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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


LABIRINTO / Kate Mosse
LABIRINTO / Kate Mosse

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

L A B I R I N T O

Primeira Parte

 

Uma história de coragem, destino e traição na França contemporânea e na medieval.

Julho de 1209: na cidade francesa de Carcassonne, uma moça de 17 anos recebe do pai um misterioso livro, que ele diz conter o segredo do verdadeiro Graal. Embora Alaïs não consiga entender as estranhas palavras e símbolos escondidos naquelas páginas, sabe que seu destino é proteger o livro. Serão necessários enormes sacrifícios e uma fé inabalável para preservar o segredo do labirinto — um segredo que remonta a milhares de anos e aos desertos do antigo Egito.

Julho de 2005: durante uma escavação arqueológica nas montanhas ao redor de Carcassonne, Alice Tanner descobre dois esqueletos. Dentro da tumba na qual repousavam os antigos ossos, experimenta uma sensação de malignidade impressionante e percebe que, por mais impossível que pareça, de alguma forma, ela é capaz de entender as misteriosas palavras ancestrais gravadas nas pedras. Porém, é tarde demais — Alice acaba de desencadear uma aterrorizante seqüência de acontecimentos incontroláveis, e agora seu destino está irremediavelmente ligado à sorte dos cátaros, oitocentos anos atrás.

Em março de 1208, o papa Inocêncio III convocou uma cruzada contra uma seita de cristãos do Languedoc. Hoje em dia, seus membros são geralmente conhecidos como cátaros. Eles chamavam a si mesmos de bons chrétiens; Bernard de Clairvaux os chamava de albigenses, e os registros inquisitoriais se referem a eles como "heretici". O objetivo do papa Inocêncio era expulsar os cátaros da região do Midi e restaurar a autoridade religiosa da Igreja Católica. Barões franceses do norte que abraçaram sua cruzada viam nela uma oportunidade de obter terras, riqueza e vantagens comerciais subjugando a nobreza do sul, co­nhecida por sua feroz independência.

Embora o princípio das cruzadas fosse um aspecto importante da vida cristã medieval desde o final do século XI — e em 1204, durante o cerco a Zara na quarta cruzada, os cruzados houvessem atacado irmãos cristãos — era a primeira vez que se pregava uma guerra santa contra cristãos e em solo euro­peu. A perseguição aos cátaros levou diretamente à fundação da Inquisição em 1233, sob os auspícios dos dominicanos, os frades negros.

Quaisquer que tenham sido as motivações religiosas da Igreja Católica e de alguns dos líderes cruzados laicos — como Simon de Montfort — a cruzada albigense foi em última análise uma guerra de ocupação, e marcou uma guina­da na história do que hoje é a França. Ela significou o fim da independência do sul e a destruição de muitas de suas tradições, ideais e modos de vida.

Assim como o termo "cátaro", a palavra "cruzada" não era usada nos documentos medievais. Estes se referiam ao exército como "a Hoste" — ou l'Ost em occitano. No entanto, como ambos os termos são hoje de uso corren­te, empreguei-os algumas vezes para facilitar as referências.

 

                                                                                   Pic de Soularac

                                                                                Montes Sabarthès

                                                                                Sudoeste da França

 

                         Segunda-feira, 4 de julho de 2005.

Um único filete de sangue escorre pela parte interna muito pálida do braço dela, como uma costura vermelha em um tecido branco.

De início, Alice pensa que é só uma mosca e não liga. Em uma escava­ção, os insetos são ossos do ofício, e por algum motivo há mais moscas no alto da montanha onde ela está trabalhando do que na escavação principal mais abaixo. Então uma gota de sangue pinga sobre sua perna nua, explodindo como um fogo de artifício no céu em noite de ano-novo.

Dessa vez ela olha e vê que o corte na parte interna de seu cotovelo abriu de novo. É uma ferida funda, que não quer sarar. Ela dá um suspiro e aperta mais contra a pele o curativo. Em seguida, como não há ninguém por perto para ver, lambe a mancha vermelha no próprio pulso.

Fios de cabelo, claros como açúcar queimado, soltaram-se de baixo de seu boné. Ela os ajeita atrás das orelhas e enxuga a testa com o lenço, antes de apertar outra vez o rabo de cavalo na nuca.

Desconcentrada, Alice se levanta e estica as pernas esguias, levemente quei­madas de sol. Vestindo uma calça,jeans cortada, uma camiseta branca justa e sem mangas e um boné, ela mais parece uma adolescente. Antigamente se importava com isso. Agora, à medida que vai ficando mais velha, entende as vantagens de parecer mais jovem do que de fato é. Os únicos toques de elegância são seus delicados brincos de prata em forma de estrelas, que reluzem como paetês.

Alice desenrosca a tampa de seu cantil. A água está morna, mas a sede é tanta que ela não liga e sorve longos goles. Lá embaixo, o calor forma uma névoa que cintila sobre o asfalto esburacado da estrada. Acima dela, o céu tem um azul infinito. As cigarras prosseguem seu coro incessante, escondidas na sombra da grama seca.


É a primeira vez que Alice visita os Pireneus, embora se sinta pratica­mente em casa ali. Já lhe disseram que, no inverno, os cumes pontiagudos dos Montes Sabarthès ficam cobertos de neve. Na primavera, delicadas flores cor-de-rosa, lilases e brancas surgem de seus esconderijos nos enormes rochedos. No início do verão, os pastos ficam verdes e salpicados de botões de ouro. Agora, porém, o sol achata a Terra, subjugando-a, transformando os verdes em marrom. É um lugar bonito, pensa ela, mas de certa forma inóspito. Um lugar de segredos, que já viu coisas demais e escondeu coisas demais para po­der estar em paz consigo mesmo.

Na sede do acampamento, mais abaixo na encosta, Alice pode ver os colegas em pé sob o grande toldo de lona. Com esforço, consegue distinguir Shelagh na roupa preta que a caracteriza. Fica surpresa que já tenham parado. E cedo demais para um intervalo, mas a verdade é que a equipe toda está meio desanimada.

Cavar e raspar, catalogar e anotar, tudo isso é na maior parte do tempo um trabalho árduo e monótono, e até agora eles desenterraram poucas coisas que valham a pena a ponto de justificar seus esforços. Encontraram alguns fragmentos de antigos jarros e vasilhas da Alta Idade Média e uma ou duas pontas de lança do final do século XII ou início do XIII, mas certamente não acharam nenhum sinal do núcleo de povoamento paleolítico que é o foco da escavação.

Alice sente-se tentada a descer para juntar-se aos amigos e colegas, e refa­zer seu curativo. O corte está ardendo, e suas batatas da perna estão doloridas de tanto ficar de cócoras. Os músculos de seus ombros estão tensos. Mas ela sabe que, se parar agora, perderá o pique.

Se tudo der certo, sua sorte pode estar prestes a mudar. Mais cedo, ela reparou em alguma coisa cintilando debaixo de uma pedra grande, encostada na lateral da montanha, arrumada e posicionada como se houvesse sido posta ali pela mão de um gigante. Embora ainda não consiga ver que objeto é aque­le, nem sequer determinar seu tamanho, passou a manhã inteira cavando e acha que não vai demorar muito para conseguir alcançá-lo.

Ela sabe que deveria chamar alguém. Ou pelo menos falar com Shelagh, sua melhor amiga, vice-diretora da escavação. Alice não tem formação de ar­queóloga; é só uma voluntária dedicando parte de suas férias de verão a algu­ma ocupação útil. Mas aquele é seu último dia completo na escavação, e ela quer provar seu valor. Se descer agora até a sede da escavação e admitir que pensa ter descoberto alguma coisa, todo mundo vai querer participar, e não vai ser mais a sua descoberta.

Nos dias e semanas que estão por vir, Alice vai se lembrar desse instante. Vai se lembrar da qualidade da luz, do gosto metálico de sangue e poeira em sua boca, e vai se perguntar como as coisas poderiam ter sido diferentes se ela tivesse resolvido descer, e não ficar. Se tivesse seguido as regras.

Ela sorve a última gota de água da garrafa e a joga dentro da mochila. Durante uma ou duas horas depois disso, enquanto o sol vai ficando mais alto no céu e a temperatura vai subindo, Alice continua a trabalhar. Os únicos baru­lhos são o raspar do metal na pedra, o zumbido dos insetos e o ronco ocasional de um pequeno avião ao longe. Ela pode sentir gotas de suor brotando acima de seu lábio superior e entre seus seios, mas continua até que, finalmente, o vão debaixo da pedra fica grande o suficiente para ela poder pôr a mão lá dentro.

Alice se ajoelha no chão e encosta a bochecha e o ombro na pedra para se apoiar. Então, com um pequeno estremecimento de ansiedade, insere os de­dos bem no fundo da terra escura e cega. Percebe imediatamente que seu palpite estava certo e que encontrou alguma coisa importante. O objeto tem uma textura lisa e escorregadia; parece feito de metal e não de pedra. Empunhando-o com firmeza e dizendo a si mesma para moderar as próprias expec­tativas, vai trazendo-o muito devagar até a luz. A terra parece estremecer, sem querer entregar seu tesouro.

O cheiro forte e pungente de terra úmida invade seu nariz e sua garganta, embora ela mal perceba. Já está perdida no passado, fascinada pelo pedaço de história que segura na palma das mãos. E uma fivela pesada e redonda, man­chada de pontinhos pretos e verdes devido à idade e ao longo tempo debaixo da terra. Alice a esfrega com os dedos e sorri quando os detalhes de prata e cobre começam a se revelar debaixo da sujeira. A primeira vista, também pare­ce ser medieval, o tipo de fivela usado para fechar um manto ou uma túnica. Ela já viu alguma coisa parecida antes.

Alice conhece os perigos de tirar conclusões apressadas ou de ser seduzida por primeiras impressões, mas não consegue evitar pensar no dono daquela fivela, morto há tanto tempo, e que pode ter andado por aqueles mesmos caminhos. Um desconhecido cuja história ela ainda precisa descobrir.

A conexão é tão forte e Alice está tão entretida que não percebe a pedra se mexendo em sua base. Então alguma coisa, algum sexto sentido, a faz olhar para cima. Por uma fração de segundo, o mundo parece estar suspenso, fora do espaço, fora do tempo. Ela fica inteiramente hipnotizada pelo pedaço de rocha antiqüíssimo que balança, se inclina, e então, graciosamente, começa a cair em sua direção.

No último instante, a luz muda. O feitiço se rompe. Alice se joga para longe, meio se arrastando, meio escorregando de lado, bem a tempo de evitar ser esmagada. A pedra bate no chão com um baque surdo, levantando uma nuvem de pó marrom claro, depois sai rolando, como em câmera lenta, até parar mais abaixo na montanha.


Alice se agarra desesperadamente aos arbustos e à vegetação rasteira para evitar escorregar mais. Por um instante, fica estendida no chão, tonta e desorientada. Quando percebe que só não foi esmagada por um triz, seu corpo congela. Foi por pouco, pensa. Respira fundo. Espera o mundo parar de girar.

Aos poucos, o latejar em sua cabeça diminui. O enjôo passa e tudo começa a voltar ao normal, o suficiente para ela poder se sentar e avaliar a situação. Seus joelhos estão esfolados e riscados de sangue, e ela bateu com o pulso ao cair de mau jeito, ainda segurando a fivela na mão para protegê-la, mas no geral escapou ilesa a não ser por alguns cortes e hematomas. Não me machuquei.

Ela se levanta e espana a poeira do corpo, sentindo-se uma completa idiota. Não consegue acreditar que cometeu um erro tão elementar quanto não escorar a pedra. Então Alice lança um olhar para a sede da escavação lá embaixo. Fica espantada — e aliviada — ao constatar que ninguém no acam­pamento parecer ter visto nem ouvido nada. Levanta a mão e está prestes a gritar para atrair a atenção de alguém quando percebe uma estreita abertura visível no flanco da montanha onde antes estava a pedra. Como uma porta escavada na rocha.

Dizem que essas montanhas são coalhadas de passagens e cavernas es­condidas, de modo que ela não fica surpresa. Porém, pensa Alice, de alguma forma ela sabia que a porta estava ali, embora não seja possível vê-la do exteri­or. Ela sabia. Na verdade, eu adivinhei, diz a si mesma.

Ela hesita. Alice sabe que deveria chamar alguém para entrar com ela. É estúpido, e talvez até perigoso, entrar sozinha sem nenhum tipo de apoio. Ela sabe todas as coisas que podem dar errado. Mas, de todo modo, não deveria estar trabalhando ali em cima sozinha. Shelagh não sabe. E, além disso, algo a está atraindo lá para dentro. Parece pessoal. Aquela descoberta é sua.

Alice diz a si mesma que não faz sentido incomodar todo mundo, au­mentar suas expectativas sem motivo. Se houver alguma coisa que valha a pena investigar, então ela contará a alguém. Não vai fazer nada. Quer apenas olhar.

Vai levar só um minuto.

Ela torna a subir. Há uma profunda depressão no solo na entrada da caver­na, onde antes ficava a pedra. A terra úmida fervilha com a frenética atividade de minhocas e besouros subitamente expostos à luz e ao calor depois de tanto tem­po. Seu boné está no chão no mesmo lugar onde caiu. Sua colher de pedreiro também está lá, exatamente onde ela a deixou.

Alice espia para dentro da escuridão. A abertura não tem mais de um metro e meio de altura por cerca de um metro de largura, e suas bordas são irregulares e ásperas. Parece uma abertura natural, não algo feito pelo homem, mas quando ela passa os dedos pela rocha, para cima e para baixo, encontra trechos curiosamente lisos nos pontos onde a pedra repousava.

Lentamente, seus olhos se acostumam à penumbra. O preto aveludado cede lugar a um cinza escuro, e ela vê que está diante de um túnel comprido e estreito. Sente os cabelos finos se eriçarem na nuca, como a avisá-la de que na escuridão há algo à espreita que seria melhor deixar em paz. Mas é só uma superstição infantil, e ela não se permite pensar nisso. Alice não acredita em fantasmas nem em premonições.

Apertando a fivela na mão com força, como um talismã, ela respira fun­do e dá um passo para dentro da passagem. No mesmo instante, o cheiro de um ar subterrâneo há muito escondido a envolve, enchendo sua boca, sua garganta, seus pulmões. O ambiente é fresco e úmido, sem os gases secos, venenosos de uma caverna lacrada com os quais lhe avisaram para tomar cui­dado, então ela conclui que deve existir alguma fonte de ar puro. Porém, para garantir, vasculha os bolsos dos shorts até encontrar seu isqueiro. Acende-o e ergue-o em direção ao espaço escuro, confirmando que há oxigênio. A chama é sacudida por uma corrente de ar, mas não se apaga.

Sentindo-se nervosa e ligeiramente culpada, Alice enrola a fivela em um lenço e a enfia no bolso, em seguida avança com cautela. A luz da chama é fraca, mas ilumina o caminho imediatamente à sua frente, lançando sombras sobre as paredes cinza e ásperas.

À medida que avança mais, ela vai sentindo o ar frio se enroscar por suas pernas e braços nus como um gato. Está caminhando sobre uma rampa. Pode sentir o chão descendo sob seus pés, irregular e arenoso. O atrito das pedras e do cascalho ressoa alto naquele espaço confinado, silencioso. Ela tem consci­ência de que, quanto mais longe e mais fundo avança, mais a luz do dia vai ficando pálida atrás de si.

De repente, ela não quer mais continuar. Não sente nenhuma vontade de estar ali. Mas é como se houvesse algo irresistível naquilo, algo a puxá-la para as entranhas profundas da montanha.

Dez metros mais adiante, o túnel termina. Alice se vê na soleira de uma câmara fechada como uma caverna. Ela está em pé sobre uma plataforma de pedra natural. Um ou dois degraus rasos e largos bem na sua frente levam à área principal onde o chão foi nivelado até ficar plano e liso. A caverna tem cerca de dez metros de comprimento e talvez cinco de largura, e foi obviamen­te construída por mãos humanas, e não só pela natureza. O teto é baixo e abobadado, como o de uma cripta.

Alice olha fixamente, segurando mais alto a chama tremeluzente e inco­modada por uma curiosa familiaridade que a vai dominando e que ela não consegue explicar. Está prestes a descer os degraus quando percebe letras gravadas na pedra do degrau de cima. Inclina-se e tenta ler o que está escrito. Apenas as três primeiras palavras e a última letra — N, ou talvez H — estão legíveis. As outras estão carcomidas ou lascadas. Alice limpa a poeira com os dedos e recita as letras em voz alta. Naquele silêncio, o eco de sua voz parece de certa forma hostil e ameaçador.

— P-A-S A P-A-S... Pas a pas.

Passo a passo? Passo a passo o quê? Uma vaga lembrança percorre a su­perfície de sua mente consciente, como uma canção há muito esquecida. E logo desaparece.

— Pas a pas — murmura ela dessa vez, mas aquilo não significa nada.

Uma prece? Um aviso? Sem saber o que vem depois, não faz sentido.

Agora nervosa, ela se endireita e desce os degraus um a um. Curiosidade e um mau pressentimento brigam em seu íntimo, e ela sente a pele dos braços finos e descobertos se arrepiar, embora não saiba se é por ansiedade ou por causa do frio da caverna.

Alice levanta a chama bem alto para iluminar o caminho, tomando cui­dado para não tropeçar nem tirar nada do lugar. No nível inferior, pára. Res­pira fundo e dá mais um passo rumo à escuridão de ébano. Mal consegue distinguir a parede da câmara.

Aquela distância, é difícil ter certeza se não se trata apenas de uma ilusão criada pela luz ou de uma sombra lançada pela chama, mas parece haver um desenho circular de linhas e semicírculos pintados ou esculpidos na pedra. No chão em frente ao desenho está uma mesa de pedra de pouco mais de um metro de altura, como um altar.

Mantendo o olhar fixo no símbolo na parede para se guiar, Alice avança mais. Agora pode ver o desenho com mais clareza. Parece algum tipo de labi­rinto, embora sua memória lhe diga que há algo errado com ele. Não é um labirinto de verdade. As linhas não conduzem ao centro como deveriam. O desenho está errado. Alice não consegue explicar por que tem tanta certeza disso, só sabe que está certa.

Mantendo os olhos cravados no labirinto, vai chegando cada vez mais perto. Seu pé bate em algo duro no chão. Ouvem-se um baque leve e oco e o barulho de algo rolando, como se um objeto houvesse sido deslocado.

Alice olha para baixo.

Suas pernas ficam bambas. A pálida chama em sua mão estremece. Cho­cada, ela não consegue respirar. Está de pé na beirada de uma cova rasa. Uma leve depressão no solo, não mais do que isso. Nela há dois esqueletos do que um dia foram seres humanos, os ossos totalmente limpos pelo tempo. Os buracos vazios dos olhos de um dos crânios a encaram. O outro crânio, deslo­cado por seu pé, está virado de lado como alguém que desvia o olhar.


Os corpos estão dispostos um ao lado do outro, de frente para o altar, como estátuas em uma tumba. Estão simétrica e perfeitamente alinhados, mas não há nada de plácido naquele túmulo. Nenhuma sensação de paz. Os ossos malares de um dos crânios estão esmagados, amassados para dentro como uma máscara de papier mâché. Várias das costelas do outro esqueleto estão quebradas e apontam para fora de modo estranho, como os galhos secos de uma árvore morta.

Eles não podem fazer mal a você. Determinada a não se deixar dominar pelo medo, Alice se força a se agachar, tomando cuidado para não desarrumar mais nada. Corre os olhos pela sepultura. Uma adaga repousa entre os corpos, o fio cego devido aos anos, assim como alguns fragmentos de tecido. Ao lado da adaga há uma bolsa de couro fechada por uma tira embutida, grande o suficiente para conter uma pequena caixa ou um livro. Alice franze o cenho. Tem certeza de ter visto algo assim antes, mas a lembrança não vem.

O objeto redondo e branco encaixado entre os dedos que parecem garras do esqueleto menor é tão pequeno que Alice quase não o vê. Sem parar para pensar se é a coisa certa a se fazer, tira rapidamente sua pinça do bolso. Abaixa-se e, com cuidado, retira o objeto, em seguida ergue-o em direção à chama, soprando delicadamente a poeira para ver melhor.

E um pequeno anel de pedra, simples e sem atrativos, com uma faceta redonda e lisa. O anel também é estranhamente familiar. Alice olha mais de perto. Há um desenho gravado no interior. No início, ela pensa que é algum tipo de selo. Então, com um choque, percebe. Levanta os olhos para as marcas na parede dos fundos da câmara, depois torna a olhar para o anel.

Os desenhos são idênticos.

Alice não é religiosa. Não acredita nem no céu nem no inferno, nem em Deus nem no diabo, nem nas criaturas que dizem assombrar aquelas monta­nhas. Mas, pela primeira vez na vida, sente-se dominada pela sensação de estar na presença de algo sobrenatural, algo que ultrapassa sua experiência e sua compreensão. Pode sentir a maldade se esgueirando sob sua pele, seu couro cabeludo, as solas dos seus pés.

Ela perde a coragem. A caverna parece subitamente fria. O medo aperta sua garganta, congelando o ar em seus pulmões. Alice se põe de pé atabalhoa­damente. Não deveria estar ali, naquele lugar ancestral. Agora está desesperada para sair da câmara, para se distanciar das provas de violência e do cheiro da morte, para estar novamente na luz do sol, segura e brilhante.

Mas é tarde demais.

Acima ou atrás de si, não consegue distinguir onde, ela ouve passos. O som ecoa pelo espaço confinado, ricocheteando nos rochedos e nas pedras. Vem vindo alguém.


Alice se vira, alarmada, deixando cair o isqueiro. A caverna mergulha na escuridão. Ela tenta correr, mas fica desorientada no escuro e não consegue achar a saída. Tropeça. Suas pernas parecem incapazes de sustentá-la.

Ela cai. O anel é lançado de volta para junto da pilha de ossos, onde é o seu lugar.

 

                                 Los Seres

                                Sudoeste da França

Alguns quilômetros em linha reta a leste dali, em um vilarejo perdido nos Montes Sabarthès, um homem alto e magro vestido com um terno claro está sentado sozinho diante de uma mesa de madeira escura e encerada.

O teto do cômodo onde ele está é baixo, e o chão feito de grandes qua­drados de cerâmica da cor da terra vermelha da montanha, que mantêm o aposento fresco apesar do calor lá fora. A única veneziana está fechada, tor­nando o lugar escuro exceto por uma poça de luz lançada por uma pequena lamparina a óleo, em cima da mesa. Ao lado da lamparina há um copo de vidro cheio quase até a borda com um líquido vermelho.

Espalhadas pela mesa há várias folhas de um papel grosso cor de creme, cada uma delas inteiramente coberta de linhas em tinta preta com uma cali­grafia caprichada. O cômodo está silencioso, exceto pelo arranhar e deslizar da caneta e pelo tilintar das pedras de gelo nas laterais do copo quando ele bebe. Paira no ar um leve cheiro de álcool e frutas. As batidas do relógio marcam a passagem do tempo enquanto ele pára, pensa, e torna a escrever.

O que deixamos para trás nesta vida é a lembrança de quem fomos e do que fizemos. Uma marca, não mais do que isso. Eu aprendi muito. Tornei-me sábio. Mas será que fiz alguma diferença? Não saberia di­zer. Pas a pas, se va luènh.

Vi o verde da primavera dar lugar ao dourado do verão, o cobre do outono dar lugar ao branco do inverno, enquanto eu, sentado, espe­rava a luz se esvanecer. Muitas e muitas vezes perguntei a mim mesmo: por quê? Se eu soubesse como seria viver em tamanha solidão, suportar, como única testemunha, o ciclo interminável de nascimento, vida e morte, o que eu teria feito? Alaïs, o fardo da minha solidão tornou-se prolongado demais para que eu o possa suportar. Eu sobrevivi esta longa vida com um vazio no coração, um vazio que, ao longo dos anos,não parou de aumentar até se tornar maior do que o meu próprio coração.

Eu lutei para manter minhas promessas a você. Uma delas foi cumprida, a outra não. Pelo menos até agora. Já faz algum tempo que sinto você perto. Nossa hora está quase chegando de novo. Tudo aponta para isso. Logo a caverna será aberta. Sinto a verdade disso a toda minha volta. E o livro, que durante tanto tempo repousou em seguran­ça, também será encontrado.

O homem faz uma pausa e estende a mão para pegar os óculos. Seus olhos estão anuviados de lembranças, mas o guignolet é forte e doce, e reacende sua energia.

Eu a encontrei. Enfim. E me pergunto, se puser o livro em suas mãos, será que ela o reconhecerá? Estará sua lembrança escrita no sangue e nos ossos dela? Será que ela se lembrará de como a capa cintila e muda de cor? Se desatar sua tira e o abrir, tomando cuidado para não dani­ficar o velino seco e quebradiço, será que se lembrará das palavras ecoando pelos séculos passados?

Rezo para que, à medida que meus longos dias se aproximam do fim, eu tenha enfim a oportunidade de consertar o que um dia estra­guei, para que eu enfim conheça a verdade. A verdade me libertará.

O homem se recosta na cadeira e estende diante de si, sobre a mesa, as mãos cobertas pelas manchas marrons da idade. A oportunidade de saber, tanto tempo depois, o que aconteceu no final. Isso é tudo que ele quer.

 

                                 Chartres

                                 Norte da França

Mais tarde nesse mesmo dia, quase mil quilômetros para o norte, outro ho­mem está de pé em um corredor mal iluminado sob as ruas de Chartres, espe­rando a cerimônia começar.

As palmas de suas mãos estão suadas, sua boca está seca e ele tem cons­ciência de cada nervo, cada músculo de seu corpo, até mesmo do pulsar das veias em suas têmporas. Sente-se pouco à vontade, aéreo, embora não saiba dizer se isso se deve ao nervosismo e à expectativa ou aos efeitos do vinho. A túnica branca pesa em seus ombros, um peso pouco familiar, e as cordas feitas de cânhamo torcido repousam sem naturalidade sobre seus quadris ossudos. Ele olha de relance para as duas figuras silenciosas de pé ao seu lado, mas os capuzes lhes escondem o rosto. Ele não sabe dizer se estão tão ansiosos quanto ele ou se já passaram por esse mesmo ritual muitas vezes antes. Estão vestidos da mesma maneira que ele, mas suas túnicas são douradas em vez de brancas, e eles estão calçados. Os seus próprios pés estão descalços, e as pedras do piso são frias.

Bem lá em cima, acima da rede escondida de túneis, os sinos da grande catedral gótica começam a badalar. Ele sente os homens ao seu lado se retesarem. E o sinal pelo qual estavam esperando. Imediatamente, ele abaixa a cabe­ça e tenta se concentrar no momento presente.

— Je suis prêt — murmura, mais para reconfortar a si mesmo do que em uma afirmação. Nenhum de seus dois companheiros esboça qualquer reação.

Quando a última reverberação dos sinos se transforma novamente em silêncio, o acólito à sua esquerda dá um passo à frente e, com uma pedra parcialmente escondida na palma da mão, desfere cinco batidas na porta ma­ciça. Lá de dentro vem a resposta. "Dintrar." Entrar.

O homem pensa por um instante que reconhece a voz da mulher, mas não tem tempo de adivinhar de onde nem de quando, porque a porta já está se abrindo para revelar a câmara que ele esperou tanto tempo para ver.


Mantendo-se no mesmo passo, as três figuras se adiantam devagar. Ele ensaiou isso e sabe o que esperar, sabe o que se espera dele, embora sinta os próprios pés um pouco instáveis. Faz calor ali dentro em comparação com o corredor, e está escuro. A única luz vem das velas arrumadas nas alcovas e sobre o altar, projetando sombras que dançam pelo chão.

A adrenalina corre por seu corpo, embora ele se sinta estranhamente alheio aos acontecimentos. A porta se fechando atrás dele o faz sobressaltar.

Os quatro ajudantes mais graduados estão em pé marcando norte, sul, leste e oeste do aposento. Ele quer desesperadamente levantar os olhos e ver melhor, mas força-se a manter a cabeça baixa e o rosto escondido, como foi instruído a fazer. Pode sentir as duas fileiras de iniciados alinhadas nas laterais mais compridas da câmara retangular, seis de cada lado. Pode sentir o calor de seus corpos e ouvir o subir e descer de sua respiração, mesmo que ninguém se mova nem diga nada.

Graças aos documentos que recebeu, ele decorou a disposição do aposento, e enquanto caminha em direção ao sepulcro em seu centro pode sentir os olhos de todos nas suas costas. Pergunta-se se conhece algum deles. Colegas de profissão, mulheres de outros homens, qualquer um pode ser membro. Não pode evitar que um tênue sorriso lhe suba aos lábios enquan­to se permite fantasiar, por um instante, sobre a diferença que fará o fato de ele ser aceito na sociedade.

É trazido bruscamente de volta ao presente quando tropeça e quase cai por cima da pedra que serve de genuflexório na base do sepulcro. A câmara é menor do que a planta o fizera pensar, mais confinada e claustrofóbica. Ele esperava que a distância entre a porta e a pedra fosse maior.

Quando ele se ajoelha sobre a pedra, ouve-se um arquejo vindo de al­guém perto dele, e ele se pergunta o motivo. Seu coração começa a bater mais depressa e, quando baixa os olhos, ele vê que as articulações de seus dedos estão brancas. Envergonhado, junta as mãos, antes de se lembrar e tornar a deixar os braços caírem ao lado do corpo, onde devem ficar.

Há uma leve depressão no centro da pedra, que parece dura e fria sob seus joelhos através do fino tecido da túnica. Ele mexe o corpo de leve, tentan­do encontrar uma posição mais confortável. O desconforto lhe dá algo em que se concentrar, e ele se sente grato por isso. Ainda está tonto e tem dificuldade para se concentrar ou se lembrar da ordem em que as coisas devem acontecer, muito embora a tenha repassado vezes sem conta na mente.

Um sino começa a soar dentro da câmara, uma nota aguda, cortante; um cântico baixo a acompanha, de início tênue, mas rapidamente mais alto à medida que vai ganhando novas vozes. Fragmentos de palavras e expressões reverberam por sua cabeça: montanhas; Noblesa, nobreza; libres, livros; graal...


A Sacerdotisa desce do grande altar e caminha pela câmara. Ele mal pode escutar o arrastar de seus pés e imagina como sua túnica dourada deve cintilar e ondular à luz vacilante das velas. Esse é o momento pelo qual ele estava esperando.

— Je suis prêt — repete entre os dentes. Dessa vez, com convicção.

A Sacerdotisa se imobiliza diante dele. Ele pode sentir seu perfume, sutil e leve sob o aroma pungente do incenso. Solta um arquejo quando ela se inclina e segura sua mão. Os dedos dela estão frescos e as unhas bem-feitas, e um espasmo de eletricidade, quase desejo, sobe por seu braço quando ela aper­ta algo pequeno e redondo na palma de sua mão, e em seguida faz seus dedos se fecharem sobre o objeto. Nesse momento — mais do que tudo que jamais quis na vida — ele quer ver o rosto dela. Mas mantém os olhos voltados para o chão, como lhe foi ensinado.

Os quatro ajudantes mais graduados deixam suas posições e se movem para junto da Sacerdotisa. Sua cabeça é inclinada para trás, com delicadeza, e um líquido espesso e doce escorre por entre seus lábios. É o que esperava, e ele não resiste. Conforme o calor se espalha por seu corpo, ele levanta os braços e seus companheiros ajeitam um manto dourado sobre seus ombros. Aquelas pessoas estão acostumadas com o ritual, mas mesmo assim ele pode sentir o nervosismo.

De repente, ele sente algo como uma tira de ferro em volta do pescoço, apertando sua traquéia. Suas mãos voam para a própria garganta enquanto ele luta para respirar. Tenta gritar, mas as palavras não vêm. A nota aguda e cor­tante do sino começa outra vez a ressoar, constante e persistente, submergindo-o. Uma onda de náusea percorre seu corpo. Ele pensa que vai desmaiar e agarra o objeto em sua mão em busca de conforto, com tanta força que suas unhas cortam a pele macia da palma de sua mão. A dor intensa o ajuda a não cair. Agora ele entende que as mãos em seus ombros não são reconfortantes. Não o estão amparando, mas sim segurando-o. Outra onda de náusea o sub­merge e a pedra parece se mover e escorregar sob o peso de seu corpo.

Seus olhos estão embaçados e ele não consegue focalizar nada, mas pode ver que a Sacerdotisa está segurando uma faca, embora não tenha idéia de como a lâmina prateada foi parar em sua mão. Tenta se levantar, mas a droga é forte demais e já lhe tirou as forças. Ele não consegue mais controlar os braços e pernas.

— Non!— tenta gritar, mas é tarde demais.

De início, pensa ter levado um soco entre os ombros, só isso. Então uma dor difusa começa a se espalhar por seu corpo. Algo morno e macio escorre lentamente por suas costas.


Sem aviso, as mãos o soltam e ele cai para frente, desabando como uma boneca de pano enquanto o chão parece se erguer e vir ao seu encontro. Não sente dor quando sua cabeça bate no chão, cujo contato em sua pele parece de alguma forma fresco e agradável. Todo barulho, toda confusão e medo estão indo embora. Suas pálpebras estremecem e se fecham. Ele não tem mais cons­ciência de nada a não ser da voz dela, que parece vir de muito longe.

— Une leçon. Pour tous — ela parece dizer, embora isso não faça sentido.

Em seus últimos e entrecortados instantes de consciência, o homem acusado de revelar segredos, condenado por ter falado quando deveria ter fica­do calado, segura o cobiçado objeto com força na mão até sua ligação à vida cessar e o pequeno disco cinza, do tamanho de uma moeda, rolar para o chão.

Em uma das faces do disco estão inscritas as letras NV. Na outra está gravado um labirinto.


 

                             Pic de Soularac

                             Montes Sabarthès

Por um instante, tudo é silêncio.

Então a escuridão se dissolve. Alice não está mais na caverna. Está flutuan­do em um mundo branco, sem gravidade, transparente, pacífico e silencioso.

Está livre. Segura.

Alice tem a sensação de deslizar para fora do tempo, como se estivesse caindo de uma dimensão para outra. A linha entre passado e presente agora desaparece nesse lugar onde não existe tempo nem espaço.

Então, como o alçapão de um cadafalso, Alice sente um súbito puxão, uma queda, e começa a despencar pelo céu aberto, caindo, caindo em direção à en­costa coberta de florestas da montanha. O ar frio silva em seus ouvidos enquanto ela mergulha, cada vez mais depressa e com mais força, rumo ao chão.

O instante do impacto nunca chega. Os ossos não se partem nas pedras e sílices cinzentos. Em vez disso, Alice cai no chão correndo, e segue aos trope­ços por um caminho íngreme e irregular no meio da floresta, entre duas colu­nas de árvores altas. Densas, imponentes, elas se erguem acima dela tornando impossível ver o que há atrás.

Rápido demais.

Alice se agarra aos galhos como se eles pudessem reduzir a velocidade de sua queda, impedir esse vôo de cabeça rumo a um lugar desconhecido, mas suas mãos passam direto pela vegetação como se ela fosse um fantasma ou espírito. Suas mãos arrancam tufos de pequenas folhas, como cabelos em uma escova. Ela não pode senti-los, mas a seiva tinge de verde as pontas de seus dedos. Ela os leva até o rosto para inalar seu aroma delicado, acre. Tampouco consegue sentir seu cheiro.

Alice sente uma dor na lateral do abdômen, mas não consegue parar porque há algo atrás dela, se aproximando cada vez mais. O caminho continua muito íngreme sob seus pés. Pela textura, tem consciência de que raízes secas e pedras substituíram a terra macia, o musgo e os galhos no caminho. Mesmo assim, não há ruído. Nenhum pássaro canta, nenhuma voz chama, não se ouve nada a não ser sua respiração irregular. O caminho arqueia e se dobra para um lado e para o outro, lançando-a para lá e para cá, até que ela faz uma curva e vê o silencioso muro de chamas que impede a passagem logo adiante. Um pilar de fogo em movimento, branco, dourado e vermelho, vergando-se em todas as direções, mudando constantemente de forma.

Por instinto, Alice ergue as mãos para proteger o rosto do calor inten­so, embora não consiga senti-lo. Pode ver rostos presos nas chamas que dan­çam, bocas contorcidas em silenciosa agonia enquanto o fogo as acaricia e devora.

Alice tenta parar. Precisa parar. Seus pés estão feridos e sangrando, sua longa saia está molhada, atrapalhando seus movimentos, mas quem a persegue está logo atrás dela e algo além de seu controle a está conduzindo para o abraço fatal do fogo.

Ela não tem outra escolha senão pular, para evitar ser consumida pelas chamas. Lança-se no ar em espiral como uma coluna de fumaça, flutuando bem alto acima dos amarelos e laranjas. O vento parece sustentá-la, liberando-a da terra.

Alguém está chamando o seu nome, uma voz de mulher, embora a pro­núncia seja estranha.

Alaïs.

Ela está segura. Livre.

Então sente a conhecida pressão de dedos frios em seus tornozelos, prendendo-a ao chão. Não, não são dedos, são correntes. Alice então percebe que está segurando alguma coisa nas mãos, um livro, fechado por tiras de couro. Entende que é aquilo que ele quer. Que eles querem. Ê a perda desse livro que os deixa zangados.

Se ao menos ela conseguisse falar, talvez pudesse fazer um acordo. Mas sua cabeça está vazia de palavras, e sua boca é incapaz de falar. Ela se debate, chuta tentando escapar, mas está presa. A pressão inflexível em suas pernas é forte demais. À medida que é arrastada de volta para o fogo, ela começa a gritar, mas tudo é silêncio.

Ela grita de novo, sentindo a voz lutar bem dentro de si para ser ouvida. Dessa vez, o som sai num jato. Alice sente o mundo real voltar à toda velocida­de. Som, luz, cheiro, o gosto metálico do sangue em sua boca. Até que, por uma fração de segundo, ela pára, subitamente envolta por um frio translúcido. Não é o frio conhecido da caverna, mas algo diferente, intenso e brilhante. Dentro dele, Alice consegue distinguir com dificuldade o turvo contorno de um rosto, bonito, indistinto. A mesma voz torna a chamar seu nome.

Alaïs.


Chama pela última vez. É a voz de um amigo. Não de alguém que lhe quer mal. Alice se esforça para abrir os olhos, sabendo que, se conseguisse ver, entenderia. Não consegue. Não completamente.

O sonho começa a se dissipar, libertando-a.

Hora de acordar. Preciso acordar.

Então ouve outra voz em sua cabeça, diferente da primeira. A sensação retorna a seus braços e pernas, seus joelhos esfolados ardendo e sua pele arra­nhada e dolorida no ponto onde ela caiu. Pode sentir alguém segurar seu ombro com força, sacudindo-a de volta à vida.

— Alice! Alice, acorde!


                                                                    A Cité na Colina

 

                                       Carcassona

                                       JULHET 1209

Alaïs acordou sobressaltada, arregalando os olhos. O medo pulava em seu peito como um passarinho preso em uma rede que luta para se libertar. Ela apertou as costelas com as mãos para sossegar o coração disparado.

Por um instante, não ficou nem dormindo nem acordada, como se alguma parte dela mesma houvesse sido deixada para trás no sonho. Sentiu que flutuava, e olhava para si mesma de uma grande altura, como as gárgulas de pedra que faziam caretas para os passantes do telhado da catedral de Sant-Nasari.

O quarto tornou a entrar em foco. Ela estava sã e salva em sua própria cama, no Château Comtal. Gradualmente, seus olhos foram se acostumando ao escuro. Estava a salvo das pessoas magras, de olhos negros que a assombra­vam à noite, seus dedos afiados arranhando-a e puxando-a. Elas não podem me alcançar agora. A linguagem esculpida nas pedras, mais imagens do que pala­vras, que nada significava para ela, tudo se dissolveu como colunas de fumaça no ar outonal. O fogo também havia se apagado, deixando apenas uma lem­brança em sua mente.

Uma premonição? Ou apenas um pesadelo?

Ela não tinha como saber. Tinha medo de saber.

Alaïs estendeu a mão para as cortinas penduradas ao redor da cama, como se ao tocar algo concreto ela própria fosse se sentir menos transparente e abstrata. O tecido surrado, repleto da poeira e dos cheiros conhecidos do cas­telo, reconfortou-a com a aspereza sob seus dedos.

Todas as noites, o mesmo sonho. Durante sua infância inteira, quando acordava apavorada no escuro, com o rosto pálido e molhado de lágrimas, seu pai estivera ao seu lado, velando seu sono como se ela fosse um filho homem. Enquanto cada vela se consumia e outra era acesa, ele lhe contava em voz sussurrada suas aventuras na Terra Santa. Falava-lhe sobre os mares intermi­náveis do deserto, as curvas e arabescos das mesquitas e o chamado à prece dos fiéis sarracenos. Descrevia as especiarias aromáticas, as cores vividas e o gosto apimentado da comida. O brilho terrível do sol ao se pôr sobre Jerusalém.

Durante muitos anos, naquelas horas vazias entre o crepúsculo e a au­rora, com a irmã adormecida ao seu lado, seu pai não havia parado de falar, espantando seus demônios. Não havia permitido que os capuzes negros nem os padres católicos chegassem perto dela com suas superstições e seus símbo­los falsos.

Suas palavras a haviam salvado.

— Guilhem? — murmurou ela.

Seu marido dormia profundamente, os braços abertos, ocupando a maior parte da cama. Seus cabelos escuros e compridos, recendendo a fumaça e vi­nho e aos está-los, espalhavam-se sobre o travesseiro. O luar entrava pela janela aberta, cuja folha de pensiona estava afastada para deixar entrar no quar­to o ar fresco da noite. À luz que vinha de fora, Alaïs pôde ver a sombra de uma barba brotando no queixo dele. Quando Guilhem mudou de posição, ainda dormindo, o cordão que usava em torno do pescoço cintilou e reluziu.

Alaïs queria que ele acordasse e lhe dissesse que estava tudo bem, que ela não precisava mais ter medo. Mas ele não fez menção de acordar, e não ocor­reu a ela acordá-lo. Destemida em todas as outras coisas, ela era inexperiente nos hábitos do casamento e ainda cautelosa com ele, então contentou-se em correr os dedos por seus braços lisos e bronzeados e de um lado a outro de seus ombros, firmes e largos devido às horas passadas treinando com a espada e o alvo para a justa. Alaïs podia sentir a vida se movendo sob a pele dele mesmo enquanto ele dormia. E quando se lembrou de como haviam passado a pri­meira parte da noite, suas bochechas coraram, embora não houvesse ninguém ali para ver.

Alaïs estava maravilhada com as sensações que Guilhem provocava nela. Deliciava-se com o modo como seu coração pulava quando o via inesperada­mente, o modo como o chão fugia debaixo de seus pés quando ele sorria para ela. Ao mesmo tempo, não gostava daquela sensação de impotência. Temia que o amor a estivesse tornando fraca, tonta. Não tinha dúvidas de que amava Guilhem, mas mesmo assim sabia que não estava se entregando totalmente.

Alaïs suspirou. Tudo que podia esperar era que, com o tempo, aquilo se tornasse mais fácil.

Algo na qualidade da luz, um preto clareando em direção ao cinza, e a ocasional ameaça de um canto de pássaro vindo das árvores no pátio, sugeriam-lhe que a aurora não demoraria a chegar. Ela sabia que não conseguiria voltar a dormir agora.

Alaïs esgueirou-se entre as cortinas da cama e percorreu o quarto na pon­ta dos pés até o baú que ficava no canto mais distante. O piso de cerâmica estava frio e o revestimento de esteiras arranhava seus dedos. Ela abriu a tam­pa, retirou o sachê de lavanda de cima da pilha e tirou lá de dentro um vestido verde-escuro simples. Estremecendo um pouco, vestiu a roupa, passando os braços pelas mangas estreitas. Puxou o tecido ligeiramente úmido por cima de sua combinação, depois amarrou o cordão com firmeza.

Alaïs tinha 17 anos e estava casada havia seis meses, mas ainda não ad­quirira as curvas e o balanço de uma mulher adulta. O vestido ficava pendura­do em seu corpo magro, informe, como se não lhe pertencesse. Apoiando-se com a mão em cima da mesa, ela calçou os chinelos de couro maleável e pegou sua capa vermelha favorita do encosto da cadeira. As bordas e a bainha eram enfeitadas com um intrincado bordado azul e verde de quadrados e diaman­tes, entrelaçados a diminutas flores amarelas, que ela mesma havia criado para o dia de seu casamento. Passara semanas a fio bordando aquilo. Ficara novem­bro e dezembro inteiros trabalhando no bordado, os dedos cada vez mais do­loridos e enregelados de frio, apressada para terminá-lo a tempo.

Alaïs voltou a atenção para seu panièr, que estava no chão ao lado do baú. Verificou que sua bolsinha de ervas e sua bolsa de dinheiro estavam lá, junto com as tiras de pano para amarrar plantas e raízes e com suas ferramen­tas para cavar e cortar. Por fim, prendeu a capa com firmeza ao pescoço com uma fita, enfiou a faca na bainha presa à cintura, cobriu os longos cabelos soltos com o capuz e cruzou o quarto em silêncio até sair para o corredor deserto. A porta se fechou atrás dela com um clique.

Não era ainda prima, de modo que ninguém circulava pela área residencial do palácio. Alaïs percorreu o corredor com rapidez, a capa arrastando-se suave­mente pelo chão de pedra, em direção às escadas íngremes e estreitas. Passou por cima do menino, um criado, que dormia embolado junto a uma parede do lado de fora do quarto que sua irmã Oriane dividia com o marido.

Quando desceu um pouco mais as escadas, um barulho de vozes flutuou ao seu encontro vindo das cozinhas no subsolo. Àquela hora, os criados já trabalhavam com afinco. Alaïs ouviu um tapa seguido de um grito, sinal de que um infeliz menino começava o dia com a mão pesada do cozinheiro a estalar em sua nuca.

Um ajudante de cozinha se aproximou dela aos tropeços, lutando com um imenso meio-barril de água que havia tirado do poço.


Alaïs sorriu.

Bonjorn.

Bonjorn, dama — respondeu ele com cautela.

Venha — disse ela, descendo as escadas antes dele para abrir a porta.

Mercé, dama — disse ele, agora um pouco menos tímido. — Grand mercé.

A cozinha fervilhava de atividade. Grandes volutas de vapor já subiam da imensa payrola, o caldeirão pendurado em um gancho acima do fogo. Um criado mais velho pegou o barril d'água das mãos do ajudante de cozinha, esvaziou-o dentro da panela, depois lhe devolveu o barril sem dizer palavra. O menino revirou os olhos para Alaïs enquanto saía e tomava mais uma vez o rumo do poço lá em cima.

Capões, lentilhas e repolhos em jarros de cerâmica lacrados aguardavam na grande mesa no centro do aposento a hora de serem cozidos, junto com outros recipientes contendo tainhas, enguias e lúcios. Em um dos cantos havia bolos tipo fogaça envoltos em tecido, patê de ganso e fatias de carne de porco salgada. No outro, bandejas de uvas, marmelos, figos e cerejas. Um menino de nove ou dez anos estava em pé com os cotovelos fincados na mesa, e sua ex­pressão de desgosto mostrava o quanto ele estava animado para mais um dia suando junto ao espeto, vigiando a carne a assar. Ao lado do fogo principal, os gravetos ardiam intensamente dentro do forno de pão em forma de domo. A primeira fornada de pan de blat, o pão de trigo, já estava disposta na mesa para esfriar. O cheiro deixou Alaïs com fome.

— Posso pegar um destes?

O cozinheiro levantou os olhos, furioso diante da intrusão de uma mu­lher em sua cozinha. Então viu quem era, e seu rosto mal-humorado abriu-se em um sorriso torto que revelou uma fileira de dentes podres.

Dama Alaïs — disse com alegria, limpando as mãos no avental. — Benvenguda. Que honra! Faz algum tempo que a senhora não vem nos visitar.

Sentimos sua falta.

Jacques — disse ela, carinhosa. — Eu não iria querer atrapalhar.

Atrapalhar! — repetiu ele rindo. — Como a senhora poderia algum dia me atrapalhar? — Quando criança, Alaïs passava muito tempo na cozinha, observando e aprendendo, a única menina que Jacques jamais havia autorizado a cruzar a soleira de seu território masculino. — O que posso lhe oferecer, dama Alaïs?

— Só um pouco de pão, Jacques; um pouco de vinho também, se puder.

O cenho dele se franziu.

— Perdoe-me, mas a senhora não está indo para o rio, está? Não a esta hora do dia, desacompanhada? Uma dama da sua condição... o dia nem clareou ainda. Andei ouvindo coisas, histórias de...


Alaïs tocou-lhe o braço com a mão.

É bondade sua se preocupar, Jacques, e sei que você só quer o meu bem, mas não vai acontecer nada. Eu lhe dou a minha palavra. Sei exatamente onde estou indo. Vou e volto antes que alguém sequer descubra que saí, juro.

Seu pai sabe?

Ela levou o dedo aos lábios, num gesto conspiratório.

— Você sabe que não, mas por favor guarde segredo. Tomarei muito cuidado.

Jacques não parecia nada convencido, mas, sentindo já ter dito tudo que se atrevia a dizer, não discutiu. Encaminhou-se lentamente até a mesa, enro­lou um pão redondo em um pano branco e ordenou a um ajudante de cozinha que fosse buscar uma jarra de vinho. Alaïs olhava para ele, sentindo o coração apertado. Seus movimentos estavam mais vagarosos ultimamente, e ele man­cava muito com a perna esquerda.

Sua perna ainda o incomoda?

Não muito — mentiu ele.

Posso enfaixá-la para você depois, se quiser. Não parece que esse corte está cicatrizando como deveria.

Não está tão ruim assim.

Usou o ungüento que fiz para você? — perguntou ela, sabendo pela expressão no rosto dele que a resposta era não.

Jacques abriu as mãos gorduchas no gesto de quem se rende.

Há tanto o que fazer, dama... todos esses convidados, centenas contando os criados, cavalariços, pajens, damas de companhia, sem falar nos cônsules e suas famílias. E hoje em dia tantas coisas são difíceis de encontrar. Veja a senhora que ontem mesmo eu mandei...

Tudo isso é verdade, Jacques — disse Alaïs —, mas a sua perna não vai ficar boa sozinha. O corte foi profundo demais.

Ela subitamente se deu conta de que o nível do barulho diminuíra. Levan­tou os olhos e viu que a cozinha inteira escutava a conversa dos dois. Os meninos mais jovens, de cotovelos apoiados na mesa, assistiam boquiabertos a seu patrão de pavio curto levar um pito. E de uma mulher.

Fingindo não ter percebido, Alaïs baixou a voz.

— Por que não volto mais tarde para fazer o curativo, para lhe agradecer por isto? — Ela indicou o pão com um tapinha. — Pode ser o nosso segredo, oc? Uma troca justa?

Por um instante, temeu ter sido íntima demais ao prever a reação dele. Mas, depois de um instante de hesitação, Jacques deu um sorriso.

— Ben — disse ela. — Voltarei quando o sol estiver alto e cuidarei disso.

Dins d'abord. — Em breve.


Enquanto Alaïs deixava a cozinha e tornava a subir as escadas, ouviu Jacques berrando com todo mundo para parar de encará-lo e voltar ao traba­lho, fingindo que a interrupção nunca acontecera. Ela sorriu.

Tudo estava como devia estar.

Alaïs abriu a pesada porta que dava para o pátio principal e saiu para o dia que acabara de nascer.

As folhas do olmo que ficava no centro do pátio fechado, debaixo do qual o visconde Trencavel dispensava sua justiça, pareciam negras contra o céu da noite que se ia. Seus galhos estavam coalhados de cotovias e carriças, e os cantos dos pássaros ressoavam agudos e límpidos na aurora.

O avô de Raymond-Roger Trencavel havia construído o Château Comtal mais de cem anos antes, uma sede de onde governar seus territórios cada vez mais extensos. Suas terras iam de Albi no norte a Narbonne no sul, de Béziers no leste a Carcassonne no oeste.

O Château dispunha-se ao redor de um grande pátio retangular, e havia incorporado, na ala oeste, os restos de um castelo mais antigo. Estava integra­do ao reforço da seção ocidental dos muros fortificados que cercavam a Cité, um anel de pedra sólida que se erguia bem alto acima do rio Aude e das terras pantanosas do norte logo abaixo.

O donjon, onde os cônsules se reuniam e documentos importantes eram assinados, ficava no canto sudoeste do pátio e era muito bem guardado. A luz mortiça, Alaïs pôde ver algo escorado junto ao muro exterior. Olhou com mais atenção e percebeu que era um cachorro, enroscado no chão, dormindo. Dois meninos, empoleirados como corvos na beirada no viveiro dos gansos, tentavam acordar o animal atirando pedras nele. No silêncio, ela podia ouvir o toc, toc surdo e regular de seus calcanhares batendo contra o cercado de madeira.

Havia dois jeitos de entrar e sair do Château Comtal. O amplo e arqueado Portão Oeste abria-se diretamente para as encostas gramadas que iam dar nas muralhas, e geralmente era mantido fechado. O Portão Leste, pequeno e estreito, ficava escondido entre duas altas torres e conduzia diretamente às ruas da Ciutat, a Cité em si.

A comunicação entre os pisos superiores e inferiores das torres do portão só era possível por meio de escadas de madeira e de uma série de alçapões. Quando menina, um de seus passatempos favoritos era descer e subir entre um pavimento e outro com os garotos da cozinha, tentando se esquivar dos guardas. Alaïs era veloz. Sempre conseguia.


Apertando mais a capa em volta do corpo, cruzou o pátio apressada. Uma vez soado o toque de recolher, os portões fechados para a noite e o guar­da em seu posto, ninguém tinha permissão para passar sem a autorização de seu pai. Embora não fosse cônsul, Bertrand Pelletier ocupava uma posição única e privilegiada na casa. Poucos ousavam desobedecê-lo.

Ele sempre desaprovara o hábito da filha de sair da Cité de manhã cedinho. Naqueles dias, fazia questão ainda maior de que ela ficasse dentro dos muros do Château durante a noite. Ela imaginava que seu marido pensasse o mesmo, embora Guilhem nunca lhe tivesse dito nada. Mas era apenas na imobilidade e no anonimato da aurora, livre das restrições e limitações da casa, que Alaïs sentia-se de fato ela mesma. Não era filha de ninguém, irmã de ninguém, mulher de ninguém. Bem no fundo, sempre havia acreditado que seu pai entendia. Por mais que lhe desagradasse desobedecê-lo, ela não queria abrir mão daqueles momentos de liberdade.

A maioria dos guardas noturnos fingia não ver suas idas e vindas. Pelo menos sempre fora assim. Desde que rumores de guerra haviam começado a circular, a guarnição ficara mais cuidadosa. À primeira vista, a vida seguia praticamente igual, e embora refugiados chegassem à Cité de tempos em tem­pos, suas histórias de ataques ou de perseguição religiosa não pareciam nada fora do comum para Alaïs. Atacantes que surgiam não se sabia de onde e abatiam-se como o relâmpago no verão, desaparecendo em seguida, eram fa­tos da vida para qualquer pessoa que vivesse fora da segurança de uma aldeia ou cidade fortificadas. As histórias não pareciam nada diferentes do habitual, nem para melhor nem para pior.

Guilhem não parecia particularmente perturbado pelos boatos sobre um conflito, pelo menos até onde ela podia perceber. Ele nunca conversava com ela sobre essas coisas. Oriane, porém, afirmava que um exército francês de cruzados e religiosos estava se preparando para atacar as terras do Pays d'Oc. Além disso, ela afirmava que a campanha tinha o apoio do papa e do rei da França. Alaïs sabia por experiência que muito do que Oriane dizia tinha como única intenção aborrecê-la. Mesmo assim, sua irmã parecia saber coisas antes de qualquer outra pessoa na casa, e não se podia negar que o número de men­sagens que entravam e saíam do Château aumentava a cada dia. Também era inegável que as rugas de preocupação no rosto de seu pai estavam mais profun­das e mais escuras, e as cavidades em suas bochechas, mais acentuadas.

Os sirjans d'arms de guarda no Portão Leste estavam alertas, embora seus olhos estivessem orlados de vermelho depois da longa noite. Os capacetes qua­drados de prata estavam posicionados bem alto em suas cabeças, e suas cotas de malha pareciam opacas à pálida luz da aurora. Com os escudos pendurados desleixadamente nos ombros e as espadas embainhadas, pareciam mais pron­tos para a cama do que para a batalha.

Quando chegou mais perto, Alaïs ficou aliviada ao reconhecer Bérenger. Ao ver que era ela, ele deu um sorriso e inclinou a cabeça.

Bonjorn, dama Alaïs. Acordou cedo hoje.

Ela sorriu.

Não estava conseguindo dormir.

— Aquele seu marido não consegue pensar em nada para ocupar suas noites? — perguntou o outro com uma piscadela marota. Seu rosto era marca­do de varíola e as unhas de seus dedos estavam roídas e sangravam. Seu hálito recendia a comida rançosa e cerveja.

Alaïs o ignorou.

Como vai sua mulher, Bérenger?

Vai bem, dama. Praticamente voltou ao que era antes.

E seu filho?

Cada dia maior. Vai comer a casa inteira se não tomarmos cuidado!

Parece que ele tem a quem puxar! — disse ela, espetando com um dedo a avantajada barriga do homem.

É exatamente o que minha mulher diz.

Mande-lhe minhas lembranças, Bérenger, sim?

Ela ficará feliz por ser lembrada, dama. — Ele fez uma pausa. — Imagino que queira que eu a deixe passar?

Vou só até a Ciutat, talvez até o rio. Não vou demorar.

Temos ordens para não deixar passar ninguém — rosnou seu compa­nheiro. — Ordens do intendente Pelletier.

Ninguém perguntou nada a você — disparou Bérenger. — Não é isso, dama — disse, baixando a voz. — Mas a senhora sabe como estão as coisas agora. E se alguma coisa acontecer com a senhora e souberem que fui eu quem a deixei passar, seu pai...

Alaïs tocou-lhe o braço.

— Eu sei, eu sei — disse baixinho. — Mas não há por que se preocupar, não mesmo. Eu sei me cuidar. Além disso... — Ela deixou os olhos se bandearem em direção ao outro guarda, que agora limpava o nariz e secava os dedos na manga. — ...que perigos eu poderia encontrar no rio que sejam piores do que os que você enfrenta aqui?

Bérenger riu.

— Prometa-me que tomará cuidado, P.

Alaïs aquiesceu, abrindo uma nesga da capa para mostrar-lhe a faca de caça na cintura.

— Sim, dou-lhe minha palavra.


Havia duas portas para atravessar. Bérenger as destrancou uma por uma, depois levantou a grande tora de carvalho que bloqueava a porta externa e a abriu apenas o suficiente para deixar Alaïs passar. Sorrindo em agradecimento ela se esgueirou por baixo do braço dele e saiu para o mundo.

 

Quando emergiu das sombras entre as torres do portão, Alaïs sentiu o coração mais leve. Estava livre. Pelo menos por algum tempo.

Uma passarela de madeira móvel ligava o portão à ponte de pedra pla­na que levava do Château Comtal às ruas de Carcassona. A grama no fosso seco lá embaixo da ponte reluzia com o orvalho na luz púrpura cintilante. Ainda havia lua, embora ela estivesse desaparecendo à medida que a aurora progredia.

Alaïs caminhava depressa, a capa imprimindo desenhos circulares na poei­ra do chão, querendo evitar as perguntas dos guardas a postos no outro extremo da ponte. Teve sorte. Eles estavam cochilando e não a viram passar. Ela percor­reu apressada o terreno aberto e embrenhou-se em uma rede de becos estreitos, rumo a um pequeno portão ao lado da Tour du Moulin d'Avar, a parte mais antiga das muralhas. O portão dava diretamente para as hortas e os faratjals, os pastos que ocupavam as terras em torno da Cité e do subúrbio setentrional de Sant-Vicens. Naquela hora do dia, era o caminho mais rápido para chegar ao rio sem ser visto.

Levantando as saias, Alaïs passou com cautela pelos vestígios de mais uma noite de excessos na taberna Sant-Joan dels Evangèlis. Maçãs amassadas, pêras comidas pela metade, ossos roídos ainda com restos de carne e tonéis de cerveja quebrados jaziam espalhados pelo chão. Um pouco mais adiante, um mendigo dormia encolhido na soleira de uma porta, o braço descansando sobre um velho cão imenso e molhado. Três homens estavam jogados ao pé do poço, resmungando e roncando alto o bastante para silenciar o canto dos pássaros.

A sentinela de guarda no portão estava um caco, tossindo e pigarreando, enrolado na capa de modo que apenas a ponta do nariz e as sobrancelhas estavam visíveis. Ele não queria ser incomodado. No início, sequer se dignou a tomar conhecimento da presença de Alaïs. Ela enfiou a mão na bolsa e tirou uma moeda. Sem ao menos olhar para ela, ele arrebatou o dinheiro com a mão suja, testou sua dureza entre os dentes e em seguida soltou os trincos e abriu uma nesga do portão para deixá-la passar.

O caminho que descia até o barbacã era íngreme e pedregoso. Estendia-se entre duas altas cercas protetoras de madeira, e era difícil ver qualquer coisa. Mas Alaïs fizera muitas vezes esse caminho para sair da Cité, conhecia cada declive e cada elevação do terreno, e desceu sem dificuldade. Margeou o pé da torre baixa e redonda feita de madeira, seguindo o caminho da água que corria veloz, como em um moinho, passando pelo meio do barbacã.

Arbustos arranhavam suas pernas e espinhos puxavam o fio de seu vesti­do. Quando chegou lá embaixo, a bainha de sua capa tinha uma cor vermelha escura, encharcada pelo contato com a grama. O bico de seus chinelos de couro também estava manchado de escuro.

No instante em que pôs o pé para fora da sombra da paliçada e entrou no mundo amplo e aberto, Alaïs sentiu-se mais animada. Ao longe, a bruma branca de julho pairava sobre a Montagne Noire. O sol que surgia no horizonte esta­va transpassado de cor de rosa e roxo.

Em pé, contemplando a colcha de retalhos perfeita formada por campos de cevada, milho e trigo e as florestas que se estendiam até onde seu olho alcançava, Alaïs sentiu a presença do passado à toda sua volta, a envolvê-la. Espíritos, amigos e fantasmas que estendiam as mãos e sussurravam histórias sobre suas vidas, compartilhando com ela seus segredos. Eles a conectavam a todos aqueles que já haviam pisado naquelas colinas — e todos que ainda pisariam ali — sonhando com o que a vida lhes reservava.

Alaïs nunca havia saído das terras do visconde Trencavel. Achava difícil imaginar as cidades cinzentas do norte, Paris, Amiens ou Chartres, onde nas­cera sua mãe. Eram apenas nomes, palavras sem cor nem calor, duras como a língua que falavam lá, a langue d'oil. Mas embora tivesse pouca coisa a que compará-la, não podia acreditar que houvesse algum lugar tão bonito quanto a imutável e eterna paisagem de Carcassona.

Alaïs começou a descer a colina, costurando seu caminho entre os áspe­ros arbustos e a vegetação rasteira até chegar aos brejos planos das margens meridionais do rio Aude. Suas saias encharcadas colavam-se à parte de trás de suas pernas, e ela tropeçava de vez em quando. Sentia-se pouco à vontade, percebeu, atenta, e caminhava mais depressa que o habitual. Não que Jacques ou Bérenger a tivessem alarmado, disse a si mesma. Eles sempre ficavam preo­cupados por sua causa. Mas nesse dia ela se sentia isolada e vulnerável.

Sua mão moveu-se até a adaga em sua cintura, e ela se lembrou da histó­ria do mercador que alegava ter visto um lobo na margem oposta, na semana anterior. Todos pensavam que ele estivesse exagerando. Nessa época do ano, provavelmente não passava de uma raposa ou de um cão selvagem. Mas, agora que ela estava ali sozinha, a história parecia mais plausível. O cabo frio da adaga a reconfortou.

Por um instante, Alaïs sentiu-se tentada a dar meia volta. Não seja tão covarde. Continuou. Virou-se para trás uma ou duas vezes, espantada por sons próximos que se revelaram nada mais do que o bater das asas de um pássaro ou o deslizar e mergulhar de uma enguia de rio amarela nas águas rasas.

Aos poucos, à medida que percorria seu caminho habitual, seu nervo­sismo foi se dissipando. O rio Aude era largo e raso, com vários afluentes desaguando nele, como veias nas costas da mão de uma pessoa. Uma bruma de aurora tremeluzia, cintilante, acima da superfície da água. Durante o inverno, o rio corria veloz e furioso, inchado pelas nascentes geladas vindas da montanha. Mas aquele verão fora seco, então a água estava baixa e parada. Os moinhos de sal mal se mexiam com a corrente. Amarrados à margem com cordas grossas, eles formavam uma espinha dorsal de madeira no centro do rio.

Era cedo demais para as moscas e mosquitos que formariam nuvens escuras sobre as poças à medida que o calor aumentasse, então Alaïs pegou o atalho pelo lodaçal. O caminho era marcado por montinhos de pedras bran­cas para ajudar as pessoas a não escorregarem para dentro da lama traiçoeira. Ela o seguiu com cuidado até chegar à orla da floresta que ficava imediata­mente abaixo da parte ocidental dos muros da Cité.

Seu destino era uma clareira pequena e escondida, onde as melhores plantas cresciam na parte rasa semi-sombreada do rio. Assim que chegou ao abrigo das árvores, Alaïs diminuiu o ritmo e começou a aproveitar. Afastou os ramos de hera que impediam sua passagem e inalou o aroma forte, terroso das folhas e do musgo.

Embora não houvesse sinal de atividade humana, a floresta estava repleta de cores e sons. O ar enchia-se dos gorjeios e trinados de estorninhos, carriças e pintarroxos. Galhos e folhas estalavam e se partiam sob seus pés. Coelhos corriam rente ao chão, o rabo branco saltitando enquanto procuravam abrigo entre os grupos de flores amarelas, roxas e azuis. Bem no alto dos longos ga­lhos dos pinheiros, esquilos de pêlo vermelho despedaçavam as pinhas, fazen­do cair agulhas finas e cheirosas no chão embaixo das árvores.

Quando chegou à clareira, pequena ilha de terra com um espaço aber­to que conduzia ao rio, Alaïs estava com calor. Aliviada, largou seu panièr, esfregando a parte interna do cotovelo onde a alça havia marcado a pele. Retirou a pesada capa e a pendurou no galho baixo de um salgueiro branco, antes de enxugar o rosto e o pescoço com um lenço. Pôs o vinho em um buraco no tronco da árvore para mantê-lo fresco.

Os imponentes muros do Château Comtal erguiam-se altos acima dela. O contorno conhecido, alto e esguio da Tour Pinte destacava-se contra o céu pálido. Alaïs perguntou-se se seu pai estaria acordado, já sentado com o vis­conde em seus aposentos particulares. Seus olhos desviaram-se para a esquerda da torre de observação, à procura de sua própria janela. Guilhem ainda estaria dormindo? Ou teria acordado e descoberto que ela havia saído?

Sempre que ela levantava os olhos e olhava através do toldo verde formado pelas folhas, admirava-se que a Cité ficasse tão perto dali. Dois mundos diferen­tes em intenso contraste. Lá dentro, nas ruas e corredores do Château Comtal, tudo era barulho e atividade. Não havia paz. Ali embaixo, no reino das criaturas das matas e dos pântanos, reinava um silêncio profundo e imemorial.

Era ali que ela se sentia em casa.

Alaïs descalçou os chinelos de couro. Sentiu a grama deliciosamente fres­ca entre seus dedos, ainda molhada do orvalho da manhã, fazendo cócegas nas solas de seus pés. Com o prazer daquele instante, qualquer pensamento sobre a Cité e sua casa desapareceu de sua mente.

Ela levou as ferramentas até a beira d'água. Um pé de angélica crescia na parte rasa onde o rio terminava. Seus caules fortes e cilíndricos pareciam uma fileira de soldados de brinquedo em posição de sentido no chão lamacento. Suas folhas verdes brilhantes — algumas maiores do que a sua mão — lança­vam uma leve sombra sobre a água.

Nada melhor do que angélica para purificar o sangue e proteger contra infecções. Sua amiga e mentora, Esclarmonde, havia lhe ensinado com muita insistência o quanto era importante recolher ingredientes para compressas, medicamentos e remédios onde e quando quer que os encontrasse. Mesmo que a Cité naqueles dias estivesse livre de infecções, quem poderia dizer o que traria o amanhã? Moléstias e doenças podiam atacar a qualquer momento. Como tudo que Esclarmonde lhe dizia, era um bom conselho.

Arregaçando as mangas, Alaïs virou a bainha da faca até ela ficar rente a suas costas, para não atrapalhá-la. Enrolou os cabelos em uma trança para impedir que caíssem sobre seu rosto enquanto trabalhava, depois prendeu as saias do vestido no corpete antes de entrar no rio. O súbito frio em seus torno­zelos arrepiou sua pele e a fez ofegar.

Alaïs molhou as tiras de pano na água e as arrumou em uma fileira na margem, em seguida começou a cavar as raízes com sua pazinha. A primei­ra planta não demorou a se desprender do fundo do rio com um som úmi­do. Levando-a até a margem, ela usou o pequeno machado para cortá-la em várias partes. Enrolou as raízes no pano e as arrumou deitadas no fundo do panièr, depois enrolou as pequenas flores amarelo-esverdeadas, com seu cheiro apimentado característico, em um pano separado, e colocou-as na sacola de couro. Descartou as folhas e o resto dos caules antes de tornar a entrar na água e começar tudo de novo. Logo suas mãos estavam manchadas de verde e seus braços cobertos de lama.

Depois de colher a angélica, Alaïs olhou em volta para ver se havia mais alguma coisa que pudesse usar. Um pouco mais acima do rio, viu um pé de confrei, com suas folhas estranhas e características que brotavam do próprio caule e seus cachos de flores cor-de-rosa e roxas em formato de sino. O confrei, ou erva-do-cardeal, como a maioria das pessoas chamava a plan­ta, era bom para reduzir hematomas e ajudar a curar pele e osso. Adiando seu café-da-manhã só mais um pouco, Alaïs pegou as ferramentas e voltou ao trabalho, só parando quando o panièr estava cheio e todas as tiras de pano haviam sido usadas.

Levando o cesto mais para cima da margem, sentou-se debaixo das árvo­res e esticou as pernas na frente do corpo. Suas costas, ombros e dedos estavam doloridos, mas ela estava satisfeita com seu trabalho. Abaixou-se e retirou o jarro de vinho de Jacques do buraco da árvore. A rolha se soltou com um leve estalo. Alaïs estremeceu um pouco ao sentir o líquido fresco se derramar sobre sua língua e descer por sua garganta. Então desembrulhou o pão fresco e ar­rancou um grande naco. O gosto era uma estranha mistura de trigo, sal, água de rio e grama, mas ela estava faminta. Era das melhores refeições que ela jamais havia comido.

O céu agora tinha um azul pálido, da cor do miosótis. Alaïs sabia que devia fazer um bom tempo desde que saíra do castelo. No entanto, ao olhar a luz dourada do sol dançar sobre a superfície da água e sentir o sopro do vento na pele, relutava em voltar para as ruas movimentadas e barulhentas de Carcassonne e para os espaços confinados de sua casa. Dizendo a si mesma que alguns instantes a mais não poderiam fazer mal, Alaïs deitou-se na grama e fechou os olhos.

Foi acordada pelo som de um pássaro gritando.

Alaïs sentou-se num pulo. Ao levantar os olhos para a colcha de retalhos formada pela luz que batia entre as folhas, não conseguiu se lembrar de onde estava. Então todas as lembranças voltaram.

Ela se pôs de pé, em pânico. O sol agora estava alto em um céu sem nenhuma nuvem. Ela ficara fora tempo demais. Aquela altura, sem dúvida teriam dado por sua falta.

Apressando-se para arrumar suas coisas o mais rápido possível, Alaïs enxaguou as ferramentas no rio sem muito capricho e salpicou água sobre as tiras de pano para manter as plantas úmidas. Estava prestes a virar as costas quando algo emaranhado nas plantas aquáticas chamou sua atenção. Parecia um toco de árvore ou um tronco. Alaïs protegeu os olhos do sol, perguntando-se como não tinha visto aquilo antes.

O objeto se movia com demasiada fluidez, acompanhando a corrente lânguido demais para ser algo sólido como casca de árvore ou madeira. Alaïs chegou mais perto.

Agora podia ver que era um pedaço de material pesado e escuro, inchado pela água. Depois de hesitar por um instante, sua curiosidade a dominou e ela entrou novamente no rio, dessa vez indo além da parte mais rasa até as águas mais fundas que corriam rápidas e escuras no centro do leito. Quanto mais longe ia, mais fria ficava a água. Alaïs esforçou-se para manter o equilíbrio. Enterrou os dedos dos pés mais fundo na lama que chapinhava enquanto a água batia em suas coxas finas e brancas e em suas saias.

Logo depois da metade do rio, parou, com o coração aos pulos e as palmas das mãos subitamente suadas de medo agora que conseguia ver com mais clareza.

— Payre Sant. — Santo Pai. As palavras saltaram-lhe aos lábios inconscientemente.

O corpo de um homem flutuava de bruços na água, a capa desdobrando-se à sua volta como um leque. Alaïs engoliu em seco. Ele vestia um casaco de gola alta de veludo marrom, debruado com uma fita de seda preta e arremata­do por um fio de ouro. Ela podia ver o brilho de uma corrente ou pulseira de ouro debaixo d'água. A cabeça do homem estava descoberta, então ela pôde ver que seus cabelos eram encaracolados e negros, salpicados de fios grisalhos. Ele parecia estar usando algo em volta do pescoço, uma espécie de trança cor de carmim, uma fita.

Ela deu mais um passo em sua direção. Seu primeiro pensamento foi que ele provavelmente pisara em falso, no escuro, escorregara no rio e se afogara. Ela estava prestes a estender a mão quando alguma coisa na maneira como sua cabeça boiava na água a deteve. Ela respirou fundo, fascinada pelo cadáver intumescido. Vira um homem afogado certa vez. Inchada e distorcida, a pele marcada do marinheiro estava manchada de azul e roxo, como um hematoma antigo. Aquilo era diferente, havia algo errado.

Parecia que a vida daquele homem já o havia deixado antes de ele entrar na água. Suas mãos sem vida estavam esticadas à sua frente, como se ele tentas­se nadar. O braço esquerdo boiava na direção dela, levado pela corrente. Algo brilhante, algo colorido logo abaixo da superfície atraiu seu olhar. Havia uma lesão, irregular e desigual, como um sinal de nascença, vermelha contra a pele branca e inchada em volta do lugar onde seu polegar deveria ter estado. Ela olhou para seu pescoço.

Alaïs sentiu os joelhos cederem.

Tudo começou a se mover em câmera lenta, projetando-se e ondulando como a superfície de um mar agitado. A linha irregular cor de carmim que ela tomara por uma gola ou uma fita era um corte brutal, profundo. Ia de trás da orelha esquerda do homem até debaixo de seu queixo, quase separando a cabe­ça do corpo. Pedaços de pele cortada, que a água tornara verdes, ondulavam ao redor do corte. Pequenos peixes-reis e sanguessugas, negras e dilatadas, banqueteavam-se ao longo do ferimento.

Por um instante, Alaïs pensou que seu coração havia parado de bater. En­tão o choque e o medo a atingiram em igual proporção. Ela se virou e começou a correr pela água, escorregando, deslizando na lama, o instinto lhe dizendo para se afastar o máximo possível daquele corpo. Já estava encharcada da cintura para baixo. Seu vestido, deformado e pesado por causa da água, emaranhava-se em suas pernas, quase fazendo-a afundar.

O rio pareceu-lhe duas vezes mais largo do que antes, mas ela seguiu em frente, conseguindo chegar à segurança da margem antes de ser dominada pela náusea e vomitar com violência. Vinho, pão ainda não digerido, água de rio.

Meio rastejando, meio arrastando-se de quatro, ela conseguiu subir mais pela margem antes de desabar no chão à sombra das árvores. Sua cabe­ça rodava, sua boca estava seca e com um gosto amargo, mas ela precisava sair dali. Alaïs tentou se levantar, mas suas pernas pareciam ocas e não a sustentavam. Tentando não chorar, limpou a boca com as costas da mão trêmula, depois tentou novamente se levantar, usando o tronco da árvore como apoio.

Dessa vez conseguiu ficar de pé. Arrancando a capa da árvore com dedos desesperados, Alaïs conseguiu enfiar os pés imundos nos chinelos. Então, dei­xando todo o resto para trás, começou a correr de volta pela floresta como se o próprio diabo estivesse em seu encalço.

O calor atingiu Alaïs no instante em que ela emergiu das árvores para o pânta­no aberto. O sol beliscava suas bochechas e seu pescoço, pinicando-a. O calor havia trazido os insetos e mosquitos, que voejavam em enxames por cima das poças à beira do caminho, e Alaïs seguia em frente aos tropeços, atravessando a paisagem inóspita.

Suas pernas exaustas quase gritavam em protesto e sua respiração ardia, entrecortada, em sua garganta e peito, mas ela continuou correndo, correndo.


Tudo que tinha consciência era da necessidade de fugir para o mais longe possível daquele corpo, e de contar para seu pai.

Em vez de voltar pelo caminho por onde viera, que poderia estar tranca­do, Alaïs dirigiu-se instintivamente para Sant-Vicens e a Porte de Rodez, que ligava esse subúrbio a Carcassonne.

As ruas estavam movimentadas e Alaïs precisou empurrar as pessoas para passar. O murmúrio e o zumbido do mundo que tomava vida iam ficando cada vez mais altos, mais intrusivos, conforme ela chegava mais perto da entrada da Cité. Alaïs tentou tapar os ouvidos e pensar apenas em chegar ao portão. Rezan­do para que suas pernas não cedessem, foi abrindo caminho até mais à frente.

Uma mulher bateu em seu ombro.

— Sua cabeça, dama — disse baixinho. A voz era gentil, mas parecia estar vindo de muito longe.

Percebendo que seus cabelos estavam soltos e despenteados, Alaïs pôs a capa sobre os ombros e ergueu o capuz, com mãos que tremiam tanto de exaustão quanto de choque. Seguiu em frente, cobrindo a frente do vestido com o tecido, esperando assim esconder as manchas de lama, vômito e plantas aquáticas.

Todos empurravam, corriam, gritavam. Alaïs pensou que fosse desmaiar. Estendeu a mão e se apoiou no muro. Os guardas de plantão na Porte de Rodez deixavam passar a maioria dos habitantes locais sem perguntar nada, mas pa­ravam vagabundos e pedintes, ciganos, sarracenos e judeus, perguntando-lhes o que vinham fazer em Carcassonne e revistando seus pertences com mais brutalidade do que era necessário até receberem alguma pequena jarra de cer­veja ou moedas e passarem para a vítima seguinte.

Deixaram Alaïs passar sem mal olhar para ela.

As ruas estreitas da Cité agora estavam repletas de vendedores ambulan­tes, mercadores, animais, soldados, ferreiros, jongleurs, mulheres de cônsules e seus criados e pregadores. Alaïs manteve a cabeça baixa como se estivesse cami­nhando na direção contrária de um cruel vento do norte, sem querer que a reconhecessem.

Finalmente, viu o conhecido contorno da Tour du Major, seguida pela Tour des Casernes, e depois as torres duplas do Portão Leste quando o Château Comtal tornou-se completamente visível.

O alívio fechou sua garganta. Lágrimas de desespero brotaram de seus olhos. Furiosa com a própria fraqueza, Alaïs mordeu o lábio com força, fazen­do-o sangrar. Sentia vergonha por estar tão abalada e estava determinada a não se humilhar ainda mais chorando em um lugar onde sua falta de coragem pudesse ser presenciada.

Tudo que queria era seu pai.

 

O intendente Pelletier estava em um dos armazéns nos porões junto à cozinha, onde acabara de concluir sua verificação semanal dos estoques de grãos e farinha. Ficara aliviado ao constatar que nenhuma parte do estoque estava mofada.

Fazia mais de 18 anos que Bertand Pelletier servia ao visconde Trencavel. Fora no início do gelado ano novo de 1191 que ele havia sido convocado para voltar a sua Carcassonne natal para assumir o cargo de intendant— adminis­trador, intendente — junto ao herdeiro das propriedades da família Trencavel, Raymond-Roger, então com nove anos de idade. Já estava esperando esse re­cado e voltara de bom grado, trazendo consigo a mulher francesa grávida e a filha de dois anos. Nunca havia gostado do frio e da umidade de Chartres. O que encontrara ali fora um menino mais maduro do que sua idade, chorando a morte dos pais e lutando para assumir a responsabilidade depositada em seus ombros jovens.

Desde então, Bertrand servira ao visconde Trencavel, primeiro na casa do tutor de Raymond-Roger, Bertrand de Saissac, depois sob a proteção do conde de Foix. Quando Raymond-Roger atingiu a maioridade e voltou ao Château Comtal para assumir seu lugar de direito como visconde de Carcas­sonne, Béziers e Albi, Pelletier estava ao seu lado.

Como intendente, Pelletier era responsável pelo funcionamento da casa do nobre. Também cuidava da administração, da justiça e da cobrança de taxas feita em nome do visconde pelos cônsules que governavam Carcassonne. O mais importante, porém, era que ele era o notório confidente, conselheiro e amigo do visconde. Sua influência não tinha par.

O Château Comtal estava lotado de convidados importantes, e mais deles chegavam a cada dia. Os seigneurs dos mais importantes châteaux dentro do território de Trencavel e suas mulheres, bem como os mais valorosos e mais célebres chevaliers do Midi. Os melhores menestréis e trovadores haviam sido convidados para a tradicional Justa de Verão para celebrar o dia festivo de Sant-Nasari, no final de julho. Visto que a sombra da guerra já pairava acima de suas cabeças havia um ano ou mais, o visconde estava decidido a que seus convivas se divertissem e que aquele fosse o torneio mais memorável de seu governo.

Por sua vez, Pelletier estava determinado a que nada fosse deixado ao acaso. Trancou a porta do depósito de grãos com uma das muitas pesadas chaves que carregava em uma argola de metal em volta da cintura e começou a descer o corredor.

— Agora o depósito de vinho — disse ele a seu criado, François. — O último barril estava azedo.

Pelletier foi descendo o corredor, parando para olhar outros cômodos pelos quais passavam. O depósito de roupa de cama e mesa recendia a lavanda e tomilho, e estava vazio, como se esperasse a chegada de alguém para trazê-lo de volta à vida.

Essas toalhas estão lavadas e prontas para a mesa?

Oc, messire.

No porão em frente ao depósito de vinho no pé da escada, homens salga­vam pedaços de carne dentro de uma caixa. Alguns eram presos aos ganchos de metal pendurados no teto. Outros eram guardados em barris por mais um dia. Em um canto, um homem enfiava cogumelos, alhos e cebolas em barban­tes e os pendurava para secar.

Quando Pelletier entrou, todos pararam o que estavam fazendo e fize­ram silêncio. Alguns dos criados mais jovens se levantaram desajeitadamente. Ele não disse nada, apenas olhou em volta, absorvendo o cômodo inteiro com seu olhar aguçado antes de aquiescer, aprovando, e seguir em frente.

Pelletier estava destrancando a porta do depósito de vinho quando ouviu gritos e o som de passos correndo pelo chão lá em cima.

Descubra qual é o problema — disse, irritado. — Não consigo trabalhar com esta algazarra.

Messire.

François se virou e subiu as escadas correndo para investigar.

Pelletier abriu a pesada porta e entrou nas adegas frescas e escuras, ina­lando o cheiro conhecido de madeira úmida e o travo azedo de vinho e cerveja derramados. Percorreu os corredores devagar até localizar os tonéis que estava procurando. Pegou uma caneca de cerâmica da bandeja que estava sobre a mesa, depois retirou a rolha do barril. Seus gestos eram cuidadosos e lentos, para não perturbar o equilíbrio dentro do tonel.

Um barulho no corredor do lado de fora fez os cabelos de sua nuca se eriçarem. Ele largou a caneca. Alguém chamava seu nome. Alaïs. Alguma coi­sa havia acontecido.

Pelletier atravessou o aposento e abriu a porta com um empurrão.


Alaïs desceu as escadas desabalada como se uma matilha de cães estivesse em seu encalço, com François correndo atrás.

Ao ver a figura grisalha de seu pai entre os tonéis de vinho e cerveja, Alaïs deu um grito de alívio. Atirou-se nos braços dele e enterrou o rosto marcado de lágrimas em seu peito. Seu cheiro conhecido, reconfortante lhe deu vontade de chorar de novo.

— Pelo amor de Sant-Foy, o que está acontecendo? O que aconteceu com você? Está machucada? Fale.

Ela pôde ouvir a preocupação na voz do pai. Afastou-se um pouco e tentou falar, mas as palavras ficaram presas em sua garganta e não saíam.

—Pai, eu...

Os olhos dele pareciam querer fazer muitas perguntas enquanto olhava para a aparência desarrumada dela e para suas roupas manchadas. Ele ergueu os olhos para François, por cima da cabeça da filha, em busca de uma explicação.

Encontrei dama Alaïs assim, messire.

E ela não disse nada sobre a causa deste... sobre o motivo de sua aflição?

Não, messire. Só que precisava falar com o senhor sem demora.

Muito bem. Deixe-nos a sós. Eu o chamo se precisar.

Alaïs ouviu a porta se fechar. Então sentiu o peso do braço do pai em volta de seu ombro. Ele a conduziu até o banco que margeava uma das paredes da adega e a fez se sentar.

— Venha, filha — disse, com a voz mais branda. Abaixou a mão e afastou uma mecha de cabelos do rosto dela. — Você não é disso. Diga-me o que aconteceu.

Alaïs fez outra tentativa de se controlar, contrariada pelo fato de estar causando tamanha ansiedade e preocupação ao pai. Esfregou as bochechas sujas com o lenço que ele estendia e secou os olhos.

Beba isto — disse ele, pondo uma caneca de vinho em sua mão antes de sentar-se ao seu lado. A madeira antiga curvou-se e rangeu sob seu peso. — François foi embora. Não há ninguém aqui a não ser nós dois. Você precisa parar com isso e me dizer o que aconteceu para deixá-la tão aflita. Foi Guilhem?

Ele fez alguma coisa que a incomodou? Porque, se fez, eu dou minha palavra a você de que vou...

Não tem nada a ver com Guilhem, paire — disse Alaïs depressa. — Não tem nada a ver com ninguém...

Ela levantou os olhos para ele, depois tornou a baixá-los, envergonhada, humilhada por estar sentada na frente do pai naquele estado.


— Então o que foi? — insistiu ele. — Como posso ajudar você se não me diz o que aconteceu?

Ela engoliu em seco, sentindo-se culpada e chocada. Não sabia como começar.

Pelletier segurou as mãos dela entre as suas.

— Você está tremendo, Alaïs. — Ela pôde ouvir a preocupação e o afeto em sua voz, o esforço que ele fazia para manter seu medo sob controle. — E olhe para suas roupas — disse ele, levantando a barra de seu vestido entre os dedos. — Molhadas. Cobertas de lama.

Alaïs podia ver o quanto ele estava cansado, preocupado. Estava pas­mo diante do estado da filha, por mais que tentasse esconder. As rugas de sua testa pareciam sulcos. Como ela não tinha percebido antes que seus cabelos agora estavam salpicados de cinza nas têmporas?

— Eu nunca a vi sem palavras antes — disse ele, tentando tirá-la de seu silêncio. — Você precisa me contar o que houve, e. Sua expressão era tão cheia de amor e confiança que tocou o coração de Alaïs.

— Tenho medo que o senhor fique zangado, paire. Na verdade, teria motivo para ficar.

A expressão dele ficou mais séria, mas ele manteve o sorriso no lugar.

— Prometo que não vou brigar com você, Alaïs. Agora, vamos. Fale.

Mesmo se eu lhe disser que fui ao rio?

Ele hesitou, mas sua voz não vacilou.

Mesmo assim.

Quanto antes se fala, mais cedo se cura. Alaïs uniu as mãos no colo.

Hoje de manhã, logo depois do dia nascer, desci até o rio, até um lugar onde sempre vou colher plantas.

Sozinha?

Sozinha, sim — disse ela, encarando-o. — Eu sei que prometi ao senhor, paire, e peço-lhe perdão pela minha desobediência.

A pé? — Ela assentiu e esperou o sinal dele para continuar.

Fiquei lá por algum tempo. Não vi ninguém. Quando estava juntando minhas coisas para ir embora, percebi o que pensei ser uma trouxa de roupas na água, roupas de boa qualidade. Na verdade... —Alaïs interrompeu mais uma vez seu relato, sentindo o rosto empalidecer. — A verdade é que era um cadáver. Um homem, bastante velho. Cabelos escuros encaracolados. No início pensei que ele tivesse se afogado. Não conseguia ver direito. Então vi que sua garganta tinha sido cortada.


Os ombros dele se retesaram.

— Você não tocou no corpo?

Alaïs negou com a cabeça.

— Não, mas... — Baixou os olhos, encabulada. — Com o choque de encontrá-lo, acho que perdi a cabeça e saí correndo, deixando tudo para trás.

Tudo que eu queria era ir embora dali e contar ao senhor o que tinha visto.

O cenho dele estava novamente franzido.

E você não viu ninguém?

Vivalma. Estava completamente deserto. Mas, quando eu vi o corpo,comecei a ter medo de que os homens que o haviam matado ainda estivessem ali por perto. — A voz dela estremeceu. — Imaginei que podia sentir os olhos deles em mim, a me observar. Ou pelo menos foi o que pensei.

Então você não foi ferida de nenhuma forma? — perguntou ele com cuidado, escolhendo as palavras deliberadamente. — Ninguém a molestou de nenhuma forma? Ninguém a machucou?

O fato de que ela entendia o que ele estava perguntando ficou claro quando suas faces coraram subitamente.

— Nada em mim foi afetado a não ser o meu orgulho e... a perda da sua confiança.

Ela viu o alívio espalhar-se pelo rosto do pai. Ele sorriu e, pela primeira vez desde que a conversa começara, o sorriso chegou a seus olhos.

— Bem — disse ele, respirando devagar. — Por enquanto não vamos nos preocupar com a sua falta de cuidado, Alaïs, com o fato de ter me desobedeci­do... Deixando isso de lado, você fez a coisa certa ao me contar o que aconteceu.

— Ele estendeu a mão e segurou as dela, seu aperto de gigante cobrindo inteira­mente os dedos pequenos e finos da filha. Sua pele parecia couro curtido.

Alaïs sorriu, grata pelo adiamento de seu castigo.

— Desculpe, paire. Eu queria manter minha promessa, mas é que...

Ele desdenhou o pedido de desculpas com um aceno.

— Não vamos mais falar sobre isso. Quanto a esse infeliz, não há o que fazer. Os bandidos já foram embora há muito tempo. Seria improvável eles ficarem por perto correndo o risco de serem descobertos.

Alaïs franziu o cenho. Os comentários de seu pai haviam despertado algo que ficara escondido no fundo de sua mente. Ela fechou os olhos. Viu-se em pé na água gelada, hipnotizada pelo corpo.

É isso que é estranho, pai — disse ela devagar. — Não acho que foram bandidos. Eles não levaram seu casaco, que era bonito e parecia valioso.

E ele ainda usava suas jóias. Correntes de ouro em volta do pulso, anéis. Ladrões teriam depenado o corpo.

Você me disse que não tocou no corpo — disse ele, ríspido.


— Não toquei. Mas pude ver suas mãos debaixo d'água, só isso. Jóias.

Tantos anéis, pai. Uma pulseira de ouro feita de correntes interligadas. Outra em volta do pescoço. Por que ladrões deixariam essas coisas?

Alaïs parou de falar ao se lembrar das mãos inchadas e fantasmagóricas do homem se estendendo para tocá-la e, onde deveria ter estado o seu polegar, do sangue e das lascas de osso branco. Sua cabeça começou a rodar. Apoiando-se na parede úmida e fria, Alaïs se forçou a se concentrar na madeira dura do banco onde estava sentada e no cheiro azedo dos tonéis em seu nariz, até a tontura passar.

— Não havia sangue — acrescentou. — Uma ferida aberta, vermelha como um naco de carne. — Ela engoliu em seco. — O polegar estava faltan­do, estava...

Faltando? — disparou ele. — Como assim, faltando?

Alaïs ergueu os olhos, surpresa com a mudança de tom.

O polegar tinha sido arrancado. Cortado no osso.

De que mão, Alaïs? — perguntou ele. Agora já não podia esconder a angústia na voz. — Pense. É importante.

Não tenho...

Ele mal parecia ouvi-la.

Que mão? — insistiu.

A mão esquerda, a esquerda, tenho certeza. Era o lado mais próximo de mim. A cabeça dele apontava para a boca do rio.

Pelletier cruzou o aposento em poucas passadas, gritando por François, e abriu a porta com um solavanco. Alaïs também se pôs de pé depressa, abalada pelo desespero do pai e sem entender o que estava acontecendo.

O que foi? Diga-me, eu lhe imploro. Que diferença faz se era a mão esquerda ou a direita?

Prepare cavalos imediatamente, François. Meu capão baio, a égua cinza de dama Alaïs e uma montaria para você.

A expressão de François se mantinha impassível.

Muito bem, messire. Vamos longe?

Somente até o rio. — Ele dispensou o rapaz com um gesto. — Rápido, homem. E pegue minha espada e uma capa limpa para dama Alaïs. Encontraremos você no poço.

Assim que François não podia mais escutá-los, Alaïs correu para junto do pai. Ele se recusou a encará-la. Em vez disso, tornou a se aproximar dos tonéis e, com a mão trêmula, serviu-se um pouco de vinho. O líquido espesso e vermelho respingou pela borda da caneca de cerâmica e caiu sobre a mesa, manchando a madeira.


Paire — suplicou ela. — Diga-me o que está acontecendo. Por que você tem que ir ao rio? Isso certamente não é assunto para você. Deixe François ir. Eu posso dizer a ele onde é.

Você não está entendendo.

Então me explique, para eu poder entender. Pode confiar em mim.

Preciso ver o corpo com meus próprios olhos. Descobrir se...

Descobrir o quê? — perguntou Alaïs depressa.

Não, não — dizia ele, sacudindo a cabeça grisalha de um lado para o outro. — Isso não é coisa para você... — A voz de Pelletier se extinguiu.

Mas...

Pelletier levantou a mão, retomando subitamente o controle das próprias emoções.

Chega, Alaïs. Você precisa se deixar guiar por mim. Eu gostaria de poder poupá-la disso, mas não posso. Não tenho escolha. — Ele estendeu-lhe a caneca. — Beba isto. Vai fortificá-la, dar-lhe coragem.

Não estou com medo — protestou ela, ofendida por ele ter confundi­do sua relutância com covardia. — Não tenho medo de ver gente morta. Foi o choque que me afetou tanto assim. — Ela hesitou. — Mas eu lhe imploro, messire, que me diga...

Pelletier virou-se para ela.

— Chega, pare com isso! — gritou.

Alaïs recuou como se ele a tivesse esbofeteado.

Perdoe-me — disse ele imediatamente. — Não sei o que deu em mim. — Ele estendeu a mão e tocou o rosto dela. — Nenhum homem pode­ria querer filha mais leal, mais fiel.

Então por que não confia em mim?

Ele hesitou e, por um instante, Alaïs pensou que o houvesse convencido a falar. Então a mesma expressão fechada tornou a se apoderar de seu rosto.

— Tudo que tem de fazer é me mostrar — disse ele com a voz oca. — O resto está em minhas mãos.

Os sinos de Sant-Nasari batiam a terça quando eles saíram a cavalo pelo Portão Oeste do Château Comtal.

Seu pai ia à frente, com Alaïs seguindo atrás junto a François. Ela se sentia péssima, ao mesmo tempo culpada por terem sido suas ações a causar aquela estranha mudança em seu pai e frustrada por não entender.

Foram seguindo pela estrada de terra estreita e seca que ziguezagueava em acentuado declive pela colina além dos muros da Cité, curvando-se e tor­nando a voltar sobre si mesma. Uma vez em terreno plano, puseram os cavalos para trotar.


Seguiram subindo o curso do rio. Um sol inclemente batia em suas cos­tas enquanto entravam nas terras alagadas. Enxames de maruins e moscas pre­tas do pântano pairavam sobre os braços de rio e poças de água parada. Os cavalos batiam os cascos e sacudiam o rabo, tentando em vão evitar que sua fina pelagem de verão fosse picada pela miríade de insetos.

Alaïs pôde ver um grupo de mulheres lavando roupa nas águas rasas e sombreadas da outra margem do rio Aude, com metade do corpo para dentro e metade para fora d'água enquanto batiam os tecidos sobre pedras cinzentas achatadas. Havia um ruído monótono de rodas passando pela única ponte de madeira que ligava os pântanos e vilarejos do norte a Carcassonne e seus su­búrbios. Outros atravessavam o rio a nado em seu ponto mais baixo, um fluxo incessante de camponeses, agricultores e mercadores. Alguns carregavam cri­anças nos ombros, outros conduziam rebanhos de cabras ou mulas, todos rumando para o mercado na praça principal.

Os três cavalgavam em silêncio. Quando saíram do terreno aberto e adentraram as sombras dos salgueiros do brejo, Alaïs começou a se deixar levar por seus pensamentos. Tranqüilizada pelo movimento conhecido do cavalo sob seu corpo, pelo canto dos pássaros e pelo incessante chiado das cigarras, por um instante quase esqueceu o propósito de sua expedição.

Sua apreensão retornou quando chegaram à orla da floresta. Agora em fila indiana, prosseguiram por entre as árvores. Seu pai se virou, breve, e deu-lhe um sorriso. Alaïs ficou grata por isso. Estava nervosa agora, alerta, à escuta do menor sinal de problema. Os salgueiros do brejo pareciam erguer-se malig­nos acima de sua cabeça, e ela imaginava que houvesse olhos nas sombras escuras, vendo-os passar, à espera. Qualquer farfalhar na vegetação rasteira, qualquer batida das asas de um pássaro fazia seu coração disparar.

Alaïs não sabia bem o que esperava que acontecesse, mas quando che­garam à clareira tudo estava silencioso e tranqüilo. Seu panièr descansava sob as árvores onde ela o havia deixado, as pontas das plantas despontando das tiras de pano. Ela desmontou e passou as rédeas para François, depois se encaminhou para a água. Suas ferramentas estavam exatamente no mes­mo lugar onde ela as havia largado.

Quando seu pai tocou-lhe o cotovelo, Alaïs sobressaltou-se.

— Mostre-me — disse ele.

Sem uma palavra, ela conduziu o pai pela margem até chegar ao ponto certo. No início não conseguiu ver nada e, por um instante, perguntou-se se teria sido um sonho ruim. Mas ali estava o corpo, boiando na água entre as plantas aquáticas, um pouco mais acima na corrente do que antes.

Ela apontou.

— Ali. Perto da erva-do-cardeal.


Para sua surpresa, em vez de chamar François, seu pai tirou a capa e entrou no rio.

— Fique aqui — ordenou por sobre o ombro.

Alaïs sentou-se na margem e dobrou os joelhos até o queixo, vendo seu pai caminhar pela água rasa sem prestar atenção ao fato de que o alto de suas botas estava ficando molhado. Quando chegou ao corpo, parou e desembainhou a espada. Hesitou por um instante, como se estivesse se preparando para o pior, e então, com a ponta da lâmina, Pelletier levantou cuidadosamente o braço esquerdo do homem para fora da água. A mão mutilada, disforme e azul, ficou equilibrada por um instante, depois deslizou pela superfície lisa e prateada da lâmina em direção ao cabo, como se estivesse viva. Então tornou a cair no rio com um breve ruído de mergulho.

Ele embainhou a espada, inclinou-se para frente e virou o cadáver de costas. O corpo se agitava violentamente na água, a cabeça balançando pesada como se estivesse tentando se soltar do pescoço.

Alaïs virou as costas depressa. Não queria ver a marca da morte no rosto do desconhecido.

O humor de seu pai estava diferente durante a cavalgada de volta a Carcassonne. Ele estava obviamente aliviado, como se um peso houvesse sido tirado de seus ombros. Trocou comentários amenos com François e, quando seus olhos cru­zavam os de Alaïs, sorria afetuosamente.

Apesar de sua exaustão e frustração por não entender o significado do que havia acontecido, Alaïs também experimentava uma sensação de bem-estar. Cavalgar junto do pai a fazia pensar em antigamente, quando havia tempo para aproveitarem a companhia um do outro.

Quando se afastaram do rio e tomaram novamente o rumo do Château lá em cima, sua curiosidade finalmente a dominou. Alaïs reuniu coragem para fazer ao pai a pergunta que estava na ponta de sua língua desde o início da expedição.

Descobriu o que precisava saber, pairei.

Descobri.

Alaïs esperou até ficar claro que ela teria de arrancar uma explicação dele palavra por palavra.

— Mas não era ele, era?

Seu pai a olhou com atenção. Ela continuou.

— Pela minha descrição, o senhor achou que pudesse conhecer aquele homem, não? Foi por isso que quis ver o corpo. — Pelo brilho nos olhos dele, Alaïs soube que estava certa.


— Pensei que ele talvez fosse um conhecido meu — disse ele por fim. — De meus dias em Chartres. Alguém de quem eu gosto.

Mas ele era judeu.

Pelletier alçou as sobrancelhas.

Era, sim.

Judeu — repetiu ela. — Mas mesmo assim amigo?

Silêncio. Alaïs insistiu.

Mas não era ele, esse amigo?

Dessa vez, Pelletier sorriu.

Não era.

Então quem era?

Não sei.

Alaïs ficou calada por um instante. Tinha certeza de que seu pai nun­ca havia mencionado um amigo assim. Ele era um homem bom, tolerante, mas mesmo assim, se tivesse falado de um amigo desse tipo em Chartres, um judeu, ela teria se lembrado. Sabendo muito bem que não adiantava continuar um assunto contra os desejos do pai, ela tentou uma abordagem diferente.

— Não foi roubo? Nisso eu acertei.

A essa pergunta seu pai pareceu responder de bom grado.

Não. Eles tiveram a intenção de matá-lo. O corte era profundo de mais, proposital demais. Além disso, deixaram quase tudo de valor no corpo.

Quase tudo? — Mas Pelletier nada disse. — Será que eles foram interrompidos? — sugeriu ela, arriscando-se a ir um pouco mais além.

Acho que não.

Ou talvez estivessem procurando algo específico?

Chega, Alaïs. Não é hora nem lugar para isso.

Ela abriu a boca, sem vontade de interromper a conversa, e em seguida tornou a fechá-la. O assunto estava claramente encerrado. Ela não descobriria mais nada. Muito melhor esperar até que ele estivesse disposto a falar. Percor­reram o resto do caminho em silêncio.

Quando puderam ver novamente o Portão Ocidental, François passou na frente.

Seria recomendável não mencionar nossa expedição desta manhã a ninguém — disse ele depressa.

Nem mesmo a Guilhem?

Não acho que seu marido ficará contente em saber que você foi ao rio desacompanhada — disse ele, seco. — Os boatos se espalham rápido. Você deveria descansar e tentar esquecer todo esse incidente desagradável.


Alaïs fitou-o com olhos inocentes.

— É claro. Como o senhor quiser. Dou-lhe a minha palavra, paire. Não falarei disto com ninguém a não ser com você.

Pelletier hesitou, como se suspeitasse que ela estava brincando com ele, depois sorriu.

— Você é uma filha obediente, Alaïs. Sei que posso confiar em você.

Sem conseguir se controlar, Alaïs corou.


 

De seu observatório no telhado da taberna, o menino de olhos cor de âmbar e cabelos louros escuros virou-se para ver de onde vinha o barulho.

Um mensageiro subia a galope as ruas apinhadas da Cité vindo da Porte Narbonnaise, sem ligar a mínima para quem estivesse em seu caminho. Ho­mens gritavam para que ele desmontasse. Mulheres arrancavam os filhos da rota dos cascos furiosos. Alguns cachorros acorrentados pulavam para cima do cavalo, latindo, rosnando e tentando morder suas patas traseiras. O cavaleiro nem ligava.

O cavalo suava muito. Mesmo daquela distância, Sajhë podia ver as li­nhas de espuma branca no garrote e em volta da boca. O animal fez uma curva abrupta em direção à ponte que levava ao Château Comtal.

Sajhë se levantou para ver melhor, equilibrado de forma precária sobre a beirada afiada das telhas desiguais, a tempo de ver o intendente Pelletier surgir entre as torres do portão montado em um corpulento cavalo cinza, seguido por Alaïs, também a cavalo. Ela parecia preocupada, pensou ele, e perguntou-se o que havia acontecido e onde eles estavam indo. Não estavam vestidos para caçar.

Sajhë gostava de Alaïs. Quando ela ia visitar sua avó, Esclarmonde, con­versava com ele, ao contrário de muitas senhoras da casa que fingiam que ele não estava presente. Ficavam ansiosas demais com as poções e remédios que queriam que menina, sua avó, preparasse para elas — poções para fazer baixar a febre, para diminuir um inchaço, para apressar o parto ou para as coisas do coração.

No entanto, em todos os anos que havia passado idolatrando Alaïs, Sajhë nunca a vira com a expressão daquele dia. O menino deslizou pelas telhas avermelhadas até a borda do telhado e desceu, aterrissando com uma pancada suave e evitando por pouco uma cabra amarrada a um carrinho de mão virado de lado.

— Ei! Preste atenção no que faz! — gritou uma mulher.


— Eu nem toquei nela— gritou ele, esquivando-se da vassoura da mulher.

A Cité fervilhava com as imagens, cheiros e sons do dia de mercado.

Venezianas de madeira batiam em paredes de pedra por todas as ruas e becos, enquanto criados e donas de casa abriam as casas para deixar o ar entrar antes de o sol ficar quente demais. Toneleiros olhavam seus aprendizes rolarem bar­ris por sobre as pedras do chão, chacoalhando, batendo e repicando, correndo uns atrás dos outros para chegar às tabernas antes de seus rivais. Carrinhos sacudiam-se precariamente sobre o chão irregular, as rodas rangendo e travan­do de vez em quando em seu caminho rumo à praça do mercado.

Sajhë conhecia cada atalho da Cité, e esquivava-se por entre uma pro­fusão de braços e pernas nervosos, driblando os cascos das ovelhas e cabras que estalavam no chão, os jumentos e mulas carregados de mercadorias e cestos, e os porcos, preguiçosos e lentos, que seguiam seu caminho com dificuldade pelas ruas. Um menino mais velho com uma expressão zangada no rosto tocava um bando de gansos indisciplinados, que grasnavam e bica­vam uns aos outros e as pernas nuas de duas menininhas ali por perto. Sajhë piscou para elas e tentou fazê-las rir. Chegou logo atrás da mais feia das aves e abriu os braços.

— O que você acha que está fazendo? — gritou o menino que tocava os gansos. — Vá embora!

As meninas riram. Sajhë fingiu grasnar bem na hora em que o ganso velho e cinza se virou, esticou o pescoço e sibilou ameaçadoramente junto a seu rosto.

Bem feito, pèc— disse o garoto. — Idiota.

Sajhë pulou para longe dos bicos cor de laranja.

Você deveria controlá-los melhor.

Só os bebês têm medo de gansos — zombou o menino, enfrentando

Sajhë. — O bebezinho está com medo de um inofensivo gansinho? Nenon.

Não estou com medo — gabou-se Sajhë, apontando para as meninas que agora se escondiam atrás das pernas da mãe. — Mas elas estão. Você deveria prestar atenção no que faz.

E o que você tem com isso, é?

Só estou dizendo que deveria tomar cuidado.

Ele chegou mais perto, sacudindo o bordão na cara de Sajhë.

— E quem vai me obrigar a fazer isso? Você?

O menino era uma cabeça mais alto do que Sajhë. Sua pele era uma confusão de hematomas roxos e marcas vermelhas. Sajhë deu um passo para trás e ergueu as mãos.

— Eu perguntei quem vai me obrigar?— repetiu o menino, pronto para brigar.


As palavras teriam dado lugar aos punhos não fosse por um velho bêbado, encolhido junto a uma parede, que acordou e começou a berrar com eles para irem embora e deixarem-no em paz. Sajhë aproveitou a distração para sair dali.

O sol começava a aparecer por cima dos telhados mais altos das casas, inundando partes da rua com nesgas de luz brilhante e refletindo-se na ferra­dura pendurada do lado de fora da oficina do ferreiro. Sajhë parou e olhou lá para dentro, sentindo o calor da fornalha em seu rosto até mesmo ali da rua.

Uma multidão de homens aguardava em torno da fundição, bem como vários jovens écuyers com os capacetes, escudos e cotas de malha dos patrões, todos precisando de conserto. Ele imaginou que o ferreiro do Château estives­se soterrado de trabalho.

Sajhë não tinha sangue nem estirpe para ser aprendiz, mas isso não o impedia de sonhar em se tornar um chevalier por mérito próprio. Sorriu para um ou dois meninos de sua própria idade, mas eles simplesmente fingiram não vê-lo, como sempre faziam e sempre fariam.

Sajhë deu-lhes as costas e foi embora.

A maioria dos comerciantes do mercado eram freqüentadores assíduos, e haviam se instalado em seus lugares habituais. O cheiro de gordura quente invadiu as narinas de Sajhë no instante em que ele entrou na praça. Ele postou-se junto a uma barraca onde um homem fritava panquecas, virando-as em uma frigideira. O cheiro da espessa sopa de feijão e do pão mitadenc, feito com partes iguais de cevada e trigo e recém-saído do forno, despertou seu apetite. Ele passou por barracas que vendiam fivelas e jarros, tecidos de lã, peles e couro, tanto mercadorias locais quando cintos e bolsas mais exóticos de Córdoba ou mesmo de mais longe, mas não parou. Deteve-se rapidamente junto a uma barraca que oferecia tesouras para tosquiar ovelhas e facas, antes de seguir para o canto da praça onde estavam abrigados a maioria dos animais vivos. Havia sempre muitas galinhas e capões em gaiolas de madeira, algumas vezes cotovias e carriças, que cantavam e assobiavam. Seus preferidos eram os coelhos, todos espremidos juntos em uma montanha de pêlos marrons, pretos e brancos.

Sajhë passou pelas barracas que ofereciam grãos e sal, carnes brancas, cerveja em barris e vinho, até ver-se diante de uma barraca que vendia ervas e especiarias exóticas. Na frente da bancada havia um mercador. Sajhë nunca vira homem tão alto, tão negro. Ele usava uma longa túnica azul resplande­cente, um turbante de seda brilhante e chinelos pontudos vermelhos e doura­dos. Sua pele era mais escura até do que a dos ciganos que vinham de Navarra e Aragão pelas montanhas. Sajhë concluiu que o homem devia ser sarraceno, embora nunca tivesse conhecido nenhum.

O comerciante havia disposto suas mercadorias no formato de uma roda: verdes e amarelos, laranjas, marrons e vermelhos, ocre. Na frente havia ale­crim e salsa, alho, cravo-de-defunto e lavanda; atrás estavam os temperos mais caros, como cardamomo, noz-moscada e açafrão. Sajhë não reconheceu ne­nhum dos outros, mas já estava animado para contar à avó o que tinha visto.

Estava prestes a dar mais um passo para ver melhor quando o sarraceno soltou uma voz que mais parecia um trovão. Sua mão escura e pesada havia agarrado o pulso mirrado de um ladrãozinho, que tentara roubar uma moeda da bolsinha bordada que pendia de um cordão vermelho enrolado em volta de sua cintura. Ele deu um tapa na nuca do menino, fazendo-o voar até esbarrar em uma mulher mais atrás, que se pôs a gritar. Imediatamente, uma multidão começou a se juntar.

Sajhë saiu de fininho. Não queria se meter em nenhuma confusão.

Sajhë saiu das imediações da praça e foi caminhando em direção à taberna Sant-Joan dels Evangèlis. Já que não carregava nenhum dinheiro, pensava con­sigo mesmo que poderia se oferecer para fazer pequenos trabalhos em troca de uma caneca de brout. Foi então que ouviu alguém chamar seu nome.

Sajhë se virou e viu uma das amigas de sua avó, na Marti, sentada com o marido diante de sua barraca, acenando para chamar sua atenção. Ela era tecelã e o marido, cardador. Durante a maior parte do tempo, podiam ser encon­trados no mesmo lugar, tecendo e penteando, preparando sua lã e seus fios.

Sajhë acenou de volta. Como Esclarmonde, na Marti era uma seguidora da nova igreja. Seu marido, sénher Marti, não compartilhava a mesma fé, em­bora tivesse ido à casa de Esclarmonde com a mulher na festa de Pentecostes para ouvir a pregação dos bons homes.

Na Marti afagou seus cabelos.

Como vai, rapaz? Está ficando tão alto ultimamente, mal o reconheço.

Vou bem, obrigado — respondeu ele, sorrindo para ela, virando-se em seguida para o marido que penteava a lã em meadas prontas para serem vendidas: — Bonjorn, sénher.

E Esclarmonde? — continuou na Marti. — Também vai bem? Man­tendo todo mundo com saúde como sempre?

Ele sorriu.

Ela está igual a sempre.

Ben, ben. — Bom.

Sajhë sentou-se de pernas cruzadas a seus pés e ficou olhando o tear dar voltas.

— Na Marti? — disse ele depois de algum tempo. — Por que a senhora não vai mais rezar conosco?

Sénher Marti parou o que estava fazendo e trocou um olhar preocupado com a mulher.


— Ah, sabe como é — respondeu na Marti, evitando encará-lo. — Te­mos andado tão ocupados. É difícil fazer a viagem até Carcassona com a freqüência que gostaríamos.

Ela ajustou a bobina e continuou a tecer, o ritmo do pedal preenchendo o silêncio que se fizera entre eles.

Menina está sentindo sua falta.

Eu também sinto a falta dela, mas amigos nem sempre podem ficar juntos.

Sajhë franziu o cenho.

— Mas então por que...

Sénher Marti deu-lhe um tapinha decidido no ombro.

Não fale tão alto — disse baixinho. — É melhor manter esse tipo de conversa entre nós.

Que tipo de conversa é melhor manter entre nós? — perguntou Sajhë, intrigado. — Eu só...

Nós já ouvimos, Sajhë — disse sénher Marti, olhando por cima do ombro. — O mercado inteiro já ouviu. Agora chegar de falar de reza, è?

Confuso com o que tinha feito para deixar sénher Marti tão zangado, Sajhë se pôs de pé desajeitadamente. Na Marti virou-se para o marido. Pareciam ter se esquecido do garoto por completo.

Você está sendo duro demais com ele, Rogier — sibilou ela. — E só um menino.

Basta uma pessoa com a língua grande e nós seremos pegos como os outros. Não podemos nos arriscar. Se as pessoas acharem que nos relaciona­mos com hereges...

Qual, herege — retrucou ela. — Ele é só uma criança!

Não, o menino, não. Esclarmonde. Todo mundo sabe que ela é um deles. E se o boato se espalhar de que nós vamos rezar na casa dela, também vão nos acusar de seguir os bons homes e nós vamos ser perseguidos.

Então vamos abandonar nossos amigos? Só por causa de umas histó­rias assustadoras que você ouviu?

Sénher Marti baixou a voz.

Só estou dizendo que temos de tomar cuidado. Você sabe o que estão falando por aí. Aquele exército está vindo para cá expulsar os hereges.

Há anos que dizem isso. Você está exagerando. Quanto aos legados, há anos que esses "homens de Deus" percorrem os campos bebendo até cair, e nunca aconteceu nada. Que os bispos resolvam isso entre eles e deixem as outras pessoas seguirem com a vida.

Ela deu as costas ao marido.

— Não ligue — disse, pondo a mão no ombro de Sajhë. — Você não fez nada de errado.


Sajhë olhou para os próprios pés, sem querer que ela o visse chorar. Na Marti continuou, com uma voz estranhamente jovial.

— Então, você não estava dizendo no outro dia que queria comprar um presente para Alaïs? Por que não vemos o que conseguimos encontrar?

Sajhë aquiesceu. Sabia que ela estava tentando reconfortá-lo, mas sentia-se confuso e envergonhado.

Não tenho como pagar — disse.

Bom, não se preocupe com isso. Tenho certeza de que isso não vai ser um problema, só desta vez. Por que não dá uma olhada? — Na Marti correu os dedos pelas carreiras de fios coloridos. — E isto? Acha que ela gostaria disto? Combina perfeitamente com os olhos dela.

Sajhë tocou o fio cor de cobre.

— Não tenho certeza.

— Bom, eu acho que ela vai gostar. Quer que eu embrulhe para você?

Ela se virou para procurar um pedaço de pano para proteger o fio. Sem querer parecer ingrato, Sajhë tentou pensar em alguma coisa segura para dizer.

Eu a vi mais cedo.

Alaïs? Como ela estava? Com aquela irmã dela?

Ele fez uma careta.

Não. Mas mesmo assim não parecia muito contente.

— Bem — disse na Marti —, se ela estava chateada, então é a ocasião perfeita para você lhe dar um presente. Vai animá-la. Alaïs geralmente vem ao mercado de manhã, não é? Se ficar de olhos abertos e prestar atenção, tenho certeza de que vai achá-la.

Feliz por ter sido dispensado daquela companhia tensa, Sajhë guardou o pacote dentro da túnica e se despediu. Depois de alguns passos, virou-se para acenar. Os Martis estavam em pé lado a lado, olhando para ele, mas sem dizer nada.

O sol agora estava alto no céu. Sajhë andou pela praça, perguntando por Alaïs. Ninguém a vira.

Agora ele estava com fome, e havia decidido que era hora de voltar para casa quando de repente viu Alaïs em pé na barraca que vendia queijo de cabra. Começou a correr e a surpreendeu, abraçando-a pela cintura.

— Bonjorn.

Alaïs se virou, presenteando-o com um largo sorriso ao ver quem era.

Sajhë — disse ela, despenteando seus cabelos. — Que surpresa!

Estive procurando você por toda parte — disse ele sorrindo. — Está tudo bem? Eu a vi mais cedo. Parecia aborrecida.

Mais cedo?


Estava entrando no Château com seu pai. Logo depois do mensageiro.

Ah, oc — disse ela. — Não se preocupe, estou bem. Só tive uma manhã cansativa. Mas que prazer ver o seu rosto cheio de vida. — Ela o beijou no alto da cabeça, fazendo Sajhë corar intensamente. Ele manteve o olhar fixo nos próprios pés, sem querer que ela percebesse seu embaraço. — De toda forma, já que está aqui, ajude-me a escolher um bom queijo.

Os tabletes lisos e redondos de queijo de cabra estavam dispostos em um desenho perfeito sobre bandejas de madeira forradas de palha socada. Alguns pareciam secos, com uma casca amarelada. Eram os de sabor mais forte, e podiam ter até duas semanas de idade. Outros, feitos mais recentemente, reluziam úmidos e macios. Alaïs perguntou os preços, apontando para este ou aquele, pedindo conselhos a Sajhë, até finalmente escolher a peça que queria. Entregou-lhe uma moeda de sua bolsa para dar ao vendedor, enquanto tirava da cesta uma pequena tábua de madeira polida para carregar o queijo.

Os olhos de Sajhë se arregalaram de surpresa ao ver o desenho impresso no fundo da tábua. Por que Alaïs estava com aquilo? Como? Em meio a sua confusão, o menino deixou cair as moedas no chão. Envergonhado, enfiou-se embaixo da mesa, tentando ganhar tempo. Quando tornou a se levantar, ficou aliviado ao constatar que Alaïs não parecia ter percebido nada de errado, então não pensou mais no assunto. Em vez disso, uma vez concluída a transação, tomou coragem para dar o presente a Alaïs.

Tenho uma coisa para você — disse, encabulado, empurrando o embrulho atabalhoadamente para as mãos dela.

Que gentileza — disse ela. — Ê de Esclarmonde?

Não, é meu.

Que linda surpresa. Posso abrir agora?

Ele aquiesceu, o rosto sério, mas os olhos brilhando de expectativa en­quanto Alaïs desfazia o embrulho com cuidado.

Ah, Sajhë, é lindo — disse ela, erguendo o fio marrom brilhante. — É lindo de morrer.

Eu não roubei — disse ele depressa. — Na Marti me deu. Acho que ela estava tentando se redimir.

Se redimir do quê? — perguntou Alaïs depressa.

Nesse instante, ouviu-se um grito. Um homem ali perto apontava para o céu. Um bando de grandes pássaros pretos voava baixo sobre a Cité, de oeste a leste, em uma formação de flecha. O sol parecia ricochetear em suas penas lustrosas e escuras, como faíscas em uma bigorna. Alguém por perto disse que era um presságio, embora ninguém conseguisse dizer se era um bom ou mau presságio.


Sajhë não acreditava em superstições assim, mas nesse dia aquilo o fez estremecer. Alaïs também pareceu sentir alguma,coisa, porque passou o braço em volta de seu ombro e o puxou mais para perto.

O que houve? — perguntou ele.

Res — disse ela, depressa demais. Nada.

Bem lá no alto, sem se preocupar com o mundo dos humanos, os pássa­ros seguiram seu caminho, até se tornarem apenas uma mancha no céu.

 

Quando Alaïs conseguiu se livrar de seu fiel escudeiro e voltar para o Château Comtal, os sinos de Sant-Nasari anunciavam o meio-dia.

Ela estava exausta, e tropeçou várias vezes subindo as escadas, que pareciam mais íngremes do que o normal. Tudo que queria era se deitar na privacidade de seu próprio quarto e descansar.

Alaïs ficou surpresa ao encontrar sua porta fechada. A essa altura, os criados já deveriam ter entrado lá e terminado suas tarefas. As cortinas em volta da cama ainda estavam fechadas. À meia-luz, Alaïs viu que François havia coloca­do seu panièr sobre a mesa baixa ao lado da lareira, como ela lhe pedira.

Ela pôs a tábua do queijo sobre a mesa-de-cabeceira, depois foi até a janela para abrir a veneziana. Deveria ter sido aberta muito antes para arejar o quarto. A luz do dia inundou o aposento, revelando uma camada de poeira sobre os móveis e os pontos da cortina onde o tecido estava puído.

Alaïs foi até a cama e afastou as cortinas.

Para sua surpresa, Guilhem ainda estava ali deitado, dormindo do mes­mo jeito que ela o havia deixado antes do amanhecer. Ela abriu a boca de espanto. Ele parecia tão perfeitamente à vontade, tão bonito. Até mesmo Oriane, que quase nunca dizia nada de bom sobre ninguém, admitia que Guilhem era um dos chevaliers mais bonitos do visconde Trencavel.

Alaïs sentou-se na cama ao lado dele e correu a mão sobre sua pele dou­rada. Então, sentindo-se inexplicavelmente ousada, mergulhou um dedo no queijo de cabra macio e úmido e espalhou uma pequena quantidade sobre os lábios do marido. Guilhem resmungou e se mexeu debaixo das cobertas. Não abriu os olhos, mas sorriu languidamente e estendeu a mão.

Alaïs prendeu a respiração. O ar à sua volta pareceu vibrar de expectativa e promessa enquanto ela permitia que ele a puxasse para junto dele.

A intimidade daquele instante foi rompida pelo barulho de passos pesa­dos no corredor. Alguém berrava o nome de Guilhem, uma voz familiar, distorcida pela raiva. Alaïs pôs-se de pé num pulo, mortificada diante da idéia de que seu pai pudesse presenciar uma cena tão íntima entre os dois. Os olhos de Guilhem se arregalaram no exato instante em que a porta se abriu de supetão e o intendente Pelletier entrou no quarto a passos largos, seguido por François.

— Você está atrasado, du Mas — rugiu ele, agarrando uma capa da cadeira mais próxima e atirando-a na cabeça do genro. — Levante-se. Todos os outros estão no Grande Salão à sua espera.

Guilhem ergueu o corpo depressa.

No Salão?

O visconde Trencavel convocou todos os seus chevaliers, mas olhe para você, ainda na cama. Acha que pode simplesmente fazer o que quiser? — Ele estava em pé ao lado de Guilhem. — Então? O que tem a dizer em sua defesa?

Pelletier de repente percebeu a filha em pé do outro lado da cama. Sua expressão se suavizou.

Desculpe, filha. Não vi você. Está se sentindo melhor?

Ela inclinou a cabeça.

Obrigada, messire, estou bastante bem.

 

Sentindo-se melhor? — perguntou Guilhem, confuso. — Você não está passando bem? Alguma coisa errada?

Levante-se! — gritou Pelletier, tornando a voltar sua atenção para a cama. — Você tem o tempo que eu levar para descer as escadas e atravessar o pátio, du Mas. Se não estiver no Grande Salão nessa hora, vai ser pior para você! — Sem mais nenhuma palavra, Pelletier deu meia-volta e saiu furioso do quarto.

No doloroso silêncio que seguiu sua partida, Alaïs sentiu que a vergonha a prendia ao mesmo lugar, embora não soubesse dizer se sentia vergonha por si mesma ou pelo marido.

Guilhem explodiu.

— Como ele se atreve a entrar aqui assim, como se fosse meu dono?

Quem ele pensa que é? — Com um chute violento, atirou as cobertas para o chão e precipitou-se para fora da cama. — O dever chama — disse com sar­casmo. — Eu não poderia deixar o grande intendente Pelletier esperando.

Alaïs suspeitava que qualquer coisa que dissesse pioraria ainda mais o humor de Guilhem. Ela queria lhe contar o que havia acontecido no rio, pelo menos para distrair a mente dele da própria raiva, mas dera sua palavra ao pai de que não falaria com ninguém.

Guilhem já havia atravessado o quarto e estava se vestindo, de costas para ela. Seus ombros estavam tensos enquanto ele colocava o tabardo e aper­tava o cinto.

Pode ser que haja novidades... — ela começou a dizer.

Isso não é desculpa — disparou ele. — Ninguém me falou nada.


Eu... — Alaïs deixou as palavras se dissiparem. O que dizer?

Pegou a capa do marido de cima da cama e a estendeu para ele.

Você vai demorar? — perguntou baixinho.

— Se eu sequer sei por que estou sendo convocado ao conselho, como posso saber? — respondeu ele, ainda zangado.

No mesmo instante, seu mau humor pareceu abandoná-lo. Seus ombros relaxaram e ele se virou de frente para ela, sem a expressão de raiva no rosto.

— Perdoe-me, Alaïs. Você não pode responder pelo comportamento do seu pai. — Com a mão, ele traçou o contorno do queixo dela. — Venha aqui.

Ajude-me com isso.

Guilhem se curvou para frente para que Alaïs pudesse alcançar o fecho com mais facilidade. Mesmo assim, ela precisou ficar na ponta dos pés para prender a fivela redonda de prata e cobre em seu ombro.

Mercê, mon còr — disse ele quando ela terminou. — Certo. Vamos ver do que se trata. Provavelmente não é nada importante.

Quando estávamos voltando para a Cité hoje de manhã, um mensa­geiro chegou — disse ela sem pensar.

Alaïs se repreendeu imediatamente. Agora ele com certeza lhe pergun­taria onde ela estivera tão cedo, e com o pai ainda por cima, mas a atenção dele estava concentrada em pegar a espada debaixo da cama e ele não prestou aten­ção em suas palavras.

Alaïs se retraiu ao ouvir o som cortante do metal quando ele empurrou a lâmina para dentro da bainha. Mais do que qualquer outro, aquele som sim­bolizava a partida dele do seu mundo para o mundo dos homens.

Quando Guilhem se virou, sua capa esbarrou na tábua de queijo de madeira que ainda estava precariamente equilibrada na beirada da mesa. A tábua caiu, batendo com estardalhaço no chão de pedra.

— Não tem problema — disse Alaïs depressa, sem querer se arriscar a aumentar a ira do pai fazendo Guilhem se atrasar ainda mais. — Os criados darão um jeito. Vá. Volte quando puder.

Guilhem sorriu e se foi.

Quando parou de ouvir os passos do marido, Alaïs tornou a se virar para o quarto e olhou para a bagunça. Pedaços de queijo branco, úmidos e viscosos, colavam-se às esteiras de palha que cobriam o chão. Ela suspirou e agachou-se para recolher a tábua.

O objeto estava caído de lado, apoiado na empunhadura de madeira. Quando ela o pegou, seus dedos roçaram algo no fundo. Alaïs virou a tábua para olhar.

Um labirinto fora gravado na superfície polida da madeira escura.


— Meravelhós. Que lindo — murmurou ela.

Fascinada pelas linhas perfeitas dos círculos que se dobravam em curvas cada vez menores, Alaïs acompanhou o desenho com os dedos. Era liso, per­feito, um trabalho esmerado, feito com cuidado e precisão.

Ela sentiu uma lembrança se agitar no fundo de sua mente. Alaïs ergueu a tábua, agora certa de que já vira algo parecido uma vez, mas a recordação era vaga e se recusava a se definir. Ela sequer conseguia se lembrar de onde viera aquela tábua. Acabou desistindo de tentar recuperar a lembrança.

Alaïs chamou a criada, Severine, para limpar o quarto. Depois, para manter a mente afastada do que estava acontecendo no Grande Salão, voltou sua atenção para as plantas que colhera no rio ao amanhecer.

A colheita já havia sido negligenciada por tempo demais. As tiras de pano haviam secado, as raízes estavam quebradiças e as folhas haviam perdido grande parte de sua umidade. Confiante de que conseguiria recuperar alguma coisa, Alaïs salpicou o panièr de água e se pôs a trabalhar.

Porém, durante todo o tempo que passou moendo as raízes e costurando as flores em sachês para aromatizar o ar, durante todo o tempo que passou preparando a loção para a perna de Jacques, seus olhos não paravam de se desviar para a tábua de madeira que descansava, muda, sobre a mesa à sua frente, recusando-se a revelar seu segredo.

Guilhem atravessou o pátio às carreiras, com a capa batendo desconfortavelmente nos joelhos, maldizendo sua falta de sorte por justamente naquele dia, dentre todos os outros, ele ter sido pego.

Não era comum que chevaliers fizessem parte do conselho. O fato de terem sido convocados ao Grande Salão, e não ao donjon, sugeria assunto sério.

Será que Pelletier estava falando a verdade quando disse ter mandado um mensageiro particular ao quarto de Guilhem mais cedo? Ele não podia ter certeza. E se François tivesse ido até lá e não o houvesse encontrado? O que Pelletier diria disso?

De toda forma, o resultado era o mesmo. Ele estava em apuros.

A pesada porta que conduzia ao Grande Salão estava aberta. Guilhem subiu os degraus apressado, dois a dois.

A medida que seus olhos se acostumavam à penumbra do corredor, viu a silhueta conhecida do sogro de pé na entrada do salão. Guilhem respirou fun­do e continuou a andar, de cabeça baixa. Pelletier estendeu o braço, impedin­do-o de passar.

Onde você estava? — perguntou ele.

Perdoe-me, messire. Não recebi a convocação...


O rosto de Pelletier estava vermelho-escuro, colérico.

— Como ousa chegar atrasado? — perguntou ele, com a voz gelada. —

Acha que as ordens não se aplicam a você? Acha que é um chevalier tão famoso que pode decidir fazer tudo o que quiser, em vez de cumprir as ordens de seu seigneur?

— Messire, eu juro pela minha honra que se soubesse...

Pelletier deu uma risada amarga.

— Sua honra — disse com violência, espetando o dedo no peito de Guilhem. — Não me faça de bobo, du Mas. Eu mandei meu próprio criado aos seus aposentos para lhe dar o recado pessoalmente. Você teve tempo mais do que suficiente para se aprontar. Mesmo assim, tive de ir eu mesmo buscá-lo. E, quando chego lá, encontro você na cama!

Guilhem abriu a boca, depois tornou a fechá-la. Podia ver as poças de saliva acumulando-se nos cantos da boca de Pelletier e nos pêlos cinzentos de sua barba.

Agora você não está mais tão confiante, não é? O que houve, não tem nada a dizer? Estou avisando você, du Mas, o fato de ser casado com a minha filha não vai me impedir de fazê-lo dar o exemplo.

Senhor, eu...

Sem avisar, Pelletier enterrou o punho na barriga dele. Não foi um soco forte, mas foi firme o suficiente para pegá-lo desprevenido.

Surpreso, Guilhem cambaleou em direção à parede.

No mesmo instante, a imensa mão de Pelletier circundou-lhe a garganta, empurrando sua cabeça contra a pedra. Pelo canto do olho, Guilhem pôde ver o sirjan que estava junto à porta se inclinar para frente de modo a ver melhor o que estava acontecendo.

— Fui claro? — cuspiu ele no rosto de Guilhem, aumentando novamen­te a pressão. Guilhem não conseguia falar. — Não estou ouvindo você, gojat — disse Pelletier. — Fui claro?

Dessa vez Guilhem conseguiu falar, engasgado.

— Oc, messire.

Podia sentir o próprio rosto ficar roxo. O sangue martelava em sua cabeça.

— Estou avisando você, du Mas. Estou de olho. Estou esperando. E se você der um passo em falso, tomarei providências para que se arrependa.

Estamos entendidos?

Guilhem arquejou em busca de ar. Conseguiu apenas assentir, arranhando a bochecha contra a superfície áspera da parede, quando Pelletier lhe dava um último e cruel safanão, esmagando suas costelas contra a pedra dura, e o soltava.

Em vez de tornar a entrar no Grande Salão, Pelletier saiu bufando na direção contrária, para o pátio.


No instante em que ele se foi, Guilhem dobrou o corpo para frente, tossindo e esfregando a garganta, engolindo grandes golfadas de ar como al­guém que se afoga. Massageou o próprio pescoço e limpou a mancha de san­gue em seu lábio.

Aos poucos, sua respiração voltou ao normal. Guilhem ajeitou as rou­pas. Sua cabeça já estava cheia de idéias de como ele faria Pelletier pagar por tê-lo humilhado daquela forma. Duas vezes em um só dia. Era um insulto grande demais para ser ignorado.

Subitamente consciente do constante murmúrio de vozes que vinha do Grande Salão, Guilhem percebeu que deveria se juntar aos companheiros an­tes que Pelletier voltasse e o encontrasse ainda do lado de fora.

O guarda não fez nenhum esforço para esconder que estava achando graça da situação.

— O que você está olhando? — perguntou Guilhem. — Fique de boca fechada, ouviu, ou vai ser pior para você.

Não era uma ameaça vã. O guarda imediatamente baixou os olhos e afastou-se para deixar Guilhem passar.

— Melhor assim.

Com as ameaças de Pelletier ainda a ecoar em seus ouvidos, Guilhem entrou no salão da maneira mais discreta de que foi capaz. Somente seu rosto vermelho e as batidas aceleradas de seu coração denunciavam o que havia acontecido.


 

O visconde Raymond-Roger Trencavel estava em pé sobre um palanque bem no fundo do Grande Salão. Percebeu Guilhem du Mas entrando atrasado, mas era Pelletier quem estava esperando.

Trencavel estava vestido para a diplomacia, não para a guerra. Sua túnica vermelha, de mangas compridas, debruada de dourado no colarinho e nos punhos, ia até os joelhos. Sua capa azul era sustentada no pescoço por uma grande fivela redonda de ouro, onde se refletia a luz do sol vinda das janelas altas que margeavam o alto da parede meridional do aposento. Acima de sua cabeça havia um imenso escudo com o brasão da família Trencavel, com duas pesadas lanças de metal formando uma cruz atrás dele. O mesmo símbolo podia ser visto em flâmulas, vestimentas cerimoniais e armaduras. Estava também pendurado acima da ponte levadiça sobre o fosso da Porte Narbonnaise, tanto para acolher amigos quanto para lembrá-los da conexão histórica entre a dinastia Trencavel e seus súditos. A esquerda do escudo ficava uma tapeçaria com um unicórnio dançante, pendurada na mesma parede havia muitas gerações.

Do lado mais afastado do palanque, bem encravada na pedra, havia uma portinha que dava para os aposentos particulares do visconde na Tour Pinte, a torre de observação e parte mais antiga do Château Comtal. A porta era protegida por cortinas azuis compridas, igualmente bordadas com as três tiras de arminho que constituíam as armas da família Trencavel. Elas proporcionavam alguma proteção contra as correntes de ar geladas que assobiavam pelo Grande Salão no inverno. Nesse dia, estavam seguras por um único grosso cordão de ouro.

Raymond-Roger Trencavel passara o início da infância naqueles aposen­tos, depois voltara para viver entre aquelas paredes ancestrais com a mulher, Agnès de Montpellier, e o filho e herdeiro de dois anos. Ajoelhava-se na mes­ma diminuta capela onde seus pais haviam se ajoelhado; dormia na cama de carvalho onde ele próprio havia nascido. Em dias de verão como aquele, ao cair da tarde, era pelas mesmas janelas arqueadas que via o poente pintar de vermelho o céu do Pays d'Oc.

De longe, Trencavel parecia calmo e tranqüilo, com os cabelos castanhos repousando de leve sobre os ombros e as mãos unidas nas costas. Mas seu rosto aparentava preocupação, e seus olhos não paravam de vigiar a porta principal.

Pelletier suava profusamente. Suas roupas estavam rígidas e desconfortáveis debaixo de sua armadura, aderindo à base de suas costas. Sentia-se velho e incapaz de cumprir a tarefa que tinha pela frente.

Esperava que o ar fresco fosse clarear suas idéias. Isso não tinha aconteci­do. Ele ainda estava com raiva de si mesmo por ter perdido a paciência e permitido que sua animosidade para com o genro o distraísse da tarefa que devia cumprir. Não podia se dar ao luxo de pensar nisso agora. Lidaria com du Mas mais tarde se fosse preciso. Agora, seu lugar era ao lado do visconde.

Simeon também não estava afastado de seus pensamentos. Pelletier ain­da podia sentir o medo paralisante que havia tomado conta de seu coração ao virar o corpo na água. E também o alívio quando a face inchada de um estra­nho o havia fitado com seus olhos mortos.

O calor dentro do Grande Salão era insuportável. Mais de uma centena de homens, de Igreja e de Estado, estavam aglomerados no aposento quente e abafado, que fedia a suor, ansiedade e vinho. Ouvia-se um farfalhar constante de conversas preocupadas e apreensivas.

Os criados mais próximos da porta fizeram uma reverência quando Pelletier apareceu e correram para trazer-lhe vinho. Imediatamente à frente, do outro lado do cômodo, havia uma fileira de cadeiras de encosto alto feitas de madeira escura e polida, parecidas com os bancos do coral de Sant-Nasari. Nelas estava sentada a nobreza do Midi, os seigneurs de Mirepoix e Fanjeaux, Coursan e Termenès, Albi e Mazamet. Todos haviam sido convidados a Carcassonne para celebrar o feriado de Sant-Nasari, e agora viam-se convoca­dos ao conselho. Pelletier podia ver a tensão em seus rostos.

Abriu caminho entre os grupos de homens, cônsules de Carcassonne e cidadãos eminentes dos subúrbios comerciantes de Sant-Vicens e Sant-Miquel, o olhar experiente absorvendo cada detalhe do aposento sem dar mostras de o estar fazendo. Religiosos e alguns monges espreitavam nas sombras ao longo da parede setentrional, os rostos semi-ocultos pelos hábitos e as mãos juntas, cobertas pelas amplas mangas das vestes negras.

Os chevaliers de Carcassonne, agora com Guilhem du Mas entre eles, estavam em pé diante da imensa lareira de pedra que ia do teto até o chão no lado oposto do aposento. O escrivan Jehan Congost, escriba de Trencavel — e marido da filha mais velha de Pelletier, Oriane — estava sentado diante de sua mesa alta na parte da frente do salão.

Pelletier estacou diante do palanque e fez uma reverência. Uma expres­são de alívio atravessou o rosto do visconde Trencavel.

Perdoe-me, messire.

Não tem importância, Bertrand — disse o visconde, gesticulando para que Bertrand se juntasse a ele. — Você está aqui agora.

Trocaram algumas palavras, as cabeças juntas para que ninguém escu­tasse. Então, a um sinal de Trencavel, Pelletier deu um passo à frente.

— Meus senhores — bradou ele. — Meus senhores, façam silêncio para seu seigneur, Raymond-Roger Trencavel, visconde de Carcassona, Besièrs e Albi.

Trencavel adiantou-se até a luz, as mãos bem abertas em gesto de boas-vindas. O salão ficou mudo. Ninguém se movia. Ninguém falava.

— Benvenguda, meus senhores, amigos leais — disse ele. Bem-vindos.

Sua voz era límpida como um sino, e tinha a mesma firmeza, desmentindo sua idade. — Benvenguda a Carcassona. Obrigado por sua paciência e por sua presença. Sou grato a todos.

Pelletier correu os olhos pelo mar de rostos, tentando avaliar o ânimo da multidão. Viu curiosidade, animação, interesse próprio e expectativa, e entendeu cada uma dessas emoções. Até saberem por que haviam sido con­vocados e, mais importante, o que Trencavel queria deles, nenhum sabia como se comportar.

— Espero com fervor — prosseguiu Trencavel — que o torneio e a festa aconteçam no final do mês conforme programado. Porém, hoje recebemos informações tão sérias e com conseqüências tão abrangentes que acredito de­ ver compartilhá-las com vocês. Pois elas nos afetam a todos.

“Para os que não estavam presentes em nosso último conselho, deixem-me lembrar a todos a situação atual”. Frustrada pelo fracasso de seus legados e pregadores em converter o povo livre desta terra, fazendo-o prestar obediência à Igreja de Roma, Sua Santidade, o papa Inocêncio III, convocou na Páscoa do ano passado uma cruzada para livrar a Cristandade do que chamou de "câncer da heresia", que se espalhava livremente pelas terras do Pays d'Oc.

“Ele afirmou que os supostos hereges, os bons homes, eram piores do que os sarracenos”. Suas palavras, porém, apesar de toda sua paixão e retórica, res­soaram em ouvidos moucos. O rei da França não se mobilizou. O apoio de­morou a chegar.

"O alvo de suas venenosas palavras era meu tio, Raymond VI, conde de Toulouse. De fato, foram as ações impensadas dos homens de meu tio, que se viram implicados no assassinato do legado papal, Peter de Castelnau, que fizeram Sua Santidade voltar os olhos pela primeira vez para o Pays d'Oc. Meu tio foi acusado e condenado por tolerar a propagação da heresia em suas terras e, indiretamente, nas nossas. — Trencavel hesitou, em seguida se corrigiu. — Não, não por tolerar a heresia, mas por incentivar os bons homes a buscar abrigo dentro de seus domínios."

Um monge com a expressão de um asceta aguerrido, em pé próximo às primeiras fileiras, ergueu a mão, pedindo permissão para falar.

— Santo irmão — disse Trencavel depressa —, se eu puder implorar sua paciência por mais algum tempo. Quando terminar o que tenho a dizer, então todos terão oportunidade de falar. A hora do debate vai chegar.

Com um ar contrariado, o monge deixou cair o braço.

— A linha entre a tolerância e o encorajamento, meus amigos, é muito tênue — prosseguiu ele, com a voz suave. Pelletier moveu a cabeça para cima e para baixo, aplaudindo em silêncio o modo astuto como o visconde lidava com a situação. — Assim, apesar de eu ter reconhecido voluntariamente que a reputação de devoção de meu estimado tio não é o que poderia ser... — Trencavel fez uma pausa, permitindo aos ouvintes compreender a crítica vela­da. — ... e embora eu aceite também que seu comportamento não está de forma alguma acima de repreensão, não cabe a nós julgar o que é certo ou errado nessa questão. — Ele sorriu. — Que os padres discutam teologia, e nos deixem em paz.

Ele fez uma pausa. Uma sombra se abateu sobre seu rosto. Agora não havia mais luminosidade em sua voz.

— Não era a primeira vez que a independência e soberania de nossas terras se via ameaçada por invasores do norte. Não achei que isso fosse dar em nada. Não podia acreditar que o sangue de gente cristã fosse ser derramado em solo cristão com a bênção da Igreja Católica.

“Meu tio Toulouse não compartilhava meu otimismo”. Desde o início, ele acreditou que a ameaça de invasão fosse real. Para proteger suas terras e sua soberania, ofereceu-nos uma aliança. O que eu lhe respondi, como vocês tal­vez se lembrem, foi que nós, o povo do Pays d'Oc, vivemos em paz com nossos vizinhos, sejam eles bons homes, judeus, sarracenos até. Se eles cumprem nossas leis, se respeitam nossos costumes e tradições, então fazem parte do nosso povo. Foi essa minha resposta na ocasião. — Ele fez uma pausa. — E seria minha resposta hoje.

Pelletier assentiu sua aprovação ao ouvir essas palavras, enquanto via uma onda de concordância se espalhar pelo Grande Salão, arrebatando até mesmo os bispos e padres. Apenas o mesmo monge solitário, um dominicano pela cor do hábito, não se deixou convencer.


— Temos uma interpretação diferente de tolerância — resmungou ele em seu forte sotaque espanhol.

Mais atrás, outra voz ecoou.

— Messire, perdoe-me, mas nós sabemos tudo isso. É notícia velha. E agora? Por que fomos chamados ao conselho?

Pelletier reconheceu a voz arrogante e preguiçosa do mais arruaceiro dos cinco filhos de Bérenger de Massabrac, e teria intervindo se não tivesse sentido a mão do visconde em seu braço.

— Thierry de Massabrac — disse Trencavel, a voz falsamente amável —, ficamos gratos por sua pergunta. Mas alguns de nós aqui não conhecem tão bem quanto você o complicado caminho da diplomacia.

Vários homens riram e Thierry ficou vermelho.

— Mas você tem razão em perguntar. Eu os chamei aqui hoje porque essa situação mudou.

Embora ninguém tenha falado, a atmosfera dentro do salão mudou. Se o visconde teve consciência do aumento da tensão, não deu mostras disso, como Pelletier ficou feliz em perceber, mas continuou a falar com a mesma desem­baraçada confiança e autoridade.

— Esta manhã, recebemos notícias de que a ameaça do exército do norte é ao mesmo tempo mais real e mais imediata do que antes pensávamos. A Ost, que é como esse exército profano está se referindo a si mesmo, reuniu-se em Lyon no dia da festa de João Batista. Nossas estimativas são de que algo como 20 mil chevaliers invadiram a cidade, acompanhados por não se sabe mais quantos sapadores, padres, cavalariços, carpinteiros, clérigos, ferreiros. A Hoste partiu de Lyon chefiada por aquele lobo branco, Arnald-Amalric, abade de Cíteaux. — Ele fez uma pausa e correu os olhos pelo salão. — Sei que esse é um nome que golpeará como o ferro os corações de muitos de vocês. — Pelletier viu os ho­mens de estado mais velhos aquiescerem. — Com ele estão os arcebispos católicos de Reims, Sens e Rouen, bem como os bispos de Autun, Clermont, Nevers, Bayeux, Chartres e Lisieux. Quanto à liderança temporal, embora o rei Felipe da França não tenha atendido ao chamado às armas, nem permitido a seu filho partir em seu lugar, muitos dos mais poderosos barões e principados do norte o fizeram. Congost, por favor.

Ao som de seu nome, o escrivan pousou a pena afetadamente. Seus cabe­los sebosos caíam-lhe sobre o rosto. Sua pele, branca e esponjosa, era quase translúcida devido a uma vida inteira passada dentro de casa. Congost demo­rou-se enfiando a mão na grande sacola de couro e tirando de lá um rolo de pergaminho. O material parecia ter vida própria em suas mãos suadas.

— Vamos logo, homem — resmungou Pelletier entre os dentes.


Congost estufou o peito e pigarreou várias vezes, antes de finalmente começar a ler.

— Eudes, duque da Borgonha; Hervé, conde de Nevers; conde de Saint-Pol; conde de Auvergne; Pierre d'Auxerre; Hervé de Genève; Guy d'Evreux; Gaucher de Châtillon; Simon de Montfort...

A voz de Congost era aguda e inexpressiva, mas mesmo assim cada nome parecia cair como uma pedra em um poço seco, reverberando pelo salão. Aqueles eram inimigos poderosos, barões influentes do norte e do leste com recursos, dinheiro e homens à sua disposição. Eram oponentes dignos de temor, não de desdém.

Pouco a pouco, o tamanho e a natureza do exército que se reunia contra o sul foi tomando forma. Até mesmo Pelletier, que lera a lista com os próprios olhos, sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.

Agora ouvia-se no salão um rumor baixo e constante: surpresa, incredu­lidade e raiva. Pelletier prestou atenção no bispo cátaro de Carcassonne. Ele escutava com concentração, o rosto inexpressivo, ladeado por vários padres cátaros importantes — os parfaits. Em seguida, os olhos argutos de Pelletier encontraram o rosto contraído e escondido pelo capuz de Bérenger de Rochefort, bispo católico de Carcassonne, que estava no outro canto do Gran­de Salão de braços cruzados, acompanhado de padres da catedral de Sant-Nasari e outros de Sant-Cernin.

Pelletier estava confiante de que, pelo menos por ora, de Rochefort manteria sua fidelidade a Trencavel e não ao papa. Mas quanto duraria isso? Não se podia confiar em um homem de lealdades divididas. Que ele muda­ria de lado era tão certo quanto o sol se erguer no leste e se pôr no oeste. Pelletier se perguntou, e não era a primeira vez que o fazia, se não seria sensato pedir para os religiosos se retirarem agora, para não ouvirem nada que pudessem se sentir obrigados a relatar a seus superiores.

Podemos enfrentá-los, por mais numerosos que sejam — veio um grito de trás. — Carcassona é inexpugnável! — Outros também começaram a gritar. Lastours também! — Logo, vozes se erguiam de todos os cantos do Grande Salão, ecoando por todas as superfícies como o trovão encurralado nos rincões e vales da Montagne Noire.

Que eles venham às colinas — gritou outro. — Nós vamos lhes mos­trar o que significa lutar.

Erguendo a mão, Raymond-Roger recebeu com um sorriso as demons­trações de apoio.

— Meus senhores, meus amigos — disse, praticamente gritando para ser ouvido. — Obrigado por sua coragem, por sua lealdade inabalável. — Fez uma pausa, esperando o nível de ruído diminuir. — Esses homens do norte não nos devem aliança, nem nós devemos aliança a eles, exceto por aquela que une todos os homens desta terra sob Deus. No entanto, eu não esperava uma traição vinda de alguém que todos os laços de obrigação, família e dever obri­gam a proteger nossas terras e nosso povo. Estou falando de meu tio e senhor lígio, Raymond, conde de Toulouse.

Um silêncio completo abateu-se sobre os homens reunidos.

— Algumas semanas atrás, recebi relatos de que meu tio havia se submetido a um ritual de tamanha humilhação que tenho vergonha de falar a respei­to. Busquei comprovar esses rumores. Eram verdadeiros. Na grande catedral de Sant-Gilles, em presença do legado papal, o conde de Toulouse foi recebi­do de volta nos braços da Igreja Católica. Foi despido até a cintura e, usando o cordão do penitente ao redor do pescoço, foi açoitado pelos padres enquan­to rastejava de joelhos implorando perdão.

Trencavel se deteve por um instante, para permitir a plena compreensão de suas palavras.

— Através desse vil rebaixamento, ele foi novamente recebido nos braços da Santa Madre Igreja. — Um murmúrio de desprezo espalhou-se pelo conse­lho. — Mas não é só isso, amigos. Não tenho dúvidas de que esse espetáculo ignominioso tinha por objetivo provar a força de sua fé e de sua oposição à heresia. Porém, parece que isso não foi suficiente para evitar o perigo que ele sabia estar a caminho. Ele cedeu o controle de seus domínios aos legados de Sua Santidade o papa. O que eu soube hoje... — Ele fez uma pausa. — Hoje eu soube que Raymond, conde de Toulouse, está em Valence, a menos de uma semana de marcha, com várias centenas de seus homens. Está apenas esperando um sinal para conduzir os invasores do norte pelo rio, em Beaucaire, e para dentro de nossas terras. — Fez outra pausa. — Ele abraçou a cruz dos cruzados. Meus senhores, ele tem a intenção de marchar sobre nós.

Por fim, o salão explodiu em uivos ultrajados.

— Silenci — bradou Pelletier até sua voz ficar rouca, tentando em vão restaurar a ordem no caos. — Silêncio. Silêncio, por favor!

Era uma batalha desigual, uma voz contra muitas.

O visconde deu um passo à frente até a beirada do palanque, posicio­nando-se diretamente sob o brasão dos Trencavel. Suas bochechas estavam coradas, mas a luz da batalha ardia em seus olhos, e seu rosto irradiava desafio e coragem. Ele abriu bem os braços, como para abarcar o salão e todos nele contidos. O gesto calou a todos.

— Então eis me aqui diante de vocês, meus amigos e aliados, no antigo espírito da honra e da fidelidade que liga cada um de nós a nossos irmãos, para pedir o seu bom conselho. A nós, homens do Midi, restam apenas dois cami­nhos abertos e muito pouco tempo para escolher qual dos dois tomar. A pergunta é a seguinte. Per Carcassona!— Por Carcassonne. — Per Io Miègjorn. — Pelas terras do Midi. — Devemos nos submeter? Ou devemos lutar?

Enquanto Trencavel tornava a se sentar na cadeira, exausto pelo discur­so, o nível de ruído no Grande Salão crescia à sua volta.

Pelletier não pôde evitar. Inclinou-se para frente e pôs a mão no ombro do rapaz.

— Muito bem, messire— disse baixinho. — Falou com muita nobreza, meu senhor.


 

O debate durou horas.

Criados iam e vinham, trazendo cestos de pão e uvas, bandejas de carne e queijo branco, incessantemente enchendo e tornando a encher os grandes jarros de vinho. Ninguém comeu muito, mas beberam bastante, o que au­mentava sua raiva e prejudicava sua capacidade de julgamento.

O mundo do lado de fora do Château Comtal prosseguia normalmente. Os sinos das igrejas marcavam as horas canônicas do dia. Monges cantavam, freiras rezavam, abrigados dentro dos muros de Sant-Nasari. Nas ruas de Carcassonne, cidadãos cuidavam de seus afazeres. Nos subúrbios e casas do lado de fora dos muros fortificados, crianças brincavam, mulheres trabalha­vam, mercadores, camponeses e membros das guildas comiam, conversavam e jogavam dados.

Dentro do Grande Salão, os argumentos racionais começavam a dar lugar a insultos e recriminações. Uma facção queria resistir. Outra argumen­tava em favor de uma aliança com o conde de Toulouse, alegando que, se as estimativas do tamanho do exército reunido em Lyon estivessem exatas, en­tão até mesmo a força de todos eles combinados não seria suficiente para resistir a tal inimigo.

Cada um dos homens já podia ouvir os tambores da guerra rufando em sua cabeça. Alguns imaginavam honra e glória no campo de batalha, o impac­to do aço no aço. Outros viam sangue cobrindo as colinas e planícies, um fluxo incessante de despossuídos e feridos vagando derrotados pelas terras em chamas.

Pelletier andava de um lado para o outro do salão, incansável, procu­rando sinais de desacordo ou de oposição ou de desafio à autoridade do visconde. Nada do que observou deu-lhe motivos reais de preocupação. Ele estava confiante de que seu seigneur fizera o suficiente para que todos se sentissem ligados a ele e que, independentemente de interesses individuais, os senhores do Pays d'Oc se uniriam atrás do visconde Trencavel, qualquer que fosse a sua decisão.


As linhas de batalha eram traçadas no terreno geográfico, e não ideológi­co. Aqueles cujas terras ficavam nas planícies mais vulneráveis queriam depo­sitar sua fé no poder da negociação. Aqueles cujos domínios ficavam nas terras altas da Montagne Noire ao norte, ou então nos Montes Sabarthès e nos Pireneus ao sul e a oeste, estavam determinados a resistir à Hoste e lutar.

Pelletier sabia que o coração do visconde Trencavel estava com estes úl­timos. Ele era forjado do mesmo metal que os senhores das montanhas, e compartilhava sua feroz independência de espírito. Mas Pelletier sabia tam­bém que a cabeça de Trencavel lhe dizia que a única forma de manter intactas suas terras, e de proteger seu povo, era engolir o orgulho e negociar.

No final da tarde, o aposento recendia a frustração e discussões já azedadas. Pelletier estava cansado. Estava exausto de tantas minúcias, de tantas frases de efeito que davam voltas e mais voltas sobre si mesmas sem chegar a lugar algum. Sua cabeça também havia começado a doer. Ele se sentia enrijecido e velho, velho demais para aquilo, pensava, enquanto girava o anel que sempre usava no polegar, deixando vermelha a pele calosa sob a jóia.

Chegara a hora de concluir o assunto.

Chamando um criado para trazer água, ele mergulhou um quadrado de pano na jarra e o estendeu para o visconde.

— Tome, messire — falou.

Trencavel pegou o pano molhado, agradecido, e limpou a testa e pescoço.

Acha que já lhes demos tempo suficiente?

Acredito que sim, messire — respondeu Pelletier.

Trencavel assentiu. Estava sentado com as mãos apoiadas firmemente nos braços de madeira esculpida de sua cadeira, parecendo tão calmo quanto na primeira vez em que se levantara para se dirigir ao conselho. Muitos ho­mens mais velhos e mais experientes teriam tido que se esforçar para manter um grupo daqueles sob controle, pensou Pelletier. Era essa força de caráter que lhe dava coragem para fazer o que tinha de ser feito.

E como conversamos antes, messire?

Sim — respondeu Trencavel. — Embora todos eles não pensem a mesma coisa, acho que a minoria seguirá os desejos da maioria neste caso... — Ele parou e, pela primeira vez, um sinal de indecisão, de arrependimento tingiu suas palavras. — Mas Bertrand, eu queria que houvesse outro jeito.

Eu sei, messire — disse Pelletier baixinho. — Sinto a mesma coisa. Mas, por mais que isso nos ofenda, não há alternativa. Sua única chance de proteger seu povo é negociar uma trégua com seu tio.

Ele pode se recusar a me perdoar, Bertrand — disse o visconde em voz baixa. — Na última vez em que nos encontramos, eu disse coisas que não deveria ter dito. A despedida foi tensa.


Pelletier pousou a mão no braço de Trencavel.

— É um risco que temos de correr — disse, embora compartilhasse da mesma preocupação. — Passou-se muito tempo desde então. Os fatos falam por si. Se a Hoste realmente for tão grande quanto dizem, ou mesmo se tiver metade desse tamanho, então não temos escolha. Dentro da Cité estaremos seguros, mas e as pessoas do lado de fora dos muros... Quem vai protegê-las? A decisão do conde de abraçar a cruz fez de nós... fez do senhor, messire... o único alvo possível. A Hoste não vai se dispersar agora. Ela precisa de um inimigo para combater.

Pelletier baixou os olhos para o rosto atormentado de Raymond-Roger e viu nele arrependimento e tristeza. Queria oferecer algum conforto, dizer al­guma coisa, qualquer coisa, mas não conseguiu. Qualquer falta de determina­ção agora seria fatal. Não poderia haver nenhuma fraqueza, nenhuma dúvida. Mais coisas dependiam da decisão do visconde Trencavel do que o rapaz ja­mais saberia.

— O senhor fez todo o possível, messire. Deve manter-se firme. Deve acabar com isto. Os homens estão ficando inquietos.

Trencavel relanceou os olhos para o brasão acima de si, depois tornou a voltá-los para Pelletier. Por um instante, os dois se encararam.

— Informe Congost — disse o visconde.

Com um profundo suspiro de alívio, Pelletier caminhou depressa até onde o escrivan estava sentado à sua mesa, massageando os dedos enrijecidos. A cabeça de Congost se levantou num pulo, mas ele nada disse enquanto empunhava a pena e sentava-se muito ereto para registrar a decisão final do conselho.

Pela última vez, Raymond-Roger Trencavel se pôs de pé.

— Antes de anunciar minha decisão, devo agradecer a todos vocês. Se­nhores de Carcassès, Razès, Albigeois e das terras mais além, eu saúdo seu valor, sua fortitude e sua lealdade. Conversamos durante muitas horas, e vocês demonstraram grande paciência e firmeza. Não temos motivo para nos recriminar. Somos vítimas inocentes de uma guerra que não é nossa. Alguns de vocês ficarão desapontados com o que estou prestes a dizer, outros ficarão felizes. Rezo para que, com a ajuda e a misericórdia de Deus, nós possamos encontrar coragem para nos manter unidos.

Ele se empertigou.

— Para o bem de todos nós, e para a segurança de nosso povo, pedirei uma audiência a meu tio e senhor lígio, Raymond, conde de Toulouse. Não temos como saber que resultado isso terá. Não é sequer certo que meu tio me receberá, e o tempo não está a nosso favor. Então, é importante mantermos nossas intenções escondidas. Boatos se espalham depressa, e se algum rumor sobre nossas intenções chegar aos ouvidos do meu tio, isso pode enfraquecer nossas posição para negociar. Assim, os preparativos para o torneio continua­rão conforme o planejado. Meu objetivo é voltar bem antes do dia da festa, espero eu com boas notícias. — Ele fez uma pausa. — Minha intenção é partir amanhã, ao raiar do dia, levando comigo apenas um pequeno grupo de chevaliers e representantes, com sua licença, da grande casa de Cabaret, bem como de Minerve, Foix, Quillan...

Minha espada é sua, messire — bradou um chevalier.

A minha também — gritou outro. Um por um, homens se ajoelharam pelo salão.

Sorrindo, Trencavel levantou a mão.

— Sua coragem, seu valor, honra todos nós — disse ele. — Meu intendente informará àqueles cujos serviços serão necessários. Por ora, meus amigos, peço-lhes licença. Sugiro que todos voltem a seus aposentos para des­cansar. Tornaremos a nos encontrar no jantar.

Na comoção que acompanhou a partida do visconde Trencavel do Grande Salão, ninguém percebeu uma figura solitária, vestindo uma longa capa azul com capuz, emergir das sombras e se esgueirar porta afora.

 

O sino de vésperas já havia silenciado há tempos quando o intendente Pelletier finalmente emergiu da Tour Pinte.

Sentindo o peso de cada um de seus 52 anos, Pelletier afastou as cortinas e caminhou de volta para o Grande Salão. Esfregou as têmporas com as mãos cansadas, tentando diminuir a dor persistente que martelava sua cabeça.

Desde o final do conselho, o visconde Trencavel estava recebendo pessoal­mente os mais fortes de seus aliados, para conversar sobre a melhor maneira de abordar o conde de Toulouse. Cada conversa durava horas. Uma por uma, as decisões iam sendo tomadas, e mensageiros saíam à galope do Château Comtal levando cartas não apenas para Raymond VI, mas também para os legados papais, para o abade de Cíteaux e para os cônsules e viguiers de Béziers. Os chevaliers que iriam acompanhar o visconde haviam sido informados. Nos estábulos e na ferraria, as preparações já estavam em curso, e continuariam durante a maior parte da noite.

No aposento reinava um silêncio completo, mas tenso. Por causa da partida cedo no dia seguinte, em vez do banquete programado haveria uma refeição mais informal. Compridas mesas apoiadas em cavaletes haviam sido montadas, sem toalha, em fileiras que iam do norte ao sul do salão. Velas tremeluziam débeis no centro de cada mesa. Nos altos recessos das paredes, as tochas já ardiam intensamente, fazendo as sombras dançarem e crepitarem.

No extremo mais afastado do aposento, criados entravam e saíam, car­regando pratos que se destacavam mais pela abundância do que pela cerimô­nia. Cervos, gamos, coxas de frango com pimenta, tigelas de cerâmica cheias de feijões, lingüiças e pão branco recém-saído do forno, ameixas roxas fervi­das em mel, vinho rosé Aos vinhedos de Corbières e jarras de cerveja para os mais fracos.

Pelletier assentia, aprovando. Estava satisfeito. Em sua ausência, François fora um bom substituto. Tudo parecia estar como deveria e no nível de corte­sia e hospitalidade que os convidados do visconde Trencavel tinham o direito de esperar.


François era um bom criado, apesar de seu começo de vida desafortuna­do. Sua mãe havia sido criada da esposa francesa de Pelletier, Marguerite, e fora enforcada como ladra quando François não passava de um menino. Nin­guém sabia quem era o pai. Quando sua mulher morrera nove anos antes, Pelletier havia assumido a educação de François, treinando-o e dando-lhe uma posição. De tempos em tempos, permitia-se sentir satisfação por François ter se saído tão bem.

Pelletier saiu para a Cour d'Honneur. O ar ali estava fresco, e ele se demorou um pouco na soleira da porta. Crianças brincavam ao redor do poço, merecendo uma palmada na perna de uma das aias quando suas brincadeiras ruidosas ficavam brutas demais. Meninas mais velhas passeavam de braços dados à luz do crepúsculo, conversando, sussurrando segredos umas para as outras.

No início ele não percebeu o menino pequeno, de cabelos escuros, senta­do de pernas cruzadas no muro junto à capela.

— Messire!Messire!— gritou o menino, pulando do muro e pondo-se de pé. — Tenho uma coisa para o senhor.

Pelletier não lhe deu atenção.

— Messire — insistiu o menino, puxando a manga do homem mais velho para chamar sua atenção. — Intendente Pelletier, por favor. Importante.

Ele sentiu alguma coisa ser empurrada para dentro de sua mão. Baixou os olhos e viu que era uma carta escrita em um pergaminho grosso cor de creme. Sua cabeça deu um giro. Do lado de fora estava seu próprio nome, inscrito em uma caligrafia conhecida, peculiar. Pelletier já havia se convencido de que nunca mais a veria.

Ele agarrou o menino pela gola da roupa.

Onde você conseguiu isto? — perguntou, sacudindo-o com violência. — Fale. — O menino se debatia como um peixe no anzol, tentando se desvencilhar. — Conte-me. Rápido, agora.

Um homem me deu isso no portão — gemeu o menino. — Não me machuque. Eu não fiz nada.

Pelletier o sacudiu com mais força.

Que tipo de homem?

Um homem, só isso.

Você vai ter que se esforçar um pouco mais — disse, com aspereza, a voz se exaltando. — Poderá ganhar um sol se conseguir me dizer o que eu quero saber. O homem era jovem? Velho? Era um soldado? — Ele fez uma pausa. — Era judeu?

Pelletier disparou uma pergunta atrás da outra até conseguir arrancar os fatos do menino. Não eram grande coisa. Pons lhe disse que estava brincando com amigos no fosso do Château Comtal, tentando atravessar a ponte de um lado a outro sem ser pego pelos guardas. No crepúsculo, quando a luz come­çava a diminuir, um homem havia se aproximado deles e perguntado se al­guém conhecia de vista o intendente Pelletier. Quando Pons respondera que sim, o homem lhe dera um sol para entregar a carta. Dissera que era muito importante e muito urgente.

Não havia nada de especial no homem que pudesse distingui-lo. Era de meia-idade, nem velho nem moço. Não era especialmente moreno, tampouco era louro. Seu rosto não tinha marcas, sinais de varíola ou de brigas. O menino não prestara atenção se o homem usava anel, porque suas mãos haviam ficado escondidas debaixo da capa.

Finalmente satisfeito de ter descoberto tudo que podia, Pelletier pôs a mão na bolsa e deu ao menino uma moeda.

— Tome. É por seus serviços. Agora vá.

Pons não esperou uma segunda ordem. Desvencilhou-se das mãos de Pelletier e saiu correndo tão depressa quanto suas pernas conseguiam carregá-lo.

O intendente tornou a entrar no castelo, segurando a carta apertada contra o peito. Não prestou atenção em ninguém enquanto percorria o corredor que levava a seu quarto.

A porta estava trancada. Maldizendo a própria cautela, Pelletier pegou as chaves, os gestos desajeitados por causa da pressa. François havia acendido as calèlhs, as lamparinas a óleo, e guarnecido sua bandeja de noite com uma jarra de vinho e dois copos de cerâmica na mesa no centro do quarto, como fazia toda noite. A superfície de cobre da bandeja, muito polida, reluzia à luz dou­rada, tremeluzente.

Pelletier se serviu de vinho para acalmar os nervos, a cabeça cheia de imagens difusas, lembranças da Terra Santa e das sombras compridas e ver­melhas do deserto. Dos três livros e do segredo ancestral contido em suas páginas.

O vinho forte tinha um sabor azedo em sua língua, e atingiu o fundo de sua garganta fazendo-a arder. Ele o sorveu em um só gole e tornou a encher o copo. Muitas vezes tentara visualizar como se sentiria nesse instante. Mas, agora que ele finalmente chegara, sentia-se anestesiado.

Pelletier se sentou, pousando a carta sobre a mesa entre as mãos espalmadas. Sabia o que ela dizia. Era a mensagem que ele vinha ao mesmo tempo esperando e temendo por muitos anos, desde que chegara a Carcassonne. Naqueles dias, as terras prósperas e tolerantes do Midi pareciam um esconde­rijo seguro.


À medida que as estações seguiam-se umas às outras, a expectativa de Pelletier de ser chamado diminuía. A vida cotidiana tomou a dianteira. Passou a não pensar mais nos livros. Por fim, praticamente se esquecera de que estava esperando alguma coisa.

Mais de vinte anos haviam se passado desde que ele vira pela última vez o autor daquela carta. Até aquele momento, percebeu, sequer soubera se seu professor e mentor ainda estava vivo. Fora Harif quem lhe havia ensinado a ler, à sombra dos olivais nas colinas ao redor de Jerusalém. Fora Harif quem havia despertado seus sentidos para um mundo mais glorioso, mais magnificente do que qualquer coisa que Pelletier jamais experimentara. Fora Harif quem lhe havia ensinado a ver que sarracenos, judeus e cristãos apenas seguiam ca­minhos diferentes em direção a um mesmo Deus. E fora Harif quem lhe havia revelado que, além de tudo que era conhecido, havia uma verdade muito mais antiga, mais ancestral, mais absoluta do que qualquer coisa que o mundo mo­derno pudesse oferecer.

A noite da iniciação de Pelletier à Noublesso de los Seres estava tão vivida e clara em sua lembrança como se tivesse acontecido na véspera. As túnicas douradas cintilantes e a toalha branca imaculada do altar, ofuscante como os baluartes que reluziam bem alto nas colinas acima de Alepo, entre os ciprestes e os laranjais. O cheiro do incenso, a cadência das vozes sussurrando no escu­ro. Iluminação.

Fora naquela noite, mais de uma vida atrás, ou assim parecia para Pelletier naquele instante, que ele olhara para o coração do labirinto e fizera o juramento de proteger seu segredo com a própria vida.

Ele puxou a vela para mais perto. Mesmo sem a autenticidade do selo, não restava dúvidas de que a carta era de Harif. Ele reconheceria sua caligrafia em qualquer lugar: a elegância peculiar dos caracteres, as proporções exatas das letras.

Pelletier sacudiu a cabeça, tentando desalojar as lembranças que amea­çavam se apoderar dele. Respirou fundo, e então passou a faca por debaixo do lacre. A cera se partiu com um leve estalo. Ele esticou o pergaminho até deixá-lo liso.

A carta era sucinta. No alto da folha estavam os símbolos de que Pelletier se lembrava, os mesmos que vira nos muros amarelos da caverna do labirinto nas colinas ao redor da Cidade Sagrada. Escritos na antiga língua dos ancestrais de Harif, eles nada significavam exceto para os iniciados na Noublesso.

 

         No início dos tempos

         Na terra do Egito

         O mestre dos segredos

         Dispensou palavras e escritas

 

Pelletier leu as palavras em voz alta, reconfortado pelos sons conhecidos, antes de voltar a atenção para a carta de Harif.

 

                       Fraire

Chegou a hora. A escuridão está a caminho destas terras. Há desgraça no ar, um mal que irá destruir e corromper tudo aquilo que é bom. Os textos não estão mais seguros nas planícies do Pays d'Oc. E hora de a Trilogia ser reunida. Seu irmão o aguarda em Besièrs, sua irmã em Carcassona. Cabe a você levar os livros para um lugar mais seguro. Apresse-se. Quando vier o dia de Todos os Santos, os passos estivais em direção a Navarra já estarão fechados; talvez antes disso, se a neve chegar cedo. Esperarei por você no dia da festa de Sant-Miquel.

       Pas a pas, se va luènh.

 

A cadeira rangeu quando Pelletier se reclinou profundamente para trás. Era exatamente o que ele esperava. As instruções de Harif eram claras. Ele não pedia nada mais do que Pelletier um dia havia jurado fazer. Mas, mesmo assim, ele sentia que sua alma havia sido sugada para fora do corpo, deixando apenas um espaço oco.

Seu juramento de proteger os livros fora feito de bom grado, mas na simplicidade da juventude. Agora, no final da meia-idade, tudo era mais com­plicado. Ele havia construído uma vida diferente para si em Carcassonne. Ti­nha outras alianças, outras pessoas que amava e a quem servia.

Só agora percebia o quão completamente havia convencido a si mesmo de que a hora da decisão não chegaria enquanto ele ainda estivesse vivo. Que ele jamais seria forçado a escolher entre sua lealdade e responsabilidade para com o visconde Trencavel e sua obrigação junto à Noublesso.


Nenhum homem podia servir a dois senhores de forma honrada. Se ele cumprisse as ordens de Harif, isso significaria abandonar o visconde na hora em que ele mais precisava dele. Porém, cada instante que passasse ao lado de Raymond-Roger seria uma traição a seu dever para com a Noublesso.

Pelletier releu a carta, rezando para uma solução se apresentar. Dessa vez, determinadas palavras e expressões se destacaram: "Seu irmão o aguarda em Besièrs."

Harif só poderia estar se referindo a Simeon. Mas em Béziers? Pelletier levou o copo aos lábios e bebeu, sem sentir gosto algum. Que estranho o fato de Simeon ter-lhe sido trazido à lembrança de forma tão intensa naquele dia, depois de tantos anos de ausência.

Reviravolta do destino? Coincidência? Pelletier não acreditava em ne­nhuma das duas coisas. Mas então, como explicar o temor que tomara conta de seu corpo quando Alaïs havia descrito o corpo do homem assassinado nas águas do rio Aude? Não havia motivo para imaginar que fosse Simeon, mas mesmo assim ele tivera certeza.

E aquelas palavras: "sua irmã em Carcassona".

Intrigado, Pelletier traçou um desenho com o dedo sobre a leve camada de pó que cobria a mesa. Um labirinto.

Teria Harif escolhido uma mulher como guardiã? Será que ela estivera ali em Carcassonne, debaixo de seu nariz, durante todo aquele tempo? Ele sacudiu a cabeça. Não podia ser.

 

Alaïs estava em pé junto à janela, esperando Guilhem voltar. O céu sobre Carcassonne tinha um azul profundo, aveludado, um manto macio que co­bria a terra. O vento seco e noturno vindo do norte, o cers, soprava suave­mente das montanhas, fazendo farfalhar as folhas das árvores e as plantas aquáticas nas margens do Aude, trazendo consigo a promessa de um ar mais fresco.

Pontinhos de luz brilhavam em Sant-Miquel e Sant-Vicens. As ruas calça­das de pedra da própria Cité fervilhavam de pessoas comendo e bebendo, contando histórias e entoando canções de amor, coragem e perda. Junto à praça principal, as fogueiras das fundições dos ferreiros ainda ardiam.

Esperar. Esperar sempre.

Alaïs havia esfregado os dentes com ervas para torná-los mais brancos e costurado um pequeno sachê de miosótis na gola do vestido para perfumá-lo. O quarto recendia ao doce aroma de lavanda queimando.

O conselho já terminara havia algum tempo, e Alaïs esperava que Guilhem voltasse, ou pelo menos lhe mandasse um recado. Fragmentos de conversas subiam do pátio lá embaixo como colunas de fumaça. Ela viu de relance o cunhado, Jehan Congost, atravessar o pátio apressado. Contou sete ou oito chevaliers da casa e seus écuyers encaminhando-se decididos para a forja. Mais cedo, vira o pai repreender um jovem que estava parado junto à capela.

De Guilhem, não havia sinal.

Alaïs suspirou, frustrada por ter ficado confinada no quarto sem motivo. Voltou-se novamente para o interior do aposento, caminhando sem rumo da mesa à cadeira e tornando a voltar, os dedos inquietos à procura de algo para fazer. Parou na frente do tear e olhou para a pequena tapeçaria que estava fazendo para dama Agnès, um complicado bestiário de criaturas e pássaros selvagens com longas caudas, que se arrastavam e escalavam o muro de um castelo. Geralmente, quando o tempo ou as responsabilidades domésticas a mantinham confinada dentro de casa, Alaïs encontrava prazer naquele tipo de trabalho delicado.


Nessa noite, sentia-se incapaz de se concentrar no que quer que fosse. Suas agulhas descansavam intactas no bastidor, o fio que Sajhë lhe dera de presente ainda embrulhado ao seu lado. As poções que ela havia preparado mais cedo com a angélica e o confrei estavam cuidadosamente etiquetadas e enfileiradas sobre uma prateleira de madeira no canto mais fresco e mais escuro do quarto. Ela pegou e examinou a tábua de madeira até se fartar de sua imagem e seus dedos ficarem doloridos de tanto traçar o desenho do labirinto. Esperar, esperar.

— Es totjorn Io meteis — murmurou. Sempre a mesma coisa.

Alaïs andou até o espelho e espiou seu reflexo. Um rosto pequeno, sério, em formato de coração, com olhos castanhos inteligentes e bochechas pálidas a encarou de volta, nem feio nem bonito. Alaïs ajeitou a gola do vestido, do modo como vira outras meninas fazerem, tentando deixá-lo mais na moda. Talvez se costurasse um pedaço de renda no...

Uma batida abrupta na porta interrompeu seus pensamentos.

Perfin. Enfim.

— Estou aqui — falou, alto.

A porta se abriu. O sorriso sumiu de seu rosto.

François. O que houve?

O intendente Pelletier solicita sua presença, dama.

A esta hora?

Pouco à vontade, François transferia o peso do corpo de um pé para o outro.

— Ele a está esperando em seus aposentos. Acho que o assunto é urgen­te, Alaïs.

Ela olhou para ele, surpresa ao ouvi-lo usar seu nome de batismo. Não se lembrava de tê-lo visto cometer esse erro antes.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou ela depressa. — Meu pai está indisposto?

François hesitou.

— Ele está muito... preocupado, dama. Ficaria grato por sua companhia o quanto antes.

Ela suspirou.

Parece que passei o dia todo no lugar errado.

Ele pareceu intrigado.

Como disse, dama?

— Não tem importância, François. Só estou meio esquisita hoje. É claro que eu vou, se é o que meu pai quer. Vamos?

Em seu quarto, no outro extremo da ala particular do castelo, Oriane estava sentada no centro da cama com as pernas compridas e curvilíneas dobradas sob o corpo.


Tinha os olhos verdes semicerrados, como os de um gato. Um sorriso satisfeito pairava em seus lábios enquanto ela deixava o pente ser passado por entre seus cachos longos e negros. De vez em quando, sentia o leve toque dos dentes de osso do objeto na pele, delicado e sugestivo.

— Isto é muito... calmante — disse.

Um homem estava em pé atrás dela. Estava nu da cintura para cima, e havia uma leve camada de suor entre seus ombros largos e fortes.

— Calmante, dama? — perguntou ele, descontraído. — Essa não era exatamente a minha intenção.

Ela pôde sentir seu hálito morno quando ele se inclinou para afastar-lhe os cabelos do rosto, torcendo-os em suas costas.

— Você é muito bonita — sussurrou ele.

Começou a massagear-lhe os ombros e o pescoço, primeiro delicada­mente, depois com mais firmeza. Oriane inclinou a cabeça enquanto as mãos experientes dele percorriam o contorno de sua mandíbula, nariz, queixo, como se estivessem tentando memorizar-lhe as feições. De vez em quando, as mãos desciam um pouco mais até a pele macia e branca de seu decote.

Oriane levou uma das mãos dele à boca e passou a língua na ponta dos dedos. Ele puxou as costas dela em sua direção. Ela pôde sentir o calor e o peso do corpo dele, sentir a prova do quanto ele a desejava pressionada nas costas. Ele a virou de frente para ele e separou-lhe os lábios com os dedos, então começou a beijá-la devagar.

Ela não prestou atenção ao barulho de passos no corredor do lado de fora, até alguém começar a esmurrar a porta.

Oriane! — chamou uma voz aguda, mal-humorada. — Você está aí?

É Jehan! — balbuciou ela entre os dentes, mais irritada do que alar­mada pela interrupção. Abriu os olhos. — Achei que você tivesse dito que ele não voltaria logo.

Ele olhou na direção da porta.

Não achei que voltaria. Quando os deixei, parecia que ele ficaria ocupado com o visconde por mais algum tempo. A porta está trancada?

Claro — respondeu ela.

— Ele não vai achar estranho?

Oriane deu de ombros.

— Ele sabe que não pode entrar sem ser convidado. Mesmo assim, é melhor você se esconder. — Ela acenou na direção de uma pequena alcova atrás de uma tapeçaria pendurada ao pé da cama. — Não se preocupe — disse sorrindo, ao ver a expressão no rosto dele. — Vou me livrar dele o mais rápido possível.

— E como vai fazer isso?

Ela passou as mãos em volta do pescoço dele e o puxou para baixo em sua direção, perto o suficiente para ele sentir os cílios dela roçarem-lhe a pele. Aquilo o excitou.

Oriane! — gemeu Congost, a voz ficando mais aguda a cada vez que ele falava. — Abra esta porta imediatamente!

Você vai ter que esperar para ver — murmurou ela, dobrando-se para beijar o peito do homem e sua barriga firme, um pouco mais embaixo. —

Agora você precisa sumir. Nem mesmo ele vai ficar do lado de fora para sempre.

Uma vez segura de que o amante estava escondido com segurança, Oriane foi até a porta na ponta dos pés, girou a chave na fechadura sem fazer ruído, depois correu de volta para a cama e arrumou as cortinas à sua volta. Estava pronta para se divertir.

Oriane!

Marido — respondeu ela, petulante. — Não há motivo para esse barulho todo. A porta está aberta.

Oriane ouviu barulhos, seguidos pela porta sendo aberta e fechada com estardalhaço. Ouviu a pancada do metal na madeira quando ele pousou a vela sobre a mesa.

— Onde você está? — perguntou ele, irritado. — E por que está tão escuro aqui dentro? Não estou com humor para brincadeiras.

Oriane sorriu. Esticou-se por cima dos travesseiros, as pernas ligeira­mente abertas e os braços lisos e nus erguidos acima da cabeça. Não queria deixar nada a cargo da imaginação dele.

Estou aqui, marido.

A porta não estava aberta na primeira vez que tentei abrir — disse ele irritado enquanto afastava as cortinas, e em seguida emudeceu.

Bom, você não devia estar... empurrando... com força suficiente — disse ela.

Oriane viu o rosto dele embranquecer, depois ficar vermelho, quase púrpura. Seus olhos saltaram das órbitas e sua boca se abriu enquanto ele cravava o olhar em seus seios fartos e empinados e seus mamilos escuros, nos cabelos soltos espa­lhados à sua volta sobre o travesseiro como um punhado de cobras a se contorcer, na curva de sua cintura estreita e na leve protuberância de sua barriga, no triângulo de pêlos crespos e pretos entre suas coxas.

O que você pensa que está fazendo? — guinchou ele. — Cubra-se imediatamente.

Eu estava dormindo, marido — respondeu ela. — Você me acordou.

Acordei você? Acordei você — cuspiu ele. — Você estava dormindo como... estava dormindo assim?


A noite está quente, Jehan. Não posso dormir como eu quiser na privacidade do meu próprio quarto?

Qualquer um poderia ter entrado e a visto desse jeito. Sua irmã, sua criada, Guirande. Qualquer um!

Oriane levantou-se devagar e olhou para ele com uma expressão de desa­fio, enrolando uma mecha de cabelos entre os dedos.

— Qualquer um? — disse, com sarcasmo. — Eu dispensei Guirande — falou, fria. — Não precisava mais dos serviços dela.

Ela podia ver que ele estava desesperado, tentando desviar os olhos, mas sem conseguir. Desejo e aversão corriam em quantidades iguais por seu sangue ressequido.

Qualquer um poderia ter entrado — repetiu ele, embora menos enfático.

Sim, acho que sim. Mas ninguém entrou. Só você, marido, é claro.

— Ela sorriu. Tinha a expressão de um animal prestes a dar o bote. — Agora, já que está aqui, talvez possa me dizer por onde andou?

— Você sabe por onde eu andei — disparou ele. — Estava no conselho.

Ela sorriu.

— No conselho? Todo esse tempo? O conselho se dispersou bem antes de escurecer.

Congost enrubesceu.

Não cabe a você questionar o que eu digo.

Oriane apertou os olhos.

Por Sant-Foy, que homem pomposo você é, Jehan. "Não cabe a você"...

— A imitação era perfeita, e os dois homens estremeceram diante de sua cruel­dade. — Vamos, Jehan, diga-me onde esteve. Discutindo casos de estado, tal­vez? Ou será que você estava com uma amante, e Jehan? Você tem uma aman­te escondida em algum lugar do Château?

— Como se atreve a falar assim comigo. Eu...

— Outros maridos dizem às esposas por onde andaram. Por que não você? A não ser, como estou dizendo, que haja um bom motivo para não fazê-lo.

Congost agora gritava.

— Outros maridos deveriam aprender a segurar a língua. Isso não é assunto para mulheres.

Oriane se moveu devagar pela cama na direção dele.

— Não é assunto para mulheres — disse. — É mesmo?

Sua voz era baixa e cheia de desprezo. Congost sabia que ela estava zombando dele, mas não entendia as regras daquele combate. Nunca tinha entendido.

Oriane estendeu a mão e apertou a saliência reveladora debaixo da túni­ca dele. Com satisfação, viu pânico e surpresa nos olhos do marido enquanto começava a movimentar a mão para cima e para baixo.

— Então, marido — disse com desdém. — Diga-me o que considera assuntos para mulheres? Amor? — Ela aumentou a pressão. — Isto? Como chamaria isto, apetite?

Congost pressentiu a armadilha, mas estava hipnotizado por ela e não sabia o que dizer ou fazer. Não conseguiu evitar inclinar-se em direção a ela. Seus lábios úmidos sugavam o ar como os de um peixe, e seus olhos estavam fechados com força. Ele podia desprezá-la, mas ela ainda era capaz de fazê-lo desejá-la, assim como a qualquer outro homem, governado pelo que trazia pendurado entre as pernas, independentemente de saber ler ou escrever. Ela o desprezava.

Abruptamente, ela retirou a mão, já tendo conseguido a reação que queria.

— Bem, Jehan — disse, fria. — Se você não está preparado a me dizer nada, então é melhor ir embora. Aqui você não tem nenhuma utilidade para mim.

Oriane viu algo dentro dele explodir, como se todas as decepções e frus­trações que ele jamais havia experimentado na vida lhe voltassem à lembrança. Antes de perceber o que estava acontecendo, ele já havia batido nela, com força suficiente para fazê-la sair voando e cair novamente deitada sobre a cama.

Ela arquejou de surpresa.

Congost não conseguia se mexer, fitando as próprias mãos como se elas não lhe pertencessem.

Oriane, eu...

Você é patético — gritou ela. Podia sentir o gosto do sangue na própria boca. — Eu já disse para ir embora. Então vá. Saia da minha frente!

Por um instante, Oriane pensou que ele fosse tentar pedir descul­pas. Porém, quando ele levantou os olhos, o que ela viu neles foi ódio, não vergonha. Deu um suspiro de alívio. Tudo estava correndo conforme os seus planos.

— Você me dá nojo — gritava ele, afastando-se da cama. — Você parece um animal. Não, você é pior do que um animal, porque sabe o que está fazen­do. — Ele agarrou a capa azul dela, que estava caída no chão, e a atirou sobre seu rosto. — E cubra-se. Não quero encontrá-la assim quando voltar, exibindo-se como uma puta.

Quando teve certeza de que ele tinha ido embora, Oriane tornou a se deitar na cama e se cobriu com a capa, um pouco abalada, mas com o sangue a correr acelerado pelas veias. Pela primeira vez em quatro anos de casamento, aquele velho burro, débil e fraco que seu pai a obrigara a tomar por marido de fato havia conseguido surpreendê-la. Sua intenção era provocá-lo, com certe­za, mas ela não esperava que ele fosse lhe bater. E com tamanha força. Correu os dedos pela pele, que ainda ardia por causa da pancada. A intenção dele havia sido machucá-la. Talvez fosse ficar uma marca? Isso poderia valer algu­ma coisa. Nesse caso, poderia mostrar ao pai a que situação a decisão dele a havia reduzido.

Oriane se empertigou com uma risadinha. Por mais que tentasse escon­der o fato, seu pai só se importava com Alaïs. Oriane se parecia demais com a mãe para o gosto dele, tanto na aparência quanto no temperamento. Como se ele fosse ligar a mínima se Jehan a matasse de pancadas. Decerto pensaria que ela havia merecido.

Por um instante, permitiu que a inveja que mantinha escondida de todos, menos de Alaïs, escorresse de trás da máscara perfeita de seu rosto bonito e inescrutável. O ressentimento por sua falta de poder, por sua falta de influência, por sua decepção. Que valor tinham sua juventude e sua bele­za se ela estava amarrada a um homem sem ambição nem futuro, um ho­mem que nunca havia erguido uma espada? Não era justo que Alaïs, a irmã caçula, conseguisse todas as coisas que ela queria mas que lhe eram negadas. Coisas que deveriam ser suas por direito.

Oriane torceu o tecido entre os dedos como se estivesse beliscando o braço pálido e magro de Alaïs. Feia, mimada, queridinha Alaïs. Apertou o tecido com mais força, visualizando mentalmente um hematoma púrpura a espalhar-se pela pele da irmã.

— Você não deveria provocá-lo.

A voz de seu amante varou o silêncio. Ela havia quase se esquecido de que ele estava ali.

— Por que não? — disse ela. — É a única diversão que ele me proporciona.

Ele passou pelas cortinas e tocou-lhe a face com os dedos.

— Ele a machucou? Ficou marcado.

Ela sorriu diante da preocupação na voz dele. Como ele a conhecia pouco. Via apenas o que queria ver, uma imagem da mulher que pensava que ela fosse.

— Não é nada — respondeu ela.

A corrente de prata no pescoço dele roçou-lhe a pele quando ele se incli­nou para beijá-la. Ela pôde sentir o cheiro de seu desejo de possuí-la. Oriane mudou de posição, permitindo que o tecido azul escorresse de seu corpo como água. Correu as mãos pelas coxas dele, a pele pálida e macia se comparada ao marrom dourado de suas costas, braços e peito, em seguida levantou os olhos um pouco mais. Sorriu. Ele já havia esperado o suficiente.


Oriane se inclinou para frente para tomá-lo na boca, mas ele a empur­rou para trás na cama e ajoelhou-se ao seu lado.

— Então, que diversão espera de mim, minha senhora? — perguntou, abrindo-lhe as pernas de leve. — Esta?

Ela emitiu murmúrios enquanto ele se inclinava para frente e a beijava.

— Ou esta?

A boca dele continuou a descer até sua parte mais escondida, secreta. Oriane prendeu a respiração enquanto a língua dele começava a brincar por sua pele, mordendo, lambendo, provocando.

Ou talvez isto? — Ela sentiu as mãos dele, fortes e apertadas em volta de sua cintura, quando ele a puxou para junto de si. Oriane cruzou as pernas ao redor das costas dele.

Ou talvez seja isto que realmente quer? — perguntou ele, a voz embargada de desejo enquanto mergulhava fundo dentro dela. Ela grunhiu de satisfação, arranhando-lhe as costas com as unhas, tornando-o seu.

Então seu marido acha que você é uma puta? — brincou ele. — Vamos ver se conseguimos provar que ele está certo.

 

Pelletier andava de um lado para o outro de seu quarto, à espera de Alaïs.

O ar estava mais fresco agora, mas havia suor sobre sua testa larga e seu rosto estava afogueado. Ele deveria estar nas cozinhas, supervisionando os cria­dos, certificando-se de que tudo estava sob controle. Mas estava atordoado pelo significado daquele instante. Sentia-se em uma encruzilhada, diante de caminhos que se estendiam em todas as direções, conduzindo a um futuro incerto. Tudo que já havia acontecido em sua vida, e tudo que ainda estava por acontecer, dependia do que ele decidisse fazer naquele momento.

Por que ela estava demorando tanto?

Pelletier apertou a carta no punho cerrado. Já conhecia as palavras de cor.

Deu as costas para a janela e seu olhar foi atraído por algo brilhante, cintilando na poeira e nas sombras atrás do alisar da porta. Pelletier se abaixou e recolheu o objeto. Era uma pesada fivela de prata com detalhes em cobre, grande o suficiente para servir de fecho a um manto ou túnica.

Ele franziu o cenho. Não era sua.

Levantou-a junto a uma vela para ver melhor. A fivela não tinha nada de especial. Vira centenas delas à venda no mercado. Girou-a nas mãos. Sua qua­lidade era bastante boa, sugerindo alguém de condições razoáveis, ainda que não abastadas.

O objeto não poderia ter estado ali por muito tempo. François arrumava o quarto todas as manhãs, e teria reparado na fivela. Nenhum outro criado tinha permissão para entrar no aposento, e ele estivera fechado o dia inteiro.

Pelletier olhou em volta, à procura de sinais de algum intruso. Sentia-se inquieto. Seria sua imaginação ou os objetos em sua escrivaninha estavam ligeiramente fora do lugar? Suas cobertas haviam sido desarrumadas? Nessa noite, tudo o alarmava.

— Paire?

Alaïs falou baixinho, mas o assustou mesmo assim. Precipitadamente, ele enfiou a fivela no bolso.


Pai — repetiu ela. — Mandou me chamar?

Pelletier se aprumou.

Sim, sim, mandei. Venha.

Mais alguma coisa, messire — perguntou François da soleira da porta.

Não. Mas espere lá fora caso eu precise de você.

Esperou até a porta se fechar, depois acenou para Alaïs sentar-se à mesa. Serviu-lhe um copo de vinho e tornou a se servir também, mas não se sentou.

Você parece cansada.

Estou, um pouco.

O que as pessoas estão dizendo sobre o conselho, Alaïs?

— Ninguém sabe o que pensar, messire. As histórias são tantas. Todos rezam para as coisas não serem tão ruins quanto parecem. Todo mundo sabe que o visconde parte para Montpellier amanhã, acompanhado de um peque­no grupo, para pedir uma audiência ao tio, o conde de Toulouse. — Ela levantou a cabeça. — É verdade?

Ele assentiu.

Mas também dizem que o torneio vai prosseguir.

É verdade também. A intenção do visconde é completar sua missão e voltar para casa daqui a duas semanas. Antes do final de julho, com certeza.

É provável que a missão do visconde tenha sucesso?

Pelletier não respondeu, mas continuou a andar de um lado para o ou­tro. A ansiedade dele a contagiava.

Ela bebeu um gole de vinho para tomar coragem.

Guilhem faz parte do grupo?

Ele próprio não lhe contou? — respondeu Pelletier, brusco.

Não o vejo desde que o conselho se dispersou — confessou ela.

Onde em nome de Sant-Foy ele pode estar? — perguntou Pelletier.

Por favor, responda-me apenas sim ou não.

Guilhem du Mas foi escolhido, embora eu deva dizer que foi contra o meu desejo. O visconde gosta dele.

— Com razão, paire — disse ela baixinho. — Ele é um chevalier habilidoso.

Pelletier se inclinou sobre a mesa e serviu mais vinho no copo da filha.

— Diga-me, Alaïs, você confia nele?

A pergunta a pegou desprevenida, mas ela respondeu sem hesitar.

Todas as esposas não deveriam confiar nos maridos?

Sim, sim. Eu não esperaria outra resposta de você — disse ele apres­sado, fazendo um gesto de desinteresse. — Mas ele lhe perguntou o que acon­teceu esta manhã no rio?


O senhor ordenou que eu não falasse sobre isso com ninguém — disse ela. — Naturalmente, eu o obedeci.

Como eu confiava que manteria sua palavra — disse ele. — Mas, mesmo assim, você não respondeu exatamente à minha pergunta, Alaïs.

Guilhem perguntou onde você esteve?

Não houve oportunidade — disse ela, desafiadora. — Como eu disse ao senhor, não o vi.

Pelletier andou até a janela.

— Você tem medo da guerra? — perguntou, de costas para ela.

Alaïs ficou desconcertada pela mudança abrupta de assunto, mas retru­cou sem demora.

Quando penso no assunto, tenho sim, messire — respondeu com cautela. — Mas certamente a situação não vai chegar a esse ponto?

Não, talvez não.

Ele pousou as mãos sobre o peitoril da janela, aparentemente perdido nos próprios pensamentos e alheio à presença dela.

— Sei que você acha minha pergunta impertinente, mas tive motivo para perguntar. Olhe para o fundo de seu coração. Pense bem em sua resposta.

Então diga-me a verdade. Você confia no seu marido? Confia nele para protegê-la, para ficar do seu lado?

Alaïs entendeu que as palavras que realmente importavam não haviam sido ditas, e estavam escondidas em algum lugar sob a superfície, mas teve medo de responder. Não queria ser desleal com Guilhem. Ao mesmo tempo, não conseguia mentir para o pai.

Eu sei que ele não o agrada, messire — disse ela, com a voz firme —, embora não saiba o que ele fez para desagradá-lo...

Você sabe perfeitamente o que ele faz para me desagradar — disse

Pelletier, impaciente. — Eu já lhe disse várias vezes. Mas a minha opinião pessoal sobre du Mas, seja ela boa ou ruim, não interessa. É possível desgostar de um homem e mesmo assim reconhecer o seu valor. Por favor, Alaïs. Responda à minha pergunta. Muita coisa depende da sua resposta.

Imagens de Guilhem dormindo. De seus olhos, negros como magnetita, da curva de seus lábios ao beijarem a parte interna do pulso dela. Lembranças tão poderosas que a deixavam tonta.

Não consigo responder — disse ela por fim.

Ah — suspirou ele. — Bom. Bom. Entendo.

Com todo o respeito, paire, o senhor não entende nada — exaltou-se

Alaïs. — Eu não disse nada.

Ele se virou.


Você disse a Guilhem que eu mandei chamá-la?

Como eu disse, não o vi e... e não é certo o senhor me questionar desta forma. Fazer-me escolher entre ser leal a ele ou ao senhor. — Alaïs fez menção de se levantar. — Então, a não ser que por algum motivo o senhor necessite a minha presença, messire, nesta hora tardia, peço-lhe licença para me retirar.

Pelletier apressou-se em acalmar a situação.

— Sente-se, sente-se. Vejo que a ofendi. Perdoe-me. Não foi minha intenção.

Ele estendeu a mão. Depois de um instante, Alaïs a segurou.

— Não quero falar por enigmas. Minha hesitação é... Preciso deixar as coisas claras na minha própria mente. Esta noite recebi um recado de extrema importância, Alaïs. Passei as últimas horas tentando decidir o que fazer, considerando as alternativas. Embora pensasse ter me decidido por um dos cami­nhos e tenha mandado chamar você, ainda assim tinha dúvidas.

Alaïs o encarou.

E agora?

Agora o caminho à minha frente está claro. Sim. Acho que sei o que devo fazer.

O rosto dela empalideceu.

Então a guerra está chegando — disse, a voz subitamente mansa.

Sim, acho que a guerra é inevitável. Os sinais não são bons. — Ele se sentou. — Estamos no meio de acontecimentos muito além de nosso contro­le, por mais que tentemos nos convencer do contrário. — Ele hesitou. — Mas há algo mais importante do que isso, Alaïs. E se as coisas derem errado em Montpelhièr, então talvez eu não tenha mais oportunidade para... para lhe contar a verdade.

O que pode ser mais importante do que a ameaça de guerra?

Antes de eu falar qualquer outra coisa, preciso da sua palavra de que tudo que eu lhe disser esta noite ficará entre nós.

Foi por isso que perguntou sobre Guilhem?

Em parte, sim — admitiu ele —, embora não tenha sido o único motivo. Mas, primeiro, dê-me sua garantia de que nada do que eu lhe disser sairá destas quatro paredes.

O senhor tem minha palavra — disse ela sem hesitar.

Pelletier suspirou de novo, mas dessa vez ela ouviu alívio no suspiro, não ansiedade. A sorte estava lançada. Ele havia feito sua escolha. Faltava apenas a determinação de levar as coisas até o fim, independentemente das conseqüências.

Ela chegou mais perto. A luz das velas dançava e bruxuleava em seus olhos castanhos.

— Esta é uma história que começa nas terras ancestrais do Egito, vários milhares de anos atrás — disse ele. — Esta é a verdadeira história do Graal.

Pelletier falou até todo o óleo das lamparinas queimar.

O pátio lá embaixo estava agora em silêncio, já que os convivas tinham ido dormir. Alaïs estava exausta. Seus dedos estavam brancos, e debaixo de seus olhos havia sombras roxas, parecendo hematomas.

Pelletier também havia envelhecido e se cansado de tanto falar.

Em resposta à sua pergunta, você não precisa fazer nada. Ainda não, talvez nunca. Se nossas tentativas de amanhã forem bem-sucedidas, isso me dará o tempo e a oportunidade de que preciso para levar eu próprio os livros até um lugar seguro, como me cabe fazer.

Mas e se não forem bem-sucedidas, messire? E se alguma coisa acontecer com o senhor?

Alaïs calou-se, o medo a apertar-lhe a garganta.

Mesmo assim tudo ainda pode ficar bem — disse ele, mas sua voz estava sem energia.

Mas e se não ficar? — insistiu ela, resistindo a se deixar tranqüilizar.

— E se o senhor não voltar? Como saberei então quando agir?

Ele a encarou por um instante. Então procurou no bolso até encontrar um pequeno embrulho de pano cor de creme.

Se alguma coisa acontecer comigo, você receberá um objeto assim.

Pousou o embrulho sobre a mesa e o empurrou na direção dela.

Abra.

Alaïs fez o que ele mandava, desdobrando o material pedacinho por pe­dacinho, até revelar um pequeno disco de pedra clara com duas letras gravadas em cima. Ergueu-o para a luz e leu as letras em voz alta.

—NS?

Quer dizer Noublesso de los Seres.

O que é este objeto?

— Um merel, um amuleto secreto que se usa entre o polegar e o indica­ dor. Ele tem também outra função importante, mas que você não precisa saber. Isto lhe dirá se seu portador é digno de confiança. — Alaïs assentiu. — Agora vire-o.

Gravado do outro lado havia um labirinto, idêntico ao desenho esculpi­do na parte de trás da tábua de madeira. Alaïs soltou uma exclamação.

— Eu já vi isto antes.

Pelletier retirou o anel do polegar e o estendeu para ela.

— Está gravado na parte de dentro do anel — disse ele. — Todos os guardiães usam um anel assim.


Não, aqui no Château. Comprei queijo no mercado hoje e peguei uma tábua em meu quarto para carregá-lo. O desenho está gravado na parte de baixo da tábua.

Mas isso é impossível. Não pode ser o mesmo.

Juro que é.

De onde veio essa tábua? — perguntou ele. — Pense, Alaïs. Alguém lhe deu essa tábua? Foi um presente?

Alaïs sacudiu a cabeça.

Não sei, não sei — disse, desesperada. — Passei o dia inteiro tentando me lembrar, mas não consigo. O mais estranho foi que eu tive certeza de ter visto o desenho em algum outro lugar, mesmo sem saber de onde tinha vindo a tábua.

Onde ela está agora?

Deixei em cima da mesa do meu quarto — disse ela. — Por quê? O senhor acha que isso é importante?

Então qualquer pessoa poderia ter visto — disse ele, frustrado.

Acho que sim — retrucou ela, nervosa. — Guilhem, qualquer um dos criados, não sei dizer.

Alaïs baixou os olhos para o anel em sua mão, subitamente as peças se encaixaram.

— Você pensou que o homem do rio fosse Simeon? — disse devagar. —

Ele também é um guardião?

Pelletier assentiu.

Não havia motivo para pensar que fosse ele, mas mesmo assim eu tinha certeza.

E os outros guardiães? O senhor sabe onde eles estão?

Ele se inclinou para frente e fechou os dedos da filha em volta do merel.

— Chega de perguntas, Alaïs. Cuide bem disto. Guarde-o bem. E escon­da a tábua com o labirinto em um lugar onde olhos curiosos não possam vê-la.

Cuidarei desse assunto quando eu voltar.

Alaïs se levantou.

— E a tábua?

Pelletier sorriu diante de sua insistência.

Vou pensar no assunto, filha.

Mas a presença dela significa que alguém no Château sabe da existência dos livros?

Ninguém pode saber — disse ele com firmeza. — Se eu achasse que esse risco é real, eu lhe diria. Dou-lhe a minha palavra.

Eram palavras corajosas, palavras de um guerreiro, mas a expressão dele as desmentia.

— Mas se...


— Basta — disse ele baixinho, erguendo os braços. — Chega.

Alaïs se deixou envolver por seu abraço de gigante. Seu cheiro conhecido trouxe-lhe lágrimas aos olhos.

Tudo vai ficar bem — disse ele com firmeza. — Você precisa ser corajosa. Faça somente o que lhe pedi, nada mais. — Ele beijou-lhe o alto da cabeça. — Venha se despedir de nós ao amanhecer. — Alaïs aquiesceu, sem ousar dizer nada.

Ben, ben. Agora vá depressa. E que Deus a proteja.

Alaïs atravessou às carreiras o corredor escuro e saiu para o pátio sem parar para tomar fôlego, vendo fantasmas e demônios em cada sombra. Sua cabeça rodava. O velho mundo conhecido parecia de repente uma imagem espelhada do que era antes, ao mesmo tempo reconhecível e inteiramente diferente. O embrulho escondido debaixo de seu vestido parecia fazer um buraco em sua pele.

Do lado de fora, o ar estava fresco. A maioria das pessoas havia se reco­lhido para a noite, embora ainda houvesse umas poucas luzes brilhando nos quartos que davam para a Cour d'Honneur. Uma risada vinda dos guardas no portão a fez sobressaltar. Por um instante, ela imaginou ter visto a silhueta de uma pessoa em um dos quartos superiores. Mas, nesse mesmo instante, um morcego passou voando na sua frente, atraindo seu olhar, e quando ela tornou a olhar a janela estava escura.

Ela começou a andar mais depressa. As palavras do pai rodopiavam em sua cabeça, todas as perguntas que ela deveria ter feito, mas não fizera.

Com mais alguns passos, ela começou a sentir uma comichão na nuca. Olhou por cima do ombro.

— Quem está aí?

Ninguém respondeu. Ela tornou a chamar. Havia perigo na escuridão, ela podia sentir seu cheiro, sua textura. Alaïs apertou o passo, agora certa de que estava sendo seguida. Podia ouvir a leve batida de pés e o ruído de uma respiração ofegante.

— Quem está aí? — tornou a chamar.

Sem aviso, a mão áspera e calosa de alguém, recendendo a cerveja, fe­chou-se sobre sua boca. Ela gritou ao sentir uma pancada repentina e forte na nuca, e caiu.

Pareceu-lhe que levava muito tempo para atingir o chão. Então, mãos começaram a percorrer todo seu corpo, como ratos em um porão, até encon­trarem o que queriam.

— Aqui es. — Aqui está.

Foi a última coisa que Alaïs ouviu antes de a escuridão se fechar sobre ela.

 

           Pic de Soularac

           Montes Sabartnès

           Sudoeste da França

           Segunda-feira, 4 de julho de 2005

 

— Alice! Alice, está me ouvindo?

Seus olhos piscaram e se abriram.

O ar estava gelado e úmido, como uma igreja sem calefação. Ela não flutuava; estava deitada sobre o chão duro e frio.

Onde diabos eu estou? Podia sentir a terra molhada debaixo de seus braços e pernas, áspera e irregular. Alice mudou de posição. Pedras afiadas e cascalho arranharam sua pele.

Não, não era uma igreja. Uma centelha de lembrança lhe voltou. De ter descido um túnel comprido e escuro até chegar a uma caverna, e de uma câmara de pedra. E depois? Tudo estava embaçado, gasto nas bordas. Alice tentou levantar a cabeça. Foi um erro. A dor explodiu na base de seu crânio. Uma náusea agitou-se em seu estômago, como água parada no fundo de um barco podre.

— Alice? Está me ouvindo?

Alguém estava falando com ela. Alguém preocupado, aflito, uma voz conhecida.

Alice? Acorde. — Ela tentou levantar a cabeça. Dessa vez, a dor não foi tão ruim. Devagar, com cuidado, ergueu-se um pouco.

Meu Deus — murmurou Shelagh, parecendo aliviada.

Ela teve consciência de mãos em suas axilas, ajudando-a a se sentar. Tudo estava sombrio e escuro, com exceção dos círculos de luz em movimento lan­çados pelas lanternas. Duas lanternas. Alice apertou os olhos e reconheceu Stephen, um dos membros mais antigos da equipe, em pé logo acima de Shelagh, com seus óculos de armação de metal refletindo a luz.

— Alice, fale comigo. Está me ouvindo? — dizia Shelagh.

Não tenho certeza. Talvez.

Alice tentou falar, mas sua boca estava torta e nenhuma palavra saiu. Tentou assentir com a cabeça. O esforço a fez ficar tonta. Ela deixou a cabeça pender entre os joelhos para não desmaiar.

Com Shelagh de um lado e Stephen do outro, tornou a se erguer até ficar sentada no alto dos degraus de pedra, com as mãos nos joelhos. Tudo parecia se mover para frente e para trás, para dentro e para fora, como em um filme fora de foco.

Shelagh se agachou na sua frente, falando, mas Alice não conseguia en­tender o que ela estava dizendo. O som estava distorcido, como um disco girando na rotação errada. Outra onda de náusea a atingiu enquanto novas lembranças desconexas surgiam em turbilhão: o barulho do crânio caindo no escuro; sua mão estendida em direção ao anel; a consciência de que ela havia perturbado alguma coisa que repousava nas profundezas mais remotas da montanha, algo malévolo.

Depois, nada.

Ela estava com tanto frio. Podia sentir arrepios nos braços e pernas des­cobertos. Alice sabia que não podia ter ficado inconsciente por muito tempo, não mais do que alguns minutos, no máximo. Que medida de tempo mais insignificante. Mas parecera tempo suficiente para ela passar de um mundo para o outro.

Alice estremeceu. Então veio outra lembrança. De sonhar o mesmo so­nho conhecido. Primeiro, uma sensação de paz e leveza, tudo branco e claro. Depois despencar de uma altura muito grande pelo céu vazio, e do chão correr ao seu encontro. Não houvera colisão, não houvera impacto, apenas as colu­nas de árvores verde-escuras erguendo-se acima dela. Então o fogo, o muro de chamas vermelhas, douradas e amarelas a rugir.

Abraçou o corpo com força com os braços nus. Por que o sonho havia voltado? Durante a infância, o mesmo sonho a havia assombrado, sempre o mesmo, sem nunca levar a lugar nenhum. Enquanto seus pais dormiam sem suspeitar de nada no quarto do outro lado do corredor, Alice passava noites e noites acordada no escuro, as mãos apertando as cobertas com força, deter­minada a vencer sozinha os próprios demônios.

Mas fazia anos que o sonho não vinha. Havia anos que ele a deixava em paz.

— Que tal tentarmos pôr você em pé? — dizia Shelagh.

Não quer dizer nada. Uma vez só não quer dizer que vai começar tudo de novo.


—Alice — disse Shelagh, a voz um pouco mais incisiva. Impaciente. — Você acha que consegue ficar em pé? Precisamos levar você de volta para a sede. Alguém precisa dar uma olhada em você.

Acho que sim — respondeu ela por fim. A voz não parecia ser sua. —

Minha cabeça não está muito boa.

Você consegue, Alice. Vamos, tente agora.

Alice baixou os olhos para seu pulso vermelho, inchado. Merda. Não conseguia se lembrar muito bem, não queria se lembrar.

— Não tenho certeza do que aconteceu. Isto... — Ela ergueu a mão. —

Isto foi lá fora.

Shelagh abraçou Alice para ajudá-la a ficar em pé.

— Tudo bem?

Alice juntou forças e deixou que Shelagh a pusesse de pé. Stephen a segurou pelo outro braço. Ela balançou um pouco de um lado para o outro, tentando se equilibrar, mas depois de alguns segundos a tontura passou e a sensação começou a voltar a seus membros anestesiados. Com cuidado, Alice começou a dobrar e desdobrar os dedos, sentindo a pele dolorida repuxar sobre as articulações.

Estou bem. Espere só um minuto.

Mas o que deu em você para entrar aqui sozinha?

Eu estava... — Alice se calou, sem saber o que dizer. Era típico dela infringir as regras e acabar em apuros. — Tem uma coisa que vocês precisam ver. Ali embaixo. Depois da escada.

Shelagh acompanhou com a lanterna a direção do olhar de Alice. Som­bras corriam pelas paredes e pelo teto da caverna.

Não, ali não — disse Alice. — Lá embaixo.

Shelagh abaixou a lanterna.

Na frente do altar.

Altar?

A luz branca e forte varou a escuridão de breu da câmara como um holo­fote. Por uma fração de segundo, a sombra do altar se desenhou na parede atrás dele, como a letra grega pi superposta no labirinto esculpido. Então Shelagh mudou a mão de lugar, a imagem sumiu e a lanterna encontrou o túmulo. No escuro, os ossos pálidos pareceram saltar em sua direção.

Imediatamente, a atmosfera se alterou. Shelagh soltou um arquejo. Como um robô, desceu um, depois dois, depois três degraus. Parecia ter esquecido que Alice estava ali.

Stephen fez menção de ir atrás.

— Não — disparou ela. — Fique aí.


Eu só estava...

Pensando bem, vá chamar o Dr. Brayling. Conte para ele o que encontramos. Agora! — gritou ela, ao ver que ele não se mexia. Stephen empurrou a lanterna para as mãos de Alice e desapareceu no túnel sem uma palavra. Ela pôde ouvir suas botas esmigalhando o cascalho, cada vez mais distantes, até o barulho ser engolido pela escuridão.

Não precisava ter gritado com ele — Alice começou a dizer. Shelagh a interrompeu.

Você tocou em alguma coisa?

Não exatamente, mas...

Mas o quê? — Outra vez, o mesmo tom agressivo.

Tinha algumas coisas no túmulo — acrescentou Alice. — Posso mostrar para você.

Não — gritou Shelagh. — Não — dessa vez um pouco mais calma.

— Não queremos ninguém pisando lá embaixo.

Alice estava prestes a assinalar que era tarde demais para se preocupar com isso, mas depois parou. Não tinha vontade de tornar a chegar perto dos esqueletos. As órbitas cegas, os ossos partidos eram impressões vividas demais em sua mente.

Shelagh estava em pé olhando para a cova rasa. Havia algo de desafiador na maneira como ela corria o facho de luz pelos corpos, de cima a baixo, como se os estivesse examinando. Era quase desrespeitoso. A lanterna iluminou a lâmina cega da faca enquanto Shelagh se agachava ao lado dos esqueletos, de costas para Alice.

— Você disse que não mexeu em nada? — perguntou abruptamente, virando-se para olhar com raiva por cima do ombro. — Então como é que a sua pinça está aqui?

Alice corou.

Você me interrompeu antes de eu conseguir terminar de falar. O que

eu estava dizendo era que peguei um anel... com a pinça, antes que você per­gunte... mas deixei cair quando ouvi vocês no túnel.

Um anel? — repetiu Shelagh.

Talvez ele tenha rolado para debaixo de alguma outra coisa?

Bom, eu não estou vendo nenhum anel — disse ela, pondo-se subitamente de pé. Voltou para perto de Alice. — Vamos sair daqui. Precisamos cuidar dos seus machucados.

Alice olhou para ela, estupefata. O rosto de uma estranha, não de uma amiga, a encarou de volta. Irado, duro, condenador.

— Mas você não quer...


— Meu Deus, Alice — disse ela, agarrando-lhe o braço. — Você já não fez o suficiente? Temos de sair daqui!

Quando elas emergiram da sombra da pedra, a luz pareceu muito intensa depois da escuridão aveludada da caverna. O sol pareceu explodir na cara de Alice como um fogo de artifício no céu preto de novembro.

Ela protegeu os olhos com a mão. Sentia-se totalmente desorientada, incapaz de se situar no tempo ou no espaço. Era como se o mundo houvesse parado enquanto ela estava dentro da câmara. Era a mesma paisagem conhe­cida em volta, mas ao mesmo tempo tudo havia se transformado em algo diferente.

Ou será que eu só estou vendo com olhos diferentes?

Os picos reluzentes dos Pireneus ao longe haviam perdido a definição. As árvores, o céu, até a própria montanha pareciam menos concretos, menos reais. Alice teve a sensação de que, se tocasse em alguma coisa, o objeto des­pencaria, como o cenário de um set de filmagem, revelando o verdadeiro mun­do escondido por trás.

Shelagh não disse nada. Já estava descendo a montanha decidida, com o celular colado ao ouvido, sem se dar ao trabalho de ver se estava tudo bem com Alice. Alice apressou o passo para acompanhá-la.

— Shelagh, espere aí. Espere. — Ela tocou o braço de Shelagh. — Olhe, desculpe. Eu sei que não deveria ter entrado lá sozinha. Eu não pensei direito.

Shelagh não deu sinal de ter percebido que ela estava falando. Sequer olhou para trás, embora tenha fechado o celular com um estalo.

Vá mais devagar. Não estou conseguindo acompanhar.

Tudo bem — disse Shelagh, virando-se para encará-la. — Já parei.

O que está acontecendo?

Me diga você. O que é que você quer que eu diga, afinal? Que está tudo bem? Quer que eu faça você se sentir melhor por ter cagado tudo?

Não, eu...

— Porque, sabe, na verdade não está tudo bem. Foi totalmente, inacreditavelmente burro da sua parte ter entrado lá sozinha. Você contami­nou o lugar e só Deus sabe o que mais fez. Que porra você achou que estava fazendo?

Alice levantou as mãos.

Eu sei, eu sei. Desculpe, desculpe mesmo — repetiu ela, consciente de como aquilo era insuficiente.

Será que você faz idéia da situação em que me colocou? A responsável por você sou eu. Eu convenci o Brayling a deixar você vir trabalhar aqui. Agora, só porque você resolveu bancar o Indiana Jones, a polícia provavelmente vai suspender a escavação inteira. O Brayling vai pôr a culpa em mim. Tudo que eu fiz para chegar até aqui, para conseguir um lugar nesta escavação. Todo o tempo que eu gastei... — Shelagh se interrompeu e passou os dedos pelos cabelos curtos e descoloridos. Isso não é justo.

— Olhe, espere aí um minuto. — Mesmo sabendo que Shelagh tinha todo o direito de estar zangada, ela estava exagerando. — Você está sendo injusta. Eu admito que foi burrice entrar lá... eu não pensei antes de entrar, reconheço isso... mas você não acha que está exagerando? Eu não fiz de propósito, merda. O Brayling não vai chamar a polícia. Eu não toquei em nada, não toquei mesmo. Ninguém se machucou.

Shelagh afastou o braço que segurava o de Alice com tanta força que quase a fez perder o equilíbrio.

— O Brayling vai chamar a polícia sim — disse ela, descontrolada — porque, como você saberia se se desse ao trabalho de ouvir alguma porra de uma coisa que eu digo, a permissão para a escavação foi dada, contra a recomendação da polícia, com a condição de que qualquer descoberta de restos humanos fosse imediatamente comunicada à Police Judiciaire.

Alice sentiu um buraco se abrir no estômago.

Eu pensei que fosse só burocracia. Ninguém parecia estar levando esse assunto a sério. Todo mundo fez piada sobre isso.

Está óbvio que você não estava levando o assunto a sério! — gritou Shelagh. — Todos os outros estavam, já que somos profissionais e temos al­gum respeito pelo que fazemos!

Isto não está fazendo sentido.

— Mas por que a polícia estaria interessada em uma escavação arqueológica?

Shelagh perdeu as estribeiras.

Meu Deus, Alice, você ainda não entendeu, né? Mesmo depois de tudo que aconteceu? Não tem a menor importância por quê! É assim e pronto! Não é você quem vai decidir quais regras se aplicam e quais você vai resolver ignorar!

Eu nunca disse...

Por que você sempre precisa questionar tudo? Você sempre acha que sabe mais, sempre quer quebrar as regras, ser diferente!

Alice agora também estava gritando.

Isso é totalmente injusto! Eu não sou assim e você sabe! Eu só não pensei...

É esse o problema! Você nunca pensa, a não ser em você mesma! E em conseguir o que quer!


— Isto é uma loucura, Shelagh! Por que eu iria querer dificultar as coisas para você de propósito? Pare e ouça o que está dizendo! — Alice respirou fundo, tentando controlar seu temperamento. — Olhe, eu vou dizer para o Brayling que a culpa foi minha, mas é que... você sabe que eu não iria entrar lá assim, sozinha, se tudo estivesse normal, só que...

Ela fez outra pausa.

Só que o quê?

Isto vai parecer uma bobagem, mas foi como se aquilo me puxasse.

Eu sabia que a câmara estava lá. Não consigo explicar, eu simplesmente sabia.

Uma sensação. Um déja vu. Era como se eu já tivesse estado ali antes.

Você acha que isso melhora a situação? — perguntou Shelagh, sarcástica. — Por favor, dê um tempo. Você teve uma sensação. Que patético.

Alice sacudiu a cabeça.

Foi mais do que isso...

Em todo caso, que diabo você estava fazendo escavando lá em cima para começo de conversa? E sozinha, ainda por cima? É justamente esse o problema. Você quebra as regras só por quebrar.

Não — disse ela. — Não foi assim. O meu parceiro não veio hoje. Eu vi alguma coisa debaixo da pedra e, como hoje é meu último dia, pensei que podia fazer um pouco mais. — Sua voz perdeu a força. — Eu só queria descobrir se valia a pena investigar — disse, percebendo tarde demais o próprio erro. — Não tive a intenção de...

Você está me dizendo, ainda por cima, que efetivamente encontrou alguma coisa? Encontrou alguma coisa e não achou que valia a pena dividir essa informação com mais ninguém?

Eu...

Shelagh estendeu a mão.

— Me dê.

Alice a encarou por um instante, em seguida pôs a mão no bolso dos shorts, tirou o lenço e o estendeu. Não sabia o que dizer.

Viu Shelagh desdobrar o pano de algodão branco para revelar a fivela no interior. Alice não pôde evitar estender a mão.

— E linda, não é? O jeito como o cobre das bordas puxa a luz, aqui e ali.

— Ela hesitou. — Eu acho que pode ser de alguma das pessoas dentro da caverna.

Shelagh ergueu os olhos. Seu humor havia se transformado novamente. Ela não estava mais com raiva.

— Você não tem idéia do que fez, Alice. Nenhuma idéia. — Ela dobrou o lenço. — Vou levar isto lá para baixo.


Eu vou...

Chega, Alice. Não quero mais conversar com você agora. Tudo que você disser só vai piorar as coisas.

Que diabo acabou de acontecer aqui?

Alice ficou parada, atônita, enquanto Shelagh se afastava. A briga havia surgido do nada, uma reação extrema até mesmo para Shelagh, capaz de per­der a paciência pelas coisas mais insignificantes, e fora embora com a mesma rapidez.

Alice se sentou na pedra mais próxima e descansou o pulso latejante sobre um dos joelhos. Tudo doía, e ela se sentia totalmente esgotada, mas também triste. Sabia que a escavação era financiada por recursos privados — ou seja, não estava vinculada a nenhuma universidade ou instituição —, e, portanto, estava subordinada aos regulamentos restritivos que cerceavam mui­tas expedições. O resultado disso era que a competição para fazer parte da equipe havia sido acirrada. Shelagh estava trabalhando em Mas d'Azil, alguns quilômetros a noroeste de Foix, quando ouvira falar pela primeira vez na esca­vação nos Montes Sabarthès. O que ela dizia era que havia bombardeado o diretor Dr. Brayling com cartas, e-mails e cartas de recomendação até que fi­nalmente, um ano e meio antes, conseguira dobrá-lo. Mesmo assim, Alice se perguntava de onde vinha aquela obsessão de Shelagh.

Alice olhou para baixo. Shelagh agora estava tão na frente montanha abaixo que Alice quase não conseguia mais vê-la, uma forma comprida e esguia meio encoberta pelos arbustos e pela vegetação rasteira das encostas mais baixas. Não havia como alcançá-la, mesmo que quisesse.

Alice suspirou. Não sabia o que pensar. Como sempre. Fazer tudo sozi­nha. É melhor assim. Ela era muito auto-suficiente, preferindo não depender de mais ninguém. Mas, naquele momento, não tinha certeza se lhe restava energia suficiente para voltar à sede da escavação. O sol estava forte demais, e suas pernas demasiado fracas. Ela baixou os olhos para o corte no braço. Havia recomeçado a sangrar, mais do que nunca.

Alice correu os olhos pela paisagem castigada pelo verão dos Montes Sabarthès, ainda envolta em sua paz imemorial. Por um instante, sentiu-se bem. Então, subitamente, teve consciência de outra sensação, uma comichão na base da espinha. Expectativa, uma sensação de espera. Reconhecimento. Tudo termina aqui.

Alice começou a ofegar. Seu coração acelerou. Termina aqui onde começou.

Sua cabeça foi subitamente tomada por sussurros, sons desconexos, como ecos no tempo. Então as palavras gravadas na pedra no alto dos degraus voltaram à sua lembrança. Pas a pas. Ficaram rodando dentro de sua cabeça, como uma canção de ninar recordada pela metade.

E impossível. Bobeira sua.

Abalada, Alice pôs as mãos nos joelhos e forçou-se a se levantar. Precisa­va voltar para o acampamento. Insolação, desidratação: ela precisava sair do sol, beber um pouco de água.

Começou a descer devagar, sentindo nas pernas cada protuberância e cada irregularidade da montanha. Precisava sair de perto daquela pedra cheia de ecos, dos espíritos que viviam ali. Não sabia o que estava acontecendo com ela, só sabia que precisava fugir.

Pôs-se a andar mais depressa até estar quase correndo, tropeçando nas pedras e lascas pontiagudas que se projetavam da terra seca. Mas as palavras estavam enraizadas em sua mente e repetiam-se em alto e bom som, como um mantra.

Passo a passo vamos seguindo. Passo a passo.

 

O termômetro marcava quase 33 graus à sombra. Eram quase três da tarde. Alice estava sentada sob o toldo de lona, bebericando obedientemente um refrigerante de laranja que alguém havia lhe dado. As bolhas mornas efervesciam em sua garganta enquanto o açúcar penetrava em sua corrente sangüínea. Havia no ar um cheiro forte de oleado, barracas e antisséptico.

O corte na parte interior de seu cotovelo havia sido esterelizado e o cura­tivo refeito. Uma gaze branca limpa fora enrolada em volta de seu pulso, que havia inchado até ficar do tamanho de uma bola de tênis. Seus joelhos e cane­las estavam cobertos de pequenos arranhões e cortes, já devidamente limpos com desinfetante.

Foi você quem fez isso consigo mesma.

Olhou para o próprio reflexo no pequeno espelho pendurado no pau da barraca. Um rosto pequeno, em formato de coração, com olhos castanhos inteligentes a encarou de volta. Por baixo das sardas e do bronzeado, ela estava pálida. Tinha um aspecto horrível. Seus cabelos estavam cheios de poeira, e havia manchas de sangue seco na parte da frente de sua camiseta.

Tudo que ela queria era voltar para o hotel em Foix, pôr as roupas imun­das para lavar e tomar uma ducha demorada e fria. Então desceria até a praça, pediria uma garrafa de vinho e não se mexeria pelo resto do dia.

E não pensaria no que aconteceu.

Não parecia haver muitas probabilidades de isso acontecer.

A polícia havia chegado meia hora antes. No estacionamento mais em­baixo, uma fila de carros oficiais brancos e azuis estava estacionada ao lado dos mais surrados Citroéns e Renaults dos arqueólogos. Parecia uma invasão.

Alice tinha imaginado que eles falariam com ela primeiro, mas, exceto por confirmar que ela havia encontrado os esqueletos e dizer que precisariam entrevistá-la no momento certo, a polícia a deixara em paz. Ninguém mais havia chegado perto dela. Alice entendia. Todo aquele barulho, toda aquela confusão e perturbação era culpa sua. Não havia nada que alguém pudesse dizer. De Shelagh não havia nem sinal.


A presença da polícia havia transformado o acampamento. Parecia haver dúzias de policiais, todos de camisas azul-claro e botas pretas na altura dos joelhos, com armas penduradas na cintura, invadindo a encosta da montanha como insetos, levantando a poeira do chão e gritando instruções uns para os outros em um francês de sotaque carregado, falando depressa demais para ela conseguir entender.

Eles isolaram a caverna imediatamente, esticando uma tira de plástico na frente da entrada. O ruído de sua atividade ia longe no ar parado da monta­nha. Alice podia ouvir o zumbido das câmeras automáticas competindo com as cigarras.

Vozes vindas do estacionamento flutuaram até ela, trazidas pela brisa. Alice se virou e viu o Dr. Brayling subindo os degraus, acompanhado por Shelagh e pelo policial corpulento que parecia estar no comando da operação.

— É óbvio que esses dois esqueletos não têm como ser as duas pessoas que vocês estão procurando — insistia o Dr. Brayling. — Esses ossos claramente têm centenas de anos. Quando avisei às autoridades, eu nunca, nem sequer por um instante, imaginei que o resultado seria este. — Ele gesticulou à sua volta. — O senhor faz idéia do estrago que seu pessoal está fazendo? Posso lhe garantir que não estou nada satisfeito.

Alice examinou o inspetor, um homem de meia-idade, baixo, moreno e meio gorducho, com mais barriga do que cabelo. Estava ofegante e obviamente incomodado pelo calor. Segurava na mão um lenço embolado, com o qual enxu­gava o rosto e o pescoço sem muito sucesso. Mesmo àquela distância, Alice podia ver as rodelas de suor sob suas axilas e nos punhos de sua camisa.

Peço desculpas pelo incômodo, monsieur le directeur— disse ele em um inglês vagaroso, educado. — Mas, como esta é uma escavação particular, tenho certeza de que o senhor vai poder explicar a situação para os seus patrocinadores.

O fato de termos a sorte de sermos financiados por um indivíduo, e não por uma instituição, não vem ao caso. O que é irritante, para não dizer inconveniente, é a interrupção sem motivo do nosso trabalho. O nosso traba­lho aqui é muito importante.

Dr. Brayling, eu não posso fazer nada — disse Noubel, como se já estivessem tendo a mesma conversa há algum tempo. — Estamos no meio de uma investigação de assassinato. O senhor viu os cartazes das duas pessoas desaparecidas, oui? Então, inconveniente ou não, até termos provado sem sombra de dúvida que os ossos que vocês encontraram não são dessas pessoas desa­parecidas, o trabalho vai ser interrompido.

Não seja tolo, inspetor. Não há nenhuma dúvida de que os esqueletos têm centenas de anos!


O senhor examinou os esqueletos?

Bem, não — esbravejou Brayling. — Não a fundo, é claro que não.

Mas isso é óbvio. O seu pessoal legista vai poder confirmar o que eu estou dizendo.

Tenho certeza de que sim, Dr. Brayling, mas até lá... — Noubel deu de ombros. — Não há nada mais a dizer.

Shelagh se intrometeu.

Nós entendemos a sua posição, inspetor, mas será que o senhor pelo menos poderia nos dar uma idéia de quando vão terminar seu trabalho aqui?

Bientôt. Em breve. Não sou eu quem dita as regras.

O Dr. Brayling ergueu as mãos no ar em um gesto de frustração.

Neste caso, vou ser forçado a falar com alguém com mais autoridade do que o senhor! Isto é totalmente ridículo.

Como quiser — respondeu Noubel. — Enquanto isso, além da se­nhora que encontrou os corpos, vou precisar de uma lista de todas as pessoas que entraram na caverna. Quando tivermos concluído nossa investigação pre­liminar, vamos retirar as ossadas da caverna, e então o senhor e sua equipe ficarão livres para entrar lá.

Alice ficou olhando aquela cena se desenrolar.

Brayling saiu furibundo, e Shelagh pousou a mão no braço do inspetor, depois a retirou imediatamente. Eles pareceram conversar. Em determinado momento, viraram-se e olharam na direção do estacionamento. Alice seguiu a direção de seu olhar, mas não viu nada digno de interesse.

Meia hora se passou, e ninguém chegou perto dela.

Alice enfiou a mão dentro da mochila — imaginou que Stephen ou Shelagh a tivessem trazido lá de cima da montanha — e tirou um lápis e seu bloco de desenho. Abriu-o na primeira página em branco.

Imagine-se em pé junto à entrada, olhando para dentro do túnel.

Alice fechou os olhos e viu a si mesma, os dedos de cada um dos lados da entrada estreita. Lisa. A pedra era surpreendentemente lisa, como se houvesse sido polida ou desgastada. Um passo à frente, no escuro.

O chão descia.

Alice começou a desenhar, trabalhando depressa agora que havia fixado as dimensões do espaço em sua mente. Túnel, abertura, câmara. Em uma segunda folha, desenhou a área inferior, dos degraus até o altar, com os esque­letos a meio caminho entre os dois. Ao lado do esboço da caverna, fez uma lista dos objetos: faca, bolsinha de couro, fragmento de tecido, anel. A face do anel era totalmente lisa e plana, surpreendentemente grossa, com um fino sulco no meio. O fato de estar gravado na parte de baixo, onde ninguém podia ver, era estranho. Só a pessoa que o estivesse usando saberia que o anel era gravado. Gravado com uma réplica em miniatura do labirinto esculpido na parede atrás do altar.

Alice se reclinou na cadeira, por algum motivo relutante em desenhar aquela imagem no papel. Qual seria seu tamanho? O diâmetro talvez fosse dois metros? Mais? Quantos circuitos havia?

Ela desenhou um círculo que ocupava a maior parte da página, depois parou. Quantas linhas? Alice sabia que reconheceria o desenho se tornasse a vê-lo, mas já que só havia segurado o anel por alguns segundos e só visto o desenho ao longe no escuro, era difícil se lembrar com exatidão.

Em algum lugar no sótão bagunçado que era sua mente estava a infor­mação de que ela precisava. Aulas de latim e história na escola; aninhada no sofá com os pais assistindo a documentários da BBC. Em seu quarto, uma pequena estante com seu livro favorito na prateleira de baixo. Uma enciclopé­dia ilustrada de mitos antigos, suas páginas brilhantes e coloridas deformadas por orelhas nos cantos, tantas eram as vezes que ela as havia lido.

Havia uma imagem de um labirinto.

Mentalmente, Alice procurou a página certa.

Mas era diferente. Pôs as imagens lembradas lado a lado, como em um jogo de sete erros de jornal.

Pegou o lápis e tentou de novo, decidida a fazer algum progresso. Desenhou outro círculo dentro do primeiro, tentando juntá-los. Não conse­guiu. A tentativa seguinte não foi mais feliz, nem a que fez depois disso. Ela percebeu que não era apenas uma questão de quantos anéis devia haver em espiral na direção do centro, mas sim de que havia algo fundamentalmente errado com seu desenho.

Alice continuou, a animação inicial dando lugar a uma frustração depri­mida. A coleção de bolinhas de papel amassado ao redor de seus pés crescia.

— Madame Tanner?

Alice sobressaltou-se, fazendo o lápis sair voando por cima do papel.

— Docteur — corrigiu ela automaticamente, pondo-se de pé.

—Je vous demande pardon, docteur. Je m 'appelle Noubel. Police Judiciaire, département de l'Ariege.

Noubel mostrou-lhe sua identidade. Alice fingiu que a lia, ao mesmo tempo em que enfiava todas as suas coisas na mochila. Não queria que o ins­petor visse seus esboços fracassados.

Vous préferez parler en anglais?

Seria melhor, sim, obrigada.

O inspetor Noubel estava acompanhado por um oficial uniformizado de olhos alertas, rápidos. Ele mal parecia ter idade para ter saído da escola. Não foi apresentado.


Noubel espremeu-se em outra das precárias cadeiras dobráveis. Quase não coube nela. Suas coxas se projetavam por sobre o assento de lona.

Et alors, madame. Seu nome todo, por favor.

Alice Grace Tanner.

Data de nascimento.

Sete de janeiro de 1974.

É casada?

Isso é relevante? — disparou ela.

É só para informação, Dra. Tanner — disse ele, afável.

Não — respondeu ela. — Não sou casada.

Seu endereço.

Alice deu-lhe os detalhes do hotel em Foix onde estava hospedada, e também seu endereço de casa, soletrando letra por letra as palavras inglesas pouco familiares para ele.

É uma boa distância para vir de Foix até aqui todos os dias.

Não tinha lugar na sede da escavação, então...

Bien. A senhora é voluntária, é isso?

Isso. Shelagh... a Dra. O'Donnell... é uma das minhas amigas mais antigas. Nós fizemos a universidade juntas, antes...

Responda apenas às perguntas. Ele não precisa saber a história da sua vida.

— Estou só visitando. A Dra. O'Donnell conhece bem esta parte da França.

Quando ficou sabendo que eu tinha negócios a resolver em Carcassonne,

Shelagh sugeriu que eu passasse alguns dias aqui para podermos ter mais tempo juntas. Uma mistura de férias e trabalho.

Noubel anotava em seu bloquinho.

— A senhora não é arqueóloga?

Alice sacudiu a cabeça, negando.

Mas aparentemente é comum eles usarem voluntários, amadores in­teressados ou estudantes de arqueologia para fazer um pouco do serviço básico.

Quantos outros voluntários estão aqui?

Ela enrubesceu, como se houvesse sido pega contando uma mentira.

Na verdade, nenhum, não agora. São todos estudantes de arqueologia.

Noubel olhou para ela com interesse.

E a senhora fica aqui até...?

Hoje é meu último dia. Pelo menos era... mesmo antes disto tudo.

E Carcassonne?

 

Tenho uma reunião lá na quarta-feira de manhã, depois alguns dias para passear pela região. Meu vôo de volta para a Inglaterra é no domingo.

Linda cidade — disse Noubel.


— Não conheço.

Noubel suspirou e enxugou a testa vermelha de novo com o lenço.

E qual a natureza dessa reunião?

Não tenho muita certeza. Uma parente que morava aqui na França me deixou alguma coisa de herança. — Ela fez uma pausa, relutando em pros­seguir. — Vou saber mais depois que tiver me encontrado com a advogada na quarta-feira.

Noubel fez outra anotação. Alice tentou ver o que ele estava escrevendo, mas não conseguiu decifrar sua caligrafia de cabeça para baixo. Para seu alívio, ele abandonou aquele assunto e continuou.

Então a senhora é médica... — Noubel deixou o comentário em suspenso.

Não sou doutora em medicina — respondeu ela, aliviada por falar de coisas mais seguras. — Sou professora universitária, tenho doutorado. Em literatura inglesa medieval. — Noubel pareceu não entender. — Pas médecin.

Pas généraliste — disse ela. — Je suis universitaire.

Noubel suspirou e fez outra anotação.

— Bien. Aux affaires— Seu tom não era mais de conversa. —A senhora estava trabalhando sozinha lá em cima. Isso é comum?

Alice imediatamente se pôs na defensiva.

—Não — respondeu cautelosa —, mas, como era meu último dia, eu quis continuar, mesmo que meu parceiro não estivesse presente. Eu tinha certeza de que tinha descoberto alguma coisa.

Debaixo da pedra que protegia a entrada? Só para esclarecer, como se decide quem vai escavar onde?

O Dr. Brayling e Shelagh... a Dra. O'Donnell... têm um plano do que querem fazer dentro do tempo disponível. Eles dividem a escavação a partir desse plano.

— Então o Dr. Brayling a mandou para aquela área? Ou a Dra. O'Donnell?

Instinto. Eu simplesmente sabia que havia alguma coisa ali.

— Bem, não. Eu subi mais a encosta da montanha porque tinha certeza de que havia alguma coisa... — Ela hesitou. — Não consegui encontrar a Dra. O'Donnell para pedir a permissão dela... então tomei uma... decisão executiva.

Noubel franziu o cenho.

— Entendo. Então a senhora estava lá trabalhando. A pedra se soltou. Caiu. E depois?

Havia lacunas nítidas em sua memória, mas Alice fez o melhor possível. O inglês de Noubel, embora formal, era bom, e suas perguntas eram diretas.

— Foi aí que ouvi alguma coisa no túnel atrás de mim, e eu...


De repente, as palavras secaram em sua garganta. Algo que ela havia suprimido de sua memória voltou com um baque, a sensação de ardência no peito, como se...

Como se o quê?

A própria Alice deu a resposta. Como se eu tivesse levado uma facada. Tinha sido essa a sensação. Uma lâmina entrando em sua carne, precisa e certeira. Não houvera dor, somente uma lufada de ar frio e um terror difuso.

E depois?

A luz brilhante, gelada e etérea. E, escondida em seu interior, um rosto. Um rosto de mulher.

A voz de Noubel interrompeu a torrente de suas lembranças, estilhaçando-as em todas as direções.

— Dra. Tanner?

Será que eu estava tendo uma alucinação?

Dra. Tanner. Quer que eu mande chamar alguém?

Alice o fitou por um instante com os olhos vazios.

Não, não, obrigada. Estou bem. E só o calor.

A senhora estava dizendo como foi surpreendida pelo barulho...

Ela se forçou a se concentrar.

Foi. A escuridão me desorientou. Eu não conseguia distinguir de onde vinha o som, e me assustei. Mas depois me dei conta de que eram só Shelagh e Stephen...

Stephen?

Stephen Kirkland. K-i-r-k-l-a-n-d.

Noubel virou o bloquinho na direção dela para confirmar a grafia. Alice assentiu.

— Shelagh reparou na pedra e foi ver o que estava acontecendo. Stephen foi junto, imagino. — Ela tornou a hesitar. — Não tenho certeza exatamente do que aconteceu depois disso. — Dessa vez a mentira lhe veio facilmente aos lábios. — Eu devo ter tropeçado nos degraus ou alguma coisa assim. A coisa seguinte de que me lembro é de Shelagh chamando o meu nome.

—A Dra. O'Donnell diz que a senhora estava inconsciente quando eles a encontraram.

Só por alguns instantes. Não acho que eu possa ter ficado mais de um minuto ou dois desmaiada. De qualquer forma, não pareceu muito tempo.

A senhora costuma ter desmaios, Dra. Tanner?

Alice sobressaltou-se quando a lembrança terrível da primeira vez que aquilo tinha acontecido lhe varou a mente.

— Não — mentiu.

Noubel não percebeu como ela havia ficado pálida.


A senhora diz que estava escuro — falou ele — e que foi por isso que caiu. Mas antes disso a senhora tinha uma luz?

Eu tinha um isqueiro, mas deixei cair quando ouvi o barulho. E o anel também.

A reação dele foi imediata.

Anel? — perguntou, incisivo. — A senhora não disse nada sobre nenhum anel.

Tinha um anel de pedra pequeno no chão entre os dois esqueletos — disse ela, alarmada pela expressão no rosto dele. — Eu o peguei com a pinça, para ver melhor, mas antes...

Que tipo de anel? — interrompeu ele. — Feito de quê?

Não sei. Algum tipo de pedra; não era de prata, nem de ouro, nem nada assim. Na verdade, não cheguei a ver muito bem.

Tinha alguma coisa gravada? Letras, um selo, um desenho?

Alice abriu a boca para responder, em seguida tornou a fechá-la. Subita­mente, não estava mais com vontade de contar nada a ele.

— Desculpe. Foi tudo muito rápido.

Noubel ficou olhando para ela com raiva por um instante, em seguida estalou os dedos chamando o jovem oficial em pé às suas costas. Alice notou que o rapaz também estava agitado.

— Biau. On a trouvé quelque chose comme ça?

— Je ne sais pas, monsieur l'inspecteur.

— Dépêchez-vous, alors. IL faut le chercher... Et informez monsieur Authié.

Allez! Vite!

Agora que o efeito dos analgésicos começava a passar, uma dor insistente latejava atrás dos olhos de Alice.

— A senhora tocou em mais alguma coisa, Dra. Tanner?

Ela esfregou as têmporas com os dedos.

Eu sem querer tirei um dos crânios do lugar com o pé. Mas, fora isso e o anel, nada. Como eu já disse.

E a peça que encontrou debaixo da pedra?

A fivela? Dei para a Dra. O'Donnell depois que saímos da caverna — respondeu ela, ligeiramente incomodada pela lembrança. — Não tenho idéia do que ela fez com a fivela.

Noubel não estava mais escutando. Não parava de olhar por cima do próprio ombro. Por fim, parou de fingir e fechou o bloquinho com um estalo.

Se a senhora puder fazer a gentileza de esperar, Dra. Tanner. Posso precisar lhe fazer mais perguntas.

Mas eu não vou poder lhe dizer mais nada... — Alice começou a protestar. — Não posso pelo menos me juntar aos outros?

Depois. Por enquanto, seria bom se pudesse ficar aqui.

Alice tornou a afundar na cadeira, irritada e exausta, enquanto Noubel saía com dificuldade da barraca e começava a subir a montanha até onde um gru­po de oficiais uniformizados examinava a pedra grande.

Quando Noubel chegou perto, o círculo se abriu, o suficiente para Alice poder ver um civil alto em pé no meio dos outros.

O ar lhe fugiu.

Vestindo um bem-cortado terno de verão verde claro e uma camisa branca engomada, aquele homem estava obviamente no comando. Sua autoridade era evidente, alguém acostumado a dar ordens e vê-las ser obedecidas. Ao seu lado, Noubel parecia amarfanhado e mal cuidado. Alice sentiu uma comichão de incômodo.

Não eram apenas as roupas e a atitude do homem que o destacavam dos outros. Mesmo daquela distância, Alice podia sentir a força de sua personali­dade e de seu carisma. Seu rosto era pálido e ossudo, a magreza acentuada pelo modo como seus cabelos estavam penteados para trás, descobrindo-lhe a testa larga. Havia algo de monástico nele. Algo familiar.

Deixe de ser boba. Como pode conhecer este homem?

Alice se levantou e foi até a entrada da barraca, olhando com interesse para os dois homens que se afastavam do grupo. Estavam conversando. Ou melhor, Noubel estava falando, enquanto o outro homem escutava. Depois de mais alguns segundos, este último se virou e subiu até a entrada da caverna. O oficial encarregado levantou a fita plástica, ele passou por debaixo dela e desapareceu.

Sem nenhum motivo que ela fosse capaz de explicar, as palmas das mãos de Alice começaram a suar de nervosismo. Os cabelos de sua nuca se arrepia­ram, como quando ela havia escutado o barulho dentro da câmara. Ela mal conseguia respirar.

Isto é tudo culpa sua. Você levou ele até lá.

Alice se empertigou. Do que você está falando?Mas a voz em sua mente se recusava a se calar.

Você levou ele até lá.

Seus olhos se voltaram mais uma vez para a entrada da caverna, parecen­do atraídos por um ímã. Ela não conseguia evitar. A idéia daquele homem ali, depois de tudo que havia sido feito para manter o labirinto escondido.

Ele vai encontrar.

— Encontrar o quê? — murmurou ela para si mesma. Não tinha certeza.

Mas desejou ter pego o anel quando tinha tido oportunidade.

 

Noubel não entrou na caverna. Em vez disso, ficou esperando do lado de fora sob a sombra cinza da protuberância de pedra, com o rosto vermelho.

Ele sabe que alguma coisa não está certa, pensou Alice. De vez em quando, lançava um comentário para o oficial encarregado, e fumava um cigarro atrás do outro, acendendo-o na guimba do anterior. Alice escutava música para ajudar a passar o tempo. O som da banda Nickelback berrava em seus ouvi­dos, eliminando todos os outros sons.

Quinze minutos depois, o homem de terno reapareceu. A estatura de Noubel e do oficial pareceu aumentar vários centímetros. Alice tirou os fones de ouvido e tornou a colocar a cadeira na posição original, antes de tornar a se postar em seu lugar na entrada da barraca.

Observou os dois homens descerem juntos da caverna.

— Eu estava começando a pensar que o senhor tinha se esquecido de mim, inspetor — disse ela quando eles chegaram perto o suficiente para poder ouvi-la.

Noubel resmungou um pedido de desculpas, mas não a olhou nos olhos.

— Dra. Tanner, je vous presente monsieur Authié.

De perto, a primeira impressão de Alice, de um homem de presença e carisma, foi reforçada. Mas os olhos cinzentos dele eram frios e clínicos. Ela imediatamente se sentiu na defensiva. Lutando contra a antipatia que estava sentindo, estendeu a mão. Depois de hesitar por um instante, Authié a aper­tou. Seus dedos eram frios e seu cumprimento, flácido. Aquilo fez a pele de Alice se arrepiar.

Ela soltou a mão o mais rápido que pôde.

Vamos entrar? — disse ele.

O senhor também é da Police Judiciaire, monsieur Authié?

Um esboço de reação percorreu seus olhos, mas ele nada disse. Alice esperou, perguntando-se se seria possível ele não tê-la ouvido. Noubel mexia os pés, pouco à vontade naquele silêncio.

— Monsieur Authié é da mairie, da prefeitura. De Carcassonne.


— É mesmo? — Ela achou surpreendente que Carcassonne pertencesse à

mesma jurisdição de Foix.

Authié acomodou-se na cadeira de Alice, deixando-a sem alternativa que não sentar-se de costas para a entrada. Ela estava alerta, cautelosa com ele.

Ele tinha o sorriso ensaiado de um político, prestativo, atento e superfi­cial. O sorriso não chegava a seus olhos.

Tenho uma ou duas perguntas para a senhora, Dra. Tanner.

Não tenho certeza se posso dizer mais alguma coisa ao senhor. Eu já disse ao inspetor tudo o que me lembrava.

O inspetor Noubel me fez um resumo completo do seu depoimento, mas eu vou precisar que a senhora repita tudo outra vez. Há algumas discrepâncias, alguns pontos na sua história que precisam ser esclarecidos. Pode ser que a senhora tenha se esquecido de alguns detalhes antes, coisas que pareceram insignificantes na hora.

Alice mordeu a língua.

— Eu contei tudo ao inspetor — repetiu ela, teimosa.

Authié uniu as pontas dos dedos e as pressionou umas nas outras, igno­rando as objeções dela. Não estava sorrindo.

— Vamos começar pelo instante em que a senhora entrou na câmara, dra. Tanner. Passo a passo.

Alice sobressaltou-se diante de sua escolha de palavras. Passo a passo? Será que aquilo era um teste? O rosto dele nada revelava. Os olhos dela foram atraídos por um crucifixo de ouro que ele usava em torno do pescoço, depois voltaram a fitar seus olhos cinza, ainda fixos nela.

Sentindo que não tinha escolha, ela recomeçou a falar. No início, Authié escutou com um silêncio tenso, concentrado. Então começou o interrogató­rio. Ele está tentando me pegar em alguma contradição.

—As palavras inscritas no alto dos degraus estavam legíveis, dra. Tanner? A senhora as leu?

A maioria das letras estava apagada — disse ela, superior, desafiando-o a contradizê-la. Quando ele não o fez, Alice sentiu uma lufada de satisfação.

— Desci os degraus até o nível inferior, em direção ao altar. Foi então que vi as ossadas.

Tocou nelas?

—Não.

Ele emitiu um leve som, como se não acreditasse nela, depois vasculhou os bolsos da jaqueta.

— Isto é seu? — perguntou, abrindo a mão para revelar seu isqueiro de plástico azul.

Alice estendeu a mão para pegá-lo, mas ele recolheu o braço.


Pode me devolver, por favor?

É seu, dra. Tanner?

É.

Ele aquiesceu, depois tornou a pôr o isqueiro no bolso.

— A senhora diz que não tocou nos corpos, mas disse o contrário ao inspetor Noubel mais cedo.

Alice ficou vermelha de vergonha.

Foi um acidente. Eu esbarrei em um dos crânios com o pé, mas não cheguei exatamente a tocar neles.

Dra. Tanner, isto vai ser mais fácil se a senhora simplesmente respon­der às minhas perguntas. — A mesma voz fria, dura.

Não estou entendendo o quê...

Qual era o aspecto dos corpos? — perguntou ele, incisivo.

Alice sentiu Noubel se retrair diante do tom agressivo, mas ele não fez menção de intervir. Com o estômago revirado de aflição, ela descreveu da melhor maneira que foi capaz.

E o que a senhora viu entre os corpos?

Uma adaga, um tipo de faca. Tinha também uma bolsinha, de couro, acho. — Não deixe ele intimidar você. — Não sei direito, já que não toquei em nada.

Authié apertou os olhos.

A senhora olhou dentro da bolsinha?

Eu já disse, não toquei em cada...

Com exceção do anel, claro. — Ele subitamente se inclinou para a frente, como uma cobra prestes a dar o bote. — E isso eu acho misterioso, dra. Tanner. O que estou me perguntando é por que a senhora se interessaria tanto pelo anel a ponto de pegá-lo do chão, e mesmo assim não tocar em mais nada.

Está entendendo por que eu estou confuso?

Alice o encarou de volta.

— O anel chamou minha atenção. Só isso.

Ele deu um sorriso sardônico.

— No breu quase completo da caverna, a senhora reparou nesse objeto específico, pequeníssimo? Que tamanho deve ter esse anel? Talvez o mesmo de uma moeda de um euro? Um pouco maior, um pouco menor?

Não diga nada a ele.

— Pensei que o senhor fosse capaz de avaliar sozinho as dimensões do anel — disse ela friamente.

Ele sorriu. Com uma sensação de fracasso, Alice percebeu que, de algu­ma forma, havia feito o que ele queria.


— Quem me dera, dra. Tanner — disse ele, calmo. — Mas agora nós chegamos ao centro da questão. Não tem nenhum anel lá dentro.

Alice ficou gelada.

Como assim?

Exatamente o que eu disse. O anel não está lá. Todo o resto está, mais ou menos como a senhora descreveu. Mas o anel, não.

Alice recuou quando Authié pôs as mãos em sua cadeira e aproximou seu rosto magro e pálido do dela.

— O que você fez com ele, Alice? — sussurrou ele.

Não deixe ele intimidar você. Você não fez nada de errado.

Eu disse ao senhor exatamente o que aconteceu — falou ela, lutando para não deixar a voz ser contaminada pelo medo. — O anel caiu da minha mão quando eu deixei cair o isqueiro. Se ele não está mais lá agora, alguém deve ter pego. Eu é que não fui. — Ela se atreveu a lançar um olhar para Noubel. — Se tivesse sido eu, por que eu falaria no anel, para começo de conversa?

Ninguém além da senhora alega ter visto esse misterioso anel, o que nos deixa duas alternativas — disse ele, ignorando seus comentários. — A primeira é que a senhora está enganada quanto ao que viu. Ou será que a senhora pegou o anel?

O inspetor Noubel finalmente interveio.

Monsieur Authié, eu realmente não acho...

Você não é pago para achar — disparou o outro, sem sequer olhar para o inspetor. Noubel enrubesceu. Authié continuou a olhar para Alice. — Eu só estou afirmando os fatos.

Alice sentiu que estava travando uma batalha, mas ninguém tinha lhe avisado quais eram as regras. Ela estava dizendo a verdade, mas não conseguia encontrar um jeito de convencê-lo.

— Muitas pessoas entraram na caverna depois de mim — disse, esquivando-se. — Os legistas, os policiais, o inspetor Noubel, o senhor. — Ela o encarou, desafiadora. — O senhor ficou lá dentro por um bom tempo. — Noubel soltou um arquejo. — Shelagh O'Donnel pode confirmar o que eu estou dizendo sobre o anel. Por que o senhor não pergunta a ela?

Ele deu o mesmo meio-sorriso.

Eu já perguntei. Ela diz que não sabe nada sobre o anel.

Mas eu contei para ela tudo sobre o anel — exclamou Alice. — Ela mesma procurou.

A senhora está dizendo que a dra. O'Donnell examinou a cova? — perguntou ele, abrupto.


O medo a impedia de pensar direito. Seu cérebro já não funcionava. Ela não conseguia mais se lembrar do que tinha dito a Noubel e do que tinha omitido.

Foi a dra. O'Donnell quem autorizou a senhora a escavar naquele ponto?

Não, não foi isso — disse ela, o pânico aumentando.

Bom, ela fez alguma coisa para evitar que a senhora fosse escavar naquela parte da montanha?

Não é tão simples assim.

Ele tornou a se reclinar na cadeira.

Neste caso, infelizmente nós não temos escolha.

Em relação a quê?

O olhar dele se desviou para sua mochila. Alice se projetou para tentar pegá-la, mas não foi rápida o suficiente. Authié chegou primeiro, e atirou a mochila para o inspetor Noubel.

O senhor não tem esse direito! — gritou ela. Virou-se para o inspetor. — Ele não pode fazer isso, pode? Por que o senhor não faz nada?

Por que negar, se a senhora não tem nada a esconder? — perguntou Authié.

É uma questão de princípio! O senhor não pode simplesmente revistar as minhas coisas!

Monsieur Authié, je ne suis pas certain...

Faça o que eu estou mandando, Noubel, só isso.

Alice tentou agarrar a mochila. O braço de Authié se esticou e segurou seu pulso. Ela ficou tão chocada com aquele contato físico que congelou. Suas pernas começaram a tremer, mas ela não sabia dizer se era de raiva ou de medo.

Desvencilhou o braço da mão de Authié e reclinou-se na cadeira, ofegando, enquanto Noubel revistava os bolsos de sua mochila.

— Continuez. Dépêchez-vous.

Alice ficou olhando enquanto ele passava ao compartimento principal da mochila, sabendo que era apenas uma questão de segundos até ele encon­trar seu bloco de desenho. O inspetor cruzou o olhar com o dela. Ele também está achando isto um absurdo. Infelizmente, Authié também percebeu a ligeira hesitação de Noubel.

O que foi, inspetor?

Pas de bague.

O que foi que você encontrou? — perguntou Authié, estendendo a mão. Relutante, Noubel estendeu-lhe o bloco. Authié folheou as páginas com um ar de superioridade no rosto. Então seus olhos se apertaram e, por um instante, Alice viu neles uma surpresa genuína, antes de as pálpebras tornarem a se abaixar e escondê-los.

Ele fechou o bloco de desenho com um estalo.

Merci de votre... collaboration, dra. Tanner — disse ele.

Alice também se levantou.

Meus desenhos, por favor — disse, tentando manter a voz calma.

— Eles vão ser devolvidos na hora certa — disse ele, pondo o bloco de desenho no bolso. —A mochila também. O inspetor Noubel vai providenciar um recibo pela mochila e datilografar seu depoimento para a senhora assinar.

Alice ficou surpresa pelo fim súbito e abrupto da entrevista. Quando conseguiu se recuperar, Authié já havia saído da barraca levando consigo seus pertences.

— Por que o senhor não faz nada? — perguntou, virando-se para Noubel.

— Não pense que eu vou deixar a atitude dele por isso mesmo.

A expressão de Noubel endureceu.

Pode deixar que eu vou recuperar a sua mochila, dra. Tanner. Meu conselho é que a senhora continue suas férias. Esqueça tudo isso.

Nem pensar, eu não vou deixar isto assim de jeito nenhum! — gritou ela, mas Noubel já tinha ido embora, deixando-a sozinha no meio da barraca, a se perguntar que diabo tinha acabado de acontecer.

Por um instante, ela não soube o que fazer. Estava furiosa, tanto consigo mesma quanto com Authié, por ter se deixado intimidar com tanta facilidade. Mas ele é diferente. Ela nunca havia sentido tanta repulsa por alguém na vida.

O choque foi passando aos poucos. Ela se sentiu tentada a denunciar Authié imediatamente ao dr. Brayling, ou mesmo a Shelagh; queria fazer alguma coisa. Desistiu da idéia. Levando em conta que naquele momento ela era persona non grata, ninguém se mostraria muito receptivo.

Alice viu-se forçada a se contentar em escrever mentalmente uma carta de reclamação, enquanto relembrava e tentava entender o que havia acontecido. Pouco tempo depois, um policial diferente trouxe a declaração para ela assinar. Alice leu o documento com atenção, mas até onde pôde constatar era um relato fiel de seu depoimento; ela rabiscou sua assinatura no pé da página sem hesitação.

Quando os ossos foram finalmente retirados da caverna, os Pireneus estavam banhados por uma suave luz vermelha.

Todos se calaram quando a sombria procissão começou a descer a encosta rumo ao estacionamento, onde a fila de carros brancos e azuis da polícia estava à espera. Uma mulher fez o sinal da cruz quando eles passaram.

Alice juntou-se aos outros no alto da colina para ver a polícia carregar o furgão da funerária. Ninguém dizia nada. As portas foram trancadas, e então o veículo acelerou e saiu do estacionamento, deixando atrás de si uma chuva de cascalho e poeira. A maioria de seus colegas tornou a subir logo em seguida para recolher seus pertences, supervisionados por dois policiais que isolariam o local quando todos estivessem prontos para ir embora. Alice ficou um pouco para trás, sem vontade de encontrar ninguém, sabendo que seria ainda mais difícil lidar com a compreensão dos outros do que com sua hostilidade.

De sua posição elevada na colina, Alice ficou olhando o comboio solene ziguezaguear vale abaixo, ficando cada vez menor, até não ser mais do que um borrão no horizonte.

A sede da escavação havia ficado silenciosa à sua volta. Percebendo que não poderia esperar mais, Alice estava se preparando para tornar a subir tam­bém quando percebeu que Authié ainda não tinha ido embora. Chegou um pouco mais perto, observando com interesse enquanto ele arrumava o paletó com cuidado no banco de trás de seu carro de luxo prateado. Ele bateu a porta e tirou um celular do bolso. Alice pôde ouvir o leve tamborilar de seus dedos no teto do carro enquanto ele esperava a ligação se completar.

Quando ele falou, a mensagem foi breve e direta.

— Ce n 'est plus là — foi tudo que ele disse. Sumiu.


 

                                   Chartres

A grande catedral gótica de Notre Dame de Chartres erguia-se alta acima da colcha de retalhos formada pelos telhados e cumeeiras avermelhados e pelas casas que coalhavam o centro histórico da cidade, feitas de madeira e calcário.

Turistas se acotovelavam na Porta Oeste da catedral. Homens empunha­vam câmeras de vídeo como se fossem armas, registrando mais do que vivenciando o brilhante caleidoscópio de cores que se derramava das três jane­las pontudas acima da Porta Real.

Até o século XVIII, as nove entradas que conduziam ao interior da cate­dral podiam ser trancadas em caso de perigo. Havia muito tempo que os portões já não existiam, mas a mentalidade perdurava. Chartres ainda era uma cidade com duas metades, a antiga e a nova. As ruas mais elegantes ficavam ao norte do claustro, onde antes se erguia o Palácio do Bispo. Os pálidos edifícios de pedra estavam solenemente voltados para a catedral, envoltos em uma atmos­fera de influência e poder católicos com séculos de idade.

A casa da família de l'Oradore dominava a rue du Cheval Blanc. Ela havia sobrevivido à Revolução e à Ocupação, e agora era um símbolo tradicio­nal de riqueza. Sua aldraba e caixa de correio de bronze reluziam, e os arbustos dos canteiros que ladeavam os degraus diante da porta de entrada de folha dupla estavam perfeitamente aparados.

A porta da frente dava para um hall imponente. O piso era de madeira escura e encerada, e um pesado vaso de lírios brancos recém-cortados repousa­va no centro de uma mesa oval. Nos cantos, cristaleiras — todas equipadas com um discreto sistema de alarme — abrigavam uma coleção inestimável de artefatos egípcios comprados pela família de l'Oradore depois do retorno triun­fal de Napoleão de suas campanhas no norte da África, no início do século XIX. Era uma das maiores coleções particulares de objetos egípcios de que se tinha notícia.

A atual chefe da família, Marie-Cécile de l'Oradore, negociava anti­güidades de todos os períodos, embora compartilhasse a preferência do falecido avô pelo passado medieval. Duas grandes tapeçarias francesas pendiam da parede revestida de madeira em frente à porta principal, ambas compradas depois que ela recebera sua herança, cinco anos antes. As peças mais valiosas da família — quadros, jóias, manuscritos — estavam trancadas no cofre, fora de vista.

No quarto principal do primeiro andar da casa, que dava para a rue du Cheval Blanc, Will Franklin, atual amante de Marie-Cécile, estava deitado de costas sobre a cama de baldaquino, com o lençol cobrindo seu corpo até a cintura.

Seus braços bronzeados estavam dobrados atrás da cabeça, e seus cabelos castanho claros, com mechas alouradas pelos verões passados em Martha's Vineyard durante a infância, emolduravam um rosto atraente e um sorriso de menino desamparado.

Marie-Cécile estava sentada ao lado da lareira em uma poltrona orna­mentada em estilo Luís XIV, as pernas compridas e lisas cruzadas nos joelhos. O brilho de marfim de sua camisola de seda cintilava, em contraste com o estofado de veludo azul.

Ela possuía o perfil típico da família de l'Oradore: uma beleza pálida, aquilina, embora os lábios fossem sensuais e cheios, e os olhos verdes de felino fossem arrematados por generosos cílios negros. Seus cachos pretos perfeita­mente aparados roçavam o alto de ombros bem formados.

— Este quarto é o máximo — disse Will. — E o ambiente perfeito para você. Elegante, caro, discreto.

Os pequenos brincos de diamante em suas orelhas reluziram quando ela se inclinou para apagar o cigarro.

— Este era o quarto do meu avô.

Seu inglês era impecável, revelando apenas um leve indício de sotaque francês que ainda o deixava excitado. Ela se levantou e atravessou o quarto na direção dele, sem que seus pés fizessem nenhum ruído sobre o grosso tapete azul-claro.

Will sorriu, imaginando o que estava por vir, enquanto inalava o cheiro que era só dela: sexo, Chanel e uma pitada de Gauloise.

— Vire — disse ela, fazendo um movimento giratório com o dedo no ar.

— Vire de bruços.

Will fez o que ela dizia. Marie-Cécile começou a massagear-lhe o pesco­ço e os ombros largos. Ele pôde sentir o próprio corpo se esticar e relaxar sob o toque dela. Nenhum dos dois prestou atenção ao barulho da porta da frente abrindo e fechando no térreo. Ele sequer se deu conta das vozes que ecoavam pelo hall, dos passos que subiam os degraus da escada de dois em dois e pros­seguiam largos pelo corredor.

Ouviram-se algumas batidas firmes na porta do quarto.

Maman!

Will se retesou.

É só o meu filho — disse ela. — Oui? Qu'est-ce que c'est?

Maman! Je veux te parler.

Will levantou a cabeça.

Achei que ele só fosse voltar amanhã.

E ia.

Maman!— repetiu François-Baptiste. — C'est important.

Se eu estiver atrapalhando... — disse ele, incomodado.

Marie-Cécile continuou a massagear-lhe os ombros.

— Ele sabe que não é para me incomodar. Eu falo com ele depois. — Ela levantou a voz. — Pas maintenant, François-Baptiste. — Em seguida, enquanto descia as mãos por suas costas, acrescentou em inglês para Will também en­ tender: — Agora não é... uma boa hora.

Will se virou de costas e se sentou, sentindo-se envergonhado. Durante os três meses desde que havia conhecido Marie-Cécile, ainda não encontrara seu filho. François-Baptiste estava estudando fora da cidade, depois de férias com amigos. Só agora lhe ocorria que Marie-Cécile havia combinado aquilo tudo.

Você não vai falar com ele?

Se você fizer questão — disse ela, deslizando para fora da cama. Abriu uma nesga da porta. Seguiu-se uma conversa abafada que Will não conseguiu escutar, depois o som de passos pesados se afastando pelo corredor. Ela girou a chave na fechadura e virou-se novamente de frente para ele.

Melhor assim? — perguntou baixinho.

Devagar, tornou a se aproximar dele, olhando-o por baixo da franja for­mada por seus longos cílios negros. Havia algo de deliberado em seus movi­mentos, como em um espetáculo, mas mesmo assim Will sentiu o próprio corpo reagir.

Ela o empurrou deitado na cama e subiu em cima dele, com uma perna de cada lado de seu quadril, envolvendo seus ombros com os braços elegantes. Suas unhas afiadas deixavam marcas de arranhões na pele dele. Ele podia sen­tir seus joelhos pressionando-lhe as laterais do corpo. Ergueu as mãos e correu os dedos por seus braços lisos e firmes, e roçou seus seios com as costas das mãos através do tecido. As finas alças de seda escorregaram com facilidade de seus ombros bem torneados.

O celular em cima da mesinha-de-cabeceira tocou. Will o ignorou. Abai­xou a delicada camisola pelo corpo esguio dela até a cintura.

— Se for importante, eles ligam de novo.

Marie-Cécile relanceou os olhos para o número no visor. Imediatamente, sua atitude mudou.


— Preciso atender — disse.

Will tentou impedi-la, mas ela o empurrou com impaciência.

Agora, não.

Cobrindo-se, andou até a janela.

Oui. J'écoute.

Ele ouviu o chiado de uma ligação ruim.

Trouve-le, alors!— disse ela, e desligou. Com o rosto corado de raiva, Marie-Cécile pegou um cigarro e o acendeu. Suas mãos tremiam.

Algum problema?

No começo, Will achou que ela não o tivesse escutado. Ela parecia até ter esquecido que ele estava no quarto. Então olhou para ele.

— Um imprevisto — respondeu.

Will esperou, até perceber que aquela era a única explicação que iria receber, e que ela queria que ele fosse embora.

— Desculpe — disse ela, em tom conciliatório. — Eu preferiria mil vezes ficar com você, mas...

Irritado, Will se levantou e vestiu a calça jeans.

— Vejo você no jantar?

Ela fez uma careta.

Tenho um compromisso. De trabalho, acho que falei para você. — Ela deu de ombros. — Mais tarde, oui?

Mais tarde quando? Dez horas? Meia-noite?

Ela se aproximou e enlaçou os dedos dele com os seus.

— Desculpe.

Will tentou se desvencilhar, mas ela não deixou.

— Você sempre faz isso. Eu nunca sei o que está acontecendo.

Ela chegou mais perto até ele sentir os seios pressionados contra seu pei­to através da seda fina. Apesar do mau humor, Will sentiu o corpo corresponder.

É só assunto de trabalho — murmurou ela. — Não precisa ficar com ciúme.

Não estou com ciúme. — Ele já perdera a conta de quantas vezes haviam tido essa mesma conversa. — É que...

— Ce soir— disse ela, soltando-o. — Agora eu preciso me arrumar.

Antes de ele conseguir protestar, ela desapareceu no banheiro e fechou a porta atrás de si.

Quando Marie-Cécile saiu do banho, ficou aliviada ao ver que Will tinha ido embora. Não teria ficado surpresa se o tivesse encontrado ainda esparramado na cama, com aquele sorriso de menino desamparado na cara.


As demandas dele estavam começando a lhe dar nos nervos. Ele queria cada vez mais tempo e atenção do que ela estava preparada para dar. Parecia não estar entendendo a natureza do relacionamento deles. Ela precisaria dar um jeito naquilo.

Marie-Cécile tirou Will da cabeça. Olhou em volta. A empregada havia entrado e arrumado o quarto. Suas coisas estavam dispostas cuidadosamente sobre a cama. Seus chinelos dourados, feitos a mão, estavam no chão ao lado.

Ela acendeu outro cigarro da cigarreira. Estava fumando demais, mas estava nervosa nessa noite. Bateu a extremidade do filtro na tampa da cigarreira antes de acender. Mais uma mania herdada do avô, como tantas outras coisas.

Marie-Cécile foi até o espelho e deixou o roupão de seda branca escorre­gar de seus ombros. O tecido embolou-se no chão em volta de seus pés. Ela inclinou a cabeça para um dos lados e encarou o espelho com olhar severo. Um corpo alto e esguio, tão pálido que chegava a ser fora do padrão; seios fartos e empinados, pele imaculada. Correu as mãos por cima dos mamilos escuros e depois desceu mais, acompanhando o contorno dos ossos do quadril e da barriga lisa. Talvez houvesse algumas rugas a mais em torno dos olhos e da boca mas, fora isso, o tempo a havia poupado.

O relógio folheado a ouro na bancada em cima da lareira começou a bater, lembrando-lhe que deveria começar seus preparativos. Ela esticou a mão e tirou a combinação comprida e diáfana do cabide. Bem fechada nas costas, com um generoso decote em V na frente, havia sido feita sob medida para ela.

Marie-Cécile ajeitou as alças, finas tiras douradas, sobre os ombros angulosos, depois sentou-se diante da penteadeira. Escovou os cabelos, enrolan­do os cachos nos dedos até brilharem como azeviche polido. Adorava aquele instante de metamorfose, quando deixava de ser ela mesma e transformava-se na Navigatairé. Aquela transmutação a conectava, através do tempo, a todos aqueles que haviam ocupado o mesmo posto antes dela.

Marie-Cécile sorriu. Apenas seu avô entenderia como ela se sentia agora. Eufórica, entusiasmada, invencível. Não nessa noite, mas na vez seguinte em que fizesse isso, seria no lugar onde seus ancestrais haviam pisado um dia. Mas não ele. Era cruel pensar em como a caverna estava perto do local das escava­ções de seu avô cinqüenta anos antes. Ele estivera certo o tempo todo. Por questão de poucos quilômetros para o leste, teria sido ele a descobrir a caverna, e não ela, agora prestes a mudar a história.

Ela havia herdado os negócios da família de l'Oradore depois da morte do avô, cinco anos antes. Ele a vinha preparando para aquele papel por mais tempo do que ela conseguia se lembrar. Seu pai — filho único — havia sido para ele uma decepção. Marie-Cécile percebera isso muito cedo. Quando tinha seis anos, o avô havia assumido sua educação — social, acadêmica e filosófica.


Ele tinha paixão pelas coisas belas da vida e um olhar fantástico para cor e for­mas. Móveis, tapeçarias, alta costura, quadros, livros, seu gosto era irrepreen­sível. Tudo que ela valorizava em si mesma havia aprendido com ele.

Ele também lhe havia ensinado o poder, como usá-lo e como conservá-lo. Quando ela estava com 18 anos e ele pensava que estivesse pronta, seu avô havia deserdado formalmente o próprio filho e a nomeado herdeira no lugar deste.

Houvera apenas um único percalço em seu relacionamento: a gravidez inesperada e indesejada dela. Apesar de sua dedicação à Busca pelo segredo ancestral do Graal, o catolicismo de seu avô era forte e ortodoxo, e ele não aprovava crianças nascidas fora do casamento. Um aborto estava fora de cogi­tação. Adoção estava fora de cogitação. Foi somente quando ele viu que a maternidade não modificava a determinação dela — que, se fazia alguma dife­rença, era no sentido de intensificar seu caráter ambicioso e implacável — que lhe permitiu voltar a fazer parte de sua vida.

Ela deu uma tragada profunda no cigarro, acolhendo com prazer a fu­maça quente que se enroscava garganta abaixo até seus pulmões, contrariada pela força das próprias lembranças. Mesmo agora, mais de vinte anos depois, a recordação de seu exílio a enchia de um desespero gelado. Sua excomunhão, como ele costumava dizer.

Uma boa descrição. Era a mesma sensação de estar morta.

Marie-Cécile sacudiu a cabeça para espantar os pensamentos ruins. Não queria que nada perturbasse sua disposição naquela noite. Não podia permitir que nada lançasse uma sombra sobre aquela noite. Não queria nenhum erro.

Tornou a se virar para o espelho. Primeiro aplicou uma base clara e cobriu o rosto com um pó facial dourado que refletia a luz. Em seguida, real­çou o contorno das pálpebras e das sobrancelhas com um lápis preto grosso, que acentuava seus cílios escuros e suas pupilas negras, depois aplicou uma sombra verde, iridescente como a cauda de um pavão. Para os lábios, escolheu um brilho metálico acobreado salpicado de partículas douradas, e beijou um lenço de papel para fazer aderir a cor. Por fim, borrifou uma nuvem de perfu­me no ar e deixou-a cair, como o orvalho, sobre a superfície de sua pele.

Três caixas estavam alinhadas em cima da penteadeira, seu couro vermelho e seus fechos de bronze polidos e reluzentes. Cada uma das jóias cerimoniais tinha vários séculos de idade, mas eram reproduções de peças milhares de anos mais antigas. Na primeira caixa havia um ornamento de cabeça feito de ouro, como uma tiara, que se erguia na frente formando uma ponta; na segunda, dois amuletos de ouro em forma de cobra, seus olhos cintilantes feitos de esmeraldas lapidadas; a terceira caixa continha um colar, uma sólida tira de ouro com um símbolo suspenso no meio. As superfícies cintilantes vibravam com a lembrança imaginária da poeira e do calor do antigo Egito.


Uma vez pronta, Marie-Cécile aproximou-se da janela. Lá embaixo, as ruas de Chartres estendiam-se como a imagem de um cartão-postal, as lojas, carros e restaurantes de sempre aninhados à sombra da grande catedral gótica. Daquelas mesmas casas logo sairiam os homens e mulheres escolhidos para participar do ritual daquela noite.

Ela fechou os olhos diante da paisagem familiar e do horizonte que escure­cia. Agora não via mais as agulhas e claustros cinzentos. Em vez disso, na própria imaginação, via o mundo inteiro estendido diante de si como um mapa resplandecente.

Ao seu alcance, enfim.


 

                               Foix

Alice acordou sobressaltada por um assobio insistente em seus ouvidos.

Onde diabos eu estou? O telefone bege na prateleira em cima da cama tornou a tocar.

E claro. Seu quarto de hotel em Foix. Ela havia voltado da escavação, arrumado um pouco as malas, depois tomado uma ducha. A última coisa de que se lembrava era de se deitar na cama por cinco minutos.

Alice esticou a mão em busca do fone.

— Oui. Allo?

O dono do hotel, monsieur Annaud, tinha um forte sotaque regional, cheio de vogais chapadas e consoantes anasaladas. Alice já achava complicado entender o que ele dizia frente a frente. Pelo telefone então, sem a ajuda de suas sobrancelhas e gestos, era impossível. Ele parecia um personagem de dese­nho animado.

— Plus lentement, s'il vousplait— disse ela, tentando fazê-lo falar mais devagar. — Vous parlez trop vite. Je ne comprends pas.

Houve uma pausa. Ela ouviu murmúrios rápidos ao fundo. Então madame Annaud entrou na linha e explicou que uma pessoa estava esperando Alice na recepção.

— Une femme?—perguntou ela, esperançosa.

Alice havia deixado um bilhete para Shelagh na sede da escavação, assim como uns dois recados na caixa postal de seu celular, mas não tivera notícias.

— Non, c'est un homme— respondeu madame Annaud.

— OK— disse ela com um suspiro desapontado. — J'arrive. Deux minutes.

Passou um pente nos cabelos ainda úmidos, depois vestiu uma saia e uma camiseta, calçou um par de alpargatas e desceu as escadas, perguntando-se quem poderia ser.

A equipe principal da escavação estava toda hospedada em um peque­no auberge perto do local da escavação. De toda forma, ela já havia se despe­dido daqueles que queriam falar com ela. Ninguém mais sabia que ela estava ali. Desde o fim de seu namoro com Oliver, não havia ninguém a quem avisar.

A recepção estava deserta. Ela espiou a penumbra, esperando ver madame Annaud sentada atrás do alto balcão de madeira, mas não havia ninguém ali. Alice olhou rapidamente para a sala de espera mais adiante. As velhas cadei­ras de vime, empoeiradas por baixo, estavam desocupadas, assim como os dois grandes sofás de couro posicionados na perpendicular dos dois lados da lareira, enfeitados com adereços de equitação e presentes de antigos hóspe­des agradecidos. Um mostruário giratório de cartões-postais, meio torto, oferecendo panoramas amassados nos cantos de tudo que Foix e a Ariège tinham a oferecer, estava parado.

Alice voltou até o balcão e tocou a campainha. As contas da cortina da entrada chacoalharam quando monsieur Annaud entrou vindo da ala particu­lar da casa, onde morava a família.

Il y a quelqu 'un pour moi?

Là — disse ele, inclinando-se por cima do balcão para apontar.

Alice sacudiu a cabeça.

Personne.

Ele deu a volta no balcão para olhar, depois ergueu os ombros, surpreso ao ver a sala de espera deserta.

— Dehors?Lá fora? — Ele fez uma mímica de alguém fumando.

O hotel ficava em uma ruazinha que corria entre a via principal — cheia de prédios administrativos e lanchonetes de fast-food, assim como a extraordinária agência dos correios art déco dos anos 1930 — e o centro medieval mais pitoresco de Foix, com seus cafés e antiquários.

Alice olhou para a esquerda, depois para a direita, mas ninguém parecia estar esperando. As lojas estavam todas fechadas naquela hora do dia, e a rua, praticamente deserta.

Intrigada, ela estava se virando para tornar a entrar quando um homem surgiu de um vão de porta. Tinha vinte e poucos anos e vestia um terno claro de verão ligeiramente grande para ele. Seus grossos cabelos pretos estavam cortados curtos, e seus olhos estavam escondidos atrás de óculos escuros. Ele segurava um cigarro.

Dra. Tanner.

Oui — disse ela, cautelosa. — Vous me cherchez?

Ele enfiou a mão no bolso de cima.

— Pour vous. Tenez — disse, estendendo um envelope para ela. Ele não parava de olhar em volta, obviamente preocupado que alguém os visse. Alice o reconheceu subitamente: era o jovem policial uniformizado que acompanha­va o inspetor Noubel.


—Je vous ai déjà rencontré, non? Au Pic de Soularac. Ele passou para o inglês.

— Por favor — disse com urgência. — Pegue.

— Vous étiez avec inspecteur Noubel?— insistiu ela.

Pequenas gotas de suor cobriam a testa do rapaz. Ele surpreendeu Alice ao agarrar sua mão e forçá-la a segurar o envelope.

— Ei! — protestou ela. — O que é isto?

Mas ele já havia desaparecido, engolido por um dos muitos becos que levavam ao castelo.

Por um instante, Alice ficou olhando para o espaço vazio na rua, quase decidida a ir atrás dele. Em seguida reconsiderou essa decisão. A verdade é que ele a havia assustado. Ela abaixou os olhos para a carta em suas mãos como se ela fosse uma bomba prestes a explodir, então respirou fundo e passou o dedo por baixo da aba. Dentro do envelope havia uma única folha de papel barato com a palavra appelez rabiscada em uma caligrafia infantil. Embaixo, um nú­mero de telefone: 02 68 72 31 26.

Alice franziu o cenho. O número não era de Foix. O código da Ariège era 05.

Ela virou o envelope para ver se havia alguma coisa escrita atrás, mas não encontrou nada. Estava prestes a jogar o bilhete no lixo quando mudou de idéia. Não custa nada guardar isto por enquanto. Pondo o papel no bolso, jogou o envelope por cima dos papéis de sorvete, depois tornou a entrar, sem enten­der nada.

Alice não percebeu o homem que saiu do vão da porta do café do outro lado da rua. Quando ele chegou à lixeira para pescar o envelope, ela já estava outra vez dentro do quarto.

Com a adrenalina a bombear dentro das veias, Yves Biau finalmente parou de correr. Inclinou-se para a frente para recuperar o fôlego, com as mãos nos joelhos.

Erguendo-se bem alto acima dele, o grande Château de Foix dominava a cidade como havia feito por mais de mil anos. Era o símbolo da independên­cia da região, a única fortaleza importante a nunca ter sido conquistada duran­te a cruzada contra o Languedoc. Um refúgio de cátaros e defensores da inde­pendência expulsos das cidades e planícies.

Biau sabia que estava sendo seguido. Eles — quem quer que fossem — não haviam tentado se esconder. Sua mão tocou a arma debaixo da jaqueta. Pelo menos ele havia feito o que Shelagh pedira. Agora, se conseguisse cruzar a fronteira para Andorra antes de eles perceberem, talvez ficasse tudo bem. Biau entendia agora que era tarde demais para deter os acontecimentos que havia ajudado a pôr em marcha. Fizera tudo que lhe haviam dito para fazer, mas ela continuava a voltar. O que quer que ele fizesse nunca seria o bastante.

O pacote seguira na última leva do correio para sua avó. Ela saberia o que fazer com ele. Fora a única coisa em que ele conseguia pensar para contra­balançar o que havia feito.

Biau olhou para um lado e para o outro da rua. Ninguém.

Saiu de onde estava e começou a andar, tomando o rumo de casa por um caminho tortuoso, ilógico, caso eles estivessem lá à sua espera. Vindo daquela direção, ele teria a oportunidade de vê-los antes que eles o vissem.

Ao atravessar o mercado coberto, seu subconsciente registrou o Mercedes prateado na Place Saint-Volusien, mas ele não prestou atenção. Não ouviu o ronco suave da partida do motor, nem a passada de marcha quando o carro começou a andar para a frente, fazendo um leve barulho sobre as pedras do calçamento da antiga cidade medieval.

Quando Biau desceu da calçada para atravessar a rua, o carro acelerou violentamente, catapultando-se para a frente como um avião em uma pista de decolagem. Ele se virou para trás, com uma expressão de choque congela­da no rosto. Com um baque surdo, suas pernas foram colhidas de baixo de seu corpo enquanto este, subitamente sem peso nenhum, era atirado para cima do pára-brisa e rolava pelo capô do carro. Biau pareceu flutuar por uma fração de segundo antes de ser projetado com violência contra uma das colunetas de ferro fundido que sustentavam o telhado oblíquo do mercado coberto.

Ficou ali por um instante, suspenso no ar, como uma criança no brin­quedo de um parque de diversões. Então a gravidade exerceu seu poder, e ele desabou pesadamente no chão, deixando um rastro vermelho de sangue no pilar preto de metal.

O Mercedes não parou.

O barulho fez as pessoas nos bares ali perto saírem às ruas. Algumas mulheres acudiram às janelas que davam para a praça. O dono do café, que também era uma casa lotérica, deu uma olhada e correu para dentro para chamar a polícia. Uma mulher começou a gritar e foi rapidamente silenciada, enquanto uma multidão começava a se juntar em volta do corpo.

No início, Alice não prestou atenção no barulho. Porém, à medida que o lamento das sirenes foi ficando mais próximo, foi atraída à janela de seu quar­to de hotel como todos os outros, e olhou para fora.

Isto não tem nada a ver com você.

Não havia motivo para se envolver. Mesmo assim, por algum motivo que não conseguia explicar, Alice saiu do quarto e encaminhou-se para a praça.


Um carro de polícia bloqueava a ruazinha que saía do canto da praça, com os faróis piscando em silêncio. Logo depois dele, um grupo de pessoas havia formado um semicírculo em volta de alguma coisa ou de alguém deita­do no chão.

— Ninguém está seguro em lugar nenhum, nem na Europa — resmun­gava uma americana para o marido.

O mau pressentimento de Alice foi ficando mais forte à medida que ela se aproximava. Não conseguia suportar a idéia do que poderia estar prestes a ver, mas por algum motivo não conseguia se conter. Um segundo carro de polícia emergiu de uma rua lateral e parou cantando pneus ao lado do primei­ro. Rostos se viraram, e o emaranhado de braços, pernas e corpos se abriu por tempo suficiente para Alice ver o corpo estendido no chão. Terno claro, cabe­los pretos; óculos, escuros de lentes marrons e hastes douradas, caídos no chão ali perto.

Não pode ser ele.

Alice abriu caminho aos empurrões, afastando as outras pessoas do ca­minho até chegar à frente. O rapaz jazia imóvel no chão. Sua mão moveu-se automaticamente para o papel que trazia no bolso. Isto não pode ser coincidência.

Emudecida pelo choque, Alice recuou aos tropeços. A porta de um carro bateu. Ela teve um sobressalto e se virou a tempo de ver o inspetor Noubel saindo do banco do motorista. Tornou a se encolher para junto da massa de gente. Não deixe ele ver você. O instinto a fez atravessar a praça na direção oposta de Noubel, de cabeça baixa.

Assim que dobrou a esquina, ela começou a correr.

— S'il vous plaît — gritava Noubel, abrindo caminho entre os curiosos. — Police. S'il vous plaît.

Yves Biau estava esparramado no chão inclemente, os braços abertos em cruz. Uma de suas pernas estava dobrada sob o corpo, obviamente quebrada, com o osso branco de um tornozelo despontando através da calça. A outra perna estava esticada de forma nada natural, de lado. Um de seus sapatos bordôs havia saído do pé.

Noubel se agachou e tentou encontrar alguma pulsação. O rapaz ainda respirava em arfadas curtas, rápidas, mas sua pele tinha uma textura pegajosa e fria e seus olhos estavam fechados. Ao longe, Noubel ouviu a bem-vinda sirene de uma ambulância.

— S'il vous plaît — tornou a gritar, pondo-se de pé. — Poussez-vous. —

Para trás.

Duas outras viaturas chegaram. A notícia de que um policial fora ata­cado havia se espalhado, de modo que o número de policiais superava o de passantes. A polícia interditou a rua e separou as testemunhas dos curiosos. Os homens foram eficientes e metódicos, mas a tensão em seus rostos era visível.

— Não foi um acidente, inspetor — disse a americana. — O carro foi direto para cima dele, muito rápido. Ele não teve chance.

Noubel olhou para ela com atenção.

— A senhora viu o incidente, madame?— Vi sim.

Viu que tipo de carro era? Que marca?

Ela fez que não com a cabeça.

Só sei que era prateado. — Virou-se para o marido.

Era um Mercedes — disse ele de pronto. — Também não vi muito bem. Só me virei quando ouvi o barulho.

E a placa?

Acho que o final era onze. Foi tudo muito rápido.

A rua estava bem vazia, seu guarda — repetiu a mulher, como se estivesse com medo de que ele não a levasse a sério.

A senhora viu quantas pessoas estavam no carro? — Uma na frente, com certeza. Não sei dizer se tinha gente atrás.

Noubel a encaminhou para outro policial para anotar suas coordenadas, depois andou até a traseira da ambulância onde Biau estava sendo erguido em cima de uma maca. Seu pescoço e sua cabeça estavam imobilizados, mas um fluxo contínuo de sangue corria sob a atadura passada ao redor do ferimento, tingindo sua camisa de vermelho.

A pele do rapaz estava mais branca do que o normal, cor de cera. Um tubo pendia do canto de sua boca e uma agulha de soro estava presa à sua mão.

— Il pourra s'en tirer?— Ele vai sair dessa?

O paramédico fez uma cara ruim.

— Se eu fosse o senhor, ligava logo para a família — respondeu ele, batendo as portas da ambulância.

Noubel deu um tapinha na lateral da ambulância enquanto ela se afasta­va e, depois de se certificar de que seus homens estavam fazendo o trabalho que deveriam, voltou para o carro, maldizendo a si mesmo. Deixou-se cair no banco da frente, sentindo o peso de cada um de seus cinqüenta anos, pensan­do em todas as decisões erradas que havia tomado naquele dia e que haviam conduzido àquele desfecho. Passou um dedo por baixo do colarinho da cami­sa e afrouxou a gravata.

Sabia que deveria ter falado com o rapaz antes. Desde que pusera os pés no Pic de Soularac, Biau não havia se comportado de maneira normal. Ele em geral era animado, sempre o primeiro a se oferecer para uma tarefa. Naquele dia estava nervoso e irritadiço, depois havia desaparecido durante metade da tarde.

Noubel tamborilou os dedos no volante, nervoso. Authié alegava que Biau não tinha lhe passado o recado sobre o anel. E por que ele mentiria sobre algo assim?

Ao pensar em Paul Authié, Noubel sentiu uma pontada no estômago. Pôs um drops de menta na boca para aliviar o mal-estar. Aquilo fora outro erro. Ele não deveria ter deixado Authié chegar perto da dra. Tanner, embora, pensando bem, não tivesse certeza do que poderia ter feito para impedir. Quan­do a notícia da descoberta dos esqueletos em Soularac havia chegado, viera acompanhada de ordens para que Paul Authié tivesse acesso ao local e colabo­ração da polícia. Até então, Noubel não conseguira descobrir como Authié havia ficado sabendo da descoberta tão depressa, muito menos como ele havia conseguido entrar na escavação.

Noubel nunca encontrara Authié pessoalmente antes, embora conheces­se sua reputação. A maioria dos policiais a conhecia. Advogado, notório por suas opiniões religiosas linha-dura, diziam que Authié controlava na palma da mão metade da Judiciaire e da polícia militar do Midi. Mais especificamente, um colega de Noubel havia sido chamado para prestar depoimento em um caso que Authié estava defendendo. Dois membros de um grupo de extrema-direita eram acusados do assassinato de um motorista de táxi argelino em Carcassonne. Houvera boatos de intimidação. No final, ambos os réus haviam sido inocentados e vários policiais forçados a se aposentar.

Noubel baixou os olhos para os óculos de Biau, que havia recolhido do chão. Mais cedo, estava se sentido infeliz. Agora estava gostando ainda menos daquela situação.

O rádio começou a emitir chiados, cuspindo a informação de que Noubel precisava sobre os parentes de Biau. Ele permaneceu ainda um instante senta­do, adiando as providências. Então começou a dar os telefonemas.


 

Eram 11 horas quando Alice chegou aos arredores de Toulouse. Estava cansa­da demais para continuar até Carcassonne, então decidiu rumar para o Centro da cidade e encontrar um lugar onde passar a noite.

A viagem tinha sido um pulo. Sua cabeça estava cheia de imagens embaralhadas: os esqueletos e a faca ao lado deles; o rosto branco surgindo diante dela na cinza luz mortiça; o corpo estendido diante da igreja em Foix. Será que ele estava morto?

É o labirinto. No final, ela sempre voltava ao labirinto. Alice disse a si mesma que estava sendo paranóica, que aquilo não tinha nada a ver com ela. Você só estava no lugar errado na hora errada. Porém, por mais que repetisse isso para si mesma, não conseguia acreditar.

Descalçou os sapatos e deitou-se na cama inteiramente vestida. Tudo no quarto era barato. Plástico e papelão de má qualidade, lajotas cinza e madeira falsa. Os lençóis estavam engomados além da conta e arranhavam sua pele como papel.

Ela pegou a garrafa de uísque Bushmills de dentro da mochila. Ainda restavam dois dedos. Inesperadamente, sentiu um aperto na garganta. Estava economizando os dois últimos dedos para sua última noite na escavação. Ten­tou de novo, mas o celular de Shelagh ainda estava na caixa postal. Lutando contra a própria irritação, deixou mais um recado. Gostaria que Shelagh pa­rasse de brincadeira.

Alice engoliu dois comprimidos de analgésico junto com o uísque, de­pois deitou-se na cama e apagou a luz. Estava totalmente exausta, mas não conseguia relaxar. Sua cabeça latejava, seu pulso estava quente e inchado e o corte em seu braço doía muito. Mais do que nunca.

O quarto estava abafado e quente. Depois de se virar e revirar, ouvindo os sinos soarem meia-noite, depois uma da manhã, Alice se levantou para abrir a janela e deixar entrar um pouco de ar. Não adiantou. Não conseguia aquietar a mente. Tentou pensar em areias brancas e água azul cristalina, em praias do Caribe e pores-do-sol no Havaí, mas seu cérebro continuava a voltar para as pedras cinza e o ar gelado e subterrâneo da montanha.

Ela estava com medo de dormir. E se o sonho voltasse de novo?

As horas se arrastavam. Sua boca estava seca e seu coração palpitava sob a influência do álcool. Foi só quando a palidez branca da aurora começou a se esgueirar por entre as beiradas puídas das cortinas que sua mente finalmente se rendeu.

Um sonho diferente dessa vez.

Montada em um cavalo de pêlo avermelhado, ela cavalgava pela neve. A pelagem de inverno do animal era espessa e lustrosa, e sua crina e rabo brancos estavam trançados com fitas vermelhas. Ela própria vestia roupas de caça: sua melhor capa com a pelisse e o capuz feitos de pêlo de esquilo, e luvas de couro compridas forradas de pêlo de marta que iam até os cotovelos.

Um homem cavalgava ao seu lado montado em um capão cinza, um animal mais parrudo, de crina e rabo pretos. Ele não parava de puxar as rédeas para controlar o cavalo. Seus cabelos castanhos eram compridos para um homem, e iam até os ombros. Sua capa de veludo azul flutuava atrás dele enquanto ele seguia conduzindo a montaria. Alice viu que levava uma adaga na cintura. Em volta de seu pescoço havia uma corrente de prata com uma única pedra verde pendurada, que batia em seu peito ao ritmo do passo do animal.

Ele estava sempre olhando para trás e fitando-a com uma mistura de orgulho e senso de propriedade. A conexão entre eles era forte, íntima. Em seu sono, Alice mudou de posição e sorriu.

Ao longe, uma cometa soava nítida e aguda no ar frio de dezembro, anunciando que os cachorros estavam no rastro de um lobo. Ela sabia que era dezembro, um mês especial. Sabia que estava feliz.

Então a luz mudou.

Agora ela estava sozinha em uma parte da floresta que não reconhecia. As árvores eram mais altas e mais densas, e seus galhos nus sobressaíam pretos e retorcidos contra o céu branco coalhado de neve, como os dedos de um morto. Em algum lugar atrás dela, invisíveis e ameaçadores, os cães iam che­gando mais perto, excitados pela promessa de sangue.

Ela não era mais a caçadora, e sim a caça.

A floresta ecoava com milhares de cascos ressonantes, que chegavam cada vez mais perto. Ela agora podia ouvir o rugido dos caçadores. Eles gritavam uns com os outros em uma língua que ela não entendia, mas ela sabia que estavam à sua procura.


Seu cavalo tropeçou. Alice foi jogada para fora da sela, caindo para a frente e batendo no chão duro e invernal. Ouviu o osso de seu ombro estalar, depois sentiu a dor varar-lhe o corpo. Olhou para baixo, aterrorizada. Um pedaço de madeira morta, congelada como a ponta de uma lança, havia fura­do sua manga e atravessado seu braço de um lado a outro.

Com dedos enrijecidos e desesperados, Alice puxou o pedaço de madeira até ele se soltar, fechando os olhos com a dor lancinante. Imediatamente o sangue começou a jorrar, mas ela não deixou aquilo detê-la.

Estancando o sangramento com a barra da capa, Alice se levantou e for­çou-se a penetrar no emaranhado de galhos nus e arbustos petrificados. Os gravetos ressequidos se partiam sob seus pés e o ar gélido beliscava suas boche­chas e fazia seus olhos lacrimejarem.

O assobio em seus ouvidos agora estava mais alto, mais insistente, e ela se sentia fraca. Imaterial como um fantasma.

De repente, a floresta sumiu, e Alice se viu em pé na beira de uma colina. Não havia para onde correr. A seus pés estava uma encosta abrupta que dava para um precipício cheio de árvores. À sua frente, as montanhas, encimadas de neve, estendiam-se até onde o olho alcançava. Estavam tão próximas que a sensação que tinha era de que podia estender a mão e tocá-las.

Em seu sono, Alice se mexeu, incomodada.

Quero acordar. Por favor.

Ela lutou para acordar, mas não conseguiu. O sonho a prendia com força em sua rede.

Os cães emergiram da parede de árvores atrás dela, latindo, rosnando. O bafo quente que saía de suas bocas abertas formava nuvens no ar, e baba e sangue escorriam de seus dentes. No crepúsculo cada vez mais avançado, a ponta das lanças dos caçadores brilhava intensamente. Seus olhos estavam cheios de ódio e excitação. Ela podia ouvi-los sussurrar zombarias e provocações.

— Hérétique, hérétique.

Naquela fração de segundo, a decisão foi tomada. Se aquela era sua hora de morrer, não seria nas mãos daqueles homens, Alice ergueu os braços bem alto e pulou, entregando o corpo ao vazio.

Na mesma hora, o silêncio se abateu sobre o mundo.

O tempo parou de ter qualquer significado enquanto ela caía, lenta e suavemente, as saias verdes inflando ao seu redor. Então percebeu que havia algo preso às suas costas, um pedaço de tecido em forma de estrela. Não, não era uma estrela, e sim uma cruz. Uma cruz amarela. Rouelle. Enquanto a pala­vra desconhecida ondulava para dentro e para fora de sua mente, a cruz se soltou e saiu boiando, desprendendo-se dela como uma folha a cair de uma árvore no outono.


O chão não estava chegando mais perto. Alice não sentia mais medo. Pois na mesma hora em que as imagens do sonho começaram a rachar e se desfazer, seu subconsciente compreendeu o que sua mente consciente havia sido incapaz de entender. Que não era ela — Alice — quem caía, mas outra.

E aquilo não era um sonho, mas uma lembrança. O fragmento de uma vida vivida muito, muito tempo atrás.


 

                         Carcassona

                         JULHET 1209

Gravetos e folhas estalaram quando Alaïs mudou de posição.

Um cheiro forte de musgo, líquen e terra invadiu suas narinas e sua boca. Algo pontiagudo espetou as costas de sua mão, uma diminuta picada que logo começou a arder. Um mosquito, ou então uma formiga. Ela pôde sentir o veneno penetrando em seu sangue. Alaïs se mexeu para afastar o inseto. O movimento lhe deu ânsia de vômito.

Onde estou?

A resposta, como um eco. Defòra. Do lado de fora.

Estava deitava de bruços no chão. Sua pele estava úmida, ligeiramente fria por causa do relento. Seria o início da manhã ou o final do dia? Suas roupas, enroladas em volta do corpo, estavam molhadas. Com movimentos lentos, Alaïs conseguiu se içar até uma posição sentada, apoiando-se no tronco de uma faia para se equilibrar.

Doçament. Devagar, com cuidado.

Através das árvores no alto da encosta, ela pôde ver que o céu estava branco, tendendo ao cor-de-rosa no horizonte. Nuvens achatadas boiavam como navios em dia de calmaria. Ela podia distinguir os contornos escuros dos chorões. Mais atrás havia pereiras e cerejeiras, mirradas e descoloridas pelo avançado da estação.

Aurora, então. Alaïs tentou localizar onde estava. Tudo parecia muito claro, ofuscante até, embora não houvesse sol. Pôde ouvir um barulho de água não muito distante, uma água rasa movendo-se preguiçosamente pelas pedras. Ao longe, o conhecido crá-crá de uma coruja voltando de sua caça noturna.


Alaïs baixou os olhos para os braços, marcados por picadas pequenas, irritadas e vermelhas. Examinou os arranhões e cortes nas pernas também. Além das picadas dos insetos, havia marcas de sangue ressecado em volta de seus tornozelos. Ela levantou as mãos até perto do rosto. As juntas de seus dedos estavam machucadas e doloridas. Entre seus dedos havia linhas vermelho-escuras de sangue seco.

Uma lembrança. De ser arrastada, os braços esfregando no chão.

Não, antes disso.

Atravessei o pátio principal. Havia luz nas janelas de cima.

O medo eriçou os cabelos de sua nuca. Passos no escuro, a mão calosa sobre sua boca, e em seguida a pancada.

Perilhòs. Perigo.

Ela levou a mão à cabeça e fez uma careta de dor quando seus dedos encon­traram a massa pegajosa de sangue e cabelos atrás de sua orelha. Fechou os olhos com força, tentando bloquear a lembrança das mãos rastejando sobre seu corpo como ratos. Dois homens. Um cheiro comum, de cavalos, cerveja e palha.

Será que encontraram o merel?

Alaïs fez força para se pôr de pé. Precisava contar ao pai o que tinha acontecido. Ele estava de partida para Montpellier, disso ela conseguia se lem­brar. Precisava falar com ele antes que fosse embora. Tentou se levantar, mas suas pernas não a sustentavam. Sua cabeça recomeçou a girar e ela caiu, caiu, voltando a mergulhar em um sono sem peso. Tentou lutar contra aquilo e ficar consciente, mas não adiantou. O passado, o presente e o futuro agora faziam parte de um tempo infinito que se estendia branco à sua frente. Cor, som e luz deixaram de ter qualquer significado.


 

Com um último olhar preocupado por cima do ombro, Bertrand Pelletier saiu a cavalo pelo Portão Oriental com o visconde Trencavel a seu lado. Não conseguia entender por que Alaïs não viera se despedir dele.

Pelletier cavalgava em silêncio, perdido nos próprios pensamentos, sem ouvir quase nada das conversas sem importância que aconteciam à sua volta. Estava perturbado com a ausência da filha na Cour d'Honneur para vê-los partir e desejar sucesso na expedição. Surpreso e decepcionado também, se é que con­seguia reconhecer isso. Agora desejava ter mandado François acordá-la.

Apesar de ser muito cedo, as ruas estavam apinhadas de gente acenando e gritando. Apenas os melhores cavalos haviam sido escolhidos. Palafréns de força e resistência confirmadas, bem como os mais fortes capões e éguas dos estábulos do Château Comtal escolhidos por sua velocidade e solidez. Raymond-Roger Trencavel montava seu garanhão baio favorito, um cavalo que ele próprio havia treinado desde quando era um potro. Sua pelagem tinha a cor de uma raposa no inverno, e em seu focinho havia uma mancha branca singular, da forma exata, ou assim se dizia, das terras da família Trencavel.

Os escudos de todos os homens exibiam a insígnia da casa de Trencavel. Seu brasão estava bordado em cada flâmula e na túnica que cada chevalier usava sobre a armadura de viagem. O sol nascente refletia-se nos capacetes, espadas e bridas reluzentes. Até mesmo as bolsas dos cavalos de carga haviam sido engra­xadas até os cavalariços conseguirem ver no couro o reflexo de seus rostos.

Fora preciso algum tempo para decidir o tamanho exato do envoi. Se fosse pequeno demais, Trencavel seria visto como um aliado indigno e inexpressivo, e eles seriam presas fáceis no caminho. Se fosse grande demais, pareceria uma declaração de guerra.

Finalmente, 16 chevaliers haviam sido escolhidos, entre eles Guilhem du Mas, apesar das objeções de Pelletier. Junto com seus écuyers, um punhado de criados e homens de igreja, Jehan Congost e um ferreiro para consertar as ferraduras dos cavalos durante o trajeto, o grupo inteiro somava uns trinta homens.


Seu destino era Montpellier, principal cidade dentro dos domínios do visconde de Nîmes e cidade natal da mulher de Raymond-Roger, dama Agnès. Como Trencavel, Nímes era vassala do rei de Aragão, Pedro II, então, mesmo sendo Montpellier uma cidade católica — e o próprio Pedro um firme e enér­gico perseguidor da heresia —, havia motivos para acreditar que conseguiriam uma passagem segura por lá.

Haviam contado três dias de Carcassonne até lá. Não havia como saber quem, se Trencavel ou o conde de Toulouse, seria o primeiro a chegar à cidade.

No início tomaram o rumo do leste, seguindo o curso do rio Aude em dire­ção ao sol nascente. Em Trébes, dobraram a nordeste rumo às terras do Minervois, acompanhando a antiga estrada romana que passava por La Redorte, a colina fortificada da cidade de Azille, e prosseguiram na direção de Olonzac.

As melhores terras eram dedicadas às canabières, as plantações de cânha­mo, que se estendiam a perder de vista. À sua esquerda ficavam os vinhedos, alguns podados, outros crescendo desordenados e livres ao longo da estrada, atrás de vigorosas cercas-vivas. À sua esquerda ficava o mar de caules verde-esmeralda dos campos de cevada, que estariam dourados quando viesse a épo­ca da colheita. Camponeses com chapéus de palha de abas largas a esconder-lhes o rosto já trabalhavam duro, colhendo o que ainda restava da safra de trigo, e a curva de ferro de suas foices refletia de quando em quando o sol nascente.

Além da margem do rio, bordejada por carvalhos e salgueiros, ficavam as profundas e silenciosas florestas onde voavam as águias selvagens. Cervos, linces e ursos eram comuns por ali, assim como lobos e raposas no inverno. Erguidas acima das matas de planície e das árvores mais baixas ficavam as florestas escuras da Montagne Noire, onde reinava o javali selvagem.

Com a persistência e o otimismo da juventude, o visconde Trencavel estava de bom humor, trocando anedotas espirituosas e escutando histórias de aventuras passadas. Discutia com seus homens quais eram os melhores cães de caça, galgos ou mastins, indagava o preço atual de uma boa cadela de cria, fofocava sobre quem havia apostado o quê nos dardos ou nos dados.

Ninguém falava sobre o objetivo da expedição, nem sobre o que aconte­ceria caso o pedido do visconde a seu tio tivesse um resultado desfavorável.

Um grito abrupto vindo da parte de trás da fila chamou a atenção de Pelletier. Ele olhou por cima do ombro. Guilhem du Mas cavalgava lado a lado com Alzeu de Preixan e Thierry Cazanon, chevaliers que também haviam sido treinados em Carcassonne e nomeados no mesmo ano, durante a última quinzena da Quaresma.


Consciente do olhar crítico do homem mais velho, Guilhem ergueu a cabeça e o fitou com um olhar insolente. Por um instante, ficaram se encaran­do fixamente. Então o mais jovem inclinou ligeiramente a cabeça, em uma demonstração de respeito insincera, e virou-se para o outro lado. Pelletier sen­tiu o sangue ferver, e mais ainda por saber que nada podia fazer.

Durante horas e horas, eles cavalgaram pelas planícies. As conversas foram ficando mais espaçadas, depois rarearam à medida que a animação que havia acompanhado sua partida da Cité dava lugar à apreensão.

O sol subiu ainda mais no céu. Os religiosos eram os que mais sofriam, vestidos com seus hábitos negros de lã. Riachos de suor escorriam da testa do bispo, e o rosto esponjoso de Jehan Congost havia adquirido um desagradável tom vermelho manchado, da cor da dedaleira. Abelhas, gafanhotos e cigarras farfalhavam e zumbiam na grama marrom. Mosquitos picavam os pulsos e mãos dos homens, e moscas atormentavam os cavalos, fazendo-os sacudir a crina e as caudas, irritados.

Somente quando o sol estava a pino foi que o visconde Trencavel os con­duziu para fora da estrada para descansar um pouco. Acomodaram-se em uma clareira ao lado de um curso d'água vagaroso, depois de verificar que era um lugar seguro para os animais pastarem. Os écuyers retiraram as selas dos cavalos e refrescaram sua pelagem com folhas de salgueiro molhadas em água. Cortes e picadas foram tratados com folhas de azedinha ou emplastros de mostarda.

Os chevaliers despiram as armaduras de viagem e descalçaram as botas, limpando a poeira e o suor das mãos e do pescoço. Um pequeno grupo de criados foi despachado até a fazenda mais próxima, voltando algum tempo depois com pão e lingüiça, queijo branco de cabra, azeitonas e um forte vinho da região.

À medida que se espalhava a notícia de que o visconde Trencavel estava acampado ali perto, um fluxo constante de fazendeiros e camponeses, velhos e moças, tecelãos e cervejeiros começaram a chegar ao humilde acampamento sob as árvores, trazendo presentes para seu seigneur, cestas de cerejas e ameixas recém colhidas, um ganso, sal e peixe.

Pelletier estava pouco à vontade. Aquilo os atrasaria e consumiria um tempo precioso. Eles tinham muito chão pela frente antes das sombras da tarde se alongarem e de montarem acampamento para a noite. Mas, como seu pai e sua mãe antes dele, Raymond-Roger gostava de conhecer seus súditos, e não mandou ninguém embora.

— É por isto aqui que estamos engolindo nosso orgulho e indo pedir trégua a meu tio — disse baixinho. — Para proteger tudo que é bom, inocente e honesto no nosso modo de vida, é? E, se preciso for, vamos lutar por isso.


Como um antigo rei guerreiro, o visconde Trencavel montou sua corte à sombra das azinheiras. Aceitou todos os tributos que lhe foram oferecidos com charme e dignidade. Sabia que aquele dia seria uma história guardada com carinho, que se misturaria à vida do lugarejo.

Uma das últimas pessoas a se aproximar foi uma menina bonita, morena, de uns cinco ou seis anos, com olhos brilhantes do mesmo preto das amoras. Fez uma breve reverência e ofereceu a ele um buquê de orquídeas selvagens, botões-de-prata e madressilvas. Suas mãos tremiam.

Inclinando-se até a altura da menina, o visconde Trencavel retirou do cinto um lenço de linho e ofereceu-o a ela. Até Pelletier sorriu quando os pequeninos dedos se estenderam timidamente e pegaram o quadrado de pano engomado e branco.

E qual o seu nome, madomaisèla — perguntou ele.

Ernestine, messire — sussurrou ela.

Trencavel assentiu.

— Bem, madomaisèla Ernestine — disse ele, retirando um broto cor-de-rosa do ramo de flores e prendendo-o na túnica. — Vou usar isto para dar sorte. E para me lembrar da gentileza do povo de Puicheric.

Somente quando os últimos visitantes haviam deixado o acampamen­to foi que Raymond-Roger Trencavel desafivelou a bainha da espada e sen­tou-se para comer. Com a fome saciada, cada um dos homens e rapazes, um a um, estendeu-se sobre a grama macia ou reclinou-se contra o tronco de uma árvore e cochilou, com a barriga cheia de vinho e a cabeça pesada com o calor da tarde.

Pelletier foi o único a não sossegar. Depois de se certificar que o visconde Trencavel não precisava dele por ora, foi dar um passeio ao longo do curso d'água, querendo ficar sozinho.

Moscas de rio esvoaçavam acima da água e libélulas de cores vivas plana­vam logo acima da superfície, cintilantes, projetando-se e deslizando pelo ar espesso.

Assim que perdeu de vista o acampamento, Pelletier sentou-se sobre o tronco enegrecido de uma árvore caída e tirou do bolso a carta de Harif. Não a leu. Sequer a abriu; apenas segurou-a com força entre o indicador e o pole­gar, como um talismã.

Não conseguia parar de pensar em Alaïs. Seus pensamentos iam e vi­nham como um pêndulo. Em alguns momentos, arrependia-se de ter confia­do nela. Mas, se não confiasse em Alaïs, em quem confiaria? Não havia mais ninguém em quem pudesse confiar. No momento seguinte, temia não ter lhe revelado o bastante.


Se Deus quisesse, tudo ficaria bem. Se sua petição junto ao conde de Toulouse tivesse uma recepção favorável, eles logo estariam de volta a Carcassonne, em triunfo, sem que uma gota de sangue houvesse sido derrama­da. Quanto a Pelletier, ele encontraria Simeon em Béziers e conheceria a iden­tidade da "irmã" sobre quem Harif havia escrito.

Se o destino assim quisesse.

Pelletier suspirou. Olhou para a cena tranqüila diante de seus olhos e viu em sua imaginação o oposto. Em vez do velho mundo, idêntico e imutável, viu caos, devastação e destruição. O fim de todas as coisas.

Inclinou a cabeça. Não poderia ter feito nada diferente do que fizera. Se não voltasse a Carcassonne, então pelo menos morreria sabendo que fizera o melhor possível para proteger a Trilogia. Alaïs cumpriria suas obrigações. Os seus votos se tornariam os votos dela. O segredo não se perderia no pandemônio da batalha nem apodreceria em uma prisão francesa.

O som do acampamento a despertar trouxe Pelletier de volta ao presen­te. Era hora de prosseguir. Haveria ainda muitas horas de cavalgada antes do pôr do sol.

Pelletier tornou a pôr a carta de Harif no bolso e voltou apressado para o acampamento, consciente de que aqueles instantes de paz e calma contem­plação ficariam cada vez mais escassos nos dias que estavam por vir.


 

Quando Alaïs tornou a despertar, estava deitava entre lençóis de linho, e não sobre a grama. Havia um assobio baixo e abafado em seus ouvidos, como o vento outonal ecoando por entre as árvores. Seu corpo parecia curiosamente pesado e lastreado, como se não lhe pertencesse. Havia acabado de sonhar que Esclarmonde estava ali com ela, pousando a mão fresca sobre sua testa para retirar-lhe a febre.

Suas pálpebras estremeceram e se abriram. Acima de sua cabeça estava o conhecido baldaquino de madeira de sua própria cama, com as cortinas azul-escuras da noite recolhidas. O quarto estava banhado na luz suave e dourada do crepúsculo. Embora ainda estivesse quente e pesado, o ar trazia em si a promessa da noite. Ela sentiu o leve odor de ervas recém queimadas. Alecrim, e cheiro de lavanda.

Podia ouvir vozes femininas também, roucas e baixas, em algum lugar ali perto. Sussurravam como para não incomodá-la. Suas palavras chiavam como a gordura que caía de um espeto no fogo. Devagar, Alaïs virou a cabeça no travesseiro em direção ao ruído. Alziette, a pouco estimada mulher do chefe dos criados, e Ranier, uma fofoqueira dissimulada e ressentida casada com um marido mal-educado e grosseirão, ambas especialistas em criar confusão, esta­vam sentadas ao lado da lareira vazia como um par de velhos corvos. Sua irmã Oriane as usava para pequenos serviços, mas Alaïs não confiava nelas, e não conseguia entender o que estavam fazendo em seu quarto. Seu pai jamais teria permitido aquilo.

Então se lembrou. Ele não estava lá. Fora para Saint-Gilles ou para Montpellier, ela não conseguia se lembrar muito bem. Guilhem também.

Então onde eles estavam? — sibilou Ranier, a voz sedenta de escândalo.

No pomar, bem junto ao regato perto dos salgueiros — respondeu Alziette. — A menina mais velha de Mazelle os viu descer até lá. Vadia que é, correu para contar à mãe. Então a própria Mazelle saiu voando pelo pátio, sacudindo as mãos, dizendo que era uma vergonha e que ela não queria ser a primeira a me contar.


Ela sempre teve ciúmes da sua menina, e. As filhas dela são todas gordas como porcas e marcadas de varíola. Todas elas, feias como assombra­ção. — Ranier aproximou a cabeça da outra mulher. — O que você fez, então?

O que eu poderia fazer a não ser ir ver com meus próprios olhos? Eu os vi assim que desci lá. Não que eles tenham feito muito esforço para se esconder. Agarrei Raoul pelos cabelos, aqueles cabelos horríveis, duros e casta­nhos que ele tem, e dei um tapa nas orelhas dele. Ele passou o tempo todo puxando o cinto com uma das mãos, com o rosto vermelho de vergonha por ter sido pego no ato. Quando me virei para Jeanette, ele se desvencilhou de mim e saiu correndo sem nem olhar para trás.

Ranier deu um muxoxo.

— E Jeanette não parava de chorar, falando o tempo todo, dizendo como Raoul a ama e quer se casar com ela. Ouvindo ela falar assim, a gente pensa até que nenhuma moça nunca perdeu a cabeça por causa de palavra bonitas.

— Talvez as intenções dele sejam honestas.

Alziette deu um arquejo de desdém.

— Ele não tem condições de se casar — reclamou ela. — Cinco irmãos mais velhos, e só dois casados. O pai passa dia e noite na taberna. Todo sol que eles ganham vai direto para o bolso do Gaston.

Alaïs tentou fechar os ouvidos para as fofocas mundanas das mulheres. Eram como abutres abatendo se sobre carniça.

— Mas em todo caso — disse Ranier, matreira —, acabou sendo bom.

Se as circunstâncias não tivessem levado você até lá, não teria encontrado aquela ali.

Alaïs se retesou, sentindo as duas cabeças viradas na direção da cama.

— Isso é — concordou Alziette. — E acho que vou receber uma boa recompensa quando o pai dela voltar.

Alaïs ficou ouvindo, mas não descobriu mais nada. As sombras se alongaram. Ela dormia e tornava a acordar.

De vez em quando, uma aia vinha substituir Alziette e Ranier, alguma outra das criadas preferidas de sua irmã. O barulho da mulher arrastando o catre de madeira rachada para tirá-lo de baixo da cama acordou Alaïs. Ela ouviu um leve baque quando a aia se deixou cair sobre o colchão encaroçado, o peso de seu corpo retirando o ar que havia entre a palha do enchimento. Instantes depois, roncos pesados, chiados e resmungos vindos do pé da cama a avisaram que a mulher havia adormecido.

Subitamente, Alaïs sentiu-se inteiramente desperta. Não conseguia parar de pensar na última instrução que seu pai lhe dera. Proteger a tábua do labirinto. Ergueu-se até uma posição sentada e procurou entre os fragmentos de tecidos e velas.

A tábua não estava mais lá.

Tomando cuidado para não acordar a aia, Alaïs abriu a porta da mesinha-de-cabeceira. A dobradiça ainda estava dura por falta de uso, e rangeu ao ser movida. Alaïs passou os dedos pela borda da cama, para o caso de a tábua ter ficado alojada entre o colchão e o estrado de madeira. Tampouco estava ali.

Res. Nada.

Ela não estava gostando do rumo que tomavam seus pensamentos. Seu pai não fizera caso quando ela havia sugerido que talvez a identidade dele houvesse sido descoberta, mas será que ele estava certo? Tanto o merel quanto a tábua haviam sumido.

Alaïs passou as pernas pela borda da cama e atravessou o quarto pé ante pé até sua cadeira de costura. Precisava ter certeza. Sua capa repousava no espaldar. Alguém havia tentado limpá-la, mas a bainha vermelha bordada es­tava incrustada de lama, escondendo o trabalho em alguns pontos. A peça tinha o cheiro do jardim ou dos estábulos, acre e azedo. Suas mãos voltaram vazias, como ela sabia que voltariam. A bolsa de moedas havia sumido, e com ela o merel.

Os acontecimentos estavam se precipitando. De repente, as velhas som­bras conhecidas pareciam prenhes de ameaças. Ela pressentia perigo por toda parte, até mesmo nos roncos vindos do pé da cama.

E se meus atacantes ainda estiverem no Château? E se eles voltarem para me buscar?

Alaïs vestiu-se depressa, pegou a calèlh e ajustou a chama. A idéia de cruzar o pátio escuro sozinha a amedrontava, mas ela não podia ficar sentada no quarto esperando algo acontecer.

Coratge. Coragem.

Alaïs atravessou correndo a Cour d'Honneur até a Tour Pinte, protegendo com a mão a chama tremeluzente. Precisava encontrar François.

Abriu uma nesga de porta e chamou o nome dele na escuridão. Não houve resposta. Entrou sem fazer barulho.

— François — tornou a sussurrar.

A lamparina emitia um pálido brilho amarelo, suficiente para ver que alguém dormia sobre o catre ao pé da cama de seu pai.

Pousando a lamparina no chão, Alaïs se agachou e tocou-o de leve no ombro. Imediatamente recolheu o braço como se seus dedos houvessem sido queimados. Havia alguma coisa estranha.

— François?


Ainda nenhuma resposta. Alaïs agarrou a borda áspera do cobertor, con­tou até três, e deu um puxão.

Sobre o catre havia uma pilha de roupas e peles velhas, cuidadosamente arrumadas para parecer uma pessoa dormindo. Ela sentiu-se tonta de alívio, embora intrigada.

No corredor do lado de fora, um barulho atraiu sua atenção. Alaïs em­punhou a lamparina e apagou a chama, depois escondeu-se nas sombras atrás da cama.

Ouviu a porta se abrir com um rangido. O intruso hesitou, talvez sentin­do o cheiro do óleo da lamparina, talvez reparando nas cobertas desarruma­das. Retirou uma faca da bainha.

Quem está aí? — disse ele. — Apareça.

François — disse Alaïs aliviada, saindo de trás das cortinas. — Sou eu. Pode guardar a arma.

Ele parecia mais surpreso do que ela se sentia.

— Dama, perdoe-me. Eu não sabia.

Ela o olhou com interesse. Ele ofegava, como se houvesse corrido.

A culpa foi minha, mas onde você estava a esta hora? — pergun­tou ela.

Eu...

Uma mulher, imaginava ela, embora não conseguisse entender por que ele teria tanta vergonha de algo assim. Sentiu pena dele.

— Na verdade, François, não tem importância. Estou aqui porque você é a única pessoa em quem eu confio para me contar o que aconteceu comigo.

O rosto dele perdeu a cor.

Eu não sei de nada, dama — disse ele depressa, com a voz engasgada.

Ora, você deve ter ouvido boatos, fofocas de cozinha, não?

Muito pouco.

Bem, vamos tentar reconstruir a história juntos — disse ela, intrigada pela atitude do rapaz. — Lembro-me de voltar do quarto de meu pai depois que você me chamou para ir falar com ele. Então fui atacada por dois homens.

Acordei no pomar, perto de um regato. O dia nascia. Quando acordei de novo, estava em meu próprio quarto.

A senhora reconheceria os homens, dama?

Alaïs olhou firme para ele.

Não. Estava escuro e tudo aconteceu depressa demais.

Eles levaram alguma coisa?

Ela hesitou.

— Nada de valor — disse, incomodada com a mentira. — Depois, sei que Alziette Baichère deu o alarme. Ouvi-a gabando-se disso mais cedo, embora por mais que pense não consiga entender como ela estava ali tomando conta de mim. Por que não Rixende? Ou qualquer outra das minhas mulheres?

Foram ordens de dama Oriane. Ela assumiu pessoalmente os cuida­dos com a senhora.

As pessoas não estranharam a preocupação dela? — perguntou Alaïs.

Aquilo era totalmente atípico. — Minha irmã não é conhecida por esses... talentos.

François aquiesceu.

— Mas ela insistiu muito, dama.

Alaïs sacudiu a cabeça. Uma tênue recordação faiscou em sua mente. A lembrança fugidia de estar presa em um espaço pequeno, de pedra, não de madeira, e do cheiro azedo de urina, animais e descaso. Quanto mais tentava recuperar a lembrança, mais ela lhe escapava.

Ela se forçou a voltar ao assunto presente.

Imagino que meu pai tenha viajado para Montpelhièr, François.

Ele assentiu.

Dois dias atrás, dama.

— Hoje é quarta-feira— murmurou ela, estupefata. Havia perdido dois dias. Franziu o cenho. — Quando eles foram embora, François, meu pai não perguntou por que eu não fui me despedir dele?

— Perguntou sim, dama, mas... Ele me proibiu de acordá-la.

Isto não faz sentido.

Mas, e o meu marido? Guilhem não disse que eu não voltei para o nosso quarto naquela noite?

Acho que o chevalier du Mas passou a primeira parte da noite na ferraria, dama, depois compareceu à missa da bênção na capela com o viscon­ de Trencavel. Ele parecia tão surpreso com a ausência da senhora quanto o intendente Pelletier, e além disso...

Ele se interrompeu.

Continue. Diga o que está pensando, François. Não vou culpar você.

Com seu perdão, dama, acho que o chevalier du Mas não iria querer mostrar que desconhecia o paradeiro da senhora na frente de seu pai.

No instante em que as palavras saíram da boca dele, Alaïs percebeu que ele tinha razão. Naquele momento, a tensão entre seu marido e seu pai esta­va pior do que nunca. Alaïs apertou os lábios, sem querer demonstrar que concordava.

— Mas eles se arriscaram tanto — disse ela, voltando a se referir ao ataque. — Atacar-me dessa forma no coração do Château Comtal já foi lou­cura suficiente. Aumentar o crime mantendo-me prisioneira... Como eles po­deriam esperar escapar impunes?


Ela se empertigou, dando-se conta do que acabara de dizer.

— Todos estavam muito ocupados, dama. O toque de recolher não esta­va em vigor. Então, mesmo que o Portão Ocidental estivesse fechado, o Portão Oriental passou a noite inteira aberto. Teria sido fácil para dois homens transportá-la juntos, contanto que seu rosto e suas roupas não estivessem visí­veis. Havia muitas senhoras... mulheres, quero dizer, do tipo...

Alaïs reprimiu um sorrisinho.

— Obrigada, François. Já entendi o que está querendo dizer.

O sorriso se foi de seu rosto. Ela precisava pensar, decidir o que deveria fazer agora. Estava mais confusa do que nunca. E o fato de ignorar o porquê daquilo ter acontecido, da maneira como havia acontecido, realçava seu medo. E difícil agir contra um inimigo sem rosto.

— Seria bom fazer circular o boato de que eu não consigo me lembrar de nada do ataque, François — disse ela depois de algum tempo. — Assim, se os meus atacantes ainda estiverem no Château, não terão por que se sentir ameaçados.

A idéia de fazer o mesmo caminho de volta pelo pátio gelava-lhe a alma. Além disso, não queria dormir sob os olhos da aia de Oriane. Alaïs não tinha dúvidas de que suas ordens eram espioná-la e contar tudo à sua irmã.

Vou descansar aqui pelo resto da noite — acrescentou.

Para sua surpresa, François fez cara de horror.

Mas, dama, não é apropriado para a senhora...

— Desculpe tirá-lo da cama — disse ela, abrandando a ordem com um sorriso —, mas não gosto da minha companheira de quarto. — Uma expressão impassível, misteriosa tomou conta do rosto dele. — Mas se você pudesse ficar por perto, François, caso eu precise de você, ficaria grata.

Ele não lhe retribuiu o sorriso.

— Como desejar, dama.

Alaïs o encarou por um instante, depois decidiu que estava tirando con­clusões demais sobre o comportamento dele. Pediu-lhe para acender a lamparina, e em seguida o dispensou.

Assim que François saiu, Alaïs se encolheu no centro da cama do pai. Agora que estava novamente sozinha, a dor causada pela ausência de Guilhem voltou como uma pontada surda. Ela tentou trazer o rosto dele à lembrança, seus olhos, o contorno de sua mandíbula, mas os traços se embaralhavam e recusavam-se a se definir. Alaïs sabia que aquela incapacidade de encontrar a imagem do marido na mente vinha da raiva. Disse e repetiu para si mesma que Guilhem estava apenas cumprindo suas obrigações de chevalier. Não agira de forma errada nem traiçoeira. Na verdade, agira como deveria. Na véspera de uma missão importante assim, seu dever era ficar ao lado de seu senhor lígio e daqueles que viajariam com ele, não da mulher. Mesmo assim, por mais que Alaïs repetisse isso para si mesma, não conseguia acalmar as vozes em sua mente. O que quer que dissesse não fazia diferença em relação ao que ela sentia. E o que sentia era que, quando precisara da proteção de Guilhem, ele não a havia protegido. Por mais injusto que fosse, ela culpava Guilhem.

Se sua ausência houvesse sido descoberta à primeira luz da aurora, os homens talvez tivessem sido pegos.

E meu pai não teria ido embora pensando mal de mim.


 

Em uma fazenda deserta nos arredores de Aniane, nas terras planas e férteis a oeste de Montpellier, um velho parfait cátaro e oito credentes, seus seguidores, estavam agachados no canto de um celeiro, atrás de uma coleção de velhos arreios para bois e mulas.

Um dos homens estava gravemente ferido. Carne cinza e cor-de-rosa abria-se em volta dos ossos brancos e quebrados do que havia sido seu rosto. Seu olho fora deslocado da órbita pela força do chute que lhe arrebentara a face. O sangue havia coagulado em volta do buraco fundo. Seus amigos haviam se recusado a deixá-lo quando a casa em que rezavam fora atacada por um pe­queno grupo de soldados renegados que havia se separado do exército francês.

Mas ele havia diminuído o ritmo do grupo, e os fizera perder a vantagem de conhecer bem o terreno. Durante o dia inteiro, os cruzados os haviam caçado. A noite não os salvara, e agora estavam encurralados. Os cátaros podiam ouvi-los gritando no quintal, o som da madeira seca pegando fogo. Estavam construindo uma pira.

O parfait sabia que estavam próximos do fim. Não haveria clemência daqueles homens, movidos por ódio, ignorância e beatismo. Nunca houvera um exército assim em terras cristãs. O parfait não teria acreditado se não hou­vesse visto com os próprios olhos. Ele viajava rumo ao sul, em um curso para­lelo ao da Hoste. Vira as imensas e sólidas barcaças flutuando Ródano abaixo, levando equipamento e mantimentos, bem como os baús de madeira envoltos em braçadeiras de aço que continham as preciosas relíquias sagradas para aben­çoar a expedição. Os cascos de milhares de cavalos e homens andando na margem fazia subir uma nuvem gigante de poeira, que pairava acima da Hoste.

Desde o início, o povo das cidades e dos vilarejos havia fechado seus portões, olhando de trás dos muros e rezando para que o exército passasse. Histórias cada vez mais violentas e terríveis circulavam. Havia relatos de fazen­das incendiadas, represálias a fazendeiros que haviam se recusado a permitir que os soldados saqueassem suas terras. Fiéis cátaros, denunciados como here­ges, haviam sido queimados em fogueiras em Puylaroque. Em Montélimar, a comunidade jucaica inteira, homens, mulheres e crianças, havia sido passada no fio da espada, e suas cabeças sanguinolentas suspensas em estacas do lado de fora da cidade, um banquete para os corvos.

Em Saint-Paul des Trois Châteaux, um parfait fora crucificado por um pequeno grupo de bandoleiros gascões. Eles o haviam amarrado a uma cruz improvisada feita de dois pedaços de madeira presos com uma corda, e atravessado-lhe as mãos com pregos. O peso de seu corpo o puxava para baixo, mas mesmo assim ele não renegou sua fé nem cometeu apostasia. No final, entediados pela demora da morte, os soldados abriram-lhe o ventre e o deixa­ram ali para apodrecer.

Esses e outros atos bárbaros eram negados pelo abade de Cíteaux e pelos barões franceses, ou então atribuídos a renegados. Porém, agachado no escu­ro, o parfait sabia que ali de nada valiam as palavras dos senhores, padres ou legados papais. Podia sentir o cheiro da sede de sangue no hálito dos homens que os haviam caçado até aquele cantinho da Terra criada pelo Diabo.

Ele sabia reconhecer o Mal.

Tudo que podia fazer agora era tentar salvar as almas de seus fiéis, para que pudessem encarar a face de Deus. Sua passagem daquele mundo para o seguinte não seria delicada.

O ferido ainda estava consciente. Gemia baixinho, mas uma imobilidade final enfim o dominou e sua pele tingiu-se do cinza da morte. O parfait pousou as mãos sobre a cabeça do homem enquanto administrava-lhe os últimos ritos de sua religião e pronunciava as palavras do consolament.

O restante dos fiéis uniu as mãos em círculo e começou a rezar.

— Santo Pai, Deus legítimo dos bons espíritos. Tu que nunca és enganado, que nunca mentes nem duvidas, permite-nos saber...

Os soldados agora estavam chutando a porta, rindo, gritando. Não de­moraria para que os encontrassem. A mais jovem das mulheres, que não tinha mais de 14 anos, começou a chorar. As lágrimas corriam incontidas, silencio­sas, por suas bochechas.

— ... permite-nos saber o que Tu sabes, amar o que Tu amas; pois nós não somos deste mundo, e este mundo não é de nós, e tememos encontrar a morte no reino de um deus estranho.

O parfait levantou a voz no instante em que a viga horizontal que segu­rava a estrutura da porta se partia em dois. Lascas de madeira, pontiagudas como flechas, explodiram pelo celeiro quando os homens entraram. À luz alaranjada do fogo que ardia no quintal, ele pôde ver seus olhos, fixos e desu­manos. Contou dez homens, todos armados com espadas.

Seus olhos encontraram o comandante que veio seguindo seus homens. Alto, com um rosto fino e pálido e olhos inexpressivos, tão calmos e controlados quanto seus homens eram temperamentais e indisciplinados. Trazia em torno de si um ar de cruel autoridade, de um homem acostumado a ser obedecido.

A suas ordens, os fugitivos foram arrastados para fora do esconderijo. Ele ergueu o braço e enfiou a lâmina no peito do parfait. Por um instante, enca­rou-o. Os olhos cor de sílex do francês estavam duros de desprezo. Ergueu o braço uma segunda vez e mergulhou a espada no alto da cabeça do homem mais velho, espalhando pela palha sangue vermelho e miolos cinzentos.

Com o assassinato do sacerdote, os fiéis entraram em pânico. Tentaram sair correndo, mas o chão já estava escorregadio de sangue. Um soldado agar­rou uma mulher pelos cabelos e enfiou-lhe a espada nas costas. O pai da mu­lher tentou afastá-lo dela, mas o soldado se virou e golpeou-o na barriga. Os olhos dele se arregalaram, chocados, enquanto o soldado girava a faca, depois afastava o corpo da lâmina com o pé.

O soldado mais jovem se virou e vomitou em cima da palha.

Em minutos, todos os homens estavam mortos, os corpos espalhados pelo celeiro. O capitão ordenou a seus homens que levassem as duas mulheres mais velhas para fora. Manteve a menina dentro do celeiro, assim como o rapaz que havia vomitado. Ele precisava aprender a ser mais valente.

A menina se encolheu, afastando-se dele, os olhos brilhando de medo. Ele sorriu. Não estava com pressa, e ela não tinha para onde fugir. Caminhou em volta dela, como um lobo observando sua presa, e então, sem aviso, ata­cou. Com um único movimento, agarrou-a pela garganta e atirou sua cabeça para trás contra a parede, abrindo-lhe o vestido com um rasgo. Ela começou a gritar mais alto, golpeando com os braços e chutando descontroladamente. Ele esmurrou-lhe o rosto, adorando o som do osso a se partir sob seu punho.

As pernas dela cederam. Ela caiu de joelhos, deixando um rastro de san­gue na parede de madeira. Ele se inclinou para a frente e arrancou-lhe a com­binação do corpo, rasgando o tecido de cima a baixo com um puxão. Ela gemeu enquanto ele erguia-lhe as saias até a cintura.

— Não podemos deixar que eles se reproduzam e ponham outros hereges no mundo — disse ele com a voz fria, retirando a faca da bainha.

Não tinha a intenção de poluir sua carne tocando aquela herege. Empu­nhando a lâmina, mergulhou-a até o cabo na barriga da moça. Com todo o ódio que sentia por ela e seus semelhantes, esfaqueou-a repetidamente, até o corpo ficar imóvel na sua frente. Em um derradeiro ato de conspurcação, virou-a de costas e, com dois profundos golpes da faca, gravou o sinal da cruz em suas costas nuas. Pérolas de sangue brotaram da pele branca como rubis.

— Isto deve servir de lição para os outros que passarem por aqui — disse ele, calmo. — Agora livre-se dela.


Limpando a lâmina no vestido rasgado da menina, ele endireitou o corpo. O rapaz soluçava. Suas roupas estavam sujas de vômito e sangue. Ele tentava fazer o que seu capitão mandava, mas era lento demais. O capitão agarrou o rapaz pelo pescoço.

— Estou dizendo para livrar-se dela. Rápido. Se não quiser ter a mesma sorte. — Chutou o rapaz na base das costas, deixando uma pegada de sangue, pó e sujeira impressa em sua túnica. Um soldado de estômago fraco de nada lhe servia.

A pira improvisada no meio do quintal da fazenda ardia intensamente, ali­mentando-se dos ventos noturnos quentes vindos do Mediterrâneo.

Os soldados mantinham-se bem afastados dela, as mãos junto ao rosto para se proteger do calor. Seus cavalos, amarrados perto do portão, batiam os cascos, agitados. O cheiro da morte entrava por suas narinas, deixando-os nervosos.

As mulheres haviam sido despidas e obrigadas a se ajoelhar no chão na frente de seus captores, os pés amarrados e as mãos presas apertadas nas costas. Seus rostos, seus seios arranhados e seus ombros nus davam mostras de maus-tratos, mas elas estavam caladas. Alguém soltou um arquejo quando o corpo da moça foi jogado na sua frente.

O capitão se aproximou do fogo. Estava entediado agora, impaciente para ir embora. Não fora para matar hereges que ele havia abraçado a cruz. Aquela expedição brutal era um presente seu para seus homens. Eles precisa­vam ser mantidos ocupados, afiar suas habilidades e serem impedidos de agre­dir uns aos outros.

O céu da noite estava cheio de estrelas em volta de uma lua cheia. Ele percebeu que devia passar da meia-noite, talvez mais. Sua intenção havia sido voltar muito antes, caso a ordem chegasse.

— Vamos jogá-las no fogo, meu senhor?

Com um golpe único, repentino, ele desembainhou a espada e decapi­tou a mulher mais próxima. O sangue jorrou de uma veia em seu pescoço, banhando-lhe as pernas e os pés. A cabeça caiu no chão com um leve baque. Ele chutou o corpo que ainda se contorcia até ele cair para a frente no chão.

— Matem o resto destas vadias hereges e depois queimem os corpos, e o celeiro também. Já estamos atrasados.


 

Alaïs acordou com a aurora entrando no quarto.

Por um instante, não conseguiu se lembrar de como tinha chegado ao quarto do pai. Sentou-se e espreguiçou-se para despertar os ossos, esperando que a lembrança da véspera voltasse vivida e forte.

Em algum ponto entre a meia-noite e as primeiras horas da manhã, ela havia tomado uma decisão. Apesar da noite mal dormida, sua mente estava límpida como uma nascente de montanha. Ela não podia ficar sentada, es­perando passivamente a volta do pai. Não tinha como avaliar as conseqüên­cias de cada dia de atraso. Quando ele lhe falara sobre seu dever sagrado para com a Noublesso de los Seres e o segredo que protegiam, não lhe deixara dúvidas de que sua honra e seu orgulho dependiam de sua capacidade de cumprir seus votos. O dever dela era encontrá-lo, contar-lhe o que havia acontecido, tornar a pôr a situação nas mãos dele.

Muito melhor agir do que não fazer nada.

Alaïs foi até a janela e abriu as persianas para deixar entrar o ar da manhã. Ao longe, a Montagne Noire cintilava, púrpura, à aurora que nascia, sólida e atemporal. A visão da montanha reforçou sua decisão. O mundo a chamava para junto dele.

Ela estaria se arriscando, uma mulher viajando sozinha. Teimosa, diria seu pai. Mas ela era excelente amazona, veloz e instintiva, e confiava em sua capacidade de escapar de qualquer bando de routiers ou bandidos. Além disso, até onde sabia, não houvera ataques nas terras do visconde Trencavel.

Alaïs ergueu a mão até o hematoma em sua nuca, prova de que alguém lhe queria mal. Se fosse a sua hora de morrer, muito melhor então encarar a morte de espada na mão do que ficar sentada esperando seus inimigos torna­rem a atacar.

Alaïs pegou a lamparina fria de cima da mesa, olhando para seu reflexo no vidro sujo de fuligem. Estava pálida, a pele da cor do leitelho, e seus olhos reluziam de cansaço. Mas havia neles um brilho de decisão que não estava ali antes.


Alaïs preferiria não ter que voltar a seu quarto, mas não tinha escolha. Passan­do por cima de François com cuidado, tornou a cruzar o pátio e entrou nova­mente na ala residencial. Não havia ninguém por perto.

O dissimulado braço direito de Oriane, Guirande, dormia no chão do lado de fora do quarto de sua irmã quando Alaïs passou pelo corredor na ponta dos pés, o rosto bonito adormecido, os lábios fazendo biquinho.

Alaïs não perdeu tempo e pôs-se logo a trabalhar. O sucesso de seu plano dependia de sua capacidade de enganar a todos fazendo-os pensar que ela era fraca demais para aventurar-se longe de casa. Ninguém na casa podia saber que seu destino era Montpellier.

Tirou do armário seu vestido de caça mais leve, de uma cor meio avermelhada como o pêlo de um esquilo, com mangas mais claras e cinzentas, largas no braço e que iam se afinando até uma ponta em forma de diamante. Amarrou um fino cinto de couro na cintura, ao qual prendeu a faca de mesa e a borsa, sua bolsa de caça de inverno.

Alaïs calçou as botas de caça até logo abaixo do joelho, apertou os cadarços de couro no alto do cano, para prender uma segunda faca, e em seguida ajustou a fivela e vestiu uma capa marrom simples com capuz e sem detalhes.

Uma vez vestida, Alaïs pegou algumas pedras preciosas e jóias de seu porta jóias, incluindo seu colar de aventurina e seu anel e gargantilha de tur­quesa. Poderiam ser úteis para uma troca ou para garantir passe seguro ou abrigo, principalmente depois que saísse das terras do visconde Trencavel.

Por fim, satisfeita de que não havia se esquecido de nada, retirou a espa­da do esconderijo atrás da cama onde ela repousava, intocada, desde o dia de seu casamento. Alaïs empunhou a espada com firmeza na mão direita e er­gueu-a diante do rosto, sopesando a lâmina na palma da mão. Ainda estava reta e boa, apesar da falta de uso. Ela desenhou um oito no ar, familiarizando-se novamente com o peso e a peculiaridade da arma. Sorriu. A espada parecia se encaixar perfeitamente em sua mão.

Alaïs esgueirou-se até a cozinha e pediu pão de cevada, figos, peixe salgado, um tablete de queijo e um garrafão de vinho a Jacques. Ele lhe deu muito mais do que ela precisava, como sempre fazia. Dessa vez, ela ficou agradecida por sua generosidade.

Acordou sua criada, Rixende, e sussurrou-lhe um recado para dama Agnès de que dama Alaïs estava se sentindo melhor e se juntaria às senhoras da casa no solar depois de soada a terça. Rixende pareceu surpresa, mas não fez nenhum comentário. Alaïs não gostava dessa parte de suas obrigações, e geral­mente pedia para ser dispensada sempre que possível. Sentia-se enjaulada na companhia das mulheres, e ficava entediada com as conversas sem importân­cia. Porém, nesse dia, aquilo serviria como uma prova perfeita de que sua intenção era retornar ao Château.

Alaïs esperava que só sentissem sua falta mais tarde. Com sorte, somente quando o sino da capela anunciasse vésperas é que perceberiam que ela não havia voltado para casa e dariam o alarme.

A essa altura, eu já estarei longe.

— Só fale com dama Agnès depois de ela tomar o café-da-manhã, Rixende — disse ela. — Só quando os primeiros raios do sol baterem no muro ociden­tal do pátio, entendeu? Oc? Antes disso, se alguém vier me procurar, mesmo que seja o criado de meu pai, pode lhes dizer que eu fui cavalgar nos campos para lá de Sant-Miquel.

Os estábulos ficavam no canto nordeste do pátio, entre a Tour des Casernes e a Tour du Major. Cavalos bateram os cascos e levantaram as ore­lhas quando ela se aproximou, relinchando baixinho, esperando feno. Alaïs parou na primeira baia e passou a mão pelo focinho largo de sua velha égua cinza. A frente de sua crina e os pêlos entre seus ombros estavam salpicados de fios duros e brancos.

— Hoje não, amiga — disse ela. — Eu não poderia exigir tanto de você.

Seu outro cavalo ficava na baia seguinte. A égua árabe de seis anos de idade, Tatou, fora um presente de casamento surpresa de seu pai. Castanha da cor das pinhas no inverno, com o rabo e a crina brancos, tufos de pêlo amare­lado na parte de trás das patas junto aos cascos, e pintas brancas nos quatro pés. Da altura dos ombros de Alaïs, Tatou tinha a cara achatada típica de sua raça, ossos densos, garupa firme e temperamento fácil. Mais importante ain­da, tinha boa resistência e era muito veloz.

Para seu alívio, a única pessoa no estábulo era Amiel, o mais velho dos filhos do ferreiro, que tirava uma soneca sobre o feno no canto mais afastado das baias. Pôs-se de pé ao vê-la, encabulado por ter sido pego dormindo.

Alaïs interrompeu suas desculpas.

Amiel verificou os cascos e ferraduras da égua, para certificar-se de que ela estava preparada para ser montada, depois pegou uma manta e, a pedido de Alaïs, um arreio de viagem, e não de caça, e um bridão. Alaïs podia sentir a pressão no peito. Sobressaltava a cada ruído vindo do pátio, virando-se ao ouvir alguma voz.

Somente quando ele terminou foi que Alaïs retirou a espada de baixo da capa.

— Está cega — falou.


Seus olhares se cruzaram. Sem dizer uma palavra, Amiel pegou a espada e levou-a até a bigorna na forja. O fogo ardia, mantido aceso noite e dia por uma sucessão de meninos que mal tinham tamanho suficiente para transpor­tar as pesadas e pontiagudas braçadas de galhos de um lado para o outro da ferraria.

Alaïs ficou olhando enquanto faíscas voavam da pedra, observando a tensão nos ombros de Amiel enquanto ele golpeava a lâmina com o martelo, afiando, achatando e reequilibrando.

— É uma boa espada, dama Alaïs — disse ele, neutro. — Servirá à senhora bem, mas... rezo a Deus para que não precise usá-la.

Ela sorriu.

— Ieu tanben. — Eu também.

Ele ajudou-a a montar e conduziu-a pelo pátio. Alaïs tinha o coração apertado, com medo de ser vista naquele último instante e ter seus planos arruinados.

Mas não havia ninguém por perto e eles logo chegaram ao Portão Oriental.

— Vá com Deus, dama Alaïs — sussurrou Amiel, enquanto Alaïs colo­cava um sol na palma de sua mão. Os guardas abriram os portões e Alaïs tocou Tatou para frente, cruzando a ponte e adentrando as ruas recém despertadas de Carcassonne, com o coração aos pulos. O primeiro desafio fora vencido.

Assim que passou pela Porte Narbonnaise, Alaïs afrouxou as rédeas de Tatou.

Libertat. Liberdade.

Enquanto cavalgava, com o sol erguendo-se ao leste, Alaïs se sentia em harmonia com o mundo. O vento soprava seus cabelos para longe do rosto e devolvia a cor a suas faces. Enquanto Tatou galopava pelas planícies, ela se perguntava se era assim que a alma se sentia ao deixar o corpo em sua viagem de quatro dias até o céu. Aquela sensação de Graça divina, aquela transcendência, como se tudo que fosse físico desaparecesse até não restar nada a não ser espírito?

Alaïs sorriu. Os parfaits pregavam que chegaria a hora em que todas as almas seriam salvas e todas as perguntas respondidas no céu. Mas, por ora, ela estava preparada para esperar. Ainda havia coisas demais a fazer sobre a Terra para ela pensar em deixá-la.

Com a própria sombra a se estender atrás de si, qualquer pensamento sobre Oriane, sobre a casa, todos os medos desapareceram. Ela estava livre. Às suas costas, os muros e torres coloridos da Cité foram ficando cada vez meno­res, até desaparecerem por completo.

 

                             Toulouse

                             Terça-feira, 5 de julho de 2005

No aeroporto de Blagnac, em Toulouse, o funcionário da segurança prestou mais atenção nas pernas de Marie-Cécile de l'Oradore do que nos passaportes dos outros passageiros.

Todos viravam a cabeça em sua direção enquanto ela cruzava o espaço revestido de lajotas cinza e brancas. Seus cachos pretos simétricos, seu terninho de saia bem cortado, sua camisa branca impecável. Tudo a destacava como alguém importante, alguém que não tinha a intenção de ficar em filas nem de esperar.

Seu motorista habitual estava à sua espera no portão de desembarque, discreto com seu terno escuro entre a multidão de parentes e turistas de cami­seta e shorts. Ela sorriu e pediu notícias da família dele enquanto caminhavam até o carro, embora sua cabeça estivesse em outro lugar. Quando ligou o celu­lar, havia um recado de Will, que ela apagou.

Enquanto o carro se juntava silenciosamente ao fluxo do tráfego na rocade que rodeava Toulouse, Marie-Cécile se permitiu relaxar. A cerimônia da noite anterior fora mais excitante do que nunca. Armada com a informação de que a caverna havia sido descoberta, ela se sentia transformada, recompensada pelo ritual e seduzida pelo poder herdado do avô. Quando havia erguido as mãos e pronunciado as palavras encantatórias, sentira uma energia pura correr por suas veias.

Até mesmo o fato de ter tido que silenciar Tavernier, um iniciado que havia se revelado indigno de confiança, correra sem dificuldades. Contanto que ninguém mais abrisse a boca — e agora tinha certeza de que ninguém o faria — não havia nada com que se preocupar. Marie-Cécile não perdera tem­po dando-lhe uma oportunidade de se defender. A seu ver, as transcrições das entrevistas que ele dera a uma jornalista eram provas suficientes.

Mesmo assim. Marie-Cécile abriu os olhos.

Havia algumas coisas naquela situação que a preocupavam. O modo como a indiscrição de Tavernier havia sido revelada; o fato de que as anotações da jornalista eram surpreendentemente concisas e consistentes; o fato de que a própria jornalista estava desaparecida.

Mais do que tudo, incomodava-a a coincidência temporal. Não havia por que associar a descoberta da caverna no Pic de Soularac a uma execução já planejada — e subseqüentemente levada a cabo — em Chartres, mas, em sua mente, os dois acontecimentos estavam ligados.

O carro diminuiu a velocidade. Ela abriu os olhos e viu que o motorista havia parado para pegar o recibo do pedágio da auto-estrada. Bateu no vidro.

— Pour le péage — disse, entregando-lhe uma nota de cinqüenta euros enrolada entre os dedos de unhas feitas. Não queria deixar rastros pagando com cartão de crédito.

Marie-Cécile tinha trabalho a fazer em Avignonet, cerca de trinta quilô­metros a sudoeste de Toulouse. De lá, seguiria para Carcassonne. Sua reunião estava marcada para as nove, embora pretendesse chegar mais cedo. O tempo que passaria em Carcassonne dependeria do homem que iria encontrar.

Cruzou as pernas compridas e sorriu. Estava ansiosa para ver se ele fazia jus à reputação que tinha.

 

                                     Carcassonne

Logo depois das dez horas, o homem conhecido como Audric Baillard saiu da estação da SNCF de Carcassonne e tomou a direção da cidade. Era magro, e seu terno claro lhe dava uma aparência distinta, mesmo que um pouco anti­quada. Caminhava depressa, segurando uma bengala comprida de madeira como um cetro entre os dedos finos. Seu chapéu-panamá protegia-lhe os olhos da claridade.

Baillard atravessou o Canal du Midi e passou na frente do magnífico Hotel du Terminus, com seus vistosos espelhos art déco e suas ornamentadas portas de ferro giratórias. Carcassonne havia mudado muito. As mostras disso surgiam por toda parte enquanto ele descia a rua de pedestres que atravessava o coração da Basse Ville. Novas lojas de roupas, pâtisseries, livrarias e joalherias. Reinava ali um ar de prosperidade. A cidade era novamente um destino popular. Um lugar no centro dos acontecimentos.

As cerâmicas brancas do calçamento da Place Carnot cintilavam ao sol. O calçamento era novo. O estupendo chafariz do século XIX havia sido res­taurado, e sua água estava cristalina. A praça estava coalhada das coloridas cadeiras e mesas dos cafés. Baillard olhou na direção do Bar Félix e sorriu ao ver seus toldos conhecidos e esfarrapados debaixo das limeiras. Pelo menos algumas coisas não haviam mudado.

Subiu uma rua lateral estreita e movimentada que levava ao Pont Vieux. As placas marrons, típicas de monumentos históricos, indicavam o caminho para a Cité medieval fortificada, e eram mais uma indicação de como o lugar havia se transformado, passando de uma classificação de "vaut le détour" no guia Michelin a patrimônio histórico mundial da Unesco.

Então ele saiu para o espaço aberto e lá estava ela. La Ciutat. Baillard, como sempre, experimentou uma forte sensação de ter chegado em casa. Mui­to embora aquele não fosse mais o lugar que ele havia conhecido.

Uma cerca decorativa havia sido erguida na entrada do Pont Vieux para evitar o tráfego. Houvera uma época em que era preciso se encolher contra as muralhas para evitar a manada de furgões, trailers, caminhões e bicicletas que cruzavam resfolegando a ponte estreita. Naquele tempo, as fachadas de pedra exibiam as cicatrizes de décadas de poluição. Agora o parapeito estava limpo. Talvez um pouco limpo demais. Mas o surrado Jesus de pedra continuava pendurado em sua cruz como uma boneca de pano, bem no meio da ponte, marcando a fronteira entre a Bastide Saint-Louis e a antiga cidade fortificada.

Ele retirou um lenço amarelo do bolso de cima e enxugou cuidadosa­mente o rosto e a testa, debaixo da aba do chapéu. As bordas do rio logo abaixo eram exuberantes e bem-cuidadas, com caminhos cor de areia serpen­teando por entre as árvores e arbustos. Na margem norte, abrigados em meio a um manto de grama, havia canteiros cuidadosamente cultivados, cheios de flores exóticas. Senhoras bem-vestidas sentavam-se nos bancos de metal à sombra das árvores, olhando para a água lá embaixo e conversando, enquanto seus cachorrinhos ofegavam pacientemente junto a elas, ou então tentavam mor­der os calcanhares de um ou outro corredor.

O Pont Vieux conduzia diretamente ao Quartier de la Trivalle, que fora transformado de subúrbio insosso em porta de entrada da Cité medieval. Cer­cas de ferro fundido preto haviam sido posicionadas a intervalos regulares ao longo das calçadas, para impedir que os carros estacionassem. Amores-perfeitos em tons berrantes de cor-de-laranja, roxo e vermelho transbordavam de seus vasos como cabelos cascateando pelas costas de alguma moça. Mesas e cadeiras cromadas reluziam do lado de fora de cafés, e luminárias retorcidas revestidas de cobre haviam tomado o lugar dos velhos postes de luz comuns. Até mesmo as antigas calhas de plástico e ferro, que vazavam e trincavam debaixo da chuva e do calor, haviam sido substituídas por elegantes canaletas feitas de metal escovado, com as extremidades moldadas em forma de vorazes bocas de peixes.

A boulangerie e a alimentation générale haviam sobrevivido, assim como o Hôtel du Pont Vieux, mas a boucherie agora vendia antigüidades e a mercerie era uma loja de curiosidades new age, que vendia cristais, baralhos de tarô e livros sobre despertar espiritual.

Quantos anos fazia desde que ele pisara ali pela última vez? Já havia perdido a conta.

Baillard entrou direto na rue de la Gaffe, e ali também viu sinais de uma modernização crescente. A largura da rua mal deixava passar um único carro; era mais um beco do que uma rua propriamente dita. Havia uma galeria de arte na esquina — La Maison du Chevalier — com duas grandes janelas arquea­das protegidas por barras de metal, como uma porta levadiça hollywoodiana. Na parede havia seis escudos de madeira pintada e, ao lado da porta, um anel de metal para as pessoas amarrarem seus cachorros onde um dia se amarraram os cavalos.

Várias portas estavam recém pintadas. Ele viu os números das casas em plaquinhas de cerâmica branca emolduradas de azul, amarelo e ramos de flo­res pequeninas. Um ou outro mochileiro, carregando mapas e garrafas d'água, parava para perguntar o caminho da Cité, mas fora isso havia pouco movimento.

Jeanne Giraud morava em uma casinha de fundos para as íngremes encostas cobertas de grama que conduziam às muralhas medievais. No seu canto da rua, menos casas haviam sido reformadas. Algumas estavam em ruínas ou interditadas. Uma velha e um homem estavam sentados do lado de fora em cadeiras trazidas da cozinha. Baillard ergueu o chapéu e desejou-lhes bom dia ao passar. Conhecia de vista alguns dos vizinhos de Jeanne, tendo construído uma relação cordial com eles ao longo dos anos.

Encontrou Jeanne na rua, sentada na sombra em frente à porta de casa, à sua espera. Tinha a mesma aparência arrumada e eficiente de sempre, com uma camisa simples de manga comprida e uma saia escura reta. Seus cabelos estavam presos em um coque na nuca. Parecia a professora que havia sido até sua aposentadoria vinte anos antes. Durante todos os anos em que os dois se conheciam, ela nunca o havia recebido de outra forma senão perfeita e formal­mente arrumada.

Audric sorriu, lembrando-se de como Jeanne era curiosa quando jovem, sempre a fazer perguntas. Onde ele morava? O que fazia durante os longos meses em que não se viam? Para onde ele ia?

Ele lhe respondia que ia viajar. Pesquisar e juntar material para seus li­vros, visitar amigos. Que amigos, perguntava ela?

Colegas, pessoas com quem ele havia estudado e compartilhado experi­ências. Ele lhe contara sobre a amizade com Grace.

Algum tempo depois, admitira que morava em um vilarejo dos Pireneus, não muito longe de Montségur. Mas ela sabia muito pouca coisa sobre ele além disso e, à medida que passavam as décadas, havia desistido de perguntar.

Jeanne era uma pesquisadora intuitiva e metódica, diligente, conscienciosa e pouco dada a arroubos de sentimentalismo; eram qualidades inestimáveis. Durante os últimos trinta anos ou algo assim, havia trabalhado com ele em todos os seus livros, mais especificamente no último, um trabalho ainda inconcluso, biografia de uma família cátara na Carcassonne do século XIII.

Para Jeanne, aquilo fora um trabalho de detetive. Para Audric, fora uma obra de amor.

Ao vê-lo chegar, Jeanne levantou a mão.

Audric — disse, sorrindo. — Há quanto tempo.

Ele segurou as mãos dela nas suas.

Bonjorn.

Ela recuou para olhá-lo de cima a baixo.

— Você está com uma cara boa.

—Té tanben — respondeu ele. Você também.

Veio rápido.

Ele assentiu.

O trem foi pontual.

Jeanne pareceu escandalizada.

Você não veio a pé da estação?

—Não é tão longe assim — disse ele com um sorriso. — Confesso que queria ver o quanto Carcassona havia mudado desde a última vez em que estive aqui.

Baillard a seguiu para dentro da casa fresca. As cerâmicas marrons e beges do piso e das paredes davam um ar sombrio, antiquado a tudo em volta. No centro do cômodo havia uma mesinha oval, suas pernas gastas espiando por baixo de uma toalha impermeável amarela e azul. Uma escrivaninha, no can­to, sustentava uma máquina de escrever antiga, ao lado de portas envidraçadas que davam para uma pequena varanda.

Jeanne saiu da despensa com uma bandeja contendo uma jarra d'água, uma vasilha de pedras de gelo, uma travessa de biscoitos crocantes de especia­rias, uma tigela de azeitonas verdes amargas e um pires para os caroços. Pou­sou a bandeja com cuidado sobre a mesa, e então estendeu a mão para o estrei­to parapeito de madeira que margeava todo o aposento na altura dos ombros. Sua mão encontrou uma garrafa de Guignolet, um amargo licor de cereja que ele sabia que ela guardava apenas para suas raras visitas.

O gelo rachou e retiniu contra as laterais do copo quando o álcool ver­melho brilhante derramou-se sobre as pedras. Durante alguns instantes, fica­ram sentados em um silêncio cúmplice, como haviam feito muitas vezes antes. Fragmentos ocasionais dos comentários de algum guia, cuspidos em várias línguas, chegavam da Cité enquanto o trenzinho de turistas completava um de seus circuitos regulares das muralhas.

Audric pousou o copo sobre a mesa com cuidado.

—Então — disse. — Conte-me o que aconteceu.

Jeanne aproximou a cadeira da mesa.

—O meu neto Yves, como você sabe, trabalha para a Police Judiciaire, département de L'Ariège, lotado lá em Foix. Ontem, ele foi chamado para ir até uma escavação arqueológica nos Montes Sabarthès, perto do Pic de Soularac, onde haviam sido encontrados dois esqueletos. Yves achou estranho seus superiores estarem tratando aquilo como a potencial cena de um crime, e disse que era óbvio que os esqueletos estavam ali há um tempo considerável. — Ela fez uma pausa. — É claro que o Yves não entrevistou a mulher que encontrou os corpos, mas ele estava presente na entrevista. Ele conhece um pouco o traba­lho que eu tenho feito para você, certamente o suficiente para saber que a descoberta dessa tal caverna despertaria o seu interesse.

Audric prendeu a respiração. Passara tantos anos tentando imaginar como se sentiria naquele momento. Nunca havia perdido a esperança de que, por fim, chegaria a hora de ele conhecer a verdade daqueles momentos finais.

As décadas se sucediam. Ele via as estações seguirem seu ciclo incessante: o verde da primavera transformar-se no dourado do verão; a palheta queimada dos tons outonais desaparecer por baixo da austera brancura do inverno; as fontes despejarem suas primeiras águas na primavera.

Mas não houvera nenhuma notícia. E ara? E agora? O Yves entrou na caverna? — perguntou ele.

Jeanne assentiu.

O que foi que ele viu?

Um altar. Atrás do altar, esculpido na própria rocha, o símbolo do labirinto.

E os corpos? Onde eles estavam?

Em uma cova, na verdade não mais do que uma depressão no solo, em frente ao altar. Havia objetos no chão entre os corpos, mas tinha gente demais lá dentro para ele chegar perto o suficiente a ponto de ver alguma coisa.

Quantos corpos eram?

Dois. Dois esqueletos.

Mas é... — Ele parou. — Não tem importância, Jeanne. Continue, por favor. —Debaixo dos... deles, ele pegou isto.

Jeanne deslizou um pequeno objeto pela mesa.

Audric não se moveu. Depois de tanto tempo, tinha medo de tocá-lo.

O Yves me telefonou da agência dos correios de Foix no final da tarde de ontem. A ligação estava ruim e não consegui escutar direito, mas ele disse que pegou o anel porque não confiava nas pessoas que estavam procurando por ele. Ele parecia preocupado. — Jeanne fez uma pausa. — Não, ele parecia assustado, Audric. As coisas não estavam sendo feitas do jeito certo. Os procedimentos normais não estavam sendo seguidos, havia várias pessoas no local que não deveriam estar lá. Ele estava sussurrando, como se tivesse medo de que alguém escutasse.

Quem sabe que ele entrou na caverna?

Não sei. Os oficiais encarregados? O chefe dele? Talvez mais gente.

Baillard olhou para o anel sobre a mesa, então estendeu a mão e o pegou. Segurando-o entre o polegar e o indicador, virou-o na direção da luz. O delica­do desenho do labirinto era claramente visível do lado de dentro.

—É o anel dele? — perguntou Jeanne.

Audric não conseguia responder. Perguntava-se por que o acaso fizera o anel cair em suas mãos. Perguntava-se se seria de fato um acaso.

—O Yves disse para onde os corpos tinham sido levados?

Ela negou com a cabeça.

—Você poderia perguntar para ele? E, se ele conseguir, pedir a lista de todas as pessoas que estavam na escavação ontem quando a caverna foi aberta.

—Vou perguntar. Tenho certeza de que ele vai ajudar, se puder.

Baillard enfiou o anel no polegar.

Por favor, agradeça ao Yves por mim. Deve ter custado muito a ele pegar isto aqui. Ele não faz idéia do quanto sua rapidez de raciocínio pode ter sido importante. — Ele sorriu. — Ele disse o que mais foi descoberto com os corpos?

Uma adaga, uma bolsinha de couro sem nada dentro, uma lamparina no...Vuèg?— disse ele, incrédulo. Vazia? — Mas não pode ser.

O inspetor Noubel, o oficial responsável, aparentemente insistiu muito neste detalhe com a mulher. O Yves disse que ela foi categórica. Ela alegou não ter mexido em nada, a não ser no anel.

E o seu neto achou que ela estivesse dizendo a verdade?

Ele não disse.

Se... alguma outra pessoa deve ter pego — murmurou ele para si mesmo, com o cenho franzido de tanto pensar. — O que o Yves contou a você sobre essa mulher?

Muito pouca coisa. Ela é inglesa, tem vinte e poucos anos e é voluntária, não é arqueóloga. Estava hospedada em Foix a convite de uma amiga, que é a segunda pessoa mais importante da escavação.

Ele disse o nome dela?

Taylor, acho que ele falou. — Ela franziu o cenho. — Não, Taylor não. Talvez fosse Tanner. É, é isso, Alice Tanner.

O tempo parou.

—Es vertat?— Será possível? O nome ecoou em sua cabeça. — Es vertat?— repetiu num sussurro.

Será que ela teria pego o livro? Teria reconhecido o que era? Não, não. Ele se deteve. Aquilo não fazia sentido. Se havia pego o livro, por que não também o anel?

Baillard pôs as mãos espalmadas em cima da mesa para fazê-las parar de tremer, depois encarou Jeanne.

Você acha que poderia perguntar ao Yves se ele tem o endereço dela?

Se ele sabe onde essa madomaisèla... — Parou, incapaz de prosseguir.

Posso perguntar — respondeu ela, depois acrescentou: — Está tudo bem, Audric?

Estou cansado. — Ele tentou sorrir. — Só isso.

Eu esperava que você fosse ficar mais... feliz. Isto é o coroamento de anos de trabalho, ou pelo menos poderia ser.

É coisa demais para digerir de uma vez só.

Você parece chocado pela notícia, em vez de animado.

Baillard imaginou qual seria sua aparência: olhos brilhantes demais, ros­to pálido demais, mãos trêmulas.

— Estou animado — disse. — E muito grato ao Yves e, é claro, a você também, mas... — Respirou fundo. — Talvez você pudesse ligar para o Yves agora? Será que eu posso falar com ele pessoalmente? Talvez até me encontrar com ele?

Jeanne se levantou da mesa e andou até a parede onde o telefone repou­sava sobre uma mesinha ao pé da escada.

Baillard olhou pela janela para as encostas que conduziam às muralhas da Cité. Uma imagem dela cantando enquanto trabalhava surgiu em sua men­te, uma visão da luz caindo em feixes brilhantes por entre os galhos das árvo­res, lançando poças de claridade sobre a superfície do rio. A toda sua volta havia sons e cheiros de primavera; pontinhos de cor na vegetação rasteira, azuis, cor-de-rosa e amarelos, a terra boa e profunda e o cheiro pungente dos buxeiros dos dois lados do caminho pedregoso. A promessa de calor e de dias de verão por vir.

Ele sobressaltou-se quando a voz de Jeanne o chamou de volta das suaves cores do passado.

—Ninguém atende — disse ela.

 

                           Chartres

Na cozinha da casa da rue du Cheval Blanc, em Chartres, Will Franklin bebeu o leite direto da garrafa de plástico, tentando eliminar o gosto de conhaque velho da boca.

Antes de sair, cedo pela manhã, a empregada havia posto a mesa do café. A cafeteira italiana estava em cima do fogão. Will imaginou que fosse para François-Baptiste, já que a empregada não se dava a trabalhos desse tipo por sua causa quando Marie-Cécile estava ausente. Supôs também que François-Baptiste estivesse dormindo até mais tarde, já que tudo estava intocado, sem nenhuma colher nem faca fora do lugar. Duas vasilhas, dois pratos, duas xíca­ras com seus pires. Will levantou o pano de linho branco. Debaixo dele havia pêssegos, nectarinas e melão, além de maçãs.

Will estava sem fome. Na noite anterior, para passar o tempo até Marie-Cécile aparecer, ele havia tomado primeiro um drinque, depois um segundo e um terceiro. Quando ela apareceu, já passava muito da meia-noite, e a essa altura ele tinha bebido tanto que estava de porre. Ela estava elétrica, louca para compensar a discussão que haviam tido. Só tinham ido dormir com o dia amanhecendo.

Os dedos de Will se apertaram em volta do pedaço de papel em sua mão. Marie-Cécile sequer se dera ao trabalho de escrever ela própria o bilhete. Mais uma vez, coubera à empregada avisá-lo de que ela saíra da cidade a trabalho e esperava estar de volta antes do fim de semana.

Will e Marie-Cécile haviam se conhecido na festa de inauguração de uma galeria de arte em Chartres, na primavera anterior, por meio de amigos de amigos dos pais dele. Will estava começando seis meses de viagem sabática pela Euro­pa; Marie-Cécile era uma das patrocinadoras da galeria. Fora ela quem havia tomado a iniciativa, mais do que o contrário. Atraído e lisonjeado com a aten­ção, Will se vira derramando a história de sua vida para ela enquanto toma­vam uma garrafa de champanhe. Haviam saído da galeria juntos, e estavam juntos desde então.

Tecnicamente juntos, pensou Will com amargura. Abriu a torneira e borrifou água fria no rosto. Havia ligado para ela de manhã, sem saber ao certo o que queria dizer, mas o celular estava desligado. Ele estava farto daque­le estado de constante incerteza, sem nunca saber onde estava pisando.

Will olhou pela janela para o pequeno pátio nos fundos da casa. Como tudo mais por ali, estava perfeitamente decorado, com grande precisão. Nada fora deixado a cargo da natureza. Seixos cinza-claros, vasos altos de terracota com limoeiros e laranjeiras na parte de trás, margeando o muro voltado para o sul. Na jardineira da janela, fileiras de gerânios vermelhos, as pétalas já incha­das de sol, erguiam-se orgulhosos. Uma hera centenária cobria o pequeno portão de ferro fundido no muro. Tudo dava uma impressão de permanência. Tudo ainda estaria ali muito depois de Will ir embora.

Ele se sentia como um homem que acordava de um sonho para descobrir que o mundo real não era como havia imaginado. A atitude mais inteligente seria minimizar as perdas, sem rancor, e seguir em frente. Por mais desiludido que ele estivesse com o relacionamento, Marie-Cécile havia sido generosa e gentil com ele e, para ser bem honesto, cumprira sua parte do acordo. Eram as expectativas irrealistas dele que o haviam desapontado. Não era culpa dela. Ela não havia quebrado nenhuma promessa.

Só agora Will conseguia ver a ironia no fato de ter escolhido passar os três últimos meses exatamente no mesmo tipo de casa em que crescera e do qual havia fugido ao ir para a Europa. Tirando as diferenças culturais, a at­mosfera daquela casa lembrava-lhe a casa de seus pais nos Estados Unidos, elegante e estilosa, um lugar pensado para entreter e ostentar, mais do que para servir de lar. Lá, como aqui, Will havia passado muito tempo sozinho, perambulando de um cômodo imaculado a outro.

A viagem era a oportunidade que Will tinha para decidir o que queria fazer da vida. Seu plano original era descer trabalhando da França até a Espanha, juntando idéias para escrever, inspirando-se, mas desde que chega­ra a Chartres mal havia escrito uma única frase. Seus temas eram rebelião, raiva e ansiedade: a trindade profana da vida americana. No seu país, havia encontrado muita coisa de que sentir raiva. Ali, não tinha nada a dizer. O único tema que ocupava sua mente era Marie-Cécile, e esse era justamente o único tema proibido.

Ele tomou o que restava do leite e jogou a garrafa de plástico na lixeira. Deu mais uma olhada na mesa e decidiu sair para tomar café na rua. A idéia de uma conversa educada com François-Baptiste revirava-lhe o estômago.

Will emergiu do corredor de comunicação. O hall de entrada, com seu pé-direito alto, estava silencioso, exceto pelas batidas do rebuscado relógio antigo.

À direita da escada, uma porta estreita dava para a espaçosa adega debai­xo da casa. Will pegou sua jaqueta jeans pendurada no final do corrimão e estava prestes a atravessar o hall quando percebeu que uma das tapeçarias esta­va torta. Estava só um pouquinho desalinhada mas, na perfeita simetria do resto do hall revestido de madeira, aquilo se destacava.

Will estendeu a mão para endireitá-la, depois hesitou. Na parte baixa da parede, atrás da madeira encerada, via-se uma fina réstia de luz. Ele ergueu os olhos para a janela acima da porta e da escada, mesmo sabendo que o sol não batia no hall àquela hora do dia.

A luz parecia estar vindo de trás dos painéis de madeira escura. Intriga­do, ele levantou a tapeçaria, afastando-a da parede. Bem escondida no dese­nho da madeira havia uma portinha, recortada no mesmo nível do painel. Um pequeno ferrolho enterrado na madeira escura mantinha a porta fechada, e havia também uma alça chata e circular, como a maçaneta de uma quadra de squash. Tudo muito discreto.

Will tentou o ferrolho. Estava bem lubrificado e cedeu com facilidade. Um leve rangido, e a porta se abriu na direção contrária à sua, desprendendo um súbito cheiro de espaços subterrâneos e porões escondidos. Segurando a porta com as mãos, ele espiou para dentro e logo encontrou a origem da luz: uma única lâmpada leitosa localizada no alto de um íngreme lance de escadas que descia para a penumbra.

Encontrou dois interruptores logo junto da entrada. Um deles acendia a lâmpada acima da porta, o outro, uma fileira de lâmpadas em forma de chama de vela, mais fracas, penduradas em estacas de metal chumbadas na parede de pedra, acompanhando todo o lado esquerdo da escada. De ambos os lados, um cordão azul trançado havia sido passado por dentro de aros de metal pre­tos para formar um corrimão.

Will desceu o primeiro degrau. O teto era baixo, uma mistura de tijolo antigo, sílex e pedra, poucos centímetros acima de sua cabeça. O espaço era confinado, mas o ar estava limpo e fresco. Não parecia um lugar esquecido.

Quanto mais ele descia, mais frio ficava. Desceu vinte degraus sem che­gar ao fim da escada. Mas ali não era úmido, e embora ele não pudesse ver circuladores de ar nem outras formas de ventilação, parecia haver uma brisa fresca vinda de algum lugar.

No pé da escada, Will percebeu que estava no meio de um pequeno vestíbulo. Não havia nada nas paredes, nenhuma sinalização, apenas as esca­das atrás dele e uma porta na frente, que preenchia toda a largura e altura do corredor. A luz elétrica cobria tudo com um brilho amarelo mortiço.

À medida que se encaminhava para a porta, Will sentia a adrenalina correndo em seu sangue.

A chave grandona e antiquada girou com facilidade na fechadura. Uma vez passada a porta, a atmosfera mudou por completo. Não havia mais chão de concreto. Em vez disso, o chão estava coberto por um grosso tapete cor de vinho, que abafava o som de seus passos. A iluminação funcional dera lugar a rebuscadas arandelas de metal. As paredes eram feitas da mesma mistura de tijolo e pedra de antes, exceto que agora estavam decoradas com tapeçarias, imagens de cavaleiros medievais, mulheres de pele de porcelana e padres encapuzados em túnicas brancas, de cabeça baixa e braços abertos.

Agora havia um resquício de alguma outra coisa no ar. Incenso, um chei­ro doce e pesado que lhe lembrava os Natais e Páscoas de sua infância, há muito esquecidos.

Will olhou para trás, por cima do ombro. A visão da escada além da porta aberta, que conduzia de volta para dentro da casa, o reconfortou. O corredor curto chegava a um beco sem saída, com uma pesada cortina de veludo suspensa por um trilho preto de metal. Estava coberta de símbolos bordados em dourado, uma mistura de hieróglifos egípcios, sinais astrológicos e signos do zodíaco.

Ele estendeu a mão e afastou a cortina.

Atrás dela havia outra porta, esta obviamente bem mais antiga. Revestida da mesma madeira escura do hall lá de cima, suas bordas eram decoradas com pergaminhos e desenhos feitos na madeira. Os painéis centrais eram totalmen­te simples, pontuados apenas por buracos de cupim no máximo do tamanho de uma cabeça de alfinete. Ele não conseguia ver nenhuma maçaneta, nenhu­ma maneira de abri-la.

O lintel era coroado por elaborados alto-relevos, e feito de pedra, não de madeira. Will correu os dedos pelo alto à procura de algum tipo de alavanca. Tinha de haver um jeito de abrir aquela porta. Foi tateando de baixo para cima por uma das laterais, pela parte superior da porta, e depois desceu pela outra lateral até que finalmente encontrou. Uma pequena depressão logo aci­ma do nível do chão.

Agachando-se, Will empurrou com força. Ouviu-se um estalo nítido e oco, como uma bola de gude batendo em um chão de cerâmica. O mecanismo cedeu e a porta se abriu.

Will se levantou, com a respiração um pouco acelerada e as palmas das mãos úmidas. Os cabelos curtos em sua nuca e na parte de trás dos braços estavam arrepiados. Só um ou dois minutos, disse a si mesmo, e iria embora dali. Queria só dar uma espiada. Nada demais. Com firmeza, pôs as mãos na porta e empurrou.

Lá dentro estava escuro como breu, embora tenha sentido imediatamen­te que estava em um espaço maior, talvez uma adega. O cheiro de incenso queimado era bem mais forte.

Will tateou a parede em busca de um interruptor, mas não encontrou nada. Percebendo que, se prendesse a cortina, um pouco da luz do corredor entraria, amarrou o pesado veludo em um imenso nó em oito, depois tornou a se virar de frente para o que quer que houvesse lá dentro.

A primeira coisa que Will viu foi a própria sombra, alongada e magra, destacada acima do vão da porta. Então, à medida que seus olhos se acostuma­vam à penumbra negra e castanha, finalmente viu o que havia na escuridão.

Ele estava na entrada de uma câmara comprida e retangular. O teto era baixo e arredondado. Bancos de madeira em estilo eclesiástico, como em uma mesa de refeitório, margeavam as duas paredes mais compridas, desaparecen­do além do alcance de seus olhos. No alto das paredes, onde estas se juntavam ao teto, havia uma frisa, um desenho formado de palavras e símbolos que se repetiam. Pareciam ser os mesmos símbolos egípcios que ele vira na cortina do lado de fora.

Will limpou as mãos no jeans. Bem à sua frente, no centro da câmara, havia uma imponente arca de pedra, como um túmulo. Will andou em volta dele, correndo as mãos pela superfície. Parecia liso, exceto por um motivo circular no centro. Ele se inclinou para ver melhor e acompanhou as linhas com os dedos. Algum tipo de padrão de círculos decrescentes, como os anéis de Saturno.

À medida que seus olhos iam se acostumando à penumbra, pôde distin­guir que em cada uma das laterais da pedra havia uma letra gravada: E na frente, N e S nas duas laterais mais compridas opostas uma à outra, O atrás. Seriam os pontos cardeais?

Então percebeu o pequeno bloco de pedra, com cerca de trinta centíme­tros de altura, posicionado na base da arca, alinhado com a letra E. Tinha uma curvatura rasa no centro, como a pedra de execução de algum carrasco.

O chão ao redor daquele bloco estava mais escuro do que o resto. Parecia úmido, como se houvesse sido esfregado recentemente. Will se agachou e es­fregou a mancha com os dedos. Desinfetante, e alguma outra coisa, um cheiro azedo, como ferrugem. Havia algo preso em um dos cantos da pedra. Will removeu o objeto com as unhas.

Era um pedaço de tecido, algodão ou linho, puído nas bordas como se houvesse ficado preso em um prego e sido rasgado. No canto, havia pequenos pontos marrons. Parecia sangue seco.

Ele deixou cair o pano e saiu correndo, batendo a porta e desamarrando a cortina antes de se dar conta do que estava fazendo. Disparou pelo corredor, pelas duas portas e subiu em disparada a escada estreita e íngreme, dois de­graus de cada vez, até chegar de volta ao hall.

Will dobrou o corpo para frente, as mãos nos joelhos, e tentou recupe­rar o fôlego. Então, percebendo que, acontecesse o que acontecesse, não podia correr o risco de alguém chegar e perceber que ele estivera lá embaixo, esten­deu a mão para dentro e apagou as luzes. Com os dedos trêmulos, travou a porta e tornou a pôr a tapeçaria no lugar, até nada ficar visível do lado de fora.

Por um instante ficou ali em pé, parado. O relógio antigo lhe dizia que não haviam se passado mais de vinte minutos.

Will baixou os olhos para as próprias mãos, virando-as e revirando-as como se não lhe pertencessem. Esfregou a ponta do indicador na do polegar, depois cheirou. Parecia cheiro de sangue.

 

                             Toulouse

Alice acordou com uma dor de cabeça insuportável. Por um instante, não teve idéia de onde estava. Espiou com o canto dos olhos apertados a garrafa vazia sobre a mesinha-de-cabeceira. Bem feito.

Rolou de lado e pegou o relógio de pulso.

Quinze para as 11.

Alice grunhiu e tornou a cair sobre o travesseiro. Sua boca estava mais pegajosa do que cinzeiro de bar, e sua língua revestida dos vestígios azedos do uísque.

Preciso de aspirina. Água.

Alice foi até o banheiro aos tropeços e olhou-se no espelho. Seu aspecto era tão ruim quanto sua disposição. Sua testa era um caleidoscópio multicolorido de hematomas verdes, roxos e amarelos. Havia olheiras debaixo de seus olhos. Uma vaga recordação de ter sonhado com florestas, galhos invernais congelados e secos. O labirinto reproduzido em um pedaço de teci­do amarelo? Ela não conseguia lembrar.

Sua viagem de Foix na noite anterior também estava um pouco borrada. Sequer conseguia se lembrar direito do que a fizera ir para Toulouse, em vez de Carcassonne, que teria sido a escolha mais óbvia. Alice grunhiu. Foix, Carcassonne, Toulouse. Não havia hipótese de ela ir a lugar nenhum até se sentir melhor. Tornou a se deitar na cama e esperou os analgésicos fazerem efeito.

Vinte minutos depois, o mal-estar ainda estava lá, mas o martelar atrás de seus olhos havia diminuído até se tornar uma dor difusa. Ela ficou em pé debaixo do chuveiro ligado até a água esfriar. Voltou a pensar em Shelagh e no resto da equipe. Perguntou-se o que estariam fazendo agora. Geralmente, a equipe subia para a escavação às oito e ficava lá até escurecer. Viviam e respira­vam aquela escavação. Ela não conseguia imaginar como qualquer um deles iria suportar a quebra da rotina.

Enrolada na minúscula e esgarçada toalha do hotel, Alice verificou o celular à procura de recados. Nada ainda. Na noite passada isso a havia deixado deprimida, mas agora ela estava com raiva. Durante os dez anos de sua amizade, mais de uma vez Shelagh se retraíra em silêncios ressentidos que duravam semanas. A cada vez, coubera a Alice consertar as coisas, e ela se dava conta de que aquilo a havia magoado.

Ela que corra atrás desta vez.

Alice vasculhou a nécessaire até encontrar um velho tubo de corretivo, raramente usado, com o qual cobriu os hematomas mais evidentes. Em seguida acrescentou delineador e uma pincelada de batom. Secou os cabelos remexendo-os com os dedos. Por fim, escolheu sua saia mais confortável e sua nova frente-única azul, pôs todo o resto nas malas, e desceu para pedir a conta do hotel antes de sair para explorar Toulouse.

Ainda estava se sentindo mal, mas nada que o ar livre e uma boa dose de cafeína não resolvessem.

Depois de pôr as malas no carro, Alice decidiu simplesmente sair andando e ver onde ia dar. O ar-condicionado de seu carro alugado não era lá essas coisas, então seu plano era esperar o calor diminuir antes de tomar o rumo de Carcassonne.

Ao passar debaixo das sombras recortadas dos plátanos e ver as roupas e perfumes exibidos nas vitrines das lojas, começou a se sentir melhor. Sentia vergonha pelo modo como havia se comportado na noite anterior. Totalmen­te paranóica, totalmente exagerada. Agora de manhã, a idéia de que alguém a estivesse seguindo parecia absurda.

Seus dedos buscaram o número de telefone em seu bolso. Mas ele você não inventou. Alice afastou o pensamento. Pretendia ser positiva, olhar para frente. Aproveitar ao máximo aquele dia em Toulouse.

Passeou pelos becos e passagens da cidade antiga, deixando-se guiar pe­los próprios pés. As ornamentadas fachadas de pedra cor-de-rosa e tijolo dos edifícios eram elegantes e discretas. Os nomes nas placas de rua e nos chafari­zes e monumentos proclamavam a longa e gloriosa história de Toulouse. Líde­res militares, santos medievais, poetas setecentistas, defensores da liberdade do século XX, o passado nobre da cidade dos tempos romanos até o presente.

Alice entrou na catedral de Saint-Etienne, em parte para se proteger do sol. Gostava da paz e da tranqüilidade das catedrais e igrejas, e passou uma agradável meia hora perambulando lá dentro, lendo as plaquinhas nas paredes sem prestar muita atenção e admirando os vidros coloridos.

Percebendo que começava a ficar com fome, Alice decidiu terminar pelo claustro, depois sair e achar algum lugar para almoçar. Não dera mais do que alguns passos quando ouviu uma criança chorando. Virou-se para olhar, mas não havia ninguém ali. Sentindo-se ligeiramente incomodada, continuou a andar. Os soluços pareceram ficar mais altos. Agora podia ouvir alguém sus­surrando. Uma voz de homem, próxima, sibilando em seus ouvidos.

"Hérétique, hérétique..."

Alice se virou de supetão.

—Oi? Allô? Il y a quelqu'un?

Não havia ninguém ali. Como um sussurro mal-intencionado, a palavra não parava de se repetir dentro de sua cabeça. "Hérétique, hérétique."

Ela tampou os ouvidos com as mãos. Nas colunas e paredes de pedra cinza, rostos pareciam surgir. Bocas torturadas, mãos retorcidas pedindo so­corro, brotando de cada canto escondido.

Então Alice viu alguém mais à frente, quase além de seu campo de visão. Uma mulher com um vestido verde comprido e uma capa vermelha, entrando e saindo das sombras. Ela carregava um cesto de vime. Alice chamou para atrair sua atenção no mesmo instante que três homens, todos monges, saíram de trás da coluna. A mulher gritou quando eles a agarraram. Ficou se debaten­do enquanto os monges começavam a arrastá-la dali.

Alice tentou chamar a atenção deles, mas nenhum som lhe saía da boca. Apenas a mulher pareceu escutar, porque se virou e olhou bem dentro dos olhos de Alice. Então os monges cercaram a mulher. Estenderam os braços volumosos bem acima de sua cabeça, como asas negras.

—Deixem ela em paz! — gritou Alice, começando a correr na direção deles. Mas, quanto mais avançava, mais distantes ficavam as figuras, até final­mente desaparecerem por completo. Era como se houvessem se fundido às próprias paredes do claustro.

Atônita, Alice passou as mãos pela pedra. Virou-se para a esquerda e para a direita, à procura de uma explicação, mas o espaço estava completamente vazio. Por fim, o pânico a dominou. Ela correu para a saída que dava para a rua, esperando ver os homens de hábitos negros atrás de si, a persegui-la, abatendo-se sobre ela.

Do lado de fora, tudo estava como antes.

Está tudo bem. Você está bem. Ofegante, Alice recostou-se na parede. Enquanto recuperava o controle, percebeu que a emoção que sentia não era mais terror, mas pesar. Não precisava de um livro de história para lhe dizer que algo terrível havia acontecido naquele lugar. Ali reinava uma atmosfera de sofrimento, com cicatrizes que não podiam ser ocultadas por concreto ou pe­dra. Os fantasmas contavam sua própria história. Quando ela levou uma das mãos ao rosto, descobriu que estava chorando.

Assim que suas pernas recuperaram a capacidade de sustentá-la, ela tomou novamente o rumo do Centro da cidade. Estava decidida a manter-se o mais longe possível de Saint-Etienne. Não conseguia explicar o que estava lhe acon­tecendo, mas não ia se entregar.

Reconfortada pela vida normal e cotidiana que prosseguia a toda sua volta, Alice acabou chegando a uma pequena praça só de pedestres. No canto superior direito havia uma brasserie com um toldo cor-de-rosa puxando para o lilás, e fileiras de cadeiras e mesas redondas de metal prateado brilhante dis­postas pela calçada.

Alice sentou-se à única mesa livre e fez logo o pedido, esforçando-se para relaxar. Bebeu alguns copos d'água, depois recostou-se na cadeira e tentou aproveitar o calor do sol no rosto. Serviu-se um copo de vinho rosê, acrescen­tou algumas pedras de gelo e tomou um gole. Não era do seu feitio assustar-se com tanta facilidade.

Mas você não está em sua melhor forma, emocionalmente falando.

Aquele fora um ano muito difícil. Ela havia terminado com o namorado de muito tempo. A relação já estava se arrastando havia anos, e era um alívio estar sozinha, mas nem por isso menos doloroso. Seu orgulho estava ferido, e seu coração machucado. Para esquecê-lo, ela havia trabalhado demais e se en­tregado à diversão fácil, qualquer coisa para não pensar em por que as coisas tinham dado errado. A idéia que a fizera ir passar duas semanas no sul da França fora recarregar as baterias. Lebrão.

Alice fez uma careta. Que férias.

A chegada do garçom pôs um fim a sua auto-analise. A omelete estava perfeita, amarela e molinha por dentro, com pedaços generosos de cogumelo e muita salsa. Alice comeu com feroz concentração. Só quando estava limpan­do os últimos vestígios de azeite com o pão foi que começou a pensar no que faria pelo resto da tarde.

Quando o café chegou, já sabia.

A Bibliothèque de Toulouse ficava em um prédio de pedra grande e quadra­do. Alice mostrou rapidamente seu crachá da sala de leitura da British Library para um funcionário entediado e desatento no balcão da frente e conseguiu entrar. Depois de se perder nas escadas algumas vezes, chegou à grande seção de história geral. Dos dois lados do corredor central havia escrivaninhas de madeira compridas e enceradas, com uma espinha dorsal de abajures de leitu­ra correndo pelo centro. Poucos assentos estavam ocupados àquela hora de uma tarde quente de julho.

Bem lá na ponta, do outro lado do grande aposento, estava o que Alice procurava: uma fileira de computadores. Alice registrou-se no balcão da re­cepção, recebeu uma senha e foi encaminhada para um dos terminais.

Assim que se conectou, Alice digitou a palavra "labirinto" na caixinha da ferramenta de busca. A barra verde na parte inferior da tela que exibia o pro­gresso da pesquisa foi rapidamente preenchida. Mais do que confiar na pró­pria memória, ela estava certa de que encontraria um labirinto como o que tinha visto em algum lugar entre aquelas centenas de sites. Era tão óbvio que não conseguia acreditar que não havia pensado naquilo antes.

Imediatamente, as diferenças entre um labirinto tradicional e sua lem­brança da imagem na caverna e no anel ficaram óbvias. Um labirinto clássico era formado por círculos concêntricos intrincadamente interligados que con­duziam, em círculos cada vez menores, até o centro, enquanto ela estava quase certa de que o labirinto do Pic de Soularac era uma combinação de becos sem saída e linhas retas que se dobravam para trás sobre si mesmas, sem conduzir a lugar algum. Parecia mais um emaranhado.

As verdadeiras origens antigas do símbolo do labirinto e das mitologias a ele associadas eram complexas e difíceis de localizar. Pensava-se que os dese­nhos mais antigos tivessem mais de três mil anos. Símbolos de labirintos haviam sido descobertos esculpidos em madeira, rocha, tijolo ou pedra, bem como em padrões têxteis ou inseridos em ambientes naturais como em labirintos de grama ou de jardim.

Os primeiros labirintos da Europa remontavam ao final da Idade do Bronze e ao início da Idade do Ferro, de 1200 a 500 A.C., e haviam sido descobertos próximos aos primeiros assentamentos comerciais do Mediterrâ­neo. Baixos-relevos datados entre 900 e 500 a.C. haviam sido descobertos em Val Camonica, no norte da Itália, em Pontevedra, na Galícia, e também no extremo noroeste superior da Espanha, no finistério de Cabo Fisterra. Alice olhou para a ilustração com atenção. Parecia-se mais com o que ela vira na caverna do que qualquer outra coisa até ali. Ela inclinou a cabeça para um dos lados. Era parecido, mas não era igual.

Fazia sentido que o símbolo houvesse chegado do Oriente trazido por comerciantes e mercadores do Egito e das franjas do Império Romano, adap­tado e modificado pela interação com outras culturas. Também fazia sentido que o labirinto, obviamente um símbolo pré-cristão, houvesse sido adotado pela Igreja cristã. Tanto a Igreja bizantina quanto a romana haviam incorpo­rado símbolos e mitos muito mais antigos a sua ortodoxia religiosa.

Vários sites eram dedicados ao mais famoso de todos os labirintos: Cnossos, na ilha de Creta, onde, segundo a lenda, o mítico Minotauro, metade homem, metade touro, havia sido confinado. Alice pulou essas referências, seguindo o instinto que lhe dizia que essa linha de pesquisa não levaria a lugar algum. A única informação digna de nota era que labirintos com o mesmo desenho do labirinto minoano haviam sido descobertos no local da antiga cidade de Avaris, no Egito, e datados a mais de 1550 A.C,além de terem sido encontrados também em templos em Kom Ombo, no Egito, e em Sevilha.

Alice catalogou essa informação no fundo de sua mente.

A partir dos séculos XII e XIII, o símbolo do labirinto passou a aparecer com regularidade em manuscritos medievais copiados a mão que circulavam por monastérios e cortes da Europa, que os escribas embelezavam e acresciam de ilustrações, criando seus próprios desenhos.

No início do período medieval, um labirinto matematicamente perfeito, com 11 circuitos, 12 paredes e quatro eixos, já havia se tornado a forma mais popular de todas. Ela olhou a reprodução do baixo-relevo de um labirinto na parede da igreja de São Pantaleão em Arcera, norte da Espanha, do século XIII, e outra, um pouco mais antiga, da catedral de Lucca, na Toscana. Clicou em um mapa que mostrava a ocorrência de labirintos nas igrejas, capelas e catedrais da Europa.

Isto é extraordinário.

Alice mal podia acreditar nos próprios olhos. Havia mais labirintos na França do que em toda a Itália, Bélgica, Alemanha, Espanha, Inglaterra e Ir­landa somadas: Amiens, St-Quentin, Arras, St-Omer, Caen e Bayeux no nor­te; Poitiers, Orléans, Sens e Auxerre no centro; Toulouse e Mirepoix no sudo­este; a lista era interminável.

O mais famoso de todos os labirintos desenhados em piso ficava no nor­te da França, no centro da nave da primeira — e mais impressionante — das catedrais góticas medievais, Chartres.

Alice bateu com a mão espalmada sobre a mesa, fazendo várias cabeças desaprovadoras se erguerem ao seu redor. É claro. Como ela podia ter sido tão burra? Chartres era uma cidade-irmã daquela onde ela própria nascera, Chichester, na costa sul da Inglaterra. Na verdade, sua primeira viagem para o exterior fora uma excursão escolar para Chartres quando tinha 11 anos. Tinha vagas lembranças de uma chuva incessante e de estar enrolada em uma capa, com frio e molhada, debaixo de imponentes colunas e abóbadas de pedra. Mas não tinha registro do labirinto.

Não havia labirinto na catedral de Chichester, mas a cidade também era irmã de Ravenna, na Itália. Alice correu o dedo pela tela até encontrar o que estava procurando. Desenhado em mosaico no chão de mármore da igreja de San Vitale, em Ravenna, havia um labirinto. Segundo a legenda, tinha só um quarto do tama­nho do labirinto de Chartres e datava de um período muito anterior da história, talvez tão antigo quanto o século V D.C, mas mesmo assim existia.

Alice terminou de copiar e colar o texto que queria para dentro de um documento do Word e apertou a tecla IMPRIMIR. Quando a impressão co­meçou, digitou "catedral Chartres França" na caixinha de busca.

Embora desde o século VIII já houvesse no local algum tipo de estrutura, descobriu que a atual catedral de Chartres datava do século XIII. Desde então, crenças e teorias esotéricas haviam sido associadas à sua construção. Havia boatos de que dentro de seu teto abobadado e intrincados pilares de pedra estava escondido um segredo de grande importância. Apesar dos intensos es­forços da Igreja Católica, essas lendas e mitos perduravam.

Ninguém sabia sob ordens de quem o labirinto havia sido construído, nem com que finalidade.

Alice selecionou os parágrafos de que precisava, e em seguida desconectou-se.

A última página terminou de ser impressa e a máquina se calou. A toda volta, as pessoas começavam a arrumar suas coisas. A recepcionista de expres­são severa olhou para ela e apontou para o relógio.

Alice assentiu e recolheu seus papéis, depois juntou-se à fila no balcão para pagar. A fila andava devagar. Raios de luz do final de tarde entravam pelas altas janelas, formando desenhos que pareciam escadas, e fazendo as par­tículas de poeira dançar dentro dos feixes.

A mulher na frente de Alice tinha os braços cheios de livros para retirar e parecia ter uma dúvida sobre cada um deles. Ela permitiu que sua mente se concentrasse no problema que a vinha incomodando a tarde inteira. Seria possível que, em todas as imagens que vira, em todas as centenas e milhares de palavras, não houvesse uma única que correspondesse exatamente ao labirinto de pedra no Pic de Soularac?

É possível, mas não provável.

O homem atrás dela estava perto demais, como uma pessoa que tenta ler o jornal por cima de seu ombro em um vagão de metrô. Alice se virou e olhou para ele, zangada. Ele deu um passo para trás. Seu rosto era vagamente conhecido.

— Oui, merci— disse ela ao chegar ao balcão e pagar pelas impressões. Eram quase trinta folhas.

Quando emergiu para os degraus da biblioteca, os sinos de Saint-Etienne batiam as sete. Havia perdido a noção do tempo que passara lá dentro. Agora com pressa de continuar a viagem, Alice seguiu rapidamente para onde havia estacionado o carro do outro lado do rio. Estava tão entretida em seus próprios pensamentos que não percebeu o homem da fila a segui-la pelo passeio ao longo do rio, mantendo uma distância segura. Tampouco percebeu quando ele tirou um celular do bolso e deu um telefonema enquanto ela saía da vaga e se juntava ao tráfego vagaroso.

 


                                                         Os Guardiães dos Livros

 

                       Besièrs

                       JULHET 1209

A noite caía quando Alaïs chegou às planícies nos arredores da cidade de Coursan.

Viajara em um ritmo bom, seguindo a antiga estrada romana através do Minervois em direção a Capestang, do outro lado das vastas plantações de câ­nhamo, as canabières, e dos campos de cevada cor de esmeralda.

Todos os dias, desde que partira de Carcassonne, Alaïs havia cavalgado até o sol ficar forte demais. Então, ela e Tatou procuravam abrigo e descansa­vam, antes de tornar a seguir viagem até anoitecer, quando o ar se enchia de insetos que picavam e dos gritos dos gaios noturnos, corujas e morcegos.

Na primeira noite, encontrara guarida na cidade fortificada de Azille com amigos de Esclarmonde. A medida que seguia para o leste, via menos pessoas nos campos e vilarejos, e aquelas que via eram ressabiadas, sua descon­fiança aparente nos olhos escuros. Ouviu boatos de atrocidades cometidas por bandos renegados de soldados franceses ou por routiers, mercenários, bandi­dos. Cada história era mais sangrenta e cruel do que a outra.

Alaïs fez Tatou diminuir o ritmo, sem conseguir decidir se era melhor seguir até Coursan ou procurar abrigo ali por perto. As nuvens corriam velozes por um céu de um cinza cada vez mais irado, e o ar estava muito parado. Ao longe, ouviam-se trovoadas ocasionais, rosnando como um urso que acorda de sua hibernação. Alaïs não queria correr o risco de ser pega em campo aberto quando o temporal começasse.

Tatou estava indócil. Alaïs podia sentir os tendões do animal se retesando sob a pelagem, e duas vezes a égua recuou por causa dos movimentos brus­cos de uma lebre ou raposa nos arbustos baixos ao longo da estrada.

À sua frente, Alaïs pôde ver que havia um pequeno bosque de carvalhos e freixos. Não era denso o suficiente para servir de habitai de verão a animais maiores, como javalis selvagens ou linces. Mas as árvores eram altas e genero­sas, e os topos de seus galhos pareciam firmemente emaranhados, como dedos entrelaçados, o que daria uma boa cobertura. O fato de haver um caminho bem demarcado, uma faixa ondulante de terra seca pisada por incontáveis pés, sugeria que o bosque era um atalho habitual até a cidade.

Tatou se remexeu inquieta debaixo dela quando o brilho do trovão ilu­minou momentaneamente o céu cada vez mais escuro. Aquilo a ajudou a se decidir. Ela esperaria passar o temporal.

Sussurrando palavras de incentivo, Alaïs convenceu a égua a prosseguir rumo ao abraço verde-escuro da floresta.

Os homens haviam perdido sua presa algum tempo antes. Somente a ameaça de temporal os impedia de dar meia-volta e retornar ao acampamento.

Depois de várias semanas cavalgando, sua pele pálida de franceses estava bronzeada e escurecida pelo sol forte do sul. Suas armaduras e túnicas de via­gem, ostentando as armas de seu senhor, estavam escondidas na mata. Eles esperavam que a missão mal-sucedida ainda desse algum fruto.

Um barulho. O estalo de um galho seco, o passo ritmado de um cavalo arreado, as ferraduras em seus cascos batendo de vez em quando em algum pedaço de pedra.

Um homem com a boca cheia de dentes tortos e enegrecidos rastejou até mais à frente para ver melhor. A alguma distância dali, pôde ver uma figura montada em um cavalo árabe pequeno seguindo pela floresta. Ficou olhando, interessado. Talvez sua sortie não fosse ser uma perda de tempo, afinal. As roupas do cavaleiro eram simples e valiam pouco, mas um cavalo daqueles daria um bom dinheiro.

Ele jogou uma pedra no companheiro escondido do outro lado do caminho.

Lève-toi — falou, sacudindo a cabeça em direção a Alaïs. — Regarde.

Mas vejam só isso — murmurou ele. — Une femme. Et seule.

Tem certeza de que ela está sozinha?

Não estou ouvindo mais ninguém.

Os dois homens seguraram as extremidades da corda estendida no meio do caminho, esconderam-se debaixo das folhas e esperaram ela chegar até eles.

A coragem de Alaïs ia diminuindo conforme ela entrava na mata.

A cobertura do solo estava úmida, embora o chão debaixo dela ainda estivesse duro. As folhas dos dois lados do caminho farfalhavam sob o passo de Tatou. Alaïs tentou se concentrar nos sons reconfortantes dos pássaros nas árvores, mas os pêlos de seu braço e de sua nuca estavam eriçados. Havia ameaça naquele silêncio, não paz.

É só sua imaginação.

Tatou sentia a mesma coisa. Sem aviso, algo saiu voando do chão, com o som de uma flecha lançada por um arco.

Uma ave? Uma cobra?

Tatou empinou-se nas patas traseiras, golpeando o ar com força com os cascos e relinchando aterrorizada. Alaïs não teve tempo de reagir. O capuz escorregou de seu rosto e seus braços soltaram as rédeas enquanto ela era arremessada para trás, para fora da sela. Dor explodiu em seu ombro quan­do ela caiu no chão com força, tirando-lhe o fôlego. Ofegando, ela se virou de lado e tentou se levantar. Precisava tentar segurar Tatou antes que ela saísse correndo.

—Tatou, doçament!— gritou, pondo-se de pé. — Tatou!

Alaïs lançou-se para frente, mas se deteve. Um homem estava em pé diante dela, impedindo sua passagem. Sorria por entre dentes escurecidos. Em sua mão havia uma faca, a lâmina opaca descolorida e manchada de marrom na ponta.

Houve um movimento à sua direita. Os olhos de Alaïs correram para esse lado. Um segundo homem, o rosto desfigurado por uma cicatriz irregular que corria do olho esquerdo até o canto da boca, segurava o bridão de Tatou e sacudia uma vara.

—Não! — ela se ouviu gritar. — Deixe ela em paz!

Apesar da dor no ombro, sua mão encontrou o cabo da espada. Dê a eles o que eles querem e eles podem não machucar você. O homem deu um passo na sua direção. Alaïs puxou a lâmina, cortando um arco através do ar. Mantendo os olhos fixos no rosto dele, pôs a mão dentro da bolsa e jogou um punhado de moedas no chão do caminho.

—Leve isso. Não tenho mais nada de valor.

Ele olhou para a prata espalhada pelo chão, depois cuspiu com desprezo. Limpando a boca com as costas da mão, deu mais um passo na direção dela. Alaïs ergueu a espada.

Estou avisando. Não chegue perto — gritou, desenhando um oito no ar com a lâmina para evitar que ele se aproximasse.

Ligo-te lá — ordenou ele ao companheiro.

Alaïs congelou. Por um instante, sua coragem vacilou. Eram soldados franceses, não bandidos. As histórias que ouvira na viagem atravessaram sua mente.

Então ela se controlou e tornou a brandir a espada.

—Não chegue mais perto! — gritou ela, a voz rígida de medo. — Eu mato você antes de...

Alaïs deu meia-volta e atirou-se em cima do segundo homem, que havia chegado por trás. Aos gritos, Alaïs fez a vara sair voando das mãos dele. Puxan­do uma faca do cinto, ele rugiu e mergulhou na direção dela. Segurando a espada com as duas mãos, Alaïs a enterrou na mão dele, golpeando-o como um urso quando provocado. Sangue jorrou do braço do homem.

Ela retraiu os braços para um segundo golpe quando subitamente estre­las explodiram em sua cabeça, roxas e brancas. Ela cambaleou para frente com a força da pancada, e então a dor trouxe-lhe lágrimas aos olhos enquanto ela era novamente levantada, puxada pelos cabelos. Pôde sentir a ponta fria de uma lâmina na garganta.

Putain— sibilou ele, batendo no rosto dela com a mão ensangüentada.

Laisse tomber. — Deixe estar.

Encurralada, Alaïs deixou a espada cair de sua mão. O segundo homem a chutou para longe, antes de tirar do cinto um capuz de pano áspero e passá-lo à força pela cabeça dela. Alaïs se debateu, tentando se soltar, mas o cheiro azedo do pano empoeirado a impedia de respirar e a fazia tossir. Mesmo assim ela continuou a lutar, até um punho a atingir na barriga e ela dobrar o corpo em direção ao chão.

Não teve mais forças para resistir quando eles forçaram seus braços para trás e amarraram seus pulsos.

—Reste là.

Afastaram-se. Alaïs pôde ouvi-los vasculhando as bolsas penduradas em sua sela, levantando as abas de couro e jogando objetos no chão. Falavam entre si, talvez discutindo. Ela não sabia dizer, por causa do tom duro da língua que falavam.

Por que eles não me mataram?

Imediatamente, a resposta se insinou em sua mente como um fantasma indesejável. Querem se divertir um pouco antes.

Alaïs lutou desesperadamente para afrouxar as cordas que a prendiam, mesmo sabendo que, se conseguisse soltar as mãos, não iria muito longe. Eles a perseguiriam. Agora estavam rindo. Bebendo. Não estavam com pressa.

Lágrimas de desespero brotaram de seus olhos. Sua cabeça caiu para trás, exausta, sobre o chão duro.

No início, Alaïs não conseguiu distinguir de onde vinha aquele ronco. Então entendeu. Cavalos. O som de seus cascos ferrados galopando pelas pla­nícies. Apertou a orelha mais para perto do chão. Cinco, talvez seis cavalos, aproximando-se do bosque.

Ao longe, ouviu-se o estrondo do trovão. O temporal também estava se aproximando. Por fim, havia algo que ela podia fazer. Se pudesse se afastar o suficiente, talvez tivesse uma chance.

Devagar, o mais silenciosamente possível, começou a rastejar para fora do caminho até sentir nas pernas a aspereza dos arbustos. Esforçando-se para ficar em pé, balançou a cabeça para cima e para baixo até soltar o capuz. Será que eles estão olhando?

Ninguém gritou. Dobrando o pescoço, ela sacudiu a cabeça para um lado e para o outro, no começo devagar, depois com mais vigor, até finalmen­te o material se soltar. Alaïs aspirou algumas grandes golfadas de ar, depois tentou se localizar.

Estava ligeiramente fora da linha de visão deles, embora caso se virassem e vissem que ela havia sumido eles não fossem levar muito tempo para encontrá-la. Alaïs apertou a orelha no chão outra vez. Os cavaleiros vinham de Coursan. Seria um grupo de caçadores? De batedores?

Uma trovoada ecoou pela floresta, espantando os pássaros dos pontos mais altos das árvores. Suas asas golpearam o ar, em pânico, e eles voaram e tornaram a pousar, de volta para a proteção das árvores. Tatou relinchou e raspou o chão com o casco.

Rezando para que o temporal iminente continuasse a abafar o som dos cavaleiros até eles chegarem perto o suficiente, Alaïs tornou a se jogar para o meio dos arbustos, rastejando sobre pedras e gravetos.

—Ohé!

Alaïs congelou. Eles a tinham visto. Ela reprimiu um grito enquanto os homens voltavam correndo para o lugar onde ela estivera deitada. O barulho de uma trovoada lá em cima os fez olhar para cima, com uma expressão assus­tada no rosto. Eles não estão acostumados à violência dos temporais do sul. Mes­mo dali, podia sentir o cheiro do medo deles. Sua pele exalava medo.

Tirando vantagem de sua hesitação, Alaïs continuou. Ela agora estava em pé, e começou a correr.

Não foi rápido o suficiente. O homem da cicatriz se jogou em cima dela, dando-lhe um soco na lateral da cabeça ao mesmo tempo em que a jogava no chão.

Hérétique — gritou, enquanto subia em cima dela, imobilizando-a contra o chão. Alaïs tentou se livrar dele, mas ele era pesado demais e suas saias estavam presas nos espinhos dos arbustos baixos. Ela podia sentir o cheiro do sangue da mão machucada dele quando ele apertou seu rosto contra os gravetos e folhas do chão.

Eu disse a você para ficar quieta, putain.

Ele desafivelou o cinto, respirando pesadamente enquanto o jogava lon­ge. Por favor, faça com que ele ainda não tenha ouvido os cavaleiros. Alaïs tentou novamente fazê-lo sair de cima dela, mas ele era muito pesado. Deixou escapar um rugido da garganta, qualquer coisa para abafar a chegada dos cavalos.

Ele bateu nela de novo, partindo-lhe o lábio. Ela sentiu o gosto de san­gue na boca.

—Putain.

De repente, vozes diferentes.

— Ara, ara!— Agora.

Alaïs ouviu o som da corda de um arco se soltando e o vôo de uma única flecha pelo ar, e depois outra e mais outra, enquanto uma chuva de projéteis saía das sombras verdes, partindo cascas e madeira onde acertava o alvo.

—Avança!Ara, avança!

O francês pôs-se de pé num pulo no momento exato em que uma flecha enterrou-se em seu peito, grossa e pesada, fazendo-o girar como um pião. Por um instante, ele pareceu ficar suspenso no ar, depois começou a oscilar, a expressão congelada como o olhar de pedra de uma estátua. Uma única gota de sangue surgiu no canto de sua boca, depois escorreu por seu queixo.

Suas pernas cederam. Ele caiu ajoelhado, como se rezasse, e então, bem devagar, arriou para frente como uma árvore abatida na mata. Alaïs percebeu bem a tempo, arrastando-se para longe quando o corpo dele caiu pesadamente no chão.

—Aval! Adiante!

Os cavaleiros perseguiram o outro francês. Ele havia se embrenhado na mata para se esconder, mas outras flechas voaram. Uma delas acertou-lhe o ombro e ele cambaleou. A flecha seguinte atingiu a parte de trás de sua coxa. A terceira, na parte baixa das costas, o fez cair. Seu corpo desabou para frente no chão, teve um espasmo, depois ficou imóvel.

A mesma voz deu a ordem para parar.

—Arèst! Cessar fogo! — Por fim, os caçadores saíram de seus abrigos e se mostraram. — Parem de atirar!

Alaïs pôs-se de pé. Serão amigos ou homens a serem temidos? O líder vestia uma túnica de caça azul-cobalto debaixo da capa, ambos de boa qualidade. Suas botas de couro, seu cinto e sua cesta de flechas eram feitos de couro claro ao estilo da região, e suas botas eram pesadas, novas. Ele parecia um homem de razoável condição, e sólido: um homem do Midi.

Alaïs ainda tinha os braços atados nas costas. Tinha consciência de sua desvantagem. Seu lábio estava inchado e sangrava, e suas roupas estavam manchadas.

Tem minha gratidão por este serviço, seigneur — disse ela, endure­cendo a voz com segurança. — Levante o visor e identifique-se, para que eu possa conhecer o rosto do meu salvador.

Esta é toda a gratidão que recebo, dama? — perguntou ele, fazendo o que ela pedia. Alaïs ficou aliviada ao ver que ele sorria.

Ele desmontou e puxou uma faca do cinto. Alaïs recuou um passo.

Para cortar as cordas — disse ele, gentilmente.

Alaïs corou e estendeu os pulsos.

Claro. Mercè.

Ele fez uma leve reverência.

—Amiel de Coursan. Estas florestas pertencem ao meu pai.

Alaïs deu um suspiro de alívio.

Perdoe minha descortesia, mas eu precisava ter certeza de que o se­nhor não era...

Sua cautela é sensata e compreensível nas circunstâncias. E a senhora,dama, quem é?

Alaïs de Carcassona, filha do intendente Pelletier, oficial do visconde Trencavel, e esposa de Guilhem du Mas.

Honrado em conhecê-la, dama Alaïs. — Ele beijou-lhe a mão. —Está muito ferida?

Só alguns cortes e arranhões, embora meu ombro esteja doendo.

Onde está sua escolta? Alaïs hesitou um instante.

Estou viajando sozinha. Ele olhou para ela, surpreso.

É uma época estranha para se aventurar sem proteção, dama. Estas planícies estão infestadas de soldados franceses.

Não era minha intenção cavalgar até tão tarde. Eu estava procurando abrigo do temporal.

Alaïs olhou para cima, percebendo subitamente que ainda não tinha chovido.

—É só o céu reclamando — disse ele, lendo o olhar dela. — Um falso alarme de temporal, só isso.

Enquanto Alaïs acalmava Tatou, os homens de Coursan ordenaram que os corpos fossem despidos de armas e roupas. Encontraram suas armadu­ras e insígnias escondidas mais fundo na mata, onde eles haviam amarrado seus cavalos. De Coursan levantou um canto do tecido com a ponta da espada, revelando, embaixo de uma camada de lama, um lampejo de prata sobre fun­do verde.

—Chartres — disse de Coursan com desprezo. — São os piores. Cha­cais, todos eles. Tivemos mais relatos de ações...

Ele se interrompeu subitamente. Alaïs olhou para ele.

Relatos de quê?

Não importa — disse ele depressa. — Vamos voltar para a cidade? Seguiram em fila indiana até a extremidade do bosque e saíram para a planície.

—Tem algum objetivo por estas bandas, dama Alaïs?

—Estou indo à procura do meu pai, que está em Montpelhièr com o visconde Trencavel. Tenho notícias muito importantes que não podem espe­rar seu retorno a Carcassona.

De Coursan franziu o cenho.

—O que foi? O que o senhor ouviu dizer?

—A senhora passará a noite conosco, dama Alaïs. Quando seus ferimentos tiverem sido cuidados, meu pai lhe dirá as notícias que ouvimos. Ao amanhe­cer, eu mesmo a escoltarei até Besièrs.

Alaïs se virou para olhar para ele.

Besièrs, messire?

Se os rumores forem verdadeiros, é em Besièrs que a senhora irá encontrar seu pai e o visconde Trencavel.

 

O suor escorria do pêlo de seu garanhão enquanto o visconde Trencavel conduzia seus homens em direção a Béziers, com o trovão a ecoar em seu encalço.

O suor espumava nas bridas dos cavalos e saliva acumulava-se nos cantos de suas bocas. Os animais tinham os flancos e ombros riscados de sangue, onde as esporas e o açoite os faziam seguir sem descanso pela noite. A lua prateada surgia de trás das nuvens esgazeadas e pretas que corriam baixo pelo horizonte, iluminando a mancha branca no focinho de seu cavalo.

Pelletier seguia ao lado do visconde, os lábios franzidos e cerrados. A negociação correra mal em Montpellier. Devido à inimizade existente entre o visconde e seu tio, ele não esperava que o conde fosse se deixar convencer facilmente a formar uma aliança, apesar dos laços de família e das obrigações senhoriais que ligavam os dois homens. Esperava, porém, que o conde pudes­se interceder em favor do sobrinho.

Mas ele se recusara até mesmo a recebê-lo. Aquilo era um insulto delibe­rado e inequívoco. Trencavel se vira obrigado a aguardar, impaciente, nos arredores do acampamento francês, até receber a notícia, naquele mesmo dia, de que uma audiência lhe seria concedida.

Com permissão para levar consigo apenas Pelletier e dois de seus chevaliers, o visconde Trencavel havia sido conduzido à barraca do abade de Cíteaux, onde lhe pediram para abandonar as armas. A ordem fora obedecida. Uma vez lá dentro, em vez do abade, o visconde havia sido recebido por dois dos lega­dos do papa.

Mal fora permitido a Raymond-Roger abrir a boca enquanto os legados o admoestavam por permitir à heresia espalhar-se sem resistência por seus domínios. Criticaram sua política de nomear judeus para posições-chave em suas principais cidades. Citaram diversos exemplos de ocasiões em que ele havia ignorado o comportamento pérfido e pernicioso de bispos cátaros den­tro de seu território.

Por fim, depois de terminarem, os legados haviam dispensado o viscon­de Trencavel como se ele fosse algum insignificante proprietário de terras de pouca importância, em vez de senhor de uma das mais poderosas dinastias do Midi. O sangue de Pelletier ainda fervia quando ele se lembrava daquilo.

Os espiões do abade haviam instruído bem os legados papais. Cada uma das acusações, embora inexatas e distorcidas em sua intenção, era exata no sentido de poder ser corroborada por testemunhas e relatos de testemunhas. Isso, mais ainda do que o insulto calculado a sua honra, havia eliminado qual­quer dúvida que Pelletier ainda pudesse ter de que o visconde Trencavel seria o novo inimigo. A Hoste precisava de alguém para combater. Com a capitula­ção do conde de Toulouse, não restava nenhum outro candidato.

Eles haviam imediatamente deixado o acampamento dos cruzados nos arredores de Montpellier. Erguendo os olhos para a lua, Pelletier calculou que, se mantivessem aquele ritmo, chegariam a Béziers de madrugada. O vis­conde Trencavel desejava alertar o Biterois pessoalmente de que o exército francês estava a menos de 15 léguas de distância, e decidido a guerrear. A estrada romana que ia de Montpellier a Béziers era inteiramente aberta, e não havia jeito de bloqueá-la.

Ele pediria aos anciãos da cidade que se preparassem para um cerco, ao mesmo tempo em que buscaria reforços para apoiar a guarnição de Carcassonne. Quanto mais a Hoste pudesse ser retardada em Béziers, mais tempo ele teria para preparar as fortificações. Ele também tinha intenção de oferecer refúgio em Carcassonne àqueles que corriam mais risco na mão dos franceses — os judeus, os poucos mercadores sarracenos vindos da Espanha, assim como os bons homes. Não era só o dever senhorial que o motivava. Grande parte da administração e da organização de Béziers estava nas mãos de diplomatas e mercadores judeus. Sob ameaça de guerra ou não, ele não estava preparado para abrir mão dos serviços de tantos valorosos e hábeis funcionários.

A decisão de Trencavel facilitava a tarefa de Pelletier. Ele tocou a carta de Harif escondida em sua bolsa. Uma vez em Béziers, tudo que precisaria fazer seria se ausentar por tempo suficiente para encontrar Simeon.

Um pálido sol nascia acima do rio Orb quando os homens exaustos cruzaram a cavalo a grande ponte de pedra arqueada.

Béziers erguia-se orgulhosa e alta à sua frente, grandiosa e aparentemente inexpugnável por trás de suas antigas muralhas de pedra. As agulhas da cate­dral e as grandes igrejas dedicadas a Santa-Magdalena, Sant-Jude e Santa-Maria cintilavam à luz da aurora.

Apesar do cansaço, Raymond-Roger Trencavel não perdera nada de sua autoridade e de sua postura natural enquanto tocava o cavalo através do emaranhado de becos e íngremes ruas serpenteantes que conduziam aos portões principais. Os cascos dos cavalos batendo nas pedras do calçamento desperta­vam as pessoas de seu sono nos subúrbios tranqüilos que cercavam o castelo fortificado.

Pelletier desmontou e gritou para o sentinela abrir os portões e deixá-los entrar. Seguiram lentamente, uma vez que a notícia de que o visconde Trencavel estava na cidade havia se espalhado, mas acabaram chegando à residência do suserano.

Raymond-Roger saudou o senhor feudal com afeição genuína. Era um velho amigo e aliado, talentoso diplomata e administrador, e fiel à dinastia dos Trencavel. Pelletier esperou até os dois homens terminarem de se cum­primentar segundo o costume do Midi e trocarem votos de estima. Depois de completar as formalidades com a rapidez habitual, Trencavel foi direto ao assunto. O suserano escutou com crescente preocupação. Assim que o visconde terminou de falar, enviou mensageiros para convocar os cônsules da cidade para um conselho.

Enquanto conversavam, uma mesa havia sido posta no centro do salão, repleta de pão, carnes, queijo, frutas e vinho.

— Messire — disse o suserano. — Eu ficaria honrado se o senhor aproveitasse minha hospitalidade enquanto esperamos.

Pelletier viu ali sua oportunidade. Inclinou-se para frente e falou baixi­nho no ouvido do visconde Trencavel.

— Messire, pode me dispensar? Gostaria de verificar pessoalmente como estão nossos homens. Ver se tem tudo de que precisam. Certificar-me de que suas línguas estão seguras e seu espírito, firme.

Trencavel ergueu os olhos para ele, espantado.

— Agora, Bertrand?

— Se for do seu agrado, messire.

— Não tenho dúvidas de que os homens estão sendo bem cuidados — disse ele, sorrindo para o anfitrião. — Você deveria comer, descansar um pouco.

— Com minhas humildes desculpas, eu ainda gostaria de ser dispensado. Raymond-Roger vasculhou o rosto de Pelletier em busca de uma expli­cação, mas não encontrou nenhuma.

— Muito bem — disse por fim, ainda intrigado. — Você tem uma hora.

As ruas estavam barulhentas, e iam ficando ainda mais repletas de gente con­forme os boatos se espalhavam. Uma multidão se aglomerava na praça princi­pal, em frente à catedral.

Pelletier conhecia bem Béziers, já tendo visitado a cidade muitas vezes antes com o visconde Trencavel, mas estava indo contra o fluxo, e só seu tamanho e sua autoridade o impediam de ser derrubado na confusão. Segu­rando a carta de Harif com força na mão fechada, assim que chegou ao bairro judaico perguntou aos passantes se eles conheciam Simeon. Sentiu um puxão em sua manga. Abaixou os olhos e viu uma bonita menina de cabelos e olhos escuros.

— Eu sei onde ele mora — disse ela. — Venha comigo.

A menina o conduziu até o bairro comercial, onde os agiotas faziam seus negócios, e através de um dédalo de ruas laterais aparentemente idênticas abar­rotadas de lojas e casas. Ela parou do lado de fora de uma porta igual a todas as outras.

Ele olhou em volta até encontrar o que estava procurando: a insígnia de um encadernador gravada acima das iniciais de Simeon. Pelletier sorriu, aliviado. Era a casa certa. Agradecendo à menina, pôs uma moeda na palma de sua mão e a mandou embora. Então suspendeu a pesada aldraba de bronze e bateu três vezes na porta.

Fazia muito tempo, mais de 15 anos. Será que ainda haveria entre eles a mesma afeição espontânea?

A porta se abriu um pouquinho, o suficiente para revelar uma mulher, que olhava para ele desconfiada. Seus olhos negros eram hostis. Ela usava um véu verde que lhe cobria os cabelos e a parte inferior do rosto, e as calças típicas usadas pelas mulheres judias na Terra Santa, amplas e claras, apertadas nos tornozelos. Sua comprida túnica amarela ia até os joelhos.

— Quero falar com Simeon — disse ele.

Ela sacudiu a cabeça e tentou fechar a porta, mas ele a bloqueou com o pé.

— Dê-lhe isto — falou, tirando o anel do polegar e obrigando a mulher a pegá-lo. — Diga-lhe que Bertrand Pelletier está aqui.

Ele a ouviu arquejar. Imediatamente, ela se afastou para deixá-lo entrar. Pelletier seguiu-a através de uma pesada cortina vermelha, decorada com moedas douradas costuradas no alto e na borda.

— Attendez — disse ela, gesticulando para que ele ficasse onde estava. Os braceletes em seu pulso e em seus tornozelos tilintaram quando ela saiu andando depressa pelo corredor comprido e desapareceu.

Do lado de fora, o prédio parecia alto e estreito, mas, agora que estava do lado de dentro, Pelletier podia ver que aquilo era só uma impressão. Do corre­dor central partiam quartos à esquerda e à direita. Apesar da urgência de sua missão, Pelletier olhou em volta com deleite. O chão era revestido de cerâmi­cas azuis e brancas, em vez de madeira, e lindos tapetes pendiam das paredes. Aquilo lembrou-lhe as casas elegantes e exóticas de Jerusalém. Fazia muitos anos, mas as cores, texturas e cheiros daquela terra estrangeira permaneciam vivos em sua lembrança.

— Bertrand Pelletier, por tudo que é mais sagrado neste mundo velho e cansado!

Pelletier se virou na direção do som e viu uma figura pequena com um longo manto cor de púrpura correndo em sua direção, de braços abertos. Seus olhos negros reluziam, mais brilhantes do que nunca. Pelletier quase foi der­rubado pela força do abraço de Simeon, mesmo sendo uma boa cabeça mais alto.

Bertrand, Bertrand — dizia Simeon, carinhoso, com a voz grave a ribombar pelo corredor silencioso. — Por que demorou tanto, hein?

Simeon, amigo velho — disse Pelletier rindo, segurando os ombros de Simeon enquanto ele recuperava o fôlego. — Como me faz bem ver você, e em tão boa saúde. Olhe para você — disse ele, puxando a comprida barba preta do amigo, que sempre havia sido o maior motivo de vaidade para Simeon.

— Um pouco de cinza aqui e ali, mas ainda assim bonita como nunca! A vida tratou você bem?

Simeon deu de ombros.

— Poderia ter sido melhor, poderia ter sido pior — respondeu, recuan­do. — E você, Bertrand? Algumas rugas a mais no rosto, talvez, mas ainda os mesmos olhos de brasa e os mesmos ombros largos. — Deu-lhe alguns tapinhas no peito com as costas da mão. — Ainda forte como um touro.

Com os braços em volta dos ombros de Simeon, Pelletier foi levado até um pequeno aposento na parte dos fundos da casa, com vista para um estreito quintal. Nele havia dois grandes sofás cobertos com almofadas de seda verme­lhas, roxas e azuis. Várias mesas de ébano estavam dispostas pelo aposento, decoradas com delicados vasos e grandes tigelas rasas cheias de biscoitos doces de amêndoa.

— Venha, tire as botas. Esther vai nos trazer chá. — Ele recuou alguns passos e tornou a avaliar Pelletier de cima a baixo. — Bertrand Pelletier — repetiu, sacudindo a cabeça. — Será que posso confiar nestes velhos olhos?

Depois de tantos anos, você está mesmo aqui? Ou será um fantasma? Um truque da imaginação de um velho?

Pelletier não sorriu.

Eu gostaria de estar aqui em circunstâncias mais auspiciosas, Simeon.

Ele aquiesceu.

Claro. Venha, Bertrand, venha. Sente-se.

Vim com nosso senhor Trencavel, Simeon, avisar Besièrs sobre o exército que está chegando do norte. Ouça os sinos, convocando os anciãos da cidade para o conselho.

Ê difícil ignorar seus sinos cristãos — respondeu Simeon, alçando as sobrancelhas —, embora eles geralmente não soem para nós!

Você sabe que isto vai afetar os judeus tanto quanto aqueles a quem eles chamam de hereges, se não mais.

Como é sempre o caso — disse ele, resignado. — A Hoste é tão grande quanto estão dizendo?

Vinte mil homens, talvez mais. Não podemos enfrentá-los em um combate aberto, Simeon, nossa desvantagem numérica é muito grande. Se Besièrs conseguir segurar os invasores aqui durante algum tempo, pelo menos teremos chance de recrutar uma força de combate no oeste e preparar as defe­sas de Carcassona. Todos que quiserem terão refúgio lá.

Tenho sido feliz aqui. Esta cidade me tratou, nos tratou, bem.

Besièrs não é mais segura. Nem para você, nem para os livros.

Eu sei. Mesmo assim — suspirou ele —, ficarei triste em ir embora.

Se Deus quiser, não será por muito tempo. — Pelletier fez uma pau­sa, confuso pela aceitação estóica da situação pelo amigo. — Esta é uma guerra injusta, Simeon, pregada sobre mentiras e engodo. Como pode aceitá-la tão facilmente?

Simeon abriu bem as mãos.

—Aceitá-la, Bertrand? O que você quer que eu faça? O que quer que eu diga? Um de seus santos cristãos, Francisco, rezava para que Deus lhe desse forças para aceitar aquilo que não podia mudar. O que vai acontecer, vai acontecer, quer eu queira ou não. Então sim, eu aceito. Isso não quer dizer que esteja satisfeito, nem que não deseje que fosse de outra forma.

Pelletier sacudiu a cabeça, discordando.

—A raiva não tem serventia. Você precisa ter fé. Confiar em um significado maior, além de nossas vidas e de nosso conhecimento, requer muita fé.

Cada uma das grandes religiões tem sua própria história: a Santa Escritura, o Alcorão, a Torá, para dar significado a estas nossas vidas insignificantes. —Ele fez uma pausa, os olhos brilhando de argúcia. — Os bons homes, eles não tentam dar sentido ao mal que o homem faz. Sua fé lhes ensina que esta não é a Terra de Deus, uma criação perfeita, mas sim um reino imperfeito e corrup­to. Eles não esperam que o bem e o amor vençam a adversidade. Sabem que isso não vai acontecer em nossas vidas temporais. — Simeon sorriu. — E, mesmo assim, eis aqui você, Bertrand: surpreso quando o Mal o encara de frente. Estranho isso, não?

A cabeça de Pelletier ergueu-se subitamente, como se ele houvesse sido descoberto. Será que Simeon sabia? Como poderia saber?

Simeon viu a expressão em seu rosto, embora não tenha feito mais ne­nhum comentário.

—Por sua vez, minha fé me diz que o mundo foi feito por Deus, que ele é perfeito em cada detalhe. Mas quando os homens se desviam das palavras dos profetas, o equilíbrio entre Deus e o homem é perturbado, e a retribuição virá com tanta certeza como a noite segue o dia.

Pelletier abriu a boca para falar, depois tornou a fechá-la.

—Esta guerra não é problema nosso, Bertrand, apesar das suas obrigações para com o visconde Trencavel. Você tem um objetivo maior. Estamos unidos por nossos votos. É isso que deve guiar nossos passos e determinar nossas decisões. — Ele estendeu a mão e segurou o ombro de Pelletier. — Então, meu amigo, guarde sua raiva e sua espada pronta para as batalhas que realmente pode ganhar.

—Como você sabia? — disse Pelletier. — Ouviu alguma coisa?

Simeon deu uma risadinha.

—Que você era seguidor da nova fé? Não, não, não ouvi nada a esse respeito. É uma conversa que teremos em algum momento do futuro, se Deus quiser, não agora. Eu realmente adoraria discutir teologia com você, Bertrand, mas temos assuntos urgentes para cuidar.

A chegada da criada com uma bandeja de chá de hortelã quente e biscoi­tos doces pôs um fim à conversa. Ela a arrumou na mesinha entre eles, antes de retirar-se para um banco no canto do aposento.

Não se preocupe — disse Simeon, vendo a preocupação de Pelletier de que sua conversa fosse ouvida. — Esther veio comigo de Chartres. Ela só fala hebraico e algumas palavras de francês. Não entende nada da sua língua.

Muito bem. — Pelletier sacou a carta de Harif e a entregou a Simeon.

Recebi uma igual na Shavuot, um mês atrás — disse ele depois de terminar de ler. — Ela me avisava para aguardá-lo, embora, confesso, você tenha demorado mais do que eu esperava.

Pelletier dobrou a carta e tornou a colocá-la no bolso.

—Então os livros ainda estão com você, Simeon? Aqui nesta casa? Deve­mos levá-los...

Violentas batidas na porta perturbaram a tranqüilidade do aposento. Em um segundo, Esther estava em pé, os olhos amendoados alertas. A um sinal de Simeon, partiu apressada pelo corredor.

Você ainda tem os livros? — repetiu Pelletier, agora com urgência, subitamente ansioso com a expressão no rosto de Simeon. — Eles não foram perdidos?

Perdidos, não, meu amigo — ele começou a dizer, quando foi inter­rompido por Esther.

Mestre, uma senhora pede para ser recebida. — As palavras em hebraico cascatearam de sua língua, rápidas demais para os ouvidos enferrujados de Pelletier compreenderem.

Que tipo de senhora?

Esther sacudiu a cabeça.

—Não sei mestre. Diz que precisa falar com seu convidado, o intendente Pelletier.

Todos se viraram ao ouvir sons de passos no corredor atrás deles.

—Você a deixou sozinha? — perguntou Simeon, tenso, esforçando-se para se levantar.

Pelletier também se pôs de pé no instante em que as mulheres irromperam no aposento. Piscou os olhos, sem conseguir acreditar no que via. Todos os pensamentos sobre sua missão desapareceram de sua mente quando olhou para Alaïs, que havia parado junto à porta. O rosto dela estava corado e seus olhos castanhos vivos brilhavam, pedindo desculpas, mas ao mesmo tempo determinados.

Perdoem-me pela intrusão — disse ela, olhando do pai para Simeon, depois novamente para o pai —, mas não pensei que sua criada fosse me deixar entrar. — Com dois passos, Pelletier atravessou o aposento e envolveu a filha nos braços.

Não fique bravo por eu ter desobedecido ao senhor — disse ela, mais tímida. — Eu precisava vir.

E esta encantadora senhora é... — disse Simeon.

Pelletier segurou a mão de Alaïs e a conduziu até o meio do aposento.

—Claro, onde estão meus modos? Simeon permita-me apresentar mi­nha filha, Alaïs, embora eu seja incapaz de dizer como ela conseguiu chegar aqui em Besièrs! — Alaïs inclinou a cabeça. — E este é meu amigo mais antigo e mais querido, Simeon de Chartres, e antes, da Cidade Sagrada de Jerusalém.

O rosto de Simeon era só sorrisos.

—Filha de Bertrand. Alaïs. — Ele segurou as mãos dela. — Seja muito bem-vinda.

 

— Podem me falar sobre sua amizade? — pediu Alaïs assim que se sentou no sofá ao lado do pai. Virou-se para Simeon. — Já pedi isso a ele uma vez, mas naquela ocasião ele não estava decidido a confiar em mim.

Simeon era mais velho do que ela havia imaginado. Seus ombros eram curvados e seu rosto crivado de rugas, o mapa de uma vida que já experimen­tara dor e perda, mas também grande felicidade e muito riso. Suas sobrance­lhas eram grossas e fartas, e seus olhos brilhavam, revelando uma inteligência viva. Seus cabelos encaracolados eram quase inteiramente grisalhos, mas sua barba comprida, perfumada e lustrada, ainda era tão negra quanto à asa de um corvo. Ela agora entendia como seu pai podia ter confundido o homem no rio com seu amigo.

Discretamente, Alaïs baixou os olhos para as mãos de Simeon e sentiu um lampejo de satisfação. Sua suposição estava correta. No polegar esquerdo, ele usava um anel idêntico ao de seu pai.

—Vamos, Bertrand — dizia Simeon. — Ela merece ouvir a história. Afinal, cavalgou bastante para isso!

Alaïs sentiu o pai ficar muito quieto ao seu lado. Olhou para ele de relance. Sua boca estava contraída em uma linha apertada. Ele está bravo agora que percebe o que fiz.

—Você não veio a cavalo de Carcassona sem escolta? — disse. — Não seria tola a ponto de fazer uma viagem assim sozinha? Não correria um risco desses?

—Eu...

Responda.

—Parecia o mais sensato...

—Sensato! — explodiu ele. — De todos os...

Simeon deu uma risadinha.

—Ainda o mesmo velho temperamento, Bertrand.

Alaïs engoliu um sorriso enquanto tocava o braço do pai.

—Paire — disse paciente. — O senhor está vendo que estou sã e salva. Não aconteceu nada.

Ele olhou para baixo, para as mãos arranhadas dela. Alaïs rapidamente as cobriu com a capa.

—Não aconteceu nada demais. Não é nada. Um cortezinho.

—Estava armada?

Ela assentiu.

—Claro.

Então onde...?

Não achei sensato andar pelas ruas de Besièrs vestida daquele jeito.

Alaïs olhou para ele com olhos inocentes.

—De fato — murmurou ele entre os dentes. — E não aconteceu nada de ruim com você? Não está ferida?

Sentindo o ombro machucado, Alaïs o encarou.

Nada — mentiu. Ele franziu o cenho, embora parecesse estar ligeira­mente mais calmo.

Como soube que estávamos aqui?

Quem me disse foi Amiel de Coursan, filho do seigneur, que generosamente me acompanhou até aqui.

Simeon assentiu.

Ele é muito admirado por estas bandas.

Você teve muita sorte — disse Pelletier, ainda relutando em encerrar o assunto. — Sorte, e muita, muita imprudência. Poderia ter sido morta. Ainda não consigo acreditar que você...

Você ia contar a ela como nos conhecemos, Bertrand — disse Simeon calmamente. — Os sinos não estão mais tocando, de modo que o conselho já deve ter começado. Temos um pouco de tempo.

Por um instante, seu pai continuou com um ar severo no rosto. Então seus ombros relaxaram e ele adotou uma expressão resignada.

Muito bem, muito bem. Já que os dois querem assim.

Alaïs trocou um olhar com Simeon.

Ele usa um anel como o seu, paire.

Pelletier sorriu.

—Simeon foi recrutado por Harif na Terra Santa, como eu, embora algum tempo antes, e nossos caminhos não se cruzaram. Quando o perigo representado por Saladino e seus exércitos aumentou, Harif mandou Simeon de volta para sua cidade natal, Chartres. Eu o segui alguns meses depois, le­vando comigo os três pergaminhos. A viagem levou mais de um ano, mas quando finalmente cheguei a Chartres, Simeon estava à minha espera como Harif havia prometido. — As lembranças o fizeram sorrir. — Como odiei aquele frio e aquela umidade depois do calor, da luz de Jerusalém. Era um lugar tão deprimente, tão desolado. Mas Simeon e eu nos demos bem de ime­diato. A tarefa dele era encadernar os pergaminhos em três volumes separados. Enquanto ele fazia os livros, aprendi a admirar sua habilidade, sua sabedoria e seu bom humor.

Bertrand, não exagere — murmurou Simeon, embora Alaïs pudesse ver que ele estava gostando dos elogios.

Quanto a Simeon — prosseguiu Pelletier —, você vai ter de perguntar o que ele viu em um soldado inculto, iletrado. Não cabe a mim julgar.

Você estava disposto a aprender, meu amigo, a escutar — disse Simeon, baixinho. — Isso o destacava da maioria das pessoas de sua fé.

Eu sempre soube que os livros deviam ser separados — continuou Pelletier. — Assim que Simeon terminou o trabalho, recebi de Harif a ordem de voltar à minha cidade natal, onde o cargo de intendant do novo visconde Trencavel estava à minha espera. Pensando nisso hoje, tantos anos depois, acho extraordinário que eu nunca tenha perguntado o que seria feito dos ou­tros dois livros. Imaginava que Simeon guardaria um deles, embora nunca tenha tido certeza. E o outro? Sequer perguntei. Hoje minha falta de curiosi­dade me envergonha. Mas eu simplesmente peguei o livro que me tinha sido confiado e rumei para o sul.

Não deveria ficar envergonhado — disse Simeon gentilmente. —Você fez o que lhe pediam para fazer com fé e com firmeza no coração.

Antes da sua aparição expulsar qualquer outro pensamento da minha mente, Alaïs, estávamos falando sobre os livros.

Simeon pigarreou.

Livro — disse ele. — Eu só estou com um.

O quê? — indagou Pelletier, surpreso. — Mas a carta de Harif...pensei que quisesse dizer que você ainda estava com os dois livros? Ou que, pelo menos, sabia onde cada um deles poderia ser encontrado?

Simeon sacudiu a cabeça, negando.

Já soube, sim, mas faz muitos anos que não sei mais. O Livro dos Números está aqui. Quanto ao outro, confesso que estava esperando que você pudesse ter notícias a dar para mim.

Se não está com você, com quem estará? — perguntou-se Pelletier, aflito. — Eu pensava que você tivesse levado os dois livros com você quando foi embora de Chartres.

E levei.

Mas...

Alaïs pôs a mão no braço do pai.

—Deixe Simeon explicar.

Por um instante, pareceu que Pelletier iria perder a paciência, mas em seguida ele aquiesceu.

Muito bem — disse, de má vontade. — Conte sua história.

Como ela é parecida com você, meu amigo — disse Simeon com uma risadinha. — Pouco depois da sua partida de Chartres, recebi um recado do Navigatairé de que um guardião viria buscar o segundo livro, o Livro das Po­ções, embora não houvesse nenhuma indicação de quem essa pessoa poderia ser. Fiquei alerta, sempre a esperar. O tempo passou, eu envelheci, mas nin­guém veio. Então, no ano de nosso Senhor de 1194, pouco antes do terrível incêndio que destruiu a catedral e grande parte da cidade de Chartres, um homem chegou, um cristão, um cavaleiro, que disse se chamar Philippe de Saint-Mauré.

O nome é conhecido. Ele estava na Terra Santa na mesma época que eu, embora não tenhamos nos encontrado. — Pelletier franziu o cenho. —Por que ele esperou tanto tempo?

Essa, meu amigo, foi a pergunta que fiz a mim mesmo. Saint-Mauré me entregou um merel como deve ser feito. Ele usava o anel que eu e você temos a honra de usar. Eu não tinha motivos para duvidar dele...mas ainda assim... — Simeon deu de ombros. — Havia algo de falso nele. Seus olhos eram argutos, como os de uma raposa. Eu não confiava nele. Ele não me parecia o tipo de homem que Harif teria escolhido. Não havia honra nele. Então, apesar dos símbolos de boa fé que ele trazia, decidi testá-lo.

—Como? — As palavras escapuliram antes que Alaïs conseguisse contê-las.

Alaïs — alertou seu pai.

Não tem problema, Bertrand. Eu fingi que não estava entendendo. Torci as mãos, humilde, pedindo desculpas, mas ele devia ter me confundido com alguma outra pessoa. Ele sacou a espada. E isso confirmou sua suspeita de que ele não era quem ou aquilo que alegava ser.

Ele me ameaçou e me insultou, mas meus criados chegaram e ele estava em desvantagem numérica, de modo que não teve alternativa senão recuar. — Simeon inclinou-se para frente, baixando a voz para um sussurro.

— Assim que tive certeza de que ele tinha ido embora, enrolei os dois livros em uma trouxa de roupa velha e pedi abrigo a uma família cristã próxima, que eu tinha certeza de que não me trairia. Não conseguia decidir o que era melhor fazer. Não tinha certeza do que eu mesmo sabia. Será que ele era um impostor?

Ou será que era mesmo um guardião, mas um guardião cujo coração havia sido corrompido pela ganância, pelo poder ou pela riqueza? Será que ele ha­via nos traído? Se a primeira alternativa fosse a certa, então ainda havia uma chance de que o verdadeiro guardião fosse até Chartres e não me encontrasse mais. Se a segunda fosse a certa, eu sentia que era meu dever descobrir o que conseguisse. Até hoje, não sei se fiz a escolha certa.

O senhor fez o que achava que era certo — disse Alaïs, ignorando o olhar de repreensão do pai que a mandava ficar calada. — Nenhum homem pode fazer mais do que isso.

Certo ou errado, o fato é que eu fiquei onde estava por mais dois dias. Então, o corpo mutilado de um homem foi encontrado boiando no rio Eure.

Seus olhos e sua língua haviam sido arrancados. Espalhou-se o boato de que ele era um cavaleiro a serviço do filho mais velho de Charles d'Evreux, cujas terras não ficam longe de Chartres.

—Philippe de Saint-Mauré.

Simeon assentiu.

Os judeus foram culpados pelo assassinato. Imediatamente começa­ram as represálias. Eu era um bom bode expiatório. Espalhou-se a notícia de que viriam atrás de mim. Alegava-se que testemunhas tinham visto Saint-Mauré na minha porta, testemunhas que poderiam jurar que nós havíamos discutido e trocado agressões. Isso me decidiu. Talvez esse Saint-Mauré fosse quem dizia ser. Talvez fosse um homem honesto, talvez não. Isso não tinha mais impor­tância. Ele estava morto, ou pelo menos assim eu pensava, por causa do que havia descoberto sobre a Trilogia do Labirinto. Sua morte e a maneira como ele havia morrido me convenceram de que havia outras pessoas envolvidas. De que o segredo do Graal de fato havia sido revelado.

Como você escapou? — perguntou Alaïs.

Meus criados já tinham saído da cidade, e eu esperava que estivessem em segurança. Fiquei escondido até a manhã seguinte. Assim que os portões da cidade foram abertos, depois de raspar a cabeça, fugi disfarçado de velha.

Esther veio comigo.

Então você não estava lá quando construíram o labirinto de pedra na nova catedral? — perguntou Pelletier. Alaïs ficou surpresa ao ver que ele sor­ria, como de alguma brincadeira que só eles entendiam. — Você não o viu.

O que foi? — perguntou ela.

Simeon deu uma risadinha, dirigindo-se apenas a Pelletier.

—Não, embora tenha ouvido dizer que ele cumpriu bem a sua função.

Muitos são atraídos até lá por aquele anel de pedra morta. Olham, procuram, sem entender que sob seus pés repousa apenas um segredo de mentira.

—Que labirinto é esse? — repetiu Alaïs.

Eles continuaram a não lhe dar atenção.

—Eu teria lhe dado abrigo em Carcassona. Um teto sobre sua cabeça, proteção. Por que você não me procurou?

—Acredite em mim, Bertrand, não havia nada que eu desejasse mais ter feito. Mas você se esquece como o norte era diferente destas terras mais tole­rantes do Pays d'Oc. Eu não podia viajar livremente, meu amigo. A vida era dura para os judeus naquela época. Éramos obrigados a respeitar um toque de recolher, nossas lojas eram regularmente atacadas e saqueadas. — Ele fez uma pausa para respirar. — Além disso, eu nunca teria perdoado a mim mesmo se os tivesse conduzido, quem quer que fossem eles, até você. Quando fugi de Chartres naquela noite, não sabia para onde estava indo. Parecia que o mais seguro era desaparecer até a confusão passar. O que acabou acontecendo foi que o incêndio tirou todos os outros assuntos da minha cabeça.

—Como veio parar em Besièrs? — perguntou Alaïs, determinada a tor­nar a participar da conversa. — Harif o mandou para cá?

Simeon sacudiu a cabeça, negando.

—Cheguei até aqui graças à sorte e à boa fortuna, Alaïs, não a uma intenção concreta. Viajei primeiro para a Champagne, onde passei o inverno. Na primavera seguinte, assim que as neves derreteram, rumei para o sul. Tive sorte suficiente para encontrar um grupo de judeus ingleses que fugiam das perseguições em seu próprio país. Eles estavam indo para Besièrs. Parecia um destino tão bom quanto outro qualquer. A cidade tinha uma reputação de tolerância: os judeus tinham cargos de confiança e autoridade, nossas habilidades eram respeitadas. Sua proximidade de Carcassona significava que eu estaria disponível caso Harif precisasse de mim. — Virou-se para Bertrand. —Deus, em sua sabedoria, sabe o quanto tem sido difícil saber que você estava apenas a alguns dias a cavalo de distância, mas a cautela e a sensatez fizeram com que as coisas tivessem de ser dessa forma.

Ele se inclinou para frente, os olhos acesos.

—Mesmo naquela época, versos e canções circulavam nas cortes do nor­te. Na Champagne, trovadores e menestréis cantavam sobre um cálice mági­co, um elixir de vida, próximo demais da realidade para ser ignorado. — Pelletier assentiu. Ele também havia escutado essas trovas. — Então, pesando tudo na balança, era mais seguro eu ficar afastado. Eu jamais teria me perdoado caso os houvesse conduzido à sua porta, meu amigo.

Pelletier deu um longo suspiro.

Simeon, tenho medo de que, apesar de todos os seus esforços, tenha­mos sido traídos, embora não tenha nenhuma prova concreta disso. Estou convencido de que alguém sabe da conexão entre nós. Não sei dizer se tam­bém conhecem a natureza de nosso laço.

Aconteceu alguma coisa para fazer você pensar assim?

Há uma semana ou mais, Alaïs encontrou um homem boiando no rio Aude, um judeu. Sua garganta havia sido cortada e seu polegar esquerdo decepado da mão. Nada mais foi levado. Não havia motivo para achar isso, mas pensei em você. Pensei que ele tivesse sido confundido com você. — Ele fez uma pausa. — Antes disso, houve outros sinais. Confiei uma parte da minha responsabilidade a Alaïs, caso alguma coisa acontecesse comigo e eu me visse incapaz de voltar a Carcassona.

Esta é a hora de contar a ele por que você veio até aqui.

—Pai, já que o senhor...

Ele levantou uma das mãos para impedi-la de interromper.

—Houve alguma indicação de que seu paradeiro foi descoberto, Simeon?

Por aqueles que o procuravam em Chartres ou por outros?

Simeon sacudia a cabeça, negando.

—Ultimamente, não. Mais de 15 anos se passaram desde que vim para o sul, e posso lhe dizer que, durante todo esse tempo, não houve um só dia em que eu não tenha esperado sentir uma faca na garganta. Mas, quanto a algo fora do normal, não.

Alaïs não agüentou mais ficar em silêncio.

—Pai, o que eu tenho a dizer tem relação com esse assunto. Preciso contar ao senhor o que aconteceu desde que o senhor partiu de Carcassona. Por favor.

Quando Alaïs terminou, o rosto de seu pai estava escarlate. Ela temeu que ele perdesse as estribeiras. Não permitia nem que a filha nem que Simeon o acalmassem.

—A Trilogia foi descoberta! —vociferava ele. — Não há dúvida quanto a isso.

—Calma, Bertrand — disse Simeon com firmeza. — Sua raiva só faz prejudicar seu juízo.

Alaïs virou-se para as janelas, consciente do nível crescente de barulho nas ruas. Depois de um instante de hesitação, Pelletier também levantou a cabeça.

—Os sinos recomeçaram a tocar — disse. — Preciso voltar para a resi­dência do suserano. O visconde Trencavel está me esperando. — Ele se levan­tou. — Preciso pensar mais sobre o que você me contou, Alaïs, e considerar o que deve ser feito. Por ora, temos de nos concentrar em nossos esforços de partida. — Virou-se para o amigo. — Você virá conosco, Simeon.

Enquanto Pelletier falava, Simeon havia aberto uma arca de madeira intrincadamente esculpida que ficava no canto da sala. Alaïs chegou mais per­to. A tampa era forrada de veludo vermelho, reunido em dobras generosas como as cortinas em volta de uma cama.

Simeon sacudiu a cabeça.

—Não irei com vocês. Seguirei com meu povo. Então, por segurança, você deve levar isto.

Alaïs viu Simeon inserir a mão na parte funda da arca. Houve um clique, e então uma pequena gaveta abriu-se na base. Quando ele se endirei­tou, Alaïs viu que segurava um objeto dentro de um invólucro de pele de carneiro.

Os dois homens trocaram olhares, e então Pelletier pegou o livro da mão estendida de Simeon e o escondeu debaixo da capa.

—Em sua carta, Harif menciona uma irmã em Carcassona — disse Simeon.

Pelletier assentiu.

Uma amiga da Noublesso, segundo minha interpretação das palavras dele. Não posso acreditar que ele queira dizer mais do que isso.

Foi uma mulher quem veio pegar o segundo livro comigo, Bertrand — disse Simeon, afável. — Como você, na época confesso que supus que ela não passasse de uma mensageira, mas à luz da carta que você recebeu...

Pelletier desdenhou a sugestão com um aceno.

—Não posso acreditar que Harif fosse nomear uma mulher guardiã, quaisquer que fossem as circunstâncias. Ele não correria esse risco.

Alaïs quase falou, mas mordeu a língua. Simeon deu de ombros.

Devemos considerar a possibilidade.

Bem, como era essa mulher? — perguntou Pelletier, impaciente. — Alguém que parecesse ter um mínimo de capacidade para se encarregar de um objeto tão precioso?

Simeon sacudiu a cabeça.

—Na verdade, não. Ela não era nem bem-nascida, nem pertencia à camada mais reles da população. Já havia passado da idade de ter filhos, em­bora estivesse acompanhada por uma criança. Estava indo para Carcassona via Servian, sua cidade natal.

Alaïs empertigou-se.

É muito pouca informação — reclamou Bertrand. — Ela não disse como se chamava?

Não, e eu não perguntei, já que ela trazia uma carta de Harif. Dei-lhe pão, queijo e fruta para a viagem, e ela foi embora.

A essa altura eles tinham chegado à porta da rua.

—Não gosto de deixá-lo sozinho — disse Alaïs abruptamente, de súbito temendo por ele.

Simeon sorriu.

—Vou ficar bem, filha. Esther vai arrumar as coisas que quero levar comigo para Carcassona. Viajarei anônimo no meio da multidão. Assim será mais seguro para todos nós.

Pelletier assentiu.

O bairro judaico fica perto do rio, a leste de Carcassona, não muito longe do subúrbio de Sant-Vicens. Mande avisar quando chegar.

—Mandarei.

Os dois homens se abraçaram, então Pelletier saiu para a rua agora apinhada de gente. Alaïs fez menção de segui-lo, mas Simeon segurou-lhe o braço para detê-la.

—Você tem muita coragem, Alaïs. Foi firme no dever para com seu pai. Para com a Noublesso também. Mas cuide dele. Seu temperamento pode fazê-lo desviar-se do caminho, e haverá tempos difíceis, escolhas difíceis pela frente.

Olhando por cima do ombro, Alaïs baixou a voz para seu pai não escutar.

Qual a natureza do segundo livro levado por essa mulher para Carcassona? O livro que ainda não foi encontrado?

O Livro das Poções — respondeu ele. — Uma lista de ervas e plantas. A seu pai foi confiado o Livro das Palavras, a mim o Livro dos Números.

A cada qual seu talento.

—Acho que isso lhe diz o que queria saber? — perguntou Simeon, olhando para ela por baixo das sobrancelhas fartas com uma expressão sagaz.

— Ou talvez confirme um palpite?

Ela sorriu.

—Benlèu. — Talvez.

Alaïs o beijou, depois correu para alcançar o pai.

Comida para a viagem. Talvez uma tábua, também.

Alaïs decidiu guardar aquele pensamento para si, por enquanto, até ter certeza, embora a essa altura estivesse praticamente certa de que sabia onde o livro poderia ser encontrado. Todas as inúmeras conexões que uniam suas vidas como a teia de uma aranha estavam subitamente claras para ela. Todas as pequenas insinuações e pistas ignoradas, por não terem sido procuradas.

 

Enquanto seguiam apressados de volta pela cidade, ficou claro que o êxodo já havia começado.

Judeus e sarracenos encaminhavam-se para os portões principais, alguns a pé, outros em carroças cheias de pertences, livros, mapas, móveis; financistas com cavalos selados levando cestos, baús e balanças para pesagem, rolos de pergaminho. Alaïs também viu algumas famílias cristãs entre a multidão.

O pátio do palácio do suserano estava caiado de branco à luz do sol da manhã. Quando cruzaram os portões, Alaïs viu a expressão de alívio no rosto do pai ao perceber que o conselho ainda não havia terminado.

— Alguém mais sabe que você está aqui?

Alaïs parou abruptamente, horrorizada ao ver que não havia pensado em Guilhem sequer uma vez.

— Não. Fui direto procurar o senhor.

Ficou irritada com a expressão de prazer que atravessou o rosto do pai. Ele assentiu.

— Espere aqui. Vou informar ao visconde Trencavel da sua presença e pedir a ele permissão para você viajar conosco. Seu marido também precisa ser avisado.

Alaïs ficou olhando enquanto ele desaparecia dentro das sombras da casa. Dispensada, virou-se e olhou em volta. Animais se espreguiçavam nas som­bras, o pêlo encostado nas paredes frescas e claras, sem se preocupar com os problemas dos homens. Apesar de suas experiências e das histórias contadas por Amiel de Coursan, ali, na tranqüilidade do palácio, Alaïs achava difícil acreditar que a ameaça fosse tão iminente quanto diziam.

Atrás dela, as portas se abriram de par em par e uma enxurrada de ho­mens derramou-se pelos degraus e encheu o pátio. Alaïs apertou-se de encon­tro a uma coluna para evitar ser levada pelo aguaceiro.

O pátio ganhou vida com o som de gritos, comandos, ordens dadas e obedecidas, écuyers correndo para buscar os cavalos de seus senhores. Em um instante, o palácio se transformou de sede administrativa em centro da guarnição.

No meio da confusão, Alaïs ouviu alguém chamar seu nome. Guilhem. O coração subiu-lhe até a boca. Ela se virou, esforçando-se para ver de onde vinha a voz.

—Alaïs! — exclamou ele, incrédulo. — Como? O que você está fazendo aqui?

Então ela o viu, atravessando a multidão a passos largos, abrindo cami­nho, até erguê-la nos braços, apertando-a com tanta força que ela pensou que todo o ar ia ser expulso de dentro de seu corpo. Por um instante, o fato de vê-lo e sentir seu cheiro expulsou todos os outros pensamentos de sua cabeça. Tudo foi esquecido, tudo foi perdoado. Ela sentiu-se quase tímida, cativada pelo óbvio prazer e deleite que ele sentia em vê-la. Alaïs fechou os olhos e os imaginou a sós, milagrosamente de volta ao Château Comtal, como se as atribulações dos últimos dias não passassem de um sonho ruim.

Como eu senti sua falta — disse Guilhem, beijando-lhe o pescoço, a garganta, as mãos. Alaïs se retraiu um pouco.

Mon còr, o que foi?

Nada — disse ela depressa.

Guilhem levantou sua capa e viu o hematoma roxo e inflamado no ombro dela.

Nada, por Sant-Foy! Como em nome de...

Eu caí — disse ela. — Meu ombro foi o que mais sofreu. Parece mais sério do que é. Por favor, não fique preocupado.

Agora Guilhem parecia indeciso, dividido entre a preocupação e a dúvida.

— E assim que você ocupa seu tempo quando estou fora? — perguntou, a desconfiança a invadir-lhe os olhos. Ele deu um passo para trás. — Por que você está aqui, Alaïs?

Ela hesitou.

— Para trazer um recado para o meu pai.

No instante em que as palavras lhe saíram da boca, Alaïs percebeu que dissera a coisa errada. O intenso prazer dele se transformou imediatamente em ansiedade. Seu cenho se franziu.

— Que recado?

A mente dela esvaziou-se. O que seu pai teria dito? Que desculpa ela poderia dar?

Eu...

Que recado, Alaïs?

Ela arquejou. Mais do que tudo, queria que houvesse confiança entre eles, mas dera sua palavra ao pai.

Messire, perdoe-me, mas não posso dizer. Era um assunto somente para os ouvidos dele.

Não pode ou não quer?

Não posso, Guilhem — disse ela com pesar. — Eu gostaria que não fosse assim.

Ele mandou chamá-la? — perguntou ele, furioso. — Mandou chamá-la sem pedir minha permissão?

Não, ninguém mandou me chamar! — gritou ela. — Fui eu mesma quem decidiu vir.

Mas mesmo assim não quer me dizer por quê.

Imploro a você, Guilhem. Não me peça para quebrar a promessa que fiz a meu pai. Por favor. Tente entender.

Ele agarrou o braço dela e a sacudiu.

— Não vai me contar? Não? — Deu uma risada breve, amarga. — E acreditar que pensei que você seria leal a mim. Que tolo eu fui em pensar isso!

Alaïs tentou impedi-lo de ir embora, mas ele já estava se afastando dela pelo meio da multidão.

Guilhem! Espere.

O que foi?

Ela se virou para ver que seu pai havia surgido atrás de si.

Meu marido ficou ofendido porque eu não quis confiar nele.

Você lhe disse que eu a proibi de contar?

Eu tentei, mas ele não quis escutar.

Pelletier fez cara de reprovação.

Ele não tem o direito de lhe pedir para quebrar sua promessa.

Alaïs agüentou firme, sentindo a raiva crescer dentro do peito.

Com todo o respeito, paire, ele tem todo o direito. É meu marido.

Merece minha obediência e minha lealdade.

Você não está sendo desleal — disse Pelletier com impaciência. — A raiva dele vai passar. Agora não é hora nem lugar para isso.

Ele leva as coisas muito a sério. Os insultos o atingem em cheio.

E assim para todos nós — retrucou ele. — Todos nós sentimos quan­do somos insultados. A diferença é que o restante de nós não deixa nossas emoções governarem nosso bom senso. Vamos, Alaïs. Não pense nisso agora.

Guilhem está aqui para servir a seu seigneur, não para se irritar com a mulher.

Assim que voltarmos a Carcassona, tenho certeza de que tudo vai logo se ajei­tar entre vocês dois. — Deu um beijo no alto da cabeça dela. — Deixe estar.

Agora vá buscar Tatou. Precisa se preparar para partir.

Devagar, ela se virou e seguiu-o até os estábulos.

— O senhor vai falar com Oriane sobre a participação dela nisso? Tenho certeza de que ela sabe alguma coisa sobre o que aconteceu comigo.

Pelletier fez um gesto de desinteresse com a mão.

Tenho certeza de que está julgando mal a sua irmã. Já faz muito tempo que há discórdia entre vocês, e eu deixei isso continuar, achando que fosse passar.

Perdoe-me, paire, mas não acho que o senhor veja o verdadeiro cará­ter dela.

Pelletier ignorou seu comentário.

— Você tem tendência a julgar Oriane com demasiada severidade, Alaïs.

Tenho certeza de que ela cuidou de você pelo melhor dos motivos. Você per­guntou a ela? — Alaïs corou. — Exato. Vejo pelo seu rosto que não perguntou. — Ele fez outra pausa. — Ela é sua irmã, Alaïs. Deve tratá-la melhor.

A injustiça da reprimenda despertou a raiva que fervilhava dentro do peito dela.

Não sou eu quem...

Se eu tiver uma oportunidade, falarei com Oriane — disse ele com firmeza, deixando bem claro que a conversa estava encerrada.

Alaïs enrubesceu, mas segurou a língua. Sempre soubera que era a prefe­rida do pai, portanto entendia que era sua falta de afeto por Oriane que lhe atormentava a consciência e o tornava cego para com os erros da irmã. Em relação a ela, Alaïs, suas expectativas eram maiores.

Frustrada, Alaïs apressou o passo para alcancá-lo.

O senhor vai tentar procurar as pessoas que levaram o merel? O senhor...

Chega, Alaïs. Não se pode fazer mais nada até voltarmos a Carcassona.

Agora, que Deus nos dê rapidez e boa fortuna para que cheguemos logo em casa. — Pelletier parou e olhou em volta. — E Deus queira que Besièrs tenha forças para mantê-los aqui.

 

                         Carcassonne

                         Terça-feira, 5 de julho de 2005.

Alice sentiu o ânimo melhorar ao deixar Toulouse para trás.

A auto-estrada conduzia diretamente através de uma paisagem fértil de plantações verdes e marrons. De vez em quando, ela via campos de girassóis, suas faces curvadas com o sol do fim de tarde. Durante a maior parte da via­gem, a pista de alta velocidade corria ao lado da estrada normal. Depois das montanhas e vales ondulantes da Ariège, sua primeira experiência com aquela parte da França, agora a paisagem parecia mais domesticada.

Havia enclaves de pequenos vilarejos no alto das colinas. Casas isoladas com as janelas fechadas por persianas e um cloche-mur, a silhueta dos sinos destacada contra o céu cor-de-rosa do crepúsculo. Ao passar, ela ia lendo o nome das cidades — Avignonet, Castelnaudary, Saint-Papoul, Bram, Mire­poix —, fazendo as palavras escorrerem por sua língua como vinho. Em sua imaginação, cada um daqueles lugares prometia o segredo de ruas calçadas de paralelepípedos e história enterrada em muros de pedra clara.

Alice cruzou a fronteira para o département de Aude. Uma placa marrom de monumento histórico dizia: Vous êtes en Pays Cathare. Ela sorriu. País cátaro. Estava aprendendo depressa que a região se definia tanto por seu passado quanto por seu presente. Não apenas Foix, mas também Toulouse, Béziers e a própria Carcassonne, todas as grandes cidades do sudoeste ainda viviam à sombra de acontecimentos ocorridos quase oitocentos anos antes. Livros, suvenires, pos­tais, vídeos, toda uma indústria turística havia se desenvolvido em cima desses fatos. Como as sombras vespertinas que se alongavam a oeste, as placas pareciam a estar atraindo para Carcassonne.

Às nove da noite, Alice já havia passado pelo péage e seguia as placas que indicavam o Centro da cidade. Estava nervosa e animada, estranhamente apre­ensiva, enquanto passava por cinzentos subúrbios industriais e shopping centers. Estava perto agora, podia sentir.

O sinal ficou verde e Alice seguiu em frente, levada pelo fluxo do tráfego, passando por rotatórias e pontes, e então, repentinamente, voltou a sair da área urbana. Arbustos duros ao longo da rocade, gramados crescendo livres e árvores retorcidas que a força do vento havia deixado horizontais.

Alice ultrapassou o pico da colina, e lá estava ela.

A Cité medieval dominava a paisagem. Era muito mais majestosa do que Alice havia imaginado, mais sólida e mais completa. Daquela distância, com as montanhas roxas em contrastado relevo por trás, parecia um reino mágico a flutuar no céu.

Ela se apaixonou na hora.

Alice encostou e saiu do carro. Havia duas muralhas, uma interna e ou­tra externa. Ela podia distinguir a catedral e o castelo. Uma torre retangular, simétrica, muito fina, muito alta, erguia-se mais alta do que tudo à sua volta.

A Cité ficava no topo de uma colina verdejante. As encostas desciam até ruas cheias de casas de telhados vermelhos. Na terra plana lá embaixo havia vinhedos, figueiras e oliveiras, emaranhados de pesados tomates maduros plan­tados em fileiras.

Relutando em se aproximar e correr o risco de quebrar o feitiço, Alice assistiu ao sol se pôr, roubando a cor de tudo. Estremeceu, sentindo o ar da noite subitamente frio sobre os braços nus.

Sua memória trouxe-lhe as palavras de que precisava. Chegar onde se co­meçou e conhecer o lugar pela primeira vez.

Pela primeira vez, Alice entendeu exatamente o que T. S. Eliot havia querido dizer.

 

O escritório de advocacia de Paul Authié ficava no coração da Basse Ville de Carcassonne.

Seus negócios haviam prosperado depressa nos dois últimos anos, e aquele endereço refletia seu sucesso. Um prédio de vidro e aço, projetado por um arquiteto importante. Um elegante pátio fechado, um jardim de inverno sepa­rando as salas e corredores. Era discreto e estiloso.

Authié estava em sua sala particular no quarto andar. A grande janela tinha vista para o oeste sobre a catedral de Saint-Michel e a caserna do regimento de pára-quedistas. A sala era um reflexo de seu dono: bem-arrumada, um am­biente extremamente controlado de afluência e bom gosto convencional.

A parede externa da sala era toda feita de vidro. Àquela hora do dia, as cortinas estavam fechadas para bloquear o sol da tarde. Fotografias emoldura­das e penduradas cobriam as outras três paredes, junto com declarações e cer­tificados. Havia vários mapas antigos — originais, não reproduções. Alguns retratavam as rotas das cruzadas, outros eram ilustrações das fronteiras históri­cas cambiantes do Languedoc. O papel estava amarelo, e os vermelhos e verdes da tinta haviam se apagado em alguns pontos, criando uma distribuição de cores falha e desigual.

Uma escrivaninha comprida e ampla, feita sob medida para aquele espa­ço, estava posicionada de frente para a janela. Encontrava-se quase vazia, com exceção de um grande mata-borrão debruado de couro e de alguns porta-retratos, um deles uma fotografia de estúdio de sua ex-mulher com os dois filhos. Sinais de estabilidade e valores familiares tranqüilizavam os clientes, então ele mantinha o retrato ali.

Havia três outras fotografias: a primeira era um retrato formal dele próprio, aos 21 anos, pouco depois da formatura na École Nationale d'Administration em Paris, apertando a mão de Jean-Marie Le Pen, líder do partido da Frente Nacional; o segundo havia sido tirado em Santiago de Compostela; o terceiro, do ano anterior, mostrava-o na companhia do abade de Cíteaux, entre outros, na ocasião da mais recente e mais generosa doação de Authié à Sociedade de Jesus.

Cada uma daquelas fotografias lembrava-lhe o quão longe ele havia chegado.

O telefone sobre sua escrivaninha tocou.

— Oui?— Sua secretária anunciou que suas visitas haviam chegado. —

Pode mandar subir.

Javier Domingo e Cyrille Braissart eram ambos ex-policiais. Braissart havia sido dispensado em 1999 por uso excessivo de força ao interrogar um suspeito, e Domingo um ano depois sob acusações de intimidação e corrupção. O fato de nenhum dos dois ter ido preso se devia ao cuidadoso trabalho de Authié. Desde então, trabalhavam para ele.

Então? — perguntou ele. — Se vocês tiverem uma explicação, a hora de falar é agora. — Eles fecharam a porta e ficaram em pé sem dizer nada na frente da escrivaninha. — Não? Nada a dizer? — Ele ergueu o dedo no ar. — É melhor começarem a rezar para o Biau não acordar e se lembrar de quem estava dirigindo o carro.

Ele não vai acordar, senhor.

De repente você virou médico, foi, Braissart?

O estado dele piorou durante o dia.

Authié deu-lhes as costas, mãos nos quadris, e olhou pela janela para a catedral lá fora.

Bom, o que vocês têm para me dizer?

O Biau entregou um bilhete para ela — disse Domingo.

Que desapareceu — disse Authié com sarcasmo —, assim como a moça. O que você está fazendo aqui, Domingo, se não tem nada de novo para dizer? Por que está gastando o meu tempo?

Domingo corou até ficar muito vermelho.

Nós sabemos onde ela está, senhor. O Santini encontrou ela em Toulouse hoje mais cedo.

E?

Ela saiu de Toulouse mais ou menos uma hora atrás — disse Braissart.

— Passou a tarde na Bibliothèque Nationale. O Santini está mandando por fax uma lista dos sites que ela acessou.

Vocês estão rastreando o carro? Ou isso é pedir demais?

Estamos. Ela está indo para Carcassonne.

Authié sentou-se em sua cadeira e olhou para eles do outro lado da escrivaninha.

Então você vai lá esperar por ela no hotel, não é, Domingo?

Sim, senhor. Que h...

Do outro lado da Porte Narbonnaise — disparou ele. — Não quero que ela saiba que está sendo vigiada. Reviste o quarto, o carro, tudo, mas não deixe ela saber.

Estamos procurando alguma outra coisa que não o anel e o bilhete, senhor?

Um livro — disse ele —, mais ou menos desta altura. Capas de madeira, presas com tiras de couro. E muito valioso e muito frágil. — Ele pôs a mão dentro de uma pasta em cima da escrivaninha e jogou uma foto em cima da mesa. — Parecido com este. — Deu a Domingo alguns segundos para olhar, depois tornou a deslizar a foto na própria direção. — Se não tiverem mais nada...

Também conseguimos isto aqui com uma enfermeira do hospital — disse Braissart depressa, estendendo um pedaço de papel. — Estava no bolso do Biau.

Authié pegou o papel. Era o recibo de postagem de um pacote na agên­cia central de correios de Foix, no final da tarde de segunda-feira, para um endereço em Carcassonne.

Quem é Jeanne Giraud? — perguntou ele.

Avó do Biau, por parte de mãe.

É mesmo? — disse ele, suave. Estendeu o braço e apertou o botão do interfone em cima da escrivaninha. — Aurélie, eu preciso de informações sobre uma mulher chamada Jeanne Giraud. G-i-r-a-u-d. Ela mora na rue de la Gaffe. O quanto antes. — Authié tornou a se recostar na cadeira. — Ela sabe o que aconteceu com o neto?

O silêncio de Braissart respondeu à sua pergunta.

— Descubra — disse, incisivo. — Pensando bem, enquanto o Domingo vai fazer uma visitinha à Dra. Tanner, você vai até a casa de madame Giraud dar uma espiada... discretamente. Eu encontro você no estacionamento do outro lado da Porte Narbonnaise daqui a... — Ele olhou para o relógio. — ... meia hora.

O interfone tornou a tocar.

— O que vocês estão esperando? — disse ele, dispensando os com um aceno da mão. Esperou até a porta se fechar antes de atender.

— Oui, Aurélie.

Enquanto escutava, ficou segurando o crucifixo de ouro no pescoço.

— Ela disse por que queria fazer a reunião uma hora mais cedo? É claro que tem problema — disse, interrompendo o pedido de desculpas da secretá­ria. Tirou o celular do bolso do paletó. Não havia recados. No passado, ela sempre havia feito contato direto e pessoal.

— Eu vou ter que dar uma saída, Aurélie — disse ele. — Deixe o relató­rio sobre a Jeanne Giraud no meu apartamento quando estiver indo para casa.

Antes das oito.

Authié então pegou o paletó do espaldar da cadeira, tirou um par de luvas da gaveta e saiu.

Audric Baillard estava sentado em frente a uma pequena escrivaninha em um quarto de frente, na casa de Jeanne Giraud. As persianas estavam parcialmente fechadas, e o local estava banhado na luz semifiltrada do fim de tarde. Atrás dele havia uma cama de solteiro antiquada, com a cabeceira e o pé feitos de madeira trabalhada, recém-feita com lençóis de algodão branco.

Jeanne dera aquele quarto para Audric usar muitos anos antes, e o cômo­do ficava sempre à sua disposição quando ele precisava. Em um gesto que o tocara fundo, ela havia decorado o quarto com exemplares de todos os livros que ele havia publicado, dispostos em uma única prateleira acima da cama.

Baillard tinha poucas posses. Tudo que mantinha naquele quarto era uma muda de roupa e material para escrever. No início de sua longa relação, Jeanne o provocava por causa de sua predileção por tinta e papel, um papel grosso e pesado como pergaminho. Ele simplesmente sorria, dizendo-lhe que era velho demais para mudar seus hábitos.

Agora, perguntava-se se isso era verdade. A mudança era inevitável.

Ele se reclinou na cadeira, pensando em Jeanne e no quanto sua amizade significava para ele. Em cada período de sua vida, ele havia encontrado ho­mens e mulheres dispostos a ajudá-lo, mas Jeanne era especial. Fora através de Jeanne que ele havia localizado Grace Tanner, embora as duas mulheres nun­ca houvessem se encontrado.

O barulho de panelas batendo na cozinha tornou a puxar seus pensa­mentos para o presente. Baillard empunhou a caneta e sentiu os anos desa­parecerem, uma súbita ausência de idade e experiência. Sentiu-se jovem novamente.

Imediatamente, as palavras lhe vieram com facilidade e ele começou a escrever. A carta foi curta e direta. Quando terminou, Audric enxugou a tinta reluzente com o mata-borrão e dobrou o papel em três com cuidado para fazer um envelope. Assim que tivesse o endereço dela, a carta poderia ser enviada.

Então tudo estaria nas mãos dela. Só ela poderia decidir.

— Si es atal es atal — O que será, será.

O telefone tocou. Baillard abriu os olhos. Ouviu Jeanne atender, depois um grito agudo. No início, pensou que tivesse vindo da rua lá fora. Então escutou o som do fone batendo no chão de ladrilho.

Sem saber por que, levantou-se, consciente de uma mudança na atmos­fera. Virou-se na direção do som dos passos de Jeanne subindo a escada.

— Qu'es?— perguntou de imediato. O que foi? — Jeanne — disse, com mais urgência. — O que houve? Quem era?

Ela olhou para ele, pálida.

É o Yves. Ele sofreu um acidente.

Audric olhou para ela horrorizado.

Quora?— Quando?

— Ontem à noite. Ele foi atropelado. Acabaram de conseguir falar com a Claudette. Era ela no telefone.

Ele se machucou muito?

Jeanne não parecia escutá-lo.

Estão mandando um carro para me levar até o hospital de Foix.

Quem? É a Claudette quem está organizando isso?

Jeanne negou com a cabeça.

Não, a polícia.

Quer que eu vá com você?

— Quero — disse ela depois de hesitar um instante, e então, como uma sonâmbula, saiu do quarto para o corredor. Momentos depois, Baillard ouviu a porta do quarto dela bater.

Impotente, com medo daquela notícia, ele se virou de volta para dentro do quarto. Sabia que aquilo não era uma coincidência. Seus olhos pousaram sobre a carta que havia acabado de escrever. Ele deu um passo à frente, pensan­do que poderia deter a inevitável seqüência de acontecimentos enquanto ain­da havia tempo.

Então Baillard deixou a mão tornar a cair ao lado do corpo. Queimar a carta tornaria inútil tudo aquilo por que ele havia lutado, tudo que ele havia suportado.

Ele precisava seguir seu caminho até o fim.

Baillard caiu de joelhos e começou a rezar. No início, tinha dificuldade para pronunciar as palavras antigas, mas logo elas estavam fluindo de novo, ligando-o a todos aqueles que as haviam pronunciado antes dele.

A buzina de um carro em uma rua do lado de fora o trouxe de volta ao presente. Sentindo-se entrevado e cansado, ele se levantou com esforço. Pôs a carta no bolso da camisa, pegou o casaco atrás da porta e foi dizer a Jeanne que estava na hora de sair.

Authié parou o carro em um dos grandes e anônimos estacionamentos muni­cipais do outro lado da Porte Narbonnaise. Hordas de estrangeiros, armados com guias e câmeras, surgiam de toda parte. Ele desprezava aquilo tudo, a exploração da história e a comercialização sem sentido de seu passado para a diversão de japoneses, americanos, ingleses. Odiava as muralhas restauradas e as torres revestidas de pedras cinza espúrias, o empacotamento de um passado imaginado para os estúpidos e incréus.

Braissart estava à sua espera conforme combinado, e fez seu relatório depressa. A casa estava vazia e havia um acesso fácil pelo jardim nos fundos. Segundo os vizinhos, um carro de polícia fora buscar madame Giraud cerca de 15 minutos antes. Ela estava acompanhada de um homem mais velho.

Quem é?

Eles já viram ele por aqui antes, mas ninguém sabia o nome dele.

Depois de dispensar Braissart, Authié começou a descer a colina. A casa ficava quase no final da descida, do lado esquerdo. A porta estava trancada e as janelas de persianas fechadas, mas um ar de habitação recente pairava ao redor.

Ele continuou até o fim da rua, virou à esquerda na rue Barbarcane e prosseguiu até a Place Saint-Gimer. Alguns residentes locais estavam sentados do lado de fora de suas casas, de frente para os carros estacionados na praça. Um grupo de meninos de bicicleta, sem camisa e queimados de sol, estava parado nos degraus da igreja. Authié não lhes deu atenção. Foi andando de­pressa pelo caminho de asfalto que margeava os fundos das primeiras poucas casas e jardins da rue de la Gaffe. Então começou a subir para a direita, seguin­do uma trilha de terra batida que serpenteava pelas encostas verdes abaixo dos muros da Cité.

Logo Authié estava de frente para o fundo da propriedade de Jeanne Giraud. Os muros eram pintados do mesmo amarelo-claro da frente. Um pequeno portão de madeira, destrancado, conduzia a um jardim pavimenta­do. Figos, quase pretos de tão doces, pendiam de uma árvore generosa, que escondia a maior parte da varanda dos olhos dos vizinhos. O piso de cerâmica estava manchado de roxo onde os figos maduros demais haviam caído e se esborrachado.

As portas envidraçadas dos fundos ficavam debaixo de uma pérgula de madeira coberta de vinhas. Authié espiou e viu que, embora a chave estivesse na fechadura, as portas também estavam travadas em cima e embaixo por uma barra de ferro. Como ele não queria deixar rastro, olhou em volta, procurando outro jeito de entrar.

Ao lado das portas altas havia uma pequena janela que dava para a cozi­nha, cuja parte de cima havia sido deixada aberta. Authié calçou as luvas de látex, passou o braço pelo buraco e manipulou a tranca antiquada até soltá-la. A janela estava emperrada, e as dobradiças reclamaram rangendo quando ele a abriu. Quando o buraco ficou grande o suficiente, ele enfiou os dedos lá den­tro e soltou a janela principal.

Um cheiro de azeitonas e pão azedo o acolheu quando ele entrou na despensa fria. Uma tela de arame protegia a tábua de queijos. As prateleiras continham garrafas, frascos de conservas, geléias e mostarda. Sobre a mesa havia uma tábua de cortar de madeira e uma toalhinha branca cobrindo algu­mas migalhas de uma baguette dormida. Na pia, uma peneira cheia de damas­cos esperando para serem lavados. Dois copos descansavam de cabeça para baixo no escorredor de louça.

Authié atravessou a cozinha até o cômodo principal. No canto havia uma escrivaninha sobre a qual repousava uma velha máquina de escrever elé­trica. Ele apertou o botão de liga/desliga e a máquina zumbiu, ganhando vida. Inseriu uma folha de papel e bateu algumas teclas. As letras surgiram na pági­na em uma linha preta bem marcada.

Deslocando a máquina para frente, Authié vasculhou os compartimentos de trás. Jeanne Giraud era uma mulher ordeira, e tudo estava meticulosa­mente etiquetado e arquivado: contas na primeira divisória, cartas pessoais na segunda, documentos de aposentadoria e seguro na terceira, papéis e folhetos variados na última.

Nada atraiu seu interesse. Ele voltou a atenção para as gavetas. As duas primeiras produziram o material de escritório habitual: canetas, clipes de pa­pel, envelopes, selos e resmas de papel A4 branco. A gaveta de baixo estava trancada. Usando um abridor de cartas, Authié correu a lâmina com cuidado e eficiência pelo espaço entre a gaveta e a estrutura do móvel e arrombou a fechadura.

Lá dentro havia apenas um objeto: um pequeno envelope de papel bo­lha. Grande o bastante para conter um anel, mas não o livro. O carimbo do correio dizia :

"Ariège: 18h20, 4 de julho de 2005".

Authié enfiou os dedos lá dentro. Estava vazio, exceto pelo recibo de entrega confirmando que madame Giraud havia assinado para receber o paco­te às oito e vinte. Aquilo correspondia ao recibo que Domingo lhe dera.

Authié guardou o recibo no bolso interno do paletó.

Não era uma prova irrefutável de que Biau havia pego o anel e enviado para a avó, mas era para isso que apontava. Authié continuou a busca pelo objeto em si. Depois de terminar a revista do térreo, subiu as escadas. A porta do quarto de dormir dos fundos ficava logo em frente. Era obviamente o quarto de Giraud, claro, limpo e feminino. Ele revistou o armário e a cômoda, os dedos experientes vasculhando as roupas e peças íntimas, poucas mas de boa qualidade. Estavam todas cuidadosamente dobradas e arrumadas, e recen­diam levemente a água de rosas.

Uma caixa de jóias repousava sobre a penteadeira em frente ao espelho. Alguns broches, um colar de pérolas amareladas e uma pulseira de ouro misturavam-se a vários pares de brincos e um crucifixo de prata. Suas alianças de casamento e noivado descansavam, rígidas, sobre o feltro vermelho gasto, como se raramente saíssem dali.

O quarto da frente, em contraste, era vazio e espartano, com exceção de uma cama de solteiro e de uma escrivaninha debaixo da janela sobre a qual havia uma luminária. Authié aprovava aquele estilo. O quarto o fazia pensar nas austeras células de uma abadia.

Havia sinais de ocupação recente. Um copo de água pela metade descan­sava sobre a mesinha-de-cabeceira, ao lado de um volume de poesia occitana de René Nelli, as páginas marcadas nas bordas. Authié foi até a escrivaninha. Em cima dela havia uma caneta e um tinteiro antiquados, junto com várias folhas de papel grosso. Havia também um pedaço de mata-borrão, pouco usado.

Ele mal podia acreditar no que estava vendo. Alguém havia se sentado naquela escrivaninha e escrito uma carta para Alice Tanner. O nome estava perfeitamente legível no mata-borrão.

Authié virou o mata-borrão de cabeça para baixo e tentou decifrar a assinatura, semivisível no canto inferior. A caligrafia era antiquada, e algumas das letras se uniam às outras, mas ele insistiu até obter o esqueleto de um nome.

Dobrou o papel rugoso e guardou-o no bolso da camisa. Quando se virou para sair do quarto, seu olhar foi atraído por um pedaço de papel caído no chão, preso entre a porta e o batente. Authié o pegou. Era o pedaço de uma passagem de trem, só de ida, com a data daquele dia. O destino, Carcassonne, estava legível, mas o nome da estação onde o bilhete fora emitido estava faltando.

O som dos sinos de Saint-Gimer batendo as horas lembrou-lhe do pou­co tempo que tinha para voltar. Com um último olhar em volta para verificar que tudo estava do mesmo jeito que encontrara, ele saiu pelo mesmo lugar por onde havia entrado.

Vinte minutos depois, estava sentado na varanda de seu apartamento no Quai de Paicherou, olhando por sobre o rio para a Cité medieval. Na mesa à sua frente havia uma garrafa de Château Villerambert Moureau e dois copos. Em seu colo, uma pasta contendo as informações que sua secretária consegui­ra reunir sobre Jeanne Giraud durante a hora anterior. A outra pasta continha o relatório preliminar do antropólogo legista sobre os corpos encontrados na caverna.

Authié pensou por alguns instantes, depois removeu várias folhas da pas­ta sobre Jeanne Giraud. Tornou a lacrar o envelope, serviu-se um copo de vinho e esperou sua visita chegar.

 

Por toda a extensão da alta margem do rio por onde corria o Quai de Paicherou, havia homens e mulheres sentados em bancos de metal de frente para o rio Aude. Os gramados extensos e bem cuidados dos jardins públicos eram divi­didos por canteiros plantados com flores de cores brilhantes e caminhos arru­mados. Os roxos, amarelos e laranjas vibrantes do parquinho infantil combi­navam com as cores espalhafatosas das flores nos canteiros — lírios tochas, imensos copos de leite, esporas e gerânios.

Marie-Cécile lançou um olhar aprovador para o prédio onde morava Paul Authié. Era bem o que ela esperava: um quartier discreto e pouco chamativo, sem ostentação, composto por uma mistura de casas de família e apartamentos particulares. Enquanto ela olhava, uma mulher com um lenço de seda roxo no pescoço e uma camisa vermelha brilhante passou de bicicleta pela trilha.

Ela percebeu que alguém a estava observando. Sem virar a cabeça, er­gueu os olhos e viu um homem em pé na varanda do último andar, com as duas mãos apoiadas na sacada de ferro fundido, olhando para o carro lá em­baixo. Marie-Cécile sorriu. Reconheceu Paul Authié pelas fotografias. Aquela distância, não parecia que os retratos lhe houvessem feito justiça.

Seu motorista tocou a campainha. Ela viu Authié se virar, em seguida desaparecer pelas portas da varanda. Quando seu motorista começou a abrir a porta do carro, Authié já estava em pé na entrada, pronto para recebê-la.

Ela escolhera as roupas com cuidado: um vestido de linho marrom claro, sem mangas, e um paletó combinando; formal, mas não oficial demais. Muito simples, muito elegante.

De perto, sua primeira impressão se reforçou. Authié era alto e tinha músculos bem tonificados; vestia um terno casual, embora bem-cortado, e uma camisa branca. Seus cabelos estavam afastados da testa, realçando os os­sos delicados de seu rosto pálido. Um olhar intimidador. Mas, por baixo do exterior mundano, Marie-Cécile pressentia a determinação de alguém que lu­tava usando as próprias mãos.

Dez minutos depois, tendo aceitado um copo de vinho, ela teve a sensa­ção de já ter avaliado o homem com quem estava lidando. Marie-Cécile sorriu ao inclinar-se para a frente e apagar seu cigarro no pesado cinzeiro de vidro.

— Bon, aux affaires. Lá dentro seria melhor, acho eu.

Authié se afastou para deixá-la transpor as portas de vidro que conduziam à sala de estar imaculada e impessoal. Tapetes e abajures claros, cadeiras de encosto alto em volta de uma mesa de vidro.

Mais vinho? Ou posso oferecer alguma outra bebida à senhora?

Pastis, se tiver.

Com gelo? Com água?

Com gelo.

Marie-Cécile sentou-se em uma das poltronas de couro creme dispostas na diagonal de ambos os lados de uma pequena mesa de centro de vidro, e observou-o preparar os drinques. Um leve cheiro de anis encheu o ar.

Authié entregou-lhe a bebida antes de se acomodar na outra poltrona.

— Obrigada — agradeceu ela, sorrindo. — Então. Paul. Se não se in­comodar, eu gostaria que você repassasse exatamente a seqüência dos acontecimentos.

Se o pedido o irritou, ele não deu mostras. Ela o observou com atenção enquanto ele falava, mas seu relatório foi claro e preciso, idêntico em cada pormenor ao que ele lhe fizera antes.

E os esqueletos em si? Foram levados para Toulouse?

Para o departamento de antropologia forense da universidade, sim.

Quando você espera ter alguma notícia?

A resposta dele foi passar-lhe o envelope A4 branco que estava em cima da mesa. Não sem um toque de exibicionismo, pensou ela.

— Já? Que trabalho rápido.

— Eu cobrei um favor que me deviam.

Marie-Cécile pôs o envelope no colo.

Obrigada. Vou ler mais tarde — disse, suave. — Enquanto isso, por que você não resume para mim o que o relatório diz? Você já leu, imagino?

É só um relatório preliminar, ainda faltam os resultados de uns exames mais detalhados — alertou ele.

Tudo bem — disse ela, reclinando-se na poltrona.

Os ossos são de um homem e de uma mulher. As estimativas indicam algo entre setecentos e novecentos anos de idade. O esqueleto do homem exi­bia sinais de ferimentos ainda não cicatrizados no quadril e no alto do fêmur, o que sugere a possibilidade de terem sido inflingidos logo antes da morte.

Havia também sinais de fraturas mais antigas, cicatrizadas, no braço direito e na clavícula.


E a idade?

Era um homem adulto, nem jovem nem velho. Algo entre vinte e sessenta anos. Eles devem conseguir definir isso melhor depois dos outros exames. A mulher estava mais ou menos na mesma faixa etária. A cavidade craniana tinha uma depressão em um dos lados, que poderia ter sido causada ou por uma pancada na cabeça, ou por uma queda. Ela teve pelo menos um filho.

Também havia sinais de uma fratura cicatrizada no pé direito, e de uma quebra não cicatrizada no cúbito esquerdo, entre o cotovelo e o pulso.

E a causa da morte?

A esta altura, ele ainda não quer se comprometer, mesmo que na opinião dele vá ser difícil isolar um diagnóstico claramente identificável. Por causa do período em questão, é provável que os dois tenham morrido de uma combinação de fatores: os ferimentos, perda de sangue, e possivelmente fome.

Ele acha que eles ainda estavam vivos quando foram fechados na caverna?

Authié deu de ombros, embora ela tenha registrado um frêmito de inte­resse em seus olhos cinzentos. Marie-Cécile tirou um cigarro da cigarreira e girou-o entre os dedos por um instante, enquanto pensava.

E os objetos encontrados entre os corpos? — perguntou, inclinando-se para frente para que ele acendesse seu cigarro.

Outra vez as mesmas ressalvas, mas a estimativa dele é que eles sejam do final do século XII até meados do século XIII. A lamparina no altar pode ser ligeiramente mais antiga, e é de fabricação árabe, possivelmente da Espanha, mais provavelmente de mais longe. A faca era uma faca comum de mesa, para cortar carne e frutas. A lâmina tem vestígios de sangue. Os testes vão confir­mar se o sangue é animal ou humano. A sacola era de couro, feita na região e típica do Languedoc naquele período. Nenhuma pista sobre o que tinha dentro, se é que tinha alguma coisa, mas o forro revelou partículas de metal e a costura leves traços de pele de carneiro.

Marie-Cécile manteve a voz o mais firme possível.

O que mais?

A mulher que descobriu a caverna, Dra. Tanner, encontrou uma fivela grande de cobre e prata. Ela estava presa debaixo da pedra do lado de fora da entrada da caverna. Ele também datou a fivela no mesmo período, e acha que ela é da região, ou talvez aragonense. Tem uma fotografia da fivela no envelope.

Marie-Cécile fez um gesto de desinteresse.

— Não estou interessada em uma fivela, Paul — disse. Soprou uma espiral de fumaça no ar. — Mas eu quero, isso sim, saber por que você não encontrou o livro.

Ela observou os dedos compridos dele apertarem os braços da poltrona.

— Não foram encontradas provas de que o livro estava lá — disse ele, calmo. — Mesmo que a sacola de couro seja com certeza grande o suficiente para conter um livro do tamanho que a senhora está procurando.

E o anel? Você também tem dúvidas de que ele estivesse lá?

Mais uma vez, ele não deixou que ela o provocasse.

Pelo contrário, tenho certeza de que o anel estava lá.

Então?

Estava lá, mas, em algum momento entre a descoberta da caverna e a minha chegada com a polícia, alguém pegou.

Mas você também não tem provas disso — falou ela, a voz agora incisiva. — A não ser que eu esteja errada, você também não está com o anel.

Marie-Cécile ficou olhando enquanto Authié tirava do bolso um pedaço de papel.

— A Dra. Tanner insistiu muito, tanto que desenhou isto — falou, estendendo o papel. — Está malfeito, reconheço, mas corresponde bastante bem à descrição que a senhora me deu. Não acha?

Ela pegou o esboço da mão dele. O tamanho, a forma e a proporção não eram idênticos, mas eram próximos o suficiente do diagrama do anel do labi­rinto que Marie-Cécile tinha trancado em seu cofre em Chartres. Ninguém fora da família de l'Oradore o tinha visto por oitocentos anos. Não havia como aquilo não ser genuíno.

— Que artista... — murmurou ela. — Este foi o único desenho que ela fez?

Os olhos cinza dele encararam os dela sem hesitação.

Ela fez outros, mas esse era o único que valia a pena.

Por que você não deixa eu decidir isso? — perguntou ela, baixinho.

Madame de l'Oradore, infelizmente este foi o único desenho que eu trouxe. Os outros pareciam irrelevantes. — Authié deu de ombros, pedindo desculpas. — Além disso, o inspetor Noubel, encarregado da investigação, já estava desconfiado do meu interesse.

— Da próxima vez... — ela começou a dizer, depois se interrompeu.

Apagou o cigarro, esmagando o com tanta força que o tabaco espalhou-se no cinzeiro. — Você revistou os pertences da Dra. Tanner, imagino?

Ele assentiu.

O anel não estava lá.

É pequeno. Seria fácil ela ter escondido em algum lugar.

Tecnicamente, sim — concordou ele —, mas eu não acho que tenha escondido. Se ela tivesse roubado o anel, por que falaria nele, para começo de conversa? Além disso — ele se inclinou para frente e tocou o papel com os dedos —, se ela estivesse com o original, por que se daria ao trabalho de fazer este desenho?

Marie-Cécile olhou para o papel.

Está surpreendentemente exato para algo desenhado de memória.

Concordo.

Onde ela está agora?

Aqui em Carcassonne. Parece que tem uma reunião com uma advogada amanhã.

Para quê?

Ele deu de ombros.

— Uma herança, algo assim. O vôo dela de volta para casa está marcado para domingo.

As dúvidas que Marie-Cécile tinha desde o instante em que ficara saben­do da descoberta, na véspera, estavam se intensificando quanto mais ele falava. Alguma coisa não fazia sentido.

— Como foi que a Dra. Tanner conseguiu uma vaga na equipe? — per­guntou. — Ela foi indicada?

Authié pareceu surpreso.

— A Dra. Tanner na verdade não era um membro da equipe — disse ele, casual. — Eu tenho certeza de que mencionei isso.

Os lábios dela se contraíram.

Não mencionou, não.

Desculpe — disse ele, educado. — Tinha certeza de que tinha men­cionado. A dra. Tanner é voluntária. Já que a maioria das escavações depende de trabalho não remunerado, quando pediram para ela se juntar à equipe esta semana, não parecia haver nenhum motivo para recusar.

Quem fez o pedido?

Shelagh O'Donnell, acho eu — disse ele sem entusiasmo —, a número dois da escavação.

Ela é amiga da Dra. O'Donnell? — perguntou Marie-Cécile, lutando para esconder a surpresa.

É claro que já passou pela minha cabeça que a Dra. Tanner pudesse ter entregue o anel para ela. Infelizmente, não tive oportunidade de fazer uma entrevista com ela na segunda, e agora ela parece ter sumido.

Ela parece ter o quê? — perguntou Marie-Cécile, abrupta. — Quando? Quem sabe disso?

— A Dra. O'Donnell estava na sede da escavação ontem à noite. Ela recebeu um telefonema, e logo em seguida saiu. Ninguém mais a viu desde então.

Marie-Cécile acendeu outro cigarro para acalmar os nervos.

Por que ninguém me contou isso antes?

Não imaginei que a senhora fosse se interessar por uma coisa tão periférica às nossas preocupações principais. Me desculpe.

A polícia foi informada?

Ainda não. O Dr. Brayling, diretor da escavação, deu alguns dias de folga para todo mundo. Ele acha possível... provável... que a dra. O'Donnell tenha simplesmente ido embora sem se dar ao trabalho de avisar a ninguém.

Eu não quero a polícia metida nisso — disse ela, firme. — Seria extremamente desagradável.

Concordo, madame de l'Oradore. O Dr. Brayling não é bobo. Se ele acha mesmo que a Dra. O'Donnell tirou alguma coisa da escavação, então envolver as autoridades não é exatamente a melhor coisa para ele.

Você acha que a Dra. O'Donnell roubou o anel?

Authié se esquivou da pergunta.

Acho que ela precisa ser encontrada.

— Não foi isso que eu perguntei. E o livro? Você acha que ela pode ter levado o livro também?

Authié a encarou bem de frente.

Como eu já disse, não tenho certeza de que o livro algum dia esteve lá. — Ele fez uma pausa. — Se estava, não estou convencido de que ela pode­ ria ter tirado o livro da escavação sem ser vista. O anel é outra história.

Bom, alguém tirou — disparou Marie-Cécile, frustrada.

Como eu já disse, se é que ele um dia esteve lá.

Marie-Cécile se levantou num pulo, pegando-o de surpresa, e deu a vol­ta na mesa até ficar em pé na sua frente. Pela primeira vez, ela viu um lampejo de alarme naqueles olhos cinza. Curvou-se para frente e pousou a mão espalmada sobre o peito dele.

— Estou sentindo seu coração bater — disse, suave. — Bater muito depressa. Por que será, Paul? — Sem parar de encará-lo, ela tornou a empurrá-lo para trás na cadeira. — Eu não tolero erros. E não gosto que não me man­tenham informada. — Os olhos deles se encararam. — Entendeu?

Authié não respondeu. Ela não esperava que o fizesse.

Tudo que você precisava fazer era me entregar os objetos que prome­teu. É para isso que eu estou pagando você. Então encontre a garota inglesa, cuide do Noubel se tiver de cuidar, e o resto é problema seu. Eu não quero ouvir falar nisso.

Se eu fiz alguma coisa para dar a impressão de que...

Ela levou os dedos aos lábios dele e sentiu-o recuar com o contato físico.

— Eu não quero escutar.

Ela diminuiu a pressão e afastou-se dele, saindo novamente para a varan­da. O cair da noite havia roubado a cor de todos os objetos, deixando os edifícios e pontes destacados contra o céu cada vez mais escuro.

Instantes depois, Authié foi até o lado dela.

— Eu não tenho dúvidas de que você está fazendo o melhor possível, Paul — disse ela baixinho. Ele pousou as mãos ao lado das dela sobre a balaustrada e, por um instante, seus dedos se tocaram. — Existem outros membros da Noublesso

Veritable em Carcassone, é claro, que poderiam fazer o trabalho tão bem quanto você. Mas, levando em conta a extensão do seu envolvimento até agora...

Ela deixou a frase incompleta. Pelo retesamento dos ombros e das costas dele, soube que o alerta havia surtido efeito. Levantou a mão para chamar a atenção do motorista que esperava lá embaixo.

— Eu gostaria de visitar pessoalmente o Pic de Soularac.

A senhora vai ficar em Carcassonne?

Ele escondeu o sorriso.

Vou, por alguns dias.

Eu estava pensando que a senhora não iria querer entrar na câmara até a noite da cerimônia...

Mudei de idéia — disse ela, virando-se de frente para ele. — Agora que estou aqui. — Ela sorriu. — Tenho algumas coisas para fazer, então pode me pegar à uma hora, assim vou ter tempo de ler o seu relatório. Estou hospe­dada no Hôtel de la Cité.

Marie-Cécile tornou a entrar na sala, pegou o envelope e o pôs na bolsa.

— Bien. A demain, Paul. Durma bem.

Consciente dos olhos dele em suas costas enquanto descia a escada, Marie-Cécile não pôde deixar de admirar o autocontrole dele. Mas, quando estava entrando no carro, teve a satisfação de ouvir um copo se espatifar contra a parede no apartamento de Authié, dois andares acima.

O saguão do hotel estava dominado pela fumaça de charutos. Pessoas toma­vam drinques depois do jantar, vestindo ternos de verão ou vestidos de noite, aninhadas nas fundas poltronas de couro ou nas sombras discretas dos assen­tos de mogno de alto espaldar.

Marie-Cécile subiu lentamente a ampla escadaria. Fotografias em preto-e-branco a fitavam, lembranças do célebre passado do hotel na virada do sécu­lo XIX para o XX.

Quando chegou ao quarto, ela tirou as roupas e vestiu o roupão. Como sempre, último ato do dia, olhou-se no espelho, imparcial, como se examinas­se uma obra de arte. Pele translúcida, maçãs do rosto altas, o típico perfil da família de l'Oradore.

Marie-Cécile alisou o rosto e o pescoço com os dedos. Não permitiria que sua beleza se atenuasse com o passar dos anos. Se tudo corresse bem, então ela conseguiria fazer aquilo que seu avô sonhara fazer. Vencer a velhice. Ven­cer a morte.

Ela franziu o cenho. Mas só se conseguissem encontrar o livro e o anel. Pegou o celular e discou. Mais decidida do que nunca, Marie-Cécile acendeu um cigarro e andou até a janela, olhando para os jardins lá fora enquanto esperava atenderem sua ligação. Conversas noturnas sussurradas flutuavam até ela vindas da varanda. Abaixo das ameias das muralhas da Cité, do outro lado do rio, as luzes da Basse Ville cintilavam como enfeites de Natal baratos, brancas e amarelas.

— François-Baptiste? C'est moi. Alguém ligou nas últimas 24 horas para o meu telefone particular? — Ela escutou. — Não? Ela ligou para você? — Esperou. — Acabei de ficar sabendo de um problema por aqui. — Enquanto falava, ela tamborilava com os dedos sobre o próprio braço. — Alguma novidade sobre aquele outro assunto?

A resposta não foi o que ela queria ouvir.

— Nacional ou só local? — Uma pausa. — Me mantenha informada.

Ligue se surgir mais alguma coisa, fora isso devo voltar na quinta à noite.

Depois de desligar, Marie-Cécile permitiu que seus pensamentos se vol­tassem para o outro homem em sua casa. Will era um doce, gostava de agra­dar, mas o relacionamento havia se esgotado. Ele era exigente demais, e seus ciúmes de adolescente estavam começando a irritá-la. Ele estava sempre fazen­do perguntas. Ela não precisava de complicações naquele momento.

Além disso, precisavam da casa só para eles.

Ela acendeu a luz de leitura e pegou o relatório que Authié lhe dera sobre os esqueletos, assim como um dossiê sobre o próprio Authié que trouxera na mala e que havia sido compilado quando ele se apresentara como candidato à eleição para a Noublesso Véritable, dois anos antes.

Folheou o documento, embora o conhecesse bastante bem. Havia duas acusações de agressão sexual de sua época de estudante. As duas mulheres deviam ter sido pagas para fechar a boca, presumiu ela, já que nenhuma havia prestado queixa. Havia alegações de agressão a uma mulher argelina durante uma passeata pró islâmica, embora mais uma vez nenhuma queixa houvesse sido dada; sinais de envolvimento em uma publicação anti-semita na universi­dade, bem como alegações de maus tratos sexuais e físicos da ex-mulher, tam­bém sem conseqüências.

Mais significativas eram as doações regulares e cada vez mais substanciais à Sociedade de Jesus, os jesuítas. Durante os dois últimos anos, seu envolvimento com os grupos fundamentalistas opostos ao Vaticano II e à modernização da Igreja Católica também havia aumentado.

Na concepção de Marie-Cécile, essas provas de compromisso religioso linha-dura não combinavam muito com o fato de ele fazer parte da Noublesso. Authié havia prometido prestar serviços à organização, e até então tinha se mostrado útil. Organizara a escavação no Pic de Soularac com eficiência, e tudo parecia bem encaminhado para concluir o assunto com a mesma rapidez. O alerta sobre a falha de segurança em Chartres fora dado através de um de seus contatos. Sua inteligência era sempre penetrante e confiável.

Mesmo assim, Marie-Cécile não confiava nele. Era ambicioso demais. Os fracassos das últimas 48 horas contrastavam com seus sucessos. Ela não acreditava que ele seria tão estúpido a ponto de pegar ele próprio o anel ou o livro, mas Authié não parecia ser o tipo de homem que deixava as coisas sumi­rem debaixo de seu nariz.

Ela hesitou, então deu um segundo telefonema.

— Tenho um serviço para você. Estou interessada em um livro, com aproximadamente vinte centímetros de altura e dez de largura, capa de madei­ra forrada de couro, preso por tiras de couro. E também um anel masculino de pedra, com a face reta, uma linha fina pelo meio e uma gravação na parte interna. Pode ser que junto com ele esteja também um pequeno amuleto, mais ou menos do tamanho de uma moeda de um euro. — Ela fez uma pausa. — Carcassonne. Um apartamento no Quai de Paicherou e um escritório na rue de Verdun. Os dois imóveis estão em nome de Paul Authié.


 

O hotel de Alice ficava imediatamente em frente aos portões principais para entrar na Cité medieval, rodeado por belos jardins, um pouco afastado da rua.

Ela foi conduzida até um quarto confortável no primeiro andar. Alice escancarou a janela para deixar o mundo entrar. Cheiros de carne sendo pre­parada, de alho e baunilha, de fumaça de charuto flutuaram quarto adentro.

Ela desfez as malas rapidamente, tomou uma ducha, depois tornou a ligar para Shelagh, mais por hábito do que de fato esperando alguma coisa. Mais uma vez, ninguém atendeu. Ela deu de ombros. Ninguém a podia acusar de não ter tentado.

Armada com o guia comprado em um posto de gasolina durante a via­gem a Toulouse, Alice saiu do hotel e atravessou a rua em direção à Cité. Íngremes degraus de concreto conduziam a um pequeno parque margeado em dois lados por arbustos, sempre vivas e plátanos. Um carrossel do século XIX, intensamente iluminado, dominava o extremo mais afastado do jardim; suas ornamentações berrantes fin-de-siècle pareciam fora de lugar à sombra das for­tificações medievais de arenito. Coberto por um toldo listrado de branco e marrom, com uma frisa decorada por cavaleiros, damas e cavalos brancos ao redor da borda, tudo nele era cor-de-rosa e dourado — cavalos empinados, xícaras de chá que giravam, carruagens de contos de fada. Até a bilheteria parecia um brinquedo de parque de diversões. Uma sineta tocou, crianças gritaram, e o carrossel começou a girar, liberando devagar sua antiga melodia mecânica.

Depois do carrossel, Alice podia ver as cabeças e ombros cinzentos de tumbas e lápides atrás dos muros do cemitério, com uma fileira de ciprestes e teixos a proteger os que descansavam dos olhares dos curiosos. À direita dos portões, um grupo de homens jogava pétanque.

Por um instante, ela ficou parada, bem de frente para a entrada da Cité, preparando-se para entrar. À sua direita havia um pilar de pedra onde empoleirava-se uma feia gárgula de rosto achatado, implacável e duro. Parecia ter sido recentemente restaurada.

SUM CARCAS. Sou Carcas.

Dama Carcas, rainha e esposa sarracena no rei Balaack, em homenagem a quem se dizia que Carcassonne havia sido batizada depois de resistir a um cerco de cinco anos comandado por Carlos Magno.

Alice atravessou a ponte levadiça coberta, atarracada, pouco espaçosa e feita de pedra, correntes de metal e madeira. As tábuas do chão rangiam e estalavam debaixo de seus pés. Não havia água no fosso lá embaixo, apenas grama salpicada de flores selvagens.

A ponte se abria para o Lices, uma área ampla, de chão de terra batida, que ficava entre os anéis externo e interno das fortificações. A esquerda e à direita, crianças subiam nos muros e travavam combates de mentira com espa­das de plástico. Ao passar debaixo do arco alto e estreito, Alice ergueu os olhos. Uma benevolente estátua de pedra da Virgem Maria a olhava lá de cima.

No instante em que Alice atravessou os portões, toda noção de espaço desapareceu. A rue Cros-Mayrevieille, a via principal calçada de pedra, era muito estreita e íngreme. Os prédios eram tão próximos uns dos outros que uma pessoa podia se inclinar no último andar de uma casa e dar as mãos a alguém do outro lado da rua.

As construções altas confinavam os ruídos. Línguas diferentes, gritos, risos, gestos, enquanto os carros passavam e deixavam apenas o espaço de um palmo sobrando de cada um dos lados. Lojas pipocavam à sua frente, vendendo postais e guias; um manequim preso a um tronco de madeira anunciava um museu de instrumentos de tortura da Inquisição; havia sabo­netes, almofadas e roupa de mesa; por toda parte réplicas de espadas e escu­dos. Suportes de ferro fundido retorcido brotavam das paredes segurando placas de madeira: L'Éperon Medieval, A Espora Medieval, vendia réplicas de espadas e bonecas de porcelana; À Saint-Louis vendia sabonetes, suvenires e roupa de mesa.

Alice deixou que seus pés a guiassem até a praça principal, a Place Mar­cou. Era pequena e repleta de restaurantes e plátanos podados. Os galhos com­pridos das árvores, amplos como mãos unidas protegendo as mesas e cadeiras, competiam com os toldos de cores brilhantes. Estes traziam escritos em cima os nomes de cada café: Le Marcou, Le Trouvère, Le Menèstrel.

Alice passeou pela praça calçada de pedra e saiu do outro lado, indo dar novamente no cruzamento da rue Cros-Mayrevieille com a Place du Château, onde um triângulo de lojas, crêperies e restaurantes cercava um obelisco de pedra de cerca de dois metros e meio de altura, encimado por um busto do historiador oitocentista Jean Pierre Cros-Mayrevieille. Ao redor de sua base havia um friso de bronze reproduzindo as fortificações.

Ela seguiu em frente até se deparar com o alto muro semicircular que protegia o Château Comtal. Atrás dos imponentes portões trancados viam-se as torretas e ameias do castelo. Uma fortaleza dentro de outra fortaleza.

Alice parou, percebendo que aquele havia sido seu destino desde o co­meço. O Château Comtal, lar da família Trencavel.

Espiou por entre os altos portões de madeira. Havia algo de conhecido naquilo, como se ela estivesse voltando para um lugar onde já houvesse estado, muito tempo antes, e esquecido. Duas bilheterias de vidro ladeavam a entra­da, com as venezianas abaixadas, e placas impressas informavam os horários de funcionamento. Mais adiante havia um espaço cinzento de chão de cascalho e terra, e não de grama, que conduzia a uma ponte chata e estreita, com cerca de dois metros de uma ponta à outra.

Alice afastou-se dos portões, prometendo a si mesma que voltaria bem cedo na manhã seguinte. Dobrou à direita e seguiu as indicações para a Porte de Rodez. Esta ficava entre duas torres singulares, em forma de ferradura. Ela subiu os degraus largos, gastos no meio por incontáveis pés.

A diferença de idade entre os muros internos e externos era mais evidente ali. As fortificações externas, que segundo ela havia lido tinham sido construídas no final do século XIII e restauradas durante o XIX, eram cinza, e os blocos de pedra tinham mais ou menos o mesmo tamanho. Detratores alegavam que aquilo era apenas mais uma indicação de como a restauração havia sido malfeita. Isso não tinha importância para Alice. O que a comovia era a atmosfera do lugar. A muralha interna, parte dela formada pelo muro ocidental do próprio Château Comtal, exibia uma mistura dos tijolos vermelhos dos galo romanos com o arenito em ruínas do século XII.

Depois da algazarra da Cité, Alice experimentou uma sensação de paz; teve a impressão de pertencer àquele lugar, entre aquelas montanhas e aquele céu. Com os braços apoiados nas ameias, ficou olhando para o rio lá embaixo, imaginando a sensação fria da água entre os dedos dos pés.

Foi somente quando os restos do dia cederam lugar ao crepúsculo que Alice se virou e tornou a descer em direção à Cité.

 

                                Carcassona

                                 JULHET 1209

 Aproximando-se de Carcassonne, eles vinham em fila indiana, Raymond-Roger Trencavel à frente, seguido de perto por Bertrand Pelletier. O chevalier Guilhem du Mas fechava o cortejo.

Alaïs estava atrás com os religiosos.

Menos de uma semana havia se passado desde que ela saíra de casa, mas parecia muito mais. O moral estava baixo. Embora as insígnias da família Trencavel flutuassem intactas na brisa, e o mesmo número de homens que havia partido estivesse retornando, a expressão no rosto do visconde contava a história do fracasso de sua petição.

Ao chegar perto dos portões, os cavalos diminuíram o passo. Alaïs incli­nou-se para a frente e afagou o pescoço de Tatou. A égua estava cansada e havia perdido uma ferradura, mas sua resistência fora irrepreensível.

A multidão já se aglomerava em várias camadas de pessoas quando eles passaram sob o brasão Trencavel, suspenso entre as duas torres da Porte Narbonnaise. Crianças corriam ao lado dos cavalos, jogando flores sob seus cascos e dando vivas. Nas janelas mais altas, mulheres sacudiam bandeiras improvisadas e lenços, enquanto Trencavel os conduzia rua acima em direção ao Château Comtal.

Alaïs não sentiu nada além de alívio quando atravessaram a ponte es­treita e entraram pelos Portões Orientais. A Cour d'Honneur explodiu em sons, com todos acenando e gritando. Écuyers se adiantavam para pegar os cavalos dos patrões, criados para preparar a casa de banhos, ajudantes de cozinha corriam com baldes d'água para que um banquete pudesse ser preparado.


Em meio à floresta de braços que acenavam e rostos que sorriam, Alaïs viu Oriane de relance. O criado de seu pai, François, estava em pé logo atrás. Ela enrubesceu ao pensar em como o havia enganado e fugido bem debaixo de seu nariz.

Viu Oriane vasculhar a multidão com os olhos. Estes se fixaram por um breve instante em seu marido, Jehan Congost. Uma expressão de desprezo cruzou o rosto de Oriane antes de ela continuar movendo os olhos e, para desconforto de Alaïs, pousá-los nela. Alaïs fingiu não perceber, mas pôde sen­tir a irmã a encará-la através do mar de cabeças. Quando tornou a olhar, Oriane não estava mais lá.

Alaïs desmontou, tomando cuidado para não esbarrar com o ombro machucado, e entregou as rédeas de Tatou a Amiel para que ele conduzisse a égua de volta ao estábulo. Seu alívio por ter chegado em casa já havia passado. A melancolia se abatia sobre ela como uma névoa de inverno. Todos pareciam estar nos braços de alguém: esposa, mãe, tia, irmã. Ela procurou Guilhem, mas não o viu. Já está na casa de banhos. Até mesmo seu pai havia desaparecido.

Alaïs andou até o pátio menor, querendo ficar sozinha. Não conseguia tirar da cabeça um verso de Raymond de Mirval, embora ele só fizesse piorar seu humor: "Res contr'Amor non es guirens, lai on sos poders s'atura." Não há remédio contra o amor, quando ele decide exercer o seu poder.

Quando Alaïs havia escutado o poema pela primeira vez, as emoções que ele exprimia lhe eram desconhecidas. Mesmo então, sentada na Cour d'Honneur, os braços finos a segurar seus joelhos de menina, escutando o trouvère cantar sobre um coração partido em dois, ela já entendia bastante bem os sentimentos por trás dos versos.

Lágrimas brotaram-lhe dos olhos. Irritada, ela as enxugou com as costas da mão. Não sentiria pena de si mesma. Sentou-se em um banco reservado na sombra.

Ela e Guilhem haviam passeado muitas vezes pela Cour du Midi nos dias antes de seu casamento. Na época, as árvores estavam ficando douradas, e o chão coberto por um tapete de folhas outonais, cor de cobre queimado e ocre. Com a ponta da bota, Alaïs fez um desenho na terra, perguntando-se se ela e Guilhem fariam as pazes. A ela faltava habilidade para isso; a ele, inclinação.

Oriane muitas vezes passava dias sem falar com o marido. Então, tão depressa quanto o silêncio havia caído, ele se dissipava, e Oriane se mostrava mais uma vez doce e atenciosa com Jehan, até a vez seguinte. As poucas lem­branças que Alaïs tinha do casamento dos pais também eram de períodos se­melhantes de luz e escuridão.

Alaïs não esperava que esse fosse ser o seu destino. Havia se postado diante do padre na capela com seu véu vermelho e pronunciado os votos matrimoniais, com as chamas bruxuleantes das velas vermelhas da festa de São Miguel fazendo as sombras dançarem sobre o altar enfeitado de azarola de inverno florida. Havia acreditado, e no fundo do coração ainda acreditava, em um amor que durasse para sempre.

Sua amiga e mentora, Esclarmonde, era procurada pelos amantes por suas poções e encantamentos para conseguir ou recuperar o afeto de alguém. Folhas de hortelã e pastinaca embebidas em vinho, miosótis para fazer um amante continuar a ser generoso, buquês de prímula amarela. Apesar de todo seu respeito pelos talentos de Esclarmonde, Alaïs sempre desprezara esse tipo de comportamento, considerando-o uma bobagem supersticiosa. Não queria acreditar que o amor pudesse ser enganado e comprado com tamanha facilidade.

Havia outros, ela sabia, que se envolviam em magias mais perigosas, amuletos negros para enfeitiçar ou prejudicar pretendentes infiéis. Esclarmonde a alertava sobre os perigos desses poderes obscuros, uma óbvia manifestação da mão do Diabo no mundo. Nenhum bem jamais poderia vir desses malefícios.

Naquele dia, pela primeira vez na vida, Alaïs teve um lampejo de com­preensão do que podia levar as mulheres a medidas tão desesperadas.

— Filha.

Alaïs sobressaltou.

Onde você esteve? — perguntou Pelletier, ofegante. — Procurei você por toda parte.

Não escutei o senhor, paire — disse ela.

Os trabalhos para preparar a Ciutat vão começar assim que o viscon­de Trencavel se reunir novamente a sua mulher e seu filho. Haverá pouco tempo para respirar nos dias que estão por vir.

Quando você espera que Simeon chegue?

Daqui a um ou dois dias. — Ele franziu o cenho. — Gostaria de ter conseguido convencê-lo a viajar conosco. Mas ele acredita que chamará me­nos atenção com seu próprio povo. Pode ser até que esteja certo.

E quando ele chegar — insistiu ela —, você vai decidir o que fazer?

Tenho um palpite sobre...

Alaïs se interrompeu, percebendo que preferia testar a própria teoria an­tes de passar por boba na frente do pai. E dele.

Palpite? — disse ele.

Não é nada — disse ela depressa. — Eu ia só perguntar se poderia estar presente quando você e Simeon se encontrarem para conversar.

A consternação atravessou o rosto enrugado dele. Ela pôde ver que ele se esforçava para decidir.


— Diante dos serviços que você prestou até aqui — disse ele por fim —, pode ouvir o que temos a dizer. Porém — ele ergueu um dedo, avisando —, sob a clara condição de que será apenas uma observadora. Qualquer participa­ção ativa sua neste assunto terminou. Não quero que você corra mais riscos.

Uma bolha de entusiasmo cresceu dentro dela. Vou convencê-lo do con­trário quando chegar a hora.

Ela baixou os olhos e uniu as mãos no colo, dócil.

— É claro, paire. Obedecerei aos seus desejos.

Pelletier lançou-lhe um olhar, mas não insistiu no assunto.

— Há um outro favor que preciso lhe pedir, Alaïs. O visconde Trencavel fará uma celebração pública de seu retorno seguro a Carcassona, enquanto a notícia de nosso fracasso no acordo com o conde de Toulouse ainda não esti­ver muito difundida. Dama Agnès vai celebrar vésperas esta noite na igreja catedral de Sant-Nasari, e não na capela. — Ele fez uma pausa. — Eu gostaria que você estivesse presente. Sua irmã também.

Alaïs ficou pasma. Embora ela comparecesse à missa na capela do Château Comtal de vez em quando, seu pai nunca havia questionado sua decisão de se abster de freqüentar a catedral.

Eu sei que você deve estar cansada, mas o visconde Trencavel acredita que é importante que nenhuma crítica justificada possa ser feita a seu compor­tamento agora, nem ao das pessoas próximas a ele. Se houver espiões dentro da Ciutat, e não tenho dúvidas de que haja, não queremos que nossas falhas espirituais, que é como comportamentos assim poderiam ser interpretados, alcancem os ouvidos de nossos inimigos.

Não é uma questão de cansaço — disse ela, furiosa. — O bispo de Rochefort e seus padres são uns hipócritas. Eles pregam uma coisa e fazem outra. — Pelletier ficou muito vermelho, embora ela não tivesse certeza se era de raiva ou de vergonha. — Segundo esse raciocínio, o senhor também vai estar presente? — perguntou ela.

Pelletier não a olhou nos olhos.

— Você há de entender que vou estar ocupado com o visconde Trencavel.

Alaïs olhou para ele com raiva.

— Muito bem — disse por fim. — Vou obedecer ao senhor, paire. Mas não espere que eu me ajoelhe diante da figura de um homem morto em uma cruz de madeira e reze.

Por um instante, ela pensou que havia sido direta demais. Então, para seu espanto, seu pai começou a rir.

— Está bem — disse ele. — Eu não esperaria nada diferente de você. Só tome cuidado, Alaïs. Não expresse essas opiniões de forma descuidada. Pode ter alguém ouvindo.


Alaïs passou as horas seguintes em seu quarto. Fez um emplastro de manjerona selvagem fresca para seu pescoço e ombro doloridos. Ao mesmo tempo, ficou escutando a conversa agradável de sua criada.

Segundo Rixende, as opiniões sobre a fuga de Alaïs do castelo de madru­gada eram controversas. Alguns demonstravam admiração pela firmeza e cora­gem de Alaïs. Outros, incluindo Oriane, a criticavam. Ele fizera seu marido de bobo agindo de forma tão impensada. Pior: havia posto em risco o sucesso da missão. Alaïs esperava que essa não fosse a opinião de Guilhem, embora te­messe que sim. As opiniões dele costumavam ser bem convencionais. Mais do que isso, o orgulho dele se feria com facilidade, e Alaïs sabia por experiência própria que seu desejo de ser admirado, celebrado dentro da casa algumas vezes o levava a dizer coisas contrárias à sua própria natureza. Se ele se sentisse humilhado, nã