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CAPÍTULO 7

 

Ao meio-dia, Reilly deixou a delegacia a pé e seguiu para o centro da cidade. O dia estava glorioso, com um sol de abril tão radiante e quente que afugentava aquela sensação dos doze graus exibidos nos termômetros. Mas a oficial não era a única que se beneficiava com o clima. Havia uma multidão nas calçadas e atravessando as faixas de pedestres, atrapalhando o trânsito, ao passarem com refrigerantes e sorvetes nas mãos; muitos comiam alguma coisa à beira de uma fonte ou sentados num banco do parque. Após seis meses de escuridão gelada, o Estado de Nova York ansiava por algum sinal de que o inverno realmente estivesse indo embora... E aquela bela hora do almoço não seria desperdiçada.

Aparentemente, Reilly estava no intervalo do trabalho, assim, poderia colocar a cabeça em ordem antes de ver Veck outra vez. Porém, seus passos tinham um propósito e uma direção aos quais ela recusava-se prestar atenção.

O Shopping Galeria era um dos projetos de revitalização do centro, mas, ao contrário de muitos outros, este realmente deu certo. Com uma grande loja de departamentos e uma grande livraria, os quatro quarteirões de prédios dos anos 1920 tinham sidos interditados, liberando apenas a passagem de pedestres. Era um atrativo que tinha revigorado o local e tornado-se o refúgio favorito de milhares de funcionários de escritório, assim como Reilly.

Contudo, diferentemente de suas colegas, era a primeira vez que andava pelas diversas lojas daquele centro comercial... quando parou em frente a uma delas, atraída pelo brilho rosa que irradiava do vidro. Oh, não. De jeito nenhum. Aquilo não era sua... Uma mulher saiu balançando duas grandes sacolas com as mãos e com um sorriso de orelha a orelha.


– Liquidação! – disse a Reilly. – Oba!

Sua voz saiu tão alta e estridente que parecia ter respirado hélio. Mas talvez fosse por usar um corpete embaixo do casaco – ao menos era o que parecia. Enfim, Reilly balançou a cabeça; liquidação ou não, não era o tipo de coisa que ela... Já tinha entrado na loja.

Maldição. Nunca tinha visto tanta roupa íntima num só lugar em toda sua vida.

O estilo Victoria’s Secret não é para quem tem problemas cardíacos... ou um traseiro grande – ela pensou, perguntando-se há quanto tempo, exatamente, não aparecia na academia. Desde o ensino médio. Não... Talvez tenha sido desde o fundamental.

Cara, toda aquela renda intimidava. Assim como as imagens tratadas das modelos expostas em toda parte, de tamanhos bem maiores que o natural. E, para piorar as coisas, o lugar estava lotado de mulheres que não eram bem do tipo de Reilly. Eram garotinhas com seus vinte e poucos anos, pegando tangas, sutiãs de bojo, peças de tamanhos mínimos e outras coisas. Mesmo os pijamas ou moletons pareciam estar destinados a ser arrancados com os dentes por algum garanhão...

– Oi, posso ajudá-la?

Reilly estremeceu.

– Ah...

A vendedora era uma linda afro-americana que, provavelmente, ficava ótima em cada peça pendurada na loja ou dobrada sobre as mesas. Comparando-se a ela, Reilly sentiu-se uma coisa esquisita e sardenta do tipo que pede para fazer tudo no escuro.

– Estou bem, obrigada...

– Estamos em liquidação.

– Sim, vi uma moça saindo com algumas sacolas – o que, considerando a pequenez das roupas ali, significava que a garota tinha comprado quinhentas, talvez seiscentas, peças daquilo tudo.

– Está procurando por alguma coisa em particular?

Reilly estava prestes a balançar a cabeça recusando, quando sua boca abriu-se por conta própria.

– Quero sentir-me mulher, e não uma oficial de polícia. Eu apenas... estou cansada de mim e do meu trabalho neste momento. Entende o que quero dizer?

Oh, droga, o que ela estava dizendo?... Só uma observação: aquilo não tinha nada a ver com Brittany, que se escreve Britnae.

A vendedora sorriu.

– Entendo. Você veio ao lugar certo.

Reilly olhou para um maiô asa-delta com estampa de tigre e não teve tanta certeza disso.

– Acho que nunca comprei lingerie antes... Nada que escolhesse com cuidado, meus sutiãs são do tempo da Guerra Civil. Talvez de alguma guerra do século XVIII.

– Bom, meu nome é Ralonda – estendeu a mão – e posso cuidar de você.

– Reilly. Quero dizer... Sophia – quando apertaram as mãos, ela murmurou: – Você tem algum tipo de formação em psicologia, por acaso?

– Na verdade, é isso que eu vou estudar na Universidade de Nova York, no campus de Caldwell.

– Deus, você é perfeita.

– Imagine – Ralonda sorriu outra vez, exibindo seu sorriso. – Vamos tirar suas medidas e depois vou trazer algumas coisas.

Uma hora e US$ 673,43 depois, Reilly saiu com três sacolas cheias de coisas. Quando chegou à porta, de cabeça erguida, viu-se sorrindo para as duas garotas que espiavam as vitrines.

– Eles estão em liquidação – disse a elas. – Melhor entrar. E chame por Ralonda... Ela é a melhor.

Elas entraram correndo, e Reilly caminhou até a delegacia com uma curiosa sensação de leveza. Talvez o sutiã de bojo cereja com calcinha combinando que acabara de vestir tivesse propriedades antigravitacionais, erguendo não apenas seus seios mas também o corpo inteiro. Fazia com que se perguntasse o que os astronautas usavam por baixo de seus trajes. A horrível imagem de um astronauta velhaco veio-lhe à mente. O cara usava apenas um minúsculo conjunto cor-de-rosa.

Deu-se conta de que entrar na delegacia com aquelas sacolas da Victoria’s Secret e um andar leve não passaria a mensagem certa... Especialmente agora que seria a parceira de Veck no próximo mês. Esquivando-se pela lateral da delegacia, aproximou-se de seu carro e escondeu as compras no porta-malas.

Desta vez, quando entrou pelos fundos e passou pelo guarda na recepção, estava um tanto constrangida, pensando se alguém poderia saber o que usava por baixo das roupas. Porém, como sempre, ninguém prestou nenhuma atenção nela. Apesar dos muitos talentos dos vários membros da polícia, parece que visão de raio X não era um deles.

A primeira parada foi seu escritório. Verificou rapidamente o correio de voz e os e-mails. Em seguida, pegou um bloco de notas e seguiu para o Departamento de Homicídios. E, como se pode imaginar, a confiança nas propriedades ocultas do algodão e da Lycra acertou em cheio a todos ali quando abriu a porta do departamento. Todos olharam para cima, inclusive Veck.

Certo. Agora entendia por que as pessoas odeiam aqueles sonhos em que andam nuas numa sala cheia de pessoas. Nunca tivera um pesadelo assim antes e, enquanto colocava o bloco de notas em frente aos seios, não estava com muita pressa de vivenciá-lo.

As pessoas apenas acenaram e cumprimentaram, e ela acenou e cumprimentou de volta enquanto dirigia-se até Veck. O cubículo ao lado dele estava praticamente vazio, havia apenas um computador e um telefone. Quando Reilly sentou-se, manteve o caderno contra o peito.

Veck encostou-se na cadeira fazendo com que seu peito parecesse enorme contra a camisa branca.

– Tudo certo na sua sala?

– Sim. No que vamos trabalhar hoje?

Ele fez um gesto com a cabeça indicando a tela do computador.

– Encontrei alguma coisa para passar o tempo. Estava esperando você chegar... Pensei em fazer um reconhecimento de campo e consultar outra vez algumas testemunhas.

– Ótimo. Qual é o caso?

– Digo no caminho. Importa-se se usarmos o seu carro? Só tenho moto.

– Ah... – com certeza não haveria motivo algum para ele olhar no porta-malas. – Claro. Sim. Tudo bem.

– Obrigado, oficial. Ou deveria chamá-la de detetive nas próximas semanas?

Quando se levantaram juntos e ela viu-se com o rosto na altura do peitoral de Veck, sabia que era hora de sufocar sua Britnae interior.

– Só Reilly está bom – respondeu.

Por um momento, os olhos de Veck baixaram, e ela poderia jurar que ele murmurou “com certeza está”.

Sem dúvida a lingerie nova fazia-a ouvir coisas.

– Espere um minuto... esse não é um caso antigo de homicídio.

Ao pararem num sinal vermelho, Veck recebeu um olhar sério de sua nova parceira... o que foi muito excitante.

Endireitando-se no banco e rezando para que sua ereção não explodisse antes de chegarem ao local de destino, fez um esforço para manter a voz equilibrada e sem qualquer sinal de rouquidão. Porém, pelo amor de Deus, se aquilo fosse um indício de como seriam as próximas quatro semanas... estava com problemas.

– Tecnicamente, é uma desaparecida...

– Não existe “tecnicamente” nesse caso. Não há um corpo.

– Posso terminar?

– Desculpe – quando o farol ficou verde, ela pisou no acelerador. – Mas tenho um pressentimento de onde isso dará, e você não chegará nem perto do caso Kroner.

Veremos – ele pensou.

– Recebi um telefonema do FBI esta manhã. Estão trabalhando no caso dessa garota desaparecida e queriam saber se existe mais alguma novidade. Respondi que ficaria feliz em examinar o que já temos sobre...

– O FBI pode fazer isso sozinho...

– Não há motivo para não ser amigável. Ou para concluir que há alguma ligação com Kroner.

Ela franziu a testa.

– O que o FBI acha?

– Não perguntei. Talvez seja interestadual – pois, talveeez, aquilo fizesse parte do caso Kroner... e foi por isso que ele não perguntou nada.

– Só para que fique bem claro: se houver qualquer ligação com o caso Kroner, estamos fora.

– Certo – colocou a mão no bolso da frente do casaco e pegou um relatório de três páginas. – Cecília Barten, dezoito anos, desaparecida há apenas três semanas. Vista pela última vez saindo de casa para ir ao supermercado na avenida Union. Câmeras de segurança do estacionamento e da saída da loja não gravaram nada, graças a uma sobrecarga de energia.

– E por onde vamos começar?

– Pela casa dos pais. Quero verificar se deixaram passar alguma coisa. A mãe dela está esperando por nós... Vire à direita aqui.

Reilly seguiu as placas e virou, entrando num bairro não muito longe de onde Veck morava. Ali as casas eram um pouco maiores e mais bem conservadas. Não havia carros estacionados na rua, e Veck imaginou que não haveria grandes caminhonetes ou sedãs guardados naquelas garagens. Não tanto quanto minivans... Porém, naquela região, moravam vários casais com filhos, então, talvez estivesse errado.

– Certo – ele murmurou, olhando as casas – 491, 493, 495... aqui.

Reilly estacionou no meio-fio em frente ao número 497. Depois de desligar o motor, saíram do carro...

Logo atrás deles estacionou uma suv dourada com insulfilme e três agentes federais desceram. Os homens estavam à paisana e, quando saíram, o motorista de cabelo loiro escuro exibiu suas credenciais.

– Jim Heron. Conversamos pelo telefone. Estes são meus parceiros, Blackhawk e Vogel.

– Thomas DelVecchio.

Quando apertaram as mãos, Veck sentiu uma energia estranha e recuou.

– Esta é a oficial Reilly. Quer entrar conosco?

O agente estreitou os olhos ao observar a casa.

– Sim. Obrigado. Meus parceiros vão esperar aqui.

Boa ideia. Seria difícil que todos coubessem naquele hall minúsculo. Enquanto passavam pela entrada de tijolos à vista, uma bandeira balançava casualmente com a brisa da primavera. Ela tinha um tom pastel e um desenho em formato de ovo estampado, metade cor de lavanda, metade cor-de-rosa e com uma faixa amarela ao meio.

A Páscoa ocorrera no fim de março, bem na época do desaparecimento da moça. Sem dúvida, a bandeira fora esquecida ali... ou talvez a família rezasse para que Cecília Barten ressuscitasse a partir daquilo. De qualquer maneira, a ruína tinha atingido aquela casa, mesmo que ainda restassem quatro paredes e um teto: a garota estava morta. Veck sentia em seus ossos, mesmo não sendo do tipo que sente coisas.

Campainha... espera... espera...

Veck olhou para Reilly. Parecia triste ao se inclinar para trás e observar as janelas do segundo andar... Será que a oficial estava tentando descobrir qual delas correspondia ao quarto da garota? Atrás dela, Heron passava uma excelente impressão de uma estátua: grande e imóvel. Seus olhos estavam focados na porta da frente, como se pudesse enxergar através das paredes.

Veck franziu a testa. Havia algo estranho no cara. Contudo, não era uma questão de competência. O agente irradiava uma precisão militar sobre tudo, desde a forma com que exibiu suas credenciais até o jeito que andava e como se mantinha imóvel. Ainda assim... o que será que...

A porta abriu com um rangido suave, e a mulher do outro lado parecia que não dormia nem comia direito há muito tempo.

– Bom dia, senhora. Sou o detetive DelVecchio. Estes são a oficial Reilly e o agente Heron.

Todos mostraram suas credenciais.

– Por favor, entrem – ela recuou e fez um gesto com o braço. – Posso servir alguma coisa?

– Não, obrigado, senhora. Agradecemos por dispor de seu tempo para conversar conosco.

A casa estava impecável, com cheirinho de desinfetante e lustra-móveis. O que sugeria que a senhora Barten limpava as coisas em momentos de tensão.

– Será que poderíamos conversar na sala de estar? – ela disse.

– Por favor.

A sala estava cheia de lembranças e bens de família, com papel de parede florido e dois sofás lisos. Quando a senhora Barten sentou-se numa poltrona e todos tomaram um lugar no sofá, Veck observou bem a mulher. Estava saindo da casa dos quarenta, com muitos cabelos loiros puxados para trás e enrolados num coque. Tinha um corpo magro e alongado... O peso que perdera recentemente realmente lhe fazia falta. Nada de maquiagem e, mesmo assim, era bonita. Porém, tinha um olhar vazio.

Droga, por onde começar?

– Senhora Barten – Reilly interrompeu –, pode nos contar sobre sua filha? Coisas que ela gostava de fazer ou nas quais era boa. Lembranças diversas.

Encarando sua nova parceira, Veck teve vontade de gesticular um “obrigado” com a boca. Especialmente quando a tensão deixou os ombros da mulher e o esboço de um sorriso surgiu.

– Sissy era... é... – ela se corrigiu. – Por favor, me desculpem. Isto é difícil.

Reilly aproximou-se da poltrona.

– Leve o tempo que precisar. Sei que pedi muito.

– Na verdade, ajuda quando falo dela. Faz com que me sinta melhor.

Numa voz hesitante, que gradualmente ganhou ímpeto, as histórias começaram a surgir, pintando o retrado de uma garota muito inteligente, boa e um pouco tímida, do tipo que nunca se envolveria em problemas se pudesse evitá-los.

Cecília Barten foi assassinada – Veck pensou. Não era um daqueles relatos de fuga motivados por drogas ou por causa do ciúmes de um namorado abusado e descontrolado. Era uma família estável. Uma jovem feliz. Futuro brilhante. Até que um carro bateu contra sua vida e levou tudo.

– Importa-se que eu olhe as fotos que estão ali? – Veck disse quando houve uma pausa na narrativa.

– Por favor.

Levantou-se e foi até uma das estantes embutidas ao lado de cada uma das janelas arqueadas que davam para a rua. Dois filhos. A outra era a irmã mais nova. Havia fotos de festas de formatura, aniversários, passeios no campo e jogos de hóquei... reuniões de família e casamentos... Natais.

Olhava com admiração tudo aquilo. Cara, aquilo era o melhor que a vida “normal” tinha para oferecer e, sem razão alguma, pensou em como, enquanto ele crescia, sua família não conseguiu ter nada daquilo... momentos felizes e fotografias para exibi-los. O tempo que passou com sua mãe não dava vontade de compartilhar com ninguém. Aliás, não era nada que quisesse lembrar.

Ele estendeu a mão e pegou uma das fotos 5×7. Cecília estava em pé ao lado de seu pai, braço estendido sobre o dele e com uma das mãos descansando sobre as dele. Era muito parecida com sua mãe, apenas um pouco com seu pai. Mas a linhagem era clara.

–... ligou para casa? – Reilly disse.

Veck voltou à conversa.

– Isso – a senhora Barten disse. – Ela saiu por volta das nove horas. Eu tinha acabado de operar meu pé... Corrigi uma deformação no dedo... – por um momento, a mulher parecia ruminar alguma coisa em pensamento, e Veck apostava que era o quanto desejava voltar no tempo, quando suas maiores preocupações eram encontrar sapatos confortáveis. Mas, talvez, também estivesse se culpando. Ela balançou a cabeça e voltou a se concentrar.

– Eu estava imobilizada. Dei a Sissy uma lista de compras e... ela me ligou do mercado. Não sabia se eu queria pimenta verde ou vermelha. Eu queria as vermelhas. Estava fazendo um... – as lágrimas vieram e ela piscou com força para afastá-las. – De qualquer maneira, essa foi a última vez que alguém teve notícias dela.

Veck voltou a colocar a fotografia na prateleira. Quando foi sentar-se ao lado de Heron outra vez, franziu a testa. O cara olhava para a mãe da vítima como se ele fosse uma filmadora, como se estivesse lendo e registrando cada contração do olho ou da boca que ela fazia enquanto falava.

Quando o radar de Veck começou a soar feito louco, não ficou claro o motivo... Seria a garota desaparecida, ou sua mãe triste e adorável, ou aquele homem imenso que parecia ter a capacidade de incendiar alguma coisa com aquele olhar?

– Posso perguntar uma coisa? – Veck disse. – Ela teve algum namorado?

Com o canto do olho, pôde ver Heron apertando as coxas com força.

– Não. Tinha alguns amigos, claro, e um encontro em bailes de formatura aqui e ali... mas nada sério. Ao menos, não que ela tenha me contado... e costumava ser sincera sobre o que se passava em sua vida.

Aquelas mãos relaxaram de repente.

– Quer perguntar alguma coisa? – Veck disse ao agente.

Houve um longo silêncio. Pouco antes de tudo ficar realmente estranho, o cara disse com uma voz baixa e profunda: – Senhora Barten, vou trazê-la de volta para casa. De uma maneira ou de outra, vou trazê-la de volta para a senhora.

Veck recuou, pensando: Droga, não faça assim, cara.

– Ah, o que ele quer dizer é...

– Está tudo bem – a senhora Barten apertou a garganta com uma das mãos. – Não estou me enganando. Sei que ela está... que não está mais entre nós. Uma mãe sente o frio no coração. Só queremos saber o que aconteceu e... providenciar um descanso adequado para ela.

– Vai tê-la de volta. Juro.

Agora, a senhora Barten soluçava... e por que não choraria? O cara parecia um guerreiro acostumado com a rotina da vingança, era mais um vingador do que um agente.

– Obrigada... Agradeço a todos vocês.

Veck olhou discretamente o relógio.

– Se me der licença, eu e minha parceira vamos nos dirigir ao supermercado. O gerente disse que sairia mais cedo hoje.

– Oh, sim, claro.

O agente Heron ajudou a senhora Barten a se levantar dando-lhe a mão.

– Seria incômodo se eu desse uma olhada no quarto dela?

– Claro que não... Vou levá-lo até lá – voltou-se para Veck e Reilly. – Se precisam ir agora, voltem sempre que precisarem.

– Obrigada – Reilly disse. – Faremos isso.

– E vamos sair logo por aquela porta – Veck murmurou.

Quando o agente Heron e a mãe da vítima chegaram às escadas, Veck parou no hall e observou os dois subirem juntos. Uma janela no andar de cima iluminava-os, o raio de luz solar atingia os dois rostos e agia como um farol para...

Espere um minuto.

Veck olhou para a sala de estar... de onde os raios dourados vinham do lado oeste. Impossível. Não poderia estar vendo aquele efeito de luzes em direções opostas: vinha da frente e dos fundos da casa.

– O que é isto? – Reilly disse suavemente.

Veck voltou a olhar para a escada. Heron e a senhora Barten não podiam mais ser vistos, e a luz tinha ido embora também, a janela não mostrava nada além de galhos de árvores atrás da casa e o claro céu azul sobre ela.

– Vou subir – disse à sua nova parceira. – Só por um minuto.


CAPÍTULO 8

 

Quando Jim seguiu a mãe de Sissy, sentiu-se muito oprimido. Num canto escuro de sua mente, sabia que precisava manter o controle diante de Veck, mas isso não aconteceria por muito tempo.

Virando-se no alto da escada, os sons da casa subiram a níveis de um heavy metal estridente. Tudo, desde o rangido sutil do chão acarpetado sob suas botas até a conversa suave que acontecia no saguão lá embaixo ou sua própria respiração soando forte atrás da garganta, tudo parecia gritar em seus ouvidos.

De repente, Veck apareceu atrás deles e fez um comentário rápido. Jim assentiu para o cara... e, imediatamente, esqueceu até mesmo que estava ali.

– O quarto de Sissy é por aqui.

Os três seguiram à direita e, quando a senhora Barten hesitou diante da porta fechada, Jim ergueu a mão para colocá-la em seu ombro... mas não conseguiu fazer contato.

– Prefere que entremos sozinhos? – ele perguntou.

A senhora Barten abriu a boca. Mas apenas assentiu com a cabeça.

– Não entro aqui desde... aquela noite. Está do jeito que ela deixou.

Naquele momento, o telefone tocou, e ficou evidente o alívio no rosto da mãe de Sissy.

– Vou atender. Fiquem à vontade para abrir as gavetas e o armário, mas se precisarem levar alguma coisa, poderiam me dizer o que é?

– Com certeza – Veck respondeu.

Assim que a mãe de Cecília apressou-se em descer as escadas e desapareceu no que Jim concluiu ser a suíte principal, ele abriu a porta... um cheiro maravilhoso. Entrando, fechou os olhos e tentou não se sentir um pervertido ao respirar fundo. Perfume. Loção corporal. Lençóis secos. Era... extraordinário. Mas ele não pertencia àquele quarto. Já tinha feito coisas que não deveriam sequer passar pela cabeça de alguém que entrasse num quarto como aquele... e a representação daquelas maldades estavam na tinta que cobria suas costas. Além disso, estava armado. E ainda havia aquela porcaria que fez com o demônio na noite anterior. Sentia-se sujo.


Enquanto Veck fazia o reconhecimento do quarto sozinho, Jim abriu os olhos e foi até uma estante modulada com escrivaninha embutida em frente à janela. A superfície plana e as prateleiras eram pintadas de branco, mas a cadeira era azul, combinando com as cortinas e o papel de parede listrado. Havia um tapete com franjas trançadas sobre a área acarpetada. Feito a mão. Tinha de ser.

Os livros enfileirados estavam em ordem e tinham uma temática bastante feminina. Gostava de Jane Austen, mas também havia uma prateleira inteira de Gossip Girls... provavelmente deixada ali desde que Sissy tinha treze anos. Algumas medalhas, vermelhas e azuis. Troféus. Sobre a mesa havia um notebook junto com dois livros, um sobre cálculo e outro sobre... trigonometria avançada? Hum. Sua garota era mais esperta que ele.

Havia também uma revista, Cosmopolitan, daquele mês. Tudo bem, a capa com título “orgasmo” em fonte gigantesca e cor rosa-choque não combinava exatamente com o resto daquele ambiente inocente de trabalhos escolares... mas ela estava crescendo, não estava?

Virando-se, foi até o pé da cama de solteiro. Agora sabia por que a mãe da garota não entrava ali. A colcha azul estava puxada para trás e os travesseiros ainda amassados, como se Sissy tivesse acabado de tirar uma soneca.

– Estou indo – Veck disse. O que fez Jim se perguntar há quanto tempo estariam naquele quarto.

– Vejo você em breve – disse Jim distraído.

– Entendido.

Quando ficou sozinho, a mão de Jim estremeceu ao estender-se para tocar os lençóis. Ao acariciar os objetos que sua pele tinha tocado, pensou em Devina e no que aquele demônio tinha feito com a garota... e com a família dela.


Adrian e Eddie estavam errados. Se queriam Jim concentrado na guerra, ali era exatamente o lugar onde precisava estar. Aquilo era motivação para vencer: Sissy nunca mais deitaria em sua cama. Não terminaria o artigo que estava lendo. E não mais lidaria com números. Nunca mais. Mas, ao menos, Jim poderia providenciar um lugar melhor para Sissy ficar enquanto não pudesse se juntar a seus pais e sua irmã por toda eternidade. E, então, faria Devina pagar mil vezes por tudo o que fez.

Na mesa de cabeceira havia um despertador branco, outra revista – desta vez era a In Touch – e o controle remoto de sua pequena televisão branca. Teve a impressão de que, mesmo fazendo faculdade, Sissy voltava aos fins de semana, e uma espiada em seu armário confirmou isso. Considerando o número de blusas, calças, saias e vestidos, não parecia que tudo aquilo tinha sido excluído da lista dos favoritos, mas que estava pronto para usar. Havia também vários sapatos no chão.

Deixou as gavetas da cômoda de lado, pois não sabia em qual delas guardava as... roupas íntimas. Provavelmente, nas duas primeiras, mas não correria o risco de confiar no chute. Já tinha assumido o papel de um mero observador ali, pois não tinha mais esperança em encontrar alguma coisa que o ajudasse a salvá-la. Deus era testemunha de que não havia nada na Terra capaz disso. Já ele queria apenas... estar perto dela.

Certo. Muito bem. Isto era o tipo de coisa com a qual Ad e Eddie preocupavam-se. Assim, percebeu que era hora de ir. Mais uma vez, não tinha noção de quanto tempo estava ali. Seria dois minutos ou duas horas, mas a última coisa que desejava era a mãe de Sissy batendo na porta para saber se ele estava bem ou se já tinha ido embora.

Não pegaria nada, mesmo sentindo a tentação de ficar com algum objeto, algo para se fiar em momentos difíceis... alguma coisa de Sissy. Contudo, a família já havia perdido demais e não tiraria mais nada deles.

Jim passou um último momento olhando ao redor e, então, obrigou-se a sair. No corredor, fechou a porta e ouviu. A mãe de Sissy estava no quarto ao lado, falando em voz baixa e embargada.

Desceu as escadas e esperou discretamente no hall onde ficava a porta da frente. Inclinando-se para o lado, olhou a sala de estar em direção às fotos ao longo das grandes janelas. A que mais lhe chamou a atenção – tanto que se aproximou dela – foi uma foto de rosto de Sissy. Ela não olhava para a câmera, mas para o lado, e não sorria. Parecia mergulhada em seus pensamentos, e a expressão em seu rosto não era a de uma menina, mas de uma... sobrevivente. Parecia ter uma vontade de ferro.

– Ela não fazia ideia de que a câmera a focava.

Jim endireitou-se e olhou para a mãe dela.

– Não?

A senhora Barten aproximou-se e pegou o retrato.

– Sempre sorria quando havia uma câmera por perto. Quando seu pai tirou esta, estava assistindo suas colegas de time jogarem... Praticava hóquei de campo. Tinha torcido o tornozelo e estava no banco... mas queria estar com elas – a mulher ergueu o olhar. – Era mais forte do que aparentava ser.

Quando seus olhos encontraram os de Jim, ele respirou fundo e pensou: Graças a Deus... isto a manterá sã até o momento em que eu conseguir salvá-la.

A senhora Barten inclinou a cabeça para o lado.

– Você é diferente dos outros.

Hora de ir.

– Sou como todos os outros.

– Não, não é. Nas últimas três semanas, vi mais oficiais, detetives e agentes do que em qualquer programa policial na TV que tenha assistido ao longo de toda minha vida – estreitou o olhar – Seus olhos...

Jim virou-se para a porta.

– O detetive DelVecchio entrará em contato...

– Quero te dar uma coisa.

Jim congelou com a mão na maçaneta e pensou – Má ideia – estava louco para aceitar qualquer coisa que ela oferecesse.

– Não precisa.

– Aqui.

Quando ele virou-se para dizer um “não, obrigado”, percebeu o toque daquelas mãos em sua nuca. Havia colocado em seu pescoço uma delicada corrente de ouro.

– Ela usava todos os dias. Encontrei em cima da pia do banheiro dela... Tinha tomado banho e esqueceu de colocar de volta... De qualquer maneira, fique com isto.

Pendendo na corrente havia um delicado pássaro feito de ouro. Uma pomba.

– Foi presente do pai no aniversário de dezoito anos. Fazia parte de um conjunto.

Jim balançou a cabeça.

– Não posso. Eu...

– Fique. Fará com que seus olhos continuem assim, nossa família precisa disso.

Depois de um momento, ergueu as mãos e substituiu os dedos da senhora Barten pelos seus. O colar e o pingente não pesavam nada. E mal cabiam em volta de seu pescoço. Mas seu dedo passava por ele como um sonho, mesmo o fecho sendo pequeno e suas mãos, enormes.

Quando baixou os braços, olhou para ela.

– Como estão os meus olhos? – disse ele com voz rouca.

– Desolados.


CAPÍTULO 9

 

O supermercado ficava a pouco mais de oito quilômetros de distância da casa, mas Reilly levou um bom tempo para chegar lá. Entre o trânsito e os faróis vermelhos, estava começando a achar que os dois passariam uma eternidade naquele carro.

Ou talvez o zumbido em sua cabeça fizesse parecer assim.

– No que está pensando? – Veck disse.

Apertou as mãos no volante e endireitou-se no banco do motorista.

– Se o caso de Cecília Barten estiver relacionado às vítimas de Kroner, teremos que deixá-lo. Está preparado para isto?

– Sim, estou.

Ao olhar para ele, percebeu que o maxilar de seu novo parceiro estava rígido e o corpo, todo tenso.

– Tem certeza? – porque ela não tinha.

– Sim, tenho.

Você é um filho da mãe teimoso que faz o que quer mesmo que isso contrarie uma ordem direta? Sim. Sou.

Assim que entrou no estacionamento e começou a caça por uma vaga, seu telefone tocou.

– Oficial Reilly. Uh-hum, sim... não é surpresa. Mesmo? Certo, e obrigada por me contar. Sim, mantenha-me informada.

Desligou e estacionou entre um carro prata antigo e uma caminhonete azul. Virando-se para Veck, disse: – Kroner está muito mal. Não há esperanças de que ele sobreviva.

O rosto rígido de Veck não expressou nada.

– Que pena. Talvez ele soubesse o que aconteceu.

– E saiu o resultado das análises feitas nas amostras que coletaram dele... Havia resíduos de saliva, mas as leituras não dão plena certeza quanto à fonte. Há semelhanças com pumas e lobos. Difícil dizer com certeza, mas a hipótese de ter sido um animal parece continuar ser a mais correta.

Ele assentiu e abriu a porta.

– Se importa se eu fumar antes de entrar?

Parece que estava tendo uma reação, afinal.

– Sem problema.

Saíram, e Veck foi até a parte traseira do carro, inclinando-se contra o porta-malas e tirando um Marlboro do maço... Um homem como ele poderia fumar outra marca? Quando ele acendeu o cigarro, Reilly esforçou-se para não pensar que suas calcinhas e seus sutiãs estavam separados de Veck apenas pela tampa do porta-malas.

Veck teve o cuidado de não exalar perto dela ou na direção em que o vento levasse a fumaça até a colega.

– Mau hábito – ele murmurou. – Mas ninguém vive para sempre.

– Verdade.

Encostando-se sobre o carro, ela cruzou os braços sobre o peito e olhou para o sol. O calor em seu rosto era uma bênção e fechou os olhos para apreciá-lo um pouco mais. Quando finalmente abriu os olhos outra vez, ficou chocada. Veck encarava-a e havia uma expressão em seu rosto... uma sugestão sexual. Ela tinha quase certeza de que estava deduzindo errado. Mas, em seguida, ele desviou rápido o olhar. Não era uma atitude comum quando se estava pensando em trabalho.

De repente, a temperatura primaveril aumentou e, agora, era ela quem o encarava. Bem, “flerte” parecia uma boa palavra para o que estava acontecendo.

Quando ele levou o cigarro aos lábios, sua boca se abriu e houve uma leve sucção, a ponta do objeto ficou alaranjada e os dedos indicador e médio aliviaram brevemente a pressão que faziam sobre o cigarro.

Oh, malditos sinos – ela pensou. Fumar era um hábito mortal e nojento, o qual ela não aprovava... Por isso, era perturbador perceber que todos os filmes ao estilo Casablanca faziam bem ao aproximar a câmera em longos closes em cenas como esta. Havia um toque erótico inegável em tudo aquilo. Especialmente quando a fumaça saía devagar de sua boca e projetava uma breve sombra em seus olhos azuis-marinhos e em seus cabelos escuros bem cortados.


Desviou o olhar rapidamente antes que ficasse presa ao...

– Então? – ele perguntou.

– Desculpe, então o quê?

– Perguntei o que achava.

Certo. Que tal responder assim: acho que todo o vermelho cereja que estou usando embaixo das roupas deformou o meu cérebro. Porque estou achando a ideia de subir em cima de você e montar feito uma vaqueira de chapéu na cabeça muito interessante.

– Preciso de mais informação antes de formar uma opinião – Então, que tal acender outro cigarro desses, garoto malvado, e arrancar as calças depois? – Oh, Deus.

– Você está bem? – ele disse, inclinando-se e colocando a mão livre sobre o braço dela. – Não comeu muito no café da manhã... Comeu alguma coisa no almoço?

Você está apoiado sobre as três sacolas do que fiz na hora do almoço, garotão.

– Sabe? – ela limpou a garganta. – Acho que devo comer alguma coisa.

E que Deus a ajudasse se seu cérebro cuspisse alguma coisa parecida com chantili sobre o corpo dele. Se isso acontecesse, pediria para ser transferida.

– Vamos entrar – ele disse, apagando o cigarro na sola do sapato.

Boa ideia. E já deixaria anotado: nada de tempo livre com seu parceiro. Nunca.

Aproximaram-se e passaram pelas portas automáticas, pela fila de carrinhos na recepção e entraram no supermercado propriamente dito.

Quando Veck parou e olhou ao redor, ela fez um gesto com a cabeça para a direita.

– O escritório do gerente é por aqui.

– Faz compras aqui?

– Esses estabelecimentos são praticamente todos iguais.

Enquanto caminhavam juntos, ele disse: – Devia conhecer este aqui de cor. Minha casa não fica longe.

– Então, faz suas compras aqui?

– Café e cigarros... bem saudável, não?

Ele parecia estar em ótima forma.

– Sempre se pode mudar de hábitos.

– Sabe? Eu parei por um tempo. Cigarros e cafeína.

– O que o fez voltar a consumi-los?

– Acertar aquele fotógrafo.

Aaah, então ele tinha emoções.

– Tem muito estresse em seu trabalho.

– Já foi fumante?

– Não, nunca bebi muito também. Não tenho muita inclinação para esses vícios.

Por outro lado, fazer compras poderia acabar se tornando um.

E este foi o último pensamento que teve sobre questões que não diziam respeito ao trabalho. Quando entraram no setor de atendimento ao cliente, colocou todas as distrações de lado, sua cabeça voltou a funcionar ao imaginar a filha da senhora Barten indo até a loja para ajudar sua mãe... O que deveria ser uma simples comprinha para abastecer a dispensa acabou tornando-se um pesadelo. Talvez por causa de Kroner.

Enquanto ela preparava-se para mostrar o distintivo ao gerente, pensou ser muito perigoso imaginar Veck ou mesmo aquele agente durão, Heron, arrancando a cabeça do cara. Mas nem um serial killer merecia esse tipo de justiça. E não ia se iludir: não seria uma surpresa descobrir Sissy na lista de vítimas de Kroner, e essa era a razão exata pela qual Veck estava interessado no caso. Mas Reilly jogava de acordo com as regras. Sempre tinha jogado, sempre jogaria. Entregaria o caso a De la Cruz assim que percebesse alguma relação com Kroner e daria um jeito de direcionar a atenção de Veck para outra coisa. Nem que isso matasse-o.

Quando Veck checou seu relógio outra vez, eram 16h30. O gerente falava devagar, e a gravação digital das câmeras de segurança levou um tempo para ser revista. Ainda havia uma empacotadora e dois funcionários que organizavam os carrinhos para entrevistar. Nenhuma informação nova, mas, caramba, ele e Reilly trabalhavam muito bem juntos.


Ela sabia exatamente quando tomar a frente e, assim como com a senhora Barten, tinha jeito para deixar as pessoas à vontade... O que significava que acabavam falando mais. Enquanto isso, ele observava o ambiente e avaliava todas as coisas que as pessoas não diziam, mas que demonstravam no semblante.

Do lado de fora do balcão de atendimento ao cliente, apertou a mão do gerente e, em seguida, Reilly fez o mesmo.

– Obrigada por seu tempo – ela disse ao cara. – Agradecemos muito.

– Não acho que foi possível ajudá-los de verdade – o homem empurrou os óculos quadrados sobre o nariz. – Agora ou antes. Sinto-me horrível por toda a situação.

– Aqui está o meu cartão – ela entregou-o. – Pode me ligar a qualquer hora... Estou disponível 24 horas, 7 dias por semana. E, pode acreditar, você se abriu e foi honesto... Era tudo que podia fazer.

Veck entregou seu cartão também e, então, estavam indo para a saída.

– Jante comigo – Veck disse de repente. Afinal, uma segunda oportunidade de compartilharem uma refeição tinha que ser melhor do que a primeira. Desde que ele não se comportasse como um idiota, todo na defensiva, outra vez...

Tudo o que obteve como resposta foi uma desaceleração no andar e uma longa hesitação. E, em seguida, um “Ah...”

Não era um bom sinal, então, reforçou o convite com uma justificativa lógica: – Temos que organizar as anotações das entrevistas que fizemos nas últimas quatro horas. Podemos muito bem comer ao mesmo tempo... E sei que deve estar faminta.

Cara, olha só isso. Tranquilo, casual. Perfeito.

Parou em frente a uma grande vitrine com prateleiras cheias de nachos, potes de salsa e um refrigerador cheio de queijos.

– Vou cozinhar para você. Comida mexicana... é minha especialidade.

Na verdade, aquilo poderia ser real se comparasse a outras coisas: não sabia nada sobre cozinha, mas, considerando o que pretendia fazer, tinha mais chances de acertar que com qualquer outro estilo culinário. Afinal, pedir coisas pelo telefone era sua única especialidade. Mas, vamos lá... não era tão difícil. Pegar uma caixa de tacos no corredor de salgadinhos? Como poderia errar?

– Deveríamos manter as coisas no âmbito profissional – ela argumentou.

– Não é um encontro, prometo. Você é boa demais para isso, e eu não sou tão sortudo.

Quando as sobrancelhas ergueram-se, deixou no ar o comentário que havia feito, pois era verdade e os dois sabiam disso.

– Então, o que me diz, oficial? O único tempero estará no molho.

Isso produziu nela um verdadeiro sorriso, seus lábios até curvaram-se para cima.

– Eu gosto de comida mexicana.

– Então, sou o cara certo.

Por um momento, apenas olharam um para o outro. Então, ela falou lenta e cuidadosamente: – Tudo bem, mas onde?

– Na minha casa.

Passando à frente dela, Veck pegou um carrinho e encheu-o com itens da vitrine de nachos. Parecia uma dádiva vinda dos céus: todos os ingredientes estavam enfileirados, então, não tinha muito que escolher. Porém, era apenas o começo, e ele dirigiu-se ao local onde um cartaz indicava “COMIDA MEXICANA”.

– Está olhando para mim, oficial? – disse ao perceber os olhos dela sobre ele.

– Só estou... surpresa. É isso.

– Com o quê?

Colocando o carrinho em frente a uma prateleira cheia de caixas de um amarelo brilhante, esperou uma resposta de Reilly.

– Tacos ou enchiladas? – quando não houve resposta a essa pergunta também, ele pegou uma caixa. – Tacos.

Pensou no que ainda faltava. Alface. Queijo... Observou o carrinho e decidiu que precisavam de mais. Tomates. Entendido.

– Onde é a parte de hortifrúti?

– Seguindo por ali, à esquerda. Mas precisamos de hambúrgueres.

– Sim, bem lembrado.

O balcão de carnes e congelados ficava mais ao fundo da loja e, ao passarem pelas bandejas de carne moída, pegou um pedaço magro com quarenta por cento orgânico... pois, provavelmente, ela seguia uma dieta mais natural. Quando chegaram à parte das frutas e verduras, precisavam pegar tomates e alface americana.

– Converse comigo, Reilly – disse em voz baixa.

– É que... você não me parece um homem que precise de sorte com as mulheres.

– Ficaria surpresa – ao continuarem em direção ao caixa, passaram pela parte de alimentos importados e por um self-service de saladas, e, por alguma razão, Veck sentiu que devia se explicar. – Veja bem, meu pai é muito conhecido por um motivo horrível e algumas pessoas se sentem atraídas por isso. As mulheres que me procuram não são como você. Ou têm tatuagens nos lugares mais ridículos do corpo e cabelos pintados, ou são Barbies que querem “salvar” alguém, ou desejam fazer loucuras sem correr muitos riscos. Depois, há as que parecem normais, mas costumam ter fotos do meu pai na bolsa ou cartas que pedem que eu entregue para ele... Para ser sincero, é uma confusão total. Aprendi que não posso confiar em ninguém, mas também nunca mais fui surpreendido.

Puxou o carrinho num dos caixas e começou a passar as coisas enquanto Reilly entregava-as.

– Mas, como disse, você não está em nenhuma dessas categorias – terminou.

– Com certeza, não – ela passou o saco de tomates. – Desculpe, não fazia ideia.

– Há coisas piores para se preocupar – como o laço sanguíneo que tinha com o pai maníaco, por exemplo. Droga, as tietes idiotas que queriam ficar com ele só por causa do sobrenome DelVecchio eram terríveis, mas o fato de ter o assassino ligado à sua medula era um pesadelo.

– Você vai... no meio da semana que vem? – ela perguntou.

– Como?

– À execução? – ela disse em tom gentil.

Veck congelou com a caixa amarela de tacos nas mãos.

– Vai mesmo acontecer?

– Se a Suprema Corte não emitir algum documento para adiá-la... Saiu um artigo no jornal de hoje.

Ah sim, as três colunas que ele tinha pulado no restaurante.

– Bem, espero que fritem o bastardo. E não, eu não vou. Tenho que ver aquele filho da mãe toda vez que me olho no espelho. Já é suficiente.

Pegou a carteira e tirou o cartão de crédito.

– Aqui, deixe-me ajudá-lo com a...

Veck lançou um olhar por cima do ombro.

– O homem deve pagar. Sou tradicional nesse ponto.

– E a mulher pode muito bem fazer uma contribuição. Sou realista assim.

Quando ela empurrou uma nota de vinte dólares na palma da mão dele e ergueu o olhar para encontrar o dele, soube que Veck queria beijá-la... E não apenas em suas fantasias: queria saber como era apertá-la em seus braços e sentir o sabor daquela boca da qual não saía besteira nenhuma.

Não iria acontecer.

Voltando a se concentrar nas coisas que não iriam comprometê-lo ou que evitariam um tapa, passou o cartão, digitou a senha e esperou a transação completar-se. Depois de jogar o cupom fiscal fora, dirigiu-se à saída, onde deixou o carrinho com os outros e recolheu as sacolas com as compras.

Enquanto caminhavam de volta para o carro, ele murmurou: – Você está quieta. Falei demais?

Olhou para ele ao desativar o alarme do carro e destrancar todas as portas.

– Sobre seu pai? Deus, não... A hora que quiser falar sobre ele, ou sobre qualquer outra coisa, ficarei feliz em ouvir.

Veck acreditava nela. O que era um milagre em si.

– Obrigado, mas você acabou de ouvir tudo o que tenho a dizer sobre o assunto.

Assim que se aproximaram do porta-malas destravado, ela foi até a porta do passageiro de trás e disse: – Espere, aqui, coloque as compras...

– Só vou jogá-las por aqui mesmo e...

Quando a porta ergueu-se sozinha, ele viu as três grandes sacolas da Victoria’s Secret e não pôde evitar: seus olhos fixaram-se em Reilly e observaram seu corpo... De baixo para cima, até as bochechas avermelhadas. O que significava que não havia um monte de pijamas e roupões de banho macios naquelas malditas sacolas.

– Hum... banco de trás – ele murmurou. – Está certo...

– Estavam em liquidação – ela disse enquanto ele fechava o porta-malas.

Ele estava ficando excitado outra vez. Agora mesmo. Droga.

Depois que as compras foram acomodadas no carro, os dois sentaram-se em seus respectivos bancos e ela ligou o motor. O cinto de segurança pressionou sua ereção, mas achou que o aperto foi bem-vindo. Não precisava ficar fantasiando um desfile de moda. A bela oficial Reilly vestindo aquelas coisas? Cara, precisava de um cigarro.

– Merda – ele disse.

– O que foi?

– Temos que ir à sua casa para fazer isso – com um palavrão, emendou. – Quero dizer, o jantar. Fazer o jantar na sua casa... Não tenho panela nenhuma.

Quando pararam no sinal da saída do estacionamento, Reilly olhou para ele... e começou a rir. Antes que percebesse, ele estava sorrindo também.

– Você não sabe cozinhar coisa alguma, não é? – ela disse.

– Terei sorte se conseguir abrir a caixa de tacos – ergueu o dedo indicador. – Mas ainda gostaria de fazer o jantar, se não se importa.

Negando com a cabeça, ela sorriu.

– Certo, mas pode me fazer um favor?

– Pode dizer.

– Pode esquecer o que viu no meu porta-malas?

Seus olhos perderam-se na boca de Reilly e, em seguida, desceram para o pescoço pálido e...

– Sinto muito – disse em tom sombrio. – Isso eu não posso fazer.

Ela respirou fundo, como se todos os pensamentos dele estivessem expostos em seu rosto.

– Droga – disse, soltando o ar. – Quero dizer, sim, é claro. Considere feito. Totalmente esquecido.

Uma buzina soou alto atrás deles e ela teve um sobressalto antes de acelerar.

Que bela noite. Só faltava ele botar fogo na casa dela..


CAPÍTULO 10

 

Durante os anos em que atuou como soldado de Operações Extraoficiais, Jim aprendeu que uma boa informação é fundamental para a missão em qualquer tarefa. Claro, quando trabalhava para o maldito Matthias seu trabalho era matar pessoas e, agora, não era bem essa a situação com seu novo chefe ou com seus alvos atuais. Porém, muitos princípios eram os mesmos. E os riscos eram ainda maiores.

Sentado na cama de hotel, com o computador apoiado nas coxas, o site do Correio de Caldwell estava no centro da tela e a dor de cabeça que sentia não era pelo brilho da máquina. Seu trabalho já tinha sido iniciado. Considerando que Devina não havia mentido sobre a alma.

Na noite passada, Thomas DelVecchio Jr. adentrou na floresta com um cara a quem investigava... O que é normal para um detetive de homicídios, certo? Errado. O que deteve a ordem normal dos fatos foi que David Kroner, considerado um serial killer, fora levado numa ambulância até a cidade à beira da morte. Encharcado de molho de tomate. E isso era apenas o começo do jogo. Após passar quase duas horas vasculhando a internet, Jim teve acesso a informação suficiente para escrever um livro sobre DelVecchio... e sobre o pai do cara. Não eram boas notícias.

– Droga, Cachorro – murmurou.

Cachorro bufou baixinho e colocou a pata sobre o antebraço de Jim, como se estivesse oferecendo ajuda. A questão era: onde estava a encruzilhada de DelVecchio? Estaria naqueles bosques de ontem à noite?

Não, pois Jim teria perdido antes de ter começado e imaginou que isso estaria fora das regras. Entretanto, não significava que Devina não tivesse dado tal golpe.

E assim...

– Onde você está, vadia...?

O demônio estava em algum lugar naquilo tudo, trabalhando nos bastidores, tentando mexer os pauzinhos para que o jovem DelVecchio se envolvesse profundamente com ela.

A rota poderia ser traçada através do pai. Digitando outra vez o nome do cara no Google, Jim começou outra pesquisa. Os resultados fizeram-no questionar se valia a pena salvar a humanidade. Oh, veja só, quanta coisa baseada em seus assassinatos. Pinturas. Autógrafos.

O cara tinha sua indústria... Mas parece que não duraria muito. As luzes seriam apagadas para ele em Connecticut muito em breve. Mas talvez vivesse para sempre na infâmia: havia vigílias acontecendo fora da prisão. Sem dúvida aquela procissão de manifestantes não impediria a execução, mas era uma indicação de que o bastardo poderia tornar-se uma celebridade ainda mais famosa quando estivesse totalmente acabado.

De acordo com os arquivos do jornal, DelVecchio pai tinha cometido a maioria de seus assassinatos em Nova York e Massachusetts, e a primeira denúncia datava do meio dos anos 1990, quando o primeiro corpo fora encontrado... em Caldwell, Nova York. Passaram-se três anos para que as autoridades percebessem que estavam lidando com um serial killer, e não com chacinas aleatórias. Parte do atraso ocorreu pelo assassino ter deixado os corpos em situações muito diferentes e pelas investigações realizadas com diferentes graus de competência policial. Outro fator foi, ao menos no começo, que DelVecchio escondia bem os restos e de maneira muito criativa.

Os casos, porém, começaram a ser ligados e, então, iniciou-se uma corrida para capturar seja lá quem fosse o assassino. O tapa na cara foi saber que DelVecchio estava aos olhos do público o tempo todo, um negociante de antiguidades... e não apenas bugigangas e falsificações. Estava no topo daquele mercado, importando estátuas, artefatos e mosaicos do Egito e do Oriente Médio.

Maldito filho da mãe. Existia até mesmo um artigo sobre ele na Vanity Fair, que dava informações detalhadas sobre seus negócios. Aparentemente, entre as viagens ao exterior e as grandes festas que frequentava, DelVecchio pai conseguiu engravidar uma mulher. O filho tinha nascido no mesmo dia que o pai nascera há 29 anos, mas não havia vida familiar. Nem outras crianças.

Contudo, houve uma espécie de contato: o assassinato daquela mulher acabou sendo a chave para finalmente capturarem DelVecchio, a primeira ligação que trouxe à tona a cadeia de crimes que havia formado. O resto era história, por assim dizer.

– Entrandooo...

Jim olhou por cima do notebook. Parado na porta do conjugado, Adrian tinha uma caixa de pizza entre as mãos e um pacote com seis cervejas pendurado nos dentes.

– Aí sim! Obrigado, cara.

Eddie entrou atrás com uma segunda caixa.

– Ele providenciou tudo... até a isca.

Ad sentou-se sobre a cama e apoiou as cervejas.

– Se chamam anchovas, idiota.

O “que seja!” ficou subentendido entre os dois. Jim alimentou Cachorro primeiro, dando ao cão o item que Adrian não apreciava muito. Considerando o movimento do rabo curto e grosso, a gororoba estava mais que boa.

– Então, como podemos saber que Devina não mentiu para você? – Adrian disse, antes de se inclinar e colocar a ponta de uma fatia de pizza na boca.

– Essa confusão toda é bem a nossa cara – clicou no artigo sobre a execução e girou o computador. – Este é o pai do cara. E espere, tem mais.

Enquanto comiam, Jim mostrou-lhes alguns sites e finalizou com um artigo sobre a pequena viagem do Júnior à floresta com outro serial killer. Enquanto seus parceiros liam, houve uma quantidade razoável de “mas que inferno”, o que era bom.

Terminou de comer a terceira fatia.

– Precisamos descobrir o que aconteceu naquela floresta ontem à noite.

– Os artigos dizem que DelVecchio não se lembra de nada.

Jim olhou para Eddie, mais conhecido como “o mestre dos truques”.

– É aí que você entra. Quero entrar na mente do cara e você precisa me dizer como fazer isso.

Ad deu de ombros.

– Pessoalmente, eu costumo usar um serrote, mas...

– Pode haver várias consequências e efeitos colaterais – disse Eddie com cuidado.

– Por exemplo?

– Bem, na pior das hipóteses... ele pode acabar como Adrian.

– Ei...

Jim interrompeu o anjo em questão.

– Meio surdo. Com medo de agulhas.

– Viciado em sexo – Eddie acrescentou.

– Ou seja, um deus – Ad exclamou, abrindo uma cerveja. – E continuo dizendo, pessoal, não sou surdo.

– Já passamos por isso antes – Eddie enxugou a boca. – Se não consegue ouvir o quanto é desafinado, então, como pode saber?

– Não sou desafinado.

– É sim – Jim e Eddie disseram juntos.

Antes que a discussão saísse do controle, Jim ficou sério e dirigiu-se a Eddie.

– Então, me diga o que eu preciso saber.

– Precisa me explicar primeiro o que está procurando.

Jim tomou um longo gole de cerveja.

– Quero saber onde Devina está em tudo isso. Qual é o ângulo de ação dela e de que maneira está suscetível a falhar nessa porcaria toda. É isso que estou procurando.

E, considerando a situação do pai, já tinha suas suspeitas.

É claro que Veck precisava ter visto o que havia no porta-malas – Reilly pensou enquanto entrava na garagem. – O universo não desperdiçaria uma oportunidade como essa para aprontar comigo. Enquanto a porta da garagem subia, olhou para seu parceiro.

– Deixe-me adivinhar: gostaria de carregar as compras, da mesma maneira como pagou por elas.

– Sim, gostaria – olhou para os bancos de trás. – Como disse, sou antiquado. Mas se quiser assumir a tarefa, posso voltar atrás.

E era por isso que não tinha qualquer problema com ele. Além disso, ele poderia cuidar da comida enquanto ela tirava suas roupas do porta-malas: apesar de constrangida, não deixaria as sacolas para trás. Não havia como fingir que nada acontecera, mas, mais importante que isso, não havia motivo algum para esconder. Era uma mulher adulta que poderia comprar calcinhas e sutiãs para si.

Quando a voz na cabeça dela ficou ainda mais estridente e na defensiva, perguntou-se quem exatamente estava falando. Provavelmente seu pai. Interrompendo o discurso ridículo, terminou de estacionar o carro. Enquanto Veck saía e pegava as sacolas do supermercado, deu a volta no carro, abriu o porta-malas e manteve a cabeça erguida ao pegar todos os seus artigos cheios de lacinhos e renda e seguir para a cozinha.

– Nossa! – ele disse ao olhar para as paredes, cortinas e balcões.

– Eu deveria ter avisado.

Ter uma decoração cheia de galos na cozinha é um pesadelo, mas a boa notícia é que, geralmente, as pessoas param e olham ao redor, e, por isso, ela conseguiu enfiar as sacolas num canto qualquer, longe de olhares curiosos.

– Acho que nunca vi...

Quando Veck apenas assentiu com a cabeça, Reilly ficou feliz por ele não ter terminado a frase. Claro que nem precisaria: a parte do “... tantos galos num lugar só” costumava ficar no ar com certa frequência.

Oh, Deus, aquilo era horrível.

– Desde que me mudei há dois anos, tenho vontade de pegar um estilete e arrancar tudo a partir dos cantos. Mas sempre tem algum trabalho mais urgente que me mantém ocupada.

Porém, ao observar como Veck olhava tudo aquilo, pensou que deveria ter um pouco mais de determinação. O papel de parede tinha três galos diferentes em várias e exageradas poses, como se fossem fisiculturistas participando de um concurso. O esquema de cores era marrom, vermelho e creme com tufos verdes de grama sob as patas tripartidas. E, de alguma forma, mesmo o material estando ali há uns bons vinte anos, mantinha uma vivacidade impressionante.


– Sou eu ou os olhos deles seguem a gente? – Veck perguntou ao colocar as sacolas sobre o balcão da pia.

– Eles estão observando você. É uma maravilha para minhas die-tas... sinto como se estivesse comendo em público e não consigo comprar frango desde maio do ano passado.

– É como estar no filme Os pássaros.

– Exceto por não ser uma fazenda. Eu sei – quando ela aproximou-se e abriu o armário sob o fogão, completou –, o fato de já estar um pouco acostumada com isso me assusta... será que me hipnotizaram? Aliás, as panelas estão aqui, as tigelas ali e as facas naquelas gavetas perto da lava-louças.

– Obrigado.

Quando ele tirou o casaco, os grandes ombros movimentaram-se naturalmente, mas, na mente dela, transformaram-se em algo nu e excitante – Hora da distração – Reilly pensou quando Veck começou a desembalar as coisas.

– Ei, acho que vou imprimir o arquivo do caso enquanto você começa a lidar com a comida.

– Ótimo.

– Pode levar um tempo. Minha impressora é antiga.

– Temos tempo.

Pela maneira como estava concentrado no pacote de salgadinhos, parecia que estava prestes a fazer uma cirurgia cerebral com o micro-ondas. E nossa... Aquele jeitão impassível, seguro e lindo era muito sexy, sem falar que aquela preocupação toda o deixava mais acessível. Isso e a maneira como se abriu a respeito das mulheres. Ela nunca pensara nas tietes... porém, mesmo pessoas de boa aparência podiam ser perseguidas pelos motivos errados, não?

No escritório que tinha no final do corredor, entrou no banco de dados da polícia de Caldwell, acessou o relatório e ficou parada ao lado da impressora, pronta para salvar a impressão quando as folhas ficassem presas... o que aconteceu. Duas vezes.


O primeiro indício de que as coisas não iam bem na cozinha foi o aroma inconfundível de carne queimada. O segundo foi uma explosão de palavrões. Que não parou até ela aparecer com as impressões.

Foram muitas bombas verbais. Em seguida, o detector de fumaça disparou. Seja lá o que estava na panela sobre o fogão – o mais provável era que fosse o hambúrguer, mas, como era Veck na cozinha, poderia até ser os nachos – precisava de uma mangueira de incêndio. Ele tentava lidar com a situação, levou a panela para a pia, colocou dentro da cuba, mas não ligou a água. Aproximou-se rapidamente do detector e começou a abaná-lo com um pano de prato sem nem sequer ficar na ponta dos pés.

– Acho que um dos galos aumentou o fogo – ele gritou.

– Isso não me surpreenderia.

Ela escondeu um sorriso quando colocou os papéis sobre a mesa e foi dar uma olhada no que ele tinha colocado no prato: os pedaços de queijo laranja tinham se unido à camada de tortilhas ao ponto de formarem uma nova composição molecular.

Só há uma coisa a fazer agora – ela pensou. Pegou o telefone e disse: – Qual sabor de pizza você gosta, oh, poderoso fazendeiro?

– Calabresa com salame.

– Boa.

Enquanto discava, olhou para cima. A parte de baixo da camisa de Veck tinha se soltado, e ela teve uma clara visão do cós preto da cueca, bem como dos pelos que desciam em linha a partir do umbigo sobre a pele firme. Imediatamente seu cérebro voltou à cena do banheiro na noite anterior. Apenas um instante e lá estava ela, observando o corpo nu...

– Oh, sim, oi – afastou-se rapidamente. – É um pedido. Sim, sou eu. Pizza grande de calabresa com salame. Sim. Não, sem bebidas... Não, não quero uma segunda pizza de graça... Não, sem acompanhamentos... Não, obrigada, não precisa... Não, também não quero sobremesa de maçã com canela – pelo amor de Deus, levavam mais tempo fechando o pedido do que fazendo, embalando e despachando a pizza para entrega! – Ótimo, obrigada.


Desligou, endireitou os ombros e virou-se em direção a Veck outra vez – estava parado bem atrás dela, olhos semicerrados, o corpo muito maior do que aparentava ser a dois metros de distância.

Ela não se moveu. Nem ele.

– Acredita que a confissão seja boa para a alma? – disse ele de maneira misteriosa.

– Sim...

– Então, preciso dizer uma coisa.

Oh, Deus, era por isso que diziam que não se deve misturar negócios com prazer: quando seus olhos se encontraram, Reilly não pensava sobre o caso em que estavam trabalhando. Pensava que deveria admitir algumas coisas a si mesma.

Vi você nu ontem à noite e te achei lindo.

– O quê? – ela disse ofegante.

Eu te desejo mesmo sabendo que não deveria.

Engolindo em seco, ela disse: – Diga...


CAPÍTULO 11

 

Veck sabia que não deveria responder à sua parceira e com certeza não deveria ter se aproximado tanto dela. A atitude correta seria começar a limpar a bagunça que tinha feito com os alimentos em vez de criar mais confusão.

Mas viu-a olhando o corpo dele e a expressão em seu rosto indicava um desejo forte e intenso. Surpreso? Sim. Satisfeito? Poderia, se ficassem juntos.

Mas não poderiam se desvencilhar das consequências daquilo com um banho de água quente, este era o problema.

– O quê? – ela sussurrou.

– Eu quero... – a palavra era tão rude que ele guardou-a para si mesmo.

– Diga.

Ele inclinou-se e colocou os lábios sobre o ouvido dela.

– Você sabe exatamente o que eu quero.

– E eu quero que você diga.

– Tem certeza? Não é nada agradável.

Antes que ele pudesse recuar, ela estendeu as mãos e colocou as dele sobre seus quadris. O toque foi leve como uma sombra caindo sobre o corpo de Veck, mas sentiu que tudo queimava por dentro. E uma coisa era certa, se ela instigou aquele contato é porque sabia exatamente o que ele tinha em mente.

O toque ficou mais intenso.

– Diga.

Sua voz era quase um rosnado.

– Quero foder você.

Reilly gemeu um pouco e ele continuou.

– Quero você nua. Embaixo de mim. E quero entrar em você – abaixou um pouco e passou a boca sobre o pescoço dela. – Mas sei que é especialista em conflito de interesses, então sabe muito bem os motivos pelos quais essa é uma má ideia.

Era a deixa para ela se afastar. Ou para ele pular fora. Nenhum deles se moveu.

Droga, o corpo dele começou a ficar fora de controle, sua ereção latejava por mais espaço para fazer o que sabia de melhor. O que significava que, se fosse para fazerem a coisa certa, a iniciativa partiria dela.

– Dê um tapa na minha cara – ele gemeu. – Me empurre... pelo amor de Deus, se tranque no banheiro ou algo assim. Pois se não fizer isso, eu vou...

– Me beije.

Deus, o tom que ela usou: aquilo era uma ordem. E quem era ele para desobedecer a uma ordem? Especialmente vinda de uma superior?

Veck estendeu a mão e passou o braço em volta da cintura de Reilly. Com um puxão forte e impaciente, aproximou-a de seu corpo. O próximo passo foi arrancar o elástico que amarrava os cabelos dela e jogá-lo no chão.

Cara, ela instigava tanto desejo com aquela coisa de não se afastar, e os cabelos vermelhos sobre os ombros diziam que estavam prontos para ter a mão de um homem sobre eles.

Quando agarrou a nuca e aproximou a cabeça ainda mais, sabia muito bem que iria dominá-la, assumiria o controle de seu corpo, iria segurá-la com força ao empurrá-la até a mesa da cozinha e ajoelharia entre suas pernas para sugar seu sexo. Era o que desejava fazer.

– Desculpe – ele disse, ciente de que não estava desculpando-se apenas pelo que estava prestes a fazer, mas por tudo que passava em sua mente, toda a vulgaridade que desejava impor aos dois.

Então, o destino foi selado quando ela deu um beijo nos lábios de Veck.

A boca dela era macia... e também seus seios contra o peitoral de Veck e seus quadris contra seu pênis... Era macia e quente, o tipo de coisa que se quer penetrar e permanecer ali por um bom tempo. Mas, mesmo com sua pélvis contorcendo-se e sua ereção pulsando, no fundo Veck sabia que o conflito de interesses não era o maior problema que tinham. Por mais que fingisse estar tudo normal com ele, estava em carne viva por dentro por causa daquela porcaria que tinha acontecido na floresta e pela novidade sobre seu pai. Tinha medo de que Reilly fosse exatamente o tipo de curativo que precisava... Esse foi o último pensamento lógico e decente que teve.


Quando penetrou a boca dela com a língua, seus braços apertaram-na e a parte inferior do corpo arqueou-se outra vez, a tensão e o movimento em seu pênis estimulou-o ainda mais. E isso foi antes de sentir o arrepio que passou pelo corpo de Reilly. Estava claro que ela acompanhava-o, especialmente quando o apertou em seus ombros com as unhas e suas pernas abriram-se o suficiente para que ele pudesse se encaixar com uma das pernas ali.

Pensando num palavrão, ele virou-a e colocou-a sobre a mesa, em cima da papelada que ela tinha acabado de imprimir. Imagens dela com as pernas sobre os ombros dele enquanto lambia seu sexo fizeram-no imaginar que deveria repensar a falsa propaganda sobre comê-la.

Bem, não era tão falsa assim. Só adicionaria uma atração turística muito importante na viagem para o grand finale. Passou a palma da mão sobre as coxas e levantou a perna dela, esfregando ainda mais o local onde ele desejava finalmente estar. Interrompendo o contato com a boca, mergulhou no pescoço de Reilly com mordidas e lambidas.

– Me deixe ver você – ele gemeu em sua garganta. – Me deixe...

– Entrar – outra voz disse.

Ele interrompeu o ritmo de repente, desvencilhando-se do abraço e olhando para cima. Agora seu coração batia por um motivo diferente.

– O que foi? – ela disse.

Seus olhos percorreram o local. Mas não havia quaisquer sombras esquivando-se em movimentos velozes pela cozinha com decoração de galos. Nenhum ruído de tábuas ou dobradiças rangendo. Ninguém observando pelas janelas.

Depois de um momento, a adrenalina diminuiu e percebeu onde estava e o que estava fazendo com ela. Talvez tivesse sido um pensamento que assumiu uma voz muito alta. E não poderia sentir-se melhor com isso se considerasse o que tinha acontecido com Kroner na noite passada.

Uma das mãos de Reilly ergueu-se e acariciou a bochecha dele.

– Você está bem?

– Não – olhou outra vez para o rosto dela. Sentiu o corpo dela sob o seu. Ouviu suas respirações profundas. – Mas não quero parar. Você é real... E preciso muito disso agora. Preciso... de você agora.

Reilly não era como as outras mulheres com quem já tinha ficado: os olhos inteligentes viam demais e sabiam coisas demais. Cara, ele ficara nu na frente dela no primeiro momento em que a conheceu – e isso deveria tê-lo guiado na direção oposta do que estava acontecendo. Em vez disso? Só desejava-a ainda mais.

– Então, me possua – disse, puxando a camisa para fora da saia.

Veck não deu um segundo sequer para ela mudar de ideia: enquanto a beijava, mergulhou uma das mãos sob a abertura que ela havia feito na camisa, tocando toda aquela pele quente. Em seguida, os botões soltaram-se como se tivessem o mesmo objetivo que ele: acesso total.

Ergueu-se quando o último se abriu... caramba. Renda vermelha. Havia uma complexa renda vermelha sobre um par de seios perfeitamente proporcionais. Ele conseguia ver os mamilos tensos e firmes através da pequena extensão do tecido.

– Gostou do que eu comprei hoje? – ela perguntou com voz rouca.

– Nada mal – limpou a garganta quando falou. – Nada mal mesmo. Mas o que está por baixo é ainda mais quente.

Com uma graça harmoniosa, as mãos dela ergueram-se e acariciaram o sutiã de alças finas e brilhantes... Em seguida, passou a mão sobre os mamilos rígidos e, com isso, Reilly arqueou o corpo, implorando por ele.

Com um rosnado, ele empurrou a saia para cima e adentrou entre as pernas dela, separando-as ainda mais com seus quadris ao se aproximar do que havia chamado sua atenção. Ao colocar a boca sobre o sutiã incrível, além de sentir a renda em sua língua, também percebeu a carne rosada e firme por baixo do tecido.

Não levou muito tempo para aquilo não ser mais suficiente. Com a mão áspera e impaciente, puxou o bojo para baixo, revelando o mamilo.

– Porra... – ele exclamou. – Você...

Ela não quis nem saber de conversa: com pressa, seus dedos agarraram a nuca dele e, com isso, aproximou a cabeça de Veck de seus seios. Enquanto ele sugava-a, ela ergueu-se sobre a mesa, e aquele movimento, aquele puxão, fez com que ele deixasse de lado qualquer constrangimento. De repente, Veck assumiu o controle, ergueu-a ao colocar um dos braços embaixo dela, a outra mão foi direto entre as coxas, em direção ao desejo que emanava daquela calcinha.

Acariciou o sexo dela, a palma da mão envolveu o local, bem onde ela desejava...

– Veck!

O som do nome dele foi um pedido de mais, mais, mais. E daria isso a ela. Trocando de lado, mordeu a outra metade do sutiã e puxou com os dentes, antes de sugar o outro mamilo. Contudo, ainda não era suficiente. Precisava de contato total com a pele nua. Aqui, agora...

O gemido que saiu dela foi exatamente o som de consentimento que precisava ouvir.

Deus, vai acontecer – pensou. – Vai acontecer.

Veck era um dominador total. Reilly não esperava menos que isso, mas a excitação foi surpreendente. Em parte por saber que, se dissesse não estar à vontade em ir tão longe, ele recuaria no mesmo segundo. Mas o resto devia-se à maneira como ele lidava com ela, a confiança, o poder, a possibilidade erótica que emanava de sua boca, de suas mãos e de seu olhar sedutor e intenso.

Sem dúvida, Veck tinha um talento natural para o sexo... E desenvolveu isso ao longo dos anos. De repente, como se tivesse lido a mente daquela mulher, seu olhar ergueu-se com um brilho e fixou-se no dela enquanto estimulava o mamilo da mulher com a língua... E, quando as pálpebras baixaram, sabia que desejava que ela o observasse.

Que visão. Ele puxou o outro lado do sutiã e acariciava-a, lambendo e chupando enquanto uma das mãos espalmadas pressionava sua pele. Deus, ele era grande – por inteiro. Seu pênis era longo e grosso e acariciava a parte interna das coxas dela, seus ombros eram tão grandes que não conseguia ver nada além deles, e a parte inferior do corpo daquele homem ocupava todo o espaço que havia entre suas pernas abertas.

Veck terminou de puxar o sutiã que pressionava os seios para cima, a camisa estava totalmente aberta, e a saia estava toda amontoada na cintura. O próximo passo era tirar o tecido de nylon que cobria as pernas de Reilly e, para isso, ela saiu um pouco de cima da mesa, sentindo aquela mão pressionar com mais força ainda em movimentos circulares. Mergulhou os polegares na cintura da meia-calça e baixou os quadris, escorregando a peça ao longo das coxas.

– Eu assumo daqui em diante – Veck recuou um pouco, os olhos em chamas observando o corpo de Reilly. – Hummm... bem onde eu queria estar.

Quando ele sorriu como um predador, ela ergueu os joelhos para ajudá-lo a tirar as meias, lentamente. E só depois que o fino tecido estava livre de seus pés, ela perguntou-se até onde aquilo tudo chegaria. Iriam terminar de fazer aquilo que não deveriam nem ter começado?

Se aquilo fosse um “sim”, teriam que lidar com alguns aspectos práticos. Mas, caramba, que coisa chata falar de camisinha – e, sim, agora entendia por que as pessoas faziam escolhas idiotas quando se tratava de sexo. Coisas realmente importantes não tinham a menor relevância ali, todo o sofrimento que poderia vir depois daqueles minutos intensos, coisas com as quais teria que conviver, talvez para sempre... Passavam a ser ecos distantes, que ela mal conseguia ouvir, pronunciados num idioma que não queria traduzir.

Cinquenta mil anos de evolução poderiam dizer o que estava acontecendo.

Com um impulso, Veck voltou à boca dela, beijando-a profundamente enquanto as mãos desciam...

A maldição que disparou da garganta dela era mais uma vibração que um sim. A mão dele estava de volta entre as pernas, acariciando suas coxas, indo em direção à peça que completava o conjunto com o sutiã que já tinha visto e dominado.

– Veck! – ela exclamou outra vez quando o toque deslizou sobre o centro da faixa de cetim.

Foi cuidadoso, colocando apenas a pressão suficiente sobre o local tão sensível, acariciando-a em movimentos circulares que fizeram seu corpo ficar ao mesmo tempo relaxado e tenso.

Dane-se a calcinha, ela não queria nada entre eles... Mesmo assim, a barreira de seda não era de todo ruim, a costura adicionava outra dimensão ao ritmo que ele tinha imposto. E não parou de beijar sua boca, de envolvê-la, de aproximá-la ainda mais, mesmo já estando bem juntos.

Com um movimento rápido, ele levantou o tronco de Reilly e empurrou seus quadris contra o sexo dela, entrelaçando os corpos. Em seguida, curvou a coluna e encaixou-se sobre ela, acariciando-a com seu pênis enquanto observava-a com atenção.

Deus, o rosto dele estava cheio de desejo, aquela frieza tinha desaparecido, aquela máscara impassível havia explodido com a intensidade que apertava o maxilar.

Eles iam mesmo fazer aquilo, Reilly concluiu.

Surpreendente. As escolhas na vida de Reilly eram baseadas em dados precisos do que deveria, teria que ou do que era melhor não fazer. Com certeza, fazer sexo daquela maneira estava na última categoria... e, mesmo assim, não pretendia deter nada.

Porém, fariam aquilo com segurança – embora não sobre uma cama. Aquela mesa estava servindo muito bem. Mas havia coisas que ela precisava fazer primeiro. Descendo o corpo, deslizou as mãos até... a cabeça de Veck caiu para trás.

– Caaara...

Perfeito: o pênis rijo era ainda maior do que imaginava e latejava contra a palma de sua mão...

O som da campainha ecoou, alto como um tiro. E, mesmo assim, por um momento, ela não conseguiu compreender o que era aquele barulho ou por que deveria importar-se com ele. Veck recuperou os sentidos primeiro.

– Pizza.

– Que p...?

Com o pensamento rápido e lógico, ele estendeu a mão e apagou as luzes para que o entregador da pizza de calabresa com salame não assistisse ao show na cozinha. Então, com mãos eficientes, colocou a camisa dela de volta, puxou a saia para baixo e começou a arrumar as próprias calças, para que não ficasse uma tenda de circo.

– Vou cuidar disso – disse ele com uma voz equilibrada. Como se nada tivesse acontecido. Nada.

Enquanto ele foi até a porta da frente, Reilly sentou-se lentamente, a cabeça não parava e o corpo tremia. Segurando a blusa, percebeu que a volta ao normal repentina fê-la sentir-se totalmente fora de controle. Em seguida, ela saiu da mesa e os papéis do caso Barten caíram no chão.

A chuva de folhas soltas formou uma espécie de tapete aos seus pés e foi o espelho exato que precisava para ver tudo com clareza: do outro lado da cidade havia uma família de luto pela filha que sabiam ter perdido, e, em vez de concentrar-se na dor deles e em seu trabalho... estava esfregando-se num homem que não tinha nada a ver com ela.

Não poderia existir um conflito de interesses maior. Serviria de exemplo num livro didático. Mexendo nos botões da camisa, fechou-os rapidamente e, então, inclinou-se para pegar as cópias do relatório. Quando o cabelo caiu sobre o rosto, perguntou-se onde estaria seu elástico.

Quem poderia saber?

Colocando os fios atrás das orelhas, juntou as impressões com cuidado, reordenou as páginas e separou tudo em duas pilhas – a dela e a de Veck. Separado era melhor.

Ela tinha enlouquecido?

Vindo da porta da frente, ouviu um burburinho de palavras de agradecimento, a porta fechou-se em seguida e passos pesados trouxeram Veck de volta à cozinha.

Levantando-se rapidamente, colocou as duas pilhas de papéis sobre a mesa e manteve os olhos sobre elas. Não conseguia olhar para Veck. Simplesmente não tinha forças para aquilo no momento.

– Acho melhor você ir – sua voz não soou bem, mas ela não se sentia bem mesmo.

– Certo. Vou chamar um táxi.

Droga. A moto dele estava na delegacia, não?

Após soltar um palavrão em voz baixa, murmurou: – Está tudo bem. Posso levá-lo...

– Não, um táxi é melhor.

Ela assentiu e acariciou a primeira página do relatório... onde indicava os principais dados de Sissy e a data de seu desaparecimento.

– Vamos verificar tudo isso amanhã no escritório.

– Sim – quando ele vestiu o casaco, o som macio do tecido foi mais alto que a campainha. – Sinto muito.

Ela cruzou os braços sobre o peito e assentiu outra vez.

– Sim, eu também. Não sei o que deu em mim.

Mas sabia muito bem o que aconteceria se o jantar não tivesse chegado bem na hora. Momentos depois, ele foi embora e fechou a porta tão silenciosamente que não se fez som algum. Quando finalmente olhou por cima do ombro, tudo o que viu foi a pizza no balcão. Certo, como se fosse comer alguma coisa. A caixa foi direto para a geladeira.

Saindo da cozinha, passou pela mesa e encontrou sua meia-calça atrás de uma cadeira. Seu elástico de cabelo estava no chão perto do arco que dividia os ambientes, já dentro da pequena sala de jantar. Ao inclinar-se para pegá-lo, ficou frente a frente com as compras da Victoria’s Secret e percebeu que seu sutiã ainda estava beeem fora do lugar. Deixou as sacolas ali e resolveu aquele pequeno problema com alguns puxões e vários palavrões. Enquanto aproximava-se das escadas, decidiu que usaria sua velha lingerie de algodão de sempre para ir trabalhar no outro dia. Era isso, muito obrigada.


CAPÍTULO 12

 

– Pergunta. Mesmo se não quebrar nada para entrar, ainda é considerado invasão de domicílio?

Adrian soltou essa pequena pérola assim que assumiram forma em frente à porta de entrada da casa de Thomas DelVecchio Jr. – e, se considerassem tudo o que ele havia dito até hoje, sabiam que o anjo poderia ter soltado um comentário muito pior.

Jim nunca passou tanto tempo em sua vida desejando protetores e fones de ouvido. Mas pelo menos o bastardo não tentou o rap.

– E aí? – Ad disse.

– Olha só, nós nem sequer existimos – Jim murmurou. – Então, você pode alegar que nem estamos aqui de verdade.

– Ótimo argumento. Acho que é legal.

– Como se o contrário o incomodasse.

A casa era decorada ao estilo de Jim: funcional, nada de especial, muito espaço vazio. O problema? Poucos itens pessoais, e precisavam de algum objeto feito com um pouco de metal. De preferência ouro, prata ou platina. Se conseguissem algum objeto com impressões suficientes de Veck, poderiam usá-lo como ponte para entrar no cérebro do cara remotamente: de acordo com Eddie, era arriscado demais fazer isso pessoalmente. Não com Devina por perto.

– Vamos nos separar – disse Jim. – Vou examinar o andar de cima.

Quando Ad e Eddie espalharam-se, Jim subiu as escadas de dois em dois degraus. O quarto principal ocupava metade do andar. Claro que essa afirmação soa mais impressionante do que a realidade, pois a metragem total não passava de setenta metros.

– Meu Deus, quanta coisa, hein amigo? – murmurou.

Não havia nada no quarto além de uma cama grande e uma porcaria de mesa de cabeceira com um abajur sobre ela. Nada de despertador – provavelmente o cara usava o celular para isso. Nada de telefone fixo, mas para que se precisava de um? Havia uma TV de tela plana fixada na parede, cujo controle remoto encontrava-se entrelaçado nos lençóis.

Havia algumas roupas sujas num cesto de plástico no canto, meias e cuecas transbordavam pelos lados como se a coisa babasse algodão preto. Abriu o armário... e havia camisas penduradas nos cabides, que era bem melhor do que a mala que Jim usava há anos para guardar suas roupas. Atrás da porta, havia alguns cintos com fechos de metal, mas tinha de haver algo melhor para que Jim pudesse usar.

Foi até o banheiro. Todas as luzes apagadas, mas o cara não usava cortinas, então havia bastante iluminação vinda da rua. Assim que entrou no cômodo pequeno e azulejado, sentiu algo forte em sua nuca, como se formigas rastejassem sobre a pele.

Devina.

– Onde você está? – disse, dando uma pequena volta ao redor de si. – Onde diabos você está?

O demônio esteve ali, podia sentir sua presença no ar, como o mau cheiro que exala de uma grande lixeira, mesmo depois de ter sido esvaziada. Aquilo dava alguma credibilidade à revelação de Devina no restaurante.

Quando se voltou para a pia, franziu a testa. O espelho estava coberto com uma toalha e o formigamento em sua nuca aumentou quando estendeu a mão e puxou o tecido felpudo.

Nada, a não ser um armário de remédios dos anos 1980 embutido na parede. Mas o vidro frontal estava totalmente contaminado. Será que ela passou pelo objeto de alguma maneira? – perguntou-se. Recuou no mesmo instante em que as pontas do dedo fizeram contato com a superfície espelhada. O armário de remédios estava gelado.

Droga, Veck sabia que alguma coisa estava atrás dele, não? Por que cobriria a coisa? A questão era: até onde o demônio havia chegado dentro dele?

– O que fez com ele, vadia?

Recolocando a toalha, Jim abriu as gavetas, verificou o desodorante, o tubo de pasta de dente extra e o cortador de unhas. Ei! Talvez aquilo funcionasse. Só que dificilmente o objeto teria uma conexão emocional com... Uma luz estendeu-se pela frente da casa, atingindo a janela onde Jim estava e lembrando-lhe que não se preocupara em ficar invisível. Fazendo o corpo desaparecer, olhou pela janela. Na calçada em frente à garagem, Veck saiu do táxi amarelo.

Jim atravessou o quarto principal e desceu as escadas, só seria percebido se alguém sentisse a brisa que seus movimentos produziam. Na cozinha, viu que Ad e Eddie também tinham ficado invisíveis, e os três esperaram juntos, formando uma pequena fonte de calor no canto do cômodo.

Ela ainda está nele – disse em pensamento aos seus amigos.

Posso senti-la daqui – Eddie respondeu.

Na entrada da casa, a porta foi aberta, fechada e trancada. Em seguida, passos pesados aproximaram-se de onde eles estavam.

– Mas que... droga...

As maldições continuaram enquanto Veck entrava na cozinha, jogava as chaves e arrancava a jaqueta. Em seguida, foi até a geladeira e pegou uma cerveja. Tirou a tampa e bebeu com vontade, era evidente que tivera uma noite difícil no trabalho.

De repente, o cara ergueu a cabeça, apoiou a cerveja e olhou diretamente para onde os três estavam. Ele não deveria ser capaz de senti-los, muito menos de vê-los. Nenhum deles moveu-se. Nem mesmo Veck. E foi nesse momento que Jim olhou para o chão de linóleo atrás do detetive... e notou que o cara projetava duas sombras.

Única fonte de luz? Duas projeções em sentidos opostos sob seus pés?

Em silêncio, Jim apontou para o chão e seus colegas assentiram.

Veck estendeu o braço e tocou um interruptor, iluminando melhor o ambiente. Em seguida, ele olhou ao redor.

– Puta... que... pariu.

Obviamente, esse era o mote da vida daquele cara e, se Ad não se encorajasse a soltar a voz, Jim consideraria cantarolar um pouco daquela música também.

Veck balançou a cabeça e voltou para sua cerveja, tomando o que restava de uma vez só. Deixou a garrafa vazia sobre o balcão, pegou mais duas na geladeira e andou até a sala. Destino: sofá.

Jim e seus amigos foram atrás dele, mas mantiveram distância. Veck era intuitivo ao extremo ou contaminado o suficiente para ter um radar que percebesse a presença dos anjos. Conhecendo a sorte que tinha, tratava-se da última opção.

O detetive retirou as armas para se sentar: removeu uma bela automática e uma faca. Em seguida, retirou o distintivo brilhante da polícia, prata e dourado. O homem segurou a coisa sobre a palma da mão em formato de concha por um tempo. Olhava como se fosse uma bola de cristal... ou talvez um espelho onde tentasse ver a si mesmo.

Deixe isso de lado, cara – Jim pensou. – Termine as cervejas, deite um pouco e tire uma soneca. Prometo que devolvo quando terminar.

Veck seguiu as instruções e colocou o distintivo com seu nome e número de registro na polícia junto às armas, bebeu as cervejas uma seguida da outra e recostou-se nas almofadas. Seus olhos fecharam-se um momento depois. Levou um tempo para que as mãos relaxassem e caíssem para os lados, mas, em seguida, a respiração lenta e profunda confirmou o descanso – e a deixa para que eles pegassem o que precisavam e saíssem.

Jim estendeu a mão à altura da cintura e deu uma de cavaleiro Jedi com o distintivo, fazendo o objeto levitar e trazendo-o até ele ao longo da escuridão. No instante em que a palma de sua mão fez contato, sentiu o mesmo frio que sentira no andar de cima, a crueldade de Devina habitava no espaço entre as moléculas do metal.

O cuidado de Eddie parecia exagerado... até agora. Considerando a forte mensagem que o distintivo transmitia, não dava para ser pego de calças curtas ao atuar naquela tarefa.

Jim indicou a janela com a cabeça e, como uma névoa, os três desapareceram.

Do outro lado da cidade, no centro urbano de Caldwell, o Hospital São Francisco era um complexo que brilhava como uma das ruas de Las Vegas. Sob seus telhados de vinte estilos diferentes, vidas começavam e terminavam aos milhares a cada ano, a luta contra o Ceifeiro da Morte era travada por todos os médicos, cirurgiões e enfermeiras que ali trabalhavam.

Devina estava bem familiarizada com o local: algumas vezes, aqueles humanos de jalecos brancos e uniformes cirúrgicos precisavam de uma pequena ajuda para garantir que o trabalho fosse feito corretamente. E, geralmente, isso significava a morte, mas nem sempre.

O demônio entrou na ala de emergência pela porta frontal automática. Vestindo sua bela pele feminina, capturou todos os tipos de olhares vindos de pais e irmãos sentados na sala de espera. Era por isso que não pegava atalhos. Passar através de vidros, metais ou tijolos era eficiente, mas chato: adorava ser admirada. Cobiçada. Desejada. E os olhares ardentes das outras mulheres, todos aqueles olhares cheios de ódio e inveja? Melhor ainda.

Encontrar Kroner no labirinto de corredores, andares e unidades foi muito fácil. Estava há anos dentro dele, ajudando-o a aprimorar suas habilidades e dando suporte à sua obsessão. Já nasceu doentio, mas lhe faltava coragem para seguir os impulsos – e a impotência agiu a favor dela. Nada instigava mais a violência contra mulheres atraentes num louco como ele do que o próprio pênis murcho e fino.

A UTI que procurava estava sete andares acima, e ela gastou um pouco de tempo nos elevadores, caminhando, observando os uniformes das enfermeiras. Nada demais. Tecidos de algodão com péssimo corte que não realçavam nada na parte de cima e evidenciavam a flacidez da parte de baixo. Que diabos achavam que estavam fazendo com aquele visual?

Quando finalmente aproximou-se das várias portas duplas de metal, pegou uma carona com uma servente e um idoso sobre uma maca. O velhote estava apagado, mas a mulher não deu apenas uma olhada, foram várias. Sem dúvida, continuaria a observar se as portas não tivessem sido abertas no andar que precisava ficar. Lançou um sorriso sobre o ombro, saiu e não conseguiu deixar de rir um pouco.

Enfim, era hora de começar a trabalhar. Tinha a opção de assumir a forma de uma névoa e serpentear sobre o chão lustrado, mas isso causaria pânico demais. Ou poderia continuar invisível, o que era considerado uma falha de originalidade em sua cartilha: tinha passado séculos desfrutando da interação com os humanos, disfarçando-se entre eles, beliscando seus calcanhares e esfregando-se contra seus corpos – ou indo até mais além. Não havia motivo para desperdiçar a oportunidade de divertir-se um pouco naquela noite, mesmo trabalhando. Afinal, sua terapeuta estimulava-a a encontrar um equilíbrio na vida.

Ao chegar à unidade, atravessou um corredor cheio de fotografias de vários diretores de departamentos. Muito útil, como perceberia logo em seguida. Ela parou diante de várias, observando as características, os acessórios, os nomes e títulos, os jalecos brancos e as gravatas listradas ou roupas mais formais. Era como comprar uma roupa nova. E tinha seu serviço próprio de alfaiataria.

Virando numa esquina do corredor, olhou para os dois lados para certificar-se de que estava sozinha e, então, cuidou da câmera de segurança acima dela, enviando uma carga elétrica suficiente para desativá-la sem explodir.

Em seguida, assumiu a aparência e o jaleco branco do chefe da neurologia, um tal de dr. Denton Phillips. O disfarce foi um pouco decepcionante e flácido se comparado ao traje exuberante da bela morena. O homem tinha mais ou menos sessenta anos e, embora fosse um homem branco, arrogante, bem conservado, sentiu-se mal e feia. Ao menos era melhor do que realmente parecia, e era temporário.

Quando voltou ao corredor principal, caminhou como um homem e era ótimo ver o respeito e o medo nos olhos dos funcionários pelos quais ela passava. Não tão divertido quanto a luxúria e a inveja, mas agradável mesmo assim.

Não precisava perguntar onde Kroner estava. Era muito fácil de encontrá-lo – e não ficou surpresa ao se deparar com um policial uniformizado sentado do lado de fora do quarto. O homem levantou-se.

– Doutor.

– Só vou levar um minuto.

– Fique o tempo que precisar.

Não era bem assim... Ela tinha que trabalhar rápido. Não fazia ideia de como o dr. Denton Phillips realmente era e não havia como ter certeza se a altura estava correta. Isso acontecia quando tudo o que se tinha era uma foto para servir de molde: aquele não era um bom momento para encontrar quaisquer colegas que o conhecesse bem – ou pior, o homem em si.

A UTI onde Kroner estava tinha paredes de vidro com cortinas, era possível ouvir o silvo do equipamento médico que o mantinha vivo. Deslizou a porta, empurrou o tecido verde de um biombo e entrou.

– Você está péssimo – ela disse com voz masculina.

Ao caminhar até a cama, deixou de lado a aparência do bom doutor e mostrou-se como a bela mulher que Kroner tinha conhecido há dez anos.

Havia tubos entrando e saindo pela boca e pelo nariz, e os fios emaranhados que saíam de seu peito davam-lhe a aparência de uma central telefônica. Muitos esparadrapos de gaze branca sobre a pele cinza. Muitos hematomas. E seu rosto parecia bexiga de festa, todo vermelho e brilhante, esticado pelo inchaço.

Aquele não era o fim que ela tinha planejado e no qual havia trabalhado. Era para DelVecchio ter cedido e matado o desgraçado antes mesmo de Heron ficar sabendo qual era a próxima alma. Infelizmente, seu cordeiro sacrificial louco e pegajoso tinha sido abatido por outra pessoa.

Pelo amor de Deus, era óbvio que não sobreviveria. Ela não era um médico – apenas interpretava um de vez em quando –, mas só aquela palidez já a fez pensar em funerais.

No entanto, ainda não era tarde demais para o bastardo. E, após esse deslize, não correria mais nenhum risco de perder essa rodada. Hora de tornar-se um pouco mais agressiva, especialmente se pensasse no acordo que tinha selado com Heron.

– Ainda não é sua hora – ela inclinou-se sobre a cama. – Preciso de você.

Fechando os olhos, acomodou-se sobre o corpo do homem, cobrindo-o por completo e, em seguida, infiltrou-se dentro dele através de cada poro que havia. O poder inato nela preencheu o vazio, reenergizou Kroner. Ao puxá-lo da espiral da morte, ela curou-o e deu-lhe forças ao mesmo tempo. E pensar que humanos confiavam em aparatos médicos. Tão rudimentar.

Os olhos de Kroner abriram-se conforme ela se retirava e reassumia sua forma. Então, ele encarou-a. Um brilho amoroso surgiu em seu olhar. Patético, mas útil.

– Viva – ela ordenou –, e nos veremos em breve.

Ele tentou acenar com a cabeça, mas havia muitos acessórios de entubação em sua garganta. Contudo, cumpriria a ordem. Quando ela olhou para o dispositivo de monitoramento, a frequência cardíaca já tinha alcançado estabilidade e sua pressão arterial estava regulada. O nível de oxigênio saiu de setenta e foi para noventa.

– Bom menino – ela disse. – Agora, descanse.

Erguendo a mão, colocou-o em um sono profundo e restaurador e, em seguida, reassumiu a imagem do bom e velho dr. Denton.

Entrar, sair, partir.

Saiu da sala envidraçada, acenou para o guarda e caminhou pelo corredor, passando por bajuladores e puxa-sacos que quase se ajoelhavam enquanto passava. O que era agradável. Ao ponto de ficar tentada a desfilar pelo hospital por um tempo, apenas para sentir melhor a experiência de ser aquele homem.

Mas não podia, a última coisa que precisava era encontrar alguém que realmente o conhecesse. E, mais importante, tinha um compromisso com a terapeuta bem cedo no outro dia e ainda tinha que escolher o que vestiria – isso poderia levar horas. Motivo pelo qual precisava de uma maldita terapia. Hora de ir.


CONTINUA

CAPÍTULO 7

 

Ao meio-dia, Reilly deixou a delegacia a pé e seguiu para o centro da cidade. O dia estava glorioso, com um sol de abril tão radiante e quente que afugentava aquela sensação dos doze graus exibidos nos termômetros. Mas a oficial não era a única que se beneficiava com o clima. Havia uma multidão nas calçadas e atravessando as faixas de pedestres, atrapalhando o trânsito, ao passarem com refrigerantes e sorvetes nas mãos; muitos comiam alguma coisa à beira de uma fonte ou sentados num banco do parque. Após seis meses de escuridão gelada, o Estado de Nova York ansiava por algum sinal de que o inverno realmente estivesse indo embora... E aquela bela hora do almoço não seria desperdiçada.

Aparentemente, Reilly estava no intervalo do trabalho, assim, poderia colocar a cabeça em ordem antes de ver Veck outra vez. Porém, seus passos tinham um propósito e uma direção aos quais ela recusava-se prestar atenção.

O Shopping Galeria era um dos projetos de revitalização do centro, mas, ao contrário de muitos outros, este realmente deu certo. Com uma grande loja de departamentos e uma grande livraria, os quatro quarteirões de prédios dos anos 1920 tinham sidos interditados, liberando apenas a passagem de pedestres. Era um atrativo que tinha revigorado o local e tornado-se o refúgio favorito de milhares de funcionários de escritório, assim como Reilly.

Contudo, diferentemente de suas colegas, era a primeira vez que andava pelas diversas lojas daquele centro comercial... quando parou em frente a uma delas, atraída pelo brilho rosa que irradiava do vidro. Oh, não. De jeito nenhum. Aquilo não era sua... Uma mulher saiu balançando duas grandes sacolas com as mãos e com um sorriso de orelha a orelha.


– Liquidação! – disse a Reilly. – Oba!

Sua voz saiu tão alta e estridente que parecia ter respirado hélio. Mas talvez fosse por usar um corpete embaixo do casaco – ao menos era o que parecia. Enfim, Reilly balançou a cabeça; liquidação ou não, não era o tipo de coisa que ela... Já tinha entrado na loja.

Maldição. Nunca tinha visto tanta roupa íntima num só lugar em toda sua vida.

O estilo Victoria’s Secret não é para quem tem problemas cardíacos... ou um traseiro grande – ela pensou, perguntando-se há quanto tempo, exatamente, não aparecia na academia. Desde o ensino médio. Não... Talvez tenha sido desde o fundamental.

Cara, toda aquela renda intimidava. Assim como as imagens tratadas das modelos expostas em toda parte, de tamanhos bem maiores que o natural. E, para piorar as coisas, o lugar estava lotado de mulheres que não eram bem do tipo de Reilly. Eram garotinhas com seus vinte e poucos anos, pegando tangas, sutiãs de bojo, peças de tamanhos mínimos e outras coisas. Mesmo os pijamas ou moletons pareciam estar destinados a ser arrancados com os dentes por algum garanhão...

– Oi, posso ajudá-la?

Reilly estremeceu.

– Ah...

A vendedora era uma linda afro-americana que, provavelmente, ficava ótima em cada peça pendurada na loja ou dobrada sobre as mesas. Comparando-se a ela, Reilly sentiu-se uma coisa esquisita e sardenta do tipo que pede para fazer tudo no escuro.

– Estou bem, obrigada...

– Estamos em liquidação.

– Sim, vi uma moça saindo com algumas sacolas – o que, considerando a pequenez das roupas ali, significava que a garota tinha comprado quinhentas, talvez seiscentas, peças daquilo tudo.

– Está procurando por alguma coisa em particular?

Reilly estava prestes a balançar a cabeça recusando, quando sua boca abriu-se por conta própria.

– Quero sentir-me mulher, e não uma oficial de polícia. Eu apenas... estou cansada de mim e do meu trabalho neste momento. Entende o que quero dizer?

Oh, droga, o que ela estava dizendo?... Só uma observação: aquilo não tinha nada a ver com Brittany, que se escreve Britnae.

A vendedora sorriu.

– Entendo. Você veio ao lugar certo.

Reilly olhou para um maiô asa-delta com estampa de tigre e não teve tanta certeza disso.

– Acho que nunca comprei lingerie antes... Nada que escolhesse com cuidado, meus sutiãs são do tempo da Guerra Civil. Talvez de alguma guerra do século XVIII.

– Bom, meu nome é Ralonda – estendeu a mão – e posso cuidar de você.

– Reilly. Quero dizer... Sophia – quando apertaram as mãos, ela murmurou: – Você tem algum tipo de formação em psicologia, por acaso?

– Na verdade, é isso que eu vou estudar na Universidade de Nova York, no campus de Caldwell.

– Deus, você é perfeita.

– Imagine – Ralonda sorriu outra vez, exibindo seu sorriso. – Vamos tirar suas medidas e depois vou trazer algumas coisas.

Uma hora e US$ 673,43 depois, Reilly saiu com três sacolas cheias de coisas. Quando chegou à porta, de cabeça erguida, viu-se sorrindo para as duas garotas que espiavam as vitrines.

– Eles estão em liquidação – disse a elas. – Melhor entrar. E chame por Ralonda... Ela é a melhor.

Elas entraram correndo, e Reilly caminhou até a delegacia com uma curiosa sensação de leveza. Talvez o sutiã de bojo cereja com calcinha combinando que acabara de vestir tivesse propriedades antigravitacionais, erguendo não apenas seus seios mas também o corpo inteiro. Fazia com que se perguntasse o que os astronautas usavam por baixo de seus trajes. A horrível imagem de um astronauta velhaco veio-lhe à mente. O cara usava apenas um minúsculo conjunto cor-de-rosa.

Deu-se conta de que entrar na delegacia com aquelas sacolas da Victoria’s Secret e um andar leve não passaria a mensagem certa... Especialmente agora que seria a parceira de Veck no próximo mês. Esquivando-se pela lateral da delegacia, aproximou-se de seu carro e escondeu as compras no porta-malas.

Desta vez, quando entrou pelos fundos e passou pelo guarda na recepção, estava um tanto constrangida, pensando se alguém poderia saber o que usava por baixo das roupas. Porém, como sempre, ninguém prestou nenhuma atenção nela. Apesar dos muitos talentos dos vários membros da polícia, parece que visão de raio X não era um deles.

A primeira parada foi seu escritório. Verificou rapidamente o correio de voz e os e-mails. Em seguida, pegou um bloco de notas e seguiu para o Departamento de Homicídios. E, como se pode imaginar, a confiança nas propriedades ocultas do algodão e da Lycra acertou em cheio a todos ali quando abriu a porta do departamento. Todos olharam para cima, inclusive Veck.

Certo. Agora entendia por que as pessoas odeiam aqueles sonhos em que andam nuas numa sala cheia de pessoas. Nunca tivera um pesadelo assim antes e, enquanto colocava o bloco de notas em frente aos seios, não estava com muita pressa de vivenciá-lo.

As pessoas apenas acenaram e cumprimentaram, e ela acenou e cumprimentou de volta enquanto dirigia-se até Veck. O cubículo ao lado dele estava praticamente vazio, havia apenas um computador e um telefone. Quando Reilly sentou-se, manteve o caderno contra o peito.

Veck encostou-se na cadeira fazendo com que seu peito parecesse enorme contra a camisa branca.

– Tudo certo na sua sala?

– Sim. No que vamos trabalhar hoje?

Ele fez um gesto com a cabeça indicando a tela do computador.

– Encontrei alguma coisa para passar o tempo. Estava esperando você chegar... Pensei em fazer um reconhecimento de campo e consultar outra vez algumas testemunhas.

– Ótimo. Qual é o caso?

– Digo no caminho. Importa-se se usarmos o seu carro? Só tenho moto.

– Ah... – com certeza não haveria motivo algum para ele olhar no porta-malas. – Claro. Sim. Tudo bem.

– Obrigado, oficial. Ou deveria chamá-la de detetive nas próximas semanas?

Quando se levantaram juntos e ela viu-se com o rosto na altura do peitoral de Veck, sabia que era hora de sufocar sua Britnae interior.

– Só Reilly está bom – respondeu.

Por um momento, os olhos de Veck baixaram, e ela poderia jurar que ele murmurou “com certeza está”.

Sem dúvida a lingerie nova fazia-a ouvir coisas.

– Espere um minuto... esse não é um caso antigo de homicídio.

Ao pararem num sinal vermelho, Veck recebeu um olhar sério de sua nova parceira... o que foi muito excitante.

Endireitando-se no banco e rezando para que sua ereção não explodisse antes de chegarem ao local de destino, fez um esforço para manter a voz equilibrada e sem qualquer sinal de rouquidão. Porém, pelo amor de Deus, se aquilo fosse um indício de como seriam as próximas quatro semanas... estava com problemas.

– Tecnicamente, é uma desaparecida...

– Não existe “tecnicamente” nesse caso. Não há um corpo.

– Posso terminar?

– Desculpe – quando o farol ficou verde, ela pisou no acelerador. – Mas tenho um pressentimento de onde isso dará, e você não chegará nem perto do caso Kroner.

Veremos – ele pensou.

– Recebi um telefonema do FBI esta manhã. Estão trabalhando no caso dessa garota desaparecida e queriam saber se existe mais alguma novidade. Respondi que ficaria feliz em examinar o que já temos sobre...

– O FBI pode fazer isso sozinho...

– Não há motivo para não ser amigável. Ou para concluir que há alguma ligação com Kroner.

Ela franziu a testa.

– O que o FBI acha?

– Não perguntei. Talvez seja interestadual – pois, talveeez, aquilo fizesse parte do caso Kroner... e foi por isso que ele não perguntou nada.

– Só para que fique bem claro: se houver qualquer ligação com o caso Kroner, estamos fora.

– Certo – colocou a mão no bolso da frente do casaco e pegou um relatório de três páginas. – Cecília Barten, dezoito anos, desaparecida há apenas três semanas. Vista pela última vez saindo de casa para ir ao supermercado na avenida Union. Câmeras de segurança do estacionamento e da saída da loja não gravaram nada, graças a uma sobrecarga de energia.

– E por onde vamos começar?

– Pela casa dos pais. Quero verificar se deixaram passar alguma coisa. A mãe dela está esperando por nós... Vire à direita aqui.

Reilly seguiu as placas e virou, entrando num bairro não muito longe de onde Veck morava. Ali as casas eram um pouco maiores e mais bem conservadas. Não havia carros estacionados na rua, e Veck imaginou que não haveria grandes caminhonetes ou sedãs guardados naquelas garagens. Não tanto quanto minivans... Porém, naquela região, moravam vários casais com filhos, então, talvez estivesse errado.

– Certo – ele murmurou, olhando as casas – 491, 493, 495... aqui.

Reilly estacionou no meio-fio em frente ao número 497. Depois de desligar o motor, saíram do carro...

Logo atrás deles estacionou uma suv dourada com insulfilme e três agentes federais desceram. Os homens estavam à paisana e, quando saíram, o motorista de cabelo loiro escuro exibiu suas credenciais.

– Jim Heron. Conversamos pelo telefone. Estes são meus parceiros, Blackhawk e Vogel.

– Thomas DelVecchio.

Quando apertaram as mãos, Veck sentiu uma energia estranha e recuou.

– Esta é a oficial Reilly. Quer entrar conosco?

O agente estreitou os olhos ao observar a casa.

– Sim. Obrigado. Meus parceiros vão esperar aqui.

Boa ideia. Seria difícil que todos coubessem naquele hall minúsculo. Enquanto passavam pela entrada de tijolos à vista, uma bandeira balançava casualmente com a brisa da primavera. Ela tinha um tom pastel e um desenho em formato de ovo estampado, metade cor de lavanda, metade cor-de-rosa e com uma faixa amarela ao meio.

A Páscoa ocorrera no fim de março, bem na época do desaparecimento da moça. Sem dúvida, a bandeira fora esquecida ali... ou talvez a família rezasse para que Cecília Barten ressuscitasse a partir daquilo. De qualquer maneira, a ruína tinha atingido aquela casa, mesmo que ainda restassem quatro paredes e um teto: a garota estava morta. Veck sentia em seus ossos, mesmo não sendo do tipo que sente coisas.

Campainha... espera... espera...

Veck olhou para Reilly. Parecia triste ao se inclinar para trás e observar as janelas do segundo andar... Será que a oficial estava tentando descobrir qual delas correspondia ao quarto da garota? Atrás dela, Heron passava uma excelente impressão de uma estátua: grande e imóvel. Seus olhos estavam focados na porta da frente, como se pudesse enxergar através das paredes.

Veck franziu a testa. Havia algo estranho no cara. Contudo, não era uma questão de competência. O agente irradiava uma precisão militar sobre tudo, desde a forma com que exibiu suas credenciais até o jeito que andava e como se mantinha imóvel. Ainda assim... o que será que...

A porta abriu com um rangido suave, e a mulher do outro lado parecia que não dormia nem comia direito há muito tempo.

– Bom dia, senhora. Sou o detetive DelVecchio. Estes são a oficial Reilly e o agente Heron.

Todos mostraram suas credenciais.

– Por favor, entrem – ela recuou e fez um gesto com o braço. – Posso servir alguma coisa?

– Não, obrigado, senhora. Agradecemos por dispor de seu tempo para conversar conosco.

A casa estava impecável, com cheirinho de desinfetante e lustra-móveis. O que sugeria que a senhora Barten limpava as coisas em momentos de tensão.

– Será que poderíamos conversar na sala de estar? – ela disse.

– Por favor.

A sala estava cheia de lembranças e bens de família, com papel de parede florido e dois sofás lisos. Quando a senhora Barten sentou-se numa poltrona e todos tomaram um lugar no sofá, Veck observou bem a mulher. Estava saindo da casa dos quarenta, com muitos cabelos loiros puxados para trás e enrolados num coque. Tinha um corpo magro e alongado... O peso que perdera recentemente realmente lhe fazia falta. Nada de maquiagem e, mesmo assim, era bonita. Porém, tinha um olhar vazio.

Droga, por onde começar?

– Senhora Barten – Reilly interrompeu –, pode nos contar sobre sua filha? Coisas que ela gostava de fazer ou nas quais era boa. Lembranças diversas.

Encarando sua nova parceira, Veck teve vontade de gesticular um “obrigado” com a boca. Especialmente quando a tensão deixou os ombros da mulher e o esboço de um sorriso surgiu.

– Sissy era... é... – ela se corrigiu. – Por favor, me desculpem. Isto é difícil.

Reilly aproximou-se da poltrona.

– Leve o tempo que precisar. Sei que pedi muito.

– Na verdade, ajuda quando falo dela. Faz com que me sinta melhor.

Numa voz hesitante, que gradualmente ganhou ímpeto, as histórias começaram a surgir, pintando o retrado de uma garota muito inteligente, boa e um pouco tímida, do tipo que nunca se envolveria em problemas se pudesse evitá-los.

Cecília Barten foi assassinada – Veck pensou. Não era um daqueles relatos de fuga motivados por drogas ou por causa do ciúmes de um namorado abusado e descontrolado. Era uma família estável. Uma jovem feliz. Futuro brilhante. Até que um carro bateu contra sua vida e levou tudo.

– Importa-se que eu olhe as fotos que estão ali? – Veck disse quando houve uma pausa na narrativa.

– Por favor.

Levantou-se e foi até uma das estantes embutidas ao lado de cada uma das janelas arqueadas que davam para a rua. Dois filhos. A outra era a irmã mais nova. Havia fotos de festas de formatura, aniversários, passeios no campo e jogos de hóquei... reuniões de família e casamentos... Natais.

Olhava com admiração tudo aquilo. Cara, aquilo era o melhor que a vida “normal” tinha para oferecer e, sem razão alguma, pensou em como, enquanto ele crescia, sua família não conseguiu ter nada daquilo... momentos felizes e fotografias para exibi-los. O tempo que passou com sua mãe não dava vontade de compartilhar com ninguém. Aliás, não era nada que quisesse lembrar.

Ele estendeu a mão e pegou uma das fotos 5×7. Cecília estava em pé ao lado de seu pai, braço estendido sobre o dele e com uma das mãos descansando sobre as dele. Era muito parecida com sua mãe, apenas um pouco com seu pai. Mas a linhagem era clara.

–... ligou para casa? – Reilly disse.

Veck voltou à conversa.

– Isso – a senhora Barten disse. – Ela saiu por volta das nove horas. Eu tinha acabado de operar meu pé... Corrigi uma deformação no dedo... – por um momento, a mulher parecia ruminar alguma coisa em pensamento, e Veck apostava que era o quanto desejava voltar no tempo, quando suas maiores preocupações eram encontrar sapatos confortáveis. Mas, talvez, também estivesse se culpando. Ela balançou a cabeça e voltou a se concentrar.

– Eu estava imobilizada. Dei a Sissy uma lista de compras e... ela me ligou do mercado. Não sabia se eu queria pimenta verde ou vermelha. Eu queria as vermelhas. Estava fazendo um... – as lágrimas vieram e ela piscou com força para afastá-las. – De qualquer maneira, essa foi a última vez que alguém teve notícias dela.

Veck voltou a colocar a fotografia na prateleira. Quando foi sentar-se ao lado de Heron outra vez, franziu a testa. O cara olhava para a mãe da vítima como se ele fosse uma filmadora, como se estivesse lendo e registrando cada contração do olho ou da boca que ela fazia enquanto falava.

Quando o radar de Veck começou a soar feito louco, não ficou claro o motivo... Seria a garota desaparecida, ou sua mãe triste e adorável, ou aquele homem imenso que parecia ter a capacidade de incendiar alguma coisa com aquele olhar?

– Posso perguntar uma coisa? – Veck disse. – Ela teve algum namorado?

Com o canto do olho, pôde ver Heron apertando as coxas com força.

– Não. Tinha alguns amigos, claro, e um encontro em bailes de formatura aqui e ali... mas nada sério. Ao menos, não que ela tenha me contado... e costumava ser sincera sobre o que se passava em sua vida.

Aquelas mãos relaxaram de repente.

– Quer perguntar alguma coisa? – Veck disse ao agente.

Houve um longo silêncio. Pouco antes de tudo ficar realmente estranho, o cara disse com uma voz baixa e profunda: – Senhora Barten, vou trazê-la de volta para casa. De uma maneira ou de outra, vou trazê-la de volta para a senhora.

Veck recuou, pensando: Droga, não faça assim, cara.

– Ah, o que ele quer dizer é...

– Está tudo bem – a senhora Barten apertou a garganta com uma das mãos. – Não estou me enganando. Sei que ela está... que não está mais entre nós. Uma mãe sente o frio no coração. Só queremos saber o que aconteceu e... providenciar um descanso adequado para ela.

– Vai tê-la de volta. Juro.

Agora, a senhora Barten soluçava... e por que não choraria? O cara parecia um guerreiro acostumado com a rotina da vingança, era mais um vingador do que um agente.

– Obrigada... Agradeço a todos vocês.

Veck olhou discretamente o relógio.

– Se me der licença, eu e minha parceira vamos nos dirigir ao supermercado. O gerente disse que sairia mais cedo hoje.

– Oh, sim, claro.

O agente Heron ajudou a senhora Barten a se levantar dando-lhe a mão.

– Seria incômodo se eu desse uma olhada no quarto dela?

– Claro que não... Vou levá-lo até lá – voltou-se para Veck e Reilly. – Se precisam ir agora, voltem sempre que precisarem.

– Obrigada – Reilly disse. – Faremos isso.

– E vamos sair logo por aquela porta – Veck murmurou.

Quando o agente Heron e a mãe da vítima chegaram às escadas, Veck parou no hall e observou os dois subirem juntos. Uma janela no andar de cima iluminava-os, o raio de luz solar atingia os dois rostos e agia como um farol para...

Espere um minuto.

Veck olhou para a sala de estar... de onde os raios dourados vinham do lado oeste. Impossível. Não poderia estar vendo aquele efeito de luzes em direções opostas: vinha da frente e dos fundos da casa.

– O que é isto? – Reilly disse suavemente.

Veck voltou a olhar para a escada. Heron e a senhora Barten não podiam mais ser vistos, e a luz tinha ido embora também, a janela não mostrava nada além de galhos de árvores atrás da casa e o claro céu azul sobre ela.

– Vou subir – disse à sua nova parceira. – Só por um minuto.


CAPÍTULO 8

 

Quando Jim seguiu a mãe de Sissy, sentiu-se muito oprimido. Num canto escuro de sua mente, sabia que precisava manter o controle diante de Veck, mas isso não aconteceria por muito tempo.

Virando-se no alto da escada, os sons da casa subiram a níveis de um heavy metal estridente. Tudo, desde o rangido sutil do chão acarpetado sob suas botas até a conversa suave que acontecia no saguão lá embaixo ou sua própria respiração soando forte atrás da garganta, tudo parecia gritar em seus ouvidos.

De repente, Veck apareceu atrás deles e fez um comentário rápido. Jim assentiu para o cara... e, imediatamente, esqueceu até mesmo que estava ali.

– O quarto de Sissy é por aqui.

Os três seguiram à direita e, quando a senhora Barten hesitou diante da porta fechada, Jim ergueu a mão para colocá-la em seu ombro... mas não conseguiu fazer contato.

– Prefere que entremos sozinhos? – ele perguntou.

A senhora Barten abriu a boca. Mas apenas assentiu com a cabeça.

– Não entro aqui desde... aquela noite. Está do jeito que ela deixou.

Naquele momento, o telefone tocou, e ficou evidente o alívio no rosto da mãe de Sissy.

– Vou atender. Fiquem à vontade para abrir as gavetas e o armário, mas se precisarem levar alguma coisa, poderiam me dizer o que é?

– Com certeza – Veck respondeu.

Assim que a mãe de Cecília apressou-se em descer as escadas e desapareceu no que Jim concluiu ser a suíte principal, ele abriu a porta... um cheiro maravilhoso. Entrando, fechou os olhos e tentou não se sentir um pervertido ao respirar fundo. Perfume. Loção corporal. Lençóis secos. Era... extraordinário. Mas ele não pertencia àquele quarto. Já tinha feito coisas que não deveriam sequer passar pela cabeça de alguém que entrasse num quarto como aquele... e a representação daquelas maldades estavam na tinta que cobria suas costas. Além disso, estava armado. E ainda havia aquela porcaria que fez com o demônio na noite anterior. Sentia-se sujo.


Enquanto Veck fazia o reconhecimento do quarto sozinho, Jim abriu os olhos e foi até uma estante modulada com escrivaninha embutida em frente à janela. A superfície plana e as prateleiras eram pintadas de branco, mas a cadeira era azul, combinando com as cortinas e o papel de parede listrado. Havia um tapete com franjas trançadas sobre a área acarpetada. Feito a mão. Tinha de ser.

Os livros enfileirados estavam em ordem e tinham uma temática bastante feminina. Gostava de Jane Austen, mas também havia uma prateleira inteira de Gossip Girls... provavelmente deixada ali desde que Sissy tinha treze anos. Algumas medalhas, vermelhas e azuis. Troféus. Sobre a mesa havia um notebook junto com dois livros, um sobre cálculo e outro sobre... trigonometria avançada? Hum. Sua garota era mais esperta que ele.

Havia também uma revista, Cosmopolitan, daquele mês. Tudo bem, a capa com título “orgasmo” em fonte gigantesca e cor rosa-choque não combinava exatamente com o resto daquele ambiente inocente de trabalhos escolares... mas ela estava crescendo, não estava?

Virando-se, foi até o pé da cama de solteiro. Agora sabia por que a mãe da garota não entrava ali. A colcha azul estava puxada para trás e os travesseiros ainda amassados, como se Sissy tivesse acabado de tirar uma soneca.

– Estou indo – Veck disse. O que fez Jim se perguntar há quanto tempo estariam naquele quarto.

– Vejo você em breve – disse Jim distraído.

– Entendido.

Quando ficou sozinho, a mão de Jim estremeceu ao estender-se para tocar os lençóis. Ao acariciar os objetos que sua pele tinha tocado, pensou em Devina e no que aquele demônio tinha feito com a garota... e com a família dela.


Adrian e Eddie estavam errados. Se queriam Jim concentrado na guerra, ali era exatamente o lugar onde precisava estar. Aquilo era motivação para vencer: Sissy nunca mais deitaria em sua cama. Não terminaria o artigo que estava lendo. E não mais lidaria com números. Nunca mais. Mas, ao menos, Jim poderia providenciar um lugar melhor para Sissy ficar enquanto não pudesse se juntar a seus pais e sua irmã por toda eternidade. E, então, faria Devina pagar mil vezes por tudo o que fez.

Na mesa de cabeceira havia um despertador branco, outra revista – desta vez era a In Touch – e o controle remoto de sua pequena televisão branca. Teve a impressão de que, mesmo fazendo faculdade, Sissy voltava aos fins de semana, e uma espiada em seu armário confirmou isso. Considerando o número de blusas, calças, saias e vestidos, não parecia que tudo aquilo tinha sido excluído da lista dos favoritos, mas que estava pronto para usar. Havia também vários sapatos no chão.

Deixou as gavetas da cômoda de lado, pois não sabia em qual delas guardava as... roupas íntimas. Provavelmente, nas duas primeiras, mas não correria o risco de confiar no chute. Já tinha assumido o papel de um mero observador ali, pois não tinha mais esperança em encontrar alguma coisa que o ajudasse a salvá-la. Deus era testemunha de que não havia nada na Terra capaz disso. Já ele queria apenas... estar perto dela.

Certo. Muito bem. Isto era o tipo de coisa com a qual Ad e Eddie preocupavam-se. Assim, percebeu que era hora de ir. Mais uma vez, não tinha noção de quanto tempo estava ali. Seria dois minutos ou duas horas, mas a última coisa que desejava era a mãe de Sissy batendo na porta para saber se ele estava bem ou se já tinha ido embora.

Não pegaria nada, mesmo sentindo a tentação de ficar com algum objeto, algo para se fiar em momentos difíceis... alguma coisa de Sissy. Contudo, a família já havia perdido demais e não tiraria mais nada deles.

Jim passou um último momento olhando ao redor e, então, obrigou-se a sair. No corredor, fechou a porta e ouviu. A mãe de Sissy estava no quarto ao lado, falando em voz baixa e embargada.

Desceu as escadas e esperou discretamente no hall onde ficava a porta da frente. Inclinando-se para o lado, olhou a sala de estar em direção às fotos ao longo das grandes janelas. A que mais lhe chamou a atenção – tanto que se aproximou dela – foi uma foto de rosto de Sissy. Ela não olhava para a câmera, mas para o lado, e não sorria. Parecia mergulhada em seus pensamentos, e a expressão em seu rosto não era a de uma menina, mas de uma... sobrevivente. Parecia ter uma vontade de ferro.

– Ela não fazia ideia de que a câmera a focava.

Jim endireitou-se e olhou para a mãe dela.

– Não?

A senhora Barten aproximou-se e pegou o retrato.

– Sempre sorria quando havia uma câmera por perto. Quando seu pai tirou esta, estava assistindo suas colegas de time jogarem... Praticava hóquei de campo. Tinha torcido o tornozelo e estava no banco... mas queria estar com elas – a mulher ergueu o olhar. – Era mais forte do que aparentava ser.

Quando seus olhos encontraram os de Jim, ele respirou fundo e pensou: Graças a Deus... isto a manterá sã até o momento em que eu conseguir salvá-la.

A senhora Barten inclinou a cabeça para o lado.

– Você é diferente dos outros.

Hora de ir.

– Sou como todos os outros.

– Não, não é. Nas últimas três semanas, vi mais oficiais, detetives e agentes do que em qualquer programa policial na TV que tenha assistido ao longo de toda minha vida – estreitou o olhar – Seus olhos...

Jim virou-se para a porta.

– O detetive DelVecchio entrará em contato...

– Quero te dar uma coisa.

Jim congelou com a mão na maçaneta e pensou – Má ideia – estava louco para aceitar qualquer coisa que ela oferecesse.

– Não precisa.

– Aqui.

Quando ele virou-se para dizer um “não, obrigado”, percebeu o toque daquelas mãos em sua nuca. Havia colocado em seu pescoço uma delicada corrente de ouro.

– Ela usava todos os dias. Encontrei em cima da pia do banheiro dela... Tinha tomado banho e esqueceu de colocar de volta... De qualquer maneira, fique com isto.

Pendendo na corrente havia um delicado pássaro feito de ouro. Uma pomba.

– Foi presente do pai no aniversário de dezoito anos. Fazia parte de um conjunto.

Jim balançou a cabeça.

– Não posso. Eu...

– Fique. Fará com que seus olhos continuem assim, nossa família precisa disso.

Depois de um momento, ergueu as mãos e substituiu os dedos da senhora Barten pelos seus. O colar e o pingente não pesavam nada. E mal cabiam em volta de seu pescoço. Mas seu dedo passava por ele como um sonho, mesmo o fecho sendo pequeno e suas mãos, enormes.

Quando baixou os braços, olhou para ela.

– Como estão os meus olhos? – disse ele com voz rouca.

– Desolados.


CAPÍTULO 9

 

O supermercado ficava a pouco mais de oito quilômetros de distância da casa, mas Reilly levou um bom tempo para chegar lá. Entre o trânsito e os faróis vermelhos, estava começando a achar que os dois passariam uma eternidade naquele carro.

Ou talvez o zumbido em sua cabeça fizesse parecer assim.

– No que está pensando? – Veck disse.

Apertou as mãos no volante e endireitou-se no banco do motorista.

– Se o caso de Cecília Barten estiver relacionado às vítimas de Kroner, teremos que deixá-lo. Está preparado para isto?

– Sim, estou.

Ao olhar para ele, percebeu que o maxilar de seu novo parceiro estava rígido e o corpo, todo tenso.

– Tem certeza? – porque ela não tinha.

– Sim, tenho.

Você é um filho da mãe teimoso que faz o que quer mesmo que isso contrarie uma ordem direta? Sim. Sou.

Assim que entrou no estacionamento e começou a caça por uma vaga, seu telefone tocou.

– Oficial Reilly. Uh-hum, sim... não é surpresa. Mesmo? Certo, e obrigada por me contar. Sim, mantenha-me informada.

Desligou e estacionou entre um carro prata antigo e uma caminhonete azul. Virando-se para Veck, disse: – Kroner está muito mal. Não há esperanças de que ele sobreviva.

O rosto rígido de Veck não expressou nada.

– Que pena. Talvez ele soubesse o que aconteceu.

– E saiu o resultado das análises feitas nas amostras que coletaram dele... Havia resíduos de saliva, mas as leituras não dão plena certeza quanto à fonte. Há semelhanças com pumas e lobos. Difícil dizer com certeza, mas a hipótese de ter sido um animal parece continuar ser a mais correta.

Ele assentiu e abriu a porta.

– Se importa se eu fumar antes de entrar?

Parece que estava tendo uma reação, afinal.

– Sem problema.

Saíram, e Veck foi até a parte traseira do carro, inclinando-se contra o porta-malas e tirando um Marlboro do maço... Um homem como ele poderia fumar outra marca? Quando ele acendeu o cigarro, Reilly esforçou-se para não pensar que suas calcinhas e seus sutiãs estavam separados de Veck apenas pela tampa do porta-malas.

Veck teve o cuidado de não exalar perto dela ou na direção em que o vento levasse a fumaça até a colega.

– Mau hábito – ele murmurou. – Mas ninguém vive para sempre.

– Verdade.

Encostando-se sobre o carro, ela cruzou os braços sobre o peito e olhou para o sol. O calor em seu rosto era uma bênção e fechou os olhos para apreciá-lo um pouco mais. Quando finalmente abriu os olhos outra vez, ficou chocada. Veck encarava-a e havia uma expressão em seu rosto... uma sugestão sexual. Ela tinha quase certeza de que estava deduzindo errado. Mas, em seguida, ele desviou rápido o olhar. Não era uma atitude comum quando se estava pensando em trabalho.

De repente, a temperatura primaveril aumentou e, agora, era ela quem o encarava. Bem, “flerte” parecia uma boa palavra para o que estava acontecendo.

Quando ele levou o cigarro aos lábios, sua boca se abriu e houve uma leve sucção, a ponta do objeto ficou alaranjada e os dedos indicador e médio aliviaram brevemente a pressão que faziam sobre o cigarro.

Oh, malditos sinos – ela pensou. Fumar era um hábito mortal e nojento, o qual ela não aprovava... Por isso, era perturbador perceber que todos os filmes ao estilo Casablanca faziam bem ao aproximar a câmera em longos closes em cenas como esta. Havia um toque erótico inegável em tudo aquilo. Especialmente quando a fumaça saía devagar de sua boca e projetava uma breve sombra em seus olhos azuis-marinhos e em seus cabelos escuros bem cortados.


Desviou o olhar rapidamente antes que ficasse presa ao...

– Então? – ele perguntou.

– Desculpe, então o quê?

– Perguntei o que achava.

Certo. Que tal responder assim: acho que todo o vermelho cereja que estou usando embaixo das roupas deformou o meu cérebro. Porque estou achando a ideia de subir em cima de você e montar feito uma vaqueira de chapéu na cabeça muito interessante.

– Preciso de mais informação antes de formar uma opinião – Então, que tal acender outro cigarro desses, garoto malvado, e arrancar as calças depois? – Oh, Deus.

– Você está bem? – ele disse, inclinando-se e colocando a mão livre sobre o braço dela. – Não comeu muito no café da manhã... Comeu alguma coisa no almoço?

Você está apoiado sobre as três sacolas do que fiz na hora do almoço, garotão.

– Sabe? – ela limpou a garganta. – Acho que devo comer alguma coisa.

E que Deus a ajudasse se seu cérebro cuspisse alguma coisa parecida com chantili sobre o corpo dele. Se isso acontecesse, pediria para ser transferida.

– Vamos entrar – ele disse, apagando o cigarro na sola do sapato.

Boa ideia. E já deixaria anotado: nada de tempo livre com seu parceiro. Nunca.

Aproximaram-se e passaram pelas portas automáticas, pela fila de carrinhos na recepção e entraram no supermercado propriamente dito.

Quando Veck parou e olhou ao redor, ela fez um gesto com a cabeça para a direita.

– O escritório do gerente é por aqui.

– Faz compras aqui?

– Esses estabelecimentos são praticamente todos iguais.

Enquanto caminhavam juntos, ele disse: – Devia conhecer este aqui de cor. Minha casa não fica longe.

– Então, faz suas compras aqui?

– Café e cigarros... bem saudável, não?

Ele parecia estar em ótima forma.

– Sempre se pode mudar de hábitos.

– Sabe? Eu parei por um tempo. Cigarros e cafeína.

– O que o fez voltar a consumi-los?

– Acertar aquele fotógrafo.

Aaah, então ele tinha emoções.

– Tem muito estresse em seu trabalho.

– Já foi fumante?

– Não, nunca bebi muito também. Não tenho muita inclinação para esses vícios.

Por outro lado, fazer compras poderia acabar se tornando um.

E este foi o último pensamento que teve sobre questões que não diziam respeito ao trabalho. Quando entraram no setor de atendimento ao cliente, colocou todas as distrações de lado, sua cabeça voltou a funcionar ao imaginar a filha da senhora Barten indo até a loja para ajudar sua mãe... O que deveria ser uma simples comprinha para abastecer a dispensa acabou tornando-se um pesadelo. Talvez por causa de Kroner.

Enquanto ela preparava-se para mostrar o distintivo ao gerente, pensou ser muito perigoso imaginar Veck ou mesmo aquele agente durão, Heron, arrancando a cabeça do cara. Mas nem um serial killer merecia esse tipo de justiça. E não ia se iludir: não seria uma surpresa descobrir Sissy na lista de vítimas de Kroner, e essa era a razão exata pela qual Veck estava interessado no caso. Mas Reilly jogava de acordo com as regras. Sempre tinha jogado, sempre jogaria. Entregaria o caso a De la Cruz assim que percebesse alguma relação com Kroner e daria um jeito de direcionar a atenção de Veck para outra coisa. Nem que isso matasse-o.

Quando Veck checou seu relógio outra vez, eram 16h30. O gerente falava devagar, e a gravação digital das câmeras de segurança levou um tempo para ser revista. Ainda havia uma empacotadora e dois funcionários que organizavam os carrinhos para entrevistar. Nenhuma informação nova, mas, caramba, ele e Reilly trabalhavam muito bem juntos.


Ela sabia exatamente quando tomar a frente e, assim como com a senhora Barten, tinha jeito para deixar as pessoas à vontade... O que significava que acabavam falando mais. Enquanto isso, ele observava o ambiente e avaliava todas as coisas que as pessoas não diziam, mas que demonstravam no semblante.

Do lado de fora do balcão de atendimento ao cliente, apertou a mão do gerente e, em seguida, Reilly fez o mesmo.

– Obrigada por seu tempo – ela disse ao cara. – Agradecemos muito.

– Não acho que foi possível ajudá-los de verdade – o homem empurrou os óculos quadrados sobre o nariz. – Agora ou antes. Sinto-me horrível por toda a situação.

– Aqui está o meu cartão – ela entregou-o. – Pode me ligar a qualquer hora... Estou disponível 24 horas, 7 dias por semana. E, pode acreditar, você se abriu e foi honesto... Era tudo que podia fazer.

Veck entregou seu cartão também e, então, estavam indo para a saída.

– Jante comigo – Veck disse de repente. Afinal, uma segunda oportunidade de compartilharem uma refeição tinha que ser melhor do que a primeira. Desde que ele não se comportasse como um idiota, todo na defensiva, outra vez...

Tudo o que obteve como resposta foi uma desaceleração no andar e uma longa hesitação. E, em seguida, um “Ah...”

Não era um bom sinal, então, reforçou o convite com uma justificativa lógica: – Temos que organizar as anotações das entrevistas que fizemos nas últimas quatro horas. Podemos muito bem comer ao mesmo tempo... E sei que deve estar faminta.

Cara, olha só isso. Tranquilo, casual. Perfeito.

Parou em frente a uma grande vitrine com prateleiras cheias de nachos, potes de salsa e um refrigerador cheio de queijos.

– Vou cozinhar para você. Comida mexicana... é minha especialidade.

Na verdade, aquilo poderia ser real se comparasse a outras coisas: não sabia nada sobre cozinha, mas, considerando o que pretendia fazer, tinha mais chances de acertar que com qualquer outro estilo culinário. Afinal, pedir coisas pelo telefone era sua única especialidade. Mas, vamos lá... não era tão difícil. Pegar uma caixa de tacos no corredor de salgadinhos? Como poderia errar?

– Deveríamos manter as coisas no âmbito profissional – ela argumentou.

– Não é um encontro, prometo. Você é boa demais para isso, e eu não sou tão sortudo.

Quando as sobrancelhas ergueram-se, deixou no ar o comentário que havia feito, pois era verdade e os dois sabiam disso.

– Então, o que me diz, oficial? O único tempero estará no molho.

Isso produziu nela um verdadeiro sorriso, seus lábios até curvaram-se para cima.

– Eu gosto de comida mexicana.

– Então, sou o cara certo.

Por um momento, apenas olharam um para o outro. Então, ela falou lenta e cuidadosamente: – Tudo bem, mas onde?

– Na minha casa.

Passando à frente dela, Veck pegou um carrinho e encheu-o com itens da vitrine de nachos. Parecia uma dádiva vinda dos céus: todos os ingredientes estavam enfileirados, então, não tinha muito que escolher. Porém, era apenas o começo, e ele dirigiu-se ao local onde um cartaz indicava “COMIDA MEXICANA”.

– Está olhando para mim, oficial? – disse ao perceber os olhos dela sobre ele.

– Só estou... surpresa. É isso.

– Com o quê?

Colocando o carrinho em frente a uma prateleira cheia de caixas de um amarelo brilhante, esperou uma resposta de Reilly.

– Tacos ou enchiladas? – quando não houve resposta a essa pergunta também, ele pegou uma caixa. – Tacos.

Pensou no que ainda faltava. Alface. Queijo... Observou o carrinho e decidiu que precisavam de mais. Tomates. Entendido.

– Onde é a parte de hortifrúti?

– Seguindo por ali, à esquerda. Mas precisamos de hambúrgueres.

– Sim, bem lembrado.

O balcão de carnes e congelados ficava mais ao fundo da loja e, ao passarem pelas bandejas de carne moída, pegou um pedaço magro com quarenta por cento orgânico... pois, provavelmente, ela seguia uma dieta mais natural. Quando chegaram à parte das frutas e verduras, precisavam pegar tomates e alface americana.

– Converse comigo, Reilly – disse em voz baixa.

– É que... você não me parece um homem que precise de sorte com as mulheres.

– Ficaria surpresa – ao continuarem em direção ao caixa, passaram pela parte de alimentos importados e por um self-service de saladas, e, por alguma razão, Veck sentiu que devia se explicar. – Veja bem, meu pai é muito conhecido por um motivo horrível e algumas pessoas se sentem atraídas por isso. As mulheres que me procuram não são como você. Ou têm tatuagens nos lugares mais ridículos do corpo e cabelos pintados, ou são Barbies que querem “salvar” alguém, ou desejam fazer loucuras sem correr muitos riscos. Depois, há as que parecem normais, mas costumam ter fotos do meu pai na bolsa ou cartas que pedem que eu entregue para ele... Para ser sincero, é uma confusão total. Aprendi que não posso confiar em ninguém, mas também nunca mais fui surpreendido.

Puxou o carrinho num dos caixas e começou a passar as coisas enquanto Reilly entregava-as.

– Mas, como disse, você não está em nenhuma dessas categorias – terminou.

– Com certeza, não – ela passou o saco de tomates. – Desculpe, não fazia ideia.

– Há coisas piores para se preocupar – como o laço sanguíneo que tinha com o pai maníaco, por exemplo. Droga, as tietes idiotas que queriam ficar com ele só por causa do sobrenome DelVecchio eram terríveis, mas o fato de ter o assassino ligado à sua medula era um pesadelo.

– Você vai... no meio da semana que vem? – ela perguntou.

– Como?

– À execução? – ela disse em tom gentil.

Veck congelou com a caixa amarela de tacos nas mãos.

– Vai mesmo acontecer?

– Se a Suprema Corte não emitir algum documento para adiá-la... Saiu um artigo no jornal de hoje.

Ah sim, as três colunas que ele tinha pulado no restaurante.

– Bem, espero que fritem o bastardo. E não, eu não vou. Tenho que ver aquele filho da mãe toda vez que me olho no espelho. Já é suficiente.

Pegou a carteira e tirou o cartão de crédito.

– Aqui, deixe-me ajudá-lo com a...

Veck lançou um olhar por cima do ombro.

– O homem deve pagar. Sou tradicional nesse ponto.

– E a mulher pode muito bem fazer uma contribuição. Sou realista assim.

Quando ela empurrou uma nota de vinte dólares na palma da mão dele e ergueu o olhar para encontrar o dele, soube que Veck queria beijá-la... E não apenas em suas fantasias: queria saber como era apertá-la em seus braços e sentir o sabor daquela boca da qual não saía besteira nenhuma.

Não iria acontecer.

Voltando a se concentrar nas coisas que não iriam comprometê-lo ou que evitariam um tapa, passou o cartão, digitou a senha e esperou a transação completar-se. Depois de jogar o cupom fiscal fora, dirigiu-se à saída, onde deixou o carrinho com os outros e recolheu as sacolas com as compras.

Enquanto caminhavam de volta para o carro, ele murmurou: – Você está quieta. Falei demais?

Olhou para ele ao desativar o alarme do carro e destrancar todas as portas.

– Sobre seu pai? Deus, não... A hora que quiser falar sobre ele, ou sobre qualquer outra coisa, ficarei feliz em ouvir.

Veck acreditava nela. O que era um milagre em si.

– Obrigado, mas você acabou de ouvir tudo o que tenho a dizer sobre o assunto.

Assim que se aproximaram do porta-malas destravado, ela foi até a porta do passageiro de trás e disse: – Espere, aqui, coloque as compras...

– Só vou jogá-las por aqui mesmo e...

Quando a porta ergueu-se sozinha, ele viu as três grandes sacolas da Victoria’s Secret e não pôde evitar: seus olhos fixaram-se em Reilly e observaram seu corpo... De baixo para cima, até as bochechas avermelhadas. O que significava que não havia um monte de pijamas e roupões de banho macios naquelas malditas sacolas.

– Hum... banco de trás – ele murmurou. – Está certo...

– Estavam em liquidação – ela disse enquanto ele fechava o porta-malas.

Ele estava ficando excitado outra vez. Agora mesmo. Droga.

Depois que as compras foram acomodadas no carro, os dois sentaram-se em seus respectivos bancos e ela ligou o motor. O cinto de segurança pressionou sua ereção, mas achou que o aperto foi bem-vindo. Não precisava ficar fantasiando um desfile de moda. A bela oficial Reilly vestindo aquelas coisas? Cara, precisava de um cigarro.

– Merda – ele disse.

– O que foi?

– Temos que ir à sua casa para fazer isso – com um palavrão, emendou. – Quero dizer, o jantar. Fazer o jantar na sua casa... Não tenho panela nenhuma.

Quando pararam no sinal da saída do estacionamento, Reilly olhou para ele... e começou a rir. Antes que percebesse, ele estava sorrindo também.

– Você não sabe cozinhar coisa alguma, não é? – ela disse.

– Terei sorte se conseguir abrir a caixa de tacos – ergueu o dedo indicador. – Mas ainda gostaria de fazer o jantar, se não se importa.

Negando com a cabeça, ela sorriu.

– Certo, mas pode me fazer um favor?

– Pode dizer.

– Pode esquecer o que viu no meu porta-malas?

Seus olhos perderam-se na boca de Reilly e, em seguida, desceram para o pescoço pálido e...

– Sinto muito – disse em tom sombrio. – Isso eu não posso fazer.

Ela respirou fundo, como se todos os pensamentos dele estivessem expostos em seu rosto.

– Droga – disse, soltando o ar. – Quero dizer, sim, é claro. Considere feito. Totalmente esquecido.

Uma buzina soou alto atrás deles e ela teve um sobressalto antes de acelerar.

Que bela noite. Só faltava ele botar fogo na casa dela..


CAPÍTULO 10

 

Durante os anos em que atuou como soldado de Operações Extraoficiais, Jim aprendeu que uma boa informação é fundamental para a missão em qualquer tarefa. Claro, quando trabalhava para o maldito Matthias seu trabalho era matar pessoas e, agora, não era bem essa a situação com seu novo chefe ou com seus alvos atuais. Porém, muitos princípios eram os mesmos. E os riscos eram ainda maiores.

Sentado na cama de hotel, com o computador apoiado nas coxas, o site do Correio de Caldwell estava no centro da tela e a dor de cabeça que sentia não era pelo brilho da máquina. Seu trabalho já tinha sido iniciado. Considerando que Devina não havia mentido sobre a alma.

Na noite passada, Thomas DelVecchio Jr. adentrou na floresta com um cara a quem investigava... O que é normal para um detetive de homicídios, certo? Errado. O que deteve a ordem normal dos fatos foi que David Kroner, considerado um serial killer, fora levado numa ambulância até a cidade à beira da morte. Encharcado de molho de tomate. E isso era apenas o começo do jogo. Após passar quase duas horas vasculhando a internet, Jim teve acesso a informação suficiente para escrever um livro sobre DelVecchio... e sobre o pai do cara. Não eram boas notícias.

– Droga, Cachorro – murmurou.

Cachorro bufou baixinho e colocou a pata sobre o antebraço de Jim, como se estivesse oferecendo ajuda. A questão era: onde estava a encruzilhada de DelVecchio? Estaria naqueles bosques de ontem à noite?

Não, pois Jim teria perdido antes de ter começado e imaginou que isso estaria fora das regras. Entretanto, não significava que Devina não tivesse dado tal golpe.

E assim...

– Onde você está, vadia...?

O demônio estava em algum lugar naquilo tudo, trabalhando nos bastidores, tentando mexer os pauzinhos para que o jovem DelVecchio se envolvesse profundamente com ela.

A rota poderia ser traçada através do pai. Digitando outra vez o nome do cara no Google, Jim começou outra pesquisa. Os resultados fizeram-no questionar se valia a pena salvar a humanidade. Oh, veja só, quanta coisa baseada em seus assassinatos. Pinturas. Autógrafos.

O cara tinha sua indústria... Mas parece que não duraria muito. As luzes seriam apagadas para ele em Connecticut muito em breve. Mas talvez vivesse para sempre na infâmia: havia vigílias acontecendo fora da prisão. Sem dúvida aquela procissão de manifestantes não impediria a execução, mas era uma indicação de que o bastardo poderia tornar-se uma celebridade ainda mais famosa quando estivesse totalmente acabado.

De acordo com os arquivos do jornal, DelVecchio pai tinha cometido a maioria de seus assassinatos em Nova York e Massachusetts, e a primeira denúncia datava do meio dos anos 1990, quando o primeiro corpo fora encontrado... em Caldwell, Nova York. Passaram-se três anos para que as autoridades percebessem que estavam lidando com um serial killer, e não com chacinas aleatórias. Parte do atraso ocorreu pelo assassino ter deixado os corpos em situações muito diferentes e pelas investigações realizadas com diferentes graus de competência policial. Outro fator foi, ao menos no começo, que DelVecchio escondia bem os restos e de maneira muito criativa.

Os casos, porém, começaram a ser ligados e, então, iniciou-se uma corrida para capturar seja lá quem fosse o assassino. O tapa na cara foi saber que DelVecchio estava aos olhos do público o tempo todo, um negociante de antiguidades... e não apenas bugigangas e falsificações. Estava no topo daquele mercado, importando estátuas, artefatos e mosaicos do Egito e do Oriente Médio.

Maldito filho da mãe. Existia até mesmo um artigo sobre ele na Vanity Fair, que dava informações detalhadas sobre seus negócios. Aparentemente, entre as viagens ao exterior e as grandes festas que frequentava, DelVecchio pai conseguiu engravidar uma mulher. O filho tinha nascido no mesmo dia que o pai nascera há 29 anos, mas não havia vida familiar. Nem outras crianças.

Contudo, houve uma espécie de contato: o assassinato daquela mulher acabou sendo a chave para finalmente capturarem DelVecchio, a primeira ligação que trouxe à tona a cadeia de crimes que havia formado. O resto era história, por assim dizer.

– Entrandooo...

Jim olhou por cima do notebook. Parado na porta do conjugado, Adrian tinha uma caixa de pizza entre as mãos e um pacote com seis cervejas pendurado nos dentes.

– Aí sim! Obrigado, cara.

Eddie entrou atrás com uma segunda caixa.

– Ele providenciou tudo... até a isca.

Ad sentou-se sobre a cama e apoiou as cervejas.

– Se chamam anchovas, idiota.

O “que seja!” ficou subentendido entre os dois. Jim alimentou Cachorro primeiro, dando ao cão o item que Adrian não apreciava muito. Considerando o movimento do rabo curto e grosso, a gororoba estava mais que boa.

– Então, como podemos saber que Devina não mentiu para você? – Adrian disse, antes de se inclinar e colocar a ponta de uma fatia de pizza na boca.

– Essa confusão toda é bem a nossa cara – clicou no artigo sobre a execução e girou o computador. – Este é o pai do cara. E espere, tem mais.

Enquanto comiam, Jim mostrou-lhes alguns sites e finalizou com um artigo sobre a pequena viagem do Júnior à floresta com outro serial killer. Enquanto seus parceiros liam, houve uma quantidade razoável de “mas que inferno”, o que era bom.

Terminou de comer a terceira fatia.

– Precisamos descobrir o que aconteceu naquela floresta ontem à noite.

– Os artigos dizem que DelVecchio não se lembra de nada.

Jim olhou para Eddie, mais conhecido como “o mestre dos truques”.

– É aí que você entra. Quero entrar na mente do cara e você precisa me dizer como fazer isso.

Ad deu de ombros.

– Pessoalmente, eu costumo usar um serrote, mas...

– Pode haver várias consequências e efeitos colaterais – disse Eddie com cuidado.

– Por exemplo?

– Bem, na pior das hipóteses... ele pode acabar como Adrian.

– Ei...

Jim interrompeu o anjo em questão.

– Meio surdo. Com medo de agulhas.

– Viciado em sexo – Eddie acrescentou.

– Ou seja, um deus – Ad exclamou, abrindo uma cerveja. – E continuo dizendo, pessoal, não sou surdo.

– Já passamos por isso antes – Eddie enxugou a boca. – Se não consegue ouvir o quanto é desafinado, então, como pode saber?

– Não sou desafinado.

– É sim – Jim e Eddie disseram juntos.

Antes que a discussão saísse do controle, Jim ficou sério e dirigiu-se a Eddie.

– Então, me diga o que eu preciso saber.

– Precisa me explicar primeiro o que está procurando.

Jim tomou um longo gole de cerveja.

– Quero saber onde Devina está em tudo isso. Qual é o ângulo de ação dela e de que maneira está suscetível a falhar nessa porcaria toda. É isso que estou procurando.

E, considerando a situação do pai, já tinha suas suspeitas.

É claro que Veck precisava ter visto o que havia no porta-malas – Reilly pensou enquanto entrava na garagem. – O universo não desperdiçaria uma oportunidade como essa para aprontar comigo. Enquanto a porta da garagem subia, olhou para seu parceiro.

– Deixe-me adivinhar: gostaria de carregar as compras, da mesma maneira como pagou por elas.

– Sim, gostaria – olhou para os bancos de trás. – Como disse, sou antiquado. Mas se quiser assumir a tarefa, posso voltar atrás.

E era por isso que não tinha qualquer problema com ele. Além disso, ele poderia cuidar da comida enquanto ela tirava suas roupas do porta-malas: apesar de constrangida, não deixaria as sacolas para trás. Não havia como fingir que nada acontecera, mas, mais importante que isso, não havia motivo algum para esconder. Era uma mulher adulta que poderia comprar calcinhas e sutiãs para si.

Quando a voz na cabeça dela ficou ainda mais estridente e na defensiva, perguntou-se quem exatamente estava falando. Provavelmente seu pai. Interrompendo o discurso ridículo, terminou de estacionar o carro. Enquanto Veck saía e pegava as sacolas do supermercado, deu a volta no carro, abriu o porta-malas e manteve a cabeça erguida ao pegar todos os seus artigos cheios de lacinhos e renda e seguir para a cozinha.

– Nossa! – ele disse ao olhar para as paredes, cortinas e balcões.

– Eu deveria ter avisado.

Ter uma decoração cheia de galos na cozinha é um pesadelo, mas a boa notícia é que, geralmente, as pessoas param e olham ao redor, e, por isso, ela conseguiu enfiar as sacolas num canto qualquer, longe de olhares curiosos.

– Acho que nunca vi...

Quando Veck apenas assentiu com a cabeça, Reilly ficou feliz por ele não ter terminado a frase. Claro que nem precisaria: a parte do “... tantos galos num lugar só” costumava ficar no ar com certa frequência.

Oh, Deus, aquilo era horrível.

– Desde que me mudei há dois anos, tenho vontade de pegar um estilete e arrancar tudo a partir dos cantos. Mas sempre tem algum trabalho mais urgente que me mantém ocupada.

Porém, ao observar como Veck olhava tudo aquilo, pensou que deveria ter um pouco mais de determinação. O papel de parede tinha três galos diferentes em várias e exageradas poses, como se fossem fisiculturistas participando de um concurso. O esquema de cores era marrom, vermelho e creme com tufos verdes de grama sob as patas tripartidas. E, de alguma forma, mesmo o material estando ali há uns bons vinte anos, mantinha uma vivacidade impressionante.


– Sou eu ou os olhos deles seguem a gente? – Veck perguntou ao colocar as sacolas sobre o balcão da pia.

– Eles estão observando você. É uma maravilha para minhas die-tas... sinto como se estivesse comendo em público e não consigo comprar frango desde maio do ano passado.

– É como estar no filme Os pássaros.

– Exceto por não ser uma fazenda. Eu sei – quando ela aproximou-se e abriu o armário sob o fogão, completou –, o fato de já estar um pouco acostumada com isso me assusta... será que me hipnotizaram? Aliás, as panelas estão aqui, as tigelas ali e as facas naquelas gavetas perto da lava-louças.

– Obrigado.

Quando ele tirou o casaco, os grandes ombros movimentaram-se naturalmente, mas, na mente dela, transformaram-se em algo nu e excitante – Hora da distração – Reilly pensou quando Veck começou a desembalar as coisas.

– Ei, acho que vou imprimir o arquivo do caso enquanto você começa a lidar com a comida.

– Ótimo.

– Pode levar um tempo. Minha impressora é antiga.

– Temos tempo.

Pela maneira como estava concentrado no pacote de salgadinhos, parecia que estava prestes a fazer uma cirurgia cerebral com o micro-ondas. E nossa... Aquele jeitão impassível, seguro e lindo era muito sexy, sem falar que aquela preocupação toda o deixava mais acessível. Isso e a maneira como se abriu a respeito das mulheres. Ela nunca pensara nas tietes... porém, mesmo pessoas de boa aparência podiam ser perseguidas pelos motivos errados, não?

No escritório que tinha no final do corredor, entrou no banco de dados da polícia de Caldwell, acessou o relatório e ficou parada ao lado da impressora, pronta para salvar a impressão quando as folhas ficassem presas... o que aconteceu. Duas vezes.


O primeiro indício de que as coisas não iam bem na cozinha foi o aroma inconfundível de carne queimada. O segundo foi uma explosão de palavrões. Que não parou até ela aparecer com as impressões.

Foram muitas bombas verbais. Em seguida, o detector de fumaça disparou. Seja lá o que estava na panela sobre o fogão – o mais provável era que fosse o hambúrguer, mas, como era Veck na cozinha, poderia até ser os nachos – precisava de uma mangueira de incêndio. Ele tentava lidar com a situação, levou a panela para a pia, colocou dentro da cuba, mas não ligou a água. Aproximou-se rapidamente do detector e começou a abaná-lo com um pano de prato sem nem sequer ficar na ponta dos pés.

– Acho que um dos galos aumentou o fogo – ele gritou.

– Isso não me surpreenderia.

Ela escondeu um sorriso quando colocou os papéis sobre a mesa e foi dar uma olhada no que ele tinha colocado no prato: os pedaços de queijo laranja tinham se unido à camada de tortilhas ao ponto de formarem uma nova composição molecular.

Só há uma coisa a fazer agora – ela pensou. Pegou o telefone e disse: – Qual sabor de pizza você gosta, oh, poderoso fazendeiro?

– Calabresa com salame.

– Boa.

Enquanto discava, olhou para cima. A parte de baixo da camisa de Veck tinha se soltado, e ela teve uma clara visão do cós preto da cueca, bem como dos pelos que desciam em linha a partir do umbigo sobre a pele firme. Imediatamente seu cérebro voltou à cena do banheiro na noite anterior. Apenas um instante e lá estava ela, observando o corpo nu...

– Oh, sim, oi – afastou-se rapidamente. – É um pedido. Sim, sou eu. Pizza grande de calabresa com salame. Sim. Não, sem bebidas... Não, não quero uma segunda pizza de graça... Não, sem acompanhamentos... Não, obrigada, não precisa... Não, também não quero sobremesa de maçã com canela – pelo amor de Deus, levavam mais tempo fechando o pedido do que fazendo, embalando e despachando a pizza para entrega! – Ótimo, obrigada.


Desligou, endireitou os ombros e virou-se em direção a Veck outra vez – estava parado bem atrás dela, olhos semicerrados, o corpo muito maior do que aparentava ser a dois metros de distância.

Ela não se moveu. Nem ele.

– Acredita que a confissão seja boa para a alma? – disse ele de maneira misteriosa.

– Sim...

– Então, preciso dizer uma coisa.

Oh, Deus, era por isso que diziam que não se deve misturar negócios com prazer: quando seus olhos se encontraram, Reilly não pensava sobre o caso em que estavam trabalhando. Pensava que deveria admitir algumas coisas a si mesma.

Vi você nu ontem à noite e te achei lindo.

– O quê? – ela disse ofegante.

Eu te desejo mesmo sabendo que não deveria.

Engolindo em seco, ela disse: – Diga...


CAPÍTULO 11

 

Veck sabia que não deveria responder à sua parceira e com certeza não deveria ter se aproximado tanto dela. A atitude correta seria começar a limpar a bagunça que tinha feito com os alimentos em vez de criar mais confusão.

Mas viu-a olhando o corpo dele e a expressão em seu rosto indicava um desejo forte e intenso. Surpreso? Sim. Satisfeito? Poderia, se ficassem juntos.

Mas não poderiam se desvencilhar das consequências daquilo com um banho de água quente, este era o problema.

– O quê? – ela sussurrou.

– Eu quero... – a palavra era tão rude que ele guardou-a para si mesmo.

– Diga.

Ele inclinou-se e colocou os lábios sobre o ouvido dela.

– Você sabe exatamente o que eu quero.

– E eu quero que você diga.

– Tem certeza? Não é nada agradável.

Antes que ele pudesse recuar, ela estendeu as mãos e colocou as dele sobre seus quadris. O toque foi leve como uma sombra caindo sobre o corpo de Veck, mas sentiu que tudo queimava por dentro. E uma coisa era certa, se ela instigou aquele contato é porque sabia exatamente o que ele tinha em mente.

O toque ficou mais intenso.

– Diga.

Sua voz era quase um rosnado.

– Quero foder você.

Reilly gemeu um pouco e ele continuou.

– Quero você nua. Embaixo de mim. E quero entrar em você – abaixou um pouco e passou a boca sobre o pescoço dela. – Mas sei que é especialista em conflito de interesses, então sabe muito bem os motivos pelos quais essa é uma má ideia.

Era a deixa para ela se afastar. Ou para ele pular fora. Nenhum deles se moveu.

Droga, o corpo dele começou a ficar fora de controle, sua ereção latejava por mais espaço para fazer o que sabia de melhor. O que significava que, se fosse para fazerem a coisa certa, a iniciativa partiria dela.

– Dê um tapa na minha cara – ele gemeu. – Me empurre... pelo amor de Deus, se tranque no banheiro ou algo assim. Pois se não fizer isso, eu vou...

– Me beije.

Deus, o tom que ela usou: aquilo era uma ordem. E quem era ele para desobedecer a uma ordem? Especialmente vinda de uma superior?

Veck estendeu a mão e passou o braço em volta da cintura de Reilly. Com um puxão forte e impaciente, aproximou-a de seu corpo. O próximo passo foi arrancar o elástico que amarrava os cabelos dela e jogá-lo no chão.

Cara, ela instigava tanto desejo com aquela coisa de não se afastar, e os cabelos vermelhos sobre os ombros diziam que estavam prontos para ter a mão de um homem sobre eles.

Quando agarrou a nuca e aproximou a cabeça ainda mais, sabia muito bem que iria dominá-la, assumiria o controle de seu corpo, iria segurá-la com força ao empurrá-la até a mesa da cozinha e ajoelharia entre suas pernas para sugar seu sexo. Era o que desejava fazer.

– Desculpe – ele disse, ciente de que não estava desculpando-se apenas pelo que estava prestes a fazer, mas por tudo que passava em sua mente, toda a vulgaridade que desejava impor aos dois.

Então, o destino foi selado quando ela deu um beijo nos lábios de Veck.

A boca dela era macia... e também seus seios contra o peitoral de Veck e seus quadris contra seu pênis... Era macia e quente, o tipo de coisa que se quer penetrar e permanecer ali por um bom tempo. Mas, mesmo com sua pélvis contorcendo-se e sua ereção pulsando, no fundo Veck sabia que o conflito de interesses não era o maior problema que tinham. Por mais que fingisse estar tudo normal com ele, estava em carne viva por dentro por causa daquela porcaria que tinha acontecido na floresta e pela novidade sobre seu pai. Tinha medo de que Reilly fosse exatamente o tipo de curativo que precisava... Esse foi o último pensamento lógico e decente que teve.


Quando penetrou a boca dela com a língua, seus braços apertaram-na e a parte inferior do corpo arqueou-se outra vez, a tensão e o movimento em seu pênis estimulou-o ainda mais. E isso foi antes de sentir o arrepio que passou pelo corpo de Reilly. Estava claro que ela acompanhava-o, especialmente quando o apertou em seus ombros com as unhas e suas pernas abriram-se o suficiente para que ele pudesse se encaixar com uma das pernas ali.

Pensando num palavrão, ele virou-a e colocou-a sobre a mesa, em cima da papelada que ela tinha acabado de imprimir. Imagens dela com as pernas sobre os ombros dele enquanto lambia seu sexo fizeram-no imaginar que deveria repensar a falsa propaganda sobre comê-la.

Bem, não era tão falsa assim. Só adicionaria uma atração turística muito importante na viagem para o grand finale. Passou a palma da mão sobre as coxas e levantou a perna dela, esfregando ainda mais o local onde ele desejava finalmente estar. Interrompendo o contato com a boca, mergulhou no pescoço de Reilly com mordidas e lambidas.

– Me deixe ver você – ele gemeu em sua garganta. – Me deixe...

– Entrar – outra voz disse.

Ele interrompeu o ritmo de repente, desvencilhando-se do abraço e olhando para cima. Agora seu coração batia por um motivo diferente.

– O que foi? – ela disse.

Seus olhos percorreram o local. Mas não havia quaisquer sombras esquivando-se em movimentos velozes pela cozinha com decoração de galos. Nenhum ruído de tábuas ou dobradiças rangendo. Ninguém observando pelas janelas.

Depois de um momento, a adrenalina diminuiu e percebeu onde estava e o que estava fazendo com ela. Talvez tivesse sido um pensamento que assumiu uma voz muito alta. E não poderia sentir-se melhor com isso se considerasse o que tinha acontecido com Kroner na noite passada.

Uma das mãos de Reilly ergueu-se e acariciou a bochecha dele.

– Você está bem?

– Não – olhou outra vez para o rosto dela. Sentiu o corpo dela sob o seu. Ouviu suas respirações profundas. – Mas não quero parar. Você é real... E preciso muito disso agora. Preciso... de você agora.

Reilly não era como as outras mulheres com quem já tinha ficado: os olhos inteligentes viam demais e sabiam coisas demais. Cara, ele ficara nu na frente dela no primeiro momento em que a conheceu – e isso deveria tê-lo guiado na direção oposta do que estava acontecendo. Em vez disso? Só desejava-a ainda mais.

– Então, me possua – disse, puxando a camisa para fora da saia.

Veck não deu um segundo sequer para ela mudar de ideia: enquanto a beijava, mergulhou uma das mãos sob a abertura que ela havia feito na camisa, tocando toda aquela pele quente. Em seguida, os botões soltaram-se como se tivessem o mesmo objetivo que ele: acesso total.

Ergueu-se quando o último se abriu... caramba. Renda vermelha. Havia uma complexa renda vermelha sobre um par de seios perfeitamente proporcionais. Ele conseguia ver os mamilos tensos e firmes através da pequena extensão do tecido.

– Gostou do que eu comprei hoje? – ela perguntou com voz rouca.

– Nada mal – limpou a garganta quando falou. – Nada mal mesmo. Mas o que está por baixo é ainda mais quente.

Com uma graça harmoniosa, as mãos dela ergueram-se e acariciaram o sutiã de alças finas e brilhantes... Em seguida, passou a mão sobre os mamilos rígidos e, com isso, Reilly arqueou o corpo, implorando por ele.

Com um rosnado, ele empurrou a saia para cima e adentrou entre as pernas dela, separando-as ainda mais com seus quadris ao se aproximar do que havia chamado sua atenção. Ao colocar a boca sobre o sutiã incrível, além de sentir a renda em sua língua, também percebeu a carne rosada e firme por baixo do tecido.

Não levou muito tempo para aquilo não ser mais suficiente. Com a mão áspera e impaciente, puxou o bojo para baixo, revelando o mamilo.

– Porra... – ele exclamou. – Você...

Ela não quis nem saber de conversa: com pressa, seus dedos agarraram a nuca dele e, com isso, aproximou a cabeça de Veck de seus seios. Enquanto ele sugava-a, ela ergueu-se sobre a mesa, e aquele movimento, aquele puxão, fez com que ele deixasse de lado qualquer constrangimento. De repente, Veck assumiu o controle, ergueu-a ao colocar um dos braços embaixo dela, a outra mão foi direto entre as coxas, em direção ao desejo que emanava daquela calcinha.

Acariciou o sexo dela, a palma da mão envolveu o local, bem onde ela desejava...

– Veck!

O som do nome dele foi um pedido de mais, mais, mais. E daria isso a ela. Trocando de lado, mordeu a outra metade do sutiã e puxou com os dentes, antes de sugar o outro mamilo. Contudo, ainda não era suficiente. Precisava de contato total com a pele nua. Aqui, agora...

O gemido que saiu dela foi exatamente o som de consentimento que precisava ouvir.

Deus, vai acontecer – pensou. – Vai acontecer.

Veck era um dominador total. Reilly não esperava menos que isso, mas a excitação foi surpreendente. Em parte por saber que, se dissesse não estar à vontade em ir tão longe, ele recuaria no mesmo segundo. Mas o resto devia-se à maneira como ele lidava com ela, a confiança, o poder, a possibilidade erótica que emanava de sua boca, de suas mãos e de seu olhar sedutor e intenso.

Sem dúvida, Veck tinha um talento natural para o sexo... E desenvolveu isso ao longo dos anos. De repente, como se tivesse lido a mente daquela mulher, seu olhar ergueu-se com um brilho e fixou-se no dela enquanto estimulava o mamilo da mulher com a língua... E, quando as pálpebras baixaram, sabia que desejava que ela o observasse.

Que visão. Ele puxou o outro lado do sutiã e acariciava-a, lambendo e chupando enquanto uma das mãos espalmadas pressionava sua pele. Deus, ele era grande – por inteiro. Seu pênis era longo e grosso e acariciava a parte interna das coxas dela, seus ombros eram tão grandes que não conseguia ver nada além deles, e a parte inferior do corpo daquele homem ocupava todo o espaço que havia entre suas pernas abertas.

Veck terminou de puxar o sutiã que pressionava os seios para cima, a camisa estava totalmente aberta, e a saia estava toda amontoada na cintura. O próximo passo era tirar o tecido de nylon que cobria as pernas de Reilly e, para isso, ela saiu um pouco de cima da mesa, sentindo aquela mão pressionar com mais força ainda em movimentos circulares. Mergulhou os polegares na cintura da meia-calça e baixou os quadris, escorregando a peça ao longo das coxas.

– Eu assumo daqui em diante – Veck recuou um pouco, os olhos em chamas observando o corpo de Reilly. – Hummm... bem onde eu queria estar.

Quando ele sorriu como um predador, ela ergueu os joelhos para ajudá-lo a tirar as meias, lentamente. E só depois que o fino tecido estava livre de seus pés, ela perguntou-se até onde aquilo tudo chegaria. Iriam terminar de fazer aquilo que não deveriam nem ter começado?

Se aquilo fosse um “sim”, teriam que lidar com alguns aspectos práticos. Mas, caramba, que coisa chata falar de camisinha – e, sim, agora entendia por que as pessoas faziam escolhas idiotas quando se tratava de sexo. Coisas realmente importantes não tinham a menor relevância ali, todo o sofrimento que poderia vir depois daqueles minutos intensos, coisas com as quais teria que conviver, talvez para sempre... Passavam a ser ecos distantes, que ela mal conseguia ouvir, pronunciados num idioma que não queria traduzir.

Cinquenta mil anos de evolução poderiam dizer o que estava acontecendo.

Com um impulso, Veck voltou à boca dela, beijando-a profundamente enquanto as mãos desciam...

A maldição que disparou da garganta dela era mais uma vibração que um sim. A mão dele estava de volta entre as pernas, acariciando suas coxas, indo em direção à peça que completava o conjunto com o sutiã que já tinha visto e dominado.

– Veck! – ela exclamou outra vez quando o toque deslizou sobre o centro da faixa de cetim.

Foi cuidadoso, colocando apenas a pressão suficiente sobre o local tão sensível, acariciando-a em movimentos circulares que fizeram seu corpo ficar ao mesmo tempo relaxado e tenso.

Dane-se a calcinha, ela não queria nada entre eles... Mesmo assim, a barreira de seda não era de todo ruim, a costura adicionava outra dimensão ao ritmo que ele tinha imposto. E não parou de beijar sua boca, de envolvê-la, de aproximá-la ainda mais, mesmo já estando bem juntos.

Com um movimento rápido, ele levantou o tronco de Reilly e empurrou seus quadris contra o sexo dela, entrelaçando os corpos. Em seguida, curvou a coluna e encaixou-se sobre ela, acariciando-a com seu pênis enquanto observava-a com atenção.

Deus, o rosto dele estava cheio de desejo, aquela frieza tinha desaparecido, aquela máscara impassível havia explodido com a intensidade que apertava o maxilar.

Eles iam mesmo fazer aquilo, Reilly concluiu.

Surpreendente. As escolhas na vida de Reilly eram baseadas em dados precisos do que deveria, teria que ou do que era melhor não fazer. Com certeza, fazer sexo daquela maneira estava na última categoria... e, mesmo assim, não pretendia deter nada.

Porém, fariam aquilo com segurança – embora não sobre uma cama. Aquela mesa estava servindo muito bem. Mas havia coisas que ela precisava fazer primeiro. Descendo o corpo, deslizou as mãos até... a cabeça de Veck caiu para trás.

– Caaara...

Perfeito: o pênis rijo era ainda maior do que imaginava e latejava contra a palma de sua mão...

O som da campainha ecoou, alto como um tiro. E, mesmo assim, por um momento, ela não conseguiu compreender o que era aquele barulho ou por que deveria importar-se com ele. Veck recuperou os sentidos primeiro.

– Pizza.

– Que p...?

Com o pensamento rápido e lógico, ele estendeu a mão e apagou as luzes para que o entregador da pizza de calabresa com salame não assistisse ao show na cozinha. Então, com mãos eficientes, colocou a camisa dela de volta, puxou a saia para baixo e começou a arrumar as próprias calças, para que não ficasse uma tenda de circo.

– Vou cuidar disso – disse ele com uma voz equilibrada. Como se nada tivesse acontecido. Nada.

Enquanto ele foi até a porta da frente, Reilly sentou-se lentamente, a cabeça não parava e o corpo tremia. Segurando a blusa, percebeu que a volta ao normal repentina fê-la sentir-se totalmente fora de controle. Em seguida, ela saiu da mesa e os papéis do caso Barten caíram no chão.

A chuva de folhas soltas formou uma espécie de tapete aos seus pés e foi o espelho exato que precisava para ver tudo com clareza: do outro lado da cidade havia uma família de luto pela filha que sabiam ter perdido, e, em vez de concentrar-se na dor deles e em seu trabalho... estava esfregando-se num homem que não tinha nada a ver com ela.

Não poderia existir um conflito de interesses maior. Serviria de exemplo num livro didático. Mexendo nos botões da camisa, fechou-os rapidamente e, então, inclinou-se para pegar as cópias do relatório. Quando o cabelo caiu sobre o rosto, perguntou-se onde estaria seu elástico.

Quem poderia saber?

Colocando os fios atrás das orelhas, juntou as impressões com cuidado, reordenou as páginas e separou tudo em duas pilhas – a dela e a de Veck. Separado era melhor.

Ela tinha enlouquecido?

Vindo da porta da frente, ouviu um burburinho de palavras de agradecimento, a porta fechou-se em seguida e passos pesados trouxeram Veck de volta à cozinha.

Levantando-se rapidamente, colocou as duas pilhas de papéis sobre a mesa e manteve os olhos sobre elas. Não conseguia olhar para Veck. Simplesmente não tinha forças para aquilo no momento.

– Acho melhor você ir – sua voz não soou bem, mas ela não se sentia bem mesmo.

– Certo. Vou chamar um táxi.

Droga. A moto dele estava na delegacia, não?

Após soltar um palavrão em voz baixa, murmurou: – Está tudo bem. Posso levá-lo...

– Não, um táxi é melhor.

Ela assentiu e acariciou a primeira página do relatório... onde indicava os principais dados de Sissy e a data de seu desaparecimento.

– Vamos verificar tudo isso amanhã no escritório.

– Sim – quando ele vestiu o casaco, o som macio do tecido foi mais alto que a campainha. – Sinto muito.

Ela cruzou os braços sobre o peito e assentiu outra vez.

– Sim, eu também. Não sei o que deu em mim.

Mas sabia muito bem o que aconteceria se o jantar não tivesse chegado bem na hora. Momentos depois, ele foi embora e fechou a porta tão silenciosamente que não se fez som algum. Quando finalmente olhou por cima do ombro, tudo o que viu foi a pizza no balcão. Certo, como se fosse comer alguma coisa. A caixa foi direto para a geladeira.

Saindo da cozinha, passou pela mesa e encontrou sua meia-calça atrás de uma cadeira. Seu elástico de cabelo estava no chão perto do arco que dividia os ambientes, já dentro da pequena sala de jantar. Ao inclinar-se para pegá-lo, ficou frente a frente com as compras da Victoria’s Secret e percebeu que seu sutiã ainda estava beeem fora do lugar. Deixou as sacolas ali e resolveu aquele pequeno problema com alguns puxões e vários palavrões. Enquanto aproximava-se das escadas, decidiu que usaria sua velha lingerie de algodão de sempre para ir trabalhar no outro dia. Era isso, muito obrigada.


CAPÍTULO 12

 

– Pergunta. Mesmo se não quebrar nada para entrar, ainda é considerado invasão de domicílio?

Adrian soltou essa pequena pérola assim que assumiram forma em frente à porta de entrada da casa de Thomas DelVecchio Jr. – e, se considerassem tudo o que ele havia dito até hoje, sabiam que o anjo poderia ter soltado um comentário muito pior.

Jim nunca passou tanto tempo em sua vida desejando protetores e fones de ouvido. Mas pelo menos o bastardo não tentou o rap.

– E aí? – Ad disse.

– Olha só, nós nem sequer existimos – Jim murmurou. – Então, você pode alegar que nem estamos aqui de verdade.

– Ótimo argumento. Acho que é legal.

– Como se o contrário o incomodasse.

A casa era decorada ao estilo de Jim: funcional, nada de especial, muito espaço vazio. O problema? Poucos itens pessoais, e precisavam de algum objeto feito com um pouco de metal. De preferência ouro, prata ou platina. Se conseguissem algum objeto com impressões suficientes de Veck, poderiam usá-lo como ponte para entrar no cérebro do cara remotamente: de acordo com Eddie, era arriscado demais fazer isso pessoalmente. Não com Devina por perto.

– Vamos nos separar – disse Jim. – Vou examinar o andar de cima.

Quando Ad e Eddie espalharam-se, Jim subiu as escadas de dois em dois degraus. O quarto principal ocupava metade do andar. Claro que essa afirmação soa mais impressionante do que a realidade, pois a metragem total não passava de setenta metros.

– Meu Deus, quanta coisa, hein amigo? – murmurou.

Não havia nada no quarto além de uma cama grande e uma porcaria de mesa de cabeceira com um abajur sobre ela. Nada de despertador – provavelmente o cara usava o celular para isso. Nada de telefone fixo, mas para que se precisava de um? Havia uma TV de tela plana fixada na parede, cujo controle remoto encontrava-se entrelaçado nos lençóis.

Havia algumas roupas sujas num cesto de plástico no canto, meias e cuecas transbordavam pelos lados como se a coisa babasse algodão preto. Abriu o armário... e havia camisas penduradas nos cabides, que era bem melhor do que a mala que Jim usava há anos para guardar suas roupas. Atrás da porta, havia alguns cintos com fechos de metal, mas tinha de haver algo melhor para que Jim pudesse usar.

Foi até o banheiro. Todas as luzes apagadas, mas o cara não usava cortinas, então havia bastante iluminação vinda da rua. Assim que entrou no cômodo pequeno e azulejado, sentiu algo forte em sua nuca, como se formigas rastejassem sobre a pele.

Devina.

– Onde você está? – disse, dando uma pequena volta ao redor de si. – Onde diabos você está?

O demônio esteve ali, podia sentir sua presença no ar, como o mau cheiro que exala de uma grande lixeira, mesmo depois de ter sido esvaziada. Aquilo dava alguma credibilidade à revelação de Devina no restaurante.

Quando se voltou para a pia, franziu a testa. O espelho estava coberto com uma toalha e o formigamento em sua nuca aumentou quando estendeu a mão e puxou o tecido felpudo.

Nada, a não ser um armário de remédios dos anos 1980 embutido na parede. Mas o vidro frontal estava totalmente contaminado. Será que ela passou pelo objeto de alguma maneira? – perguntou-se. Recuou no mesmo instante em que as pontas do dedo fizeram contato com a superfície espelhada. O armário de remédios estava gelado.

Droga, Veck sabia que alguma coisa estava atrás dele, não? Por que cobriria a coisa? A questão era: até onde o demônio havia chegado dentro dele?

– O que fez com ele, vadia?

Recolocando a toalha, Jim abriu as gavetas, verificou o desodorante, o tubo de pasta de dente extra e o cortador de unhas. Ei! Talvez aquilo funcionasse. Só que dificilmente o objeto teria uma conexão emocional com... Uma luz estendeu-se pela frente da casa, atingindo a janela onde Jim estava e lembrando-lhe que não se preocupara em ficar invisível. Fazendo o corpo desaparecer, olhou pela janela. Na calçada em frente à garagem, Veck saiu do táxi amarelo.

Jim atravessou o quarto principal e desceu as escadas, só seria percebido se alguém sentisse a brisa que seus movimentos produziam. Na cozinha, viu que Ad e Eddie também tinham ficado invisíveis, e os três esperaram juntos, formando uma pequena fonte de calor no canto do cômodo.

Ela ainda está nele – disse em pensamento aos seus amigos.

Posso senti-la daqui – Eddie respondeu.

Na entrada da casa, a porta foi aberta, fechada e trancada. Em seguida, passos pesados aproximaram-se de onde eles estavam.

– Mas que... droga...

As maldições continuaram enquanto Veck entrava na cozinha, jogava as chaves e arrancava a jaqueta. Em seguida, foi até a geladeira e pegou uma cerveja. Tirou a tampa e bebeu com vontade, era evidente que tivera uma noite difícil no trabalho.

De repente, o cara ergueu a cabeça, apoiou a cerveja e olhou diretamente para onde os três estavam. Ele não deveria ser capaz de senti-los, muito menos de vê-los. Nenhum deles moveu-se. Nem mesmo Veck. E foi nesse momento que Jim olhou para o chão de linóleo atrás do detetive... e notou que o cara projetava duas sombras.

Única fonte de luz? Duas projeções em sentidos opostos sob seus pés?

Em silêncio, Jim apontou para o chão e seus colegas assentiram.

Veck estendeu o braço e tocou um interruptor, iluminando melhor o ambiente. Em seguida, ele olhou ao redor.

– Puta... que... pariu.

Obviamente, esse era o mote da vida daquele cara e, se Ad não se encorajasse a soltar a voz, Jim consideraria cantarolar um pouco daquela música também.

Veck balançou a cabeça e voltou para sua cerveja, tomando o que restava de uma vez só. Deixou a garrafa vazia sobre o balcão, pegou mais duas na geladeira e andou até a sala. Destino: sofá.

Jim e seus amigos foram atrás dele, mas mantiveram distância. Veck era intuitivo ao extremo ou contaminado o suficiente para ter um radar que percebesse a presença dos anjos. Conhecendo a sorte que tinha, tratava-se da última opção.

O detetive retirou as armas para se sentar: removeu uma bela automática e uma faca. Em seguida, retirou o distintivo brilhante da polícia, prata e dourado. O homem segurou a coisa sobre a palma da mão em formato de concha por um tempo. Olhava como se fosse uma bola de cristal... ou talvez um espelho onde tentasse ver a si mesmo.

Deixe isso de lado, cara – Jim pensou. – Termine as cervejas, deite um pouco e tire uma soneca. Prometo que devolvo quando terminar.

Veck seguiu as instruções e colocou o distintivo com seu nome e número de registro na polícia junto às armas, bebeu as cervejas uma seguida da outra e recostou-se nas almofadas. Seus olhos fecharam-se um momento depois. Levou um tempo para que as mãos relaxassem e caíssem para os lados, mas, em seguida, a respiração lenta e profunda confirmou o descanso – e a deixa para que eles pegassem o que precisavam e saíssem.

Jim estendeu a mão à altura da cintura e deu uma de cavaleiro Jedi com o distintivo, fazendo o objeto levitar e trazendo-o até ele ao longo da escuridão. No instante em que a palma de sua mão fez contato, sentiu o mesmo frio que sentira no andar de cima, a crueldade de Devina habitava no espaço entre as moléculas do metal.

O cuidado de Eddie parecia exagerado... até agora. Considerando a forte mensagem que o distintivo transmitia, não dava para ser pego de calças curtas ao atuar naquela tarefa.

Jim indicou a janela com a cabeça e, como uma névoa, os três desapareceram.

Do outro lado da cidade, no centro urbano de Caldwell, o Hospital São Francisco era um complexo que brilhava como uma das ruas de Las Vegas. Sob seus telhados de vinte estilos diferentes, vidas começavam e terminavam aos milhares a cada ano, a luta contra o Ceifeiro da Morte era travada por todos os médicos, cirurgiões e enfermeiras que ali trabalhavam.

Devina estava bem familiarizada com o local: algumas vezes, aqueles humanos de jalecos brancos e uniformes cirúrgicos precisavam de uma pequena ajuda para garantir que o trabalho fosse feito corretamente. E, geralmente, isso significava a morte, mas nem sempre.

O demônio entrou na ala de emergência pela porta frontal automática. Vestindo sua bela pele feminina, capturou todos os tipos de olhares vindos de pais e irmãos sentados na sala de espera. Era por isso que não pegava atalhos. Passar através de vidros, metais ou tijolos era eficiente, mas chato: adorava ser admirada. Cobiçada. Desejada. E os olhares ardentes das outras mulheres, todos aqueles olhares cheios de ódio e inveja? Melhor ainda.

Encontrar Kroner no labirinto de corredores, andares e unidades foi muito fácil. Estava há anos dentro dele, ajudando-o a aprimorar suas habilidades e dando suporte à sua obsessão. Já nasceu doentio, mas lhe faltava coragem para seguir os impulsos – e a impotência agiu a favor dela. Nada instigava mais a violência contra mulheres atraentes num louco como ele do que o próprio pênis murcho e fino.

A UTI que procurava estava sete andares acima, e ela gastou um pouco de tempo nos elevadores, caminhando, observando os uniformes das enfermeiras. Nada demais. Tecidos de algodão com péssimo corte que não realçavam nada na parte de cima e evidenciavam a flacidez da parte de baixo. Que diabos achavam que estavam fazendo com aquele visual?

Quando finalmente aproximou-se das várias portas duplas de metal, pegou uma carona com uma servente e um idoso sobre uma maca. O velhote estava apagado, mas a mulher não deu apenas uma olhada, foram várias. Sem dúvida, continuaria a observar se as portas não tivessem sido abertas no andar que precisava ficar. Lançou um sorriso sobre o ombro, saiu e não conseguiu deixar de rir um pouco.

Enfim, era hora de começar a trabalhar. Tinha a opção de assumir a forma de uma névoa e serpentear sobre o chão lustrado, mas isso causaria pânico demais. Ou poderia continuar invisível, o que era considerado uma falha de originalidade em sua cartilha: tinha passado séculos desfrutando da interação com os humanos, disfarçando-se entre eles, beliscando seus calcanhares e esfregando-se contra seus corpos – ou indo até mais além. Não havia motivo para desperdiçar a oportunidade de divertir-se um pouco naquela noite, mesmo trabalhando. Afinal, sua terapeuta estimulava-a a encontrar um equilíbrio na vida.

Ao chegar à unidade, atravessou um corredor cheio de fotografias de vários diretores de departamentos. Muito útil, como perceberia logo em seguida. Ela parou diante de várias, observando as características, os acessórios, os nomes e títulos, os jalecos brancos e as gravatas listradas ou roupas mais formais. Era como comprar uma roupa nova. E tinha seu serviço próprio de alfaiataria.

Virando numa esquina do corredor, olhou para os dois lados para certificar-se de que estava sozinha e, então, cuidou da câmera de segurança acima dela, enviando uma carga elétrica suficiente para desativá-la sem explodir.

Em seguida, assumiu a aparência e o jaleco branco do chefe da neurologia, um tal de dr. Denton Phillips. O disfarce foi um pouco decepcionante e flácido se comparado ao traje exuberante da bela morena. O homem tinha mais ou menos sessenta anos e, embora fosse um homem branco, arrogante, bem conservado, sentiu-se mal e feia. Ao menos era melhor do que realmente parecia, e era temporário.

Quando voltou ao corredor principal, caminhou como um homem e era ótimo ver o respeito e o medo nos olhos dos funcionários pelos quais ela passava. Não tão divertido quanto a luxúria e a inveja, mas agradável mesmo assim.

Não precisava perguntar onde Kroner estava. Era muito fácil de encontrá-lo – e não ficou surpresa ao se deparar com um policial uniformizado sentado do lado de fora do quarto. O homem levantou-se.

– Doutor.

– Só vou levar um minuto.

– Fique o tempo que precisar.

Não era bem assim... Ela tinha que trabalhar rápido. Não fazia ideia de como o dr. Denton Phillips realmente era e não havia como ter certeza se a altura estava correta. Isso acontecia quando tudo o que se tinha era uma foto para servir de molde: aquele não era um bom momento para encontrar quaisquer colegas que o conhecesse bem – ou pior, o homem em si.

A UTI onde Kroner estava tinha paredes de vidro com cortinas, era possível ouvir o silvo do equipamento médico que o mantinha vivo. Deslizou a porta, empurrou o tecido verde de um biombo e entrou.

– Você está péssimo – ela disse com voz masculina.

Ao caminhar até a cama, deixou de lado a aparência do bom doutor e mostrou-se como a bela mulher que Kroner tinha conhecido há dez anos.

Havia tubos entrando e saindo pela boca e pelo nariz, e os fios emaranhados que saíam de seu peito davam-lhe a aparência de uma central telefônica. Muitos esparadrapos de gaze branca sobre a pele cinza. Muitos hematomas. E seu rosto parecia bexiga de festa, todo vermelho e brilhante, esticado pelo inchaço.

Aquele não era o fim que ela tinha planejado e no qual havia trabalhado. Era para DelVecchio ter cedido e matado o desgraçado antes mesmo de Heron ficar sabendo qual era a próxima alma. Infelizmente, seu cordeiro sacrificial louco e pegajoso tinha sido abatido por outra pessoa.

Pelo amor de Deus, era óbvio que não sobreviveria. Ela não era um médico – apenas interpretava um de vez em quando –, mas só aquela palidez já a fez pensar em funerais.

No entanto, ainda não era tarde demais para o bastardo. E, após esse deslize, não correria mais nenhum risco de perder essa rodada. Hora de tornar-se um pouco mais agressiva, especialmente se pensasse no acordo que tinha selado com Heron.

– Ainda não é sua hora – ela inclinou-se sobre a cama. – Preciso de você.

Fechando os olhos, acomodou-se sobre o corpo do homem, cobrindo-o por completo e, em seguida, infiltrou-se dentro dele através de cada poro que havia. O poder inato nela preencheu o vazio, reenergizou Kroner. Ao puxá-lo da espiral da morte, ela curou-o e deu-lhe forças ao mesmo tempo. E pensar que humanos confiavam em aparatos médicos. Tão rudimentar.

Os olhos de Kroner abriram-se conforme ela se retirava e reassumia sua forma. Então, ele encarou-a. Um brilho amoroso surgiu em seu olhar. Patético, mas útil.

– Viva – ela ordenou –, e nos veremos em breve.

Ele tentou acenar com a cabeça, mas havia muitos acessórios de entubação em sua garganta. Contudo, cumpriria a ordem. Quando ela olhou para o dispositivo de monitoramento, a frequência cardíaca já tinha alcançado estabilidade e sua pressão arterial estava regulada. O nível de oxigênio saiu de setenta e foi para noventa.

– Bom menino – ela disse. – Agora, descanse.

Erguendo a mão, colocou-o em um sono profundo e restaurador e, em seguida, reassumiu a imagem do bom e velho dr. Denton.

Entrar, sair, partir.

Saiu da sala envidraçada, acenou para o guarda e caminhou pelo corredor, passando por bajuladores e puxa-sacos que quase se ajoelhavam enquanto passava. O que era agradável. Ao ponto de ficar tentada a desfilar pelo hospital por um tempo, apenas para sentir melhor a experiência de ser aquele homem.

Mas não podia, a última coisa que precisava era encontrar alguém que realmente o conhecesse. E, mais importante, tinha um compromisso com a terapeuta bem cedo no outro dia e ainda tinha que escolher o que vestiria – isso poderia levar horas. Motivo pelo qual precisava de uma maldita terapia. Hora de ir.


CONTINUA

CAPÍTULO 7

 

Ao meio-dia, Reilly deixou a delegacia a pé e seguiu para o centro da cidade. O dia estava glorioso, com um sol de abril tão radiante e quente que afugentava aquela sensação dos doze graus exibidos nos termômetros. Mas a oficial não era a única que se beneficiava com o clima. Havia uma multidão nas calçadas e atravessando as faixas de pedestres, atrapalhando o trânsito, ao passarem com refrigerantes e sorvetes nas mãos; muitos comiam alguma coisa à beira de uma fonte ou sentados num banco do parque. Após seis meses de escuridão gelada, o Estado de Nova York ansiava por algum sinal de que o inverno realmente estivesse indo embora... E aquela bela hora do almoço não seria desperdiçada.

Aparentemente, Reilly estava no intervalo do trabalho, assim, poderia colocar a cabeça em ordem antes de ver Veck outra vez. Porém, seus passos tinham um propósito e uma direção aos quais ela recusava-se prestar atenção.

O Shopping Galeria era um dos projetos de revitalização do centro, mas, ao contrário de muitos outros, este realmente deu certo. Com uma grande loja de departamentos e uma grande livraria, os quatro quarteirões de prédios dos anos 1920 tinham sidos interditados, liberando apenas a passagem de pedestres. Era um atrativo que tinha revigorado o local e tornado-se o refúgio favorito de milhares de funcionários de escritório, assim como Reilly.

Contudo, diferentemente de suas colegas, era a primeira vez que andava pelas diversas lojas daquele centro comercial... quando parou em frente a uma delas, atraída pelo brilho rosa que irradiava do vidro. Oh, não. De jeito nenhum. Aquilo não era sua... Uma mulher saiu balançando duas grandes sacolas com as mãos e com um sorriso de orelha a orelha.


– Liquidação! – disse a Reilly. – Oba!

Sua voz saiu tão alta e estridente que parecia ter respirado hélio. Mas talvez fosse por usar um corpete embaixo do casaco – ao menos era o que parecia. Enfim, Reilly balançou a cabeça; liquidação ou não, não era o tipo de coisa que ela... Já tinha entrado na loja.

Maldição. Nunca tinha visto tanta roupa íntima num só lugar em toda sua vida.

O estilo Victoria’s Secret não é para quem tem problemas cardíacos... ou um traseiro grande – ela pensou, perguntando-se há quanto tempo, exatamente, não aparecia na academia. Desde o ensino médio. Não... Talvez tenha sido desde o fundamental.

Cara, toda aquela renda intimidava. Assim como as imagens tratadas das modelos expostas em toda parte, de tamanhos bem maiores que o natural. E, para piorar as coisas, o lugar estava lotado de mulheres que não eram bem do tipo de Reilly. Eram garotinhas com seus vinte e poucos anos, pegando tangas, sutiãs de bojo, peças de tamanhos mínimos e outras coisas. Mesmo os pijamas ou moletons pareciam estar destinados a ser arrancados com os dentes por algum garanhão...

– Oi, posso ajudá-la?

Reilly estremeceu.

– Ah...

A vendedora era uma linda afro-americana que, provavelmente, ficava ótima em cada peça pendurada na loja ou dobrada sobre as mesas. Comparando-se a ela, Reilly sentiu-se uma coisa esquisita e sardenta do tipo que pede para fazer tudo no escuro.

– Estou bem, obrigada...

– Estamos em liquidação.

– Sim, vi uma moça saindo com algumas sacolas – o que, considerando a pequenez das roupas ali, significava que a garota tinha comprado quinhentas, talvez seiscentas, peças daquilo tudo.

– Está procurando por alguma coisa em particular?

Reilly estava prestes a balançar a cabeça recusando, quando sua boca abriu-se por conta própria.

– Quero sentir-me mulher, e não uma oficial de polícia. Eu apenas... estou cansada de mim e do meu trabalho neste momento. Entende o que quero dizer?

Oh, droga, o que ela estava dizendo?... Só uma observação: aquilo não tinha nada a ver com Brittany, que se escreve Britnae.

A vendedora sorriu.

– Entendo. Você veio ao lugar certo.

Reilly olhou para um maiô asa-delta com estampa de tigre e não teve tanta certeza disso.

– Acho que nunca comprei lingerie antes... Nada que escolhesse com cuidado, meus sutiãs são do tempo da Guerra Civil. Talvez de alguma guerra do século XVIII.

– Bom, meu nome é Ralonda – estendeu a mão – e posso cuidar de você.

– Reilly. Quero dizer... Sophia – quando apertaram as mãos, ela murmurou: – Você tem algum tipo de formação em psicologia, por acaso?

– Na verdade, é isso que eu vou estudar na Universidade de Nova York, no campus de Caldwell.

– Deus, você é perfeita.

– Imagine – Ralonda sorriu outra vez, exibindo seu sorriso. – Vamos tirar suas medidas e depois vou trazer algumas coisas.

Uma hora e US$ 673,43 depois, Reilly saiu com três sacolas cheias de coisas. Quando chegou à porta, de cabeça erguida, viu-se sorrindo para as duas garotas que espiavam as vitrines.

– Eles estão em liquidação – disse a elas. – Melhor entrar. E chame por Ralonda... Ela é a melhor.

Elas entraram correndo, e Reilly caminhou até a delegacia com uma curiosa sensação de leveza. Talvez o sutiã de bojo cereja com calcinha combinando que acabara de vestir tivesse propriedades antigravitacionais, erguendo não apenas seus seios mas também o corpo inteiro. Fazia com que se perguntasse o que os astronautas usavam por baixo de seus trajes. A horrível imagem de um astronauta velhaco veio-lhe à mente. O cara usava apenas um minúsculo conjunto cor-de-rosa.

Deu-se conta de que entrar na delegacia com aquelas sacolas da Victoria’s Secret e um andar leve não passaria a mensagem certa... Especialmente agora que seria a parceira de Veck no próximo mês. Esquivando-se pela lateral da delegacia, aproximou-se de seu carro e escondeu as compras no porta-malas.

Desta vez, quando entrou pelos fundos e passou pelo guarda na recepção, estava um tanto constrangida, pensando se alguém poderia saber o que usava por baixo das roupas. Porém, como sempre, ninguém prestou nenhuma atenção nela. Apesar dos muitos talentos dos vários membros da polícia, parece que visão de raio X não era um deles.

A primeira parada foi seu escritório. Verificou rapidamente o correio de voz e os e-mails. Em seguida, pegou um bloco de notas e seguiu para o Departamento de Homicídios. E, como se pode imaginar, a confiança nas propriedades ocultas do algodão e da Lycra acertou em cheio a todos ali quando abriu a porta do departamento. Todos olharam para cima, inclusive Veck.

Certo. Agora entendia por que as pessoas odeiam aqueles sonhos em que andam nuas numa sala cheia de pessoas. Nunca tivera um pesadelo assim antes e, enquanto colocava o bloco de notas em frente aos seios, não estava com muita pressa de vivenciá-lo.

As pessoas apenas acenaram e cumprimentaram, e ela acenou e cumprimentou de volta enquanto dirigia-se até Veck. O cubículo ao lado dele estava praticamente vazio, havia apenas um computador e um telefone. Quando Reilly sentou-se, manteve o caderno contra o peito.

Veck encostou-se na cadeira fazendo com que seu peito parecesse enorme contra a camisa branca.

– Tudo certo na sua sala?

– Sim. No que vamos trabalhar hoje?

Ele fez um gesto com a cabeça indicando a tela do computador.

– Encontrei alguma coisa para passar o tempo. Estava esperando você chegar... Pensei em fazer um reconhecimento de campo e consultar outra vez algumas testemunhas.

– Ótimo. Qual é o caso?

– Digo no caminho. Importa-se se usarmos o seu carro? Só tenho moto.

– Ah... – com certeza não haveria motivo algum para ele olhar no porta-malas. – Claro. Sim. Tudo bem.

– Obrigado, oficial. Ou deveria chamá-la de detetive nas próximas semanas?

Quando se levantaram juntos e ela viu-se com o rosto na altura do peitoral de Veck, sabia que era hora de sufocar sua Britnae interior.

– Só Reilly está bom – respondeu.

Por um momento, os olhos de Veck baixaram, e ela poderia jurar que ele murmurou “com certeza está”.

Sem dúvida a lingerie nova fazia-a ouvir coisas.

– Espere um minuto... esse não é um caso antigo de homicídio.

Ao pararem num sinal vermelho, Veck recebeu um olhar sério de sua nova parceira... o que foi muito excitante.

Endireitando-se no banco e rezando para que sua ereção não explodisse antes de chegarem ao local de destino, fez um esforço para manter a voz equilibrada e sem qualquer sinal de rouquidão. Porém, pelo amor de Deus, se aquilo fosse um indício de como seriam as próximas quatro semanas... estava com problemas.

– Tecnicamente, é uma desaparecida...

– Não existe “tecnicamente” nesse caso. Não há um corpo.

– Posso terminar?

– Desculpe – quando o farol ficou verde, ela pisou no acelerador. – Mas tenho um pressentimento de onde isso dará, e você não chegará nem perto do caso Kroner.

Veremos – ele pensou.

– Recebi um telefonema do FBI esta manhã. Estão trabalhando no caso dessa garota desaparecida e queriam saber se existe mais alguma novidade. Respondi que ficaria feliz em examinar o que já temos sobre...

– O FBI pode fazer isso sozinho...

– Não há motivo para não ser amigável. Ou para concluir que há alguma ligação com Kroner.

Ela franziu a testa.

– O que o FBI acha?

– Não perguntei. Talvez seja interestadual – pois, talveeez, aquilo fizesse parte do caso Kroner... e foi por isso que ele não perguntou nada.

– Só para que fique bem claro: se houver qualquer ligação com o caso Kroner, estamos fora.

– Certo – colocou a mão no bolso da frente do casaco e pegou um relatório de três páginas. – Cecília Barten, dezoito anos, desaparecida há apenas três semanas. Vista pela última vez saindo de casa para ir ao supermercado na avenida Union. Câmeras de segurança do estacionamento e da saída da loja não gravaram nada, graças a uma sobrecarga de energia.

– E por onde vamos começar?

– Pela casa dos pais. Quero verificar se deixaram passar alguma coisa. A mãe dela está esperando por nós... Vire à direita aqui.

Reilly seguiu as placas e virou, entrando num bairro não muito longe de onde Veck morava. Ali as casas eram um pouco maiores e mais bem conservadas. Não havia carros estacionados na rua, e Veck imaginou que não haveria grandes caminhonetes ou sedãs guardados naquelas garagens. Não tanto quanto minivans... Porém, naquela região, moravam vários casais com filhos, então, talvez estivesse errado.

– Certo – ele murmurou, olhando as casas – 491, 493, 495... aqui.

Reilly estacionou no meio-fio em frente ao número 497. Depois de desligar o motor, saíram do carro...

Logo atrás deles estacionou uma suv dourada com insulfilme e três agentes federais desceram. Os homens estavam à paisana e, quando saíram, o motorista de cabelo loiro escuro exibiu suas credenciais.

– Jim Heron. Conversamos pelo telefone. Estes são meus parceiros, Blackhawk e Vogel.

– Thomas DelVecchio.

Quando apertaram as mãos, Veck sentiu uma energia estranha e recuou.

– Esta é a oficial Reilly. Quer entrar conosco?

O agente estreitou os olhos ao observar a casa.

– Sim. Obrigado. Meus parceiros vão esperar aqui.

Boa ideia. Seria difícil que todos coubessem naquele hall minúsculo. Enquanto passavam pela entrada de tijolos à vista, uma bandeira balançava casualmente com a brisa da primavera. Ela tinha um tom pastel e um desenho em formato de ovo estampado, metade cor de lavanda, metade cor-de-rosa e com uma faixa amarela ao meio.

A Páscoa ocorrera no fim de março, bem na época do desaparecimento da moça. Sem dúvida, a bandeira fora esquecida ali... ou talvez a família rezasse para que Cecília Barten ressuscitasse a partir daquilo. De qualquer maneira, a ruína tinha atingido aquela casa, mesmo que ainda restassem quatro paredes e um teto: a garota estava morta. Veck sentia em seus ossos, mesmo não sendo do tipo que sente coisas.

Campainha... espera... espera...

Veck olhou para Reilly. Parecia triste ao se inclinar para trás e observar as janelas do segundo andar... Será que a oficial estava tentando descobrir qual delas correspondia ao quarto da garota? Atrás dela, Heron passava uma excelente impressão de uma estátua: grande e imóvel. Seus olhos estavam focados na porta da frente, como se pudesse enxergar através das paredes.

Veck franziu a testa. Havia algo estranho no cara. Contudo, não era uma questão de competência. O agente irradiava uma precisão militar sobre tudo, desde a forma com que exibiu suas credenciais até o jeito que andava e como se mantinha imóvel. Ainda assim... o que será que...

A porta abriu com um rangido suave, e a mulher do outro lado parecia que não dormia nem comia direito há muito tempo.

– Bom dia, senhora. Sou o detetive DelVecchio. Estes são a oficial Reilly e o agente Heron.

Todos mostraram suas credenciais.

– Por favor, entrem – ela recuou e fez um gesto com o braço. – Posso servir alguma coisa?

– Não, obrigado, senhora. Agradecemos por dispor de seu tempo para conversar conosco.

A casa estava impecável, com cheirinho de desinfetante e lustra-móveis. O que sugeria que a senhora Barten limpava as coisas em momentos de tensão.

– Será que poderíamos conversar na sala de estar? – ela disse.

– Por favor.

A sala estava cheia de lembranças e bens de família, com papel de parede florido e dois sofás lisos. Quando a senhora Barten sentou-se numa poltrona e todos tomaram um lugar no sofá, Veck observou bem a mulher. Estava saindo da casa dos quarenta, com muitos cabelos loiros puxados para trás e enrolados num coque. Tinha um corpo magro e alongado... O peso que perdera recentemente realmente lhe fazia falta. Nada de maquiagem e, mesmo assim, era bonita. Porém, tinha um olhar vazio.

Droga, por onde começar?

– Senhora Barten – Reilly interrompeu –, pode nos contar sobre sua filha? Coisas que ela gostava de fazer ou nas quais era boa. Lembranças diversas.

Encarando sua nova parceira, Veck teve vontade de gesticular um “obrigado” com a boca. Especialmente quando a tensão deixou os ombros da mulher e o esboço de um sorriso surgiu.

– Sissy era... é... – ela se corrigiu. – Por favor, me desculpem. Isto é difícil.

Reilly aproximou-se da poltrona.

– Leve o tempo que precisar. Sei que pedi muito.

– Na verdade, ajuda quando falo dela. Faz com que me sinta melhor.

Numa voz hesitante, que gradualmente ganhou ímpeto, as histórias começaram a surgir, pintando o retrado de uma garota muito inteligente, boa e um pouco tímida, do tipo que nunca se envolveria em problemas se pudesse evitá-los.

Cecília Barten foi assassinada – Veck pensou. Não era um daqueles relatos de fuga motivados por drogas ou por causa do ciúmes de um namorado abusado e descontrolado. Era uma família estável. Uma jovem feliz. Futuro brilhante. Até que um carro bateu contra sua vida e levou tudo.

– Importa-se que eu olhe as fotos que estão ali? – Veck disse quando houve uma pausa na narrativa.

– Por favor.

Levantou-se e foi até uma das estantes embutidas ao lado de cada uma das janelas arqueadas que davam para a rua. Dois filhos. A outra era a irmã mais nova. Havia fotos de festas de formatura, aniversários, passeios no campo e jogos de hóquei... reuniões de família e casamentos... Natais.

Olhava com admiração tudo aquilo. Cara, aquilo era o melhor que a vida “normal” tinha para oferecer e, sem razão alguma, pensou em como, enquanto ele crescia, sua família não conseguiu ter nada daquilo... momentos felizes e fotografias para exibi-los. O tempo que passou com sua mãe não dava vontade de compartilhar com ninguém. Aliás, não era nada que quisesse lembrar.

Ele estendeu a mão e pegou uma das fotos 5×7. Cecília estava em pé ao lado de seu pai, braço estendido sobre o dele e com uma das mãos descansando sobre as dele. Era muito parecida com sua mãe, apenas um pouco com seu pai. Mas a linhagem era clara.

–... ligou para casa? – Reilly disse.

Veck voltou à conversa.

– Isso – a senhora Barten disse. – Ela saiu por volta das nove horas. Eu tinha acabado de operar meu pé... Corrigi uma deformação no dedo... – por um momento, a mulher parecia ruminar alguma coisa em pensamento, e Veck apostava que era o quanto desejava voltar no tempo, quando suas maiores preocupações eram encontrar sapatos confortáveis. Mas, talvez, também estivesse se culpando. Ela balançou a cabeça e voltou a se concentrar.

– Eu estava imobilizada. Dei a Sissy uma lista de compras e... ela me ligou do mercado. Não sabia se eu queria pimenta verde ou vermelha. Eu queria as vermelhas. Estava fazendo um... – as lágrimas vieram e ela piscou com força para afastá-las. – De qualquer maneira, essa foi a última vez que alguém teve notícias dela.

Veck voltou a colocar a fotografia na prateleira. Quando foi sentar-se ao lado de Heron outra vez, franziu a testa. O cara olhava para a mãe da vítima como se ele fosse uma filmadora, como se estivesse lendo e registrando cada contração do olho ou da boca que ela fazia enquanto falava.

Quando o radar de Veck começou a soar feito louco, não ficou claro o motivo... Seria a garota desaparecida, ou sua mãe triste e adorável, ou aquele homem imenso que parecia ter a capacidade de incendiar alguma coisa com aquele olhar?

– Posso perguntar uma coisa? – Veck disse. – Ela teve algum namorado?

Com o canto do olho, pôde ver Heron apertando as coxas com força.

– Não. Tinha alguns amigos, claro, e um encontro em bailes de formatura aqui e ali... mas nada sério. Ao menos, não que ela tenha me contado... e costumava ser sincera sobre o que se passava em sua vida.

Aquelas mãos relaxaram de repente.

– Quer perguntar alguma coisa? – Veck disse ao agente.

Houve um longo silêncio. Pouco antes de tudo ficar realmente estranho, o cara disse com uma voz baixa e profunda: – Senhora Barten, vou trazê-la de volta para casa. De uma maneira ou de outra, vou trazê-la de volta para a senhora.

Veck recuou, pensando: Droga, não faça assim, cara.

– Ah, o que ele quer dizer é...

– Está tudo bem – a senhora Barten apertou a garganta com uma das mãos. – Não estou me enganando. Sei que ela está... que não está mais entre nós. Uma mãe sente o frio no coração. Só queremos saber o que aconteceu e... providenciar um descanso adequado para ela.

– Vai tê-la de volta. Juro.

Agora, a senhora Barten soluçava... e por que não choraria? O cara parecia um guerreiro acostumado com a rotina da vingança, era mais um vingador do que um agente.

– Obrigada... Agradeço a todos vocês.

Veck olhou discretamente o relógio.

– Se me der licença, eu e minha parceira vamos nos dirigir ao supermercado. O gerente disse que sairia mais cedo hoje.

– Oh, sim, claro.

O agente Heron ajudou a senhora Barten a se levantar dando-lhe a mão.

– Seria incômodo se eu desse uma olhada no quarto dela?

– Claro que não... Vou levá-lo até lá – voltou-se para Veck e Reilly. – Se precisam ir agora, voltem sempre que precisarem.

– Obrigada – Reilly disse. – Faremos isso.

– E vamos sair logo por aquela porta – Veck murmurou.

Quando o agente Heron e a mãe da vítima chegaram às escadas, Veck parou no hall e observou os dois subirem juntos. Uma janela no andar de cima iluminava-os, o raio de luz solar atingia os dois rostos e agia como um farol para...

Espere um minuto.

Veck olhou para a sala de estar... de onde os raios dourados vinham do lado oeste. Impossível. Não poderia estar vendo aquele efeito de luzes em direções opostas: vinha da frente e dos fundos da casa.

– O que é isto? – Reilly disse suavemente.

Veck voltou a olhar para a escada. Heron e a senhora Barten não podiam mais ser vistos, e a luz tinha ido embora também, a janela não mostrava nada além de galhos de árvores atrás da casa e o claro céu azul sobre ela.

– Vou subir – disse à sua nova parceira. – Só por um minuto.


CAPÍTULO 8

 

Quando Jim seguiu a mãe de Sissy, sentiu-se muito oprimido. Num canto escuro de sua mente, sabia que precisava manter o controle diante de Veck, mas isso não aconteceria por muito tempo.

Virando-se no alto da escada, os sons da casa subiram a níveis de um heavy metal estridente. Tudo, desde o rangido sutil do chão acarpetado sob suas botas até a conversa suave que acontecia no saguão lá embaixo ou sua própria respiração soando forte atrás da garganta, tudo parecia gritar em seus ouvidos.

De repente, Veck apareceu atrás deles e fez um comentário rápido. Jim assentiu para o cara... e, imediatamente, esqueceu até mesmo que estava ali.

– O quarto de Sissy é por aqui.

Os três seguiram à direita e, quando a senhora Barten hesitou diante da porta fechada, Jim ergueu a mão para colocá-la em seu ombro... mas não conseguiu fazer contato.

– Prefere que entremos sozinhos? – ele perguntou.

A senhora Barten abriu a boca. Mas apenas assentiu com a cabeça.

– Não entro aqui desde... aquela noite. Está do jeito que ela deixou.

Naquele momento, o telefone tocou, e ficou evidente o alívio no rosto da mãe de Sissy.

– Vou atender. Fiquem à vontade para abrir as gavetas e o armário, mas se precisarem levar alguma coisa, poderiam me dizer o que é?

– Com certeza – Veck respondeu.

Assim que a mãe de Cecília apressou-se em descer as escadas e desapareceu no que Jim concluiu ser a suíte principal, ele abriu a porta... um cheiro maravilhoso. Entrando, fechou os olhos e tentou não se sentir um pervertido ao respirar fundo. Perfume. Loção corporal. Lençóis secos. Era... extraordinário. Mas ele não pertencia àquele quarto. Já tinha feito coisas que não deveriam sequer passar pela cabeça de alguém que entrasse num quarto como aquele... e a representação daquelas maldades estavam na tinta que cobria suas costas. Além disso, estava armado. E ainda havia aquela porcaria que fez com o demônio na noite anterior. Sentia-se sujo.


Enquanto Veck fazia o reconhecimento do quarto sozinho, Jim abriu os olhos e foi até uma estante modulada com escrivaninha embutida em frente à janela. A superfície plana e as prateleiras eram pintadas de branco, mas a cadeira era azul, combinando com as cortinas e o papel de parede listrado. Havia um tapete com franjas trançadas sobre a área acarpetada. Feito a mão. Tinha de ser.

Os livros enfileirados estavam em ordem e tinham uma temática bastante feminina. Gostava de Jane Austen, mas também havia uma prateleira inteira de Gossip Girls... provavelmente deixada ali desde que Sissy tinha treze anos. Algumas medalhas, vermelhas e azuis. Troféus. Sobre a mesa havia um notebook junto com dois livros, um sobre cálculo e outro sobre... trigonometria avançada? Hum. Sua garota era mais esperta que ele.

Havia também uma revista, Cosmopolitan, daquele mês. Tudo bem, a capa com título “orgasmo” em fonte gigantesca e cor rosa-choque não combinava exatamente com o resto daquele ambiente inocente de trabalhos escolares... mas ela estava crescendo, não estava?

Virando-se, foi até o pé da cama de solteiro. Agora sabia por que a mãe da garota não entrava ali. A colcha azul estava puxada para trás e os travesseiros ainda amassados, como se Sissy tivesse acabado de tirar uma soneca.

– Estou indo – Veck disse. O que fez Jim se perguntar há quanto tempo estariam naquele quarto.

– Vejo você em breve – disse Jim distraído.

– Entendido.

Quando ficou sozinho, a mão de Jim estremeceu ao estender-se para tocar os lençóis. Ao acariciar os objetos que sua pele tinha tocado, pensou em Devina e no que aquele demônio tinha feito com a garota... e com a família dela.


Adrian e Eddie estavam errados. Se queriam Jim concentrado na guerra, ali era exatamente o lugar onde precisava estar. Aquilo era motivação para vencer: Sissy nunca mais deitaria em sua cama. Não terminaria o artigo que estava lendo. E não mais lidaria com números. Nunca mais. Mas, ao menos, Jim poderia providenciar um lugar melhor para Sissy ficar enquanto não pudesse se juntar a seus pais e sua irmã por toda eternidade. E, então, faria Devina pagar mil vezes por tudo o que fez.

Na mesa de cabeceira havia um despertador branco, outra revista – desta vez era a In Touch – e o controle remoto de sua pequena televisão branca. Teve a impressão de que, mesmo fazendo faculdade, Sissy voltava aos fins de semana, e uma espiada em seu armário confirmou isso. Considerando o número de blusas, calças, saias e vestidos, não parecia que tudo aquilo tinha sido excluído da lista dos favoritos, mas que estava pronto para usar. Havia também vários sapatos no chão.

Deixou as gavetas da cômoda de lado, pois não sabia em qual delas guardava as... roupas íntimas. Provavelmente, nas duas primeiras, mas não correria o risco de confiar no chute. Já tinha assumido o papel de um mero observador ali, pois não tinha mais esperança em encontrar alguma coisa que o ajudasse a salvá-la. Deus era testemunha de que não havia nada na Terra capaz disso. Já ele queria apenas... estar perto dela.

Certo. Muito bem. Isto era o tipo de coisa com a qual Ad e Eddie preocupavam-se. Assim, percebeu que era hora de ir. Mais uma vez, não tinha noção de quanto tempo estava ali. Seria dois minutos ou duas horas, mas a última coisa que desejava era a mãe de Sissy batendo na porta para saber se ele estava bem ou se já tinha ido embora.

Não pegaria nada, mesmo sentindo a tentação de ficar com algum objeto, algo para se fiar em momentos difíceis... alguma coisa de Sissy. Contudo, a família já havia perdido demais e não tiraria mais nada deles.

Jim passou um último momento olhando ao redor e, então, obrigou-se a sair. No corredor, fechou a porta e ouviu. A mãe de Sissy estava no quarto ao lado, falando em voz baixa e embargada.

Desceu as escadas e esperou discretamente no hall onde ficava a porta da frente. Inclinando-se para o lado, olhou a sala de estar em direção às fotos ao longo das grandes janelas. A que mais lhe chamou a atenção – tanto que se aproximou dela – foi uma foto de rosto de Sissy. Ela não olhava para a câmera, mas para o lado, e não sorria. Parecia mergulhada em seus pensamentos, e a expressão em seu rosto não era a de uma menina, mas de uma... sobrevivente. Parecia ter uma vontade de ferro.

– Ela não fazia ideia de que a câmera a focava.

Jim endireitou-se e olhou para a mãe dela.

– Não?

A senhora Barten aproximou-se e pegou o retrato.

– Sempre sorria quando havia uma câmera por perto. Quando seu pai tirou esta, estava assistindo suas colegas de time jogarem... Praticava hóquei de campo. Tinha torcido o tornozelo e estava no banco... mas queria estar com elas – a mulher ergueu o olhar. – Era mais forte do que aparentava ser.

Quando seus olhos encontraram os de Jim, ele respirou fundo e pensou: Graças a Deus... isto a manterá sã até o momento em que eu conseguir salvá-la.

A senhora Barten inclinou a cabeça para o lado.

– Você é diferente dos outros.

Hora de ir.

– Sou como todos os outros.

– Não, não é. Nas últimas três semanas, vi mais oficiais, detetives e agentes do que em qualquer programa policial na TV que tenha assistido ao longo de toda minha vida – estreitou o olhar – Seus olhos...

Jim virou-se para a porta.

– O detetive DelVecchio entrará em contato...

– Quero te dar uma coisa.

Jim congelou com a mão na maçaneta e pensou – Má ideia – estava louco para aceitar qualquer coisa que ela oferecesse.

– Não precisa.

– Aqui.

Quando ele virou-se para dizer um “não, obrigado”, percebeu o toque daquelas mãos em sua nuca. Havia colocado em seu pescoço uma delicada corrente de ouro.

– Ela usava todos os dias. Encontrei em cima da pia do banheiro dela... Tinha tomado banho e esqueceu de colocar de volta... De qualquer maneira, fique com isto.

Pendendo na corrente havia um delicado pássaro feito de ouro. Uma pomba.

– Foi presente do pai no aniversário de dezoito anos. Fazia parte de um conjunto.

Jim balançou a cabeça.

– Não posso. Eu...

– Fique. Fará com que seus olhos continuem assim, nossa família precisa disso.

Depois de um momento, ergueu as mãos e substituiu os dedos da senhora Barten pelos seus. O colar e o pingente não pesavam nada. E mal cabiam em volta de seu pescoço. Mas seu dedo passava por ele como um sonho, mesmo o fecho sendo pequeno e suas mãos, enormes.

Quando baixou os braços, olhou para ela.

– Como estão os meus olhos? – disse ele com voz rouca.

– Desolados.


CAPÍTULO 9

 

O supermercado ficava a pouco mais de oito quilômetros de distância da casa, mas Reilly levou um bom tempo para chegar lá. Entre o trânsito e os faróis vermelhos, estava começando a achar que os dois passariam uma eternidade naquele carro.

Ou talvez o zumbido em sua cabeça fizesse parecer assim.

– No que está pensando? – Veck disse.

Apertou as mãos no volante e endireitou-se no banco do motorista.

– Se o caso de Cecília Barten estiver relacionado às vítimas de Kroner, teremos que deixá-lo. Está preparado para isto?

– Sim, estou.

Ao olhar para ele, percebeu que o maxilar de seu novo parceiro estava rígido e o corpo, todo tenso.

– Tem certeza? – porque ela não tinha.

– Sim, tenho.

Você é um filho da mãe teimoso que faz o que quer mesmo que isso contrarie uma ordem direta? Sim. Sou.

Assim que entrou no estacionamento e começou a caça por uma vaga, seu telefone tocou.

– Oficial Reilly. Uh-hum, sim... não é surpresa. Mesmo? Certo, e obrigada por me contar. Sim, mantenha-me informada.

Desligou e estacionou entre um carro prata antigo e uma caminhonete azul. Virando-se para Veck, disse: – Kroner está muito mal. Não há esperanças de que ele sobreviva.

O rosto rígido de Veck não expressou nada.

– Que pena. Talvez ele soubesse o que aconteceu.

– E saiu o resultado das análises feitas nas amostras que coletaram dele... Havia resíduos de saliva, mas as leituras não dão plena certeza quanto à fonte. Há semelhanças com pumas e lobos. Difícil dizer com certeza, mas a hipótese de ter sido um animal parece continuar ser a mais correta.

Ele assentiu e abriu a porta.

– Se importa se eu fumar antes de entrar?

Parece que estava tendo uma reação, afinal.

– Sem problema.

Saíram, e Veck foi até a parte traseira do carro, inclinando-se contra o porta-malas e tirando um Marlboro do maço... Um homem como ele poderia fumar outra marca? Quando ele acendeu o cigarro, Reilly esforçou-se para não pensar que suas calcinhas e seus sutiãs estavam separados de Veck apenas pela tampa do porta-malas.

Veck teve o cuidado de não exalar perto dela ou na direção em que o vento levasse a fumaça até a colega.

– Mau hábito – ele murmurou. – Mas ninguém vive para sempre.

– Verdade.

Encostando-se sobre o carro, ela cruzou os braços sobre o peito e olhou para o sol. O calor em seu rosto era uma bênção e fechou os olhos para apreciá-lo um pouco mais. Quando finalmente abriu os olhos outra vez, ficou chocada. Veck encarava-a e havia uma expressão em seu rosto... uma sugestão sexual. Ela tinha quase certeza de que estava deduzindo errado. Mas, em seguida, ele desviou rápido o olhar. Não era uma atitude comum quando se estava pensando em trabalho.

De repente, a temperatura primaveril aumentou e, agora, era ela quem o encarava. Bem, “flerte” parecia uma boa palavra para o que estava acontecendo.

Quando ele levou o cigarro aos lábios, sua boca se abriu e houve uma leve sucção, a ponta do objeto ficou alaranjada e os dedos indicador e médio aliviaram brevemente a pressão que faziam sobre o cigarro.

Oh, malditos sinos – ela pensou. Fumar era um hábito mortal e nojento, o qual ela não aprovava... Por isso, era perturbador perceber que todos os filmes ao estilo Casablanca faziam bem ao aproximar a câmera em longos closes em cenas como esta. Havia um toque erótico inegável em tudo aquilo. Especialmente quando a fumaça saía devagar de sua boca e projetava uma breve sombra em seus olhos azuis-marinhos e em seus cabelos escuros bem cortados.


Desviou o olhar rapidamente antes que ficasse presa ao...

– Então? – ele perguntou.

– Desculpe, então o quê?

– Perguntei o que achava.

Certo. Que tal responder assim: acho que todo o vermelho cereja que estou usando embaixo das roupas deformou o meu cérebro. Porque estou achando a ideia de subir em cima de você e montar feito uma vaqueira de chapéu na cabeça muito interessante.

– Preciso de mais informação antes de formar uma opinião – Então, que tal acender outro cigarro desses, garoto malvado, e arrancar as calças depois? – Oh, Deus.

– Você está bem? – ele disse, inclinando-se e colocando a mão livre sobre o braço dela. – Não comeu muito no café da manhã... Comeu alguma coisa no almoço?

Você está apoiado sobre as três sacolas do que fiz na hora do almoço, garotão.

– Sabe? – ela limpou a garganta. – Acho que devo comer alguma coisa.

E que Deus a ajudasse se seu cérebro cuspisse alguma coisa parecida com chantili sobre o corpo dele. Se isso acontecesse, pediria para ser transferida.

– Vamos entrar – ele disse, apagando o cigarro na sola do sapato.

Boa ideia. E já deixaria anotado: nada de tempo livre com seu parceiro. Nunca.

Aproximaram-se e passaram pelas portas automáticas, pela fila de carrinhos na recepção e entraram no supermercado propriamente dito.

Quando Veck parou e olhou ao redor, ela fez um gesto com a cabeça para a direita.

– O escritório do gerente é por aqui.

– Faz compras aqui?

– Esses estabelecimentos são praticamente todos iguais.

Enquanto caminhavam juntos, ele disse: – Devia conhecer este aqui de cor. Minha casa não fica longe.

– Então, faz suas compras aqui?

– Café e cigarros... bem saudável, não?

Ele parecia estar em ótima forma.

– Sempre se pode mudar de hábitos.

– Sabe? Eu parei por um tempo. Cigarros e cafeína.

– O que o fez voltar a consumi-los?

– Acertar aquele fotógrafo.

Aaah, então ele tinha emoções.

– Tem muito estresse em seu trabalho.

– Já foi fumante?

– Não, nunca bebi muito também. Não tenho muita inclinação para esses vícios.

Por outro lado, fazer compras poderia acabar se tornando um.

E este foi o último pensamento que teve sobre questões que não diziam respeito ao trabalho. Quando entraram no setor de atendimento ao cliente, colocou todas as distrações de lado, sua cabeça voltou a funcionar ao imaginar a filha da senhora Barten indo até a loja para ajudar sua mãe... O que deveria ser uma simples comprinha para abastecer a dispensa acabou tornando-se um pesadelo. Talvez por causa de Kroner.

Enquanto ela preparava-se para mostrar o distintivo ao gerente, pensou ser muito perigoso imaginar Veck ou mesmo aquele agente durão, Heron, arrancando a cabeça do cara. Mas nem um serial killer merecia esse tipo de justiça. E não ia se iludir: não seria uma surpresa descobrir Sissy na lista de vítimas de Kroner, e essa era a razão exata pela qual Veck estava interessado no caso. Mas Reilly jogava de acordo com as regras. Sempre tinha jogado, sempre jogaria. Entregaria o caso a De la Cruz assim que percebesse alguma relação com Kroner e daria um jeito de direcionar a atenção de Veck para outra coisa. Nem que isso matasse-o.

Quando Veck checou seu relógio outra vez, eram 16h30. O gerente falava devagar, e a gravação digital das câmeras de segurança levou um tempo para ser revista. Ainda havia uma empacotadora e dois funcionários que organizavam os carrinhos para entrevistar. Nenhuma informação nova, mas, caramba, ele e Reilly trabalhavam muito bem juntos.


Ela sabia exatamente quando tomar a frente e, assim como com a senhora Barten, tinha jeito para deixar as pessoas à vontade... O que significava que acabavam falando mais. Enquanto isso, ele observava o ambiente e avaliava todas as coisas que as pessoas não diziam, mas que demonstravam no semblante.

Do lado de fora do balcão de atendimento ao cliente, apertou a mão do gerente e, em seguida, Reilly fez o mesmo.

– Obrigada por seu tempo – ela disse ao cara. – Agradecemos muito.

– Não acho que foi possível ajudá-los de verdade – o homem empurrou os óculos quadrados sobre o nariz. – Agora ou antes. Sinto-me horrível por toda a situação.

– Aqui está o meu cartão – ela entregou-o. – Pode me ligar a qualquer hora... Estou disponível 24 horas, 7 dias por semana. E, pode acreditar, você se abriu e foi honesto... Era tudo que podia fazer.

Veck entregou seu cartão também e, então, estavam indo para a saída.

– Jante comigo – Veck disse de repente. Afinal, uma segunda oportunidade de compartilharem uma refeição tinha que ser melhor do que a primeira. Desde que ele não se comportasse como um idiota, todo na defensiva, outra vez...

Tudo o que obteve como resposta foi uma desaceleração no andar e uma longa hesitação. E, em seguida, um “Ah...”

Não era um bom sinal, então, reforçou o convite com uma justificativa lógica: – Temos que organizar as anotações das entrevistas que fizemos nas últimas quatro horas. Podemos muito bem comer ao mesmo tempo... E sei que deve estar faminta.

Cara, olha só isso. Tranquilo, casual. Perfeito.

Parou em frente a uma grande vitrine com prateleiras cheias de nachos, potes de salsa e um refrigerador cheio de queijos.

– Vou cozinhar para você. Comida mexicana... é minha especialidade.

Na verdade, aquilo poderia ser real se comparasse a outras coisas: não sabia nada sobre cozinha, mas, considerando o que pretendia fazer, tinha mais chances de acertar que com qualquer outro estilo culinário. Afinal, pedir coisas pelo telefone era sua única especialidade. Mas, vamos lá... não era tão difícil. Pegar uma caixa de tacos no corredor de salgadinhos? Como poderia errar?

– Deveríamos manter as coisas no âmbito profissional – ela argumentou.

– Não é um encontro, prometo. Você é boa demais para isso, e eu não sou tão sortudo.

Quando as sobrancelhas ergueram-se, deixou no ar o comentário que havia feito, pois era verdade e os dois sabiam disso.

– Então, o que me diz, oficial? O único tempero estará no molho.

Isso produziu nela um verdadeiro sorriso, seus lábios até curvaram-se para cima.

– Eu gosto de comida mexicana.

– Então, sou o cara certo.

Por um momento, apenas olharam um para o outro. Então, ela falou lenta e cuidadosamente: – Tudo bem, mas onde?

– Na minha casa.

Passando à frente dela, Veck pegou um carrinho e encheu-o com itens da vitrine de nachos. Parecia uma dádiva vinda dos céus: todos os ingredientes estavam enfileirados, então, não tinha muito que escolher. Porém, era apenas o começo, e ele dirigiu-se ao local onde um cartaz indicava “COMIDA MEXICANA”.

– Está olhando para mim, oficial? – disse ao perceber os olhos dela sobre ele.

– Só estou... surpresa. É isso.

– Com o quê?

Colocando o carrinho em frente a uma prateleira cheia de caixas de um amarelo brilhante, esperou uma resposta de Reilly.

– Tacos ou enchiladas? – quando não houve resposta a essa pergunta também, ele pegou uma caixa. – Tacos.

Pensou no que ainda faltava. Alface. Queijo... Observou o carrinho e decidiu que precisavam de mais. Tomates. Entendido.

– Onde é a parte de hortifrúti?

– Seguindo por ali, à esquerda. Mas precisamos de hambúrgueres.

– Sim, bem lembrado.

O balcão de carnes e congelados ficava mais ao fundo da loja e, ao passarem pelas bandejas de carne moída, pegou um pedaço magro com quarenta por cento orgânico... pois, provavelmente, ela seguia uma dieta mais natural. Quando chegaram à parte das frutas e verduras, precisavam pegar tomates e alface americana.

– Converse comigo, Reilly – disse em voz baixa.

– É que... você não me parece um homem que precise de sorte com as mulheres.

– Ficaria surpresa – ao continuarem em direção ao caixa, passaram pela parte de alimentos importados e por um self-service de saladas, e, por alguma razão, Veck sentiu que devia se explicar. – Veja bem, meu pai é muito conhecido por um motivo horrível e algumas pessoas se sentem atraídas por isso. As mulheres que me procuram não são como você. Ou têm tatuagens nos lugares mais ridículos do corpo e cabelos pintados, ou são Barbies que querem “salvar” alguém, ou desejam fazer loucuras sem correr muitos riscos. Depois, há as que parecem normais, mas costumam ter fotos do meu pai na bolsa ou cartas que pedem que eu entregue para ele... Para ser sincero, é uma confusão total. Aprendi que não posso confiar em ninguém, mas também nunca mais fui surpreendido.

Puxou o carrinho num dos caixas e começou a passar as coisas enquanto Reilly entregava-as.

– Mas, como disse, você não está em nenhuma dessas categorias – terminou.

– Com certeza, não – ela passou o saco de tomates. – Desculpe, não fazia ideia.

– Há coisas piores para se preocupar – como o laço sanguíneo que tinha com o pai maníaco, por exemplo. Droga, as tietes idiotas que queriam ficar com ele só por causa do sobrenome DelVecchio eram terríveis, mas o fato de ter o assassino ligado à sua medula era um pesadelo.

– Você vai... no meio da semana que vem? – ela perguntou.

– Como?

– À execução? – ela disse em tom gentil.

Veck congelou com a caixa amarela de tacos nas mãos.

– Vai mesmo acontecer?

– Se a Suprema Corte não emitir algum documento para adiá-la... Saiu um artigo no jornal de hoje.

Ah sim, as três colunas que ele tinha pulado no restaurante.

– Bem, espero que fritem o bastardo. E não, eu não vou. Tenho que ver aquele filho da mãe toda vez que me olho no espelho. Já é suficiente.

Pegou a carteira e tirou o cartão de crédito.

– Aqui, deixe-me ajudá-lo com a...

Veck lançou um olhar por cima do ombro.

– O homem deve pagar. Sou tradicional nesse ponto.

– E a mulher pode muito bem fazer uma contribuição. Sou realista assim.

Quando ela empurrou uma nota de vinte dólares na palma da mão dele e ergueu o olhar para encontrar o dele, soube que Veck queria beijá-la... E não apenas em suas fantasias: queria saber como era apertá-la em seus braços e sentir o sabor daquela boca da qual não saía besteira nenhuma.

Não iria acontecer.

Voltando a se concentrar nas coisas que não iriam comprometê-lo ou que evitariam um tapa, passou o cartão, digitou a senha e esperou a transação completar-se. Depois de jogar o cupom fiscal fora, dirigiu-se à saída, onde deixou o carrinho com os outros e recolheu as sacolas com as compras.

Enquanto caminhavam de volta para o carro, ele murmurou: – Você está quieta. Falei demais?

Olhou para ele ao desativar o alarme do carro e destrancar todas as portas.

– Sobre seu pai? Deus, não... A hora que quiser falar sobre ele, ou sobre qualquer outra coisa, ficarei feliz em ouvir.

Veck acreditava nela. O que era um milagre em si.

– Obrigado, mas você acabou de ouvir tudo o que tenho a dizer sobre o assunto.

Assim que se aproximaram do porta-malas destravado, ela foi até a porta do passageiro de trás e disse: – Espere, aqui, coloque as compras...

– Só vou jogá-las por aqui mesmo e...

Quando a porta ergueu-se sozinha, ele viu as três grandes sacolas da Victoria’s Secret e não pôde evitar: seus olhos fixaram-se em Reilly e observaram seu corpo... De baixo para cima, até as bochechas avermelhadas. O que significava que não havia um monte de pijamas e roupões de banho macios naquelas malditas sacolas.

– Hum... banco de trás – ele murmurou. – Está certo...

– Estavam em liquidação – ela disse enquanto ele fechava o porta-malas.

Ele estava ficando excitado outra vez. Agora mesmo. Droga.

Depois que as compras foram acomodadas no carro, os dois sentaram-se em seus respectivos bancos e ela ligou o motor. O cinto de segurança pressionou sua ereção, mas achou que o aperto foi bem-vindo. Não precisava ficar fantasiando um desfile de moda. A bela oficial Reilly vestindo aquelas coisas? Cara, precisava de um cigarro.

– Merda – ele disse.

– O que foi?

– Temos que ir à sua casa para fazer isso – com um palavrão, emendou. – Quero dizer, o jantar. Fazer o jantar na sua casa... Não tenho panela nenhuma.

Quando pararam no sinal da saída do estacionamento, Reilly olhou para ele... e começou a rir. Antes que percebesse, ele estava sorrindo também.

– Você não sabe cozinhar coisa alguma, não é? – ela disse.

– Terei sorte se conseguir abrir a caixa de tacos – ergueu o dedo indicador. – Mas ainda gostaria de fazer o jantar, se não se importa.

Negando com a cabeça, ela sorriu.

– Certo, mas pode me fazer um favor?

– Pode dizer.

– Pode esquecer o que viu no meu porta-malas?

Seus olhos perderam-se na boca de Reilly e, em seguida, desceram para o pescoço pálido e...

– Sinto muito – disse em tom sombrio. – Isso eu não posso fazer.

Ela respirou fundo, como se todos os pensamentos dele estivessem expostos em seu rosto.

– Droga – disse, soltando o ar. – Quero dizer, sim, é claro. Considere feito. Totalmente esquecido.

Uma buzina soou alto atrás deles e ela teve um sobressalto antes de acelerar.

Que bela noite. Só faltava ele botar fogo na casa dela..


CAPÍTULO 10

 

Durante os anos em que atuou como soldado de Operações Extraoficiais, Jim aprendeu que uma boa informação é fundamental para a missão em qualquer tarefa. Claro, quando trabalhava para o maldito Matthias seu trabalho era matar pessoas e, agora, não era bem essa a situação com seu novo chefe ou com seus alvos atuais. Porém, muitos princípios eram os mesmos. E os riscos eram ainda maiores.

Sentado na cama de hotel, com o computador apoiado nas coxas, o site do Correio de Caldwell estava no centro da tela e a dor de cabeça que sentia não era pelo brilho da máquina. Seu trabalho já tinha sido iniciado. Considerando que Devina não havia mentido sobre a alma.

Na noite passada, Thomas DelVecchio Jr. adentrou na floresta com um cara a quem investigava... O que é normal para um detetive de homicídios, certo? Errado. O que deteve a ordem normal dos fatos foi que David Kroner, considerado um serial killer, fora levado numa ambulância até a cidade à beira da morte. Encharcado de molho de tomate. E isso era apenas o começo do jogo. Após passar quase duas horas vasculhando a internet, Jim teve acesso a informação suficiente para escrever um livro sobre DelVecchio... e sobre o pai do cara. Não eram boas notícias.

– Droga, Cachorro – murmurou.

Cachorro bufou baixinho e colocou a pata sobre o antebraço de Jim, como se estivesse oferecendo ajuda. A questão era: onde estava a encruzilhada de DelVecchio? Estaria naqueles bosques de ontem à noite?

Não, pois Jim teria perdido antes de ter começado e imaginou que isso estaria fora das regras. Entretanto, não significava que Devina não tivesse dado tal golpe.

E assim...

– Onde você está, vadia...?

O demônio estava em algum lugar naquilo tudo, trabalhando nos bastidores, tentando mexer os pauzinhos para que o jovem DelVecchio se envolvesse profundamente com ela.

A rota poderia ser traçada através do pai. Digitando outra vez o nome do cara no Google, Jim começou outra pesquisa. Os resultados fizeram-no questionar se valia a pena salvar a humanidade. Oh, veja só, quanta coisa baseada em seus assassinatos. Pinturas. Autógrafos.

O cara tinha sua indústria... Mas parece que não duraria muito. As luzes seriam apagadas para ele em Connecticut muito em breve. Mas talvez vivesse para sempre na infâmia: havia vigílias acontecendo fora da prisão. Sem dúvida aquela procissão de manifestantes não impediria a execução, mas era uma indicação de que o bastardo poderia tornar-se uma celebridade ainda mais famosa quando estivesse totalmente acabado.

De acordo com os arquivos do jornal, DelVecchio pai tinha cometido a maioria de seus assassinatos em Nova York e Massachusetts, e a primeira denúncia datava do meio dos anos 1990, quando o primeiro corpo fora encontrado... em Caldwell, Nova York. Passaram-se três anos para que as autoridades percebessem que estavam lidando com um serial killer, e não com chacinas aleatórias. Parte do atraso ocorreu pelo assassino ter deixado os corpos em situações muito diferentes e pelas investigações realizadas com diferentes graus de competência policial. Outro fator foi, ao menos no começo, que DelVecchio escondia bem os restos e de maneira muito criativa.

Os casos, porém, começaram a ser ligados e, então, iniciou-se uma corrida para capturar seja lá quem fosse o assassino. O tapa na cara foi saber que DelVecchio estava aos olhos do público o tempo todo, um negociante de antiguidades... e não apenas bugigangas e falsificações. Estava no topo daquele mercado, importando estátuas, artefatos e mosaicos do Egito e do Oriente Médio.

Maldito filho da mãe. Existia até mesmo um artigo sobre ele na Vanity Fair, que dava informações detalhadas sobre seus negócios. Aparentemente, entre as viagens ao exterior e as grandes festas que frequentava, DelVecchio pai conseguiu engravidar uma mulher. O filho tinha nascido no mesmo dia que o pai nascera há 29 anos, mas não havia vida familiar. Nem outras crianças.

Contudo, houve uma espécie de contato: o assassinato daquela mulher acabou sendo a chave para finalmente capturarem DelVecchio, a primeira ligação que trouxe à tona a cadeia de crimes que havia formado. O resto era história, por assim dizer.

– Entrandooo...

Jim olhou por cima do notebook. Parado na porta do conjugado, Adrian tinha uma caixa de pizza entre as mãos e um pacote com seis cervejas pendurado nos dentes.

– Aí sim! Obrigado, cara.

Eddie entrou atrás com uma segunda caixa.

– Ele providenciou tudo... até a isca.

Ad sentou-se sobre a cama e apoiou as cervejas.

– Se chamam anchovas, idiota.

O “que seja!” ficou subentendido entre os dois. Jim alimentou Cachorro primeiro, dando ao cão o item que Adrian não apreciava muito. Considerando o movimento do rabo curto e grosso, a gororoba estava mais que boa.

– Então, como podemos saber que Devina não mentiu para você? – Adrian disse, antes de se inclinar e colocar a ponta de uma fatia de pizza na boca.

– Essa confusão toda é bem a nossa cara – clicou no artigo sobre a execução e girou o computador. – Este é o pai do cara. E espere, tem mais.

Enquanto comiam, Jim mostrou-lhes alguns sites e finalizou com um artigo sobre a pequena viagem do Júnior à floresta com outro serial killer. Enquanto seus parceiros liam, houve uma quantidade razoável de “mas que inferno”, o que era bom.

Terminou de comer a terceira fatia.

– Precisamos descobrir o que aconteceu naquela floresta ontem à noite.

– Os artigos dizem que DelVecchio não se lembra de nada.

Jim olhou para Eddie, mais conhecido como “o mestre dos truques”.

– É aí que você entra. Quero entrar na mente do cara e você precisa me dizer como fazer isso.

Ad deu de ombros.

– Pessoalmente, eu costumo usar um serrote, mas...

– Pode haver várias consequências e efeitos colaterais – disse Eddie com cuidado.

– Por exemplo?

– Bem, na pior das hipóteses... ele pode acabar como Adrian.

– Ei...

Jim interrompeu o anjo em questão.

– Meio surdo. Com medo de agulhas.

– Viciado em sexo – Eddie acrescentou.

– Ou seja, um deus – Ad exclamou, abrindo uma cerveja. – E continuo dizendo, pessoal, não sou surdo.

– Já passamos por isso antes – Eddie enxugou a boca. – Se não consegue ouvir o quanto é desafinado, então, como pode saber?

– Não sou desafinado.

– É sim – Jim e Eddie disseram juntos.

Antes que a discussão saísse do controle, Jim ficou sério e dirigiu-se a Eddie.

– Então, me diga o que eu preciso saber.

– Precisa me explicar primeiro o que está procurando.

Jim tomou um longo gole de cerveja.

– Quero saber onde Devina está em tudo isso. Qual é o ângulo de ação dela e de que maneira está suscetível a falhar nessa porcaria toda. É isso que estou procurando.

E, considerando a situação do pai, já tinha suas suspeitas.

É claro que Veck precisava ter visto o que havia no porta-malas – Reilly pensou enquanto entrava na garagem. – O universo não desperdiçaria uma oportunidade como essa para aprontar comigo. Enquanto a porta da garagem subia, olhou para seu parceiro.

– Deixe-me adivinhar: gostaria de carregar as compras, da mesma maneira como pagou por elas.

– Sim, gostaria – olhou para os bancos de trás. – Como disse, sou antiquado. Mas se quiser assumir a tarefa, posso voltar atrás.

E era por isso que não tinha qualquer problema com ele. Além disso, ele poderia cuidar da comida enquanto ela tirava suas roupas do porta-malas: apesar de constrangida, não deixaria as sacolas para trás. Não havia como fingir que nada acontecera, mas, mais importante que isso, não havia motivo algum para esconder. Era uma mulher adulta que poderia comprar calcinhas e sutiãs para si.

Quando a voz na cabeça dela ficou ainda mais estridente e na defensiva, perguntou-se quem exatamente estava falando. Provavelmente seu pai. Interrompendo o discurso ridículo, terminou de estacionar o carro. Enquanto Veck saía e pegava as sacolas do supermercado, deu a volta no carro, abriu o porta-malas e manteve a cabeça erguida ao pegar todos os seus artigos cheios de lacinhos e renda e seguir para a cozinha.

– Nossa! – ele disse ao olhar para as paredes, cortinas e balcões.

– Eu deveria ter avisado.

Ter uma decoração cheia de galos na cozinha é um pesadelo, mas a boa notícia é que, geralmente, as pessoas param e olham ao redor, e, por isso, ela conseguiu enfiar as sacolas num canto qualquer, longe de olhares curiosos.

– Acho que nunca vi...

Quando Veck apenas assentiu com a cabeça, Reilly ficou feliz por ele não ter terminado a frase. Claro que nem precisaria: a parte do “... tantos galos num lugar só” costumava ficar no ar com certa frequência.

Oh, Deus, aquilo era horrível.

– Desde que me mudei há dois anos, tenho vontade de pegar um estilete e arrancar tudo a partir dos cantos. Mas sempre tem algum trabalho mais urgente que me mantém ocupada.

Porém, ao observar como Veck olhava tudo aquilo, pensou que deveria ter um pouco mais de determinação. O papel de parede tinha três galos diferentes em várias e exageradas poses, como se fossem fisiculturistas participando de um concurso. O esquema de cores era marrom, vermelho e creme com tufos verdes de grama sob as patas tripartidas. E, de alguma forma, mesmo o material estando ali há uns bons vinte anos, mantinha uma vivacidade impressionante.


– Sou eu ou os olhos deles seguem a gente? – Veck perguntou ao colocar as sacolas sobre o balcão da pia.

– Eles estão observando você. É uma maravilha para minhas die-tas... sinto como se estivesse comendo em público e não consigo comprar frango desde maio do ano passado.

– É como estar no filme Os pássaros.

– Exceto por não ser uma fazenda. Eu sei – quando ela aproximou-se e abriu o armário sob o fogão, completou –, o fato de já estar um pouco acostumada com isso me assusta... será que me hipnotizaram? Aliás, as panelas estão aqui, as tigelas ali e as facas naquelas gavetas perto da lava-louças.

– Obrigado.

Quando ele tirou o casaco, os grandes ombros movimentaram-se naturalmente, mas, na mente dela, transformaram-se em algo nu e excitante – Hora da distração – Reilly pensou quando Veck começou a desembalar as coisas.

– Ei, acho que vou imprimir o arquivo do caso enquanto você começa a lidar com a comida.

– Ótimo.

– Pode levar um tempo. Minha impressora é antiga.

– Temos tempo.

Pela maneira como estava concentrado no pacote de salgadinhos, parecia que estava prestes a fazer uma cirurgia cerebral com o micro-ondas. E nossa... Aquele jeitão impassível, seguro e lindo era muito sexy, sem falar que aquela preocupação toda o deixava mais acessível. Isso e a maneira como se abriu a respeito das mulheres. Ela nunca pensara nas tietes... porém, mesmo pessoas de boa aparência podiam ser perseguidas pelos motivos errados, não?

No escritório que tinha no final do corredor, entrou no banco de dados da polícia de Caldwell, acessou o relatório e ficou parada ao lado da impressora, pronta para salvar a impressão quando as folhas ficassem presas... o que aconteceu. Duas vezes.


O primeiro indício de que as coisas não iam bem na cozinha foi o aroma inconfundível de carne queimada. O segundo foi uma explosão de palavrões. Que não parou até ela aparecer com as impressões.

Foram muitas bombas verbais. Em seguida, o detector de fumaça disparou. Seja lá o que estava na panela sobre o fogão – o mais provável era que fosse o hambúrguer, mas, como era Veck na cozinha, poderia até ser os nachos – precisava de uma mangueira de incêndio. Ele tentava lidar com a situação, levou a panela para a pia, colocou dentro da cuba, mas não ligou a água. Aproximou-se rapidamente do detector e começou a abaná-lo com um pano de prato sem nem sequer ficar na ponta dos pés.

– Acho que um dos galos aumentou o fogo – ele gritou.

– Isso não me surpreenderia.

Ela escondeu um sorriso quando colocou os papéis sobre a mesa e foi dar uma olhada no que ele tinha colocado no prato: os pedaços de queijo laranja tinham se unido à camada de tortilhas ao ponto de formarem uma nova composição molecular.

Só há uma coisa a fazer agora – ela pensou. Pegou o telefone e disse: – Qual sabor de pizza você gosta, oh, poderoso fazendeiro?

– Calabresa com salame.

– Boa.

Enquanto discava, olhou para cima. A parte de baixo da camisa de Veck tinha se soltado, e ela teve uma clara visão do cós preto da cueca, bem como dos pelos que desciam em linha a partir do umbigo sobre a pele firme. Imediatamente seu cérebro voltou à cena do banheiro na noite anterior. Apenas um instante e lá estava ela, observando o corpo nu...

– Oh, sim, oi – afastou-se rapidamente. – É um pedido. Sim, sou eu. Pizza grande de calabresa com salame. Sim. Não, sem bebidas... Não, não quero uma segunda pizza de graça... Não, sem acompanhamentos... Não, obrigada, não precisa... Não, também não quero sobremesa de maçã com canela – pelo amor de Deus, levavam mais tempo fechando o pedido do que fazendo, embalando e despachando a pizza para entrega! – Ótimo, obrigada.


Desligou, endireitou os ombros e virou-se em direção a Veck outra vez – estava parado bem atrás dela, olhos semicerrados, o corpo muito maior do que aparentava ser a dois metros de distância.

Ela não se moveu. Nem ele.

– Acredita que a confissão seja boa para a alma? – disse ele de maneira misteriosa.

– Sim...

– Então, preciso dizer uma coisa.

Oh, Deus, era por isso que diziam que não se deve misturar negócios com prazer: quando seus olhos se encontraram, Reilly não pensava sobre o caso em que estavam trabalhando. Pensava que deveria admitir algumas coisas a si mesma.

Vi você nu ontem à noite e te achei lindo.

– O quê? – ela disse ofegante.

Eu te desejo mesmo sabendo que não deveria.

Engolindo em seco, ela disse: – Diga...


CAPÍTULO 11

 

Veck sabia que não deveria responder à sua parceira e com certeza não deveria ter se aproximado tanto dela. A atitude correta seria começar a limpar a bagunça que tinha feito com os alimentos em vez de criar mais confusão.

Mas viu-a olhando o corpo dele e a expressão em seu rosto indicava um desejo forte e intenso. Surpreso? Sim. Satisfeito? Poderia, se ficassem juntos.

Mas não poderiam se desvencilhar das consequências daquilo com um banho de água quente, este era o problema.

– O quê? – ela sussurrou.

– Eu quero... – a palavra era tão rude que ele guardou-a para si mesmo.

– Diga.

Ele inclinou-se e colocou os lábios sobre o ouvido dela.

– Você sabe exatamente o que eu quero.

– E eu quero que você diga.

– Tem certeza? Não é nada agradável.

Antes que ele pudesse recuar, ela estendeu as mãos e colocou as dele sobre seus quadris. O toque foi leve como uma sombra caindo sobre o corpo de Veck, mas sentiu que tudo queimava por dentro. E uma coisa era certa, se ela instigou aquele contato é porque sabia exatamente o que ele tinha em mente.

O toque ficou mais intenso.

– Diga.

Sua voz era quase um rosnado.

– Quero foder você.

Reilly gemeu um pouco e ele continuou.

– Quero você nua. Embaixo de mim. E quero entrar em você – abaixou um pouco e passou a boca sobre o pescoço dela. – Mas sei que é especialista em conflito de interesses, então sabe muito bem os motivos pelos quais essa é uma má ideia.

Era a deixa para ela se afastar. Ou para ele pular fora. Nenhum deles se moveu.

Droga, o corpo dele começou a ficar fora de controle, sua ereção latejava por mais espaço para fazer o que sabia de melhor. O que significava que, se fosse para fazerem a coisa certa, a iniciativa partiria dela.

– Dê um tapa na minha cara – ele gemeu. – Me empurre... pelo amor de Deus, se tranque no banheiro ou algo assim. Pois se não fizer isso, eu vou...

– Me beije.

Deus, o tom que ela usou: aquilo era uma ordem. E quem era ele para desobedecer a uma ordem? Especialmente vinda de uma superior?

Veck estendeu a mão e passou o braço em volta da cintura de Reilly. Com um puxão forte e impaciente, aproximou-a de seu corpo. O próximo passo foi arrancar o elástico que amarrava os cabelos dela e jogá-lo no chão.

Cara, ela instigava tanto desejo com aquela coisa de não se afastar, e os cabelos vermelhos sobre os ombros diziam que estavam prontos para ter a mão de um homem sobre eles.

Quando agarrou a nuca e aproximou a cabeça ainda mais, sabia muito bem que iria dominá-la, assumiria o controle de seu corpo, iria segurá-la com força ao empurrá-la até a mesa da cozinha e ajoelharia entre suas pernas para sugar seu sexo. Era o que desejava fazer.

– Desculpe – ele disse, ciente de que não estava desculpando-se apenas pelo que estava prestes a fazer, mas por tudo que passava em sua mente, toda a vulgaridade que desejava impor aos dois.

Então, o destino foi selado quando ela deu um beijo nos lábios de Veck.

A boca dela era macia... e também seus seios contra o peitoral de Veck e seus quadris contra seu pênis... Era macia e quente, o tipo de coisa que se quer penetrar e permanecer ali por um bom tempo. Mas, mesmo com sua pélvis contorcendo-se e sua ereção pulsando, no fundo Veck sabia que o conflito de interesses não era o maior problema que tinham. Por mais que fingisse estar tudo normal com ele, estava em carne viva por dentro por causa daquela porcaria que tinha acontecido na floresta e pela novidade sobre seu pai. Tinha medo de que Reilly fosse exatamente o tipo de curativo que precisava... Esse foi o último pensamento lógico e decente que teve.


Quando penetrou a boca dela com a língua, seus braços apertaram-na e a parte inferior do corpo arqueou-se outra vez, a tensão e o movimento em seu pênis estimulou-o ainda mais. E isso foi antes de sentir o arrepio que passou pelo corpo de Reilly. Estava claro que ela acompanhava-o, especialmente quando o apertou em seus ombros com as unhas e suas pernas abriram-se o suficiente para que ele pudesse se encaixar com uma das pernas ali.

Pensando num palavrão, ele virou-a e colocou-a sobre a mesa, em cima da papelada que ela tinha acabado de imprimir. Imagens dela com as pernas sobre os ombros dele enquanto lambia seu sexo fizeram-no imaginar que deveria repensar a falsa propaganda sobre comê-la.

Bem, não era tão falsa assim. Só adicionaria uma atração turística muito importante na viagem para o grand finale. Passou a palma da mão sobre as coxas e levantou a perna dela, esfregando ainda mais o local onde ele desejava finalmente estar. Interrompendo o contato com a boca, mergulhou no pescoço de Reilly com mordidas e lambidas.

– Me deixe ver você – ele gemeu em sua garganta. – Me deixe...

– Entrar – outra voz disse.

Ele interrompeu o ritmo de repente, desvencilhando-se do abraço e olhando para cima. Agora seu coração batia por um motivo diferente.

– O que foi? – ela disse.

Seus olhos percorreram o local. Mas não havia quaisquer sombras esquivando-se em movimentos velozes pela cozinha com decoração de galos. Nenhum ruído de tábuas ou dobradiças rangendo. Ninguém observando pelas janelas.

Depois de um momento, a adrenalina diminuiu e percebeu onde estava e o que estava fazendo com ela. Talvez tivesse sido um pensamento que assumiu uma voz muito alta. E não poderia sentir-se melhor com isso se considerasse o que tinha acontecido com Kroner na noite passada.

Uma das mãos de Reilly ergueu-se e acariciou a bochecha dele.

– Você está bem?

– Não – olhou outra vez para o rosto dela. Sentiu o corpo dela sob o seu. Ouviu suas respirações profundas. – Mas não quero parar. Você é real... E preciso muito disso agora. Preciso... de você agora.

Reilly não era como as outras mulheres com quem já tinha ficado: os olhos inteligentes viam demais e sabiam coisas demais. Cara, ele ficara nu na frente dela no primeiro momento em que a conheceu – e isso deveria tê-lo guiado na direção oposta do que estava acontecendo. Em vez disso? Só desejava-a ainda mais.

– Então, me possua – disse, puxando a camisa para fora da saia.

Veck não deu um segundo sequer para ela mudar de ideia: enquanto a beijava, mergulhou uma das mãos sob a abertura que ela havia feito na camisa, tocando toda aquela pele quente. Em seguida, os botões soltaram-se como se tivessem o mesmo objetivo que ele: acesso total.

Ergueu-se quando o último se abriu... caramba. Renda vermelha. Havia uma complexa renda vermelha sobre um par de seios perfeitamente proporcionais. Ele conseguia ver os mamilos tensos e firmes através da pequena extensão do tecido.

– Gostou do que eu comprei hoje? – ela perguntou com voz rouca.

– Nada mal – limpou a garganta quando falou. – Nada mal mesmo. Mas o que está por baixo é ainda mais quente.

Com uma graça harmoniosa, as mãos dela ergueram-se e acariciaram o sutiã de alças finas e brilhantes... Em seguida, passou a mão sobre os mamilos rígidos e, com isso, Reilly arqueou o corpo, implorando por ele.

Com um rosnado, ele empurrou a saia para cima e adentrou entre as pernas dela, separando-as ainda mais com seus quadris ao se aproximar do que havia chamado sua atenção. Ao colocar a boca sobre o sutiã incrível, além de sentir a renda em sua língua, também percebeu a carne rosada e firme por baixo do tecido.

Não levou muito tempo para aquilo não ser mais suficiente. Com a mão áspera e impaciente, puxou o bojo para baixo, revelando o mamilo.

– Porra... – ele exclamou. – Você...

Ela não quis nem saber de conversa: com pressa, seus dedos agarraram a nuca dele e, com isso, aproximou a cabeça de Veck de seus seios. Enquanto ele sugava-a, ela ergueu-se sobre a mesa, e aquele movimento, aquele puxão, fez com que ele deixasse de lado qualquer constrangimento. De repente, Veck assumiu o controle, ergueu-a ao colocar um dos braços embaixo dela, a outra mão foi direto entre as coxas, em direção ao desejo que emanava daquela calcinha.

Acariciou o sexo dela, a palma da mão envolveu o local, bem onde ela desejava...

– Veck!

O som do nome dele foi um pedido de mais, mais, mais. E daria isso a ela. Trocando de lado, mordeu a outra metade do sutiã e puxou com os dentes, antes de sugar o outro mamilo. Contudo, ainda não era suficiente. Precisava de contato total com a pele nua. Aqui, agora...

O gemido que saiu dela foi exatamente o som de consentimento que precisava ouvir.

Deus, vai acontecer – pensou. – Vai acontecer.

Veck era um dominador total. Reilly não esperava menos que isso, mas a excitação foi surpreendente. Em parte por saber que, se dissesse não estar à vontade em ir tão longe, ele recuaria no mesmo segundo. Mas o resto devia-se à maneira como ele lidava com ela, a confiança, o poder, a possibilidade erótica que emanava de sua boca, de suas mãos e de seu olhar sedutor e intenso.

Sem dúvida, Veck tinha um talento natural para o sexo... E desenvolveu isso ao longo dos anos. De repente, como se tivesse lido a mente daquela mulher, seu olhar ergueu-se com um brilho e fixou-se no dela enquanto estimulava o mamilo da mulher com a língua... E, quando as pálpebras baixaram, sabia que desejava que ela o observasse.

Que visão. Ele puxou o outro lado do sutiã e acariciava-a, lambendo e chupando enquanto uma das mãos espalmadas pressionava sua pele. Deus, ele era grande – por inteiro. Seu pênis era longo e grosso e acariciava a parte interna das coxas dela, seus ombros eram tão grandes que não conseguia ver nada além deles, e a parte inferior do corpo daquele homem ocupava todo o espaço que havia entre suas pernas abertas.

Veck terminou de puxar o sutiã que pressionava os seios para cima, a camisa estava totalmente aberta, e a saia estava toda amontoada na cintura. O próximo passo era tirar o tecido de nylon que cobria as pernas de Reilly e, para isso, ela saiu um pouco de cima da mesa, sentindo aquela mão pressionar com mais força ainda em movimentos circulares. Mergulhou os polegares na cintura da meia-calça e baixou os quadris, escorregando a peça ao longo das coxas.

– Eu assumo daqui em diante – Veck recuou um pouco, os olhos em chamas observando o corpo de Reilly. – Hummm... bem onde eu queria estar.

Quando ele sorriu como um predador, ela ergueu os joelhos para ajudá-lo a tirar as meias, lentamente. E só depois que o fino tecido estava livre de seus pés, ela perguntou-se até onde aquilo tudo chegaria. Iriam terminar de fazer aquilo que não deveriam nem ter começado?

Se aquilo fosse um “sim”, teriam que lidar com alguns aspectos práticos. Mas, caramba, que coisa chata falar de camisinha – e, sim, agora entendia por que as pessoas faziam escolhas idiotas quando se tratava de sexo. Coisas realmente importantes não tinham a menor relevância ali, todo o sofrimento que poderia vir depois daqueles minutos intensos, coisas com as quais teria que conviver, talvez para sempre... Passavam a ser ecos distantes, que ela mal conseguia ouvir, pronunciados num idioma que não queria traduzir.

Cinquenta mil anos de evolução poderiam dizer o que estava acontecendo.

Com um impulso, Veck voltou à boca dela, beijando-a profundamente enquanto as mãos desciam...

A maldição que disparou da garganta dela era mais uma vibração que um sim. A mão dele estava de volta entre as pernas, acariciando suas coxas, indo em direção à peça que completava o conjunto com o sutiã que já tinha visto e dominado.

– Veck! – ela exclamou outra vez quando o toque deslizou sobre o centro da faixa de cetim.

Foi cuidadoso, colocando apenas a pressão suficiente sobre o local tão sensível, acariciando-a em movimentos circulares que fizeram seu corpo ficar ao mesmo tempo relaxado e tenso.

Dane-se a calcinha, ela não queria nada entre eles... Mesmo assim, a barreira de seda não era de todo ruim, a costura adicionava outra dimensão ao ritmo que ele tinha imposto. E não parou de beijar sua boca, de envolvê-la, de aproximá-la ainda mais, mesmo já estando bem juntos.

Com um movimento rápido, ele levantou o tronco de Reilly e empurrou seus quadris contra o sexo dela, entrelaçando os corpos. Em seguida, curvou a coluna e encaixou-se sobre ela, acariciando-a com seu pênis enquanto observava-a com atenção.

Deus, o rosto dele estava cheio de desejo, aquela frieza tinha desaparecido, aquela máscara impassível havia explodido com a intensidade que apertava o maxilar.

Eles iam mesmo fazer aquilo, Reilly concluiu.

Surpreendente. As escolhas na vida de Reilly eram baseadas em dados precisos do que deveria, teria que ou do que era melhor não fazer. Com certeza, fazer sexo daquela maneira estava na última categoria... e, mesmo assim, não pretendia deter nada.

Porém, fariam aquilo com segurança – embora não sobre uma cama. Aquela mesa estava servindo muito bem. Mas havia coisas que ela precisava fazer primeiro. Descendo o corpo, deslizou as mãos até... a cabeça de Veck caiu para trás.

– Caaara...

Perfeito: o pênis rijo era ainda maior do que imaginava e latejava contra a palma de sua mão...

O som da campainha ecoou, alto como um tiro. E, mesmo assim, por um momento, ela não conseguiu compreender o que era aquele barulho ou por que deveria importar-se com ele. Veck recuperou os sentidos primeiro.

– Pizza.

– Que p...?

Com o pensamento rápido e lógico, ele estendeu a mão e apagou as luzes para que o entregador da pizza de calabresa com salame não assistisse ao show na cozinha. Então, com mãos eficientes, colocou a camisa dela de volta, puxou a saia para baixo e começou a arrumar as próprias calças, para que não ficasse uma tenda de circo.

– Vou cuidar disso – disse ele com uma voz equilibrada. Como se nada tivesse acontecido. Nada.

Enquanto ele foi até a porta da frente, Reilly sentou-se lentamente, a cabeça não parava e o corpo tremia. Segurando a blusa, percebeu que a volta ao normal repentina fê-la sentir-se totalmente fora de controle. Em seguida, ela saiu da mesa e os papéis do caso Barten caíram no chão.

A chuva de folhas soltas formou uma espécie de tapete aos seus pés e foi o espelho exato que precisava para ver tudo com clareza: do outro lado da cidade havia uma família de luto pela filha que sabiam ter perdido, e, em vez de concentrar-se na dor deles e em seu trabalho... estava esfregando-se num homem que não tinha nada a ver com ela.

Não poderia existir um conflito de interesses maior. Serviria de exemplo num livro didático. Mexendo nos botões da camisa, fechou-os rapidamente e, então, inclinou-se para pegar as cópias do relatório. Quando o cabelo caiu sobre o rosto, perguntou-se onde estaria seu elástico.

Quem poderia saber?

Colocando os fios atrás das orelhas, juntou as impressões com cuidado, reordenou as páginas e separou tudo em duas pilhas – a dela e a de Veck. Separado era melhor.

Ela tinha enlouquecido?

Vindo da porta da frente, ouviu um burburinho de palavras de agradecimento, a porta fechou-se em seguida e passos pesados trouxeram Veck de volta à cozinha.

Levantando-se rapidamente, colocou as duas pilhas de papéis sobre a mesa e manteve os olhos sobre elas. Não conseguia olhar para Veck. Simplesmente não tinha forças para aquilo no momento.

– Acho melhor você ir – sua voz não soou bem, mas ela não se sentia bem mesmo.

– Certo. Vou chamar um táxi.

Droga. A moto dele estava na delegacia, não?

Após soltar um palavrão em voz baixa, murmurou: – Está tudo bem. Posso levá-lo...

– Não, um táxi é melhor.

Ela assentiu e acariciou a primeira página do relatório... onde indicava os principais dados de Sissy e a data de seu desaparecimento.

– Vamos verificar tudo isso amanhã no escritório.

– Sim – quando ele vestiu o casaco, o som macio do tecido foi mais alto que a campainha. – Sinto muito.

Ela cruzou os braços sobre o peito e assentiu outra vez.

– Sim, eu também. Não sei o que deu em mim.

Mas sabia muito bem o que aconteceria se o jantar não tivesse chegado bem na hora. Momentos depois, ele foi embora e fechou a porta tão silenciosamente que não se fez som algum. Quando finalmente olhou por cima do ombro, tudo o que viu foi a pizza no balcão. Certo, como se fosse comer alguma coisa. A caixa foi direto para a geladeira.

Saindo da cozinha, passou pela mesa e encontrou sua meia-calça atrás de uma cadeira. Seu elástico de cabelo estava no chão perto do arco que dividia os ambientes, já dentro da pequena sala de jantar. Ao inclinar-se para pegá-lo, ficou frente a frente com as compras da Victoria’s Secret e percebeu que seu sutiã ainda estava beeem fora do lugar. Deixou as sacolas ali e resolveu aquele pequeno problema com alguns puxões e vários palavrões. Enquanto aproximava-se das escadas, decidiu que usaria sua velha lingerie de algodão de sempre para ir trabalhar no outro dia. Era isso, muito obrigada.


CAPÍTULO 12

 

– Pergunta. Mesmo se não quebrar nada para entrar, ainda é considerado invasão de domicílio?

Adrian soltou essa pequena pérola assim que assumiram forma em frente à porta de entrada da casa de Thomas DelVecchio Jr. – e, se considerassem tudo o que ele havia dito até hoje, sabiam que o anjo poderia ter soltado um comentário muito pior.

Jim nunca passou tanto tempo em sua vida desejando protetores e fones de ouvido. Mas pelo menos o bastardo não tentou o rap.

– E aí? – Ad disse.

– Olha só, nós nem sequer existimos – Jim murmurou. – Então, você pode alegar que nem estamos aqui de verdade.

– Ótimo argumento. Acho que é legal.

– Como se o contrário o incomodasse.

A casa era decorada ao estilo de Jim: funcional, nada de especial, muito espaço vazio. O problema? Poucos itens pessoais, e precisavam de algum objeto feito com um pouco de metal. De preferência ouro, prata ou platina. Se conseguissem algum objeto com impressões suficientes de Veck, poderiam usá-lo como ponte para entrar no cérebro do cara remotamente: de acordo com Eddie, era arriscado demais fazer isso pessoalmente. Não com Devina por perto.

– Vamos nos separar – disse Jim. – Vou examinar o andar de cima.

Quando Ad e Eddie espalharam-se, Jim subiu as escadas de dois em dois degraus. O quarto principal ocupava metade do andar. Claro que essa afirmação soa mais impressionante do que a realidade, pois a metragem total não passava de setenta metros.

– Meu Deus, quanta coisa, hein amigo? – murmurou.

Não havia nada no quarto além de uma cama grande e uma porcaria de mesa de cabeceira com um abajur sobre ela. Nada de despertador – provavelmente o cara usava o celular para isso. Nada de telefone fixo, mas para que se precisava de um? Havia uma TV de tela plana fixada na parede, cujo controle remoto encontrava-se entrelaçado nos lençóis.

Havia algumas roupas sujas num cesto de plástico no canto, meias e cuecas transbordavam pelos lados como se a coisa babasse algodão preto. Abriu o armário... e havia camisas penduradas nos cabides, que era bem melhor do que a mala que Jim usava há anos para guardar suas roupas. Atrás da porta, havia alguns cintos com fechos de metal, mas tinha de haver algo melhor para que Jim pudesse usar.

Foi até o banheiro. Todas as luzes apagadas, mas o cara não usava cortinas, então havia bastante iluminação vinda da rua. Assim que entrou no cômodo pequeno e azulejado, sentiu algo forte em sua nuca, como se formigas rastejassem sobre a pele.

Devina.

– Onde você está? – disse, dando uma pequena volta ao redor de si. – Onde diabos você está?

O demônio esteve ali, podia sentir sua presença no ar, como o mau cheiro que exala de uma grande lixeira, mesmo depois de ter sido esvaziada. Aquilo dava alguma credibilidade à revelação de Devina no restaurante.

Quando se voltou para a pia, franziu a testa. O espelho estava coberto com uma toalha e o formigamento em sua nuca aumentou quando estendeu a mão e puxou o tecido felpudo.

Nada, a não ser um armário de remédios dos anos 1980 embutido na parede. Mas o vidro frontal estava totalmente contaminado. Será que ela passou pelo objeto de alguma maneira? – perguntou-se. Recuou no mesmo instante em que as pontas do dedo fizeram contato com a superfície espelhada. O armário de remédios estava gelado.

Droga, Veck sabia que alguma coisa estava atrás dele, não? Por que cobriria a coisa? A questão era: até onde o demônio havia chegado dentro dele?

– O que fez com ele, vadia?

Recolocando a toalha, Jim abriu as gavetas, verificou o desodorante, o tubo de pasta de dente extra e o cortador de unhas. Ei! Talvez aquilo funcionasse. Só que dificilmente o objeto teria uma conexão emocional com... Uma luz estendeu-se pela frente da casa, atingindo a janela onde Jim estava e lembrando-lhe que não se preocupara em ficar invisível. Fazendo o corpo desaparecer, olhou pela janela. Na calçada em frente à garagem, Veck saiu do táxi amarelo.

Jim atravessou o quarto principal e desceu as escadas, só seria percebido se alguém sentisse a brisa que seus movimentos produziam. Na cozinha, viu que Ad e Eddie também tinham ficado invisíveis, e os três esperaram juntos, formando uma pequena fonte de calor no canto do cômodo.

Ela ainda está nele – disse em pensamento aos seus amigos.

Posso senti-la daqui – Eddie respondeu.

Na entrada da casa, a porta foi aberta, fechada e trancada. Em seguida, passos pesados aproximaram-se de onde eles estavam.

– Mas que... droga...

As maldições continuaram enquanto Veck entrava na cozinha, jogava as chaves e arrancava a jaqueta. Em seguida, foi até a geladeira e pegou uma cerveja. Tirou a tampa e bebeu com vontade, era evidente que tivera uma noite difícil no trabalho.

De repente, o cara ergueu a cabeça, apoiou a cerveja e olhou diretamente para onde os três estavam. Ele não deveria ser capaz de senti-los, muito menos de vê-los. Nenhum deles moveu-se. Nem mesmo Veck. E foi nesse momento que Jim olhou para o chão de linóleo atrás do detetive... e notou que o cara projetava duas sombras.

Única fonte de luz? Duas projeções em sentidos opostos sob seus pés?

Em silêncio, Jim apontou para o chão e seus colegas assentiram.

Veck estendeu o braço e tocou um interruptor, iluminando melhor o ambiente. Em seguida, ele olhou ao redor.

– Puta... que... pariu.

Obviamente, esse era o mote da vida daquele cara e, se Ad não se encorajasse a soltar a voz, Jim consideraria cantarolar um pouco daquela música também.

Veck balançou a cabeça e voltou para sua cerveja, tomando o que restava de uma vez só. Deixou a garrafa vazia sobre o balcão, pegou mais duas na geladeira e andou até a sala. Destino: sofá.

Jim e seus amigos foram atrás dele, mas mantiveram distância. Veck era intuitivo ao extremo ou contaminado o suficiente para ter um radar que percebesse a presença dos anjos. Conhecendo a sorte que tinha, tratava-se da última opção.

O detetive retirou as armas para se sentar: removeu uma bela automática e uma faca. Em seguida, retirou o distintivo brilhante da polícia, prata e dourado. O homem segurou a coisa sobre a palma da mão em formato de concha por um tempo. Olhava como se fosse uma bola de cristal... ou talvez um espelho onde tentasse ver a si mesmo.

Deixe isso de lado, cara – Jim pensou. – Termine as cervejas, deite um pouco e tire uma soneca. Prometo que devolvo quando terminar.

Veck seguiu as instruções e colocou o distintivo com seu nome e número de registro na polícia junto às armas, bebeu as cervejas uma seguida da outra e recostou-se nas almofadas. Seus olhos fecharam-se um momento depois. Levou um tempo para que as mãos relaxassem e caíssem para os lados, mas, em seguida, a respiração lenta e profunda confirmou o descanso – e a deixa para que eles pegassem o que precisavam e saíssem.

Jim estendeu a mão à altura da cintura e deu uma de cavaleiro Jedi com o distintivo, fazendo o objeto levitar e trazendo-o até ele ao longo da escuridão. No instante em que a palma de sua mão fez contato, sentiu o mesmo frio que sentira no andar de cima, a crueldade de Devina habitava no espaço entre as moléculas do metal.

O cuidado de Eddie parecia exagerado... até agora. Considerando a forte mensagem que o distintivo transmitia, não dava para ser pego de calças curtas ao atuar naquela tarefa.

Jim indicou a janela com a cabeça e, como uma névoa, os três desapareceram.

Do outro lado da cidade, no centro urbano de Caldwell, o Hospital São Francisco era um complexo que brilhava como uma das ruas de Las Vegas. Sob seus telhados de vinte estilos diferentes, vidas começavam e terminavam aos milhares a cada ano, a luta contra o Ceifeiro da Morte era travada por todos os médicos, cirurgiões e enfermeiras que ali trabalhavam.

Devina estava bem familiarizada com o local: algumas vezes, aqueles humanos de jalecos brancos e uniformes cirúrgicos precisavam de uma pequena ajuda para garantir que o trabalho fosse feito corretamente. E, geralmente, isso significava a morte, mas nem sempre.

O demônio entrou na ala de emergência pela porta frontal automática. Vestindo sua bela pele feminina, capturou todos os tipos de olhares vindos de pais e irmãos sentados na sala de espera. Era por isso que não pegava atalhos. Passar através de vidros, metais ou tijolos era eficiente, mas chato: adorava ser admirada. Cobiçada. Desejada. E os olhares ardentes das outras mulheres, todos aqueles olhares cheios de ódio e inveja? Melhor ainda.

Encontrar Kroner no labirinto de corredores, andares e unidades foi muito fácil. Estava há anos dentro dele, ajudando-o a aprimorar suas habilidades e dando suporte à sua obsessão. Já nasceu doentio, mas lhe faltava coragem para seguir os impulsos – e a impotência agiu a favor dela. Nada instigava mais a violência contra mulheres atraentes num louco como ele do que o próprio pênis murcho e fino.

A UTI que procurava estava sete andares acima, e ela gastou um pouco de tempo nos elevadores, caminhando, observando os uniformes das enfermeiras. Nada demais. Tecidos de algodão com péssimo corte que não realçavam nada na parte de cima e evidenciavam a flacidez da parte de baixo. Que diabos achavam que estavam fazendo com aquele visual?

Quando finalmente aproximou-se das várias portas duplas de metal, pegou uma carona com uma servente e um idoso sobre uma maca. O velhote estava apagado, mas a mulher não deu apenas uma olhada, foram várias. Sem dúvida, continuaria a observar se as portas não tivessem sido abertas no andar que precisava ficar. Lançou um sorriso sobre o ombro, saiu e não conseguiu deixar de rir um pouco.

Enfim, era hora de começar a trabalhar. Tinha a opção de assumir a forma de uma névoa e serpentear sobre o chão lustrado, mas isso causaria pânico demais. Ou poderia continuar invisível, o que era considerado uma falha de originalidade em sua cartilha: tinha passado séculos desfrutando da interação com os humanos, disfarçando-se entre eles, beliscando seus calcanhares e esfregando-se contra seus corpos – ou indo até mais além. Não havia motivo para desperdiçar a oportunidade de divertir-se um pouco naquela noite, mesmo trabalhando. Afinal, sua terapeuta estimulava-a a encontrar um equilíbrio na vida.

Ao chegar à unidade, atravessou um corredor cheio de fotografias de vários diretores de departamentos. Muito útil, como perceberia logo em seguida. Ela parou diante de várias, observando as características, os acessórios, os nomes e títulos, os jalecos brancos e as gravatas listradas ou roupas mais formais. Era como comprar uma roupa nova. E tinha seu serviço próprio de alfaiataria.

Virando numa esquina do corredor, olhou para os dois lados para certificar-se de que estava sozinha e, então, cuidou da câmera de segurança acima dela, enviando uma carga elétrica suficiente para desativá-la sem explodir.

Em seguida, assumiu a aparência e o jaleco branco do chefe da neurologia, um tal de dr. Denton Phillips. O disfarce foi um pouco decepcionante e flácido se comparado ao traje exuberante da bela morena. O homem tinha mais ou menos sessenta anos e, embora fosse um homem branco, arrogante, bem conservado, sentiu-se mal e feia. Ao menos era melhor do que realmente parecia, e era temporário.

Quando voltou ao corredor principal, caminhou como um homem e era ótimo ver o respeito e o medo nos olhos dos funcionários pelos quais ela passava. Não tão divertido quanto a luxúria e a inveja, mas agradável mesmo assim.

Não precisava perguntar onde Kroner estava. Era muito fácil de encontrá-lo – e não ficou surpresa ao se deparar com um policial uniformizado sentado do lado de fora do quarto. O homem levantou-se.

– Doutor.

– Só vou levar um minuto.

– Fique o tempo que precisar.

Não era bem assim... Ela tinha que trabalhar rápido. Não fazia ideia de como o dr. Denton Phillips realmente era e não havia como ter certeza se a altura estava correta. Isso acontecia quando tudo o que se tinha era uma foto para servir de molde: aquele não era um bom momento para encontrar quaisquer colegas que o conhecesse bem – ou pior, o homem em si.

A UTI onde Kroner estava tinha paredes de vidro com cortinas, era possível ouvir o silvo do equipamento médico que o mantinha vivo. Deslizou a porta, empurrou o tecido verde de um biombo e entrou.

– Você está péssimo – ela disse com voz masculina.

Ao caminhar até a cama, deixou de lado a aparência do bom doutor e mostrou-se como a bela mulher que Kroner tinha conhecido há dez anos.

Havia tubos entrando e saindo pela boca e pelo nariz, e os fios emaranhados que saíam de seu peito davam-lhe a aparência de uma central telefônica. Muitos esparadrapos de gaze branca sobre a pele cinza. Muitos hematomas. E seu rosto parecia bexiga de festa, todo vermelho e brilhante, esticado pelo inchaço.

Aquele não era o fim que ela tinha planejado e no qual havia trabalhado. Era para DelVecchio ter cedido e matado o desgraçado antes mesmo de Heron ficar sabendo qual era a próxima alma. Infelizmente, seu cordeiro sacrificial louco e pegajoso tinha sido abatido por outra pessoa.

Pelo amor de Deus, era óbvio que não sobreviveria. Ela não era um médico – apenas interpretava um de vez em quando –, mas só aquela palidez já a fez pensar em funerais.

No entanto, ainda não era tarde demais para o bastardo. E, após esse deslize, não correria mais nenhum risco de perder essa rodada. Hora de tornar-se um pouco mais agressiva, especialmente se pensasse no acordo que tinha selado com Heron.

– Ainda não é sua hora – ela inclinou-se sobre a cama. – Preciso de você.

Fechando os olhos, acomodou-se sobre o corpo do homem, cobrindo-o por completo e, em seguida, infiltrou-se dentro dele através de cada poro que havia. O poder inato nela preencheu o vazio, reenergizou Kroner. Ao puxá-lo da espiral da morte, ela curou-o e deu-lhe forças ao mesmo tempo. E pensar que humanos confiavam em aparatos médicos. Tão rudimentar.

Os olhos de Kroner abriram-se conforme ela se retirava e reassumia sua forma. Então, ele encarou-a. Um brilho amoroso surgiu em seu olhar. Patético, mas útil.

– Viva – ela ordenou –, e nos veremos em breve.

Ele tentou acenar com a cabeça, mas havia muitos acessórios de entubação em sua garganta. Contudo, cumpriria a ordem. Quando ela olhou para o dispositivo de monitoramento, a frequência cardíaca já tinha alcançado estabilidade e sua pressão arterial estava regulada. O nível de oxigênio saiu de setenta e foi para noventa.

– Bom menino – ela disse. – Agora, descanse.

Erguendo a mão, colocou-o em um sono profundo e restaurador e, em seguida, reassumiu a imagem do bom e velho dr. Denton.

Entrar, sair, partir.

Saiu da sala envidraçada, acenou para o guarda e caminhou pelo corredor, passando por bajuladores e puxa-sacos que quase se ajoelhavam enquanto passava. O que era agradável. Ao ponto de ficar tentada a desfilar pelo hospital por um tempo, apenas para sentir melhor a experiência de ser aquele homem.

Mas não podia, a última coisa que precisava era encontrar alguém que realmente o conhecesse. E, mais importante, tinha um compromisso com a terapeuta bem cedo no outro dia e ainda tinha que escolher o que vestiria – isso poderia levar horas. Motivo pelo qual precisava de uma maldita terapia. Hora de ir.


CONTINUA

CAPÍTULO 7

 

Ao meio-dia, Reilly deixou a delegacia a pé e seguiu para o centro da cidade. O dia estava glorioso, com um sol de abril tão radiante e quente que afugentava aquela sensação dos doze graus exibidos nos termômetros. Mas a oficial não era a única que se beneficiava com o clima. Havia uma multidão nas calçadas e atravessando as faixas de pedestres, atrapalhando o trânsito, ao passarem com refrigerantes e sorvetes nas mãos; muitos comiam alguma coisa à beira de uma fonte ou sentados num banco do parque. Após seis meses de escuridão gelada, o Estado de Nova York ansiava por algum sinal de que o inverno realmente estivesse indo embora... E aquela bela hora do almoço não seria desperdiçada.

Aparentemente, Reilly estava no intervalo do trabalho, assim, poderia colocar a cabeça em ordem antes de ver Veck outra vez. Porém, seus passos tinham um propósito e uma direção aos quais ela recusava-se prestar atenção.

O Shopping Galeria era um dos projetos de revitalização do centro, mas, ao contrário de muitos outros, este realmente deu certo. Com uma grande loja de departamentos e uma grande livraria, os quatro quarteirões de prédios dos anos 1920 tinham sidos interditados, liberando apenas a passagem de pedestres. Era um atrativo que tinha revigorado o local e tornado-se o refúgio favorito de milhares de funcionários de escritório, assim como Reilly.

Contudo, diferentemente de suas colegas, era a primeira vez que andava pelas diversas lojas daquele centro comercial... quando parou em frente a uma delas, atraída pelo brilho rosa que irradiava do vidro. Oh, não. De jeito nenhum. Aquilo não era sua... Uma mulher saiu balançando duas grandes sacolas com as mãos e com um sorriso de orelha a orelha.


– Liquidação! – disse a Reilly. – Oba!

Sua voz saiu tão alta e estridente que parecia ter respirado hélio. Mas talvez fosse por usar um corpete embaixo do casaco – ao menos era o que parecia. Enfim, Reilly balançou a cabeça; liquidação ou não, não era o tipo de coisa que ela... Já tinha entrado na loja.

Maldição. Nunca tinha visto tanta roupa íntima num só lugar em toda sua vida.

O estilo Victoria’s Secret não é para quem tem problemas cardíacos... ou um traseiro grande – ela pensou, perguntando-se há quanto tempo, exatamente, não aparecia na academia. Desde o ensino médio. Não... Talvez tenha sido desde o fundamental.

Cara, toda aquela renda intimidava. Assim como as imagens tratadas das modelos expostas em toda parte, de tamanhos bem maiores que o natural. E, para piorar as coisas, o lugar estava lotado de mulheres que não eram bem do tipo de Reilly. Eram garotinhas com seus vinte e poucos anos, pegando tangas, sutiãs de bojo, peças de tamanhos mínimos e outras coisas. Mesmo os pijamas ou moletons pareciam estar destinados a ser arrancados com os dentes por algum garanhão...

– Oi, posso ajudá-la?

Reilly estremeceu.

– Ah...

A vendedora era uma linda afro-americana que, provavelmente, ficava ótima em cada peça pendurada na loja ou dobrada sobre as mesas. Comparando-se a ela, Reilly sentiu-se uma coisa esquisita e sardenta do tipo que pede para fazer tudo no escuro.

– Estou bem, obrigada...

– Estamos em liquidação.

– Sim, vi uma moça saindo com algumas sacolas – o que, considerando a pequenez das roupas ali, significava que a garota tinha comprado quinhentas, talvez seiscentas, peças daquilo tudo.

– Está procurando por alguma coisa em particular?

Reilly estava prestes a balançar a cabeça recusando, quando sua boca abriu-se por conta própria.

– Quero sentir-me mulher, e não uma oficial de polícia. Eu apenas... estou cansada de mim e do meu trabalho neste momento. Entende o que quero dizer?

Oh, droga, o que ela estava dizendo?... Só uma observação: aquilo não tinha nada a ver com Brittany, que se escreve Britnae.

A vendedora sorriu.

– Entendo. Você veio ao lugar certo.

Reilly olhou para um maiô asa-delta com estampa de tigre e não teve tanta certeza disso.

– Acho que nunca comprei lingerie antes... Nada que escolhesse com cuidado, meus sutiãs são do tempo da Guerra Civil. Talvez de alguma guerra do século XVIII.

– Bom, meu nome é Ralonda – estendeu a mão – e posso cuidar de você.

– Reilly. Quero dizer... Sophia – quando apertaram as mãos, ela murmurou: – Você tem algum tipo de formação em psicologia, por acaso?

– Na verdade, é isso que eu vou estudar na Universidade de Nova York, no campus de Caldwell.

– Deus, você é perfeita.

– Imagine – Ralonda sorriu outra vez, exibindo seu sorriso. – Vamos tirar suas medidas e depois vou trazer algumas coisas.

Uma hora e US$ 673,43 depois, Reilly saiu com três sacolas cheias de coisas. Quando chegou à porta, de cabeça erguida, viu-se sorrindo para as duas garotas que espiavam as vitrines.

– Eles estão em liquidação – disse a elas. – Melhor entrar. E chame por Ralonda... Ela é a melhor.

Elas entraram correndo, e Reilly caminhou até a delegacia com uma curiosa sensação de leveza. Talvez o sutiã de bojo cereja com calcinha combinando que acabara de vestir tivesse propriedades antigravitacionais, erguendo não apenas seus seios mas também o corpo inteiro. Fazia com que se perguntasse o que os astronautas usavam por baixo de seus trajes. A horrível imagem de um astronauta velhaco veio-lhe à mente. O cara usava apenas um minúsculo conjunto cor-de-rosa.

Deu-se conta de que entrar na delegacia com aquelas sacolas da Victoria’s Secret e um andar leve não passaria a mensagem certa... Especialmente agora que seria a parceira de Veck no próximo mês. Esquivando-se pela lateral da delegacia, aproximou-se de seu carro e escondeu as compras no porta-malas.

Desta vez, quando entrou pelos fundos e passou pelo guarda na recepção, estava um tanto constrangida, pensando se alguém poderia saber o que usava por baixo das roupas. Porém, como sempre, ninguém prestou nenhuma atenção nela. Apesar dos muitos talentos dos vários membros da polícia, parece que visão de raio X não era um deles.

A primeira parada foi seu escritório. Verificou rapidamente o correio de voz e os e-mails. Em seguida, pegou um bloco de notas e seguiu para o Departamento de Homicídios. E, como se pode imaginar, a confiança nas propriedades ocultas do algodão e da Lycra acertou em cheio a todos ali quando abriu a porta do departamento. Todos olharam para cima, inclusive Veck.

Certo. Agora entendia por que as pessoas odeiam aqueles sonhos em que andam nuas numa sala cheia de pessoas. Nunca tivera um pesadelo assim antes e, enquanto colocava o bloco de notas em frente aos seios, não estava com muita pressa de vivenciá-lo.

As pessoas apenas acenaram e cumprimentaram, e ela acenou e cumprimentou de volta enquanto dirigia-se até Veck. O cubículo ao lado dele estava praticamente vazio, havia apenas um computador e um telefone. Quando Reilly sentou-se, manteve o caderno contra o peito.

Veck encostou-se na cadeira fazendo com que seu peito parecesse enorme contra a camisa branca.

– Tudo certo na sua sala?

– Sim. No que vamos trabalhar hoje?

Ele fez um gesto com a cabeça indicando a tela do computador.

– Encontrei alguma coisa para passar o tempo. Estava esperando você chegar... Pensei em fazer um reconhecimento de campo e consultar outra vez algumas testemunhas.

– Ótimo. Qual é o caso?

– Digo no caminho. Importa-se se usarmos o seu carro? Só tenho moto.

– Ah... – com certeza não haveria motivo algum para ele olhar no porta-malas. – Claro. Sim. Tudo bem.

– Obrigado, oficial. Ou deveria chamá-la de detetive nas próximas semanas?

Quando se levantaram juntos e ela viu-se com o rosto na altura do peitoral de Veck, sabia que era hora de sufocar sua Britnae interior.

– Só Reilly está bom – respondeu.

Por um momento, os olhos de Veck baixaram, e ela poderia jurar que ele murmurou “com certeza está”.

Sem dúvida a lingerie nova fazia-a ouvir coisas.

– Espere um minuto... esse não é um caso antigo de homicídio.

Ao pararem num sinal vermelho, Veck recebeu um olhar sério de sua nova parceira... o que foi muito excitante.

Endireitando-se no banco e rezando para que sua ereção não explodisse antes de chegarem ao local de destino, fez um esforço para manter a voz equilibrada e sem qualquer sinal de rouquidão. Porém, pelo amor de Deus, se aquilo fosse um indício de como seriam as próximas quatro semanas... estava com problemas.

– Tecnicamente, é uma desaparecida...

– Não existe “tecnicamente” nesse caso. Não há um corpo.

– Posso terminar?

– Desculpe – quando o farol ficou verde, ela pisou no acelerador. – Mas tenho um pressentimento de onde isso dará, e você não chegará nem perto do caso Kroner.

Veremos – ele pensou.

– Recebi um telefonema do FBI esta manhã. Estão trabalhando no caso dessa garota desaparecida e queriam saber se existe mais alguma novidade. Respondi que ficaria feliz em examinar o que já temos sobre...

– O FBI pode fazer isso sozinho...

– Não há motivo para não ser amigável. Ou para concluir que há alguma ligação com Kroner.

Ela franziu a testa.

– O que o FBI acha?

– Não perguntei. Talvez seja interestadual – pois, talveeez, aquilo fizesse parte do caso Kroner... e foi por isso que ele não perguntou nada.

– Só para que fique bem claro: se houver qualquer ligação com o caso Kroner, estamos fora.

– Certo – colocou a mão no bolso da frente do casaco e pegou um relatório de três páginas. – Cecília Barten, dezoito anos, desaparecida há apenas três semanas. Vista pela última vez saindo de casa para ir ao supermercado na avenida Union. Câmeras de segurança do estacionamento e da saída da loja não gravaram nada, graças a uma sobrecarga de energia.

– E por onde vamos começar?

– Pela casa dos pais. Quero verificar se deixaram passar alguma coisa. A mãe dela está esperando por nós... Vire à direita aqui.

Reilly seguiu as placas e virou, entrando num bairro não muito longe de onde Veck morava. Ali as casas eram um pouco maiores e mais bem conservadas. Não havia carros estacionados na rua, e Veck imaginou que não haveria grandes caminhonetes ou sedãs guardados naquelas garagens. Não tanto quanto minivans... Porém, naquela região, moravam vários casais com filhos, então, talvez estivesse errado.

– Certo – ele murmurou, olhando as casas – 491, 493, 495... aqui.

Reilly estacionou no meio-fio em frente ao número 497. Depois de desligar o motor, saíram do carro...

Logo atrás deles estacionou uma suv dourada com insulfilme e três agentes federais desceram. Os homens estavam à paisana e, quando saíram, o motorista de cabelo loiro escuro exibiu suas credenciais.

– Jim Heron. Conversamos pelo telefone. Estes são meus parceiros, Blackhawk e Vogel.

– Thomas DelVecchio.

Quando apertaram as mãos, Veck sentiu uma energia estranha e recuou.

– Esta é a oficial Reilly. Quer entrar conosco?

O agente estreitou os olhos ao observar a casa.

– Sim. Obrigado. Meus parceiros vão esperar aqui.

Boa ideia. Seria difícil que todos coubessem naquele hall minúsculo. Enquanto passavam pela entrada de tijolos à vista, uma bandeira balançava casualmente com a brisa da primavera. Ela tinha um tom pastel e um desenho em formato de ovo estampado, metade cor de lavanda, metade cor-de-rosa e com uma faixa amarela ao meio.

A Páscoa ocorrera no fim de março, bem na época do desaparecimento da moça. Sem dúvida, a bandeira fora esquecida ali... ou talvez a família rezasse para que Cecília Barten ressuscitasse a partir daquilo. De qualquer maneira, a ruína tinha atingido aquela casa, mesmo que ainda restassem quatro paredes e um teto: a garota estava morta. Veck sentia em seus ossos, mesmo não sendo do tipo que sente coisas.

Campainha... espera... espera...

Veck olhou para Reilly. Parecia triste ao se inclinar para trás e observar as janelas do segundo andar... Será que a oficial estava tentando descobrir qual delas correspondia ao quarto da garota? Atrás dela, Heron passava uma excelente impressão de uma estátua: grande e imóvel. Seus olhos estavam focados na porta da frente, como se pudesse enxergar através das paredes.

Veck franziu a testa. Havia algo estranho no cara. Contudo, não era uma questão de competência. O agente irradiava uma precisão militar sobre tudo, desde a forma com que exibiu suas credenciais até o jeito que andava e como se mantinha imóvel. Ainda assim... o que será que...

A porta abriu com um rangido suave, e a mulher do outro lado parecia que não dormia nem comia direito há muito tempo.

– Bom dia, senhora. Sou o detetive DelVecchio. Estes são a oficial Reilly e o agente Heron.

Todos mostraram suas credenciais.

– Por favor, entrem – ela recuou e fez um gesto com o braço. – Posso servir alguma coisa?

– Não, obrigado, senhora. Agradecemos por dispor de seu tempo para conversar conosco.

A casa estava impecável, com cheirinho de desinfetante e lustra-móveis. O que sugeria que a senhora Barten limpava as coisas em momentos de tensão.

– Será que poderíamos conversar na sala de estar? – ela disse.

– Por favor.

A sala estava cheia de lembranças e bens de família, com papel de parede florido e dois sofás lisos. Quando a senhora Barten sentou-se numa poltrona e todos tomaram um lugar no sofá, Veck observou bem a mulher. Estava saindo da casa dos quarenta, com muitos cabelos loiros puxados para trás e enrolados num coque. Tinha um corpo magro e alongado... O peso que perdera recentemente realmente lhe fazia falta. Nada de maquiagem e, mesmo assim, era bonita. Porém, tinha um olhar vazio.

Droga, por onde começar?

– Senhora Barten – Reilly interrompeu –, pode nos contar sobre sua filha? Coisas que ela gostava de fazer ou nas quais era boa. Lembranças diversas.

Encarando sua nova parceira, Veck teve vontade de gesticular um “obrigado” com a boca. Especialmente quando a tensão deixou os ombros da mulher e o esboço de um sorriso surgiu.

– Sissy era... é... – ela se corrigiu. – Por favor, me desculpem. Isto é difícil.

Reilly aproximou-se da poltrona.

– Leve o tempo que precisar. Sei que pedi muito.

– Na verdade, ajuda quando falo dela. Faz com que me sinta melhor.

Numa voz hesitante, que gradualmente ganhou ímpeto, as histórias começaram a surgir, pintando o retrado de uma garota muito inteligente, boa e um pouco tímida, do tipo que nunca se envolveria em problemas se pudesse evitá-los.

Cecília Barten foi assassinada – Veck pensou. Não era um daqueles relatos de fuga motivados por drogas ou por causa do ciúmes de um namorado abusado e descontrolado. Era uma família estável. Uma jovem feliz. Futuro brilhante. Até que um carro bateu contra sua vida e levou tudo.

– Importa-se que eu olhe as fotos que estão ali? – Veck disse quando houve uma pausa na narrativa.

– Por favor.

Levantou-se e foi até uma das estantes embutidas ao lado de cada uma das janelas arqueadas que davam para a rua. Dois filhos. A outra era a irmã mais nova. Havia fotos de festas de formatura, aniversários, passeios no campo e jogos de hóquei... reuniões de família e casamentos... Natais.

Olhava com admiração tudo aquilo. Cara, aquilo era o melhor que a vida “normal” tinha para oferecer e, sem razão alguma, pensou em como, enquanto ele crescia, sua família não conseguiu ter nada daquilo... momentos felizes e fotografias para exibi-los. O tempo que passou com sua mãe não dava vontade de compartilhar com ninguém. Aliás, não era nada que quisesse lembrar.

Ele estendeu a mão e pegou uma das fotos 5×7. Cecília estava em pé ao lado de seu pai, braço estendido sobre o dele e com uma das mãos descansando sobre as dele. Era muito parecida com sua mãe, apenas um pouco com seu pai. Mas a linhagem era clara.

–... ligou para casa? – Reilly disse.

Veck voltou à conversa.

– Isso – a senhora Barten disse. – Ela saiu por volta das nove horas. Eu tinha acabado de operar meu pé... Corrigi uma deformação no dedo... – por um momento, a mulher parecia ruminar alguma coisa em pensamento, e Veck apostava que era o quanto desejava voltar no tempo, quando suas maiores preocupações eram encontrar sapatos confortáveis. Mas, talvez, também estivesse se culpando. Ela balançou a cabeça e voltou a se concentrar.

– Eu estava imobilizada. Dei a Sissy uma lista de compras e... ela me ligou do mercado. Não sabia se eu queria pimenta verde ou vermelha. Eu queria as vermelhas. Estava fazendo um... – as lágrimas vieram e ela piscou com força para afastá-las. – De qualquer maneira, essa foi a última vez que alguém teve notícias dela.

Veck voltou a colocar a fotografia na prateleira. Quando foi sentar-se ao lado de Heron outra vez, franziu a testa. O cara olhava para a mãe da vítima como se ele fosse uma filmadora, como se estivesse lendo e registrando cada contração do olho ou da boca que ela fazia enquanto falava.

Quando o radar de Veck começou a soar feito louco, não ficou claro o motivo... Seria a garota desaparecida, ou sua mãe triste e adorável, ou aquele homem imenso que parecia ter a capacidade de incendiar alguma coisa com aquele olhar?

– Posso perguntar uma coisa? – Veck disse. – Ela teve algum namorado?

Com o canto do olho, pôde ver Heron apertando as coxas com força.

– Não. Tinha alguns amigos, claro, e um encontro em bailes de formatura aqui e ali... mas nada sério. Ao menos, não que ela tenha me contado... e costumava ser sincera sobre o que se passava em sua vida.

Aquelas mãos relaxaram de repente.

– Quer perguntar alguma coisa? – Veck disse ao agente.

Houve um longo silêncio. Pouco antes de tudo ficar realmente estranho, o cara disse com uma voz baixa e profunda: – Senhora Barten, vou trazê-la de volta para casa. De uma maneira ou de outra, vou trazê-la de volta para a senhora.

Veck recuou, pensando: Droga, não faça assim, cara.

– Ah, o que ele quer dizer é...

– Está tudo bem – a senhora Barten apertou a garganta com uma das mãos. – Não estou me enganando. Sei que ela está... que não está mais entre nós. Uma mãe sente o frio no coração. Só queremos saber o que aconteceu e... providenciar um descanso adequado para ela.

– Vai tê-la de volta. Juro.

Agora, a senhora Barten soluçava... e por que não choraria? O cara parecia um guerreiro acostumado com a rotina da vingança, era mais um vingador do que um agente.

– Obrigada... Agradeço a todos vocês.

Veck olhou discretamente o relógio.

– Se me der licença, eu e minha parceira vamos nos dirigir ao supermercado. O gerente disse que sairia mais cedo hoje.

– Oh, sim, claro.

O agente Heron ajudou a senhora Barten a se levantar dando-lhe a mão.

– Seria incômodo se eu desse uma olhada no quarto dela?

– Claro que não... Vou levá-lo até lá – voltou-se para Veck e Reilly. – Se precisam ir agora, voltem sempre que precisarem.

– Obrigada – Reilly disse. – Faremos isso.

– E vamos sair logo por aquela porta – Veck murmurou.

Quando o agente Heron e a mãe da vítima chegaram às escadas, Veck parou no hall e observou os dois subirem juntos. Uma janela no andar de cima iluminava-os, o raio de luz solar atingia os dois rostos e agia como um farol para...

Espere um minuto.

Veck olhou para a sala de estar... de onde os raios dourados vinham do lado oeste. Impossível. Não poderia estar vendo aquele efeito de luzes em direções opostas: vinha da frente e dos fundos da casa.

– O que é isto? – Reilly disse suavemente.

Veck voltou a olhar para a escada. Heron e a senhora Barten não podiam mais ser vistos, e a luz tinha ido embora também, a janela não mostrava nada além de galhos de árvores atrás da casa e o claro céu azul sobre ela.

– Vou subir – disse à sua nova parceira. – Só por um minuto.


CAPÍTULO 8

 

Quando Jim seguiu a mãe de Sissy, sentiu-se muito oprimido. Num canto escuro de sua mente, sabia que precisava manter o controle diante de Veck, mas isso não aconteceria por muito tempo.

Virando-se no alto da escada, os sons da casa subiram a níveis de um heavy metal estridente. Tudo, desde o rangido sutil do chão acarpetado sob suas botas até a conversa suave que acontecia no saguão lá embaixo ou sua própria respiração soando forte atrás da garganta, tudo parecia gritar em seus ouvidos.

De repente, Veck apareceu atrás deles e fez um comentário rápido. Jim assentiu para o cara... e, imediatamente, esqueceu até mesmo que estava ali.

– O quarto de Sissy é por aqui.

Os três seguiram à direita e, quando a senhora Barten hesitou diante da porta fechada, Jim ergueu a mão para colocá-la em seu ombro... mas não conseguiu fazer contato.

– Prefere que entremos sozinhos? – ele perguntou.

A senhora Barten abriu a boca. Mas apenas assentiu com a cabeça.

– Não entro aqui desde... aquela noite. Está do jeito que ela deixou.

Naquele momento, o telefone tocou, e ficou evidente o alívio no rosto da mãe de Sissy.

– Vou atender. Fiquem à vontade para abrir as gavetas e o armário, mas se precisarem levar alguma coisa, poderiam me dizer o que é?

– Com certeza – Veck respondeu.

Assim que a mãe de Cecília apressou-se em descer as escadas e desapareceu no que Jim concluiu ser a suíte principal, ele abriu a porta... um cheiro maravilhoso. Entrando, fechou os olhos e tentou não se sentir um pervertido ao respirar fundo. Perfume. Loção corporal. Lençóis secos. Era... extraordinário. Mas ele não pertencia àquele quarto. Já tinha feito coisas que não deveriam sequer passar pela cabeça de alguém que entrasse num quarto como aquele... e a representação daquelas maldades estavam na tinta que cobria suas costas. Além disso, estava armado. E ainda havia aquela porcaria que fez com o demônio na noite anterior. Sentia-se sujo.


Enquanto Veck fazia o reconhecimento do quarto sozinho, Jim abriu os olhos e foi até uma estante modulada com escrivaninha embutida em frente à janela. A superfície plana e as prateleiras eram pintadas de branco, mas a cadeira era azul, combinando com as cortinas e o papel de parede listrado. Havia um tapete com franjas trançadas sobre a área acarpetada. Feito a mão. Tinha de ser.

Os livros enfileirados estavam em ordem e tinham uma temática bastante feminina. Gostava de Jane Austen, mas também havia uma prateleira inteira de Gossip Girls... provavelmente deixada ali desde que Sissy tinha treze anos. Algumas medalhas, vermelhas e azuis. Troféus. Sobre a mesa havia um notebook junto com dois livros, um sobre cálculo e outro sobre... trigonometria avançada? Hum. Sua garota era mais esperta que ele.

Havia também uma revista, Cosmopolitan, daquele mês. Tudo bem, a capa com título “orgasmo” em fonte gigantesca e cor rosa-choque não combinava exatamente com o resto daquele ambiente inocente de trabalhos escolares... mas ela estava crescendo, não estava?

Virando-se, foi até o pé da cama de solteiro. Agora sabia por que a mãe da garota não entrava ali. A colcha azul estava puxada para trás e os travesseiros ainda amassados, como se Sissy tivesse acabado de tirar uma soneca.

– Estou indo – Veck disse. O que fez Jim se perguntar há quanto tempo estariam naquele quarto.

– Vejo você em breve – disse Jim distraído.

– Entendido.

Quando ficou sozinho, a mão de Jim estremeceu ao estender-se para tocar os lençóis. Ao acariciar os objetos que sua pele tinha tocado, pensou em Devina e no que aquele demônio tinha feito com a garota... e com a família dela.


Adrian e Eddie estavam errados. Se queriam Jim concentrado na guerra, ali era exatamente o lugar onde precisava estar. Aquilo era motivação para vencer: Sissy nunca mais deitaria em sua cama. Não terminaria o artigo que estava lendo. E não mais lidaria com números. Nunca mais. Mas, ao menos, Jim poderia providenciar um lugar melhor para Sissy ficar enquanto não pudesse se juntar a seus pais e sua irmã por toda eternidade. E, então, faria Devina pagar mil vezes por tudo o que fez.

Na mesa de cabeceira havia um despertador branco, outra revista – desta vez era a In Touch – e o controle remoto de sua pequena televisão branca. Teve a impressão de que, mesmo fazendo faculdade, Sissy voltava aos fins de semana, e uma espiada em seu armário confirmou isso. Considerando o número de blusas, calças, saias e vestidos, não parecia que tudo aquilo tinha sido excluído da lista dos favoritos, mas que estava pronto para usar. Havia também vários sapatos no chão.

Deixou as gavetas da cômoda de lado, pois não sabia em qual delas guardava as... roupas íntimas. Provavelmente, nas duas primeiras, mas não correria o risco de confiar no chute. Já tinha assumido o papel de um mero observador ali, pois não tinha mais esperança em encontrar alguma coisa que o ajudasse a salvá-la. Deus era testemunha de que não havia nada na Terra capaz disso. Já ele queria apenas... estar perto dela.

Certo. Muito bem. Isto era o tipo de coisa com a qual Ad e Eddie preocupavam-se. Assim, percebeu que era hora de ir. Mais uma vez, não tinha noção de quanto tempo estava ali. Seria dois minutos ou duas horas, mas a última coisa que desejava era a mãe de Sissy batendo na porta para saber se ele estava bem ou se já tinha ido embora.

Não pegaria nada, mesmo sentindo a tentação de ficar com algum objeto, algo para se fiar em momentos difíceis... alguma coisa de Sissy. Contudo, a família já havia perdido demais e não tiraria mais nada deles.

Jim passou um último momento olhando ao redor e, então, obrigou-se a sair. No corredor, fechou a porta e ouviu. A mãe de Sissy estava no quarto ao lado, falando em voz baixa e embargada.

Desceu as escadas e esperou discretamente no hall onde ficava a porta da frente. Inclinando-se para o lado, olhou a sala de estar em direção às fotos ao longo das grandes janelas. A que mais lhe chamou a atenção – tanto que se aproximou dela – foi uma foto de rosto de Sissy. Ela não olhava para a câmera, mas para o lado, e não sorria. Parecia mergulhada em seus pensamentos, e a expressão em seu rosto não era a de uma menina, mas de uma... sobrevivente. Parecia ter uma vontade de ferro.

– Ela não fazia ideia de que a câmera a focava.

Jim endireitou-se e olhou para a mãe dela.

– Não?

A senhora Barten aproximou-se e pegou o retrato.

– Sempre sorria quando havia uma câmera por perto. Quando seu pai tirou esta, estava assistindo suas colegas de time jogarem... Praticava hóquei de campo. Tinha torcido o tornozelo e estava no banco... mas queria estar com elas – a mulher ergueu o olhar. – Era mais forte do que aparentava ser.

Quando seus olhos encontraram os de Jim, ele respirou fundo e pensou: Graças a Deus... isto a manterá sã até o momento em que eu conseguir salvá-la.

A senhora Barten inclinou a cabeça para o lado.

– Você é diferente dos outros.

Hora de ir.

– Sou como todos os outros.

– Não, não é. Nas últimas três semanas, vi mais oficiais, detetives e agentes do que em qualquer programa policial na TV que tenha assistido ao longo de toda minha vida – estreitou o olhar – Seus olhos...

Jim virou-se para a porta.

– O detetive DelVecchio entrará em contato...

– Quero te dar uma coisa.

Jim congelou com a mão na maçaneta e pensou – Má ideia – estava louco para aceitar qualquer coisa que ela oferecesse.

– Não precisa.

– Aqui.

Quando ele virou-se para dizer um “não, obrigado”, percebeu o toque daquelas mãos em sua nuca. Havia colocado em seu pescoço uma delicada corrente de ouro.

– Ela usava todos os dias. Encontrei em cima da pia do banheiro dela... Tinha tomado banho e esqueceu de colocar de volta... De qualquer maneira, fique com isto.

Pendendo na corrente havia um delicado pássaro feito de ouro. Uma pomba.

– Foi presente do pai no aniversário de dezoito anos. Fazia parte de um conjunto.

Jim balançou a cabeça.

– Não posso. Eu...

– Fique. Fará com que seus olhos continuem assim, nossa família precisa disso.

Depois de um momento, ergueu as mãos e substituiu os dedos da senhora Barten pelos seus. O colar e o pingente não pesavam nada. E mal cabiam em volta de seu pescoço. Mas seu dedo passava por ele como um sonho, mesmo o fecho sendo pequeno e suas mãos, enormes.

Quando baixou os braços, olhou para ela.

– Como estão os meus olhos? – disse ele com voz rouca.

– Desolados.


CAPÍTULO 9

 

O supermercado ficava a pouco mais de oito quilômetros de distância da casa, mas Reilly levou um bom tempo para chegar lá. Entre o trânsito e os faróis vermelhos, estava começando a achar que os dois passariam uma eternidade naquele carro.

Ou talvez o zumbido em sua cabeça fizesse parecer assim.

– No que está pensando? – Veck disse.

Apertou as mãos no volante e endireitou-se no banco do motorista.

– Se o caso de Cecília Barten estiver relacionado às vítimas de Kroner, teremos que deixá-lo. Está preparado para isto?

– Sim, estou.

Ao olhar para ele, percebeu que o maxilar de seu novo parceiro estava rígido e o corpo, todo tenso.

– Tem certeza? – porque ela não tinha.

– Sim, tenho.

Você é um filho da mãe teimoso que faz o que quer mesmo que isso contrarie uma ordem direta? Sim. Sou.

Assim que entrou no estacionamento e começou a caça por uma vaga, seu telefone tocou.

– Oficial Reilly. Uh-hum, sim... não é surpresa. Mesmo? Certo, e obrigada por me contar. Sim, mantenha-me informada.

Desligou e estacionou entre um carro prata antigo e uma caminhonete azul. Virando-se para Veck, disse: – Kroner está muito mal. Não há esperanças de que ele sobreviva.

O rosto rígido de Veck não expressou nada.

– Que pena. Talvez ele soubesse o que aconteceu.

– E saiu o resultado das análises feitas nas amostras que coletaram dele... Havia resíduos de saliva, mas as leituras não dão plena certeza quanto à fonte. Há semelhanças com pumas e lobos. Difícil dizer com certeza, mas a hipótese de ter sido um animal parece continuar ser a mais correta.

Ele assentiu e abriu a porta.

– Se importa se eu fumar antes de entrar?

Parece que estava tendo uma reação, afinal.

– Sem problema.

Saíram, e Veck foi até a parte traseira do carro, inclinando-se contra o porta-malas e tirando um Marlboro do maço... Um homem como ele poderia fumar outra marca? Quando ele acendeu o cigarro, Reilly esforçou-se para não pensar que suas calcinhas e seus sutiãs estavam separados de Veck apenas pela tampa do porta-malas.

Veck teve o cuidado de não exalar perto dela ou na direção em que o vento levasse a fumaça até a colega.

– Mau hábito – ele murmurou. – Mas ninguém vive para sempre.

– Verdade.

Encostando-se sobre o carro, ela cruzou os braços sobre o peito e olhou para o sol. O calor em seu rosto era uma bênção e fechou os olhos para apreciá-lo um pouco mais. Quando finalmente abriu os olhos outra vez, ficou chocada. Veck encarava-a e havia uma expressão em seu rosto... uma sugestão sexual. Ela tinha quase certeza de que estava deduzindo errado. Mas, em seguida, ele desviou rápido o olhar. Não era uma atitude comum quando se estava pensando em trabalho.

De repente, a temperatura primaveril aumentou e, agora, era ela quem o encarava. Bem, “flerte” parecia uma boa palavra para o que estava acontecendo.

Quando ele levou o cigarro aos lábios, sua boca se abriu e houve uma leve sucção, a ponta do objeto ficou alaranjada e os dedos indicador e médio aliviaram brevemente a pressão que faziam sobre o cigarro.

Oh, malditos sinos – ela pensou. Fumar era um hábito mortal e nojento, o qual ela não aprovava... Por isso, era perturbador perceber que todos os filmes ao estilo Casablanca faziam bem ao aproximar a câmera em longos closes em cenas como esta. Havia um toque erótico inegável em tudo aquilo. Especialmente quando a fumaça saía devagar de sua boca e projetava uma breve sombra em seus olhos azuis-marinhos e em seus cabelos escuros bem cortados.


Desviou o olhar rapidamente antes que ficasse presa ao...

– Então? – ele perguntou.

– Desculpe, então o quê?

– Perguntei o que achava.

Certo. Que tal responder assim: acho que todo o vermelho cereja que estou usando embaixo das roupas deformou o meu cérebro. Porque estou achando a ideia de subir em cima de você e montar feito uma vaqueira de chapéu na cabeça muito interessante.

– Preciso de mais informação antes de formar uma opinião – Então, que tal acender outro cigarro desses, garoto malvado, e arrancar as calças depois? – Oh, Deus.

– Você está bem? – ele disse, inclinando-se e colocando a mão livre sobre o braço dela. – Não comeu muito no café da manhã... Comeu alguma coisa no almoço?

Você está apoiado sobre as três sacolas do que fiz na hora do almoço, garotão.

– Sabe? – ela limpou a garganta. – Acho que devo comer alguma coisa.

E que Deus a ajudasse se seu cérebro cuspisse alguma coisa parecida com chantili sobre o corpo dele. Se isso acontecesse, pediria para ser transferida.

– Vamos entrar – ele disse, apagando o cigarro na sola do sapato.

Boa ideia. E já deixaria anotado: nada de tempo livre com seu parceiro. Nunca.

Aproximaram-se e passaram pelas portas automáticas, pela fila de carrinhos na recepção e entraram no supermercado propriamente dito.

Quando Veck parou e olhou ao redor, ela fez um gesto com a cabeça para a direita.

– O escritório do gerente é por aqui.

– Faz compras aqui?

– Esses estabelecimentos são praticamente todos iguais.

Enquanto caminhavam juntos, ele disse: – Devia conhecer este aqui de cor. Minha casa não fica longe.

– Então, faz suas compras aqui?

– Café e cigarros... bem saudável, não?

Ele parecia estar em ótima forma.

– Sempre se pode mudar de hábitos.

– Sabe? Eu parei por um tempo. Cigarros e cafeína.

– O que o fez voltar a consumi-los?

– Acertar aquele fotógrafo.

Aaah, então ele tinha emoções.

– Tem muito estresse em seu trabalho.

– Já foi fumante?

– Não, nunca bebi muito também. Não tenho muita inclinação para esses vícios.

Por outro lado, fazer compras poderia acabar se tornando um.

E este foi o último pensamento que teve sobre questões que não diziam respeito ao trabalho. Quando entraram no setor de atendimento ao cliente, colocou todas as distrações de lado, sua cabeça voltou a funcionar ao imaginar a filha da senhora Barten indo até a loja para ajudar sua mãe... O que deveria ser uma simples comprinha para abastecer a dispensa acabou tornando-se um pesadelo. Talvez por causa de Kroner.

Enquanto ela preparava-se para mostrar o distintivo ao gerente, pensou ser muito perigoso imaginar Veck ou mesmo aquele agente durão, Heron, arrancando a cabeça do cara. Mas nem um serial killer merecia esse tipo de justiça. E não ia se iludir: não seria uma surpresa descobrir Sissy na lista de vítimas de Kroner, e essa era a razão exata pela qual Veck estava interessado no caso. Mas Reilly jogava de acordo com as regras. Sempre tinha jogado, sempre jogaria. Entregaria o caso a De la Cruz assim que percebesse alguma relação com Kroner e daria um jeito de direcionar a atenção de Veck para outra coisa. Nem que isso matasse-o.

Quando Veck checou seu relógio outra vez, eram 16h30. O gerente falava devagar, e a gravação digital das câmeras de segurança levou um tempo para ser revista. Ainda havia uma empacotadora e dois funcionários que organizavam os carrinhos para entrevistar. Nenhuma informação nova, mas, caramba, ele e Reilly trabalhavam muito bem juntos.


Ela sabia exatamente quando tomar a frente e, assim como com a senhora Barten, tinha jeito para deixar as pessoas à vontade... O que significava que acabavam falando mais. Enquanto isso, ele observava o ambiente e avaliava todas as coisas que as pessoas não diziam, mas que demonstravam no semblante.

Do lado de fora do balcão de atendimento ao cliente, apertou a mão do gerente e, em seguida, Reilly fez o mesmo.

– Obrigada por seu tempo – ela disse ao cara. – Agradecemos muito.

– Não acho que foi possível ajudá-los de verdade – o homem empurrou os óculos quadrados sobre o nariz. – Agora ou antes. Sinto-me horrível por toda a situação.

– Aqui está o meu cartão – ela entregou-o. – Pode me ligar a qualquer hora... Estou disponível 24 horas, 7 dias por semana. E, pode acreditar, você se abriu e foi honesto... Era tudo que podia fazer.

Veck entregou seu cartão também e, então, estavam indo para a saída.

– Jante comigo – Veck disse de repente. Afinal, uma segunda oportunidade de compartilharem uma refeição tinha que ser melhor do que a primeira. Desde que ele não se comportasse como um idiota, todo na defensiva, outra vez...

Tudo o que obteve como resposta foi uma desaceleração no andar e uma longa hesitação. E, em seguida, um “Ah...”

Não era um bom sinal, então, reforçou o convite com uma justificativa lógica: – Temos que organizar as anotações das entrevistas que fizemos nas últimas quatro horas. Podemos muito bem comer ao mesmo tempo... E sei que deve estar faminta.

Cara, olha só isso. Tranquilo, casual. Perfeito.

Parou em frente a uma grande vitrine com prateleiras cheias de nachos, potes de salsa e um refrigerador cheio de queijos.

– Vou cozinhar para você. Comida mexicana... é minha especialidade.

Na verdade, aquilo poderia ser real se comparasse a outras coisas: não sabia nada sobre cozinha, mas, considerando o que pretendia fazer, tinha mais chances de acertar que com qualquer outro estilo culinário. Afinal, pedir coisas pelo telefone era sua única especialidade. Mas, vamos lá... não era tão difícil. Pegar uma caixa de tacos no corredor de salgadinhos? Como poderia errar?

– Deveríamos manter as coisas no âmbito profissional – ela argumentou.

– Não é um encontro, prometo. Você é boa demais para isso, e eu não sou tão sortudo.

Quando as sobrancelhas ergueram-se, deixou no ar o comentário que havia feito, pois era verdade e os dois sabiam disso.

– Então, o que me diz, oficial? O único tempero estará no molho.

Isso produziu nela um verdadeiro sorriso, seus lábios até curvaram-se para cima.

– Eu gosto de comida mexicana.

– Então, sou o cara certo.

Por um momento, apenas olharam um para o outro. Então, ela falou lenta e cuidadosamente: – Tudo bem, mas onde?

– Na minha casa.

Passando à frente dela, Veck pegou um carrinho e encheu-o com itens da vitrine de nachos. Parecia uma dádiva vinda dos céus: todos os ingredientes estavam enfileirados, então, não tinha muito que escolher. Porém, era apenas o começo, e ele dirigiu-se ao local onde um cartaz indicava “COMIDA MEXICANA”.

– Está olhando para mim, oficial? – disse ao perceber os olhos dela sobre ele.

– Só estou... surpresa. É isso.

– Com o quê?

Colocando o carrinho em frente a uma prateleira cheia de caixas de um amarelo brilhante, esperou uma resposta de Reilly.

– Tacos ou enchiladas? – quando não houve resposta a essa pergunta também, ele pegou uma caixa. – Tacos.

Pensou no que ainda faltava. Alface. Queijo... Observou o carrinho e decidiu que precisavam de mais. Tomates. Entendido.

– Onde é a parte de hortifrúti?

– Seguindo por ali, à esquerda. Mas precisamos de hambúrgueres.

– Sim, bem lembrado.

O balcão de carnes e congelados ficava mais ao fundo da loja e, ao passarem pelas bandejas de carne moída, pegou um pedaço magro com quarenta por cento orgânico... pois, provavelmente, ela seguia uma dieta mais natural. Quando chegaram à parte das frutas e verduras, precisavam pegar tomates e alface americana.

– Converse comigo, Reilly – disse em voz baixa.

– É que... você não me parece um homem que precise de sorte com as mulheres.

– Ficaria surpresa – ao continuarem em direção ao caixa, passaram pela parte de alimentos importados e por um self-service de saladas, e, por alguma razão, Veck sentiu que devia se explicar. – Veja bem, meu pai é muito conhecido por um motivo horrível e algumas pessoas se sentem atraídas por isso. As mulheres que me procuram não são como você. Ou têm tatuagens nos lugares mais ridículos do corpo e cabelos pintados, ou são Barbies que querem “salvar” alguém, ou desejam fazer loucuras sem correr muitos riscos. Depois, há as que parecem normais, mas costumam ter fotos do meu pai na bolsa ou cartas que pedem que eu entregue para ele... Para ser sincero, é uma confusão total. Aprendi que não posso confiar em ninguém, mas também nunca mais fui surpreendido.

Puxou o carrinho num dos caixas e começou a passar as coisas enquanto Reilly entregava-as.

– Mas, como disse, você não está em nenhuma dessas categorias – terminou.

– Com certeza, não – ela passou o saco de tomates. – Desculpe, não fazia ideia.

– Há coisas piores para se preocupar – como o laço sanguíneo que tinha com o pai maníaco, por exemplo. Droga, as tietes idiotas que queriam ficar com ele só por causa do sobrenome DelVecchio eram terríveis, mas o fato de ter o assassino ligado à sua medula era um pesadelo.

– Você vai... no meio da semana que vem? – ela perguntou.

– Como?

– À execução? – ela disse em tom gentil.

Veck congelou com a caixa amarela de tacos nas mãos.

– Vai mesmo acontecer?

– Se a Suprema Corte não emitir algum documento para adiá-la... Saiu um artigo no jornal de hoje.

Ah sim, as três colunas que ele tinha pulado no restaurante.

– Bem, espero que fritem o bastardo. E não, eu não vou. Tenho que ver aquele filho da mãe toda vez que me olho no espelho. Já é suficiente.

Pegou a carteira e tirou o cartão de crédito.

– Aqui, deixe-me ajudá-lo com a...

Veck lançou um olhar por cima do ombro.

– O homem deve pagar. Sou tradicional nesse ponto.

– E a mulher pode muito bem fazer uma contribuição. Sou realista assim.

Quando ela empurrou uma nota de vinte dólares na palma da mão dele e ergueu o olhar para encontrar o dele, soube que Veck queria beijá-la... E não apenas em suas fantasias: queria saber como era apertá-la em seus braços e sentir o sabor daquela boca da qual não saía besteira nenhuma.

Não iria acontecer.

Voltando a se concentrar nas coisas que não iriam comprometê-lo ou que evitariam um tapa, passou o cartão, digitou a senha e esperou a transação completar-se. Depois de jogar o cupom fiscal fora, dirigiu-se à saída, onde deixou o carrinho com os outros e recolheu as sacolas com as compras.

Enquanto caminhavam de volta para o carro, ele murmurou: – Você está quieta. Falei demais?

Olhou para ele ao desativar o alarme do carro e destrancar todas as portas.

– Sobre seu pai? Deus, não... A hora que quiser falar sobre ele, ou sobre qualquer outra coisa, ficarei feliz em ouvir.

Veck acreditava nela. O que era um milagre em si.

– Obrigado, mas você acabou de ouvir tudo o que tenho a dizer sobre o assunto.

Assim que se aproximaram do porta-malas destravado, ela foi até a porta do passageiro de trás e disse: – Espere, aqui, coloque as compras...

– Só vou jogá-las por aqui mesmo e...

Quando a porta ergueu-se sozinha, ele viu as três grandes sacolas da Victoria’s Secret e não pôde evitar: seus olhos fixaram-se em Reilly e observaram seu corpo... De baixo para cima, até as bochechas avermelhadas. O que significava que não havia um monte de pijamas e roupões de banho macios naquelas malditas sacolas.

– Hum... banco de trás – ele murmurou. – Está certo...

– Estavam em liquidação – ela disse enquanto ele fechava o porta-malas.

Ele estava ficando excitado outra vez. Agora mesmo. Droga.

Depois que as compras foram acomodadas no carro, os dois sentaram-se em seus respectivos bancos e ela ligou o motor. O cinto de segurança pressionou sua ereção, mas achou que o aperto foi bem-vindo. Não precisava ficar fantasiando um desfile de moda. A bela oficial Reilly vestindo aquelas coisas? Cara, precisava de um cigarro.

– Merda – ele disse.

– O que foi?

– Temos que ir à sua casa para fazer isso – com um palavrão, emendou. – Quero dizer, o jantar. Fazer o jantar na sua casa... Não tenho panela nenhuma.

Quando pararam no sinal da saída do estacionamento, Reilly olhou para ele... e começou a rir. Antes que percebesse, ele estava sorrindo também.

– Você não sabe cozinhar coisa alguma, não é? – ela disse.

– Terei sorte se conseguir abrir a caixa de tacos – ergueu o dedo indicador. – Mas ainda gostaria de fazer o jantar, se não se importa.

Negando com a cabeça, ela sorriu.

– Certo, mas pode me fazer um favor?

– Pode dizer.

– Pode esquecer o que viu no meu porta-malas?

Seus olhos perderam-se na boca de Reilly e, em seguida, desceram para o pescoço pálido e...

– Sinto muito – disse em tom sombrio. – Isso eu não posso fazer.

Ela respirou fundo, como se todos os pensamentos dele estivessem expostos em seu rosto.

– Droga – disse, soltando o ar. – Quero dizer, sim, é claro. Considere feito. Totalmente esquecido.

Uma buzina soou alto atrás deles e ela teve um sobressalto antes de acelerar.

Que bela noite. Só faltava ele botar fogo na casa dela..


CAPÍTULO 10

 

Durante os anos em que atuou como soldado de Operações Extraoficiais, Jim aprendeu que uma boa informação é fundamental para a missão em qualquer tarefa. Claro, quando trabalhava para o maldito Matthias seu trabalho era matar pessoas e, agora, não era bem essa a situação com seu novo chefe ou com seus alvos atuais. Porém, muitos princípios eram os mesmos. E os riscos eram ainda maiores.

Sentado na cama de hotel, com o computador apoiado nas coxas, o site do Correio de Caldwell estava no centro da tela e a dor de cabeça que sentia não era pelo brilho da máquina. Seu trabalho já tinha sido iniciado. Considerando que Devina não havia mentido sobre a alma.

Na noite passada, Thomas DelVecchio Jr. adentrou na floresta com um cara a quem investigava... O que é normal para um detetive de homicídios, certo? Errado. O que deteve a ordem normal dos fatos foi que David Kroner, considerado um serial killer, fora levado numa ambulância até a cidade à beira da morte. Encharcado de molho de tomate. E isso era apenas o começo do jogo. Após passar quase duas horas vasculhando a internet, Jim teve acesso a informação suficiente para escrever um livro sobre DelVecchio... e sobre o pai do cara. Não eram boas notícias.

– Droga, Cachorro – murmurou.

Cachorro bufou baixinho e colocou a pata sobre o antebraço de Jim, como se estivesse oferecendo ajuda. A questão era: onde estava a encruzilhada de DelVecchio? Estaria naqueles bosques de ontem à noite?

Não, pois Jim teria perdido antes de ter começado e imaginou que isso estaria fora das regras. Entretanto, não significava que Devina não tivesse dado tal golpe.

E assim...

– Onde você está, vadia...?

O demônio estava em algum lugar naquilo tudo, trabalhando nos bastidores, tentando mexer os pauzinhos para que o jovem DelVecchio se envolvesse profundamente com ela.

A rota poderia ser traçada através do pai. Digitando outra vez o nome do cara no Google, Jim começou outra pesquisa. Os resultados fizeram-no questionar se valia a pena salvar a humanidade. Oh, veja só, quanta coisa baseada em seus assassinatos. Pinturas. Autógrafos.

O cara tinha sua indústria... Mas parece que não duraria muito. As luzes seriam apagadas para ele em Connecticut muito em breve. Mas talvez vivesse para sempre na infâmia: havia vigílias acontecendo fora da prisão. Sem dúvida aquela procissão de manifestantes não impediria a execução, mas era uma indicação de que o bastardo poderia tornar-se uma celebridade ainda mais famosa quando estivesse totalmente acabado.

De acordo com os arquivos do jornal, DelVecchio pai tinha cometido a maioria de seus assassinatos em Nova York e Massachusetts, e a primeira denúncia datava do meio dos anos 1990, quando o primeiro corpo fora encontrado... em Caldwell, Nova York. Passaram-se três anos para que as autoridades percebessem que estavam lidando com um serial killer, e não com chacinas aleatórias. Parte do atraso ocorreu pelo assassino ter deixado os corpos em situações muito diferentes e pelas investigações realizadas com diferentes graus de competência policial. Outro fator foi, ao menos no começo, que DelVecchio escondia bem os restos e de maneira muito criativa.

Os casos, porém, começaram a ser ligados e, então, iniciou-se uma corrida para capturar seja lá quem fosse o assassino. O tapa na cara foi saber que DelVecchio estava aos olhos do público o tempo todo, um negociante de antiguidades... e não apenas bugigangas e falsificações. Estava no topo daquele mercado, importando estátuas, artefatos e mosaicos do Egito e do Oriente Médio.

Maldito filho da mãe. Existia até mesmo um artigo sobre ele na Vanity Fair, que dava informações detalhadas sobre seus negócios. Aparentemente, entre as viagens ao exterior e as grandes festas que frequentava, DelVecchio pai conseguiu engravidar uma mulher. O filho tinha nascido no mesmo dia que o pai nascera há 29 anos, mas não havia vida familiar. Nem outras crianças.

Contudo, houve uma espécie de contato: o assassinato daquela mulher acabou sendo a chave para finalmente capturarem DelVecchio, a primeira ligação que trouxe à tona a cadeia de crimes que havia formado. O resto era história, por assim dizer.

– Entrandooo...

Jim olhou por cima do notebook. Parado na porta do conjugado, Adrian tinha uma caixa de pizza entre as mãos e um pacote com seis cervejas pendurado nos dentes.

– Aí sim! Obrigado, cara.

Eddie entrou atrás com uma segunda caixa.

– Ele providenciou tudo... até a isca.

Ad sentou-se sobre a cama e apoiou as cervejas.

– Se chamam anchovas, idiota.

O “que seja!” ficou subentendido entre os dois. Jim alimentou Cachorro primeiro, dando ao cão o item que Adrian não apreciava muito. Considerando o movimento do rabo curto e grosso, a gororoba estava mais que boa.

– Então, como podemos saber que Devina não mentiu para você? – Adrian disse, antes de se inclinar e colocar a ponta de uma fatia de pizza na boca.

– Essa confusão toda é bem a nossa cara – clicou no artigo sobre a execução e girou o computador. – Este é o pai do cara. E espere, tem mais.

Enquanto comiam, Jim mostrou-lhes alguns sites e finalizou com um artigo sobre a pequena viagem do Júnior à floresta com outro serial killer. Enquanto seus parceiros liam, houve uma quantidade razoável de “mas que inferno”, o que era bom.

Terminou de comer a terceira fatia.

– Precisamos descobrir o que aconteceu naquela floresta ontem à noite.

– Os artigos dizem que DelVecchio não se lembra de nada.

Jim olhou para Eddie, mais conhecido como “o mestre dos truques”.

– É aí que você entra. Quero entrar na mente do cara e você precisa me dizer como fazer isso.

Ad deu de ombros.

– Pessoalmente, eu costumo usar um serrote, mas...

– Pode haver várias consequências e efeitos colaterais – disse Eddie com cuidado.

– Por exemplo?

– Bem, na pior das hipóteses... ele pode acabar como Adrian.

– Ei...

Jim interrompeu o anjo em questão.

– Meio surdo. Com medo de agulhas.

– Viciado em sexo – Eddie acrescentou.

– Ou seja, um deus – Ad exclamou, abrindo uma cerveja. – E continuo dizendo, pessoal, não sou surdo.

– Já passamos por isso antes – Eddie enxugou a boca. – Se não consegue ouvir o quanto é desafinado, então, como pode saber?

– Não sou desafinado.

– É sim – Jim e Eddie disseram juntos.

Antes que a discussão saísse do controle, Jim ficou sério e dirigiu-se a Eddie.

– Então, me diga o que eu preciso saber.

– Precisa me explicar primeiro o que está procurando.

Jim tomou um longo gole de cerveja.

– Quero saber onde Devina está em tudo isso. Qual é o ângulo de ação dela e de que maneira está suscetível a falhar nessa porcaria toda. É isso que estou procurando.

E, considerando a situação do pai, já tinha suas suspeitas.

É claro que Veck precisava ter visto o que havia no porta-malas – Reilly pensou enquanto entrava na garagem. – O universo não desperdiçaria uma oportunidade como essa para aprontar comigo. Enquanto a porta da garagem subia, olhou para seu parceiro.

– Deixe-me adivinhar: gostaria de carregar as compras, da mesma maneira como pagou por elas.

– Sim, gostaria – olhou para os bancos de trás. – Como disse, sou antiquado. Mas se quiser assumir a tarefa, posso voltar atrás.

E era por isso que não tinha qualquer problema com ele. Além disso, ele poderia cuidar da comida enquanto ela tirava suas roupas do porta-malas: apesar de constrangida, não deixaria as sacolas para trás. Não havia como fingir que nada acontecera, mas, mais importante que isso, não havia motivo algum para esconder. Era uma mulher adulta que poderia comprar calcinhas e sutiãs para si.

Quando a voz na cabeça dela ficou ainda mais estridente e na defensiva, perguntou-se quem exatamente estava falando. Provavelmente seu pai. Interrompendo o discurso ridículo, terminou de estacionar o carro. Enquanto Veck saía e pegava as sacolas do supermercado, deu a volta no carro, abriu o porta-malas e manteve a cabeça erguida ao pegar todos os seus artigos cheios de lacinhos e renda e seguir para a cozinha.

– Nossa! – ele disse ao olhar para as paredes, cortinas e balcões.

– Eu deveria ter avisado.

Ter uma decoração cheia de galos na cozinha é um pesadelo, mas a boa notícia é que, geralmente, as pessoas param e olham ao redor, e, por isso, ela conseguiu enfiar as sacolas num canto qualquer, longe de olhares curiosos.

– Acho que nunca vi...

Quando Veck apenas assentiu com a cabeça, Reilly ficou feliz por ele não ter terminado a frase. Claro que nem precisaria: a parte do “... tantos galos num lugar só” costumava ficar no ar com certa frequência.

Oh, Deus, aquilo era horrível.

– Desde que me mudei há dois anos, tenho vontade de pegar um estilete e arrancar tudo a partir dos cantos. Mas sempre tem algum trabalho mais urgente que me mantém ocupada.

Porém, ao observar como Veck olhava tudo aquilo, pensou que deveria ter um pouco mais de determinação. O papel de parede tinha três galos diferentes em várias e exageradas poses, como se fossem fisiculturistas participando de um concurso. O esquema de cores era marrom, vermelho e creme com tufos verdes de grama sob as patas tripartidas. E, de alguma forma, mesmo o material estando ali há uns bons vinte anos, mantinha uma vivacidade impressionante.


– Sou eu ou os olhos deles seguem a gente? – Veck perguntou ao colocar as sacolas sobre o balcão da pia.

– Eles estão observando você. É uma maravilha para minhas die-tas... sinto como se estivesse comendo em público e não consigo comprar frango desde maio do ano passado.

– É como estar no filme Os pássaros.

– Exceto por não ser uma fazenda. Eu sei – quando ela aproximou-se e abriu o armário sob o fogão, completou –, o fato de já estar um pouco acostumada com isso me assusta... será que me hipnotizaram? Aliás, as panelas estão aqui, as tigelas ali e as facas naquelas gavetas perto da lava-louças.

– Obrigado.

Quando ele tirou o casaco, os grandes ombros movimentaram-se naturalmente, mas, na mente dela, transformaram-se em algo nu e excitante – Hora da distração – Reilly pensou quando Veck começou a desembalar as coisas.

– Ei, acho que vou imprimir o arquivo do caso enquanto você começa a lidar com a comida.

– Ótimo.

– Pode levar um tempo. Minha impressora é antiga.

– Temos tempo.

Pela maneira como estava concentrado no pacote de salgadinhos, parecia que estava prestes a fazer uma cirurgia cerebral com o micro-ondas. E nossa... Aquele jeitão impassível, seguro e lindo era muito sexy, sem falar que aquela preocupação toda o deixava mais acessível. Isso e a maneira como se abriu a respeito das mulheres. Ela nunca pensara nas tietes... porém, mesmo pessoas de boa aparência podiam ser perseguidas pelos motivos errados, não?

No escritório que tinha no final do corredor, entrou no banco de dados da polícia de Caldwell, acessou o relatório e ficou parada ao lado da impressora, pronta para salvar a impressão quando as folhas ficassem presas... o que aconteceu. Duas vezes.


O primeiro indício de que as coisas não iam bem na cozinha foi o aroma inconfundível de carne queimada. O segundo foi uma explosão de palavrões. Que não parou até ela aparecer com as impressões.

Foram muitas bombas verbais. Em seguida, o detector de fumaça disparou. Seja lá o que estava na panela sobre o fogão – o mais provável era que fosse o hambúrguer, mas, como era Veck na cozinha, poderia até ser os nachos – precisava de uma mangueira de incêndio. Ele tentava lidar com a situação, levou a panela para a pia, colocou dentro da cuba, mas não ligou a água. Aproximou-se rapidamente do detector e começou a abaná-lo com um pano de prato sem nem sequer ficar na ponta dos pés.

– Acho que um dos galos aumentou o fogo – ele gritou.

– Isso não me surpreenderia.

Ela escondeu um sorriso quando colocou os papéis sobre a mesa e foi dar uma olhada no que ele tinha colocado no prato: os pedaços de queijo laranja tinham se unido à camada de tortilhas ao ponto de formarem uma nova composição molecular.

Só há uma coisa a fazer agora – ela pensou. Pegou o telefone e disse: – Qual sabor de pizza você gosta, oh, poderoso fazendeiro?

– Calabresa com salame.

– Boa.

Enquanto discava, olhou para cima. A parte de baixo da camisa de Veck tinha se soltado, e ela teve uma clara visão do cós preto da cueca, bem como dos pelos que desciam em linha a partir do umbigo sobre a pele firme. Imediatamente seu cérebro voltou à cena do banheiro na noite anterior. Apenas um instante e lá estava ela, observando o corpo nu...

– Oh, sim, oi – afastou-se rapidamente. – É um pedido. Sim, sou eu. Pizza grande de calabresa com salame. Sim. Não, sem bebidas... Não, não quero uma segunda pizza de graça... Não, sem acompanhamentos... Não, obrigada, não precisa... Não, também não quero sobremesa de maçã com canela – pelo amor de Deus, levavam mais tempo fechando o pedido do que fazendo, embalando e despachando a pizza para entrega! – Ótimo, obrigada.


Desligou, endireitou os ombros e virou-se em direção a Veck outra vez – estava parado bem atrás dela, olhos semicerrados, o corpo muito maior do que aparentava ser a dois metros de distância.

Ela não se moveu. Nem ele.

– Acredita que a confissão seja boa para a alma? – disse ele de maneira misteriosa.

– Sim...

– Então, preciso dizer uma coisa.

Oh, Deus, era por isso que diziam que não se deve misturar negócios com prazer: quando seus olhos se encontraram, Reilly não pensava sobre o caso em que estavam trabalhando. Pensava que deveria admitir algumas coisas a si mesma.

Vi você nu ontem à noite e te achei lindo.

– O quê? – ela disse ofegante.

Eu te desejo mesmo sabendo que não deveria.

Engolindo em seco, ela disse: – Diga...


CAPÍTULO 11

 

Veck sabia que não deveria responder à sua parceira e com certeza não deveria ter se aproximado tanto dela. A atitude correta seria começar a limpar a bagunça que tinha feito com os alimentos em vez de criar mais confusão.

Mas viu-a olhando o corpo dele e a expressão em seu rosto indicava um desejo forte e intenso. Surpreso? Sim. Satisfeito? Poderia, se ficassem juntos.

Mas não poderiam se desvencilhar das consequências daquilo com um banho de água quente, este era o problema.

– O quê? – ela sussurrou.

– Eu quero... – a palavra era tão rude que ele guardou-a para si mesmo.

– Diga.

Ele inclinou-se e colocou os lábios sobre o ouvido dela.

– Você sabe exatamente o que eu quero.

– E eu quero que você diga.

– Tem certeza? Não é nada agradável.

Antes que ele pudesse recuar, ela estendeu as mãos e colocou as dele sobre seus quadris. O toque foi leve como uma sombra caindo sobre o corpo de Veck, mas sentiu que tudo queimava por dentro. E uma coisa era certa, se ela instigou aquele contato é porque sabia exatamente o que ele tinha em mente.

O toque ficou mais intenso.

– Diga.

Sua voz era quase um rosnado.

– Quero foder você.

Reilly gemeu um pouco e ele continuou.

– Quero você nua. Embaixo de mim. E quero entrar em você – abaixou um pouco e passou a boca sobre o pescoço dela. – Mas sei que é especialista em conflito de interesses, então sabe muito bem os motivos pelos quais essa é uma má ideia.

Era a deixa para ela se afastar. Ou para ele pular fora. Nenhum deles se moveu.

Droga, o corpo dele começou a ficar fora de controle, sua ereção latejava por mais espaço para fazer o que sabia de melhor. O que significava que, se fosse para fazerem a coisa certa, a iniciativa partiria dela.

– Dê um tapa na minha cara – ele gemeu. – Me empurre... pelo amor de Deus, se tranque no banheiro ou algo assim. Pois se não fizer isso, eu vou...

– Me beije.

Deus, o tom que ela usou: aquilo era uma ordem. E quem era ele para desobedecer a uma ordem? Especialmente vinda de uma superior?

Veck estendeu a mão e passou o braço em volta da cintura de Reilly. Com um puxão forte e impaciente, aproximou-a de seu corpo. O próximo passo foi arrancar o elástico que amarrava os cabelos dela e jogá-lo no chão.

Cara, ela instigava tanto desejo com aquela coisa de não se afastar, e os cabelos vermelhos sobre os ombros diziam que estavam prontos para ter a mão de um homem sobre eles.

Quando agarrou a nuca e aproximou a cabeça ainda mais, sabia muito bem que iria dominá-la, assumiria o controle de seu corpo, iria segurá-la com força ao empurrá-la até a mesa da cozinha e ajoelharia entre suas pernas para sugar seu sexo. Era o que desejava fazer.

– Desculpe – ele disse, ciente de que não estava desculpando-se apenas pelo que estava prestes a fazer, mas por tudo que passava em sua mente, toda a vulgaridade que desejava impor aos dois.

Então, o destino foi selado quando ela deu um beijo nos lábios de Veck.

A boca dela era macia... e também seus seios contra o peitoral de Veck e seus quadris contra seu pênis... Era macia e quente, o tipo de coisa que se quer penetrar e permanecer ali por um bom tempo. Mas, mesmo com sua pélvis contorcendo-se e sua ereção pulsando, no fundo Veck sabia que o conflito de interesses não era o maior problema que tinham. Por mais que fingisse estar tudo normal com ele, estava em carne viva por dentro por causa daquela porcaria que tinha acontecido na floresta e pela novidade sobre seu pai. Tinha medo de que Reilly fosse exatamente o tipo de curativo que precisava... Esse foi o último pensamento lógico e decente que teve.


Quando penetrou a boca dela com a língua, seus braços apertaram-na e a parte inferior do corpo arqueou-se outra vez, a tensão e o movimento em seu pênis estimulou-o ainda mais. E isso foi antes de sentir o arrepio que passou pelo corpo de Reilly. Estava claro que ela acompanhava-o, especialmente quando o apertou em seus ombros com as unhas e suas pernas abriram-se o suficiente para que ele pudesse se encaixar com uma das pernas ali.

Pensando num palavrão, ele virou-a e colocou-a sobre a mesa, em cima da papelada que ela tinha acabado de imprimir. Imagens dela com as pernas sobre os ombros dele enquanto lambia seu sexo fizeram-no imaginar que deveria repensar a falsa propaganda sobre comê-la.

Bem, não era tão falsa assim. Só adicionaria uma atração turística muito importante na viagem para o grand finale. Passou a palma da mão sobre as coxas e levantou a perna dela, esfregando ainda mais o local onde ele desejava finalmente estar. Interrompendo o contato com a boca, mergulhou no pescoço de Reilly com mordidas e lambidas.

– Me deixe ver você – ele gemeu em sua garganta. – Me deixe...

– Entrar – outra voz disse.

Ele interrompeu o ritmo de repente, desvencilhando-se do abraço e olhando para cima. Agora seu coração batia por um motivo diferente.

– O que foi? – ela disse.

Seus olhos percorreram o local. Mas não havia quaisquer sombras esquivando-se em movimentos velozes pela cozinha com decoração de galos. Nenhum ruído de tábuas ou dobradiças rangendo. Ninguém observando pelas janelas.

Depois de um momento, a adrenalina diminuiu e percebeu onde estava e o que estava fazendo com ela. Talvez tivesse sido um pensamento que assumiu uma voz muito alta. E não poderia sentir-se melhor com isso se considerasse o que tinha acontecido com Kroner na noite passada.

Uma das mãos de Reilly ergueu-se e acariciou a bochecha dele.

– Você está bem?

– Não – olhou outra vez para o rosto dela. Sentiu o corpo dela sob o seu. Ouviu suas respirações profundas. – Mas não quero parar. Você é real... E preciso muito disso agora. Preciso... de você agora.

Reilly não era como as outras mulheres com quem já tinha ficado: os olhos inteligentes viam demais e sabiam coisas demais. Cara, ele ficara nu na frente dela no primeiro momento em que a conheceu – e isso deveria tê-lo guiado na direção oposta do que estava acontecendo. Em vez disso? Só desejava-a ainda mais.

– Então, me possua – disse, puxando a camisa para fora da saia.

Veck não deu um segundo sequer para ela mudar de ideia: enquanto a beijava, mergulhou uma das mãos sob a abertura que ela havia feito na camisa, tocando toda aquela pele quente. Em seguida, os botões soltaram-se como se tivessem o mesmo objetivo que ele: acesso total.

Ergueu-se quando o último se abriu... caramba. Renda vermelha. Havia uma complexa renda vermelha sobre um par de seios perfeitamente proporcionais. Ele conseguia ver os mamilos tensos e firmes através da pequena extensão do tecido.

– Gostou do que eu comprei hoje? – ela perguntou com voz rouca.

– Nada mal – limpou a garganta quando falou. – Nada mal mesmo. Mas o que está por baixo é ainda mais quente.

Com uma graça harmoniosa, as mãos dela ergueram-se e acariciaram o sutiã de alças finas e brilhantes... Em seguida, passou a mão sobre os mamilos rígidos e, com isso, Reilly arqueou o corpo, implorando por ele.

Com um rosnado, ele empurrou a saia para cima e adentrou entre as pernas dela, separando-as ainda mais com seus quadris ao se aproximar do que havia chamado sua atenção. Ao colocar a boca sobre o sutiã incrível, além de sentir a renda em sua língua, também percebeu a carne rosada e firme por baixo do tecido.

Não levou muito tempo para aquilo não ser mais suficiente. Com a mão áspera e impaciente, puxou o bojo para baixo, revelando o mamilo.

– Porra... – ele exclamou. – Você...

Ela não quis nem saber de conversa: com pressa, seus dedos agarraram a nuca dele e, com isso, aproximou a cabeça de Veck de seus seios. Enquanto ele sugava-a, ela ergueu-se sobre a mesa, e aquele movimento, aquele puxão, fez com que ele deixasse de lado qualquer constrangimento. De repente, Veck assumiu o controle, ergueu-a ao colocar um dos braços embaixo dela, a outra mão foi direto entre as coxas, em direção ao desejo que emanava daquela calcinha.

Acariciou o sexo dela, a palma da mão envolveu o local, bem onde ela desejava...

– Veck!

O som do nome dele foi um pedido de mais, mais, mais. E daria isso a ela. Trocando de lado, mordeu a outra metade do sutiã e puxou com os dentes, antes de sugar o outro mamilo. Contudo, ainda não era suficiente. Precisava de contato total com a pele nua. Aqui, agora...

O gemido que saiu dela foi exatamente o som de consentimento que precisava ouvir.

Deus, vai acontecer – pensou. – Vai acontecer.

Veck era um dominador total. Reilly não esperava menos que isso, mas a excitação foi surpreendente. Em parte por saber que, se dissesse não estar à vontade em ir tão longe, ele recuaria no mesmo segundo. Mas o resto devia-se à maneira como ele lidava com ela, a confiança, o poder, a possibilidade erótica que emanava de sua boca, de suas mãos e de seu olhar sedutor e intenso.

Sem dúvida, Veck tinha um talento natural para o sexo... E desenvolveu isso ao longo dos anos. De repente, como se tivesse lido a mente daquela mulher, seu olhar ergueu-se com um brilho e fixou-se no dela enquanto estimulava o mamilo da mulher com a língua... E, quando as pálpebras baixaram, sabia que desejava que ela o observasse.

Que visão. Ele puxou o outro lado do sutiã e acariciava-a, lambendo e chupando enquanto uma das mãos espalmadas pressionava sua pele. Deus, ele era grande – por inteiro. Seu pênis era longo e grosso e acariciava a parte interna das coxas dela, seus ombros eram tão grandes que não conseguia ver nada além deles, e a parte inferior do corpo daquele homem ocupava todo o espaço que havia entre suas pernas abertas.

Veck terminou de puxar o sutiã que pressionava os seios para cima, a camisa estava totalmente aberta, e a saia estava toda amontoada na cintura. O próximo passo era tirar o tecido de nylon que cobria as pernas de Reilly e, para isso, ela saiu um pouco de cima da mesa, sentindo aquela mão pressionar com mais força ainda em movimentos circulares. Mergulhou os polegares na cintura da meia-calça e baixou os quadris, escorregando a peça ao longo das coxas.

– Eu assumo daqui em diante – Veck recuou um pouco, os olhos em chamas observando o corpo de Reilly. – Hummm... bem onde eu queria estar.

Quando ele sorriu como um predador, ela ergueu os joelhos para ajudá-lo a tirar as meias, lentamente. E só depois que o fino tecido estava livre de seus pés, ela perguntou-se até onde aquilo tudo chegaria. Iriam terminar de fazer aquilo que não deveriam nem ter começado?

Se aquilo fosse um “sim”, teriam que lidar com alguns aspectos práticos. Mas, caramba, que coisa chata falar de camisinha – e, sim, agora entendia por que as pessoas faziam escolhas idiotas quando se tratava de sexo. Coisas realmente importantes não tinham a menor relevância ali, todo o sofrimento que poderia vir depois daqueles minutos intensos, coisas com as quais teria que conviver, talvez para sempre... Passavam a ser ecos distantes, que ela mal conseguia ouvir, pronunciados num idioma que não queria traduzir.

Cinquenta mil anos de evolução poderiam dizer o que estava acontecendo.

Com um impulso, Veck voltou à boca dela, beijando-a profundamente enquanto as mãos desciam...

A maldição que disparou da garganta dela era mais uma vibração que um sim. A mão dele estava de volta entre as pernas, acariciando suas coxas, indo em direção à peça que completava o conjunto com o sutiã que já tinha visto e dominado.

– Veck! – ela exclamou outra vez quando o toque deslizou sobre o centro da faixa de cetim.

Foi cuidadoso, colocando apenas a pressão suficiente sobre o local tão sensível, acariciando-a em movimentos circulares que fizeram seu corpo ficar ao mesmo tempo relaxado e tenso.

Dane-se a calcinha, ela não queria nada entre eles... Mesmo assim, a barreira de seda não era de todo ruim, a costura adicionava outra dimensão ao ritmo que ele tinha imposto. E não parou de beijar sua boca, de envolvê-la, de aproximá-la ainda mais, mesmo já estando bem juntos.

Com um movimento rápido, ele levantou o tronco de Reilly e empurrou seus quadris contra o sexo dela, entrelaçando os corpos. Em seguida, curvou a coluna e encaixou-se sobre ela, acariciando-a com seu pênis enquanto observava-a com atenção.

Deus, o rosto dele estava cheio de desejo, aquela frieza tinha desaparecido, aquela máscara impassível havia explodido com a intensidade que apertava o maxilar.

Eles iam mesmo fazer aquilo, Reilly concluiu.

Surpreendente. As escolhas na vida de Reilly eram baseadas em dados precisos do que deveria, teria que ou do que era melhor não fazer. Com certeza, fazer sexo daquela maneira estava na última categoria... e, mesmo assim, não pretendia deter nada.

Porém, fariam aquilo com segurança – embora não sobre uma cama. Aquela mesa estava servindo muito bem. Mas havia coisas que ela precisava fazer primeiro. Descendo o corpo, deslizou as mãos até... a cabeça de Veck caiu para trás.

– Caaara...

Perfeito: o pênis rijo era ainda maior do que imaginava e latejava contra a palma de sua mão...

O som da campainha ecoou, alto como um tiro. E, mesmo assim, por um momento, ela não conseguiu compreender o que era aquele barulho ou por que deveria importar-se com ele. Veck recuperou os sentidos primeiro.

– Pizza.

– Que p...?

Com o pensamento rápido e lógico, ele estendeu a mão e apagou as luzes para que o entregador da pizza de calabresa com salame não assistisse ao show na cozinha. Então, com mãos eficientes, colocou a camisa dela de volta, puxou a saia para baixo e começou a arrumar as próprias calças, para que não ficasse uma tenda de circo.

– Vou cuidar disso – disse ele com uma voz equilibrada. Como se nada tivesse acontecido. Nada.

Enquanto ele foi até a porta da frente, Reilly sentou-se lentamente, a cabeça não parava e o corpo tremia. Segurando a blusa, percebeu que a volta ao normal repentina fê-la sentir-se totalmente fora de controle. Em seguida, ela saiu da mesa e os papéis do caso Barten caíram no chão.

A chuva de folhas soltas formou uma espécie de tapete aos seus pés e foi o espelho exato que precisava para ver tudo com clareza: do outro lado da cidade havia uma família de luto pela filha que sabiam ter perdido, e, em vez de concentrar-se na dor deles e em seu trabalho... estava esfregando-se num homem que não tinha nada a ver com ela.

Não poderia existir um conflito de interesses maior. Serviria de exemplo num livro didático. Mexendo nos botões da camisa, fechou-os rapidamente e, então, inclinou-se para pegar as cópias do relatório. Quando o cabelo caiu sobre o rosto, perguntou-se onde estaria seu elástico.

Quem poderia saber?

Colocando os fios atrás das orelhas, juntou as impressões com cuidado, reordenou as páginas e separou tudo em duas pilhas – a dela e a de Veck. Separado era melhor.

Ela tinha enlouquecido?

Vindo da porta da frente, ouviu um burburinho de palavras de agradecimento, a porta fechou-se em seguida e passos pesados trouxeram Veck de volta à cozinha.

Levantando-se rapidamente, colocou as duas pilhas de papéis sobre a mesa e manteve os olhos sobre elas. Não conseguia olhar para Veck. Simplesmente não tinha forças para aquilo no momento.

– Acho melhor você ir – sua voz não soou bem, mas ela não se sentia bem mesmo.

– Certo. Vou chamar um táxi.

Droga. A moto dele estava na delegacia, não?

Após soltar um palavrão em voz baixa, murmurou: – Está tudo bem. Posso levá-lo...

– Não, um táxi é melhor.

Ela assentiu e acariciou a primeira página do relatório... onde indicava os principais dados de Sissy e a data de seu desaparecimento.

– Vamos verificar tudo isso amanhã no escritório.

– Sim – quando ele vestiu o casaco, o som macio do tecido foi mais alto que a campainha. – Sinto muito.

Ela cruzou os braços sobre o peito e assentiu outra vez.

– Sim, eu também. Não sei o que deu em mim.

Mas sabia muito bem o que aconteceria se o jantar não tivesse chegado bem na hora. Momentos depois, ele foi embora e fechou a porta tão silenciosamente que não se fez som algum. Quando finalmente olhou por cima do ombro, tudo o que viu foi a pizza no balcão. Certo, como se fosse comer alguma coisa. A caixa foi direto para a geladeira.

Saindo da cozinha, passou pela mesa e encontrou sua meia-calça atrás de uma cadeira. Seu elástico de cabelo estava no chão perto do arco que dividia os ambientes, já dentro da pequena sala de jantar. Ao inclinar-se para pegá-lo, ficou frente a frente com as compras da Victoria’s Secret e percebeu que seu sutiã ainda estava beeem fora do lugar. Deixou as sacolas ali e resolveu aquele pequeno problema com alguns puxões e vários palavrões. Enquanto aproximava-se das escadas, decidiu que usaria sua velha lingerie de algodão de sempre para ir trabalhar no outro dia. Era isso, muito obrigada.


CAPÍTULO 12

 

– Pergunta. Mesmo se não quebrar nada para entrar, ainda é considerado invasão de domicílio?

Adrian soltou essa pequena pérola assim que assumiram forma em frente à porta de entrada da casa de Thomas DelVecchio Jr. – e, se considerassem tudo o que ele havia dito até hoje, sabiam que o anjo poderia ter soltado um comentário muito pior.

Jim nunca passou tanto tempo em sua vida desejando protetores e fones de ouvido. Mas pelo menos o bastardo não tentou o rap.

– E aí? – Ad disse.

– Olha só, nós nem sequer existimos – Jim murmurou. – Então, você pode alegar que nem estamos aqui de verdade.

– Ótimo argumento. Acho que é legal.

– Como se o contrário o incomodasse.

A casa era decorada ao estilo de Jim: funcional, nada de especial, muito espaço vazio. O problema? Poucos itens pessoais, e precisavam de algum objeto feito com um pouco de metal. De preferência ouro, prata ou platina. Se conseguissem algum objeto com impressões suficientes de Veck, poderiam usá-lo como ponte para entrar no cérebro do cara remotamente: de acordo com Eddie, era arriscado demais fazer isso pessoalmente. Não com Devina por perto.

– Vamos nos separar – disse Jim. – Vou examinar o andar de cima.

Quando Ad e Eddie espalharam-se, Jim subiu as escadas de dois em dois degraus. O quarto principal ocupava metade do andar. Claro que essa afirmação soa mais impressionante do que a realidade, pois a metragem total não passava de setenta metros.

– Meu Deus, quanta coisa, hein amigo? – murmurou.

Não havia nada no quarto além de uma cama grande e uma porcaria de mesa de cabeceira com um abajur sobre ela. Nada de despertador – provavelmente o cara usava o celular para isso. Nada de telefone fixo, mas para que se precisava de um? Havia uma TV de tela plana fixada na parede, cujo controle remoto encontrava-se entrelaçado nos lençóis.

Havia algumas roupas sujas num cesto de plástico no canto, meias e cuecas transbordavam pelos lados como se a coisa babasse algodão preto. Abriu o armário... e havia camisas penduradas nos cabides, que era bem melhor do que a mala que Jim usava há anos para guardar suas roupas. Atrás da porta, havia alguns cintos com fechos de metal, mas tinha de haver algo melhor para que Jim pudesse usar.

Foi até o banheiro. Todas as luzes apagadas, mas o cara não usava cortinas, então havia bastante iluminação vinda da rua. Assim que entrou no cômodo pequeno e azulejado, sentiu algo forte em sua nuca, como se formigas rastejassem sobre a pele.

Devina.

– Onde você está? – disse, dando uma pequena volta ao redor de si. – Onde diabos você está?

O demônio esteve ali, podia sentir sua presença no ar, como o mau cheiro que exala de uma grande lixeira, mesmo depois de ter sido esvaziada. Aquilo dava alguma credibilidade à revelação de Devina no restaurante.

Quando se voltou para a pia, franziu a testa. O espelho estava coberto com uma toalha e o formigamento em sua nuca aumentou quando estendeu a mão e puxou o tecido felpudo.

Nada, a não ser um armário de remédios dos anos 1980 embutido na parede. Mas o vidro frontal estava totalmente contaminado. Será que ela passou pelo objeto de alguma maneira? – perguntou-se. Recuou no mesmo instante em que as pontas do dedo fizeram contato com a superfície espelhada. O armário de remédios estava gelado.

Droga, Veck sabia que alguma coisa estava atrás dele, não? Por que cobriria a coisa? A questão era: até onde o demônio havia chegado dentro dele?

– O que fez com ele, vadia?

Recolocando a toalha, Jim abriu as gavetas, verificou o desodorante, o tubo de pasta de dente extra e o cortador de unhas. Ei! Talvez aquilo funcionasse. Só que dificilmente o objeto teria uma conexão emocional com... Uma luz estendeu-se pela frente da casa, atingindo a janela onde Jim estava e lembrando-lhe que não se preocupara em ficar invisível. Fazendo o corpo desaparecer, olhou pela janela. Na calçada em frente à garagem, Veck saiu do táxi amarelo.

Jim atravessou o quarto principal e desceu as escadas, só seria percebido se alguém sentisse a brisa que seus movimentos produziam. Na cozinha, viu que Ad e Eddie também tinham ficado invisíveis, e os três esperaram juntos, formando uma pequena fonte de calor no canto do cômodo.

Ela ainda está nele – disse em pensamento aos seus amigos.

Posso senti-la daqui – Eddie respondeu.

Na entrada da casa, a porta foi aberta, fechada e trancada. Em seguida, passos pesados aproximaram-se de onde eles estavam.

– Mas que... droga...

As maldições continuaram enquanto Veck entrava na cozinha, jogava as chaves e arrancava a jaqueta. Em seguida, foi até a geladeira e pegou uma cerveja. Tirou a tampa e bebeu com vontade, era evidente que tivera uma noite difícil no trabalho.

De repente, o cara ergueu a cabeça, apoiou a cerveja e olhou diretamente para onde os três estavam. Ele não deveria ser capaz de senti-los, muito menos de vê-los. Nenhum deles moveu-se. Nem mesmo Veck. E foi nesse momento que Jim olhou para o chão de linóleo atrás do detetive... e notou que o cara projetava duas sombras.

Única fonte de luz? Duas projeções em sentidos opostos sob seus pés?

Em silêncio, Jim apontou para o chão e seus colegas assentiram.

Veck estendeu o braço e tocou um interruptor, iluminando melhor o ambiente. Em seguida, ele olhou ao redor.

– Puta... que... pariu.

Obviamente, esse era o mote da vida daquele cara e, se Ad não se encorajasse a soltar a voz, Jim consideraria cantarolar um pouco daquela música também.

Veck balançou a cabeça e voltou para sua cerveja, tomando o que restava de uma vez só. Deixou a garrafa vazia sobre o balcão, pegou mais duas na geladeira e andou até a sala. Destino: sofá.

Jim e seus amigos foram atrás dele, mas mantiveram distância. Veck era intuitivo ao extremo ou contaminado o suficiente para ter um radar que percebesse a presença dos anjos. Conhecendo a sorte que tinha, tratava-se da última opção.

O detetive retirou as armas para se sentar: removeu uma bela automática e uma faca. Em seguida, retirou o distintivo brilhante da polícia, prata e dourado. O homem segurou a coisa sobre a palma da mão em formato de concha por um tempo. Olhava como se fosse uma bola de cristal... ou talvez um espelho onde tentasse ver a si mesmo.

Deixe isso de lado, cara – Jim pensou. – Termine as cervejas, deite um pouco e tire uma soneca. Prometo que devolvo quando terminar.

Veck seguiu as instruções e colocou o distintivo com seu nome e número de registro na polícia junto às armas, bebeu as cervejas uma seguida da outra e recostou-se nas almofadas. Seus olhos fecharam-se um momento depois. Levou um tempo para que as mãos relaxassem e caíssem para os lados, mas, em seguida, a respiração lenta e profunda confirmou o descanso – e a deixa para que eles pegassem o que precisavam e saíssem.

Jim estendeu a mão à altura da cintura e deu uma de cavaleiro Jedi com o distintivo, fazendo o objeto levitar e trazendo-o até ele ao longo da escuridão. No instante em que a palma de sua mão fez contato, sentiu o mesmo frio que sentira no andar de cima, a crueldade de Devina habitava no espaço entre as moléculas do metal.

O cuidado de Eddie parecia exagerado... até agora. Considerando a forte mensagem que o distintivo transmitia, não dava para ser pego de calças curtas ao atuar naquela tarefa.

Jim indicou a janela com a cabeça e, como uma névoa, os três desapareceram.

Do outro lado da cidade, no centro urbano de Caldwell, o Hospital São Francisco era um complexo que brilhava como uma das ruas de Las Vegas. Sob seus telhados de vinte estilos diferentes, vidas começavam e terminavam aos milhares a cada ano, a luta contra o Ceifeiro da Morte era travada por todos os médicos, cirurgiões e enfermeiras que ali trabalhavam.

Devina estava bem familiarizada com o local: algumas vezes, aqueles humanos de jalecos brancos e uniformes cirúrgicos precisavam de uma pequena ajuda para garantir que o trabalho fosse feito corretamente. E, geralmente, isso significava a morte, mas nem sempre.

O demônio entrou na ala de emergência pela porta frontal automática. Vestindo sua bela pele feminina, capturou todos os tipos de olhares vindos de pais e irmãos sentados na sala de espera. Era por isso que não pegava atalhos. Passar através de vidros, metais ou tijolos era eficiente, mas chato: adorava ser admirada. Cobiçada. Desejada. E os olhares ardentes das outras mulheres, todos aqueles olhares cheios de ódio e inveja? Melhor ainda.

Encontrar Kroner no labirinto de corredores, andares e unidades foi muito fácil. Estava há anos dentro dele, ajudando-o a aprimorar suas habilidades e dando suporte à sua obsessão. Já nasceu doentio, mas lhe faltava coragem para seguir os impulsos – e a impotência agiu a favor dela. Nada instigava mais a violência contra mulheres atraentes num louco como ele do que o próprio pênis murcho e fino.

A UTI que procurava estava sete andares acima, e ela gastou um pouco de tempo nos elevadores, caminhando, observando os uniformes das enfermeiras. Nada demais. Tecidos de algodão com péssimo corte que não realçavam nada na parte de cima e evidenciavam a flacidez da parte de baixo. Que diabos achavam que estavam fazendo com aquele visual?

Quando finalmente aproximou-se das várias portas duplas de metal, pegou uma carona com uma servente e um idoso sobre uma maca. O velhote estava apagado, mas a mulher não deu apenas uma olhada, foram várias. Sem dúvida, continuaria a observar se as portas não tivessem sido abertas no andar que precisava ficar. Lançou um sorriso sobre o ombro, saiu e não conseguiu deixar de rir um pouco.

Enfim, era hora de começar a trabalhar. Tinha a opção de assumir a forma de uma névoa e serpentear sobre o chão lustrado, mas isso causaria pânico demais. Ou poderia continuar invisível, o que era considerado uma falha de originalidade em sua cartilha: tinha passado séculos desfrutando da interação com os humanos, disfarçando-se entre eles, beliscando seus calcanhares e esfregando-se contra seus corpos – ou indo até mais além. Não havia motivo para desperdiçar a oportunidade de divertir-se um pouco naquela noite, mesmo trabalhando. Afinal, sua terapeuta estimulava-a a encontrar um equilíbrio na vida.

Ao chegar à unidade, atravessou um corredor cheio de fotografias de vários diretores de departamentos. Muito útil, como perceberia logo em seguida. Ela parou diante de várias, observando as características, os acessórios, os nomes e títulos, os jalecos brancos e as gravatas listradas ou roupas mais formais. Era como comprar uma roupa nova. E tinha seu serviço próprio de alfaiataria.

Virando numa esquina do corredor, olhou para os dois lados para certificar-se de que estava sozinha e, então, cuidou da câmera de segurança acima dela, enviando uma carga elétrica suficiente para desativá-la sem explodir.

Em seguida, assumiu a aparência e o jaleco branco do chefe da neurologia, um tal de dr. Denton Phillips. O disfarce foi um pouco decepcionante e flácido se comparado ao traje exuberante da bela morena. O homem tinha mais ou menos sessenta anos e, embora fosse um homem branco, arrogante, bem conservado, sentiu-se mal e feia. Ao menos era melhor do que realmente parecia, e era temporário.

Quando voltou ao corredor principal, caminhou como um homem e era ótimo ver o respeito e o medo nos olhos dos funcionários pelos quais ela passava. Não tão divertido quanto a luxúria e a inveja, mas agradável mesmo assim.

Não precisava perguntar onde Kroner estava. Era muito fácil de encontrá-lo – e não ficou surpresa ao se deparar com um policial uniformizado sentado do lado de fora do quarto. O homem levantou-se.

– Doutor.

– Só vou levar um minuto.

– Fique o tempo que precisar.

Não era bem assim... Ela tinha que trabalhar rápido. Não fazia ideia de como o dr. Denton Phillips realmente era e não havia como ter certeza se a altura estava correta. Isso acontecia quando tudo o que se tinha era uma foto para servir de molde: aquele não era um bom momento para encontrar quaisquer colegas que o conhecesse bem – ou pior, o homem em si.

A UTI onde Kroner estava tinha paredes de vidro com cortinas, era possível ouvir o silvo do equipamento médico que o mantinha vivo. Deslizou a porta, empurrou o tecido verde de um biombo e entrou.

– Você está péssimo – ela disse com voz masculina.

Ao caminhar até a cama, deixou de lado a aparência do bom doutor e mostrou-se como a bela mulher que Kroner tinha conhecido há dez anos.

Havia tubos entrando e saindo pela boca e pelo nariz, e os fios emaranhados que saíam de seu peito davam-lhe a aparência de uma central telefônica. Muitos esparadrapos de gaze branca sobre a pele cinza. Muitos hematomas. E seu rosto parecia bexiga de festa, todo vermelho e brilhante, esticado pelo inchaço.

Aquele não era o fim que ela tinha planejado e no qual havia trabalhado. Era para DelVecchio ter cedido e matado o desgraçado antes mesmo de Heron ficar sabendo qual era a próxima alma. Infelizmente, seu cordeiro sacrificial louco e pegajoso tinha sido abatido por outra pessoa.

Pelo amor de Deus, era óbvio que não sobreviveria. Ela não era um médico – apenas interpretava um de vez em quando –, mas só aquela palidez já a fez pensar em funerais.

No entanto, ainda não era tarde demais para o bastardo. E, após esse deslize, não correria mais nenhum risco de perder essa rodada. Hora de tornar-se um pouco mais agressiva, especialmente se pensasse no acordo que tinha selado com Heron.

– Ainda não é sua hora – ela inclinou-se sobre a cama. – Preciso de você.

Fechando os olhos, acomodou-se sobre o corpo do homem, cobrindo-o por completo e, em seguida, infiltrou-se dentro dele através de cada poro que havia. O poder inato nela preencheu o vazio, reenergizou Kroner. Ao puxá-lo da espiral da morte, ela curou-o e deu-lhe forças ao mesmo tempo. E pensar que humanos confiavam em aparatos médicos. Tão rudimentar.

Os olhos de Kroner abriram-se conforme ela se retirava e reassumia sua forma. Então, ele encarou-a. Um brilho amoroso surgiu em seu olhar. Patético, mas útil.

– Viva – ela ordenou –, e nos veremos em breve.

Ele tentou acenar com a cabeça, mas havia muitos acessórios de entubação em sua garganta. Contudo, cumpriria a ordem. Quando ela olhou para o dispositivo de monitoramento, a frequência cardíaca já tinha alcançado estabilidade e sua pressão arterial estava regulada. O nível de oxigênio saiu de setenta e foi para noventa.

– Bom menino – ela disse. – Agora, descanse.

Erguendo a mão, colocou-o em um sono profundo e restaurador e, em seguida, reassumiu a imagem do bom e velho dr. Denton.

Entrar, sair, partir.

Saiu da sala envidraçada, acenou para o guarda e caminhou pelo corredor, passando por bajuladores e puxa-sacos que quase se ajoelhavam enquanto passava. O que era agradável. Ao ponto de ficar tentada a desfilar pelo hospital por um tempo, apenas para sentir melhor a experiência de ser aquele homem.

Mas não podia, a última coisa que precisava era encontrar alguém que realmente o conhecesse. E, mais importante, tinha um compromisso com a terapeuta bem cedo no outro dia e ainda tinha que escolher o que vestiria – isso poderia levar horas. Motivo pelo qual precisava de uma maldita terapia. Hora de ir.


CONTINUA

CAPÍTULO 7

 

Ao meio-dia, Reilly deixou a delegacia a pé e seguiu para o centro da cidade. O dia estava glorioso, com um sol de abril tão radiante e quente que afugentava aquela sensação dos doze graus exibidos nos termômetros. Mas a oficial não era a única que se beneficiava com o clima. Havia uma multidão nas calçadas e atravessando as faixas de pedestres, atrapalhando o trânsito, ao passarem com refrigerantes e sorvetes nas mãos; muitos comiam alguma coisa à beira de uma fonte ou sentados num banco do parque. Após seis meses de escuridão gelada, o Estado de Nova York ansiava por algum sinal de que o inverno realmente estivesse indo embora... E aquela bela hora do almoço não seria desperdiçada.

Aparentemente, Reilly estava no intervalo do trabalho, assim, poderia colocar a cabeça em ordem antes de ver Veck outra vez. Porém, seus passos tinham um propósito e uma direção aos quais ela recusava-se prestar atenção.

O Shopping Galeria era um dos projetos de revitalização do centro, mas, ao contrário de muitos outros, este realmente deu certo. Com uma grande loja de departamentos e uma grande livraria, os quatro quarteirões de prédios dos anos 1920 tinham sidos interditados, liberando apenas a passagem de pedestres. Era um atrativo que tinha revigorado o local e tornado-se o refúgio favorito de milhares de funcionários de escritório, assim como Reilly.

Contudo, diferentemente de suas colegas, era a primeira vez que andava pelas diversas lojas daquele centro comercial... quando parou em frente a uma delas, atraída pelo brilho rosa que irradiava do vidro. Oh, não. De jeito nenhum. Aquilo não era sua... Uma mulher saiu balançando duas grandes sacolas com as mãos e com um sorriso de orelha a orelha.


– Liquidação! – disse a Reilly. – Oba!

Sua voz saiu tão alta e estridente que parecia ter respirado hélio. Mas talvez fosse por usar um corpete embaixo do casaco – ao menos era o que parecia. Enfim, Reilly balançou a cabeça; liquidação ou não, não era o tipo de coisa que ela... Já tinha entrado na loja.

Maldição. Nunca tinha visto tanta roupa íntima num só lugar em toda sua vida.

O estilo Victoria’s Secret não é para quem tem problemas cardíacos... ou um traseiro grande – ela pensou, perguntando-se há quanto tempo, exatamente, não aparecia na academia. Desde o ensino médio. Não... Talvez tenha sido desde o fundamental.

Cara, toda aquela renda intimidava. Assim como as imagens tratadas das modelos expostas em toda parte, de tamanhos bem maiores que o natural. E, para piorar as coisas, o lugar estava lotado de mulheres que não eram bem do tipo de Reilly. Eram garotinhas com seus vinte e poucos anos, pegando tangas, sutiãs de bojo, peças de tamanhos mínimos e outras coisas. Mesmo os pijamas ou moletons pareciam estar destinados a ser arrancados com os dentes por algum garanhão...

– Oi, posso ajudá-la?

Reilly estremeceu.

– Ah...

A vendedora era uma linda afro-americana que, provavelmente, ficava ótima em cada peça pendurada na loja ou dobrada sobre as mesas. Comparando-se a ela, Reilly sentiu-se uma coisa esquisita e sardenta do tipo que pede para fazer tudo no escuro.

– Estou bem, obrigada...

– Estamos em liquidação.

– Sim, vi uma moça saindo com algumas sacolas – o que, considerando a pequenez das roupas ali, significava que a garota tinha comprado quinhentas, talvez seiscentas, peças daquilo tudo.

– Está procurando por alguma coisa em particular?

Reilly estava prestes a balançar a cabeça recusando, quando sua boca abriu-se por conta própria.

– Quero sentir-me mulher, e não uma oficial de polícia. Eu apenas... estou cansada de mim e do meu trabalho neste momento. Entende o que quero dizer?

Oh, droga, o que ela estava dizendo?... Só uma observação: aquilo não tinha nada a ver com Brittany, que se escreve Britnae.

A vendedora sorriu.

– Entendo. Você veio ao lugar certo.

Reilly olhou para um maiô asa-delta com estampa de tigre e não teve tanta certeza disso.

– Acho que nunca comprei lingerie antes... Nada que escolhesse com cuidado, meus sutiãs são do tempo da Guerra Civil. Talvez de alguma guerra do século XVIII.

– Bom, meu nome é Ralonda – estendeu a mão – e posso cuidar de você.

– Reilly. Quero dizer... Sophia – quando apertaram as mãos, ela murmurou: – Você tem algum tipo de formação em psicologia, por acaso?

– Na verdade, é isso que eu vou estudar na Universidade de Nova York, no campus de Caldwell.

– Deus, você é perfeita.

– Imagine – Ralonda sorriu outra vez, exibindo seu sorriso. – Vamos tirar suas medidas e depois vou trazer algumas coisas.

Uma hora e US$ 673,43 depois, Reilly saiu com três sacolas cheias de coisas. Quando chegou à porta, de cabeça erguida, viu-se sorrindo para as duas garotas que espiavam as vitrines.

– Eles estão em liquidação – disse a elas. – Melhor entrar. E chame por Ralonda... Ela é a melhor.

Elas entraram correndo, e Reilly caminhou até a delegacia com uma curiosa sensação de leveza. Talvez o sutiã de bojo cereja com calcinha combinando que acabara de vestir tivesse propriedades antigravitacionais, erguendo não apenas seus seios mas também o corpo inteiro. Fazia com que se perguntasse o que os astronautas usavam por baixo de seus trajes. A horrível imagem de um astronauta velhaco veio-lhe à mente. O cara usava apenas um minúsculo conjunto cor-de-rosa.

Deu-se conta de que entrar na delegacia com aquelas sacolas da Victoria’s Secret e um andar leve não passaria a mensagem certa... Especialmente agora que seria a parceira de Veck no próximo mês. Esquivando-se pela lateral da delegacia, aproximou-se de seu carro e escondeu as compras no porta-malas.

Desta vez, quando entrou pelos fundos e passou pelo guarda na recepção, estava um tanto constrangida, pensando se alguém poderia saber o que usava por baixo das roupas. Porém, como sempre, ninguém prestou nenhuma atenção nela. Apesar dos muitos talentos dos vários membros da polícia, parece que visão de raio X não era um deles.

A primeira parada foi seu escritório. Verificou rapidamente o correio de voz e os e-mails. Em seguida, pegou um bloco de notas e seguiu para o Departamento de Homicídios. E, como se pode imaginar, a confiança nas propriedades ocultas do algodão e da Lycra acertou em cheio a todos ali quando abriu a porta do departamento. Todos olharam para cima, inclusive Veck.

Certo. Agora entendia por que as pessoas odeiam aqueles sonhos em que andam nuas numa sala cheia de pessoas. Nunca tivera um pesadelo assim antes e, enquanto colocava o bloco de notas em frente aos seios, não estava com muita pressa de vivenciá-lo.

As pessoas apenas acenaram e cumprimentaram, e ela acenou e cumprimentou de volta enquanto dirigia-se até Veck. O cubículo ao lado dele estava praticamente vazio, havia apenas um computador e um telefone. Quando Reilly sentou-se, manteve o caderno contra o peito.

Veck encostou-se na cadeira fazendo com que seu peito parecesse enorme contra a camisa branca.

– Tudo certo na sua sala?

– Sim. No que vamos trabalhar hoje?

Ele fez um gesto com a cabeça indicando a tela do computador.

– Encontrei alguma coisa para passar o tempo. Estava esperando você chegar... Pensei em fazer um reconhecimento de campo e consultar outra vez algumas testemunhas.

– Ótimo. Qual é o caso?

– Digo no caminho. Importa-se se usarmos o seu carro? Só tenho moto.

– Ah... – com certeza não haveria motivo algum para ele olhar no porta-malas. – Claro. Sim. Tudo bem.

– Obrigado, oficial. Ou deveria chamá-la de detetive nas próximas semanas?

Quando se levantaram juntos e ela viu-se com o rosto na altura do peitoral de Veck, sabia que era hora de sufocar sua Britnae interior.

– Só Reilly está bom – respondeu.

Por um momento, os olhos de Veck baixaram, e ela poderia jurar que ele murmurou “com certeza está”.

Sem dúvida a lingerie nova fazia-a ouvir coisas.

– Espere um minuto... esse não é um caso antigo de homicídio.

Ao pararem num sinal vermelho, Veck recebeu um olhar sério de sua nova parceira... o que foi muito excitante.

Endireitando-se no banco e rezando para que sua ereção não explodisse antes de chegarem ao local de destino, fez um esforço para manter a voz equilibrada e sem qualquer sinal de rouquidão. Porém, pelo amor de Deus, se aquilo fosse um indício de como seriam as próximas quatro semanas... estava com problemas.

– Tecnicamente, é uma desaparecida...

– Não existe “tecnicamente” nesse caso. Não há um corpo.

– Posso terminar?

– Desculpe – quando o farol ficou verde, ela pisou no acelerador. – Mas tenho um pressentimento de onde isso dará, e você não chegará nem perto do caso Kroner.

Veremos – ele pensou.

– Recebi um telefonema do FBI esta manhã. Estão trabalhando no caso dessa garota desaparecida e queriam saber se existe mais alguma novidade. Respondi que ficaria feliz em examinar o que já temos sobre...

– O FBI pode fazer isso sozinho...

– Não há motivo para não ser amigável. Ou para concluir que há alguma ligação com Kroner.

Ela franziu a testa.

– O que o FBI acha?

– Não perguntei. Talvez seja interestadual – pois, talveeez, aquilo fizesse parte do caso Kroner... e foi por isso que ele não perguntou nada.

– Só para que fique bem claro: se houver qualquer ligação com o caso Kroner, estamos fora.

– Certo – colocou a mão no bolso da frente do casaco e pegou um relatório de três páginas. – Cecília Barten, dezoito anos, desaparecida há apenas três semanas. Vista pela última vez saindo de casa para ir ao supermercado na avenida Union. Câmeras de segurança do estacionamento e da saída da loja não gravaram nada, graças a uma sobrecarga de energia.

– E por onde vamos começar?

– Pela casa dos pais. Quero verificar se deixaram passar alguma coisa. A mãe dela está esperando por nós... Vire à direita aqui.

Reilly seguiu as placas e virou, entrando num bairro não muito longe de onde Veck morava. Ali as casas eram um pouco maiores e mais bem conservadas. Não havia carros estacionados na rua, e Veck imaginou que não haveria grandes caminhonetes ou sedãs guardados naquelas garagens. Não tanto quanto minivans... Porém, naquela região, moravam vários casais com filhos, então, talvez estivesse errado.

– Certo – ele murmurou, olhando as casas – 491, 493, 495... aqui.

Reilly estacionou no meio-fio em frente ao número 497. Depois de desligar o motor, saíram do carro...

Logo atrás deles estacionou uma suv dourada com insulfilme e três agentes federais desceram. Os homens estavam à paisana e, quando saíram, o motorista de cabelo loiro escuro exibiu suas credenciais.

– Jim Heron. Conversamos pelo telefone. Estes são meus parceiros, Blackhawk e Vogel.

– Thomas DelVecchio.

Quando apertaram as mãos, Veck sentiu uma energia estranha e recuou.

– Esta é a oficial Reilly. Quer entrar conosco?

O agente estreitou os olhos ao observar a casa.

– Sim. Obrigado. Meus parceiros vão esperar aqui.

Boa ideia. Seria difícil que todos coubessem naquele hall minúsculo. Enquanto passavam pela entrada de tijolos à vista, uma bandeira balançava casualmente com a brisa da primavera. Ela tinha um tom pastel e um desenho em formato de ovo estampado, metade cor de lavanda, metade cor-de-rosa e com uma faixa amarela ao meio.

A Páscoa ocorrera no fim de março, bem na época do desaparecimento da moça. Sem dúvida, a bandeira fora esquecida ali... ou talvez a família rezasse para que Cecília Barten ressuscitasse a partir daquilo. De qualquer maneira, a ruína tinha atingido aquela casa, mesmo que ainda restassem quatro paredes e um teto: a garota estava morta. Veck sentia em seus ossos, mesmo não sendo do tipo que sente coisas.

Campainha... espera... espera...

Veck olhou para Reilly. Parecia triste ao se inclinar para trás e observar as janelas do segundo andar... Será que a oficial estava tentando descobrir qual delas correspondia ao quarto da garota? Atrás dela, Heron passava uma excelente impressão de uma estátua: grande e imóvel. Seus olhos estavam focados na porta da frente, como se pudesse enxergar através das paredes.

Veck franziu a testa. Havia algo estranho no cara. Contudo, não era uma questão de competência. O agente irradiava uma precisão militar sobre tudo, desde a forma com que exibiu suas credenciais até o jeito que andava e como se mantinha imóvel. Ainda assim... o que será que...

A porta abriu com um rangido suave, e a mulher do outro lado parecia que não dormia nem comia direito há muito tempo.

– Bom dia, senhora. Sou o detetive DelVecchio. Estes são a oficial Reilly e o agente Heron.

Todos mostraram suas credenciais.

– Por favor, entrem – ela recuou e fez um gesto com o braço. – Posso servir alguma coisa?

– Não, obrigado, senhora. Agradecemos por dispor de seu tempo para conversar conosco.

A casa estava impecável, com cheirinho de desinfetante e lustra-móveis. O que sugeria que a senhora Barten limpava as coisas em momentos de tensão.

– Será que poderíamos conversar na sala de estar? – ela disse.

– Por favor.

A sala estava cheia de lembranças e bens de família, com papel de parede florido e dois sofás lisos. Quando a senhora Barten sentou-se numa poltrona e todos tomaram um lugar no sofá, Veck observou bem a mulher. Estava saindo da casa dos quarenta, com muitos cabelos loiros puxados para trás e enrolados num coque. Tinha um corpo magro e alongado... O peso que perdera recentemente realmente lhe fazia falta. Nada de maquiagem e, mesmo assim, era bonita. Porém, tinha um olhar vazio.

Droga, por onde começar?

– Senhora Barten – Reilly interrompeu –, pode nos contar sobre sua filha? Coisas que ela gostava de fazer ou nas quais era boa. Lembranças diversas.

Encarando sua nova parceira, Veck teve vontade de gesticular um “obrigado” com a boca. Especialmente quando a tensão deixou os ombros da mulher e o esboço de um sorriso surgiu.

– Sissy era... é... – ela se corrigiu. – Por favor, me desculpem. Isto é difícil.

Reilly aproximou-se da poltrona.

– Leve o tempo que precisar. Sei que pedi muito.

– Na verdade, ajuda quando falo dela. Faz com que me sinta melhor.

Numa voz hesitante, que gradualmente ganhou ímpeto, as histórias começaram a surgir, pintando o retrado de uma garota muito inteligente, boa e um pouco tímida, do tipo que nunca se envolveria em problemas se pudesse evitá-los.

Cecília Barten foi assassinada – Veck pensou. Não era um daqueles relatos de fuga motivados por drogas ou por causa do ciúmes de um namorado abusado e descontrolado. Era uma família estável. Uma jovem feliz. Futuro brilhante. Até que um carro bateu contra sua vida e levou tudo.

– Importa-se que eu olhe as fotos que estão ali? – Veck disse quando houve uma pausa na narrativa.

– Por favor.

Levantou-se e foi até uma das estantes embutidas ao lado de cada uma das janelas arqueadas que davam para a rua. Dois filhos. A outra era a irmã mais nova. Havia fotos de festas de formatura, aniversários, passeios no campo e jogos de hóquei... reuniões de família e casamentos... Natais.

Olhava com admiração tudo aquilo. Cara, aquilo era o melhor que a vida “normal” tinha para oferecer e, sem razão alguma, pensou em como, enquanto ele crescia, sua família não conseguiu ter nada daquilo... momentos felizes e fotografias para exibi-los. O tempo que passou com sua mãe não dava vontade de compartilhar com ninguém. Aliás, não era nada que quisesse lembrar.

Ele estendeu a mão e pegou uma das fotos 5×7. Cecília estava em pé ao lado de seu pai, braço estendido sobre o dele e com uma das mãos descansando sobre as dele. Era muito parecida com sua mãe, apenas um pouco com seu pai. Mas a linhagem era clara.

–... ligou para casa? – Reilly disse.

Veck voltou à conversa.

– Isso – a senhora Barten disse. – Ela saiu por volta das nove horas. Eu tinha acabado de operar meu pé... Corrigi uma deformação no dedo... – por um momento, a mulher parecia ruminar alguma coisa em pensamento, e Veck apostava que era o quanto desejava voltar no tempo, quando suas maiores preocupações eram encontrar sapatos confortáveis. Mas, talvez, também estivesse se culpando. Ela balançou a cabeça e voltou a se concentrar.

– Eu estava imobilizada. Dei a Sissy uma lista de compras e... ela me ligou do mercado. Não sabia se eu queria pimenta verde ou vermelha. Eu queria as vermelhas. Estava fazendo um... – as lágrimas vieram e ela piscou com força para afastá-las. – De qualquer maneira, essa foi a última vez que alguém teve notícias dela.

Veck voltou a colocar a fotografia na prateleira. Quando foi sentar-se ao lado de Heron outra vez, franziu a testa. O cara olhava para a mãe da vítima como se ele fosse uma filmadora, como se estivesse lendo e registrando cada contração do olho ou da boca que ela fazia enquanto falava.

Quando o radar de Veck começou a soar feito louco, não ficou claro o motivo... Seria a garota desaparecida, ou sua mãe triste e adorável, ou aquele homem imenso que parecia ter a capacidade de incendiar alguma coisa com aquele olhar?

– Posso perguntar uma coisa? – Veck disse. – Ela teve algum namorado?

Com o canto do olho, pôde ver Heron apertando as coxas com força.

– Não. Tinha alguns amigos, claro, e um encontro em bailes de formatura aqui e ali... mas nada sério. Ao menos, não que ela tenha me contado... e costumava ser sincera sobre o que se passava em sua vida.

Aquelas mãos relaxaram de repente.

– Quer perguntar alguma coisa? – Veck disse ao agente.

Houve um longo silêncio. Pouco antes de tudo ficar realmente estranho, o cara disse com uma voz baixa e profunda: – Senhora Barten, vou trazê-la de volta para casa. De uma maneira ou de outra, vou trazê-la de volta para a senhora.

Veck recuou, pensando: Droga, não faça assim, cara.

– Ah, o que ele quer dizer é...

– Está tudo bem – a senhora Barten apertou a garganta com uma das mãos. – Não estou me enganando. Sei que ela está... que não está mais entre nós. Uma mãe sente o frio no coração. Só queremos saber o que aconteceu e... providenciar um descanso adequado para ela.

– Vai tê-la de volta. Juro.

Agora, a senhora Barten soluçava... e por que não choraria? O cara parecia um guerreiro acostumado com a rotina da vingança, era mais um vingador do que um agente.

– Obrigada... Agradeço a todos vocês.

Veck olhou discretamente o relógio.

– Se me der licença, eu e minha parceira vamos nos dirigir ao supermercado. O gerente disse que sairia mais cedo hoje.

– Oh, sim, claro.

O agente Heron ajudou a senhora Barten a se levantar dando-lhe a mão.

– Seria incômodo se eu desse uma olhada no quarto dela?

– Claro que não... Vou levá-lo até lá – voltou-se para Veck e Reilly. – Se precisam ir agora, voltem sempre que precisarem.

– Obrigada – Reilly disse. – Faremos isso.

– E vamos sair logo por aquela porta – Veck murmurou.

Quando o agente Heron e a mãe da vítima chegaram às escadas, Veck parou no hall e observou os dois subirem juntos. Uma janela no andar de cima iluminava-os, o raio de luz solar atingia os dois rostos e agia como um farol para...

Espere um minuto.

Veck olhou para a sala de estar... de onde os raios dourados vinham do lado oeste. Impossível. Não poderia estar vendo aquele efeito de luzes em direções opostas: vinha da frente e dos fundos da casa.

– O que é isto? – Reilly disse suavemente.

Veck voltou a olhar para a escada. Heron e a senhora Barten não podiam mais ser vistos, e a luz tinha ido embora também, a janela não mostrava nada além de galhos de árvores atrás da casa e o claro céu azul sobre ela.

– Vou subir – disse à sua nova parceira. – Só por um minuto.


CAPÍTULO 8

 

Quando Jim seguiu a mãe de Sissy, sentiu-se muito oprimido. Num canto escuro de sua mente, sabia que precisava manter o controle diante de Veck, mas isso não aconteceria por muito tempo.

Virando-se no alto da escada, os sons da casa subiram a níveis de um heavy metal estridente. Tudo, desde o rangido sutil do chão acarpetado sob suas botas até a conversa suave que acontecia no saguão lá embaixo ou sua própria respiração soando forte atrás da garganta, tudo parecia gritar em seus ouvidos.

De repente, Veck apareceu atrás deles e fez um comentário rápido. Jim assentiu para o cara... e, imediatamente, esqueceu até mesmo que estava ali.

– O quarto de Sissy é por aqui.

Os três seguiram à direita e, quando a senhora Barten hesitou diante da porta fechada, Jim ergueu a mão para colocá-la em seu ombro... mas não conseguiu fazer contato.

– Prefere que entremos sozinhos? – ele perguntou.

A senhora Barten abriu a boca. Mas apenas assentiu com a cabeça.

– Não entro aqui desde... aquela noite. Está do jeito que ela deixou.

Naquele momento, o telefone tocou, e ficou evidente o alívio no rosto da mãe de Sissy.

– Vou atender. Fiquem à vontade para abrir as gavetas e o armário, mas se precisarem levar alguma coisa, poderiam me dizer o que é?

– Com certeza – Veck respondeu.

Assim que a mãe de Cecília apressou-se em descer as escadas e desapareceu no que Jim concluiu ser a suíte principal, ele abriu a porta... um cheiro maravilhoso. Entrando, fechou os olhos e tentou não se sentir um pervertido ao respirar fundo. Perfume. Loção corporal. Lençóis secos. Era... extraordinário. Mas ele não pertencia àquele quarto. Já tinha feito coisas que não deveriam sequer passar pela cabeça de alguém que entrasse num quarto como aquele... e a representação daquelas maldades estavam na tinta que cobria suas costas. Além disso, estava armado. E ainda havia aquela porcaria que fez com o demônio na noite anterior. Sentia-se sujo.


Enquanto Veck fazia o reconhecimento do quarto sozinho, Jim abriu os olhos e foi até uma estante modulada com escrivaninha embutida em frente à janela. A superfície plana e as prateleiras eram pintadas de branco, mas a cadeira era azul, combinando com as cortinas e o papel de parede listrado. Havia um tapete com franjas trançadas sobre a área acarpetada. Feito a mão. Tinha de ser.

Os livros enfileirados estavam em ordem e tinham uma temática bastante feminina. Gostava de Jane Austen, mas também havia uma prateleira inteira de Gossip Girls... provavelmente deixada ali desde que Sissy tinha treze anos. Algumas medalhas, vermelhas e azuis. Troféus. Sobre a mesa havia um notebook junto com dois livros, um sobre cálculo e outro sobre... trigonometria avançada? Hum. Sua garota era mais esperta que ele.

Havia também uma revista, Cosmopolitan, daquele mês. Tudo bem, a capa com título “orgasmo” em fonte gigantesca e cor rosa-choque não combinava exatamente com o resto daquele ambiente inocente de trabalhos escolares... mas ela estava crescendo, não estava?

Virando-se, foi até o pé da cama de solteiro. Agora sabia por que a mãe da garota não entrava ali. A colcha azul estava puxada para trás e os travesseiros ainda amassados, como se Sissy tivesse acabado de tirar uma soneca.

– Estou indo – Veck disse. O que fez Jim se perguntar há quanto tempo estariam naquele quarto.

– Vejo você em breve – disse Jim distraído.

– Entendido.

Quando ficou sozinho, a mão de Jim estremeceu ao estender-se para tocar os lençóis. Ao acariciar os objetos que sua pele tinha tocado, pensou em Devina e no que aquele demônio tinha feito com a garota... e com a família dela.


Adrian e Eddie estavam errados. Se queriam Jim concentrado na guerra, ali era exatamente o lugar onde precisava estar. Aquilo era motivação para vencer: Sissy nunca mais deitaria em sua cama. Não terminaria o artigo que estava lendo. E não mais lidaria com números. Nunca mais. Mas, ao menos, Jim poderia providenciar um lugar melhor para Sissy ficar enquanto não pudesse se juntar a seus pais e sua irmã por toda eternidade. E, então, faria Devina pagar mil vezes por tudo o que fez.

Na mesa de cabeceira havia um despertador branco, outra revista – desta vez era a In Touch – e o controle remoto de sua pequena televisão branca. Teve a impressão de que, mesmo fazendo faculdade, Sissy voltava aos fins de semana, e uma espiada em seu armário confirmou isso. Considerando o número de blusas, calças, saias e vestidos, não parecia que tudo aquilo tinha sido excluído da lista dos favoritos, mas que estava pronto para usar. Havia também vários sapatos no chão.

Deixou as gavetas da cômoda de lado, pois não sabia em qual delas guardava as... roupas íntimas. Provavelmente, nas duas primeiras, mas não correria o risco de confiar no chute. Já tinha assumido o papel de um mero observador ali, pois não tinha mais esperança em encontrar alguma coisa que o ajudasse a salvá-la. Deus era testemunha de que não havia nada na Terra capaz disso. Já ele queria apenas... estar perto dela.

Certo. Muito bem. Isto era o tipo de coisa com a qual Ad e Eddie preocupavam-se. Assim, percebeu que era hora de ir. Mais uma vez, não tinha noção de quanto tempo estava ali. Seria dois minutos ou duas horas, mas a última coisa que desejava era a mãe de Sissy batendo na porta para saber se ele estava bem ou se já tinha ido embora.

Não pegaria nada, mesmo sentindo a tentação de ficar com algum objeto, algo para se fiar em momentos difíceis... alguma coisa de Sissy. Contudo, a família já havia perdido demais e não tiraria mais nada deles.

Jim passou um último momento olhando ao redor e, então, obrigou-se a sair. No corredor, fechou a porta e ouviu. A mãe de Sissy estava no quarto ao lado, falando em voz baixa e embargada.

Desceu as escadas e esperou discretamente no hall onde ficava a porta da frente. Inclinando-se para o lado, olhou a sala de estar em direção às fotos ao longo das grandes janelas. A que mais lhe chamou a atenção – tanto que se aproximou dela – foi uma foto de rosto de Sissy. Ela não olhava para a câmera, mas para o lado, e não sorria. Parecia mergulhada em seus pensamentos, e a expressão em seu rosto não era a de uma menina, mas de uma... sobrevivente. Parecia ter uma vontade de ferro.

– Ela não fazia ideia de que a câmera a focava.

Jim endireitou-se e olhou para a mãe dela.

– Não?

A senhora Barten aproximou-se e pegou o retrato.

– Sempre sorria quando havia uma câmera por perto. Quando seu pai tirou esta, estava assistindo suas colegas de time jogarem... Praticava hóquei de campo. Tinha torcido o tornozelo e estava no banco... mas queria estar com elas – a mulher ergueu o olhar. – Era mais forte do que aparentava ser.

Quando seus olhos encontraram os de Jim, ele respirou fundo e pensou: Graças a Deus... isto a manterá sã até o momento em que eu conseguir salvá-la.

A senhora Barten inclinou a cabeça para o lado.

– Você é diferente dos outros.

Hora de ir.

– Sou como todos os outros.

– Não, não é. Nas últimas três semanas, vi mais oficiais, detetives e agentes do que em qualquer programa policial na TV que tenha assistido ao longo de toda minha vida – estreitou o olhar – Seus olhos...

Jim virou-se para a porta.

– O detetive DelVecchio entrará em contato...

– Quero te dar uma coisa.

Jim congelou com a mão na maçaneta e pensou – Má ideia – estava louco para aceitar qualquer coisa que ela oferecesse.

– Não precisa.

– Aqui.

Quando ele virou-se para dizer um “não, obrigado”, percebeu o toque daquelas mãos em sua nuca. Havia colocado em seu pescoço uma delicada corrente de ouro.

– Ela usava todos os dias. Encontrei em cima da pia do banheiro dela... Tinha tomado banho e esqueceu de colocar de volta... De qualquer maneira, fique com isto.

Pendendo na corrente havia um delicado pássaro feito de ouro. Uma pomba.

– Foi presente do pai no aniversário de dezoito anos. Fazia parte de um conjunto.

Jim balançou a cabeça.

– Não posso. Eu...

– Fique. Fará com que seus olhos continuem assim, nossa família precisa disso.

Depois de um momento, ergueu as mãos e substituiu os dedos da senhora Barten pelos seus. O colar e o pingente não pesavam nada. E mal cabiam em volta de seu pescoço. Mas seu dedo passava por ele como um sonho, mesmo o fecho sendo pequeno e suas mãos, enormes.

Quando baixou os braços, olhou para ela.

– Como estão os meus olhos? – disse ele com voz rouca.

– Desolados.


CAPÍTULO 9

 

O supermercado ficava a pouco mais de oito quilômetros de distância da casa, mas Reilly levou um bom tempo para chegar lá. Entre o trânsito e os faróis vermelhos, estava começando a achar que os dois passariam uma eternidade naquele carro.

Ou talvez o zumbido em sua cabeça fizesse parecer assim.

– No que está pensando? – Veck disse.

Apertou as mãos no volante e endireitou-se no banco do motorista.

– Se o caso de Cecília Barten estiver relacionado às vítimas de Kroner, teremos que deixá-lo. Está preparado para isto?

– Sim, estou.

Ao olhar para ele, percebeu que o maxilar de seu novo parceiro estava rígido e o corpo, todo tenso.

– Tem certeza? – porque ela não tinha.

– Sim, tenho.

Você é um filho da mãe teimoso que faz o que quer mesmo que isso contrarie uma ordem direta? Sim. Sou.

Assim que entrou no estacionamento e começou a caça por uma vaga, seu telefone tocou.

– Oficial Reilly. Uh-hum, sim... não é surpresa. Mesmo? Certo, e obrigada por me contar. Sim, mantenha-me informada.

Desligou e estacionou entre um carro prata antigo e uma caminhonete azul. Virando-se para Veck, disse: – Kroner está muito mal. Não há esperanças de que ele sobreviva.

O rosto rígido de Veck não expressou nada.

– Que pena. Talvez ele soubesse o que aconteceu.

– E saiu o resultado das análises feitas nas amostras que coletaram dele... Havia resíduos de saliva, mas as leituras não dão plena certeza quanto à fonte. Há semelhanças com pumas e lobos. Difícil dizer com certeza, mas a hipótese de ter sido um animal parece continuar ser a mais correta.

Ele assentiu e abriu a porta.

– Se importa se eu fumar antes de entrar?

Parece que estava tendo uma reação, afinal.

– Sem problema.

Saíram, e Veck foi até a parte traseira do carro, inclinando-se contra o porta-malas e tirando um Marlboro do maço... Um homem como ele poderia fumar outra marca? Quando ele acendeu o cigarro, Reilly esforçou-se para não pensar que suas calcinhas e seus sutiãs estavam separados de Veck apenas pela tampa do porta-malas.

Veck teve o cuidado de não exalar perto dela ou na direção em que o vento levasse a fumaça até a colega.

– Mau hábito – ele murmurou. – Mas ninguém vive para sempre.

– Verdade.

Encostando-se sobre o carro, ela cruzou os braços sobre o peito e olhou para o sol. O calor em seu rosto era uma bênção e fechou os olhos para apreciá-lo um pouco mais. Quando finalmente abriu os olhos outra vez, ficou chocada. Veck encarava-a e havia uma expressão em seu rosto... uma sugestão sexual. Ela tinha quase certeza de que estava deduzindo errado. Mas, em seguida, ele desviou rápido o olhar. Não era uma atitude comum quando se estava pensando em trabalho.

De repente, a temperatura primaveril aumentou e, agora, era ela quem o encarava. Bem, “flerte” parecia uma boa palavra para o que estava acontecendo.

Quando ele levou o cigarro aos lábios, sua boca se abriu e houve uma leve sucção, a ponta do objeto ficou alaranjada e os dedos indicador e médio aliviaram brevemente a pressão que faziam sobre o cigarro.

Oh, malditos sinos – ela pensou. Fumar era um hábito mortal e nojento, o qual ela não aprovava... Por isso, era perturbador perceber que todos os filmes ao estilo Casablanca faziam bem ao aproximar a câmera em longos closes em cenas como esta. Havia um toque erótico inegável em tudo aquilo. Especialmente quando a fumaça saía devagar de sua boca e projetava uma breve sombra em seus olhos azuis-marinhos e em seus cabelos escuros bem cortados.


Desviou o olhar rapidamente antes que ficasse presa ao...

– Então? – ele perguntou.

– Desculpe, então o quê?

– Perguntei o que achava.

Certo. Que tal responder assim: acho que todo o vermelho cereja que estou usando embaixo das roupas deformou o meu cérebro. Porque estou achando a ideia de subir em cima de você e montar feito uma vaqueira de chapéu na cabeça muito interessante.

– Preciso de mais informação antes de formar uma opinião – Então, que tal acender outro cigarro desses, garoto malvado, e arrancar as calças depois? – Oh, Deus.

– Você está bem? – ele disse, inclinando-se e colocando a mão livre sobre o braço dela. – Não comeu muito no café da manhã... Comeu alguma coisa no almoço?

Você está apoiado sobre as três sacolas do que fiz na hora do almoço, garotão.

– Sabe? – ela limpou a garganta. – Acho que devo comer alguma coisa.

E que Deus a ajudasse se seu cérebro cuspisse alguma coisa parecida com chantili sobre o corpo dele. Se isso acontecesse, pediria para ser transferida.

– Vamos entrar – ele disse, apagando o cigarro na sola do sapato.

Boa ideia. E já deixaria anotado: nada de tempo livre com seu parceiro. Nunca.

Aproximaram-se e passaram pelas portas automáticas, pela fila de carrinhos na recepção e entraram no supermercado propriamente dito.

Quando Veck parou e olhou ao redor, ela fez um gesto com a cabeça para a direita.

– O escritório do gerente é por aqui.

– Faz compras aqui?

– Esses estabelecimentos são praticamente todos iguais.

Enquanto caminhavam juntos, ele disse: – Devia conhecer este aqui de cor. Minha casa não fica longe.

– Então, faz suas compras aqui?

– Café e cigarros... bem saudável, não?

Ele parecia estar em ótima forma.

– Sempre se pode mudar de hábitos.

– Sabe? Eu parei por um tempo. Cigarros e cafeína.

– O que o fez voltar a consumi-los?

– Acertar aquele fotógrafo.

Aaah, então ele tinha emoções.

– Tem muito estresse em seu trabalho.

– Já foi fumante?

– Não, nunca bebi muito também. Não tenho muita inclinação para esses vícios.

Por outro lado, fazer compras poderia acabar se tornando um.

E este foi o último pensamento que teve sobre questões que não diziam respeito ao trabalho. Quando entraram no setor de atendimento ao cliente, colocou todas as distrações de lado, sua cabeça voltou a funcionar ao imaginar a filha da senhora Barten indo até a loja para ajudar sua mãe... O que deveria ser uma simples comprinha para abastecer a dispensa acabou tornando-se um pesadelo. Talvez por causa de Kroner.

Enquanto ela preparava-se para mostrar o distintivo ao gerente, pensou ser muito perigoso imaginar Veck ou mesmo aquele agente durão, Heron, arrancando a cabeça do cara. Mas nem um serial killer merecia esse tipo de justiça. E não ia se iludir: não seria uma surpresa descobrir Sissy na lista de vítimas de Kroner, e essa era a razão exata pela qual Veck estava interessado no caso. Mas Reilly jogava de acordo com as regras. Sempre tinha jogado, sempre jogaria. Entregaria o caso a De la Cruz assim que percebesse alguma relação com Kroner e daria um jeito de direcionar a atenção de Veck para outra coisa. Nem que isso matasse-o.

Quando Veck checou seu relógio outra vez, eram 16h30. O gerente falava devagar, e a gravação digital das câmeras de segurança levou um tempo para ser revista. Ainda havia uma empacotadora e dois funcionários que organizavam os carrinhos para entrevistar. Nenhuma informação nova, mas, caramba, ele e Reilly trabalhavam muito bem juntos.


Ela sabia exatamente quando tomar a frente e, assim como com a senhora Barten, tinha jeito para deixar as pessoas à vontade... O que significava que acabavam falando mais. Enquanto isso, ele observava o ambiente e avaliava todas as coisas que as pessoas não diziam, mas que demonstravam no semblante.

Do lado de fora do balcão de atendimento ao cliente, apertou a mão do gerente e, em seguida, Reilly fez o mesmo.

– Obrigada por seu tempo – ela disse ao cara. – Agradecemos muito.

– Não acho que foi possível ajudá-los de verdade – o homem empurrou os óculos quadrados sobre o nariz. – Agora ou antes. Sinto-me horrível por toda a situação.

– Aqui está o meu cartão – ela entregou-o. – Pode me ligar a qualquer hora... Estou disponível 24 horas, 7 dias por semana. E, pode acreditar, você se abriu e foi honesto... Era tudo que podia fazer.

Veck entregou seu cartão também e, então, estavam indo para a saída.

– Jante comigo – Veck disse de repente. Afinal, uma segunda oportunidade de compartilharem uma refeição tinha que ser melhor do que a primeira. Desde que ele não se comportasse como um idiota, todo na defensiva, outra vez...

Tudo o que obteve como resposta foi uma desaceleração no andar e uma longa hesitação. E, em seguida, um “Ah...”

Não era um bom sinal, então, reforçou o convite com uma justificativa lógica: – Temos que organizar as anotações das entrevistas que fizemos nas últimas quatro horas. Podemos muito bem comer ao mesmo tempo... E sei que deve estar faminta.

Cara, olha só isso. Tranquilo, casual. Perfeito.

Parou em frente a uma grande vitrine com prateleiras cheias de nachos, potes de salsa e um refrigerador cheio de queijos.

– Vou cozinhar para você. Comida mexicana... é minha especialidade.

Na verdade, aquilo poderia ser real se comparasse a outras coisas: não sabia nada sobre cozinha, mas, considerando o que pretendia fazer, tinha mais chances de acertar que com qualquer outro estilo culinário. Afinal, pedir coisas pelo telefone era sua única especialidade. Mas, vamos lá... não era tão difícil. Pegar uma caixa de tacos no corredor de salgadinhos? Como poderia errar?

– Deveríamos manter as coisas no âmbito profissional – ela argumentou.

– Não é um encontro, prometo. Você é boa demais para isso, e eu não sou tão sortudo.

Quando as sobrancelhas ergueram-se, deixou no ar o comentário que havia feito, pois era verdade e os dois sabiam disso.

– Então, o que me diz, oficial? O único tempero estará no molho.

Isso produziu nela um verdadeiro sorriso, seus lábios até curvaram-se para cima.

– Eu gosto de comida mexicana.

– Então, sou o cara certo.

Por um momento, apenas olharam um para o outro. Então, ela falou lenta e cuidadosamente: – Tudo bem, mas onde?

– Na minha casa.

Passando à frente dela, Veck pegou um carrinho e encheu-o com itens da vitrine de nachos. Parecia uma dádiva vinda dos céus: todos os ingredientes estavam enfileirados, então, não tinha muito que escolher. Porém, era apenas o começo, e ele dirigiu-se ao local onde um cartaz indicava “COMIDA MEXICANA”.

– Está olhando para mim, oficial? – disse ao perceber os olhos dela sobre ele.

– Só estou... surpresa. É isso.

– Com o quê?

Colocando o carrinho em frente a uma prateleira cheia de caixas de um amarelo brilhante, esperou uma resposta de Reilly.

– Tacos ou enchiladas? – quando não houve resposta a essa pergunta também, ele pegou uma caixa. – Tacos.

Pensou no que ainda faltava. Alface. Queijo... Observou o carrinho e decidiu que precisavam de mais. Tomates. Entendido.

– Onde é a parte de hortifrúti?

– Seguindo por ali, à esquerda. Mas precisamos de hambúrgueres.

– Sim, bem lembrado.

O balcão de carnes e congelados ficava mais ao fundo da loja e, ao passarem pelas bandejas de carne moída, pegou um pedaço magro com quarenta por cento orgânico... pois, provavelmente, ela seguia uma dieta mais natural. Quando chegaram à parte das frutas e verduras, precisavam pegar tomates e alface americana.

– Converse comigo, Reilly – disse em voz baixa.

– É que... você não me parece um homem que precise de sorte com as mulheres.

– Ficaria surpresa – ao continuarem em direção ao caixa, passaram pela parte de alimentos importados e por um self-service de saladas, e, por alguma razão, Veck sentiu que devia se explicar. – Veja bem, meu pai é muito conhecido por um motivo horrível e algumas pessoas se sentem atraídas por isso. As mulheres que me procuram não são como você. Ou têm tatuagens nos lugares mais ridículos do corpo e cabelos pintados, ou são Barbies que querem “salvar” alguém, ou desejam fazer loucuras sem correr muitos riscos. Depois, há as que parecem normais, mas costumam ter fotos do meu pai na bolsa ou cartas que pedem que eu entregue para ele... Para ser sincero, é uma confusão total. Aprendi que não posso confiar em ninguém, mas também nunca mais fui surpreendido.

Puxou o carrinho num dos caixas e começou a passar as coisas enquanto Reilly entregava-as.

– Mas, como disse, você não está em nenhuma dessas categorias – terminou.

– Com certeza, não – ela passou o saco de tomates. – Desculpe, não fazia ideia.

– Há coisas piores para se preocupar – como o laço sanguíneo que tinha com o pai maníaco, por exemplo. Droga, as tietes idiotas que queriam ficar com ele só por causa do sobrenome DelVecchio eram terríveis, mas o fato de ter o assassino ligado à sua medula era um pesadelo.

– Você vai... no meio da semana que vem? – ela perguntou.

– Como?

– À execução? – ela disse em tom gentil.

Veck congelou com a caixa amarela de tacos nas mãos.

– Vai mesmo acontecer?

– Se a Suprema Corte não emitir algum documento para adiá-la... Saiu um artigo no jornal de hoje.

Ah sim, as três colunas que ele tinha pulado no restaurante.

– Bem, espero que fritem o bastardo. E não, eu não vou. Tenho que ver aquele filho da mãe toda vez que me olho no espelho. Já é suficiente.

Pegou a carteira e tirou o cartão de crédito.

– Aqui, deixe-me ajudá-lo com a...

Veck lançou um olhar por cima do ombro.

– O homem deve pagar. Sou tradicional nesse ponto.

– E a mulher pode muito bem fazer uma contribuição. Sou realista assim.

Quando ela empurrou uma nota de vinte dólares na palma da mão dele e ergueu o olhar para encontrar o dele, soube que Veck queria beijá-la... E não apenas em suas fantasias: queria saber como era apertá-la em seus braços e sentir o sabor daquela boca da qual não saía besteira nenhuma.

Não iria acontecer.

Voltando a se concentrar nas coisas que não iriam comprometê-lo ou que evitariam um tapa, passou o cartão, digitou a senha e esperou a transação completar-se. Depois de jogar o cupom fiscal fora, dirigiu-se à saída, onde deixou o carrinho com os outros e recolheu as sacolas com as compras.

Enquanto caminhavam de volta para o carro, ele murmurou: – Você está quieta. Falei demais?

Olhou para ele ao desativar o alarme do carro e destrancar todas as portas.

– Sobre seu pai? Deus, não... A hora que quiser falar sobre ele, ou sobre qualquer outra coisa, ficarei feliz em ouvir.

Veck acreditava nela. O que era um milagre em si.

– Obrigado, mas você acabou de ouvir tudo o que tenho a dizer sobre o assunto.

Assim que se aproximaram do porta-malas destravado, ela foi até a porta do passageiro de trás e disse: – Espere, aqui, coloque as compras...

– Só vou jogá-las por aqui mesmo e...

Quando a porta ergueu-se sozinha, ele viu as três grandes sacolas da Victoria’s Secret e não pôde evitar: seus olhos fixaram-se em Reilly e observaram seu corpo... De baixo para cima, até as bochechas avermelhadas. O que significava que não havia um monte de pijamas e roupões de banho macios naquelas malditas sacolas.

– Hum... banco de trás – ele murmurou. – Está certo...

– Estavam em liquidação – ela disse enquanto ele fechava o porta-malas.

Ele estava ficando excitado outra vez. Agora mesmo. Droga.

Depois que as compras foram acomodadas no carro, os dois sentaram-se em seus respectivos bancos e ela ligou o motor. O cinto de segurança pressionou sua ereção, mas achou que o aperto foi bem-vindo. Não precisava ficar fantasiando um desfile de moda. A bela oficial Reilly vestindo aquelas coisas? Cara, precisava de um cigarro.

– Merda – ele disse.

– O que foi?

– Temos que ir à sua casa para fazer isso – com um palavrão, emendou. – Quero dizer, o jantar. Fazer o jantar na sua casa... Não tenho panela nenhuma.

Quando pararam no sinal da saída do estacionamento, Reilly olhou para ele... e começou a rir. Antes que percebesse, ele estava sorrindo também.

– Você não sabe cozinhar coisa alguma, não é? – ela disse.

– Terei sorte se conseguir abrir a caixa de tacos – ergueu o dedo indicador. – Mas ainda gostaria de fazer o jantar, se não se importa.

Negando com a cabeça, ela sorriu.

– Certo, mas pode me fazer um favor?

– Pode dizer.

– Pode esquecer o que viu no meu porta-malas?

Seus olhos perderam-se na boca de Reilly e, em seguida, desceram para o pescoço pálido e...

– Sinto muito – disse em tom sombrio. – Isso eu não posso fazer.

Ela respirou fundo, como se todos os pensamentos dele estivessem expostos em seu rosto.

– Droga – disse, soltando o ar. – Quero dizer, sim, é claro. Considere feito. Totalmente esquecido.

Uma buzina soou alto atrás deles e ela teve um sobressalto antes de acelerar.

Que bela noite. Só faltava ele botar fogo na casa dela..


CAPÍTULO 10

 

Durante os anos em que atuou como soldado de Operações Extraoficiais, Jim aprendeu que uma boa informação é fundamental para a missão em qualquer tarefa. Claro, quando trabalhava para o maldito Matthias seu trabalho era matar pessoas e, agora, não era bem essa a situação com seu novo chefe ou com seus alvos atuais. Porém, muitos princípios eram os mesmos. E os riscos eram ainda maiores.

Sentado na cama de hotel, com o computador apoiado nas coxas, o site do Correio de Caldwell estava no centro da tela e a dor de cabeça que sentia não era pelo brilho da máquina. Seu trabalho já tinha sido iniciado. Considerando que Devina não havia mentido sobre a alma.

Na noite passada, Thomas DelVecchio Jr. adentrou na floresta com um cara a quem investigava... O que é normal para um detetive de homicídios, certo? Errado. O que deteve a ordem normal dos fatos foi que David Kroner, considerado um serial killer, fora levado numa ambulância até a cidade à beira da morte. Encharcado de molho de tomate. E isso era apenas o começo do jogo. Após passar quase duas horas vasculhando a internet, Jim teve acesso a informação suficiente para escrever um livro sobre DelVecchio... e sobre o pai do cara. Não eram boas notícias.

– Droga, Cachorro – murmurou.

Cachorro bufou baixinho e colocou a pata sobre o antebraço de Jim, como se estivesse oferecendo ajuda. A questão era: onde estava a encruzilhada de DelVecchio? Estaria naqueles bosques de ontem à noite?

Não, pois Jim teria perdido antes de ter começado e imaginou que isso estaria fora das regras. Entretanto, não significava que Devina não tivesse dado tal golpe.

E assim...

– Onde você está, vadia...?

O demônio estava em algum lugar naquilo tudo, trabalhando nos bastidores, tentando mexer os pauzinhos para que o jovem DelVecchio se envolvesse profundamente com ela.

A rota poderia ser traçada através do pai. Digitando outra vez o nome do cara no Google, Jim começou outra pesquisa. Os resultados fizeram-no questionar se valia a pena salvar a humanidade. Oh, veja só, quanta coisa baseada em seus assassinatos. Pinturas. Autógrafos.

O cara tinha sua indústria... Mas parece que não duraria muito. As luzes seriam apagadas para ele em Connecticut muito em breve. Mas talvez vivesse para sempre na infâmia: havia vigílias acontecendo fora da prisão. Sem dúvida aquela procissão de manifestantes não impediria a execução, mas era uma indicação de que o bastardo poderia tornar-se uma celebridade ainda mais famosa quando estivesse totalmente acabado.

De acordo com os arquivos do jornal, DelVecchio pai tinha cometido a maioria de seus assassinatos em Nova York e Massachusetts, e a primeira denúncia datava do meio dos anos 1990, quando o primeiro corpo fora encontrado... em Caldwell, Nova York. Passaram-se três anos para que as autoridades percebessem que estavam lidando com um serial killer, e não com chacinas aleatórias. Parte do atraso ocorreu pelo assassino ter deixado os corpos em situações muito diferentes e pelas investigações realizadas com diferentes graus de competência policial. Outro fator foi, ao menos no começo, que DelVecchio escondia bem os restos e de maneira muito criativa.

Os casos, porém, começaram a ser ligados e, então, iniciou-se uma corrida para capturar seja lá quem fosse o assassino. O tapa na cara foi saber que DelVecchio estava aos olhos do público o tempo todo, um negociante de antiguidades... e não apenas bugigangas e falsificações. Estava no topo daquele mercado, importando estátuas, artefatos e mosaicos do Egito e do Oriente Médio.

Maldito filho da mãe. Existia até mesmo um artigo sobre ele na Vanity Fair, que dava informações detalhadas sobre seus negócios. Aparentemente, entre as viagens ao exterior e as grandes festas que frequentava, DelVecchio pai conseguiu engravidar uma mulher. O filho tinha nascido no mesmo dia que o pai nascera há 29 anos, mas não havia vida familiar. Nem outras crianças.

Contudo, houve uma espécie de contato: o assassinato daquela mulher acabou sendo a chave para finalmente capturarem DelVecchio, a primeira ligação que trouxe à tona a cadeia de crimes que havia formado. O resto era história, por assim dizer.

– Entrandooo...

Jim olhou por cima do notebook. Parado na porta do conjugado, Adrian tinha uma caixa de pizza entre as mãos e um pacote com seis cervejas pendurado nos dentes.

– Aí sim! Obrigado, cara.

Eddie entrou atrás com uma segunda caixa.

– Ele providenciou tudo... até a isca.

Ad sentou-se sobre a cama e apoiou as cervejas.

– Se chamam anchovas, idiota.

O “que seja!” ficou subentendido entre os dois. Jim alimentou Cachorro primeiro, dando ao cão o item que Adrian não apreciava muito. Considerando o movimento do rabo curto e grosso, a gororoba estava mais que boa.

– Então, como podemos saber que Devina não mentiu para você? – Adrian disse, antes de se inclinar e colocar a ponta de uma fatia de pizza na boca.

– Essa confusão toda é bem a nossa cara – clicou no artigo sobre a execução e girou o computador. – Este é o pai do cara. E espere, tem mais.

Enquanto comiam, Jim mostrou-lhes alguns sites e finalizou com um artigo sobre a pequena viagem do Júnior à floresta com outro serial killer. Enquanto seus parceiros liam, houve uma quantidade razoável de “mas que inferno”, o que era bom.

Terminou de comer a terceira fatia.

– Precisamos descobrir o que aconteceu naquela floresta ontem à noite.

– Os artigos dizem que DelVecchio não se lembra de nada.

Jim olhou para Eddie, mais conhecido como “o mestre dos truques”.

– É aí que você entra. Quero entrar na mente do cara e você precisa me dizer como fazer isso.

Ad deu de ombros.

– Pessoalmente, eu costumo usar um serrote, mas...

– Pode haver várias consequências e efeitos colaterais – disse Eddie com cuidado.

– Por exemplo?

– Bem, na pior das hipóteses... ele pode acabar como Adrian.

– Ei...

Jim interrompeu o anjo em questão.

– Meio surdo. Com medo de agulhas.

– Viciado em sexo – Eddie acrescentou.

– Ou seja, um deus – Ad exclamou, abrindo uma cerveja. – E continuo dizendo, pessoal, não sou surdo.

– Já passamos por isso antes – Eddie enxugou a boca. – Se não consegue ouvir o quanto é desafinado, então, como pode saber?

– Não sou desafinado.

– É sim – Jim e Eddie disseram juntos.

Antes que a discussão saísse do controle, Jim ficou sério e dirigiu-se a Eddie.

– Então, me diga o que eu preciso saber.

– Precisa me explicar primeiro o que está procurando.

Jim tomou um longo gole de cerveja.

– Quero saber onde Devina está em tudo isso. Qual é o ângulo de ação dela e de que maneira está suscetível a falhar nessa porcaria toda. É isso que estou procurando.

E, considerando a situação do pai, já tinha suas suspeitas.

É claro que Veck precisava ter visto o que havia no porta-malas – Reilly pensou enquanto entrava na garagem. – O universo não desperdiçaria uma oportunidade como essa para aprontar comigo. Enquanto a porta da garagem subia, olhou para seu parceiro.

– Deixe-me adivinhar: gostaria de carregar as compras, da mesma maneira como pagou por elas.

– Sim, gostaria – olhou para os bancos de trás. – Como disse, sou antiquado. Mas se quiser assumir a tarefa, posso voltar atrás.

E era por isso que não tinha qualquer problema com ele. Além disso, ele poderia cuidar da comida enquanto ela tirava suas roupas do porta-malas: apesar de constrangida, não deixaria as sacolas para trás. Não havia como fingir que nada acontecera, mas, mais importante que isso, não havia motivo algum para esconder. Era uma mulher adulta que poderia comprar calcinhas e sutiãs para si.

Quando a voz na cabeça dela ficou ainda mais estridente e na defensiva, perguntou-se quem exatamente estava falando. Provavelmente seu pai. Interrompendo o discurso ridículo, terminou de estacionar o carro. Enquanto Veck saía e pegava as sacolas do supermercado, deu a volta no carro, abriu o porta-malas e manteve a cabeça erguida ao pegar todos os seus artigos cheios de lacinhos e renda e seguir para a cozinha.

– Nossa! – ele disse ao olhar para as paredes, cortinas e balcões.

– Eu deveria ter avisado.

Ter uma decoração cheia de galos na cozinha é um pesadelo, mas a boa notícia é que, geralmente, as pessoas param e olham ao redor, e, por isso, ela conseguiu enfiar as sacolas num canto qualquer, longe de olhares curiosos.

– Acho que nunca vi...

Quando Veck apenas assentiu com a cabeça, Reilly ficou feliz por ele não ter terminado a frase. Claro que nem precisaria: a parte do “... tantos galos num lugar só” costumava ficar no ar com certa frequência.

Oh, Deus, aquilo era horrível.

– Desde que me mudei há dois anos, tenho vontade de pegar um estilete e arrancar tudo a partir dos cantos. Mas sempre tem algum trabalho mais urgente que me mantém ocupada.

Porém, ao observar como Veck olhava tudo aquilo, pensou que deveria ter um pouco mais de determinação. O papel de parede tinha três galos diferentes em várias e exageradas poses, como se fossem fisiculturistas participando de um concurso. O esquema de cores era marrom, vermelho e creme com tufos verdes de grama sob as patas tripartidas. E, de alguma forma, mesmo o material estando ali há uns bons vinte anos, mantinha uma vivacidade impressionante.


– Sou eu ou os olhos deles seguem a gente? – Veck perguntou ao colocar as sacolas sobre o balcão da pia.

– Eles estão observando você. É uma maravilha para minhas die-tas... sinto como se estivesse comendo em público e não consigo comprar frango desde maio do ano passado.

– É como estar no filme Os pássaros.

– Exceto por não ser uma fazenda. Eu sei – quando ela aproximou-se e abriu o armário sob o fogão, completou –, o fato de já estar um pouco acostumada com isso me assusta... será que me hipnotizaram? Aliás, as panelas estão aqui, as tigelas ali e as facas naquelas gavetas perto da lava-louças.

– Obrigado.

Quando ele tirou o casaco, os grandes ombros movimentaram-se naturalmente, mas, na mente dela, transformaram-se em algo nu e excitante – Hora da distração – Reilly pensou quando Veck começou a desembalar as coisas.

– Ei, acho que vou imprimir o arquivo do caso enquanto você começa a lidar com a comida.

– Ótimo.

– Pode levar um tempo. Minha impressora é antiga.

– Temos tempo.

Pela maneira como estava concentrado no pacote de salgadinhos, parecia que estava prestes a fazer uma cirurgia cerebral com o micro-ondas. E nossa... Aquele jeitão impassível, seguro e lindo era muito sexy, sem falar que aquela preocupação toda o deixava mais acessível. Isso e a maneira como se abriu a respeito das mulheres. Ela nunca pensara nas tietes... porém, mesmo pessoas de boa aparência podiam ser perseguidas pelos motivos errados, não?

No escritório que tinha no final do corredor, entrou no banco de dados da polícia de Caldwell, acessou o relatório e ficou parada ao lado da impressora, pronta para salvar a impressão quando as folhas ficassem presas... o que aconteceu. Duas vezes.


O primeiro indício de que as coisas não iam bem na cozinha foi o aroma inconfundível de carne queimada. O segundo foi uma explosão de palavrões. Que não parou até ela aparecer com as impressões.

Foram muitas bombas verbais. Em seguida, o detector de fumaça disparou. Seja lá o que estava na panela sobre o fogão – o mais provável era que fosse o hambúrguer, mas, como era Veck na cozinha, poderia até ser os nachos – precisava de uma mangueira de incêndio. Ele tentava lidar com a situação, levou a panela para a pia, colocou dentro da cuba, mas não ligou a água. Aproximou-se rapidamente do detector e começou a abaná-lo com um pano de prato sem nem sequer ficar na ponta dos pés.

– Acho que um dos galos aumentou o fogo – ele gritou.

– Isso não me surpreenderia.

Ela escondeu um sorriso quando colocou os papéis sobre a mesa e foi dar uma olhada no que ele tinha colocado no prato: os pedaços de queijo laranja tinham se unido à camada de tortilhas ao ponto de formarem uma nova composição molecular.

Só há uma coisa a fazer agora – ela pensou. Pegou o telefone e disse: – Qual sabor de pizza você gosta, oh, poderoso fazendeiro?

– Calabresa com salame.

– Boa.

Enquanto discava, olhou para cima. A parte de baixo da camisa de Veck tinha se soltado, e ela teve uma clara visão do cós preto da cueca, bem como dos pelos que desciam em linha a partir do umbigo sobre a pele firme. Imediatamente seu cérebro voltou à cena do banheiro na noite anterior. Apenas um instante e lá estava ela, observando o corpo nu...

– Oh, sim, oi – afastou-se rapidamente. – É um pedido. Sim, sou eu. Pizza grande de calabresa com salame. Sim. Não, sem bebidas... Não, não quero uma segunda pizza de graça... Não, sem acompanhamentos... Não, obrigada, não precisa... Não, também não quero sobremesa de maçã com canela – pelo amor de Deus, levavam mais tempo fechando o pedido do que fazendo, embalando e despachando a pizza para entrega! – Ótimo, obrigada.


Desligou, endireitou os ombros e virou-se em direção a Veck outra vez – estava parado bem atrás dela, olhos semicerrados, o corpo muito maior do que aparentava ser a dois metros de distância.

Ela não se moveu. Nem ele.

– Acredita que a confissão seja boa para a alma? – disse ele de maneira misteriosa.

– Sim...

– Então, preciso dizer uma coisa.

Oh, Deus, era por isso que diziam que não se deve misturar negócios com prazer: quando seus olhos se encontraram, Reilly não pensava sobre o caso em que estavam trabalhando. Pensava que deveria admitir algumas coisas a si mesma.

Vi você nu ontem à noite e te achei lindo.

– O quê? – ela disse ofegante.

Eu te desejo mesmo sabendo que não deveria.

Engolindo em seco, ela disse: – Diga...


CAPÍTULO 11

 

Veck sabia que não deveria responder à sua parceira e com certeza não deveria ter se aproximado tanto dela. A atitude correta seria começar a limpar a bagunça que tinha feito com os alimentos em vez de criar mais confusão.

Mas viu-a olhando o corpo dele e a expressão em seu rosto indicava um desejo forte e intenso. Surpreso? Sim. Satisfeito? Poderia, se ficassem juntos.

Mas não poderiam se desvencilhar das consequências daquilo com um banho de água quente, este era o problema.

– O quê? – ela sussurrou.

– Eu quero... – a palavra era tão rude que ele guardou-a para si mesmo.

– Diga.

Ele inclinou-se e colocou os lábios sobre o ouvido dela.

– Você sabe exatamente o que eu quero.

– E eu quero que você diga.

– Tem certeza? Não é nada agradável.

Antes que ele pudesse recuar, ela estendeu as mãos e colocou as dele sobre seus quadris. O toque foi leve como uma sombra caindo sobre o corpo de Veck, mas sentiu que tudo queimava por dentro. E uma coisa era certa, se ela instigou aquele contato é porque sabia exatamente o que ele tinha em mente.

O toque ficou mais intenso.

– Diga.

Sua voz era quase um rosnado.

– Quero foder você.

Reilly gemeu um pouco e ele continuou.

– Quero você nua. Embaixo de mim. E quero entrar em você – abaixou um pouco e passou a boca sobre o pescoço dela. – Mas sei que é especialista em conflito de interesses, então sabe muito bem os motivos pelos quais essa é uma má ideia.

Era a deixa para ela se afastar. Ou para ele pular fora. Nenhum deles se moveu.

Droga, o corpo dele começou a ficar fora de controle, sua ereção latejava por mais espaço para fazer o que sabia de melhor. O que significava que, se fosse para fazerem a coisa certa, a iniciativa partiria dela.

– Dê um tapa na minha cara – ele gemeu. – Me empurre... pelo amor de Deus, se tranque no banheiro ou algo assim. Pois se não fizer isso, eu vou...

– Me beije.

Deus, o tom que ela usou: aquilo era uma ordem. E quem era ele para desobedecer a uma ordem? Especialmente vinda de uma superior?

Veck estendeu a mão e passou o braço em volta da cintura de Reilly. Com um puxão forte e impaciente, aproximou-a de seu corpo. O próximo passo foi arrancar o elástico que amarrava os cabelos dela e jogá-lo no chão.

Cara, ela instigava tanto desejo com aquela coisa de não se afastar, e os cabelos vermelhos sobre os ombros diziam que estavam prontos para ter a mão de um homem sobre eles.

Quando agarrou a nuca e aproximou a cabeça ainda mais, sabia muito bem que iria dominá-la, assumiria o controle de seu corpo, iria segurá-la com força ao empurrá-la até a mesa da cozinha e ajoelharia entre suas pernas para sugar seu sexo. Era o que desejava fazer.

– Desculpe – ele disse, ciente de que não estava desculpando-se apenas pelo que estava prestes a fazer, mas por tudo que passava em sua mente, toda a vulgaridade que desejava impor aos dois.

Então, o destino foi selado quando ela deu um beijo nos lábios de Veck.

A boca dela era macia... e também seus seios contra o peitoral de Veck e seus quadris contra seu pênis... Era macia e quente, o tipo de coisa que se quer penetrar e permanecer ali por um bom tempo. Mas, mesmo com sua pélvis contorcendo-se e sua ereção pulsando, no fundo Veck sabia que o conflito de interesses não era o maior problema que tinham. Por mais que fingisse estar tudo normal com ele, estava em carne viva por dentro por causa daquela porcaria que tinha acontecido na floresta e pela novidade sobre seu pai. Tinha medo de que Reilly fosse exatamente o tipo de curativo que precisava... Esse foi o último pensamento lógico e decente que teve.


Quando penetrou a boca dela com a língua, seus braços apertaram-na e a parte inferior do corpo arqueou-se outra vez, a tensão e o movimento em seu pênis estimulou-o ainda mais. E isso foi antes de sentir o arrepio que passou pelo corpo de Reilly. Estava claro que ela acompanhava-o, especialmente quando o apertou em seus ombros com as unhas e suas pernas abriram-se o suficiente para que ele pudesse se encaixar com uma das pernas ali.

Pensando num palavrão, ele virou-a e colocou-a sobre a mesa, em cima da papelada que ela tinha acabado de imprimir. Imagens dela com as pernas sobre os ombros dele enquanto lambia seu sexo fizeram-no imaginar que deveria repensar a falsa propaganda sobre comê-la.

Bem, não era tão falsa assim. Só adicionaria uma atração turística muito importante na viagem para o grand finale. Passou a palma da mão sobre as coxas e levantou a perna dela, esfregando ainda mais o local onde ele desejava finalmente estar. Interrompendo o contato com a boca, mergulhou no pescoço de Reilly com mordidas e lambidas.

– Me deixe ver você – ele gemeu em sua garganta. – Me deixe...

– Entrar – outra voz disse.

Ele interrompeu o ritmo de repente, desvencilhando-se do abraço e olhando para cima. Agora seu coração batia por um motivo diferente.

– O que foi? – ela disse.

Seus olhos percorreram o local. Mas não havia quaisquer sombras esquivando-se em movimentos velozes pela cozinha com decoração de galos. Nenhum ruído de tábuas ou dobradiças rangendo. Ninguém observando pelas janelas.

Depois de um momento, a adrenalina diminuiu e percebeu onde estava e o que estava fazendo com ela. Talvez tivesse sido um pensamento que assumiu uma voz muito alta. E não poderia sentir-se melhor com isso se considerasse o que tinha acontecido com Kroner na noite passada.

Uma das mãos de Reilly ergueu-se e acariciou a bochecha dele.

– Você está bem?

– Não – olhou outra vez para o rosto dela. Sentiu o corpo dela sob o seu. Ouviu suas respirações profundas. – Mas não quero parar. Você é real... E preciso muito disso agora. Preciso... de você agora.

Reilly não era como as outras mulheres com quem já tinha ficado: os olhos inteligentes viam demais e sabiam coisas demais. Cara, ele ficara nu na frente dela no primeiro momento em que a conheceu – e isso deveria tê-lo guiado na direção oposta do que estava acontecendo. Em vez disso? Só desejava-a ainda mais.

– Então, me possua – disse, puxando a camisa para fora da saia.

Veck não deu um segundo sequer para ela mudar de ideia: enquanto a beijava, mergulhou uma das mãos sob a abertura que ela havia feito na camisa, tocando toda aquela pele quente. Em seguida, os botões soltaram-se como se tivessem o mesmo objetivo que ele: acesso total.

Ergueu-se quando o último se abriu... caramba. Renda vermelha. Havia uma complexa renda vermelha sobre um par de seios perfeitamente proporcionais. Ele conseguia ver os mamilos tensos e firmes através da pequena extensão do tecido.

– Gostou do que eu comprei hoje? – ela perguntou com voz rouca.

– Nada mal – limpou a garganta quando falou. – Nada mal mesmo. Mas o que está por baixo é ainda mais quente.

Com uma graça harmoniosa, as mãos dela ergueram-se e acariciaram o sutiã de alças finas e brilhantes... Em seguida, passou a mão sobre os mamilos rígidos e, com isso, Reilly arqueou o corpo, implorando por ele.

Com um rosnado, ele empurrou a saia para cima e adentrou entre as pernas dela, separando-as ainda mais com seus quadris ao se aproximar do que havia chamado sua atenção. Ao colocar a boca sobre o sutiã incrível, além de sentir a renda em sua língua, também percebeu a carne rosada e firme por baixo do tecido.

Não levou muito tempo para aquilo não ser mais suficiente. Com a mão áspera e impaciente, puxou o bojo para baixo, revelando o mamilo.

– Porra... – ele exclamou. – Você...

Ela não quis nem saber de conversa: com pressa, seus dedos agarraram a nuca dele e, com isso, aproximou a cabeça de Veck de seus seios. Enquanto ele sugava-a, ela ergueu-se sobre a mesa, e aquele movimento, aquele puxão, fez com que ele deixasse de lado qualquer constrangimento. De repente, Veck assumiu o controle, ergueu-a ao colocar um dos braços embaixo dela, a outra mão foi direto entre as coxas, em direção ao desejo que emanava daquela calcinha.

Acariciou o sexo dela, a palma da mão envolveu o local, bem onde ela desejava...

– Veck!

O som do nome dele foi um pedido de mais, mais, mais. E daria isso a ela. Trocando de lado, mordeu a outra metade do sutiã e puxou com os dentes, antes de sugar o outro mamilo. Contudo, ainda não era suficiente. Precisava de contato total com a pele nua. Aqui, agora...

O gemido que saiu dela foi exatamente o som de consentimento que precisava ouvir.

Deus, vai acontecer – pensou. – Vai acontecer.

Veck era um dominador total. Reilly não esperava menos que isso, mas a excitação foi surpreendente. Em parte por saber que, se dissesse não estar à vontade em ir tão longe, ele recuaria no mesmo segundo. Mas o resto devia-se à maneira como ele lidava com ela, a confiança, o poder, a possibilidade erótica que emanava de sua boca, de suas mãos e de seu olhar sedutor e intenso.

Sem dúvida, Veck tinha um talento natural para o sexo... E desenvolveu isso ao longo dos anos. De repente, como se tivesse lido a mente daquela mulher, seu olhar ergueu-se com um brilho e fixou-se no dela enquanto estimulava o mamilo da mulher com a língua... E, quando as pálpebras baixaram, sabia que desejava que ela o observasse.

Que visão. Ele puxou o outro lado do sutiã e acariciava-a, lambendo e chupando enquanto uma das mãos espalmadas pressionava sua pele. Deus, ele era grande – por inteiro. Seu pênis era longo e grosso e acariciava a parte interna das coxas dela, seus ombros eram tão grandes que não conseguia ver nada além deles, e a parte inferior do corpo daquele homem ocupava todo o espaço que havia entre suas pernas abertas.

Veck terminou de puxar o sutiã que pressionava os seios para cima, a camisa estava totalmente aberta, e a saia estava toda amontoada na cintura. O próximo passo era tirar o tecido de nylon que cobria as pernas de Reilly e, para isso, ela saiu um pouco de cima da mesa, sentindo aquela mão pressionar com mais força ainda em movimentos circulares. Mergulhou os polegares na cintura da meia-calça e baixou os quadris, escorregando a peça ao longo das coxas.

– Eu assumo daqui em diante – Veck recuou um pouco, os olhos em chamas observando o corpo de Reilly. – Hummm... bem onde eu queria estar.

Quando ele sorriu como um predador, ela ergueu os joelhos para ajudá-lo a tirar as meias, lentamente. E só depois que o fino tecido estava livre de seus pés, ela perguntou-se até onde aquilo tudo chegaria. Iriam terminar de fazer aquilo que não deveriam nem ter começado?

Se aquilo fosse um “sim”, teriam que lidar com alguns aspectos práticos. Mas, caramba, que coisa chata falar de camisinha – e, sim, agora entendia por que as pessoas faziam escolhas idiotas quando se tratava de sexo. Coisas realmente importantes não tinham a menor relevância ali, todo o sofrimento que poderia vir depois daqueles minutos intensos, coisas com as quais teria que conviver, talvez para sempre... Passavam a ser ecos distantes, que ela mal conseguia ouvir, pronunciados num idioma que não queria traduzir.

Cinquenta mil anos de evolução poderiam dizer o que estava acontecendo.

Com um impulso, Veck voltou à boca dela, beijando-a profundamente enquanto as mãos desciam...

A maldição que disparou da garganta dela era mais uma vibração que um sim. A mão dele estava de volta entre as pernas, acariciando suas coxas, indo em direção à peça que completava o conjunto com o sutiã que já tinha visto e dominado.

– Veck! – ela exclamou outra vez quando o toque deslizou sobre o centro da faixa de cetim.

Foi cuidadoso, colocando apenas a pressão suficiente sobre o local tão sensível, acariciando-a em movimentos circulares que fizeram seu corpo ficar ao mesmo tempo relaxado e tenso.

Dane-se a calcinha, ela não queria nada entre eles... Mesmo assim, a barreira de seda não era de todo ruim, a costura adicionava outra dimensão ao ritmo que ele tinha imposto. E não parou de beijar sua boca, de envolvê-la, de aproximá-la ainda mais, mesmo já estando bem juntos.

Com um movimento rápido, ele levantou o tronco de Reilly e empurrou seus quadris contra o sexo dela, entrelaçando os corpos. Em seguida, curvou a coluna e encaixou-se sobre ela, acariciando-a com seu pênis enquanto observava-a com atenção.

Deus, o rosto dele estava cheio de desejo, aquela frieza tinha desaparecido, aquela máscara impassível havia explodido com a intensidade que apertava o maxilar.

Eles iam mesmo fazer aquilo, Reilly concluiu.

Surpreendente. As escolhas na vida de Reilly eram baseadas em dados precisos do que deveria, teria que ou do que era melhor não fazer. Com certeza, fazer sexo daquela maneira estava na última categoria... e, mesmo assim, não pretendia deter nada.

Porém, fariam aquilo com segurança – embora não sobre uma cama. Aquela mesa estava servindo muito bem. Mas havia coisas que ela precisava fazer primeiro. Descendo o corpo, deslizou as mãos até... a cabeça de Veck caiu para trás.

– Caaara...

Perfeito: o pênis rijo era ainda maior do que imaginava e latejava contra a palma de sua mão...

O som da campainha ecoou, alto como um tiro. E, mesmo assim, por um momento, ela não conseguiu compreender o que era aquele barulho ou por que deveria importar-se com ele. Veck recuperou os sentidos primeiro.

– Pizza.

– Que p...?

Com o pensamento rápido e lógico, ele estendeu a mão e apagou as luzes para que o entregador da pizza de calabresa com salame não assistisse ao show na cozinha. Então, com mãos eficientes, colocou a camisa dela de volta, puxou a saia para baixo e começou a arrumar as próprias calças, para que não ficasse uma tenda de circo.

– Vou cuidar disso – disse ele com uma voz equilibrada. Como se nada tivesse acontecido. Nada.

Enquanto ele foi até a porta da frente, Reilly sentou-se lentamente, a cabeça não parava e o corpo tremia. Segurando a blusa, percebeu que a volta ao normal repentina fê-la sentir-se totalmente fora de controle. Em seguida, ela saiu da mesa e os papéis do caso Barten caíram no chão.

A chuva de folhas soltas formou uma espécie de tapete aos seus pés e foi o espelho exato que precisava para ver tudo com clareza: do outro lado da cidade havia uma família de luto pela filha que sabiam ter perdido, e, em vez de concentrar-se na dor deles e em seu trabalho... estava esfregando-se num homem que não tinha nada a ver com ela.

Não poderia existir um conflito de interesses maior. Serviria de exemplo num livro didático. Mexendo nos botões da camisa, fechou-os rapidamente e, então, inclinou-se para pegar as cópias do relatório. Quando o cabelo caiu sobre o rosto, perguntou-se onde estaria seu elástico.

Quem poderia saber?

Colocando os fios atrás das orelhas, juntou as impressões com cuidado, reordenou as páginas e separou tudo em duas pilhas – a dela e a de Veck. Separado era melhor.

Ela tinha enlouquecido?

Vindo da porta da frente, ouviu um burburinho de palavras de agradecimento, a porta fechou-se em seguida e passos pesados trouxeram Veck de volta à cozinha.

Levantando-se rapidamente, colocou as duas pilhas de papéis sobre a mesa e manteve os olhos sobre elas. Não conseguia olhar para Veck. Simplesmente não tinha forças para aquilo no momento.

– Acho melhor você ir – sua voz não soou bem, mas ela não se sentia bem mesmo.

– Certo. Vou chamar um táxi.

Droga. A moto dele estava na delegacia, não?

Após soltar um palavrão em voz baixa, murmurou: – Está tudo bem. Posso levá-lo...

– Não, um táxi é melhor.

Ela assentiu e acariciou a primeira página do relatório... onde indicava os principais dados de Sissy e a data de seu desaparecimento.

– Vamos verificar tudo isso amanhã no escritório.

– Sim – quando ele vestiu o casaco, o som macio do tecido foi mais alto que a campainha. – Sinto muito.

Ela cruzou os braços sobre o peito e assentiu outra vez.

– Sim, eu também. Não sei o que deu em mim.

Mas sabia muito bem o que aconteceria se o jantar não tivesse chegado bem na hora. Momentos depois, ele foi embora e fechou a porta tão silenciosamente que não se fez som algum. Quando finalmente olhou por cima do ombro, tudo o que viu foi a pizza no balcão. Certo, como se fosse comer alguma coisa. A caixa foi direto para a geladeira.

Saindo da cozinha, passou pela mesa e encontrou sua meia-calça atrás de uma cadeira. Seu elástico de cabelo estava no chão perto do arco que dividia os ambientes, já dentro da pequena sala de jantar. Ao inclinar-se para pegá-lo, ficou frente a frente com as compras da Victoria’s Secret e percebeu que seu sutiã ainda estava beeem fora do lugar. Deixou as sacolas ali e resolveu aquele pequeno problema com alguns puxões e vários palavrões. Enquanto aproximava-se das escadas, decidiu que usaria sua velha lingerie de algodão de sempre para ir trabalhar no outro dia. Era isso, muito obrigada.


CAPÍTULO 12

 

– Pergunta. Mesmo se não quebrar nada para entrar, ainda é considerado invasão de domicílio?

Adrian soltou essa pequena pérola assim que assumiram forma em frente à porta de entrada da casa de Thomas DelVecchio Jr. – e, se considerassem tudo o que ele havia dito até hoje, sabiam que o anjo poderia ter soltado um comentário muito pior.

Jim nunca passou tanto tempo em sua vida desejando protetores e fones de ouvido. Mas pelo menos o bastardo não tentou o rap.

– E aí? – Ad disse.

– Olha só, nós nem sequer existimos – Jim murmurou. – Então, você pode alegar que nem estamos aqui de verdade.

– Ótimo argumento. Acho que é legal.

– Como se o contrário o incomodasse.

A casa era decorada ao estilo de Jim: funcional, nada de especial, muito espaço vazio. O problema? Poucos itens pessoais, e precisavam de algum objeto feito com um pouco de metal. De preferência ouro, prata ou platina. Se conseguissem algum objeto com impressões suficientes de Veck, poderiam usá-lo como ponte para entrar no cérebro do cara remotamente: de acordo com Eddie, era arriscado demais fazer isso pessoalmente. Não com Devina por perto.

– Vamos nos separar – disse Jim. – Vou examinar o andar de cima.

Quando Ad e Eddie espalharam-se, Jim subiu as escadas de dois em dois degraus. O quarto principal ocupava metade do andar. Claro que essa afirmação soa mais impressionante do que a realidade, pois a metragem total não passava de setenta metros.

– Meu Deus, quanta coisa, hein amigo? – murmurou.

Não havia nada no quarto além de uma cama grande e uma porcaria de mesa de cabeceira com um abajur sobre ela. Nada de despertador – provavelmente o cara usava o celular para isso. Nada de telefone fixo, mas para que se precisava de um? Havia uma TV de tela plana fixada na parede, cujo controle remoto encontrava-se entrelaçado nos lençóis.

Havia algumas roupas sujas num cesto de plástico no canto, meias e cuecas transbordavam pelos lados como se a coisa babasse algodão preto. Abriu o armário... e havia camisas penduradas nos cabides, que era bem melhor do que a mala que Jim usava há anos para guardar suas roupas. Atrás da porta, havia alguns cintos com fechos de metal, mas tinha de haver algo melhor para que Jim pudesse usar.

Foi até o banheiro. Todas as luzes apagadas, mas o cara não usava cortinas, então havia bastante iluminação vinda da rua. Assim que entrou no cômodo pequeno e azulejado, sentiu algo forte em sua nuca, como se formigas rastejassem sobre a pele.

Devina.

– Onde você está? – disse, dando uma pequena volta ao redor de si. – Onde diabos você está?

O demônio esteve ali, podia sentir sua presença no ar, como o mau cheiro que exala de uma grande lixeira, mesmo depois de ter sido esvaziada. Aquilo dava alguma credibilidade à revelação de Devina no restaurante.

Quando se voltou para a pia, franziu a testa. O espelho estava coberto com uma toalha e o formigamento em sua nuca aumentou quando estendeu a mão e puxou o tecido felpudo.

Nada, a não ser um armário de remédios dos anos 1980 embutido na parede. Mas o vidro frontal estava totalmente contaminado. Será que ela passou pelo objeto de alguma maneira? – perguntou-se. Recuou no mesmo instante em que as pontas do dedo fizeram contato com a superfície espelhada. O armário de remédios estava gelado.

Droga, Veck sabia que alguma coisa estava atrás dele, não? Por que cobriria a coisa? A questão era: até onde o demônio havia chegado dentro dele?

– O que fez com ele, vadia?

Recolocando a toalha, Jim abriu as gavetas, verificou o desodorante, o tubo de pasta de dente extra e o cortador de unhas. Ei! Talvez aquilo funcionasse. Só que dificilmente o objeto teria uma conexão emocional com... Uma luz estendeu-se pela frente da casa, atingindo a janela onde Jim estava e lembrando-lhe que não se preocupara em ficar invisível. Fazendo o corpo desaparecer, olhou pela janela. Na calçada em frente à garagem, Veck saiu do táxi amarelo.

Jim atravessou o quarto principal e desceu as escadas, só seria percebido se alguém sentisse a brisa que seus movimentos produziam. Na cozinha, viu que Ad e Eddie também tinham ficado invisíveis, e os três esperaram juntos, formando uma pequena fonte de calor no canto do cômodo.

Ela ainda está nele – disse em pensamento aos seus amigos.

Posso senti-la daqui – Eddie respondeu.

Na entrada da casa, a porta foi aberta, fechada e trancada. Em seguida, passos pesados aproximaram-se de onde eles estavam.

– Mas que... droga...

As maldições continuaram enquanto Veck entrava na cozinha, jogava as chaves e arrancava a jaqueta. Em seguida, foi até a geladeira e pegou uma cerveja. Tirou a tampa e bebeu com vontade, era evidente que tivera uma noite difícil no trabalho.

De repente, o cara ergueu a cabeça, apoiou a cerveja e olhou diretamente para onde os três estavam. Ele não deveria ser capaz de senti-los, muito menos de vê-los. Nenhum deles moveu-se. Nem mesmo Veck. E foi nesse momento que Jim olhou para o chão de linóleo atrás do detetive... e notou que o cara projetava duas sombras.

Única fonte de luz? Duas projeções em sentidos opostos sob seus pés?

Em silêncio, Jim apontou para o chão e seus colegas assentiram.

Veck estendeu o braço e tocou um interruptor, iluminando melhor o ambiente. Em seguida, ele olhou ao redor.

– Puta... que... pariu.

Obviamente, esse era o mote da vida daquele cara e, se Ad não se encorajasse a soltar a voz, Jim consideraria cantarolar um pouco daquela música também.

Veck balançou a cabeça e voltou para sua cerveja, tomando o que restava de uma vez só. Deixou a garrafa vazia sobre o balcão, pegou mais duas na geladeira e andou até a sala. Destino: sofá.

Jim e seus amigos foram atrás dele, mas mantiveram distância. Veck era intuitivo ao extremo ou contaminado o suficiente para ter um radar que percebesse a presença dos anjos. Conhecendo a sorte que tinha, tratava-se da última opção.

O detetive retirou as armas para se sentar: removeu uma bela automática e uma faca. Em seguida, retirou o distintivo brilhante da polícia, prata e dourado. O homem segurou a coisa sobre a palma da mão em formato de concha por um tempo. Olhava como se fosse uma bola de cristal... ou talvez um espelho onde tentasse ver a si mesmo.

Deixe isso de lado, cara – Jim pensou. – Termine as cervejas, deite um pouco e tire uma soneca. Prometo que devolvo quando terminar.

Veck seguiu as instruções e colocou o distintivo com seu nome e número de registro na polícia junto às armas, bebeu as cervejas uma seguida da outra e recostou-se nas almofadas. Seus olhos fecharam-se um momento depois. Levou um tempo para que as mãos relaxassem e caíssem para os lados, mas, em seguida, a respiração lenta e profunda confirmou o descanso – e a deixa para que eles pegassem o que precisavam e saíssem.

Jim estendeu a mão à altura da cintura e deu uma de cavaleiro Jedi com o distintivo, fazendo o objeto levitar e trazendo-o até ele ao longo da escuridão. No instante em que a palma de sua mão fez contato, sentiu o mesmo frio que sentira no andar de cima, a crueldade de Devina habitava no espaço entre as moléculas do metal.

O cuidado de Eddie parecia exagerado... até agora. Considerando a forte mensagem que o distintivo transmitia, não dava para ser pego de calças curtas ao atuar naquela tarefa.

Jim indicou a janela com a cabeça e, como uma névoa, os três desapareceram.

Do outro lado da cidade, no centro urbano de Caldwell, o Hospital São Francisco era um complexo que brilhava como uma das ruas de Las Vegas. Sob seus telhados de vinte estilos diferentes, vidas começavam e terminavam aos milhares a cada ano, a luta contra o Ceifeiro da Morte era travada por todos os médicos, cirurgiões e enfermeiras que ali trabalhavam.

Devina estava bem familiarizada com o local: algumas vezes, aqueles humanos de jalecos brancos e uniformes cirúrgicos precisavam de uma pequena ajuda para garantir que o trabalho fosse feito corretamente. E, geralmente, isso significava a morte, mas nem sempre.

O demônio entrou na ala de emergência pela porta frontal automática. Vestindo sua bela pele feminina, capturou todos os tipos de olhares vindos de pais e irmãos sentados na sala de espera. Era por isso que não pegava atalhos. Passar através de vidros, metais ou tijolos era eficiente, mas chato: adorava ser admirada. Cobiçada. Desejada. E os olhares ardentes das outras mulheres, todos aqueles olhares cheios de ódio e inveja? Melhor ainda.

Encontrar Kroner no labirinto de corredores, andares e unidades foi muito fácil. Estava há anos dentro dele, ajudando-o a aprimorar suas habilidades e dando suporte à sua obsessão. Já nasceu doentio, mas lhe faltava coragem para seguir os impulsos – e a impotência agiu a favor dela. Nada instigava mais a violência contra mulheres atraentes num louco como ele do que o próprio pênis murcho e fino.

A UTI que procurava estava sete andares acima, e ela gastou um pouco de tempo nos elevadores, caminhando, observando os uniformes das enfermeiras. Nada demais. Tecidos de algodão com péssimo corte que não realçavam nada na parte de cima e evidenciavam a flacidez da parte de baixo. Que diabos achavam que estavam fazendo com aquele visual?

Quando finalmente aproximou-se das várias portas duplas de metal, pegou uma carona com uma servente e um idoso sobre uma maca. O velhote estava apagado, mas a mulher não deu apenas uma olhada, foram várias. Sem dúvida, continuaria a observar se as portas não tivessem sido abertas no andar que precisava ficar. Lançou um sorriso sobre o ombro, saiu e não conseguiu deixar de rir um pouco.

Enfim, era hora de começar a trabalhar. Tinha a opção de assumir a forma de uma névoa e serpentear sobre o chão lustrado, mas isso causaria pânico demais. Ou poderia continuar invisível, o que era considerado uma falha de originalidade em sua cartilha: tinha passado séculos desfrutando da interação com os humanos, disfarçando-se entre eles, beliscando seus calcanhares e esfregando-se contra seus corpos – ou indo até mais além. Não havia motivo para desperdiçar a oportunidade de divertir-se um pouco naquela noite, mesmo trabalhando. Afinal, sua terapeuta estimulava-a a encontrar um equilíbrio na vida.

Ao chegar à unidade, atravessou um corredor cheio de fotografias de vários diretores de departamentos. Muito útil, como perceberia logo em seguida. Ela parou diante de várias, observando as características, os acessórios, os nomes e títulos, os jalecos brancos e as gravatas listradas ou roupas mais formais. Era como comprar uma roupa nova. E tinha seu serviço próprio de alfaiataria.

Virando numa esquina do corredor, olhou para os dois lados para certificar-se de que estava sozinha e, então, cuidou da câmera de segurança acima dela, enviando uma carga elétrica suficiente para desativá-la sem explodir.

Em seguida, assumiu a aparência e o jaleco branco do chefe da neurologia, um tal de dr. Denton Phillips. O disfarce foi um pouco decepcionante e flácido se comparado ao traje exuberante da bela morena. O homem tinha mais ou menos sessenta anos e, embora fosse um homem branco, arrogante, bem conservado, sentiu-se mal e feia. Ao menos era melhor do que realmente parecia, e era temporário.

Quando voltou ao corredor principal, caminhou como um homem e era ótimo ver o respeito e o medo nos olhos dos funcionários pelos quais ela passava. Não tão divertido quanto a luxúria e a inveja, mas agradável mesmo assim.

Não precisava perguntar onde Kroner estava. Era muito fácil de encontrá-lo – e não ficou surpresa ao se deparar com um policial uniformizado sentado do lado de fora do quarto. O homem levantou-se.

– Doutor.

– Só vou levar um minuto.

– Fique o tempo que precisar.

Não era bem assim... Ela tinha que trabalhar rápido. Não fazia ideia de como o dr. Denton Phillips realmente era e não havia como ter certeza se a altura estava correta. Isso acontecia quando tudo o que se tinha era uma foto para servir de molde: aquele não era um bom momento para encontrar quaisquer colegas que o conhecesse bem – ou pior, o homem em si.

A UTI onde Kroner estava tinha paredes de vidro com cortinas, era possível ouvir o silvo do equipamento médico que o mantinha vivo. Deslizou a porta, empurrou o tecido verde de um biombo e entrou.

– Você está péssimo – ela disse com voz masculina.

Ao caminhar até a cama, deixou de lado a aparência do bom doutor e mostrou-se como a bela mulher que Kroner tinha conhecido há dez anos.

Havia tubos entrando e saindo pela boca e pelo nariz, e os fios emaranhados que saíam de seu peito davam-lhe a aparência de uma central telefônica. Muitos esparadrapos de gaze branca sobre a pele cinza. Muitos hematomas. E seu rosto parecia bexiga de festa, todo vermelho e brilhante, esticado pelo inchaço.

Aquele não era o fim que ela tinha planejado e no qual havia trabalhado. Era para DelVecchio ter cedido e matado o desgraçado antes mesmo de Heron ficar sabendo qual era a próxima alma. Infelizmente, seu cordeiro sacrificial louco e pegajoso tinha sido abatido por outra pessoa.

Pelo amor de Deus, era óbvio que não sobreviveria. Ela não era um médico – apenas interpretava um de vez em quando –, mas só aquela palidez já a fez pensar em funerais.

No entanto, ainda não era tarde demais para o bastardo. E, após esse deslize, não correria mais nenhum risco de perder essa rodada. Hora de tornar-se um pouco mais agressiva, especialmente se pensasse no acordo que tinha selado com Heron.

– Ainda não é sua hora – ela inclinou-se sobre a cama. – Preciso de você.

Fechando os olhos, acomodou-se sobre o corpo do homem, cobrindo-o por completo e, em seguida, infiltrou-se dentro dele através de cada poro que havia. O poder inato nela preencheu o vazio, reenergizou Kroner. Ao puxá-lo da espiral da morte, ela curou-o e deu-lhe forças ao mesmo tempo. E pensar que humanos confiavam em aparatos médicos. Tão rudimentar.

Os olhos de Kroner abriram-se conforme ela se retirava e reassumia sua forma. Então, ele encarou-a. Um brilho amoroso surgiu em seu olhar. Patético, mas útil.

– Viva – ela ordenou –, e nos veremos em breve.

Ele tentou acenar com a cabeça, mas havia muitos acessórios de entubação em sua garganta. Contudo, cumpriria a ordem. Quando ela olhou para o dispositivo de monitoramento, a frequência cardíaca já tinha alcançado estabilidade e sua pressão arterial estava regulada. O nível de oxigênio saiu de setenta e foi para noventa.

– Bom menino – ela disse. – Agora, descanse.

Erguendo a mão, colocou-o em um sono profundo e restaurador e, em seguida, reassumiu a imagem do bom e velho dr. Denton.

Entrar, sair, partir.

Saiu da sala envidraçada, acenou para o guarda e caminhou pelo corredor, passando por bajuladores e puxa-sacos que quase se ajoelhavam enquanto passava. O que era agradável. Ao ponto de ficar tentada a desfilar pelo hospital por um tempo, apenas para sentir melhor a experiência de ser aquele homem.

Mas não podia, a última coisa que precisava era encontrar alguém que realmente o conhecesse. E, mais importante, tinha um compromisso com a terapeuta bem cedo no outro dia e ainda tinha que escolher o que vestiria – isso poderia levar horas. Motivo pelo qual precisava de uma maldita terapia. Hora de ir.


CONTINUA

CAPÍTULO 7

 

Ao meio-dia, Reilly deixou a delegacia a pé e seguiu para o centro da cidade. O dia estava glorioso, com um sol de abril tão radiante e quente que afugentava aquela sensação dos doze graus exibidos nos termômetros. Mas a oficial não era a única que se beneficiava com o clima. Havia uma multidão nas calçadas e atravessando as faixas de pedestres, atrapalhando o trânsito, ao passarem com refrigerantes e sorvetes nas mãos; muitos comiam alguma coisa à beira de uma fonte ou sentados num banco do parque. Após seis meses de escuridão gelada, o Estado de Nova York ansiava por algum sinal de que o inverno realmente estivesse indo embora... E aquela bela hora do almoço não seria desperdiçada.

Aparentemente, Reilly estava no intervalo do trabalho, assim, poderia colocar a cabeça em ordem antes de ver Veck outra vez. Porém, seus passos tinham um propósito e uma direção aos quais ela recusava-se prestar atenção.

O Shopping Galeria era um dos projetos de revitalização do centro, mas, ao contrário de muitos outros, este realmente deu certo. Com uma grande loja de departamentos e uma grande livraria, os quatro quarteirões de prédios dos anos 1920 tinham sidos interditados, liberando apenas a passagem de pedestres. Era um atrativo que tinha revigorado o local e tornado-se o refúgio favorito de milhares de funcionários de escritório, assim como Reilly.

Contudo, diferentemente de suas colegas, era a primeira vez que andava pelas diversas lojas daquele centro comercial... quando parou em frente a uma delas, atraída pelo brilho rosa que irradiava do vidro. Oh, não. De jeito nenhum. Aquilo não era sua... Uma mulher saiu balançando duas grandes sacolas com as mãos e com um sorriso de orelha a orelha.


– Liquidação! – disse a Reilly. – Oba!

Sua voz saiu tão alta e estridente que parecia ter respirado hélio. Mas talvez fosse por usar um corpete embaixo do casaco – ao menos era o que parecia. Enfim, Reilly balançou a cabeça; liquidação ou não, não era o tipo de coisa que ela... Já tinha entrado na loja.

Maldição. Nunca tinha visto tanta roupa íntima num só lugar em toda sua vida.

O estilo Victoria’s Secret não é para quem tem problemas cardíacos... ou um traseiro grande – ela pensou, perguntando-se há quanto tempo, exatamente, não aparecia na academia. Desde o ensino médio. Não... Talvez tenha sido desde o fundamental.

Cara, toda aquela renda intimidava. Assim como as imagens tratadas das modelos expostas em toda parte, de tamanhos bem maiores que o natural. E, para piorar as coisas, o lugar estava lotado de mulheres que não eram bem do tipo de Reilly. Eram garotinhas com seus vinte e poucos anos, pegando tangas, sutiãs de bojo, peças de tamanhos mínimos e outras coisas. Mesmo os pijamas ou moletons pareciam estar destinados a ser arrancados com os dentes por algum garanhão...

– Oi, posso ajudá-la?

Reilly estremeceu.

– Ah...

A vendedora era uma linda afro-americana que, provavelmente, ficava ótima em cada peça pendurada na loja ou dobrada sobre as mesas. Comparando-se a ela, Reilly sentiu-se uma coisa esquisita e sardenta do tipo que pede para fazer tudo no escuro.

– Estou bem, obrigada...

– Estamos em liquidação.

– Sim, vi uma moça saindo com algumas sacolas – o que, considerando a pequenez das roupas ali, significava que a garota tinha comprado quinhentas, talvez seiscentas, peças daquilo tudo.

– Está procurando por alguma coisa em particular?

Reilly estava prestes a balançar a cabeça recusando, quando sua boca abriu-se por conta própria.

– Quero sentir-me mulher, e não uma oficial de polícia. Eu apenas... estou cansada de mim e do meu trabalho neste momento. Entende o que quero dizer?

Oh, droga, o que ela estava dizendo?... Só uma observação: aquilo não tinha nada a ver com Brittany, que se escreve Britnae.

A vendedora sorriu.

– Entendo. Você veio ao lugar certo.

Reilly olhou para um maiô asa-delta com estampa de tigre e não teve tanta certeza disso.

– Acho que nunca comprei lingerie antes... Nada que escolhesse com cuidado, meus sutiãs são do tempo da Guerra Civil. Talvez de alguma guerra do século XVIII.

– Bom, meu nome é Ralonda – estendeu a mão – e posso cuidar de você.

– Reilly. Quero dizer... Sophia – quando apertaram as mãos, ela murmurou: – Você tem algum tipo de formação em psicologia, por acaso?

– Na verdade, é isso que eu vou estudar na Universidade de Nova York, no campus de Caldwell.

– Deus, você é perfeita.

– Imagine – Ralonda sorriu outra vez, exibindo seu sorriso. – Vamos tirar suas medidas e depois vou trazer algumas coisas.

Uma hora e US$ 673,43 depois, Reilly saiu com três sacolas cheias de coisas. Quando chegou à porta, de cabeça erguida, viu-se sorrindo para as duas garotas que espiavam as vitrines.

– Eles estão em liquidação – disse a elas. – Melhor entrar. E chame por Ralonda... Ela é a melhor.

Elas entraram correndo, e Reilly caminhou até a delegacia com uma curiosa sensação de leveza. Talvez o sutiã de bojo cereja com calcinha combinando que acabara de vestir tivesse propriedades antigravitacionais, erguendo não apenas seus seios mas também o corpo inteiro. Fazia com que se perguntasse o que os astronautas usavam por baixo de seus trajes. A horrível imagem de um astronauta velhaco veio-lhe à mente. O cara usava apenas um minúsculo conjunto cor-de-rosa.

Deu-se conta de que entrar na delegacia com aquelas sacolas da Victoria’s Secret e um andar leve não passaria a mensagem certa... Especialmente agora que seria a parceira de Veck no próximo mês. Esquivando-se pela lateral da delegacia, aproximou-se de seu carro e escondeu as compras no porta-malas.

Desta vez, quando entrou pelos fundos e passou pelo guarda na recepção, estava um tanto constrangida, pensando se alguém poderia saber o que usava por baixo das roupas. Porém, como sempre, ninguém prestou nenhuma atenção nela. Apesar dos muitos talentos dos vários membros da polícia, parece que visão de raio X não era um deles.

A primeira parada foi seu escritório. Verificou rapidamente o correio de voz e os e-mails. Em seguida, pegou um bloco de notas e seguiu para o Departamento de Homicídios. E, como se pode imaginar, a confiança nas propriedades ocultas do algodão e da Lycra acertou em cheio a todos ali quando abriu a porta do departamento. Todos olharam para cima, inclusive Veck.

Certo. Agora entendia por que as pessoas odeiam aqueles sonhos em que andam nuas numa sala cheia de pessoas. Nunca tivera um pesadelo assim antes e, enquanto colocava o bloco de notas em frente aos seios, não estava com muita pressa de vivenciá-lo.

As pessoas apenas acenaram e cumprimentaram, e ela acenou e cumprimentou de volta enquanto dirigia-se até Veck. O cubículo ao lado dele estava praticamente vazio, havia apenas um computador e um telefone. Quando Reilly sentou-se, manteve o caderno contra o peito.

Veck encostou-se na cadeira fazendo com que seu peito parecesse enorme contra a camisa branca.

– Tudo certo na sua sala?

– Sim. No que vamos trabalhar hoje?

Ele fez um gesto com a cabeça indicando a tela do computador.

– Encontrei alguma coisa para passar o tempo. Estava esperando você chegar... Pensei em fazer um reconhecimento de campo e consultar outra vez algumas testemunhas.

– Ótimo. Qual é o caso?

– Digo no caminho. Importa-se se usarmos o seu carro? Só tenho moto.

– Ah... – com certeza não haveria motivo algum para ele olhar no porta-malas. – Claro. Sim. Tudo bem.

– Obrigado, oficial. Ou deveria chamá-la de detetive nas próximas semanas?

Quando se levantaram juntos e ela viu-se com o rosto na altura do peitoral de Veck, sabia que era hora de sufocar sua Britnae interior.

– Só Reilly está bom – respondeu.

Por um momento, os olhos de Veck baixaram, e ela poderia jurar que ele murmurou “com certeza está”.

Sem dúvida a lingerie nova fazia-a ouvir coisas.

– Espere um minuto... esse não é um caso antigo de homicídio.

Ao pararem num sinal vermelho, Veck recebeu um olhar sério de sua nova parceira... o que foi muito excitante.

Endireitando-se no banco e rezando para que sua ereção não explodisse antes de chegarem ao local de destino, fez um esforço para manter a voz equilibrada e sem qualquer sinal de rouquidão. Porém, pelo amor de Deus, se aquilo fosse um indício de como seriam as próximas quatro semanas... estava com problemas.

– Tecnicamente, é uma desaparecida...

– Não existe “tecnicamente” nesse caso. Não há um corpo.

– Posso terminar?

– Desculpe – quando o farol ficou verde, ela pisou no acelerador. – Mas tenho um pressentimento de onde isso dará, e você não chegará nem perto do caso Kroner.

Veremos – ele pensou.

– Recebi um telefonema do FBI esta manhã. Estão trabalhando no caso dessa garota desaparecida e queriam saber se existe mais alguma novidade. Respondi que ficaria feliz em examinar o que já temos sobre...

– O FBI pode fazer isso sozinho...

– Não há motivo para não ser amigável. Ou para concluir que há alguma ligação com Kroner.

Ela franziu a testa.

– O que o FBI acha?

– Não perguntei. Talvez seja interestadual – pois, talveeez, aquilo fizesse parte do caso Kroner... e foi por isso que ele não perguntou nada.

– Só para que fique bem claro: se houver qualquer ligação com o caso Kroner, estamos fora.

– Certo – colocou a mão no bolso da frente do casaco e pegou um relatório de três páginas. – Cecília Barten, dezoito anos, desaparecida há apenas três semanas. Vista pela última vez saindo de casa para ir ao supermercado na avenida Union. Câmeras de segurança do estacionamento e da saída da loja não gravaram nada, graças a uma sobrecarga de energia.

– E por onde vamos começar?

– Pela casa dos pais. Quero verificar se deixaram passar alguma coisa. A mãe dela está esperando por nós... Vire à direita aqui.

Reilly seguiu as placas e virou, entrando num bairro não muito longe de onde Veck morava. Ali as casas eram um pouco maiores e mais bem conservadas. Não havia carros estacionados na rua, e Veck imaginou que não haveria grandes caminhonetes ou sedãs guardados naquelas garagens. Não tanto quanto minivans... Porém, naquela região, moravam vários casais com filhos, então, talvez estivesse errado.

– Certo – ele murmurou, olhando as casas – 491, 493, 495... aqui.

Reilly estacionou no meio-fio em frente ao número 497. Depois de desligar o motor, saíram do carro...

Logo atrás deles estacionou uma suv dourada com insulfilme e três agentes federais desceram. Os homens estavam à paisana e, quando saíram, o motorista de cabelo loiro escuro exibiu suas credenciais.

– Jim Heron. Conversamos pelo telefone. Estes são meus parceiros, Blackhawk e Vogel.

– Thomas DelVecchio.

Quando apertaram as mãos, Veck sentiu uma energia estranha e recuou.

– Esta é a oficial Reilly. Quer entrar conosco?

O agente estreitou os olhos ao observar a casa.

– Sim. Obrigado. Meus parceiros vão esperar aqui.

Boa ideia. Seria difícil que todos coubessem naquele hall minúsculo. Enquanto passavam pela entrada de tijolos à vista, uma bandeira balançava casualmente com a brisa da primavera. Ela tinha um tom pastel e um desenho em formato de ovo estampado, metade cor de lavanda, metade cor-de-rosa e com uma faixa amarela ao meio.

A Páscoa ocorrera no fim de março, bem na época do desaparecimento da moça. Sem dúvida, a bandeira fora esquecida ali... ou talvez a família rezasse para que Cecília Barten ressuscitasse a partir daquilo. De qualquer maneira, a ruína tinha atingido aquela casa, mesmo que ainda restassem quatro paredes e um teto: a garota estava morta. Veck sentia em seus ossos, mesmo não sendo do tipo que sente coisas.

Campainha... espera... espera...

Veck olhou para Reilly. Parecia triste ao se inclinar para trás e observar as janelas do segundo andar... Será que a oficial estava tentando descobrir qual delas correspondia ao quarto da garota? Atrás dela, Heron passava uma excelente impressão de uma estátua: grande e imóvel. Seus olhos estavam focados na porta da frente, como se pudesse enxergar através das paredes.

Veck franziu a testa. Havia algo estranho no cara. Contudo, não era uma questão de competência. O agente irradiava uma precisão militar sobre tudo, desde a forma com que exibiu suas credenciais até o jeito que andava e como se mantinha imóvel. Ainda assim... o que será que...

A porta abriu com um rangido suave, e a mulher do outro lado parecia que não dormia nem comia direito há muito tempo.

– Bom dia, senhora. Sou o detetive DelVecchio. Estes são a oficial Reilly e o agente Heron.

Todos mostraram suas credenciais.

– Por favor, entrem – ela recuou e fez um gesto com o braço. – Posso servir alguma coisa?

– Não, obrigado, senhora. Agradecemos por dispor de seu tempo para conversar conosco.

A casa estava impecável, com cheirinho de desinfetante e lustra-móveis. O que sugeria que a senhora Barten limpava as coisas em momentos de tensão.

– Será que poderíamos conversar na sala de estar? – ela disse.

– Por favor.

A sala estava cheia de lembranças e bens de família, com papel de parede florido e dois sofás lisos. Quando a senhora Barten sentou-se numa poltrona e todos tomaram um lugar no sofá, Veck observou bem a mulher. Estava saindo da casa dos quarenta, com muitos cabelos loiros puxados para trás e enrolados num coque. Tinha um corpo magro e alongado... O peso que perdera recentemente realmente lhe fazia falta. Nada de maquiagem e, mesmo assim, era bonita. Porém, tinha um olhar vazio.

Droga, por onde começar?

– Senhora Barten – Reilly interrompeu –, pode nos contar sobre sua filha? Coisas que ela gostava de fazer ou nas quais era boa. Lembranças diversas.

Encarando sua nova parceira, Veck teve vontade de gesticular um “obrigado” com a boca. Especialmente quando a tensão deixou os ombros da mulher e o esboço de um sorriso surgiu.

– Sissy era... é... – ela se corrigiu. – Por favor, me desculpem. Isto é difícil.

Reilly aproximou-se da poltrona.

– Leve o tempo que precisar. Sei que pedi muito.

– Na verdade, ajuda quando falo dela. Faz com que me sinta melhor.

Numa voz hesitante, que gradualmente ganhou ímpeto, as histórias começaram a surgir, pintando o retrado de uma garota muito inteligente, boa e um pouco tímida, do tipo que nunca se envolveria em problemas se pudesse evitá-los.

Cecília Barten foi assassinada – Veck pensou. Não era um daqueles relatos de fuga motivados por drogas ou por causa do ciúmes de um namorado abusado e descontrolado. Era uma família estável. Uma jovem feliz. Futuro brilhante. Até que um carro bateu contra sua vida e levou tudo.

– Importa-se que eu olhe as fotos que estão ali? – Veck disse quando houve uma pausa na narrativa.

– Por favor.

Levantou-se e foi até uma das estantes embutidas ao lado de cada uma das janelas arqueadas que davam para a rua. Dois filhos. A outra era a irmã mais nova. Havia fotos de festas de formatura, aniversários, passeios no campo e jogos de hóquei... reuniões de família e casamentos... Natais.

Olhava com admiração tudo aquilo. Cara, aquilo era o melhor que a vida “normal” tinha para oferecer e, sem razão alguma, pensou em como, enquanto ele crescia, sua família não conseguiu ter nada daquilo... momentos felizes e fotografias para exibi-los. O tempo que passou com sua mãe não dava vontade de compartilhar com ninguém. Aliás, não era nada que quisesse lembrar.

Ele estendeu a mão e pegou uma das fotos 5×7. Cecília estava em pé ao lado de seu pai, braço estendido sobre o dele e com uma das mãos descansando sobre as dele. Era muito parecida com sua mãe, apenas um pouco com seu pai. Mas a linhagem era clara.

–... ligou para casa? – Reilly disse.

Veck voltou à conversa.

– Isso – a senhora Barten disse. – Ela saiu por volta das nove horas. Eu tinha acabado de operar meu pé... Corrigi uma deformação no dedo... – por um momento, a mulher parecia ruminar alguma coisa em pensamento, e Veck apostava que era o quanto desejava voltar no tempo, quando suas maiores preocupações eram encontrar sapatos confortáveis. Mas, talvez, também estivesse se culpando. Ela balançou a cabeça e voltou a se concentrar.

– Eu estava imobilizada. Dei a Sissy uma lista de compras e... ela me ligou do mercado. Não sabia se eu queria pimenta verde ou vermelha. Eu queria as vermelhas. Estava fazendo um... – as lágrimas vieram e ela piscou com força para afastá-las. – De qualquer maneira, essa foi a última vez que alguém teve notícias dela.

Veck voltou a colocar a fotografia na prateleira. Quando foi sentar-se ao lado de Heron outra vez, franziu a testa. O cara olhava para a mãe da vítima como se ele fosse uma filmadora, como se estivesse lendo e registrando cada contração do olho ou da boca que ela fazia enquanto falava.

Quando o radar de Veck começou a soar feito louco, não ficou claro o motivo... Seria a garota desaparecida, ou sua mãe triste e adorável, ou aquele homem imenso que parecia ter a capacidade de incendiar alguma coisa com aquele olhar?

– Posso perguntar uma coisa? – Veck disse. – Ela teve algum namorado?

Com o canto do olho, pôde ver Heron apertando as coxas com força.

– Não. Tinha alguns amigos, claro, e um encontro em bailes de formatura aqui e ali... mas nada sério. Ao menos, não que ela tenha me contado... e costumava ser sincera sobre o que se passava em sua vida.

Aquelas mãos relaxaram de repente.

– Quer perguntar alguma coisa? – Veck disse ao agente.

Houve um longo silêncio. Pouco antes de tudo ficar realmente estranho, o cara disse com uma voz baixa e profunda: – Senhora Barten, vou trazê-la de volta para casa. De uma maneira ou de outra, vou trazê-la de volta para a senhora.

Veck recuou, pensando: Droga, não faça assim, cara.

– Ah, o que ele quer dizer é...

– Está tudo bem – a senhora Barten apertou a garganta com uma das mãos. – Não estou me enganando. Sei que ela está... que não está mais entre nós. Uma mãe sente o frio no coração. Só queremos saber o que aconteceu e... providenciar um descanso adequado para ela.

– Vai tê-la de volta. Juro.

Agora, a senhora Barten soluçava... e por que não choraria? O cara parecia um guerreiro acostumado com a rotina da vingança, era mais um vingador do que um agente.

– Obrigada... Agradeço a todos vocês.

Veck olhou discretamente o relógio.

– Se me der licença, eu e minha parceira vamos nos dirigir ao supermercado. O gerente disse que sairia mais cedo hoje.

– Oh, sim, claro.

O agente Heron ajudou a senhora Barten a se levantar dando-lhe a mão.

– Seria incômodo se eu desse uma olhada no quarto dela?

– Claro que não... Vou levá-lo até lá – voltou-se para Veck e Reilly. – Se precisam ir agora, voltem sempre que precisarem.

– Obrigada – Reilly disse. – Faremos isso.

– E vamos sair logo por aquela porta – Veck murmurou.

Quando o agente Heron e a mãe da vítima chegaram às escadas, Veck parou no hall e observou os dois subirem juntos. Uma janela no andar de cima iluminava-os, o raio de luz solar atingia os dois rostos e agia como um farol para...

Espere um minuto.

Veck olhou para a sala de estar... de onde os raios dourados vinham do lado oeste. Impossível. Não poderia estar vendo aquele efeito de luzes em direções opostas: vinha da frente e dos fundos da casa.

– O que é isto? – Reilly disse suavemente.

Veck voltou a olhar para a escada. Heron e a senhora Barten não podiam mais ser vistos, e a luz tinha ido embora também, a janela não mostrava nada além de galhos de árvores atrás da casa e o claro céu azul sobre ela.

– Vou subir – disse à sua nova parceira. – Só por um minuto.


CAPÍTULO 8

 

Quando Jim seguiu a mãe de Sissy, sentiu-se muito oprimido. Num canto escuro de sua mente, sabia que precisava manter o controle diante de Veck, mas isso não aconteceria por muito tempo.

Virando-se no alto da escada, os sons da casa subiram a níveis de um heavy metal estridente. Tudo, desde o rangido sutil do chão acarpetado sob suas botas até a conversa suave que acontecia no saguão lá embaixo ou sua própria respiração soando forte atrás da garganta, tudo parecia gritar em seus ouvidos.

De repente, Veck apareceu atrás deles e fez um comentário rápido. Jim assentiu para o cara... e, imediatamente, esqueceu até mesmo que estava ali.

– O quarto de Sissy é por aqui.

Os três seguiram à direita e, quando a senhora Barten hesitou diante da porta fechada, Jim ergueu a mão para colocá-la em seu ombro... mas não conseguiu fazer contato.

– Prefere que entremos sozinhos? – ele perguntou.

A senhora Barten abriu a boca. Mas apenas assentiu com a cabeça.

– Não entro aqui desde... aquela noite. Está do jeito que ela deixou.

Naquele momento, o telefone tocou, e ficou evidente o alívio no rosto da mãe de Sissy.

– Vou atender. Fiquem à vontade para abrir as gavetas e o armário, mas se precisarem levar alguma coisa, poderiam me dizer o que é?

– Com certeza – Veck respondeu.

Assim que a mãe de Cecília apressou-se em descer as escadas e desapareceu no que Jim concluiu ser a suíte principal, ele abriu a porta... um cheiro maravilhoso. Entrando, fechou os olhos e tentou não se sentir um pervertido ao respirar fundo. Perfume. Loção corporal. Lençóis secos. Era... extraordinário. Mas ele não pertencia àquele quarto. Já tinha feito coisas que não deveriam sequer passar pela cabeça de alguém que entrasse num quarto como aquele... e a representação daquelas maldades estavam na tinta que cobria suas costas. Além disso, estava armado. E ainda havia aquela porcaria que fez com o demônio na noite anterior. Sentia-se sujo.


Enquanto Veck fazia o reconhecimento do quarto sozinho, Jim abriu os olhos e foi até uma estante modulada com escrivaninha embutida em frente à janela. A superfície plana e as prateleiras eram pintadas de branco, mas a cadeira era azul, combinando com as cortinas e o papel de parede listrado. Havia um tapete com franjas trançadas sobre a área acarpetada. Feito a mão. Tinha de ser.

Os livros enfileirados estavam em ordem e tinham uma temática bastante feminina. Gostava de Jane Austen, mas também havia uma prateleira inteira de Gossip Girls... provavelmente deixada ali desde que Sissy tinha treze anos. Algumas medalhas, vermelhas e azuis. Troféus. Sobre a mesa havia um notebook junto com dois livros, um sobre cálculo e outro sobre... trigonometria avançada? Hum. Sua garota era mais esperta que ele.

Havia também uma revista, Cosmopolitan, daquele mês. Tudo bem, a capa com título “orgasmo” em fonte gigantesca e cor rosa-choque não combinava exatamente com o resto daquele ambiente inocente de trabalhos escolares... mas ela estava crescendo, não estava?

Virando-se, foi até o pé da cama de solteiro. Agora sabia por que a mãe da garota não entrava ali. A colcha azul estava puxada para trás e os travesseiros ainda amassados, como se Sissy tivesse acabado de tirar uma soneca.

– Estou indo – Veck disse. O que fez Jim se perguntar há quanto tempo estariam naquele quarto.

– Vejo você em breve – disse Jim distraído.

– Entendido.

Quando ficou sozinho, a mão de Jim estremeceu ao estender-se para tocar os lençóis. Ao acariciar os objetos que sua pele tinha tocado, pensou em Devina e no que aquele demônio tinha feito com a garota... e com a família dela.


Adrian e Eddie estavam errados. Se queriam Jim concentrado na guerra, ali era exatamente o lugar onde precisava estar. Aquilo era motivação para vencer: Sissy nunca mais deitaria em sua cama. Não terminaria o artigo que estava lendo. E não mais lidaria com números. Nunca mais. Mas, ao menos, Jim poderia providenciar um lugar melhor para Sissy ficar enquanto não pudesse se juntar a seus pais e sua irmã por toda eternidade. E, então, faria Devina pagar mil vezes por tudo o que fez.

Na mesa de cabeceira havia um despertador branco, outra revista – desta vez era a In Touch – e o controle remoto de sua pequena televisão branca. Teve a impressão de que, mesmo fazendo faculdade, Sissy voltava aos fins de semana, e uma espiada em seu armário confirmou isso. Considerando o número de blusas, calças, saias e vestidos, não parecia que tudo aquilo tinha sido excluído da lista dos favoritos, mas que estava pronto para usar. Havia também vários sapatos no chão.

Deixou as gavetas da cômoda de lado, pois não sabia em qual delas guardava as... roupas íntimas. Provavelmente, nas duas primeiras, mas não correria o risco de confiar no chute. Já tinha assumido o papel de um mero observador ali, pois não tinha mais esperança em encontrar alguma coisa que o ajudasse a salvá-la. Deus era testemunha de que não havia nada na Terra capaz disso. Já ele queria apenas... estar perto dela.

Certo. Muito bem. Isto era o tipo de coisa com a qual Ad e Eddie preocupavam-se. Assim, percebeu que era hora de ir. Mais uma vez, não tinha noção de quanto tempo estava ali. Seria dois minutos ou duas horas, mas a última coisa que desejava era a mãe de Sissy batendo na porta para saber se ele estava bem ou se já tinha ido embora.

Não pegaria nada, mesmo sentindo a tentação de ficar com algum objeto, algo para se fiar em momentos difíceis... alguma coisa de Sissy. Contudo, a família já havia perdido demais e não tiraria mais nada deles.

Jim passou um último momento olhando ao redor e, então, obrigou-se a sair. No corredor, fechou a porta e ouviu. A mãe de Sissy estava no quarto ao lado, falando em voz baixa e embargada.

Desceu as escadas e esperou discretamente no hall onde ficava a porta da frente. Inclinando-se para o lado, olhou a sala de estar em direção às fotos ao longo das grandes janelas. A que mais lhe chamou a atenção – tanto que se aproximou dela – foi uma foto de rosto de Sissy. Ela não olhava para a câmera, mas para o lado, e não sorria. Parecia mergulhada em seus pensamentos, e a expressão em seu rosto não era a de uma menina, mas de uma... sobrevivente. Parecia ter uma vontade de ferro.

– Ela não fazia ideia de que a câmera a focava.

Jim endireitou-se e olhou para a mãe dela.

– Não?

A senhora Barten aproximou-se e pegou o retrato.

– Sempre sorria quando havia uma câmera por perto. Quando seu pai tirou esta, estava assistindo suas colegas de time jogarem... Praticava hóquei de campo. Tinha torcido o tornozelo e estava no banco... mas queria estar com elas – a mulher ergueu o olhar. – Era mais forte do que aparentava ser.

Quando seus olhos encontraram os de Jim, ele respirou fundo e pensou: Graças a Deus... isto a manterá sã até o momento em que eu conseguir salvá-la.

A senhora Barten inclinou a cabeça para o lado.

– Você é diferente dos outros.

Hora de ir.

– Sou como todos os outros.

– Não, não é. Nas últimas três semanas, vi mais oficiais, detetives e agentes do que em qualquer programa policial na TV que tenha assistido ao longo de toda minha vida – estreitou o olhar – Seus olhos...

Jim virou-se para a porta.

– O detetive DelVecchio entrará em contato...

– Quero te dar uma coisa.

Jim congelou com a mão na maçaneta e pensou – Má ideia – estava louco para aceitar qualquer coisa que ela oferecesse.

– Não precisa.

– Aqui.

Quando ele virou-se para dizer um “não, obrigado”, percebeu o toque daquelas mãos em sua nuca. Havia colocado em seu pescoço uma delicada corrente de ouro.

– Ela usava todos os dias. Encontrei em cima da pia do banheiro dela... Tinha tomado banho e esqueceu de colocar de volta... De qualquer maneira, fique com isto.

Pendendo na corrente havia um delicado pássaro feito de ouro. Uma pomba.

– Foi presente do pai no aniversário de dezoito anos. Fazia parte de um conjunto.

Jim balançou a cabeça.

– Não posso. Eu...

– Fique. Fará com que seus olhos continuem assim, nossa família precisa disso.

Depois de um momento, ergueu as mãos e substituiu os dedos da senhora Barten pelos seus. O colar e o pingente não pesavam nada. E mal cabiam em volta de seu pescoço. Mas seu dedo passava por ele como um sonho, mesmo o fecho sendo pequeno e suas mãos, enormes.

Quando baixou os braços, olhou para ela.

– Como estão os meus olhos? – disse ele com voz rouca.

– Desolados.


CAPÍTULO 9

 

O supermercado ficava a pouco mais de oito quilômetros de distância da casa, mas Reilly levou um bom tempo para chegar lá. Entre o trânsito e os faróis vermelhos, estava começando a achar que os dois passariam uma eternidade naquele carro.

Ou talvez o zumbido em sua cabeça fizesse parecer assim.

– No que está pensando? – Veck disse.

Apertou as mãos no volante e endireitou-se no banco do motorista.

– Se o caso de Cecília Barten estiver relacionado às vítimas de Kroner, teremos que deixá-lo. Está preparado para isto?

– Sim, estou.

Ao olhar para ele, percebeu que o maxilar de seu novo parceiro estava rígido e o corpo, todo tenso.

– Tem certeza? – porque ela não tinha.

– Sim, tenho.

Você é um filho da mãe teimoso que faz o que quer mesmo que isso contrarie uma ordem direta? Sim. Sou.

Assim que entrou no estacionamento e começou a caça por uma vaga, seu telefone tocou.

– Oficial Reilly. Uh-hum, sim... não é surpresa. Mesmo? Certo, e obrigada por me contar. Sim, mantenha-me informada.

Desligou e estacionou entre um carro prata antigo e uma caminhonete azul. Virando-se para Veck, disse: – Kroner está muito mal. Não há esperanças de que ele sobreviva.

O rosto rígido de Veck não expressou nada.

– Que pena. Talvez ele soubesse o que aconteceu.

– E saiu o resultado das análises feitas nas amostras que coletaram dele... Havia resíduos de saliva, mas as leituras não dão plena certeza quanto à fonte. Há semelhanças com pumas e lobos. Difícil dizer com certeza, mas a hipótese de ter sido um animal parece continuar ser a mais correta.

Ele assentiu e abriu a porta.

– Se importa se eu fumar antes de entrar?

Parece que estava tendo uma reação, afinal.

– Sem problema.

Saíram, e Veck foi até a parte traseira do carro, inclinando-se contra o porta-malas e tirando um Marlboro do maço... Um homem como ele poderia fumar outra marca? Quando ele acendeu o cigarro, Reilly esforçou-se para não pensar que suas calcinhas e seus sutiãs estavam separados de Veck apenas pela tampa do porta-malas.

Veck teve o cuidado de não exalar perto dela ou na direção em que o vento levasse a fumaça até a colega.

– Mau hábito – ele murmurou. – Mas ninguém vive para sempre.

– Verdade.

Encostando-se sobre o carro, ela cruzou os braços sobre o peito e olhou para o sol. O calor em seu rosto era uma bênção e fechou os olhos para apreciá-lo um pouco mais. Quando finalmente abriu os olhos outra vez, ficou chocada. Veck encarava-a e havia uma expressão em seu rosto... uma sugestão sexual. Ela tinha quase certeza de que estava deduzindo errado. Mas, em seguida, ele desviou rápido o olhar. Não era uma atitude comum quando se estava pensando em trabalho.

De repente, a temperatura primaveril aumentou e, agora, era ela quem o encarava. Bem, “flerte” parecia uma boa palavra para o que estava acontecendo.

Quando ele levou o cigarro aos lábios, sua boca se abriu e houve uma leve sucção, a ponta do objeto ficou alaranjada e os dedos indicador e médio aliviaram brevemente a pressão que faziam sobre o cigarro.

Oh, malditos sinos – ela pensou. Fumar era um hábito mortal e nojento, o qual ela não aprovava... Por isso, era perturbador perceber que todos os filmes ao estilo Casablanca faziam bem ao aproximar a câmera em longos closes em cenas como esta. Havia um toque erótico inegável em tudo aquilo. Especialmente quando a fumaça saía devagar de sua boca e projetava uma breve sombra em seus olhos azuis-marinhos e em seus cabelos escuros bem cortados.


Desviou o olhar rapidamente antes que ficasse presa ao...

– Então? – ele perguntou.

– Desculpe, então o quê?

– Perguntei o que achava.

Certo. Que tal responder assim: acho que todo o vermelho cereja que estou usando embaixo das roupas deformou o meu cérebro. Porque estou achando a ideia de subir em cima de você e montar feito uma vaqueira de chapéu na cabeça muito interessante.

– Preciso de mais informação antes de formar uma opinião – Então, que tal acender outro cigarro desses, garoto malvado, e arrancar as calças depois? – Oh, Deus.

– Você está bem? – ele disse, inclinando-se e colocando a mão livre sobre o braço dela. – Não comeu muito no café da manhã... Comeu alguma coisa no almoço?

Você está apoiado sobre as três sacolas do que fiz na hora do almoço, garotão.

– Sabe? – ela limpou a garganta. – Acho que devo comer alguma coisa.

E que Deus a ajudasse se seu cérebro cuspisse alguma coisa parecida com chantili sobre o corpo dele. Se isso acontecesse, pediria para ser transferida.

– Vamos entrar – ele disse, apagando o cigarro na sola do sapato.

Boa ideia. E já deixaria anotado: nada de tempo livre com seu parceiro. Nunca.

Aproximaram-se e passaram pelas portas automáticas, pela fila de carrinhos na recepção e entraram no supermercado propriamente dito.

Quando Veck parou e olhou ao redor, ela fez um gesto com a cabeça para a direita.

– O escritório do gerente é por aqui.

– Faz compras aqui?

– Esses estabelecimentos são praticamente todos iguais.

Enquanto caminhavam juntos, ele disse: – Devia conhecer este aqui de cor. Minha casa não fica longe.

– Então, faz suas compras aqui?

– Café e cigarros... bem saudável, não?

Ele parecia estar em ótima forma.

– Sempre se pode mudar de hábitos.

– Sabe? Eu parei por um tempo. Cigarros e cafeína.

– O que o fez voltar a consumi-los?

– Acertar aquele fotógrafo.

Aaah, então ele tinha emoções.

– Tem muito estresse em seu trabalho.

– Já foi fumante?

– Não, nunca bebi muito também. Não tenho muita inclinação para esses vícios.

Por outro lado, fazer compras poderia acabar se tornando um.

E este foi o último pensamento que teve sobre questões que não diziam respeito ao trabalho. Quando entraram no setor de atendimento ao cliente, colocou todas as distrações de lado, sua cabeça voltou a funcionar ao imaginar a filha da senhora Barten indo até a loja para ajudar sua mãe... O que deveria ser uma simples comprinha para abastecer a dispensa acabou tornando-se um pesadelo. Talvez por causa de Kroner.

Enquanto ela preparava-se para mostrar o distintivo ao gerente, pensou ser muito perigoso imaginar Veck ou mesmo aquele agente durão, Heron, arrancando a cabeça do cara. Mas nem um serial killer merecia esse tipo de justiça. E não ia se iludir: não seria uma surpresa descobrir Sissy na lista de vítimas de Kroner, e essa era a razão exata pela qual Veck estava interessado no caso. Mas Reilly jogava de acordo com as regras. Sempre tinha jogado, sempre jogaria. Entregaria o caso a De la Cruz assim que percebesse alguma relação com Kroner e daria um jeito de direcionar a atenção de Veck para outra coisa. Nem que isso matasse-o.

Quando Veck checou seu relógio outra vez, eram 16h30. O gerente falava devagar, e a gravação digital das câmeras de segurança levou um tempo para ser revista. Ainda havia uma empacotadora e dois funcionários que organizavam os carrinhos para entrevistar. Nenhuma informação nova, mas, caramba, ele e Reilly trabalhavam muito bem juntos.


Ela sabia exatamente quando tomar a frente e, assim como com a senhora Barten, tinha jeito para deixar as pessoas à vontade... O que significava que acabavam falando mais. Enquanto isso, ele observava o ambiente e avaliava todas as coisas que as pessoas não diziam, mas que demonstravam no semblante.

Do lado de fora do balcão de atendimento ao cliente, apertou a mão do gerente e, em seguida, Reilly fez o mesmo.

– Obrigada por seu tempo – ela disse ao cara. – Agradecemos muito.

– Não acho que foi possível ajudá-los de verdade – o homem empurrou os óculos quadrados sobre o nariz. – Agora ou antes. Sinto-me horrível por toda a situação.

– Aqui está o meu cartão – ela entregou-o. – Pode me ligar a qualquer hora... Estou disponível 24 horas, 7 dias por semana. E, pode acreditar, você se abriu e foi honesto... Era tudo que podia fazer.

Veck entregou seu cartão também e, então, estavam indo para a saída.

– Jante comigo – Veck disse de repente. Afinal, uma segunda oportunidade de compartilharem uma refeição tinha que ser melhor do que a primeira. Desde que ele não se comportasse como um idiota, todo na defensiva, outra vez...

Tudo o que obteve como resposta foi uma desaceleração no andar e uma longa hesitação. E, em seguida, um “Ah...”

Não era um bom sinal, então, reforçou o convite com uma justificativa lógica: – Temos que organizar as anotações das entrevistas que fizemos nas últimas quatro horas. Podemos muito bem comer ao mesmo tempo... E sei que deve estar faminta.

Cara, olha só isso. Tranquilo, casual. Perfeito.

Parou em frente a uma grande vitrine com prateleiras cheias de nachos, potes de salsa e um refrigerador cheio de queijos.

– Vou cozinhar para você. Comida mexicana... é minha especialidade.

Na verdade, aquilo poderia ser real se comparasse a outras coisas: não sabia nada sobre cozinha, mas, considerando o que pretendia fazer, tinha mais chances de acertar que com qualquer outro estilo culinário. Afinal, pedir coisas pelo telefone era sua única especialidade. Mas, vamos lá... não era tão difícil. Pegar uma caixa de tacos no corredor de salgadinhos? Como poderia errar?

– Deveríamos manter as coisas no âmbito profissional – ela argumentou.

– Não é um encontro, prometo. Você é boa demais para isso, e eu não sou tão sortudo.

Quando as sobrancelhas ergueram-se, deixou no ar o comentário que havia feito, pois era verdade e os dois sabiam disso.

– Então, o que me diz, oficial? O único tempero estará no molho.

Isso produziu nela um verdadeiro sorriso, seus lábios até curvaram-se para cima.

– Eu gosto de comida mexicana.

– Então, sou o cara certo.

Por um momento, apenas olharam um para o outro. Então, ela falou lenta e cuidadosamente: – Tudo bem, mas onde?

– Na minha casa.

Passando à frente dela, Veck pegou um carrinho e encheu-o com itens da vitrine de nachos. Parecia uma dádiva vinda dos céus: todos os ingredientes estavam enfileirados, então, não tinha muito que escolher. Porém, era apenas o começo, e ele dirigiu-se ao local onde um cartaz indicava “COMIDA MEXICANA”.

– Está olhando para mim, oficial? – disse ao perceber os olhos dela sobre ele.

– Só estou... surpresa. É isso.

– Com o quê?

Colocando o carrinho em frente a uma prateleira cheia de caixas de um amarelo brilhante, esperou uma resposta de Reilly.

– Tacos ou enchiladas? – quando não houve resposta a essa pergunta também, ele pegou uma caixa. – Tacos.

Pensou no que ainda faltava. Alface. Queijo... Observou o carrinho e decidiu que precisavam de mais. Tomates. Entendido.

– Onde é a parte de hortifrúti?

– Seguindo por ali, à esquerda. Mas precisamos de hambúrgueres.

– Sim, bem lembrado.

O balcão de carnes e congelados ficava mais ao fundo da loja e, ao passarem pelas bandejas de carne moída, pegou um pedaço magro com quarenta por cento orgânico... pois, provavelmente, ela seguia uma dieta mais natural. Quando chegaram à parte das frutas e verduras, precisavam pegar tomates e alface americana.

– Converse comigo, Reilly – disse em voz baixa.

– É que... você não me parece um homem que precise de sorte com as mulheres.

– Ficaria surpresa – ao continuarem em direção ao caixa, passaram pela parte de alimentos importados e por um self-service de saladas, e, por alguma razão, Veck sentiu que devia se explicar. – Veja bem, meu pai é muito conhecido por um motivo horrível e algumas pessoas se sentem atraídas por isso. As mulheres que me procuram não são como você. Ou têm tatuagens nos lugares mais ridículos do corpo e cabelos pintados, ou são Barbies que querem “salvar” alguém, ou desejam fazer loucuras sem correr muitos riscos. Depois, há as que parecem normais, mas costumam ter fotos do meu pai na bolsa ou cartas que pedem que eu entregue para ele... Para ser sincero, é uma confusão total. Aprendi que não posso confiar em ninguém, mas também nunca mais fui surpreendido.

Puxou o carrinho num dos caixas e começou a passar as coisas enquanto Reilly entregava-as.

– Mas, como disse, você não está em nenhuma dessas categorias – terminou.

– Com certeza, não – ela passou o saco de tomates. – Desculpe, não fazia ideia.

– Há coisas piores para se preocupar – como o laço sanguíneo que tinha com o pai maníaco, por exemplo. Droga, as tietes idiotas que queriam ficar com ele só por causa do sobrenome DelVecchio eram terríveis, mas o fato de ter o assassino ligado à sua medula era um pesadelo.

– Você vai... no meio da semana que vem? – ela perguntou.

– Como?

– À execução? – ela disse em tom gentil.

Veck congelou com a caixa amarela de tacos nas mãos.

– Vai mesmo acontecer?

– Se a Suprema Corte não emitir algum documento para adiá-la... Saiu um artigo no jornal de hoje.

Ah sim, as três colunas que ele tinha pulado no restaurante.

– Bem, espero que fritem o bastardo. E não, eu não vou. Tenho que ver aquele filho da mãe toda vez que me olho no espelho. Já é suficiente.

Pegou a carteira e tirou o cartão de crédito.

– Aqui, deixe-me ajudá-lo com a...

Veck lançou um olhar por cima do ombro.

– O homem deve pagar. Sou tradicional nesse ponto.

– E a mulher pode muito bem fazer uma contribuição. Sou realista assim.

Quando ela empurrou uma nota de vinte dólares na palma da mão dele e ergueu o olhar para encontrar o dele, soube que Veck queria beijá-la... E não apenas em suas fantasias: queria saber como era apertá-la em seus braços e sentir o sabor daquela boca da qual não saía besteira nenhuma.

Não iria acontecer.

Voltando a se concentrar nas coisas que não iriam comprometê-lo ou que evitariam um tapa, passou o cartão, digitou a senha e esperou a transação completar-se. Depois de jogar o cupom fiscal fora, dirigiu-se à saída, onde deixou o carrinho com os outros e recolheu as sacolas com as compras.

Enquanto caminhavam de volta para o carro, ele murmurou: – Você está quieta. Falei demais?

Olhou para ele ao desativar o alarme do carro e destrancar todas as portas.

– Sobre seu pai? Deus, não... A hora que quiser falar sobre ele, ou sobre qualquer outra coisa, ficarei feliz em ouvir.

Veck acreditava nela. O que era um milagre em si.

– Obrigado, mas você acabou de ouvir tudo o que tenho a dizer sobre o assunto.

Assim que se aproximaram do porta-malas destravado, ela foi até a porta do passageiro de trás e disse: – Espere, aqui, coloque as compras...

– Só vou jogá-las por aqui mesmo e...

Quando a porta ergueu-se sozinha, ele viu as três grandes sacolas da Victoria’s Secret e não pôde evitar: seus olhos fixaram-se em Reilly e observaram seu corpo... De baixo para cima, até as bochechas avermelhadas. O que significava que não havia um monte de pijamas e roupões de banho macios naquelas malditas sacolas.

– Hum... banco de trás – ele murmurou. – Está certo...

– Estavam em liquidação – ela disse enquanto ele fechava o porta-malas.

Ele estava ficando excitado outra vez. Agora mesmo. Droga.

Depois que as compras foram acomodadas no carro, os dois sentaram-se em seus respectivos bancos e ela ligou o motor. O cinto de segurança pressionou sua ereção, mas achou que o aperto foi bem-vindo. Não precisava ficar fantasiando um desfile de moda. A bela oficial Reilly vestindo aquelas coisas? Cara, precisava de um cigarro.

– Merda – ele disse.

– O que foi?

– Temos que ir à sua casa para fazer isso – com um palavrão, emendou. – Quero dizer, o jantar. Fazer o jantar na sua casa... Não tenho panela nenhuma.

Quando pararam no sinal da saída do estacionamento, Reilly olhou para ele... e começou a rir. Antes que percebesse, ele estava sorrindo também.

– Você não sabe cozinhar coisa alguma, não é? – ela disse.

– Terei sorte se conseguir abrir a caixa de tacos – ergueu o dedo indicador. – Mas ainda gostaria de fazer o jantar, se não se importa.

Negando com a cabeça, ela sorriu.

– Certo, mas pode me fazer um favor?

– Pode dizer.

– Pode esquecer o que viu no meu porta-malas?

Seus olhos perderam-se na boca de Reilly e, em seguida, desceram para o pescoço pálido e...

– Sinto muito – disse em tom sombrio. – Isso eu não posso fazer.

Ela respirou fundo, como se todos os pensamentos dele estivessem expostos em seu rosto.

– Droga – disse, soltando o ar. – Quero dizer, sim, é claro. Considere feito. Totalmente esquecido.

Uma buzina soou alto atrás deles e ela teve um sobressalto antes de acelerar.

Que bela noite. Só faltava ele botar fogo na casa dela..


CAPÍTULO 10

 

Durante os anos em que atuou como soldado de Operações Extraoficiais, Jim aprendeu que uma boa informação é fundamental para a missão em qualquer tarefa. Claro, quando trabalhava para o maldito Matthias seu trabalho era matar pessoas e, agora, não era bem essa a situação com seu novo chefe ou com seus alvos atuais. Porém, muitos princípios eram os mesmos. E os riscos eram ainda maiores.

Sentado na cama de hotel, com o computador apoiado nas coxas, o site do Correio de Caldwell estava no centro da tela e a dor de cabeça que sentia não era pelo brilho da máquina. Seu trabalho já tinha sido iniciado. Considerando que Devina não havia mentido sobre a alma.

Na noite passada, Thomas DelVecchio Jr. adentrou na floresta com um cara a quem investigava... O que é normal para um detetive de homicídios, certo? Errado. O que deteve a ordem normal dos fatos foi que David Kroner, considerado um serial killer, fora levado numa ambulância até a cidade à beira da morte. Encharcado de molho de tomate. E isso era apenas o começo do jogo. Após passar quase duas horas vasculhando a internet, Jim teve acesso a informação suficiente para escrever um livro sobre DelVecchio... e sobre o pai do cara. Não eram boas notícias.

– Droga, Cachorro – murmurou.

Cachorro bufou baixinho e colocou a pata sobre o antebraço de Jim, como se estivesse oferecendo ajuda. A questão era: onde estava a encruzilhada de DelVecchio? Estaria naqueles bosques de ontem à noite?

Não, pois Jim teria perdido antes de ter começado e imaginou que isso estaria fora das regras. Entretanto, não significava que Devina não tivesse dado tal golpe.

E assim...

– Onde você está, vadia...?

O demônio estava em algum lugar naquilo tudo, trabalhando nos bastidores, tentando mexer os pauzinhos para que o jovem DelVecchio se envolvesse profundamente com ela.

A rota poderia ser traçada através do pai. Digitando outra vez o nome do cara no Google, Jim começou outra pesquisa. Os resultados fizeram-no questionar se valia a pena salvar a humanidade. Oh, veja só, quanta coisa baseada em seus assassinatos. Pinturas. Autógrafos.

O cara tinha sua indústria... Mas parece que não duraria muito. As luzes seriam apagadas para ele em Connecticut muito em breve. Mas talvez vivesse para sempre na infâmia: havia vigílias acontecendo fora da prisão. Sem dúvida aquela procissão de manifestantes não impediria a execução, mas era uma indicação de que o bastardo poderia tornar-se uma celebridade ainda mais famosa quando estivesse totalmente acabado.

De acordo com os arquivos do jornal, DelVecchio pai tinha cometido a maioria de seus assassinatos em Nova York e Massachusetts, e a primeira denúncia datava do meio dos anos 1990, quando o primeiro corpo fora encontrado... em Caldwell, Nova York. Passaram-se três anos para que as autoridades percebessem que estavam lidando com um serial killer, e não com chacinas aleatórias. Parte do atraso ocorreu pelo assassino ter deixado os corpos em situações muito diferentes e pelas investigações realizadas com diferentes graus de competência policial. Outro fator foi, ao menos no começo, que DelVecchio escondia bem os restos e de maneira muito criativa.

Os casos, porém, começaram a ser ligados e, então, iniciou-se uma corrida para capturar seja lá quem fosse o assassino. O tapa na cara foi saber que DelVecchio estava aos olhos do público o tempo todo, um negociante de antiguidades... e não apenas bugigangas e falsificações. Estava no topo daquele mercado, importando estátuas, artefatos e mosaicos do Egito e do Oriente Médio.

Maldito filho da mãe. Existia até mesmo um artigo sobre ele na Vanity Fair, que dava informações detalhadas sobre seus negócios. Aparentemente, entre as viagens ao exterior e as grandes festas que frequentava, DelVecchio pai conseguiu engravidar uma mulher. O filho tinha nascido no mesmo dia que o pai nascera há 29 anos, mas não havia vida familiar. Nem outras crianças.

Contudo, houve uma espécie de contato: o assassinato daquela mulher acabou sendo a chave para finalmente capturarem DelVecchio, a primeira ligação que trouxe à tona a cadeia de crimes que havia formado. O resto era história, por assim dizer.

– Entrandooo...

Jim olhou por cima do notebook. Parado na porta do conjugado, Adrian tinha uma caixa de pizza entre as mãos e um pacote com seis cervejas pendurado nos dentes.

– Aí sim! Obrigado, cara.

Eddie entrou atrás com uma segunda caixa.

– Ele providenciou tudo... até a isca.

Ad sentou-se sobre a cama e apoiou as cervejas.

– Se chamam anchovas, idiota.

O “que seja!” ficou subentendido entre os dois. Jim alimentou Cachorro primeiro, dando ao cão o item que Adrian não apreciava muito. Considerando o movimento do rabo curto e grosso, a gororoba estava mais que boa.

– Então, como podemos saber que Devina não mentiu para você? – Adrian disse, antes de se inclinar e colocar a ponta de uma fatia de pizza na boca.

– Essa confusão toda é bem a nossa cara – clicou no artigo sobre a execução e girou o computador. – Este é o pai do cara. E espere, tem mais.

Enquanto comiam, Jim mostrou-lhes alguns sites e finalizou com um artigo sobre a pequena viagem do Júnior à floresta com outro serial killer. Enquanto seus parceiros liam, houve uma quantidade razoável de “mas que inferno”, o que era bom.

Terminou de comer a terceira fatia.

– Precisamos descobrir o que aconteceu naquela floresta ontem à noite.

– Os artigos dizem que DelVecchio não se lembra de nada.

Jim olhou para Eddie, mais conhecido como “o mestre dos truques”.

– É aí que você entra. Quero entrar na mente do cara e você precisa me dizer como fazer isso.

Ad deu de ombros.

– Pessoalmente, eu costumo usar um serrote, mas...

– Pode haver várias consequências e efeitos colaterais – disse Eddie com cuidado.

– Por exemplo?

– Bem, na pior das hipóteses... ele pode acabar como Adrian.

– Ei...

Jim interrompeu o anjo em questão.

– Meio surdo. Com medo de agulhas.

– Viciado em sexo – Eddie acrescentou.

– Ou seja, um deus – Ad exclamou, abrindo uma cerveja. – E continuo dizendo, pessoal, não sou surdo.

– Já passamos por isso antes – Eddie enxugou a boca. – Se não consegue ouvir o quanto é desafinado, então, como pode saber?

– Não sou desafinado.

– É sim – Jim e Eddie disseram juntos.

Antes que a discussão saísse do controle, Jim ficou sério e dirigiu-se a Eddie.

– Então, me diga o que eu preciso saber.

– Precisa me explicar primeiro o que está procurando.

Jim tomou um longo gole de cerveja.

– Quero saber onde Devina está em tudo isso. Qual é o ângulo de ação dela e de que maneira está suscetível a falhar nessa porcaria toda. É isso que estou procurando.

E, considerando a situação do pai, já tinha suas suspeitas.

É claro que Veck precisava ter visto o que havia no porta-malas – Reilly pensou enquanto entrava na garagem. – O universo não desperdiçaria uma oportunidade como essa para aprontar comigo. Enquanto a porta da garagem subia, olhou para seu parceiro.

– Deixe-me adivinhar: gostaria de carregar as compras, da mesma maneira como pagou por elas.

– Sim, gostaria – olhou para os bancos de trás. – Como disse, sou antiquado. Mas se quiser assumir a tarefa, posso voltar atrás.

E era por isso que não tinha qualquer problema com ele. Além disso, ele poderia cuidar da comida enquanto ela tirava suas roupas do porta-malas: apesar de constrangida, não deixaria as sacolas para trás. Não havia como fingir que nada acontecera, mas, mais importante que isso, não havia motivo algum para esconder. Era uma mulher adulta que poderia comprar calcinhas e sutiãs para si.

Quando a voz na cabeça dela ficou ainda mais estridente e na defensiva, perguntou-se quem exatamente estava falando. Provavelmente seu pai. Interrompendo o discurso ridículo, terminou de estacionar o carro. Enquanto Veck saía e pegava as sacolas do supermercado, deu a volta no carro, abriu o porta-malas e manteve a cabeça erguida ao pegar todos os seus artigos cheios de lacinhos e renda e seguir para a cozinha.

– Nossa! – ele disse ao olhar para as paredes, cortinas e balcões.

– Eu deveria ter avisado.

Ter uma decoração cheia de galos na cozinha é um pesadelo, mas a boa notícia é que, geralmente, as pessoas param e olham ao redor, e, por isso, ela conseguiu enfiar as sacolas num canto qualquer, longe de olhares curiosos.

– Acho que nunca vi...

Quando Veck apenas assentiu com a cabeça, Reilly ficou feliz por ele não ter terminado a frase. Claro que nem precisaria: a parte do “... tantos galos num lugar só” costumava ficar no ar com certa frequência.

Oh, Deus, aquilo era horrível.

– Desde que me mudei há dois anos, tenho vontade de pegar um estilete e arrancar tudo a partir dos cantos. Mas sempre tem algum trabalho mais urgente que me mantém ocupada.

Porém, ao observar como Veck olhava tudo aquilo, pensou que deveria ter um pouco mais de determinação. O papel de parede tinha três galos diferentes em várias e exageradas poses, como se fossem fisiculturistas participando de um concurso. O esquema de cores era marrom, vermelho e creme com tufos verdes de grama sob as patas tripartidas. E, de alguma forma, mesmo o material estando ali há uns bons vinte anos, mantinha uma vivacidade impressionante.


– Sou eu ou os olhos deles seguem a gente? – Veck perguntou ao colocar as sacolas sobre o balcão da pia.

– Eles estão observando você. É uma maravilha para minhas die-tas... sinto como se estivesse comendo em público e não consigo comprar frango desde maio do ano passado.

– É como estar no filme Os pássaros.

– Exceto por não ser uma fazenda. Eu sei – quando ela aproximou-se e abriu o armário sob o fogão, completou –, o fato de já estar um pouco acostumada com isso me assusta... será que me hipnotizaram? Aliás, as panelas estão aqui, as tigelas ali e as facas naquelas gavetas perto da lava-louças.

– Obrigado.

Quando ele tirou o casaco, os grandes ombros movimentaram-se naturalmente, mas, na mente dela, transformaram-se em algo nu e excitante – Hora da distração – Reilly pensou quando Veck começou a desembalar as coisas.

– Ei, acho que vou imprimir o arquivo do caso enquanto você começa a lidar com a comida.

– Ótimo.

– Pode levar um tempo. Minha impressora é antiga.

– Temos tempo.

Pela maneira como estava concentrado no pacote de salgadinhos, parecia que estava prestes a fazer uma cirurgia cerebral com o micro-ondas. E nossa... Aquele jeitão impassível, seguro e lindo era muito sexy, sem falar que aquela preocupação toda o deixava mais acessível. Isso e a maneira como se abriu a respeito das mulheres. Ela nunca pensara nas tietes... porém, mesmo pessoas de boa aparência podiam ser perseguidas pelos motivos errados, não?

No escritório que tinha no final do corredor, entrou no banco de dados da polícia de Caldwell, acessou o relatório e ficou parada ao lado da impressora, pronta para salvar a impressão quando as folhas ficassem presas... o que aconteceu. Duas vezes.


O primeiro indício de que as coisas não iam bem na cozinha foi o aroma inconfundível de carne queimada. O segundo foi uma explosão de palavrões. Que não parou até ela aparecer com as impressões.

Foram muitas bombas verbais. Em seguida, o detector de fumaça disparou. Seja lá o que estava na panela sobre o fogão – o mais provável era que fosse o hambúrguer, mas, como era Veck na cozinha, poderia até ser os nachos – precisava de uma mangueira de incêndio. Ele tentava lidar com a situação, levou a panela para a pia, colocou dentro da cuba, mas não ligou a água. Aproximou-se rapidamente do detector e começou a abaná-lo com um pano de prato sem nem sequer ficar na ponta dos pés.

– Acho que um dos galos aumentou o fogo – ele gritou.

– Isso não me surpreenderia.

Ela escondeu um sorriso quando colocou os papéis sobre a mesa e foi dar uma olhada no que ele tinha colocado no prato: os pedaços de queijo laranja tinham se unido à camada de tortilhas ao ponto de formarem uma nova composição molecular.

Só há uma coisa a fazer agora – ela pensou. Pegou o telefone e disse: – Qual sabor de pizza você gosta, oh, poderoso fazendeiro?

– Calabresa com salame.

– Boa.

Enquanto discava, olhou para cima. A parte de baixo da camisa de Veck tinha se soltado, e ela teve uma clara visão do cós preto da cueca, bem como dos pelos que desciam em linha a partir do umbigo sobre a pele firme. Imediatamente seu cérebro voltou à cena do banheiro na noite anterior. Apenas um instante e lá estava ela, observando o corpo nu...

– Oh, sim, oi – afastou-se rapidamente. – É um pedido. Sim, sou eu. Pizza grande de calabresa com salame. Sim. Não, sem bebidas... Não, não quero uma segunda pizza de graça... Não, sem acompanhamentos... Não, obrigada, não precisa... Não, também não quero sobremesa de maçã com canela – pelo amor de Deus, levavam mais tempo fechando o pedido do que fazendo, embalando e despachando a pizza para entrega! – Ótimo, obrigada.


Desligou, endireitou os ombros e virou-se em direção a Veck outra vez – estava parado bem atrás dela, olhos semicerrados, o corpo muito maior do que aparentava ser a dois metros de distância.

Ela não se moveu. Nem ele.

– Acredita que a confissão seja boa para a alma? – disse ele de maneira misteriosa.

– Sim...

– Então, preciso dizer uma coisa.

Oh, Deus, era por isso que diziam que não se deve misturar negócios com prazer: quando seus olhos se encontraram, Reilly não pensava sobre o caso em que estavam trabalhando. Pensava que deveria admitir algumas coisas a si mesma.

Vi você nu ontem à noite e te achei lindo.

– O quê? – ela disse ofegante.

Eu te desejo mesmo sabendo que não deveria.

Engolindo em seco, ela disse: – Diga...


CAPÍTULO 11

 

Veck sabia que não deveria responder à sua parceira e com certeza não deveria ter se aproximado tanto dela. A atitude correta seria começar a limpar a bagunça que tinha feito com os alimentos em vez de criar mais confusão.

Mas viu-a olhando o corpo dele e a expressão em seu rosto indicava um desejo forte e intenso. Surpreso? Sim. Satisfeito? Poderia, se ficassem juntos.

Mas não poderiam se desvencilhar das consequências daquilo com um banho de água quente, este era o problema.

– O quê? – ela sussurrou.

– Eu quero... – a palavra era tão rude que ele guardou-a para si mesmo.

– Diga.

Ele inclinou-se e colocou os lábios sobre o ouvido dela.

– Você sabe exatamente o que eu quero.

– E eu quero que você diga.

– Tem certeza? Não é nada agradável.

Antes que ele pudesse recuar, ela estendeu as mãos e colocou as dele sobre seus quadris. O toque foi leve como uma sombra caindo sobre o corpo de Veck, mas sentiu que tudo queimava por dentro. E uma coisa era certa, se ela instigou aquele contato é porque sabia exatamente o que ele tinha em mente.

O toque ficou mais intenso.

– Diga.

Sua voz era quase um rosnado.

– Quero foder você.

Reilly gemeu um pouco e ele continuou.

– Quero você nua. Embaixo de mim. E quero entrar em você – abaixou um pouco e passou a boca sobre o pescoço dela. – Mas sei que é especialista em conflito de interesses, então sabe muito bem os motivos pelos quais essa é uma má ideia.

Era a deixa para ela se afastar. Ou para ele pular fora. Nenhum deles se moveu.

Droga, o corpo dele começou a ficar fora de controle, sua ereção latejava por mais espaço para fazer o que sabia de melhor. O que significava que, se fosse para fazerem a coisa certa, a iniciativa partiria dela.

– Dê um tapa na minha cara – ele gemeu. – Me empurre... pelo amor de Deus, se tranque no banheiro ou algo assim. Pois se não fizer isso, eu vou...

– Me beije.

Deus, o tom que ela usou: aquilo era uma ordem. E quem era ele para desobedecer a uma ordem? Especialmente vinda de uma superior?

Veck estendeu a mão e passou o braço em volta da cintura de Reilly. Com um puxão forte e impaciente, aproximou-a de seu corpo. O próximo passo foi arrancar o elástico que amarrava os cabelos dela e jogá-lo no chão.

Cara, ela instigava tanto desejo com aquela coisa de não se afastar, e os cabelos vermelhos sobre os ombros diziam que estavam prontos para ter a mão de um homem sobre eles.

Quando agarrou a nuca e aproximou a cabeça ainda mais, sabia muito bem que iria dominá-la, assumiria o controle de seu corpo, iria segurá-la com força ao empurrá-la até a mesa da cozinha e ajoelharia entre suas pernas para sugar seu sexo. Era o que desejava fazer.

– Desculpe – ele disse, ciente de que não estava desculpando-se apenas pelo que estava prestes a fazer, mas por tudo que passava em sua mente, toda a vulgaridade que desejava impor aos dois.

Então, o destino foi selado quando ela deu um beijo nos lábios de Veck.

A boca dela era macia... e também seus seios contra o peitoral de Veck e seus quadris contra seu pênis... Era macia e quente, o tipo de coisa que se quer penetrar e permanecer ali por um bom tempo. Mas, mesmo com sua pélvis contorcendo-se e sua ereção pulsando, no fundo Veck sabia que o conflito de interesses não era o maior problema que tinham. Por mais que fingisse estar tudo normal com ele, estava em carne viva por dentro por causa daquela porcaria que tinha acontecido na floresta e pela novidade sobre seu pai. Tinha medo de que Reilly fosse exatamente o tipo de curativo que precisava... Esse foi o último pensamento lógico e decente que teve.


Quando penetrou a boca dela com a língua, seus braços apertaram-na e a parte inferior do corpo arqueou-se outra vez, a tensão e o movimento em seu pênis estimulou-o ainda mais. E isso foi antes de sentir o arrepio que passou pelo corpo de Reilly. Estava claro que ela acompanhava-o, especialmente quando o apertou em seus ombros com as unhas e suas pernas abriram-se o suficiente para que ele pudesse se encaixar com uma das pernas ali.

Pensando num palavrão, ele virou-a e colocou-a sobre a mesa, em cima da papelada que ela tinha acabado de imprimir. Imagens dela com as pernas sobre os ombros dele enquanto lambia seu sexo fizeram-no imaginar que deveria repensar a falsa propaganda sobre comê-la.

Bem, não era tão falsa assim. Só adicionaria uma atração turística muito importante na viagem para o grand finale. Passou a palma da mão sobre as coxas e levantou a perna dela, esfregando ainda mais o local onde ele desejava finalmente estar. Interrompendo o contato com a boca, mergulhou no pescoço de Reilly com mordidas e lambidas.

– Me deixe ver você – ele gemeu em sua garganta. – Me deixe...

– Entrar – outra voz disse.

Ele interrompeu o ritmo de repente, desvencilhando-se do abraço e olhando para cima. Agora seu coração batia por um motivo diferente.

– O que foi? – ela disse.

Seus olhos percorreram o local. Mas não havia quaisquer sombras esquivando-se em movimentos velozes pela cozinha com decoração de galos. Nenhum ruído de tábuas ou dobradiças rangendo. Ninguém observando pelas janelas.

Depois de um momento, a adrenalina diminuiu e percebeu onde estava e o que estava fazendo com ela. Talvez tivesse sido um pensamento que assumiu uma voz muito alta. E não poderia sentir-se melhor com isso se considerasse o que tinha acontecido com Kroner na noite passada.

Uma das mãos de Reilly ergueu-se e acariciou a bochecha dele.

– Você está bem?

– Não – olhou outra vez para o rosto dela. Sentiu o corpo dela sob o seu. Ouviu suas respirações profundas. – Mas não quero parar. Você é real... E preciso muito disso agora. Preciso... de você agora.

Reilly não era como as outras mulheres com quem já tinha ficado: os olhos inteligentes viam demais e sabiam coisas demais. Cara, ele ficara nu na frente dela no primeiro momento em que a conheceu – e isso deveria tê-lo guiado na direção oposta do que estava acontecendo. Em vez disso? Só desejava-a ainda mais.

– Então, me possua – disse, puxando a camisa para fora da saia.

Veck não deu um segundo sequer para ela mudar de ideia: enquanto a beijava, mergulhou uma das mãos sob a abertura que ela havia feito na camisa, tocando toda aquela pele quente. Em seguida, os botões soltaram-se como se tivessem o mesmo objetivo que ele: acesso total.

Ergueu-se quando o último se abriu... caramba. Renda vermelha. Havia uma complexa renda vermelha sobre um par de seios perfeitamente proporcionais. Ele conseguia ver os mamilos tensos e firmes através da pequena extensão do tecido.

– Gostou do que eu comprei hoje? – ela perguntou com voz rouca.

– Nada mal – limpou a garganta quando falou. – Nada mal mesmo. Mas o que está por baixo é ainda mais quente.

Com uma graça harmoniosa, as mãos dela ergueram-se e acariciaram o sutiã de alças finas e brilhantes... Em seguida, passou a mão sobre os mamilos rígidos e, com isso, Reilly arqueou o corpo, implorando por ele.

Com um rosnado, ele empurrou a saia para cima e adentrou entre as pernas dela, separando-as ainda mais com seus quadris ao se aproximar do que havia chamado sua atenção. Ao colocar a boca sobre o sutiã incrível, além de sentir a renda em sua língua, também percebeu a carne rosada e firme por baixo do tecido.

Não levou muito tempo para aquilo não ser mais suficiente. Com a mão áspera e impaciente, puxou o bojo para baixo, revelando o mamilo.

– Porra... – ele exclamou. – Você...

Ela não quis nem saber de conversa: com pressa, seus dedos agarraram a nuca dele e, com isso, aproximou a cabeça de Veck de seus seios. Enquanto ele sugava-a, ela ergueu-se sobre a mesa, e aquele movimento, aquele puxão, fez com que ele deixasse de lado qualquer constrangimento. De repente, Veck assumiu o controle, ergueu-a ao colocar um dos braços embaixo dela, a outra mão foi direto entre as coxas, em direção ao desejo que emanava daquela calcinha.

Acariciou o sexo dela, a palma da mão envolveu o local, bem onde ela desejava...

– Veck!

O som do nome dele foi um pedido de mais, mais, mais. E daria isso a ela. Trocando de lado, mordeu a outra metade do sutiã e puxou com os dentes, antes de sugar o outro mamilo. Contudo, ainda não era suficiente. Precisava de contato total com a pele nua. Aqui, agora...

O gemido que saiu dela foi exatamente o som de consentimento que precisava ouvir.

Deus, vai acontecer – pensou. – Vai acontecer.

Veck era um dominador total. Reilly não esperava menos que isso, mas a excitação foi surpreendente. Em parte por saber que, se dissesse não estar à vontade em ir tão longe, ele recuaria no mesmo segundo. Mas o resto devia-se à maneira como ele lidava com ela, a confiança, o poder, a possibilidade erótica que emanava de sua boca, de suas mãos e de seu olhar sedutor e intenso.

Sem dúvida, Veck tinha um talento natural para o sexo... E desenvolveu isso ao longo dos anos. De repente, como se tivesse lido a mente daquela mulher, seu olhar ergueu-se com um brilho e fixou-se no dela enquanto estimulava o mamilo da mulher com a língua... E, quando as pálpebras baixaram, sabia que desejava que ela o observasse.

Que visão. Ele puxou o outro lado do sutiã e acariciava-a, lambendo e chupando enquanto uma das mãos espalmadas pressionava sua pele. Deus, ele era grande – por inteiro. Seu pênis era longo e grosso e acariciava a parte interna das coxas dela, seus ombros eram tão grandes que não conseguia ver nada além deles, e a parte inferior do corpo daquele homem ocupava todo o espaço que havia entre suas pernas abertas.

Veck terminou de puxar o sutiã que pressionava os seios para cima, a camisa estava totalmente aberta, e a saia estava toda amontoada na cintura. O próximo passo era tirar o tecido de nylon que cobria as pernas de Reilly e, para isso, ela saiu um pouco de cima da mesa, sentindo aquela mão pressionar com mais força ainda em movimentos circulares. Mergulhou os polegares na cintura da meia-calça e baixou os quadris, escorregando a peça ao longo das coxas.

– Eu assumo daqui em diante – Veck recuou um pouco, os olhos em chamas observando o corpo de Reilly. – Hummm... bem onde eu queria estar.

Quando ele sorriu como um predador, ela ergueu os joelhos para ajudá-lo a tirar as meias, lentamente. E só depois que o fino tecido estava livre de seus pés, ela perguntou-se até onde aquilo tudo chegaria. Iriam terminar de fazer aquilo que não deveriam nem ter começado?

Se aquilo fosse um “sim”, teriam que lidar com alguns aspectos práticos. Mas, caramba, que coisa chata falar de camisinha – e, sim, agora entendia por que as pessoas faziam escolhas idiotas quando se tratava de sexo. Coisas realmente importantes não tinham a menor relevância ali, todo o sofrimento que poderia vir depois daqueles minutos intensos, coisas com as quais teria que conviver, talvez para sempre... Passavam a ser ecos distantes, que ela mal conseguia ouvir, pronunciados num idioma que não queria traduzir.

Cinquenta mil anos de evolução poderiam dizer o que estava acontecendo.

Com um impulso, Veck voltou à boca dela, beijando-a profundamente enquanto as mãos desciam...

A maldição que disparou da garganta dela era mais uma vibração que um sim. A mão dele estava de volta entre as pernas, acariciando suas coxas, indo em direção à peça que completava o conjunto com o sutiã que já tinha visto e dominado.

– Veck! – ela exclamou outra vez quando o toque deslizou sobre o centro da faixa de cetim.

Foi cuidadoso, colocando apenas a pressão suficiente sobre o local tão sensível, acariciando-a em movimentos circulares que fizeram seu corpo ficar ao mesmo tempo relaxado e tenso.

Dane-se a calcinha, ela não queria nada entre eles... Mesmo assim, a barreira de seda não era de todo ruim, a costura adicionava outra dimensão ao ritmo que ele tinha imposto. E não parou de beijar sua boca, de envolvê-la, de aproximá-la ainda mais, mesmo já estando bem juntos.

Com um movimento rápido, ele levantou o tronco de Reilly e empurrou seus quadris contra o sexo dela, entrelaçando os corpos. Em seguida, curvou a coluna e encaixou-se sobre ela, acariciando-a com seu pênis enquanto observava-a com atenção.

Deus, o rosto dele estava cheio de desejo, aquela frieza tinha desaparecido, aquela máscara impassível havia explodido com a intensidade que apertava o maxilar.

Eles iam mesmo fazer aquilo, Reilly concluiu.

Surpreendente. As escolhas na vida de Reilly eram baseadas em dados precisos do que deveria, teria que ou do que era melhor não fazer. Com certeza, fazer sexo daquela maneira estava na última categoria... e, mesmo assim, não pretendia deter nada.

Porém, fariam aquilo com segurança – embora não sobre uma cama. Aquela mesa estava servindo muito bem. Mas havia coisas que ela precisava fazer primeiro. Descendo o corpo, deslizou as mãos até... a cabeça de Veck caiu para trás.

– Caaara...

Perfeito: o pênis rijo era ainda maior do que imaginava e latejava contra a palma de sua mão...

O som da campainha ecoou, alto como um tiro. E, mesmo assim, por um momento, ela não conseguiu compreender o que era aquele barulho ou por que deveria importar-se com ele. Veck recuperou os sentidos primeiro.

– Pizza.

– Que p...?

Com o pensamento rápido e lógico, ele estendeu a mão e apagou as luzes para que o entregador da pizza de calabresa com salame não assistisse ao show na cozinha. Então, com mãos eficientes, colocou a camisa dela de volta, puxou a saia para baixo e começou a arrumar as próprias calças, para que não ficasse uma tenda de circo.

– Vou cuidar disso – disse ele com uma voz equilibrada. Como se nada tivesse acontecido. Nada.

Enquanto ele foi até a porta da frente, Reilly sentou-se lentamente, a cabeça não parava e o corpo tremia. Segurando a blusa, percebeu que a volta ao normal repentina fê-la sentir-se totalmente fora de controle. Em seguida, ela saiu da mesa e os papéis do caso Barten caíram no chão.

A chuva de folhas soltas formou uma espécie de tapete aos seus pés e foi o espelho exato que precisava para ver tudo com clareza: do outro lado da cidade havia uma família de luto pela filha que sabiam ter perdido, e, em vez de concentrar-se na dor deles e em seu trabalho... estava esfregando-se num homem que não tinha nada a ver com ela.

Não poderia existir um conflito de interesses maior. Serviria de exemplo num livro didático. Mexendo nos botões da camisa, fechou-os rapidamente e, então, inclinou-se para pegar as cópias do relatório. Quando o cabelo caiu sobre o rosto, perguntou-se onde estaria seu elástico.

Quem poderia saber?

Colocando os fios atrás das orelhas, juntou as impressões com cuidado, reordenou as páginas e separou tudo em duas pilhas – a dela e a de Veck. Separado era melhor.

Ela tinha enlouquecido?

Vindo da porta da frente, ouviu um burburinho de palavras de agradecimento, a porta fechou-se em seguida e passos pesados trouxeram Veck de volta à cozinha.

Levantando-se rapidamente, colocou as duas pilhas de papéis sobre a mesa e manteve os olhos sobre elas. Não conseguia olhar para Veck. Simplesmente não tinha forças para aquilo no momento.

– Acho melhor você ir – sua voz não soou bem, mas ela não se sentia bem mesmo.

– Certo. Vou chamar um táxi.

Droga. A moto dele estava na delegacia, não?

Após soltar um palavrão em voz baixa, murmurou: – Está tudo bem. Posso levá-lo...

– Não, um táxi é melhor.

Ela assentiu e acariciou a primeira página do relatório... onde indicava os principais dados de Sissy e a data de seu desaparecimento.

– Vamos verificar tudo isso amanhã no escritório.

– Sim – quando ele vestiu o casaco, o som macio do tecido foi mais alto que a campainha. – Sinto muito.

Ela cruzou os braços sobre o peito e assentiu outra vez.

– Sim, eu também. Não sei o que deu em mim.

Mas sabia muito bem o que aconteceria se o jantar não tivesse chegado bem na hora. Momentos depois, ele foi embora e fechou a porta tão silenciosamente que não se fez som algum. Quando finalmente olhou por cima do ombro, tudo o que viu foi a pizza no balcão. Certo, como se fosse comer alguma coisa. A caixa foi direto para a geladeira.

Saindo da cozinha, passou pela mesa e encontrou sua meia-calça atrás de uma cadeira. Seu elástico de cabelo estava no chão perto do arco que dividia os ambientes, já dentro da pequena sala de jantar. Ao inclinar-se para pegá-lo, ficou frente a frente com as compras da Victoria’s Secret e percebeu que seu sutiã ainda estava beeem fora do lugar. Deixou as sacolas ali e resolveu aquele pequeno problema com alguns puxões e vários palavrões. Enquanto aproximava-se das escadas, decidiu que usaria sua velha lingerie de algodão de sempre para ir trabalhar no outro dia. Era isso, muito obrigada.


CAPÍTULO 12

 

– Pergunta. Mesmo se não quebrar nada para entrar, ainda é considerado invasão de domicílio?

Adrian soltou essa pequena pérola assim que assumiram forma em frente à porta de entrada da casa de Thomas DelVecchio Jr. – e, se considerassem tudo o que ele havia dito até hoje, sabiam que o anjo poderia ter soltado um comentário muito pior.

Jim nunca passou tanto tempo em sua vida desejando protetores e fones de ouvido. Mas pelo menos o bastardo não tentou o rap.

– E aí? – Ad disse.

– Olha só, nós nem sequer existimos – Jim murmurou. – Então, você pode alegar que nem estamos aqui de verdade.

– Ótimo argumento. Acho que é legal.

– Como se o contrário o incomodasse.

A casa era decorada ao estilo de Jim: funcional, nada de especial, muito espaço vazio. O problema? Poucos itens pessoais, e precisavam de algum objeto feito com um pouco de metal. De preferência ouro, prata ou platina. Se conseguissem algum objeto com impressões suficientes de Veck, poderiam usá-lo como ponte para entrar no cérebro do cara remotamente: de acordo com Eddie, era arriscado demais fazer isso pessoalmente. Não com Devina por perto.

– Vamos nos separar – disse Jim. – Vou examinar o andar de cima.

Quando Ad e Eddie espalharam-se, Jim subiu as escadas de dois em dois degraus. O quarto principal ocupava metade do andar. Claro que essa afirmação soa mais impressionante do que a realidade, pois a metragem total não passava de setenta metros.

– Meu Deus, quanta coisa, hein amigo? – murmurou.

Não havia nada no quarto além de uma cama grande e uma porcaria de mesa de cabeceira com um abajur sobre ela. Nada de despertador – provavelmente o cara usava o celular para isso. Nada de telefone fixo, mas para que se precisava de um? Havia uma TV de tela plana fixada na parede, cujo controle remoto encontrava-se entrelaçado nos lençóis.

Havia algumas roupas sujas num cesto de plástico no canto, meias e cuecas transbordavam pelos lados como se a coisa babasse algodão preto. Abriu o armário... e havia camisas penduradas nos cabides, que era bem melhor do que a mala que Jim usava há anos para guardar suas roupas. Atrás da porta, havia alguns cintos com fechos de metal, mas tinha de haver algo melhor para que Jim pudesse usar.

Foi até o banheiro. Todas as luzes apagadas, mas o cara não usava cortinas, então havia bastante iluminação vinda da rua. Assim que entrou no cômodo pequeno e azulejado, sentiu algo forte em sua nuca, como se formigas rastejassem sobre a pele.

Devina.

– Onde você está? – disse, dando uma pequena volta ao redor de si. – Onde diabos você está?

O demônio esteve ali, podia sentir sua presença no ar, como o mau cheiro que exala de uma grande lixeira, mesmo depois de ter sido esvaziada. Aquilo dava alguma credibilidade à revelação de Devina no restaurante.

Quando se voltou para a pia, franziu a testa. O espelho estava coberto com uma toalha e o formigamento em sua nuca aumentou quando estendeu a mão e puxou o tecido felpudo.

Nada, a não ser um armário de remédios dos anos 1980 embutido na parede. Mas o vidro frontal estava totalmente contaminado. Será que ela passou pelo objeto de alguma maneira? – perguntou-se. Recuou no mesmo instante em que as pontas do dedo fizeram contato com a superfície espelhada. O armário de remédios estava gelado.

Droga, Veck sabia que alguma coisa estava atrás dele, não? Por que cobriria a coisa? A questão era: até onde o demônio havia chegado dentro dele?

– O que fez com ele, vadia?

Recolocando a toalha, Jim abriu as gavetas, verificou o desodorante, o tubo de pasta de dente extra e o cortador de unhas. Ei! Talvez aquilo funcionasse. Só que dificilmente o objeto teria uma conexão emocional com... Uma luz estendeu-se pela frente da casa, atingindo a janela onde Jim estava e lembrando-lhe que não se preocupara em ficar invisível. Fazendo o corpo desaparecer, olhou pela janela. Na calçada em frente à garagem, Veck saiu do táxi amarelo.

Jim atravessou o quarto principal e desceu as escadas, só seria percebido se alguém sentisse a brisa que seus movimentos produziam. Na cozinha, viu que Ad e Eddie também tinham ficado invisíveis, e os três esperaram juntos, formando uma pequena fonte de calor no canto do cômodo.

Ela ainda está nele – disse em pensamento aos seus amigos.

Posso senti-la daqui – Eddie respondeu.

Na entrada da casa, a porta foi aberta, fechada e trancada. Em seguida, passos pesados aproximaram-se de onde eles estavam.

– Mas que... droga...

As maldições continuaram enquanto Veck entrava na cozinha, jogava as chaves e arrancava a jaqueta. Em seguida, foi até a geladeira e pegou uma cerveja. Tirou a tampa e bebeu com vontade, era evidente que tivera uma noite difícil no trabalho.

De repente, o cara ergueu a cabeça, apoiou a cerveja e olhou diretamente para onde os três estavam. Ele não deveria ser capaz de senti-los, muito menos de vê-los. Nenhum deles moveu-se. Nem mesmo Veck. E foi nesse momento que Jim olhou para o chão de linóleo atrás do detetive... e notou que o cara projetava duas sombras.

Única fonte de luz? Duas projeções em sentidos opostos sob seus pés?

Em silêncio, Jim apontou para o chão e seus colegas assentiram.

Veck estendeu o braço e tocou um interruptor, iluminando melhor o ambiente. Em seguida, ele olhou ao redor.

– Puta... que... pariu.

Obviamente, esse era o mote da vida daquele cara e, se Ad não se encorajasse a soltar a voz, Jim consideraria cantarolar um pouco daquela música também.

Veck balançou a cabeça e voltou para sua cerveja, tomando o que restava de uma vez só. Deixou a garrafa vazia sobre o balcão, pegou mais duas na geladeira e andou até a sala. Destino: sofá.

Jim e seus amigos foram atrás dele, mas mantiveram distância. Veck era intuitivo ao extremo ou contaminado o suficiente para ter um radar que percebesse a presença dos anjos. Conhecendo a sorte que tinha, tratava-se da última opção.

O detetive retirou as armas para se sentar: removeu uma bela automática e uma faca. Em seguida, retirou o distintivo brilhante da polícia, prata e dourado. O homem segurou a coisa sobre a palma da mão em formato de concha por um tempo. Olhava como se fosse uma bola de cristal... ou talvez um espelho onde tentasse ver a si mesmo.

Deixe isso de lado, cara – Jim pensou. – Termine as cervejas, deite um pouco e tire uma soneca. Prometo que devolvo quando terminar.

Veck seguiu as instruções e colocou o distintivo com seu nome e número de registro na polícia junto às armas, bebeu as cervejas uma seguida da outra e recostou-se nas almofadas. Seus olhos fecharam-se um momento depois. Levou um tempo para que as mãos relaxassem e caíssem para os lados, mas, em seguida, a respiração lenta e profunda confirmou o descanso – e a deixa para que eles pegassem o que precisavam e saíssem.

Jim estendeu a mão à altura da cintura e deu uma de cavaleiro Jedi com o distintivo, fazendo o objeto levitar e trazendo-o até ele ao longo da escuridão. No instante em que a palma de sua mão fez contato, sentiu o mesmo frio que sentira no andar de cima, a crueldade de Devina habitava no espaço entre as moléculas do metal.

O cuidado de Eddie parecia exagerado... até agora. Considerando a forte mensagem que o distintivo transmitia, não dava para ser pego de calças curtas ao atuar naquela tarefa.

Jim indicou a janela com a cabeça e, como uma névoa, os três desapareceram.

Do outro lado da cidade, no centro urbano de Caldwell, o Hospital São Francisco era um complexo que brilhava como uma das ruas de Las Vegas. Sob seus telhados de vinte estilos diferentes, vidas começavam e terminavam aos milhares a cada ano, a luta contra o Ceifeiro da Morte era travada por todos os médicos, cirurgiões e enfermeiras que ali trabalhavam.

Devina estava bem familiarizada com o local: algumas vezes, aqueles humanos de jalecos brancos e uniformes cirúrgicos precisavam de uma pequena ajuda para garantir que o trabalho fosse feito corretamente. E, geralmente, isso significava a morte, mas nem sempre.

O demônio entrou na ala de emergência pela porta frontal automática. Vestindo sua bela pele feminina, capturou todos os tipos de olhares vindos de pais e irmãos sentados na sala de espera. Era por isso que não pegava atalhos. Passar através de vidros, metais ou tijolos era eficiente, mas chato: adorava ser admirada. Cobiçada. Desejada. E os olhares ardentes das outras mulheres, todos aqueles olhares cheios de ódio e inveja? Melhor ainda.

Encontrar Kroner no labirinto de corredores, andares e unidades foi muito fácil. Estava há anos dentro dele, ajudando-o a aprimorar suas habilidades e dando suporte à sua obsessão. Já nasceu doentio, mas lhe faltava coragem para seguir os impulsos – e a impotência agiu a favor dela. Nada instigava mais a violência contra mulheres atraentes num louco como ele do que o próprio pênis murcho e fino.

A UTI que procurava estava sete andares acima, e ela gastou um pouco de tempo nos elevadores, caminhando, observando os uniformes das enfermeiras. Nada demais. Tecidos de algodão com péssimo corte que não realçavam nada na parte de cima e evidenciavam a flacidez da parte de baixo. Que diabos achavam que estavam fazendo com aquele visual?

Quando finalmente aproximou-se das várias portas duplas de metal, pegou uma carona com uma servente e um idoso sobre uma maca. O velhote estava apagado, mas a mulher não deu apenas uma olhada, foram várias. Sem dúvida, continuaria a observar se as portas não tivessem sido abertas no andar que precisava ficar. Lançou um sorriso sobre o ombro, saiu e não conseguiu deixar de rir um pouco.

Enfim, era hora de começar a trabalhar. Tinha a opção de assumir a forma de uma névoa e serpentear sobre o chão lustrado, mas isso causaria pânico demais. Ou poderia continuar invisível, o que era considerado uma falha de originalidade em sua cartilha: tinha passado séculos desfrutando da interação com os humanos, disfarçando-se entre eles, beliscando seus calcanhares e esfregando-se contra seus corpos – ou indo até mais além. Não havia motivo para desperdiçar a oportunidade de divertir-se um pouco naquela noite, mesmo trabalhando. Afinal, sua terapeuta estimulava-a a encontrar um equilíbrio na vida.

Ao chegar à unidade, atravessou um corredor cheio de fotografias de vários diretores de departamentos. Muito útil, como perceberia logo em seguida. Ela parou diante de várias, observando as características, os acessórios, os nomes e títulos, os jalecos brancos e as gravatas listradas ou roupas mais formais. Era como comprar uma roupa nova. E tinha seu serviço próprio de alfaiataria.

Virando numa esquina do corredor, olhou para os dois lados para certificar-se de que estava sozinha e, então, cuidou da câmera de segurança acima dela, enviando uma carga elétrica suficiente para desativá-la sem explodir.

Em seguida, assumiu a aparência e o jaleco branco do chefe da neurologia, um tal de dr. Denton Phillips. O disfarce foi um pouco decepcionante e flácido se comparado ao traje exuberante da bela morena. O homem tinha mais ou menos sessenta anos e, embora fosse um homem branco, arrogante, bem conservado, sentiu-se mal e feia. Ao menos era melhor do que realmente parecia, e era temporário.

Quando voltou ao corredor principal, caminhou como um homem e era ótimo ver o respeito e o medo nos olhos dos funcionários pelos quais ela passava. Não tão divertido quanto a luxúria e a inveja, mas agradável mesmo assim.

Não precisava perguntar onde Kroner estava. Era muito fácil de encontrá-lo – e não ficou surpresa ao se deparar com um policial uniformizado sentado do lado de fora do quarto. O homem levantou-se.

– Doutor.

– Só vou levar um minuto.

– Fique o tempo que precisar.

Não era bem assim... Ela tinha que trabalhar rápido. Não fazia ideia de como o dr. Denton Phillips realmente era e não havia como ter certeza se a altura estava correta. Isso acontecia quando tudo o que se tinha era uma foto para servir de molde: aquele não era um bom momento para encontrar quaisquer colegas que o conhecesse bem – ou pior, o homem em si.

A UTI onde Kroner estava tinha paredes de vidro com cortinas, era possível ouvir o silvo do equipamento médico que o mantinha vivo. Deslizou a porta, empurrou o tecido verde de um biombo e entrou.

– Você está péssimo – ela disse com voz masculina.

Ao caminhar até a cama, deixou de lado a aparência do bom doutor e mostrou-se como a bela mulher que Kroner tinha conhecido há dez anos.

Havia tubos entrando e saindo pela boca e pelo nariz, e os fios emaranhados que saíam de seu peito davam-lhe a aparência de uma central telefônica. Muitos esparadrapos de gaze branca sobre a pele cinza. Muitos hematomas. E seu rosto parecia bexiga de festa, todo vermelho e brilhante, esticado pelo inchaço.

Aquele não era o fim que ela tinha planejado e no qual havia trabalhado. Era para DelVecchio ter cedido e matado o desgraçado antes mesmo de Heron ficar sabendo qual era a próxima alma. Infelizmente, seu cordeiro sacrificial louco e pegajoso tinha sido abatido por outra pessoa.

Pelo amor de Deus, era óbvio que não sobreviveria. Ela não era um médico – apenas interpretava um de vez em quando –, mas só aquela palidez já a fez pensar em funerais.

No entanto, ainda não era tarde demais para o bastardo. E, após esse deslize, não correria mais nenhum risco de perder essa rodada. Hora de tornar-se um pouco mais agressiva, especialmente se pensasse no acordo que tinha selado com Heron.

– Ainda não é sua hora – ela inclinou-se sobre a cama. – Preciso de você.

Fechando os olhos, acomodou-se sobre o corpo do homem, cobrindo-o por completo e, em seguida, infiltrou-se dentro dele através de cada poro que havia. O poder inato nela preencheu o vazio, reenergizou Kroner. Ao puxá-lo da espiral da morte, ela curou-o e deu-lhe forças ao mesmo tempo. E pensar que humanos confiavam em aparatos médicos. Tão rudimentar.

Os olhos de Kroner abriram-se conforme ela se retirava e reassumia sua forma. Então, ele encarou-a. Um brilho amoroso surgiu em seu olhar. Patético, mas útil.

– Viva – ela ordenou –, e nos veremos em breve.

Ele tentou acenar com a cabeça, mas havia muitos acessórios de entubação em sua garganta. Contudo, cumpriria a ordem. Quando ela olhou para o dispositivo de monitoramento, a frequência cardíaca já tinha alcançado estabilidade e sua pressão arterial estava regulada. O nível de oxigênio saiu de setenta e foi para noventa.

– Bom menino – ela disse. – Agora, descanse.

Erguendo a mão, colocou-o em um sono profundo e restaurador e, em seguida, reassumiu a imagem do bom e velho dr. Denton.

Entrar, sair, partir.

Saiu da sala envidraçada, acenou para o guarda e caminhou pelo corredor, passando por bajuladores e puxa-sacos que quase se ajoelhavam enquanto passava. O que era agradável. Ao ponto de ficar tentada a desfilar pelo hospital por um tempo, apenas para sentir melhor a experiência de ser aquele homem.

Mas não podia, a última coisa que precisava era encontrar alguém que realmente o conhecesse. E, mais importante, tinha um compromisso com a terapeuta bem cedo no outro dia e ainda tinha que escolher o que vestiria – isso poderia levar horas. Motivo pelo qual precisava de uma maldita terapia. Hora de ir.


CONTINUA

CAPÍTULO 7

 

Ao meio-dia, Reilly deixou a delegacia a pé e seguiu para o centro da cidade. O dia estava glorioso, com um sol de abril tão radiante e quente que afugentava aquela sensação dos doze graus exibidos nos termômetros. Mas a oficial não era a única que se beneficiava com o clima. Havia uma multidão nas calçadas e atravessando as faixas de pedestres, atrapalhando o trânsito, ao passarem com refrigerantes e sorvetes nas mãos; muitos comiam alguma coisa à beira de uma fonte ou sentados num banco do parque. Após seis meses de escuridão gelada, o Estado de Nova York ansiava por algum sinal de que o inverno realmente estivesse indo embora... E aquela bela hora do almoço não seria desperdiçada.

Aparentemente, Reilly estava no intervalo do trabalho, assim, poderia colocar a cabeça em ordem antes de ver Veck outra vez. Porém, seus passos tinham um propósito e uma direção aos quais ela recusava-se prestar atenção.

O Shopping Galeria era um dos projetos de revitalização do centro, mas, ao contrário de muitos outros, este realmente deu certo. Com uma grande loja de departamentos e uma grande livraria, os quatro quarteirões de prédios dos anos 1920 tinham sidos interditados, liberando apenas a passagem de pedestres. Era um atrativo que tinha revigorado o local e tornado-se o refúgio favorito de milhares de funcionários de escritório, assim como Reilly.

Contudo, diferentemente de suas colegas, era a primeira vez que andava pelas diversas lojas daquele centro comercial... quando parou em frente a uma delas, atraída pelo brilho rosa que irradiava do vidro. Oh, não. De jeito nenhum. Aquilo não era sua... Uma mulher saiu balançando duas grandes sacolas com as mãos e com um sorriso de orelha a orelha.


– Liquidação! – disse a Reilly. – Oba!

Sua voz saiu tão alta e estridente que parecia ter respirado hélio. Mas talvez fosse por usar um corpete embaixo do casaco – ao menos era o que parecia. Enfim, Reilly balançou a cabeça; liquidação ou não, não era o tipo de coisa que ela... Já tinha entrado na loja.

Maldição. Nunca tinha visto tanta roupa íntima num só lugar em toda sua vida.

O estilo Victoria’s Secret não é para quem tem problemas cardíacos... ou um traseiro grande – ela pensou, perguntando-se há quanto tempo, exatamente, não aparecia na academia. Desde o ensino médio. Não... Talvez tenha sido desde o fundamental.

Cara, toda aquela renda intimidava. Assim como as imagens tratadas das modelos expostas em toda parte, de tamanhos bem maiores que o natural. E, para piorar as coisas, o lugar estava lotado de mulheres que não eram bem do tipo de Reilly. Eram garotinhas com seus vinte e poucos anos, pegando tangas, sutiãs de bojo, peças de tamanhos mínimos e outras coisas. Mesmo os pijamas ou moletons pareciam estar destinados a ser arrancados com os dentes por algum garanhão...

– Oi, posso ajudá-la?

Reilly estremeceu.

– Ah...

A vendedora era uma linda afro-americana que, provavelmente, ficava ótima em cada peça pendurada na loja ou dobrada sobre as mesas. Comparando-se a ela, Reilly sentiu-se uma coisa esquisita e sardenta do tipo que pede para fazer tudo no escuro.

– Estou bem, obrigada...

– Estamos em liquidação.

– Sim, vi uma moça saindo com algumas sacolas – o que, considerando a pequenez das roupas ali, significava que a garota tinha comprado quinhentas, talvez seiscentas, peças daquilo tudo.

– Está procurando por alguma coisa em particular?

Reilly estava prestes a balançar a cabeça recusando, quando sua boca abriu-se por conta própria.

– Quero sentir-me mulher, e não uma oficial de polícia. Eu apenas... estou cansada de mim e do meu trabalho neste momento. Entende o que quero dizer?

Oh, droga, o que ela estava dizendo?... Só uma observação: aquilo não tinha nada a ver com Brittany, que se escreve Britnae.

A vendedora sorriu.

– Entendo. Você veio ao lugar certo.

Reilly olhou para um maiô asa-delta com estampa de tigre e não teve tanta certeza disso.

– Acho que nunca comprei lingerie antes... Nada que escolhesse com cuidado, meus sutiãs são do tempo da Guerra Civil. Talvez de alguma guerra do século XVIII.

– Bom, meu nome é Ralonda – estendeu a mão – e posso cuidar de você.

– Reilly. Quero dizer... Sophia – quando apertaram as mãos, ela murmurou: – Você tem algum tipo de formação em psicologia, por acaso?

– Na verdade, é isso que eu vou estudar na Universidade de Nova York, no campus de Caldwell.

– Deus, você é perfeita.

– Imagine – Ralonda sorriu outra vez, exibindo seu sorriso. – Vamos tirar suas medidas e depois vou trazer algumas coisas.

Uma hora e US$ 673,43 depois, Reilly saiu com três sacolas cheias de coisas. Quando chegou à porta, de cabeça erguida, viu-se sorrindo para as duas garotas que espiavam as vitrines.

– Eles estão em liquidação – disse a elas. – Melhor entrar. E chame por Ralonda... Ela é a melhor.

Elas entraram correndo, e Reilly caminhou até a delegacia com uma curiosa sensação de leveza. Talvez o sutiã de bojo cereja com calcinha combinando que acabara de vestir tivesse propriedades antigravitacionais, erguendo não apenas seus seios mas também o corpo inteiro. Fazia com que se perguntasse o que os astronautas usavam por baixo de seus trajes. A horrível imagem de um astronauta velhaco veio-lhe à mente. O cara usava apenas um minúsculo conjunto cor-de-rosa.

Deu-se conta de que entrar na delegacia com aquelas sacolas da Victoria’s Secret e um andar leve não passaria a mensagem certa... Especialmente agora que seria a parceira de Veck no próximo mês. Esquivando-se pela lateral da delegacia, aproximou-se de seu carro e escondeu as compras no porta-malas.

Desta vez, quando entrou pelos fundos e passou pelo guarda na recepção, estava um tanto constrangida, pensando se alguém poderia saber o que usava por baixo das roupas. Porém, como sempre, ninguém prestou nenhuma atenção nela. Apesar dos muitos talentos dos vários membros da polícia, parece que visão de raio X não era um deles.

A primeira parada foi seu escritório. Verificou rapidamente o correio de voz e os e-mails. Em seguida, pegou um bloco de notas e seguiu para o Departamento de Homicídios. E, como se pode imaginar, a confiança nas propriedades ocultas do algodão e da Lycra acertou em cheio a todos ali quando abriu a porta do departamento. Todos olharam para cima, inclusive Veck.

Certo. Agora entendia por que as pessoas odeiam aqueles sonhos em que andam nuas numa sala cheia de pessoas. Nunca tivera um pesadelo assim antes e, enquanto colocava o bloco de notas em frente aos seios, não estava com muita pressa de vivenciá-lo.

As pessoas apenas acenaram e cumprimentaram, e ela acenou e cumprimentou de volta enquanto dirigia-se até Veck. O cubículo ao lado dele estava praticamente vazio, havia apenas um computador e um telefone. Quando Reilly sentou-se, manteve o caderno contra o peito.

Veck encostou-se na cadeira fazendo com que seu peito parecesse enorme contra a camisa branca.

– Tudo certo na sua sala?

– Sim. No que vamos trabalhar hoje?

Ele fez um gesto com a cabeça indicando a tela do computador.

– Encontrei alguma coisa para passar o tempo. Estava esperando você chegar... Pensei em fazer um reconhecimento de campo e consultar outra vez algumas testemunhas.

– Ótimo. Qual é o caso?

– Digo no caminho. Importa-se se usarmos o seu carro? Só tenho moto.

– Ah... – com certeza não haveria motivo algum para ele olhar no porta-malas. – Claro. Sim. Tudo bem.

– Obrigado, oficial. Ou deveria chamá-la de detetive nas próximas semanas?

Quando se levantaram juntos e ela viu-se com o rosto na altura do peitoral de Veck, sabia que era hora de sufocar sua Britnae interior.

– Só Reilly está bom – respondeu.

Por um momento, os olhos de Veck baixaram, e ela poderia jurar que ele murmurou “com certeza está”.

Sem dúvida a lingerie nova fazia-a ouvir coisas.

– Espere um minuto... esse não é um caso antigo de homicídio.

Ao pararem num sinal vermelho, Veck recebeu um olhar sério de sua nova parceira... o que foi muito excitante.

Endireitando-se no banco e rezando para que sua ereção não explodisse antes de chegarem ao local de destino, fez um esforço para manter a voz equilibrada e sem qualquer sinal de rouquidão. Porém, pelo amor de Deus, se aquilo fosse um indício de como seriam as próximas quatro semanas... estava com problemas.

– Tecnicamente, é uma desaparecida...

– Não existe “tecnicamente” nesse caso. Não há um corpo.

– Posso terminar?

– Desculpe – quando o farol ficou verde, ela pisou no acelerador. – Mas tenho um pressentimento de onde isso dará, e você não chegará nem perto do caso Kroner.

Veremos – ele pensou.

– Recebi um telefonema do FBI esta manhã. Estão trabalhando no caso dessa garota desaparecida e queriam saber se existe mais alguma novidade. Respondi que ficaria feliz em examinar o que já temos sobre...

– O FBI pode fazer isso sozinho...

– Não há motivo para não ser amigável. Ou para concluir que há alguma ligação com Kroner.

Ela franziu a testa.

– O que o FBI acha?

– Não perguntei. Talvez seja interestadual – pois, talveeez, aquilo fizesse parte do caso Kroner... e foi por isso que ele não perguntou nada.

– Só para que fique bem claro: se houver qualquer ligação com o caso Kroner, estamos fora.

– Certo – colocou a mão no bolso da frente do casaco e pegou um relatório de três páginas. – Cecília Barten, dezoito anos, desaparecida há apenas três semanas. Vista pela última vez saindo de casa para ir ao supermercado na avenida Union. Câmeras de segurança do estacionamento e da saída da loja não gravaram nada, graças a uma sobrecarga de energia.

– E por onde vamos começar?

– Pela casa dos pais. Quero verificar se deixaram passar alguma coisa. A mãe dela está esperando por nós... Vire à direita aqui.

Reilly seguiu as placas e virou, entrando num bairro não muito longe de onde Veck morava. Ali as casas eram um pouco maiores e mais bem conservadas. Não havia carros estacionados na rua, e Veck imaginou que não haveria grandes caminhonetes ou sedãs guardados naquelas garagens. Não tanto quanto minivans... Porém, naquela região, moravam vários casais com filhos, então, talvez estivesse errado.

– Certo – ele murmurou, olhando as casas – 491, 493, 495... aqui.

Reilly estacionou no meio-fio em frente ao número 497. Depois de desligar o motor, saíram do carro...

Logo atrás deles estacionou uma suv dourada com insulfilme e três agentes federais desceram. Os homens estavam à paisana e, quando saíram, o motorista de cabelo loiro escuro exibiu suas credenciais.

– Jim Heron. Conversamos pelo telefone. Estes são meus parceiros, Blackhawk e Vogel.

– Thomas DelVecchio.

Quando apertaram as mãos, Veck sentiu uma energia estranha e recuou.

– Esta é a oficial Reilly. Quer entrar conosco?

O agente estreitou os olhos ao observar a casa.

– Sim. Obrigado. Meus parceiros vão esperar aqui.

Boa ideia. Seria difícil que todos coubessem naquele hall minúsculo. Enquanto passavam pela entrada de tijolos à vista, uma bandeira balançava casualmente com a brisa da primavera. Ela tinha um tom pastel e um desenho em formato de ovo estampado, metade cor de lavanda, metade cor-de-rosa e com uma faixa amarela ao meio.

A Páscoa ocorrera no fim de março, bem na época do desaparecimento da moça. Sem dúvida, a bandeira fora esquecida ali... ou talvez a família rezasse para que Cecília Barten ressuscitasse a partir daquilo. De qualquer maneira, a ruína tinha atingido aquela casa, mesmo que ainda restassem quatro paredes e um teto: a garota estava morta. Veck sentia em seus ossos, mesmo não sendo do tipo que sente coisas.

Campainha... espera... espera...

Veck olhou para Reilly. Parecia triste ao se inclinar para trás e observar as janelas do segundo andar... Será que a oficial estava tentando descobrir qual delas correspondia ao quarto da garota? Atrás dela, Heron passava uma excelente impressão de uma estátua: grande e imóvel. Seus olhos estavam focados na porta da frente, como se pudesse enxergar através das paredes.

Veck franziu a testa. Havia algo estranho no cara. Contudo, não era uma questão de competência. O agente irradiava uma precisão militar sobre tudo, desde a forma com que exibiu suas credenciais até o jeito que andava e como se mantinha imóvel. Ainda assim... o que será que...

A porta abriu com um rangido suave, e a mulher do outro lado parecia que não dormia nem comia direito há muito tempo.

– Bom dia, senhora. Sou o detetive DelVecchio. Estes são a oficial Reilly e o agente Heron.

Todos mostraram suas credenciais.

– Por favor, entrem – ela recuou e fez um gesto com o braço. – Posso servir alguma coisa?

– Não, obrigado, senhora. Agradecemos por dispor de seu tempo para conversar conosco.

A casa estava impecável, com cheirinho de desinfetante e lustra-móveis. O que sugeria que a senhora Barten limpava as coisas em momentos de tensão.

– Será que poderíamos conversar na sala de estar? – ela disse.

– Por favor.

A sala estava cheia de lembranças e bens de família, com papel de parede florido e dois sofás lisos. Quando a senhora Barten sentou-se numa poltrona e todos tomaram um lugar no sofá, Veck observou bem a mulher. Estava saindo da casa dos quarenta, com muitos cabelos loiros puxados para trás e enrolados num coque. Tinha um corpo magro e alongado... O peso que perdera recentemente realmente lhe fazia falta. Nada de maquiagem e, mesmo assim, era bonita. Porém, tinha um olhar vazio.

Droga, por onde começar?

– Senhora Barten – Reilly interrompeu –, pode nos contar sobre sua filha? Coisas que ela gostava de fazer ou nas quais era boa. Lembranças diversas.

Encarando sua nova parceira, Veck teve vontade de gesticular um “obrigado” com a boca. Especialmente quando a tensão deixou os ombros da mulher e o esboço de um sorriso surgiu.

– Sissy era... é... – ela se corrigiu. – Por favor, me desculpem. Isto é difícil.

Reilly aproximou-se da poltrona.

– Leve o tempo que precisar. Sei que pedi muito.

– Na verdade, ajuda quando falo dela. Faz com que me sinta melhor.

Numa voz hesitante, que gradualmente ganhou ímpeto, as histórias começaram a surgir, pintando o retrado de uma garota muito inteligente, boa e um pouco tímida, do tipo que nunca se envolveria em problemas se pudesse evitá-los.

Cecília Barten foi assassinada – Veck pensou. Não era um daqueles relatos de fuga motivados por drogas ou por causa do ciúmes de um namorado abusado e descontrolado. Era uma família estável. Uma jovem feliz. Futuro brilhante. Até que um carro bateu contra sua vida e levou tudo.

– Importa-se que eu olhe as fotos que estão ali? – Veck disse quando houve uma pausa na narrativa.

– Por favor.

Levantou-se e foi até uma das estantes embutidas ao lado de cada uma das janelas arqueadas que davam para a rua. Dois filhos. A outra era a irmã mais nova. Havia fotos de festas de formatura, aniversários, passeios no campo e jogos de hóquei... reuniões de família e casamentos... Natais.

Olhava com admiração tudo aquilo. Cara, aquilo era o melhor que a vida “normal” tinha para oferecer e, sem razão alguma, pensou em como, enquanto ele crescia, sua família não conseguiu ter nada daquilo... momentos felizes e fotografias para exibi-los. O tempo que passou com sua mãe não dava vontade de compartilhar com ninguém. Aliás, não era nada que quisesse lembrar.

Ele estendeu a mão e pegou uma das fotos 5×7. Cecília estava em pé ao lado de seu pai, braço estendido sobre o dele e com uma das mãos descansando sobre as dele. Era muito parecida com sua mãe, apenas um pouco com seu pai. Mas a linhagem era clara.

–... ligou para casa? – Reilly disse.

Veck voltou à conversa.

– Isso – a senhora Barten disse. – Ela saiu por volta das nove horas. Eu tinha acabado de operar meu pé... Corrigi uma deformação no dedo... – por um momento, a mulher parecia ruminar alguma coisa em pensamento, e Veck apostava que era o quanto desejava voltar no tempo, quando suas maiores preocupações eram encontrar sapatos confortáveis. Mas, talvez, também estivesse se culpando. Ela balançou a cabeça e voltou a se concentrar.

– Eu estava imobilizada. Dei a Sissy uma lista de compras e... ela me ligou do mercado. Não sabia se eu queria pimenta verde ou vermelha. Eu queria as vermelhas. Estava fazendo um... – as lágrimas vieram e ela piscou com força para afastá-las. – De qualquer maneira, essa foi a última vez que alguém teve notícias dela.

Veck voltou a colocar a fotografia na prateleira. Quando foi sentar-se ao lado de Heron outra vez, franziu a testa. O cara olhava para a mãe da vítima como se ele fosse uma filmadora, como se estivesse lendo e registrando cada contração do olho ou da boca que ela fazia enquanto falava.

Quando o radar de Veck começou a soar feito louco, não ficou claro o motivo... Seria a garota desaparecida, ou sua mãe triste e adorável, ou aquele homem imenso que parecia ter a capacidade de incendiar alguma coisa com aquele olhar?

– Posso perguntar uma coisa? – Veck disse. – Ela teve algum namorado?

Com o canto do olho, pôde ver Heron apertando as coxas com força.

– Não. Tinha alguns amigos, claro, e um encontro em bailes de formatura aqui e ali... mas nada sério. Ao menos, não que ela tenha me contado... e costumava ser sincera sobre o que se passava em sua vida.

Aquelas mãos relaxaram de repente.

– Quer perguntar alguma coisa? – Veck disse ao agente.

Houve um longo silêncio. Pouco antes de tudo ficar realmente estranho, o cara disse com uma voz baixa e profunda: – Senhora Barten, vou trazê-la de volta para casa. De uma maneira ou de outra, vou trazê-la de volta para a senhora.

Veck recuou, pensando: Droga, não faça assim, cara.

– Ah, o que ele quer dizer é...

– Está tudo bem – a senhora Barten apertou a garganta com uma das mãos. – Não estou me enganando. Sei que ela está... que não está mais entre nós. Uma mãe sente o frio no coração. Só queremos saber o que aconteceu e... providenciar um descanso adequado para ela.

– Vai tê-la de volta. Juro.

Agora, a senhora Barten soluçava... e por que não choraria? O cara parecia um guerreiro acostumado com a rotina da vingança, era mais um vingador do que um agente.

– Obrigada... Agradeço a todos vocês.

Veck olhou discretamente o relógio.

– Se me der licença, eu e minha parceira vamos nos dirigir ao supermercado. O gerente disse que sairia mais cedo hoje.

– Oh, sim, claro.

O agente Heron ajudou a senhora Barten a se levantar dando-lhe a mão.

– Seria incômodo se eu desse uma olhada no quarto dela?

– Claro que não... Vou levá-lo até lá – voltou-se para Veck e Reilly. – Se precisam ir agora, voltem sempre que precisarem.

– Obrigada – Reilly disse. – Faremos isso.

– E vamos sair logo por aquela porta – Veck murmurou.

Quando o agente Heron e a mãe da vítima chegaram às escadas, Veck parou no hall e observou os dois subirem juntos. Uma janela no andar de cima iluminava-os, o raio de luz solar atingia os dois rostos e agia como um farol para...

Espere um minuto.

Veck olhou para a sala de estar... de onde os raios dourados vinham do lado oeste. Impossível. Não poderia estar vendo aquele efeito de luzes em direções opostas: vinha da frente e dos fundos da casa.

– O que é isto? – Reilly disse suavemente.

Veck voltou a olhar para a escada. Heron e a senhora Barten não podiam mais ser vistos, e a luz tinha ido embora também, a janela não mostrava nada além de galhos de árvores atrás da casa e o claro céu azul sobre ela.

– Vou subir – disse à sua nova parceira. – Só por um minuto.


CAPÍTULO 8

 

Quando Jim seguiu a mãe de Sissy, sentiu-se muito oprimido. Num canto escuro de sua mente, sabia que precisava manter o controle diante de Veck, mas isso não aconteceria por muito tempo.

Virando-se no alto da escada, os sons da casa subiram a níveis de um heavy metal estridente. Tudo, desde o rangido sutil do chão acarpetado sob suas botas até a conversa suave que acontecia no saguão lá embaixo ou sua própria respiração soando forte atrás da garganta, tudo parecia gritar em seus ouvidos.

De repente, Veck apareceu atrás deles e fez um comentário rápido. Jim assentiu para o cara... e, imediatamente, esqueceu até mesmo que estava ali.

– O quarto de Sissy é por aqui.

Os três seguiram à direita e, quando a senhora Barten hesitou diante da porta fechada, Jim ergueu a mão para colocá-la em seu ombro... mas não conseguiu fazer contato.

– Prefere que entremos sozinhos? – ele perguntou.

A senhora Barten abriu a boca. Mas apenas assentiu com a cabeça.

– Não entro aqui desde... aquela noite. Está do jeito que ela deixou.

Naquele momento, o telefone tocou, e ficou evidente o alívio no rosto da mãe de Sissy.

– Vou atender. Fiquem à vontade para abrir as gavetas e o armário, mas se precisarem levar alguma coisa, poderiam me dizer o que é?

– Com certeza – Veck respondeu.

Assim que a mãe de Cecília apressou-se em descer as escadas e desapareceu no que Jim concluiu ser a suíte principal, ele abriu a porta... um cheiro maravilhoso. Entrando, fechou os olhos e tentou não se sentir um pervertido ao respirar fundo. Perfume. Loção corporal. Lençóis secos. Era... extraordinário. Mas ele não pertencia àquele quarto. Já tinha feito coisas que não deveriam sequer passar pela cabeça de alguém que entrasse num quarto como aquele... e a representação daquelas maldades estavam na tinta que cobria suas costas. Além disso, estava armado. E ainda havia aquela porcaria que fez com o demônio na noite anterior. Sentia-se sujo.


Enquanto Veck fazia o reconhecimento do quarto sozinho, Jim abriu os olhos e foi até uma estante modulada com escrivaninha embutida em frente à janela. A superfície plana e as prateleiras eram pintadas de branco, mas a cadeira era azul, combinando com as cortinas e o papel de parede listrado. Havia um tapete com franjas trançadas sobre a área acarpetada. Feito a mão. Tinha de ser.

Os livros enfileirados estavam em ordem e tinham uma temática bastante feminina. Gostava de Jane Austen, mas também havia uma prateleira inteira de Gossip Girls... provavelmente deixada ali desde que Sissy tinha treze anos. Algumas medalhas, vermelhas e azuis. Troféus. Sobre a mesa havia um notebook junto com dois livros, um sobre cálculo e outro sobre... trigonometria avançada? Hum. Sua garota era mais esperta que ele.

Havia também uma revista, Cosmopolitan, daquele mês. Tudo bem, a capa com título “orgasmo” em fonte gigantesca e cor rosa-choque não combinava exatamente com o resto daquele ambiente inocente de trabalhos escolares... mas ela estava crescendo, não estava?

Virando-se, foi até o pé da cama de solteiro. Agora sabia por que a mãe da garota não entrava ali. A colcha azul estava puxada para trás e os travesseiros ainda amassados, como se Sissy tivesse acabado de tirar uma soneca.

– Estou indo – Veck disse. O que fez Jim se perguntar há quanto tempo estariam naquele quarto.

– Vejo você em breve – disse Jim distraído.

– Entendido.

Quando ficou sozinho, a mão de Jim estremeceu ao estender-se para tocar os lençóis. Ao acariciar os objetos que sua pele tinha tocado, pensou em Devina e no que aquele demônio tinha feito com a garota... e com a família dela.


Adrian e Eddie estavam errados. Se queriam Jim concentrado na guerra, ali era exatamente o lugar onde precisava estar. Aquilo era motivação para vencer: Sissy nunca mais deitaria em sua cama. Não terminaria o artigo que estava lendo. E não mais lidaria com números. Nunca mais. Mas, ao menos, Jim poderia providenciar um lugar melhor para Sissy ficar enquanto não pudesse se juntar a seus pais e sua irmã por toda eternidade. E, então, faria Devina pagar mil vezes por tudo o que fez.

Na mesa de cabeceira havia um despertador branco, outra revista – desta vez era a In Touch – e o controle remoto de sua pequena televisão branca. Teve a impressão de que, mesmo fazendo faculdade, Sissy voltava aos fins de semana, e uma espiada em seu armário confirmou isso. Considerando o número de blusas, calças, saias e vestidos, não parecia que tudo aquilo tinha sido excluído da lista dos favoritos, mas que estava pronto para usar. Havia também vários sapatos no chão.

Deixou as gavetas da cômoda de lado, pois não sabia em qual delas guardava as... roupas íntimas. Provavelmente, nas duas primeiras, mas não correria o risco de confiar no chute. Já tinha assumido o papel de um mero observador ali, pois não tinha mais esperança em encontrar alguma coisa que o ajudasse a salvá-la. Deus era testemunha de que não havia nada na Terra capaz disso. Já ele queria apenas... estar perto dela.

Certo. Muito bem. Isto era o tipo de coisa com a qual Ad e Eddie preocupavam-se. Assim, percebeu que era hora de ir. Mais uma vez, não tinha noção de quanto tempo estava ali. Seria dois minutos ou duas horas, mas a última coisa que desejava era a mãe de Sissy batendo na porta para saber se ele estava bem ou se já tinha ido embora.

Não pegaria nada, mesmo sentindo a tentação de ficar com algum objeto, algo para se fiar em momentos difíceis... alguma coisa de Sissy. Contudo, a família já havia perdido demais e não tiraria mais nada deles.

Jim passou um último momento olhando ao redor e, então, obrigou-se a sair. No corredor, fechou a porta e ouviu. A mãe de Sissy estava no quarto ao lado, falando em voz baixa e embargada.

Desceu as escadas e esperou discretamente no hall onde ficava a porta da frente. Inclinando-se para o lado, olhou a sala de estar em direção às fotos ao longo das grandes janelas. A que mais lhe chamou a atenção – tanto que se aproximou dela – foi uma foto de rosto de Sissy. Ela não olhava para a câmera, mas para o lado, e não sorria. Parecia mergulhada em seus pensamentos, e a expressão em seu rosto não era a de uma menina, mas de uma... sobrevivente. Parecia ter uma vontade de ferro.

– Ela não fazia ideia de que a câmera a focava.

Jim endireitou-se e olhou para a mãe dela.

– Não?

A senhora Barten aproximou-se e pegou o retrato.

– Sempre sorria quando havia uma câmera por perto. Quando seu pai tirou esta, estava assistindo suas colegas de time jogarem... Praticava hóquei de campo. Tinha torcido o tornozelo e estava no banco... mas queria estar com elas – a mulher ergueu o olhar. – Era mais forte do que aparentava ser.

Quando seus olhos encontraram os de Jim, ele respirou fundo e pensou: Graças a Deus... isto a manterá sã até o momento em que eu conseguir salvá-la.

A senhora Barten inclinou a cabeça para o lado.

– Você é diferente dos outros.

Hora de ir.

– Sou como todos os outros.

– Não, não é. Nas últimas três semanas, vi mais oficiais, detetives e agentes do que em qualquer programa policial na TV que tenha assistido ao longo de toda minha vida – estreitou o olhar – Seus olhos...

Jim virou-se para a porta.

– O detetive DelVecchio entrará em contato...

– Quero te dar uma coisa.

Jim congelou com a mão na maçaneta e pensou – Má ideia – estava louco para aceitar qualquer coisa que ela oferecesse.

– Não precisa.

– Aqui.

Quando ele virou-se para dizer um “não, obrigado”, percebeu o toque daquelas mãos em sua nuca. Havia colocado em seu pescoço uma delicada corrente de ouro.

– Ela usava todos os dias. Encontrei em cima da pia do banheiro dela... Tinha tomado banho e esqueceu de colocar de volta... De qualquer maneira, fique com isto.

Pendendo na corrente havia um delicado pássaro feito de ouro. Uma pomba.

– Foi presente do pai no aniversário de dezoito anos. Fazia parte de um conjunto.

Jim balançou a cabeça.

– Não posso. Eu...

– Fique. Fará com que seus olhos continuem assim, nossa família precisa disso.

Depois de um momento, ergueu as mãos e substituiu os dedos da senhora Barten pelos seus. O colar e o pingente não pesavam nada. E mal cabiam em volta de seu pescoço. Mas seu dedo passava por ele como um sonho, mesmo o fecho sendo pequeno e suas mãos, enormes.

Quando baixou os braços, olhou para ela.

– Como estão os meus olhos? – disse ele com voz rouca.

– Desolados.


CAPÍTULO 9

 

O supermercado ficava a pouco mais de oito quilômetros de distância da casa, mas Reilly levou um bom tempo para chegar lá. Entre o trânsito e os faróis vermelhos, estava começando a achar que os dois passariam uma eternidade naquele carro.

Ou talvez o zumbido em sua cabeça fizesse parecer assim.

– No que está pensando? – Veck disse.

Apertou as mãos no volante e endireitou-se no banco do motorista.

– Se o caso de Cecília Barten estiver relacionado às vítimas de Kroner, teremos que deixá-lo. Está preparado para isto?

– Sim, estou.

Ao olhar para ele, percebeu que o maxilar de seu novo parceiro estava rígido e o corpo, todo tenso.

– Tem certeza? – porque ela não tinha.

– Sim, tenho.

Você é um filho da mãe teimoso que faz o que quer mesmo que isso contrarie uma ordem direta? Sim. Sou.

Assim que entrou no estacionamento e começou a caça por uma vaga, seu telefone tocou.

– Oficial Reilly. Uh-hum, sim... não é surpresa. Mesmo? Certo, e obrigada por me contar. Sim, mantenha-me informada.

Desligou e estacionou entre um carro prata antigo e uma caminhonete azul. Virando-se para Veck, disse: – Kroner está muito mal. Não há esperanças de que ele sobreviva.

O rosto rígido de Veck não expressou nada.

– Que pena. Talvez ele soubesse o que aconteceu.

– E saiu o resultado das análises feitas nas amostras que coletaram dele... Havia resíduos de saliva, mas as leituras não dão plena certeza quanto à fonte. Há semelhanças com pumas e lobos. Difícil dizer com certeza, mas a hipótese de ter sido um animal parece continuar ser a mais correta.

Ele assentiu e abriu a porta.

– Se importa se eu fumar antes de entrar?

Parece que estava tendo uma reação, afinal.

– Sem problema.

Saíram, e Veck foi até a parte traseira do carro, inclinando-se contra o porta-malas e tirando um Marlboro do maço... Um homem como ele poderia fumar outra marca? Quando ele acendeu o cigarro, Reilly esforçou-se para não pensar que suas calcinhas e seus sutiãs estavam separados de Veck apenas pela tampa do porta-malas.

Veck teve o cuidado de não exalar perto dela ou na direção em que o vento levasse a fumaça até a colega.

– Mau hábito – ele murmurou. – Mas ninguém vive para sempre.

– Verdade.

Encostando-se sobre o carro, ela cruzou os braços sobre o peito e olhou para o sol. O calor em seu rosto era uma bênção e fechou os olhos para apreciá-lo um pouco mais. Quando finalmente abriu os olhos outra vez, ficou chocada. Veck encarava-a e havia uma expressão em seu rosto... uma sugestão sexual. Ela tinha quase certeza de que estava deduzindo errado. Mas, em seguida, ele desviou rápido o olhar. Não era uma atitude comum quando se estava pensando em trabalho.

De repente, a temperatura primaveril aumentou e, agora, era ela quem o encarava. Bem, “flerte” parecia uma boa palavra para o que estava acontecendo.

Quando ele levou o cigarro aos lábios, sua boca se abriu e houve uma leve sucção, a ponta do objeto ficou alaranjada e os dedos indicador e médio aliviaram brevemente a pressão que faziam sobre o cigarro.

Oh, malditos sinos – ela pensou. Fumar era um hábito mortal e nojento, o qual ela não aprovava... Por isso, era perturbador perceber que todos os filmes ao estilo Casablanca faziam bem ao aproximar a câmera em longos closes em cenas como esta. Havia um toque erótico inegável em tudo aquilo. Especialmente quando a fumaça saía devagar de sua boca e projetava uma breve sombra em seus olhos azuis-marinhos e em seus cabelos escuros bem cortados.


Desviou o olhar rapidamente antes que ficasse presa ao...

– Então? – ele perguntou.

– Desculpe, então o quê?

– Perguntei o que achava.

Certo. Que tal responder assim: acho que todo o vermelho cereja que estou usando embaixo das roupas deformou o meu cérebro. Porque estou achando a ideia de subir em cima de você e montar feito uma vaqueira de chapéu na cabeça muito interessante.

– Preciso de mais informação antes de formar uma opinião – Então, que tal acender outro cigarro desses, garoto malvado, e arrancar as calças depois? – Oh, Deus.

– Você está bem? – ele disse, inclinando-se e colocando a mão livre sobre o braço dela. – Não comeu muito no café da manhã... Comeu alguma coisa no almoço?

Você está apoiado sobre as três sacolas do que fiz na hora do almoço, garotão.

– Sabe? – ela limpou a garganta. – Acho que devo comer alguma coisa.

E que Deus a ajudasse se seu cérebro cuspisse alguma coisa parecida com chantili sobre o corpo dele. Se isso acontecesse, pediria para ser transferida.

– Vamos entrar – ele disse, apagando o cigarro na sola do sapato.

Boa ideia. E já deixaria anotado: nada de tempo livre com seu parceiro. Nunca.

Aproximaram-se e passaram pelas portas automáticas, pela fila de carrinhos na recepção e entraram no supermercado propriamente dito.

Quando Veck parou e olhou ao redor, ela fez um gesto com a cabeça para a direita.

– O escritório do gerente é por aqui.

– Faz compras aqui?

– Esses estabelecimentos são praticamente todos iguais.

Enquanto caminhavam juntos, ele disse: – Devia conhecer este aqui de cor. Minha casa não fica longe.

– Então, faz suas compras aqui?

– Café e cigarros... bem saudável, não?

Ele parecia estar em ótima forma.

– Sempre se pode mudar de hábitos.

– Sabe? Eu parei por um tempo. Cigarros e cafeína.

– O que o fez voltar a consumi-los?

– Acertar aquele fotógrafo.

Aaah, então ele tinha emoções.

– Tem muito estresse em seu trabalho.

– Já foi fumante?

– Não, nunca bebi muito também. Não tenho muita inclinação para esses vícios.

Por outro lado, fazer compras poderia acabar se tornando um.

E este foi o último pensamento que teve sobre questões que não diziam respeito ao trabalho. Quando entraram no setor de atendimento ao cliente, colocou todas as distrações de lado, sua cabeça voltou a funcionar ao imaginar a filha da senhora Barten indo até a loja para ajudar sua mãe... O que deveria ser uma simples comprinha para abastecer a dispensa acabou tornando-se um pesadelo. Talvez por causa de Kroner.

Enquanto ela preparava-se para mostrar o distintivo ao gerente, pensou ser muito perigoso imaginar Veck ou mesmo aquele agente durão, Heron, arrancando a cabeça do cara. Mas nem um serial killer merecia esse tipo de justiça. E não ia se iludir: não seria uma surpresa descobrir Sissy na lista de vítimas de Kroner, e essa era a razão exata pela qual Veck estava interessado no caso. Mas Reilly jogava de acordo com as regras. Sempre tinha jogado, sempre jogaria. Entregaria o caso a De la Cruz assim que percebesse alguma relação com Kroner e daria um jeito de direcionar a atenção de Veck para outra coisa. Nem que isso matasse-o.

Quando Veck checou seu relógio outra vez, eram 16h30. O gerente falava devagar, e a gravação digital das câmeras de segurança levou um tempo para ser revista. Ainda havia uma empacotadora e dois funcionários que organizavam os carrinhos para entrevistar. Nenhuma informação nova, mas, caramba, ele e Reilly trabalhavam muito bem juntos.


Ela sabia exatamente quando tomar a frente e, assim como com a senhora Barten, tinha jeito para deixar as pessoas à vontade... O que significava que acabavam falando mais. Enquanto isso, ele observava o ambiente e avaliava todas as coisas que as pessoas não diziam, mas que demonstravam no semblante.

Do lado de fora do balcão de atendimento ao cliente, apertou a mão do gerente e, em seguida, Reilly fez o mesmo.

– Obrigada por seu tempo – ela disse ao cara. – Agradecemos muito.

– Não acho que foi possível ajudá-los de verdade – o homem empurrou os óculos quadrados sobre o nariz. – Agora ou antes. Sinto-me horrível por toda a situação.

– Aqui está o meu cartão – ela entregou-o. – Pode me ligar a qualquer hora... Estou disponível 24 horas, 7 dias por semana. E, pode acreditar, você se abriu e foi honesto... Era tudo que podia fazer.

Veck entregou seu cartão também e, então, estavam indo para a saída.

– Jante comigo – Veck disse de repente. Afinal, uma segunda oportunidade de compartilharem uma refeição tinha que ser melhor do que a primeira. Desde que ele não se comportasse como um idiota, todo na defensiva, outra vez...

Tudo o que obteve como resposta foi uma desaceleração no andar e uma longa hesitação. E, em seguida, um “Ah...”

Não era um bom sinal, então, reforçou o convite com uma justificativa lógica: – Temos que organizar as anotações das entrevistas que fizemos nas últimas quatro horas. Podemos muito bem comer ao mesmo tempo... E sei que deve estar faminta.

Cara, olha só isso. Tranquilo, casual. Perfeito.

Parou em frente a uma grande vitrine com prateleiras cheias de nachos, potes de salsa e um refrigerador cheio de queijos.

– Vou cozinhar para você. Comida mexicana... é minha especialidade.

Na verdade, aquilo poderia ser real se comparasse a outras coisas: não sabia nada sobre cozinha, mas, considerando o que pretendia fazer, tinha mais chances de acertar que com qualquer outro estilo culinário. Afinal, pedir coisas pelo telefone era sua única especialidade. Mas, vamos lá... não era tão difícil. Pegar uma caixa de tacos no corredor de salgadinhos? Como poderia errar?

– Deveríamos manter as coisas no âmbito profissional – ela argumentou.

– Não é um encontro, prometo. Você é boa demais para isso, e eu não sou tão sortudo.

Quando as sobrancelhas ergueram-se, deixou no ar o comentário que havia feito, pois era verdade e os dois sabiam disso.

– Então, o que me diz, oficial? O único tempero estará no molho.

Isso produziu nela um verdadeiro sorriso, seus lábios até curvaram-se para cima.

– Eu gosto de comida mexicana.

– Então, sou o cara certo.

Por um momento, apenas olharam um para o outro. Então, ela falou lenta e cuidadosamente: – Tudo bem, mas onde?

– Na minha casa.

Passando à frente dela, Veck pegou um carrinho e encheu-o com itens da vitrine de nachos. Parecia uma dádiva vinda dos céus: todos os ingredientes estavam enfileirados, então, não tinha muito que escolher. Porém, era apenas o começo, e ele dirigiu-se ao local onde um cartaz indicava “COMIDA MEXICANA”.

– Está olhando para mim, oficial? – disse ao perceber os olhos dela sobre ele.

– Só estou... surpresa. É isso.

– Com o quê?

Colocando o carrinho em frente a uma prateleira cheia de caixas de um amarelo brilhante, esperou uma resposta de Reilly.

– Tacos ou enchiladas? – quando não houve resposta a essa pergunta também, ele pegou uma caixa. – Tacos.

Pensou no que ainda faltava. Alface. Queijo... Observou o carrinho e decidiu que precisavam de mais. Tomates. Entendido.

– Onde é a parte de hortifrúti?

– Seguindo por ali, à esquerda. Mas precisamos de hambúrgueres.

– Sim, bem lembrado.

O balcão de carnes e congelados ficava mais ao fundo da loja e, ao passarem pelas bandejas de carne moída, pegou um pedaço magro com quarenta por cento orgânico... pois, provavelmente, ela seguia uma dieta mais natural. Quando chegaram à parte das frutas e verduras, precisavam pegar tomates e alface americana.

– Converse comigo, Reilly – disse em voz baixa.

– É que... você não me parece um homem que precise de sorte com as mulheres.

– Ficaria surpresa – ao continuarem em direção ao caixa, passaram pela parte de alimentos importados e por um self-service de saladas, e, por alguma razão, Veck sentiu que devia se explicar. – Veja bem, meu pai é muito conhecido por um motivo horrível e algumas pessoas se sentem atraídas por isso. As mulheres que me procuram não são como você. Ou têm tatuagens nos lugares mais ridículos do corpo e cabelos pintados, ou são Barbies que querem “salvar” alguém, ou desejam fazer loucuras sem correr muitos riscos. Depois, há as que parecem normais, mas costumam ter fotos do meu pai na bolsa ou cartas que pedem que eu entregue para ele... Para ser sincero, é uma confusão total. Aprendi que não posso confiar em ninguém, mas também nunca mais fui surpreendido.

Puxou o carrinho num dos caixas e começou a passar as coisas enquanto Reilly entregava-as.

– Mas, como disse, você não está em nenhuma dessas categorias – terminou.

– Com certeza, não – ela passou o saco de tomates. – Desculpe, não fazia ideia.

– Há coisas piores para se preocupar – como o laço sanguíneo que tinha com o pai maníaco, por exemplo. Droga, as tietes idiotas que queriam ficar com ele só por causa do sobrenome DelVecchio eram terríveis, mas o fato de ter o assassino ligado à sua medula era um pesadelo.

– Você vai... no meio da semana que vem? – ela perguntou.

– Como?

– À execução? – ela disse em tom gentil.

Veck congelou com a caixa amarela de tacos nas mãos.

– Vai mesmo acontecer?

– Se a Suprema Corte não emitir algum documento para adiá-la... Saiu um artigo no jornal de hoje.

Ah sim, as três colunas que ele tinha pulado no restaurante.

– Bem, espero que fritem o bastardo. E não, eu não vou. Tenho que ver aquele filho da mãe toda vez que me olho no espelho. Já é suficiente.

Pegou a carteira e tirou o cartão de crédito.

– Aqui, deixe-me ajudá-lo com a...

Veck lançou um olhar por cima do ombro.

– O homem deve pagar. Sou tradicional nesse ponto.

– E a mulher pode muito bem fazer uma contribuição. Sou realista assim.

Quando ela empurrou uma nota de vinte dólares na palma da mão dele e ergueu o olhar para encontrar o dele, soube que Veck queria beijá-la... E não apenas em suas fantasias: queria saber como era apertá-la em seus braços e sentir o sabor daquela boca da qual não saía besteira nenhuma.

Não iria acontecer.

Voltando a se concentrar nas coisas que não iriam comprometê-lo ou que evitariam um tapa, passou o cartão, digitou a senha e esperou a transação completar-se. Depois de jogar o cupom fiscal fora, dirigiu-se à saída, onde deixou o carrinho com os outros e recolheu as sacolas com as compras.

Enquanto caminhavam de volta para o carro, ele murmurou: – Você está quieta. Falei demais?

Olhou para ele ao desativar o alarme do carro e destrancar todas as portas.

– Sobre seu pai? Deus, não... A hora que quiser falar sobre ele, ou sobre qualquer outra coisa, ficarei feliz em ouvir.

Veck acreditava nela. O que era um milagre em si.

– Obrigado, mas você acabou de ouvir tudo o que tenho a dizer sobre o assunto.

Assim que se aproximaram do porta-malas destravado, ela foi até a porta do passageiro de trás e disse: – Espere, aqui, coloque as compras...

– Só vou jogá-las por aqui mesmo e...

Quando a porta ergueu-se sozinha, ele viu as três grandes sacolas da Victoria’s Secret e não pôde evitar: seus olhos fixaram-se em Reilly e observaram seu corpo... De baixo para cima, até as bochechas avermelhadas. O que significava que não havia um monte de pijamas e roupões de banho macios naquelas malditas sacolas.

– Hum... banco de trás – ele murmurou. – Está certo...

– Estavam em liquidação – ela disse enquanto ele fechava o porta-malas.

Ele estava ficando excitado outra vez. Agora mesmo. Droga.

Depois que as compras foram acomodadas no carro, os dois sentaram-se em seus respectivos bancos e ela ligou o motor. O cinto de segurança pressionou sua ereção, mas achou que o aperto foi bem-vindo. Não precisava ficar fantasiando um desfile de moda. A bela oficial Reilly vestindo aquelas coisas? Cara, precisava de um cigarro.

– Merda – ele disse.

– O que foi?

– Temos que ir à sua casa para fazer isso – com um palavrão, emendou. – Quero dizer, o jantar. Fazer o jantar na sua casa... Não tenho panela nenhuma.

Quando pararam no sinal da saída do estacionamento, Reilly olhou para ele... e começou a rir. Antes que percebesse, ele estava sorrindo também.

– Você não sabe cozinhar coisa alguma, não é? – ela disse.

– Terei sorte se conseguir abrir a caixa de tacos – ergueu o dedo indicador. – Mas ainda gostaria de fazer o jantar, se não se importa.

Negando com a cabeça, ela sorriu.

– Certo, mas pode me fazer um favor?

– Pode dizer.

– Pode esquecer o que viu no meu porta-malas?

Seus olhos perderam-se na boca de Reilly e, em seguida, desceram para o pescoço pálido e...

– Sinto muito – disse em tom sombrio. – Isso eu não posso fazer.

Ela respirou fundo, como se todos os pensamentos dele estivessem expostos em seu rosto.

– Droga – disse, soltando o ar. – Quero dizer, sim, é claro. Considere feito. Totalmente esquecido.

Uma buzina soou alto atrás deles e ela teve um sobressalto antes de acelerar.

Que bela noite. Só faltava ele botar fogo na casa dela..


CAPÍTULO 10

 

Durante os anos em que atuou como soldado de Operações Extraoficiais, Jim aprendeu que uma boa informação é fundamental para a missão em qualquer tarefa. Claro, quando trabalhava para o maldito Matthias seu trabalho era matar pessoas e, agora, não era bem essa a situação com seu novo chefe ou com seus alvos atuais. Porém, muitos princípios eram os mesmos. E os riscos eram ainda maiores.

Sentado na cama de hotel, com o computador apoiado nas coxas, o site do Correio de Caldwell estava no centro da tela e a dor de cabeça que sentia não era pelo brilho da máquina. Seu trabalho já tinha sido iniciado. Considerando que Devina não havia mentido sobre a alma.

Na noite passada, Thomas DelVecchio Jr. adentrou na floresta com um cara a quem investigava... O que é normal para um detetive de homicídios, certo? Errado. O que deteve a ordem normal dos fatos foi que David Kroner, considerado um serial killer, fora levado numa ambulância até a cidade à beira da morte. Encharcado de molho de tomate. E isso era apenas o começo do jogo. Após passar quase duas horas vasculhando a internet, Jim teve acesso a informação suficiente para escrever um livro sobre DelVecchio... e sobre o pai do cara. Não eram boas notícias.

– Droga, Cachorro – murmurou.

Cachorro bufou baixinho e colocou a pata sobre o antebraço de Jim, como se estivesse oferecendo ajuda. A questão era: onde estava a encruzilhada de DelVecchio? Estaria naqueles bosques de ontem à noite?

Não, pois Jim teria perdido antes de ter começado e imaginou que isso estaria fora das regras. Entretanto, não significava que Devina não tivesse dado tal golpe.

E assim...

– Onde você está, vadia...?

O demônio estava em algum lugar naquilo tudo, trabalhando nos bastidores, tentando mexer os pauzinhos para que o jovem DelVecchio se envolvesse profundamente com ela.

A rota poderia ser traçada através do pai. Digitando outra vez o nome do cara no Google, Jim começou outra pesquisa. Os resultados fizeram-no questionar se valia a pena salvar a humanidade. Oh, veja só, quanta coisa baseada em seus assassinatos. Pinturas. Autógrafos.

O cara tinha sua indústria... Mas parece que não duraria muito. As luzes seriam apagadas para ele em Connecticut muito em breve. Mas talvez vivesse para sempre na infâmia: havia vigílias acontecendo fora da prisão. Sem dúvida aquela procissão de manifestantes não impediria a execução, mas era uma indicação de que o bastardo poderia tornar-se uma celebridade ainda mais famosa quando estivesse totalmente acabado.

De acordo com os arquivos do jornal, DelVecchio pai tinha cometido a maioria de seus assassinatos em Nova York e Massachusetts, e a primeira denúncia datava do meio dos anos 1990, quando o primeiro corpo fora encontrado... em Caldwell, Nova York. Passaram-se três anos para que as autoridades percebessem que estavam lidando com um serial killer, e não com chacinas aleatórias. Parte do atraso ocorreu pelo assassino ter deixado os corpos em situações muito diferentes e pelas investigações realizadas com diferentes graus de competência policial. Outro fator foi, ao menos no começo, que DelVecchio escondia bem os restos e de maneira muito criativa.

Os casos, porém, começaram a ser ligados e, então, iniciou-se uma corrida para capturar seja lá quem fosse o assassino. O tapa na cara foi saber que DelVecchio estava aos olhos do público o tempo todo, um negociante de antiguidades... e não apenas bugigangas e falsificações. Estava no topo daquele mercado, importando estátuas, artefatos e mosaicos do Egito e do Oriente Médio.

Maldito filho da mãe. Existia até mesmo um artigo sobre ele na Vanity Fair, que dava informações detalhadas sobre seus negócios. Aparentemente, entre as viagens ao exterior e as grandes festas que frequentava, DelVecchio pai conseguiu engravidar uma mulher. O filho tinha nascido no mesmo dia que o pai nascera há 29 anos, mas não havia vida familiar. Nem outras crianças.

Contudo, houve uma espécie de contato: o assassinato daquela mulher acabou sendo a chave para finalmente capturarem DelVecchio, a primeira ligação que trouxe à tona a cadeia de crimes que havia formado. O resto era história, por assim dizer.

– Entrandooo...

Jim olhou por cima do notebook. Parado na porta do conjugado, Adrian tinha uma caixa de pizza entre as mãos e um pacote com seis cervejas pendurado nos dentes.

– Aí sim! Obrigado, cara.

Eddie entrou atrás com uma segunda caixa.

– Ele providenciou tudo... até a isca.

Ad sentou-se sobre a cama e apoiou as cervejas.

– Se chamam anchovas, idiota.

O “que seja!” ficou subentendido entre os dois. Jim alimentou Cachorro primeiro, dando ao cão o item que Adrian não apreciava muito. Considerando o movimento do rabo curto e grosso, a gororoba estava mais que boa.

– Então, como podemos saber que Devina não mentiu para você? – Adrian disse, antes de se inclinar e colocar a ponta de uma fatia de pizza na boca.

– Essa confusão toda é bem a nossa cara – clicou no artigo sobre a execução e girou o computador. – Este é o pai do cara. E espere, tem mais.

Enquanto comiam, Jim mostrou-lhes alguns sites e finalizou com um artigo sobre a pequena viagem do Júnior à floresta com outro serial killer. Enquanto seus parceiros liam, houve uma quantidade razoável de “mas que inferno”, o que era bom.

Terminou de comer a terceira fatia.

– Precisamos descobrir o que aconteceu naquela floresta ontem à noite.

– Os artigos dizem que DelVecchio não se lembra de nada.

Jim olhou para Eddie, mais conhecido como “o mestre dos truques”.

– É aí que você entra. Quero entrar na mente do cara e você precisa me dizer como fazer isso.

Ad deu de ombros.

– Pessoalmente, eu costumo usar um serrote, mas...

– Pode haver várias consequências e efeitos colaterais – disse Eddie com cuidado.

– Por exemplo?

– Bem, na pior das hipóteses... ele pode acabar como Adrian.

– Ei...

Jim interrompeu o anjo em questão.

– Meio surdo. Com medo de agulhas.

– Viciado em sexo – Eddie acrescentou.

– Ou seja, um deus – Ad exclamou, abrindo uma cerveja. – E continuo dizendo, pessoal, não sou surdo.

– Já passamos por isso antes – Eddie enxugou a boca. – Se não consegue ouvir o quanto é desafinado, então, como pode saber?

– Não sou desafinado.

– É sim – Jim e Eddie disseram juntos.

Antes que a discussão saísse do controle, Jim ficou sério e dirigiu-se a Eddie.

– Então, me diga o que eu preciso saber.

– Precisa me explicar primeiro o que está procurando.

Jim tomou um longo gole de cerveja.

– Quero saber onde Devina está em tudo isso. Qual é o ângulo de ação dela e de que maneira está suscetível a falhar nessa porcaria toda. É isso que estou procurando.

E, considerando a situação do pai, já tinha suas suspeitas.

É claro que Veck precisava ter visto o que havia no porta-malas – Reilly pensou enquanto entrava na garagem. – O universo não desperdiçaria uma oportunidade como essa para aprontar comigo. Enquanto a porta da garagem subia, olhou para seu parceiro.

– Deixe-me adivinhar: gostaria de carregar as compras, da mesma maneira como pagou por elas.

– Sim, gostaria – olhou para os bancos de trás. – Como disse, sou antiquado. Mas se quiser assumir a tarefa, posso voltar atrás.

E era por isso que não tinha qualquer problema com ele. Além disso, ele poderia cuidar da comida enquanto ela tirava suas roupas do porta-malas: apesar de constrangida, não deixaria as sacolas para trás. Não havia como fingir que nada acontecera, mas, mais importante que isso, não havia motivo algum para esconder. Era uma mulher adulta que poderia comprar calcinhas e sutiãs para si.

Quando a voz na cabeça dela ficou ainda mais estridente e na defensiva, perguntou-se quem exatamente estava falando. Provavelmente seu pai. Interrompendo o discurso ridículo, terminou de estacionar o carro. Enquanto Veck saía e pegava as sacolas do supermercado, deu a volta no carro, abriu o porta-malas e manteve a cabeça erguida ao pegar todos os seus artigos cheios de lacinhos e renda e seguir para a cozinha.

– Nossa! – ele disse ao olhar para as paredes, cortinas e balcões.

– Eu deveria ter avisado.

Ter uma decoração cheia de galos na cozinha é um pesadelo, mas a boa notícia é que, geralmente, as pessoas param e olham ao redor, e, por isso, ela conseguiu enfiar as sacolas num canto qualquer, longe de olhares curiosos.

– Acho que nunca vi...

Quando Veck apenas assentiu com a cabeça, Reilly ficou feliz por ele não ter terminado a frase. Claro que nem precisaria: a parte do “... tantos galos num lugar só” costumava ficar no ar com certa frequência.

Oh, Deus, aquilo era horrível.

– Desde que me mudei há dois anos, tenho vontade de pegar um estilete e arrancar tudo a partir dos cantos. Mas sempre tem algum trabalho mais urgente que me mantém ocupada.

Porém, ao observar como Veck olhava tudo aquilo, pensou que deveria ter um pouco mais de determinação. O papel de parede tinha três galos diferentes em várias e exageradas poses, como se fossem fisiculturistas participando de um concurso. O esquema de cores era marrom, vermelho e creme com tufos verdes de grama sob as patas tripartidas. E, de alguma forma, mesmo o material estando ali há uns bons vinte anos, mantinha uma vivacidade impressionante.


– Sou eu ou os olhos deles seguem a gente? – Veck perguntou ao colocar as sacolas sobre o balcão da pia.

– Eles estão observando você. É uma maravilha para minhas die-tas... sinto como se estivesse comendo em público e não consigo comprar frango desde maio do ano passado.

– É como estar no filme Os pássaros.

– Exceto por não ser uma fazenda. Eu sei – quando ela aproximou-se e abriu o armário sob o fogão, completou –, o fato de já estar um pouco acostumada com isso me assusta... será que me hipnotizaram? Aliás, as panelas estão aqui, as tigelas ali e as facas naquelas gavetas perto da lava-louças.

– Obrigado.

Quando ele tirou o casaco, os grandes ombros movimentaram-se naturalmente, mas, na mente dela, transformaram-se em algo nu e excitante – Hora da distração – Reilly pensou quando Veck começou a desembalar as coisas.

– Ei, acho que vou imprimir o arquivo do caso enquanto você começa a lidar com a comida.

– Ótimo.

– Pode levar um tempo. Minha impressora é antiga.

– Temos tempo.

Pela maneira como estava concentrado no pacote de salgadinhos, parecia que estava prestes a fazer uma cirurgia cerebral com o micro-ondas. E nossa... Aquele jeitão impassível, seguro e lindo era muito sexy, sem falar que aquela preocupação toda o deixava mais acessível. Isso e a maneira como se abriu a respeito das mulheres. Ela nunca pensara nas tietes... porém, mesmo pessoas de boa aparência podiam ser perseguidas pelos motivos errados, não?

No escritório que tinha no final do corredor, entrou no banco de dados da polícia de Caldwell, acessou o relatório e ficou parada ao lado da impressora, pronta para salvar a impressão quando as folhas ficassem presas... o que aconteceu. Duas vezes.


O primeiro indício de que as coisas não iam bem na cozinha foi o aroma inconfundível de carne queimada. O segundo foi uma explosão de palavrões. Que não parou até ela aparecer com as impressões.

Foram muitas bombas verbais. Em seguida, o detector de fumaça disparou. Seja lá o que estava na panela sobre o fogão – o mais provável era que fosse o hambúrguer, mas, como era Veck na cozinha, poderia até ser os nachos – precisava de uma mangueira de incêndio. Ele tentava lidar com a situação, levou a panela para a pia, colocou dentro da cuba, mas não ligou a água. Aproximou-se rapidamente do detector e começou a abaná-lo com um pano de prato sem nem sequer ficar na ponta dos pés.

– Acho que um dos galos aumentou o fogo – ele gritou.

– Isso não me surpreenderia.

Ela escondeu um sorriso quando colocou os papéis sobre a mesa e foi dar uma olhada no que ele tinha colocado no prato: os pedaços de queijo laranja tinham se unido à camada de tortilhas ao ponto de formarem uma nova composição molecular.

Só há uma coisa a fazer agora – ela pensou. Pegou o telefone e disse: – Qual sabor de pizza você gosta, oh, poderoso fazendeiro?

– Calabresa com salame.

– Boa.

Enquanto discava, olhou para cima. A parte de baixo da camisa de Veck tinha se soltado, e ela teve uma clara visão do cós preto da cueca, bem como dos pelos que desciam em linha a partir do umbigo sobre a pele firme. Imediatamente seu cérebro voltou à cena do banheiro na noite anterior. Apenas um instante e lá estava ela, observando o corpo nu...

– Oh, sim, oi – afastou-se rapidamente. – É um pedido. Sim, sou eu. Pizza grande de calabresa com salame. Sim. Não, sem bebidas... Não, não quero uma segunda pizza de graça... Não, sem acompanhamentos... Não, obrigada, não precisa... Não, também não quero sobremesa de maçã com canela – pelo amor de Deus, levavam mais tempo fechando o pedido do que fazendo, embalando e despachando a pizza para entrega! – Ótimo, obrigada.


Desligou, endireitou os ombros e virou-se em direção a Veck outra vez – estava parado bem atrás dela, olhos semicerrados, o corpo muito maior do que aparentava ser a dois metros de distância.

Ela não se moveu. Nem ele.

– Acredita que a confissão seja boa para a alma? – disse ele de maneira misteriosa.

– Sim...

– Então, preciso dizer uma coisa.

Oh, Deus, era por isso que diziam que não se deve misturar negócios com prazer: quando seus olhos se encontraram, Reilly não pensava sobre o caso em que estavam trabalhando. Pensava que deveria admitir algumas coisas a si mesma.

Vi você nu ontem à noite e te achei lindo.

– O quê? – ela disse ofegante.

Eu te desejo mesmo sabendo que não deveria.

Engolindo em seco, ela disse: – Diga...


CAPÍTULO 11

 

Veck sabia que não deveria responder à sua parceira e com certeza não deveria ter se aproximado tanto dela. A atitude correta seria começar a limpar a bagunça que tinha feito com os alimentos em vez de criar mais confusão.

Mas viu-a olhando o corpo dele e a expressão em seu rosto indicava um desejo forte e intenso. Surpreso? Sim. Satisfeito? Poderia, se ficassem juntos.

Mas não poderiam se desvencilhar das consequências daquilo com um banho de água quente, este era o problema.

– O quê? – ela sussurrou.

– Eu quero... – a palavra era tão rude que ele guardou-a para si mesmo.

– Diga.

Ele inclinou-se e colocou os lábios sobre o ouvido dela.

– Você sabe exatamente o que eu quero.

– E eu quero que você diga.

– Tem certeza? Não é nada agradável.

Antes que ele pudesse recuar, ela estendeu as mãos e colocou as dele sobre seus quadris. O toque foi leve como uma sombra caindo sobre o corpo de Veck, mas sentiu que tudo queimava por dentro. E uma coisa era certa, se ela instigou aquele contato é porque sabia exatamente o que ele tinha em mente.

O toque ficou mais intenso.

– Diga.

Sua voz era quase um rosnado.

– Quero foder você.

Reilly gemeu um pouco e ele continuou.

– Quero você nua. Embaixo de mim. E quero entrar em você – abaixou um pouco e passou a boca sobre o pescoço dela. – Mas sei que é especialista em conflito de interesses, então sabe muito bem os motivos pelos quais essa é uma má ideia.

Era a deixa para ela se afastar. Ou para ele pular fora. Nenhum deles se moveu.

Droga, o corpo dele começou a ficar fora de controle, sua ereção latejava por mais espaço para fazer o que sabia de melhor. O que significava que, se fosse para fazerem a coisa certa, a iniciativa partiria dela.

– Dê um tapa na minha cara – ele gemeu. – Me empurre... pelo amor de Deus, se tranque no banheiro ou algo assim. Pois se não fizer isso, eu vou...

– Me beije.

Deus, o tom que ela usou: aquilo era uma ordem. E quem era ele para desobedecer a uma ordem? Especialmente vinda de uma superior?

Veck estendeu a mão e passou o braço em volta da cintura de Reilly. Com um puxão forte e impaciente, aproximou-a de seu corpo. O próximo passo foi arrancar o elástico que amarrava os cabelos dela e jogá-lo no chão.

Cara, ela instigava tanto desejo com aquela coisa de não se afastar, e os cabelos vermelhos sobre os ombros diziam que estavam prontos para ter a mão de um homem sobre eles.

Quando agarrou a nuca e aproximou a cabeça ainda mais, sabia muito bem que iria dominá-la, assumiria o controle de seu corpo, iria segurá-la com força ao empurrá-la até a mesa da cozinha e ajoelharia entre suas pernas para sugar seu sexo. Era o que desejava fazer.

– Desculpe – ele disse, ciente de que não estava desculpando-se apenas pelo que estava prestes a fazer, mas por tudo que passava em sua mente, toda a vulgaridade que desejava impor aos dois.

Então, o destino foi selado quando ela deu um beijo nos lábios de Veck.

A boca dela era macia... e também seus seios contra o peitoral de Veck e seus quadris contra seu pênis... Era macia e quente, o tipo de coisa que se quer penetrar e permanecer ali por um bom tempo. Mas, mesmo com sua pélvis contorcendo-se e sua ereção pulsando, no fundo Veck sabia que o conflito de interesses não era o maior problema que tinham. Por mais que fingisse estar tudo normal com ele, estava em carne viva por dentro por causa daquela porcaria que tinha acontecido na floresta e pela novidade sobre seu pai. Tinha medo de que Reilly fosse exatamente o tipo de curativo que precisava... Esse foi o último pensamento lógico e decente que teve.


Quando penetrou a boca dela com a língua, seus braços apertaram-na e a parte inferior do corpo arqueou-se outra vez, a tensão e o movimento em seu pênis estimulou-o ainda mais. E isso foi antes de sentir o arrepio que passou pelo corpo de Reilly. Estava claro que ela acompanhava-o, especialmente quando o apertou em seus ombros com as unhas e suas pernas abriram-se o suficiente para que ele pudesse se encaixar com uma das pernas ali.

Pensando num palavrão, ele virou-a e colocou-a sobre a mesa, em cima da papelada que ela tinha acabado de imprimir. Imagens dela com as pernas sobre os ombros dele enquanto lambia seu sexo fizeram-no imaginar que deveria repensar a falsa propaganda sobre comê-la.

Bem, não era tão falsa assim. Só adicionaria uma atração turística muito importante na viagem para o grand finale. Passou a palma da mão sobre as coxas e levantou a perna dela, esfregando ainda mais o local onde ele desejava finalmente estar. Interrompendo o contato com a boca, mergulhou no pescoço de Reilly com mordidas e lambidas.

– Me deixe ver você – ele gemeu em sua garganta. – Me deixe...

– Entrar – outra voz disse.

Ele interrompeu o ritmo de repente, desvencilhando-se do abraço e olhando para cima. Agora seu coração batia por um motivo diferente.

– O que foi? – ela disse.

Seus olhos percorreram o local. Mas não havia quaisquer sombras esquivando-se em movimentos velozes pela cozinha com decoração de galos. Nenhum ruído de tábuas ou dobradiças rangendo. Ninguém observando pelas janelas.

Depois de um momento, a adrenalina diminuiu e percebeu onde estava e o que estava fazendo com ela. Talvez tivesse sido um pensamento que assumiu uma voz muito alta. E não poderia sentir-se melhor com isso se considerasse o que tinha acontecido com Kroner na noite passada.

Uma das mãos de Reilly ergueu-se e acariciou a bochecha dele.

– Você está bem?

– Não – olhou outra vez para o rosto dela. Sentiu o corpo dela sob o seu. Ouviu suas respirações profundas. – Mas não quero parar. Você é real... E preciso muito disso agora. Preciso... de você agora.

Reilly não era como as outras mulheres com quem já tinha ficado: os olhos inteligentes viam demais e sabiam coisas demais. Cara, ele ficara nu na frente dela no primeiro momento em que a conheceu – e isso deveria tê-lo guiado na direção oposta do que estava acontecendo. Em vez disso? Só desejava-a ainda mais.

– Então, me possua – disse, puxando a camisa para fora da saia.

Veck não deu um segundo sequer para ela mudar de ideia: enquanto a beijava, mergulhou uma das mãos sob a abertura que ela havia feito na camisa, tocando toda aquela pele quente. Em seguida, os botões soltaram-se como se tivessem o mesmo objetivo que ele: acesso total.

Ergueu-se quando o último se abriu... caramba. Renda vermelha. Havia uma complexa renda vermelha sobre um par de seios perfeitamente proporcionais. Ele conseguia ver os mamilos tensos e firmes através da pequena extensão do tecido.

– Gostou do que eu comprei hoje? – ela perguntou com voz rouca.

– Nada mal – limpou a garganta quando falou. – Nada mal mesmo. Mas o que está por baixo é ainda mais quente.

Com uma graça harmoniosa, as mãos dela ergueram-se e acariciaram o sutiã de alças finas e brilhantes... Em seguida, passou a mão sobre os mamilos rígidos e, com isso, Reilly arqueou o corpo, implorando por ele.

Com um rosnado, ele empurrou a saia para cima e adentrou entre as pernas dela, separando-as ainda mais com seus quadris ao se aproximar do que havia chamado sua atenção. Ao colocar a boca sobre o sutiã incrível, além de sentir a renda em sua língua, também percebeu a carne rosada e firme por baixo do tecido.

Não levou muito tempo para aquilo não ser mais suficiente. Com a mão áspera e impaciente, puxou o bojo para baixo, revelando o mamilo.

– Porra... – ele exclamou. – Você...

Ela não quis nem saber de conversa: com pressa, seus dedos agarraram a nuca dele e, com isso, aproximou a cabeça de Veck de seus seios. Enquanto ele sugava-a, ela ergueu-se sobre a mesa, e aquele movimento, aquele puxão, fez com que ele deixasse de lado qualquer constrangimento. De repente, Veck assumiu o controle, ergueu-a ao colocar um dos braços embaixo dela, a outra mão foi direto entre as coxas, em direção ao desejo que emanava daquela calcinha.

Acariciou o sexo dela, a palma da mão envolveu o local, bem onde ela desejava...

– Veck!

O som do nome dele foi um pedido de mais, mais, mais. E daria isso a ela. Trocando de lado, mordeu a outra metade do sutiã e puxou com os dentes, antes de sugar o outro mamilo. Contudo, ainda não era suficiente. Precisava de contato total com a pele nua. Aqui, agora...

O gemido que saiu dela foi exatamente o som de consentimento que precisava ouvir.

Deus, vai acontecer – pensou. – Vai acontecer.

Veck era um dominador total. Reilly não esperava menos que isso, mas a excitação foi surpreendente. Em parte por saber que, se dissesse não estar à vontade em ir tão longe, ele recuaria no mesmo segundo. Mas o resto devia-se à maneira como ele lidava com ela, a confiança, o poder, a possibilidade erótica que emanava de sua boca, de suas mãos e de seu olhar sedutor e intenso.

Sem dúvida, Veck tinha um talento natural para o sexo... E desenvolveu isso ao longo dos anos. De repente, como se tivesse lido a mente daquela mulher, seu olhar ergueu-se com um brilho e fixou-se no dela enquanto estimulava o mamilo da mulher com a língua... E, quando as pálpebras baixaram, sabia que desejava que ela o observasse.

Que visão. Ele puxou o outro lado do sutiã e acariciava-a, lambendo e chupando enquanto uma das mãos espalmadas pressionava sua pele. Deus, ele era grande – por inteiro. Seu pênis era longo e grosso e acariciava a parte interna das coxas dela, seus ombros eram tão grandes que não conseguia ver nada além deles, e a parte inferior do corpo daquele homem ocupava todo o espaço que havia entre suas pernas abertas.

Veck terminou de puxar o sutiã que pressionava os seios para cima, a camisa estava totalmente aberta, e a saia estava toda amontoada na cintura. O próximo passo era tirar o tecido de nylon que cobria as pernas de Reilly e, para isso, ela saiu um pouco de cima da mesa, sentindo aquela mão pressionar com mais força ainda em movimentos circulares. Mergulhou os polegares na cintura da meia-calça e baixou os quadris, escorregando a peça ao longo das coxas.

– Eu assumo daqui em diante – Veck recuou um pouco, os olhos em chamas observando o corpo de Reilly. – Hummm... bem onde eu queria estar.

Quando ele sorriu como um predador, ela ergueu os joelhos para ajudá-lo a tirar as meias, lentamente. E só depois que o fino tecido estava livre de seus pés, ela perguntou-se até onde aquilo tudo chegaria. Iriam terminar de fazer aquilo que não deveriam nem ter começado?

Se aquilo fosse um “sim”, teriam que lidar com alguns aspectos práticos. Mas, caramba, que coisa chata falar de camisinha – e, sim, agora entendia por que as pessoas faziam escolhas idiotas quando se tratava de sexo. Coisas realmente importantes não tinham a menor relevância ali, todo o sofrimento que poderia vir depois daqueles minutos intensos, coisas com as quais teria que conviver, talvez para sempre... Passavam a ser ecos distantes, que ela mal conseguia ouvir, pronunciados num idioma que não queria traduzir.

Cinquenta mil anos de evolução poderiam dizer o que estava acontecendo.

Com um impulso, Veck voltou à boca dela, beijando-a profundamente enquanto as mãos desciam...

A maldição que disparou da garganta dela era mais uma vibração que um sim. A mão dele estava de volta entre as pernas, acariciando suas coxas, indo em direção à peça que completava o conjunto com o sutiã que já tinha visto e dominado.

– Veck! – ela exclamou outra vez quando o toque deslizou sobre o centro da faixa de cetim.

Foi cuidadoso, colocando apenas a pressão suficiente sobre o local tão sensível, acariciando-a em movimentos circulares que fizeram seu corpo ficar ao mesmo tempo relaxado e tenso.

Dane-se a calcinha, ela não queria nada entre eles... Mesmo assim, a barreira de seda não era de todo ruim, a costura adicionava outra dimensão ao ritmo que ele tinha imposto. E não parou de beijar sua boca, de envolvê-la, de aproximá-la ainda mais, mesmo já estando bem juntos.

Com um movimento rápido, ele levantou o tronco de Reilly e empurrou seus quadris contra o sexo dela, entrelaçando os corpos. Em seguida, curvou a coluna e encaixou-se sobre ela, acariciando-a com seu pênis enquanto observava-a com atenção.

Deus, o rosto dele estava cheio de desejo, aquela frieza tinha desaparecido, aquela máscara impassível havia explodido com a intensidade que apertava o maxilar.

Eles iam mesmo fazer aquilo, Reilly concluiu.

Surpreendente. As escolhas na vida de Reilly eram baseadas em dados precisos do que deveria, teria que ou do que era melhor não fazer. Com certeza, fazer sexo daquela maneira estava na última categoria... e, mesmo assim, não pretendia deter nada.

Porém, fariam aquilo com segurança – embora não sobre uma cama. Aquela mesa estava servindo muito bem. Mas havia coisas que ela precisava fazer primeiro. Descendo o corpo, deslizou as mãos até... a cabeça de Veck caiu para trás.

– Caaara...

Perfeito: o pênis rijo era ainda maior do que imaginava e latejava contra a palma de sua mão...

O som da campainha ecoou, alto como um tiro. E, mesmo assim, por um momento, ela não conseguiu compreender o que era aquele barulho ou por que deveria importar-se com ele. Veck recuperou os sentidos primeiro.

– Pizza.

– Que p...?

Com o pensamento rápido e lógico, ele estendeu a mão e apagou as luzes para que o entregador da pizza de calabresa com salame não assistisse ao show na cozinha. Então, com mãos eficientes, colocou a camisa dela de volta, puxou a saia para baixo e começou a arrumar as próprias calças, para que não ficasse uma tenda de circo.

– Vou cuidar disso – disse ele com uma voz equilibrada. Como se nada tivesse acontecido. Nada.

Enquanto ele foi até a porta da frente, Reilly sentou-se lentamente, a cabeça não parava e o corpo tremia. Segurando a blusa, percebeu que a volta ao normal repentina fê-la sentir-se totalmente fora de controle. Em seguida, ela saiu da mesa e os papéis do caso Barten caíram no chão.

A chuva de folhas soltas formou uma espécie de tapete aos seus pés e foi o espelho exato que precisava para ver tudo com clareza: do outro lado da cidade havia uma família de luto pela filha que sabiam ter perdido, e, em vez de concentrar-se na dor deles e em seu trabalho... estava esfregando-se num homem que não tinha nada a ver com ela.

Não poderia existir um conflito de interesses maior. Serviria de exemplo num livro didático. Mexendo nos botões da camisa, fechou-os rapidamente e, então, inclinou-se para pegar as cópias do relatório. Quando o cabelo caiu sobre o rosto, perguntou-se onde estaria seu elástico.

Quem poderia saber?

Colocando os fios atrás das orelhas, juntou as impressões com cuidado, reordenou as páginas e separou tudo em duas pilhas – a dela e a de Veck. Separado era melhor.

Ela tinha enlouquecido?

Vindo da porta da frente, ouviu um burburinho de palavras de agradecimento, a porta fechou-se em seguida e passos pesados trouxeram Veck de volta à cozinha.

Levantando-se rapidamente, colocou as duas pilhas de papéis sobre a mesa e manteve os olhos sobre elas. Não conseguia olhar para Veck. Simplesmente não tinha forças para aquilo no momento.

– Acho melhor você ir – sua voz não soou bem, mas ela não se sentia bem mesmo.

– Certo. Vou chamar um táxi.

Droga. A moto dele estava na delegacia, não?

Após soltar um palavrão em voz baixa, murmurou: – Está tudo bem. Posso levá-lo...

– Não, um táxi é melhor.

Ela assentiu e acariciou a primeira página do relatório... onde indicava os principais dados de Sissy e a data de seu desaparecimento.

– Vamos verificar tudo isso amanhã no escritório.

– Sim – quando ele vestiu o casaco, o som macio do tecido foi mais alto que a campainha. – Sinto muito.

Ela cruzou os braços sobre o peito e assentiu outra vez.

– Sim, eu também. Não sei o que deu em mim.

Mas sabia muito bem o que aconteceria se o jantar não tivesse chegado bem na hora. Momentos depois, ele foi embora e fechou a porta tão silenciosamente que não se fez som algum. Quando finalmente olhou por cima do ombro, tudo o que viu foi a pizza no balcão. Certo, como se fosse comer alguma coisa. A caixa foi direto para a geladeira.

Saindo da cozinha, passou pela mesa e encontrou sua meia-calça atrás de uma cadeira. Seu elástico de cabelo estava no chão perto do arco que dividia os ambientes, já dentro da pequena sala de jantar. Ao inclinar-se para pegá-lo, ficou frente a frente com as compras da Victoria’s Secret e percebeu que seu sutiã ainda estava beeem fora do lugar. Deixou as sacolas ali e resolveu aquele pequeno problema com alguns puxões e vários palavrões. Enquanto aproximava-se das escadas, decidiu que usaria sua velha lingerie de algodão de sempre para ir trabalhar no outro dia. Era isso, muito obrigada.


CAPÍTULO 12

 

– Pergunta. Mesmo se não quebrar nada para entrar, ainda é considerado invasão de domicílio?

Adrian soltou essa pequena pérola assim que assumiram forma em frente à porta de entrada da casa de Thomas DelVecchio Jr. – e, se considerassem tudo o que ele havia dito até hoje, sabiam que o anjo poderia ter soltado um comentário muito pior.

Jim nunca passou tanto tempo em sua vida desejando protetores e fones de ouvido. Mas pelo menos o bastardo não tentou o rap.

– E aí? – Ad disse.

– Olha só, nós nem sequer existimos – Jim murmurou. – Então, você pode alegar que nem estamos aqui de verdade.

– Ótimo argumento. Acho que é legal.

– Como se o contrário o incomodasse.

A casa era decorada ao estilo de Jim: funcional, nada de especial, muito espaço vazio. O problema? Poucos itens pessoais, e precisavam de algum objeto feito com um pouco de metal. De preferência ouro, prata ou platina. Se conseguissem algum objeto com impressões suficientes de Veck, poderiam usá-lo como ponte para entrar no cérebro do cara remotamente: de acordo com Eddie, era arriscado demais fazer isso pessoalmente. Não com Devina por perto.

– Vamos nos separar – disse Jim. – Vou examinar o andar de cima.

Quando Ad e Eddie espalharam-se, Jim subiu as escadas de dois em dois degraus. O quarto principal ocupava metade do andar. Claro que essa afirmação soa mais impressionante do que a realidade, pois a metragem total não passava de setenta metros.

– Meu Deus, quanta coisa, hein amigo? – murmurou.

Não havia nada no quarto além de uma cama grande e uma porcaria de mesa de cabeceira com um abajur sobre ela. Nada de despertador – provavelmente o cara usava o celular para isso. Nada de telefone fixo, mas para que se precisava de um? Havia uma TV de tela plana fixada na parede, cujo controle remoto encontrava-se entrelaçado nos lençóis.

Havia algumas roupas sujas num cesto de plástico no canto, meias e cuecas transbordavam pelos lados como se a coisa babasse algodão preto. Abriu o armário... e havia camisas penduradas nos cabides, que era bem melhor do que a mala que Jim usava há anos para guardar suas roupas. Atrás da porta, havia alguns cintos com fechos de metal, mas tinha de haver algo melhor para que Jim pudesse usar.

Foi até o banheiro. Todas as luzes apagadas, mas o cara não usava cortinas, então havia bastante iluminação vinda da rua. Assim que entrou no cômodo pequeno e azulejado, sentiu algo forte em sua nuca, como se formigas rastejassem sobre a pele.

Devina.

– Onde você está? – disse, dando uma pequena volta ao redor de si. – Onde diabos você está?

O demônio esteve ali, podia sentir sua presença no ar, como o mau cheiro que exala de uma grande lixeira, mesmo depois de ter sido esvaziada. Aquilo dava alguma credibilidade à revelação de Devina no restaurante.

Quando se voltou para a pia, franziu a testa. O espelho estava coberto com uma toalha e o formigamento em sua nuca aumentou quando estendeu a mão e puxou o tecido felpudo.

Nada, a não ser um armário de remédios dos anos 1980 embutido na parede. Mas o vidro frontal estava totalmente contaminado. Será que ela passou pelo objeto de alguma maneira? – perguntou-se. Recuou no mesmo instante em que as pontas do dedo fizeram contato com a superfície espelhada. O armário de remédios estava gelado.

Droga, Veck sabia que alguma coisa estava atrás dele, não? Por que cobriria a coisa? A questão era: até onde o demônio havia chegado dentro dele?

– O que fez com ele, vadia?

Recolocando a toalha, Jim abriu as gavetas, verificou o desodorante, o tubo de pasta de dente extra e o cortador de unhas. Ei! Talvez aquilo funcionasse. Só que dificilmente o objeto teria uma conexão emocional com... Uma luz estendeu-se pela frente da casa, atingindo a janela onde Jim estava e lembrando-lhe que não se preocupara em ficar invisível. Fazendo o corpo desaparecer, olhou pela janela. Na calçada em frente à garagem, Veck saiu do táxi amarelo.

Jim atravessou o quarto principal e desceu as escadas, só seria percebido se alguém sentisse a brisa que seus movimentos produziam. Na cozinha, viu que Ad e Eddie também tinham ficado invisíveis, e os três esperaram juntos, formando uma pequena fonte de calor no canto do cômodo.

Ela ainda está nele – disse em pensamento aos seus amigos.

Posso senti-la daqui – Eddie respondeu.

Na entrada da casa, a porta foi aberta, fechada e trancada. Em seguida, passos pesados aproximaram-se de onde eles estavam.

– Mas que... droga...

As maldições continuaram enquanto Veck entrava na cozinha, jogava as chaves e arrancava a jaqueta. Em seguida, foi até a geladeira e pegou uma cerveja. Tirou a tampa e bebeu com vontade, era evidente que tivera uma noite difícil no trabalho.

De repente, o cara ergueu a cabeça, apoiou a cerveja e olhou diretamente para onde os três estavam. Ele não deveria ser capaz de senti-los, muito menos de vê-los. Nenhum deles moveu-se. Nem mesmo Veck. E foi nesse momento que Jim olhou para o chão de linóleo atrás do detetive... e notou que o cara projetava duas sombras.

Única fonte de luz? Duas projeções em sentidos opostos sob seus pés?

Em silêncio, Jim apontou para o chão e seus colegas assentiram.

Veck estendeu o braço e tocou um interruptor, iluminando melhor o ambiente. Em seguida, ele olhou ao redor.

– Puta... que... pariu.

Obviamente, esse era o mote da vida daquele cara e, se Ad não se encorajasse a soltar a voz, Jim consideraria cantarolar um pouco daquela música também.

Veck balançou a cabeça e voltou para sua cerveja, tomando o que restava de uma vez só. Deixou a garrafa vazia sobre o balcão, pegou mais duas na geladeira e andou até a sala. Destino: sofá.

Jim e seus amigos foram atrás dele, mas mantiveram distância. Veck era intuitivo ao extremo ou contaminado o suficiente para ter um radar que percebesse a presença dos anjos. Conhecendo a sorte que tinha, tratava-se da última opção.

O detetive retirou as armas para se sentar: removeu uma bela automática e uma faca. Em seguida, retirou o distintivo brilhante da polícia, prata e dourado. O homem segurou a coisa sobre a palma da mão em formato de concha por um tempo. Olhava como se fosse uma bola de cristal... ou talvez um espelho onde tentasse ver a si mesmo.

Deixe isso de lado, cara – Jim pensou. – Termine as cervejas, deite um pouco e tire uma soneca. Prometo que devolvo quando terminar.

Veck seguiu as instruções e colocou o distintivo com seu nome e número de registro na polícia junto às armas, bebeu as cervejas uma seguida da outra e recostou-se nas almofadas. Seus olhos fecharam-se um momento depois. Levou um tempo para que as mãos relaxassem e caíssem para os lados, mas, em seguida, a respiração lenta e profunda confirmou o descanso – e a deixa para que eles pegassem o que precisavam e saíssem.

Jim estendeu a mão à altura da cintura e deu uma de cavaleiro Jedi com o distintivo, fazendo o objeto levitar e trazendo-o até ele ao longo da escuridão. No instante em que a palma de sua mão fez contato, sentiu o mesmo frio que sentira no andar de cima, a crueldade de Devina habitava no espaço entre as moléculas do metal.

O cuidado de Eddie parecia exagerado... até agora. Considerando a forte mensagem que o distintivo transmitia, não dava para ser pego de calças curtas ao atuar naquela tarefa.

Jim indicou a janela com a cabeça e, como uma névoa, os três desapareceram.

Do outro lado da cidade, no centro urbano de Caldwell, o Hospital São Francisco era um complexo que brilhava como uma das ruas de Las Vegas. Sob seus telhados de vinte estilos diferentes, vidas começavam e terminavam aos milhares a cada ano, a luta contra o Ceifeiro da Morte era travada por todos os médicos, cirurgiões e enfermeiras que ali trabalhavam.

Devina estava bem familiarizada com o local: algumas vezes, aqueles humanos de jalecos brancos e uniformes cirúrgicos precisavam de uma pequena ajuda para garantir que o trabalho fosse feito corretamente. E, geralmente, isso significava a morte, mas nem sempre.

O demônio entrou na ala de emergência pela porta frontal automática. Vestindo sua bela pele feminina, capturou todos os tipos de olhares vindos de pais e irmãos sentados na sala de espera. Era por isso que não pegava atalhos. Passar através de vidros, metais ou tijolos era eficiente, mas chato: adorava ser admirada. Cobiçada. Desejada. E os olhares ardentes das outras mulheres, todos aqueles olhares cheios de ódio e inveja? Melhor ainda.

Encontrar Kroner no labirinto de corredores, andares e unidades foi muito fácil. Estava há anos dentro dele, ajudando-o a aprimorar suas habilidades e dando suporte à sua obsessão. Já nasceu doentio, mas lhe faltava coragem para seguir os impulsos – e a impotência agiu a favor dela. Nada instigava mais a violência contra mulheres atraentes num louco como ele do que o próprio pênis murcho e fino.

A UTI que procurava estava sete andares acima, e ela gastou um pouco de tempo nos elevadores, caminhando, observando os uniformes das enfermeiras. Nada demais. Tecidos de algodão com péssimo corte que não realçavam nada na parte de cima e evidenciavam a flacidez da parte de baixo. Que diabos achavam que estavam fazendo com aquele visual?

Quando finalmente aproximou-se das várias portas duplas de metal, pegou uma carona com uma servente e um idoso sobre uma maca. O velhote estava apagado, mas a mulher não deu apenas uma olhada, foram várias. Sem dúvida, continuaria a observar se as portas não tivessem sido abertas no andar que precisava ficar. Lançou um sorriso sobre o ombro, saiu e não conseguiu deixar de rir um pouco.

Enfim, era hora de começar a trabalhar. Tinha a opção de assumir a forma de uma névoa e serpentear sobre o chão lustrado, mas isso causaria pânico demais. Ou poderia continuar invisível, o que era considerado uma falha de originalidade em sua cartilha: tinha passado séculos desfrutando da interação com os humanos, disfarçando-se entre eles, beliscando seus calcanhares e esfregando-se contra seus corpos – ou indo até mais além. Não havia motivo para desperdiçar a oportunidade de divertir-se um pouco naquela noite, mesmo trabalhando. Afinal, sua terapeuta estimulava-a a encontrar um equilíbrio na vida.

Ao chegar à unidade, atravessou um corredor cheio de fotografias de vários diretores de departamentos. Muito útil, como perceberia logo em seguida. Ela parou diante de várias, observando as características, os acessórios, os nomes e títulos, os jalecos brancos e as gravatas listradas ou roupas mais formais. Era como comprar uma roupa nova. E tinha seu serviço próprio de alfaiataria.

Virando numa esquina do corredor, olhou para os dois lados para certificar-se de que estava sozinha e, então, cuidou da câmera de segurança acima dela, enviando uma carga elétrica suficiente para desativá-la sem explodir.

Em seguida, assumiu a aparência e o jaleco branco do chefe da neurologia, um tal de dr. Denton Phillips. O disfarce foi um pouco decepcionante e flácido se comparado ao traje exuberante da bela morena. O homem tinha mais ou menos sessenta anos e, embora fosse um homem branco, arrogante, bem conservado, sentiu-se mal e feia. Ao menos era melhor do que realmente parecia, e era temporário.

Quando voltou ao corredor principal, caminhou como um homem e era ótimo ver o respeito e o medo nos olhos dos funcionários pelos quais ela passava. Não tão divertido quanto a luxúria e a inveja, mas agradável mesmo assim.

Não precisava perguntar onde Kroner estava. Era muito fácil de encontrá-lo – e não ficou surpresa ao se deparar com um policial uniformizado sentado do lado de fora do quarto. O homem levantou-se.

– Doutor.

– Só vou levar um minuto.

– Fique o tempo que precisar.

Não era bem assim... Ela tinha que trabalhar rápido. Não fazia ideia de como o dr. Denton Phillips realmente era e não havia como ter certeza se a altura estava correta. Isso acontecia quando tudo o que se tinha era uma foto para servir de molde: aquele não era um bom momento para encontrar quaisquer colegas que o conhecesse bem – ou pior, o homem em si.

A UTI onde Kroner estava tinha paredes de vidro com cortinas, era possível ouvir o silvo do equipamento médico que o mantinha vivo. Deslizou a porta, empurrou o tecido verde de um biombo e entrou.

– Você está péssimo – ela disse com voz masculina.

Ao caminhar até a cama, deixou de lado a aparência do bom doutor e mostrou-se como a bela mulher que Kroner tinha conhecido há dez anos.

Havia tubos entrando e saindo pela boca e pelo nariz, e os fios emaranhados que saíam de seu peito davam-lhe a aparência de uma central telefônica. Muitos esparadrapos de gaze branca sobre a pele cinza. Muitos hematomas. E seu rosto parecia bexiga de festa, todo vermelho e brilhante, esticado pelo inchaço.

Aquele não era o fim que ela tinha planejado e no qual havia trabalhado. Era para DelVecchio ter cedido e matado o desgraçado antes mesmo de Heron ficar sabendo qual era a próxima alma. Infelizmente, seu cordeiro sacrificial louco e pegajoso tinha sido abatido por outra pessoa.

Pelo amor de Deus, era óbvio que não sobreviveria. Ela não era um médico – apenas interpretava um de vez em quando –, mas só aquela palidez já a fez pensar em funerais.

No entanto, ainda não era tarde demais para o bastardo. E, após esse deslize, não correria mais nenhum risco de perder essa rodada. Hora de tornar-se um pouco mais agressiva, especialmente se pensasse no acordo que tinha selado com Heron.

– Ainda não é sua hora – ela inclinou-se sobre a cama. – Preciso de você.

Fechando os olhos, acomodou-se sobre o corpo do homem, cobrindo-o por completo e, em seguida, infiltrou-se dentro dele através de cada poro que havia. O poder inato nela preencheu o vazio, reenergizou Kroner. Ao puxá-lo da espiral da morte, ela curou-o e deu-lhe forças ao mesmo tempo. E pensar que humanos confiavam em aparatos médicos. Tão rudimentar.

Os olhos de Kroner abriram-se conforme ela se retirava e reassumia sua forma. Então, ele encarou-a. Um brilho amoroso surgiu em seu olhar. Patético, mas útil.

– Viva – ela ordenou –, e nos veremos em breve.

Ele tentou acenar com a cabeça, mas havia muitos acessórios de entubação em sua garganta. Contudo, cumpriria a ordem. Quando ela olhou para o dispositivo de monitoramento, a frequência cardíaca já tinha alcançado estabilidade e sua pressão arterial estava regulada. O nível de oxigênio saiu de setenta e foi para noventa.

– Bom menino – ela disse. – Agora, descanse.

Erguendo a mão, colocou-o em um sono profundo e restaurador e, em seguida, reassumiu a imagem do bom e velho dr. Denton.

Entrar, sair, partir.

Saiu da sala envidraçada, acenou para o guarda e caminhou pelo corredor, passando por bajuladores e puxa-sacos que quase se ajoelhavam enquanto passava. O que era agradável. Ao ponto de ficar tentada a desfilar pelo hospital por um tempo, apenas para sentir melhor a experiência de ser aquele homem.

Mas não podia, a última coisa que precisava era encontrar alguém que realmente o conhecesse. E, mais importante, tinha um compromisso com a terapeuta bem cedo no outro dia e ainda tinha que escolher o que vestiria – isso poderia levar horas. Motivo pelo qual precisava de uma maldita terapia. Hora de ir.


CONTINUA

CAPÍTULO 7

 

Ao meio-dia, Reilly deixou a delegacia a pé e seguiu para o centro da cidade. O dia estava glorioso, com um sol de abril tão radiante e quente que afugentava aquela sensação dos doze graus exibidos nos termômetros. Mas a oficial não era a única que se beneficiava com o clima. Havia uma multidão nas calçadas e atravessando as faixas de pedestres, atrapalhando o trânsito, ao passarem com refrigerantes e sorvetes nas mãos; muitos comiam alguma coisa à beira de uma fonte ou sentados num banco do parque. Após seis meses de escuridão gelada, o Estado de Nova York ansiava por algum sinal de que o inverno realmente estivesse indo embora... E aquela bela hora do almoço não seria desperdiçada.

Aparentemente, Reilly estava no intervalo do trabalho, assim, poderia colocar a cabeça em ordem antes de ver Veck outra vez. Porém, seus passos tinham um propósito e uma direção aos quais ela recusava-se prestar atenção.

O Shopping Galeria era um dos projetos de revitalização do centro, mas, ao contrário de muitos outros, este realmente deu certo. Com uma grande loja de departamentos e uma grande livraria, os quatro quarteirões de prédios dos anos 1920 tinham sidos interditados, liberando apenas a passagem de pedestres. Era um atrativo que tinha revigorado o local e tornado-se o refúgio favorito de milhares de funcionários de escritório, assim como Reilly.

Contudo, diferentemente de suas colegas, era a primeira vez que andava pelas diversas lojas daquele centro comercial... quando parou em frente a uma delas, atraída pelo brilho rosa que irradiava do vidro. Oh, não. De jeito nenhum. Aquilo não era sua... Uma mulher saiu balançando duas grandes sacolas com as mãos e com um sorriso de orelha a orelha.


– Liquidação! – disse a Reilly. – Oba!

Sua voz saiu tão alta e estridente que parecia ter respirado hélio. Mas talvez fosse por usar um corpete embaixo do casaco – ao menos era o que parecia. Enfim, Reilly balançou a cabeça; liquidação ou não, não era o tipo de coisa que ela... Já tinha entrado na loja.

Maldição. Nunca tinha visto tanta roupa íntima num só lugar em toda sua vida.

O estilo Victoria’s Secret não é para quem tem problemas cardíacos... ou um traseiro grande – ela pensou, perguntando-se há quanto tempo, exatamente, não aparecia na academia. Desde o ensino médio. Não... Talvez tenha sido desde o fundamental.

Cara, toda aquela renda intimidava. Assim como as imagens tratadas das modelos expostas em toda parte, de tamanhos bem maiores que o natural. E, para piorar as coisas, o lugar estava lotado de mulheres que não eram bem do tipo de Reilly. Eram garotinhas com seus vinte e poucos anos, pegando tangas, sutiãs de bojo, peças de tamanhos mínimos e outras coisas. Mesmo os pijamas ou moletons pareciam estar destinados a ser arrancados com os dentes por algum garanhão...

– Oi, posso ajudá-la?

Reilly estremeceu.

– Ah...

A vendedora era uma linda afro-americana que, provavelmente, ficava ótima em cada peça pendurada na loja ou dobrada sobre as mesas. Comparando-se a ela, Reilly sentiu-se uma coisa esquisita e sardenta do tipo que pede para fazer tudo no escuro.

– Estou bem, obrigada...

– Estamos em liquidação.

– Sim, vi uma moça saindo com algumas sacolas – o que, considerando a pequenez das roupas ali, significava que a garota tinha comprado quinhentas, talvez seiscentas, peças daquilo tudo.

– Está procurando por alguma coisa em particular?

Reilly estava prestes a balançar a cabeça recusando, quando sua boca abriu-se por conta própria.

– Quero sentir-me mulher, e não uma oficial de polícia. Eu apenas... estou cansada de mim e do meu trabalho neste momento. Entende o que quero dizer?

Oh, droga, o que ela estava dizendo?... Só uma observação: aquilo não tinha nada a ver com Brittany, que se escreve Britnae.

A vendedora sorriu.

– Entendo. Você veio ao lugar certo.

Reilly olhou para um maiô asa-delta com estampa de tigre e não teve tanta certeza disso.

– Acho que nunca comprei lingerie antes... Nada que escolhesse com cuidado, meus sutiãs são do tempo da Guerra Civil. Talvez de alguma guerra do século XVIII.

– Bom, meu nome é Ralonda – estendeu a mão – e posso cuidar de você.

– Reilly. Quero dizer... Sophia – quando apertaram as mãos, ela murmurou: – Você tem algum tipo de formação em psicologia, por acaso?

– Na verdade, é isso que eu vou estudar na Universidade de Nova York, no campus de Caldwell.

– Deus, você é perfeita.

– Imagine – Ralonda sorriu outra vez, exibindo seu sorriso. – Vamos tirar suas medidas e depois vou trazer algumas coisas.

Uma hora e US$ 673,43 depois, Reilly saiu com três sacolas cheias de coisas. Quando chegou à porta, de cabeça erguida, viu-se sorrindo para as duas garotas que espiavam as vitrines.

– Eles estão em liquidação – disse a elas. – Melhor entrar. E chame por Ralonda... Ela é a melhor.

Elas entraram correndo, e Reilly caminhou até a delegacia com uma curiosa sensação de leveza. Talvez o sutiã de bojo cereja com calcinha combinando que acabara de vestir tivesse propriedades antigravitacionais, erguendo não apenas seus seios mas também o corpo inteiro. Fazia com que se perguntasse o que os astronautas usavam por baixo de seus trajes. A horrível imagem de um astronauta velhaco veio-lhe à mente. O cara usava apenas um minúsculo conjunto cor-de-rosa.

Deu-se conta de que entrar na delegacia com aquelas sacolas da Victoria’s Secret e um andar leve não passaria a mensagem certa... Especialmente agora que seria a parceira de Veck no próximo mês. Esquivando-se pela lateral da delegacia, aproximou-se de seu carro e escondeu as compras no porta-malas.

Desta vez, quando entrou pelos fundos e passou pelo guarda na recepção, estava um tanto constrangida, pensando se alguém poderia saber o que usava por baixo das roupas. Porém, como sempre, ninguém prestou nenhuma atenção nela. Apesar dos muitos talentos dos vários membros da polícia, parece que visão de raio X não era um deles.

A primeira parada foi seu escritório. Verificou rapidamente o correio de voz e os e-mails. Em seguida, pegou um bloco de notas e seguiu para o Departamento de Homicídios. E, como se pode imaginar, a confiança nas propriedades ocultas do algodão e da Lycra acertou em cheio a todos ali quando abriu a porta do departamento. Todos olharam para cima, inclusive Veck.

Certo. Agora entendia por que as pessoas odeiam aqueles sonhos em que andam nuas numa sala cheia de pessoas. Nunca tivera um pesadelo assim antes e, enquanto colocava o bloco de notas em frente aos seios, não estava com muita pressa de vivenciá-lo.

As pessoas apenas acenaram e cumprimentaram, e ela acenou e cumprimentou de volta enquanto dirigia-se até Veck. O cubículo ao lado dele estava praticamente vazio, havia apenas um computador e um telefone. Quando Reilly sentou-se, manteve o caderno contra o peito.

Veck encostou-se na cadeira fazendo com que seu peito parecesse enorme contra a camisa branca.

– Tudo certo na sua sala?

– Sim. No que vamos trabalhar hoje?

Ele fez um gesto com a cabeça indicando a tela do computador.

– Encontrei alguma coisa para passar o tempo. Estava esperando você chegar... Pensei em fazer um reconhecimento de campo e consultar outra vez algumas testemunhas.

– Ótimo. Qual é o caso?

– Digo no caminho. Importa-se se usarmos o seu carro? Só tenho moto.

– Ah... – com certeza não haveria motivo algum para ele olhar no porta-malas. – Claro. Sim. Tudo bem.

– Obrigado, oficial. Ou deveria chamá-la de detetive nas próximas semanas?

Quando se levantaram juntos e ela viu-se com o rosto na altura do peitoral de Veck, sabia que era hora de sufocar sua Britnae interior.

– Só Reilly está bom – respondeu.

Por um momento, os olhos de Veck baixaram, e ela poderia jurar que ele murmurou “com certeza está”.

Sem dúvida a lingerie nova fazia-a ouvir coisas.

– Espere um minuto... esse não é um caso antigo de homicídio.

Ao pararem num sinal vermelho, Veck recebeu um olhar sério de sua nova parceira... o que foi muito excitante.

Endireitando-se no banco e rezando para que sua ereção não explodisse antes de chegarem ao local de destino, fez um esforço para manter a voz equilibrada e sem qualquer sinal de rouquidão. Porém, pelo amor de Deus, se aquilo fosse um indício de como seriam as próximas quatro semanas... estava com problemas.

– Tecnicamente, é uma desaparecida...

– Não existe “tecnicamente” nesse caso. Não há um corpo.

– Posso terminar?

– Desculpe – quando o farol ficou verde, ela pisou no acelerador. – Mas tenho um pressentimento de onde isso dará, e você não chegará nem perto do caso Kroner.

Veremos – ele pensou.

– Recebi um telefonema do FBI esta manhã. Estão trabalhando no caso dessa garota desaparecida e queriam saber se existe mais alguma novidade. Respondi que ficaria feliz em examinar o que já temos sobre...

– O FBI pode fazer isso sozinho...

– Não há motivo para não ser amigável. Ou para concluir que há alguma ligação com Kroner.

Ela franziu a testa.

– O que o FBI acha?

– Não perguntei. Talvez seja interestadual – pois, talveeez, aquilo fizesse parte do caso Kroner... e foi por isso que ele não perguntou nada.

– Só para que fique bem claro: se houver qualquer ligação com o caso Kroner, estamos fora.

– Certo – colocou a mão no bolso da frente do casaco e pegou um relatório de três páginas. – Cecília Barten, dezoito anos, desaparecida há apenas três semanas. Vista pela última vez saindo de casa para ir ao supermercado na avenida Union. Câmeras de segurança do estacionamento e da saída da loja não gravaram nada, graças a uma sobrecarga de energia.

– E por onde vamos começar?

– Pela casa dos pais. Quero verificar se deixaram passar alguma coisa. A mãe dela está esperando por nós... Vire à direita aqui.

Reilly seguiu as placas e virou, entrando num bairro não muito longe de onde Veck morava. Ali as casas eram um pouco maiores e mais bem conservadas. Não havia carros estacionados na rua, e Veck imaginou que não haveria grandes caminhonetes ou sedãs guardados naquelas garagens. Não tanto quanto minivans... Porém, naquela região, moravam vários casais com filhos, então, talvez estivesse errado.

– Certo – ele murmurou, olhando as casas – 491, 493, 495... aqui.

Reilly estacionou no meio-fio em frente ao número 497. Depois de desligar o motor, saíram do carro...

Logo atrás deles estacionou uma suv dourada com insulfilme e três agentes federais desceram. Os homens estavam à paisana e, quando saíram, o motorista de cabelo loiro escuro exibiu suas credenciais.

– Jim Heron. Conversamos pelo telefone. Estes são meus parceiros, Blackhawk e Vogel.

– Thomas DelVecchio.

Quando apertaram as mãos, Veck sentiu uma energia estranha e recuou.

– Esta é a oficial Reilly. Quer entrar conosco?

O agente estreitou os olhos ao observar a casa.

– Sim. Obrigado. Meus parceiros vão esperar aqui.

Boa ideia. Seria difícil que todos coubessem naquele hall minúsculo. Enquanto passavam pela entrada de tijolos à vista, uma bandeira balançava casualmente com a brisa da primavera. Ela tinha um tom pastel e um desenho em formato de ovo estampado, metade cor de lavanda, metade cor-de-rosa e com uma faixa amarela ao meio.

A Páscoa ocorrera no fim de março, bem na época do desaparecimento da moça. Sem dúvida, a bandeira fora esquecida ali... ou talvez a família rezasse para que Cecília Barten ressuscitasse a partir daquilo. De qualquer maneira, a ruína tinha atingido aquela casa, mesmo que ainda restassem quatro paredes e um teto: a garota estava morta. Veck sentia em seus ossos, mesmo não sendo do tipo que sente coisas.

Campainha... espera... espera...

Veck olhou para Reilly. Parecia triste ao se inclinar para trás e observar as janelas do segundo andar... Será que a oficial estava tentando descobrir qual delas correspondia ao quarto da garota? Atrás dela, Heron passava uma excelente impressão de uma estátua: grande e imóvel. Seus olhos estavam focados na porta da frente, como se pudesse enxergar através das paredes.

Veck franziu a testa. Havia algo estranho no cara. Contudo, não era uma questão de competência. O agente irradiava uma precisão militar sobre tudo, desde a forma com que exibiu suas credenciais até o jeito que andava e como se mantinha imóvel. Ainda assim... o que será que...

A porta abriu com um rangido suave, e a mulher do outro lado parecia que não dormia nem comia direito há muito tempo.

– Bom dia, senhora. Sou o detetive DelVecchio. Estes são a oficial Reilly e o agente Heron.

Todos mostraram suas credenciais.

– Por favor, entrem – ela recuou e fez um gesto com o braço. – Posso servir alguma coisa?

– Não, obrigado, senhora. Agradecemos por dispor de seu tempo para conversar conosco.

A casa estava impecável, com cheirinho de desinfetante e lustra-móveis. O que sugeria que a senhora Barten limpava as coisas em momentos de tensão.

– Será que poderíamos conversar na sala de estar? – ela disse.

– Por favor.

A sala estava cheia de lembranças e bens de família, com papel de parede florido e dois sofás lisos. Quando a senhora Barten sentou-se numa poltrona e todos tomaram um lugar no sofá, Veck observou bem a mulher. Estava saindo da casa dos quarenta, com muitos cabelos loiros puxados para trás e enrolados num coque. Tinha um corpo magro e alongado... O peso que perdera recentemente realmente lhe fazia falta. Nada de maquiagem e, mesmo assim, era bonita. Porém, tinha um olhar vazio.

Droga, por onde começar?

– Senhora Barten – Reilly interrompeu –, pode nos contar sobre sua filha? Coisas que ela gostava de fazer ou nas quais era boa. Lembranças diversas.

Encarando sua nova parceira, Veck teve vontade de gesticular um “obrigado” com a boca. Especialmente quando a tensão deixou os ombros da mulher e o esboço de um sorriso surgiu.

– Sissy era... é... – ela se corrigiu. – Por favor, me desculpem. Isto é difícil.

Reilly aproximou-se da poltrona.

– Leve o tempo que precisar. Sei que pedi muito.

– Na verdade, ajuda quando falo dela. Faz com que me sinta melhor.

Numa voz hesitante, que gradualmente ganhou ímpeto, as histórias começaram a surgir, pintando o retrado de uma garota muito inteligente, boa e um pouco tímida, do tipo que nunca se envolveria em problemas se pudesse evitá-los.

Cecília Barten foi assassinada – Veck pensou. Não era um daqueles relatos de fuga motivados por drogas ou por causa do ciúmes de um namorado abusado e descontrolado. Era uma família estável. Uma jovem feliz. Futuro brilhante. Até que um carro bateu contra sua vida e levou tudo.

– Importa-se que eu olhe as fotos que estão ali? – Veck disse quando houve uma pausa na narrativa.

– Por favor.

Levantou-se e foi até uma das estantes embutidas ao lado de cada uma das janelas arqueadas que davam para a rua. Dois filhos. A outra era a irmã mais nova. Havia fotos de festas de formatura, aniversários, passeios no campo e jogos de hóquei... reuniões de família e casamentos... Natais.

Olhava com admiração tudo aquilo. Cara, aquilo era o melhor que a vida “normal” tinha para oferecer e, sem razão alguma, pensou em como, enquanto ele crescia, sua família não conseguiu ter nada daquilo... momentos felizes e fotografias para exibi-los. O tempo que passou com sua mãe não dava vontade de compartilhar com ninguém. Aliás, não era nada que quisesse lembrar.

Ele estendeu a mão e pegou uma das fotos 5×7. Cecília estava em pé ao lado de seu pai, braço estendido sobre o dele e com uma das mãos descansando sobre as dele. Era muito parecida com sua mãe, apenas um pouco com seu pai. Mas a linhagem era clara.

–... ligou para casa? – Reilly disse.

Veck voltou à conversa.

– Isso – a senhora Barten disse. – Ela saiu por volta das nove horas. Eu tinha acabado de operar meu pé... Corrigi uma deformação no dedo... – por um momento, a mulher parecia ruminar alguma coisa em pensamento, e Veck apostava que era o quanto desejava voltar no tempo, quando suas maiores preocupações eram encontrar sapatos confortáveis. Mas, talvez, também estivesse se culpando. Ela balançou a cabeça e voltou a se concentrar.

– Eu estava imobilizada. Dei a Sissy uma lista de compras e... ela me ligou do mercado. Não sabia se eu queria pimenta verde ou vermelha. Eu queria as vermelhas. Estava fazendo um... – as lágrimas vieram e ela piscou com força para afastá-las. – De qualquer maneira, essa foi a última vez que alguém teve notícias dela.

Veck voltou a colocar a fotografia na prateleira. Quando foi sentar-se ao lado de Heron outra vez, franziu a testa. O cara olhava para a mãe da vítima como se ele fosse uma filmadora, como se estivesse lendo e registrando cada contração do olho ou da boca que ela fazia enquanto falava.

Quando o radar de Veck começou a soar feito louco, não ficou claro o motivo... Seria a garota desaparecida, ou sua mãe triste e adorável, ou aquele homem imenso que parecia ter a capacidade de incendiar alguma coisa com aquele olhar?

– Posso perguntar uma coisa? – Veck disse. – Ela teve algum namorado?

Com o canto do olho, pôde ver Heron apertando as coxas com força.

– Não. Tinha alguns amigos, claro, e um encontro em bailes de formatura aqui e ali... mas nada sério. Ao menos, não que ela tenha me contado... e costumava ser sincera sobre o que se passava em sua vida.

Aquelas mãos relaxaram de repente.

– Quer perguntar alguma coisa? – Veck disse ao agente.

Houve um longo silêncio. Pouco antes de tudo ficar realmente estranho, o cara disse com uma voz baixa e profunda: – Senhora Barten, vou trazê-la de volta para casa. De uma maneira ou de outra, vou trazê-la de volta para a senhora.

Veck recuou, pensando: Droga, não faça assim, cara.

– Ah, o que ele quer dizer é...

– Está tudo bem – a senhora Barten apertou a garganta com uma das mãos. – Não estou me enganando. Sei que ela está... que não está mais entre nós. Uma mãe sente o frio no coração. Só queremos saber o que aconteceu e... providenciar um descanso adequado para ela.

– Vai tê-la de volta. Juro.

Agora, a senhora Barten soluçava... e por que não choraria? O cara parecia um guerreiro acostumado com a rotina da vingança, era mais um vingador do que um agente.

– Obrigada... Agradeço a todos vocês.

Veck olhou discretamente o relógio.

– Se me der licença, eu e minha parceira vamos nos dirigir ao supermercado. O gerente disse que sairia mais cedo hoje.

– Oh, sim, claro.

O agente Heron ajudou a senhora Barten a se levantar dando-lhe a mão.

– Seria incômodo se eu desse uma olhada no quarto dela?

– Claro que não... Vou levá-lo até lá – voltou-se para Veck e Reilly. – Se precisam ir agora, voltem sempre que precisarem.

– Obrigada – Reilly disse. – Faremos isso.

– E vamos sair logo por aquela porta – Veck murmurou.

Quando o agente Heron e a mãe da vítima chegaram às escadas, Veck parou no hall e observou os dois subirem juntos. Uma janela no andar de cima iluminava-os, o raio de luz solar atingia os dois rostos e agia como um farol para...

Espere um minuto.

Veck olhou para a sala de estar... de onde os raios dourados vinham do lado oeste. Impossível. Não poderia estar vendo aquele efeito de luzes em direções opostas: vinha da frente e dos fundos da casa.

– O que é isto? – Reilly disse suavemente.

Veck voltou a olhar para a escada. Heron e a senhora Barten não podiam mais ser vistos, e a luz tinha ido embora também, a janela não mostrava nada além de galhos de árvores atrás da casa e o claro céu azul sobre ela.

– Vou subir – disse à sua nova parceira. – Só por um minuto.


CAPÍTULO 8

 

Quando Jim seguiu a mãe de Sissy, sentiu-se muito oprimido. Num canto escuro de sua mente, sabia que precisava manter o controle diante de Veck, mas isso não aconteceria por muito tempo.

Virando-se no alto da escada, os sons da casa subiram a níveis de um heavy metal estridente. Tudo, desde o rangido sutil do chão acarpetado sob suas botas até a conversa suave que acontecia no saguão lá embaixo ou sua própria respiração soando forte atrás da garganta, tudo parecia gritar em seus ouvidos.

De repente, Veck apareceu atrás deles e fez um comentário rápido. Jim assentiu para o cara... e, imediatamente, esqueceu até mesmo que estava ali.

– O quarto de Sissy é por aqui.

Os três seguiram à direita e, quando a senhora Barten hesitou diante da porta fechada, Jim ergueu a mão para colocá-la em seu ombro... mas não conseguiu fazer contato.

– Prefere que entremos sozinhos? – ele perguntou.

A senhora Barten abriu a boca. Mas apenas assentiu com a cabeça.

– Não entro aqui desde... aquela noite. Está do jeito que ela deixou.

Naquele momento, o telefone tocou, e ficou evidente o alívio no rosto da mãe de Sissy.

– Vou atender. Fiquem à vontade para abrir as gavetas e o armário, mas se precisarem levar alguma coisa, poderiam me dizer o que é?

– Com certeza – Veck respondeu.

Assim que a mãe de Cecília apressou-se em descer as escadas e desapareceu no que Jim concluiu ser a suíte principal, ele abriu a porta... um cheiro maravilhoso. Entrando, fechou os olhos e tentou não se sentir um pervertido ao respirar fundo. Perfume. Loção corporal. Lençóis secos. Era... extraordinário. Mas ele não pertencia àquele quarto. Já tinha feito coisas que não deveriam sequer passar pela cabeça de alguém que entrasse num quarto como aquele... e a representação daquelas maldades estavam na tinta que cobria suas costas. Além disso, estava armado. E ainda havia aquela porcaria que fez com o demônio na noite anterior. Sentia-se sujo.


Enquanto Veck fazia o reconhecimento do quarto sozinho, Jim abriu os olhos e foi até uma estante modulada com escrivaninha embutida em frente à janela. A superfície plana e as prateleiras eram pintadas de branco, mas a cadeira era azul, combinando com as cortinas e o papel de parede listrado. Havia um tapete com franjas trançadas sobre a área acarpetada. Feito a mão. Tinha de ser.

Os livros enfileirados estavam em ordem e tinham uma temática bastante feminina. Gostava de Jane Austen, mas também havia uma prateleira inteira de Gossip Girls... provavelmente deixada ali desde que Sissy tinha treze anos. Algumas medalhas, vermelhas e azuis. Troféus. Sobre a mesa havia um notebook junto com dois livros, um sobre cálculo e outro sobre... trigonometria avançada? Hum. Sua garota era mais esperta que ele.

Havia também uma revista, Cosmopolitan, daquele mês. Tudo bem, a capa com título “orgasmo” em fonte gigantesca e cor rosa-choque não combinava exatamente com o resto daquele ambiente inocente de trabalhos escolares... mas ela estava crescendo, não estava?

Virando-se, foi até o pé da cama de solteiro. Agora sabia por que a mãe da garota não entrava ali. A colcha azul estava puxada para trás e os travesseiros ainda amassados, como se Sissy tivesse acabado de tirar uma soneca.

– Estou indo – Veck disse. O que fez Jim se perguntar há quanto tempo estariam naquele quarto.

– Vejo você em breve – disse Jim distraído.

– Entendido.

Quando ficou sozinho, a mão de Jim estremeceu ao estender-se para tocar os lençóis. Ao acariciar os objetos que sua pele tinha tocado, pensou em Devina e no que aquele demônio tinha feito com a garota... e com a família dela.


Adrian e Eddie estavam errados. Se queriam Jim concentrado na guerra, ali era exatamente o lugar onde precisava estar. Aquilo era motivação para vencer: Sissy nunca mais deitaria em sua cama. Não terminaria o artigo que estava lendo. E não mais lidaria com números. Nunca mais. Mas, ao menos, Jim poderia providenciar um lugar melhor para Sissy ficar enquanto não pudesse se juntar a seus pais e sua irmã por toda eternidade. E, então, faria Devina pagar mil vezes por tudo o que fez.

Na mesa de cabeceira havia um despertador branco, outra revista – desta vez era a In Touch – e o controle remoto de sua pequena televisão branca. Teve a impressão de que, mesmo fazendo faculdade, Sissy voltava aos fins de semana, e uma espiada em seu armário confirmou isso. Considerando o número de blusas, calças, saias e vestidos, não parecia que tudo aquilo tinha sido excluído da lista dos favoritos, mas que estava pronto para usar. Havia também vários sapatos no chão.

Deixou as gavetas da cômoda de lado, pois não sabia em qual delas guardava as... roupas íntimas. Provavelmente, nas duas primeiras, mas não correria o risco de confiar no chute. Já tinha assumido o papel de um mero observador ali, pois não tinha mais esperança em encontrar alguma coisa que o ajudasse a salvá-la. Deus era testemunha de que não havia nada na Terra capaz disso. Já ele queria apenas... estar perto dela.

Certo. Muito bem. Isto era o tipo de coisa com a qual Ad e Eddie preocupavam-se. Assim, percebeu que era hora de ir. Mais uma vez, não tinha noção de quanto tempo estava ali. Seria dois minutos ou duas horas, mas a última coisa que desejava era a mãe de Sissy batendo na porta para saber se ele estava bem ou se já tinha ido embora.

Não pegaria nada, mesmo sentindo a tentação de ficar com algum objeto, algo para se fiar em momentos difíceis... alguma coisa de Sissy. Contudo, a família já havia perdido demais e não tiraria mais nada deles.

Jim passou um último momento olhando ao redor e, então, obrigou-se a sair. No corredor, fechou a porta e ouviu. A mãe de Sissy estava no quarto ao lado, falando em voz baixa e embargada.

Desceu as escadas e esperou discretamente no hall onde ficava a porta da frente. Inclinando-se para o lado, olhou a sala de estar em direção às fotos ao longo das grandes janelas. A que mais lhe chamou a atenção – tanto que se aproximou dela – foi uma foto de rosto de Sissy. Ela não olhava para a câmera, mas para o lado, e não sorria. Parecia mergulhada em seus pensamentos, e a expressão em seu rosto não era a de uma menina, mas de uma... sobrevivente. Parecia ter uma vontade de ferro.

– Ela não fazia ideia de que a câmera a focava.

Jim endireitou-se e olhou para a mãe dela.

– Não?

A senhora Barten aproximou-se e pegou o retrato.

– Sempre sorria quando havia uma câmera por perto. Quando seu pai tirou esta, estava assistindo suas colegas de time jogarem... Praticava hóquei de campo. Tinha torcido o tornozelo e estava no banco... mas queria estar com elas – a mulher ergueu o olhar. – Era mais forte do que aparentava ser.

Quando seus olhos encontraram os de Jim, ele respirou fundo e pensou: Graças a Deus... isto a manterá sã até o momento em que eu conseguir salvá-la.

A senhora Barten inclinou a cabeça para o lado.

– Você é diferente dos outros.

Hora de ir.

– Sou como todos os outros.

– Não, não é. Nas últimas três semanas, vi mais oficiais, detetives e agentes do que em qualquer programa policial na TV que tenha assistido ao longo de toda minha vida – estreitou o olhar – Seus olhos...

Jim virou-se para a porta.

– O detetive DelVecchio entrará em contato...

– Quero te dar uma coisa.

Jim congelou com a mão na maçaneta e pensou – Má ideia – estava louco para aceitar qualquer coisa que ela oferecesse.

– Não precisa.

– Aqui.

Quando ele virou-se para dizer um “não, obrigado”, percebeu o toque daquelas mãos em sua nuca. Havia colocado em seu pescoço uma delicada corrente de ouro.

– Ela usava todos os dias. Encontrei em cima da pia do banheiro dela... Tinha tomado banho e esqueceu de colocar de volta... De qualquer maneira, fique com isto.

Pendendo na corrente havia um delicado pássaro feito de ouro. Uma pomba.

– Foi presente do pai no aniversário de dezoito anos. Fazia parte de um conjunto.

Jim balançou a cabeça.

– Não posso. Eu...

– Fique. Fará com que seus olhos continuem assim, nossa família precisa disso.

Depois de um momento, ergueu as mãos e substituiu os dedos da senhora Barten pelos seus. O colar e o pingente não pesavam nada. E mal cabiam em volta de seu pescoço. Mas seu dedo passava por ele como um sonho, mesmo o fecho sendo pequeno e suas mãos, enormes.

Quando baixou os braços, olhou para ela.

– Como estão os meus olhos? – disse ele com voz rouca.

– Desolados.


CAPÍTULO 9

 

O supermercado ficava a pouco mais de oito quilômetros de distância da casa, mas Reilly levou um bom tempo para chegar lá. Entre o trânsito e os faróis vermelhos, estava começando a achar que os dois passariam uma eternidade naquele carro.

Ou talvez o zumbido em sua cabeça fizesse parecer assim.

– No que está pensando? – Veck disse.

Apertou as mãos no volante e endireitou-se no banco do motorista.

– Se o caso de Cecília Barten estiver relacionado às vítimas de Kroner, teremos que deixá-lo. Está preparado para isto?

– Sim, estou.

Ao olhar para ele, percebeu que o maxilar de seu novo parceiro estava rígido e o corpo, todo tenso.

– Tem certeza? – porque ela não tinha.

– Sim, tenho.

Você é um filho da mãe teimoso que faz o que quer mesmo que isso contrarie uma ordem direta? Sim. Sou.

Assim que entrou no estacionamento e começou a caça por uma vaga, seu telefone tocou.

– Oficial Reilly. Uh-hum, sim... não é surpresa. Mesmo? Certo, e obrigada por me contar. Sim, mantenha-me informada.

Desligou e estacionou entre um carro prata antigo e uma caminhonete azul. Virando-se para Veck, disse: – Kroner está muito mal. Não há esperanças de que ele sobreviva.

O rosto rígido de Veck não expressou nada.

– Que pena. Talvez ele soubesse o que aconteceu.

– E saiu o resultado das análises feitas nas amostras que coletaram dele... Havia resíduos de saliva, mas as leituras não dão plena certeza quanto à fonte. Há semelhanças com pumas e lobos. Difícil dizer com certeza, mas a hipótese de ter sido um animal parece continuar ser a mais correta.

Ele assentiu e abriu a porta.

– Se importa se eu fumar antes de entrar?

Parece que estava tendo uma reação, afinal.

– Sem problema.

Saíram, e Veck foi até a parte traseira do carro, inclinando-se contra o porta-malas e tirando um Marlboro do maço... Um homem como ele poderia fumar outra marca? Quando ele acendeu o cigarro, Reilly esforçou-se para não pensar que suas calcinhas e seus sutiãs estavam separados de Veck apenas pela tampa do porta-malas.

Veck teve o cuidado de não exalar perto dela ou na direção em que o vento levasse a fumaça até a colega.

– Mau hábito – ele murmurou. – Mas ninguém vive para sempre.

– Verdade.

Encostando-se sobre o carro, ela cruzou os braços sobre o peito e olhou para o sol. O calor em seu rosto era uma bênção e fechou os olhos para apreciá-lo um pouco mais. Quando finalmente abriu os olhos outra vez, ficou chocada. Veck encarava-a e havia uma expressão em seu rosto... uma sugestão sexual. Ela tinha quase certeza de que estava deduzindo errado. Mas, em seguida, ele desviou rápido o olhar. Não era uma atitude comum quando se estava pensando em trabalho.

De repente, a temperatura primaveril aumentou e, agora, era ela quem o encarava. Bem, “flerte” parecia uma boa palavra para o que estava acontecendo.

Quando ele levou o cigarro aos lábios, sua boca se abriu e houve uma leve sucção, a ponta do objeto ficou alaranjada e os dedos indicador e médio aliviaram brevemente a pressão que faziam sobre o cigarro.

Oh, malditos sinos – ela pensou. Fumar era um hábito mortal e nojento, o qual ela não aprovava... Por isso, era perturbador perceber que todos os filmes ao estilo Casablanca faziam bem ao aproximar a câmera em longos closes em cenas como esta. Havia um toque erótico inegável em tudo aquilo. Especialmente quando a fumaça saía devagar de sua boca e projetava uma breve sombra em seus olhos azuis-marinhos e em seus cabelos escuros bem cortados.


Desviou o olhar rapidamente antes que ficasse presa ao...

– Então? – ele perguntou.

– Desculpe, então o quê?

– Perguntei o que achava.

Certo. Que tal responder assim: acho que todo o vermelho cereja que estou usando embaixo das roupas deformou o meu cérebro. Porque estou achando a ideia de subir em cima de você e montar feito uma vaqueira de chapéu na cabeça muito interessante.

– Preciso de mais informação antes de formar uma opinião – Então, que tal acender outro cigarro desses, garoto malvado, e arrancar as calças depois? – Oh, Deus.

– Você está bem? – ele disse, inclinando-se e colocando a mão livre sobre o braço dela. – Não comeu muito no café da manhã... Comeu alguma coisa no almoço?

Você está apoiado sobre as três sacolas do que fiz na hora do almoço, garotão.

– Sabe? – ela limpou a garganta. – Acho que devo comer alguma coisa.

E que Deus a ajudasse se seu cérebro cuspisse alguma coisa parecida com chantili sobre o corpo dele. Se isso acontecesse, pediria para ser transferida.

– Vamos entrar – ele disse, apagando o cigarro na sola do sapato.

Boa ideia. E já deixaria anotado: nada de tempo livre com seu parceiro. Nunca.

Aproximaram-se e passaram pelas portas automáticas, pela fila de carrinhos na recepção e entraram no supermercado propriamente dito.

Quando Veck parou e olhou ao redor, ela fez um gesto com a cabeça para a direita.

– O escritório do gerente é por aqui.

– Faz compras aqui?

– Esses estabelecimentos são praticamente todos iguais.

Enquanto caminhavam juntos, ele disse: – Devia conhecer este aqui de cor. Minha casa não fica longe.

– Então, faz suas compras aqui?

– Café e cigarros... bem saudável, não?

Ele parecia estar em ótima forma.

– Sempre se pode mudar de hábitos.

– Sabe? Eu parei por um tempo. Cigarros e cafeína.

– O que o fez voltar a consumi-los?

– Acertar aquele fotógrafo.

Aaah, então ele tinha emoções.

– Tem muito estresse em seu trabalho.

– Já foi fumante?

– Não, nunca bebi muito também. Não tenho muita inclinação para esses vícios.

Por outro lado, fazer compras poderia acabar se tornando um.

E este foi o último pensamento que teve sobre questões que não diziam respeito ao trabalho. Quando entraram no setor de atendimento ao cliente, colocou todas as distrações de lado, sua cabeça voltou a funcionar ao imaginar a filha da senhora Barten indo até a loja para ajudar sua mãe... O que deveria ser uma simples comprinha para abastecer a dispensa acabou tornando-se um pesadelo. Talvez por causa de Kroner.

Enquanto ela preparava-se para mostrar o distintivo ao gerente, pensou ser muito perigoso imaginar Veck ou mesmo aquele agente durão, Heron, arrancando a cabeça do cara. Mas nem um serial killer merecia esse tipo de justiça. E não ia se iludir: não seria uma surpresa descobrir Sissy na lista de vítimas de Kroner, e essa era a razão exata pela qual Veck estava interessado no caso. Mas Reilly jogava de acordo com as regras. Sempre tinha jogado, sempre jogaria. Entregaria o caso a De la Cruz assim que percebesse alguma relação com Kroner e daria um jeito de direcionar a atenção de Veck para outra coisa. Nem que isso matasse-o.

Quando Veck checou seu relógio outra vez, eram 16h30. O gerente falava devagar, e a gravação digital das câmeras de segurança levou um tempo para ser revista. Ainda havia uma empacotadora e dois funcionários que organizavam os carrinhos para entrevistar. Nenhuma informação nova, mas, caramba, ele e Reilly trabalhavam muito bem juntos.


Ela sabia exatamente quando tomar a frente e, assim como com a senhora Barten, tinha jeito para deixar as pessoas à vontade... O que significava que acabavam falando mais. Enquanto isso, ele observava o ambiente e avaliava todas as coisas que as pessoas não diziam, mas que demonstravam no semblante.

Do lado de fora do balcão de atendimento ao cliente, apertou a mão do gerente e, em seguida, Reilly fez o mesmo.

– Obrigada por seu tempo – ela disse ao cara. – Agradecemos muito.

– Não acho que foi possível ajudá-los de verdade – o homem empurrou os óculos quadrados sobre o nariz. – Agora ou antes. Sinto-me horrível por toda a situação.

– Aqui está o meu cartão – ela entregou-o. – Pode me ligar a qualquer hora... Estou disponível 24 horas, 7 dias por semana. E, pode acreditar, você se abriu e foi honesto... Era tudo que podia fazer.

Veck entregou seu cartão também e, então, estavam indo para a saída.

– Jante comigo – Veck disse de repente. Afinal, uma segunda oportunidade de compartilharem uma refeição tinha que ser melhor do que a primeira. Desde que ele não se comportasse como um idiota, todo na defensiva, outra vez...

Tudo o que obteve como resposta foi uma desaceleração no andar e uma longa hesitação. E, em seguida, um “Ah...”

Não era um bom sinal, então, reforçou o convite com uma justificativa lógica: – Temos que organizar as anotações das entrevistas que fizemos nas últimas quatro horas. Podemos muito bem comer ao mesmo tempo... E sei que deve estar faminta.

Cara, olha só isso. Tranquilo, casual. Perfeito.

Parou em frente a uma grande vitrine com prateleiras cheias de nachos, potes de salsa e um refrigerador cheio de queijos.

– Vou cozinhar para você. Comida mexicana... é minha especialidade.

Na verdade, aquilo poderia ser real se comparasse a outras coisas: não sabia nada sobre cozinha, mas, considerando o que pretendia fazer, tinha mais chances de acertar que com qualquer outro estilo culinário. Afinal, pedir coisas pelo telefone era sua única especialidade. Mas, vamos lá... não era tão difícil. Pegar uma caixa de tacos no corredor de salgadinhos? Como poderia errar?

– Deveríamos manter as coisas no âmbito profissional – ela argumentou.

– Não é um encontro, prometo. Você é boa demais para isso, e eu não sou tão sortudo.

Quando as sobrancelhas ergueram-se, deixou no ar o comentário que havia feito, pois era verdade e os dois sabiam disso.

– Então, o que me diz, oficial? O único tempero estará no molho.

Isso produziu nela um verdadeiro sorriso, seus lábios até curvaram-se para cima.

– Eu gosto de comida mexicana.

– Então, sou o cara certo.

Por um momento, apenas olharam um para o outro. Então, ela falou lenta e cuidadosamente: – Tudo bem, mas onde?

– Na minha casa.

Passando à frente dela, Veck pegou um carrinho e encheu-o com itens da vitrine de nachos. Parecia uma dádiva vinda dos céus: todos os ingredientes estavam enfileirados, então, não tinha muito que escolher. Porém, era apenas o começo, e ele dirigiu-se ao local onde um cartaz indicava “COMIDA MEXICANA”.

– Está olhando para mim, oficial? – disse ao perceber os olhos dela sobre ele.

– Só estou... surpresa. É isso.

– Com o quê?

Colocando o carrinho em frente a uma prateleira cheia de caixas de um amarelo brilhante, esperou uma resposta de Reilly.

– Tacos ou enchiladas? – quando não houve resposta a essa pergunta também, ele pegou uma caixa. – Tacos.

Pensou no que ainda faltava. Alface. Queijo... Observou o carrinho e decidiu que precisavam de mais. Tomates. Entendido.

– Onde é a parte de hortifrúti?

– Seguindo por ali, à esquerda. Mas precisamos de hambúrgueres.

– Sim, bem lembrado.

O balcão de carnes e congelados ficava mais ao fundo da loja e, ao passarem pelas bandejas de carne moída, pegou um pedaço magro com quarenta por cento orgânico... pois, provavelmente, ela seguia uma dieta mais natural. Quando chegaram à parte das frutas e verduras, precisavam pegar tomates e alface americana.

– Converse comigo, Reilly – disse em voz baixa.

– É que... você não me parece um homem que precise de sorte com as mulheres.

– Ficaria surpresa – ao continuarem em direção ao caixa, passaram pela parte de alimentos importados e por um self-service de saladas, e, por alguma razão, Veck sentiu que devia se explicar. – Veja bem, meu pai é muito conhecido por um motivo horrível e algumas pessoas se sentem atraídas por isso. As mulheres que me procuram não são como você. Ou têm tatuagens nos lugares mais ridículos do corpo e cabelos pintados, ou são Barbies que querem “salvar” alguém, ou desejam fazer loucuras sem correr muitos riscos. Depois, há as que parecem normais, mas costumam ter fotos do meu pai na bolsa ou cartas que pedem que eu entregue para ele... Para ser sincero, é uma confusão total. Aprendi que não posso confiar em ninguém, mas também nunca mais fui surpreendido.

Puxou o carrinho num dos caixas e começou a passar as coisas enquanto Reilly entregava-as.

– Mas, como disse, você não está em nenhuma dessas categorias – terminou.

– Com certeza, não – ela passou o saco de tomates. – Desculpe, não fazia ideia.

– Há coisas piores para se preocupar – como o laço sanguíneo que tinha com o pai maníaco, por exemplo. Droga, as tietes idiotas que queriam ficar com ele só por causa do sobrenome DelVecchio eram terríveis, mas o fato de ter o assassino ligado à sua medula era um pesadelo.

– Você vai... no meio da semana que vem? – ela perguntou.

– Como?

– À execução? – ela disse em tom gentil.

Veck congelou com a caixa amarela de tacos nas mãos.

– Vai mesmo acontecer?

– Se a Suprema Corte não emitir algum documento para adiá-la... Saiu um artigo no jornal de hoje.

Ah sim, as três colunas que ele tinha pulado no restaurante.

– Bem, espero que fritem o bastardo. E não, eu não vou. Tenho que ver aquele filho da mãe toda vez que me olho no espelho. Já é suficiente.

Pegou a carteira e tirou o cartão de crédito.

– Aqui, deixe-me ajudá-lo com a...

Veck lançou um olhar por cima do ombro.

– O homem deve pagar. Sou tradicional nesse ponto.

– E a mulher pode muito bem fazer uma contribuição. Sou realista assim.

Quando ela empurrou uma nota de vinte dólares na palma da mão dele e ergueu o olhar para encontrar o dele, soube que Veck queria beijá-la... E não apenas em suas fantasias: queria saber como era apertá-la em seus braços e sentir o sabor daquela boca da qual não saía besteira nenhuma.

Não iria acontecer.

Voltando a se concentrar nas coisas que não iriam comprometê-lo ou que evitariam um tapa, passou o cartão, digitou a senha e esperou a transação completar-se. Depois de jogar o cupom fiscal fora, dirigiu-se à saída, onde deixou o carrinho com os outros e recolheu as sacolas com as compras.

Enquanto caminhavam de volta para o carro, ele murmurou: – Você está quieta. Falei demais?

Olhou para ele ao desativar o alarme do carro e destrancar todas as portas.

– Sobre seu pai? Deus, não... A hora que quiser falar sobre ele, ou sobre qualquer outra coisa, ficarei feliz em ouvir.

Veck acreditava nela. O que era um milagre em si.

– Obrigado, mas você acabou de ouvir tudo o que tenho a dizer sobre o assunto.

Assim que se aproximaram do porta-malas destravado, ela foi até a porta do passageiro de trás e disse: – Espere, aqui, coloque as compras...

– Só vou jogá-las por aqui mesmo e...

Quando a porta ergueu-se sozinha, ele viu as três grandes sacolas da Victoria’s Secret e não pôde evitar: seus olhos fixaram-se em Reilly e observaram seu corpo... De baixo para cima, até as bochechas avermelhadas. O que significava que não havia um monte de pijamas e roupões de banho macios naquelas malditas sacolas.

– Hum... banco de trás – ele murmurou. – Está certo...

– Estavam em liquidação – ela disse enquanto ele fechava o porta-malas.

Ele estava ficando excitado outra vez. Agora mesmo. Droga.

Depois que as compras foram acomodadas no carro, os dois sentaram-se em seus respectivos bancos e ela ligou o motor. O cinto de segurança pressionou sua ereção, mas achou que o aperto foi bem-vindo. Não precisava ficar fantasiando um desfile de moda. A bela oficial Reilly vestindo aquelas coisas? Cara, precisava de um cigarro.

– Merda – ele disse.

– O que foi?

– Temos que ir à sua casa para fazer isso – com um palavrão, emendou. – Quero dizer, o jantar. Fazer o jantar na sua casa... Não tenho panela nenhuma.

Quando pararam no sinal da saída do estacionamento, Reilly olhou para ele... e começou a rir. Antes que percebesse, ele estava sorrindo também.

– Você não sabe cozinhar coisa alguma, não é? – ela disse.

– Terei sorte se conseguir abrir a caixa de tacos – ergueu o dedo indicador. – Mas ainda gostaria de fazer o jantar, se não se importa.

Negando com a cabeça, ela sorriu.

– Certo, mas pode me fazer um favor?

– Pode dizer.

– Pode esquecer o que viu no meu porta-malas?

Seus olhos perderam-se na boca de Reilly e, em seguida, desceram para o pescoço pálido e...

– Sinto muito – disse em tom sombrio. – Isso eu não posso fazer.

Ela respirou fundo, como se todos os pensamentos dele estivessem expostos em seu rosto.

– Droga – disse, soltando o ar. – Quero dizer, sim, é claro. Considere feito. Totalmente esquecido.

Uma buzina soou alto atrás deles e ela teve um sobressalto antes de acelerar.

Que bela noite. Só faltava ele botar fogo na casa dela..


CAPÍTULO 10

 

Durante os anos em que atuou como soldado de Operações Extraoficiais, Jim aprendeu que uma boa informação é fundamental para a missão em qualquer tarefa. Claro, quando trabalhava para o maldito Matthias seu trabalho era matar pessoas e, agora, não era bem essa a situação com seu novo chefe ou com seus alvos atuais. Porém, muitos princípios eram os mesmos. E os riscos eram ainda maiores.

Sentado na cama de hotel, com o computador apoiado nas coxas, o site do Correio de Caldwell estava no centro da tela e a dor de cabeça que sentia não era pelo brilho da máquina. Seu trabalho já tinha sido iniciado. Considerando que Devina não havia mentido sobre a alma.

Na noite passada, Thomas DelVecchio Jr. adentrou na floresta com um cara a quem investigava... O que é normal para um detetive de homicídios, certo? Errado. O que deteve a ordem normal dos fatos foi que David Kroner, considerado um serial killer, fora levado numa ambulância até a cidade à beira da morte. Encharcado de molho de tomate. E isso era apenas o começo do jogo. Após passar quase duas horas vasculhando a internet, Jim teve acesso a informação suficiente para escrever um livro sobre DelVecchio... e sobre o pai do cara. Não eram boas notícias.

– Droga, Cachorro – murmurou.

Cachorro bufou baixinho e colocou a pata sobre o antebraço de Jim, como se estivesse oferecendo ajuda. A questão era: onde estava a encruzilhada de DelVecchio? Estaria naqueles bosques de ontem à noite?

Não, pois Jim teria perdido antes de ter começado e imaginou que isso estaria fora das regras. Entretanto, não significava que Devina não tivesse dado tal golpe.

E assim...

– Onde você está, vadia...?

O demônio estava em algum lugar naquilo tudo, trabalhando nos bastidores, tentando mexer os pauzinhos para que o jovem DelVecchio se envolvesse profundamente com ela.

A rota poderia ser traçada através do pai. Digitando outra vez o nome do cara no Google, Jim começou outra pesquisa. Os resultados fizeram-no questionar se valia a pena salvar a humanidade. Oh, veja só, quanta coisa baseada em seus assassinatos. Pinturas. Autógrafos.

O cara tinha sua indústria... Mas parece que não duraria muito. As luzes seriam apagadas para ele em Connecticut muito em breve. Mas talvez vivesse para sempre na infâmia: havia vigílias acontecendo fora da prisão. Sem dúvida aquela procissão de manifestantes não impediria a execução, mas era uma indicação de que o bastardo poderia tornar-se uma celebridade ainda mais famosa quando estivesse totalmente acabado.

De acordo com os arquivos do jornal, DelVecchio pai tinha cometido a maioria de seus assassinatos em Nova York e Massachusetts, e a primeira denúncia datava do meio dos anos 1990, quando o primeiro corpo fora encontrado... em Caldwell, Nova York. Passaram-se três anos para que as autoridades percebessem que estavam lidando com um serial killer, e não com chacinas aleatórias. Parte do atraso ocorreu pelo assassino ter deixado os corpos em situações muito diferentes e pelas investigações realizadas com diferentes graus de competência policial. Outro fator foi, ao menos no começo, que DelVecchio escondia bem os restos e de maneira muito criativa.

Os casos, porém, começaram a ser ligados e, então, iniciou-se uma corrida para capturar seja lá quem fosse o assassino. O tapa na cara foi saber que DelVecchio estava aos olhos do público o tempo todo, um negociante de antiguidades... e não apenas bugigangas e falsificações. Estava no topo daquele mercado, importando estátuas, artefatos e mosaicos do Egito e do Oriente Médio.

Maldito filho da mãe. Existia até mesmo um artigo sobre ele na Vanity Fair, que dava informações detalhadas sobre seus negócios. Aparentemente, entre as viagens ao exterior e as grandes festas que frequentava, DelVecchio pai conseguiu engravidar uma mulher. O filho tinha nascido no mesmo dia que o pai nascera há 29 anos, mas não havia vida familiar. Nem outras crianças.

Contudo, houve uma espécie de contato: o assassinato daquela mulher acabou sendo a chave para finalmente capturarem DelVecchio, a primeira ligação que trouxe à tona a cadeia de crimes que havia formado. O resto era história, por assim dizer.

– Entrandooo...

Jim olhou por cima do notebook. Parado na porta do conjugado, Adrian tinha uma caixa de pizza entre as mãos e um pacote com seis cervejas pendurado nos dentes.

– Aí sim! Obrigado, cara.

Eddie entrou atrás com uma segunda caixa.

– Ele providenciou tudo... até a isca.

Ad sentou-se sobre a cama e apoiou as cervejas.

– Se chamam anchovas, idiota.

O “que seja!” ficou subentendido entre os dois. Jim alimentou Cachorro primeiro, dando ao cão o item que Adrian não apreciava muito. Considerando o movimento do rabo curto e grosso, a gororoba estava mais que boa.

– Então, como podemos saber que Devina não mentiu para você? – Adrian disse, antes de se inclinar e colocar a ponta de uma fatia de pizza na boca.

– Essa confusão toda é bem a nossa cara – clicou no artigo sobre a execução e girou o computador. – Este é o pai do cara. E espere, tem mais.

Enquanto comiam, Jim mostrou-lhes alguns sites e finalizou com um artigo sobre a pequena viagem do Júnior à floresta com outro serial killer. Enquanto seus parceiros liam, houve uma quantidade razoável de “mas que inferno”, o que era bom.

Terminou de comer a terceira fatia.

– Precisamos descobrir o que aconteceu naquela floresta ontem à noite.

– Os artigos dizem que DelVecchio não se lembra de nada.

Jim olhou para Eddie, mais conhecido como “o mestre dos truques”.

– É aí que você entra. Quero entrar na mente do cara e você precisa me dizer como fazer isso.

Ad deu de ombros.

– Pessoalmente, eu costumo usar um serrote, mas...

– Pode haver várias consequências e efeitos colaterais – disse Eddie com cuidado.

– Por exemplo?

– Bem, na pior das hipóteses... ele pode acabar como Adrian.

– Ei...

Jim interrompeu o anjo em questão.

– Meio surdo. Com medo de agulhas.

– Viciado em sexo – Eddie acrescentou.

– Ou seja, um deus – Ad exclamou, abrindo uma cerveja. – E continuo dizendo, pessoal, não sou surdo.

– Já passamos por isso antes – Eddie enxugou a boca. – Se não consegue ouvir o quanto é desafinado, então, como pode saber?

– Não sou desafinado.

– É sim – Jim e Eddie disseram juntos.

Antes que a discussão saísse do controle, Jim ficou sério e dirigiu-se a Eddie.

– Então, me diga o que eu preciso saber.

– Precisa me explicar primeiro o que está procurando.

Jim tomou um longo gole de cerveja.

– Quero saber onde Devina está em tudo isso. Qual é o ângulo de ação dela e de que maneira está suscetível a falhar nessa porcaria toda. É isso que estou procurando.

E, considerando a situação do pai, já tinha suas suspeitas.

É claro que Veck precisava ter visto o que havia no porta-malas – Reilly pensou enquanto entrava na garagem. – O universo não desperdiçaria uma oportunidade como essa para aprontar comigo. Enquanto a porta da garagem subia, olhou para seu parceiro.

– Deixe-me adivinhar: gostaria de carregar as compras, da mesma maneira como pagou por elas.

– Sim, gostaria – olhou para os bancos de trás. – Como disse, sou antiquado. Mas se quiser assumir a tarefa, posso voltar atrás.

E era por isso que não tinha qualquer problema com ele. Além disso, ele poderia cuidar da comida enquanto ela tirava suas roupas do porta-malas: apesar de constrangida, não deixaria as sacolas para trás. Não havia como fingir que nada acontecera, mas, mais importante que isso, não havia motivo algum para esconder. Era uma mulher adulta que poderia comprar calcinhas e sutiãs para si.

Quando a voz na cabeça dela ficou ainda mais estridente e na defensiva, perguntou-se quem exatamente estava falando. Provavelmente seu pai. Interrompendo o discurso ridículo, terminou de estacionar o carro. Enquanto Veck saía e pegava as sacolas do supermercado, deu a volta no carro, abriu o porta-malas e manteve a cabeça erguida ao pegar todos os seus artigos cheios de lacinhos e renda e seguir para a cozinha.

– Nossa! – ele disse ao olhar para as paredes, cortinas e balcões.

– Eu deveria ter avisado.

Ter uma decoração cheia de galos na cozinha é um pesadelo, mas a boa notícia é que, geralmente, as pessoas param e olham ao redor, e, por isso, ela conseguiu enfiar as sacolas num canto qualquer, longe de olhares curiosos.

– Acho que nunca vi...

Quando Veck apenas assentiu com a cabeça, Reilly ficou feliz por ele não ter terminado a frase. Claro que nem precisaria: a parte do “... tantos galos num lugar só” costumava ficar no ar com certa frequência.

Oh, Deus, aquilo era horrível.

– Desde que me mudei há dois anos, tenho vontade de pegar um estilete e arrancar tudo a partir dos cantos. Mas sempre tem algum trabalho mais urgente que me mantém ocupada.

Porém, ao observar como Veck olhava tudo aquilo, pensou que deveria ter um pouco mais de determinação. O papel de parede tinha três galos diferentes em várias e exageradas poses, como se fossem fisiculturistas participando de um concurso. O esquema de cores era marrom, vermelho e creme com tufos verdes de grama sob as patas tripartidas. E, de alguma forma, mesmo o material estando ali há uns bons vinte anos, mantinha uma vivacidade impressionante.


– Sou eu ou os olhos deles seguem a gente? – Veck perguntou ao colocar as sacolas sobre o balcão da pia.

– Eles estão observando você. É uma maravilha para minhas die-tas... sinto como se estivesse comendo em público e não consigo comprar frango desde maio do ano passado.

– É como estar no filme Os pássaros.

– Exceto por não ser uma fazenda. Eu sei – quando ela aproximou-se e abriu o armário sob o fogão, completou –, o fato de já estar um pouco acostumada com isso me assusta... será que me hipnotizaram? Aliás, as panelas estão aqui, as tigelas ali e as facas naquelas gavetas perto da lava-louças.

– Obrigado.

Quando ele tirou o casaco, os grandes ombros movimentaram-se naturalmente, mas, na mente dela, transformaram-se em algo nu e excitante – Hora da distração – Reilly pensou quando Veck começou a desembalar as coisas.

– Ei, acho que vou imprimir o arquivo do caso enquanto você começa a lidar com a comida.

– Ótimo.

– Pode levar um tempo. Minha impressora é antiga.

– Temos tempo.

Pela maneira como estava concentrado no pacote de salgadinhos, parecia que estava prestes a fazer uma cirurgia cerebral com o micro-ondas. E nossa... Aquele jeitão impassível, seguro e lindo era muito sexy, sem falar que aquela preocupação toda o deixava mais acessível. Isso e a maneira como se abriu a respeito das mulheres. Ela nunca pensara nas tietes... porém, mesmo pessoas de boa aparência podiam ser perseguidas pelos motivos errados, não?

No escritório que tinha no final do corredor, entrou no banco de dados da polícia de Caldwell, acessou o relatório e ficou parada ao lado da impressora, pronta para salvar a impressão quando as folhas ficassem presas... o que aconteceu. Duas vezes.


O primeiro indício de que as coisas não iam bem na cozinha foi o aroma inconfundível de carne queimada. O segundo foi uma explosão de palavrões. Que não parou até ela aparecer com as impressões.

Foram muitas bombas verbais. Em seguida, o detector de fumaça disparou. Seja lá o que estava na panela sobre o fogão – o mais provável era que fosse o hambúrguer, mas, como era Veck na cozinha, poderia até ser os nachos – precisava de uma mangueira de incêndio. Ele tentava lidar com a situação, levou a panela para a pia, colocou dentro da cuba, mas não ligou a água. Aproximou-se rapidamente do detector e começou a abaná-lo com um pano de prato sem nem sequer ficar na ponta dos pés.

– Acho que um dos galos aumentou o fogo – ele gritou.

– Isso não me surpreenderia.

Ela escondeu um sorriso quando colocou os papéis sobre a mesa e foi dar uma olhada no que ele tinha colocado no prato: os pedaços de queijo laranja tinham se unido à camada de tortilhas ao ponto de formarem uma nova composição molecular.

Só há uma coisa a fazer agora – ela pensou. Pegou o telefone e disse: – Qual sabor de pizza você gosta, oh, poderoso fazendeiro?

– Calabresa com salame.

– Boa.

Enquanto discava, olhou para cima. A parte de baixo da camisa de Veck tinha se soltado, e ela teve uma clara visão do cós preto da cueca, bem como dos pelos que desciam em linha a partir do umbigo sobre a pele firme. Imediatamente seu cérebro voltou à cena do banheiro na noite anterior. Apenas um instante e lá estava ela, observando o corpo nu...

– Oh, sim, oi – afastou-se rapidamente. – É um pedido. Sim, sou eu. Pizza grande de calabresa com salame. Sim. Não, sem bebidas... Não, não quero uma segunda pizza de graça... Não, sem acompanhamentos... Não, obrigada, não precisa... Não, também não quero sobremesa de maçã com canela – pelo amor de Deus, levavam mais tempo fechando o pedido do que fazendo, embalando e despachando a pizza para entrega! – Ótimo, obrigada.


Desligou, endireitou os ombros e virou-se em direção a Veck outra vez – estava parado bem atrás dela, olhos semicerrados, o corpo muito maior do que aparentava ser a dois metros de distância.

Ela não se moveu. Nem ele.

– Acredita que a confissão seja boa para a alma? – disse ele de maneira misteriosa.

– Sim...

– Então, preciso dizer uma coisa.

Oh, Deus, era por isso que diziam que não se deve misturar negócios com prazer: quando seus olhos se encontraram, Reilly não pensava sobre o caso em que estavam trabalhando. Pensava que deveria admitir algumas coisas a si mesma.

Vi você nu ontem à noite e te achei lindo.

– O quê? – ela disse ofegante.

Eu te desejo mesmo sabendo que não deveria.

Engolindo em seco, ela disse: – Diga...


CAPÍTULO 11

 

Veck sabia que não deveria responder à sua parceira e com certeza não deveria ter se aproximado tanto dela. A atitude correta seria começar a limpar a bagunça que tinha feito com os alimentos em vez de criar mais confusão.

Mas viu-a olhando o corpo dele e a expressão em seu rosto indicava um desejo forte e intenso. Surpreso? Sim. Satisfeito? Poderia, se ficassem juntos.

Mas não poderiam se desvencilhar das consequências daquilo com um banho de água quente, este era o problema.

– O quê? – ela sussurrou.

– Eu quero... – a palavra era tão rude que ele guardou-a para si mesmo.

– Diga.

Ele inclinou-se e colocou os lábios sobre o ouvido dela.

– Você sabe exatamente o que eu quero.

– E eu quero que você diga.

– Tem certeza? Não é nada agradável.

Antes que ele pudesse recuar, ela estendeu as mãos e colocou as dele sobre seus quadris. O toque foi leve como uma sombra caindo sobre o corpo de Veck, mas sentiu que tudo queimava por dentro. E uma coisa era certa, se ela instigou aquele contato é porque sabia exatamente o que ele tinha em mente.

O toque ficou mais intenso.

– Diga.

Sua voz era quase um rosnado.

– Quero foder você.

Reilly gemeu um pouco e ele continuou.

– Quero você nua. Embaixo de mim. E quero entrar em você – abaixou um pouco e passou a boca sobre o pescoço dela. – Mas sei que é especialista em conflito de interesses, então sabe muito bem os motivos pelos quais essa é uma má ideia.

Era a deixa para ela se afastar. Ou para ele pular fora. Nenhum deles se moveu.

Droga, o corpo dele começou a ficar fora de controle, sua ereção latejava por mais espaço para fazer o que sabia de melhor. O que significava que, se fosse para fazerem a coisa certa, a iniciativa partiria dela.

– Dê um tapa na minha cara – ele gemeu. – Me empurre... pelo amor de Deus, se tranque no banheiro ou algo assim. Pois se não fizer isso, eu vou...

– Me beije.

Deus, o tom que ela usou: aquilo era uma ordem. E quem era ele para desobedecer a uma ordem? Especialmente vinda de uma superior?

Veck estendeu a mão e passou o braço em volta da cintura de Reilly. Com um puxão forte e impaciente, aproximou-a de seu corpo. O próximo passo foi arrancar o elástico que amarrava os cabelos dela e jogá-lo no chão.

Cara, ela instigava tanto desejo com aquela coisa de não se afastar, e os cabelos vermelhos sobre os ombros diziam que estavam prontos para ter a mão de um homem sobre eles.

Quando agarrou a nuca e aproximou a cabeça ainda mais, sabia muito bem que iria dominá-la, assumiria o controle de seu corpo, iria segurá-la com força ao empurrá-la até a mesa da cozinha e ajoelharia entre suas pernas para sugar seu sexo. Era o que desejava fazer.

– Desculpe – ele disse, ciente de que não estava desculpando-se apenas pelo que estava prestes a fazer, mas por tudo que passava em sua mente, toda a vulgaridade que desejava impor aos dois.

Então, o destino foi selado quando ela deu um beijo nos lábios de Veck.

A boca dela era macia... e também seus seios contra o peitoral de Veck e seus quadris contra seu pênis... Era macia e quente, o tipo de coisa que se quer penetrar e permanecer ali por um bom tempo. Mas, mesmo com sua pélvis contorcendo-se e sua ereção pulsando, no fundo Veck sabia que o conflito de interesses não era o maior problema que tinham. Por mais que fingisse estar tudo normal com ele, estava em carne viva por dentro por causa daquela porcaria que tinha acontecido na floresta e pela novidade sobre seu pai. Tinha medo de que Reilly fosse exatamente o tipo de curativo que precisava... Esse foi o último pensamento lógico e decente que teve.


Quando penetrou a boca dela com a língua, seus braços apertaram-na e a parte inferior do corpo arqueou-se outra vez, a tensão e o movimento em seu pênis estimulou-o ainda mais. E isso foi antes de sentir o arrepio que passou pelo corpo de Reilly. Estava claro que ela acompanhava-o, especialmente quando o apertou em seus ombros com as unhas e suas pernas abriram-se o suficiente para que ele pudesse se encaixar com uma das pernas ali.

Pensando num palavrão, ele virou-a e colocou-a sobre a mesa, em cima da papelada que ela tinha acabado de imprimir. Imagens dela com as pernas sobre os ombros dele enquanto lambia seu sexo fizeram-no imaginar que deveria repensar a falsa propaganda sobre comê-la.

Bem, não era tão falsa assim. Só adicionaria uma atração turística muito importante na viagem para o grand finale. Passou a palma da mão sobre as coxas e levantou a perna dela, esfregando ainda mais o local onde ele desejava finalmente estar. Interrompendo o contato com a boca, mergulhou no pescoço de Reilly com mordidas e lambidas.

– Me deixe ver você – ele gemeu em sua garganta. – Me deixe...

– Entrar – outra voz disse.

Ele interrompeu o ritmo de repente, desvencilhando-se do abraço e olhando para cima. Agora seu coração batia por um motivo diferente.

– O que foi? – ela disse.

Seus olhos percorreram o local. Mas não havia quaisquer sombras esquivando-se em movimentos velozes pela cozinha com decoração de galos. Nenhum ruído de tábuas ou dobradiças rangendo. Ninguém observando pelas janelas.

Depois de um momento, a adrenalina diminuiu e percebeu onde estava e o que estava fazendo com ela. Talvez tivesse sido um pensamento que assumiu uma voz muito alta. E não poderia sentir-se melhor com isso se considerasse o que tinha acontecido com Kroner na noite passada.

Uma das mãos de Reilly ergueu-se e acariciou a bochecha dele.

– Você está bem?

– Não – olhou outra vez para o rosto dela. Sentiu o corpo dela sob o seu. Ouviu suas respirações profundas. – Mas não quero parar. Você é real... E preciso muito disso agora. Preciso... de você agora.

Reilly não era como as outras mulheres com quem já tinha ficado: os olhos inteligentes viam demais e sabiam coisas demais. Cara, ele ficara nu na frente dela no primeiro momento em que a conheceu – e isso deveria tê-lo guiado na direção oposta do que estava acontecendo. Em vez disso? Só desejava-a ainda mais.

– Então, me possua – disse, puxando a camisa para fora da saia.

Veck não deu um segundo sequer para ela mudar de ideia: enquanto a beijava, mergulhou uma das mãos sob a abertura que ela havia feito na camisa, tocando toda aquela pele quente. Em seguida, os botões soltaram-se como se tivessem o mesmo objetivo que ele: acesso total.

Ergueu-se quando o último se abriu... caramba. Renda vermelha. Havia uma complexa renda vermelha sobre um par de seios perfeitamente proporcionais. Ele conseguia ver os mamilos tensos e firmes através da pequena extensão do tecido.

– Gostou do que eu comprei hoje? – ela perguntou com voz rouca.

– Nada mal – limpou a garganta quando falou. – Nada mal mesmo. Mas o que está por baixo é ainda mais quente.

Com uma graça harmoniosa, as mãos dela ergueram-se e acariciaram o sutiã de alças finas e brilhantes... Em seguida, passou a mão sobre os mamilos rígidos e, com isso, Reilly arqueou o corpo, implorando por ele.

Com um rosnado, ele empurrou a saia para cima e adentrou entre as pernas dela, separando-as ainda mais com seus quadris ao se aproximar do que havia chamado sua atenção. Ao colocar a boca sobre o sutiã incrível, além de sentir a renda em sua língua, também percebeu a carne rosada e firme por baixo do tecido.

Não levou muito tempo para aquilo não ser mais suficiente. Com a mão áspera e impaciente, puxou o bojo para baixo, revelando o mamilo.

– Porra... – ele exclamou. – Você...

Ela não quis nem saber de conversa: com pressa, seus dedos agarraram a nuca dele e, com isso, aproximou a cabeça de Veck de seus seios. Enquanto ele sugava-a, ela ergueu-se sobre a mesa, e aquele movimento, aquele puxão, fez com que ele deixasse de lado qualquer constrangimento. De repente, Veck assumiu o controle, ergueu-a ao colocar um dos braços embaixo dela, a outra mão foi direto entre as coxas, em direção ao desejo que emanava daquela calcinha.

Acariciou o sexo dela, a palma da mão envolveu o local, bem onde ela desejava...

– Veck!

O som do nome dele foi um pedido de mais, mais, mais. E daria isso a ela. Trocando de lado, mordeu a outra metade do sutiã e puxou com os dentes, antes de sugar o outro mamilo. Contudo, ainda não era suficiente. Precisava de contato total com a pele nua. Aqui, agora...

O gemido que saiu dela foi exatamente o som de consentimento que precisava ouvir.

Deus, vai acontecer – pensou. – Vai acontecer.

Veck era um dominador total. Reilly não esperava menos que isso, mas a excitação foi surpreendente. Em parte por saber que, se dissesse não estar à vontade em ir tão longe, ele recuaria no mesmo segundo. Mas o resto devia-se à maneira como ele lidava com ela, a confiança, o poder, a possibilidade erótica que emanava de sua boca, de suas mãos e de seu olhar sedutor e intenso.

Sem dúvida, Veck tinha um talento natural para o sexo... E desenvolveu isso ao longo dos anos. De repente, como se tivesse lido a mente daquela mulher, seu olhar ergueu-se com um brilho e fixou-se no dela enquanto estimulava o mamilo da mulher com a língua... E, quando as pálpebras baixaram, sabia que desejava que ela o observasse.

Que visão. Ele puxou o outro lado do sutiã e acariciava-a, lambendo e chupando enquanto uma das mãos espalmadas pressionava sua pele. Deus, ele era grande – por inteiro. Seu pênis era longo e grosso e acariciava a parte interna das coxas dela, seus ombros eram tão grandes que não conseguia ver nada além deles, e a parte inferior do corpo daquele homem ocupava todo o espaço que havia entre suas pernas abertas.

Veck terminou de puxar o sutiã que pressionava os seios para cima, a camisa estava totalmente aberta, e a saia estava toda amontoada na cintura. O próximo passo era tirar o tecido de nylon que cobria as pernas de Reilly e, para isso, ela saiu um pouco de cima da mesa, sentindo aquela mão pressionar com mais força ainda em movimentos circulares. Mergulhou os polegares na cintura da meia-calça e baixou os quadris, escorregando a peça ao longo das coxas.

– Eu assumo daqui em diante – Veck recuou um pouco, os olhos em chamas observando o corpo de Reilly. – Hummm... bem onde eu queria estar.

Quando ele sorriu como um predador, ela ergueu os joelhos para ajudá-lo a tirar as meias, lentamente. E só depois que o fino tecido estava livre de seus pés, ela perguntou-se até onde aquilo tudo chegaria. Iriam terminar de fazer aquilo que não deveriam nem ter começado?

Se aquilo fosse um “sim”, teriam que lidar com alguns aspectos práticos. Mas, caramba, que coisa chata falar de camisinha – e, sim, agora entendia por que as pessoas faziam escolhas idiotas quando se tratava de sexo. Coisas realmente importantes não tinham a menor relevância ali, todo o sofrimento que poderia vir depois daqueles minutos intensos, coisas com as quais teria que conviver, talvez para sempre... Passavam a ser ecos distantes, que ela mal conseguia ouvir, pronunciados num idioma que não queria traduzir.

Cinquenta mil anos de evolução poderiam dizer o que estava acontecendo.

Com um impulso, Veck voltou à boca dela, beijando-a profundamente enquanto as mãos desciam...

A maldição que disparou da garganta dela era mais uma vibração que um sim. A mão dele estava de volta entre as pernas, acariciando suas coxas, indo em direção à peça que completava o conjunto com o sutiã que já tinha visto e dominado.

– Veck! – ela exclamou outra vez quando o toque deslizou sobre o centro da faixa de cetim.

Foi cuidadoso, colocando apenas a pressão suficiente sobre o local tão sensível, acariciando-a em movimentos circulares que fizeram seu corpo ficar ao mesmo tempo relaxado e tenso.

Dane-se a calcinha, ela não queria nada entre eles... Mesmo assim, a barreira de seda não era de todo ruim, a costura adicionava outra dimensão ao ritmo que ele tinha imposto. E não parou de beijar sua boca, de envolvê-la, de aproximá-la ainda mais, mesmo já estando bem juntos.

Com um movimento rápido, ele levantou o tronco de Reilly e empurrou seus quadris contra o sexo dela, entrelaçando os corpos. Em seguida, curvou a coluna e encaixou-se sobre ela, acariciando-a com seu pênis enquanto observava-a com atenção.

Deus, o rosto dele estava cheio de desejo, aquela frieza tinha desaparecido, aquela máscara impassível havia explodido com a intensidade que apertava o maxilar.

Eles iam mesmo fazer aquilo, Reilly concluiu.

Surpreendente. As escolhas na vida de Reilly eram baseadas em dados precisos do que deveria, teria que ou do que era melhor não fazer. Com certeza, fazer sexo daquela maneira estava na última categoria... e, mesmo assim, não pretendia deter nada.

Porém, fariam aquilo com segurança – embora não sobre uma cama. Aquela mesa estava servindo muito bem. Mas havia coisas que ela precisava fazer primeiro. Descendo o corpo, deslizou as mãos até... a cabeça de Veck caiu para trás.

– Caaara...

Perfeito: o pênis rijo era ainda maior do que imaginava e latejava contra a palma de sua mão...

O som da campainha ecoou, alto como um tiro. E, mesmo assim, por um momento, ela não conseguiu compreender o que era aquele barulho ou por que deveria importar-se com ele. Veck recuperou os sentidos primeiro.

– Pizza.

– Que p...?

Com o pensamento rápido e lógico, ele estendeu a mão e apagou as luzes para que o entregador da pizza de calabresa com salame não assistisse ao show na cozinha. Então, com mãos eficientes, colocou a camisa dela de volta, puxou a saia para baixo e começou a arrumar as próprias calças, para que não ficasse uma tenda de circo.

– Vou cuidar disso – disse ele com uma voz equilibrada. Como se nada tivesse acontecido. Nada.

Enquanto ele foi até a porta da frente, Reilly sentou-se lentamente, a cabeça não parava e o corpo tremia. Segurando a blusa, percebeu que a volta ao normal repentina fê-la sentir-se totalmente fora de controle. Em seguida, ela saiu da mesa e os papéis do caso Barten caíram no chão.

A chuva de folhas soltas formou uma espécie de tapete aos seus pés e foi o espelho exato que precisava para ver tudo com clareza: do outro lado da cidade havia uma família de luto pela filha que sabiam ter perdido, e, em vez de concentrar-se na dor deles e em seu trabalho... estava esfregando-se num homem que não tinha nada a ver com ela.

Não poderia existir um conflito de interesses maior. Serviria de exemplo num livro didático. Mexendo nos botões da camisa, fechou-os rapidamente e, então, inclinou-se para pegar as cópias do relatório. Quando o cabelo caiu sobre o rosto, perguntou-se onde estaria seu elástico.

Quem poderia saber?

Colocando os fios atrás das orelhas, juntou as impressões com cuidado, reordenou as páginas e separou tudo em duas pilhas – a dela e a de Veck. Separado era melhor.

Ela tinha enlouquecido?

Vindo da porta da frente, ouviu um burburinho de palavras de agradecimento, a porta fechou-se em seguida e passos pesados trouxeram Veck de volta à cozinha.

Levantando-se rapidamente, colocou as duas pilhas de papéis sobre a mesa e manteve os olhos sobre elas. Não conseguia olhar para Veck. Simplesmente não tinha forças para aquilo no momento.

– Acho melhor você ir – sua voz não soou bem, mas ela não se sentia bem mesmo.

– Certo. Vou chamar um táxi.

Droga. A moto dele estava na delegacia, não?

Após soltar um palavrão em voz baixa, murmurou: – Está tudo bem. Posso levá-lo...

– Não, um táxi é melhor.

Ela assentiu e acariciou a primeira página do relatório... onde indicava os principais dados de Sissy e a data de seu desaparecimento.

– Vamos verificar tudo isso amanhã no escritório.

– Sim – quando ele vestiu o casaco, o som macio do tecido foi mais alto que a campainha. – Sinto muito.

Ela cruzou os braços sobre o peito e assentiu outra vez.

– Sim, eu também. Não sei o que deu em mim.

Mas sabia muito bem o que aconteceria se o jantar não tivesse chegado bem na hora. Momentos depois, ele foi embora e fechou a porta tão silenciosamente que não se fez som algum. Quando finalmente olhou por cima do ombro, tudo o que viu foi a pizza no balcão. Certo, como se fosse comer alguma coisa. A caixa foi direto para a geladeira.

Saindo da cozinha, passou pela mesa e encontrou sua meia-calça atrás de uma cadeira. Seu elástico de cabelo estava no chão perto do arco que dividia os ambientes, já dentro da pequena sala de jantar. Ao inclinar-se para pegá-lo, ficou frente a frente com as compras da Victoria’s Secret e percebeu que seu sutiã ainda estava beeem fora do lugar. Deixou as sacolas ali e resolveu aquele pequeno problema com alguns puxões e vários palavrões. Enquanto aproximava-se das escadas, decidiu que usaria sua velha lingerie de algodão de sempre para ir trabalhar no outro dia. Era isso, muito obrigada.


CAPÍTULO 12

 

– Pergunta. Mesmo se não quebrar nada para entrar, ainda é considerado invasão de domicílio?

Adrian soltou essa pequena pérola assim que assumiram forma em frente à porta de entrada da casa de Thomas DelVecchio Jr. – e, se considerassem tudo o que ele havia dito até hoje, sabiam que o anjo poderia ter soltado um comentário muito pior.

Jim nunca passou tanto tempo em sua vida desejando protetores e fones de ouvido. Mas pelo menos o bastardo não tentou o rap.

– E aí? – Ad disse.

– Olha só, nós nem sequer existimos – Jim murmurou. – Então, você pode alegar que nem estamos aqui de verdade.

– Ótimo argumento. Acho que é legal.

– Como se o contrário o incomodasse.

A casa era decorada ao estilo de Jim: funcional, nada de especial, muito espaço vazio. O problema? Poucos itens pessoais, e precisavam de algum objeto feito com um pouco de metal. De preferência ouro, prata ou platina. Se conseguissem algum objeto com impressões suficientes de Veck, poderiam usá-lo como ponte para entrar no cérebro do cara remotamente: de acordo com Eddie, era arriscado demais fazer isso pessoalmente. Não com Devina por perto.

– Vamos nos separar – disse Jim. – Vou examinar o andar de cima.

Quando Ad e Eddie espalharam-se, Jim subiu as escadas de dois em dois degraus. O quarto principal ocupava metade do andar. Claro que essa afirmação soa mais impressionante do que a realidade, pois a metragem total não passava de setenta metros.

– Meu Deus, quanta coisa, hein amigo? – murmurou.

Não havia nada no quarto além de uma cama grande e uma porcaria de mesa de cabeceira com um abajur sobre ela. Nada de despertador – provavelmente o cara usava o celular para isso. Nada de telefone fixo, mas para que se precisava de um? Havia uma TV de tela plana fixada na parede, cujo controle remoto encontrava-se entrelaçado nos lençóis.

Havia algumas roupas sujas num cesto de plástico no canto, meias e cuecas transbordavam pelos lados como se a coisa babasse algodão preto. Abriu o armário... e havia camisas penduradas nos cabides, que era bem melhor do que a mala que Jim usava há anos para guardar suas roupas. Atrás da porta, havia alguns cintos com fechos de metal, mas tinha de haver algo melhor para que Jim pudesse usar.

Foi até o banheiro. Todas as luzes apagadas, mas o cara não usava cortinas, então havia bastante iluminação vinda da rua. Assim que entrou no cômodo pequeno e azulejado, sentiu algo forte em sua nuca, como se formigas rastejassem sobre a pele.

Devina.

– Onde você está? – disse, dando uma pequena volta ao redor de si. – Onde diabos você está?

O demônio esteve ali, podia sentir sua presença no ar, como o mau cheiro que exala de uma grande lixeira, mesmo depois de ter sido esvaziada. Aquilo dava alguma credibilidade à revelação de Devina no restaurante.

Quando se voltou para a pia, franziu a testa. O espelho estava coberto com uma toalha e o formigamento em sua nuca aumentou quando estendeu a mão e puxou o tecido felpudo.

Nada, a não ser um armário de remédios dos anos 1980 embutido na parede. Mas o vidro frontal estava totalmente contaminado. Será que ela passou pelo objeto de alguma maneira? – perguntou-se. Recuou no mesmo instante em que as pontas do dedo fizeram contato com a superfície espelhada. O armário de remédios estava gelado.

Droga, Veck sabia que alguma coisa estava atrás dele, não? Por que cobriria a coisa? A questão era: até onde o demônio havia chegado dentro dele?

– O que fez com ele, vadia?

Recolocando a toalha, Jim abriu as gavetas, verificou o desodorante, o tubo de pasta de dente extra e o cortador de unhas. Ei! Talvez aquilo funcionasse. Só que dificilmente o objeto teria uma conexão emocional com... Uma luz estendeu-se pela frente da casa, atingindo a janela onde Jim estava e lembrando-lhe que não se preocupara em ficar invisível. Fazendo o corpo desaparecer, olhou pela janela. Na calçada em frente à garagem, Veck saiu do táxi amarelo.

Jim atravessou o quarto principal e desceu as escadas, só seria percebido se alguém sentisse a brisa que seus movimentos produziam. Na cozinha, viu que Ad e Eddie também tinham ficado invisíveis, e os três esperaram juntos, formando uma pequena fonte de calor no canto do cômodo.

Ela ainda está nele – disse em pensamento aos seus amigos.

Posso senti-la daqui – Eddie respondeu.

Na entrada da casa, a porta foi aberta, fechada e trancada. Em seguida, passos pesados aproximaram-se de onde eles estavam.

– Mas que... droga...

As maldições continuaram enquanto Veck entrava na cozinha, jogava as chaves e arrancava a jaqueta. Em seguida, foi até a geladeira e pegou uma cerveja. Tirou a tampa e bebeu com vontade, era evidente que tivera uma noite difícil no trabalho.

De repente, o cara ergueu a cabeça, apoiou a cerveja e olhou diretamente para onde os três estavam. Ele não deveria ser capaz de senti-los, muito menos de vê-los. Nenhum deles moveu-se. Nem mesmo Veck. E foi nesse momento que Jim olhou para o chão de linóleo atrás do detetive... e notou que o cara projetava duas sombras.

Única fonte de luz? Duas projeções em sentidos opostos sob seus pés?

Em silêncio, Jim apontou para o chão e seus colegas assentiram.

Veck estendeu o braço e tocou um interruptor, iluminando melhor o ambiente. Em seguida, ele olhou ao redor.

– Puta... que... pariu.

Obviamente, esse era o mote da vida daquele cara e, se Ad não se encorajasse a soltar a voz, Jim consideraria cantarolar um pouco daquela música também.

Veck balançou a cabeça e voltou para sua cerveja, tomando o que restava de uma vez só. Deixou a garrafa vazia sobre o balcão, pegou mais duas na geladeira e andou até a sala. Destino: sofá.

Jim e seus amigos foram atrás dele, mas mantiveram distância. Veck era intuitivo ao extremo ou contaminado o suficiente para ter um radar que percebesse a presença dos anjos. Conhecendo a sorte que tinha, tratava-se da última opção.

O detetive retirou as armas para se sentar: removeu uma bela automática e uma faca. Em seguida, retirou o distintivo brilhante da polícia, prata e dourado. O homem segurou a coisa sobre a palma da mão em formato de concha por um tempo. Olhava como se fosse uma bola de cristal... ou talvez um espelho onde tentasse ver a si mesmo.

Deixe isso de lado, cara – Jim pensou. – Termine as cervejas, deite um pouco e tire uma soneca. Prometo que devolvo quando terminar.

Veck seguiu as instruções e colocou o distintivo com seu nome e número de registro na polícia junto às armas, bebeu as cervejas uma seguida da outra e recostou-se nas almofadas. Seus olhos fecharam-se um momento depois. Levou um tempo para que as mãos relaxassem e caíssem para os lados, mas, em seguida, a respiração lenta e profunda confirmou o descanso – e a deixa para que eles pegassem o que precisavam e saíssem.

Jim estendeu a mão à altura da cintura e deu uma de cavaleiro Jedi com o distintivo, fazendo o objeto levitar e trazendo-o até ele ao longo da escuridão. No instante em que a palma de sua mão fez contato, sentiu o mesmo frio que sentira no andar de cima, a crueldade de Devina habitava no espaço entre as moléculas do metal.

O cuidado de Eddie parecia exagerado... até agora. Considerando a forte mensagem que o distintivo transmitia, não dava para ser pego de calças curtas ao atuar naquela tarefa.

Jim indicou a janela com a cabeça e, como uma névoa, os três desapareceram.

Do outro lado da cidade, no centro urbano de Caldwell, o Hospital São Francisco era um complexo que brilhava como uma das ruas de Las Vegas. Sob seus telhados de vinte estilos diferentes, vidas começavam e terminavam aos milhares a cada ano, a luta contra o Ceifeiro da Morte era travada por todos os médicos, cirurgiões e enfermeiras que ali trabalhavam.

Devina estava bem familiarizada com o local: algumas vezes, aqueles humanos de jalecos brancos e uniformes cirúrgicos precisavam de uma pequena ajuda para garantir que o trabalho fosse feito corretamente. E, geralmente, isso significava a morte, mas nem sempre.

O demônio entrou na ala de emergência pela porta frontal automática. Vestindo sua bela pele feminina, capturou todos os tipos de olhares vindos de pais e irmãos sentados na sala de espera. Era por isso que não pegava atalhos. Passar através de vidros, metais ou tijolos era eficiente, mas chato: adorava ser admirada. Cobiçada. Desejada. E os olhares ardentes das outras mulheres, todos aqueles olhares cheios de ódio e inveja? Melhor ainda.

Encontrar Kroner no labirinto de corredores, andares e unidades foi muito fácil. Estava há anos dentro dele, ajudando-o a aprimorar suas habilidades e dando suporte à sua obsessão. Já nasceu doentio, mas lhe faltava coragem para seguir os impulsos – e a impotência agiu a favor dela. Nada instigava mais a violência contra mulheres atraentes num louco como ele do que o próprio pênis murcho e fino.

A UTI que procurava estava sete andares acima, e ela gastou um pouco de tempo nos elevadores, caminhando, observando os uniformes das enfermeiras. Nada demais. Tecidos de algodão com péssimo corte que não realçavam nada na parte de cima e evidenciavam a flacidez da parte de baixo. Que diabos achavam que estavam fazendo com aquele visual?

Quando finalmente aproximou-se das várias portas duplas de metal, pegou uma carona com uma servente e um idoso sobre uma maca. O velhote estava apagado, mas a mulher não deu apenas uma olhada, foram várias. Sem dúvida, continuaria a observar se as portas não tivessem sido abertas no andar que precisava ficar. Lançou um sorriso sobre o ombro, saiu e não conseguiu deixar de rir um pouco.

Enfim, era hora de começar a trabalhar. Tinha a opção de assumir a forma de uma névoa e serpentear sobre o chão lustrado, mas isso causaria pânico demais. Ou poderia continuar invisível, o que era considerado uma falha de originalidade em sua cartilha: tinha passado séculos desfrutando da interação com os humanos, disfarçando-se entre eles, beliscando seus calcanhares e esfregando-se contra seus corpos – ou indo até mais além. Não havia motivo para desperdiçar a oportunidade de divertir-se um pouco naquela noite, mesmo trabalhando. Afinal, sua terapeuta estimulava-a a encontrar um equilíbrio na vida.

Ao chegar à unidade, atravessou um corredor cheio de fotografias de vários diretores de departamentos. Muito útil, como perceberia logo em seguida. Ela parou diante de várias, observando as características, os acessórios, os nomes e títulos, os jalecos brancos e as gravatas listradas ou roupas mais formais. Era como comprar uma roupa nova. E tinha seu serviço próprio de alfaiataria.

Virando numa esquina do corredor, olhou para os dois lados para certificar-se de que estava sozinha e, então, cuidou da câmera de segurança acima dela, enviando uma carga elétrica suficiente para desativá-la sem explodir.

Em seguida, assumiu a aparência e o jaleco branco do chefe da neurologia, um tal de dr. Denton Phillips. O disfarce foi um pouco decepcionante e flácido se comparado ao traje exuberante da bela morena. O homem tinha mais ou menos sessenta anos e, embora fosse um homem branco, arrogante, bem conservado, sentiu-se mal e feia. Ao menos era melhor do que realmente parecia, e era temporário.

Quando voltou ao corredor principal, caminhou como um homem e era ótimo ver o respeito e o medo nos olhos dos funcionários pelos quais ela passava. Não tão divertido quanto a luxúria e a inveja, mas agradável mesmo assim.

Não precisava perguntar onde Kroner estava. Era muito fácil de encontrá-lo – e não ficou surpresa ao se deparar com um policial uniformizado sentado do lado de fora do quarto. O homem levantou-se.

– Doutor.

– Só vou levar um minuto.

– Fique o tempo que precisar.

Não era bem assim... Ela tinha que trabalhar rápido. Não fazia ideia de como o dr. Denton Phillips realmente era e não havia como ter certeza se a altura estava correta. Isso acontecia quando tudo o que se tinha era uma foto para servir de molde: aquele não era um bom momento para encontrar quaisquer colegas que o conhecesse bem – ou pior, o homem em si.

A UTI onde Kroner estava tinha paredes de vidro com cortinas, era possível ouvir o silvo do equipamento médico que o mantinha vivo. Deslizou a porta, empurrou o tecido verde de um biombo e entrou.

– Você está péssimo – ela disse com voz masculina.

Ao caminhar até a cama, deixou de lado a aparência do bom doutor e mostrou-se como a bela mulher que Kroner tinha conhecido há dez anos.

Havia tubos entrando e saindo pela boca e pelo nariz, e os fios emaranhados que saíam de seu peito davam-lhe a aparência de uma central telefônica. Muitos esparadrapos de gaze branca sobre a pele cinza. Muitos hematomas. E seu rosto parecia bexiga de festa, todo vermelho e brilhante, esticado pelo inchaço.

Aquele não era o fim que ela tinha planejado e no qual havia trabalhado. Era para DelVecchio ter cedido e matado o desgraçado antes mesmo de Heron ficar sabendo qual era a próxima alma. Infelizmente, seu cordeiro sacrificial louco e pegajoso tinha sido abatido por outra pessoa.

Pelo amor de Deus, era óbvio que não sobreviveria. Ela não era um médico – apenas interpretava um de vez em quando –, mas só aquela palidez já a fez pensar em funerais.

No entanto, ainda não era tarde demais para o bastardo. E, após esse deslize, não correria mais nenhum risco de perder essa rodada. Hora de tornar-se um pouco mais agressiva, especialmente se pensasse no acordo que tinha selado com Heron.

– Ainda não é sua hora – ela inclinou-se sobre a cama. – Preciso de você.

Fechando os olhos, acomodou-se sobre o corpo do homem, cobrindo-o por completo e, em seguida, infiltrou-se dentro dele através de cada poro que havia. O poder inato nela preencheu o vazio, reenergizou Kroner. Ao puxá-lo da espiral da morte, ela curou-o e deu-lhe forças ao mesmo tempo. E pensar que humanos confiavam em aparatos médicos. Tão rudimentar.

Os olhos de Kroner abriram-se conforme ela se retirava e reassumia sua forma. Então, ele encarou-a. Um brilho amoroso surgiu em seu olhar. Patético, mas útil.

– Viva – ela ordenou –, e nos veremos em breve.

Ele tentou acenar com a cabeça, mas havia muitos acessórios de entubação em sua garganta. Contudo, cumpriria a ordem. Quando ela olhou para o dispositivo de monitoramento, a frequência cardíaca já tinha alcançado estabilidade e sua pressão arterial estava regulada. O nível de oxigênio saiu de setenta e foi para noventa.

– Bom menino – ela disse. – Agora, descanse.

Erguendo a mão, colocou-o em um sono profundo e restaurador e, em seguida, reassumiu a imagem do bom e velho dr. Denton.

Entrar, sair, partir.

Saiu da sala envidraçada, acenou para o guarda e caminhou pelo corredor, passando por bajuladores e puxa-sacos que quase se ajoelhavam enquanto passava. O que era agradável. Ao ponto de ficar tentada a desfilar pelo hospital por um tempo, apenas para sentir melhor a experiência de ser aquele homem.

Mas não podia, a última coisa que precisava era encontrar alguém que realmente o conhecesse. E, mais importante, tinha um compromisso com a terapeuta bem cedo no outro dia e ainda tinha que escolher o que vestiria – isso poderia levar horas. Motivo pelo qual precisava de uma maldita terapia. Hora de ir.


CONTINUA

CAPÍTULO 7

 

Ao meio-dia, Reilly deixou a delegacia a pé e seguiu para o centro da cidade. O dia estava glorioso, com um sol de abril tão radiante e quente que afugentava aquela sensação dos doze graus exibidos nos termômetros. Mas a oficial não era a única que se beneficiava com o clima. Havia uma multidão nas calçadas e atravessando as faixas de pedestres, atrapalhando o trânsito, ao passarem com refrigerantes e sorvetes nas mãos; muitos comiam alguma coisa à beira de uma fonte ou sentados num banco do parque. Após seis meses de escuridão gelada, o Estado de Nova York ansiava por algum sinal de que o inverno realmente estivesse indo embora... E aquela bela hora do almoço não seria desperdiçada.

Aparentemente, Reilly estava no intervalo do trabalho, assim, poderia colocar a cabeça em ordem antes de ver Veck outra vez. Porém, seus passos tinham um propósito e uma direção aos quais ela recusava-se prestar atenção.

O Shopping Galeria era um dos projetos de revitalização do centro, mas, ao contrário de muitos outros, este realmente deu certo. Com uma grande loja de departamentos e uma grande livraria, os quatro quarteirões de prédios dos anos 1920 tinham sidos interditados, liberando apenas a passagem de pedestres. Era um atrativo que tinha revigorado o local e tornado-se o refúgio favorito de milhares de funcionários de escritório, assim como Reilly.

Contudo, diferentemente de suas colegas, era a primeira vez que andava pelas diversas lojas daquele centro comercial... quando parou em frente a uma delas, atraída pelo brilho rosa que irradiava do vidro. Oh, não. De jeito nenhum. Aquilo não era sua... Uma mulher saiu balançando duas grandes sacolas com as mãos e com um sorriso de orelha a orelha.


– Liquidação! – disse a Reilly. – Oba!

Sua voz saiu tão alta e estridente que parecia ter respirado hélio. Mas talvez fosse por usar um corpete embaixo do casaco – ao menos era o que parecia. Enfim, Reilly balançou a cabeça; liquidação ou não, não era o tipo de coisa que ela... Já tinha entrado na loja.

Maldição. Nunca tinha visto tanta roupa íntima num só lugar em toda sua vida.

O estilo Victoria’s Secret não é para quem tem problemas cardíacos... ou um traseiro grande – ela pensou, perguntando-se há quanto tempo, exatamente, não aparecia na academia. Desde o ensino médio. Não... Talvez tenha sido desde o fundamental.

Cara, toda aquela renda intimidava. Assim como as imagens tratadas das modelos expostas em toda parte, de tamanhos bem maiores que o natural. E, para piorar as coisas, o lugar estava lotado de mulheres que não eram bem do tipo de Reilly. Eram garotinhas com seus vinte e poucos anos, pegando tangas, sutiãs de bojo, peças de tamanhos mínimos e outras coisas. Mesmo os pijamas ou moletons pareciam estar destinados a ser arrancados com os dentes por algum garanhão...

– Oi, posso ajudá-la?

Reilly estremeceu.

– Ah...

A vendedora era uma linda afro-americana que, provavelmente, ficava ótima em cada peça pendurada na loja ou dobrada sobre as mesas. Comparando-se a ela, Reilly sentiu-se uma coisa esquisita e sardenta do tipo que pede para fazer tudo no escuro.

– Estou bem, obrigada...

– Estamos em liquidação.

– Sim, vi uma moça saindo com algumas sacolas – o que, considerando a pequenez das roupas ali, significava que a garota tinha comprado quinhentas, talvez seiscentas, peças daquilo tudo.

– Está procurando por alguma coisa em particular?

Reilly estava prestes a balançar a cabeça recusando, quando sua boca abriu-se por conta própria.

– Quero sentir-me mulher, e não uma oficial de polícia. Eu apenas... estou cansada de mim e do meu trabalho neste momento. Entende o que quero dizer?

Oh, droga, o que ela estava dizendo?... Só uma observação: aquilo não tinha nada a ver com Brittany, que se escreve Britnae.

A vendedora sorriu.

– Entendo. Você veio ao lugar certo.

Reilly olhou para um maiô asa-delta com estampa de tigre e não teve tanta certeza disso.

– Acho que nunca comprei lingerie antes... Nada que escolhesse com cuidado, meus sutiãs são do tempo da Guerra Civil. Talvez de alguma guerra do século XVIII.

– Bom, meu nome é Ralonda – estendeu a mão – e posso cuidar de você.

– Reilly. Quero dizer... Sophia – quando apertaram as mãos, ela murmurou: – Você tem algum tipo de formação em psicologia, por acaso?

– Na verdade, é isso que eu vou estudar na Universidade de Nova York, no campus de Caldwell.

– Deus, você é perfeita.

– Imagine – Ralonda sorriu outra vez, exibindo seu sorriso. – Vamos tirar suas medidas e depois vou trazer algumas coisas.

Uma hora e US$ 673,43 depois, Reilly saiu com três sacolas cheias de coisas. Quando chegou à porta, de cabeça erguida, viu-se sorrindo para as duas garotas que espiavam as vitrines.

– Eles estão em liquidação – disse a elas. – Melhor entrar. E chame por Ralonda... Ela é a melhor.

Elas entraram correndo, e Reilly caminhou até a delegacia com uma curiosa sensação de leveza. Talvez o sutiã de bojo cereja com calcinha combinando que acabara de vestir tivesse propriedades antigravitacionais, erguendo não apenas seus seios mas também o corpo inteiro. Fazia com que se perguntasse o que os astronautas usavam por baixo de seus trajes. A horrível imagem de um astronauta velhaco veio-lhe à mente. O cara usava apenas um minúsculo conjunto cor-de-rosa.

Deu-se conta de que entrar na delegacia com aquelas sacolas da Victoria’s Secret e um andar leve não passaria a mensagem certa... Especialmente agora que seria a parceira de Veck no próximo mês. Esquivando-se pela lateral da delegacia, aproximou-se de seu carro e escondeu as compras no porta-malas.

Desta vez, quando entrou pelos fundos e passou pelo guarda na recepção, estava um tanto constrangida, pensando se alguém poderia saber o que usava por baixo das roupas. Porém, como sempre, ninguém prestou nenhuma atenção nela. Apesar dos muitos talentos dos vários membros da polícia, parece que visão de raio X não era um deles.

A primeira parada foi seu escritório. Verificou rapidamente o correio de voz e os e-mails. Em seguida, pegou um bloco de notas e seguiu para o Departamento de Homicídios. E, como se pode imaginar, a confiança nas propriedades ocultas do algodão e da Lycra acertou em cheio a todos ali quando abriu a porta do departamento. Todos olharam para cima, inclusive Veck.

Certo. Agora entendia por que as pessoas odeiam aqueles sonhos em que andam nuas numa sala cheia de pessoas. Nunca tivera um pesadelo assim antes e, enquanto colocava o bloco de notas em frente aos seios, não estava com muita pressa de vivenciá-lo.

As pessoas apenas acenaram e cumprimentaram, e ela acenou e cumprimentou de volta enquanto dirigia-se até Veck. O cubículo ao lado dele estava praticamente vazio, havia apenas um computador e um telefone. Quando Reilly sentou-se, manteve o caderno contra o peito.

Veck encostou-se na cadeira fazendo com que seu peito parecesse enorme contra a camisa branca.

– Tudo certo na sua sala?

– Sim. No que vamos trabalhar hoje?

Ele fez um gesto com a cabeça indicando a tela do computador.

– Encontrei alguma coisa para passar o tempo. Estava esperando você chegar... Pensei em fazer um reconhecimento de campo e consultar outra vez algumas testemunhas.

– Ótimo. Qual é o caso?

– Digo no caminho. Importa-se se usarmos o seu carro? Só tenho moto.

– Ah... – com certeza não haveria motivo algum para ele olhar no porta-malas. – Claro. Sim. Tudo bem.

– Obrigado, oficial. Ou deveria chamá-la de detetive nas próximas semanas?

Quando se levantaram juntos e ela viu-se com o rosto na altura do peitoral de Veck, sabia que era hora de sufocar sua Britnae interior.

– Só Reilly está bom – respondeu.

Por um momento, os olhos de Veck baixaram, e ela poderia jurar que ele murmurou “com certeza está”.

Sem dúvida a lingerie nova fazia-a ouvir coisas.

– Espere um minuto... esse não é um caso antigo de homicídio.

Ao pararem num sinal vermelho, Veck recebeu um olhar sério de sua nova parceira... o que foi muito excitante.

Endireitando-se no banco e rezando para que sua ereção não explodisse antes de chegarem ao local de destino, fez um esforço para manter a voz equilibrada e sem qualquer sinal de rouquidão. Porém, pelo amor de Deus, se aquilo fosse um indício de como seriam as próximas quatro semanas... estava com problemas.

– Tecnicamente, é uma desaparecida...

– Não existe “tecnicamente” nesse caso. Não há um corpo.

– Posso terminar?

– Desculpe – quando o farol ficou verde, ela pisou no acelerador. – Mas tenho um pressentimento de onde isso dará, e você não chegará nem perto do caso Kroner.

Veremos – ele pensou.

– Recebi um telefonema do FBI esta manhã. Estão trabalhando no caso dessa garota desaparecida e queriam saber se existe mais alguma novidade. Respondi que ficaria feliz em examinar o que já temos sobre...

– O FBI pode fazer isso sozinho...

– Não há motivo para não ser amigável. Ou para concluir que há alguma ligação com Kroner.

Ela franziu a testa.

– O que o FBI acha?

– Não perguntei. Talvez seja interestadual – pois, talveeez, aquilo fizesse parte do caso Kroner... e foi por isso que ele não perguntou nada.

– Só para que fique bem claro: se houver qualquer ligação com o caso Kroner, estamos fora.

– Certo – colocou a mão no bolso da frente do casaco e pegou um relatório de três páginas. – Cecília Barten, dezoito anos, desaparecida há apenas três semanas. Vista pela última vez saindo de casa para ir ao supermercado na avenida Union. Câmeras de segurança do estacionamento e da saída da loja não gravaram nada, graças a uma sobrecarga de energia.

– E por onde vamos começar?

– Pela casa dos pais. Quero verificar se deixaram passar alguma coisa. A mãe dela está esperando por nós... Vire à direita aqui.

Reilly seguiu as placas e virou, entrando num bairro não muito longe de onde Veck morava. Ali as casas eram um pouco maiores e mais bem conservadas. Não havia carros estacionados na rua, e Veck imaginou que não haveria grandes caminhonetes ou sedãs guardados naquelas garagens. Não tanto quanto minivans... Porém, naquela região, moravam vários casais com filhos, então, talvez estivesse errado.

– Certo – ele murmurou, olhando as casas – 491, 493, 495... aqui.

Reilly estacionou no meio-fio em frente ao número 497. Depois de desligar o motor, saíram do carro...

Logo atrás deles estacionou uma suv dourada com insulfilme e três agentes federais desceram. Os homens estavam à paisana e, quando saíram, o motorista de cabelo loiro escuro exibiu suas credenciais.

– Jim Heron. Conversamos pelo telefone. Estes são meus parceiros, Blackhawk e Vogel.

– Thomas DelVecchio.

Quando apertaram as mãos, Veck sentiu uma energia estranha e recuou.

– Esta é a oficial Reilly. Quer entrar conosco?

O agente estreitou os olhos ao observar a casa.

– Sim. Obrigado. Meus parceiros vão esperar aqui.

Boa ideia. Seria difícil que todos coubessem naquele hall minúsculo. Enquanto passavam pela entrada de tijolos à vista, uma bandeira balançava casualmente com a brisa da primavera. Ela tinha um tom pastel e um desenho em formato de ovo estampado, metade cor de lavanda, metade cor-de-rosa e com uma faixa amarela ao meio.

A Páscoa ocorrera no fim de março, bem na época do desaparecimento da moça. Sem dúvida, a bandeira fora esquecida ali... ou talvez a família rezasse para que Cecília Barten ressuscitasse a partir daquilo. De qualquer maneira, a ruína tinha atingido aquela casa, mesmo que ainda restassem quatro paredes e um teto: a garota estava morta. Veck sentia em seus ossos, mesmo não sendo do tipo que sente coisas.

Campainha... espera... espera...

Veck olhou para Reilly. Parecia triste ao se inclinar para trás e observar as janelas do segundo andar... Será que a oficial estava tentando descobrir qual delas correspondia ao quarto da garota? Atrás dela, Heron passava uma excelente impressão de uma estátua: grande e imóvel. Seus olhos estavam focados na porta da frente, como se pudesse enxergar através das paredes.

Veck franziu a testa. Havia algo estranho no cara. Contudo, não era uma questão de competência. O agente irradiava uma precisão militar sobre tudo, desde a forma com que exibiu suas credenciais até o jeito que andava e como se mantinha imóvel. Ainda assim... o que será que...

A porta abriu com um rangido suave, e a mulher do outro lado parecia que não dormia nem comia direito há muito tempo.

– Bom dia, senhora. Sou o detetive DelVecchio. Estes são a oficial Reilly e o agente Heron.

Todos mostraram suas credenciais.

– Por favor, entrem – ela recuou e fez um gesto com o braço. – Posso servir alguma coisa?

– Não, obrigado, senhora. Agradecemos por dispor de seu tempo para conversar conosco.

A casa estava impecável, com cheirinho de desinfetante e lustra-móveis. O que sugeria que a senhora Barten limpava as coisas em momentos de tensão.

– Será que poderíamos conversar na sala de estar? – ela disse.

– Por favor.

A sala estava cheia de lembranças e bens de família, com papel de parede florido e dois sofás lisos. Quando a senhora Barten sentou-se numa poltrona e todos tomaram um lugar no sofá, Veck observou bem a mulher. Estava saindo da casa dos quarenta, com muitos cabelos loiros puxados para trás e enrolados num coque. Tinha um corpo magro e alongado... O peso que perdera recentemente realmente lhe fazia falta. Nada de maquiagem e, mesmo assim, era bonita. Porém, tinha um olhar vazio.

Droga, por onde começar?

– Senhora Barten – Reilly interrompeu –, pode nos contar sobre sua filha? Coisas que ela gostava de fazer ou nas quais era boa. Lembranças diversas.

Encarando sua nova parceira, Veck teve vontade de gesticular um “obrigado” com a boca. Especialmente quando a tensão deixou os ombros da mulher e o esboço de um sorriso surgiu.

– Sissy era... é... – ela se corrigiu. – Por favor, me desculpem. Isto é difícil.

Reilly aproximou-se da poltrona.

– Leve o tempo que precisar. Sei que pedi muito.

– Na verdade, ajuda quando falo dela. Faz com que me sinta melhor.

Numa voz hesitante, que gradualmente ganhou ímpeto, as histórias começaram a surgir, pintando o retrado de uma garota muito inteligente, boa e um pouco tímida, do tipo que nunca se envolveria em problemas se pudesse evitá-los.

Cecília Barten foi assassinada – Veck pensou. Não era um daqueles relatos de fuga motivados por drogas ou por causa do ciúmes de um namorado abusado e descontrolado. Era uma família estável. Uma jovem feliz. Futuro brilhante. Até que um carro bateu contra sua vida e levou tudo.

– Importa-se que eu olhe as fotos que estão ali? – Veck disse quando houve uma pausa na narrativa.

– Por favor.

Levantou-se e foi até uma das estantes embutidas ao lado de cada uma das janelas arqueadas que davam para a rua. Dois filhos. A outra era a irmã mais nova. Havia fotos de festas de formatura, aniversários, passeios no campo e jogos de hóquei... reuniões de família e casamentos... Natais.

Olhava com admiração tudo aquilo. Cara, aquilo era o melhor que a vida “normal” tinha para oferecer e, sem razão alguma, pensou em como, enquanto ele crescia, sua família não conseguiu ter nada daquilo... momentos felizes e fotografias para exibi-los. O tempo que passou com sua mãe não dava vontade de compartilhar com ninguém. Aliás, não era nada que quisesse lembrar.

Ele estendeu a mão e pegou uma das fotos 5×7. Cecília estava em pé ao lado de seu pai, braço estendido sobre o dele e com uma das mãos descansando sobre as dele. Era muito parecida com sua mãe, apenas um pouco com seu pai. Mas a linhagem era clara.

–... ligou para casa? – Reilly disse.

Veck voltou à conversa.

– Isso – a senhora Barten disse. – Ela saiu por volta das nove horas. Eu tinha acabado de operar meu pé... Corrigi uma deformação no dedo... – por um momento, a mulher parecia ruminar alguma coisa em pensamento, e Veck apostava que era o quanto desejava voltar no tempo, quando suas maiores preocupações eram encontrar sapatos confortáveis. Mas, talvez, também estivesse se culpando. Ela balançou a cabeça e voltou a se concentrar.

– Eu estava imobilizada. Dei a Sissy uma lista de compras e... ela me ligou do mercado. Não sabia se eu queria pimenta verde ou vermelha. Eu queria as vermelhas. Estava fazendo um... – as lágrimas vieram e ela piscou com força para afastá-las. – De qualquer maneira, essa foi a última vez que alguém teve notícias dela.

Veck voltou a colocar a fotografia na prateleira. Quando foi sentar-se ao lado de Heron outra vez, franziu a testa. O cara olhava para a mãe da vítima como se ele fosse uma filmadora, como se estivesse lendo e registrando cada contração do olho ou da boca que ela fazia enquanto falava.

Quando o radar de Veck começou a soar feito louco, não ficou claro o motivo... Seria a garota desaparecida, ou sua mãe triste e adorável, ou aquele homem imenso que parecia ter a capacidade de incendiar alguma coisa com aquele olhar?

– Posso perguntar uma coisa? – Veck disse. – Ela teve algum namorado?

Com o canto do olho, pôde ver Heron apertando as coxas com força.

– Não. Tinha alguns amigos, claro, e um encontro em bailes de formatura aqui e ali... mas nada sério. Ao menos, não que ela tenha me contado... e costumava ser sincera sobre o que se passava em sua vida.

Aquelas mãos relaxaram de repente.

– Quer perguntar alguma coisa? – Veck disse ao agente.

Houve um longo silêncio. Pouco antes de tudo ficar realmente estranho, o cara disse com uma voz baixa e profunda: – Senhora Barten, vou trazê-la de volta para casa. De uma maneira ou de outra, vou trazê-la de volta para a senhora.

Veck recuou, pensando: Droga, não faça assim, cara.

– Ah, o que ele quer dizer é...

– Está tudo bem – a senhora Barten apertou a garganta com uma das mãos. – Não estou me enganando. Sei que ela está... que não está mais entre nós. Uma mãe sente o frio no coração. Só queremos saber o que aconteceu e... providenciar um descanso adequado para ela.

– Vai tê-la de volta. Juro.

Agora, a senhora Barten soluçava... e por que não choraria? O cara parecia um guerreiro acostumado com a rotina da vingança, era mais um vingador do que um agente.

– Obrigada... Agradeço a todos vocês.

Veck olhou discretamente o relógio.

– Se me der licença, eu e minha parceira vamos nos dirigir ao supermercado. O gerente disse que sairia mais cedo hoje.

– Oh, sim, claro.

O agente Heron ajudou a senhora Barten a se levantar dando-lhe a mão.

– Seria incômodo se eu desse uma olhada no quarto dela?

– Claro que não... Vou levá-lo até lá – voltou-se para Veck e Reilly. – Se precisam ir agora, voltem sempre que precisarem.

– Obrigada – Reilly disse. – Faremos isso.

– E vamos sair logo por aquela porta – Veck murmurou.

Quando o agente Heron e a mãe da vítima chegaram às escadas, Veck parou no hall e observou os dois subirem juntos. Uma janela no andar de cima iluminava-os, o raio de luz solar atingia os dois rostos e agia como um farol para...

Espere um minuto.

Veck olhou para a sala de estar... de onde os raios dourados vinham do lado oeste. Impossível. Não poderia estar vendo aquele efeito de luzes em direções opostas: vinha da frente e dos fundos da casa.

– O que é isto? – Reilly disse suavemente.

Veck voltou a olhar para a escada. Heron e a senhora Barten não podiam mais ser vistos, e a luz tinha ido embora também, a janela não mostrava nada além de galhos de árvores atrás da casa e o claro céu azul sobre ela.

– Vou subir – disse à sua nova parceira. – Só por um minuto.


CAPÍTULO 8

 

Quando Jim seguiu a mãe de Sissy, sentiu-se muito oprimido. Num canto escuro de sua mente, sabia que precisava manter o controle diante de Veck, mas isso não aconteceria por muito tempo.

Virando-se no alto da escada, os sons da casa subiram a níveis de um heavy metal estridente. Tudo, desde o rangido sutil do chão acarpetado sob suas botas até a conversa suave que acontecia no saguão lá embaixo ou sua própria respiração soando forte atrás da garganta, tudo parecia gritar em seus ouvidos.

De repente, Veck apareceu atrás deles e fez um comentário rápido. Jim assentiu para o cara... e, imediatamente, esqueceu até mesmo que estava ali.

– O quarto de Sissy é por aqui.

Os três seguiram à direita e, quando a senhora Barten hesitou diante da porta fechada, Jim ergueu a mão para colocá-la em seu ombro... mas não conseguiu fazer contato.

– Prefere que entremos sozinhos? – ele perguntou.

A senhora Barten abriu a boca. Mas apenas assentiu com a cabeça.

– Não entro aqui desde... aquela noite. Está do jeito que ela deixou.

Naquele momento, o telefone tocou, e ficou evidente o alívio no rosto da mãe de Sissy.

– Vou atender. Fiquem à vontade para abrir as gavetas e o armário, mas se precisarem levar alguma coisa, poderiam me dizer o que é?

– Com certeza – Veck respondeu.

Assim que a mãe de Cecília apressou-se em descer as escadas e desapareceu no que Jim concluiu ser a suíte principal, ele abriu a porta... um cheiro maravilhoso. Entrando, fechou os olhos e tentou não se sentir um pervertido ao respirar fundo. Perfume. Loção corporal. Lençóis secos. Era... extraordinário. Mas ele não pertencia àquele quarto. Já tinha feito coisas que não deveriam sequer passar pela cabeça de alguém que entrasse num quarto como aquele... e a representação daquelas maldades estavam na tinta que cobria suas costas. Além disso, estava armado. E ainda havia aquela porcaria que fez com o demônio na noite anterior. Sentia-se sujo.


Enquanto Veck fazia o reconhecimento do quarto sozinho, Jim abriu os olhos e foi até uma estante modulada com escrivaninha embutida em frente à janela. A superfície plana e as prateleiras eram pintadas de branco, mas a cadeira era azul, combinando com as cortinas e o papel de parede listrado. Havia um tapete com franjas trançadas sobre a área acarpetada. Feito a mão. Tinha de ser.

Os livros enfileirados estavam em ordem e tinham uma temática bastante feminina. Gostava de Jane Austen, mas também havia uma prateleira inteira de Gossip Girls... provavelmente deixada ali desde que Sissy tinha treze anos. Algumas medalhas, vermelhas e azuis. Troféus. Sobre a mesa havia um notebook junto com dois livros, um sobre cálculo e outro sobre... trigonometria avançada? Hum. Sua garota era mais esperta que ele.

Havia também uma revista, Cosmopolitan, daquele mês. Tudo bem, a capa com título “orgasmo” em fonte gigantesca e cor rosa-choque não combinava exatamente com o resto daquele ambiente inocente de trabalhos escolares... mas ela estava crescendo, não estava?

Virando-se, foi até o pé da cama de solteiro. Agora sabia por que a mãe da garota não entrava ali. A colcha azul estava puxada para trás e os travesseiros ainda amassados, como se Sissy tivesse acabado de tirar uma soneca.

– Estou indo – Veck disse. O que fez Jim se perguntar há quanto tempo estariam naquele quarto.

– Vejo você em breve – disse Jim distraído.

– Entendido.

Quando ficou sozinho, a mão de Jim estremeceu ao estender-se para tocar os lençóis. Ao acariciar os objetos que sua pele tinha tocado, pensou em Devina e no que aquele demônio tinha feito com a garota... e com a família dela.


Adrian e Eddie estavam errados. Se queriam Jim concentrado na guerra, ali era exatamente o lugar onde precisava estar. Aquilo era motivação para vencer: Sissy nunca mais deitaria em sua cama. Não terminaria o artigo que estava lendo. E não mais lidaria com números. Nunca mais. Mas, ao menos, Jim poderia providenciar um lugar melhor para Sissy ficar enquanto não pudesse se juntar a seus pais e sua irmã por toda eternidade. E, então, faria Devina pagar mil vezes por tudo o que fez.

Na mesa de cabeceira havia um despertador branco, outra revista – desta vez era a In Touch – e o controle remoto de sua pequena televisão branca. Teve a impressão de que, mesmo fazendo faculdade, Sissy voltava aos fins de semana, e uma espiada em seu armário confirmou isso. Considerando o número de blusas, calças, saias e vestidos, não parecia que tudo aquilo tinha sido excluído da lista dos favoritos, mas que estava pronto para usar. Havia também vários sapatos no chão.

Deixou as gavetas da cômoda de lado, pois não sabia em qual delas guardava as... roupas íntimas. Provavelmente, nas duas primeiras, mas não correria o risco de confiar no chute. Já tinha assumido o papel de um mero observador ali, pois não tinha mais esperança em encontrar alguma coisa que o ajudasse a salvá-la. Deus era testemunha de que não havia nada na Terra capaz disso. Já ele queria apenas... estar perto dela.

Certo. Muito bem. Isto era o tipo de coisa com a qual Ad e Eddie preocupavam-se. Assim, percebeu que era hora de ir. Mais uma vez, não tinha noção de quanto tempo estava ali. Seria dois minutos ou duas horas, mas a última coisa que desejava era a mãe de Sissy batendo na porta para saber se ele estava bem ou se já tinha ido embora.

Não pegaria nada, mesmo sentindo a tentação de ficar com algum objeto, algo para se fiar em momentos difíceis... alguma coisa de Sissy. Contudo, a família já havia perdido demais e não tiraria mais nada deles.

Jim passou um último momento olhando ao redor e, então, obrigou-se a sair. No corredor, fechou a porta e ouviu. A mãe de Sissy estava no quarto ao lado, falando em voz baixa e embargada.

Desceu as escadas e esperou discretamente no hall onde ficava a porta da frente. Inclinando-se para o lado, olhou a sala de estar em direção às fotos ao longo das grandes janelas. A que mais lhe chamou a atenção – tanto que se aproximou dela – foi uma foto de rosto de Sissy. Ela não olhava para a câmera, mas para o lado, e não sorria. Parecia mergulhada em seus pensamentos, e a expressão em seu rosto não era a de uma menina, mas de uma... sobrevivente. Parecia ter uma vontade de ferro.

– Ela não fazia ideia de que a câmera a focava.

Jim endireitou-se e olhou para a mãe dela.

– Não?

A senhora Barten aproximou-se e pegou o retrato.

– Sempre sorria quando havia uma câmera por perto. Quando seu pai tirou esta, estava assistindo suas colegas de time jogarem... Praticava hóquei de campo. Tinha torcido o tornozelo e estava no banco... mas queria estar com elas – a mulher ergueu o olhar. – Era mais forte do que aparentava ser.

Quando seus olhos encontraram os de Jim, ele respirou fundo e pensou: Graças a Deus... isto a manterá sã até o momento em que eu conseguir salvá-la.

A senhora Barten inclinou a cabeça para o lado.

– Você é diferente dos outros.

Hora de ir.

– Sou como todos os outros.

– Não, não é. Nas últimas três semanas, vi mais oficiais, detetives e agentes do que em qualquer programa policial na TV que tenha assistido ao longo de toda minha vida – estreitou o olhar – Seus olhos...

Jim virou-se para a porta.

– O detetive DelVecchio entrará em contato...

– Quero te dar uma coisa.

Jim congelou com a mão na maçaneta e pensou – Má ideia – estava louco para aceitar qualquer coisa que ela oferecesse.

– Não precisa.

– Aqui.

Quando ele virou-se para dizer um “não, obrigado”, percebeu o toque daquelas mãos em sua nuca. Havia colocado em seu pescoço uma delicada corrente de ouro.

– Ela usava todos os dias. Encontrei em cima da pia do banheiro dela... Tinha tomado banho e esqueceu de colocar de volta... De qualquer maneira, fique com isto.

Pendendo na corrente havia um delicado pássaro feito de ouro. Uma pomba.

– Foi presente do pai no aniversário de dezoito anos. Fazia parte de um conjunto.

Jim balançou a cabeça.

– Não posso. Eu...

– Fique. Fará com que seus olhos continuem assim, nossa família precisa disso.

Depois de um momento, ergueu as mãos e substituiu os dedos da senhora Barten pelos seus. O colar e o pingente não pesavam nada. E mal cabiam em volta de seu pescoço. Mas seu dedo passava por ele como um sonho, mesmo o fecho sendo pequeno e suas mãos, enormes.

Quando baixou os braços, olhou para ela.

– Como estão os meus olhos? – disse ele com voz rouca.

– Desolados.


CAPÍTULO 9

 

O supermercado ficava a pouco mais de oito quilômetros de distância da casa, mas Reilly levou um bom tempo para chegar lá. Entre o trânsito e os faróis vermelhos, estava começando a achar que os dois passariam uma eternidade naquele carro.

Ou talvez o zumbido em sua cabeça fizesse parecer assim.

– No que está pensando? – Veck disse.

Apertou as mãos no volante e endireitou-se no banco do motorista.

– Se o caso de Cecília Barten estiver relacionado às vítimas de Kroner, teremos que deixá-lo. Está preparado para isto?

– Sim, estou.

Ao olhar para ele, percebeu que o maxilar de seu novo parceiro estava rígido e o corpo, todo tenso.

– Tem certeza? – porque ela não tinha.

– Sim, tenho.

Você é um filho da mãe teimoso que faz o que quer mesmo que isso contrarie uma ordem direta? Sim. Sou.

Assim que entrou no estacionamento e começou a caça por uma vaga, seu telefone tocou.

– Oficial Reilly. Uh-hum, sim... não é surpresa. Mesmo? Certo, e obrigada por me contar. Sim, mantenha-me informada.

Desligou e estacionou entre um carro prata antigo e uma caminhonete azul. Virando-se para Veck, disse: – Kroner está muito mal. Não há esperanças de que ele sobreviva.

O rosto rígido de Veck não expressou nada.

– Que pena. Talvez ele soubesse o que aconteceu.

– E saiu o resultado das análises feitas nas amostras que coletaram dele... Havia resíduos de saliva, mas as leituras não dão plena certeza quanto à fonte. Há semelhanças com pumas e lobos. Difícil dizer com certeza, mas a hipótese de ter sido um animal parece continuar ser a mais correta.

Ele assentiu e abriu a porta.

– Se importa se eu fumar antes de entrar?

Parece que estava tendo uma reação, afinal.

– Sem problema.

Saíram, e Veck foi até a parte traseira do carro, inclinando-se contra o porta-malas e tirando um Marlboro do maço... Um homem como ele poderia fumar outra marca? Quando ele acendeu o cigarro, Reilly esforçou-se para não pensar que suas calcinhas e seus sutiãs estavam separados de Veck apenas pela tampa do porta-malas.

Veck teve o cuidado de não exalar perto dela ou na direção em que o vento levasse a fumaça até a colega.

– Mau hábito – ele murmurou. – Mas ninguém vive para sempre.

– Verdade.

Encostando-se sobre o carro, ela cruzou os braços sobre o peito e olhou para o sol. O calor em seu rosto era uma bênção e fechou os olhos para apreciá-lo um pouco mais. Quando finalmente abriu os olhos outra vez, ficou chocada. Veck encarava-a e havia uma expressão em seu rosto... uma sugestão sexual. Ela tinha quase certeza de que estava deduzindo errado. Mas, em seguida, ele desviou rápido o olhar. Não era uma atitude comum quando se estava pensando em trabalho.

De repente, a temperatura primaveril aumentou e, agora, era ela quem o encarava. Bem, “flerte” parecia uma boa palavra para o que estava acontecendo.

Quando ele levou o cigarro aos lábios, sua boca se abriu e houve uma leve sucção, a ponta do objeto ficou alaranjada e os dedos indicador e médio aliviaram brevemente a pressão que faziam sobre o cigarro.

Oh, malditos sinos – ela pensou. Fumar era um hábito mortal e nojento, o qual ela não aprovava... Por isso, era perturbador perceber que todos os filmes ao estilo Casablanca faziam bem ao aproximar a câmera em longos closes em cenas como esta. Havia um toque erótico inegável em tudo aquilo. Especialmente quando a fumaça saía devagar de sua boca e projetava uma breve sombra em seus olhos azuis-marinhos e em seus cabelos escuros bem cortados.


Desviou o olhar rapidamente antes que ficasse presa ao...

– Então? – ele perguntou.

– Desculpe, então o quê?

– Perguntei o que achava.

Certo. Que tal responder assim: acho que todo o vermelho cereja que estou usando embaixo das roupas deformou o meu cérebro. Porque estou achando a ideia de subir em cima de você e montar feito uma vaqueira de chapéu na cabeça muito interessante.

– Preciso de mais informação antes de formar uma opinião – Então, que tal acender outro cigarro desses, garoto malvado, e arrancar as calças depois? – Oh, Deus.

– Você está bem? – ele disse, inclinando-se e colocando a mão livre sobre o braço dela. – Não comeu muito no café da manhã... Comeu alguma coisa no almoço?

Você está apoiado sobre as três sacolas do que fiz na hora do almoço, garotão.

– Sabe? – ela limpou a garganta. – Acho que devo comer alguma coisa.

E que Deus a ajudasse se seu cérebro cuspisse alguma coisa parecida com chantili sobre o corpo dele. Se isso acontecesse, pediria para ser transferida.

– Vamos entrar – ele disse, apagando o cigarro na sola do sapato.

Boa ideia. E já deixaria anotado: nada de tempo livre com seu parceiro. Nunca.

Aproximaram-se e passaram pelas portas automáticas, pela fila de carrinhos na recepção e entraram no supermercado propriamente dito.

Quando Veck parou e olhou ao redor, ela fez um gesto com a cabeça para a direita.

– O escritório do gerente é por aqui.

– Faz compras aqui?

– Esses estabelecimentos são praticamente todos iguais.

Enquanto caminhavam juntos, ele disse: – Devia conhecer este aqui de cor. Minha casa não fica longe.

– Então, faz suas compras aqui?

– Café e cigarros... bem saudável, não?

Ele parecia estar em ótima forma.

– Sempre se pode mudar de hábitos.

– Sabe? Eu parei por um tempo. Cigarros e cafeína.

– O que o fez voltar a consumi-los?

– Acertar aquele fotógrafo.

Aaah, então ele tinha emoções.

– Tem muito estresse em seu trabalho.

– Já foi fumante?

– Não, nunca bebi muito também. Não tenho muita inclinação para esses vícios.

Por outro lado, fazer compras poderia acabar se tornando um.

E este foi o último pensamento que teve sobre questões que não diziam respeito ao trabalho. Quando entraram no setor de atendimento ao cliente, colocou todas as distrações de lado, sua cabeça voltou a funcionar ao imaginar a filha da senhora Barten indo até a loja para ajudar sua mãe... O que deveria ser uma simples comprinha para abastecer a dispensa acabou tornando-se um pesadelo. Talvez por causa de Kroner.

Enquanto ela preparava-se para mostrar o distintivo ao gerente, pensou ser muito perigoso imaginar Veck ou mesmo aquele agente durão, Heron, arrancando a cabeça do cara. Mas nem um serial killer merecia esse tipo de justiça. E não ia se iludir: não seria uma surpresa descobrir Sissy na lista de vítimas de Kroner, e essa era a razão exata pela qual Veck estava interessado no caso. Mas Reilly jogava de acordo com as regras. Sempre tinha jogado, sempre jogaria. Entregaria o caso a De la Cruz assim que percebesse alguma relação com Kroner e daria um jeito de direcionar a atenção de Veck para outra coisa. Nem que isso matasse-o.

Quando Veck checou seu relógio outra vez, eram 16h30. O gerente falava devagar, e a gravação digital das câmeras de segurança levou um tempo para ser revista. Ainda havia uma empacotadora e dois funcionários que organizavam os carrinhos para entrevistar. Nenhuma informação nova, mas, caramba, ele e Reilly trabalhavam muito bem juntos.


Ela sabia exatamente quando tomar a frente e, assim como com a senhora Barten, tinha jeito para deixar as pessoas à vontade... O que significava que acabavam falando mais. Enquanto isso, ele observava o ambiente e avaliava todas as coisas que as pessoas não diziam, mas que demonstravam no semblante.

Do lado de fora do balcão de atendimento ao cliente, apertou a mão do gerente e, em seguida, Reilly fez o mesmo.

– Obrigada por seu tempo – ela disse ao cara. – Agradecemos muito.

– Não acho que foi possível ajudá-los de verdade – o homem empurrou os óculos quadrados sobre o nariz. – Agora ou antes. Sinto-me horrível por toda a situação.

– Aqui está o meu cartão – ela entregou-o. – Pode me ligar a qualquer hora... Estou disponível 24 horas, 7 dias por semana. E, pode acreditar, você se abriu e foi honesto... Era tudo que podia fazer.

Veck entregou seu cartão também e, então, estavam indo para a saída.

– Jante comigo – Veck disse de repente. Afinal, uma segunda oportunidade de compartilharem uma refeição tinha que ser melhor do que a primeira. Desde que ele não se comportasse como um idiota, todo na defensiva, outra vez...

Tudo o que obteve como resposta foi uma desaceleração no andar e uma longa hesitação. E, em seguida, um “Ah...”

Não era um bom sinal, então, reforçou o convite com uma justificativa lógica: – Temos que organizar as anotações das entrevistas que fizemos nas últimas quatro horas. Podemos muito bem comer ao mesmo tempo... E sei que deve estar faminta.

Cara, olha só isso. Tranquilo, casual. Perfeito.

Parou em frente a uma grande vitrine com prateleiras cheias de nachos, potes de salsa e um refrigerador cheio de queijos.

– Vou cozinhar para você. Comida mexicana... é minha especialidade.

Na verdade, aquilo poderia ser real se comparasse a outras coisas: não sabia nada sobre cozinha, mas, considerando o que pretendia fazer, tinha mais chances de acertar que com qualquer outro estilo culinário. Afinal, pedir coisas pelo telefone era sua única especialidade. Mas, vamos lá... não era tão difícil. Pegar uma caixa de tacos no corredor de salgadinhos? Como poderia errar?

– Deveríamos manter as coisas no âmbito profissional – ela argumentou.

– Não é um encontro, prometo. Você é boa demais para isso, e eu não sou tão sortudo.

Quando as sobrancelhas ergueram-se, deixou no ar o comentário que havia feito, pois era verdade e os dois sabiam disso.

– Então, o que me diz, oficial? O único tempero estará no molho.

Isso produziu nela um verdadeiro sorriso, seus lábios até curvaram-se para cima.

– Eu gosto de comida mexicana.

– Então, sou o cara certo.

Por um momento, apenas olharam um para o outro. Então, ela falou lenta e cuidadosamente: – Tudo bem, mas onde?

– Na minha casa.

Passando à frente dela, Veck pegou um carrinho e encheu-o com itens da vitrine de nachos. Parecia uma dádiva vinda dos céus: todos os ingredientes estavam enfileirados, então, não tinha muito que escolher. Porém, era apenas o começo, e ele dirigiu-se ao local onde um cartaz indicava “COMIDA MEXICANA”.

– Está olhando para mim, oficial? – disse ao perceber os olhos dela sobre ele.

– Só estou... surpresa. É isso.

– Com o quê?

Colocando o carrinho em frente a uma prateleira cheia de caixas de um amarelo brilhante, esperou uma resposta de Reilly.

– Tacos ou enchiladas? – quando não houve resposta a essa pergunta também, ele pegou uma caixa. – Tacos.

Pensou no que ainda faltava. Alface. Queijo... Observou o carrinho e decidiu que precisavam de mais. Tomates. Entendido.

– Onde é a parte de hortifrúti?

– Seguindo por ali, à esquerda. Mas precisamos de hambúrgueres.

– Sim, bem lembrado.

O balcão de carnes e congelados ficava mais ao fundo da loja e, ao passarem pelas bandejas de carne moída, pegou um pedaço magro com quarenta por cento orgânico... pois, provavelmente, ela seguia uma dieta mais natural. Quando chegaram à parte das frutas e verduras, precisavam pegar tomates e alface americana.

– Converse comigo, Reilly – disse em voz baixa.

– É que... você não me parece um homem que precise de sorte com as mulheres.

– Ficaria surpresa – ao continuarem em direção ao caixa, passaram pela parte de alimentos importados e por um self-service de saladas, e, por alguma razão, Veck sentiu que devia se explicar. – Veja bem, meu pai é muito conhecido por um motivo horrível e algumas pessoas se sentem atraídas por isso. As mulheres que me procuram não são como você. Ou têm tatuagens nos lugares mais ridículos do corpo e cabelos pintados, ou são Barbies que querem “salvar” alguém, ou desejam fazer loucuras sem correr muitos riscos. Depois, há as que parecem normais, mas costumam ter fotos do meu pai na bolsa ou cartas que pedem que eu entregue para ele... Para ser sincero, é uma confusão total. Aprendi que não posso confiar em ninguém, mas também nunca mais fui surpreendido.

Puxou o carrinho num dos caixas e começou a passar as coisas enquanto Reilly entregava-as.

– Mas, como disse, você não está em nenhuma dessas categorias – terminou.

– Com certeza, não – ela passou o saco de tomates. – Desculpe, não fazia ideia.

– Há coisas piores para se preocupar – como o laço sanguíneo que tinha com o pai maníaco, por exemplo. Droga, as tietes idiotas que queriam ficar com ele só por causa do sobrenome DelVecchio eram terríveis, mas o fato de ter o assassino ligado à sua medula era um pesadelo.

– Você vai... no meio da semana que vem? – ela perguntou.

– Como?

– À execução? – ela disse em tom gentil.

Veck congelou com a caixa amarela de tacos nas mãos.

– Vai mesmo acontecer?

– Se a Suprema Corte não emitir algum documento para adiá-la... Saiu um artigo no jornal de hoje.

Ah sim, as três colunas que ele tinha pulado no restaurante.

– Bem, espero que fritem o bastardo. E não, eu não vou. Tenho que ver aquele filho da mãe toda vez que me olho no espelho. Já é suficiente.

Pegou a carteira e tirou o cartão de crédito.

– Aqui, deixe-me ajudá-lo com a...

Veck lançou um olhar por cima do ombro.

– O homem deve pagar. Sou tradicional nesse ponto.

– E a mulher pode muito bem fazer uma contribuição. Sou realista assim.

Quando ela empurrou uma nota de vinte dólares na palma da mão dele e ergueu o olhar para encontrar o dele, soube que Veck queria beijá-la... E não apenas em suas fantasias: queria saber como era apertá-la em seus braços e sentir o sabor daquela boca da qual não saía besteira nenhuma.

Não iria acontecer.

Voltando a se concentrar nas coisas que não iriam comprometê-lo ou que evitariam um tapa, passou o cartão, digitou a senha e esperou a transação completar-se. Depois de jogar o cupom fiscal fora, dirigiu-se à saída, onde deixou o carrinho com os outros e recolheu as sacolas com as compras.

Enquanto caminhavam de volta para o carro, ele murmurou: – Você está quieta. Falei demais?

Olhou para ele ao desativar o alarme do carro e destrancar todas as portas.

– Sobre seu pai? Deus, não... A hora que quiser falar sobre ele, ou sobre qualquer outra coisa, ficarei feliz em ouvir.

Veck acreditava nela. O que era um milagre em si.

– Obrigado, mas você acabou de ouvir tudo o que tenho a dizer sobre o assunto.

Assim que se aproximaram do porta-malas destravado, ela foi até a porta do passageiro de trás e disse: – Espere, aqui, coloque as compras...

– Só vou jogá-las por aqui mesmo e...

Quando a porta ergueu-se sozinha, ele viu as três grandes sacolas da Victoria’s Secret e não pôde evitar: seus olhos fixaram-se em Reilly e observaram seu corpo... De baixo para cima, até as bochechas avermelhadas. O que significava que não havia um monte de pijamas e roupões de banho macios naquelas malditas sacolas.

– Hum... banco de trás – ele murmurou. – Está certo...

– Estavam em liquidação – ela disse enquanto ele fechava o porta-malas.

Ele estava ficando excitado outra vez. Agora mesmo. Droga.

Depois que as compras foram acomodadas no carro, os dois sentaram-se em seus respectivos bancos e ela ligou o motor. O cinto de segurança pressionou sua ereção, mas achou que o aperto foi bem-vindo. Não precisava ficar fantasiando um desfile de moda. A bela oficial Reilly vestindo aquelas coisas? Cara, precisava de um cigarro.

– Merda – ele disse.

– O que foi?

– Temos que ir à sua casa para fazer isso – com um palavrão, emendou. – Quero dizer, o jantar. Fazer o jantar na sua casa... Não tenho panela nenhuma.

Quando pararam no sinal da saída do estacionamento, Reilly olhou para ele... e começou a rir. Antes que percebesse, ele estava sorrindo também.

– Você não sabe cozinhar coisa alguma, não é? – ela disse.

– Terei sorte se conseguir abrir a caixa de tacos – ergueu o dedo indicador. – Mas ainda gostaria de fazer o jantar, se não se importa.

Negando com a cabeça, ela sorriu.

– Certo, mas pode me fazer um favor?

– Pode dizer.

– Pode esquecer o que viu no meu porta-malas?

Seus olhos perderam-se na boca de Reilly e, em seguida, desceram para o pescoço pálido e...

– Sinto muito – disse em tom sombrio. – Isso eu não posso fazer.

Ela respirou fundo, como se todos os pensamentos dele estivessem expostos em seu rosto.

– Droga – disse, soltando o ar. – Quero dizer, sim, é claro. Considere feito. Totalmente esquecido.

Uma buzina soou alto atrás deles e ela teve um sobressalto antes de acelerar.

Que bela noite. Só faltava ele botar fogo na casa dela..


CAPÍTULO 10

 

Durante os anos em que atuou como soldado de Operações Extraoficiais, Jim aprendeu que uma boa informação é fundamental para a missão em qualquer tarefa. Claro, quando trabalhava para o maldito Matthias seu trabalho era matar pessoas e, agora, não era bem essa a situação com seu novo chefe ou com seus alvos atuais. Porém, muitos princípios eram os mesmos. E os riscos eram ainda maiores.

Sentado na cama de hotel, com o computador apoiado nas coxas, o site do Correio de Caldwell estava no centro da tela e a dor de cabeça que sentia não era pelo brilho da máquina. Seu trabalho já tinha sido iniciado. Considerando que Devina não havia mentido sobre a alma.

Na noite passada, Thomas DelVecchio Jr. adentrou na floresta com um cara a quem investigava... O que é normal para um detetive de homicídios, certo? Errado. O que deteve a ordem normal dos fatos foi que David Kroner, considerado um serial killer, fora levado numa ambulância até a cidade à beira da morte. Encharcado de molho de tomate. E isso era apenas o começo do jogo. Após passar quase duas horas vasculhando a internet, Jim teve acesso a informação suficiente para escrever um livro sobre DelVecchio... e sobre o pai do cara. Não eram boas notícias.

– Droga, Cachorro – murmurou.

Cachorro bufou baixinho e colocou a pata sobre o antebraço de Jim, como se estivesse oferecendo ajuda. A questão era: onde estava a encruzilhada de DelVecchio? Estaria naqueles bosques de ontem à noite?

Não, pois Jim teria perdido antes de ter começado e imaginou que isso estaria fora das regras. Entretanto, não significava que Devina não tivesse dado tal golpe.

E assim...

– Onde você está, vadia...?

O demônio estava em algum lugar naquilo tudo, trabalhando nos bastidores, tentando mexer os pauzinhos para que o jovem DelVecchio se envolvesse profundamente com ela.

A rota poderia ser traçada através do pai. Digitando outra vez o nome do cara no Google, Jim começou outra pesquisa. Os resultados fizeram-no questionar se valia a pena salvar a humanidade. Oh, veja só, quanta coisa baseada em seus assassinatos. Pinturas. Autógrafos.

O cara tinha sua indústria... Mas parece que não duraria muito. As luzes seriam apagadas para ele em Connecticut muito em breve. Mas talvez vivesse para sempre na infâmia: havia vigílias acontecendo fora da prisão. Sem dúvida aquela procissão de manifestantes não impediria a execução, mas era uma indicação de que o bastardo poderia tornar-se uma celebridade ainda mais famosa quando estivesse totalmente acabado.

De acordo com os arquivos do jornal, DelVecchio pai tinha cometido a maioria de seus assassinatos em Nova York e Massachusetts, e a primeira denúncia datava do meio dos anos 1990, quando o primeiro corpo fora encontrado... em Caldwell, Nova York. Passaram-se três anos para que as autoridades percebessem que estavam lidando com um serial killer, e não com chacinas aleatórias. Parte do atraso ocorreu pelo assassino ter deixado os corpos em situações muito diferentes e pelas investigações realizadas com diferentes graus de competência policial. Outro fator foi, ao menos no começo, que DelVecchio escondia bem os restos e de maneira muito criativa.

Os casos, porém, começaram a ser ligados e, então, iniciou-se uma corrida para capturar seja lá quem fosse o assassino. O tapa na cara foi saber que DelVecchio estava aos olhos do público o tempo todo, um negociante de antiguidades... e não apenas bugigangas e falsificações. Estava no topo daquele mercado, importando estátuas, artefatos e mosaicos do Egito e do Oriente Médio.

Maldito filho da mãe. Existia até mesmo um artigo sobre ele na Vanity Fair, que dava informações detalhadas sobre seus negócios. Aparentemente, entre as viagens ao exterior e as grandes festas que frequentava, DelVecchio pai conseguiu engravidar uma mulher. O filho tinha nascido no mesmo dia que o pai nascera há 29 anos, mas não havia vida familiar. Nem outras crianças.

Contudo, houve uma espécie de contato: o assassinato daquela mulher acabou sendo a chave para finalmente capturarem DelVecchio, a primeira ligação que trouxe à tona a cadeia de crimes que havia formado. O resto era história, por assim dizer.

– Entrandooo...

Jim olhou por cima do notebook. Parado na porta do conjugado, Adrian tinha uma caixa de pizza entre as mãos e um pacote com seis cervejas pendurado nos dentes.

– Aí sim! Obrigado, cara.

Eddie entrou atrás com uma segunda caixa.

– Ele providenciou tudo... até a isca.

Ad sentou-se sobre a cama e apoiou as cervejas.

– Se chamam anchovas, idiota.

O “que seja!” ficou subentendido entre os dois. Jim alimentou Cachorro primeiro, dando ao cão o item que Adrian não apreciava muito. Considerando o movimento do rabo curto e grosso, a gororoba estava mais que boa.

– Então, como podemos saber que Devina não mentiu para você? – Adrian disse, antes de se inclinar e colocar a ponta de uma fatia de pizza na boca.

– Essa confusão toda é bem a nossa cara – clicou no artigo sobre a execução e girou o computador. – Este é o pai do cara. E espere, tem mais.

Enquanto comiam, Jim mostrou-lhes alguns sites e finalizou com um artigo sobre a pequena viagem do Júnior à floresta com outro serial killer. Enquanto seus parceiros liam, houve uma quantidade razoável de “mas que inferno”, o que era bom.

Terminou de comer a terceira fatia.

– Precisamos descobrir o que aconteceu naquela floresta ontem à noite.

– Os artigos dizem que DelVecchio não se lembra de nada.

Jim olhou para Eddie, mais conhecido como “o mestre dos truques”.

– É aí que você entra. Quero entrar na mente do cara e você precisa me dizer como fazer isso.

Ad deu de ombros.

– Pessoalmente, eu costumo usar um serrote, mas...

– Pode haver várias consequências e efeitos colaterais – disse Eddie com cuidado.

– Por exemplo?

– Bem, na pior das hipóteses... ele pode acabar como Adrian.

– Ei...

Jim interrompeu o anjo em questão.

– Meio surdo. Com medo de agulhas.

– Viciado em sexo – Eddie acrescentou.

– Ou seja, um deus – Ad exclamou, abrindo uma cerveja. – E continuo dizendo, pessoal, não sou surdo.

– Já passamos por isso antes – Eddie enxugou a boca. – Se não consegue ouvir o quanto é desafinado, então, como pode saber?

– Não sou desafinado.

– É sim – Jim e Eddie disseram juntos.

Antes que a discussão saísse do controle, Jim ficou sério e dirigiu-se a Eddie.

– Então, me diga o que eu preciso saber.

– Precisa me explicar primeiro o que está procurando.

Jim tomou um longo gole de cerveja.

– Quero saber onde Devina está em tudo isso. Qual é o ângulo de ação dela e de que maneira está suscetível a falhar nessa porcaria toda. É isso que estou procurando.

E, considerando a situação do pai, já tinha suas suspeitas.

É claro que Veck precisava ter visto o que havia no porta-malas – Reilly pensou enquanto entrava na garagem. – O universo não desperdiçaria uma oportunidade como essa para aprontar comigo. Enquanto a porta da garagem subia, olhou para seu parceiro.

– Deixe-me adivinhar: gostaria de carregar as compras, da mesma maneira como pagou por elas.

– Sim, gostaria – olhou para os bancos de trás. – Como disse, sou antiquado. Mas se quiser assumir a tarefa, posso voltar atrás.

E era por isso que não tinha qualquer problema com ele. Além disso, ele poderia cuidar da comida enquanto ela tirava suas roupas do porta-malas: apesar de constrangida, não deixaria as sacolas para trás. Não havia como fingir que nada acontecera, mas, mais importante que isso, não havia motivo algum para esconder. Era uma mulher adulta que poderia comprar calcinhas e sutiãs para si.

Quando a voz na cabeça dela ficou ainda mais estridente e na defensiva, perguntou-se quem exatamente estava falando. Provavelmente seu pai. Interrompendo o discurso ridículo, terminou de estacionar o carro. Enquanto Veck saía e pegava as sacolas do supermercado, deu a volta no carro, abriu o porta-malas e manteve a cabeça erguida ao pegar todos os seus artigos cheios de lacinhos e renda e seguir para a cozinha.

– Nossa! – ele disse ao olhar para as paredes, cortinas e balcões.

– Eu deveria ter avisado.

Ter uma decoração cheia de galos na cozinha é um pesadelo, mas a boa notícia é que, geralmente, as pessoas param e olham ao redor, e, por isso, ela conseguiu enfiar as sacolas num canto qualquer, longe de olhares curiosos.

– Acho que nunca vi...

Quando Veck apenas assentiu com a cabeça, Reilly ficou feliz por ele não ter terminado a frase. Claro que nem precisaria: a parte do “... tantos galos num lugar só” costumava ficar no ar com certa frequência.

Oh, Deus, aquilo era horrível.

– Desde que me mudei há dois anos, tenho vontade de pegar um estilete e arrancar tudo a partir dos cantos. Mas sempre tem algum trabalho mais urgente que me mantém ocupada.

Porém, ao observar como Veck olhava tudo aquilo, pensou que deveria ter um pouco mais de determinação. O papel de parede tinha três galos diferentes em várias e exageradas poses, como se fossem fisiculturistas participando de um concurso. O esquema de cores era marrom, vermelho e creme com tufos verdes de grama sob as patas tripartidas. E, de alguma forma, mesmo o material estando ali há uns bons vinte anos, mantinha uma vivacidade impressionante.


– Sou eu ou os olhos deles seguem a gente? – Veck perguntou ao colocar as sacolas sobre o balcão da pia.

– Eles estão observando você. É uma maravilha para minhas die-tas... sinto como se estivesse comendo em público e não consigo comprar frango desde maio do ano passado.

– É como estar no filme Os pássaros.

– Exceto por não ser uma fazenda. Eu sei – quando ela aproximou-se e abriu o armário sob o fogão, completou –, o fato de já estar um pouco acostumada com isso me assusta... será que me hipnotizaram? Aliás, as panelas estão aqui, as tigelas ali e as facas naquelas gavetas perto da lava-louças.

– Obrigado.

Quando ele tirou o casaco, os grandes ombros movimentaram-se naturalmente, mas, na mente dela, transformaram-se em algo nu e excitante – Hora da distração – Reilly pensou quando Veck começou a desembalar as coisas.

– Ei, acho que vou imprimir o arquivo do caso enquanto você começa a lidar com a comida.

– Ótimo.

– Pode levar um tempo. Minha impressora é antiga.

– Temos tempo.

Pela maneira como estava concentrado no pacote de salgadinhos, parecia que estava prestes a fazer uma cirurgia cerebral com o micro-ondas. E nossa... Aquele jeitão impassível, seguro e lindo era muito sexy, sem falar que aquela preocupação toda o deixava mais acessível. Isso e a maneira como se abriu a respeito das mulheres. Ela nunca pensara nas tietes... porém, mesmo pessoas de boa aparência podiam ser perseguidas pelos motivos errados, não?

No escritório que tinha no final do corredor, entrou no banco de dados da polícia de Caldwell, acessou o relatório e ficou parada ao lado da impressora, pronta para salvar a impressão quando as folhas ficassem presas... o que aconteceu. Duas vezes.


O primeiro indício de que as coisas não iam bem na cozinha foi o aroma inconfundível de carne queimada. O segundo foi uma explosão de palavrões. Que não parou até ela aparecer com as impressões.

Foram muitas bombas verbais. Em seguida, o detector de fumaça disparou. Seja lá o que estava na panela sobre o fogão – o mais provável era que fosse o hambúrguer, mas, como era Veck na cozinha, poderia até ser os nachos – precisava de uma mangueira de incêndio. Ele tentava lidar com a situação, levou a panela para a pia, colocou dentro da cuba, mas não ligou a água. Aproximou-se rapidamente do detector e começou a abaná-lo com um pano de prato sem nem sequer ficar na ponta dos pés.

– Acho que um dos galos aumentou o fogo – ele gritou.

– Isso não me surpreenderia.

Ela escondeu um sorriso quando colocou os papéis sobre a mesa e foi dar uma olhada no que ele tinha colocado no prato: os pedaços de queijo laranja tinham se unido à camada de tortilhas ao ponto de formarem uma nova composição molecular.

Só há uma coisa a fazer agora – ela pensou. Pegou o telefone e disse: – Qual sabor de pizza você gosta, oh, poderoso fazendeiro?

– Calabresa com salame.

– Boa.

Enquanto discava, olhou para cima. A parte de baixo da camisa de Veck tinha se soltado, e ela teve uma clara visão do cós preto da cueca, bem como dos pelos que desciam em linha a partir do umbigo sobre a pele firme. Imediatamente seu cérebro voltou à cena do banheiro na noite anterior. Apenas um instante e lá estava ela, observando o corpo nu...

– Oh, sim, oi – afastou-se rapidamente. – É um pedido. Sim, sou eu. Pizza grande de calabresa com salame. Sim. Não, sem bebidas... Não, não quero uma segunda pizza de graça... Não, sem acompanhamentos... Não, obrigada, não precisa... Não, também não quero sobremesa de maçã com canela – pelo amor de Deus, levavam mais tempo fechando o pedido do que fazendo, embalando e despachando a pizza para entrega! – Ótimo, obrigada.


Desligou, endireitou os ombros e virou-se em direção a Veck outra vez – estava parado bem atrás dela, olhos semicerrados, o corpo muito maior do que aparentava ser a dois metros de distância.

Ela não se moveu. Nem ele.

– Acredita que a confissão seja boa para a alma? – disse ele de maneira misteriosa.

– Sim...

– Então, preciso dizer uma coisa.

Oh, Deus, era por isso que diziam que não se deve misturar negócios com prazer: quando seus olhos se encontraram, Reilly não pensava sobre o caso em que estavam trabalhando. Pensava que deveria admitir algumas coisas a si mesma.

Vi você nu ontem à noite e te achei lindo.

– O quê? – ela disse ofegante.

Eu te desejo mesmo sabendo que não deveria.

Engolindo em seco, ela disse: – Diga...


CAPÍTULO 11

 

Veck sabia que não deveria responder à sua parceira e com certeza não deveria ter se aproximado tanto dela. A atitude correta seria começar a limpar a bagunça que tinha feito com os alimentos em vez de criar mais confusão.

Mas viu-a olhando o corpo dele e a expressão em seu rosto indicava um desejo forte e intenso. Surpreso? Sim. Satisfeito? Poderia, se ficassem juntos.

Mas não poderiam se desvencilhar das consequências daquilo com um banho de água quente, este era o problema.

– O quê? – ela sussurrou.

– Eu quero... – a palavra era tão rude que ele guardou-a para si mesmo.

– Diga.

Ele inclinou-se e colocou os lábios sobre o ouvido dela.

– Você sabe exatamente o que eu quero.

– E eu quero que você diga.

– Tem certeza? Não é nada agradável.

Antes que ele pudesse recuar, ela estendeu as mãos e colocou as dele sobre seus quadris. O toque foi leve como uma sombra caindo sobre o corpo de Veck, mas sentiu que tudo queimava por dentro. E uma coisa era certa, se ela instigou aquele contato é porque sabia exatamente o que ele tinha em mente.

O toque ficou mais intenso.

– Diga.

Sua voz era quase um rosnado.

– Quero foder você.

Reilly gemeu um pouco e ele continuou.

– Quero você nua. Embaixo de mim. E quero entrar em você – abaixou um pouco e passou a boca sobre o pescoço dela. – Mas sei que é especialista em conflito de interesses, então sabe muito bem os motivos pelos quais essa é uma má ideia.

Era a deixa para ela se afastar. Ou para ele pular fora. Nenhum deles se moveu.

Droga, o corpo dele começou a ficar fora de controle, sua ereção latejava por mais espaço para fazer o que sabia de melhor. O que significava que, se fosse para fazerem a coisa certa, a iniciativa partiria dela.

– Dê um tapa na minha cara – ele gemeu. – Me empurre... pelo amor de Deus, se tranque no banheiro ou algo assim. Pois se não fizer isso, eu vou...

– Me beije.

Deus, o tom que ela usou: aquilo era uma ordem. E quem era ele para desobedecer a uma ordem? Especialmente vinda de uma superior?

Veck estendeu a mão e passou o braço em volta da cintura de Reilly. Com um puxão forte e impaciente, aproximou-a de seu corpo. O próximo passo foi arrancar o elástico que amarrava os cabelos dela e jogá-lo no chão.

Cara, ela instigava tanto desejo com aquela coisa de não se afastar, e os cabelos vermelhos sobre os ombros diziam que estavam prontos para ter a mão de um homem sobre eles.

Quando agarrou a nuca e aproximou a cabeça ainda mais, sabia muito bem que iria dominá-la, assumiria o controle de seu corpo, iria segurá-la com força ao empurrá-la até a mesa da cozinha e ajoelharia entre suas pernas para sugar seu sexo. Era o que desejava fazer.

– Desculpe – ele disse, ciente de que não estava desculpando-se apenas pelo que estava prestes a fazer, mas por tudo que passava em sua mente, toda a vulgaridade que desejava impor aos dois.

Então, o destino foi selado quando ela deu um beijo nos lábios de Veck.

A boca dela era macia... e também seus seios contra o peitoral de Veck e seus quadris contra seu pênis... Era macia e quente, o tipo de coisa que se quer penetrar e permanecer ali por um bom tempo. Mas, mesmo com sua pélvis contorcendo-se e sua ereção pulsando, no fundo Veck sabia que o conflito de interesses não era o maior problema que tinham. Por mais que fingisse estar tudo normal com ele, estava em carne viva por dentro por causa daquela porcaria que tinha acontecido na floresta e pela novidade sobre seu pai. Tinha medo de que Reilly fosse exatamente o tipo de curativo que precisava... Esse foi o último pensamento lógico e decente que teve.


Quando penetrou a boca dela com a língua, seus braços apertaram-na e a parte inferior do corpo arqueou-se outra vez, a tensão e o movimento em seu pênis estimulou-o ainda mais. E isso foi antes de sentir o arrepio que passou pelo corpo de Reilly. Estava claro que ela acompanhava-o, especialmente quando o apertou em seus ombros com as unhas e suas pernas abriram-se o suficiente para que ele pudesse se encaixar com uma das pernas ali.

Pensando num palavrão, ele virou-a e colocou-a sobre a mesa, em cima da papelada que ela tinha acabado de imprimir. Imagens dela com as pernas sobre os ombros dele enquanto lambia seu sexo fizeram-no imaginar que deveria repensar a falsa propaganda sobre comê-la.

Bem, não era tão falsa assim. Só adicionaria uma atração turística muito importante na viagem para o grand finale. Passou a palma da mão sobre as coxas e levantou a perna dela, esfregando ainda mais o local onde ele desejava finalmente estar. Interrompendo o contato com a boca, mergulhou no pescoço de Reilly com mordidas e lambidas.

– Me deixe ver você – ele gemeu em sua garganta. – Me deixe...

– Entrar – outra voz disse.

Ele interrompeu o ritmo de repente, desvencilhando-se do abraço e olhando para cima. Agora seu coração batia por um motivo diferente.

– O que foi? – ela disse.

Seus olhos percorreram o local. Mas não havia quaisquer sombras esquivando-se em movimentos velozes pela cozinha com decoração de galos. Nenhum ruído de tábuas ou dobradiças rangendo. Ninguém observando pelas janelas.

Depois de um momento, a adrenalina diminuiu e percebeu onde estava e o que estava fazendo com ela. Talvez tivesse sido um pensamento que assumiu uma voz muito alta. E não poderia sentir-se melhor com isso se considerasse o que tinha acontecido com Kroner na noite passada.

Uma das mãos de Reilly ergueu-se e acariciou a bochecha dele.

– Você está bem?

– Não – olhou outra vez para o rosto dela. Sentiu o corpo dela sob o seu. Ouviu suas respirações profundas. – Mas não quero parar. Você é real... E preciso muito disso agora. Preciso... de você agora.

Reilly não era como as outras mulheres com quem já tinha ficado: os olhos inteligentes viam demais e sabiam coisas demais. Cara, ele ficara nu na frente dela no primeiro momento em que a conheceu – e isso deveria tê-lo guiado na direção oposta do que estava acontecendo. Em vez disso? Só desejava-a ainda mais.

– Então, me possua – disse, puxando a camisa para fora da saia.

Veck não deu um segundo sequer para ela mudar de ideia: enquanto a beijava, mergulhou uma das mãos sob a abertura que ela havia feito na camisa, tocando toda aquela pele quente. Em seguida, os botões soltaram-se como se tivessem o mesmo objetivo que ele: acesso total.

Ergueu-se quando o último se abriu... caramba. Renda vermelha. Havia uma complexa renda vermelha sobre um par de seios perfeitamente proporcionais. Ele conseguia ver os mamilos tensos e firmes através da pequena extensão do tecido.

– Gostou do que eu comprei hoje? – ela perguntou com voz rouca.

– Nada mal – limpou a garganta quando falou. – Nada mal mesmo. Mas o que está por baixo é ainda mais quente.

Com uma graça harmoniosa, as mãos dela ergueram-se e acariciaram o sutiã de alças finas e brilhantes... Em seguida, passou a mão sobre os mamilos rígidos e, com isso, Reilly arqueou o corpo, implorando por ele.

Com um rosnado, ele empurrou a saia para cima e adentrou entre as pernas dela, separando-as ainda mais com seus quadris ao se aproximar do que havia chamado sua atenção. Ao colocar a boca sobre o sutiã incrível, além de sentir a renda em sua língua, também percebeu a carne rosada e firme por baixo do tecido.

Não levou muito tempo para aquilo não ser mais suficiente. Com a mão áspera e impaciente, puxou o bojo para baixo, revelando o mamilo.

– Porra... – ele exclamou. – Você...

Ela não quis nem saber de conversa: com pressa, seus dedos agarraram a nuca dele e, com isso, aproximou a cabeça de Veck de seus seios. Enquanto ele sugava-a, ela ergueu-se sobre a mesa, e aquele movimento, aquele puxão, fez com que ele deixasse de lado qualquer constrangimento. De repente, Veck assumiu o controle, ergueu-a ao colocar um dos braços embaixo dela, a outra mão foi direto entre as coxas, em direção ao desejo que emanava daquela calcinha.

Acariciou o sexo dela, a palma da mão envolveu o local, bem onde ela desejava...

– Veck!

O som do nome dele foi um pedido de mais, mais, mais. E daria isso a ela. Trocando de lado, mordeu a outra metade do sutiã e puxou com os dentes, antes de sugar o outro mamilo. Contudo, ainda não era suficiente. Precisava de contato total com a pele nua. Aqui, agora...

O gemido que saiu dela foi exatamente o som de consentimento que precisava ouvir.

Deus, vai acontecer – pensou. – Vai acontecer.

Veck era um dominador total. Reilly não esperava menos que isso, mas a excitação foi surpreendente. Em parte por saber que, se dissesse não estar à vontade em ir tão longe, ele recuaria no mesmo segundo. Mas o resto devia-se à maneira como ele lidava com ela, a confiança, o poder, a possibilidade erótica que emanava de sua boca, de suas mãos e de seu olhar sedutor e intenso.

Sem dúvida, Veck tinha um talento natural para o sexo... E desenvolveu isso ao longo dos anos. De repente, como se tivesse lido a mente daquela mulher, seu olhar ergueu-se com um brilho e fixou-se no dela enquanto estimulava o mamilo da mulher com a língua... E, quando as pálpebras baixaram, sabia que desejava que ela o observasse.

Que visão. Ele puxou o outro lado do sutiã e acariciava-a, lambendo e chupando enquanto uma das mãos espalmadas pressionava sua pele. Deus, ele era grande – por inteiro. Seu pênis era longo e grosso e acariciava a parte interna das coxas dela, seus ombros eram tão grandes que não conseguia ver nada além deles, e a parte inferior do corpo daquele homem ocupava todo o espaço que havia entre suas pernas abertas.

Veck terminou de puxar o sutiã que pressionava os seios para cima, a camisa estava totalmente aberta, e a saia estava toda amontoada na cintura. O próximo passo era tirar o tecido de nylon que cobria as pernas de Reilly e, para isso, ela saiu um pouco de cima da mesa, sentindo aquela mão pressionar com mais força ainda em movimentos circulares. Mergulhou os polegares na cintura da meia-calça e baixou os quadris, escorregando a peça ao longo das coxas.

– Eu assumo daqui em diante – Veck recuou um pouco, os olhos em chamas observando o corpo de Reilly. – Hummm... bem onde eu queria estar.

Quando ele sorriu como um predador, ela ergueu os joelhos para ajudá-lo a tirar as meias, lentamente. E só depois que o fino tecido estava livre de seus pés, ela perguntou-se até onde aquilo tudo chegaria. Iriam terminar de fazer aquilo que não deveriam nem ter começado?

Se aquilo fosse um “sim”, teriam que lidar com alguns aspectos práticos. Mas, caramba, que coisa chata falar de camisinha – e, sim, agora entendia por que as pessoas faziam escolhas idiotas quando se tratava de sexo. Coisas realmente importantes não tinham a menor relevância ali, todo o sofrimento que poderia vir depois daqueles minutos intensos, coisas com as quais teria que conviver, talvez para sempre... Passavam a ser ecos distantes, que ela mal conseguia ouvir, pronunciados num idioma que não queria traduzir.

Cinquenta mil anos de evolução poderiam dizer o que estava acontecendo.

Com um impulso, Veck voltou à boca dela, beijando-a profundamente enquanto as mãos desciam...

A maldição que disparou da garganta dela era mais uma vibração que um sim. A mão dele estava de volta entre as pernas, acariciando suas coxas, indo em direção à peça que completava o conjunto com o sutiã que já tinha visto e dominado.

– Veck! – ela exclamou outra vez quando o toque deslizou sobre o centro da faixa de cetim.

Foi cuidadoso, colocando apenas a pressão suficiente sobre o local tão sensível, acariciando-a em movimentos circulares que fizeram seu corpo ficar ao mesmo tempo relaxado e tenso.

Dane-se a calcinha, ela não queria nada entre eles... Mesmo assim, a barreira de seda não era de todo ruim, a costura adicionava outra dimensão ao ritmo que ele tinha imposto. E não parou de beijar sua boca, de envolvê-la, de aproximá-la ainda mais, mesmo já estando bem juntos.

Com um movimento rápido, ele levantou o tronco de Reilly e empurrou seus quadris contra o sexo dela, entrelaçando os corpos. Em seguida, curvou a coluna e encaixou-se sobre ela, acariciando-a com seu pênis enquanto observava-a com atenção.

Deus, o rosto dele estava cheio de desejo, aquela frieza tinha desaparecido, aquela máscara impassível havia explodido com a intensidade que apertava o maxilar.

Eles iam mesmo fazer aquilo, Reilly concluiu.

Surpreendente. As escolhas na vida de Reilly eram baseadas em dados precisos do que deveria, teria que ou do que era melhor não fazer. Com certeza, fazer sexo daquela maneira estava na última categoria... e, mesmo assim, não pretendia deter nada.

Porém, fariam aquilo com segurança – embora não sobre uma cama. Aquela mesa estava servindo muito bem. Mas havia coisas que ela precisava fazer primeiro. Descendo o corpo, deslizou as mãos até... a cabeça de Veck caiu para trás.

– Caaara...

Perfeito: o pênis rijo era ainda maior do que imaginava e latejava contra a palma de sua mão...

O som da campainha ecoou, alto como um tiro. E, mesmo assim, por um momento, ela não conseguiu compreender o que era aquele barulho ou por que deveria importar-se com ele. Veck recuperou os sentidos primeiro.

– Pizza.

– Que p...?

Com o pensamento rápido e lógico, ele estendeu a mão e apagou as luzes para que o entregador da pizza de calabresa com salame não assistisse ao show na cozinha. Então, com mãos eficientes, colocou a camisa dela de volta, puxou a saia para baixo e começou a arrumar as próprias calças, para que não ficasse uma tenda de circo.

– Vou cuidar disso – disse ele com uma voz equilibrada. Como se nada tivesse acontecido. Nada.

Enquanto ele foi até a porta da frente, Reilly sentou-se lentamente, a cabeça não parava e o corpo tremia. Segurando a blusa, percebeu que a volta ao normal repentina fê-la sentir-se totalmente fora de controle. Em seguida, ela saiu da mesa e os papéis do caso Barten caíram no chão.

A chuva de folhas soltas formou uma espécie de tapete aos seus pés e foi o espelho exato que precisava para ver tudo com clareza: do outro lado da cidade havia uma família de luto pela filha que sabiam ter perdido, e, em vez de concentrar-se na dor deles e em seu trabalho... estava esfregando-se num homem que não tinha nada a ver com ela.

Não poderia existir um conflito de interesses maior. Serviria de exemplo num livro didático. Mexendo nos botões da camisa, fechou-os rapidamente e, então, inclinou-se para pegar as cópias do relatório. Quando o cabelo caiu sobre o rosto, perguntou-se onde estaria seu elástico.

Quem poderia saber?

Colocando os fios atrás das orelhas, juntou as impressões com cuidado, reordenou as páginas e separou tudo em duas pilhas – a dela e a de Veck. Separado era melhor.

Ela tinha enlouquecido?

Vindo da porta da frente, ouviu um burburinho de palavras de agradecimento, a porta fechou-se em seguida e passos pesados trouxeram Veck de volta à cozinha.

Levantando-se rapidamente, colocou as duas pilhas de papéis sobre a mesa e manteve os olhos sobre elas. Não conseguia olhar para Veck. Simplesmente não tinha forças para aquilo no momento.

– Acho melhor você ir – sua voz não soou bem, mas ela não se sentia bem mesmo.

– Certo. Vou chamar um táxi.

Droga. A moto dele estava na delegacia, não?

Após soltar um palavrão em voz baixa, murmurou: – Está tudo bem. Posso levá-lo...

– Não, um táxi é melhor.

Ela assentiu e acariciou a primeira página do relatório... onde indicava os principais dados de Sissy e a data de seu desaparecimento.

– Vamos verificar tudo isso amanhã no escritório.

– Sim – quando ele vestiu o casaco, o som macio do tecido foi mais alto que a campainha. – Sinto muito.

Ela cruzou os braços sobre o peito e assentiu outra vez.

– Sim, eu também. Não sei o que deu em mim.

Mas sabia muito bem o que aconteceria se o jantar não tivesse chegado bem na hora. Momentos depois, ele foi embora e fechou a porta tão silenciosamente que não se fez som algum. Quando finalmente olhou por cima do ombro, tudo o que viu foi a pizza no balcão. Certo, como se fosse comer alguma coisa. A caixa foi direto para a geladeira.

Saindo da cozinha, passou pela mesa e encontrou sua meia-calça atrás de uma cadeira. Seu elástico de cabelo estava no chão perto do arco que dividia os ambientes, já dentro da pequena sala de jantar. Ao inclinar-se para pegá-lo, ficou frente a frente com as compras da Victoria’s Secret e percebeu que seu sutiã ainda estava beeem fora do lugar. Deixou as sacolas ali e resolveu aquele pequeno problema com alguns puxões e vários palavrões. Enquanto aproximava-se das escadas, decidiu que usaria sua velha lingerie de algodão de sempre para ir trabalhar no outro dia. Era isso, muito obrigada.


CAPÍTULO 12

 

– Pergunta. Mesmo se não quebrar nada para entrar, ainda é considerado invasão de domicílio?

Adrian soltou essa pequena pérola assim que assumiram forma em frente à porta de entrada da casa de Thomas DelVecchio Jr. – e, se considerassem tudo o que ele havia dito até hoje, sabiam que o anjo poderia ter soltado um comentário muito pior.

Jim nunca passou tanto tempo em sua vida desejando protetores e fones de ouvido. Mas pelo menos o bastardo não tentou o rap.

– E aí? – Ad disse.

– Olha só, nós nem sequer existimos – Jim murmurou. – Então, você pode alegar que nem estamos aqui de verdade.

– Ótimo argumento. Acho que é legal.

– Como se o contrário o incomodasse.

A casa era decorada ao estilo de Jim: funcional, nada de especial, muito espaço vazio. O problema? Poucos itens pessoais, e precisavam de algum objeto feito com um pouco de metal. De preferência ouro, prata ou platina. Se conseguissem algum objeto com impressões suficientes de Veck, poderiam usá-lo como ponte para entrar no cérebro do cara remotamente: de acordo com Eddie, era arriscado demais fazer isso pessoalmente. Não com Devina por perto.

– Vamos nos separar – disse Jim. – Vou examinar o andar de cima.

Quando Ad e Eddie espalharam-se, Jim subiu as escadas de dois em dois degraus. O quarto principal ocupava metade do andar. Claro que essa afirmação soa mais impressionante do que a realidade, pois a metragem total não passava de setenta metros.

– Meu Deus, quanta coisa, hein amigo? – murmurou.

Não havia nada no quarto além de uma cama grande e uma porcaria de mesa de cabeceira com um abajur sobre ela. Nada de despertador – provavelmente o cara usava o celular para isso. Nada de telefone fixo, mas para que se precisava de um? Havia uma TV de tela plana fixada na parede, cujo controle remoto encontrava-se entrelaçado nos lençóis.

Havia algumas roupas sujas num cesto de plástico no canto, meias e cuecas transbordavam pelos lados como se a coisa babasse algodão preto. Abriu o armário... e havia camisas penduradas nos cabides, que era bem melhor do que a mala que Jim usava há anos para guardar suas roupas. Atrás da porta, havia alguns cintos com fechos de metal, mas tinha de haver algo melhor para que Jim pudesse usar.

Foi até o banheiro. Todas as luzes apagadas, mas o cara não usava cortinas, então havia bastante iluminação vinda da rua. Assim que entrou no cômodo pequeno e azulejado, sentiu algo forte em sua nuca, como se formigas rastejassem sobre a pele.

Devina.

– Onde você está? – disse, dando uma pequena volta ao redor de si. – Onde diabos você está?

O demônio esteve ali, podia sentir sua presença no ar, como o mau cheiro que exala de uma grande lixeira, mesmo depois de ter sido esvaziada. Aquilo dava alguma credibilidade à revelação de Devina no restaurante.

Quando se voltou para a pia, franziu a testa. O espelho estava coberto com uma toalha e o formigamento em sua nuca aumentou quando estendeu a mão e puxou o tecido felpudo.

Nada, a não ser um armário de remédios dos anos 1980 embutido na parede. Mas o vidro frontal estava totalmente contaminado. Será que ela passou pelo objeto de alguma maneira? – perguntou-se. Recuou no mesmo instante em que as pontas do dedo fizeram contato com a superfície espelhada. O armário de remédios estava gelado.

Droga, Veck sabia que alguma coisa estava atrás dele, não? Por que cobriria a coisa? A questão era: até onde o demônio havia chegado dentro dele?

– O que fez com ele, vadia?

Recolocando a toalha, Jim abriu as gavetas, verificou o desodorante, o tubo de pasta de dente extra e o cortador de unhas. Ei! Talvez aquilo funcionasse. Só que dificilmente o objeto teria uma conexão emocional com... Uma luz estendeu-se pela frente da casa, atingindo a janela onde Jim estava e lembrando-lhe que não se preocupara em ficar invisível. Fazendo o corpo desaparecer, olhou pela janela. Na calçada em frente à garagem, Veck saiu do táxi amarelo.

Jim atravessou o quarto principal e desceu as escadas, só seria percebido se alguém sentisse a brisa que seus movimentos produziam. Na cozinha, viu que Ad e Eddie também tinham ficado invisíveis, e os três esperaram juntos, formando uma pequena fonte de calor no canto do cômodo.

Ela ainda está nele – disse em pensamento aos seus amigos.

Posso senti-la daqui – Eddie respondeu.

Na entrada da casa, a porta foi aberta, fechada e trancada. Em seguida, passos pesados aproximaram-se de onde eles estavam.

– Mas que... droga...

As maldições continuaram enquanto Veck entrava na cozinha, jogava as chaves e arrancava a jaqueta. Em seguida, foi até a geladeira e pegou uma cerveja. Tirou a tampa e bebeu com vontade, era evidente que tivera uma noite difícil no trabalho.

De repente, o cara ergueu a cabeça, apoiou a cerveja e olhou diretamente para onde os três estavam. Ele não deveria ser capaz de senti-los, muito menos de vê-los. Nenhum deles moveu-se. Nem mesmo Veck. E foi nesse momento que Jim olhou para o chão de linóleo atrás do detetive... e notou que o cara projetava duas sombras.

Única fonte de luz? Duas projeções em sentidos opostos sob seus pés?

Em silêncio, Jim apontou para o chão e seus colegas assentiram.

Veck estendeu o braço e tocou um interruptor, iluminando melhor o ambiente. Em seguida, ele olhou ao redor.

– Puta... que... pariu.

Obviamente, esse era o mote da vida daquele cara e, se Ad não se encorajasse a soltar a voz, Jim consideraria cantarolar um pouco daquela música também.

Veck balançou a cabeça e voltou para sua cerveja, tomando o que restava de uma vez só. Deixou a garrafa vazia sobre o balcão, pegou mais duas na geladeira e andou até a sala. Destino: sofá.

Jim e seus amigos foram atrás dele, mas mantiveram distância. Veck era intuitivo ao extremo ou contaminado o suficiente para ter um radar que percebesse a presença dos anjos. Conhecendo a sorte que tinha, tratava-se da última opção.

O detetive retirou as armas para se sentar: removeu uma bela automática e uma faca. Em seguida, retirou o distintivo brilhante da polícia, prata e dourado. O homem segurou a coisa sobre a palma da mão em formato de concha por um tempo. Olhava como se fosse uma bola de cristal... ou talvez um espelho onde tentasse ver a si mesmo.

Deixe isso de lado, cara – Jim pensou. – Termine as cervejas, deite um pouco e tire uma soneca. Prometo que devolvo quando terminar.

Veck seguiu as instruções e colocou o distintivo com seu nome e número de registro na polícia junto às armas, bebeu as cervejas uma seguida da outra e recostou-se nas almofadas. Seus olhos fecharam-se um momento depois. Levou um tempo para que as mãos relaxassem e caíssem para os lados, mas, em seguida, a respiração lenta e profunda confirmou o descanso – e a deixa para que eles pegassem o que precisavam e saíssem.

Jim estendeu a mão à altura da cintura e deu uma de cavaleiro Jedi com o distintivo, fazendo o objeto levitar e trazendo-o até ele ao longo da escuridão. No instante em que a palma de sua mão fez contato, sentiu o mesmo frio que sentira no andar de cima, a crueldade de Devina habitava no espaço entre as moléculas do metal.

O cuidado de Eddie parecia exagerado... até agora. Considerando a forte mensagem que o distintivo transmitia, não dava para ser pego de calças curtas ao atuar naquela tarefa.

Jim indicou a janela com a cabeça e, como uma névoa, os três desapareceram.

Do outro lado da cidade, no centro urbano de Caldwell, o Hospital São Francisco era um complexo que brilhava como uma das ruas de Las Vegas. Sob seus telhados de vinte estilos diferentes, vidas começavam e terminavam aos milhares a cada ano, a luta contra o Ceifeiro da Morte era travada por todos os médicos, cirurgiões e enfermeiras que ali trabalhavam.

Devina estava bem familiarizada com o local: algumas vezes, aqueles humanos de jalecos brancos e uniformes cirúrgicos precisavam de uma pequena ajuda para garantir que o trabalho fosse feito corretamente. E, geralmente, isso significava a morte, mas nem sempre.

O demônio entrou na ala de emergência pela porta frontal automática. Vestindo sua bela pele feminina, capturou todos os tipos de olhares vindos de pais e irmãos sentados na sala de espera. Era por isso que não pegava atalhos. Passar através de vidros, metais ou tijolos era eficiente, mas chato: adorava ser admirada. Cobiçada. Desejada. E os olhares ardentes das outras mulheres, todos aqueles olhares cheios de ódio e inveja? Melhor ainda.

Encontrar Kroner no labirinto de corredores, andares e unidades foi muito fácil. Estava há anos dentro dele, ajudando-o a aprimorar suas habilidades e dando suporte à sua obsessão. Já nasceu doentio, mas lhe faltava coragem para seguir os impulsos – e a impotência agiu a favor dela. Nada instigava mais a violência contra mulheres atraentes num louco como ele do que o próprio pênis murcho e fino.

A UTI que procurava estava sete andares acima, e ela gastou um pouco de tempo nos elevadores, caminhando, observando os uniformes das enfermeiras. Nada demais. Tecidos de algodão com péssimo corte que não realçavam nada na parte de cima e evidenciavam a flacidez da parte de baixo. Que diabos achavam que estavam fazendo com aquele visual?

Quando finalmente aproximou-se das várias portas duplas de metal, pegou uma carona com uma servente e um idoso sobre uma maca. O velhote estava apagado, mas a mulher não deu apenas uma olhada, foram várias. Sem dúvida, continuaria a observar se as portas não tivessem sido abertas no andar que precisava ficar. Lançou um sorriso sobre o ombro, saiu e não conseguiu deixar de rir um pouco.

Enfim, era hora de começar a trabalhar. Tinha a opção de assumir a forma de uma névoa e serpentear sobre o chão lustrado, mas isso causaria pânico demais. Ou poderia continuar invisível, o que era considerado uma falha de originalidade em sua cartilha: tinha passado séculos desfrutando da interação com os humanos, disfarçando-se entre eles, beliscando seus calcanhares e esfregando-se contra seus corpos – ou indo até mais além. Não havia motivo para desperdiçar a oportunidade de divertir-se um pouco naquela noite, mesmo trabalhando. Afinal, sua terapeuta estimulava-a a encontrar um equilíbrio na vida.

Ao chegar à unidade, atravessou um corredor cheio de fotografias de vários diretores de departamentos. Muito útil, como perceberia logo em seguida. Ela parou diante de várias, observando as características, os acessórios, os nomes e títulos, os jalecos brancos e as gravatas listradas ou roupas mais formais. Era como comprar uma roupa nova. E tinha seu serviço próprio de alfaiataria.

Virando numa esquina do corredor, olhou para os dois lados para certificar-se de que estava sozinha e, então, cuidou da câmera de segurança acima dela, enviando uma carga elétrica suficiente para desativá-la sem explodir.

Em seguida, assumiu a aparência e o jaleco branco do chefe da neurologia, um tal de dr. Denton Phillips. O disfarce foi um pouco decepcionante e flácido se comparado ao traje exuberante da bela morena. O homem tinha mais ou menos sessenta anos e, embora fosse um homem branco, arrogante, bem conservado, sentiu-se mal e feia. Ao menos era melhor do que realmente parecia, e era temporário.

Quando voltou ao corredor principal, caminhou como um homem e era ótimo ver o respeito e o medo nos olhos dos funcionários pelos quais ela passava. Não tão divertido quanto a luxúria e a inveja, mas agradável mesmo assim.

Não precisava perguntar onde Kroner estava. Era muito fácil de encontrá-lo – e não ficou surpresa ao se deparar com um policial uniformizado sentado do lado de fora do quarto. O homem levantou-se.

– Doutor.

– Só vou levar um minuto.

– Fique o tempo que precisar.

Não era bem assim... Ela tinha que trabalhar rápido. Não fazia ideia de como o dr. Denton Phillips realmente era e não havia como ter certeza se a altura estava correta. Isso acontecia quando tudo o que se tinha era uma foto para servir de molde: aquele não era um bom momento para encontrar quaisquer colegas que o conhecesse bem – ou pior, o homem em si.

A UTI onde Kroner estava tinha paredes de vidro com cortinas, era possível ouvir o silvo do equipamento médico que o mantinha vivo. Deslizou a porta, empurrou o tecido verde de um biombo e entrou.

– Você está péssimo – ela disse com voz masculina.

Ao caminhar até a cama, deixou de lado a aparência do bom doutor e mostrou-se como a bela mulher que Kroner tinha conhecido há dez anos.

Havia tubos entrando e saindo pela boca e pelo nariz, e os fios emaranhados que saíam de seu peito davam-lhe a aparência de uma central telefônica. Muitos esparadrapos de gaze branca sobre a pele cinza. Muitos hematomas. E seu rosto parecia bexiga de festa, todo vermelho e brilhante, esticado pelo inchaço.

Aquele não era o fim que ela tinha planejado e no qual havia trabalhado. Era para DelVecchio ter cedido e matado o desgraçado antes mesmo de Heron ficar sabendo qual era a próxima alma. Infelizmente, seu cordeiro sacrificial louco e pegajoso tinha sido abatido por outra pessoa.

Pelo amor de Deus, era óbvio que não sobreviveria. Ela não era um médico – apenas interpretava um de vez em quando –, mas só aquela palidez já a fez pensar em funerais.

No entanto, ainda não era tarde demais para o bastardo. E, após esse deslize, não correria mais nenhum risco de perder essa rodada. Hora de tornar-se um pouco mais agressiva, especialmente se pensasse no acordo que tinha selado com Heron.

– Ainda não é sua hora – ela inclinou-se sobre a cama. – Preciso de você.

Fechando os olhos, acomodou-se sobre o corpo do homem, cobrindo-o por completo e, em seguida, infiltrou-se dentro dele através de cada poro que havia. O poder inato nela preencheu o vazio, reenergizou Kroner. Ao puxá-lo da espiral da morte, ela curou-o e deu-lhe forças ao mesmo tempo. E pensar que humanos confiavam em aparatos médicos. Tão rudimentar.

Os olhos de Kroner abriram-se conforme ela se retirava e reassumia sua forma. Então, ele encarou-a. Um brilho amoroso surgiu em seu olhar. Patético, mas útil.

– Viva – ela ordenou –, e nos veremos em breve.

Ele tentou acenar com a cabeça, mas havia muitos acessórios de entubação em sua garganta. Contudo, cumpriria a ordem. Quando ela olhou para o dispositivo de monitoramento, a frequência cardíaca já tinha alcançado estabilidade e sua pressão arterial estava regulada. O nível de oxigênio saiu de setenta e foi para noventa.

– Bom menino – ela disse. – Agora, descanse.

Erguendo a mão, colocou-o em um sono profundo e restaurador e, em seguida, reassumiu a imagem do bom e velho dr. Denton.

Entrar, sair, partir.

Saiu da sala envidraçada, acenou para o guarda e caminhou pelo corredor, passando por bajuladores e puxa-sacos que quase se ajoelhavam enquanto passava. O que era agradável. Ao ponto de ficar tentada a desfilar pelo hospital por um tempo, apenas para sentir melhor a experiência de ser aquele homem.

Mas não podia, a última coisa que precisava era encontrar alguém que realmente o conhecesse. E, mais importante, tinha um compromisso com a terapeuta bem cedo no outro dia e ainda tinha que escolher o que vestiria – isso poderia levar horas. Motivo pelo qual precisava de uma maldita terapia. Hora de ir.


CONTINUA

CAPÍTULO 7

 

Ao meio-dia, Reilly deixou a delegacia a pé e seguiu para o centro da cidade. O dia estava glorioso, com um sol de abril tão radiante e quente que afugentava aquela sensação dos doze graus exibidos nos termômetros. Mas a oficial não era a única que se beneficiava com o clima. Havia uma multidão nas calçadas e atravessando as faixas de pedestres, atrapalhando o trânsito, ao passarem com refrigerantes e sorvetes nas mãos; muitos comiam alguma coisa à beira de uma fonte ou sentados num banco do parque. Após seis meses de escuridão gelada, o Estado de Nova York ansiava por algum sinal de que o inverno realmente estivesse indo embora... E aquela bela hora do almoço não seria desperdiçada.

Aparentemente, Reilly estava no intervalo do trabalho, assim, poderia colocar a cabeça em ordem antes de ver Veck outra vez. Porém, seus passos tinham um propósito e uma direção aos quais ela recusava-se prestar atenção.

O Shopping Galeria era um dos projetos de revitalização do centro, mas, ao contrário de muitos outros, este realmente deu certo. Com uma grande loja de departamentos e uma grande livraria, os quatro quarteirões de prédios dos anos 1920 tinham sidos interditados, liberando apenas a passagem de pedestres. Era um atrativo que tinha revigorado o local e tornado-se o refúgio favorito de milhares de funcionários de escritório, assim como Reilly.

Contudo, diferentemente de suas colegas, era a primeira vez que andava pelas diversas lojas daquele centro comercial... quando parou em frente a uma delas, atraída pelo brilho rosa que irradiava do vidro. Oh, não. De jeito nenhum. Aquilo não era sua... Uma mulher saiu balançando duas grandes sacolas com as mãos e com um sorriso de orelha a orelha.


– Liquidação! – disse a Reilly. – Oba!

Sua voz saiu tão alta e estridente que parecia ter respirado hélio. Mas talvez fosse por usar um corpete embaixo do casaco – ao menos era o que parecia. Enfim, Reilly balançou a cabeça; liquidação ou não, não era o tipo de coisa que ela... Já tinha entrado na loja.

Maldição. Nunca tinha visto tanta roupa íntima num só lugar em toda sua vida.

O estilo Victoria’s Secret não é para quem tem problemas cardíacos... ou um traseiro grande – ela pensou, perguntando-se há quanto tempo, exatamente, não aparecia na academia. Desde o ensino médio. Não... Talvez tenha sido desde o fundamental.

Cara, toda aquela renda intimidava. Assim como as imagens tratadas das modelos expostas em toda parte, de tamanhos bem maiores que o natural. E, para piorar as coisas, o lugar estava lotado de mulheres que não eram bem do tipo de Reilly. Eram garotinhas com seus vinte e poucos anos, pegando tangas, sutiãs de bojo, peças de tamanhos mínimos e outras coisas. Mesmo os pijamas ou moletons pareciam estar destinados a ser arrancados com os dentes por algum garanhão...

– Oi, posso ajudá-la?

Reilly estremeceu.

– Ah...

A vendedora era uma linda afro-americana que, provavelmente, ficava ótima em cada peça pendurada na loja ou dobrada sobre as mesas. Comparando-se a ela, Reilly sentiu-se uma coisa esquisita e sardenta do tipo que pede para fazer tudo no escuro.

– Estou bem, obrigada...

– Estamos em liquidação.

– Sim, vi uma moça saindo com algumas sacolas – o que, considerando a pequenez das roupas ali, significava que a garota tinha comprado quinhentas, talvez seiscentas, peças daquilo tudo.

– Está procurando por alguma coisa em particular?

Reilly estava prestes a balançar a cabeça recusando, quando sua boca abriu-se por conta própria.

– Quero sentir-me mulher, e não uma oficial de polícia. Eu apenas... estou cansada de mim e do meu trabalho neste momento. Entende o que quero dizer?

Oh, droga, o que ela estava dizendo?... Só uma observação: aquilo não tinha nada a ver com Brittany, que se escreve Britnae.

A vendedora sorriu.

– Entendo. Você veio ao lugar certo.

Reilly olhou para um maiô asa-delta com estampa de tigre e não teve tanta certeza disso.

– Acho que nunca comprei lingerie antes... Nada que escolhesse com cuidado, meus sutiãs são do tempo da Guerra Civil. Talvez de alguma guerra do século XVIII.

– Bom, meu nome é Ralonda – estendeu a mão – e posso cuidar de você.

– Reilly. Quero dizer... Sophia – quando apertaram as mãos, ela murmurou: – Você tem algum tipo de formação em psicologia, por acaso?

– Na verdade, é isso que eu vou estudar na Universidade de Nova York, no campus de Caldwell.

– Deus, você é perfeita.

– Imagine – Ralonda sorriu outra vez, exibindo seu sorriso. – Vamos tirar suas medidas e depois vou trazer algumas coisas.

Uma hora e US$ 673,43 depois, Reilly saiu com três sacolas cheias de coisas. Quando chegou à porta, de cabeça erguida, viu-se sorrindo para as duas garotas que espiavam as vitrines.

– Eles estão em liquidação – disse a elas. – Melhor entrar. E chame por Ralonda... Ela é a melhor.

Elas entraram correndo, e Reilly caminhou até a delegacia com uma curiosa sensação de leveza. Talvez o sutiã de bojo cereja com calcinha combinando que acabara de vestir tivesse propriedades antigravitacionais, erguendo não apenas seus seios mas também o corpo inteiro. Fazia com que se perguntasse o que os astronautas usavam por baixo de seus trajes. A horrível imagem de um astronauta velhaco veio-lhe à mente. O cara usava apenas um minúsculo conjunto cor-de-rosa.

Deu-se conta de que entrar na delegacia com aquelas sacolas da Victoria’s Secret e um andar leve não passaria a mensagem certa... Especialmente agora que seria a parceira de Veck no próximo mês. Esquivando-se pela lateral da delegacia, aproximou-se de seu carro e escondeu as compras no porta-malas.

Desta vez, quando entrou pelos fundos e passou pelo guarda na recepção, estava um tanto constrangida, pensando se alguém poderia saber o que usava por baixo das roupas. Porém, como sempre, ninguém prestou nenhuma atenção nela. Apesar dos muitos talentos dos vários membros da polícia, parece que visão de raio X não era um deles.

A primeira parada foi seu escritório. Verificou rapidamente o correio de voz e os e-mails. Em seguida, pegou um bloco de notas e seguiu para o Departamento de Homicídios. E, como se pode imaginar, a confiança nas propriedades ocultas do algodão e da Lycra acertou em cheio a todos ali quando abriu a porta do departamento. Todos olharam para cima, inclusive Veck.

Certo. Agora entendia por que as pessoas odeiam aqueles sonhos em que andam nuas numa sala cheia de pessoas. Nunca tivera um pesadelo assim antes e, enquanto colocava o bloco de notas em frente aos seios, não estava com muita pressa de vivenciá-lo.

As pessoas apenas acenaram e cumprimentaram, e ela acenou e cumprimentou de volta enquanto dirigia-se até Veck. O cubículo ao lado dele estava praticamente vazio, havia apenas um computador e um telefone. Quando Reilly sentou-se, manteve o caderno contra o peito.

Veck encostou-se na cadeira fazendo com que seu peito parecesse enorme contra a camisa branca.

– Tudo certo na sua sala?

– Sim. No que vamos trabalhar hoje?

Ele fez um gesto com a cabeça indicando a tela do computador.

– Encontrei alguma coisa para passar o tempo. Estava esperando você chegar... Pensei em fazer um reconhecimento de campo e consultar outra vez algumas testemunhas.

– Ótimo. Qual é o caso?

– Digo no caminho. Importa-se se usarmos o seu carro? Só tenho moto.

– Ah... – com certeza não haveria motivo algum para ele olhar no porta-malas. – Claro. Sim. Tudo bem.

– Obrigado, oficial. Ou deveria chamá-la de detetive nas próximas semanas?

Quando se levantaram juntos e ela viu-se com o rosto na altura do peitoral de Veck, sabia que era hora de sufocar sua Britnae interior.

– Só Reilly está bom – respondeu.

Por um momento, os olhos de Veck baixaram, e ela poderia jurar que ele murmurou “com certeza está”.

Sem dúvida a lingerie nova fazia-a ouvir coisas.

– Espere um minuto... esse não é um caso antigo de homicídio.

Ao pararem num sinal vermelho, Veck recebeu um olhar sério de sua nova parceira... o que foi muito excitante.

Endireitando-se no banco e rezando para que sua ereção não explodisse antes de chegarem ao local de destino, fez um esforço para manter a voz equilibrada e sem qualquer sinal de rouquidão. Porém, pelo amor de Deus, se aquilo fosse um indício de como seriam as próximas quatro semanas... estava com problemas.

– Tecnicamente, é uma desaparecida...

– Não existe “tecnicamente” nesse caso. Não há um corpo.

– Posso terminar?

– Desculpe – quando o farol ficou verde, ela pisou no acelerador. – Mas tenho um pressentimento de onde isso dará, e você não chegará nem perto do caso Kroner.

Veremos – ele pensou.

– Recebi um telefonema do FBI esta manhã. Estão trabalhando no caso dessa garota desaparecida e queriam saber se existe mais alguma novidade. Respondi que ficaria feliz em examinar o que já temos sobre...

– O FBI pode fazer isso sozinho...

– Não há motivo para não ser amigável. Ou para concluir que há alguma ligação com Kroner.

Ela franziu a testa.

– O que o FBI acha?

– Não perguntei. Talvez seja interestadual – pois, talveeez, aquilo fizesse parte do caso Kroner... e foi por isso que ele não perguntou nada.

– Só para que fique bem claro: se houver qualquer ligação com o caso Kroner, estamos fora.

– Certo – colocou a mão no bolso da frente do casaco e pegou um relatório de três páginas. – Cecília Barten, dezoito anos, desaparecida há apenas três semanas. Vista pela última vez saindo de casa para ir ao supermercado na avenida Union. Câmeras de segurança do estacionamento e da saída da loja não gravaram nada, graças a uma sobrecarga de energia.

– E por onde vamos começar?

– Pela casa dos pais. Quero verificar se deixaram passar alguma coisa. A mãe dela está esperando por nós... Vire à direita aqui.

Reilly seguiu as placas e virou, entrando num bairro não muito longe de onde Veck morava. Ali as casas eram um pouco maiores e mais bem conservadas. Não havia carros estacionados na rua, e Veck imaginou que não haveria grandes caminhonetes ou sedãs guardados naquelas garagens. Não tanto quanto minivans... Porém, naquela região, moravam vários casais com filhos, então, talvez estivesse errado.

– Certo – ele murmurou, olhando as casas – 491, 493, 495... aqui.

Reilly estacionou no meio-fio em frente ao número 497. Depois de desligar o motor, saíram do carro...

Logo atrás deles estacionou uma suv dourada com insulfilme e três agentes federais desceram. Os homens estavam à paisana e, quando saíram, o motorista de cabelo loiro escuro exibiu suas credenciais.

– Jim Heron. Conversamos pelo telefone. Estes são meus parceiros, Blackhawk e Vogel.

– Thomas DelVecchio.

Quando apertaram as mãos, Veck sentiu uma energia estranha e recuou.

– Esta é a oficial Reilly. Quer entrar conosco?

O agente estreitou os olhos ao observar a casa.

– Sim. Obrigado. Meus parceiros vão esperar aqui.

Boa ideia. Seria difícil que todos coubessem naquele hall minúsculo. Enquanto passavam pela entrada de tijolos à vista, uma bandeira balançava casualmente com a brisa da primavera. Ela tinha um tom pastel e um desenho em formato de ovo estampado, metade cor de lavanda, metade cor-de-rosa e com uma faixa amarela ao meio.

A Páscoa ocorrera no fim de março, bem na época do desaparecimento da moça. Sem dúvida, a bandeira fora esquecida ali... ou talvez a família rezasse para que Cecília Barten ressuscitasse a partir daquilo. De qualquer maneira, a ruína tinha atingido aquela casa, mesmo que ainda restassem quatro paredes e um teto: a garota estava morta. Veck sentia em seus ossos, mesmo não sendo do tipo que sente coisas.

Campainha... espera... espera...

Veck olhou para Reilly. Parecia triste ao se inclinar para trás e observar as janelas do segundo andar... Será que a oficial estava tentando descobrir qual delas correspondia ao quarto da garota? Atrás dela, Heron passava uma excelente impressão de uma estátua: grande e imóvel. Seus olhos estavam focados na porta da frente, como se pudesse enxergar através das paredes.

Veck franziu a testa. Havia algo estranho no cara. Contudo, não era uma questão de competência. O agente irradiava uma precisão militar sobre tudo, desde a forma com que exibiu suas credenciais até o jeito que andava e como se mantinha imóvel. Ainda assim... o que será que...

A porta abriu com um rangido suave, e a mulher do outro lado parecia que não dormia nem comia direito há muito tempo.

– Bom dia, senhora. Sou o detetive DelVecchio. Estes são a oficial Reilly e o agente Heron.

Todos mostraram suas credenciais.

– Por favor, entrem – ela recuou e fez um gesto com o braço. – Posso servir alguma coisa?

– Não, obrigado, senhora. Agradecemos por dispor de seu tempo para conversar conosco.

A casa estava impecável, com cheirinho de desinfetante e lustra-móveis. O que sugeria que a senhora Barten limpava as coisas em momentos de tensão.

– Será que poderíamos conversar na sala de estar? – ela disse.

– Por favor.

A sala estava cheia de lembranças e bens de família, com papel de parede florido e dois sofás lisos. Quando a senhora Barten sentou-se numa poltrona e todos tomaram um lugar no sofá, Veck observou bem a mulher. Estava saindo da casa dos quarenta, com muitos cabelos loiros puxados para trás e enrolados num coque. Tinha um corpo magro e alongado... O peso que perdera recentemente realmente lhe fazia falta. Nada de maquiagem e, mesmo assim, era bonita. Porém, tinha um olhar vazio.

Droga, por onde começar?

– Senhora Barten – Reilly interrompeu –, pode nos contar sobre sua filha? Coisas que ela gostava de fazer ou nas quais era boa. Lembranças diversas.

Encarando sua nova parceira, Veck teve vontade de gesticular um “obrigado” com a boca. Especialmente quando a tensão deixou os ombros da mulher e o esboço de um sorriso surgiu.

– Sissy era... é... – ela se corrigiu. – Por favor, me desculpem. Isto é difícil.

Reilly aproximou-se da poltrona.

– Leve o tempo que precisar. Sei que pedi muito.

– Na verdade, ajuda quando falo dela. Faz com que me sinta melhor.

Numa voz hesitante, que gradualmente ganhou ímpeto, as histórias começaram a surgir, pintando o retrado de uma garota muito inteligente, boa e um pouco tímida, do tipo que nunca se envolveria em problemas se pudesse evitá-los.

Cecília Barten foi assassinada – Veck pensou. Não era um daqueles relatos de fuga motivados por drogas ou por causa do ciúmes de um namorado abusado e descontrolado. Era uma família estável. Uma jovem feliz. Futuro brilhante. Até que um carro bateu contra sua vida e levou tudo.

– Importa-se que eu olhe as fotos que estão ali? – Veck disse quando houve uma pausa na narrativa.

– Por favor.

Levantou-se e foi até uma das estantes embutidas ao lado de cada uma das janelas arqueadas que davam para a rua. Dois filhos. A outra era a irmã mais nova. Havia fotos de festas de formatura, aniversários, passeios no campo e jogos de hóquei... reuniões de família e casamentos... Natais.

Olhava com admiração tudo aquilo. Cara, aquilo era o melhor que a vida “normal” tinha para oferecer e, sem razão alguma, pensou em como, enquanto ele crescia, sua família não conseguiu ter nada daquilo... momentos felizes e fotografias para exibi-los. O tempo que passou com sua mãe não dava vontade de compartilhar com ninguém. Aliás, não era nada que quisesse lembrar.

Ele estendeu a mão e pegou uma das fotos 5×7. Cecília estava em pé ao lado de seu pai, braço estendido sobre o dele e com uma das mãos descansando sobre as dele. Era muito parecida com sua mãe, apenas um pouco com seu pai. Mas a linhagem era clara.

–... ligou para casa? – Reilly disse.

Veck voltou à conversa.

– Isso – a senhora Barten disse. – Ela saiu por volta das nove horas. Eu tinha acabado de operar meu pé... Corrigi uma deformação no dedo... – por um momento, a mulher parecia ruminar alguma coisa em pensamento, e Veck apostava que era o quanto desejava voltar no tempo, quando suas maiores preocupações eram encontrar sapatos confortáveis. Mas, talvez, também estivesse se culpando. Ela balançou a cabeça e voltou a se concentrar.

– Eu estava imobilizada. Dei a Sissy uma lista de compras e... ela me ligou do mercado. Não sabia se eu queria pimenta verde ou vermelha. Eu queria as vermelhas. Estava fazendo um... – as lágrimas vieram e ela piscou com força para afastá-las. – De qualquer maneira, essa foi a última vez que alguém teve notícias dela.

Veck voltou a colocar a fotografia na prateleira. Quando foi sentar-se ao lado de Heron outra vez, franziu a testa. O cara olhava para a mãe da vítima como se ele fosse uma filmadora, como se estivesse lendo e registrando cada contração do olho ou da boca que ela fazia enquanto falava.

Quando o radar de Veck começou a soar feito louco, não ficou claro o motivo... Seria a garota desaparecida, ou sua mãe triste e adorável, ou aquele homem imenso que parecia ter a capacidade de incendiar alguma coisa com aquele olhar?

– Posso perguntar uma coisa? – Veck disse. – Ela teve algum namorado?

Com o canto do olho, pôde ver Heron apertando as coxas com força.

– Não. Tinha alguns amigos, claro, e um encontro em bailes de formatura aqui e ali... mas nada sério. Ao menos, não que ela tenha me contado... e costumava ser sincera sobre o que se passava em sua vida.

Aquelas mãos relaxaram de repente.

– Quer perguntar alguma coisa? – Veck disse ao agente.

Houve um longo silêncio. Pouco antes de tudo ficar realmente estranho, o cara disse com uma voz baixa e profunda: – Senhora Barten, vou trazê-la de volta para casa. De uma maneira ou de outra, vou trazê-la de volta para a senhora.

Veck recuou, pensando: Droga, não faça assim, cara.

– Ah, o que ele quer dizer é...

– Está tudo bem – a senhora Barten apertou a garganta com uma das mãos. – Não estou me enganando. Sei que ela está... que não está mais entre nós. Uma mãe sente o frio no coração. Só queremos saber o que aconteceu e... providenciar um descanso adequado para ela.

– Vai tê-la de volta. Juro.

Agora, a senhora Barten soluçava... e por que não choraria? O cara parecia um guerreiro acostumado com a rotina da vingança, era mais um vingador do que um agente.

– Obrigada... Agradeço a todos vocês.

Veck olhou discretamente o relógio.

– Se me der licença, eu e minha parceira vamos nos dirigir ao supermercado. O gerente disse que sairia mais cedo hoje.

– Oh, sim, claro.

O agente Heron ajudou a senhora Barten a se levantar dando-lhe a mão.

– Seria incômodo se eu desse uma olhada no quarto dela?

– Claro que não... Vou levá-lo até lá – voltou-se para Veck e Reilly. – Se precisam ir agora, voltem sempre que precisarem.

– Obrigada – Reilly disse. – Faremos isso.

– E vamos sair logo por aquela porta – Veck murmurou.

Quando o agente Heron e a mãe da vítima chegaram às escadas, Veck parou no hall e observou os dois subirem juntos. Uma janela no andar de cima iluminava-os, o raio de luz solar atingia os dois rostos e agia como um farol para...

Espere um minuto.

Veck olhou para a sala de estar... de onde os raios dourados vinham do lado oeste. Impossível. Não poderia estar vendo aquele efeito de luzes em direções opostas: vinha da frente e dos fundos da casa.

– O que é isto? – Reilly disse suavemente.

Veck voltou a olhar para a escada. Heron e a senhora Barten não podiam mais ser vistos, e a luz tinha ido embora também, a janela não mostrava nada além de galhos de árvores atrás da casa e o claro céu azul sobre ela.

– Vou subir – disse à sua nova parceira. – Só por um minuto.


CAPÍTULO 8

 

Quando Jim seguiu a mãe de Sissy, sentiu-se muito oprimido. Num canto escuro de sua mente, sabia que precisava manter o controle diante de Veck, mas isso não aconteceria por muito tempo.

Virando-se no alto da escada, os sons da casa subiram a níveis de um heavy metal estridente. Tudo, desde o rangido sutil do chão acarpetado sob suas botas até a conversa suave que acontecia no saguão lá embaixo ou sua própria respiração soando forte atrás da garganta, tudo parecia gritar em seus ouvidos.

De repente, Veck apareceu atrás deles e fez um comentário rápido. Jim assentiu para o cara... e, imediatamente, esqueceu até mesmo que estava ali.

– O quarto de Sissy é por aqui.

Os três seguiram à direita e, quando a senhora Barten hesitou diante da porta fechada, Jim ergueu a mão para colocá-la em seu ombro... mas não conseguiu fazer contato.

– Prefere que entremos sozinhos? – ele perguntou.

A senhora Barten abriu a boca. Mas apenas assentiu com a cabeça.

– Não entro aqui desde... aquela noite. Está do jeito que ela deixou.

Naquele momento, o telefone tocou, e ficou evidente o alívio no rosto da mãe de Sissy.

– Vou atender. Fiquem à vontade para abrir as gavetas e o armário, mas se precisarem levar alguma coisa, poderiam me dizer o que é?

– Com certeza – Veck respondeu.

Assim que a mãe de Cecília apressou-se em descer as escadas e desapareceu no que Jim concluiu ser a suíte principal, ele abriu a porta... um cheiro maravilhoso. Entrando, fechou os olhos e tentou não se sentir um pervertido ao respirar fundo. Perfume. Loção corporal. Lençóis secos. Era... extraordinário. Mas ele não pertencia àquele quarto. Já tinha feito coisas que não deveriam sequer passar pela cabeça de alguém que entrasse num quarto como aquele... e a representação daquelas maldades estavam na tinta que cobria suas costas. Além disso, estava armado. E ainda havia aquela porcaria que fez com o demônio na noite anterior. Sentia-se sujo.


Enquanto Veck fazia o reconhecimento do quarto sozinho, Jim abriu os olhos e foi até uma estante modulada com escrivaninha embutida em frente à janela. A superfície plana e as prateleiras eram pintadas de branco, mas a cadeira era azul, combinando com as cortinas e o papel de parede listrado. Havia um tapete com franjas trançadas sobre a área acarpetada. Feito a mão. Tinha de ser.

Os livros enfileirados estavam em ordem e tinham uma temática bastante feminina. Gostava de Jane Austen, mas também havia uma prateleira inteira de Gossip Girls... provavelmente deixada ali desde que Sissy tinha treze anos. Algumas medalhas, vermelhas e azuis. Troféus. Sobre a mesa havia um notebook junto com dois livros, um sobre cálculo e outro sobre... trigonometria avançada? Hum. Sua garota era mais esperta que ele.

Havia também uma revista, Cosmopolitan, daquele mês. Tudo bem, a capa com título “orgasmo” em fonte gigantesca e cor rosa-choque não combinava exatamente com o resto daquele ambiente inocente de trabalhos escolares... mas ela estava crescendo, não estava?

Virando-se, foi até o pé da cama de solteiro. Agora sabia por que a mãe da garota não entrava ali. A colcha azul estava puxada para trás e os travesseiros ainda amassados, como se Sissy tivesse acabado de tirar uma soneca.

– Estou indo – Veck disse. O que fez Jim se perguntar há quanto tempo estariam naquele quarto.

– Vejo você em breve – disse Jim distraído.

– Entendido.

Quando ficou sozinho, a mão de Jim estremeceu ao estender-se para tocar os lençóis. Ao acariciar os objetos que sua pele tinha tocado, pensou em Devina e no que aquele demônio tinha feito com a garota... e com a família dela.


Adrian e Eddie estavam errados. Se queriam Jim concentrado na guerra, ali era exatamente o lugar onde precisava estar. Aquilo era motivação para vencer: Sissy nunca mais deitaria em sua cama. Não terminaria o artigo que estava lendo. E não mais lidaria com números. Nunca mais. Mas, ao menos, Jim poderia providenciar um lugar melhor para Sissy ficar enquanto não pudesse se juntar a seus pais e sua irmã por toda eternidade. E, então, faria Devina pagar mil vezes por tudo o que fez.

Na mesa de cabeceira havia um despertador branco, outra revista – desta vez era a In Touch – e o controle remoto de sua pequena televisão branca. Teve a impressão de que, mesmo fazendo faculdade, Sissy voltava aos fins de semana, e uma espiada em seu armário confirmou isso. Considerando o número de blusas, calças, saias e vestidos, não parecia que tudo aquilo tinha sido excluído da lista dos favoritos, mas que estava pronto para usar. Havia também vários sapatos no chão.

Deixou as gavetas da cômoda de lado, pois não sabia em qual delas guardava as... roupas íntimas. Provavelmente, nas duas primeiras, mas não correria o risco de confiar no chute. Já tinha assumido o papel de um mero observador ali, pois não tinha mais esperança em encontrar alguma coisa que o ajudasse a salvá-la. Deus era testemunha de que não havia nada na Terra capaz disso. Já ele queria apenas... estar perto dela.

Certo. Muito bem. Isto era o tipo de coisa com a qual Ad e Eddie preocupavam-se. Assim, percebeu que era hora de ir. Mais uma vez, não tinha noção de quanto tempo estava ali. Seria dois minutos ou duas horas, mas a última coisa que desejava era a mãe de Sissy batendo na porta para saber se ele estava bem ou se já tinha ido embora.

Não pegaria nada, mesmo sentindo a tentação de ficar com algum objeto, algo para se fiar em momentos difíceis... alguma coisa de Sissy. Contudo, a família já havia perdido demais e não tiraria mais nada deles.

Jim passou um último momento olhando ao redor e, então, obrigou-se a sair. No corredor, fechou a porta e ouviu. A mãe de Sissy estava no quarto ao lado, falando em voz baixa e embargada.

Desceu as escadas e esperou discretamente no hall onde ficava a porta da frente. Inclinando-se para o lado, olhou a sala de estar em direção às fotos ao longo das grandes janelas. A que mais lhe chamou a atenção – tanto que se aproximou dela – foi uma foto de rosto de Sissy. Ela não olhava para a câmera, mas para o lado, e não sorria. Parecia mergulhada em seus pensamentos, e a expressão em seu rosto não era a de uma menina, mas de uma... sobrevivente. Parecia ter uma vontade de ferro.

– Ela não fazia ideia de que a câmera a focava.

Jim endireitou-se e olhou para a mãe dela.

– Não?

A senhora Barten aproximou-se e pegou o retrato.

– Sempre sorria quando havia uma câmera por perto. Quando seu pai tirou esta, estava assistindo suas colegas de time jogarem... Praticava hóquei de campo. Tinha torcido o tornozelo e estava no banco... mas queria estar com elas – a mulher ergueu o olhar. – Era mais forte do que aparentava ser.

Quando seus olhos encontraram os de Jim, ele respirou fundo e pensou: Graças a Deus... isto a manterá sã até o momento em que eu conseguir salvá-la.

A senhora Barten inclinou a cabeça para o lado.

– Você é diferente dos outros.

Hora de ir.

– Sou como todos os outros.

– Não, não é. Nas últimas três semanas, vi mais oficiais, detetives e agentes do que em qualquer programa policial na TV que tenha assistido ao longo de toda minha vida – estreitou o olhar – Seus olhos...

Jim virou-se para a porta.

– O detetive DelVecchio entrará em contato...

– Quero te dar uma coisa.

Jim congelou com a mão na maçaneta e pensou – Má ideia – estava louco para aceitar qualquer coisa que ela oferecesse.

– Não precisa.

– Aqui.

Quando ele virou-se para dizer um “não, obrigado”, percebeu o toque daquelas mãos em sua nuca. Havia colocado em seu pescoço uma delicada corrente de ouro.

– Ela usava todos os dias. Encontrei em cima da pia do banheiro dela... Tinha tomado banho e esqueceu de colocar de volta... De qualquer maneira, fique com isto.

Pendendo na corrente havia um delicado pássaro feito de ouro. Uma pomba.

– Foi presente do pai no aniversário de dezoito anos. Fazia parte de um conjunto.

Jim balançou a cabeça.

– Não posso. Eu...

– Fique. Fará com que seus olhos continuem assim, nossa família precisa disso.

Depois de um momento, ergueu as mãos e substituiu os dedos da senhora Barten pelos seus. O colar e o pingente não pesavam nada. E mal cabiam em volta de seu pescoço. Mas seu dedo passava por ele como um sonho, mesmo o fecho sendo pequeno e suas mãos, enormes.

Quando baixou os braços, olhou para ela.

– Como estão os meus olhos? – disse ele com voz rouca.

– Desolados.


CAPÍTULO 9

 

O supermercado ficava a pouco mais de oito quilômetros de distância da casa, mas Reilly levou um bom tempo para chegar lá. Entre o trânsito e os faróis vermelhos, estava começando a achar que os dois passariam uma eternidade naquele carro.

Ou talvez o zumbido em sua cabeça fizesse parecer assim.

– No que está pensando? – Veck disse.

Apertou as mãos no volante e endireitou-se no banco do motorista.

– Se o caso de Cecília Barten estiver relacionado às vítimas de Kroner, teremos que deixá-lo. Está preparado para isto?

– Sim, estou.

Ao olhar para ele, percebeu que o maxilar de seu novo parceiro estava rígido e o corpo, todo tenso.

– Tem certeza? – porque ela não tinha.

– Sim, tenho.

Você é um filho da mãe teimoso que faz o que quer mesmo que isso contrarie uma ordem direta? Sim. Sou.

Assim que entrou no estacionamento e começou a caça por uma vaga, seu telefone tocou.

– Oficial Reilly. Uh-hum, sim... não é surpresa. Mesmo? Certo, e obrigada por me contar. Sim, mantenha-me informada.

Desligou e estacionou entre um carro prata antigo e uma caminhonete azul. Virando-se para Veck, disse: – Kroner está muito mal. Não há esperanças de que ele sobreviva.

O rosto rígido de Veck não expressou nada.

– Que pena. Talvez ele soubesse o que aconteceu.

– E saiu o resultado das análises feitas nas amostras que coletaram dele... Havia resíduos de saliva, mas as leituras não dão plena certeza quanto à fonte. Há semelhanças com pumas e lobos. Difícil dizer com certeza, mas a hipótese de ter sido um animal parece continuar ser a mais correta.

Ele assentiu e abriu a porta.

– Se importa se eu fumar antes de entrar?

Parece que estava tendo uma reação, afinal.

– Sem problema.

Saíram, e Veck foi até a parte traseira do carro, inclinando-se contra o porta-malas e tirando um Marlboro do maço... Um homem como ele poderia fumar outra marca? Quando ele acendeu o cigarro, Reilly esforçou-se para não pensar que suas calcinhas e seus sutiãs estavam separados de Veck apenas pela tampa do porta-malas.

Veck teve o cuidado de não exalar perto dela ou na direção em que o vento levasse a fumaça até a colega.

– Mau hábito – ele murmurou. – Mas ninguém vive para sempre.

– Verdade.

Encostando-se sobre o carro, ela cruzou os braços sobre o peito e olhou para o sol. O calor em seu rosto era uma bênção e fechou os olhos para apreciá-lo um pouco mais. Quando finalmente abriu os olhos outra vez, ficou chocada. Veck encarava-a e havia uma expressão em seu rosto... uma sugestão sexual. Ela tinha quase certeza de que estava deduzindo errado. Mas, em seguida, ele desviou rápido o olhar. Não era uma atitude comum quando se estava pensando em trabalho.

De repente, a temperatura primaveril aumentou e, agora, era ela quem o encarava. Bem, “flerte” parecia uma boa palavra para o que estava acontecendo.

Quando ele levou o cigarro aos lábios, sua boca se abriu e houve uma leve sucção, a ponta do objeto ficou alaranjada e os dedos indicador e médio aliviaram brevemente a pressão que faziam sobre o cigarro.

Oh, malditos sinos – ela pensou. Fumar era um hábito mortal e nojento, o qual ela não aprovava... Por isso, era perturbador perceber que todos os filmes ao estilo Casablanca faziam bem ao aproximar a câmera em longos closes em cenas como esta. Havia um toque erótico inegável em tudo aquilo. Especialmente quando a fumaça saía devagar de sua boca e projetava uma breve sombra em seus olhos azuis-marinhos e em seus cabelos escuros bem cortados.


Desviou o olhar rapidamente antes que ficasse presa ao...

– Então? – ele perguntou.

– Desculpe, então o quê?

– Perguntei o que achava.

Certo. Que tal responder assim: acho que todo o vermelho cereja que estou usando embaixo das roupas deformou o meu cérebro. Porque estou achando a ideia de subir em cima de você e montar feito uma vaqueira de chapéu na cabeça muito interessante.

– Preciso de mais informação antes de formar uma opinião – Então, que tal acender outro cigarro desses, garoto malvado, e arrancar as calças depois? – Oh, Deus.

– Você está bem? – ele disse, inclinando-se e colocando a mão livre sobre o braço dela. – Não comeu muito no café da manhã... Comeu alguma coisa no almoço?

Você está apoiado sobre as três sacolas do que fiz na hora do almoço, garotão.

– Sabe? – ela limpou a garganta. – Acho que devo comer alguma coisa.

E que Deus a ajudasse se seu cérebro cuspisse alguma coisa parecida com chantili sobre o corpo dele. Se isso acontecesse, pediria para ser transferida.

– Vamos entrar – ele disse, apagando o cigarro na sola do sapato.

Boa ideia. E já deixaria anotado: nada de tempo livre com seu parceiro. Nunca.

Aproximaram-se e passaram pelas portas automáticas, pela fila de carrinhos na recepção e entraram no supermercado propriamente dito.

Quando Veck parou e olhou ao redor, ela fez um gesto com a cabeça para a direita.

– O escritório do gerente é por aqui.

– Faz compras aqui?

– Esses estabelecimentos são praticamente todos iguais.

Enquanto caminhavam juntos, ele disse: – Devia conhecer este aqui de cor. Minha casa não fica longe.

– Então, faz suas compras aqui?

– Café e cigarros... bem saudável, não?

Ele parecia estar em ótima forma.

– Sempre se pode mudar de hábitos.

– Sabe? Eu parei por um tempo. Cigarros e cafeína.

– O que o fez voltar a consumi-los?

– Acertar aquele fotógrafo.

Aaah, então ele tinha emoções.

– Tem muito estresse em seu trabalho.

– Já foi fumante?

– Não, nunca bebi muito também. Não tenho muita inclinação para esses vícios.

Por outro lado, fazer compras poderia acabar se tornando um.

E este foi o último pensamento que teve sobre questões que não diziam respeito ao trabalho. Quando entraram no setor de atendimento ao cliente, colocou todas as distrações de lado, sua cabeça voltou a funcionar ao imaginar a filha da senhora Barten indo até a loja para ajudar sua mãe... O que deveria ser uma simples comprinha para abastecer a dispensa acabou tornando-se um pesadelo. Talvez por causa de Kroner.

Enquanto ela preparava-se para mostrar o distintivo ao gerente, pensou ser muito perigoso imaginar Veck ou mesmo aquele agente durão, Heron, arrancando a cabeça do cara. Mas nem um serial killer merecia esse tipo de justiça. E não ia se iludir: não seria uma surpresa descobrir Sissy na lista de vítimas de Kroner, e essa era a razão exata pela qual Veck estava interessado no caso. Mas Reilly jogava de acordo com as regras. Sempre tinha jogado, sempre jogaria. Entregaria o caso a De la Cruz assim que percebesse alguma relação com Kroner e daria um jeito de direcionar a atenção de Veck para outra coisa. Nem que isso matasse-o.

Quando Veck checou seu relógio outra vez, eram 16h30. O gerente falava devagar, e a gravação digital das câmeras de segurança levou um tempo para ser revista. Ainda havia uma empacotadora e dois funcionários que organizavam os carrinhos para entrevistar. Nenhuma informação nova, mas, caramba, ele e Reilly trabalhavam muito bem juntos.


Ela sabia exatamente quando tomar a frente e, assim como com a senhora Barten, tinha jeito para deixar as pessoas à vontade... O que significava que acabavam falando mais. Enquanto isso, ele observava o ambiente e avaliava todas as coisas que as pessoas não diziam, mas que demonstravam no semblante.

Do lado de fora do balcão de atendimento ao cliente, apertou a mão do gerente e, em seguida, Reilly fez o mesmo.

– Obrigada por seu tempo – ela disse ao cara. – Agradecemos muito.

– Não acho que foi possível ajudá-los de verdade – o homem empurrou os óculos quadrados sobre o nariz. – Agora ou antes. Sinto-me horrível por toda a situação.

– Aqui está o meu cartão – ela entregou-o. – Pode me ligar a qualquer hora... Estou disponível 24 horas, 7 dias por semana. E, pode acreditar, você se abriu e foi honesto... Era tudo que podia fazer.

Veck entregou seu cartão também e, então, estavam indo para a saída.

– Jante comigo – Veck disse de repente. Afinal, uma segunda oportunidade de compartilharem uma refeição tinha que ser melhor do que a primeira. Desde que ele não se comportasse como um idiota, todo na defensiva, outra vez...

Tudo o que obteve como resposta foi uma desaceleração no andar e uma longa hesitação. E, em seguida, um “Ah...”

Não era um bom sinal, então, reforçou o convite com uma justificativa lógica: – Temos que organizar as anotações das entrevistas que fizemos nas últimas quatro horas. Podemos muito bem comer ao mesmo tempo... E sei que deve estar faminta.

Cara, olha só isso. Tranquilo, casual. Perfeito.

Parou em frente a uma grande vitrine com prateleiras cheias de nachos, potes de salsa e um refrigerador cheio de queijos.

– Vou cozinhar para você. Comida mexicana... é minha especialidade.

Na verdade, aquilo poderia ser real se comparasse a outras coisas: não sabia nada sobre cozinha, mas, considerando o que pretendia fazer, tinha mais chances de acertar que com qualquer outro estilo culinário. Afinal, pedir coisas pelo telefone era sua única especialidade. Mas, vamos lá... não era tão difícil. Pegar uma caixa de tacos no corredor de salgadinhos? Como poderia errar?

– Deveríamos manter as coisas no âmbito profissional – ela argumentou.

– Não é um encontro, prometo. Você é boa demais para isso, e eu não sou tão sortudo.

Quando as sobrancelhas ergueram-se, deixou no ar o comentário que havia feito, pois era verdade e os dois sabiam disso.

– Então, o que me diz, oficial? O único tempero estará no molho.

Isso produziu nela um verdadeiro sorriso, seus lábios até curvaram-se para cima.

– Eu gosto de comida mexicana.

– Então, sou o cara certo.

Por um momento, apenas olharam um para o outro. Então, ela falou lenta e cuidadosamente: – Tudo bem, mas onde?

– Na minha casa.

Passando à frente dela, Veck pegou um carrinho e encheu-o com itens da vitrine de nachos. Parecia uma dádiva vinda dos céus: todos os ingredientes estavam enfileirados, então, não tinha muito que escolher. Porém, era apenas o começo, e ele dirigiu-se ao local onde um cartaz indicava “COMIDA MEXICANA”.

– Está olhando para mim, oficial? – disse ao perceber os olhos dela sobre ele.

– Só estou... surpresa. É isso.

– Com o quê?

Colocando o carrinho em frente a uma prateleira cheia de caixas de um amarelo brilhante, esperou uma resposta de Reilly.

– Tacos ou enchiladas? – quando não houve resposta a essa pergunta também, ele pegou uma caixa. – Tacos.

Pensou no que ainda faltava. Alface. Queijo... Observou o carrinho e decidiu que precisavam de mais. Tomates. Entendido.

– Onde é a parte de hortifrúti?

– Seguindo por ali, à esquerda. Mas precisamos de hambúrgueres.

– Sim, bem lembrado.

O balcão de carnes e congelados ficava mais ao fundo da loja e, ao passarem pelas bandejas de carne moída, pegou um pedaço magro com quarenta por cento orgânico... pois, provavelmente, ela seguia uma dieta mais natural. Quando chegaram à parte das frutas e verduras, precisavam pegar tomates e alface americana.

– Converse comigo, Reilly – disse em voz baixa.

– É que... você não me parece um homem que precise de sorte com as mulheres.

– Ficaria surpresa – ao continuarem em direção ao caixa, passaram pela parte de alimentos importados e por um self-service de saladas, e, por alguma razão, Veck sentiu que devia se explicar. – Veja bem, meu pai é muito conhecido por um motivo horrível e algumas pessoas se sentem atraídas por isso. As mulheres que me procuram não são como você. Ou têm tatuagens nos lugares mais ridículos do corpo e cabelos pintados, ou são Barbies que querem “salvar” alguém, ou desejam fazer loucuras sem correr muitos riscos. Depois, há as que parecem normais, mas costumam ter fotos do meu pai na bolsa ou cartas que pedem que eu entregue para ele... Para ser sincero, é uma confusão total. Aprendi que não posso confiar em ninguém, mas também nunca mais fui surpreendido.

Puxou o carrinho num dos caixas e começou a passar as coisas enquanto Reilly entregava-as.

– Mas, como disse, você não está em nenhuma dessas categorias – terminou.

– Com certeza, não – ela passou o saco de tomates. – Desculpe, não fazia ideia.

– Há coisas piores para se preocupar – como o laço sanguíneo que tinha com o pai maníaco, por exemplo. Droga, as tietes idiotas que queriam ficar com ele só por causa do sobrenome DelVecchio eram terríveis, mas o fato de ter o assassino ligado à sua medula era um pesadelo.

– Você vai... no meio da semana que vem? – ela perguntou.

– Como?

– À execução? – ela disse em tom gentil.

Veck congelou com a caixa amarela de tacos nas mãos.

– Vai mesmo acontecer?

– Se a Suprema Corte não emitir algum documento para adiá-la... Saiu um artigo no jornal de hoje.

Ah sim, as três colunas que ele tinha pulado no restaurante.

– Bem, espero que fritem o bastardo. E não, eu não vou. Tenho que ver aquele filho da mãe toda vez que me olho no espelho. Já é suficiente.

Pegou a carteira e tirou o cartão de crédito.

– Aqui, deixe-me ajudá-lo com a...

Veck lançou um olhar por cima do ombro.

– O homem deve pagar. Sou tradicional nesse ponto.

– E a mulher pode muito bem fazer uma contribuição. Sou realista assim.

Quando ela empurrou uma nota de vinte dólares na palma da mão dele e ergueu o olhar para encontrar o dele, soube que Veck queria beijá-la... E não apenas em suas fantasias: queria saber como era apertá-la em seus braços e sentir o sabor daquela boca da qual não saía besteira nenhuma.

Não iria acontecer.

Voltando a se concentrar nas coisas que não iriam comprometê-lo ou que evitariam um tapa, passou o cartão, digitou a senha e esperou a transação completar-se. Depois de jogar o cupom fiscal fora, dirigiu-se à saída, onde deixou o carrinho com os outros e recolheu as sacolas com as compras.

Enquanto caminhavam de volta para o carro, ele murmurou: – Você está quieta. Falei demais?

Olhou para ele ao desativar o alarme do carro e destrancar todas as portas.

– Sobre seu pai? Deus, não... A hora que quiser falar sobre ele, ou sobre qualquer outra coisa, ficarei feliz em ouvir.

Veck acreditava nela. O que era um milagre em si.

– Obrigado, mas você acabou de ouvir tudo o que tenho a dizer sobre o assunto.

Assim que se aproximaram do porta-malas destravado, ela foi até a porta do passageiro de trás e disse: – Espere, aqui, coloque as compras...

– Só vou jogá-las por aqui mesmo e...

Quando a porta ergueu-se sozinha, ele viu as três grandes sacolas da Victoria’s Secret e não pôde evitar: seus olhos fixaram-se em Reilly e observaram seu corpo... De baixo para cima, até as bochechas avermelhadas. O que significava que não havia um monte de pijamas e roupões de banho macios naquelas malditas sacolas.

– Hum... banco de trás – ele murmurou. – Está certo...

– Estavam em liquidação – ela disse enquanto ele fechava o porta-malas.

Ele estava ficando excitado outra vez. Agora mesmo. Droga.

Depois que as compras foram acomodadas no carro, os dois sentaram-se em seus respectivos bancos e ela ligou o motor. O cinto de segurança pressionou sua ereção, mas achou que o aperto foi bem-vindo. Não precisava ficar fantasiando um desfile de moda. A bela oficial Reilly vestindo aquelas coisas? Cara, precisava de um cigarro.

– Merda – ele disse.

– O que foi?

– Temos que ir à sua casa para fazer isso – com um palavrão, emendou. – Quero dizer, o jantar. Fazer o jantar na sua casa... Não tenho panela nenhuma.

Quando pararam no sinal da saída do estacionamento, Reilly olhou para ele... e começou a rir. Antes que percebesse, ele estava sorrindo também.

– Você não sabe cozinhar coisa alguma, não é? – ela disse.

– Terei sorte se conseguir abrir a caixa de tacos – ergueu o dedo indicador. – Mas ainda gostaria de fazer o jantar, se não se importa.

Negando com a cabeça, ela sorriu.

– Certo, mas pode me fazer um favor?

– Pode dizer.

– Pode esquecer o que viu no meu porta-malas?

Seus olhos perderam-se na boca de Reilly e, em seguida, desceram para o pescoço pálido e...

– Sinto muito – disse em tom sombrio. – Isso eu não posso fazer.

Ela respirou fundo, como se todos os pensamentos dele estivessem expostos em seu rosto.

– Droga – disse, soltando o ar. – Quero dizer, sim, é claro. Considere feito. Totalmente esquecido.

Uma buzina soou alto atrás deles e ela teve um sobressalto antes de acelerar.

Que bela noite. Só faltava ele botar fogo na casa dela..


CAPÍTULO 10

 

Durante os anos em que atuou como soldado de Operações Extraoficiais, Jim aprendeu que uma boa informação é fundamental para a missão em qualquer tarefa. Claro, quando trabalhava para o maldito Matthias seu trabalho era matar pessoas e, agora, não era bem essa a situação com seu novo chefe ou com seus alvos atuais. Porém, muitos princípios eram os mesmos. E os riscos eram ainda maiores.

Sentado na cama de hotel, com o computador apoiado nas coxas, o site do Correio de Caldwell estava no centro da tela e a dor de cabeça que sentia não era pelo brilho da máquina. Seu trabalho já tinha sido iniciado. Considerando que Devina não havia mentido sobre a alma.

Na noite passada, Thomas DelVecchio Jr. adentrou na floresta com um cara a quem investigava... O que é normal para um detetive de homicídios, certo? Errado. O que deteve a ordem normal dos fatos foi que David Kroner, considerado um serial killer, fora levado numa ambulância até a cidade à beira da morte. Encharcado de molho de tomate. E isso era apenas o começo do jogo. Após passar quase duas horas vasculhando a internet, Jim teve acesso a informação suficiente para escrever um livro sobre DelVecchio... e sobre o pai do cara. Não eram boas notícias.

– Droga, Cachorro – murmurou.

Cachorro bufou baixinho e colocou a pata sobre o antebraço de Jim, como se estivesse oferecendo ajuda. A questão era: onde estava a encruzilhada de DelVecchio? Estaria naqueles bosques de ontem à noite?

Não, pois Jim teria perdido antes de ter começado e imaginou que isso estaria fora das regras. Entretanto, não significava que Devina não tivesse dado tal golpe.

E assim...

– Onde você está, vadia...?

O demônio estava em algum lugar naquilo tudo, trabalhando nos bastidores, tentando mexer os pauzinhos para que o jovem DelVecchio se envolvesse profundamente com ela.

A rota poderia ser traçada através do pai. Digitando outra vez o nome do cara no Google, Jim começou outra pesquisa. Os resultados fizeram-no questionar se valia a pena salvar a humanidade. Oh, veja só, quanta coisa baseada em seus assassinatos. Pinturas. Autógrafos.

O cara tinha sua indústria... Mas parece que não duraria muito. As luzes seriam apagadas para ele em Connecticut muito em breve. Mas talvez vivesse para sempre na infâmia: havia vigílias acontecendo fora da prisão. Sem dúvida aquela procissão de manifestantes não impediria a execução, mas era uma indicação de que o bastardo poderia tornar-se uma celebridade ainda mais famosa quando estivesse totalmente acabado.

De acordo com os arquivos do jornal, DelVecchio pai tinha cometido a maioria de seus assassinatos em Nova York e Massachusetts, e a primeira denúncia datava do meio dos anos 1990, quando o primeiro corpo fora encontrado... em Caldwell, Nova York. Passaram-se três anos para que as autoridades percebessem que estavam lidando com um serial killer, e não com chacinas aleatórias. Parte do atraso ocorreu pelo assassino ter deixado os corpos em situações muito diferentes e pelas investigações realizadas com diferentes graus de competência policial. Outro fator foi, ao menos no começo, que DelVecchio escondia bem os restos e de maneira muito criativa.

Os casos, porém, começaram a ser ligados e, então, iniciou-se uma corrida para capturar seja lá quem fosse o assassino. O tapa na cara foi saber que DelVecchio estava aos olhos do público o tempo todo, um negociante de antiguidades... e não apenas bugigangas e falsificações. Estava no topo daquele mercado, importando estátuas, artefatos e mosaicos do Egito e do Oriente Médio.

Maldito filho da mãe. Existia até mesmo um artigo sobre ele na Vanity Fair, que dava informações detalhadas sobre seus negócios. Aparentemente, entre as viagens ao exterior e as grandes festas que frequentava, DelVecchio pai conseguiu engravidar uma mulher. O filho tinha nascido no mesmo dia que o pai nascera há 29 anos, mas não havia vida familiar. Nem outras crianças.

Contudo, houve uma espécie de contato: o assassinato daquela mulher acabou sendo a chave para finalmente capturarem DelVecchio, a primeira ligação que trouxe à tona a cadeia de crimes que havia formado. O resto era história, por assim dizer.

– Entrandooo...

Jim olhou por cima do notebook. Parado na porta do conjugado, Adrian tinha uma caixa de pizza entre as mãos e um pacote com seis cervejas pendurado nos dentes.

– Aí sim! Obrigado, cara.

Eddie entrou atrás com uma segunda caixa.

– Ele providenciou tudo... até a isca.

Ad sentou-se sobre a cama e apoiou as cervejas.

– Se chamam anchovas, idiota.

O “que seja!” ficou subentendido entre os dois. Jim alimentou Cachorro primeiro, dando ao cão o item que Adrian não apreciava muito. Considerando o movimento do rabo curto e grosso, a gororoba estava mais que boa.

– Então, como podemos saber que Devina não mentiu para você? – Adrian disse, antes de se inclinar e colocar a ponta de uma fatia de pizza na boca.

– Essa confusão toda é bem a nossa cara – clicou no artigo sobre a execução e girou o computador. – Este é o pai do cara. E espere, tem mais.

Enquanto comiam, Jim mostrou-lhes alguns sites e finalizou com um artigo sobre a pequena viagem do Júnior à floresta com outro serial killer. Enquanto seus parceiros liam, houve uma quantidade razoável de “mas que inferno”, o que era bom.

Terminou de comer a terceira fatia.

– Precisamos descobrir o que aconteceu naquela floresta ontem à noite.

– Os artigos dizem que DelVecchio não se lembra de nada.

Jim olhou para Eddie, mais conhecido como “o mestre dos truques”.

– É aí que você entra. Quero entrar na mente do cara e você precisa me dizer como fazer isso.

Ad deu de ombros.

– Pessoalmente, eu costumo usar um serrote, mas...

– Pode haver várias consequências e efeitos colaterais – disse Eddie com cuidado.

– Por exemplo?

– Bem, na pior das hipóteses... ele pode acabar como Adrian.

– Ei...

Jim interrompeu o anjo em questão.

– Meio surdo. Com medo de agulhas.

– Viciado em sexo – Eddie acrescentou.

– Ou seja, um deus – Ad exclamou, abrindo uma cerveja. – E continuo dizendo, pessoal, não sou surdo.

– Já passamos por isso antes – Eddie enxugou a boca. – Se não consegue ouvir o quanto é desafinado, então, como pode saber?

– Não sou desafinado.

– É sim – Jim e Eddie disseram juntos.

Antes que a discussão saísse do controle, Jim ficou sério e dirigiu-se a Eddie.

– Então, me diga o que eu preciso saber.

– Precisa me explicar primeiro o que está procurando.

Jim tomou um longo gole de cerveja.

– Quero saber onde Devina está em tudo isso. Qual é o ângulo de ação dela e de que maneira está suscetível a falhar nessa porcaria toda. É isso que estou procurando.

E, considerando a situação do pai, já tinha suas suspeitas.

É claro que Veck precisava ter visto o que havia no porta-malas – Reilly pensou enquanto entrava na garagem. – O universo não desperdiçaria uma oportunidade como essa para aprontar comigo. Enquanto a porta da garagem subia, olhou para seu parceiro.

– Deixe-me adivinhar: gostaria de carregar as compras, da mesma maneira como pagou por elas.

– Sim, gostaria – olhou para os bancos de trás. – Como disse, sou antiquado. Mas se quiser assumir a tarefa, posso voltar atrás.

E era por isso que não tinha qualquer problema com ele. Além disso, ele poderia cuidar da comida enquanto ela tirava suas roupas do porta-malas: apesar de constrangida, não deixaria as sacolas para trás. Não havia como fingir que nada acontecera, mas, mais importante que isso, não havia motivo algum para esconder. Era uma mulher adulta que poderia comprar calcinhas e sutiãs para si.

Quando a voz na cabeça dela ficou ainda mais estridente e na defensiva, perguntou-se quem exatamente estava falando. Provavelmente seu pai. Interrompendo o discurso ridículo, terminou de estacionar o carro. Enquanto Veck saía e pegava as sacolas do supermercado, deu a volta no carro, abriu o porta-malas e manteve a cabeça erguida ao pegar todos os seus artigos cheios de lacinhos e renda e seguir para a cozinha.

– Nossa! – ele disse ao olhar para as paredes, cortinas e balcões.

– Eu deveria ter avisado.

Ter uma decoração cheia de galos na cozinha é um pesadelo, mas a boa notícia é que, geralmente, as pessoas param e olham ao redor, e, por isso, ela conseguiu enfiar as sacolas num canto qualquer, longe de olhares curiosos.

– Acho que nunca vi...

Quando Veck apenas assentiu com a cabeça, Reilly ficou feliz por ele não ter terminado a frase. Claro que nem precisaria: a parte do “... tantos galos num lugar só” costumava ficar no ar com certa frequência.

Oh, Deus, aquilo era horrível.

– Desde que me mudei há dois anos, tenho vontade de pegar um estilete e arrancar tudo a partir dos cantos. Mas sempre tem algum trabalho mais urgente que me mantém ocupada.

Porém, ao observar como Veck olhava tudo aquilo, pensou que deveria ter um pouco mais de determinação. O papel de parede tinha três galos diferentes em várias e exageradas poses, como se fossem fisiculturistas participando de um concurso. O esquema de cores era marrom, vermelho e creme com tufos verdes de grama sob as patas tripartidas. E, de alguma forma, mesmo o material estando ali há uns bons vinte anos, mantinha uma vivacidade impressionante.


– Sou eu ou os olhos deles seguem a gente? – Veck perguntou ao colocar as sacolas sobre o balcão da pia.

– Eles estão observando você. É uma maravilha para minhas die-tas... sinto como se estivesse comendo em público e não consigo comprar frango desde maio do ano passado.

– É como estar no filme Os pássaros.

– Exceto por não ser uma fazenda. Eu sei – quando ela aproximou-se e abriu o armário sob o fogão, completou –, o fato de já estar um pouco acostumada com isso me assusta... será que me hipnotizaram? Aliás, as panelas estão aqui, as tigelas ali e as facas naquelas gavetas perto da lava-louças.

– Obrigado.

Quando ele tirou o casaco, os grandes ombros movimentaram-se naturalmente, mas, na mente dela, transformaram-se em algo nu e excitante – Hora da distração – Reilly pensou quando Veck começou a desembalar as coisas.

– Ei, acho que vou imprimir o arquivo do caso enquanto você começa a lidar com a comida.

– Ótimo.

– Pode levar um tempo. Minha impressora é antiga.

– Temos tempo.

Pela maneira como estava concentrado no pacote de salgadinhos, parecia que estava prestes a fazer uma cirurgia cerebral com o micro-ondas. E nossa... Aquele jeitão impassível, seguro e lindo era muito sexy, sem falar que aquela preocupação toda o deixava mais acessível. Isso e a maneira como se abriu a respeito das mulheres. Ela nunca pensara nas tietes... porém, mesmo pessoas de boa aparência podiam ser perseguidas pelos motivos errados, não?

No escritório que tinha no final do corredor, entrou no banco de dados da polícia de Caldwell, acessou o relatório e ficou parada ao lado da impressora, pronta para salvar a impressão quando as folhas ficassem presas... o que aconteceu. Duas vezes.


O primeiro indício de que as coisas não iam bem na cozinha foi o aroma inconfundível de carne queimada. O segundo foi uma explosão de palavrões. Que não parou até ela aparecer com as impressões.

Foram muitas bombas verbais. Em seguida, o detector de fumaça disparou. Seja lá o que estava na panela sobre o fogão – o mais provável era que fosse o hambúrguer, mas, como era Veck na cozinha, poderia até ser os nachos – precisava de uma mangueira de incêndio. Ele tentava lidar com a situação, levou a panela para a pia, colocou dentro da cuba, mas não ligou a água. Aproximou-se rapidamente do detector e começou a abaná-lo com um pano de prato sem nem sequer ficar na ponta dos pés.

– Acho que um dos galos aumentou o fogo – ele gritou.

– Isso não me surpreenderia.

Ela escondeu um sorriso quando colocou os papéis sobre a mesa e foi dar uma olhada no que ele tinha colocado no prato: os pedaços de queijo laranja tinham se unido à camada de tortilhas ao ponto de formarem uma nova composição molecular.

Só há uma coisa a fazer agora – ela pensou. Pegou o telefone e disse: – Qual sabor de pizza você gosta, oh, poderoso fazendeiro?

– Calabresa com salame.

– Boa.

Enquanto discava, olhou para cima. A parte de baixo da camisa de Veck tinha se soltado, e ela teve uma clara visão do cós preto da cueca, bem como dos pelos que desciam em linha a partir do umbigo sobre a pele firme. Imediatamente seu cérebro voltou à cena do banheiro na noite anterior. Apenas um instante e lá estava ela, observando o corpo nu...

– Oh, sim, oi – afastou-se rapidamente. – É um pedido. Sim, sou eu. Pizza grande de calabresa com salame. Sim. Não, sem bebidas... Não, não quero uma segunda pizza de graça... Não, sem acompanhamentos... Não, obrigada, não precisa... Não, também não quero sobremesa de maçã com canela – pelo amor de Deus, levavam mais tempo fechando o pedido do que fazendo, embalando e despachando a pizza para entrega! – Ótimo, obrigada.


Desligou, endireitou os ombros e virou-se em direção a Veck outra vez – estava parado bem atrás dela, olhos semicerrados, o corpo muito maior do que aparentava ser a dois metros de distância.

Ela não se moveu. Nem ele.

– Acredita que a confissão seja boa para a alma? – disse ele de maneira misteriosa.

– Sim...

– Então, preciso dizer uma coisa.

Oh, Deus, era por isso que diziam que não se deve misturar negócios com prazer: quando seus olhos se encontraram, Reilly não pensava sobre o caso em que estavam trabalhando. Pensava que deveria admitir algumas coisas a si mesma.

Vi você nu ontem à noite e te achei lindo.

– O quê? – ela disse ofegante.

Eu te desejo mesmo sabendo que não deveria.

Engolindo em seco, ela disse: – Diga...


CAPÍTULO 11

 

Veck sabia que não deveria responder à sua parceira e com certeza não deveria ter se aproximado tanto dela. A atitude correta seria começar a limpar a bagunça que tinha feito com os alimentos em vez de criar mais confusão.

Mas viu-a olhando o corpo dele e a expressão em seu rosto indicava um desejo forte e intenso. Surpreso? Sim. Satisfeito? Poderia, se ficassem juntos.

Mas não poderiam se desvencilhar das consequências daquilo com um banho de água quente, este era o problema.

– O quê? – ela sussurrou.

– Eu quero... – a palavra era tão rude que ele guardou-a para si mesmo.

– Diga.

Ele inclinou-se e colocou os lábios sobre o ouvido dela.

– Você sabe exatamente o que eu quero.

– E eu quero que você diga.

– Tem certeza? Não é nada agradável.

Antes que ele pudesse recuar, ela estendeu as mãos e colocou as dele sobre seus quadris. O toque foi leve como uma sombra caindo sobre o corpo de Veck, mas sentiu que tudo queimava por dentro. E uma coisa era certa, se ela instigou aquele contato é porque sabia exatamente o que ele tinha em mente.

O toque ficou mais intenso.

– Diga.

Sua voz era quase um rosnado.

– Quero foder você.

Reilly gemeu um pouco e ele continuou.

– Quero você nua. Embaixo de mim. E quero entrar em você – abaixou um pouco e passou a boca sobre o pescoço dela. – Mas sei que é especialista em conflito de interesses, então sabe muito bem os motivos pelos quais essa é uma má ideia.

Era a deixa para ela se afastar. Ou para ele pular fora. Nenhum deles se moveu.

Droga, o corpo dele começou a ficar fora de controle, sua ereção latejava por mais espaço para fazer o que sabia de melhor. O que significava que, se fosse para fazerem a coisa certa, a iniciativa partiria dela.

– Dê um tapa na minha cara – ele gemeu. – Me empurre... pelo amor de Deus, se tranque no banheiro ou algo assim. Pois se não fizer isso, eu vou...

– Me beije.

Deus, o tom que ela usou: aquilo era uma ordem. E quem era ele para desobedecer a uma ordem? Especialmente vinda de uma superior?

Veck estendeu a mão e passou o braço em volta da cintura de Reilly. Com um puxão forte e impaciente, aproximou-a de seu corpo. O próximo passo foi arrancar o elástico que amarrava os cabelos dela e jogá-lo no chão.

Cara, ela instigava tanto desejo com aquela coisa de não se afastar, e os cabelos vermelhos sobre os ombros diziam que estavam prontos para ter a mão de um homem sobre eles.

Quando agarrou a nuca e aproximou a cabeça ainda mais, sabia muito bem que iria dominá-la, assumiria o controle de seu corpo, iria segurá-la com força ao empurrá-la até a mesa da cozinha e ajoelharia entre suas pernas para sugar seu sexo. Era o que desejava fazer.

– Desculpe – ele disse, ciente de que não estava desculpando-se apenas pelo que estava prestes a fazer, mas por tudo que passava em sua mente, toda a vulgaridade que desejava impor aos dois.

Então, o destino foi selado quando ela deu um beijo nos lábios de Veck.

A boca dela era macia... e também seus seios contra o peitoral de Veck e seus quadris contra seu pênis... Era macia e quente, o tipo de coisa que se quer penetrar e permanecer ali por um bom tempo. Mas, mesmo com sua pélvis contorcendo-se e sua ereção pulsando, no fundo Veck sabia que o conflito de interesses não era o maior problema que tinham. Por mais que fingisse estar tudo normal com ele, estava em carne viva por dentro por causa daquela porcaria que tinha acontecido na floresta e pela novidade sobre seu pai. Tinha medo de que Reilly fosse exatamente o tipo de curativo que precisava... Esse foi o último pensamento lógico e decente que teve.


Quando penetrou a boca dela com a língua, seus braços apertaram-na e a parte inferior do corpo arqueou-se outra vez, a tensão e o movimento em seu pênis estimulou-o ainda mais. E isso foi antes de sentir o arrepio que passou pelo corpo de Reilly. Estava claro que ela acompanhava-o, especialmente quando o apertou em seus ombros com as unhas e suas pernas abriram-se o suficiente para que ele pudesse se encaixar com uma das pernas ali.

Pensando num palavrão, ele virou-a e colocou-a sobre a mesa, em cima da papelada que ela tinha acabado de imprimir. Imagens dela com as pernas sobre os ombros dele enquanto lambia seu sexo fizeram-no imaginar que deveria repensar a falsa propaganda sobre comê-la.

Bem, não era tão falsa assim. Só adicionaria uma atração turística muito importante na viagem para o grand finale. Passou a palma da mão sobre as coxas e levantou a perna dela, esfregando ainda mais o local onde ele desejava finalmente estar. Interrompendo o contato com a boca, mergulhou no pescoço de Reilly com mordidas e lambidas.

– Me deixe ver você – ele gemeu em sua garganta. – Me deixe...

– Entrar – outra voz disse.

Ele interrompeu o ritmo de repente, desvencilhando-se do abraço e olhando para cima. Agora seu coração batia por um motivo diferente.

– O que foi? – ela disse.

Seus olhos percorreram o local. Mas não havia quaisquer sombras esquivando-se em movimentos velozes pela cozinha com decoração de galos. Nenhum ruído de tábuas ou dobradiças rangendo. Ninguém observando pelas janelas.

Depois de um momento, a adrenalina diminuiu e percebeu onde estava e o que estava fazendo com ela. Talvez tivesse sido um pensamento que assumiu uma voz muito alta. E não poderia sentir-se melhor com isso se considerasse o que tinha acontecido com Kroner na noite passada.

Uma das mãos de Reilly ergueu-se e acariciou a bochecha dele.

– Você está bem?

– Não – olhou outra vez para o rosto dela. Sentiu o corpo dela sob o seu. Ouviu suas respirações profundas. – Mas não quero parar. Você é real... E preciso muito disso agora. Preciso... de você agora.

Reilly não era como as outras mulheres com quem já tinha ficado: os olhos inteligentes viam demais e sabiam coisas demais. Cara, ele ficara nu na frente dela no primeiro momento em que a conheceu – e isso deveria tê-lo guiado na direção oposta do que estava acontecendo. Em vez disso? Só desejava-a ainda mais.

– Então, me possua – disse, puxando a camisa para fora da saia.

Veck não deu um segundo sequer para ela mudar de ideia: enquanto a beijava, mergulhou uma das mãos sob a abertura que ela havia feito na camisa, tocando toda aquela pele quente. Em seguida, os botões soltaram-se como se tivessem o mesmo objetivo que ele: acesso total.

Ergueu-se quando o último se abriu... caramba. Renda vermelha. Havia uma complexa renda vermelha sobre um par de seios perfeitamente proporcionais. Ele conseguia ver os mamilos tensos e firmes através da pequena extensão do tecido.

– Gostou do que eu comprei hoje? – ela perguntou com voz rouca.

– Nada mal – limpou a garganta quando falou. – Nada mal mesmo. Mas o que está por baixo é ainda mais quente.

Com uma graça harmoniosa, as mãos dela ergueram-se e acariciaram o sutiã de alças finas e brilhantes... Em seguida, passou a mão sobre os mamilos rígidos e, com isso, Reilly arqueou o corpo, implorando por ele.

Com um rosnado, ele empurrou a saia para cima e adentrou entre as pernas dela, separando-as ainda mais com seus quadris ao se aproximar do que havia chamado sua atenção. Ao colocar a boca sobre o sutiã incrível, além de sentir a renda em sua língua, também percebeu a carne rosada e firme por baixo do tecido.

Não levou muito tempo para aquilo não ser mais suficiente. Com a mão áspera e impaciente, puxou o bojo para baixo, revelando o mamilo.

– Porra... – ele exclamou. – Você...

Ela não quis nem saber de conversa: com pressa, seus dedos agarraram a nuca dele e, com isso, aproximou a cabeça de Veck de seus seios. Enquanto ele sugava-a, ela ergueu-se sobre a mesa, e aquele movimento, aquele puxão, fez com que ele deixasse de lado qualquer constrangimento. De repente, Veck assumiu o controle, ergueu-a ao colocar um dos braços embaixo dela, a outra mão foi direto entre as coxas, em direção ao desejo que emanava daquela calcinha.

Acariciou o sexo dela, a palma da mão envolveu o local, bem onde ela desejava...

– Veck!

O som do nome dele foi um pedido de mais, mais, mais. E daria isso a ela. Trocando de lado, mordeu a outra metade do sutiã e puxou com os dentes, antes de sugar o outro mamilo. Contudo, ainda não era suficiente. Precisava de contato total com a pele nua. Aqui, agora...

O gemido que saiu dela foi exatamente o som de consentimento que precisava ouvir.

Deus, vai acontecer – pensou. – Vai acontecer.

Veck era um dominador total. Reilly não esperava menos que isso, mas a excitação foi surpreendente. Em parte por saber que, se dissesse não estar à vontade em ir tão longe, ele recuaria no mesmo segundo. Mas o resto devia-se à maneira como ele lidava com ela, a confiança, o poder, a possibilidade erótica que emanava de sua boca, de suas mãos e de seu olhar sedutor e intenso.

Sem dúvida, Veck tinha um talento natural para o sexo... E desenvolveu isso ao longo dos anos. De repente, como se tivesse lido a mente daquela mulher, seu olhar ergueu-se com um brilho e fixou-se no dela enquanto estimulava o mamilo da mulher com a língua... E, quando as pálpebras baixaram, sabia que desejava que ela o observasse.

Que visão. Ele puxou o outro lado do sutiã e acariciava-a, lambendo e chupando enquanto uma das mãos espalmadas pressionava sua pele. Deus, ele era grande – por inteiro. Seu pênis era longo e grosso e acariciava a parte interna das coxas dela, seus ombros eram tão grandes que não conseguia ver nada além deles, e a parte inferior do corpo daquele homem ocupava todo o espaço que havia entre suas pernas abertas.

Veck terminou de puxar o sutiã que pressionava os seios para cima, a camisa estava totalmente aberta, e a saia estava toda amontoada na cintura. O próximo passo era tirar o tecido de nylon que cobria as pernas de Reilly e, para isso, ela saiu um pouco de cima da mesa, sentindo aquela mão pressionar com mais força ainda em movimentos circulares. Mergulhou os polegares na cintura da meia-calça e baixou os quadris, escorregando a peça ao longo das coxas.

– Eu assumo daqui em diante – Veck recuou um pouco, os olhos em chamas observando o corpo de Reilly. – Hummm... bem onde eu queria estar.

Quando ele sorriu como um predador, ela ergueu os joelhos para ajudá-lo a tirar as meias, lentamente. E só depois que o fino tecido estava livre de seus pés, ela perguntou-se até onde aquilo tudo chegaria. Iriam terminar de fazer aquilo que não deveriam nem ter começado?

Se aquilo fosse um “sim”, teriam que lidar com alguns aspectos práticos. Mas, caramba, que coisa chata falar de camisinha – e, sim, agora entendia por que as pessoas faziam escolhas idiotas quando se tratava de sexo. Coisas realmente importantes não tinham a menor relevância ali, todo o sofrimento que poderia vir depois daqueles minutos intensos, coisas com as quais teria que conviver, talvez para sempre... Passavam a ser ecos distantes, que ela mal conseguia ouvir, pronunciados num idioma que não queria traduzir.

Cinquenta mil anos de evolução poderiam dizer o que estava acontecendo.

Com um impulso, Veck voltou à boca dela, beijando-a profundamente enquanto as mãos desciam...

A maldição que disparou da garganta dela era mais uma vibração que um sim. A mão dele estava de volta entre as pernas, acariciando suas coxas, indo em direção à peça que completava o conjunto com o sutiã que já tinha visto e dominado.

– Veck! – ela exclamou outra vez quando o toque deslizou sobre o centro da faixa de cetim.

Foi cuidadoso, colocando apenas a pressão suficiente sobre o local tão sensível, acariciando-a em movimentos circulares que fizeram seu corpo ficar ao mesmo tempo relaxado e tenso.

Dane-se a calcinha, ela não queria nada entre eles... Mesmo assim, a barreira de seda não era de todo ruim, a costura adicionava outra dimensão ao ritmo que ele tinha imposto. E não parou de beijar sua boca, de envolvê-la, de aproximá-la ainda mais, mesmo já estando bem juntos.

Com um movimento rápido, ele levantou o tronco de Reilly e empurrou seus quadris contra o sexo dela, entrelaçando os corpos. Em seguida, curvou a coluna e encaixou-se sobre ela, acariciando-a com seu pênis enquanto observava-a com atenção.

Deus, o rosto dele estava cheio de desejo, aquela frieza tinha desaparecido, aquela máscara impassível havia explodido com a intensidade que apertava o maxilar.

Eles iam mesmo fazer aquilo, Reilly concluiu.

Surpreendente. As escolhas na vida de Reilly eram baseadas em dados precisos do que deveria, teria que ou do que era melhor não fazer. Com certeza, fazer sexo daquela maneira estava na última categoria... e, mesmo assim, não pretendia deter nada.

Porém, fariam aquilo com segurança – embora não sobre uma cama. Aquela mesa estava servindo muito bem. Mas havia coisas que ela precisava fazer primeiro. Descendo o corpo, deslizou as mãos até... a cabeça de Veck caiu para trás.

– Caaara...

Perfeito: o pênis rijo era ainda maior do que imaginava e latejava contra a palma de sua mão...

O som da campainha ecoou, alto como um tiro. E, mesmo assim, por um momento, ela não conseguiu compreender o que era aquele barulho ou por que deveria importar-se com ele. Veck recuperou os sentidos primeiro.

– Pizza.

– Que p...?

Com o pensamento rápido e lógico, ele estendeu a mão e apagou as luzes para que o entregador da pizza de calabresa com salame não assistisse ao show na cozinha. Então, com mãos eficientes, colocou a camisa dela de volta, puxou a saia para baixo e começou a arrumar as próprias calças, para que não ficasse uma tenda de circo.

– Vou cuidar disso – disse ele com uma voz equilibrada. Como se nada tivesse acontecido. Nada.

Enquanto ele foi até a porta da frente, Reilly sentou-se lentamente, a cabeça não parava e o corpo tremia. Segurando a blusa, percebeu que a volta ao normal repentina fê-la sentir-se totalmente fora de controle. Em seguida, ela saiu da mesa e os papéis do caso Barten caíram no chão.

A chuva de folhas soltas formou uma espécie de tapete aos seus pés e foi o espelho exato que precisava para ver tudo com clareza: do outro lado da cidade havia uma família de luto pela filha que sabiam ter perdido, e, em vez de concentrar-se na dor deles e em seu trabalho... estava esfregando-se num homem que não tinha nada a ver com ela.

Não poderia existir um conflito de interesses maior. Serviria de exemplo num livro didático. Mexendo nos botões da camisa, fechou-os rapidamente e, então, inclinou-se para pegar as cópias do relatório. Quando o cabelo caiu sobre o rosto, perguntou-se onde estaria seu elástico.

Quem poderia saber?

Colocando os fios atrás das orelhas, juntou as impressões com cuidado, reordenou as páginas e separou tudo em duas pilhas – a dela e a de Veck. Separado era melhor.

Ela tinha enlouquecido?

Vindo da porta da frente, ouviu um burburinho de palavras de agradecimento, a porta fechou-se em seguida e passos pesados trouxeram Veck de volta à cozinha.

Levantando-se rapidamente, colocou as duas pilhas de papéis sobre a mesa e manteve os olhos sobre elas. Não conseguia olhar para Veck. Simplesmente não tinha forças para aquilo no momento.

– Acho melhor você ir – sua voz não soou bem, mas ela não se sentia bem mesmo.

– Certo. Vou chamar um táxi.

Droga. A moto dele estava na delegacia, não?

Após soltar um palavrão em voz baixa, murmurou: – Está tudo bem. Posso levá-lo...

– Não, um táxi é melhor.

Ela assentiu e acariciou a primeira página do relatório... onde indicava os principais dados de Sissy e a data de seu desaparecimento.

– Vamos verificar tudo isso amanhã no escritório.

– Sim – quando ele vestiu o casaco, o som macio do tecido foi mais alto que a campainha. – Sinto muito.

Ela cruzou os braços sobre o peito e assentiu outra vez.

– Sim, eu também. Não sei o que deu em mim.

Mas sabia muito bem o que aconteceria se o jantar não tivesse chegado bem na hora. Momentos depois, ele foi embora e fechou a porta tão silenciosamente que não se fez som algum. Quando finalmente olhou por cima do ombro, tudo o que viu foi a pizza no balcão. Certo, como se fosse comer alguma coisa. A caixa foi direto para a geladeira.

Saindo da cozinha, passou pela mesa e encontrou sua meia-calça atrás de uma cadeira. Seu elástico de cabelo estava no chão perto do arco que dividia os ambientes, já dentro da pequena sala de jantar. Ao inclinar-se para pegá-lo, ficou frente a frente com as compras da Victoria’s Secret e percebeu que seu sutiã ainda estava beeem fora do lugar. Deixou as sacolas ali e resolveu aquele pequeno problema com alguns puxões e vários palavrões. Enquanto aproximava-se das escadas, decidiu que usaria sua velha lingerie de algodão de sempre para ir trabalhar no outro dia. Era isso, muito obrigada.


CAPÍTULO 12

 

– Pergunta. Mesmo se não quebrar nada para entrar, ainda é considerado invasão de domicílio?

Adrian soltou essa pequena pérola assim que assumiram forma em frente à porta de entrada da casa de Thomas DelVecchio Jr. – e, se considerassem tudo o que ele havia dito até hoje, sabiam que o anjo poderia ter soltado um comentário muito pior.

Jim nunca passou tanto tempo em sua vida desejando protetores e fones de ouvido. Mas pelo menos o bastardo não tentou o rap.

– E aí? – Ad disse.

– Olha só, nós nem sequer existimos – Jim murmurou. – Então, você pode alegar que nem estamos aqui de verdade.

– Ótimo argumento. Acho que é legal.

– Como se o contrário o incomodasse.

A casa era decorada ao estilo de Jim: funcional, nada de especial, muito espaço vazio. O problema? Poucos itens pessoais, e precisavam de algum objeto feito com um pouco de metal. De preferência ouro, prata ou platina. Se conseguissem algum objeto com impressões suficientes de Veck, poderiam usá-lo como ponte para entrar no cérebro do cara remotamente: de acordo com Eddie, era arriscado demais fazer isso pessoalmente. Não com Devina por perto.

– Vamos nos separar – disse Jim. – Vou examinar o andar de cima.

Quando Ad e Eddie espalharam-se, Jim subiu as escadas de dois em dois degraus. O quarto principal ocupava metade do andar. Claro que essa afirmação soa mais impressionante do que a realidade, pois a metragem total não passava de setenta metros.

– Meu Deus, quanta coisa, hein amigo? – murmurou.

Não havia nada no quarto além de uma cama grande e uma porcaria de mesa de cabeceira com um abajur sobre ela. Nada de despertador – provavelmente o cara usava o celular para isso. Nada de telefone fixo, mas para que se precisava de um? Havia uma TV de tela plana fixada na parede, cujo controle remoto encontrava-se entrelaçado nos lençóis.

Havia algumas roupas sujas num cesto de plástico no canto, meias e cuecas transbordavam pelos lados como se a coisa babasse algodão preto. Abriu o armário... e havia camisas penduradas nos cabides, que era bem melhor do que a mala que Jim usava há anos para guardar suas roupas. Atrás da porta, havia alguns cintos com fechos de metal, mas tinha de haver algo melhor para que Jim pudesse usar.

Foi até o banheiro. Todas as luzes apagadas, mas o cara não usava cortinas, então havia bastante iluminação vinda da rua. Assim que entrou no cômodo pequeno e azulejado, sentiu algo forte em sua nuca, como se formigas rastejassem sobre a pele.

Devina.

– Onde você está? – disse, dando uma pequena volta ao redor de si. – Onde diabos você está?

O demônio esteve ali, podia sentir sua presença no ar, como o mau cheiro que exala de uma grande lixeira, mesmo depois de ter sido esvaziada. Aquilo dava alguma credibilidade à revelação de Devina no restaurante.

Quando se voltou para a pia, franziu a testa. O espelho estava coberto com uma toalha e o formigamento em sua nuca aumentou quando estendeu a mão e puxou o tecido felpudo.

Nada, a não ser um armário de remédios dos anos 1980 embutido na parede. Mas o vidro frontal estava totalmente contaminado. Será que ela passou pelo objeto de alguma maneira? – perguntou-se. Recuou no mesmo instante em que as pontas do dedo fizeram contato com a superfície espelhada. O armário de remédios estava gelado.

Droga, Veck sabia que alguma coisa estava atrás dele, não? Por que cobriria a coisa? A questão era: até onde o demônio havia chegado dentro dele?

– O que fez com ele, vadia?

Recolocando a toalha, Jim abriu as gavetas, verificou o desodorante, o tubo de pasta de dente extra e o cortador de unhas. Ei! Talvez aquilo funcionasse. Só que dificilmente o objeto teria uma conexão emocional com... Uma luz estendeu-se pela frente da casa, atingindo a janela onde Jim estava e lembrando-lhe que não se preocupara em ficar invisível. Fazendo o corpo desaparecer, olhou pela janela. Na calçada em frente à garagem, Veck saiu do táxi amarelo.

Jim atravessou o quarto principal e desceu as escadas, só seria percebido se alguém sentisse a brisa que seus movimentos produziam. Na cozinha, viu que Ad e Eddie também tinham ficado invisíveis, e os três esperaram juntos, formando uma pequena fonte de calor no canto do cômodo.

Ela ainda está nele – disse em pensamento aos seus amigos.

Posso senti-la daqui – Eddie respondeu.

Na entrada da casa, a porta foi aberta, fechada e trancada. Em seguida, passos pesados aproximaram-se de onde eles estavam.

– Mas que... droga...

As maldições continuaram enquanto Veck entrava na cozinha, jogava as chaves e arrancava a jaqueta. Em seguida, foi até a geladeira e pegou uma cerveja. Tirou a tampa e bebeu com vontade, era evidente que tivera uma noite difícil no trabalho.

De repente, o cara ergueu a cabeça, apoiou a cerveja e olhou diretamente para onde os três estavam. Ele não deveria ser capaz de senti-los, muito menos de vê-los. Nenhum deles moveu-se. Nem mesmo Veck. E foi nesse momento que Jim olhou para o chão de linóleo atrás do detetive... e notou que o cara projetava duas sombras.

Única fonte de luz? Duas projeções em sentidos opostos sob seus pés?

Em silêncio, Jim apontou para o chão e seus colegas assentiram.

Veck estendeu o braço e tocou um interruptor, iluminando melhor o ambiente. Em seguida, ele olhou ao redor.

– Puta... que... pariu.

Obviamente, esse era o mote da vida daquele cara e, se Ad não se encorajasse a soltar a voz, Jim consideraria cantarolar um pouco daquela música também.

Veck balançou a cabeça e voltou para sua cerveja, tomando o que restava de uma vez só. Deixou a garrafa vazia sobre o balcão, pegou mais duas na geladeira e andou até a sala. Destino: sofá.

Jim e seus amigos foram atrás dele, mas mantiveram distância. Veck era intuitivo ao extremo ou contaminado o suficiente para ter um radar que percebesse a presença dos anjos. Conhecendo a sorte que tinha, tratava-se da última opção.

O detetive retirou as armas para se sentar: removeu uma bela automática e uma faca. Em seguida, retirou o distintivo brilhante da polícia, prata e dourado. O homem segurou a coisa sobre a palma da mão em formato de concha por um tempo. Olhava como se fosse uma bola de cristal... ou talvez um espelho onde tentasse ver a si mesmo.

Deixe isso de lado, cara – Jim pensou. – Termine as cervejas, deite um pouco e tire uma soneca. Prometo que devolvo quando terminar.

Veck seguiu as instruções e colocou o distintivo com seu nome e número de registro na polícia junto às armas, bebeu as cervejas uma seguida da outra e recostou-se nas almofadas. Seus olhos fecharam-se um momento depois. Levou um tempo para que as mãos relaxassem e caíssem para os lados, mas, em seguida, a respiração lenta e profunda confirmou o descanso – e a deixa para que eles pegassem o que precisavam e saíssem.

Jim estendeu a mão à altura da cintura e deu uma de cavaleiro Jedi com o distintivo, fazendo o objeto levitar e trazendo-o até ele ao longo da escuridão. No instante em que a palma de sua mão fez contato, sentiu o mesmo frio que sentira no andar de cima, a crueldade de Devina habitava no espaço entre as moléculas do metal.

O cuidado de Eddie parecia exagerado... até agora. Considerando a forte mensagem que o distintivo transmitia, não dava para ser pego de calças curtas ao atuar naquela tarefa.

Jim indicou a janela com a cabeça e, como uma névoa, os três desapareceram.

Do outro lado da cidade, no centro urbano de Caldwell, o Hospital São Francisco era um complexo que brilhava como uma das ruas de Las Vegas. Sob seus telhados de vinte estilos diferentes, vidas começavam e terminavam aos milhares a cada ano, a luta contra o Ceifeiro da Morte era travada por todos os médicos, cirurgiões e enfermeiras que ali trabalhavam.

Devina estava bem familiarizada com o local: algumas vezes, aqueles humanos de jalecos brancos e uniformes cirúrgicos precisavam de uma pequena ajuda para garantir que o trabalho fosse feito corretamente. E, geralmente, isso significava a morte, mas nem sempre.

O demônio entrou na ala de emergência pela porta frontal automática. Vestindo sua bela pele feminina, capturou todos os tipos de olhares vindos de pais e irmãos sentados na sala de espera. Era por isso que não pegava atalhos. Passar através de vidros, metais ou tijolos era eficiente, mas chato: adorava ser admirada. Cobiçada. Desejada. E os olhares ardentes das outras mulheres, todos aqueles olhares cheios de ódio e inveja? Melhor ainda.

Encontrar Kroner no labirinto de corredores, andares e unidades foi muito fácil. Estava há anos dentro dele, ajudando-o a aprimorar suas habilidades e dando suporte à sua obsessão. Já nasceu doentio, mas lhe faltava coragem para seguir os impulsos – e a impotência agiu a favor dela. Nada instigava mais a violência contra mulheres atraentes num louco como ele do que o próprio pênis murcho e fino.

A UTI que procurava estava sete andares acima, e ela gastou um pouco de tempo nos elevadores, caminhando, observando os uniformes das enfermeiras. Nada demais. Tecidos de algodão com péssimo corte que não realçavam nada na parte de cima e evidenciavam a flacidez da parte de baixo. Que diabos achavam que estavam fazendo com aquele visual?

Quando finalmente aproximou-se das várias portas duplas de metal, pegou uma carona com uma servente e um idoso sobre uma maca. O velhote estava apagado, mas a mulher não deu apenas uma olhada, foram várias. Sem dúvida, continuaria a observar se as portas não tivessem sido abertas no andar que precisava ficar. Lançou um sorriso sobre o ombro, saiu e não conseguiu deixar de rir um pouco.

Enfim, era hora de começar a trabalhar. Tinha a opção de assumir a forma de uma névoa e serpentear sobre o chão lustrado, mas isso causaria pânico demais. Ou poderia continuar invisível, o que era considerado uma falha de originalidade em sua cartilha: tinha passado séculos desfrutando da interação com os humanos, disfarçando-se entre eles, beliscando seus calcanhares e esfregando-se contra seus corpos – ou indo até mais além. Não havia motivo para desperdiçar a oportunidade de divertir-se um pouco naquela noite, mesmo trabalhando. Afinal, sua terapeuta estimulava-a a encontrar um equilíbrio na vida.

Ao chegar à unidade, atravessou um corredor cheio de fotografias de vários diretores de departamentos. Muito útil, como perceberia logo em seguida. Ela parou diante de várias, observando as características, os acessórios, os nomes e títulos, os jalecos brancos e as gravatas listradas ou roupas mais formais. Era como comprar uma roupa nova. E tinha seu serviço próprio de alfaiataria.

Virando numa esquina do corredor, olhou para os dois lados para certificar-se de que estava sozinha e, então, cuidou da câmera de segurança acima dela, enviando uma carga elétrica suficiente para desativá-la sem explodir.

Em seguida, assumiu a aparência e o jaleco branco do chefe da neurologia, um tal de dr. Denton Phillips. O disfarce foi um pouco decepcionante e flácido se comparado ao traje exuberante da bela morena. O homem tinha mais ou menos sessenta anos e, embora fosse um homem branco, arrogante, bem conservado, sentiu-se mal e feia. Ao menos era melhor do que realmente parecia, e era temporário.

Quando voltou ao corredor principal, caminhou como um homem e era ótimo ver o respeito e o medo nos olhos dos funcionários pelos quais ela passava. Não tão divertido quanto a luxúria e a inveja, mas agradável mesmo assim.

Não precisava perguntar onde Kroner estava. Era muito fácil de encontrá-lo – e não ficou surpresa ao se deparar com um policial uniformizado sentado do lado de fora do quarto. O homem levantou-se.

– Doutor.

– Só vou levar um minuto.

– Fique o tempo que precisar.

Não era bem assim... Ela tinha que trabalhar rápido. Não fazia ideia de como o dr. Denton Phillips realmente era e não havia como ter certeza se a altura estava correta. Isso acontecia quando tudo o que se tinha era uma foto para servir de molde: aquele não era um bom momento para encontrar quaisquer colegas que o conhecesse bem – ou pior, o homem em si.

A UTI onde Kroner estava tinha paredes de vidro com cortinas, era possível ouvir o silvo do equipamento médico que o mantinha vivo. Deslizou a porta, empurrou o tecido verde de um biombo e entrou.

– Você está péssimo – ela disse com voz masculina.

Ao caminhar até a cama, deixou de lado a aparência do bom doutor e mostrou-se como a bela mulher que Kroner tinha conhecido há dez anos.

Havia tubos entrando e saindo pela boca e pelo nariz, e os fios emaranhados que saíam de seu peito davam-lhe a aparência de uma central telefônica. Muitos esparadrapos de gaze branca sobre a pele cinza. Muitos hematomas. E seu rosto parecia bexiga de festa, todo vermelho e brilhante, esticado pelo inchaço.

Aquele não era o fim que ela tinha planejado e no qual havia trabalhado. Era para DelVecchio ter cedido e matado o desgraçado antes mesmo de Heron ficar sabendo qual era a próxima alma. Infelizmente, seu cordeiro sacrificial louco e pegajoso tinha sido abatido por outra pessoa.

Pelo amor de Deus, era óbvio que não sobreviveria. Ela não era um médico – apenas interpretava um de vez em quando –, mas só aquela palidez já a fez pensar em funerais.

No entanto, ainda não era tarde demais para o bastardo. E, após esse deslize, não correria mais nenhum risco de perder essa rodada. Hora de tornar-se um pouco mais agressiva, especialmente se pensasse no acordo que tinha selado com Heron.

– Ainda não é sua hora – ela inclinou-se sobre a cama. – Preciso de você.

Fechando os olhos, acomodou-se sobre o corpo do homem, cobrindo-o por completo e, em seguida, infiltrou-se dentro dele através de cada poro que havia. O poder inato nela preencheu o vazio, reenergizou Kroner. Ao puxá-lo da espiral da morte, ela curou-o e deu-lhe forças ao mesmo tempo. E pensar que humanos confiavam em aparatos médicos. Tão rudimentar.

Os olhos de Kroner abriram-se conforme ela se retirava e reassumia sua forma. Então, ele encarou-a. Um brilho amoroso surgiu em seu olhar. Patético, mas útil.

– Viva – ela ordenou –, e nos veremos em breve.

Ele tentou acenar com a cabeça, mas havia muitos acessórios de entubação em sua garganta. Contudo, cumpriria a ordem. Quando ela olhou para o dispositivo de monitoramento, a frequência cardíaca já tinha alcançado estabilidade e sua pressão arterial estava regulada. O nível de oxigênio saiu de setenta e foi para noventa.

– Bom menino – ela disse. – Agora, descanse.

Erguendo a mão, colocou-o em um sono profundo e restaurador e, em seguida, reassumiu a imagem do bom e velho dr. Denton.

Entrar, sair, partir.

Saiu da sala envidraçada, acenou para o guarda e caminhou pelo corredor, passando por bajuladores e puxa-sacos que quase se ajoelhavam enquanto passava. O que era agradável. Ao ponto de ficar tentada a desfilar pelo hospital por um tempo, apenas para sentir melhor a experiência de ser aquele homem.

Mas não podia, a última coisa que precisava era encontrar alguém que realmente o conhecesse. E, mais importante, tinha um compromisso com a terapeuta bem cedo no outro dia e ainda tinha que escolher o que vestiria – isso poderia levar horas. Motivo pelo qual precisava de uma maldita terapia. Hora de ir.


CONTINUA

CAPÍTULO 7

 

Ao meio-dia, Reilly deixou a delegacia a pé e seguiu para o centro da cidade. O dia estava glorioso, com um sol de abril tão radiante e quente que afugentava aquela sensação dos doze graus exibidos nos termômetros. Mas a oficial não era a única que se beneficiava com o clima. Havia uma multidão nas calçadas e atravessando as faixas de pedestres, atrapalhando o trânsito, ao passarem com refrigerantes e sorvetes nas mãos; muitos comiam alguma coisa à beira de uma fonte ou sentados num banco do parque. Após seis meses de escuridão gelada, o Estado de Nova York ansiava por algum sinal de que o inverno realmente estivesse indo embora... E aquela bela hora do almoço não seria desperdiçada.

Aparentemente, Reilly estava no intervalo do trabalho, assim, poderia colocar a cabeça em ordem antes de ver Veck outra vez. Porém, seus passos tinham um propósito e uma direção aos quais ela recusava-se prestar atenção.

O Shopping Galeria era um dos projetos de revitalização do centro, mas, ao contrário de muitos outros, este realmente deu certo. Com uma grande loja de departamentos e uma grande livraria, os quatro quarteirões de prédios dos anos 1920 tinham sidos interditados, liberando apenas a passagem de pedestres. Era um atrativo que tinha revigorado o local e tornado-se o refúgio favorito de milhares de funcionários de escritório, assim como Reilly.

Contudo, diferentemente de suas colegas, era a primeira vez que andava pelas diversas lojas daquele centro comercial... quando parou em frente a uma delas, atraída pelo brilho rosa que irradiava do vidro. Oh, não. De jeito nenhum. Aquilo não era sua... Uma mulher saiu balançando duas grandes sacolas com as mãos e com um sorriso de orelha a orelha.


– Liquidação! – disse a Reilly. – Oba!

Sua voz saiu tão alta e estridente que parecia ter respirado hélio. Mas talvez fosse por usar um corpete embaixo do casaco – ao menos era o que parecia. Enfim, Reilly balançou a cabeça; liquidação ou não, não era o tipo de coisa que ela... Já tinha entrado na loja.

Maldição. Nunca tinha visto tanta roupa íntima num só lugar em toda sua vida.

O estilo Victoria’s Secret não é para quem tem problemas cardíacos... ou um traseiro grande – ela pensou, perguntando-se há quanto tempo, exatamente, não aparecia na academia. Desde o ensino médio. Não... Talvez tenha sido desde o fundamental.

Cara, toda aquela renda intimidava. Assim como as imagens tratadas das modelos expostas em toda parte, de tamanhos bem maiores que o natural. E, para piorar as coisas, o lugar estava lotado de mulheres que não eram bem do tipo de Reilly. Eram garotinhas com seus vinte e poucos anos, pegando tangas, sutiãs de bojo, peças de tamanhos mínimos e outras coisas. Mesmo os pijamas ou moletons pareciam estar destinados a ser arrancados com os dentes por algum garanhão...

– Oi, posso ajudá-la?

Reilly estremeceu.

– Ah...

A vendedora era uma linda afro-americana que, provavelmente, ficava ótima em cada peça pendurada na loja ou dobrada sobre as mesas. Comparando-se a ela, Reilly sentiu-se uma coisa esquisita e sardenta do tipo que pede para fazer tudo no escuro.

– Estou bem, obrigada...

– Estamos em liquidação.

– Sim, vi uma moça saindo com algumas sacolas – o que, considerando a pequenez das roupas ali, significava que a garota tinha comprado quinhentas, talvez seiscentas, peças daquilo tudo.

– Está procurando por alguma coisa em particular?

Reilly estava prestes a balançar a cabeça recusando, quando sua boca abriu-se por conta própria.

– Quero sentir-me mulher, e não uma oficial de polícia. Eu apenas... estou cansada de mim e do meu trabalho neste momento. Entende o que quero dizer?

Oh, droga, o que ela estava dizendo?... Só uma observação: aquilo não tinha nada a ver com Brittany, que se escreve Britnae.

A vendedora sorriu.

– Entendo. Você veio ao lugar certo.

Reilly olhou para um maiô asa-delta com estampa de tigre e não teve tanta certeza disso.

– Acho que nunca comprei lingerie antes... Nada que escolhesse com cuidado, meus sutiãs são do tempo da Guerra Civil. Talvez de alguma guerra do século XVIII.

– Bom, meu nome é Ralonda – estendeu a mão – e posso cuidar de você.

– Reilly. Quero dizer... Sophia – quando apertaram as mãos, ela murmurou: – Você tem algum tipo de formação em psicologia, por acaso?

– Na verdade, é isso que eu vou estudar na Universidade de Nova York, no campus de Caldwell.

– Deus, você é perfeita.

– Imagine – Ralonda sorriu outra vez, exibindo seu sorriso. – Vamos tirar suas medidas e depois vou trazer algumas coisas.

Uma hora e US$ 673,43 depois, Reilly saiu com três sacolas cheias de coisas. Quando chegou à porta, de cabeça erguida, viu-se sorrindo para as duas garotas que espiavam as vitrines.

– Eles estão em liquidação – disse a elas. – Melhor entrar. E chame por Ralonda... Ela é a melhor.

Elas entraram correndo, e Reilly caminhou até a delegacia com uma curiosa sensação de leveza. Talvez o sutiã de bojo cereja com calcinha combinando que acabara de vestir tivesse propriedades antigravitacionais, erguendo não apenas seus seios mas também o corpo inteiro. Fazia com que se perguntasse o que os astronautas usavam por baixo de seus trajes. A horrível imagem de um astronauta velhaco veio-lhe à mente. O cara usava apenas um minúsculo conjunto cor-de-rosa.

Deu-se conta de que entrar na delegacia com aquelas sacolas da Victoria’s Secret e um andar leve não passaria a mensagem certa... Especialmente agora que seria a parceira de Veck no próximo mês. Esquivando-se pela lateral da delegacia, aproximou-se de seu carro e escondeu as compras no porta-malas.

Desta vez, quando entrou pelos fundos e passou pelo guarda na recepção, estava um tanto constrangida, pensando se alguém poderia saber o que usava por baixo das roupas. Porém, como sempre, ninguém prestou nenhuma atenção nela. Apesar dos muitos talentos dos vários membros da polícia, parece que visão de raio X não era um deles.

A primeira parada foi seu escritório. Verificou rapidamente o correio de voz e os e-mails. Em seguida, pegou um bloco de notas e seguiu para o Departamento de Homicídios. E, como se pode imaginar, a confiança nas propriedades ocultas do algodão e da Lycra acertou em cheio a todos ali quando abriu a porta do departamento. Todos olharam para cima, inclusive Veck.

Certo. Agora entendia por que as pessoas odeiam aqueles sonhos em que andam nuas numa sala cheia de pessoas. Nunca tivera um pesadelo assim antes e, enquanto colocava o bloco de notas em frente aos seios, não estava com muita pressa de vivenciá-lo.

As pessoas apenas acenaram e cumprimentaram, e ela acenou e cumprimentou de volta enquanto dirigia-se até Veck. O cubículo ao lado dele estava praticamente vazio, havia apenas um computador e um telefone. Quando Reilly sentou-se, manteve o caderno contra o peito.

Veck encostou-se na cadeira fazendo com que seu peito parecesse enorme contra a camisa branca.

– Tudo certo na sua sala?

– Sim. No que vamos trabalhar hoje?

Ele fez um gesto com a cabeça indicando a tela do computador.

– Encontrei alguma coisa para passar o tempo. Estava esperando você chegar... Pensei em fazer um reconhecimento de campo e consultar outra vez algumas testemunhas.

– Ótimo. Qual é o caso?

– Digo no caminho. Importa-se se usarmos o seu carro? Só tenho moto.

– Ah... – com certeza não haveria motivo algum para ele olhar no porta-malas. – Claro. Sim. Tudo bem.

– Obrigado, oficial. Ou deveria chamá-la de detetive nas próximas semanas?

Quando se levantaram juntos e ela viu-se com o rosto na altura do peitoral de Veck, sabia que era hora de sufocar sua Britnae interior.

– Só Reilly está bom – respondeu.

Por um momento, os olhos de Veck baixaram, e ela poderia jurar que ele murmurou “com certeza está”.

Sem dúvida a lingerie nova fazia-a ouvir coisas.

– Espere um minuto... esse não é um caso antigo de homicídio.

Ao pararem num sinal vermelho, Veck recebeu um olhar sério de sua nova parceira... o que foi muito excitante.

Endireitando-se no banco e rezando para que sua ereção não explodisse antes de chegarem ao local de destino, fez um esforço para manter a voz equilibrada e sem qualquer sinal de rouquidão. Porém, pelo amor de Deus, se aquilo fosse um indício de como seriam as próximas quatro semanas... estava com problemas.

– Tecnicamente, é uma desaparecida...

– Não existe “tecnicamente” nesse caso. Não há um corpo.

– Posso terminar?

– Desculpe – quando o farol ficou verde, ela pisou no acelerador. – Mas tenho um pressentimento de onde isso dará, e você não chegará nem perto do caso Kroner.

Veremos – ele pensou.

– Recebi um telefonema do FBI esta manhã. Estão trabalhando no caso dessa garota desaparecida e queriam saber se existe mais alguma novidade. Respondi que ficaria feliz em examinar o que já temos sobre...

– O FBI pode fazer isso sozinho...

– Não há motivo para não ser amigável. Ou para concluir que há alguma ligação com Kroner.

Ela franziu a testa.

– O que o FBI acha?

– Não perguntei. Talvez seja interestadual – pois, talveeez, aquilo fizesse parte do caso Kroner... e foi por isso que ele não perguntou nada.

– Só para que fique bem claro: se houver qualquer ligação com o caso Kroner, estamos fora.

– Certo – colocou a mão no bolso da frente do casaco e pegou um relatório de três páginas. – Cecília Barten, dezoito anos, desaparecida há apenas três semanas. Vista pela última vez saindo de casa para ir ao supermercado na avenida Union. Câmeras de segurança do estacionamento e da saída da loja não gravaram nada, graças a uma sobrecarga de energia.

– E por onde vamos começar?

– Pela casa dos pais. Quero verificar se deixaram passar alguma coisa. A mãe dela está esperando por nós... Vire à direita aqui.

Reilly seguiu as placas e virou, entrando num bairro não muito longe de onde Veck morava. Ali as casas eram um pouco maiores e mais bem conservadas. Não havia carros estacionados na rua, e Veck imaginou que não haveria grandes caminhonetes ou sedãs guardados naquelas garagens. Não tanto quanto minivans... Porém, naquela região, moravam vários casais com filhos, então, talvez estivesse errado.

– Certo – ele murmurou, olhando as casas – 491, 493, 495... aqui.

Reilly estacionou no meio-fio em frente ao número 497. Depois de desligar o motor, saíram do carro...

Logo atrás deles estacionou uma suv dourada com insulfilme e três agentes federais desceram. Os homens estavam à paisana e, quando saíram, o motorista de cabelo loiro escuro exibiu suas credenciais.

– Jim Heron. Conversamos pelo telefone. Estes são meus parceiros, Blackhawk e Vogel.

– Thomas DelVecchio.

Quando apertaram as mãos, Veck sentiu uma energia estranha e recuou.

– Esta é a oficial Reilly. Quer entrar conosco?

O agente estreitou os olhos ao observar a casa.

– Sim. Obrigado. Meus parceiros vão esperar aqui.

Boa ideia. Seria difícil que todos coubessem naquele hall minúsculo. Enquanto passavam pela entrada de tijolos à vista, uma bandeira balançava casualmente com a brisa da primavera. Ela tinha um tom pastel e um desenho em formato de ovo estampado, metade cor de lavanda, metade cor-de-rosa e com uma faixa amarela ao meio.

A Páscoa ocorrera no fim de março, bem na época do desaparecimento da moça. Sem dúvida, a bandeira fora esquecida ali... ou talvez a família rezasse para que Cecília Barten ressuscitasse a partir daquilo. De qualquer maneira, a ruína tinha atingido aquela casa, mesmo que ainda restassem quatro paredes e um teto: a garota estava morta. Veck sentia em seus ossos, mesmo não sendo do tipo que sente coisas.

Campainha... espera... espera...

Veck olhou para Reilly. Parecia triste ao se inclinar para trás e observar as janelas do segundo andar... Será que a oficial estava tentando descobrir qual delas correspondia ao quarto da garota? Atrás dela, Heron passava uma excelente impressão de uma estátua: grande e imóvel. Seus olhos estavam focados na porta da frente, como se pudesse enxergar através das paredes.

Veck franziu a testa. Havia algo estranho no cara. Contudo, não era uma questão de competência. O agente irradiava uma precisão militar sobre tudo, desde a forma com que exibiu suas credenciais até o jeito que andava e como se mantinha imóvel. Ainda assim... o que será que...

A porta abriu com um rangido suave, e a mulher do outro lado parecia que não dormia nem comia direito há muito tempo.

– Bom dia, senhora. Sou o detetive DelVecchio. Estes são a oficial Reilly e o agente Heron.

Todos mostraram suas credenciais.

– Por favor, entrem – ela recuou e fez um gesto com o braço. – Posso servir alguma coisa?

– Não, obrigado, senhora. Agradecemos por dispor de seu tempo para conversar conosco.

A casa estava impecável, com cheirinho de desinfetante e lustra-móveis. O que sugeria que a senhora Barten limpava as coisas em momentos de tensão.

– Será que poderíamos conversar na sala de estar? – ela disse.

– Por favor.

A sala estava cheia de lembranças e bens de família, com papel de parede florido e dois sofás lisos. Quando a senhora Barten sentou-se numa poltrona e todos tomaram um lugar no sofá, Veck observou bem a mulher. Estava saindo da casa dos quarenta, com muitos cabelos loiros puxados para trás e enrolados num coque. Tinha um corpo magro e alongado... O peso que perdera recentemente realmente lhe fazia falta. Nada de maquiagem e, mesmo assim, era bonita. Porém, tinha um olhar vazio.

Droga, por onde começar?

– Senhora Barten – Reilly interrompeu –, pode nos contar sobre sua filha? Coisas que ela gostava de fazer ou nas quais era boa. Lembranças diversas.

Encarando sua nova parceira, Veck teve vontade de gesticular um “obrigado” com a boca. Especialmente quando a tensão deixou os ombros da mulher e o esboço de um sorriso surgiu.

– Sissy era... é... – ela se corrigiu. – Por favor, me desculpem. Isto é difícil.

Reilly aproximou-se da poltrona.

– Leve o tempo que precisar. Sei que pedi muito.

– Na verdade, ajuda quando falo dela. Faz com que me sinta melhor.

Numa voz hesitante, que gradualmente ganhou ímpeto, as histórias começaram a surgir, pintando o retrado de uma garota muito inteligente, boa e um pouco tímida, do tipo que nunca se envolveria em problemas se pudesse evitá-los.

Cecília Barten foi assassinada – Veck pensou. Não era um daqueles relatos de fuga motivados por drogas ou por causa do ciúmes de um namorado abusado e descontrolado. Era uma família estável. Uma jovem feliz. Futuro brilhante. Até que um carro bateu contra sua vida e levou tudo.

– Importa-se que eu olhe as fotos que estão ali? – Veck disse quando houve uma pausa na narrativa.

– Por favor.

Levantou-se e foi até uma das estantes embutidas ao lado de cada uma das janelas arqueadas que davam para a rua. Dois filhos. A outra era a irmã mais nova. Havia fotos de festas de formatura, aniversários, passeios no campo e jogos de hóquei... reuniões de família e casamentos... Natais.

Olhava com admiração tudo aquilo. Cara, aquilo era o melhor que a vida “normal” tinha para oferecer e, sem razão alguma, pensou em como, enquanto ele crescia, sua família não conseguiu ter nada daquilo... momentos felizes e fotografias para exibi-los. O tempo que passou com sua mãe não dava vontade de compartilhar com ninguém. Aliás, não era nada que quisesse lembrar.

Ele estendeu a mão e pegou uma das fotos 5×7. Cecília estava em pé ao lado de seu pai, braço estendido sobre o dele e com uma das mãos descansando sobre as dele. Era muito parecida com sua mãe, apenas um pouco com seu pai. Mas a linhagem era clara.

–... ligou para casa? – Reilly disse.

Veck voltou à conversa.

– Isso – a senhora Barten disse. – Ela saiu por volta das nove horas. Eu tinha acabado de operar meu pé... Corrigi uma deformação no dedo... – por um momento, a mulher parecia ruminar alguma coisa em pensamento, e Veck apostava que era o quanto desejava voltar no tempo, quando suas maiores preocupações eram encontrar sapatos confortáveis. Mas, talvez, também estivesse se culpando. Ela balançou a cabeça e voltou a se concentrar.

– Eu estava imobilizada. Dei a Sissy uma lista de compras e... ela me ligou do mercado. Não sabia se eu queria pimenta verde ou vermelha. Eu queria as vermelhas. Estava fazendo um... – as lágrimas vieram e ela piscou com força para afastá-las. – De qualquer maneira, essa foi a última vez que alguém teve notícias dela.

Veck voltou a colocar a fotografia na prateleira. Quando foi sentar-se ao lado de Heron outra vez, franziu a testa. O cara olhava para a mãe da vítima como se ele fosse uma filmadora, como se estivesse lendo e registrando cada contração do olho ou da boca que ela fazia enquanto falava.

Quando o radar de Veck começou a soar feito louco, não ficou claro o motivo... Seria a garota desaparecida, ou sua mãe triste e adorável, ou aquele homem imenso que parecia ter a capacidade de incendiar alguma coisa com aquele olhar?

– Posso perguntar uma coisa? – Veck disse. – Ela teve algum namorado?

Com o canto do olho, pôde ver Heron apertando as coxas com força.

– Não. Tinha alguns amigos, claro, e um encontro em bailes de formatura aqui e ali... mas nada sério. Ao menos, não que ela tenha me contado... e costumava ser sincera sobre o que se passava em sua vida.

Aquelas mãos relaxaram de repente.

– Quer perguntar alguma coisa? – Veck disse ao agente.

Houve um longo silêncio. Pouco antes de tudo ficar realmente estranho, o cara disse com uma voz baixa e profunda: – Senhora Barten, vou trazê-la de volta para casa. De uma maneira ou de outra, vou trazê-la de volta para a senhora.

Veck recuou, pensando: Droga, não faça assim, cara.

– Ah, o que ele quer dizer é...

– Está tudo bem – a senhora Barten apertou a garganta com uma das mãos. – Não estou me enganando. Sei que ela está... que não está mais entre nós. Uma mãe sente o frio no coração. Só queremos saber o que aconteceu e... providenciar um descanso adequado para ela.

– Vai tê-la de volta. Juro.

Agora, a senhora Barten soluçava... e por que não choraria? O cara parecia um guerreiro acostumado com a rotina da vingança, era mais um vingador do que um agente.

– Obrigada... Agradeço a todos vocês.

Veck olhou discretamente o relógio.

– Se me der licença, eu e minha parceira vamos nos dirigir ao supermercado. O gerente disse que sairia mais cedo hoje.

– Oh, sim, claro.

O agente Heron ajudou a senhora Barten a se levantar dando-lhe a mão.

– Seria incômodo se eu desse uma olhada no quarto dela?

– Claro que não... Vou levá-lo até lá – voltou-se para Veck e Reilly. – Se precisam ir agora, voltem sempre que precisarem.

– Obrigada – Reilly disse. – Faremos isso.

– E vamos sair logo por aquela porta – Veck murmurou.

Quando o agente Heron e a mãe da vítima chegaram às escadas, Veck parou no hall e observou os dois subirem juntos. Uma janela no andar de cima iluminava-os, o raio de luz solar atingia os dois rostos e agia como um farol para...

Espere um minuto.

Veck olhou para a sala de estar... de onde os raios dourados vinham do lado oeste. Impossível. Não poderia estar vendo aquele efeito de luzes em direções opostas: vinha da frente e dos fundos da casa.

– O que é isto? – Reilly disse suavemente.

Veck voltou a olhar para a escada. Heron e a senhora Barten não podiam mais ser vistos, e a luz tinha ido embora também, a janela não mostrava nada além de galhos de árvores atrás da casa e o claro céu azul sobre ela.

– Vou subir – disse à sua nova parceira. – Só por um minuto.


CAPÍTULO 8

 

Quando Jim seguiu a mãe de Sissy, sentiu-se muito oprimido. Num canto escuro de sua mente, sabia que precisava manter o controle diante de Veck, mas isso não aconteceria por muito tempo.

Virando-se no alto da escada, os sons da casa subiram a níveis de um heavy metal estridente. Tudo, desde o rangido sutil do chão acarpetado sob suas botas até a conversa suave que acontecia no saguão lá embaixo ou sua própria respiração soando forte atrás da garganta, tudo parecia gritar em seus ouvidos.

De repente, Veck apareceu atrás deles e fez um comentário rápido. Jim assentiu para o cara... e, imediatamente, esqueceu até mesmo que estava ali.

– O quarto de Sissy é por aqui.

Os três seguiram à direita e, quando a senhora Barten hesitou diante da porta fechada, Jim ergueu a mão para colocá-la em seu ombro... mas não conseguiu fazer contato.

– Prefere que entremos sozinhos? – ele perguntou.

A senhora Barten abriu a boca. Mas apenas assentiu com a cabeça.

– Não entro aqui desde... aquela noite. Está do jeito que ela deixou.

Naquele momento, o telefone tocou, e ficou evidente o alívio no rosto da mãe de Sissy.

– Vou atender. Fiquem à vontade para abrir as gavetas e o armário, mas se precisarem levar alguma coisa, poderiam me dizer o que é?

– Com certeza – Veck respondeu.

Assim que a mãe de Cecília apressou-se em descer as escadas e desapareceu no que Jim concluiu ser a suíte principal, ele abriu a porta... um cheiro maravilhoso. Entrando, fechou os olhos e tentou não se sentir um pervertido ao respirar fundo. Perfume. Loção corporal. Lençóis secos. Era... extraordinário. Mas ele não pertencia àquele quarto. Já tinha feito coisas que não deveriam sequer passar pela cabeça de alguém que entrasse num quarto como aquele... e a representação daquelas maldades estavam na tinta que cobria suas costas. Além disso, estava armado. E ainda havia aquela porcaria que fez com o demônio na noite anterior. Sentia-se sujo.


Enquanto Veck fazia o reconhecimento do quarto sozinho, Jim abriu os olhos e foi até uma estante modulada com escrivaninha embutida em frente à janela. A superfície plana e as prateleiras eram pintadas de branco, mas a cadeira era azul, combinando com as cortinas e o papel de parede listrado. Havia um tapete com franjas trançadas sobre a área acarpetada. Feito a mão. Tinha de ser.

Os livros enfileirados estavam em ordem e tinham uma temática bastante feminina. Gostava de Jane Austen, mas também havia uma prateleira inteira de Gossip Girls... provavelmente deixada ali desde que Sissy tinha treze anos. Algumas medalhas, vermelhas e azuis. Troféus. Sobre a mesa havia um notebook junto com dois livros, um sobre cálculo e outro sobre... trigonometria avançada? Hum. Sua garota era mais esperta que ele.

Havia também uma revista, Cosmopolitan, daquele mês. Tudo bem, a capa com título “orgasmo” em fonte gigantesca e cor rosa-choque não combinava exatamente com o resto daquele ambiente inocente de trabalhos escolares... mas ela estava crescendo, não estava?

Virando-se, foi até o pé da cama de solteiro. Agora sabia por que a mãe da garota não entrava ali. A colcha azul estava puxada para trás e os travesseiros ainda amassados, como se Sissy tivesse acabado de tirar uma soneca.

– Estou indo – Veck disse. O que fez Jim se perguntar há quanto tempo estariam naquele quarto.

– Vejo você em breve – disse Jim distraído.

– Entendido.

Quando ficou sozinho, a mão de Jim estremeceu ao estender-se para tocar os lençóis. Ao acariciar os objetos que sua pele tinha tocado, pensou em Devina e no que aquele demônio tinha feito com a garota... e com a família dela.


Adrian e Eddie estavam errados. Se queriam Jim concentrado na guerra, ali era exatamente o lugar onde precisava estar. Aquilo era motivação para vencer: Sissy nunca mais deitaria em sua cama. Não terminaria o artigo que estava lendo. E não mais lidaria com números. Nunca mais. Mas, ao menos, Jim poderia providenciar um lugar melhor para Sissy ficar enquanto não pudesse se juntar a seus pais e sua irmã por toda eternidade. E, então, faria Devina pagar mil vezes por tudo o que fez.

Na mesa de cabeceira havia um despertador branco, outra revista – desta vez era a In Touch – e o controle remoto de sua pequena televisão branca. Teve a impressão de que, mesmo fazendo faculdade, Sissy voltava aos fins de semana, e uma espiada em seu armário confirmou isso. Considerando o número de blusas, calças, saias e vestidos, não parecia que tudo aquilo tinha sido excluído da lista dos favoritos, mas que estava pronto para usar. Havia também vários sapatos no chão.

Deixou as gavetas da cômoda de lado, pois não sabia em qual delas guardava as... roupas íntimas. Provavelmente, nas duas primeiras, mas não correria o risco de confiar no chute. Já tinha assumido o papel de um mero observador ali, pois não tinha mais esperança em encontrar alguma coisa que o ajudasse a salvá-la. Deus era testemunha de que não havia nada na Terra capaz disso. Já ele queria apenas... estar perto dela.

Certo. Muito bem. Isto era o tipo de coisa com a qual Ad e Eddie preocupavam-se. Assim, percebeu que era hora de ir. Mais uma vez, não tinha noção de quanto tempo estava ali. Seria dois minutos ou duas horas, mas a última coisa que desejava era a mãe de Sissy batendo na porta para saber se ele estava bem ou se já tinha ido embora.

Não pegaria nada, mesmo sentindo a tentação de ficar com algum objeto, algo para se fiar em momentos difíceis... alguma coisa de Sissy. Contudo, a família já havia perdido demais e não tiraria mais nada deles.

Jim passou um último momento olhando ao redor e, então, obrigou-se a sair. No corredor, fechou a porta e ouviu. A mãe de Sissy estava no quarto ao lado, falando em voz baixa e embargada.

Desceu as escadas e esperou discretamente no hall onde ficava a porta da frente. Inclinando-se para o lado, olhou a sala de estar em direção às fotos ao longo das grandes janelas. A que mais lhe chamou a atenção – tanto que se aproximou dela – foi uma foto de rosto de Sissy. Ela não olhava para a câmera, mas para o lado, e não sorria. Parecia mergulhada em seus pensamentos, e a expressão em seu rosto não era a de uma menina, mas de uma... sobrevivente. Parecia ter uma vontade de ferro.

– Ela não fazia ideia de que a câmera a focava.

Jim endireitou-se e olhou para a mãe dela.

– Não?

A senhora Barten aproximou-se e pegou o retrato.

– Sempre sorria quando havia uma câmera por perto. Quando seu pai tirou esta, estava assistindo suas colegas de time jogarem... Praticava hóquei de campo. Tinha torcido o tornozelo e estava no banco... mas queria estar com elas – a mulher ergueu o olhar. – Era mais forte do que aparentava ser.

Quando seus olhos encontraram os de Jim, ele respirou fundo e pensou: Graças a Deus... isto a manterá sã até o momento em que eu conseguir salvá-la.

A senhora Barten inclinou a cabeça para o lado.

– Você é diferente dos outros.

Hora de ir.

– Sou como todos os outros.

– Não, não é. Nas últimas três semanas, vi mais oficiais, detetives e agentes do que em qualquer programa policial na TV que tenha assistido ao longo de toda minha vida – estreitou o olhar – Seus olhos...

Jim virou-se para a porta.

– O detetive DelVecchio entrará em contato...

– Quero te dar uma coisa.

Jim congelou com a mão na maçaneta e pensou – Má ideia – estava louco para aceitar qualquer coisa que ela oferecesse.

– Não precisa.

– Aqui.

Quando ele virou-se para dizer um “não, obrigado”, percebeu o toque daquelas mãos em sua nuca. Havia colocado em seu pescoço uma delicada corrente de ouro.

– Ela usava todos os dias. Encontrei em cima da pia do banheiro dela... Tinha tomado banho e esqueceu de colocar de volta... De qualquer maneira, fique com isto.

Pendendo na corrente havia um delicado pássaro feito de ouro. Uma pomba.

– Foi presente do pai no aniversário de dezoito anos. Fazia parte de um conjunto.

Jim balançou a cabeça.

– Não posso. Eu...

– Fique. Fará com que seus olhos continuem assim, nossa família precisa disso.

Depois de um momento, ergueu as mãos e substituiu os dedos da senhora Barten pelos seus. O colar e o pingente não pesavam nada. E mal cabiam em volta de seu pescoço. Mas seu dedo passava por ele como um sonho, mesmo o fecho sendo pequeno e suas mãos, enormes.

Quando baixou os braços, olhou para ela.

– Como estão os meus olhos? – disse ele com voz rouca.

– Desolados.


CAPÍTULO 9

 

O supermercado ficava a pouco mais de oito quilômetros de distância da casa, mas Reilly levou um bom tempo para chegar lá. Entre o trânsito e os faróis vermelhos, estava começando a achar que os dois passariam uma eternidade naquele carro.

Ou talvez o zumbido em sua cabeça fizesse parecer assim.

– No que está pensando? – Veck disse.

Apertou as mãos no volante e endireitou-se no banco do motorista.

– Se o caso de Cecília Barten estiver relacionado às vítimas de Kroner, teremos que deixá-lo. Está preparado para isto?

– Sim, estou.

Ao olhar para ele, percebeu que o maxilar de seu novo parceiro estava rígido e o corpo, todo tenso.

– Tem certeza? – porque ela não tinha.

– Sim, tenho.

Você é um filho da mãe teimoso que faz o que quer mesmo que isso contrarie uma ordem direta? Sim. Sou.

Assim que entrou no estacionamento e começou a caça por uma vaga, seu telefone tocou.

– Oficial Reilly. Uh-hum, sim... não é surpresa. Mesmo? Certo, e obrigada por me contar. Sim, mantenha-me informada.

Desligou e estacionou entre um carro prata antigo e uma caminhonete azul. Virando-se para Veck, disse: – Kroner está muito mal. Não há esperanças de que ele sobreviva.

O rosto rígido de Veck não expressou nada.

– Que pena. Talvez ele soubesse o que aconteceu.

– E saiu o resultado das análises feitas nas amostras que coletaram dele... Havia resíduos de saliva, mas as leituras não dão plena certeza quanto à fonte. Há semelhanças com pumas e lobos. Difícil dizer com certeza, mas a hipótese de ter sido um animal parece continuar ser a mais correta.

Ele assentiu e abriu a porta.

– Se importa se eu fumar antes de entrar?

Parece que estava tendo uma reação, afinal.

– Sem problema.

Saíram, e Veck foi até a parte traseira do carro, inclinando-se contra o porta-malas e tirando um Marlboro do maço... Um homem como ele poderia fumar outra marca? Quando ele acendeu o cigarro, Reilly esforçou-se para não pensar que suas calcinhas e seus sutiãs estavam separados de Veck apenas pela tampa do porta-malas.

Veck teve o cuidado de não exalar perto dela ou na direção em que o vento levasse a fumaça até a colega.

– Mau hábito – ele murmurou. – Mas ninguém vive para sempre.

– Verdade.

Encostando-se sobre o carro, ela cruzou os braços sobre o peito e olhou para o sol. O calor em seu rosto era uma bênção e fechou os olhos para apreciá-lo um pouco mais. Quando finalmente abriu os olhos outra vez, ficou chocada. Veck encarava-a e havia uma expressão em seu rosto... uma sugestão sexual. Ela tinha quase certeza de que estava deduzindo errado. Mas, em seguida, ele desviou rápido o olhar. Não era uma atitude comum quando se estava pensando em trabalho.

De repente, a temperatura primaveril aumentou e, agora, era ela quem o encarava. Bem, “flerte” parecia uma boa palavra para o que estava acontecendo.

Quando ele levou o cigarro aos lábios, sua boca se abriu e houve uma leve sucção, a ponta do objeto ficou alaranjada e os dedos indicador e médio aliviaram brevemente a pressão que faziam sobre o cigarro.

Oh, malditos sinos – ela pensou. Fumar era um hábito mortal e nojento, o qual ela não aprovava... Por isso, era perturbador perceber que todos os filmes ao estilo Casablanca faziam bem ao aproximar a câmera em longos closes em cenas como esta. Havia um toque erótico inegável em tudo aquilo. Especialmente quando a fumaça saía devagar de sua boca e projetava uma breve sombra em seus olhos azuis-marinhos e em seus cabelos escuros bem cortados.


Desviou o olhar rapidamente antes que ficasse presa ao...

– Então? – ele perguntou.

– Desculpe, então o quê?

– Perguntei o que achava.

Certo. Que tal responder assim: acho que todo o vermelho cereja que estou usando embaixo das roupas deformou o meu cérebro. Porque estou achando a ideia de subir em cima de você e montar feito uma vaqueira de chapéu na cabeça muito interessante.

– Preciso de mais informação antes de formar uma opinião – Então, que tal acender outro cigarro desses, garoto malvado, e arrancar as calças depois? – Oh, Deus.

– Você está bem? – ele disse, inclinando-se e colocando a mão livre sobre o braço dela. – Não comeu muito no café da manhã... Comeu alguma coisa no almoço?

Você está apoiado sobre as três sacolas do que fiz na hora do almoço, garotão.

– Sabe? – ela limpou a garganta. – Acho que devo comer alguma coisa.

E que Deus a ajudasse se seu cérebro cuspisse alguma coisa parecida com chantili sobre o corpo dele. Se isso acontecesse, pediria para ser transferida.

– Vamos entrar – ele disse, apagando o cigarro na sola do sapato.

Boa ideia. E já deixaria anotado: nada de tempo livre com seu parceiro. Nunca.

Aproximaram-se e passaram pelas portas automáticas, pela fila de carrinhos na recepção e entraram no supermercado propriamente dito.

Quando Veck parou e olhou ao redor, ela fez um gesto com a cabeça para a direita.

– O escritório do gerente é por aqui.

– Faz compras aqui?

– Esses estabelecimentos são praticamente todos iguais.

Enquanto caminhavam juntos, ele disse: – Devia conhecer este aqui de cor. Minha casa não fica longe.

– Então, faz suas compras aqui?

– Café e cigarros... bem saudável, não?

Ele parecia estar em ótima forma.

– Sempre se pode mudar de hábitos.

– Sabe? Eu parei por um tempo. Cigarros e cafeína.

– O que o fez voltar a consumi-los?

– Acertar aquele fotógrafo.

Aaah, então ele tinha emoções.

– Tem muito estresse em seu trabalho.

– Já foi fumante?

– Não, nunca bebi muito também. Não tenho muita inclinação para esses vícios.

Por outro lado, fazer compras poderia acabar se tornando um.

E este foi o último pensamento que teve sobre questões que não diziam respeito ao trabalho. Quando entraram no setor de atendimento ao cliente, colocou todas as distrações de lado, sua cabeça voltou a funcionar ao imaginar a filha da senhora Barten indo até a loja para ajudar sua mãe... O que deveria ser uma simples comprinha para abastecer a dispensa acabou tornando-se um pesadelo. Talvez por causa de Kroner.

Enquanto ela preparava-se para mostrar o distintivo ao gerente, pensou ser muito perigoso imaginar Veck ou mesmo aquele agente durão, Heron, arrancando a cabeça do cara. Mas nem um serial killer merecia esse tipo de justiça. E não ia se iludir: não seria uma surpresa descobrir Sissy na lista de vítimas de Kroner, e essa era a razão exata pela qual Veck estava interessado no caso. Mas Reilly jogava de acordo com as regras. Sempre tinha jogado, sempre jogaria. Entregaria o caso a De la Cruz assim que percebesse alguma relação com Kroner e daria um jeito de direcionar a atenção de Veck para outra coisa. Nem que isso matasse-o.

Quando Veck checou seu relógio outra vez, eram 16h30. O gerente falava devagar, e a gravação digital das câmeras de segurança levou um tempo para ser revista. Ainda havia uma empacotadora e dois funcionários que organizavam os carrinhos para entrevistar. Nenhuma informação nova, mas, caramba, ele e Reilly trabalhavam muito bem juntos.


Ela sabia exatamente quando tomar a frente e, assim como com a senhora Barten, tinha jeito para deixar as pessoas à vontade... O que significava que acabavam falando mais. Enquanto isso, ele observava o ambiente e avaliava todas as coisas que as pessoas não diziam, mas que demonstravam no semblante.

Do lado de fora do balcão de atendimento ao cliente, apertou a mão do gerente e, em seguida, Reilly fez o mesmo.

– Obrigada por seu tempo – ela disse ao cara. – Agradecemos muito.

– Não acho que foi possível ajudá-los de verdade – o homem empurrou os óculos quadrados sobre o nariz. – Agora ou antes. Sinto-me horrível por toda a situação.

– Aqui está o meu cartão – ela entregou-o. – Pode me ligar a qualquer hora... Estou disponível 24 horas, 7 dias por semana. E, pode acreditar, você se abriu e foi honesto... Era tudo que podia fazer.

Veck entregou seu cartão também e, então, estavam indo para a saída.

– Jante comigo – Veck disse de repente. Afinal, uma segunda oportunidade de compartilharem uma refeição tinha que ser melhor do que a primeira. Desde que ele não se comportasse como um idiota, todo na defensiva, outra vez...

Tudo o que obteve como resposta foi uma desaceleração no andar e uma longa hesitação. E, em seguida, um “Ah...”

Não era um bom sinal, então, reforçou o convite com uma justificativa lógica: – Temos que organizar as anotações das entrevistas que fizemos nas últimas quatro horas. Podemos muito bem comer ao mesmo tempo... E sei que deve estar faminta.

Cara, olha só isso. Tranquilo, casual. Perfeito.

Parou em frente a uma grande vitrine com prateleiras cheias de nachos, potes de salsa e um refrigerador cheio de queijos.

– Vou cozinhar para você. Comida mexicana... é minha especialidade.

Na verdade, aquilo poderia ser real se comparasse a outras coisas: não sabia nada sobre cozinha, mas, considerando o que pretendia fazer, tinha mais chances de acertar que com qualquer outro estilo culinário. Afinal, pedir coisas pelo telefone era sua única especialidade. Mas, vamos lá... não era tão difícil. Pegar uma caixa de tacos no corredor de salgadinhos? Como poderia errar?

– Deveríamos manter as coisas no âmbito profissional – ela argumentou.

– Não é um encontro, prometo. Você é boa demais para isso, e eu não sou tão sortudo.

Quando as sobrancelhas ergueram-se, deixou no ar o comentário que havia feito, pois era verdade e os dois sabiam disso.

– Então, o que me diz, oficial? O único tempero estará no molho.

Isso produziu nela um verdadeiro sorriso, seus lábios até curvaram-se para cima.

– Eu gosto de comida mexicana.

– Então, sou o cara certo.

Por um momento, apenas olharam um para o outro. Então, ela falou lenta e cuidadosamente: – Tudo bem, mas onde?

– Na minha casa.

Passando à frente dela, Veck pegou um carrinho e encheu-o com itens da vitrine de nachos. Parecia uma dádiva vinda dos céus: todos os ingredientes estavam enfileirados, então, não tinha muito que escolher. Porém, era apenas o começo, e ele dirigiu-se ao local onde um cartaz indicava “COMIDA MEXICANA”.

– Está olhando para mim, oficial? – disse ao perceber os olhos dela sobre ele.

– Só estou... surpresa. É isso.

– Com o quê?

Colocando o carrinho em frente a uma prateleira cheia de caixas de um amarelo brilhante, esperou uma resposta de Reilly.

– Tacos ou enchiladas? – quando não houve resposta a essa pergunta também, ele pegou uma caixa. – Tacos.

Pensou no que ainda faltava. Alface. Queijo... Observou o carrinho e decidiu que precisavam de mais. Tomates. Entendido.

– Onde é a parte de hortifrúti?

– Seguindo por ali, à esquerda. Mas precisamos de hambúrgueres.

– Sim, bem lembrado.

O balcão de carnes e congelados ficava mais ao fundo da loja e, ao passarem pelas bandejas de carne moída, pegou um pedaço magro com quarenta por cento orgânico... pois, provavelmente, ela seguia uma dieta mais natural. Quando chegaram à parte das frutas e verduras, precisavam pegar tomates e alface americana.

– Converse comigo, Reilly – disse em voz baixa.

– É que... você não me parece um homem que precise de sorte com as mulheres.

– Ficaria surpresa – ao continuarem em direção ao caixa, passaram pela parte de alimentos importados e por um self-service de saladas, e, por alguma razão, Veck sentiu que devia se explicar. – Veja bem, meu pai é muito conhecido por um motivo horrível e algumas pessoas se sentem atraídas por isso. As mulheres que me procuram não são como você. Ou têm tatuagens nos lugares mais ridículos do corpo e cabelos pintados, ou são Barbies que querem “salvar” alguém, ou desejam fazer loucuras sem correr muitos riscos. Depois, há as que parecem normais, mas costumam ter fotos do meu pai na bolsa ou cartas que pedem que eu entregue para ele... Para ser sincero, é uma confusão total. Aprendi que não posso confiar em ninguém, mas também nunca mais fui surpreendido.

Puxou o carrinho num dos caixas e começou a passar as coisas enquanto Reilly entregava-as.

– Mas, como disse, você não está em nenhuma dessas categorias – terminou.

– Com certeza, não – ela passou o saco de tomates. – Desculpe, não fazia ideia.

– Há coisas piores para se preocupar – como o laço sanguíneo que tinha com o pai maníaco, por exemplo. Droga, as tietes idiotas que queriam ficar com ele só por causa do sobrenome DelVecchio eram terríveis, mas o fato de ter o assassino ligado à sua medula era um pesadelo.

– Você vai... no meio da semana que vem? – ela perguntou.

– Como?

– À execução? – ela disse em tom gentil.

Veck congelou com a caixa amarela de tacos nas mãos.

– Vai mesmo acontecer?

– Se a Suprema Corte não emitir algum documento para adiá-la... Saiu um artigo no jornal de hoje.

Ah sim, as três colunas que ele tinha pulado no restaurante.

– Bem, espero que fritem o bastardo. E não, eu não vou. Tenho que ver aquele filho da mãe toda vez que me olho no espelho. Já é suficiente.

Pegou a carteira e tirou o cartão de crédito.

– Aqui, deixe-me ajudá-lo com a...

Veck lançou um olhar por cima do ombro.

– O homem deve pagar. Sou tradicional nesse ponto.

– E a mulher pode muito bem fazer uma contribuição. Sou realista assim.

Quando ela empurrou uma nota de vinte dólares na palma da mão dele e ergueu o olhar para encontrar o dele, soube que Veck queria beijá-la... E não apenas em suas fantasias: queria saber como era apertá-la em seus braços e sentir o sabor daquela boca da qual não saía besteira nenhuma.

Não iria acontecer.

Voltando a se concentrar nas coisas que não iriam comprometê-lo ou que evitariam um tapa, passou o cartão, digitou a senha e esperou a transação completar-se. Depois de jogar o cupom fiscal fora, dirigiu-se à saída, onde deixou o carrinho com os outros e recolheu as sacolas com as compras.

Enquanto caminhavam de volta para o carro, ele murmurou: – Você está quieta. Falei demais?

Olhou para ele ao desativar o alarme do carro e destrancar todas as portas.

– Sobre seu pai? Deus, não... A hora que quiser falar sobre ele, ou sobre qualquer outra coisa, ficarei feliz em ouvir.

Veck acreditava nela. O que era um milagre em si.

– Obrigado, mas você acabou de ouvir tudo o que tenho a dizer sobre o assunto.

Assim que se aproximaram do porta-malas destravado, ela foi até a porta do passageiro de trás e disse: – Espere, aqui, coloque as compras...

– Só vou jogá-las por aqui mesmo e...

Quando a porta ergueu-se sozinha, ele viu as três grandes sacolas da Victoria’s Secret e não pôde evitar: seus olhos fixaram-se em Reilly e observaram seu corpo... De baixo para cima, até as bochechas avermelhadas. O que significava que não havia um monte de pijamas e roupões de banho macios naquelas malditas sacolas.

– Hum... banco de trás – ele murmurou. – Está certo...

– Estavam em liquidação – ela disse enquanto ele fechava o porta-malas.

Ele estava ficando excitado outra vez. Agora mesmo. Droga.

Depois que as compras foram acomodadas no carro, os dois sentaram-se em seus respectivos bancos e ela ligou o motor. O cinto de segurança pressionou sua ereção, mas achou que o aperto foi bem-vindo. Não precisava ficar fantasiando um desfile de moda. A bela oficial Reilly vestindo aquelas coisas? Cara, precisava de um cigarro.

– Merda – ele disse.

– O que foi?

– Temos que ir à sua casa para fazer isso – com um palavrão, emendou. – Quero dizer, o jantar. Fazer o jantar na sua casa... Não tenho panela nenhuma.

Quando pararam no sinal da saída do estacionamento, Reilly olhou para ele... e começou a rir. Antes que percebesse, ele estava sorrindo também.

– Você não sabe cozinhar coisa alguma, não é? – ela disse.

– Terei sorte se conseguir abrir a caixa de tacos – ergueu o dedo indicador. – Mas ainda gostaria de fazer o jantar, se não se importa.

Negando com a cabeça, ela sorriu.

– Certo, mas pode me fazer um favor?

– Pode dizer.

– Pode esquecer o que viu no meu porta-malas?

Seus olhos perderam-se na boca de Reilly e, em seguida, desceram para o pescoço pálido e...

– Sinto muito – disse em tom sombrio. – Isso eu não posso fazer.

Ela respirou fundo, como se todos os pensamentos dele estivessem expostos em seu rosto.

– Droga – disse, soltando o ar. – Quero dizer, sim, é claro. Considere feito. Totalmente esquecido.

Uma buzina soou alto atrás deles e ela teve um sobressalto antes de acelerar.

Que bela noite. Só faltava ele botar fogo na casa dela..


CAPÍTULO 10

 

Durante os anos em que atuou como soldado de Operações Extraoficiais, Jim aprendeu que uma boa informação é fundamental para a missão em qualquer tarefa. Claro, quando trabalhava para o maldito Matthias seu trabalho era matar pessoas e, agora, não era bem essa a situação com seu novo chefe ou com seus alvos atuais. Porém, muitos princípios eram os mesmos. E os riscos eram ainda maiores.

Sentado na cama de hotel, com o computador apoiado nas coxas, o site do Correio de Caldwell estava no centro da tela e a dor de cabeça que sentia não era pelo brilho da máquina. Seu trabalho já tinha sido iniciado. Considerando que Devina não havia mentido sobre a alma.

Na noite passada, Thomas DelVecchio Jr. adentrou na floresta com um cara a quem investigava... O que é normal para um detetive de homicídios, certo? Errado. O que deteve a ordem normal dos fatos foi que David Kroner, considerado um serial killer, fora levado numa ambulância até a cidade à beira da morte. Encharcado de molho de tomate. E isso era apenas o começo do jogo. Após passar quase duas horas vasculhando a internet, Jim teve acesso a informação suficiente para escrever um livro sobre DelVecchio... e sobre o pai do cara. Não eram boas notícias.

– Droga, Cachorro – murmurou.

Cachorro bufou baixinho e colocou a pata sobre o antebraço de Jim, como se estivesse oferecendo ajuda. A questão era: onde estava a encruzilhada de DelVecchio? Estaria naqueles bosques de ontem à noite?

Não, pois Jim teria perdido antes de ter começado e imaginou que isso estaria fora das regras. Entretanto, não significava que Devina não tivesse dado tal golpe.

E assim...

– Onde você está, vadia...?

O demônio estava em algum lugar naquilo tudo, trabalhando nos bastidores, tentando mexer os pauzinhos para que o jovem DelVecchio se envolvesse profundamente com ela.

A rota poderia ser traçada através do pai. Digitando outra vez o nome do cara no Google, Jim começou outra pesquisa. Os resultados fizeram-no questionar se valia a pena salvar a humanidade. Oh, veja só, quanta coisa baseada em seus assassinatos. Pinturas. Autógrafos.

O cara tinha sua indústria... Mas parece que não duraria muito. As luzes seriam apagadas para ele em Connecticut muito em breve. Mas talvez vivesse para sempre na infâmia: havia vigílias acontecendo fora da prisão. Sem dúvida aquela procissão de manifestantes não impediria a execução, mas era uma indicação de que o bastardo poderia tornar-se uma celebridade ainda mais famosa quando estivesse totalmente acabado.

De acordo com os arquivos do jornal, DelVecchio pai tinha cometido a maioria de seus assassinatos em Nova York e Massachusetts, e a primeira denúncia datava do meio dos anos 1990, quando o primeiro corpo fora encontrado... em Caldwell, Nova York. Passaram-se três anos para que as autoridades percebessem que estavam lidando com um serial killer, e não com chacinas aleatórias. Parte do atraso ocorreu pelo assassino ter deixado os corpos em situações muito diferentes e pelas investigações realizadas com diferentes graus de competência policial. Outro fator foi, ao menos no começo, que DelVecchio escondia bem os restos e de maneira muito criativa.

Os casos, porém, começaram a ser ligados e, então, iniciou-se uma corrida para capturar seja lá quem fosse o assassino. O tapa na cara foi saber que DelVecchio estava aos olhos do público o tempo todo, um negociante de antiguidades... e não apenas bugigangas e falsificações. Estava no topo daquele mercado, importando estátuas, artefatos e mosaicos do Egito e do Oriente Médio.

Maldito filho da mãe. Existia até mesmo um artigo sobre ele na Vanity Fair, que dava informações detalhadas sobre seus negócios. Aparentemente, entre as viagens ao exterior e as grandes festas que frequentava, DelVecchio pai conseguiu engravidar uma mulher. O filho tinha nascido no mesmo dia que o pai nascera há 29 anos, mas não havia vida familiar. Nem outras crianças.

Contudo, houve uma espécie de contato: o assassinato daquela mulher acabou sendo a chave para finalmente capturarem DelVecchio, a primeira ligação que trouxe à tona a cadeia de crimes que havia formado. O resto era história, por assim dizer.

– Entrandooo...

Jim olhou por cima do notebook. Parado na porta do conjugado, Adrian tinha uma caixa de pizza entre as mãos e um pacote com seis cervejas pendurado nos dentes.

– Aí sim! Obrigado, cara.

Eddie entrou atrás com uma segunda caixa.

– Ele providenciou tudo... até a isca.

Ad sentou-se sobre a cama e apoiou as cervejas.

– Se chamam anchovas, idiota.

O “que seja!” ficou subentendido entre os dois. Jim alimentou Cachorro primeiro, dando ao cão o item que Adrian não apreciava muito. Considerando o movimento do rabo curto e grosso, a gororoba estava mais que boa.

– Então, como podemos saber que Devina não mentiu para você? – Adrian disse, antes de se inclinar e colocar a ponta de uma fatia de pizza na boca.

– Essa confusão toda é bem a nossa cara – clicou no artigo sobre a execução e girou o computador. – Este é o pai do cara. E espere, tem mais.

Enquanto comiam, Jim mostrou-lhes alguns sites e finalizou com um artigo sobre a pequena viagem do Júnior à floresta com outro serial killer. Enquanto seus parceiros liam, houve uma quantidade razoável de “mas que inferno”, o que era bom.

Terminou de comer a terceira fatia.

– Precisamos descobrir o que aconteceu naquela floresta ontem à noite.

– Os artigos dizem que DelVecchio não se lembra de nada.

Jim olhou para Eddie, mais conhecido como “o mestre dos truques”.

– É aí que você entra. Quero entrar na mente do cara e você precisa me dizer como fazer isso.

Ad deu de ombros.

– Pessoalmente, eu costumo usar um serrote, mas...

– Pode haver várias consequências e efeitos colaterais – disse Eddie com cuidado.

– Por exemplo?

– Bem, na pior das hipóteses... ele pode acabar como Adrian.

– Ei...

Jim interrompeu o anjo em questão.

– Meio surdo. Com medo de agulhas.

– Viciado em sexo – Eddie acrescentou.

– Ou seja, um deus – Ad exclamou, abrindo uma cerveja. – E continuo dizendo, pessoal, não sou surdo.

– Já passamos por isso antes – Eddie enxugou a boca. – Se não consegue ouvir o quanto é desafinado, então, como pode saber?

– Não sou desafinado.

– É sim – Jim e Eddie disseram juntos.

Antes que a discussão saísse do controle, Jim ficou sério e dirigiu-se a Eddie.

– Então, me diga o que eu preciso saber.

– Precisa me explicar primeiro o que está procurando.

Jim tomou um longo gole de cerveja.

– Quero saber onde Devina está em tudo isso. Qual é o ângulo de ação dela e de que maneira está suscetível a falhar nessa porcaria toda. É isso que estou procurando.

E, considerando a situação do pai, já tinha suas suspeitas.

É claro que Veck precisava ter visto o que havia no porta-malas – Reilly pensou enquanto entrava na garagem. – O universo não desperdiçaria uma oportunidade como essa para aprontar comigo. Enquanto a porta da garagem subia, olhou para seu parceiro.

– Deixe-me adivinhar: gostaria de carregar as compras, da mesma maneira como pagou por elas.

– Sim, gostaria – olhou para os bancos de trás. – Como disse, sou antiquado. Mas se quiser assumir a tarefa, posso voltar atrás.

E era por isso que não tinha qualquer problema com ele. Além disso, ele poderia cuidar da comida enquanto ela tirava suas roupas do porta-malas: apesar de constrangida, não deixaria as sacolas para trás. Não havia como fingir que nada acontecera, mas, mais importante que isso, não havia motivo algum para esconder. Era uma mulher adulta que poderia comprar calcinhas e sutiãs para si.

Quando a voz na cabeça dela ficou ainda mais estridente e na defensiva, perguntou-se quem exatamente estava falando. Provavelmente seu pai. Interrompendo o discurso ridículo, terminou de estacionar o carro. Enquanto Veck saía e pegava as sacolas do supermercado, deu a volta no carro, abriu o porta-malas e manteve a cabeça erguida ao pegar todos os seus artigos cheios de lacinhos e renda e seguir para a cozinha.

– Nossa! – ele disse ao olhar para as paredes, cortinas e balcões.

– Eu deveria ter avisado.

Ter uma decoração cheia de galos na cozinha é um pesadelo, mas a boa notícia é que, geralmente, as pessoas param e olham ao redor, e, por isso, ela conseguiu enfiar as sacolas num canto qualquer, longe de olhares curiosos.

– Acho que nunca vi...

Quando Veck apenas assentiu com a cabeça, Reilly ficou feliz por ele não ter terminado a frase. Claro que nem precisaria: a parte do “... tantos galos num lugar só” costumava ficar no ar com certa frequência.

Oh, Deus, aquilo era horrível.

– Desde que me mudei há dois anos, tenho vontade de pegar um estilete e arrancar tudo a partir dos cantos. Mas sempre tem algum trabalho mais urgente que me mantém ocupada.

Porém, ao observar como Veck olhava tudo aquilo, pensou que deveria ter um pouco mais de determinação. O papel de parede tinha três galos diferentes em várias e exageradas poses, como se fossem fisiculturistas participando de um concurso. O esquema de cores era marrom, vermelho e creme com tufos verdes de grama sob as patas tripartidas. E, de alguma forma, mesmo o material estando ali há uns bons vinte anos, mantinha uma vivacidade impressionante.


– Sou eu ou os olhos deles seguem a gente? – Veck perguntou ao colocar as sacolas sobre o balcão da pia.

– Eles estão observando você. É uma maravilha para minhas die-tas... sinto como se estivesse comendo em público e não consigo comprar frango desde maio do ano passado.

– É como estar no filme Os pássaros.

– Exceto por não ser uma fazenda. Eu sei – quando ela aproximou-se e abriu o armário sob o fogão, completou –, o fato de já estar um pouco acostumada com isso me assusta... será que me hipnotizaram? Aliás, as panelas estão aqui, as tigelas ali e as facas naquelas gavetas perto da lava-louças.

– Obrigado.

Quando ele tirou o casaco, os grandes ombros movimentaram-se naturalmente, mas, na mente dela, transformaram-se em algo nu e excitante – Hora da distração – Reilly pensou quando Veck começou a desembalar as coisas.

– Ei, acho que vou imprimir o arquivo do caso enquanto você começa a lidar com a comida.

– Ótimo.

– Pode levar um tempo. Minha impressora é antiga.

– Temos tempo.

Pela maneira como estava concentrado no pacote de salgadinhos, parecia que estava prestes a fazer uma cirurgia cerebral com o micro-ondas. E nossa... Aquele jeitão impassível, seguro e lindo era muito sexy, sem falar que aquela preocupação toda o deixava mais acessível. Isso e a maneira como se abriu a respeito das mulheres. Ela nunca pensara nas tietes... porém, mesmo pessoas de boa aparência podiam ser perseguidas pelos motivos errados, não?

No escritório que tinha no final do corredor, entrou no banco de dados da polícia de Caldwell, acessou o relatório e ficou parada ao lado da impressora, pronta para salvar a impressão quando as folhas ficassem presas... o que aconteceu. Duas vezes.


O primeiro indício de que as coisas não iam bem na cozinha foi o aroma inconfundível de carne queimada. O segundo foi uma explosão de palavrões. Que não parou até ela aparecer com as impressões.

Foram muitas bombas verbais. Em seguida, o detector de fumaça disparou. Seja lá o que estava na panela sobre o fogão – o mais provável era que fosse o hambúrguer, mas, como era Veck na cozinha, poderia até ser os nachos – precisava de uma mangueira de incêndio. Ele tentava lidar com a situação, levou a panela para a pia, colocou dentro da cuba, mas não ligou a água. Aproximou-se rapidamente do detector e começou a abaná-lo com um pano de prato sem nem sequer ficar na ponta dos pés.

– Acho que um dos galos aumentou o fogo – ele gritou.

– Isso não me surpreenderia.

Ela escondeu um sorriso quando colocou os papéis sobre a mesa e foi dar uma olhada no que ele tinha colocado no prato: os pedaços de queijo laranja tinham se unido à camada de tortilhas ao ponto de formarem uma nova composição molecular.

Só há uma coisa a fazer agora – ela pensou. Pegou o telefone e disse: – Qual sabor de pizza você gosta, oh, poderoso fazendeiro?

– Calabresa com salame.

– Boa.

Enquanto discava, olhou para cima. A parte de baixo da camisa de Veck tinha se soltado, e ela teve uma clara visão do cós preto da cueca, bem como dos pelos que desciam em linha a partir do umbigo sobre a pele firme. Imediatamente seu cérebro voltou à cena do banheiro na noite anterior. Apenas um instante e lá estava ela, observando o corpo nu...

– Oh, sim, oi – afastou-se rapidamente. – É um pedido. Sim, sou eu. Pizza grande de calabresa com salame. Sim. Não, sem bebidas... Não, não quero uma segunda pizza de graça... Não, sem acompanhamentos... Não, obrigada, não precisa... Não, também não quero sobremesa de maçã com canela – pelo amor de Deus, levavam mais tempo fechando o pedido do que fazendo, embalando e despachando a pizza para entrega! – Ótimo, obrigada.


Desligou, endireitou os ombros e virou-se em direção a Veck outra vez – estava parado bem atrás dela, olhos semicerrados, o corpo muito maior do que aparentava ser a dois metros de distância.

Ela não se moveu. Nem ele.

– Acredita que a confissão seja boa para a alma? – disse ele de maneira misteriosa.

– Sim...

– Então, preciso dizer uma coisa.

Oh, Deus, era por isso que diziam que não se deve misturar negócios com prazer: quando seus olhos se encontraram, Reilly não pensava sobre o caso em que estavam trabalhando. Pensava que deveria admitir algumas coisas a si mesma.

Vi você nu ontem à noite e te achei lindo.

– O quê? – ela disse ofegante.

Eu te desejo mesmo sabendo que não deveria.

Engolindo em seco, ela disse: – Diga...


CAPÍTULO 11

 

Veck sabia que não deveria responder à sua parceira e com certeza não deveria ter se aproximado tanto dela. A atitude correta seria começar a limpar a bagunça que tinha feito com os alimentos em vez de criar mais confusão.

Mas viu-a olhando o corpo dele e a expressão em seu rosto indicava um desejo forte e intenso. Surpreso? Sim. Satisfeito? Poderia, se ficassem juntos.

Mas não poderiam se desvencilhar das consequências daquilo com um banho de água quente, este era o problema.

– O quê? – ela sussurrou.

– Eu quero... – a palavra era tão rude que ele guardou-a para si mesmo.

– Diga.

Ele inclinou-se e colocou os lábios sobre o ouvido dela.

– Você sabe exatamente o que eu quero.

– E eu quero que você diga.

– Tem certeza? Não é nada agradável.

Antes que ele pudesse recuar, ela estendeu as mãos e colocou as dele sobre seus quadris. O toque foi leve como uma sombra caindo sobre o corpo de Veck, mas sentiu que tudo queimava por dentro. E uma coisa era certa, se ela instigou aquele contato é porque sabia exatamente o que ele tinha em mente.

O toque ficou mais intenso.

– Diga.

Sua voz era quase um rosnado.

– Quero foder você.

Reilly gemeu um pouco e ele continuou.

– Quero você nua. Embaixo de mim. E quero entrar em você – abaixou um pouco e passou a boca sobre o pescoço dela. – Mas sei que é especialista em conflito de interesses, então sabe muito bem os motivos pelos quais essa é uma má ideia.

Era a deixa para ela se afastar. Ou para ele pular fora. Nenhum deles se moveu.

Droga, o corpo dele começou a ficar fora de controle, sua ereção latejava por mais espaço para fazer o que sabia de melhor. O que significava que, se fosse para fazerem a coisa certa, a iniciativa partiria dela.

– Dê um tapa na minha cara – ele gemeu. – Me empurre... pelo amor de Deus, se tranque no banheiro ou algo assim. Pois se não fizer isso, eu vou...

– Me beije.

Deus, o tom que ela usou: aquilo era uma ordem. E quem era ele para desobedecer a uma ordem? Especialmente vinda de uma superior?

Veck estendeu a mão e passou o braço em volta da cintura de Reilly. Com um puxão forte e impaciente, aproximou-a de seu corpo. O próximo passo foi arrancar o elástico que amarrava os cabelos dela e jogá-lo no chão.

Cara, ela instigava tanto desejo com aquela coisa de não se afastar, e os cabelos vermelhos sobre os ombros diziam que estavam prontos para ter a mão de um homem sobre eles.

Quando agarrou a nuca e aproximou a cabeça ainda mais, sabia muito bem que iria dominá-la, assumiria o controle de seu corpo, iria segurá-la com força ao empurrá-la até a mesa da cozinha e ajoelharia entre suas pernas para sugar seu sexo. Era o que desejava fazer.

– Desculpe – ele disse, ciente de que não estava desculpando-se apenas pelo que estava prestes a fazer, mas por tudo que passava em sua mente, toda a vulgaridade que desejava impor aos dois.

Então, o destino foi selado quando ela deu um beijo nos lábios de Veck.

A boca dela era macia... e também seus seios contra o peitoral de Veck e seus quadris contra seu pênis... Era macia e quente, o tipo de coisa que se quer penetrar e permanecer ali por um bom tempo. Mas, mesmo com sua pélvis contorcendo-se e sua ereção pulsando, no fundo Veck sabia que o conflito de interesses não era o maior problema que tinham. Por mais que fingisse estar tudo normal com ele, estava em carne viva por dentro por causa daquela porcaria que tinha acontecido na floresta e pela novidade sobre seu pai. Tinha medo de que Reilly fosse exatamente o tipo de curativo que precisava... Esse foi o último pensamento lógico e decente que teve.


Quando penetrou a boca dela com a língua, seus braços apertaram-na e a parte inferior do corpo arqueou-se outra vez, a tensão e o movimento em seu pênis estimulou-o ainda mais. E isso foi antes de sentir o arrepio que passou pelo corpo de Reilly. Estava claro que ela acompanhava-o, especialmente quando o apertou em seus ombros com as unhas e suas pernas abriram-se o suficiente para que ele pudesse se encaixar com uma das pernas ali.

Pensando num palavrão, ele virou-a e colocou-a sobre a mesa, em cima da papelada que ela tinha acabado de imprimir. Imagens dela com as pernas sobre os ombros dele enquanto lambia seu sexo fizeram-no imaginar que deveria repensar a falsa propaganda sobre comê-la.

Bem, não era tão falsa assim. Só adicionaria uma atração turística muito importante na viagem para o grand finale. Passou a palma da mão sobre as coxas e levantou a perna dela, esfregando ainda mais o local onde ele desejava finalmente estar. Interrompendo o contato com a boca, mergulhou no pescoço de Reilly com mordidas e lambidas.

– Me deixe ver você – ele gemeu em sua garganta. – Me deixe...

– Entrar – outra voz disse.

Ele interrompeu o ritmo de repente, desvencilhando-se do abraço e olhando para cima. Agora seu coração batia por um motivo diferente.

– O que foi? – ela disse.

Seus olhos percorreram o local. Mas não havia quaisquer sombras esquivando-se em movimentos velozes pela cozinha com decoração de galos. Nenhum ruído de tábuas ou dobradiças rangendo. Ninguém observando pelas janelas.

Depois de um momento, a adrenalina diminuiu e percebeu onde estava e o que estava fazendo com ela. Talvez tivesse sido um pensamento que assumiu uma voz muito alta. E não poderia sentir-se melhor com isso se considerasse o que tinha acontecido com Kroner na noite passada.

Uma das mãos de Reilly ergueu-se e acariciou a bochecha dele.

– Você está bem?

– Não – olhou outra vez para o rosto dela. Sentiu o corpo dela sob o seu. Ouviu suas respirações profundas. – Mas não quero parar. Você é real... E preciso muito disso agora. Preciso... de você agora.

Reilly não era como as outras mulheres com quem já tinha ficado: os olhos inteligentes viam demais e sabiam coisas demais. Cara, ele ficara nu na frente dela no primeiro momento em que a conheceu – e isso deveria tê-lo guiado na direção oposta do que estava acontecendo. Em vez disso? Só desejava-a ainda mais.

– Então, me possua – disse, puxando a camisa para fora da saia.

Veck não deu um segundo sequer para ela mudar de ideia: enquanto a beijava, mergulhou uma das mãos sob a abertura que ela havia feito na camisa, tocando toda aquela pele quente. Em seguida, os botões soltaram-se como se tivessem o mesmo objetivo que ele: acesso total.

Ergueu-se quando o último se abriu... caramba. Renda vermelha. Havia uma complexa renda vermelha sobre um par de seios perfeitamente proporcionais. Ele conseguia ver os mamilos tensos e firmes através da pequena extensão do tecido.

– Gostou do que eu comprei hoje? – ela perguntou com voz rouca.

– Nada mal – limpou a garganta quando falou. – Nada mal mesmo. Mas o que está por baixo é ainda mais quente.

Com uma graça harmoniosa, as mãos dela ergueram-se e acariciaram o sutiã de alças finas e brilhantes... Em seguida, passou a mão sobre os mamilos rígidos e, com isso, Reilly arqueou o corpo, implorando por ele.

Com um rosnado, ele empurrou a saia para cima e adentrou entre as pernas dela, separando-as ainda mais com seus quadris ao se aproximar do que havia chamado sua atenção. Ao colocar a boca sobre o sutiã incrível, além de sentir a renda em sua língua, também percebeu a carne rosada e firme por baixo do tecido.

Não levou muito tempo para aquilo não ser mais suficiente. Com a mão áspera e impaciente, puxou o bojo para baixo, revelando o mamilo.

– Porra... – ele exclamou. – Você...

Ela não quis nem saber de conversa: com pressa, seus dedos agarraram a nuca dele e, com isso, aproximou a cabeça de Veck de seus seios. Enquanto ele sugava-a, ela ergueu-se sobre a mesa, e aquele movimento, aquele puxão, fez com que ele deixasse de lado qualquer constrangimento. De repente, Veck assumiu o controle, ergueu-a ao colocar um dos braços embaixo dela, a outra mão foi direto entre as coxas, em direção ao desejo que emanava daquela calcinha.

Acariciou o sexo dela, a palma da mão envolveu o local, bem onde ela desejava...

– Veck!

O som do nome dele foi um pedido de mais, mais, mais. E daria isso a ela. Trocando de lado, mordeu a outra metade do sutiã e puxou com os dentes, antes de sugar o outro mamilo. Contudo, ainda não era suficiente. Precisava de contato total com a pele nua. Aqui, agora...

O gemido que saiu dela foi exatamente o som de consentimento que precisava ouvir.

Deus, vai acontecer – pensou. – Vai acontecer.

Veck era um dominador total. Reilly não esperava menos que isso, mas a excitação foi surpreendente. Em parte por saber que, se dissesse não estar à vontade em ir tão longe, ele recuaria no mesmo segundo. Mas o resto devia-se à maneira como ele lidava com ela, a confiança, o poder, a possibilidade erótica que emanava de sua boca, de suas mãos e de seu olhar sedutor e intenso.

Sem dúvida, Veck tinha um talento natural para o sexo... E desenvolveu isso ao longo dos anos. De repente, como se tivesse lido a mente daquela mulher, seu olhar ergueu-se com um brilho e fixou-se no dela enquanto estimulava o mamilo da mulher com a língua... E, quando as pálpebras baixaram, sabia que desejava que ela o observasse.

Que visão. Ele puxou o outro lado do sutiã e acariciava-a, lambendo e chupando enquanto uma das mãos espalmadas pressionava sua pele. Deus, ele era grande – por inteiro. Seu pênis era longo e grosso e acariciava a parte interna das coxas dela, seus ombros eram tão grandes que não conseguia ver nada além deles, e a parte inferior do corpo daquele homem ocupava todo o espaço que havia entre suas pernas abertas.

Veck terminou de puxar o sutiã que pressionava os seios para cima, a camisa estava totalmente aberta, e a saia estava toda amontoada na cintura. O próximo passo era tirar o tecido de nylon que cobria as pernas de Reilly e, para isso, ela saiu um pouco de cima da mesa, sentindo aquela mão pressionar com mais força ainda em movimentos circulares. Mergulhou os polegares na cintura da meia-calça e baixou os quadris, escorregando a peça ao longo das coxas.

– Eu assumo daqui em diante – Veck recuou um pouco, os olhos em chamas observando o corpo de Reilly. – Hummm... bem onde eu queria estar.

Quando ele sorriu como um predador, ela ergueu os joelhos para ajudá-lo a tirar as meias, lentamente. E só depois que o fino tecido estava livre de seus pés, ela perguntou-se até onde aquilo tudo chegaria. Iriam terminar de fazer aquilo que não deveriam nem ter começado?

Se aquilo fosse um “sim”, teriam que lidar com alguns aspectos práticos. Mas, caramba, que coisa chata falar de camisinha – e, sim, agora entendia por que as pessoas faziam escolhas idiotas quando se tratava de sexo. Coisas realmente importantes não tinham a menor relevância ali, todo o sofrimento que poderia vir depois daqueles minutos intensos, coisas com as quais teria que conviver, talvez para sempre... Passavam a ser ecos distantes, que ela mal conseguia ouvir, pronunciados num idioma que não queria traduzir.

Cinquenta mil anos de evolução poderiam dizer o que estava acontecendo.

Com um impulso, Veck voltou à boca dela, beijando-a profundamente enquanto as mãos desciam...

A maldição que disparou da garganta dela era mais uma vibração que um sim. A mão dele estava de volta entre as pernas, acariciando suas coxas, indo em direção à peça que completava o conjunto com o sutiã que já tinha visto e dominado.

– Veck! – ela exclamou outra vez quando o toque deslizou sobre o centro da faixa de cetim.

Foi cuidadoso, colocando apenas a pressão suficiente sobre o local tão sensível, acariciando-a em movimentos circulares que fizeram seu corpo ficar ao mesmo tempo relaxado e tenso.

Dane-se a calcinha, ela não queria nada entre eles... Mesmo assim, a barreira de seda não era de todo ruim, a costura adicionava outra dimensão ao ritmo que ele tinha imposto. E não parou de beijar sua boca, de envolvê-la, de aproximá-la ainda mais, mesmo já estando bem juntos.

Com um movimento rápido, ele levantou o tronco de Reilly e empurrou seus quadris contra o sexo dela, entrelaçando os corpos. Em seguida, curvou a coluna e encaixou-se sobre ela, acariciando-a com seu pênis enquanto observava-a com atenção.

Deus, o rosto dele estava cheio de desejo, aquela frieza tinha desaparecido, aquela máscara impassível havia explodido com a intensidade que apertava o maxilar.

Eles iam mesmo fazer aquilo, Reilly concluiu.

Surpreendente. As escolhas na vida de Reilly eram baseadas em dados precisos do que deveria, teria que ou do que era melhor não fazer. Com certeza, fazer sexo daquela maneira estava na última categoria... e, mesmo assim, não pretendia deter nada.

Porém, fariam aquilo com segurança – embora não sobre uma cama. Aquela mesa estava servindo muito bem. Mas havia coisas que ela precisava fazer primeiro. Descendo o corpo, deslizou as mãos até... a cabeça de Veck caiu para trás.

– Caaara...

Perfeito: o pênis rijo era ainda maior do que imaginava e latejava contra a palma de sua mão...

O som da campainha ecoou, alto como um tiro. E, mesmo assim, por um momento, ela não conseguiu compreender o que era aquele barulho ou por que deveria importar-se com ele. Veck recuperou os sentidos primeiro.

– Pizza.

– Que p...?

Com o pensamento rápido e lógico, ele estendeu a mão e apagou as luzes para que o entregador da pizza de calabresa com salame não assistisse ao show na cozinha. Então, com mãos eficientes, colocou a camisa dela de volta, puxou a saia para baixo e começou a arrumar as próprias calças, para que não ficasse uma tenda de circo.

– Vou cuidar disso – disse ele com uma voz equilibrada. Como se nada tivesse acontecido. Nada.

Enquanto ele foi até a porta da frente, Reilly sentou-se lentamente, a cabeça não parava e o corpo tremia. Segurando a blusa, percebeu que a volta ao normal repentina fê-la sentir-se totalmente fora de controle. Em seguida, ela saiu da mesa e os papéis do caso Barten caíram no chão.

A chuva de folhas soltas formou uma espécie de tapete aos seus pés e foi o espelho exato que precisava para ver tudo com clareza: do outro lado da cidade havia uma família de luto pela filha que sabiam ter perdido, e, em vez de concentrar-se na dor deles e em seu trabalho... estava esfregando-se num homem que não tinha nada a ver com ela.

Não poderia existir um conflito de interesses maior. Serviria de exemplo num livro didático. Mexendo nos botões da camisa, fechou-os rapidamente e, então, inclinou-se para pegar as cópias do relatório. Quando o cabelo caiu sobre o rosto, perguntou-se onde estaria seu elástico.

Quem poderia saber?

Colocando os fios atrás das orelhas, juntou as impressões com cuidado, reordenou as páginas e separou tudo em duas pilhas – a dela e a de Veck. Separado era melhor.

Ela tinha enlouquecido?

Vindo da porta da frente, ouviu um burburinho de palavras de agradecimento, a porta fechou-se em seguida e passos pesados trouxeram Veck de volta à cozinha.

Levantando-se rapidamente, colocou as duas pilhas de papéis sobre a mesa e manteve os olhos sobre elas. Não conseguia olhar para Veck. Simplesmente não tinha forças para aquilo no momento.

– Acho melhor você ir – sua voz não soou bem, mas ela não se sentia bem mesmo.

– Certo. Vou chamar um táxi.

Droga. A moto dele estava na delegacia, não?

Após soltar um palavrão em voz baixa, murmurou: – Está tudo bem. Posso levá-lo...

– Não, um táxi é melhor.

Ela assentiu e acariciou a primeira página do relatório... onde indicava os principais dados de Sissy e a data de seu desaparecimento.

– Vamos verificar tudo isso amanhã no escritório.

– Sim – quando ele vestiu o casaco, o som macio do tecido foi mais alto que a campainha. – Sinto muito.

Ela cruzou os braços sobre o peito e assentiu outra vez.

– Sim, eu também. Não sei o que deu em mim.

Mas sabia muito bem o que aconteceria se o jantar não tivesse chegado bem na hora. Momentos depois, ele foi embora e fechou a porta tão silenciosamente que não se fez som algum. Quando finalmente olhou por cima do ombro, tudo o que viu foi a pizza no balcão. Certo, como se fosse comer alguma coisa. A caixa foi direto para a geladeira.

Saindo da cozinha, passou pela mesa e encontrou sua meia-calça atrás de uma cadeira. Seu elástico de cabelo estava no chão perto do arco que dividia os ambientes, já dentro da pequena sala de jantar. Ao inclinar-se para pegá-lo, ficou frente a frente com as compras da Victoria’s Secret e percebeu que seu sutiã ainda estava beeem fora do lugar. Deixou as sacolas ali e resolveu aquele pequeno problema com alguns puxões e vários palavrões. Enquanto aproximava-se das escadas, decidiu que usaria sua velha lingerie de algodão de sempre para ir trabalhar no outro dia. Era isso, muito obrigada.


CAPÍTULO 12

 

– Pergunta. Mesmo se não quebrar nada para entrar, ainda é considerado invasão de domicílio?

Adrian soltou essa pequena pérola assim que assumiram forma em frente à porta de entrada da casa de Thomas DelVecchio Jr. – e, se considerassem tudo o que ele havia dito até hoje, sabiam que o anjo poderia ter soltado um comentário muito pior.

Jim nunca passou tanto tempo em sua vida desejando protetores e fones de ouvido. Mas pelo menos o bastardo não tentou o rap.

– E aí? – Ad disse.

– Olha só, nós nem sequer existimos – Jim murmurou. – Então, você pode alegar que nem estamos aqui de verdade.

– Ótimo argumento. Acho que é legal.

– Como se o contrário o incomodasse.

A casa era decorada ao estilo de Jim: funcional, nada de especial, muito espaço vazio. O problema? Poucos itens pessoais, e precisavam de algum objeto feito com um pouco de metal. De preferência ouro, prata ou platina. Se conseguissem algum objeto com impressões suficientes de Veck, poderiam usá-lo como ponte para entrar no cérebro do cara remotamente: de acordo com Eddie, era arriscado demais fazer isso pessoalmente. Não com Devina por perto.

– Vamos nos separar – disse Jim. – Vou examinar o andar de cima.

Quando Ad e Eddie espalharam-se, Jim subiu as escadas de dois em dois degraus. O quarto principal ocupava metade do andar. Claro que essa afirmação soa mais impressionante do que a realidade, pois a metragem total não passava de setenta metros.

– Meu Deus, quanta coisa, hein amigo? – murmurou.

Não havia nada no quarto além de uma cama grande e uma porcaria de mesa de cabeceira com um abajur sobre ela. Nada de despertador – provavelmente o cara usava o celular para isso. Nada de telefone fixo, mas para que se precisava de um? Havia uma TV de tela plana fixada na parede, cujo controle remoto encontrava-se entrelaçado nos lençóis.

Havia algumas roupas sujas num cesto de plástico no canto, meias e cuecas transbordavam pelos lados como se a coisa babasse algodão preto. Abriu o armário... e havia camisas penduradas nos cabides, que era bem melhor do que a mala que Jim usava há anos para guardar suas roupas. Atrás da porta, havia alguns cintos com fechos de metal, mas tinha de haver algo melhor para que Jim pudesse usar.

Foi até o banheiro. Todas as luzes apagadas, mas o cara não usava cortinas, então havia bastante iluminação vinda da rua. Assim que entrou no cômodo pequeno e azulejado, sentiu algo forte em sua nuca, como se formigas rastejassem sobre a pele.

Devina.

– Onde você está? – disse, dando uma pequena volta ao redor de si. – Onde diabos você está?

O demônio esteve ali, podia sentir sua presença no ar, como o mau cheiro que exala de uma grande lixeira, mesmo depois de ter sido esvaziada. Aquilo dava alguma credibilidade à revelação de Devina no restaurante.

Quando se voltou para a pia, franziu a testa. O espelho estava coberto com uma toalha e o formigamento em sua nuca aumentou quando estendeu a mão e puxou o tecido felpudo.

Nada, a não ser um armário de remédios dos anos 1980 embutido na parede. Mas o vidro frontal estava totalmente contaminado. Será que ela passou pelo objeto de alguma maneira? – perguntou-se. Recuou no mesmo instante em que as pontas do dedo fizeram contato com a superfície espelhada. O armário de remédios estava gelado.

Droga, Veck sabia que alguma coisa estava atrás dele, não? Por que cobriria a coisa? A questão era: até onde o demônio havia chegado dentro dele?

– O que fez com ele, vadia?

Recolocando a toalha, Jim abriu as gavetas, verificou o desodorante, o tubo de pasta de dente extra e o cortador de unhas. Ei! Talvez aquilo funcionasse. Só que dificilmente o objeto teria uma conexão emocional com... Uma luz estendeu-se pela frente da casa, atingindo a janela onde Jim estava e lembrando-lhe que não se preocupara em ficar invisível. Fazendo o corpo desaparecer, olhou pela janela. Na calçada em frente à garagem, Veck saiu do táxi amarelo.

Jim atravessou o quarto principal e desceu as escadas, só seria percebido se alguém sentisse a brisa que seus movimentos produziam. Na cozinha, viu que Ad e Eddie também tinham ficado invisíveis, e os três esperaram juntos, formando uma pequena fonte de calor no canto do cômodo.

Ela ainda está nele – disse em pensamento aos seus amigos.

Posso senti-la daqui – Eddie respondeu.

Na entrada da casa, a porta foi aberta, fechada e trancada. Em seguida, passos pesados aproximaram-se de onde eles estavam.

– Mas que... droga...

As maldições continuaram enquanto Veck entrava na cozinha, jogava as chaves e arrancava a jaqueta. Em seguida, foi até a geladeira e pegou uma cerveja. Tirou a tampa e bebeu com vontade, era evidente que tivera uma noite difícil no trabalho.

De repente, o cara ergueu a cabeça, apoiou a cerveja e olhou diretamente para onde os três estavam. Ele não deveria ser capaz de senti-los, muito menos de vê-los. Nenhum deles moveu-se. Nem mesmo Veck. E foi nesse momento que Jim olhou para o chão de linóleo atrás do detetive... e notou que o cara projetava duas sombras.

Única fonte de luz? Duas projeções em sentidos opostos sob seus pés?

Em silêncio, Jim apontou para o chão e seus colegas assentiram.

Veck estendeu o braço e tocou um interruptor, iluminando melhor o ambiente. Em seguida, ele olhou ao redor.

– Puta... que... pariu.

Obviamente, esse era o mote da vida daquele cara e, se Ad não se encorajasse a soltar a voz, Jim consideraria cantarolar um pouco daquela música também.

Veck balançou a cabeça e voltou para sua cerveja, tomando o que restava de uma vez só. Deixou a garrafa vazia sobre o balcão, pegou mais duas na geladeira e andou até a sala. Destino: sofá.

Jim e seus amigos foram atrás dele, mas mantiveram distância. Veck era intuitivo ao extremo ou contaminado o suficiente para ter um radar que percebesse a presença dos anjos. Conhecendo a sorte que tinha, tratava-se da última opção.

O detetive retirou as armas para se sentar: removeu uma bela automática e uma faca. Em seguida, retirou o distintivo brilhante da polícia, prata e dourado. O homem segurou a coisa sobre a palma da mão em formato de concha por um tempo. Olhava como se fosse uma bola de cristal... ou talvez um espelho onde tentasse ver a si mesmo.

Deixe isso de lado, cara – Jim pensou. – Termine as cervejas, deite um pouco e tire uma soneca. Prometo que devolvo quando terminar.

Veck seguiu as instruções e colocou o distintivo com seu nome e número de registro na polícia junto às armas, bebeu as cervejas uma seguida da outra e recostou-se nas almofadas. Seus olhos fecharam-se um momento depois. Levou um tempo para que as mãos relaxassem e caíssem para os lados, mas, em seguida, a respiração lenta e profunda confirmou o descanso – e a deixa para que eles pegassem o que precisavam e saíssem.

Jim estendeu a mão à altura da cintura e deu uma de cavaleiro Jedi com o distintivo, fazendo o objeto levitar e trazendo-o até ele ao longo da escuridão. No instante em que a palma de sua mão fez contato, sentiu o mesmo frio que sentira no andar de cima, a crueldade de Devina habitava no espaço entre as moléculas do metal.

O cuidado de Eddie parecia exagerado... até agora. Considerando a forte mensagem que o distintivo transmitia, não dava para ser pego de calças curtas ao atuar naquela tarefa.

Jim indicou a janela com a cabeça e, como uma névoa, os três desapareceram.

Do outro lado da cidade, no centro urbano de Caldwell, o Hospital São Francisco era um complexo que brilhava como uma das ruas de Las Vegas. Sob seus telhados de vinte estilos diferentes, vidas começavam e terminavam aos milhares a cada ano, a luta contra o Ceifeiro da Morte era travada por todos os médicos, cirurgiões e enfermeiras que ali trabalhavam.

Devina estava bem familiarizada com o local: algumas vezes, aqueles humanos de jalecos brancos e uniformes cirúrgicos precisavam de uma pequena ajuda para garantir que o trabalho fosse feito corretamente. E, geralmente, isso significava a morte, mas nem sempre.

O demônio entrou na ala de emergência pela porta frontal automática. Vestindo sua bela pele feminina, capturou todos os tipos de olhares vindos de pais e irmãos sentados na sala de espera. Era por isso que não pegava atalhos. Passar através de vidros, metais ou tijolos era eficiente, mas chato: adorava ser admirada. Cobiçada. Desejada. E os olhares ardentes das outras mulheres, todos aqueles olhares cheios de ódio e inveja? Melhor ainda.

Encontrar Kroner no labirinto de corredores, andares e unidades foi muito fácil. Estava há anos dentro dele, ajudando-o a aprimorar suas habilidades e dando suporte à sua obsessão. Já nasceu doentio, mas lhe faltava coragem para seguir os impulsos – e a impotência agiu a favor dela. Nada instigava mais a violência contra mulheres atraentes num louco como ele do que o próprio pênis murcho e fino.

A UTI que procurava estava sete andares acima, e ela gastou um pouco de tempo nos elevadores, caminhando, observando os uniformes das enfermeiras. Nada demais. Tecidos de algodão com péssimo corte que não realçavam nada na parte de cima e evidenciavam a flacidez da parte de baixo. Que diabos achavam que estavam fazendo com aquele visual?

Quando finalmente aproximou-se das várias portas duplas de metal, pegou uma carona com uma servente e um idoso sobre uma maca. O velhote estava apagado, mas a mulher não deu apenas uma olhada, foram várias. Sem dúvida, continuaria a observar se as portas não tivessem sido abertas no andar que precisava ficar. Lançou um sorriso sobre o ombro, saiu e não conseguiu deixar de rir um pouco.

Enfim, era hora de começar a trabalhar. Tinha a opção de assumir a forma de uma névoa e serpentear sobre o chão lustrado, mas isso causaria pânico demais. Ou poderia continuar invisível, o que era considerado uma falha de originalidade em sua cartilha: tinha passado séculos desfrutando da interação com os humanos, disfarçando-se entre eles, beliscando seus calcanhares e esfregando-se contra seus corpos – ou indo até mais além. Não havia motivo para desperdiçar a oportunidade de divertir-se um pouco naquela noite, mesmo trabalhando. Afinal, sua terapeuta estimulava-a a encontrar um equilíbrio na vida.

Ao chegar à unidade, atravessou um corredor cheio de fotografias de vários diretores de departamentos. Muito útil, como perceberia logo em seguida. Ela parou diante de várias, observando as características, os acessórios, os nomes e títulos, os jalecos brancos e as gravatas listradas ou roupas mais formais. Era como comprar uma roupa nova. E tinha seu serviço próprio de alfaiataria.

Virando numa esquina do corredor, olhou para os dois lados para certificar-se de que estava sozinha e, então, cuidou da câmera de segurança acima dela, enviando uma carga elétrica suficiente para desativá-la sem explodir.

Em seguida, assumiu a aparência e o jaleco branco do chefe da neurologia, um tal de dr. Denton Phillips. O disfarce foi um pouco decepcionante e flácido se comparado ao traje exuberante da bela morena. O homem tinha mais ou menos sessenta anos e, embora fosse um homem branco, arrogante, bem conservado, sentiu-se mal e feia. Ao menos era melhor do que realmente parecia, e era temporário.

Quando voltou ao corredor principal, caminhou como um homem e era ótimo ver o respeito e o medo nos olhos dos funcionários pelos quais ela passava. Não tão divertido quanto a luxúria e a inveja, mas agradável mesmo assim.

Não precisava perguntar onde Kroner estava. Era muito fácil de encontrá-lo – e não ficou surpresa ao se deparar com um policial uniformizado sentado do lado de fora do quarto. O homem levantou-se.

– Doutor.

– Só vou levar um minuto.

– Fique o tempo que precisar.

Não era bem assim... Ela tinha que trabalhar rápido. Não fazia ideia de como o dr. Denton Phillips realmente era e não havia como ter certeza se a altura estava correta. Isso acontecia quando tudo o que se tinha era uma foto para servir de molde: aquele não era um bom momento para encontrar quaisquer colegas que o conhecesse bem – ou pior, o homem em si.

A UTI onde Kroner estava tinha paredes de vidro com cortinas, era possível ouvir o silvo do equipamento médico que o mantinha vivo. Deslizou a porta, empurrou o tecido verde de um biombo e entrou.

– Você está péssimo – ela disse com voz masculina.

Ao caminhar até a cama, deixou de lado a aparência do bom doutor e mostrou-se como a bela mulher que Kroner tinha conhecido há dez anos.

Havia tubos entrando e saindo pela boca e pelo nariz, e os fios emaranhados que saíam de seu peito davam-lhe a aparência de uma central telefônica. Muitos esparadrapos de gaze branca sobre a pele cinza. Muitos hematomas. E seu rosto parecia bexiga de festa, todo vermelho e brilhante, esticado pelo inchaço.

Aquele não era o fim que ela tinha planejado e no qual havia trabalhado. Era para DelVecchio ter cedido e matado o desgraçado antes mesmo de Heron ficar sabendo qual era a próxima alma. Infelizmente, seu cordeiro sacrificial louco e pegajoso tinha sido abatido por outra pessoa.

Pelo amor de Deus, era óbvio que não sobreviveria. Ela não era um médico – apenas interpretava um de vez em quando –, mas só aquela palidez já a fez pensar em funerais.

No entanto, ainda não era tarde demais para o bastardo. E, após esse deslize, não correria mais nenhum risco de perder essa rodada. Hora de tornar-se um pouco mais agressiva, especialmente se pensasse no acordo que tinha selado com Heron.

– Ainda não é sua hora – ela inclinou-se sobre a cama. – Preciso de você.

Fechando os olhos, acomodou-se sobre o corpo do homem, cobrindo-o por completo e, em seguida, infiltrou-se dentro dele através de cada poro que havia. O poder inato nela preencheu o vazio, reenergizou Kroner. Ao puxá-lo da espiral da morte, ela curou-o e deu-lhe forças ao mesmo tempo. E pensar que humanos confiavam em aparatos médicos. Tão rudimentar.

Os olhos de Kroner abriram-se conforme ela se retirava e reassumia sua forma. Então, ele encarou-a. Um brilho amoroso surgiu em seu olhar. Patético, mas útil.

– Viva – ela ordenou –, e nos veremos em breve.

Ele tentou acenar com a cabeça, mas havia muitos acessórios de entubação em sua garganta. Contudo, cumpriria a ordem. Quando ela olhou para o dispositivo de monitoramento, a frequência cardíaca já tinha alcançado estabilidade e sua pressão arterial estava regulada. O nível de oxigênio saiu de setenta e foi para noventa.

– Bom menino – ela disse. – Agora, descanse.

Erguendo a mão, colocou-o em um sono profundo e restaurador e, em seguida, reassumiu a imagem do bom e velho dr. Denton.

Entrar, sair, partir.

Saiu da sala envidraçada, acenou para o guarda e caminhou pelo corredor, passando por bajuladores e puxa-sacos que quase se ajoelhavam enquanto passava. O que era agradável. Ao ponto de ficar tentada a desfilar pelo hospital por um tempo, apenas para sentir melhor a experiência de ser aquele homem.

Mas não podia, a última coisa que precisava era encontrar alguém que realmente o conhecesse. E, mais importante, tinha um compromisso com a terapeuta bem cedo no outro dia e ainda tinha que escolher o que vestiria – isso poderia levar horas. Motivo pelo qual precisava de uma maldita terapia. Hora de ir.


CONTINUA

CAPÍTULO 7

 

Ao meio-dia, Reilly deixou a delegacia a pé e seguiu para o centro da cidade. O dia estava glorioso, com um sol de abril tão radiante e quente que afugentava aquela sensação dos doze graus exibidos nos termômetros. Mas a oficial não era a única que se beneficiava com o clima. Havia uma multidão nas calçadas e atravessando as faixas de pedestres, atrapalhando o trânsito, ao passarem com refrigerantes e sorvetes nas mãos; muitos comiam alguma coisa à beira de uma fonte ou sentados num banco do parque. Após seis meses de escuridão gelada, o Estado de Nova York ansiava por algum sinal de que o inverno realmente estivesse indo embora... E aquela bela hora do almoço não seria desperdiçada.

Aparentemente, Reilly estava no intervalo do trabalho, assim, poderia colocar a cabeça em ordem antes de ver Veck outra vez. Porém, seus passos tinham um propósito e uma direção aos quais ela recusava-se prestar atenção.

O Shopping Galeria era um dos projetos de revitalização do centro, mas, ao contrário de muitos outros, este realmente deu certo. Com uma grande loja de departamentos e uma grande livraria, os quatro quarteirões de prédios dos anos 1920 tinham sidos interditados, liberando apenas a passagem de pedestres. Era um atrativo que tinha revigorado o local e tornado-se o refúgio favorito de milhares de funcionários de escritório, assim como Reilly.

Contudo, diferentemente de suas colegas, era a primeira vez que andava pelas diversas lojas daquele centro comercial... quando parou em frente a uma delas, atraída pelo brilho rosa que irradiava do vidro. Oh, não. De jeito nenhum. Aquilo não era sua... Uma mulher saiu balançando duas grandes sacolas com as mãos e com um sorriso de orelha a orelha.


– Liquidação! – disse a Reilly. – Oba!

Sua voz saiu tão alta e estridente que parecia ter respirado hélio. Mas talvez fosse por usar um corpete embaixo do casaco – ao menos era o que parecia. Enfim, Reilly balançou a cabeça; liquidação ou não, não era o tipo de coisa que ela... Já tinha entrado na loja.

Maldição. Nunca tinha visto tanta roupa íntima num só lugar em toda sua vida.

O estilo Victoria’s Secret não é para quem tem problemas cardíacos... ou um traseiro grande – ela pensou, perguntando-se há quanto tempo, exatamente, não aparecia na academia. Desde o ensino médio. Não... Talvez tenha sido desde o fundamental.

Cara, toda aquela renda intimidava. Assim como as imagens tratadas das modelos expostas em toda parte, de tamanhos bem maiores que o natural. E, para piorar as coisas, o lugar estava lotado de mulheres que não eram bem do tipo de Reilly. Eram garotinhas com seus vinte e poucos anos, pegando tangas, sutiãs de bojo, peças de tamanhos mínimos e outras coisas. Mesmo os pijamas ou moletons pareciam estar destinados a ser arrancados com os dentes por algum garanhão...

– Oi, posso ajudá-la?

Reilly estremeceu.

– Ah...

A vendedora era uma linda afro-americana que, provavelmente, ficava ótima em cada peça pendurada na loja ou dobrada sobre as mesas. Comparando-se a ela, Reilly sentiu-se uma coisa esquisita e sardenta do tipo que pede para fazer tudo no escuro.

– Estou bem, obrigada...

– Estamos em liquidação.

– Sim, vi uma moça saindo com algumas sacolas – o que, considerando a pequenez das roupas ali, significava que a garota tinha comprado quinhentas, talvez seiscentas, peças daquilo tudo.

– Está procurando por alguma coisa em particular?

Reilly estava prestes a balançar a cabeça recusando, quando sua boca abriu-se por conta própria.

– Quero sentir-me mulher, e não uma oficial de polícia. Eu apenas... estou cansada de mim e do meu trabalho neste momento. Entende o que quero dizer?

Oh, droga, o que ela estava dizendo?... Só uma observação: aquilo não tinha nada a ver com Brittany, que se escreve Britnae.

A vendedora sorriu.

– Entendo. Você veio ao lugar certo.

Reilly olhou para um maiô asa-delta com estampa de tigre e não teve tanta certeza disso.

– Acho que nunca comprei lingerie antes... Nada que escolhesse com cuidado, meus sutiãs são do tempo da Guerra Civil. Talvez de alguma guerra do século XVIII.

– Bom, meu nome é Ralonda – estendeu a mão – e posso cuidar de você.

– Reilly. Quero dizer... Sophia – quando apertaram as mãos, ela murmurou: – Você tem algum tipo de formação em psicologia, por acaso?

– Na verdade, é isso que eu vou estudar na Universidade de Nova York, no campus de Caldwell.

– Deus, você é perfeita.

– Imagine – Ralonda sorriu outra vez, exibindo seu sorriso. – Vamos tirar suas medidas e depois vou trazer algumas coisas.

Uma hora e US$ 673,43 depois, Reilly saiu com três sacolas cheias de coisas. Quando chegou à porta, de cabeça erguida, viu-se sorrindo para as duas garotas que espiavam as vitrines.

– Eles estão em liquidação – disse a elas. – Melhor entrar. E chame por Ralonda... Ela é a melhor.

Elas entraram correndo, e Reilly caminhou até a delegacia com uma curiosa sensação de leveza. Talvez o sutiã de bojo cereja com calcinha combinando que acabara de vestir tivesse propriedades antigravitacionais, erguendo não apenas seus seios mas também o corpo inteiro. Fazia com que se perguntasse o que os astronautas usavam por baixo de seus trajes. A horrível imagem de um astronauta velhaco veio-lhe à mente. O cara usava apenas um minúsculo conjunto cor-de-rosa.

Deu-se conta de que entrar na delegacia com aquelas sacolas da Victoria’s Secret e um andar leve não passaria a mensagem certa... Especialmente agora que seria a parceira de Veck no próximo mês. Esquivando-se pela lateral da delegacia, aproximou-se de seu carro e escondeu as compras no porta-malas.

Desta vez, quando entrou pelos fundos e passou pelo guarda na recepção, estava um tanto constrangida, pensando se alguém poderia saber o que usava por baixo das roupas. Porém, como sempre, ninguém prestou nenhuma atenção nela. Apesar dos muitos talentos dos vários membros da polícia, parece que visão de raio X não era um deles.

A primeira parada foi seu escritório. Verificou rapidamente o correio de voz e os e-mails. Em seguida, pegou um bloco de notas e seguiu para o Departamento de Homicídios. E, como se pode imaginar, a confiança nas propriedades ocultas do algodão e da Lycra acertou em cheio a todos ali quando abriu a porta do departamento. Todos olharam para cima, inclusive Veck.

Certo. Agora entendia por que as pessoas odeiam aqueles sonhos em que andam nuas numa sala cheia de pessoas. Nunca tivera um pesadelo assim antes e, enquanto colocava o bloco de notas em frente aos seios, não estava com muita pressa de vivenciá-lo.

As pessoas apenas acenaram e cumprimentaram, e ela acenou e cumprimentou de volta enquanto dirigia-se até Veck. O cubículo ao lado dele estava praticamente vazio, havia apenas um computador e um telefone. Quando Reilly sentou-se, manteve o caderno contra o peito.

Veck encostou-se na cadeira fazendo com que seu peito parecesse enorme contra a camisa branca.

– Tudo certo na sua sala?

– Sim. No que vamos trabalhar hoje?

Ele fez um gesto com a cabeça indicando a tela do computador.

– Encontrei alguma coisa para passar o tempo. Estava esperando você chegar... Pensei em fazer um reconhecimento de campo e consultar outra vez algumas testemunhas.

– Ótimo. Qual é o caso?

– Digo no caminho. Importa-se se usarmos o seu carro? Só tenho moto.

– Ah... – com certeza não haveria motivo algum para ele olhar no porta-malas. – Claro. Sim. Tudo bem.

– Obrigado, oficial. Ou deveria chamá-la de detetive nas próximas semanas?

Quando se levantaram juntos e ela viu-se com o rosto na altura do peitoral de Veck, sabia que era hora de sufocar sua Britnae interior.

– Só Reilly está bom – respondeu.

Por um momento, os olhos de Veck baixaram, e ela poderia jurar que ele murmurou “com certeza está”.

Sem dúvida a lingerie nova fazia-a ouvir coisas.

– Espere um minuto... esse não é um caso antigo de homicídio.

Ao pararem num sinal vermelho, Veck recebeu um olhar sério de sua nova parceira... o que foi muito excitante.

Endireitando-se no banco e rezando para que sua ereção não explodisse antes de chegarem ao local de destino, fez um esforço para manter a voz equilibrada e sem qualquer sinal de rouquidão. Porém, pelo amor de Deus, se aquilo fosse um indício de como seriam as próximas quatro semanas... estava com problemas.

– Tecnicamente, é uma desaparecida...

– Não existe “tecnicamente” nesse caso. Não há um corpo.

– Posso terminar?

– Desculpe – quando o farol ficou verde, ela pisou no acelerador. – Mas tenho um pressentimento de onde isso dará, e você não chegará nem perto do caso Kroner.

Veremos – ele pensou.

– Recebi um telefonema do FBI esta manhã. Estão trabalhando no caso dessa garota desaparecida e queriam saber se existe mais alguma novidade. Respondi que ficaria feliz em examinar o que já temos sobre...

– O FBI pode fazer isso sozinho...

– Não há motivo para não ser amigável. Ou para concluir que há alguma ligação com Kroner.

Ela franziu a testa.

– O que o FBI acha?

– Não perguntei. Talvez seja interestadual – pois, talveeez, aquilo fizesse parte do caso Kroner... e foi por isso que ele não perguntou nada.

– Só para que fique bem claro: se houver qualquer ligação com o caso Kroner, estamos fora.

– Certo – colocou a mão no bolso da frente do casaco e pegou um relatório de três páginas. – Cecília Barten, dezoito anos, desaparecida há apenas três semanas. Vista pela última vez saindo de casa para ir ao supermercado na avenida Union. Câmeras de segurança do estacionamento e da saída da loja não gravaram nada, graças a uma sobrecarga de energia.

– E por onde vamos começar?

– Pela casa dos pais. Quero verificar se deixaram passar alguma coisa. A mãe dela está esperando por nós... Vire à direita aqui.

Reilly seguiu as placas e virou, entrando num bairro não muito longe de onde Veck morava. Ali as casas eram um pouco maiores e mais bem conservadas. Não havia carros estacionados na rua, e Veck imaginou que não haveria grandes caminhonetes ou sedãs guardados naquelas garagens. Não tanto quanto minivans... Porém, naquela região, moravam vários casais com filhos, então, talvez estivesse errado.

– Certo – ele murmurou, olhando as casas – 491, 493, 495... aqui.

Reilly estacionou no meio-fio em frente ao número 497. Depois de desligar o motor, saíram do carro...

Logo atrás deles estacionou uma suv dourada com insulfilme e três agentes federais desceram. Os homens estavam à paisana e, quando saíram, o motorista de cabelo loiro escuro exibiu suas credenciais.

– Jim Heron. Conversamos pelo telefone. Estes são meus parceiros, Blackhawk e Vogel.

– Thomas DelVecchio.

Quando apertaram as mãos, Veck sentiu uma energia estranha e recuou.

– Esta é a oficial Reilly. Quer entrar conosco?

O agente estreitou os olhos ao observar a casa.

– Sim. Obrigado. Meus parceiros vão esperar aqui.

Boa ideia. Seria difícil que todos coubessem naquele hall minúsculo. Enquanto passavam pela entrada de tijolos à vista, uma bandeira balançava casualmente com a brisa da primavera. Ela tinha um tom pastel e um desenho em formato de ovo estampado, metade cor de lavanda, metade cor-de-rosa e com uma faixa amarela ao meio.

A Páscoa ocorrera no fim de março, bem na época do desaparecimento da moça. Sem dúvida, a bandeira fora esquecida ali... ou talvez a família rezasse para que Cecília Barten ressuscitasse a partir daquilo. De qualquer maneira, a ruína tinha atingido aquela casa, mesmo que ainda restassem quatro paredes e um teto: a garota estava morta. Veck sentia em seus ossos, mesmo não sendo do tipo que sente coisas.

Campainha... espera... espera...

Veck olhou para Reilly. Parecia triste ao se inclinar para trás e observar as janelas do segundo andar... Será que a oficial estava tentando descobrir qual delas correspondia ao quarto da garota? Atrás dela, Heron passava uma excelente impressão de uma estátua: grande e imóvel. Seus olhos estavam focados na porta da frente, como se pudesse enxergar através das paredes.

Veck franziu a testa. Havia algo estranho no cara. Contudo, não era uma questão de competência. O agente irradiava uma precisão militar sobre tudo, desde a forma com que exibiu suas credenciais até o jeito que andava e como se mantinha imóvel. Ainda assim... o que será que...

A porta abriu com um rangido suave, e a mulher do outro lado parecia que não dormia nem comia direito há muito tempo.

– Bom dia, senhora. Sou o detetive DelVecchio. Estes são a oficial Reilly e o agente Heron.

Todos mostraram suas credenciais.

– Por favor, entrem – ela recuou e fez um gesto com o braço. – Posso servir alguma coisa?

– Não, obrigado, senhora. Agradecemos por dispor de seu tempo para conversar conosco.

A casa estava impecável, com cheirinho de desinfetante e lustra-móveis. O que sugeria que a senhora Barten limpava as coisas em momentos de tensão.

– Será que poderíamos conversar na sala de estar? – ela disse.

– Por favor.

A sala estava cheia de lembranças e bens de família, com papel de parede florido e dois sofás lisos. Quando a senhora Barten sentou-se numa poltrona e todos tomaram um lugar no sofá, Veck observou bem a mulher. Estava saindo da casa dos quarenta, com muitos cabelos loiros puxados para trás e enrolados num coque. Tinha um corpo magro e alongado... O peso que perdera recentemente realmente lhe fazia falta. Nada de maquiagem e, mesmo assim, era bonita. Porém, tinha um olhar vazio.

Droga, por onde começar?

– Senhora Barten – Reilly interrompeu –, pode nos contar sobre sua filha? Coisas que ela gostava de fazer ou nas quais era boa. Lembranças diversas.

Encarando sua nova parceira, Veck teve vontade de gesticular um “obrigado” com a boca. Especialmente quando a tensão deixou os ombros da mulher e o esboço de um sorriso surgiu.

– Sissy era... é... – ela se corrigiu. – Por favor, me desculpem. Isto é difícil.

Reilly aproximou-se da poltrona.

– Leve o tempo que precisar. Sei que pedi muito.

– Na verdade, ajuda quando falo dela. Faz com que me sinta melhor.

Numa voz hesitante, que gradualmente ganhou ímpeto, as histórias começaram a surgir, pintando o retrado de uma garota muito inteligente, boa e um pouco tímida, do tipo que nunca se envolveria em problemas se pudesse evitá-los.

Cecília Barten foi assassinada – Veck pensou. Não era um daqueles relatos de fuga motivados por drogas ou por causa do ciúmes de um namorado abusado e descontrolado. Era uma família estável. Uma jovem feliz. Futuro brilhante. Até que um carro bateu contra sua vida e levou tudo.

– Importa-se que eu olhe as fotos que estão ali? – Veck disse quando houve uma pausa na narrativa.

– Por favor.

Levantou-se e foi até uma das estantes embutidas ao lado de cada uma das janelas arqueadas que davam para a rua. Dois filhos. A outra era a irmã mais nova. Havia fotos de festas de formatura, aniversários, passeios no campo e jogos de hóquei... reuniões de família e casamentos... Natais.

Olhava com admiração tudo aquilo. Cara, aquilo era o melhor que a vida “normal” tinha para oferecer e, sem razão alguma, pensou em como, enquanto ele crescia, sua família não conseguiu ter nada daquilo... momentos felizes e fotografias para exibi-los. O tempo que passou com sua mãe não dava vontade de compartilhar com ninguém. Aliás, não era nada que quisesse lembrar.

Ele estendeu a mão e pegou uma das fotos 5×7. Cecília estava em pé ao lado de seu pai, braço estendido sobre o dele e com uma das mãos descansando sobre as dele. Era muito parecida com sua mãe, apenas um pouco com seu pai. Mas a linhagem era clara.

–... ligou para casa? – Reilly disse.

Veck voltou à conversa.

– Isso – a senhora Barten disse. – Ela saiu por volta das nove horas. Eu tinha acabado de operar meu pé... Corrigi uma deformação no dedo... – por um momento, a mulher parecia ruminar alguma coisa em pensamento, e Veck apostava que era o quanto desejava voltar no tempo, quando suas maiores preocupações eram encontrar sapatos confortáveis. Mas, talvez, também estivesse se culpando. Ela balançou a cabeça e voltou a se concentrar.

– Eu estava imobilizada. Dei a Sissy uma lista de compras e... ela me ligou do mercado. Não sabia se eu queria pimenta verde ou vermelha. Eu queria as vermelhas. Estava fazendo um... – as lágrimas vieram e ela piscou com força para afastá-las. – De qualquer maneira, essa foi a última vez que alguém teve notícias dela.

Veck voltou a colocar a fotografia na prateleira. Quando foi sentar-se ao lado de Heron outra vez, franziu a testa. O cara olhava para a mãe da vítima como se ele fosse uma filmadora, como se estivesse lendo e registrando cada contração do olho ou da boca que ela fazia enquanto falava.

Quando o radar de Veck começou a soar feito louco, não ficou claro o motivo... Seria a garota desaparecida, ou sua mãe triste e adorável, ou aquele homem imenso que parecia ter a capacidade de incendiar alguma coisa com aquele olhar?

– Posso perguntar uma coisa? – Veck disse. – Ela teve algum namorado?

Com o canto do olho, pôde ver Heron apertando as coxas com força.

– Não. Tinha alguns amigos, claro, e um encontro em bailes de formatura aqui e ali... mas nada sério. Ao menos, não que ela tenha me contado... e costumava ser sincera sobre o que se passava em sua vida.

Aquelas mãos relaxaram de repente.

– Quer perguntar alguma coisa? – Veck disse ao agente.

Houve um longo silêncio. Pouco antes de tudo ficar realmente estranho, o cara disse com uma voz baixa e profunda: – Senhora Barten, vou trazê-la de volta para casa. De uma maneira ou de outra, vou trazê-la de volta para a senhora.

Veck recuou, pensando: Droga, não faça assim, cara.

– Ah, o que ele quer dizer é...

– Está tudo bem – a senhora Barten apertou a garganta com uma das mãos. – Não estou me enganando. Sei que ela está... que não está mais entre nós. Uma mãe sente o frio no coração. Só queremos saber o que aconteceu e... providenciar um descanso adequado para ela.

– Vai tê-la de volta. Juro.

Agora, a senhora Barten soluçava... e por que não choraria? O cara parecia um guerreiro acostumado com a rotina da vingança, era mais um vingador do que um agente.

– Obrigada... Agradeço a todos vocês.

Veck olhou discretamente o relógio.

– Se me der licença, eu e minha parceira vamos nos dirigir ao supermercado. O gerente disse que sairia mais cedo hoje.

– Oh, sim, claro.

O agente Heron ajudou a senhora Barten a se levantar dando-lhe a mão.

– Seria incômodo se eu desse uma olhada no quarto dela?

– Claro que não... Vou levá-lo até lá – voltou-se para Veck e Reilly. – Se precisam ir agora, voltem sempre que precisarem.

– Obrigada – Reilly disse. – Faremos isso.

– E vamos sair logo por aquela porta – Veck murmurou.

Quando o agente Heron e a mãe da vítima chegaram às escadas, Veck parou no hall e observou os dois subirem juntos. Uma janela no andar de cima iluminava-os, o raio de luz solar atingia os dois rostos e agia como um farol para...

Espere um minuto.

Veck olhou para a sala de estar... de onde os raios dourados vinham do lado oeste. Impossível. Não poderia estar vendo aquele efeito de luzes em direções opostas: vinha da frente e dos fundos da casa.

– O que é isto? – Reilly disse suavemente.

Veck voltou a olhar para a escada. Heron e a senhora Barten não podiam mais ser vistos, e a luz tinha ido embora também, a janela não mostrava nada além de galhos de árvores atrás da casa e o claro céu azul sobre ela.

– Vou subir – disse à sua nova parceira. – Só por um minuto.


CAPÍTULO 8

 

Quando Jim seguiu a mãe de Sissy, sentiu-se muito oprimido. Num canto escuro de sua mente, sabia que precisava manter o controle diante de Veck, mas isso não aconteceria por muito tempo.

Virando-se no alto da escada, os sons da casa subiram a níveis de um heavy metal estridente. Tudo, desde o rangido sutil do chão acarpetado sob suas botas até a conversa suave que acontecia no saguão lá embaixo ou sua própria respiração soando forte atrás da garganta, tudo parecia gritar em seus ouvidos.

De repente, Veck apareceu atrás deles e fez um comentário rápido. Jim assentiu para o cara... e, imediatamente, esqueceu até mesmo que estava ali.

– O quarto de Sissy é por aqui.

Os três seguiram à direita e, quando a senhora Barten hesitou diante da porta fechada, Jim ergueu a mão para colocá-la em seu ombro... mas não conseguiu fazer contato.

– Prefere que entremos sozinhos? – ele perguntou.

A senhora Barten abriu a boca. Mas apenas assentiu com a cabeça.

– Não entro aqui desde... aquela noite. Está do jeito que ela deixou.

Naquele momento, o telefone tocou, e ficou evidente o alívio no rosto da mãe de Sissy.

– Vou atender. Fiquem à vontade para abrir as gavetas e o armário, mas se precisarem levar alguma coisa, poderiam me dizer o que é?

– Com certeza – Veck respondeu.

Assim que a mãe de Cecília apressou-se em descer as escadas e desapareceu no que Jim concluiu ser a suíte principal, ele abriu a porta... um cheiro maravilhoso. Entrando, fechou os olhos e tentou não se sentir um pervertido ao respirar fundo. Perfume. Loção corporal. Lençóis secos. Era... extraordinário. Mas ele não pertencia àquele quarto. Já tinha feito coisas que não deveriam sequer passar pela cabeça de alguém que entrasse num quarto como aquele... e a representação daquelas maldades estavam na tinta que cobria suas costas. Além disso, estava armado. E ainda havia aquela porcaria que fez com o demônio na noite anterior. Sentia-se sujo.


Enquanto Veck fazia o reconhecimento do quarto sozinho, Jim abriu os olhos e foi até uma estante modulada com escrivaninha embutida em frente à janela. A superfície plana e as prateleiras eram pintadas de branco, mas a cadeira era azul, combinando com as cortinas e o papel de parede listrado. Havia um tapete com franjas trançadas sobre a área acarpetada. Feito a mão. Tinha de ser.

Os livros enfileirados estavam em ordem e tinham uma temática bastante feminina. Gostava de Jane Austen, mas também havia uma prateleira inteira de Gossip Girls... provavelmente deixada ali desde que Sissy tinha treze anos. Algumas medalhas, vermelhas e azuis. Troféus. Sobre a mesa havia um notebook junto com dois livros, um sobre cálculo e outro sobre... trigonometria avançada? Hum. Sua garota era mais esperta que ele.

Havia também uma revista, Cosmopolitan, daquele mês. Tudo bem, a capa com título “orgasmo” em fonte gigantesca e cor rosa-choque não combinava exatamente com o resto daquele ambiente inocente de trabalhos escolares... mas ela estava crescendo, não estava?

Virando-se, foi até o pé da cama de solteiro. Agora sabia por que a mãe da garota não entrava ali. A colcha azul estava puxada para trás e os travesseiros ainda amassados, como se Sissy tivesse acabado de tirar uma soneca.

– Estou indo – Veck disse. O que fez Jim se perguntar há quanto tempo estariam naquele quarto.

– Vejo você em breve – disse Jim distraído.

– Entendido.

Quando ficou sozinho, a mão de Jim estremeceu ao estender-se para tocar os lençóis. Ao acariciar os objetos que sua pele tinha tocado, pensou em Devina e no que aquele demônio tinha feito com a garota... e com a família dela.


Adrian e Eddie estavam errados. Se queriam Jim concentrado na guerra, ali era exatamente o lugar onde precisava estar. Aquilo era motivação para vencer: Sissy nunca mais deitaria em sua cama. Não terminaria o artigo que estava lendo. E não mais lidaria com números. Nunca mais. Mas, ao menos, Jim poderia providenciar um lugar melhor para Sissy ficar enquanto não pudesse se juntar a seus pais e sua irmã por toda eternidade. E, então, faria Devina pagar mil vezes por tudo o que fez.

Na mesa de cabeceira havia um despertador branco, outra revista – desta vez era a In Touch – e o controle remoto de sua pequena televisão branca. Teve a impressão de que, mesmo fazendo faculdade, Sissy voltava aos fins de semana, e uma espiada em seu armário confirmou isso. Considerando o número de blusas, calças, saias e vestidos, não parecia que tudo aquilo tinha sido excluído da lista dos favoritos, mas que estava pronto para usar. Havia também vários sapatos no chão.

Deixou as gavetas da cômoda de lado, pois não sabia em qual delas guardava as... roupas íntimas. Provavelmente, nas duas primeiras, mas não correria o risco de confiar no chute. Já tinha assumido o papel de um mero observador ali, pois não tinha mais esperança em encontrar alguma coisa que o ajudasse a salvá-la. Deus era testemunha de que não havia nada na Terra capaz disso. Já ele queria apenas... estar perto dela.

Certo. Muito bem. Isto era o tipo de coisa com a qual Ad e Eddie preocupavam-se. Assim, percebeu que era hora de ir. Mais uma vez, não tinha noção de quanto tempo estava ali. Seria dois minutos ou duas horas, mas a última coisa que desejava era a mãe de Sissy batendo na porta para saber se ele estava bem ou se já tinha ido embora.

Não pegaria nada, mesmo sentindo a tentação de ficar com algum objeto, algo para se fiar em momentos difíceis... alguma coisa de Sissy. Contudo, a família já havia perdido demais e não tiraria mais nada deles.

Jim passou um último momento olhando ao redor e, então, obrigou-se a sair. No corredor, fechou a porta e ouviu. A mãe de Sissy estava no quarto ao lado, falando em voz baixa e embargada.

Desceu as escadas e esperou discretamente no hall onde ficava a porta da frente. Inclinando-se para o lado, olhou a sala de estar em direção às fotos ao longo das grandes janelas. A que mais lhe chamou a atenção – tanto que se aproximou dela – foi uma foto de rosto de Sissy. Ela não olhava para a câmera, mas para o lado, e não sorria. Parecia mergulhada em seus pensamentos, e a expressão em seu rosto não era a de uma menina, mas de uma... sobrevivente. Parecia ter uma vontade de ferro.

– Ela não fazia ideia de que a câmera a focava.

Jim endireitou-se e olhou para a mãe dela.

– Não?

A senhora Barten aproximou-se e pegou o retrato.

– Sempre sorria quando havia uma câmera por perto. Quando seu pai tirou esta, estava assistindo suas colegas de time jogarem... Praticava hóquei de campo. Tinha torcido o tornozelo e estava no banco... mas queria estar com elas – a mulher ergueu o olhar. – Era mais forte do que aparentava ser.

Quando seus olhos encontraram os de Jim, ele respirou fundo e pensou: Graças a Deus... isto a manterá sã até o momento em que eu conseguir salvá-la.

A senhora Barten inclinou a cabeça para o lado.

– Você é diferente dos outros.

Hora de ir.

– Sou como todos os outros.

– Não, não é. Nas últimas três semanas, vi mais oficiais, detetives e agentes do que em qualquer programa policial na TV que tenha assistido ao longo de toda minha vida – estreitou o olhar – Seus olhos...

Jim virou-se para a porta.

– O detetive DelVecchio entrará em contato...

– Quero te dar uma coisa.

Jim congelou com a mão na maçaneta e pensou – Má ideia – estava louco para aceitar qualquer coisa que ela oferecesse.

– Não precisa.

– Aqui.

Quando ele virou-se para dizer um “não, obrigado”, percebeu o toque daquelas mãos em sua nuca. Havia colocado em seu pescoço uma delicada corrente de ouro.

– Ela usava todos os dias. Encontrei em cima da pia do banheiro dela... Tinha tomado banho e esqueceu de colocar de volta... De qualquer maneira, fique com isto.

Pendendo na corrente havia um delicado pássaro feito de ouro. Uma pomba.

– Foi presente do pai no aniversário de dezoito anos. Fazia parte de um conjunto.

Jim balançou a cabeça.

– Não posso. Eu...

– Fique. Fará com que seus olhos continuem assim, nossa família precisa disso.

Depois de um momento, ergueu as mãos e substituiu os dedos da senhora Barten pelos seus. O colar e o pingente não pesavam nada. E mal cabiam em volta de seu pescoço. Mas seu dedo passava por ele como um sonho, mesmo o fecho sendo pequeno e suas mãos, enormes.

Quando baixou os braços, olhou para ela.

– Como estão os meus olhos? – disse ele com voz rouca.

– Desolados.


CAPÍTULO 9

 

O supermercado ficava a pouco mais de oito quilômetros de distância da casa, mas Reilly levou um bom tempo para chegar lá. Entre o trânsito e os faróis vermelhos, estava começando a achar que os dois passariam uma eternidade naquele carro.

Ou talvez o zumbido em sua cabeça fizesse parecer assim.

– No que está pensando? – Veck disse.

Apertou as mãos no volante e endireitou-se no banco do motorista.

– Se o caso de Cecília Barten estiver relacionado às vítimas de Kroner, teremos que deixá-lo. Está preparado para isto?

– Sim, estou.

Ao olhar para ele, percebeu que o maxilar de seu novo parceiro estava rígido e o corpo, todo tenso.

– Tem certeza? – porque ela não tinha.

– Sim, tenho.

Você é um filho da mãe teimoso que faz o que quer mesmo que isso contrarie uma ordem direta? Sim. Sou.

Assim que entrou no estacionamento e começou a caça por uma vaga, seu telefone tocou.

– Oficial Reilly. Uh-hum, sim... não é surpresa. Mesmo? Certo, e obrigada por me contar. Sim, mantenha-me informada.

Desligou e estacionou entre um carro prata antigo e uma caminhonete azul. Virando-se para Veck, disse: – Kroner está muito mal. Não há esperanças de que ele sobreviva.

O rosto rígido de Veck não expressou nada.

– Que pena. Talvez ele soubesse o que aconteceu.

– E saiu o resultado das análises feitas nas amostras que coletaram dele... Havia resíduos de saliva, mas as leituras não dão plena certeza quanto à fonte. Há semelhanças com pumas e lobos. Difícil dizer com certeza, mas a hipótese de ter sido um animal parece continuar ser a mais correta.

Ele assentiu e abriu a porta.

– Se importa se eu fumar antes de entrar?

Parece que estava tendo uma reação, afinal.

– Sem problema.

Saíram, e Veck foi até a parte traseira do carro, inclinando-se contra o porta-malas e tirando um Marlboro do maço... Um homem como ele poderia fumar outra marca? Quando ele acendeu o cigarro, Reilly esforçou-se para não pensar que suas calcinhas e seus sutiãs estavam separados de Veck apenas pela tampa do porta-malas.

Veck teve o cuidado de não exalar perto dela ou na direção em que o vento levasse a fumaça até a colega.

– Mau hábito – ele murmurou. – Mas ninguém vive para sempre.

– Verdade.

Encostando-se sobre o carro, ela cruzou os braços sobre o peito e olhou para o sol. O calor em seu rosto era uma bênção e fechou os olhos para apreciá-lo um pouco mais. Quando finalmente abriu os olhos outra vez, ficou chocada. Veck encarava-a e havia uma expressão em seu rosto... uma sugestão sexual. Ela tinha quase certeza de que estava deduzindo errado. Mas, em seguida, ele desviou rápido o olhar. Não era uma atitude comum quando se estava pensando em trabalho.

De repente, a temperatura primaveril aumentou e, agora, era ela quem o encarava. Bem, “flerte” parecia uma boa palavra para o que estava acontecendo.

Quando ele levou o cigarro aos lábios, sua boca se abriu e houve uma leve sucção, a ponta do objeto ficou alaranjada e os dedos indicador e médio aliviaram brevemente a pressão que faziam sobre o cigarro.

Oh, malditos sinos – ela pensou. Fumar era um hábito mortal e nojento, o qual ela não aprovava... Por isso, era perturbador perceber que todos os filmes ao estilo Casablanca faziam bem ao aproximar a câmera em longos closes em cenas como esta. Havia um toque erótico inegável em tudo aquilo. Especialmente quando a fumaça saía devagar de sua boca e projetava uma breve sombra em seus olhos azuis-marinhos e em seus cabelos escuros bem cortados.


Desviou o olhar rapidamente antes que ficasse presa ao...

– Então? – ele perguntou.

– Desculpe, então o quê?

– Perguntei o que achava.

Certo. Que tal responder assim: acho que todo o vermelho cereja que estou usando embaixo das roupas deformou o meu cérebro. Porque estou achando a ideia de subir em cima de você e montar feito uma vaqueira de chapéu na cabeça muito interessante.

– Preciso de mais informação antes de formar uma opinião – Então, que tal acender outro cigarro desses, garoto malvado, e arrancar as calças depois? – Oh, Deus.

– Você está bem? – ele disse, inclinando-se e colocando a mão livre sobre o braço dela. – Não comeu muito no café da manhã... Comeu alguma coisa no almoço?

Você está apoiado sobre as três sacolas do que fiz na hora do almoço, garotão.

– Sabe? – ela limpou a garganta. – Acho que devo comer alguma coisa.

E que Deus a ajudasse se seu cérebro cuspisse alguma coisa parecida com chantili sobre o corpo dele. Se isso acontecesse, pediria para ser transferida.

– Vamos entrar – ele disse, apagando o cigarro na sola do sapato.

Boa ideia. E já deixaria anotado: nada de tempo livre com seu parceiro. Nunca.

Aproximaram-se e passaram pelas portas automáticas, pela fila de carrinhos na recepção e entraram no supermercado propriamente dito.

Quando Veck parou e olhou ao redor, ela fez um gesto com a cabeça para a direita.

– O escritório do gerente é por aqui.

– Faz compras aqui?

– Esses estabelecimentos são praticamente todos iguais.

Enquanto caminhavam juntos, ele disse: – Devia conhecer este aqui de cor. Minha casa não fica longe.

– Então, faz suas compras aqui?

– Café e cigarros... bem saudável, não?

Ele parecia estar em ótima forma.

– Sempre se pode mudar de hábitos.

– Sabe? Eu parei por um tempo. Cigarros e cafeína.

– O que o fez voltar a consumi-los?

– Acertar aquele fotógrafo.

Aaah, então ele tinha emoções.

– Tem muito estresse em seu trabalho.

– Já foi fumante?

– Não, nunca bebi muito também. Não tenho muita inclinação para esses vícios.

Por outro lado, fazer compras poderia acabar se tornando um.

E este foi o último pensamento que teve sobre questões que não diziam respeito ao trabalho. Quando entraram no setor de atendimento ao cliente, colocou todas as distrações de lado, sua cabeça voltou a funcionar ao imaginar a filha da senhora Barten indo até a loja para ajudar sua mãe... O que deveria ser uma simples comprinha para abastecer a dispensa acabou tornando-se um pesadelo. Talvez por causa de Kroner.

Enquanto ela preparava-se para mostrar o distintivo ao gerente, pensou ser muito perigoso imaginar Veck ou mesmo aquele agente durão, Heron, arrancando a cabeça do cara. Mas nem um serial killer merecia esse tipo de justiça. E não ia se iludir: não seria uma surpresa descobrir Sissy na lista de vítimas de Kroner, e essa era a razão exata pela qual Veck estava interessado no caso. Mas Reilly jogava de acordo com as regras. Sempre tinha jogado, sempre jogaria. Entregaria o caso a De la Cruz assim que percebesse alguma relação com Kroner e daria um jeito de direcionar a atenção de Veck para outra coisa. Nem que isso matasse-o.

Quando Veck checou seu relógio outra vez, eram 16h30. O gerente falava devagar, e a gravação digital das câmeras de segurança levou um tempo para ser revista. Ainda havia uma empacotadora e dois funcionários que organizavam os carrinhos para entrevistar. Nenhuma informação nova, mas, caramba, ele e Reilly trabalhavam muito bem juntos.


Ela sabia exatamente quando tomar a frente e, assim como com a senhora Barten, tinha jeito para deixar as pessoas à vontade... O que significava que acabavam falando mais. Enquanto isso, ele observava o ambiente e avaliava todas as coisas que as pessoas não diziam, mas que demonstravam no semblante.

Do lado de fora do balcão de atendimento ao cliente, apertou a mão do gerente e, em seguida, Reilly fez o mesmo.

– Obrigada por seu tempo – ela disse ao cara. – Agradecemos muito.

– Não acho que foi possível ajudá-los de verdade – o homem empurrou os óculos quadrados sobre o nariz. – Agora ou antes. Sinto-me horrível por toda a situação.

– Aqui está o meu cartão – ela entregou-o. – Pode me ligar a qualquer hora... Estou disponível 24 horas, 7 dias por semana. E, pode acreditar, você se abriu e foi honesto... Era tudo que podia fazer.

Veck entregou seu cartão também e, então, estavam indo para a saída.

– Jante comigo – Veck disse de repente. Afinal, uma segunda oportunidade de compartilharem uma refeição tinha que ser melhor do que a primeira. Desde que ele não se comportasse como um idiota, todo na defensiva, outra vez...

Tudo o que obteve como resposta foi uma desaceleração no andar e uma longa hesitação. E, em seguida, um “Ah...”

Não era um bom sinal, então, reforçou o convite com uma justificativa lógica: – Temos que organizar as anotações das entrevistas que fizemos nas últimas quatro horas. Podemos muito bem comer ao mesmo tempo... E sei que deve estar faminta.

Cara, olha só isso. Tranquilo, casual. Perfeito.

Parou em frente a uma grande vitrine com prateleiras cheias de nachos, potes de salsa e um refrigerador cheio de queijos.

– Vou cozinhar para você. Comida mexicana... é minha especialidade.

Na verdade, aquilo poderia ser real se comparasse a outras coisas: não sabia nada sobre cozinha, mas, considerando o que pretendia fazer, tinha mais chances de acertar que com qualquer outro estilo culinário. Afinal, pedir coisas pelo telefone era sua única especialidade. Mas, vamos lá... não era tão difícil. Pegar uma caixa de tacos no corredor de salgadinhos? Como poderia errar?

– Deveríamos manter as coisas no âmbito profissional – ela argumentou.

– Não é um encontro, prometo. Você é boa demais para isso, e eu não sou tão sortudo.

Quando as sobrancelhas ergueram-se, deixou no ar o comentário que havia feito, pois era verdade e os dois sabiam disso.

– Então, o que me diz, oficial? O único tempero estará no molho.

Isso produziu nela um verdadeiro sorriso, seus lábios até curvaram-se para cima.

– Eu gosto de comida mexicana.

– Então, sou o cara certo.

Por um momento, apenas olharam um para o outro. Então, ela falou lenta e cuidadosamente: – Tudo bem, mas onde?

– Na minha casa.

Passando à frente dela, Veck pegou um carrinho e encheu-o com itens da vitrine de nachos. Parecia uma dádiva vinda dos céus: todos os ingredientes estavam enfileirados, então, não tinha muito que escolher. Porém, era apenas o começo, e ele dirigiu-se ao local onde um cartaz indicava “COMIDA MEXICANA”.

– Está olhando para mim, oficial? – disse ao perceber os olhos dela sobre ele.

– Só estou... surpresa. É isso.

– Com o quê?

Colocando o carrinho em frente a uma prateleira cheia de caixas de um amarelo brilhante, esperou uma resposta de Reilly.

– Tacos ou enchiladas? – quando não houve resposta a essa pergunta também, ele pegou uma caixa. – Tacos.

Pensou no que ainda faltava. Alface. Queijo... Observou o carrinho e decidiu que precisavam de mais. Tomates. Entendido.

– Onde é a parte de hortifrúti?

– Seguindo por ali, à esquerda. Mas precisamos de hambúrgueres.

– Sim, bem lembrado.

O balcão de carnes e congelados ficava mais ao fundo da loja e, ao passarem pelas bandejas de carne moída, pegou um pedaço magro com quarenta por cento orgânico... pois, provavelmente, ela seguia uma dieta mais natural. Quando chegaram à parte das frutas e verduras, precisavam pegar tomates e alface americana.

– Converse comigo, Reilly – disse em voz baixa.

– É que... você não me parece um homem que precise de sorte com as mulheres.

– Ficaria surpresa – ao continuarem em direção ao caixa, passaram pela parte de alimentos importados e por um self-service de saladas, e, por alguma razão, Veck sentiu que devia se explicar. – Veja bem, meu pai é muito conhecido por um motivo horrível e algumas pessoas se sentem atraídas por isso. As mulheres que me procuram não são como você. Ou têm tatuagens nos lugares mais ridículos do corpo e cabelos pintados, ou são Barbies que querem “salvar” alguém, ou desejam fazer loucuras sem correr muitos riscos. Depois, há as que parecem normais, mas costumam ter fotos do meu pai na bolsa ou cartas que pedem que eu entregue para ele... Para ser sincero, é uma confusão total. Aprendi que não posso confiar em ninguém, mas também nunca mais fui surpreendido.

Puxou o carrinho num dos caixas e começou a passar as coisas enquanto Reilly entregava-as.

– Mas, como disse, você não está em nenhuma dessas categorias – terminou.

– Com certeza, não – ela passou o saco de tomates. – Desculpe, não fazia ideia.

– Há coisas piores para se preocupar – como o laço sanguíneo que tinha com o pai maníaco, por exemplo. Droga, as tietes idiotas que queriam ficar com ele só por causa do sobrenome DelVecchio eram terríveis, mas o fato de ter o assassino ligado à sua medula era um pesadelo.

– Você vai... no meio da semana que vem? – ela perguntou.

– Como?

– À execução? – ela disse em tom gentil.

Veck congelou com a caixa amarela de tacos nas mãos.

– Vai mesmo acontecer?

– Se a Suprema Corte não emitir algum documento para adiá-la... Saiu um artigo no jornal de hoje.

Ah sim, as três colunas que ele tinha pulado no restaurante.

– Bem, espero que fritem o bastardo. E não, eu não vou. Tenho que ver aquele filho da mãe toda vez que me olho no espelho. Já é suficiente.

Pegou a carteira e tirou o cartão de crédito.

– Aqui, deixe-me ajudá-lo com a...

Veck lançou um olhar por cima do ombro.

– O homem deve pagar. Sou tradicional nesse ponto.

– E a mulher pode muito bem fazer uma contribuição. Sou realista assim.

Quando ela empurrou uma nota de vinte dólares na palma da mão dele e ergueu o olhar para encontrar o dele, soube que Veck queria beijá-la... E não apenas em suas fantasias: queria saber como era apertá-la em seus braços e sentir o sabor daquela boca da qual não saía besteira nenhuma.

Não iria acontecer.

Voltando a se concentrar nas coisas que não iriam comprometê-lo ou que evitariam um tapa, passou o cartão, digitou a senha e esperou a transação completar-se. Depois de jogar o cupom fiscal fora, dirigiu-se à saída, onde deixou o carrinho com os outros e recolheu as sacolas com as compras.

Enquanto caminhavam de volta para o carro, ele murmurou: – Você está quieta. Falei demais?

Olhou para ele ao desativar o alarme do carro e destrancar todas as portas.

– Sobre seu pai? Deus, não... A hora que quiser falar sobre ele, ou sobre qualquer outra coisa, ficarei feliz em ouvir.

Veck acreditava nela. O que era um milagre em si.

– Obrigado, mas você acabou de ouvir tudo o que tenho a dizer sobre o assunto.

Assim que se aproximaram do porta-malas destravado, ela foi até a porta do passageiro de trás e disse: – Espere, aqui, coloque as compras...

– Só vou jogá-las por aqui mesmo e...

Quando a porta ergueu-se sozinha, ele viu as três grandes sacolas da Victoria’s Secret e não pôde evitar: seus olhos fixaram-se em Reilly e observaram seu corpo... De baixo para cima, até as bochechas avermelhadas. O que significava que não havia um monte de pijamas e roupões de banho macios naquelas malditas sacolas.

– Hum... banco de trás – ele murmurou. – Está certo...

– Estavam em liquidação – ela disse enquanto ele fechava o porta-malas.

Ele estava ficando excitado outra vez. Agora mesmo. Droga.

Depois que as compras foram acomodadas no carro, os dois sentaram-se em seus respectivos bancos e ela ligou o motor. O cinto de segurança pressionou sua ereção, mas achou que o aperto foi bem-vindo. Não precisava ficar fantasiando um desfile de moda. A bela oficial Reilly vestindo aquelas coisas? Cara, precisava de um cigarro.

– Merda – ele disse.

– O que foi?

– Temos que ir à sua casa para fazer isso – com um palavrão, emendou. – Quero dizer, o jantar. Fazer o jantar na sua casa... Não tenho panela nenhuma.

Quando pararam no sinal da saída do estacionamento, Reilly olhou para ele... e começou a rir. Antes que percebesse, ele estava sorrindo também.

– Você não sabe cozinhar coisa alguma, não é? – ela disse.

– Terei sorte se conseguir abrir a caixa de tacos – ergueu o dedo indicador. – Mas ainda gostaria de fazer o jantar, se não se importa.

Negando com a cabeça, ela sorriu.

– Certo, mas pode me fazer um favor?

– Pode dizer.

– Pode esquecer o que viu no meu porta-malas?

Seus olhos perderam-se na boca de Reilly e, em seguida, desceram para o pescoço pálido e...

– Sinto muito – disse em tom sombrio. – Isso eu não posso fazer.

Ela respirou fundo, como se todos os pensamentos dele estivessem expostos em seu rosto.

– Droga – disse, soltando o ar. – Quero dizer, sim, é claro. Considere feito. Totalmente esquecido.

Uma buzina soou alto atrás deles e ela teve um sobressalto antes de acelerar.

Que bela noite. Só faltava ele botar fogo na casa dela..


CAPÍTULO 10

 

Durante os anos em que atuou como soldado de Operações Extraoficiais, Jim aprendeu que uma boa informação é fundamental para a missão em qualquer tarefa. Claro, quando trabalhava para o maldito Matthias seu trabalho era matar pessoas e, agora, não era bem essa a situação com seu novo chefe ou com seus alvos atuais. Porém, muitos princípios eram os mesmos. E os riscos eram ainda maiores.

Sentado na cama de hotel, com o computador apoiado nas coxas, o site do Correio de Caldwell estava no centro da tela e a dor de cabeça que sentia não era pelo brilho da máquina. Seu trabalho já tinha sido iniciado. Considerando que Devina não havia mentido sobre a alma.

Na noite passada, Thomas DelVecchio Jr. adentrou na floresta com um cara a quem investigava... O que é normal para um detetive de homicídios, certo? Errado. O que deteve a ordem normal dos fatos foi que David Kroner, considerado um serial killer, fora levado numa ambulância até a cidade à beira da morte. Encharcado de molho de tomate. E isso era apenas o começo do jogo. Após passar quase duas horas vasculhando a internet, Jim teve acesso a informação suficiente para escrever um livro sobre DelVecchio... e sobre o pai do cara. Não eram boas notícias.

– Droga, Cachorro – murmurou.

Cachorro bufou baixinho e colocou a pata sobre o antebraço de Jim, como se estivesse oferecendo ajuda. A questão era: onde estava a encruzilhada de DelVecchio? Estaria naqueles bosques de ontem à noite?

Não, pois Jim teria perdido antes de ter começado e imaginou que isso estaria fora das regras. Entretanto, não significava que Devina não tivesse dado tal golpe.

E assim...

– Onde você está, vadia...?

O demônio estava em algum lugar naquilo tudo, trabalhando nos bastidores, tentando mexer os pauzinhos para que o jovem DelVecchio se envolvesse profundamente com ela.

A rota poderia ser traçada através do pai. Digitando outra vez o nome do cara no Google, Jim começou outra pesquisa. Os resultados fizeram-no questionar se valia a pena salvar a humanidade. Oh, veja só, quanta coisa baseada em seus assassinatos. Pinturas. Autógrafos.

O cara tinha sua indústria... Mas parece que não duraria muito. As luzes seriam apagadas para ele em Connecticut muito em breve. Mas talvez vivesse para sempre na infâmia: havia vigílias acontecendo fora da prisão. Sem dúvida aquela procissão de manifestantes não impediria a execução, mas era uma indicação de que o bastardo poderia tornar-se uma celebridade ainda mais famosa quando estivesse totalmente acabado.

De acordo com os arquivos do jornal, DelVecchio pai tinha cometido a maioria de seus assassinatos em Nova York e Massachusetts, e a primeira denúncia datava do meio dos anos 1990, quando o primeiro corpo fora encontrado... em Caldwell, Nova York. Passaram-se três anos para que as autoridades percebessem que estavam lidando com um serial killer, e não com chacinas aleatórias. Parte do atraso ocorreu pelo assassino ter deixado os corpos em situações muito diferentes e pelas investigações realizadas com diferentes graus de competência policial. Outro fator foi, ao menos no começo, que DelVecchio escondia bem os restos e de maneira muito criativa.

Os casos, porém, começaram a ser ligados e, então, iniciou-se uma corrida para capturar seja lá quem fosse o assassino. O tapa na cara foi saber que DelVecchio estava aos olhos do público o tempo todo, um negociante de antiguidades... e não apenas bugigangas e falsificações. Estava no topo daquele mercado, importando estátuas, artefatos e mosaicos do Egito e do Oriente Médio.

Maldito filho da mãe. Existia até mesmo um artigo sobre ele na Vanity Fair, que dava informações detalhadas sobre seus negócios. Aparentemente, entre as viagens ao exterior e as grandes festas que frequentava, DelVecchio pai conseguiu engravidar uma mulher. O filho tinha nascido no mesmo dia que o pai nascera há 29 anos, mas não havia vida familiar. Nem outras crianças.

Contudo, houve uma espécie de contato: o assassinato daquela mulher acabou sendo a chave para finalmente capturarem DelVecchio, a primeira ligação que trouxe à tona a cadeia de crimes que havia formado. O resto era história, por assim dizer.

– Entrandooo...

Jim olhou por cima do notebook. Parado na porta do conjugado, Adrian tinha uma caixa de pizza entre as mãos e um pacote com seis cervejas pendurado nos dentes.

– Aí sim! Obrigado, cara.

Eddie entrou atrás com uma segunda caixa.

– Ele providenciou tudo... até a isca.

Ad sentou-se sobre a cama e apoiou as cervejas.

– Se chamam anchovas, idiota.

O “que seja!” ficou subentendido entre os dois. Jim alimentou Cachorro primeiro, dando ao cão o item que Adrian não apreciava muito. Considerando o movimento do rabo curto e grosso, a gororoba estava mais que boa.

– Então, como podemos saber que Devina não mentiu para você? – Adrian disse, antes de se inclinar e colocar a ponta de uma fatia de pizza na boca.

– Essa confusão toda é bem a nossa cara – clicou no artigo sobre a execução e girou o computador. – Este é o pai do cara. E espere, tem mais.

Enquanto comiam, Jim mostrou-lhes alguns sites e finalizou com um artigo sobre a pequena viagem do Júnior à floresta com outro serial killer. Enquanto seus parceiros liam, houve uma quantidade razoável de “mas que inferno”, o que era bom.

Terminou de comer a terceira fatia.

– Precisamos descobrir o que aconteceu naquela floresta ontem à noite.

– Os artigos dizem que DelVecchio não se lembra de nada.

Jim olhou para Eddie, mais conhecido como “o mestre dos truques”.

– É aí que você entra. Quero entrar na mente do cara e você precisa me dizer como fazer isso.

Ad deu de ombros.

– Pessoalmente, eu costumo usar um serrote, mas...

– Pode haver várias consequências e efeitos colaterais – disse Eddie com cuidado.

– Por exemplo?

– Bem, na pior das hipóteses... ele pode acabar como Adrian.

– Ei...

Jim interrompeu o anjo em questão.

– Meio surdo. Com medo de agulhas.

– Viciado em sexo – Eddie acrescentou.

– Ou seja, um deus – Ad exclamou, abrindo uma cerveja. – E continuo dizendo, pessoal, não sou surdo.

– Já passamos por isso antes – Eddie enxugou a boca. – Se não consegue ouvir o quanto é desafinado, então, como pode saber?

– Não sou desafinado.

– É sim – Jim e Eddie disseram juntos.

Antes que a discussão saísse do controle, Jim ficou sério e dirigiu-se a Eddie.

– Então, me diga o que eu preciso saber.

– Precisa me explicar primeiro o que está procurando.

Jim tomou um longo gole de cerveja.

– Quero saber onde Devina está em tudo isso. Qual é o ângulo de ação dela e de que maneira está suscetível a falhar nessa porcaria toda. É isso que estou procurando.

E, considerando a situação do pai, já tinha suas suspeitas.

É claro que Veck precisava ter visto o que havia no porta-malas – Reilly pensou enquanto entrava na garagem. – O universo não desperdiçaria uma oportunidade como essa para aprontar comigo. Enquanto a porta da garagem subia, olhou para seu parceiro.

– Deixe-me adivinhar: gostaria de carregar as compras, da mesma maneira como pagou por elas.

– Sim, gostaria – olhou para os bancos de trás. – Como disse, sou antiquado. Mas se quiser assumir a tarefa, posso voltar atrás.

E era por isso que não tinha qualquer problema com ele. Além disso, ele poderia cuidar da comida enquanto ela tirava suas roupas do porta-malas: apesar de constrangida, não deixaria as sacolas para trás. Não havia como fingir que nada acontecera, mas, mais importante que isso, não havia motivo algum para esconder. Era uma mulher adulta que poderia comprar calcinhas e sutiãs para si.

Quando a voz na cabeça dela ficou ainda mais estridente e na defensiva, perguntou-se quem exatamente estava falando. Provavelmente seu pai. Interrompendo o discurso ridículo, terminou de estacionar o carro. Enquanto Veck saía e pegava as sacolas do supermercado, deu a volta no carro, abriu o porta-malas e manteve a cabeça erguida ao pegar todos os seus artigos cheios de lacinhos e renda e seguir para a cozinha.

– Nossa! – ele disse ao olhar para as paredes, cortinas e balcões.

– Eu deveria ter avisado.

Ter uma decoração cheia de galos na cozinha é um pesadelo, mas a boa notícia é que, geralmente, as pessoas param e olham ao redor, e, por isso, ela conseguiu enfiar as sacolas num canto qualquer, longe de olhares curiosos.

– Acho que nunca vi...

Quando Veck apenas assentiu com a cabeça, Reilly ficou feliz por ele não ter terminado a frase. Claro que nem precisaria: a parte do “... tantos galos num lugar só” costumava ficar no ar com certa frequência.

Oh, Deus, aquilo era horrível.

– Desde que me mudei há dois anos, tenho vontade de pegar um estilete e arrancar tudo a partir dos cantos. Mas sempre tem algum trabalho mais urgente que me mantém ocupada.

Porém, ao observar como Veck olhava tudo aquilo, pensou que deveria ter um pouco mais de determinação. O papel de parede tinha três galos diferentes em várias e exageradas poses, como se fossem fisiculturistas participando de um concurso. O esquema de cores era marrom, vermelho e creme com tufos verdes de grama sob as patas tripartidas. E, de alguma forma, mesmo o material estando ali há uns bons vinte anos, mantinha uma vivacidade impressionante.


– Sou eu ou os olhos deles seguem a gente? – Veck perguntou ao colocar as sacolas sobre o balcão da pia.

– Eles estão observando você. É uma maravilha para minhas die-tas... sinto como se estivesse comendo em público e não consigo comprar frango desde maio do ano passado.

– É como estar no filme Os pássaros.

– Exceto por não ser uma fazenda. Eu sei – quando ela aproximou-se e abriu o armário sob o fogão, completou –, o fato de já estar um pouco acostumada com isso me assusta... será que me hipnotizaram? Aliás, as panelas estão aqui, as tigelas ali e as facas naquelas gavetas perto da lava-louças.

– Obrigado.

Quando ele tirou o casaco, os grandes ombros movimentaram-se naturalmente, mas, na mente dela, transformaram-se em algo nu e excitante – Hora da distração – Reilly pensou quando Veck começou a desembalar as coisas.

– Ei, acho que vou imprimir o arquivo do caso enquanto você começa a lidar com a comida.

– Ótimo.

– Pode levar um tempo. Minha impressora é antiga.

– Temos tempo.

Pela maneira como estava concentrado no pacote de salgadinhos, parecia que estava prestes a fazer uma cirurgia cerebral com o micro-ondas. E nossa... Aquele jeitão impassível, seguro e lindo era muito sexy, sem falar que aquela preocupação toda o deixava mais acessível. Isso e a maneira como se abriu a respeito das mulheres. Ela nunca pensara nas tietes... porém, mesmo pessoas de boa aparência podiam ser perseguidas pelos motivos errados, não?

No escritório que tinha no final do corredor, entrou no banco de dados da polícia de Caldwell, acessou o relatório e ficou parada ao lado da impressora, pronta para salvar a impressão quando as folhas ficassem presas... o que aconteceu. Duas vezes.


O primeiro indício de que as coisas não iam bem na cozinha foi o aroma inconfundível de carne queimada. O segundo foi uma explosão de palavrões. Que não parou até ela aparecer com as impressões.

Foram muitas bombas verbais. Em seguida, o detector de fumaça disparou. Seja lá o que estava na panela sobre o fogão – o mais provável era que fosse o hambúrguer, mas, como era Veck na cozinha, poderia até ser os nachos – precisava de uma mangueira de incêndio. Ele tentava lidar com a situação, levou a panela para a pia, colocou dentro da cuba, mas não ligou a água. Aproximou-se rapidamente do detector e começou a abaná-lo com um pano de prato sem nem sequer ficar na ponta dos pés.

– Acho que um dos galos aumentou o fogo – ele gritou.

– Isso não me surpreenderia.

Ela escondeu um sorriso quando colocou os papéis sobre a mesa e foi dar uma olhada no que ele tinha colocado no prato: os pedaços de queijo laranja tinham se unido à camada de tortilhas ao ponto de formarem uma nova composição molecular.

Só há uma coisa a fazer agora – ela pensou. Pegou o telefone e disse: – Qual sabor de pizza você gosta, oh, poderoso fazendeiro?

– Calabresa com salame.

– Boa.

Enquanto discava, olhou para cima. A parte de baixo da camisa de Veck tinha se soltado, e ela teve uma clara visão do cós preto da cueca, bem como dos pelos que desciam em linha a partir do umbigo sobre a pele firme. Imediatamente seu cérebro voltou à cena do banheiro na noite anterior. Apenas um instante e lá estava ela, observando o corpo nu...

– Oh, sim, oi – afastou-se rapidamente. – É um pedido. Sim, sou eu. Pizza grande de calabresa com salame. Sim. Não, sem bebidas... Não, não quero uma segunda pizza de graça... Não, sem acompanhamentos... Não, obrigada, não precisa... Não, também não quero sobremesa de maçã com canela – pelo amor de Deus, levavam mais tempo fechando o pedido do que fazendo, embalando e despachando a pizza para entrega! – Ótimo, obrigada.


Desligou, endireitou os ombros e virou-se em direção a Veck outra vez – estava parado bem atrás dela, olhos semicerrados, o corpo muito maior do que aparentava ser a dois metros de distância.

Ela não se moveu. Nem ele.

– Acredita que a confissão seja boa para a alma? – disse ele de maneira misteriosa.

– Sim...

– Então, preciso dizer uma coisa.

Oh, Deus, era por isso que diziam que não se deve misturar negócios com prazer: quando seus olhos se encontraram, Reilly não pensava sobre o caso em que estavam trabalhando. Pensava que deveria admitir algumas coisas a si mesma.

Vi você nu ontem à noite e te achei lindo.

– O quê? – ela disse ofegante.

Eu te desejo mesmo sabendo que não deveria.

Engolindo em seco, ela disse: – Diga...


CAPÍTULO 11

 

Veck sabia que não deveria responder à sua parceira e com certeza não deveria ter se aproximado tanto dela. A atitude correta seria começar a limpar a bagunça que tinha feito com os alimentos em vez de criar mais confusão.

Mas viu-a olhando o corpo dele e a expressão em seu rosto indicava um desejo forte e intenso. Surpreso? Sim. Satisfeito? Poderia, se ficassem juntos.

Mas não poderiam se desvencilhar das consequências daquilo com um banho de água quente, este era o problema.

– O quê? – ela sussurrou.

– Eu quero... – a palavra era tão rude que ele guardou-a para si mesmo.

– Diga.

Ele inclinou-se e colocou os lábios sobre o ouvido dela.

– Você sabe exatamente o que eu quero.

– E eu quero que você diga.

– Tem certeza? Não é nada agradável.

Antes que ele pudesse recuar, ela estendeu as mãos e colocou as dele sobre seus quadris. O toque foi leve como uma sombra caindo sobre o corpo de Veck, mas sentiu que tudo queimava por dentro. E uma coisa era certa, se ela instigou aquele contato é porque sabia exatamente o que ele tinha em mente.

O toque ficou mais intenso.

– Diga.

Sua voz era quase um rosnado.

– Quero foder você.

Reilly gemeu um pouco e ele continuou.

– Quero você nua. Embaixo de mim. E quero entrar em você – abaixou um pouco e passou a boca sobre o pescoço dela. – Mas sei que é especialista em conflito de interesses, então sabe muito bem os motivos pelos quais essa é uma má ideia.

Era a deixa para ela se afastar. Ou para ele pular fora. Nenhum deles se moveu.

Droga, o corpo dele começou a ficar fora de controle, sua ereção latejava por mais espaço para fazer o que sabia de melhor. O que significava que, se fosse para fazerem a coisa certa, a iniciativa partiria dela.

– Dê um tapa na minha cara – ele gemeu. – Me empurre... pelo amor de Deus, se tranque no banheiro ou algo assim. Pois se não fizer isso, eu vou...

– Me beije.

Deus, o tom que ela usou: aquilo era uma ordem. E quem era ele para desobedecer a uma ordem? Especialmente vinda de uma superior?

Veck estendeu a mão e passou o braço em volta da cintura de Reilly. Com um puxão forte e impaciente, aproximou-a de seu corpo. O próximo passo foi arrancar o elástico que amarrava os cabelos dela e jogá-lo no chão.

Cara, ela instigava tanto desejo com aquela coisa de não se afastar, e os cabelos vermelhos sobre os ombros diziam que estavam prontos para ter a mão de um homem sobre eles.

Quando agarrou a nuca e aproximou a cabeça ainda mais, sabia muito bem que iria dominá-la, assumiria o controle de seu corpo, iria segurá-la com força ao empurrá-la até a mesa da cozinha e ajoelharia entre suas pernas para sugar seu sexo. Era o que desejava fazer.

– Desculpe – ele disse, ciente de que não estava desculpando-se apenas pelo que estava prestes a fazer, mas por tudo que passava em sua mente, toda a vulgaridade que desejava impor aos dois.

Então, o destino foi selado quando ela deu um beijo nos lábios de Veck.

A boca dela era macia... e também seus seios contra o peitoral de Veck e seus quadris contra seu pênis... Era macia e quente, o tipo de coisa que se quer penetrar e permanecer ali por um bom tempo. Mas, mesmo com sua pélvis contorcendo-se e sua ereção pulsando, no fundo Veck sabia que o conflito de interesses não era o maior problema que tinham. Por mais que fingisse estar tudo normal com ele, estava em carne viva por dentro por causa daquela porcaria que tinha acontecido na floresta e pela novidade sobre seu pai. Tinha medo de que Reilly fosse exatamente o tipo de curativo que precisava... Esse foi o último pensamento lógico e decente que teve.


Quando penetrou a boca dela com a língua, seus braços apertaram-na e a parte inferior do corpo arqueou-se outra vez, a tensão e o movimento em seu pênis estimulou-o ainda mais. E isso foi antes de sentir o arrepio que passou pelo corpo de Reilly. Estava claro que ela acompanhava-o, especialmente quando o apertou em seus ombros com as unhas e suas pernas abriram-se o suficiente para que ele pudesse se encaixar com uma das pernas ali.

Pensando num palavrão, ele virou-a e colocou-a sobre a mesa, em cima da papelada que ela tinha acabado de imprimir. Imagens dela com as pernas sobre os ombros dele enquanto lambia seu sexo fizeram-no imaginar que deveria repensar a falsa propaganda sobre comê-la.

Bem, não era tão falsa assim. Só adicionaria uma atração turística muito importante na viagem para o grand finale. Passou a palma da mão sobre as coxas e levantou a perna dela, esfregando ainda mais o local onde ele desejava finalmente estar. Interrompendo o contato com a boca, mergulhou no pescoço de Reilly com mordidas e lambidas.

– Me deixe ver você – ele gemeu em sua garganta. – Me deixe...

– Entrar – outra voz disse.

Ele interrompeu o ritmo de repente, desvencilhando-se do abraço e olhando para cima. Agora seu coração batia por um motivo diferente.

– O que foi? – ela disse.

Seus olhos percorreram o local. Mas não havia quaisquer sombras esquivando-se em movimentos velozes pela cozinha com decoração de galos. Nenhum ruído de tábuas ou dobradiças rangendo. Ninguém observando pelas janelas.

Depois de um momento, a adrenalina diminuiu e percebeu onde estava e o que estava fazendo com ela. Talvez tivesse sido um pensamento que assumiu uma voz muito alta. E não poderia sentir-se melhor com isso se considerasse o que tinha acontecido com Kroner na noite passada.

Uma das mãos de Reilly ergueu-se e acariciou a bochecha dele.

– Você está bem?

– Não – olhou outra vez para o rosto dela. Sentiu o corpo dela sob o seu. Ouviu suas respirações profundas. – Mas não quero parar. Você é real... E preciso muito disso agora. Preciso... de você agora.

Reilly não era como as outras mulheres com quem já tinha ficado: os olhos inteligentes viam demais e sabiam coisas demais. Cara, ele ficara nu na frente dela no primeiro momento em que a conheceu – e isso deveria tê-lo guiado na direção oposta do que estava acontecendo. Em vez disso? Só desejava-a ainda mais.

– Então, me possua – disse, puxando a camisa para fora da saia.

Veck não deu um segundo sequer para ela mudar de ideia: enquanto a beijava, mergulhou uma das mãos sob a abertura que ela havia feito na camisa, tocando toda aquela pele quente. Em seguida, os botões soltaram-se como se tivessem o mesmo objetivo que ele: acesso total.

Ergueu-se quando o último se abriu... caramba. Renda vermelha. Havia uma complexa renda vermelha sobre um par de seios perfeitamente proporcionais. Ele conseguia ver os mamilos tensos e firmes através da pequena extensão do tecido.

– Gostou do que eu comprei hoje? – ela perguntou com voz rouca.

– Nada mal – limpou a garganta quando falou. – Nada mal mesmo. Mas o que está por baixo é ainda mais quente.

Com uma graça harmoniosa, as mãos dela ergueram-se e acariciaram o sutiã de alças finas e brilhantes... Em seguida, passou a mão sobre os mamilos rígidos e, com isso, Reilly arqueou o corpo, implorando por ele.

Com um rosnado, ele empurrou a saia para cima e adentrou entre as pernas dela, separando-as ainda mais com seus quadris ao se aproximar do que havia chamado sua atenção. Ao colocar a boca sobre o sutiã incrível, além de sentir a renda em sua língua, também percebeu a carne rosada e firme por baixo do tecido.

Não levou muito tempo para aquilo não ser mais suficiente. Com a mão áspera e impaciente, puxou o bojo para baixo, revelando o mamilo.

– Porra... – ele exclamou. – Você...

Ela não quis nem saber de conversa: com pressa, seus dedos agarraram a nuca dele e, com isso, aproximou a cabeça de Veck de seus seios. Enquanto ele sugava-a, ela ergueu-se sobre a mesa, e aquele movimento, aquele puxão, fez com que ele deixasse de lado qualquer constrangimento. De repente, Veck assumiu o controle, ergueu-a ao colocar um dos braços embaixo dela, a outra mão foi direto entre as coxas, em direção ao desejo que emanava daquela calcinha.

Acariciou o sexo dela, a palma da mão envolveu o local, bem onde ela desejava...

– Veck!

O som do nome dele foi um pedido de mais, mais, mais. E daria isso a ela. Trocando de lado, mordeu a outra metade do sutiã e puxou com os dentes, antes de sugar o outro mamilo. Contudo, ainda não era suficiente. Precisava de contato total com a pele nua. Aqui, agora...

O gemido que saiu dela foi exatamente o som de consentimento que precisava ouvir.

Deus, vai acontecer – pensou. – Vai acontecer.

Veck era um dominador total. Reilly não esperava menos que isso, mas a excitação foi surpreendente. Em parte por saber que, se dissesse não estar à vontade em ir tão longe, ele recuaria no mesmo segundo. Mas o resto devia-se à maneira como ele lidava com ela, a confiança, o poder, a possibilidade erótica que emanava de sua boca, de suas mãos e de seu olhar sedutor e intenso.

Sem dúvida, Veck tinha um talento natural para o sexo... E desenvolveu isso ao longo dos anos. De repente, como se tivesse lido a mente daquela mulher, seu olhar ergueu-se com um brilho e fixou-se no dela enquanto estimulava o mamilo da mulher com a língua... E, quando as pálpebras baixaram, sabia que desejava que ela o observasse.

Que visão. Ele puxou o outro lado do sutiã e acariciava-a, lambendo e chupando enquanto uma das mãos espalmadas pressionava sua pele. Deus, ele era grande – por inteiro. Seu pênis era longo e grosso e acariciava a parte interna das coxas dela, seus ombros eram tão grandes que não conseguia ver nada além deles, e a parte inferior do corpo daquele homem ocupava todo o espaço que havia entre suas pernas abertas.

Veck terminou de puxar o sutiã que pressionava os seios para cima, a camisa estava totalmente aberta, e a saia estava toda amontoada na cintura. O próximo passo era tirar o tecido de nylon que cobria as pernas de Reilly e, para isso, ela saiu um pouco de cima da mesa, sentindo aquela mão pressionar com mais força ainda em movimentos circulares. Mergulhou os polegares na cintura da meia-calça e baixou os quadris, escorregando a peça ao longo das coxas.

– Eu assumo daqui em diante – Veck recuou um pouco, os olhos em chamas observando o corpo de Reilly. – Hummm... bem onde eu queria estar.

Quando ele sorriu como um predador, ela ergueu os joelhos para ajudá-lo a tirar as meias, lentamente. E só depois que o fino tecido estava livre de seus pés, ela perguntou-se até onde aquilo tudo chegaria. Iriam terminar de fazer aquilo que não deveriam nem ter começado?

Se aquilo fosse um “sim”, teriam que lidar com alguns aspectos práticos. Mas, caramba, que coisa chata falar de camisinha – e, sim, agora entendia por que as pessoas faziam escolhas idiotas quando se tratava de sexo. Coisas realmente importantes não tinham a menor relevância ali, todo o sofrimento que poderia vir depois daqueles minutos intensos, coisas com as quais teria que conviver, talvez para sempre... Passavam a ser ecos distantes, que ela mal conseguia ouvir, pronunciados num idioma que não queria traduzir.

Cinquenta mil anos de evolução poderiam dizer o que estava acontecendo.

Com um impulso, Veck voltou à boca dela, beijando-a profundamente enquanto as mãos desciam...

A maldição que disparou da garganta dela era mais uma vibração que um sim. A mão dele estava de volta entre as pernas, acariciando suas coxas, indo em direção à peça que completava o conjunto com o sutiã que já tinha visto e dominado.

– Veck! – ela exclamou outra vez quando o toque deslizou sobre o centro da faixa de cetim.

Foi cuidadoso, colocando apenas a pressão suficiente sobre o local tão sensível, acariciando-a em movimentos circulares que fizeram seu corpo ficar ao mesmo tempo relaxado e tenso.

Dane-se a calcinha, ela não queria nada entre eles... Mesmo assim, a barreira de seda não era de todo ruim, a costura adicionava outra dimensão ao ritmo que ele tinha imposto. E não parou de beijar sua boca, de envolvê-la, de aproximá-la ainda mais, mesmo já estando bem juntos.

Com um movimento rápido, ele levantou o tronco de Reilly e empurrou seus quadris contra o sexo dela, entrelaçando os corpos. Em seguida, curvou a coluna e encaixou-se sobre ela, acariciando-a com seu pênis enquanto observava-a com atenção.

Deus, o rosto dele estava cheio de desejo, aquela frieza tinha desaparecido, aquela máscara impassível havia explodido com a intensidade que apertava o maxilar.

Eles iam mesmo fazer aquilo, Reilly concluiu.

Surpreendente. As escolhas na vida de Reilly eram baseadas em dados precisos do que deveria, teria que ou do que era melhor não fazer. Com certeza, fazer sexo daquela maneira estava na última categoria... e, mesmo assim, não pretendia deter nada.

Porém, fariam aquilo com segurança – embora não sobre uma cama. Aquela mesa estava servindo muito bem. Mas havia coisas que ela precisava fazer primeiro. Descendo o corpo, deslizou as mãos até... a cabeça de Veck caiu para trás.

– Caaara...

Perfeito: o pênis rijo era ainda maior do que imaginava e latejava contra a palma de sua mão...

O som da campainha ecoou, alto como um tiro. E, mesmo assim, por um momento, ela não conseguiu compreender o que era aquele barulho ou por que deveria importar-se com ele. Veck recuperou os sentidos primeiro.

– Pizza.

– Que p...?

Com o pensamento rápido e lógico, ele estendeu a mão e apagou as luzes para que o entregador da pizza de calabresa com salame não assistisse ao show na cozinha. Então, com mãos eficientes, colocou a camisa dela de volta, puxou a saia para baixo e começou a arrumar as próprias calças, para que não ficasse uma tenda de circo.

– Vou cuidar disso – disse ele com uma voz equilibrada. Como se nada tivesse acontecido. Nada.

Enquanto ele foi até a porta da frente, Reilly sentou-se lentamente, a cabeça não parava e o corpo tremia. Segurando a blusa, percebeu que a volta ao normal repentina fê-la sentir-se totalmente fora de controle. Em seguida, ela saiu da mesa e os papéis do caso Barten caíram no chão.

A chuva de folhas soltas formou uma espécie de tapete aos seus pés e foi o espelho exato que precisava para ver tudo com clareza: do outro lado da cidade havia uma família de luto pela filha que sabiam ter perdido, e, em vez de concentrar-se na dor deles e em seu trabalho... estava esfregando-se num homem que não tinha nada a ver com ela.

Não poderia existir um conflito de interesses maior. Serviria de exemplo num livro didático. Mexendo nos botões da camisa, fechou-os rapidamente e, então, inclinou-se para pegar as cópias do relatório. Quando o cabelo caiu sobre o rosto, perguntou-se onde estaria seu elástico.

Quem poderia saber?

Colocando os fios atrás das orelhas, juntou as impressões com cuidado, reordenou as páginas e separou tudo em duas pilhas – a dela e a de Veck. Separado era melhor.

Ela tinha enlouquecido?

Vindo da porta da frente, ouviu um burburinho de palavras de agradecimento, a porta fechou-se em seguida e passos pesados trouxeram Veck de volta à cozinha.

Levantando-se rapidamente, colocou as duas pilhas de papéis sobre a mesa e manteve os olhos sobre elas. Não conseguia olhar para Veck. Simplesmente não tinha forças para aquilo no momento.

– Acho melhor você ir – sua voz não soou bem, mas ela não se sentia bem mesmo.

– Certo. Vou chamar um táxi.

Droga. A moto dele estava na delegacia, não?

Após soltar um palavrão em voz baixa, murmurou: – Está tudo bem. Posso levá-lo...

– Não, um táxi é melhor.

Ela assentiu e acariciou a primeira página do relatório... onde indicava os principais dados de Sissy e a data de seu desaparecimento.

– Vamos verificar tudo isso amanhã no escritório.

– Sim – quando ele vestiu o casaco, o som macio do tecido foi mais alto que a campainha. – Sinto muito.

Ela cruzou os braços sobre o peito e assentiu outra vez.

– Sim, eu também. Não sei o que deu em mim.

Mas sabia muito bem o que aconteceria se o jantar não tivesse chegado bem na hora. Momentos depois, ele foi embora e fechou a porta tão silenciosamente que não se fez som algum. Quando finalmente olhou por cima do ombro, tudo o que viu foi a pizza no balcão. Certo, como se fosse comer alguma coisa. A caixa foi direto para a geladeira.

Saindo da cozinha, passou pela mesa e encontrou sua meia-calça atrás de uma cadeira. Seu elástico de cabelo estava no chão perto do arco que dividia os ambientes, já dentro da pequena sala de jantar. Ao inclinar-se para pegá-lo, ficou frente a frente com as compras da Victoria’s Secret e percebeu que seu sutiã ainda estava beeem fora do lugar. Deixou as sacolas ali e resolveu aquele pequeno problema com alguns puxões e vários palavrões. Enquanto aproximava-se das escadas, decidiu que usaria sua velha lingerie de algodão de sempre para ir trabalhar no outro dia. Era isso, muito obrigada.


CAPÍTULO 12

 

– Pergunta. Mesmo se não quebrar nada para entrar, ainda é considerado invasão de domicílio?

Adrian soltou essa pequena pérola assim que assumiram forma em frente à porta de entrada da casa de Thomas DelVecchio Jr. – e, se considerassem tudo o que ele havia dito até hoje, sabiam que o anjo poderia ter soltado um comentário muito pior.

Jim nunca passou tanto tempo em sua vida desejando protetores e fones de ouvido. Mas pelo menos o bastardo não tentou o rap.

– E aí? – Ad disse.

– Olha só, nós nem sequer existimos – Jim murmurou. – Então, você pode alegar que nem estamos aqui de verdade.

– Ótimo argumento. Acho que é legal.

– Como se o contrário o incomodasse.

A casa era decorada ao estilo de Jim: funcional, nada de especial, muito espaço vazio. O problema? Poucos itens pessoais, e precisavam de algum objeto feito com um pouco de metal. De preferência ouro, prata ou platina. Se conseguissem algum objeto com impressões suficientes de Veck, poderiam usá-lo como ponte para entrar no cérebro do cara remotamente: de acordo com Eddie, era arriscado demais fazer isso pessoalmente. Não com Devina por perto.

– Vamos nos separar – disse Jim. – Vou examinar o andar de cima.

Quando Ad e Eddie espalharam-se, Jim subiu as escadas de dois em dois degraus. O quarto principal ocupava metade do andar. Claro que essa afirmação soa mais impressionante do que a realidade, pois a metragem total não passava de setenta metros.

– Meu Deus, quanta coisa, hein amigo? – murmurou.

Não havia nada no quarto além de uma cama grande e uma porcaria de mesa de cabeceira com um abajur sobre ela. Nada de despertador – provavelmente o cara usava o celular para isso. Nada de telefone fixo, mas para que se precisava de um? Havia uma TV de tela plana fixada na parede, cujo controle remoto encontrava-se entrelaçado nos lençóis.

Havia algumas roupas sujas num cesto de plástico no canto, meias e cuecas transbordavam pelos lados como se a coisa babasse algodão preto. Abriu o armário... e havia camisas penduradas nos cabides, que era bem melhor do que a mala que Jim usava há anos para guardar suas roupas. Atrás da porta, havia alguns cintos com fechos de metal, mas tinha de haver algo melhor para que Jim pudesse usar.

Foi até o banheiro. Todas as luzes apagadas, mas o cara não usava cortinas, então havia bastante iluminação vinda da rua. Assim que entrou no cômodo pequeno e azulejado, sentiu algo forte em sua nuca, como se formigas rastejassem sobre a pele.

Devina.

– Onde você está? – disse, dando uma pequena volta ao redor de si. – Onde diabos você está?

O demônio esteve ali, podia sentir sua presença no ar, como o mau cheiro que exala de uma grande lixeira, mesmo depois de ter sido esvaziada. Aquilo dava alguma credibilidade à revelação de Devina no restaurante.

Quando se voltou para a pia, franziu a testa. O espelho estava coberto com uma toalha e o formigamento em sua nuca aumentou quando estendeu a mão e puxou o tecido felpudo.

Nada, a não ser um armário de remédios dos anos 1980 embutido na parede. Mas o vidro frontal estava totalmente contaminado. Será que ela passou pelo objeto de alguma maneira? – perguntou-se. Recuou no mesmo instante em que as pontas do dedo fizeram contato com a superfície espelhada. O armário de remédios estava gelado.

Droga, Veck sabia que alguma coisa estava atrás dele, não? Por que cobriria a coisa? A questão era: até onde o demônio havia chegado dentro dele?

– O que fez com ele, vadia?

Recolocando a toalha, Jim abriu as gavetas, verificou o desodorante, o tubo de pasta de dente extra e o cortador de unhas. Ei! Talvez aquilo funcionasse. Só que dificilmente o objeto teria uma conexão emocional com... Uma luz estendeu-se pela frente da casa, atingindo a janela onde Jim estava e lembrando-lhe que não se preocupara em ficar invisível. Fazendo o corpo desaparecer, olhou pela janela. Na calçada em frente à garagem, Veck saiu do táxi amarelo.

Jim atravessou o quarto principal e desceu as escadas, só seria percebido se alguém sentisse a brisa que seus movimentos produziam. Na cozinha, viu que Ad e Eddie também tinham ficado invisíveis, e os três esperaram juntos, formando uma pequena fonte de calor no canto do cômodo.

Ela ainda está nele – disse em pensamento aos seus amigos.

Posso senti-la daqui – Eddie respondeu.

Na entrada da casa, a porta foi aberta, fechada e trancada. Em seguida, passos pesados aproximaram-se de onde eles estavam.

– Mas que... droga...

As maldições continuaram enquanto Veck entrava na cozinha, jogava as chaves e arrancava a jaqueta. Em seguida, foi até a geladeira e pegou uma cerveja. Tirou a tampa e bebeu com vontade, era evidente que tivera uma noite difícil no trabalho.

De repente, o cara ergueu a cabeça, apoiou a cerveja e olhou diretamente para onde os três estavam. Ele não deveria ser capaz de senti-los, muito menos de vê-los. Nenhum deles moveu-se. Nem mesmo Veck. E foi nesse momento que Jim olhou para o chão de linóleo atrás do detetive... e notou que o cara projetava duas sombras.

Única fonte de luz? Duas projeções em sentidos opostos sob seus pés?

Em silêncio, Jim apontou para o chão e seus colegas assentiram.

Veck estendeu o braço e tocou um interruptor, iluminando melhor o ambiente. Em seguida, ele olhou ao redor.

– Puta... que... pariu.

Obviamente, esse era o mote da vida daquele cara e, se Ad não se encorajasse a soltar a voz, Jim consideraria cantarolar um pouco daquela música também.

Veck balançou a cabeça e voltou para sua cerveja, tomando o que restava de uma vez só. Deixou a garrafa vazia sobre o balcão, pegou mais duas na geladeira e andou até a sala. Destino: sofá.

Jim e seus amigos foram atrás dele, mas mantiveram distância. Veck era intuitivo ao extremo ou contaminado o suficiente para ter um radar que percebesse a presença dos anjos. Conhecendo a sorte que tinha, tratava-se da última opção.

O detetive retirou as armas para se sentar: removeu uma bela automática e uma faca. Em seguida, retirou o distintivo brilhante da polícia, prata e dourado. O homem segurou a coisa sobre a palma da mão em formato de concha por um tempo. Olhava como se fosse uma bola de cristal... ou talvez um espelho onde tentasse ver a si mesmo.

Deixe isso de lado, cara – Jim pensou. – Termine as cervejas, deite um pouco e tire uma soneca. Prometo que devolvo quando terminar.

Veck seguiu as instruções e colocou o distintivo com seu nome e número de registro na polícia junto às armas, bebeu as cervejas uma seguida da outra e recostou-se nas almofadas. Seus olhos fecharam-se um momento depois. Levou um tempo para que as mãos relaxassem e caíssem para os lados, mas, em seguida, a respiração lenta e profunda confirmou o descanso – e a deixa para que eles pegassem o que precisavam e saíssem.

Jim estendeu a mão à altura da cintura e deu uma de cavaleiro Jedi com o distintivo, fazendo o objeto levitar e trazendo-o até ele ao longo da escuridão. No instante em que a palma de sua mão fez contato, sentiu o mesmo frio que sentira no andar de cima, a crueldade de Devina habitava no espaço entre as moléculas do metal.

O cuidado de Eddie parecia exagerado... até agora. Considerando a forte mensagem que o distintivo transmitia, não dava para ser pego de calças curtas ao atuar naquela tarefa.

Jim indicou a janela com a cabeça e, como uma névoa, os três desapareceram.

Do outro lado da cidade, no centro urbano de Caldwell, o Hospital São Francisco era um complexo que brilhava como uma das ruas de Las Vegas. Sob seus telhados de vinte estilos diferentes, vidas começavam e terminavam aos milhares a cada ano, a luta contra o Ceifeiro da Morte era travada por todos os médicos, cirurgiões e enfermeiras que ali trabalhavam.

Devina estava bem familiarizada com o local: algumas vezes, aqueles humanos de jalecos brancos e uniformes cirúrgicos precisavam de uma pequena ajuda para garantir que o trabalho fosse feito corretamente. E, geralmente, isso significava a morte, mas nem sempre.

O demônio entrou na ala de emergência pela porta frontal automática. Vestindo sua bela pele feminina, capturou todos os tipos de olhares vindos de pais e irmãos sentados na sala de espera. Era por isso que não pegava atalhos. Passar através de vidros, metais ou tijolos era eficiente, mas chato: adorava ser admirada. Cobiçada. Desejada. E os olhares ardentes das outras mulheres, todos aqueles olhares cheios de ódio e inveja? Melhor ainda.

Encontrar Kroner no labirinto de corredores, andares e unidades foi muito fácil. Estava há anos dentro dele, ajudando-o a aprimorar suas habilidades e dando suporte à sua obsessão. Já nasceu doentio, mas lhe faltava coragem para seguir os impulsos – e a impotência agiu a favor dela. Nada instigava mais a violência contra mulheres atraentes num louco como ele do que o próprio pênis murcho e fino.

A UTI que procurava estava sete andares acima, e ela gastou um pouco de tempo nos elevadores, caminhando, observando os uniformes das enfermeiras. Nada demais. Tecidos de algodão com péssimo corte que não realçavam nada na parte de cima e evidenciavam a flacidez da parte de baixo. Que diabos achavam que estavam fazendo com aquele visual?

Quando finalmente aproximou-se das várias portas duplas de metal, pegou uma carona com uma servente e um idoso sobre uma maca. O velhote estava apagado, mas a mulher não deu apenas uma olhada, foram várias. Sem dúvida, continuaria a observar se as portas não tivessem sido abertas no andar que precisava ficar. Lançou um sorriso sobre o ombro, saiu e não conseguiu deixar de rir um pouco.

Enfim, era hora de começar a trabalhar. Tinha a opção de assumir a forma de uma névoa e serpentear sobre o chão lustrado, mas isso causaria pânico demais. Ou poderia continuar invisível, o que era considerado uma falha de originalidade em sua cartilha: tinha passado séculos desfrutando da interação com os humanos, disfarçando-se entre eles, beliscando seus calcanhares e esfregando-se contra seus corpos – ou indo até mais além. Não havia motivo para desperdiçar a oportunidade de divertir-se um pouco naquela noite, mesmo trabalhando. Afinal, sua terapeuta estimulava-a a encontrar um equilíbrio na vida.

Ao chegar à unidade, atravessou um corredor cheio de fotografias de vários diretores de departamentos. Muito útil, como perceberia logo em seguida. Ela parou diante de várias, observando as características, os acessórios, os nomes e títulos, os jalecos brancos e as gravatas listradas ou roupas mais formais. Era como comprar uma roupa nova. E tinha seu serviço próprio de alfaiataria.

Virando numa esquina do corredor, olhou para os dois lados para certificar-se de que estava sozinha e, então, cuidou da câmera de segurança acima dela, enviando uma carga elétrica suficiente para desativá-la sem explodir.

Em seguida, assumiu a aparência e o jaleco branco do chefe da neurologia, um tal de dr. Denton Phillips. O disfarce foi um pouco decepcionante e flácido se comparado ao traje exuberante da bela morena. O homem tinha mais ou menos sessenta anos e, embora fosse um homem branco, arrogante, bem conservado, sentiu-se mal e feia. Ao menos era melhor do que realmente parecia, e era temporário.

Quando voltou ao corredor principal, caminhou como um homem e era ótimo ver o respeito e o medo nos olhos dos funcionários pelos quais ela passava. Não tão divertido quanto a luxúria e a inveja, mas agradável mesmo assim.

Não precisava perguntar onde Kroner estava. Era muito fácil de encontrá-lo – e não ficou surpresa ao se deparar com um policial uniformizado sentado do lado de fora do quarto. O homem levantou-se.

– Doutor.

– Só vou levar um minuto.

– Fique o tempo que precisar.

Não era bem assim... Ela tinha que trabalhar rápido. Não fazia ideia de como o dr. Denton Phillips realmente era e não havia como ter certeza se a altura estava correta. Isso acontecia quando tudo o que se tinha era uma foto para servir de molde: aquele não era um bom momento para encontrar quaisquer colegas que o conhecesse bem – ou pior, o homem em si.

A UTI onde Kroner estava tinha paredes de vidro com cortinas, era possível ouvir o silvo do equipamento médico que o mantinha vivo. Deslizou a porta, empurrou o tecido verde de um biombo e entrou.

– Você está péssimo – ela disse com voz masculina.

Ao caminhar até a cama, deixou de lado a aparência do bom doutor e mostrou-se como a bela mulher que Kroner tinha conhecido há dez anos.

Havia tubos entrando e saindo pela boca e pelo nariz, e os fios emaranhados que saíam de seu peito davam-lhe a aparência de uma central telefônica. Muitos esparadrapos de gaze branca sobre a pele cinza. Muitos hematomas. E seu rosto parecia bexiga de festa, todo vermelho e brilhante, esticado pelo inchaço.

Aquele não era o fim que ela tinha planejado e no qual havia trabalhado. Era para DelVecchio ter cedido e matado o desgraçado antes mesmo de Heron ficar sabendo qual era a próxima alma. Infelizmente, seu cordeiro sacrificial louco e pegajoso tinha sido abatido por outra pessoa.

Pelo amor de Deus, era óbvio que não sobreviveria. Ela não era um médico – apenas interpretava um de vez em quando –, mas só aquela palidez já a fez pensar em funerais.

No entanto, ainda não era tarde demais para o bastardo. E, após esse deslize, não correria mais nenhum risco de perder essa rodada. Hora de tornar-se um pouco mais agressiva, especialmente se pensasse no acordo que tinha selado com Heron.

– Ainda não é sua hora – ela inclinou-se sobre a cama. – Preciso de você.

Fechando os olhos, acomodou-se sobre o corpo do homem, cobrindo-o por completo e, em seguida, infiltrou-se dentro dele através de cada poro que havia. O poder inato nela preencheu o vazio, reenergizou Kroner. Ao puxá-lo da espiral da morte, ela curou-o e deu-lhe forças ao mesmo tempo. E pensar que humanos confiavam em aparatos médicos. Tão rudimentar.

Os olhos de Kroner abriram-se conforme ela se retirava e reassumia sua forma. Então, ele encarou-a. Um brilho amoroso surgiu em seu olhar. Patético, mas útil.

– Viva – ela ordenou –, e nos veremos em breve.

Ele tentou acenar com a cabeça, mas havia muitos acessórios de entubação em sua garganta. Contudo, cumpriria a ordem. Quando ela olhou para o dispositivo de monitoramento, a frequência cardíaca já tinha alcançado estabilidade e sua pressão arterial estava regulada. O nível de oxigênio saiu de setenta e foi para noventa.

– Bom menino – ela disse. – Agora, descanse.

Erguendo a mão, colocou-o em um sono profundo e restaurador e, em seguida, reassumiu a imagem do bom e velho dr. Denton.

Entrar, sair, partir.

Saiu da sala envidraçada, acenou para o guarda e caminhou pelo corredor, passando por bajuladores e puxa-sacos que quase se ajoelhavam enquanto passava. O que era agradável. Ao ponto de ficar tentada a desfilar pelo hospital por um tempo, apenas para sentir melhor a experiência de ser aquele homem.

Mas não podia, a última coisa que precisava era encontrar alguém que realmente o conhecesse. E, mais importante, tinha um compromisso com a terapeuta bem cedo no outro dia e ainda tinha que escolher o que vestiria – isso poderia levar horas. Motivo pelo qual precisava de uma maldita terapia. Hora de ir.

 


CONTINUA