficar entendido que para chegar a esta minha ‘última convicção’ paguei demasiado caro. Eis o que achei necessário antepor de forma bem explícita à minha ‘Explicação’ e isso por motivos que me concernem”.
Visto o quê, prossigo.
“Não quero mentir; a realidade me colheu com demasiada força em suas garras no decorrer destes seis meses; e algumas vezes me arrebatou a ponto de me obrigar a esquecer a minha sentença de morte. Ou melhor: cheguei a não pensar nela e até a trabalhar. Já que estou falando nisto convém citar as circunstâncias. Quando, há oito meses, adoeci gravemente, cortei todas as minhas amarras com o mundo, e desisti de andar com quantos tinham sido meus camaradas. Como sempre fui um taciturno, os meus companheiros facilmente me esqueceram.
Naturalmente mesmo sem esta decisão minha acabariam me esquecendo. O meu ambiente doméstico, ou para ser mais exato, a minha ‘família’ também predispunha ao solipsismo. Há cinco meses que me apartei de vez, de tudo e de todos, confinando-me em um dos cômodos de casa. Acostumados a me obedecer, dos meus nunca ninguém ousou me aparecer, exceto nas horas marcadas para a arrumação do quarto e para me trazerem as refeições. Minha mãe acatava o meu estado de ânimo e sempre que vinha à minha presença permanecia ali toda trêmula, perto da porta, e não abria a boca. Dava nas crianças para não fazerem barulho, pois isso me incomodava. De fato muitas vezes, ao menor ruido, eu fazia um escarcéu. (A criançada deve estar com saudades de mim!) Acho que atormentei muito o meu ‘fiel e bom’ Kólia, como eu o chamava. Além mesmo dos limites da sua paciência. Mais tarde isso chegou a saturá-lo. Não vejo nisso nada de extraordinário. As criaturas foram feitas para se atormentarem reciprocamente. Percebia que ele não se exasperava com a minha irritabilidade, resolvido de antemão a não ser ríspido com um inválido. Provavelmente encaixou isso na cabeça para imitar a mansidão cristã do príncipe, o que, afinal, acabei achando engraçado. Não passa de um garoto muito novo e ávido do mundo; de maneira que tinha mesmo que imitar tudo. Acabei compreendendo e aceitando que ele tratasse, em uma hora oportuna, de traçar o seu próprio caminho. Gosto muito dele. Não deixei também de implicar com Súrikov, que mora em uma mansarda do meu prédio e que corre levando recados de um para outro, desde manhã até à noite. Tanto andei a lhe querer provar que era um imbecil em Suportar a sua pobreza que se encolheu e desistiu de me encontrar. É uma natureza muito mansa, o mais suave dos seres vivos. (N.B.: dizem que a mansuetude é uma força tremenda. Devo interrogar o príncipe, a tal respeito. Aliás a expressão é dele.) Mas em março, quando me dei ao trabalho de subir aquelas escadas todas para lhe dar os meus pêsames por haver o seu filhinho morrido enregelado, conforme soube, caí na asneira de, lá em cima, querer explicar ao pobre diabo, outra vez, embora inoportunamente, que tudo isso era conseqüência da sua ‘burrice’. E sorri, lançando uma olhadela para o cadaverzinho. Então os lábios do homem se puseram a tremer e, contendo as lágrimas de antes, pôs uma das mãos no meu ombro e com a outra me apontou a porta, dizendo muito brandamente, com menos do que um sussurro: ‘Saia, senhor!’
Saí e apreciei aquilo muitíssimo; apreciei logo, instantaneamente, mesmo no momento justo em que ele me apontou para a saída. Durante muito tempo aquelas duas palavras produziram em mim uma impressão dolorosa, quando calhava pensar nelas. A impressão que me causavam era uma espécie de desprezível piedade para com ele, coisa que eu absolutamente não queria sentir. Mesmo na hora aguda do insulto (sei bem que aquilo foi um insulto, embora involuntário), mesmo em tal ocasião não demonstrou ira! Se os seus lábios tremeram não foi isso provocado por acesso de ira, não, juro! Com a mão no meu ombro pronunciou o seu significativo ‘Saia, senhor!’, absolutamente sem ira. O que havia era dignidade; muita mesmo, conquanto inadequada inteiramente ao caso, tanto que, a bem dizer, havia até algo de cômico e grotesco na cena; mas cólera, não; não havia cólera.
O máximo que se deve ter dado foi ter ele sentido desprezo por mim. Depois disso, encontrando-me umas duas ou três vezes pela escada, cumprimentou-me tirando o chapéu, coisa que antes não fazia. Antes parava, de chapéu na cabeça, dizia qualquer coisa a esmo; destas duas ou três vezes continuou subindo, resvalando por mim muito confuso. Se me desdenhava, fazia-o à sua maneira: desprezava-me mansamente. Ou quem sabe lá se me tirou o chapéu, cumprimentando apenas o filho de um seu credor, visto em tempos ter pedido dinheiro emprestado à minha mãe, nunca tendo podido, depois, ser perfeitamente estrito em seus pagamentos. Com efeito esta interpretação parece mais viável. Estou certo que se eu tivesse resolvido dar tudo como não se tendo passado, ele em menos de dez minutos me viria pedir perdão: decidi, porém, não modificar meu feitio.
Foi mais ou menos nessa época; isto é, quando o filhinho de Súrikov morreu de friagem, em meados de março, que inesperadamente dei em me sentir bem melhor durante uns quinze dias. Passei então a sair, pouco antes do crepúsculo. Eu gostava do mês de março, quando começa o degelo. Andando pelas ruas via acender os bicos de gás. Andava às Vezes horas e horas a fio. Aconteceu, uma noite, na Rua das Seis Quitandas, um indivíduo que parecia um gentil-homem passar adiante de mim. Não lhe distingui a fisionomia, reparei somente que levava não sei o que embrulhado em jornais; vestia uma espécie de sobretudo horroroso, curto demais para o seu tamanho e muito ralo para a estação. Bem no instante em que ele passava por mim rente a um lampião, notei que qualquer coisa caiu do seu bolso. Apresseime em pegá-la, pois alguém, um homem metido em um cafetã, pulara na minha frente; vendo porém que eu a estava pegando nem fez menção de discutir, contentando-se apenas em arriscar uma olhadela e continuar o seu caminho.
Tratava-se de uma carteira velha, de marroquim, recheada (percebi logo) de tudo que fosse possível, menos dinheiro. O homem que a perdera já ia a uns quarenta passos na minha frente e logo se Sumiu na multidão. Pus-me a correr e a chamar por ele; como não podia dizer nome nenhum e apenas gritava ‘êh!, êh!’, ele não se voltou. Súbito, atirou-se à esquerda e desapareceu no portal de uma casa. Quando alcancei a entrada, que era muito escura, não vi ninguém. O prédio era enorme, uma dessas construções monstruosas destinadas a inquilinos de classe baixa, que muitas vezes contém até mais de cem cômodos e que dão uma renda fabulosa. Quando entrei correndo me pareceu ver um homem já na parte mais afastada do pátio. Devido à escuridão não consegui distingui-lo a não ser muito mal. Avancei e chegando ao fundo dei com a entrada para as escadas. Umas escadas estreitas e imundas; não havia luz de espécie alguma. Ouvi passos, ruídos de quem está subindo. Subi também, certo de que enquanto lhe abrissem a porta eu conseguiria alcançálo. Os lances da escada eram Curtos, mas os andares eram tantos que nunca mais que eu chegava. E fui ficando sem fôlego. Antes de atingir o quinto andar escutei que uma porta se abriu e logo se fechou, lá em cima. Galguei os lances, cheguei a um corredor, vi uma porta, comecei a tomar respiração e toquei a campainha. Só alguns minutos depois foi a porta aberta por uma mulher que voltou a assoprar o fogo debaixo de um samovar. Escutou-me em silêncio, creio que não entendeu uma Única palavra do que eu disse, e sempre calada me abriu uma porta que dava para uma outra peça; vi-me em um cômodo estreitinho e miserável, mobiliado com o indispensável. Havia umacama para casal, com cortinados onde jazia estirado um homem; Tieriéntitch, pois este foi o nome com que ela chamou esse homem avisando a minha entrada, resmungou qualquer coisa, com um tom pastoso de bêbado e mostrou uma outra porta oposta à que a mulher tornou a fechar. Em um castiçal de lata uma vela quase gasta iluminava uma garrafa. Tive o expediente de abrir a tal porta, logo me vendo em um outro cômodo.
Esse cômodo era menor do que o anterior e estava atulhado de coisas, de tal maneira que me vi atrapalhado para andar. Um estreito Leito de solteiro, em um lado, tomava muito espaço. O resto dos móveis consistia de três cadeiras amontoadas com roupa de toda sorte e uma mesa ordinária em frente de um sofazinho forrado com encerado; mas isso desarrumado de tal jeito que não havia lugar para se passar entre a mesa e a cama. Brilhava no centro da mesa uma vela de sebo fincada em um castiçal idêntico ao outro. Na cama chorava um garotinho que, a julgar pelos sons que emitia, não podia ter mais do que três semanas. Estava sendo ‘trocado’ por uma mulher pálida de expressão doentia, ainda moça, de roupão, com ares de se ter acabado de levantar de uma doença. Mas a criança não se sentiu confortada com a fralda limpa e desandou a berrar, querendo decerto a maminha. No sofá dormia uma outra criança, de uns três anos, coberta, penso eu, com o casaco do pai. Junto da mesa estava um homem com um paletó muito coçado (tinha acabado de tirar o sobretudo que jogou sobre a cama). Estava desmanchando um pacote azul que continha duas libras de pão de trigo e duas pequenas salsichas.
Reparei ainda em um bule de chá sobre a mesa e em uma pada de pão preto. Uma maleta meio aberta e dois embrulhos de roupas apareciam debaixo da cama.
Aquilo é que era desordem. Mas logo à primeira vista me impressionou serem homem e mulher gente de alguma educação, e que a pobreza reduzira àquela condição degradante a que se chega quando a desordem triunfa de todo esforço para combatê-la e ainda por cima conduz uma pessoa a achar no seu crescimento cotidiano uma espécie de cruel e (como no caso) vingadora satisfação.
Quando entrei, o homem, que acabara de entrar antes de mim e estava desenrolando as suas provisões, falava com a mulher que, não tendo ainda acabado de arrumar o bebê, desandou a soluçar. As notícias deviam ser más, como de hábito. O homem, que aparentava uns vinte e oito anos, tinha um rosto sombrio e esgotado, bigodes pretos e queixo escanhoado. Deu-me a impressão de ser mais educado e simpático do que a mulher.
Tinha um rosto apático, com igual expressão nos olhos, havendo apenas uma sombra de orgulho mal contido. A minha entrada ocasionou uma cena estranha.
Pessoas existem, de cuja irritadiça sensibilidade deriva um extraordinário prazer com que se nutrem, principalmente, quando essa irritabilidade atinge um clímax que prontamente condiz com eles. Em tais momentos positivamente preferem ser insultadas a não o serem. E são sempre, depois, perseguidas por remorso, se têm compreensão, naturalmente, e são capazes de se dar conta de que foram dez vezes mais excitadas do que precisavam ser.
Aquele homem me fitou, por algum tempo, com assombro, ao passo que na mulher notei maior espanto, como se houvesse algo de monstruoso em ter alguém entrado ali e estar a vê-los. Investiu logo contra mim, em fúria; não tive tempo nem para articular duas palavras; e embora visse que eu estava decentemente vestido, ele sentiu, acho eu, que era um hediondo insulto aquela minha ousadia de lhe sondar o antro sem cerimônia alguma e em reparar no horripilante ambiente que tanto O envergonhava.
Contentava-o, sem dúvida, essa Oportunidade de descarregar sobre qualquer um a sua raiva pelo seu mau fado. No primeiro minuto pensei que me ia atacar.
Tornou-se branco como uma mulher em histeria, assustando a própria esposa.
Como Ousa o senhor ir penetrando assim dessa maneira? Ponha-se lá fora! - exclamou, tremendo, pronunciando com dificuldade as palavras. Mas, de repente, viu a sua carteira na minha mão.
- Acho que o senhor deixou cair isto na rua - disse-lhe eu tão secamente quanto pude. (De fato era a melhor coisa a fazer.) Pasmou defrontando-me com absoluto terror, e por algum tempo não teve jeito para apanhá-la. Só depois foi que arrebatou a carteira e, boquiaberto, bateu com a mão na testa.
- Bom Deus! Onde, como encontrou o senhor isto?
Expliquei-lhe em breves palavras, e fazendo até o possível para ser ainda mais seco, como tinha pegado a carteira, corrido atrás dele, chamandoo e como, por fim, por acaso e quase adivinhando o caminho, o acompanhara escadas acima.
- Ó Céus! - gritou, virando-se para a esposa. - Aqui estão todos os nossos documentos, o último dos meus instrumentos, tudo... Oh, meu caro senhor, compreenderá o que acaba de fazer por mim? Eu ficaria perdido!
Nesse ínterim segurei a maçaneta da porta para me ir sem lhe responder. Mas estava sem fôlego, eu próprio, e a minha atrapalhação provocou tal acesso de tosse que mal me pude suster. Vi o homenzinho correndo de um lado e de outro, para pegar uma cadeira que estivesse sem roupas; finalmente, esvaziando uma da roupa que atirou para o assoalho, a trouxe, ajudando-me a sentar. Creio que levei tossindo uns três minutos, ou mais. Quando sosseguei, dei com ele sentado perto, em uma outra cadeira da qual também tinha arremessado a roupa para o pavimento; e me olhava atentamente.
- O senhor parece estar doente - disse, no tom em que os médicos iniciam a consulta com os seus clientes.
- Sou eu próprio um médico (não disse doutor) - e ao dizer isso algo o fez apontar para o quarto, como protestando contra o seu ambiente. - Vejo que o senhor...
Fui logo dizendo o mais ligeiro possível, enquanto me levantava:
- Estou tuberculoso.
Ele também se levantou logo.
- Decerto o senhor está exagerando. Se tomar cuidado de acordo com...
Mas ainda estava tão atarantado que não pôde tomar uma atitude condigna, atrapalhado ainda por cima com a carteira na mão esquerda.
- Oh! Não se incomode - atalhei eu, pegando outra vez na maçaneta da porta.
B... n examinou-me a semana passada, e o meu caso já está liquidado. (Não sei por que me servi de novo de B... n.) Com licença... Experimentei de novo abrir a porta, deixando o meu grato doutor muito embaraçado em sua vergonha; mas nisto a tosse me atacou e desta vez pior. Ele então insistiu comigo para sentar e ficar descansando. Virou-se para a mulher que de onde se achava articulou umas palavras de cordial gratidão. E ao falar ficou tão desapontada que uma onda de sangue parecia querer romper a pele macerada das suas faces. Permaneci tão a contragosto naquela confusão que eu estava piorando ainda mais. E então o nosso caro doutor começou a ser tomado de remorsos; percebi logo.
Se eu soubesse... - começou ele, desconcertado, mexendo-se sem nunca mais parar.
- Estou-lhe de tal maneira grato, comportei-me tão mal com o senhor! Mas, como o senhor vê... - mostrava outra vez o cômodo - no presente momento estou em uma tal situação...
- Oh! Nem preciso olhar. O habitual é isso. Vai ver que o senhor perdeu o seu lugar e veio a Petersburgo tratar do caso e tentar arranjar outra coisa...
- Como é que o senhor soube? - indagou admirado.
- Basta um relance para se descobrir isso - disse eu com involuntária ironia.
- Bandos e bandos de gente acorrem das províncias, cheios de esperança, correndo atrás de coisas. E acabam vivendo assim.
Ele então, sem mais aquela, desandou a falar acaloradamente com os lábios crispados. A sua história era uma longa queixa e devo confessar que me comoveu. Aliás a história de toda essa gente. Como médico de província tivera um emprego público; mas certas intrigas, nas quais a sua própria mulher estivera envolvida, revoltaram o seu brio, acabando por perder a calma. Uma mudança de autoridades locais favorecera os desígnios dos seus inimigos que espezinharam a sua reputação e fizeram representações contra ele. Perdera o lugar, gastara as economias para vir a Petersburgo tratar do caso. Aqui durante muito tempo não houve meios de conseguir uma audiência. E quando conseguiu, lhe responderam com uma negativa. Em seguida, promessas, repreensões severas, a necessidade de escrever folhas e folhas à guisa de explicação. Acabaram indeferindo a petição, ordenando-lhe que encaminhasse uma outra mais resumida. Andara de Herodes para Pilatos, durante cinco meses, até gastar o último vintém. Acabara pondo até a roupa da mulher no penhor. E agora, ainda por cima, um bebê.
- Precisamente hoje recebi a recusa formal à minha petição. Não tenho pão, nem coisa nenhuma. A mulher acabou de se levantar do resguardo. E eu... eu...
Ergueu-se da cadeira, começou a dar voltas. A sua mulher chorava em um canto. O recém-nascido goelava ainda mais. Tomei o meu caderno de notas e comecei a escrever. Quando acabei e me ergui, ele também estava de pé, me encarando com uma curiosidade que dava pena.
- Pus aqui o seu nome - fui dizendo - e todo o seu caso; o lugar onde o senhor servia, o nome do governador, o dia e o mês. Tenho um camarada que foi meu antigo companheiro de escola, chamado Bákhmutov cujo tio, PiótrMatviéitch Bákhmutov atualmente é conselheiro de Estado e diretor...
- Piótr Matviéitch Bákhmutov! - exclamou o nosso homem, tremendo.
- Mas tudo depende justamente dele.
Toda essa história a respeito do nosso doutor, cuja solução satisfatória tive a sorte de levar a termo, se ajusta, por qualquer desígnio, ao enredo de uma novela. Avisei a essa pobre gente que não depusesse nenhuma esperança em mim pois que eu não passava de um pobre estudante (propositadamente exagerei a minha pobreza; além do quê, já acabei os meus estudos há muito tempo e não sou mais matriculado). Disse-lhes que nem valia a pena saberem o meu nome, mas que eu iria imediatamente à ilha Vassílievskii à casa do meu colega Bákhmutov. E que, como sabia que o seu tio, o atual conselheiro de Estado, era um advogado sem filhos que adorava de verdade o sobrinho por ser o último representante da família, talvez esse meu camarada possa vir a fazer alguma coisa pelo senhor, através do tio, está claro.
- Ah! Se ao menos permitissem que eu explicasse a Sua Excelência! Se, ao menos, me concedessem a honra de uma explicação pessoal! - exclamou ele, com os olhos esbugalhados, agitando-se como se estivesse com febre.
Que o ‘apadrinhasse’, foi o que me pediu. Repetindo-lhes que isso na certa mais uma vez ia dar em nada, acrescentei que se, no dia seguinte, eu não voltasse, significaria que tudo tinha dado em nada e que desistissem.
Acompanharam-me até a porta com reverências, emocionadíssimos! E jamais esquecerei a expressão de seus rostos. Tomei um carro e imediatamente me dirigi à ilha Vassflievskii.
Na escola, durante anos, eu estivera em más relações com Bákhmutov. Era considerado entre nós como aristocrata, ou pelo menos eu o considerava um deles. Vestia-se muito bem, dirigia os seus cavalos, mas não mostrava soberbia. Sempre fora bom camarada, de constante bom-humor, sendo algumas vezes até satírico.
Sempre fora o primeiro da classe, apesar de inteligência média. Eu nunca fui o primeiro em coisa alguma. Todos os colegas gostavam dele, exceto eu. Durante todo aquele tempo muitas vezes Ne ensaiara para o meu lado, mas sempre eu me desviava com teimosa birra. Agora, não o via há mais de ano. Estava matriculado na Universidade.
Quando, pelas nove horas, cheguei à sua casa, fui anunciado com grande cerimônia. Vindo a mim, primeiro mostrou admiração, não demonstrando sequer afabilidade; depois, porém, se desmanchou todo, desandando a rir.
- Que te deu na cabeça de me vir ver, Tieriéntíev? - gritou com a sua invariável bonomia que, não sendo ofensiva, muitas vezes era impudente e que eu, por admirar, tanto odiava nele.
- Mas que foi isso? - exclamou espantado. - Pareces-me bem doente!
É que a minha tosse me torturava outra vez. Procurei uma cadeira, fiquei quase sem poder tomar fôlego, respirando com dificuldade.
- Não te incomodes. Estou tuberculoso - avisei-o. - E vim àtua casa para um pedido.
Sentou-se cada vez mais espantado, e eu lhe pespeguei a história do doutor, fazendo-lhe ver que, dada a sua influência sobre o tio, estava em condições de poder fazer alguma coisa.
- Farei. É lógico que farei - afirmou. - Atacarei meu tio amanhã. E olha, tenho satisfação, deveras, em te fazer isso. Aliás, como me contaste essa embrulhada direitinho!... Mas como foi que te passou pela cabeça vir até a minha casa?
- É que tudo, neste caso, depende só de teu tio. Nós dois, Bákhmutov, fomos inimigos; mas como és um homem de bem, pensei que mesmo a um inimigo nada recusarias - acrescentei com sarcasmo.
E ele exclamou rindo:
- A mesma política de Napoleão com os ingleses! - comparou, rindo. - Farei isso! Orá, se farei! E se puder irei até mesmo agora - ajuntou, reparando que eu me levantava da cadeira com um modo grave e compenetrado.
E a verdade é que o caso foi arranjado por nós dois, e da maneira mais triunfante possível. Em menos de seis semanas já o doutor estava indicado para outro posto, em uma outra província, e recebia uma ajuda de custo para a viagem, além de uma indenizaçãozinha. Creio até que Bákhmutov chegou a visitar bastantes vezes o médico (eu, intencionalmente, não o fiz e até uma certa vez o recebi friamente quando me veio agradecer), obrigando-o a receber dinheiro emprestado. No decorrer dessas seis semanas vi Bákhmutov duas vezes. A última vez que ele se encontrou com o médico foi a terceira em que o vi. Bákhmutov ofereceu-lhe, bem como à mulher, um jantar com champanha, antes da partida. A verdade é que a pobre senhora saiu antes de nós, preocupada por causa do garotinho. Estava-se no começo de maio. Nessa tarde tão linda a enorme bola de sol mergulhava nas águas. Bákhmutov, depois, saiu comigo. Estávamos ambos um pouco embriagados e seguimos pela Ponte Nikoláievskii. Bákhmutov me referiu o seu prazer pela afortunada solução do caso, agradeceu-me por tudo, disse quanto se sentia feliz depois de uma boa ação, acentuou que o mérito era todo meu, e que o povo incidia em erro ao declarar e pregar que a benevolência individual estava fora de uso e prática. Pude conversar com ele durante muito tempo.
- Quem quer que ataque a caridade - comecei -, ataca a natureza humana e lança seu desprezo sobre a dignidade pessoal. Tenho para mim, todavia, que ‘a organização pública de caridade’ e o problema propriamente dito da liberdade individual são duas questões distintas e não mutuamente exclusivas. A bondade individual permanecerá sempre, porque é um impulso da pessoa, a inclinação viva de uma personalidade querendo exercer uma influência direta sobre outra. Havia, por exemplo, em Moscou, um general, ou melhor, um conselheiro de Estado, cujo nome era alemão. Passou toda a sua vida visitando prisões e prisioneiros. Cada leva de exilados para a Sibéria sabia de antemão que o ‘velho General’ os visitaria na ‘Colina dos Pardais’. Ele se desincumbia desse bom trabalho com a maior devoção. Ia e vinha por entre as fileiras dos prisioneiros, parava diante de cada um, perguntava-lhe por suas necessidades, chamando cada um de ‘meu caro’ e ainda por cima dava conselhos paternais. Costumava dar-lhes dinheiro, trazia-lhes artigos de primeira necessidade, faixas para as pernas, roupas de baixo, e até livros de devoção que distribuía entre os que sabiam ler, firmemente persuadido de que os leriam pelo caminho para si e para os que não soubessem ler. Era incapaz de interrogar um prisioneiro sobre o seu crime. E se o criminoso começava a falar nisso, apenas escutava. Todos os criminosos estavam em pé de igualdade, perante ele. Não fazia distinção. Falava-lhes como a irmãos e eles o consideravam como a um pai. Se entre os prisioneiros descobria uma mulher com uma criancinha, ia acariciá-la e estalava os dedos para a fazer rir. E desta maneira, durante anos e anos, visitou prisioneiros enquanto viveu. E tanto fez que acabou conhecido em toda a Rússia e na Sibéria inteira. Não havia sentenciado que não soubesse da sua existência. Um homem que esteve na Sibéria me disse que muitas vezes vira os mais impedernidos criminosos sentirem saudade do ‘General’. Já no fim da vida ele só podia dar vinte copeques a cada um dos prisioneiros das levas que ia visitar com dificuldade, sua fama decrescendo um pouco do antigo calor de lenda e respeito. Sei de um homem, entre essas ‘infelizes’ criaturas, que assassinara doze pessoas, das quais seis crianças, estrangulando-as ferozmente só para dar vazão à sua gana (homens há, capazes disso). Pois bem, esse mesmo homem, vinte anos depois, um dia, a propósito de nada, deu um suspiro e exclamou ‘Que fim terá levado o nosso ‘velhinho General’? Viverá ainda? Tomara que sim!...’
Quem sabe se esse monstro até não teve um sorriso ao dizer isso. Ora aí está. Mas, pergunto eu, que espécie de germe teria o velho ‘General’ deixado cair na alma desse criminoso para, vinte anos depois, tal monstro sentir saudades de um homem de bem? Como explicarias tu, Bákhmutov, o sentido da associação de uma personalidade com uma outra a ponto de influir no destino dela? Sabes muito bem que levamos uma vida inteira sem dar conta da infinita multidão de divertículos fechados na nossa alma. Não sabemos nada de nós mesmos. O mais hábil jogador de xadrez, o mais profundo, somente é capaz de saber de antemão no máximo alguns lances.
Julgou-se um prodígio certo campeão francês capaz de deduzir a mecânica de dez lances imediatos. Quantos lances, pergunto eu, restam e que somos incapazes de perceber? Ao espalhar o germe, ao espalhar a tua caridade, a tua bondade, estás dando, de uma forma ou de outra, parte da tua personalidade e tomando para teu uso parte da alheia. Ficas em mútua comunhão com alguém e, àmedida que crescer o teu desvelo, irás sendo recompensado com a verificação das mais estupendas descobertas. Acabarás te dedicando a esse teu trabalho como se fosse uma ciência; ele tomará posse da tua vida toda e a encherá por inteiro. Por outro lado, todos os teus pensamentos, todo o germe que espalhaste, e do qual talvez já nem te lembres, crescerá e tomará forma.
Quem o receber de ti o passará adiante. E como hás tu de no fim de tudo poder dizer que parte virás a ter na futura determinação dos destinos da humanidade? Se esse conhecimento e a duração desse trabalho te tornarem, por fim, apto a propagar algum poderoso germe, a legar ao mundo algum veemente pensamento, então... Falei muito; até demais!
- E dizer-se que tu, que estás falando tais coisas, és uma vida condenada pela doença! – exclamou Bákhmutov, com tom inflamado, como a admoestar alguma coisa invisível.
Nesse momento estávamos parados na ponte, com os cotovelos na balaustrada de ferro, vendo correr as águas do Neva.
- Queres tu saber em tudo isso o que é que mais me conturba? - perguntei-lhe, inclinando-me sobre a guarda de metal.
- Não te atirares ao rio?... - redargüiu Bákhmutov, com certo pânico, como se lesse tal pensamento na minha fisionomia.
- Não é isso, não. Em face do tempo, só me atormenta a seguinte reflexão: disponho de dois a três meses ainda para viver; talvez quatro. Mas quando me restarem somente dois, por exemplo, e me vier uma ânsia insopitada de fazer alguma boa ação, dessas que requerem afinco, atividade e pertinácia, uma coisa no gênero, digamos, da desenvoltura que tive de desdobrar por causa do tal médico da carteira, terei de desistir por falta de tempo suficiente e me contentar com uma boa ação em escala menor, dentro do meu prazo temporal (caso ainda aspire a cometer boas ações...). Hás de concordar que é uma idéia divertida.
O bom do Bákhmutov ficou aflito por minha causa. Acompanhou-me até à minha porta, de carro, mantendo-se calado durante todo o percurso, tendo tido bastante tato para não tentar me consolar. Ao nos despedirmos apertou calorosamente a minha mão e pediu licença para me vir ver de vez em quando. Respondi-lhe que se era para me consolar (pois eu me dizia que mesmo que ele ao vir ficasse calado, ainda assim teria vindo consolar-me!) acabaria mais era, cada vez que viesse, fazendo com que eu me lembrasse da morte mais do que nunca.
Encolheu os ombros e concordou comigo. Deixamo-nos muito cordialmente, o que era o máximo que podíamos esperar um do outro.
Mas aquela tarde e aquela noite me foi arremessado o primeiro germe da minha ‘convicção final’. Agarrei-me avidamente a esta idéia nova e a analisei em todos os seus ramos e aspectos. Apesar de haver entrado com sono, não dormi a noite toda. E quanto mais profundamente eu analisava, cada vez mais absorto, mais aterrorizado me sentia. Um terror formidando me assaltou e obcecou continuamente nos dias seguintes. Não raro, de tanto pensar nesse terror que me crispava, sucedia chegar à fímbria de um outro. De roda essa série de apreensões só pude concluir uma coisa: que a minha ‘convicção final’ tomara posse integral de mim e me conduziria a uma conclusão lógica. Assim foi, mas me faltou ânimo para agir. Somente três semanas depois que tal torpor passou é que a dita resolução veio ao meu encontro. E de que modo? Através de uma circunstância estranhíssima.
Tenho aqui na minha ‘Explicação’ todas essas datas e números anotados.
É mais que evidente que pouco se me dá sigam ou não este meu concatenar de idéias; ainda assim, agora (e decerto somente agora, isto é, neste momento) eu gostaria que todos quantos terão de ajuizar da minha ação se capacitassem de quão longa é a cadeia de raciocínios lógicos que leva a esta derradeira convicção’! Escrevi, poucas linhas acima, que a determinação final de que eu carecia para atingir e pôr em prática a minha ‘convicção final’ não me veio absolutamente através de nenhum raciocínio lógico feito até então, e sim mediante um estranho choque, e uma estranha circunstância talvez até não muito adequada. Cerca de dez dias antes, Rogójin viera ver-me a propósito de um negócio que lhe concernia, e que não vem ao caso relatar. Nunca tinha visto Rogójin antes, mas ouvira falar muito sobre ele. Dei-lhe a informação que me solicitou. Não se demorou, despediu-se logo, e como o único motivo de sua visita fora tal informação, claro que nossas relações não poderiam passar dessa visita ocasional.
Mas ele me impressionou sobremodo, de forma que passei o dia entregue a pensamentos esquisitos; tanto que decidi ir vê-lo no dia seguinte, a título de retribuição de visita. Percebi logo não haver ele gostado de me rever, tendo até insinuado de maneira indireta e cortês que não era conveniente entabularmos conhecimento; ainda assim permaneci por toda uma hora, que achei interessante, a mesma impressão decerto tendo tido ele. Eramos criaturas tão diferentes que o contraste surgia de modo categórico. Sabíamos disso; principalmente eu. Eu era um homem cujos dias estavam contados, ao passo que ele estava vivendo quantitativamente a vida mais completa e real possível, tendo muito mais em que se absorver do que em ‘deduções finais’, números, dados etc., que não lhe diziam respeito, mesmo porque... mesmo porque estava entregue lá à sua mania, essa é que é a verdade!... O Sr. Rogójín que me desculpe esta expressão, quando mais não seja porque sou literato de meia-tigela e não sei como exprimir minhas impressões pessoais. A despeito da sua casmurrice, pareceu-me um homem de espírito vivaz, apto a pegar as coisas no ar, muito embora mostrando pouco interesse pelo que não lhe concerne diretamente. Não fiz a menor insinuação sequer quanto à minha ‘convicção final’, mas suponho que teve alguma desconfiança decorrente da conversa. Ou melhor, da minha conversa; ele não falava; manteve-se fechado em copas. Quando me despedi, lhe afiancei que não obstante toda a diferença e contraste existentesentre nós dois - les extremités se touchent - (traduzi-lhe tal provérbio para o russo) talvez não estivesse ele assim tão distante de compreender a minha ‘última explicação’ como pareceria. Respondeu-me a isso com um esgar ácido e amarelo, levantando-se e indo buscar pessoalmente o meu gorro, de modo ostensivo (apesar de eu já me estar despedindo por livre vontade minha), e sem a menor cerimônia me conduziu para fora da sua soturna residência, com a pretensão talvez de apenas me estar acompanhando polidamente. Sua casa impressionou-me. Não passa de um mausoléu rústico, lembra um recanto de cemitério, e creio que se compraz em tal ambiente, o que é muito natural pois condiz com a sua vida que é tão sobrecarregada de vigor e intensidade que não necessita de divagação.
Tal visita me cansou demais e não me senti nada bem aquela manhã. De tardinha me senti tão fraco que me estirei na cama, acometendo-me acessos de febre com rajadas de delírio. Kólia permaneceu ao meu lado até às onze horas. Lembro-me porém de tudo que ele conversou, e do que falamos ambos. Mas sempre que uma espécie de névoa me envolvia, eu dava para ver Iván Fomítch que estava a receber milhões, já não tendo onde os colocar e com um medo pavoroso de que lhos roubassem, a ponto de decidir enterrá-los no chão. Por fim o aconselhei a, em vez de meter uma tamanha montanha de ouro em um buraco que teria de ser enorme, derreter aquilo tudo em uma forma e fazer com todo o bloco um esquife de ouro para o filhinho que morrera enregelado, para isso necessário sendo desenterrá-lo de lá onde jazia, coitadinho. Este meu sarcasmo imediatamente foi aceito por Súrikov com lágrimas de gratidão, e ele saiu logo para realizar tal intento, por minha vez lhe atirando eu com uma blasfêmia quando ele saía.
Depois que melhorei, Kólia me garantiu que eu não dormira um só instante e que não cessara de falar sobre Súrikov. De vez em quando me vinha tal prostração, verdadeiro estado de colapso, que quando Kólia teve de ir embora, não podia dissimular sua aflição. Ao me levantar para fechar a porta, repentinamente me lembrei do quadro que vira em casa de Rogójin, sobre a porta de uma daquelas salas lúgubres. Mostrou-me ele próprio ao passarmos e creio que estive a contemplá-lo bem uns cinco minutos. Não tem tal quadro valor algum sob o ponto de vista artístico, mas produziu em mim certo mal-estar esquisito.
A tela representa Crísto acabado de ser descido da cruz. Creio que, via de regra, os pintores que pintam Cristo na cruz ou depois de descido dela, timbram em manter uma extraordinária beleza no Seu rosto. Esforçam-se por preservar essa beleza mesmo em Suas mais tenebrosas agonias. No quadro de Rogójin não havia o menor vestígio dessa beleza. Tratava-se tão-só, em tudo e por tudo, do cadáver de um homem que padeceu infinita agonia antes de morrer crucificado; que foi lanceado, torturado, flagelado pelos guardas e pelo povo quando carregava a cruz no ombro e caía sob o seu peso e que depois de tudo isso padeceu a agonia da crucificação, sobrevivendo ainda no mínimo seis horas (conforme deduzo). Trata-se puramente do rosto de um homem acabado de ser descido da cruz, isto é, manifestando ainda vestígios de calor e de vida. Não há rigidez ainda, de forma que se nota expressão de sofrimento não terminado no rosto do homem já morto, como se ele ainda estivesse sentindo. (Isso conseguiu colher bem o artista que fez aquele quadro.) Não que a face tenha sido poupada. Evidencia bem o cadáver de um homem, um ex-homem, a natureza de um ser que acabou. Um homem qualquer deve ficar assim, não pode deixar de ficar assim após tamanho sofrimento. Sei que a Igreja Cristã estipula, desde os primeiros séculos do Cristianismo, que o sofrimento de Cristo não foi simbólico mas autêntico e que portanto o Seu corpo esteve sujeito de modo total e exato às leis da natureza desde que foi pregado na cruz. Na tela, o rosto está horrivelmente macerado por golpes, tumefacto, coberto de equimoses medonhas, violáceas; deformado; os olhos dilatados, foscos, são uns olhos cujo branco emite um livor de luz mortiça, meio vidrado. E o mais estranho éque ao se olhar para aquele cadáver de homem torturado uma pergunta bizarra e específica se levanta: se aquele cadáver (e o de Cristo deve ter ficado assim) fosse visto por Seus discípulos, por aqueles que teriam de ser os Seus principais apóstolos, pelas mulheres que O seguiram na via-sacra e que permaneceram ao pé do madeiro, por todos que acreditaram Nele e O adoraram antes, como haveriam agora de acreditar que esse mártir ressuscitaria? A pergunta acode instintivamente: se a morte é tão terrível e se as leis da natureza tão poderosas, como poderiam elas ser derrotadas?! Como poderiam elas ser subjugadas, se nem mesmo Ele, tal como está, as venceu, Ele que em sua existência governava a natureza a seu talante, exclamando: ‘Talitha cumi!’, ‘Levanta-te, rapariga!’ - e a jovem se levantou; dizendo para Lázaro: ‘Lázaro, sai para fora!’ - e o morto saiu para fora? Contemplando uma tal tela, a gente concebe a natureza sob a forma de um monstro imenso, impiedoso, bronco, mudo, ou, mais exatamente, bem mais veridicamente falando, por mais que soe estranho, sob a forma de uma nefanda máquina de construção recentíssima que, muda e apática, esmagou e devorou um Ser infinitamente precioso, um Ser que vale mais do que toda a natureza com as suas leis, que vale toda a Terra que foi criada sem dúvida somente para o advento e descida a ela, à Terra, desse Ser! Tal quadro exprime e inconscientemente sugere a qualquer um a concepção de uma tão negra, misteriosa, insolente, incrível e eterna Força que não há quem possa fugir à sua sujeição. Se há quem esteja rodeando o morto (na tela não aparece ninguém), deve estar experimentando a mais terrível angústia, a mais tremenda consternação, pois aquele crepúsculo do Gólgota deve estar esmagando todas as suas esperanças, e a bem dizer todas as suas convicções. E deve sair dali tomado de pavor, levando dentro de si um pensamento poderoso, do qual jamais se livrará. E se o Mestre pudesse Se ter visto assim, na véspera da crucificação, teria Ele subido ao madeiro e morrido como o fez? Esta é uma outra interrogação que se levanta também no espírito de quem contempla aquele quadro.
Tudo isso flutuou na minha mente, em intervalos, em um delírio difuso durante hora e meia antes de Kólia ir embora; e não raro tomando forma e aspecto de visão aguda. Pode uma coisa que não tem forma aparecer de fato? Mas a verdade é que me pareceu naqueles instantes ver sob uma conformação estranha e incrível aquela Força estupidamente misteriosa, aquele Poder cego e surdo. Lembro-me que não sei quem parecia me levar pela mão, soerguendo um castiçal, para me mostrar uma enorme aranha repugnante, asseverando-me a rir, diante da minha indignação, que ela era a mesmíssima Força misteriosa, muda e onipotente. No meu quarto, diante do ícone, está sempre acesa uma pequena lâmpada. Dá uma luz muito fraca, mas ainda assim alumia tudo e até se pode ler, perto dela. Creio que já devia ser mais de meia-noite. Eu não dormia, absolutamente, estirado na cama, com os olhos arregalados. De repente, a porta do meu quarto se abriu e Rogójin entrou.
Entrou, fechou a porta, olhou-me sem dizer nada e se dirigiu vagarosamente para a cadeira que estava bem embaixo da lâmpada. Fiquei muito surpreendido e o encarei, perplexo. Rogójin fincou os cotovelos sobre a mesinha e fixou os olhos em mim, sempre calado. Assim se passaram dois ou três minutos, e me lembro que aquele seu silêncio me ofendia e irritava imensamente. Por que não falava? A sua vinda àquelas horas da noite era descabida, evidentemente. mas não era isso que me chocava. E sim uma coisa muito outra. Mesmo não lhe tendo eu, de manhã, esclarecido bem os meus pensamentos, ele os havia entendido, parecendo-me pois explicável que, tendo aparecido àquelas horas ermas, o fizesse para retomar tal conversa. Ao vê-lo entrar eu só podia supor que essa fosse a razão do seu aparecimento. Despedíramo-nos, de manhã, quase abruptamente, e me lembro que me lançara duas ou três vezes um olhar sarcástico. E agora eu estava vendo em seu rosto aquele mesmo olhar sarcástico, e isso me ofendia insuportavelmente. Que se tratava de Rogójin mesmo e não de uma aparição, de uma alucinação, eu não tinha a mais leve dúvida, desde o começo. E nem isso me passou pela cabeça.
E lá continuava ele, sentado, fitando-me com a mesma expressão sarcástica. Virei-me, furioso, na cama, com o cotovelo apoiado no travesseiro, decidido a não dizer uma só palavra, também eu, nem que ele teimasse em seu mutismo até à consumação dos séculos. Ele que falasse primeiro se quisesse. Assim se passaram bem uns vinte minutos, até que me invadiu uma desconfiança: e se não fosse Rogójin, mas apenas uma aparição?
Jamais vira eu uma aparição, antes ou durante a minha moléstia, mas achava, desde criança, e ultimamente também, que se alguma vez me aparecesse tal coisa eu morreria togo no próprio local, muito embora não acreditasse em fantasmas. Quando, porém, a idéia me assaltou de que em vez de Rogójin fosse uma aparição, recordo que absolutamente não fiquei amedrontado. Fiquei mais foi com ódio. Outra coisa estranha, ainda, não ter eu tido pressa em resolver verificar se era Rogójin ou fantasma, como deveria ter feito. Parece que um novo pensamento, ligado a Rogójin, tomara o meu raciocínio: interessava-me determinado contraste, isto é, que de manhã Rogójin estava em robe de chambre e de chinelas, quando o visitei, ao passo que então, nessa noite, se apresentava de casaca, colete branco e gravata de soirée. Um raciocínio se apresentou como opção definitiva: ‘se penso tratar-se de aparição, e não estou com medo, por que não ir até acolá verificar de uma vez? Faltar-me-ia coragem? Estaria eu com receio?’ Mal acabara de me perguntar isto, um calafrio me percorreu a espinha e os meus joelhos deram em tremer como varas. Bem nesse instante, como adivinhando o meu pânico, Rogójin tirou a mão do queixo, esticou o rosto e começou a entreabrir os beiços como se fosse dar uma gargalhada, sempre me fixando persistentemente. Tomou-me uma tal fúria que quase me arremessei sobre ele. Mas como eu teimava em não querer falar primeiro, e nem me mexer, continuei mudo e deitado. Ainda por cima, seria mesmo Rogójin? Sei lá quanto tempo tal cena durou! Tampouco posso garantir se perdi a consciência nesse ínterim. Finalmente ele se levantou, lançou sobre mim um olhar deliberadamente enigmático, igual ao com que entrara, desmanchou o riso sarcástico, dirigiu-se na ponta dos pés para a porta, abriu-a e saiu. Não me levantei da cama. Permaneci de lado, a pensar, não sei quanto tempo, com os olhos arregalados. Só Deus sabe que pensamentos tumultuavam em mim. Não saberei dizer mesmo como perdi a consciência e consegui dormir. Só acordei quando na manhã seguinte, já às dez horas, bateram na minha porta. Eu dera ordem para que Matrióna batesse sempre que eu não abrisse a minha porta até às dez horas pedindo que me trouxessem o chá. Quando lha fui abrir, me ocorreu logo este pensamento: ‘como poderia ele ter entrado se esta porta está fechada por dentro?’ Indaguei sobre a porta da rua e as do vestíbulo e do corredor, acabando por me convencer firmemente que Rogójin, em carne e osso, não podia ter entrado em casa e muito menos no meu quarto, já que as portas tinham sido fechadas.
Ora muito bem, foi este singular incidente, cujas minúcias acabo de relatar, a causa dos raciocínios que me levaram até esta derradeira decisão. O que me levou a ela não foi nenhuma convicção lógica e sim um sentimento de repulsão. Eu não podia continuar a tolerar uma vida que ia tomando formas tão estranhas e humilhantes. Aquela aparição degradou-me. Outras coisas continuariam a me degradar. Não sou criatura que se submeta a uma força sinistra que toma a conformação até de uma aranha! Foi somente já ao anoitecer, quando me certifiquei de que havia alcançado o momento final em uma determinação categórica, que senti certo alívio.
Tratava-se, porém, apenas do primeiro estágio; para realizar o segundo, necessário era ir para Pávlovsk. Mas tudo isso já expliquei suficientemente.”
Eu tinha uma pequena pistola de bolso: comprei-a quando ainda garoto, aquela idade absurda em que nos enlevamos com histórias de duelos e assaltos de bandidos, imaginando de que forma valorosa enfrentaremos um disparo no caso de um desafio. Há um mês atrás a procurei e a carreguei. Na caixa onde estava encontrei também duas balas e um chifre com pólvora suficiente para três cargas. Trata-se de uma pistola ordinária, que não atinge o alvo a não ser de perto e que só matará se for desfechada à queima-roupa. Mas é lógico que arrebentará com o crânio de uma pessoa se for disparada rente à têmpora.
Resolvi morrer em Pávlovsk, ao raiar do sol, e decidi fazer isso dentro do parque para não alvoroçar ninguém. A minha ‘Explicação’ fornecerá à polícia informes suficientes. Os amadores de psicologia e quem quer que se interesse terão farto ensejo para a obtenção de dados sensacionais. Não desejo, porém, que este manuscrito venha a público. Peço ao príncipe que guarde uma cópia para si e que entregue este original a Agláia Ivánovna Epantchiná. Tal é, por assim dizer, o meu testamento, pois nisso se resume a minha última vontade.
Lego o meu esqueleto à Academia de Medicina, a bem da ciência.
Não admito a quem quer que seja o direito de me julgar, já que considero haver ultrapassado o limite de qualquer julgamento. Ainda não há muito tempo me dei ao capricho de imaginar - caso me desse à fantasia de matar alguém, uma dúzia de pessoas de uma só vez, por exemplo, ou de cometer um gesto congênere, inteiramente aloucado, algo que assumisse a característica do crime mais nefando do mundo - em que apuros se veriam os meus juízes sabendo que eu, por causa da minha doença, não duraria mais do que duas semanas e que lhes era impossível, devido à lei que aboliu a punição corporal e a tortura, me dar um corretivo oportuno. Quisessem ou não, teriam de me deixar morrer confortavelmente em um hospital, bem aquecido e agasalhado, melhor do que em casa. Até me admira que esta idéia já não tenha ocorrido a uma pessoa que esteja no meu estado; quando mais não fosse, por brincadeira, visto, neste país, não faltar gente folgazã.
Conquanto não reconheça em ninguém o direito de me julgar, sei que serei julgado postumamente, quando, mudo e inerte, não puder me defender. Portanto não quero me ir sem deixar algumas palavras de defesa. Mas defesa livre, e não arrancada para me justificar, oh não, pois não tenho de que pedir perdão a ninguém e nada de que ser perdoado. Faço simplesmente por minha espontânea vontade.
Aqui, preliminarmente, se apresenta uma pergunta fora do comum: pode alguém se arrogar o direito de impedir que eu disponha dos meus últimos quinze dias de vida? Com que razão? Que tem o mundo que ver com isso? Compete a quem quer que seja exigir que eu, além de condenado, ainda por cima suporte conscientemente a minha sentença até ao dia final? É isso porventura da alçada de alguém? A moral exige uma tal coisa? Admito que se eu estivesse no auge da saúde e da robustez, a moralidade poderia me censurar, baseada em linhas de tradição, por ter disposto de uma vida que poderia ‘ser útil ao próximo’ e utilizada em algum benefício geral.
Mas, no estado em que estou, com o prazo para a minha sentença a se esgotar!? Que obrigação moral é essa que exige não somente a vida de uma criatura, mas até mesmo o seu último fôlego? E para quê? Para ouvir as palavras de consolo do príncipe cujos desvelos cristãos tenderão a me convencer que devo me resignar a morrer? (Cristãos como ele sempre estão com tal espécie de argumentos preparados; trata-se de uma espécie de mania.) Afinal, que quer ele com essas ridículas ‘árvores de Pávlovsk’? Que amenizem as últimas horas da minha vida? Pois não é lógico que quanto mais eu me esquecer da minha situação mais me prenderei a este resquício de vida e de amor que tende por força a tapar da minha vista as paredes de Meyer e tudo quanto nelas está tão categoricamente escrito? Que só poderei vir a ser ainda mais infeliz? De que me adianta esta natureza, este parque de Pávlovsk, o sol que nasce e que se põe, o céu azul, as fisionomias satisfeitas, se todo esse festival começa desde logo me excluindo? Para que desejo eu essa magnificência se cada minuto, cada segundo, sou obrigado, forçado a reconhecer que mesmo a diminuta mosca, zumbindo à luz do sol, ao meu lado, tem seu quinhão no banquete e no coro, sabe que lhe foi guardado um lugar, contenta-se com a sua porção e é feliz? Só mesmo eu, que sou um banido, e um covarde, me tenho recusado até agora a reconhecer uma tal situação. Oh! Bem sei quanto o príncipe e todos os mais gostariam, por princípio, e para a vitória da moralidade, de entoar comigo os célebres versos clássicos de Millevoye...
Ah! puissent voir votre beauté sacrée
Tant d’amis sourds à mes adieux
Qu’ils meurent pleins de jours, que leur mort soit pleurée.
Q’un ami leurferme les yeux!
...em lugar destas palavras arrogantes e amargas. Mas, acreditem, sim, acreditem, ó almas ingênuas, que estas edificantes estrofes, Este louvor acadêmico ao mundo em versos franceses, na verdade contêm tanta amargura escondida, tamanha malícia irreconciliável amaneirada em rima, que talvez o próprio poeta se tivesse confundido e tomasse tal malícia por lágrimas de ternura e morresse sem perceber seu equívoco; paz às suas cinzas. Em verdade lhes digo que em cada um de nós há um limite de ignomínia no conhecimento da própria mesquinhez e incapacidade, além do qual nenhum de nós pode ir e além do qual cada um de nós começa a sentir satisfação imensa na sua própria degradação!... Oh! Naturalmente a humildade é uma grande força, nesse sentido, concordo... Mas não no sentido em que a religião aceita a humildade como uma força.
Religião! Sim, posso admitir a vida eterna, talvez até a tenha admitido sempre. Que a consciência, abrasada pela vontade de uma Força mais alta, contemple o mundo em redor e diga: ‘Existo!’ e que logo a seguir seja sentenciada por essa Força à aniquilação, visto ser necessário que tal ocorra para qualquer finalidade - ou mesmo que tal finalidade não tenha lógica nenhuma - eis um fato que aceito; mas me reservo sempiternamente o direito de perguntar: que necessidade há em tudo isso que eu seja humilde? Pois então não posso ser placidamente devorado sem a obrigação de homenagear quem ou aquilo que me devora? Haverá de fato Alguém lá no alto que se ofenda pelo fato de eu não querer esperar por uns quinze dias mais? Não creio. E é muitíssimo mais provável que se alguma necessidade há é da minha vida insignificante, a vida de um átomo para completar uma tal ou qual harmonia universal, por mera questão de mais ou de menos, para rematar algum contraste, ou coisa que o valha, da mesma forma que a vida de milhões de criaturas é necessária cada dia como um sacrifício como se, sem a morte delas, o resto do mundo não pudesse prosseguir (muito embora isso não seja uma idéia muito generosa, devo observar).
Pois que seja. Admito, pelo contrário, isto é, que sem o contínuo devorar recíproco seria impossível acomodar o mundo. Estou mesmo pronto a admitir que não chego a compreender nada relativamente a tal acomodação. Mas de uma coisa estou certo: se me foi concedido em dada hora ter consciência de que existo, pouco se me dá que haja erros na construção do mundo e sem os quais ele não possa prosseguir. Isto posto, quem me condenará e mediante qual libelo? Digam o que disserem, tudo isso é impossível e injusto.
Ainda assim, a despeito de todo o meu desejo em contrário, nunca pude conceber a inexistência de uma vida futura e da Providência.
O mais certo é que de fato existem, mas que nada compreendemos a respeito dessa vida futura e de suas leis. Já, portanto, que é tão difícil e até mesmo impossível compreender, não me cabe responsabilidade nenhuma por não ser capaz de compreender o inconcebível. Torna-se patente, dir-me-ão, e o príncipe na certa está com os que tal dizem, que devo obedecer sem raciocinar, simplesmente por piedosa crença e que naturalmente serei recompensado no outro mundo por minha humildade.
Ora, estamos mais é rebaixando muito a Deus, atribuindo-Lhe as nossas idéias, compelidos pela impossibilidade de compreendê-Lo. Mas, repito mais uma vez, se é impossível compreendê-Lo, como havemos de ter uma resposta para aquilo que ao homem não édado compreender? E, já que assim é, como posso eu vir a ser julgado por não ter capacidade para compreender a vontade e as leis da Providência? Não, o melhor é pormos a religião para um Lado.
E já falei bastante, com efeito. Quando acabar este trecho, já, sem dúvida, o sol estará nascendo e ‘ressoando na abóbada’ e o seu incomensurável poder se propagará por sobre a terra. Que nasça! Quero olhar firme para a fonte da energia e da vida; não quero essa vida! Se tivesse o poder de não nascer, certamente não aceitaria a existência em condições tão irônicas. Resta-me, porém, ainda, a faculdade de me matar, embora só possa liquidar alguns dias, visto mesmo estes já estarem contados. Como vêem, trata-se de uma faculdade muito relativa, de um poder limitado, a minha revolta não passando de insignificante, quase.
Eis a minha última ‘Explicação’: morro, mas não porque me faltem forças para suportar estas três semanas que seriam as restantes. Tê-las-ia, se quisesse, e chegaria até mesmo, querendo, a achar um conforto já de si suficiente na avaliação do dano que me é causado. Não sou o poeta francês e não estou à cata de tal consolação.
De todo este estado decorre uma conseqüente tentação: a Natureza imitou tanto qualquer atividade minha com essa sentença de vida só por mais três semanas, que na certa a única ação que ainda tenho tempo de iniciar e acabar por vontade própria é o suicídio. Claro que tenho de tirar vantagem desta última possibilidade de ação. Vezes há em que, um protesto representa uma ação pequena mas positiva...”
A “Explicação” terminara. Ippolít, finalmente, parou de ler. Só suceder, em casos extremos, que um homem nervoso, exasperado, fora de si, atinja tal ápice de franqueza cínica que seja capaz de tudo, indiferente a quaisquer efeitos de sua atitude escandalosa, alegrando-se até mesmo com isso. Arremetecontra as pessoas com a decisão cega mas firme de daí a um minuto se precipitar em um abismo, pondo termo a todas as dificuldades em jogo. O sintoma precursor desse estado é via de regra o esgotamento físico. A tensão extrema e anormal que se ia apossando de Ippolít atingiu naquele momento o seu auge. Aquele rapaz de dezoito anos de idade, combalido pela doença, parecia tão fraco que nem uma folha trêmula se desprendendo de uma árvore. Mas logo que pela primeira vez, no decorrer dessa última hora, ele circunvagou o olhar pelo auditório, uma expressão de asco o mais altivo, desdenhoso e amargo possível, se estampou nos seus olhos e no seu sorriso. Tomou um ar instantâneo de desafio. Mas os ouvintes também não tardaram em demonstrar sua indignação geral. Puseram-se logo de pé, abandonando a mesa com ruído e maus modos. O cansaço, o vinho e a tensão forçada concorreram para tal disposição bem como para a péssima impressão, se é que tais palavras explicam bem o ambiente que logo se criou.
De repente Ippolít se levantou de um salto como impelido por um maquinismo subjacente, exclamando virado para o príncipe logo que viu os cimos das árvores se iluminarem, e apontando para elas como para um prodígio.
- O sol! O sol!... O sol está nascendo!
Ao que observou Ferdichtchénko:
- Cuidavas que ele não haveria de nascer?
E Gánia disse baixo, se espreguiçando e bocejando, farto daquilo tudo, já com o chapéu nas mãos:
- E hoje vai fazer outra vez um dia quente e abrasador. Qual, esta estiagem ainda dura um mês!... Você vem, ou não, Ptítsin?
Ante aquelas palavras Ippolít ficou tão espantado que sua fisionomia tomou um ar de estupefação. Ficou mortalmente lívido e começou a tremer todo. Voltou-se para Gánia e lhe disse:
- Sua afetação insultante de indiferença não me atinge, seu patife!
- Afinal, isso é o cúmulo, como forma de despedida a quem se retira! - rosnou Ferdichtchénko.
- Que rebate mais ilógico!
- Ora, é um maluco... - disse Gánia.
Ippolít procurou se refrear, passando a dizer, trêmulo como antes e gaguejando a cada palavra:
- Compreendo, senhores, que mereço a atitude que adotaram... e peço desculpas de os haver maçado com estes despautérios (apontou para o manuscrito), ou melhor, lamento não haver conseguido sequer lançar a menor apreensão nos senhores... (sorriu alvarmente). Macei-o muito, Evguénii Pávlovitch? - voltou-se para Radómskii dando um passo:
- Macei-o, ou não? Diga!
- Um pouco prolixo, mas de resto...
- Seja franco! Pelo menos uma vez na vida não esteja a mentir... - insistiu Ippolít, cada vez mais trêmulo.
- Ora, que tenho eu com isso, palavra de honra!?... Tenha a bondade de me deixar em paz! - disse Evguénii Pávlovitch voltando-se com ar desdenhoso.
Ptítsin dirigiu-se a Míchkin:
- Boa noite, até amanhã, príncipe.
Nisto Vera gritou, alarmada, correndo para Ippolít.
- Mas ele vai se matar mesmo! Pois não estão vendo? Olhem! Ele não disse que quando o sol nascesse se mataria com um tiro? Não fazem nada?
- Mata-se coisa nenhuma! - murmuraram maldosamente várias vozes entre as quais a de Gánia.
- Senhores, atenção! - exclamou Kólia correndo por sua vez a segurar o braço de Ippolít.
- Vejam como ele está! Príncipe, príncipe, o senhor não acha?
Vera, Kólia, Keller e Burdóvskii haviam rodeado Ippolít, estando a segurá-lo.
- É um direito que ele tem... é um direito.., que... ele tem! - gaguejou Burdóvskii conquanto também sobressaltado. A esta altura Liébediev, completamente bêbado e furioso, se acercou do príncipe e perguntou com insolência:
- Desculpe, príncipe, mas quer que eu aja? Quais são as suas ordens?
- Agir, como?
- Ai, ai! Perdão! Sou o dono da casa, muito embora tais palavras não signifiquem uma falta de respeito para com o senhor... Claro está que quem manda nisto tudo deveras é o senhor... mas aqui, na minha casa, não admito! Não admito que na minha casa um...
Interveio então o General Ívolguin, inesperadamente, com indignação e dignidade:
- O moço não vai se matar! O desventurado rapaz está... gracejando!
Ferdichtchénko aplaudiu:
- Bravos, general!
Liébediev retrucou:
- Sei muito bem, prezado general, que ele não se mata coisa nenhuma! Mas isso não impede que eu aja... sim, sou o dono da casa!
Então Ptítsin, que já se havia despedido do príncipe, inesperadamente veio estender a mão a Ippolít:
- Escute uma coisa, Sr. Tiérientiev, parece-me que durante a leitura o senhor se referiu ao seu esqueleto e em deixá-lo para a Academia, não foi mesmo? Quis o senhor referir-se ao seu esqueleto mesmo, isto é, aos seus ossos, se bem ouvi?
- Sim, estava me referindo aos meus ossos...
- Então está muito bem. Perguntei apenas para me certificar bem dessa sua vontade expressa, pois sei de um caso em que houve dúvidas e...
- Oh! Não está direito isso. Não é hora de gracejos... - advertiu logo o príncipe. Não tardou que Ferdichtchénko também pusesse seu reparo:
- Está vendo? Fez o rapaz se pôr a chorar.
Mas não era verdade. Ippolít fez um movimento para avançar, mas os quatro que o rodeavam lhe seguraram logo os braços. Espalhou-se uma gargalhada.
Veio então o parecer de Rogójin:
- Era o que ele estava querendo: que o segurassem bem. A tal leitura ou confissão foi com este fim. Adeus, príncipe. Arre! Estivemos sentados muito tempo... Estou com os ossos doendo.
- Se o amigo realmente estava com idéia de se matar, Tiénentiev - disse rindo Evguénii Pávlovitch -, depois de todos estes comentários e despedidas, eu, no seu caso, não me mataria, só para lhes fazer pirraça.
- Estão tremendamente sequiosos de ver-me disparar uma bala! - exclamou Ippolít em um repelão. Falou como se fosse atacar alguém. - Estão furiosos porque não faço isso aqui defronte deles.
- Ah! Então não vai fazer isso em público? Longe de mim querer instigá-lo a não fazê-lo; muito pelo contrário, acho muito provável que o amigo se matará. O essencial é não se alvoroçar... - disse Evguénii Pávlovítch em um tom protetor.
- Só agora vejo que cometi um formidável erro em lhes ler a minha “Explicação” - disse Ippolít olhando para Evguénii Pávlovitch com ar muito sério, como a pedir um conselho confidencial a um amigo.
- De fato. O amigo ficou em uma situação absurda; mas, francamente, já agora não sei como aconselhá-lo - retorquiu Radómskii, sorrindo.
Ippolit esquadrinhou-o com um olhar agudo e não lhe deu resposta. Pareceu mesmo ficar completamente zonzo por alguns momentoS.
- Não! Vamos e venhamos, que raio de comportamento éesse? - tornou a intervir Liébediev.
- Vossemecê declara: “Dou cabo de mim, com um tiro, no parque, de forma a não alvoroçar ninguém!” Acha então que saindo daqui e indo queimar os miolos ali no parque, a três passos daqui, não prega susto em ninguém?!
- Senhores... - começou Míchkin.
- Não, permita-me, prezado príncipe - interrompeu-o Liébediev furiosamente - o senhor mesmo viu e escutou perfeitamente, não se trata de pilhéria, e aqui pelo menos a metade dos seus visitantes é da mesma opinião e está convencida que depois do que ele declarou está obrigado, sim, a honra obriga aqui este moço a se matar, e eu, como dono da casa, e como uma das testemunhas disso, peço que o senhor me ajude e me dê mão forte!
- Mas que é que você quer, Liébediev? Estou às suas ordens.
- Já lhe digo. Antes de mais nada ele deve entregar a pistola de que tanto se pavoneou antes, bem como toda a munição. Se entregar, consentirei que permaneça esta madrugada nesta casa, levando em consideração o seu estado de saúde; mas sob a minha vigilância, éclaro. Mas amanhã ele tem de se safar daqui. Queira perdoar-me, príncipe! Se ele não entregar a arma, imediatamente o agarro por um braço e o general pelo outro e levamos o caso à polícia. E lá a polícia que se encarregue desta trapalhada. Aqui o Sr. Ferdichtchénko, como amigo que é, se dirigirá à delegacia.
Foi uma barafunda dos infernos no terraço. Liébediev estava excitadíssimo e pôs de lado qualquer comedimento. Ferdichtchénko fez menção de ir chamar a polícia. Gánia intrometendo-se disse que era bobagem pois não via ninguém com disposição de queimar os miolos. Evguénii Pávlovitch assistia, calado.
- Príncipe, já alguma vez se atirou de um campanário abaixo? - sibilou Ippolít, voltando-se para o príncipe e fazendo tal pergunta disparatada e logo obtendo esta resposta cândida do príncipe.
-Eu?... N... não!
- Supõe que não previ todo este alvoroço! - sussurrou-lhe ainda Ippolít, olhando com olhos flamejantes, como se tal pergunta merecesse deveras uma resposta. - Está bem! Seja! - exclamou ele, de repente, voltando-se para todo o grupo.
- Eu estou errado e os senhores com a razão. Liébediev, aqui estão as chaves. (Tirou do bolso uma carteira e desta uma argola de aço com três ou quatro chaves enfiadas.) - Pegue esta, a penúltima... Kólia lhe mostrará... Kólia, onde está Kólia? - gritou, olhando para ele e não o vendo.
- Pois é, ele lhe mostrará. Foi ele que me ajudou a pôr na mala as minhas coisas, ontem. Leve-o, Kólia. No escritório do príncipe, debaixo da mesa.., na minha mala.., com esta chave.., bem no fundo.., dentro de uma caixa pequena... a minha pistola e o chifre com a pólvora. Ele mesmo foi quem arrumou, Sr. Liébediev; ele lhe mostrará. Mas com uma condição: que amanhã cedo, quando eu seguir para Petersburgo, o senhor me devolverá a minha pistola. Está ouvindo? Faço isso por causa do príncipe e não por causa do senhor.
- Agora a situação melhorou muito! - anuiu Libediev agarrando o molho de chaves; e dando uma risada maldosa, correu para o cômodo contíguo.
Kólia quis ficar onde estava, ensaiou dizer qualquer coisa, mas Liébediev o arrastou.
Ippolít encarou aquele grupo tresnoitado. Míchkin notou que os dentes do rapaz rangiam, como se o acometesse um calafrio.
- Que miseráveis que eles são! - sussurrou Ippolít, exasperado, para o príncipe.
Ao dizer estas palavras a Míchkin o fez como pouco antes, bem inclinado sobre ele e em tom muito baixo.
- Não se incomode com eles ! Você está muito fraco...
- Um minuto, um minuto... Já vou; apenas um minuto.
E eis que inesperadamente se abraça ao príncipe e lhe diz de modo esquisito:
- Pensa, decerto, que enlouqueci?
- Não, mas você...
- Um minuto, um minuto, tenha paciência. Não diga nada, não se mexa; quero olhá-lo bem nos olhos... Assim, fique assim. Deixe-me olhá-lo. Despeço-me de um homem.
Imóvel, diante do príncipe, ficou a fixá-lo durante uns dez segundos, sem dizer uma única palavra. Lívido, os cabelos molhados de suor, segurava de um modo esquisito a mão de Míchkin como não querendo que ele se retirasse.
- Ippolít, Ippolít, que é que você tem?! - exclamou o príncipe.
- Oh! Absolutamente nada. Vou me deitar. Imediatamente... imediatamente. Só queria beber uma taça em saudação ao sol!... Deixe-me beber, príncipe, deixe!
Com um gesto rápido agarrou uma das taças de cima da mesa e deixando o lugar correu para os degraus da varanda. Míchkin ia correr atrás dele, mas aconteceu, por fatalidade, que bem nesse instante Evguénii Pávlovitch lhe estendeu a mão para se despedir. Daí a um segundo se levantou um verdadeiro clamor na varanda, passando a reinar indescritível balbúrdia.
Eis o motivo: assim que atingiu os degraus da varanda, Ippolít estacou com a mão esquerda segurando a taça e com a direita enfiada no bolso do casaco. Segundo a declaração feita posteriormente por Keller, Ippolít já estava com a mão direita metida no bolso antes de sair; e, mesmo antes, enquanto estivera a falar com o príncipe, lhe segurava ora o ombro, ora a gola do paletó mas só com a mão esquerda, a direita já enfiada no bolso, atitude essa que o havia feito desconfiar. Reparando nisso, Keller quis correr atrás do amigo, e o fez, mas chegou atrasado, porque estava um pouco longe. Vira unicamente qualquer coisa brilhar na mão direita de Ippolít e, quase no mesmo instante, o cano de uma pistola encostado à têmpora do enfermo. Keller correu para lhe agarrar a mão, mas Ippolít puxou o gatilho. Pôde ouvir o som do cão, um estalido seco, mas não se produziu detonação nenhuma. Precipitando-se, Keller segurou Ippolít, que caiu em seus braços, como que desmaiado, julgando talvez que se tivesse matado mesmo. Com a pistola na mão, Keller mandou trazer uma cadeira e, sustentando sempre Ippolít, fê-lo sentar nela. Todos rodearam a cadeira, falando alto e fazendo perguntas.
Tinham ouvido o estalido e pasmavam agora vendo o homem vivo, sem um arranhão sequer. O próprio Ippolít estava ali, sentado, sem compreender nada do que se estava passando. Olhava em redor, sem nenhuma expressão nos olhos. Liébediev e Kólia voltaram a correr. Perguntas cruzavam-se.
- O tiro falhou?
- Será que a pistola não estava carregada?
- Estava, sim - asseverou Keller. examinando a pistola -. mas...
- Então o tiro engasgou...
Esqueceram-se de pôr a cápsula... - explicou Keller.
É difícil descrever a cena tragicômica que se seguiu. O pasmo geral no primeiro momento foi instantaneamente segui do por uma gargalhada. E uma boa parte do grupo não pôde conter um acesso de hilaridade ante aquela situação grotesca.
Ippolít soluçava com repelões que pareciam histéricos, torcendo as mãos, voltando-se para este, para aquele, até mesmo para Ferdichtchénko de quem acabou por segurar ambas as mãos jurando que se tinha esquecido, “sim, esquecido completamente e não de propósito”, de meter a cápsula; que “estava com todas elas ali no bolso do colete, mais de uma dúzia (mostrou-as a todos, voltando-se bem). Mas que não as colocara antes receando uma possível explosão na algibeira”. Investiu para Keller, pediu ao príncipe e a Evguénii Pávlovitch que fizessem com que aquele lhe devolvesse a pistola, pois haveria de lhes mostrar a todos, sim, a todos que “tinha honra, honra...”, que não era um desavergonhado, não!
E acabou caindo exângue, sendo levado para o escritório de Míchkin; Liébediev, cuja bebedeira passara instantaneamente com o choque, tratou de mandar vir um médico, permanecendo ele em pessoa ao lado do paciente, com a filha, o filho, Burdóvskii e o general. Vendo Ippolít ser carregado completamente sem sentidos, Keller, estatelado no meio da varanda, posição que repetiu daí a segundos no meio do escritório, fez a seguinte declaração, muito exaltado, destacando palavra por palavra, com um timbre que ninguém poderia deixar de ouvir:
- Senhores, se alguém se atrever na minha presença a insinuar sequer que a cápsula foi esquecida intencionalmente, dando assim a entender que tudo não passou de uma farsa deste infeliz moço, tem de se haver comigo!
Tal desafio não mereceu resposta. Já agora os convivas tinham mais era pressa de ir embora. Ptítsin, Gánia e Rogójin saíram juntos.
O príncipe ficou muito surpreendido de Evguénii Pávlovitch. ou por esquecimento, ou deliberadamente, se retirar sem o colóquio marcado para depois de tudo.
- Mas o senhor não pretendia conversar comigo depois que todos se fossem?
- De fato, de fato - disse Evguénii Pávlovitch sentando-se já agora e fazendo o príncipe se sentar ao seu lado. - Mas prefiro adiar nossa conversa. Confesso-lhe que toda esta cena me pôs indisposto, e o mesmo lhe deve ter acontecido. Estou com a cabeça confusa. De mais a mais, o que desejo conversar é assunto muitíssimo importante para qualquer de nós dois. E que, príncipe, pela primeira vez na vida quero agir de modo estritamente correto, isto é, agir sem nenhum motivo subentendido. Ora, neste momento, depois de tudo quanto se passou, me sinto incapaz de fazer direito seja o que for; e o mesmo decerto há de lhe acontecer... Assim pois... conversaremos mais tarde. Quem sabe até se ao tratarmos do assunto após estes três dias que preciso ficar em Petersburgo, ele já não estará muito mais fácil para nós ambos?
Feito o quê, tornou a se levantar, ficando assim esquisito se haver sentado pouco antes. O príncipe achou mesmo que Radómskii estava irritado, com uma expressão hostil no olhar, coisa que não havia antes.
- Naturalmente vai para perto do rapaz, agora?...
- Vou sim... Fiquei apreensivo.
- Ora! De quê? Ele viverá não três semanas, mas o dobro; poderá mesmo melhorar muito, aqui. Mas a melhor coisa a fazer édescartar-se dele.
- Quem sabe se eu próprio não o induzi a esse gesto tresloucado, deixando de lhe dar conselhos?... Não vá ele julgar que eu não acredite que tenha querido se matar, mesmo... E, a propósito, Evguénii Pávlovitch, que acha?
- Não pense nisso. Só mesmo um bom coração como o seu se pode inquietar. Pode ser que haja casos destes, mas na vida real jamais soube de quem se matasse somente com o propósito de receber aplausos ou por despeito de não os ter recebido. Tampouco creio que se trate de uma exibição de pusilanimidade. Seja o que for, o melhor é o príncipe se livrar dele assim que puder, ainda hoje.
- Acha que tornará a tentar contra a vida?
- Não, já agora não o fará. Mas fique em guarda contra esses nossos Lacenaires de segunda mão. Não se esqueça de que o crime é, via de regra, a válvula de escapamento desses indivíduos nulos. revoltados, ávidos e impetuosos.
- Será ele um Lacenaire?
- A essência é a mesma, embora o emploi seja diferente, talvez. Não tenha dúvidas de que esse indivíduo não seja capaz de dar cabo de uma dúzia de pessoas simplesmente como uma ..façanha” conforme ele próprio o disse durante a leitura da tal “Explicação”. Essa espécie de ameaça contida em tais palavras, vai me obrigar a andar de olho atento, doravante. Perdi o sono...
- Não terá o senhor ficado nervoso em excesso?
- Ora, príncipe, o senhor é uma criatura formidável. Então não o julga, depois de tudo isso, capaz de matar uma dúzia de pessoas?
- Francamente, não sei responder. Tudo isso é muito estranho; mas...
- Está bem, como queira, como queira! - concluiu Evguénii Pávlovitch, contrafeito.
- Aliás, o senhor não é criatura que se deixe atemorizar. O que importa é que não seja uma das doze!
- Não me parece que ele venha a matar ninguém - disse Míchkin olhando para Evguénii Pávlovitch, mas com o pensamento longe.
Este deu uma risada significativa.
- Adeus. Já é tempo de ir embora. Chegou a reparar que ele legou a Agláia Ivánovna uma cópia, ou o original da “Explicação”?
- Reparei, sim. Fez-me espécie...
- Tanta como no caso dos doze candidatos à morte?...
E, rindo outra vez, Evguénii Pávlovitch se retirou.
Uma hora depois disso, isto é, entre três e quatro da madrugada, o príncipe resolveu dar uma volta pelo parque. Tentara dormir, mas as violentas pancadas do coração não haviam deixado. A casa já voltara à tranqüilidade. O pobre rapaz pegara no sono. O médico que o examinou declarara não haver perigo nenhum.
Liébediev, Kólia e Burdóvskii se tinham deitado no mesmo quarto para se revezarem em guarda. Portanto, não havia nada a temer.
Mas a intranqüilidade de Míchkin crescia sempre. Percorreu o parque, olhando distraído para tudo quanto o rodeava. Espantou-se quando viu que havia chegado à rotunda existente diante da estação. E só reconheceu o local pelo coreto de música e pelos bancos encarreirados diante das estantes.
Aquele cenário lívido o impressionou. Regressando, tomou o atalho por onde viera na véspera com as Epantchiná, até que chegou perto do banco verde marcado como local do encontro. Sentou-se e imediatamente deu uma gargalhada, logo ficando indignado consigo mesmo. Invadiu-o de novo a tristeza. Que vontade de ir embora! Mas, para onde? Em uma árvore, por cima da sua cabeça, um passarinho chilreava: começou a procurá-lo por entre as folhas. Nisto o passarinho voou e o príncipe, por analogia, se recordou da música no ardente raio de sol” sobre que escrevera Ippolít, “e que sabia que tinha direito a comparticipar do festival da vida e tomava parte no coro geral, só ele sendo um banido de tudo”. Antes, ao ouvir a frase, se impressionara; e agora se estava lembrando dela.
Repentinamente, evocações de coisas antigas, já desde muito sedimentadas, começaram a tumultuar dentro dele logo se pondo a rodeá-lo.
Sim, fora na Suíça, no primeiro ano, logo no começo. Não passava então de um idiota. Não sabia sequer falar direito... muitas vezes ficando apatetado diante das pessoas.
Certa vez subia pelo flanco de uma montanha, por um dia claro e ensolarado. E caminhou horas e horas, com o espírito avassalado por uma idéia difusa e pertinaz. Diante dele, o céu como um esmalte; embaixo, o lago; e, em toda a volta, o horizonte luminoso e ilimitado parecendo não ter fim. Pusera-se a contemplá-lo demoradamente, tomado de angústia. E agora se lembrava muito bem que havia estendido as mãos para aquele azul infinito e radioso, derramando lágrimas. O que o torturava então era sentir-se totalmente fora de tudo aquilo. Que festival era aquele? Que significava aquele imenso e eterno espetáculo sempre renovado e que o atraíra sempre, desde a mais longínqua infância, mas no qual jamais pudera tomar parte? Cada manhã o mesmo sol deslumbrante!
Todos os dias o mesmo arco-írís como um diadema sobre a cascata! Todas as tardes a geleira fulgurando envolta em púrpura ao fundo do horizonte! “Cada diminuta mosca que zunia ao redor dele no ardente raio do sol tinha a sua parte no coro, sabia o seu lugar, gostava, e era feliz!” Cada folha de relva cresce e é feliz. Tudo tem a sua trajetória, cada coisa sabe que possui um itinerário e por ele adiante envereda por entre hosanas! Não há quem não saia de manhã com uma canção e não volte ao crepúsculo, cantando... Só ele não sabe nada, não compreende nada, nem homens, nem sons. Não comparticipa de nada, é um banido. Oh! Naturalmente que não dissera se servindo de palavras, sua interrogação tendo sido apenas mental. Era um sofrimento mudo de quem não atina com um enigma; mas agora lhe parecia que havia dito tudo aquilo com as mesmas palavras de Ippolít, a ponto da frase relativa à mosca parecer sua, Ippolít o havendo plagiado, tomando-a das suas lágrimas e dos seus pensamentos de então. Tamanha certeza teve disso que enquanto refletia, seu coração acelerava o ritmo.
Sentado naquele banco, adormeceu, com o queixo sobre o peito: mas a agitação perdurava. Já no limiar do sono o envolveu a noção de que Ippolít mataria uma dúzia de pessoas; e sorriu ante o absurdo dessa hipótese. Circundava-o uma claridade deslumbrante: em toda a volta só havia sossego quebrado apenas pelo sussurro das folhas que tomavam a solidão e a luminosidade maiores. Sonhou uma porção de coisas. Sonhos agitados que de momento a momento lhe produziam estremeções. Por último lhe apareceu uma mulher. Reconheceu-a. E reconhecê-la era torturante. Sabia o seu nome. Reconhecê-la-ia em qualquer lugar; mas - que coisa estranha – o seu rosto de agora não era o mesmo que conhecia antes, e isso lhe ocasionava uma relutância perturbadora em reconhecê-la como sendo a mesma. O rosto dessa criatura deixava transparecer tal remorso, tamanho pavor que parecia uma criminosa cruel correndo depois de haver cometido um crime hediondo. Pelas faces brancas lhe deslizavam lágrimas. Passando por ele pôs o dedo na boca advertindo-o que não dissesse nada e a seguisse com a maior precaução. Vê-la, assim, fez gelar seu coração. Nada, nada, absolutamente nada sobre a face da terra o induziria a acreditar que ela fosse uma criminosa. Mas percebeu que estava para suceder algo de terrível que lhe iria arruinar a vida para sempre. Aquela mulher ansiava por lhe mostrar qualquer coisa no parque, não longe dali. Ergueu-se para a seguir. E repentinamente escutou, bem próximo, o som alegre de uma risada cristalina, ao mesmo tempo que certa mão o tocava. Segurou essa mão, apertou-a com força... e acordou. Diante dele, rindo, estava Agláia.
Ria, mas estava escandalizada.
- Dormindo? Será possível? - exclamou com admirado desdém.
Acordando, o príncipe logo que, cheio de surpresa, a reconheceu, balbuciou:
- Sois vós! Ah! É mesmo, combinamos um encontro aqui... E não é que adormeci?...
- Estou vendo.
- Foi outra pessoa que me acordou ou fostes vós? Não esteve mais ninguém aqui, pouco antes de vós?
Julguei, ou foi sonho, que uma outra mulher se achava aqui!?
- Uma outra mulher, aqui?
“Não passou de sonho...” explicou ele a si mesmo, refletindo.
Como é que a uma hora destas pôde me vir um tal sonho?... Sentai-vos.
Tomou-lhe a mão e a fez sentar no banco; sentou-se ao lado e continuou com a mesma expressão perplexa. Ao invés de começar a conversar, Agláia encarou seu companheiro de banco, esquadrinhando-o de alto a baixo. Ele a olhava também mas como se não a estivesse vendo. Por fim Agláia enrubesceu.
- Ah! É mesmo... - disse ele, com um sobressalto. - Ippolít desfechou um tiro de pistola no ouvido.
- Quando? E... na sua casa? - perguntou Agláia com uma surpresa que logo cedeu.
- Ontem à noite ainda estava vivo, não estava? E como é que o encontro aqui a dormir, depois de uma coisa dessas? - exclamou com uma vivacidade de espanto.
O príncipe tratou de esclarecer:
- Mas não morreu, não! A pistola negou fogo.
Então Agláia instou para que lhe fizesse uma descrição minuciosa do que se passara de noite. E, durante a narrativa, o incitava por meio de perguntas às vezes até despropositadas. Ao lhe serem relatadas as ocasiões em que Evguénii Pávlovitch interviera, ela se interessou muito, obrigando-o a repetir as palavras deste.
- Está bem, mas o tempo é precioso. Quanto a essa historiada, basta. Só podemos ficar aqui uma hora. Até às oito. Às oito horas tenho de ir embora pois não quero que em casa venham a saber que estive sentada aqui e tampouco que saí com este intuito. Tenho muita coisa a lhe dizer. Mas agora, com essas novidades sensacionais, fiquei sem jeito. Quanto a Ippolít, acho que a pistola tez muito bem em não disparar... Dele, que se podia esperar. Acredita mesmo que pretendia se matar e que não se trata de uma comédia?
- Não, não foi a fingir.
- De fato, isso é mais provável. Com que então leu que me deviam entregar a tal confissão? E o encarregou dessa empreitada. Trouxe? Por que não trouxe?
- Pois se ele não morreu... Depois peço e vos entrego.
- Não se esqueça. Mas traga sem pedir. Um pedido desta ordem rejubilaria, talvez tendo sido somente por causa disso que tentasste contra a vida. Para que eu depois lesse a confissão. Por favor Liév Nikoláievitch, não faça esse riso. Pois então não pode muito bem ter sido por isso?
- Mas eu não estou rindo! Mesmo porque também suponho que essa fosse uma das razões prováveis.
- Não é mesmo? Não lhe parece verdade? Há, acha, hein? E Agláia esboçou um ar de surpresa.
Logo a seguir lhe fez uma porção de perguntas, falando muito depressa, parecendo às vezes se atrapalhar e deixando as frases sem fim. Toda essa pressa era como se quisesse avisá-lo de uma determinada coisa. Ao mesmo tempo se mostrava extraordinariamente nervosa e, apesar de o olhar com certo ar zombeteiro e quase de provocação, entremostrava sem querer algum receio. Viera apenas com um vestido matinal, muito simples, usado, e a todo instante enrubescia e olhava em torno. Sentara-se na extremidade do banco, estando ainda admirada do príncipe haver concordado que talvez Ippolít quisesse se matar para que ela, depois, lesse a sua confissão. E, como a esclarecer seu pensamento, o príncipe acrescentou:
- Naturalmente o desejo dele era que nós o gabássemos... bem como vós...
- Que o gabássemos?
- Isto é... como hei de dizer?... É difícil explicar. Decerto queria ele que desfilássemos diante dele ou que fazendo um círculo insistíssemos em declarar que gostávamos muito dele e que lhe rendíamos grande apreço; cuidava decerto e talvez mesmo ansiava por que todos rogassem que não fizesse uma tal coisa, que permanecesse vivo. Quem nos diz até que ele não esperasse tal atitude mais de vós do que de nós outros, já que chegou a mencionar vosso nome naquela ocasião? Podia muito bem acontecer que vos tivesse no espírito, inconscientemente.
- Isso agora é que não compreendo. Como podia ele ter isso em mente. inconscientemente? Ah! Já compreendi! Vou exemplificar. Quando eu tinha apenas treze anos me veio mais de trinta vezes a fantasia de tomar um veneno e deixar uma longa carta a meus pais! Enlevava-me imaginar como haveria de ficar no caixão; como todos viriam em prantos se jogar sobre mim arrependidos de haver judiado de mim!... Por que é que está rindo de novo? - acrescentou logo, franzindo a testa. - Não teve nunca fantasias, projetos, sonhos extravagantes? Nunca imaginou que era marechal-de-campo e que derrotou por exemplo... Napoleão?
- Quantas vezes, palavra de honra! Pensamentos dessa natureza me acodem sempre que sonho - respondeu, rindo. - Basta-me pegar no sono e pronto... Mas não é Napoleão que venço e sim os austríacos.
Não estou disposta a brincadeiras, Liév Nikoláievitch. Irei eu mesma procurar Ippolít. Pode desde já preveni-lo. Tive uma péssima impressão do seu comentário. Não deve nunca interpretar as coisas parcialmente e tampouco julgar a alma de um homem, como fez a propósito de Ippolít. A gente sempre, em lugar de só querer ver a verdade exata com intuito de julgar direito, acaba mais é cometendo injustiças por falta de ternura e caridade.
O príncipe redargüiu:
- Mas se há aqui algum engano ou injustiça é da vossa parte para comigo. Pois então há algum mal em que ele pensasse desta maneira? Pois a tendência geral não é pensar desta forma? Além disso talvez ele nem tivesse absolutamente tal pensamento, apenas fosse um desejo vago... Decerto ansiava desde muito se aproximar dos homens, ganhar-lhes o respeito, merecer-lhes a estima. Sabeis muito bem que tais sentimentos são bons. Mas não deu certo. Alguma coisa interveio e atrapalhou. Talvez a doença, ou qualquer outra coisa, quem sabe? Pois não sucede tantas vezes tudo correr esplendidamente com uma pessoa e pessimamente com outra?...
- Está porventura, Liév Nikoláievitch, se estribando em experiência própria?
- Quem sabe? Quem sabe? Pode muito bem ser - respondeu o príncipe sem perceber sarcasmo na pergunta.
- Seja como for, tudo isso era suficiente para que eu, por exemplo, no seu lugar, não dormisse. Isso prova só que onde quer que se encoste pega logo no sono, não é? Acha bonito uma coisa dessas?
- Mas.., se passei a noite toda em claro... E depois ainda por cima levei horas a caminhar! Fui até perto do coreto.
- Qual coreto? O da música?!
- Lá onde a banda esteve tocando, ontem. A seguir vim para aqui.
Sentei-me, estive a pensar que não acabava mais.., acabei dormindo
- Ah! Então foi assim? Bem, então o caso é diferente. Mas para que foi ao coreto?
- Não sei. À toa.
- Muito bem, muito bem! Isso fica para depois. Acabou mais foi interrompendo o fio da minha conversa. E que tenho eu com isso, se foi até ao coreto? Que mulher era essa com a qual esteve sonhando?
- Era... a que vistes aquela noite.
- Ah! Sim, sim! Já compreendi muito bem. Não lhe sai da cabeça!... E sonhou o que com ela? Que é que ela estava fazendo? Não pense que me interessa saber... - disse mais alto e com pronúncia diferente, amuada. -Não me interrompa!...
Parou de falar por um momento, como para tomar alento ou dissipar o amuo.
- Passemos agora ao que interessa. Devo dizer-lhe por que foi que lhe pedi que viesse se encontrar comigo aqui. Desejo propor-lhe que sejamos bons amigos. Por que arregala os olhos dessa maneira? - perguntou com timbre quase colérico.
Naturalmente o príncipe se pusera a contemplá-la muito atento, vindo a perceber que ela, ditas aquelas palavras, enrubescera logo. Em circunstâncias análogas, ela sempre quanto mais enrubescia mais zangada parecia ficar consigo mesma, e isso estava nitidamente visível em seus olhos lampejantes. Então, via de regra, transferia a raiva, irritando-se com a pessoa causadora de tal situação, merecesse esta ou não censura, pondo-se logo a descompô-la. Mas como percebia quanto era arrebatada e irritadiça, tendo demasiada consciência do seu temperamento, adotara como regra ser esquiva a conversas e intimidades, sendo mais calada do que as irmãs, às vezes mesmo circunspecta demais. Quando, e mais principalmente em casos súbitos e delicados, era obrigada positivamente a falar, iniciava a conversa com acentuada altivez e com uma expressão quase de desafio. E sempre sentia de antemão quando começava a ficar vermelha.
- Talvez não esteja disposto a aceitar esta minha proposta - disse com ar sobranceiro.
- Como não? Quero, e muito. Apenas a acho desnecessaria... quero dizer... - quis o príncipe explicar.
- Pensou então o quê? Supôs que lhe pedi que viesse se encontrar comigo aqui para quê? Seja franco! Ou estará me supondo uma espinoteada como pensam todos lá de casa?
- Não sabia que em casa vos consideravam uma espinoteada. Eu não vos considero.
- Não me considera? Muito hábil da sua parte. Maravilhosamente bem respondido.
- Acho até que deveis dar mostra muito constantemente de grande sensatez - prosseguiu o príncipe. – Ainda agora dissestes uma coisa admirável. Quando faláveis a respeito de Ippolít: “A gente sempre, em lugar de só querer ver a verdade exata com o intuito de julgar direito, acaba mais é cometendo injustiças por falta de ternura e caridade”. Não me esquecerei disso, que me há de prestar muitos serviços.
Agláia ficou logo rubra. com o prazer que sentiu. Tais transições de sentimentos se operavam nela quase sem mostras de artifício, alternando-se rapidamente. Também Míchkin ficou satisfeito e sorriu, com notório prazer, esquadrinhando-a.
- Ouça - começou ela -, esperei muito tempo para lhe dizer uma porção de coisas. Tive vontade desde que me escreveu aquela carta; e até mesmo antes. Aliás, ontem já ouviu metade delas. Considero-o o mais honesto e sincero dos homens, mais honesto e mais sincero do que qualquer outro. E se andam dizendo por aí que o seu juízo... isto é, que às vezes fica afetado do juízo, são injustos. Já me certifiquei disso ejá tive brigas com os outros, muito embora veja que é mesmo afetado mentalmente... (não vai, naturalmente, se zangar comigo; estou falando de um ponto de vista muito alto). O espírito, que conta, esse é melhor em você do que nos demais. Éalguma coisa com o que eles, de fato, nunca sonharam. Sim, pois há duas espécies de espírito, o principal, que importa, e o secundário, que tem valor muito relativo. Tenho razão. É isso mesmo. não é?
- Talvez seja - pronunciou o príncipe muito baixo. O seu coração palpitava e latejava violentamente.
- Eu tinha certeza de que você entenderia - continuou ela de modo expressivo.
- O Príncipe Chtch... e Evguénii Pávlovitch, por exemplo, não entendem que haja estas duas espécies de espírito; nem Aleksándra, tampouco; mas, calcule só, mamãe entende!
- Vós vos pareceis muito com Lizavéta Prokófievna.
- Acha? Realmente? - perguntou Agláia. com surpresa.
- Deveras.
- Muito obrigada - disse Agláia depois de um momento de reflexão.
- Fico muito contente de parecer com mamãe. Gosta então muito dela? - acrescentou sem se dar conta da ingenuidade da sua pergunta.
- Muitíssimo. E me alegra sobremodo que tenhais reparado nisso imediatamente, por vós mesma.
- E fico mais contente de ouvir isso porque já reparei que muita gente às vezes ri dela. Mas deixe que lhe diga o principal. Andei refletindo por muito tempo e afinal o descobri. Não quero que em casa se riam de mim; não suporto que me tenham na conta de uma estouvada; não quero que me enfezem com motejos... Percebi instantaneamente a intenção e me recusei a ficar noiva de Evguénii Pávlovitch, porque estou farta de assistir a essa procura contínua de noivos para mim! O que eu quero... o que eu quero... Ora, muito bem, o que eu quero é fugir de casa, e o escolhi para me ajudar.
- Fugir de casa?! - exclamou o príncipe.
- Sim, sim, fugir, fugir! - repetiu ela, mudando de cor, inflamando-se logo com extraordinária exasperação.
- Não os posso suportar, já não os tolero mais! Não cessam de me enraivecer. Não quero corar diante deles, na frente do Príncipe Chtch... de Evguénii Pávlovitch, ou de qualquer outro! E foi por isso que o escolhi. A você direi tudo, tudo, mesmo a coisa mais importante, sempre que quiser, e sei que você, por seu lado, não me esconderá nada. Quero poder falar livremente pelo menos a uma pessoa, a respeito de tudo quanto eu vier a pensar. Desandaram a dizer, sem mais aquela, que eu o estava esperando e que o amava. Isso começou, antes da sua volta, embora eu não lhes mostrasse a carta. Com a sua vinda para aqui tudo recrudesceu. Quero ser destemida e não ter receio de coisa alguma. Estou farta de bailes. Quero fazer-me valer, ser útil. Desde muito que anseio viajar, sair disto. Há vinte anos que vivo engarrafada em casa. Só pensam em uma coisa: casar-me. Desde os quatorze anos que venho pensando em fugir desta vida, embora fosse uma tola. Agora planejei tudo e estive aguardando a sua volta para que me informe bastante a respeito do estrangeiro. Nunca vi uma catedral gótica. Quero ir a Roma. Quero visitar todas as sociedades cultas. Quero estudar em Paris. Venho me preparando e estudando muito; no ano passado li muitos livros. Li todos os livros proibidos. Adelaída e Aleksándra lêem os livros que muito bem querem. Mas a mim não deixam e me vigiam. Não pretendo indispor-me com as minhas irmãs, mas já fiz ver a mamãe e a papai que desejo operar uma transformação completa na minha posição social. Quero dedicar-me ao ensino das crianças e pensei em para isso recorrer a você porque nos declarou naquele dia quanto gostava da infância. Não nos poderíamos ambos dedicar a isso, não digo já. imediatamente, mas em um futuro próximo? Poderíamos vir a ser muito úteis. Não quero me limitar a ser filha de um general. Diga-me uma coisa: você estudou muito?
- Oh! Nem por isso!
- É pena, porque eu tinha pensado em... Como é que fui pensar nisso!... Não importa, de qualquer maneira você será o meu guia. Já o escolhi.
- Isso é absurdo, Agláia Ivánovna.
- Quero fugir de casa, pronto! - exclamou: e de novo os seus olhos cintilaram. - E se você não concordar, então me caso com Gavríl Ardaliónovitch. Estou farta de em casa ser considerada como uma criatura horrível e de me acusarem sabe Deus de quê!
- Perdestes o critério? - admoestou-a o príncipe, quase saltando do banco.
- Acusada - de quê? Por quem?
- Por todo o mundo. Mamãe, papai, as manas, o Príncipe Chtch... e até esse confiado Kólia. E se não falam diretamente, pensam! Já lhes disse tudo isso na cara; a mamãe e a papai também. Mamãe depois ficou doente um dia inteiro. No dia seguinte Aleksándra e papai vieram me aconselhar: que eu nem sabia quanta asneira dissera; as palavras que proferira. Retruquei-lhes logo que sabia sim, muito bem, que conhecia o sentido de todas as palavras, todas! Que já não sou uma simples meninota; que no ano atrasado li até duas novelas de Paul de Kock, para ficar sabendo... coisas! Mamãe quando ouviu isto quase caiu desacordada.
Uma estranha idéia ocorreu ao príncipe que, olhando para Agláia muito firme, sorriu.
Mal podia acreditar que aquela jovem altiva que certa vez lhe lera com ar majestoso e sobranceiro a carta de Gavríl Ardaliónovitch era a mesma que ali estava sentada ao seu lado. Não podia conceber que aquela severa e desdenhosa beldade não passasse na verdade de uma menina, de uma criançola que nem mesmo agora compreendia o sentido de todas as palavras.
- Vivestes sempre em casa, Agláia Ivánovna? Quero dizer, nunca estivestes em uma escola, como interna?
Nunca estudastes em um instituto?
- Em parte nenhuma. Permaneci sempre em casa, como se estivesse arrolhada em uma garrafa! E somente para casar é que me extrairão de dentro da garrafa. Por que é que está rindo outra vez? Será que está caçoando de mim, que passou para o lado deles? - ajuntou com a testa ameaçadoramente vincada.
- Não me faça zangar; que é que está pensando de mim? Estou certa que veio a este encontro todo compenetrado de que estou apaixonada por você e que por isso lhe marquei esta entrevista” - refletiu ela, irritadíssima.
- Confesso que ontem cheguei a recear tal coisa - declarou Míchkin com a maior simplicidade. (Estava no auge da confusão.”
- Mas hoje estou convencido de que...
- De quê?... - gritou Agláia Ivánovna; e o seu lábio inferior começou a tremer.
- Ficou com medo de que eu... Ousou imaginar que eu... ó céus! Suspeitou, acaso, que o convidei para o prender em uma armadilha? Para que nos descobrissem aqui, depois, e que assim se visse forçado a se casar comigo?
- Agláia Ivánovna! Não vos envergonhais? Como pôde uma idéia vil desabrochar em vosso coração inocente! Juro que nem vós mesma acreditais em uma só dessas vossas palavras e que nem sabeis o que estais dizendo.
Agláia ficou a olhar para o chão, muito séria, como que perplexa ela própria ante o que dissera. E balbuciou:
- Não estou envergonhada absolutamente. Como sabe que o meu coração é inocente? E que ousadia foi aquela de me mandar uma carta de amor?
- Uma carta de amor? Minha carta... uma carta de amor? Mas se foi uma carta a mais respeitosa possível! Uma carta que era a emanação da minha alma no momento mais amargo de minha vida! Pensei então em vós como em uma luz... Eu...
- Está bem, está bem! - atalhou ela de chofre, em um tom inteiramente mudado, arrependida de todo e como que receosa. Voltou-se para ele, embora tentando evitar olhá-lo, quase lhe tocando o ombro a pedir com veemência que não ficasse zangado. E acrescentou, terrivelmente transfigurada:
- Muito bem. De fato empreguei uma expressão estúpida. Mas o fiz com a intenção de experimentá-lo. Dou o dito por não dito. Se o ofendi, perdoe-me. Por favor, não me encare. Vire para lá. Você declarou que foi uma idéia ignóbil. Pois eu a disse somente para o magoar. Às vezes tenho medo do que vou dizer e assim mesmo digo! Acabou de confessar que escreveu aquela carta no momento mais lancinante da sua vida. Sei que momento foi esse.
- Olhava outra vez para o chão, o tom da voz era brando.
- Oh! Se soubésseis uma milésima parte!
- Sei de tudo! - exclamou ela com renovada animação. - Esteve vivendo na mesma casa mais de um mês com aquela mulher horrível com quem fugiu...
Desta vez não ficou rubra, mas sim lívida, ao pronunciar tais palavras e se levantou sem saber o que estava fazendo: mas, caindo em si. logo tornou a se sentar. Por muito tempo seu lábio ainda tremia. O silêncio durou um minuto. O príncipe quedou muito atônito ante a subitaneidade daquela explosão, sem saber a que atribuí-la.
E nisto Agláiá afirmou de modo categórico:
- Absolutamente não o amo!
Míchkin não deu resposta. Ficaram em silêncio por mais um minuto.
Abaixando então ainda mais a cabeça, ela proferiu depressa mas de modo quase inaudível:
- Eu amo Gavríl Ardaliónovitch...
- Não é verdade! - rebateu o príncipe, em uma espécie de sussurrO.
- Então estou mentindo? É verdade, sim! Dei-lhe meu consentimento anteontem - aqui neste mesmo banco.
O príncipe sobressaltou-se e refletiu durante um minuto; depois, repetiu com energia:
- Não é verdade! É uma invenção isso tudo.
- Você é formidavelmente cortês. Pois saiba que ele se emendou e que me ama acima da própria vida.
Queimou a mão diante de mim para provar que me ama acima da própria vida.
- Queimou a mão?!
- Sim, a mão. Não acredita? Acha que é mentira? Bem me importa.
Míchkin permaneceu calado, de novo. Não havia nenhum traço de gracejo nas palavras de Agláia que continuava carrancuda.
- Isso se passou aqui? Neste banco? Então ele trouxe uma vela? Do contrário não percebo como poderia...
- Pois trouxe sim... Que há de extraordinário nisso?
- Inteira, em um castiçal?
- Bem.., isto é... um pedaço, um toquinho só, já no fim.., ou inteira. Não vem ao caso. Acendeu a vela, pôs o dedo em cima da chama, ficou assim meia hora. Há alguma coisa impossível nisso?
- Ainda esta noite estivemos juntos. Estava com os dedos intatos.
Agláia caiu em um acesso repentino de gargalhada, como uma criança.
- Quer saber por que tive de lhe inventar toda essa mentira? - virou-se outra vez para o príncipe, de repente, com uma confiança infantil e o riso ainda lhe aflorava aos lábios. - Porque, se uma pessoa precisa mentir, deve inventar com muita habilidade uma oisa fora do comum, bem excêntrica, inédita ou bastante rara; a mentira adquirirá foros de verdade, Sempre reparei nisso. Falhou esta vez porque não fiz com todas as regras.
Nisto franziu novamente a testa, como a recordar-se de qualquer ato, voltou-se para o príncipe com uma expressão séria e até nelancólica e declarou:
- Quando declamei o “cavaleiro pobre”, não obstante querer elogiá-lo indiretamente por algo, quis também desapontá-lo por causa de sua atitude, e mostrar-lhe que sabia de tudo.
- Sois muito injusta comigo e com essa infeliz mulher a quem vos referistes agora mesmo com falta de caridade, Agláia.
- É porque sei de tudo! De tudo! Eis por que falei deste modo. Sei que há seis meses passados lhe propôs casamento diante de uma porção de gente. Não me interrompa. Como vê, estou falando sem comentar. E depois disso ela fugiu com Rogójin; tempos depois você viveu com ela em qualquer localidade da província, ou em qualquer cidade até que ela o largou por qualquer outro. (Agláia enrubesceu de ressentimento.) E agora ela está outra vez com Rogójin que a ama como um louco. E, recentemente, você.., que não é o tolo que dizem, veio a galope para aqui nas pegadas dessa mulher, logo que descobriu que ela voltara para Petersburgo. Ainda ontem de noite não hesitou em defendê-la; há poucos minutos estava sonhando com ela aqui mesmo... Como vê, sei de tudo. Foi por causa dela, sim, por causa dessa mulher, que você veio aqui para Pávlovsk, não foi?
- Não nego - respondeu o príncipe brandamente, abaixando o olhar com certo modo soturno e vago, não suspeitando com que olhos chamejantes Agláia o fulminava. - Por causa dela, com o fim de verificar se... Creio que ela não é feliz com Rogójin, muito embora... Enfim, conquanto não soubesse o que poderia fazer por ela aqui, de que forma ajudá-la, vim.
Parou e fitou Agláia que o escutava calada e séria.
- Ah! Veio sem saber por quê? Quer prova maior de que a ama e muitíssimo? - externou Agláia, a custo.
- Não - retrucou o príncipe. - Não. Eu não a amo. Oh! Se ao menos pudésseis saber e avaliar com que horror me recordo do tempo que passei com ela!
Disse isto sacudido por um calafrio.
- Conte-me tudo.
- E nem há em tudo quanto se passou nada que não possais escutar. Se muita vez me passou pela mente, como quando vos escrevi, vos contar tudo, a vós e a mais ninguém, não sei o motivo de tal desejo. Com certeza porque vos quero muito. Essa infeliz criatura está convencida de que é a mulher mais pecaminosa e decaída deste mundo! Oh! Não a vilipendie nem a apedreje. Ela já se torturou demasiado com a consciência do seu imerecido opróbrio. E, meu Deus, ela não tem do que ser censurada, Ah! Não cessa declamar, a todo instante, do fundo da sua desdita, que não suporta mais viver no erro e que foi vítima dos outros, de um homem depravado e libertino. Mas se eu próprio asseverar isso, então ela será a primeira a não crer, a jurar com todas as forças de sua consciência que é culpada. Quando tentei desmanchar essa idéia fixa tão sinistra, o meu gesto a atirou em um abismo tal de escrúpulos que para fugir a isso se arrojou em um outro pior, tal o seu desatino. Só em recordar esse tenebroso tempo meu coração se estraçalha. Fugiu de mim. E sabeis por quê? Para quê? Para arranjar uma prova de que era uma criatura ignóbil. E o que ainda é talvez mais terrível á que ela própria ignora que agiu somente com esse intuito, decidida a praticar uma ação infame somente para poder dizer a si mesma:
‘Largaste-o, chafurdaste neste lodo! E agora? Duvidas agora de que és uma criatura infame?” Agláia, é difícil compreender tais complexidades. Quer saber? É bem provável que nessa contínua sensação de escrúpulo e de vergonha exista para ela uma espécie de terrível prazer anômalo, uma espécie de vingança contra alguém. As vezes consigo levá-la até onde um pouco de luz a faça ver claro dentro e fora da sua angústia. Mas acaba se rebelando sempre e me acusa amargamente de pretender incutir uma superação na sua miserável vivência (coisa que nem me acode ao cérebro). O que ela me disse quando lhe propus casamento! Que não condescendia em aceitar consolo ou ajuda de quem quer que fosse, tampouco desejando ser elevada a nenhum plano superior!
Ontem reparastes nela? Cuidais que ela se sinta bem naquela roda? Que aquela gente seja companhia adequada para ela? Se soubésseis quando é bem-educada, que compreensão manifesta pelas coisas, quando tem paz! Não raro me surpreendia deveras.
- Costumava pregar-lhe moral.., quando esteve com ela? Sermões, como este?
- Oh! Não - continuou o príncipe pensativo, não percebendo o tom nem a pergunta.
- Dificilmente lhe falo. Muitas vezes quero falar mas não sei o que deva dizer. Já me convenci que em certos casos o melhor de tudo é ficar quieto. Oh! Eu a amei. Eu a amei muito; mas depois... depois ela adivinhou a verdade.
- Qual verdade?
- Adivinhou que era somente piedade o que eu tinha por ela, já que não a amava mais,
- Como é que sabe? Talvez se tenha apaixonado por esse latifundiário com quem fugiu...
- Não, não; estou bem a par de tudo. Não fez mais do que se rir dele.
- E nunca riu de você?
- Não. Mas dá risadas estranhas quando se exaspera. Transforma-se em uma fúria terrível quando censura uma pessoa. A mim, por exemplo. Contra si mesma, também. Mas... depois... Não quero me lembrar, não quero me lembrar disso!..,
E escondeu o rosto nas mãos.
- Sabe que ela me escreve cartas quase todos os dias?
- Então é verdade? - exclamou o príncipe, perplexo. - Ouvi falar, mas não acreditei.
- Quem lhe contou? - perguntou Agláia, receosa.
- Rogójin me disse ontem, mas de um modo vago.
- Ontem? Ontem de manhã? Ontem?... A que horas? Antes da banda tocar, ou depois?
- Depois, tarde da noite, por volta das onze horas.
- Ah! Se foi Rogójin... E sabe o que ela me escreve sempre nessas cartas?
- Seja o que for, não me surpreenderá. Está com o juízo alterado.
- Eis as cartas! - Agláia tirou três envelopes da sua bolsa e os largou no banco, perto do príncipe.
- Há uma semana exata que insiste, roga, implora e me incensa, para que me case com você. Oh! É bem esperta, apesar de louca. Em bom fundamento se apoia você para a achar bem mais sensata do que eu. Escreve que gosta de mim, que tenta diariamente arranjar um ensejo para me ver mesmo que seja de longe. Asseverou-me que você me ama, que tem certeza, desde muito; que você costuma falar com ela a meu respeito e... Tem um modo de escrever esquisito, extravagante! Não mostrei essas cartas a ninguém. Achei melhor aguardar que você aparecesse. Sabe qual é o sentido de tudo isso? É capaz de adivinhar?
- Loucura típica. Uma das muitas provas de sua insanidade mental - explicou o príncipe; e seus lábios começaram a tremer.
- Está querendo chorar?
- Não. Agláia. Não estou chorando. - E o príncipe ficou a fita-la.
- Que lhe parece que devo fazer? Que é que me aconselha? Não posso ficar a receber indefinidamente essas cartas!
- Tende paciência, rogo-vos - exclamou Míchkin.
- Que podeis fazer nessa incerteza? Farei tudo para impedir que ela continue a vos escrever.
- Então é um homem sem coração! - redargüiu Agláia. - Está vendo evidentemente que ela não está caída por mim, que é a você que ela ama, tão somente a você. Não disse ainda agora mesmo que notava tudo nela? Como não notou isso? Não compreendeu ainda do que se trata? O que estas cartas significam?... Ciúme! Mais do que ciúme. Ela... Será que você acredita piamente que ela se case com Rogójin, conforme garante aqui nestas cartas? Pois sim! No dia imediato ao nosso casamento se mataria!
O príncipe estremeceu. Seu coração parou. Só pôde fazer uma coisa: ficar olhando para Agláia, completamente marasmado. E como lhe pareceu estranho verificar quanto essa menina aí era já tão acabadamente mulher!
- Deus bem sabe, Agláia, que para restituir a paz a essa criatura e a tornar feliz eu daria até mesmo a minha vida... Mas agora já não a posso amar, E ela sabe disso!
- Sacrifique-se então, Coisa aliás bem do seu feitio. Você é uma pessoa tão caridosa! E não me chame de Agláia!... Chamoume simplesmente de Agláia, ainda ontem. Compete a você soerguê-la. É obrigado a tal gesto.
Devia ir embora com ela outra vez a fim de lhe dar paz e sossego ao coração. Ora, você bem sabe que a ama!
- Não posso sacrificar-me desta forma, apesar de já haver querido certa vez, e de ainda querer agora. Tenho a certeza de que comigo ela se perderia. E por isso me afasto. Devia ir vê-la hoje às sete horas, mas decerto não irei mais. Ela em seu orgulho nunca toleraria a minha compaixão... e acabaríamos caindo ambos na ruína. Sei quanto isso é esquisito, mas que é que em todo esse caso não é anormal? Dizeis que ela me ama. Mas isso é amor? Posso considerar amor o que presenciei? Não, amor não é, e sim qualquer outra coisa!
- Mas que palidez é essa? - perguntou de chofre Agláia, pasmando para a fisionomia do príncipe.
- Não é nada. É que passei a noite em claro. Estou exausto.. Kealmente, Agláia, eu e ela conversamos sobre vós.
- Então, é verdade? Falou com ela sobre mim? E... e como se preocupou você comigo se apenas me viu uma vez?
- Não sei como isso se deu. Na minha treva de então sonhei que... Tive a ilusão decerto de que me era possível ir ao encontro de uma nova aurora. Não sei como me nasceu esse pensamento. O que vos escrevi naquela ocasião era verdade, embora eu não soubesse.
Tudo não passou de um sonho em plena treva... Depois comecei a trabalhar. Contava permanecer ausente uns três anos.
- Então veio por causa dela!? - E a voz de Agláia tremeu.
- Sim, esse foi o motivo.
Houve de parte a parte um silêncio opressivo que se dilatou durante dois minutos. Agláia levantou-se do banco, e disse com voz entrecortada:
- Pois fique com a idéia, com a convicção de que essa... sua... mulher é uma louca! Mas eu não tenho nada de ver com as suas fantasias de louca... Intimo-o, Liév Nikoláievitch, a restituir estas cartas a essa mulher, da minha parte! E se ela ousar tomar a me escrever uma linha que seja, farei queixa a meu pai e então se há de providenciar o seu internamento em uma casa de correção!...
O príncipe levantou-se de um pulo e ficou boquiaberto diante da fúria repentina de Agláia. Foi como se uma espécie de névoa o envolvesse.
- Não podeis sentir uma coisa destas! Não pode ser! - balbuciou.
- Sinto! Sinto, sim! - gritou Agláia, fora de si. - É a verdade, a pura verdade!
- Que é que é verdade? Verdade o quê? - ouviram ambos uma voz aflita indagar, perto deles.
Era Lizavéta Prokófievna que estava chegando.
- A verdade.., é que vou me casar com Gavríl Ardaliónovitch! Que amo Gavril Ardaliónovitch e que vou fugir de casa amanhã com ele! - bradou Agláia quase esbarrando na mãe.
- Ouviu agora? Ficou satisfeita a sua curiosidade? Ou quer saber mais?
E correu para casa.
- Não, meu amigo, não se vá embora - disse Lizavéta Prokófievna sustando os passos do príncipe.
- Você terá a bondade de me dar uma explicação. Que é que eu fiz para ter tantos aborrecimentos? Não consegui dormir a noite inteira.
O príncipe seguiu-a.
Chegando a casa. Lizavéta Prokófievna parou na primeira sala; não pôde ir além e se atirou ofegante em um divã, esquecendo mesmo de convidar o príncipe a sentar. Era uma sala bem grande, com uma mesa ao centro e uma lareira a um canto; havia muitas flores em uma etagêre entre as janelas, e uma porta de vidro, na parede oposta, dava para o jardim. Adelaída e Aleksándra apareceram logo com ar indagador, ficando a olhar para a mãe e o príncipe.
Na vila de verão da família as moças geralmente se levantavam às nove horas; mas, de três dias para cá, a mais nova, Agláia, dera em se levantar mais cedo para passear no jardim da casa; não às sete horas, mas às oito ou pouco mais. Lizavéta Prokófievna, que na verdade não conseguira conciliar o sono a noite inteira por causa dos seus muitos aborrecimentos, se erguera às oito horas, contando encontrar-se com Agláia no jardim, certa de que a filha já se teria levantado. Não a descobriu, porém, nem no jardim nem no quarto e acabou ficando tão preocupada que acordou as outras filhas, vindo a saber pelas criadas que Agláia saíra às sete horas na direção do parque. As moças riram de mais esta esquisitice de sua extravagante irmã e avisaram à mãe que a caçula ficaria zangada se fosse procurada no parque onde, na certa, devia estar com um bom livro sentada no banco verde. Aquele banco verde que na véspera fora motivo de discussão com o Príncipe Chtch... Ela a achá-lo muito pitoresco, o príncipe a negar.
Lizavéta Prokófievna ao surpreender a filha e o príncipe no tal banco ficara alvoroçadíssima com a declaração aloucada de Agláia. Razões lhe sobravam para se alarmar; mas depois que trouxe o príncipe consigo até à sala, se arrependeu do que então dissera. Afinal de contas, que havia de mais em Agláia se encontrar com o príncipe no parque, mesmo que essa entrevista tivesse sido marcada previamente?”
- Não pense, meu bom amigo - começou ela, toda empertigada -, que o trouxe até aqui para lhe passar uma descompostura e interrogá-lo. Depois do que se passou ontem eu não poderia ter nenhuma ansiedade em vê-lo durante muito tempo...
Não pôde prosseguir, teve de parar um momento. Foi o príncipe quem completou a frase, com perfeita serenidade, dizendo:
- Mas a senhora gostaria muito de saber como foi que fui encontrar Agláia Ivánovna esta manhã!
- Gostaria, por quê? - Lizavéta Prokófievna inflamou-se logo. - Nunca tive medo de falar sempre o que quis! De mais a mais não estou insultando ninguém e nem é minha intenção ofender quem quer que seja...
- É lógico que a senhora deseja saber, sem ofensa. A senhora éa mãe dela. Fui encontrar-me com Agláia Ivánovna esta manhã no banco verde, porque ela ontem me convidou. Ontem à noite, me fez saber, por um recado escrito, que desejava encontrar-se comigo para debater um assunto importante. Encontramo-nos e estivemos durante uma hora a conversar sobre coisas que somente concernem a ela. Foi tudo.
- Naturalmente que foi tudo, meu caro senhor; não há nisso a menor sombra de dúvida - concordou a Sra. Epantchiná, com dignidade.
- Sobretudo, príncipe - disse Agláia, entrando inesperadamente na sala -, agradeço-lhe de todo o coração por não ter acreditado que eu condescenderia em mentir! Isso chega, mamãe, ou pretende a senhora fazer-lhe um exame mais minucioso?
- Você sabe muito bem que eu até agora nunca tive do que corar diante de você, embora você ficasse contente se por acaso eu tivesse - replicou-lhe Lizavéta Prokófievna severamente.
- Adeus, príncipe, perdoe-me de o ter incomodado e espero que fique convencido sempre do meu imutável respeito.
O príncipe imediatamente se inclinou para a direita e para a esquerda e silenciosamente se retirou.
Aleksándra e Adelaída riram e cochicharam. A mãe as olhou duramente.
- Mamãe, só mesmo assim é que o príncipe faria tão magníficas mesuras. Via de regra é um desajeitado, mas não é que fez agora, de repente, direitinho feito Evguénii Pávlovitch?
- Delicadeza e dignidade são ensinadas pelo coração e não pelo professor de dança - resumiu logo, sentenciosamente, Lizavéta Prokófievna. E subiu para o quarto, sem sequer olhar para Agláia.
Quando o príncipe chegou a casa aí pelas nove horas, encontrou Vera Lukiánovna e a criada na varanda. Estavam limpando e varrendo, por causa da desordem da noite anterior.
- Graças a Deus tivemos tempo de acabar antes do senhor chegar - disse Vera alegremente.
- Bom dia. Sinto-me um pouco fraco, não dormi bem. Gostaria de me recostar um pouco.
- Aqui na varanda, como o senhor fez ontem? Está bem; vou a visar a todos para não o acordarem. Papai saiu não sei para onde.
A criada foi-se. Vera esteve para acompanhá-la, mas se voltou e veio ansiosamente até perto do príncipe.
- Príncipe, tenha pena desse pobre indivíduo. Não o mande embora hoje.
- De forma alguma o mandarei. Ele que resolva o que quiser.
- Ele não fará nada, agora, e... não seja severo com ele.
- Certamente que não; por que haveria eu de ser?
- E não na dele, isso é o principal.
- Oh! Nem pensar nisso.
- Estava louca para falar sobre isso com uma pessoa como o senhor - disse Vera, corando. - Apesar do senhor estar cansado - riu, dando meia volta para se ir embora -, os seus olhos estão tão bonitos neste momento, parecem tão felizes!
- Não diga! Deveras? - perguntou o príncipe vivamente, pondo-se a rir, satisfeito.
Mas Vera, que era ingênua e encabulada como uma criança, ficou logo tão confusa e tão vermelha que se retirou depressa, rindo ainda.
“Que jovial rapariga’ - pensou o príncipe, que logo se esqueceu dela.
Foi para o canto da varanda, onde havia um sofá com uma mesinha ao lado. Sentou-se, escondeu as faces nas mãos e permaneceu assim por uns dez minutos. E, de súbito, muito agitado, tirou ligeiro as três cartas do bolso do casaco.
Mas a porta se reabriu e Kólía surgiu. Isso, muito a propósito, aliviou o príncipe que, guardando de novo as cartas, adiou o mau momento.
- Ora! Mas que desventura! - disse Kólia, sentando-se no sofá e entrando logo no assunto, como as crianças da sua idade costumam fazer. - Que é que o senhor pensa de Ippolít, agora? Desmereceu ele do seu respeito?
- Ora essa, por quê?... Mas. Kólia. estou muito cansado... Além disso, é muito triste tudo isso, para serecomeçar a... Mas, como vai ele?
- Está dormindo há umas duas horas. Pelo que depreendo o senhor não dormiu, nem ficou em casa; deve ter estado no parque... ficou nervoso, é natural: não é de admirar,
- Por que depreende você que estive passeando no parque e me não fui dormir?
Vera acabou de dizer. Esforçou-se até para me persuadir a que não viesse; respondi-lhe que ficaria só por um momento. Permaneci estas duas horas na cabeceira de Ippolít; agora cabe a vez a Kóstia Liébediev. Burdóvskii já foi embora. Bem, príncipe, descanse. Boa noite, ou melhor... bom dia! Mas, quer saber? ainda estou estupefato!
- Naturalmente! Tanta coisa...
- Não, não, príncipe! Estupefato com a “Confissão” de Ippolít. Principalmente aquele trecho a propósito da Providência e da vida futura. Há o pensamento de um gigante em tudo aquilo.
O príncipe olhou afetuosamente para Kólia que não teve dúvida em entrar logo a explicar em que consistia a seu ver o tal “pensamento de gigante”.
- E não é apenas o pensamento, mas também a maneira pela qual dispôs tudo aquilo. Se fosse escrito por Voltaire, Rousseau, Proudhon eu não me impressionaria tanto. Mas por um homem que tem certeza de que só dispõe de dez minutos para se exprimir desta forma, não é formidável? Ora, isto é a mais alta afirmação de dignidade pessoal, de confiança em si mesmo... Significa uma força titânica de vontade! Depois de tudo, haver quem ouse declarar que ele tirou a cápsula de propósito é vil, é incrível! Mas, quer saber, príncipe?, ele ontem mentiu. Eu não lhe arrumei absolutamente a mala, e nem nunca vi a pistola. Ele arrumou tudo sozinho; mantendo-me sempre arredado. Vera acabou de me dizer que o senhor vai consentir na permanência dele aqui; juro que não há perigo, mesmo porque não o deixaremos sozinho.
- Vocês permaneceram sempre perto dele?
- Revezamo-nos. Kóstia Liébediev e eu. Keller ficou um bocadinho mas depois se retirou e foi dormir no pavilhão de Liébediev porque o quarto era apertado para tanta gente. Ferdichtchénko fez o mesmo, e às seis horas se retirou. O general, como sempre, dormiu na casa de Liébediev, para onde se recolheu logo. Liébediev não demora a aparecer, pois já o esteve procurando umas duas vezes, não sei para quê. Devo deixar que venha, ou não, já que o príncipe precisa descansar? Também vou ver se consigo dormir um pouco. Por falar nisto, gostaria de lhe contar uma coisa a respeito de papai, o general. Não compreendi direito... Burdóvskii me acordara às seis da manhã para eu ficar de plantão, perto do doente; eu saí um pouco para tomar ar, entre a vila e o pavilhão, e dei com ele tão bêbado que nem me reconheceu. Quase me deu um esbarrão. Nisto voltou a si, agarrou-me, perguntando logo: Como vai o nosso doente? Vim só para saber como passou ele”. Dei-lhe as informações. “Bem, está muito bem”, respondeu papai, “mas ao que vim de fato, o que me fez levantar foi a necessidade de um aviso urgente. Tenho motivos para prevenir que contenham a língua diante de Ferdichtchénko e que fiquem de alcatéia”. Compreende alguma coisa, príncipe?
- De fato? Mas.., a que propósito nos pode isso interessar?
- Naturalmente em nada. Não somos maçons! Mas fiquei espantado com a atitude do general levantando-se só com a preocupação de vir me acordar para dizer isto.
- Diz você que Ferdichtchénko saiu?
- Às sete horas. Veio ver-me de passagem. Eu estava levantado por causa de Ippolít. Saiu, declarando que ia passar o dia com Vílkin. Esse Vílkin é um sujeito bêbado daqui de Pávlovsk. Bem, vou deitar. Chegou Lukián Timoféietch... O príncipe está dormindo, Lukián Timoféietch, meia volta, volver!
- Um momento apenas, honorabilíssimo príncipe. Trata-se de um assunto importantíssimo para mim.
- Liébediev ia entrando e falava com voz afetadamente baixa, muito compungido, à medida que fazia mesuras exageradas.
Havendo entrado e já com o chapéu na mão, se esforçava por manter uma expressão circunspecta; mas sua fisionomia excêntrica deixava transparecer uma grande preocupação. O príncipe convidou-o a sentar.
- Soube que perguntou por mim já duas vezes. Que nervoso é esse? Por causa ainda de tudo que aconteceu essa noite?
- Quer dizer.., por causa do rapaz, príncipe? Oh! Não; essa noite as minhas idéias ficaram atrapalhadas... mas hoje é meu entento não contrafazer as suas ordens, seja no que for.
- Contrafa... Que é que está dizendo?
- ... zer! Contrafazer! Trata-se de um galicismo horrível como nuitíssimos outros que se intrometeram no nosso léxico e com os quais não concordo.
- Que lhe aconteceu. Liébediev, para estar assim tão formalizado e falando com tamanha cadência como se estivesse soletrando?... - indagou Míchkin.
- Nikolái Ardaliónovitch - disse Liébediev dirigindo-se a Kólia com uma voz quase desembargada -, tenho eu de tratar com o príncipe de um negócio todo íntimo...
- Lógico, lógico! E que não me interessa... Adeus, príncipe.
- E Kólía se retirou imediatamente.
- Gosto desta criança porque tem tato... - pronunciou Liébediev, seguindo-o com o olhar.
- Um garoto esperto, mas algo perguntador... Topei com uma severa calamidade, honorabilíssimo príncipe, esta noite, ou esta manhã, ao dealbar... Hesito em precisar a hora certa...
- Que foi?
- Sumiram quatrocentos rublos do bolso do meu casaco, honorabilíssimo príncipe. Estávamos aguardando o dia - acrescentou com um sorriso azedo.
- Você perdeu quatrocentos rublos? Que pena!
- Principalmente se considerarmos que sou um pobre homem honradamente mantendo família com o meu próprio labor.
- Naturalmente, naturalmente. Como aconteceu isso?
- Frutos do beber! Vim ter logo com o senhor, como a nossa Providência, honorabilíssimo príncipe. Recebi a soma de quatrocentos rublos, novinhos em folha, de um devedor, ontem, às cinco da tarde, e voltei para cá de trem. Estava com a carteira no bolso. Ao mudar o meu uniforme pelo casaco de casa, pus o dinheiro no bolso do casaco, pretendendo nessa mesma noite encontrar uma colocação para ele... Estava esperando um agente.
- Por falar nisso, Lukián Timoféietch, é verdade que você pôs um anúncio dizendo que emprestava dinheiro sobre ouro ou artigos de prata?
- Através de agentes; o meu nome não aparecia nem o meu endereço. A soma à minha ordem é mesquinha e em vista do aumento de minha família, o senhor há de admitir que, por notória razão, isso de juros...
- Perfeitamente, perfeitamente. Apenas perguntei para saber. Desculpe ter interrompido.
- Mas o tal agente não apareceu. Nesse ínterim o desgraçado rapaz foi trazido para aqui. Eu já estava “alto”, depois do jantar; as visitas foram chegando; bebemos.., chá, e, por ruína minha, fui ficando alegrote.
Quando Keller chegou, atrasado, e disse que era o seu dia de festa natalícia e ordenou champanha, eu, como tenho coração, caro e honorabilíssimo príncipe (como o senhor já deve ter notado segundo tantas vezes me pareceu), desde que tenho um coração não direi sensível mas grato - do que aliás me orgulho - pensei, ora bem, comemorar com o maior respeito a festiva data em perspectiva e, querendo me pôr em condições para poder me congratular também com o senhor, ao ir mudar o meu surrado casaco de casa pelo meu uniforme que eu tirara ao chegar, como de fato tirei, segundo o senhor decerto observou, príncipe, vendo-me depois toda a noite com o meu uniforme, como dizia, ao trocar os meus arreios ,esqueci a carteira no bolso do casaco.., tão verdade é o que digo que quando Deus quer castigar um homem Ele, primeiro que tudo, o priva da sua razão; e somente esta manhã, às sete e meia, ao acordar, pulei como um maluco e me precipitei logo para o meu casaco: o bolso estava vazio! A carteira tinha desaparecido!
- Puxa! Que coisa desagradável!
- Desagradável, deveras; e com verdadeiro tato o senhor acaba de achar a palavra para isso – acrescentou Liébediev não sem simulação.
- Bem, mas... - disse o príncipe, preocupado, ponderando. - Isso é sério, você bem que sabe.
- Sério, deveras. Novamente, príncipe, o senhor encontrou a palavra para descrever...
- Ora! Pare com isso, Liébediev. Não são palavras o que temos de procurar neste caso. Você acha que a teria deixado cair do bolso, quando estava bêbado?
- Podia bem ser. Tudo pode acontecer quando se está bêbado, conforme o senhor tão bem se expressou, honorabilíssimo príncipe. Mas eu lhe peço que considere comigo o seguinte: se deixei cair o artigo do meu bolso ao mudar o casaco, o artigo caído devia estar no assoalho. Onde está o artigo?
- Não o teria você posto em uma gaveta, em uma mesa?
- Já procurei em tudo, desarrumei tudo, embora não tivesse escondido em lugar nenhum e nem aberto gaveta nenhuma, conforme me lembro perfeitamente.
- Já olhou no seu armário?
- A primeira coisa que fiz foi espiar no armário e já tornei várias vezes a procurar dentro dele. E como havia eu de o ter colocado no armário, honorabilíssimo príncipe?
- Confesso que isso já está me amolando, Liébediev. Então alguém deve ter achado no assoalho.
- Ou tirado do meu bolso. Das duas alternativas, uma!
- O que mais me preocupa é saber quem seria. Eis a questão!
- Nem há dúvida. Esta é a grande questão. O senhor encontrou a palavra mesma, verdadeira, com maravilhosa exatidão e definiu a situação, ilustríssimo príncipe.
- Ora, Lukián Timoféietch, pare com essa Coisa ridícula, essa...
- Galhofa? - exclamou Liébediev juntando as mãos e as esfregando.
- Está bem, está bem, está tudo muito direito. Não estou zangado, não. E um outro negócio, agora. Estou com receio do pessoal. De quem suspeita você?
Dificílima e complicada pergunta. Da criada não desconfio: esteve sempre sentada na cozinha. De meus próprios filhos também não.
- É claro.
- Uma das visitas, então.
- Será possível?
- Totalmente e no mais alto grau impossível, mas tem de ser! Estou inclinado, pois, a admitir e convencidomesmo de que é um caso de furto. Quem sabe se não foi cometido à noite quando estávamos juntos, nessa mesma noite, depois, ou de manhã, por alguém que tenha passado a noite aqui?
- Ai, ai, meu Deus!
- Burdóvskii e Nikolái Ardaliónovitch naturalmente eu os excluo. Nem entraram no meu quarto.
- De pleno acordo. E mesmo que tivessem entrado. Quem passou a noite lá?
- Contando comigo, éramos quatro em dois quartos pegados o general, Keller, o Senhor Ferdichtchénko e eu. Portanto deve ter sido um de nós quatro.
- Um dos três, então. Mas quem?
- Contei comigo para ser correto moral e matematiCamente! Mas admitirá, príncipe, que eu pudesse parvamente ter roubado a mim mesmo, muito embora esses casos aconteçam?
- Ora, Liébediev que enfadonho é tudo isto! - exclamou o Príncipe.
- Voltemos ao ponto em que estávamos. Por que embrulha você as coisas?
Assim, pois, restam três. Primeiro, o Sr. Keller, instável beberrão e sob certos respeitos, muito liberal!
Quero referir-me ao que respeita a dinheiro, a gastar, a pagar, mas sob outros respeitos, mais cavalheiresco do que liberal em suas tendências. Dormiu aqui, no quarto do doente, e foi só alta noite que apareceu no pavilhão sob o pretexto de lhe ser difícil dormir no chão sem nada.
- Você suspeita dele?
- Suspeitei. Quando às oito horas pulei da cama como um maluco, batendo na testa com as mãos, imediatamente acordei o general que dormia um sono de inocência. Tomando em consideração o estranho desaparecimento de Ferdichtchénko, o que por si só levantou nossas suspeitas, resolvemos revistar Keller que jazia estirado dormindo como uma toupeira. Revistamo-lo todinho. Não lhe achamos um níquel nos bolsos e não havia um só bolso que não estivesse rasgado. Tinha só um lenço de algodão, Listrado de azul, em um estado nojento. E também uma carta de amor de uma arrumadeira ameaçando-o e pedindo dinheiro! E alguns pedaços do artigo que o senhor ouviu. O general decidiu que ele era inocente. Para completar nossas investigações acordamos o homem, sacudindo-o violentamente. Mal pôde entender do que se tratava. Escancarou a boca com um ar de bêbado; a expressão do seu rosto era ao mesmo tempo cômica e inocente; aloucada, mesmo. Não foi ele!
- Bem, isso me satisfaz - disse o príncipe, com satisfação. - Estava mais desconfiado dele, creio eu.
- O senhor estava com receio? Então o senhor tem qualquer razão para isso!
- E Liébediev perscrutou-o nos olhos.
- Oh, não! Não quero dizer nada - gaguejou o príncipe. - Foi estupidez minha dizer que o meu maior receio era ele. Faça-me um favor, Liébediev, de não repetir isso a ninguém!...
- Príncipe, príncipe, as suas palavras estão no meu coração, no fundo do meu coração. E o meu coração é uma tumba!... - asseverou Liébediev, em êxtase, apertando o chapéu contra o peito.
- Bem, bem. Então deve ter sido Ferdichtchénko. Isto é, quero dizer que você passa a suspeitar de Ferdichtchénko!
- Quem mais? - articulou Liébediev mansamente, olhando com atenção para Míchkin.
- Efetivamente. Quem mais estava lá?... Mas insisto ainda, que provas existem?
- Há uma prova. Primeiro haver desaparecido às sete horas da manhã, ou mesmo antes.
- Já soube. Kólia me contou que Ferdichtchénko fora até ele e dissera que ia passar o dia com... esqueci o nome... certo amigo dele.
- Vílkin. Então Nikolái Ardaliónovitch já lhe tinha contado?
- O furto, não.
- Ele ignora, pois a esse tempo eu ainda o conservava em segredo. Então foi ter com Vilkín. Devo dizer que não há nada de estranho em um bêbado ir ver um outro bêbado como ele próprio, mesmo que isso seja antes do dia raiar e sem razão nenhuma. Mas aqui temos um rastro. Antes de sair deixou o endereço... Agora, príncipe, sigamos a questão. Por que deixou ele um endereço? Por que propositadamente se desviou ele do caminho da saída direita, indo dizer a Nikolái Ardalionóvitch que ia passar o dia com Vilkín? Por que esse aviso? Não, aqui temos nós a astúcia, a astúcia de um gatuno! É o mesmo que dizer “Não encobrirei os meus traços de propósito; portanto, como serei eu o gatuno? Deixará dito um gatuno para onde foi?” Trata-se de um excesso de zelo para desviar suspeitas e para apagar, por assim dizer, as pegadas na areia... Está me entendendo, honorabilíssimo príncipe?
- Compreendo, compreendo perfeitamente; mas isso tudo não basta.
- Um segundo rastro. A pista acabou se descobrindo que foi falsa, pois o endereço não é exato. Uma hora mais tarde, isto é, às oito horas, estava eu batendo à porta de Vílkin. Mora na Quinta Rua e eu também o conheço. Não havia sinal de Ferdichtchénko; e a criada que é surda como uma pedra, me disse que alguém tinha realmente batido uma hora antes e com tanta força que quebrara a campainha. Mas a criada não quis abrir a porta para não acordar o Sr. Vílkin e decerto não desejando tampouco se levantar ela própria.
- E é essa toda a sua suspeita? Não é muita.
- Príncipe, mas de quem suspeitar, então? Julgue o senhor próprio - concluiu Liébediev, com a máxima persuasão; e havia um brilho de qualquer coisa dissimulada em seu arreganho de dentes.
- Você deve dar uma batida em seus cômodos outra vez, e espiar gaveta por gaveta - aconselhou o príncipe, com certa veemência, depois de refletir um pouco.
- Já revistei tudo - acentuou Liébediev, insinuando qualquer coisa mais.
- Arre! Por que diabo foi você mudar de casaco? - E Míchkin deu um soco na mesa com certo aborrecimento.
- Ora, aí está uma pergunta parecida com uma outra em uma comédia fora da moda. Mas, bondoso príncipe, vejo que minha desgraça atingiu o seu coração. Não mereço isso. Quero dizer que sozinho não valho isso, mas o senhor ficou preocupado com o criminoso... Com este Ferdichtchénko, que não vale um caracol!
- Realmente. Você não deixou de me aborrecer. - O príncipe interrompeu-o com certa acrimônia e de um modo vago. - Que pretende então você fazer... já que está tão convencido de que foi Ferdichtchénko?
- Príncipe, honorabilíssimo príncipe, quem mais então poderia ter sido? - perguntou Liébediev, agitando-se com crescente persuasão. - Conforme o senhor vê, a falta de mais alguém em quem me deter, e por assim dizer, a completa impossibilidade de suspeitar de quem quer que seja a não ser Ferdichtchénko, torna-se, por assim dizer, uma peça de convicção; a terceira, contra o mesmo Sr. Ferdichtchénko. Ora, pergunto eu, novamente, quem mais podia ter sido? O senhor não suspeitaria de Burdóvskii, a meu ver?!
- Que asneira!
- Nem do general! Ah! Ah! Ah!
- Você está doido! - disse o príncipe, quase furioso, mexendo-se impacientemente no sofá.
- Doido, não há dúvida! Ah! Ah! Ah! E ele me divertiu também. Refiro-me ao general. Fui com ele, ainda agora, quando a pista ainda estava fresca, à casa de Vílkin... e devo dizer-lhe que o general estava mais impressionado do que quando o acordei, o que aliás foi a primeira coisa que fiz, quando dei pelo extravio. A cara dele mudou. Ficou vermelho; depois, pálido. E por fim caiu em violenta indignação, e muito justa, como se antes de qualquer outra coisa eu tivesse suspeitado dele! É um homem honorabilíssimo. Freqüentemente está contando mentiras, por fraqueza; mas é pessoa dos mais nobres sentimentos. Um homem, além disso, sem estratagemas, que inspira a maior confiança, por sua inteireza. Já lhe disse uma vez que o que sinto por ele não é só um fraco, é afeição! Inesperadamente ele parou no meio da rua, desabotoou o casaco, pôs o peito à mostra e berrou: “Reviste! Já que revistou Keller, por que não me há de revistar? O direito é isso!” Os seus braços e as suas mãos estavam tremendo; ficou completamente lívido. Olhava-me ameaçadoramente. Ri e disse: “Escute aqui uma coisa, general! Se alguém ousasse dizer tal calúnia do senhor, eu arrancaria minha cabeça com as minhas próprias mãos. Haveria de pô-la em uma bandeja e a levaria a quem desconfiasse do senhor. Está vendo esta cabeça? perguntaria eu. Pois é com ela que respondo por ele. E não é só isso. Caminharia dentro do fogo, por ele. Eis o que eu faria, general!” - disse-lhe eu. Então, ali em plena rua, ele me apertou nos braços, desfez-se em lágrimas; tremendo, e me ficou apertando tanto que me provocou tosse. “Tu és o único amigo que me resta no infortúnio!” disse. Aquilo é que é homem de sentimento. E, então, logo me contou ali mesmo uma anedota: que uma vez fora suspeitado, na sua mocidade, de ter furtado quinhentos rublos. Mas que logo no dia seguinte aconteceu que se precipitou por uma casa incendiada adentro, e extraiu das chamas para fora o conde que tinha suspeitado dele, e mais Nina Aleksándrovna que então era uma menina. O conde abraçara-o e disso proviera seu casamento com Nina Aleksándrovna. E mais ainda.., que, no dia seguinte, foram encontrar nas ruínas da casa uma caixa com o dinheiro dado como perdido. Era um cofre forte inglês, com uma fechadura com segredo e que tinha sido posto debaixo do assoalho, de maneira que ninguém notara, só sendo achado depois do incêndio. Uma mentira com todos os ff e rr. Mas, quando se referiu a Nina Aleksándrovna, aí não pôde, chorou. De fato, Nina Aleksándrovna é a mais respeitável das damas, apesar de estar zangada comigo.
- Você não a conhece, não é?
- Muito mal, se tanto; mas gostaria, de todo o coração, quando mais não fosse para me justificar perante ela.
Nina Aleksándrovna embirra comigo porque acha que eu desencaminho para a bebedeira o seu esposo. Mal sabe essa digna senhora que, longe de desencaminhá-lo, eu o refreio. O que venho tentando é tirá-lo da mais perniciosa companhia. De mais a mais, trata-se de um amigo, e confesso que não o quero abandonar, agora. De fato, justo e feito. Onde ele vai, lá estou eu. Pois o único meio de manobrar com ele épor intermédio da sensibilidade. Chegou até a desistir de visitar a viúva do seu capitão, agora, muito embora, secretamente, tenha saudades dela, afligindo-se muito, principalmente de manhã, quando calça as suas botas. Não sei em que pé se acha, presentemente Ele está sem dinheiro e isso atrapalha, pois como há de ir vê-la sem isso? Ele não lhe tem pedido dinheiro, honorabilíssimo príncipe?
- Não tem.
- É porque tem vergonha. Já deu a entender. Confessoume, de fato, que pensou incomodá-lo, mas que se intimidou porque o senhor o obsequiou, não há muito: e além disso acha que o senhor não lhe daria. Disse-me isso como a um amigo.
- Então você lhe dá dinheiro?
- Príncipe, honorabilíssimo príncipe, a esse homem não dei dinheiro apenas, mas, a bem dizer, a vida... Mas não, não quero exagerar, a minha vida não; mas se fosse um caso de febre, um abscesso ou mesmo uma tosse, estaria pronto a suportar no lugar dele; realmente o faria. Pois o considero como um grande homem, embora decaído! Sim, com efeito; e não dinheiro só!
- Então você lhe dá dinheiro?
- N... ão; dinheiro não tenho dado. Não tenho dado. E ele está farto de saber que não darei, não. Mas isso temsido somente com o ponto de vista de ajudá-lo em aperfeiçoamento e reabilitação. Agora está insistindo para ir comigo a Petersburgo, para encontrarmos o Sr. Ferdichtchénko enquanto a pista está fresca. Pois estamos cientes de que foi para lá. O meu general é todo impetuosidade, mas desconfio que o que quer é escapulir, até Petersburgo, para ir visitar a tal viúva. Vou deixar que venha comigo, de propósito, confesso, e que concordamos tomar diferentes direções logo que chegarmos lá, de maneira a apanharmos mais facilmente o Sr. Ferdichtchénko. Assim, pois, vou deixá-lo ir e depois lhe caio em cima inesperadamente, como neve sobre a cabeça, em casa da viúva, só para envergonhá-lo, como a chefe de família e como a homem, propnamente, falando de um modo geral.
- Mas ao menos não faça nenhum estardalhaço, Líébediev. Pelo amor de Deus, não faça nenhum distúrbio - disse o príncipe. abaixando a voz, com certa inquietação.
- Oh! Não. Simplesmente para envergonhá-lo e ver que espécie de cara ele faz, pois só pela cara se pode julgar muita coisa. estimado príncipe, principalmente em um homem como ele. Ah, príncipe, grande como é agora a minha preocupação, não posso ainda assim deixar de pensar nele e na reforma da sua moral! Tenho um grande favor a pedir-lhe, príncipe, e devo confessar que foi expressamente para isso que vim perante o senhor. O príncipe tem intimidade na casa dele, já morou mesmo com ele; se, pois, o senhor pudesse ajudar-me, honorabilíssimo príncipe. inteiramente por causa dele e de sua felicidade...
E Liébediev não se conteve e juntou as mãos, como em súplica.
- Ajudá-lo? Ajudá-lo como? Acredite, estou fazendo todo o possível a ver se o entendo, Liébediev.
- Foi inteiramente com esta convicção que vim até aqui. Poderíamos agir por intermédio de Nina Aleksándrovna, constantemente de olho nele e, por assim dizer, encaminhando-o para o seio da família. Não os conheço infelizmente. Contudo, Nikolái Ardaliónovitch adora o senhor, por assim dizer, com todas as fibras do seu coração juvenil, e ele poderia ajudar talvez...
- Meter Nina Aleksándrovna nessa história, não! Pelo amor de Deus! Nem Kólia, tampouco... Mas talvez eu ainda não tenha conseguido entender você, Liébediev.
- Ora, não há nada que entender. - Liébediev ergueu-se de um salto da sua cadeira. - Simpatia, simpatia e ternura - eis todo o tratamento que o nosso doente requer. O senhor me permite, príncipe, pensar nele como em um doente?
- Sim, o que mostra a sua delicadeza e inteligência.
- A bem da clareza, devo explicar com um exemplo tirado da prática. O senhor vê a espécie de homem que ele é. A única fraqueza agora é para com essa viúva, que não lhe permitirá entrada sem dinheiro; e é em tal casa que penso descobri-lo hoje, para o seu próprio bem. Mas, supondo que não fosse só a viúva do capitão; supondo que ele tivesse cometido atualmente um crime, ou de qualquer modo uma ação desonrosa (do que aliás ele naturalmente é incapaz), mesmo então, digo eu, o senhor poderia fazer alguma coisa por ele, simplesmente por generosa ternura, por assim dizer, pois ele é o mais sensível dos homens. Acredite-me, não se conteria por cinco dias; falaria contra si mesmo; choraria e confessaria, principalmente se alguém trabalhasse com habilidade, e com um estilo honroso, por intermédio de sua acautelada família, e o senhor, em suas idas e vindas... Oh, caridosíssimo príncipe! - Liébediev caiu em uma espécie de exaltação. - Naturalmente não estou afirmando que ele... Estou pronto a derramar minha última gota de sangue, por assim dizer, por ele, neste momento, muito embora a sua incontinência, a sua bebedeira e a viúva do capitão, e tudo o mais, em conjunto, possam levá-lo a...
- Em tal caso estou pronto a ajudá-lo - disse o príncipe, levantando-se. - Apenas confesso, Liébediev, que estou terrivelmente inquieto. Diga-me, você ainda... Em uma palavra, você mesmo disse que suspeita de Ferdíchtchénko...
- Ora, quem mais? Sinceramente, príncipe? - E de novo Liébediev juntou as mãos, suplicemente, com um sorriso adocicado.
O príncipe franziu a testa e se moveu do seu lugar.
- Repare bem: um erro, Lukián Timoféietch, seria uma coisa terrível. Esse Ferdichtchénko... Eu não gostaria de falar mal dele... Esse Ferdichtchénko... ora, quem sabe, talvez seja ele... Quero dizer que talvez ele seja mais capaz do que... qualquer outro...
Liébediev esgazeou os olhos e apurou os ouvidos.
- Vê você - continuou o príncipe, mais carrancudo ainda e vacilando, à medida que passeava para cima e para baixo, pela varanda, esforçando-se por não olhar Liébediev -, procurarei fazer-me entender... Disseram-me a respeito do Sr. Ferdichtchénko que era um homem diante do qual a gente devia ter cuidado em não dizer coisa demais, está compreendendo? Digo isto para mostrar que talvez ele realmente seja mais capaz do que qualquer outro... É preciso, de toda maneira, não se cometer um equívoco, e essa é a principal coisa, está entendendo?
- Quem lhe disse isso a respeito do Sr. Ferdichtchénko? -jogou Liébediev, de repente.
- Foi-me segredado isso... Eu próprio não acredito muito, contudo... E me amola bastante ter-lhe dito isso. Assevero-lhe que não acredito, eu próprio... deve ser leviandade de quem disse. Irra! Que estúpido fui!
- Vê o senhor, príncipe - disse Liébediev, contraindo-se todo -, isto é importante. Isto é importante exatamente agora. Não me refiro ao Sr. Ferdichtchénko. Refiro-me ao modo por que esta informação chegou ao senhor. - Dizendo isso Liébediev deu uns passinhos pela frente e pelas costas do príncipe, tentando emparelhar com ele. - Tenho uma certa coisa a dizer-lhe, príncipe: ainda agora mesmo, quando eu ia indo com o general à casa de Vílkin, depois que me pespegou aquela léria do incêndio, ele estava fervendo, naturalmente, ainda com cólera; e sem mais aquela, começou a despejar a mesma suspeita a respeito do Sr. Ferdichtchénko, mas de um modo tão estranho e incoerente que não pude deixar de lhe fazer certas perguntas, e acabei me convencendo que toda aquela longa história não era mais do que uma inspiração apenas de Sua Excelência, erguendo-se, solitária, por assim dizer, do seu generoso coração. Pois ele mente inteiramente por não poder restringir a sua sentimentalidade. Agora, bondosamente considere o senhor isto: se ele mentiu, e tenho certeza que mentiu, logo não foi dele que o senhor ouviu o que há pouco me disse. Foi uma inspiração de momento, príncipe, compreende o senhor? Logo, foi outra pessoa que lhe disse aquilo!... Isto é muito importante... Isto é muito importante... Isto é muito importante... e... por assim dizer...
- Foi Kólia quem me disse, ainda agora, e foi dito por seu pai nesta manhã, quando o encontrou às seis horas, entre seis e sete horas, no corredor, ao sair para qualquer coisa.
E o príncipe contou a história, mais minuciosamente.
- Ah! Bem, isso é o que se chama um indício. - E Liébediev riu, sem fazer ruído, friccionando as mãos. - Tal como eu pensei. Quer isso dizer que Sua Excelência acordou do seu sono de inocência às seis horas, expressamente para ir acordar seu dileto filho, e avisá-lo do grande perigo de se misturar com o Sr. Ferdichtchénko. Que perigoso homem não deve ser esse Sr. Ferdichtchénko! E que paternal solicitude, da parte de Sua Excelência!
- Escute, Liébediev - o príncipe estava completamente atordoado -, ouça, guarde segredo absoluto sobre isso. Não faça clamor. Peço, exijo, Liébediev. Estou resolvido a ajudá-lo mas com a condição de ninguém vir a saber nada sobre este assunto.
- Fique tranqüilo, boníssimo príncipe, muito leal e generoso príncipe - exclamou Liébediev em perfeito êxtase. - Esteja tranqüilo que tudo isso ficará enterrado em meu coração, que é um coração galhardo! Daria o meu sangue, gota a gota. Ilustre príncipe, sou uma pobre criatura quer de alma quer de espírito, mas pergunte a qualquer outra pobre criatura, a um tratante mesmo qualquer, com quem preferiria ele ter negócios, com um bandido de igual laia ou com um coração nobre como o senhor! E ele responderia logo que preferia a pessoa de coração leal, nobilíssimo príncipe! Ora, que significa tal opção? O triunfo excelso da virtude! Adeus, honorabilíssima Alteza. Cumpre agir de mansinho, muito em surdina, e... de mãos dadas...
Só à noite, quando teve coragem de as ler, foi que o príncipe compreendia por que ficava gelado, sempre que tocava naquelas três cartas.
Já de manhã, quando se estirara na espreguiçadeira da varanda, sem resolver abri-las, tivera, outra vez, mal caíra em um sono profundo, outro sonho desagradável. Novamente a “mulher pecaminosa” lhe apareceu. E novamente o olhava através das lágrimas que lhe perlavam os longos cílios, e lhe acenava que a seguisse. O príncipe acordara, lembrando-se, como tinha acontecido antes, da angústia que o seu resto lhe causava. Teve vontade de ir procurá-la imediatamente; mas não podia. Então, quase desesperado, abriu as cartas e começou a lê-las.
Estas cartas também eram como um sonho! Às vezes temos sonhos estranhos. Impossíveis e incríveis sonhos. Ao acordar, lembramo-nos deles e passamos diante de um fato estranho, lembramonos, primeiro que tudo, de que a nossa razão não nos abandonou completamente durante o sonho. Recordamos mesmo que agimos sagazmente, e até com lógica, durante aquele tempo todo, aquele longo, longo tempo em que nos cercavam assassinos que nos enganavam, escondendo as suas intenções e se comportando amistosamente conosco, embora tivessem uma arma preparada e só esperassem um sinal. Lembramo-nos como os iludimos escondendo-nos astutamente, e como depois nos déramos conta de que eles tinham percebido nosso esconderijo, mas fingiam não saber onde estávamos escondidos; e, apesar disso, dissimulávamos de novo e os enganávamos outra vez. Como nos lembramos de tudo isso, claramente! Mas como foi que pudemos reconciliar a nossa razão com os notórios absurdos e impossibilidades através dos quais os nossos sonhos surgiam? Um dos nossos assassinos transformava-se em mulher, diante de nossos olhos; e de mulher, em um manhoso e repugnante anãozinho; e aceitávamos isso logo, como uma coisa que, embora se tivesse dado, não nos devesse causar surpresa, naquela hora mesma em que, por um outro lado, a nossa razão atingira a mais alta tensão e mostrara toda a sua extraordinária força, argúcia, sagacidade e lógica!
E, outrossim, ao acordar e voltar plenamente à realidade, como é que sentíamos a toda hora, umas vezes com mais extraordinária intensidade do que outra, que ficava alguma coisa sem explicação, atrás desse sonho?
Ríamo-nos, ante o absurdo do nosso sonho mas, simultaneamente, sentíamos que, intercalado entre esses absurdos, permanecia um pensamento oculto; e que esse pensamento era real, pertencia, como coisa e como fato, à nossa vida de então e de agora; alguma coisa que existe e existiu sempre em nosso coração. E além disso, uma outra coisa nova, profética, mas que não esperávamos, nos era dita, em nosso sonho. A impressão colhida pode ser alegre ou angustiosa; mas é viva, embora não possamos saber nem reter o que nos foi dito.
E assim aconteceu, mais ou menos, depois que o príncipe abriu e leu aquelas cartas. E antes mesmo de as desdobrar, sentiu que o só fato da existência e significação delas era como um pesadelo. O que a levaria a escrever à outra?, perguntava-se ele, enquanto vagabundeava, sozinho, a noite anterior (certos momentos nem sabendo para onde ia). Como pudera ela ter escrito isso? Como pudera tal fantasia se ter levantado em seu espírito? Mas essa fantasia, agora, tomara forma. E a coisa mais espantosa, para ele, era que, ao ler aquelas cartas, quase acreditava haver descoberto a justificativa dessa fantasia. Mesmo sendo, como parecia, um sonho, um pesadelo, uma loucura; algo, porém, de atormentadoramente real, algo de angustiosamente verdadeiro, justificava o sonho, o pesadelo e a loucura! Horas seguidas, os fragmentos do que tinha lido o perseguiam; examinava-os, refletia sobre eles. Chegou a ficar inclinado a dizer a si mesmo que tinha previsto tudo isso, e tudo conhecido de antemão. Era como se tivesse lido antes, há muito tempo já, e que tudo por que se estava afligindo agora já lhe tivesse dado sofrimento antes, em sonho, como se o que se escondia naquelas cartas já fosse uma coisa lida, “em tempos”.
Quando abrirdes esta carta - assim começava a primeira epístola - ireis logo, antes de qualquer outra coisa, olhar a assinatura. E a assinatura, então, vos dirá tudo; e tudo ficará explicado. Portanto, não é preciso fazer nenhuma justificativa. Se, de um certo modo, eu estivesse no mesmo nível em que estais, esta minha impertinência poderia vos ofender. Mas, quem sou eu, e quem sois vós? Somos dois extremos opostos, e eu estou tão infinitamente abaixo de vós que não vos posso insultar, mesmo que o quisesse.
Em outro lugar, escrevera:
Não tomeis as minhas palavras como superabundância de um espírito doentio, mas... vós sois, para mim, a perfeição! Eu vos vi! Eu vos vejo todos os dias. Eu não vos julgo. Não foi através da razão que chequei a concluir que sois a perfeição. Apenas cheguei a isso pela fé. Mas... um mal vos faço: amo-vos!
E a perfeição não deve ser amada. Só se pode olhar a perfeição como perfeição. Não é assim? E, todavia, vos amo até à paixão. E se o amor iguala, não fiqueis inquieta: não me pus em pé de igualdade perante vós, nem mesmo no mais íntimo de mim mesma. Reparai bem que escrevi: “Não fiqueis inquieta!” Ficareis, possivelmente, intranqüila? Beijaria as vossas pegadas, se pudesse! Oh! Não me ponho no mesmo alto nível em que estais, olhai a minha assinatura. Será suficiente que olheis a minha assinatura.
Escrevia ela, em uma outra carta:
Noto, porém, que junto sempre o vosso nome com o dele! E, todavia, nunca, uma vez sequer, me perguntei a mim mesma se vós o amais. E ele vos ama, embora só vos tenha visto uma vez. Ele pensa em vós, como em uma “luz “. Foram as próprias palavras dele, eu as ouvi, mas, mesmo sem palavras, eu sabia que éreis uma luz” para ele. Vivi um mês inteiro ao seu lado, e compreendi, pude compreender então que também o amais. Assim, pois, para mim, vós e ele sois um.
Escrevia ela, depois:
Que significa isso, Deus meu?! Ontem passei por vós e me pareceu que enrubescestes. Mas não pode ser.
Foi equívoco meu. Se fosseis conduzida a um antro asqueroso e vos mostrassem o vício, em sua crueza, não deveríeis enrubescer. Sois muito sublime para vos melindrardes com um insulto. Poderíeis odiar o que for baixo e vil, não por vós, mas por causa dos outros, daqueles que estão errados. Para vós, porém, não há quem seja mau. Quereis saber? E penso que deveis me amar. Sois para mim o mesmo que para ele: “um raio de luz “. Um anjo não pode odiar, não pode deixar de amar. Pode alguém, não me refiro a um anjo, mas a um ser humano, amar a todos os homens, a todo seu próximo? Muita vez me tenho feito esta interrogação. Naturalmente que não. Não é natural, com efeito. No amor abstrato para com a humanidade, não se ama a ninguém, e sim a si próprio. Mas isso não conta, para nós, e vós sois diferente. Como não amaríeis alguém, se não sois comparável a ninguém, estando, como estais, acima de todo insulto e de todo ressentimento pessoal? Vós, e ninguém mais, podeis amar sem egoísmo. Só vós podeis amar, não só por vós, mas por ele, que tanto amais. Ah! Como me seria amargo vir a saber que sentis vergonha, ou cólera, motivadas por mim! Isso seria a vossa ruína, pois cairíeis ao meu nível, imediatamente!
Ontem, depois de vos ter encontrado, voltei para casa e inventei um quadro. Os artistas geralmente pintam o Cristo tal como Ele aparece nas histórias do Evangelho. Eu O pintaria diferentemente. imaginálo-ia sozinho. (Os Discípulos algumas vezes O devem ter deixado sozinho.) Apenas deixaria uma criancinha ao lado d’Ele. Uma criança, a brincar ao lado dele, dizendo-Lhe qualquer coisa, com a sua vozinha de pássaro. Cristo teria estado a escutar, mas agora estaria pensativo, com a Sua mão descansando inconscientemente sobre a linda cabeça da criança.
Ele estaria olhando para a distância, para o horizonte. Um pensamento, do tamanho do mundo, habita nos Seus olhos. A Sua face está conturbada. A criança se apoiaria calada, sobre o joelho de Cristo, o rostinho pousado sobre a mão; a cabeça virada um pouco para cima, olharia com atenção para Ele, refletindo, com aquele jeitinho pensativo que as crianças às vezes têm. E o sol estaria a descambar. Este seria o meu quadro! Vós sois inocente, e, na vossa inocência, jaz toda a vossa perfeição. Lembrai-vos disto, tão só. Que tendes vós que ver com a minha paixão por vós? Agora sois toda minha; estarei toda a minha vida ao vosso lado... Morrerei breve...
Finalmente, na derradeira carta, estava escrito:
Pelo amor de Deus, não penseis nada de mim, e nem que me estou aviltando em escrever-vos, desta forma, ou que pertença à classe de gente que tem prazer em se aviltar, mesmo que isso o seja só por orgulho. Não. Eu tenho a minha consolação, embora me seja muito difícil explicar-vos qual e como seja. A mim própria me seria difícil explicar isso de modo claro. E como me atormenta não o poder fazer! Mas uma coisa sei: que não me posso aviltar nem mesmo em um acesso de orgulho que porventura viesse a ter! E também sou incapaz de um voluntário aviltamento, mesmo por pureza. Assim, pois, não me estou aviltando, absolutamente.
Por que será que desejo unir-vos bem? Por vossa ou por minha causa? Por minha, naturalmente! Por minha causa, lógicamente, pois assim solverei todas as minhas dificuldades. Já desde muito que venho dizendo isso a mim mesma. Ouvi dizer que vossa irmã . Adelaída dissera do meu retrato, certa vez, que, com uma beleza assim, era possível virar o mundo de cima para baixo.
Oh! Mas eu renunciei ao mundo! Diverte-vos, talvez, ouvir isso de mim, tendo-me encontrado, como já me encontrastes, coberta de rendas e de diamantes em companhia de bêbados e de devassos?! Ah! Nem chegueis a imaginar isso! Já cessei, decerto, de existir, e sei disso muito bem. Deus sabe o que, em meu lugar, vive dentro de mim. Leio isso todos os dias, em dois terríveis olhos que estão sempre me contemplando, mesmo quando não estão diante de mim. Estes olhos estão “calados” agora (sempre foram silenciosos!) mas eu conheço os segredos deles. Ou melhor dele. A sua casa é sinistra e há um mistério dentro dela. E eu sei que ele tem escondida, em uma caixa, uma navalha, enrolado em seda como a daquele assassino de Moscou. E que, como aquele outro, ele vive assim, com sua mãe, e guarda uma navalha enrolada em seda para, com ela, cortar uma garganta. Todo o tempo em que estive naquela casa se me afigurava que, não sei onde, ali debaixo do assoalho, devia estar um cadáver, escondido talvez por seu pai, amortalhado em um encerado, cercado de jarras contendo desinfetante Jdánov. Poderia mostrar-vos o canto de que desconfio. Ele não fala, mas estou farta de saber que me ama tanto que é impossível que não me odeie! O vosso casamento e o meu realizar-se-ão na mesma época. Já fixamos isso.
Como haveria ele de me esconder segredos?! Eu seria capaz de o matar, só lhe inspirando terror, mais nada! Mas ele me matará antes! Ainda agora, há pouco, ele riu e disse que eu estava delirando.
E sabe que vos estou escrevendo...
E havia outros, muitos outros delírios mais, naquelas cartas. Uma delas, escrita em uma letra pequena – a segunda - enchia duas grandes tiras de papel de bloco.
Por fim, o príncipe deixou a escuridão do parque por onde vagabundeara por longo tempo, como já o fizera na noite anterior. A noite clara, límpida, pareceu-lhe mais clara do que nunca.
“Ainda será muito cedo?” (Esquecera de trazer relógio.) Representou-se-lhe ouvir música, a pouca distância.
“Deve ser no Vauxhall”, pensou. “Certamente elas não foram até lá, hoje”. -Ao fazer esta reflexão, se deu conta de que estava perto da vila dos Epantchín. Sabia perfeitamente que lhe tinha de acontecer isso, encontrar-se, finalmente, ali; e foi com o coração pulsando demais que subiu os degraus da varanda, sem encontrar ninguém.
A casa parecia vazia. Esperou; depois abriu a porta que dava para o salão. Eles nunca a fecham”. Este pensamento vislumbrou-o através do espírito; mas a sala também estava vazia, imersa quase na escuridão. Ficou parado, no meio, perplexo. E nisto, uma porta se abriu e Aleksándra entrou, vinda de um cômodo, com uma vela na mão.
Levou um susto, mas reconheceu Míchkin e parou, diante dele, em uma atitude interrogativa. Pelo modo, ela simplesmente ia atravessar a sala de uma porta para outra, nem lhe passando pela idéia que iria encontrar alguém.
- Como foi que veio até aqui?
- Entrei...
- Mamãe não está se sentindo bem; Agláia também. Adelaída já foi para a cama. E é o que eu vou fazer.
Estivemos em casa sem mais ninguém, toda a noite. Papai e o príncipe estão para Petersburgo.
- Eu vim.., até aqui... assim...
- Sabe que horas já são?
- N...ão.
- Já passa da meia-noite. Nós nos deitamos sempre à uma hora.
- Ora essa! Eu pensava que fossem umas nove e meia...
- Não faz mal! - riu ela. - E por que não veio antes? Nós o estivemos esperando.
- Pensei que... - gaguejou ele, já a sair.
- Então, adeus! Como se vão rir, amanhã, quando eu contar...
Voltou para casa, pela estrada que rodeia o parque. O seu coração batia tanto como se tivesse levado um susto. Os pensamentos o alvoroçavam, e tudo, à sua volta, se transfigurava em um sonho. E, de repente, como naquele sonho que o fizera acordar sobressaltado, duas vezes, na véspera, a mesma aparição surgiu diante dele.
A mesma mulher, saindo do parque, se estampou diante dele, como se o estivesse esperando ali. Estremeceu e parou. Ela lhe tomou a mão e a apertou. “Não, não foi uma aparição!” Era ela, e estava, enfim, pela primeira vez depois que se tinham separado, diante dele, parada, dizendo-lhe qualquer coisa, enquanto ele a olhava em silêncio. Como o seu coração crescia, e que dor angustiante que isso tudo lhe causava, pobre coração! Ah! Como esquecer que o coração lhe doía sempre, assim, quando a encontrava! Ela caiu de joelhos; diante dele, ali na estrada, como uma demente. Deu um passo para trás, estupefato. Ela tentava beijar-lhe as mãos, prendendo-as e, tal como no sonho daquela noite, lágrimas fulgiam em seus longos cílios.
- Levantai-vos! Levantai-vos! - ciciou, muito zonzo, tentando erguê-la.
- Estás feliz? És feliz? perguntava ela. - Dize-me uma palavra só. Estás feliz, agora, hoje, neste momento?
Estiveste com ela? Que foi que ela te disse? - E não se levantava e nem o ouvia. Fazia-lhe as perguntas atropeladamente, tinha pressa em falar, como se estivesse sendo perseguida. - Vou-me embora amanhã, como mandaste dizer. Eu não quero... É a última vez que te estou vendo. A última! Desta vez é absolutamente a última!
- Acalmai-vos! Levantai-vos! - disse ele desesperado.
Ela olhava-o vorazmente, apertando-lhe as mãos.
- Adeus! - disse, por fim. Levantou-se e foi embora, apressadamente, quase a correr. E então o príncipe divísou Parfión que inesperadamente se destacou da sombra e a tomou por um dos braços, levando-a.
- Espere um pouco, príncipe - disse Rogójin, de lá. - Volto em menos de cinco minutos.
E em menos de cinco minutos voltava, de fato, encontrando o príncipe no mesmíssimo lugar.
- Ajudei-a a subir para a carruagem - disse. - Estivemos aqui esperando, na esquina, desde as dez horas. Ela sabia que o senhor devia estar na casa daquela jovem, esta noite. Eu lhe tinha contado que o senhor me escreveu hoje. Ela jurou que não escreverá mais para aquela jovem. Prometeu-me, e irá embora daqui amanhã, conforme o senhor deseja. Mas desejou vê-lo pela última vez, apesar do senhor se ter recusado a vê-la. Estivemos esperando ali, naquele banco, para lhe sairmos ao encontro, quando estivesse de volta.
- Foi você que a trouxe, ou ela veio por sua própria vontade?
- Por que não? - Rogójin arreganhou os dentes. - Vi o que á não ignorava. Já leu as cartas? Já?
- E é verdade que ela lhas mostrava? - perguntou o príncipe, impressionado por essa idéia.
- Naturalmente. Ela me ia mostrando à medida que escrevia cada uma delas. Aquela a respeito da navalha, também, ah, ah! Lembra-se?
- A coitada está louca! - exclamou o príncipe, torcendo as mãos, convulsamente.
- Quem sabe lá? Talvez não! - disse Rogójin com voz muito baixa, como se falasse para si mesmo. E o príncipe a tal respeito não respondeu nada.
- Bem, então, adeus! - disse Parfión. - Eu também vou embora, amanhã. Não guarde ressentimento de mim. E deixe que lhe pergunte, irmão - acrescentou, virando-se: - por que não respondeu àquela pergunta:
“És feliz, ou não?”
- Não, não, não! - exclamou o príncipe, com inenarrável tristeza.
- Penso que não, também! Deveras! - Rogójin riu maliciosamente e foi embora, sem olhar para trás.
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