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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


MAGYA / Angie Sage
MAGYA / Angie Sage

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

 

   

Silas Heap apertou ainda mais a capa em volta do corpo para se pro­teger da neve. Tinha sido uma grande caminhada através da Floresta, e estava gelado até os ossos. Mas nos bolsos levava as ervas que Galena, a Curandeira, lhe tinha dado para o seu bebê, Septimus, nascido algu­mas horas antes.

Silas estava mais perto do Castelo, e podia ver as luzes a cintilar através das árvores à medida que as pessoas punham velas nas janelas das casas altas e estreitas que se amontoavam ao longo das muralhas exteriores. Era a noite mais longa do ano, e as velas iam ficar acesas até de madrugada, para manter as trevas afastadas. Silas sempre gos­tara daquela caminhada até o Castelo. Não tinha medo da Floresta durante o dia e desfrutava do passeio tranqüilo ao longo do caminho estreito que se estendia através de quilômetros e quilômetros de denso arvoredo. Agora estava mais próximo da orla da Floresta, as árvores altas tinham começado a tornar-se mais escassas, e com o caminho a mergulhar para o fundo do vale, Silas podia ver a totalidade do Castelo a espalhar-se à sua frente. As velhas muralhas abraçavam-se ao rio largo e serpenteante e ziguezagueavam em torno do confuso amon­toado de casas. Todas as casas estavam pintadas com cores alegres, e aquelas que se encontravam voltadas para ocidente pareciam estar a arder com as janelas a apanhar os últimos raios daquele sol de Inverno.

O Castelo começara por ser uma pequena aldeia. Por estar tão próxima da Floresta, os aldeões ergueram paredes altas, de pedra, para se protegerem dos carcajus, bruxas e feiticeiros que não hesitavam em lhes roubar as ovelhas, galinhas e, de vez em quando, os próprios filhos. A medida que se foram construindo mais casas, as paredes alar­garam-se e foi escavado um profundo fosso para que todos se sentissem seguros.

Depois de pouco tempo o Castelo já atraía artífices habilidosos que vinham de outras aldeias. Cresceu e prosperou, tanto que os habitan­tes começaram a ficar sem espaço, até que alguém decidiu construir Os Bairros. Os Bairros, que era onde Silas, Sara e os meninos viviam, eram um enorme edifício de pedra que se erguia ao longo da margem do rio. Estendia-se por quatro quilômetros e meio ao longo do rio e outros tantos até o Castelo, e era um lugar muito ativo e barulhento, um emaranhado de corredores e quartos, com pequenas fabri­quetas, escolas e lojas misturadas com quartos familiares, minúsculos jardins cobertos, e até um teatro. Não havia muito espaço n’Os Bair­ros, mas as pessoas não se importavam. Havia sempre boa companhia e alguém para brincar com as crianças.

 

 

 

 

 

 

Quando o sol de Inverno desapareceu por trás das muralhas do cas­telo, Silas apressou o passo. Precisava chegar ao Portão Norte antes que o fechassem e levantassem a ponte levadiça ao cair da noite.

Foi nessa altura que Silas sentiu qualquer coisa nas proximida­des. Qualquer coisa ainda viva, mas que não agüentaria muito. Estava ciente do bater de um pequeno coração humano em algum lugar ali perto. Silas parou. Como um Feiticeiro Normal era capaz de sentir algumas coisas, mas como não era um Feiticeiro Normal muito bom, precisava se concentrar muito. Ficou muito quieto, com a neve a cair rapidamente à sua volta e já cobrindo suas pegadas. E então ouviu qualquer coisa — um fungar, um lamento, um respiro? Não tinha certeza, mas era o suficiente.

Debaixo de um arbusto ao lado do caminho havia uma trouxa. Silas pegou-a e, para sua grande surpresa, deu consigo a olhar direta­mente para os olhos solenes de uma bebê pequenina. Silas aninhou a bebê ao colo e interrogou-se como ela poderia ter ido parar ali, no meio da neve, no dia mais frio do ano. Alguém a tinha embrulhado cuida­dosamente num pesado cobertor de lã, mas mesmo assim já estava ficando com muito frio: os lábios estavam de um azul pálido e a neve cobria-lhe as sobrancelhas como se fosse pó. Com os olhos de um violeta escuro a olhar fixamente para ele, Silas teve a desconfortável impressão de que a bebê, na sua curta vida, já tinha visto coisas que nenhum bebê devia ver.

Ao pensar na sua Sara em casa, quente e segura com Septimus e os rapazes, Silas decidiu que iam ter que arranjar lugar para mais uma pequenina. Acondicionou cuidadosamente a bebê no interior de sua capa azul de Feiticeiro e apertou-a contra si, enquanto corria para o portão do Castelo. Chegou à ponte levadiça bem quando Gringe, o Guardião do Portão, estava se preparando para gritar ao Rapaz da Ponte para que começasse a levantá-la.

— Foi por um triz — rosnou Gringe. — Mas vocês, Feiticeiros, são esquisitos. Porqué’c querem andar aqui fora num dia como este é qu’eu não sei.

— Oh? — Silas queria despachar Gringe o mais depressa possível, mas primeiro tinha que lhe amanteigar as mãos com algumas moedas. Silas encontrou rapidamente um cêntimo de prata num dos bolsos e entregou-o.

— Obrigado, Gringe. Boa noite.

Gringe olhou para o cêntimo como se fosse um escaravelho particularmente repugnante.

— A Marcia Overstrand, ainda há pouco m’deu meia c’roa. Mas ela tem classe, ainda mais agora qu’é a Feiticeira ExtraOrdinária.

— O quê? — Silas quase se engasgou.

— Pois é. Classe, é o qu’ela tem.

Gringe afastou-se para deixá-lo passar, e Silas apressou-se a passar por ele. Por muito que quisesse descobrir por que é que Marcia Overstrand era subitamente a Feiticeira ExtraOrdinária, podia sentir a trouxa começar a agitar-se no calor de sua capa, e algo lhe dizia que era melhor que Gringe não soubesse sobre a bebê.

Quando Silas se preparava para desaparecer nas sombras do túnel que levava aos Bairros, um vulto alto, vestido de púrpura, entrou no caminho e impediu-lhe a passagem.

— Marcia! — exclamou Silas. — Mas o que se...

— Não diga a ninguém que a encontrou. É sua filha. Entendeu?

Em choque, Silas anuiu. Antes que tivesse tempo de dizer alguma coisa, Marcia tinha desaparecido num cintilar de névoa purpurina. Silas percorreu o resto do longo e tortuoso caminho através d’Os Bair­ros com a mente em torvelinho. Quem era esta criança? O que Marcia tinha a ver com ela? E por que é que Marcia era a Feiticeira ExtraOrdinária agora? E, à medida que se aproximava da grande porta vermelha que levava à já superlotada casa da família Heap, uma outra e mais importante pergunta lhe ocorreu: o que iria dizer a Sara por ter mais uma criança de quem cuidar?

Silas não teve muito tempo para pensar nesta última questão. Ao chegar à porta esta abriu-se de repente, e uma grande mulher de cara avermelhada, vestindo a túnica azul-escura das Matronas Parteiras, saiu correndo, quase atirando Silas ao chão. Ela também carregava uma trouxa, mas a trouxa estava embrulhada dos pés à cabeça em ligaduras, e levava-a debaixo do braço como se fosse um pacote e ela estivesse atrasada para os correios.

— Morto! — gritou a Matrona Parteira. Afastou Silas para o lado com um forte empurrão e desapareceu corredor abaixo. No interior do quarto, Sara Heap gritou.

Silas entrou com um peso no coração. Viu Sara rodeada por seis garotos muito pálidos, todos assustados demais para chorar.

— Ela o levou — disse Sara desesperada. — Septimus morreu, e ela o levou.

Nesse momento, uma umidade quente libertou-se da trouxa que Silas tinha escondida sob sua capa. Silas não encontrava palavras para aquilo que queria dizer, por isso limitou-se a tirar a bebê de sob a capa e colocou-a nos braços de Sara.

Sara Heap desfez-se em lágrimas.

 

A trouxa inseriu-se perfeitamente no lar da família Heap e foi batizada de Jenna, como a mãe de Silas.

O menino mais novo, Nicko, tinha apenas dois anos quando Jenna chegou, e esqueceu-se rapidamente de seu irmão Septimus. Com o passar do tempo, os garotos mais velhos também o esqueceram. Ado­ravam sua nova irmãzinha e traziam-lhe todo o tipo de tesouros das suas aulas de Magya na escola.

Sara e Silas, claro, não conseguiam esquecer Septimus. Silas cul­pava-se por ter deixado Sara sozinha e ter ido buscar as ervas para o bebê com a Curandeira. E Sara culpava-se simplesmente por tudo. Embora mal conseguisse se recordar do que se passara naquele dia tão terrí­vel, Sara sabia que tinha tentado devolver a vida ao seu bebê e não tinha conseguido. E lembrava-se de ver a Matrona Parteira embru­lhando o seu pequeno Septimus, dos pés à cabeça, em ligaduras e depois a correr porta afora, gritando por cima do ombro: — Morto!

Sara lembrava-se muito bem disso.

Mas, depois de pouco tempo, Sara passou a amar tanto sua bebê como tinha amado seu Septimus. Durante um tempo teve medo que aparecesse alguém e levasse Jenna também, mas com o passar dos meses Jenna tornou-se uma bebê rechonchudinha e risonha e Sara descontraiu-se e quase deixou de se preocupar.

Até o dia em que sua amiga Sally Mullin parou ofegante à sua porta. Sally Mullin era uma daquelas pessoas que sabiam sempre o que se passava no Castelo. Era uma mulher pequena e atarefada, com cabelo fino da cor de gengibre e que estava constantemente se soltando sob o seu gorduroso boné de cozinheira. Tinha um rosto redondo e agradável, um bocado gorducho por comer muitos bolos, e tinha normalmente as roupas salpicadas de farinha.

Sally tinha um pequeno café no pontão junto ao rio. A placa por cima da porta dizia:

 

                 SALÃO DE CHÁ E CERVEJA DE SALLY MULLIN

                 TEMOS QUARTOS LIMPOS

                 NÃO QUEREMOS CANALHA AQUI

 

No café de Sally Mullin não havia segredos. Tudo e todos que chegavam ao Castelo por água eram vistos e comentados, e a maior parte das pessoas que vinham ao Castelo preferia chegar de barco. Ninguém além de Silas gostava dos caminhos escuros através da Floresta que rodeava o castelo. A Floresta ainda tinha um sério problema com carcajus durante a noite e estava infestada de árvo­res carnívoras. E depois havia as Bruxas Wendron, que andavam sempre sem dinheiro e costumavam estender armadilhas aos viajan­tes distraídos, deixando-os com pouco mais do que a camisa e as meias.

O café de Sally Mullin era uma cabana quente e movimentada, empoleirada de forma precária acima da água. Barcos de todos os tamanhos e feitios ancoravam no pontão do café, despejando todo o tipo de pessoas e animais. A maioria resolvia restabelecer-se da via­gem provando pelo menos uma das fortes cervejas de Sally e uma fatia de bolo de cevada, enquanto trocavam os mais recentes mexericos. E qualquer pessoa no Castelo que tivesse meia hora para perder e uma barriga dando as horas, acabava atravessando o desgastado caminho que levava ao Portão do Molhe, passando pela Lixeira de Detritos da Amenidade Ribeirinha, e ao longo do pontão até ao Salão de Chá e Cerveja de Sally Mullin.

E Sally encarregava-se de visitar Sara pelo menos uma vez por semana, para mantê-la a par de tudo o que se passava. Na opinião de Sally, era injusto que Sara tivesse que cuidar sozinha de sete crianças, além de Silas Heap, que, tanto quanto podia ver, não fazia grande coisa para ajudar. A maior parte das histórias de Sally eram sobre pessoas de quem Sara nunca ouvira falar e que nunca chegaria a conhecer, mas ainda assim Sara esperava ansiosamente as visitas de Sally e gostava de saber as coisas que se passavam à sua volta. Mas desta vez, não só era um assunto mais importante do que os habituais mexericos, também dizia respeito diretamente a Sara. E, pela pri­meira vez, Sara sabia alguma coisa que Sally desconhecia.

Sally esgueirou-se para o interior e fechou a porta atrás de si com um ar de conspiração.

— Trago notícias terríveis — sussurrou.

Sara, que estava tentando limpar os restos do desjejum da boca de Jenna, e de todas as partes por onde a menina o tinha cuspido, e a porcaria da nova cria de cão lobo ao mesmo tempo, não estava prestando muita atenção.

— Olá, Sally — disse ela. — Há um espacinho limpo aqui. Anda e sente-se aqui. Uma xícara de chá?

— Sim, por favor. Sara, não vai acreditar nisso!

— Em quê, Sally? — perguntou Sara, à espera de ouvir qualquer coisa sobre o último caso de mau comportamento no café.

— A Rainha. A Rainha morreu!

— O quê? — exclamou Sara. Ergueu Jenny da cadeira e levou-a para um dos cantos da sala, onde estava o berço de vime. Sara deitou Jenny para tirar uma soneca. Sempre achara que os bebês deviam ser mantidos longe das más notícias.

— Morta — repetiu Sally tristemente.

— Não! — exclamou Sara. — Não acredito. Está só adoentada depois do nascimento do bebê. É por isso que não tem sido vista desde essa altura.

— Isso é o que os Guardiães da Custódia têm dito, não é? — per­guntou Sally.

— Bem, sim — admitiu Sara, servindo o chá. — Mas eles são os guardas da Rainha, por isso devem saber. Embora não consiga com­preender por que a Rainha escolheu de repente um tal bando de rufiões para a sua guarda pessoal.

Sally pegou a xícara de chá que Sara tinha colocado à sua frente.

— Obrigada. Hummm, uma delícia. Bem, exatamente... — Sally baixou a voz e olhou em volta como se esperasse encontrar um Guar­dião da Custódia encostado a um dos cantos, não que conseguisse vê-lo no meio da confusão da sala dos Heap. — Eles são um bando de rufiões. Na verdade, foram eles que a mataram.

— Mataram? A Rainha foi morta? — exclamou Sara.

— Chiuuu. Bom, veja bem... — Sally aproximou a cadeira de Sara. — Corre por aí o rumor — e soube de fonte segura...

— Ah sim, e que fonte foi essa? — perguntou Sara com um sorriso provocador.

— Ninguém mais do que Madame Marcia — Sally endireitou as costas e sentou-se para trás com um ar triunfante —, foi quem foi.

— O quê? E como é que se encontrou com a Feiticeira ExtraOrdinária? Passou pelo café para tomar uma xícara de chá?

— Quase. Foi Terry Tarsal quem passou por lá. Tinha estado na Torre dos Feiticeiros para entregar uns sapatos muito esquisitos que tinha feito para Madame Marcia. Por isso, quando se cansou de se queixar do fraco gosto para sapatos que ela tinha e do quanto odeia cobras, disse que tinha ouvido Marcia a falar com um dos outros Feiticeiros. Endor, aquele galináceo gordo, segundo parece. Bom, ouviu-os dizer que tinham dado um tiro na Rainha! E que tinham sido os Guardiães da Custódia um dos seus Assassinos.

Sara não podia acreditar no que estava ouvindo.

— Quando? — perguntou, quase sem ar.

— Bem, essa é a parte verdadeiramente horrível — sussurrou Sally, entusiasmada. — Disseram que foi no dia em que o bebê dela nasceu. Há seis meses já, e nós sem sabermos de nada. É terrível... terrível. E também dispararam sobre o Sr. Alther. Morto. Foi por isso que Marcia se tornou...

— Alther está morto? — admirou-se Sara. — Não posso acre­ditar. Realmente, não posso... Todos pensamos que tinha se aposentado. O Silas foi Aprendiz dele há uns anos atrás. Era encantador...

— Era? — perguntou Sally distraidamente, ansiosa para poder continuar com sua história. — E não é tudo, sabe? Porque o Terry ficou com a impressão de que Marcia tinha salvo a Princesa e a tinha levado para um lugar qualquer. O Endor e a Marcia estavam só con­versando, interrogando-se como ela estaria. Mas claro, quando perceberam que o Terry estava lá com os sapatos, calaram-se. A Marcia foi muito brusca com ele, segundo Terry me disse. Depois da­quilo sentiu-se um bocado estranho, e acha que devem ter lançado um Feitiço de Esquecimento nele, mas ele tinha se esquivado por trás de uma coluna quando a viu falar entre dentes e não pegou como devia ser. Está bem aborrecido com isso, porque não con­segue se lembrar se chegaram a pagar os sapatos ou não.

Sally Mullin fez uma pausa para respirar e tomar um longo gole de chá.

— A pobre Princezinha. Que Deus ajude a pequenina. Pergunto-me onde estará agora. Provavelmente definhando num calabouço qualquer. Não como aquele seu anjinho que está ali... Como vai ela?

— Oh, está muito bem — respondeu Sara, que normalmente teria se posto a falar sobre as fungadas de Jenna, os dentinhos novos de Jenna, e de como ela já conseguia se sentar e segurar sua própria xícara. Mas naquele momento Sara queria desviar as atenções de Jenna — porque Sara tinha passado os últimos seis meses a se perguntar quem seria realmente a sua bebê, e agora já sabia.

Jenna era, pensou Sara, com certeza tinha que ser... a Princesa bebê.

Pela primeira vez Sara ficou contente por se despedir de Sally Mullin. Viu-a apressar-se corredor abaixo e, ao fechar a porta atrás de si, soltou um suspiro de alívio. E então correu até o berço de Jenna.

Sara pegou Jenna no colo. Jenna sorriu e estendeu as mãos para agarrar o amuleto que Sara usava no colar.

— Bem, pequena Princesa — murmurou Sara —, sempre soube que era especial, mas nunca pensei que fosses a nossa própria Prin­cesa. — Os olhos violeta-escuros da bebê encontraram os de Sara e ela olhou solenemente para Sara como se dissesse, Pois bem, agora já sabe.

Sara voltou a deitar Jenna no berço, suavemente. Tinha a cabeça girando e as mãos tremiam ao servir-se de outra xícara de chá. Era difícil acreditar em tudo o que ouvira. A Rainha estava morta. E Alther também. A sua pequena Jenna era a herdeira do Castelo. A Princesa. O que estava acontecendo?

Sara passou o resto da tarde dividida entre olhar aturdida para Jenna, para a Princesa Jenna, e preocupar-se com o que aconteceria se alguém descobrisse quem ela era. Onde estava Silas quando ela pre­cisava dele?

 

Silas estava desfrutando de um dia de pesca com os meninos.

Havia uma pequena praia na dobra do rio um pouco depois d’Os Bairros. Silas estava mostrado a Nicko e a Jo-Jo, os dois mais novos, como atar as jarras de compota ao extremo de uma vara e mergulhá-las na água. Jo-Jo já tinha apanhado três esgana-gatos, mas Nicko deixava cair sempre a sua e começava a ficar irritado.

Silas pegou Nicko no colo e levou-o para ver Erik e Edd, os gêmeos de cinco anos. Erik estava todo satisfeito sonhando acordado e balançando um pé na água quente e límpida. Edd estava usando um ramo para mexer em qualquer coisa sob uma rocha. Era um enorme besouro d’água. Nicko soltou um queixume e agarrou-se com força ao pescoço de Silas.

Sam, que já tinha quase sete anos, era um pescador de verdade. Tinham-lhe dado uma vara de pesca de verdade no seu último aniversário, e já tinha dois pequenos peixes prateados estendidos numa rocha ao seu lado. Estava prestes a puxar um terceiro para fora d’água. Nicko gritou de entusiasmo.

— Tire-o daqui, pai. Vai assustar os peixes — disse Sam, mal-humorado.

Silas afastou-se na ponta dos pés com Nicko e foi sentar-se ao lado de seu filho mais velho, Simão. Simão tinha uma vara de pesca numa mão e um livro na outra. O sonho de Simão era tornar-se Feiticeiro ExtraOrdinário, e estava ocupado lendo todos os livros de magia antigos de Silas. Este que tinha na mão, reparou Silas, era O Encantador de Peixes Completo.

Silas contava que todos os seus filhos viessem a ser algum tipo de Feiticeiro; era tradição da família. A tia de Silas era uma famosa Bruxa Branca e tanto o pai, quanto o tio de Silas tinham sido Metamorfos, que era não só um ramo muito especializado, como um que Silas esperava que seus rapazes evitassem, pois os Metamorfos de sucesso tornavam-se cada vez mais instáveis quando ficavam mais velhos, tornando-se por vezes incapazes de manter a sua própria forma por mais do que alguns minutos de cada vez. O pai de Silas tinha acabado por desa­parecer na Floresta sob a forma de uma árvore, mas ninguém sabia qual. Era uma das razões pelas quais Silas desfrutava das suas caminhadas pela Floresta. Não raras vezes dirigia um comentário a uma árvore mais desgrenhada na esperança de que fosse seu pai.

Sara Heap vinha de uma família de Magos e Feiticeiros. Quando menina, Sara tinha estudado as ervas e curas com Galena, a Curan­deira da Floresta, onde um dia tinha conhecido Silas. Silas andava à procura do pai. Estava perdido e infeliz, e Sara levou-o com ela para ver Galena. Galena tinha-o ajudado a compreender que o seu pai, como Metamorfo que era, deveria ter escolhido o seu destino final como sendo uma árvore a muito tempo, e que agora devia estar se sentindo verdadeira­mente feliz por isso. E Silas, pela primeira vez na vida, compreendeu que também se sentia imensamente feliz sentado ao lado de Sara em frente à lareira da Curandeira.

Quando Sara tinha aprendido tudo o que podia sobre as ervas e as curas, despedira-se calorosamente de Galena e juntara-se a Silas no seu quarto n’Os Bairros. E ali tinham ficado desde então, apertando-se para receber mais e mais crianças, enquanto Silas desistia alegremente do seu Aprendizado e começava a trabalhar como um Feiticeiro Normal assalariado para poder pagar as contas. Sara fazia tinturas de ervas na cozinha quando tinha um momento livre — o que não acontecia muitas vezes.

Nessa noite, quando Silas e os rapazes subiam os degraus de volta da praia aos Bairros, um enorme e ameaçador Guardião da Custódia, vestido de preto dos pés à cabeça, barrou-lhes o caminho.

— Alto! — ladrou. Nicko começou a chorar.

Silas deteve-se e disse aos rapazes que se comportassem.

— Documentos! — gritou o Guarda. — Onde estão os seus documentos?

Silas ficou olhando para ele.

— Que documentos? — perguntou calmamente, não querendo causar quaisquer problemas quando tinha consigo seis garotos cansados e mortinhos para chegar em casa e jantar.

— Os seus documentos, escória de Feiticeiros. A área da praia está vedada a qualquer um que não tenha os documentos próprios — escarneceu o Guarda.

Silas estava chocado. Se não estivesse com os meninos, teria dis­cutido, mas tinha reparado na pistola que o guarda levava.

— Peço desculpas — disse ele. — Não sabia.

O Guarda olhou-os de alto a baixo como se decidindo o que fazer, mas felizmente para Silas tinha outras pessoas para visitar e aterro­rizar.

— Leve a sua ralé daqui para fora e não se atreva a voltar — cuspiu o Guarda. — Fiquem no seu lugar.

Silas apressou os chocados meninos degraus acima e de volta à segurança d’Os Bairros. Sam deixou seus peixes caírem e começou a soluçar.

— Pronto, pronto — disse Silas —, está tudo bem. — Mas Silas sentia que as coisas não estavam nada bem. O que estava acontecendo?

— Por que ele nos chamou de escória de Feiticeiros, pai? — pergun­tou Simão. — Os Feiticeiros são os melhores, não são?

— Sim — respondeu Silas distraidamente —, os melhores.

Mas o problema era, pensou Silas, que se fosse um Feiticeiro, não havia maneira de escondê-lo. Todos os Feiticeiros, e só os Feiticeiros, os tinham. Silas tinha, Sara tinha e todos os meninos com exce­ção de Nicko e Jo-Jo os tinham. E logo que Nicko e Jo-Jo fossem para as aulas de Magya na escola, também os teriam. Lenta, mas segura­mente, até não restarem dúvidas, os olhos de uma criança Feiticeira tornar-se-iam verdes logo que fosse exposta ao ensino da Magya. Sempre fora algo de que se orgulhar. Até agora, quando subitamente parecia ser algo perigoso.

Nessa noite, quando por fim todas as crianças estavam dormindo, Silas e Sara ficaram conversando noite adentro. Falaram de sua Princesa e de seus meninos Feiticeiros e das mudanças que tinham tomado o Castelo de assalto. Discutiram a hipótese de fugirem para os Pântanos Marram, ou irem para a Floresta e viverem com Galena. Quando a madrugada por fim surgiu e eles tinham finalmente adormecido, Silas e Sara tinham decidido fazer aquilo que os Heap faziam normalmente. Manter-se discretos e esperar que tudo corresse bem.

 

E assim, pelos nove anos e meio que se seguiram, Silas e Sara man­tiveram-se quietos. Fechavam e trancavam a porta, falavam apenas com os vizinhos e aqueles em quem podiam confiar e, quando puseram fim às aulas de Magya na escola, ensinaram Magya aos filhos em casa, à noite.

E foi por isso que, ao fim de nove anos e meio, com exceção de um, todos os Heap tinham penetrantes olhos verdes.

 

Eram seis da manhã e ainda estava escuro, exatamente dez anos passados desde que Silas encontrara a trouxa.

Ao fundo do corredor 223, por trás da grande porta preta com o número 16 carimbado pela Patrulha Numérica, o lar dos Heap dormia pacatamente. Jenna estava confortavelmente enrolada no pequeno gavetão-cama que Silas lhe fizera com pedaços de madeira que as águas haviam atirado para a margem do rio. A cama inseria-se perfeitamente num grande guarda-louça que dominava um quarto grande, que era na verdade o único quarto que os Heap tinham.

Jenna adorava sua cama no guarda-louça. Sara tinha feito cortinas de retalhos muito coloridas, que Jenna podia correr em volta da cama para se proteger do frio e dos seus barulhentos irmãos. Melhor ainda, tinha uma janelinha por cima do travesseiro e que dava para o rio. Quando Jenna não conseguia dormir, ficava horas espreitando pela janela, vendo a infindável variedade de barcos que iam e vinham do Castelo, e por vezes, naquelas noites bem claras, adorava adormecer enquanto contava as estrelas.

O quarto grande era o lugar onde os Heap viviam, cozinhavam, comiam, discutiam e (por vezes) faziam os trabalhos de casa, e estava numa grande confusão. Estava atravancado com vinte anos de tralhas que tinham se acumulado desde que Sara e Silas tinham começado a viver juntos. Havia varas de pesca e carretilhas, sapatos e meias, corda e ratoeiras, sacos e roupa de cama, redes e rendilhados, roupas e pane­las, e livros, livros, livros e mais livros.

Se vocês fossem suficientemente tolos para dar uma olhadinha no quarto dos Heap à procura de um lugar para se sentar, o mais provável era que um livro o tivesse encontrado primeiro. Para onde quer que se olhasse, havia livros. Em prateleiras encurvadas, em caixas, em sacos pendurados do teto, escorando as pernas da mesa e amontoados em pilhas tão altas que ameaçavam desmoronar-se a qualquer momento. Havia livros de histórias, livros sobre ervas, livros de cozinha, livros sobre barcos, livros sobre pesca, mas sobretudo, havia centenas de livros de Magya, que Silas havia resgatado ilegalmente da escola quando a Magya tinha sido proibida há uns anos.

No meio do quarto havia uma grande lareira, de onde uma alta cha­miné serpenteava até o telhado; continha os restos de uma fogueira, agora apagada, em volta da qual os seis rapazes Heap e um grande cão dormiam numa confusão de cobertores e colchas.

Sara e Silas também dormiam profundamente. Tinham escapu­lido para o pequeno sótão que Silas tinha adquirido há uns anos, simplesmente abrindo um buraco no teto, depois de Sara ter decla­rado que já não conseguia continuar vivendo no mesmo quarto com seis rapazes que estavam crescendo rapidamente.

Mas, no meio de todo o caos que dominava o quarto grande, podia encontrar-se uma pequena ilha de arrumação; uma mesa comprida e pouco firme estava coberta com uma toalha branca e limpa. Nela esta­vam colocados nove pratos e canecas, e à cabeça da mesa havia uma pequena cadeira decorada com bagas e folhas de azevinho. Sobre a mesa, em frente dessa cadeira, tinha sido colocado um pequeno presente cuidadosamente embrulhado em papel colorido e atado com uma fita vermelha, para que Jenna pudesse abri-lo no seu décimo aniversário.

Estava tudo calmo e silencioso enquanto os Heap dormiam paci­ficamente as últimas horas de escuridão, antes do sol de Inverno se erguer.

 

No entanto, do outro lado do Castelo, no Palácio dos Guardiães, o sono, pacífico ou não, tinha sido posto à parte.

O Supremo Guardião tinha sido chamado da cama e, com a ajuda do Servo Noturno, vestiu a sua túnica negra debruada com pelo e a capa preta e dourada, e deu instruções ao Servo Noturno sobre como devia apertar-lhe os sapatos bordados de seda. Depois ele próprio tinha posto cuidadosamente uma belíssima Coroa sobre a cabeça.

O Supremo Guardião nunca era visto sem a Coroa, que ainda tinha um pequeno amassado do dia em que caíra da cabeça da Rainha e batera no chão de pedra. A Coroa assentava meio torta na sua cabeça careca e pontiaguda, mas o Servo Noturno, por ser novo e estar aterrorizado, não se atreveu a dizer-lhe nada.

O Supremo Guardião caminhou apressadamente pelo corredor que levava à Sala do Trono. Era um homem pequeno, parecido com um rato, com olhos pálidos, quase sem cor, e uma complicada barbicha à qual estava habituado a dedicar longas e felizes horas de cuidados. Quase era engolido pela sua enorme capa, a qual estava decorada com imensas insígnias militares, e o seu aspecto tornava-se ligeiramente ridículo por causa da Coroa torta e vagamente feminina. Mas se o tives­sem visto nessa manhã, não se atreveriam a rir. Ter-se-iam encolhido nas sombras e rezado para que ele não os tivesse visto, pois o Supremo Guardião carregava consigo um poderoso ar de ameaça.

O Servo Noturno ajudou o Supremo Guardião a sentar-se no trono ornamentado na Sala do Trono. Depois foi afastado com um impaciente gesticular de mão, e escapuliu-se dali, agradecido, porque o seu turno estava quase terminando.

O ar frio da manhã fazia-se sentir fortemente na Sala do Trono. O Supremo Guardião estava impassível sobre o trono, mas a sua res­piração, que enevoava o ar frio em curtas e rápidas erupções, traía a sua excitação.

Não teve de esperar muito até que uma menina alta e jovem, envergando o severo manto negro e a escura túnica vermelha dos Assassinos tivesse entrado de forma despachada e feito uma grande vênia, com as compridas mangas cortadas a varrerem o chão de pedra.

— A Princesa, meu senhor. Foi encontrada — disse a Assassina num tom de voz baixo.

O Supremo Guardião levantou-se e fitou a Assassina com os seus olhos pálidos.

— Tem certeza? Desta vez não quero enganos — disse de forma ameaçadora.

— Meu senhor, nossa espiã desconfiava de uma criança já a algum tempo. Considera que é uma estranha na família onde está. Ontem, a nossa espiã descobriu que a criança tem a idade correta.

— Que idade, exatamente?

— Faz dez anos hoje, meu senhor.

— Verdade? — O Supremo Guardião voltou a sentar-se no trono e ponderou aquilo que a Assassina lhe tinha dito.

— Tenho aqui uma imagem da criança, meu senhor. Parece-me que é muito parecida com a mãe dela, a ex-Rainha. — A Assassina retirou um pequeno pedaço de papel do interior de sua túnica. Nele estava desenhada com grande habilidade uma menina com olhos escuros, cor de violeta e longos cabelos negros. O Supremo Guardião pegou o desenho. Era verdade. A menina era muito parecida com a falecida Rainha. Tomou rapidamente uma decisão e fez estalar sonoramente os dedos ossudos.

A Assassina inclinou a cabeça.

— Meu senhor?

— Hoje à noite. À meia-noite. Deve fazer uma visitinha a... onde é que fica?

— Quarto 16, Corredor 223, meu senhor.

— Nome da família?

— Heap, meu senhor.

— Ah. Leve a pistola de prata. Quantos fazem parte da família?

— Nove, meu senhor, incluindo a criança.

— E nove balas para o caso de ter chateações. De prata para a criança. E traga-a. Quero provas.

A jovem mulher parecia pálida. Era o seu primeiro, e único, teste. Para um Assassino, não havia segundas oportunidades.

— Sim, meu senhor. — Esboçou uma vênia e retirou-se com as mãos a tremer.

Num canto pacato da Sala do Trono, o fantasma de Alther Mella ergueu-se do frio banco de pedra no qual tinha estado sentado. Sus­pirou e estirou suas velhas pernas fantasmagóricas. Depois segurou seu desbotado manto púrpura, respirou fundo e saiu através da espessa parede de pedra da Sala do Trono.

No exterior deu por si a pairar vinte metros acima do chão, no ar frio e escuro da madrugada. Ao invés de caminhar de uma forma digna como deveria fazer um fantasma da sua idade e estatuto social, Alther abriu os braços como se fossem as asas de um pássaro, e mergulhou graciosamente por entre a neve que continuava a cair.

Voar era praticamente a única coisa de que Alther gostava em ser fantasma. Voar, ou a Perdida Arte do Vôo, era algo que os moder­nos Feiticeiros ExtraOrdinários já não conseguiam fazer. Mesmo Marcia, que estava determinada a consegui-lo, não lograria mais do que um breve pairar antes de se estatelar no chão. Em algum lugar, e de alguma forma, o segredo tinha se perdido. Mas, é claro, qualquer fantasma conseguia voar. E já que tinha se tornado um fantasma, Alther tinha perdido o seu atrofiante medo das alturas e tinha passado muitas e excitantes horas aperfeiçoando suas habilidades acrobáticas. Mas não havia muito mais de que gostasse em ser um fantasma, e sentar-se na Sala do Trono, onde se tornara fantasma — e, conseqüentemente, onde tivera de passar o primeiro ano e um dia da sua «fantasmidade» — era uma das ocupações que mais detestava. Mas era algo que tinha de fazer. Alther tinha resolvido descobrir quais eram as intenções dos Guardiães e tentar manter Marcia a par dos seus planos. Com a sua ajuda ela tinha conseguido manter-se sempre um passo à frente dos Guardiães e assegurar a segurança de Jenna. Até agora.

Ao longo dos anos, desde a morte da Rainha, o Supremo Guardião tinha se tornado cada vez mais desesperado por encontrar a Princesa. Todos os anos, fazia uma longa — e muito temida — viagem às Terras Inóspitas, onde tinha de fazer um relatório dos seus progressos a um certo ex-Feiticeiro ExtraOrdinário que se tornara Necromante, DomDaniel. Tinha sido DomDaniel quem enviara o primeiro Assas­sino para matar a Rainha, e tinha sido DomDaniel quem tinha colo­cado o Supremo Guardião no Trono para que ele e os seus sequazes vasculhassem o Castelo em busca da Princesa. Porque enquanto a Princesa permanecesse no Castelo, DomDaniel não se atrevia a apro­ximar-se. E assim, todos os anos, o Supremo Guardião prometia a DomDaniel que nesse ano teria sucesso. Que nesse ano se livraria da herdeira do trono e entregaria finalmente o Castelo a seu legítimo Senhor, DomDaniel.

E era por isso que, quando Alther deixou a Sala do Trono, o Supremo Guardião tinha no rosto aquilo a que a sua mãe teria chamado um sorriso pateta. Por fim, tinha cumprido a tarefa que lhe tinha sido confiada. Claro, pensou ele, o sorriso pateta a converter-se num sorriso presunçoso, a descoberta da criança ficara a dever-se tão só aos seus superiores talento e inteligência. Mas não era verdade — tinha sido graças a um estranho golpe de sorte.

Quando o Supremo Guardião tomou conta do Castelo, uma das primeiras coisas que fez foi excluir as mulheres do Tribunal. A Sala de Abluções das senhoras, que já não era necessária, tornara-se um improvisado gabinete de reuniões. Durante o último mês, que tinha sido particularmente frio, o Comitê dos Guardiães tinha passado a se reunir na antiga Sala de Abluções das senhoras, a qual tinha a vantagem de possuir um fogão de lenha, ao invés de se reunirem na ampla Sala do Comitê de Guardiães, onde o vento gelado soprava pelas frestas e lhes transformava os pés em blocos de gelo.

E assim, sem o saberem, os Guardiães estavam pela primeira vez um passo à frente de Alther Mella. Enquanto fantasma, Alther só podia ir aos lugares em que já tinha estado enquanto vivo — e, como um jovem Feiticeiro bem-educado, Alther nunca na vida tinha posto pés numa Sala de Abluções feminina. O máximo que tinha podido fazer fora pairar do lado de fora à espera, tal como fizera em vida quando andava a cortejar a Juíza Alice Nettles.

Tinha sido no final de uma tarde particularmente fria, há um par de semanas, que Alther ficara a ver enquanto o Comitê de Guardiães se reunia da antiga Sala de Abluções das senhoras. A pesada porta, com SENHORAS ainda escrito em desbotadas letras douradas, fechara-se na sua cara, e ele tivera de pairar no exterior, com o ouvido colado à porta, tentando ouvir o que estava se passando. Mas por muito que tentasse, não conseguiu ouvir o Comitê decidir enviar a sua melhor espiã, Linda Lane, com o seu interesse por ervas e curas, viver no Quarto 17, Corredor 223. Bem ao lado dos Heap.

E assim, nem Alther, nem os Heap faziam a menor idéia de que a sua nova vizinha era uma espiã. E uma espiã muito boa.

Enquanto Alther Mella atravessava o ar cheio de neve pensando em como salvar a Princesa, fez, quase sem se aperceber, dois mortais duplos quase perfeitos, antes de mergulhar velozmente por entre os flocos de neve para chegar à Pirâmide dourada que coroava a Torre dos Feiticeiros.

Alther pousou de pé, com grande elegância. Por breves instantes manteve-se perfeitamente equilibrado na ponta dos pés. Depois ergueu os braços acima da cabeça e começou a girar, cada vez mais depressa, até começar a se afundar lentamente através do telhado, passando para a sala que ficava por baixo, onde calculou mal a aterrissagem e caiu atra­vés da cobertura da cama de quatro colunas de Marcia Overstrand.

Marcia sentou-se, em pânico. Alther estava estendido sobre o tra­vesseiro tremendamente embaraçado.

— Desculpe Marcia. Foi muito pouco galante da minha parte. Bom, pelo menos não está com os bobis no cabelo.

— Muito obrigada, Alther, mas o meu cabelo é encaracolado por natureza — respondeu Marcia, de mau humor. — Podia ter esperado até eu acordar.

Alther assumiu uma expressão séria e tornou-se um bocado mais transparente do que o habitual.

— Infelizmente, Marcia — disse sombriamente —, temo que isto não possa esperar.

 

Marcia Overstrand saiu com grandes passadas do seu magnífico quarto na torre, com vestiário contíguo, escancarou a pesada porta púrpura que levava ao patamar e conferiu a sua aparência no espelho ajustável.

— Menos oito-vírgula-três por cento! — instruiu ela ao espelho, o qual era de constituição muito nervosa e temia sempre o momento da manhã em que a porta do quarto de Marcia se abria de rompante. Com os anos, o espelho aprendera a ler os passos de Marcia nas tábuas de madeira e nessa manhã tinham deixado o espelho ainda mais assustadiço. Muito assustadiço. Pôs-se em sentido e, na sua ânsia de agra­dar, tornou o reflexo de Marcia 83 por cento mais magro, de tal maneira que se parecia a um zangado inseto purpúreo e espinhoso.

— Idiota! — repreendeu Marcia.

O espelho refez os cálculos. Odiava ter que fazer contas logo pela manhã, e tinha certeza de que era de propósito que Marcia lhe indicava porcentagens esquisitas. Porque é que ela não podia ser das que querem se ver emagrecidas num bom número redondo, como 5 por cento, ou melhor ainda, 10? O espelho gostava de 10 por cento; conseguia calculá-los.

Marcia sorriu perante o seu reflexo. Tinha bom aspecto.

Marcia tinha vestido o seu uniforme de Inverno de Feiticeira ExtraOrdinária. E ficava-lhe bem. A capa dupla de seda púrpura era debruada pelo mais suave pêlo de angorá azul índigo. Pendia-lhe suavemente dos ombros largos e amontoava-se obediente em torno dos seus pés bicudos. Os pés de Marcia eram bicudos porque ela gostava de sapatos bicudos, e mandava-os fazer por encomenda. Eram feitos de pele de serpente, extraída da píton púrpura que a sapataria mantinha no quintal dos fundos, exclusivamente para os sapatos de Marcia. Terry Tarsal, o sapateiro, odiava serpentes e estava con­vencido que era de propósito que Marcia encomendava sapatos de pele de serpente. E bem podia ter razão.

Os sapatos de píton púrpura de Marcia reluziam sob a luz refletida pelo espelho e o ouro e a platina do seu cinto de Feiticeira ExtraOrdinária brilhavam de forma impres­sionante. Ao pescoço usava o Amuleto Akhu, símbolo e fonte do poder do Feiticeiro ExtraOrdinário.

Marcia estava satisfeita. Era necessário que estivesse impres­sionante hoje. Impressionante e até mesmo um bocadinho assustadora. Bom, até muito assustadora, se viesse a ser preciso. Só esperava que não viesse a ser necessário.

Marcia não tinha certeza se conseguia ser assustadora. Experi­mentou algumas expressões ao espelho, o qual estremeceu silencio­samente, mas não ficou convencida com nenhuma delas. Marcia não sabia que a maior parte das pessoas achava que ela era mesmo muito assustadora, e que de fato era uma assustadora inata.

Marcia estalou os dedos.

— Costas! — ordenou.

O espelho mostrou-lhe suas costas.

— Lados!

O espelho mostrou-lhe ambos os lados.

E depois desapareceu. Pelas escadas abaixo, dois degraus de cada vez, até à cozinha para aterrorizar o forno, que a tinha ouvido se apro­ximando e estava desesperadamente tentando se ligar antes que ela entrasse pela porta.

Não conseguiu, e Marcia esteve muito mal-disposta ao longo do desjejum.

Marcia deixou as coisas do desjejum para que se lavassem a si mesmas e saiu rapidamente pela pesada porta púrpura que levava aos seus aposentos. A porta fechou-se com um estalido suave e res­peitoso atrás de si, enquanto Marcia saltava para a escada prateada, em espiral.

— Para baixo — ordenou à escada. Esta começou a girar como um gigantesco saca-rolhas, levando-a lentamente para baixo através da Torre altíssima, passando por um número de pisos aparentemente infindável, e várias portas que levavam a compartimentos ocupados por uma impressionante variedade de Feiticeiros. Dos quartos vi­nham os sons de feitiços a serem experimentados, ladainhas encantatórias, e a tagarelice normal dos Feiticeiros durante o desjejum. O aroma de torradas e bacon e de mingau de aveia misturava-se estranha­mente com as revoadas de incenso que se elevavam desde o Saguão inferior e, quando as escadas em espiral se detiveram gentilmente, Marcia desceu um bocado enjoada e ansiosa por sair para o ar fresco. Atravessou rapidamente o Saguão dirigindo-se às maciças portas de prata que guardavam a entrada da Torre dos Feiticeiros. Marcia disse a palavra-passe e as portas abriram-se silenciosamente para ela pas­sar, e em pouco tempo ela já tinha atravessado o arco prateado e saído para o frio intenso de uma manhã nevada de meio do Inverno.

Ao descer as escadas íngremes, pisando cuidadosamente a neve estaladiça com os seus finos sapatos bicudos, surpreendeu o sentinela que estava preguiçosamente atirando bolas de neve em um pobre gato vadio. Uma das bolas de neve acertou com uma pancada suave na seda púrpura de sua capa.

— Não faça isso! — repreendeu Marcia, sacudindo a neve da capa.

O sentinela deu um pulo e pôs-se em sentido. Estava aterrorizado. Marcia fitou o rapaz com aspecto de vagabundo. Vestia o uniforme cerimonial de sentinela, um modelo particularmente pateta feito de algodão fino, uma túnica listrada vermelha e branca com pregas púrpura em volta das mangas. Também usava um largo chapéu mole e amarelo, malhas brancas nas pernas e botas de um amarelo vivo, e na mão esquerda, que estava nua e azul de frio, segurava um pesado chuço.

Marcia tinha protestado quando as primeiras sentinelas tinham chegado à Torre dos Feiticeiros. Tinha dito ao Supremo Guardião que os Feiticeiros não precisavam de proteção. Muito obrigado, mas sabiam perfeitamente tomar conta de si mesmos. Mas ele tinha se limitado a sorrir com o seu presunçoso sorriso, e garantiu-lhe mali­ciosamente que as sentinelas eram para maior segurança dos Feiti­ceiros. Marcia desconfiava que ele as tinha colocado lá, não só para espiar as idas e vindas dos Feiticeiros, mas também para fazê-los parecer ridículos.

Marcia fitou o sentinela que estava arremessando bolas de neve. O chapéu era grande demais para ele; tinha escorregado e repou­sava-lhe agora sobre as orelhas, as quais sobressaíam convenientemente nos lugares adequados de forma a impedir que o chapéu lhe cobrisse os olhos. O chapéu conferia um tom amarelado e doentio às feições magras e chupadas do rapaz. Os olhos cinzento-escuros espreitavam aterrorizados de sob o chapéu quando percebeu que a bola de neve tinha atingido a Feiticeira ExtraOrdinária.

Parecia pequeno demais para ser um soldado, pensou Marcia.

— Que idade você tem? — perguntou, acusadoramente.

O sentinela corou. Nunca ninguém como Marcia jamais olhara para ele antes, muito menos dirigira-lhe a palavra.

— D... dez, Minha Senhora.

— Então por que não está na escola? — exigiu saber.

O sentinela respondeu com orgulho.

— Não preciso ir à escola, Minha Senhora. Faço parte do Exército da Juventude. Somos o Orgu­lho do Presente, os Guerreiros do Amanhã.

— Não está com frio? — perguntou Marcia inesperadamente.

— N... não, Minha Senhora. Somos treinados para não sentir frio. — Mas os lábios do sentinela tinham uma coloração azulada, e tre­miam-lhe ao falar.

— Hum. — Marcia avançou pesadamente pela neve, deixando o rapaz para mais quatro horas de vigia.

Marcia atravessou a passos largos o pátio que se afastava da Torre dos Feiticeiros, e esgueirou-se por um portão lateral que a levou a um discreto caminho, coberto de neve.

Fazia exatamente dez anos que Marcia se tornara a Feiticeira ExtraOrdinária e ao iniciar a caminhada, deixou que os pensamentos se voltassem para o passado. Recordou-se dos tempos que tinha pas­sado como Esperança, lendo tudo o que podia sobre Magya, sonhando com a mais rara das coisas: um Aprendizado com o Feiticeiro Extra­ordinário, Alther Mella. Tinham sido anos felizes, vivendo num pe­queno quarto n’Os Bairros, no meio de tantos outros Esperanças, muitos dos quais acabaram por se conformar com Aprendizados junto de Feiticeiros Normais. Mas Marcia não. Sabia o que queria, e só que­ria o melhor. Mas, mesmo assim, mal podia acreditar na sua sorte quando teve a oportunidade de se tornar Aprendiz de Alther Mella. Embora o Aprendizado com Alther Mella não significasse que um dia viria a ser a Feiticeira ExtraOrdinária, era mais um passo em direção ao seu sonho. E assim Marcia passara os sete anos seguintes e um dia vivendo na Torre dos Feiticeiros como Aprendiz de Alther Mella.

Sorriu para consigo mesma ao recordar como Alther Mella fora um Feiticeiro maravilhoso. As suas lições eram divertidas, era paciente quando os feitiços saíam errado e tinha sempre uma anedota nova para lhe contar. E era um Feiticeiro extremamente poderoso. Até Marcia ter se tornado ela própria a Feiticeira ExtraOrdinária, não tinha percebido quão bom Alther tinha sido. Mas acima de tudo, Alther era uma pessoa adorável. O seu sorriso desvaneceu-se quando recordou a forma como acabou substituindo-o no seu posto e pensou no último dia da vida de Alther Mella, o dia a que os Guardiães agora chamavam Dia Um.

Perdida em seus pensamentos, Marcia subiu os estreitos degraus que levavam ao amplo rebordo que se estendia bem por baixo das muralhas do Castelo. Era uma forma rápida de passar para o Lado Oriental, que era como agora se chamavam Os Bairros, e que era para onde se dirigia agora. O uso do rebordo estava reservado à Patrulha Armada dos Guardiães, mas Marcia sabia que, mesmo agora, nin­guém se atrevia a impedir a Feiticeira ExtraOrdinária de ir onde quer que fosse. Assim, ao invés de se arrastar por infindáveis corredores apertados, por vezes atravancados de gente, tal como teria feito há muitos anos, avançou rapidamente ao longo do rebordo até que, cerca de meia hora mais tarde, encontrou uma porta que reconheceu ime­diatamente.

Marcia respirou fundo.

É agora, disse para consigo.

Desceu o lance de escadas que levava do rebordo até à porta. Estava prestes a encostar-se a ela e dar-lhe um empurrão, quando a porta se assustou com sua presença e se abriu de imediato. Marcia atravessou disparada a abertura e foi contra a parede bastante enlameada do outro lado do corredor. A porta fechou-se com estrondo, e Marcia prendeu a respiração. O corredor estava escuro; era úmido e cheirava a couve cozida, xixi de gato e a restos putrefatos secos. Não era assim que Marcia se lembrava das coisas. Quando vivia n’Os Bairros os corre­dores eram sempre quentes e limpos, iluminados por tochas de algas que ardiam a intervalos nas paredes, e eram varridos todos os dias pelos orgulhosos habitantes.

Marcia esperava conseguir lembrar-se do caminho para o quarto de Sara e Silas Heap. Nos seus dias de Aprendizado, passara muitas vezes correndo pela porta deles, esperando que Silas Heap não a visse e não a convidasse para entrar. Era do barulho que ela se lembrava melhor, do barulho de tantos rapazinhos gritando, pulando, lutando e fazendo o que quer que fosse que os rapazinhos fazem, embora Marcia não tivesse bem certeza do que é que os rapazinhos fazem — já que pre­feria evitar crianças sempre que possível.

Marcia sentia-se muito nervosa enquanto avançava pelos cor­redores escuros e sombrios. Começava a interrogar-se sobre como correriam as coisas na sua primeira visita a Silas em mais de dez anos. Temia o que teria que dizer aos Heap, e até se questionava se Silas acreditaria nela. Era um Feiticeiro teimoso e sabia que não gostava muito dela. E assim, com estas idéias a rodopiarem-lhe na cabeça, Marcia caminhou determinada ao longo dos corredores, sem prestar atenção a mais nada.

Se tivesse se preocupado em estar atenta, teria ficado surpresa com a reação das pessoas à sua presença. Eram oito da manhã, aquilo a que Silas Heap chamava a hora de pico. Centenas de pessoas de rostos pálidos estavam a caminho do trabalho, os olhos ensonados a piscar naquela obscuridade, e as roupas baratas e de má qualidade aperta­das junto ao corpo contra o frio gélido das úmidas paredes de pedra. A hora de pico nos corredores do Lado Oriental era uma hora do dia que devia ser evitada. A correnteza de corpos podia facilmente nos arras­tar, por vezes muito para lá do corredor onde devíamos ter virado, até finalmente conseguirmos nos contorcer através da multidão e nos juntar à torrente que se dirige no sentido oposto. O ar na hora de pico estava sempre cheio de gritos suplicantes:

— Deixem-me sair aqui, por favor!

— Parem de me empurrar!

— Tenho que virar aqui, tenho que virar aqui!

Mas Marcia tinha feito a hora de pico desaparecer. E não foi precisa qualquer Magya para isso — a simples presença de Marcia era mais do que suficiente para que as pessoas parassem onde estavam. A maior parte das pessoas no Lado Oriental nunca tinha visto a Feiticeira ExtraOrdinária antes. Se alguma vez a tivessem visto, o mais certo era ter sido numa visita ao Centro de Turismo da Torre dos Feiticeiros, onde teriam estado o dia inteiro no pátio, pendentes de conseguir apanhar um relance dela se tivessem sorte. Que a Feiticeira ExtraOrdi­nária caminhasse entre eles nos corredores bolorentos do Lado Oriental era simplesmente incrível.

As pessoas soltavam exclamações e encolhiam-se contra as pare­des. Desapareciam nas sombras das entradas e esgueiravam-se por becos secundários. Murmuravam, de si para si, os seus próprios feiti­ços. Alguns ficavam completamente paralisados, como coelhos apa­nhados no clarão de uma luz brilhante. Olhavam para Marcia como se fosse uma criatura de outro planeta, o que bem podia ser dadas as diferenças entre a sua vida e a deles.

Mas Marcia não percebeu nada disso. Dez anos como Feiticeira ExtraOrdinária haviam-na impermeabilizado à vida real, e por muito chocante que tenha sido da primeira vez, já estava habi­tuada a que todos abrissem caminho à sua passagem, se dobrassem em vênias e a envolvessem em murmúrios respeitosos.

Marcia saiu da passagem principal e avançou pelo estreito passadiço que levava ao lar dos Heap. Na sua caminhada, reparou que todos os corredores tinham agora números que substituíam os excêntricos nomes que tinham antes, como o Canto Ventoso e a Avenida de Pernas para o Ar.

Antes, o endereço dos Heap era: Grande Porta Vermelha, Enfiada do Vou Ali e Já Venho, Bairros.

Agora parecia ser: Quarto 16, Corredor 223, Lado Oriental. Marcia sabia bem qual dos dois preferia.

Marcia chegou à porta dos Heap, a qual tinha sido pintada de preto regulamentar pela Patrulha das Cores há uns dias. Podia ouvir a rui­dosa confusão do desjejum dos Heap para lá da porta. Respirou fundo várias vezes.

Já não podia adiar mais.

 

— Abra — ordenou Marcia à porta preta dos Heap. Mas, por ser uma porta que pertencia a Silas Heap, não fez nada disso; de fato, Marcia teve a impressão de vê-la apertar ainda mais as dobradiças e retesar a fechadura. E assim ela, Madame Marcia Overstrand, Fei­ticeira ExtraOrdinária, viu-se reduzida a ter que bater à porta com tanta força quanta podia. Ninguém respondeu. Tentou novamente, com mais força e com ambas as mãos, mas mesmo assim não obteve res­posta. E foi quando ela já estava pensando em dar um forte pontapé na porta (e era bem feito para a porta), que esta se abriu, e Marcia ficou cara a cara com Silas Heap.

— Sim? — disse ele bruscamente, como se Marcia não passasse de um irritante vendedor porta-a-porta.

Por breves instantes Marcia ficou sem palavras. Olhou para lá de Silas, para um quarto que parecia ter sido recentemente alvo de uma explosão e que estava agora, por algum motivo, atravancado de meninos. Os meninos moviam-se em bandos em torno de uma menina pequena, de cabelo escuro, que estava sentada a uma mesa coberta por uma toa­lha branca, surpreendentemente limpa. A menininha guardava com unhas e dentes um pequeno presente, embrulhado em papel colorido e com um laço de fita vermelha, rindo-se e afastando alguns dos rapa­zes que fingiam querer tirá-lo. Mas, um a um, a menina e todos os rapazes foram erguendo a cabeça, até um silêncio estranho se ter aba­tido sobre o lar dos Heap.

— Bom dia, Silas Heap — disse Marcia, de forma atenciosa demais. — E bom dia, Sara Heap. E a todos os, anh, a todos os pe­quenos Heaps, claro.

Os pequenos Heaps, a maior parte dos quais já eram tudo menos pequenos, não responderam. Mas seis pares de olhos verdes brilhantes e um par de olhos violeta-escuros absorveram cada detalhe da pessoa de Marcia Overstrand. Marcia começou a sentir-se descon­fortável demais. Teria um borrão no nariz? Seu cabelo estaria espetado de uma forma ridícula? Talvez tivesse alguns fiapos de espinafre entre os dentes?

Lembrou a si mesma que não tinha comido espinafres ao desjejum.

Apresse-se com isso, Marcia, disse para consigo mesma. Você é quem manda aqui.

E, assim, voltou-se para Silas, que estava olhando para ela como se esperasse que se fosse embora depressinha.

— Disse bom dia, Silas Heap — observou Marcia, algo irritada.

— Disse, Marcia, disse sim — retorquiu Silas. — E o que a traz por aqui depois de todos estes anos?

Marcia foi direto ao assunto.

— Vim buscar a Princesa — disse.

— Quem? — perguntou Silas.

— Sabe muito bem quem — resmungou Marcia, que não estava habituada a responder a perguntas de quem quer que fosse, quanto mais de Silas Heap.

— Não temos princesa nenhuma aqui, Marcia — disse Silas. — Parece-me que isso é bastante óbvio.

Marcia olhou em volta. Era verdade, não era propriamente o lugar onde se esperaria encontrar uma princesa. Na verdade, nunca tinha visto uma tamanha desordem na vida.

No meio daquele caos, perto da lareira acesa há pouco, estava Sara Heap. Sara estivera cozendo mingau de aveia para o desjejum de aniversário quando Marcia invadira sua casa e a sua vida. Agora permanecia ali petrificada, com a panela de mingau na mão e olhando para Marcia. Alguma coisa no seu olhar disse a Marcia que Sara sabia o que se passava.

Isto, pensou Marcia, não vai ser nada fácil.

Resolveu abandonar o papel de durona e começar de novo.

— Por favor, posso me sentar, Silas... Sara? — pediu.

Sara fez que sim com a cabeça. Estava se sentando, pálida como um fantasma e a tremer, e puxava a aniversariante para o seu colo, abraçando-a com força. Silas desejava agora mais do que nunca que Marcia fosse embora e os deixasse em paz, mas sabia que tinham que ouvir o que ela viera lhes dizer. Suspirou pesadamente e disse:

— Nicko, traga uma cadeira para Marcia.

— Obrigada, Nicko — disse Marcia enquanto se sentava cuidado­samente numa das cadeiras artesanais de Silas. Nicko, com o cabelo todo despenteado, presenteou Marcia com um sorriso amarelo e recuou para o meio de seus irmãos, que estavam reunidos de forma protetora em torno de Sara.

Marcia fitou os Heap e ficou admirada com quanto todos se pare­ciam. Todos eles, incluindo Sara e Silas, tinham o mesmo cabelo encaracolado e cor de palha, e claro, todos possuíam aqueles penetrantes olhos verdes de Feiticeiro. E no meio dos Heap sentava-se a Princesa, com o seu cabelo preto liso e olhos escuros, cor de violeta. Marcia calou um gemido. Para ela, todos os bebês pareciam iguais, e nunca lhe tinha ocorrido quão diferente a Princesa pareceria dos Heap quando crescesse. Não admirava que a espiã a tivesse descoberto.

Silas Heap sentou-se sobre um caixote.

— Muito bem, Marcia, o que se passa? — perguntou ele.

Marcia sentia a boca muito seca.

— Me dá um copo de água? — pediu.

Jenna saltou do colo de Sarah e foi até Marcia, estendendo-lhe uma velha e desgastada taça de madeira, com marcas de dentes em toda a volta da borda.

— Toma, bebe a minha água. Eu não me importo. — Olhava deslumbrada para Marcia. Nunca tinha visto ninguém como ela antes, ninguém tão púrpura, tão brilhante, tão limpa e com um aspecto tão caro, e com toda certeza, alguém com uns sapatos tão bicudos.

Marcia olhou desconfiada para a taça, mas depois, recordando-se de quem a cedera, disse:

— Obrigada, Princesa. Ahhh, posso cha­má-la de Jenna?

Jenna não respondeu. Estava entretida demais olhando para os sapatos de cor púrpura de Marcia.

— Responda à Madame Marcia, boneca — instruiu Sara Heap.

— Oh, sim, pode, Madame Marcia — respondeu Jenna, confusa mas educadamente.

— Obrigada, Jenna. É um prazer conhecê-la depois de todo este tempo. E, por favor, me chame só de Marcia — disse Marcia, que não conseguia deixar de pensar em quanto Jenna se parecia com a mãe.

Jenna voltou para o lado de Sara, e Marcia obrigou-se a sorver um gole de água da taça roída.

— Diga lá o que tem para dizer, Marcia — disse Silas do seu caixote. — O que se passa? Como sempre, parece que nós somos os últimos a saber.

— Silas, você e a Sara sabem quem... ahhh... quem é a... Jenna? — perguntou Marcia.

— Sim. Sabemos. A Jenna é nossa filha, é o que é — disse Silas teimosamente.

— Mas você descobriu, não foi? — perguntou Marcia, dirigindo o olhar a Sara.

— Sim — respondeu Sara baixinho.

— Então compreenderá quando te disser que aqui já não é seguro. Preciso levá-la comigo. Já — disse Marcia, com urgência.

— Não! — gritou Jenna. — Não! — Voltou a subir rapidamente para o colo de Sara. Sara abraçou-a com força.

Silas estava furioso.

— Só por que é a Feiticeira ExtraOrdinária, Marcia, acha que pode entrar aqui e dar cabo da nossa vida como se isso não interessasse para nada. Mas garanto-lhe que não vai levar Jenna. Ela é nossa. É a nossa única filha. Aqui está perfeitamente segura, e vai ficar conosco.

— Silas — suspirou Marcia —, ela não está segura aqui. Agora não mais. Foi descoberta. Há uma espiã vivendo bem ao seu lado. A Linda Lane.

— Linda! — exclamou Sara. — Uma espiã? Não acredito.

— Refere-se àquele detestável balão inchado que anda sempre por aqui a tagarelar sobre comprimidos e poções e a fazer inúmeros dese­nhos das crianças? — perguntou Silas.

— Silas! — repreendeu-o Sara. — Não seja tão grosseiro.

— Serei mais do que grosseiro com ela se for mesmo uma espiã. — proferiu Silas.

— Não há nenhum «se», Silas — disse Marcia. — Linda Lane é uma espiã com toda certeza. E tenho certeza de que os desenhos que tem feito estão sendo de grande utilidade para o Supremo Guardião.

Silas gemeu. Marcia aproveitou para explorar sua vantagem.

— Ouça, Silas, só quero o melhor para a Jenna. Tem que confiar em mim.

Silas riu.

— E por que haveria de confiar em você, Marcia?

— Porque eu a confiei a você, Silas — respondeu Marcia. — Agora você tem que confiá-la a mim. Aquilo que aconteceu há dez anos não pode se repetir.

— Esquece-se, Marcia — disse Silas de forma mordaz —, que nós não sabemos o que se passou há dez anos. Nunca ninguém se deu ao trabalho de nos dizer.

Marcia suspirou.

— Como queria que te dissesse, Silas? Era melhor para a Princesa, quer dizer, para a Jenna, que você não soubesse.

Com mais aquela menção à Princesa, Jenna olhou para Sara.

— A Madame Marcia já me chamou assim antes — sussurrou. — Sou eu mesmo?

— Sim, boneca — sussurrou-lhe Sara. Depois olhou Marcia diretamente nos olhos e disse: — Acho que todos nós pre­cisamos saber o que se passou há dez anos, Madame Marcia.

Marcia olhou para o relógio. Tinha que ser uma coisa rápida. Res­pirou fundo e começou.

— Há dez anos — disse —, eu tinha acabado de passar nos exames finais e tinha ido ver Alther para lhe agradecer. Bom, pouco depois de eu chegar, um mensageiro entrou correndo com a notícia de que a Rainha tinha dado à luz uma menina. Ficamos tão satisfeitos — sig­nificava que acabara de chegar a herdeira do Castelo.

«O mensageiro convocou Alther ao Palácio para presidir à Ceri­mônia de Boas-Vindas à Princesa bebê. Fui com ele para ajudá-lo a carregar todos aqueles livros tão pesados, poções e encantamentos de que ia precisar para a Cerimônia. E para lhe lembrar por que ordem devia fazer as coisas, já que o querido e velho Alther às vezes era muito esquecido.

«Quando chegamos ao Palácio, fomos conduzidos à Sala do Trono para ver a Rainha, que estava tão feliz — tão maravilhosamente feliz. Estava sentada no trono, segurando a sua filha recém-nascida, e recebeu-nos com as palavras: «Não é linda?» E essas foram as últimas palavras que a nossa Rainha disse.

— Não — murmurou Sara baixinho.

— Nesse exato momento entrou na sala um homem com um estranho uniforme preto e vermelho. Claro, agora sei que era o uni­forme dos Assassinos, mas na época ainda não sabia nada disso. Pensei que fosse um mensageiro qualquer, mas pude ver pela expressão da Rainha que não estava contando com ele. Depois percebi que ele segurava uma comprida pistola de prata, e senti muito medo. Olhei para Alther, mas ele estava entretido com os seus livros e não tinha percebido. Nessa altura... parecia tudo tão irreal... vi o sol­dado erguer a pistola, lenta e deliberadamente, apontar e disparar diretamente sobre a Rainha. Foi tudo tão horrivelmente silencioso, com a bala passando através do coração da Rainha e se enterrando na parede por trás dela. A Princesa bebê gritou e caiu dos braços mortos da mãe. Saltei em frente e agarrei-a.

Jenna estava pálida, tentando compreender aquilo que estava ouvindo.

— Essa era eu? — perguntou a Sara em voz baixa. — Era eu a Princesa bebê?

Sara fez que sim com a cabeça, em silêncio.

A voz de Marcia tremia ligeiramente ao continuar.

— Foi terrível! Alther estava começando o Feitiço de EscudoSeguro quando se ouviu outro tiro, e uma bala o fez rodar de lado e o atirou ao chão. Terminei o feitiço por ele, e por breves momentos ficamos os três a salvo. O Assassino disparou sua bala seguinte — que desta vez se destinava a mim e à Princesa — mas esta ricocheteou no escudo invisível e foi disparada direta a ele, acertando-lhe numa perna. Caiu ao chão, mas não largou a pistola. Deixou-se ficar ali, olhando para nós, à espera que o feitiço se dissolvesse, como sempre acontece.

«Alther estava morrendo. Tirou o Amuleto e deu-o para mim. Eu recu­sei. Tinha certeza de que podia salvá-lo, mas Alther sabia o que ia acontecer. Disse-me, muito calmamente, que era o momento de ir embora. Sorriu e depois... e depois morreu.

O quarto estava em silêncio. Ninguém se mexia. Até Silas olhava propositadamente para o chão. Marcia prosseguiu, em voz baixa.

— Eu... eu não podia acreditar. Atei o amuleto em volta do pes­coço e peguei a Princesinha. Ela agora estava chorando... bom... estávamos as duas chorando. E depois desatei a correr. Corri tão depressa que o Assassino nem teve tempo de disparar a pistola.

«Fugi para a Torre dos Feiticeiros. Não sabia onde mais podia ir. Contei as terríveis novidades aos outros Feiticeiros e pedi-lhes proteção, que eles nos deram. Discutimos toda a tarde sobre o que devía­mos fazer com a Princesa. Sabíamos que não podia ficar muito tempo na Torre. Não podíamos proteger a Princesa para sempre, e de qualquer maneira era uma criança recém-nascida, que precisava de uma mãe. Foi nessa altura que pensei em você, Sara.

Sara ficou surpresa.

— Alther falava-me muito de você e de Silas. Sabia que tinha acabado de ter um bebê. Não se falava de outra coisa na Torre, o sétimo filho de um sétimo filho. Na altura não fazia a menor idéia de que ele tinha morrido. Fiquei tão triste quando soube. Mas sabia que ia adorar a Princesa e fazê-la muito feliz. Por isso decidimos que devia ficar com ela.

« Mas não podia ir direito aos Bairros e entregá-la. Alguém podia me ver. Por isso, ao fim da tarde, levei a Princesa para fora do Cas­telo e deixei-a na neve, certificando-me de que era você, Silas, quem a encontraria. E foi assim. Não havia mais nada que eu pudesse fazer.

«Só que, depois de Gringe me ter sacado meia coroa, escondi-me nas sombras e fiquei à espera que voltasse para casa. Quando vi a forma como seguravas a capa, e a forma como caminhava, como se estivesse protegendo algo muito precioso, soube que tinha a Princesa e, lembra-se, eu disse: “Não diga a ninguém que a encontrou. É sua filha. Entendeu?”

Pairava no ar um silêncio carregado. Silas olhava para o chão, Sara estava em silêncio com Jenna, e os rapazes pareciam todos assom­brados. Marcia levantou-se lentamente, e tirou uma pequena sacola de veludo vermelho de um dos bolsos de sua túnica. Depois avançou cuidadosamente pelo quarto, tendo o cuidado de não pisar em nada, e muito particularmente num enorme, e não muito limpo lobo, no qual tinha acabado de reparar, adormecido no meio de uma pilha de cobertores.

Os Heap viram, como que hipnotizados, como Marcia avançou solenemente até Jenna. Os rapazes afastaram-se respeitosamente quando Marcia se deteve em frente de Sara e Jenna, e se ajoelhou.

Jenna estava de olhos esbugalhados enquanto Marcia abria a sacola de veludo e retirava do seu interior um pequeno aro de ouro.

— Princesa — disse Marcia —, isto era de sua mãe, e agora é seu por direito. — Marcia estendeu as mãos e colocou o aro de ouro sobre a cabeça de Jenna. Serviu perfeitamente.

Silas quebrou o encantamento.

— Bom, agora foi demais, Marcia — disse bruscamente. — O gato já saiu do armário.

Marcia levantou-se e sacudiu o pó de seu manto. Ao fazê-lo, e para sua surpresa, o fantasma de Alther Mella flutuou através da parede e pousou ao lado de Sara Heap.

— Ah, aqui está o Alther — disse Silas. — Não vai gostar nada disto, garanto-lhe.

— Olá Silas, Sara. Olá a todos os meus pequenos Feiticeiros. — Os rapazes Heap sorriram. As pessoas chamavam-nos de muitas coisas, mas apenas Alther os chamava de Feiticeiros.

— E olá, minha pequena Princesa — disse Alther, que sempre tra­tara Jenna assim. E agora Jenna sabia porquê.

— Olá, Tio Alther — disse Jenna, sentindo-se muito mais ani­mada com o velho fantasma a pairar junto dela.

— Não sabia que o Alther também vinha visitá-los — disse Marcia, parecendo um bocado enciumada, embora ficasse aliviada por vê-lo.

— Bem, eu fui Aprendiz dele primeiro — respondeu Silas.

— Muito antes de você se ter imposto.

— Eu não me impus. Você é que desistiu. Você suplicou a Alther que anulasse a sua aprendizagem. Disse que queria poder ler historinhas para dormir aos seus meninos, em vez de ficar fechado num torreão com o nariz enfiado num livro de feitiços bolorento qualquer. Às vezes você é mesmo um palerma, Silas — disse Marcia, carrancuda.

— Crianças, crianças, não vamos discutir agora. — Alther sorriu. — Gosto de vocês igualmente. Todos os meus Aprendizes são especiais.

O fantasma de Alther Mella tremeluzia ligeiramente ao calor do fogo. Vestia a sua fantasmagórica capa de Feiticeiro ExtraOrdinário. Ainda tinha manchas de sangue, o que perturbava Marcia sempre que as via. O longo cabelo branco de Alther estava cuidadosamente apanhado num rabo-de-cavalo, e a barba estava meticulosamente apa­rada e pontiaguda. Quando estava vivo, o cabelo e a barba de Alther eram sempre uma confusão — nunca parecia se habituar ao quão de­pressa cresciam. Mas agora que era um fantasma, era fácil. Tinha desco­berto isso há dez anos, e fora assim que ficara desde essa época. Os olhos verdes de Alther podiam brilhar um pouco menos do que quando estava vivo, mas olharam em volta tão atentos como sempre. E en­quanto abarcavam o lar dos Heap, sentiu-se triste. As coisas estavam a ponto de sofrer uma mudança.

— Diga-lhe, Alther — exigiu Silas. — Diga-lhe que não vai levar a nossa Jenna. Princesa ou não, não vai levá-la.

— Quem me dera poder, Silas, mas não posso — disse Alther, parecendo muito sério. — Descobriram vocês. Uma Assassina já está a caminho. Estará aqui à meia-noite com uma bala de prata. Sabem o que isso significa...

Sara Heap enterrou a cabeça nas mãos.

— Não — sussurrou.

— Sim — retorquiu Alther. Estremeceu e a sua mão aflorou o pequeno orifício de bala bem abaixo do coração.

— O que podemos fazer? — perguntou Sara, muito calma e quieta.

— A Marcia vai levar Jenna para a Torre dos Feiticeiros — res­pondeu Alther. — No momento, Jenna ficará segura lá. Depois temos que decidir o que fazer em seguida. — Olhou para Sara. — Você e Silas devem partir com os meninos. Para um lugar seguro onde não os encontrem.

Sara estava pálida, mas sua voz mantinha se firme.

— Vamos para a Floresta — disse. — Ficaremos com Galena.

Marcia voltou a olhar para o relógio. Estava ficando tarde.

— Tenho que levar a Princesa agora — disse. — Tenho de regres­sar antes que mudem o sentinela.

— Não quero ir — murmurou Jenna. — Não tenho que ir, não é, Tio Alther? Também quero ficar com a Galena. Quero ir com os outros. Não quero ficar sozinha. — O lábio inferior de Jenna tremia, e os olhos encheram-se de lágrimas. Agarrou-se com força a Sara.

— Não vai ficar sozinha. Vai ficar com a Marcia — disse Alther suavemente. Não parecia que isso fizesse Jenna sentir-se muito melhor.

— Minha Princesinha — insistiu ele —, a Marcia tem razão. Tem que ir com ela. Só ela pode dar a proteção de que necessita.

Jenna parecia pouco convencida.

— Jenna — disse Alther, muito sério —, você é a Herdeira do Cas­telo, e o Castelo precisa que se mantenha em segurança para que um dia possa ser Rainha. Tem que ir com a Marcia. Por favor.

As mãos de Jenna dirigiram-se ao aro de ouro que Marcia lhe pusera na cabeça. Em algum lugar bem fundo dentro dela, começava a sentir-se diferente.

— Está bem — sussurrou. — Eu vou.

 

Jenna não podia acreditar no que lhe estava acontecendo. Mal tivera tempo de dar um beijinho de despedida em todo mundo, e Marcia já a cobria com o seu manto púrpura e lhe dizia que se mantivesse junto dela. E depois a grande porta negra dos Heap abriu-se de forma relu­tante com um chiar de dobradiças, e Jenna foi surrupiada do único lar que conhecera.

Provavelmente era melhor que Jenna, coberta como estava pela capa de Marcia, não pudesse ver a expressão desorientada dos seis rapazes Heap, ou a desolação nos rostos de Sara e Silas enquanto viam o manto púrpura com quatro pernas esvoaçar na dobra da esquina no extremo do corredor 223 e desaparecer de vista.

Marcia e Jenna seguiram pelo caminho mais longo para a Torre dos Feiticeiros. Marcia não queria arriscar-se a ser vista no exterior com Jenna, e os escuros e labirínticos corredores do Lado Oriental pareciam ser uma aposta mais segura do que o percurso mais curto de que se servira nessa manhã. Marcia avançava a passos largos, e Jenna tinha que correr para conseguir manter-se lado a lado com ela. Por sorte, não levava mais do que uma pequena mochila às costas, com um punhado de tesouros para se lembrar de sua casa; embora, com toda aquela pressa, tivesse se esquecido do seu presente de aniversário.

Já estavam a meio da manhã e a hora de pico já tinha passado. Para grande alívio de Marcia, os corredores bolorentos estavam prati­camente vazios enquanto ela e Jenna avançavam silenciosamente, virando desembaraçadamente quando deviam, à medida que Marcia se recordava de suas antigas deslocações à Torre dos Feiticeiros.

Escondida sob o pesado manto de Marcia, Jenna não conseguia ver quase nada, por isso concentrou-se nos dois pares de pés que via por baixo de si: os seus próprios pezinhos rechonchudos nas gastas botas castanhas, e os longos e pontiagudos sapatos de Marcia, nas peles de píton púrpura, que avançavam sobre as escuras lajes cinzentas do cor­redor. Em breve Jenna deixara de reparar nas suas botas e ficara como que hipnotizada pelas pítons púrpura e bicudas que dançavam em frente dos seus olhos — esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda, direita — enquanto atravessavam quilômetros e quilômetros de infin­dáveis corredores.

E desta forma o estranho par avançou sem ser notado através do Castelo. Passando pelas pesadas portas sussurrantes que escondiam as várias oficinas onde as pessoas do Lado Oriental passavam as suas longas horas de trabalho fazendo botas, cerveja, roupas, barcos, camas, selas, velas, pão e, mais recentemente, armas, uniformes e grilhetas. Passando pelas frias salas de aula onde crianças aborrecidas repetiam a tabuada e passando pelos grandes e vazios arma­zéns cheios de ecos de onde o Exército dos Guardiães tinha recen­temente retirado a maior parte das provisões de Inverno para seu próprio uso.

Por fim, Marcia e Jenna atravessaram a estreita arcada que levava ao pátio da Torre dos Feiticeiros. Jenna prendeu a respiração no ar frio e atreveu-se a uma espiadela por sob a capa.

Soltou uma exclamação.

Erguendo-se à sua frente estava a Torre dos Feiticeiros, tão alta que a Pirâmide dourada que tinha no topo quase desaparecia nuns farrapos de nuvens baixas. A Torre brilhava prateada sob o sol de Inverno, tão brilhante que lhe fazia doer os olhos, e o vidro púrpura nas centenas de janelinhas refulgia e cintilava com uma misteriosa escuridão que refletia a luz e escondia os segredos que estavam por detrás dele. Uma fina névoa azulada pairava em torno da Torre, graduando seus contornos, e Jenna mal conseguia dizer onde terminava a Torre e começava o céu. O ar era diferente também; tinha um cheiro doce e esquisito, de encantamentos mágicos e incenso antigo. E enquanto Jenna ficava ali, incapaz de mais um passo, sabia que estava rodeada pelos sons, suaves demais para serem ouvidos, de antigos encantos e sortilégios.

Pela primeira vez desde que saíra de casa, Jenna estava com medo.

Marcia colocou um braço protetor sobre os ombros de Jenna, pois até ela se lembrava como era quando se via a Torre pela primeira vez. Aterrorizador.

— Anda, estamos quase lá — murmurou de forma encorajadora, e juntas escorregaram e deslizaram por sobre a neve que cobria o pátio em direção aos enormes degraus de mármore que conduziam à cintilante entrada de prata. Marcia estava preocupada em manter o equilíbrio, e foi só quando chegou à base das escadas que percebeu que não havia mais ninguém de sentinela. Confusa, olhou para o relógio. O render das sentinelas só devia acontecer dali a quinze minutos, por isso onde estava o rapaz que ela repreendera nessa manhã por atirar bolas de neve?

Marcia olhou ao redor, repreendendo-se a si mesma. Alguma coisa estava errada. A sentinela não estava ali. E no entanto, ainda estava ali. Estava, compreendeu ela, entre o Aqui e o Não Aqui.

Estava quase morto.

Marcia mergulhou repentinamente em direção a um pequeno amontoado de neve junto da arcada, e Jenna ficou a descoberto.

— Cave! — sibilou Marcia, começando a esgaravatar no montículo de neve. — Está aqui. Congelado.

Sob o monte de neve estava o corpinho branco e magro do sen­tinela. Estava todo enrolado, e o seu fino uniforme de algodão estava ensopado pela neve e colava-se gelado ao corpo, as cores brilhantes do bizarro uniforme parecendo muito espalhafatosas sob o frio sol de Inverno. Jenna estremeceu ao ver o rapaz, não por causa do frio, mas por uma desconhecida memória, sem palavras, que lhe atravessou o pensamento.

Marcia limpou cuidadosamente a neve que cobria a boca azul escura do rapaz, enquanto Jenna punha uma mão no braço branco e fino como um galho. Nunca sentira alguém tão frio antes. Com certeza já estava morto, ou não?

Jenna viu como Marcia se debruçava sobre o rosto do rapazinho e murmurava algo que não conseguiu ouvir. Marcia calou-se, pôs-se à escuta e parecia preocupada. Depois voltou a murmurar, com mais urgência:

— Apresse-se, Pequena Cria. Apresse-se. — Interrom­peu-se por um breve instante, e depois soprou uma longa e lenta expiração sobre o rosto do rapaz. A respiração tombava infindável da boca de Marcia, uma morna nuvem rosada que envolveu a boca e o nariz do rapazinho e que, lentamente, muito lentamente, parecia estar afastando o horrível tom azul e a substituí-lo por uma cor de maior vivacidade. O rapaz não se moveu, mas Jenna teve a impressão de já conseguir ver um tênue subir e descer em seu peito. Já respirava nova­mente.

— Depressa! — sussurrou Marcia a Jenna. — Se o deixarmos aqui não vai conseguir sobreviver. Temos que levá-lo para dentro. — Marcia pegou o rapaz no colo e subiu com ele os largos degraus de mármore. Ao chegar ao topo as sólidas portas de prata da Torre dos Feiticeiros abriram-se silenciosamente perante si. Jenna respirou fundo e seguiu Marcia e o rapaz para o interior.

 

Foi só quando as portas da Torre dos Feiticeiros se fecharam atrás de si, e ela deu consigo no enorme Saguão dourado da entrada, que Jenna percebeu o quanto sua vida passara a ser diferente. Jenna nunca, mas nunca mesmo, tinha visto ou sequer sonhado com um lugar assim antes. E sabia que a maioria das pessoas no Castelo nunca chegaria a ver um lugar semelhante. Já estava se tornando diferente daqueles que tinham ficado para trás.

Jenna olhava deslumbrada para as riquezas que a rodeavam en­quanto permanecia paralisada no enorme Saguão circular. As paredes douradas cintilavam com imagens fugidias de criaturas mitológicas, símbolos e terras desconhecidas. O ar era agradável e cheirava a incenso. Estava preenchido com um suave zunido, o som da Magya quotidiana que mantinha a Torre em funcionamento. O chão movia-se sob os pés de Jenna como se fosse areia. Era feito de centenas de cores diferentes que dançavam em redor de suas botas e soletravam as palavras BEM- VINDA, PRINCESA, BEM-VINDA. E depois, enquanto ainda olhava sur­preendida, as letras alteraram-se e escreveram, APRESSE-SE!

Jenna levantou os olhos para ver Marcia, que cambaleava um pouco com o sentinela nos braços, subir para uma escada em espiral, de prata.

— Anda — chamou Marcia impaciente. Jenna correu para ela, chegou ao degrau de baixo e começou a subir as escadas.

— Não, fique onde está — explicou Marcia. — As escadas fazem o resto. Vamos — disse Marcia mais alto e, para espanto de Jenna, as escadas em espiral começaram a girar. No início giravam devagar, mas logo ganharam velocidade, girando mais e mais depressa, subindo pela Torre até chegarem bem ao topo. Marcia desceu das escadas e Jenna seguiu-a, saltando um bocado tonta, antes das escadas voltarem a girar para baixo, chamadas por outro Feiticeiro em algum lugar muito lá ao fundo.

A grande porta púrpura do quarto de Marcia já tinha se aberto para elas, e o fogo na lareira acendeu-se apressadamente. Um sofá veio colocar-se bem em frente à lareira, e dois travesseiros e um cobertor saltaram pelo ar e aterrissaram direitinho sobre o sofá sem que Marcia tivesse que dizer uma palavra.

Jenna ajudou Marcia a deitar o rapazinho sobre o sofá. Tinha mau aspecto. Tinha o rosto branco e esmaecido com o frio, os olhos fechados e tinha começado a tremer incontrolavelmente.

— Estar tremendo é bom sinal — disse Marcia com alguma ani­mação. Depois estalou os dedos. — Roupa molhada fora.

O ridículo uniforme de sentinela voou do corpo do rapaz e tombou no solo numa colorida pilha encharcada.

— São lixo — disse Marcia para as roupas, e o uniforme reco­lheu-se lugubremente e arrastou-se até à calha de escoamento de lixo, para onde se atirou e desapareceu.

Marcia sorriu.

— Boa viagem — disse. — Agora, vista roupa seca.

Um pijama quentinho surgiu no corpo do rapaz, e ele começou logo a tremer com menos violência.

— Ótimo — disse Marcia. — Vamos só nos sentar aqui um bocadinho com ele e deixá-lo se aquecer. Vai ficar bom.

Jenna sentou-se num tapete junto da lareira, e em breve apareceram duas fumegantes taças de leite quente. Marcia sentou-se ao lado dela. Jenna sentiu-se subitamente envergonhada. A Feiticeira ExtraOrdi­nária estava sentada no chão ao lado dela, tal como Nicko costumava fazer. O que devia dizer? Jenna não conseguia pensar em nada, a não ser que sentia frio nos pés, mas estava acanhada demais para descal­çar as botas.

— É melhor tirar essas botas — disse Marcia. — Estão enchar­cadas.

Jenna desapertou os cordões e descalçou-as.

— Olha só para as suas meias. Que mau estado — repreendeu Marcia suavemente.

Jenna corou. Suas meias já tinham sido de Nicko, e antes disso tinham sido de Edd. Ou seriam de Erik? Eram quase só remendos e estavam muito grandes.

Jenna flexionou os dedos junto da lareira e secou os pés.

— Quer umas meias novas? — perguntou Marcia.

Jenna fez que sim com a cabeça, envergonhada. Um par de espessas e quentinhas meias púrpura apareceram-lhe nos pés.

— Mas mesmo assim vamos guardar as antigas — disse Marcia. — Limpem-se — disse-lhes ela. — Dobrem-se. — As meias fize­ram como lhes tinha sido dito; sacudiram a terra, que aterrou num montinho pegajoso sobre a lareira, e dobraram-se meticulosa­mente, pousando perto do fogo, junto de Jenna. Jenna sorriu. Estava contente por Marcia não ter dito que os melhores remendos de Sara eram lixo.

A tarde de Inverno arrastou-se, e a luz começou a desaparecer. O menino sentinela tinha finalmente deixado de tremer e estava dormindo calmamente. Jenna estava enrolada junto à lareira, folheando um dos livros de Magya ilustrados de Marcia, quando se ouviu alguém bater freneticamente à porta.

— Anda, Marcia. Abra a porta. Sou eu! — ouviu-se uma voz impa­ciente do outro lado.

— É o papai! — gritou Jenna.

— Chh... — disse Marcia. — Pode não ser ele.

— Pelo amor de Deus, quer abrir a porta? — voltou a voz impa­ciente.

Marcia fez um rápido Feitiço de Transparência. E como não podia deixar de ser, para sua grande irritação, do outro lado da porta estavam Silas e Nicko. Mas não era tudo. Sentado ao lado deles, com a língua a pender e baba a escorrer-lhe pelo pêlo, estava o lobo, com um lenço de bolinhas sobre o pescoço.

Marcia não tinha outra solução senão deixá-los entrar.

— Abra! — disse Marcia à porta de forma brusca.

— Olá, Jen. — Nicko sorriu. Pisou cuidadosamente no delicado carpete de seda de Marcia, seguido de perto por Silas e pelo lobo, cuja cauda a abanar de contente atirou rapidamente a coleção de vasos de Fadas-Frágeis ao chão.

— Nicko! Papai! — gritou Jenna e atirou-se para os braços de Silas. Parecia que tinham passado meses desde a última vez que o vira. — Onde está a mamãe? Ela está bem?

— Ela está bem — disse Silas. — Foi com os rapazes para a casa da Galena. Eu e o Nicko só viemos aqui para te dar isto. — Silas rebus­cou nos seus bolsos bem fundos. — Espere — disse. — Está em algum lugar por aqui.

— Você está doido? — perguntou Marcia. — O que pensa que está fazendo ao vir aqui? E mantenha esse miserável lobo bem longe de mim.

O lobo estava ocupado a pingar baba sobre os sapatos de píton de Marcia.

— Não é um lobo — disse Silas. — É um cão lobo da Abissínia, descendente dos cães lobos dos Maghul Maghi. E chama-se Maximiliano. Embora ele possa deixá-la tratá-lo por Max. Se for boa para ele.

— Boa! — exclamou Marcia, quase sem palavras.

— Pensei que podíamos ficar aqui — prosseguiu Silas, despejando o conteúdo de um pequeno saco gordurento sobre o tampo de ébano da mesa de Ouija de Marcia, e remexendo entre ele. — Já está muito escuro para irmos para a Floresta.

— Ficar? Aqui?

— Papai! Olhe para as minhas meias, papai — disse Jenna, sacu­dindo os dedos dos pés levantados.

— Mmm, são muito bonitas, boneca — disse Silas, ainda reme­xendo nos bolsos. — Onde é que eu o coloquei? Tenho certeza que o trouxe comigo...

— Gosta das minhas meias, Nicko?

— Muito púrpuras — respondeu Nicko. — Estou gelado.

Jenna levou Nicko para a beira do fogo. Apontou para o menino sentinela.

— Estamos esperando que ele acorde. Ficou congelado na neve, e a Marcia salvou-o. Fez com que voltasse a respirar.

Nicko soltou um assobio, impressionado.

— Ei — disse ele. — Parece que está acordando. — O sentinela tinha aberto os olhos e estava olhando para Jenna e Nicko. Parecia aterrorizado. Jenna acariciou-lhe a cabeça raspada. Picava e ainda estava um bocado fria.

— Agora você está em segurança — disse-lhe ela. — Está conosco. Eu me chamo Jenna, e este é o Nicko. Como se chama?

— Garoto 412 — balbuciou o sentinela.

— Garoto Quatro Um Dois...? — repetiu Jenna, confusa. — Mas isso é um número. Ninguém tem um número como nome.

O rapaz limitou-se a fitar Jenna. Depois voltou a fechar os olhos e adormeceu mais uma vez.

— É estranho — disse Nicko. — O Pai me disse que eles só usavam números no Exército da Juventude. Haviam dois deles lá fora quando viemos, mas o pai convenceu-os de que éramos Guardas. E lembrou-se da palavra-passe de anos atrás.

— O bom e velho Papai. Só que — disse Jenna, pensativa — acho que ele não é o meu Papai, e você não é meu irmão...

— Não seja burra. É claro que somos — disse Nicko brusca­mente. — Nada pode mudar isso. Princesa pateta.

— É, acho que não — considerou Jenna.

— É claro que não — disse Nicko.

Silas tinha ouvido a conversa deles.

— Hei de ser sempre o seu papai, e a mamãe será sempre a sua mamãe. É só que além dela também tem uma primeira mamãe.

— Era mesmo uma Rainha? — perguntou Jenna.

— Sim. A Rainha. A nossa Rainha. Antes de termos estes Guar­diães. — Silas parecia pensativo, e depois sua expressão desanuviou-se ao lembrar-se de algo, e tirou o espesso chapéu de lã. estava, no bolso do chapéu. É claro.

— Encontrei-o! — disse Silas triunfante. — O seu presente de ani­versário. Feliz aniversário, boneca. — Deu a Jenna o presente que ela tinha deixado para trás.

Era pequeno e surpreendentemente pesado para o tamanho que tinha. Jenna rasgou o papel colorido e ficou segurando um pequeno sa­quinho azul, de cordões. Desapertou cuidadosamente os cordões, pren­dendo a respiração de contentamento.

— Oh! — exclamou, incapaz de esconder a decepção. — É um seixo. Mas é um seixo muito bonito, Papai. Obrigada. — Pegou na pedra cinzenta, lisa, e a colocou na palma da mão.

Silas pegou Jenna no colo.

— Não é um seixo. É uma rocha de estimação — explicou ele. — Experimente fazer-lhe cócegas debaixo do queixo.

Jenna não tinha certeza de que lado ficava o queixo, mas mesmo assim fez cócegas na pedra. Lentamente, a pedra abriu os seus peque­ninos olhos negros e olhou para ela, depois esticou quatro pernas entroncadas, levantou-se e passeou por sua mão.

— Oh, Papai, é genial! — exclamou Jenna.

— Achamos que ia gostar. Arranjei o feitiço na Loja das Pedras Errantes. Mas não lhe dê comida demais, senão fica muito pesada e preguiçosa. E precisa de um bom passeio todos os dias.

— Vou chamá-la de Petrocha — disse Jenna. — Petrocha Trelawney.

Petrocha Trelawney parecia tão satisfeita quanto um seixo poderia se sentir, o que era praticamente o mesmo aspecto que tinha antes. Encolheu as pernas, fechou os olhos e preparou-se para dormir. Jenna colocou-a no bolso para mantê-la quentinha.

Enquanto isso, Max estava entretido mastigando papel e babando sobre o pescoço de Nicko.

— Ei, chega p’ra lá, monte de baba! Anda, deite-se — dizia Nicko, procurando empurrar Max para o chão. Mas o cão lobo não queria se deitar. Estava olhando fixamente para um grande retrato na parede, de Marcia com o vestido do dia de sua Graduação como Aprendiz.

Max começou a uivar baixinho.

Nicko fez uma festa em Max.

— É um quadro que mete medo, heim? — sussurrou ele ao cão, o qual abanou a cauda tristemente, e depois soltou um latido quando Alther Mella apareceu através do retrato. Max nunca se habituara às aparições de Alther.

Max choramingou e enterrou a cabeça debaixo do cobertor que cobria o Garoto 412. O seu nariz frio fez com que o rapaz acordasse sobressaltado. O Garoto 412 sentou-se como se empurrado por uma mola e olhou em volta como um coelho assustado. Não gostou nada do que viu. Na realidade, estava perante o seu pior pesadelo.

A qualquer momento o Comandante do Exército da Juventude viria buscá-lo, e aí sim, estaria metido em encrencas. A pri­var com o inimigo — era como eles diziam sempre que algum deles falava com os Feiticeiros. E aqui estava ele com dois deles. E ainda com o que parecia o fantasma de um velho Feiticeiro. Sem falar nas duas crianças esquisitas, a menina com uma espécie de coroa na cabeça, e o menino com os olhos verdes de Feiticeiro que o denunciavam ime­diatamente. E o cão imundo. Também tinham lhe tirado o uniforme e obrigado a vestir roupas civis. Podia ser fuzilado como espião. O Garoto 412 gemeu e enterrou a cabeça nas mãos.

Jenna aproximou-se e pôs-lhe um braço em volta dos ombros.

— Está tudo bem — sussurrou ela. — Vamos tomar conta de você.

Alther parecia agitado.

— Aquela mulher, a Linda. Ela disse-lhes para onde vocês foram. Eles vêm para cá. Mandaram a Assassina.

— Oh não — disse Marcia. — Vou FecharPorEncanto as portas principais.

— Tarde demais — exclamou Alther. — Já está aqui dentro.

— Mas como?

— Alguém deixou a porta aberta — disse Alther.

— Silas, seu idiota! — rosnou Marcia.

— Bom, sendo assim, vamos andando — disse Silas, dirigindo-se para a porta. — E vou levar Jenna comigo. É óbvio que não está em segurança contigo, Marcia.

— O quê? — guinchou Marcia indignada. — Ela não está segura em parte nenhuma, seu palerma!

— Não me chame de palerma — cuspiu Silas. — Sou tão inte­ligente quanto você, Marcia. Só porque não sou mais do que Feiticeiro Normal...

— Parem com isso! — gritou Alther. — Não é hora para dis­cussões. Pelo amor de Deus, ela já está subindo as escadas.

Chocados, todos se calaram e puseram à escuta. Estava tudo silen­cioso. Silencioso demais. Exceto pelo sibilar das escadas de prata que giravam regularmente enquanto traziam lentamente um passa­geiro através da Torre dos Feiticeiros, bem até ao topo, bem até à porta púrpura de Marcia.

Jenna estava assustada. Nicko pôs um braço em volta dela.

— Eu a protejo, Jen — disse ele. — Comigo está em segurança.

De repente, Max atirou as orelhas para trás e soltou um uivo de gelar o sangue. Todos ficaram com o cabelo em pé.

Crás! A porta abriu-se violentamente.

Recortada contra a luz, estava a silhueta da Assassina. Tinha o rosto pálido, apreciando a cena que se abria diante de si. Correu friamente os olhos em volta, procurando a sua presa. A Princesa. Na mão direita segurava uma pistola de prata, a mesma que Marcia tinha visto pela última vez há dez anos na Sala do Trono.

A Assassina deu um passo em frente.

— Estão presos — disse ameaçadoramente. — Não é preciso que digam nada. Serão levados daqui para um certo lugar e...

O Garoto 412 levantou-se, tremendo. Era mesmo como ele estava à espera — tinham vindo buscá-lo. Lentamente, caminhou até a Assas­sina. Ela olhou para ele friamente.

— Saia do caminho, rapaz — rosnou a Assassina. Deu um bofetão no Garoto 412, que o atirou ao chão.

— Não faça isso! — gritou Jenna. Correu até o Garoto 412, que estava estendido no chão. Ao ajoelhar-se para ver se ele estava bem, foi agarrada pela Assassina.

Jenna contorceu-se.

— Me larga! — gritou.

— Quieta, Rainhazinha — riu a Assassina. — Há uma pessoa que quer te ver. Mas quer vê-la... morta.

A Assassina apontou a pistola para a cabeça de Jenna. Bang!

Um RelâmpagoTrovão voou da mão estendida de Marcia. Atirou a Assassina no chão e deixou Jenna fora de seu alcance.

— Rodeia e Protege! — gritou Marcia. Uma brilhante folha de luz ergueu-se do chão como uma lâmina reluzente e rodeou-os, separando-os da Assassina inconsciente.

Depois Marcia abriu a comporta que cobria a calha de lixo.

— É a única saída — disse. — Silas, você vai na frente. Tente fazer um Feitiço de Limpeza enquanto desce.

— O quê?

— Ouviu muito bem. Anda, vai! — rosnou Marcia, empurrando Silas pela comporta aberta. Silas caiu na calha de lixo e depois, com um grito, desapareceu.

Jenna ajudou o Garoto 412 a pôr-se de pé.

— Anda — disse, e empurrou-o de cabeça pela comporta. Depois saltou ela, seguida de perto por Nicko, por Marcia e por um entusiasmado cão lobo.

 

Quando Jenna se lançou para a calha de lixo, estava tão aterrorizada com a Assassina que não teve tempo para se assustar com a queda. Mas à medida que mergulhava descontroladamente na escuridão impenetrável, sentia um pânico avassalador crescendo dentro dela.

O interior da calha de lixo estava tão frio e escorregadio como gelo. Era feita de ardósia negra, muito polida, impecavelmente cortada e unida pelos Mestres Pedreiros que tinham construído a Torre dos Fei­ticeiros há muitas centenas de anos. A queda era íngreme, íngreme demais para que Jenna pudesse ter qualquer controle sobre a maneira como caía, por isso dava cambalhotas e contorcia-se para lá e para cá, rolando de um lado para o outro.

Mas o pior de tudo era o escuro.

Um negro espesso, profundo e impenetrável. Saltava sobre Jenna vindo de todos os lados ao mesmo tempo, e por muito que ela esfor­çasse os olhos para tentar ver alguma coisa, fosse o que fosse, não adiantava. Jenna até pensou que tivesse ficado cega.

Mas ainda conseguia ouvir. E, por trás dela, se aproximando rapida­mente, Jenna podia ouvir o silvar de pêlo úmido de cão lobo.

Max, o cão lobo, estava se divertindo à valer. Gostava deste jogo. Max tinha ficado um bocado surpreso ao pular para o interior da calha, por não encontrar Silas à espera dele com a bola. Ficou ainda mais surpreso quando teve a impressão de que suas patas já não fun­cionavam, e teve que escavar um bocado para descobrir porquê.

Depois tinha batido com o nariz no pescoço daquela mulher assus­tadora, e tentou dar uma boa lambida a qualquer coisa saborosa que ela tinha no cabelo, mas nessa hora ela tinha lhe dado um grande empurrão que o deixou de pernas para o ar.

E agora Max estava feliz. Mergulhando de cabeça e com as patas encolhidas, era um veloz relâmpago de pêlo que ultrapassava a todos. Ultrapassou Nicko, que lhe agarrou a cauda, mas a soltou logo. Ultrapassou Jenna, que lhe gritou ao ouvido. Ultrapassou o Garoto 412, que estava enrolado como uma bola. E depois ultrapassou o seu pró­prio dono e senhor, Silas. Max sentiu-se um bocado culpado ao ultra­passar Silas, porque Silas era o Macho Alfa e Max Não Podia Ir Na Frente do Macho Alfa. Mas o cão lobo não tinha outra escolha — passou por Silas num chuveiro de guisado frio e lascas de cenoura, e conti­nuou a cair.

A calha de lixo serpenteava em volta da Torre dos Feiticeiros, como uma enorme confusão enterrada profundamente no interior das paredes espessas. Mergulhava abruptamente de andar para andar, arrastando não só Max, Silas, o Garoto 412, Jenna, Nicko e Marcia, mas também as sobras do almoço de todos os Feiticeiros, que nessa tarde tinham sido atiradas na calha. A Torre dos Feiticeiros tinha vinte e um andares de altura. Os dois andares mais altos pertenciam à Feiticeira ExtraOrdinária, e em cada andar abaixo desses havia dois apartamentos de Feiticeiros. E uma data de almoços. Para um cão lobo era o paraíso e, enquanto caía, Max comeu sobras que lhe che­gavam para o dia inteiro.

Por fim, depois do que pareciam horas, mas não tinham sido mais do que dois minutos e quinze segundos, Jenna sentiu que a queda vertical se tornava menos acentuada, e a velocidade a que caía reduziu-se para um nível muito mais tolerável. Jenna não sabia, mas já tinha saído da Torre dos Feiticeiros e viajava agora por baixo da terra, aban­donando as fundações da Torre e dirigindo-se para as caves das Cortes dos Guardiães. Continuava a estar escuro e gelado na calha, e Jenna sentia-se muito só. Aguçou o ouvido para tentar ouvir os sons que os outros pudessem fazer, mas todos sabiam como era importante manterem-se em silêncio e nenhum deles se atrevia a chamar pelos outros. Jenna pensou conseguir ouvir o deslizar da capa de Marcia por trás dela, mas desde que Max passara por ela que não tivera qualquer outro indício de que mais alguém estivesse ali consigo. A idéia de ficar sozi­nha no escuro para sempre começou a tomar conta dela, dando origem a uma nova onda de pânico. Mas exatamente quando Jenna achou que ia começar a gritar, um raio de luz brilhou através de uma fenda no chão de uma cozinha distante, lá no alto, e ela conseguiu apanhar um relance do Garoto 412, enrolado como uma bola, um pouco mais à frente. Jenna sentiu-se mais animada por tê-lo visto, e deu consigo a sentir pena do rapazinho sentinela, magro e gelado no seu pijama.

O Garoto 412 não estava em condições de sentir pena de quem quer que fosse, e muito menos de si próprio. Quando a menina maluca, com o aro de ouro na cabeça, o tinha empurrado para o abismo, ele tinha se enrolado instintivamente como uma bola e passara o resto da descida da Torre dos Feiticeiros a chocalhar de um lado para o outro da calha, como uma bolinha de gude num tubo. O Garoto 412 sentia-se arra­nhado e machucado, mas não mais aterrorizado do que se sentira ao acordar na companhia de dois Feiticeiros, de um rapaz Feiticeiro e um Feiticeiro fantasma. Quando a sua queda também abrandou, os miolos do Garoto 412 recomeçaram a funcionar. As poucas idéias que conseguiu juntar diziam-lhe que aquilo só podia ser um Teste. O Exército da Juventude estava cheio de Testes. Os Testes Surpresa Aterrorizadores apareciam sempre no meio da noite, quando estavam adormecendo, depois de terem posto a estreita cama tão confortável quanto possível. Mas este era um Teste Importante. Tinha de ser um daqueles Testes Fazer-ou-Morrer. O Garoto 412 apertou os dentes; não tinha certeza, mas naquele exato momento parecia-lhe que estava na parte de Morrer do Teste. Fosse como fosse, não havia muito que ele pudesse Fazer. Por isso fechou os olhos com força e continuou a rolar.

A calha levava-os cada vez mais para baixo. Voltou à esquerda e passou por baixo da Câmara do Conselho dos Guardiães, torceu à direita para ultrapassar os Gabinetes do Exército, e depois seguiu direto, atravessando as grossas paredes das cozinhas subterrâneas do Palácio. Foi aqui que as coisas se tornaram particularmente com­plicadas. As Empregadas da Cozinha ainda estavam ocupadas com a limpeza depois do Banquete de Meio-do-Dia do Supremo Guardião, e as comportas das cozinhas, que não ficavam muito acima dos viajan­tes da calha de lixo, abriam-se com uma freqüência alarmante, banhando-os com a mistela de restos do festim. Até Max, que nessa altura já tinha comido tanto quanto podia, achou aquilo desagradável, sobretudo depois de um pudim solidificado lhe ter acertado em cheio no nariz. A jovem Empregada de Cozinha que despejara o pudim apanhou um relance de Max e durante semanas teve pesadelos com lobos na calha do lixo.

Para Marcia, aquilo também era um pesadelo. Enrolou-se com força na sua capa de seda púrpura manchada de molhos, com o debrum de pêlo coberto de mostarda, desviou-se de um chuveiro de couves de bruxelas e tentou ensaiar o Feitiço de Lava a Seco Num Segundo, para usar logo que conseguisse sair da calha.

Por fim a calha afastou-os das cozinhas e as coisas ficaram um bocado mais limpas. Jenna permitiu-se um momento de descontração, mas ficou subitamente sem ar quando a calha mergulhou de repente a pique sob a muralha do Castelo, em direção ao seu destino final, a lixeira na margem do rio.

Silas foi o primeiro a refazer-se do súbito mergulho e calculou que a viagem devia estar acabando. Espreitou pela escuridão, tentando descobrir a luz no fundo do túnel, mas não conseguia ver absoluta­mente nada. Embora soubesse que por essa altura o sol já devia ter se posto, contava que com o nascimento da lua cheia se pudesse ver al­guma luz. E nessa altura, para sua surpresa, foi deslizando contra qual­quer coisa sólida. Qualquer coisa macia e pegajosa, que cheirava horrivelmente. Era Max.

Silas estava se perguntando por que Max estaria bloqueando a calha do lixo quando o Garoto 412, Jenna, Nicko e Marcia lhe acertaram como balas de canhão, um após outro. Silas percebeu que não era só Max que era macio, pegajoso e cheirava horrivelmente — estavam todos assim.

— Papai? — A voz assustada de Jenna ouviu-se na escuridão. — É você, Papai?

— Sou, boneca — sussurrou Silas.

— Onde estamos, Pai? — perguntou Nicko com voz rouca. Odiava a calha do lixo. Até ter pulado para o seu interior, Nicko não fazia idéia de que não conseguia suportar espaços fechados; que boa maneira para descobrir, pensou ele. Nicko tinha conseguido ultrapas­sar o medo, dizendo a si próprio que pelo menos estavam em movi­mento e em breve estariam lá fora. Mas agora tinham parado. E não estavam lá fora.

Estavam encravados. Presos.

Nicko tentou sentar-se, mas bateu com a cabeça na lousa fria por cima dele. Estendeu os braços, mas eles encontraram as paredes macias como gelo de ambos os lados, antes ainda de estarem completamente esticados. Nicko sentiu que sua respiração se acelerava cada vez mais. Achou que era capaz de ficar louco se não saíssem dali bem depressa.

— Por que paramos? — sibilou Marcia.

— Há alguma coisa bloqueando — sussurrou Silas, que tinha tateado para lá de Max e chegado à conclusão de que tinham ido contra uma enorme pilha de lixo que estava bloqueando a passagem.

— Bolas — resmungou Marcia.

— Pai. Quero sair daqui, Pai — arfou Nicko.

— Nicko? — sussurrou Silas. — Você está bem?

— Não...

— É a porta dos ratos! — exclamou Marcia triunfante. — Há uma grelha que serve para impedir os ratos de entrarem na calha. Foi colo­cada depois de Endor ter descoberto um rato na panela dele. Abra-a, Silas.

— Não consigo chegar até ela. Há muito lixo no caminho.

— Se tivesse usado o Feitiço de Limpeza como tinha dito, não haveria esse lixo todo, não é?

— Marcia — sibilou Silas —, quando se tem a impressão de que está prestes a morrer, as limpezas domésticas não são propriamente a maior prioridade.

— Pai — chamou Nicko, desesperado.

— Eu faço isso — rosnou Marcia. Fez estalar os dedos e pro­nunciou qualquer coisa em voz baixa. Houve um clang abafado, e a porta dos ratos abriu-se, e um zing quando o lixo saltou obediente­mente da calha e se derramou sobre a lixeira.

Estavam livres.

A lua cheia, que se erguia acima do rio, derramava sua luz clara e brilhante sobre a escuridão da calha, conduzindo os seis viajantes cansados e arranhados para o lugar onde todos eles estavam mortinhos para chegar.

A Lixeira de Detritos da Amenidade Ribeirinha.

 

Era uma típica noite calma de Inverno no café de Sally Mullin. Um constante zumbido de conversas enchia o ar, enquanto clientes habituais e viajantes partilhavam as largas mesas de madeira em torno do pequeno forno à lenha. Sally tinha acabado de passar pelas mesas, partilhando piadas, oferecendo fatias de bolo de cevada acabado de fazer, e trocando o óleo das lamparinas que tinham estado acesas durante toda aquela aborrecida tarde de Inverno. Agora estava de volta ao seu lugar atrás do balcão, enchendo cuidadosamente cinco medidas de Cerveja Especial Primaveril para uns Mercadores Nortenhos acabados de chegar.

Quando Sally deu uma olhada nos Mercadores percebeu com surpresa que o seu característico ar de desolação e triste resignação tinha sido substituído por amplos sorrisos. Sally sorriu. Orgulhava-se de explorar um café feliz, e se conseguia que cinco Mercadores Nortenhos rissem ainda antes de beberem a primeira caneca da Especial Pri­maveril, então não havia dúvidas de que estava fazendo as coisas bem.

Sally levou as cervejas até à mesa dos Mercadores, junto da janela, e pousou-as habilmente na frente deles sem entornar a menor gota. Mas os Mercadores não prestaram qualquer atenção à cerveja, pois estavam ocupados demais esfregando os vidros embaçados da janela com as suas mangas sujas e espreitando a escuridão exterior. Um deles apontou para qualquer coisa lá fora, e desataram todos em sonoras gargalhadas.

O riso estava a alastrar-se pelo café. Outros clientes estavam se apro­ximando das janelas e espiando para o exterior, até que em pouco tempo toda a clientela estava tentando arranjar um lugar para espiar da longa fileira de janelas que corria ao longo dos fundos do café.

Sally Mullin espiou para fora, tentando descobrir o que causava toda aquela diversão.

Ficou de boca aberta.

À luz brilhante da lua cheia, a Feiticeira ExtraOrdinária, Madame Marcia Overstrand, estava coberta de lixo e dançando como uma maluquinha no topo da lixeira municipal.

Não, pensou Sally, não é possível.

Espreitou outra vez pela janela besuntada. Sally não podia acredi­tar no que estava vendo. Lá estava de fato a Madame Marcia com três crianças — três crianças? Todos sabiam que Madame Marcia não suportava crianças. Havia também um lobo e alguém que Sally achava vagamente familiar. Mas quem?

O marido que não prestava para nada de Sara, Silas Faço-Amanhã Heap, era quem era.

O que Silas Heap estaria fazendo com Marcia Overstrand? Com três das crianças? Na lixeira? Será que Sara sabia disso?

Bem, em breve saberia.

Como boa amiga de Sara Heap, Sally achava que era seu dever tratar de tirar tudo a limpo. Por isso pôs o Garoto-da-Limpeza para tomar conta do café, e saiu correndo para o luar.

Sally desceu com estrépito o portaló do pontão do café e correu através da neve, colina acima até à lixeira. Enquanto corria, sua mente ditou-lhe uma inevitável conclusão.

Silas Heap estava fugindo com Marcia Overstrand.

Fazia todo sentido. Sara queixara-se várias vezes de como Silas era obcecado por Marcia. Desde que tinha desistido de sua Aprendi­zagem com Alther Mella e Marcia o tinha substituído, Silas tinha acompanhado o seu espantoso progresso com um misto de horror e fascínio, sempre pensando que podia ter sido ele. E, desde que ela se tornara Feiticeira ExtraOrdinária, há dez anos, Silas, se possível, ficou ainda pior.

Completamente obcecado com o que Marcia fazia, fora o que Sara lhe dissera.

Mas claro, cogitou Sally, que tinha chegado ao fundo da enorme pilha de lixo e começava a subi-la com dificuldade, Sara também não era completamente inocente. Qualquer um podia ver que a sua menina não era filha de Silas. Era tão diferente dos outros. E certa vez, quando Sally tentara abordar discretamente o assunto do pai de Jenna, Sara tinha mudado bruscamente de assunto. Oh sim, algo se passava entre os Heap há anos. Mas isso não servia de descul­pa para o que Silas estava fazendo agora.

Não serve mesmo de desculpa, pensou Sally mal-humorada, subindo aos tropeções para o topo da pilha de entulho.

As figuras enlameadas tinham começado a descida e dirigiam-se para Sally. Sally agitou os braços na direção deles, mas pareciam não tê-la visto. Pareciam preocupados e cambaleavam um bocado, como se estivessem tontos. Agora que estavam mais perto, Sally podia ver que não tinha se enganado quanto às suas identidades.

— Silas Heap! — gritou Sally, zangada.

As cinco figuras deram um pulo e ficaram olhando para Sally.

— Chhhhh! — sussurraram quatro vozes, tão alto quanto se atre­viam.

— Nada de chhs! — declarou Sally. — O que pensa que está fazendo, Silas Heap? Trocando sua mulher por esta... assanhada? — Sally agitou reprovadoramente o indicador em direção de Marcia.

— Assanhada? — exclamou Marcia.

— E levar estas pobres crianças com você — ralhou a Silas. — Co­mo pode?

Silas patinhou pelo lixo em direção a Sally.

— Do que está falando? — exigiu saber. — E, por favor, pode falar mais baixo?

— Chh! — disseram três vozes por trás dele. Por fim Sally acalmou-se.

— Não faça isso, Silas — sussurrou com voz rouca. — Não aban­done sua mulher e sua família adoráveis. Por favor.

Silas pareceu estupefato.

— Não vou abandonar — disse ele. — Quem te disse uma coisa dessas?

— Não vai?

— Não!

— Chhhh!

 

Levou a maior parte da descida da lixeira para explicar a Sally o que tinha acontecido. Seus olhos esbugalharam-se e a boca escancarou-se quando Silas lhe contou tudo o que foi preciso para pôr Sally do lado deles — que foi praticamente tudo o que aconteceu. Silas compreendeu que não precisavam só do silêncio de Sally; a ajuda dela também seria bem vinda. Mas Marcia não tinha tanta certeza assim. Sally Mullin não era propriamente a primeira pessoa que Marcia teria escolhido para pedir ajuda. Por isso decidiu avançar e tomar conta da situação.

— Bom — disse ela com autoridade, quando pisaram terra firme na base da lixeira. — Acho que podemos contar que o Caçador e sua Matilha sejam enviados atrás de nós a qualquer momento.

Uma expressão de medo atravessou o rosto de Silas. Já tinha ouvido falar do Caçador.

Marcia mantinha se calma e pragmática.

— Voltei a encher a calha com lixo e fiz um Feitiço de Fecha Depressa e Solda na porta dos ratos — disse. — Por isso, com sorte, ele vai pensar que continua­mos presos lá dentro.

Nicko estremeceu só de pensar nisso.

— Mas isso não vai atrasá-lo muito — prosseguiu Marcia. — E nessa altura ele há de vir à nossa procura — e há de fazer per­guntas. — Marcia olhou para Sally como se estivesse dizendo, E vai ser a você que vai fazê-las.

Todos se calaram.

Sally devolveu com firmeza o olhar de Marcia. Sabia perfeitamente no que estava se metendo. Sabia que ia ter muitas chateações por isso, mas Sally era uma amiga leal.

Ia fazê-lo.

— Muito bem, então — disse Sally, espevitada. — Quer dizer que quando essa altura chegar, vocês e estes diabinhos já têm que estar bem longe daqui, não é?

Sally levou-os para o dormitório nos fundos do café, onde muitos viajantes estourados costumavam encontrar uma cama quentinha para passar a noite, e também roupas lavadas se precisassem. O dor­mitório estava vazio àquela hora do dia. Sally mostrou-lhes onde guar­dava as roupas e disse-lhes que levassem todas as que precisassem. Ia ser uma noite longa e fria. Encheu rapidamente um balde de água quente para que pudessem lavar a maior parte da porcaria da calha, e depois saiu correndo, dizendo:

— Encontro-os lá em baixo no cais daqui a dez minutos. Podem levar o meu barco.

Jenna e Nicko ficaram mais do que satisfeitos por poderem se livrar daquelas roupas imundas, mas o Garoto 412 recusou-se a fazer o que quer que fosse. Já tinha sofrido trocas de roupa demais num só dia, e mostrava-se determinado a agarrar-se ao que tinha, mesmo que fosse apenas um imundo e ensopado pijama de Feiticeiro.

Por fim Marcia viu-se obrigada a servir-se de um Feitiço de Lim­peza sobre ele, seguido de um Feitiço de Troca de Roupa para enfiá-lo numa blusa de pescador, calças e casaco de lã, além de uma boina de um vermelho vivo que Silas tinha encontrado para ele.

Marcia estava irritada por ter que recorrer a um feitiço para as roupas do Garoto 412. Queria poupar energias para mais tarde, já que tinha o desagradável pressentimento de que ia precisar de toda a ener­gia de que pudesse dispor para se porem a salvo. É certo que tinha gasto alguma energia no Feitiço de Lava a Seco Num Segundo, o qual, dado o estado de sua capa, tinha se convertido num Feitiço de Lava a Seco Num Minuto, e mesmo assim não tinha conseguido se livrar de todas as nódoas. Na opinião de Marcia, a capa da Feiticeira ExtraOrdinária era mais do que uma mera capa; era um instrumento de Magya perfeitamente afinado e que devia ser tratado com respeito.

Dez minutos mais tarde estavam reunidos no molhe.

Sally estava à espera deles com o seu barco à vela. Nicko olhou aprovadoramente para o pequeno barco verde. Adorava barcos. Na verdade, não havia nada de que Nicko gostasse mais do que estar num barco sobre a água, e este parecia ser bom. Era largo e equilibrado, flutuava perfeitamente e tinha um par novo de velas vermelhas. E tinha um nome agradável: Muriel. Nicko gostou do nome.

Marcia olhou para o barco, desconfiada.

— Como é que funciona? — perguntou a Sally.

Nicko adiantou-se.

— Veleja — disse ele. — Veleja.

— Quem é que veleja? — perguntou Marcia, confusa. Nicko era paciente.

— O barco veleja.

Sally começava a ficar agitada.

— É melhor porem-se a caminho — disse ela, lançando um olhar à lixeira. — Pus remos ali, para o caso de precisarem. E alguma comida. Vão, eu solto as amarras enquanto vocês sobem a bordo.

Jenna foi a primeira a subir para o barco, agarrando o Garoto 412 por um braço e arrastando-o com ela. Ele procurou resistir durante um breve momento, mas depois cedeu. O Garoto 412 estava ficando muito cansado.

Nicko saltou logo a seguir, depois Silas empurrou uma Marcia algo relutante para fora do molhe e para o interior do barco. Sentou-se hesitante perto da barra do leme e cheirou o ar.

— Que cheiro horrível é este? — murmurou.

— Peixe — respondeu Nicko, interrogando-se sobre se Marcia saberia velejar.

Silas saltou para o barco com Max, e Muriel afundou-se um pouco mais.

— Vou empurrá-los — disse Sally, ansiosa.

Atirou a corda a Nicko, que a apanhou habilmente e a enrolou meticulosamente na proa do barco.

Marcia agarrou o timão, as velas a sacudirem-se violentamente, e Muriel descreveu uma inesperada curva para a esquerda.

— Não seria melhor eu levar o leme? — perguntou Nicko.

— Levar o quê? Oh, esta coisa aqui? Muito bem, Nicko. Não quero me cansar. — Marcia embrulhou-se na sua capa e, com o máximo de dignidade que conseguiu reunir, arrastou-se acanhada para o lado da embarcação.

Marcia não estava nada contente. Nunca tinha estado num barco antes, e não tinha intenção de voltar a pôr os pés num, se pudesse evitar. Para começar, não havia cadeiras. Nem tapetes, nem coxins, nem sequer um telhado. Não só havia água demais no exterior do barco, como havia alguma água a mais no interior. Isso queria dizer que estavam afundando? E o cheiro era insuportável.

Max estava todo entusiasmado. Conseguiu pisar os preciosos sapa­tos de Marcia, e esfregar-lhe a cauda na cara ao mesmo tempo.

— Chega para lá, cão pateta — disse Silas, empurrando Max para a proa onde podia espetar o nariz ao vento e cheirar todos os odores da água. Depois Silas apertou-se ao lado de Marcia, para grande desagrado dela, enquanto Jenna e o Garoto 412 se enroscavam no outro lado do barco.

Nicko estava todo feliz à popa, agarrado ao timão do leme e, con­fiante, dirigiu o barco para a foz do rio.

— Para onde vamos? — perguntou.

Marcia ainda estava preocupada demais com a sua proximidade de uma quantidade tão grande de água para poder responder.

— Para casa de Tia Zelda — disse Silas, que tinha decidido tudo com Sara depois de Jenna ter partido nessa manhã. — Vamos fi­car com a Tia Zelda.

O vento enfunou as velas do Muriel e o barco ganhou velocidade, dirigindo-se para a forte correnteza no meio do rio. Marcia fechou os olhos e sentiu-se tonta. Interrogava-se se seria normal o barco inclinar-se tanto assim.

— A Guardiã nos Pântanos Marram? — perguntou Marcia num fio de voz.

— Sim — respondeu Silas. — Ali estaremos a salvo. Ela agora tem a cabana permanentemente Encantada, depois de ter sido saqueada pelos Duendes da Lama Gelatinosa no último Inverno. Agora, ninguém consegue encontrá-la.

— Muito bem — concordou Marcia. — Vamos para casa de Tia Zelda.

Silas pareceu surpreendido. Marcia tinha concordado com ele, e sem ser preciso discutir. Mas também, pensou para consigo, agora estavam todos no mesmo barco.

E assim o pequeno barco verde desapareceu na noite, deixando Sally uma figura distante na costa, a acenar corajosamente.

Quando perdeu o Muriel de vista, Sally ficou no cais a ouvir a água marulhar contra as pedras frias. Subitamente, sentiu-se muito só. Voltou-se, começando a voltar pela margem coberta de neve, o caminho iluminado pela luz amarelada que brilhava desde as janelas do seu café, não longe dali. Os rostos de alguns clientes espreitaram para a noite enquanto Sally se apressava para regressar ao calor e burburinho do café, mas pareceram não perceber sua pequena figura a caminhar sobre a neve e a percorrer o portaló até ao pontão.

Quando Sally abriu a porta do café e escorregou para o confortável burburinho, seus clientes mais habituais repararam que Sally não estava ela mesma. E tinham razão; ao contrário do que era habitual, Sally só tinha um pensamento em mente.

Quanto tempo faltaria para o Caçador chegar?

 

O Caçador levou exatamente oito minutos e vinte segundos para chegar com a sua Matilha à Lixeira de Detritos da Amenidade Ribei­rinha, depois de Sally ter se despedido de Muriel. Sally viveu esses quinhentos segundos com uma ansiedade crescente na boca do estô­mago.

O que é que tinha feito?

Sally não tinha dito nada quando regressou ao café, mas qualquer coisa no seu comportamento tinha feito com que a maioria dos clientes bebesse rapidamente a sua Primaveril, emborcasse as últimas migalhas do bolo de cevada e desaparecesse rapidamente na noite. Os únicos clientes que ficaram com Sally foram os cinco Mercadores Nortenhos, que iam na segunda rodada de Especial Primaveril e conversavam bai­xinho entre si, com sua fala monótona e lamurienta. Até o Garoto-da-Limpeza tinha desaparecido.

Sally tinha a boca seca, suas mãos tremiam, e lutava desesperadamente para controlar a vontade de desatar a correr dali.

Acalme-se, menina, disse para si própria. Agüente-se. Negue tudo. O Caçador não tem nenhum motivo para desconfiar de você. Se fugir agora, ele ficará logo sabendo que está metida nisto. E o Caçador acabará te encontrando. Ele encontra todos sempre. Aguente-se firme e mantenha a calma.

O ponteiro fino do grande relógio do café continuou a se mexer. Tic... Tac... Tic... Tac...

Quatrocentos e noventa e oito segundos... Quatrocentos e noventa e nove segundos... Quinhentos.

Um potente feixe de luz varreu o topo da lixeira.

Sally correu até à janela mais próxima, o coração a saltar-lhe no peito. Podia ver um enxame de vultos negros recortados pelo feixe de luz. O Caçador trouxera sua Matilha, tal como Marcia tinha previsto.

Sally observou atentamente, tentando ver o que estariam fazendo. A Matilha estava reunida em torno da porta dos ratos, que Marcia tinha encravado com o Feitiço de Fecha Depressa e Solda. Para grande alívio de Sally, a Matilha parecia não ter muita pressa; na realidade, parecia que estavam rindo entre si. Alguns gritos indis­tintos chegavam até ao café. Sally esforçou-se para ouvir melhor. E o que ouviu a fez estremecer.

— ...escumalha de Feiticeiros...

— ...ratazanas apanhadas pela porta dos ratos...

— ...Não vão embora, ah ah. Nós vamos buscá-los...

Espreitando pela janela, Sally podia ver as figuras em torno da porta dos ratos tornarem-se mais frenéticas quando a porta resistiu aos seus esforços para a desencravarem. Uma figura solitária que observava impacientemente estava afastada da Matilha, e Sally considerou, corretamente, que devia ser o Caçador.

Subitamente, o Caçador perdeu a paciência com os esforços para abrir a porta dos ratos. Deu uns passos em frente, pegou o machado de um dos membros da Matilha e atacou ferozmente a porta. Fortes pancadas metálicas ecoaram até o café até que, finalmente, a retor­cida porta dos ratos foi atirada para o lado, e um dos membros da Matilha foi enviado para o interior da calha para remover o lixo. Um feixe luminoso estava agora apontado à entrada da calha, e a Matilha estava reunida em volta da saída. Sally podia ver as pistolas rebrilhar sob a luz. Com o coração na boca, Sally esperou que descobrissem que suas presas tinham escapado.

Não demorou muito.

Uma figura desgrenhada emergiu da calha do lixo e foi violenta­mente agarrada pelo Caçador que, tanto quanto Sally podia ver, estava furioso. Sacudiu o homem com força e atirou-o para o lado, fazendo-o espalhar-se pelo monte de lixo abaixo. O Caçador agachou-se e espreitou incrédulo para o interior vazio da calha do lixo. De forma brusca, fez sinal ao menor da Matilha para entrar na calha. O escolhido recuou, relutante, mas foi obrigado a entrar, e dois Guar­das da Matilha armados postaram-se à entrada.

O Caçador caminhou lentamente até o extremo da montanha de lixo de forma a recuperar a compostura depois de ter descoberto que sua presa tinha escapado. Foi seguido a curta distância pelo pequeno vulto de um rapazinho.

O rapazinho estava vestido com os hábitos verdes normais de um Feiticeiro Aprendiz, mas ao contrário de qualquer outro Aprendiz, usava em torno da cintura uma faixa vermelha com estrelas negras gravadas. As estrelas de DomDaniel.

Mas naquele momento o Caçador estava alheio à presença do Aprendiz de DomDaniel. Estava calado, um homem pequeno e de constituição sólida, com o habitual cabelo raspado da Guarda. Tinha o rosto marcado e enrugado por todos os anos que passara submetido às intempéries, caçando e perseguindo presas humanas. Vestia o habitual traje dos Caçadores: uma túnica verde escura, uma capa curta e botas de couro. À cintura um largo cinto de couro do qual pendia um punhal embainhado e uma sacola.

O Caçador deu um sorriso frio, a boca uma linha fina e deter­minada, dobrada para baixo nos extremos, os olhos azuis estreitando-se até não passarem de dois pequenos rasgões.

Com que então, ia ser uma Caçada? Muito bem, não havia coisa de que gostasse mais do que uma Caçada. Ao longo dos anos fora abrindo caminho pelas fileiras da Matilha de Caçadores, e por fim chegara ao seu objetivo. Era um Caçador, o melhor da Matilha, e este era o momento de que tinha estado à espera. Aqui estava ele, a caçar não só a Feiticeira Extra­ordinária, como a própria Princesa, nada menos que a Herdeira do trono. O Caçador sentiu-se entusiasmado, antecipando uma noite memorável: o Avistamento, o Rastro, a Perseguição, a Aproximação e a Matança. Sem problemas, pensou o Caçador, o sorriso alargando-se até revelar seus dentinhos afiados que rebrilharam sob o luar frio.

O Caçador voltou os pensamentos para a Caçada. Algo lhe dizia que os passarinhos tinham voado da calha do lixo, mas como Caçador eficiente que era, tinha que se certificar de que cobria todas as hipó­teses, e o Guarda da Matilha que penetrara na calha tinha recebido instruções para seguir a calha e verificar todas as saídas que encontras­se até a Torre dos Feiticeiros. O fato de que tal seria praticamente impossível não preocupava minimamente o Caçador; os Guardas da Matilha eram a coisa mais baixa que se podia imaginar, perfeitamente Dispensáveis, e cumpririam a missão que lhes era confiada, ou mor­riam na tentativa. O Caçador já fora Dispensável no passado, mas não por muito tempo — tinha se assegurado disso. E agora, pensou com um estremecimento de prazer, agora tinha de descobrir o Rastro.

No entanto, a lixeira não fornecia muitas pistas, mesmo a um bate­dor tão experiente como o Caçador. O calor produzido pela putrefação do lixo derretera a neve, e o constante remexer do entulho por parte de ratos e gaivotas tinha já obliterado qualquer Rastro que pudesse ter existido. Muito bem, pensou o Caçador. Na falta de um Rastro, tinha que descobrir um Avistamento.

O Caçador manteve-se no seu ponto de observação privilegiado no topo da lixeira e observou com olhos semicerrados a paisagem ilu­minada pelo luar que o rodeava. Por trás dele erguiam-se as mura­lhas íngremes e escuras do Castelo, as ameias claramente delineadas contra o gélido céu estrelado. A sua frente estendia-se a paisagem ondulada das férteis pastagens do outro lado do rio e, ao longe, podia ver a espinha denteada das Montanhas Fronteiriças. O Caçador ana­lisou calma e ponderadamente a paisagem coberta de neve, mas não viu nada que lhe interessasse. Voltou então sua atenção para o cená­rio mais próximo e que se estendia por baixo dele. Olhou para o lar­go caudal do rio, o seu olhar seguindo o fluir das correntes, a dobra do rio que corria depois à sua direita, passando pelo café encavalado no pontão que flutuava suavemente na maré alta, pelo pequeno molhe com seus barcos ancorados durante a noite, e continuando rio abai­xo até onde este desaparecia por trás do Calhau do Corvo, uma aguçada protuberância que se agigantava sobre o rio.

O Caçador pôs-se atentamente à escuta, procurando captar qual­quer som que se erguesse da água, mas não conseguia ouvir nada que não fosse o silêncio que apenas um tapete de neve podia trazer consigo. Perscrutou a água em busca de pistas — uma sombra sob as margens, um pássaro assustado, uma certa ondulação — mas não conseguiu des­cobrir nada. Nada. Tudo estava estranhamente calmo e silencioso, o rio escuro serpenteando silenciosamente pela brilhante paisagem nevada, iluminada pela lua cheia. A noite, pensou o Caçador, estava perfeita para uma Caçada.

O Caçador permaneceu imóvel, tenso, esperando que o Avista­mento se revelasse.

Observando e aguardando...

Algo lhe chamou a atenção. Um rosto pálido numa das janelas do café. Um rosto assustado, um rosto que sabia de alguma coisa. O Caça­dor sorriu. Tinha tido um Avistamento. Já estava no Rastro.

 

Sally viu-os chegando.

Saltou apressadamente para longe da janela, alisou as saias e com­pôs as idéias.

Prepare-se, menina, disse de si para si. Você consegue. Só tem que pôr a sua cara de Anfitriã Adorável, e eles não vão desconfiar de nada.

Sally refugiou-se por trás do balcão e, pela pri­meira vez com o café aberto, serviu-se de uma caneca de Especial Primaveril e bebeu uma grande golada.

Argh! Nunca tinha gostado daquela porcaria. Havia ratos mortos demais no fundo do barril para o gosto dela.

Enquanto bebia mais uma golada de ratos mortos, um poderoso feixe luminoso abriu caminho pelo café e varreu os rostos dos presentes. Por breves instantes incidiu diretamente nos olhos de Sally, e depois, prosseguindo a sua marcha, iluminou os rostos dos Mercadores Nortenhos. Os Mercadores calaram-se e trocaram olhares de preocupação.

Um momento depois Sally ouviu o pesado matraquear de passos apressados que subiam o portaló. O pontão estremeceu com a Matilha a correr sobre ele, e o café tremeu, os pratos e copos a tilintar nervosa­mente com todo aquele movimento. Sally pôs a caneca de lado, deixou-se ficar muito direita e, com grande dificuldade, pôs um sor­riso de boas-vindas no rosto.

A porta abriu-se com estrondo.

O Caçador entrou. Por trás dele, à luz do holofote, Sally podia ver a Matilha alinhada ao longo do pontão, as pistolas prontas para disparar.

— Boa noite, cavalheiro. Em que posso servi-lo? — tentou Sally, nervosamente.

Foi com grande satisfação que o Caçador detectou o tremor em sua voz. Gostava quando ficavam assustados.

Caminhou lentamente até o balcão, inclinou-se para a frente, e fitou Sally fixamente.

— Pode me servir algumas informações. Eu sei que as tem.

— Oh? — Sally procurou soar educadamente interessada. Mas não foi isso que o Caçador ouviu. Ouviu assustada e a tentar ganhar tempo.

Ótimo, pensou ele. Esta sabe alguma coisa.

— Estou à procura de um pequeno e perigoso grupo de terroristas, — disse o Caçador, observando cuidadosamente o rosto de Sally. Sally esforçou-se para manter a sua cara de Anfitriã Adorável mas, por uma breve fração de segundo, deixou-se vacilar e transparecer a mais breve das emoções: surpresa.

— Fica surpresa por me ouvir descrever seus amigos como sendo terroristas, não é?

— Não — respondeu Sally apressadamente. Depois, percebendo o que tinha dito, gaguejou: — Eu... Não é isso. Eu...

Sally desistiu. O estrago já estava feito. Como é que podia ter acontecido com aquela facilidade? Foram os olhos dele, pensou Sally, aquelas duas estreitas brechas, tão brilhantes como dois holofotes que lhe perscrutavam o cérebro. Como tinha sido idiota por pensar que podia ser mais esperta que um Caçador. O coração de Sally batia com tanta força, que ela tinha certeza de que o Caçador podia ouvi-lo.

E ele conseguia, claro. Era um dos seus sons preferidos, o bater do coração de uma presa encurralada. Deixou-se ficar a ouvi-lo por mais uns deliciosos momentos, e depois disse:

— Vai nos dizer onde estão.

— Não — balbuciou Sally.

O Caçador não parecia preocupado com aquele pequeno gesto de rebeldia.

— Vai, vai sim — disse-lhe com sinceridade. O Caçador encostou-se ao balcão.

— Tem um belo café, Sally Mullin. Muito bonito. É de madeira, não é? Já está aqui há algum tempo, se bem me lembro. Agora a madei­ra já deve estar bem seca e temperada. Deve arder muito bem, segundo me dizem.

— Não... — murmurou Sally.

— Bom, façamos assim. Você me diz para onde foram seus amigos, e eu faço de conta que não sei onde coloquei minha caixa de acendalhas...

Sally não respondeu. Tinha a cabeça a fervilhar, mas nenhum de seus pensamentos fazia sentido. Só conseguia pensar que nunca mais voltara a encher os baldes de incêndio depois do Garoto-da-Limpeza ter ateado fogo nas toalhas de chá.

— Muito bem — disse o Caçador. — Vou dizer aos rapazes para irem começando com o fogo. Fecho as portas quando sair. Não que­remos que ninguém saia daqui correndo e se machuque, não é?

— Não pode... — exclamou Sally, compreendendo que o Caçador não só estava pensando em queimar o seu adorado café, mas queria queimá-lo com ela lá dentro. Sem falar nos cinco Mercadores Nortenhos. Sally olhou para eles. Estavam sussurrando nervosamente entre eles.

O Caçador já tinha dito tudo o que tinha a dizer. Estava tudo correndo mais ou menos como esperava, e agora era hora de mostrar que não estava para brincadeiras. Voltou-se bruscamente, e dirigiu-se para a porta.

Sally seguiu-o com os olhos, subitamente furiosa.

Como é que ele se atreve a vir ao meu café, aterrorizar os meus clientes! E depois afas­tar-se com ares superiores para reduzir todos em cinzas? Este homem, pensou Sally, não passa de um rufião. E ela não gostava de rufiões.

Sally, impetuosa como sempre, saiu correndo de trás do balcão.

— Espere! — gritou.

O Caçador sorriu. Estava funcionando. Funcionava sempre. Afaste-se e deixe-os pensar durante uns minutos. Acabavam sempre cedendo. O Caçador deteve-se mas não se voltou.

Um pontapé bem forte na perna, desferido com a rija bota direita de Sally, apanhou-o de surpresa.

— Rufião — gritou-lhe Sally.

— Estúpida — exclamou o Caçador, agarrando-se à perna. — Vai se arrepender disso, Sally Mullin.

Um Guarda Sênior da Matilha aproximou-se.

— Está com problemas, Chefe? — perguntou.

O Caçador não ficou nada satisfeito por ser visto pulando daquela maneira tão pouco digna, ainda agarrado à perna.

— Não — rosnou. — Faz tudo parte do plano.

— Os homens já reuniram o mato, Chefe, e espalharam-no sob o café, tal como o Chefe ordenou. A madeira está seca, e a pederneira faz muitas faíscas, Chefe.

— Ótimo — respondeu o Caçador, sombriamente.

— Desculpe-me, Cavalheiro — interrompeu uma voz com um forte sotaque por trás dele. Um dos Mercadores Nortenhos tinha deixado a sua mesa e tinha se aproximado do Caçador.

— Sim? — respondeu o Caçador através de dentes cerrados, voltando-se sobre um único pé para enfrentar o homem. O Mercador parecia encabulado. Estava vestido com a túnica vermelha escura da Liga Hanseática, suja e esfarrapada depois de muitas viagens. O seu cabelo louro, desgrenhado, era mantido no lugar por uma gordurosa fita de couro em volta da testa, e o seu rosto parecia branco como fari­nha sob a luz do holofote.

— Acho que possuímos a informação que deseja? — prosseguiu o Mercador. A sua voz procurava lentamente as palavras corretas numa língua que não era a dele, aumentando de tom como se estivesse fazendo uma pergunta.

— Verdade? — replicou o Caçador, sentindo que a dor na perna desaparecia finalmente, com a Caçada a apanhar o Rastro.

Sally olhou horrorizada para o Mercador Nortenho. Como é que ele podia saber o que quer que fosse? Depois compreendeu. Devia tê-los visto pela janela.

O Mercador evitou o olhar acusador de Sally. Parecia pouco à von­tade, mas, obviamente, tinha entendido o suficiente das palavras do Caçador para se sentir aterrorizado.

— Achamos que aqueles que procura foram embora? No barco? — disse o Mercador lentamente.

— No barco. Que barco? — rosnou o Caçador, recuperando o con­trole da situação.

— Não conhecemos os seus barcos. Um barco pequeno, com velas vermelhas? Uma família com um lobo.

— Um lobo. Ah, o vira-lata. — O Caçador aproximou-se desconfortavelmente do Mercador e rosnou-lhe em voz baixa. — Em que direção? Rio acima ou rio abaixo? Para as montanhas ou para o Porto? Pense com cuidado, meu amigo, se você e os seus companheiros querem se manter fresquinhos hoje à noite.

— Rio abaixo. Para o Porto — balbuciou o Mercador, que achava o hálito quente do Caçador bastante desagradável.

— Certo — disse o Caçador, satisfeito. — Sugiro que você e seus amigos se ponham a andar já, enquanto podem.

Os outros quatro Mercadores levantaram-se silenciosamente e reu­niram-se com o quinto, evitando, de forma culpada, o olhar horrori­zado de Sally. Escapuliram rapidamente pela porta, deixando Sally entregue a seu destino.

O Caçador dirigiu-lhe uma vênia trocista.

— E boa noite para você, minha senhora — disse ele. — Obrigado pela sua hospitalidade. — O Caçador saiu e fechou a porta com força atrás de si.

— Preguem bem a porta! — gritou, furioso. — E as janelas. Não a deixem escapar!

O Caçador desceu o portaló a passos largos.

— Tragam-me um barco-foguete de perseguição rápida — ordenou ao Estafeta que aguardava ao fundo do portaló. — No molhe. Já!

O Caçador chegou à margem e voltou-se para apreciar o condenado café de Sally Mullin. Por muito que quisesse ver as primeiras lambidas das chamas antes de ir embora, não se deteve. Era preciso seguir o Rastro antes que este esfriasse. Enquanto caminhava rapi­damente pelo cais, aguardando a chegada do barco-foguete, o Caçador deu um sorriso de satisfação.

Ninguém tentava fazê-lo de tolo e ficava vivo para contar.

Por trás do Caçador, o Aprendiz marchava rapidamente. Estava meio amuado por ter sido deixado ao frio no exterior do café, mas também estava muito entusiasmado. Apertou a grossa capa em volta do corpo e cruzou os braços de antecipação. Os olhos escuros brilha­vam, e suas bochechas pálidas estavam avermelhadas por ação do ar gelado. Aquilo estava se tornando na Grande Aventura que o seu Mestre lhe tinha prometido. Era o começo do Regresso de seu Mestre. E ele fazia parte disso porque, sem ele, nada podia acontecer. Era Conselheiro do Caçador. Era ele quem ia Supervisionar a Caçada. Aquele cujos poderes Mágykos Salvariam o Dia. Um estremecimento de dúvida atravessou-lhe a mente, mas ele o colocou de lado. Sentia-se tão importante que tinha vontade de gritar. Ou andar aos pulos. Ou bater em alguém. Mas não podia. Tinha que fazer como o Mestre lhe dissera e seguir calma a cuidadosamente o Caçador. Mas podia bater na Herdeira logo que a encontrasse — isso haveria de lhe mostrar como era.

— Deixe de sonhar acordado e suba para o barco, sim? — rosnou-lhe o Caçador. — Vá lá para trás, onde não atrapalhe ninguém.

O Aprendiz fez como lhe disseram. Não queria admiti-lo, mas o Caçador metia-lhe medo. Avançou cuidadosamente para a popa do barco e apertou-se no estreito espaço em frente aos pés dos remadores.

O Caçador apreciou satisfeito o barco-foguete. Comprido, estreito, elegante e negro como a noite, estava coberto por uma camada de verniz lacado que lhe permitia deslizar sobre as águas com a mesma facilidade de um patim sobre o gelo. Impulsionado por dez remadores perfeitamente treinados, conseguia bater qualquer embarcação.

A proa levava um potente holofote e um resistente tripé onde uma pistola podia ser montada. O Caçador avançou cuidadosamente para a proa e sentou-se na estreita tábua por trás do tripé, onde se entre­gou à instalação rápida e eficiente da pistola prateada da Assassina. Retirou então uma bala prateada da sacola, observou-a atentamente para se certificar de que era a que ele queria, e pousou-a numa pequena travessa ao lado da pistola, pronta para ser usada. Por fim retirou cin­co balas normais da caixa de munições do barco e alinhou-as ao lado da bala de prata. Estava pronto.

— Vamos! — ordenou.

O barco-foguete afastou-se suave e silenciosamente do cais, encon­trou a rápida corrente no meio do rio e desapareceu na noite.

Mas não sem que o Caçador tivesse lançado um olhar por sobre o ombro e visto aquilo que queria ver.

Um língua de fogo erguia-se na noite.

O café de Sally Mullin estava em chamas.

 

Umas quantas milhas mais abaixo, o barco à vela Muriel corria com o vento, e Nicko sentia-se em casa. Permanecia ao leme do pequeno barco apinhado, e conduzia-o habilmente ao longo do curso que corria a meio do rio, onde a água corria mais depressa e mais profunda. As marés vivas estavam a recuar rapidamente para o mar, e levavam-nos com elas, e o vento ficara forte o bastante para desenhar pequenas ondas sobre as quais o Muriel saltitava.

A lua cheia estava alta no céu, imprimindo um brilho prateado sobre o rio, iluminando-lhes o caminho. O rio alargava-se enquanto prosseguia em direção ao mar, e os ocupantes do barco perceberam que as margens, com as suas árvores pendentes e ocasional cabana solitária, pareciam cada vez mais distantes. Gerou-se um súbito silên­cio, quando os passageiros começaram a se sentir desconfortavelmente pequenos numa tão grande extensão de água. E Marcia começou a sentir-se tremendamente enjoada.

Jenna estava sentada no convés de madeira, repousando contra o casco e segurando uma corda como Nicko lhe pedira. A corda estava ligada à pequena vela triangular à proa, que era sacudida e empur­rada pelo vento, e Jenna estava ocupada tentando mantê-la segura. Sen­tia os dedos rígidos e adormecidos, mas não se atrevia a largar a corda. Nicko ficava muito mandão quando estava no comando de um bar­co, pensou ela.

O vento era frio, e mesmo com a blusa, o grande casaco de pele de carneiro e o comichoso gorro de lã que Silas tinha encontrado no armário de roupas de Sally, Jenna tremia com o frio que se erguia da água.

Todo enrolado ao lado de Jenna estava o Garoto 412. Logo que Jenna o puxara para dentro do barco, o Garoto 412 decidira que não havia nada que pudesse fazer e tinha desistido de lutar contra os Feiticeiros e os meninos esquisitos. E quando o Muriel contornou o Calhau do Corvo, e ele deixou de conseguir ver o Castelo, o Garoto 412 tinha se limitado a se encolher ao lado de Jenna, adormecendo rapidamente. Agora que o Muriel tinha encontrado águas mais agitadas, sua cabeça batia contra o mastro conforme o barco se agi­tava, e Jenna puxou delicadamente o Garoto 412, permitindo-lhe deitar a cabeça no seu colo. Olhou para o rosto magro, esmaecido, quase escondido pela boina de feltro vermelho, e achou que o Garoto 412 parecia muito mais feliz quando estava dormindo do que acordado. Depois seus pensamentos voltaram-se para Sally.

Jenna adorava a Sally. Adorava a maneira como Sally falava sem parar e a maneira como ela fazia acontecer coisas. Quando Sally dava uma fugida para visitar os Heap, levava com ela toda a excitação da vida no Castelo, e Jenna adorava isso.

— Espero que Sally esteja bem — disse Jenna baixinho, en­quanto ouvia o constante ranger e o suave e determinado sibilar do barco a deslizar sobre a água escura e brilhante.

— Eu também, boneca — respondeu Silas, mergulhado em pensa­mentos.

Desde que o Castelo desaparecera de vista, Silas também tinha encontrado tempo para pensar. E, depois de ter pensado em Sara e nos meninos, esperando que tivessem chegado em segurança à casa nas árvores de Galena, na Floresta, os seus pensamentos também se voltaram para Sally, e não eram pensamentos muito agradáveis.

— Ela vai ficar bem — disse Marcia tenuemente. Sentia-se en­joada, e não gostava nada da sensação.

— É bem típico seu, Marcia — resmungou Silas. — Agora que é Feiticeira ExtraOrdinária, obtém o que quer das pessoas e depois nem sequer se lembra delas. Já nem sequer vive no mundo real, não é? Ao contrário de nós, pobres Feiticeiros Normais. Nós sabemos o que é estar em perigo.

— O Muriel está se portando bem — informou Nicko animada­mente, tentando mudar de assunto. Não gostava quando Silas ficava todo irritado por causa dos Feiticeiros Normais. Nicko achava que ser Feiticeiro Normal era bem digno. Ele não gostava de ser um —livros demais para ler, e pouco tempo para navegar —, mas parecia-lhe que era uma profissão respeitável. E também, quem é que queria ser Feiticeiro ExtraOrdinário? Ter que passar a maior parte do tempo enfiado naquela Torre esquisita, e nunca poder ir a nenhum lugar sem que as pessoas ficassem olhando embasbacadas. Não, nem pensar, não havia maneira de ele querer passar por isso.

Marcia suspirou.

— Imagino que o FicaEmSegurança de platina que eu lhe dei do meu próprio cinto há de ajudar — disse, devagar, deixando que o seu olhar se perdesse propositadamente na margem distante.

— Deu um dos seus Amuletos do cinto à Sally? — perguntou Silas, espantado. — O seu FicaEmSegurança? Não foi um bocado arriscado? Pode precisar dele.

— O FicaEmSegurança existe para ser usado em casos de Grande Necessidade. Sally vai se juntar à Sara e à Galena. Pode ser de grande ajuda para elas também. Agora fique calado. Acho que vou vomitar.

Voltou a se fazer um desconfortável silêncio.

— O Muriel está indo muito bem, Nicko. Você é um excelente mari­nheiro — disse Silas algum tempo depois.

— Obrigado, Pai — respondeu Nicko, sorrindo satisfeito, como sorria sempre quando um barco navegava como devia. Nicko con­duzia habilmente o Muriel pela água, compensando com o timão a força do vento sobre as velas, e fazendo o pequeno barco cantar sobre as ondas.

— Aquilo são os Pântanos Marram, Pai ? — perguntou Nicko depois de um tempo, apontando para a distante margem esquerda. Tinha notado que a paisagem à sua volta começara a modificar-se. O Muriel navegava agora no meio de um enorme curso de água e, à distância, Nicko podia ver uma vasta extensão de terra baixa e plana, empoeirada de neve, e cintilando ao luar.

Silas espreitou para o outro lado do rio.

— Talvez devesse navegar um pouco por ali, Nicko — sugeriu Silas, acenando com o braço na direção geral para onde Nicko tinha apontado. — Assim podemos andar beirando o Canal Deppen. É esse que devemos descobrir.

Silas esperava que ainda conseguisse se lembrar da entrada para o Canal Deppen, que era o canal que levava à Choupana da Guardiã, onde vivia Tia Zelda. Já fazia muito tempo que não vinha visitar Tia Zelda, e os pântanos pareciam-lhe todos iguais.

Nicko tinha acabado de mudar de curso e seguia na direção que o braço de Silas apontara, quando um brilhante feixe de luz cortou a escuridão atrás deles.

Era o holofote do barco-foguete.

 

Todos — com exceção do Garoto 412, que ainda estava dormindo — olharam para trás. Ao fazerem-no, o feixe do holofote varreu mais uma vez o horizonte, iluminando a larga extensão do rio e as margens baixas de ambos os lados. Nenhum deles tinha qualquer dúvida sobre de quem se tratava.

— É o Caçador, não é, Papai? — sussurrou Jenna.

Silas sabia que Jenna estava certa, mas respondeu:

— Bem, pode ser qualquer coisa, boneca. Pode ser só um barco de pesca... ou outra coisa qualquer — acrescentou sem grande convicção.

— É claro que é o Caçador. Num barco-foguete de perseguição rápida, se não me engano — rosnou Marcia, que deixara subitamente de se sentir enjoada.

Marcia não tinha notado, mas já não se sentia enjoada porque o Muriel tinha deixado de balançar sobre a água. De fato, o Muriel tinha deixado de fazer o que quer que fosse, exceto navegar à deriva, sem nenhum destino concreto.

Marcia fitou Nicko acusadoramente.

— Mexa-se, Nicko. Abrandou para quê?

— Não há nada que se possa fazer. O vento deixou de soprar — balbuciou Nicko, preocupado. Tinha acabado de voltar o Muriel para os Pântanos Marram, apenas para descobrir que o vento amainara por completo. O Muriel tinha perdido toda a velocidade, e as velas pen­diam moles e sem força.

— Bom, mas não podemos ficar aqui sentados — disse Marcia, vendo como o holofote se aproximava cada vez mais depressa. — Aquele barco-foguete vai estar aqui em poucos minutos.

— Não pode fazer levantar um pouco de vento? — perguntou Silas a Marcia, nervoso. — Pensei que se aprendia Controle dos Ele­mentos no Curso Avançado. Ou nos tornar invisíveis. Vamos lá, Marcia. Faça alguma coisa.

— Não posso «fazer levantar um pouco de vento» assim do nada. Não temos tempo para isso. E sabe muito bem que a Invisibilidade é um feitiço pessoal. Não posso usá-lo em mais ninguém.

O holofote voltou a varrer as águas. Maior, mais brilhante, mais próximo. E se dirigindo rapidamente para eles.

— Vamos ter que usar os remos — disse Nicko, que, enquanto capitão, tinha decidido tomar conta da situação. — Podemos remar até os Pântanos e nos esconder lá. Vamos. Rápido.

Marcia, Silas e Jenna agarraram um remo cada um. O Garoto 412 acordou sobressaltado quando Jenna deixou sua cabeça cair na pressa de pegar um remo. Olhou em volta, descontente. Por que é que ainda estava no barco com os Feiticeiros? O que eles queriam dele?

Jenna pôs-lhe o remo que sobrava nas mãos.

— Reme! — disse-lhe. — O mais rápido que puder! — O tom de voz de Jenna fez-lhe lembrar o seu Sargento Instrutor. Pôs o remo na água e começou a remar o mais rápido que era capaz.

Devagar, devagar demais, o Muriel arrastou-se em direção à segurança dos Pântanos Marram, enquanto o holofote do barco-foguete se movia de um lado para o outro sobre a água, procurando implacavelmente a sua presa.

Jenna lançou um olhar por sobre o ombro e, horrorizada, viu o vulto negro do barco-foguete. Era como um nojento e comprido escaravelho, com cinco pares de patas finíssimas a cortarem a água, para trás e para diante, para trás e para diante, à medida que os expe­rientes remadores se esforçavam, a eles e ao barco, até o limite, encurtando rapidamente a distância entre eles e os frenéticos ocupan­tes do Muriel.

Sentada à proa estava a inconfundível figura do Caçador, tenso e pronto para saltar sobre as presas. Os olhos de Jenna cruzaram-se com o olhar frio e calculista do Caçador e, inesperadamente, sentiu-se com coragem suficiente para falar com Marcia.

— Marcia — disse Jenna —, não vamos conseguir chegar a tempo aos pântanos. Tem que fazer alguma coisa. E já.

Embora Marcia tivesse ficado surpresa por Jenna ter se dirigido a ela daquela forma, ficou satisfeita. Falou como uma verdadeira Princesa, pensou ela.

— Muito bem — concordou. — Vou tentar um Nevoeiro. Con­sigo fazer esse feitiço em cinqüenta e três segundos. Se houver frio e umidade suficientes.

A tripulação do Muriel tinha certeza absoluta de que não have­ria problemas com a parte do frio e da umidade. Só esperavam ainda ter cinqüenta e três segundos.

— Parem todos de remar — instruiu Marcia. — Fiquem calados. E quietos. Muito quietos. — A tripulação do Muriel fez exatamente como lhe tinha sido dito e, no silêncio que se seguiu, conseguiu ouvir um novo som à distância. O chapinhar ritmado dos remos do barco-foguete.

Marcia ergueu-se cuidadosamente, desejando que o chão não balançasse tanto. Apoiou-se no mastro para se equilibrar, respirou fundo, e abriu os braços ao máximo, a capa a esvoaçar como um par de asas púrpuras.

— Acorda, Neblina, e Envolva-nos numa Cortina!

Era um feitiço muito bonito. Jenna viu como espessas nuvens brancas se juntavam no brilhante céu estrelado, ocultando rapida­mente a lua e fazendo descer um frio profundo sobre o ar noturno. Na escuridão tudo pareceu se tornar mais silencioso, enquanto os primeiros fiapos delicados de nevoeiro se erguiam das águas ne­gras até onde a vista alcançava. Os fiapos cresciam mais e mais de­pressa, unindo-se e transformando-se em espessos mantos de Nevoeiro, à medida que a neblina dos pântanos deslizava das margens para se juntar a ele. Bem no centro, no coração do Nevoeiro, estava o Muriel, parado e esperando pacientemente enquanto a neblina deslizava, rodopiava e se tornava ainda mais espessa a toda sua volta.

Depois de algum tempo o Muriel estava mergulhado numa pro­funda espessura branca que fazia Jenna se sentir gelada até os ossos. Ao seu lado sentiu o Garoto 412 começar a tremer violentamente. Ainda continuava gelado do tempo que estivera debaixo da neve.

— Exatamente cinqüenta e três segundos — murmurou a voz de Marcia em algum lugar de dentro do Nevoeiro. — Nada mal.

— Chhhh — fez Silas.

Um impenetrável silêncio branco abateu-se sobre o barco. Len­tamente, Jenna ergueu uma mão e colocou-a diante de seus olhos muito abertos. Não conseguia ver nada a não ser brancura. Mas conseguia ouvir tudo.

Conseguia ouvir o chapinhar sincronizado de dez remos afiados como lâminas mergulhando na água e sendo retirados, uma e outra vez, dentro e fora, dentro e fora. Conseguia ouvir o sussurro sibilante da proa do barco-foguete cortando o rio, e agora... agora o barco-fo­guete estava tão próximo que ela até conseguia ouvir a respiração ofegante dos remadores.

— Parem! — trovejou a voz do Caçador através do Nevoeiro. O chapinhar dos remos parou imediatamente e o barco-foguete des­lizou cada vez mais devagar até se deter. No interior do Nevoeiro os ocupantes do Muriel prenderam a respiração, convencidos de que o barco-foguete estava muito perto. Talvez estivesse tão per­to que bastaria estender uma mão para tocá-lo. Ou até mesmo tão perto que o Caçador pudesse pular para o convés superlotado do Muriel...

Jenna sentia o coração bater muito depressa e muito alto, mas obrigou-se a respirar lentamente, e a ficar muito quietinha. Sabia que embora não pudessem ser vistos, continuavam podendo ser ouvidos. Nicko e Marcia estavam fazendo o mesmo. E Silas também, e para tor­nar as coisas ainda mais interessantes, tinha uma mão fechada em torno do focinho comprido e úmido de Max para impedi-lo de uivar, enquanto com a outra mão lhe fazia festas, lenta e suavemente, para acalmar o cão lobo que ficara bastante assustado com o Nevoeiro.

Jenna podia sentir o Garoto 412 a tremer constantemente. Estendeu lentamente um braço e puxou-o para junto dela, para tentar aquecê-lo. O Garoto 412 parecia nervoso. Jenna tinha certeza que ele estava escutando atentamente a voz do Caçador.

— Já os apanhamos! — estava dizendo o Caçador. — Este é um Nevoeiro Encantado, sem dúvida nenhuma. E o que é que encon­tramos sempre no meio de um Nevoeiro Encantado? O Feiticeiro que fez o encantamento. E os seus cúmplices. — Seu risinho baixo, todo satisfeito consigo mesmo, chegou até eles através do Nevoeiro e fez Jenna estremecer.

— Entreguem-se. — A voz desincorporada do Caçador envolveu o Muriel. — A Herd... A Princesa não tem nada a temer de nós. Bem como todos os outros. Estamos apenas preocupados com a sua pró­pria segurança, e queremos escoltá-los de volta ao Castelo antes que sofram um lamentável acidente.

Jenna odiava a voz oleosa do Caçador. Odiava não poderem fugir dele, terem que ficar ali sentados ouvindo suas mentiras suaves como a seda. Queria poder gritar. Dizer-lhe que era ela quem mandava ali. Que ela não estava para aturar suas ameaças. Que em breve, era ele quem iria se arrepender. E depois sentiu o Garoto 412 respirar fundo, e soube imediatamente o que ele iria fazer. Gritar.

Jenna tapou-lhe a boca com uma mão, apertando com força. Ele debateu-se com ela, tentando afastá-la, mas ela agarrou-lhe os braços com a outra mão e prendeu-os com força contra os flancos do corpo. Jenna era bastante forte para o tamanho que tinha, e muito rápida. O Garoto 412 não era páreo para ela, magro e fraco como estava.

O Garoto 412 estava furioso. Tinham-lhe sabotado sua última oportunidade para se redimir. Podia ter regressado ao Exército da Juventude como um herói, tendo valentemente impedido a fuga dos Feiticeiros. Ao invés disso, tinha a mãozinha gordurenta da Princesa sobre a boca, o que o estava deixando bastante enjoado. E ainda por cima, ela era mais forte do que ele. Isso não estava certo. Ele era um rapaz e ela apenas uma estúpida menina. Furioso, o Garoto 412 sacudiu as pernas, batendo no convés com forte estrondo. Nicko caiu imedia­tamente sobre ele, prendendo-lhe as pernas e segurando-o com tanta força que ficou completamente incapaz de se mexer ou fazer qualquer outro som.

Mas o estrago já estava feito. O Caçador estava carregando a pistola com uma bala de prata. O furioso pontapé do Garoto 412 tinha sido tudo de que necessitara para localizá-los com precisão. Sorriu para consigo mesmo enquanto voltava a pistola sobre o tripé, apontando ao Nevoeiro. De fato, estava a apontá-la diretamente Jenna.

Marcia ouviu os estalidos metálicos da bala sendo carregada, um som que já tinha ouvido uma vez antes e nunca conseguira esquecer. Pensou rapidamente. Podia fazer um Rodeia e Protege, mas conhecia suficientemente bem o Caçador para saber que se limitaria a observar e a esperar que o Feitiço de desvanecesse. A única solução, pensou Marcia, era uma Projeção. Só esperava ter energia suficiente para mantê-la.

Marcia fechou os olhos e Projetou. Projetou uma imagem do Muriel e de seus ocupantes navegando para fora do Nevoeiro velozmente. Tal como todas as Projeções, era apenas um reflexo, mas Marcia contava que, no escuro, e com o leiruM se afastando rapi­damente, o Caçador não percebesse isso.

— Chefe! — ouviu-se o grito de um dos remadores. — Estão tentando escapar, Chefe!

Os sons da pistola sendo preparada deixaram de se ouvir. O Caçador soltou uma praga.

— Sigam-nos, seus idiotas! — gritou aos remadores. Lentamente, o barco-foguete afastou-se do Nevoeiro.

— Mais depressa! — berrou o Caçador, furioso, sem ser capaz de suportar a perspectiva de sua presa escapar-lhe pela terceira vez numa só noite.

No interior do Nevoeiro, Jenna e Nicko sorriram. Marcador: um a zero a favor deles.

 

Marcia estava irritadiça. Muito irritadiça.

Não era fácil manter dois feitiços ao mesmo tempo. Especialmente quando um deles, por se tratar de uma Projeção, era uma forma Inversa de Magya e, ao contrário da maioria dos encantamentos que Marcia costumava utilizar, ainda mantinha ligações ao lado Negro — o Outro lado, como ela preferia chamar. Era preciso um Feiti­ceiro muito hábil e corajoso para usar Magya Inversa sem permitir que o Outro se imiscuísse. Alther tinha ensinado Marcia muito bem, pois muitos dos feitiços que ele aprendera com DomDaniel envolviam Magya Negra, e Alther tornara-se um grande adepto de bloquear o lado Negro. E Marcia estava bem consciente de que durante todo o tempo em que ela se servisse da Projeção, o Outro pairava sobre eles, à espera de uma oportunidade de se introduzir no feitiço.

E era por isso que Marcia se sentia como se seu cérebro não tivesse espaço para mais nada, e menos ainda para se esforçar para ser educada.

— Pelo amor de Deus, ponha esta porcaria de barco para andar, Nicko — gritou Marcia. Nicko pareceu sentido. Não era preciso falar assim com ele.

— Pois então, alguém tem que remar — murmurou Nicko. — E ajudaria se pudesse ver para onde vamos.

Com algum esforço, e um conseqüente aumento de irritação, Marcia abriu um túnel através do Nevoeiro. Silas manteve-se em silêncio. Sabia que Marcia estava tendo de usar uma grande quantidade de energia Mágyka e habilidade, e sentiu uma ressentida admiração por ela. Silas nunca se atreveria a utilizar uma Projeção, quanto mais manter um espesso Nevoeiro ao mesmo tempo. Tinha de admitir que Marcia era muito boa naquilo.

Silas deixou Marcia entregue à Magya e começou a remar o Muriel através do espesso casulo branco do túnel no Nevoeiro, enquanto Nicko manejava cuidadosamente o leme, dirigindo o barco para o luminoso céu estrelado ao fundo do túnel. Não demorou até que Nicko sentisse o fundo do barco raspando em areia áspera e o Muriel fosse bater num espesso tufo de caniços.

Tinham alcançado a segurança dos Pântanos Marram.

Marcia soltou um suspiro de alívio e deixou que o Nevoeiro se dissipasse. Todos relaxaram... exceto Jenna. Jenna, que não tinha sido a única menina numa família de seis irmãos sem ter apren­dido um par de coisas, mantinha o Garoto 412 de cara para baixo no convés, com uma chave de braços.

— Solte-o, Jen — disse Nicko.

— Por quê? — quis saber Jenna.

— Não passa de um pateta.

— Mas quase matou a todos nós. Salvamos sua vida quando estava enterrado na neve, e ele nos traiu — respondeu Jenna, zangada.

O Garoto 412 estava calado. Enterrado na neve? Salvaram-lhe a vida? A única coisa de que se lembrava era de ter adormecido no exte­rior da Torre dos Feiticeiros e ter acordado prisioneiro nos aposentos de Marcia.

— Largue-o, Jenna — disse Silas. — Ele não entende o que está acontecendo.

— Está bem — disse Jenna, ainda relutante em soltar o Garoto 412 da chave de braços. — Mas ainda acho que ele é um porco.

O Garoto 412 sentou-se lentamente, esfregando o braço. Não gos­tava da forma como todos estavam olhando para ele. E não gostava da maneira como a menina Princesa o chamara de porco, sobretudo depois de ter sido tão boa para ele. O Garoto 412 aninhou-se tão longe de Jenna quanto possível e tentou pôr as idéias em ordem. Não era fácil. Nada daquilo fazia sentido. Tentou lembrar-se do que lhe tinham ensinado no Exército da Juventude.

Fatos. Só os fatos interessam. Fatos bons. Fatos maus. Portanto:

Primeiro Fato. Raptado: MAU.

Segundo Fato. Uniforme roubado: MAU.

Terceiro Fato. Empurrado pela calha de lixo abaixo: MAU. Muito MAU.

Quarto fato. Atirado para um barco frio e fedorento: MAU.

Quinto Fato. Não fui morto pelos Feiticeiros (ainda): BOM.

Sexto Fato: Provavelmente, em breve vou ser morto pelos Feiticeiros: MAU.

O Garoto 412 fez as contas dos BOMs e MAUs. Como de costume, os MAUs ultrapassavam em muito os BOMs, o que não era surpresa nenhuma para ele.

Nicko e Jenna saltaram do Muriel e subiram a margem coberta de erva, ao lado da pequena praia arenosa, na qual o barco agora re­pousava com as velas a pender, frouxas. Nicko queria descansar um pouco do comando do barco. Levava muito a sério as suas respon­sabilidades como capitão, e enquanto estivesse a bordo do Muriel sentia que, se alguma coisa corresse mal, a culpa também seria dele. Jenna estava contente por poder pisar outra vez em terra firme, ou melhor, terra ligeiramente ensopada — a erva sobre a qual se sentou tinha uma consistência empapada e mole, como se estivesse crescendo sobre uma enorme esponja, e estava polvilhada com uma ligeira camada de neve.

Com Jenna a uma distância segura, o Garoto 412 atreveu-se a levantar os olhos, e viu uma coisa que fez os pêlos da nuca se eriçarem. Magya. Magya poderosa.

O Garoto 412 fitou Marcia. Embora mais ninguém parecesse ter notado, ele podia ver a aura de energia Mágyka que a rodeava. Brilhava de um púrpura cintilante, faiscando ao longo da superfície de seu manto de Feiticeira ExtraOrdinária e conferindo-lhe um pro­fundo brilho púrpura ao cabelo escuro e encaracolado. Os olhos verdes brilhantes de Marcia refulgiam enquanto mirava o infinito, vendo um filme mudo que mais ninguém conseguia ver. Apesar do seu treino Anti-Feiticeiros do Exército da Juventude, o Garoto 412 sentiu-se completamente assombrado na presença da Magya.

O filme que Marcia estava vendo era, claro, o do leiruM e de sua tripulação de reflexos. Estavam velejando rapidamente em direção à larga foz do rio, e já tinham quase alcançado mar aberto, no Porto. Para grande espanto do Caçador, estavam alcançando velocidades impressionantes para um barco à vela tão pequeno e, embora o barco-foguete conseguisse não perder o leiruM de vista, estava sentindo grandes dificuldades em estreitar a distância entre eles, pelo menos o suficiente para o Caçador poder disparar sua bala de prata. Além disso, os dez remadores começavam a mostrar sinais de cansaço e o Caçador já estava rouco de gritar: — Mais depressa, idiotas!

O Aprendiz sentara-se obedientemente na parte de trás do barco, durante toda a perseguição. Quanto mais zangado o Caçador se mostrava, menos ele se atrevia a dizer o que quer que fosse e mais se encolhia no seu minúsculo espacinho perto dos pés suados do Remador Número Dez. Mas, à medida que o tempo passava, o Re­mador Número Dez começou a emitir interessantes e rudes comen­tários sobre o Caçador, entre dentes, e o Aprendiz sentiu-se um bocado mais encorajado. Espreitou por sobre as águas e fitou o rápido leiruM. E quanto mais olhava para o leiruM, mais se convencia de que havia qualquer coisa de errado ali.

Por fim o Aprendiz atreveu-se a gritar ao Caçador:

— Sabia que o nome desse barco está escrito de trás para frente?

— Não queira se fazer de espertinho comigo, rapaz.

A visão do Caçador era boa, mas talvez não fosse tão boa como a de um rapazinho de dez anos e meio, cujo passatempo era colecionar e etiquetar formigas. Não fora por nada que o Aprendiz passara horas na Câmara Obscura do seu Mestre, escondida nas Terras Inóspitas, a observar o rio. Sabia o nome e as histórias de todos os barcos que por lá passavam. Sabia que o barco que estavam perseguindo antes do Nevoeiro se chamava Muriel, construído por Rupert Gringe e freta­do para pescar arenques. Também sabia que depois do Nevoeiro o barco se chamava leiruM, e «leiruM» era um reflexo de «Muriel». E tinha sido Aprendiz de DomDaniel tempo mais do que suficiente para saber o que aquilo queria dizer.

leiruM era uma Projeção, uma Aparição, um Fantasma e uma Ilusão.

Felizmente para o Aprendiz, que estava a ponto de informar o Caçador desse fato tão importante, nesse exato momento a bordo do verdadeiro Muriel, Max lambeu a mão de Marcia de uma forma amigável e babada, como fazem todos os cães lobo. Marcia estre­meceu ao sentir a saliva do cão, sua concentração falhou por momen­tos, e o leiruM desapareceu por breves instantes perante os olhos do Caçador. O barco reapareceu rapidamente, mas já era tarde demais. O leiruM tinha se denunciado.

O Caçador gritou furioso e bateu com o punho fechado na caixa das munições. Depois voltou a gritar, desta vez de dor. Tinha quebrado o quinto metacarpo. O dedo mindinho. E doía. Agarrado à mão, o Caçador gritou aos remadores:

— Dêem a volta, seus palermas!

O barco-foguete parou, os remadores inverteram as posições nos seus assentos e, penosamente, começaram a remar em sentido con­trário. O Caçador estava subitamente na parte de trás do barco. O Aprendiz, para seu deleite, estava na parte da frente.

Mas o barco-foguete já não era a máquina eficiente que tinha sido. Os remadores estavam ficando rapidamente cansados e não estavam encarando muito bem o fato de serem insultados por um pretenso assas­sino cada vez mais histérico. O ritmo das remadas esmoreceu e o des­lizar suave do barco tornou-se desigual e desconfortável.

O Caçador sentou-se carrancudo na parte de trás do barco. Sabia que pela quarta vez nessa noite deixara o Rastro esfriar. A Caçada estava correndo mal.

O Aprendiz, porém, estava deliciado com a reviravolta. Continuava encolhido no que era agora a proa e, à semelhança de Max, levantou o nariz e desfrutou da sensação do ar noturno. Também se sentia ali­viado por ter conseguido fazer o seu trabalho. O Mestre ficaria orgulhoso dele. Imaginava-se uma vez mais ao lado do Mestre, a con­tar-lhe como ele tinha detectado uma malvada Projeção e salvo o dia. Talvez isso fizesse com que o Mestre não ficasse tão desapontado com a sua falta de talento Mágiko.

Ele se esforçava, pensou o Apren­diz, se esforçava mesmo, mas fosse como fosse, nunca conseguia tê-lo. Fosse lá o que fosse.

 

Foi Jenna quem viu o temido holofote dobrar uma distante curva do rio.

— Estão de volta! — gritou.

Marcia sobressaltou-se, perdeu por completo a Projeção e, lá ao longe, junto do Porto, o leiruM e sua tripulação desapareceram para sempre, para grande consternação de um solitário pescador sobre a parede do molhe.

— Temos que esconder o barco — disse Nicko, levantando-se apressadamente e começando a correr ao longo da margem coberta de vegetação, seguido imediatamente por Jenna.

Silas empurrou Max para fora do barco e disse-lhe que se deitasse. Depois ajudou Marcia a descer, e o Garoto 412 saltou logo atrás dela.

Marcia sentou-se na margem do Canal Deppen, determinada a manter seus sapatos de pele de píton púrpura secos tanto quanto possível. Todos os outros, incluindo, para grande surpresa de Jenna, o próprio Garoto 412, entraram na água baixa e empurraram o Muriel até este se soltar da areia e flutuar novamente. Nessa altura, Nicko agarrou uma corda e puxou o Muriel ao longo do Canal Dep­pen, até contornar uma curva e já não poder ser visto do rio. A maré estava baixando, e o Muriel flutuava no fundo do Canal, o mas­tro curto escondido pelas margens íngremes.

O som do Caçador gritando com os remadores arrastou-se por sobre a água e Marcia espreitou por cima das margens do Canal para ver o que estava acontecendo. Nunca tinha visto uma coisa assim. O Caçador estava em equilíbrio precário na parte de trás do barco-foguete, agi­tando barbaramente um braço no ar. Mantinha uma ininterrupta chuva de insultos sobre os remadores, que nessa altura já tinham praticamente perdido qualquer sentido do ritmo e permitiam que o barco-foguete avançasse em ziguezagues através do rio.

— Não devia fazer isto — pensou Marcia. — Não devia mesmo. É mesquinho, vingativo e avilta o poder da Magya, mas não resisto.

Jenna, Nicko e o Garoto 412 subiram para o topo do Canal apressadamente para verem o que Marcia ia fazer. Enquanto olhavam, Marcia apontou um dedo ao Caçador e proferiu:

— Mergulhe!

Por uma fração de segundo o Caçador sentiu-se esquisito, como se estivesse a ponto de fazer uma coisa muito estúpida — e estava. Por uma razão qualquer que não conseguia compreender, ergueu elegantemente os braços acima da cabeça, e apontou cuidadosamente as mãos em direção à água. Depois dobrou lentamente os joelhos e saltou do barco-foguete, executando uma cambalhota perfeita antes de mergulhar maravilhosamente na água gelada.

Com alguma relutância, e de uma forma desnecessariamente lenta, os remadores recuaram o barco e ajudaram um ofegante Caçador a sair da água.

— Não devia ter feito isso, Chefe — disse o Remador Número Dez. — Não com este frio.

O Caçador nem podia responder. Seus dentes batiam com tanta força que mal conseguia pensar, quanto mais falar. Com as roupas molha­das coladas ao corpo, tremia violentamente no ar frio da noite. Sombria­mente, correu os olhos pelo pantanal para onde tinha certeza que suas presas tinham escapulido, mas não conseguiu ver sequer sinal deles. Como Caçador experiente que era, sabia que não podia se meter nos Pântanos Marram, a pé e no meio da noite. Não havia nada mais a fazer — o Rastro tinha desaparecido e era preciso regressar ao Castelo.

O barco-foguete iniciou a sua longa e fria viagem de volta ao Castelo, enquanto o Caçador se aninhava à popa, agarrado ao dedo quebrado e ponderando na ruína de sua Caçada. E de sua reputação.

— É bem feito para ele — disse Marcia. — Homenzinho horroroso.

— Não foi muito profissional — ecoou uma voz familiar do fundo do Canal —, mas inteiramente compreensível, minha querida. Nos meus dias de juventude sentir-me-ia tentado a fazer o mesmo.

— Alther! — exclamou Marcia, enrubescendo ligeiramente.

 

— Tio Alther! — exclamou Jenna, feliz da vida. Correu margem abaixo para se juntar a Alther, que estava parado na praia, olhando muito espantado para uma vara de pesca que tinha na mão.

— Princesa! — Alther rejubilava enquanto lhe dava um abraço fantasmagórico, o qual sempre fazia Jenna sentir-se como se uma leve brisa de Verão a tivesse atravessado de um lado ao outro.

— Ora, ora — disse Alther. — Costumava vir pescar aqui quan­do era criança, e ao que parece trouxe a vara e tudo. Contava poder encontrar a todos aqui.

Jenna riu. Não conseguia acreditar que Tio Alther também pudesse ter sido um rapazinho.

— Você vem conosco, Tio Alther? — perguntou.

— Desculpe, Princesa. Não posso. Sabe como são as regras da fantasmidade:

Um fantasma só pode voltar a pisar

Onde, quando vivo, costumava andar.

— E, infelizmente, quando era rapaz nunca fui muito além desta praia. Aqui podia apanhar muitos peixes, sabe. Bem, bem — disse Alther, mudando de assunto —, é um cesto de piquenique que eu estou vendo ali no fundo do barco?

Debaixo de um rolo úmido de corda, estava o cesto de piquenique que Sally Mullin tinha preparado para eles. Silas inclinou-se para pegá-lo.

— Ai, minhas costas — gemeu. — O que ela pôs aqui dentro? — Silas levantou a tampa do cesto. — Ah, isso explica tudo — sus­pirou. — Está atravancado de bolo de cevada. Mas deu um excelente lastro, heim?

— Papai — repreendeu-o Jenna. — Não seja mauzinho. Aliás, nós gostamos de bolo de cevada, não é, Nicko?

Nicko fez uma careta, mas o Garoto 412 pareceu animado. Comida. Estava com uma fome — já nem se lembrava do que tinha sido a última coisa que tinha comido. Ah, sim, era isso, uma tigela de mingau de aveia fria e ressequida, um pouco antes da chamada das seis da manhã. Parecia que tinha sido há uma vida.

Silas foi tirando as outras, e bem amassadas, coisas que estavam por baixo do bolo de cevada. Uma caixa de mechas e acendalhas secas, uma lata com água, um pouco de chocolate, açúcar e leite. Começou a pre­parar uma pequena fogueira, e pendurou a lata com água sobre as cha­mas para ferver, enquanto os demais se reuniam em torno das chamas bruxuleantes, aproveitando para aquecer as mãos geladas, quando não estavam mastigando umas enormes fatias de bolo.

Até Marcia preferiu ignorar a bem conhecida tendência que o bolo de cevada tinha para colar os dentes de cima aos de baixo, e comeu quase uma fatia inteira. O Garoto 412 comeu a sua parte toda e ainda despachou os restos que todos os outros tinham deixado. Depois dei­xou-se cair para trás na areia úmida e interrogou-se se conseguiria voltar a se mexer de novo. Sentia-se como se alguém tivesse despejado cimento dentro dele.

Jenna enfiou a mão no bolso e puxou para fora Petrocha Trelawney. Ficou muito quieto e calado na palma da mão dela, até Jenna lhe fazer uma festinha com a mão. Nessa altura o Petrocha estendeu as suas quatro patinhas curtas e agitou-as desesperadamente no ar. Estava deitado de costas como um escaravelho encalhado.

— Ups, lado errado para cima — riu Jenna. Endireitou-o imedia­tamente, e Petrocha Trelawney abriu os olhos e piscou-os devagarinho.

Jenna colou uma migalha de bolo de cevada no polegar e deu-a a Petrocha.

Petrocha Trelawney voltou a piscar os olhos, observou cuida­dosamente o bolo de cevada e, finalmente, deu uma mordidinha delicada na migalha. Jenna não cabia em si de contente.

— Comeu! — exclamou ela.

— Tinha que comer — disse Nicko. — Bolo duro como uma pedra, para uma pedra de estimação. Não poderia ser melhor.

Mas nem Petrocha Trelawney conseguiu agüentar mais do que uma grande migalha do bolo de cevada. Ficou mais uns minutos olhando em volta, depois voltou a fechar os olhos, e deixou-se dor­mir no quentinho da mão de Jenna.

Depois de pouco tempo a água na lata já estava fervendo. Silas derreteu os quadrados de chocolate na água e juntou leite. Mis­turou tudo a seu gosto, e quando estava quase transbordando, acres­centou o açúcar e mexeu.

— O melhor chocolate quente de todos os tempos — sentenciou Nicko. Ninguém discordou enquanto passavam a lata uns aos outros, até ter acabado, mais depressa do que desejavam.

Enquanto estavam todos comendo, Alther tinha estado a treinar a técnica de arremesso de linha com a sua vara de pesca, preocupado, e quando viu que já tinham terminado, arrastou-se para junto da fogueira. Parecia muito sério.

— Aconteceu uma coisa depois de vocês terem partido — disse sombriamente.

Silas sentiu que um peso lhe entupia a boca do estômago, e não era apenas do bolo de cevada. Era receio.

— O que foi, Alther? — perguntou Silas, horrivelmente conven­cido que ia ouvi-lo dizer que Sara e as crianças tinham sido cap­turadas.

Alther sabia o que ele estava pensando.

— Não foi nada disso, Silas — disse ele. — Sara e os meninos estão bem. Mas foi uma coisa muito má. DomDaniel regressou ao Castelo.

— O quê? — exclamou Marcia. — Ele não pode regressar. Eu é que sou a Feiticeira ExtraOrdinária — sou eu que tenho o Amuleto. E deixei a Torre cheia de Feiticeiros — há Magya mais do que suficiente na Torre para manter o velho ultrapassado nas Terras Inóspitas, que é o lugar dele. Tem certeza que ele regressou, Alther, e que não se trata de uma peça que o Supremo Guardião — essa ratazana nojenta — quer pregar enquanto estou longe?

— Não é peça nenhuma, Marcia — disse Alther. — Eu mesmo o vi. Logo que o Muriel desapareceu por trás do Calhau do Corvo, ele Materializou-se no Pátio da Torre dos Feiticeiros. O lugar todo come­çou a crepitar de Magya Negra. Cheirava horrivelmente. Lançou os Feiticeiros num pânico cego, a correrem de um lado para o outro, como uma multidão de formigas quando pisamos um formigueiro.

— Uma vergonha. Mas em que é que eles estavam pensando? Não sei, mas a qualidade dos Feiticeiros Normais hoje em dia é surpreen­dentemente má — disse Marcia, lançando um olhar na direção de Silas. — E onde estava Endor? Supunha-se que era a minha substituta — não me diga que Endor também entrou em pânico?

— Não. Não entrou. Veio para fora e enfrentou-o. Pôs um Barrote atravessado nas portas da Torre.

— Oh, graças a Deus. A Torre está a salvo — suspirou Marcia, aliviada.

— Não, Marcia, não está. DomDaniel atacou Endor com um RelâmpagoTrovão. Matou-a. — Alther deu um nó particularmente complicado na linha de pesca. — Lamento — disse.

— Morta — balbuciou Marcia.

— E depois Removeu os Feiticeiros.

— A todos? Para onde?

— Foram todos atirados para as Terras Inóspitas — não havia nada que pudessem fazer. Presumo que os mantenha prisioneiros numa das Covas que tem lá.

— Oh, Alther.

— Nessa hora chega o Supremo Guardião — aquele homenzinho horrível — com seu séquito, perdidos em vênias e lambidas de botas, praticamente babando sobre o seu novo Mestre. Quando dei por ele, já escoltava DomDaniel para o interior da Torre e... anh, bem, para os seus aposentos, Marcia.

— Os meus aposentos? DomDaniel está nos meus aposentos?

— Bom, ao menos vai gostar de saber que quando chegou lá não estava na melhor das condições para apreciá-los, já que tiveram que fazer o caminho todo pelas escadas. Já não sobrava Magya suficiente para que as escadas continuassem funcionando. Para dizer a verdade, para o que quer que fosse pudesse continuar fun­cionando.

Marcia abanou a cabeça, recusando-se a acreditar.

— Nunca pensei que DomDaniel pudesse fazer uma coisa dessas. Nunca.

— Nem eu — disse Alther.

— Pensei — continuou Marcia — que enquanto os Feiticeiros pudessem se agüentar até a Princesa ter idade suficiente para usar a Coroa, estaríamos em segurança. Nessa altura poderíamos nos ver livres dos Guardiães, do Exército da Juventude e de toda essa Escu­ridão que infesta o Castelo e torna a vida das pessoas tão miserável.

— Eu também — disse Alther —, mas segui DomDaniel en­quanto subia pelas escadas. Estava a gabar-se ao Supremo Guardião sobre como nem podia acreditar na sorte que tinha tido — não só você tinha deixado o Castelo, como tinha levado o único obstá­culo ao seu regresso.

— Obstáculo?

— A Jenna.

Jenna olhou para Alther, completamente surpreendida.

Eu? Um obstáculo? Por quê?

Alther fitou a fogueira, imerso em pensamentos.

— Ao que parece, Princesa, por um motivo qualquer, tem impedido aquele Necromante velho e horroroso de regressar ao Castelo. Só por estar lá. E, pro­vavelmente, a sua mãe tinha feito o mesmo. Sempre me interroguei por que ele tinha enviado o Assassino para a Rainha e não para mim.

Jenna estremeceu. Sentiu-se subitamente com muito medo. Silas pôs um braço em volta dela.

— Já chega, Alther. Não ganha nada em estar assustando a todos nós. Sinceramente, acho que se limitou a adormecer e teve um pesadelo. Sabe muito bem que de vez em quando tem desses pesadelos. Os Guardiães não passam de um bando de rufiões que qualquer Feiticeiro ExtraOrdinário decente já teria despachado há muito tempo.

— Não vou ficar aqui para ser insultada desta maneira — indig­nou-se Marcia. — Não faz a menor idéia das coisas que ten­tamos para nos vermos livres deles. Não faz idéia nenhuma. Às vezes, quase nem conseguíamos manter a Torre dos Feiticeiros funcionando. E nunca tivemos a sua ajuda, Silas Heap.

— Bom, não sei qual é o problema, Marcia, DomDaniel está morto — retorquiu Silas.

— Não, não está — respondeu Marcia, muito sombria.

— Não seja pateta, Marcia — resmungou Silas. — Alther atirou-o do topo da Torre há quarenta anos.

Jenna e Nicko quase ficaram sem ar.

— É verdade, Tio Alther? — quis saber Jenna.

— Não! — exclamou Alther, indignado. — Não atirei nada. Foi ele que se atirou.

— Seja como for — insistiu Silas, teimoso. — Continua morto.

— Não necessariamente... — disse Alther em voz baixa, ainda fitando a fogueira. A luz das brasas projetava sombras bruxuleantes sobre todo mundo com exceção de Alther, que flutuava entre eles, infeliz, tentando distraidamente desfazer o nó que tinha acabado de dar na linha de pesca. O fogo reavivou-se por um breve instante, ilu­minando o círculo de pessoas à sua volta. Subitamente, Jenna falou.

— O que aconteceu mesmo no topo da Torre dos Feiticeiros com DomDaniel, Tio Alther? — sussurrou ela.

— É uma história um bocado assustadora, Princesa. Não quero assustá-la.

— Oh, vamos lá. Conte-nos — pediu Nicko. — A Jen gosta de histórias que metem medo.

Jenna anuiu, sem a certeza de querer mesmo ouvi-la.

— Bom — começou Alther —, é difícil contá-la por minhas próprias palavras, mas vou contá-la como a ouvi ser contada certa vez em volta de uma fogueira num acampamento bem no interior da Floresta. Era uma noite como esta, meia-noite com a lua cheia bem alta no céu, e foi contada por uma velha e sábia Bruxa Mãe Wendron às suas bruxinhas.

E assim, ao lado da fogueira, Alther Mella alterou a sua forma até ser a de uma mulher grande, de aspecto simpático, vestida de verde. Falando no tom gutural e calmo das Bruxas da Floresta, começou a contar a história.

— É aqui que a história começa: no topo de uma Pirâmide dou­rada, que encima uma alta Torre de prata. A Torre dos Feiticeiros reluz sob o sol matinal e é tão alta que a multidão de pessoas reunida na sua base parece um amontoado de formigas ao jovem que está escalando os lados da Pirâmide. O jovem já tinha olhado para as formigas uma vez e sentira-se tonto pela vertiginosa sensação de altura. Agora mantém o olhar fixo na figura que segue à sua frente — um homem mais velho, mas admiravelmente ágil que, para sua grande vantagem, não tem medo de alturas. O manto púrpura do homem mais velho esvoaça nos braços do vento cortante que sopra sempre em volta do topo da Torre e, para a multidão lá embaixo, ele não parece mais do que um agitado morcego púrpura que se arrasta para o vértice da Pirâmide.

Os espectadores lá embaixo perguntam-se o que estará fazendo o seu Feiticeiro ExtraOrdinário? E não é o Aprendiz dele que o segue logo atrás, quase se podia dizer, que o persegue?

O Aprendiz, Alther Mella, tem agora o seu Mestre, DomDaniel, ao alcance da mão. DomDaniel chegou ao pináculo da Pirâmide, uma pequena plataforma quadrada de ouro martelado incrustado com os hieróglifos prateados que Encantam a Torre. DomDaniel endireita-se, muito alto, o seu manto púrpura a esvoaçar por trás dele, o cinto de ouro e platina de Feiticeiro ExtraOrdinário faiscando ao sol. Está desafiando seu Aprendiz para que se aproxime ainda mais.

Alther Mella sabe que não tem escolha. Num salto corajoso e ater­rorizado, atira-se ao seu Mestre e apanha-o de surpresa. DomDaniel é derrubado e o seu Aprendiz salta sobre ele, agarrando o Amuleto Akhu, de ouro e lápis-lazúli, que o Mestre usa ao pescoço, numa grossa corrente de prata.

Muito lá embaixo, no pátio da Torre dos Feiticeiros, as pessoas exclamam de surpresa, ao verem, através de olhos semicerrados contra a luminosidade da Pirâmide dourada, o Aprendiz a digladiar-se com o seu Mestre. Rolam de um lado para o outro da minúscula plata­forma, enquanto o Feiticeiro ExtraOrdinário tenta que Alther Mella largue o Amuleto.

DomDaniel fita Alther Mella com um olhar sinistro, os olhos verde-escuros relampejando de fúria. Os olhos verde-brilhantes de Alther agüentam o olhar sem pestanejar, e sente que o Amuleto se solta. Puxa com força, a corrente parte-se em centenas de pedaços, e o Amuleto está livre, em suas mãos.

— Fique com ele — sibila DomDaniel. — Mas prepare-se, pois hei de voltar para recuperá-lo. Hei de voltar com o sétimo do sétimo.

Um grito acutilante ergue-se das pessoas lá embaixo, quando vêem o Feiticeiro ExtraOrdinário saltar do topo da Pirâmide e pre­cipitar-se da Torre. Seu manto abre-se como um magnífico par de asas, mas não atrasa a vertiginosa queda em direção ao solo.

E nesse momento desaparece.

No topo da Pirâmide, seu Aprendiz segura o Amuleto Akhu e contempla em estado de choque aquilo que acabou de ver — seu Mestre penetrando no Abismo.

A multidão amontoa-se em torno do pedaço de terra carbonizada que marca o ponto onde DomDaniel atingiu o solo. Cada uma daque­las pessoas viu uma coisa diferente. Um diz que ele se transformou num morcego e voou para longe. Outro viu surgir um cavalo negro que se afastou a galope em direção da Floresta, e ainda outro viu DomDaniel transformar-se numa serpente e deslizar para baixo de uma rocha. Mas nenhum deles viu a verdade como Alther.

Alther Mella desce da Pirâmide com os olhos fechados para não ter de ver a altura vertiginosa em que está. Só abre os olhos depois de ter se enfiado pela pequena comporta que leva à segurança da Biblioteca, que se situa no interior da Pirâmide dourada. E então, com uma terrível sensação de fatalidade, vê o que aconteceu. Suas simples vestes de lã verde de Aprendiz de Feiticeiro tornaram-se numa rica seda púrpura. O singelo cinto de couro que usa sobre a túnica tornou-se bem mais pesado; agora é feito de ouro com as intricadas gravações em platina de runas e encantamentos que protegem e dão poder ao Feiticeiro ExtraOrdinário em que Alther, para seu grande espanto, se tornou.

Alther olha para o Amuleto que segura na mão trêmula. É uma pequena pedra redonda de lápis-lazúli ultramarino, com veios de ouro e gravado com um dragão mágico. A pedra pesa-lhe na mão, envolta num fio de ouro apertado em cima para formar um anel. Deste anel nasce um elo de prata quebrado, arrebentado quando Alther arrancou o Amuleto da sua corrente de prata.

Depois de um breve momento de hesitação, Alther abaixa-se e remove um dos cordões de couro das botas. Enfia-o pelo anel do amu­leto e, como sempre fizeram todos os Feiticeiros ExtraOrdinários que o precederam, colocou-o no pescoço. E então, com o longo cabelo castanho ainda desgrenhado pela luta, o rosto pálido e ansioso, os olhos verdes escancarados de espanto, Alther percorre o longo caminho Torre abaixo para enfrentar a multidão expectante lá embaixo.

Quando Alther surge através das enormes e maciças portas de prata que protegem a entrada da Torre dos Feiticeiros, é recebido com uma exclamação de surpresa. Mas nada mais é dito, pois não é possível discutir a presença de um novo Feiticeiro ExtraOrdinário. Por entre alguns resmungos murmurados, a multidão dispersa, embora uma voz ainda grite:

— Assim como o ganhou, também há de perdê-lo!

Alther suspira. Bem sabe que é verdade.

Enquanto regressa, solitário, à Torre, para lançar mãos à obra à tarefa de desfazer a Escuridão de DomDaniel, num pequeno quarto não muito distante, um bebê nasce numa família pobre de Feiticei­ros. É o seu sétimo filho, e chama-se Silas Heap.

Gerou-se um longo silêncio em torno da fogueira, enquanto Alther retomava sua própria forma. Silas estremeceu. Nunca tinha ouvido a história sendo contada assim.

— É assombroso, Alther — disse Silas, num murmúrio rouco. — Não fazia idéia. C... como é que a Bruxa Mãe soube tantas coisas?

— Era uma das que estavam assistindo no meio da multidão — res­pondeu Alther. — Veio falar comigo mais tarde, nesse mesmo dia, para me dar os parabéns por ter-me tornado o Feiticeiro ExtraOrdinário, e contei-lhe a minha parte da história. Se quer que a verdade seja conhecida, então não é preciso mais do que contá-la à Bruxa Mãe. Ela acaba contando para todo mundo. Claro, se os outros acreditam ou não, isso já são outros quinhentos.

Jenna estava pensando furiosamente.

— Mas, Tio Alther, por que é que estava perseguindo DomDaniel?

— Ah, boa pergunta. Isso não contei à Bruxa Mãe. Há deter­minadas matérias Negras sobre as quais não é conveniente falar de ânimo leve. Mas você precisa saber, por isso vou contar. É que, sabe, naquela manhã, como em todas as outras manhãs, eu estava arrumando a Biblioteca da Pirâmide. Uma das tarefas dos Aprendizes é manter a Biblioteca organizada, e eu levava meus deveres muito a sério, mesmo que os desempenhasse para um Mestre tão desagradável. Seja como for, nessa manhã específica, tinha des­coberto um estranho Encantamento, escrito com a letra de Dom­Daniel e enfiado num dos livros. Já tinha visto um semelhante por lá antes, mas não tinha sido capaz de entender o que estava escrito, mas ao estudar este, tive uma idéia. Pus o Encantamento em frente do espelho e vi que tinha razão: estava em escrita de espelho. Nessa altura comecei a sentir um mau pressentimento quanto àquilo, porque sabia que tinha que se tratar de um Encantamento Inverso, usando Magya do lado Negro — ou do Outro lado, como prefiro chamá-la, já que o Outro lado não se serve só de Magya Negra para conseguir os seus fins. Mas continuando; tinha de descobrir a verdade sobre DomDaniel e do que ele andava fazendo, por isso resolvi arriscar-me a ler o Encantamento. Mal tinha começado, quando aconteceu uma coisa terrível.

— O quê? — murmurou Jenna.

— Apareceu um Espectro por trás de mim. Bem, pelo menos podia vê-lo no espelho, mas quando me voltei, não estava lá. Mas po­dia senti-lo. Podia senti-lo pondo uma mão em meu ombro, e nessa altura... ouvi-o. Ouvi sua voz vazia falando comigo. Disse-me que tinha chegado a minha hora. Que, tal como combinado, tinha chegado a hora de vir me recolher.

Alther estremeceu com a recordação, e levou uma mão ao ombro esquerdo, tal como o Espectro tinha feito. Ainda lhe doía com uma sensação de frio, como sempre acontecera desde aquela manhã.

Todos os outros estremeceram também e juntaram-se mais em volta do fogo.

— Disse ao Espectro que ainda não estava pronto. Ainda não. Sabem, na época eu já sabia o suficiente sobre o Outro lado para saber que nunca devemos negar nada. Mas eles estão dispostos a espe­rar. Para eles o tempo não existe. Não têm mais nada para fazer a não ser esperar. O Espectro me disse que regressaria por mim no dia seguinte e que era melhor que nessa altura eu já estivesse pronto, e desa­pareceu. Depois de ter ido embora, obriguei-me a ler as palavras Inversas, e vi que DomDaniel tinha me oferecido como parte de um acordo com o Outro lado, para ser recolhido logo que lesse o Encantamento. E nessa hora soube com toda certeza que ele andava se servindo da Magya Inversa — o reflexo invertido da Magya, aquele que consome as pessoas — e que eu tinha caído em sua armadilha.

A fogueira na praia começava a se apagar, e todos se aconchegaram mais perto uns dos outros, em volta dela, enquanto Alther prosseguia com a sua história.

— Subitamente DomDaniel entrou e viu-me lendo o Encanta­mento. E viu que eu ainda continuava ali — não tinha sido Levado! Soube que o seu plano tinha sido descoberto e desatou a correr. Subiu apressadamente a escadinha da Biblioteca, como uma aranha, correu por cima das estantes e espremeu-se através da portinhola que levava ao exterior da Pirâmide. Riu de mim, e desafiou-me a segui­-lo se me atrevesse. Sabem, ele sabia perfeitamente que eu tinha ter­ror das alturas. Mas não tinha outra escolha a não ser segui-lo. E foi o que fiz.

Estavam todos calados. Ninguém até ali, nem mesmo Marcia, tinha ouvido a história completa do Espectro.

Foi Jenna quem quebrou o silêncio.

— Isso foi horrível. — Estre­meceu. — E então, o Espectro veio buscá-lo, Tio Alther?

— Não, Princesa. Com alguma ajuda, consegui criar uma Fór­mula Anti-Feitiço. Depois disso o Espectro ficou sem poderes. — Alther mergulhou em pensamentos, durante alguns instantes, e depois disse: — Só quero que saibam que não me sinto orgulhoso do que fiz no topo da Torre dos Feiticeiros... mesmo que não tenha empur­rado DomDaniel. Sabem, é uma coisa terrível um Aprendiz ultra­passar o seu Mestre.

— Mas tinha que fazê-lo, Tio Alther. Não tinha? — perguntou Jenna.

— Sim, tinha — respondeu Alther, sombrio. — E vamos ter que fazê-lo outra vez.

— Faremos hoje à noite — declarou Marcia. — Vou regressar imediatamente e correr com esse homem malvado da Torre para fora. Vai aprender que não pode se meter com a Feiticeira ExtraOrdinária. — Levantou-se com toda a determinação e apertou o manto púrpura em torno do corpo, pronta para partir.

Alther saltou no ar e pousou uma mão fantasmagórica no ombro de Marcia.

Não. Não, Marcia.

— Mas, Alther... — protestou ela.

— Marcia, já não há Feiticeiros na Torre que possam protegê-la, e ouvi dizer que você deu seu FicaEmSegurança à Sally Mullin. Suplico-lhe que não regresse. É perigoso demais. Deve colocar a Princesa em segurança. E mantê-la em segurança. Eu vou voltar ao Castelo e fazer o que puder.

Marcia voltou a cair sobre a areia molhada. Sabia que Alther tinha razão. As últimas chamas da fogueira crepitaram ao extinguir-se enquanto grandes flocos de neve começaram a cair e a escuridão se fechou em torno do grupo. Alther pousou sua vara de pesca fantasma sobre a areia e pairou por cima do Canal Deppen. Cor­reu o olhar por sobre os pântanos que se perdiam na distância. Eram uma paisagem pacífica sob o luar, amplas extensões de terras úmidas polvilhadas de neve e pontuadas por pequenas ilhas aqui e ali, tão longe quanto podia ver.

— Canoas — disse Alther, voltando a pousar. — Quando era rapa­zinho, era assim que as pessoas dos pântanos se deslocavam. E é disso que vocês vão precisar.

— Pode tratar disso, Silas — disse Marcia, lugubremente. — Estou cansada demais para me meter a mexer em barcos.

Silas levantou-se.

— Vamos lá, então, Nicko — disse. — Vamos Transmutar o Muriel num par de canoas.

O Muriel ainda estava flutuando pacientemente no Canal Deppen, logo depois da curva, longe da vista do rio. Nicko ficou triste por ter que ver o fiel barco desaparecer, mas sabia as Regras da Magya, e por isso sabia muito bem que num feitiço não é pos­sível criar nem destruir matéria, apenas transformá-la. O Muriel não iria desaparecer realmente, mas apenas, assim esperava Nicko, transformar-se num par de canoas bem elegantes.

— Posso ter uma rápida, Pai? — pediu Nicko, enquanto Silas olhava para o Muriel e tentava pensar num feitiço adequado.

— Quanto a «rápida» não sei, Nicko. Já fico contente se flutuar. Agora, deixe-me pensar. Acho que uma canoa para cada um seria o melhor. Aqui vai. Converta-se em Cinco! Oh, bolas.

Cinco Muriels muito pequenos flutuavam para cima e para baixo na frente deles.

— Pai — queixou-se Nicko —, não está fazendo isso direito.

— Espere um pouco, Nicko. Estou pensando. É isso: Uma Canoa na Boa!

— Pai!

Agora uma enorme canoa estava encalhada nas margens do Canal.

— Bom, vamos encarar isto com lógica — murmurou Silas para consigo mesmo.

— Por que não se limita a pedir cinco canoas, Pai? — suge­riu Nicko.

— Boa idéia, Nicko. Ainda vamos fazer de você um Feiticeiro. Escolho Canoas para Cinco Pessoas!

O feitiço esgotou-se com um silvo efervescente ainda antes de estar concluído, e Silas acabou ficando com apenas duas canoas e uma pilha desordenada de tábuas e cordas com as cores do Muriel.

— Só duas, Pai? — disse Nicko, desapontado por não poder ter a sua própria canoa.

— Vão ter que servir — respondeu Silas. — Não podemos transmutar matéria mais do que três vezes sem que comece a ficar frágil demais.

Na verdade, Silas estava mais do que satisfeito por, ao menos, terem canoas.

Em breve, Jenna, Nicko e o Garoto 412 estavam sentados naquela que Nicko batizara como canoa Muriel Um, e Silas e Marcia estavam apertados na Muriel Dois. Silas insistiu em ficar sentado à frente, porque: — Eu sei o caminho, Marcia. É mais do que lógico.

Marcia roncou duvidosa, mas estava cansada demais para discutir.

— Anda, Max — disse Silas ao cão lobo. — Vá se sentar com o Nicko.

Mas Max tinha idéias diferentes. O sentido da vida para Max era ficar ao lado do seu dono e era ao lado do seu dono que ia ficar. Saltou para o colo de Silas, e a canoa inclinou-se perigosamente.

— Não pode controlar esse animal? — exigiu Marcia, que estava desalentada por se ver outra vez tão perto da água.

— Claro que posso. Ele faz exatamente aquilo que lhe digo, não faz, Max?

Nicko emitiu um som de gozo.

— Vá se sentar lá atrás, Max. — disse Silas ao cão lobo, com severidade. Parecendo desanimado, Max saltou por cima de Marcia para a parte de trás da canoa e sentou-se ali.

— Nem pense que ele se vai sentar atrás de mim — disse Marcia.

— A meu lado é que não pode ficar. Tenho que me concentrar no caminho por onde temos que ir. — retorquiu Silas.

— E já são mais do que horas de se porem a caminho — disse Alther, pairando ansioso. — Antes que comece a nevar sério. Só gostaria de poder ir com vocês.

Alther elevou-se nos ares e ficou a vê-los partir, remando ao longo do Canal Deppen, o qual voltava a se encher lentamente com o refluxo da maré e os levaria bem para o interior dos Pântanos Marram. A canoa de Jenna, Nicko e do Garoto 412 seguia à frente, com Silas, Marcia e Max a segui-los.

Max estava sentado muito direito por trás de Marcia e soltava entusiasmadas baforadas de hálito canino sobre o pescoço dela. Chei­rava os novos e diferentes cheiros dos pântanos e escutava os tímidos ruídos de vários pequenos animais que fugiam da frente das canoas. De quando em vez deixava-se dominar pelo entusiasmo, e babava generosamente sobre o cabelo de Marcia.

Em breve Jenna alcançava uma vala estreita que se separava do Canal. Parou.

— Vamos por aqui, Papai? — gritou a Silas.

Silas parecia confuso. Não se lembrava minimamente daquela vala. E exatamente quando estava a ponderar se deveria responder sim ou não, seus pensamentos foram interrompidos por um grito lan­cinante de Jenna.

Uma mão viscosa, da cor da lama, com dedos membranosos e gros­sas garras negras tinha surgido da água e agarrado a traseira da canoa.

 

A mão castanha e lamacenta, tateou ao longo da borda da canoa, avançando em direção de Jenna. E agarrou o remo dela. Jenna puxou o remo, conseguindo libertá-lo, e estava prestes a bater com ele naquela coisa castanha — e com força — quando uma voz disse:

— Oi. Num há necessidade disso.

Uma criatura semelhante a uma foca, com o corpo coberto de pêlo castanho escorregadio, ergueu-se até sua cabeça ficar fora d’água. Dois olhos pretos brilhantes, como botões, fitaram Jenna, que ainda tinha o remo levantado para acertá-lo.

— Gostaria que pousasse isso. Ainda aleija alguém. P’ronde tem ‘stado? — perguntou a criatura, rabugenta, numa voz grave e gorgolejante, marcada por um forte sotaque dos pântanos. — Há horas que ‘tou à ’spéra. ‘Tá gelado aqui. Queria ver se fosse você. Enfiada num fosso. ’Sperando.

Jenna não conseguiu mais do que um curto gritinho como resposta; parecia que a voz tinha deixado de funcionar.

— O que foi, Jen? — perguntou Nicko, que estava sentado atrás do Garoto 412, para se assegurar de que não faria mais nenhuma estupidez e não podia ver a criatura.

— Is... isto... — Jenna apontou para a criatura, que parecia ofen­dida.

— O que quer d’zer cum isto? — perguntou a criatura. — Refere-se a mim? Refere-se ao Boggart?

— Boggart? Não. Eu não disse isso — balbuciou Jenna.

— É, mas eu disse. Boggart. Sou eu. Sou o Boggart. Boggart, o Boggart. Nome legal, n’é?

— Lindo — respondeu Jenna, educadamente.

— O que se passa? — perguntou Silas, alcançando-os. — Páracomisso, Max. Já te disse para parar!

Max tinha visto o Boggart e estava latindo freneticamente. O Bog­gart deu uma olhada em Max e desapareceu rapidamente debaixo d’água. Desde as famosas Caçadas aos Boggarts, há muitos anos, em que os antepassados de Max tinham tido uma participação especial, os Boggarts dos Pântanos Marram tinham se tornado uma criatura rara. E com boa memória.

O Boggart voltou a aparecer a uma distância segura.

— Num vai trazer isso contigo, n’o é? — resmungou ele, olhando sombriamente para Max. — Ela num disse nada sobr’um deles.

— É um Boggart que eu estou ouvindo? — perguntou Silas.

— Poizé — respondeu o Boggart.

— O Boggart da Zelda?

— Poizé — respondeu novamente.

— Mandou-o para nos encontrar?

— Poizé — respondeu mais uma vez.

— Ótimo — disse Silas, bastante aliviado. — Então, vamos segui-lo.

— Poizé — disse o Boggart, e começou a nadar ao longo do Canal Deppen, virando na penúltima curva.

A penúltima curva seguinte era mais estreita do que o Canal Dep­pen, e estendia o seu percurso serpenteante pelos pântanos adentro, uma paisagem coberta de neve e banhada pelo luar. A neve continuava a cair determinada e tudo estava calmo e silencioso, com exceção do gorgulhar e chapinhar do Boggart que nadava à frente das canoas, espetando a cabeça de vez em quando para fora da água escura e gritando:

— Tão-m’ seguindo?

— Não sei o que mais ele pensa que nós possamos fazer — disse Jenna a Nicko enquanto remavam ao longo do canal cada vez mais estreito. — Como se pudéssemos ir a qualquer outro lugar.

Mas o Boggart levava muito a sério a sua missão e continuou a repetir a mesma pergunta até chegarem a uma pequena lagoa de água pantanosa, da qual nasciam vários canais cobertos de vegetação.

— É melhor esp’rar p’los outros — disse o Boggart. — Num qu’remos que se percam.

Jenna olhou para trás, para ver onde Silas e a Marcia se tinham metido. Tinham ficado muito para trás, já que era Silas o único a remar. Marcia tinha desistido e apertava firmemente as mãos por cima da cabeça. Por trás dela, o longo focinho pontiagudo de um cão lobo da Abissínia observava pomposamente o cenário que se estendia perante ele, deixando cair o ocasional fio de baba reluzente. Diretamente na cabeça de Marcia.

Quando Silas finalmente impulsionou a canoa para a lagoa, e pou­sou o remo, fatigado, Marcia declarou:

— Não fico nem mais um segundo sentada na frente deste animal. Tenho o cabelo cheio de baba de cão. É nojento. Vou sair daqui. Prefiro ir a pé.

— Com c’teza que num quer fazer isso, Sua Majestade — disse a voz do Boggart de fora da água, ao lado de Marcia. Estava olhando fixa­mente para ela, os seus olhos pretos brilhantes piscando através do pêlo castanho, fascinados pelo cinto de Feiticeira ExtraOrdinária que rebrilhava sob o luar. Embora fosse uma criatura do lodo dos pânta­nos, o Boggart adorava tudo o que fosse brilhante e reluzente. E nunca tinha visto nada tão brilhante e reluzente como o cinto de ouro e platina de Marcia.

— Com c’teza que num quer andar a pé p’r aqui, Sua Majestade — disse o Boggart respeitosamente. — Começa a seguir o Fogo-fátuo, e quando menos esperar já ‘tá na Lama Gelatinosa. Há muitos que seguiram o Fogo-fátuo, e não há nenhum que voltou.

Ouviu-se um rosnar estremecedor bem fundo na garganta de Max. O pêlo do pescoço espetou-se e, obedecendo a um velho e impera­tivo instinto de cão lobo, Max pulou na água atrás do Boggart.

— Max! Max! Oh, seu palerma — gritou Silas.

A água da lagoa estava gelada. Max ganiu e apressou-se a nadar de volta à canoa de Marcia e Silas. Marcia afastou-o com um empurrão.

— Nem pense que esse cão vai voltar a entrar aqui — pronunciou.

— Mas, Marcia, ele vai ficar gelado — protestou Silas.

— Não quero saber.

— Aqui, Max. Vem aqui, menino — chamou Nicko. Agarrou o lenço de pescoço de Max e, com a ajuda de Jenna, puxou o cão para o interior da canoa. A canoa inclinou-se perigosamente, mas o Garoto 412, que não tinha vontade nenhuma de ir parar na água como Max, agarrou a raiz de uma árvore, mantendo-a segura.

Por momentos, Max ficou a tremelicar de frio, depois fez aquilo que qualquer cão molhado tem que fazer: sacudiu-se.

— Max! — exclamaram Nicko e Jenna ao mesmo tempo.

O Garoto 412 não disse nada. Não gostava nada de cães mesmo. Os únicos cães que tinha conhecido eram os ferozes Cães de Guarda dos Guardiães e, embora pudesse ver que Max não tinha nada de pare­cido com eles, ainda esperava que ele o mordesse a qualquer momento. Por isso, quando Max voltou a se deitar, pousou a cabeça no colo do Garoto 412 e adormeceu, tudo não passou de apenas mais um mau momento no pior dia de sua vida. Já Max estava todo satisfeito. O casaco de pele de carneiro do Garoto 412 era quente e confortável, e o cão lobo passou o resto da viagem sonhando que estava de volta a casa, enrolado em frente da lareira com todos os outros Heaps.

Mas o Boggart tinha desaparecido.

— Boggart? Onde está, Sr. Boggart? — gritou Jenna, educadamente. Não houve resposta. Apenas o profundo silêncio que se abate sobre os pântanos quando um cobertor de neve tapa os pauis e os atoleiros, cala os seus borbulhares e gorgolejares e obriga todas as criaturas viscosas a recolherem-se na imobilidade da lama.

— E agora perdemos aquele simpático Boggart por causa do seu estúpido animal — disse Marcia a Silas, zangada. — Não sei para que tinha que trazê-lo.

Silas suspirou. Nunca pensou que um dia tivesse que partilhar uma canoa com Marcia Overstrand. Mas se alguma vez, num momento de loucura, tivesse imaginado tal coisa, seria tal qual como estava acontecendo agora.

Silas esquadrinhou o horizonte na esperança de conseguir encon­trar a Choupana da Guardiã, onde vivia Tia Zelda. A choupana ficava na Ilha Draggen, uma das muitas ilhas que existiam nos pântanos, que apenas eram verdadeiras ilhas quando havia cheias nos terrenos pantanosos. Mas tudo o que Silas conseguia ver era uma planura branca que se estendia à sua frente em todas as direções. E, para tornar tudo ainda pior, podia ver a neblina dos pântanos começar a formar-se e a deslizar sobre a água, e sabia que se a neblina chegasse a se cerrar nunca seriam capazes de encontrar a Choupana da Guardiã, por mais próximos que pudessem estar.

Depois recordou-se que a choupana estava Encantada. O que significava que ninguém podia vê-la, fosse como fosse.

Se o Boggart pudesse ser útil alguma vez, era agora.

— Estou vendo uma luz! — exclamou Jenna, subitamente. — Deve ser a Tia Zelda que veio à nossa procura. Vejam, ali!

Todos os olhos seguiram o dedo apontado de Jenna.

Uma chama bruxuleante estava aos pulos sobre os pauis, como se pulando de rocha em rocha.

— Vem na nossa direção — exclamou Jenna, entusiasmada.

— Não vem nada — disse Nicko. — Olha, está se afastando.

— Talvez devêssemos ir até ela — propôs Silas.

Marcia não estava nada convencida.

— Como é que podemos ter certeza de que é a Zelda? — disse. — Pode ser qualquer pessoa. Qualquer coisa.

Todos se calaram com a idéia de uma coisa, com uma chama, a avançar em direção a eles, até Silas dizer:

— É a Zelda. Olhem, con­sigo vê-la perfeitamente.

— Não, não consegue — disse Marcia. — É Fogo-fátuo, tal como disse aquele Boggart tão inteligente.

— Marcia, sei muito bem quando estou vendo a Zelda e é a Zelda que eu estou vendo agora. Tem uma lamparina. Atravessou esta distância toda para vir nos encontrar, e nós aqui, sem fazer nada. Vou até ela.

— Costuma-se dizer que os tolos vêem aquilo que querem ver nos Fogos-fátuos — disse Marcia acerbamente — e acaba de provar que é bem verdade, Silas.

Silas tentou sair da canoa, mas Marcia agarrou-o pela capa.

— Senta! — disse ela, como se estivesse falando com Max.

Mas Silas conseguiu soltar-se, meio a sonhar, atraído pela chama bruxuleante e pela sombra de Tia Zelda que aparecia e desaparecia através da crescente neblina. Por vezes parecia estar desesperadamente próxima, prestes a encontrá-los e a levá-los para perto de uma lareira reconfortante e uma cama macia, outras vezes desvanecia-se pesaro­samente, convidando-os a segui-la e a estarem com ela. Mas Silas já não conseguia manter-se mais tempo afastado daquela chama. Des­ceu da canoa e avançou cambaleante em direção ao clarão cintilante.

— Papai! — gritou Jenna. — Podemos ir também?

— Não, não podem — atalhou Marcia firmemente. — E eu vou ter de arrastar aquele pateta de volta para cá.

Marcia ainda estava ganhando fôlego para um Feitiço de Boomerang quando Silas tropeçou e caiu de cara no solo pantanoso. Enquanto estava caído, sem ar, Silas sentiu o solo sob si começar a agitar-se como se coisas vivas começassem a despertar nas profunde­zas do lodo. E quando tentou se erguer, percebeu que não conseguia fazê-lo. Era como se estivesse colado ao chão. No seu transe de Fogo-fátuo, Silas estava confuso quanto à razão de não conseguir se mover. Tentou levantar a cabeça do chão para ver o que estava acontecendo, mas não conseguiu. Foi então que percebeu a horrível verdade: alguma coisa o estava puxando pelo cabelo!

Silas levou as mãos à cabeça e, para seu horror, pôde sentir pe­quenos dedos ossudos no cabelo, enrolando-se nos seus longos caracóis desgrenhados e puxando, arrastando-o para o fundo do paul. Silas ten­tou libertar-se desesperadamente, mas quanto mais se debatia, mais os dedos se emaranhavam em seus cabelos. Lenta e firmemente esta­vam a arrastá-lo para baixo, até a lama lhe cobrir os olhos e em breve, muito em breve, lhe cobrir o nariz.

Marcia podia ver o que estava acontecendo, mas sabia muito bem que não podia correr em auxílio de Silas.

— Papai! — gritou Jenna, saltando da canoa. — Eu te ajudo, Papai!

— Não! — disse-lhe Marcia. — Não. É assim que o Fogo-fátuo opera. O pântano vai engolir você também.

— Mas... não podemos ficar aqui vendo o Papai se afogar — ge­meu Jenna.

Subitamente, um vulto castanho e atarracado ergueu-se para fora da água, arrastou-se margem acima e, saltando com perícia de torrão em torrão de terra, correu em direção a Silas.

— Que ‘tá fazendo na Lama Gelatinosa, Senhor? — perguntou o Boggart, mal-humorado.

— O quêêê? — balbuciou Silas, que tinha os ouvidos cheios de lama e quase só conseguia ouvir as criaturas que guinchavam e se lamuriavam sob si, no fundo do pântano. Os dedos ossudos continuavam a puxar e a retorcer, e Silas começava a sentir os cortes dolorosos de dentes afiados como lâminas que lhe mordiscavam a cabeça. Debateu-se freneticamente, mas cada movimento arrastava-o ainda mais para o interior da Lama e despoletava outra onda de guinchos agudos e penetrantes.

Jenna e Nicko viam, horrorizados, Silas afundar lentamente na Lama. Por que o Boggart não fazia nada? E já? Antes que Silas desaparecesse de vez? Subitamente, Jenna já não podia agüentar mais e voltou a pular da canoa. Nicko foi atrás dela. O Garoto 412, que já tinha ouvido falar do Fogo-fátuo através do único sobrevivente de um pelotão de rapazes do Exército da Juventude que tinha se perdido na Lama Gelatinosa há um par de anos, agarrou Jenna e tentou puxá-la para o interior da canoa. Ela, zangada, empurrou-o.

O movimento inesperado chamou a atenção do Boggart.

Fica aí, menina — disse com algum alarme. O Garoto 412 voltou a dar um puxão firme no casaco de pele de carneiro de Jenna e ela sentou-se na canoa com um som seco. Max soltou um ganido.

Os olhos pretos e brilhantes do Boggart pareciam preocupados. Sabia muito bem a quem pertenciam os dedos que se retorciam e enrolavam nos cabelos de Silas, e sabia que estavam metidos numa grande encrenca.

— Duendes Piscos! — disse o Boggart. — Que peças tão maldosas. Experimentem provar o Bafo do Boggart, criaturas desprezíveis. — O Boggart inclinou-se sobre Silas, respirou bem fundo e libertou o bafo sobre os dedos ossudos. Bem do fundo do pântano Silas ouviu um guincho de fazer cerrar os dentes, como se alguém estivesse arranhando uma ardósia, e no momento seguinte os dedos nodosos deslizavam-lhe do cabelo, e o lodo agitou-se quando as criaturas sob ele se afastaram.

Silas estava livre.

O Boggart ajudou-o a sentar-se e limpou-lhe a lama dos olhos.

— Eu disse qu’o Fogo-fátuo ia atraí-lo para a Lama Gelatinosa. E atraiu, num atraiu? — protestou o Boggart.

Silas não disse uma palavra. Estava aparvalhado com o cheiro pun­gente do Bafo do Boggart que ainda sentia no cabelo.

— Agora já ‘tá bem, s’nhor — disse-lhe o Boggart. — Mas foi p’rum triz. Não m’importo d’lhe d’zer. Já num tinha que bufar sobre um duende desde qu’eles pilharam a choupana. Ah, o Bafo de Boggart é uma coisa maravilhosa. Há quem possa num gostar muito dele, mas dig’lhes sempre: «Num iria d’zer isso se fosse apanhado p’los Duendes da Lama Gelatinosa.»

— Oh. Ah. Sim. Obrigado, Boggart. Muito obrigado — balbuciou Silas, ainda meio tonto.

O Boggart conduziu-o cuidadosamente de volta à canoa.

— É m’lhor ir na frente, Sua Majestade — disse o Boggart à Marcia. — Ele num ‘tá em condições p’ra guiar uma coisa destas.

Marcia ajudou o Boggart a subir Silas para a canoa, e depois o Boggart deixou-se escorregar para dentro d’água.

— Eu os levo à casa da menina Zelda, mas tenham o cuidado de manter esse an’mal longe d’mim — disse ele, lançando um olhar a Max. — Deu-me uma boa urticária aquele rosnar todo, s’num deu. Agora, eu está bem coberto de calombos, está. Ora, sente. — O Boggart ofereceu a sua grande barriga redonda para que Marcia o tocasse.

— É muito simpático da sua parte, mas não, obrigada, agora não — respondeu Marcia, meio enjoada.

— Noutra hora, então.

— Isso.

— ‘Tá bem. — O Boggart nadou em direção a um estreito canal em que nenhum deles tinha sequer reparado.

— Agora, tão-m’ seguindo? — perguntou ele, e não foi a última vez.

 

Enquanto o Boggart e as canoas prosseguiam o seu longo e com­plicado caminho através dos pântanos, Alther seguia a rota que o seu velho barco, o Molly, costumava seguir de volta ao Castelo.

Alther estava voando da maneira que mais gostava de voar, baixinho e a grande velocidade, e não demorou muito até alcançar o barco-foguete. Era uma coisa de dar dó. Dez Remadores remavam penosa­mente enquanto o barco subia vagarosamente o rio. Sentado à popa estava o Caçador, com as costas vergadas, a tremer de frio e a pensar silenciosamente no seu futuro, enquanto na proa o Apren­diz, para grande irritação do Caçador, não parava de se agitar, pontapeando ocasionalmente o lado do barco, quer por estar aborrecido, quer numa tentativa de restabelecer a circulação nos pés gelados.

Alther sobrevoou o barco sem ser visto, pois Aparecia apenas à quem queria, e prosseguiu sua viagem. Por cima dele o céu limpo começava a ficar cerrado de pesadas nuvens a pressagiar neve, e a Lua já tinha desaparecido, mergulhando as margens cobertas de neve brilhante na mais completa escuridão. Quando Alther já estava mais próximo do Castelo, gordos flocos de neve começaram a cair pregui­çosamente e, ao aproximar-se da última dobra do rio, aquela que o levaria a contornar o Calhau do Corvo, o ar mostrou-se subitamente cheio de neve.

Alther abrandou imediatamente, pois até um fantasma pode ter dificuldades em ver por onde vai através de um temporal, e voou cuidadosamente até o Castelo. Em breve, através daquela branca parede de neve, Alther podia ver as cinzas incandescentes que eram tudo o que restava do Salão de Chá e Cerveja de Sally Mullin. A neve assobiava e crepitava ao pousar no molhe calcinado, e ao pairar por momentos sobre os restos do orgulho e felicidade de Sally, Alther esperou que em algum lugar no rio gélido, o Caçador estivesse apreciando os rigores do temporal.

Alther sobrevoou a Lixeira, passando pela porta dos ratos abando­nada, e subiu vertiginosamente ao longo da parede do Castelo. Estava admirado do Castelo estar tão calmo e sossegado. Esperava encon­trar sinais das sublevações que tinham ocorrido nessa noite, mas já passava da meia-noite e um tapete fresco de neve cobria os pátios desertos e os velhos edifícios de pedra. Alther contornou o Palácio e avançou ao longo da larga avenida conhecida como Via dos Feiticeiros e que levava à Torre dos Feiticeiros. Começou a sentir-se nervoso. O que iria encontrar ali?

Vagueando pelo exterior da Torre acima, não demorou a avistar a pequena janela em arco que estava procurando, bem no topo. Deixou-se escorrer através da janela e deu consigo na porta dos apo­sentos de Marcia, ou o que pelo menos eram os aposentos de Marcia há algumas horas. Alther adotou o equivalente fantasmagórico a respirar fundo e recompôs-se. Depois Descompôs-se cuidadosamente, apenas o suficiente para poder atravessar as ripas púrpuras de madeira sólida e as espessas dobradiças da porta, e Rearranjou-se habilmente do outro lado. Estava de volta aos aposentos de Marcia.

Tal como o Feiticeiro Negro, o Necromante, DomDaniel em pessoa.

DomDaniel estava adormecido no sofá de Marcia. Estava deitado de costas com o manto negro embrulhado à sua volta e o pequeno chapéu cilíndrico preto puxado por sobre os olhos, enquanto a cabeça repousava sobre os travesseiros do Garoto 412. DomDaniel tinha a boca escancarada e ressonava ruidosamente. Não era muito bonito de se ver.

Alther fitou DomDaniel, parecendo-lhe estranho voltar a ver o seu velho Mestre no mesmo lugar onde tinham passado tantos anos juntos. Alther não recordava esses anos com saudade, apesar de neles ter aprendido tudo o que havia para saber, e até mais do que desejava, sobre Magya. DomDaniel tinha sido um Feiticeiro ExtraOrdinário arrogante e desagradável, completamente desinteressado do Castelo e das pessoas que precisavam de sua ajuda, perseguindo apenas seus próprios desejos de poder e juventude eterna. Ou, já que DomDaniel tinha demorado um bocado para descobrir as coisas, eterna meia-idade.

A primeira vista, DomDaniel que agora estava deitado a ressonar em frente de Alther parecia-se muito com o que ele recordava de há tantos anos, mas quando Alther o examinou com mais atenção, notou que nem tudo permanecia inalterável. Notava-se um tom acinzentado na pele do Necromante que deixava adivinhar muito tempo passado nos subterrâneos na companhia de Vultos e Sombras. Uma certa aura do Outro lado ainda se agarrava a ele e enchia o quarto com o cheiro de mofo e terra úmida. Enquanto Alther olhava, um fino fio de baba escorreu lentamente do canto da boca de DomDaniel e deslizou-lhe pelo queixo, onde pingou sobre o manto negro.

Alther correu os olhos pelo compartimento, acompanhado pelos roncos de DomDaniel. Parecia surpreendentemente intocado, como se Marcia pudesse entrar a qualquer momento, sentar-se e contar-lhe como tinha passado o dia, tal como costumava fazer habitualmente. Mas depois notou a grande marca onde o RelâmpagoTrovão tinha atingido a Assassina. Um buraco calcinado com a forma da Assassina desenhava-se agora no precioso carpete de seda de Marcia.

Então, aconteceu mesmo, pensou Alther.

O fantasma pairou até junto da comporta da calha de lixo, que ainda estava aberta, e espiou a gélida escuridão. Estremeceu e imaginou a horrível viagem que deviam ter feito por ali abaixo. E de­pois, porque Alther queria fazer alguma coisa, por muito pouco que fosse, atravessou a fronteira entre o fantasmagórico e o mundo dos vivos. Isso fez com que algo acontecesse.

Fechou a comporta com estrondo.

BANG!

DomDaniel acordou sobressaltado. Sentou-se como se empurrado por uma mola e olhou em volta, por momentos sem saber onde estava. Depois, com um suspiro de satisfação, recordou-se. Estava de volta ao que lhe pertencia. De volta aos aposentos do Feiticeiro Extra­ordinário. De volta ao topo da Torre. De volta para se vingar. DomDaniel olhou em volta, esperando encontrar seu Aprendiz, que já deveria ter regressado há várias horas com as notícias do fim da Princesa e daquela mulher horrível, Marcia Overstrand, sem falar em mais uns quantos Heaps de brinde. Quanto menos deles, melhor, pensou DomDaniel. Estremeceu com o ar frio da noite e estalou impacientemente os dedos para reacender a lareira. Esta acendeu-se e puf! Alther apagou-a. Depois soprou a fumaça para fora da chaminé e fez DomDaniel desatar a tossir.

O velho Necromante pode estar aqui, pensou Alther, e não há nada que eu possa fazer quanto a isso, mas garanto que não vai gos­tar nada de estar aqui. Pelo menos no que depender de mim!

 

Já era quase madrugada, muito depois de DomDaniel ter se reco­lhido ao quarto do andar de cima para se deitar e ter tido muitas dificuldades para dormir, porque parecia que os lençóis queriam estrangulá-lo, quando o Aprendiz voltou. O rapaz estava branco de frio e cansaço, o manto verde encharcado de neve, e até estremeceu quando o Guardião que o escoltou até lá em cima se retirou apressada­mente e o deixou sozinho para enfrentar o Mestre.

DomDaniel estava de péssimo humor quando a porta deixou o Aprendiz entrar.

— Espero — disse DomDaniel ao trêmulo rapazinho — que tenha notícias interessantes para me dar.

Alther pairou em volta do rapaz, que quase não era capaz de falar de tão exausto que estava. Sentiu pena do rapaz — não era culpa dele ser Aprendiz de DomDaniel. Alther soprou sobre a lareira e permitiu que se acendesse. O rapaz viu as chamas saltarem na lareira e esboçou uma tentativa de se aproximar do calor.

— Onde acha que vai? — trovejou DomDaniel.

— Eu... tenho frio, Mestre.

— Nem pense em se aproximar da lareira até me contar o que aconteceu. E então, foram despachados?

O rapaz pareceu não entender.

— Eu... eu disse que era uma Projeção — balbuciou.

— Do que é que está falando, garoto? O que é que era uma Pro­jeção?

— O barco deles.

— Bom, resolveu isso, espero. É uma coisa simples. Mas estão despachados? Mortos? Sim ou não? — DomDaniel levantou a voz, exasperado. Já tinha adivinhado a resposta, mas tinha que ouvi-la.

— Não — sussurrou o rapaz, aterrorizado, as roupas encharcadas pingando sobre o carpete quando a neve começou a derreter no pouco calor que a lareira que Alther acendera libertava.

DomDaniel deu um olhar fulminante no rapaz.

— Você não passa de uma decepção. Dou-me ao trabalho de resgatá-lo de uma família desgraçada. Dou-lhe uma educação com que os outros rapazes apenas podem sonhar. E você o que faz? Atua como um perfeito idiota! Não entendo. Um rapaz como você deveria ter encontrado aquela gentalha imediatamente. E não consegue mais do que vir aqui choramingar sobre Projeções e... e molhar o chão todo!

DomDaniel não via nenhuma razão pela qual, se ele estava acordado, o Supremo Guardião não devesse estar também. E quanto ao Caçador, seria muito interessante ouvir o que ele tivesse a dizer para se explicar. DomDaniel saiu do quarto, batendo com a porta atrás de si e desceu as imóveis escadas de prata, os seus passos ecoando ao lon­go de inúmeros andares escuros que o êxodo dos Feiticeiros Normais nessa noite tinha deixado desertos e vazios.

A Torre dos Feiticeiros estava fria e sombria na ausência de Magya. Um vento gelado gemia pelos corredores, como se arrastado por uma gigantesca chaminé acima, e portas batiam tristemente nos quartos vazios. Enquanto DomDaniel descia, bastante tonto com as infin­dáveis espirais da escada, notava com agrado todas essas mudanças. Era assim que a Torre ficaria dali para a frente. Um lugar onde se praticaria Magya Negra a sério. Sem aqueles irritantes Feiticeiros Normais a andar de um lado para o outro com seus feitiçozinhos patéticos. Acabaram-se aqueles incensos dengosos e aqueles alegres sonzinhos musicais pairando no ar e, isso com certeza, todas aquelas cores e luzes frívolas. A sua Magya seria usada para coisas mais importantes. Mas talvez mandasse arrumar as escadas.

DomDaniel acabou chegando ao Saguão escuro e silencioso. As portas prateadas da Torre pendiam desamparadamente abertas. O vento tinha soprado neve para o interior, que cobria o solo imóvel, que era agora de banal pedra cinzenta. Atravessou as portas e cami­nhou a passos largos para o pátio.

Enquanto DomDaniel pisava furiosamente a neve, avançando ao longo da Via dos Feiticeiros e em direção ao Palácio, começou a arre­pender-se de não ter trocado o pijama e as pantufas antes de sair. Quando chegou aos portões do Palácio, era uma figura ensopada e particularmente pouco impressionante, e o único Guarda Palaciano recusou-se a deixá-lo entrar.

DomDaniel atingiu o Guarda com um RelâmpagoTrovão e en­trou com passos largos. Em pouco tempo o Guardião Supremo já tinha sido arrancado da cama pela segunda noite consecutiva.

Entretanto, na Torre, o Aprendiz tinha dado com o sofá e deixara-se cair num sono frio e infeliz. Alther teve pena dele e manteve a lareira acesa. Enquanto o rapaz dormia, o fantasma aproveitou a oportunidade para Provocar mais algumas alterações. Afrouxou a pesada cobertura sobre a cama, de forma que esta ficou pendurada por um fio. Arrancou os pavios de todas as velas. Acrescentou uma cor verde baça aos tanques de água e instalou uma grande e agressiva família de baratas na cozinha. Soltou um rato bastante irritável sob o assoalho e afrouxou as juntas das cadeiras mais confortáveis. E por fim, quase como um brinde, trocou o rígido chapéu cilíndrico de Dom­Daniel, que estava caído sobre a cama, por outro um bocadinho mais largo.

Com a chegada da aurora, Alther deixou o Aprendiz dormindo e saiu para a Floresta, onde seguiu o caminho que percorrera certa vez com Silas, numa visita que tinham feito a Sara e a Galena há muitos anos.

 

Foi o silêncio que acordou Jenna na manhã seguinte, na Choupana da Guardiã. Depois de dez anos acordando todas as manhãs com a azáfama d’Os Bairros, isso sem falar no tumulto e rebuliço dos seis rapazes, o silêncio era verdadeiramente ensurdecedor. Jenna abriu os olhos e, por momentos, pensou que ainda estava sonhando. Onde estava? Por que não estava em casa, no seu gavetão? Por que é que só Jo-Jo e Nicko estavam ali? Onde estavam todos os seus outros irmãos?

E depois recordou-se.

Jenna sentou-se em silêncio, tendo cuidado para não acordar os rapazes que dormiam a seu lado, junto das brasas refulgentes da lareira, no andar de baixo da choupana de Tia Zelda. Enrolou-se na colcha porque, apesar da lareira, o ar na choupana tinha um toque gélido de umidade. E depois, de forma hesitante, levou uma mão à cabeça.

Com que então, era verdade. A tiara de ouro ainda ali estava. Ainda era uma Princesa. Não tinha sido só uma brincadeira pelo seu aniversário.

Ao longo de todo o dia anterior, Jenna tinha tido aquela sensação de irrealidade que sempre sentia nos seus aniversários. A sensação de que aquele dia era, de alguma forma, parte de um outro mundo, de uma outra época, e de que tudo o que acontecia nos seus aniver­sários, não era real. E tinha sido essa sensação que ajudara Jenna a atravessar os fantásticos acontecimentos do seu décimo aniversário, a sensação de que, acontecesse o que acontecesse, tudo voltaria ao normal no dia seguinte e por isso não importava. Mas não tinha voltado. E importava.

Jenna apertou os braços em torno do corpo para se manter quente e ponderou o assunto. Ela era uma Princesa.

Jenna e a sua melhor amiga, Bo, tinham discutido várias vezes o fato de serem ambas Princesas-irmãs que tinham sido separadas à nascença e que o destino tinha voltado a reunir sob a forma de uma carteira partilhada na Turma 6 da Terceira Escola do Lado Oriental. Jenna quase tinha acreditado nisso; parecia bater tão bem. Apesar de que, quando ia ao quarto de Bo para brincar, Jenna não entendia como Bo podia pertencer a outra família. Bo era tão parecida com a mãe, com seu cabelo vermelho vivo e uma floresta de sardas, que tinha mesmo que ser filha dela. Mas Bo tinha sido sarcástica quando Jenna mencio­nara esse fato, por isso não voltara a falar disso.

Mesmo assim, não tinha impedido Jenna de pensar em como ela própria era tão diferente de sua mãe. E do seu pai. E dos seus irmãos. Por que era ela a única com cabelo escuro? Por que não tinha olhos verdes? Jenna tinha desejado ardentemente que seus olhos se tornassem verdes. Na verdade, até à véspera, ainda esperava que isso acontecesse.

Tinha ansiado pela excitação de que Sara lhe dissesse, como a vira fazer com todos os rapazes:

— Sabe, acho que seus olhos estão começando a mudar. Hoje consigo mesmo ver um bocadinho de verde neles. — E depois: — Está crescendo depressa mesmo. Tem os olhos quase tão verdes como o seu pai.

Mas quando Jenna exigia que falassem dos olhos dela, e do por que ainda não eram verdes como os dos irmãos, Sara limitava-se a dizer:

— Mas você é a nossa menininha, Jenna. Você é especial. Tem os olhos lindíssimos.

Mas Jenna não se deixava enganar com isso. Sabia muito bem que as meninas também podiam ter olhos verdes de Feiticeira. Bastava olhar para Miranda Bott que vivia ao fundo do corredor, cujo pai tinha a loja de mantos de Feiticeiro de segunda mão. A Miranda tinha os olhos verdes, e era o avô dela que era Feiticeiro. Então, por que não ela não tinha?

Jenna ficou preocupada ao pensar em Sara. Interrogou-se sobre quando voltaria a vê-la. Chegou mesmo a perguntar-se se Sara ainda quereria continuar sendo sua mãe, agora que tudo tinha mudado.

Jenna estremeceu e disse a si mesma para deixar de ser palerma. Levantou-se, manteve a colcha apertada em torno do corpo e passou cuidadosamente por cima dos dois rapazes adormecidos. Deteve-se para olhar para o Garoto 412 e perguntou-se por que teria pensado que era Jo-Jo. Deve ter sido uma ilusão da luz, pensou.

O interior da choupana ainda estava escuro, com exceção do bri­lho pálido da lareira, mas Jenna já tinha se acostumado à penumbra, e começou a vaguear pela casa, arrastando a colcha pelo chão e absor­vendo lentamente aquilo que a rodeava.

A choupana não era grande. Havia um compartimento no andar de baixo; num dos lados havia uma enorme lareira aberta, com uma pilha de troncos que ainda ardia suavemente, sobre a pedra quente. Nicko e o Garoto 412 estavam dormindo profundamente em frente da lareira, cada um deles aconchegado numa das quentes colchas de retalhos de Tia Zelda. No meio da sala havia um lance de estreitos degraus com um armário no vão, com as palavras POÇÕES INSTÁVEIS E VENENOS PEKULIARES escrito na porta fechada a sete chaves, com letras de cursivo dourado. Espiou pelas escadas estreitas que levavam a um amplo quarto escurecido onde Tia Zelda, Marcia e Silas ainda estavam dormindo. E, claro, Max, cujos roncos e fungadas chegavam até Jenna. Ou eram os roncos de Silas e as fungadas de Max? Quando estavam dormindo, o cão e o dono eram muito parecidos.

No andar inferior os tetos eram baixos e deixavam ver as vigas de madeira das quais a choupana era feita. Das vigas pendia todo o tipo de coisas: remos de barcos, chapéus, sacolas com conchas, pás, sacos de batatas, sapatos, fitas, vassouras, feixes de ervas, nós de salgueiros e, obviamente, centenas de molhos das ervas que Tia Zelda plantava ou comprava no Mercado da Magya, que se realizava a cada ano e um dia no Porto. Como Bruxa Branca, Tia Zelda servia-se de ervas para encantamentos e poções, e para fins medicinais e era preciso alguém ter muita sorte para conseguir dizer alguma coisa à Tia Zelda, fosse sobre que erva fosse, que ela já não soubesse.

Jenna olhou em volta, apreciando a sensação de ser a única acordada, livre para vaguear por ali um bocado sem que ninguém a importunasse. E enquanto vagueava por ali, pensou no estranho que era estar numa choupana que tinha quatro paredes só para si, sem que estivessem juntas às paredes de mais ninguém. Era tudo muito diferente da balbúrdia d’Os Bairros, mas Jenna já se sentia ali como se estivesse em casa. Continuou com a sua exploração, notando as cadeiras velhas, mas confortáveis, a mesa bem desgastada, mas que não parecia que ia cair para o lado a qualquer momento e, o mais admirável de tudo, o chão de pedra recém-varrido e que estava com­pletamente vazio. Não havia nada no chão, a não ser alguns tapetes gastos e, junto da porta, um dos pares de botas de Tia Zelda.

Deu uma espiadinha na pequena cozinha embutida, com a sua enorme pia, alguns bules e panelas cuidadosamente alinhados e uma pequena mesa, mas fria demais para demorar muito tempo ali. Depois perambulou até o fundo do compartimento onde prateleiras de frascos e jarros com poções enchiam as paredes, fazendo-a lembrar-se de casa. Lá estavam algumas que ela reconhecia e se lembrava de ver Sara utilizar. Suores de Sapo, Mistura Maravilhosa, e Chás Chamativos eram nomes com que Jenna estava familiari­zada. E depois, tal como em casa, rodeando uma pequena escrivani­nha coberta por resmas ordenadas de papel, canetas e blocos de notas, havia pilhas balançantes de livros de Magya que chegavam até o teto. Eram tantos que cobriam quase por completo uma das paredes, mas ao contrário do que acontecia em casa, não cobriam o chão também.

A luz da aurora começava a infiltrar-se pelas janelas cobertas de gelo, e Jenna decidiu dar uma espiadinha no exterior. Foi na ponta dos pés até à grande porta de madeira e, lentamente, correu a enorme tranca bem lubrificada. Depois abriu cuidadosamente a porta, esperando que não chiasse. E não chiou, porque Tia Zelda, como todas as bru­xas, era muito picuinha com as portas. Uma porta que chiasse na casa de uma Bruxa Branca era mau sinal, um sinal de Magya mal aplicada e feitiços desnecessários.

Jenna esgueirou-se silenciosamente para fora e sentou-se no degrau com a colcha enrolada em volta do corpo e o hálito quente a trans­formar-se em nuvens brancas no ar gelado da manhã. A neblina dos pântanos pairava pesada e baixa. Agarrava-se ao solo e serpenteava sobre a superfície da água e em volta de uma pequena ponte de madeira que atravessava um canal mais largo para o paul do outro lado. A água transbordava sobre as margens do canal, que era conhe­cido como o Mott, e que corria por toda a volta da ilha de Tia Zelda como se fosse um fosso. A água era escura e tão plana que era como se tivesse uma pele muito fina esticada sobre a superfície, e no entanto, enquanto Jenna olhava para ela, podia ver que a água subia len­tamente pelas margens e avançava sobre a ilha.

Durante anos Jenna tinha visto as marés subindo e descendo, e sabia que a maré nessa manhã era uma maré viva alta, depois da lua cheia da noite anterior, e sabia que em breve voltaria a arrastar-se para trás, tal como fazia no rio que ela conseguia ver da janelinha do seu quarto quando estava em casa, até estar tão baixa quanto tinha estado alta, despindo a lama e a areia onde as aves podiam mergulhar os seus bicos longos e recurvos.

O disco pálido do sol de Inverno ergueu-se lentamente através do espesso cobertor de névoa e, em torno de Jenna, o silêncio começou a transformar-se nos sons matinais de animais que despertam. Um cacarejar espalhafatoso fez com que Jenna desse um pulo, surpreendida, e olhasse para o lugar de onde o som provinha. Para seu espanto, Jenna podia ver o vulto indistinto de um barco de pesca através da neblina.

Para Jenna, que tinha visto mais coisas extraordinárias nas últimas vinte e quatro horas do que jamais sonhara ser possível, um barco de pesca tripulado por galinhas não era uma surpresa tão grande quanto isso. Limitou-se a ficar sentada no degrau e esperar que o barco passasse por ela. Depois de alguns minutos o barco parecia não ter se movido, e ela interrogou-se se teria encalhado na ilha. Alguns minutos depois disso, percebeu o que era: o barco de pesca era um galinheiro. Descendo delicadamente pelo passadiço vinha uma dúzia de galinhas, preparadas para começar o atarefado trabalho do dia. Debicando e esgaravatando, esgaravatando e debicando.

As coisas, pensou Jenna, nem sempre são o que parecem.

Um esganiçado canto de pássaro chegou até ela através da neblina e alguns chapinhares abafados vindos da água, que pareciam perten­cer a animais pequenos e, esperava Jenna, felpudos. Ocorreu-lhe a idéia de que poderiam ser causados por cobras d’água ou enguias, mas decidiu não pensar nisso. Jenna encostou-se contra a porta e inspi­rou o ar fresco e ligeiramente salgado do paul. Era perfeito. Calmo e sossegado.

— Bú! — gritou Nicko. — Peguei-a, Jen!

— Nicko — protestou Jenna. — Você é tão barulhento. Chiu.

Nicko sentou-se no degrau, junto de Jenna e puxou um bocado da colcha para se cobrir também.

— Por favor — disse-lhe Jenna.

— O quê?

— Por favor, Jenna, posso partilhar a sua colcha? Sim, pode, Nicko. Oh, muito obrigado, Jenna, é muito simpático da sua parte. Não é preciso agradecer, Nicko.

— Pronto, ‘tá bem, então não agradeço. — Nicko sorriu. — E su­ponho que também tenho que fazer cortesias e salamaleques agora que você é a Miss Alteza e Poderosa.

— Os rapazes não fazem cortesias — riu Jenna. — Tem que fazer vênias.

Nicko levantou-se de um salto e, tirando um chapéu imaginário da cabeça com um largo movimento de braço, curvou-se numa vênia exagerada. Jenna aplaudiu.

— Muito bem. Pode fazer isso todas as manhãs. — Voltou a rir.

— Obrigado, Sua Majestade — disse Nicko com solenidade, voltando a colocar o chapéu imaginário na cabeça.

— Gostaria de saber por onde anda o Boggart — disse Jenna, sentindo-se ensonada.

Nicko bocejou.

— Provavelmente por aí, no fundo de uma poça de lama qualquer. Não acredito que esteja todo aconchegado na cama.

— Iria detestar, não é? Tudo tão seco e limpo.

— Bem — disse Nicko —, eu vou voltar para a cama. Preciso dormir mais do que duas horas, mesmo que você não precise. — Desvencilhou-se da colcha de Jenna e voltou para dentro, para sua pró­pria colcha, que estava enrolada num monte perto da lareira. Jenna percebeu que também se sentia cansada ainda. Começava a ter aquela sensação de areia nas pálpebras que lhe dizia que não tinha dormido o suficiente, e estava começando a sentir frio. Levantou-se, enrolou a colcha à sua volta, esgueirou-se de volta à penumbra da choupana e, com muito cuidado, fechou a porta atrás de si.

 

— Muito bom dia a todos! — disse a voz animada de Tia Zelda para o monte de colchas e seus respectivos ocupantes, em volta da lareira. O Garoto 412 despertou em verdadeiro estado de pânico, esperando ter que pular do seu catre do Exército da Juventude e formar no exterior em menos de trinta segundos para a chamada da manhã. Ficou olhando, sem compreender o que se passava, para Tia Zelda, que não se parecia nada com o seu atormentador matinal, o Cadete Chefe de cabeça raspada, que retirava grande prazer em despejar baldes de água gelada sobre quem não pulasse imediatamente da cama. Da última vez que isso tinha acontecido ao Garoto 412, tinha tido que dormir numa cama fria e molhada durante vários dias, até que secasse. O Garoto 412 pôs-se de pé de um salto com uma expressão aterrorizada no rosto, mas relaxou um pouco quando percebeu que não era propriamente um balde de água gelada que Tia Zelda trazia nas mãos. Pelo contrá­rio, trazia um tabuleiro carregado com taças de leite quente e uma pilha enorme de torradas amanteigadas e quentinhas.

— Então, meu jovem — disse Tia Zelda. — Não há motivos para pressa. Volte a aconchegar-se na cama e beba isto enquanto ain­da está quentinho. — Estendeu uma taça de leite e a maior fatia de torrada ao Garoto 412 que, na sua opinião, bem parecia estar precisando comer melhor.

O Garoto 412 voltou a sentar-se para trás, enrolou-se na colcha e, como que desconfiado, bebeu o leite quente e comeu a torrada aman­teigada. Entre goles de leite e dentadas de torrada, correu os olhos cinzento-escuros muito abertos de apreensão em volta.

Tia Zelda sentou-se numa velha cadeira junto da lareira e atirou alguns lenhos nas brasas. Não tardou que o fogo estivesse nova­mente a arder e Tia Zelda deixou-se ficar aquecendo as mãos, toda satisfeita. O Garoto 412 lançava olhares à Tia Zelda sempre que lhe parecia que esta não estava vendo. É claro que ela via, mas estava habituada a cuidar de criaturinhas feridas e assustadas e viu logo que o Garoto 412 não era muito diferente da variedade de animaizinhos dos pântanos de que ela normalmente cuidava e ajudava a se recuperar. Na verdade, fazia-lhe lembrar um pequeno e muito assustado coelho que ela resgatara das garras de um Lince dos Pauis há algum tempo. O Lince tinha brincado com o coelho durante horas, mordendo-lhe as orelhas e atirando-o de um lado para o outro, desfrutando do terror paralisante do coelho, antes de se decidir a quebrar-lhe o pescoço. Quando, num arremesso entusiástico demais, o Lince atirara o coelho no caminho de Tia Zelda, ela apressou-se a pegá-lo, enfiou-o na grande bolsa que levava consigo para todo lado e dirigiu-se imediatamente para casa, deixando o Lince à procura de sua presa durante várias horas.

O coelho passara dias deitado junto à lareira, olhando para ela da mesma forma que o Garoto 412 estava olhando agora. O coelho se recu­perara, pensou Tia Zelda, enquanto se ocupava do fogo, tendo o cuidado de não sobressaltar o Garoto 412 com algum olhar mais demo­rado e, tinha certeza, o Garoto 412 também iria se recuperar.

Os olhares de lado do Garoto 412 captaram o cabelo cinzento encaracolado de Tia Zelda, as faces rosadas, o sorriso caloroso e os amistosos olhos azuis brilhantes de bruxa. Foram precisos muitos olhares para conseguir abarcar o seu largo vestido de retalhos, que tornava difícil descobrir qual seria a forma exata de Tia Zelda, especialmente quando ela estava sentada. O Garoto 412 ficou com a impressão de que Tia Zelda tinha acabado de entrar numa ten­da de retalhos e tinha, naquele exato momento, acabado de enfiar a cabeça pela abertura para ver o que se passava lá fora. A idéia pro­vocou-lhe um breve e fugidio sorriso no canto da boca.

Tia Zelda notou com agrado aquele esboço de sorriso. Nunca tinha visto uma criança tão emaciada e assustada como aquela na vida, e deixava-a perturbada só de pensar no que poderia ter deixado o Garoto 412 assim. Nas suas raras visitas ao Porto tinha ouvido his­tórias sobre o Exército da Juventude, mas nunca tinha acreditado muito no que lhe contavam. Certamente, ninguém era capaz de tratar crianças daquela forma? Mas agora começava a pensar se não have­ria mais verdade nessas histórias do que ela jamais chegara a pensar.

Tia Zelda sorriu ao Garoto 412; depois, com um gemido confor­tável arrancou-se da cadeira e foi, preguiçosamente, buscar mais leite quente.

Enquanto ela não estava, Nicko e Jenna acordaram. O Garoto 412 olhou para eles e afastou-se um pouco, lembrando-se muito bem da chave de braços que Jenna lhe aplicara na noite anterior. Mas Jenna limitou-se a sorrir-lhe, ensonada, e a dizer:

— Dormiu bem?

O Garoto 412 acenou que sim com a cabeça e deixou o olhar cair para a taça de leite quase vazia.

Nicko sentou-se, grunhiu um cumprimento na direção de Jenna e do Garoto 412, pegou numa fatia de torrada e ficou surpreendido com a fome que tinha. Tia Zelda regressou para junto da lareira carregando uma caneca de leite quente.

— Nicko! — sorriu Tia Zelda. — Bem, mudou um bocado desde a última vez que te vi, é bem certo. Na época não passava de um bebê. Foi no tempo em que eu costumava visitar sua mamãe e seu papai n’Os Bairros. Bons tempos.

Tia Zelda suspirou e passou-lhe sua taça de leite quente.

— E a nossa Jenna! — Tia Zelda dirigiu-lhe um afetuoso sorriso. — Sempre quis ir vê-la, mas as coisas ficaram bastante difíceis depois de... depois de algum tempo. Mas o Silas tem estado a recuperar o tempo perdido e contou-me muitas coisas sobre você.

Jenna sorriu-lhe, um bocado encabulada, contente por Tia Zelda ter dito «nossa». Aceitou a taça de leite quente que Tia Zelda lhe estendeu e deixou-se ficar olhando para as chamas, ensonada.

Por momentos manteve-se um silêncio agradável, interrompido apenas pelo ressonar de Silas e Max no andar de cima, e pelo mastigar de torradas no andar de baixo. Jenna, que estava encostada à parede, perto da lareira, tinha a impressão de conseguir ouvir um tênue miar no interior da parede, mas como isso era claramente impossível, decidiu que devia vir do exterior e ignorou-o. Mas o miado continuou. Tornou-se progressivamente mais forte e, pensou Jenna, mais rude. Encostou o ouvido à parede e ouviu os inconfun­díveis sons de um gato zangado.

— Há um gato na parede... — disse.

— Continue — disse Nicko. — Essa não conheço.

— Não é uma anedota. Há mesmo um gato na parede. Consigo ouvi-lo.

Tia Zelda levantou-se de um salto.

— Oh, bolas. Esqueci completamente da Berta! Jenna, querida, importa-se de abrir a porta da Berta? — Jenna ficou confusa, sem saber o que fazer.

Tia Zelda apontou para uma pequena porta de madeira ao fundo da parede, perto dela. Jenna puxou a portinhola. Esta abriu-se imediatamente e de lá saiu bamboleante um pato furioso.

— Desculpe, Berta querida — desculpou-se Tia Zelda. — Está esperando há muito tempo?

Berta bamboleou de forma desequilibrada por sobre a pilha de colchas e deixou-se cair em frente da lareira. A pata estava furiosa. Voltou, muito deliberadamente, as costas à Tia Zelda e sacudiu as penas. Tia Zelda inclinou-se para a frente e fez-lhe uma festinha.

— Deixem-me apresentá-los a minha gata, Berta — disse ela. Três pares de olhos espantados fitaram Tia Zelda. Nicko acabou por inalar algum leite e engasgou-se. O Garoto 412 parecia desapon­tado. Estava começando a gostar de Tia Zelda e afinal ela era tão louca como os outros.

— Mas Berta é uma pata — disse Jenna. Estava pensando que al­guém tinha que dizê-lo, e era melhor dizê-lo de uma vez, antes que tivessem que entrar todos naquele jogo do vamos-fingir-que-a-pata-é-uma-gata-para-agradar-à-Tia-Zelda.

— Ah, sim. Claro, neste momento é uma pata. Para dizer a ver­dade, já algum tempo que ela tem sido uma pata, não é, Berta?

Berta soltou um miado fraco.

— Sabem, os patos conseguem voar e nadar e isso é uma grande vantagem nos pântanos. E eu ainda estou para ver um gato que goste de molhar os pés, e a Berta não é exceção. Por isso decidiu tornar-se uma pata e desfrutar da água. E desfruta, não desfruta, Berta?

Não houve resposta. Como a gata que realmente era, Berta tinha adormecido junto da lareira.

Jenna tocou hesitantemente as penas da pata, perguntando-se se dariam a sensação de pêlo de gato, mas eram suaves e macias e pare­ciam-se completamente com penas de pato.

— Olá, Berta — sussurrou Jenna.

Nicko e o Garoto 412 não disseram nada. Nenhum deles estava na disposição de começar a falar com uma pata.

— Pobrezinha da boa e velha Berta — disse Tia Zelda. — Fica muitas vezes presa lá fora. Mas desde que os Duendes da Lama Gelatinosa entraram através do túnel dos gatos, tenho tentado manter a porta dos gatos FechadaPorEncanto. Não fazem idéia do choque que foi descer as escadas nessa manhã e encontrar a casa abarrotada com aquelas criatutinhas detestáveis, como um mar de lama, a enxamear pelas paredes acima, e a enfiarem os seus longos dedinhos ossudos em tudo e mais alguma coisa e a olharem para mim com aqueles olhinhos vermelhos. Comeram tudo o que puderam e estra­garam tudo o que não puderam comer. E depois, claro, logo que me viram, começaram com aqueles gritos agudos. — Tia Zelda estre­meceu. — Fiquei com os dentes sensíveis por mais de uma semana. Se não fosse o Boggart, não sei o que faria. Passei a semana limpando o lodo dos livros, sem falar que tive que refazer todas as minhas poções. E por falar em lodo, alguém quer experimentar um mergulho na fonte termal?

Um pouco mais tarde, Nicko e Jenna sentiam-se muito mais limpos depois de Tia Zelda ter lhes mostrado onde a fonte ter­mal borbulhava na pequena cabana de banho no quintal. O Garoto 412 recusou-se terminantemente a ter alguma coisa a ver com aquilo e continuou encolhido junto do fogo, a boina vermelha enter­rada na cabeça por cima das orelhas e o casaco de marinheiro em pele de carneiro ainda apertado em volta do corpo. O Garoto 412 sentia-se como se ainda tivesse o frio do dia anterior nos ossos e pensou que nunca mais voltaria a se sentir quente. Tia Zelda deixou-o ficar sentado junto da lareira por mais um bom tempo, mas quando Nicko e Jenna resolveram sair para explorar a ilha, ela espantou-o dali para fora, para que fosse com eles.

— Levem isto com vocês — disse ela, entregando uma lanterna a Nicko. Nicko lançou um olhar interrogador à Tia Zelda. Para que iriam precisar de uma lanterna no meio do dia?

— Haar — disse Tia Zelda.

— Hã? — perguntou Nicko.

— Haar. Por causa do Haar, a névoa salgada dos pauis, que vem do mar — explicou Tia Zelda. — Olha, hoje estamos cercados por ela. — Moveu a mão em volta num gesto largo. — Num dia limpo consegue-se ver o Porto daqui. O Haar está rasteiro hoje, e nós estamos suficientemente alto para estarmos acima dele, mas se se erguer, cobre a nós também. Nessa altura, vai precisar da lanterna.

E assim Nicko pegou a lanterna e, rodeados pelo haar, que assentava como um ondulante cobertor branco sobre os pântanos, partiram para explorar a ilha enquanto Tia Zelda, Silas e Marcia se sentavam no interior a conversar seriamente junto da lareira.

Jenna ia à frente, seguida de perto por Nicko, enquanto o Garoto 412 se arrastava mais atrás, estremecendo aqui e ali e desejando estar de volta à beira da lareira. A neve tinha derretido no clima mais quente e mais úmido dos pântanos e o solo estava úmido e ensopado. Jenna escolheu um caminho que os levou até às margens do Mott. A maré tinha descido e a água tinha desaparecido quase por completo, deixando o lodo a descoberto, pontilhado por milhares de pegadas de pássaros e alguns rastros de cobras d’água, em ziguezague.

A própria Ilha Draggen tinha pouco mais de quatrocentos metros de comprimento e era como se alguém tivesse cortado um gigantesco ovo verde ao meio e o tivesse pousado sobre o paul. Um caminho corria por toda a volta da ilha, seguindo a margem do Mott, e Jenna levou-os ao longo do caminho, respirando o ar fresco e salgado que rolava do haar. Jenna gostava do haar que os rodeava. Fazia-a sentir-se segura... ali ninguém podia encontrá-los.

Além das galinhas que viviam no barco que Jenna e Nicko tinham visto nessa manhã, encontraram uma cabra presa no meio da erva alta. Também encontraram uma colônia de coelhos que vivia numa toca na margem e que Tia Zelda tinha cercado para manter os coelhos longe da leira de couves de Inverno.

O caminho bastante usado levou-os para lá das tocas, através de uma quantidade de couves e até uma leira baixa, de lama e erva verde brilhante, bastante suspeita.

— Acha que alguns daqueles Duendes podem estar ali? — sus­surrou Jenna a Nicko, deixando-se ficar um pouco para trás.

Umas quantas bolhas ergueram-se até à superfície da lama e ouviu-se um forte ruído de sucção, como se alguém estivesse tentando libertar uma bota do lodaçal. Jenna pulou para trás, assustada, quando o lodo borbulhou e se agitou.

— Nã se eu t’ver alguma coisa a ver co’isso. — O rosto largo e castanho do Boggart abriu caminho até à superfície. Piscou os olhos negros e redondos para limpá-los da lama, e presenteou-os com um olhar remelento.

— B’dia — disse, devagar.

— Bom dia, Sr. Boggart — respondeu Jenna.

— Só Boggart já ‘tá bem, ‘tá?

— É aqui que você vive? Espero que não estejamos incomodando. — perguntou Jenna, educadamente.

— Bom, por acaso, você até está incomodando. Eu dorme de dia, ‘tá vendo? — O Boggart voltou a piscar os olhos, e começou nova­mente a afundar-se na lama. — Mas você não era pr’a saber disso. Só não volte a falar nos Duendes, porqu’é isso que m’acorda, ‘tá vendo? Só d’ouvir falar neles fico logo acordado.

— Desculpe — disse Jenna. — Vamos embora e o deixaremos em paz.

— Isso — concordou o Boggart, e desapareceu no lodo.

Jenna, Nicko e o Garoto 412 afastaram-se na ponta dos pés, de volta ao caminho.

— Estava zangado, não estava? — perguntou Jenna.

— Não — respondeu Nicko. — Parece-me que ele é sempre assim. Mas é legal.

— Espero que sim — desejou Jenna.

Continuaram a caminhar ao redor da ilha, até chegarem ao extremo rombo do «ovo» verde. Isso consistia numa grande colina verdejante, coberta com uma variedade de pequenos arbustos espinhosos. Vaguea­ram pela colina e pararam durante um tempo, para ver o haar rodo­piando abaixo deles.

Jenna e Nicko tinham estado calados, para não voltar a acordar o Boggart, mas uma vez no topo da colina, Jenna disse:

— Não tem uma sensação esquisita debaixo dos pés?

— De fato, as minhas botas não são muito confortáveis — res­pondeu Nicko. — Agora que falou nisso. Acho que ainda estão molhadas.

— Não. Refiro-me ao chão debaixo dos pés. Parece um bocado... ahhh...

— Oco — ofereceu Nicko.

— Sim, é isso. Oco. — Jenna bateu o pé no chão, com força. O chão era suficientemente firme, mas havia qualquer coisa nele que parecia diferente.

— Deve ser por causa de todas essas tocas de coelhos — disse Nicko.

Voltaram a descer a colina e dirigiram-se para um grande tanque para patos, com uma casinha para patos de madeira num dos extremos. Uns quantos patos perceberam sua presença e começaram a correr bamboleantes sobre a erva, com esperança de que tivessem trazido algum pão com eles.

— Ei, onde é que ele se meteu? — perguntou Jenna subitamente, olhando em volta à procura do Garoto 412.

— Provavelmente voltou para a choupana — disse Nicko. — Não me parece que ele goste muito da nossa companhia.

— Não, não acho que goste... mas não deveríamos ir à procura dele? Ele pode ter caído na leira do Boggart, ou no canal, ou um dos Duendes pode tê-lo apanhado.

— Chiuuu. Ainda acaba acordando o Boggart outra vez.

— Sim, mas pode mesmo ter sido apanhado por um Duende. Deveríamos tentar encontrá-lo.

— É capaz de ter razão — concordou Nicko, pouco convencido. — Tia Zelda pode ficar aborrecida se o perdermos.

— E eu também — disse Jenna.

— Não me diga que gosta dele... — quis saber Nicko. — Espe­cialmente depois do palerminha quase ter morto a todos...

— Ele não fez de propósito — retorquiu Jenna. — Agora entendo isso. Estava tão assustado quanto nós. E pense nisso, provavelmente esteve a vida toda no Exército da Juventude e nunca teve uma mamãe ou um papai. Como nós. Quer dizer, como você — corrigiu-se Jenna.

— Você teve uma mamãe e um papai. Ainda tem. Patetinha — dis­se Nicko. — Muito bem, se é isso que quer, vamos procurar o menino.

Jenna olhou em volta, sem saber por onde começar, e percebeu que já não conseguia ver a choupana. Na verdade, já não con­seguia ver muito do que quer que fosse, com exceção de Nicko e isso porque a lanterna dele libertava uma tênue luz avermelhada.

O haar tinha se levantado.

 

O Garoto 412 tinha caído num buraco. Não tinha sido de pro­pósito, e não fazia idéia de como tinha acontecido aquilo, mas lá estava ele, no fundo do buraco.

Mesmo antes de cair no buraco, o Garoto 412 tinha decidido que estava farto de andar atrás da Menina-Princesa e do Menino-Feiticeiro. Não pareciam querê-lo com eles, e ele sentia-se aborrecido e com frio. Por isso tinha resolvido escapulir de volta à choupana, esperando poder ter a Tia Zelda só para ele durante um tempo.

E nessa hora o haar tinha se levantado.

Se não tivesse servido para mais nada, pelo menos o Exército da Juventude preparara-o para uma eventualidade destas. Por diversas vezes, em noites de nevoeiro, o seu pelotão tinha sido abandonado no meio da Floresta, para encontrar o caminho de volta. Nem todos conseguiam, é claro. Havia sempre algum menino que caía nas gar­ras de um carcaju esfomeado, ou ficava abandonado numa das arma­dilhas colocadas pelas Bruxas Wendron, mas o Garoto 412 tinha tido sorte, sabia manter-se calado e mover-se rápida e silenciosamente pelo nevoeiro noturno. E assim, tão silencioso como o próprio haar, o Garoto 412 tinha começado o seu caminho de volta à choupana. A certa altura, tinha passado tão perto de Nicko e Jenna que bastava que estendessem as mãos para o tocarem, mas esgueirou-se por eles sem o menor ruído, desfrutando da liberdade e daquela sensação de independência.

Depois de um tempo, o Garoto 412 chegou a uma grande colina coberta de erva no extremo da ilha. Isso confundiu-o, pois tinha certeza de que já tinha passado por ela e já devia estar quase chegando à choupana. Talvez fosse uma colina diferente? Talvez também houvesse uma colina no outro extremo da ilha? Começou a pensar se não teria se per­dido. Ocorreu-lhe que era capaz de ser possível continuar a andar em círculos e mais círculos em volta da ilha sem nunca chegar à choupana. Preocupado com aquelas idéias, o Garoto 412 sentiu o chão escorregar debaixo dos pés e caiu de cabeça sobre um arbusto pequeno, mas desagradavelmente coberto de espinhos. E foi nessa hora que aquilo aconteceu. Num momento o arbusto estava ali e no momento seguinte o Garoto 412 tinha caído através dele e mergulhava na escuridão.

Seu grito de surpresa foi engolido pelo ar úmido e espesso do haar, e ele aterrissou de costas, com uma forte pancada. Sem ar, o Garoto 412 deixou-se ficar quieto por um tempo, perguntando-se se teria quebrado alguma coisa. Parece que não, pensou, enquanto se levantava devagarinho. Não parecia haver nada que lhe doesse muito. Teve sorte. Tinha caído sobre o que parecia ser areia, e isso tinha amortecido o tombo. O Garoto 412 endireitou-se e bateu logo com a cabeça numa rocha do teto, por cima dele. Isso sim, doeu.

Levando uma mão ao topo da cabeça, o Garoto 412 estendeu o outro braço, procurando encontrar o buraco por onde tinha caído, mas a rocha inclinava-se suavemente para cima, sem lhe dar qualquer pista, ou pontos de apoio para os pés ou mãos. Nada a não ser rocha fria como o gelo, e lisa como a seda.

Além disso, estava escuro como breu. Não se via a menor fenda que deixasse passar alguma luz e por muito que o Garoto 412 fitasse fixamente as trevas, esperando que os olhos se habituassem à escuridão, isso nunca aconteceu. Era como se tivesse ficado cego.

O Garoto 412 deixou-se cair de quatro no chão e começou a tatear o chão de areia à sua volta. Teve a idéia desenfreada de que talvez pudesse escavar uma saída, mas quando seus dedos começaram a esgaravatar na areia, não demoraram a encontrar um chão de pedra polida, tão frio e macio que chegou a pensar que poderia ser de mármore. Tinha visto mármore algumas vezes quando ficara de guarda no Palácio, mas não fazia idéia do que um chão de mármore poderia estar fazendo ali, nos Pântanos Marram, no meio do nada.

O Garoto 412 sentou-se no chão e correu nervosamente os dedos pela areia, tentando pensar no que fazer a seguir. Começava a pensar que sua sorte tinha chegado ao fim, quando seus dedos roça­ram alguma coisa metálica. De início, seu estado de espírito desa­nuviou-se imediatamente — talvez aquilo fosse o que tinha estado procurando, um puxador secreto ou uma fechadura escondida — mas quando fechou os dedos em torno do objeto metálico, sentiu-se desesperar. Era apenas um anel. O Garoto 412 pegou o anel, apoiou-o na palma da mão e olhou para ele, embora na escuridão impene­trável não conseguisse ver absolutamente nada.

— Quem me dera que houvesse luz — murmurou para si próprio, tentando ver o anel e abrindo os olhos ao máximo, como se isso fizesse alguma diferença. O anel repousava na palma de sua mão, e depois de centenas de anos abandonado num buraco escuro, gelado e úmido, começou a aquecer suavemente na mãozinha humana que pegava nele pela primeira vez desde que fora perdido há tanto tempo atrás.

O Garoto 412 sentiu-se acalmar, enquanto estava ali sentado com o anel. Percebeu que não tinha medo do escuro, de que até se sentia bastante seguro, na verdade, mais seguro do que se sentira em muitos e muitos anos. Estava a quilômetros de distância daqueles que o atormentavam no Exército da Juventude e sabia que eles nunca conseguiriam encontrá-lo ali. Sorriu e encostou-se contra a parede. Haveria de encontrar uma saída, isso era mais que certo.

O Garoto 412 resolveu experimentar se o anel lhe servia. Era grande demais para os seus dedos escanzelados, por isso enfiou-o no indi­cador direito, que era o maior dedo que tinha. O Garoto 412 rodou o anel em volta do dedo, uma e outra vez, desfrutando da sensação de calor, até de ardor, que dele emanava. Logo o Garoto 412 ficou cons­ciente de uma estranha sensação. O anel, que dava a impressão de ter ganho vida, estava se apertando em volta de seu dedo; agora, servia-lhe perfeitamente. Não só isso, começava a irradiar um tênue brilho dourado.

O Garoto 412 fitou o anel, deliciado, conseguindo ver o seu achado pela primeira vez. Não se parecia com qualquer outro anel que já tivesse visto. Enrolado em volta do seu dedo havia um dragão dourado, a cauda presa entre os dentes. Os olhos verde-esmeralda reluziam, e o Garoto 412 teve a estranha sensação de estar sendo observado pelo dragão. Excitado, levantou-se, erguendo a mão direita em frente do rosto, com o anel que agora era seu, o seu anel-dragão, que agora brilhava tanto como se fosse uma lanterna.

O Garoto 412 olhou em volta, à luz dourada que emanava do anel. Percebeu que estava no final de um túnel. À sua frente, mergu­lhando ainda mais no chão, havia um passadiço estreito e alto, perfeitamente escavado na rocha. Mantendo a mão erguida bem acima da cabeça, o Garoto 412 espiou a escuridão por onde tinha caído, mas não via maneira de voltar a subir. Com alguma relutân­cia, decidiu que não havia mais nada a fazer a não ser seguir o túnel, esperando que levasse a uma outra saída.

E assim, levando o anel à sua frente, começou sua jornada. O chão arenoso do túnel seguia uma descida constante. O túnel descrevia curvas e desvios, conduzindo-o a becos sem saída e, por vezes, fazendo-o andar em círculos, até que o Garoto 412 perdeu qualquer noção de direção e se sentiu quase tonto de tão confuso. Era como se a pessoa que tinha construído o túnel estivesse tentando confundi-lo deliberadamente. E com sucesso.

E foi por isso, pensou ele, que acabou caindo pelas escadas abaixo.

No fundo dos degraus, o Garoto 412 recuperou o ar. Estava tudo bem, disse para consigo mesmo. Não tinha sido uma grande queda. Mas fal­tava-lhe alguma coisa — o anel. O seu anel tinha desaparecido! Pela pri­meira vez desde que entrara no túnel, o Garoto 412 sentiu medo. O anel não tinha lhe dado apenas luz; tinha-lhe feito companhia. E, compreen­deu o Garoto 412 enquanto estremecia no ar gelado, tinha-o mantido quente. Olhou em volta, os olhos muito abertos na escuridão impene­trável, procurando desesperadamente aquele tênue brilho dourado.

Não conseguia ver nada, a não ser o escuro. Nada. Sentiu-se deso­lado. Tão desolado como se sentira quando o seu melhor amigo, o Garoto 409, tinha caído borda fora num raid noturno e não os tinham autorizado a parar para o recolherem. O Garoto 412 deixou cair a cabeça nas mãos. Sentia vontade de desistir de tudo.

E foi nessa hora que ouviu o cântico.

Um som suave, leve, que veio até ele, chamando por ele. Engatinhando, porque nessa altura não queria cair por mais escadas abaixo, o Garoto 412 avançou em direção ao som, tateando o frio chão de mármore à sua frente. Progressivamente foi se aproximando e o cântico tornou-se mais suave e menos urgente, até soar estranhamente abafado e o Garoto 412 percebeu que tinha pousado uma das mãos sobre o anel.

Tinha-o encontrado. Ou melhor, o anel tinha encontrado ele. Sorrindo de alegria, o Garoto 412 voltou a enfiar o anel-dragão no dedo e a escuridão à sua volta suavizou-se mais uma vez.

Depois disso foi fácil. O anel conduziu o Garoto 412 ao longo do túnel, o qual tinha se alargado e agora era uma longa reta com paredes de mármore branco, ricamente decoradas com centenas de pequenas gravuras em azul, amarelo e vermelho brilhantes. Mas o Garoto 412 não prestou muita atenção às gravuras. Naquele momento, não queria saber de mais nada a não ser encontrar uma saída. E por isso con­tinuou a avançar até encontrar aquilo que queria encontrar, um lance de escadas que levava para cima. O Garoto 412 subiu os degraus com uma sensação de alívio e deu consigo a subir uma pronunciada incli­nação arenosa que não demorou a largá-lo num beco sem saída.

Por fim, à luz do anel, viu a saída. Uma velha escadinha estava encostada à parede e, logo acima dela, havia um alçapão de madeira. O Garoto 412 subiu a escadinha, estendeu a mão e empurrou o alça­pão. Para seu grande alívio, moveu-se de imediato. Empurrou com mais força, o alçapão abriu-se e o Garoto 412 espiou para fora. Ain­da estava escuro, mas uma alteração na qualidade do ar dizia-lhe que já estava acima do nível do solo e, enquanto aguardava, procurando orientar-se, notou uma fina faixa luminosa junto ao chão. O Garoto 412 soltou um suspiro de alívio. Já sabia onde estava. Estava no armário de Poções Instáveis e Venenos Pekuliares de Tia Zelda. Em silêncio, elevou-se para fora do alçapão, fechou-o e voltou a ajeitar o tapete que o cobria. Depois abriu cautelosamente a porta do armário, para ver se havia alguém nas proximidades.

Tia Zelda estava na cozinha preparando uma nova poção. Quando o Garoto 412 passou pela porta na ponta dos pés, ela ergueu os olhos, mas provavelmente ocupada com o seu trabalho, não disse nada. O Garoto 412 esgueirou-se para perto da lareira. Sentiu-se subitamente muito can­sado. Tirou o anel-dragão do dedo e guardou-o cuidadosamente no bolso que tinha descoberto no interior do seu boné vermelho. Depois deitou-se junto de Berta no tapete perto da lareira e não demorou a adormecer.

E estava dormindo tão profundamente que nem sequer ouviu Marcia descer as escadas e Ordenar que a maior e mais periclitante pilha de livros de Magya de Tia Zelda se erguesse. E certamente não ouviu o suave sibilar de um certo livro muito antigo, O Desfazer da Escuridão, quando este deslizou do fundo da pilha balançante e voou para a cadeira mais confortável em frente do fogo. Nem ouviu o restolhar das páginas quando o livro se abriu obedientemente na página exata que Marcia queria ler.

O Garoto 412 nem sequer ouviu Marcia soltar um grito quando, a caminho da cadeira, quase pisou nele, recuou e em vez dele pisou a Berta. Mas, mergulhado num sono profundo, o Garoto 412 teve um sonho estranho sobre um bando de patos e gatos furiosos que o per­seguiam para fora de um túnel e depois o transportavam até o céu e o ensinavam a voar.

No seu sonho distante, o Garoto 412 sorriu. Era livre.

 

— Como voltou tão depressa? — perguntou Jenna ao Garoto 412.

Nicko e Jenna tinham demorado toda a tarde para encontrar o caminho de volta à choupana, através do haar. Enquanto Nicko passara a maior parte do tempo tentando decidir quais eram os seus dez barcos favoritos, e depois, quando a fome começou a apertar, a imaginar qual seria a sua refeição preferida, Jenna passara a maior parte do tempo preocupada com o que teria acontecido ao Garoto 412 e a prometer a si mesma que, dali para frente, ia ser muito mais simpática com ele. Isto é, se ele não tivesse caído no Mott e morrido afogado.

Por isso, quando Jenna conseguiu finalmente voltar à chou­pana, encharcada e gelada, com o haar ainda agarrado às roupas, e encontrou o Garoto 412 alegremente sentado no sofá com Tia Zelda, parecendo quase satisfeito consigo mesmo, não se sentiu tão irritada como Nicko. Este limitou-se a soltar um grunhido e desapareceu pela porta, mortinho para se pôr de molho na fonte termal. Jenna deixou que Tia Zelda lhe secasse o cabelo com uma toalha e sentou-se ao lado do Garoto 412 e perguntou-lhe:

— Como voltou tão de­pressa?

O Garoto 412 olhou para ela como um cordeirinho, mas não disse nada. Jenna voltou a tentar.

— Estava com medo que tivesse caído no Mott.

O Garoto 412 ficou surpreso com aquilo. Não esperava que a Menina-Princesa se preocupasse com ele, se ele tinha caído no Mott ou, que seja, por um buraco abaixo.

— Ainda bem que conseguiu voltar em segurança — con­tinuou Jenna. — Eu e o Nicko demoramos uma eternidade. Está­vamos sempre nos perdendo.

O Garoto 412 sorriu. Quase sentia vontade de contar a Jenna o que tinha lhe acontecido e mostrar-lhe o anel, mas tantos anos tendo que manter as coisas em segredo tinham-lhe ensinado a ser mais cuida­doso. A única pessoa com quem tinha partilhado alguns segredos tinha sido o Garoto 409 e embora Jenna tivesse alguma coisa de simpático, que lhe recordava o Garoto 409, ela era uma Princesa e, pior ainda, uma menina. Por isso, não lhe disse nada.

Jenna percebeu o sorriso dele e sentiu-se melhor. Estava a ponto de tentar outra pergunta quando, numa voz que fez até os frascos com as poções tilintarem, Tia Zelda gritou:

— Rato Mensa­geiro!

Marcia, que tinha ocupado a escrivaninha de Tia Zelda no outro oposto da sala, levantou-se rapidamente e, para surpresa de Jenna, pegou-a pela mão e levantou-a do sofá.

— Ei! — protestou Jenna. Marcia nem percebeu. Subiu as escadas, levando Jenna arrastada. A meio do caminho chocaram com Silas e Max, que estavam descendo apressadamente para ver o Rato Men­sageiro.

— Esse cão deveria ser proibido de subir ao andar de cima — ralhou Marcia, enquanto tentava se esgueirar por Max sem apanhar nenhuma baba no manto.

Max babou excitadamente na mão de Marcia e foi correndo atrás de Silas, uma das suas grandes patas pisando pesadamente os pés de Marcia. Max prestava muito pouca atenção a Marcia. Nem se preo­cupava em sair-lhe do caminho ou em ouvir o que ela lhe dizia porque, na sua maneira de ver o mundo, Silas é que era o Macho Alfa, e Marcia estava bem no fundo do monte.

Felizmente para Marcia, nunca tinha percebido aquela interessante perspectiva da vida interior dos cães e forçou a passagem por ele e subiu rapidamente as escadas, levando Jenna consigo, para longe do Rato Mensageiro.

— Por... por que fez isso? — perguntou Jenna, recuperando o ar ao chegarem ao compartimento do sótão.

— O Rato Mensageiro — respondeu Marcia, também um pouco sem ar. — Não sabemos se é um Rato com Privilégio de Confiden­cialidade.

— Um rato o quê? — perguntou Jenna, sem entender nada.

— Bem — sussurrou Marcia, sentando-se na cama estreita de Tia Zelda, que estava coberta com uma grande variedade de mantas de retalhos que eram o resultado de muitas e longas noites solitárias passadas junto à lareira. Deu umas palmadinhas no lugar ao seu lado, e Jenna sentou-se também. — Já ouviu falar dos Ratos Mensageiros? — perguntou Marcia em voz baixa.

— Acho que sim — respondeu Jenna, hesitante —, mas nunca recebemos nenhum em casa. Nunca. Pensava que era preciso uma pessoa ser muito importante para receber um Rato Mensa­geiro.

— Não — disse Marcia —, qualquer pessoa pode receber um. Ou enviar um.

— Talvez tenha sido a mamãe quem o enviou — disse Jenna num tom de voz esperançoso.

— Talvez — concordou Marcia. — Ou talvez não. Primeiro temos que saber se é um Rato Confidencial antes de podermos confiar nele. Um Rato Confidencial diz sempre a verdade e guarda todos os segre­dos. E também é extremamente caro.

Jenna pensou tristemente que, nesse caso, Sara nunca poderia ter enviado o rato.

— Por isso, vamos ter que esperar para descobrir — explicou Marcia. — Vamos ficar aqui escondidas, para o caso de ser um rato espião que tenha vindo para descobrir onde a Feiticeira ExtraOrdinária está escondida com a Princesa.

Jenna acenou com a cabeça, lentamente. Lá estava outra vez aquela palavra. Princesa. Ainda a conseguia pegar de surpresa. Não conseguia acreditar que era quem ela realmente era. Mas dei­xou-se ficar em silêncio junto de Marcia, correndo os olhos pelo quarto do sótão.

O quarto era surpreendentemente espaçoso e arejado. Tinha um teto inclinado, no qual havia uma pequena janela que dava para os pântanos cobertos de neve. Enormes traves sólidas suportavam o teto. Sob as traves, pendia uma enorme variedade do que pareciam ser tendas de retalhos, até Jenna perceber que deviam ser os vestidos da Tia Zelda. O quarto tinha três camas. Pelos cobertores de retalhos, Jenna calculou que deviam estar sentadas na cama de Tia Zelda, e a outra, que se encontrava num recanto da parede perto das escadas e coberta de pêlo de cão, só podia ser a de Silas. No canto mais distante, estava a cama maior, embutida na parede. Fez Jenna recordar-se de seu próprio gavetão, em casa, e provocou-lhe muitas saudades ao olhar para ela. Calculou que devia ser a cama de Marcia, pois ao lado da cama havia um livro, O Desfazer da Escuridão, uma elegante pena de ônix e uma pilha de pergaminho da melhor qualidade, coberto de símbolos e sinais Mágykos. Marcia seguiu-lhe o olhar.

— Anda, pode experimentar minha pena. Vai gostar. Escreve em qualquer cor que você peça — pelo menos quando está bem-disposta.

Enquanto Jenna estava no andar de cima experimentando a pena de Marcia, a qual estava se mostrando um bocado obstinada, insistindo em escrever uma ou outra letra num verde berrante, Silas estava no andar de baixo tentando acalmar um inquieto Max, que tinha notado a presença do Rato Mensageiro.

— Nicko — disse Silas distraidamente, tendo acabado de avistar o filho, ainda com aspecto molhado, que acabava de voltar da fonte termal. — Segure o Max e mantenha-o afastado do Rato, está bem? — Nicko e Max correram para o sofá e, com não menos velocidade, o Garoto 412 pulou de lá.

— Ora bem, onde está o rato então? — perguntou Silas.

Um grande rato castanho estava sentado do lado de fora da janela, batendo no vidro. Tia Zelda abriu a janela e o rato pulou para dentro, olhando de um lado para o outro com seus brilhantes olhinhos vivazes.

— Chia, Rato! — ordenou Silas, em língua Mágyka. O rato olhou para ele com impaciência.

— Fala, Rato!

O rato cruzou os braços, à espera. Presenteou Silas com um olhar fulminante.

— Angh... desculpe. Há séculos que não recebo um Rato Men­sageiro — desculpou-se Silas. — Oh, é isso... Fala, Rattus Rattus.

— No alvo — suspirou o rato. — Finalmente chegou lá. — En­direitou-se e disse: — Primeiro, tenho que perguntar. Há aqui alguém que responda pelo nome de Silas Heap? — O rato olhou diretamente para Silas.

— Sim, eu — respondeu Silas.

— Bem que achei — retorquiu o rato. — Encaixa na descrição. — Deu uma tossidinha pretensiosa, endireitou-se ainda mais, e pôs as mãos atrás das costas.

— Estou aqui para entregar uma mensagem destinada a Silas Heap. A mensagem é enviada hoje, às oito em ponto da manhã, por uma designada Sara Heap, residindo na casa de Galena. Início da men­sagem:

Olá, meu amado Silas. E Jenna, minha bichinha, e Nicko, meu anjo.

Enviei o rato à casa de Zelda na esperança de que ele os encontre bem e em segurança. Sally nos contou que o Caçador andava atrás de vocês e não consegui pregar os olhos a noite toda só de pensar nisso. Esse homem tem uma reputação terrível. Quando a manhã chegou não sabia o que fazer e estava convencida de que tinham sido todos apanhados (embora Galena me dissesse que sabia que estavam bem), mas o adorado Alther passou por aqui logo que ama­nheceu e contou-nos as maravilhosas novas da sua fuga. Disse-nos que os viu pela última vez a caminho dos Pântanos Marram. Ele gostaria de poder ter ido com vocês.

Silas, aconteceu uma coisa. Simão desapareceu a caminho daqui. Estávamos no caminho ribeirinho que leva à parte da Floresta que é da Galena, quando percebi que ele tinha desaparecido. Não consigo entender o que possa ter acon­tecido. Não vimos nenhum Guarda e ninguém o viu ou ouviu partindo. Silas, tenho tanto medo que tenha caído numa das armadilhas daquelas horríveis bruxas. Hoje vamos à procura dele.

Os Guardas atearam fogo ao café de Sally e ela mal conseguiu escapar. Nem sequer sabe como conseguiu, mas chegou aqui hoje de manhã, em segurança, e pediu-me para dizer à Marcia que está muito agradecida pelo FicaEmSegurança que ela lhe deu. Na verdade, todos nós estamos gratos. Foi muito generoso da parte dela.

Silas, por favor envie o rato de volta e me informe sobre como estão.

Todo o nosso amor e pensamentos estão com vocês.

A sua amada

Sara.

Fim da mensagem.

Exausto, o rato deixou-se cair sobre o peitoril.

— Seria capaz de matar uma xícara de chá — disse. Silas estava tremendamente agitado.

— Tenho que voltar — disse ele — e procurar Simão. Quem sabe o que pode ter acontecido?

Tia Zelda tentou acalmá-lo. Trouxe duas xícaras de chá quente e doce e deu uma ao rato e a outra a Silas. O rato esvaziou a xícara de um só gole, enquanto Silas estava desolado, sem tocar na sua.

— O Simão é bem duro, Pai — disse Nicko. — Vai ficar bem. Deve ter se perdido, mais nada. A esta hora já deve estar com a Mãe.

Silas não se deixou convencer.

Tia Zelda decidiu que a coisa mais sensata a fazer era jantar. Normalmente, os jantares de Tia Zelda distraíam as pessoas dos seus problemas. Era uma cozinheira muito hospitaleira, que gostava de ter, quanto mais pessoas melhor à mesa, e embora seus convidados apreciassem sempre as suas conversas, a comida podia tornar-se um desafio. A descrição mais freqüente era «interessante», como quem diz: — O bolo de pão e couve estava muito... interessante, Zelda. Nunca teria me ocorrido uma coisa assim. — Ou: — Bom, tenho que admitir que compota de morango é um molho muito... interessante para filetes de enguia.

Silas ficou encarregado de pôr a mesa, para que se distraísse dos problemas e o Rato Mensageiro foi convidado para a ceia.

Tia Zelda serviu caçarola de sapo e coelho com cabeças de nabos duplamente cozidas, seguida de delícias de cereja e pastinaga. O Garoto 412 lançou-se à comida com grande entusiasmo, já que era uma melhoria considerável em relação à comida do Exército da Juventude e chegou a servir-se uma segunda e até mesmo uma terceira vez, para grande alegria de Tia Zelda. Nunca ninguém lhe pedira para se servir duas vezes, quanto mais três.

Nicko estava bastante satisfeito pelo Garoto 412 estar comendo tanto, já que isso queria dizer que Tia Zelda não notou os pedaços de sapo que tinha alinhado e escondido sob sua faca. Ou se notou, não se incomodou muito. Nicko conseguiu também dar a orelha de coelho que encontrou no prato a Max, para seu grande alívio e ainda maior deleite de Max.

Marcia tinha mandado recado, pedindo que a desculpassem e a Jenna, mas que não iriam descer para cear por causa da presença do Rato Mensageiro. Silas achou que era uma desculpa muito fraca e descon­fiou que ela estaria fazendo discretos feitiços de bom-comer sem dizer nada a ninguém.

Apesar da — ou talvez por causa da — ausência de Marcia, o jantar foi um momento agradável. O Rato Mensageiro fazia boa companhia. Silas não tinha se dado ao trabalho de anular a ordem Fala, Rattus Rattus e assim o rato bastante falador discorria sobre todo e qualquer assunto que lhe viesse à cabeça, que ia desde os problemas com os ratos adolescentes dos dias de hoje até ao escândalo da salsicha na cantina dos Guardas que tinha abalado toda a comunidade dos ratos, para não falar dos Guardas.

Com a refeição se aproximando do fim, Tia Zelda perguntou a Silas se ia enviar o Rato Mensageiro à Sara, ainda nesta noite.

O rato parecia apreensivo. Apesar de ser um ratagão bem grande e soubesse, como dizia para todo mundo, «tomar conta de mim mesmo», a verdade é que os Pântanos Marram, durante a noite, não eram um dos seus lugares preferidos. As ventosas de uma Nixie Aquática podiam significar o fim de um rato e nem os Duendes nem os Bog­garts eram os melhores amigos dos ratos. Os Duendes eram capazes de afundar um rato na Lama só pelo simples prazer que isso lhes dava e um Boggart esfomeado não hesitaria em ferver um guisado de rato para os seus Boggartinhos bebês que eram, na modesta opinião do Rato Mensageiro, umas pestinhas vorazes.

(O Boggart, é claro, não os acompanhou na ceia. Nunca o fazia. Preferia comer os sanduíches de couve cozida que Tia Zelda lhe pre­parava no conforto de sua própria leira lodosa. Ele já não comia rato há muito tempo. Não gostava muito do sabor e costumava ficar com os ossinhos entalados entre os dentes.)

— Estava pensando — disse Silas, lentamente — que seria melhor enviar o rato de volta logo de manhãzinha. Fez um grande caminho, e deveria dormir um pouco.

O rato pareceu agradecido.

— Bem pensado, senhor. Muito sensato — disse ele. — Muitas mensagens se perdem por falta de um bom descanso. E de uma boa ceia. E se me permitem dizer, foi uma ceia excepcionalmente... inte­ressante, minha Senhora. — Inclinou a cabeça na direção de Tia Zelda.

— Foi um gosto — sorriu Tia Zelda.

— Esse rato é um Rato Confidencial? — perguntou o pimenteiro com a voz de Marcia. Todos saltaram, sobressaltados.

— Podia ter nos avisado antes de projetar a voz dessa maneira — res­mungou Silas. — Quase engasgo com minha delícia de pastinaga.

— Sim, mas é ou não? — insistiu o pimenteiro.

— É? — perguntou Silas ao rato, que estava fitando o pimenteiro e, pela primeira vez nessa noite, tinha perdido a fala. — É um Rato Confidencial, ou não?

— Sou — respondeu o Rato, sem saber se devia se dirigir a Silas ou ao pimenteiro. Escolheu o pimenteiro. — Sou sim, Miss Pimenteira. Sou um Rato Mensageiro de Longa Distância com Privilégio de Confidencialidade. Ao seu dispor.

— Ótimo. Vou descer.

Marcia desceu as escadas dois degraus de cada vez e atravessou a sala a passos rápidos, livro na mão e o seu manto de seda arrastando pelo chão e atirando pelo ar uma pilha de frascos com poções. Jenna seguiu-a rapidamente, ansiosa por poder finalmente ver um Rato Mensageiro.

— Aqui é tão apertado — queixou-se Marcia, limpando irritada o manto salpicado com as melhores Misturas Multicoloridas de Tia Zelda. — Realmente, não sei como se arranja aqui dentro, Zelda.

— Acho que me arranjava muito bem, até você chegar — mur­murou Tia Zelda entre dentes enquanto Marcia se sentava à mesa, ao lado do Rato Mensageiro. O rato empalideceu terrivelmente por baixo do pêlo castanho. Nunca, nos seus sonhos mais fantásticos, pensou encontrar um dia a Feiticeira ExtraOrdinária. Fez uma grande vênia, muito exagerada, desequilibrou-se e caiu por cima dos restos das delícias de cereja e pastinaga.

— Quero que volte com o rato, Silas — anunciou Marcia.

— O quê? — exclamou Silas. — Agora?

— Não tenho alvará para passageiros, Sua Alteza — disse o rato, hesitante, dirigindo-se a Marcia. — Na verdade, Vossa Máxima Graça, e digo-o com o maior respeito...

— DesFala, Rattus Rattus — ordenou Marcia.

O Rato Mensageiro abriu e fechou a boca silenciosamente por mais algumas palavras, até perceber que não emitia qualquer som. Depois sentou-se, lambendo de forma relutante as delícias de cereja e pastinaga das patas e aguardou. O rato não podia fazer outra coisa senão esperar, pois um Rato Mensageiro apenas podia partir com uma resposta ou com uma recusa de resposta. Até o momento não tinha recebido nenhuma das duas e, como profissional que era, deixou-se ficar pacientemente sentado, recordando-se das palavras que sua mulher lhe dissera esta manhã quando soube que ele ia cumprir uma missão para uma Feiticeira.

— Stanley — tinha dito sua mulher, Dawnie, admoestando-o com um dedo em riste —, se eu fosse você, não iria querer ter nada a ver com esses Feiticeiros. Lembra-se do marido da Elli, que acabou enfeitiçado por aquele Feiticeiro pequeno e gordo na Torre e ficou preso no caldeirão? Ficou mais de duas semanas sem conseguir regressar, e quando regressou não estava em muito bom estado. Não vá, Stanley. Por favor.

Mas Stanley sentira-se secretamente honrado pelo Gabinete dos Ratos ter lhe pedido que aceitasse uma missão no exterior, especial­mente para uma Feiticeira, e ficara satisfeito pela mudança em relação ao seu último serviço. Tinha passado a semana anterior inteira levando mensagens entre duas irmãs que estavam discutindo. As mensagens tinham se tornado progressivamente mais curtas e particularmente mais rudes, até que o seu último dia de trabalho tinha consistido em correr de uma para outra, sem dizer absolutamente nada, porque cada uma queria que a outra soubesse que não falava com ela. Tinha ficado extremamente aliviado quando a mãe delas, horrorizada com a enorme conta que tinha recebido do Gabinete dos ratos nessa semana, mandou cancelar o serviço.

E assim, Stanley tinha respondido alegremente à sua mulher que, quando precisavam dele, ele tinha que estar presente.

— No final das contas — disse ele —, sou um dos poucos Ratos Mensageiros de Longa Distância com Privilégio de Confidencialidade do Castelo.

— E um dos mais palermas — retorquira sua mulher.

E assim Stanley ficou sentado à mesa, entre os restos da mais estranha refeição que já provara, e ouviu a inesperadamente mal-humorada Feiticeira ExtraOrdinária dizer ao Feiticeiro Normal o que tinha que fazer. Marcia pousou o livro sobre a mesa, fazendo os pratos tilintarem.

— Tenho andado a estudar O Desfazer da Escuridão de Zelda. Só gostaria de ter tido um exemplar na Torre dos Feiticeiros. É in­substituível. — Marcia deu umas pancadinhas no livro, aprovadora. O livro interpretou mal seu gesto. Voou inesperadamente da mesa e foi enfiar-se no seu lugar, na pilha de livros de Tia Zelda, para grande irritação de Marcia.

— Silas — disse ela. — Preciso que vá e traga meu FicaEmSegurança que emprestei à Sally. Precisamos dele aqui.

— Está bem — concordou Silas.

— Tem que ir, Silas — insistiu Marcia. — A nossa segurança pode depender disso. Sem ele tenho muito menos poder do que pensava.

— Sim, sim. ‘Tá bem, Marcia — disse Silas impaciente, preocu­pado com os seus pensamentos sobre Simão.

— Na verdade, como Feiticeira ExtraOrdinária, ordeno-lhe que vá — prosseguiu Marcia.

— Sim! Marcia, eu disse que sim. Eu vou. Já tinha decidido ir, de qualquer maneira — retorquiu Silas, exasperado. — O Simão desa­pareceu. Vou à procura dele.

— Ótimo — disse Marcia, sem prestar grande atenção ao que Silas estava dizendo, como sempre. — Agora, onde está o rato?

O rato, ainda incapaz de falar, levantou a pata.

— A sua mensagem é este Feiticeiro, devolvido ao remetente. Entendeu?

Stanley acenou que sim, hesitante. Queria dizer à Feiticeira Extra­Ordinária que isso ia contra os regulamentos do Gabinete dos Ratos. Não tratavam de encomendas, humanas ou de qualquer outro tipo. Suspirou. Sua mulher estava tão certa.

— Procederá à entrega deste Feiticeiro adequadamente e em segurança, pelos meios mais apropriados, no endereço do remetente. Entendido?

Stanley voltou a anuir, infeliz. Meios mais apropriados? Calculava que isso queria dizer que Silas não ia poder nadar no rio. Ou pegar carona na bagagem de um mercador de passagem. Fantástico.

Silas acorreu em socorro do rato.

— Não preciso ser enviado como uma encomenda, Marcia, muito obrigado — disse ele. — Vou levar uma das canoas e o rato pode vir comigo e indicar-me o caminho.

— Muito bem — concordou Marcia —, mas quero obter con­firmação da encomenda. Fala, Rattus Rattus.

— Sim — disse o rato, desconsolado. — Encomenda confirmada.

 

Silas e o Rato Mensageiro partiram bem cedo na manhã seguinte, logo depois do nascer do sol, levando com eles a canoa Muriel Um. O haar tinha se dissipado durante a noite, e o sol de Inverno projetava compridas sombras sobre os pântanos à luz acinzentada da manhã.

Jenna, Nicko e Max tinham-se levantado cedo para se despedirem de Silas e lhe entregarem mensagens para levar à Sara e aos meninos. O ar estava frio e cheio de geada, e a respiração de todos eles pairava em pequenas nuvens brancas. Silas apertou sua pesada capa de lã azul em torno do corpo e levantou o capuz, enquanto o Rato Mensageiro estava ao seu lado, tremendo ligeiramente, mas não só devido ao frio.

O rato podia ouvir Max, bem perto atrás de si, emitindo horríveis grunhidos, enquanto Nicko mantinha o lenço do pescoço do cão bem preso numa mão. E, como se isso não bastasse, tinha acabado de ver o Boggart aparecer por ali.

— Ah, Boggart — sorriu Tia Zelda. — Muito obrigado por ficar acordado, meu querido Boggart. Fiz uns san­duíches para se agüentar no caminho. Vou pô-las na canoa. E fiz algumas para você e para o rato também, Silas.

— Oh. Ah, bem, obrigado, Zelda. E, exatamente, que tipo de sanduíches seriam esses?

— Da melhor couve cozida.

— Ah. Bom, foi muito... atenciosa. — Silas estava satisfeito por ter escondido algum pão e queijo na manga.

O Boggart estava flutuando, claramente mal-humorado, no Mott e a menção de sanduíches de couves não era suficiente para apaziguá-lo. Não gostava de ficar acordado durante o dia, mesmo se fosse no meio do Inverno. Fazia-lhe doer seus fracos olhos de Boggart e se não tivesse cuidado, o sol podia queimar-lhe as orelhas.

O Rato Mensageiro estava sentado na margem do Mott, parecendo o mais infeliz dos ratos, preso entre o bafo do cão lobo nas suas costas e o Bafo do Boggart à sua frente.

— Muito bem — disse Silas, dirigindo-se ao rato. — Toca a pular para a canoa. Calculo que queira se sentar à frente. Pelo menos o Max quer sempre ir na frente.

— Eu não sou um cão — fungou Stanley —, e não viajo com Boggarts.

— Este é um Boggart seguro — disse-lhe Tia Zelda.

— Isso é coisa que não existe, um Boggart seguro — murmurou Stanley. Mas, ao apanhar um relance de Marcia que saía da choupana para se despedir de Silas, apressou-se a pular para o interior da canoa e escondeu-se por trás de um assento.

— Tenha cuidado, Papai — disse Jenna a Silas, abraçando-o com força.

Nicko também abraçou Silas.

— Encontre o Simão, Pai. E não se esqueça de seguir pela orla do rio se a maré estiver contra você. A maré corre sempre com mais força no meio do rio.

— Não vou me esquecer. — Silas sorriu. — Olhem um pelo outro, vocês dois. E Max também.

— Adeus, Papai.

Max soltou um latido e uns uivos, quando percebeu, para sua grande consternação, que Silas ia mesmo deixá-lo ali.

— Adeus! — acenou Silas, enquanto conduzia atrapalhadamente a canoa ao longo do Mott, acompanhado pela já familiar pergunta do Boggart:

— Tão-m’ seguindo?

Jenna e Nicko ficaram olhando a canoa avançar lentamente ao longo dos canais serpenteantes, e desembocar na mais ampla extensão dos Pântanos Marram, até já não serem capazes de distinguir o capuz azul de Silas.

— Espero que o Papai fique bem — disse Jenna, baixinho. — Ele não é lá muito bom para encontrar os lugares que procura.

— O Rato Mensageiro há de garantir que o Pai chegue lá — disse Nicko. — Sabe que se não for assim, vai ter que dar explicações à Marcia.

 

No interior profundo dos Pântanos Marram, o Rato Mensageiro estava sentado na canoa apreciando a primeira encomenda de sua vida. Tinha decidido não contar nada à Dawnie, ou aos outros ratos do Gabinete dos Ratos; tudo aquilo era muito irregular, suspirou.

Mas depois de algum tempo, à medida que Silas ia levando-os lentamente e de uma forma um pouco errática, através dos retorcidos canais do paul, Stanley começou a achar que, afinal, aquela não era uma forma muito ruim de viajar. Afinal, tinha uma carona até seu destino final. E não tinha que fazer nada a não ser ficar ali sentado, contando algumas histórias e desfrutando do passeio en­quanto Silas fazia todo o trabalho.

E, quando Silas se despediu do Boggart no final do Canal Deppen e começou a remar rio acima, rumo à Floresta, foi exatamente o que o Rato Mensageiro fez.

 

Nessa noite o vento leste soprou sobre os pântanos.

Tia Zelda fechou as portadas de madeira e FechouPorEncanto a porta para o túnel dos gatos, depois de se certificar que Berta estava segura dentro de casa. Depois andou pela choupana, acendendo as lamparinas e colocando lanternas de tempestade nas janelas, para man­ter o vento à distância. Estava esperando poder passar um tempo tranqüilo à escrivaninha, atualizando sua lista de poções.

Mas Marcia tinha chegado lá primeiro. Estava atarefada folheando alguns dos livros de Magya menores e fazendo muitas anotações. De quando em quando experimentava um breve encanta­mento, só para ver se ainda funcionava e nessas horas havia sempre um pequeno estampido e uma nuvem de fumaça com um cheiro esqui­sito. E Tia Zelda também não ficou nada satisfeita com o que Marcia tinha feito à escrivaninha. Marcia tinha lhe dado pernas de pato para impedi-la de balançar e um par de braços para ajudá-la a organizar a papelada.

— Logo que tiver acabado, Marcia, agradeceria se me devolvesse a escrivaninha — disse Tia Zelda, mal-humorada.

— É toda sua, Zelda — respondeu Marcia, animadamente. Pegou num pequeno livro quadrado e levou-o consigo para junto da lareira, deixando uma verdadeira confusão sobre a escrivaninha. Tia Zelda empurrou aquilo tudo para o chão antes que os braços da escrivaninha pudessem impedi-la e sentou-se com um suspiro.

Marcia foi se juntar a Jenna, a Nicko e ao Garoto 412 perto da lareira. Sentou-se perto deles e abriu o livro, que Jenna viu que se chamava:

 

Feitiços de Proteção e Encantamentos Seguros

Para Utilização de Principiantes e

Daqueles de Mente Simples

Coligido e Garantido pela Liga de Seguros dos Feiticeiros

 

— De Mente Simples? — exclamou Jenna. — É um bocadinho indelicado, não acha?

— Não ligue — respondeu Marcia. — É muito antiquado. Mas na maioria das vezes os mais antigos são os melhores. É simples e direto, antes de cada Feiticeiro querer ter Feitiços com o seu nome só por modificá-los um pouco, que é normalmente quando se metem em confusão. Lembro-me de uma altura ter encontrado o que parecia um simples Feitiço de Vai Buscar. A edição mais recente, cheia de Encantamentos novos em folha, nunca usados, o que deveria ter me deixado logo desconfiada. Quando mandei Buscar os meus sapatos de píton, foi Buscar também uma malvada píton. O que não é propriamente a primeira coisa que gostaríamos de encontrar pela manhã.

Enquanto falava, Marcia estava ocupada virando as páginas do livro.

— Há por aqui uma versão muito simples de Faz Com que Fique Invisível. Ainda ontem a vi... Ah, sim, aqui está.

Jenna espreitou por sobre o ombro de Marcia para a página amarelada em que ela tinha aberto o livro. Como todos os livros de Magya, cada página continha um feitiço ou encantamento diferente, e nos livros mais antigos, cada um deles costumava estar cuidadosa­mente escrito à mão num conjunto de tintas estranhamente coloridas. Sob cada feitiço as páginas estavam dobradas para trás, formando um bolsinho onde eram guardados os Encantamentos. Os Encantamen­tos continham a impressão Mágyka do feitiço. Normalmente era um pedaço de pergaminho, embora pudesse ser qualquer coisa. Marcia tinha visto Encantamentos escritos em pedaços de seda, madeira, conchas e até torradas, embora este não tivesse funcionado muito bem, porque os ratos tinham comido a parte final.

Era assim que funcionava um livro de Magya: o primeiro Feiticeiro que criava o feitiço escrevia as fórmulas e instruções naquilo que tivesse mais à mão. Era melhor escrever logo de imediato, já que os Feiticeiros costumam ser criaturas de memória muito curta, além de que a Magya tende a esvair-se se não for capturada rapidamente. Assim, por exemplo, se um Feiticeiro estivesse tomando o desjejum quando se lembrasse de um feitiço, podia perfeitamente servir-se de um pedaço de torrada (de preferência, sem manteiga). Este era o Encantamento. O número de Encantamentos variava conforme o número de vezes que o Feiticeiro escrevesse o feitiço. Ou o número de torradas que tivessem sido feitas para o desjejum.

Quando um Feiticeiro tivesse reunido um número suficiente de feitiços, reuniam-nos normalmente num livro para maior segurança, embora alguns livros de Magya fossem conjuntos de outros livros mais velhos que tinham se desfeito e sido misturados de muitas maneiras diferentes. Um livro de Magya completo, com todos os seus Encan­tamentos ainda nos bolsos, era na realidade um tesouro muito raro. O mais freqüente era encontrar-se um livro praticamente vazio, com apenas um ou dois Encantamentos menos populares ainda no lugar.

Alguns Feiticeiros não criavam mais do que um ou dois Encanta­mentos para os seus feitiços mais complicados e esses eram muito difíceis de encontrar, embora a maior parte dos Encantamentos pudesse ser encontrada na Biblioteca da Pirâmide na Torre dos Fei­ticeiros. De tudo o que havia na Torre, era da Biblioteca que Marcia sentiu mais saudades, mas tinha ficado surpresa, e muito satisfeita, com a coleção de livros de Magya de Tia Zelda.

— Tome — disse Marcia, passando o livro a Jenna. — Por que não pega um Encantamento?

Jenna pegou o livro, pequeno, mas surpreendentemente pesado. Estava aberto numa página suja e com sinais de uso freqüente, que estava escrita com tinta púrpura, já desbotada, numa letra grande e elegante, fácil de ler.

As palavras diziam:

Faz com que seja Invisível um Feitiço Precioso e Estimável para todas as Pessoas que possam desejar (por Razões Respeitantes apenas à salvaguarda, Sua ou dos Seus) não serem Notadas por aqueles que possam querer Mal

Jenna sentiu-se apreensiva ao ler aquelas palavras, não querendo sequer pensar em quem pudesse lhe querer mal e depois enfiou os dedos no espesso bolso de papel, procurando o Encantamento. No interior do bolso estava o que pareciam ser fichas lisas e macias. Os dedos de Jenna fecharam-se sobre uma das fichas e trouxeram para fora uma pequena, oval, de ébano polido.

— É muito bonita — disse Marcia, satisfeita. — Negra como a noite. Muito adequado. Consegue ver as palavras no Encantamento?

Jenna estreitou os olhos para tentar ler o que estava escrito no pedaço de ébano. As palavras eram minúsculas, escritas num cursivo antiquado e com tinta dourada muito desbotada. Marcia tirou uma grande lupa do seu cinto, desdobrou-a e deu-a a Jenna.

— Veja se isto ajuda — disse ela.

Jenna passou lentamente a lupa sobre as letras douradas e, à medida que estas iam sendo aumentadas, leu-as em voz alta:

Deixe-me Desaparecer no Ar

Sem que os meus inimigos possam me encontrar

Deixe-os me procurar, passarem por mim

Que mal não me chegue,

que a sua Busca não tenha fim

— Simples e elegante — disse Marcia. — Não é difícil de se lembrar se as coisas ficarem complicadas. Muitos feitiços são muito bonitos e elaborados, mas tente se lembrar deles numa emergência. Agora precisa Gravar o feitiço.

— De quê? — perguntou Jenna.

— Aperte o Encantamento contra si e repita o feitiço enquanto o faz. Tem que se lembrar das palavras exatas. E enquanto pronuncia as palavras, tem que imaginar que o Feitiço está funcionando mesmo — essa é a parte mais importante.

Não era tão fácil como Jenna pensava, sobretudo com Nicko e o Garoto 412 olhando para ela. Se lembrava das palavras com precisão, esquecia-se de imaginar a parte de Desaparecer no Ar e se pensava demais em Desaparecer no Ar, esquecia-se das palavras.

— Tente outra vez — encorajou-a Marcia depois de Jenna, para sua exasperação, ter conseguido fazer tudo bem com exceção de uma única palavrinha. — Todo mundo pensa que os Feitiços são fáceis, mas não são. Mas está quase lá.

Jenna respirou fundo.

— Parem de olhar para mim — disse ela a Nicko e ao Garoto 412.

Ambos sorriram e fizeram um espetáculo de se porem a olhar para Berta ao invés de Jenna. Berta agitou-se no sono, desconfortável. Sabia sempre quando alguém estava olhando para ela.

Por isso Nicko e o Garoto 412 perderam o primeiro Desapareci­mento de Jenna.

Marcia bateu palmas.

— Conseguiu! — disse ela.

— Consegui? Consegui mesmo? — ouviu-se a voz de Jenna, vinda do ar.

— Ei, Jen, onde você está? — perguntou Nicko, rindo.

Marcia olhou para o relógio.

— Agora não se esqueça, da primeira vez que faz um feitiço ele não dura muito tempo. Vai Reaparecer dentro de um ou dois minutos. Depois disso, deve durar tanto tempo quanto quiser.

O Garoto 412 viu como a forma de Jenna se Materializava lenta­mente, separando-se das sombras bruxuleantes projetadas pelas velas de Tia Zelda. Ficou boquiaberto. Também queria fazer aquilo.

— Nicko — chamou Marcia —, é a sua vez.

O Garoto 412 sentiu-se furioso consigo mesmo. O que o teria feito pensar que Marcia iria chamá-lo? É claro que não iria. Ele não per­tencia àquele grupo. Não passava de um Jovem Soldado Dispensável.

— Eu tenho o meu próprio Desaparece, obrigado — disse Nicko. — Não quero que se misture com este.

Nicko tinha uma perspectiva muito prática da Magya. Não tinha qualquer intenção de se tornar um Feiticeiro, embora viesse de uma família Mágyka, e tivesse aprendido Magya Básyka. Nicko não via por que haveria de precisar de mais do que um exemplar de cada fei­tiço. Porquê atravancar o cérebro com aquilo tudo? Na opinião dele, já tinha na cabeça todos os feitiços de que pudesse preci­sar. Preferia usar o espaço livre de seu cérebro para coisas mais úteis, como as tabelas de marés e os nós de marinheiro.

— Muito bem — disse Marcia, que sabia bem que não valia a pena tentar convencer Nicko do que quer que fosse que não lhe inte­ressasse. — Mas lembre-se que só aqueles que estão dentro do mesmo Invisível podem se ver uns aos outros. Se usar um diferente, Nicko, não pode ser visto por ninguém que esteja se servindo de um feitiço diferente, mesmo que eles também estejam Invisíveis. Certo?

Nicko anuiu vagamente. Não conseguia ver que diferença aquilo podia fazer.

— Bom, então — Marcia voltou-se para o Garoto 412 —, é a sua vez.

O Garoto 412 até ficou cor-de-rosa. Pôs-se a olhar para os pés. Ela o tinha chamado. Ele queria experimentar o feitiço mais do que tudo, mas odiava a forma como todo mundo estava olhando para ele e tinha certeza que ia ficar com ar de tolo se o tentasse.

— Devia experimentar — disse-lhe Marcia. — Quero que todos vocês consigam fazer isto.

O Garoto 412 levantou os olhos, surpreendido. Marcia teria por acaso acabado de dizer que ele era tão importante como os outros dois meninos? Os dois que pertenciam ao grupo?

A voz de Tia Zelda ouviu-se do outro extremo da sala.

É claro que ele vai experimentar.

O Garoto 412 levantou-se, encabulado. Marcia tirou outro Encan­tamento do livro e deu-o a ele. — Agora, Grave-o — disse-lhe.

O Garoto 412 apertou o Encantamento na mão. Jenna e Nicko estavam a fitá-lo atentamente, curiosos quanto ao que ia fazer agora que era a sua vez.

— Anda, diga as palavras — instruiu Marcia, delicadamente. O Garoto 412 não disse nada, mas as palavras do feitiço zumbiam-lhe através do cérebro, enchendo-lhe a cabeça com uma estranha sensação de formigamento. Sob o seu boné vermelho, os cabelos da nuca puseram-se em sentido. Podia sentir a Magya dando-lhe comichão através da mão.

— Desapareceu! — exclamou Jenna.

Nicko soltou um assobio de admiração, baixinho.

— Não está com meias medidas, heim?

O Garoto 412 sentia-se furioso. Não era preciso gozá-lo. E por que Marcia estava olhando para ele daquela maneira tão esquisita? Tinha feito alguma coisa errada?

— Já pode voltar — disse Marcia, muito calma. Havia qualquer coisa na voz de Marcia que assustou o Garoto 412. O que tinha acontecido?

E então ocorreu-lhe a mais assombrosa das idéias. Silenciosamente, passou por cima de Berta, esgueirou-se por Jenna sem tocá-la e foi até o meio da sala. Ninguém o acompanhou com os olhos. Conti­nuavam todos a olhar para o lugar onde ele tinha estado.

Um estremecimento de puro entusiasmo percorreu-lhe o corpo de alto a baixo. Conseguia. Conseguia fazê-lo. Conseguia fazer Magya. Conseguia Desaparecer no Ar! Ninguém podia vê-lo. Estava livre!

O Garoto 412 deu um pequeno pulo de contentamento. Ninguém percebeu. Levantou os braços acima da cabeça e sacudiu-os no ar. Ninguém percebeu. Enfiou os polegares nas orelhas e acenou com os dedos. Ninguém percebeu. Depois, lentamente, atravessou a sala preparado para apagar uma das velas de tempestade, ficou com o pé preso num tapete e espalhou-se no chão.

— Ora está! — exclamou Marcia, furiosa.

E lá estava ele, sentado no chão e agarrado a um joelho esfolado, Aparecendo lentamente perante a sua muito impressionada audiência.

— Você é muito bom nisto! — exclamou Jenna. — Como conseguiu fazer isso com tanta facilidade?

O Garoto 412 abanou a cabeça. Não fazia a mínima idéia de como tinha feito. Tinha simplesmente acontecido. Mas era bom.

Marcia estava com um humor esquisito. O Garoto 412 achou que ela deveria se sentir satisfeita com ele, mas parecia estar tudo menos isso.

— Não deveria ser capaz de Gravar um feitiço tão rapidamente. Pode ser perigoso. Poderia não ter conseguido voltar de forma adequada.

O que Marcia não disse ao Garoto 412 foi que nunca tinha visto um principiante dominar um feitiço tão facilmente. Isso perturba­va-a. E ficou ainda mais perturbada quando o Garoto 412 lhe devolveu o Encantamento e ela sentiu um choque de Magya, como um breve estalar de eletricidade estática, a saltar-lhe da mão.

— Não — disse ela, devolvendo-lhe o Encantamento. — Fique com ele. E Jenna também. Os principiantes devem manter consigo os Encantamentos dos feitiços de que podem querer servir-se.

O Garoto 412 pôs o Encantamento no bolso da calça. Sentia-se confuso. Ainda tinha a cabeça girando com a excitação da Magya, e sabia que tinha executado o feitiço com toda a perfeição. Então por que Marcia estava zangada? Talvez o Exército da Juventude tivesse razão. Talvez a Feiticeira ExtraOrdinária fosse mesmo maluca — como era aquilo que eles costumavam cantar todas as manhãs no Exército da Juventude, antes de irem montar guarda na Torre dos Fei­ticeiros e espiar nas idas e vindas de todos os Feiticeiros, e muito particularmente da Feiticeira ExtraOrdinária?

Maluca como uma lula,

Malvada como um RATO

Ponham-na numa travessa,

Dêem-na para o GATO!

Mas a quadra já não fazia o Garoto 412 rir, e também não parecia ter muito a ver com a Marcia. Na verdade, quanto mais pensava no Exército da Juventude, mais o Garoto 412 percebia a verdade.

O Exército da Juventude é que era maluco.

Marcia era Magya.

 

Nessa noite, o vento leste transformou-se num temporal. Fazia estremecer as portadas, sacudia as portas e abalava toda a choupana. De quando em quando, uma forte rajada de vento uivava em torno da choupana, soprando a fumaça pela chaminé abaixo, deixando os três ocupantes das colchas perto da lareira a tossir e cuspir.

No andar de cima, Max tinha se recusado a abandonar a cama do seu dono e, para grande irritação de Marcia e Tia Zelda, ressonava tão alto como de costume, impedindo-as de dormir.

Tia Zelda levantou-se silenciosamente e espreitou pela janela, como sempre fazia nas noites de tempestade, desde que seu irmão Theo, um Metamorfo, tal como seu irmão mais velho, Benjamin Heap, tinha decidido que estava farto de levar a vida abaixo das nuvens. Theo queria elevar-se através delas até à luz do sol, para sempre. Num dia de Inverno, tinha vindo se despedir da irmã e na madrugada do dia seguinte ela tinha se sentado na margem do Mott para vê-lo Metamorfosear-se pela última vez na sua Forma definitiva, a de um petrel. A última vez que Tia Zelda tinha visto Theo fora como uma ave que voava portentosa sobre os Pântanos Marram, em direção ao mar. Enquanto via o pássaro a afastar-se, sabia que era provável que jamais voltasse a ver seu irmão, pois os petréis pas­sam a vida a voar sobre os oceanos e raramente regressavam à terra, a menos que empurrados por uma tempestade. Tia Zelda suspirou e voltou para a cama na ponta dos pés.

Marcia tinha enfiado a cabeça debaixo do travesseiro numa ten­tativa de abafar os roncos do cão e o uivar agudo do vento que varria os pauis e que, ao encontrar a choupana no seu caminho, tentava for­çar sua entrada para atravessá-la de um lado a outro. Mas não era apenas o barulho que a fazia ficar acordada. Havia mais uma coisa que não lhe saía da cabeça. Uma coisa que tinha testemunhado nesta noite dava-lhe uma grande esperança para o futuro. Um futuro de volta ao Castelo, liberto da Magya Negra. E permanecia acordada, planejando o próximo passo.

No andar de baixo, o Garoto 412 não conseguia pregar os olhos. Sentia-se esquisito desde que tinha executado o feitiço, como se um enxame de abelhas andasse às voltas no interior de sua cabeça. Imaginava pequeninos pedaços de Magya que tivessem sobrado do feitiço, a rodopiar num turbilhão. Não conseguia entender por que Jenna não estava acordada, mas sim, dormindo tão profundamente. Por que a cabeça dela não zumbia também? Enfiou o anel no dedo, e o brilho dourado iluminou a sala, dando uma idéia ao Garoto 412. Tem que ser o anel. Era por isso que sua cabeça zumbia e foi por isso que ele conseguiu executar o feitiço tão facilmente. Tinha encontrado um anel Mágyko.

O Garoto 412 pôs-se a pensar no que tinha acontecido depois de ter executado o feitiço. Em como ele e Jenna tinham se sentado a folhear o livro de feitiços até Marcia ter notado e tê-los obrigado a arrumá-lo, dizendo que, muito obrigada, mas não queria mais brinca­deiras. E depois, um pouco mais tarde, quando não havia mais nin­guém, Marcia tinha vindo falar com ele e tinha dito que queria falar com ele no dia seguinte. A sós. Na sua maneira de ver as coisas, isso só podia significar encrenca.

O Garoto 412 sentia-se infeliz. Não conseguia pensar racional­mente, por isso decidiu fazer uma lista. A Lista de Fatos do Exército da Juventude. Antes, sempre tinha funcionado.

Primeiro Fato: Não há chamada logo de manhã cedo: BOM.

Segundo Fato: Comida muito melhor: BOM.

Terceiro Fato: Tia Zelda legal: BOM.

Quarto Fato: Menina-princesa amiga: BOM.

Quinto Fato. Ter um anel Mágyko: BOM.

Sexto Fato: Feiticeira ExtraOrdinária furiosa: MAU.

O Garoto 412 ficou surpreso. Era a primeira vez na sua vida que os BOMs ultrapassavam os MAUs. Mas, de alguma forma, isso parecia tornar o único MAU ainda pior. Porque, pela primeira vez, o Garoto 412 sentiu que tinha algo a perder. Por fim, acabou caindo num sono agitado e acordou cedo com a chegada da aurora.

Na manhã seguinte o vento leste tinha esmaecido, e respirava-se um ar de expectativa na choupana.

Tia Zelda estava no exterior à procura de petréis que pudessem ter sido arrastados depois da ventania daquela noite. Não encontrou nenhum, o que não a surpreendeu, embora tivesse sempre a esperança do oposto.

Marcia estava à espera que Silas voltasse com seu FicaEmSegurança.

Jenna e Nicko estavam à espera de uma mensagem de Silas.

Max estava à espera do desjejum.

O Garoto 412 estava à espera de chatices.

— Não quer o seu mingau de aveia? — perguntou Tia Zelda ao Garoto 412, quando estavam tomando o desjejum. — Ontem repetiu e hoje mal o tocou.

O Garoto 412 acenou a cabeça negativamente.

Tia Zelda parecia preocupada.

— Está com aspecto um bocado adoentado — observou ela. — Sente-se bem?

O Garoto 412 anuiu, embora não se sentisse nada bem.

Depois do desjejum, enquanto o Garoto 412 estava dobrando cuidadosamente a sua colcha, tão bem como toda a vida dobrara os seus cobertores do Exército, Jenna perguntou-lhe se queria ir com ela e Nicko na Muriel Dois, para ver se o Rato Mensageiro estava de volta. Ele recusou, com um abanar de cabeça. Jenna não se sur­preendeu. Sabia que o Garoto 412 não gostava de barcos.

— Então, até logo — gritou animada, correndo para se juntar a Nicko na canoa.

O Garoto 412 viu Nicko conduzir a canoa pelo Mott até os Pân­tanos. Os terrenos pantanosos pareciam sinistros e frios naquela manhã, como se o vento leste daquela noite os tivesse surrado com­pletamente. Estava contente por poder ficar na choupana, junto da lareira.

— Ah, está aqui — disse Marcia por trás dele. O Garoto 412 até pulou. — Gostaria de falar com você.

O Garoto 412 sentiu o coração afundar. Bom, é agora, pensou ele. Vai me mandar embora. Teria que voltar para o Exército da Juventude. Devia ter sabido logo que era tudo bom demais para durar.

Marcia notou como o Garoto 412 ficara subitamente pálido.

— Você está bem? — perguntou-lhe. — Foi a torta de pé-de-porco de ontem à noite? Pareceu um bocado indigesta para mim também. E também não dormi nada, sobretudo com aquele horrível vento leste. E por falar em vento, não entendo por que é que aquele cão nojento não pode dormir noutro lugar qualquer.

O Garoto 412 sorriu. Por ele, até estava bem contente que Max dor­misse no andar de cima.

— Pensei que gostaria de me mostrar a ilha — continuou Marcia. — Calculo que já conheça o caminho.

O Garoto 412 olhou para Marcia sobressaltado. De que ela estaria desconfiada? Saberia que tinha encontrado o túnel?

— Não fique tão preocupado assim — sorriu Marcia. — Anda, por que não me mostra a leira do Boggart? Nunca vi onde vive um Boggart.

Contrariado por ter que abandonar o calorzinho da choupana, o Garoto 412 pôs-se a caminho com Marcia, em direção à leira do Bog­gart.

Juntos, faziam um par realmente estranho: o Garoto 412, ex-Dispen­sável do Exército da Juventude, uma figura pequena e franzina mesmo no encorpado casaco de pele de carneiro e nas largas calças de mari­nheiro enroladas para cima, mas que chamava logo a atenção pelo seu boné vermelho vivo, que até o momento se recusava terminantemente a tirar, até mesmo para Tia Zelda. A seu lado, alteando sobre ele, Marcia Overstrand, Feiticeira ExtraOrdinária, caminhava com passos largos e seguros, de tal forma que, por vezes, o Garoto 412 tinha que correr um bocadinho para conseguir acompanhá-la. O cinto de ouro e platina rebrilhava sob a fraca luz do sol de Inverno e seu pesado manto de pele e seda fluía atrás dela como um rio purpurino.

Não tardaram em chegar à leira do Boggart.

— É aqui? — perguntou Marcia, chocada, sem conseguir entender como é que qualquer tipo de criatura pudesse viver num lugar tão frio e enlameado.

O Garoto 412 anuiu, orgulhoso por poder ensinar alguma coisa a Marcia que ela já não soubesse.

— Bem, bem — disse ela. — Todos os dias aprendemos uma coisa nova. E ontem — disse, fitando o Garoto 412 diretamente nos olhos, antes que ele pudesse desviá-los. — Ontem, também aprendi uma coisa. Uma coisa muito interessante.

O Garoto 412 remexeu os pés, sentindo-se pouco à vontade, e des­viou os olhos. Não estava gostando nada do que tinha ouvido.

— Aprendi — disse Marcia em voz baixa — que você possui um dom Mágyko inato. Executou aquele feitiço com tanta facilidade, que foi como se tivesse passado anos a estudar Magya. Mas nunca tinha sequer estado perto de um feitiço antes em sua vida, não é?

O Garoto 412 negou com a cabeça e pôs-se a olhar para os pés. Ainda se sentia como se tivesse feito alguma coisa errada.

— Sim — disse Marcia. — Bem que achei. Calculo que esti­vesse no Exército da Juventude desde os, quê... dois anos e meio? Normalmente, é quando os recebem, não é?

O Garoto 412 não fazia a menor idéia de quanto tempo estivera no Exército da Juventude. Não se lembrava de mais nada na vida, por isso era possível que Marcia tivesse razão. Voltou a anuir.

— Bom, todos sabemos que o Exército da Juventude é o último lugar na face da Terra onde alguém pode esperar um contato com a Magya. E, no entanto, você tem a sua própria energia Mágyka. Deu-me um choque e tanto quando me devolveu o Encantamento ontem à noite.

Marcia pegou uma coisa pequena e brilhante que trazia num dos bolsos do cinto, e colocou-a na mão do Garoto 412. Ele olhou para baixo e viu um par de asas prateadas na palma suja de sua mão. As asas cintilavam à luz do sol e o Garoto 412 teve a impressão de que poderiam começar a voar de um momento para o outro. Vendo com mais atenção, notou umas letras minúsculas gravadas em cada uma das asas, incrustadas em ouro. O Garoto 412 soube logo o que significava aquilo. Tinha um Encantamento na mão, mas desta vez não era apenas um pedaço de madeira — era uma jóia magnífica.

— Alguns Encantamentos de Magya superior podem ser muito bonitos — explicou Marcia. — Nem todos são pedaços bolorentos de torrada. Lembro-me de quando Alther me mostrou este pela primeira vez. Pareceu-me um dos Encantamentos mais simples e mais bonitos que já tinha visto. E ainda me parece.

O Garoto 412 olhou para as asas. Numa das belíssimas asas pra­teadas estavam as palavras VOA DE VERDADE, e na outra EM LIBER­DADE.

Voa de Verdade Em Liberdade, disse ele para consigo, apre­ciando como lhe soavam bem aquelas palavras. E então... Não pôde evitá-lo. Nem sabia que estava a fazê-lo.

Tinha se limitado a pensar nas palavras, o seu antigo sonho de voar encheu-lhe a cabeça e...

— Eu sabia que seria capaz! — exclamou Marcia, deliciada. — Eu sabia!

O Garoto 412 interrogou-se sobre o que ela queria dizer com aquilo. Até perceber que parecia ser da mesma altura de Marcia. Ou até mais alto... na verdade, estava flutuando acima dela. O Garoto 412 olhou para baixo, surpreso, à espera que Marcia lhe dissesse para parar com aquilo como na noite anterior, que lhe dissesse que deixasse de brin­cadeiras e descesse imediatamente, mas para seu grande alívio ela tinha um enorme sorriso no rosto e os olhos verdes faiscavam-lhe de felicidade.

— É fantástico! — Marcia levou uma mão à testa, para proteger os olhos da luz do sol enquanto olhava para cima, para onde o Garoto 412 estava a flutuar por cima da leira do Boggart. — Isto é Magya avançada. Leva-se anos para aprender. Quase não consigo acreditar.

O que, provavelmente, não era a coisa mais acertada para se dizer, porque o Garoto 412 também não acreditava. Com certeza que não.

Ouviu-se um grande chapinhar quando ele mergulhou bem no meio da leira do Boggart.

— Oi! Será que um pobre Boggart num pode descansar um b’cado? — Um par indignado de olhinhos pretos piscou reprovadoramente sob o lodo.

— Aaaah... — sobressaltou-se o Garoto 412, arrastando-se para a superfície e agarrando-se desesperadamente ao Boggart.

— ‘Tive acordado o ontem todo — queixou-se o Boggart enquan­to puxava o rapazinho engasgado para a margem da poça de lama.

— Fiz o caminho todo até o rio, c’o sol nos olhos, c’o rato me massacrando os ouvidos — o Boggart empurrou o Garoto 412 para a margem — e tudo que ‘tou à espera é de p’der dormir no dia depois. Não quer visitas. Só quer dormir. Entendem? ‘Tá bem, moço?

O Garoto 412 anuiu, ainda tossindo.

Marcia tinha se ajoelhado e estava limpando o rosto do Garoto 412 com um lenço de seda púrpura, muito elegante. O Boggart meio míope pareceu surpreendido.

— Oh, b’dia, Sua Majestade — disse com todo o respeito. — Num a tinha visto aí.

— Bom dia, Boggart. Lamento muito que o tenhamos incomo­dado. Muito obrigada pela sua ajuda. Já vamos embora, para você poder descansar.

— Num se pr’ócupe. Foi um prazer.

E com isso o Boggart deixou-se mergulhar até o fundo do lodo, não deixando para trás mais do que algumas bolhas à superfície.

Marcia e o Garoto 412 regressaram lentamente à choupana. Marcia tinha decidido ignorar o fato de que o Garoto 412 estava coberto de lama dos pés à cabeça. Havia uma coisa que queria lhe perguntar. Tinha se decidido, e não queria esperar mais.

— Pergunto-me — começou ela — se gostaria de ser o meu Aprendiz.

O Garoto 412 parou a meio de um passo e ficou olhando para Marcia, o branco dos olhos cintilando no meio de um rosto coberto de lama. O que é que ela tinha dito?

— Seria o meu primeiro. Nunca encontrei ninguém adequado antes.

O Garoto 412 estava olhando para ela, incrédulo.

— O que eu quero dizer é — tentou explicar-lhe — que nunca tinha encontrado ninguém, até agora, que tivesse uma centelha de Magya, mas você tem. Não sei por que a tem, nem onde a ganhou, mas tem. E com o seu poder e o meu juntos, acho que podemos con­seguir expulsar as Trevas, o Outro lado. Talvez até mesmo para sempre. Que me diz? Vai ser meu Aprendiz?

O Garoto 412 estava chocado. Como ele poderia ajudar Marcia, a Feiticeira ExtraOrdinária: Tinha que estar enganada. Ele era uma fraude... o anel-dragão é que era Mágiko, não ele. Por muito que qui­sesse aceitar, não podia.

O Garoto 412 sacudiu a cabeça.

— Não? — Marcia pareceu chocada. — Quer dizer que não?

O Garoto 412 anuiu lentamente.

— Não... — Pela primeira vez na vida, Marcia não sabia o que dizer. Nunca lhe ocorrera que o Garoto 412 pudesse não aceitar. Ninguém nunca recusava a oportunidade de se tornar Aprendiz do Feiticeiro ExtraOrdinário. A não ser o idiota do Silas, claro.

— Tem noção do que está dizendo? — perguntou.

Mas o Garoto 412 não respondeu. Sentia-se miserável. Tinha conseguido fazer tudo errado outra vez.

— Vou pedir que pense nisso — disse Marcia, numa voz mais calma. Tinha percebido como o Garoto 412 estava assustado. — É uma decisão muito importante para nós dois... e para o Castelo. Espero que mude de idéia.

O Garoto 412 não via como podia mudar de idéia. Estendeu o Encan­tamento à Marcia para que o guardasse. Cintilava limpo e brilhante na palma da mão enlameada.

Desta vez foi Marcia quem negou com a cabeça.

— É um penhor da oferta que lhe fiz e a minha oferta ainda se mantém. Alther me deu quando me convidou para ser Aprendiza dele. Claro que eu disse logo que sim, mas compreendo que para você possa ser diferente. Precisa de tempo para pensar sobre isso. Gostaria que ficasses com o Encantamento enquanto pensa.

Marcia decidiu mudar de assunto.

— Agora — disse ela, ani­madamente —, que tal é apanhando besouros?

O Garoto 412 era muito bom em apanhar besouros. Ao longo dos anos tinha tido muitos besouros de estimação. A Loura, que era um escaravelho cabra-loura, a Milly, uma milípede, e o Bita, um bicho-de-prata, tinham sido os seus favoritos, mas também tinha tido uma enorme aranha doméstica negra, com patas peludas, que se chamava Zé das Sete-pernas. A Zé das Sete-pernas vivia num buraco na parede por cima de sua cama. Isso foi até o Garoto 412 começar a desconfiar que tinha sido ela quem comeu o Bica e, provavelmente, também a famí­lia toda dele. Depois disso, o Garoto 412 passou a viver sob a cama do Cadete Mor, que tinha pavor de aranhas.

Marcia ficou muito satisfeita com o saldo final da sua caçada aos besouros. Cinqüenta e sete besouros de todos os tipos serviam per­feitamente e, além disso, era o máximo que o Garoto 412 conseguia carregar.

— Vamos buscar os Potes de Conserva logo que chegarmos em casa e metê-los lá dentro sem perder um minuto — disse.

O Garoto 412 engoliu em seco. Então era para isso que os tinham apanhado: compota de besouro.

Enquanto seguia Marcia de volta à choupana, o Garoto 412 esperava que a sensação de cócegas que lhe estava subindo pelo braço não fosse alguma coisa com muitas patas.

 

Um cheiro verdadeiramente horrível, de rato cozido e peixe podre, libertava-se da choupana quando Jenna e Nicko trouxeram a Muriel Dois Mott acima, depois de um longo dia nos Pântanos sem verem sinal do Rato Mensageiro.

— Não me diga que o rato chegou aqui antes de nós e que Tia Zelda o está cozinhando para o jantar — riu Nicko, enquanto amar­ravam a canoa e se perguntavam se seria boa idéia aventurarem-se no interior da choupana.

— Oh, não diga isso, Nicko. Gostei tanto do Rato Mensageiro. Espero que o Papai o mande de volta rapidamente.

Jenna e Nicko percorreram o caminho até a casa com as mãos cobrindo o nariz. Jenna abriu a porta, sentindo um certo receio.

— Argh!!

No interior o cheiro era ainda pior. Somando-se aos fortes odores de rato cozido e peixe podre, havia também um certo travo de cocô de gato.

— Entrem, meus queridos. Estamos só cozinhando. — A voz de Tia Zelda vinha da cozinha, que, percebeu Jenna, era de onde provi­nha aquele cheiro horripilante.

Se aquilo era o jantar, pensou Nicko, preferia comer as próprias meias.

— Chegaram bem na hora — disse Tia Zelda, parecendo bas­tante animada.

— Que sorte! — pensou Nicko, interrogando-se se Tia Zelda ainda teria algum olfato, ou se incontáveis anos passados cozinhando couves o tinham arruinado por completo.

Jenna e Nicko aproximaram-se contrafeitos da cozinha, interrogando-se que tipo de jantar podia cheirar tão mal.

Para sua surpresa e alívio, não era o jantar. E nem sequer era Tia Zelda quem estava cozinhando. Era o Garoto 412.

O Garoto 412 tinha um aspecto muito estranho. Vestia um traje de malha multicolorido que lhe assentava mal, e que se consistia num camisolão de retalhos muito largo e calções de malha que esta­vam quase caindo. Mas a sua boina vermelha continuava firmemente enterrada na cabeça e secava devagar, fumegando tenuemente no calor da cozinha, enquanto o resto de suas roupas estava secando à lareira.

Tia Zelda tinha finalmente conseguido vencer a batalha do banho, mas apenas porque o Garoto 412 se sentia tão desconfortável quando tinha chegado coberto daquela espessa lama negra da leira do Boggart, que ficou bem satisfeito em desaparecer na barraca de banho para tirá-la do corpo. Mas recusou separar-se de sua boina vermelha. Essa batalha, Tia Zelda tinha perdido. Mesmo assim, estava contente por poder finalmente lavar suas roupas e achava que ele ficava muito querido no velho conjunto de malha que Silas usava quando era pequeno. O Garoto 412, pelo contrário, achava que tinha um ar completamente estúpido e evitou olhar para Jenna quando ela entrou.

Concentrou-se em remexer aquela papa fedorenta, ainda sem se mostrar completamente convencido de que Tia Zelda não estivesse mesmo fazendo compota de besouro, sobretudo porque ela estava sentada à mesa com uma série de potes de conserva vazios à sua frente. Estava ocupada desapertando as tampas e passando os frascos para Marcia, que estava sentada do outro lado da mesa tirando Encanta­mentos de um livro de feitiços muito grosso chamado:

Conservas de Besouros Escudo

500 Encantamentos

Todos com a Garantia de 100% de Eficácia

Ideal para o Feiticeiro Moderno consciente de Questões de Segurança

— Venham, sentem-se — chamou Tia Zelda, desimpedindo um espacinho para eles na mesa. — Estamos fazendo Potes de Conserva. A Marcia está preparando os Encantamentos, e vocês podem preparar os besouros, se quiserem.

Jenna e Nicko sentaram-se à mesa, tendo o cuidado de respirarem apenas pela boca. O cheiro vinha da panela de papa verde brilhante que o Garoto 412 remexia lentamente, com grande concentração e cuidado.

— Aqui estão. Tomem os besouros. — Tia Zelda empurrou uma grande tigela na direção de Jenna e Nicko. Jenna espiou lá dentro. A tigela estava cheia de besouros de todos os tamanhos e feitios.

— Yaargh! — Jenna até estremeceu; não gostava nada de bichos rastejantes. Nicko também não estava nada entusiasmado. Desde que Edd e Eric tinham lhe enfiado uma centopéia pelo pescoço abaixo quando era pequeno, tinha sempre evitado tudo o que se arrastasse ou desatasse a fugir.

Mas Tia Zelda nem sequer percebeu.

— Bobagem, são apenas umas criaturinhas minúsculas com muitas perninhas. E têm muito mais medo de vocês dois, do que vocês têm deles. Vamos, primeiro a Marcia vai passar o Encantamento de mão em mão. Cada um de nós tem que segurar o Encantamento que é para o besouro nos Gravar e se lembre de nós quando o soltarmos, e depois vai colocar cada Encan­tamento num frasco. Cada um de vocês pode ir passando um besouro ao, ahn, Garoto 412. Ele enche o frasco com o Conservante, e eu vol­to a apertar as tampas com força. Assim, acabamos num instantinho.

E foi isso que fizeram, só que Jenna acabou apertando as tampas, depois do primeiro besouro subir por seu braço acima e dela só ter conseguido desalojá-lo aos pulos e gritos.

Foi um alívio quando chegaram ao último frasco. Tia Zelda desapertou a tampa e passou-o a Marcia, que virou a página do livro de feitiços e tirou de lá mais um pequeno Encantamento em forma de escudo. Fez o Encantamento passar de mão em mão, para que todos pudessem segurá-lo por um momento, depois deixou-o cair no interior do frasco de conserva e passou-o para Nicko. Com esta é que Nicko não estava contando. Do fundo do frasco espreitava o último inseto, uma enorme centopéia vermelha, igualzinha àquela que tinha corrido por seu pescoço abaixo há anos atrás. Estava frenética, dando voltas no fundo do frasco à procura de um lugar onde se esconder. Se não tivesse causado um estremecimento tão grande em Nicko, ele talvez até tives­se tido pena do bicharoco, mas a única coisa que conseguia pensar era: tenho que pegar nela. Marcia estava esperando, com o Encantamento já no frasco. O Garoto 412 estava parado com a última colherada cheia de papa de Conservante na mão, e todo mundo estava esperando.

Nicko respirou fundo, fechou os olhos e mergulhou a mão no frasco. A centopéia viu a mão e fugiu para o outro lado do frasco. Nicko tateou o fundo do frasco, mas a centopéia era rápida demais para ele. Fugia de um lado para o outro, até ter avistado o abrigo que constituía a manga pendente de Nicko e correu para lá.

— Apanhou-a! — exclamou Marcia. — Está na manga. Rá­pido, para o frasco. — Sem se atrever a espiar, Nicko sacudiu freneticamente a manga por cima do frasco e acabou virando-o. O Encan­tamento saltitou por cima da mesa, caiu no chão e Desapareceu.

— Bolas — disse Marcia. — São um bocado instáveis. — Tirou outro Encantamento do livro e enfiou-o rapidamente no frasco, esquecendo-se de Gravá-lo.

— Apresse-se, vamos. Anda — instou Marcia, irritada. — O Con­servante está se dissipando rapidamente. Anda.

Estendeu a mão e deu um hábil piparote na centopéia que se agarrava à manga de Nicko, atirando-a diretamente para dentro do frasco. O Garoto 412 cobriu-a rapidamente com a pegajosa papa de Conservante verde. Jenna apertou a tampa com força, pousou o frasco sobre a mesa com um gesto floreado, e todos ficaram olhando o último Frasco de Proteção se transformando.

A centopéia estava no fundo do Pote de Conserva em autên­tico estado de choque. Estava dormindo debaixo de sua pedra favorita, quando uma Coisa Enorme com uma Cabeça Vermelha tinha pegado a pedra e a tinha erguido até o Espaço. Mas o pior ainda estava por vir: a centopéia, que era uma criatura solitária, tinha sido atirada numa pilha de besouros barulhentos, sujos e verdadeiramente malcriados, que a empurraram, sacudiram e até tentaram morder suas pernas. A centopéia não gostava que ninguém se metesse com suas pernas. Tinha uma boa quantidade de pernas e cada uma delas tinha que ser mantida em perfeito estado de funcionamento; caso contrário, a centopéia poderia se meter numa grande confusão. Bastava uma perna mais esquiva e pronto: uma centopéia podia ficar correndo em círculos para toda a eternidade. E assim a centopéia tinha aberto caminho até o fundo daquela pilha de besouros sem categoria e amuara, até subi­tamente perceber que todos os outros besouros tinham desapa­recido e não havia mais nenhum lugar onde se esconder. Todas as centopéias sabiam que não ter nenhum lugar para se esconder era o mesmo que o fim do mundo e agora via que era bem verdade porque ali estava ela, flutuando numa papa verde pegajosa, enquanto lhe acontecia uma coisa terrível. Uma a uma, estava perdendo suas pernas.

Não só isso, mas o seu longo corpo esguio estava se tornando mais curto e mais gordo e a centopéia tinha agora a forma de um triângulo rechonchudo com uma cabecinha pontiaguda. Nas costas tinha um par de rijas asas verdes encouraçadas e a frente estava coberta de pesa­das escamas verdes. E como se isso não bastasse, a centopéia agora só tinha quatro patas. Quatro grossas patas verdes. Se é que podiam se chamar de pernas. Certamente não eram aquilo que a centopéia cha­maria de pernas. Tinha duas em cima e duas embaixo. As duas patas de cima eram mais curtas que as de baixo. Tinha cinco coisas pontiagudas no extremo de cada uma, que a centopéia podia mexer à vontade e uma das pernas superiores estava agarrando uma pequena vara de metal afiado. As pernas de baixo tinham umas coisas verdes, achatadas e grandes, nas extremidades e cada uma dessas coisas tinha cinco outras daquelas coisinhas pontiagudas. Era um completo desastre. Como alguém podia viver com apenas quatro patas gordas terminadas em coisinhas pontiagudas? Que tipo de criatura podia ser essa?

Essa criatura, embora a centopéia não soubesse, era um Besouro Escudo.

A ex-centopéia, que era agora um Besouro Escudo completo, pairava em suspensão no espesso Conservante verde. O besouro moveu-se lentamente, como se estivesse experimentando sua nova forma. Tinha uma expressão de surpresa no rosto enquanto espreitava o mundo através daquela névoa esverdeada, aguardando o momento em que seria libertada.

— O Besouro Escudo perfeito — comentou Marcia, orgulhosa, segurando o frasco de compota na frente da luz e admirando a ex-centopéia. — Foi o que saiu melhor de todos. Bom trabalho, pessoal.

Em breve todos os cinqüenta e sete frascos de conserva estavam ali­nhados pelos parapeitos, protegendo a choupana. Eram uma imagem estranha, seus ocupantes de um verde brilhante flutuando sonha­doramente na papa verde, passando o tempo a dormir até que alguém abrisse as tampas dos frascos e os libertasse. Quando Jenna perguntou a Marcia o que acontecia quando alguém desenroscava a tampa, Marcia respondeu-lhe que o Besouro Escudo pulava para fora e a defendia dura­mente, até à morte, ou até conseguirem voltar a apanhá-lo e enfiá-lo no frasco, o que quase nunca acontecia. Um Besouro Escudo liberto não tinha a menor intenção de voltar para o frasco de novo.

Enquanto Tia Zelda e Marcia limpavam os potes e panelas, Jenna sentou-se à porta, escutando toda aquela balbúrdia que vinha da cozinha. Quando o entardecer começou a cair, viu aquelas cin­qüenta e sete fontes de luz verde refletirem-se no chão de pedra, e em cada uma delas viu uma pequena sombra que se movia lentamente, à espera que chegasse o seu momento de liberdade.

 

Pela meia-noite, todo mundo na choupana já estava dormindo. Com exceção de Marcia. O vento leste estava soprando de novo, desta vez trazendo a neve consigo. Ao longo dos parapeitos, os Potes de Conserva tilintavam melancolicamente enquanto as criaturas no seu interior se agitavam molemente, perturbadas pela tempestade que soprava lá fora.

Marcia estava sentada à escrivaninha de Tia Zelda, apenas com uma pequena vela bruxuleante, para não acordar aqueles que dormiam junto da lareira. Estava imersa em seu livro, O Desfazer da Escuridão.

No exterior, flutuando bem abaixo da superfície do Mott para se proteger da neve, o Boggart montava uma guarda solitária.

 

Longe dali, na Floresta, Silas também montava uma guarda soli­tária no meio da nevasca, que era suficientemente pesada para que a neve descobrisse o caminho entre o intrincado de galhos das árvo­res. Estava de pé, tremendo ligeiramente, sob um olmo alto e forte, aguardando a chegada de Morwenna Mould.

Morwenna Mould e Silas conheciam-se há muito tempo. Silas era um jovem Aprendiz, encarregado de um recado noturno para Alther, na Floresta, quando ouviu um som capaz de gelar o sangue de uma matilha esfomeada de carcajus. Sabia bem o que isso significava: tinham escolhido a presa desta noite e estavam fechando o cerco para a matança. Silas teve pena do pobre animal. Sabia muito bem como era aterrorizador estar cercado por um círculo de olhinhos amarelos brilhantes de carcajus. Já tinha lhe acontecido uma vez, e nunca mais se esquecera da sensação, mas ele tinha a sorte de ser um Feiticeiro. Tinha executado um rápido Paralisador e fugira dali.

No entanto, ao levar o recado nesta noite, Silas ouviu uma vozinha sussurrar-lhe no interior do crânio. Ajude-me...

Alther tinha-lhe ensinado a dar atenção a essas coisas, por isso Silas seguiu a voz até dar consigo no exterior de um círculo de carcajus. No interior do círculo estava uma jovem bruxa. Paralisada.

A princípio, Silas pensou que a jovem bruxa estava apenas para­lisada de medo. Estava imóvel no meio do círculo, os olhos esbugalhados de terror, o cabelo desgrenhado de ter corrido pela Floresta para escapar à matilha de carcajus, o pesado manto negro apertado contra o corpo.

Silas demorou algum tempo até compreender que, em pânico, a jovem bruxa tinha Paralisado a si mesma em vez dos carcajus, ofe­recendo-lhes o jantar mais fácil de apanhar desde o último exercício noturno de Fazer-ou-Morrer do Exército da Juventude. Com Silas olhando, os carcajus começaram a apertar o cerco para a matança. Lenta e deliberadamente, antecipando a perspectiva de um lauto manjar, moveram-se em círculos em torno da jovem bruxa, aproximando-se cada vez mais. Silas aguardou até ter todos os carcajus debaixo dos olhos, depois Paralisou rapidamente toda a matilha. Sem ter certeza de qual era a melhor forma de DesFazer um feitiço de bruxa, Silas pegou a jovem bruxa, que por sorte era uma das Bruxas Wendron menores e mais leves, e levou-a para um lugar seguro. Depois esperou com ela toda a noite, até que o Paralisador se esvaísse.

Morwenna Mould nunca mais esqueceu aquilo que Silas tinha feito por ela. Desde essa época, sempre que se aventurava pela Flo­resta, Silas sabia que podia contar com as Bruxas Wendron do lado dele. E também sabia que Morwenna Mould estaria pronta para ajudá-lo sempre que ele precisasse. Tudo o que precisava fazer era espe­rar atrás de sua árvore, à meia-noite. E era isso que, depois de todo aquele tempo, estava fazendo agora.

— Ora, ora, se não é o meu bravo e valente Feiticeiro. Silas Heap, o que te o traz aqui, ainda por cima nesta noite, a nossa Véspera de Solstício do Inverno? — Uma voz suave, com um suave sotaque da Floresta, como o restolhar de folhas nas árvores, soou na escuridão.

— Morwenna, é você? — perguntou Silas, um bocado agitado, levantando-se de um salto e correndo os olhos em volta.

— Com certeza que sou eu — disse Morwenna, surgindo da noite, rodeada por uma revoada de flocos de neve. Sua capa de pêlo negro estava enfarinhada de neve, assim como seu longo cabelo negro, que ela mantinha preso com a tradicional fita de couro verde das Bruxas Wendron. Seus olhos azuis muito brilhantes refulgiam na escuri­dão, tal como os olhos de todas as bruxas; tinham estado a observar Silas sob o olmo durante algum tempo antes de Morwenna ter se convencido de que não havia qualquer perigo em aparecer.

— Olá, Morwenna — saudou Silas, subitamente tímido. — Não mudou nada. — Na verdade, Morwenna tinha mudado bastante. Havia muito mais Morwenna agora do que da última vez que Silas a tinha visto. Com certeza não poderia pegá-la e levá-la para longe de um círculo de carcajus esfomeados tão cedo.

— Nem você, Silas Heap. Vejo que ainda tem esse seu louco cabelo cor de palha, e esses maravilhosos olhos verdes. Em que posso aju­dá-lo? Tenho estado à espera de uma oportunidade de poder retribuir o favor que me fez. Uma Bruxa Wendron nunca esquece.

Silas sentia-se muito nervoso. Não sabia porquê, mas tinha alguma coisa a ver com a proximidade de Morwenna. Esperava ter tomado a opção correta ao encontrar-se com ela.

— Eu, aaanh... Lembra-se do meu filho mais velho, o Simão?

— Bom, Silas, lembro-me de que tinha um bebezinho chamado Simão. Contou-me tudo sobre ele enquanto eu estava me DesParalisando. Estava tendo problemas com os dentes, lembra-se? E você se queixava de que não conseguia dormir. Como andam os dentes dele agora?

— Os dentes? Oh, bem, tanto quanto sei. Ele já tem dezoito anos agora, Morwenna. E há duas noites, desapareceu na Floresta.

— Ah. Isso não é nada bom. Agora há Coisas à solta pela Flo­resta. Coisas que vieram do Castelo. Coisas que nunca tínhamos visto antes. Não é bom que um rapaz ande no meio delas. Nem um Feiti­ceiro, Silas Heap. — Morwenna pousou uma mão no braço de Silas. Ele pulou, sobressaltado.

Morwenna baixou a voz até não passar de um rouco sussurro.

— Nós, as bruxas, somos sensitivas, Silas.

Silas não conseguiu mais do que um pio esganiçado como res­posta. Morwenna conseguia ser bastante assustadora. Tinha se esque­cido o tão Poderosa que era uma Bruxa Wendron adulta.

— Sabemos que uma terrível Escuridão se instalou no coração do Castelo. Na Torre dos Feiticeiros, mais exatamente. E pode ter Apanhado o seu rapaz.

— Tinha esperança de que o tivesse visto — disse Silas, soturno.

— Não — disse Morwenna. — Mas vou ficar atenta. Se encon­trá-lo, não tema, pois o farei chegar em segurança.

— Obrigado, Morwenna — disse Silas, verdadeiramente grato.

— Não é nada, Silas, comparado com o que fez por mim. Sinto-me grata por poder estar aqui a ajudá-lo. Se puder.

— Se... se souber de alguma coisa, pode nos encontrar na casa-na-árvore de Galena. Estou lá com a Sara e os rapazes.

— Tem mais rapazes?

— Aanh... sim. Mais cinco. Tivemos sete ao todo, mas...

— Sete. Uma dádiva. Um sétimo filho de um sétimo filho. Mágyko, sem dúvida.

— Morreu.

— Ah. Lamento, Silas. Uma grande perda. Para todos nós. Seria muito bom tê-lo conosco, agora.

— Era sim.

— Por hora vou deixá-lo, Silas. Vou colocar a casa-na-árvore e todos os que nela se encontram sob nossa proteção, pelo que isso possa servir contra a crescente Escuridão. E amanhã, todos os da casa-na-árvore estão convidados para o nosso Festival de Solstício de Inverno.

Silas estava sensibilizado.

— Obrigado, Morwenna. E muito amável de sua parte.

— Até à próxima, Silas. Desejo-lhe tudo de bom e um feliz Dia de Festa amanhã. — E com essas palavras a Bruxa Wendron voltou a desa­parecer na Floresta, deixando Silas sozinho sob o olmo imponente.

— Adeus, Morwenna — sussurrou para a escuridão e apressou-se sob a nevasca, de volta à casa-na-árvore, onde Sara e Galena estavam à espera, para lhes contar o que se tinha acontecido.

Na manhã seguinte, Silas tinha decidido que Morwenna tinha razão. Simão devia ter sido Apanhado e levado para o Castelo. Alguma coisa lhe dizia que era lá que Simão estava.

Já Sara não estava convencida.

— Não sei por que está dando tanta importância a essa bruxa, Silas. Não é propriamente como se ela tivesse certeza de nada. Imagine se Simão ainda está na Floresta, e você acaba sendo Apanhado. Depois como ficamos?

Mas não conseguia dissuadir Silas. Mudou sua roupa para a curta túnica cinzenta, com capuz, de um simples trabalhador, despediu-se de Sara e dos rapazes e desceu da casa-na-árvore. O aroma dos cozi­dos do Festival de Solstício de Inverno das Bruxas Wendron quase o convencia a ficar, mas partiu resoluto à procura de Simão.

— Silas! — chamou Sally, quando ele tinha chegado ao solo. — Pegue!

Sally deixou cair o FicaEmSegurança que Marcia tinha lhe dado. Silas apanhou-o. — Obrigado, Sally.

Sara viu-o puxar o capuz sobre os olhos e partir através da Floresta em direção ao Castelo, suas palavras de despedida gritadas por sobre o ombro:

— Não se preocupe. Não demoro a voltar. Com o Simão.

Mas ela preocupou-se.

E ele não voltou.

 

— Não, obrigada, Galena. Não vou ao Festival de Solstício de Inverno dessas bruxas. Nós, os Feiticeiros, não celebramos essa data — disse Sara a Galena, depois de Silas ter partido nessa manhã.

— Pois, eu vou — afirmou Galena —, e acho que todos devíamos ir. Não é de ânimo leve que se recusa um convite das Bruxas Wendron, Sara. É uma honra receber um convite desses. Na verdade, nem sei como é que o Silas conseguiu que nos convidassem.

— Humf — foi a única resposta de Sara.

Mas com o avançar da tarde e com o aroma de carcaju assado pairando sobre a Floresta e subindo até à casa-na-árvore, os rapazes come­çaram a mostrar-se muito agitados. Galena comia apenas vegetais, frutos e nozes, ou seja, como Erik tinha observado bem alto logo após a primeira refeição com ela, exatamente aquilo que se dava para comer aos coelhos em casa.

A neve caía pesadamente por entre as árvores quando Galena abriu o alçapão da casa-na-árvore. Servindo-se de um inteligente sis­tema de roldanas que ela própria tinha criado, baixou a longa escada de madeira até esta estar pousada no tapete de neve que agora co­bria o chão. A própria casa-na-árvore estava construída como uma série de plataformas que uniam três velhos carvalhos e tinha feito parte integrante desses mesmos carvalhos desde que tinham atin­gido a sua altura máxima, há muitas centenas de anos. Uma profusa confusão de cabanas tinha sido acrescentada à plataforma ao longo dos anos. Estavam cobertas de heras e misturavam-se tão per­feitamente com a árvore, que eram invisíveis para quem olhasse de baixo.

Sam, Edd e Erik, e Jo-Jo partilhavam a cabana de hóspedes bem no topo da árvore do meio e tinham a sua própria corda para escor­regar até o chão da Floresta. Enquanto os rapazes discutiam para decidir quem ia ser o primeiro a descer pela corda, Sara e Sally saíam de forma bem mais tranqüila pela escada principal.

Galena tinha se aprontado toda para o Festival de Solstício de Inverno. Já tinha sido convidada para um há muitos anos, depois de ter curado a filha de uma das bruxas, e por isso sabia que era um acon­tecimento único. Galena era uma mulher de pequena estatura, algo marcada por longos anos passados fora dos muros, na Floresta. Tinha cabelo curto e desgrenhado, de um vermelho brilhante, sorridentes olhos castanhos e, geralmente, vestia apenas uma curta túnica verde, polainas e uma capa. Mas hoje, hoje tinha posto o seu vestido de Festival de Solstício de Inverno.

— Caramba, Galena, deu-se mesmo ao trabalho — exclamou Sara, com um ligeiro toque de repreensão. — Nunca tinha visto esse vestido antes. É... é muito impressionante.

Galena não costumava sair muitas vezes, mas quando saía, vestia-se a rigor. O seu vestido parecia ser feito de centenas de folhas multicoloridas, todas cosidas umas às outras e unidas no meio por uma brilhante faixa verde.

— Oh, obrigada — disse Galena. — Fui eu que o fiz.

— Também achei que sim — disse Sara.

Sally Mullin empurrou a escada para cima através do alçapão, e o grupo pôs-se a caminho pela Floresta, seguindo o delicioso aroma de carcaju no espeto.

Galena conduziu-os pelas trilhas da Floresta, as quais estavam cobertas por um tapete recente de neve e pontilhada por um entrecruzado de rastros de animais de todos os tamanhos e feitios. Depois de uma longa marcha através de um labirinto de trilhas, canais e barrancos, chegaram ao que em tempos tinha sido uma pedreira de ardósia que fornecia o Castelo. Era ali que as Assembléias das Bruxas Wendron tinham lugar agora.

Ali, em torno de uma fogueira no centro da pedreira, estavam reu­nidas trinta e nove bruxas, todas vestidas com seus mantos verme­lhos do Festival de Solstício de Inverno. O chão estava espargido de flores recém-cortadas e enfarinhadas pela neve que caía suavemente em torno delas, boa parte dela derretendo-se e assobiando ao calor das chamas. Respirava-se um aroma embriagante de comida temperada com especiarias: espetos eram girados, carcajus eram assados, coelhos eram guisados em caldeirões borbulhantes e esquilos eram cozidos em fornos subterrâneos. Uma mesa comprida estava atravancada com todo o tipo de pratos doces e apimentados. As bruxas tinham negociado aquelas iguarias com os Mercadores Nortenhos e tinham-nas guar­dado para aquela ocasião, o dia mais importante do ano. Os rapazes arregalavam os olhos de assombro. Nunca tinham visto tanta comida junta num só lugar na vida. Até Sara tinha que admitir para si mesma que era uma coisa impressionante.

Morwenna Mould viu-os à entrada da pedreira, hesitantes. Levan­tou o manto vermelho e foi até eles, para recebê-los.

— Sejam bem-vindos. Por favor, juntem-se a nós.

As bruxas afastaram-se respeitosamente para permitirem que Morwenna, a Bruxa Mãe, acompanhasse os seus convidados, excessi­vamente intimidados, até aos melhores lugares junto da fogueira.

— Estou tão contente por finalmente conhecê-la, Sara. — Mor­wenna sorriu. — Sinto-me como se já a conhecesse há muito. O Silas fartou-se de falar de você na noite em que me salvou.

— Ah foi? — perguntou Sara.

— Oh, sim. Falou toda a noite sobre você e o bebê.

— Verdade?

Morwenna pôs um braço sobre os ombros de Sara.

— Todas nós andamos à procura do seu filho. Tenho certeza que tudo vai acabar bem. E com os seus outros três que agora estão longe de você. Tudo vai estar bem com eles também.

— Os meus outros três? — perguntou Sara.

— Os seus outros três filhos.

Sara fez uma breve contagem. Às vezes, nem ela conseguia se lem­brar quantos eram eles.

— Dois — disse por fim. — Os meus outros dois.

O Festival de Solstício de Inverno prolongou-se bem noite aden­tro e depois de um bom tempo de Cerveja das Bruxas, Sara conseguiu esquecer completamente suas preocupações com Simão e Silas. Infe­lizmente, elas voltaram rapidamente na manhã seguinte, juntamente com uma terrível dor de cabeça.

 

O Dia do Festival de Solstício de Inverno de Silas foi muito mais contido.

Seguiu pelo caminho ribeirinho que corria ao longo da orla da Floresta, antes de contornar as paredes do Castelo e, empurrado por gélidos redemoinhos de neve, dirigiu-se para o Portão Norte. Queria chegar a território familiar antes de decidir o que fazer. Silas puxou o capuz cinzento de forma a cobrir seus olhos verdes de Feiticeiro, respirou fundo, e avançou pela ponte levadiça coberta de neve, que levava ao Portão Norte.

Gringe estava de serviço à entrada e estava de péssimo humor. As coisas no lar de Gringe não andavam lá muito boas e ele tinha estado a pensar nos seus problemas domésticos durante toda a manhã.

— Ei, você — grunhiu Gringe, batendo com os pés na neve fria —, apresse-se. Já está atrasado para a limpeza obrigatória das ruas.

Silas apressou-se a passar por ele.

— Não tenha tanta pressa! — ladrou Gringe. — Para você é uma moeda de prata.

Silas remexeu no bolso e pescou de lá uma moeda de prata, ainda pegajosa com as delícias de cereja e pastinaga que ele tinha enfiado no bolso para não ter que come-las. Gringe pegou a moeda e cheirou-a, desconfiado, depois esfregou-a no colete e colocou-a de lado. A Sra. Gringe tinha a deliciosa tarefa de, todas as noites, limpar o dinheiro pegajoso, e por isso ele limitou-se a acrescentá-la à pilha dela e deixou Silas passar.

— Escuta aqui, não te conheço de algum lugar? — perguntou Gringe enquanto Silas se apressava a passar por ele.

Silas negou com um movimento de cabeça.

— Dança Morris?

Silas voltou a negar com a cabeça e continuou a andar.

— Aulas de alaúde?

— Não! — Silas esgueirou-se para as sombras e desapareceu por um beco.

— Eu o conheço — murmurou Gringe para si mesmo. — E tam­bém não é nenhum trabalhador. Não com aqueles olhos verdes bri­lhando como duas lagartas num balde de carvão. — Gringe pôs-se a pensar um bocado. — É Silas’eap! Tem a cara de voltar aqui. Mas eu não demoro a encontrá-lo.

Não demorou muito até Gringe encontrar um Guarda de passagem e, em breve, o Guardião Supremo já tinha sido informado da volta de Silas ao Castelo. Mas por muito que se esforçasse, não conseguia encontrá-lo. O FicaEmSegurança de Marcia cumpria exemplarmente a sua função.

Silas, entretanto, tinha se apressado em chegar aos velhos Bairros, satisfeito por se livrar de Gringe e da neve. Sabia onde ir; não sabia porquê, mas queria voltar a ver sua casa. Silas esgueirou-se pelos corredores escuros, mas familiares. Estava satisfeito com o seu disfarce, pois ninguém prestava atenção a um trabalhador de pouca importância, mas Silas nunca tinha notado de quão pouco respeito lhes era prestado. Ninguém se afastava para deixá-lo passar. As pessoas empur­ravam-no para o lado, permitiam que portas se fechassem na sua cara e, por duas vezes, foi-lhe dito de forma pouco educada que devia estar lá fora limpando as ruas.

Talvez, pensou Silas, ser um mero Feiticeiro Normal não era assim tão mau.

A porta para o apartamento dos Heap estava desamparadamente aberta. Pareceu não reconhecer Silas quando ele entrou na ponta dos pés para a sala onde tinha passado grande parte dos últimos vinte e cinco anos de sua vida. Silas sentou-se na sua cadeira artesanal favorita, e correu tristemente os olhos pela sala, perdido em cogitações. Parecia estranhamente pequena, na ausência de crianças, barulho e de Sara, que presidia ao rebuliço diário. E, mesmo a Silas, que nunca se impor­tara muito com um pouco de pó aqui e ali, parecia embaraçosamente suja.

— Viviam mesmo numa lixeira, não é? Escumalha de Feiticeiros. Nunca tive muito tempo p’ra eles — disse uma voz dura. Silas vol­tou-se, para se deparar com um homem encorpado junto da entrada. Por trás dele, no corredor, podia ver um grande carrinho de madeira.

— Num pensei que fossem mandar alguém p’ra m’ajudar. Inda bem que mandaram. Eu sozinho levaria o dia todo. Bem, o carrinho ‘tá lá fora. É p’ra ir tudo p’ro lixo. Os livros de Magya é p’ra queimar. Pegou?

— O que?

— M’Deus. Mandaram-me um atrasadinho. Lixo. Carrinho. Lixeira. Não é propr’amente Alquimia. Agora manda p’ra cá esse monte de madeira em qu’está estacionado e mãos à obra.

Silas levantou-se da cadeira, como se estivesse num sonho e entre­gou-a ao homem da remoção, que pegou-a e atirou para o carrinho de mão. A cadeira desfez-se e espalhou-se em pedaços pelo fundo do carrinho. Não demorou muito a ficar debaixo de uma enorme pilha de pertences que os Heap tinham acumulado ao longo de uma vida. O carrinho estava praticamente transbordando.

— Muito bem — disse o homem da remoção. — Vou levar isto à lixeira antes que feche, enquanto você põe os livros de Magya lá fora. Os bombeiros vão recolhê-los amanhã, quando fizerem a ronda matinal.

Estendeu uma grande vassoura a Silas.

— Fica varrendo esse pêlo de cão n’jento e tudo mais. Depois pode ir pr’a casa. Parece cansado. Num ‘tá habituado a trabalho duro, heim! — O homem da remoção soltou uma risadinha e deu uma palmada, que pretendia ser amistosa, nas costas de Silas. Silas tossiu e sorriu com ar triste.

— Num s’esqueça dos livros de Magya — foi a despedida do homem, enquanto empurrava o carrinho abarrotado pelo corredor abaixo, em direção à Lixeira de Detritos da Amenidade Ribeirinha.

Como num transe, Silas varreu vinte e cinco anos de acumulação de pó, pêlo de cão e lixo, para um montinho ordenado. Depois olhou com pena para os seus livros de Magya.

— Se quiser te dou uma mãozinha — disse a voz de Alther perto dele. O fantasma pousou um braço sobre os ombros de Silas.

— Oh. Olá, Alther — cumprimentou Silas, sombriamente. — Que dia.

— É, não foi nada bom, não. Lamento muito, Silas.

— Foi-se... tudo — murmurou Silas —, e agora os livros também. Tínhamos alguns bem bons aqui. Muitos Encantamentos raros... e tudo vai ser queimado.

— Não necessariamente — comentou Alther. — Cabem perfeita­mente no seu quarto no sótão. Se quiser ajudo-o com o Feitiço de Remoção.

Silas ficou um bocado mais animado.

— Lembre-me só como é, Alther, e eu consigo fazê-lo. Tenho certeza que consigo.

A Remoção de Silas funcionou muito bem. Os livros alinharam-se ordenadamente, o alçapão abriu-se e, um a um, os livros voaram pela abertura e empilharam-se no antigo quarto de Silas e Sara. Um ou dois dos livros mais teimosos dirigiram-se para a porta e já iam a meio do corredor quando Silas conseguiu Trazê-los de volta, mas quando o feitiço se dissipou, os livros de Magya estavam sãos e salvos no sótão e Silas tinha até Camuflado o alçapão. Agora, ninguém conseguiria adivinhar o que havia ali.

E assim Silas saiu pela última vez do seu quarto, vazio e cheio de ecos, e desceu pelo Corredor 223. Alther flutuava ao lado dele.

— Venha sentar-se conosco um pouco — convidou Alther. — Vamos até o Buraco na Parede.

— Vamos onde?

— Eu também só o descobri há pouco tempo. Foi um dos Antigos que me mostrou. É uma velha taverna no interior das paredes do Cas­telo. Foi emparedado há uns anos atrás por uma das Rainhas, que não gostava de cerveja. Parece que desde que se tenha andado pelas paredes do Castelo — e quem não andou? — qualquer fantasma pode entrar lá, por isso está sempre apinhado. Mas tem um ótimo ambiente — pode ser que se anime.

— Não sei se me apetece muito, Alther, mas obrigado mesmo assim. Não foi ali que emparedaram a freira?

— Oh, ela é muito divertida, a Irmã Bernadette. Adora uma boa caneca de cerveja. Costuma ser a vida e a alma de qualquer festa. Por assim dizer. De qualquer forma, tenho novidades do Simão que acho que deveria ouvir.

— Do Simão! Ele está bem? Onde está? — perguntou Silas.

— Está aqui, Silas. No Castelo. Venha até o Buraco na Parede. Há uma pessoa lá com quem devia falar.

 

O Buraco na Parede estava apinhado.

Alther tinha levado Silas até um amontoado de pedras tombadas contra a parede do Castelo, a pouco distância do Portão Norte. Ali tinha lhe mostrado uma estreita fenda na parede, escondida pela pilha de destroços e Silas mal tinha conseguido enfiar-se por ali. Uma vez do outro lado, encontrou-se num outro mundo.

O Buraco na Parede era uma caverna antiga construída no interior da parede do Castelo. Quando Marcia tinha se servido de um atalho para o Lado Norte há uns dias, parte do caminho tinha passado por cima do teto da taverna, mas ela não tinha percebido o conjunto heteróclito de fantasmas que passavam o tempo conversando, bem por baixo dos seus pés.

Levou algum tempo até que os olhos de Silas, que vinha do brilho da neve, se habituassem à luz suave dos candeeiros que bruxuleavam ao longo das paredes. Mas, quando finalmente se habituaram, viu a mais estranha coleção de fantasmas que jamais tinha visto. Estavam reunidos em volta de compridas mesas de cavalete, ou em pequenos grupos perto da lareira fantasma, ou até sentados em silen­ciosa contemplação num canto mais sossegado. Havia ali um grande contingente de Feiticeiros ExtraOrdinários, as suas capas e mantos púrpura abarcando as várias modas ao longo dos séculos. Havia cava­leiros em armadura completa, pajens em brocados extravagantes, mulheres com véus, jovens Rainhas com longos vestidos de seda e Rainhas mais velhas vestidas de preto, todos desfrutando da compa­nhia uns dos outros.

Alther conduziu Silas pelo meio da multidão. Silas esforçou-se ao máximo para não atravessar nenhum deles, mas uma ou outra vez sentiu uma brisa gélida ao atravessar um fantasma. Ninguém pareceu se importar — alguns cumprimentaram-no de forma amigável com um aceno de cabeça, enquanto outros estavam tão embrenhados em suas conversas infindáveis que nem perceberam — e Silas ficou com a impressão que qualquer amigo de Alther era um convidado bem-vindo ao Buraco na Parede.

O fantasmagórico dono da taverna há muito já tinha desistido de pairar por perto dos barris de cerveja, pois todos os fantasmas ainda segu­ravam a mesma caneca de cerveja que tinham recebido quando entraram lá pela primeira vez e algumas delas já tinham durado mui­tas centenas de anos. Alther saudou efusivamente o dono, que estava conversando animadamente com três Feiticeiros ExtraOrdinários e um velho vagabundo que tinha adormecido debaixo de uma das mesas e nunca mais acordara. Depois levou Silas até um canto mais calmo onde uma figura rechonchuda, num hábito de freira, estava sentada à espera deles.

— Permita-me que lhe apresente à Irmã Bernadette — disse Alther. — Irmã Bernadette, este é Silas Heap — aquele de quem tenho lhe falado. É pai do rapaz.

Apesar do caloroso sorriso de Irmã Bernadette, Silas teve uma sensação de fatalidade.

A freira de cara rechonchuda voltou seus olhos brilhantes para Silas, e disse numa voz suave e cadenciada. — É um rapaz e tanto, o seu filho, não é? Sabe o que quer e não tem medo de ir atrás do que quer.

— Sim, suponho que sim. E quer mesmo ser um Feiticeiro, isso eu sei. Quer uma Aprendizagem, mas claro, da maneira como estão as coisas...

— Ah, não é uma boa hora para se ser um Feiticeiro jovem e voluntarioso, com certeza — concordou a freira —, mas não foi por isso que ele voltou ao castelo, sabia?

— Então, ele voltou. Oh, é um alívio. Pensei que tivesse sido capturado. Ou... sido morto.

Alther pôs uma mão no ombro de Silas.

— Infelizmente, Silas, ele foi capturado ontem. A Irmã Bernadette estava lá. Ela contará como foi.

Silas levou as mãos à cabeça e gemeu.

— Como foi? — perguntou. — O que aconteceu?

— Pois bem — disse a freira —, parece que o jovem Simão tinha uma namorada.

— Tinha?

— Pois é verdade. Chamada Lucy Gringe.

— A filha de Gringe, Guarda do Portão? Oh, não.

— Tenho certeza de que é uma boa menina, Silas — censurou a Irmã Bernadette.

— Pois espero que não seja nada parecida com o pai dela, é só o que posso dizer. Lucy Gringe. Oh, bolas.

— Pois bem, Silas, parece que o Simão voltou ao Castelo por uma questão urgente. Ele e Lucy tinham um encontro secreto na capela. Para se casarem. É tão romântico. — A freira sorriu, sonha­dora.

— Casar? Não acredito. Sou parente do horrível Gringe. — Silas estava mais pálido do que alguns dos ocupantes da taverna.

— Não, Silas, não é — disse a Irmã Bernadette reprovadoramente. — Porque, infelizmente, o jovem Simão e Lucy não che­garam a se casar.

— Infelizmente?

— Gringe descobriu e denunciou-os aos Guardiães. Tinha tanta vontade que a filha dele se casasse com um Heap, como você que o Simão se casasse com uma Gringe. Os Guardiães invadiram a capela, manda­ram a desolada noiva para casa e levaram Simão com eles. — A freira suspirou. — Tão cruel. Foi tudo tão cruel.

— Para onde o levaram? — perguntou Silas, baixinho.

— Ora bem, Silas — disse a Irmã Bernadette com sua voz suave. — Eu mesma estava na capela para o casamento. Adoro casamentos. E o Guardião que estava segurando Simão passou bem através de mim, e por isso fiquei sabendo o que ele estava pensando neste momento. E estava pensando que tinha que levar o seu filho para o Tribunal. Nada mais do que até ao Supremo Guardião. Tenho tanta pena de ter que te dizer isso, Silas. — A freira pousou uma mão fantasma no braço de Silas. Era um gesto caloroso, mas não trazia grande conforto a Silas.

Eram as notícias que Silas mais temia ouvir. Simão estava nas mãos do Supremo Guardião — como ele iria dar a notícia a Sara? Silas passou o resto do dia à espera no Buraco na Parede, enquanto Alther enviava todos os fantasmas que podia até o Tribunal para procurar Simão e descobrir o que estava acontecendo.

Nenhum deles teve sorte. Era como se Simão tivesse desaparecido.

 

No Dia do Festival de Solstício de Inverno, Stanley foi acordado por sua mulher. Tinha uma mensagem urgente do Gabinete dos Ratos.

— Não entendo por que é que, pelo menos hoje, não podem te deixar em paz — queixou-se sua mulher. — Com você é só trabalho, trabalho, trabalho, Stanley. Precisa de umas férias.

— Dawnie, querida — respondeu Stanley, paciente. — Se eu não trabalhar, não podemos ter férias. É simples assim. Disseram para que precisam de mim?

— Não perguntei. — Dawnie encolheu os ombros, mal-humorada. — Calculo que sejam esses desprezíveis Feiticeiros outra vez.

— Não são tão maus assim. Mesmo a Feiticeira ExtraOrd... Ups.

— Oh, então foi lá que esteve?

— Não.

— Foi sim. Não consegue me esconder nada, mesmo que seja um Rato Confidencial. Pois bem, deixe-me dar-lhe um conselho, Stanley.

— Só um?

— Não se meta com Feiticeiros, Stanley. Isso só traz problemas. Acredite em mim, eu sei. A última, aquela tal Marcia, sabe o que ela fez? Roubou a única filha de uma pobre família de Feiticeiros e fugiu com ela. Ninguém sabe porquê. E agora o resto da família — como é que se chamavam? Ah, é isso, os Heap —, pois bem, uniram-se todos e foram atrás dela. Claro, o bom de tudo isso é que agora temos um novo Feiticeiro ExtraOrdinário bem bom, mas já se sabe o trabalho que ele vai ter para endireitar as confusões que a última deixou, por isso não me parece que o vejamos tão cedo. E não é hor­rível o que se passa com aqueles pobres ratos sem-abrigo?

— Que pobres ratos sem-abrigo? — perguntou Stanley, fatigadamente, mortinho para ir ao Gabinete dos Ratos para descobrir qual era a sua próxima missão.

— Aqueles todos que viviam no Salão de Chá e Cerveja de Sally Mullin. Lembra-se da noite em que tivemos o novo Feiticeiro Extra­Ordinário? Pois a Sally Mullin deixou um daqueles horríveis bolos de cevada no forno durante tempo demais e aquilo ardeu até o chão. Agora há trinta famílias de ratos desalojadas. Uma coisa terrível, com este Inverno.

— Sim, terrível. Bem, vou me pôr a caminho, querida. Vejo-a assim que voltar. — Stanley apressou-se a sair para o Gabinete dos Ratos.

O Gabinete dos Ratos ficava no topo da Torre de Vigia do Portão Oriental. Stanley seguiu pelo caminho mais curto, correndo pelo topo das muralhas do Castelo e passando por cima da Taverna Buraco na Parede, que nem sabia que existia. O rato chegou rapidamente à Torre de Vigia e enfiou-se por um cano de escoamento que subia a parede. Logo estava saindo no topo da torre, pulou para o parapeito e bateu à porta de uma pequena cabana, com as palavras:

 

GABINETE OFICIAL DOS RATOS

RESERVADO A RATOS MENSAGEIROS

GABINETE DE APOIO A CLIENTES NO TÉRREO

PERTO DOS CONTENTORES DE LIXO

 

— Entre! — gritou uma voz que Stanley não reconheceu. Stanley entrou na ponta dos pés. Não gostou nada do som daquela voz.

Stanley também não gostou nada do aspecto do rato a quem a voz pertencia. Um enorme rato preto que ele nunca tinha visto antes, estava sentado por trás da escrivaninha. Sua longa cauda rosada estava enrolada sobre o tampo e estremecia impaciente, enquanto Stanley analisava o seu novo patrão.

— É o Confidencial que mandei chamar? — rosnou o rato preto.

— Sou — respondeu Stanley, um pouco hesitante.

— Para você é, sou, sim senhor — disse-lhe o rato negro.

— Oh! — exclamou Stanley, surpreso.

— Oh, senhor — corrigiu o rato negro. — Muito bem, Rato 101...

— Rato 101?

— Rato 101, senhor. Exijo algum respeito por aqui, Rato 101, e conto tê-lo. Começamos pelos números. Todos os Ratos Mensageiros devem ser tratados apenas pelo número. De onde eu venho, um rato numerado é um rato eficiente.

— E vem de onde?

— Senhor. Esqueça — rosnou o rato negro. — Bom, tenho um trabalho para você, 101. — O rato negro pegou numa folha de papel da cesta que tinha puxado desde o Gabinete de Apoio ao Cliente lá embaixo. Era uma encomenda de mensagem e Stanley viu que vinha em papel timbrado do Palácio dos Guardiães. E estava assinado, nada menos que pelo Supremo Guardião.

Mas por alguma razão que Stanley não conseguia compreender, a mensagem que devia entregar não era do Supremo Guardião, mas de Silas Heap. E devia ser entregue à Marcia Overstrand.

— Oh, bolas — exclamou Stanley, com o coração a afundar no peito. Outra viagem através dos Pântanos Marram, a esquivar-se daquela Píton dos Pântanos, era mesmo do que ele não estava precisando.

— Oh, bolas, senhor — corrigiu o rato negro. — A aceitação desta missão não é opcional — rosnou. — E mais uma coisa, Rato 101. Lhe é retirado o Estatuto de Confidencialidade.

— O quê? Não pode fazer isso!

— Senhor. Não pode fazer isso, senhor. Posso sim. Aliás, já fiz. — O rato negro permitiu que um sorriso presunçoso lhe atravessasse os bigodes.

— Mas eu fiz todos os exames, e acabei de conseguir o meu cer­tificado de Alta Confidencialidade. E fiquei à frente...

— E fiquei à frente, senhor. Azar. Estatuto de Confidencialidade revogado. Ponto final. Está dispensado.

— Mas... mas... — gaguejou Stanley.

— Agora, desapareça — berrou o rato negro, com a cauda a chicotear zangada.

Stanley desapareceu.

Como de costume, deixou os impressos no Gabinete de Apoio ao Cliente no térreo. O Rato Escriturário analisou o impresso com a mensagem e apontou com uma pata atarracada para o nome de Marcia.

— Sabe onde encontrá-la, é? — perguntou.

— Claro — respondeu Stanley.

— Ótimo. Era isso que queríamos ouvir — disse o rato.

— Estranho — murmurou Stanley para si mesmo. Não gostava nada do novo pessoal do Gabinete dos Ratos e interrogou-se sobre o que teria acontecido aos bons velhos ratos que trabalhavam lá.

 

Foi uma viagem longa e perigosa, a que Stanley empreendeu naquele dia do Festival de Solstício de Inverno.

Primeiro pegou carona numa pequena barcaça que levava madeira até o Porto. Infelizmente para Stanley, o capitão da barcaça achava que devia manter o gato de bordo magro e mau. E mau ele era com certeza. Stanley passou a viagem tentando desesperadamente evitar o gato, que era um animal enorme e cor de laranja, com presas ama­reladas e um hálito terrível. A sorte acabou-se quando estavam chegando ao Canal Deppen, quando foi encurralado pelo gato e por um marinheiro encorpado, com uma tábua de madeira, e Stanley teve que fazer uma saída antecipada da barcaça.

A água do rio estava gelada e a correnteza era forte, arrastando Stanley rio abaixo enquanto lutava para manter a cabeça à tona da água. Foi só quando chegou ao Porto que conseguiu arrastar-se para terra firme, no molhe.

Stanley deixou-se ficar caído ao fundo dos degraus do molhe, parecendo nada mais do que um pedaço de pêlo molhado. Estava exausto demais para prosseguir. Vozes passavam por cima dele, na parede do molhe.

— Oh, mamãe, olhe! Há um rato morto naqueles degraus. Posso levá-lo para casa e cozinhar para ficar com o esqueleto?

— Não, Petúnia, não pode.

— Mas, mamãe, eu ainda não tenho um esqueleto de rato.

— E também não vai ter. Anda, vamos.

Stanley pensou consigo mesmo que se a Petúnia o tivesse levado com ela para casa, não se oporia a um belo mergulho numa panela de água fervente. Pelo menos esquentaria um bocadinho.

Quando conseguiu se pôr finalmente de pé e se arrastou pelas escadas acima, sabia que tinha que arranjar uma maneira de se aquecer e de encontrar comida antes de poder continuar a viagem. Por isso seguiu o nariz até uma padaria e esgueirou-se para o interior, onde ficou tremendo ao lado dos fornos, aquecendo lentamente. Um grito da mulher do padeiro e um valente golpe com a vassoura obrigou-o a seguir caminho, mas não sem antes ter conseguido comer a maior parte de um donut com compota e roer uns buracos em pelo menos três pães e uma torta de creme.

Sentindo-se revigorado, Stanley pôs-se à procura de uma carona para os Pântanos Marram. Não foi fácil. Embora a maior parte das pessoas no Porto não festejassem o Dia do Solstício de Inverno, muitas tinham se servido disso para se entregarem a um lauto almoço e tirar uma sesta durante a tarde. O Porto estava praticamente deserto. A fria nortada que trazia consigo flocos de neve mantinha longe das ruas todos aqueles que não tivessem mesmo que estar lá e Stanley começava a duvidar se haveria alguém suficientemente tolo para sair em direção aos Pântanos.

E foi então que encontrou o João Tolo e o seu carro de burros.

João Tolo vivia num telheiro na orla dos Pântanos Marram. Ganhava a vida cortando juncos para os telhados de colmo das casas do Porto. Tinha exatamente acabado de fazer a sua última entrega do dia e estava a caminho de casa, quando viu Stanley perto de uns latões de lixo, tremelicando de frio. Os ânimos de João Tolo elevaram-se imediatamente. Adorava ratos, e ansiava pelo dia em que alguém lhe enviasse um recado via Rato Mensageiro, mas não era pela men­sagem que João Tolo realmente ansiava — era pelo rato.

João Tolo deteve o carro de burros junto dos latões de lixo.

— Olá, Ratinho, precisa de uma carona? Tenho um carro quentinho e vou até à orla dos Pântanos.

Stanley pensou que já estava ouvindo coisas.

Era o que você queria, Stanley, disse a si mesmo, com firmeza. Deixe disso.

João Tolo espreitou do carro e sorriu-lhe com o seu melhor sor­riso desdentado.

— Vamos, não seja tímido, rapaz. Pula p’racá.

Stanley hesitou apenas por um breve momento, antes de pular para o carro.

— Venha se sentar perto de mim, Ratinho. — João Tolo soltou uma risadinha de contentamento. — Isso, enrole-se neste cobertor. P’ra manter o gelo longe do pêlo.

João Tolo embrulhou Stanley num cobertor que tresandava a burro e incitou o animal a puxar o carro mais rapidamente. O burro espetou as orelhas para trás e avançou por entre as revoadas de neve, seguindo o caminho que conhecia tão bem até o telheiro que parti­lhava com João Tolo. Quando finalmente chegaram, Stanley já se sentia quente novamente e bastante grato a João.

— Aqui ‘stamos. Por fim em casa — disse João animadamente en­quanto desaparelhava o burro e o conduzia para o interior do telheiro. Stanley ficou no carro, relutante em abandonar o quentinho do cobertor, embora sabendo que tinha de fazê-lo.

— É bem-vindo p’ra entrar e ficar um b’cado — ofereceu João Tolo. — Eu gosto de ter um rato por’aqui. Torna as coisas mais ale­gres. Faz companhia. Intende o que quero d’zer?

Stanley acenou negativamente com a cabeça, pesaroso. Tinha uma mensagem para entregar e era um autêntico profissional, mesmo que lhe tivessem revogado seu Estatuto de Confidencialidade.

— Ah, sim, deve ser um desses. — E aqui João Tolo baixou a voz e olhou em volta como que para se certificar que não havia ninguém ouvindo. — Aposto qu’é um desses Ratos Mensagem. Eu sei c’a maior parte do p’ssoal num acredita qu’eles existem, mas eu acre­dito. Foi um prazer conhecê-lo. — João Tolo ajoelhou-se e esten­deu a mão a Stanley para cumprimentá-lo e Stanley não conseguiu resistir a estender-lhe também a patinha. João Tolo apertou-a.

— Você é, num é? É um Rato Mensagem — sussurrou. Stanley anuiu. E antes que soubesse o que estava acontecendo, João Tolo já tinha sua pata direita presa com força e tinha-lhe atirado o cobertor por cima, embrulhando-o de tal forma que nem pôde tentar se debater e levou-o para o telheiro.

Ouviu-se um forte estrondo metálico e Stanley foi colocado numa gaiola já preparada. A porta foi fechada a cadeado. João Tolo soltou uma risadinha, pôs a chave no bolso e encostou-se para trás, apreciando seu prisioneiro com evidente prazer.

Stanley sacudiu as grades da gaiola num ataque de fúria. Estava furioso consigo mesmo, não com João Tolo. Como pôde ser tão estú­pido? Como pôde esquecer todo o seu treino: um Rato Mensageiro viaja sempre incógnito. Um Rato Mensageiro nunca se mostra a desco­nhecidos.

— Ah, Ratinho, que bons tempos vamos viver — disse João Tolo. — Só eu e você, Ratinho. Vamos sair juntos para cortar os juncos, e se você se portar bem iremos ao circo quando vier à cidade para ver os palhaços. Adoro os palhaços, Ratinho. Vamos ter uma boa vida juntos. Ah, vamos, vamos. Se vamos. — Riu satisfeito e pegou em duas maçãs envelhecidas e mirradas de um saco que estava pen­durado do teto. Deu uma das maçãs para o burro, e depois abriu a navalha e dividiu cuidadosamente a outra ao meio, dando a metade maior a Stanley, que se recusou a tocá-la.

— Vai acabar comendo, mais cedo ou mais tarde, Ratinho — disse João Tolo com a boca cheia, cuspindo pedaços de maçã por cima de Stanley. — Até esta neve passar, num vai haver outra comida. E inda vai demorar um bom bocado. O vento mudou p’ró norte — vem aí o Grande Gelo. Acontece quase sempre por volta do Festival do Dia do Solstício de Inverno. Tão certo como ovos serem ovos, e ratos serem ratos.

João Tolo riu de sua própria piada, depois enrolou-se no cobertor que fedia a burro e que tinha sido a perdição de Stanley e adormeceu num ápice.

Stanley chutou as grades da gaiola e interrogou-se sobre quão magro teria que ficar, antes de poder espremer-se de lá para fora.

Stanley suspirou. Muito, muito magro, era a resposta.

 

Os restos do Festival de Solstício de Inverno, couve cozida, cabeça de enguia estufada e cebolas apimentadas, estavam abandonados sobre a mesa, enquanto Tia Zelda tentava inspirar alguma vivacidade às chamas hesitantes da lareira na Choupana da Guardiã. O interior das janelas começava a ficar opaco com placas de gelo e a temperatura na choupana continuava caindo e Tia Zelda ainda não conseguira acen­der a lareira. Até a Berta teve que engolir o orgulho e foi se aconchegar contra Max para se manter quente. Todos os outros estavam enrolados nas colchas, olhando fixamente para as chamas incertas.

— Por que não me deixa tentar, Zelda? — perguntou Marcia, irritada. — Não vejo por que temos que ficar aqui sentados gelando, quando me basta fazer assim. — Marcia estalou os dedos e as chamas se acenderam imediatamente na grelha.

— Sabe muito bem que não acredito que devamos Interferir com os ele­mentos, Marcia — disse Tia Zelda, com severidade. — Vocês, os Feiticeiros, não têm nenhum respeito pela Mãe Natureza.

— Pois não, pelo menos quando a Mãe Natureza quer trans­formar meus pés em blocos de gelo — resmungou Marcia.

— Bem, se usasse umas botas um pouco mais sensatas, como eu, em vez de andar por aí se pavoneando nessas coisinhas de serpente púrpura, não teria problemas com os pés — observou Tia Zelda.

Marcia ignorou-a. Sentou-se aquecendo os pés de serpente púr­pura nas chamas agora cheias de vivacidade e registrou com alguma satisfação que Tia Zelda não fez qualquer esforço para devolver as chamas ao estado periclitante da Mãe Natureza.

No exterior da choupana, o Vento Norte uivava lugubremente. As revoadas de neve da manhã tinham se adensado e agora o vento trazia consigo uma tempestade furiosa que soprava sobre os Pântanos Marram e começava a cobrir a paisagem com profundas acumulações de neve. Com o avançar da noite e com o fogo de Marcia a começar finalmente a aquecê-los, o rugir do vento começou a ser abafado pelo acumular da neve no exterior. Em pouco tempo o interior da choupana tinha sido invadido por um silêncio suave e nevado. O fogo ardia estável na lareira e, um a um, todos seguiram o exemplo de Max e dormiram.

 

Tendo já conseguido enterrar a choupana em neve até o telhado, o Grande Gelo prosseguiu sua jornada. Avançou por cima dos Pân­tanos, cobrindo a água salobra com uma espessa camada de gelo branco, congelando os pauis e os atoleiros e obrigando as criaturas dos pântanos a enterrarem-se nas profundezas dos lodaçais onde o gelo não conseguia chegar. Avançou por sobre o rio e espalhou-se por sobre a terra de ambos os lados, enterrando celeiros e casas de campo e até o eventual carneiro.

Pela meia-noite chegou ao Castelo, onde tudo já estava preparado.

No mês anterior à chegada do Grande Gelo, os habitantes do Cas­telo tinham armazenado comida, tinham se aventurado na Floresta e trazido tanta lenha quanto puderam transportar, e tinham passado uma grande quantidade de tempo tecendo e tricotando cobertores. Era nesta época do ano que os Mercadores do Norte costumavam chegar, com os seus fornecimentos de espessos tecidos de lã, grossas peles árticas e peixe de salmoura, sem esquecer as especiarias que as Bruxas Wendron tanto apreciavam. Os Mercadores do Norte tinham um instinto incrível quanto à chegada do Grande Gelo, chegando sempre cerca de um mês antes dele ser esperado e partindo antes dele chegar. Os cinco mercadores que tinham estado no café de Sally Mullin na noite do incêndio tinham sido os últimos a partir e por isso ninguém no Castelo ficou surpreso com a chegada do Grande Gelo. Na realidade, a opinião generalizada era de que até vinha um bocado atrasado, embora a verdade fosse que o último dos Mercadores Nortenhos tinha partido um bocado mais cedo do que estavam contando, devido a circunstâncias imprevisíveis.

Silas, como sempre, tinha se esquecido que o Grande Gelo estava para chegar e acabou ficando bloqueado na Taverna O Buraco na Parede, depois de uma enorme nevasca ter fechado a entrada. Como de qualquer maneira também não tinha para onde ir, deixou-se ficar por lá e decidiu aproveitar ao máximo as circunstâncias enquanto Alther e alguns dos Ancestrais prosseguiam nas suas tentativas de des­cobrir Simão.

O rato negro no Gabinete dos Ratos, que estava esperando a volta de Stanley, viu-se bloqueado no topo da gelada Torre de Vigia do Portão Oriental. O escoadouro tinha se inundado de água de um cano arrebentado, a qual congelou rapidamente, impedindo sua saída. Os ratos no Gabinete de Apoio ao Cliente no térreo deixaram-no cuidando da vida e foram para casa.

O Supremo Guardião também estava esperando a volta de Stan­ley. Não só queria obter informações do rato — nomeadamente, a localização exata de Marcia Overstrand — como aguardava ansiosa­mente por conhecer o resultado da mensagem que o rato devia entre­gar. Mas não aconteceu nada. Desde o dia em que o rato fora enviado, que um pelotão de Guardiães completamente armados estava posicio­nado no Portão Oriental, batendo com os pés gelados e olhando para a neve, esperando o Aparecimento da Feiticeira ExtraOrdinária. Mas Marcia também não voltou.

O Grande Gelo instalou-se. O Supremo Guardião, que passara mui­tas horas gabando-se a DomDaniel sobre a sua brilhante idéia de des­tituir o Rato Mensageiro de seu Estatuto de Confidencialidade e de mandar uma mensagem falsa a Marcia, agora fazia o possível e o impossível para evitar cruzar com o seu Mestre. Passava o máximo de tempo que podia na Casinha das Senhoras. O Supremo Guardião não era um homem supersticioso, mas também não era estúpido, e não tinha deixado de notar que os planos que discutia na Casinha das Senhoras tinham uma tendência a funcionar bem, embora não fizesse idéia do porquê. Além disso, desfrutava do conforto do pequeno aquecedor, mas acima de tudo adorava a oportunidade de espionar. O Supremo Guardião adorava espionar. Tinha sido um da­queles rapazinhos que estão sempre encostados nas esquinas ouvindo as conversas dos outros e por isso conseguia sempre obter informações com que pressionar os outros e nunca hesitava em fazê-lo a seu favor. Tinha sido de grande ajuda enquanto subia pela hierarquia dos Guardiães e tinha desempenhado um papel importante na sua nomea­ção como Supremo Guardião.

E assim, durante o Grande Gelo, o Supremo Guardião barricou-se na casinha, acendeu o aquecedor e espionou a seu bel-prazer, escon­dido por trás da porta de aspecto inocente com as desbotadas letras douradas, escutando as conversas das pessoas que passavam por ali. Era um prazer tão grande ver a cor desaparecer do rosto quando ele saltava de trás da porta e as confrontava com algum comentário insultuoso que tivessem feito sobre ele. E era um prazer ainda maior chamar um Guardião para levá-los diretinho para as masmorras, sobretudo se fossem daqueles que gostavam de suplicar. O Supremo Guardião gostava sempre que lhe suplicassem. Até o momento já tinha feito com que vinte e seis pessoas fossem presas e atiradas nos calabouços por proferirem comentários desagradáveis sobre a sua pessoa e nunca lhe ocorreu sequer parar para pensar um bocadinho, por que é que nunca tinha ouvido ninguém dizer nada a favor dele.

Mas o projeto mais interessante que mantinha o Supremo Guar­dião ocupado era Simão Heap. Simão tinha sido trazido imediata­mente da capela para a Casinha das Senhoras e acorrentado a um cano. O Supremo Guardião tinha certeza que, como irmão adotivo de Jenna, tinha forçosamente de saber para onde ela fora e estava ansioso por poder convencê-lo a dizer-lhe.

Com a chegada do Grande Gelo, e sem que nem o Rato Mensageiro nem Marcia tivessem voltado ao Castelo, Simão continuava a defi­nhar na Casinha das Senhoras e a ser constantemente interrogado sobre o paradeiro de Jenna. A princípio estava aterrorizado demais para falar, mas o Supremo Guardião era um homem cheio de sutilezas, e dedicou-se a ganhar a confiança de Simão. Sempre que tinha um mo­mento livre, o desagradável homenzinho entrava pela Casinha aden­tro e tagarelava com Simão sobre o seu dia aborrecidíssimo e Simão ouvia educadamente, assustado demais para falar. Depois de algum tempo, Simão começou a aventurar-se com um ou outro comentário e o Supremo Guardião pareceu deliciado por obter alguma reação da sua parte e começou a trazer-lhe um pouco mais de comer e beber. E assim Simão começou a relaxar ligeiramente, e não demorou muito para estar a confidenciar o seu grande desejo de ser o próximo Feiticeiro ExtraOrdinário e a sua desilusão pela forma como Marcia tinha fugi­do. Não era, garantiu ele ao Supremo Guardião, o tipo de compor­tamento que ele teria.

O Supremo Guardião escutou-o com aprovação. Aqui estava final­mente um Heap com juízo. E quando ofereceu a Simão a possibilidade de uma Aprendizagem com o novo Feiticeiro ExtraOrdinário — vendo como, e isto fica só entre nós, meu jovem Simão, o novo rapaz está se revelando muitíssimo insatisfatório, apesar de todas as esperanças que depositamos nele — Simão Heap começou a ver um futuro radioso para a sua pessoa. Um futuro onde seria respeitado e poderia usar o seu talento Mágyko e onde não seria tratado como apenas mais «um daqueles miseráveis Heaps». Por isso, numa daquelas noites, quando o Supremo Guardião se sentou sociável perto dele e lhe ofereceu uma bebida quente, Silas Heap disse-lhe tudo o que ele queria saber — que Marcia e Jenna tinham ido para a choupana de Tia Zelda nos Pântanos Marram.

— E onde, exatamente, fica essa choupana, meu rapaz? — per­guntou o Supremo Guardião, com um amplo sorriso no rosto.

Simão viu-se obrigado a confessar que não sabia exatamente onde ficava.

Num acesso de fúria o Supremo Guardião saiu disparado dali e foi procurar o Caçador, que ouviu em silêncio enquanto o Supremo Guardião arengava sobre a estupidez dos Heaps em geral e de Simão em particular.

— Sinceramente, Gerald — (pois era esse o nome do Caçador. Não era coisa que gostasse de ver mencionada mas, para sua grande irritação, o Supremo Guardião chamava-o de «Gerald» à menor oportunidade) —, sinceramente — dizia o Supremo Guardião, indig­nado enquanto andava de um lado para o outro no quarto escassa­mente mobiliado que o Caçador tinha na caserna, esbracejando de forma dramática —, como pode alguém não saber exatamente onde vive uma Tia dele? Como, Gerald, como é que ele pode visitá-la se não sabe exatamente onde ela vive?

O Supremo Guardião era um visitador acirrado de suas numerosas tias, muitas das quais desejavam ardentemente que o sobrinho não soubesse exatamente onde elas viviam.

Mas Simão fornecera informação mais do que suficiente para o Caçador. Logo que o Supremo Guardião foi embora, o Caçador pôs-se ao trabalho com seus mapas pormenorizados dos Pântanos Marram e, em menos de um nada, tinha identificado o paradeiro mais provável da choupana de Tia Zelda. Estava novamente pronto para a Perseguição.

E assim, com alguma ansiedade, o Caçador foi falar com DomDaniel.

 

DomDaniel estava recolhido no topo da Torre dos Feiticeiros, entretendo-se durante a passagem do Grande Gelo a desencantar os velhos tomos de Necromancia que Alther tinha fechados num armá­rio e Convocando os seus assistentes bibliotecários, dois Magogs atarracados e verdadeiramente horríveis. DomDaniel tinha encontrado os Magogs depois de ter pulado da Torre. Normalmente viviam muito abaixo da superfície da terra e, por isso, assemelhavam-se a grandes vermes cegos, acrescidos de dois longos braços desossados. Não tinham pernas, e arrastavam-se pelo chão com contorções de lagarta, deixando um rastro viscoso, mas quando queriam, eram surpreendentemente rápidos. Os Magogs não tinham cabelo, eram de uma cor amarela esbranquiçada e pareciam não ter olhos. Mas na verdade tinham um olho minúsculo que também era amarelo esbranquiçado; ficava bem por cima das únicas feições do rosto, que eram dois orifícios luzidios onde devia estar um nariz, e uma fenda no lugar da boca. A gosma que transpiravam era desagradavelmente espessa e exalava um cheiro nau­seante, embora DomDaniel o achasse bastante agradável.

Se alguém os esticasse, cada Magog devia ter cerca de um metro e meio de altura; mas isso era coisa que ninguém tentara fazer ainda. Havia melhores maneiras de se passar os dias, nem que fosse raspando as unhas numa ardósia ou comendo um balde de ovas de sapo. Ninguém nunca tocava num Magog, a não ser por engano. A sua gosma era tão repelente, que a simples recordação do cheiro bastava para uma pessoa desatar logo a vomitar. Os Magogs nasciam sob a terra, a partir de larvas depositadas em inocentes animais em hibernação, tais como ouriços-cacheiros e arganazes. Evitavam os cágados pois era difícil aos jovens Magogs saírem das cascas. Logo que os primeiros raios de sol primaveril aquecem um pouco a terra, as larvas irrompem do hospedeiro, consomem o que restar do pobre animal e depois enterram-se ainda mais no solo até atingirem uma cova de Magogs. DomDaniel tinha centenas de covas de Magogs em torno de seu covil nas Terras Inóspitas e por isso tinha sempre um fornecimento cons­tante daquelas criaturas. Davam Guardas soberbos; possuíam uma mordida que causava envenenamento imediato do sangue na maioria das pessoas, matando-as depois de poucas horas e um arranhão pro­vocado por uma garra de Magog ficava de tal maneira infectado que nunca se curava. Mas o seu principal meio de dissuasão era o seu as­pecto: a bulbosa cabeça amarela esbranquiçada, aparentemente cega, e a sua minúscula mandíbula em constante movimento com sua fiada de aguçados dentinhos amarelos, eram tão repelentes que manti­nham qualquer intruso à distância.

Os Magogs tinham chegado pouco tempo antes do Grande Gelo. Tinham deixado o Aprendiz completamente aterrorizado, o que tinha dado a DomDaniel motivo para algum divertimento e uma desculpa para deixar o rapaz tremendo, no beiral exterior enquanto tentava, mais uma vez, aprender a Tabuada dos Treze.

Os Magogs também tinham pregado um susto no Caçador. Enquanto subia até o topo das escadas em espiral e passava pelo Aprendiz no patamar, ignorando deliberadamente o rapaz, o Caçador escorregou num rastro de gosma de um Magog que levava até o apartamento de DomDaniel. Conseguiu equilibrar-se bem a tempo, mas não antes de ouvir um risinho abafado por parte do Aprendiz.

Em menos de um nada o Aprendiz ainda tinha mais motivos para rir, já que por fim DomDaniel estava gritando com outro que não era ele. Ouvia deleitado a voz furiosa do seu Mestre, que atravessava muito bem a espessa porta púrpura.

— Não, não, Não! — gritava DomDaniel. — Deve achar que sou completamente maluco para deixá-lo partir noutra Caçada por sua própria conta. Você é um palerma empertigado, e acredite, se houvesse mais alguém que pudesse contratar para fazer o servicinho, contrataria imediatamente. Vai esperar até eu dizer para partir. E quando for, vai sob minha direta supervisão. Não me interrompa! Não! Não quero saber. Agora fora... ou prefere que um dos meus Magogs te ajude?

O Aprendiz viu como a porta púrpura se escancarava e o Caçador saía apressadamente, escorregando no rastro de gosma, e correndo escada abaixo tão depressa quanto era capaz. Depois disso o Aprendiz quase conseguiu aprender a Tabuada dos Treze. Bem, pelo menos chegou até ao treze vezes sete, o máximo até essa altura.

Alther, que tinha estado ocupado misturando os pares de meias de DomDaniel, ouviu tudo. Apagou a lareira e seguiu o Caçador para o exterior da Torre, onde Provocou que uma pequena avalanche de neve se desprendesse do Arco Magno bem quando o Caçador estava passando por baixo. Passaram horas antes que alguém se preocupasse em desenterrar o Caçador, mas isso não serviu de grande consolo a Alther. As coisas não estavam correndo nada bem.

 

No interior da Floresta gelada, as Bruxas Wendron colocaram suas armadilhas na esperança de apanharem um carcaju mais desprevenido, ou dois, para atravessarem os tempos de míngua que se aproxi­mavam. Depois recolheram-se à caverna comunal de Inverno, na pedreira, onde se enfiaram em suas peles, contaram histórias umas às outras e mantiveram uma fogueira acesa dia e noite.

Os habitantes da casa-na-árvore estavam reunidos em torno do fogão a lenha na cabana maior e foram desbastando as provisões de nozes e bagos de Galena. Sally Mullin embrulhou-se num monte de peles de carcaju, e chorou silenciosamente o seu café, enquanto buscava conforto espiritual no ato de devorar uma enorme pilha de avelãs. Sara e Galena mantinham o fogão aceso e falavam sobre ervas e poções, nos longos dias gelados.

Os quatro rapazes Heap tinham montado um acampamento de Inverno na Floresta a alguma distância da casa-na-árvore e tinham se entregue à vida selvagem. Caçavam e assavam esquilos e tudo o mais que conseguissem apanhar, para grande consternação de Galena, embora ela não dissesse nada. Mantinha os rapazes ocupados e longe da casa-na-árvore e ajudava a conservar suas reservas de mantimentos de Inverno que estavam sendo rapidamente consumidas por Sally Mullin. Sara ia visitar os rapazes todos os dias, e embora a prin­cípio estivesse preocupada por eles estarem sozinhos por sua conta e risco na Floresta, acabou ficando impressionada com a rede de iglus que tinham construído e notou que algumas das Bruxas Wendron mais novas costumavam aparecer por lá com pequenas oferendas de comidas e bebidas. Não tardou muito para que fosse difícil para Sara aparecer por lá alguma vez e eles não estivessem com duas ou três bruxinhas que os ajudavam a preparar uma refeição, ou simplesmente sentadas com eles em volta da fogueira rindo e trocando anedotas. Sara tinha ficado surpresa com o quanto a necessidade de se valerem a si mesmos tinha mudado os seus filhos — de repente pareciam todos tão adultos, até o mais novo, Jo-Jo, que só tinha treze anos ainda. Ao fim de algum tempo Sara começou a sentir-se como uma intrusa no acampamento, mas continuou a visitá-los todos os dias, em parte para mantê-los debaixo dos olhos e em parte porque tinha desenvolvido o gosto especial por esquilo assado.

 

Na manhã seguinte à chegada do Grande Gelo, Nicko abriu a porta da choupana apenas para encontrar uma parede de neve à sua frente. Meteu imediatamente mãos à obra com a pá de carvão de Tia Zelda e cavou um túnel com cerca de um metro e oitenta através da neve até encontrar o brilhante sol de Inverno. Jenna e o Garoto 412 saíram também através do túnel, pestanejando por causa da luz.

— É tão brilhante — disse Jenna. Pôs uma mão em frente aos olhos por causa da neve, a qual refulgia de forma quase dolorosa, cintilando com gelo. O Grande Gelo tinha transformado a choupana num iglu gigantesco. Os terrenos pantanosos que os rodeavam tinham se transformado numa paisagem ártica, todas as marcas características alteradas pela neve que a tempestade acumulara e pelas longas sombras que o sol de Inverno desenhava. E Max foi acabar a imagem, saltando e rolando pela neve até se parecer com um super-excitado urso polar.

Jenna e o Garoto 412 ajudaram Nicko a cavar um caminho até o Mott congelado e depois assaltaram a grande coleção de vassouras de Tia Zelda, e iniciaram a dura tarefa de varrer a neve sobre o gelo para poderem patinar sobre o Mott. Jenna foi a primeira, enquanto os rapazes atiravam bolas de neve um no outro. O Garoto 412 mostrou ter uma excelente pontaria e Nicko acabou por não ficar muito dife­rente de Max.

O gelo já tinha praticamente dez centímetros de espessura e estava tão liso e escorregadio como o vidro. Uma miríade de pequenas bolhas estava suspensa na água congelada, conferindo ao gelo uma aparência ligeiramente nebulosa, mas ainda clara o bastante para se poder ver o que estava por baixo. E o que estava por baixo dos pés de Jenna quando ela varreu a primeira vassourada de neve eram os dois olhos amarelos de uma serpente gigante, que a fixavam sem pestanejar.

— Argh! — gritou Jenna.

— O que foi, Jen? — perguntou Nicko.

— Olhos. Olhos de serpente. Há uma serpente enorme debaixo do gelo.

O Garoto 412 aproximou-se.

— Uau! É enorme — disse Nicko.

Jenna ajoelhou-se e limpou mais um pouco da neve.

— Olhem — disse ela —, lá está a cauda. Bem perto da cabeça. Deve se estender em volta de todo o Mott.

— Não pode ser — discordou Nicko.

— Só pode ser.

— Pode ser que haja mais que uma.

— Bom, só há uma maneira de descobrir. — Jenna pegou a vas­soura e começou a varrer. — Vamos, toca a trabalhar — disse ela aos rapazes. Nicko e o Garoto 412 pegaram suas próprias vassouras, relutantes, e começaram a varrer também.

Pelo final da tarde tinham descoberto que, efetivamente, se tra­tava de uma só serpente.

— Deve ter mais de um quilômetro de comprimento — disse Jenna por fim, quando regressaram ao ponto inicial. A Píton dos Pân­tanos olhava mal-humorada para eles através do gelo. Não gostava que olhassem para ela, sobretudo quando era comida que estava olhando para ela. Embora a serpente preferisse cabras e linces, para ela tudo o que tivesse pernas era comida, o que levava a que ocasionalmente devorasse um viajante, que tivesse sido suficientemente descuidado para cair no canal e ter começado a se debater. Mas normalmente evitava a comida de duas pernas; as múltiplas peles em que usualmente vinham embru­lhadas eram francamente indigestas e botas então, era algo de que não gostava nem um pouco.

 

O Grande Gelo tinha se instalado. Tia Zelda preparou-se para esperar que se dissipasse, como fazia todos os anos e informou a impa­ciente Marcia de que agora não havia nenhuma hipótese de que Silas voltasse com o seu FicaEmSegurança. Os Pântanos Marram esta­vam completamente isolados. Marcia ia ter que esperar pelo Grande Degelo, tal como todos os demais.

Mas o Grande Degelo não dava sinais de estar próximo. Todas as noites o Vento Norte trazia novas nevascas, que acumulavam a neve ainda mais alto.

As temperaturas caíram a pique, e o próprio Boggart foi corrido de seu lodaçal pelo gelo, indo refugiar-se na barraca da fonte termal, onde cochilava deliciado no vapor quente.

A Píton dos Pântanos continuava presa no Mott. Ia se safando comendo qualquer peixe ou enguia mais distraída que as correntes levassem até ela, e sonhando com a chegada do dia em que ficaria livre para poder engolir quantas cabras fosse capaz de apanhar.

 

Nicko e Jenna tinham ido patinar. No início tinham ficado satisfeitos em patinar em volta do Mott e irritar a Píton dos Pântanos, mas depois de algum tempo começaram a aventurar-se pela paisagem branca dos pauis. Passavam horas correndo ao longo dos canais gelados, escutando o estalar do gelo debaixo deles e, por vezes, o lúgubre uivar do vento que ameaçava trazer mais uma nevasca. Jenna percebeu que os sons das criaturas dos pântanos tinham desaparecido completa­mente. O restolhar atarefado dos arganazes dos pântanos estava calado, tal como o deslizar surdo das cobras d’água. Os Duendes da Lama Gelatinosa estavam congelados sob o solo e não faziam ouvir um único guincho, enquanto as Nixies Aquáticas dormiam um sono profundo, as ventosas coladas à superfície inferior do gelo, esperando pela Primavera.

Passaram-se longas e pachorrentas semanas na Choupana da Guar­diã e ainda assim a neve continuava a soprar do Norte. Enquanto Jenna e Nicko passavam horas no exterior patinando e construindo escorregadores de gelo em todo o Mott, o Garoto 412 preferia ficar dentro de casa. Ainda continuava se sentindo gelado se ficasse mais do que alguns minutos fora de casa. Era como se uma parte dele ainda não tivesse voltado a se aquecer, em todo aquele tempo, desde que estivera enterrado na neve à porta da Torre dos Feiticeiros. Às vezes Jenna sentava-se com ele junto da lareira. Gostava do Garoto 412; embora não soubesse porquê, já que ele nunca falava com ela. Mas ela não levava a mal, uma vez que sabia que ele nunca dissera uma palavra a ninguém desde que tinham chegado à choupana. O tema principal das conversas que Jenna tinha com ele era o Petrocha Trelawney, com quem o Garoto 412 tinha simpatizado.

Em algumas tardes Jenna ia sentar-se no sofá ao lado do Garoto 412, enquanto ele a via tirar a pedrinha de estimação do bolso. Era costume Jenna sentar-se junto da lareira com Petrocha, já que a fazia lembrar-se de Silas. Havia qualquer coisa no simples ato de segurar no seixo, que a fazia ter certeza de que Silas ia voltar são e salvo.

— Toma, segura você o Petrocha — costumava dizer Jenna nessas tardes, colocando o seixo cinzento nas mãos do Garoto 412.

Petrocha Trelawney gostava do Garoto 412. Gostava dele por­que normalmente tinha as mãos pegajosas e cheirando a comida. E Petrocha estendia suas quatro perninhas curtas, abria os olhos, e lambia a mão do Garoto 412.

Huuuum, pensava ele, nada mau. Sentia claramente o gosto de enguia, mas havia também um travo de couve, não havia? Petrocha Trelawney gostava de enguia e acabava lambendo outra vez a mão do Garoto 412. Tinha uma língua seca e um bocado áspera, como se fosse a língua de um gato em miniatura, e o Garoto 412 ria; aquilo fazia cócegas.

— Ele gosta de você — disse Jenna com um sorriso. — Ele nunca lambe as minhas mãos.

Mas havia muitos dias em que o Garoto 412 se limitava a ficar sentado à lareira lendo a coleção de livros de Tia Zelda, mergulhando num mundo completamente novo. Até ter vindo para a Choupana da Guardiã, o Garoto 412 nunca tinha lido um livro. Tinha aprendido a ler no Exército da Juventude, mas só tinham deixado ler as listas dos Inimigos, as Ordens de Serviço e os Planos de Combate. Mas agora Tia Zelda mantinha-o com um suprimento constante de histórias de aventuras e livros de Magya, que o Garoto 412 absorvia como uma esponja. E foi num desses dias, quase seis semanas depois da chegada do Grande Gelo, quando Jenna e Nicko tinham decidido descobrir se conseguiriam patinar toda a distância até o Porto, que o Garoto 412 percebeu uma coisa.

Já tinha reparado que todas as manhãs, por um motivo qualquer, Tia Zelda acendia duas lanternas e ia se enfiar no armário das poções sob as escadas. A princípio o Garoto 412 não tinha dado nenhuma importância. Afinal de contas, o armário estava escuro e Tia Zelda tinha muitas poções para atender. Sabia que as poções que tinham que ser mantidas no escuro eram as mais instáveis e que, por isso, precisavam de uma atenção constante; ainda no dia anterior, Tia Zelda tinha passado horas filtrando um lamacento Antídoto Amazô­nico que o frio tinha enchido de coágulos. Mas o que nessa manhã tinha chamado a atenção do Garoto 412 era como o armário das poções estava silencioso, já que ele sabia que Tia Zelda era uma pessoa tudo menos silenciosa. Sempre que passava pelos Potes de Conserva eles estremeciam e tilintavam, e quando estava na cozinha os potes e panelas batiam e se chocavam uns com os outros; por isso, pensou o Garoto 412, como é que ela conseguia estar tão silenciosa no espaço tão exíguo do armário das poções? E por que é que precisava de duas lanternas?

Pousou o livro e foi na ponta dos pés até à porta do armário. Estava tudo estranhamente silencioso, considerando que Tia Zelda se encontrava no interior, a curta distância de milhares de pequenos frasquinhos tilintantes. O Garoto 412 bateu timidamente à porta. Não houve resposta. Escutou novamente. Silêncio. O Garoto 412 sabia que o melhor que tinha a fazer era voltar para o livro, mas sem saber porquê, Taumaturgia e Sortilégio: Para quê Preocupar-nos? não parecia tão interessante como o que a Tia Zelda estaria fazendo. Por isso abriu a porta e espiou lá para dentro.

O armário das poções estava vazio.

Por momentos o Garoto 412 receou que aquilo fosse uma brincadeira de Tia Zelda, que lhe ia pregar um susto, mas não demorou a perceber que ela não estava ali mesmo. E depois viu porquê. O alçapão estava aberto, e o cheiro bolorento do túnel, de que o Garoto 412 se lembrava tão bem, chegou até ele. Hesitou à porta, sem saber o que fazer. Ocor­reu-lhe que Tia Zelda podia ter caído pelo alçapão, por acidente, e estar precisando de ajuda, mas depois percebeu que, se ela tivesse caído, teria ficado encravada no meio da queda, já que a Tia Zelda parecia muito mais larga do que o alçapão.

E enquanto pensava como a Tia Zelda teria conseguido se espremer pelo alçapão, o Garoto 412 viu o tênue clarão de uma lanterna a refulgir através da abertura no chão. Não demorou a ouvir os passos pesadões das botas práticas de Tia Zelda sobre o solo arenoso do túnel, e o esforço de sua respiração enquanto se debatia com a subida íngreme até às escadas de madeira. Logo que Tia Zelda começou a subir os degraus de madeira, o Garoto 412 fechou silencio­samente a porta e apressou-se a voltar ao seu lugar junto da lareira.

Ainda passaram alguns minutos até uma Tia Zelda, sem ar, ter posto a cabeça para fora do armário de forma um bocado suspeita, e encontrar o Garoto 412 avidamente concentrado na leitura de Tauma­turgia e Sortilégio: Para quê Preocupar-nos?

Antes que Tia Zelda tivesse tempo de voltar a desaparecer no armário, a porta da frente abriu-se de rompante. Nicko apareceu com Jenna logo atrás. Atiraram os patins no chão e mostraram o que pare­cia ser um rato morto.

— Vejam o que encontramos — disse Jenna.

O Garoto 412 fez uma careta. Não gostava de ratos. Tinha tido que conviver com muitos para apreciar sua companhia agora.

— Deixem-no lá fora — disse Tia Zelda. — Dá azar trazer alguma coisa morta pela porta, que não seja para comer. E não me parece que queira comer isso.

— Não está morto, Tia Zelda — disse Jenna. — Olhe. — Ergueu aquela pequena bola de pêlo para que Tia Zelda pudesse inspecioná-la. Tia Zelda tocou-a cautelosamente.

— O encontramos no exterior daquele barraco velho — disse Jenna. — Sabe qual é, não muito longe do Porto, na orla dos Pân­tanos. Há um homem que vive lá com um burro. E montes de ratos mortos em gaiolas. Espiamos pela janela — e era horrível. E nessa hora ele acordou e nos viu, por isso eu e o Nicko íamos sair correndo quando vimos este rato. Acho que tinha acabado de fugir. Então peguei-o, enfiei-o no casaco e demos no pé. Ou melhor, nos patins. E o velhote veio para fora e gritou conosco por levarmos o rato dele. Mas não conseguiu nos apanhar, não é, Nicko?

— Não — disse Nicko, um homem de poucas palavras.

— Enfim, acho que é o Rato Mensageiro e que traz uma mensa­gem do Papai — afirmou Jenna.

— Nunca — disse Tia Zelda. — Aquele Rato Mensageiro era gordo.

O rato nas mãos de Jenna soltou um chiado de protesto.

— E este — continuou Tia Zelda tocando nas costelas do rato — é magro que nem um ancinho. Bom, acho que é melhor trazê-lo para dentro, seja que tipo de rato for.

E foi assim que Stanley acabou chegando ao seu destino, quase seis semanas depois de ter sido enviado pelo Gabinete dos Ratos. Como qualquer Rato Mensageiro que se preze, tinha feito jus ao lema do Gabinete dos Ratos: não há nada que detenha um Rato Mensa­geiro.

Mas Stanley não tinha as forças necessárias para entregar sua mensagem. Estava caído e febril numa almofada em frente da lareira, enquanto Jenna lhe dava purê de enguia. O rato nunca tinha sido um grande apreciador de enguia, particularmente daquela que era trans­formada em purê, mas depois de seis semanas numa gaiola bebendo água e sem comer nada, até o purê de enguia parecia maravilhoso. E ficar deitado numa almofada à beira da lareira, em vez de tremelicar no fundo de uma gaiola imunda, era ainda mais maravilhoso. Mesmo que a Berta lhe desse uma bicada ocasional quando ninguém estava vendo.

Marcia deu a ordem de Fala, Rattus Rattus, depois de Jenna ter insistido com ela, mas Stanley não foi capaz de dizer uma palavra, de tão fraco que estava, caído sobre a almofada.

— Ainda não estou convencida de que seja mesmo o Rato Men­sageiro — disse Marcia uns dias depois da chegada de Stanley, sem que o rato tivesse dito alguma coisa ainda. — O outro Rato Mensa­geiro não fazia mais do que tagarelar, se bem me lembro. E que falatório que era!

Stanley presenteou Marcia com o seu melhor franzir de cenho, mas ela nem percebeu.

— É ele, Marcia — garantiu Jenna. — Eu já tive montes de ratos de estimação e sou boa em reconhecê-los. Este é claramente o Rato Mensageiro que esteve aqui antes.

E assim todos aguardaram ansiosamente que Stanley se recuperasse o suficiente para poder Falar e entregar a esperada mensagem de Silas. Foi um período de grande nervosismo. O rato teve febre e entrou em delírio, murmurando incoerentemente durante horas e horas, e quase impedindo Marcia de se concentrar. Tia Zelda fez muitas infusões de casca de salgueiro que Jenna se encarregou de fazer o rato beber através de um pequeno conta-gotas. Ao fim de uma longa e agitada semana, a febre do rato começou finalmente a ceder.

Num final de tarde, quando Tia Zelda estava fechada no armário das poções (tinha começado a fechar a porta à chave depois do dia que o Garoto 412 tinha espiado lá para dentro) e Marcia estava trabalhando nuns feitiços matemáticos na escrivaninha de Tia Zelda, Stanley deu uma tossidinha e levantou-se. Max latiu e Berta sibilou de surpresa, mas o Rato Mensageiro ignorou-os.

Tinha uma mensagem para entregar.

 

Não tardou que Stanley tivesse uma audiência expectante à sua volta. Ergueu-se com dificuldade sobre a almofada, levantou-se e res­pirou fundo. Por fim disse, numa voz ainda trêmula:

— Primeiro tenho que perguntar o seguinte. Há alguém nesta sala que responda pelo nome de Marcia Overstrand?

— Sabe que sim — respondeu Marcia com impaciência.

— Mesmo assim devo perguntar, Vossa Excelência. É parte do pro­cedimento — esclareceu o Rato Mensageiro. E prosseguiu. — Estou aqui para entregar uma mensagem a Marcia Overstrand, ex-Feiticeira ExtraOrdinária...

— O quê? — exclamou Marcia. — Ex? O que esse rato idiota quer dizer com ex-Feiticeira ExtraOrdinária?

— Acalme-se Marcia — recomendou Tia Zelda. — Espere até ouvir o que ele tem para dizer.

Stanley continuou.

— A mensagem foi enviada às sete da manhã... — O rato interrompeu-se para fazer as contas de quantos dias já tinham se passado. Como um autêntico profissional, Stanley manteve um registro exato do tempo que tinha passado na gaiola, riscando uma linha para cada dia numa das grades. Sabia que tinha passado vinte e nove dias em poder de João Tolo, mas não fazia idéia de quanto tempo passara delirante em frente da lareira na Choupana da Guardiã. — ...aaangh... de um dia há muito tempo, através de interposta pessoa, por um Silas Heap, com residência no Castelo...

— O que significa por interposta pessoa? — perguntou Nicko.

Stanley bateu o pé, impaciente. Não gostava de ser interrom­pido, especialmente quando a mensagem já era tão antiga e ele tinha medo de não se conseguir recordar dela. Tossiu, impacientemente.

— Início da mensagem:

Cara Marcia,

Espero que esteja bem. Eu estou bem e estou no Castelo. Ficaria muito grato se pudesse se encontrar comigo no exterior do Palácio logo que possível. Há novi­dades. Estarei no Portão do Palácio, todas as noites à meia-noite, até a sua che­gada.

Mortinho por te ver,

Os melhores cumprimentos,

Silas Heap.

Fim da mensagem.

Stanley voltou a sentar-se na sua almofada e soltou um suspiro de alívio. Missão cumprida. Pode ter demorado mais do que qualquer Rato Mensageiro já tivesse demorado para entregar uma mensagem, mas tinha conseguido. Permitiu-se um breve sorriso, embora ainda esti­vesse de serviço.

Por momentos gerou-se um silêncio na sala, e depois Marcia explodiu.

— Típico, é mesmo típico! Não faz sequer um esforço para voltar antes do Grande Gelo, e depois, quando finalmente se resolve a mandar uma mensagem, nem sequer se dá ao trabalho de citar meu FicaEmSegurança. Desisto. Devia ter ido eu mesma.

— E o Simão? — perguntou Jenna ansiosamente. — E por que é que o Papai não mandou uma mensagem também para nós?

— Não se parece nada com o Pai — resmungou Nicko.

— Não, suponho que tenha sido mesmo por interposta pessoa — concordou Tia Zelda, hesitante.

— O que quer dizer isso? — voltou a perguntar Nicko.

— Significa que foi outra pessoa que entregou a mensagem ao Gabinete dos Ratos. Silas não deve ter podido ir lá. O que era de se esperar, calculo. Quem seria essa interposta pessoa?

Stanley não disse nada, embora soubesse perfeitamente que a interposta pessoa tinha sido o Supremo Guardião. Embora já não fosse um Rato Confidencial, ainda estava vinculado pelo Regulamento do Gabinete dos Ratos. E isso significava que todas as conversas manti­das no interior do Gabinete dos Ratos eram Altamente Confidenciais. Mas o Rato Mensageiro sentiu-se pouco à vontade. Estes Feiticeiros tinham-no resgatado, tinham tratado dele e, provavelmente, tinham-lhe salvo a vida. Stanley agitou-se na almofada e cravou o olhar no chão.

Algo se passava, pensou ele, e não queria ser cúmplice disso. Esta missão tinha sido um autêntico pesadelo do princípio ao fim.

Marcia foi até à escrivaninha e fechou o livro que estava lendo com estrondo.

— Como Silas se atreve a ignorar uma coisa tão importante como o meu FicaEmSegurança? — perguntou, furiosa. — Não sabe que a única razão de ser de um Feiticeiro Normal é servir o Feiticeiro ExtraOrdinário? Não vou continuar tolerando esta atitude insubordinada. Vou falar com ele e vou dizer-lhe o que penso de tudo isto.

— Marcia, acha que é sensato? — perguntou Tia Zelda, com calma.

— Ainda sou a Feiticeira ExtraOrdinária, e não vou permitir que me afastem — declarou Marcia.

— Bom, mas acho que deve pensar melhor no assunto durante a noite — disse Tia Zelda com bom senso. — As coisas parecem sempre melhores pela manhã.

 

Mais tarde nessa mesma noite, o Garoto 412 estava deitado à luz bruxuleante da lareira, ouvindo as fungadas de Nicko e a respiração compassada de Jenna. Tinha sido acordado pelo ressonar ruidoso de Max, que se ouvia até mesmo através do teto. Max devia estar dormindo no andar de baixo, mas tentava sempre esgueirar-se para ir se deitar na cama de Silas, se lhe parecia que tinha uma oportunidade. Na verdade, sempre que Max começava a ressonar no andar de baixo, o Garoto 412 dava-lhe um empurrão e incentivava-o a escapulir para o andar de cima. Mas nessa noite o Garoto 412 percebeu que estava ouvindo mais alguma coisa além do ressonar de um cão lobo com problemas de sinusite.

O ranger de tábuas por cima de si... passos furtivos nas escadas... o chiar do antepenúltimo degrau das escadas... Quem poderia ser? Lembrou-se subitamente de todas as histórias de fantasmas que já lhe tinham contado, ao ouvir o sibilar surdo de uma capa que se arrastava sobre o chão de pedra e soube que quem quer que fosse, o que quer que fosse, tinha acabado de entrar na sala.

O Garoto 412 sentou-se lentamente, o coração batendo descom­passado, e fitou os olhos na penumbra. Um vulto escuro estava se movendo furtivamente em direção ao livro que Marcia tinha deixado sobre a escrivaninha. A figura pegou o livro e enfiou-o sob o manto. Depois percebeu o branco dos olhos do Garoto 412 que olhavam para ela na escuridão.

— Sou eu — sussurrou Marcia. Fez-lhe sinal para que fosse para perto dela. O Garoto 412 escorregou silenciosamente da colcha e avançou descalço pelo chão de pedra para saber o que ela queria.

— Como podem esperar que alguém consiga dormir no mesmo quarto com aquele bicho, é coisa que não compreendo — sussurrou Marcia mal-humorada. O Garoto 412 sorriu timidamente. Não disse que tinha sido ele quem empurrara Max escadas acima.

— Vou Regressar hoje à noite — disse-lhe Marcia. — Vou me ser­vir dos Minutos da Meia-Noite, só para me garantir. Deve fixar isso, os minutos de cada um dos lados da meia-noite são a melhor hora para Viajar em segurança. Sobretudo quando pode haver al­guém no ponto de destino que te queira mal. E eu desconfio que há. Vou me dirigir ao Portão do Castelo e ver o que se passa com esse Silas Heap. Que horas são?

Marcia pegou o relógio.

— Dois minutos para a meia-noite. — Volto em breve. Pode dar o recado à Zelda? — Marcia fitou o Garoto 412 e recordou-se de que ele ainda não tinha dito uma palavra desde que lhes dissera o seu nome e posto na Torre dos Feiticeiros. — Bom, não faz mal se não disser. Ela adivinhará logo onde fui.

O Garoto 412 lembrou-se subitamente de uma coisa importante. Remexeu nos bolsos da blusa e tirou o Encantamento que Marcia tinha lhe dado quando o convidara para seu Aprendiz. Pegou no pequeno par de asas de prata e olhou para elas com alguma pena. Refulgiam em tons de ouro e prata no clarão Mágyko que começava a envolver Marcia. O Garoto 412 estendeu o Encantamento a Marcia, para devolve-lo — achava que não devia ficar com ele mais tempo, já que não haveria maneira dele poder ser seu Aprendiz — mas Marcia abanou negativamente a cabeça e ajoelhou-se junto dele.

— Não — sussurrou-lhe. — Ainda tenho esperança de que mude de idéia e queira ser meu Aprendiz. Pense nisso enquanto eu não estiver aqui. Vá, falta um minuto para a meia-noite. Afaste-se um pouco.

O ar em torno de Marcia ficou gelado, e um estremecimento de pura Magya rodopiou à sua volta, enchendo o ar de uma carga elétrica. O Garoto 412 recuou até à lareira, um bocado assustado, mas principalmente fascinado. Marcia fechou os olhos e começou a entoar algo longo e complicado numa língua que ele nunca tinha ouvido antes e, enquanto olhava para ela, viu surgir a mesma névoa Mágyka que tinha visto pela primeira vez a bordo do Muriel, no Canal Deppen. Subitamente, Marcia atirou a capa sobre si mesma, de forma a ficar coberta dos pés à cabeça e, ao fazê-lo, o púrpura da névoa Mágyka e o púrpura da capa uniram-se num só. Ouviu-se um sonoro sibilar, como água pingando sobre metal quente, e Marcia desapareceu, deixando apenas uma tênue sombra que se dissipou em breves momentos.

 

No Portão do Palácio, vinte minutos depois da meia-noite, um pelotão de Guardas estava de serviço, tal como tinha estado nas cinqüenta amargamentes frias noites que precederam aquela. Os Guardas estavam gelados e contando com mais uma noite de tédio em que não fariam nada mais do que bater os pés no chão e fazer a vontade do Supremo Guardião, que tinha a extravagante idéia de que a ex-Feiticeira ExtraOrdinária ia aparecer exatamente ali. Assim, sem mais nem menos. Claro que nunca apareceu, e eles também não estavam à espera que isso viesse a acontecer. E no entanto, todas as noites os enviava para lá para ficarem à espera e com os pés trans­formados em blocos de gelo.

Por isso, quando uma tênue sombra purpurina começou a formar-se no meio deles, nenhum dos Guardas conseguia acreditar no que se estava acontecendo.

— É ela — murmurou um deles, meio assustado com a Magya que revolteava subitamente no ar, enviando desconfortáveis descargas elétricas através dos seus elmos de metal negro. Os Guardas desembainharam as espadas e aguardaram enquanto a sombra indistinta se transformava numa sólida figura envolta na capa púrpura de um Feiticeiro ExtraOrdinário.

Marcia Overstrand tinha Aparecido bem no meio da armadi­lha do Supremo Guardião. Foi apanhada de surpresa, e sem o FicaEmSegurança e a proteção dos Minutos da Meia-Noite — pois tinha chegado vinte minutos atrasada — não pôde impedir que o Capitão da Guarda lhe arrancasse o Amuleto Akhu que levava ao pescoço.

 

Dez minutos mais tarde, Marcia estava caída no fundo da Masmorra Número Um, que não passava de uma chaminé profunda e escura, enterrada nas fundações do Castelo. Marcia estava meio atordoada, presa no meio de um Vórtice de Sombras e Vultos que DomDaniel tinha criado, com grande prazer, especialmente para ela. Aquela era a pior noite da vida de Marcia. Estava indefesa, caída numa poça de água malcheirosa, apoiada numa pilha de ossos dos ocupantes anteriores da masmorra, atormentada pelos gritos e gemidos das Sombras e Vultos que rodopiavam à sua volta e lhe sugavam seus poderes Mágykos. Só na manhã seguinte — quando, com um bocado de sorte, um fantasma Antepassado se perdeu e calhou passar através da parede da Masmorra Número Um — é que mais alguém, que não DomDaniel ou o Supremo Guardião, soube onde ela estava.

O Antepassado levou Alther até lá, mas não havia nada que ele pudesse fazer a não ser sentar-se ao lado dela e encorajá-la para que se mantivesse viva. E Alther necessitou de todos os seus poderes de persuasão, pois Marcia estava desesperada. Por causa de uma birra com Silas, sabia que tinha deitado tudo aquilo por que Alther tinha lutado a perder ao depor DomDaniel. Pois, uma vez mais, DomDaniel tinha o Amuleto Akhu em volta do seu pescoço gordo. Era ele e não Marcia, que era agora verdadeiramente o Feiticeiro ExtraOrdinário.

 

Tia Zelda não tinha nem relógio nem cronômetro. Os cronô­metros nunca trabalhavam em condições na Choupana da Guardiã; havia Perturbação demais sob o solo. Infelizmente, isso era algo que Tia Zelda nunca se dera ao trabalho de dizer a Marcia, já que ela nunca se preocupava muito com as horas. Quando Tia Zelda que­ria saber que horas eram, contentava-se em olhar para o relógio de sol e ter a esperança de que o sol não estivesse encoberto, mas o que lhe interessava mais era a passagem das fases da Lua.

No dia em que o Rato Mensageiro tinha sido resgatado, Tia Zelda tinha levado Jenna para dar um passeio em torno da ilha depois do anoi­tecer. A neve estava tão alta como de costume, e com uma cobertura tão espessa de gelo, que Jenna era capaz de correr ligeiramente sobre ela, mas Tia Zelda, com as suas grandes botinas, afundava imediatamente até os joelhos. Tinham atravessado a ilha até o outro extremo, até estarem longe das luzes da choupana, e Tia Zelda tinha apontado para o escuro céu noturno, o qual era uma aquarela de centenas de milhares de estrelas brilhantes, mais do que as que Jenna já tinha visto.

— Hoje — disse Tia Zelda — é noite de Lua Nova.

Jenna estremeceu. Não de frio, mas com a estranha sensação que lhe provocou o estar ali na ilha, no meio de uma tal extensão de estre­las e escuridão.

— Hoje à noite, por muito que se esforce, não consegue ver a Lua — disse-lhe Tia Zelda. — Ninguém no mundo é capaz de ver a Lua hoje. Não é uma noite adequada para que alguém se aventure sozinho nos pântanos, e se as criaturas e espíritos dos pântanos não estivessem bem congelados debaixo da terra, a esta hora estaríamos FechadosPorEncanto na choupana. Mas achei que gos­taria de ver as estrelas sem a luz da Lua. Sua mãe sempre gostou de ver as estrelas.

Jenna engoliu em seco.

— A minha mãe? Quer dizer, a minha mãe de quando eu nasci?

— Sim — disse Tia Zelda. — Refiro-me à Rainha. Ela adorava as estrelas. Achei que seria capaz de gostar também.

— E gosto — disse Jenna, quase sem respiração. — Costumava sempre contá-las através da janela do meu quarto quando não con­seguia adormecer. Mas...Como é que conheceu a minha mãe?

— Costumava encontrá-la todos os anos — respondeu Tia Zelda. — Até que ela... bem, até as coisas mudarem. E a mãe dela, a sua encantadora avó, também a via todos os anos.

Mãe, avó... Jenna começou a perceber que tinha uma família da qual não sabia nada. Mas Tia Zelda sabia.

— Tia Zelda — disse Jenna, hesitante, atrevendo-se finalmente a fazer uma pergunta que a tinha preocupado desde que descobrira quem era na realidade.

— Humm? — Tia Zelda estava olhando para o pântano.

— E o meu pai?

— O seu pai? Ah, ele vinha dos Países Longínquos. Partiu ainda antes de você nascer.

— Partiu?

— Ele tinha um barco. Foi atrás de alguma coisa qualquer — disse Tia Zelda, de forma esquiva. — Voltou a ancorar no Porto pouco depois de você ter nascido, com um navio carregado de tesouros para você e para sua mãe, pelo que ouvi dizer. Mas quando lhe contaram os terríveis acontecimentos, partiu com a maré seguinte.

— Como... como se chamava? — perguntou Jenna.

— Não faço idéia — respondeu Tia Zelda, que, tal como a maio­ria das pessoas, não tinha prestado muita atenção à identidade do consorte da Rainha. A Sucessão transmitia-se de mãe para filha, per­mitindo que os homens da família vivessem suas vidas como bem entendessem.

Algo na voz de Tia Zelda chamou a atenção de Jenna, e ela desviou os olhos das estrelas para procurar a Tia. Jenna ficou sem respirar. Nunca tinha notado verdadeiramente os olhos de Tia Zelda antes, mas agora o penetrante azul gélido dos olhos da Bruxa Branca cortava a noite, brilhando através da escuridão e fitando atentamente o pântano.

— Muito bem — disse Tia Zelda. — É hora de voltarmos.

— Mas...

— No Verão conto-lhe mais. Era quando elas costumavam vir aqui, no Solstício de Verão. E levo-a até lá, também.

— Onde? — quis saber Jenna. — Leva-me aonde?

— Anda — insistiu Tia Zelda. — Não gosto do aspecto daquela sombra ali...

Tia Zelda pegou-lhe a mão e começou a correr com Jenna através da neve. No paul, um Lince dos Pântanos interrompeu sua aproximação furtiva e voltou para trás. Estava fraco demais para persegui-las; se tivesse sido uns dias mais cedo, teria conseguido uma ótima refeição, que lhe permitiria atravessar o Inverno. Mas agora o Lince encolheu-se no seu buraco escavado na neve e começou a mas­tigar debilmente o seu último rato congelado.

 

Depois da Lua Nova, surgiu no céu a primeira lasca finíssima do Quarto Crescente. E a cada noite que passava, crescia um bocadinho mais. Os céus estavam mais límpidos agora que a neve deixara de cair, e todas as noites Jenna via a Lua da janela, enquanto os Besouros Escudo flutuavam sonhadores nos Potes de Conserva, aguardando o momento de sua libertação.

— Continue observando — disse-lhe Tia Zelda. — A medida que a Lua continua a crescer, começa a atrair as coisas que estão no chão. E a choupana atrai as pessoas que desejarem vir aqui. A atração é mais forte na altura da Lua Cheia, que foi quando você chegou aqui.

Mas quando a Lua estava em quarto crescente, Marcia tinha ido embora.

— Como é que a Marcia pode ter ido embora assim? — tinha per­guntado Jenna à Tia Zelda na manhã em que tinham dado pelo seu desaparecimento. — Pensei que as coisas vinham para cá quando a Lua estava crescendo, não que iam embora.

Tia Zelda pareceu ficar um bocado mal-humorada com a per­gunta de Jenna. Estava aborrecida com Marcia por ter partido tão ines­peradamente, e também não gostava que questionassem as suas teorias sobre a Lua.

— As vezes — explicou-lhe Tia Zelda, misteriosamente —, as coisas têm que partir para poderem regressar. — Recolheu-se determi­nada ao seu armário das poções e fechou-se lá dentro.

Nicko dirigiu uma expressão de empatia à Jenna e acenou-lhe com o seu par de patins.

— Aposto que ganho de você para chegar ao Grande Lodaçal — sorriu, desafiante.

— O último a chegar é um rato morto — riu Jenna.

Stanley acordou sobressaltado ao ouvir as palavras «rato morto» e abriu os olhos bem a tempo de ver Nicko e Jenna pegarem os patins e desaparecerem pelo resto do dia.

 

Quando a Lua Cheia chegou sem que Marcia tivesse regressado, todos já estavam muito preocupados.

— Eu disse à Marcia que devia pensar bem no que ia fazer — disse Tia Zelda —, oh, mas não, deixa-se enervar completamente com a história de Silas e pronto, desaparece no meio da noite. E nem uma palavra desde essa altura. O que é mau sinal. Consigo perfeitamente compreender que Silas não possa voltar, por causa do Grande Gelo, mas não a Marcia.

— Talvez volte hoje à noite — aventurou Jenna —, como é noite de Lua Cheia.

— Pode ser — disse Tia Zelda. — Mas também pode ser que não.

 

Marcia, é claro, não regressou naquela noite. Passou-a, tal como tinha passado as dês anteriores, no meio do Vórtice de Sombras e Vultos, caída sem forças na poça de água pestilenta no fundo da Mas­morra Número Um. Sentado junto dela estava Alther Mella, servindo-se de toda a Magya fantasmagórica ao seu alcance para manter Marcia viva. Poucos conseguiam sobreviver sequer à queda na Masmorra Número Um, e quando conseguiam, nunca duravam muito tempo, pois não demoravam a afundar-se na água pestilencial para se juntarem às ossadas que estavam bem por baixo da superfície. Sem a ajuda de Alther, era sem dúvida o que teria acabado por acontecer à Marcia.

 

Nesta noite, na noite da Lua Cheia, enquanto o Sol se punha e a Lua se erguia no céu, Jenna e Tia Zelda embrulharam-se em man­tas para ficarem à janela, à espera de Marcia. Jenna não tardou a adormecer, mas Tia Zelda manteve-se acordada toda a noite até que o nascer do sol e o pôr da Lua acabou com a mais tênue das esperanças que pudesse ter quanto ao regresso de Marcia.

No dia seguinte, o Rato Mensageiro decidiu que já estava sufi­cientemente forte para partir. Havia um limite para a quantidade de purê de enguia que até um rato podia agüentar, e Stanley achava que já tinha definitivamente alcançado esse limite.

No entanto, antes que pudesse partir, tinha de ser encarregado de entregar uma nova mensagem, ou ser dispensado sem fazê-lo. Por isso nessa manhã tossiu educadamente, e disse:

— A sua atenção, por favor. — Todos se voltaram para o rato. Tinha estado muito quieto durante a convalescença, e não estavam habituados a ouvi-lo falar.

— Já é tempo de regressar ao Gabinete dos Ratos. Na verdade, já estou até um bocado atrasado. Mas devo inquirir: neces­sitam que leve alguma mensagem?

— Ao Papai! — gritou Jenna. — Leve uma ao Papai!

— E quem é esse Papai? — perguntou o rato. — E onde posso encontrá-lo?

— Não sabemos — disse Tia Zelda, rabugenta. — Não há ne­nhuma mensagem, Rato Mensageiro, obrigada. Está liberto de qualquer incumbência.

Stanley curvou-se, grato, e por demais aliviado.

— Muito obrigado, Madame — disse ele. — E obrigado pela sua amabilidade. A todos vocês. Estou muito agradecido.

Todos ficaram olhando o rato partir lançado por sobre a neve, deixando pequenas pegadas e marcas de cauda atrás de si.

— Gostaria que tivéssemos mandado uma mensagem — disse Jenna, tristonha.

— Foi melhor não — disse Tia Zelda. — Há qualquer coisa estranha com aquele rato. Tem alguma coisa diferente desde a última vez.

— Bom, estava muito mais magro — observou Nicko.

— Hmmm — murmurou Tia Zelda. — Há alguma coisa errada. Tenho certeza.

Stanley teve uma boa viagem de volta ao Castelo. Só quando chegou aos escritórios do Gabinete dos Ratos é que as coisas come­çaram a correr mal. Apressou-se a subir pelo escoadouro recentemente descongelado e bateu à porta do Gabinete dos Ratos.

— Entre! — ladrou o rato preto, recém-regressado ao serviço depois de ter sido tardiamente resgatado do congelado Gabinete dos Ratos.

Stanley entrou timidamente, bem ciente de que ia ter que dar algumas explicações.

— Você! — trovejou o rato preto. — Finalmente. Como se atreve a me fazer de bobo? Faz idéia de quanto tempo esteve fora?

— Aaaangh... dois meses — murmurou Stanley. Na verdade, estava até consciente demais do tempo que estivera fora, e come­çara a pensar no que Dawnie teria a dizer sobre isso.

— Aaaaangh... dois meses, senhor! — gritou o rato preto, batendo furioso com a cauda na mesa. — Faz idéia de quão estúpido me fez parecer?

Stanley não respondeu, pensando que pelo menos algo de bom tinha saído da sua horrível aventura.

— Vai pagar por isso — berrou o rato preto. — Vou me encar­regar pessoalmente de garantir que, enquanto eu estiver aqui, não voltará a ter um único trabalho.

— Mas...

— Mas, senhor! — gritou o rato preto. — O que é que eu te disse? Trate-me por senhor!

Stanley estava sem palavras. Tinha vontade de chamar o rato preto de muitas coisas, mas «senhor» não era uma delas. E subita­mente Stanley notou algo por trás de si. Voltou-se e ficou frente a frente com o maior par de ratos musculosos que já tinha visto. Permaneciam junto à porta do Gabinete dos Ratos, ameaçadores, bloqueando a luz e também qualquer hipótese que Stanley pudesse ter de tentar a fuga, que era o que repentinamente mais lhe apetecia fazer.

O rato preto, por outro lado, pareceu satisfeito em vê-los.

— Ah, ótimo. Os rapazes chegaram. Levem-no, rapazes.

— Para onde? — guinchou Stanley. — Para onde vão me levar?

— Para... onde... vão... me... levar... senhor — disse o rato preto por entre os dentes cerrados. — Para começar, à interposta pessoa que enviou a mensagem. Ele quer saber exatamente onde se encontra o destinatário. E como já não é um Rato Confidencial, vai ter que lhe dizer, é claro.

«Levem-no ao Supremo Guardião.

 

No dia seguinte à partida do Rato Mensageiro, começou o Gran­de Degelo. E começou em primeiro lugar nos Pântanos Marram, onde fazia sempre um pouco mais de calor do que nas outras partes, e depois espalhou-se rio acima, através da Floresta e até o Castelo. Foi um grande alívio para aqueles que estavam no Castelo, pois estavam ficando sem reservas de comida depois que o Exército dos Guardiães saqueou a maioria dos armazéns de Inverno para prover Dom­Daniel dos ingredientes necessários aos seus muitos e freqüentes banquetes.

O Grande Degelo também foi um grande alívio para um certo Rato Mensageiro que estava tremendo sombriamente numa ratoeira sob o solo da Casinha das Senhoras. Stanley tinha sido posto ali por causa de sua recusa em divulgar a localização da choupana de Tia Zelda. Não podia saber que o Caçador já tinha descoberto isso através do que Simão Heap tinha dito ao Supremo Guardião, tal como não sabia que ninguém tinha a intenção de libertá-lo, embora Stanley já andasse por ali há tempo suficiente para contar com isso. O Rato Mensageiro pro­curava manter-se o melhor que podia: comia o que conseguia apa­nhar, que eram principalmente aranhas e baratas; lambia as fugas do dreno de degelo; e deu consigo a pensar com saudades no João Tolo. Dawnie, entretanto, tinha desistido dele e tinha ido viver com a irmã.

 

Os Pântanos Marram estavam agora inundados pela água abun­dante da neve que derretia rapidamente. Em pouco tempo começou a surgir o verde da erva e o solo tornou-se pesado e úmido. O gelo no Mott e nos canais foi o último a desaparecer, mas logo que a Píton dos Pântanos sentiu a temperatura subir, começou a agitar-se, sacu­dindo a cauda impacientemente e flexionando as suas centenas de coste­las enrijecidas. Todos na choupana esperavam com a respiração suspensa que a serpente gigante se libertasse. Não faziam idéia do quanto esfomeada ou furiosa pudesse estar. Para se certificar de que Max ficaria dentro de casa, Nicko tinha amarrado o cão lobo a uma das pernas da mesa com uma corda bem grossa. Tinha certeza de que um cão lobo fresquinho era um dos pratos favoritos no menu da Píton dos Pântanos logo que conseguisse se libertar de sua prisão de gelo.

O que aconteceu, finalmente, na terceira tarde do Grande Degelo. Ouviu-se um inesperado e violento crás! e o gelo por cima da poderosa cabeça da Píton dos Pântanos quebrou-se e saltou no ar. A serpente ergueu a cabeça bem alto e Jenna, que era a única que estava por ali, foi se esconder atrás do barco das galinhas. A Píton dos Pântanos lançou um olhar na sua direção, mas não se sentiu com vontade de ter que mastigar através de suas grossas botas, e por isso começou a deslizar, lenta e dolorosamente em torno do Mott até ter encontrado a saída. E foi nessa altura que se viu numa situação delicada: a ser­pente gigante estava com cãibras. Estava presa num círculo. Quando tentou se dobrar na outra direção, nada parecia funcionar. Não podia fazer mais do que nadar em voltas no Mott. A cada vez que tentava voltar para o canal que levava ao paul, os seus músculos recusavam-se a trabalhar.

A serpente foi obrigada a ficar no Mott durante dias, tentando morder aos peixes e olhando furiosamente para quem quer que se aproximasse. Coisa que ninguém fazia, pelo menos depois da serpente ter acometido com a língua bifurcada contra o Garoto 412 e tê-lo atirado pelos ares. Por fim, numa daquelas manhãs, o sol do começo da Primavera resolveu espreitar das nuvens e aqueceu a ser­pente o suficiente para poder relaxar os músculos enrijecidos. Chiando como um portão enferrujado, lá foi ela a nadar dolorosamente em busca de algumas cabras e, lentamente, ao longo dos dias seguintes, quase conseguiu se esticar por completo. Quase. Mas não completa­mente. Até o fim dos seus dias, a Píton dos Pântanos ficou com a tendência de nadar para a direita.

 

Quando o Grande Degelo chegou ao Castelo, DomDaniel levou os seus dois Magogs rio acima até o Ribeiro Ermo onde, a altas horas da noite, os três seres atravessaram uma estreita prancha de madeira coberta de hera e entraram a bordo do seu navio Negro, o Vingança. Ali aguardaram alguns dias até que a maré alta de Primavera de que DomDaniel necessitava para retirar o navio do Ribeiro os libertou.

Na manhã do Grande Degelo, o Supremo Guardião convocou uma reunião do Conselho dos Guardiães, sem saber que no dia anterior tinha se esquecido de fechar a porta da Casinha das Senhoras. Simão já não estava acorrentado a um cano, já que o Supremo Guardião o encarava agora mais como um companheiro do que como um pri­sioneiro, e Simão estava sentado à espera de sua habitual visita do meio da manhã. Simão gostava de ouvir os mexericos sobre as extravagantes exigências e as constantes birras de DomDaniel e ficou desapontado quando o Supremo Guardião não apareceu na hora de costume. O que ele não sabia era que, a essa mesma hora, o Supremo Guardião, que começava a se sentir um bocado farto da companhia de Simão Heap, estava alegremente planejando aquilo a que DomDaniel chamava «Ope­ração Adubo Heap», que incluía a eliminação não só de Jenna, mas de toda a família Heap, incluindo Simão.

Depois de um tempo, e mais por tédio do que por qualquer desejo de fuga, Simão experimentou a porta. Para seu grande espanto, esta abriu-se, e ele estava inesperadamente frente a um corredor vazio. Voltou a recuar para o interior da Casinha e fechou a porta com força, em pânico. O que deveria fazer? Deveria escapar? Quereria escapar?

Encostou-se contra a porta e recapitulou as coisas. O único motivo para ficar era a promessa vaga do Supremo Guardião de que um dia poderia se tornar Aprendiz de DomDaniel. Mas tal promessa nunca mais lhe fora repetida. E Simão Heap tinha aprendido muitas coisas sobre o Supremo Guardião nas seis semanas que passara na Casinha das Senhoras. E em primeiro lugar da lista estava: nunca confiar em nada que o Supremo Guardião diga. Em segundo lugar vinha: prestar atenção ao Número Um. E dali em diante, o Número Um na vida de Simão Heap era claramente o próprio Simão Heap.

Simão voltou a abrir a porta. O corredor continuava vazio. Tomou uma decisão e abandonou a Casinha.

Silas vagueava melancólico ao longo da Via dos Feiticeiros, olhando para cima, para as janelas engorduradas por cima das lojas e dos escri­tórios que ladeavam a Via, interrogando-se se Simão ainda se encon­traria prisioneiro nalgum recesso das trevas que se acobertavam para além delas. Um pelotão de Guardiães passou por ele marchando rapida­mente, e Silas encolheu-se contra uma entrada, agarrado ao FicaEmSegurança de Marcia, esperando que ainda funcionasse.

— Psiu — chamou Alther.

— O quê? — Silas até pulou de susto. Já há algum tempo que não via Alther, já que o fantasma estava passando a maior parte do tempo com Marcia na Masmorra Número Um.

— Como está Marcia hoje? — sussurrou Silas.

— Já esteve melhor — respondeu Alther, sombriamente.

— Ainda acho que deveríamos dizer à Zelda — disse Silas.

— Siga o meu conselho, Silas, e nem se aproxime do Gabinete dos Ratos. Está sendo controlado pelos ratos de DomDaniel, vindos das Terras Más. Um grupo de brutamontes violentos. Mas não se preo­cupe, há de me ocorrer alguma coisa — disse Alther. — Tem que haver uma maneira de tirá-la de lá.

Silas tinha um aspecto deprimido. Sentia mais saudades de Marcia do que queria admitir.

— Anime-se, Silas — disse Alther. — Há uma pessoa à sua espera na Taverna. Encontrei-o vagueando perto do Tribunal quando vinha da masmorra de Marcia. Tirei-o de lá através do túnel. É melhor apressar-se, antes que ele mude de idéia e resolva pôr-se outra vez a descoberto. É matreiro, esse seu Simão.

— Simão! — O rosto de Silas abriu-se num sorriso radiante. — Alther, por que não disse antes? Ele está bem?

— Parece bem — respondeu Alther, de forma polida.

 

Simão já tinha passado duas semanas com sua família quando, no dia anterior à Lua Cheia, Tia Zelda interrompeu o que estava fazendo para Ouvir qualquer coisa longínqua.

— Meninos, meninos, agora não — disse ela a Nicko e ao Garoto 412, que estavam travando um duelo com dois cabos de vas­soura. — Preciso me concentrar.

Nicko e o Garoto 412 suspenderam seu combate enquanto Tia Zelda ficava muito quieta, e seus olhos adquiriam um aspecto dis­tante.

— Vem alguém aí — avisou ela, depois de um tempo. — Vou enviar o Boggart.

— Até que enfim! — disse Jenna. — Será o Papai ou a Marcia? Talvez o Simão venha com eles? Ou a mamãe? Talvez venham todos!

Max levantou-se de um salto e trotou até perto de Jenna, com a cauda abanando furiosamente. Às vezes até parecia que entendia exatamente o que Jenna estava dizendo. Exceto quando era qualquer coisa do gênero — é hora do banho, Max! — ou — não coma mais biscoitos, Max!

— Acalme-se, Max — disse Tia Zelda, acariciando as orelhas sedosas do cão lobo. — O problema é que não sinto a aproximação de ninguém que eu conheça.

— Oh — fez Jenna. — Mas quem mais sabe que estamos aqui?

— Não sei — respondeu Tia Zelda. — Mas quem quer que seja, neste momento já está nos pântanos. Acabaram de chegar. Con­sigo senti-lo. Vamos, deite-se, Max. Lindo menino. Agora, onde está o Boggart?

Tia Zelda soltou um assobio ensurdecedor. A atarracada figura castanha arrastou-se para fora do Mott e cambaleou pelo caminho acima, até à choupana.

— Assim tão alto, não — queixou-se, esfregando as pequenas ore­lhas redondas. — Atravessa-me dum lado ao outro, ‘travessa mesmo — cumprimentou Jenna com um aceno de cabeça. — B’Noite, m’nina.

— Olá, Boggart. — Jenna sorriu. O Boggart fazia-a sempre sorrir.

— Boggart — disse Tia Zelda —, vem alguém aí através dos pântanos. Mais do que uma pessoa, talvez. Não tenho certeza. Será que podia dar um pulinho lá, e descobrir quem é?

— Sem problemas. Uma nadadinha até cai bem. Num d’moro. — disse o Boggart. Jenna viu-o balancear-se até o Mott e desaparecer debaixo d’água com um ligeiro chapinhar.

— Enquanto esperamos pelo Boggart deveríamos ter os Potes de Conserva a postos — disse Tia Zelda. — Para o caso...

— Mas o Papai disse que você tinha Encantado a choupana depois do ataque dos Duendes — observou Jenna. — Quer dizer que não estamos seguros?

— Só contra os Duendes — explicou Tia Zelda —, e mesmo isso já deve estar se desvanecendo a essa hora. Seja como for, quem quer que seja que vem através dos pântanos, parece-me muito maior que um Duende.

Tia Zelda foi à procura do livro de feitiços das Conservas de Besouros Escudo.

Jenna olhou para os Potes de Conserva, que ainda estavam alinhados nos parapeitos. No interior da espessa gosma verde, os Be­souros Escudo estavam à espera. A maior parte estava dormindo, mas alguns agitavam-se lentamente, como se soubessem que podiam ser chamados a qualquer hora. Contra quem?, perguntou-se Jenna. Ou contra o quê?

— Aqui estamos — disse Tia Zelda ao aparecer com o livro de fei­tiços, e pousando-o com estrondo sobre a mesa. Abriu-o na primeira página e retirou de lá um pequeno martelo prateado, que entregou a Jenna.

— Ora, aqui está a Ativação — disse ela. — Se não se importar bata em cada Frasco com isto, para eles ficarem Prontos.

Jenna pegou o martelinho de prata e percorreu as filas de Fras­cos, martelando a tampa de cada um deles. Ao fazê-lo, o ocupante de cada um dos Frascos despertou e colocou-se em sentido. Em menos de um nada um exército de cinqüenta e seis Besouros Escu­do estavam a postos à espera de serem libertos. Jenna chegou ao último Frasco, que con­tinha a ex-centopéia. Martelou a tampa com o martelinho de prata. Para sua surpresa, a tampa saiu disparada, e o Besouro Escudo pulou para fora num chuveiro de gosma verde. E aterrissou no braço de Jenna.

Jenna gritou.

O Besouro Escudo solto agachou-se no antebraço de Jenna, com a espada preparada. A menina ficou paralisada onde estava, esperando que o Besouro se voltasse e a atacasse, esquecendo que a única missão do Besouro é proteger o seu Libertador contra os inimigos. Os quais pro­curava ansiosamente.

As escamas verdes blindadas do Escudo moviam-se de forma fluida enquanto se voltava de um lado para o outro, abarcando todo o compartimento com um olhar atento. O seu braço direito segurava uma espada afiada que reluzia sob a luz das velas, e as suas curtas, mas pode­rosas pernas moviam-se nervosas, enquanto passava o peso de uma para outra, avaliando os potenciais inimigos.

Mas os potenciais inimigos não eram grande coisa.

Havia uma enorme tenda azul, de retalhos, com olhos azuis bri­lhantes que o fitavam diretamente.

— Só tem que pousar a mão sobre o besouro — sussurrou a tenda à sua Libertadora. — Assim ele se enrola como uma bola. Depois tentamos metê-lo outra vez no Frasco.

A Libertadora olhou para a pequena espada afiada que o besouro sacudia no ar, e hesitou.

— Se quiser, faço eu — disse a tenda, e avançou em direção ao besouro. O besouro voltou-se, ameaçador, e a tenda deteve-se imedia­tamente, sem saber o que poderia estar acontecendo. Tinham Gravado todos os besouros, não tinham? Então o besouro devia saber que nenhum deles era parte do inimigo. Mas este besouro não sabia nada disso. Continuava agachado no braço de Jenna, prosseguindo a sua busca.

Agora tinha encontrado o que estava procurando. Dois jovens guer­reiros portando lanças, prontos para o ataque. E um deles usava um boné vermelho. De uma tênue e distante vida passada, o Besouro Escudo recordava aquele boné vermelho. Tinha lhe feito mal. O besouro não sabia exatamente que mal tinha sido esse, mas não fazia qualquer diferença.

Tinha avistado o inimigo.

Com um guincho temível, o besouro pulou do braço de Jenna, batendo as asas pesadonas, e atravessou o ar com um ruído metálico. O besouro estava se dirigindo diretamente para o Garoto 412 como um minúsculo míssil teleguiado, a espada erguida bem alto acima da cabeça. Berrava bem alto, a boquinha bem aberta mostrando fileiras de pequenos dentinhos verdes e afiados.

— Acerte-o! — gritou Tia Zelda. — Depressa, dê-lhe uma pancada na cabeça!

O Garoto 412 desferiu um golpe bem forte com o cabo da vassoura, mas falhou. Nicko fez pontaria com o seu, mas o besouro desviou-se no último momento, gritando e agitando a espada em direção do Garoto 412. O Garoto 412 olhava para o besouro sem querer acreditar, consciente demais da espada afiada.

— Não se mexa! — disse Tia Zelda num sussurro rouco. — Faça o que fizer, não se mexa.

O Garoto 412 viu, horrorizado, o besouro pousar-lhe no ombro e avançar determinado em direção ao pescoço, erguendo a espada como se fosse um punhal.

Jenna saltou em frente.

— Não! — gritou. O besouro voltou-se para sua Libertadora. Não entendia o que Jenna dizia, mas quando ela fechou a mão sobre si, o besouro embainhou a espada e enrolou-se obediente como uma bola. O Garoto 412 deixou-se sentar no chão com estrondo.

Tia Zelda já estava preparada com o Frasco vazio, e Jenna tentou enfiar o Besouro Escudo enrolado no seu interior. Mas não entrava. Primeiro era um braço que ficava de fora, depois o outro. Jenna dobrou ambos os braços, apenas para descobrir que um grande pé verde tinha se estendido para fora do Frasco. Jenna apertou e empurrou, mas o Besouro Escudo debateu-se e lutou com todas as forças contra a reentrada no Frasco.

Jenna tinha medo que ele se tornasse inesperadamente furioso e se servisse da espada, mas por muito desesperado que o Besouro esti­vesse para ficar fora do Frasco, nunca desembainhou a espada. A segu­rança de sua Libertadora era a sua principal preocupação. E como podia sua Libertadora estar a salvo, se o protetor estivesse fechado no Frasco?

— Vai ter que deixá-lo ir — suspirou Tia Zelda. — Nunca conheci ninguém que conseguisse voltar a fechar algum. Às vezes chego a pensar que dão mais trabalho do que valem a pena. Mas Marcia foi muito insistente. Como sempre.

— Mas, e o Garoto 412? — perguntou Jenna. — Se ele ficar em liberdade, vai continuar a atacá-lo?

— Agora que o tirou de cima dele, não. Deve estar a salvo.

O Garoto 412 não pareceu ficar muito impressionado. «Deve» não era bem o que ele queria ouvir. Antes preferia ouvir um «Com cer­teza».

O Besouro Escudo acabou pousando no ombro de Jenna. Por momentos, olhou para todo mundo com desconfiança no olhar, mas a cada vez que esboçava um movimento, Jenna punha-lhe a mão por cima, e o besouro não demorou a se acalmar.

Até alguma coisa arranhar a porta.

Todos se detiveram.

Lá fora, à porta, alguma coisa arrastava suas garras pela porta abaixo.

Scriitch... scraaatch... scritch.

Max ganiu.

O Besouro Escudo levantou-se e desembainhou a espada. Desta vez Jenna não o impediu. O besouro pairou sobre seu ombro, preparado para saltar.

— Vá ver se é um amigo, Berta — disse Tia Zelda calmamente. A pata balançou-se até à porta, inclinou a cabeça de lado e pôs-se à escuta, antes de soltar um breve miado.

— É um amigo — disse Tia Zelda. — Deve ser o Boggart. Mas não sei por que é que está arranhando assim.

Tia Zelda abriu a porta e gritou:

— Boggart! Oh, Boggart!

O Boggart estava caído e sangrando no degrau da entrada. Tia Zelda ajoelhou-se junto dele, e todos os outros se reuniram em volta.

— Boggart, Boggart, querido. O que aconteceu?

O Boggart não disse nada. Tinha os olhos fechados, o pêlo baço e colado pelo sangue. Escorregou ainda mais para o chão, tendo esgotado as suas últimas forças para chegar à choupana.

— Oh, Boggart... abra os olhos, Boggart... — pediu Tia Zelda. Não houve resposta. — Alguém, ajude-me a pegá-lo. Depressa.

Nicko saltou em frente e ajudou Tia Zelda a sentar o Boggart, mas ele era uma criatura pesada e escorregadia, e foi preciso a ajuda de todos para levá-lo para dentro. Levaram o Boggart para a cozinha, procurando não notar o rastro de sangue que pingava no chão enquanto andavam, e deitaram-no na mesa da cozinha.

Tia Zelda pousou a mão no peito de Boggart.

— Ainda respira — disse ela —, mas mal se nota. E o coração dele está batendo como um passarinho. Está muito fraco. — Tentou conter um soluço, depois controlou-se e obrigou-se a fazer alguma coisa.

— Jenna, fale com ele enquanto eu vou buscar a arca Médica. Continue falando com ele e faça-o saber que estamos aqui. Não o deixe desfalecer. Nicko, traga água quente da panela.

O Garoto 412 foi ajudar Tia Zelda com a arca Médica, enquan­to Jenna segurava nas patas úmidas e enlameadas do Boggart, e falava com ele em voz baixa, esperando soar mais calma do que se sentia.

— Boggart, está tudo bem, Boggart. Logo já vai estar melhor. Você vai ver. Boggart? Boggart? Aperte-me a mão se conse­gue me ouvir.

Um movimento quase imperceptível dos dedos palmípedes do Boggart aflorou a mão de Jenna.

— Isso, Boggart. Ainda estamos aqui. Você vai ficar bem. Vai...

Tia Zelda e o Garoto 412 voltaram com uma enorme arca de madeira, a qual pousaram no chão. Nicko pousou uma bacia com água quente sobre a mesa da cozinha.

— Bom — disse Tia Zelda. — Obrigada a todos. Agora gostaria que nos deixassem a sós, a mim e ao Boggart, para tratarmos disto. Vão e façam companhia à Berta e ao Max.

Mas eles não queriam deixar o Boggart.

— Vão — insistiu Tia Zelda.

Jenna largou relutantemente a pata mole do Boggart, e depois seguiu Nicko e o Garoto 412 para fora da cozinha. A porta fechou-se com firmeza por trás deles.

Jenna, Nicko e o Garoto 412 sentaram-se sombriamente no chão, perto da lareira. Nicko aninhou-se contra Max. Jenna e o Garoto 412 ficaram só olhando para o fogo, imersos nos seus próprios pensa­mentos.

O Garoto 412 estava pensando no seu anel Mágyko. Talvez se desse o anel à Tia Zelda, pensou ele, pudesse curar o Boggart. Mas se lhe desse o anel, ela ia querer saber onde o tinha encontrado. E alguma coisa lhe dizia que se ela soubesse onde ele o tinha encontrado, ia ficar muito zangada. Muito, muito zangada. E talvez o expulsasse dali. Fosse como fosse, era roubar, não era? Tinha roubado o anel. Não era dele. Mas podia salvar o Boggart...

Quanto mais o Garoto 412 pensava sobre tudo aquilo, mais se convencia do que tinha de fazer. Tinha que dar o anel-dragão à Tia Zelda.

— Tia Zelda disse que a deixassem sozinha — declarou Jenna quando o Garoto 412 se levantou e caminhou para a porta fechada da cozinha.

O Garoto 412 nem percebeu.

— Não vá — gritou Jenna, e levantou-se de um salto para impedi-lo, mas nessa hora a porta da cozinha se abriu.

Tia Zelda saiu de lá. Seu rosto estava pálido e encanecido, e tinha o avental coberto de sangue.

— O Boggart levou um tiro — disse ela.

 

A bala estava pousada sobre a mesa da cozinha. Não passava de uma pequena bola de chumbo, com um tufo de pêlo do Boggart ainda agarrado a ela, mas era uma ameaça pousada sobre o tampo recém-esfregado da mesa de Tia Zelda.

O Boggart estava muito quieto, deitado numa tina de latão no chão, mas parecia pequeno demais, magro e limpo para ser o Boggart que todos conheciam e de que todos gostavam. Uma extensa ligadura, improvisada a partir de um lençol rasgado, enrolava-se em torno do tronco, mas uma mancha vermelha já se alastrava pela brancura do pano.

Os olhos pestanejaram ligeiramente quando Jenna, Nicko e o Garoto 412 entraram cuidadosamente na cozinha.

— Temos que lhe passar uma esponja de água morna pelo corpo tão freqüentemente quanto pudermos — disse Tia Zelda. — Não podemos deixá-lo se secar. Mas não molhem a ferida da bala. E precisa ser mantido limpo. Nada de lama, pelo menos nos pró­ximos três dias. Pus-lhe algumas folhas de milefólio debaixo da liga­dura, e estou fervendo um chazinho de casca de salgueiro. Para as dores.

— Ele... ele vai ficar bem? — perguntou Jenna.

— Vai, vai ficar ótimo. — Tia Zelda permitiu-se um breve e esforçado sorriso, enquanto remexia a casca de salgueiro num grande panelão de cobre.

— Mas a bala. Quer dizer, quem pode ter feito isto? — O olhar de Jenna foi atraído para a esfera de chumbo negro, um intruso indesejado e ameaçador, que suscitava muitas questões desagradáveis.

— Não sei — respondeu Tia Zelda em voz baixa. — Perguntei ao Boggart, mas não está em condições de falar. Acho que devemos ficar de guarda hoje à noite.

E assim, enquanto Tia Zelda tratava do Boggart, Jenna, Nicko e o Garoto 412 levaram os Potes de Conserva para o exterior.

Uma vez no gélido ar noturno, o treino militar do Garoto 412 tomou conta dele. Bateu o terreno circundante em busca de um ponto que lhes permitisse uma boa visão de todos os caminhos de aproxi­mação à ilha e, ao mesmo tempo, proporcionar-lhes um esconderijo. Não tardou a encontrar aquilo de que estava à procura. O barco das galinhas.

Era uma boa escolha. A noite as galinhas estavam presas e em segurança no porão do barco, deixando o convés desocupado. O Garoto 412 subiu para o convés e agachou-se por trás da decrépita casa do leme, antes de chamar Jenna e Nicko para junto dele. Eles subiram para a capoeira e passaram os Potes de Conserva ao Garoto 412. Depois foram se juntar a ele na casa do leme.

Estava uma noite nebulosa, e a lua estava praticamente escondida, embora de vez em quando espreitasse por detrás das nuvens e projetasse uma límpida luz branca sobre os pântanos, permitindo uma visão desimpedida quilômetros em redor. O Garoto 412 analisou a paisa­gem com um olho treinado, procurando movimentos ou sinais que denunciassem a presença de alguém, tal como lhe tinha ensinado o hor­roroso Caçador Assistente, Meirinho. O Garoto 412 ainda sentia cala­frios quando se lembrava do Meirinho. Era um homem extremamente alto, que foi uma das razões pelas quais nunca chegou a Caçador — era visível demais. Também havia muitas outras razões, tal como o seu temperamento imprevisível; o hábito de fazer estalar os dedos quando estava nervoso, o que o denunciava freqüentemente quando estava se aproximando de sua presa; e a professada falta de tolerância para muitos banhos, o que também salvou muitas de suas presas que tinham bom olfato — pelo menos, desde que o vento soprasse na direção certa. Mas a principal razão por que o Meirinho nunca che­gou a Caçador foi o simples fato de que ninguém gostava dele.

O Garoto 412 também não gostava dele, mas tinha aprendido muito com ele, pelo menos depois de ter se habituado aos ataques de fúria, ao cheiro e ao estalar dos dedos. E uma das coisas que o Garoto 412 aprendera bem fora vigia e aguarda. Era o que o velho Meirinho repetia uma e outra vez, até ficar na cabeça do Garoto 412 como uma cantoria irritante. Vigia e aguarda, vigia e aguarda, vigia e aguarda, rapaz.

A teoria era que, se o vigia aguardasse tempo suficiente, a presa acabaria por se mostrar. Podia ser apenas o mais breve movimento de um pequeno galho, o momentâneo restolhar de folhas a serem pisadas, ou a súbita perturbação de um pequeno animal ou de um pássaro, mas o sinal acabaria surgindo. Tudo o que o vigia tinha a fazer era aguar­dar por ele. E depois, claro, saber reconhecê-lo quando o visse. Essa era a parte mais difícil e exatamente a parte em que o Garoto 412 nem sempre era muito bom. Mas desta vez, pensou, desta vez, sem o hálito pungente do horripilante Meirinho bufando ao pescoço, ia conseguir. Tinha certeza que conseguia.

Estava frio na casa do leme, mas havia um monte de velhos sacos empilhados lá, por isso serviram-se deles para se embrulharem e aguar­dar. E vigiar. E aguardar.

Embora os pântanos estivessem sossegados e tranqüilos, as nuvens no céu corriam pela face da Lua, num momento cobrindo-a e mergu­lhando a paisagem em sombras, no próximo rolando no vento e per­mitindo que o luar inundasse os pauis. Foi num desses momentos, quando o luar iluminou subitamente a teia de canais de drena­gem que cobria os Pântanos Marram, que o Garoto 412 viu alguma coisa. Ou pensou que viu. Entusiasmado, agarrou a mão de Nicko e apontou na direção onde pensou ter visto alguma coisa, mas nesse exato momento as nuvens voltaram a cobrir a Lua. E assim, agachados na casa do leme, aguardaram. E vigiaram, e aguardaram um pouco mais.

Pareceu demorar uma eternidade para que a longa e tênue nuvem atravessasse a Lua, e enquanto esperavam, Jenna soube que a última coisa que queria ver era alguém, ou alguma coisa, avançando pelo paul. Desejava ardentemente que quem quer que tivesse disparado sobre o Boggart tivesse repentinamente se lembrado de que deixara a cafeteira ao fogo e decidisse voltar, antes que a casa se incendiasse. Mas sabia que isso não aconteceria, porque a Lua saiu inesperadamente de trás da nuvem, e o Garoto 412 já estava outra vez apontando para alguma coisa.

A princípio, Jenna não conseguia ver absolutamente nada. A planura dos pântanos estendia-se sob ela enquanto espreitava da casa do leme, como um velho marinheiro que perscrutasse o mar em busca de um banco de peixe. E nessa altura viu-a. Lenta mas determinada, uma longa forma negra avançava ao longo de um dos distantes canais de drenagem.

— É uma canoa... — sussurrou Nicko.

O estado de ânimo de Jenna desanuviou-se.

— É o Papai?

— Não — sussurrou Nicko —, vêm duas pessoas. Talvez três. Não tenho certeza.

— Vou avisar a Tia Zelda — disse Jenna. Levantou-se, mas o Garoto 412 pôs-lhe uma mão no braço, impedindo-a de partir.

— O que foi? — sussurrou ela.

O Garoto 412 sacudiu negativamente a cabeça e levou um dedo aos lábios.

— Acho que ele acha que pode fazer algum barulho e denunciar-nos — sussurrou Nicko. — O som atravessa grandes distâncias sobre o pântano, à noite.

— Bom, preferia que ele dissesse isso — resmungou Jenna, abor­recida.

E assim Jenna ficou na casa do leme vendo a canoa avançar progres­sivamente, escolhendo o seu caminho por entre o labirinto de canais, sem se enganar, passando por todas as outras ilhas e dirigindo-se diretamente à deles. Quando estava mais próxima, Jenna percebeu que alguma coisa naqueles vultos lhe parecia horrivelmente familiar. A figura maior, na frente da canoa, tinha o ar concentrado de um tigre na caçada à sua presa. Por momentos Jenna sentiu pena da presa até que, num choque, percebeu quem era a presa.

Era ela.

Era o Caçador, e tinha vindo atrás dela.

 

À medida que a canoa se aproximava, os vigias no barco das gali­nhas podiam ver claramente o Caçador e os seus acompanhantes. O Caçador sentava-se na frente da canoa, remando rapidamente, e atrás dele estava o Aprendiz. E por trás do Aprendiz estava uma... Coisa. A Coisa estava acocorada no topo da canoa, correndo o seu olho soli­tário pelo pântano e esboçando uma ocasional tentativa de apanhar um inseto ou um morcego que lhe passasse ao alcance. O Aprendiz estava encolhido à frente da Coisa, mas o Caçador parecia nem notar sua presença ali. Tinha coisas mais importantes em que pensar.

Jenna estremeceu quando viu a Coisa. Assustava-a ainda mais do que o Caçador. O Caçador, pelo menos, era humano, embora um humano mortífero. Mas aquela criatura acocorada na parte de trás da canoa, o que seria aquilo? Para se acalmar, pegou o Besouro Escudo que tinha estado sentado, muito quieto, no seu ombro e, segurando-o cuidadosamente na palma da mão, apontou para a canoa e para o horrível trio no seu interior.

— Inimigos — sussurrou ela. O Besouro Escudo compreendeu logo. Seguiu o dedo de Jenna, que tremia ligeiramente, e cravou os seus acutilantes olhos verdes, com perfeita visão noturna, nas figuras que estavam na canoa.

O Besouro Escudo estava feliz.

Tinha um inimigo.

Tinha uma espada.

A espada não tardaria a encontrar o inimigo.

A vida é simples, quando se é um Besouro Escudo.

Os rapazes libertaram os outros Besouros Escudo. Uma a uma, desapertaram as tampas dos Potes de Conserva. A medida que removiam cada uma das tampas, um Besouro Escuro saltava para fora numa chuva de gosma verde, a espada na mão, em prontidão. Nicko e o Garoto 412 apontavam a canoa que se aproximava a cada um dos besouros que era libertado. Não tardou para que cinqüenta e seis Besou­ros Escudo estivessem alinhados, acocorados como molas prontas a sal­tar da borda do barco das galinhas. O qüinquagésimo sétimo ficou no ombro de Jenna, ferozmente leal à sua Libertadora.

E agora, quem estava no barco das galinhas não podia fazer mais que aguardar. E vigiar. E foi isso que, com o coração a ecoar nos ouvidos, fizeram. Viram o Caçador e o Aprendiz passarem de vultos indistintos às formas temíveis que todos tinham visto meses atrás na entrada do Canal Deppen, e continuavam a parecer tão sórdidos e peri­gosos como antes.

Mas a Coisa continuou não sendo mais do que um vulto sombrio.

A canoa tinha chegado a um canal estreito, que a levaria até o Mott. Os três vigias prenderam a respiração enquanto aguardavam que ela chegasse à curva do canal. Talvez, pensou Jenna, sem grande esperança, talvez o Encantamento esteja funcionando melhor do que a Tia Zelda pensa e o Caçador não possa ver a choupana.

A canoa penetrou na curva que levava ao Mott. O Caçador con­seguia ver perfeitamente a choupana.

Na sua cabeça, o Caçador reviu os três passos do Plano:

PRIMEIRO PASSO: Agarrar a Princesinha. Torná-la prisioneira e instalá-la na canoa sob vigilância do Magog de escolta. Disparar apenas se necessário. De outra forma, regressar a DomDaniel, que, desta vez, deseja fazer «o serviço ele mesmo».

SEGUNDO PASSO: Matar os vermes, i.e., a bruxa e o rapaz Feiticeiro. E o cão.

TERCEIRO PASSO: Um pequeno empreendimento privado.

Capturar o desertor do Exército da Juventude.

Devolvê-lo ao Exército da Juventude. Receber a recompensa.

Satisfeito com o plano, o Caçador remou silenciosamente ao longo do Mott, dirigindo-se ao cais de desembarque.

O Garoto 412 viu-o aproximar-se e fez sinal a Jenna e a Nicko para que permanecessem quietos. Sabia que o mínimo movimento podia denunciá-los. Na cabeça do Garoto 412, já tinham passado de Vigia e Aguarda para Emboscada. E na Emboscada, como lhe dizia o Meirinho a soprar-lhe no pescoço, a Imobilidade É Tudo.

Até o Momento de Agir.

Os cinqüenta e seis Besouros Escudo, alinhados ao longo da borda do barco das galinhas, compreendiam perfeitamente o que o Garoto 412 estava fazendo. Uma grande parte do Encantamento com que tinham sido criados tinha na realidade sido tirada do manual de treino do Exército da Juventude. O Garoto 412 e os besouros estavam agindo como um só.

O Caçador, o Aprendiz e o Magog não faziam a menor idéia de que em breve iriam ser parte integrante de um Momento de Agir. O Caça­dor tinha atracado o barco ao cais, e estava ocupado tentando conse­guir que o Aprendiz saísse da canoa sem fazer qualquer ruído e sem cair na água. Normalmente, o Caçador não estaria minimamente preo­cupado com o eventual mergulho do Aprendiz. Na verdade, até seria capaz de lhe dar um empurrãozinho, não fosse pelo fato de que o Aprendiz faria inevitavelmente um tremendo barulho, sem falar na possibilidade de começar a berrar de forma desalmada. E assim, pro­metendo que haveria de empurrar aquele fulano para a próxima água gelada que encontrassem, o Caçador desembarcou silenciosamente da canoa e depois pegou o Aprendiz nos braços e pousou-o no cais.

O Magog encolheu-se no fundo da canoa, cobriu com o capuz preto o seu olho de licranço, que não resistia ao luar brilhante, e ficou imóvel. O que se passasse na ilha não era com ele. Estava ali para tomar conta da Princesa e para servir de proteção contra as criaturas dos pântanos durante a viagem. Tinha desempenhado o seu papel de forma quase irrepreensível, não fosse aquele irritante incidente que tinha sido tanto culpa do Aprendiz como qualquer outra coisa. Mas nem os Espectros do Pântano, nem os Duendes, se atreveram sequer a se aproximar da canoa com o Magog empoleirado sobre ela, e a gosma que o Magog largava tinha coberto o casco da canoa e feito com que as ventosas das Nixies Aquáticas se soltassem, ao mesmo tempo que as queimava de forma dolorosa.

O Caçador estava satisfeito com a forma como a Caçada estava correndo. Deu seu costumeiro sorriso, que nunca lhe chegava ao olhar. Estavam, por fim, no esconderijo da Bruxa Branca, depois de uma custosa viagem pelos pântanos e a perda de tempo de um encontro com um estúpido animal dos pântanos qualquer que não parava de se meter no caminho. O sorriso do Caçador desapareceu quando recordou o encontro com o Boggart. Não gostava de desper­diçar balas. Nunca se sabia quando poderia precisar de uma bala a mais. Aconchegou a pistola na mão e, lenta e deliberadamente, car­regou-a com uma bala de prata.

Jenna viu a pistola de prata reluzir ao luar. Viu os cinqüenta e seis Besouros Escudo alinhados e prontos para entrar em ação, e decidiu manter o seu próprio besouro perto de si. Para o caso de ser preciso. Por isso pôs a mão sobre o besouro para acalmá-lo. O besouro embainhou obedientemente a espada e enrolou-se numa bola. Jenna meteu o besouro no bolso. Se o Caçador tinha uma pistola, então ela haveria de ter um besouro.

Com o Aprendiz seguindo imediatamente os passos do Caçador, tal como lhe tinha sido ordenado, o par avançou silenciosamente pelo estreito caminho que levava do cais à choupana, passando pelo barco das galinhas a metade do caminho. Ao chegarem ao barco das gali­nhas, o Caçador deteve-se. Tinha ouvido alguma coisa. O bater de corações humanos. Três corações humanos batendo apressadamente. Ergueu a pistola...

— Aaaaaaaaaeeeeeee!!!

O grito de cinqüenta e seis Besouros Escudo é um grito terrível. Capaz de deslocar os três minúsculos ossos no interior do ouvido e de criar uma incrível sensação de pânico. Aqueles que já ouviram falar dos Besouros Escudo fazem a única coisa possível: enfiam os dedos nos ouvidos na esperança de conseguirem controlar o pânico. Foi isso que o Caçador fez; ficou muito quieto, enterrou os dedos bem fundo nos ouvidos e, se sentiu um estremecimento de pânico, não deixou que isso o incomodasse muito.

O Aprendiz, é claro, não sabia nada sobre Besouros Escudo. Por isso fez a única coisa que qualquer pessoa faria se confrontada com um enxame de pequenas coisas verdes que voassem na sua direção, brandindo espadas afiadas como escalpelos e gritando tão alto que pare­cia que os ouvidos iam explodir. Desatou a correr. Mais rápido do que nunca, o Aprendiz correu aos tropeções em direção ao Mott, espe­rando pular para a canoa e afastar-se dali, rumo à segurança.

O Caçador sabia que, podendo escolher, um Besouro Escudo prefere perseguir um inimigo em movimento e ignorar um que esteja imóvel, e foi exatamente o que aconteceu. Para grande deleite do Caçador, todos os cinqüenta e seis Besouros Escudo decidiram que o inimigo era o Aprendiz e perseguiram-no implacavelmente até o Mott, onde o aterrorizado rapaz se lançou à água gelada para escapar ao matraqueante enxame verde.

Os intrépidos Besouros Escudo lançaram-se também ao Mott atrás do Aprendiz, fazendo aquilo que tinham que fazer, perseguindo o ini­migo até o fim, mas infelizmente para eles, o fim que encontraram foi o seu próprio. Logo que um besouro chegava à água, afundava como uma pedra, as suas pesadas armaduras verdes arrastando-os para o lodo espesso no fundo do Mott. O Aprendiz, chocado e quase sem ar por causa do frio, arrastou-se para a margem e deixou-se cair, tremendo, debaixo de um arbusto, assustado demais para fazer sequer um gesto.

O Magog assistiu a toda aquela cena sem manifestar qualquer interesse. Depois, quando toda a confusão se acalmou, começou a arrastar seus longos braços pelo fundo lodoso do Mott, recolhendo os besouros afogados, um de cada vez. Deixou-se ficar na canoa, satisfeito da vida, sugando a carapaça dos besouros até estar vazia, e transformando-os numa suave massa verde com as suas afiadas presas amarelas — armadura, espadas e tudo — antes de engoli-los.

O Caçador sorriu e olhou para a casa do leme do barco das galinhas. Nunca pensou que viesse a ser tão fácil. Os três ali, à espera dele, como tordos.

— Vão descer daí, ou vou ter que ir buscá-los? — perguntou, friamente.

— Corra — sibilou Nicko a Jenna.

— E você?

— Eu fico bem. É de você que ele está atrás. Anda, vai. Corre. Nicko levantou a voz e disse, dirigindo-se ao Caçador: — Por favor, não dispare. Vou descer.

— Não é só você, rapazinho. Vão descer todos daí. A menina pri­meiro.

Nicko afastou Jenna com um empurrão.

— Vai! — sibilou-lhe.

Jenna parecia incapaz de se mover, não querendo abandonar o que considerava o refúgio do barco das galinhas. O Garoto 412 reconheceu-lhe o horror no rosto. Tinha se sentido assim muitas vezes, no Exér­cito da Juventude, e sabia que a menos que a agarrasse, tal como o Rapaz 409 lhe fizera uma vez para salvá-lo do ataque de um carcaju, Jenna seria incapaz de se mover. E se ele não a agarrasse, o Caçador agarraria. Rapidamente, o Garoto 412 empurrou Jenna para fora da casa do leme, segurou-lhe a mão com força, e saltou com ela pela borda oposta do barco das galinhas, afastando-se do Caçador. Ao aterrissarem numa pilha de caca de galinha misturada com palha, ouviram o Caça­dor praguejar.

— Corram! — sibilou Nicko, espiando do convés.

O Garoto 412 ajudou Jenna a levantar-se, mas ela continuava sem querer se afastar dali.

— Não podemos abandonar o Nicko! — exclamou.

— Eu fico bem, Jen. Fuja, por favor! — gritou Nicko, esquecendo-se do Caçador e da sua pistola.

O Caçador sentiu-se tentado a disparar logo ali sobre o pequeno Feiticeiro, mas a sua prioridade era a Princesa, não a escumalha Feiti­ceira. Assim, enquanto Jenna e o Garoto 412 se levantavam da pilha de dejetos, trepavam sobre a rede de arame, e corriam para se salvar, o Caçador pulou atrás deles como se sua vida também dependesse disso.

O Garoto 412 manteve a mão de Jenna firmemente fechada na sua, enquanto se afastavam do Caçador, passando por trás da choupana e mergulhando no pomar de Tia Zelda. Tinha a vantagem sobre o Caça­dor de conhecer a ilha, mas isso não incomodava o Caçador. Estava fazendo aquilo em que era melhor, perseguindo uma presa, e ainda por cima uma presa jovem e aterrorizada. Era canja. Afinal de contas, para onde eles poderiam fugir? Era apenas uma questão de tempo até apanhá-los.

O Garoto 412 e Jenna agacharam-se e esgueiraram-se por entre os arbustos, deixando o Caçador a digladiar-se com as plantas espinhosas, em busca de um caminho, mas não tardaram a chegar ao fim do pomar, emergindo relutantemente no relvado, bem exposto, que levava ao tanque dos patos. Nesse momento a Lua saiu de trás das nuvens, e o Caçador viu a sua presa recortada contra um cenário de pauis.

O Garoto 412 começou a correr, a Jenna logo atrás dele, mas o Caçador estava a encurtar rapidamente a distância e não parecia cansar-se, ao contrário de Jenna, que mal conseguia dar mais um passo. Con­tornaram o tanque dos patos e subiram a pequena colina relvada, correndo sobre o solo oco.

O Garoto 412 esquivava-se, para lá e para cá, por entre os pe­quenos arbustos que se espalhavam por ali, arrastando Jenna consigo, consciente de que o Caçador estava quase tão próximo que bastaria estender uma mão para agarrá-la.

E, subitamente, o Caçador estava próximo o bastante. Pulou em frente e mergulhou em direção aos pés de Jenna.

— Jenna! — gritou o Garoto 412, puxando-a para fora do alcance do amplexo do Caçador e saltando com ela para um arbusto.

Jenna caiu sobre o arbusto logo depois do Garoto 412, apenas para descobrir que, subitamente, o arbusto já não estava ali, e ela caía de cabeça num espaço escuro, frio e infinito.

Aterrissou com um forte abalo sobre o chão arenoso. Um momento depois ouviu um estrondo abafado, e o Garoto 412 estava caído na escuridão a seu lado.

Jenna sentou-se, tonta e dolorida, e esfregou a nuca, onde tinha batido no chão. Algo de muito estranho tinha acontecido. Tentou recordar-se do que tinha sido. Não era a fuga do Caçador, nem a queda através do solo, mas algo ainda mais estranho. Sacudiu a cabeça, numa tentativa de afastar a neblina que lhe toldava o pensamento. Era isso. Lembrou-se.

O Garoto 412 tinha falado!

 

— Você fala — disse Jenna, esfregando o galo na cabeça.

— Claro que falo — respondeu o Garoto 412.

— Então por que nunca falou antes? Nunca disse absolutamente nada. Exceto o seu nome. Quer dizer, número.

— É a única coisa que devemos dizer quando somos capturados. Posto e número. Mais nada. Foi isso que fiz.

— Você não foi capturado. Foi salvo — observou Jenna.

— Eu sei — retorquiu o Garoto 412. — Quer dizer, eu sei, agora. Naquela altura não sabia.

Jenna sentia uma sensação estranhíssima por poder estar tendo uma conversa com o Garoto 412 depois de todo este tempo. E ainda mais estranha por esta conversa estar acontecendo no fundo de um poço, na mais completa escuridão.

— Quem me dera que tivéssemos uma luz — disse Jenna. — Não consigo parar de imaginar que o Caçador está se aproximando de nós no escuro. — Jenna estremeceu.

O Garoto 412 enfiou a mão debaixo do chapéu, retirou o anel e enfiou-o no dedo indicador direito. Serviu perfeitamente. Fe­chou a outra mão em concha sobre o anel-dragão, aquecendo-o e desejando que ele emitisse o seu brilho dourado. O anel respondeu, e um brilho suave alastrou-se a partir das mãos do Garoto 412 até conseguir ver Jenna perfeitamente a olhar para ele através da escu­ridão. O Garoto 412 sentiu-se muito feliz. O anel brilhava mais do que nunca, e não tardou que projetasse um cálido círculo de luz em torno de ambos, sentados no chão arenoso.

— Isso é fantástico — disse Jenna. — Onde o encontrou?

— Aqui embaixo — respondeu o Garoto 412.

— O quê? Encontrou-o aqui? Agora mesmo?

— Não. Encontrei-o antes.

— Antes de quê?

— Antes... lembra-se de quando nos perdemos no haar?

Jenna anuiu.

— Bom, caí aqui embaixo. E pensei que ia ficar preso aqui para sempre. Até que encontrei o anel. É Mágyko. Iluminou-se e mostrou-me a saída.

Então foi isso que aconteceu, pensou Jenna. Agora tudo fazia sentido. O Garoto 412 confortavelmente sentado perto da lareira à espera deles, quando ela e Nicko tinham por fim conseguido encon­trar o caminho, gelados e ensopados de terem andado horas dando vol­tas à procura dele. Ela soube logo que ele tinha um segredo qualquer. E durante este tempo todo ele tinha andado com o anel sem mos­trá-lo a ninguém. O Garoto 412 era uma autêntica caixinha de surpresas.

— É um anel lindíssimo — disse ela, admirando o dragão dou­rado enrolado em torno do dedo do Garoto 412. — Posso pegar nele?

Com alguma relutância, o Garoto 412 tirou o anel do dedo e deu-o à Jenna. Ela recebeu-o cuidadosamente na concha das mãos, mas a luz começou a dissipar-se e a escuridão adensou-se em volta deles. Não tardou que a luz do anel tivesse desaparecido por completo.

— Deixou-o cair? — perguntou o Garoto 412, acusador.

— Não — retorquiu Jenna —, ainda o tenho na mão. Mas comigo não funciona.

— Claro que funciona. É um anel Mágyko — retorquiu o Garoto 412. — Deixa eu ver. Vou te mostrar. — Pegou o anel e o túnel en­cheu-se imediatamente de luz. — Viu, é fácil.

— Fácil para você. Para mim não.

— Não sei porquê... — disse o Garoto 412, intrigado.

Mas Jenna tinha visto porquê. Tinha visto uma e outra vez, ao ter crescido numa casa de Feiticeiros. E embora Jenna soubesse muito bem que ela não era Mágyka, sabia reconhecer quem era.

— Não é o anel que é Mágyko. É você — disse ela ao Garoto 412.

— Eu não sou Mágyko! — retorquiu o Garoto 412. E soou tão convicto que Jenna não quis prosseguir com a discussão.

— Bom, seja o que for, é melhor guardar o anel —- disse ela. — E então, como é que saímos daqui?

O Garoto 412 voltou a pôr o anel no dedo e conduziu Jenna, con­fiante, pelas curvas e contracurvas do túnel, que tanto o tinham confundido antes, até finalmente chegarem ao topo das escadas.

— Cuidado — disse ele. — Da última vez caí daqui e quase perdi o anel.

No fundo das escadas, Jenna deteve-se. Alguma coisa tinha feito com que o cabelo de sua nuca se eriçasse.

— Eu já estive aqui antes — murmurou.

— Quando? — perguntou o Garoto 412, um bocado ciumento. Aquele era o seu lugar.

— Nos meus sonhos — murmurou Jenna. — Conheço este lugar. Costumava sonhar com ele no Verão quando estava em casa. Mas era maior do que isto...

— Anda — instruiu o Garoto 412, determinado.

— Pergunto-me se será maior, se haverá um eco. — Jenna ergueu a voz ao falar.

haverá um eco haverá um eco haverá um eco haverá um eco haverá um eco haverá um eco haverá um eco... ecoou por toda sua volta.

— Chiiiiu — sussurrou o Garoto 412. — Ele pode nos ouvir. Atra­vés do chão. Eles são treinados para ouvirem como cães.

— Quem?

— Os Caçadores.

Jenna calou-se. Tinha se esquecido do Caçador, e agora não queria que a recordassem.

— Há gravuras por todas as paredes — sussurrou Jenna —, e sei que sonhei com elas. Parecem bem antigas. E é como se contassem uma história.

O Garoto 412 não tinha prestado muita atenção às gravuras antes, mas agora aproximou o anel das paredes de mármore macio que for­mavam aquela parte do túnel. Conseguia ver formas simples, quase primitivas, em tons de azul-escuro, vermelho e amarelo, revelando o que pareciam ser dragões, um barco sendo construído, depois um farol e um naufrágio.

Jenna apontou para mais gravuras ao longo das paredes. — E aque­las parecem-se com projetos para uma torre ou algo assim.

— É a Torre dos Feiticeiros — disse o Garoto 412. — Olhe a Pirâmide no topo.

— Não sabia que a Torre dos Feiticeiros era tão antiga — disse Jenna, fazendo correr um dedo sobre a tinta e pensando que podia ser a primeira pessoa a ver aquelas gravuras depois de milhares de anos.

— A Torre dos Feiticeiros é muito antiga — disse o Garoto 412. — Ninguém sabe quando foi construída.

— E como é que você sabe? — perguntou Jenna, surpreendida pela convicção do Garoto 412.

O Garoto 412 respirou fundo e recitou em tom monótono:

A Torre dos Feiticeiros é um Monumento Antigo. Preciosos recursos são desbaratados pela Feiticeira ExtraOrdinária para manter a Torre na sua espalhafatosa opulência, recursos que poderiam ser utilizados para curar os doentes, ou para tornar o Castelo um lugar mais seguro para todos. Viu, ainda me lembro. Todas as semanas tínhamos que recitar coisas assim em nossas aulas de Conheça o Seu Inimigo.

— Argh! — concordou Jenna, compreensiva. — Ei, aposto que Tia Zelda ia ficar interessada nisto tudo aqui embaixo — sussurrou enquanto seguia o Garoto 412 ao longo do túnel.

— Ela já sabe disto tudo — disse o Garoto 412, recordando-se dos desaparecimentos de Tia Zelda do armário das poções. — E acho que ela sabe que eu sei.

— Por quê? O que ela disse? — quis saber Jenna, perguntando-se como lhe tinha escapado tudo aquilo.

— Não disse nada. Mas deu-me um olhar esquisito.

— Ela dá olhares esquisitos em todo mundo — observou Jenna. — E isso não quer dizer que ela desconfie que eles andaram metendo o nariz em túneis secretos.

Caminharam um pouco mais. A linha de gravuras tinha termi­nado e eles tinham chegado a uns degraus íngremes que se erguiam do chão. A atenção de Jenna foi atraída por uma pequena rocha caída perto do último degrau. Pegou-a e mostrou-a ao Garoto 412.

— Ei, olha para isto. Não é bonita?

Jenna estava segurando uma grande pedra verde em forma de ovo. Era extremamente lisa e macia, como se alguém a tivesse polido, e refletia um brilho baço sob a luz do anel. O verde tinha uma qualidade iridescente, como a asa de uma libélula, e repousava pesada, mas perfeitamente equilibrada, na concha de ambas as mãos de Jenna.

— É tão macia — disse o Garoto 412, acariciando-a lentamente.

— Toma, fique com ela — disse Jenna, impulsiva. — Pode ser a sua própria pedra de estimação. Como o Petrocas Trelawney, mas maior. Podemos pedir ao Papai que lhe arranje um feitiço quando voltarmos ao Castelo.

O Garoto 412 pegou a pedra verde. Não sabia o que dizer. Ninguém nunca lhe tinha dado um presente antes. Colocou a pedra no seu bolso secreto no interior do casaco de pele de carneiro. Depois lembrou-se do que Tia Zelda tinha lhe dito quando ele tinha levado algumas ervas do jardim para ela.

— Obrigado — disse.

Alguma coisa na maneira como ele falou fez com que Jenna se recordasse de Nicko. Nicko.

Nicko e o Caçador.

— Temos que voltar — disse ela ansiosamente.

O Garoto 412 concordou com um aceno de cabeça. Sabia que tinham que voltar e enfrentar o que quer que os esperasse lá fora. Tinha estado só a aproveitar a sensação de segurança por um tempo.

Mas sabia que não podia durar.

 

O alçapão ergueu-se lentamente alguns centímetros, e o Garoto 412 espiou pela fresta assim criada. Um calafrio percorreu-o de alto a baixo. A porta para o armário das poções tinha sido escancarada, e ele estava olhando diretamente para os calcanhares das botas enla­meadas do Caçador.

De pé, com as costas para o armário, e a apenas alguns metros de distância estava o Caçador, a capa verde atirada para trás do om­bro e a pistola de prata pronta a ser utilizada. Estava voltado para a porta da cozinha, inclinado como se preparando para correr em frente.

O Garoto 412 esperou para ver o que o Caçador estava se preparando para fazer, mas o homem não fez absolutamente nada. Estava, pensou o Garoto 412, à espera. Provavelmente, de que Tia Zelda saísse da cozinha.

Desejando que Tia Zelda se mantivesse afastada dali, o Garoto 412 estendeu uma mão para que Jenna lhe desse seu Besouro Escudo.

Jenna aguardava ansiosa na escada, por baixo dele. Percebia perfeitamente de que não estava tudo bem, tão tenso e silencioso se tornara repentinamente o Garoto 412. Quando ele lhe estendeu a mão, ela tirou o Besouro Escudo enrolado do bolso e entregou-o, tal como tinham planejado, desejando-lhe silenciosamente boa sorte, en­quanto o fazia. Jenna tinha começado a gostar do besouro, e tinha pena de vê-lo partir.

Cuidadosamente, o Garoto 412 pegou o besouro e introduziu-o pelo alçapão aberto. Pousou a pequena bola verde blindada no chão, assegurando-se de que a mantinha segura, e apontou-a na direção correta.

Direto ao Caçador.

Depois soltou-o. O besouro desenrolou-se imediatamente, cravou os olhos verdes penetrantes no Caçador e desembainhou a espada com um tênue assobio. O Garoto 412 prendeu a respiração ao ouvir o ruído, e esperou que o Caçador não o tivesse ouvido, mas o atarracado homem de verde não esboçou qualquer movimento. O Garoto 412 libertou len­tamente o ar e, com um piparote, mandou o besouro pelos ares, em direção ao alvo, com um berreiro estremecedor.

O Caçador não fez nada.

Não se voltou, nem sequer estremeceu quando o besouro lhe pou­sou num ombro e ergueu a espada, pronto a atacar. O Garoto 412 estava impressionado. Sabia que o Caçador era duro, mas aquilo já era exagero.

E, nessa hora, apareceu Tia Zelda.

— Cuidado! — gritou o Garoto 412. — O Caçador!

Tia Zelda pulou de susto. Não por causa do Caçador, mas porque nunca tinha ouvido o Garoto 412 falando e, por isso, não fazia idéia de quem tinha gritado. Ou de onde vinha a voz desconhecida.

E depois, para grande espanto do Garoto 412, Tia Zelda apanhou o Besouro Escudo do ombro do Caçador, e deu-lhe duas pancadinhas na cabeça para fazê-lo enrolar novamente.

E ainda assim, o Caçador não se moveu.

Sem hesitar, Tia Zelda meteu o Besouro Escudo num dos seus muitos bolsos de retalhos e olhou em volta, interrogando-se de onde poderia ter vindo a voz desconhecida. E depois viu o Garoto 412 a espiar sob o alçapão ligeiramente erguido.

— É você? — exclamou. — Graças a Deus, você está bem? E a Jenna?

— Está aqui — respondeu o Garoto 412, sentindo algum receio em falar, caso o Caçador pudesse ouvi-lo. Mas o Caçador não dava sinais de ter ouvido o que quer que fosse, e Tia Zelda estava a tratá-lo como se não passasse de uma estranha peça de mobiliário enquanto contor­nava a figura imóvel, levantava o alçapão e ajudava o Garoto 412 e Jenna a sair.

— Que maravilhosa visão, vocês dois sãos e salvos — disse ela, a transbordar de felicidade. — Estava tão preocupada.

— Mas... mas e ele? — O Garoto 412 apontou para o Caçador.

Congelado — disse Tia Zelda com uma expressão de con­tentamento. — Completamente Congelado, e para ficar. Pelo menos até decidir o que fazer com ele.

— Onde está o Nicko? Ele está bem? — perguntou Jenna en­quanto saía do alçapão.

— Está sim. Foi atrás do Aprendiz — respondeu Tia Zelda. Exatamente quando Tia Zelda acabou de falar, a porta se abriu com estrondo e um Aprendiz completamente encharcado foi empur­rado para o interior, seguido por um não menos encharcado Nicko.

— Porco — cuspiu Nicko, batendo a porta. Soltou o rapaz e aproximou-se da lareira acesa para se secar.

O Aprendiz pingava tristemente no chão e lançou um olhar suplicante ao Caçador. Pingou ainda mais tristemente quando viu o que tinha acontecido. O Caçador estava Congelado no meio de um salto com a pistola na mão, olhando para o ar com olhos vazios. O Aprendiz engoliu em seco — uma enorme mulher numa tenda de retalhos estava avançando determinada na sua direção, e ele sabia perfeitamente quem era, pelo Baralho de Cartas Ilustrado dos Inimigos, que tinha sido obrigado a estudar antes de vir para a Caçada.

Era a Louca Bruxa Branca, Zelda Zanuba Heap.

Já para não falar do Rapaz Feiticeiro, Nickolas Benjamin Heap, e 412, o miserável desertor fugitivo. Estavam todos ali, tal como lhe tinham dito que estariam. Mas onde estava aquela que eles tinham vindo procurar? A Herdeira?

O Aprendiz olhou em volta e encontrou Jenna, escondida nas sombras por trás do Garoto 412. Notou a tiara dourada de Jenna que rebrilhava contra o longo cabelo negro e seus olhos violeta, tal como na gravura do Baralho Inimigo (desenhado com grande habilidade por Linda Lane, a espiã.) A Herdeira era um bocado mais alta do que esperava, mas era ela, sem dúvida alguma.

Um sorriso matreiro bailou nos lábios do Aprendiz enquanto se interrogava se conseguiria capturar Jenna, sozinho. Quão satisfeito o Mestre se mostraria para com ele. Certamente que nessa altura o Mestre conseguiria esquecer todos os fracassos anteriores, e deixaria de ameaçar enviá-lo como Dispensável para o Exército da Juventude. Sobretudo se fosse bem-sucedido onde até o Caçador tinha falhado.

Ia fazê-lo.

Apanhando todo mundo de surpresa, o Aprendiz, embora atra­palhado pelo manto encharcado, lançou-se para a frente e agarrou Jenna. Era inesperadamente forte para o seu tamanho, e enrolou um braço rijo em torno do pescoço de Jenna, quase a esganando. E depois começou a arrastá-la em direção à porta.

Tia Zelda esboçou um movimento em direção ao Aprendiz, e este abriu sua navalha, apertando-a com força contra o pescoço de Jenna.

— Se alguém tentar me deter, é ela quem paga — rosnou, empur­rando Jenna pela porta afora e pelo caminho até à canoa, onde o Magog estava à espera. O Magog não prestou qualquer atenção àquela cena. Estava imerso na liquefação do seu décimo quinto Besouro Escudo, e além disso, as suas obrigações apenas se iniciavam depois da prisio­neira estar na canoa.

E ela estava quase.

Mas Nicko não ia deixar que levassem sua irmã sem oferecer resis­tência. Correu atrás do Aprendiz, e lançou-se sobre ele. O Aprendiz caiu por cima de Jenna, e ouviu-se um grito. Um fio de sangue escor­ria debaixo dela.

Nicko afastou o Aprendiz do caminho.

— Jen, Jen! — soluçou. — Está machucada?

Jenna tinha se posto de pé de um salto, e estava olhando para o sangue no caminho.

— Acho... acho que não — tartamudeou. — Acho que é dele. Acho que ele, sim, está machucado.

— É bem feito — disse Nicko, afastando a faca do alcance do Aprendiz, com um pontapé.

Nicko e Jenna puseram o Aprendiz de pé. Tinha um pequeno corte no braço, mas, fora isso, parecia incólume. Mas estava branco como cal. O Aprendiz ficava aterrorizado por ver sangue, especialmente quando era o seu, mas estava ainda mais aterrorizado imaginando o que os Feiticeiros iam fazer com ele. Enquanto o arrastavam de volta à choupana, o Aprendiz fez uma última tentativa para escapar. Soltou-se da mão de Jenna, e desferiu um forte pontapé na canela de Nicko.

Começaram à bulha. O Aprendiz deu um soco violento na barriga de Nicko, e estava prestes a chutá-lo outra vez quando Nicko lhe torceu dolorosamente o braço atrás das costas.

— Veja se consegue se soltar desta — disse-lhe Nicko. — Não pense que pode tentar raptar minha irmã e que se safar assim. Porco.

— Nunca conseguiria se safar — zombou Jenna. — É estúpido demais.

O Aprendiz odiava que lhe chamassem de estúpido. Era como o Mestre passava a vida lhe chamando. Estúpido pequeno. Estúpido cabeça de abóbora. Estúpido cabeçudo. Odiava.

— Não sou estúpido — gemeu quando Nicko apertou as mãos em volta do seu braço. — Posso fazer o que quiser. Podia ter atirado sobre ela se quisesse. Já atirei sobre uma coisa hoje à noite. Por isso, esperam para ver.

Mal o disse, o Aprendiz desejou não tê-lo feito. Quatro pares de olhos acusadores cravaram-se nele.

— O que quer dizer com isso, exatamente? — perguntou-lhe Tia Zelda, friamente. — Atirou sobre uma coisa?

O Aprendiz decidiu apostar na desfaçatez.

— Não é da sua conta. Posso atirar sobre o que me ape­tecer. E se me apetecer atirar sobre uma gorda bola de pêlo que se mete no meu caminho quando estou em serviço oficial, atiro.

Gerou-se um silêncio chocado. Nicko quebrou-o.

— Boggart. Ele atirou no Boggart. Porco.

— Ai! — gritou o Aprendiz.

— Nada de violência, Nicko, por favor — pediu Tia Zelda. — O que quer que ele tenha feito, não passa de um rapazinho.

— Não sou um rapazinho — disse o Aprendiz, altivo. — Sou Aprendiz de DomDaniel, o Supremo Feiticeiro e Necromante. Sou o sétimo filho de um sétimo filho.

— O quê? — exclamou Tia Zelda. — O que disse?

— Sou Aprendiz de DomDaniel, o Supremo...

— Não é isso. Isso nós já sabemos. Posso ver as estrelas negras que traz no cinto, muito obrigada.

— Eu disse — continuou o Aprendiz, orgulhoso, satisfeito por alguém levá-lo finalmente a sério — que sou o sétimo filho de um sétimo filho. Eu sou Mágyko. — Embora, pensou o Aprendiz, tal ainda não tenha se revelado. Mas há de se revelar.

— Não acredito — disse Tia Zelda, secamente. — Nunca na minha vida vi alguém que se parecesse menos com um sétimo filho de um sétimo filho.

— Pois bem, mas eu sou — insistiu o Aprendiz, amuado. — Eu me chamo Septimus Heap.

 

— É mentira — disse Nicko, furioso, andando de um lado para o outro, enquanto o Aprendiz pingava miseravelmente, perto da lareira.

As roupas de lã verde do Aprendiz libertavam um cheiro desagradavelmente bolorento, que Tia Zelda reconheceu imediatamente como sendo o cheiro de feitiços falhos e Magya Negra estagnada. Abriu umas quantas jarras de Barreira Odorosa, e não tardou que o ar cheirasse agradavelmente a torta de limão e merengue.

— Está só dizendo isso para nos desestabilizar — prosseguiu Nicko, indignado. — Com certeza que esse pequeno porco não se chama Septimus Heap.

Jenna pôs um braço em volta de Nicko. O Garoto 412 gostaria de conseguir entender o que estava acontecendo.

— Quem é Septimus Heap? — perguntou.

— O nosso irmão — respondeu Nicko. O Garoto 412 ficou ainda mais confuso.

— Morreu quando ainda era bebê — explicou Jenna. — Se tivesse sobrevivido, teria poderes Mágykos fabulosos. O nosso pai tam­bém é um sétimo filho, entende — continuou Jenna —, mas isso nem sempre faz de você um grande Mágyko.

— Do Silas não fez com certeza — comentou Tia Zelda.

— Quando o Papai casou com a mamãe, tiveram seis filhos. Tiveram o Simão, o Sam, o Edd e o Erik, o Jo-Jo e o Nicko. E depois tiveram o Septimus. Por isso ele era o sétimo filho de um sétimo filho. Mas morreu. Logo depois de nascer — disse Jenna. Estava recordando aquilo que Sara tinha lhe contado numa noite de Verão, quando ela já estava aconchegada na sua caminha-gavetão. — Sempre pensei que fosse o meu irmão gêmeo. Mas afinal, não era...

— Oh — disse o Garoto 412, pensando no complicado que devia ser ter uma família.

— Por isso, está excluído que ele possa ser nosso irmão — Nicko estava dizendo. — E mesmo que fosse, eu não o queria. Meu irmão é que ele não é.

— Bem — disse Tia Zelda —, só há uma maneira de escla­recermos isto. Podemos ver se ele está dizendo a verdade, do que eu duvido muito. Embora sempre me tenha interrogado acerca de Septimus... Por qualquer motivo, nunca me pareceu que a história batesse muito bem. — Abriu a porta e olhou para a Lua.

— Uma Lua corcovada — disse ela. — Quase Lua cheia. Não é um mau momento para adivinhações.

— O quê? — perguntaram Jenna, Nicko e o Garoto 412 em unís­sono.

— Vou lhes mostrar — respondeu Tia Zelda. — Venham comigo.

O tanque dos patos era o último lugar onde qualquer um deles pensava ir parar, mas ali estavam eles, olhando para o reflexo da Lua na água negra e parada, tal como Tia Zelda lhes tinha dito para fazerem.

O Aprendiz estava firmemente entalado entre Nicko e o Garoto 412, para o caso de tentar mais uma fuga. O Garoto 412 estava satis­feito por Nicko já confiar nele, depois de tanto tempo. Há não muito tempo, era Nicko que estava tentando impedir a ele de tentar a fuga. E agora ali estava, a apreciar o mesmo tipo de Magya contra a qual o tinham prevenido no Exército da Juventude: uma Lua Cheia e uma Bruxa Branca, os seus penetrantes olhos azuis a arder sob o Luar, a mover os braços erguidos no ar e a falar sobre bebês mortos. O que custava a acreditar ao Garoto 412 não era que aquilo estivesse acontecendo, mas o fato de a ele tudo aquilo parecer bastante nor­mal. Não só isso, como compreendeu que as pessoas com quem estava ali em volta do tanque dos patos — Jenna, Nicko e Tia Zelda — significavam muito mais para ele do que qualquer outra pessoa em toda a sua vida. Tirando o Rapaz 409, claro.

E, claro, passava bem sem o Aprendiz. O Aprendiz fazia-o recor­dar-se de todos aqueles que o tinham atormentado ao longo da sua vida passada. A sua vida passada. Era assim, decidiu o Garoto 412, que ia ser. Acontecesse o que acontecesse, nunca mais ia voltar para o Exército da Juventude. Nunca.

Tia Zelda disse, em voz baixa:

— Agora vou pedir à Lua que nos mostre Septimus Heap.

O Garoto 412 estremeceu e cravou os olhos na água negra, com­pletamente parada, do tanque. No centro do tanque estava um reflexo perfeito da Lua, tão detalhado que os mares e montanhas da Lua estavam mais nítidos do que ele jamais os tinha visto.

Tia Zelda ergueu os olhos para a Lua e disse:

— Irmã Lua, Irmã Lua, mostre-nos, se assim quiser, o sétimo filho de Silas e Sara. Mostre-nos onde ele está agora. Mostre-nos Septimus Heap.

Todos contiveram a respiração, e olharam, expectantes, para a super­fície do tanque. Jenna sentia-se apreensiva. Septimus estava morto. O que iriam ver? Um pequeno amontoado de ossos? Uma minúscula sepultura?

Gerou-se o silêncio. O reflexo da Lua começou a crescer até que um enorme círculo branco, quase perfeito, encheu o tanque dos patos. A princípio começaram a surgir sombras vagas no círculo. Lentamente foram se tornando mais definidas, até que viram... os seus próprios reflexos.

— Estão vendo — disse o Aprendiz. — Pediram para me ver, e lá estou eu. Eu tinha lhes dito.

— Isso não quer dizer nada — disse Nicko indignado. — É ape­nas o nosso reflexo.

— Talvez. Talvez não — disse Tia Zelda, pensativa.

— Podemos ver o que aconteceu a Septimus quando nasceu? — perguntou Jenna. — Assim ficaríamos sabendo se ele está vivo ou não, não é?

— Sim, ficaríamos. Vou perguntar. Mas é muito mais difícil ver coisas do passado. — Tia Zelda respirou fundo e disse: — Irmã Lua, Irmã Lua, mostre-nos, se assim quiser, o primeiro dia da vida de Septimus Heap.

O Aprendiz fungou e tossiu.

— Silêncio, por favor — pediu Tia Zelda.

Os seus reflexos desapareceram lentamente da superfície do tanque, e foram substituídos por uma cena ricamente detalhada, nítida e bri­lhante contra a escuridão noturna.

A cena passava-se num lugar que Nicko e Jenna conheciam muito bem: a sua casa, no Castelo. Como num quadro que se estendesse perante eles, as figuras no compartimento permaneciam imóveis, para­das no tempo. Sara estava deitada numa cama improvisada, segurando um bebê recém-nascido, com Silas a seu lado. Jenna prendeu a res­piração. Até agora, ainda não tinha percebido o quanto sentia saudades de casa. Lançou um olhar a Nicko, que tinha um ar de con­centração no rosto que Jenna conhecia bem, como sendo o ar de Nicko não parecendo perturbado.

Subitamente, todos exclamaram de surpresa. As figuras tinham começado a se mover. Silenciosa e suavemente, como uma fotografia em movimento, começou a desenrolar-se uma cena perante aquela audiên­cia hipnotizada — hipnotizada, com exceção de um.

— A Câmara Obscura do meu Mestre é mil vezes melhor do que este tanque velho — disse o Aprendiz, com desprezo.

— Calado — soprou-lhe Nicko, zangado.

O Aprendiz suspirou audivelmente e começou a mover-se, inquieto. Era tudo uma grande treta, pensou. Aquilo não tem nada a ver comigo.

Mas o Aprendiz enganava-se. Os acontecimentos que estava teste­munhando tinham mudado completamente sua vida.

A cena desenrolou-se perante eles:

A sala dos Heap parece sutilmente distinta. É tudo mais novo, e parece mais limpa. Sara Heap também é muito mais nova; o seu rosto mais cheio e não se vê tristeza pairando-lhe nos olhos. Na verdade, parece absolutamente radiante, segurando seu filho recém-nascido, Septimus. Silas também é mais novo; o cabelo menos esparso e o rosto menos marcado pelas preocupações. Seis rapazes brincam juntos, silenciosamente.

Jenna sorriu, melancólica, percebendo que o menor de todos, com o tufo de cabelo desgrenhado tem que ser Nicko. Parece tão engraçado, pensou, aos pulos, entusiasmado e querendo ver o bebê.

Silas pega Nicko no colo e segura-o de maneira a poder ver o seu novo irmão. Nicko estende uma mãozinha pequena e rechonchuda e acaricia suave­mente a bochecha do bebê. Silas diz alguma coisa e pousa-o no chão para que brinque com os irmãos mais velhos.

Agora Silas dá um beijo em Sara e no bebê, despedindo-se. Detém-se para dizer alguma coisa a Simão, o mais velho, e por fim sai.

A imagem desbota-se, as horas estão passando.

Agora a casa dos Heap é iluminada por velas. Sara está cuidando do bebê, e Simão está silenciosamente lendo uma história aos irmãos mais novos. Uma figura enorme, vestida de azul-escuro, a Matrona Parteira, aparece na cena. Pega o bebê do colo de Sara e deita-o na caixa de madeira que faz as vezes de berço. De costas para Sara, retira um pequeno frasquinho de líquido negro do bolso e mergulha os dedos nele. Depois, olhando em volta de forma culpada, a Parteira esfrega os dedos escurecidos ao longo dos lábios do bebê. Septimus torna-se imediatamente inerte.

A Matrona Parteira volta-se para Sara, colocando-lhe o bebê inânime nos braços. Sara está fora de si. Coloca sua boca sobre a do bebê, procurando reanimá-lo, mas Septimus continua tão mole como um farrapo. Não tarda que Sara comece também a sentir os efeitos da droga. Desorientada, cai para trás contra as almofadas.

Observada por seis rapazinhos horrorizados, a Matrona Parteira tira um grande rolo de ligaduras do bolso e começa a envolver Septimus, principiando pelos pés e prosseguindo habilmente pelo corpo acima, até chegar à cabeça, onde se detém por momentos para confirmar a respiração do bebê. Satisfeita, continua com o embalsamamento, deixando o narizinho a espreitar para fora, até o bebê se parecer com uma pequena múmia egípcia.

Subitamente, a Matrona Parteira corre para a porta, levando Septimus consigo. Sara força-se a despertar de seu sono drogado, mesmo a tempo de ver a Matrona escancarar a porta e ir contra um chocado Silas, que traz a capa fortemente apertada à sua volta. A Matrona empurra-o para o lado e desata a correr pelo corredor.

Os corredores d’Os Bairros estão iluminados com tochas que ardem viva­mente, projetando sombras bruxuleantes sobre a figura sombria da Matrona Parteira enquanto corre, apertando Septimus contra o corpo. Depois de algum tempo, emerge numa noite de neve e abranda o passo, olhando em volta de forma ansiosa. Curvada sobre o bebê, apressa-se pelas estreitas ruas desertas até che­gar a uma praça larga.

O Garoto 412 soltou uma pequena exclamação. Era a terrível Para­da do Exército da Juventude.

A figura negra atravessa a extensão da parada coberta de neve, movendo-se precipitadamente como um escaravelho negro sobre uma toalha. O guarda à porta da caserna cumprimenta a Parteira e deixa-a entrar.

No interior sombrio da caserna a Matrona Parteira abranda o passo. Desce cuidadosamente uma escadaria íngreme e estreita, que conduz a uma cave salobra, cheia de catres desocupados alinhados em fileiras. E o que em breve irá se tornar a creche do Exército da Juventude, onde serão criados todos os órfãos e filhos indesejados do Castelo. (As meninas vão para o Salão de Treino para Serviço Doméstico.) Ali já se encontram quatro desafortunados ocupantes. Três são filhos trigêmeos de um dos Guardas, que tinha se atrevido a dizer uma piada sobre a barba do Supremo Guardião. O quarto é o próprio filho da Matrona Parteira, com seis meses de idade, e que fica na creche enquanto ela está trabalhando. A ama, uma mulher idosa com uma tosse cons­tante, está afundada na sua cadeira, cochilando por entre ataques de tosse. A Matrona Parteira pousa rapidamente Septimus num dos catres vazios e desenrola as ligaduras. Septimus boceja e flexiona os punhos minúsculos.

Está vivo.

Jenna, Nicko, o Garoto 412 e Tia Zelda continuavam a olhar para a cena que se desenrolava perante eles no tanque, percebendo que aquilo que o Aprendiz dissera parecia ser muito verdadeiro. O Garoto 412 tinha uma sensação desagradável na boca do estômago. Detes­tava ter que ver mais uma vez a caserna do Exército da Juventude.

Na semi-escuridão da creche do Exército da Juventude, a Matrona Par­teira senta-se, cansada. Não pára de olhar ansiosamente para a porta, como se esperasse a entrada de alguém a qualquer momento. Ninguém aparece.

Um ou dois minutos mais tarde levanta-se da cadeira e vai até o catre onde o seu próprio filho está chorando e pega-o no colo. Nesse momento a porta se abre, a Matrona Parteira dá meia volta, pálida, assustada.

Uma mulher alta, vestida de preto está à porta. Sobre as vestes negras, bem passadas, veste o avental branco, engomado, de uma enfermeira, mas em torno da cintura usa um cinto vermelho-sangue, exibindo as três estrelas negras de DomDaniel.

Veio buscar Septimus Heap.

O Aprendiz não estava gostando nada do que estava vendo. Não que­ria ver a família de classe baixa da qual fora resgatado — não sig­nificava nada para ele. Também não queria ver o que lhe acontecera quando bebê. O que lhe interessava isso agora? E estava farto de estar ali no frio com o inimigo.

Furioso, o Aprendiz deu um pontapé num pato que estava sentado aos seus pés, atirando-o diretamente na água. Berta aterrissou com um chapinhar de água no meio do tanque, e a imagem desfez-se num milhar de fragmentos luminosos.

O feitiço tinha sido quebrado.

O Aprendiz começou a correr. Correu pelo caminho que levava até o Mott, tão depressa quanto era capaz, dirigindo-se à esguia canoa negra. Não foi muito longe. Berta, que não tinha encarado nada bem ter sido chutada para o tanque, foi atrás dele. O Aprendiz ouviu o adejar das poderosas asas da pata apenas um segundo antes de sentir uma bicada na nuca, e o súbito esticão do seu manto quase a esganá-lo. A pata firmou o bico sobre o capuz, e arrastou-o até Nicko.

— Oh, cuidado — disse Tia Zelda, parecendo preocupada.

— Eu não me preocuparia com ele — disse Nicko, zangado, alcançando o Aprendiz e agarrando-o com força.

— Eu não estava preocupada com ele — disse Tia Zelda. — Só não queria que Berta deslocasse o bico.

 

O Aprendiz estava encolhido num canto perto da lareira, com Berta ainda agarrada a uma de suas mangas, encharcadas e a pender. Jenna tinha fechado à chave todas as portas e Nicko tinha trancado as janelas, deixando o Garoto 412 vigiando o Aprendiz, enquanto eles iam ver como estava o Boggart.

O Boggart estava no fundo da tina metálica, um pequeno monte de pêlo castanho e úmido, que se destacava do branco do lençol que Tia Zelda tinha lhe posto sob o corpo. Entreabriu os olhos e encarou suas visitas com um olhar baço, desfocado.

— Olá, Boggart. Sente-se melhor? — perguntou Jenna.

O Boggart não respondeu. Tia Zelda mergulhou uma esponja num balde de água morna e esfregou-o suavemente.

— Para manter o Boggart úmido — explicou Tia Zelda. — Um Boggart seco não é um Boggart feliz.

— Não está com bom aspecto, não é? — sussurrou Jenna a Nicko, enquanto saíam da cozinha com Tia Zelda, silenciosamente e na ponta dos pés.

O Caçador, ainda paralisado à porta da cozinha, olhou para Jenna com um olhar ameaçador quando a viu surgir. Seus penetrantes olhos azuis cravaram-se nela e seguiram-na enquanto atravessava a sala. Mas todo o resto continuava tão imóvel quanto antes.

Jenna sentiu o olhar do Caçador e ergueu a cabeça. Um arrepio de gelo atravessou-lhe o corpo.

— Está olhando para mim — disse ela. — Está me seguindo com os olhos!

— Bolas — resmungou Tia Zelda. — Está começar a DesCongelar. É melhor ficar com isto antes que cause mais proble­mas.

Tia Zelda tirou a pistola prateada da mão Congelada do Caçador. Os olhos faiscaram de fúria, enquanto Tia Zelda abria habilmente a arma e removia a pequena bala de prata da câmara.

— Aqui está — disse Tia Zelda, estendendo a bala de prata à Jenna. — Tem andado atrás de você há dez anos, e agora sua busca terminou. Agora está a salvo.

Jenna sorriu não muito convencida, e fez a pequena esfera de prata rolar entre os dedos com verdadeira repulsa; embora não pudesse deixar de admirar quão perfeita era a bala. Quase perfeita. Ergueu-a entre os dedos e fixou o olhar numa pequena marca na esfera. Para sua surpresa, viu duas letras gravadas na prata: I.P.

— Que quer dizer I.P.? — perguntou à Tia Zelda. — Olhe, está aqui, na bala.

Por momentos, Tia Zelda não respondeu. Sabia o que as letras queriam dizer, mas não tinha certeza se devia contar.

— I.P — murmurou Jenna, dando voltas à imaginação. — I.P...

— Infanta Princesa — disse Tia Zelda. — Uma bala com nome. Uma bala com nome encontra sempre o seu alvo. Não importa quando, nem como, mas acaba sempre por encontrar. Como a sua te encontrou. Embora não da maneira como eles pretendiam.

— Oh — exclamou Jenna, baixinho. — Então a outra, a outra para a minha mãe, também tinha...

— Sim, tinha. Tinha um R nela.

— Ah. Posso ficar também com a pistola? — pediu Jenna.

Tia Zelda pareceu surpreendida.

— Bem, acho que sim — disse. — Se é isso mesmo que quer.

Jenna pegou a arma e segurou-a como tinha visto o Caçador e a Assassina fazerem, sentindo o seu peso na mão, e apreciando a estranha sensação de poder que lhe era transmitida só por segurá-la.

— Obrigada — disse, devolvendo a pistola. — Por enquanto, pode guardá-la?

Os olhos do Caçador acompanharam Tia Zelda enquanto ela levava a pistola para o armário das Poções Instáveis e Venenos Pekuliares e a fechava lá. E voltaram a segui-la quando ela se dirigiu a ele e lhe apalpou as orelhas. O Caçador ficou furioso. As sobrancelhas contorceram-se, os olhos faiscaram de fúria, mas mais nada se moveu.

— Ótimo — disse Tia Zelda —, as orelhas ainda estão Con­geladas. Ainda não consegue ouvir o que dizemos. Temos que decidir o que vamos fazer com ele antes que DesCongele.

— Não pode só ReCongelá-lo? — perguntou Jenna.

Tia Zelda sacudiu a cabeça.

— Não — disse, pesarosamente. — Não se deve ReCongelar ninguém depois de ter começado a DesCongelar. Não é seguro para eles. Podem ficar com Queimaduras de Gelo. Ou então ficarem horrivelmente empapados. Não é uma coisa bonita de se ver. No entanto, o Caçador é um homem perigoso e não vai desistir da Caçada. Nunca. E temos que impedir que continue a nos caçar, seja como for.

Jenna estava pensando.

— Temos que fazer — disse ela — com que se esqueça de tudo. Até mesmo de quem é. — Riu. — Podemos fazê-lo pensar que é um domador de leões ou qualquer coisa parecida.

— E depois ele se juntaria a um circo, e descobriria que não era nada disso, mas só depois de ter metido a cabeça na boca do leão — con­cluiu Nicko.

— Não devemos nos servir da Magya para pôr a vida de alguém em perigo — recordou-lhes Tia Zelda.

— Podia ser um palhaço, então — sugeriu Jenna. — É assustador o bastante para isso.

— Bom, ouvi dizer que estão à espera da chegada de um circo no Porto por estes dias. Com certeza arranjaria trabalho por lá. — Tia Zelda sorriu. — Aceitam todo o tipo de gente, pelo que ouvi dizer.

Tia Zelda foi buscar um livro velho e todo esfarrapado chamado Memórias Mágykas.

— Você tem jeito para isto — disse ela, entregando o livro ao Garoto 412. — Consegue encontrar o Encantamento adequado? Acho que se chama Memórias Errantes.

O Garoto 412 folheou o livro velho e bolorento. Era um daqueles que já tinha perdido mais de metade dos Encantamentos, mas mais para o fim do livro encontrou aquilo de que andava à procura: um pequeno lenço, atado com um nó, e com uma fina frase borrada em negro ao longo da bainha.

— Ótimo — disse Tia Zelda. — Talvez pudesse fazer o feitiço também, se não se importa.

— Eu? — perguntou o Garoto 412, surpreso.

— Se não se importar — respondeu Tia Zelda. — A minha vista já não dá com esta luz tão fraca. — Estendeu uma mão para controlar as orelhas do Caçador. Estavam quentes. O Caçador fitou-a, estreitando os olhos no seu familiar olhar gélido. Ninguém percebeu.

— Ele já consegue ouvir — disse ela. — É melhor fazermos isto antes que consiga falar também.

O Garoto 412 leu cuidadosamente as instruções do feitiço. Depois pegou o lenço atado e disse

Não interessa quem quer que seja

Vai esquecer tudo logo que me veja.

O Garoto 412 sacudiu o lenço na frente dos olhos furiosos do Caça­dor; depois desfez o nó. Com isso, os olhos do Caçador ficaram baços. Seu olhar já não era ameaçador, estava antes confuso e um bocado assustado.

— Excelente — disse Tia Zelda. — Parece que funcionou bem. Pode fazer a próxima parte, por favor?

O Garoto 412 proferiu, baixinho:

Ouça bem as suas novas Vias,

Recorde-se agora destes diferentes Dias.

Tia Zelda foi plantar-se em frente do Caçador e dirigiu-se a ele com firmeza.

— Esta — disse-lhe ela — é a história da sua vida. Nasceu num telheiro no Porto.

— Era uma criança horrível — disse-lhe Jenna. — E tinha brotoejas.

— Ninguém gostava de você — acrescentou Nicko. O Caçador começou a ter um aspecto muito infeliz.

— A não ser o seu cão — disse Jenna, que começava a sentir um pouco de pena dele.

— Mas o seu cão morreu — disse Nicko. O Caçador pareceu desolado.

— Nicko — repreendeu Jenna. — Não seja mau.

— Eu? E ele então?

E assim a vida horrivelmente trágica do Caçador desenrolou-se perante ele. Estava preenchida de infelizes coincidências, erros estú­pidos e momentos terrivelmente embaraçosos, que fizeram com que os seus recém-DesCongelados ouvidos ficassem vermelhos com a súbita recordação. Por fim a triste história terminou com o infeliz Aprendizado junto de um palhaço irascível conhecido por todos os que trabalhavam com ele como Bafo de Cão.

O Aprendiz observou tudo aquilo com um misto de júbilo e horror. O Caçador o tinha atormentado tanto tempo, que o Aprendiz estava satisfeito por ver finalmente que alguém tinha triunfado sobre ele. Mas não podia deixar de se interrogar o que estariam pensando em fazer com ele.

Ao terminar a história do sórdido passado do Caçador, o Garoto 412 voltou a dar um nó no lenço e disse:

O que era a sua Vida desapareceu,

Um outro Passado agora é o seu.

Com algum esforço levaram o Caçador para o exterior da choupana, como se fosse uma tábua, e deixaram-no na margem do Mott, para que acabasse de DesCongelar longe deles. O Magog não lhe pres­tou qualquer atenção, tendo acabado de sacar o seu trigésimo oitavo Besouro Escudo da lama, e estando ocupado a pensar se iria arrancar as asas antes de liquefazê-lo, ou não.

— Dêem-me antes um bonito gnomo ornamental — disse Tia Zelda, contemplando com desagrado o seu novo, e esperava que temporário, ornamento de jardim. — Mas foi um trabalho bem feito. Agora só temos que decidir o que fazer com o Aprendiz.

— Septimus... — murmurou Jenna. — Não consigo acreditar. O que Papai e mamãe irão dizer? Ele é tão horrível.

— Suponho que ter crescido com DomDaniel não deve lhe ter feito nenhum bem — disse Tia Zelda.

— O Garoto 412 cresceu no Exército da Juventude, mas é legal — observou Jenna. — Ele nunca teria atirado no Boggart.

— Eu sei — disse Tia Zelda. — Mas talvez o Aprendiz, aanh, o Septimus, melhore com o tempo.

— Talvez — disse Jenna, muito duvidosa.

Um pouco mais tarde, já de madrugada, depois do Garoto 412 ter aconchegado cuidadosamente a pedra verde que Jenna lhe dera, sob o seu cobertor, para mantê-lo quente e perto de si — e quando estavam finalmente começando a adormecer — ouviu-se um bater hesi­tante na porta.

Jenna sentou-se imediatamente, assustada. Quem poderia ser? Acor­dou Nicko e o Garoto 412. Depois avançou lentamente até à janela, e puxou silenciosamente uma das cortinas.

Nicko e o Garoto 412 foram para junto da porta, armados com uma vassoura e uma pesada candeia.

O Aprendiz sentou-se no seu canto escuro perto da lareira e esbo­çou um sorriso escarninho. DomDaniel tinha enviado um grupo para resgatá-lo.

Não era nenhum grupo de resgate, mas Jenna ficou pálida quando viu quem era.

— É o Caçador — sussurrou ela.

— Nem pense que vai entrar — disse Nicko. — Nem pensar.

Mas o Caçador voltou a bater na porta, mais alto.

— Vá embora! — gritou Jenna.

Tia Zelda apareceu vinda da cozinha, onde estava cuidando do Boggart.

— Pergunte-lhe o que quer — disse ela —, e podemos pô-lo a caminho.

E assim, contra tudo aquilo que os seus instintos lhe gritavam, Jenna abriu a porta ao Caçador.

Mal o reconheceu. Embora ainda vestisse o uniforme de um Caçador, já não se parecia com um. Tinha apertado sua espessa capa verde contra o corpo, como um pedinte com um cobertor, e estava à porta apologeticamente, e um bocado encurvado.

— Lamento incomodá-los a esta hora, meus gentis senhores — mur­murou. — Mas receio ter-me perdido. Poderiam me indicar o caminho para o Porto?

— Por ali — disse Jenna, concisa, apontando para os Pântanos. O Caçador pareceu ficar confuso. — Não sou muito bom para orien­tar-me, menina. Onde, exatamente, seria por ali?

— Siga a Lua — disse Tia Zelda. — Ela o guiará.

O Caçador descreveu uma vênia, humildemente.

— Muito agradecido, amável Senhora. Poderei incomodá-la um pouco mais, e perguntar se será porventura esperado um circo na cidade? Acalento esperanças de obter ali emprego como palhaço.

Jenna abafou uma risadinha.

— Sim, por acaso, até é — disse-lhe Tia Zelda. — Ah, pode esperar um minuto? — Desapareceu na cozinha e voltou com uma bolsa contendo um pouco de pão e queijo.

— Tome — disse ela — e boa sorte na sua nova vida.

O Caçador voltou a fazer uma vênia.

— Ora, muito obrigado, amável Senhora — disse ele, e caminhou até o Mott, passando pelo Magog adormecido e pela sua esguia canoa negra sem reconhecê-los, e atravessou a ponte.

Quatro vultos silenciosos ficaram à porta vendo a figura solitária do Caçador avançar de forma incerta por entre os Pântanos Marram, rumo à sua nova vida no CIRCO AMBULANTE E ZOOLÓGICO DO CABEÇA-DE-PEIXE E DURDLE até que uma nuvem cobriu a Lua e os pântanos mergulharam mais uma vez na escuridão.

 

Mais tarde, nessa mesma noite, o Aprendiz fugiu pelo túnel dos gatos.

Berta, que ainda tinha todos os instintos de uma gata, gostava de vaguear pela noite, e Tia Zelda normalmente deixava a porta FechadaPorEncanto num único sentido. Isso permitia a Berta sair, mas não permitia que nada entrasse. Nem mesmo a Berta. Tia Zelda era muito cuidadosa com Duendes vadios ou Espectros dos Pântanos.

E assim, quando todos estavam dormindo, e Berta tinha decidido sair para um passeio, o Aprendiz achou que devia segui-la. Era um percurso apertado, mas o Aprendiz, que era magro que nem uma cobra, e duas vezes mais escorregadio, conseguiu abrir caminho pelo estreito espaço. Ao fazê-lo, a Magya Negra que se agarrava às suas roupas DesEncantou o túnel dos gatos. Não tardou que o seu rosto afogueado surgisse do túnel para o ar frio da noite.

Berta recebeu-o com uma bicada no nariz, mas o Aprendiz não deixou que isso o detivesse. Tinha muito mais medo de ficar entalado no túnel dos gatos, com os pés ainda dentro da casa e a cabeça no exte­rior, do que de Berta. Tinha a sensação de que ninguém teria muita pressa em desentalá-lo do túnel se por acaso ficasse preso. Assim resolveu ignorar a pata furiosa e, com um esforço tremendo, foi contorcendo o corpo até ficar livre.

O Aprendiz dirigiu-se imediatamente para o pequeno cais, seguido de perto por Berta, que tentou voltar a agarrar a gola da capa com o bico, mas desta vez o Aprendiz já estava à espera dela. Furioso, afastou-a com uma pancada, atirando-a ao chão e ferindo-a numa asa.

O Magog estava deitado em todo o comprimento da canoa, dor­mindo enquanto digeria todos os cinqüenta e seis Besouros Escudo. O Aprendiz passou cautelosamente por cima dele. Para seu grande alívio, a criatura nem se mexeu — a digestão era um processo que os Magog levavam muito a sério. O cheiro de gosma de Magog chegou ao fundo da garganta do Aprendiz, mas ele pegou no remo coberto de gosma e não tardou a navegar Mott abaixo, dirigindo-se ao labi­rinto de canais serpenteantes que riscavam os Pântanos Marram e o levariam ao Canal Deppen.

Ao deixar a choupana para trás, penetrando na selvagem extensão de pântanos iluminados pelo luar, o Aprendiz começou a se sentir pouco à vontade. Com o Magog dormindo, o Aprendiz sentia-se horrivelmente desprotegido, e recordou-se de todas as histórias aterrorizantes que tinha ouvido sobre os pântanos à noite. Remava a canoa tão silencio­samente quanto era capaz, temendo incomodar alguma coisa que poderia não querer ser incomodada. Ou, ainda pior, qualquer coisa que pudesse estar à espera de ser incomodada. A toda a sua volta podia ouvir os ruídos noturnos dos pântanos. Ouvia o guinchar abafado de uma matilha de Duendes subterrâneos enquanto puxavam um desprevenido Gato dos Pântanos para as profundezas da Lama Gelatinosa. E depois havia o desagradável ruído de esponja e garras de duas Nixies Aquáticas que tentavam fixar suas ventosas no fundo da canoa, para abrirem caminho através do casco, mas não tardaram a soltar-se graças às réstias de gosma do Magog.

Pouco depois das Nixies Aquáticas terem se soltado, surgiu um Chorão dos Pântanos. Embora não passasse de um farrapo de neblina branca, emanava um cheiro insalubre que fazia o Aprendiz recordar-se do seu catre no refúgio de DomDaniel. O Chorão dos Pântanos sentou-se por trás do Aprendiz e começou desafinadamente a can­tar a mais triste e irritante canção que o Aprendiz já tinha ouvido. A canção dava-lhe voltas dentro da cabeça

Weerrghh-derr-waaaah-dooooooooo... Weerrgbb-derr-waaaah-dooooooooo... Weerrghk-derr-waaaah-dooooooooo... — até o Aprendiz já não agüentar mais.

Tentou afastar o Chorão com o remo, mas este limitava-se a atravessar o bocado de névoa de um lado ao outro, desequilibrando a canoa e quase atirando o Aprendiz na água escura. E ainda assim a horrível cantoria prosseguiu, um bocado mais jocosa, agora que o Chorão sabia que tinha atraído a atenção do Aprendiz:

Weerrghh-derr-ivaaaab-dooooooooo... Weerrghh-derr-waaaak-dooooooooo... oooooooooooooooooooooooooooo...

— Pare com isso! — gritou o Aprendiz, incapaz de agüentar aquele barulho nem mais um segundo. Enfiou os dedos nos ouvidos e começou a cantar alto o bastante para abafar a pavorosa cantoria.

— Não estou ouvindo, não estou ouvindo, não estou ouvindo — cantarolou o Aprendiz a plenos pulmões enquanto o Chorão, triunfante, rodo­piava em volta da canoa, satisfeito com os resultados dessa noite. Normalmente levava muito mais tempo ao Chorão dos Pântanos para reduzir uma Jovem Criança ao estado de um destroço choramingão, mas nessa noite tivera sorte. Com a missão cumprida, o Chorão dos Pântanos achatou-se até não passar de um tênue lençol de névoa, e deixou-se flutuar para passar o resto da noite pairando por cima de seu lodaçal favorito.

O Aprendiz remou determinadamente, já não se importando com a sucessão de Espectros dos Pântanos, Besouros do Lodo e uma muito tentadora exibição de Fogos-fátuos que dançaram em torno da canoa durante horas. Nessa altura, o Aprendiz já não queria saber do que quer que essas coisas fizessem, desde que não cantassem.

Quando o sol se ergueu sobre a extensão distante dos Pântanos Marram, o Aprendiz compreendeu que estava completamente per­dido. Estava no meio de uma extensão incaracterística de terras pantanosas que lhe pareciam todas iguais. Continuou a remar, fatigado, sem saber que mais poderia fazer, e não foi antes do meio-dia que chegou a uma extensão de água, larga e retilínea, que parecia realmente le­var a algum lugar, em vez de ir despejar em mais um atoleiro enso­pado. Exausto, o Aprendiz enfiou a canoa por aquilo que era afinal a extensão mais distante do Canal Deppen, e dirigiu-se lentamente em direção ao rio. O seu encontro com a gigantesca Píton dos Pântanos, de atalaia no fundo do Canal e tentando desenrolar-se, mal incomodou o Aprendiz. Estava cansado demais para se importar. E estava tremen­damente decidido. Tinha um encontro marcado com DomDaniel, e desta vez, não ia deitar as coisas a perder. Não tardaria que a Princesinha se arrependesse. Todos haveriam de se arrepender. Especialmente a pata.

 

Nessa manhã, na choupana, ninguém conseguia acreditar que o Aprendiz tivesse conseguido se espremer pelo túnel dos gatos.

— Quase poderia jurar que a cabeça dele era grande demais para caber ali — disse Jenna, com desdém.

Nicko tinha saído para revistar a ilha, mas não demorou a voltar.

— A canoa do Caçador desapareceu — informou — e era uma canoa bem rápida. A esta hora já deve estar longe.

— Temos que detê-lo — disse o Garoto 412, que sabia muito bem quão perigoso podia ser um rapaz como o Aprendiz —, antes que possa dizer a alguém onde estamos, coisa que vai fazer logo que possa.

E foi assim que Jenna, Nicko e o Garoto 412 pegaram a Muriel Dois e partiram em perseguição do Aprendiz. Com o pálido sol de Pri­mavera a erguer-se sobre os Pântanos Marram, projetando longas sombras oblíquas sobre os atoleiros e lodaçais, a deselegante Muriel Dois levou-os através do labirinto de atalhos e canais. Avançava lenta mas determinadamente, lenta demais para Nicko, que sabia com que velocidade a canoa do Caçador devia ter coberto a mesma dis­tância. Nicko mantinha um olho constantemente aberto, em busca de sinais da elegante canoa negra, esperando vê-la virada sobre a Lama Gelatinosa dos Duendes, ou a vogar à deriva e vazia ao longo de um dos canais, mas para sua desilusão, não viu mais do que um longo tronco de madeira escura que apenas por breves momentos lhe per­mitiu alguma esperança.

Pararam por um tempo, para comer um pouco de queijo de cabra e sanduíches de sardinha, bem ao lado do lodaçal dos Chorões dos Pântanos. Mas ficaram em paz, pois os Chorões já tinham desaparecido há muito, evaporados pelo calor do sol nascente.

Já era o começo da tarde, e uma morrinha cinzenta tinha começado a cair quando, por fim, adentraram no Canal Deppen. A Píton dos Pântanos estava cochilando na lama, semi-coberta pela água lodosa da maré que recentemente mudara de direção e começara a encher. Ignorou a Muriel Dois, para grande alívio dos seus ocupantes, e deixou-se ficar à espera do renovado influxo de peixe que a maré lhe traria. A maré estava muito baixa, e a canoa navegava bem abaixo das mar­gens inclinadas que se erguiam de ambos os lados, por isso só quando dobraram a última curva do Canal Deppen é que Jenna, Nicko e o Garoto 412 viram o que estava à sua espera.

O Vingança.

 

Um silêncio de choque caiu sobre a Muriel Dois.

À distância de uma breve remada, o Vingança estava ancorado sob a morrinha do começo da tarde, calmo e quieto sobre as águas pro­fundas do meio do rio. O enorme navio negro era uma visão impres­sionante: sua proa erguia-se como um penhasco íngreme, e com as esfarrapadas velas negras recolhidas, os seus dois altos mastros des­tacavam-se como ossos negros contra o céu carregado. Um silêncio opressivo rodeava o navio na luz acinzentada. Nenhuma gaivota se atrevia a pairar perto do navio, em busca de restos. Pequenos barcos que se serviam do rio viam o navio e apressavam-se a prosseguir viagem pelas águas mais rasas perto das margens, preferindo arriscar a ficarem encalhados do que aproximarem-se do tristemente célebre Vingança. Uma espessa nuvem negra tinha se formado sobre os mastros, lançando uma sombra escura sobre todo o navio, e da popa flutuava sombriamente uma bandeira vermelho-sangue, com três estrelas negras.

Nicko não precisava da bandeira para saber a quem pertencia aquele navio. Nenhum outro navio jamais fora pintado com o alcatrão extremamente preto que DomDaniel se servia, e nenhum outro navio podia estar rodeado de uma atmosfera tão malévola. Gesticulou freneticamente a Jenna e ao Garoto 412 para que remassem em sentido contrário, e momentos depois a Muriel Dois estava nova­mente escondida para lá da última dobra do Canal Deppen.

— O que foi? — sussurrou Jenna.

— É o Vingança — respondeu Nicko, sussurrando também. — O navio de DomDaniel. Calculo que esteja à espera do Aprendiz. Aposto que foi para cá que o pequeno sapo fugiu. Passe-me o telescópio, Jen.

Nicko encostou o telescópio ao olho e viu exatamente aquilo que mais temia. Ali, nas sombras espessas projetadas pelos íngremes flancos negros do casco, estava a canoa do Caçador. Balançava sobre a água, vazia e parecendo ainda menor em comparação com o gigantesco Vingança, amarrada a uma longa escada de corda que levava ao convés do navio.

O Aprendiz tinha chegado a tempo ao Encontro.

— Tarde demais — disse Nicko. — Já está lá. Oh, argh, o que é aquilo? Oh, que nojo. Aquela Coisa escorregou da canoa. É tão viscosa. Mas consegue mesmo subir uma escada de corda. É como um macaco grotesco. — Nicko estremeceu.

— Consegue ver o Aprendiz? — quis saber Jenna.

Nicko moveu o telescópio ao longo da escada de corda. Anuiu. Como não podia deixar de ser, o Aprendiz tinha quase chegado ao topo, mas tinha parado e estava olhando horrorizado para a Coisa que subia rapidamente atrás de si. Numa questão de segundos o Magog tinha alcançado o Aprendiz e passado por cima dele, deixando um rastro de gosma amarela berrante sobre as costas de sua roupa. O Aprendiz pare­ceu fraquejar por uns momentos, e quase largou a escada, mas arras­tou-se pelos últimos degraus e tombou sobre o convés, onde passou despercebido por uns momentos.

É bem feito, pensou Nicko.

Decidiram dar uma olhada mais de perto no Vingança, mas a pé. Amarraram a Muriel Dois a uma rocha e caminharam ao longo da praia onde tinham feito aquele piquenique da meia-noite, na noite em que tinham fugido do Castelo. Ao voltarem a dobra do canal, Jenna teve um choque. Já havia alguém lá. Estacou subitamente, e escon­deu-se por trás de um velho tronco de árvore. O Garoto 412 e Nicko foram contra ela.

— O que foi? — sussurrou Nicko.

— Há alguém na praia — respondeu Jenna. — Talvez seja alguém do navio, montando guarda.

Nicko espiou por trás do tronco da árvore.

— Não é ninguém do navio — sorriu.

— Como sabe? — perguntou Jenna. — Pode ser.

— Porque é o Alther.

Alther Mella estava sentado na praia, olhando melancólico para a morrinha. Estava ali há dias, esperando que alguém da Choupana da Guardiã aparecesse por ali. Precisava falar urgentemente com eles.

— Alther? — sussurrou Jenna.

— Princesa! — O rosto preocupado de Alther pareceu desanuviar-se. Pairou até Jenna e envolveu-a num abraço caloroso. — Parece-me que cresceu um bocado, desde a última vez que a vi.

Jenna levou um dedo aos lábios.

— Chiiu, eles podem nos ouvir, Alther.

Alther pareceu surpreso. Não estava habituado que Jenna lhe dissesse o que tinha de fazer.

— Eles não podem me ouvir. — Alther riu. — A não ser que eu queira que ouçam. E também não podem ouvir a você... levantei um Cala Gritos. Não vão conseguir ouvir nada.

— Oh, Alther — disse Jenna. — É tão bom voltar a vê-lo. Não é, Nicko?

Nicko tinha um enorme sorriso no rosto.

— É fantástico — disse.

Alther lançou um olhar curioso ao Garoto 412.

— Aqui está mais alguém que também cresceu. — Sorriu. — Esses meninos do Exército da Juventude são sempre tão magros. É bom ver que encheu um pouco.

O Garoto 412 corou.

— Ele também é bom agora, Tio Alther — disse Jenna ao fan­tasma.

— Calculo que ele tenha sido sempre bom, Princesa — retorquiu Alther. — Mas no Exército da Juventude ninguém tem autorização para ser bom. É proibido.

E sorriu ao Garoto 412.

O Garoto 412 devolveu-lhe o sorriso, timidamente.

Sentaram-se na praia, sob a morrinha, longe da vista do Vingança.

— Como estão o Papai e a mamãe? — perguntou Nicko.

— E o Simão? — perguntou Jenna. — O que aconteceu com Simão?

— Ah, o Simão — disse Alther. — O Simão tinha fugido deliberadamente de Sara, na Floresta. Ao que parece, ele e Lucy Gringe tinham planejado se casar em segredo.

— O quê? — exclamou Nicko. — O Simão se casou?

— Não. Gringe descobriu e denunciou-o aos Guardiães.

— Oh, não! — exclamaram Jenna e Nicko ao mesmo tempo.

— Oh, não se preocupem por causa de Simão — disse Alther, estranhamente frio. — Como é que ele conseguiu passar aquele tempo todo nas mãos do Supremo Guardião e sair de lá como se tivesse passado umas férias, é que eu não sei. Mas tenho as minhas suspeitas.

— O que quer dizer, Tio Alther? — perguntou Jenna.

— Oh, não há de ser nada, Princesa. — Alther não parecia disposto a dizer mais nada sobre Simão.

Havia uma coisa que o Garoto 412 queria perguntar, mas parecia-lhe estranho falar com um fantasma. No entanto, tinha que perguntar, por isso reuniu coragem e disse:

— Aanh, desculpe, mas o que aconteceu à Marcia? Ela está bem?

Alther suspirou.

— Não — disse.

— Não? — perguntaram três vozes ao mesmo tempo.

— Caiu numa armadilha — Alther franziu o cenho. — Numa armadilha do Supremo Guardião e do Gabinete dos Ratos. Ele infiltrou seus próprios ratos. Ou melhor, os ratos de DomDaniel. E são um bando de bons malandros. Costumavam dirigir a rede de espionagem no refúgio de DomDaniel nas Terras Inóspitas. Têm uma reputação terrível. Chegaram aqui com os ratos da peste, há muitas centenas de anos. Nada simpáticos.

— Quer dizer que o nosso Rato Mensageiro era um deles? — per­guntou Jenna, pensando em como tinha simpatizado com ele.

— Não, não. Ele foi enviado pelos brutos do Gabinete dos Ratos. Agora desapareceu. Pobre rato. Não lhe dou muito pela pele — disse Alther.

— Oh, isso é horrível — disse Jenna.

— E a mensagem para Marcia também não era de Silas — acres­centou Alther.

— Nunca pensei que fosse — comentou Nicko.

— Era do Supremo Guardião — explicou Alther. — Por isso, quando Marcia apareceu no Portão do Palácio para se encontrar com Silas, os Guardiães estavam à espera dela. Claro que isso não seria um problema para Marcia se ela tivesse acelerado nos seus Minutos da Meia-Noite, mas seu relógio estava vinte minutos atrasado. E não tinha com ela o FicaEmSegurança. É um assunto feio. Dom­Daniel pegou o Amuleto, por isso temo que agora ele seja o... Feiticeiro ExtraOrdinário.

Jenna e Nicko estavam sem palavras. Isto era pior do que eles esperavam.

— Desculpe — atreveu-se o Garoto 412, que se sentia muito mal. Era tudo culpa dele. Se ele tivesse aceitado ser Aprendiz de Marcia, podia tê-la ajudado. Nada disso teria acontecido. — A Marcia ainda está...viva, não está?

Alther olhou para o Garoto 412. Seus tênues olhos verdes possuíam uma expressão amável quando, servindo-se do seu desconcertante hábito de ler a mente das pessoas, disse:

— Não havia nada que pudesse ter feito, rapaz. O teriam apanhado, também. Ela estava na Masmorra Número Um, mas agora...

O Garoto 412 deixou cair a cabeça nas mãos, desesperado. Sabia tudo o que se passava na Masmorra Número Um.

Alther pousou-lhe um braço fantasmagórico sobre os ombros.

— Não se aflija agora — disse-lhe. — Estive com ela a maior parte do tempo, e ela estava se agüentando bem. Pareceu-me que estava se agüentando muito bem. Tendo em conta as circunstâncias. Há uns dias atrás tinha saído para verificar vários pequenos... projetos que tenho pendentes no dormitório de DomDaniel, na Torre. Quando voltei à masmorra ela não estava mais lá. Procurei por todos os lugares que podia. Até coloquei alguns dos Antigos à procura dela. Sabe quais são, os fantasmas bem antigos. Mas já estão muito dissipados e confundem-se facilmente. Alguns deles já nem conseguem se orientar muito bem no Castelo — vão parar em alguma parede nova ou escadaria, e ficam sem saber o que fazer. Não conseguem pensar. Ainda ontem tive que tirar um dos restos de comida. Ao que parece, estava onde costumava ser o refeitório dos Feiticeiros. Há cerca de quinhentos anos. Francamente, os Antigos, por muito simpáticos que sejam, dão mais trabalho do que valem. — Alther suspirou. — Embora me pergunte se...

— Se o quê? — perguntou Jenna.

— Se ela pode estar no Vingança. Infelizmente, não posso entrar no amaldiçoado navio para descobrir.

Alther estava furioso consigo mesmo. Hoje em dia, aconselharia qualquer Feiticeiro ExtraOrdinário a ir ao maior número de lugares que pudessem enquanto estavam vivos, para que quando fossem fantasmas não ficassem limitados como ele próprio. Mas já era tarde demais para que Alther pudesse alterar aquilo que tinha feito em vida; agora, tinha de fazer o melhor que pudesse.

Ao menos, quando fora nomeado Aprendiz pela primeira vez, DomDaniel tinha insistido em levar Alther numa longa e muito desa­gradável visita às masmorras mais profundas. Na época, Alther nunca pensara que um dia se alegraria com isso, mas se ao menos tivesse aceito o convite para a festa de inauguração do Vingança... Alther lembrava-se como, por ser um jovem promissor e potencial Aprendiz, tinha sido convidado para uma festa a bordo do barco de DomDaniel. Alther tinha recusado o convite por ser o aniversário de Alice Nettles. Como não era permitida nenhuma mulher a bordo do navio, Alther não ia de maneira nenhuma deixar Alice sozinha no dia de seu ani­versário. Durante a festa, os potenciais Aprendizes tinham sido dei­xados à solta e causado grandes estragos ao navio, garantindo que nenhum deles pudesse ter a esperança de conseguir nem que fosse um emprego de faxina com o Feiticeiro ExtraOrdinário. Pouco tempo depois Alther recebeu o convite para o Aprendizado com o Feiticeiro ExtraOrdinário. Alther nunca tinha voltado a ter oportunidade de visitar o navio. Depois da desastrosa festa, DomDaniel levou-o até à Enseada Erma para reequipá-lo. Enseada Erma era um misterioso ancoradouro, cheio de navios abandonados e apodrecidos. O Necromante tinha gostado tanto, que tinha deixado seu navio ali, e lá passava as férias de Verão todos os anos.

O grupo cabisbaixo estava sentado na praia úmida. Comeram sombriamente o que restava do queijo de cabra e dos sanduíches de sardinha úmidas, e beberam o resto do frasco de tônico de beterraba e cenoura.

— Há horas — disse Alther, pensativo — que tenho saudades de não conseguir passar sem comer...

— Mas esta não é uma delas? — Jenna terminou por ele.

— No alvo, Princesa.

Jenna tirou Petrocas Trelawney do bolso e ofereceu-lhe uma mistura pegajosa de queijo de cabra e sardinha esmagada. Petrocas abriu os olhos e contemplou a oferenda. O seixo de estimação estava admirado. Este era o tipo de comida que normalmente recebia do Garoto 412; Jenna costumava lhe dar biscoitos. Mas comeu na mesma, com exceção de um pedaço de queijo de cabra que se colou à cabeça e, mais tarde, ao interior do bolso de Jenna.

Quando tinham acabado de mastigar o que restava dos sanduíches empapados, Alther disse em tom sério:

— Agora, vamos ao que interessa.

Três rostos preocupados voltaram-se para o fantasma.

— Ouçam-me todos. Devem ir direto para a Choupana da Guar­diã. Quero que digam à Zelda que os leve para o Porto logo pela manhãzinha. A Alice — ela agora é a Chefe da Alfândega lá — vai encontrar um navio para vocês. Devem partir para os Países Longínquos, en­quanto eu tento resolver as coisas aqui.

— Mas... — exclamaram Jenna, Nicko e o Garoto 412. Alther ignorou o protesto.

— Encontro-me com vocês na Taverna da Ancora Azul no Cais, amanhã de manhã. Têm de estar lá. O seu Pai e a sua Mãe tam­bém vão, juntamente com Simão. Já estão a caminho, rio abaixo, no meu velho barco, o Molly. Temo que Sam, Erik e Edd, e Jo-Jo tenham se recusado a abandonar a Floresta; tornaram-se bastante selvagens, mas a Morwenna vai mantê-los debaixo dos olhos.

Gerou-se um silêncio infeliz. Ninguém gostou do que tinham ouvido Alther dizer.

— Isso é fugir — disse Jenna, calmamente. — Queremos ficar. E lutar.

— Eu sabia que ia dizer isso — suspirou Alther. — É exatamente o que sua mãe teria dito. Mas tem que ir, já.

Nicko levantou-se.

— Muito bem — disse com relutância. — Encontramo-nos amanhã, no Porto.

— Ótimo — concordou Alther. — Agora, tenham cuidado, e eu me encontro com vocês amanhã. — Alther ergueu-se no ar, e viu os três marcharem desconsolados de volta à Muriel Dois. Alther ficou a vê-los até se convencer de que estavam avançando normalmente pelo Canal Deppen, e depois acelerou ao longo do rio, voando rápido e baixinho, para se reunir ao Molly. Não tardou que não passasse de um pontinho a distância.

E foi nessa hora que o Muriel Dois deu a volta, e se dirigiu diretamente rumo ao Vingança.

 

Houve grandes discussões a bordo da Muriel Dois.

— Sinceramente, não sei se é muito boa idéia. A Marcia pode nem estar no Vingança.

— Mas eu aposto que está.

— Temos que encontrá-la. Tenho certeza que consigo resgatá-la.

— Ouça, só porque esteve no Exército não quer dizer que possa andar atacando navios e salvando pessoas.

— Mas quer dizer que posso tentar.

— Ele tem razão, Nicko.

— Nunca iria funcionar. Eles nos verão chegando. Todos os navios têm um vigia a bordo.

— Mas podemos fazer aquele feitiço, sabe qual é? Aquele... Como era?

— Faz Com Que Fique Invisível. É fácil. Depois podemos remar até o navio, eu subo a escada de corda, e depois...

— Alto lá. Pára aí. Isso é muito perigoso.

— A Marcia me salvou quando eu estava em perigo.

— E a mim também.

— Pronto. Vocês ganharam.

Quando a Muriel Dois contornou a última curva do Canal Deppen, o Garoto 412 levou a mão ao bolso interior da boina vermelha e retirou de lá o anel-dragão.

— Que anel é esse? — perguntou Nicko.

— Hummm, é Mágyko. Encontrei-o. Debaixo da terra.

— Parece um bocado com o dragão no Amuleto — disse Nicko.

— Pois é — concordou o Garoto 412. — Também me pareceu. — Enfiou-o no dedo e sentiu-o começar a aquecer. — Faço o feitiço, então? — perguntou.

Jenna e Nicko anuíram e o Garoto 412 começou a entoar:

Deixe-me Desaparecer no Ar

Sem que os meus inimigos possam me encontrar

Deixe-os me procurar, passarem por mim

Que mal não me chegue, que sua Busca não tenha fim

O Garoto 412 começou a desaparecer na morrinha, deixando um remo a pairar estranhamente em pleno ar. Jenna respirou fundo e experimentou o feitiço para si mesma.

— Ainda está aqui, Jen — disse Nicko. — Tente outra vez.

A terceira foi de vez. O remo de Jenna pairava no ar agora ao lado do Garoto 412.

— É a sua vez, Nicko — disse a voz de Jenna.

— Esperem um pouquinho — disse Nicko. — Nunca experi­mentei este.

— Faz o seu próprio, então — disse Jenna. — Não importa qual use, desde que funcione.

— Bom, angh, é que não sei se funciona. E nem sequer faz aquela parte do «Que mal não me chegue».

— Nicko! — protestou Jenna.

— Pronto, pronto. Vou tentar. Nem visto, nem ouvido... um... não me lembro do resto.

— Experimente «Nem visto, nem ouvido, nem um sussurro, nem um gemido» — sugeriu a voz do Garoto 412, vinda de parte nenhuma.

— Ah, sim. É isso. Obrigado.

O Feitiço funcionou. Nicko desapareceu lentamente.

— Você está bem, Nicko? — perguntou Jenna. — Não consigo vê-lo.