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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


INSÔNIA / Stephen-King
INSÔNIA / Stephen-King

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

INSÔNIA

Primeira Parte

 

DANDO CORDA NO RELÓGIO-DA-MORTE

 

A VELHICE É UMA ILHA CERCADA DE MORTE

Juan Montalvo Sobre a Beleza

 

NINGUÉM - e muito menos o Dr. Litchfield - disse francamente a Ralph Roberts que sua mulher ia morrer, mas chegou um momento em que Ralph compreendeu isso sem precisar que lhe dissessem. Nos meses de Março a Junho, sua cabeça passou por um período barulhento e atordoante - um período de reuniões com médicos, corridas nocturnas ao hospital com Carolyn, viagens a outros hospitais em outros estados para fazer testes especiais (Ralph gastava boa parte do tempo da viagem agradecendo a Deus pelo seguro médico de Carolyn, que tinha cobertura total), pesquisas pessoais na biblioteca pública de Derry, primeiro à procura de respostas que os especialistas pudessem ter deixado escapar, depois à procura de esperança e de alguma coisa a que se apegar.

Naqueles quatro meses lhe pareceu que o arrastavam, bêbado, por um parque de diversões maligno, em que as pessoas que se perdiam no labirinto de espelhos estavam realmente perdidas, as que andavam nos brinquedos estavam realmente aos berros, e os habitantes do Castelo das Bruxas o olhavam com sorrisos falsos nos lábios e terror nos olhos. Ralph se apercebeu disso aí pelo meio de Maio, e quando Junho chegou, ele começou a compreender que, nesta feira dos horrores, os mascates da medicina só tinham remédios inócuos para vender e que o ritmo alegre e rápido da música que saía dos alto-falantes já,não escondia muito bem que se tocava "A marcha fúnebre". Era um parque de diversões, sim, mas de almas perdidas.

Ralph continuou a negar essas imagens terríveis - e a ideia ainda mais terrível que o espreitava por trás delas durante todo o início do verão de 1992 mas, quando Junho cedeu a vez a Julho, isto se tornou finalmente impossível. A pior onda de calor desde 1971 atravessou o Maine central, e Derry cozinhou num caldo de mormaço, umidade e temperaturas diárias em torno dos 32 graus. A cidade - que não era uma metrópole movimentada nem nos seus melhores dias - mergulhou num completo estupor, e foi nesse silêncio abafado que Ralph Roberts ouviu pela primeira vez o tiquetaque do relógio-da-morte e compreendeu que, na passagem do verdor frio e úmido de Junho para a imobilidade ressecada de julho, as chances mínimas de Carolyn se eclipsaram. Ela ia morrer. Não neste verão, provavelmente - os médicos diziam que ainda contavam com alguns coringas escondidos nas mangas e Ralph tinha certeza que sim - mas no outono ou no inverno. A companheira de uma vida, a única mulher que amara, ia morrer. Ele tentava negar a ideia, censurava-se por ser um velho mórbido, mas nos silêncios ofegantes daqueles longos dias de calor, Ralph ouvia o tique-taque em toda parte - chegava a lhe parecer que vinha de dentro das paredes.

Contudo era mais forte quando vinha da própria Carolyn e, quando ela virava o rosto calmo e pálido para ele - talvez para pedir que ligasse o rádio enquanto ela descascava vagens para o jantar, ou lhe pedir para correr ao mercadinho e lhe comprar um sorvete - Ralph percebia que Carolyn também ouvia o tique-taque. Lia isto nos seus olhos escuros, a princípio, somente quando ela se encontrava lúcida, porém, mais tarde, mesmo quando seus olhos se embaçavam com os analgésicos que tomava.

Por aquela altura o volume do tique-taque aumentara muito e, quando Ralph se deitava ao lado da mulher naquelas noites quentes de verão, quando um simples lençol parecia pesar cinco quilos e todos os cachorros de Derry pareciam estar uivando para a lua, ele escutava o relógio-da-morte tiquetaquear dentro de Carolyn e tinha a impressão de que o próprio coração ia se partir de tristeza e terror. Quanto ela teria que sofrer até chegar ao fim? Quanto ele teria que sofrer? E como seria possível viver sem ela?

Foi durante esse período estranho e sobrecarregado que Ralph começou a fazer longas caminhadas, cada vez mais longas, nas tardes quentes de verão e nos lentos crepúsculos, voltando muitas vezes demasiado exausto para comer. Ficava à espera de que Carolyn o censurasse por tais saídas, que dissesse Por que não pára com isso seu velho tolo? Você vai se matar se continuar a caminhar neste calor! Mas nunca disse nada e ele gradualmente percebeu que ela nem sequer sabia. Que ele saía, sim - isto ela sabia. Mas não quantos quilómetros caminhava, ou que muitas vezes tornava a casa trémulo, exausto, prestes a ter uma insolação. No passado, parecera a Ralph que ela via tudo, até mesmo uma alteraçãozinha mínima na risca que repartia seus cabelos. Agora não; o tumor no cérebro lhe roubara o poder de observação da mesma maneira que em breve lhe roubaria a vida.

Então ele caminhava, saboreando o calor ainda que, por vezes, sua cabeça girasse e seus ouvidos zumbissem, saboreando-o principalmente porque fazia seus ouvidos zumbirem; havia mesmo vezes em que, por horas inteiras, os ouvidos zumbiam tão alto e a cabeça latejava tão forte, que ele não conseguia ouvir o tique-taque do relógio-da-morte de Carolyn.

Caminhou por grande parte de Derry naquele julho calorento, um velho de ombros estreitos e cabelos brancos que começavam a ralear e grandes mãos que ainda pareciam capazes de trabalho pesado. Ele caminhava da rua Witcham até Barrens, da rua Kansas até a Neibolt, da rua Central à ponte Kissing, mas seus pés o levavam com mais frequência para oeste pela Avenida Harris, onde Carolyn Roberts, ainda bela e muito amada, vivia seu último ano numa névoa de dores de cabeça e morfina, até o prolongamento da Avenida Harris, conhecida como Extensão da Harris, e o aeroporto municipal de Derry. Ele fazia todo esse percurso - que não tinha árvores e ficava inteiramente exposto ao sol inclemente - até sentir as pernas ameaçarem bambear e ceder sob o peso do corpo, ponto em que iniciava a volta.

Muitas vezes parava para recuperar o fôlego na sombra de uma área de piqueniques, próxima à entrada de serviço do aeroporto. A noite o lugar era ponto de namoro e biritagem para adolescentes e vibrava ao som do rap vindo dos possantes rádios, mas durante o dia era o domínio mais ou menos exclusivo de um grupo que o amigo de Ralph, Bill McGovern, chamava Os Coroas da Avenida

Harris. Os Coroas se reuniam para jogar xadrez e cartas ou apenas para uma conversa fiada. Ralph conhecia muitos deles há anos (chegara a frequentar o primário com Stan Eberly), e se sentia à vontade com todos... desde que não se intrometessem muito em sua vida. A maior parte não se intrometia mesmo. Eram na maioria ianques da velha guarda, condicionados a acreditar que assunto que homem não comenta é assunto que só interessa a ele e a mais ninguém.

Foi numa dessas caminhadas que ele percebeu que havia algum problema muito sério com Ed Deepneau, seu vizinho de rua.

NAQUELE DIA, Ralph caminhara muito mais longe pela Extensão da Harris do que de costume, possivelmente porque nuvens de tempestade tinham escondido o sol e começara a soprar uma brisa fresca, ainda que inconstante. Ele mergulhara numa espécie de transe, sem pensar em nada, sem olhar para nada excepto as pontas empoeiradas dos seus ténis, quando o vôo 445 da United Airlines, procedente de Boston, passou rasante, trazendo-o de volta ao presente com o silvo aterrador de suas turbinas.

Ele observou o avião, ainda alto, cruzar os trilhos da velha estrada de ferro GS&WM e a cerca de arame que demarcava o terreno do aeroporto, observou-o baixar em direcção à pista, reparou nos rolos de fumaça azulada que escaparam quando as rodas tocaram o chão.

Então consultou o relógio, viu que estava ficando tarde e ergueu os olhos arregalados para o teto cor de laranja da lanchonete Howard Johnson's mais além. Estivera em transe sim; caminhara mais de oito quilómetros sem a menor noção da passagem do tempo.

Tempo de Carolyn, murmurou uma voz lá no fundo de sua mente.

Isso mesmo; tempo de Carolyn. Ela estaria lá no apartamento contando os minutos que faltavam para lhe darem outro Darvon Complex, e ele na rua do outro lado do aeroporto... de fato, a meio caminho de Newport.

Ralph olhou para o céu e pela primeira vez realmente viu as nuvens de tempestade roxo-hematoma que se empilhavam sobre o aeroporto. Não significavam chuva certa, por ora, mas se chovesse, ele quase certamente seria apanhado na rua; não havia nenhum abrigo entre o lugar em que se encontrava e a areazinha de piquenique próxima à pista 3, e não havia nada ali a não ser um pequeno mirante desconjuntado que exalava sempre um leve odor de cerveja.

Deu outra olhada no teto cor de laranja, então meteu a mão no bolso direito e apalpou o macinho de notas preso por um clipe de prata, presente de Carolyn no seu sexagésimo quinto aniversário. Não havia nada que o impedisse de esticar até o Howard Johnson's e chamar um táxi... a não ser talvez a cara que o motorista poderia fazer. Velho idiota, talvez dissessem seus olhos no retrovisor. Velho idiota, andou muito mais do que devia num dia quente desses. Se estivesse nadando, teria se afogado.

Paranóia, Ralph, disse a voz em sua mente, e agora seu tom zombeteiro e ligeiramente condescendente lembrou-lhe o Bill McGovern.

Bem, talvez fosse, talvez não.

Mas, de qualquer jeito, pensou, arriscaria apanhar chuva e voltaria a pé.

E se não cair apenas chuva? No verão passado as chuvas de pedras foram tão fortes que no mês de agosto uma delas quebrou todas as janelas no setor oeste da cidade.

- Que chova pedra então - falou. - Não sou de me

machucar à toa.

Ralph começou a caminhar lentamente de volta à cidade pelo acostamento da Extensão da

Harris, seus velhos ténis aeróbicos levantando nuvenzinhas de poeira pela rua. Já ouvia os primeiros roncos do trovão a oeste, onde as nuvens se empilhavam. O sol, embora escondido, recusava-se a desaparecer sem oferecer resistência; contornava as bordas das nuvens com fitas faiscantes de ouro e ressurgia por entre as cristas das nuvens como um raio fragmentado de um enorme projetor de cinema. Ralph sentiu-se satisfeito com a decisão de caminhar, apesar do incómodo nas pernas e da dorzinha insistente na altura dos rins.

Pelo menos uma coisa é certa, pensou. Vou dormir hoje à noite. Vou dormir como uma pedra.

A periferia do aeroporto - hectares de capim seco que escondiam os trilhos enferrujados da ferrovia como os destroços de um antigo naufrágio-ficara agora à sua esquerda. Lá longe, além da cerca de tela, ele via o 747 da United, do tamanho de um avião de brinquedo, taxiando em direção ao pequeno terminal que a United e a Delta dividiam.

O olhar de Ralph foi atraído por outro veículo, um carro, que deixava o terminal da Aviação

Geral, do lado de cá do aeroporto. Atravessava o estacionamento em direcção ao portão de serviço que abria para a Extensão da Harris. Ultimamente Ralph observara uma porção de veículos entrarem e saírem por aquele portão; ficava a apenas uns sessenta metros da área de piquenique onde os Coroas da Avenida Harris se reuniam. Quando o carro se aproximou do portão, Ralph reconheceu o Datsun de Ed e Helen Deepneau... e o carro vinha embalado.

Ralph parou no acostamento, sem notar que cerrara as mãos de ansiedade ao ver o carrinho castanho apontar para o portão. Era preciso um cartão magnético para abrir o portão pelo lado de fora; pelo lado de dentro, uma célula foto-eléctrica se encarregava da manobra. Mas a célula ficava perto do portão, muito perto, e à velocidade que o Datsun vinha...

No último instante (ou assim pareceu a Ralph), o carrinho parou com uma freada brusca, arrancando uma fumaça azulada dos pneus o que fez Ralph pensar no pouso do 747, e o portão começou a deslizar pesada e lentamente no trilho. As mãos de Ralph se descontraíram.

Pela janela do motorista do Datsun saiu um braço que começou a sacudir, aparentemente descompondo o portão, instando-o a abrir depressa. Havia algo tão absurdo na cena que

Ralph começou a sorrir. O sorriso, porém, morreu antes de revelar sequer um vislumbre de dentes. O vento continuava a soprar fresco do oeste, onde se acumulavam as nuvens escuras, e carregava os berros do motorista do Datsun:

- Sacana! Filho da mãe! Veado! Anda logo! Anda logo e abre essa merda, porra de portão idiota! Puto! Traste imprestável!

- Não pode ser o Ed Deepneau - murmurou Ralph. Recomeçou a caminhar sem se dar conta disso. - Não pode ser.

Ed era um pesquisador em química no sector de pesquisas dos laboratórios Hawking em

Fresh Harbor, um dos rapazes mais gentis, mais educados que Ralph já conhecera. Ele e

Carolyn gostavam muito da mulher de Ed, Helen, e da nenenzinha, Natalie. A visita de

Natalie era uma das poucas coisas que tinha o poder de fazer Carolyn se abstrair de sua vida atual e, percebendo isso, Helen trazia a menina com frequência. Ed nunca reclamara. Havia homens, ele sabia, que não teriam gostado de ver a mulher correr para um casal de velhos da vizinhança todas as vezes em que a neném fazia alguma gracinha, principalmente quando a avó adoptiva no caso estava doente. Ralph imaginava que Ed não seria capaz de mandar alguém para o inferno sem passar uma noite em claro cheio de remorsos, mas...

- Portão idiota! Abre essa merda logo! Bundão!

Mas pela voz era Ed. Mesmo a duzentos, trezentos metros de distância, não havia dúvida de que era a voz de Ed.

Agora o motorista do Datsun acelerava o motor como um garoto num carrão à espera do sinal abrir. Nuvens de fumaça malcheirosas escapavam pelo cano de descarga. Assim que o portão se afastou o suficiente para deixar passar o Datsun, o carro saltou para a frente, espirrando pelo vão com o motor a toda e, quando isso aconteceu, Ralph pôde ver claramente o motorista. Agora estava suficientemente próximo para não ter dúvidas: era mesmo o Ed.

O Datsun sacolejou pelo trecho sem asfalto entre o portão e a Extensão da Harris. Uma buzina tocou inesperadamente, e Ralph viu um Ford Ranger azul, que se dirigia para oeste na Extensão, desviar-se para evitar o Datsun que avançava em sentido oposto. O motorista do furgão percebeu o perigo demasiado tarde, e Ed aparentemente não o percebeu (somente mais tarde é que Ralph veio a considerar a possibilidade de Ed ter colidido com o Ranger de propósito). Ouviu-se o ruído estridente de pneus freando, seguido da pancada oca do párachoques do Datsun entrando pela lateral do Ford. O furgão foi empurrado e parou atravessado na divisória amarela. O capo do Datsun enrugou, destrancou, e se entreabriu; o vidro dos faróis tilintou pela estrada. Um instante depois, os dois veículos se encontravam imóveis no meio da estrada, trançados como numa escultura grotesca.

Ralph continuou parado onde estava, observando o óleo se espalhar por baixo da frente do

Datsun. Vira muitos acidentes em seus quase setenta anos, a maioria sem importância, um ou dois sérios, e sempre se espantava com a rapidez com que aconteciam e a falta de teatralidade da cena. Não era como no cinema, onde a coisa era filmada em câmara lenta, ou em um videoteipe, em que se podia rever o carro rolar de um penhasco quantas vezes se quisesse; em geral, aparecia uma sucessão de manchas convergentes, seguida de uma rápida e inexpressiva combinação de sons: o guincho dos pneus, a batida oca do metal contra o metal, o tilintar do vidro. Então, voilà - toutfini.

Havia até uma espécie de protocolo para esse tipo de cena:

Como Se Deve Proceder Numa Batida A Baixa Velocidade. Claro que havia, reflectiu Ralph.

Ocorria provavelmente uma dúzia de pequenas batidas em Derry todos os dias, e talvez o dobro no inverno, quando nevava e as estradas se tornavam escorregadias. A pessoa descia do carro, ia ao encontro do oponente no ponto em que os dois veículos tinham batido (e onde, em geral, permaneciam enredados), olhava, balançava a cabeça. Às vezes - na verdade, com frequência - essa fase do confronto era marcada por palavras iradas: atribuía-se irreflectidamente a culpa (com rispidez), impugnava-se a capacidade de dirigir do outro, ameaçava-se tomar medidas legais. Ralph supunha que o que os motoristas tentavam realmente dizer sem querer dize-lo abertamente era Olhe aqui, seu idiota, você me deu um puta susto!

O passo final dessa dança infeliz era A Troca dos Sagrados Pergaminhos do Seguro, e era nessa altura que os motoristas começavam a controlar suas emoções galopantes... sempre no pressuposto de que ninguém se machucara, como parecia ser o presente caso. Às vezes os motoristas envolvidos até terminavam com um aperto de mãos.

Ralph preparou-se para observar tudo isso de um ponto privilegiado a menos de cento e cinqüenta metros de distância, mas, assim que a porta do motorista do Datsun se abriu, ele percebeu que as coisas iam ser diferentes - que o acidente talvez não tivesse terminado, continuava a acontecer. Certamente não parecia que alguém fosse apertar mãos no fim dessa festa.

A porta não abriu devagar, abriu bruscamente. Ed Deepneau projectou-se para fora, e postou-se imóvel do lado do carro, os ombros estreitos recortados contra o fundo de nuvens cada vez mais volumosas. Usava um jeans desbotado e uma camiseta, e Ralph percebeu que até aquele dia jamais vira Ed usar uma camisa sem botões na frente. E trazia alguma coisa pendurada no pescoço: uma coisa branca e comprida. Um cachecol? Parecia um cachecol, mas por que alguém usaria um cachecol num dia tão quente como aquele?

Ed ficou parado um instante do lado do carro ferido, parecendo olhar em todas as direcções excepto a esperada. Os movimentos breves e bruscos de sua cabeça estreita lembravam a Ralph a maneira com que os galos estudavam o terreiro à procura de invasores ou bisbilhoteiros. Alguma coisa nessa semelhança deixou Ralph inquieto. Nunca vira Ed olhar daquele jeito antes, e supunha que isto fazia parte da cena, mas não era toda a cena. A verdade era muito simples: nunca vira ninguém agir daquele modo.

O trovão ressoava a oeste, mais forte agora. E mais próximo.

O homem que saiu do Ranger dava dois Ed Deepneau, possivelmente três. Sua vasta e gorda barriga saltava por cima do cós enrolado das calças em sarja de algodão verde; havia manchas de suor do tamanho de pratos de jantar sob as mangas de sua camisa branca aberta no colarinho. Ele levantou a aba do boné para ver melhor o homem que o abalroara. Seu rosto de queixo largo estava mortalmente pálido, exceto por duas manchas rosadas como se usasse blush nas maçãs altas do rosto, e Ralph pensou: Aí está o candidato perfeito a um ataque cardíaco. Se eu estivesse mais perto aposto que veria os vincos nos lóbulos de suas orelhas.

- Ei! - o grandalhão berrou para Ed. A voz que saía daquele peito largo e profundas entranhas era absurdamente fina, quase esganiçada. - Onde foi que você comprou sua carteira? Na porra da Sears?

A cabeça de Ed, que se movimentava vigilante e errática, virou-se imediatamente em direção à voz do grandalhão - quase parecia se orientar para a voz como um avião por um radar e Ralph então reparou pela primeira vez no olhar de Ed. Sentiu no peito um lampejo de alarme e imediatamente correu para o local do acidente. Entrementes, Ed começara a se dirigir para o homem de boné e camisa branca empapada de suor. Era um andar de pernas e ombros retesados que não lembravam nada a sua descontracção habitual.

- Ed! - Ralph gritou, mas a brisa fresca - fria agora com a promessa de chuva - parecia arrebatar as palavras antes que pudessem sequer sair de sua boca. É claro que Ed não se virou.

Ralph se esforçou para correr mais rápido, esquecendo-se da dor nas pernas, dos rins que latejavam. Vira uma mortal fúria nos olhos arregalados e fixos de Ed Deepneau. Não tinha absolutamente nenhuma experiência anterior em que basear sua avaliação, mas achava que ninguém poderia se enganar com um olhar tão óbvio; era o olhar que os galos de briga deviam exibir quando se lançavam contra o oponente, os esporões em riste prontos para golpear.

- Ed! Ei, Ed, espere aí! É o Ralph!

Nem sequer uma olhada para os lados, embora Ralph estivesse agora tão próximo que Ed deveria ter ouvido, com ou sem vento. É claro que o grandalhão olhou para os lados, e

Ralph observou ao mesmo tempo medo e incerteza em seus olhos. O Grandalhão virou-se para Ed e ergueu as mãos conciliador.

- Olhe - falou. - Podemos conversar...

Não chegou a dizer mais nada. Ed deu mais um passo rápido à frente, ergueu a mão magra

- estava muito branca na tarde que escurecia rapidamente - e deu uma bofetada no queixo nada desprezível do Grandalhão. O som foi o de um tiro de espingardinha de ar comprimido.

- Quantos você já matou? - Ed perguntou. Grandalhão recuou encostando-se na lateral do furgão, a boca aberta, os olhos arregalados. O andar esquisito e empertigado de Ed não se alterou.

Avançou para o homem e parou barriga contra barriga, parecendo esquecer que o motorista do furgão era dez centímetros mais alto e pesava no mínimo quarenta e cinco quilos mais do que ele. Ed ergueu a mão e esbofeteou-o de novo.

- Vamos! Confesse, valentão - quantos você já matou? - Sua voz se esganiçou num grito que se perdeu no primeiro trovão realmente imperioso do temporal que se avizinhava.

Grandalhão empurrou-o - um gesto que não implicava agressão mas simples medo - e Ed recuou cambaleando contra a frente amassada do Datsun. Tornou a avançar logo, os punhos cerrados, aprontando-se para saltar no Grandalhão, que se encolhia contra a lateral do furgão, o boné agora torto e a camisa saindo das calças pelos lados e nas costas. Ocorreu a

Ralph uma lembrança - um curta-metragem de Os Três Patetas, que vira há anos, com Larry, Curly e Moe bancando os pintores trapalhões - e sentiu um repentino assomo de simpatia pelo Grandalhão, que parecia ridículo e, ao mesmo tempo, morto de medo.

Ed Deepneau não parecia ridículo. Com os lábios repuxados para trás e os olhos arregalados e fixos, Ed parecia mais que nunca um galo-de-briga.

- Sei o que anda fazendo - murmurou para Grandalhão. - Que tipo de palhaçada você achou que isso era? Achou que você e seus amigos açougueiros podiam escapar para sem...

Nesse momento Ralph chegou, bufando e ofegando como um velho burro puxador de carroça, e passou o braço pelos ombros de Ed. O calor sob a fina camiseta do rapaz assustava; era como passar o braço em torno de um forno e, quando Ed se virou para olhá-lo, Ralph teve a impressão momentânea (mas inesquecível) de que era exactamente isto que via. Nunca vira uma fúria tão absurda e desarrazoada num par de olhos humanos; sequer suspeitara que tal fúria pudesse existir.

O impulso imediato de Ralph foi recuar, mas ele se controlou e aguentou firme. Pensou que, se retirasse o braço, Ed cairia sobre ele como um cachorro feroz, às mordidas e patadas. Era absurdo, naturalmente; Ed era pesquisador em química, Ed era sócio do Clube do Livro do

Mês (do tipo que comprava histórias de dez quilos sobre a guerra da Criméia que o clube sempre oferecia como alternativa à selecção do mês), Ed era marido de Helen e pai de Natalie. Bolas, Ed era um amigo.

... só que esse não era aquele Ed, e Ralph sabia disso.

Ao invés de tirar o braço, Ralph se inclinou para a frente, apertou os ombros de Ed (tão quentes sob a camiseta, tão incrivelmente quentes que latejavam), e avançou o rosto até defender o Grandalhão do olhar aterrador e fixo de Ed.

- Ed, pare com isso! - disse Ralph. Ele usou o tom alto mas firme que presumia ser o que se usa com uma pessoa histérica. - Você está inteiro! Pare com isso!

Por um momento, o olhar fixo de Ed não se alterou, em seguida seus olhos se voltaram para o rosto de Ralph. Não era muita coisa, mas Ralph sentiu um ligeiro alívio assim mesmo.

- Que foi que deu nele? - Grandalhão perguntou às costas de Ralph. - Acha que ele é maluco?

- Ele está bem, tenho certeza-Ralph respondeu, embora não tivesse certeza alguma disso.

Falou pelo canto da boca, sem tirar os olhos de Ed. Não se atrevia a tirar os olhos de Ed: aquele contacto parecia ser o único poder que tinha sobre o homem, e um poder precário, na melhor das hipóteses. - Só está abalado com a batida. Precisa de um tempinho para se açaí...

- Pergunte a ele o que carrega debaixo daquela lona! - Ed berrou inesperadamente, e apontou por cima do ombro de Ralph. Relampejou, e por um instante as marcas da acne adolescente de Ed ganharam um relevo nítido, como se formassem um estranho mapa do tesouro orgânico. Um trovão retumbou. - Ei, ei, Susan Day! - ele cantarolou numa voz infantil que fez os braços de Ralph se arrepiarem. - Assassina de bebês!

- Ele não está abalado - falou Grandalhão. - Ele é maluco mesmo. E quando os tiras chegarem aqui, vou fazer tudo para que prendam ele.

Ralph olhou em volta e viu uma lona azul esticada sobre a caçamba do furgão.

Fora presa com pedaços de corda amarelo-vivo. Formas arredondadas avolumavam-se sob o pano.

- Ralph - uma voz tímida chamou.

Ele olhou para a esquerda e viu Dorrance Marstellar - com seus noventa e tantos anos, era sem favor algum o mais velho dos Coroas da Avenida Harris - parado um pouco adiante do furgão do Grandalhão. Trazia um livro nas mãos cerosas cobertas de pintas marroms, e Dorrance o dobrava ansiosamente para diante e para trás, forçando repetidamente a lombada. Ralph supôs que fosse um livro de poemas, porque até então fora só o que vira Dorrance ler. Ou, quem sabe, ele sequer os lesse; quem sabe apenas gostasse de segurar os livros e contemplar as palavras artisticamente ordenadas?

- Ralph, qual é o problema? O que está acontecendo? Mais relâmpagos riscaram o céu, um esgar branco-arroxeado de electricidade. Dorrance ergueu os olhos para o relâmpago como se não tivesse certeza de onde estava, nem de quem era, nem do que via. Ralph gemeu por dentro.

- Dorrance-começou a falar, mas Ed se arremessou por debaixo dele, como um animal selvagem que tivesse se aquietado apenas para recuperar as forças. Ralph cambaleou, e, então, empurrou Ed contra o capo amassado do Datsun. Estava em pânico-inseguro do que fazer em seguida ou como fazê-lo. Havia coisas demais acontecendo ao mesmo tempo.

Sentia os músculos dos braços de Ed vibrarem violentamente sob suas mãos; era como se o sujeito tivesse engolido um pedaço do relâmpago que se espalhava pelo céu.

- Ralph? - Dorrance chamou na mesma voz calma mas preocupada. - Eu não tocaria mais nele, se fosse você. Não consigo ver suas mãos.

Óptimo. Mais um maluco para enfrentar. Era só o que faltava.

Ralph olhou para as mãos e em seguida para o velho.

- Do que é que você está falando, Dorrance?

- Suas mãos - Dorrance repetiu pacientemente. - Não estou vendo suas...

- Aqui não é lugar para você, Dor - por que não se manda?

O velho animou-se um pouco ao ouvir isso.

- Claro!-exclamou num tom de quem acaba de tropeçar numa grande verdade. - É isso mesmo que eu devia fazer! - Começou a recuar, e quando o trovão reboou de novo, ele se encolheu e pôs o livro em cima da cabeça. Ralph pôde ler as letras vermelho-vivas do título:

Buckdancer's Choice. - É o que você devia fazer também, Ralph. Você não vai querer se meter em histórias antigas. É uma boa maneira de se aborrecer.

- De que é que você...

Mas antes que Ralph pudesse terminar, Dorrance virou as costas e saiu andando pesadamente em direção à área de piqueniques com sua franja de cabelos brancos fininhos como os de um bebé recém-nascido - a se agitar à brisa do temporal iminente.

Um problema resolvido, mas o alívio de Ralph não durou muito. Ed se distraíra temporariamente com Dorrance, mas agora seus olhos voltavam a fuzilar o Grandalhão.

- Chupão! - xingou. - Fodeu a mãe e ainda lambeu a buceta dela!

A enorme cara de Grandalhão se fechou.

- O quê? Ed voltou o olhar para Ralph,

a quem ele agora parecia reconhecer.

- Pergunte a ele o que está levando debaixo da lona - gritou.

- Melhor ainda, faça esse veado assassino lhe mostrar! Ralph olhou para o homem.

- Que é que tem ali debaixo?

- É da sua conta? - Grandalhão perguntou, talvez tentando parecer truculento. Avaliou a expressão dos olhos de Ed Deepneau e deu mais dois passos enviesados, recuando.

- Da minha não, mas parece que é da dele - Ralph respondeu, erguendo o queixo na direcção de Ed. - Vê se me ajuda a acalmar ele, tá bem?

- É seu conhecido?

- Assassino!-Ed repetiu, e desta vez avançou com força suficiente para fazer Ralph recuar um passo. Contudo alguma coisa começava a mudar. Ralph achou que a expressão vazia e aterradora desaparecia lentamente dos olhos de Ed. Parecia haver um pouco mais de

Ed na expressão do que antes... ou talvez isso fosse apenas fantasia de sua parte. Assassino, assassino de criança!

- Meu Deus, que piração - falou Grandalhão, mas foi até a traseira da caçamba, deu um safanão em uma das cordas para soltá-la, e levantou uma ponta da lona. Debaixo, havia quatro barris de aglomerado, cada um com o rótulo de MATA-MATO.

- Fertilizante orgânico - explicou Grandalhão, os olhos correndo de Ed para Ralph e de volta a Ed. Tocou a aba do boné com a marca Jardineiros do West Side. - Passei o dia trabalhando nuns canteiros de flores na ala psiquiátrica do Hospital de Derry... onde o senhor poderia passar umas feriazinhas, meu amigo. - Fertilizante? - Ed perguntou.

Parecia dirigir a pergunta a si mesmo. Levou a mão esquerda lentamente à têmpora e começou a massageá-la. - Fertilizante? - Falava como alguém que questionasse uma descoberta científica simples, porém espantosa.

- Fertilizante - Grandalhão confirmou. Olhou de volta para Ralph e disse: - Esse cara não bate bem da bola. Sabia?

- Ele está confuso, só isso - respondeu Ralph sem graça. Debruçou-se sobre a lateral do furgão e bateu na tampa de um barril. Então virou-se novamente para Ed e falou: - Barris de fertilizante. Satisfeito?

Não recebeu resposta. Ed ergueu a mão direita e começou a massagear a outra têmpora.

Parecia uma pessoa acometida de uma terrível enxaqueca.

- Satisfeito? - Ralph repetiu mansamente.

Ed fechou os olhos por um instante, e, quando os reabriu, Ralph reparou que brilhavam, e imaginou serem lágrimas. Ed passou a língua delicadamente por um canto da boca, depois pelo outro. Pegou a ponta do cachecol de seda, enxugou a testa, e, ao fazê-lo, Ralph reparou que havia caracteres chineses bordados em vermelho, acima da franja.

- Acho que talvez - Ed começou, e em seguida parou. Seus olhos se arregalaram outra vez com aquela expressão que desagradava a Ralph. - Bebês! - disse rouco. - Está me ouvindo? Bebês!

Ralph empurrou-o contra o carro pela terceira ou quarta vez - já perdera a conta.

- Do que está falando, Ed? - Ocorreu-lhe subitamente uma ideia. - De Natalie? Você está preocupado com Natalie?

Um sorrisinho maroto passou pelos lábios de Ed. Olhou para o homem como se não visse Ralph.

- Fertilizante, eh? Então se é só isso que é, você não vai se importar de abrir um barril, não é mesmo?

Grandalhão lançou a Ralph um olhar inquieto.

- O cara precisa de um médico - falou.

- Talvez precise. Mas achei que estava se acalmando... Será que podia abrir um desses barris? Quem sabe ele se sentiria melhor.

- Claro, que diferença faz. Perdido por um, perdido por mil.

Mais um relâmpago clareou o céu, mais um trovão explodiu - pareceu reboar pelo céu inteiro desta vez - e um pingo gelado de chuva bateu na nuca suada de Ralph. Ele olhou para a esquerda e viu Dorrance Marstellar parado na entrada da área de piqueniques, o livro na mão, observando os três, ansioso.

- Parece que vai chover pra caramba - disse Grandalhão - e o material não pode molhar.

Provoca uma reacção química. Por isso dê uma olhada rápida. - Tacteou um instante o espaço entre os barris e a lateral do furgão e retirou um pé-de-cabra. - Devo ser tão maluco quanto ele para estar fazendo isso - falou para Ralph. - Quero dizer, eu estava indo pra casa, cuidando da minha vida. Ele bateu em mim.

- Por favor - Ralph pediu. - Só vai levar um segundo. Claro - Grandalhão respondeu com azedume, virando-se e encaixando o lado plano do pé-de-cabra sob a tampa do barril mais próximo - mas as lembranças vão durar uma vida inteira.

Mais uma trovoada sacudiu o dia naquele momento, por isso Grandalhão não ouviu o que

Ed Deepneau disse em seguida. Ralph, porém, ouviu e sentiu um frio na boca do estômago.

- Os barris estão cheios de bebés mortos - falou Ed. - Você vai ver.

Grandalhão soltou a tampa do barril da ponta e foi tal a convicção na voz de Ed, que Ralph quase esperou ver um emaranhado de braços, pernas e cabecinhas peladas. Ao invés disso, viu uma mistura de cristaizinhos azuis e uma substância parda. O barril exalava um forte cheiro de adubo, com um leve toque de substância química.

- Viu? Está satisfeito? - Grandalhão perguntou, dirigindo-se directamente a Ed de novo.

- Afinal não sou nenhum criminoso, nenhum tarado. E agora?

A expressão de atordoamento voltou ao rosto de Ed, e quando o trovão ribombou novamente no céu, ele se contraiu um pouco. Debruçou-se, esticou a mão para o barril, então, com os olhos, fez uma pergunta ao Grandalhão.

O homem concordou com a cabeça, quase com pena, pensou Ralph.

- Claro, pode pegar, por mim tudo bem. Mas se chover enquanto estiver com a mão cheia, você vai dançar mais que o John Travolta. Isso queima.

Ed meteu a mão no barril, pegou um pouco da mistura e deixou-a escorrer por entre os dedos. Lançou a Ralph um olhar perplexo (havia um quê de constrangimento naquele olhar também, pensou Ralph) e em seguida afundou o braço no barril até o cotovelo.

- Ei! - Grandalhão exclamou, espantado. - Isso não é uma caixa de estalinhos!

Por um instante, aquela expressão marota reapareceu no rosto de Ed - uma expressão que dizia Pensou que ia me passar a perna - e então se amenizou, transformando-se novamente em espanto ao constatar que não havia no fundo nada além de fertilizante.

Quando retirou o braço do barril, estava empoeirado e rescendia à mistura. Outro relâmpago explodiu sobre o aeroporto. O trovão que se seguiu foi quase ensurdecedor.

- Limpe o fertilizante da pele antes que chova, estou lhe avisando - disse Grandalhão.

Meteu a mão pela janela aberta do furgão, do lado do passageiro, e voltou com um saco do McDonakTs. Apalpou o interior, tirou uns guardanapos e entregou-os a Ed, que começou a limpar o fertilizante do braço parecendo alguém num sonho. Enquanto fazia isso,

Grandalhão repôs a tampa no barril e deu umas pancadinhas, com o punho grande e sardento, para encaixá-la, lançando olhares rápidos para o céu que escurecia. Quando Ed tocou o ombro da camisa branca, o homem se enrijeceu e se afastou, espiando Ed preocupado.

- Acho que devo lhe pedir desculpas - disse Ed, e para Ralph sua voz soou completamente clara e sensata, pela primeira vez. - Você é muito metido - disse Grandalhão, mas havia alívio em sua voz. Ele voltou a esticar a lona plastificada e prendeu-a no lugar com uma série de gestos rápidos e eficientes.

Observando-o, Ralph percebeu que ladrão sorrateiro é o tempo. Já fora capaz de atar aqueles mesmos nós com a mesma destreza. Hoje ainda seria capaz de atá-los, mas levaria pelo menos dois minutos e talvez três bons palavrões.

Grandalhão deu umas palmadinhas na lona e voltou-se para os dois, cruzando os braços no seu respeitável peito.

- O senhor viu o acidente? - perguntou a Ralph.

- Não - Ralph respondeu prontamente. Não sabia por que estava mentindo, mas a decisão fora instantânea. - Estava olhando o avião pousar. O da United.

Para sua total surpresa, as manchas vermelhas no rosto de Grandalhão começaram a se espalhar. Você também estava olhando o avião! Ralph pensou de repente. E não foi só enquanto pousava, ou você não estaria corando desse jeito... você estava olhando o avião taxiar!

O pensamento foi seguido de uma revelação: Grandalhão pensava que o acidente fora sua culpa, ou que talvez o tira ou os tiras que aparecessem para investigar o ocorrido entendessem assim. Estivera observando o avião e não percebera Ed sair desembestado pelo portão de serviço e entrar na Extensão da Harris.

- Olhe aqui, eu realmente lamento o que aconteceu - Ed dizia com sinceridade, mas parecia mais do que penalizado; parecia desalentado. Inesperadamente Ralph se viu reflectindo até que ponto poderia confiar naquela expressão, e se teria realmente a menor ideia do (Ei, Ei, Susan Day)

que acabara de acontecer ali... e diabos, afinal quem era Susan Day?

- Bati com a cabeça no volante - Ed estava dizendo - e acho que... você sabe, a pancada me deixou meio atrapalhado.

- É, acho que deixou mesmo - Grandalhão concordou. Coçou a cabeça, ergueu os olhos para o céu de nuvens escuras e pesadas, depois tornou a olhar para Ed. - Vou-lhe fazer uma proposta, companheiro.

- Que proposta?

- A gente troca nome e número de telefone em vez de passar por toda aquela confusão do seguro. Então você segue o seu caminho e eu o meu.

Ed olhou indeciso para Ralph - que sacudiu os ombros - e em seguida para o homem com o boné dos Jardineiros do West Side.

- Se os tiras se meterem na história - continuou Grandalhão - vou entrar bem. A primeira coisa que vão descobrir quando pedirem a minha ficha é que levei uma multa porque estava dirigindo embriagado no inverno passado e que agora estou com uma carteira provisória. Iam criar problemas para mim até mesmo se eu estivesse na rua principal e a preferencial fosse minha. Está me acompanhando?

- Estou - respondeu Ed - acho que estou, mas o acidente foi por minha culpa. Eu vinha em alta velocidade...

- Talvez o acidente mesmo não seja lá tão importante - falou Grandalhão, e em seguida olhou desconfiado para os lados e para um furgão fechado que ia parando no acostamento.

Virou-se de novo para Ed e falou mais depressa. - Você perdeu um pouco de óleo, mas já parou de pingar. Acho que pode voltar para casa dirigindo o carro... se é que mora na cidade. Você mora na cidade?

- Moro - informou Ed.

- E eu pagaria os consertos, até uns cinqüenta dólares. Ocorreu a Ralph outra revelação:

era só o que poderia explicar a repentina mudança no homem, de truculência para algo que beirava a adulação.

Uma multa por dirigir embriagado no inverno passado? Provavelmente. Mas Ralph nunca ouvira falar de carteiras provisórias e achou que, com certeza, aquilo era mentira. Então o tal do Jardineiro do West Side andava dirigindo sem carteira. O que complicava a situação era o seguinte: Ed estava dizendo a verdade - o acidente fora inteiramente sua culpa.

- Se formos embora e dermos o caso por encerrado - Grandalhão prosseguiu - não vou precisar explicar outra vez por que minha carteira foi retida e você não vai ter que explicar por que saltou do carro e começou a meter a mão na minha cara e a gritar que eu levava uma carga de cadáveres.

- Eu falei mesmo isso? - Ed perguntou, parecendo espantado.

- Você sabe que sim - Grandalhão respondeu mal-humorado.

Uma voz com um leve sotaque franco-canadense perguntou:

- Tudo bem por aqui, rapazes? Ninguém se machucou? Eiii, Ralph! E você?

O furgão que parará trazia os dizeres TINTURARIA DERRY na lateral e Ralph reconheceu no motorista um dos irmãos Vachon, de Old Cape. Provavelmente Trigger, o mais novo.

- Sou eu-respondeu Ralph, e sem saber ou se perguntar por quê - agia por puro instinto a essa altura - aproximou-se de Trigger, passou um braço pelos seus ombros, e reconduziu-o ao furgão da tinturaria.

- Os caras estão bem?

- Óptimos - disse Ralph. Olhou para trás e viu que Ed e Grandalhão estavam parados ao lado da caçamba do furgão com as cabeças quase unidas. Caiu mais uma rajada de chuva fria, tamborilando na lona azul como dedos impacientes.

- Foi só um amassãozinho. Eles já estão resolvendo tudo.

- Beleza, beleza - comentou Trigger Vachon satisfeito. - Como vai aquela sua mulherzinha bonita, Ralph?

Ralph contraiu-se, sentindo-se de repente como um homem que se lembra, à hora do almoço, que esqueceu de desligar o fogão antes de sair para trabalhar.

- Nossa!-exclamou e consultou o relógio, torcendo para ainda serem cinco e quinze, cinco e meia, na pior das hipóteses. Em vez disso, constatou que faltavam dez para as seis. Já passavam vinte minutos da hora em que Carolyn esperava que lhe trouxesse um prato de sopa e meio sanduíche. Estaria preocupada. Na verdade, com os relâmpagos e os trovões ecoando pelo apartamento vazio, devia estar apavorada. E se chovesse, não conseguiria fechar as janelas; quase não lhe restavam forças nas mãos.

- Ralph? - Trigger chamou. - Algum problema?

- Nenhum - respondeu. - Só que saí caminhando e perdi completamente a noção das horas. Então aconteceu esse acidente, e... será que você me levaria até em casa, Trig? Eu pago a corrida.

- Não precisa pagar nada - falou Trigger. - Fica no caminho. Entre, Ralph. Você acha que aqueles caras vão ficar bem? Não vão querer descontar um no outro, nem nada do género?

- Não - respondeu Ralph - Acho que não. Espere um segundo.

Ralph foi até Ed.

- Tudo bem aí? Vocês estão conseguindo acertar tudo?

- Estamos - respondeu Ed. - Vamos resolver as coisas entre nós. Por que não? No duro foram só uns vidros partidos.

Falava agora como o Ed de sempre, e o grandalhão de camisa branca o observava com uma expressão quase respeitosa. Ralph continuava perplexo e inquieto com o que ocorrera ali, mas resolvera que ia deixar rolar. Gostava um bocado de Ed Deepneau, mas Ed não era uma prioridade agora em julho; Carolyn, era. Carolyn e a coisa que começara a tiquetaquear nas paredes do quarto do casal - e dentro dela - tarde da noite.

- Óptimo - disse a Ed. - Estou indo para casa. Ultimamente sou eu que preparo o jantar de Carolyn e estou meio atrasado.

E começou a se virar para ir embora. O grandalhão parou-o e estendeu a mão.

- John Tandy - apresentou-se. Ele apertou a mão estendida.

- Ralph Roberts. Prazer em conhecê-lo. Tandy sorriu.

- Nas circunstâncias, duvido um pouco que... mas fico realmente contente que tenha aparecido na hora que apareceu. Por alguns segundos ali, pensei que a gente ia se atracar.

- Eu também pensei, Ralph respondeu mentalmente. Observou Ed, seu olhar preocupado reparou na insólita camiseta colada na cintura magra do rapaz e no cachecol de seda branca com caracteres bordados em vermelho. Não lhe agradou muito a expressão nos olhos de Ed quando se entreolharam; Ed talvez não tivesse retornado de todo.

- Tem certeza de que está bem? - Ralph perguntou. Queria ir embora, queria voltar para Carolyn, mas por alguma razão relutava. A sensação de que aquela situação continuava pouco normal persistia.

- Estou óptimo - Ed respondeu rápido, e lhe deu um grande sorriso que não chegou a alcançar seus olhos verde-escuros. Eles estudaram Ralph atentamente, como se perguntassem quanto teria visto... e de quanto (Ei, Ei Susan Day) se lembraria mais tarde.

O INTERIOR do furgão de Trigger Vachon cheirava a roupas limpas e recém-passadas, um aroma que, por alguma razão, sempre lembrava a Ralph pão fresco. Não havia assento de passageiro, de modo que se agachou, passou uma mão na maçaneta e se agarrou com a outra na borda de uma cesta de lavanderia.

- Cara, aquela história lá atrás me pareceu bem esquisita - Trigger comentou, espiando pelo espelho retrovisor.

- E você não sabe nem a metade - retrucou Ralph.

- Conheço o cara que estava dirigindo o carrão-o nome dele é Deepneau. Tem uma mulherzinha bonita, que às vezes manda roupa pra lavar. Parece um cara legal, normalmente.

- Mas não estava normal hoje - falou Ralph.

- Será que sentou em cima de um marimbondo?

- Acho que sentou foi em cima de um enxame inteiro. Trigger riu de chorar, dando socos no grande volante gasto de plástico preto.

- Um enxame inteiro! Beleza! Beleza! Vou guardar essa para mim! - Trigger enxugou os olhos com um lenço quase do tamanho de uma toalha de mesa. - Me pareceu que o Sr. Deepneau saiu pelo portão de serviço daquele aeroporto.

- Isso mesmo.

- A pessoa precisa de um passe para usar aquela saída - comentou Trigger. Como será que o Sr. D. arranjou um passe?

Ralph reflectiu, franzindo a testa, depois sacudiu a cabeça.

- Não sei. Nunca pensei nisso. Vou perguntar a ele da próxima vez em que o encontrar.

- Faça isso. E pergunte como andam os marimbondos. Isso provocou um novo acesso de riso, que, por sua vez, ocasionou mais floreios com o lenço de ópera bufa.

Quando saíram da Extensão da Harris para entrar na Avenida Harris propriamente dita, o temporal finalmente desabou. Não choveu pedra, mas a chuva caiu como um extravagante dilúvio de verão, tão pesada a princípio que Trigger precisou reduzir a marcha do furgão ao mínimo.

- Nossa! - exclamou cheio de assombro. - Parece até aquele baita temporal de 85, quando metade do centro da cidade desabou dentro do Canal! Tá lembrado, Ralph?

- Estou. Vamos rezar para que isso não aconteça de novo. -Não-Trigger respondeu com um sorriso espiando por entre os extravagantes limpadores de pára-brisa - agora os caras já consertaram as galerias pluviais. Beleza!

A combinação da chuva fria com a cabine quente fizeram a metade inferior do pára-brisa embaçar-se. Sem pensar, Ralph esticou o dedo e desenhou uma figura no vidro embaçado:

- Que é isso? - perguntou Trigger.

- Para falar a verdade, não sei. Parece chinês, não é? Vi no cachecol que Ed Deepneau estava usando.

- Parece que já vi isso antes - disse Trigger, dando outra olhada. Então soltou uma risadinha e gesticulou. - Quer saber uma coisa? A única coisa que sei dizer em chinês é mu-gu-gueipen!

Ralph sorriu, mas parecia contrafeito. Era Carolyn. Agora que se lembrara dela, não conseguia parar de pensar - não conseguia parar de imaginar as janelas abertas, as cortinas esvoaçando como os braços fantasmagóricos do tarado de Sexta-feira, 13, enquanto a chuva entrava.

- Você ainda mora naquele sobrado em frente ao mercadinho?

- Moro.

Trigger parou junto ao meio-fio, e os pneus do furgão levantaram grandes leques de água. A chuva continuava a cair torrencialmente. Os relâmpagos cortavam o céu; o trovão estrondeava.

- É melhor você esperar aqui comigo mais um pouco - Trigger falou. - Essa chuva vai passar já, já.

- Não se preocupe. - Ralph achou que nada o seguraria naquele furgão nem mais um segundo, nem mesmo algemas. - Obrigado, Trig.

- Espera um instantinho! Vou te dar um pedaço de plástico pra você cobrir a cabeça que nem um chapéu!

- Não, estou bem assim, não tem problema, obrigado, vou...

Não parecia haver jeito de terminar o que estava querendo dizer, e agora a sensação que o invadia beirava o pânico. Empurrou a porta de passageiro do furgão e saltou, mergulhando até os tornozelos na água fria que descia veloz pelo bueiro. Ele deu a Trigger um último aceno sem virar a cabeça, e saiu apressado pela calçada até a casa que ele e Carolyn dividiam com Bill McGovern, procurando a chave nos bolsos enquanto andava. Quando chegou aos degraus da varanda, viu que não precisaria de chave - a porta estava entreaberta. Bill, que morava no andar de baixo, muitas vezes se esquecia de trancá-la e

Ralph preferia pensar que fora Bill do que pensar que Carolyn saíra para procurá-lo e fora apanhada pelo temporal. Essa era uma possibilidade que Ralph não queria sequer considerar.

Correu pelo vestíbulo cheio de sombras, fazendo uma careta ao ouvir o trovão ribombar no céu, ensurdecendo-o, e seguiu até a escada. Parou ali um momento, com a mão no pilar do corrimão, escutando a água da chuva pingar das calças e camisa encharcadas no chão de madeira de lei. Então começou a subir, querendo correr, mas incapaz de engrenar uma marcha mais veloz do que um andar apressado. Seu coração batia forte e rápido no peito, os ténis empapados pareciam âncoras pegajosas a puxar seus pés, e, por alguma razão, não parava de lembrar o jeito com que Ed Deepneau mexia a cabeça ao descer do Datsun - aqueles movimentos bruscos e breves que o faziam parecer um galo procurando briga.

O terceiro degrau rangeu alto, como sempre fazia, e o som provocou um tropel de passos no primeiro andar. Não trouxeram nenhum alívio porque não eram de Carolyn, isso ele percebeu logo, e quando Bill McGovern se debruçou sobre o balaústre, o rosto pálido e preocupado sob o chapéu-panamá, Ralph realmente não se surpreendeu. Desde a hora em que estava na Extensão da Harris, tivera a sensação de que tinha havido algum problema, não foi? Foi. Mas, nas circunstâncias, não se podia chamar isso de premonição. Estava descobrindo que, quando as coisas atingiam um certo ponto no caminho do erro, não podiam ser salvas nem revertidas; tornavam-se cada vez mais erradas. Supunha que, em algum nível de sua consciência, sempre soubera disso. O que jamais suspeitara eram as proporções que assumiria esse erro.

- Ralph! - Bill chamou. - Graças a Deus! Carolyn está tendo... bem, acho que é uma espécie de ataque. Acabei de chamar uma ambulância.

Ralph descobriu que afinal era capaz de subir correndo os degraus restantes.

ELA ESTAVA deitada com metade do corpo dentro da cozinha e metade fora, os cabelos espalhados no rosto. Ralph achou que havia alguma coisa particularmente horrível na cena;

parecia desleixo, e se havia uma coisa que Carolyn não admitia era desleixo. Ajoelhou-se ao lado da mulher e afastou os cabelos de seus olhos e testa. Sentiu a pele sob os seus dedos tão gelada quanto os seus próprios pés metidos em ténis encharcados.

- Eu quis deitá-la no sofá, mas ela é pesada demais para mim - Bill falou agitado. Tirara o chapéu-panamá e torcia nervosamente a aba. - Minha coluna, você sabe...

- Eu sei, Bill, tudo bem - respondeu Ralph. Passou os braços por debaixo de Carolyn e ergueu-a. Não lhe parecia nada pesada, mas leve - quase tão leve quanto uma fava prestes a se romper e lançar os filamentos ao vento.-Graças a Deus você estava aqui.

- Por pouco não estava - Bill replicou, seguindo Ralph à sala de estar e ainda torcendo o chapéu nas mãos. Fez Ralph lembrar o velho Dorrance Marstellar e seu livro de poemas. Eu não tocaria mais nele, se fosse você, o velho Dorrance dissera. Não estou vendo suas mãos.

- Eu ia saindo quando ouvi uma barulheira dos diabos... deve ter sido quando ela caiu... Bill correu os olhos pela sala de estar escurecida pelo temporal, o rosto ao mesmo tempo perturbado e ávido, os olhos parecendo procurar alguma coisa que não estava ali. Então se iluminaram. - A porta! - exclamou. - Aposto que ficou aberta! Deve estar entrando chuva dentro de casa! Eu volto num instante, Ralph.

Saiu apressado. Ralph mal se deu conta; o dia tinha assumido aspectos surreais de um pesadelo. O tique-taque era o pior. Ouvia-o nas paredes, tão alto agora que nem mesmo o trovão conseguia abafá-lo.

Acomodou Carolyn no sofá e ajoelhou-se ao seu lado. A respiração da mulher estava rápida e superficial, e o hálito horrível. Ralph, porém, não se afastou.

- Aguente firme, meu amor - falou. Segurou a mão dela - estava tão pegajosa quanto a testa - e beijou-a com ternura.

- Aguente firme. Está tudo bem, tudo bem.

Mas não estava bem, o tiquetaquear significava que nada estava bem. E não vinha das paredes, tampouco - nunca viera das paredes, unicamente de sua mulher. Vinha de sua querida, que estava se distanciando, e o que faria sem ela?

- Só precisa aguentar firme - disse. - Agüente firme, está me ouvindo? - Beijou-lhe a mão outra vez, e ergueu-a junto ao rosto, e, quando ouviu o ruído da ambulância que se aproximava, começou a chorar.

ELA VOLTOU a si na ambulância que atravessava Derry em alta velocidade (o sol reaparecera, as ruas molhadas fumegavam), e a princípio ela falara tão incoerentemente que Ralph teve certeza de que sofrera um derrame. Assim que começou a melhorar e a dizer algo com sentido, sofreu uma segunda convulsão, e foram precisos Ralph e um dos enfermeiros que atendera o chamado para segurá-la na maca.

Não foi o Dr. Litchfield que veio ver Ralph na sala de espera do terceiro andar no início da noite, mas o Dr. Jamal, o neurologista. Jamal conversou com ele em voz baixa e tranquilizadora, e lhe disse que o estado de Carolyn agora se estabilizara e que iam mantê-la internada aquela noite, por precaução, mas que poderia voltar para casa pela manhã.

Receitariam novos remédios - drogas caras, mas também maravilhosas.

- Não devemos abrir mão da esperança, Sr. Roberts - disse o Dr. Jamal.

- Não - concordou Ralph - suponho que não. Ela terá outros ataques como esses, Dr. Jamal?

Dr. Jamal sorriu. Falou com uma voz calma que se tornava ainda mais reconfortante graças ao ligeiro sotaque indiano. E embora o Dr. Jamal não afirmasse com franqueza que Carolyn ia morrer, foi quem chegou mais próximo da verdade durante aquele longo ano em que ela lutou para se manter viva. A nova medicação, disse Jamal, provavelmente impediria novos ataques, mas as coisas tinham chegado a tal ponto que todas as previsões deviam ser encaradas "com uma certa descrença". O tumor continuava a se espalhar apesar de tudo que fora tentado, infelizmente.

- Talvez os problemas de controle motor apareçam em seguida - disse o Dr. Jamal com sua voz reconfortante. - E, receio dizer, observei que a visão piorou.

- Posso passar a noite com ela? - Ralph perguntou baixinho. - Ela dormirá melhor com a minha presença. - Fez uma pausa e acrescentou: - E eu também.

- Claro!-disse o Dr. Jamal, se animando.-É uma ótima idéia!

- É - concordou Ralph com um peso na voz. - Eu também acho.

Então ele se sentou ao lado da mulher adormecida, prestou atenção ao tique-taque que não estava nas paredes e pensou: Um dia desses - talvez neste outono, talvez neste inverno estarei de volta a esse quarto com Carolyn. A frase não tinha um sentido especulativo mas profético, e ele se curvou e encostou a cabeça no lençol branco que cobria o peito da esposa. Não queria chorar outra vez, mas acabou chorando um pouquinho.

Aquele tique-taque. Tão alto e tão firme.

Gostaria de agarrar a coisa que está produzindo este som, pensou. Pularia em cima dela até transformá-la em caquinhos espalhados pelo chão. Deus é testemunha de que não estou mentindo.

Adormeceu sentado pouco depois da meia-noite; quando acordou na manhã seguinte, o ar estava mais fresco do que nas últimas semanas, e Carolyn, completamente desperta, coerente, com os olhos brilhantes. De fato, mal parecia estar doente. Ralph levou-a para casa e deu início à tarefa nada pequena de tornar seus últimos meses o mais confortáveis possível. Passou-se um bom tempo até voltar a pensar em Ed Deepneau; mesmo depois de começar a ver hematomas no rosto de Helen Deepneau, passou-se muito tempo até voltar a pensar em Ed.

Quando o verão se transformou em outono, e quando aquele outono foi escurecendo para se transformar no último inverno de Carolyn, os pensamentos de Ralph ocupavam-se cada vez mais com o relógio-da-morte, que parecia tiquetaquear sempre mais alto mesmo ao ir perdendo velocidade.

Mas ele não sentia dificuldade em dormir.

Isto veio depois.

 

DOUTOREZINHOS CARECAS

 

Existe um abismo entre aqueles que conseguem dormir e os que não o conseguem. É uma das grandes divisões da raça humana.

Íris Murdoch Nlins and Soldiers

 

MAis ou menos um mês após a morte de sua mulher, Ralph Roberts começou a sofrer de insónia pela primeira vez na vida.

O problema, de início brando, foi gradualmente piorando. Seis meses após as primeiras interrupções do seu ciclo de sono, até então sem incidentes, Ralph atingira um estado de infelicidade em que mal podia acreditar e, menos ainda, aceitar. Pelos fins do verão de 1993, ele começou a imaginar como seriam seus anos restantes na terra em meio a um aturdimento de olhos insones e arregalados. Claro que não chegaria a tanto, disse a si mesmo, nunca chega.

Mas seria verdade? Ele não sabia ao certo, e isso era o diabo, porque os livros sobre o assunto que Mike Hanlon lhe indicara na biblioteca pública de Derry não o ajudaram muito.

Havia vários sobre distúrbios do sono, mas pareciam se contradizer. Alguns chamavam insónia de sintoma, outros, de doença, e pelo menos um a chamara de mito. O problema não parava por aí, tampouco; pelo que Ralph entendera da leitura dos livros, ninguém parecia saber com exactidão o que era o sono em si, como funcionava e o que fazia.

Ele sabia que devia parar de bancar o pesquisador amador e consultar um médico, mas encontrava surpreendente dificuldade em fazer isto. Supunha que ainda estava aborrecido com o Dr. Litchfield. Afinal, fora Litchfield que no início diagnosticara o tumor no cérebro de Carolyn como dores de cabeça provocadas por tensão (só que Ralph tinha a impressão de que Litchfield, um solteirão convicto, realmente acreditara que Carolyn sofria de um simples caso de depressão), e fora Litchfield que se mantivera clinicamente tão ausente quanto possível, após o verdadeiro diagnóstico de Carolyn. Ralph tinha certeza de que se lhe tivesse feito a pergunta à queima-roupa, Litchfield teria respondido que entregara o caso a Jamal, o especialista, tudo muito correto e às claras. É. Só que Ralph fizera questão de dar uma boa espiada nos olhos de Litchfield nas poucas ocasiões em que se encontraram, entre as primeiras convulsões de Carolyn em Julho do ano anterior e sua morte agora em Março, e Ralph achava que o que vira naqueles olhos fora uma mistura de constrangimento e culpa. Era a expressão de um homem que fazia um grande esforço para esquecer que errara. Ralph acreditava que a única razão pela qual ainda conseguia olhar para Litchfield, sem ter vontade de lhe partir a cara, era que o Dr. Jamal lhe dissera que um diagnóstico precoce provavelmente não teria feito diferença alguma; na altura em que as dores de cabeça de Carolyn se manifestaram, o tumor já se enraizara e, com certeza, já estava disparando células cancerosas para outras áreas do cérebro como um pacote maligno.

Em fins de abril, Dr. Jamal deixara o hospital para abrir uma clínica no sul de Connecticut e Ralph sentiu sua falta. Achava que poderia ter discutido sua insónia com ele, e tinha a impressão de que Dr. Jamal o teria escutado de uma forma que Litchfield não faria... ou não saberia fazer.

Pelo final do verão, Ralph lera o suficiente a respeito da insónia para saber que o tipo que o afligia, embora não fosse raro, era bem menos comum do que a insónia dos que custam a dormir. As pessoas que não sofrem de insónia, em geral, mergulham no primeiro estágio do sono de sete a vinte minutos após se deitar. Os que custam a dormir, por outro lado, por vezes chegam a levar três horas para entrar em sono profundo, e enquanto as pessoas normais começam a entrar no terceiro estágio do sono (o que alguns livros antigos chamam de sono theta, assim descobrira) mais ou menos quarenta e cinco minutos após adormecer, os que custam a dormir levam, em geral, mais uma ou duas horas para chegar lá... e, muitas noites, não chegam a dormir profundamente. Acordavam estremunhados, por vezes guardando lembranças desfocadas de sonhos desagradáveis e confusos, freqüentemente com a impressão errônea de que passaram a noite inteira acordados.

Em seguida à morte de Carolyn, Ralph começou a acordar prematuramente. Continuava a se recolher quase sempre depois do telejornal das onze horas, e adormecia quase imediatamente, mas ao invés de acordar às seis e cinqüenta e cinco em ponto, cinco minutos antes do rádio-despertador tocar, começou a acordar às seis. A princípio não ligou muito, debitou isso ao fato de conviver com uma próstata ligeiramente aumentada e um par de rins de setenta anos, mas não se lembrava de ter que ir ao banheiro com tanta urgência quando acordava, e não conseguia voltar a dormir mesmo depois de esvaziar o que acumulara.

Simplesmente ficava deitado na cama que dividira com Carolyn tantos anos, esperando dar cinco para as sete (quinze para as sete, no máximo) para se levantar. Com o tempo desistiu até de tentar adormecer outra vez; simplesmente ficava deitado com os dedos longos das mãos ligeiramente inchadas, entrelaçados sobre o peito a contemplar o teto malhado de sombras, sentindo os olhos do tamanho de maçanetas. Por vezes pensava no Dr. Jamal lá em Westport, com aquele leve e reconfortante sotaque indiano, a construir o seu pedacinho do sonho americano. Outras, pensava nos lugares que ele e Carolyn visitaram no passado, e a lembrança que lhe ocorria com mais freqüência era uma calorenta tarde na praia de Bar Harbor, os dois sentados com roupas de banho a uma mesa de piquenique, sob um enorme guarda-sol, comendo mexilhões fritos e bebendo cerveja Budweiser diretamente dos longos gargalos, enquanto observavam os barcos à vela deslizarem velozes pelo azul do mar.

Quando fora isso? 1964? 1967? Fazia diferença? Provavelmente não.

As alterações no seu horário de sono tampouco teriam feito diferença, se a coisa parasse por aí; Ralph teria se adaptado às mudanças, não apenas com facilidade mas com gratidão.

Todos os livros que pesquisara naquele verão pareciam confirmar uma máxima da sabedoria popular que ouvira a vida inteira - as pessoas dormiam menos à medida que envelheciam.

Se perder uma hora ou pouco mais de sono por noite fosse o único preço a pagar pelo prazer duvidoso de ter setenta primaveras, ele o faria e se daria por feliz.

Mas a coisa não parou aí. Por volta da primeira semana de Maio, Ralph estava acordando com o canto dos pássaros às 5h e 5min. Tentou usar tampões nos ouvidos durante algumas noites, embora desde o início duvidasse que adiantariam. Não eram os passarinhos recém-chegados que o acordavam, nem o escape de um raro caminhão passando pela Avenida

Harris. Sempre fora o tipo de sujeito que conseguia dormir durante um desfile de banda militar e não achava que isso tivesse mudado. Mudara alguma coisa dentro de sua cabeça.

Havia um interruptor lá dentro, que andavam ligando um pouquinho mais cedo todo dia, e não ocorria a Ralph como impedir que isso acontecesse.

Por volta de Junho, ele estava despertando bruscamente, como um boneco de mola, às 4h30,4h45 o mais tardar. E pelos meados de julho - que não fora tão quente quanto o Julho de 92, mas bem quentinho, obrigado - passara a acordar por volta das quatro horas da manhã.

Foi durante essas noites quentes e longas, em que ocupava um pedaço demasiado pequeno da cama em que ele e Carolyn tinham feito amor em tantas noites de verão (e de inverno), que ele começou a reflectir no inferno que seria sua vida se o sono desaparecesse por completo. À luz do dia, ele ainda era capaz de zombar da ideia, mas estava descobrindo certas verdades melancólicas sobre as noites escuras da alma de que falava F. Scott Fitzgerald, e a vencedora da noite era a seguinte: às 4h15min, qualquer coisa parece possível.

Qualquer coisa.

Durante o dia ele ainda conseguia se convencer de que estava apenas passando por uma readaptação no ciclo de sono, que seu corpo estava respondendo de maneira perfeitamente normal a várias mudanças da vida, em que se destacavam a aposentadoria e a perda da mulher. Por vezes usava a palavra solidão quando pensava em sua nova vida, mas evitava A Temida Palavra Com D, empurrando-a de volta ao armário fundo do subconsciente sempre que lampejava por um instante em seus pensamentos. Solidão era suportável. Já a Depressão, não.

Talvez você precise fazer mais exercício, pensou. Caminhe um pouco como costumava fazer no verão passado. Afinal, você anda levando uma vida bem sedentária-levanta, come torrada, lê um livro, assiste um pouco de TV, compra no mercadinho em frente um sanduíche para o almoço, mexe um pouco no jardim, talvez vá à biblioteca ou visite Helen e a neném, se por acaso estiverem do lado de fora, talvez sente na varanda e passe uma tempinho com McGovern ou Lois Chasse. E depois? Lê mais um pouco, assiste mais um pouco à TV, lava a louça, vai para a cama. Sedentária. Monótona. Não admira que acorde cedo.

Só que isso era besteira. Sua vida parecia sedentária, sem dúvida, mas, na realidade, não era. O jardim era um bom exemplo. O que ele fazia ali não daria para ganhar nenhum prémio, mas era muito mais que "brincar de jardineiro". Na maioria das tardes ele arrancava mato até o suor desenhar uma árvore escura nas costas de sua camisa e espalhar círculos sob as axilas, e muitas vezes se via trêmulo de exaustão quando se dispunha a reentrar em casa.

A palavra "castigo" provavelmente definiria melhor a situação do que "brincadeira", mas castigo por quê? Por acordar antes do amanhecer?

Ralph não sabia nem se importava. O trabalho no jardim ocupava uma grande parte da tarde, afastava seus pensamentos das coisas que realmente não lhe interessava lembrar, e isso era suficiente para justificar os músculos doloridos e a revoada ocasional de pontos negros diante dos olhos. Começara a alongar suas visitas ao jardim pouco depois do dia da independência e continuara assim durante todo o mês de Agosto, muito depois de ter colhido as primeiras safras e as segundas, infelizmente, terem gorado por falta de chuva.

- Você devia parar com isso - Bill McGovern lhe aconselhara uma noite quando estavam sentados na varanda, bebendo limonada. Isso foi em meados de Agosto e Ralph começara a acordar por volta das três e meia da manhã. - Não pode fazer bem à sua saúde. E pior, você está com cara de maluco.

- Talvez eu seja maluco - Ralph respondera bruscamente, e seu tom ou a expressão de seus olhos devem ter sido convincentes, porque McGovern mudou de assunto.

Ralph RETOMOU as caminhadas-nada parecidas com as Maratonas de 92, mas conseguia cobrir uns três quilômetros por dia quando não chovia. Em seu percurso habitual, descia a ladeira perversamente chamada de Morro-Acima até a biblioteca pública de Derry, e depois até a Back Pages, uma combinação de sebo e banca de revistas e jornais na esquina das ruas Witcham e Main.

A Back Pages ficava ao lado de um brechó bem sortido chamado Secondhand Rose, Secondhand Clothes e, num dia do agosto do seu descontentamento, ele passava por essa loja quando viu um cartaz novo entre velhos anúncios de trailer-restaurantes e avisos de atividades sociais da igreja, colado de modo a cobrir quase metade de um pôster amarelado de PAT BUCHANAN PARA PRESIDENTE.

A mulher nas duas fotografias no alto do cartaz era uma loura bonita com seus trinta ou quarenta anos, mas a disposição das fotos - à esquerda, o rosto sério, visto de frente; à direita, de perfil, contra um fundo branco - era suficientemente perturbador para fazer Ralph estacar. As fotos pareciam indicar que o lugar daquela mulher era numa galeria de criminosos procurados ou num documentário de TV... É isso, os dizeres do cartaz deixavam claro, e não era por acaso.

PROCURADA POR ASSASSINATO SUSAN EDWINA DAY

As fotos o fizeram parar, mas foi o nome da mulher que o reteve. A chamada estava impressa no alto em letras negras garrafais. E abaixo da montagem de fotos, em vermelho:

FIQUE FORA DA NOSSA CIDADE!

Havia uma linhazinha de texto no pé do cartaz. A visão de perto de Ralph piorara bastante desde a morte de Carolyn - fora para o espaço talvez descrevesse melhor o ocorrido - e ele teve que se curvar até encostar a testa na vitrine suja da Secondhand Rose, Secondhand Clothes, para poder decifrar o que dizia:

PAGO PELO COMITÊ PELA VIDA DO MAINE

Lá bem no fundo de sua mente uma voz sussurrou: Ei, Ei, Susan Dayl Assassina de bebés!

Susan Day, Ralph lembrou-se, era uma activista política de Nova Iorque ou de Washington, o tipo de mulher de fala rápida que leva motoristas de táxi, barbeiros e operários de construção à loucura. Porque o refrão lhe ocorrera, porém, ele não sabia dizer; estava vinculado a alguma lembrança que não chegava a se manifestar. Talvez seu velho cérebro cansado estivesse apenas cruzando dados com aquele refrão de protesto contra a guerra do Vietnã na década de sessenta, aquele que dizia Ei, Ei, L.B.Jota! quantos garotos matou hoje, seu idiota. Não, não é esse, pensou.

Está esquentando, mas ainda não é esse. Foi...

Antes que sua mente pudesse atinar com o nome e a cara de Ed Deepneau, uma voz falou quase junto dele.

- Terra chamando Ralph, Terra chamando Ralph, responda Ralphinho!

Despertado dos seus devaneios, Ralph voltou-se para a voz. Sentiu-se ao mesmo tempo chocado e divertido ao descobrir que quase dormira em pé. Nossa, pensou, ninguém sabe a importância do sono ate'passar por umas horinhas de insónia. Aio chão começa a se inclinar e os cantos das coisas começam a se arredondar.

Era Hamilton Davenport, o dono da Back Pages, quem lhe falara. Enchia o carrinho de biblioteca que costumava deixar na entrada da loja com brochuras de cores vivas. Seu velho cachimbo de espiga de milho - para Ralph sempre lembrava a chaminé de um navio miniatura - projetava-se do canto da boca, soltando pequenas baforadas de fumaça azulada no ar quente e claro. Winston Smith, seu velho gato cinzento, sentava-se à porta aberta da loja com o rabo enroscado nas patas. Olhou para Ralph com indiferentes olhos amarelos, como se dissesse, Você acha que sabe o que é ser velho, meu amigo? Eu sou testemunha de que você não entende Ihufas de velhice.

- Puxa, Ralph - Davenport falou. - Devo ter-lhe chamado no mínimo três vezes.

- Acho que estava dormindo - respondeu Ralph. Passando pelo carrinho de biblioteca, encostou-se no portal (Winston Smith manteve sua posição com aristocrático desinteresse), e apanhou os dois jornais que comprava todos os dias: o Globe de Boston e o USA Today. O News de Derry era entregue em casa, cortesia de Pete, o jornaleiro. Ralph por vezes comentava com as pessoas que tinha certeza de que um dos três jornais era para dar risadas, mas nunca conseguira decidir qual. - Não...

Interrompeu-se quando a cara de Ed Deepneau lhe veio à lembrança. Fora de Ed que ouvira aquele refrão maldoso, no verão anterior, lá no aeroporto, e realmente não admirava que levasse algum tempo para resgatar essa imagem da memória. Ed Deepneau era a última pessoa no mundo de quem esperaria ouvir uma coisa daquelas.

- Ralphie? - Davenport disse. - Você me deixou falando sozinho.

Ralph piscou.

- Ah, desculpe. Não ando dormindo bem ultimamente, era isso que eu ia começando a dizer.

- Que chato... mas há problemas piores. Beba um copo de leite morno e ouça um pouco de música suave meia hora antes de deitar.

Ralph começara a descobrir neste verão que aparentemente todo mundo na América tinha um remédio infalível para insónia, pequenas mágicas para a hora de dormir que passaram de uma geração a outra como a Bíblia da família.

- Bach é bom, Beethoven também, William Ackerman não é mau. Mas o que funciona mesmo - Davenport ergueu um dedo solenemente para enfatizar o que ia dizer - é não se levantar da cadeira durante aquela meia hora. Para nada. Não atenda o telefone, não dê corda no cachorro nem ponha o despertador para fora, não resolva escovar os dentes...

nada! Então, quando você for para a cama... pimba! Apaga directo!

- E se a pessoa estiver sentada na poltrona favorita e de repente receber um "chamado da natureza"? - Ralph perguntou. - Essas coisas podem acontecer de repente quando se chega à minha idade.

- Faça nas calças - Davenport respondeu prontamente e caiu na gargalhada. Ralph sorriu, mas sentiu que o fizera por obrigação. Sua insónia estava perdendo rapidamente qualquer graça que pudesse ter tido.

- Nas calças - Ham riu. Deu uma palmada no carrinho de biblioteca e sacudiu a cabeça para a frente e para trás.

Por acaso Ralph olhou para o gato. Winston Smith retribuiu o olhar, sem graça, e para Ralph aqueles olhos amarelos e tranqüilos pareciam dizer, Você está certo, ele é um bobo, mas é o meu bobo.

- Nada mau, hein? Hamilton Davenport, mestre em respostas rápidas e espirituosas. Faça nas... - E deu risadas, balançou a cabeça, depois apanhou as duas notas de um dólar que Ralph lhe estendia. Meteu-as no bolso do aventalzinho vermelho e tirou dali o troco. Confere?

- Confere. Obrigado, Ham.

- Hum-hum. E fora de brincadeira, experimente ouvir música. Realmente funciona.

Tranquiliza as ondas cerebrais, ou coisa parecida.

- Vou experimentar. - E o pior é que provavelmente o faria, como já experimentara a receita de limão com água quente da Sra. Rapaport, e o conselho de Shawna McClure de esvaziar a mente, retardar a respiração e concentrar-se na palavra calma (só que, na boca de Shawna, a palavra se transformava em caalllllllllma). Quando se procurava resolver uma lenta mas contínua erosão das horas de sono, qualquer remédio caseiro começava a parecer bom.

Ralph ia se virando para voltar à caminhada, mas retrocedeu.

- Que significa aquele cartaz na loja vizinha? Ham Davenport torceu o nariz.

- A loja de Dan Dalton? Nem olho para lá se puder evitar. Estraga meu apetite. Ele pôs outro cartaz repugnante na vitrine?

- Acho que é novo: não está desbotado como os outros, e chama atenção pela ausência de coco de mosca. Parece um desses cartazes de Procura-se, só que traz Susan Day nas fotos.

- Susan Day num... que filho da mãe! - Lançou um olhar indignado para a loja vizinha.

- Quem é ela, presidente da Organização Nacional das Mulheres, ou o quê?

- Ex-presidente e co-fundadora das Irmãs em Armas. Autora de A sombra de minha mãe e Lírios do Vale: o primeiro é um estudo sobre mulheres espancadas e as razões por que tantas se recusam a denunciar os homens que as agridem. Ganhou um prémio Pulitzer com o livro. Susie Day é uma das três ou quatro mulheres politicamente mais influentes nos Estados Unidos de hoje, e realmente escreve tão bem quanto pensa. Aquele palhaço sabe que tenho um abaixo-assinado endereçado a ela ao lado da caixa registradora.

- Que abaixo-assinado é esse?

- Estamos tentando trazê-la à cidade para uma palestra - explicou Davenport. - Você sabe que o grupo "Pela Vida" tentou explodir uma bomba no WomanCare no Natal passado, não sabe?

Ralph recuou cautelosamente a lembrança até o buraco negro em que vivera em fins de 1992:

- Bem, me lembro que os tiras apanharam um cara no estacionamento do hospital com um latão de gasolina, mas não sabia...

- Era o Charlie Pickering. Faz parte do Pão-de-Cada-Dia, um dos grupos "Pela Vida" que fazem constantes manifestações lá - explicou Davenport. - Foram eles que instigaram o rapaz, pode crer. Este ano deixaram de lado a gasolina; vão tentar fazer a câmara de vereadores mudar a legislação do distrito e riscar a WomanCare do mapa. E é bem possível que consigam. Você conhece Derry, Ralph: não é bem um viveiro de liberalismo.

- Não - disse Ralph com um sorriso descorado. - Nunca foi. E a Woman Care é uma clínica de abortos, não é?

Davenport lançou-lhe um olhar de quem está perdendo a paciência e indicou com a cabeça a Secondhand Rose.

- É como gente idiota que nem ele chama a instituição, só que gostam de usar a palavra usina ao invés de clínica. Desprezam todo o resto que a WomanCare faz. - Para Ralph, Davenport começara a parecer o cara da TV que anuncia meiascalças indesfiáveis nos intervalos do filme de domingo à tarde. - Eles fazem terapia familiar, cuidam dos casos de abuso de mulheres e crianças, e mantêm um abrigo para essas mulheres lá para os lados de Newport. Têm um centro para atendimento de estupros na cidade, junto ao hospital, e uma linha direta de 24 horas para mulheres vítimas de estupro ou espancamento. Em resumo, eles defendem idéias que levam os homens de Malboro como Dalton a apelarem para essas baixarias.

- Mas eles fazem abortos - retrucou Ralph. - É contra isso que o pessoal se manifesta, certo?

Ralph tinha a impressão de ter visto manifestantes com cartazes diante do edifício de tijolos à vista, baixo e discreto, que sediava o WomanCare há anos. Eles sempre lhe pareciam demasiado pálidos, demasiado fanáticos, demasiado magros ou demasiado gordos, demasiado convictos de que Deus estava do seu lado. Os cartazes que carregavam diziam O FETO TEM DIREITOS, TAMBÉM e A VIDA É UMA BELA OPÇÃO e o já conhecido ABORTO É CRIME! Em diversas ocasiões, mulheres que usavam a clínica - que para Ralph era próxima mas desvinculada do hospital Derry Home tinham levado cusparadas.

- É, eles fazem abortos - Ham confirmou. - Você é contra?

Ralph pensou no número de anos em que Carolyn e ele tinham tentado ter um filho - anos que não produziram nada além de falsos alarmes e um único e sangrento aborto espontâneo aos cinco meses de gravidez - e sacudiu os ombros. De repente o dia lhe pareceu demasiado quente e as pernas demasiado cansadas. A lembrança da viagem de volta - principalmente do trecho da ladeira MorroAcima - pendia no fundo de sua mente como um peixe preso numa fieira de anzóis.

- Sei lá - respondeu. Só gostaria que as pessoas não fizessem... tanto estardalhaço.

Davenport deu um grunhido, foi até a vitrine do vizinho e espiou o falso cartaz de Procura-se.

Enquanto o contemplava, um homem alto e pálido com uma barbicha - a absoluta antítese do Homem de Malboro, na opinião de Ralph - materializou-se, vindo das sombras profundas da Secondhand Rose, como um fantasma de teatro de variedades, um tanto embolorado nos contornos.

Viu o que Davenport olhava, e um sorrisinho desdenhoso marcou os cantos de sua boca. Ralph achou que era o tipo de sorriso que podia custar a um homem alguns dentes ou uma fratura no nariz.

Especialmente num dia abafado como aquele.

Davenport apontou para o cartaz e sacudiu a cabeça enfaticamente.

O sorriso de Dalton se alargou. Abanou as mãos para Davenport - Quem liga para o que você pensa? dizia o gesto - e em seguida desapareceu novamente nas profundezas de sua loja.

Davenport voltou-se para Ralph, manchas vermelho-vivas ardendo no rosto.

- A foto desse homem devia estar junto da palavra pentelho no dicionário.

Aposto que é exactamente isso que ele acha de você, pensou Ralph, mas naturalmente calou-se.

Davenport parou diante do carrinho cheio de brochuras, as mãos enfiadas nos bolsos sob o avental vermelho com os trocados, reflectindo sobre o cartaz de (ei ei)

Susan Day.

- Bem - disse Ralph - acho que é melhor eu... Davenport despertou de suas reflexões:

- Não vá ainda não - falou. - Assine primeiro meu abaixo-assinado, está bem?

Devolva um pouco de alegria à minha manhã.

Ralph remexeu os pés constrangido.

- Em geral não me envolvo em confrontos desse...

- Vamos, Ralph - Davenport emendou num tom de vamos-ser-razoáveis. - Não estamos falando de confronto; estamos falando de garantir que gente excêntrica e maluca como a que dirige o Pão-de-Cada Dia - e brucutus políticos como Dalton-não fechem um centro de assistência às mulheres. Isto não é o mesmo que pedir o seu apoio para os testes de guerra química com golfinhos.

- Não - respondeu Ralph. - Acho que não.

- Nossa expectativa é mandar cinco mil assinaturas a Susan Day até o dia 15 de Setembro.

Provavelmente não vai adiantar nada - Derry não passa de um buraco no meio da estrada e ela provavelmente já deve ter compromissos agendados até o próximo século - mas não custa tentar.

Ralph pensou em responder a Ham que o único abaixo-assinado que gostaria de assinar era aos deuses do sono para que lhe devolvessem as três horas de bom descanso noturno que tinham-lhe roubado, mas outra espiada na cara do amigo o fez decidir em contrário.

Carolyn teria assinado essa porcaria, pensou. Ela não era fã do aborto, mas também não era fã de homens que chegam em casa depois dos bares fecharem e confundem mulheres e crianças com sacos de pancadas.

Verdade, mas essa não teria sido sua principal razão para assinar: teria assinado pela possibilidade de ouvir uma autêntica agitadora como Susan Day de viva voz, a poucos metros de distância. Teria feito isso pela curiosidade inata que provavelmente fora sua característica dominante - uma coisa tão forte que nem mesmo o tumor cerebral conseguira anular. Dois dias antes de morrer, ela puxara a entrada de cinema com que ele marcara o romance que tinha deixado em cima da mesa-de-cabeceira do lado dela porque queria saber que filme fora ver.

Na verdade vira A Few Good Men, e ficou ao mesmo tempo surpreso e desanimado ao descobrir o quanto doía lembrar do incidente. Ainda agora doía para danar.

- Claro - disse a Ham. - Terei prazer em assinar.

- Você é dos meus! - Davenport exclamou, dando-lhe uma palmadinha no ombro. O ar anuviado foi substituído por um sorriso, mas Ralph não achou que a mudança melhorasse alguma coisa. O sorriso era duro e pouco agradável. - Entre no meu antro de iniqüidade!

Ralph acompanhou-o pelo interior da loja que rescendia a fumo e que não parecia particularmente iníqua às nove e meia da manhã. Winston Smith correu adiante dos dois, parando apenas uma vez para olhá-los com aqueles vetustos olhos amarelos. Ele é um bobo e você, outro, poderia ter dito aquele último olhar. Nas circunstâncias, não era uma conclusão que Ralph fizesse muita questão de discutir. Meteu seu jornal debaixo do braço, curvou-se para a folha de papel pautado sobre o balcão ao lado da caixa registradora, e assinou o abaixo-assinado para Susan Day vir a Derry falar em defesa do WomanCare.

SAIU-SE MELHOR subindo a ladeira Morro-Acima do que esperara, e atravessou o cruzamento em X da Witcham com a Jackson pensando E aí, não foi tão ruim assim, foi...

De repente percebeu que seus ouvidos estavam zumbindo e as pernas começavam a tremer sob o peso do corpo. Parou do outro lado da Witcham e colocou a mão sobre a camisa.

Sentia o coração bater sob o tecido, bombeando sangue com uma fúria que dava medo.

Ouviu um farfalhar de papel e viu um suplemento de anúncios se soltar áoGlobe de Boston e cair oscilando na sarjeta. Começou a se abaixar para apanhá-lo, então parou.

Não é uma boa ideia, Ralph - se você se abaixar e'bem capaz de se estatelar. Sugiro que deixe o suplemento para o gari.

- Muito bem, é uma boa idéia - murmurou, endireitando-se. Pontos negros sugiram diante de seus olhos como um bando surreal de corvos e, por um instante, Ralph quase teve certeza de que de um jeito ou de outro ia acabar caindo por cima do suplemento.

- Ralph? Você está bem?

Ele ergueu os olhos cautelosamente e viu Lois Chasse, que morava do outro lado da Avenida Harris, a meio quarteirão da casa que ele dividia com Bill McGovern. Estava sentada em um banco do lado de fora do parque Strawford, provavelmente à espera do ônibus da rua do Canal para levá-la ao centro.

- Claro, estou óptimo - respondeu, fazendo as pernas mexerem. Teve a sensação de que atravessava um caminho pegajoso, mas achou que chegara ao banco sem dar vexame. Não pôde, porém, conter um suspiro de gratidão ao se sentar ao lado de Lois.

Lois Chasse tinha grandes olhos escuros - do tipo que chamavam de olhos ibéricos quando Ralph era criança - e ele era capaz de apostar que aqueles olhos tinham dançado na imaginação de dúzias de rapazes durante os anos em que Lois frequentara a escola secundária. Continuavam a ser seu ponto forte, mas Ralph não gostou muito da preocupação que percebia neles agora. Era... o quê? Um pouco atenciosa demais para seu gosto foi o primeiro pensamento que lhe ocorreu, mas não tinha certeza de que formulava o pensamento correctamente.

- Óptimo - repetiu Lois.

- Não tenha dúvida. - Ele puxou o lenço do bolso traseiro, examinou-o para se certificar de que estava limpo, e em seguida enxugou a testa.

- Espero que não se importe que lhe diga uma coisa, Ralph, mas você não parece óptimo.

Ralph se importava que ela dissesse, sim, mas não sabia como lhe dizer isso.

- Você está pálido, suando, e está agindo como um sujismundo.

Ralph olhou para Lois, espantado.

- Alguma coisa caiu do seu jornal. Acho que era um suplemento publicitário.

- Caiu?

- Você sabe perfeitamente que caiu. Me dá uma licencinha.

Ela se levantou, atravessou a calçada, abaixou-se (Ralph reparou que, embora seus quadris estivessem um tanto largos, as pernas continuavam admiravelmente enxutas para uma mulher que devia andar pelos sessenta e oito), e apanhou o suplemento. Voltou com ele ao banco e se sentou.

- Tome. Agora você não é mais um sujismundo. Ele sorriu mesmo sem querer.

- Muito obrigado.

- Não tem de quê. Posso usar o cupom de descontos do restaurante, da loja de hambúrguer e da Coca Diet. Engordei tanto desde que meu marido morreu.

- Você não está gorda, Lois.

- Muito obrigada, Ralph, você é um perfeito cavalheiro, mas não vamos mudar de assunto.

Você teve uma tontura, não foi? Na verdade, você quase desmaiou.

- Eu estava apenas recuperando o fôlego - informou secamente, virando-se para observar um grupo de garotos que jogavam beisebol dentro do parque. Jogavam com garra, riam e bolinavam uns aos outros de sacanagem. Ralph invejou a eficiência dos seus sistemas de condicionamento de ar.

Recuperando o fôlego, é? - É.

- Apenas recuperando o fôlego.

- Lois, você está começando a parecer um disco arranhado.

- Pois bem, o disco arranhado vai lhe dizer uma coisinha. Você é maluco de tentar subir a

Morro-Acima neste calor. Se você quer caminhar, por que não escolhe a Extensão da Harris, que é plana, como costumava fazer?

- Porque me faz pensar em Carolyn - falou, aborrecido com a maneira seca e quase grosseira com que respondia, mas sem conseguir se refrear.

- Que merda - ela apertou rapidamente sua mão. - Me desculpe.

- Está tudo bem.

- Não está, não. Eu devia ter deduzido. Mas seu estado agora há pouco, também não era nada bom. Você não tem mais vinte anos, Ralph. Nem mesmo quarenta. Não quero dizer que não esteja em boa forma - qualquer pessoa pode ver que está em óptima forma para um cara de sua idade - mas precisa se cuidar um pouco mais. Carolyn gostaria que você se cuidasse.

- Eu sei, mas estou realmente...

... bem, ele ia dizer, e então ergueu os olhos postos nas mãos, tornou a encarar os olhos escuros da mulher, e o que viu neles, durante alguns segundos, não o deixou terminar o que ia dizer. Havia tristeza e cansaço naqueles olhos... ou seria solidão? Talvez ambos. De qualquer modo, não foi só isso que viu neles. Viu-se a si mesmo.

Você está sendo tolo, diziam os olhos que contemplavam os seus. Talvez nós dois estejamos. Você tem setenta anos e é viúvo, Ralph. Eu tenho sessenta e oito e sou viúva.

Quanto tempo vamos nos sentar em sua varanda à noite com Bill McGovern bancando a vela mais velha do mundo? Não muito, espero, porque nenhum de nós dois debutou ontem.

- Ralph? - Lois chamou, repentinamente preocupada. - Você está bem?

- Estou - respondeu, voltando mais uma vez o olhar para as mãos. - Claro que estou.

- Você estava fazendo uma cara de quem... bem, não sei. Ralph se perguntou se a combinação do calor e da subida da ladeira teriam confundido um pouco o seu cérebro. Porque, afinal de contas, estava diante de Lois, a quem McGovern sempre se referia (com um pequeno e satírico arquear da sobrancelha esquerda) como "a nossa Lois". tudo bem, era verdade, ela continuava em boa forma - pernas enxutas, um bonito busto e aqueles olhos notáveis - e talvez ele não se importasse de levá-la para a cama, e talvez ela não se opusesse. Mas o que haveria depois? Se por acaso visse uma entrada de cinema saindo do livro que ele estava lendo, será que a puxaria, cheia de curiosidade pelo filme que ele vira e lamentaria que não tivesse ido junto?

Ralph achava que não. Os olhos de Lois eram notáveis e ele descobrira os seus próprios descendo pelo decote em V da blusa dela mais de uma vez, quando os três se sentavam na varanda, bebendo chá gelado na fresca da noite, mas ele tinha a impressão de que sua cabecinha podia meter sua cabeçorra em apuros, mesmo aos setenta. A velhice não era desculpa para alguém se tornar descuidado.

Ele se pôs de pé, consciente de que Lois o observava, e fez um esforço extra para manter o corpo ereto.

- Obrigado por sua preocupação - disse. - Quer acompanhar um velho rua acima?

- Obrigada, mas estou indo para o centro. Há uma promoção de lã cor-de-rosa muito bonita no Círculo de Costura, e estou pensando num xale. Vou ficar aqui, esperando o ônibus e curtindo os meus cupões.

Ralph sorriu.

- Faça isso. - Deu uma olhada nos garotos que jogavam no campo improvisado. Nisso, um menino com uma extravagante cabeleira ruiva arremeteu da terceira base e se atirou no chão mergulhando de cabeça... e foi bater contra as caneleiras do apanhador com um audível pam. Ralph fez uma careta, imaginando ambulâncias com luzes piscando e sirenes ligadas, mas o cabelo de cenoura se levantou de um salto, rindo.

- Perdeu o lance, seu trapalhão! - gritou.

- Perdi uma porra! - retrucou o apanhador indignado, mas em seguida caiu na gargalhada também.

- Já teve vontade de voltar a essa idade, Ralph? - perguntou Lois.

Ele pensou um pouco.

- Algumas vezes. Em geral parece cansativo demais. Apareça hoje à noite, Lois: venha sentar um pouquinho conosco.

- Sou bem capaz de fazer isso - ela respondeu e Ralph começou a subir a Avenida Harris, sentindo o peso daqueles olhos notáveis pousados nele, e procurando manter as costas retas.

Achou que estava se saindo bem, mas era dureza. Nunca se sentira tão cansado na vida.

 

Ralph marcou a consulta com o Dr. Litchfield menos de uma hora após sua conversa com Lois no banco do parque; a recepcionista de voz calma e sexy lhe informou que poderia encaixá-lo na próxima terça-feira às dez horas da manhã, se lhe conviesse, e Ralph respondeu que estava perfeito. Então desligou, entrou na sala, sentou-se na poltrona com vista para a Avenida Harris, e pôs-se a refletir sobre a maneira com que, inicialmente, o Dr. Litchfield tratara o tumor cerebral de sua mulher com Tylenol-3 e planfletos sobre as várias técnicas de relaxamento. Daí pensou na expressão que vira nos olhos de Litchfield, depois que os testes de ressonância magnética confirmaram as más notícias da tomografia computadorizada... aquela expressão de culpa e constrangimento.

Na calçada defronte, um bando de crianças, que logo voltaria às aulas, saiu do mercadinho munidas de doces e refrigerantes. Enquanto Ralph as observava montarem as bicicletas e saírem pedalando pelo calor de onze horas de um dia claro e quente, pensou no que sempre pensava quando lhe ocorria a lembrança dos olhos do Dr. Litchfield: que provavelmente era uma lembrança equivocada.

A coisa, amigão, é que você queria que o Litchfield. parecesse constrangido... e mais do que isso, você queria que ele parecesse culpado.

Possivelmente era verdade, possivelmente Carl Litchfield era gente boa e um cobra em medicina mas, ainda assim, Ralph telefonou novamente para o consultório de Litchfield meia hora mais tarde. Disse à recepcionista de voz sexy que acabara de verificar sua agenda e descobrira que afinal não estava livre na próxima terça-feira, às dez horas. Marcara uma consulta com o pedicure para aquele dia e tinha se esquecido completamente.

- Minha memória já não é a mesma - justificou Ralph.

A recepcionista sugeriu a quinta-feira seguinte às duas.

Ralph respondeu com a promessa de voltar a ligar.

Mentiroso, mentiroso, pensou ao desligar o telefone, caminhou lentamente de volta à poltrona e sentou-se com cuidado. Cortou relações com ele?

Supunha que sim. Não que o Dr. Litchfield fosse perder sequer uma noite de sono por isso; se chegasse a pensar em Ralph, seria apenas como um velhote a menos para peidar em sua cara durante o exame da próstata.

Muito bem, então o que vai fazer a respeito de sua insónia, Ralph?

- Sente-se bem quieto meia hora antes de deitar e ouça música clássica - disse em voz alta. - Compre umas fraldas para resolver os incómodos "chamados da natureza".

Surpreendeu-se ao achar graça da imagem. Seu riso tinha uma pontinha de histeria que não lhe agradou muito - assustou-o bastante, para falar a verdade - mas demorou algum tempo até conseguir parar de rir.

No entanto, achava que ia experimentar a sugestão de Hamilton Davenport (dispensaria as fraldas, obrigado), da mesma maneira que experimentara a maioria dos remédios caseiros que as pessoas bem-intencionadas tinham-lhe indicado. Isto o levou a pensar no primeiro remédio caseiro confiável, o que lhe provocou nova risada.

Fora ideia deMcGovem. Encontrava-se sentado na varanda uma noite quando Ralph voltara do mercadinho trazendo macarrão e molho, deu uma boa olhada no vizinho do sobrado, fez um muxoxo, e sacudiu a cabeça penalizado.

- Que quer dizer com isso? - perguntou Ralph, sentando-se a seu lado. Mais adiante na rua, uma garotinha vestindo jeans e uma enorme camiseta branca pulava corda e cantava à luz poente.

- Quero dizer que você está bem abatido - respondeu McGovern. Usou o polegar para empurrar a aba do chapéu-panamá para trás e examinar Ralph mais atentamente. Continua sem dormir?

- Continuo sem dormir - confirmou Ralph.

McGovern calou-se durante alguns segundos. Quando tornou a falar, foi num tom absolutamente definitivo-de fato, quase apocalíptico. - Uísque é a resposta - falou.

- O que foi que disse?

- Para sua insónia, Ralph. Não digo que deva tomar banho de uísque - não precisa chegar a tanto. Misture uma colher de sopa de mel com meia dose de uísque e vire a mistura quinze ou vinte minutos antes de cair na cama.

- Você acha? - Ralph perguntou esperançoso.

- Só posso dizer que funcionou comigo, e tive sérios problemas para dormir por volta dos quarenta anos. Lembrando agora, acho que foi a minha crise da meia-idade-seis meses de insónia e, no início da calvície, uma depressão que durou um ano.

Embora os livros que andara consultando dissessem que a bebida era uma cura para insónia superestimada - que, muitas vezes, piorava o problema ao invés de melhorá-lo - Ralph experimentou-a assim mesmo. Nunca fora de beber muito, por isso começou ajustando a meia dose recomendada por McGovern para um quarto de dose, mas, passada uma semana sem o menor alívio, subira a cota para uma dose inteira... depois duas. Acordou certa manhã às quatro e vinte e dois com uma dor de cabeça morrinha, além do gosto insípido do uísque

Early Times no céu da boca, e percebeu que estava tendo sua primeira ressaca em quinze anos.

- A vida é curta demais para essas porcarias - anunciou para o apartamento vazio, terminando, assim, sua grande experiência com uísque.

MUITO BEM, pensou Ralph enquanto observava o fluxo irregular de fregueses entrando e saindo do mercadinho defronte. A situação é a seguinte: McGovern diz que sua aparência está uma merda, você quase desmaiou aos pés de Lois Chasse hoje de manhã, e acabou de cancelar a consulta com O Velho Médico de família. Que vai fazer agora ? Deixar rolar? Aceitar a situação e deixar rolar?

A ideia tinha até um certo charme oriental - destino, carma, e coisa e tal - mas ia precisar de muito mais do que charme para suportar as longas horas da madrugada. Os livros diziam que havia gente no mundo, muita gente, que conseguia viver muito bem com três ou quatro horas de sono por noite. Havia até quem vivesse com apenas duas. Era uma minoria, mas existia.

Ralph Roberts, porém, não fazia parte dela.

A aparência até que não era tão importante - sua época de ídolo de matiné ficara no passado - mas seu bem-estar sim, e já não era apenas uma questão de não se sentir bem; sentia-se péssimo. A insónia começara a permear todos os aspectos de sua vida, como o cheiro de alho frito no quinto andar acabava permeando todo um prédio de apartamentos. A cor principiara a esmaecer das coisas; o mundo começara a assumir o aspecto opaco e granuloso de uma fotografia de jornal.

Decisões simples - esquentar uma refeição congelada para comer à noite ou apanhar um sanduíche no mercadinho e ir comê-lo na área de piqueniques próximo à pista 3, por exemplo - tinham-se tornado difíceis, quase aflitivas. Nas últimas semanas, surpreendera-se voltando da loja de vídeo de mãos vazias, cada vez com maior frequência, não porque não houvesse nada na loja que quisesse assistir mas porque havia opções demais-não conseguia decidir se queria ver um filme do Dirty Harry ou uma comédia de Billy Crystal ou ainda um episódio antigo de Jornada nas Estrelas. Depois de algumas experiências dessas, atirara-se nesta mesma poltrona, quase chorando de frustração... e, supunha, de medo.

Aquele sorrateiro entorpecimento dos sentidos e a erosão da capacidade de decidir não eram os únicos problemas que passara a associar com a insónia; sua memória para fatos recentes também começara a falhar. Sempre tivera o hábito de ir ao cinema pelo menos uma e até duas vezes por semana, desde que se aposentara da gráfica, onde encerrara a vida de trabalho como contador e supervisor geral. Carolyn o acompanhara até o ano passado, quando, demasiado doente, deixara de sentir prazer em sair de casa. Depois de sua morte, passara a ir, em geral, sozinho, embora Helen Deepneau o tivesse acompanhado em uma ou duas ocasiões em que Ed estava em casa para cuidar da neném (o próprio Ed não ia quase nunca, alegava que o cinema lhe dava dor de cabeça). Ralph habituara-se de tal forma a ligar para a secretária electrónica do cinema para descobrir o horário das sessões que sabia o número de cor. À medida que o verão foi passando, porém, começou a sentir a necessidade de consultar o catálogo de telefones com uma frequência cada vez maior-não conseguia ter certeza se os quatro últimos números eram 1317 ou 1713.

- É 1713 - disse agora. Sei que é. - Mas será que sabia? Sabia mesmo?

Ligue novamente para Litchfield. Vamos, Ralph - pare de se martirizar. Faça alguma coisa construtiva. E se o Litchfield está entalado em sua garganta, consulte outro. O catálogo nunca esteve tão cheio de médicos.

Provavelmente era verdade, mas setenta anos é muita idade para se sair procurando outro médico pelo método do uni-duni-tê. E não ia ligar outra vez para Litchfield. Ponto final.

Muito bem, e agora seu velho bode teimoso? Mais alguns remedinhos caseiros? Espero que não, porque nesse ritmo daqui a pouco vai estar comendo olho de lagarto e língua de sapo.

A solução que lhe ocorreu foi como uma brisa fresca num dia de calor... e era tão absurdamente simples. Toda a pesquisa que fizera nos livros naquele verão tivera, como único objectivo, compreender o problema e não encontrar uma solução. No capítulo das respostas, ele confiara quase que unicamente nos remédios alternativos, como uísque com mel, mesmo quando os livros já haviam garantido que, provavelmente, não adiantariam ou adiantariam apenas por pouco tempo. Embora os livros tivessem oferecido vários métodos para enfrentar a insónia, presumivelmente confiáveis, o único que Ralph realmente experimentara fora o mais simples e mais óbvio: ir para a cama mais cedo. A sugestão não funcionara - simplesmente permanecera deitado e insone até as onze e meia mais ou menos e, em seguida, adormecera para acordar mais cedo - mas outra sugestão talvez produzisse resultado.

De qualquer maneira, valia a pena experimentar.

AO INVÉS de passar a tarde naquela agitação costumeira de cuidar do jardim, Ralph foi até a biblioteca e folheou alguns livros que já lera. Parecia ser consenso geral que, quando ir para a cama mais cedo não resolvia, ir mais tarde talvez resolvesse. Ralph voltou para casa (lembrando-se das aventuras anteriores, dessa vez tomou um ônibus) sentindo uma tímida esperança. Quem sabe funcionaria. Se não funcionasse sempre poderia recorrer a Bach, Beethoven e William Ackerman.

Sua primeira tentativa com a técnica que um dos textos chamava de "atrasar o sono" foi cómica. Acordou à hora então habitual (3h45 pelo relógio digital sobre a lareira da sala de estar), com as costas e o pescoço doendo, sem entender imediatamente como chegara à poltrona junto à janela, ou por que a TV estava ligada, transmitindo apenas chuviscos e um ruído abafado que lembrava o das ondas na praia.

Somente quando deixou a cabeça pender cautelosamente para trás, sustentando a nuca com a mão em concha, é que entendeu o que acontecera. Pretendera ficar acordado no mínimo até as três ou quatro horas. Iria então para a cama e dormiria o sono dos justos. Esse fora o plano. No entanto, O Incrível Insone da Avenida Harris adormecera durante o monólogo de abertura de Jay Leno, como uma criança que tenta ficar acordada a noite inteira só para ver como é. E então, naturalmente, terminara a aventura acordando na droga da poltrona. O problema era o mesmo, qualquer um teria dito; só mudara o lugar.

Ralph fora para a cama assim mesmo, com uma leve esperança, mas a vontade (se não a necessidade) de dormir passara. Após uma hora de vigília, voltara à poltrona, desta vez com um travesseiro para escorar o pescoço duro e um sorriso triste no rosto.

NÃO HOUVE graça nenhuma na segunda tentativa, realizada na noite seguinte. O sono começou a chegar à hora de sempre-onze e vinte, quando o apresentador da meteorologia anunciou a previsão do tempo para o dia seguinte. Desta vez Ralph venceu o sono, conseguiu ver o programa seguinte inteiro (embora quase tivesse cochilado durante a entrevista com a convidada da noite) e também a sessão coruja. Passou um velho filme de Audie Murphy em que o herói parecia estar ganhando a guerra do Pacífico praticamente sozinho. Por vezes, Ralph tinha a impressão de que havia uma regra implícita entre as emissoras locais de TV, pela qual os filmes exibidos de madrugada só podiam ser estrelados por Audie Murphy e James Brolin.

Depois que explodiram o último abrigo subterrâneo japonês, Ralph trocou de canal à procura de outro filme, mas não encontrou nada além do familiar chuvisco. Supunha que poderia ter visto filmes a noite inteira se tivesse assinatura da TV a cabo, como Bill no andar de baixo ou Lois mais adiante na rua; lembrava-se de ter incluído isso na lista de coisas a providenciar no ano seguinte. Mas Carolyn morrera e a TV a cabo - com ou sem espectador doméstico-deixara de parecer tão importante. Descobriu um exemplar de Sports lllustrated e começou a ler, sem muito interesse, um artigo sobre tênis feminino que lhe escapara na primeira leitura, espiando de vez em quando o relógio, à medida que os ponteiros avançavam para as 3h da madrugada. Praticamente convencera-se de que o método ia funcionar. Sentia as pálpebras tão pesadas que parecia que as mergulhara em concreto e, embora estivesse lendo o artigo sobre tênis com cuidado, palavra por palavra, não fazia idéia do ponto a que o autor queria chegar. Frases inteiras lampejavam incompreensíveis pelo seu cérebro, como raios cósmicos.

Vou dormir esta noite-acho que vou mesmo. Pela primeira vez em meses, o sol terá que nascer sem minha ajuda, e isso não é apenas bom, amigos e vizinhos, isso é o máximo.

Pouco depois das três horas, aquela sonolência agradável começou a desaparecer. Não desapareceu como o estouro de uma rolha de champanhe, mas foi escoando aos pouquinhos, como areia passando por uma peneira fina ou água descendo por um cano parcialmente entupido. Quando Ralph percebeu o que estava acontecendo, não sentiu pânico, mas um desânimo doentio. Era uma sensação que aprendera a reconhecer como o verdadeiro antônimo da esperança e, quando se retirou para o quarto, arrastando os chinelos, às três e quinze, não conseguia se lembrar de uma depressão mais profunda do que aquela que o envolvia. Sentia-se sufocar.

- Por favor, meu Deus, só um cochilo - murmurou ao desligar a luz, mas tinha fortes suspeitas de que ali estava um pedido que não seria atendido.

Realmente não foi. Embora estivesse acordado há vinte e quatro horas àquela altura, o último vestígio de sonolência abandonou seu corpo e sua mente por volta das quinze para as quatro. Sentia-se cansado, sim - profundamente cansado, como jamais se sentira na vida - mas descobrira que entre sentir cansaço e sono havia, por vezes, uma enorme distância.

O sono, aquele amigo imparcial, o melhor e mais confiável enfermeiro da humanidade desde a aurora do tempo, mais uma vez o abandonara.

Por volta das quatro horas, sua cama lhe pareceu odiosa, como sempre ocorria quando percebia que não podia aproveitá-la. Girou as pernas para o chão, coçando os pêlos quase inteiramente grisalhos - que saíam pelo paletó do pijama meio desabotoado. Enfiou os chinelos, saiu arrastando os pés de volta à sala de estar, onde despencou na poltrona e ficou espiando a Avenida Harris. Parecia um cenário teatral onde o único actor à vista nem era humano: um vira-lata perambulava pela Avenida Harris em direcção ao parque Strawford e à ladeira do MorroAcima. Mantinha a perna traseira da direita erguida o maior tempo possível e coxeava com as outras três o melhor que podia.

Oi, Rosalie - Ralph murmurou, esfregando os olhos com a mão.

Era uma manhã de quinta-feira, dia de coleta de lixo na Avenida Harris, por isso não se surpreendeu em ver Rosalie, figura fácil no bairro neste último ano ou pouco mais. Ela foi descendo a rua descansadamente, investigando as fileiras de latas de lixo com o discernimento de um velho freguês do mercado das pulgas.

Rosalie - que coxeava mais do que nunca esta manhã, parecendo tão cansada quanto Ralph - descobriu então um osso de carne de vaca de bom tamanho e se afastou a trote, levando-o na boca. Ralph a observou até desaparecer de vista, e simplesmente continuou sentado com as mãos cruzadas no colo, espiando o bairro silencioso, onde as lâmpadas laranja de alta intensidade contribuíam para a ilusão de que a Avenida Harris nada mais era que um cenário abandonado pelos actores após a última sessão noturna; brilhavam como reflectores numa perspectiva decrescente ao mesmo tempo surreal e alucinante.

Ralph Roberts permaneceu ali, na poltrona em que ultimamente passara tantas madrugadas, à espera de que a luz e o movimento revestissem o mundo sem vida lá embaixo. Finalmente o primeiro actor humano - Pete, o jornaleiro - entrou pela direita do palco, montando uma Raleigh. Pedalou a bicicleta rua acima, atirando os jornais enrolados, que retirava de uma bolsa pendurada ao ombro, para as varandas com um razoável grau de acerto.

Ralph observou-o durante algum tempo, suspirou profundamente e se levantou para preparar um chá.

- Não me lembro de jamais ter lido essa merda no meu horóscopo - falou em tom cavernoso, abrindo a torneira da cozinha, para encher a chaleira.

AQUELA LONGA manhã de quinta-feira e sua tarde ainda mais longa ensinaram a Ralph Roberts uma lição valiosa: não desprezar três ou quatro horas de sono por noite simplesmente porque passara a vida sob a impressão equivocada de que tinha o direito de dormir no mínimo seis e, em geral, sete horas. Serviram também de terrível trailer do que estava por vir: se as coisas não melhorassem, provavelmente se sentiria assim a maior parte do tempo. Diabos, o tempo todo. Foi para o quarto às dez horas da manhã e novamente à uma, na esperança de tirar um cochilo - até um cochilinho bastaria, meia hora de sono já seria uma bênção - mas não conseguiu sequer sentir sonolência. Sentia um cansaço extremo, mas nem um pingo de sono.

Por volta das três, resolveu preparar uma sopa instantânea. Encheu a chaleira de água, pôs para ferver, abrindo o armário sobre a bancada da pia onde guardava temperos, ervas e vários envelopes de comida que aparentemente só astronautas e velhos comiam - pós diversos a que o consumidor só precisava adicionar água quente.

Empurrou latas e frascos de um lado para o outro aleatoriamente, até que ficou parado, espiando o armário durante algum tempo, como se esperasse que a caixa com envelopes de sopa se materializasse no espaço que abrira. Quando isso não aconteceu, repetiu o processo, só que desta vez deslocou as coisas para a posição inicial antes de espiar novamente, com o ar de distante perplexidade que estava-se tornando (misericordiosamente, Ralph não sabia disso) sua expressão predominante.

Quando a chaleira apitou, passou-a para uma das bocas de trás e voltou a espiar dentro do armário. Compreendeu - muito, muito lentamente - que devia ter gasto o último envelope de sopa na véspera ou na antevéspera, embora não conseguisse por nada nesse mundo se lembrar do fato.

- E isso é alguma surpresa? - perguntou às caixas e frascos no armário aberto. - Estou tão cansado que nem consigo me lembrar do meu nome.

Consigo, sim, pensou. E Leon Redbone. Pronto!

Era uma piada besta, mas sentiu um sorrisinho - leve como uma pena - tocar seus lábios.

Deu uma passada no banheiro, penteou os cabelos e desceu. Aqui vai Audie Murphy, avançando sobre o território inimigo em busca de suprimentos, pensou. Objetivo principal uma caixa de envelopes de Canja de Galinha. Na impossibilidade de localizar e atingir o alvo principal, desviarei para o objetivo seguinte: Macarrão com carne. Sei que é uma missão arriscada, mas...

- ...mas trabalho melhor sozinho - terminou quando saía para a varanda.

A velha Sra. Perrine, que por acaso ia passando, brindou Ralph com um olhar sagaz, mas não disse nada. Ele esperou que a mulher passasse - não se sentia capaz de conversar com ninguém esta tarde, e menos ainda com a Sra. Perrine que, aos oitenta e dois anos, conseguira arranjar um trabalho estimulante e útil junto aos fuzileiros navais na ilha Parris.

Fingiu estar examinando uma planta num dos vasos pendurados sob a aba do telhado, até"

ela atingir o que considerou uma distância segura; só então atravessou a Avenida Harris, rumo ao mercadinho. Ali, os verdadeiros problemas do dia começaram.

ENTROU na lojinha de conveniência, remoendo novamente o espetacular fracasso da experiência de retardar o sono. Perguntava-se se afinal os conselhos nos textos da biblioteca não passariam de uma versão urbana dos remédios caseiros que seus conhecidos pareciam ansiosos para lhe indicar. Era uma ideia desagradável, mas achou que sua mente (ou a força que a controlava, na realidade a responsável por essa tortura lenta) lhe transmitira uma mensagem que era ainda mais desagradável: Você tem uma janela do sono, Ralph. Não é tão grande como costumava ser, e parece andar diminuindo a cada semana que passa, mas é melhor ser grato pelo que tem, porque uma janela pequena é melhor do que nenhuma. Está percebendo isso agora, não está?

- Estou - Ralph resmungou ao caminhar pelo corredor central até a prateleira das caixas de sopa.

- Estou percebendo muito bem.

Sue, a balconista da tarde, riu animada.

- Você deve ter dinheiro no banco, Ralph - comentou.

- Desculpe, não ouvi - Ralph não se virou; estava inventariando as caixas vermelhas.

Temos aqui cebola... ervilha... macarrãozinho com carne... mas, que diabos, por onde andava a Canja de Galinha?

- Mamãe sempre me disse que as pessoas que falam sozinhas têm... Ah, meu Deus!

Por um instante, Ralph pensou que a moça dissera algo demasiado complexo para sua mente cansada apreender de pronto, alguma coisa sobre gente que falava sozinha ter encontrado Deus, mas, em seguida, ela gritou. Ele se curvara para olhar as caixas na prateleira de baixo, e o grito fez com que se erguesse com tanta força e rapidez, que seus joelhos estalaram.

Girou o carrinho na direcção da entrada da loja, e esbarrou o cotovelo na prateleira superior das caixas de sopa, fazendo cair meia dúzia de embalagens vermelhas no corredor.

- Sue? Que foi que houve?

Sue não lhe deu atenção. Olhava para a porta com as mãos crispadas contra a boca e os enormes olhos castanhos a espiar por cima delas.

- Meu Deus, olhe aquela sangueira! - exclamou com a voz embargada.

Ralph virou-se mais um pouco, derrubando mais algumas caixas de sopa no corredor, e espiou pela vitrine suja do mercadinho. O que viu tirou-lhe o fôlego, e gastou alguns segundos - talvez cinco - para perceber que a mulher espancada e ensanguentada que cambaleava em direção à loja era Helen Deepneau. Ralph sempre achara Helen a mulher mais bonita do sector leste da cidade, mas não havia beleza alguma nela agora. Um dos olhos fechara de tão inchado; havia um corte na têmpora esquerda que logo seria coberto pelo edema espalhafatoso de uma pancada recente; os lábios inchados e as faces estavam cobertos de sangue. O sangue espirrara do nariz e continuava a escorrer. Helen ziguezagueou pelo pequeno estacionamento do mercadinho até a porta como uma bêbada, o olho bom não parecia enxergar nada, apenas olhava arregalado.

Mais assustadora que a sua aparência era a maneira como carregava Natalie. Trazia a neném, que berrava de medo, enganchada displicentemente no quadril, carregando-a como teria carregado os livros para a escola há dez ou doze anos.

- Meu Deus ela vai deixar a neném cair!-Sue berrou, mas, embora estivesse uns dez passos mais próxima da porta do que Ralph, não se mexeu - simplesmente continuou parada, com as mãos comprimindo a boca e os olhos engolindo o rosto.

O cansaço de Ralph desapareceu. Precipitou-se pelo corredor, escancarou a porta e correu para fora. Chegou na hora exata de agarrar Helen pelos ombros, quando ela bateu o quadril contra um freezer - por sorte não foi o quadril em que trazia Natalie - e saiu andando em nova direcção.

- Helen!-ele gritou.-Caramba, Helen, que aconteceu?

- Hum? - ela perguntou, uma curiosidade embotada na voz, totalmente diferente da voz da jovem cheia de vida que às vezes o acompanhava ao cinema e suspirava por Mel Gibson.

O olho bom virou-se para ele, mostrando a mesma curiosidade embotada, um olhar que dizia que a moça não sabia quem era, muito menos onde estava, o que acontecera, ou quando.

Hum? Ral? Quê?

A neném escorregou. Ralph largou Helen, esticou os braços para amparar Natalie, conseguindo agarrar uma das tiras de seu macacão. Nat berrou, agitou as mãos e fixou nele os grandes olhos azuis. Ele conseguiu enfiar a outra mão entre as perninhas de Nat, um segundo antes da tira escapar-lhe. Por um instante, a neném equilibrou-se aos berros em sua mão, como uma ginasta numa barra, e Ralph sentiu o volume úmido de suas fraldas sob o macacão. Passou então o outro braço por suas costas, puxando-a contra o peito. Seu coração batia com força e, mesmo com a neném segura nos braços, continuava a vê-la caindo, continuava a ver a cabecinha com aquela touca de cabelos muito finos bater no chão sujo cheio de pontas de cigarros com um baque seco.

- Hum? Eh? - Helen perguntou. Viu Natalie nos braços de Ralph e o embotamento de seu olho bom diminuiu.

Helen ergueu as mãos para a criança que, nos braços de Ralph, imitou o gesto com as mãozinhas gorduchas. Helen vacilou, bateu contra a parede do prédio, cambaleou um passo atrás. Um pé se enredou no outro (Ralph viu respingos de sangue em seus pequenos ténis brancos e foi espantoso como de repente tudo se avivou; a cor voltou ao mundo, ao menos temporariamente), e ela teria caído, se Sue não tivesse escolhido aquele momento para finalmente se aventurar ali fora. Ao invés de cair ao chão, Helen bateu contra a porta de entrada e ficou encostada ali, como um bêbado num poste.

- Ral? - A expressão em seus olhos tornara-se mais nítida agora, e Ralph viu que não era tanto curiosidade, mas incredulidade. Ela inspirou profundamente, fazendo um esforço enorme para emitir palavras compreensíveis através dos lábios inchados.

- Dá, M'dá mia nen-ném. Ne-ném. M'dá... Nat-lie.

- Ainda não, Helen - Ralph falou. - Suas pernas ainda não estão muito firmes.

Sue continuava do outro lado da porta, firmando-a para que Helen não caísse. O rosto de Sue estava mortalmente pálido, os olhos marejados de lágrimas.

- Venha cá para fora - Ralph lhe disse. - Ampare ela.

- Não posso! - respondeu Sue gaguejando. - Ela está toda ensan-ensan-guentada!

- Pelo amor de Deus, pare com isso! E a Helen! Helen Deepneau que mora nessa rua!

Embora Sue certamente soubesse disso, o fato de ouvir o nome de Helen pareceu dar resultado. Contornou a porta aberta e, quando Helen tornou a cambalear para trás, Sue a abraçou pelos ombros, segurando-a com firmeza. A expressão de incrédula surpresa não se alterou no rosto de Helen. Ralph sentia crescente dificuldade de olhar para ela.

Embrulhava-lhe o estômago.

- Ralph? Que aconteceu? Foi acidente?

Ele virou a cabeça e deparou com Bill McGovern parado junto ao estacionamento. Usava uma de suas elegantes camisas azuis, cujas mangas ainda conservavam os vincos do ferro, e erguia as mãos de dedos longos, singularmente delicadas, para proteger os olhos da claridade. Daquele jeito parecia estranho, como se estivesse nu, mas Ralph não teve tempo de parar para pensar porquê; havia coisas demais acontecendo.

- Não foi acidente - falou. - Ela foi espancada. Olha aqui, segura a neném.

Entregou Natalie a McGovern que, a princípio, se esquivou, mas logo aceitou a neném.

Natalie imediatamente recomeçou a berrar. McGovern parecia alguém que acabara de receber um saco de enjôo cheio demais, segurou-a longe do corpo, com os pezinhos pendurados. Atrás dele, começava a formar-se um pequeno ajuntamento, em sua maioria, adolescentes em uniformes de beisebol que voltavam para casa depois de uma tarde de jogo no campo ali perto. Fitavam o rosto inchado e sangrento de Helen com uma avidez desagradável e Ralph surpreendeu-se pensando no episódio da Bíblia em que Noé se embebedou - nos filhos bons que desviaram os olhos do velho nu, deitado em sua tenda, e no filho mau que olhara...

Gentilmente, substituiu o braço de Sue pelo seu. O olho bom de Helen virou-se para ele.

Chamou pelo seu nome mais claramente desta vez, de modo mais firme, e a gratidão que Ralph percebeu em sua voz engrolada lhe deu vontade de chorar.

- Sue... segure a neném. Bill não tem o menor jeito.

Ela obedeceu, aninhando Nat com ternura em seus braços. McGovern retribuiu com um sorriso grato e só então Ralph percebeu por que havia algo errado em sua aparência.

McGovern não estava usando o chapéu-panamá que parecia ser uma parte tão intrínseca dele (pelo menos no verão) quanto o quisto no nariz.

- Eh, moço, que foi que aconteceu? - Um dos garotos do beisebol perguntou.

- Nada que seja de sua conta - respondeu Ralph.

- Parece que ela andou disputando uns rounds com Riddick Bowe.

- Não, foi com Tyson - corrigiu outro integrante da turma e, incrivelmente, ouviram-se risos.

- Dêem o fora daqui! - Ralph gritou, inesperadamente furioso.-Vão vender seu peixe em outro lugar! Vão cuidar de suas vidas!

Eles recuaram alguns passos, mas ninguém se retirou. Era sangue o que viam, e não estava na tela de cinema.

- Helen, você pode andar?

- Poxo - respondeu. - Axo... Axo que xim. Cuidadosamente Ralph levou-a a contornar a porta aberta e entrar no mercadinho. Helen andava devagar, arrastando um pé depois do outro, como uma velha. O cheiro azedo do suor que saía de seus poros embrulhou o estômago de Ralph.

Não era o cheiro, na verdade; era o esforço para conciliar esta Helen com a mulher espevitada e agradavelmente sensual com quem conversara no dia anterior enquanto ela cuidava dos canteiros do jardim.

Ralph repentinamente lembrou-se de outra coisa do dia anterior. Helen estivera usando shortes azuis, bastante curtos, e ele notara hematomas em suas pernas - uma grande mancha amarela bem no alto da coxa esquerda, outra mais recente e escura na panturrilha direita.

Conduziu Helen a um pequeno escritório atrás da caixa registradora. Ergueu os olhos para o espelho convexo anti-roubo montado a um canto e viu McGovern segurando a porta para Sue.

- Tranque a porta - falou por cima do ombro.

- Ih, Ralph, não tenho ordem...

- Só por uns minutinhos - tornou Ralph. - Por favor.

- Bem... está bem, acho.

Ralph ouviu o estalido da trava da maçaneta, ao acomodar Helen na cadeira dura de plástico, junto a uma mesa atulhada. Apanhou o telefone e apertou a tecla de socorro. Antes que o telefone pudesse tocar na outra ponta, uma mão suja de sangue se adiantou e comprimiu a tecla para desligar.

- Não... Ral. - Ela engoliu com visível esforço, e tentou novamente. - Não.

- Sim - contrapôs Ralph. - Vou ligar, sim.

Agora foi medo que ele viu em seu olho bom, e não havia nenhum embotamento na expressão.

- Não-ela pediu. - Por favor, Ralph. Não.-Ela olhou para além dele e estendeu as mãos de novo. O olhar humilde, suplicante em seu rosto machucado provocou em Ralph uma careta de desânimo.

- Ralph? - Sue chamou. - Ela quer a neném.

- Eu sei. Entregue.

Sue passou Natalie para Helen, e Ralph ficou observando a neném - com pouco mais de um ano agora, tinha certeza - abraçar o pescoço da mãe e deitar a cabeça em seu ombro.

Helen beijou o alto da cabeça de Nat. Era visível que isto lhe provocava dor, mas repetiu o gesto. E mais uma vez. Baixando os olhos para a moça, Ralph viu sangue grudado nos vincos leves da nuca de Helen como se fosse sujeira. Diante disso, sentiu a raiva começar a pulsar de novo.

- Foi Ed, não foi? - perguntou. Claro que foi: ninguém corta uma chamada de socorro quando é espancada por um estranho, mas tinha que fazer a pergunta.

- Foi - confirmou. Sua voz não passava de um sussurro, a resposta, um segredo confiado à nuvem fina de cabelos da neném. - Foi Ed. Mas você não pode chamar a polícia. Ergueu a cabeça, o olho bom cheio de medo e infelicidade. - Por favor, não chame a polícia, Ralph. Não posso suportar a idéia de ver o pai de Natalie na cadeia por... por...

Helen rompeu em lágrimas. Natalie arregalou os olhos para a mãe, num instante de cómico espanto, e em seguida acompanhou-a no choro.

- Ralph? - McGovern perguntou hesitante. - Quer que eu arranje um Tylenol ou outro analgésico para ela?

- É melhor não - respondeu. - Não sabemos o que aconteceu com ela, a gravidade dos ferimentos que sofreu. - Seus olhos se desviaram para a vitrine e por mais que quisesse não ver o que havia lá fora, por mais que esperasse não ver, estavam lá: rostos ávidos enfileirados até o lugar onde o freezer de cerveja obstruía a visão. Algumas pessoas levavam as mãos em concha aos lados do rosto para cortar os reflexos.

- Que devemos fazer, rapazes?-Sue perguntou. Olhava para o grupo de idiotas que se espremia lá fora, puxando nervosa a bainha do guarda-pó que os empregados da loja eram obrigados a usar. - Se a empresa descobrir que fechei a porta durante o expediente, posso perder meu emprego.

Helen puxou a mão dele.

- Por favor, Ralph - repetiu, só que a frase saiu Or aor, Af por entre seus lábios inchados.

- Não chame ninguém.

Ralph olhou-a indeciso. Em sua vida, vira algumas mulheres com hematomas, algumas (embora, honestamente, não muitas) espancadas mais gravemente do que Helen. Mas nunca lhe parecera assim tão penoso. Fora educado numa época em que as pessoas acreditavam que aquilo que se passava entre marido e mulher, na intimidade do casamento, era problema dos dois, e isso incluía o homem que usava os punhos para esmurrar e a mulher que usava a língua para açoitar. Não se podia obrigar as pessoas a se comportarem direito e interferir em seus assuntos - mesmo com a melhor das intenções - com muita frequência, esta atitude transformava amigos em inimigos.

Mas logo lembrou a maneira como Helen carregava Natalie ao cambalear pelo estacionamento: enganchada displicentemente no quadril como um livro escolar. Se tivesse deixado a neném cair no estacionamento, ou ao cruzar a Avenida Harris, provavelmente nem teria se dado conta disso; aliás, Ralph achava que fora apenas o instinto que fizera Helen apanhar a neném. Não quisera deixar Nat aos cuidados do homem que a espancara com tanta brutalidade, que só conseguia enxergar com um olho e pronunciar sílabas chiadas.

Lembrou outra coisa também, outra coisa relacionada com os dias que se seguiram à morte de Carolyn, no início daquele ano. Surpreendera-se com a profundidade do seu pesar afinal era uma morte esperada; acreditara que tivesse dado conta de todo o pesar enquanto Carolyn ainda vivia - e aquele sentimento o deixara inseguro e incapaz diante dos últimos preparativos que precisavam ser feitos. Conseguira ligar para a funerária, mas fora Helen quem apanhara o formulário de óbito no News de Derry e o ajudara a preenchê-lo; fora Helen quem o acompanhara para escolher o caixão (McGovern, que odiava a morte e as providências que a cercavam, nem apareceu), e fora Helen, ainda, quem o ajudara a escolher a coroa - a quê dizia Amada Esposa. Por fim, fora Helen, naturalmente, quem cuidará do pequeno lanche servido após o enterro, comprando sanduíches no Frank's Catering, refrigerantes e cerveja no mercadinho.

Eram coisas que Helen fizera por ele quando não podia fazê-las sozinho. Será que ele não tinha a obrigação de retribuir sua bondade, mesmo que, no momento, Helen não considerasse bondade o que pretendia fazer?

- Bill? - ele perguntou. - Que é que você acha? McGovern olhou de Ralph para Helen, sentada na cadeira de plástico com o rosto contundido voltado para baixo, e de novo para Ralph. Puxou um lenço e enxugou os lábios nervosamente.

- Não sei. Gosto muito de Helen, e quero fazer a coisa certa - você sabe que quero mas num caso desses... quem sabe qual é o certo?

Ralph repentinamente lembrou-se do que Carolyn costumava dizer sempre que ele começava a se queixar e a resmungar por causa de alguma tarefa doméstica, de alguma obrigação que não queria fazer: É muito longa a viagem de volta ao Paraíso, querido, portanto não se esquente com ninharias.

Esticou a mão para o telefone de novo e, desta vez, quando Helen procurou segurar seu pulso, ele se desvencilhou.

- Você ligou para o Departamento de Polícia de Derry - falou a gravação. - Aperte um para os serviços de emergência. Aperte dois para os serviços de polícia. Aperte três para obter informações.

Ralph logo percebeu que precisava dos três, hesitou um segundo até que apertou o dois. O telefone tocou e uma voz feminina atendeu:

- Polícia 911, às suas ordens.

Ele inspirou fundo, antes de responder:

- Aqui é Ralph Roberts. Estou no mercadinho da Avenida Harris com uma vizinha. O nome dela é Helen Deepneau. Ela foi brutalmente espancada. - Afagou o lado do rosto de Helen que apertou a testa contra seu corpo. Dava para sentir o calor de sua pele através da camisa.

- Por favor, venham o mais rápido possível.

Desligou o telefone, em seguida se agachou ao lado de Helen. Natalie o viu, balbuciou de prazer, estendendo a mãozinha para lhe dar um aperto carinhoso no nariz. Ralph sorriu, beijou a palminha de sua mão, então fitou Helen no rosto.

- Sinto muito, Helen - disse - mas tinha que ligar. Não podia deixar de fazer isso. Você compreende? Não podia deixar de fazer.

- Não compreendo nada! - ela exclamou. Seu nariz parará de sangrar, mas, quando tocou-o com as mãos, fez uma careta de dor.

- Helen, por que ele fez isso? Por que Ed a espancou desse jeito? - Lembrou-se dos outros hematomas, talvez fossem uma amostra do que acontecia. Mas se eram realmente uma amostra, ele não o percebera até agora. Por causa da morte de Carolyn. E por causa da insónia que sobreviera. Em todo o caso, não acreditava que fosse a primeira vez que Ed metia a mão na mulher. Hoje poderia ter ocorrido de forma mais drástica, mas não fora a primeira vez. Por mais que acreditasse nisso, descobriu que, ainda assim, não conseguia ver Ed fazendo aquilo. Via o sorriso fácil de Ed, seus olhos vivos, a maneira com que movimentava as mãos o tempo todo quando falava... mas não conseguia ver Ed usando aquelas mãos para espancar a mulher, por mais que tentasse.

Subitamente uma lembrança veio à tona, a imagem de Ed andando empertigado até o homem que dirigia o furgão azul - um Ford Ranger, talvez? - e em seguida esbofeteando com as costas da mão o queixo largo do Grandalhão. Lembrar disso era como abrir a porta do armário de Fibber McGee naquele velho programa de rádio - só que não era uma avalanche de cacarecos que despencava do armário, mas uma série de imagens nítidas daquele último dia de Julho. O temporal se armando sobre o aeroporto. O braço de Ed saindo pela janela do Datsun e acenando para cima e para baixo, como se com isso pudesse fazer o portão deslizar mais rápido. O cachecol com os caracteres chineses bordados.

Ei, Ei, Susan Day, assassina de bebés! Ralph pensou, só que foi a voz de Ed que ouviu, e sabia muito bem o que Helen ia dizer antes mesmo que abrisse a boca.

- Tão idiota - ela disse desanimada. - Ele me bateu porque assinei um abaixo-assinado, só por isso. Estão passando esse abaixo-assinado por toda a cidade. Alguém meteu um na minha cara quando ia entrando no supermercado anteontem. Me disse que era em benefício do WomanCare, e não vi nada de mais. Além disso, a neném estava enjoadinha, então eu simplesmente...

- Você simplesmente assinou - Ralph terminou baixinho.

Ela concordou com a cabeça e recomeçou a chorar.

- Que abaixo-assinado é esse? - McGovern perguntou.

- Para trazer Susan Day a Derry - Ralph informou. - É uma feminista...

- Eu sei quem é Susan Day - McGovern falou irritado.

- De qualquer jeito, um grupo de pessoas está tentando traze-la a Derry para falar. A favor do WomanCare.

- Quando Ed chegou em casa hoje entrou muito bem-humorado - Helen contou entre lágrimas. - Quase sempre está assim às quintas-feiras, porque só trabalha meio dia. Falou que ia passar a tarde fingindo que lia um livro, mas que no duro mesmo ia ficar apreciando o regador automático girar... você sabe como ele é...

- Sei - Ralph concordou, lembrando da maneira como Ed enfiara o braço em um dos barris do grandalhão, de seu sorriso maroto (Pensou que ia me passar a perna?) no rosto.

- Sei, sei como ele é.

- Eu mandei ele sair para buscar comida de bebé... - Sua voz subia queixosa e assustada.

- Não sabia que ia se zangar... Para falar a verdade, eu já tinha até me esquecido de ter assinado aquela porcaria... e continuo sem saber exactamente por que ele ficou tão zangado...

mas... mas quando ele voltou... - Ela apertou Natalie contra o peito, tremendo.

- Ssss, Helen, calma, vai dar tudo certo.

- Não, não vai! - Ergueu o rosto para ele, as lágrimas escorriam de um olho e se infiltravam por baixo da pálpebra inchada do outro. - Nã-nã-não! Por que ele não parou desta vez? E o que vai acontecer a mim e à neném? Para onde iremos? Não tenho dinheiro nenhum além do que está na conta conjunta... não tenho emprego... ah, Ralph, por que você chamou a polícia? Não devia ter feito isso! - Bateu no braço dele com o punhozinho impotente.

- Você vai sair dessa muito bem - ele falou. - Você tem muitos amigos no bairro.

Mas Ralph mal ouviu o que disse e nem sentiu o soquinho que a moça lhe dera. A raiva latejava em seu peito e nas têmporas como um segundo coração.

Não, Por que ele não parou; não foi isso que ela disse. O que disse foi Por que ele não parou desta vez?

Desta vez.

- Helen, onde está o Ed agora?

- Em casa, eu acho - disse desanimada.

Ralph deu-lhe uma palmadinha no ombro e se encaminhou para a porta.

- Ralph? - Bill McGovern parecia alarmado. - Onde é que você está indo?

- Feche a porta quando eu sair - disse a Sue.

- Puxa, não sei se posso fazer isso. - ela olhava cheia de dúvidas para a fileira de idiotas que ainda espiavam pela vitrine suja. Havia muito mais gente agora.

- Você pode sim - insistiu, inclinando então a cabeça, para captar melhor o lamento distante de uma sirene que se aproximava.

- Está ouvindo isso?

- Estou, mas...

- Os tiras vão-lhe dizer o que fazer e seu patrão não vai ficar zangado. Aposto que vai-lhe dar um prêmio por ter resolvido tudo da melhor forma.

- Se ele der, racho com você - respondeu ela, olhando outra vez para Helen. Uma corzinha voltara ao rosto de Sue, mas não muita. - Nossa, Ralph, olhe só para ela! Ele realmente espancou a mulher só porque ela assinou a porcaria de um abaixo-assinado no supermercado?

- Acho que sim - Ralph falou. A conversa fazia absoluto sentido para ele, mas parecia vir de muito longe. Sua raiva estava mais perto; parecia que apertava os braços quentes em torno do seu pescoço. Gostaria de ter quarenta anos de novo, até cinquenta, para poder mostrar a Ed o que era bom para tosse. De qualquer forma, achava que era bem capaz de tentar fazer isso.

Estava soltando a trava da porta, quando McGovern agarrou-o pelo ombro.

- Que é que você acha que vai fazer?

- Vou ver o Ed.

- Você está brincando? Ele vai estraçalhar você se aparecer na frente dele. Não viu o que fez com a mulher?

- Claro que vi - Ralph retrucou. As palavras não foram bem um rosnado, mas chegaram bastante próximas para fazer McGovern baixar a mão.

- Porra, você tem setenta anos, Ralph, caso tenha se esquecido. E Helen precisa de um amigo agora, e não de uma antiguidade arrebentada que ela vai poder visitar porque está num quarto de hospital a três portas de distância do dela.

Bill naturalmente tinha razão, mas isso deixou Ralph ainda mais furioso. Supunha que a insónia também influía, atiçando sua raiva e toldando seu julgamento, mas isso não fazia diferença. De certa maneira, a raiva era um alívio. Certamente era melhor do que andar vagando por um mundo onde tudo se acinzentara.

- Se ele me bater com vontade, vão-me dar um Demerol e vou conseguir dormir uma boa noite de sono - falou. - E agora me deixe em paz, Bill.

Atravessou o estacionamento do mercadinho a passos enérgicos. Um carro de polícia se aproximava piscando suas luzes azuis. Perguntas - Que aconteceu? Ela está bem? foram dirigidas a ele, mas Ralph não lhes deu resposta. Parou na calçada, esperou o carro de polícia entrar no estacionamento, para então atravessar a Avenida Harris naquele mesmo passo enérgico, com McGovern a segui-lo ansiosamente a uma respeitosa distância.

 

ED E HELEN Deepneau moravam num pequeno chalé - pintura castanha com ornatos brancos, do tipo que as mulheres mais velhas costumam chamar de "gracinha" - quatro casas adiante da que Ralph e Bill McGovern dividiam. Carolyn gostava de dizer que os Deepneaus pertenciam à "Igreja dos Yuppies dos Últimos Dias", embora seu carinho sincero pelos dois despisse a frase de qualquer sarcasmo. Eram vegetarianos laissez-faire que aprovavam peixe e laticínios, tinham trabalhado para Clinton na última eleição, e o carro na entrada da garage - não mais um Datsun mas um dos novos minivans - exibia adesivos com os dizeres RACHE LENHA, NÃO AOS ÁTOMOS e BICHOS USAM PELES, GENTE, NÃO.

Os Deepneaus aparentemente também tinham guardado todos os discos que compraram na década de sessenta - Carolyn gostava especialmente desta característica - e agora, quando Ralph se aproximava do chalé com os punhos fechados ao lado do corpo, ouviu os miados de Grace Slick interpretando um dos velhos hinos de San Francisco:

"One pill makes you bigger

One pill makes you small, and the ones that Mother gives you

Dorít do anything ai ali,

Go ask Alice, when she's ten feet tall."1

 

  1. Trad.: "Uma pílula faz você crescer/Outra faz você encolher/E as que mamãe lhe da'/Não fazem efeito nenhum/Pergunte a Alice, quando ela chegar a três metros de altura.

 

A música vinha de uma caixa de som instalada na varandinha mínima do chalé. No jardim, havia um regador automático ligado, que produzia um chiado ao borrifar arco-íris no ar e formar uma poça brilhante de água na calçada. Ed Deepneau, sem camisa, encontrava-se sentado numa espreguiçadeira à esquerda do caminho de concreto, com as pernas cruzadas, contemplando o céu com a expressão abobada de um homem que procura decidir se a nuvem que passa parece mais um cavalo ou um unicórnio. Sacudia para cima e para baixo um pé descalço, acompanhando o ritmo da música. No colo, o livro aberto, virado para baixo, combinava perfeitamente com a música que saía da caixa de som. Even Cowgirls Get the Blues, de Tom Robbins.

Uma perfeita cena de verão; um retrato da tranqüilidade de uma cidadezinha de interior que Norman Rockwell poderia ter pintado sob o título Tarde de Folga. Bastava que se esquecesse o sangue na mão de Ed e na lente esquerda de seus óculos redondos à John Lennon.

- Ralph, pelo amor de Deus, não compre briga com ele! - McGovern sibilou quando Ralph deixou a calçada e cruzou o gramado. Atravessou a chuva fina produzida pelo regador automático quase sem senti-la.

Ed se virou, abrindo um sorriso radiante, ao vê-lo.

- Oi, Ralph! - cumprimentou. - Que bom ver você, cara!

Mentalmente, Ralph viu-se empurrando Ed da cadeira, atirando-o no gramado. Viu também seus olhos se arregalarem surpresos por trás das lentes dos óculos. A visão foi tão real que chegou a ver o sol refletido no vidro do relógio de Ed quando o rapaz tentava se erguer.

- Pegue uma cerveja e puxe uma coisa para se sentar - Ed disse. - Se quiser jogar xadrez...

- Cerveja? Jogar xadrez? Porra, Ed, o que é que há com você?

Ed não respondeu imediatamente, apenas olhou para Ralph com uma expressão que, ao mesmo tempo, assustava e enfurecia. Era uma mescla de riso e vergonha, o olhar de um homem que está se preparando para dizer Ih, que merda, amor: esqueci de pôr o lixo lá fora outra vez?

Ralph apontou morro abaixo, para além do ponto em que McGovern estava parado estaria escondido, à espreita, se tivesse onde - junto à poça de água que o regador formara na calçada, observando-os nervoso. Um segundo carro de polícia viera se juntar ao primeiro, e Ralph quase podia ouvir o chiado das chamadas no rádio, saindo pelas janelas abertas. A aglomeração crescera bastante.

- A polícia está lá por causa de Helem - exclamou, dizendo a si mesmo para não gritar, que não adiantava nada gritar, mas gritando assim mesmo. - Está lá porque você espancou sua mulher, está dando para perceber?

- Ah - disse Ed, esfregando o rosto pesaroso. - Aquilo.

- É, aquilo - confirmou Ralph. Sentia-se agora quase atônito de raiva.

Ed espiou os carros de polícia além, a aglomeração em torno do mercadinho... e então viu McGovern.

- Bill! - chamou. McGovern relutou. Ed não percebeu ou fingiu não perceber. - Ei, cara, puxe uma coisa para sentar! Quer uma cerveja?

Foi quando Ralph descobriu que ia dar um murro em Ed, quebrar aqueles oclinhos redondos e idiotas, talvez enfiar um caco de vidro em seu olho. Ia fazer isso, nada no mundo conseguiria impedi-lo, só que, no último momento, alguma coisa o impediu. Era a voz de Carolyn que ele ultimamente ouvia com maior frequência em sua cabeça - ou seja, quando não estava resmungando sozinho - mas não foi a voz de Carolyn, dessa vez; por mais incrível que parecesse, era a voz de Trigger Vachon, a quem vira apenas uma ou duas vezes desde que Trig o salvara do temporal, no dia em que Carolyn tinha tido o primeiro acesso.

- Ei, Ralph! Tenha muito cuidado! Esse cara é doido de pedra! Vai ver ele quer que você bata nele!

É, concluiu. Talvez seja exatamente isso que Ed quer. Por quê? Quem sabia? Talvez só pra turvar um pouco a água, talvez porque simplesmente era louco.

- Chega de merda - disse, baixando a voz quase a um sussurro. Ficou satisfeito de ver a atenção de Ed retornar instantaneamente para ele e ainda mais satisfeito de ver desaparecer o ar de vaga e simpática contrição. Ed substituiu-o por uma expressão de rigorosa cautela. Era, pensou Ralph, a expressão de um animal perigoso desconfiado.

Ralph se agachou de modo a poder olhar na cara dele.

- Foi a Susan Day? - perguntou na mesma voz baixa. - Susan Day e a questão do aborto? Tem a ver com bebês mortos? Foi por isso que descarregou em cima da Helen?

Havia mais uma pergunta em sua mente - Quem é você na realidade, Ed? - mas antes que pudesse formulá-la, Ed esticou o braço, colocou a mão no meio do peito de Ralph e o empurrou. Ralph caiu de costas na grama úmida, amparando-se nos cotovelos e ombros.

Ficou ali com os pés chapados no chão, os joelhos dobrados, observando Ed saltar repentinamente da espreguiçadeira.

- Ralph, não se meta com ele! - McGovern gritou de sua posição relativamente segura na calçada.

Ralph não lhe deu atenção. Simplesmente ficou onde estava, apoiado nos cotovelos, os olhos atentos em Ed. Continuava a sentir raiva e medo, mas estas emoções tinham começado a ser eclipsadas por uma estranha e fria fascinação. Era loucura o que via loucura pura e simples. Não havia nenhum supervilão de revista em quadrinhos ali, nem o vilão de Psicose, nem o da Baleia Branca. Havia apenas Ed Deepneau, que trabalhava no litoral, nos Laboratórios Hawking - um desses intelectuais, diriam os velhotes que jogavam xadrez na área de piquenique da Extensão da Harris, até legal para um cara que votava nos democratas. Agora o cara legal tinha pirado completamente, e a coisa não acontecera nesta tarde, quando Ed vira o nome da mulher no abaixo-assinado afixado no Quadro de Avisos da Comunidade no supermercado. Ralph compreendia agora que a loucura de Ed tinha pelo menos um ano o que o fez imaginar que segredos Helen andara escondendo por trás de sua atitude normalmente alegre e do sorriso radiante, que sinais desesperados - isto é, além dos hematomas - ele deixara de notar.

E ainda havia Natalie, pensou. Que teria visto? Que experiências teria vivido? Além, e'claro, de ser carregada pela Avenida Harris e pelo estacionamento do mercadinho,no quadril da mãe ensanguentada e cambaleante.

Os braços de Ralph se arrepiaram.

Enquanto isso, Ed começara a andar, cruzando e recruzando o caminho de concreto, pisoteando as zínias que Helen si plantara ao seu redor. Voltara a ser o Ed que Ralph encontrara no aeroporto um ano antes, até no detalhe dos gestos bruscos e breves com a cabeça, lançando olhares para o nada.

Era isso que o pretenso ar de surpresa queria esconder, pensou Ralph. Está igualzinho ao que estava quando foi atrás do cara que dirigia o furgão. Como um galo protegendo seu pedaço de terreiro.

- A rigor, nada disso é culpa dela, eu admito - Ed falou depressa, batendo o punho direito na mão esquerda espalmada, enquanto atravessava a chuva de gotículas lançadas pelo regador automático. Ralph percebeu que era possível contar cada costela do peito de Ed; o cara parecia que não comia uma refeição decente há meses.

- Mas quando a burrice chega a um certo nível, fica difícil conviver com ela - Ed continuou. - Helen é como os reis magos, que foram buscar informações com o rei

Herodes. Quero dizer, até aonde chega a burrice? Onde se encontra aquele que nasceu rei dos judeus? Perguntam isso a Herodes. Quero dizer, Sábios do Oriente, uma porra! Certo,

Ralph?

Ralph concordou com a cabeça. Claro, Ed. O que você disser, Ed.

Ed retribuiu o aceno de cabeça e continuou a andar para diante e para trás, atravessando a chuva de borrifos e os etéreos arco-íris entrelaçados, batendo o punho na palma da mão.

- É como aquela canção dos Rolling Stones: "Look at that, look at that, look at that stupid girl."2

 

  1. Trad: "Olhe só, olhe só, olhe só aquela garota burra."

 

Você provavelmente não se lembra dessa, lembra? - Ed deu uma risada, um sonzinho dissonante que fez Ralph pensar em ratos dançando em cima de cacos de vidro.

McGovern ajoelhou-se do lado dele.

- Vamos dar o fora daqui - murmurou. Ralph sacudiu a cabeça e, quando Ed veio na direcção dos dois, McGovern rapidamente se levantou, voltando para a calçada.

- Ela pensou que podia enganar você, é isso? - Ralph perguntou. Continuava deitado na grama, apoiando-se nos cotovelos. - Pensou que você não descobriria que assinara o abaixo-assinado.

Ed saltou sobre o caminho, curvou-se para Ralph, sacudindo os punhos fechados para o alto como um vilão de filme mudo.

- Não-não-não-não! - gritou.

O rock do Jefferson Airplane fora substituído pelo do Animais, Eric Burdon rosnava o evangelho de John Lee Hooker: "Bum-bum-bum-bum, vou fuzilar você agora mesmo."

McGovern deixou escapar um gritinho, aparentemente pensando que Ed pretendia atacar Ralph, mas, ao contrário, ele se agachou com os nós dos dedos fincados na grama, assumindo a posição de um fundista que aguarda o tiro de partida para se arrancar dos calços. Seu rosto estava coberto de gotas que, a princípio, Ralph pensou serem suor, mas depois lembrou-se que Ed caminhara pela chuva do regador automático. Ralph não tirava os olhos do pingo de sangue na lente esquerda de Ed. Escorrera um pouco, e agora a pupila do olho esquerdo parecia ter-se enchido de sangue.

- Descobrir que ela assinou aquilo foi o destino! Apenas o destino! Quer me dizer que não percebe isso? Não insulte minha inteligência, Ralph! Você talvez esteja ficando velho, mas não tem nada de burro. O caso é que vou ao supermercado comprar comida de bebé, que tal a ironia, e descubro que ela assinou um abaixo-assinado dos matadores de bebêsl Os

Centuriões! Com o Rei Sangüinário em pessoa! E sabe o que mais? Eu... simplesmente... vi... tudo vermelho!

- O Rei Sanguinário, Ed? Quem é?

- Ah, por favor. - Ed lançou a Ralph um olhar maroto. - "Então Herodes, vendo que tinha sido iludido, irritou-se muito, e mandou matar todos os meninos que havia em Belém, e em todos os seus contornos, de dois anos para baixo, segundo o tempo que diligentemente inquirira dos magos." Está na Bíblia, Ralph, Mateus, capítulo 2, versículo 16. Está duvidando? Porra, tem alguma dúvida de que a Bíblia diz isso?

- Não. Se você diz que está, eu acredito.

Ed concordou com a cabeça. Seus olhos, um tom escuro e surpreendente de verde, corriam de um lado para outro. Inclinou-se lentamente para Ralph, apoiando uma mão de cada lado de seus braços. Era como se pretendesse beijá-lo. Ralph sentiu cheiro de suor e de uma loção de barba que desaparecera quase completamente agora, e de outra coisa - uma coisa que cheirava a leite velho azedo. Ficou imaginando se poderia ser o cheiro da loucura de Ed.

Uma ambulância subia a Avenida Harris, de luzes ligadas, mas com a sirene muda. Entrou no estacionamento do mercadinho.

- É melhor... - Ed respirou em sua cara. - É melhor acreditar.

Seus olhos pararam de vagar e focalizaram os de Ralph.

- Eles estão matando bebês no atacado - falou em voz baixa que parecia pouco firme. Arrancando os bebês dos úteros das mães e transportando-os para fora da cidade em caminhões cobertos. Carretas em geral. Faça essa pergunta a si mesmo, Ralph: quantas vezes por semana você vê essas carretas rodando pela estrada? Uma carreta com uma lona esticada por cima? Algum dia se perguntou o que carregavam? Algum dia imaginou o que haveria por baixo das lonas?

Ed riu. Seus olhos giravam.

- Eles queimam a maior parte dos fetos em Newport. O letreiro diz aterro, mas na realidade é um crematório. Mandam também uma parte para fora do estado. Em caminhões, em aviões leves. Porque o tecido fetal é extremamente valioso. Não digo isso apenas como cidadão preocupado, mas como empregado dos laboratórios Hawking. O tecido fetal é... mais... valioso... do que ouro.

Ele virou a cabeça bruscamente e encarou Bill McGovern, que se aproximara mais um pouquinho para ouvir o que Ed dizia.

- SIM SENHOR, MAIS VALIOSO DO QUE OURO E MAIS PRECIOSO DO QUE

RUBIS! - berrou, e McGovern saltou para trás, os olhos arregalados de medo e consternação. - VOCÊ SABIA DISSO, SEU VEADO VELHO?

- Sabia - respondeu McGovern. - Acho... que sim. - Deu uma olhada rápida para o início da rua, onde um dos carros de polícia agora saía de marcha à ré do estacionamento do mercadinho, manobrando em sua direcção. - É possível que eu tenha lido em algum lugar.

Na Sdentific American talvez.

- Scientific American!-Ed riu com complacência, voltando os olhos para Ralph, como se dissesse Está vendo o que tenho de aturar? Então seu rosto ficou sério outra vez. - Assassinato em massa - falou como no tempo de Cristo. Só que agora é o assassinato dos que estão por nascer. Não é apenas aqui, mas em todo o mundo. Eles têm matado fetos aos milhares, Ralph, aos milhões, e você sabe por quê? Sabe por que voltamos à corte do Rei Sanguinário nessa nova idade das trevas?

Ralph sabia. Não era difícil somar dois mais dois, quando se tinham dados suficientes.

Quando se vira Ed enfiar o braço em um barril de fertilizante químico à procura dos bebés mortos que tinha certeza de que encontraria.

- O rei Herodes desta vez recebeu aviso antecipado - Ralph falou.-É isso que você está me dizendo, não é? É a velha história do Messias, certo?

Sentou-se, na dúvida se Ed o empurraria para o chão outra vez, quase desejando que o fizesse. Sua raiva estava voltando. É claro que era injusto criticar os delírios de um louco como se fosse uma peça ou um filme - talvez fosse até blasfêmia-mas Ralph se enfurecia com a ideia de que Helen fora espancada por causa de uma história sem pé nem cabeça como aquela.

Ed não o tocou, simplesmente pôs-se de pé e limpou as mãos de maneira sistemática.

Parecia estar se acalmando de novo. As chamadas pelo rádio foram aumentando de volume à medida que o carro de patrulha, que saíra do estacionamento do mercadinho, aproximava-se do meio-fio. Ed olhou para a radiopatrulha, depois para Ralph, que estava-se levantando.

- Você pode debochar, mas é verdade - disse sereno. - E não é o Rei Herodes: é o Rei

Sanguinário. Herodes foi apenas uma de suas encarnações. O Rei Sanguinário passa de um corpo para outro, de uma geração para outra, como uma criança que usa pedras submersas para atravessar um riacho, Ralph, sempre à procura do Messias. Nunca o encontrou, mas desta vez pode ser diferente. Porque Derry é diferente. Todas as linhas de força começaram a convergir para cá. Sei que é muito difícil acreditar em tudo isso, mas é verdade.

O Rei Sanguinário, Ralph pensou. Ah, Helen, sinto muito. Que coisa mais triste.

Dois homens - um fardado, o outro à paisana, ambos presumivelmente tiras - saltaram da radiopatrulha e se aproximaram de McGovern. Ralph localizou ainda mais dois vestindo calças e camisas brancas, de mangas curtas, que saíam do mercadinho. Um tinha o braço passado pelas costas de Helen, que caminhava com o cuidado exagerado dos recém-operados. O outro carregava Natalie.

Os paramédicos ajudaram Helen a embarcar na traseira da ambulância. O que levava a neném entrou atrás dela, enquanto o outro dirigiu-se ao assento do motorista. Ralph percebeu nos movimentos dos homens mais competência do que urgência, o que mostrava que Helen estava bem. Talvez Ed não a tivesse machucado gravemente... desta vez, pelo menos.

O tira à paisana - forte, os ombros largos, o bigode louro e as costeletas num estilo que Ralph classificou de Antigo Bar de Americanos Solteiros - aproximara-se de McGovern, a quem parecia ter reconhecido. Havia um largo sorriso no rosto desse tira à paisana.

Ed passou um braço pelos ombros de Ralph e afastou-o alguns passos dos homens na calçada.

- Não quero que eles nos ouçam - falou, baixando a voz até um simples murmúrio.

- Tenho certeza que não quer.

- Essas criaturas... Centuriões... servidores do Rei Sanguinário... não hesitam diante de nada. São impiedosos.

- Aposto que são. - Ralph espiou por cima do ombro, em tempo de ver McGovern apontar para Ed. O homem forte concordou tranquilamente com a cabeça. Trazia as mãos enfiadas nas calças de sarja de algodão. Continuava a exibir um sorrisinho bondoso.

- Não se trata apenas de aborto, não se engane! Não mais. Estão tirando os fetos de todos os tipos de mães, não apenas das viciadas e das prostitutas... oito dias, oito semanas, oito meses, não faz diferença para os Centuriões. A colheita prossegue dia e noite. A matança.

Tenho visto corpos de bebés em telhados, Ralph... debaixo de cercas... nos esgotos... boiando nos esgotos e no rio Kenduskeag...

Seus olhos, enormes e verdes, brilhantes como cascalho de esmeraldas, fitavam a distância.

- Ralph - ele cochichou - às vezes, o mundo se enche de cores. Eu já vi depois que ele veio e me falou. Mas agora as cores estão escurecendo.

- Depois que quem veio e lhe falou, Ed?

- Falamos disso mais tarde - Ed respondeu pelo canto da boca, como um condenado em filme de penitenciária. Em outras circunstâncias, a situação seria cómica.

Um grande sorriso de apresentador de programa de auditório iluminou seu rosto, banindo a loucura tão convincentemente quanto o sol bane a noite. A mudança foi tão súbita como o amanhecer nos trópicos, e apavorante como o inferno, mas assim mesmo Ralph encontrou consolo nela. Talvez eles - ele, McGovern Lois e todos os outros naquele trechinho da Avenida Harris que conheciam Ed - afinal não precisassem se culpar demais por não ter percebido a loucura dele antes. Porque Ed era bom actor; Ed realmente sabia representar.

Aquele sorriso merecia um Oscar. Mesmo numa situação bizarra como aquela, o sorriso praticamente exigia retribuição.

- Oi! - ele cumprimentou os tiras. O fortão terminara a conversa com McGovern e os dois avançaram pelo gramado. - Puxem uma coisa para sentar, pessoal! - Ed saiu detrás de Ralph com a mão estendida.

O tira forte à paisana apertou-a, mantendo o sorrisinho bondoso no rosto.

- Ed Deepneau? - perguntou.

- Certo. - Ed apertou a mão do tira de farda, que parecia um tanto espantado e, em seguida, voltou sua atenção para o fortão.

- Sou o Sargento Detective John Leydecker - apresentou-se. - Este é o policial Chris

Nell. Segundo consta, o senhor teve um probleminha aqui.

- É, tive. Acho que está certo. Um probleminha. Ou, se quiser dar o nome aos bois, me comportei como um animal. - A risadinha abafada de Ed foi assustadoramente normal.

Ralph lembrou-se dos psicopatas simpáticos que vira no cinema - George Sanders sempre fora particularmente bom nesse tipo de papel - e ficou imaginando se era possível um pesquisador inteligente enrolar um detective caipira que dava a impressão de não ter ainda ultrapassado inteiramente a fase dos Embalos de Sábado à Noite. Ralph temia horrivelmente que sim.

- Helen e eu brigamos por causa de um abaixo-assinado - Ed ia dizendo - uma coisa levou a outra. Cara, nem consigo acreditar que bati nela.

- Tudo bem, claro, como quiser. Mas esses são os seus direitos. O senhor compreendeu os seus direitos conforme os expliquei, Sr. Deepneau?

Ed ficou imóvel um momento, os olhos repentinamente arregalados e de novo vagos. A Ralph, ele parecia um computador humano, tentando processar uma carga enorme e complicada de informações. Só então pareceu registrar o facto de que sua encenação não estava produzindo efeito. Deixou cair os ombros. O olhar vago foi substituído por um ar de infelicidade demasiado real para inspirar dúvidas... mas Ralph duvidou assim mesmo. Tinha que duvidar; vira a loucura no rosto de Ed antes de Leydecker e Nell chegarem. E Bill McGovern também vira. Contudo, duvidar não era o mesmo que não acreditar, e Ralph tinha a impressão de que, em algum nível da consciência, Ed sinceramente se arrependia de ter espancado Helen.

E, pensou, da mesma forma que em algum nível ele sinceramente acredita que os tais

Centuriões estão transportando carregamentos de fetos para o aterro de Newport. E que as forças do bem e do mal estão se reunindo aqui em Derry para encenar um drama que está se desenrolando em sua mente. Título: A Profecia V - Na corte do Rei Sanguinário.

Ainda assim, não conseguia deixar de sentir, mesmo com relutância, uma certa simpatia por Ed Deepneau, que visitara Carolyn religiosamente três vezes por semana durante sua última internação no hospital Derry Home, que sempre lhe levara flores, e sempre a beijara no rosto ao sair. Continuara a lhe dar aquele beijo até quando o cheiro da morte já começava a envolvê-la e Carolyn jamais deixara de segurar a mão dele e lhe retribuir com um sorriso de gratidão. Obrigada por lembrar que ainda sou um ser humano, o sorriso dizia. E obrigada por me tratar como tal. Aquele era o Ed que Ralph considerara amigo e achava - ou talvez fosse apenas uma esperança - que aquele Ed continuava a existir.

- Acho que me meti numa encrenca, não foi? - perguntou a Leydecker suavemente.

- Bem, vejamos - Leydecker falou, ainda sorrindo. - O senhor arrancou dois dentes de sua mulher. Parece que fraturou o malar dela. Aposto o relógio do meu avô como ela sofreu uma concussão. Além de uma variedade de ferimentos localizados: cortes, hematomas, e uma pelada estranha acima da têmpora direita. Que foi que o senhor tentou fazer? Arrancar o couro cabeludo de sua mulher?

Ed ficou calado, os olhos verdes fixos no rosto de Leydecker.

- Ela vai passar a noite no hospital sob observação porque um cretino quase a matou de pancada, e todos parecem concordar que o cretino foi o senhor, Sr. Deepneau. Vejo o sangue em suas mãos e o sangue em seus óculos, e tenho que confessar que também acho que provavelmente foi o senhor. Então o que é que o senhor acha? O senhor me parece um homem inteligente. O senhor não acha que se meteu numa encrenca?

- Lamento ter batido nela - falou Ed. - Não tive intenção.

- Hum-hum, e se eu ganhasse vinte e cinco centavos cada vez que ouço isso, nunca mais teria que pagar uma bebida com o dinheiro do meu salário. Estou prendendo o senhor sob a acusação de agressão de segundo-grau, Sr. Deepneau, também conhecida por agressão doméstica. A acusação está configurada na lei estadual do Maine que trata da violência doméstica. Gostaria que me confirmasse mais uma vez que lhe informei dos seus direitos.

- Informou. - Ed respondeu numa voz sumida e infeliz. O sorriso, perplexo ou não, desparecera. - O senhor me informou.

- Vamos levá-lo para a delegacia de polícia e registrar a ocorrência - disse Leydecker. Em seguida, o senhor pode dar um telefonema e providenciar a fiança. Chris, quer levar ele para o carro?

Nell aproximou-se de Ed.

- O senhor vai criar algum problema, Sr. Deepneau?

- Não - respondeu Ed com a mesma voz sumida, e Ralph viu uma lágrima escorrer de seu olho direito. Ele a enxugou distraidamente com o punho. - Nenhum problema.

- Óptimo! - Nell exclamou animado e acompanhou-o até a radiopatrulha.

Ed olhou para Ralph ao cruzar a calçada.

- Sinto muito, amigo velho - disse, e entrou no banco traseiro do carro. Antes que o policial Nell fechasse a porta, Ralph reparou que não havia maçaneta no lado de dentro.

- MUITO BEM - disse Leydecker, voltando-se para Ralph e estendendo a mão.

- Lamento ter parecido meio brusco, Sr. Roberts, mas às vezes esses sujeitos são volúveis.

Os que parecem sóbrios são os que mais preocupam, porque nunca se pode prever o que farão. John Leydecker.

- Johnny foi meu aluno quando ensinei no Community College - disse McGovern. Agora que Ed Deepneau estava bem guardado na traseira da radiopatrulha, ele parecia quase tonto de alívio. - Bom aluno. Fez um excelente trabalho de final de período sobre a Cruzada Infantil.

- Prazer em conhecê-lo - falou Ralph, apertando a mão de Leydecker. - E não se preocupe. Não me ofendi.

- O senhor foi um louco em vir aqui enfrentá-lo, sabe - Leydecker disse cordialmente.

- Eu estava uma fera. E continuo uma fera.

- Compreendo os seus sentimentos. E o senhor escapou de boa, isso é o mais importante.

- Não, Helen é o mais importante. Helen e a neném.

- Estou com o senhor. Mas me conte o que conversava com o Sr. Deepneau antes de chegarmos aqui, Sr. Roberts... ou posso chamá-lo de Ralph?

- Ralph, por favor. - Ele repassou a conversa com Ed, tentando resumi-la. McGovern, que ouvira uma parte da conversa apenas, escutou em assombrado silêncio. Cada vez que Ralph olhava para ele, surpreendia-se desejando que Bill estivesse usando o panamá. Parecia mais velho sem o chapéu. Quase um ancião.

- Bom, sem dúvida, isso parece bem esquisito, não acha? - Leydecker comentou quando Ralph concluiu.

- Que vai acontecer? Ele vai para a cadeia? Não devia ir para a cadeia; devia ser recolhido a um hospício.

- Provavelmente devia - Leydecker concordou - mas há uma grande distância entre o que devia ser e o que vai ser. Ele não vai para a cadeia, nem vai para o hospício de Sunny vale: esse tipo de coisa só acontecia em filmes antigos. O melhor que se pode esperar é que faça uma terapia por ordem judicial.

- Mas Helen não lhe disse...

- A moça não disse nada, e não tentamos interrogá-la no mercadinho. Sentia muitas dores, físicas e emocionais.

- É claro - falou Ralph. - Que burrice a minha.

- Ela poderá corroborar o seu depoimento mais tarde mas talvez não faça isso. As vítimas de violência doméstica costumam se fechar, sabe. Felizmente, isso não faz grande diferença pela nova lei. Não há dúvidas sobre a culpa dele. Você e a moça do mercadinho aqui da rua podem testemunhar sobre o estado da Sra. Deepneau, e sobre quem ela disse que a deixou naquele estado. Eu posso testemunhar que o marido da vítima tinha sangue nas mãos. E melhor ainda, que ele disse as palavras mágicas: "Cara, nem posso acreditar que bati nela."

Gostaria que você viesse à delegacia, talvez amanhã de manhã, se lhe convier, para eu tomar seu depoimento completo, Ralph, mas isso é só para preencher os claros. Basicamente, o caso está pronto.

Leydecker tirou o palito da boca, partiu-o, atirou-o na sarjeta e puxou novamente o tubo do bolso.

- Quer um?

- Não, obrigado - Ralph respondeu com um breve sorriso.

- Não o culpo. Hábito nojento, mas estou tentando parar de fumar, o que é um hábito muito pior. O problema com caras como Deepneau é que eles são espertos demais para seu próprio bem. Eles se excedem, machucam alguém... e depois recuam. Se alguém chega logo depois da explosão, como aconteceu com você, Ralph, praticamente pode surpreendê-los de cabeça erguida, ouvindo música, tentando voltar ao normal.

- Foi assim mesmo - concordou Ralph. - Exatamente assim.

- É uma encenação que os espertos sustentam durante um bom tempo: parecem cheios de remorsos, estarrecidos com seus actos, decididos a se emendar. São persuasivos, charmosos, e muitas vezes é praticamente impossível perceber sob a sua boa vontade que são doidos varridos. Até mesmo casos extremos, como Ted Bundy, por vezes, conseguem parecer normais durante anos. A boa notícia é que não há muitos caras como Ted Bundy aí fora, apesar dos muitos livros e filmes sobre homicidas psicopatas.

Ralph deu um suspiro profundo.

- Que trapalhada.

- É. Mas veja o lado bom do caso: vamos poder manter o marido longe dela, pelo menos por algum tempo. Será solto antes do jantar, mediante uma fiança de vinte e cinco dólares, mas...

- Vinte e cinco dólares? - McGovern exclamou. Parecia ao mesmo tempo chocado e descrente. - Só isso?

- É - Leydecker confirmou. - Falei a Deepneau sobre agressão em segundo grau porque isso intimida, mas, no estado do Maine, espancar a mulher é apenas um delito leve.

- Mesmo assim, inseriram uma nova cláusula na lei bem jeitosa - disse Chris Nell, reunindo-se ao grupo. - Se Deepneau quiser pagar fiança, terá que concordar que não terá o menor contacto com a mulher até que o caso seja julgado. Não pode voltar para casa, abordá-la na rua, nem mesmo lhe telefonar. Se não concordar, continua preso.

- Mas suponha que ele concorde e volte de qualquer jeito? - Ralph perguntou.

- Então ferramos ele - falou Nell - porque az'será um delito grave... ou pode ser, se o promotor público quiser bancar o durão. Em todo o caso, o cara que desrespeita o acordo de fiança para agressões domésticas em geral passa bem mais do que uma simples tarde na cadeia.

- E esperemos que a esposa que ele visitar, violando o acordo, continue viva até a data do julgamento - disse McGovern.

- E lamentou Leydecker sinceramente é um problema.

- Às vezes isso

Ralph voltou para casa e se sentou diante da TV, olhando-a sem ver durante mais de uma hora. Levantou-se no intervalo para ver se havia uma Coca-cola na geladeira, suas pernas vacilaram e ele teve que apoiar-se na parede para não cair. Tremia dos pés à cabeça e se sentia desconfortavelmente prestes a vomitar. Compreendia que isso era apenas uma reacção retardada, mas a fraqueza e o enjoo ainda assim o assustaram.

Sentou-se outra vez, respirou profundamente durante um minuto, com a cabeça abaixada e os olhos fechados, então se levantou, dirigindo-se lentamente para o banheiro. Encheu a banheira de água morna e ficou de molho até ouvir o programa Night Court, o primeiro dos seriados de comédia da tarde, começar na TV. Por essa altura, a água da banheira praticamente gelara, e Ralph aproveitou para sair.

Enxugou-se, vestiu uma roupa limpa, e decidiu que um jantar leve era uma boa pedida. Ligou para baixo, imaginando que talvezMcGovern quisesse lhe fazer companhia, mas não obteve resposta.

Ralph pôs uns ovos para cozinhar e ligou para o hospital Derry Home do telefone junto ao fogão. Sua ligação foi transferida para uma mulher no Serviço de Pacientes que verificou no computador, confirmando que estava certo, Helen Deepneau dera entrada no hospital. De acordo com o registro de entrada, seu estado era bom. Não, não fazia idéia de quem estava tomando conta da neném da Sra. Deepneau; só sabia que não havia nenhuma Natalie Deepneau nos registros. Não, Ralph não poderia visitar a Sra. Deepneau àquela noite, mas não porque o médico tivesse proibido; a própria Sra. Deepneau dera aquela ordem.

Por que ela faria uma coisa dessas? Ralph começou a perguntar, mas desistiu. A mulher no Serviço de Pacientes provavelmente lhe diria que lamentava muito, mas não havia aquela informação no computador. Ralph concluiu que havia resposta no seu computador, aquele entre as suas orelhas, de tamanho econômico. Helen não queria visitas porque se sentia envergonhada. Nada do que acontecera fora por culpa sua, mas Ralph duvidava que isso alterasse seus sentimentos. Fora vista por metade da Avenida Harris como um boxeador massacrado, cambaleando depois do juiz ter suspenso a luta, fora levada para o hospital em uma ambulância, e o marido - o pai de sua filha -era o responsável. Ralph esperava que no hospital lhe dessem alguma coisa para ajudá-la a dormir aquela noite; tinha a impressão de que as coisas talvez pudessem parecer a Helen menos ruins pela manhã. Deus sabia que não poderiam parecer muito piores.

Diabos, gostaria que alguém me desse alguma coisa para me ajudar a dormir esta noite, pensou.

Então vai consultar o Dr. Litchfield, seu idiota, outra parte de sua mente respondeu na hora.

A mulher no Serviço de Pacientes estava perguntando a Ralph se poderia lhe ser útil em mais alguma coisa. Ralph disse que não e ia começar a lhe agradecer, quando a linha fez clique em seu ouvido.

- Simpática - Ralph comentou. - Muito simpática. - Também desligou, apanhou uma colher e devagarinho mergulhou os ovos na água. Dez minutos depois, quando ia se sentar, os ovos cozidos deslizando pelo prato e parecendo as maiores pérolas do globo, o telefone tocou. Pousou o prato na mesa e atendeu a chamada.

- Alô?

Silêncio, interrompido apenas por uma respiração.

- Alô? - Ralph repetiu.

Escutou mais uma vez a respiração, suficientemente alta para parecer um soluço aspirado, e em seguida um outro clique em seu ouvido. Ralph desligou e ficou parado, olhando o telefone por alguns segundos, o aborrecimento formando em sua testa três linhas ascendentes de vincos.

- Vamos, Helen - disse. - Ligue outra vez para mim. Por favor. - Então voltou para a mesa, sentou-se e começou a comer o seu jantarzinho de solteiro.

QUINZE minutos mais tarde, estava lavando a pouca louça que usara, quando o telefone tornou a tocar. Não vai ser ela, pensou, enxugando as mãos numa toalha de pratos e atirando-a sobre o ombro, a caminho do telefone. Nem pensar que é ela. Provavelmente

Lois ou BUI. Mas uma outra parte dele não pensava assim.

- Oi, Ralph.

- Alô, Helen.

- Fui eu ainda há pouco. - Sua voz estava rouca, como se tivesse bebido ou chorado, e Ralph achava que não permitiam bebida no hospital.

- Calculei isso.

- Ouvi sua voz e... não pude...

- Tudo bem. Eu compreendo.

- Compreende? - Ela soluçou sentidamente.

- Acho que sim.

- A enfermeira passou aqui e me deu um analgésico. E bem que eu precisava... meu rosto está doendo para valer. Mas não quis tomá-lo até ligar para você outra vez e dizer o que preciso dizer. A dor esgota, mas é um incentivo e tanto.

- Helen, você não precisa dizer nada. - Mas teve receio que ela falasse, e teve receio do que diria... receio de descobrir que resolvera brigar com ele porque não podia brigar com Ed.

- Preciso, sim. Tenho que lhe agradecer.

Ralph se apoiou na lateral da porta e fechou os olhos por um momento. Sentiu-se aliviado mas inseguro quanto ao que responder. Estivera preparado para dizer Lamento que você pense assim, Helen, na voz mais calma que pudesse, tão certo estava que ia começar lhe perguntando por que não cuidava da própria vida.

Como se ela tivesse lido seus pensamentos e quisesse lhe dizer que não estava completamente isento de culpa, Helen continuou:

- Passei a maior parte do tempo a caminho daqui e no registro de entrada, e também a primeira hora no quarto, muito aborrecida com você. Liguei para Candy Shoemaker, minha amiga da rua Kansas, e ela veio buscar Nat. Vai passar a noite com ela. Queria saber o que acontecera, mas não quis lhe contar. Só queria ficar deitada aqui, furiosa por você ter ligado para a polícia, mesmo depois de eu lhe dizer para não fazer isso.

- Helen...

- Me deixe terminar para eu poder tomar minha pílula e ir dormir. Está bem?

- Está bem.

- Logo depois que Candy foi embora com a neném, Nat não chorou, graças a Deus, não sei se eu teria aguentado seu choro, uma mulher entrou. A princípio pensei que entrara no quarto errado porque eu não fazia a menor idéia de quem fosse, e quando concluí que viera me ver, disse que não queria visitas. Ela não ligou. Fechou a porta e levantou a saia de modo que eu pudesse ver sua coxa esquerda. Havia uma cicatriz profunda descendo pela perna, praticamente do quadril ao joelho.

- Ela me contou que se chamava Gretchen Tillbury, que era assistente de agressão doméstica na WomanCare, e que o marido abrira sua perna com uma faca de cozinha em 1978. Disse que se o vizinho do apartamento de baixo não tivesse feito um torniquete, ela teria sangrado até morrer. Falei que lamentava muito, mas que não queria discutir minha situação até ter tido tempo de refletir. - Helen fez uma pausa e depois continuou: - Mas isso era mentira, você sabe. Já tinha tido bastante tempo para refletir, porque Ed me bateu pela primeira vez há dois anos, pouco antes de eu engravidar da Nat. Eu fui... adiando.

- Não consigo imaginar por que uma pessoa faria isso - Ralph comentou.

- Essa senhora... bem, eles devem ensinar gente como ela a desmontar as defesas de uma pessoa.

Ralph sorriu:

- Acho que isso é metade do treinamento.

- Ela disse que eu não podia adiar, que tinha uma situação difícil nas mãos e precisava começar a enfrentá-la imediatamente. Respondi que fizesse o que fizesse, não precisaria consultá-la antes, nem escutar seu papo furado só porque o marido a ferira no passado.

Quase lhe disse que provavelmente a ferira porque ela não queria calar a boca, ir embora, e deixá-lo em paz, dá para acreditar? Mas eu estava realmente uma arara, Ralph. Cheia dedores... confusa... envergonhada... mas principalmente uma a-r-a-r-a.

- Acho que é uma reacção normal.

- Ela me perguntou como iria me sentir... não com relação a Ed mas a mim própria... se voltasse para Ed e ele me batesse de novo. Então perguntou como ia me sentir se voltasse para Ed e ele batesse em Nat. Fiquei furiosa. Ainda estou furiosa. Ed jamais encostou um dedo em Nat, e eu disse isso. Ela concordou e retrucou: Isso não quer dizer que nunca vá encostar, Helen. Sei que você não quer pensar no assunto, mas precisa. E se você tiver razão? Suponha que ele jamais dê nem uma palmadinha na mão dela? Você quer que ela cresça vendo o pai bater em você? Você quer que ela cresça vendo o que viu hoje? E isso me fez calar. De vez. Lembrei da cara de Ed quando ele tornou a entrar em casa... como percebi assim que vi a cara dele branca... o jeito com que mexia a cabeça...

- Como um galo - Ralph murmurou.

- O quê?

- Nada. Continue.

- Não sei o que foi que o fez explodir... Já nem sei mais, mas percebi que ia descarregar em mim. Não há nada que se possa fazer ou dizer para impedi-lo, quando atinge um determinado ponto. Corri para o quarto, mas ele me agarrou pelos cabelos... arrancou um punhado... gritei... e Natalie estava sentada na cadeirinha alta... sentada ali nos observando...

e quando eu gritei, ela gritou...

Helen se descontrolou e caiu num choro incontido. Ralph aguardou com a testa apoiada na lateral da porta entre a cozinha e a sala de visitas. Usou a ponta da toalha de prato que pendurara no ombro para enxugar as próprias lágrimas, quase sem pensar no que fazia.

- Em todo o caso - Helen disse quando conseguiu falar de novo - acabei conversando com a mulher quase uma hora. Ela se sustenta com o trabalho que faz no serviço de Assistência às Vítimas, dá para acreditar?

- Dá - disse Ralph. - É um bom serviço, Helen.

- Vou vê-la outra vez amanhã, na WomanCare. É uma ironia, sabe, essa minha ida lá.

Quero dizer, se eu não tivesse assinado aquilo...

- Se não fosse o abaixo-assinado, teria sido outra coisa qualquer.

Ela suspirou.

- Acho que é verdade, Ralph. É verdade. De qualquer modo, Gretchen diz que não posso resolver os problemas de Ed, mas que posso começar a resolver alguns dos meus. - Helen recomeçou a chorar, até que suspirou profundamente. - Me desculpe: chorei tanto hoje, que nunca mais quero chorar. Eu disse a.ela que gostava do Ed. Sentia vergonha de confessar isso, e nem mesmo tenho certeza se é verdade, mas me parece verdade. Disse que gostaria de dar a ele outra chance. Ela respondeu que com isso estava obrigando Natalie a dar ao pai mais uma chance, também, e isso me fez pensar na neném sentada ali na cozinha, com a carinha toda suja de purê de espinafre, berrando a plenos pulmões enquanto Ed me batia. Meu Deus, detesto o jeito que gente como ela tem de encurralar a pessoa num canto sem deixar saída.

- Ela está tentando lhe ajudar, é só.

- Detesto isso, também. Estou muito confusa, Ralph. Talvez você não saiba, mas estou mesmo. - Uma risadinha frouxa percorreu a linha telefónica.

- Tudo bem, Helen. E natural que se sinta confusa.

- Pouco antes de ir embora, ela me falou de High Ridge. No momento, parece ser o lugar ideal para mim.

- O que é?

- Uma espécie de pousada... ela quis deixar claro que era uma casa, e não um abrigo... para mulheres espancadas. Oficialmente acho que essa é a minha condição agora. - Desta vez a risadinha frouxa chegou muito próxima de um soluço. - Posso levar Nat comigo se eu for, e esse é o maior atrativo.

- Onde fica o lugar?

- No campo. Para os lados de Newport, eu acho.

- E, acho que já sabia.

É claro que sabia; Ham Davenport lhe falara durante o comercial da WomanCare. Eles prestam assistência às famílias... abuso de mulheres e crianças... dirigem um abrigo para mulheres espancadas nos limites de Derry com Newport. De repente o WomanCare parecia invadir todos os cantos de sua vida. Ed, sem dúvida, teria visto sinistras implicações na coincidência.

- Aquela Gretchen Tillbury não é fácil - Helen estava dizendo. - Pouco antes de sair me disse que não havia mal nenhum em amar o Ed...Não pode haver mal nenhum, disse, porque o amor não é uma coisa que jorre de uma torneira que se abre e fecha à vontade, mas era preciso me lembrar que o meu amor não poderia curá-lo, que nem mesmo o amor de Ed por Natalie poderia curá-lo, e que nenhum amor no mundo alterava a minha responsabilidade de cuidar de minha filha. Fiquei deitada, pensando nisso. Acho que preferia ficar sentindo raiva.

Sem dúvida nenhuma, seria mais fácil.

- É - Ralph concordou - imagino que sim. Helen, por que você não toma sua pílula agora e esquece o caso por algumas horas?

- Vou fazer isso, mas primeiro queria lhe agradecer.

- Você sabe que não precisa agradecer.

- Acho que não sei não - ela respondeu, e Ralph ficou satisfeito ao ouvir um toque de emoção na voz da moça. Significava que o essencial em Helen Deepneau continuava vivo.

- Minha raiva de você ainda não passou, mas estou satisfeita que não me tenha atendido quando lhe pedi para não chamar a polícia. Era só porque eu estava com medo, sabe? Medo.

- Helen, eu... - Sua voz estava abafada, mal podia se controlar. Pigarreou e tentou de novo. - Eu só não queria ver você se machucar mais do que já se machucara. Quando vi você atravessar o estacionamento com o rosto ensangüentado, tive receio que...

- Não fale desse pedaço. Por favor. Vou chorar se você falar, e não aguento mais chorar.

- Está bem. - Ele queria fazer mil perguntas sobre Ed, mas evidentemente não era hora.

- Posso ir visitá-la amanhã?

Houve uma breve hesitação e em seguida Helen respondeu:

- Acho que não. Por ora, não. Tenho que pensar em muita coisa, tomar decisões, e vai ser bem difícil. Manterei contacto, Ralph. Está bem?

- Claro. Óptimo. Que vai fazer com a casa?

- O marido de Candy vai lá fechá-la. Dei-lhe as minhas chaves. Gretchen Tillbury disse que Ed não tem o direito de voltar à casa para nada, nem mesmo para buscar o talão de cheques ou uma muda de roupa. Se quiser alguma coisa, tem que entregar uma lista e a chave a um policial que vai buscar. Suponho que Ed vá se mudar para Fresh Harbor. Há muitas casas lá para os empregados do laboratório. Uns chalezinhos. Até bonitinhos... - O breve toque de emoção que Ralph ouvira em sua voz desaparecera já fazia tempo. Helen parecia deprimida, desamparada e muito, muito cansada.

- Helen, fiquei muito feliz com o seu telefonema. E aliviado, não vou mentir. Agora vá dormir um pouco.

- E você, Ralph? - perguntou inesperadamente. - Você está conseguindo dormir um pouco ultimamente?

A surpreendente mudança de foco levou-o a uma sinceridade que de outra forma não teria conseguido expressar.

- Um pouco... mas talvez não tanto quanto preciso. Acho que não tanto quanto preciso.

- Bem, se cuide. Você foi muito corajoso hoje, como aqueles cavalheiros da lenda do rei Artur, mas acho que até mesmo Sir Lancelot tinha que dar um tempo de vez em quando.

Ele comoveu-se com o comentário, e achou-o engraçado. Uma imagem momentânea, muito nítida, perpassou sua mente: Ralph Roberts de armadura montando um cavalo alvíssimo, enquanto Bill McGovern, seu fiel escudeiro, seguia atrás dele num pónei, trajando um colete de couro e o elegante chapéu panamá.

- Muito obrigado, querida - falou. - Acho que essa é a coisa mais carinhosa que alguém me disse desde que Lyndon Johnson foi presidente. Uma ótima noite para você, está bem?

- Para você também.

Ela desligou. Ralph ficou olhando pensativo para o telefone por um momento, depois recolocou-o no gancho. Talvez tivesse uma boa noite. Depois de tudo o que acontecera naquele dia, bem que merecia. Por ora pensou em descer, sentar na varanda, contemplar o pôr-do-sol, e deixar o depois para depois.

MCGOVERN estava de volta, estirado na varanda em sua cadeira favorita. Observava alguma coisa mais adiante na rua e não se virou imediatamente quando seu vizinho de cima apareceu. Ralph acompanhou seu olhar e viu uma ambulância azul estacionada a meio quarteirão de distância, do mesmo lado da Avenida Harris em que ficava o mercadinho.

Trazia nas portas traseiras os dizeres DERRY MEDICAI SERVICES em grandes letras brancas.

- Oi, Bill - Ralph disse, atirando-se em sua cadeira. A de balanço, que Lois Chasse sempre usava quando vinha, ficava entre os dois. Uma brisinha de fim de tarde começara a soprar, deliciosamente fresca depois do calor da tarde, e balançava caprichosamente a cadeira vazia para a frente e para trás.

- Oi - McGovern respondeu, dando uma espiada em Ralph. Já ia desviar o olhar, mas voltou-o para uma segunda tomada. - Cara, é melhor começar a prender com alfinetes essas bolsas debaixo dos olhos. Daqui a pouco, vai estar pisando nelas se não se cuidar.

Ralph achou que provavelmente o comentário deveria parecer um dos bons mots cáusticos pelos quais McGovern era famoso na rua, mas a expressão em seus olhos era de genuína preocupação.

- Foi um dia de cão - falou. Contou a McGovern o telefonema de Helen, suprimindo o que talvez pudesse constrangê-la se McGovern soubesse. Bill nunca estivera entre os favoritos de Helen.

- Que bom que ela está bem - comentou McGovern. - Vou lhe dizer uma coisa, Ralph, você me deixou impressionado hoje, quando saiu marchando pela rua daquele jeito, que nem Gary Cooper em Matar ou Morrer. Talvez não tenha sido muito sensato, mas foi de uma firmeza... - Calou-se. - Para falar a verdade, fiquei assombrado com você.

Era a segunda vez em quinze minutos que alguém chegara muito próximo de chamar Ralph de herói. Sentiu-se constrangido.

- Eu estava furioso demais com Ed, por isso só percebi a burrice que estava fazendo depois. Onde esteve, Bill? Liguei para você há pouco.

- Saí caminhando pela Extensão da Harris-disse McGovern. - Acho que para tentar descarregar um pouco da tensão. Estou com uma dorzinha de cabeça e enjôo desde a hora em que Johnny Leydecker e o outro levaram Ed. Ralph concordou com a cabeça.

- Eu também.

- Verdade? - McGovern se mostrou surpreso, e um tanto cético.

- Verdade - confirmou com um ar de riso.

- Em todo o caso, Faye Chapin estava na área de piquenique onde aqueles Coroas costumam se sentar na época de calor, e me convenceu a jogar uma partida de xadrez. Que figura aquele cara, Ralph, acha que é a reencarnação de Ruy López, mas o jogo dele está mais para Soupy Sales... e não pára de falar um segundo.

- Mas o Faye é um cara legal - Ralph disse baixinho. McGovern pareceu não tê-lo ouvido.

- E aquele horrendo do Dorrance Marstellar estava lá também - prosseguiu. - Se estamos velhos, ele então já virou um fóssil. Fica parado junto à cerca que separa a área de piqueniques do aeroporto com um livro de poesia nas mãos, espiando os aviões decolarem e pousarem. Você acha que ele realmente lê aqueles livros que carrega ou aquilo é só enfeite?

- Boa pergunta - disse Ralph, mas estava pensando na palavra que McGovern empregara para descrever Dorrance - horrendo. Não é a que Ralph teria usado, mas não havia dúvida de que o velho Dor era original. Não era bem senil (ou pelo menos Ralph não achava que era); era mais como se as poucas coisas que dizia saíssem de uma mente ligeiramente fora de esquadro e de uma percepção ligeramente distorcida.

Lembrou-se que Dorrance estava lá naquele dia do verão passado em que Ed colidira com o cara do furgão. À época achara que a chegada de Dorrance tinha dado o toque de excentricidade que faltava ao espetáculo. E Dorrance dissera uma coisa engraçada. Ralph tentou lembrar-se do que era mas não conseguiu.

McGovern voltara a espiar a rua, onde um rapaz de macacão cinzento acabara de sair, assoviando, da casa diante da qual estacionara a ambulância da Medicai Services. O rapaz, na força dos seus vinte e quatro anos, como se jamais tivesse precisado de um serviço médico na vida, empurrava um carrinho com um comprido cilindro verde.

- Aquele é o vazio - disse McGovern. - Você perdeu a entrada do cheio.

Um segundo homem, também de macacão, saiu pela porta da frente da pequena casa, que combinava, de maneira infeliz, paredes amarelas e ornatos cor-de-rosa. Parou na entradinha um momento, a mão na maçaneta, aparentemente falando com alguém dentro da casa. Então bateu a porta e correu, ágil, pelo caminho. Chegou em tempo de ajudar o colega a erguer o carrinho com o cilindro e embarcá-los na traseira da ambulância.

- Oxigênio? - Ralph perguntou. McGovern confirmou com a cabeça.

- Para a Sra. Locher?

McGovern confirmou outra vez, observando os funcionários do Medicai Services baterem as portas da ambulância e pararem para conversar sem pressa à luz poente.

- Frequentei a escola primária e a secundária com May Locher. Lá em Cardville, terra dos fortes e das vacas. Éramos apenas cinco na turma que se formou. Naquele tempo, ela era chamada de assanhada e caras como eu de "afrescalhados". Naquela época divertidamente antiga, gay era a palavra que se usava para elogiar a árvore de Natal depois de enfeitá-la.

Ralph baixou os olhos para as mãos, constrangido e mudo. Naturalmente sabia que McGovern era homossexual, há anos, mas Bill nunca falara disso em voz alta até esta noite.

Ralph gostaria que tivesse guardado essa conversa para outro dia... preferivelmente um em que Ralph não se sentisse como se o cérebro tivesse sido substituído por recheio de edredom.

- Isso foi há séculos - McGovern disse. - Quem teria pensado que viríamos dar com os costados nas praias da Avenida Harris.

- Ela tem enfisema, não é? Acho que foi isso que ouvi dizer.

- É. Uma dessas doenças que não param de proliferar. Sem dúvida envelhecer não é tarefa para maricás, não é?

- Não, não é... - Ralph concordou, e então sua mente percebeu a verdade com repentina força. Era em Carolyn que pensava, e no terror que sentira ao entrar chapinhando no apartamento com os ténis encharcados e a encontrara caída, o corpo metade na cozinha metade fora... de fato no mesmo lugar em que ficara parado durante a maior parte da conversa com Helen. Enfrentar Ed Deepneau não fora nada, comparado ao terror que sentira no momento em que teve certeza de que Carolyn estava morta.

- Lembro do tempo em que eles traziam oxigênio para May a cada duas semanas mais ou menos - disse McGovern. - Agora vêm toda segunda e quinta à noite, como um relógio.

Vou visitá-la quando posso. Às vezes leio para ela os artigos das revistas femininas, os mais chatos que se pode imaginar, e outras vezes apenas ficamos sentados, conversando. Ela diz que tem a sensação de que seus pulmões estão se enchendo de algas. Não vai demorar muito agora. Um dia desses eles virão e, ao invés de carregar um cilindro vazio de oxigênio na traseira da caminhonete, vão carregar May. Vão levá-la para o Derry Home e será o fim.

- Foi cigarro? - Ralph perguntou.

McGovern brindou-o com um olhar tão alheio àquele rosto magro e sereno, que Ralph levou algum tempo para perceber que era desprezo.

- May Perrault jamais fumou um cigarro na vida. Está pagando o preço de ter trabalhado vinte anos na tinturaria de uma fábrica em Corinna e outros vinte anos operando o abridor de fibras têxteis em outra fábrica em Newport. É algodão, lã e nylon que dificultam sua respiração e não algas.

Os dois rapazes do Derry Medicai Services entraram na ambulância e partiram.

- O Maine é o refúgio do nordeste dos Apalaches, Ralph, muita gente não se dá conta disso, mas é verdade; e May está morrendo de uma doença apalachiana. Enfisema têxtil.

- Que coisa triste. Acho que ela significa muito para você. McGovern riu com deboche.

- Não. Eu a visito porque, por acaso, ela é o último pedaço visível da minha juventude mal gasta. Às vezes leio para ela e sempre consigo engolir um ou dois dos seus biscoitos de aveia secos e velhos, mas não passa disso. Minha preocupação é seguramente egoísta, posso lhe garantir.

Seguramente egoísta, Ralph pensou. Que frase mais esquisita. Que frase mais McGovern.

- Mas vamos esquecer a May - disse McGovern. - A pergunta que se ouve na boca de todos os americanos em todo o mundo é o que vamos fazer com você, Ralph. O uísque não produziu efeito, não foi? - Não - respondeu Ralph. - Receio que não.

- Você fez uma tentativa para valer? Ralph confirmou com a cabeça.

- Mas precisa fazer alguma coisa para remover essas bolsas debaixo dos olhos ou jamais conquistará a linda Lois. - McGovern estudou a reacção de Ralph ao seu comentário e suspirou.

- Não foi tão engraçado assim, hum?

- Nem um pouco. E depois, esse foi um longo dia.

- Desculpe.

- Tudo bem.

Ficaram sentados em afável silêncio por algum tempo, observando as idas e vindas daquele trecho da Avenida Harris. Três meninas pulavam amarelinha no estacionamento do mercadinho defronte. A Sra. Perrine estava ali perto, empertigada como uma sentinela, vigiando as meninas. Um menino com a pala do boné de um time de beisebol virado para trás passou, batendo com as mãos o ritmo do seu walkman. Dois garotos brincavam de atirar um disco de plástico um para o outro diante da casa de Lois. Um cachorro latia. Em algum lugar, uma mulher gritava para o Sam pegar a irmã e ir para dentro. Era a serenata habitual da vida da rua, nem mais nem menos, mas, para Ralph, tudo soava estranhamente falso. Talvez porque, ultimamente, se acostumara demais a ver a Avenida Harris vazia.

Virou-se para McGovern e disse:

- Sabe qual foi a primeira coisa que pensei quando vi você no estacionamento do mercadinho hoje à tarde? Apesar de tudo que estava acontecendo?

McGovern sacudiu a cabeça.

- Fiquei imaginando onde teria metido o diabo do chapéu. O panamá. Você ficou muito esquisito sem chapéu. Parecia nu. Agora conte a verdade, filho: onde foi que escondeu a tampa de sua cabeça?

McGovern levou a mão ao alto da cabeça, onde os fios restantes dos cabelos brancos, finos como os de um bebê, estavam cuidadosamente penteados da esquerda para a direita, cobrindo o crânio cor-de-rosa.

- Não sei - respondeu. - Dei por falta dele hoje de manhã. Quase sempre me lembro de deixá-lo em cima da mesa junto à porta de entrada quando chego, mas não está lá. Imagino que o tenha largado em outro lugar desta vez, mas exatamente onde não consigo atinar.

Mais alguns anos e vou estar andando por aí de cuecas porque não consigo me lembrar onde deixei as calças. Tudo isso faz parte da maravilhosa experiência de envelhecer, certo, Ralph?

Ralph concordou com a cabeça e riu, pensando que de todas as pessoas idosas que conhecia - e conhecia mais de trinta em nível de caminhada pelo parque e olá-como-vai – Bill McGovern era quem mais reclamava da velhice. Parecia encarar a juventude perdida e a meia-idade recém-desaparecida, como um general olharia dois soldados que desertaram na véspera de uma grande batalha. Mas não ia dizer uma coisa dessas.

Cada um tinha suas pequenas excentricidades; ser teatralmente mórbido com relação ao avanço da idade era a de McGovern.

- Falei alguma coisa engraçada? - McGovern perguntou.

- Que foi?

- Você estava rindo, então acho que devo ter dito alguma coisa engraçada.-Parecia um pouco ofendido o que realmente era demais principalmente para alguém que gostava tanto de gozar o vizinho do andar de cima a respeito da viúva bonitona que morava na rua, mas Ralph se lembrou que fora um dia longo para McGovern também.

- Não estava pensando em você - respondeu Ralph. - Estava pensando que Carolyn costumava dizer praticamente a mesma coisa: que envelhecer era como comer uma sobremesa ruim depois de uma boa refeição.

Isso era, no mínimo, uma meia-verdade. Carolyn realmente fizera esta comparação, mas para descrever o tumor cerebral que a estava matando, e não sua vida como idosa. E, de qualquer modo, também não estava assim tão idosa, tinha apenas sessenta e quatro anos quando falecera, e até as seis ou oito semanas finais de vida, dizia que, a maior parte do tempo, sentia ter metade dessa idade.

Defronte dos dois, as meninas que pulavam amarelinha se aproximaram do meio-fio, olharam para os dois lados da rua, deram-se as mãos e atravessaram correndo e rindo. Por um instante, elas lhe pareceram envoltas em uma luz cinzenta - uma nuvem que iluminava seus rostos e olhos risonhos como a estranha e clara chama azulada que surgia nos mastros dos navios, durante as tempestades. Um pouco assustado, Ralph apertou os olhos e tornou a arregalá-los. O manto cinzento que imaginara envolver o trio de meninas desapareceu, o que foi um alívio, mas tinha que dormir um pouco bem depressa. Simplesmente tinha que dormir.

- Ralph? - A voz de McGovern parecia vir da outra ponta da varanda, embora ele não tivesse se mexido. - Você está bem?

- Claro - Ralph respondeu. - Pensando em Ed e Helen, é só. Você tinha ideia de que ele estava ficando biruta, Bill? McGovern sacudiu a cabeça energicamente.

- Nem suspeitava - falou. - Embora visse hematomas em Helen de tempos em tempos, sempre acreditava nas histórias que ela contava para explicá-los. Não gosto de me considerar muito ingénuo, mas talvez tenha que reavaliar o meu modo de pensar a questão.

- Que acha que vai acontecer com eles? Algum prognóstico?

McGovern suspirou e tocou o alto da cabeça com as pontas dos dedos, sentindo falta do panamá, mas sem dar por isso.

- Você me conhece, Ralph: sou um cínico de longa linhagem. Acho que é muito raro os conflitos humanos comuns se resolverem como vemos na TV. Na realidade, eles vão se repetir muitas vezes, descrevendo círculos decrescentes até sumirem de vez. Só que eles não chegam realmente a sumir; eles secam, como poças de lama ao sol. - McGovern fez uma pausa e acrescentou: - E a maioria deixa o mesmo resíduo de sujeira.

- Nossa - Ralph exclamou. - Isso é que é ser cínico. McGovern deu de ombros.

- A maioria dos professores aposentados são cínicos, Ralph.Vemos quando eles chegam, tão jovens e tão fortes, tão convencidos de que com eles a coisa vai ser diferente, e vemos que fazem suas sujeiras e em seguida passam ao largo, exactamente como seus pais e avós fizeram. O que acho é que Helen voltará para o marido e, por algum tempo, Ed vai se comportar direito, então vai espancá-la outra vez e ela vai deixá-lo outra vez. É como aquelas músicas sertanejas bobinhas que tocam na vitrola automática lá no Nick's Lunch, as pessoas ficam ouvindo um tempão até resolverem que não querem mais ouvi-la. Mas Helen é uma moça inteligente. Acho que só precisa ouvir mais um verso.

- Mais um verso é só o que vai ter - disse Ralph calmamente. -Não estamos falando de um marido bêbado que volta para casa na sexta à noite e espanca a mulher porque perdeu o ordenado num jogo de pôquer e ela teve a ousadia de reclamar.

- Eu sei - McGovern disse - mas você pediu minha opinião, e eu lhe dei. Acho que

Helen vai precisar de mais uma rodada antes de criar coragem para terminar. E, mesmo assim, não é provável que os dois continuem a tropeçar um no outro. Ainda moram numa cidade pequena. - Ele parou apertando os olhos em direcção à rua. - Olhe só - falou, erguendo a sobrancelha esquerda. - A nossa Lois. Caminha bela como a noite.

Ralph lançou-lhe um olhar impaciente, que McGovern não viu ou fingiu não ver. Ele se levantou, tocou mais uma vez com a ponta dos dedos o lugar onde deveria estar o panamá, e em seguida desceu os degraus da varanda para recebê-la no caminho.

- Lois! - McGovern exclamou, dobrando um joelho diante dela e estendendo teatralmente as mãos.-Que as nossas vidas possam se unir pelos laços estrelados do amor!

Junte o seu destino ao meu e deixe-me arrebatá-la para outros climas na carruagem de ouro das minhas afeições!

- Oba, você está falando de lua-de-mel ou de uma única noite? - Lois perguntou sorrindo insegura.

Ralph cutucou as costas de McGovern.

- Levanta, panaca - e apanhou a pequena sacola que Lois carregava. Espiou dentro e viu três latas de cerveja.

McGovern levantou-se.

- Desculpe, Lois - McGovern disse. - Foi a conjunção do crepúsculo de verão com a sua beleza. Declaro-me temporariamente enlouquecido, em outras palavras.

Lois sorriu para ele, virando-se então para Ralph.

- Acabei de saber do que houve - disse - e corri para cá o mais depressa que pude.

Estive em Ludlow a tarde inteira, jogando pôquer com as meninas, a cinco e dez centavos a parada.

Ralph não precisou olhar para McGovern para saber que sua sobrancelha esquerda - a que dizia Pôquer com as meninas! Que coisa maravilhosamente, perfeitamente, completamente de acordo com Nossa Lois! - estaria erguida ao máximo.

- Helen está bem?

- Está - respondeu Ralph. - Bem talvez não seja a melhor palavra, vão mantê-la no hospital até amanhã, mas não corre nenhum perigo.

- E a neném?

- Óptima. Ficou com uma amiga de Helen.

- Bom, venham para a varanda os dois, e me contem tudo. - Deu um braço a McGovern, outro a Ralph, e os conduziu de volta pelo caminho. Subiram os degraus da varanda assim, os dois mosqueteiros idosos com a mulher cujo afecto tinham disputado na juventude bem segura entre ambos e, quando Lois se sentou na cadeira de balanço, as luzes da rua se acenderam na Avenida Harris, brilhando ao crepúsculo, como uma fieira dupla de pérolas.

RALPH ADORMECEU naquela noite, mal encostou a cabeça no travesseiro, e despertou totalmente às 3h30min de sexta-feira. Compreendeu na hora que, em hipótese alguma, voltaria a dormir; seria melhor passar directamente à poltrona na sala de estar.

Mas, de qualquer maneira, continuou deitado mais algum tempo, contemplando a escuridão e procurando recuperar o fio do sonho que tivera. Não conseguiu. Só conseguia se lembrar que sonhara com Ed... e Helen... e Rosalie, a cachorra que por vezes observava coxear pela Avenida Harris antes de Pete, o jornaleiro, aparecer.

Dotrance estava no sonho também. Não se esqueça dele.

É verdade. E como se uma chave tivesse girado numa fechadura, Ralph lembrou-se do comentário engraçado de Dorrance durante o confronto entre Ed e o grandalhão no ano anterior, a coisa que Ralph não fora capaz de lembrar mais cedo naquela noite. Ele, Ralph, continha Ed, procurando mantê-lo imobilizado contra o capo amassado do carro tempo suficiente para a rsizão prevalecer e Dorrance dissera (Eu não faria isso) que Ralph não deveria segurá-lo.

- Disse que não conseguia mais enxergar minhas mãos - Ralph murmurou, girando os pés para fora da cama. - Foi isso.

Ficou sentado onde estava um tempinho, a cabeça baixa, o cabelo, arrepiado na nuca, os dedos entrelaçados frouxamente entre as coxas. Finalmente calçou os chinelos e saiu arrastando os pés a té a sala de estar. Estava na hora de começar a esperar o sol nascer.

 

EMBORA os cínicos sempre parecessem mais sensatos do que os amalucados otimistas do mundo, a experiência de Ralph dizia que eles erravam, no mínimo, o mesmo número de vezes, se não mais, e ficou feliz ao descobrir que McGovern errara a respeito de Helen Deepneau - no caso dela, um único verso do Blues do coração surrado e partido parecia ter sido suficiente.

Na quarta-feira da semana seguinte, enquanto Ralph decidia se não seria melhor descobrir a mulher com quem Helen falara no hospital (Tillbury era o nome dela - Gretchen Tillbury) e se certificar se Helen ia bem, ele recebeu uma carta. O endereço do remetente era simples apenas Helen e Nat, High Ridge - mas foi suficiente para tranquilizar, e muito, a mente de Ralph. Ele se sentou na cadeira da varanda, rasgou o envelope, e retirou duas folhas de papel pautado cobertas com a caligrafia inclinada para a esquerda de Helen.

"Querido Ralph [começava a carta], imagino que a essa altura você deve estar pensando que afinal decidi ficar chateada com você, mas não é verdade. É que não devemos manter contacto com ninguém - por telefone ou carta - nos primeiros dias. Regras da casa. Gosto muito deste lugar e Nat também. Ela só poderia gostar; há pelo menos seis crianças da mesma idade com quem engatinhar. Quanto a mim, estou conhecendo mais mulheres que sabem o que eu passei do que teria acreditado haver. Quero dizer, a gente vê programas de TV do tipo Conversa com Mulheres Que Adoram Homens Que As Fazem de Sacos de Pancada - mas quando acontece com a gente, não se consegue deixar de sentar que está acontecendo de uma forma que nunca aconteceu a mais ninguém, de uma forma totalmente nova para o mundo. O alívio de saber que isso não é verdade é a melhor coisa que já me aconteceu em muito, muito tempo."

Ela falava das tarefas que lhe tinham sido destinadas - trabalhar no jardim, ajudar a pintar um telheiro de ferramentas, lavar as janelas de tela com água e vinagre - e contava as aventuras de Natalie aprendendo a andar. No resto da carta, comentava o que lhe ocorrera e o que pretendia fazer, e foi nesse ponto que Ralph percebeu, pela primeira vez, o torvelinho emocional em que Helen estava vivendo, suas preocupações com o futuro, e, em compensação, sua formidável determinação de fazer o melhor para Nat... e para si mesma.

Helen parecia ter acabado de descobrir que também tinha direito ao melhor. Ralph alegrou-se por sua descoberta, mas se entristeceu ao lembrar de todos os momentos de angústia por que precisou passar para chegar a essa simples conclusão.

"Vou-me divorciar dele [ela escrevia]. Parte de minha mente (parece minha mãe quando fala) praticamente grita quando coloco a coisa assim cruamente, mas estou cansada de viver me enganando a respeito de minha condição. Faz-se muita terapia aqui, do tipo que as pessoas se sentam em círculo e consomem quatro caixas de lenços de papel por hora, mas tudo parece nos levar a ver as coisas de maneira mais simples. No meu caso, o simples é que o homem com quem casei foi substituído por um perigoso paranóico. O fato de que, por vezes, é capaz de se mostrar meigo e amoroso não modifica a situação, apenas desvia a atenção do problema. Preciso me lembrar que o homem que costumava colher flores para me trazer agora se senta na varanda e conversa com alguém que não está presente, alguém a quem ele chama de 'doutorzinho careca'. Não é uma beleza? Acho que sei como tudo começou, Ralph, e quando estivermos juntos, vou-lhe contar, se estiver interessado.

Deverei voltar à casa da Avenida Harris (pelo menos por algum tempo) em meados de Setembro, embora apenas para procurar emprego... mas chega de falar nisso, a coisa toda me deixa morta de medo! Recebi um bilhete de Ed - apenas um parágrafo, mas me trouxe um grande alívio - em que diz que está morando em um dos chalés dos laboratórios Hawking em Fresh Harbor e que vai respeitar a cláusula de não fazer contacto, estipulada pelo acordo de fiança. Disse que lamenta tudo, mas não acho que seja sincero. Não é que esperasse borrões de lágrimas na carta ou uma caixinha com sua orelha dentro, mas... não sei, não. É como se ele não estivesse realmente pedindo desculpas, mas apenas registrando o fato de pedi-las. Isso faz sentido? Ele também incluiu um cheque de 750 dólares, o que parece indicar que compreende suas responsabilidades. Isto é bom, mas acho que teria gostado mais de saber que estava cuidando dos seus problemas mentais. Aliás, essa deveria ser a sentença dele:

dezoito meses de terapia intensiva. Eu disse isso no grupo e muita gente riu pensando que eu estava brincando. Mas não estava, não.

Por vezes me passam umas imagens horríveis pela cabeça quando tento pensar no futuro.

Vejo nós duas na fila do sopão dos pobres, ou me vejo entrando no alojamento para desabrigados na rua Três com Nat nos braços, enrolada em um cobertor. Quando penso nessas coisas, começo a tremer e, às vezes, choro. Sei que é uma idiotice; pelo amor de Deus, tenho um diploma em biblioteconomia, mas não consigo evitar. E você sabe a que me agarro quando me ocorrem essas imagens? Ao que você disse quando me levou para trás do balcão no mercadinho e me fez sentar. Você me disse que eu tinha uma porção de amigos no bairro, e que ia conseguir dar a volta por cima. Sei que tenho pelo menos um amigo. Um amigo muito verdadeiro."

A carta vinha assinada Com todo o carinho, Helen.

Ralph enxugou as lágrimas nos cantos dos olhos-parecia que ultimamente chorava à toa, provavelmente por andar tão cansado - e leu o P.S. que ela espremera no pé da página e que continuava pela margem direita acima:

Gostaria muito que você viesse me visitar, mas não permitem a entrada de homens aqui por razões que estou certa de que entenderá. Pedem até que não divulguemos a exacta localização da casa! H.

Ralph ficou sentado uns dois minutos com a carta de Helen no colo, contemplando a Avenida Harris. Era o finalzinho de agosto agora, ainda verão, mas as folhas dos choupos já começavam a produzir reflexos prateados ao sopro do vento e sentia-se o primeiro toque de friagem no ar. A chamada na vitrine do mercadinho dizia TODO TIPO DE MATERIAL

ESCOLAR! PROCURE AQUI PRIMEIRO! E lá para os lados da divisa com Newport, numa grande e velha casa de fazenda onde mulheres espancadas iam tentar juntar os cacos da vida, Helen Deepneau lavava janelas de tela, preparando-as para mais um longo inverno.

Meteu a carta cuidadosamente de volta no envelope, tentando se lembrar quanto tempo Ed e Helen tinham ficado casados. Achava que uns seis ou sete anos. Carolyn teria sabido com certeza. Quanta coragem é preciso para se ligar o trator e revolver uma safra que se levou seis ou sete anos para cultivar? Ele se perguntou. Quanta coragem é preciso para persistir depois de se passar tanto tempo aprendendo como preparar o solo, quando plantar, quanto regar e quando colher? Quanto tempo é preciso para se chegar e dizer simplesmente:

"Vou ter que desistir dessas ervilhas, ervilhas não me servem, é melhor experimentar milho ou vagem."

- Um bocado - disse, enxugando outra vez os cantos dos olhos. - Na minha opinião, um bocado.

De repente sentiu uma enorme vontade de ver Helen, de repetir o que ela tão bem lembrava de ter ouvido e que ele mal conseguia lembrar de ter dito: Você vai ficar bem, vai conseguir dar a volta por cima, você tem muitos amigos no bairro.

- Guarde essa no banco, Ralph - murmurou para si mesmo. Saber notícias de Helen parecia ter tirado um grande peso de seus ombros. Levantou-se, meteu a carta no bolso traseiro e começou a subir a avenida, em direção à área de piqueniques na Extensão da Harris. Se tivesse sorte, encontraria Faye Chapin ou Don Veazie e poderia jogar uma partidinha de xadrez.

O ALÍVIO em receber notícias de Helen não contribuiu em nada para atenuar a insónia de Ralph; continuou a despertar prematuramente e, pelo início de Setembro, estava abrindo os olhos em torno das 2h45min. Em 10 de Setembro, dia em que Ed Deepneau foi preso novamente, desta vez com outros quinze- a média de sono nocturno de Ralph encolhera para umas três horas e ele começara a se sentir muito parecido com uma coisa que se põe na lâmina e se observa ao microscópio. Um simples protozoariozinho solitário é o que sou, pensou ao se sentar na poltrona, observando a Avenida Harris, e teve vontade de poder rir.

Sua lista de remédios que-não-falham-nunca continuou a crescer, e lhe ocorreu mais de uma vez que poderia escrever um livrinho bem engraçado sobre o assunto... isto é, se conseguisse dormir o suficiente para que o pensamento organizado se tornasse novamente possível. Neste fim de verão, já era uma vantagem conseguir calçar meias iguais todos os dias, e não parava de relembrar o esforço infernal que fizera para encontrar o envelope de sopa no armário da cozinha, no dia em que Helen fora espancada. Não voltara àquele estado, porque conseguira dormir alguma coisa toda noite, mas Ralph tinha um grande receio de que chegaria lá outra vez - talvez ficasse até pior - se as coisas não melhorassem. Havia vezes (em geral sentado à poltrona às quatro e trinta da manhã) em que poderia jurar que era capaz de sentir o cérebro se esvaziar.

Os remédios iam do sublime ao absurdo. O melhor exemplo dos primeiros era uma brochura a cores, anunciando as maravilhas do Instituto para Estudos do Sono em St. Paul, Minnesota. Um bom exemplo do segundo era o Olho Mágico, um amuleto polivalente que anunciavam nos tablóides de supermercados como o National Enquirer e o Inside Viezv.

Sue, a balconista do mercadinho, comprou um e deu-o de presente a Ralph certa tarde.

Ralph contemplou o olho azul mal-pintado que o espiava do medalhão (que, em sua opinião, provavelmente começara a vida como ficha de pôquer) e sentiu um violento assomo de riso borbulhar dentro dele. Conseguiu sufocá-lo até voltar à segurança do seu apartamento de primeiro andar do outro lado da rua, sentindo-se grato por isso. A seriedade com que Sue o presenteara - e a corrente dourada de aparência cara em que pendurou o medalhão indicavam que o objeto lhe custara um bom dinheiro. Ela encarava Ralph quase com assombro, desde o dia em que os dois socorreram Helen. Ralph sentia-se constrangido, mas não sabia que atitude tomar. Entretanto, supunha que não lhe faria mal usar o medalhão, para que ela o percebesse sob sua camisa. O amuleto, porém, não o ajudou a dormir.

Depois de tomar o depoimento de Ralph sobre os problemas domésticos dos Deepneau, o detetive John Leydecker empurrara para trás a cadeira em que se encontrava à escrivaninha, cruzou os dedos à nuca do seu avantajado pescoço, e disse que soubera por McGovern que Ralph sofria de insónia. Ralph confirmou. Leydecker acenou a cabeça, correu a cadeira outra vez para a frente, pousou as mãos sobre a pilha de papéis que praticamente soterrava a superfície da mesa, e encarou Ralph, sério.

- Favo de mel - disse. Seu tom de voz lembrou a Ralph o de McGovern quando sugerira que o uísque era a solução, e sua resposta agora era quase exactamente a mesma.

- Que disse?

- Meu avô jurava que era óptimo. Um pedacinho de favo de mel pouco antes de deitar.

Chupe o mel do favo, mastigue um pouco a cera, como faria com um chiclete, e cuspa fora.

As abelhas segregam uma espécie de sedativo natural no mel. Você apaga na hora.

- Não brinca - disse Ralph, acreditando que aquilo era, ao mesmo tempo, besteira pura e verdade absoluta. - E onde é que você acha que se consegue favo de mel?

- Nutra: a loja de comida natural no shopping. Experimente. Daqui a uma semana, seus problemas estarão terminados.

Ralph gostou da experiência - o favo de mel era agradavelmente eficaz, proporcionando uma energia que parecia se espalhar por todo o seu organismo - mas continuou a acordar às 3h10 após a primeira dose, às 3h08 após a segunda e às 3h07 após a terceira.

Por aquela altura, o pedacinho de favo de mel que comprara acabou e ele foi imediatamente à Nutra comprar outro. Seu valor como sedativo poderia ser nulo, mas era um excelente lanchinho; só gostaria de tê-lo descoberto antes.

Ele tentou pôr os pés em água quente. Lois tinha-lhe comprado um gel para compressas que vira em um catálogo - colocado em torno do pescoço, curava a artrite ao mesmo tempo em que ajudava a adormecer (não fez nenhuma das duas coisas com Ralph, mas, para começo de conversa, o seu caso de artrite era excepcionalmente brando). Após um encontro casual com Trigger Vachon, no balcão do Nicky's Lunch, ele experimentou o chá de camomila.

- A camomila é uma beleza - Trigg lhe disse. - Você vai dormir como nunca, Ralphie.

- E Ralph dormiu... até 2h58.

Foram esses os remédios caseiros e homeopáticos que experimentou. Entre os que não experimentou, havia os pacotes de complexos vitamínicos que custavam muito mais do que Ralph poderia gastar com seus rendimentos, uma postura de ioga chamada O Sonhador (conforme descrita pelo carteiro, O Sonhador pareceu a Ralph uma boa maneira de dar uma espiada nas próprias hemorróidas), e a maconha. Ralph avaliou cuidadosamente esta última, antes de concluir que provavelmente seria apenas uma versão ilegal do uísque, do favo de mel e do chá de camomila. Além disso, se McGovern descobrisse que Ralph andava puxando um fuminho, nunca mais lhe daria sossego.

Durante todas essas experiências, uma voz em seu cérebro não parava de perguntar se realmente teria que chegar ao olho de lagarto e à língua de sapo antes de desistir e sair à cata de um médico. A voz era menos crítica do que genuinamente curiosa. O próprio Ralph sentia uma certa curiosidade.

No dia 10 de Setembro, o dia da primeira manifestação dos Amigos da Vida diante da WomanCare, Ralph resolveu que experimentaria alguma coisa comprada em farmácia... mas não na Rexall, no centro, onde aviara as receitas de Carolyn. Ali eles o conheciam, até muito bem, e não queria que Paul Durgin, o farmacêutico, o visse comprando soníferos.

Provavelmente era uma tolice - como atravessar a cidade para comprar camisinhas - mas isso não mudava a sua maneira de sentir. Nunca comprara nada na Rite Aid, em frente ao parque Strawford, por isso era lá que pretendia ir. Se a versão farmacêutica do olho de lagarto e da língua de sapo não fizesse efeito, ele realmente procuraria um médico.

Verdade, Ralph? Está mesmo falando sério?

- Estou - respondeu em voz alta, enquanto descia lentamente a Avenida Harris, ao radioso sol de setembro.-Diabos se vou aturar isso mais tempo.

Boas falas, Ralph, a voz comentou ceticamente.

Bill McGovern e Lois Chasse encontravam-se parados do lado de fora do parque, entretidos no que lhe pareceu uma animada discussão. Bill ergueu os olhos, viu o amigo, e fez sinal para que se aproximasse. Ralph aquiesceu, embora não gostasse da combinação de suas expressões: vivo interesse no rosto de McGovern, aflição e preocupação no de Lois.

- Soube da coisa que aconteceu no hospital? - ela perguntou, quando Ralph se reuniu aos dois.

- Não foi no hospital e não foi "uma coisa" - corrigiu McGovern implicante. - Foi uma manifestação, pelo menos foi o nome que lhe deram, e foi na WomanCare que, na realidade, funciona atrás do hospital. Levaram uma porção de gente para a cadeia: entre seis e vinte e quatro pessoas, ninguém sabe ao certo quantos.

- Uma delas foi Ed Deepneau! - Lois falou ofegante, e McGovern lhe lançou um olhar de enfado. Sem dúvida acreditara que lhe cabia dar aquela notícia.

- Ed! - Ralph exclamou espantado. - Ed está em Fresh Harbor!

- Errado - falou McGovern. O chapéu marrom surrado que estava usando lhe dava um ar elegante, como o de um repórter de filme policial dos anos quarenta. Ralph ficou imaginando se o panamá continuava desaparecido ou simplesmente fora aposentado para a temporada de outono.-Hoje ele está mais uma vez esfriando o rabo na nossa pitoresca cadeia municipal.

- Mas o que foi que aconteceu exatamente?

Na realidade, nenhum dos dois sabia. Àquela altura, a história era pouco mais do que um boato que se espalhara pelo parque como uma gripe contagiosa, um boato que atraía especial interesse nesta parte da cidade porque ali o nome de Ed Deepneau era conhecido.

Marie Callan contara à Lois que tinham atirado pedras, e que por essa razão os manifestantes foram presos. Segundo Stan Eberly, que passara a história a McGovern, pouco antes deste encontrar Lois, alguém - poderia ter sido Ed, mas poderia também ter sido qualquer um dos outros - tinha golpeado dois médicos que usavam a passagem entre a WomanCare e a entrada de seviço do hospital. Tecnicamente a passagem era propriedade pública, e se tornara o ponto preferido dos manifestantes nos sete anos em que a WomanCare vinha atendendo solicitações de aborto.

As duas versões da história eram tão vagas e conflitantes, que Ralph concluiu que havia uma razoável esperança de que nenhuma fosse verdadeira, que talvez tivesse havido apenas um excesso de entusiasmo por parte das pessoas presas por invasão de propriedade ou qualquer coisa do gênero. Em lugares como Derry, aconteciam dessas coisas; as histórias costumavam aumentar como balões de encher, à medida que circulavam de boca em boca.

Contudo não conseguia se livrar da sensação de que desta vez a coisa fora mais séria, principalmente porque tanto a versão de Bill quanto a de Lois incluíam Ed Deepneau, e Ed não era um manifestante antiaborto normal. Era, afinal de contas, o cara que quase arrancara o couro cabeludo da mulher, deslocara sua arcada dentária e fraturara seu malar simplesmente porque vira seu nome em um abaixo-assinado que mencionava a WomanCare.

Era o cara que parecia sinceramente convencido de que alguém que se autodenominava o Rei Sanguinário - que óptimo nome para um profissional de luta livre - andava solto em Derry, e que seus súditos retiravam da cidade as vítimas ainda por nascer em caminhões (e mais alguns furgões com fetos guardados em barris do fertilizante MATA-MATO). Não, ele tinha a impressão de que se Ed participara do incidente, provavelmente não fora apenas um caso de baterem acidentalmente na cabeça de alguém com um cartaz de protesto.

- Vamos até lá em casa - Lois propôs de repente.-Vou ligar para Simone Castonguay.

A sobrinha dela é a recepcionista diurna na WomanCare. Se alguém souber exatamente o que aconteceu lá hoje de manhã, será a Simone: com certeza terá ligado para Barbara.

- Eu ia dar um pulo no supermercado-Ralph falou. Era mentira, é claro, mas uma mentirinha à-toa; o mercado ficava ao lado da Rite Aid, no quarteirão comercial, a pequena distância do parque. - Por que não passo lá na volta?

- Tudo bem - respondeu Lois, sorrindo para ele. - Esperamos você daqui a uns minutinhos, não é, Bill?

- É-concordou McGovern, e inesperadamente tomou-a nos braços. Exigiu um certo esforço, mas ele conseguiu. - Enquanto isso, terei você só para mim. Ah, Lois, como serão fugazes esses doces minutos!

No parque, um grupo de moças com bebês em carrinhos (uma fofoca de mamães, pensou Ralph) estivera a observá-los, provavelmente atraído pela gesticulação de Lois, que tinha uma tendência a se tornar exuberante quando se agitava. Agora, quando McGovern curvoua para trás, num falso arrebatamento de mau ator, ao fim de um tango teatral, uma das mães comentou alguma coisa com outra e as duas riram. Foi um som agudo e indelicado que fez Ralph pensar em giz arranhando o quadro-negro e garfos arrastados de um lado para o outro em pia de porcelana. Olhe aqueles velhos engraçados, a risada dizia. Olhe aqueles velhotes engraçados, fingindo que voltaram à juventude.

- Pare com isso, Bill!-disse Lois. Ruborizara-se, e talvez não fosse apenas porque Bill estava aprontando das suas. Ela também ouvira as risadas do parque. McGovern, com certeza, também, mas acreditaria que estavam rindo com ele e não dele. Ralph pensou aborrecido que um ego ligeiramente inflado, às vezes, podia servir de escudo.

McGovern soltou-a, tirou o chapéu e levou-o até a cintura, fazendo uma curvatura exagerada. Lois estava demasiado ocupada, verificando se a blusa de seda continuava dentro da saia, para lhe prestar muita atenção. Seu rubor diminuiu, e Ralph reparou que parecia um tanto pálida, um pouco fora de forma. Desejou que não adoecesse.

- Passe lá em casa, se puder - falou para Ralph em voz baixa.

- Passarei, Lois.

McGovern abraçou-a pela cintura, o gesto carinhoso ao mesmo tempo amigável e sincero desta vez, e os dois começaram a subir a rua juntos. Observando-os, Ralph sentiu-se repentinamente tomado por uma forte impressão de déjà vu, como se já os tivesse visto assim, em algum outro lugar. Ou em outra vida. Quando McGovern abaixou o braço, desfazendo a ilusão, ele se lembrou: Fred Astaire conduzindo uma Ginger Rogers de cabelos escuros e um tanto gorducha, até o cenário de uma cidadezinha de filme, onde dançariam juntos uma música de Jerome Kern ou talvez de Irving Berlin.

Que coisa estranha, pensou, virando na direção do quarteirão comercial na descida da ladeira Morro-Acima. Que coisa muito estranha, Ralph. Bill McGovern e Lois Chasse não podem ser mais diferentes de Fred Astaire e Ginger Rogers do que você...

- Ralph? - Lois chamou, e ele se virou. Havia um cruzamento e mais ou menos a distância de um quarteirão a separálos agora. Carros corriam nas duas pistas da rua Elizabeth, entrecortando a visão dos dois.

- Que foi? - ele gritou de volta.

- Você está com um aspecto melhor! Mais descansado! Está finalmente conseguindo dormir alguma coisa?

- Estou! - ele respondeu, pensando, Mais uma mentirinha, por outra boa causa.

- Não disse que você se sentiria melhor quando virasse a estação? Vejo você daqui a pouco.

Lois agitou os dedos para ele, e Ralph admirou-se de ver raios azul-vivos se irradiarem diagonalmente de suas unhas curtas, mas bem cuidadas. Lembravam a esteira que os jatos deixavam no céu azul.

- Que porra...?

Fechou os olhos com força e em seguida arregalou-os. Nada. Apenas Bill e Lois mais uma vez subindo a rua em direção à casa de Lois, de costas para ele. Nada de diagonais azuis no ar, nada nem parecido...

Ralph baixou os olhos para a calçada e viu que, ao caminharem, Lois e Bill deixavam pegadas no concreto, pegadas iguaizinhas às das instruções de dança que antigamente se encomendavam pelo correio. As de Lois eram cinzentas. As de McGovern-maiores, mas ainda assim curiosamente delicadas -, verde-oliva escuras. Brilhavam na calçada, e Ralph, que parará na extremidade mais distante da rua Elizabeth, com o queixo caído quase até o externo, de repente percebeu que conseguia ver fitas de fumaça colorida subindo do corpo deles. Ou talvez fosse vapor.

Um ônibus municipal passou roncando a caminho de Old Cape e bloqueou momentaneamente a cena; quando acabou de passar, as pegadas tinham desaparecido. Não havia nada na calçada exceto uma mensagem em giz inscrita em um descolorido coração cor-de-rosa: SAM + DEANIE PARA SEMPRE.

As pegadas não desapareceram, Ralph; para começar, nunca estiveram ali. Você sabe disso, não sabe?

Claro que sabia. Primeiro lhe ocorrera a idéia de que Bill e Lois pareciam Fred Astaire e Ginger Rogers; a evolução dessa idéia para uma alucinação com pegadas fantasmas que subiam pela calçada como em um diagrama de passos de dança tinha uma certa lógica estranha. Mesmo assim, dava medo. Seu coração batia acelerado e, quando fechou os olhos por um instante para tentar se acalmar, viu subirem dos dedos que Lois acenava serpentinas iguais à esteira deixada pelos jatos, mas azul-vivas.

Preciso dormir mais, Ralph pensou. Tenho que dormir mais. Se não vou começar a ver de tudo.- Tem razão - murmurou ao retomar a direcção da drogaria. - De tudo.

DEZ MINUTOS depois, Ralph estava parado à porta da Rite Aid, lendo um anúncio pendurado em correntes que desciam do teto. SINTA-SE MELHOR COM RITE AID! dizia, parecendo sugerir que se sentir melhor era uma meta ao alcance de qualquer consumidor, desde que fosse razoável e trabalhador. Ralph tinha suas dúvidas.

Ralph concluiu que isto representava a comercialização de remédios por grandes redes de drogarias o que fazia a Rexall, onde ele normalmente comprava, parecer, por comparação, um quarto-e-sala popular. Os corredores iluminados por luz fluorescente pareciam compridos como pistas de boliche e expunham de tudo, desde fornos a quebra-cabeças.

Ralph calculou que o corredor 3 oferecia a maioria dos remédios registrados e provavelmente era o melhor palpite. Atravessou sem pressa a área marcada REMÉDIOS

ESTOMACAIS, fez uma pequena pausa no reino dos ANALGÉSICOS, e passou rápido pela terra dos LAXANTES. E lá, entre os LAXANTES e os DESCONGESTIONANTES, parou.

Chegamos, pessoal - meu último tiro. Depois disso, resta apenas o Dr. Litchfield e se ele sugerir que eu mastigue favo de mel ou beba chá de camomila, provavelmente vou pirar e serão necessárias as duas enfermeiras e a recepcionista para me tirarem de cima dele.

SONÍFEROS, dizia o letreiro no alto do corredor 3.

Ralph, que nunca fora um grande consumidor de remédios sem receita médica (ou, sem dúvida, teria chegado ali há mais tempo), não sabia exactamente o que esperava mas, com toda certeza, não era essa profusão desordenada e quase indecente de produtos. Seus olhos percorreram as caixas (na maioria azul-calmantes), lendo os nomes. Em geral lhe pareceram estranhos e ligeiramente ameaçadores: Compoz, Nytol, Sleepinal, Z-Power, Sominex, Sleepinex, Drow-Zee. Havia até uma marca genérica.

Você deve estar brincando, pensou. Nenhuma dessas coisas vai fazer efeito em você. Está na hora de parar de enrolar, não está percebendo? Quando se começa a ver pegadas coloridas na calçada, está na hora de parar de enrolar e procurar o médico.

Mas, na esteira desse pensamento, ouviu o Dr. Litchfield, ouviu-o tão claramente que parecia que tinham ligado um gravador dentro de sua cabeça: Sua mulher está sofrendo dores de cabeça provocadas por tensão, Ralph-desagradáveis e dolorosas, mas não apresentam risco de vida. Acho que podemos cuidar do problema.

Desagradáveis e dolorosas, mas não apresentam risco de vida - certo, foi o que o homem dissera. E então pegara o receituário e preenchera o pedido para a primeira batelada de pílulas inúteis, enquanto a pequena constelação de células alienígenas na cabeça de Carolyn continuava a irradiar destruição, e talvez o Dr. Jamal tivesse razão, talvez àquela altura já fosse demasiado tarde, mas talvez Jamal fosse um idiota, talvez Jamal fosse apenas um estranho em uma terra estranha, tentando sobreviver, sem fazer muita onda. Talvez isto e talvez aquilo; Ralph não sabia ao certo nem nunca saberia. Sabia apenas que Litchfield não estivera por perto quando enfrentaram as duas últimas tarefas de seu casamento: a deCarolyn, morrer, e a dele, vê-la morrer.

É isso que quero fazer? Procurar Litchfield para vê-lo pegar o receituário outra vez?

Quem sabe desta vez daria certo, argumentou consigo mesmo. Ao mesmo tempo sua mão se esticou, aparentemente por vontade própria, e apanhou, na prateleira, uma caixa de Sleepinex. Revirou-a, segurou-a a certa distância dos olhos ara poder ler as letrinhas miúdas na lateral e percorreu lentamente a lista dos ingredientes ativos. Não fazia a menor ideia da pronúncia da maioria daquelas palavras destronca-língua e, menos ainda, o que significavam ou de que maneira iriam ajudá-lo a dormir.

E - respondeu à voz. Talvez desta vez dê certo. Mas talvez a verdadeira solução seja simplesmente procurar outro médico...

- Posso lhe ajudar em alguma coisa? - perguntou uma voz atrás de seu ombro.

Ia devolvendo a caixa de Sleepinex à prateleira, com a intenção de pegar outra que se parecesse menos com uma droga sinistra em romance de Robin Cook, quando a voz falou.

Ralph deu um salto e derrubou uma variedade de caixas de sono sintético no chão.

- Ah, desculpe, que trapalhão! - disse, olhando por cima do ombro.

- Não foi nada. A culpa foi toda minha. - E antes que Ralph pudesse sequer apanhar duas caixas de Sleepinex e uma de cápsulas de Drow-Zee, o homem de guarda-pó branco, que lhe falara, já recolhera o resto e o redistribuía com a velocidade de um jogador profissional, dando as cartas para uma partida de pôquer. Segundo o crachazinho dourado preso ao peito, ele era JOE WYZER, FARMACÊUTICO, RITE AID.

- Agora - Wyzer falou, sacudindo a poeira das mãos e dirigindo-se a Ralph com um sorriso simpático - vamos começar do começo. Posso lhe ajudar em alguma coisa? O senhor parece meio perdido.

A reacção inicial de Ralph - o aborrecimento de ter sido perturbado quando mantinha um diálogo profundo e significativo consigo mesmo - foi substituída por um cauteloso interesse.

- Bem, não sei - respondeu, e indicou com um gesto a colecção de poções para dormir.Alguma dessas faz realmente efeito?

O sorriso de Wyzer se alargou. Ele era um homem alto, de meia-idade, pele clara e cabelos castanhos, que começavam a ralear, repartidos no meio. Estendeu a mão, e Ralph mal começara a retribuir o gesto, quando viu sua mão ser engolida.

- Sou Joe - disse o farmacêutico, e levou a mão livre ao crachazinho dourado. Costumava ser apenas Joe Wyze - continuou, fazendo um trocadilho fonético - mas agora que fiquei mais velho fiquei mais sabido, Wyzer.

Provavelmente era uma piada velhíssima, mas não perdera nem um pouco a graça para Joe Wyzer, que soltou uma ruidosa gargalhada. Ralph deu um sorrisinho educado, levemente ansioso. A mão que engolira a sua era evidentemente forte e ele teve receio de que se o farmacêutico a apertasse com força, sua mão terminaria o dia gessada. Preferia, pelo menos momentaneamente, que afinal tivesse levado seu problema a Paul Durgin, na drogaria do centro. Wyzer sacudiu então sua mão duas vezes, energicamente, e soltou-a.

- Sou Ralph Roberts. Prazer em conhecê-lo, Sr. Wyzer.

- O prazer é todo meu. Agora, quanto à eficácia desses excelentes produtos, vou responder à sua pergunta com outra: será que um urso caga numa cabine telefônica?

Ralph caiu na gargalhada.

- Acho que raramente - respondeu, quando conseguiu recuperar a fala.

- Certo. Aqui encerro minha defesa.-Wyzer olhou para os soníferos, uma parede pintada em tons de azul. - Graças a Deus sou farmacêutico e, não, vendedor, Sr. Roberts; morreria de fome se tivesse que vender de porta em porta. O senhor sofre de insónia? Estou-lhe fazendo a pergunta em parte porque vejo que o senhor está investigando os soníferos, mas principalmente porque o senhor está abatido, com olheiras fundas.

- Sr. Wyzer, eu seria o homem mais feliz da terra se conseguisse dormir uma noite de cinco horas, e deixaria até por quatro - respondeu.

- Há quanto tempo isso vem ocorrendo, Sr. Roberts? Ou o senhor prefere que o chame de Ralph?

- Ralph está bem.

- Óptimo. Me chame de Joe.

- Começou em abril, acho. Um mês ou um mês e meio depois que minha mulher morreu.

- Puxa, lamento que sua mulher tenha morrido. Meus pêsames.

- Obrigado - disse Ralph, e repetiu a velha fórmula. - Sinto muita falta dela, mas fiquei satisfeito quando seu sofrimento chegou ao fim.

- Só que agora é você quem está sofrendo. Há... vejamos. - Wyzer contou rapidamente nos dedos enormes. - Há meio ano, então.

Ralph viu-se repentinamente fascinado por aqueles dedos. Nada de esteira de jato desta vez, mas a ponta de cada um pareceu envolta numa brilhante névoa prateada, como uma espécie de papel de alumínio transparente. Viu-se repentinamente pensando em Carolyn outra vez, lembrando os cheiros fantasmagóricos de que ela se queixara algumas vezes no Outono passado - cravos, esgoto, presunto queimado. Talvez isso fosse o equivalente masculino, e o início de seu próprio tumor cerebral fosse assinalado por insónia ao invés de dores de cabeça.

A autodiagnose é um jogo de tolos, Ralph, então por que não pára com isso?

Ele voltou resolutamente o olhar para o rosto grande e simpático de Wyzer. Não havia névoa prateada ali; nem vestígio de névoa. Tinha quase certeza.

- Isso mesmo - falou. - Há meio ano. Parece mais tempo. Muito mais tempo, na verdade.

- Algum padrão identificável? Em geral há. Quero dizer, você se vira e revira na cama antes de dormir, ou...

- Acordo prematuramente.

As sobrancelhas de Wyzer se ergueram.

- E deduzo que leu uns três livros sobre o assunto também. - Se Litchfield tivesse feito um comentário desse tipo, Ralph teria lido condescendência em sua fala. Vindo de Joe

Wyzer, não percebera condescendência, mas sincera admiração.

- Li o que havia na biblioteca, mas não havia muita coisa, e nada do que li adiantou muito.

- Ralph fez uma pausa e depois acrescentou: - Para falar a verdade, não adiantou nada.

- Bem, vou lhe dizer o que sei sobre o assunto e só precisa me fazer sinal com a mão quando eu começar a entrar em território que já explorou. Por falar nisso, quem é seu médico?

- Litchfield.

- Hum-hum. E você normalmente compra remédios... onde? Na People's lá no shopping?

Na Rexall no centro?

- NaRexall.

- Então hoje você está incógnito. Ralph corou... e riu.

- E por aí.

- Hum-hum. E não preciso perguntar se consultou Litchfield sobre o seu problema, preciso? Se tivesse consultado, não estaria explorando o mundo maravilhoso dos remédios registrados para venda sem receita médica.

- É isso que são? Remédios registrados?

- Vejamos a coisa da seguinte maneira: eu me sentiria bem mais à vontade se vendesse a maior parte dessas porcarias em uma carroça com rodas artisticamente pintadas de amarelo.

Ralph riu, e a nuvem prateada que começara a se formar diante do guarda-pó de Joe Wyzer se dissolveu com sua risada.

- Esse é o tipo de venda em que eu seria capaz de me meter - disse Wyzer com um sorrisinho enevoado. - Contrataria uma gatinha de sutiã bordado de lantejoulas e calças de odalisca para dançar... daria a ela o nome de Little Egypt, como naquela velha canção dos Coasters... ela faria um número para aquecer a platéia. E haveria ainda um tocador de banjo.

Na minha experiência, não há nada como uma boa música de banjo para deixar as pessoas com vontade de comprar.

Wyzer olhou para longe, para além dos laxantes e analgésicos, saboreando o seu extravagante devaneio. Então voltou outra vez sua atenção para Ralph.

- Para uma pessoa que acorda prematuramente como você, essas pílulas são totalmente inúteis. Você obteria melhor efeito com um trago ou uma daquelas máquinas vibratórias que eles vendem em catálogos, mas só de olhar para você, diria que provavelmente já experimentou as duas coisas.

- Já.

- Além de umas duas dúzias de remédios caseiros tradicionais.

Ralph riu outra vez. Estava começando a gostar muito deste sujeito.

- Diga umas quatro dúzias e terá chegado bem próximo.

- Bom, devo reconhecer que você é um cara bem ativo - e Wyzer indicou com a mão as caixas azuis. - Esses remédios não passam de anti-histamínicos. Em essência, comercializam um efeito colateral: os anti-histamínicos produzem sonolência nas pessoas.

Examine uma caixa de Comtrex ou Benadryl, ali adiante, nos descongestionantes, e verá que recomendam que a pessoa não os use se for dirigir ou operar máquinas pesadas. Para gente que sofre ocasionalmente de insónia, um Sominex de vez em quando pode fazer efeito. Dá uma ajudinha. Mas de qualquer modo não adiantaria no seu caso, porque o seu problema não é adormecer, é continuar adormecido... certo?

- Certo.

- Posso lhe fazer uma pergunta indiscreta?

- Claro. Acho que sim.

- Você vê algum problema em tratar do caso com o Dr. Litchfield? Talvez duvide que tenha capacidade para compreender como sua insónia está deixando-o irritado.

- É isso-concordou Ralph agradecido.-Você acha que deveria consultá-lo? Tentar lhe explicar o que sinto para ver se ele entende? - A essa pergunta Wyzer naturalmente responderia em afirmativo, e Ralph finalmente marcaria a consulta. E seria, deveria ser Litchfield, via isso agora. Era loucura pensar em procurar um novo médico na sua idade.

Será que você pode contar ao Dr. Litchfield que está vendo coisas? Será que pode falar das fitas azuis que viu sair das pontas dos dedos de Lois Chasse? Das pegadas na calçada, como os passos em um diagrama de dança? Da névoa prateada envolvendo as pontas dos dedos de Joe Wyzer? Será que você vai realmente contar isso a Litchfield? E se não for, se não puder, então, para começar, para que vê-lo, mesmo que este sujeito recomende?

Wyzer, no entanto, surpreendeu-o tomando uma direção completamente diversa.

- Você ainda sonha?

- Sonho. E bastante, considerando que já estou reduzido a três horas de sono por noite.

- E são sonhos coerentes, sonhos formados por acontecimentos identificáveis e um certo fluxo narrativo, por mais estapafúrdios que pareçam, ou são apenas imagens confusas?

Ralph lembrou-se de um sonho que tivera na noite anterior. Ele, Helen Deepneau e Bill McGovern estavam jogando uma partida de discos no meio da Avenida Harris. Helen calçava um par de botas de couro; McGovern vestia uma camiseta com a estampa de uma garrafa de vodca. ABSOLUTAMENTE O MÁXIMO, anunciava a legenda. Os discos eram vermelhovivos com listras verdes fluorescentes. Então Rosalie, a cachorra, apareceu. O lenço azul desbotado que alguém amarrara em seu pescoço esvoaçava, enquanto ela se aproximava. De repente saltara no ar, agarrara o disco e saíra correndo com ele na boca.

Ralph queria correr atrás dela, mas McGovern dizia, Calma, Ralph, vamos receber uma caixa cheia de discos no Natal. Ralph se virava para ele, querendo lhe lembrar que ainda faltavam três meses para o Natal, e perguntar que diabos fariam se quisessem jogar discos até lá, mas, antes que pudesse falar, o sonho terminara ou se fundira com outro filme mental menos nítido.

- Se entendi sua pergunta - Ralph respondeu - meus sonhos são coerentes.

- Óptimo. Também quero saber se são lúcidos. Os sonhos lúcidos satisfazem dois requisitos.

Primeiro, você sabe que está sonhando. Segundo, você pode muitas vezes influenciar o curso do sonho... Você é mais do que um observador passivo.

Ralph respondeu afirmativamente com a cabeça.

- Claro, tenho desses também. Na verdade, pareço ter tido muitos ultimamente. Lembreime de um que tive à noite passada. Nele aparecia um vira-la tá, que vejo de vez em quando na rua, e o bicho fugia com o disco com que uns amigos e eu jogávamos. Fiquei furioso porque ele interrompeu o jogo e tentei fazê-lo largar o disco, dando-lhe uma ordem mental.

Uma espécie de comando telepático, sabe?

Deixou escapar uma risadinha constrangida, mas Wyzer apenas acenou com a cabeça interessado.

- E funcionou?

- Não desta vez - respondeu Ralph - mas acho que já fiz isso em outros sonhos. Só que não tenho certeza, porque a maioria dos sonhos que tenho parecem se dissolver praticamente no momento em que acordo.

- Isso acontece com todo o mundo - falou Wyzer. - O cérebro trata a maioria dos sonhos como matéria descartável, e só os armazena durante um tempo extremamente breve.

- Você conhece muito esse assunto, não é?

- A insónia me interessa bastante. Fiz duas pesquisas sobre a relação entre os sonhos e os distúrbios do sono quando estava na universidade. - Wyzer consultou o relógio. - Está na hora do meu cafezinho. Quer tomar comigo uma xícara de café com torta de maçã? Tem uma lanchonete duas portas adiante e a torta é fantástica.

- A ideia parece boa, mas prefiro uma laranjada. Tenho procurado reduzir o meu consumo de café.

- É compreensível, mas completamente inútil - Wyzer disse animado. - Seu problema não é a cafeína, Ralph.

- Não, acho que não... mas qual é? - Até esse ponto, Ralph conseguira dissimular muito bem a infelicidade de sua voz, mas agora ela surgia sorrateira.

Wyzer deu-lhe uma palmadinha no ombro e fitou-o com bondade.

- É sobre isso que iremos conversar. Vamos.

 

- PENSE NA COISA da seguinte maneira - Wyzer recomeçou cinco minutos mais tarde.

Encontravam-se numa lanchonete de estilo meio esotérico, chamada Day Break, Sun Down.

O lugar tinha plantas demais para o gosto de Ralph, que preferia as lanchonetes mais antiquadas que cheiravam a gordura e tinham cromados reluzentes, mas a torta era gostosa e, embora o café não se enquadrasse nos padrões de Lois Chasse - Lois preparava o melhor café que ele já provara - era quente e forte.

- E que maneira é essa? - Ralph perguntou.

- Há certas coisas que a humanidade, homens e mulheres, sempre buscam. Não é o tipo de coisa que aparece em livros de história e civismo, pelo menos, não na maior parte deles; refiro-me a coisas fundamentais. Um teto para se abrigar da chuva. Três refeições por dia e uma cama. Uma vida sexual decente. Intestinos saudáveis. Mas talvez o mais fundamental seja isso de que você sente falta, meu amigo. Porque não há nada no mundo que se compare a uma boa noite de sono, não é mesmo?

- Puxa, você botou o dedo na ferida - disse Ralph. Wyzer concordou com a cabeça.

- O sono é o herói esquecido e o médico do pobre. Shakespeare dizia que é o fio que tece a complicada trama do desvelo, Napoleão chamava-o de abençoado fim da noite e Winston

Churchill, um dos grandes insones do século vinte, considerava-o o único alívio que obtinha para suas depressões. Cito tudo isso em meus artigos, mas, em resumo, todas essas frases significam exatamente o que acabei de dizer: não há nada no mundo que se compare a uma boa noite de sono.

- Você já passou por esse problema, não? - Ralph perguntou inesperadamente. - É por isso que você... bem... por que está me tomando sob sua proteção?

Joe Wyzer sorriu.

- É isso que estou fazendo?

- Acho que sim.

- Bem, acho que posso conviver com essa idéia. A resposta é sim. Sofro de insónia desde os treze anos de idade. Foi por isso que acabei fazendo não um, mas dois trabalhos de pesquisa sobre o assunto.

- E como tem passado ultimamente? Wyzer sacudiu os ombros.

- Até agora tenho tido um bom ano. Não o melhor, mas suportável. Durante uns dois anos, na época dos meus vinte, meu problema foi agudo: ia me deitar às dez da noite, adormecia por volta das quatro da madrugada, me levantava às sete da manhã e me arrastava pelo dia afora me sentindo um actor secundário no pesadelo de alguém.

A situação era tão conhecida de Ralph que suas costas e braços se arrepiaram.

- Agora vem a coisa mais importante que posso lhe dizer, Ralph, por isso, preste bem atenção.

- Estou prestando.

- Você precisa acreditar que continua basicamente saudável, mesmo que se sinta uma merda a maior parte do tempo. O sono não é todo igual, sabe, tem o sono bom e o sono ruim. Se você continua a ter sonhos coerentes e, talvez o mais importante, sonhos lúcidos, você continua a ter um bom sono. Sendo assim, uma receita de sonífero poderia ser a pior coisa do mundo para você no momento. E conheço Litchfield. Ele não é um cara mau, mas adora um receituário.

- É isso mesmo - Ralph concordou, pensando em Carolyn.

- Se você contar a Litchfield o que me contou a caminho daqui, ele vai lhe receitar um composto de benzodiazepina, provavelmente Dalmane ou Restoril, talvez Halcion ou até mesmo Valium. Você vai dormir, mas vai pagar um preço. Os compostos de benzodiazepina produzem dependência, deprimem a respiração e, o pior de tudo, no caso de sujeitos como você e eu, reduzem significativamente a fase REM do sono. Ou seja, a fase em que se sonha.

- Que tal a sua torta? Estou perguntando porque você quase não comeu. - Ralph cortou um bom pedaço e engoliu-o sem degustar.

- Óptima respondeu. - Agora me diga por que a pessoa precisa sonhar para que o sono seja bom.

- Se soubesse a resposta, me aposentaria do comércio de pílulas e abriria um consultório de guru do sono. - Wyzer terminara a torta e agora usava o dedo indicador para recolher os farelos maiores que tinham restado no prato. - A sigla REM significa movimento rápido dos olhos, é claro, e os termos sono REM e sono com sonhos se tornaram sinônimos na cabeça do público, mas ninguém sabe realmente qual a correlação entre o movimento dos olhos de quem dorme e os sonhos. Parece pouco provável que o movimentos dos olhos indique "observação" ou "rastreamento", porque os pesquisadores registram muitos movimentos mesmo nos testes em que o paciente descreve sonhos bastante estáticos, sonhos de conversas, como a que estamos tendo agora, por exemplo. Da mesma forma, ninguém sabe realmente por que aparentemente há uma clara correlação entre sonhos lúcidos e coerentes e o estado geral de sanidade mental; quanto maior o número de sonhos deste tipo que a pessoa tem, tanto melhor ela parece estar, e quanto menor o número, tanto pior.

Existe aí uma gradação real.

- Sanidade mental é uma expressão muito ampla - Ralph comentou cético.

- É - Wyzer sorriu. - Me faz lembrar o adesivo de uma campanha que vi em um párachoque há alguns anos: APOIE A SANIDADE MENTAL ou TEMATO. Em todo o caso, estamos falando de alguns componentes básicos e mensuráveis: capacidade cognitiva, capacidade de resolver problemas, tanto por indução quanto por dedução, capacidade de estabelecer correlações, memória...

- Minha memória anda péssima ultimamente - disse Ralph. Pensou na sua incapacidade de lembrar o telefone das informações sobre cinemas e na longa caçada ao último envelope de sopa no armário da cozinha.

- E, você provavelmente está sofrendo de uma perda de memória temporária, mas sua braguilha está fechada, sua camisa está vestida pelo lado direito, e aposto que se lhe perguntasse o seu segundo nome, você saberia me dizer. Não estou menosprezando o seu problema, seria a última pessoa do mundo a fazer isso, mas estou lhe pedindo para mudar o seu ponto de vista por alguns instantes.

Que pense em todas as áreas de sua vida em que você continua funcionando perfeitamente.

- Tudo bem. Esses sonhos lúcidos e coerentes... apenas informam em que medida você está funcionando, quer dizer, como um indicador de gasolina de um carro, ou realmente ajudam a pessoa a funcionar?

- Ninguém sabe ao certo, mas a resposta mais provável inclui as duas possibilidades. No final da década de 50, época em que os médicos começaram a suspender o uso de barbitúricos, o último realmente popular foi uma droga chamada Talidomida, alguns cientistas chegaram a sugerir que o sono bom, de que estamos falando, e os sonhos não tinham relação entre si.

- E daí?

- Os testes invalidaram essa hipótese. As pessoas que param de sonhar ou sofrem constantes interrupções nos sonhos apresentam todo o tipo de problemas, inclusive perda de capacidade cognitiva e de estabilidade emocional. Além de começarem a sofrer problemas de percepção, como a hiper-realidade.

Mais além de Wyzer, na extremidade do balcão, achava-se sentado um sujeito que lia um exemplar do News de Derry e tinha apenas as mãos e o cocuruto da cabeça visíveis. Usava um anel rosado meio espalhafatoso na mão esquerda. A manchete no alto da primeira página anunciava DEFENSORA DO ABORTO FALARÁ EM DERRY NO PRÓXIMO MÊS.

Abaixo, em tipo ligeiramente menor, havia um subtítulo: Grupos Pró-Vida Prometem Organizar Protestos. No centro da página, havia uma foto colorida de Susan Day, que lhe fazia muito mais justiça do que as fotos do cartaz que Ralph vira na vitrina da Secondhand Rose, Secondhand Clothes. Naquelas ela parecera vulgar, talvez até um pouco sinistra; nesta, estava radiosa. Os longos cabelos cor de mel tinham sido puxados para trás. Seus olhos eram escuros, inteligentes, cativantes. Aparentemente o pessimismo de Hamilton Davenport fora injustificado. Susan Day afinal vinha a Derry.

Então Ralph viu uma coisa que o fez esquecer Ham Davenport e Susan Day completamente.

Uma aura azul-acinzentada começou a se formar em torno das mãos do homem que lia o jornal e em torno do cocuruto de sua cabeça. Parecia particularmente viva em torno do anel ónix-rosado que ele usava. Não escurecia o anel, parecia iluminá-lo, transformando a pedra em algo semelhante a um asteróide de um filme surrealista de ficção-científica...

- Que foi que disse, Ralph?

- Hum? Ralph afastou, com esforço, o olhar do anel rosado do homem que lia jornal.

- Não sei... eu estava falando? Acho que estava lhe perguntando o que era hiper-realidade.

- Percepção sensorial exacerbada - disse Wyzer. - O mesmo que viajar no LSD, sem precisar ingerir nenhuma substância química.

- Ah - Ralph exclamou, observando que a aura azulacinzentada começava a formar complicados desenhos, como os caracteres de um antigo alfabeto, na unha do dedo com que Wyzer amassava os farelos. Inicialmente pareceram letras escritas em geada... depois frases escritas em névoa... e, por último, estranhos rostos ofegantes.

Ele piscou e as formas desapareceram.

- Ralph? Você ainda está aqui?

- Claro, sem a menor dúvida. Mas escute aqui, Joe, se os remédios caseiros não produzem efeito, se as drogas do corredor 3 não funcionam, e as receitadas podem até piorar as coisas ao invés de melhorá-las, o que é que sobra? Nada, certo?

- Você vai comer o resto da torta? - Wyzer perguntou, apontando para o prato de Ralph.

Uma luz fria, azul-acinzentada, irradiou-se da ponta de seu dedo, como caracteres árabes escritos em vapor de gelo seco.

- Não. Estou satisfeito. Se quiser, pode se servir. Wyzer puxou o prato de Ralph para si.

- Não desista tão depressa - falou. - Quero que volte à farmácia comigo, para eu lhe dar uns cartões. Meu conselho, como seu simpático vendedor de drogas do bairro, é que você experimente falar com os caras.

- Que caras? - Ralph observava, fascinado, enquanto Wyzer abria a boca para receber o último bocado de torta. Cada um de seus dentes se iluminou com um forte brilho cinzento.

As obturações dos molares resplandeceram como minúsculos sóis. Os fragmentos da massa e do recheio de maçã em sua língua encheram-se de (lúcidos Ralph lúcidos) luz. Então Wyzer fechou a boca para mastigar, e a luz desapareceu.

- James Roy Hong e Anthony Forbes. Hong é acupunturista e tem consultório na rua Kansas. Forbes é hipnotizador e atende no sector leste, rua Hesser, acho. E antes que você grite charlatão...

- Não vou gritar charlatão - disse Ralph em voz baixa. Sua mão se ergueu para tocar o Olho Mágico, que continuava a usar por baixo da camisa. - Pode crer, não vou, não.

- Então, ótimo. Aconselho você a experimentar o Hong primeiro. As agulhas metem medo, mas só doem um pouquinho, e ele descobriu algo que tem seu mérito. Não sei o que é, nem como funciona, mas sei que, quando passei por uma fase ruim, há dois invernos, ele me ajudou muito. Forbes também é bom, dizem, mas prefiro o Hong. Ele é superocupado, mas talvez eu possa dar um jeito nisso. Que me diz?

Ralph viu um fulgor cinza-vivo, que não era mais grosso do que um fio de linha, saltar do canto do olho de Wyzer e correr pelo seu rosto como uma lágrima sobrenatural. Isto o fez decidir-se.

- Digo: vamos lá.

Wyzer deu-lhe uma palmadinha no ombro.

- Grande Ralph! Vamos pagar a conta para sair. - Sacou uma moeda de vinte e cinco centavos. - Vamos tirar cara ou coroa para ver quem paga?

A MEIO caminho da farmácia, Wyzer parou para ver um cartaz que fora afixado na vitrine de uma loja vazia entre a Rite Aid e a lanchonete. Ralph apenas o olhou de relance. Já o vira antes, na vitrine da Secondhand Rose, Secondhand Clothes.

- Procurada por homicídio - Wyzer admirou-se. - As pessoas perderam completamente o senso de perspectiva, sabe?

- Sei - falou Ralph. - Se tivéssemos rabo, acho que a maioria de nós passaria o dia inteiro correndo atrás dele, tentando arrancá-lo com os dentes.

- O cartaz já é bastante ruim - disse Wyzer indignado - mas olhe só isso!

Apontava alguma coisa ao lado do cartaz, alguma coisa escrita na poeira que recobria o lado externo da vitrine vazia. Ralph chegou mais perto para ler a breve mensagem. MATE ESSA BOCETUDA, dizia. Sob a frase, havia uma flecha apontando para a foto de Susan Day à esquerda.

- Caramba - exclamou Ralph em voz baixa.

- Bota caramba nisso - Wyzer concordou. Puxou um lenço do bolso traseiro e apagou a mensagem, deixando em lugar das palavras um leque brilhante de prata que Ralph sabia que só ele estava vendo.

ELE ACOMPANHOU Wyzer aos fundos da farmácia e parou à porta de um escritório pouco maior que um cubículo de banheiro público, enquanto Wyzer se sentava no único móvel existente, um banquinho alto que teria parecido perfeito no escritório do avarento Ebenezer Scrooge, e discou para o consultório de James Roy Hong, acupunturista. Wyzer ligou o viva-voz do telefone para que Ralph pudesse acompanhar a conversa.

A recepcionista de Hong (alguém chamada Audra, que parecia conhecer Wyzer de uma forma bem mais calorosa do que meramente profissional) primeiro disse que não seria possível o Dr. Hong atender pacientes novos até o fim de novembro. Os ombros de Ralph caíram. Wyzer ergueu a mão aberta em sua direcção - Espere aí, Ralph - e então começou a convencer Audra a encontrar (ou quem sabe criar) uma vaga para Ralph no começo de Outubro. Era dali a quase um mês, mas era bem melhor do que esperar até depois do dia de Acção de Graças.

- Obrigado, Audra - Wyzer disse. - Continua de pé o nosso jantar hoje à noite?

- Continua - ela respondeu. - Agora desligue a droga do viva-voz, Joe... preciso dizer uma coisa só para você.

Wyzer obedeceu, escutou e riu até lhe brotarem lágrimas nos olhos - que para Ralph pareceram lindas pérolas líquidas. Então deu dois beijinhos no telefone e desligou.

- Tudo arranjado - falou, entregando a Ralph um pequeno cartão branco com a hora e o dia da consulta escritos no verso.

- Quatro de outubro, não é o ideal, mas realmente foi o melhor que ela pôde arranjar.

Audra é gente fina.

- Está óptimo

- Tome o cartão do Anthony Forbes caso queira procurálo nesse meio tempo.

- Obrigado - disse Ralph, recebendo o segundo cartão. - Fico lhe devendo essa.

- A única coisa que você me deve é uma segunda visita para me dizer como correu a consulta. Estou preocupado. Sabe, há médicos que não receitam nada para insónia. Gostam de dizer que ninguém nunca morreu por falta de sono, mas eu estou aqui para lhe dizer que o que eles dizem é um monte de merda.

Ralph supôs que a notícia deveria assustá-lo, mas sentiu-se bastante firme, pelo menos por ora. As auras tinham desaparecido - os lampejos cinza-brilhantes nos olhos de Wyzer, quando ele riu com a conversa da recepcionista de Hong, tinham sido os últimos. Começava a pensar que fora apenas uma fuga mental, resultado do extremo cansaço e da menção de Wyzer à hiper-realidade. Havia uma outra razão para se sentir bem - agora tinha uma consulta marcada com um médico que ajudara este homem a superar uma aflição semelhante. Ralph pensou que deixaria Hong lhe espetar agulhas até ficar parecido com um porco-espinho, se o tratamento lhe permitisse dormir até o sol nascer.

E havia uma terceira razão: as auras cinzentas não tinham sido propriamente assustadoras.

Tinham sido assim... interessantes.

- As pessoas morrem o tempo todo por falta de sono - dizia Wyzer - embora o legista em geral acabe registrando suicídio no atestado de óbito, ao invés de insónia. A insónia e o alcoolismo têm muito em comum, mas o principal é o seguinte: ambos são doenças do coração e da mente e, quando se permite que sigam seu curso, em geral, elas consomem o espírito muito antes de destruir o corpo.

Portanto, é verdade: as pessoas morrem por falta de sono. Você está passando um momento perigoso e tem que se cuidar. Se começar a se sentir realmente esquisito, ligue para o Litchfield. Está me ouvindo? Não faça cerimônia.

Ralph fez uma careta.

- Acho que é mais provável que eu ligue para você. Wyzer assentiu com a cabeça, como se esperasse tal resposta.

- O número abaixo do de Hong é o meu - falou. Surpreso, Ralph baixou os olhos para o cartão novamente.

Havia um segundo número ali, ao lado das letras J.W.

- Dia e noite - disse Wyzer. - Sério. Você não vai incomodar minha mulher, estamos divorciados desde 1983.

Ralph tentou falar, mas descobriu que não podia. Só o que conseguiu emitir foi um sonzinho engasgado e desconexo. Engoliu com força, tentando limpar a garganta.

Wyzer viu que ele estava em dificuldades e deu-lhe uma palmada nas costas.

- Nada de choro na loja, Ralph: espanta os grandes consumidores. Quer um lenço de papel?

- Não, estou bem. - Sua voz saiu ligeiramente fraca, mas audível e praticamente sob controle. Wyzer lançou-lhe um olhar crítico.

- Ainda não, mas vai ficar.

A enorme mão de Wyzer tornou a engolir a sua, e desta vez Ralph não se preocupou.

- Por ora, procure relaxar. E lembre-se de ser grato pelo sono que conseguir dormir.

- Vou lembrar. E mais uma vez obrigado.

Wyzer acenou com a cabeça e voltou ao balcão de aviamento de receitas.

RALPH TORNOU a descer pelo corredor 3, virou à esquerda diante do formidável mostruário de camisinhas e saiu pela porta em que se lia OBRIGADO POR COMPRAR NA RITE AID acima do travessão médio da porta. A princípio ele não achou nada de anormal na claridade ofuscante que o fez estreitar os olhos até quase fechá-los - afinal era meio-dia e talvez a drogaria tivesse estado um pouco mais escura do que reparara. Então tornou a arregalar os olhos e o ar entalou em sua garganta.

Uma expressão de inesperado assombro espalhou-se pelo seu rosto. Era a expressão que um explorador poderia ter quando, ao abrir caminho por mais um matagal indiferenciado, depara com uma fabulosa cidade perdida ou um acidente geológico extraordinário - um penhasco de diamantes, talvez, ou uma cascata em espiral.

Ralph encolheu-se contra uma caixa de correio azul, fincada a um lado da porta da drogaria, ainda sem respirar, os olhos correndo nervosamente da direita para a esquerda, enquanto o cérebro que os comandava tentava compreender a maravilhosa e terrível notícia que estava recebendo.

As auras tinham voltado, mas isso era mais ou menos o mesmo que dizer que o Havaí era um lugar onde não se precisava usar sobretudo. Desta vez a luz estava em toda parte, chocante e fluida, estranha e bela.

Ralph só tivera uma experiência na vida remotamente parecida com esta. Durante o verão de 1941, o ano em que completara dezoito anos, tinha viajado de carona de Derry até a casa de um tio em Poughkeepsie, Nova Iorque, a uma distância de uns seiscentos e poucos quilómetros. No anoitecer do segundo dia na estrada, um temporal o fizera sair correndo para o abrigo mais próximo - um estábulo em ruínas, que oscilava feito um bêbado, na extremidade de uma comprida plantação de forragem. Naquele dia, gastara muito mais tempo andando a pé do que de carro, e adormeceu profundamente, mesmo antes que o trovão parasse de sacudir o céu, em uma das baias para cavalos há muito abandonada.

Acordara no meio da manhã seguinte, após quatorze horas seguidas de sono, e olhara ao seu redor absolutamente admirado, sem sequer saber ao certo, nos primeiros instantes, onde se encontrava. Só sabia que era um lugar escuro, de cheiro agradável, e que o mundo acima e tudo em volta rachara em brilhantes fendas de luz. Então, lembrou-se de ter-se abrigado em um estábulo e lhe ocorreu que a estranha visão era produzida pelas frestas nas paredes e no teto sob o radioso sol de verão... só isso, e nada mais. Contudo, sentara-se ali mudo de assombro pelo menos cinco minutos, um adolescente de olhos arregalados, com palha nos cabelos e os braços empoeirados de feno; e assim permaneceu contemplando a onda dourada de poeira que girava lentamente nos cruzamentos dos raios oblíquos de sol. Lembrava-se de ter pensado que era como se estivesse numa igreja.

Agora era a mesma experiência elevada à décima potência. E o diabo era o seguinte: não conseguia descrever com exatidão o que tinha acontecido, e como o mundo mudara, para se tornar tão maravilhoso. As coisas e particularmente as pessoas tinham auras, sim, mas isso era apenas o início do surpreendente fenómeno. As coisas nunca tinham sido tão brilhantes, tão absoluta e completamente presentes. Os automóveis, os postes telefónicos, os carrinhos de compras no estacionamento diante do supermercado, os edifícios residenciais do outro lado da rua - todas essas coisas pareciam saltar aos seus olhos como imagens em três dimensões em um filme antigo. De repente, o quarteirão de lojas encardidas na rua Witcham transformara-se no país das maravilhas e, embora Ralph estivesse olhando directamente para ele, não tinha muita certeza do que via, a não ser que era opulento, deslumbrante e fabulosamente estranho.

As únicas coisas que conseguia isolar eram as auras em torno das pessoas que entravam e saíam das lojas, guardavam pacotes nas malas dos automóveis ou entravam nos carros e iam embora. Umas auras eram mais brilhantes do que outras, mas mesmo a mais fosca brilhava cem vezes mais do que em seus primeiros vislumbres do fenómeno.

Mas era disso que Wyzer estava falando, com toda certeza. É a hiper-realidade, e o que você está vendo não é nada mais do que os delírios que as pessoas sofrem sob a influência do LSD. O que você está vendo é apenas mais um sintoma de sua insónia, nem mais nem menos. Olhe para isso Ralph, e maravilhe-se o quanto quiser-é maravilhoso - só não acredite no que vê.

Não precisou, porém, dizer a si mesmo que se maravilhasse -havia maravilhas por toda parte. Um caminhão de padaria manobrava para sair de uma vaga diante do Day Break, Sun Down, e uma substância brilhante e marrom - quase cor de sangue seco - saía pelo cano de descarga. Não era fumaça nem vapor, mas tinha características dos dois. O brilho subia gradualmente, desenhando picos suaves, como num gráfico de electroencefalograma.

Ralph baixou os olhos para o chão e viu as marcas dos pneus do caminhão impressas no concreto, naquele mesmo tom de marrom. O caminhão acelerou ao deixar o estacionamento, e o rastro gráfico fantasmagórico que saía pelo escape acompanhou a aceleração, tornando-se vermelho-vivo como sangue arterial.

Havia excentricidades semelhantes por toda parte, fenômenos que se interceptavam em trajectórias oblíquas e faziam Ralph relembrar a luz que entrara pelas frestas do telhado e das paredes naquele estábulo do passado. Mas a verdadeira maravilha eram as pessoas, e era em torno delas que as auras pareciam mais claramente definidas e reais.

Um empacotador saiu do supermercado, empurrando um carrinho de compras, e caminhava numa nuvem branca tão brilhante, que parecia estar sob um projector de luz. Em contraposição, a aura da mulher ao seu lado era fosca, um verde-cinza cor de queijo que já começou a mofar.

Uma moça chamou o empacotador da janela aberta de um Subaru e acenou; ao acenar, sua mão esquerda deixou marcas brilhantes no ar, rosadas como algodão-doce. Esmaeciam praticamente ao aparecer. O empacotador riu e retribuiu o aceno; sua mão esquerda deixou uma marca branco-amarelada. Pareceu a Ralph a nadadeira de um peixe tropical. A marca também foi desaparecendo, embora mais lentamente.

O temor de Ralph diante dessa visão confusa e brilhante era considerável, mas, por ora, pelo menos, cedera o primeiro plano ao assombro, à admiração e ao simples espanto. Era mais bonita do que qualquer coisa que tivesse visto na vida. Mas não é real, alertou a si mesmo.

Lembre-se disto, Ralph. Ele prometeu que tentaria, mas, no momento, a voz que o alertava parecia muito distante.

Agora ele reparava em mais uma coisa: havia um fio daquele brilho nítido, emergindo da cabeça de cada pessoa que via. Subia como uma fita, uma serpentina vivamente colorida, até desbotar e sumir. Em algumas pessoas, o ponto de dissolução ficava um metro e meio acima da cabeça; em outras, atingia três ou até quatro metros e meio. Na maioria dos casos, a cor do fio luminoso e ascendente combinava com o restante da aura-branco brilhante no caso do empacotador, verdc-cinza no caso da freguesa a seu lado, por exemplo - mas havia algumas exceções marcantes. Ralph viu um fio vermelhoferrugem subir de um homem de meia-idade que caminhava envolto em uma aura azul-escuro, e uma mulher com uma aura cinza-clara cujo fio ascendente era um surpreendente (e ligeiramente assustador) tom de magenta. Em alguns casos - dois ou três, não muitos-os fios ascendentes eram quase pretos. Ralph não gostou destes, e reparou que os donos desse "fio de balão" (o nome lhe veio simples e instantaneamente) invariavelmente pareciam doentes.

Claro que estão. Os fios de balões são um indicador de saúde... e doença, em alguns casos.

Como as auras Kirlian que fascinavam as pessoas no final da década de sessenta e início da de setenta.

Ralph, outra voz preveniu-o, você não está realmente vendo essas coisas, certo? Quero dizer, detesto ser chato, mas...

Mas haveria ao menos uma possibilidade de que o fenómeno fosse real? De que sua insónia persistente somada à influência estabilizadora dos seus sonhos lúcidos e coerentes tivessem lhe permitido vislumbrar uma dimensão fabulosa, fora do alcance da percepção comum?

Pare, Ralph, agora mesmo. Você tem que superar isso, ou vai acabar no mesmo barco que o coitado do Ed Deepneau.

Pensar em Ed disparou uma associação - alguma coisa que o rapaz dissera no dia em que fora preso por espancar a mulher - mas antes que Ralph conseguisse defini-la, uma voz falou quase ao seu cotovelo esquerdo.

- Mãe? Mamãe? Podemos comprar rosquinhas de nozes e mel outra vez?

- Veremos quando estivermos lá dentro, meu bem. Uma jovem mãe e um garotinho passaram à sua frente, de mãos dadas. Fora o menino, que parecia ter quatro ou cinco anos, que falara. A mãe caminhava envolvida em um manto quase ofuscantemente branco. O fio de balão que subia de seus cabelos louros também era branco e muito largo - lembrava mais a fita de uma embalagem de luxo para presente do que um fio. Elevava-se a uma altura de no mínimo 30 metros e acompanhava-a um pouco atrás, quando a mulher caminhava. Isso fez Ralph pensar em adereços de casamentos - cauda, véus, saias volumosas e diáfanas.

A aura do filho era de um saudável azul-escuro que beirava o violeta e, quando os dois passaram, Ralph observou uma coisa fascinante. Fios de aura também saíam de suas mãos entrelaçadas: brancas da mulher, azul-escuras do garoto. Formavam um rabo-de-cavalo ao subir, até desbotar e desaparecer.

Mãe-e-filho, mãe-e-filho, pensou Ralph. Havia algo perfeito, simplesmente simbólico naqueles dois fios que se enroscavam um no outro, como uma videira subindo por uma estaca. Contemplar os dois enchia seu coração de alegria - piegas, mas era exactamente o que sentia. Mãe-e-filho, branco-e-azul, mãe-e...

- Mamãe, o que é que aquele homem está olhando?

O olhar que a mulher lançou a Ralph foi breve, mas ele viu o jeito com que seus lábios se afinaram e se contraíram antes dela se afastar. E o mais importante, viu a aura brilhante que a envolvia inesperadamente escurecer, retrair-se e ganhar espirais vermelho-escuras.

Essa é a cor do medo - Ralph pensou. O talvez da raiva.

- Não sei, Tim. Vamos, pare de morrinhar. - E começou a apressá-lo, seu rabo-de-cavalo sacudindo para diante e para trás e desenhando no ar pequenos leques cinzentos, tintos de vermelho. Lembraram a Ralph os arcos que os limpadores de pára-brisas por vezes deixam nos vidros sujos dos carros.

- Ei, mamãe, dá um tempo! Pára de pu-xarl - O garotinho tinha que correr para acompanhá-la.

A culpa éminha, pensou Ralph, e a imagem dele que a jovem mãe devia ter visto passou por sua cabeça: um sujeito velho, o rosto cansado, grandes olheiras roxas sob os olhos. Parado - encolhido - junto à caixa de correio na entrada da farmácia Rite Aid, olhando fixamente para ela e o garotinho, como se os dois fossem as coisas mais extraordinárias do mundo.

O que a senhora quase é, se ao menos soubesse.

Aos olhos dela, devia ter parecido o maior tarado de todos os tempos. Ele precisava se livrar daquela coisa. Fosse realidade ou alucinação, não importava - precisava fazê-la desaparecer. Se não, alguém ia chamar os tiras ou os homens com redes de caçar borboletas.

Pelo que sabia, a bonita mamãe poderia estar fazendo a primeira parada em um dos telefones logo à entrada principal do supermercado.

Ele se perguntava como é que se fazia desaparecer uma coisa que, para começar, achava-se apenas em nossa mente, quando percebeu que seu desejo já se realizara. Fosse fenómeno psíquico ou alucinação perceptiva, simplesmente desaparecera enquanto Ralph pensava na aparência terrível que teria tido para a jovem e bonita mãe. O dia recuperara sua luminosidade de verão, o que era maravilhoso, mas muito distante daquele fulgor transparente que impregnara tudo. As pessoas que cruzavam o estacionamento da pequena área comercial voltaram a ser apenas pessoas; nada de auras, nada de fios de balões, nada de fogos de artifício. Apenas pessoas a caminho do Shop'n Save para comprar comida, ou apanhar o último love de fotografias do verão na Photo-Mat, ou pegar um café para viagem, no Day Break, Sun Down. Umas até poderiam estar entrando disfarçadamente na Rite Aid para comprar uma caixa de camisinhas ou, Deus nos abençoe e guarde, um SONÍFERO.

Apenas cidadãos comuns e habituais de Derry, tratando de seus assuntos comuns e habituais.

Ralph soltou a respiração presa num forte suspiro e se preparou para uma onda de alívio. O alívio realmente sobreveio, mas não foi a grande onda que esperara. Não fazia sentido recuar, no último instante, do limiar da loucura; não fazia sentido chegar tão próximo de qualquer limiar. Contudo, ele compreendia perfeitamente bem que não poderia viver muito tempo em um mundo tão brilhante e maravilhoso sem pôr em perigo sua sanidade; seria o mesmo que ter um orgasmo que durasse horas. Talvez fosse assim que os gênios e os grandes artistas sentiam a vida, mas isso não era para ele; tanta energia queimaria sua mufa em pouco tempo, e quando os homens com as redes de caçar borboletas aparecessem para lhe dar uma injeção e levá-lo embora, ele provavelmente se sentiria feliz de acompanhá-los.

A emoção mais prontamente identificável que sentia no momento não era alívio mas uma espécie de melancolia agradável que lembrava de ter experimentado algumas vezes após uma transa quando era muito jovem. A melancolia não era profunda, mas ampla, e parecia preencher os espaços vazios de seu corpo e sua mente da mesma maneira que uma inundação ao recuar deixa uma camada de rico e fofo adubo. Perguntava-se se voltaria a ter outro momento de revelação, estimulante e assustador. Achou que a probabilidade era bastante boa, pelo menos até o próximo mês, quando James Roy Hong espetaria nele as agulhas, ou talvez até Anthony Forbes começar a balançar o relógio de ouro diante de seus olhos e lhe dizer que estava sentindo... muito... sono. Era possível que nem Hong nem Forbes obtivessem o menor êxito em curar sua insónia, mas, se um deles o curasse, Ralph imaginava que pararia de ver auras e fios de balões depois da primeira boa noite de sono. E, após um mês e tanto de noites de descanso, provavelmente esqueceria que isso tivesse acontecido. De sua parte, essa era uma excelente razão para sentir uma pontinha de melancolia.

É melhor começar a se mexer, cara - se por acaso o seu novo amigo espiar pela janela da drogaria e vir você parado aqui que nem um panaca, é provável que chame os homens com as redes pessoalmente.

- É mais provável que chame o Dr. Litchfield - murmurou Ralph, e atravessou o estacionamento em direcção à Avenida Harris.

ELE METEU a cabeça pela porta da casa de Lois e chamou:

- Ôô! Alguém em casa?

- Vamos entrando, Ralph! - Lois respondeu. - Estamos na sala!

Ralph sempre imaginara que a toca de um gnomo seria bem parecida com a casinha de Lois Chasse, mais ou menos a meio quarteirão do mercadinho, na descida da rua - arrumada e atulhada de móveis, um pouquinho escura, talvez, mas escrupulosamente limpa. E imaginava que qualquer gnomo como Bilbo Baggins3, cujo interesse nos próprios antepassados só era eclipsado pelo seu interesse no que haveria para jantar, teria ficado encantado com a minúscula sala de estar, onde parentes olhavam de todas as paredes. O lugar de honra, em cima da televisão, era ocupado por uma fotografia pintada de um homem a quem Lois sempre se referia como "Sr. Chasse".

McGovern sentava-se curvado para a frente no sofá, com um prato de macarronada equilibrado nos joelhos ossudos. A Principal ser imaginário criado pelo escritor J. M. Tolkein.

A televisão estava ligada e um programa de auditório anunciava, com estardalhaço, o sorteio dos prêmios.

- Que é que ela quer dizer com esse "estamos na sala"? - Ralph perguntou, mas, antes que McGovern pudesse responder, Lois entrou com um prato fumegante nas mãos.

- Tome-disse.-Sente-se e coma. Liguei para a Simone, e ela falou que provavelmente aparecerá no telejornal do meio dia.

- Puxa, Lois, você não precisava ter-se incomodado - protestou, aceitando o prato, mas seu estômago discordou com veemência, quando o cheiro de cebolas e queijo curtido chegou às suas narinas. Deu uma olhada no relógio da parede, apenas visível entre fotografias de um homem de casaco de pele de quati e de uma mulher com a cara dos anos 20, e se espantara de ver que faltavam cinco para o meio-dia.

- Apenas meti umas sobras no microondas - ela disse. - Algum dia, Ralph, vou cozinhar para você. Agora sente-se.

- Não em cima do meu chapéu - falou McGovern, sem tirar os olhos do sorteio.

Apanhou o chapéu que estava no sofá, deixou-o cair no chão a seu lado e continuou a comer sua porção de gratinado, que desaparecia rapidamente.

- Está muito gostoso, Lois.

- Muito obrigada. - Ela parou tempo suficiente para ver um dos participantes ganhar uma viagem para Barbados e um carro novo, então voltou correndo para a cozinha. O vencedor, aos gritos, desapareceu gradualmente e foi substituído por um homem de pijamas amassados, que se debatia e revirava na cama. Em seguida sentava-se e espiava um relógio à mesa-decabeceira. Os ponteiros indicavam 3hl8 da madrugada, uma hora que se tornara íntima para Ralph.

- Não consegue dormir? - O anunciante perguntava penalizado. - Cansado de passar as noites em claro? - Uma pilulazinha luminosa entrava planando lentamente pela janela do quarto do insone. Pareceu a Ralph o menor disco voador do mundo, e não o surpreendeu que fosse azul.

Ralph sentou-se ao lado de McGovern. Embora ambos fossem bem magros (esquelético talvez descrevesse Bill melhor), os dois ocuparam praticamente todo o sofá.

Lois entrou com o seu prato e se sentou na cadeira de balanço junto à janela. Sobrepondo-se à música enlatada e aos aplausos do auditório que marcavam o fim do programa, uma voz de mulher falou:

- Lisette Benson anunciando o principal destaque do telejornal do meio-dia: conhecida defensora dos direitos femininos aceita convite para falar em Derry, provoca protestos e seis prisões numa clínica local. E ainda a previsão do tempo com Chris Altoberg e os esportes com Bob McClanahan. Fique ligado.

Ralph meteu um bocado de macarronada na boca, ergueu os olhos e viu que Lois o observava.

- Está bom? - perguntou.

- Uma delícia - respondeu, e era verdade, mas ele pensou que, naquele momento, uma boa porção de espaguete fria, servida directamente da lata, teria tido o mesmo sabor. Ele não estava apenas com fome; estava faminto. Ver auras aparentemente queimava muitas calorias.

- O que aconteceu, muito resumidamente, foi o seguinte - disse McGovern, engolindo o último bocado do almoço e descansando o prato ao lado do chapéu. - Uns dezoito manifestantes apareceram do lado de fora da WomanCare, às oito e trinta desta manhã, quando os funcionários estavam chegando para trabalhar. Simone, a amiga de Lois, diz que eles se intitulam os Amigos da Vida, mas o núcleo do grupo são uns excêntricos e malucos que pertenciam ao Pão-de-Cada-Dia. Ela contou que um deles era Charles Pickering, o sujeito que os tiras parecem ter surpreendido preparando uma bomba para jogar no prédio no final do ano passado. A sobrinha de Simone disse que a polícia só prendeu umas quatro pessoas. Parece que calculou meio por baixo.

- E o Ed estava realmente entre eles?-Ralph perguntou.

- Estava - Lois confirmou - e também foi preso. Pelo menos ninguém foi atacado a cassetetes. Era boato. Ninguém ficou ferido.

- Desta vez - McGovern acrescentou sombriamente.

O logotipo do telejornal do meio-dia apareceu na TV colorida, tamanho gnomo de Lois e cedeu lugar a Lisette Benson.

- Boa tarde - começou ela. - O destaque do noticiário deste lindo dia de fim de verão é a eminente escritora e polémica defensora dos direitos femininos, Susan Day, que aceitou o convite para falar no Centro Cívico de Derry, no próximo mês.

O anúncio de sua presença provocou uma manifestação diante da WomanCare, centro de proteção à mulher e clínica de abortos de Derry, que tanto tem polarizado...

- Lá vêm eles outra vez com essa história de clínica de abortos - McGovern exclamou.

- Caramba!

- Psiu! - Lois disse em um tom autoritário que pouco lembrava o seu habitual murmúrio hesitante.

McGovern lançou-lhe um olhar surpreso e se calou.

- ... John Kirkland ao vivo da WomanCare, com a nossa primeira notícia - Lisette Benson terminou e à sua imagem sucedeu a de um repórter parado do lado de fora de um edifício de tijolos, baixo e comprido. Grandes letras ao pé da tela informavam aos telespectadores que se tratava de uma reportagem ao vivo. Uma fileira de janelas cortava a fachada lateral da WomanCare.

Duas estavam quebradas e, várias outras, pichadas com uma coisa vermelha que parecia sangue. Um cordão de isolamento amarelo fora estendido pela polícia entre o repórter e o prédio; tiras de Derry, três fardados e um à paisana, formavam um grupinho na extremidade do cordão. Ralph não se surpreendeu muito ao reconhecer o detetive John Leydecker.

- Eles se autodenominam os Amigos da Vida, Lisette, e dizem que a manifestação hoje de manhã foi o extravasamento espontâneo da indignação com a notícia de que Susan Day, a mulher que os grupos radicais pró-vida em todo o país chamam de "Assassina número um de bebés dos Estados Unidos", virá a Derry, no próximo mês, falar no Centro Cívico. Mas pelo menos um membro da polícia de Derry acredita que não foi bem assim.

A reportagem de Kirkland, uma gravação, começava com um close de Leydecker, que parecia conformado com o microfone diante de seu rosto.

- Não houve espontaneidade nenhuma na manifestação - disse. - É óbvio que foi preparada. Provavelmente estão aguardando praticamente a semana inteira, desde que receberam aviso de que Susan Day concordou em vir a Derry, e se prepararam à espera de que a notícia saísse nos jornais, o que aconteceu hoje de manhã.

A câmera focalizou os dois. Kirkland lançava a Leydecker o seu olhar mais penetrante, tipo entrevistador esperto.

- O que é que o senhor quer dizer com preparada? - perguntou.

- A maioria dos cartazes que os manifestantes carregavam tinham o nome da Sra. Day. E havia mais de uma dúzia desses.

Uma emoção surpreendentemente humana perpassou a máscara de policial-dando-entrevista de Leydecker; Ralph interpretou-a como indignação. Ele ergueu um grande saco plástico de coleta de provas e, durante um instante de horror, Ralph teve certeza de que havia dentro um bebê mutilado, sangrando. Então percebeu que, qualquer que fosse a substância vermelha, o corpo no saco de provas era o de uma boneca.

- Eles não compraram isso em loja de departamentos - Leydecker declarou ao repórter de TV. - Posso lhe garantir.

A cena seguinte foi uma panorâmica das janelas sujas e quebradas. A câmera passou-as em revista lentamente. A substância nas janelas sujas parecia-se mais que nunca com sangue, e Ralph desistiu de suas duas ou três últimas garfadas de macarronada.

- Os manifestantes trouxeram bebés de brinquedo, em cujos corpos macios injectaram, segundo crê a polícia, uma mistura de Karo com corante vermelho - Kirkland disse em off.

- Atiraram as bonecas na fachada lateral do prédio, enquanto entoavam slogans anti-Susan Day. Quebraram as janelas, mas não houve grandes danos.

A câmera parou, focalizando uma vidraça macabramente suja.

- A maioria das bonecas estourou - Kirkland explicava - espalhando a tal substância, tão parecida com sangue que os funcionários que presenciaram o bombardeio se assustaram.

A cena da janela suja de vermelho foi substituída pela de uma bela mulher de cabelos escuros, que vestia calças e uma suéter.

- Oooh, olhem só, é a Barbie! - exclamou Lois. - Puxa, espero que Simone esteja assistindo! Talvez eu devesse...

Foi a vez de McGovern fazer psiu.

- Fiquei aterrorizada - Barbara Richards disse a Kirkland. - A princípio pensei que estavam realmente atirando bebês mortos, ou talvez fetos que tivessem arranjado sei lá onde.

Mesmo depois que a Dra. Harper percorreu a clínica gritando que eram apenas bonecas, continuei em dúvida.

- A senhora disse que gritavam slogans? - Kirkland perguntou.

- Gritavam. O que ouvi mais claramente dizia: "Não deixe o anjo da morte vir a Derry".

A notícia agora voltava a Kirkland, ao vivo.

- Os manifestantes foram levados da WomanCare para a delegacia central de polícia de Derry, na Rua Central, por volta das nove horas desta manhã, Lisette. Entendi que doze foram interrogados e liberados; outros seis foram presos por comportamento doloso, um delito leve. Parece, portanto, que presenciamos o disparo de mais um tiro em Derry na guerra permanente por causa do aborto. John Kirkland, do telejornal do canal quatro.

- Mais um tiro... - começou McGovern, erguendo as mãos. Lisette Benson voltou à tela.

- Vamos chamar Anne Rivers, que conversou há menos de uma hora com dois dos chamados Amigos da Vida que foram presos na manifestação desta manhã.

Anne Rivers encontrava-se diante da delegacia de polícia da Rua Central, com Ed Deepneau de um lado e um indivíduo de cavanhaque, alto e macilento, do outro. Ed tinha uma aparência elegante e simpática, num paletó de tweed cinza e calças azul-marinho. O homem alto de cavanhaque vestia roupas que somente um liberal com delírios sobre o que se chamaria de "proletariado do Maine" seria capaz de usar: jeans desbotados, camisa de trabalho também azul desbotado, suspensórios largos e vermelhos de bombeiro. Ralph só precisou de um segundo para reconhecê-lo. Era Dan Dalton, proprietário da Secondhand Rose, Secondhand Clothes. A última vez em que Ralph o vira, ele estava parado atrás de guitarras e gaiolas de passarinhos penduradas na vitrine de sua loja, gesticulando para Ham Davenport como se dissesse Estou cagando para o que você pensa.

Mas naturalmente foi Ed que atraiu seu olhar. Ed que parecia elegante e composto em mais do que um aspecto.

Aparentemente McGovern sentiu o mesmo.

- Meu Deus, não dá para acreditar que seja o mesmo homem - murmurou.

- Lisette - disse a loura bonita - estão comigo Edward Deepneau e Daniel Dalton, ambos de Derry, dois dos manifestantes presos hoje de manhã. Certo, senhores? Foram presos?

Eles confirmaram com a cabeça, Ed com uma brevíssima expressão de humor, Dalton com uma sombria determinação visível no queixo duro. O olhar que este fixou em Anne Rivers fez parecer - pelo menos a Ralph - que estava procurando se lembrar em que clínica de aborto a vira entrar, a cabeça baixa e os ombros encolhidos.

- Vocês foram soltos sob fiança?

- É, fomos soltos mediante fiança - respondeu Ed. - As acusações eram leves. Não tivemos a intenção de ferir ninguém, e ninguém foi ferido.

- Fomos presos somente porque a estrutura de poder pagã entrincheirada nesta cidade quer nos usar como exemplo - Dalton disse, e Ralph pensou ter visto uma ligeira contração tensionar momentaneamente o rosto de Ed. Uma expressão de lá-vai-ele-de-novo.

Anne Rivers apontou o microfone na direção de Ed.

- A questão principal aqui não é filosófica, mas prática - disse ele. - Embora o pessoal que dirige a WomanCare goste de enfatizar os serviços de assistência, terapia, mamografias grátis e outras admiráveis funções da clínica, há um outro lado. Rios de sangue correm na WomanCare...

- Sangue de inocentes.-gritou Dalton. Seus olhos luziam no rosto magro e comprido e Ralph teve uma intuição perturbadora: por todo o leste do Maine, as pessoas estavam assistindo o jornal e concluindo que o homem de suspensórios vermelhos era maluco, mas que seu companheiro parecia um sujeito bem sensato. Chegava a ser engraçado.

Ed tratou a exclamação de Dalton como o equivalente pró-vida do Aleluia, concedendo-lhe o tempo de um compasso respeitoso antes de retomar seu discurso.

- A matança na WomanCare vem ocorrendo há quase oito anos - Ed informou. - Muita gente, principalmente feministas radicais como a Dra. Roberta Harper, administradora-chefe da WomanCare, douram a pílula com frases como "interrupção prematura", quando, na realidade, está falando de aborto, o acto máximo de abuso que uma sociedade sexista inflige às mulheres.

- Mas será que arremessar bonecas cheias de sangue contra as janelas de uma clínica particular é a maneira mais correta de expor seu ponto de vista ao público, Sr. Deepneau?

Por um instante - só por um instante, apareceu e desapareceu - a cintilação bemhumorada nos olhos de Ed cedeu lugar a um lampejo mais duro e frio. Naquele único instante, Ralph contemplou novamente o Ed Deepneau que se dispusera a bater num motorista de caminhão que pesava mais 45 quilos que ele. Ralph esqueceu que a cena que assistia fora gravada há uma hora e receou pela integridade da loura magra, que era quase tão bonita quanto a mulher com quem seu entrevistado continuava casado. Tenha cuidado, moça, Ralph pensou. Tenha cuidado e tenha medo. Você está parada ao lado de um homem muito perigoso.

Então o lampejo desapareceu e o homem de paletó de tweed voltou a ser, mais uma vez, um jovem sincero que seguira os ditames de sua consciência até a cadeia. Mais uma vez era Dalton, a esticar nervosamente os suspensórios como se fossem grandes elásticos, que parecia ter alguns parafusos de menos.

- O que estamos fazendo é o que os chamados bons alemães deixaram de fazer na década de trinta. - Ed dizia. Falava no tom paciente e professoral de um homem forçado a explicar a mesma questão muitas vezes... principalmente para aqueles que já deviam sabê-la. - Eles se calaram e seis milhões de judeus morreram. Em nosso país um holocausto semelhante...

- Mais de mil bebés diariamente - interpôs Dalton. A estridência de sua fala sumira. Ele parecia horrorizado e desesperadamente cansado. - Muitos são arrancados dos ventres das mães aos pedaços, com os bracinhos erguidos, protestando ao morrer.

- Meu bom Deus - disse McGovern. - Isso é a coisa mais ridícula que já...

- Quieto, Bill! - Lois pediu.

- ... objectivo dessa manifestação? - Rivers perguntava a Dalton.

- Como você provavelmente sabe - explicava Dalton - a câmara de vereadores concordou em reexaminar as leis de zoneamento que permitem à WomanCare funcionar no local em que funciona e da maneira como funciona. Eles talvez votem a questão no início de Novembro. Os grupos pelo direito de aborto receiam que a câmara possa jogar areia na engrenagem de sua máquina de matar, por isso chamaram Susan Day, a defensora do aborto mais famosa do país, para tentar manter a máquina em operação.

Estamos arregimentando nossas forças... O pêndulo do microfone voltou para Ed.

- Vai haver mais manifestações, Sr. Deepneau? - Rivers perguntou, e Ralph teve a súbita impressão de que ela poderia estar interessada nele de uma maneira não tão profissional. Ei, por que não? Ed era um sujeito bonitão e a Sra. Rivers não tinha como saber que ele acreditava que o Rei Sangüinário e seus Centuriões se encontravam em Derry, juntando suas forças com as dos matadores de bebés da WomanCare.

- Até que a aberração legal que abriu as portas a essa matança seja corrigida, as manifestações continuarão - Ed respondeu. - E continuamos na esperança de que a história dos séculos vindouros registre que nem todos os americanos foram bons nazistas durante este período sombrio de nossa história actual.

- Protestos violentos?

- É contra a violência que nos colocamos.-Os dois agora olhavam-se fixamente, e Ralph reflectiu que Anne Rivers sofria do que Carolyn chamaria de mal das coxas quentes. Dan

Dalton estava parado a um lado da tela, praticamente esquecido.

- E quando Susan Day vier a Derry no próximo mês, o senhor pode garantir a segurança dela?

Ed sorriu e mentalmente Ralph o viu como o vira naquela tarde quente de Agosto, há menos de um mês - ajoelhado com as mãos apoiadas em cada lado dos ombros de Ralph, soprando Eles queimam os fetos em Newport em sua cara. Ralph estremeceu.

- Em um país em que milhares de crianças são sugadas dos ventres das mães pelo equivalente médico de um aspirador de pó industrial, não acredito que alguém possa garantir nada - respondeu Ed.

Anne Rivers olhou-o incerta por um momento, como se decidisse se queria ou não fazer outra pergunta (talvez sobre o seu número de telefone), e então virou-se de frente para a câmera.

- Anne Rivers, da delegacia central de polícia em Derry - falou.

Lisette Benson reapareceu, e algo zombeteiro no trejeito de sua boca fez Ralph pensar que talvez ele não tivesse sido o único a perceber a atracção entre entrevistadora e entrevistado.

- Continuaremos a acompanhar essa história durante o dia de hoje - disse. - Não deixem de sintonizar o nosso canal às seis e nos telejornais da noite. Em Augusta, a governadora Greta Powers respondeu à acusação de que pode ter...

Lois se levantou e desligou a TV. Por um momento, ficou parada olhando fixamente a tela que escurecia, até que soltou um pesado suspiro e se sentou.

- Tenho compota de uva - falou - mas, depois do que vimos, será que alguém vai querer?

Os dois homens sacudiram a cabeça. McGovern olhou para Ralph e disse:

- Foi de apavorar.

Ralph concordou com a cabeça. Não parava de pensar no jeito como Ed andava para frente e para trás em meio à chuva produzida pelo regador automático, rompendo os arco-íris com o corpo, batendo o punho na palma da mão aberta.

- Como podem ter soltado o Ed sob fiança e em seguida entrevistarem-no no telejornal como se ele fosse um ser humano normal? - Lois perguntou indignada. - Depois do que ele fez com a coitada da Helen? Meu Deus, aquela Anne Rivers parecia pronta a convidá-lo para jantar em casa!

- Ou para comer bolachas na cama com ela-falou Ralph secamente.

- A acusação de agressão e essa história de hoje são coisas completamente diferentes disse McGovern-e pode apostar suas botas que o advogado ou advogados que esses malucos contrataram farão tudo para mantê-las assim.

- E até mesmo a acusação de agressão foi apenas um delito leve - Ralph lembrou a Lois.

- Como é que agressão pode ser um delito leve? - perguntou Lois. - Desculpe, mas nunca compreendi realmente essa parte.

- É um delito leve quando você agride apenas a própria mulher - McGovern disse, erguendo a sobrancelha satírica. - É a lei americana, Lo.

Ela torceu as mãos inquieta, retirou o Sr. Chasse de cima da televisão, contemplou-o por um momento, em seguida tornou a colocá-lo no lugar e continuou a torcer as mãos.

- Bem, lei é lei - disse - e eu seria a primeira a admitir que não compreendo nadinha de leis. Mas alguém devia dizer a eles que esse sujeito é maluco. Que espanca mulheres e é maluco.

- Você nem faz ideia de até onde vai a maluquice dele - disse Ralph, e pela primeira vez contou-lhes a história do que acontecera no verão anterior, no aeroporto. Levou uns dez minutos. Quando terminou, nenhum dos dois disse nada: apenas o olharam com os olhos arregalados.

- Quê? - exclamou Ralph pouco à vontade. - Não me acreditam? Vocês acham que imaginei isso?

- Claro que acredito - disse Lois. - Eu estava... bem... espantada. E assustada.

- Ralph, acho que você devia passar essa história para John Leydecker - falou

McGovern. - Não acho que ele possa fazer droga nenhuma com ela, mas, considerando os novos coleguinhas de Ed, acho que ele devia ter essa informação.

Ralph pensou cuidadosamente, em seguida concordou com a cabeça e se pôs de pé.

- Não há melhor hora do que essa - disse. - Quer vir, Lois?

Ela pensou um pouco, depois sacudiu a cabeça.

- Estou exausta-disse.-Meio... como é que a garotada diz hoje em dia? Meio podre.

Acho que vou pôr os pés para cima um pouco. Tirar um cochilo.

- Faz bem - concordou Ralph. - Você parece mesmo esgotada. Obrigado por nos alimentar. - Impulsivamente, curvou-se e beijou-a no canto da boca. Lois ergueu os olhos para ele com grata surpresa.

Ralph DESLIGOU a própria televisão mais de seis horas depois, quando Lisette Benson terminou o telejornal da noite e passou a palavra ao comentarista de esportes. A manifestação na WomanCare fora relegada a segundo plano - a grande notícia da noite era a continuada alegação de que a governadora Greta Powers usara cocaína quando estudante de graduação - e não havia nenhuma novidade, exceto que Dan Dalton agora fora identificado como o cabeça dos Amigos da Vida. Ralph achou que testa-de-ferro era provavelmente uma palavra melhor. Será que Ed já assumira de fato o comando? Se não assumira, Ralph imaginava que assumiria dentro de pouco tempo - até o Natal no máximo.

Uma pergunta potencialmente mais interessante era o que os patrões de Ed pensavam de suas peripécias legais na estrada de Derry. Ralph tinha a impressão de que estariam se sentindo muito menos à vontade com o que ocorrera hoje do que com a acusação de agressão doméstica do mês anterior; Ralph lera, ainda recentemente, que os laboratórios Hawkings em breve se tornariam o quinto centro de pesquisas no nordeste do país a trabalhar com tecido fetal. Provavelmente a directoria não aplaudiria a informação de que um dos seus pesquisadores fora preso arremessando bonecas cheias de sangue contra a fachada de uma clínica que fazia abortos. E se soubesse como ele era maluco...

Quem vai contar a eles, Ralph? Você?

Não. Isso era um passo além do que estava disposto a dar, pelo menos por ora.

Diferentemente de ir à delegacia de polícia com McGovern para conversar com John Leydecker sobre o incidente do verão anterior, insistir nisso cheirava a perseguição. Era o mesmo que escrever MATE ESSA BOCETUDA ao lado do retrato de uma mulher com cujas opiniões não se concordava.

Isso é besteira e você sabe muito bem.

- Não sei de nada - falou, levantando-se e chegando até a janela. - Estou cansado demais para saber de alguma coisa. - Mas parado ali, olhando para dois homens que saíam do mercadinho defronte, carregando uma caixa de bebidas cada, ele subitamente soube de uma coisa, lembrou-se de uma coisa que riscou uma gelada linha divisória em suas costas, de alto a baixo.

Hoje de manhã, quando saíra da Rite Aid e fora assaltado pelas auras - e pela sensação de ter alcançado um novo nível de consciência - dissera a si mesmo, repetidamente, para usufruir mas não acreditar; que, se não conseguisse estabelecer essa distinção crítica, era capaz de terminar no mesmo barco de Ed Deepneau. Esse pensamento quase abrira a porta de outra lembrança associada, mas as auras mutantes no estacionamento tinham-no distraído antes que pudesse irromper pela nova porta. Agora lembrava: Ed lhe falara alguma coisa sobre a visão de auras, não fora?

Não-ele talvez tivesse querido dizer auras, mas a palavra que realmente usara fora cores. Tenho quase certeza disso. Foi logo depois de ter falado que via cadáveres de bebês por toda parte, até nos telhados. Disse...

Ralph observou os dois homens embarcarem num velho furgão batido e pensou que jamais conseguiria lembrar as palavras exactas de Ed; estava demasiado cansado. Então, quando o furgão partiu deixando uma esteira de fumaça pelo caminho, isso lhe lembrou o vermelhovivo que vira saindo do escape do caminhão da padaria naquela tarde, outra porta se abriu, e a lembrança voltou.

- Ele disse que às vezes o mundo estava cheio de cores - Ralph falou para o apartamento vazio - mas que num determinado ponto tudo começava a escurecer. Acho que foi isso.

Estava chegando perto, mas seria só isso? Ralph achou que tinha havido pelo menos mais outra coisa no discurso de Ed, mas não se lembrava o quê. E será que fazia diferença? Seus nervos indicavam veementemente que sim - a linha gelada em suas costas não só se alargara como se aprofundara.

Atrás dele, o telefone tocou. Ralph se virou e viu o aparelho banhado numa funesta luz vermelha, vermelho-escura, a cor de sangramento no nariz e (galos brigando com galos) de cristas de galos.

Não, parte de sua mente gemeu. Ah, não, Ralph, não comece com isso outra vez...

Cada vez que o telefone tocava, a capa luminosa se tornava mais brilhante. Durante os intervalos de silêncio, ela escurecia. Era o mesmo que olhar para um coração fantasma com um telefone dentro.

Ralph fechou os olhos com força e, quando os reabriu, a aura vermelha em torno do telefone desaparecera.

Não, você não pode vê-la agora. Não tenho certeza, mas acho que você talvez tenha desejado que ela desaparecesse. Como num sonho lúcido.

Ao cruzar a sala até o telefone, disse a si mesmo - e não havia incerteza em suas palavras - que a ideia era tão maluca quanto ver auras, para começar. Só que não era, e ele sabia disto. Se fosse maluca, por que bastara apenas dar uma espiada naquela auréola vermelha para ter certeza de que era Ed Deepneau quem estava ligando?

Isso ébesteira, Ralph. Você acha que é Ed Deepneau porque está pensando nele... e porque está tão cansado que sua cabeça está variando. Vamos, apanhe o fone e verá. Não é o coração delator, nem mesmo o telefone delator. É provavelmente algum sujeito querendo lhe vender assinaturas ou a mulher do banco de sangue indagando por que você não tem aparecido ultimamente.

Só que ele sabia que não era.

Ralph apanhou o fone e disse alô.

NINGUÉM RESPONDEU. Mas havia alguém na linha; Ralph ouvia sua respiração.

- Alô? - disse mais uma vez.

Não recebeu resposta imediata, e estava prestes a dizer Vou desligar agora, quando Ed Deepneau falou:

- Estou ligando para falar de sua língua, Ralph. Ela está tentando metê-lo em apuros.

A linha gelada entre suas omoplatas já não era uma linha; agora era uma fina camada de gelo que o cobria inteiramente da nuca aos rins.

- Alô, Ed. Vi você no telejornal hoje. - Foi a única coisa que lhe ocorreu dizer. Sua mão não parecia mais estar segurando o fone, antes crispara-se em câibra em torno do objecto.

- Esqueça isso, meu caro. E preste atenção. Acabei de receber uma visita daquele detective que me prendeu no mês passado, Leydecker. Na realidade, ele acabou de sair.

Ralph sentiu o coração afundar, mas não da forma que poderia recear. Afinal de contas, uma visita de Leydecker a Ed não constituía nenhuma surpresa, não é? Ele se mostrara muito interessado na história de Ralph sobre o confronto no aeroporto no verão de 92. Muitíssimo interessado.

- É? - Ralph perguntou calmamente.

- O detective Leydecker tem a impressão de que acho que há gente, ou possivelmente seres sobrenaturais de algum tipo, transportando fetos para fora da cidade em carretas e picapes.

Legal, não é?

Ralph, parado junto ao sofá, puxava incessantemente o fio do telefone por entre os dedos, dando-se conta de que via uma luz vermelha mortiça escorrendo do fio como suor. A luz pulsava no ritmo da fala de Ed.

- Você tem andado contando histórias fora de hora, meu caro.

Ralph continuou calado.

- Chamar a polícia depois que dei aquela puta lição que ela tanto merecia não me incomodou - Ed disse. - Considerei... bem, uma preocupação de avô. Ou talvez você tenha pensado que, se ela se sentisse bastante grata, talvez lhe dispensasse uma trepada de misericórdia. Afinal de contas, você está velho mas ainda não virou espécime para o parque dos dinossauros. Talvez tenha pensado que, no mínimo, ela deixaria você meter um dedo nela.

Ralph ficou calado.

- Certo, meu caro? Ralph continuou calado.

- Você acha que vai me perturbar com o seu silêncio? Nunca. - Mas Ed parecia perturbado, desconcertado. Era como se tivesse feito a ligação com um certo roteiro em mente e Ralph se recusasse a ler as falas previstas.-Você não pode... é melhor não...

- Chamar a polícia depois que você espancou Helen não o incomodou, mas a sua conversa com Leydecker hoje obviamente o incomodou. Por que, Ed? Será que finalmente está começando a questionar o seu comportamento? Sua maneira de pensar, talvez?

Foi a vez de Ed ficar calado. Finalmente ele murmurou com rispidez:

- Se não levar meu aviso a sério, Ralph, será o pior erro...

- Ah, claro que o levo a sério - respondeu Ralph. - Vi o que você fez hoje, vi o que fez à sua mulher no mês passado... e vi o que você fez no aeroporto há um ano. Agora a polícia sabe. Já o escutei, Ed, agora você vai me escutar. Você está doente.

Você teve uma espécie de colapso nervoso, está tendo delírios...

- Não preciso ouvir as suas besteiras! - Ed interrompeu-o, quase aos gritos.

- Não, não precisa. Pode desligar. Afinal você é que está pagando a ligação. Mas até que desligue, vou continuar martelando em seus ouvidos. Porque eu gostava de você, Ed, e quero voltar a gostar. Você é um sujeito inteligente, com ou sem delírios, e acho que está me entendendo: Leydecker sabe, e Leydecker vai ficar observando vo...

- Você já está vendo cores? - Ed perguntou. Sua voz recuperara a calma. No mesmo instante, o brilho vermelho que envolvia o fio do telefone desapareceu.

- Que cores? - Ralph perguntou finalmente. Ed fingiu não ouvir a pergunta.

- Você disse que gostava de mim. Bem, gosto de você também. Sempre gostei de você.

Por isso vou lhe dar um conselho muito valioso. Você está entrando em águas fundas, e existem coisas submersas na correnteza que você sequer pode conceber. Você acha que estou louco, mas quero lhe dizer que você não sabe o que é loucura. Não tem a mínima ideia. Mas terá, se continuar a se meter em coisas que não são de sua conta. Pode crer.

- Que coisas? - Ralph perguntou. Tentou manter a voz despreocupada, mas continuava a apertar o fone com força suficiente para fazer os dedos latejarem.

- Forças - Ed respondeu. - Existem forças em ação em Derry que você não vai querer conhecer. Existem... bem, vamos dizer apenas que são entidades. Elas ainda não repararam realmente em você, mas, se continuar mexendo comigo, elas vão reparar. E você não vai querer isso. Pode crer, você não vai querer.

Forças. Entidades.

- Você me perguntou como foi que descobri tudo isso. Quem me colocou em cena. Você se lembra, Ralph?

- Lembro. - E se lembrava mesmo. Fora a última coisa que Ed lhe dissera antes de afivelar o grande sorriso teatral e se adiantar para cumprimentar os tiras. Tenho visto as cores desde que ele veio e me disse... Falaremos disso depois.

- O doutor me disse. O doutorzinho careca. Acho que é a ele que terá de prestar contas se tentar se meter na minha vida outra vez. E, então, que Deus lhe ajude.

- O doutorzinho careca, hum-hum - disse Ralph.-Sei, entendo. Primeiro o Rei

Sanguinário e os Centuriões, agora o doutorzinho careca. Suponho que em seguida será...

- Me poupe a sua ironia, Ralph. Apenas fique longe de mim e dos meus interesses, está ouvindo? Fique longe.

Houve um clique e Ed se foi. Ralph olhou para o fone em sua mão durante muito tempo, então lentamente colocou-o no gancho.

Apenas fique longe de mim e dos meus interesses.

E por que não? Tinha muito com que se ocupar.

Ralph caminhou devagar até a cozinha, meteu um jantar congelado (por sinal, filé de hadoque) no forno e tentou tirar manifestações antiaborto, auras, Ed Deepneau e o Rei Sanguinário de sua cabeça.

Foi mais fácil do que poderia ter imaginado.

O VERÃO foi passando quase sem ser notado, como costuma acontecer no Maine. O despertar prematuro de Ralph continuou e, quando as cores do outono começaram a esbrasear as árvores ao longo da Avenida Harris, ele estava abrindo os olhos por volta das duas e quinze da madrugada. Era péssimo, mas tinha esperanças na consulta com James Roy Hong e não houvera repetição do estranho show de fogos de artifício com que fora brindado no primeiro encontro com Joe Wyzer. Percebia ocasionais lampejos nos contornos das coisas, mas descobriu que, se apertasse os olhos com força e contasse até cinco, quando os reabrisse, os lampejos teriam desaparecido.

Bem... normalmente.

A palestra de Susan Day estava programada para sexta-feira, 8 de Outubro e, à medida que setembro se aproximava do fim, as manifestações e os debates públicos sobre o aborto por solicitação se acirravam e começavam a focalizar cada vez mais a sua visita. Ralph viu Ed no telejornal várias vezes, algumas, em companhia de Dan Dalton, mas, cada vez com maior frequência, sozinho, falando desenvolta e convincentemente, muitas vezes com aquele brilhozinho de humor não só nos olhos como na voz.

As pessoas gostavam dele e os Amigos da Vida aparentemente estavam atraindo o grande número de participantes a que o Pão-de-Cada-Dia, grupo político que o originara, apenas pudera aspirar. Não houve mais arremessos de bonecas, nem outras manifestações violentas, mas houve muitas marchas e contramarchas, muitos xingamentos, gestos de ameaça e cartas iradas ao editor. Os pastores prometiam o inferno; os professores recomendavam moderação e educação; meia dúzia de moças que se intitulavam as Alegres Garotas Lésbicas por Jesus foram presas desfilando diante da Primeira Igreja Batista de Derry, com cartazes em que se lia TIREM ESSA PORRA DO MEU CORPO. Um policial anónimo foi citado no News de Derry, dizendo que esperava que Susan Day caísse de cama com uma gripe ou qualquer outra coisa e precisasse cancelar a visita.

Ralph não teve mais nenhum contato com Ed, mas, em 21 de Setembro, recebeu um cartão de Helen com quatorze palavras exultantes rabiscadas no verso: "Viva, um emprego!

Biblioteca Pública de Derry! Começo no mês que vem! Até breve - Helen."

Sentindo-se mais animado do que se sentira desde a noite em que Helen lhe ligara do hospital, Ralph desceu para mostrar o cartão a McGovern, mas a porta do apartamento de baixo estava fechada e trancada.

Então Lois... só que Lois também saíra, provavelmente fora a uma de suas festinhas de carteado ou talvez comprar lã no centro para tricotar mais um xale.

Um pouco chateado, pensando que as pessoas com quem mais se queria dividir as boas notícias quase nunca se encontravam por perto quando a gente estava engasgando de alegria, Ralph perambulou até o parque Strawford. E foi ali que encontrou Bill McGovern, sentado num banco próximo ao campo de beisebol, chorando.

CHORANDO TALVEZ fosse uma palavra demasiado forte, lacrimoso descreveria melhor o seu estado. McGovern se achava sentado, com um lenço saindo do punho nodoso, e observava uma mãe jogar beisebol com o filho na linha da primeira base do campo onde se encerrara, há apenas dois dias, o último grande jogo da temporada - o Torneio Municipal de Beisebol.

De vez em quando, levava o punho com o lenço ao rosto e secava os olhos. Ralph que nunca vira McGovern chorar-nem mesmo no enterro de Carolyn-demorou-se por ali um tempo, indeciso se deveria abordar McGovern ou simplesmente voltar pelo mesmo caminho em que viera.

Finalmente reuniu coragem e aproximou-se do banco do parque.

- Oi, Bill - disse.

McGovern ergueu os olhos que estavam vermelhos, lacrimosos e um tantinho envergonhados. Enxugou-os mais uma vez e tentou sorrir.

- Oi, Ralph. Você me pegou choramingando. Desculpe.

- Tudo bem - disse Ralph, sentando-se. -Já completei a minha quota de choro. Que aconteceu?

McGovern deu de ombros, secou novamente os olhos.

- Nada de importante. Estou sofrendo os efeitos de um paradoxo, é só.

- Que paradoxo?

- Uma coisa boa está acontecendo com um dos meus amigos mais antigos, na verdade, o homem que me deu o primeiro emprego de professor. Ele está agonizando.

Ralph arqueou as sobrancelhas, mas ficou calado.

- Está com pneumonia. A sobrinha provavelmente vai mandá-lo para o hospital hoje ou amanhã, e vão colocá-lo num respirador, pelo menos por algum tempo, mas é quase certo que esteja morrendo. Vou comemorar sua morte quando chegar e suponho que é isso, mais do que qualquer outra coisa, que está me dando uma depressão do caramba. - McGovern fez uma pausa.-Você não está entendendo nada do que estou dizendo, está?

- Nadinha - disse Ralph. - Mas tudo bem.

McGovern olhou-o diretamente no rosto, deu uma segunda olhada, e soltou uma risadinha.

O som foi rouco, empastado de lágrimas, mas Ralph achou que ainda assim era uma risada de verdade, e arriscou retribuí-la com um sorriso.

- Será que eu disse alguma coisa engraçada?

- Não - respondeu McGovern e deu-lhe uma palmadinha leve no ombro. - Estava só dando uma olhada na sua cara, tão compenetrada e sincera, você é realmente um livro aberto, Ralph, e pensando no quanto gosto de você. Por vezes, gostaria de ser você.

- Não, às três da manhã, você não gostaria - Ralph disse baixinho.

McGovern suspirou e concordou com a cabeça.

- A insónia.

- Isso mesmo. A insónia.

- Desculpe ter rido, mas...

- Não precisa se desculpar, Bill.

- ... mas por favor me acredite quando digo que foi uma risada de admiração.

- Quem é o seu amigo, e por que é bom que esteja morrendo?-Ralph perguntou. Tinha um palpite do que havia no fundo do paradoxo de McGovern; ele não era tão bondosamente estúpido, quanto Bill, por vezes, parecia pensar.

- O nome dele é Bob Polhurst, e sua pneumonia é uma boa notícia porque sofre do mal de Alzheimer desde o verão de 88.

Era o que Ralph pensara... embora a AIDS tivesse lhe ocorrido, também. Imaginou se esta idéia teria chocado McGovern, e divertiu-se com a possibilidade.

Então olhou para o homem e envergonhou-se do seu divertimento. Sabia que, em questão de melancolia, McGovern era quase um profissional, mas não acreditava que isso tornasse o óbvio pesar pelo velho amigo menos sincero.

- Bob foi chefe do departamento de história da escola secundária de Derry desde 1948, quando não devia ter mais de vinte e cinco anos, até 81 ou 82. Foi um grande professor, um desses sujeitos extraordinariamente inteligentes que às vezes a gente encontra no meio do mato, escondendo o próprio valor. Em geral, acabam chefiando o departamento a que pertencem e assumindo paralelamente meia dúzia de atividades extracurriculares simplesmente porque não sabem dizer não. E Bob não sabia mesmo.

A mãe passava agora por eles com o filho, a caminho do barzinho que em breve fecharia para o inverno. O rosto do menino possuía uma extraordinária transparência, uma beleza que era realçada pela aura cor-de-rosa que Ralph viu girar em torno de sua cabeça e perpassar em ondas serenas no seu rosto pequeno e vivo.

- Podemos ir para casa, Mamãe? - ele perguntou. - Quero brincar de massinha agora.

Quero fazer a Família Barro.

Vamos comer alguma coisa primeiro, garotão, concorda?

- Mamãe - está com fome.

- Tá bem.

Havia uma marca em forma de gancho na ponta do nariz do menino e ali o rosado da aura se tornava escarlate.

Caiu do berço quando tinha oito meses de idade, pensou Ralph. Estava se esticando para pegar as borboletas do móbile que sua mãe pendurou no teto. Ela quase morreu de susto quando acudiu e viu aquela sangueira; pensou que o pobre garoto estivesse morrendo.

Patrickéo nome dele. Ela o chama de Pat. O nome foi uma homenagem ao avô, e...

Ele fechou os olhos com força por um momento. Seu estômago vibrava levemente logo abaixo do pomo de adão e ele sentiu uma certeza repentina de que ia vomitar.

- Ralph? - McGovern chamou. - Você está bem?

Ele abriu os olhos. Nada de aura, nem rosa, nem de qualquer outra cor; apenas mãe e filho caminhando em direção ao barzinho para tomar um refrigerante, e não havia nenhuma possibilidade, absolutamente nenhuma possibilidade, de que ele pudesse saber que a mãe não queria levar Pat para casa porque o pai andava bebendo outra vez, depois de passar seis meses sóbrio, e quando bebia tornava-se mau...

Pare, pelo amor de Deus, pare.

- Estou bem - disse a McGovern. - Entrou um cisco no meu olho, foi só. Continue.

Conte o resto da história de seu amigo.

- Não há muito o que contar. Ele era um gênio, mas, com o passar do tempo, me convenci de que a genialidade é uma vantagem exageradamente valorizada. Acho que este país está cheio de gênios, homens e mulheres tão inteligentes que fazem o portador normal de uma carteira de professor parecer um palhaço. E acho que são na maioria professores que vivem e trabalham na obscuridade de uma cidadezinha de interior, porque é disso que gostam. Com certeza era disso que Bob gostava.

- Ele via as pessoas por dentro, de um jeito que me apavorava... pelo menos no princípio.

Depois de algum tempo, a gente descobria que não precisava se apavorar porque Bob era um homem bom, mas no início ele inspirava um certo temor. Por vezes a gente se perguntava se ele usava um par de olhos normais para ver ou algum tipo de máquina de raios X.

No barzinho, a mulher se curvava com um copo de papel cheio de soda. O garoto ergueu as duas mãos, rindo, e apanhou o copo. Bebeu com gosto. O brilho rosado pulsou por um instante, envolvendo-o novamente, e Ralph viu que tinha razão: o nome do menino era Patrick e a mãe não queria levá-lo para casa. Não havia maneira de saber dessas coisas, mas ele sabia assim mesmo.

- Naquele tempo - McGovern disse - se você fosse do Maine central e não fosse cem por cento heterossexual, você fazia o diabo para passar por hétero. Era a única escolha, além de mudar-se para Greenwich Village, usar boina e passar as noites de sábado em clubes de jazz do tipo em que se costumava aplaudir estalando os dedos. Então, a idéia de assumir a própria homossexualidade era absurda. Para a maioria de nós, a única opção era se enrustir. A não ser que quiséssemos que uma matilha de universitários bêbados nos derrubasse e tentasse arrancar nossa cara, o jeito era nos fecharmos em nosso mundo.

Pat terminou de beber e atirou o copo no chão. A mãe lhe disse para apanhar o copo e colocá-lo na lixeira, uma tarefa que ele executou com imensa boa vontade. A mulher tomouo pela mão e começaram a caminhar lentamente em direção à saída do parque.

Ralph observou-os com apreensão, esperando que os temores e preocupações da mulher fossem injustificados, receando que não o fossem.

- Quando me candidatei a um emprego no departamento de história da escola secundária de Derry, isso foi em 1951, acabara de passar por uma experiência de dois anos como professor, em Lubec, que fica lá onde Judas perdeu a bota, e imaginei que, se conseguira me dar bem lá, sem ninguém me fazer perguntas, poderia me dar bem em qualquer outro lugar.

Mas Bob só me deu uma olhada... diabos, lá dentro, com aquela visão raios X e foi o bastante. E ele não era nada tímido. "Se eu resolver lhe oferecer este emprego e se o senhor resolver aceitálo, Sr. McGovern, pode me dar sua palavra de que nunca haverá o menor problema em função de sua preferência sexual?"

- Preferência sexual, Ralph! Puxa vida! Eu sequer sonhara com tal expressão, mas ela escorregou da boca de Bob com mais facilidade do que um rolamento bem engraxado.

Comecei a me dar ares de importância e ia lhe dizer que, embora não entendesse aonde queria chegar, não me agradara a sua pergunta...

Poderia dizer que por princípios... mas dei outra espiada nele e decidi poupar minhas energias. Poderia ter enganado muita gente em Lubec, mas não estava enganando Bob Polhurst. Ele ainda não completara trinta anos, provavelmente não estivera ao sul de Kittery mais de dez vezes na vida, mas sabia tudo que importava sobre mim, e para isso precisara apenas de uma entrevista de vinte minutos.

- Não, senhor, nem um mínimo problema, falei, humilde como um carneirinho.

McGovern secou de novo os olhos com o lenço, mas Ralph teve a impressão de que, desta vez, o gesto era apenas teatral.

- Nos vinte e três anos anteriores à minha saída para ensinar na faculdade municipal de Derry, Bob me ensinou tudo que sei sobre xadrez e o aprendizado de história. Era um jogador brilhante... com toda certeza, teria feito o exibido do Faye Chapin suar frio, posso lhe garantir. Só ganhei dele uma vez e, ainda assim, depois que o mal de Alzheimer já se instalara. Nunca mais joguei com ele depois.

- E havia outras coisas. Ele jamais esquecia uma piada. Jamais esquecia os aniversários, as bodas das pessoas mais chegadas; não enviava cartões nem dava presentes, mas sempre apresentava congratulações e votos de felicidade, e ninguém jamais duvidou de sua sinceridade. Publicou mais se sessenta artigos sobre o ensino de história e a guerra de Secessão, que era sua especialidade. Entre 67 e 68, escreveu um livro chamado Ainda naquele verão, abordando os meses que de seguiram à batalha de Gettysburgh. Ele me deixou ler o manuscrito há dez anos e acho que é o melhor livro sobre a guerra de Secessão que já li; o único que lhe chega mais próximo é o romance Anjos Assassinos de Michael Shaara. Bob, porém, não quis saber de publicar o seu. Quando lhe perguntei o porquê, ele me respondeu que eu, mais do que ninguém, deveria compreender suas razões.

McGovern fez uma breve pausa e contemplou o parque, inundado de uma luz ouroesverdeada, rendilhado de sombras que se moviam e mudavam a cada sopro do vento.

- Ele disse que tinha medo de se expor.

- Sei - disse Ralph. - Entendo.

- Talvez um exemplo possa resumi-lo melhor do que qualquer outra coisa: ele costumava fazer as palavras cruzadas do New York Times. Mexi com esse hábito uma vez, acusei-o de orgulho. Ele deu um sorriso e disse: "Há uma grande diferença entre orgulho e otimismo, Bill - eu sou otimista, é só."

- Em todo o caso, dá para você imaginar. Um homem bondoso, um bom professor, uma mente arguta. Sua especialidade era a guerra de Secessão, e agora ele não sabe o que é uma guerra civil, nem muito menos quem ganhou a nossa. Droga, ele sequer sabe o próprio nome, e em breve - quanto mais breve melhor - vai morrer sem sequer saber que viveu.

Um homem de meia-idade, vestindo uma camiseta da universidade de Maine e um par de jeans puídos, atravessou a área de recreação do parque, arrastando os pés e segurando uma sacola de compras amassada debaixo do braço. Parou ao lado do barzinho para examinar o conteúdo da lixeira, à procura de embalagens retornáveis. Ao se curvar, Ralph viu a capa verde-escura de sua aura e o fio de balão verde mais claro que se erguia, flutuando, do alto de sua cabeça. E, de súbito, sentiu-se demasiado cansado para fechar os olhos, demasiado cansado para desejar que a visão desaparecesse.

Voltou-se para McGovern e comentou:

- Desde o mês passado ando vendo coisas que...

- Acho que estou de luto - disse McGovern, dando mais uma enxugada teatral nos olhos - embora não saiba se é por Bob ou por mim mesmo. Não é uma piada? Mas se você pudesse ter visto como ele era inteligente naquele tempo... tão inteligente que dava medo...

- Bill? Está vendo aquele sujeito ali junto ao barzinho? Aquele mexendo na lixeira? Estou vendo...

- Estou, esses caras estão em toda parte agora - disse McGovern, lançando ao pau-de-água (que encontrara duas latas vazias de cerveja e as guardara na sacola) um olhar superficial antes de tornar a Ralph. - Odeio a velhice: acho que é nisso que a coisa se resume. Quero dizer, velhice para valer.

O pau-de-água aproximou-se do banco, arrastando as pernas bambas, e a brisa anunciou sua chegada com um cheiro que não era de loção. Sua aura-um verde alegre e cheio de energia que fez Ralph pensar nos enfeites do dia de São Patrício - combinava estranhamente com a sua postura subserviente e com o sorriso piegas.

- Olá, pessoal! Como vai a vida?

- Já foi melhor - respondeu McGovern, erguendo a sobrancelha irônica - e espero que torne a melhorar quando você se mandar.

O pau-d'água olhou hesitante para McGovern, pareceu concluir tratar-se de uma causa perdida, e transferiu o olhar para Ralph.

- O senhor tem um trocado sobrando? Preciso ir a Dexter. Meu tio mandou me chamar no abrigo da rua Neibolt, dizendo que posso recuperar o meu emprego na usina, mas só se eu...

- Dá o fora, amigo - disse McGovern.

O pau-d'água lhe lançou um olhar breve e ansioso, voltando os olhos castanhos e injetados para Ralph.

- É um bom emprego, sabe? Posso recuperar ele, mas só se puder chegar lá hoje. Tem um ônibus...

Ralph meteu a mão no bolso, achou uma moeda de vinte e cinco centavos e outra de dez, e largou-as na mão estendida. O pau-d'água sorriu. A aura que o envolvia se avivou e, em seguida, repentinamente desapareceu. Ralph sentiu um grande alívio.

- Legal! Obrigado, chefe!

- De nada - respondeu.

O pau-d'água desembestou na direcção do Shop'n Save, onde algumas marcas de bebida como Night Train, Old Duke e Silver Satin viviam em oferta.

Que merda, Ralph, será que ia lhe doer se fosse um pouco caridoso também em pensamento?perguntou a si mesmo. E só andar mais um quilómetro naquela direcção, que se chega à rodoviária.

Verdade, mas Ralph vivera o suficiente para saber que havia uma enorme diferença entre a caridade e a ilusão. Se o pau-d'água com a aura verde-escura estava indo para a rodoviária, então Ralph estava indo para Washington assumir a Secretaria de Estado.

- Você não devia fazer isso, Ralph - MacGovern disse em tom de censura. - Está estimulando essa gente.

- Acho que sim - Ralph respondeu cansado.

- Que é que você ia dizendo quando foi tão rudemente interrompido?

A ideia de contar a McGovern sobre as auras agora parecia incrivelmente despropositada, e Ralph não conseguia por nada nesse mundo imaginar como chegara tão próximo de realizá-la.

A insónia, naturalmente-era a única resposta. Confundira sua capacidade de julgar, a memória das coisas mais recentes e a percepção.

- Que recebi uma coisa pelo correio hoje de manhã - disse Ralph. - Achei que poderia animá-lo. - E entregou o cartão-postal de Helen a McGovern, que o leu e releu. Da segunda vez, seu rosto eqüino se abriu num largo sorriso. A combinação de alívio e sincero prazer naquela expressão fez Ralph perdoar-lhe instantaneamente a ridícula autocomiseração. Era fácil esquecer que Bill podia ser as duas coisas: arrogante e generoso.

- Não é uma maravilha? Um emprego!

- Só é. Quer comemorar com um almoço? Tem uma pequena lanchonete perto da Rite Aid, chama-se Day Break, Sun Down. Talvez um tanto cheio de plantas, mas...

Obrigado, mas prometi à sobrinha de Bob que iria lá fazer-lhe um pouco de companhia.

Naturalmente ele não tem a menor idéia de quem sou, mas isso não faz diferença, porque eu sei quem ele é. Capisce?

- Claro - disse Ralph. - Fica para outro dia, então.

- Fechado. - McGovern passou os olhos novamente na mensagem do cartão-postal, ainda sorrindo. - Chuchu beleza, absolutamente chuchu beleza!

Ralph deu uma risada ao ouvir aquela velha e simpática expressão.

- Também achei.

- Teria apostado com você cinco dólares que ela ia voltar directo para o casamento com aquele lunático, levando à frente a neném sentada no carrinho... mas ficaria feliz de perder o meu dinheiro. Acho que talvez isso pareça maluquice.

- Um pouquinho - respondeu Ralph, mas somente porque sabia que isto era o que

McGovern esperava ouvir. Na verdade, pensava que Bill McGovern acabara de resumir seu caráter e visão de mundo mais sucintamente do que Ralph jamais seria capaz de fazer.

- É bom saber que alguém está melhorando ao invés de piorar, não é?

- Com certeza.

- Lois já viu isso? Ralph balançou a cabeça.

- Ela não estava em casa. Mas vou mostrar-lhe quando a vir.

- Faz muito bem. Está dormindo melhor, Ralph?

- Acho que vou me virando.

- Óptimo. Você está com um aspecto melhor. Mais forte. Não podemos entregar os pontos, Ralph, isso é o mais importante. Estou certo?

- Acho que sim - Ralph respondeu com um suspiro. - Pensando bem, acho que está.

DOIS DIAS depois, Ralph estava sentado à mesa da cozinha, comendo lentamente uma tigela de farelo de trigo, que na realidade não queria (mas supunha, de uma forma vaga, que lhe fazia bem), enquanto passava os olhos na primeira página do News de Derry. Lera rapidamente a notícia principal, mas foi a foto que continuou a atrair seu olhar; parecia expressar todo o mal-estar com que convivera nos últimos meses, sem conseguir na realidade explicá-lo.

Ralph achou que a manchete que encabeçava a fotografia -MANIFESTAÇÃO NA

WOMANCARE DETONA VIOLÊNCIA - não refletia o texto que se seguia, mas isso não o surpreendeu; lia o News há anos e se acostumara às suas parcialidades, que incluíam uma firme posição contra o aborto. Ainda assim, o jornal tivera o cuidado de se distanciar dos Amigos da Vida num editorial tipo ora-vamos-meninos-agora-chega, e Ralph não se surpreendia. O grupo se reunira no estacionamento entre a WomanCare e o hospital Derry Home, à espera de uns duzentos manifestantes a favor do aborto por opção que estava atravessando a cidade a partir do centro cívico. A maioria dos manifestantes carregavam cartazes com retratos de Susan Day e o slogan OPÇÃO SIM, MEDO NÃO.

A ideia dos manifestantes era ganhar adesões durante a caminhada, como uma bola de neve rolando morro abaixo. Diante da WomanCare, haveria um breve comício - visando a mobilizar as pessoas para a palestra de Susan Day - e depois um lanche. O comício não chegou a acontecer. Quando os manifestantes a favor do aborto se aproximaram do estacionamento, os Amigos da Vida apareceram e bloquearam a estrada, portando seus próprios cartazes (CRIME E CRIME, FORA SUSAN DAY, PAREM A MATANÇA DOS INOCENTES) à frente, como escudos.

Os manifestantes tinham sido acompanhados pela polícia, mas ninguém estava preparado para a velocidade com que os apartes e xingamentos se transformaram em murros e pontapés. Tudo começou quando uma das participantes dos Amigos da Vida reconheceu a própria filha entre os pró-aborto. A mulher mais velha largou o cartaz e avançou para a mais nova. O namorado da filha segurou a mulher mais velha e tentou contê-la. Quando Mamãe dilacerou a cara dele com as unhas, o rapaz a empurrou no chão. Isso detonou uma batalha que durou dez minutos e provocou a prisão de mais de trinta pessoas, divididas meio a meio entre os dois grupos.

A foto na primeira página do News desta manhã trazia Hamilton Davenport e Dan Dalton. O fotógrafo surpreendera Davenport num esgar que era o completo avesso do seu ar habitual de calma presunção. Tinha um punho erguido acima da cabeça num gesto primitivo de triunfo. De frente para ele - com o cartaz de Ham, OPÇÃO SIM, MEDO NÃO, enfiado na cabeça, como uma auréola surreal de papelão - encontrava-se o grand fromage dos Amigos da Vida. Os olhos de Dalton pareciam aturdidos, a boca frouxa. A foto em preto e branco com muito contraste fazia o sangue que escorria de suas narinas parecer molho de chocolate.

Ralph afastou os olhos da foto por um tempo, tentou se concentrar em terminar o cereal, e então se lembrou do dia no verão anterior quando vira um dos falsos cartazes de "procura-se", agora colados por toda Derry - o dia em que quase desmaiara na calçada do parque Strawford. Era principalmente nos dois rostos que sua mente se fixava: o de Davenport tomado de intensa raiva ao ver, pela vitrine empoeirada do Secondhand Rose, Secondhand Clothes, Dalton que exibia um sorrisinho desdenhoso parecendo sugerir que não se podia esperar que um macaco como Hamilton compreendesse a alta moralidade implícita na questão do aborto, e ambos sabiam disso.

Ralph reflectiu sobre essas duas expressões e a distância que separava seus donos e, após algum tempo, seus olhos voltaram à foto do jornal. Havia dois homens atrás de Dalton, ambos carregando cartazes pró-vida, que observavam com atenção o confronto. Ralph não reconheceu o magricela com óculos de aro de tartaruga e uma nuvem de cabelos grisalhos recuados da testa, mas conhecia o que se achava a seu lado. Era Ed Deepneau. Contudo, no contexto, Ed não parecia contar muito. O que atraía Ralph-e o assustava - eram os rostos dos dois comerciantes há anos estabelecidos lado a lado, na parte baixa da rua WitchamDavenport com o seu esgar de homem das cavernas e o punho erguido, Dalton com o olhar aturdido e o nariz sangrando.

Pensou: Se a pessoa não domina suas paixões, acaba sendo levada por elas. Mas é aí que é bom parar, porque...

- Porque se esses dois tivessem armas, teriam se matado - murmurou, e, nesse momento, ouviu a campainha da porta, a que ficava embaixo, na varanda. Ralph se levantou, olhou mais uma vez para a foto, e sentiu uma espécie de vertigem. Com ela veio uma certeza sinistra: era Ed quem estava lá embaixo, e só Deus sabia o que poderia querer.

Então não atenda, Ralph!

Ficou parado junto à mesa da cozinha por um longo e hesitante momento, desejando amargurado que pudesse vencer o nevoeiro que, este ano, parecia ter ocupado permanentemente sua cabeça. Então a campainha tocou uma segunda vez e ele descobriu que já se decidira. Não faria diferença nem se fosse Saddam Hussein; estava em sua casa, e não ia se entocar como um vira-lata que levou uma surra.

Ralph atravessou a sala, abriu a porta do hall, e desceu a escada escura.

A MEIO CAMINHO, descontraiu-se um pouco. A metade superior da porta que abria para a varanda era formada de caixilhos com grossos vidros. Eles distorciam a visão, mas não tanto que Ralph não pudesse ver que seus dois visitantes eram mulheres. Adivinhou imediatamente quem deveria ser uma delas e desceu correndo os degraus restantes, apoiando-se levemente no corrimão. Escancarou a porta e viu-se diante de Helen Deepneau que trazia uma sacola (PRONTO-SOCORRO PARA Bebés estava impresso de um lado) pendurada ao ombro e Natalie que espiava por cima do outro, os olhos vivos como os de um camundongo de desenho animado. Helen sorria esperançosa e um pouco tensa.

O rosto de Natalie subitamente se iluminou e ela começou a pular no porta-bebé que Helen usava, agitando os bracinhos para Ralph, excitada.

Ela se lembra de mim, Ralph pensou. Quem diria. E quando lhe estendeu os braços e deixou que Nat agarrasse com a mãozinha seu dedo indicador, os olhos de. Ralph se encheram de lágrimas.

- Ralph? - perguntou Helen. - Você está bem?

Ele sorriu, respondeu afirmativamente com a cabeça e abraçou-a. Sentiu Helen apertar os braços em torno do seu pescoço. Por um instante ficou tonto com a mistura do seu perfume com o cheirinho saudável de leite da neném, e então ela lhe deu uma estonteante beijoca na orelha e o soltou.

- Você está bem, não está? - ela perguntou. Tinha lágrimas nos olhos também, mas Ralph mal reparou; estava ocupado em examiná-la, certificando-se de que não restavam marcas do espancamento. Pelo que podia ver, não. Helen parecia perfeita.

- Melhor agora do que há semanas - respondeu.-Você é um verdadeiro colírio para meus olhos doloridos. Você também, Nat. - Beijou a mãozinha gorducha que continuava a reter seu dedo e não ficou inteiramente surpreso ao ver a fantasmagórica impressão azul acinzentada que seus lábios deixaram. A marca apagou-se quase no mesmo instante em que a notou e ele abraçou Helen outra vez, mais para ter certeza de que ela se encontrava realmente ali.

- Querido Ralph - ela murmurou em seu ouvido. - Querido e meigo Ralph.

Ele sentiu uma leve excitação na virilha, certamente provocada pelo perfume suave e pela cocegazinha que as palavras de Helen produziam em sua orelha... e então se lembrou de uma outra voz em seu ouvido. A voz de Ed. Estou telefonando para falar de sua língua, Ralph.

Ela está tentando metê-lo em apuros.

Ralph afastou-a um pouco para olhá-la melhor, ainda sorrindo.

- Você é um colírio, Helen. Ah, isso é.

- Você também. Gostaria que conhecesse uma amiga. Ralph Roberts, Gretchen Tillbury.

Gretchen, Ralph.

Ralph voltou-se para a outra mulher e deu-lhe uma primeira olhada, enquanto gentilmente fechava sua enorme mão nodosa sobre a mão branca e delicada da visitante. Ela era o tipo de mulher que fazia um homem (mesmo um que já deixara os sessenta para trás) querer se aprumar e encolher a barriga. Era muito alta, talvez um metro e oitenta, e loura, mas não era isso. Havia algo mais - algo como um cheiro, ou uma vibração, ou (uma aura) isso, uma aura. Era simplesmente uma mulher que não se podia deixar de olhar, em quem não se podia deixar de pensar, sobre quem não se podia deixar de especular.

Ralph lembrou-se de Helen ter-lhe dito que o marido de Gretchen lhe abrira a perna com uma faca de cozinha e abandonara-a para sangrar até morrer. Perguntou-se como um homem podia fazer uma coisa dessas; como um homem podia tocar tal criatura a não ser com admiração.

E também um pouquinho de desejo, talvez, após ultrapassar a fase do "Ela caminha bela como a noite". E por falar nisso, Ralph, talvez fosse uma boa hora para recolher seus olhos de volta às órbitas.

- Muito prazer em conhecê-la - disse largando a mão da mulher. - Helen me contou que foi vê-la no hospital. Obrigado por ajudá-la.

- Foi um prazer ajudar a Helen - respondeu Gretchen com um sorriso deslumbrante. Na verdade, ela é o tipo de mulher que compensa ajudar... mas tenho a impressão de que você sabe disso.

- Acho que sei - disse Ralph. - Tem tempo para uma xícara de café? Por favor, diga que sim.

Gretchen olhou para Helen, que concordou com a cabeça.

- Seria óptimo - disse Helen. - Porque... bem...

- Isso não é uma visita inteiramente social, é? - Ralph perguntou, olhando de Helen para Gretchen Tillbury e de volta para Helen.

Não - ela respondeu. - Precisamos lhe dizer uma coisa, Ralph.

ASSIM QUE CHEGARAM ao topo da escura escada, Natalie começou a se contorcer impaciente no porta-bebê, expressando-se naquele autoritário alarido dos bebés que em breve seria substituído por palavras de verdade.

- Posso segurá-la? - perguntou Ralph.

- Claro - disse Helen. - Se ela chorar, apanho-a na mesma hora. Prometo.

- Negócio fechado.

Mas Sua Majestade a Neném não chorou. Assim que Ralph a retirou do porta-bebé, ela sociavelmente passou um braço pelo seu pescoço e aninhou a bundinha na dobra do seu braço direito como se sentasse em sua espreguiçadeira privativa.

- Nossa - exclamou Gretchen. - Estou impressionada.

- Blig! - Natalie falou, agarrando o lábio inferior de Ralph e puxando-o como se fosse uma cortina dessas que se enrolam. - Gana uig! Andu-sis!

- Acho que ela fez algum comentário sobre as Andrews Sisters, aquelas cantoras da década de cinqüenta-falou Ralph.

Helen atirou a cabeça para trás e deu sua risada gostosa, aquela que parecia vir do fundo da alma. Ralph não tinha se dado conta da falta que sentira dessa risada até ouvi-la novamente.

Natalie soltou o lábio de Ralph, que voltou ao lugar como se fosse um elástico, enquanto ele conduzia as visitantes à cozinha, o cómodo mais ensolarado da casa a esta hora do dia. Viu Helen olhar a toda volta curiosamente enquanto ele acendia o fogão e percebeu que fazia muito tempo que ela não vinha ali. Tempo demais. Ela apanhou um retrato de Carolyn que estava na mesa da cozinha e examinou-o com atenção, um sorrisinho brincando no canto da boca. O sol iluminava as pontas de seus cabelos, agora cortados curtos, formando uma espécie de coroa em torno de sua cabeça, e Ralph teve uma súbita revelação: amava Helen em grande parte porque Carolyn a amara - ele e ela tinham sido aceitos profundamente no coração e na mente de Carolyn.

- Ela era tão bonita - Helen murmurou. - Não era Ralph?

- Era - respondeu tirando as xícaras (e cuidando de pô-las fora do alcance das mãozinhas inquietas e curiosas de Natalie). - Essa foto foi tirada uns dois meses antes de começarem as dores de cabeça. Acho que é meio excêntrico manter uma foto emoldurada sobre a mesa da cozinha, diante do açucareiro, mas este é o cómodo onde ultimamente parece que passo a maior parte do tempo, então...

- Na minha opinião, é um lindo lugar para a foto - disse Gretchen. Sua voz era baixa, docemente rouca. Se tivesse sido ela a sussurrar no meu ouvido, aposto como o meu velho passarinho teria feito mais do que se revirar em seu longo sono, pensou Ralph.

- Também acho - acrescentou Helen. Ela sorriu delicadamente, sem olhar para Ralph, deixou escorregar a sacola do ombro e descansou-a sobre a bancada. Natalie começou a tagarelar impaciente, esticando as mãozinhas assim que viu a embalagem plástica da mamadeira. Ralph teve uma lembrança viva, mas misericordiosamente breve: Helen cambaleando em direção ao mercadinho, um olho fechado de tão inchado, o rosto sujo de sangue carregando Natalie no quadril, como uma adolescente teria carregado um livro de escola.

- Quer tentar, vovô? - Helen perguntou. Seu sorriso se fortalecera um pouco e ela voltara a olhá-lo nos olhos.

- Claro, por que não? Mas o café...

- Eu me encarrego do café, Paizinho - ofereceu-se Gretchen. -Já fiz mais de mil xícaras na vida. Tem creme para café?

- Na geladeira.

Ralph sentou-se à mesa, deixando Natalie descansar a nuca contra o ombro e segurar a mamadeira com as mãos pequeninas e fascinantes. Com toda segurança, ela meteu o bico na boca e começou a chupá-lo imediatamente. Ralph sorriu para Helen e fingiu não ver que ela recomeçara a chorar um pouquinho.

- Eles aprendem depressa, não é?

- É - concordou Helen, puxando uma toalha de papel do rolo na parede junto à pia.

Enxugou os olhos. - Estou admirada de como ela está à vontade com você, Ralph, ela não era assim antes, era?

- Não me lembro muito bem - mentiu. Não era. Não chegava a ser arredia, não, mas nunca estivera tão à vontade.

- Mantenha o líquido na marca interna da mamadeira, sim? Se não ela vai engolir muito ar e se encher de gases.

- Entendido, câmbio - brincou ele, olhando para Gretchen. - Estou me saindo bem?

- Otimamente. Como toma o café, Ralph?

- Na xícara.

Ela deu uma risada e pôs a xícara na mesa, fora do alcance de Natalie. Quando tornou a sentar e cruzou as pernas, Ralph conferiu - não conseguiu se controlar. Ao reerguer os olhos, Gretchen tinha um sorrisinho irônico no rosto.

Que diabos, pensou Ralph. Nada como um bode velho. Mesmo um bode velho que não consegue dormir mais do que duas horas, duas horas e meia, por noite.

- Me conte sobre o seu emprego - pediu quando Helen se sentou para tomar o café.

- Bem, acho que deviam transformar o aniversário de Mike Hanlon em feriado nacional, já deu para entender?

- Mais ou menos - respondeu Ralph, sorrindo.

- Tinha quase certeza de que precisaria ir embora de Derry. Mandei pedir formulários de empregos em todas as bibliotecas, até no sul do estado, em Portsmouth, mas me sentia arrasada com isso. Vou fazer trinta e um anos, só moro aqui há seis, mas considero Derry meu lar. Não sei explicar o porquê, mas é verdade.

- Não precisa explicar, Helen. Acho que este sentimento de lar é uma coisa que acontece à pessoa, como a cor da pele ou a dos olhos.

Gretchen concordou com a cabeça.

- É, é bem assim.

- Mike me telefonou na segunda-feira e me disse que vagara o lugar de assistente na biblioteca infantil. Nem consegui acreditar. Quero dizer, passei a semana toda me beliscando para ver se estava acordada. Não foi, Gretchen?

- É, você tem andado muito contente - respondeu Gretchen - e tem sido um prazer ver isso.

Ela sorriu para Helen e para Ralph, e aquele sorriso foi uma revelação. De repente ele compreendeu que poderia olhar para Gretchen Tillbury o quanto quisesse, porque não faria a mínima diferença. Se o único homem na casa fosse o Tom Cruise, ainda assim, não faria nenhuma diferença. Ele se perguntou se Helen saberia disso, mas logo se censurou por sua tolice. Helen era muitas coisas, mas burra não era, não.

- Quando é que você começa? - perguntou-lhe.

- Na semana do descobrimento da América. No dia 12. Tardes e noites. O salário não é nenhuma fortuna, mas será suficiente para nos manter durante o inverno, independentemente da... do desfecho de minha situação. Não é fantástico, Ralph?

- E. Mais do que fantástico.

A neném bebera metade da mamadeira e agora dava sinais de ter perdido o interesse.

Metade do bico saltou de sua boca e um filete de leite escorreu pelo canto da boca até o queixo. Ralph esticou a mão para limpá-lo e seus dedos deixaram uma série de finas linhas azul-acinzentadas no ar.

Natalie procurou agarrá-las e riu quando se dissolveram em sua mão. A respiração de Ralph paralisou-se na garganta.

Ela vê. A neném vê o que eu vejo.

Isso é maluquice, Ralph. É maluquice e você sabe que é.

Só que ele não sabia. Acabara de ver acontecer - acabara de ver Nat tentar agarrar as marcas da aura que seus dedos tinham feito.

- Ralph? - Helen perguntou. - Você está bem?

- Claro. - Ele ergueu os olhos, vendo que Helen agora estava envolta em uma exuberante aura cor de marfim. Tinha o aspecto acetinado de uma lingerie cara. O fio de balão que se prolongava para o alto era igualmente marfim, largo e liso como a fita de um presente de casamento. A aura que cercava Gretchen Tillbury era laranja-escura tendendo para o amarelo nas bordas. - Você vai voltar para casa?

Helen e Gretchen trocaram outro daqueles olhares, mas Ralph mal notou. Não precisava observar seus rostos, gestos ou movimentos corporais para ler seus sentimentos, adivinhava-os; bastava olhar para suas auras. Os matizes amarelados nas bordas da de Gretchen agora escureciam, de modo que o todo tornou-se um laranja uniforme. Enquanto isso, a de Helen reduziu-se e avivou-se de tal forma, que era difícil olhá-la. Helen sentia medo de voltar. Gretchen sabia disso e estava irritada.

E com sua própria impotência, Ralph pensou. Isso a irrita ainda mais.

- Vou continuar em High Ridge mais um tempinho - Helen estava respondendo. Talvez até o inverno. Mais tarde Nat e eu voltaremos para a cidade, imagino, mas a casa vai ser vendida.

Se alguém a comprar, e do jeito que o mercado imobiliário está isto me parece uma grande incógnita, o dinheiro vai para uma conta bloqueada. A conta será repartida de acordo com a sentença. Sabe, a sentença do divórcio.

Seu lábio inferior tremia. Sua aura se contraíra ainda mais; agora colava-se ao seu corpo quase como uma segunda pele, e Ralph percebia que a perpassavam minúsculos lampejos vermelhos. Pareciam fagulhas dançando sobre um incinerador. Ele esticou o braço por sobre a mesa, segurou a mão de Helen e apertou-a. Ela sorriu agradecida.

- Você está me contando duas coisas - disse Ralph. - Que vai pedir o divórcio e que continua a ter medo dele.

- Ela foi espancada e maltratada regularmente durante os dois últimos anos do casamento

- interveio Gretchen. - Claro que continua a ter medo dele. - Falou num tom baixo, tranqüilo e lógico, mas olhar para sua aura agora era como espiar pela janelinha de ferro que antigamente havia nas portas dos fornos de carvão.

Ele olhou para a neném e viu-a agora envolta em sua própria nuvem de cetim luminosa e leve. Era menor que a da mãe, mas, de resto, idêntica... como os olhos azuis e os cabelos castanho-avermelhados. O fio de balão de Natalie saía do alto de sua cabeça numa fita muito branca que flutuava até o teto, ali formando um rolo etéreo ao lado da luminária. Quando um sopro de brisa entrou pela janela aberta junto ao fogão, ele viu a larga faixa branca se agitar e ondear. Tornou a erguer os olhos e viu que os fios de balão de Helen e Gretchen também ondeavam.

E se pudesse ver o meu, ele estaria fazendo o mesmo, pensou. E real-apesar do que aquela parte dois-mais-dois-são-quatro de minha mente possa pensar, as auras são reais. São reais e eu as vejo.

Aguardou a inevitável objeção, mas desta vez não houve nenhuma.

- Tenho a sensação de que ultimamente estou vivendo a maior parte do meu tempo numa máquina de lavar emocional - disse Helen. - Minha mãe está furiosa comigo... já fez de tudo só não me chamou ainda de covarde abertamente... e às vezes me sinto uma covarde... envergonhada...

- Você não tem do que se envergonhar - disse Ralph. Ergueu mais uma vez os olhos para o fio de balão de Natalie, tremulando à brisa. Era lindo, mas não sentiu vontade de tocálo; algum instinto profundo lhe dizia que isso poderia ser perigoso para ambos.

- Acho que sei disso - continuou Helen - mas as mulheres sofrem uma doutrinação muito forte. Do tipo: "Tome a sua Barbie, tome o seu Ken, tome a sua cozinha de aeromoça. Aprenda tudo direitinho, porque quando você crescer o seu papel será cuidar deles e, se alguma coisa der errado, a culpa será sua." Acho que poderia ter aceitado isso sem discussão, acho mesmo. Só que ninguém me disse que, em alguns casamentos, o Ken poderia endoidar. Será que estou parecendo muito chorona?

- Não. Me parece que foi bem isso que aconteceu. Helen riu - um som rascante, amargurado e cheio de culpa.

- Nem tente dizer isso à minha mãe. Ela se recusa a acreditar que Ed possa ter-me dado mais do que uma palmadinha de marido no bumbum uma vez ou outra... só para me repor no bom caminho se eu me desviasse. Ela acha que todo o resto é imaginação minha. Ela não diz isso explicitamente, mas percebo em sua voz todas as vezes que falamos ao telefone.

- EM não acho que seja imaginação sua - disse Ralph. - Eu vi, lembra-se? E foi a mim que você suplicou para não chamar a polícia.

Ele sentiu alguém lhe apertar a coxa por baixo da mesa e ergueu os olhos, espantado.

Gretchen Tillbury lhe fez um leve aceno com a cabeça, dando um segundo apertão - mais enfático.

- Verdade-disse Helen.-Você estava lá, não é mesmo? - Sorriu brevemente, o que era bom, mas o que estava acontecendo com sua aura era ainda melhor: aquelas faisquinhas vermelhas começavam a esmaecer, e a aura em si começava a se expandir outra vez.

Não, pensou. Não expandir. Afrouxar. Descontrair.

Helen se levantou e contornou a mesa.

- Nat está querendo sair do seu colo: é melhor me dar ela aqui.

Ralph olhou Nat e viu que ela observava o outro lado do cómodo, os olhos pesados, fascinados. Acompanhou seu olhar e viu o vasinho no parapeito ao lado da pia. Arranjara-o com flores de Outono há menos de duas horas e agora uma névoa verde e baixa borbulhava das hastes, envolvendo as flores em uma luz fraca e difusa.

Estou vendo as flores darem o último suspiro, pensou Ralph. Meu Deus, nunca mais vou cortar uma flor na vida. Prometo.

Helen tomou a neném carinhosamente dos braços de Ralph. Nat deixou-se levar sem protestos, embora seus olhos não desgrudassem das flores borbulhantes, enquanto a mãe voltava ao outro lado da mesa, sentava e a aninhava nos braços.

Gretchen bateu de leve no vidro do relógio.

- Se quisermos chegar à reunião ao meio-dia...

- Claro-disse Helen, desculpando-se.-Fazemos parte do comitê oficial de recepção à Susan Day - explicou a Ralph - o que no caso não é nenhum joguinho juvenil. Nossa principal tarefa não é realmente recepcioná-la, mas ajudar a protegêla.

- Você acha que vai haver problemas?

- Digamos que vai ser uma situação tensa - falou Gretchen. - Susan Day conta com meia dúzia de seguranças próprios, e eles têm-nos enviado faxes das ameaças que recebem de Derry. É o procedimento de rotina da equipe: Susan Day vem incomodando muita gente há muitos anos. Os seguranças nos mantêm informados, mas querem deixar muito claro que, embora sejamos os anfitriões, a segurança de Susan não é apenas responsabilidade da WomanCare mas deles também.

Ralph abriu a boca para perguntar se tinha havido muitas ameaças, mas supunha que já sabia a resposta. Morava em Derry há setenta anos, embora descontinuamente, e sabia que era uma máquina perigosa - possuía peças pontiagudas e arestas cortantes sob a superfície.

Isso era verdadeiro para muitas cidades, naturalmente, mas em Derry sempre parecera haver uma dimensão extra de maldade. Helen considerava a cidade seu lar, e era também o lar dele, mas...

Lembrou-se de um caso que acontecera há quase dez anos, pouco depois do encerramento do Canal Days Festival. Três rapazes atiraram um homossexual despretensioso e inofensivo chamado Adrian Mellon no Kenduskeag, depois de esfaqueá-lo e mordê-lo repetidamente; corria o boato de que ficaram parados na ponte, atrás da Falcon Tavern, observando-o morrer. Contaram à polícia que não gostaram do chapéu que ele usava. Isso também era Derry, e só um idiota desprezaria tal dado.

Como se a lembrança o levasse a isso (quem sabe levara), Ralph contemplou outra vez a foto na primeira página do jornal do dia - Ham Davenport com o punho erguido, Dan

Dalton com o nariz em sangue e os olhos aturdidos, com o cartaz de Ham na cabeça.

- Quantas ameaças? - perguntou. - Mais de uma dúzia?

- Umas trinta - respondeu Gretchen. - Dessas, o pessoal da segurança considera que doze são sérias. Duas são ameaças de explodir o Centro Cívico se ela não cancelar o compromisso. Uma, e essa é uma doçura, é de alguém que diz ter uma pistola de água, cheia de ácido. "Se eu acertar em cheio, nem mesmo as suas sapatões conseguirão olhar para você sem vomitar", ameaça.

- Que simpático - exclamou Ralph.

- Isso nos leva à razão da nossa visita - disse Gretchen. Apalpou o interior da bolsa, tirou uma latinha de tampa vermelha e colocou-a em cima da mesa. - Um presentinho dos amigos agradecidos da WomanCare.

Ralph ergueu a lata. De um lado, havia o desenho de uma mulher espalhando uma nuvem de gás sobre um homem de chapéu desabado e máscara nos olhos. Do outro, uma única palavra em letras maiúsculas vermelhas: GUARDA-COSTAS

- Que é isso?-perguntou chocado, sem se conter.-Gás paralisante?

- Não - respondeu Gretchen. - No Maine, gás paralisante é ilegal.Isto é muito mais suave, mas se você mirar bem na cara de alguém, ele não vai nem pensar em agredi-lo pelo menos por alguns minutos. Deixa a pele insensível, irrita os olhos e provoca náuseas.

Ralph tirou a tampa da lata e olhou para o bico vermelho de aerosol, antes de recolocá-la.

- Nossa, mulher, por que eu iria querer carregar uma lata dessas por aí?

- Porque você foi oficialmente considerado um Centurião.

- Um o quê? - Ralph admirou-se.

- Um Centurião. - Helen repetiu. Nat dormia profundamente em seus braços e Ralph se deu conta de que as auras tinham desaparecido. - É como os Amigos da Vida chamam seus principais inimigos, os líderes da oposição.

- Sei - disse Ralph. - Agora entendi. Ed me falou de gente a quem chamava de Centuriões no dia em que... espancou você. Mas falou muitas coisas naquele dia, e todas malucas.

- Verdade, Ed está por trás disso, e ele é maluco - disse Helen. - Achamos que só mencionou essa história de Centuriões para um pequeno círculo, gente quase tão biruta quanto ele. O resto dos Amigos da Vida... acho que não fazem a mínima ideia. Quero dizer, você fazia? Até o mês passado, você fazia ideia de que ele era maluco?

Ralph sacudiu a cabeça negativamente.

- Os laboratórios Hawkins finalmente o despediram - disse Helen. - Ontem.

Mantiveram ele como empregado o máximo possível, ele é óptimo no trabalho que faz e tinham investido muito nele, mas afinal tiveram que mandá-lo embora. Três meses de pagamento ao invés do aviso prévio... nada mal para um sujeito que espanca a mulher e atira bonecas cheias de sangue de mentira nas janelas da clínica feminina local. - Ela indicou o jornal com uma pancadinha. - Esta última manifestação foi a gota d'água. É a terceira ou quarta vez em que ele é preso desde que se envolveu com os Amigos da Vida.

- Vocês têm alguém lá dentro, não têm?-Ralph perguntou. - É assim que ficam sabendo de tudo. Gretchen sorriu.

- Não somos os únicos que têm um pé lá dentro; há uma piada corrente de que, na realidade, não há Amigos da Vida, há apenas uma quantidade de agentes duplos. O departamento de polícia de Derry tem alguém; a polícia estadual, também. E esses são só os que nós... quer dizer, a nossa pessoa lá... tem conhecimento. Diabos, o FBI também poderia estar investigando a organização. Os Amigos da Vida são eminentemente infiltráveis, Ralph, porque estão convencidos de que, no fundo, todos estão do seu lado. Mas acreditamos que a nossa pessoa é a única que conseguiu chegar mais perto do núcleo, e ela diz que Dan Dalton é apenas o rabo que Ed Deepneau abana.

- Concluí isso na primeira vez em que os vi juntos no telejornal - falou Ralph.

Gretchen se levantou, recolheu as xícaras de café, levou-as para a pia e começou a lavá-las.

- Sou participante ativa do movimento feminista há treze anos, já vi muita porra-louquice, mas nunca nada parecido antes. Ele fez esses panacas acreditarem que as mulheres de Derry estão praticando abortos involuntários, que metade delas nem sabia que estava grávida até os Centuriões aparecerem à noite para levar seus bebês.

- Ele falou a vocês sobre o incinerador em Newport? - Ralph perguntou. - Que é, na realidade, um crematório de bebês?

Gretchen virou-se de olhos arregalados.

- Como é que você sabe disso?

- Colhi essas informações com o próprio Ed, ali, em pessoa. Foi em julho de 92. - Ele hesitou apenas um momento, mas logo lhes fez um relato do dia em que encontrara Ed no aeroporto, de como ele acusara o homem do furgão de transportar bebês mortos em barris de MATA-MATO. Helen ouviu em silêncio, os olhos se arregalavam cada vez mais. - Ele falou do mesmo assunto no dia em que a espancou-terminou Ralph - mas tinha enfeitado consideravelmente a história àquela altura.

- Isso provavelmente explica porque se fixou em você - falou Gretchen - mas, na verdade, o porquê não faz diferença. O fato é que ele entregou aos amigos mais birutas uma lista dos chamados Centuriões. Não conhecemos todos, mas eu estou na lista, Helen está, Susan Day, é claro... e você.

Por que eu? Ralph quase perguntou, mas em seguida reconheceu que era mais uma pergunta desnecessária. Talvez Ed o tivessse escolhido para alvo, porque ele chamara os tiras quando espancara Helen; mas, provavelmente, não havia nenhuma razão compreensível para a escolha. Ralph lembrou-se de ter lido em algum lugar que David Berkovitz-também conhecido como o Filho de Sam - dizia ter matado, em algumas ocasiões, por ordem de seu cachorro.

- Que esperam que eles tentem? - Ralph perguntou. - Agressão armada, como num filme de Chuck Norris?

Ele sorriu, mas Gretchen não respondeu.

- A coisa é que não sabemos o que podem tentar - disse. - A resposta mais provável é: nada. Por outro lado, Ed ou um dos outros pode resolver jogar você pela janela da cozinha.

O spray é basicamente um gás lacrimejante fraco. Uma apolicezinha de seguro, é só.

- Seguro - ele falou pensativo.

- Você está em companhia muito seleta - disse Helen com um sorriso pálido. - O único outro Centurião do sexo masculino na lista, de que temos notícia, é o prefeito Cohen.

- Vocês lhe deram uma dessas? - Ralph perguntou, apanhando a lata de aerosol. Não parecia mais perigosa do que as amostras grátis de creme de barbear que recebia pelo correio de tempos em tempos.

- Não precisamos - respondeu Gretchen. Ela consultou mais uma vez o relógio. Helen viu o gesto e se levantou com a neném adormecida nos braços. - Ele tem licença para porte de arma.

- Como é que vocês sabem disso? - Ralph perguntou.

- Verificamos os registros da prefeitura - respondeu e riu. - As licenças para porte de arma encontram-se nos arquivos públicos.

- Ah. - Ocorreu-lhe uma ideia. - E Ed? Vocês verificaram? Ele tem uma?

- Não - ela afirmou. - Mas sujeitos como Ed nem sempre solicitam porte de arma depois que ultrapassam determinados limites... você sabe disso, não sabe?

- Sei - Ralph respondeu, levantando-se, também. - Imagino que sim. E vocês? Estão se cuidando?

- Pode apostar, Paizinho. Pode apostar.

Ele balançou a cabeça em aprovação, mas não ficou inteiramente satisfeito. Havia um toque ligeiramente condescendente na voz de Gretchen que não lhe agradou, como se considerasse a própria pergunta tola. Mas não era tola, e se ignorava isto, ela e seus amigos poderiam acabar tendo problemas. Problemas sérios.

- Espero que sim - falou. - Sinceramente. Posso levar Nat até lá embaixo para você, Helen?

- É melhor não, você a acordaria. - Olhou-o solenemente. - Você carregaria esse spray por mim, Ralph? Não suporto pensar que pode vir a se machucar porque tentou me ajudar e

Ed meteu alguma ideia maluca na cabeça.

- Vou pensar seriamente no caso. Está bem, assim?

- Acho que não tenho escolha. - Olhou-o atentamente, examinando seu rosto. - Você está com a aparência bem melhor desde a última vez em que o vi: voltou a dormir?

Ele riu.

- Para dizer a verdade, continuo com os meus problemas, mas devo estar melhorando, porque as pessoas não param de me dizer isso.

Ela ficou na ponta dos pés e beijou Ralph no canto da boca.

- Voltamos a nos falar, não? Quero dizer, vamos nos manter em contato.

- Farei a minha parte, se você fizer a sua, querida. Ela sorriu.

- Pode contar comigo, Ralph: você é o Centurião de sexo masculino mais querido que conheço.

Riram tanto da resposta, que Natalie acordou, olhando-os com sonolento espanto.

DEPOIS DE LEVAR as mulheres até o carro (SOU PRÓESCOLHA, E SOU ELEITORA! dizia o adesivo no pára-choque traseiro da Accord de Gretchen Tillbury), Ralph voltou lentamente para o segundo andar. O cansaço puxava seus calcanhares para baixo como pesos invisíveis. Na cozinha, olhou primeiro para o vaso de flores, procurando ver aquela estranha e bela névoa verde que subia das hastes. Nada. Apanhou o aerosol e reexaminou o desenho na lata. Uma Mulher Ameaçada, que mantinha heroicamente afastado o seu atacante; um Homem Mau completo com máscara e chapéu desabado. Não havia nuances ali; um simples caso de vamos, seu miserável, faça a minha felicidade.

Ocorreu a Ralph que a loucura de Ed era contagiosa. Havia mulheres por toda Derry Gretchen Tillbury e a sua meiga Helen entre elas - andando por aí com Ia tinhas desse spray nas bolsas, e todas as latas diziam a mesma coisa: Tenho medo. Os homens maus de máscaras e chapéus desabados chegaram a Derry e tenho medo.

Ralph não queria contato com aquilo. Ficando nas pontas dos pés, guardou a latínha no alto do armário de cozinha, junto à pia, depois enfiou o velho blusão de couro cinzento. Iria até a área de piqueniques próxima ao aeroporto ver se conseguia arranjar uma partida de xadrez.

Em caso negativo, quem sabe um joguinho de cartas. Parou à porta da cozinha, encarando fixamente as flores, tentando fazer a névoa verde aparecer. Nada aconteceu.

Mas estava ali. Você viu. Nat também viu.

Mas será que ela vira? De verdade? Os bebês viviam arregalando os olhos para as coisas, tudo os assombrava, então como é que ele poderia saber ao certo?

- Simplesmente sei - falou para o apartamento vazio. Correto. A névoa verde que saía das hastes das flores estivera ali, todas as auras estiveram ali, e...

- E continuam ali - acrescentou, e não sabia se devia sentir alívio ou espanto com a firmeza que percebia em sua voz.

Por ora, por que não tenta não sentir nenhuma das duas coisas, querido?

O pensamento dele, a voz de Carolyn, um bom conselho.

Ralph trancou o apartamento e saiu para a Derry dos Coroas, atrás de uma partida de xadrez.

 

QUANDO RALPH ia subindo a Avenida Harris, a caminho de casa, no dia 2 de outubro, levando na mão uns livros usados de faroeste, de Elmer Kelton, que comprara na Back Pages, avistou alguém sentado nos degraus da varanda, também segurando um livro. O visitante, porém, não estava lendo; apreciava com olhar de profundo devaneio o vento quente, que soprara o dia todo, colher as folhas amarelas e douradas dos carvalhos e dos três olmeiros que sobreviviam na calçada defronte.

Ralph se aproximou, observando os cabelos finos que esvoaçavam à volta da cabeça do homem, e o jeito com que sua gordura parecia ter-se concentrado nos quadris, barriga e traseiro. Aquela volumosa seção central somada ao pescoço descarnado, ao peito estreito e às pernas finas metidas em velhas calças de flanela verde davam-lhe a aparência de alguém que usasse uma câmara de pneu por baixo das roupas. Mesmo a uns cento e cinqüenta metros de distância, não havia realmente a menor dúvida quanto à identidade do visitante:

Dorrance Marstellar.

Suspirando, Ralph venceu a distância até o seu prédio. Dorrance, aparentemente hipnotizado pelas folhas coloridas que caíam, não olhou, até que a sombra de Ralph o alcançasse. Virouse, então, esticou o pescoço e sorriu, um sorriso meigo e estranhamente vulnerável.

Faye Chapin, Don Veazie e outros componentes da velha guarda que frequentavam a área de piqueniques junto à pista 3 do aeroporto (e se retirariam para o Jackson Street Billiard quando terminasse o verahico e o tempo esfriasse) consideravam aquele sorriso apenas mais um indicador de que o velho Dor, fosse ou não leitor de poesia, era essencialmente um desmiolado. Don Veazie, que não era nenhum modelo de sensibilidade, pegara o hábito de chamar Dorrance de Velho Chefe Cabeça Tonta, e Faye certa vez comentara com Ralph, que não era nenhuma surpresa que o velho Dor tivesse mais de noventa anos. "Gente de cabeça oca sempre vive mais", explicara a Ralph ainda no início daquele ano. "Porque não tem preocupações. Com isso, mantém a pressão do sangue baixa o que reduz a probabilidade de bater pino ou de queimar uma válvula," Ralph, porém, não tinha muita certeza disso. Para ele, a meiguice do sorriso de Dorrance não dava a impressão de que o velho fosse um cabeça-oca; mas sim puro e, ao mesmo tempo, sábio... uma espécie de mago Merlin caipira. Ainda assim, poderia passar sem a visita de Dor naquele dia; pela manhã batera um novo recorde, acordara a 1h5min da madrugada, e sentia-se exausto. Seu único desejo era sentar na sala, beber café, e tentar ler um dos livros de faroeste que comprara no centro. Talvez mais tarde, tentasse cochilar outra vez.

- Alô - cumprimentou Dorrance. O livro que empunhava era uma brochura, Cemetery Nights, de autoria de um tal Stephen Dobyns.

- Olá, Dor. Que tal o livro, bom?

Dorrance olhou para o livro, como se tivesse esquecido que o segurava, sorriu e confirmou com a cabeça.

- É, muito bom. Ele compõe poemas que parecem histórias. Nem sempre gosto do género, mas, às vezes, gosto.

- Que óptimo. Olhe aqui, Dor, é um prazer vê-lo, mas a caminhada ladeira acima me cansou um pouco, quem sabe podíamos deixar a visita para outro dia...

- Ah, tudo bem - respondeu Dorrance, erguendo-se. Envolvia-o um leve cheiro de canela que sempre fazia Ralph pensar em múmias egípcias protegidas por cordões de veludo vermelho, em museus sombrios. Seu rosto praticamente não tinha rugas, excepto uns minúsculos pés-de-galinha em torno dos olhos, mas sua idade era inconfundível (e um tanto alarmante): seus olhos azuis haviam desbotado para um cinza aguado de céu de abril e a pele adquirira uma claridade translúcida que lembrava a Ralph a pele de Nat. Os lábios eram frouxos e quase lilases. Estalavam quando ele falava. - Tudo bem, não vim visitar você; vim só lhe trazer um recado.

- Que recado? De quem?

- Não sei de quem - Dorrance falou, e o olhar que lançou a Ralph revelava que, em sua opinião, ou Ralph era tolo ou estava se fazendo de tolo.

- Não me meto em histórias antigas. E já lhe disse para fazer o mesmo, lembra-se?

Ralph lembrava alguma coisa, mas não sabia exactamente o quê. E pouco lhe importava.

Estava cansado, e já tivera de escutar uma cansativa lengalenga de Ham Davenport sobre Susan Day. Não tinha a menor vontade de ficar fazendo rodeios com Dorrance Marstellar, por mais bonita que estivesse a manhã de sábado.

- Bem, então que tal me dar o recado e me deixar subir?

- Ah, claro, está bem, óptimo. - Mas Dorrance parou de falar, voltando a olhar para a calçada defronte, onde um novo sopro de vento arrebatara uma espiral de folhas para o céu claro de outubro. Seus olhos pálidos se arregalaram e alguma coisa neles fez Ralph pensar outra vez em Sua Majestade a Neném, no jeito como agarrara as marcas azul-acinzentadas deixadas por seus dedos, e observara as flores chiando no vaso junto à pia. Ralph já vira Dorrance ficar acompanhando aviões decolarem e pousarem na pista 3, às vezes com a mesma expressão boquiaberta, por mais de uma hora.

- Dor? - chamou.

As pestanas ralas de Dorrance piscaram.

- Ah! Certo! O recado! O recado é...-franziu ligeiramente a testa e olhou para o livro que agora dobrava e redobrava nas mãos. Seu rosto então se iluminou e ele ergueu novamente os olhos para Ralph. - O recado é: "Cancele a consulta".

Foi a vez de Ralph franzir a testa.

- Que consulta?

- Você não devia ter-se intrometido - Dorrance repetiu, então deu um grande suspiro. Mas agora é tarde demais. O que foi feito não pode ser desfeito. Cancele a consulta. Não deixe aquele sujeito espetar agulhas em você.

Ralph ia dando as costas para os degraus da varanda, então virou-se para Dorrance.

Hong? Você está se referindo a Hong?

- Como é que vou saber? - Dorrance perguntou num tom irritado. - Eu não me meto, já lhe disse. De vez em quando, levo um recado, só isso, como agora. Mandaram lhe dizer para cancelar a consulta com o espetador de agulhas, e foi o que fiz. O resto é com você.

Dorrance voltara a contemplar as árvores na calçada defronte, seu rosto estranho e sem rugas deixando transparecer uma leve exaltação. O forte vento de outono ondulava seus cabelos como se fossem algas. Quando Ralph tocou no seu ombro, o velho se virou de boa vontade e Ralph percebeu de repente que onde Faye Chapin e outros viam tolice talvez houvesse realmente felicidade. Se assim fosse, o engano provavelmente revelava mais sobre eles do que sobre o velho Dor.

- Dorrance?

- Que é, Ralph?

- O recado... quem foi que mandou?

Dorrance pensou um pouco - ou talvez apenas aparentasse pensar um pouco - e em seguida estendeu o seu exemplar de Cernetery Nights.

- Tome.

- Não, obrigado - disse Ralph - Não gosto muito de poemas, Dor.

- Você vai gostar destes. Parecem histórias...

Ralph refreou uma forte vontade de agarrar o velho e

sacudi-lo até seus ossos chocalharem como castanholas.

- Acabei de comprar umas histórias de faroeste lá no centro, na Back Pages. O que quero saber é quem mandou o recado sobre...

Dorrance enfiou o livro de poemas na mão direita de Ralph - a que estava livre - com surpreendente energia.

- Um deles começa assim: "Cada coisa que faço, faço-a depressa, para poder fazer mais outra."

E antes que Ralph pudesse perguntar mais alguma coisa, o velho Dor atravessou o gramado até a calçada. Virou à esquerda, indo em direção à Extensão da Harris com o rosto voltado sonhadoramente para o céu azul, onde as folhas voavam rápidas, como se tivessem um encontro de amor mais além do horizonte.

- Dorrance! - Ralph gritou subitamente enfurecido. Do outro lado da rua, no mercadinho, Sue varria as folhas caídas do toldo diante da porta. Ao som da voz de Ralph, ela parou e olhou curiosa. Sentindo-se tolo... sentindo-se velho... Ralph produziu o que imaginou ser um grande e animado sorriso e acenou para a moça. Sue retribuiu o aceno, retomando seu trabalho. Dorrance, enquanto isso, seguira tranqüilamente o seu caminho. Encontrava-se agora a quase meio quarteirão dali. Ralph resolveu deixá-lo em paz.

ELE SUBIU os degraus da varanda, passando para a mão esquerda o livro que Dorrance lhe dera, de modo que pudesse procurar o chaveiro, mas viu que nem precisava se incomodar - a porta estava não somente destrancada como entreaberta. Rajph repreendera repetidamente McGovern por descuidar de trancar a porta da rua, e pensava que finalmente conseguira meter a ideia na cabeça dura do inquilino de baixo. Mas parecia que McGovern tivera uma recaída.

- Diabos, Bill - praguejou, penetrando na escuridão do vestíbulo e espiando nervoso para a escada. Era demasiado fácil imaginar Ed Deepneau escondido ali em cima, fosse ou não pleno dia. Contudo, não podia ficar no saguão o dia inteiro. Trancou a porta da rua e começou a subir as escadas.

Naturalmente não havia nada com que se preocupar. Assustou-se um pouco quando imaginou ter vislumbrado alguém no canto oposto da sala, mas era apenas o seu velho blusão cinzento. Na realidade, para variar, pendurara-o no cabide, ao invés de atirá-lo numa cadeira ou no braço do sofá; não admira que lhe tivesse pregado um susto.

Entrou na cozinha e, com as mãos metidas nos bolsos traseiros, parou para espiar a folhinha.

Fizera um círculo em torno da segunda-feira, e no centro anotara HONG - lOh.

Mandaram lhe dizer que cancelasse a consulta com o espetador de agulhas e foi o que fiz. O resto é com você.

Por um instante, Ralph sentiu-se tomando distância de sua vida, para poder apreciar a última parte do mural que ela pintara, ao invés de observar apenas o detalhe do hoje. O que viu assustou-o: uma estrada desconhecida corria em direção a um túnel escuro onde qualquer coisa poderia estar à espreita. Absolutamente qualquer coisa.

Então dê meia-volta, Ralph!

Mas tinha a impressão de que não podia fazer isso. Tinha a impressão de que rumava para o túnel, quisesse ou não entrar.

A sensação não era tanto a de estar sendo conduzido para o túnel, mas empurrado por mãos poderosas e invisíveis.

- Não importa - murmurou, esfregando nervosamente as têmporas com as pontas dos dedos, os olhos postos na data assinalada com um círculo na folhinha - dali a dois dias. E a insónia. Foi quando as coisas começaram realmente a...

Começaram realmente a o quê?

- A ficar esquisitas - falou para o apartamento vazio. - Foi quando as coisas começaram a ficar francamente esquisitas.

É, esquisitas. Uma porção de coisas esquisitas, e as auras que andava vendo eram as mais esquisitas. À fria luz cinzenta - à vista, parecia geada recente-avançava para o homem que lia o jornal no Day Break, Sun Down. A mãe e o filho que iam ao supermercado, as auras entrelaçadas subindo de suas mãos unidas como um rabo-de-cavalo. Helen e Nat engolfadas por lindas nuvens luminosas cor de marfim; Natalie tentando agarrar as marcas deixadas pelos dedos de Ralph em movimento, esteiras fantasmagóricas que só ela e Ralph eram capazes de ver.

E agora o velho Dor aparecia à sua porta como um excêntrico profeta do Velho

Testamento... só que, ao invés de lhe dizer para se arrepender de seus pecados, aconselhava-o a cancelar a consulta com o acupunturista que Joe Wyzer recomendara.

Devia ser engraçado, mas não era.

A boca daquele túnel. Cada dia mais próxima e maior. Haveria mesmo um túnel? E se havia, aonde levava?

Estou mais interessado no que estaria à espreita ali, Ralph pensou. À espreita na escuridão. Não devia ter-se intrometido, Dorrance dissera. Mas agora é tarde demais.

- O que está feito, não pode ser desfeito - Ralph murmurou, e de repente resolveu que não queria mais olhar a vida à distância; perturbava-o. Era melhor aproximar-se outra vez e examinar um detalhe de cada vez, a começar pela consulta com o acupunturista. Iria mantêla ou seguiria o conselho do velho Dor, a quem tinham apelidado de "fantasma do pai de Hamlet"?

Na realidade, não era uma pergunta que exigisse muita reflexão, Ralph concluiu. Joe Wyzer precisara passar uma cantada na secretária de Hong para lhe arranjar uma consulta no início de outubro e Ralph pretendia mantê-la. Se havia um caminho para sair desse matagal, provavelmente começava por dormir a noite inteira. E isso fazia de Hong o passo lógico seguinte.

- O que está feito não pode ser desfeito - ele repetiu, e foi para a sala ler um livro de faroeste.

No entanto, surpreendeu-se folheando o livro de poemas que Dorrance lhe dera Cemetery Nights, de Stephen Dobyns. Dorrance tinha razão em dois pontos: quase todos os poemas pareciam histórias, e Ralph descobriu que os achava muito bons. O poema que o velho Dor citara chamava-se Busca, e começava assim:

Each thing I do I rush through só I can do something else. In such a way do the days pass a Uend ofstock car racing and the never ending building ofa gothic cathedral.

Through the windows ofmy speeding car, I see ali that I lovefalling away: books unread, jokes untold, landscapes unvisited...*

Ralph leu o poema duas vezes, completamente absorto, pensando em lê-lo para Carolyn.

Carolyn gostaria do poema, o que era bom, e gostaria ainda mais dele (que, em geral, preferia os romances históricos e de faroeste) por descobrir o poema e traze-lo para ela como se fosse um buquê de flores. Ia mesmo se levantar à procura de um pedaço de papel para marcar a página, quando se lembrou de que fazia agora meio ano que Carolyn morrera e caiu no choro. Passou quase quinze minutos sentado na poltrona, com o livro de poemas no colo, enxugando os olhos com o punho. Finalmente foi para o quarto, deitou-se

 

  1. Trad. livre: Cada coisa que faço, faço-a depressa para poder fazer mais outra. Assim vão passando os dias em que corridas de carangos se misturam à lenta construção de uma catedral gótica. Pela janela do meu carro de corrida, vejo tudo que amo ficar para trás.'livros que não li, piadas que não contei, paisagens que não visitei...

 

e tentou dormir. Após uma hora contemplando o teto, levantou-se, preparou uma xícara de café e sintonizou uma partida de futebol universitário na TV.

A BIBLIOTECA pública abria nas tardes de domingo de uma às seis; no dia seguinte à visita de Dorrance, Ralph foi até lá, principalmente porque não tinha nada melhor para fazer. Na sala de leitura de teto alto, normalmente havia um punhado de velhos como ele, a maioria folheando os jornais de domingo que agora dispunham de tempo para ler, mas, quando Ralph saiu dentre as fileiras de estantes onde passara quarenta minutos escolhendo um livro, descobriu que a sala inteira era só sua. O deslumbrante céu azul da véspera cedera lugar a uma chuva pesada que colava as folhas caídas às calçadas ou as carregava para os bueiros da rede pluvial que, em Derry, era singular e desastrosamente confusa. O vento continuava a soprar, mas agora virará para o norte o que trazia um frio cortante. As pessoas mais velhas que tinham algum juízo (ou sorte) aconchegavam-se em casa, talvez assistindo ao último jogo de outra melancólica temporada do Red Sox, talvez brincando de coisas amenas com os netinhos, talvez fazendo a sesta depois de um farto almoço.

Ralph, porém, não achava graça no Red Sox, não tinha filhos nem netos, e parecia ter perdido completamente a capacidade de tirar uma sesta, se é que algum dia a possuíra.

Portanto, tomara o ônibus de uma hora da Linha Verde até a biblioteca, e ei-lo ali, desejando que tivesse vestido algo mais quente do que o velho e surrado blusão cinzento a sala de leitura estava gelada. E triste, também. A lareira estava apagada e o silêncio dos radiadores era um forte indício de que a fornalha ainda não fora acesa. A bibliotecária dos domingos tão pouco se dera ao trabalho de acender as luminárias quê pendiam do teto. A luz que chegava à sala parecia se extinguir no chão, e os cantos se enchiam de sombras. Os lenhadores, soldados, tamborileiros e índios nas velhas pinturas que decoravam as paredes pareciam espíritos malignos. A chuva fria batia nas janelas, estremecendo-as em suspiros.

Eu devia ter ficado em casa, pensou Ralph, mas não acreditava muito nisso; ultimamente ficar em casa era pior. Além do mais, encontrara um interessante livro novo nas estantes que apelidara de Seção do João Pestana: Padrões de Sono, do Dr. James Hall. Acendeu, então, as luzes do teto, deixando a sala um pouco menos sinistra, sentou-se em uma das quatro mesas compridas, e logo foi absorvido pela leitura.

Antes de se descobrir que os sonos REM e NREM constituíam estados distintos (dizia o autor), os estudos relativos à privação total de uma determinada fase do sono tinham conduzido à hipótese de Dement (1960), segundo a qual a privação... causa desorganização da personalidade durante a vigília...

Cara, você acertou na mosca, pensou Ralph. Não se consegue nem encontrar a porra de um envelope de sopa quando se quer.

...os estudos iniciais sobre a privação do sono também levantaram estimulantes especulações sobre a possibilidade da esquizofrenia ser um distúrbio em que a privação do sonho noturno permitiu a passagem do estado onírico para o estado de vigília.

Ralph debruçou-se sobre o livro, os cotovelos apoiados na mesa, os punhos comprimindo as têmporas, a testa enrugada e as sobrancelhas juntas num aperto de concentração. Refletiu se Hall poderia estar se referindo às auras, talvez até mesmo sem saber. Só que ele continuava a ter sonhos, diabos - na maioria muito vividos. Ainda na véspera, sonhara que estava dançando com Lois Chasse no velho pavilhão de Derry (que já não existia; fora destruído há oito anos por um grande temporal que quase varrera do mapa a maior parte do centro da cidade).

Aparentemente saíra com ela com a intenção de pedi-la em casamento, mas Trigger Vachon, imaginem, insistia em interrompê-los.

Ralph esfregou os olhos com os nós dos dedos, tentou concentrar-se e recomeçou a ler. Não viu o homem de camiseta cinzenta e larga aparecer de repente à porta da sala de leitura e postar-se ali, observando-o em silêncio. Depois de uns três minutos, o homem meteu a mão sob a camiseta (tinha estampado no peito o cachorro de Charlie Brown, Snoopy, com óculos escuros à Joe Cool) e tirou uma faca de caça de uma bainha presa ao cinto. A luz do teto refletiu na lâmina serrilhada da faca quando o homem a revirou de um lado para outro, apreciando seu gume. Então, ele se adiantou até a mesa onde Ralph se sentara com a cabeça apoiada nas mãos. Sentou-se ao lado de Ralph, que só notou de uma maneira vaga e muito distante que havia alguém ali.

A tolerância à perda do sono varia muito com a idade do paciente. Os mais novos apresentam sintomas precoces de distúrbios e um número maior de reações físicas enquanto os mais velhos...

Uma mão apertou de leve o ombro de Ralph, desconcentrando-o da leitura.

- Que aparência será que elas têm? - uma voz extasiada murmurou ao seu ouvido, as palavras engolfadas numa onda de bacon estragado refogado lentamente em alho e manteiga rançosa. - Suas tripas, quero dizer. Que aparência terão quando eu as espalhar pelo chão.

Que acha, Centurião sem fé, matador de bebés? Acha que elas serão amarelas, pretas, vermelhas ou de que cor?

Uma coisa dura e pontiaguda comprimiu o lado de Ralph e foi lentamente descendo por suas costelas.

- Mal posso esperar para descobrir - murmurou a voz extasiada. - Mal posso esperar.

RALPH VOLTOU a cabeça muito devagarinho, ouvindo os tendões de seu pescoço rangerem. Não sabia o nome do homem com mau hálito - o homem que estava enfiando uma coisa nas suas costelas que parecia demais com uma faca para não ser uma faca - mas reconheceu-o imediatamente. Os óculos com aros de tartaruga ajudaram, mas os cabelos grisalhos espetados como os de um palhaço, que lembravam ao mesmo tempo Don King e Albert Einstein, foram a característica decisiva. Era o homem que vira ao lado de Ed Deepneau no segundo plano da foto do jornal que mostrava Ham Davenport de punho erguido e Don Dalton com o cartaz de Davenport, OPÇÃO SIM, MEDO NÃO, à guisa de chapéu. Ralph achou que vira esse mesmo sujeito em reportagens de TV sobre as constantes manifestações pró e contra o aborto. Apenas um portador de cartaz, um rosto gritando na multidão; apenas um lanceiro. Só que agora parecia que esse tal lanceiro pretendia matá-lo.

- Que é que você acha? - perguntou o homem com a camiseta do Snoopy, ainda murmurando extasiadamente. O som de sua voz assustava Ralph mais do que a lâmina que deslizava lentamente para cima e para baixo sobre o seu blusão de couro, parecendo mapear os órgãos vulneráveis do lado esquerdo de seu corpo: pulmão, coração, rins, intestinos. De que cor?

Seu hálito era enjoatívo, mas Ralph teve medo de se desviar ou de virar a cabeça, medo de que qualquer gesto pudesse fazer a faca parar de rastrear e penetrar em seu corpo. Agora recomeçava mais uma vez a subir. Por trás das grossas lentes em aros de tartaruga, os olhos castanhos do homem flutuavam como peixes exóticos. Sua expressão era desconexa e estranhamente apavorante, pensou Ralph. Os olhos de um homem que via sinais no céu e talvez ouvisse vozes cochichando no fundo do armário, tarde da noite.

- Não sei - respondeu Ralph. - Para começar, nem sei por que você iria querer me ferir.

- Olhou rapidamente em volta, mas sem mexer a cabeça, na esperança de ver alguém, qualquer pessoa, mas o salão de leitura continuava vazio. Lá fora, o vento soprava com força e a chuva batia ruidosa nas janelas.

- Porra, porque você é um Centurião - cuspiu o homem grisalho. - Um porra que mata bebês. Um ladrão de/cios! Que vende a quem à maisl Sei tudo sobre você!

Ralph baixou vagarosamente a mão direita da fronte. Era destro, e tudo que por acaso recolhia durante o dia ia parar no bolso direito, mais jeitoso, da roupa que estivesse usando.

O velho blusão cinzento possuía grandes bolsos, mas temia que mesmo que conseguisse meter furtivamente a mão no bolso sem ser notado, o objeto mais letal que ia encontrar era uma embalagem amassada de chiclete. Duvidava que carregasse sequer um cortador de unhas.

- Foi Ed Deepneau quem lhe disse isso, não foi? - Ralph perguntou, e em seguida gemeu ao sentir a faca espetá-lo dolorosamente no ponto em que terminavam as costelas.

- Não fale o nome dele - murmurou o homem com a camiseta do Snoopy. - Não fale jamais o nome dele! Ladrão de criancinhas! Assassino covarde! Centurião - investiu de novo com a faca e desta vez realmente doeu quando a ponta perfurou o blusão de couro. Ralph não achou que o homem o cortara, ainda não, mas estava certo de que o biruta aplicara pressão suficiente para deixar um feio hematoma. Isso, porém, não fazia mal; se escapasse dessa só com um hematoma, poderia se considerar um homem de sorte.

- Tudo bem - falou. - Não falarei o nome dele.

- Peça desculpas! - sibilou o homem com a camiseta do Snoopy, cutucando-o com a faca. Desta vez perfurou a camisa de Ralph, e ele sentiu o primeiro filete de sangue morno escorrer pelo lado. O que será que está sob a ponta da faca agora? - perguntou-se. O fígado? A vesícula? O que será que fica aí do lado esquerdo?

Não conseguia lembrar ou não sabia. Subitamente ocorreu-lhe uma imagem que interrompia qualquer pensamento organizado - um veado pendurado de cabeça para baixo na balança de alguma loja do interior durante a temporada de caça. Os olhos vidrados, a língua pendurada e um corte escuro no ventre, que um homem com uma faca - uma faca igualzinha a esta - abrira no animal para arrancar suas entranhas, deixando apenas a cabeça, a carne e o couro.

- Sinto muito - disse Ralph com uma voz que perdera a firmeza. - Sinceramente.

- É isso aí! Você devia sentir, mas não sente, não! Não sente nada.

Mais uma espetadela. Uma pontada aguda de dor. Outra quenturinha úmida escorrendo pelo lado. E de repente a sala se iluminou, como se umas três equipes de câmeras que percorriam Derry, desde que os protestos contra o aborto começaram, tivessem se aglomerado ali e ligado os refletores em cima das câmeras de VT. Não havia câmeras, é claro; as luzes tinham-se acendido dentro dele.

Ele se virou para o homem da faca - o homem que naquele momento espetava a faca nele - e viu que estava envolto em uma aura cambiante verde e preta, o que fez Ralph pensar em (fogo-fátuo) na fraca fosforescência que por vezes vira nos manguezais após o anoitecer. Enredavam-se na aura cipós absolutamente negros. Ele observou a aura de seu agressor com crescente desânimo, mal sentindo a ponta da faca penetrar mais uns quatro milímetros. Tinha uma consciência distante de que o sangue se acumulava na parte inferior da camisa, ao longo do cinto, mas era só.

Ele é maluco, e realmente pretende me matar - não é conversa fiada. Ainda não está pronto, não se enfureceu o suficiente, mas daqui a pouco chega lá. E se eu tentar correr se tentar me afastar dois centímetros que seja da faca que enfiou em mim - me matará na hora. Acho que está esperando que eu resolva me mexer... e então poderá dizer a si mesmo que o provoquei, que a culpa foi minha.

- Você e outros de sua laia não são fáceis! - dizia o homem com os absurdos cabelos de palhaço. - Sabemos tudo sobre vocês.

A mão de Ralph chegara ao bolso direito... ele sentiu uma coisa meio grande que não reconheceu nem se lembrava de ter guardado ali. Não que isso fosse grande coisa; quando a pessoa já não conseguia lembrar se os últimos quatro números do telefone de informações sobre cinemas eram 1317 ou 1713, tudo era possível.

- Vocês não são fáceis! - repetiu o homem de cabelos de palhaço. - Não são fáceis, não são nada Fáceis. - Desta vez Ralph não demorou a sentir a dor quando o homem enterrou a faca; a ponta espalhou uma fina rede vermelha do peito até a nuca. Ele gemeu baixinho e sua mão apertou com força o bolso direito do blusão cinzento, moldando o couro à curvatura do objeto que continha.

- Não grite - disse o homem de cabelos de palhaço naquele sussurro de êxtase. - Ah, pode crer, você não vai querer fazer isso! - Seus olhos castanhos estudaram o rosto de Ralph, as lentes dos óculos os aumentavam de tal jeito que as caspinhas presas nos cílios pareciam ter o tamanho de seixos. Ralph podia ver a aura do homem até nos olhos: atravessava as pupilas como fumaça verde sobre águas negras. O cipoal que perpassava a luz verde agora estava mais grosso, entrelaçado, e Ralph compreendeu que, quando a faca cravasse nele, a parte da personalidade do homem que gerava aquele redemoinho negro seria a responsável por tal ato. O verde era confusão e paranóia; o preto era outra coisa.

Algo (exógeno) muito pior.

- Não - ofegou. - Não vou gritar.

- Óptimo. Sinto o seu coração, sabe. Sobe pela lâmina da faca até a palma de minha mão.

Deve estar batendo com força -os cantos da boca do homem se ergueram num sorriso súbito e despido de humor. Respingos de saliva prenderam-se em seus lábios. - Talvez você simplesmente despenque e morra de ataque cardíaco, e me poupe o trabalho de matá-lo? - mais um sopro daquele hálito enjoativo bateu no rosto de Ralph.-Você é velho pra caramba.

O sangue escorria agora pelo lado aparentemente em dois filetes, talvez três. A dor da ponta da faca perfurando sua carne era de enlouquecer - um ferrão de abelha gigante.

Ou um alfinete, pensou Ralph, e descobriu que a idéia era engraçada, apesar da fria em que se encontrava... ou talvez por isso mesmo. Ali estava o verdadeiro espetador de agulhas; James Roy Hong só podia ser uma pálida imitação.

E nem pude cancelar essa consulta - pensou Ralph. Mas, por outro lado, tinha a impressão de que malucos do tipo que usava camisa do Snoopy não aceitavam cancelamentos. Malucos como esse tinham uma agenda particular e mantinham seus compromissos, chovesse ou fizesse sol.

Quaisquer que fossem as consequências, Ralph sabia que não poderia suportar aquela ponta de faca na carne por muito mais tempo. Usou o polegar para levantar a aba do bolso do blusão e escorregou a mão para dentro. Soube que objeto era aquele no instante em que seus dedos o tocaram: o aerosol que Gretchen tirara da bolsa e colocara sobre a mesa da cozinha. Um presentinho dos seus amigos agradecidos da WomanCare, dissera.

Ralph não se lembrava de como a lata saíra de cima do armário da cozinha, onde a guardara, para o bolso do seu surrado blusão de outono, mas pouco lhe importava. Sua mão segurou a lata e ele usou de novo o polegar, desta vez para soltar a tampa plástica. Enquanto fazia isso, não tirou uma única vez os olhos do rosto contraído, assustado, exultante, do homem com cabelos de palhaço.

- Eu sei uma coisa - disse Ralph. - Se você prometer não me matar, eu lhe conto.

- O quê? - indagou o homem de cabelos de palhaço. - Essa é boa, que é que um porqueira como você pode saber?

Que é que um porqueira como eu pode saber? - Ralph se perguntou, e a resposta veio na hora, iluminou-se em sua cabeça como as barras de prêmios em uma máquina caça-níqueis. Forçou-se a penetrar a aura verde que revolvia em torno do homem, a horrível nuvem malcheirosa que emanava de seus intestinos revoltos. Ao mesmo tempo, foi tirando a latinha do bolso, firmou-a contra a coxa, e encaixou o dedo indicador no botão que disparava o spray.

- Eu sei quem é o Rei Sangüinário - murmurou.

Os olhos por trás dos óculos sujos arregalaram-se - não apenas de surpresa, mas de choque - e o homem de cabelos de palhaço retrocedeu um pouco. Por um instante, a terrível pressão no alto do lado esquerdo de Ralph diminuiu. Era a sua chance, a única que provavelmente teria, e ele a aproveitou, jogou o corpo para a direita, atirou-se da cadeira e rolou pelo chão. A parte posterior da cabeça bateu nos ladrilhos, mas a dor lhe pareceu distante e sem importância comparada ao alívio com a remoção da ponta da faca.

O homem com cabelos de palhaço protestou - um som em que se misturaram raiva e resignação, como se estivesse habituado a tais contratempos em sua longa e difícil vida.

Curvou-se sobre a cadeira de Ralph agora vazia, o rosto tenso esticado à frente, os olhos parecendo aqueles bichos fantásticos e luminosos que vivem nas profundezas do mar. Ralph ergueu a latinha de spray e teve apenas um segundo para perceber que não tivera tempo de verificar para que lado o furo do bico estava apontando - era bem capaz de só conseguir encher a própria cara com o Guarda-Costas.

Mas não dava para se preocupar com isso agora.

Ele apertou o bico, quando o homem de cabelos de palhaço avançou com a faca. A cara do homem foi envolvida por uma nuvem de gotículas que lembrava o purificador de ar com cheiro de pinho que Ralph mantinha sobre a caixa de descarga do banheiro. As lentes dos óculos se embaçaram.

O resultado foi imediato-Ralph não poderia ter desejado nada melhor. O homem com cabelos de palhaço gritou de dor, largou a faca (que bateu no joelho esquerdo de Ralph e se aninhou entre suas pernas) e levou as mãos ao rosto, arrancando fora os óculos. Eles caíram sobre a mesa. Ao mesmo tempo, a aura fina e um tanto gordurosa que o envolvia soltou lampejos vermelho-vivos que, em seguida, desapareceram-pelo menos do campo de visão de Ralph.

- ESÍOM cego! - berrou o homem de cabelos de palhaço com voz aguda. - Estou cego, cego!

- Não, não está, não - disse Ralph, pondo-se de pé trêmulo. - Você só...

O homem com cabelos de palhaço gritou de novo e se atirou no chão. Rolava de um lado para o outro no piso preto e branco, cobrindo o rosto com as mãos, berrando como uma criança que tivesse prendido a mão na porta. Ralph distinguia suas bochechas por entre os dedos entreabertos e lembrou-se de fatiazinhas de torta. A pele ali ia assumindo um alarmante tom vermelho.

Ralph disse a si mesmo que largasse o homem para lá, que ele era doido de pedra e perigoso como uma cascavel, mas sentia demasiado horror e vergonha do que fizera para aceitar esse excelente conselho. A idéia de que fora uma questão de sobrevivência, de imobilizar seu agressor ou morrer, já começara a parecer irreal. Abaixou-se e pôs a mão hesitante no braço do homem. O biruta rolou para longe dele e começou a sapatear com os tênis sujos no chão, como uma criança fazendo birra.

- Seu sacana! - gritava. - Você atirou uma coisa em mim! - e inacreditavelmente acrescentou: - Vou te processar e te deixar de tanga!

- Acho que você vai ter que explicar essa faca antes de poder levar adiante uma ação - disse Ralph. Ele viu a faca caída no chão, ia apanhá-la, mas pensou duas vezes. Seria melhor que suas impressões digitais não estivessem na arma. Ao se endireitar, sentiu uma tontura perpassar sua cabeça e, por um momento, o som da chuva batendo nas vidraças lhe pareceu abafado e distante. Ele chutou a faca para longe, pôs-se de pé com esforço e teve de se agarrar às costas da cadeira onde estivera sentado para não cair. Recuperou a firmeza. Ouviu passos que se aproximavam da entrada principal, acompanhados de murmúrios e indagações.

Agora vocês aparecem, Ralph pensou abatido. Onde estavam há três minutos, quando esse cara estava prestes a me furar o pulmão esquerdo como um balão?

Mike Hanlon, esbelto e jovem apesar da cabeleira grisalha, surgiu no portal. Logo em seguida vinha um adolescente, em quem Ralph reconheceu o recepcionista de fim de semana, e mais atrás quatro ou cinco curiosos, provavelmente leitores da sala de periódicos.

- Sr. Roberts! - Mike exclamou. - Nossa, o senhor se machucou muito?

- Estou óptimo, ele é que se machucou-respondeu Ralph. Mas por acaso bateu os olhos em si mesmo ao indicar o homem no chão e viu que não estava tão ótimo. Seu blusão subira quando ele apontou, mostrando que o lado esquerdo de sua camisa xadrez estava tinto de vermelho, formando uma lágrima que começava na axila. - Merda - exclamou indistintamente, e sentou-se outra vez na cadeira. Esbarrou o cotovelo nos óculos de aros de tartaruga que deslizaram quase até a borda da mesa. As gotas presas às lentes faziam os óculos parecerem olhos cegos por cataratas.

- Ele atirou ácido em mim! - berrava o homem no chão. -Não consigo enxergar e minha pele está derretendo! Sinto ela derreter! - Ele parecia a Ralph uma paródia semiconsciente da Bruxa Má do Oeste em O Mágico de Oz.

Mike deu uma olhada rápida no homem caído no chão e sentou-se numa cadeira junto a Ralph.

- Que foi que aconteceu?

- Bem, ácido não foi - disse Ralph, erguendo a latinha do Guarda-Costas. Descansou-a na mesa ao lado de Padrões de Sonho. - A senhora que me deu isso disse que não é tão forte quanto gás paralisante, apenas irrita os olhos e deixa a pessoa...

- O que me preocupa não é o que aconteceu com ele - Mike interrompeu impaciente. Uma pessoa que consegue berrar tão alto provavelmente não vai morrer nos próximos três minutos. É o senhor quem me preocupa, Sr. Roberts: tem alguma ideia da gravidade das facadas que recebeu?

- Ele não chegou realmente a me esfaquear - disse Ralph. - Ele... meio que me espetou.

Com aquilo. - Apontou a faca caída no chão ladrilhado. A vista da ponta vermelha, sentiu outra onda de tontura lhe atravessar a cabeça. Ela parecia um trem expresso feito de travesseiros de paina. Era uma idiotice, é claro, não fazia o menor sentido, mas sua mente não estava primando pela sensatez.

O auxiliar da recepção observava cautelosamente o homem no chão.

- Hum, hum - exclamou. - Nós conhecemos esse cara, Mike: é o Charlie Pickering.

- Pelas barbas do profeta! - exclamou Mike. - Por que é que nem estou surpreso? Olhou para o auxiliar de recepção e suspirou.-E melhor chamar os tiras, Justin. Parece que temos um problema aqui.

- ESTOU ENROLADO por ter usado isso? - Ralph perguntou uma hora mais tarde, e apontou para um dos dois sacos plásticos fechados sobre a superfície anilhada da escrivaninha no escritório de Mike Hanlon. Uma etiqueta amarela colada na frente informava PROVA Lata de aerosol DATA 10/3/93 e LOCAL Biblioteca Pública de Derry.

- Não tanto quanto o nosso amigo Charlie vai ficar por ter usado aquilo - John

Leydecker falou, apontando para o outro saco selado. Dentro dele, a faca de caça, na ponta o sangue, agora seco, escurecera. Leydecker hoje estava usando uma suéter de futebol da universidade do Maine. A roupa dava-lhe o tamanho aproximado de um curral de vacas leiteiras. - Ainda damos muito valor ao conceito de legítima defesa aqui no interior. Mas não fazemos muito alarde: seria o mesmo que declarar que acreditamos que a terra é plana.

Mike Hanlon, que estava encostado no portal, deu uma risada.

Ralph esperava que seu rosto não revelasse o profundo alívio que sentia. Enquanto um paramédico (parecia um dos caras que tinham levado Helen Deepneau para o hospital em agosto) cuidava dele - primeiro fotografou as facadas, depois desinfetou-as e, por fim, aplicou um ponto falso e enfaixou Ralph - ele permaneceu sentado com os dentes cerrados, imaginando um juiz a sentenciá-lo a seis meses no xadrez municipal, por agressão com uma arma semiletal. Temos esperanças, Sr. Roberts, de que isto sirva de exemplo e aviso a outros pés-na-cova das vizinhanças que se sintam à vontade andando por aí com latinhas de gás irritante...

Leydecker estudou novamente as seis fotos Polaroid dispostas ao lado do computador de Hanlon. O paramédico de cara jovem tirara as três primeiras antes de cuidar de Ralph. Mostravam um pequeno círculo escuro - parecia um desses grandes pontos que as crianças fazem quando estão aprendendo a escrever - na lateral do tronco de Ralph. Ele tirara as outras três depois de aplicar o ponto falso e pedir a Ralph que assinasse uma declaração impressa de que lhe tinham oferecido serviços hospitalares e que ele os recusara. No segundo grupo de fotos, podia-se perceber a formação de um futuro hematoma absolutamente espetacular.

- Deus abençoe Edwin Land e Richard Polaroid - disse Leydecker, enfiando as fotos em outro saco de PROVA.

- Acho que nunca existiu um Richard Polaroid - falou Mike Hanlon do portal.

- Provavelmente não, mas Deus o abençoe assim mesmo. Nenhum júri que veja essas fotos pode deixar de lhe conceder uma medalha, Ralph, e nem mesmo um ás como Clarence Darrow poderia desclassificá-las como provas. - Olhou para Mike. - Charlie Pickering!

Mike assentiu com a cabeça:

- Charlie Pickering.

- Cafajeste.

Mike concordou outra vez.

- Cafajeste de primeira.

Os dois se entreolharam solenemente e, em seguida, caíram na gargalhada. Ralph entendia exatamente o que sentiam - era engraçado porque era horrível e horrível porque era engraçado - e teve de morder os lábios furiosamente para não rir com os dois. A última coisa que queria fazer naquele momento era rir; ia sentir uma dor filha da mãe.

Leydecker puxou um lenço do bolso traseiro, enxugou as lágrimas que escorriam dos olhos e começou a recuperar a seriedade.

- Pickering é um dos participantes do Direito-à-vida, não é? - Ralph perguntou. Estava lembrando a cara de Pickering, quando o adolescente auxiliar de Hanlon o ajudara a sentar.

Sem óculos, o homem lhe parecera tão perigoso quanto um coelhinho numa vitrine de loja de animais.

- Pode-se dizer que sim - Mike concordou secamente.

- É o mesmo sujeito que apanharam no ano passado, no estacionamento que serve ao hospital e à WomanCare. Carregava uma lata de gasolina na mão e uma mochila cheia de garrafas vazias às costas.

- E pedaços de pano, não esqueça - Leydecker acrescentou. - Ia usá-los como mechas.

Isto na época em que Charlie era um membro respeitado do Pão-de-Cada-Dia.

- Faltou muito para ele tocar fogo na WomanCare? - Ralph perguntou curioso.

Leydecker deu de ombros.

- Muito pouco. Aparentemente alguém do grupo chegou à conclusão de que lançar coquetéis molotov na clínica feminina local talvez estivesse mais próximo do terrorismo do que da política e deu um telefonema anônimo para a polícia.

- Bem pensado - disse Mike. Soltou outra risadinha e cruzou os braços, como se quisesse refrear um novo acesso de riso.

- É - Leydecker concordou. Cruzou as mãos, esticou os braços e estalou os nós dos dedos. - Ao invés de prisão, um juiz atencioso e compreensivo mandou Charlie fazer seis meses de tratamento e terapia em Juniper Hill e lá devem ter resolvido que Pickering estava curado, porque ele voltou à cidade desde julho, mais ou menos.

- E - continuou Mike. - Ele vem aqui praticamente todos os dias. Assim para dar um toque diferente ao ambiente. Ele vai cercando quase todo mundo que entra e desfia aquela lengalenga de que as mulheres que fazem abortos vão sufocar em enxofre e que as muito mazinhas, como Susan Day, vão queimar para sempre em um lago de fogo. Mas não consigo imaginar por que ele se meteria com o senhor, Sr. Roberts.

- Sorte, eu acho.

- Você está bem, Ralph? - Leydecker perguntou. - Está meio pálido.

- Estou óptimo-disse Ralph, embora não se sentisse nada óptimo; na verdade, começava a sentir muita náusea.

- Não sei se está óptimo, mas que teve sorte, teve. Sorte por aquelas mulheres lhe darem a lata de gás de pimenta, sorte porque a trouxe consigo, e sorte ainda maior por Pickering não ter se aproximado pelas costas e metido aquela faca em sua nuca. Você quer ir até a delegacia agora prestar um depoimento formal ou...

Ralph saltou bruscamente da velha cadeira giratória de Mike Hanlon, atravessou a sala de um salto, uma mão tampando a boca, a outra tateando para abrir a porta no canto direito do escritório, rezando para que não fosse um armário. Se fosse, ele provavelmente iria encher as galochas de Mike de sanduíche de queijo quente semidigerido e sopa de tomate por digerir.

Mas era o cômodo que procurava. Ralph caiu de joelhos diante do vaso sanitário e vomitou com os olhos fechados, o braço esquerdo apertando com força o furo que Pickering fizera em seu lado. Mesmo assim, quando seus músculos primeiro se contraíram e em seguida se soltaram, a dor foi enorme.

- Acho que a resposta é não - disse Mike Hanlon às suas costas e pôs a mão na nuca de Ralph para consolá-lo. - Você está bem? O furo começou a sangrar de novo?

- Acho que não - respondeu Ralph. Começou a desabotoar a camisa, então parou, e novamente comprimiu o braço com força contra o corpo, ao sentir outro espasmo no estômago que, por fim, sossegou. Ergueu o braço e deu uma espiada no curativo.

Continuava imaculado. - Parece que estou bem.

- Óptimo - disse Leydecker. Ele estava parado logo atrás do bibliotecário. - Você terminou?

- Acho que sim. - Ralph olhou para Mike envergonhado. - Desculpe o transtorno.

- Não seja pateta. - Mike ajudou Ralph a se levantar.

- Vamos - disse Leydecker. - Vou-lhe dar uma carona até em casa. Amanhã teremos tempo para o depoimento. O que está precisando é ficar de pernas para o ar o resto do dia, e dormir uma boa noite de sono.

- Não há nada como uma boa noite de sono - Ralph concordou. Tinham alcançado a porta do escritório. - Quer largar o meu braço agora, detetive Leydecker? Ainda não estamos namorando firme, estamos?

Leydecker pareceu levar um susto, mas largou o braço de Ralph. Mike recomeçou a rir.

- Não estão... Essa é muito boa, Sr. Roberts. Leydecker estava sorrindo.

- Acho que não, mas você pode me chamar de Jack, se quiser. Ou John. Só não pode me chamar de Johnny. Desde que minha mãe morreu, a única pessoa que me chama de Johnny é o velho Professor McGovern.

Velho Professor McGovern, pensou Ralph. Que coisa mais estranha.

- Muito bem: será John. E vocês dois podem me chamar de Ralph. Para mim, Sr. Roberts sempre será aquela peça da Broadway estrelada por Henry Fonda.

- Negócio fechado - disse Mike Hanlon. - E cuide-se bem.

- Vou tentar - disse, e parou abruptamente. - Olhe aqui, tenho mais uma coisa a lhe agradecer, além da ajuda que me deu hoje.

Mike ergueu as sobrancelhas.

- Tem?

- Tenho. Você contratou Helen Deepneau. Gosto muito dela e estava precisando desesperadamente desse emprego. Por isso, muito obrigado.

Mike sorriu e assentiu com a cabeça.

- E um prazer aceitar seus agradecimentos, mas foi ela quem realmente me fez o favor. Na realidade, possui mais qualificações do que a função exige, mas acho que gostaria de continuar na cidade.

- Eu também gostaria que ficasse, e você ajudou a tornar isso possível. Portanto, mais uma vez, obrigado.

Mike sorriu.

- Foi um prazer.

- ACHO QUE foi o favo de mel que realizou o milagre, não foi? - Leydecker perguntou, ao saírem de trás do balcão.

Ralph, a princípio, não fez nem ideia do que o detetive grandão poderia estar-lhe perguntando - era como se tivesse falado esperanto.

- Sua insónia - esclareceu Leydecker pacientemente. - Desapareceu, certo? Deve ter desaparecido: você está um milhão de vezes melhor do que no dia em que o conheci.

Estava um pouquinho tenso naquele dia-disse Ralph.

Lembrou-se da velha piada de Billy Crystal sobre Fernando em que ele dizia: Olhe aqui, querido, não seja bobo; o importante não é o que você sente, mas o que aparenta sentir! E sua aparência... está... MARAVILHOSA!

- E hoje você não está? Ora, Ralph, é com o Leydecker que você está falando. Vamos, conte... foi o favo de mel?

Ralph pareceu refletir sobre o que ouvia e em seguida concordou com a cabeça.

- É, acho que deve ter sido.

- Fantástico! Eu não lhe disse? - Leydecker exclamava animado, quando saíram para a tarde chuvosa.

ELES AGUARDAVAM que o sinal abrisse no alto da Ladeira-Acima, quando Ralph se virou para Leydecker e perguntou quais eram as chances de acusar Ed de cumplicidade com Charlie Pickering.

- Porque foi Ed quem deu a ordem. Sei disso tão bem quanto sei que o parque Strawford fica ali adiante.

- Você provavelmente tem razão - respondeu Leydecker - mas não se engane, as chances de acusá-lo de cumplicidade são mínimas. Não seriam muito boas nem se o Promotor Municipal não fosse o conservador que é.

- Por que não?

- Primeiro, porque duvido que a gente possa expor uma ligação íntima entre os dois.

Segundo, porque caras como Pickering costumam ser extremamente leais às pessoas que identificam como "amigos", porque têm poucos, o mundo deles é basicamente formado de inimigos. Sob interrogatório, não creio que Pickering vá repetir muita coisa do que disse enquanto fazia cócegas em suas costelas com a faca de caçar. Terceiro, porque Ed Deepneau não é nenhum bobo. Doido, sim, objetivamente até mais doido do que Pickering, mas não é nenhum bobo. Não vai admitir nada.

Ralph concordou com a cabeça. Tinha exatamente a mesma opinião sobre Ed.

- Se Pickering dissesse que Deepneau mandou procurá-lo para apagá-lo, porque você é um Centurião que rouba fetos e mata bebés, Ed apenas sorriria para nós e diria que não duvidava que o coitado do Charlie tivesse dito isso, que o coitado do Charlie talvez até acreditasse nisso, mas que isso não transformava o dito em verdade.

O sinal abriu. Leydecker atravessou o cruzamento, depois virou à esquerda na Avenida

Harris. Os limpadores de pára-brisas batiam oscilantes. O parque Strawford, à direita de Ralph, parecia uma miragem ondulante em meio à chuva que escorria em torrentes pela janela do seu lado.

- E o que poderíamos argumentar? - Leydecker continuou. - Charlie Pickering tem realmente uma longa história de instabilidade mental. Em matéria de manicômios, ele já fez o circuito completo: Juniper Hill, Acadia Hospital, Bangor Mental... se existe lugar onde haja tratamentos de choque gratuitos e camisas que abotoam nas costas, então Charlie provavelmente já esteve lá. Ultimamente sua mania favorita é o aborto. No fim dos anos sessenta, seu grilo era a líder feminista, Margaret Chase Smith. Ele escrevia cartas para todo o mundo: o departamento de polícia de Derry, a polícia estadual, o FBI, e contava que ela era espiã russa. E que tinha provas.

- Essa não, é inacreditável.

- Que nada; é a cara do Charlie Pickering, e aposto como existe uma dúzia deles em cada cidade do tamanho da nossa nos Estados Unidos. Aliás, no mundo inteiro.

Ralph escorregou a mão até o lado esquerdo e tocou o curativo quadrado. Seus dedos acompanharam a forma do esparadrapo sob a gaze. Mas não conseguia esquecer os olhos castanhos de Pickering ampliados pelas lentes-aquela expressão simultânea de êxtase e terror. Começava a achar difícil acreditar que o dono daqueles olhos quase o matara, e receava que, no dia seguinte, tudo aquilo pudesse parecer os tais sonhos que invadem a vida real de que falava o livro de James A. Hall.

- A merda, Ralph, é que um biruta como Charlie Pickering transforma-se no instrumento perfeito para uma cara como Deepneau. Agora mesmo, o nosso amiguinho espancador de mulher tem praticamente uma tonelada de desmentidos.

Leydecker virou na entrada ao lado do prédio de Ralph e estacionou atrás de um grande Oldsmobile com manchas de ferrugem na tampa do porta-malas e um adesivo muito velho no pára-choque - DUKAKIS 88.

- De quem é esse brontossauro? Do Professor?

- Não - respondeu Ralph. - É o meu brontossauro. Leydecker lhe lançou um olhar incrédulo, ao estacionar o Chevrolet do departamento de polícia.

- Se você tem carro, como é que fica plantado em ponto de ônibus debaixo de temporal? O carro não anda?

- Anda - respondeu Ralph um tanto secamente, sem querer acrescentar que, talvez estivesse enganado, fazia mais de dois meses que não punha o Oldsmobile na estrada. - E eu não estava plantado debaixo do temporal; aquilo era um abrigo de ônibus e não uma parada de ônibus. Tem uma cobertura. E até um banco. Não tem TV a cabo, é verdade, mas é só esperar mais um ano.

- Ainda assim... - Leydecker disse, olhando o Oldsmobile desconfiado.

- Passei os últimos quinze anos de minha vida pilotando uma escrivaninha, mas antes trabalhava como vendedor. Durante uns vinte e cinco anos, rodei uma média de l.SOOkm por semana. Quando passei a trabalhar na gráfica, já não fazia a menor questão de me sentar ao volante de um carro. E desde que minha mulher faleceu, não encontro muito motivo para dirigir. O ônibus me serve muito bem para quase tudo.

Não dissera nenhuma mentira; só não vira necessidade de acrescentar que cada vez confiava menos em seus reflexos e em sua visão reduzida. Há um ano, um garoto de uns sete anos atravessara correndo a Avenida Harris atrás de uma bola de futebol, quando Ralph estava voltando do cinema e, embora viesse dirigindo a apenas 30km por hora, aterrorizara-se durante dois intermináveis segundos com a ideia de que ia atropelar o menininho. Não atropelara, é claro - nem mesmo chegara próximo disso, não mesmo - mas achava que podia contar nos dedos as vezes em que dirigira o Oldsmobile desde então.

Também não vira necessidade de contar isto a John.

- Bem, seja como quiser - disse Leydecker, acenando vagamente na direção do

Oldsmobile. - Que tal uma da tarde para o seu depoimento amanhã, Ralph? Venho ao meio-dia, para ver se está tudo bem. Podemos tomar um café, se quiser.

- Acho óptimo. E obrigado pela carona.

- Não foi nada. E só mais uma coisa...

Ralph começara a abrir a porta do carro. Tornou a fechá-la e se virou para Leydecker, as sobrancelhas erguidas.

Leydecker olhou para as próprias mãos, remexeu-se sem graça ao volante, pigarreou e então tornou a erguer os olhos.

- Só queria dizer que você é uma grande figura - falou Leydecker. - Muitos caras com menos quarenta anos do que você teriam terminado a aventura de hoje no hospital. Ou no necrotério.

- Acho que meu anjo da guarda estava de serviço - respondeu Ralph, pensando na surpresa que tivera ao perceber o que era a forma redonda no bolso do blusão.

- Bom, talvez fosse isso, mas, mesmo assim, hoje à noite você vai verificar se a porta ficou bem trancada. Está me ouvindo?

Ralph sorriu e concordou com a cabeça. Merecido ou não, o elogio de Leydecker produzira um calorzinho em seu peito.

- Vou verificar e, se conseguir que McGovern coopere, vai ficar tudo cem por cento.

Além disso, pensou, sempre posso descer e tornar a verificar pessoalmente a fechadura quando acordar. O que deverá acontecer umas duas horas e meia depois de eu dormir, do jeito que as coisas caminham.

- Vai ficar tudo cem por cento - disse Leydecker. - Ninguém lá no meu trabalho gostou muito quando Deepneau se uniu aos Amigos da Vida, mas não vou dizer que nos surpreendemos: ele é um cara bonitão, carismático. Isto é, quando a gente o encontra em dia em que ele não andou fazendo a mulher de saco de pancada.

Ralph concordou.

- Por outro lado, já vimos caras como ele antes e sabemos que são autodestrutivos.

Deepneau já iniciou o processo. Perdeu a mulher, perdeu o emprego... você está sabendo?

- Hum-hum. Helen me contou.

- Agora está perdendo os seguidores mais moderados. Eles estão abandonando a esquadrilha que nem avião de caça retornando à base por falta de combustível. Mas o Ed não: ele vai prosseguir aconteça o que acontecer. Imagino que ainda vá reter alguns até a palestra de Susan Day, mas, depois, acho que não vai sobrar ninguém.

- Já lhe ocorreu que ele talvez tente alguma coisa na sexta-feira? Que talvez tente ferir Susan Day?

- É claro - respondeu Leydecker. nós. Sem a menor dúvida.

- Já ocorreu a todos RALPH FICOU felicíssimo ao encontrar, desta vez, a porta da varanda trancada.

Destrancou-a apenas o tempo suficiente para entrar, e subiu pesadamente a escada do vestíbulo que esta tarde lhe pareceu mais longa e mais escura que nunca.

O apartamento lhe pareceu demasiado silencioso apesar do tamborilar incessante da chuva no telhado, e o ar, demasiado carregado de incontáveis noites de insónia. Ralph puxou uma das cadeiras da mesa da cozinha até a bancada, subiu nela e espiou em cima do armário mais próximo à pia. Era como se esperasse encontrar outra lata de Guarda-Costas-a lata original, a que ele guardara ali depois de se despedir de Helen e da amiga Gretchen - e parte de Ralph realmente esperava isso. Mas não havia nada ali, excepto um palito, um fusível de cartucho e muita poeira.

Ele desceu cautelosamente da cadeira, reparou que deixara pegadas sujas no assento, e usou uma toalha de papel para limpá-las. Em seguida, repôs a cadeira junto à mesa e foi para a sala. Parou ali, deixando os olhos correrem do sofá, com a encardida capa de flores, à poltrona, dali para a velha televisão, sobre a mesinha de carvalho, entre as duas janelas que se abriam para a Avenida Harris. Da TV, seu olhar se deslocou para o canto mais distante.

Quando entrara no apartamento no dia anterior, ainda um pouquinho chateado por encontrar a porta da varanda destrancada, Ralph, por um instante, tomara seu blusão pendurado no cabide àquele canto por um intruso. Bem, não precisava se envergonhar; pensara, por um momento, que Ed tivesse decidido visitá-lo.

Mas eu nunca penduro o blusão. Era uma das coisas que eu fazia - uma das poucas, acho-que costumava realmente irritar Carolyn. E se nunca consegui me habituar a pendurá-lo enquanto ela viveu, com toda certeza não me habituei desde que ela morreu.

Não, não fui eu que pendurei o blusão.

Ralph atravessou a sala, revirou os bolsos do blusão de couro cinzento, colocando o que encontrou em cima da televisão. Não havia nada no bolso esquerdo, a não ser uma velha embalagem de drops com fiapos de tecido presos na pastilha de cima, mas o bolso da direita era uma arca do tesouro, mesmo sem a lata de aerosol. Havia um pirulito de limão ainda na embalagem; um anúncio da Derry House of Pizza; uma pilha; uma caixinha vazia de papelão que contivera uma torta de maçã do McDonaWs; seu cartão de desconto do Dave's Video Stop, faltando apenas quatro furos para ganhar uma locação gratuita (dera o cartão como desaparecido em combate há mais de duas semanas e tinha certeza de que o perdera); uma caixa de fósforos; vários retalhos de papel de alumínio... e um pedaço de papel dobrado, pautado em azul.

Ralph desdobrou-o e leu uma única frase, escrita numa letra de velho, desalinhada e tremida:

Cada coisa que faço, faço-a depressa para poder fazer mais outra.

Era só o que dizia, mas era o suficiente para confirmar em seu cérebro o que seu coração já sabia: Dorrance Marstellar estava nos degraus da varanda quando Ralph voltara da Back Pages com seus livros, mas fizera outras coisas antes de se sentar para esperá-lo. Subira até o apartamento de Ralph, removera a lata de aerosol de cima da prateleira da cozinha e a guardara no bolso direito do velho blusão cinzento de Ralph. E até deixara seu cartão de visita: um verso rabiscado em um pedaço de papel, provavelmente rasgado do caderninho surrado em que, por vezes, registrava chegadas e partidas na Pista 3. Depois, ao invés de repor o blusão no lugar onde Ralph o deixara, o velho Dor pendurara-o ordeiramente no cabide. Feito isto (o-que-está-feito-não-pode-ser-desfeito) voltara à varanda para esperar.

Na noite anterior, Ralph reclamara com McGovern por ter deixado a porta da varanda destrancada outra vez, e McGovern suportara a reclamação com a mesma paciência com que Ralph suportara as de Carolyn quando ele largava o blusão na primeira cadeira que encontrava ao chegar, ao invés de pendurá-lo, mas agora pensava se não teria acusado Bill injustamente. Talvez o velho Dor tivesse aberto a porta com uma chave falsa... ou enfeitiçado a fechadura. Nas circunstâncias, a feitiçaria parecia mais provável. Porque...

- Porque veja bem - Ralph falou em voz baixa, recolhendo mecanicamente o lixo que espalhara em cima da TV para repô-lo nos bolsos de onde o tirara. - Não é apenas ele parecer saber que eu iria precisar da lata; sabia onde encontrá-la, e sabia onde botá-la.

Um arrepio ziguezagueou por suas costas e sua mente tentou reprimir tal ideia - rotulá-la de insensata, ilógica, o tipo de coisa que um paciente com insónia aguda inventaria. Talvez.

Mas isso não explicava o pedaço de papel, não é?

Ele estudou novamente as palavras rabiscadas no papel pautado de azul - Cada coisa que faço, faço-a depressa para poder fazer mais outra. A letra era tão sua quanto Cemetery Nights era um livro seu.

- Só que agora é; Dor me deu - disse Ralph, e o arrepio percorreu suas costas outra vez, abrindo-se em raios como uma rachadura em pára-brisa.

E que outra explicação lhe ocorre? Aquela lata não voou para dentro de seu bolso. Nem a folha de papel.

A sensação de estar sendo impelido por mãos invisíveis em direção às entranhas de um túnel escuro retornou. Sentindo-se como num sonho, Ralph voltou à cozinha. A caminho, despiu o blusão cinzento e atirou-o no braço do sofá, sem sequer pensar. Parou à porta algum tempo, olhou fixamente para o calendário com a estampa de dois meninos sorridentes que esculpiam uma abóbora. Olhou a data do dia seguinte, marcada por um círculo.

Cancele a consulta com o espetador de agulhas, Dorrance dissera; essa era a mensagem que hoje o espetador de facas mais ou menos enfatizara. Diabos, escrevera-a em néon.

Ralph procurou um telefone nas Páginas Amarelas e discou-o.

- Você discou para o consultório do Dr. James Roy Hong - informou uma agradável voz feminina. - No momento, não podemos atender sua ligação, por favor, deixe o seu recado após o sinal. Retornaremos sua ligação assim que possível.

A secretária eletrônica emitiu um bip. Com uma voz que o surpreendeu pela firmeza, Ralph disse:

- Aqui é Ralph Roberts. Tenho uma consulta marcada para amanhã, às dez horas. Sinto muito, mas não poderei comparecer. Aconteceu um imprevisto. Muito obrigado - fez uma pausa e acrescentou: - Naturalmente pagarei a consulta.

Fechou os olhos e repôs o fone, às apalpadelas, no gancho. Apoiou então a testa na parede.

Que é que você está fazendo, Ralph? Em nome de Deus, que acha que está fazendo?

- E longa a viagem de volta ao Paraíso, querido.

Você não pode estar pensando seriamente no que está pensando... pode?

- ...um longo caminho, por isso não se preocupe com ninharias.

Que é que você está pensando exactamente, Ralph?

Ele não sabia; não tinha a mínima ideia. Algo ligado ao destino, supunha, e a compromissos em Samarra. Só sabia com certeza que círculos de dor começavam a se espalhar a partir do furinho no lado esquerdo, o furo que o espetador de facas fizera. O paramédico lhe dera meia dúzia de analgésicos e achava que devia tomar um, mas, neste momento, sentia-se demasiado cansado até para ir à pia encher um copo de água... e se estava demasiado cansado para atravessar uma merdinha de cozinha, como é que um dia iria fazer a longa viagem de volta ao Paraíso?

Ralph não sabia e, por ora, não estava nem ligando. Só queria ficar parado ali, com a testa apoiada à parede e os olhos fechados para não precisar olhar para nada.

 

A PRAIA era uma longa orla branca, como uma nesga de combinação de seda sob a bainha de um mar azul intenso, e achava-se totalmente vazia, excepto por um objeto a mais de sessenta metros de distância. O objeto redondo tinha o tamanho de uma bola de basquete, e encheu Ralph de um temor ao mesmo tempo profundo e - pelo menos por ora infundado.

Não se aproxime, disse a si mesmo. É alguma coisa ruim. Uma coisa realmente ruim. É como um cão negro uivando para uma lua que só aparece de três em três anos, como sangue na pia, como um corvo empoleirado no busto de Palas bem na entrada do quarto.

Você não quer se aproximar dele, Ralph, e não precisa fazê-lo porque isto é um daqueles sonhos lúcidos de que Joe Wyzer falou. Você pode simplesmente dar meia-volta e ir embora, se quiser.

Só que, querendo ou não, seus pés começaram a levá-lo para adiante, por isso talvez não fosse um sonho lúcido. Nem agradável, nem um pouco. Porque quanto mais se aproximava do objeto na praia, menos ele se parecia com uma bola de basquete.

Era de longe o sonho mais real que Ralph já vivera, e o fato de saber que estava sonhando até parecia acentuar a sensação de realidade. De lucidez. Sentia a areia fina e solta sob seus pés, morna mas não quente; ouvia o fragor das ondas ao quebrarem e se espalharem pela parte baixa da praia, onde a areia brilhava como pele morena e molhada; sentia o cheiro forte e úmido do sal e de algas que secavam, um cheiro que lhe lembrava férias de verão passadas na praia de Old Orchard, quando era criança.

Olhe aqui, amizade, se você não pode mudar este sonho, quem sabe pode apertar o botão de ejeção e saltar fora - acordar, em outras palavras, agora mesmo.

Já vencera metade da distância até o objeto na praia e não alimentava mais dúvidas quanto à sua natureza - não era uma bola de basquete, era uma cabeça. Alguém enterrara um ser humano até o queixo na areia... e Ralph subitamente percebeu que a maré estava subindo.

Não saltou fora; antes, desandou a correr. E nisto, a crista espumosa da onda lambeu a cabeça. Ela abriu a boca e começou a gritar. Mesmo em gritos agudos, Ralph reconheceu imediatamente aquela voz. Era a voz de Carolyn.

A espuma de outra onda subiu a praia e lavou para trás os cabelos colados às faces molhadas da cabeça. Ralph começou a correr mais rápido, sabendo que certamente ia chegar tarde. A maré subia depressa. Afogaria Carolyn muito antes que ele pudesse retirar seu corpo enterrado na areia.

Você não precisa salvá-la, Ralph. Carolyn já morreu e não foi em uma praia deserta. Foi no quarto 317 do hospital Derry Home. Você a acompanhou até o fim, e o som que você ouvia não era o de ondas quebrando na praia, mas o do granizo batendo contra a janela.

Lembra-se?

Lembrava-se, mas corria ainda mais rápido, levantando nuvens de areia fina à sua passagem.

Mas você não vai alcançá-la nunca; você sabe como é nos sonhos, não sabe? Cada coisa para a qual se cone vira outra coisa.

Não, o poema não era bem assim... ou seria? Ralph não sabia direito. Só lembrava claramente que, no fim, o narrador fugia às cegas de alguma coisa letal (Espiando por cima do ombro vejo a forma) que o perseguia pelo mato... perseguia-o cada vez mais de perto.

Mas ele estava se aproximando da forma escura na areia. Mas ela não estava virando outra coisa e, quando caiu de joelhos diante de Carolyn, compreendeu instantaneamente por que não fora capaz de reconhecer, mesmo à distância, a mulher com quem estivera casado durante quarenta e cinco anos: havia algo muito errado com sua aura. Aderia à pele como um plástico sujo de tinturaria. Quando a sombra de Ralph cobriu Carolyn, os olhos dela giraram para o alto como os de um cavalo que tivesse fraturado a perna, saltando uma cerca alta. Ela respirava em ofegos rápidos e assustados, e a cada expiração saíam jatos de aura cinza-negros de suas narinas.

O fio de balão, roto e fragmentado, que subia do alto de sua cabeça era de um roxo-negro de ferida infectada. Quando ela abriu a boca para gritar outra vez, uma substância repugnante e luminosa voou de seus lábios em fios pegajosos que desapareceram quase no mesmo instante em que os olhos de Ralph registraram sua presença.

Vou salvá-la, Caroll ele berrou. Ajoelhou-se e começou a cavar a areia em volta dela como um cachorro desenterrando um osso... e, quando esse pensamento lhe ocorreu, percebeu que Rosalie, a vira-lata madrugadora da Avenida Harris, estava sentada cheia de tédio às costas de Carolyn, que gritava. Era como se o cachorro tivesse sido convocado pelo seu pensamento. Rosalie, ele observou, também se achava envolta em uma imunda aura negra.

Trazia o panamá desaparecido de Bill McGovern entre as patas, e parecia ter dado prazerosas dentadas no chapéu desde que se apossara dele.

Então foi aí que o diabo do chapéu foi parar, Ralph pensou, virou-se para Carolyn e começou a cavar com maior rapidez. Até ali, não conseguira livrar sequer um ombro.

Não se importe comigo! Carolyn berrou para ele. Já estou morta, lembra-se? Cuidado com as pegadas do homem branco, Ralph! O...

Uma onda, verde-vítrea na base e branco-talhado na crista, quebrou a menos de três metros da praia. Correu areia acima até onde estavam, congelando o saco de Ralph com a água fria e submergindo momentaneamente a cabeça de Carolyn em espuma carregada de areia.

Quando a onda recuou, Ralph lançou seu próprio grito horrorizado ao indiferente céu azul.

A onda que recuava fizera a Carolyn, em segundos, o que os tratamentos radiativos levaram quase um mês para realizar; arrancara seus cabelos, deixara-a careca. E o alto da cabeça começava a estufar no ponto onde se elevava o fio de balão enegrecido.

Carolyn, não! - berrou, cavando com maior empenho. Agora a areia estava molhada e desagradavelmente pesada.

Não se importe, ela falou. Sopros cinza-negros saíam de sua boca a cada palavra, como o vapor sujo de uma chaminé industrial. É apenas o tumor, e não é operável, por isso não perca nenhuma noite de sono com essa parte do espetáculo. Que diabos, é longa a viagem de volta ao Paraíso, por isso não se esquente com ninharias, certo? Mas tem que ficar de olho nas pegadas...

Carolyn, não entendo o que está dizendo1.

Sobreveio outra onda que molhou Ralph até a cintura e tornou a cobrir Carolyn. Quando a onda recuou, o inchaço no alto da cabeça de Carolyn começou a se romper.

Você vai descobrir logo, logo, Carolyn respondeu, e então o inchaço espocou com um ruído que lembrava um soquete batendo numa fatia de carne. Uma névoa sangrenta invadiu o ar limpo e salino, e uma horda de insetos negros do tamanho de baratas começou a vazar de dentro da cabeça. Ralph nunca vira nada parecido - nem mesmo em sonho - e sentiu-se invadir por uma repugnância quase histérica. Teria fugido, fosse ou não Carolyn, mas ficou paralisado, demasiado chocado para mover um único dedo, quanto mais se levantar e correr.

Alguns insetos negros reentraram rapidamente pela boca de Carolyn que se abria em gritos, mas a maioria descia pela face e o ombro até a areia molhada. Aqueles olhos alienígenas e acusadores não abandonavam Ralph enquanto corriam. Tudo isso é culpa sua, os olhos pareciam dizer. Você poderia ter salvado sua mulher, Ralph, e um homem melhor teria feito isso.

Carolyn! ele gritou. Estendeu as mãos para a mulher, mas recolheu-as, aterrorizado com os insetos, que não paravam de transbordar de sua cabeça. Atrás dela, Rosalie permanecia sentada em seu pequeno círculo de treva, olhando-o muito séria e agora segurava na boca o chapeu perdido de McGovern.

Um olho de Carolyn saltou fora e caiu na areia molhada, como uma colherada de geléia de uva. Os insetos projetaram-se como vômito da órbita vazia.

Carolyn1. ele gritou. Carolyn! Carolyn! Car...

- ...OLYN! CAROLYN! CAR...

Inesperadamente, no mesmo instante em que sentiu que o sonho terminava, Ralph começou a cair. Não registrou o ocorrido até bater no chão do quarto. Conseguiu amortecer a queda com a mão estendida, provavelmente salvando-se de uma feia pancada na cabeça, mas soltando um uivo de dor ao forçar o ferimento fechado com esparadrapo do lado esquerdo do corpo. No momento, pelo menos, ele mal percebeu a dor. Sentiu medo, repugnância, um terrível e doloroso pesar... e, acima de tudo, um avassalador sentimento de gratidão. O pesadelo - sem dúvida, o pior que já tivera - terminara, e ele estava de volta ao mundo da realidade.

Afastou o paletó do pijama praticamente desabotoado, procurou manchas de sangue na atadura, não viu nenhuma, e em seguida se sentou. Esse único movimento pareceu exauri-lo; a ideia de se levantar, apenas o tempo suficiente para tornar a cair na cama, pareceu-lhe, por ora, fora de questão. Talvez quando o coração que disparara em pânico se acalmasse um pouco.

Será que se pode morrer de pesadelo? - perguntou-se, ouvindo em resposta, a voz de Joe Wyzer: Claro que pode, embora o legista, em geral, termine escrevendo suicídio no quesito causa da morte.

No abalo pós-pesadelo, sentado no chão, o braço direito abraçando os joelhos, Ralph não duvidou realmente que alguns sonhos eram bastante fortes para matar. Os detalhes deste começavam a se diluir agora, mas ele continuava a lembrar seu clímax com demasiada clareza: aquele som surdo, como um soquete batendo uma grossa fatia de carne, e a nojenta massa de insetos que jorrava da cabeça de Carolyn. Eram bem gordos, gordos e agitados, e por que não? Tinham se banqueteado com os miolos de sua falecida esposa.

Ralph soltou um gemido fraco e indistinto e passou a mão esquerda no rosto, provocando outra pontada sob a atadura. Retirou a palma da mão pegajosa de suor.

Com o que fora mesmo que ela dissera para ter cuidado? Caçadas de homem branco? Não - pegadas. Pegadas de homem branco, o que quer que fossem. Falara mais alguma coisa?

Não, talvez, não. Não se lembrava ao certo, e daí? Fora um sonho, bolas, apenas um sonho.

Exceto no mundo fantasioso descrito pelos tablóides dos jornais, os sonhos não significavam nada, nem provavam nada. Quando alguém ia dormir, sua cabeça se transformava em um caçador de pechinchas que escolhia, entre os artigos em promoção, as lembranças recentes mais insignificantes, não pelo seu valor ou mesmo utilidade, mas apenas pelo seu brilho. Então, juntava-as em colagens exóticas, que muitas vezes impressionavam, mas quase sempre faziam tanto sentido quanto a conversa de Natalie Deepneau. Rosalie, a cachorra, estivera presente e até o panamá perdido de Bill fizera uma ponta, mas tudo isso não significava nada... excepto que amanhã à noite ele não tomaria o analgésico que o paramédico tinha-lhe dado, mesmo que lhe parecesse que seu braço ia cair. O que ele tomara durante o último telejornal não somente fizera efeito, algo com que contara, como muito provavelmente também contribuíra para causar o pesadelo.

Ralph conseguiu se erguer do chão e se sentar na borda da cama. Uma onda de tonteira se abateu sobre sua cabeça como um pára-quedas de seda, e ele fechou os olhos até a sensação passar. Enquanto permanecia sentado com a cabeça baixa e os olhos fechados, tateou à procura do abajur de cabeceira e ligou-o. Quando abriu os olhos, a área do quarto iluminada pela morna luz amarela parecia muito clara e muito real.

Olhou para o relógio ao lado do abajur. 1h48min e, com ou sem analgésico, sentia-se totalmente desperto e totalmente alerta. Levantou-se, caminhou lentamente até a cozinha e pôs a chaleira no fogo. Recostou-se na bancada, massageando distraidamente a atadura sob a axila esquerda, na tentativa de aplacar o latejamento que suas mais recentes aventuras haviam provocado. Quando a chaleira fumegou, despejou água quente sobre um saquinho de Sleepytime - a marca não é uma piada? - e, em seguida, levou a xícara para a sala de estar. Largou-se na poltrona, sem se dar ao trabalho de acender a luz; as lâmpadas da rua e a fraca claridade que vinha do quarto de dormir forneciam toda a luz necessária.

Bem, pensou, aqui estou eu outra vez, na cadeira do centro, bem na primeira fila. Vamos à peça.

O tempo passou, quanto tempo ele não saberia dizer, mas o latejamento sob o braço diminuíra e o chá passara de quente a morno, quando registrou um movimento pelo canto do olho. Ralph virou a cabeça, esperando ver Rosalie, mas não era Rosalie. Eram dois homens que saíam à varanda de uma casa defronte à sua, na Avenida Harris. Ralph não conseguia distinguir as cores da casa - as lâmpadas de sódio alaranjadas, que a prefeitura instalara há alguns anos, ofereciam grande visibilidade, mas tornavam a percepção das cores reais quase impossível - porém dava para distinguir que a cor do ornato era radicalmente diferente do restante da casa. Isto e a localização faziam Ralph ter quase certeza de que era a casa de May Locher.

Os dois homens na varanda de May Locher eram muito baixos, provavelmente não tinham mais de um metro e vinte de altura. Pareciam envoltos por auras esverdeadas. Vestiam aventais idênticos, que lembraram a Ralph os que os atores usavam em velhos seriados de TV - melodramas em preto e branco como Ben Casey e Dr. Kildare. Um deles levava alguma coisa na mão. Ralph semicerrou os olhos. Não conseguia distinguir, mas tinha uma aparência pontiaguda e ameaçadora. Não poderia afirmar sob juramento que era uma faca, mas bem poderia ser. É, poderia muito bem ser uma faca.

Seu primeiro pensamento claro e crítico sobre esta experiência é que os homens pareciam os tais alienígenas que praticavam sequestros em filmes de OVNI's-Communion, talvez, ou Fire in the Sky. O segundo é que adormecera novamente, sem perceber, bem ali na poltrona.

E isso, Ralph - mais uma sessão de liquidação em marcha, provavelmente produzida pela tensão de ser esfaqueado e a merda do analgésico.

Não sentia nenhuma ameaça nas duas figuras na varanda de May Locher, além da coisa de aspecto longo e pontiagudo que um deles portava. Ralph supôs que nem mesmo a mente adormecida poderia criar grande coisa com dois baixotes carecas, vestindo aventais brancos, que pareciam ter sobrado do elenco central. Além disso, não havia nada assustador em sua atitude - nada furtivo, nada ameaçador. Achavam-se parados na varanda como se gozassem do pleno direito de estar ali na hora mais escura e morta da madrugada. De frente um para o outro, a posição de seus corpos e enormes cabeças calvas sugeriam dois velhos amigos mantendo uma conversa sóbria e civilizada. Pareciam ponderados e inteligentes - o tipo de viajantes espaciais bem mais capazes de dizer "Viemos em paz" do que de sequestrar a pessoa, meter uma sonda em seu rabo e em seguida anotar a reação.

Está bem, então talvez esse novo sonho não seja cem por cento um pesadelo. Depois do último, você ainda se queixa?

Não, claro que não. Acabar no chão uma vez por noite era mais do que suficiente, obrigado.

Mesmo assim, havia algo inquietante neste sonho; parecia real de um jeito que o sonho com Carolyn não parecera. Afinal achava-se em sua própria sala de estar e não em alguma praia deserta e esquisita que nunca vira antes. Estava sentado na mesma poltrona em que se sentava toda madrugada, segurando na mão esquerda uma xícara de chá que agora praticamente esfriara e, quando ele levava os dedos da mão direita ao nariz, como estava fazendo agora, ainda sentia sob as unhas um cheiro fraco de sabonete... da marca Irish Spring que gostava de usar no banho...

De repente, Ralph levou a mão à axila esquerda e comprimiu a atadura com os dedos. A dor foi imediata e intensa... mas os dois homenzinhos carecas de aventais brancos continuaram onde estavam, à porta de May Locher.

Não faz diferença o que você acha que sente, Ralph. Não pode fazer diferença porque...

Porra! - exclamou Ralph com a voz rouca e baixa.

Levantou-se da poltrona e, ao fazêlo, colocou a xícara na mesinha ao lado. O Sleepytime derramou-se no guia de TV que estava sobre a mesa. - Porra, isso não é sonho!

ELE CORREU da sala de estar para a cozinha, o pijama esvoaçando, os velhos chinelos gastos arrastando no chão, o lugar que Charlie Pickering atingira emitindo fisgadas quentes de dor. Agarrou uma cadeira e levou-a para o pequeno vestíbulo do apartamento. Havia um armário embutido ali. Ralph abriu a porta, acendeu a luz interna, colocou a cadeira de modo a poder alcançar a prateleira superior do armário e subiu nela.

A prateleira era um amontoado de objetos esquecidos ou perdidos que, na maioria, tinham pertencido a Carolyn. Eram coisas pequenas, pouco mais que bugigangas, mas vê-las dissipou sua última certeza de que aquilo só podia ser um sonho. Havia um velho saco de balas M&M - o lanchinho secreto de Carolyn, seu petisco-consolo. Havia um coração de renda, um escarpin de cetim branco com o salto partido, um álbum de fotografias. Essas coisas doíam muito mais do que um furo de faca debaixo do braço, mas ele não tinha tempo para dores agora.

Ralph inclinou-se para a frente, apoiando a mão esquerda na prateleira alta e empoeirada para se equilibrar, então começou a tatear por aquela quinquilharia com a mão direita, rezando o tempo todo para a cadeira da cozinha nem pensar em escapulir sob seus pés. O ferimento na axila agora latejava barbaramente, e ele sentiu que ia fazê-lo sangrar outra vez, se não parasse logo com suas acrobacias, mas...

Tenho certeza de que estão aqui em cima, em algum lugar... bem... tenho quase certeza...

Empurrou para o lado a caixa de iscas e o cesto de pescar. Havia uma pilha de revistas atrás do cesto. A de cima era um exemplar de Look com Andy Williams na capa. Ralph empurrou-as para o lado com o punho, levantando uma nuvem de poeira. O velho saco de M&M caiu no chão e rompeu-se, espalhando balas coloridas para todo lado. Ralph inclinouse ainda mais para a frente, agora quase até ficar nas pontas dos pés. Supôs que fosse imaginação, mas achou que a cadeira de cozinha em que subira se preparava para fazer uma maldade.

Nem bem formulara este pensamento, quando a cadeira rangeu e começou a escorregar lentamente para trás no piso de madeira. Ralpn não lhe deu atenção, não deu atenção ao seu ferimento que latejava, e não deu atenção à voz que lhe dizia que devia parar, realmente devia, porque estava sonhando acordado, tal como dizia o livro de Hall que muitos insones acabavam fazendo, e embora aqueles homenzinhos do outro lado da rua realmente não existissem, ele podia realmente estar em pé ali nessa cadeira que escorregava lentamente, e podia realmente fraturar a bacia quando a cadeira lhe fugisse sob o corpo, e como é que ele ia explicar o que acontecera quando algum vivaldino na sala de emergências do hospital

Derry Home lhe perguntasse?

Gemendo, enfiou a mão até o fundo da prateleira, afastou uma caixa da qual emergia metade de uma estrela de árvore de natal como um estranho periscópio espigoso (no movimento derrubou o escarpin sem salto no chão), e vislumbrou o que queria no canto esquerdo da prateleira: o estojo dos seus velhos binóculos Zeiss-Ikon.

Ralph desceu antes que a cadeira escorregasse inteiramente, puxou-a mais para perto do armário e tornou a subir. Não conseguiu alcançar o canto onde os binóculos se encontravam, então agarrou a rede de pescar trutas que guardara ali, fazia séculos, com as iscas e o cesto de pesca, e conseguiu enganchar o estojo na segunda tentativa. Puxou-o para si até conseguir agarrar a alça, desceu da cadeira, e aterrissou em cima do escarpin caído.

Seu tornozelo torceu dolorosamente. Ralph cambaleou, abriu os braços procurando se equilibrar, e conseguiu evitar bater com a cara na parede. Ao voltar para a sala, no entanto, sentiu um calor molhado sob a atadura na axila. Afinal conseguira reabrir o ferimento.

Maravilha. Apenas uma noite maravilhosa chez Roberts... e quanto tempo estivera longe da janela? Não sabia, aparentemente muito tempo, e tinha certeza de que os doutorezinhos carecas já teriam partido quando chegasse à janela. A rua estaria vazia, e...

Estacou. O estojo do binóculo, balançando na ponta da alça, produzia uma longa e vagarosa sombra em forma de trapézio no chão, bem onde a luz alaranjada das lâmpadas pintara uma feia camada de cor.

Doutorezinhos carecas? Fora assim que acabara de pensar neles? É claro, porque era assim que elas os chamavam - as pessoas a quem tinham sequestrado... examinado... operado, em alguns casos. Eram médicos espaciais, proctologistas do vasto além. Mas isso não era importante. O importante era que...

Ed usara aquela frase, pensou Ralph. Usara-a na noite em que me ligou para avisar que ficasse longe dele e de seus interesses. E me disse que fora um médico que lhe falara sobre o Rei Sangüinário e os Centuriões e todo o resto.

- Foi isso - Ralph murmurou, as costas terrivelmente arrepiadas. - E, foi isso que ele disse. "O doutor me disse. O doutorzinho careca."

Quando chegou à janela, constatou que os estranhos continuavam lá, embora tivessem se transferido da varanda de May Locher para a calçada, enquanto ele caçava os binóculos. Na verdade, estavam postados diretamente sob uma daquelas lâmpadas de luz alaranjada. A sensação de que a Avenida Harris parecia um palco deserto após a última sessão noturna voltou a assaltar Ralph com uma estranha força... mas com outro significado. Por um lado, o cenário já não se achava deserto, não é? Alguma peça sinistra pós-meia-noite começara no palco que as duas exóticas criaturas lá embaixo sem dúvida pensavam estar inteiramente vazio.

Que fariam se soubessem que havia uma platéia? Ralph se perguntou. Que fariam comigo?

Os doutores carecas agora se comportavam como homens que tinham praticamente chegado a um acordo. Naquele instante, nem pareciam doutores, apesar dos aventais - pareciam operários que acabavam de encerrar o turno de trabalho em uma usina ou fábrica. Os dois, obviamente amigos, tinham parado ao portão da fábrica por instantes, para terminar um assunto que não podia esperar nem o tempo de vencer um quarteirão até o bar mais próximo, mesmo sabendo que isto só levaria uns dois minutos; faltavam mais duas palavrinhas para chegarem a um acordo total.

Ralph retirou os binóculos do estojo, levou-os aos olhos, e gastou algum tempo girando o botão do foco, intrigado, até perceber que se esquecera de remover a capa das lentes.

Removeu-as e tornou a erguer os binóculos. Desta vez, as duas figuras paradas sob a lâmpada entraram imediatamente em seu campo de visão, grandes e perfeitamente iluminadas, mas borradas. Ele tornou a ajustar o botão entre os óculos, e os dois homens entraram em foco quase instantaneamente. A respiração de Ralph ficou presa na garganta.

A visão que teve foi extremamente breve; não se passaram nem três segundos quando um dos homens (se é que eram homens) acenou com a cabeça e deu uma palmada no ombro do companheiro. Os dois partiram, deixando Ralph sem ter o que ver, exceto duas carecas e costas lisas vestidas de branco. No máximo três segundos, mas Ralph viu o suficiente naquele breve lapso de tempo para se sentir profundamente inquieto.

Correra para buscar os binóculos por duas razões, ambas fundadas em sua incapacidade de continuar a acreditar que aquilo era um sonho. Primeiro, queria ter certeza de poder identificar os dois homens, se algum dia fosse chamado a fazê-lo. Segundo, (menos admissível à sua consciência, mas tão urgente quanto a outra), queria dissipar a ideia perturbadora de que estava tendo um contacto imediato e particular de terceiro grau.

Ao invés de dissipar a ideia, a breve espiada através dos binóculos intensificou-a. Os doutorezinhos carecas, na realidade, não pareciam ter feições. Tinham caras, é verdade olhos, narizes, bocas - mas pareciam tão intercambiáveis quanto um acessório cromado de uma mesma marca e modelo de automóvel. Poderiam ser gêmeos idênticos, mas não era essa tão pouco a impressão que deram a Ralph. Pareciam mais manequins de loja de departamentos, cujas perucas tivessem sido retiradas à noite, e cuja estranha semelhança não resultasse da genética mas da produção em série.

A única qualidade peculiar que conseguia isolar e nomear era a lisura extraordinária de suas peles - nenhum dos dois tinha sequer uma linha ou ruga visível. Nenhum sinal, mancha ou cicatriz tão pouco, embora Ralph supusesse que talvez não se vissem tais coisas mesmo com um bom binóculo. Afora a lisura e estranha ausência de marcas na pele, todo o resto se tornava subjectivo. E sua única espiada fora tão idiotamente breve. Se tivesse encontrado os binóculos mais depressa, sem se atrapalhar com a cadeira e a rede de pesca, e se tivesse reparado imediatamente que não retirara as capas das lentes, ao invés de perder mais tempo procurando focalizá-las, poderia ter poupado a si mesmo parte ou até toda a inquietação que agora sentia.

Eles parecem um esboço, pensou um instante antes dos dois lhe virarem as costas. Acho que é isto que realmente está me incomodando. Não são as cabeças carecas idênticas, os aventais brancos idênticos, nem a falta de rugas. É esse jeito de esboço - os olhos, simples círculos, as orelhas pequenas e rosadas, simples rabiscos a pilot, as bocas, umas duas pinceladas quase displicentes em aquarela rosa-claro. De fato eles não parecem nem gente nem alienígenas; parecem representações ingénuas de... bem, sei o do quê.

Só estava seguro de uma coisa: os Doutores n-2! e n-1 estavam ambos imersos em auras luminosas que, através dos binóculos, pareciam auriverdes com salpicos laranja-escuro intenso que lembravam as fagulhas que sobem de uma fogueira. Essas auras transmitiam a Ralph uma sensação de poder e vitalidade que os rostos despidos de feições e interesse não confirmavam.

Os rostos? Não tenho certeza se poderia reconhecê-los mesmo que alguém apontasse uma arma para minha cabeça. E como se tivessem sido feitos para serem esquecidos. Se continuassem carecas, é claro - não haveria problema. Mas se estivessem usando peruca e talvez se sentassem, de modo a impedir a visão de sua pequenez? Quem sabe... a ausência de linhas os denunciaria... mas, por outro lado, talvez não. As auras, porém... aquelas auras auriverdes salpicadas de vermelho... eu as reconheceria em qualquer lugar. Mas há alguma coisa errada nelas, não? O que é?

A resposta saltou à mente de Ralph com a mesma rapidez e facilidade com que as duas criaturas tinham saltado à vista quando ele finalmente se lembrara de remover as capas das lentes dos binóculos. Os dois doutorezinhos estavam envoltos em auras luminosas... mas não havia fios de balão flutuando no alto de suas carecas. Nem mesmo vestígios de fios.

Eles saíram pela Avenida Harris na direção do parque Strawford, caminhando com a descontração de dois amigos durante um passeio dominical. Pouco antes de abandonarem o círculo de luz projectado pela lâmpada diante da casa de May Locher, Ralph mudou o ângulo do binóculo, a fim de abranger o objecto na mão direita do Doutor n-1. Não era uma faca, conforme supusera, mas tão pouco era o tipo de objecto que fazia a pessoa se sentir à vontade ao vê-lo na mão de um estranho que se afastava nas horas mortas da madrugada.

Era uma tesoura de longas lâminas de aço inoxidável.

AQUELA SENSAÇÃO de ser impelido continuamente em direção à boca de um túnel onde coisas desagradáveis o aguardam de tocaia assaltou-o de novo, só que agora veio acompanhada de um sentimento de pânico, pois parecia que recebera o último empurrão enquanto dormira e sonhara com a esposa morta. Alguma coisa dentro dele queria berrar de terror, e Ralph compreendeu que, se não fizesse alguma coisa para acalmá-la imediatamente, logo estaria aos berros. Fechou os olhos e começou a inspirar profundamente, tentando visualizar um alimento diferente a cada aspiração: um tomate, uma batata, um sanduíche de sorvete, uma couve-de-bruxelas. Dr. Jamal ensinara a Carolyn esta técnica simples de relaxamento que, muitas vezes, impedira suas dores de cabeça de atingir a pressão má...

Ao invés de dissipar a ideia, a breve espiada através dos binóculos intensificou-a. Os doutorezinhos carecas, na realidade, não pareciam ter feições. Tinham caras, é verdade olhos, narizes, bocas - mas pareciam tão intercambiáveis quanto um acessório cromado de uma mesma marca e modelo de automóvel. Poderiam ser gêmeos idênticos, mas não era essa tampouco a impressão que deram a Ralph. Pareciam mais manequins de loja de departamentos, cujas perucas tivessem sido retiradas à noite, e cuja estranha semelhança não resultasse da genética mas da produção em série.

A única qualidade peculiar que conseguia isolar e nomear era a lisura extraordinária de suas peles - nenhum dos dois tinha sequer uma linha ou ruga visível. Nenhum sinal, mancha ou cicatriz tampouco, embora Ralph supusesse que talvez não se vissem tais coisas mesmo com um bom binóculo. Afora a lisura e estranha ausência de marcas na pele, todo o resto se tornava subjetivo. E sua única espiada fora tão idiotamente breve. Se tivesse encontrado os binóculos mais depressa, sem se atrapalhar com a cadeira e a rede de pesca, e se tivesse reparado imediatamente que não retirara as capas das lentes, ao invés de perder mais tempo procurando focalizá-las, poderia ter poupado a si mesmo parte ou até toda a inquietação que agora sentia.

Eles parecem um esboço, pensou um instante antes dos dois lhe virarem as costas. Acho que é isto que realmente está me incomodando. Não são as cabeças carecas idênticas, os aventais brancos idênticos, nem a falta de rugas. É esse jeito de esboço - os olhos, simples círculos, as orelhas pequenas e rosadas, simples rabiscos a pilot, as bocas, umas duas pinceladas quase displicentes em aquarela rosa-claro. De fato eles não parecem nem gente nem alienígenas; parecem representações ingênuas de... bem, sei lado quê.

Só estava seguro de uma coisa: os Doutores n-1 e n-2 estavam ambos imersos em auras luminosas que, através dos binóculos, pareciam auriverdes com salpicos laranja-escuro intenso que lembravam as fagulhas que sobem de uma fogueira. Essas auras transmitiam a Ralph uma sensação de poder e vitalidade que os rostos despidos de feições e interesse não confirmavam.

Os rostos? Não tenho certeza se poderia reconhecê-los mesmo que alguém apontasse uma arma para minha cabeça. E como se tivessem sido feitos para serem esquecidos. Se continuassem carecas, é claro - não haveria problema. Mas se estivessem usando peruca e talvez se sentassem, de modo a impedira visão de sua pequenez? Quem sabe... a ausência de linhas os denunciaria... mas, por outro lado, talvez não. As auras, porém... aquelas auras auriverdes salpicadas de vermelho... eu as reconheceria em qualquer lugar. Mas há alguma coisa errada nelas, não? O que é?

A resposta saltou à mente de Ralph com a mesma rapidez e facilidade com que as duas criaturas tinham saltado à vista quando ele finalmente se lembrara de remover as capas das lentes dos binóculos. Os dois doutorezinhos estavam envoltos em auras luminosas... mas não havia fios de balão flutuando no alto de suas carecas. Nem mesmo vestígios de fios.

Eles saíram pela Avenida Harris na direção do parque Strawford, caminhando com a descontração de dois amigos durante um passeio dominical. Pouco antes de abandonarem o círculo de luz projetado pela lâmpada diante da casa de May Locher, Ralph mudou o ângulo do binóculo, a fim de abranger o objeto na mão direita do Doutor n-1. Não era uma faca, conforme supusera, mas tampouco era o tipo de objeto que fazia a pessoa se sentir à vontade ao vê-lo na mão de um estranho que se afastava nas horas mortas da madrugada.

Era uma tesoura de longas lâminas de aço inoxidável.

AQUELA SENSAÇÃO de ser impelido continuamente em direção à boca de um túnel onde coisas desagradáveis o aguardam de tocaia assaltou-o de novo, só que agora veio acompanhada de um sentimento de pânico, pois parecia que recebera o último empurrão enquanto dormira e sonhara com a esposa morta. Alguma coisa dentro dele queria berrar de terror, e Ralph compreendeu que, se não fizesse alguma coisa para acalmá-la imediatamente, logo estaria aos berros. Fechou os olhos e começou a inspirar profundamente, tentando visualizar um alimento diferente a cada aspiração: um tomate, uma batata, um sanduíche de sorvete, uma couve-de-bruxelas. Dr. Jamal ensinara a Carolyn esta técnica simples de relaxamento que, muitas vezes, impedira suas dores de cabeça de atingir a pressão máxima - mesmo nas últimas seis semanas, quando o tumor se tornara incontrolável, a técnica, por vezes, produzia efeito, e agora ajudava Ralph a controlar o pânico. Seu coração foi desacelerando, e aquela sensação de que precisava berrar começou a passar.

Continuando a inspirar profundamente e a pensar (maçã per a fatia de torta de limão) em comida, ele repôs cuidadosamente as capas das lentes nos binóculos. Suas mãos ainda tremiam, mas não tanto que não pudesse usá-las. Depois de proteger as lentes e guardar os binóculos no estojo, Ralph ergueu desajeitadamente o braço esquerdo e examinou a atadura.

Havia no centro um ponto vermelho do tamanho de uma aspirina, mas aparentemente não estava se espalhando. Óptimo.

Não tem nada óptimo, Ralph.

Tudo bem, mas isso não ia ajudá-lo a definir exactamente o que acontecera, ou que atitude tomar. O primeiro passo era esquecer, por enquanto, o terrível sonho com Carolyn e chegar a uma conclusão sobre o que realmente acontecera.

- Estou acordado desde a hora em que caí no chão - Ralph falou para a sala vazia. - Sei disso e sei que vi aqueles homens.

Verdade. Ele realmente os vira, e vira as auras auriverdes que os cercavam. E não era o único, tão pouco. Ed Deepneau vira pelo menos um deles, também. Ralph teria apostado a fazenda nessa possibilidade, se tivesse uma fazenda para apostar. Mas saber que ele e o paranóico espancador de mulher que morava mais acima estavam vendo os mesmos homenzinhos carecas não tranqüilizava seu espírito.

E as auras, Ralph - ele não falou alguma coisa sobre elas, também?

Bem, ele não empregara exatamente aquela palavra, mas Ralph tinha quase certeza de que ele mencionara auras no mínimo duas vezes. Ralph, às vezes o mundo está cheio de cores.

Isto fora em agosto, pouco antes de John Leydecker tê-lo prendido por agressão doméstica, um delito leve. Então, quase um mês depois, quando telefonara para Ralph, tinha perguntado: Você já está vendo as cores?

Primeiro as cores, agora os doutorezinhos carecas; com certeza, o Rei Sangüinário em pessoa não tardaria muito a aparecer. E deixando tudo isso de lado, que atitude deveria tomar em relação ao que acabara de assistir?

A resposta chegou num inesperado mas bem-vindo clarão. A questão, a seu ver, não era a sua própria sanidade, nem as auras, nem os doutorezinhos carecas, mas May Locher. Ele acabara de ver dois estranhos saírem da casa da Sra. Locher de madrugada... e um deles carregava uma arma potencialmente letal.

Ralph estendeu a mão por cima do estojo dos binóculos, apanhou o telefone e discou 911.

- AQUI É a Oficial Hagen. - Uma voz de mulher. - Em que posso servi-lo?

- Ouvindo-me com atenção e agindo depressa - respondeu Ralph com firmeza. O ar de vaga indecisão, que revelara com tanta frequência desde meados do verão, agora desaparecera; sentado ereto na poltrona, com o telefone no colo, ele não parecia ter setenta, mas uns saudáveis e competentes cinqüenta e cinco anos. - A senhora talvez possa salvar a vida de uma mulher.

- O senhor poderia, por favor, me dar o seu nome e...

- Não me interrompa, por favor, Oficial Hagen - disse o homem que não era mais capaz de lembrar os últimos quatro algarismos do centro de cinema em Derry. - Acordei há algum tempo, não consegui voltar a adormecer, e decidi me sentar um pouco. Minha sala de estar tem vista para a parte alta da Avenida Harris. Acabei de ver...

Aqui Ralph fez uma brevíssima pausa, pensando não no que vira, mas no que queria dizer à Oficial Hagen que vira. A resposta lhe ocorreu tão depressa e naturalmente quanto a decisão de ligar para o 911.

Vi dois homens saírem de uma casa no trecho da avenida acima do mercadinho. A casa pertence a uma mulher chamada May Locher. O nome é L-O-C-H-E-R, a primeira letra é L como em Lima. A sra. Locher está muito doente. Nunca vi esses dois homens antes - fez nova pausa, mas desta vez intencional, para obter o máximo efeito. - Um deles carregava uma tesoura na mão.

- Endereço do local? - perguntou a Oficial Hagen. Parecia bastante calma, mas Ralph percebeu que a deixara agitada.

- Não sei - respondeu.-Veja na lista telefônica, Oficial Hagen, ou diga aos policiais para procurarem a casa amarela com ornatos cor-de-rosa mais ou menos a meio quarteirão do mercadinho. Provavelmente terão que usar uma lanterna para identificá-la por causa da porcaria dessas lâmpadas alaranjadas, mas eles a encontrarão.

- Sim, senhor, tenho certeza de que encontrarão, mas ainda assim preciso do seu nome e telefone para os nossos registos...

Ralph repôs o fone devagarinho no gancho. Ficou parado, olhando para o aparelho quase um minuto, à espera de que tocasse. Como isso não aconteceu, concluiu que ou a polícia não tinha o tal equipamento sofisticado de rastreamento que aparecia na TV em filmes sobre crimes reais, ou a oficial não o acionara. Isso era óptimo. Não resolvia o problema do que faria ou diria se eles retirassem May Locher aos pedaços de sua horrível casa amarela e rosa, mas lhe dava um pouquinho mais de tempo para pensar.

Lá embaixo, a Avenida Harris continuava parada e silenciosa, iluminada apenas pelas lâmpadas de alta intensidade que se enfileiravam nos dois sentidos, como um sonho surreal de perspectivas. A peça - curta, mas densa - parecia ter terminado. O palco voltara a se esvaziar. Ele...

Não, afinal não se esvaziara de todo. Rosalie emergiu, coxeando, de uma travessa entre o mercadinho e a loja de ferragens vizinha. O lenço desbotado balançava em seu pescoço. Não era quinta-feira, não havia latas de lixo na rua para Rosalie investigar, e ela percorreu rapidamente a calçada até chegar à casa de May Locher. Ali parou e baixou o focinho (quando olhava para aquele focinho comprido e até bonito, Ralph, por vezes, pensava que devia haver um collie na árvore de Rosalie).

Alguma coisa brilhava ali, reparou Ralph.

Retirou os binóculos do estojo mais uma vez e apontou-os para Rosalie. Ao fazer isso, descobriu que sua mente voltava ao dia 10 de setembro - desta vez, ao encontro com Bill e Lois na entrada do parque Strawford. Lembrou-se do jeito como Bill passara o braço pela cintura de Lois e a conduzira rua acima; que a visão dos dois juntos fizera-o pensar em Ginger Rogers e Fred Astaire. E principalmente lembrou-se das pegadas espectrais que os dois tinham deixado ao passar. As de Lois eram cinzentas; as de Bill verde-oliva. Alucinações, pensara naqueles bons tempos, antes de começar a chamar a atenção de birutas como Charlie

Pickering e de ver doutorezinhos carecas no meio da noite.

Rosalie estava farejando uma pegada semelhante. Era do mesmo auriverde das auras que envolviam o Dr. Careca n-1 e o Dr. Careca n-2. Ralph desviou lentamente os binóculos do cachorro e viu mais pegadas, que formavam dois conjuntos e desciam pela calçada na direção do parque. Estavam-se apagando - quase podia vê-las se apagarem enquanto as observava - mas estavam ali.

Ralph voltou os binóculos para Rosalie, sentindo uma repentina onda de afeto pela velha vira-la tá sarnenta... e por que não? Se precisasse de uma prova decisiva e absoluta de que realmente vira as coisas que pensava ter visto, Rosalie era a prova.

Se Natalie estivesse ali, ela as veria também, pensou Ralph... e então todas as suas dúvidas tentaram retornar em atropelo por essa brecha. Será que veria? Será que veria mesmo? Ele achava que vira a neném agarrar as auras descoloridas deixadas por seus dedos, e tinha certeza de que a vira boquiaberta diante da fumaça verde fantasmagórica que saía das flores na cozinha, mas como podia ter certeza? Como é que alguém podia ter certeza daquilo que uma neném olhava ou tentava pegar?

Mas Rosalie... olha só, ali embaixo, está vendo?

O único problema, Ralph percebia, é que ele não vira as pegadas até Rosalie começar a farejar a calçada. Talvez ela estivesse farejando os fascinantes vestígios da entrada de um carteiro, e o que ele via fosse apenas uma criação de sua mente cansada e carente de sono...

como aqueles doutorezinhos carecas.

No campo ampliado dos binóculos, Rosalie agora começava a descer a Avenida Harris com o focinho colado à calçada e a cauda rala balançando lentamente de um lado para o outro.

Ia das pegadas auriverdes feitas pelo Dr. N-1 para as do Dr. n-2 e de volta ao rastro do Dr. n-1.

Então, por que não me diz agora o que aquela cachorra vira-lata está seguindo, Ralph? Você acha possível um cachorro rastrearaporra de uma alucinação? Não é alucinação; são pegadas.

Pegadas de verdade. As pegadas do homem branco com as quais Carolyn lhe disse que tivesse cuidado. Você sabe disso. Você está vendo isso.

- Mas é uma loucura - disse a si mesmo. - Loucura!

Mas será que era? Realmente? O sonho poderia ter sido mais do que um sonho. Se a tal hiper-realidade existia - e ele agora podia testemunhar que existia - quem sabe a tal premonição existia, também? Ou fantasmas que apareciam em sonhos e anunciavam o futuro? Quem sabia? Era corno se se entreabrisse uma porta no muro da realidade... e agora todo tipo de coisa indesejável atravessasse de lá para cá.

De uma coisa tinha certeza: as pegadas estavam realmente ali. Ele as via, Rosalie as cheirava, era o que bastava. Ralph descobrira muitas coisas estranhas e interessantes nesses seis meses de despertar prematuro, e uma delas era que a capacidade humana para se enganar parecia atingir a maré mais baixa entre três e seis horas da madrugada, e agora eram...

Ralph curvou-se para a frente para consultar o relógio na parede da cozinha. Passava um pouquinho das três e meia.

Hum-hum.

Ergueu os binóculos de novo e viu que Rosalie continuava seguindo o rastro dos doutores carecas. Se alguém viesse caminhando pela Avenida Harris naquele instante - o que era pouco provável, devido à hora, mas não impossível - veria apenas um cachorro vira-lata com o pêlo sujo, farejando a calçada à maneira errante dos cachorros que não foram treinados, os cachorros sem dono do mundo inteiro. Mas Ralph podia ver o que Rosalie farejava e finalmente permitiu-se acreditar nos próprios olhos. Era uma permissão que ele poderia revogar quando o sol nascesse, mas, por ora, Ralph sabia exactamente o que estava vendo.

A cabeça de Rosalie ergueu-se de repente. Suas orelhas se esticaram para a frente. Por um momento, ela pareceu quase bela, a beleza de um cão que aponta a caça. Então, pouco antes dos faróis de um carro que se aproximava do cruzamento da Avenida Harris com a rua Witcham inundarem a rua, ela refez o caminho pelo qual viera, correndo daquele jeito manco e torto que dava pena a Ralph.

Pensando bem, quem era Rosalie senão mais uma Coroa da Avenida Harris, uma que sequer tinha o consolo de jogar uma partida ocasional de buraco ou de pôquer a um centavo a parada com outros de sua espécie? A cachorra embarafustou pela travessa entre o mercadinho e a loja de ferragens um instante antes da radiopatrulha do município virar a esquina e subir lentamente a rua. Vinha com a sirene desligada, mas as luzes giratórias, não.

Elas coloriram as casas adormecidas e as pequenas lojas de comércio, que se enfileiravam nesta parte da Avenida Harris, alternando lampejos de luz vermelha e azul.

Ralph descansou os binóculos no colo e se inclinou para a frente na poltrona, os braços apoiados nas coxas, observando com atenção. Seu coração batia forte o bastante para fazêlo sentir as têmporas pulsarem.

A radiopatrulha diminuiu ao máximo a velocidade, quando passou pelo mercadinho. O farol de milha instalado do lado direito acendeu-se, e o facho de luz começou a deslizar pelas fachadas das casas silenciosas no último trecho da rua.

Deslizava também pelos números das casas afixados ao lado das portas ou nas colunas das varandas. Quando iluminou o número da casa de May Locher (86, Ralph viu e não precisou dos binóculos para tanto), as luzes traseiras da radiopatrulha piscaram e o carro parou.

Dois policiais fardados saltaram e tomaram o caminho que levava à casa, indiferentes ao homem que os observava de uma janela escura de um primeiro andar defronte e às pegadas auriverdes já desbotadas que pisavam. Eles conversaram algum tempo, e Ralph ergueu novamente os binóculos para vê-los mais de perto. Tinha quase certeza de que o mais jovem dos dois era o policial que acompanhara Leydecker à casa de Ed no dia em que o haviam prendido. Knoll? Era esse o nome?

- Não-Ralph murmurou.-Nell. Chris Nell. Ou talvez fosse Jess.

Nell e seu companheiro pareciam travar uma séria discussão - muito mais séria do que a que os doutorezinhos carecas tiveram antes de partir. Terminou com os tiras sacando as armas dos coldres e subindo os degraus estreitos da varanda de May Locher, em fila indiana, com Nell à frente. Ele apertou a campainha, aguardou, tornou a apertá-la. Desta vez, descansou o dedo no botão bem uns cinco segundos. Aguardaram mais um pouco, e então o segundo tira passou à frente de Nell e fez sua própria tentativa com a campainha.

Talvez aquele conheça A Arte Secreta de Apertar Campainhas, pensou Ralph.

Provavelmente aprendeu-a respondendo a um anúncio dos rosa-cruzes.

Se foi assim, desta vez a técnica não surtiu efeito. Continuavam sem resposta, o que para Ralph não foi surpresa. Mesmo abstraindo-se dos estranhos carecas, ele duvidava que May

Locher pudesse sair da cama.

Mas se está confinada à cama, talvez tenha uma acompanhante, alguém para lhe servir as refeições, ajudá-la a chegar ao banheiro ou lhe trazer a comadre...

Chris Nell - ou, quem sabe, Jess - tomou a dianteira de novo. Desta vez, desistiu da campainha e optou pela velha técnica de bater na porta e mandar abrir em nome da lei.

Para isso usou a mão esquerda fechada. Continuava a empunhar a arma com a direita, o cano apoiado contra a perna das calças do uniforme.

Uma imagem terrível, tão clara e persuasiva quanto as auras que andara vendo, inesperadamente assaltou a mente de Ralph. Ele viu uma mulher deitada na cama, com uma máscara plástica de oxigénio cobrindo-lhe a boca e o nariz. Acima da máscara, seus olhos vidrados saltavam cegos das órbitas. Abaixo, a garganta fora aberta com um corte largo e irregular. As roupas de cama e o peito da camisola da mulher estavam encharcados de sangue. Não muito longe, caído de borco no chão, havia o cadáver de outra mulher - a acompanhante. Subindo pelas costas de sua camisola de flanela, havia meia dúzia de ferimentos, abertos pelas pontas da tesoura do Dr. N-1. E Ralph sabia que se erguesse a camisola para examinar melhor, cada um deles seria muito semelhante ao que tinha sob o seu próprio braço... como o enorme ponto que as crianças fazem quando estão aprendendo a escrever.

Ralph experimentou piscar para fazer desaparecer a visão macabra. Mas ela não desapareceu. Sentiu uma dor surda nas mãos e viu que as mantinha fechadas com força; tinha as unhas cravadas nas palmas. Obrigou as mãos a se abrirem e chapou-as contra as coxas. Agora, mentalmente, viu a mulher de camisola rosa se contrair de leve - ela ainda estava viva. Mas talvez por pouco tempo. Certamente por pouco tempo, a não ser que esses dois patetas decidissem tentar uma providência mais eficaz do que se postarem na varanda e se revezarem batendo à porta ou tocando a campainha.

- Vamos, caras - disse Ralph, apertando as coxas. - Vamos, vamos, que tal andarem logo com isso?

Você sabe que as coisas que está vendo são fruto de sua imaginação, não sabe? - ele se perguntou constrangido. Quero dizer, talvez haja duas mulheres mortas ali, claro, talvez haja, mas você não sabe disso, certo? Não é como as auras, ou as pegadas...

Não, não era como as auras ou as pegadas, sim, sabia disso. E também sabia que ninguém estava atendendo à porta lá no 86 da Avenida Harris, o que não era um bom augúrio para a velha colega de Bill McGovern em Cardville. Ele não vira sangue na tesoura que o Dr. N-1 levava na mão, mas dada a duvidosa qualidade dos velhos binóculos Zeiss-Ikon, isso não provava muita coisa. Além do mais, o cara poderia tê-la limpado antes de deixar a casa. Mal o pensamento cruzara a cabeça de Ralph e sua imaginação já acrescentara uma toalha ensangüentada ao lado da morta de camisola rosa.

- Vamos, vocês dois! - Ralph exclamou em voz baixa. - Caramba, vocês vão ficar aí parados a noite inteira?

Mais faróis inundaram a Avenida Harris. Os últimos pertenciam a um Ford sedan, sem marcas de identificação, que trazia um pisca-pisca vermelho no painel do carro. O homem que desembarcou estava à paisana - blusão de popeline cinza e gorro de tricô azul. Ralph alimentara uma momentânea esperança de que o carro trouxesse John Leydecker, embora Leydecker lhe tivesse dito que não apareceria antes do meio-dia, mas ele não precisou de binóculos para se certificar de que não era ele. Este homem era bem mais magro e tinha um bigode escuro. O tira n-2 veio ao encontro dele, enquanto Chris ou Jess Nell contornava a casa da Sra. Locher.

Seguiu-se uma dessas pausas que os diretores de filmes convenientemente suprimem. O tira n-1 guardou a arma no coldre. Ele e o detetive recém-chegado se postaram ao pé da varanda da Sra. Locher, aparentando conversar e vigiar de relance a porta fechada. Em certo momento, o tira fardado deu uns passos na direção que Nell tomara. O detetive esticou a mão, agarrou-o pelo braço e o reteve. Conversaram mais um pouco. Ralph agarrou as coxas com mais força e puxou um pigarrinho frustrado da garganta.

Passaram-se alguns minutos e, então, tudo aconteceu de repente daquela maneira confusa, superposta, inconclusiva que costumam assumir as situações de emergência. Chegou mais um carro de polícia (a casa da Sra. Locher e suas vizinhas à direita e à esquerda achavam-se agora banhadas por raios conflitantes de luzes vermelhas e amarelas). Mais dois tiras fardados saltaram, abriram a mala do carro, e retiraram uma volumosa engenhoca que pareceu a Ralph um instrumento de tortura portátil. Acreditava que era um equipamento conhecido pelo nome de "presas da vida". Depois de uma violenta tempestade na primavera de 1985, que provocara a morte de mais de duzentas pessoas - muitas das quais ficaram presas em carros e se afogaram-os escolares de Derry tinham feito uma campanha para comprar uma dessas presas.

Quando os dois novos tiras cruzavam a calçada carregando as "presas da vida", a porta de entrada da casa vizinha à da Sra. Locher se abriu e os Eberlys, Stan e Georgina, chegaram à varanda de roupões. Os cabelos grisalhos de Stan

espetavam-se em mechas desgrenhadas que lembraram a Ralph Charlie Pickering. Ergueu os binóculos, examinou brevemente aqueles rostos curiosos e excitados, e tornou a descansá-los no colo.

O próximo veículo a aparecer foi uma ambulância do Derry Home. Como os carros da polícia que chegaram, trazia a sirene desligada em respeito à hora, mas era equipado com uma bateria de luzes estroboscópicas vermelhas que piscavam freneticamente no teto. A Ralph, os acontecimentos do lado oposto da rua pareciam uma cena dos seus queridos filmes de Dirty Harry, só que a trilha sonora fora desligada.

Os dois tiras levaram as "presas da vida" até a metade do gramado e as descarregaram ali. O detetive de blusão e gorro virou-se para os dois e ergueu as mãos ao nível dos ombros com as palmas estendidas como se perguntasse Que acharam que iam fazer com essa coisa?

Botar a merda da poria abaixo? No mesmo instante, o Oficial Nell regressou de sua inspeção à volta da casa. Sacudia a cabeça.

O detetive de gorro girou abruptamente, passou por Nell e seu companheiro, subiu as escadas, levantou um pé, e arrombou com um pontapé a porta de entrada de May Locher. Parou para abrir o blusão, provavelmente para ter livre acesso à sua arma, e em seguida entrou sem olhar para trás.

Ralph teve vontade de bater palmas.

Nell e o companheiro se entreolharam inseguros, em seguida subiram a escada e entraram atrás do detetive. Ralph curvou-se mais um pouco na poltrona, agora suficientemente próximo à janela para suas narinas produzirem rosinhas de vapor na vidraça. Três homens, as calças brancas de hospital tingidas de laranja pelas lâmpadas de alta intensidade, desembarcaram da ambulância. Um deles abriu as portas traseiras e em seguida os três se postaram ali, as mãos nos bolsos dos jalecos, esperando serem requisitados. Os dois tiras que haviam carregado as "presas da vida" até a metade do gramado da Sra. Locher se entreolharam, ergueram o equipamento e começaram a transportá-lo de volta ao seu carro.

Deixaram grandes torrões de terra revolvidos no gramado, onde haviam descarregado as "presas".

Só peço a Deus que ela esteja bem, pensou Ralph. Só peço que ela - e quem estava com ela na casa - estejam bem.

O detetive apareceu de novo à porta, e Ralph sentiu um aperto no coração, quando ele fez sinal aos homens parados à traseira da ambulância. Dois deles retiraram a maça com rodas retrateis; o terceiro continuou onde estava. Os homens com a maça saíram em passos enérgicos pelo caminho e entraram na casa, mas sem correr e, quando o servente que ficou para trás puxou um maço e acendeu um cigarro, Ralph soube - repentina e completamente, sem nenhuma dúvida-que May Locher estava morta.

STAN E GEORGIANA EBERLY chegaram até a pequena cerca viva que separava seu jardim do da Sra. Locher. Tinham passado o braço pela cintura um do outro e lembraram a

Ralph os gêmeos Bobbsey, numa versão idosa, gorda e assustada.

Outros vizinhos também foram surgindo, despertados pela silenciosa convergência de luzes de emergência ou pela rede telefônica que já começara a funcionar nesse pedacinho da Avenida Harris. A maioria das pessoas que Ralph viu eram velhas, ("Nós, da Idade de Ouro", Bill McGovern gostava de chamá-los... sempre arqueando satírica e levemente a sobrancelha, é claro), homens e mulheres cujo sono era, na melhor das hipóteses, frágil e facilmente interrompível. De repente compreendeu que Ed, Helen e Natalie tinham sido as pessoas mais jovens dali até a Extensão da Harris... e agora os Deepneaus haviam partido.

Eu poderia descer também, pensou. Não destoaria dos outros. Apenas mais um dos sobreviventes da Idade de Ouro, como diz Bill.

Só que não podia. Sentia as pernas como se fossem fardos de saquinhos de chá presos por fios levemente retorcidos, e tinha quase certeza de que se tentasse levantar, elas desabariam molemente no chão. Continuou sentado observando-os da janela, assistindo à peça que se desenrolava no palco, antes sempre vazio a esta hora... isto é, excepto pelo ocasional passeio de Rosalie. Era uma peça que ele próprio produzira, com um simples telefonema anônimo.

Acompanhou com os olhos os serventes reaparecerem, desta vez caminhando lentamente por causa da figura envolta em um lençol e amarrada à maça. Raios conflitantes de luz azul e vermelha lampejavam no lençol e nas formas das pernas, quadris, braços, pescoço e cabeça que ele ocultava.

Ralph repentinamente mergulhou outra vez em seu sonho. Viu sua mulher sob o lençol não May Locher, mas Carolyn Roberts, e sabia que, a qualquer momento, sua cabeça se abriria e os insetos negros, cevados com a carne de seu cérebro doente, começariam a vazar aos borbotões.

Ralph levou os pulsos aos olhos. Deixou escapar um gemido -um som inarticulado de mágoa, raiva, horror e cansaço. Continuou sentado assim durante um longo tempo, desejando que nunca tivesse visto nada, acalentando a cega esperança de que se havia realmente um túnel, afinal não o obrigassem a entrar. As auras eram estranhas e belas, mas não apresentavam beleza suficiente para compensar um único momento daquele sonho horrível em que descobrira sua mulher enterrada abaixo da linha da maré alta, nem beleza suficiente para compensar a horrível monotonia de suas noites de vigília ou a visão daquela figura sob o lençol que retiravam da casa defronte.

Sentia mais que um simples desejo de ver a peça terminada; sentado ali, os pulsos comprimindo as pálpebras fechadas, ele desejava que tudo terminasse - tudo. Pela primeira vez em vinte e cinco mil dias de vida, Ralph Roberts viu-se desejando a morte.

HAVIA um cartaz de cinema, provavelmente comprado em uma das lojas de vídeo por uns três dólares, na parede do cubículo que servia de escritório ao detective John Leydecker.

Mostrava o elefantinho Dumbo voando com suas orelhas mágicas esticadas. Uma foto do rosto de Susan Day fora colada em cima da cara de Dumbo, cuidadosamente recortada de modo a permitir a passagem da tromba. Na paisagem de desenho animado abaixo, alguém desenhara um poste com uma placa em que se lia DERRY 250.

- Ah, que gracinha - comentou Ralph. Leydecker deu uma risada.

- Não é politicamente muito correcto, não é?

- Acho que você está sendo modesto - respondeu Ralph, imaginando como Carolyn teria entendido o cartaz, aliás, imaginando como Helen o teria entendido. Eram uma e quarenta e cinco de uma tarde de segunda-feira, nublada e fria, e ele e Leydecker tinham acabado de chegar do tribunal municipal de Derry, ali defronte, onde Ralph prestara depoimento sobre o seu encontro com Charlie Pickering no dia anterior. Fora interrogado por um promotorassistente que lhe dera a impressão de que, dentro de mais dois anos, estaria em idade de começar a se barbear.

Leydecker o acompanhara conforme prometera, sentado a um canto do escritório do promotor municipal, sem dizer uma palavra. Sua promessa de pagar uma xícara de café para Ralph afinal fora apenas uma figura de linguagem - a beberagem de mau aspecto saíra de uma máquina instalada a um canto da atravancada sala comum no segundo andar da central de polícia. Ralph provou o café cautelosamente e ficou aliviado ao descobrir que o gosto era um pouco melhor do que o aspecto.

Açúcar? Creme? - Leydecker perguntou. - Arma para explodi-lo com um tiro?

Ralph sorriu e balançou negativamente a cabeça.

- Está bom... embora provavelmente seja um erro confiar no meu julgamento. Reduzi para duas xícaras por dia no verão passado e agora sempre acho qualquer café bom.

- É como eu com os meus cigarros: quanto menos fumo, melhor sabor eles têm. O pecado é uma meretriz. - Leydecker puxou seu tubinho de palitos, sacudiu-o para extrair um e meteu-o no canto da boca. Descansou a xícara em cima do terminal de computador, foi até onde estava o cartaz do Dumbo, e começou a retirar as tachinhas que o prendiam nos cantos.

- Não faça isso por mim - disse Ralph. - E o seu escritório.

- Errado. - Leydecker retirou do cartaz a foto caprichosamente recortada de Susan, amassou-a, atirou-a na cesta de papéis e começou a enrolar o cartaz num canudo apertado.

- Não? Então como é que o seu nome está na porta?

- É o meu nome, mas o escritório pertence a você e aos seus colegas contribuintes, Ralph.

E a qualquer idiota da imprensa que apareça por aqui com uma minicâmera também, e se esse cartaz aparecesse no telejornal do meio-dia, minha vida ia virar um calvário. Esqueci de retirá-lo quando saí na sextafeira à noite e passei a maior parte do fim de semana de folga, coisa muito rara por aqui, devo dizer.

- Mas não foi você que pendurou o cartaz, imagino. - Ralph retirou alguns papéis da segunda cadeira do minúsculo escritório e se sentou.

- Não. Meia dúzia de colegas me ofereceram uma festinha na sexta à tarde. Completa, com bolo, sorvete e presentes. - Leydecker revolveu a mesa e encontrou um elástico. Passouo em volta do cartaz para mantê-lo enrolado, espiou Ralph pelo canudo com um olhar risonho, e em seguida atirou-o na cesta de papéis.

- Ganhei um conjunto daquelas calcinhas com os dias da semana, com os fundilhos cortados, uma lata de desodorante vaginal com aroma de morango, um pacote de informações antiaborto dos Amigos da Vida, que incluía uma revista em quadrinhos chamada A gravidez indesejada de Denise, e aquele cartaz.

- Acho que não foi uma festa de aniversário, ou foi?

- Não. - Leydecker estalou as juntas dos dedos e suspirou para o teto. - A rapaziada estava comemorando minha nomeação para uma missão especial.

Ralph distinguia fracos lampejos de aura azul em torno do rosto e dos ombros de

Leydecker, mas, neste caso, não precisou interpretá-los.

- É a Susan Day, não é? Você foi designado para a missão de protegê-la enquanto estiver na cidade.

- Na mosca. Naturalmente a polícia estadual vai estar por perto, mas, numa situação dessas, eles se preocupam mais com o controle do tráfego. Talvez haja agentes do FBI, também, mas só sabem ficar nos bastidores, tirar fotografias, e se identificarem uns para os outros com sinais secretos.

- Ela tem seguranças pessoais, não tem?

- Tem. Mas não sei quantos, nem se são bons. Falei com o chefe hoje pela manhã e ele me pareceu ser pelo menos coerente, mas temos que acrescentar também os nossos. Cinco, pelas ordens que recebi na sexta-feira. Ou seja, eu e mais quatro caras que vão se apresentar como voluntários, quando eu mandar. O objectivo é... espere aí... você vai gostar dessa... Leydecker procurou entre os papéis sobre a escrivaninha, encontrou o que procurava, e leuo. - "... é manter uma forte presença e alta visibilidade".

Ele largou o papel na mesa e sorriu para Ralph. O sorriso não expressava muito humor.

- Em outras palavras, se alguém tentar atirar na sacana ou jogar um xampu de ácido nela, queremos que Lisette Benson e os outros idiotas pelo menos registrem o fato de que estávamos lá. - Leydecker olhou para o canudo encostado na cesta de papéis e esticou o dedo médio da mão fechada.

- Como é que você pode detestar assim alguém que nunca viu na vida?

- Eu não a detesto, Ralph; porra, eu a odeio. Olhe aqui: sou católico, minha querida mãe era católica, meus filhos, se algum dia os tiver, vão ser coroinhas na igreja de São José. E legal... É legal ser católico. Hoje em dia, você já pode até comer carne às sextas-feiras. Mas se acha que, por ser católico, sou a favor de tornar o aborto ilegal novamente, está falando com a pessoa errada. Sabe, sou o tipo de católico que questiona os caras que batem nos filhos com mangueira de jardim ou empurram eles escada abaixo, depois de passarem a noite enchendo a cara com um bom uísque irlandês e se enternecendo com recordações da mamãe.

Leydecker meteu a mão dentro da camisa e puxou uma medalhinha de ouro. Colocou-a sobre os dedos e mostrou-a a Ralph.

- Maria, mãe de Jesus. Uso desde os treze anos. Há cinco anos prendi um homem que usava uma igualzinha. Tinha acabado de escaldar o enteado de dois anos. Estou lhe contando uma história verdadeira. O cara pôs no fogo um grande caldeirão com água e, quando ela ferveu, agarrou o garoto pelos tornozelos e meteu-o no caldeirão como se fosse uma lagosta. Por quê? Porque o garoto não queria parar de molhar a cama, foi o que nos contou. Vi o corpo, e vou lhe dizer uma coisa, depois de se ver aquilo, as fotos de abortos a vácuo que os babacas do Direito-à-vida gostam de mostrar são café pequeno.

A voz de Leydecker adquirira um ligeiro tremor.

- O que lembro mais nitidamente é como o cara chorava, segurava a medalha de Maria que trazia ao pescoço e dizia que queria se confessar. Vou lhe contar, Ralph, senti orgulho de ser católico... e, quanto ao Papa, acho que ele só devia dar opinião depois de ter um filho, ou de passar no mínimo um ano cuidando dos filhos de mães viciadas em crack.

- Muito bem - disse Ralph. - E qual é o seu caso com Susan Day?

- Acho que ela está mexendo na porra do caldeirão*. - exclamou Leydecker. - Ela vem à minha cidade e tenho que protegê-la. Óptimo. Tenho bons homens e, com um tiquinho de sorte, acho que conseguiremos que saia da cidade com a cabeça em cima do pescoço e os peitos apontando para a direcção normal, mas e o que acontece antes? E o que acontece depois? Você acha que ela está se preocupando? E você acha que o pessoal que dirige a WomanCare está ligando para os efeitos colaterais?

- Não sei.

- Os defensores da WomanCare gostam menos de violência do que os Amigos da Vida, mas se levarmos em conta a capacidade de encher o saco, não há muita diferença entre um e outro. Você sabe qual era o problema quando tudo isso começou?

Ralph retrocedeu mentalmente à primeira conversa que tivera sobre Susan Day, aquela com Ham Davenport. Por um momento, quase lembrou, mas em seguida a lembrança lhe escapou. A insónia ganhara mais uma vez a parada. Sacudiu a cabeça.

- O zoneamento - disse Leydecker, e riu desgostoso. - Uma simples legislação de zoneamento do tipo que se ouve falar todo dia. Legal, não é? No início deste verão, dois dos vereadores mais conservadores, George Tandy e Emma Wheaton, fizeram um requerimento à Comissão de Zoneamento para reexaminar a zona em que a WomanCare funciona, com a intenção de tornar a sua localização ilegal. Não sei exactamente qual é o nome que dão para isso, mas, em essência, você entendeu a jogada, não é?

- Claro.

- Hum. Então os pró-opção de aborto pediram a Susan Day que viesse à cidade fazer uma palestra, ajudá-los a levantar recursos para combater os ativistas do pró-vida. O único problema é que os ativistas do pró-vida nunca tiveram a menor chance de dividir o distrito 7 em outras zonas, e o pessoal da WomanCare sabia disso! Droga, uma das suas directoras, June Halliday, parte da câmara de vereadores. Ela e a piranha da Wheaton praticamente cospem uma na cara da outra quando se cruzam no corredor.

- A divisão do distrito 7 foi uma fantasia desde o começo, porque a WomanCare é tecnicamente um hospital, igual ao Derry Home, que fica praticamente do lado. Se você muda as leis de zoneamento para pôr a WomanCare na ilegalidade, você atinge um dos três hospitais de Derry, o terceiro maior município do estado do Maine. Por isso a mudança jamais poderia ocorrer, mas tudo bem, porque o problema nunca foi esse, para começar. O caso era provocar e sacanear. Era encher o saco. E para a maioria dos pró-opção (que um dos caras com quem trabalho chama de Povo da Baleia) é uma questão de ser dono da razão.

- Como assim? Não entendi.

- Não basta uma mulher poder entrar na clínica e se livrar quando quiser do feto que carrega; os pró-opção querem encerrar a discussão. O que eles querem, no fundo, é que gente como Dan Dalton admita que eles estão certos, e isso não vai acontecer nunca. É mais provável árabes e judeus concluírem que foi tudo um grande engano e deporem as armas.

Apoio o direito feminino de abortar, se for realmente necessário, mas essa santidade dos pró-opção me dá vontade de vomitar. Na minha opinião, eles são os novos puritanos, gente que acredita que, se você não pensa como eles, vai para o inferno... só que na versão deles o inferno é um lugar onde só se ouve música sertaneja no rádio e a única comida que se encontra é filé de frango frito.

- Você parece amargurado.

- Experimente sentar em cima de um barril de pólvora durante três meses para ver como você vai se sentir. Diga-me uma coisa: você acha que Pickering teria enfiado uma faca no seu sovaco ontem se não fosse a WomanCare, os Amigos da Vida, e a Susan Deixe a minha-Santa-Xota m Paz Day?

Ralph pareceu pesar seriamente a pergunta, mas, na realidade, observava a aura de John Leydecker. Era um saudável azul-marinho, mas tinha a orla matizada de um verde cambiante. Era essa orla que interessava a Ralph; achava que sabia o que significava.

- Não, acho que não - respondeu afinal.

- Também acho que não. Você foi ferido em uma guerra que já está declarada, Ralph, e não será o último. Mas se procurar o Povo da Baleia, ou a Susan Day, abrir a camisa, apontar para a atadura e disser: "Vocês têm culpa nisso, portanto, assumam", eles vão erguer as mãos e dizer "Ah não, meu Deus, lamentamos que tenha se machucado, Ralph, nós, Observadores de Baleias, abominamos a violência, mas não foi nossa culpa, temos de manter a WomanCare aberta, temos de guarnecer as barricadas e, se no processo for necessário derramar um pouquinho de sangue, que seja assim". Mas a questão não é a WomanCare e é isso que me deixa absolutamente puto. É...

-... o aborto.

- Uma porra! O direito de abortar está garantido no Maine e em Derry, seja qual for o discurso que Susan Day faça no Centro Cívico, sexta-feira à noite. A questão é qual dos times é o melhor. De que lado está Deus? Quem está certo? Gostaria que todos eles saíssem cantando Somos os Campeões e fossem tomar um porre.

Ralph jogou a cabeça para trás, dando risadas. Leydecker riu com ele.

- Portanto, são todos uns babacas-terminou, sacudindo os ombros. - Mas são os "ossos babacas.Você pensa que estou brincando? Não estou, não. WomanCare, Amigos da Vida,

Vigília do Corpo,Pão-de-Cada-Dia... são os nossos babacas, os babacas de Derry, e, na realidade, não me importo de vigiar os nossos. Foi para isso que aceitei este emprego, e continuo nele. Mas você vai ter que me perdoar se não dei pulos de alegria, quando me designaram para vigiar uma rosa de Nova Iorque, que vai desembarcar de avião em Derry, fazer um discurso inflamado e embarcar de volta, levando mais alguns recortes de jornal e material suficiente para o capítulo cinco de seu novo livro.

- Na nossa frente-continuou-ela vai elogiar a maravilhosa comunidade tradicional que somos e, quando regressar ao seu duplex na avenida Park, vai contar aos amigos que nem um litro de xampu conseguiu tirar de seus cabelos o fedor das nossas usinas de papel. Ela é mulher, ouça o seu rugido... e se a gente tiver sorte, a coisa toda vai se acalmar sem mortos nem feridos.

Ralph agora tinha certeza da significação daqueles lampejos verdes.

- Mas você está com medo, não está? - perguntou. Leydecker olhou-o surpreso:

- Dá para notar?

- Só um poquinho-disse Ralph, e pensou: Só na sua aura, John. Só na sua aura.

- E, estou. Em nível pessoal, estou com medo de melar a missão que, por sinal, não apresenta nenhuma alternativa para compensar as muitas possibilidades de algo dar errado.

Em nível profissional, tenho medo que aconteça alguma coisa à moça durante minha guarda.

Em nível comunitário, estou me borrando de medo que aconteça algum tipo de confronto e o génio escape de dentro da lâmpada... mais café, Ralph?

- Chegou. De qualquer maneira, já estou de saída. Que vai acontecer com Pickering?

Na realidade, pouco lhe interessava o destino de Charlie Pickering, mas o tira fortão provavelmente acharia estranho se ele perguntasse por May Locher antes de perguntar por Pickering. Talvez desconfiasse.

- Steve Anderson, o promotor-assistente que interrogou você, e o advogado que o tribunal designou para Pickering provavelmente já estão negociando enquanto conversamos. O de Pickering deve estar dizendo que talvez consiga que seu cliente... aliás, só de pensar que Charlie Pickering possa ser cliente de alguém, funde a minha cuca, se declare culpado de agressão em segundo grau. Anderson vai responder que já está na hora de tirar Pickering de circulação de uma vez e que vai acusá-lo de tentativa de homicídio. Ó advogado de Pickering vai se fingir chocado, e amanhã nosso amiguinho vai ser acusado de agressão em primeiro grau com arma letal e ficará preso até o dia do julgamento. Então, possivelmente em dezembro, mais provavelmente no ano que vem, você vai ser intimado como testemunha-chave.

- Fiança?

- Provavelmente vai ser estipulada aí na faixa dos quarenta mil dólares. O sujeito pode se livrar pagando apenas dez por cento, se o saldo estiver garantido em caso de fuga, mas Charlie Pickering não tem casa, nem carro, nem mesmo um relógio Timex. No final, ele é bem capaz de voltar para Juniper Hill, mas esse não é o objetivo real do jogo. Vamos conseguir mantê-lo fora das ruas por um bom tempo desta vez e, no caso de gente como Charlie, esse é que é o objetivo do jogo.

- Alguma chance de os Amigos da Vida pagarem a fiança?

- Não. Ed Deepneau gastou uma boa parte da semana passada com ele, tomando café na Bagel Shop. Imagino que deve ter dado a Charlie o serviço completo sobre os Centuriões e o Rei de Ouros...

- Rei Sangüinário é como Ed...

- Seja lá o que for - Leydecker concordou, com um aceno.-Mas imagino que gastou o tempo principalmente para explicar que você era o braço direito do diabo e que somente um cara inteligente, corajoso e dedicado como Charlie Pickering poderia removê-lo de cena.

Você faz ele parecer um cretino calculista - disse Ralph. Lembrou-se do Ed Deepneau com quem jogara xadrez antes de Carolyn adoecer. Aquele Ed era um homem inteligente,

bem-falante, civilizado com uma enorme reserva de bondade. Ralph ainda achava quase impossível conciliar aquele Ed com o que vira pela primeira vez em julho de 1992. Passara a pensar neste último como o "Ed galo-de-briga".

- Não é apenas um cretino calculista, mas um cretino calculista perigoso-Leydecker acrescentou.-Para ele, Charlie é só uma ferramenta, como uma faca que se usa para descascar uma maçã. Se a lâmina de uma faca se parte, a gente não recorre ao amolador de facas para substituí-la; dá muito trabalho. A gente joga a faca no lixo e compra uma nova. É assim que caras como Ed tratam caras como Charlie, e já que Ed e os Amigos da Vida, pelo menos por ora, acho que você não precisa se preocupar que Charlie pague a fiança. Nos próximos dias, ele vai estar mais sozinho do que o cara que faz manutenção de máquina de lavar. Concorda?

- Concordo - disse Ralph. Espantou-se um pouco ao perceber que sentia pena de

Pickering. - E também quero lhe agradecer por manter meu nome fora dos jornais,... isto é, se foi sua iniciativa.

Saíra uma breve menção do incidente na coluna policial do News de Derry, dizendo apenas que Charles H. Pickering fora preso na biblioteca pública de Derry por "porte ilegal de arma".

- Às vezes pedimos a eles um favor, outras, eles é que nos pedem - disse Leydecker se levantando. - É assim que funcionam as coisas no mundo da realidade. Se os birutas dos Amigos da Vida e os não-me-toques dos Amigos da WomanCare algum dia descobrirem isso, meu trabalho vai ser bem mais fácil.

Ralph puxou o cartaz do Dumbo da cesta de papéis, e ficou de pé diante da mesa de Leydecker.

- Posso ficar com o cartaz? Sei de uma menininha que talvez venha a apreciá-lo realmente dentro de mais um ano.

Leydecker estendeu as mãos expansivamente.

- Sirva-se à vontade, imagine o cartaz como um prêmio por ser bom cidadão. Só não me peça as calcinhas com os fundilhos cortados.

Ralph riu.

- Nem me passaria pela cabeça.

- Agora sério, gostei muito que você tivesse vindo. Obrigado, Ralph.

- Não me custou nada - estendeu a mão por cima da mesa, apertou a de Leydecker e encaminhou-se para a porta. Absurdamente sentiu-se como o tenente Columbo na TV, só faltava o charuto e a capa surrada. Descansou a mão na maçaneta, e voltou-se. - Posso lhe fazer uma pergunta sem a menor relação com Charlie Pickering?

- Manda ver.

- Hoje pela manhã, no mercadinho, ouvi falar que a Sra. Locher, minha vizinha, morreu de madrugada. O que não é nenhuma surpresa; ela sofria de enfisema. Mas há cordões de isolamento da polícia entre a calçada e o jardim e um aviso na porta, dizendo que a casa foi lacrada pela polícia de Derry. Você está por dentro do que aconteceu?

Leydecker lhe lançou um olhar tão firme e demorado que Ralph teria se sentido extremamente constrangido... não fosse a aura do detective. Não havia nela nada que sugerisse desconfiança.

Nossa, Ralph, você está levando essas coisas um pouquinho a sério demais, não está não?

Bem, talvez sim, talvez não. Fosse como fosse, ficou satisfeito que os lampejos verdes na orla da aura de Leydecker não tornaram a aparecer.

- Por que está me olhando assim? - Ralph perguntou. - Se estou tomando liberdades ou falando demais, peço desculpas.

- Não, não é nada disso...-respondeu Leydecker. Só que é meio esquisito. Se eu lhe contar, você fica de bico calado?

- Claro.

- Minha principal preocupação é o seu inquilino de baixo. Quando falo em discrição, é claro que o professor é a última pessoa em que estou pensando.

Ralph riu gostosamente.

- Não direi nada a ele, palavra de escoteiro, mas é interessante que você o mencione; Bill foi colega de escola da Sra. Locher, há milênios. Na escola primária.

- Cara, nem consigo imaginar o professor frequentando a escola primária - disse

Leydecker. - Você consegue?

- Mais ou menos - respondeu, mas a imagem que lhe ocorreu foi peculiaríssima: Bill

McGovern, como uma mistura do Pequeno Lorde e Tom Sawyer, vestindo calças até os joelhos, meias três-quartos brancas... e chapéu-panamá.

- Não temos muita certeza do que houve com a Sra. Locher - continuou Leydecker. - O que sabemos é que pouco depois das três da madrugada, o 911 registrou uma ligação anónima, uma voz masculina, que informava ter acabado de ver dois homens, um carregando uma tesoura, saírem da casa da Sra. Locher.

- Ela foi assassinada? - Ralph exclamou, percebendo simultaneamente duas coisas: que ele parecia mais sincero do que jamais imaginaria possível, e que acabara de atravessar uma ponte. Não a queimara depois da travessia, pelo menos, ainda não, mas não poderia voltar à outra margem sem dar muita explicação.

Leydecker virou as palmas das mãos para cima e deu de ombros.

- Se foi, não foi com tesoura, nem com nenhum objecto pontiagudo. Não havia nenhuma marca no corpo.

Isso pelo menos trazia um certo alívio.

- Por outro lado, é possível matar alguém de pavor, principalmente uma velha doente disse Leydecker. - Em todo o caso, será bem mais fácil explicar se você me deixar contar o que sei. Não vai demorar muito, pode crer.

- Claro, me desculpe.

- Quer ouvir uma coisa engraçada? A primeira pessoa em quem pensei quando vi o registro de chamadas do 911 foi você.

- Por causa da insónia, certo? - perguntou Ralph. Sua voz continuava firme.

- E e também porque quem fez a chamada disse que vira os homens da janela da sala de estar. A sua sala de estar tem vista para a avenida, não tem?

- Tem.

- Hum-hum. Pensei até em escutar a gravação, então me lembrei que você viria aqui hoje... e que voltou a dormir a noite inteira. Voltou, não foi?

Sem ao menos fazer uma pausa ou uma reflexão, Ralph ateou fogo à ponte que acabara de cruzar.

- Bem, não estou dormindo como dormia quando tinha dezasseis anos e enfrentava dois empregos depois das aulas, não vou lhe enganar, mas se fui o cara que ligou para o 911 à noite passada, liguei dormindo.

- Exactamente o que imaginei. Além do mais, se você visse alguma coisa esquisita na rua, porque daria um telefonema anónimo?

- Não sei - Ralph respondeu e pensou mas suponha que fosseuma coisa para U de esquisita, John? Suponha que fosse uma coisa absolutamente inacreditável?

- Nem eu - retrucou Leydecker. - O seu apartamento tem vista para a Avenida Harris, verdade, mas outros trinta também têm... e só porque o sujeito que ligou disse que estava em casa, não significa que realmente estivesse, não é mesmo?

- É. Há um telefone público fora do mercadinho de onde ele poderia ter ligado, e outro junto à loja de bebidas. Há mais uns dois no parque Strawford, também, se estiverem funcionando.

- Na realidade, há quatro no parque e todos funcionam. Nós verificamos.

- Por que o homem mentiria sobre o local de onde estava ligando?

- A razão mais provável é que estivesse mentindo sobre todo resto, também. Em todo o caso, Donna Hagen disse que o cara parecia muito jovem e seguro. - Mal dissera essas palavras, Leydecker fez uma careta e levou a mão à boca. - Não foi bem isso que eu quis dizer, Ralph. Me desculpe.

- Tudo bem: a ideia de que falo como um panaca aposentado não é nenhuma novidade para mim. Eu sou um panaca aposentado. Continue.

- Chris Nell era o policial de serviço, foi o primeiro a chegar. Você se lembra dele no dia em que prendemos Ed?

- Lembro do nome.

- Hum-hum. Steve Utterback era o detetive de serviço e o oficial responsável. Ele é um bom policial.

O cara com o gorro de vigia, pensou Ralph.

A senhora estava morta na cama, mas não havia sinal de violência. Aparentemente não levaram nada, embora senhoras idosas como May Locher, em geral, não possuam muita coisa realmente comercializável: nem vídeo, nem som sofisticado, nada do gênero. Tinha umas duas ou três jóias bonitas. Não quero dizer com isso que não houvesse outras jóias igualmente bonitas ou até mais bonitas, mas...

- Mas por que um ladrão roubaria apenas algumas e não todas?

- Exacto. E o que é mais interessante no caso é que a porta da frente, de onde a pessoa que ligou para o 911 disse ter visto os dois homens saírem, estava trancada por dentro. E não era apenas à chave; tinha uma trava de maçaneta e uma corrente. Aliás, as mesmas trancas de segurança que na porta dos fundos. Então se o cara que ligou para o 911 falou a verdade, e se May Locher estava morta quando os dois sujeitos saíram, quem trancou as portas?

Talvez tenha sido o Rei Sangüinário, pensou Ralph... e para seu horror, quase fez o comentário em voz alta.

- Não sei. E as janelas?

- Trancadas. Os trincos corridos. E, caso isso não seja bastante Agatha Christie para você, Steve diz que as telas contra tempestades já tinham sido instaladas nas janelas. Um dos vizinhos informou que a Sra. Locher contratara um garoto para colocá-las ainda na semana passada.

- Verdade - disse Ralph. - Pete Sullivan, o mesmo garoto que entrega os jornais. E agora que você está falando, lembro que até vi quando fez esse serviço.

- Besteiras de romance de mistério - continuou Leydecker, mas Ralph pensou que ele teria trocado May Locher por Susan Day sem pestanejar. - O laudo preliminar chegou praticamente na hora em que fui para o fórum me encontrar com você. Passei os olhos nele.

Não sei o que do miocárdio, e mais aquilo da trombose... em poucas palavras, colapso cardíaco. No momento, achamos que a ligação para o 911 foi um trote: recebemos essas ligações o tempo todo, todas as cidades recebem; e que a morte da senhora foi por causa de um ataque provocado pelo enfisema.

- Em outras palavras, uma simples coincidência. - Tal conclusão poderia lhe poupar muitos problemas, isto é, se se sustentasse, mas Ralph conseguia perceber a descrença até em sua própria voz.

- É, também não me agrada. Nem a Steve, razão por que a casa foi lacrada. A perícia estadual vai fazer uma vistoria geral, provavelmente a partir de amanhã de manhã. Nesse meio tempo, a Sra. Locher foi dar um passeio até Augusta para fazerem uma autópsia mais completa. Quem sabe o que vão descobrir? Às vezes os exames realmente revelam muita coisa. Você ficaria surpreso.

- Suponho que sim - respondeu Ralph.

Leydecker atirou o palito no lixo, pareceu refletir por um momento, e logo se animou.

- Sabe, tive uma ideia: acho que vou mandar alguém do escritório gravar uma cópia daquela ligação para o 911. Eu poderia levar a gravação e tocar para você. Talvez você reconheça a voz. Quem sabe? Já vi coisas mais estranhas acontecerem.

- Imagino que sim - concordou Ralph, sorrindo pouco à vontade.

- De qualquer forma, o caso é do Utterback. Vamos, vou acompanhar você até a saída.

No corredor, Leydecker lançou-lhe outro olhar demorado. Desta vez, Ralph sentiu-se bem mais constrangido, porque não imaginava o que poderia significar. As auras tinham desaparecido novamente.

Experimentou dar um sorriso que lhe pareceu pouco convincente.

- Tem alguma coisa saindo do meu nariz?

- Não. Só estou admirando a boa aparência de alguém que passou pelo susto que você passou ontem. E comparada à sua aparência no verão passado... se é esse o efeito do favo de mel, vou comprar uma colmeia inteira só para mim.

Ralph riu como se isso fosse a coisa mais engraçada que já ouvira.

1h42min. Madrugada de terça-feira.

Ralph, sentado na poltrona, observava os etéreos círculos de névoa que giravam em torno das lâmpadas. Rua acima, os cordões de isolamento da polícia pendiam molemente diante da casa de May Locher.

Não chegara a dormir duas horas esta noite, e via-se mais uma vez pensando que estaria melhor morto. Não haveria mais insónia. Não haveria mais longas esperas pelo alvorecer nessa odiosa poltrona. Não haveria mais dias em que parecia estar olhando para o mundo através do escudo invisível de Gardol que antigamente anunciavam nos comerciais de creme dental. Isto é, no tempo em que a TV era praticamente nova, no tempo em que ele ainda não descobrira os primeiros fios de cabelos brancos na cabeça e que sempre adormecia cinco minutos depois que ele e Carolyn acabavam de fazer amor.

E as pessoas ficam falando da minha boa aparência. Isso é que é estranho.

Só que não era. Considerando o que andava vendo ultimamente, dizerem que ele parecia um novo homem era, de longe, a última preocupação em sua lista de peculiaridades.

O olhar de Ralph voltou à casa de May Locher. O lugar estava trancado, segundo

Leydecker, mas Ralph vira os dois doutorezinhos carecas saírem pela porta da frente, vira, droga...

Mas será que vira?

Será que realmente vira?

Ralph procurou relembrar a madrugada anterior. Sentado na mesma poltrona com uma xícara de chá, pensara agora, vamos à peça. E então vira aqueles dois carecas sacanas saírem, diabos, ele os vira sair da casa de May Locher.

Só que talvez se enganasse, porque não estivera de fato olhando para a casa de May Locher, porém mais na direcção do mercadinho. Pensara que o movimento fugaz que percebera pelo canto do olho era provavelmente Rosalie, e tinha virado a cabeça para conferir. Então é que vira os doutorezinhos carecas na varanda da casa de May Locher. Já não estava inteiramente seguro de ter visto a porta da frente se abrir; talvez apenas presumisse esta parte, e por que não? Tinha certeza absoluta de que eles não tinham entrado pelo caminho da casa da Sra. Locher.

Você não pode ter certeza disso, Ralph.

Só que podia. Às três da madrugada, a Avenida Harris era tão imóvel quanto as montanhas da lua - notava-se o menor movimento em qualquer ponto do seu campo de visão.

Será que o Dr. n-1 e o Dr. n-2 tinham saído pela porta da frente? Quanto mais Ralph pensava, tanto mais duvidava.

Então que terá acontecido, Ralph? Será que saíram detrás do Gardol, o escudo invisível?

Ou - que tal essa? - talvez tenham atravessado a porta, como aqueles fantasmas que costumavam assombrar Cosmo Topper naquele velho programa de TV!

E a maior piração de todas é que essa parecia ser a resposta correcta.

Quê? Que eles atravessaram a porra da PORTA? Ora, Ralph, você está precisando de ajuda. Precisa conversar com alguém sobre o que anda acontecendo.

Claro. Essa era a única coisa de que tinha certeza: precisava contar tudo para alguém antes que acabasse pirando. Mas quem? Carolyn teria sido a melhor conselheira, mas estava morta. Leydecker? Havia o problema de ter-lhe mentido sobre a ligação para o 911. Por quê? Porque a verdade teria dado uma impressão de loucura. Na realidade, teria sugerido que pegara a paranóia de Ed Deepneau como se pega um resfriado. E não era essa realmente a explicação mais provável, quando se encarava a situação de frente?

- Mas não é isso - murmurou. - Eles eram reais. As auras, também.

É longa a viagem de volta ao Paraíso, querido... e quando estiver a caminho cuidado com aquelas pegadas auriverdes do homem branco.

Contar a alguém. Desabafar tudo. É. Precisava falar antes que John Leydecker escutasse aquela gravação do 911 e aparecesse pedindo explicações. Querendo saber basicamente por que Ralph mentira, e o que realmente sabia sobre a morte de May Locher.

Contar a alguém. Desabafar tudo.

Mas Carolyn estava morta, Leydecker ainda era muito moço, Helen estava fora de circulação no abrigo da WomanCare no meio do mato, e Lois Chasse poderia fofocar com as amigas. Sobrava quem, então?

A resposta surgiu clara, quando colocou a questão nestes termos, mas Ralph ainda sentia uma surpreendente relutância em conversar com McGovern sobre as coisas que vinham lhe acontecendo. Lembrou-se do dia em que encontrara Bill sentado em um banco junto ao campo de beisebol, chorando por causa do velho amigo e professor Bob Pollhurst. Ralph tentara falar a Bill sobre as auras, e era como se McGovern não pudesse ouvi-lo; estava demasiado ocupado repassando seu texto ensebado sobre a merda que era envelhecer.

Ralph pensou na sobrancelha arqueada satiricamente. O cinismo infalível. O rosto comprido, sempre triste. As alusões literárias que, por vezes, faziam Ralph sorrir, mas, em geral, o faziam se sentir um tanto inferiorizado. E ainda havia a atitude de McGovern com relação a Lois: condescendente e até mesclada com uma certa crueldade.

No entanto, o retrato não parecia muito justo, e Ralph sabia disto. Bill McGovern era capaz de bondade, e - ainda mais importante no caso - de compreensão. Ele e Ralph se conheciam há mais de vinte anos; nos últimos dez, moravam no mesmo prédio. Ele carregara uma das alças do caixão de Carolyn, e se Ralph não podia contar a Bill o que estava ocorrendo, a quem poderia contar?

A ninguém, era a aparente resposta.

 

OS CÍRCULOS de névoa em torno das lâmpadas desapareceram quando o novo dia começou a colorir o céu no oriente e, por volta das nove horas, o dia estava claro e quente - talvez o prenúncio da última e breve passagem do veranico.

Ralph desceu assim que terminou o Bom Dia América, decidido a contar a McGovern o que vinha lhe acontecendo (ou até onde ousasse) antes que se acovardasse. Parado diante da porta do apartamento de baixo, porém, ouviu o chuveiro escorrendo e o som misericordiosamente distante de William D. McGovern cantando / Left My Heart in San Francisco.

Ralph saiu para a varanda, enfiou as mãos nos bolsos traseiros e estudou o dia como se fosse um catálogo de compras. Não havia nada, reflectiu, realmente nada no mundo que se comparasse ao sol de outubro; ele chegava quase a sentir suas aflições nocturnas se dissolverem. Sem dúvida voltariam, mas por ora sentia-se bem - cansado e meio atordoado, era verdade, mas ainda assim muito bem. O dia estava mais do que bonito; estava maravilhoso, e Ralph duvidava que ainda houvesse outro tão bom até maio. Concluiu que seria um tolo se não o aproveitasse. Um passeio de ida e volta até a Extensão da Harris lhe tomaria meia-hora, quarenta e cinco minutos, se por acaso encontrasse alguém lá com quem valesse a pena bater um papo e, por aquela altura, Bill teria terminado o banho, e estaria barbeado, penteado e vestido. E também disposto a lhe dar atenção, se Ralph tivesse sorte.

Caminhou até a área de piqueniques ao lado da cerca do aeroporto municipal, sem querer admitir para si mesmo que esperava encontrar o velho Dor. Se isso acontecesse, talvez os dois pudessem discutir um pouco de poesia-Stephen Dobyns, por exemplo-ou talvez até um pouquinho de filosofia. Talvez iniciassem essa parte da conversa com Dorrance explicando quais eram as tais "histórias antigas" e por que acreditava que Ralph não devia "se meter" nelas.

Só que Dorrance não estava na área de piqueniques; não havia ninguém lá, excepto Don Veazie, que queria explicar a Ralph por que Bill Clinton estava fazendo um governo tão ruim e por que teria sido melhor para o velho Estados Unidos se o povo tivesse elegido o génio fiscal do Ross Perot. Ralph (que votara em Clinton e realmente achava que ele estava fazendo um bom trabalho) escutou-o o tempo mínimo exigido pela boa educação, e então alegou que tinha hora marcada no barbeiro. Foi a única desculpa que lhe ocorreu de estalo.

- E tem mais uma coisa! - Don gritou quando ele se afastava. - Aquela primeira dama arrogante! Aquela mulher é lésbica! Nunca me engano! Sabe por quê? Basta olhar para os sapatos delas! Os sapatos são uma espécie de senha secreta! Sempre usam sapatos de bico quadrado e...

- Até qualquer hora, Don! - Ralph gritou em resposta e bateu rapidamente em retirada.

Já voltara quase meio quilómetro, ladeira abaixo, quando o dia explodiu silenciosamente ao seu redor.

ACHAVA-SE DEFRONTE da casa de May Locher quando a coisa aconteceu. Ele parou instantaneamente, olhando a Avenida Harris com olhos arregalados e incrédulos. A mão direita apertou a garganta e a boca despencou aberta. Parecia um homem com um ataque cardíaco e, embora seu coração parecesse muito bem - pelo menos no momento - sem dúvida sentia-se como se estivesse sofrendo algum tipo de acesso. Nada do que vira neste outono o preparara para tal situação. Ralph achava que nada poderia tê-lo preparado.

Aquele outro mundo - o mundo secreto das auras tornara-se visível novamente, mas desta vez havia muito mais do que Ralph jamais sonhara... tanto mais que Ralph se perguntou se seria possível alguém morrer de sobrecarga perspectiva.

O alto da Avenida Harris era uma terra encantada que brilhava intensamente e onde se sobrepunham esferas, cones e meias-luas coloridas. As árvores, que ainda estavam a uma semana ou mais do auge de sua transformação outonal, inflamavam-se como tochas aos olhos e mente de Ralph. O céu ultrapassara a ideia de cor; era uma vasta explosão sônica azul.

As linhas telefónicas do sector oeste de Derry ainda eram aéreas e Ralph fixou-as, vagamente cônscio de que parara de respirar e provavelmente precisaria recomeçar logo se não quisesse perder os sentidos. Espirais amarelas cheias de pontas percorriam os fios negros de um lado a outro, lembrando a Ralph o efeito dos postes coloridos à porta das barbearias quando ele era criança. A intervalos, esse padrão besoural era interrompido por uma ponta vermelha mais alta ou um lampejo verde que parecia se espalhar ao mesmo tempo nos dois sentidos, obliterando os anéis amarelos, por um instante, antes de desaparecer.

Você está vendo pessoas se comunicarem, pensou abobado. Você sabia, Ralph? Tia Sadie em Dálias está batendo papo com o sobrinho favorito que mora em Derry; um agricultor em Haven está batendo boca com o seu fornecedor de peças para tractor; um pastor está tentando ajudar um paroquiano aflito. Aquilo são vozes, e acho que as pontas e lampejos coloridos são emitidos por pessoas presas de forte emoção - amor ou ódio, felicidade ou ciúmes.

E Ralph percebeu que tudo aquilo que via e tudo que sentia não era tudo; que ainda havia um mundo inteiro que o aguardava além do actual alcance de seus sentidos. Suficiente, talvez, para fazer até o que via agora parecer fraco e desbotado e descolorido. E se houvesse mais, como seria possível suportar isso sem enlouquecer? Nem mesmo arrancar os olhos adiantaria; seja como for, ele compreendia que a sua percepção dessas coisas decorria, em grande parte, de uma vida inteira de crença na visão como um sentido primário. Mas havia ali realmente muito mais do que a simples visão.

A fim de comprovar essa ideia, ele fechou os olhos... e continuou a ver a Avenida Harris.

Era como se suas pálpebras tivessem se tornado transparentes. A única diferença era que as cores habituais tinham mudado, e criado um mundo que parecia o negativo de uma fotografia colorida. As árvores já não eram laranja e amarelas, mas tinham o verde vivo e artificial do Gatorade de lima. A superfície da Avenida Harris, reasfaltada em junho, transformara-se numa grande estrada branca, e o céu era um fantástico lago vermelho. Ele reabriu os olhos, quase certo de que as auras teriam desaparecido, mas não; o mundo continuava a refletir e a turbilhonar cor, movimento, num som profundo e ecoante.

Quando é que vou começar a vê-los? - Ralph perguntou-se ao retomar a lenta caminhada avenida abaixo. Quando é que os doutorezinhos vão começar a sair pelos ornatos de madeira? Mas não havia doutores em evidência, nem carecas nem quaisquer outros; nenhum anjo na arquitectura; nenhum diabo espiando pelas grades dos bueiros. Havia apenas...

- Cuidado, Roberts, será que não presta atenção por onde anda?

As palavras ríspidas e um tanto assustadas pareciam possuir uma textura física concreta; lembravam a sensação de passar a mão sobre painéis de carvalho em uma abadia antiga ou num salão ancestral. Ralph parou de chofre e viu a Sra. Perrine que morava mais no início da rua, Ela descera para a sarjeta para escapar de ser derrubada como um pino de boliche, e agora se via atolada em folhas secas até os tornozelos, a sacola de compras na mão, olhando zangada para Ralph sob as grossas sobrancelhas grisalhas. A aura que a envolvia era o cinzento firme e chega-de-tolices de um uniforme militar.

- Você bebeu, Roberts? - perguntou em tom seco e, subitamente, o tumulto de cores e sensações desapareceu do mundo e restou apenas a Avenida Harris, cortando sonolenta uma bela manhã de trabalho em pleno outono.

- Bebi? Eu? De jeito nenhum. Palavra, estou mais sóbrio que um juiz.

Estendeu a mão para ela. A Sra. Perrine, com mais de oitenta anos, embora não cedesse à idade sequer um centímetro, fez uma cara de quem desconfiava que Ralph tivesse um besouro mecânico escondido na palma da mão. Não me surpreenderia, Roberts, diziam os seus frios olhos cinzentos. Não me surpreenderia nem um pouco. E tornou a subir na calçada, sem a ajuda de Ralph.

- Me desculpe, Sra. Perrine. Eu não estava prestando atenção por onde ia.

- Não, não estava mesmo. Andando a esmo de boca aberta, isto é o que estava fazendo.

Parecia o louquinho da aldeia.

- Desculpe - ele repetiu e teve de morder a língua para sufocar um acesso de riso.

- Hum - a Sra. Perrine mediu-o lentamente de alto a baixo, como um sargento inspeccionando um novo recruta. - Tem um rasgão debaixo do braço dessa camisa, Roberts.

Ralph ergueu o braço e olhou. Havia de fato um belo rasgão em sua camisa xadrez favorita.

Dava para espiar e ver a atadura com a mancha seca de sangue; e também uma antiestética maçaroca de pêlos de sovaco de velho. Ele baixou o braço depressa, sentindo uma onda de calor subir ao rosto.

- Hum - a Sra. Perrine disse novamente, expressando tudo que precisava expressar sobre Ralph Roberts sem recorrer a outra sílaba. - Deixe-a lá em casa, se quiser. Qualquer outro conserto que esteja precisando, também. Ainda sei usar uma agulha, sabe?

- Ah, claro que sabe, Sra. Perrine.

A Sra. Perrine agora lançou-lhe um olhar que dizia Você é um velho puxa-saco descarado, Ralph Roberts, mas suponho que não consiga evitar.

- Mas não à tarde - acrescentou. - Ajudo a preparar o jantar no pavilhão dos sem-teto à tarde, e ajudo a servi-lo às cinco horas. Obra de caridade.

- Sei, tenho certeza que...

- Não haverá gente sem-teto no céu, Roberts. Pode confiar. Nem camisas rasgadas, tão pouco, garanto. Mas enquanto estamos na terra, temos que ir levando e dando um jeito.

É a nossa função. - E eu, por exemplo, estou-me saindo espectacularmente bem, proclamava o rosto da Sra. Perrine. - Traga os seus consertos pela manhã ou à noite, Roberts. Não faça cerimónia, mas não apareça à minha porta depois das oito e meia.

Costumo me deitar às nove.

- É muita gentileza sua, Sra. Perrine-disse Ralph, e teve de morder a língua outra vez.

Estava consciente de que, daqui a pouco, esse truque não ia resolver; daqui a pouco ia ser um caso de desatar no riso ou morrer.

- Não é gentileza. É um dever cristão. Além disso, Carolyn era minha amiga.

- Muito obrigado - respondeu Ralph. - Foi terrível o que aconteceu com May Locher, não acha?

- Não-disse a Sra. Perrine.-Foi a misericórdia divina. - E entrou como se planasse pelo caminho de sua casa, antes que Ralph pudesse dizer mais alguma coisa. Sua coluna era tão aflitivamente erecta, que chegava a doer só de olhar.

Ralph andou mais doze passos e não conseguiu mais se refrear. Apoiou o braço em um poste telefónico, apertou a boca contra o braço, e riu o mais silenciosamente que pôde riu até as lágrimas lhe escorrerem pelas faces. Quando o acesso (era essa a impressão que realmente dava, uma espécie de ataque histérico) passou, ergueu a cabeça e olhou à sua volta, os olhos atentos curiosos, húmidos de lágrimas. Não viu nada que outra pessoa também não pudesse ver o que foi um grande alívio.

Mas vai acontecer de novo, Ralph. Você sabe que vai. A coisa toda.

É, supunha que sabia, mas isso ficaria para depois. No momento, precisava ter uma conversinha.

QUANDO RALPH finalmente regressou de seu fantástico passeio até o fim da avenida,

McGovern encontrava-se sentado em sua cadeira na varanda, folheando calmamente o jornal matutino. Ao entrar no caminho de casa, Ralph tomou uma súbita decisão. Contaria muita coisa a Bill, mas não tudo. Uma das coisas que decididamente omitiria era a grande semelhança que os dois caras, que vira saindo da casa da Sra. Locher, tinham com os alienígenas dos tablóides vendidos no mercadinho.

McGovern levantou a cabeça, quando Ralph subiu as escadas.

- Alô, Ralph.

- Oi, Bill. Posso dar uma palavrinha com você?

- Claro-e fechou o jornal, dobrando-o cuidadosamente. -Eles finalmente levaram meu velho amigo Bob Polhurst para o hospital, ontem.

- Foi? Pensei que você estivesse esperando que isso acontecesse mais cedo.

- Estava. Todos estavam. Ele nos enganou. Na realidade, parecia estar melhorando, pelo menos da pneumonia, mas teve uma recaída. Sofreu uma parada respiratória ontem por volta do meio-dia, e a sobrinha achou que ele ia morrer antes da ambulância chegar. Mas ele não morreu, e agora parece que o quadro se estabilizou novamente. - McGovern olhou rua acima e suspirou. - May Locher se apaga no meio da noite e Bob continua a marcar passo.

Que mundo, hein?

- É isso aí.

- O que é que você queria me falar? Será que finalmente decidiu fazer a grande pergunta a Lois? Quer um conselhinho paternal sobre a maneira de abordar o assunto?

- Com certeza preciso de conselho, mas não é sobre a minha vida amorosa.

- Então fale - McGovern convidou tenso.

Ralph falou, agradecido e muito aliviado com a silenciosa atenção de McGovern. Começou esboçando os fatos que Bill já conhecia: o incidente com Ed e o motorista da pick-up no verão de 92, a semelhança das coisas que Ed dissera na ocasião com as que dissera no dia em que espancou Helen por causa do abaixo-assinado. A medida que falava, Ralph começou a se convencer mais que nunca que havia ligações entre as coisas estranhas que vinham acontecendo-lhe, ligações que quase conseguia discernir.

Contou a McGovern sobre as auras, embora calasse sobre o silencioso cataclisma que experimentara há menos de meia hora - isso transcendia o que estava disposto a revelar, pelo menos, por ora. McGovern sabia do ataque de Charlie Pickering, naturalmente, e também que Ralph evitara um ferimento muito mais grave com o uso do spray que Helen e a amiga tinham-lhe dado, mas agora Ralph acrescentou algo que omitira na noite de domingo, quando lhe contara o incidente, durante um jantar improvisado: como a lata de spray aparecera magicamente no bolso de seu blusão. Só que, confidenciou, suspeitava que o mágico tinha sido o velho Dor.

- Puta que pariu! - McGovern exclamou. - Você tem vivido perigosamente, Ralph!

- Acho que sim.

- Quanto disso você contou ao Johnny Leydecker?

- Muito pouco - Ralph começou a dizer, então percebeu que até isso seria um exagero.

- Quase nada. E tem outra coisa que não contei a ele. Uma coisa muito mais... bem, muito mais substantiva, eu diria. O que aconteceu ali - e apontou para a casa de May Locher, onde dois veículos azul-e-branco tinham acabado de estacionar. Traziam nas laterais os dizeres POLÍCIA ESTADUAL DO MAINE. Ralph presumiu que fosse o pessoal da perícia que Leydecker mencionara.

- May? - McGovern inclinou-se mais para a frente da cadeira. - Você sabe alguma coisa sobre o que aconteceu com May?

- Acho que sei - falava cautelosamente, palavra por palavra, como um homem que escolhe as pedras que pisa ao atravessar um riacho traiçoeiro. Ralph contou a McGovern que acordara, fora até a sala, e vira dois homens saindo da casa da Sra. Locher. Narrou sua bem-sucedida busca pelos binóculos, e falou da tesoura que vira um dos homens carregando.

Não mencionou seu pesadelo com Carolyn, nem as pegadas luminosas e, é claro, não mencionou sua impressão posterior de que os dois homens talvez tivessem atravessado a porta; isto teria acabado com os farrapos de credibilidade que ainda merecesse. Terminou com a ligação anônima para o 911 e então sentou-se em sua cadeira, fitando McGovern, ansioso.

McGovern sacudiu a cabeça como se quisesse clareá-la.

- Auras, oráculos, misteriosos arrombadores de casas com tesouras... você anda vivendo perigosamente.

- Que é que você acha, Bill?

McGovern ficou calado por algum tempo. Tinha enrolado o jornal enquanto Ralph falava e agora começava a batê-lo distraidamente na perna. Ralph sentiu uma ânsia de repetir a pergunta de modo mais incisivo-Você acha que estou louco, Bill? - mas sufocou-a. Será que realmente pensava que as pessoas davam respostas francas a esse tipo de pergunta...

bem, sem primeiro tomar uma boa dose de pentotato de sódio? Que Bill diria: Claro que sim, acho que você está louco de pedra, Ralphie, então por que não ligamos logo para Juniper Hill para perguntar se tem um leito lá para você? Era pouco provável... e uma vez que qualquer resposta que Bill desse não teria o menor valor, era melhor esquecer a pergunta.

- Não sei exactamente o que pensar - disse Bill finalmente. - Pelo menos por ora. Que aparência eles tinham?

- As feições deles eram difíceis de distinguir, mesmo com binóculos - respondeu. Sua voz estava firme como na noite anterior, quando negara ter ligado para o 911.

- Você provavelmente também não tem ideia da idade deles, não é?

- Não.

- Um dos dois poderia ter sido o nosso velho amigo aqui da avenida?

- Ed Deepneau? - Ralph olhou surpreso para McGovern. - Não, nenhum dos dois era Ed.

- E Pickering?

- Não. Nem Ed, nem Pickering. Eu os teria reconhecido. Aonde é que você quer chegar?

Que a minha mente capotou e juntou na varanda de May Locher os dois caras que me causaram mais problemas nos últimos meses ?

- Claro que não - McGovern retrucou, mas as batidas ritmadas do jornal na perna pararam e seus olhos piscaram. Ralph sentiu um frio na boca do estômago. De fato, era exatamente nessa direcção que McGovern estava levando a conversa e não era nenhuma surpresa, era?

Talvez não, mas não alterava o frio no estômago.

- E Johnny disse que todas as portas estavam trancadas.

- Disse.

- Pelo lado de dentro.

- Hum-hum, mas...

McGovern se levantou da cadeira tão repentinamente, que por um insensato instante Ralph teve a impressão de que o amigo ia sair correndo, quem sabe berrando Cuidado com o Roberts! Ele pirou! Mas ao invés de se precipitar pelos degraus, ele se voltou para a porta de entrada da casa. De certa forma, Ralph achou isso ainda mais alarmante.

- Que é que você vai fazer?

- Vou ligar para Larry Perrault - McGovern disse. - E o irmão mais novo de May. Ele mora em Cardville. É lá que ela vai ser enterrada, imagino. - McGovern lançou a Ralph um olhar estranho e especulativo. - Que foi que você pensou que eu ia fazer?

- Não sei - disse Ralph sem graça. - Por um segundo, pensei que ia fugir apavorado.

- Não - McGovern esticou o braço e deu-lhe uma palmadinha no ombro, mas o gesto pareceu a Ralph frio e distante. Só para constar.

- Que é que o irmão da Sra. Locher tem a ver com tudo isso?

- Johnny disse que mandou o corpo de May para fazerem uma necropsia mais completa em Augusta, certo?

- Bem, acho que a palavra que ele usou foi autópsia... McGovern fez um gesto de descaso.

- Dá tudo no mesmo, pode crer. Se surgir qualquer coisa anormal...qualquer coisa que sugira que ela foi assassinada, Larry teria que ser informado. Ele é seu único parente próximo.

- Sei, mas ele não vai ficar intrigado com o seu interesse?

- Ah, acho que não precisamos nos preocupar com isso - McGovern falou num tom tranqüilizador de que Ralph não gostou nem um pouco. - Vou dizer que a polícia lacrou a casa e que a fábrica de boatos da velha Avenida Harris está funcionando a todo vapor. Ele sabe que May e eu fomos companheiros de escola e que a visitava regularmente nos últimos dois anos. Larry e eu não morremos de amores um pelo outro, mas nos damos razoavelmente bem. Ele vai me dizer o que quero saber ainda que seja pela simples razão de que somos dois sobreviventes de Cardville. Percebe?

- Acho que sim, mas...

- Pelo menos é o que espero - disse McGovern e, por um instante, pareceu um animal muito velho e muito feio, um lagarto venenoso ou um réptil fabuloso. Apontou o dedo para

Ralph. - Não sou um homem burro, e sei respeitar uma confidência. Seu rosto há pouco me disse que você não tinha muita certeza disso, e me sinto ofendido. Ofendido pra caramba.

- Desculpe - falou Ralph, espantado com o desabafo de McGovern.

McGovern fitou-o por mais um momento, os lábios, que pareciam de couro, arreganhados, deixando à mostra as dentaduras demasiado grandes, e em seguida acenou com a cabeça.

- Tudo bem, aceito seu pedido de desculpas. Você anda com o sono que é uma merda, tenho que levar isto em conta, quanto a mim, não consigo tirar Bob Pollhurst da cabeça. Ele deu um pesadíssimo suspiro, tipo coitado do velho Bill.-Olhe, se prefere que eu não telefone para o irmão de May...

- Não, não - Ralph respondeu, pensando que gostaria mesmo era de voltar o relógio atrás uns dez minutos e apagar a conversa inteira. E então um sentimento que sabia que Bill McGovern apreciaria passou por sua cabeça, inteiramente estruturado e pronto para usar. Lamento ter duvidado de sua discrição.

McGovern sorriu, a princípio com relutância, depois com todo o rosto.

- Agora sei o que não deixa você dormir: é ficar pensando baboseiras iguais a essa. Sente-se quieto, Ralph, e tenha bons pensamentos sobre hipopótamos, como minha mãe costumava dizer. Volto num instante. Provavelmente nem vou encontrar Larry em casa, sabe como é, as providências para o enterro e todo o resto. Quer dar uma olhada no jornal enquanto espera?

- Claro. Obrigado.

McGovern passou-lhe o jornal, que ainda mantinha a forma tubular que Bill lhe dera, e entrou. Ralph olhou a primeira página. A manchete dizia GRUPOS PRÓ-OPÇÃO E PRÓVIDA PRONTOS PARA A CHEGADA DA ATIVISTA. O texto vinha ladeado por duas fotos. Uma mostrava meia dúzia de mulheres jovens, pintando cartazes que diziam NOSSO CORPO, NOSSA ESCOLHA e AMANHECE UM NOVO DIA EM DERRY! A outra mostrava manifestantes diante da WomanCare. Não carregavam cartazes, nem precisavam; as vestes com capuzes e as foices que empunhavam diziam tudo.

Ralph soltou um profundo suspiro, largou o jornal no assento da cadeira de balanço ao lado, e pôs-se a observar a manhã de terça-feira ir se desdobrando pela Avenida Harris. Ocorreulhe que McGovern bem poderia estar ao telefone com John Leydecker, ao invés de Larry Perrault, e que os dois poderiam estar fazendo neste minuto uma consulta professoraluno sobre aquele velho insone e maluco do Ralph Roberts.

Achei que você gostaria de saber quem foi que realmente fez aquela ligação para o 911,

Johnny.

Obrigado, professor. De qualquer maneira, já tínhamos certeza, mas é sempre bom receber uma confirmação. Imagino que ele seja inofensivo. Na verdade, até gosto dele.

Ralph afastou suas conjecturas sobre quem seria ou não o interlocutor de Bill. Era mais fácil ficar ali simplesmente sentado sem pensar em nada, nem mesmo nas qualidades dos hipopótamos. Mais fácil acompanhar o caminhão de cerveja Budweiser entrar carregado no estacionamento do mercadinho, parar gentilmente para deixar sair a pick-up da Magazines Incorporated, que descarregara o estoque semanal de tablóides, revistas e brochuras. Mais fácil olhar a velha Harriet Bennigan, que fazia a Sra. Perrine parecer uma franguinha, apoiarse no andador, vestindo um casaco de outono vermelho-vivo, para o passeio matinal. Mais fácil ainda observar a mocinha de jeans, camiseta larga e um chapéu masculino, quatro vezes maior que sua cabeça, pular corda no terreno baldio entre a padaria e o salão de bronzeamento de Vicky Moon (Cangas são a nossa especialidade). Mais fácil olhar as mãozinhas da moça subirem e descerem ritmadamente. Mais fácil escutá-la cantar uma cantiguinha interminável e repetitiva.

Three-six-nine, the goose drank wine,..5

Uma parte remota da mente de Ralph percebeu, com grande assombro, que ele estava prestes a dormir ali sentado nos degraus da varanda. Ao mesmo tempo que isto acontecia, as auras começavam a voltar ao mundo aos poucos, enchendo-o de cores e movimentos fabulosos. Era maravilhoso, mas...

... havia alguma coisa errada. Alguma coisa. O quê?

A mocinha pulando corda no terreno baldio. Ela estava errada. Suas pernas vestidas de brim subiam e desciam como a agulha de uma máquina de costura. Sua sombra pulava a seu lado no calçamento irregular de uma velha travessa coberta de mato e girassóis. A corda rodava para o alto e para baixo... completava uma volta... para o alto e para baixo e completava outra volta...

Não era, no entanto, uma camiseta larga, enganara-se. A figura vestia um avental. Um longo avental branco, do tipo que usavam os médicos nos velhos seriados de TV.

Three-six-nine, hon, the goose drank wine,

The monkey chewed tobacco on the streetcar Une...

 

  1. Trad.: Três-seis-nove, o ganso bebeu vinho...
  2. Trad.: Três-seis-nove, o ganso bebeu vinho, O macaco mascou fumo na linha do bondinho.

 

Uma nuvem escondeu o sol e uma luz triste e verde perpassou o dia, levando-o para o fundo do mar. A pele de Ralph primeiro esfriou, depois cobriu-se de arrepios. A sombra saltitante da mocinha desapareceu. Ela ergueu o rosto para Ralph e ele descobriu que não era nenhuma mocinha. A criatura diante dele era um homem de um metro e vinte de altura.

Inicialmente Ralph tomara o rosto sob a sombra do chapéu pelo de uma adolescente, porque era absolutamente liso, não tinha uma única ruga. Mas, apesar disso, transmitia a Ralph uma sensação inconfundível-uma sensação de maldade, de malignidade que ultrapassava a compreensão de uma mente sã.

É isso, Ralph pensou entorpecido, encarando a criatura que pulava. É exatamente isso. Seja o que for aquela coisa, é demente. Absolutamente anormal.

A criatura parecia ter lido o pensamento de Ralph, pois, naquele momento, seus lábios se abriram num sorriso, ao mesmo tempo tímido e maldoso, como se ele e Ralph partilhassem um segredo desagradável. E ele tinha certeza - uma certeza quase absoluta - de que, de algum modo, a criatura cantava enquanto sorria, e fazia isso sem mover os lábios minimamente que fosse.

[The Une BROKE! The monkeu got CHOCKED! And they ali died together in a little rowBOATíf

Não era nenhum dos dois doutorezinhos carecas que Ralph vira saindo da casa da Sra. Locher, estava praticamente seguro disto. Parecido, talvez, mas não os mesmos. Era...

A criatura atirou a corda de pular para longe. Primeiro a corda ficou amarela, depois vermelha, parecendo soltar fagulhas ao voar pelo ar. A figurinha - Dr. n^3 - olhou para Ralph, rindo, e Ralph repentinamente percebeu mais uma coisa, uma coisa que o encheu de terror. Finalmente reconhecia o chapéu que a criatura estava usando.

Era o panamá desaparecido de Bill McGovern.

 

  1. Trad.: A Unha se QUEBROU! O macaco se ENGASGOU! Morreram todos juntos na CANOA que VIROU.

 

NOVAMENTE foi como se a criatura tivesse lido seu pensamento. Tirou o chapéu da cabeça, revelando o crânio calvo e redondo, e acenou para o alto com o panamá de McGovern, como se fosse um caubói montando um cavalo bravo. E continuou a sorrir, aquele sorriso indescritível, enquanto acenava com o chapéu.

Subitamente ele apontou para Ralph, como se o mirasse. Então bateu o chapéu na cabeça e disparou pela abertura estreita e coberta de mato entre o salão de bronzeamento e a padaria.

O sol se desvencilhou da nuvem que o encobrira e o brilho cambiante das auras começou mais uma vez a sumir. Instantes depois da criatura desaparecer, havia apenas a Avenida Harris diante dele-a velha e monótona Avenida Harris, a mesma de sempre.

Ralph inspirou com um tremor, lembrando-se do ar de demência na cara pequena e sorridente. Lembrando-se da maneira com que apontara (o macaco ENGASGOU) para ele, como se (todos tivessem morrido juntos na canoa que VIROU!) mirando nele.

- Diga-me que adormeci - ele murmurou rouco. - Diga-me que adormeci e sonhei com aquele puto.

A porta se abriu às suas costas.

- Ora, ora, falando sozinho - McGovern exclamou. - Você deve ter dinheiro no banco,

Ralphie.

- Tenho, o suficiente para cobrir as despesas do meu enterro - disse Ralph. Aos seus ouvidos, sua voz parecia a de um homem que tivesse acabado de levar um choque terrível e ainda estivesse tentando assimilar o susto residual; desejou que Bill corresse para ele, o rosto expressando preocupação (ou talvez apenas desconfiança), e perguntasse o que acontecera.

McGovern não fez nada disso. Largou-se na cadeira de balanço, cruzou os braços sobre o peito estreito num X melancólico, e olhou para a Avenida Harris, o palco em que ele, Ralph, Lois, Dorrance Marstellar e tantos outros velhos - nós, da Idade de Ouro, em "mcgovernês" - estavam destinados a encenar seus últimos actos, tantas vezes monótonos e, outras, dolorosos.

Suponha que eu lhe falasse do seu chapéu? Ralph pensou. Suponha que eu simplesmente iniciasse a conversa dizendo "Bill, também sei o que aconteceu com o seu panamá. Um mau caráter parente dos caras que vi ontem à noite foi quem o apanhou. E usa-o quando pula corda entre a padaria e o salão de bronzeamento."

Se Bill ainda tivesse algum resquício de dúvida sobre sua sanidade, essa noticiazinha certamente o extinguiria. É.

Ralph continuou calado.

- Desculpe por ter demorado tanto - falou McGovern. -Larry disse que eu o peguei na porta, a caminho da funerária, mas, antes que pudesse fazer minhas perguntas e encerrar a conversa, ele relembrou metade da vida de May e a dele quase inteira. Falou sem parar durante quarenta e cinco minutos.

Positivamente isto era um exagero - McGovern certamente se ausentara cinco minutos, no máximo-Ralph consultou o relógio e ficou espantado de ver que eram onze e quinze.

Ergueu os olhos para a rua e viu que a Sra.Bennigan desaparecera. E o caminhão de Budweiser, também. Será que dormira? Parecia que sim... mas não conseguia por nada no mundo encontrar o ponto de ruptura em suas percepções conscientes.

Ora, vamos, não seja estúpido. Você estava dormindo quando viu o homenzinho careca. Sonhou com o homenzinho careca.

Isto fazia absoluto sentido. Até mesmo o fato de estar usando o panamá de Bill fazia sentido. O mesmo chapéu aparecera em seu pesadelo com Carolyn. Entre as patas de Rosalie.

Só que desta vez ele não andara sonhando. Tinha certeza.

Bem... quase.

- Você não vai me perguntar o que foi que o irmão de May disse? - McGovern parecia ligeiramente melindrado.

- Desculpe - falou Ralph. - Acho que estava distraído. -Está desculpado, meu filho... isto é, desde que me escute com atenção até eu terminar. O detective encarregado do caso, Funderburke...

- Acho que é Utterback. Steve Utterback. McGovern fez um leve aceno com a mão, sua resposta mais comum quando corrigiam alguma coisa que ele dizia.

- Que seja. Ele ligou para Larry e comunicou que a autópsia não revelou nada, excepto causas naturais. A coisa com que estavam mais preocupados, levando em conta sua ligação, era que May tivesse sofrido um ataque cardíaco induzido pelos arrombadores, ou seja, tivesse literalmente morrido de medo. As portas trancadas por dentro e o fato de não terem roubado nada naturalmente contrariavam essa hipótese, mas eles levaram sua ligação suficientemente a sério para investigar a possibilidade.

Seu tom meio recriminador - como se ele tivesse feito a travessura de despejar cola na engrenagem de uma máquina que, em geral, funcionava perfeitamente - mexeu com a paciência de Ralph.

- E claro que levaram a ligação a sério. Vi dois caras saindo da casa dela e comuniquei às autoridades. Quando chegaram lá, encontraram a senhora morta. Como não iriam levar a ligação a sério?

- Por que você não se identificou quando fez a ligação? -Não sei. Que diferença faz? E, por Deus, como é que eles podem ter certeza de que ela não teve um ataque cardíaco induzido por medo?

- Não sei se podem ter absoluta certeza - disse McGovern, agora ele próprio demonstrando uma certa irritação - mas imagino que devem estar muito próximos disso se vão entregar o corpo ao irmão para enterrá-lo. Provavelmente fazem algum tipo de exame de sangue. Só o que sei é que o tal Funderburke...

- Utterback...

- ... disse a Larry que May provavelmente morreu dormindo.

McGovern cruzou as pernas, brincou com os vincos das calças azuis, então lançou a Ralph um olhar claro e penetrante.

- Vou-lhe dar um conselho, portanto escute bem. Vá ao médico. Agora. Hoje. Não avance o sinal, não espere juntar duzentos dólares, não é um jogo de monopólio, vá diretamente ao Litchfield. Tudo isso está ficando muito sério.

Os que vi saírem da casa da Sra. Locher não me viram, mas o de hoje me viu, pensou Ralph. Me viu e apontou para mim. Pelo que sei, poderia até andar à minha procura.

Agora sim, eis um belo pensamento paranóico.

- Ralph? Você ouviu o que eu disse?

- Ouvi. Pelo que entendi, você não acredita que eu tenha realmente visto alguém saindo da casa da Sra. Locher.

- Entendeu correctamente. Vi a expressão de seu rosto agora há pouco quando lhe disse que estive ausente quarenta e cinco minutos, e também vi o olhar que lançou para o seu relógio. Você não acreditou que já se passara tanto tempo, não foi? E a razão por que não acreditou é que adormeceu sem ter a menor consciência disso. Tirou um cochilo.

Provavelmente foi isso que lhe aconteceu na outra noite, Ralph. Só que na outra noite você sonhou com aqueles dois caras e o sonho foi tão real que você ligou para o 911 quando acordou. Faz sentido?

Three-six-nine, Ralph pensou. The goose drank wine.

- E os binóculos? - perguntou. - Eles continuam em cima da mesinha ao lado da minha poltrona na sala de estar. Eles não provam que eu estava acordado?

- Não vejo como. Talvez você andasse dormindo, já pensou nisso? Você afirma que viu os intrusos, mas não consegue realmente descrevê-los.

- As lâmpadas laranja de alta intensidade...

- Todas as portas trancadas por dentro...

- Mesmo assim eu...

- E as auras de que falou. São causadas pela insónia: tenho quase certeza disso. Mas a coisa poderia ser mais séria.

Ralph se levantou, desceu os degraus da varanda e parou na cabeceira do caminho com as costas voltadas para McGovern. Sentia as têmporas latejarem e seu coração bater com força. Demais.

Ele não apontou apenas. Eu estava certo da primeira vez, o sacaninha me marcou. E ele não foi sonho. Nem tampouco os que vi saindo da casa da Sra. Locher. Tenho certeza.

Claro que tem, Ralph, outra voz respondeu. Quem é maluco sempre tem certeza das maluquices que vê e ouve. E isso que faz ele maluco e não as alucinações em si. Se você realmente viu o que viu, que aconteceu com a Sra. Bennigan? Que aconteceu com o caminhão da Budweiser? Como perdeu noção dos quarenta e cinco minutos que McGovern gastou ao telefone com Larry Perrault?

- Você está apresentando sintomas muito sérios - disse McGovern às suas costas, e Ralph pensou ter percebido uma coisa terrível na voz do cara. Satisfação? Seria satisfação?

- Um deles levava uma tesoura - insistiu Ralph sem se virar. - Eu os vi.

- Ora, vamos, Ralph! Pense! Use seus miolos e pense! Domingo à tarde, menos de vinte e quatro horas antes de você ir ao acupunturista, um lunático enfia uma faca em você. Não admira que sua mente lhe sirva um pesadelo com um objecto pontiagudo naquela noite. As agulhas de Hong e a faca de caça de Pickering se transformam em tesoura, nada mais. Você não percebe que esta hipótese dá conta de todos os elementos, enquanto o que você alega ter visto não dá conta de nenhum?

- E eu estava dormindo quando apanhei os binóculos? E o que você pensa?

- É possível. E até provável.

- A mesma coisa com a lata de spray no bolso do meu blusão, certo? O velho Dor não teve nenhuma relação com o achado.

- Não estou interessado na lata de spray nem no velho Dor! - McGovern exclamou. Estou interessado em vocêl Você tem sofrido de insónia desde abril ou maio, você tem andado deprimido e perturbado desde que Carolyn morreu...

- Não tenho andado deprimido!-Ralph gritou. Do outro lado da rua, o carteiro parou e olhou na direcção dos dois antes de prosseguir pelo quarteirão rumo ao parque.

- Seja como quiser - McGovern falou. - Você não tem estado deprimido. Você também não tem dormido, está vendo auras, caras que saem sorrateiramente no meio da noite de casas trancadas... - e então, num tom falsamente suave, McGovern disse aquilo que Ralph temera todo o tempo: - Você precisa se cuidar, meu filho. Está começando a parecer demais com o Ed Deepneau, para meu sossego.

Ralph se virou. Um sangue quente e escuro latejava por dentro de seu rosto.

- Por que está agindo assim? Por que está encarnando em mim?

- Não estou encarnando, Ralph, estou tentando ajudar você. Ser seu amigo.

- Não é isso que parece.

- Bem, às vezes a verdade dói um pouco - tornou McGovern calmamente. - Você precisa pelo menos admitir a ideia de que sua mente e seu corpo estão tentando lhe dizer alguma coisa. Vou lhe fazer uma pergunta: esse foi o único sonho desagradável que você teve ultimamente?

Ralph pensou um instante em Carol, enterrada até o pescoço na areia, gritando para ele ter cuidado com as pegadas do homem branco. Pensou nos insectos que jorravam de sua cabeça.

- Não tive nenhum sonho desagradável ultimamente - disse com frieza. - Suponho que não acredite em mim porque isso não se enquadra no roteirinho que criou.

- Ralph...

- Agora sou eu que vou lhe fazer uma pergunta: você realmente acha que o fato de eu ter visto os dois homens e May Locher ter aparecido morta foi apenas uma coincidência?

- Talvez não. Talvez a sua perturbação física e emocional tenha criado condições favoráveis para uma ocorrência psíquica breve, mas perfeitamente autêntica.

Ralph emudeceu.

- Acredito que essas coisas acontecem de tempos em tempos - continuou McGovern se levantando. - Talvez isso lhe pareça engraçado, vindo de um velho racionaliza como eu, mas acredito, sim. Não estou afirmando que/oz o que aconteceu, mas poderia ter sido.

Minha única certeza é que os dois homens que você pensa ter visto de fato não existem no mundo real.