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CAPÍTULO 13
As Linhas Aéreas Angelicais, ou seja, aquelas asas coloridas com as quais Jim ainda estava se acostumando, levaram-no, junto com seus amigos, de volta ao hotel num piscar de olhos. No quarto conjugado, foram todos para a parte de Jim, e Cachorro fez uma pequena festa quando os três chegaram.
– Então, o que devo fazer? – ao dizer isso, Jim ficou pensando quantos anos levaria para não precisar mais fazer essa pergunta a Eddie. Alguns, provavelmente. Aquele trabalho apareceu sem treinamento, mas com vários apuros e implicações terríveis.
Não é exatamente o que se vê em sites de empregos.
– Fique em silêncio – disse Eddie – e segure o distintivo. Imagine que DelVecchio está sentado à sua frente, olhando para você com as mãos sobre os joelhos e os olhos fixos nos seus. Como sempre, quanto mais específica for a visão, melhor será o resultado. Veja a si mesmo erguendo a mão e colocando o dedo na testa dele. Saiba que essa conexão te dará poder para acessar as memórias dele mesmo sem tocá-lo de verdade. Está tudo na mente.
– Tchan-tchan-tchan-tchaaan! – Adrian completou.
Ajeitando-se sobre a cama, Jim segurou o distintivo no centro de suas mãos e sentiu-se péssimo. Quando era um soldado de Operações Extraoficiais, isto é, até bem pouco tempo, quando atuava como um civil qualquer, nunca se envolvera nessa porcaria transcendental, de concentração total, ioga indiana e sabe-se lá mais o quê. Já tinha viajado bastante nessa história para acostumar-se um pouco, mas sempre seria um cara objetivo, longe de ser alguém que segue ordens como um cachorrinho.
Mas que seja.
Ao concentrar-se no distintivo, sentiu que a coisa estava fria como um cubo de gelo na sua pele, mas passava apenas o frio, nenhuma gota de água. E seria bom se conhecesse DelVecchio um pouco melhor, mas fez o que pôde para visualizar o cara: os cabelos escuros, o rosto bonito, os olhos azuis inteligentes...
Em apenas um momento, o que imaginara tornou-se uma imagem tridimensional, como se estivesse assistindo TV e um ator tivesse passado pela tela e sentado à sua frente. Só que a porcaria estava toda errada. O homem tinha dois rostos.
Jim balançou a cabeça, como se isso ajudasse a resolver o problema. Não ajudou. Primeiro visualizava o rosto de DelVecchio... Em seguida, vinha outro, como uma fotografia de imagem duplicada.
Algo lhe disse para não continuar. Mas ele continuou mesmo assim. Estendeu a mão, colocou o dedo sobre a testa imaginária do primeiro DelVecchio...
No momento em que o contato foi feito, um choque invadiu-o, parando seu coração e sacudindo seu corpo. Então, como se fosse um diapasão, algo ressoou forte dentro dele – e assumiu o controle. Começou com a ponta do dedo e vibrou ao longo da mão, do pulso e do braço, o que parecia um tremor sutil, no início, tornou-se violento, sentiu que algo literalmente dividia-se... até que havia duas pontas de dedos, duas mãos, dois punhos, dois braços, mas ele ainda unia os dois extremos, como o mastro de uma bandeira que se rasga com a força do vento.
Tinha a vaga impressão de alguém estar gritando seu nome, mas não tinha como responder. Estava numa luta pela vida eterna, a distração ameaçava destruí-lo – e esteve prestes a perder o controle de si mesmo por completo quando os DelVecchios separaram-se em entidades tão distintas que só se uniam pelos quadris e pelas pernas.
O da direita estava sorrindo e não era o detetive. Era o DelVecchio mais velho, aquele do jornal, o que possuía uma alma manchada e que havia praticado atos terríveis. O filho da mãe amava a destruição.
Inferno... Jim teve a terrível impressão de que o velho não iria embora.
Adrian sabia que as coisas estavam dando errado no instante em que as mãos de Jim começaram a tremer segurando o distintivo. Não era normal.
Em seguida, uma nuvem de fumaça preta surgiu dentre as mãos de Jim, unindo-as cada vez mais sobre o distintivo de DelVecchio. O tremor começou com um movimento lento para frente e para trás, mas, rapidamente, evoluiu de tal maneira que o distintivo soltou-se das mãos e foi atirado no tapete fino.
Por uma fração de segundo, acharam que aquilo iria parar, mas a fumaça não precisava mais de uma fonte externa: as mãos e os braços de Jim tornaram-se o local de onde a terrível infecção brotava.
– Se chegar ao coração, vamos perdê-lo! – Eddie exclamou.
E essa foi a deixa para começarem a se mexer. Adrian e seu melhor amigo saltaram ao mesmo tempo em direções opostas. Enquanto Eddie corria para a porta de seu quarto, Ad pulou sobre a cama atrás de Jim. Preparando-se, ajoelhou-se e fechou os braços ao redor do grande peito, posicionando o punho o mais alto possível, para formar uma barreira física contra o ataque.
Soube bem qual era a situação no momento em que o apertou – um frio gélido soprou em sua pele, tão frio que parecia queimar. Erguendo-se, induziu aquela força a contaminar uma área diferente, oferecendo outro alvo... mesmo que isso significasse sacrificar a si mesmo. Mas a porcaria não estava interessada nele. Era apenas uma barreira enquanto os tremores continuavam em direção ao peito de Jim.
A salvação que eles precisavam era uma mistura de limão, vinagre branco, água oxigenada e erva de hamamélis – ainda bem que Eddie sempre estava preparado para tudo. Ele veio voando do outro quarto com um balde da coisa, movendo-se tão rápido que os respingos atingiram suas roupas de couro e sua camiseta da WWF.
O anjo afastou-se e jogou o líquido, ensopando Ad e a parte superior do corpo de Jim em cima da cama. Era o momento de sair: com um grito ensurdecedor, o mal saiu correndo, deixando apenas um fedor ardente flutuando sobre a cabeça e o peito molhados de Jim. Assim que a coisa partiu, o salvador caiu para frente, tão fraco que só não despencou da cama porque seguravam seu tronco.
– Calminha aí – Ad murmurou, enquanto deitava o cara.
Jim abriu os olhos e piscou como se não tivesse certeza do que viu.
– É o teto – Ad anunciou. – Como foi?
– Não consegui... nenhuma informação... sobre Veck.
– E adivinhe só? Não vamos tentar de novo.
– Que porcaria... foi aquilo? Sinto como se tivesse acabado de sair de uma turbina.
Eddie sentou-se ao lado dele e colocou Cachorro sobre o colo.
– Devina já está em DelVecchio num nível muito profundo.
– Maldição... será que ela consegue não trapacear? Pelo menos uma vez? – Jim pegou a frente da camiseta molhada e puxou o tecido sobre seu peito. – Droga, me sinto poluído.
Adrian foi até o banheiro e pegou algumas toalhas. Quando voltou, lançou uma para Jim e começou a enxugar a própria cabeça.
Jim não se importava com uma luta difícil, desde que fosse justa – e esse negócio de Devina quebrar as regras o tempo todo estava ficando ridículo. Enquanto isso, ele tinha se vendido ao diabo para obter informação. E, como se não bastasse, Nigel, seu treinador, não parecia ter muita pressa em protestar sobre isso lá no andar de cima. A coisa toda acabava com ele.
Então, Adrian abaixou-se, pegou o distintivo e enfiou no bolso. Quando pareceu que Jim iria protestar, fez só um gesto de insatisfação.
– Desculpe. Vai levar um tempo antes de o fedor sair completamente. Se tocar nisso agora terá o mesmo problema outra vez, só que pior – em seguida, apontou um dedo na face de Eddie e emendou: – E dane-se você.
Resolveu dizer aquilo pois sabia que haveria várias recriminações de “não, você não deve fazer isso” vindas do anjo.
– Só vou levar o distintivo de volta – nada demais – DelVecchio vai acordar sem o objeto e vai sentir que perdeu mais ainda a memória. Querem isso? Bom. Fico feliz que concordam.
Antes que qualquer um deles pudesse se pronunciar outra vez, entrou na parte do quarto que dividia com Eddie e tirou a roupa – com esforço. Roupas de couro já eram difíceis de tirar, mas com aquele banho de limão? Parecia cola.
– Jure – disse Eddie da porta – que não vai tocá-lo. De jeito nenhum.
Adrian vestiu roupas secas e tirou o distintivo de sua outra calça.
– Juro por Deus.
O som de alguém tossindo como se estivesse vomitando o fígado foi exatamente o ponto final da conversa que precisava. Jim passaria por momentos bem difíceis agora e, apesar de Eddie não se parecer em nada com uma babá, o filho da mãe era ótimo nisso – algo que Ad aprendeu por experiência própria.
– Estarei de volta antes que percebam que saí – Adrian sorriu. – Confiem em mim.
Eddie apenas revirou os olhos e voltou para a outra parte do quarto conjugado, sem dúvida para segurar uma cesta de lixo na frente de Jim.
Num piscar de olhos, Adrian estava no gramado da frente do pequeno lar de DelVecchio. O vento soprava do norte, e o ar frio e cristalino que vinha da fronteira canadense fazia seu nariz formigar.
Não tinha motivos para bater. Apenas moveu-se até a sala onde DelVecchio ainda estava dormindo no sofá. Colocando o distintivo no chão ao lado da arma e do coldre, Adrian ajoelhou-se e estendeu a mão. Ao passá-la sobre o rosto de DelVecchio, acalmou o cara para que tivesse um sono ainda mais profundo, embalando o pobre bastardo.
O transe revelou a verdade: sem a restrição da consciência, a extensão da posse de Devina era óbvia: estava em cada centímetro dele. Estamos atrasados demais – Ad pensou enquanto movia uma das mãos em círculos sobre a cabeça do cara.
– Ei, cara – sussurrou. – Quero que volte à noite passada. À floresta. Volte àquela floresta. À floresta perto do hotel. Entre os pinheiros. Você estacionou a moto... que, aliás, seria muito difícil escolher uma mais tradicional? Uma BMW? Sério? Você poderia muito bem dirigir uma mobilete – quando as sobrancelhas de DelVecchio contraíram-se, Ad concluiu que a conversa sobre motos poderia esperar. – Você estacionou aquele lixo europeu e está andando pela floresta. Está procurando Kroner. Me diga o que está fazendo – Ad continuou com os movimentos circulares.
– Diga-me. O que está fazendo...
– Eu vou... matá-lo.
As palavras soaram suaves e foram ditas por lábios que mal se moviam.
– Com o quê? – Ad perguntou. – Me conte tudo, cara.
– Minha... faca. Tenho... minha faca comigo e estou... esperando... – DelVecchio franziu a testa outra vez, mas agora parecia que estava observando algo a distância, mesmo de olhos fechados. – Sei que ele vai aparecer.
– E quando ele aparece... o que você faz?
Enquanto Ad esperava uma resposta, rezava por um milagre. Tinha visto a notícia na TV, então sabia que alguém fizera coisas muito graves com aquele Kroner. Se por acaso tivesse sido outra pessoa além de Veck, ao menos estariam em melhor situação.
– Pego a lâmina... e começo a me aproximar. Vou... matá-lo. Com minha faca – a mão direita do cara contraiu-se sobre a coxa, em seguida, fechou os dedos como se segurasse um punhal. – Eu vou... tem outra pessoa aqui.
DelVecchio prendeu a respiração e não se mexeu, assim como fez na floresta.
– Quem? – quando não houve resposta, Adrian quis sacudir os neurônios do cara para clarear a confusão cognitiva, mas, em vez disso, continuou circulando uma das mãos. – Quem é?
DelVecchio pareceu se esforçar muito naquele momento, balançando a cabeça de um lado a outro e estremecendo. Sua mão se arrastou ao passar pelo peito e ergueu-se para esfregar as têmporas.
– Não consigo... me lembrar...
Alguém já entrou nesse cérebro – Adrian pensou, corrigindo as lacunas da memória.
Que inferno. Existia apenas uma espécie no planeta que poderia fazer aquilo... e que também era capaz de estraçalhar um homem humano com os dentes.
– Vampiro.
Quando a palavra saiu da boca de DelVecchio, Adrian soltou um palavrão. Sim, ótimo. Era tudo o que precisavam naquela festa já superlotada. Do jeito que as coisas estavam indo, quem seria o próximo? O Coelhinho da Páscoa? A Fada do Dente? Não, não tinham tanta sorte. Seria um lobisomem ou a múmia.
CAPÍTULO 14
Quando amanheceu o dia seguinte, Reilly acordou antes mesmo de o alarme despertar, só não sabia se isso era bom ou ruim... Estava no meio de um sonho erótico, que colocou ela e Veck de volta à mesa da cozinha. Só que não houve interrupções pizzaoiolas desta vez. Acabou ficando totalmente nua, com Veck em cima dela, os dois numa corrida selvagem que...
O alarme do relógio começou a ganir como um pincher irritante.
– Cala. A. Boca.
Quando silenciou a maldita coisa, decidiu: sim, foi bom ter acordado mais cedo. Mesmo que seu corpo se sentisse enganado, não eram imagens que gostaria de ter em mente ao entrar na delegacia.
Chuveiro. Secador. Roupas... algodão branco sob as roupas, muito obrigada.
Pegou sua caneca de viagem e, num minuto, estava no carro, indo trabalhar, bem a tempo de pegar o trânsito da estrada. E, claro, dispensava a introspecção a que levava o fato de ficar presa em engarrafamentos, com centenas de outros trabalhadores, pela manhã.
Deus, as mães tinham razão em tantas coisas: escove os dentes e use o fio dental antes de dormir, mesmo que esteja exausta, use uma touca no frio, mesmo que se sinta uma idiota, coma vegetais, mesmo que não sejam muito gostosos, pois precisa das fibras e vitaminas. E não se envolva com colegas de trabalho, mesmo que sejam bonitões e tenham mãos e lábios mágicos.
Enquanto avançava em ritmo de lesma, sua mente era uma gangorra que oscilava entre aquilo que se lembrava do sonho ao acordar e o pesadelo que tinha sido a noite passada, quando a transa fora interrompida e a sanidade retornara.
Por falar em opostos...
Quando o telefone tocou, a primeira coisa que pensou foi: por favor, que não seja minha mãe – as duas eram próximas, mas nunca tiveram uma conexão telepática e não era a manhã mais adequada para começar com isso.
Mas a tela não mostrava “casa”.
– Detetive De la Cruz? – disse ao atender.
– Bom dia, oficial. Como vai?
Frustrada. De muitas maneiras.
– Presa no trânsito. E o senhor?
– A mesma coisa, mas seguindo em outra direção.
– Tem café aí?
– Com certeza. E você?
– Sim. Então, é quase como já estar no escritório.
Houve o som de um gole.
– Tenho novidades.
– Pensei que tivesse ligado apenas para dizer bom dia.
– Kroner está de volta.
Apertou as mãos com mais força sobre o volante.
– Defina “estar de volta”.
– Os médicos acabaram de me ligar e estão impressionados. Na noite passada, em algum momento, tudo mudou. Seus sinais vitais ficaram fortes e estáveis, e, veja só: está muito consciente.
– Caramba... tenho que falar com ele.
– Não estão preparados para acomodar muitos visitantes, mas permitem que mandemos um representante. E recomendo que não seja você a fazer isso.
– Por que não?
– Você é um alvo para ele. Mulher branca, na casa dos vinte...
– Já passei dos vinte.
– E por isso acho que poderíamos ir mais longe com um homem...
– Posso lidar com ele.
– Quero que ele fale, não que fique distraído ao imaginar todas as coisas que pode fazer com você.
Cara, era um pensamento horrível.
– Não estou dizendo que você não deva fazer isso. É que essa pode ser a nossa primeira e única chance de ouvir a versão dele. Não confio em coisas que não possam ser explicadas, e o médico não faz ideia de como o bastardo ainda está vivo, muito menos, acordado.
Reilly amaldiçoou, mas entendia o ponto de vista dele. Além disso, o detetive não era machista. Por outro lado, poderiam enxergar as coisas de outro ângulo... e sentiu-se péssima ao expô-lo.
– Tem alguma chance de você não querer que eu ouça o que ele tem a dizer sobre DelVecchio?
– Não estou protegendo Veck. Se ele cometeu um crime, será tratado como qualquer pessoa. Confie em mim. E entrarei em contato imediatamente quando o representante terminar a conversa com Kroner, para que acompanhe as novidades. Certo?
Era difícil duvidar da lógica e daquele homem.
– Quero saber de tudo.
– Saberá, oficial. Juro pela minha mãe.
– Ligue.
– Assim que puder.
Quando Reilly desligou, jogou o telefone sobre o banco vazio ao lado dela. Acreditava que, finalmente, descobririam o que tinha acontecido naquela floresta – teoricamente era isso. Serial killers não eram reconhecidos pela sinceridade ao serem capturados.
Preparou-se para sair da estrada ao mudar de faixa e acionar a seta. E, quando conseguiu, pôde acelerar mais. Contudo, o atraso no trânsito acabou sendo algo bom. Quando o prédio sem graça da delegacia finalmente apareceu, estava pronta para trabalhar – e também para ver Veck.
Cometeram um deslize. Tudo bem. Mas aquilo não precisava se repetir, e não deixaria nada afetar seu trabalho. Havia muita coisa em jogo. Não estava disposta a se distrair ou a relaxar e ser pouco profissional só porque se sentia atraída pelo parceiro. Sissy Barten e as outras vítimas mereciam algo muito melhor que isso. E tipos como Kroner requeriam atitudes firmes.
– Você está péssimo.
Veck ergueu o olhar da tela do computador. Bails estava em pé na frente da mesa com uma expressão de satisfação no rosto e uma jaqueta nas mãos.
– Obrigado – Veck recostou-se na cadeira e desejou um cigarro. – E você parece um cara que acabou de...
– Dar uns amassos em alguém, certo?
– Eu diria “ganhar na loteria”. O que aconteceu?
– Adivinha quem acordou?
– Considerando a referência que você fez sobre “amassos”, não quero saber.
– Kroner.
Veck estendeu o corpo para frente.
– Impossível.
– Bem, então De la Cruz está dizendo um monte de bobagens, pois acabou de me pedir para sair e ver o que o bastardo tem a dizer. Acho que teve alguma reação na noite passada.
Veck saiu da cadeira, sem nem sequer perceber o movimento. Mas foi um desperdício de energia: não iria a lugar algum. Ao menos, não em caráter oficial.
Veck sentou-se outra vez.
– Droga.
Bails inclinou-se com o rosto muito sério.
– Vou cuidar disso. Vou te contar tudo. Pelo que sei... não vai nem acreditar nas evidências apreendidas da caminhonete de Kroner. A catalogação vai demorar mais um dia, no mínimo; tem muito material. Cruzar as informações das vítimas? Levará um ano, provavelmente. Pelo menos o FBI está sendo legal e trabalhando conosco, e não contra nós.
Droga, Veck precisava confirmar a informação com o agente. Tomou um gole de café em sua caneca.
– Não consigo acreditar que Kroner está vivo.
– Milagres acontecem.
– Acho que pode chamar assim.
– Mas é. Ele vai libertá-lo, amigo. Confie em mim.
Veck não tinha muita certeza disso, mas não tinha importância. Estendeu a mão fechada para bater na de Bails e disse: – Vá com tudo, cara.
– É isso aí. Ligo quando terminar.
Quando o cara virou-se para sair, Reilly apareceu na porta. Parecia bem, profissional, séria... tudo o que alguém deve ser num ambiente de trabalho. Porém, num piscar de olhos, começou a vê-la desarrumada em cima da mesa da cozinha, cabeça para trás, seios expostos, sem meia-calça e com a saia em volta da cintura.
Veck passou a mão sobre a cabeça que doía. Tinha acordado com um martelo sobre a testa, havia vagos tentáculos de um sonho terrível e persistente em sua mente – e isso não era nada. Tinha a estranha convicção de que alguém estivera na sua casa durante a noite. Porém, verificou todas as portas e janelas e nada, nenhum arrombamento. Nada fora do lugar também.
Depois que Bails acenou para Reilly e saiu, ela aproximou-se.
– Bom dia.
– Bom dia – Veck olhou em volta. Ninguém estava prestando atenção neles e aquilo parecia um milagre... Sentia como se os dois tivessem um letreiro de neon sobre o peito onde se lia: “nos agarramos ontem à noite”. Mas parecia que apenas ele e Reilly sabiam o que tinha acontecido, pois ela também olhava discretamente para os outros colegas de trabalho.
– Pronto para examinar o arquivo Barten? – ela disse, ao colocar as coisas sobre a mesa ao lado dele e entregar uma cópia impressa.
As páginas estavam organizadas, bem empilhadas e grampeadas. Estava claro que ela imprimira o relatório outra vez.
Girando a cadeira em direção a ela, pensou no que tinha acontecido com os dois relatórios da noite passada. Sem dúvida, ela teve que jogá-los fora depois de serem amassados embaixo de dois corpos pesados e, em seguida, lançados ao chão.
Ele esfregou a cabeça outra vez.
– Soube do Kroner?
– De la Cruz me ligou.
– Estou surpreso de que você ainda não tenha ido até lá para entrevistar o cara.
– Ah, eu vou. Pode apostar sua vida nisso – tirou o clipe da sua pilha de papéis e espalhou as várias seções grampeadas. – Então, ao ler tudo isso, uma coisa me incomodou.
Ele viu-se olhando a boca dela e desejou dar um soco em si mesmo: não era apenas inapropriado, mas soava como falta de respeito.
– O que seria? – desculpe por ontem à noite. – Em que ponto você está no relatório?
– A parte da denúncia anônima. Página dois. Alguém ligou dizendo ter visto Sissy entrar num carro preto no estacionamento do mercado.
– Achei – não deveria tê-la colocado nesta situação. – Sim, mas não há mais nada. O cara não deixou o nome.
– Estive pensando no que a mãe disse sobre ela. Sissy não me parece o tipo de garota que faria algo assim. Não era uma pessoa que entraria no carro de um estranho.
– Talvez a denúncia esteja errada ou seja mentira – gostaria de dizer que não te desejo, mas não posso. – Não seria a primeira vez, e como saber sem qualquer informação adicional?
Naquele momento, seus olhos encontraram os dele.
– Mas esse é o ponto. Por que não haveria outras pessoas observando a garota quando ela saiu para o estacionamento? Ela deixou o carro ali, certo? Por que ninguém mais veria o que aconteceu quando ela saiu? Especialmente se houve resistência? Havia funcionários recolhendo carrinhos, clientes entrando e saindo. Se concluirmos que Sissy foi forçada a entrar no veículo, alguém deve ter visto a luta, ou alguma coisa fora do comum.
Pensando nas indicações, assentiu.
– Sim, e os arredores do supermercado... Não há nada do outro lado da rua ou dos lados. Fica meio distante da estrada, então não há sentido em sair caminhando como se fosse a outro lugar.
– Alguém viu alguma coisa.
Deus, era quase o que tinha acontecido com ele em relação a Kroner: nada além do resultado final... Cercado por várias lacunas de esquecimento. Talvez a água de Caldwell tivesse alguma coisa que fizesse as pessoas perderem a memória.
– Vamos começar do começo – ele disse, reordenando sua pilha. – E dar um passo de cada vez.
Quando pensou sobre Bails conversando com Kroner, pegou o celular e colocou-o em cima da mesa no caso de o cara ligar.
Com certeza, Sissy Barten encaixava-se no perfil das vítimas do assassino e era uma das duas pessoas denunciadas como desaparecidas na cidade. Kroner nunca abordava homens, crianças ou alguém acima dos trinta, e a outra garota da lista tinha sido registrada há quase um mês, então poderia estar fora do alcance do tempo condizente com os ataques. Sissy tinha sido sua vítima, Veck sentia isso. Ela era o seu caminho de volta para o caso Kroner.
CAPÍTULO 15
– Mas eu não toquei nele.
Jim estava nu e barbeava-se no banheiro enquanto a discussão entre Ad e Eddie, que tinha começado há horas, continuava no quarto ao lado. Era como ter o som de uma TV ao fundo – com a única diferença de que a interrupção dos comerciais era o barulho de tomar banho, vestir-se, comer etc.
Tinha a impressão de que os dois discutiriam para sempre. Eram muito bons nisso... muito criativos. E pensar que Jim admirava o próprio repertório de palavrões.
– Da próxima vez, seja mais específico – Adrian comentou. – Não pode beijar o meu traseiro por conta disso.
– Parou para pensar que o que aconteceu com Jim poderia ter acontecido com você? Não havia ninguém para ajudá-lo ali.
– Eu não toquei nele!
Cachorro estava na primeira fila do show, sentado no acesso entre os quartos conjugados, com a cabeça de pelos desgrenhados indo da direita para a esquerda enquanto um dos homens falava e o outro respondia. O carinha parecia bastante satisfeito em ficar ali sentado acompanhando a briga. Quem sabe aquilo não seria sua versão de um Animal Planet.
Balançando a cabeça, Jim apoiou as mãos sobre o balcão da pia e inclinou-se para o espelho. A aventura da noite passada com o distintivo foi um aviso para acordar. Devina tinha truques e campos minados que ele ainda precisava compreeder... E, sem dúvida, Veck fora sugado por todo aquele...
–...vampiro.
Jim franziu a testa e inclinou-se para trás, colocando a cabeça para fora. Ele tinha ouvido direito? Nenhum de seus colegas parecia muito fã da saga Crepúsculo. Porém, era difícil definir as preferências de Adrian. E, geralmente, não daria importância ao comentário. Mas também não acreditava em anjos... até se tornar um.
– Está dizendo que preciso investir em alho? – ele gritou.
Cachorro reposicionou-se para conseguir enxergar a todos.
Antes que pudesse obter uma resposta, o celular de Jim tocou sobre o criado-mudo ao lado da cama. Aproximou-se e pegou-o, a tela anunciava o número 518 como código de área da ligação.
Bom dia, detetive DelVecchio.
– Heron.
– Aqui é o Veck. Tudo bem com você e seus colegas?
Se pensarmos em toda a diversão e brincadeiras que tivemos com você na noite passada...
– Bem. E você?
– Estamos examinando o caso de Cecília Barten. Têm alguma informação que não temos?
Jim estava preparado para a pergunta – era sempre assim, seria capaz de prever isto também se estivesse trabalhando de fato para o FBI.
– Não tenho certeza. Posso me reunir com você e dar uma olhada no que tem?
– Boa.
– Não temos muita coisa – Devina não deixaria fios soltos e, pensando em tudo o que era capaz de manipular, a limpeza que fez no ato do sequestro tinha sido espetacular.
– Sim, eu sei. Não há testemunhas... Como é possível não ter nenhuma testemunha?
Porque sua Sissy tinha sido capturada por um demônio, por isso. Não que ela fosse dele.
– Ouça – o detetive continuou, baixando a voz. – Acho que ela está ligada com o caso Kroner. Pode verificar outra vez seus arquivos relacionados a ele?
– Com certeza – Jim não era especialista em mentir, mas não tinha qualquer problema com isso quando a situação pedia. – Vou ver o que consigo desenterrar. Almoço?
– Sim. Restaurante Riverside?
– Vejo você lá ao meio-dia.
Deixando de lado toda a questão sobre vampiros, Jim andou ao redor da cama e colocou a cabeça na porta que separava os quartos.
– Temos um encontro com o detetive.
Eddie e Adrian olharam para ele e, imediatamente, franziram a testa.
– O que é isso no seu pescoço? – Ad perguntou.
– Ao meio-dia – Jim disse. – O que significa que têm mais algumas horas para discutir enquanto volto a fazer algumas pesquisas na internet.
Quando recuou e pegou as calças que tinha deixado sobre a cadeira, eles seguiram-no.
– Qual é o lance do colar? – Ad exclamou.
Mesmo com o traseiro de fora, Jim decidiu que vestir uma camiseta era prioridade. Não queria que vissem a pequena corrente de ouro de Sissy.
– Estamos ferrados – Adrian murmurou. – Muito ferrados.
Jim puxou a camisa para baixo.
– Obrigado por seu voto de confiança...
– Ela não é problema seu! É apenas uma garota, supere isso.
Era a coisa errada a se dizer, no tom errado e na manhã errada. Jim aproximou-se do cara e ficou face a face com os anjos.
– Passei parte da tarde de ontem olhando nos olhos da mãe daquela garota. Então, antes de defini-la como não sendo nada especial, sugiro que vá até lá e veja o quanto ela é importante.
Adrian não recuou.
– E eu sugiro que comece a estabelecer suas prioridades. Já existiram milhares de belas e inocentes vítimas nesse conflito e, sim, é trágico, mas é a realidade. Ela é apenas a mais recente delas... Vai fazer isso com cada garota que encontrar? Isto é uma guerra, não uma maldita agência de namoro.
Jim mostrou os dentes num rosnado.
– Seu maldito filho da puta. Você sequer pode fingir que me conhece.
– Então, faça-nos um favor e conheça a si mesmo!
Jim recuou e olhou para Eddie.
– Quero esse cara longe de mim. E cuide para que continue assim. Já chega.
Adrian soltou um “tanto faz” por cima do ombro e voltou para seu quarto. Um momento depois, uma porta fechou-se.
Jim puxou as roupas de couro que costumava usar e, em silêncio, desejou gritar.
– Ele está certo – disse Eddie.
Olhando sobre o ombro, Jim gritou: – E você pode ir também. Não preciso de nenhum dos dois.
Houve um momento de silêncio e, a seguir, as sobrancelhas de Eddie abaixaram lentamente, fechando-se sobre aqueles olhos vermelhos... que começaram a brilhar de repente.
Jim recuou, mas não por medo de bater no cara. E sim por ter percebido que jogara um palito de fósforo aceso sobre um galão de gasolina. Não era muito interessante ficar perto de Eddie Blackhawk nervoso.
Com uma voz distorcida, como se fosse um rádio entrando e saindo da frequência, o anjo rosnou: – Quer ser uma ilha? Boa sorte... Salvei sua vida ontem à noite e não foi a primeira vez. Acha que Adrian é o problema aqui? Dê uma olhada no espelho, vai encontrar uma resposta melhor.
Com isso, Eddie virou-se e fechou a porta, trancando-a. Um breve clarão incandescente sugeriu que o anjo havia decolado como sempre fazia.
Jim pegou uma cadeira, ergueu-a acima do ombro e preparou-se para jogá-la pela porta. Mas parou ao vislumbrar a si mesmo no espelho sobre a cômoda.
Seu rosto estava vermelho de raiva, os olhos brilhavam num azul gélido da mesma maneira que os de Eddie quando se transformaram em luzes de árvore de Natal vermelhas. Sua camiseta estava esticada sobre o peito ressaltado e sobre os músculos dos ombros, a delicada corrente de Sissy pressionava as veias do pescoço.
Desceu a cadeira devagar, inclinou-se sobre o vidro e observou os pequenos elos dourados. Mais um pouco daquele acesso de raiva e quebraria a coisa, simplesmente romperia ao meio.
– Cachorro, vou sair um pouco.
Quando não houve nenhuma reação, nenhuma pata mexendo para chamar a atenção, nada de orelhas com pelos bagunçados erguendo-se do outro lado da cama, Jim virou-se.
– Cachorro? – e assoviou. – Cachorro?
Talvez o cão tivesse ficado no quarto de Eddie e Ad. Aproximando-se da porta, Jim abriu a fechadura com a força do pensamento.
Nada.
Nada de Cachorro também.
Ele estava sozinho.
Ficou em dúvida por um momento, pensando que diabos aconteceu aqui?, mas fechou a porta outra vez e trancou-a. Levando tudo em conta, a separação era inevitável. Ele e Adrian tinham se agredido em menos de 48 horas trabalhando juntos, e toda aquela diferença de opiniões continuou a ferver dentro deles. E, sim, Eddie era legal, mas Jim tinha a sensação de que poderia sobressair-se em termos de mágica... Portanto, não poderia dizer que se sentia comprometido.
Seria mais organizado assim. Mais limpo. Além disso, quando trabalhou sob o comando do maldito Matthias nas Operações Extraoficiais, esteve sempre sozinho, então era o mesmo negócio de sempre. Estava acostumado. Ter parceiros, pessoais ou profissionais, era confusão demais para o gosto dele.
CAPÍTULO 16
– Como?
No gramado do castelo celeste, Nigel olhou ao longo da mesa coberta com uma toalha de linho e fez um gesto com a cabeça indicando um prato de porcelana fina.
– Poderia me passar os bolinhos, por favor?
– Não foi isso o que você disse – Colin recostou-se na cadeira delicada, as sobrancelhas negras abaixaram sobre os olhos que, por sua vez, expressavam vários palavrões.
Os dois anjos que os acompanhavam no jantar – bem, eram três se contassem o cão de caça irlandês – pararam no meio de um dos goles de suas bebidas... Ou em meio a uma fungada, no caso de Tarquin. Mesmo assim, Bertie entregou o prato em questão, o belo rosto estava cheio de compaixão, como sempre. Não é preciso dizer que o chá estava arruinado, mesmo o quitute sendo glorioso.
– Nigel, que diabos você fez?
– Agradeço se não se dirigir a mim neste tom, Colin.
– Pode ir para o inferno com a sua etiqueta. O que está dizendo? Teve um encontro com o Criador?
Nigel abriu o bolinho ao meio e inalou o aroma doce que exalou com a fumaça. Na realidade, não precisavam de alimento, mas privar-se daquele prazer por um detalhe técnico era absurdo.
Byron empurrou seus óculos cor-de-rosa sobre o nariz.
– Tenho certeza de que ele tem os seus motivos, não é mesmo?
Ao contrário de Colin, que era um touro teimoso, os outros dois simplesmente esperariam para ouvir o que Nigel tinha a dizer. Bertie, de coração mole, e Byron, com seu eterno otimismo, eram criaturas mais delicadas que Colin, capazes de demonstrar as virtudes da moderação e grande paciência. Colin, porém, perguntaria apenas mais uma vez e já começaria a dar socos sobre a mesa.
Calmamente, Nigel levou o tempo que quis usando o passador de manteiga. E, naturalmente, era possível sentir o calor vindo do outro lado da mesa como chamas ardendo sobre a madeira.
– Nigel. O que aconteceu?
Respondeu apenas depois de terminar de mastigar completamente a primeira mordida.
– Acredito que discutimos a predileção do outro lado por... como posso dizer... por fazer um reajuste criativo da realidade...
– Ela é trapaceira e uma mentirosa vadia – Colin exclamou.
– Precisa ser tão direto? – Nigel apoiou o bolinho, seu apetite havia desaparecido. – E preciso lembrá-lo de que nós também quebramos as regras? Nossas mãos também estão sujas, velho amigo, e...
– Isso é apenas um remendo para o que ela tem feito...
– Precisa parar com as interrupções. Agora.
Os dois se entreolharam num silêncio contínuo e inabalável... ao ponto de Nigel saber que dormiria sozinho naquela noite... mas não tinha problema algum com isso.
– Terminamos com a discussão? – Nigel pronunciou.
Colin abriu a boca, mas fechou-a em seguida com um gesto brusco.
– Ótimo. Bem, como eu estava dizendo, o Criador está ciente das transgressões... dos dois lados. – Nigel testou a temperatura de seu chá Earl Gray. Esperava que estivesse perfeito, e estava. – Mas reconheci nossas negligências e o fato de não ser justo exigir atitudes de Devina que nós mesmos não estamos preparados para honrar.
– A natureza dela é como sempre foi – Bertie disse em voz baixa. – Não pode mudar quem e o que ela é. Com certeza, o Criador sabia disso desde o início.
– Sim, eu também acho – Nigel tomou um pouco mais de chá. – Não há surpresa alguma em nada disso. Na verdade, tive a impressão... – Nigel escolheu as palavras com cuidado, pois não se deve falar nada, para o bem ou para o mal, em nome do Criador: – Quase acredito que tudo isso já fosse esperado. As violações dela. Nossas tentativas de ajudar Jim com Adrian e Edward. Tudo isso.
– E qual é o resultado da conversa? – Colin vociferou.
– Uma incógnita. Porém, o Criador deu notícias muito infelizes. Já de saída, fui informado de que houve uma ruptura entre Jim, Edward e Adrian.
– Oh, devem ter brigado – Bertie murmurou.
– Desde quando? – Colin perguntou.
Nigel colocou a xícara de porcelana de maneira precisa sobre o pires.
– É evidente que deve ter acabado de acontecer.
As sobrancelhas de Colin estreitaram-se mais uma vez, o que significava que estava pensando. E isso nunca era bom.
– O que aconteceu?
– O Criador não disse e não era correto perguntar – e desejou, naquele momento, inserir a mesma resignação no coração do arcanjo. – Mas ficou claro que Jim está sozinho.
Era desastroso. O salvador era forte, mas não tinha nenhuma experiência nos caminhos daquela antiga guerra. Agora, era apenas um belo faisão sentado distraidamente sob a mira da arma daquele notório demônio.
– Mas acredito que o Criador tomará uma atitude – Nigel concluiu.
– Contra nós? – Colin perguntou.
– Vamos esperar e então saberemos.
Não havia nada para prometer aos seus colegas, nenhum motivo para terem fé em virtude da conversa que teve. Depois que alguém apresenta um assunto ao Criador para que ele considere, transfere o problema de suas mãos, e não há uma maneira de prever como os dominós enfileirados cairão.
– Vou descer – Colin anunciou. – Heron não pode ficar sozinho.
Por que ninguém adere às regras? – Nigel pensou. – Ao menos uma vez.
Ao pegar a xícara e segurá-la com o dedo mínimo estendido, percebeu mais uma vez. Se existia alguma coisa na qual se podia confiar era na paixão de Colin: a natureza dele era impetuosa, portanto seu controle cognitivo era tão somente um grande esforço para encobrir sua verdadeira constituição. Por isso, pode-se dizer que era o verdadeiro intelectual entre eles.
– Nada a dizer, Nigel? – Colin cobrou em tom amargo. – Nenhum “oh, não, você não pode?”
Nigel focou o castelo que estava a uma curta distância e, quando finalmente falou, foi em voz baixa. Se viesse de outra pessoa, poderia se dizer que soava entristecido.
– Temos uma oportunidade de assumir o controle desse jogo. Gostaria de pedir que leve em consideração o que acabei de fazer... Seria tolice seguir tudo à risca... de imediato... Esse é exatamente o tipo de violação que apresentei para que o Criador corrigisse.
– Conservadorismo é o primo da covardia. Ou seja, se o Criador sempre teve ciência das infrações de Devina, então poderia ter tomado alguma atitude contra ela na primeira rodada. A omissão revela uma postura permissiva e, portanto, devemos ser proativos neste caso – o arcanjo jogou o guardanapo sobre a mesa. – Não é tão poderoso quanto pensa, Nigel. Ou acredita ser tão importante a ponto de todas as suas ações encontrarem as reações que você quer?
No silêncio que se seguiu, Nigel sentiu-se cansado com tudo e com todos: Jim havia feito um acordo com Devina. Colin estava prestes a ser desonesto. O demônio estava fora de controle. Tinham perdido a última rodada e havia pouca esperança com relação a atual.
– Por gentileza, peço que me deem licença – com cuidado, pressionou o guardanapo de linho sobre a boca e dobrou-o com precisão. Colocando o tecido com o mesmo cuidado ao lado do prato, levantou-se. – Acho que já supliquei o suficiente por um pouco de lógica e, agora, faça o que quiser, Colin. Peço apenas que esteja ciente das grandes implicações existentes – fez um gesto de negação com a cabeça para seu velho amigo. – Eu esperava lutar com o demônio. Nunca pensei em travar conflitos com o salvador ou com tipos como você ao mesmo tempo.
Não esperou por uma resposta, apenas seguiu para seus aposentos em forma de vapor. Ali, em sua privacidade e em meio a tecidos de cetim coloridos e seda, sentiu como se tivesse sido lançado na fria galáxia e estivesse flutuando no espaço, seguindo sem controle... sozinho e sem direção.
Havia uma grande possibilidade de perderem a guerra. Com as coisas ruindo na Terra e nos céus, não havia nada para oferecer contra as conspirações de Devina, e ela adorava expor e explorar tais fraquezas.
Quando entrou na arena pela primeira vez com o demônio, estava absolutamente confiante da vitória. Agora, tudo o que conseguia enxergar era a derrota. Iriam perder. Especialmente se pensasse que deveria ter sido firme com Colin, mas acabara sucumbindo pelo cansaço.
Por um bom tempo, permaneceu onde seus pés tinham parado. Seus pulmões esforçavam-se para sustentar uma respiração da qual ele não necessitava, mesmo assim, estava em pânico com a ideia de perder o ar. Finalmente, aproximou-se de seu espelho ornamentado e sentou-se diante do reflexo. Com uma maldição em voz baixa, deixou sua imagem desvanecer-se em fumaça, restando a verdadeira essência: uma fonte de luz que brilhava com todas as cores da Criação.
Percebeu que tinha mentido a si mesmo. Desde o início, acreditava que aquela guerra fora travada para salvar as almas no castelo – e, apesar de ser aquele o principal motivo, havia outra verdade escondida por trás de sua determinação e de seu manto heroico.
Aquele era seu lar. Aqueles aposentos, o tempo que passava com Colin, as refeições, praticar esportes com Bertie e Byron e até mesmo os olhos marrons de Tarquin e seus membros esguios. Tudo aquilo nutria e sustentava Nigel.
Era sua vida, e amava-a daquele jeitinho, com as pegadas deixadas por Colin sobre os tapetes depois do banho, o vinho que tomavam juntos quando tudo estava calmo e silencioso e aquela sensação de imaginar os momentos em que suas peles tocavam-se uma na outra. Era um imortal que, naquele momento, entendia o terror mortal da perda.
Como os humanos conseguiam? Passar por suas vidas tão curtas, sem saber ao certo quando as pessoas que amam seriam levadas... Ou se havia de fato um lugar para todos do outro lado. Talvez esse fosse o ponto-chave. Na verdade, tinha passado tempo demais vivendo alegremente seus “dias” e “noites” tendo como certo que tudo o que amava seria eterno. Só agora, quando confrontado com a imensa e obscura morte, percebeu como eram belas as cores brilhantes de sua existência.
O Criador é um gênio – pensou. A infinitude resultava em insolência. Mas a transitoriedade era a única maneira de alguém valorizar o que possui.
– Nigel.
Não era Colin, mas Byron, que havia entrado no ambiente pleno de tecidos roxos e vermelhos. O arcanjo estava hesitante ao interromper, e foi uma surpresa não ter anunciado sua presença.
– Estou chamando há um tempo – disse.
Ah, isso explicava tudo.
Nigel reassumiu sua forma, remodelando sobre si a carne e os ossos, vestindo o corpo com o terno branco vespertino que usava para o chá.
Na verdade, quando encontrou os olhos por trás daqueles óculos cor-de-rosa, preferiu ser observado pela raiva de Colin. Ou até mesmo pela duplicidade de Devina. A última coisa que interessava era a eterna fé e o otimismo de Byron.
– Meu querido – Nigel disse –, talvez possamos fazer isso outra hora.
– Não vou demorar. Só vim para dizer que Colin decidiu não descer.
Nigel levantou-se e foi até a espreguiçadeira ao lado da cama. Estendendo-se, fez um esforço para manter a forma corpórea. Estava cansado, oh, tão cansado, mesmo em face do que deveria ter lhe dado alívio.
– Vamos ver quanto tempo vai durar essa hesitação – murmurou.
– Colin se dirigiu aos aposentos dele.
Ficou subentendido que, se Nigel quisesse conversar com o arcanjo, poderia encontrá-lo lá. O fato de Byron dar-lhe um relatório do que tinha acontecido, por assim dizer, era uma de suas características. Então, sua presença ali não o surpreendia. Era impossível que Byron e Bertie não soubessem do grau de proximidade que Nigel tinha com seu imediato, mas tudo era tratado com discrição. No entanto, aparecer ali era a maneira de Byron dizer que estava preocupado com os dois.
O otimista. Preocupado.
De fato, as coisas estavam indo muito mal.
– Colin está nos aposentos dele – o arcanjo repetiu.
– Onde deveria estar – afinal, tinham passado um bom tempo juntos ali, mas, “oficialmente”, viviam separados.
Após a suave resposta, Byron removeu os óculos e, quando ergueu os olhos, Nigel mal conseguia se lembrar da última vez que o viu sem aquelas lentes róseas.
– Perdoe a minha franqueza, mas acho que deveria falar com ele.
– Ele pode vir até mim.
– Sabia que diria isso.
– Alguma chance de você ter falado com ele primeiro? – o silêncio respondeu. – Ah, você é muito gentil, querido amigo.
– Não, esse é o Bertie.
– E você. Sempre vê o melhor nas pessoas.
– Não, estou cercado de boas pessoas que fazem o melhor que podem. Na verdade, sou um realista, não um otimista – de repente, o rosto do anjo brilhou com o poder do conhecimento. – Sua natureza e a de Colin são a mesma. Minha esperança é que você perceba isso para que possam se unir outra vez.
– Então, é um romântico também. Um pouco contraditório para um realista.
– Ao contrário, quero vencer, e nossas chances aumentam sem as distrações de um coração partido.
– Meu coração não está partido.
Byron recolocou os óculos sobre o nariz reto e empinado.
– E eu te pergunto... a quem você está mentindo? – com uma reverência, saiu do local.
No silêncio que se seguiu, Nigel ficou totalmente frustrado por haver tão pouco a ser feito em relação às decisões do Criador. E como era irritante pensar que também esperava Colin chegar ali com um pedido de desculpas. Talvez não devesse perder a respiração – desnecessária, aliás – por causa dele.
CAPÍTULO 17
– Não, obrigada. Acho que deixarei que almoce com aquele agente sozinho.
Quando Reilly respondeu à pergunta, Veck parou de vestir sua jaqueta de couro. Os dois trabalharam bem a manhã toda, examinando linha por linha dos relatórios do caso Barten. Estava surpreso em ver como se davam bem nos negócios.
Parecia que a confusão toda da noite passada tinha sido lançada a um segundo plano – ao menos para ela. No caso dele? Que inferno, claro, ainda estava tudo em sua mente, e teria amado se houvesse uma brecha na conversa, pois queria muito se desculpar. Mas não foi o que aconteceu, pois a desejava. Ainda. Na verdade, ainda mais.
Meu Deus, ele precisava de um cigarro.
– Vejo você aqui de novo em uma hora, então.
– É um bom encontro... Ah, quero dizer, um bom plano.
Com isso, ela mordeu os lábios com aqueles dentes brancos, como se estivesse se punindo por ter feito referência a um “encontro”.
Havia coisas muito melhores para se fazer com aquela parte do corpo dela.
Praguejando baixinho, Veck deixou o Departamento de Homicídios antes que aquela brilhante ideia criasse asas e, em vez de usar a escadaria principal, desceu pelos fundos: não estava interessado em ficar preso na trincheira chamada Britnae ou em cruzar com outros colegas. Assim que saiu da delegacia, parou, acendeu um cigarro e olhou para o céu. Aquele sol do dia anterior estava oculto atrás de uma espessa camada de nuvens, e o vento estava frio e úmido.
Ainda bem que estava pronto para um passeio a pé. Cinco minutos de caminhada depois, estava no restaurante. O agente Heron estava do lado de fora, na porta da frente, apoiado contra o prédio, fumando. Usava muitas peças de roupa de couro, parecia mais um motoqueiro que um agente federal. Mas talvez estivesse de folga e dirigisse uma moto.
Veck franziu a testa. Deus, por alguma razão tinha uma lembrança estranha de um daqueles agentes fazendo piada com a sua BMW. Mas quando isso tinha acontecido? Talvez tivesse sonhado.
– Um cigarro no momento certo é melhor que comida – Veck murmurou, quando apertaram as mãos.
– Amém.
– Dia ruim?
– Pode apostar.
– Quer andar um pouco? – Veck indicou a calçada com a cabeça. – Fumar está me parecendo mais interessante que comer o sanduíche que eu estava pensando em pedir.
– Boa ideia.
Chegaram ao caminho de concreto juntos e mantiveram a velocidade. Ao lado deles, o rio Hudson tinha a mesma cor escura do céu, a superfície era entrecortada com a força do vento.
– Trouxe uma cópia do nosso relatório – Veck disse, colocando o cigarro entre os dentes e pegando os papéis que tinha dobrado no meio. – Mas provavelmente você já viu a maior parte disto.
– Nunca é demais examinar uma segunda vez – os documentos foram colocados no bolso frontal do casaco de Heron. – Quero ajudar.
– E eu poderia usar qualquer coisa que tivessem. Esse caso é muito frustrante.
– Entendo.
E isso foi tudo o que disseram por um bom tempo. Carros passavam à direita deles, buzinando uns para os outros de vez em quando. Uma ambulância passou numa corrida mortal com sirenes estridentes. Um aglomerado de ciclistas usando roupas coladas e capacetes aerodinâmicos passou também, pedalando como se estivessem sendo perseguidos.
Ao contrário do resto do mundo, ele e Heron continuavam em câmera lenta.
– É fácil conversar com você – Veck disse exalando; a fumaça do cigarro pairou sobre sua cabeça.
Heron riu.
– Não tenho muito a dizer.
– Eu sei. Gosto disso. Droga, esse caso Barten está me matando. Sinceramente, nada disso faz sentido.
– É.
Veck olhou ao redor.
– Aliás, onde está sua equipe?
– Não está aqui.
Era óbvio. E ficou claro que era um assunto encerrado.
Naquele momento, o telefone de Veck tocou.
– DelVecchio. Sim? Mesmo? Droga... Não brinca?
Sentiu Jim dar uma olhada nele... e, quando isso aconteceu, um estranho aviso formigou em sua nuca... A noite passada... na sua cozinha...
Os pés de Veck pararam e ele terminou de ouvir o relatório de Bails sobre Kroner no piloto automático, seus olhos fixaram-se nos de Heron. Sempre teve bons palpites sobre as coisas, mas aquilo era mais profundo que intuição ou pressentimentos. Era fato, mesmo sem entender os comos e os porquês.
Depois que desligou, apenas continuou a encarar o agente do FBI.
– Sabe? Acho que alguém esteve na minha casa ontem à noite.
Heron nem piscou – não havia reação naquele rosto rígido. Já era uma resposta em si, não?
– Não sei, talvez estivesse sonhando.
Bobagem. Tinha sido Heron. Quando Veck andou pela cozinha, teve a mesma sensação de estar sendo observado pelos olhos que o encaravam agora. A questão era: por que o FBI o perseguia?
Mas a resposta era tão óbvia que merecia um dããã: seu pai seria executado em Connecticut em alguns dias. Talvez temessem ser o filho uma cópia do pai ou algo assim, e, sim, o incidente com Kroner ajudou muuuito a chegarem a tal conclusão. E, embora a lei não permitisse que se discriminasse ou punisse as pessoas por conta da aparência ou com quem tinham parentesco, com certeza tiravam suas conclusões mesmo assim.
Contudo, talvez estivessem protegendo-o. De seu pai ou dos seguidores de seu pai. Nesse caso, porém, teriam se aproximado e dito o que pretendiam, não?
– Então, o que achou de Bob Greenway? – Veck murmurou. – O gerente do mercado onde Cecília Barten foi vista pela última vez.
– Como você disse, nada demais.
– Não está aqui pelo caso Barten, está?
Heron deu uma tragada em seu cigarro.
– É claro que estou.
– O nome do gerente é George Strauss. Você nem leu os arquivos?
O agente não hesitou. Não pareceu dar a mínima por ter sido pego no que, na melhor das hipóteses, poderia ser um lapso de memória. Na pior, estava mentindo. Permaneceu completamente seguro, como se já tivesse visto e feito coisas muito piores do que uma mera distorção da verdade, não se importava nem um pouco.
– Poderia me contar por que esteve na minha casa ontem à noite? – Veck disse, batendo o cigarro de leve no ar.
– Não seria errado dizer que tenho um interesse especial por você. E seria bastante correto dizer que o desaparecimento de Sissy Barten é muito importante para mim.
Veck franziu a testa.
– Então, o que diabos está acontecendo? Tem alguma coisa relacionada com meu pai? Pois, caso não saiba, eu não conheço de verdade o cara e espero que façam um favor ao mundo apagando-o.
Heron inclinou-se, levantou uma das botas de combate e apagou o cigarro na grossa sola. Depois de colocar a bituca no bolso de trás, pegou outro do maço e acendeu-o com a eficiência de um fumante de longa data.
– Me deixe perguntar uma coisa.
– Poderia tentar responder uma das minhas perguntas primeiro, seria muito legal.
– Não. Estou mais interessado em você – o cara deu um trago e exalou. – Já sentiu que existe outra parte sua? Algo que te segue por aí, escondido sob a superfície? Talvez saia de vez em quando, levando você numa direção que não deseja.
Veck estreitou os olhos; seu coração deu um grande salto dentro do peito e parou em seguida.
– Por que diabos perguntou isso?
– Só curiosidade. Seria o tipo de coisa que não gostaria de ver num espelho, por exemplo.
Veck deu um passo para trás e apontou para o cara com o cigarro.
– Não se aproxime da minha casa e fique longe de mim.
Heron permaneceu onde estava, pés plantados sobre a calçada.
– É algo que faz você se perguntar o que é capar de fazer. Tal coisa lembra muito o seu pai, e você não gosta de pensar nisso.
– Você está louco.
– Nem um pouco. E nem você.
– Saiba que sou bom com uma arma. E não me importo que seja um agente federal. Se é que não mentiu sobre isso também.
Veck virou-se e começou a andar rápido.
– Olhe para os seus pés, Thomas DelVecchio – Heron gritou. – Dê uma boa olhada no que está acontecendo. E ligue para mim quando estiver assustado o suficiente. Sou o único que pode te ajudar.
Filho da puta, lunático da porra.
Lunático filho da puta.
Veck levou pouco tempo para chegar à delegacia e subiu com tudo a escadaria da frente, queria chegar logo ao seu computador. Ao entrar no Departamento de Homicídios, “quem” o cumprimentou foram apenas os vários telefones tocando – estavam todos fora para o almoço ou trabalhando em algum caso pela cidade. Seus colegas gostavam disso.
Sentando-se à mesa, pegou o número da unidade local do FBI e discou.
– Alô. Aqui é o detetive DelVecchio do Departamento de Homicídios da Polícia de Caldwell. Quero falar com o Departamento de Recursos Humanos. Sim. Obrigado – pegou uma caneta e começou a rodopiá-la com os dedos. – Sim, DelVecchio, do Departamento de Homicídios de Caldwell, quero saber se vocês têm algum agente Jim Heron registrado no sistema, incluindo fora do Estado. Tenho o número do meu distintivo se precisar – recitou os números. – Uh-hum, isso mesmo. O cara que estou procurando é o agente Jim Heron. Sim, é assim que soletra, termina do mesmo jeito que “elétron”. Um homem se aproximou de mim ontem com credenciais que me pareceram confiáveis, se identificou como agente em casos de pessoas desaparecidas e foi comigo entrevistar a família de uma delas. Acabei de me encontrar com ele outra vez e gostaria de verificar quem é. Sim. Pode me ligar, estou na minha mesa.
Desligou.
Um, dois, três, quatro, cinco, seis...
O telefone tocou.
– DelVecchio. Ah, obrigado... Mesmo? Quem poderia imaginar? Ninguém com esse nome. Sim, tem 1,9 metro de altura, talvez 1,95. Cabelo claro. Olhos azuis. Parece um soldado. Tem dois outros homens que andam com ele, um com uma trança e outro cheio de piercings no rosto. Contudo, as credenciais eram legítimas, até o holograma. Obrigado... Sim, por favor, gostaria de saber se encontrarem alguma coisa... E vou informar se o cara aparecer de novo.
Quando desligou o telefone, pensou que já deveria saber. Já deveria saber mesmo... Por que não prendeu o cara bem ali às margens do rio? Aquela jogada sobre sombras, porém...
– Você está bem?
Olhou para cima. Reilly estava parada ao lado de sua mesa, com uma pequena sacola do McDonald’s numa das mãos e um refrigerante pequeno na outra.
– Não, nem um pouco – afastou seu olhar para a tela do computador, pois sabia que seus olhos o denunciavam. – Se lembra daquele agente do FBI de ontem?
– Heron?
– É uma farsa.
– Uma farsa? – sentou-se ao lado dele. – O que quer dizer com...
– Alguém entrou na minha casa ontem à noite – quando ela engasgou, ele continuou. – Foi ele. Provavelmente junto com os dois colegas...
– Por que não me disse? E por que não fez uma denúncia?
Começou a esfregar os olhos e pensou: Bem, pelo menos a dor de cabeça era apenas estresse. Nada além de tensão...
De repente, virou-se com tudo.
Mas não havia nada atrás dele, ninguém encarando sua cabeça por trás ou apontando o cano de uma arma para seu crânio. Era apenas uma sala vazia, dividida em cubículos preenchidos com computadores, telefones e cadeiras de escritório vazias.
Infelizmente, seus instintos diziam-lhe que havia uma estranha camada sobre tudo aquilo, algo que, embora seus olhos não conseguissem enxergar, era tão real quanto qualquer outra coisa visível ou tangível. Assim como na cozinha dele na noite passada. Assim como tinha acontecido há dez minutos perto do rio. Assim como havia sido sua vida inteira.
– O que foi? – Reilly perguntou.
– Nada.
– Sua cabeça está doendo?
– Não, está tudo bem.
Veck levantou-se casualmente e caminhou ao longo do departamento até às janelas que davam para a rua. Fingindo olhar ao acaso para o céu lá fora, focou os olhos no vidro e preparou-se.
Nada de sombras.
Graças a Deus. Geralmente, os espelhos eram a maneira mais segura de ver o que estava à espreita, mas as vidraças também serviam para o truque.
Maldição, estava enlouquecendo.
Virando-se, voltou rapidamente para sua cadeira. Reilly colocou uma das mãos sobre o braço dele.
– Converse comigo. Posso ajudar.
Esfregou o cabelo e não se incomodou em arrumá-lo de volta.
– Ontem à noite, quando eu cheguei em casa, sabia que tinha alguém lá. Não havia um sinal óbvio de arrombamento, mas simplesmente... – certo, agora, ao ouvir a própria voz, estava começando a se sentir louco. – Não tive certeza até que me encontrei com Heron. Algo sobre o jeito com que olhava para mim... Soube que tinha sido ele, e o cara não negou. Inferno, eu deveria ter esperado algo assim nas vésperas da execução do meu pai.
– O quê...? Desculpe, mas o que seu pai tem...
– Como disse antes, ele tem fãs – esfregou mais ainda o cabelo. – E fazem coisas assustadoras. Não podem se aproximar dele, mas eu estou livre... E eles acabam me encontrando. Não pode imaginar como é descobrir que seu novo colega de quarto é um adorador do diabo ou que aquela garota que conheceu no bar está coberta de tatuagens com o rosto do seu pai. Especialmente meu pai – soltou um palavrão em voz baixa e com força. – E, acredite, esses são só os exemplos menos criativos. Eu deveria saber que alguma coisa assim iria acontecer nestes dias, mas não acredito em paranoia. Mas, talvez, eu devesse.
– Você não pode se culpar sobre Heron. Eu vi a identidade dele. Parecia totalmente legítima.
Seus olhos fuzilaram os dela.
– Coloquei aquele homem dentro da casa de uma vítima. Para conhecer a maldita mãe. Oh, pelo amor de Deus...
Veck empurrou a cadeira num forte impulso e levantou-se. Enquanto andava pela fileira de cubículos vazios, desejou socar a parede. Nesse momento, seu celular tocou.
Reilly continuou na cadeira enquanto Veck atendia a ligação. A aparência dele era péssima. Estressado. Exausto. Lembrou que ele não tinha comido nada em sua casa na noite passada e, pensando em como o “almoço” tinha acabado, provavelmente não comera nada na casa dele também.
– Mesmo? Sim, ela está comigo. Sim...
Quando uma dúzia de frases evasivas pairou no ar, ele começou a andar em círculos, com a mão livre no quadril, cabeça baixa, sobrancelhas tensas. Ele usava seu uniforme de calças pretas e uma camisa sem gravata e, no bolso, podia-se ver a faixa vermelha de seu maço de cigarros.
Os cubículos do Departamento de Homicídios e do Departamento de Assuntos Internos não ultrapassavam a altura do peito e, assim como o pessoal de lá, os detetives decoravam seus espaços de trabalho com fotos dos filhos, esposas e maridos. Algumas mulheres tinham pequenas plantas. Quase todos tinham canecas especiais que usavam para tomar café, tirinhas de jornal pregadas na parede e anúncios com erros estúpidos.
O espaço de DelVecchio estava completamente vazio, seu mural estava repleto de buracos deixados pelo último que ocupou a mesa. Reilly teve a sensação de que aquilo não tinha nada a ver com o fato de Veck ter acabado de começar a trabalhar ali. Normalmente, quando alguém novo começa, a primeira coisa que faz é acomodar suas coisas.
Veck desligou e ergueu o olhar.
– Era De la Cruz. Falei também com Bails.
– Eu também.
– Então, sabe que Kroner acha que um animal o atacou. E que me identificou como o homem que o socorreu ligando para a emergência.
– Sim, sei. E acho que você deveria acreditar nisso.
– Acreditar no quê?
– Que não o machucou – quando Veck fez um gesto de desprezo, ela balançou a cabeça. – É sério, Veck. Não entendo por que insiste tanto nisso, mesmo em face de evidências que provam o contrário.
– As pessoas podem estar erradas.
– Não com tantas evidências. Ou você acha que as feridas foram criadas do nada naquele estacionamento? – quando ele não disse mais nada, ela soube que o assunto estava encerrado. – Heron precisa ser denunciado.
– Por se passar por um agente federal? Sim. Mas duvido que possa provar que ele esteve na minha casa – ele sentou-se e pegou o celular. – Ao menos tenho o número dele aqui.
– Vou preencher o relatório – ela disse. – Você precisa tirar folga o resto da tarde.
– Não. Estou bem.
– Não foi um pedido.
– Achei que fosse minha parceira, não minha superior.
– Na verdade, se pensarmos na hierarquia, estou em cima de você – com uma careta, ela desejou reformular a frase. – E também posso cuidar da papelada do que fizemos ontem à tarde.
– Obrigado, mas eu vou cuidar disso.
Ela voltou-se para checar os e-mails.
– Você vai tirar a tarde de folga, lembra?
Quando não houve resposta, ela pensou que talvez Veck estivesse arrumando suas coisas para sair. Deveria ter pensado melhor.
Ele simplesmente inclinou-se na cadeira e começou a olhar a tela do computador. Sem dúvida, não via nada.
– Não vou sair. Quero trabalhar.
E foi então que ela percebeu que Veck não tinha nada. Ninguém para encontrá-lo em casa. Ninguém na vida – havia deixado o campo “parente próximo” em branco na sua ficha no RH e seu contato de emergência era o tal de Bails.
Onde a mãe dele estaria? – Reilly pensou.
– Aqui, coma isso – ela disse, colocando a embalagem do McDonald’s na frente dele. – É só um hambúrguer, mas você já vai aproveitar algumas calorias.
As mãos dele foram muito gentis ao pegar o presente.
– Não quero ficar com seu almoço.
– Tomei um bom café da manhã.
Esfregou o centro das sobrancelhas franzidas.
– Obrigado. De verdade.
Quando ele pegou a embalagem amarela e tirou o sanduíche e as batatas grandes, ela sentiu que estava acertando o passo com ele. Mas parceiros eram assim. Às vezes as engrenagens funcionavam suavemente. Outras? Trituravam tudo e faziam muito barulho. E nem sempre ficava claro como ou quando as coisas voltariam a fluir. Contudo, quanto à noite passada, estava muito óbvio o que os desviou.
Limpando a garganta, ela disse: – Que tal tentarmos jantar outra vez?
Considerando como a cabeça dele se virou, parecia que tinha lhe jogado uma bomba no colo em vez do pacote com arcos amarelos.
– Está falando sério?
Ela deu de ombros, como se fosse indiferente.
– Minha mãe fica louca por eu almoçar fast-food e está insistindo que eu vá até lá hoje à noite. Na verdade, acho que teria que fazer uma visita, mesmo se eu me enchesse de verduras e tofu... Ela sente muita vontade de cozinhar de vez em quando e, sendo filha única, bocas extras me ajudam nessas situações. Minha mãe cozinha muito, se é que me entende.
Ele pegou três batatas, mastigou e limpou a boca com um guardanapo.
– Tem certeza de que quer fazer isso?
– Fiz o convite, não foi?
Ele concentrou-se na caixa vermelha.
– Bem... então, sim. Gostaria muito. Muito mesmo.
Enquanto Reilly ocupava-se mandando uma mensagem de celular para sua mãe, ele disse: – Prometo me comportar bem.
O tom baixo na voz de Veck sugeriu que não estava referindo-se às boas maneiras à mesa, e Reilly sabia que deveria fazer a mesma promessa. Era preciso duas pessoas para dançar tango, e Deus era testemunha de que ela acompanhara os movimentos dele naquela cozinha. Mas não estava usando nenhuma peça da Victoria’s Secret para aumentar os ânimos. Então, provavelmente, estavam seguros. Provavelmente.
– Certo, como se escreve “Heron”? – ela murmurou ao abrir uma ficha em branco na tela.
Houve uma pausa muito breve. Então, ele disse em voz baixa: – H, e, r... e termina com “o, n”, como “elétron”.
CAPÍTULO 18
Quando a noite caiu, Adrian estava bêbado... mas não excitado. As duas coisas nem sempre andavam juntas. Era possível ficar excitado são – por exemplo, sempre que acordava, geralmente estava pronto para a ação, mesmo estando sóbrio. Contudo, era muito raro beber algumas cervejas sem sentir aquela comichão que precisava ser tocada. Não que chegasse a ficar totalmente embriagado – não tinha certeza se isso era possível. Mas anjos podiam ficar tontos e, de modo geral, isso levava-o a fazer todos os tipos de abordagens a diversas pessoas.
Quando apoiou mais uma garrafa longneck vazia, fez uma conta com os dedos.
– Espere, foram seis? Ou sete?
Pela primeira vez, o outro anjo acompanhava-o. Desde que entraram pela porta dianteira da boate Iron Mask há uma hora, o cara tomava as garrafas, uma a uma, no ritmo de Ad.
– Oito – Eddie murmurou, enquanto erguia uma das mãos para a garçonete.
A mulher assentiu imediatamente e dirigiu-se ao bar. Era eficiente, movia-se com rapidez, mantinha os olhos abertos e não parecia interessada em interrompê-los.
Enquanto Adrian esperava pela próxima rodada, recostou-se no banco de veludo e examinou a multidão obscura e mal-humorada. Mais por hábito que por necessidade, decidiu que era hora de mudar da bebida para o sexo. Era um romântico, não?
Ao menos sabia que encontraria alguma coisa. Aquele clube gótico era o tipo de lugar em que ficava muito à vontade – os personagens, desde os atendentes do bar até as garçonetes ou as pessoas que passavam ao redor, eram como ele: nada de rosa, estampas coloridas ou malditas panelinhas à vista.
Geralmente não levava mais de um minuto e meio para encontrar uma candidata que valesse a pena. Naquela noite? Mesmo com a mais fácil das moças – com seus cabelos pretos e tão compridos que passam a cintura, estilo sedutor da Marilyn Monroe, vestindo corpete de cetim – não foi capaz de sair do sofá para que ele se divertisse um pouco.
Na verdade, não estava nem ereto. Maldito Jim Heron.
A garçonete apareceu com a segunda rodada de longnecks, e Eddie inclinou-se para colocar mais vinte dólares na bandeja. Passou uma das garrafas para Ad e acomodou-se.
– Acho que precisamos nos ocupar – disse Eddie.
– Em...?
Naquele momento, a Rapunzel da noite desfilou na frente deles, rebolando, e os olhos de Eddie seguiram o espetáculo queimando num vermelho profundo. Uma inversão de papéis. Geralmente, Ad era quem reconhecia os talentos.
– Por que não se ocupa com alguma coisa? – Adrian tomou metade da garrafa de uma vez só. – Eu cuido da sua cerveja.
A mulher de cabelos compridos passou por onde estavam e lançou um olhar por cima do ombro. Considerando a expressão, não seria uma surpresa se ela se deitasse nua sobre a mesa deles.
– Tem certeza? – Eddie perguntou.
– Sim, vou ficar aqui esperando.
– Não vou demorar.
– Leve o tempo que precisar – caramba, a noite era longa. Talvez, tomando mais algumas, ficaria mais disposto. Deus era testemunha de que Eddie poderia passar dias seguidos fora e, ainda assim, seriam uma dupla.
Quando Eddie levantou-se, sua ereção era evidente – e constrangia qualquer garoto-propaganda de estimulante erétil. A mulher que tinha secado o anjo antes observou-o direito e, praticamente, levitou da cadeira, colocando uma das mãos na garganta... e descendo para os seios.
Pode cortar o jogo de sedução, querida – Adrian pensou. – Você já fisgou ele.
E ele seria espetacular com ela. Eddie sempre era.
– Divirta-se – Ad murmurou.
– Sabe onde nos encontrar se mudar de ideia.
Quando Eddie saiu, Ad terminou sua cerveja... E, enquanto o tempo se arrastava, começou a beber a do seu amigo.
– Não achou a moça atraente?
A fala pausada e baixa fez sua pele arrepiar, e recusou-se a olhar para a esquerda.
– Boa noite, Devina.
O demônio entrou em seu campo de visão e sentou-se no lugar de Eddie. Pelo canto do olho, viu que ela usava um vestido preto estonteante, um traje que faria mais sentido num coquetel chique... A peça deixava as pernas tão expostas que as pontas da cinta-liga fizeram uma breve aparição.
– Você não combina com o ambiente, Devina.
– Eu sei. Sou boa demais para este lugar... Acontece comigo o tempo todo – quando a garçonete aproximou-se, o demônio sorriu. – Uma taça de vinho branco, se tiver. E coloque na conta dele.
– Não tenho uma conta – Ad acrescentou logo.
– Então, ele vai pagar em dinheiro.
Adrian sentiu a primeira pontada em seu pênis, mas não era algo erótico. Era raiva contra o inimigo. Cara, ele nunca ficava excitado com ela da maneira tradicional, mas Devina sabia provocar uma ereção. Será que acontecia a mesma coisa com Jim?
– Então, onde está a terceira engrenagem? – perguntou o demônio. – Acho que está faltando uma parte do tripé.
Achava bom Devina não ter a habilidade de estar em dois lugares ao mesmo tempo. Pensando assim, a garota no banheiro com Eddie definitivamente não era o demônio. E, onde quer que Jim estivesse, o inimigo não estava lá também.
– O que te traz aqui? – perguntou.
– Nenhum comentário sobre a minha pergunta?
– Não.
– Ah, bem... na verdade, estava procurando por você. Lisonjeado?
– Nem um pouco.
– Achei que poderia precisar de companhia.
Ele abriu a boca para dizer que estava bem e que ela podia ir se foder, mas, então, pensou em Jim sozinho. Sem dúvida, o filho da mãe continuava trabalhando por DelVecchio, seguindo em frente sem eles.
Com aquele maldito colar ao redor da garganta. E eles estavam ali, refestelados, como duas vadias.
Adrian esforçou-se para girar a cabeça em direção a Devina. Quando ela sorriu para ele, os dentes brancos e perfeitos brilharam mesmo no escuro, e ele não pôde deixar de lembrar todas as coisas divertidas que fizeram juntos. Muito hilário.
Suas entranhas agitaram-se, e a coisa piorou quando ela aproximou-se ainda mais dele.
– Senti sua falta.
– Duvido. Sei que anda ocupada.
– Com Jim, é isso? – inclinou-se, os seios perfeitos já pressionavam seu antebraço. – Está com ciúmes?
– Sim. Estou fervilhando de ciúmes.
Seus lábios vermelho-rubi acariciaram a orelha dele.
– Você não mente muito bem, mas é bom de cama.
– Ao contrário de você.
Ao menos aquilo a ofendeu o suficiente para que recuasse.
– Isso não é verdade. Sou fantástica na cama.
Exalou uma risada breve. Normal: ela não dava a mínima ao ser provocada.
A garçonete entregou o vinho e, embora Ad pudesse obrigar o demônio a pagar, ficou com medo de envolver a pobre mulher com a bandeja na confusão. Entregou uma nota de vinte e ficou aliviado ao ver a mulher afastar-se entre as outras pessoas.
Devina recostou-se no banco e passou um dos dedos delicadamente na base da taça de vinho.
Que diabos ela está fazendo aqui? – ele pensou. Era uma biscate maldita, mas não brincava em serviço. E tinha acabado de ficar com Jim, pelo amor de Deus, então, não estava desesperada por sexo.
– Então, onde está Jim? – disse Devina já quase encostando a borda da taça na boca. – Lá nos fundos com seu amigo fazendo alguma coisa obscena?
Adrian franziu a testa. A frase soou retórica, mas pôde ver algo através da habitual casualidade falsa: ela não sabia onde o salvador estava, sabia? Jim estava bloqueando-a. De alguma maneira, o bastardo descobriu um jeito de ficar invisível de verdade, digamos assim. Caramba.
Adrian sorriu.
– Pode descobrir sozinha.
Seu olhar afastou-se.
– Prefiro estar com você.
Mentirosa – pensou.
– Estou emocionado. Mas acho que não é verdade, é?
– Escolhi estar sentada com você agora.
– É, parece mesmo, não?
Deslizou um dos pés sobre o salto alto, movimentando a perna com impaciência.
– Sabe, Adrian, sei que está cansado de ser todo certinho, poderia vir para o meu lado.
– Porque cozinha quitutes muito bem, certo?
Aqueles olhos negros voltaram a observá-lo.
– E muito mais.
– Bem, estou de dieta. Desculpe. Mas obrigado pelo convite.
Devina lambeu os lábios.
– A tentação é boa para a alma.
– Só se for sob o seu ponto de vista – Adrian terminou a cerveja de Eddie e levantou-se. – Agora, se me der licença, acho que vou dar uma volta, andar um pouco.
– Fugindo de mim, Adrian?
– Sim, isso mesmo. Estou morrendo de medo de você.
– Muito inteligente de sua parte, meu anjo.
– Não sou seu, vadia.
– Ah, errada, resposta errada – seus olhos brilharam por todas as torturas do inferno. – Estou dentro de você, Adrian. Estou bem lá no fundo, envolvida em seu coração.
– Vou dizer a Jim que você mandou lembranças.
– Estou dentro de você, meu anjo, e você sabe disso. É por isso que se levantou e está indo embora.
– Não. Só quero estar com uma mulher de verdade, não com uma farsa.
Quando o rosto dela empalideceu, Adrian virou as costas e saiu, mas, de alguma forma, não sentia como se a tivesse deixado de verdade. Parecia que jamais a tinha deixado. E isso significava... que provavelmente ela estava certa.
Quando se aproximou do banheiro, não estava preocupado em proteger-se da ira de Devina. Ela não faria nada com aqueles humanos por perto. Bagunça demais para limpar depois. Além disso, era óbvio demais. Se o queria de volta, teria que ser mais criativa.
Estou dentro de você, meu anjo, e você sabe disso.
Expulsando aquela voz da cabeça, encontrou com facilidade o banheiro onde Ed estava – e não só porque havia gemidos femininos saindo dali. Podia sentir seu melhor amigo de maneira tão clara quanto o dia – com isso percebeu que Devina não era a única que não conseguia encontrar Jim: ele também não captava qualquer sinal do salvador, e isso foi um choque. Ficou tão irritado com o cara ao deixá-lo pela manhã que só queria distância dele. Mas agora... ao tentar alcançá-lo, não havia nada.
Então, onde diabos Jim estava?
Quando o pensamento ocorreu-lhe, deu-se conta de que não importava saber. Aquele demônio era quase um radar meteorológico quando se tratava de sentir as coisas. Então, a melhor coisa a fazer era continuar o que já estavam fazendo como se não houvesse nada de errado. Nada de brechas. Nada de disputas internas. Apenas Adrian e Eddie queimando algumas calorias enquanto Jim se camuflava e continuava a trabalhar naquela guerra. Devina perceberia que não havia nada que valesse a pena ali e iria embora cuidar da sua vida.
Adrian não bateu na porta. Não havia razão para isso. Inclinou-se contra o batente, Eddie abriu e, então, Adrian deslizou o corpo para entrar e voltou a trancar a porta.
A mulher estava sem o corpete e havia seios por toda parte. Assim como Ad, tinha dois piercings nos mamilos e uma corrente ligando as pontas.
Impressionante. E os seios não eram nada mal.
A saia estava erguida ao redor da cintura e o traseiro encaixava-se bem nos quadris de Eddie, as costas dela e os longos cabelos estavam contra o peitoral dele. Eddie ainda estava com suas roupas de couro, mas, observando a maneira como estava arqueado, era óbvio que as calças tinham sido baixadas e a penetração acontecia.
Adrian sentou-se sobre a tampa do vaso sanitário na frente deles, aproximou-se e uniu os seios da moça. Devido à proximidade, a pequena corrente assumiu uma extensão mais comprida. Antes de baixar a cabeça e começar a sugar aqueles mamilos, encarou os olhos de seu melhor amigo e confiou que os séculos que tinham passado juntos preencheriam as lacunas da comunicação.
Tinham que ficar ali e fingir que estava tudo bem. E era um pouco mais que preocupante que Eddie, o cara que tinha o melhor radar de todos, não tivesse percebido a chegada do demônio.
Houve uma breve hesitação – indicando que a mensagem tinha sido recebida. Em seguida, Eddie retomou a transa, movimentando o corpo para trás e penetrando a mulher. Porém, sua expressão era rígida, mas não por estar prestes a gozar.
Contudo, a mulher não percebeu que a vibração tinha mudado. Ela apenas gemia e deixava a cabeça cair para trás, oferecendo a boca para Eddie enquanto olhava as grandes mãos emoldurando seus seios. Quando Eddie selou os lábios dela, Ad espremeu os seios que acariciava, começou a lambê-los e a mexer num dos aros de aço inoxidável. Passou a sugá-lo e envolveu também a corrente em sua boca. Enquanto trabalhava nos mamilos, mergulhou uma das mãos sob a saia de couro e foi subindo, subindo até o centro da vagina. Quando encontrou o clitóris da moça, não ficou surpreso ao ver que ela tinha uma argola ali no meio – na verdade, era quase um clichê.
Claro que ela tinha um ali. E devia ter um no umbigo também. E talvez tivesse alguns nas costelas ou ao longo da coluna. Que tédio.
O coração dele não estava nem um pouco envolvido naquilo. Era apenas mais uma transa em outro banheiro com outra garota sem nada de especial.
Quando Eddie assumiu um ritmo, suas bolas começaram a se movimentar para frente e para trás, tocando a mão de Adrian. Este, já que não conseguia dar a mínima para a garota, agarrou o saco do amigo e fez uma bela pressão – garantindo que outra pessoa ali, além da moça, tivesse um orgasmo.
Eddie vociferou um palavrão e agarrou-se com força ao corpo da mulher, seus quadris pressionavam-na, as bolas ficavam cada vez mais rígidas. A mulher gritou, como se tivesse ido às alturas com o violento espasmo dentro dela. Em seguida, fizeram caretas e relaxaram a expressão e, então, mais caretas outra vez. Quando Eddie finalmente retirou-se, seu pênis escorregadio deslizou sobre a palma da mão de Adrian. Sabendo que seu amigo ainda tinha mais umas três ou quatro rodadas daquelas dentro dele, Ad agarrou a extensão do pênis e começou a tocá-lo com força enquanto voltava a sugar os seios da mulher, deixando parte do braço acariciar o clitóris.
Foi preciso com os movimentos, fazendo os dois gozarem outra vez, e assumiu o controle de tudo ao sentar no vaso sanitário.
Girando a mulher, Ad a fez ajoelhar em frente de Eddie e abriu a boca dela com uma pressão sutil sobre o maxilar. Agarrando a parte de trás da cabeça dela, guiou o pênis brilhante de seu amigo e começou a direcionar a moça enquanto apertava o traseiro de Eddie.
Viu que os dois estavam envolvidos, então, aumentou o ritmo, fazendo Eddie entrar e sair ainda mais rápido e forçando a moça a sugar mais e mais aquilo que a fazia ofegar.
Sabia que Eddie gostava mais daqueles momentos se ele estivesse junto. Aquele anjo não confiava em ninguém, e sexo fica melhor quando a pessoa se sente segura. Claro, Ed nunca desligava completamente, mas conseguia relaxar um pouco mais se Ad estivesse por perto. Olhando para o banheiro sobre a pia, observou seu amigo. Eddie tinha mordido o lábio inferior e fechado os olhos, a cabeça caiu para trás, a pesada trança balançava enquanto se apoiava no batente e na parede do outro lado para manter o equilíbrio.
Estava chegando a hora de outro orgasmo. Ad conhecia o corpo do amigo tão bem quanto o dele, então, interrompeu o sexo oral e agarrou o pênis de Eddie, bombeando a coisa enquanto a mulher esperava pela carga como uma estrela pornô: boca aberta e lábios inchados, os quais umedeceu antecipadamente.
Em algum momento entre masturbar Eddie e ver o rosto da mulher coberto de sêmen, sentiu Devina deixar o clube. Não era uma miragem. Não tinha como disfarçar sua presença física. Mas sua essência ainda pairava.
Quando Eddie ofegou para se recuperar, a mulher ajoelhada passou os dedos sobre a bochecha e levou-os até a boca. Ao sugá-los, deixou as pálpebras semicerradas e olhou para Adrian, toda “não gostaria de fazer isso comigo também?”.
Olhando para ela, tentou respirar, mas havia um peso em seu peito que o impedia de se mover e, por alguma razão, a única coisa que conseguia enxergar eram as pontas emboladas daquele cabelo preto tingido, pendendo sobre o piso sujo do banheiro.
Os olhos frenéticos da moça, sedentos por sexo, desmentiam sua fragilidade: havia uma alma perdida por trás daquele olhar desesperado, um vazio que fez Ad lembrar-se de si mesmo. A toalha de papel pendurada no suporte preso à parede parecia uma língua saindo de uma cabeça prateada e fosca. Tomando o queixo dela com uma das mãos, segurou o rosto com cuidado e pegou uma toalha de papel. Com movimentos cuidadosos, limpou a pele clara e delicada.
– Não nesta noite – disse ele com voz rouca. – Não nesta noite, garotinha.
Ela piscou confusa e, depois, triste. Mas é o que uma autorreflexão crítica e forçada faz com a pessoa: nem todos os espelhos são feitos de vidro e nem sempre é um reflexo que possibilita uma boa olhada em si mesmo. A verdade é algo que se usa, assim como o traje de carne que envolvia Adrian e amordaçava sua alma. Até que fosse liberto, isso ele não poderia ignorar.
Inclinando-se para frente, pegou o corpete dela sobre o balcão da pia, e, inocentemente, ela levantou os braços para que ele pudesse cobrir os seios nus. Ao cuidar dela, Ad sentiu como se estivesse cuidando da sua parte mais frágil... Enquanto isso, Eddie testemunhava a situação com olhos marejados.
– Agora vá – Adrian disse quando terminou de abotoar o último fecho. – Vá para casa... Seja lá onde for.
Ela saiu cambaleante, mas não por causa do sexo ou da bebida. Quando a porta fechou-se, Adrian recostou-se na parede, colocou as mãos sobre as coxas e olhou para o chão.
Estou dentro de você, Adrian. Bem lá no fundo, envolvida em seu coração.
Era uma noite estranha para perceber sua doença. Mas é assim mesmo: quando se convive com alguma coisa por muito tempo, acostuma-se com os sintomas fatais.
Tinha um câncer, ali, dentro dele. Havia começado a crescer há muito tempo, um tumor que ninguém conseguia detectar. Ad deixou Devina entrar na primeira vez em que negociou algo de si por aquilo que precisava na guerra. Desde então, ela vinha assumindo o controle, cada vez mais, centímetro por centímetro.
Não havia nada que o livrasse de seu destino, nem mesmo Eddie. E, maldição, ela estava fazendo a mesma coisa com Jim.
Olhando para seu melhor amigo, ouviu-se dizer: – Estou morrendo, Eddie.
A pele bronzeada de Eddie assumiu um tom cinzento, mas não disse nada. Que inferno, sem dúvida, a única coisa que surpreendeu o cara foi Ad ter trazido isso à tona.
– Não vou sobreviver para ver o fim desta guerra – Ad pigarreou. – Eu simplesmente... não vou conseguir.
CAPÍTULO 19
Quando Reilly estacionou seu carro sem identificação na calçada de uma bela casa de madeira ao estilo colonial, Veck passou a mão sobre o queixo e desejou ter tido tempo de se barbear antes de sair da delegacia. Mas uma barba por fazer era o menor de seus problemas. Sabia muito bem que estava com olheiras e não se lembrava de muitos acontecimentos daquela semana.
Olhou para sua parceira.
– Obrigado por isso.
Ela sorriu de uma maneira tão expansiva e honesta que, por um momento, Veck ficou imobilizado. Reilly, com certeza, não era uma daquelas mulheres que precisavam de um monte de cosméticos no rosto para brilhar – o que havia dentro dela definia tudo, não o que tinha passado nas bochechas ou nos cílios. E aquela expressão? Enfraqueceu seus joelhos.
Ele sabia o motivo do brilho. Tinha a sensação de que era porque ela amava o local onde estavam e a pessoa com quem iam jantar: quanto mais se distanciavam do trabalho e mais se aproximavam daquela casa, mais ela parecia radiante e feliz.
– Seus pais moram aqui há muito tempo? – ele perguntou quando saíram.
– A minha vida toda – ela olhou em volta e observou o grande carvalho no quintal, a pequena cerca branca na calçada e a caixa de correio vermelho-cereja. – É um ótimo lugar para crescer. Eu ia andando para a escola cortando caminho pelo quintal dos fundos e havia mais uns seis amigos na mesma classe que moravam num raio de seis quarteirões. E, sabe, meu pai era diretor da escola – ainda é –, então sentia como se ele estivesse comigo todos os dias, ao longo de toda a minha vida escolar, até a faculdade. Foi legal, acredite ou não.
Pensando nisso, a rua não era como a dos Barten. Era bem classe média: quem vivia ali eram pessoas que trabalhavam duro, adoravam as travessuras dos filhos e, sem dúvida, reuniam o bairro em festas e organizavam pequenos desfiles para as crianças no Dia da Independência. Caramba, até mesmo o latido de um cão ao acaso soou nostálgico para Veck, apesar de não ter vivido nada assim.
– Pronto para entrar? – ela perguntou.
– Sim, desculpe – Veck contornou o carro. – O que sua mãe faz?
– É contadora. Eles estão juntos desde sempre: se conheceram no colégio, depois foram para a Universidade de Nova York, em Caldwell, ao mesmo tempo. Ele fazia doutorado em educação e ela estava tentando decidir entre os números e o ensino. Escolheu os números, pois se ganhava mais dinheiro com isso. E descobriu que amava o mundo empresarial. Conseguiu uma aposentadoria antecipada no ano passado e fez vários trabalhos voluntários relacionados a planejamento financeiro. Bem, dedicou-se a isso e a cozinhar.
À medida que passavam pelo caminho de ardósia e aproximavam-se da porta da frente, de um preto brilhante, Veck percebeu que era a primeira vez que conhecia os pais de uma mulher. Certo, tudo bem, não estava enquadrado no contexto de um “encontro”, mas, cara, agora entendia por que não se aproximava de ninguém. Reilly diria o nome dele e os pais adoráveis fariam aquela expressão de temor em seus rostos quando ligassem os pontos.
Droga, aquilo era uma má ideia...
A porta foi aberta, antes que chegassem até lá, por uma mulher afro-americana alta, magra, com um avental sobre a calça jeans e a blusa de gola alta.
Reilly adiantou-se, e as duas abraçaram-se com tanta força que o cabelo vermelho misturou-se com os dreads muito bem-feitos.
Então, Reilly afastou-se e disse: – Mãe, este é meu novo parceiro... Bem, ao menos neste mês. Detetive DelVecchio.
Os olhos de Veck oscilaram, mas, em seguida, recompondo-se, avançou rapidamente e ofereceu a mão direita.
– Por favor, senhora, pode me chamar de... Tom.
O aperto de mão foi rápido, mas caloroso e...
– Onde está minha garota?
A voz profunda que trovejou de dentro da casa era algo que Veck associaria mais com um sargento do que com um diretor de escola.
– Entrem, entrem – a senhora Reilly disse. – Seu pai está tão animado por terem vindo jantar conosco.
Quando Veck passou pela porta, visualizou um corredor que dava para a cozinha, mas foi coisa rápida. Um homem de 1,90 metros de altura entrou em seu campo de visão e encobriu o que havia atrás dele, seus ombros pareciam montanhas, o passo era longo como uma das pontes de Caldie. Sua pele era escura como a noite e seus olhos eram negros... e não deixavam passar absolutamente nada.
Quando Veck pensou no incidente da cozinha na noite passada, quase urinou nas calças.
Reilly correu e atirou-se em seu pai, com uma confiança óbvia de que ele a seguraria com facilidade. E quando colocou seus braços em volta dele, não o envolveu por completo – o cara devia pesar 110 quilos, talvez 120.
Quando o homem abraçou-a, o olhar de raio laser fixou-se em Veck. Como se soubesse tudo o que seu convidado para o jantar queria com sua filha.
Oh, droga...
Encaixando Reilly embaixo de um dos braços, o pai aproximou-se e estendeu uma de suas mãos, que eram tão grandes quanto uma calota.
– Tom Reilly.
– Vocês dois tem o mesmo nome – a mãe de Reilly disse. – Interessante.
Veck ficou confuso por um instante.
Reilly sorriu.
– Não mencionei que fui adotada?
Dane-se a adoção. Não dava a mínima para a cor dos pais dela, ou como a adoção aconteceu. Só rezava para que o pai dela nunca, jamais, descobrisse o que tinha acontecido na mesa da cozinha da sua garotinha na noite anterior.
– Detetive DelVecchio – disse, inclinando-se para apertar a mão do pai de Reilly. – Senhor.
– Prazer em conhecê-lo. Quer uma bebida?
– Sim, isso seria ótimo – talvez pudessem injetar um pouco de uísque no braço.
– Está passando um jogo.
– Ah é?
Enquanto a mãe de Reilly fechava a porta da frente, Veck lançou um olhar sobre o gramado. O sentimento de ser observado ainda perseguia-o – ao ponto de se perguntar se era possível ficar paranoico da mesma maneira que ficava resfriado. Talvez alguém com síndrome de perseguição tivesse tossido perto dele.
– Por aqui – o pai dela disse, como se estivesse acostumado a guiar pessoas.
Retomando o foco, Veck entrou em fila com Reilly, e os quatro caminharam para um ambiente amplo e moderno, onde a cozinha e a sala de estar constituíam um único espaço. A tela de plasma estava sintonizada no canal de esportes, e Veck soube imediatamente qual era a poltrona do chefe da casa: o caderno de esportes do The New York Times e os controles remotos estavam sobre uma mesa ao lado dela. Na poltrona ao lado? The Economist, The Joy of Cooking e o telefone.
– Que tal uma cerveja? – o senhor Reilly perguntou do bar.
– Perfeito.
– Copo?
– Gosto mais na garrafa.
– Eu também.
Quando Reilly e sua mãe iniciaram uma coversa sem fim, Veck sentou-se com o outro Tom na sala e agradeceu ao bom Deus que a televisão estivesse ligada. Dava a opção de o pai olhar para outra coisa além dele.
Veck aceitou a cerveja que lhe foi estendida, levou-a até a boca e deu um gole...
– Então, você e minha filha já definiram uma data para o casamento?
O engasgo veio rápido e furioso quando o ar e a cerveja disputa-ram o mesmo espaço na sua garganta.
– Papai!
Quando Reilly começou a explicar que não era o caso e que não devia ter feito aquilo, seu pai lançou a cabeça para trás e riu. Batendo sobre o ombro de Veck, disse: – Desculpe, meu caro, você estava tão tenso, precisava se soltar um pouco.
Veck fez o melhor que pôde para recuperar o oxigênio.
– Asfixia... boa estratégia.
– Também acho – o cara virou para a esposa e filha. – Ele vai ficar bem. Não se preocupem.
– Não perturbe o convidado, querido – disse a mãe de perto do fogão. Como se o senhor Reilly fosse um leão brincando com um pedaço de carne.
– Tudo bem, mas se ele não começar a respirar normalmente de novo, vou fazer respiração boca a boca – o senhor Reilly inclinou-se. – Também sei como fazer aquele procedimento para desengasgar. Então, pode ficar tranquilo na hora de comer também.
– Que alívio – Veck disse com indiferença.
Jim posicionou-se fora do alcance da luz da casa, observando Veck e Reilly com quem deveriam ser os pais da moça. O grupo acabou sentando-se numa mesa quadrada, para se servir do que parecia ser comida italiana. Muita conversa. Muita risada.
Veck estava um pouco reservado, mas aquele deveria ser o jeito do cara – especialmente por estar claro seu interesse pela parceira: lançava vários olhares furtivos quando as pessoas à mesa distraíam-se dele.
Isso é o que há de melhor no mundo – Jim pensou. Era a casa dos Barten sem a tragédia, uma família feliz cuidando de suas tarefas na vida. Era exatamente aquela existência simples e bem-aventurada que Devina adorava destruir. Tudo que as pessoas têm, de fato, a perder.
Jim amaldiçoou e esfregou a nuca. Droga, talvez seus colegas tivessem razão, talvez estivesse distraído demais com a questão Sissy. Não parecia ser o caso, mas era o argumento de Eddie e Adrian: concentrar totalmente seus pensamentos em algo faz com que perca a razão.
Mas vamos lá, estava sim concentrado em Veck. Aquele era o cara: Devina guiou-o em direção àquele detetive. Se não fosse verdade, Jim iria atacá-la como a uma praga. Então, como não estava trabalhando nisso? Como estava comprometendo as coisas?
Pegou o maço de cigarros, tirou um de dentro e acendeu. Estava totalmente camuflado, então, ninguém veria a luz alaranjada.
Cara, pense no dano que poderia ter feito nas Operações Extraoficiais se tivesse todos aqueles truques na manga – e agora sabia por que Deus não dava superpoderes às pessoas. Humanos já são perigosos o suficiente...
Ao olhar para o relógio, via que o tempo passava, pois não havia estrelas ou lua no céu para dar uma dica. A camada de nuvens era espessa e alguns trovões ao longe fizeram-no pensar se ele poderia ficar não apenas invisível, mas também à prova d’água...
Com o canto dos olhos, viu uma sombra esquivando-se de árvore em árvore. Ela andava abaixada junto ao chão e movia-se com rapidez, exatamente como faziam os subordinados de Devina numa luta.
Assumindo uma posição defensiva, Jim procurou suas armas... e não encontrou nada. Maldição, era perfeito. Lá estava ele nos subúrbios, sem reforços, com nada além da estrutura de uma casa e algumas janelas de vidro para manter o alvo fora do alcance do demônio: pois, com a cabeça quente, saiu sem sua arma. Ao menos se Eddie e Adrian estivessem ali, poderiam dividir o que tinham e vencer.
Que idiota, não estava comprometido mesmo. Envolveu-se tanto no drama de Sissy que acabou não cuidando de si mesmo ou de Veck.
Droga.
A sombra moveu-se para outra árvore... e saiu para o gramado.
Jim franziu a testa e relaxou.
– Cachorro?
Quando um latido feliz saiu dele, ficou claro que não era uma miragem: e mais do que a informação que os olhos forneciam, sabia dentro do peito que era o seu animal.
– Que diabos você está fazendo aqui?
Quando os pelos desgrenhados aproximaram-se, a perna manca dificultava um pouco seu andar, e Jim lembrou-se de repente do primeiro dia que viu o cão naquele local de trabalho. Quando tinha morrido pela primeira vez. Foi o início de tudo, não? E não fazia ideia de onde tudo aquilo o levaria.
Agachando-se, fez um bom carinho em seu amigo.
– Eddie e Adrian estão aqui?
O bufar que exalou soou como um “não”.
– Bem, estou contente por você estar aqui.
Cachorro sentou-se no chão aos pés de Jim. Mesmo a criatura tendo oitenta quilos e 1,8 metros a menos que ele, Jim teve a sensação de que estava sendo protegido, e não o contrário.
– Você não é um cachorro de verdade, é?
Houve um momento de silêncio. Em seguida, outro bufar – que pareceu bastante evasivo.
– Não acho que seja. Onde esteve? – o animal espirrou e balançou a cabeça. – Certo, respeito sua privacidade.
Com isso, Jim sentiu uma das patas do cão sobre a perna. Acomodou-se melhor na grama e acariciou o pelo áspero e emaranhado de Cachorro. Voltando a se concentrar naquele jantar que estava espiando, mas do qual não estava participando, naquela conversa que conseguia testemunhar, mas que não conseguia ouvir e naquele calor humano que podia perceber, mas que não podia sentir. Apesar de tudo, concluiu que não estava sozinho. Quando a chuva começou a cair, surpreendeu-se ao sentir o quanto isso era importante.