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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Midnight Breed
Midnight Breed

                                                                                                                                               

  

 

 

 

 

 

 

Capítulo 10

Nikolai despertou na escuridão total, com a cabeça descansando sobre o caixão de um homem aparentemente rico de Montreal que estava morto há 67 anos. O chão de mármore do mausoléu era um pouco duro para as horas de descanso, mas tinha servido muito bem para Niko. A noite estava perigosamente perto da alvorada quando ele deixara o território de Yakut e, além disso, ele certamente já havia dormido em lugares piores do que o cemitério que tinha encontrado no extremo norte da cidade.

Com um gemido, sentou-se e abriu o telefone celular para verificar que horas eram. Merda, ainda era uma hora da tarde; tinha aproximadamente sete ou oito horas para esperar ali antes do anoitecer, quando seria seguro sair. Sete ou oito horas a mais e ele já estava angustiado pelo tempo de inatividade que teria de atravessar.

Sem dúvida alguma, Boston estaria se perguntando sobre ele agora. Niko teclou a discagem rápida que chamava o escritório central da Ordem. No meio do segundo toque, Gideon respondeu.

- Niko, pelo amor de Deus! Já estava na hora de você passar um relatório - o sotaque do inglês vago do guerreiro soou um pouco áspero. Nada surpreendente, considerando que Niko estava ligando no meio do dia. – Diga, você está bem?

- Sim, estou bem. Meu objetivo aqui em Montreal ficou ainda mais difícil de ser alcançado desde domingo, mas, fora isso, está tudo bem.

- Não conseguiu encontrar Sergei Yakut, então?

Niko riu.

- Ah, encontrei o bastardo facilmente. O Primeira Geração está vivinho e abanando o rabo. Mora ao norte da cidade em uma espécie de mansão à la Gengis Khan.

O guerreiro deu a Gideon um rápido resumo de tudo o que havia acontecido desde sua chegada a Montreal - do chute no traseiro que recebera de Renata como boas-vindas até as poucas e estranhas horas que passara no refúgio de Yakut, as quais culminaram com a localização de humanos mortos e largados na parte de trás da casa e sua subsequente expulsão de lá.

Ele descreveu a recente tentativa fracassada de acabar com a vida do Primeira Geração e o incrível papel que Mira desempenhou para frustrar tal ataque. Niko deixou de fora a parte sobre o que ele tinha visto nos olhos de Mira. Não viu razão alguma para compartilhar os detalhes daquela visão que, apesar da insistência de Renata em afirmar que Mira nunca se enganava, tinha praticamente zero chance de se realizar - não, agora havia exatamente zero chance de a visão acontecer.

Deveria ter sido um alívio para ele saber disso. A última coisa de que precisava era se meter com uma mulher, especialmente uma peça desse jogo macabro como Renata. A companheira unida pelo laço de sangue a Yakut. A ideia ainda o corroía, muito mais do que deveria, aliás. E ele não se sentia particularmente bem com o fato de que a mais leve lembrança daquele beijo era suficiente para fazê-lo ficar duro como o granito da tumba que o rodeava.

Ele a desejava, e por uma fração de segundo, quando deixou o refúgio de Yakut, pensou que ela poderia segui-lo. Não tinha motivo algum para pensar isso, mas tinha sido um golpe no estômago, uma sensação de que talvez Renata pudesse correr atrás dele e pedir-lhe que a tirasse dali.

E se o tivesse feito? Cristo, ele tinha que ser muito idiota só para considerar essa hipótese.

- Então - disse a Gideon, retornando mentalmente para a realidade, - não podemos contar com nenhum tipo de cooperação de Sergei Yakut. Ele basicamente me disse isso antes de me enxotar para fora e de eu o chamar de bastardo doente que precisa de focinheira e coleira.

- Jesus, Niko! - suspirou Gideon, provavelmente passando a mão pelo cabelo loiro por conta da frustração. - Disse mesmo isso a um Primeira Geração? Teve sorte que ele não tenha arrancado a sua língua antes de expulsá-lo.

Provavelmente era verdade, Nikolai reconheceu para si. E talvez tivesse perdido mais que a língua se Yakut soubesse o tipo de desejo que ele tinha por Renata.

- Sabe que sou alérgico a puxa-saquismo, mesmo se o saco em questão for o de um Primeira Geração. Se isso era uma missão de relações públicas, vocês escolheram o cara errado.

- Não me diga.

Gideon riu ao soltar outra maldição em voz baixa. - Você vai voltar para Boston, então?

- Não vejo razão para ficar aqui. A menos que você ache que Lucan não olharia torto se eu voltar e colocar fogo na casa de horrores de Yakut. Tirando-o de cena, pelo menos por um tempo.

Estava brincando... em grande parte do que falava. Mas o silêncio da resposta de Gideon revelava que seu companheiro guerreiro sabia o que estava dando voltas na cabeça de Niko.

- Sabe que não pode fazer nada disso, cara. Nada fora dos limites.

- E isso é uma merda - murmurou Nikolai.

- Sim, é. Mas essas decisões pertencem à Agência, não a nós.

- Estou lhe dizendo que Yakut não é diferente dos Renegados que tiramos das ruas, Gid. Diabos! Pelo que vi, ele é ainda pior. Ao menos os Renegados podem colocar a culpa de sua selvageria na sede por sangue. Yakut nem sequer pode agarrar-se ao vício de sangue como desculpa para caçar esses humanos por aí afora. Ele é um predador, um assassino.

- Ele está protegido - disse Gideon firmemente. - Mesmo que não fosse um Primeira Geração, continuaria sendo um civil. E um membro da Raça. Não podemos tocar nele, Niko. Não sem atirar um monte de bosta no ventilador. Portanto, o que quer que esteja pensando em fazer, não o faça.

Nikolai exalou bruscamente.

- Esqueça o que eu disse. Para que horas devo planejar minha viagem de volta a Boston?

- Terei que fazer algumas chamadas, mas o jato particular ainda está esperando por você no aeroporto. Posso mandar uma mensagem de texto com a hora assim que o voo estiver confirmado.

- Tudo bem. Vou descansar e esperar para sair.

- E, afinal, onde você está?

Nikolai olhou para o caixão atrás dele, depois para o outro em frente e para a urna de bronze que estava acumulando pó em um pedestal contra a parede de trás do escuro mausoléu.

- Encontrei um lugarzinho tranquilo para descansar no extremo norte da cidade. Dormindo como um morto, de fato. Ou com eles, em todo caso.

- Falando em mortos, temos um relatório de outro assassinato de Primeira Geração no exterior - disse Gideon.

- Cristo. Escolheram abatê-los como moscas, não é verdade?

- Ou, ao que parece, estão tentando. Reichen está acompanhando o relatório de Berlim. Recebemos um e-mail dele informando que hoje, mais tarde, haverá uma atualização.

- É bom saber que temos olhos e ouvidos nos quais podemos confiar por ali - disse Niko. - Caramba, Gideon. Nunca teria imaginado que pudesse dar algum valor a um Refúgio civil, mas Andreas Reichen está demonstrando ser um aliado muito bom. Talvez Lucan devesse recrutá-lo oficialmente para a Ordem.

Gideon riu.

- Não ache que ele não tenha considerado isso. Infelizmente, somos somente um passatempo de meio período para a jornada de Reichen. Ele pode ter a alma de um guerreiro, mas seu coração pertence a seu Refúgio em Berlim.

E a certa fêmea humana, pelo que Nikolai entendia. Segundo Tegan e Rio, dois guerreiros que tinham passado muito tempo com Andreas Reichen no Escritório Central de Berlim, o líder do Refúgio alemão estava romanticamente envolvido com Helene, a proprietária de um bordel.

Era incomum que um guerreiro da Raça pudesse ter mais de um encontro ocasional, ou uma breve relação com uma mulher mortal, mas Niko não estava a ponto de questioná-lo porque certamente Helene também estava sendo uma fonte útil de informação para a Ordem no exterior.

- Então, escute-me - disse Gideon. - Espere calmamente onde está e eu o avisarei assim que tiver a informação de sua partida para esta noite. Está bem?

- Sim. Você sabe como me encontrar.

O murmúrio de uma voz feminina aveludada, suavizada pelo sono, atravessou o telefone.

- Ah, inferno, Gid. Não me diga que está na cama com Savannah!

- Eu estava - respondeu ele, acentuando com força o tempo passado. - Agora que ela está acordada, diz que vai tomar uma ducha quente e uma xícara de café forte.

Nikolai gemeu.

- Caramba. Diga-lhe que sinto pela... interrupção.

- Ouça, querida - Gideon chamou sua amada companheira, unidos pelo laço de sangue por cerca de trinta anos. - Niko diz que sente por ser um bastardo grosseiro e por nos despertar nessa hora tão inoportuna.

- Obrigado - murmurou Niko.

- De nada.

- Ligarei de novo do avião.

- Tudo bem - disse Gideon. - Ouviu, amor? Niko quer que diga que está para desligar. Ele diz que você deve retornar para a cama e me permitir violá-la lentamente desde sua inteligente e formosa cabeça até seus deliciosos e pequenos dedinhos dos pés – disse Gideon a Savannah, que agora estava sentada ao seu lado.

Nikolai riu.

- Soa divertido. Ponham no viva-voz para que eu possa pelo menos escutar.

Gideon bufou.

- Nem pense. Ela é toda minha.

- Bastardo egoísta - Niko arrastou as palavras sarcasticamente. – Vejo você mais tarde.

- Bem, até mais tarde. E, Niko, sobre a situação de Yakut: sério, nem pense em bancar o cowboy, ok? Temos questões mais importantes do que lutar e tentar encurralar um Primeira Geração solto. Não é nossa área, sobretudo agora.

Quando Niko não concordou imediatamente, Gideon limpou a garganta.

- Seu silêncio não me dá exatamente uma tranquilidade, meu caro. Preciso saber que você está escutando isso.

- Sim - disse Nikolai. - Estou escutando. Vejo você em Boston mais tarde.

Niko desligou o celular e o colocou de volta no bolso.

Embora muito o irritasse pensar em fazer vista grossa para Yakut e para suas doentias atividades, ele sabia que Gideon tinha razão. E mais: ele sabia que o líder da Ordem, Lucan, assim como o resto dos guerreiros no complexo de Boston, diria a mesma coisa.

Esquecer Sergei Yakut, pelo menos por enquanto: isso era o mais sábio, a coisa mais inteligente que podia fazer.

E, enquanto isso, seria prudente esquecer Renata também. Ela fez sua cama, afinal de contas. O fato de, evidentemente, tê-la feito com um sádico como Sergei Yakut não era problema de Nikolai. Absolutamente. Renata, a linda dama de gelo, não era assunto seu e ele estaria melhor longe dela.

Bem longe do ninho de víboras que tinha descoberto nos domínios de Yakut.

Restavam apenas algumas horas antes do anoitecer e, então, ele poderia deixar tudo aquilo para trás.

Ela nunca havia se acostumado a dormir com a luz do dia, não nos dois anos em que tinha vivido a serviço de um vampiro.

Renata estava em sua cama, inquieta, incapaz de relaxar e fechar os olhos até mesmo por alguns minutos. Virou-se, colocando-se de costas e deixando escapar um suspiro, mantendo seu olhar fixo nas vigas de madeira do teto.

Pensava no guerreiro... Nikolai.

Ele tinha partido há várias horas, mas ela ainda sentia o peso do desprezo dele pressionado sobre ela. Odiava que tivesse visto Yakut alimentando-se dela. Tinha sido difícil fingir que não estava envergonhada quando sustentou seu olhar do outro lado do quarto. Ela tinha tentado não parecer afetada, mas, por dentro, estava tremendo, com sua pulsação martelando quase fora de controle.

Ela não queria que Nikolai a visse assim. Ainda mais pelo fato de ele ter enumerado os brutais crimes de Yakut, claramente pensando que ela era parte deles também. Ela não conseguia esquecer o olhar acusador que o macho da Raça tinha lhe dirigido.

Isso era ridículo.

Nikolai era da Raça assim como Yakut. Ele era um vampiro igual a Yakut e, como tal, tinha de se alimentar de humanos para sobreviver. Mesmo com seu limitado conhecimento sobre a Raça, Renata sabia que beber de seres humanos era a única forma de a Raça obter seu alimento. Os amigáveis vampiros não usavam os bancos de sangue, nos quais poderiam recolher um litro de O- pelo caminho. Nem os animais eram um substituto para o sangue humano.

Sergei Yakut e todo o resto da Raça compartilhavam o mesmo impulso: a necessidade dos glóbulos vermelhos dos Homo sapiens, tomados diretamente de uma veia aberta.

Eles eram selvagens e letais. Mesmo que na maioria das vezes parecessem humanos, em seu coração – ou em sua alma, se é que eles ainda tinham uma – faltava toda a humanidade. Por que ela deveria pensar que Nikolai era diferente?

Mas ele tinha parecido diferente, mesmo que só um pouco, quando tinham discutido no canil - quando a tinha beijado. Por Deus! Ele na realidade tinha parecido muito diferente dos outros da Raça que ela conhecia. Não era como Yakut, tampouco como Lex.

O que provavelmente só demonstrava que ela era uma tola.

E que era também uma fraca. Que outra coisa poderia explicar o dilacerador desejo de que Nikolai voltasse? Ele poderia tê-la tirado daquele lugar quando havia partido?

Ela frequentemente não se permitia ter esperanças vãs ou perder tempo imaginando coisas que nunca aconteceriam. Mas por um momento... por um breve e egoísta momento ela se imaginou sendo arrancada, libertada dos braços de ferro de Sergei Yakut.

Por um instante, ela se perguntou o que poderia ter vontade de fazer quando estivesse livre do sádico Primeira Geração, livre de tudo que a mantinha ali... e isso havia sido glorioso.

Envergonhada por seus pensamentos, Renata jogou as pernas para um lado da cama para se sentar. Ela não podia ficar ali um minuto a mais, não enquanto sua mente estivesse girando com pensamentos que não lhe fariam bem algum.

A verdade é que aquela era a sua vida. O mundo de Yakut era o seu mundo, o recinto e seus inúmeros segredos grotescos eram sua realidade inflexível. Ela não sentia pena de si, nunca sentira. Nem no orfanato do convento por todos aqueles anos de sua infância, nem no dia em que fora expulsa para sempre de sua casa com as Irmãs da Benevolente Misericórdia aos 14 anos de idade.

Nem mesmo naquela noite, há dois verões, quando foi arrancada das ruas de Montreal e presa com um grupo de outras pessoas assustadas nos currais do celeiro dentro da propriedade de Sergei Yakut.

Ela não tinha derramado uma só lagrima de autopiedade em todo esse tempo. E, com certeza, não iria começar agora.

Renata levantou-se e saiu de seu modesto quarto. A casa principal estava em silêncio àquela hora, as poucas janelas do lugar estavam completamente fechadas para afastar os letais raios de sol. Renata tirou a barra de ferro grossa da porta exterior e saiu andando na gloriosa tarde de verão, cálida e brilhante.

Dirigiu-se ao canil. Entre todo o drama da última noite, não só com Nikolai mas também depois, ela tinha esquecido completamente que suas adagas estavam lá fora. Ser negligente e descuidada a incomodava. Nunca deixava os punhais fora de seu alcance. Eles eram parte dela agora, como tinham sido no dia em que os tinha tomado.

- Estúpida, estúpida - sussurrava para si enquanto entrava no antigo canil e olhava para o poste em que esperava encontrar a lâmina incrustada que tinha atirado contra Nikolai.

Não estava ali.

Um grito de incredulidade e angústia deslizou por seus lábios.

O guerreiro levou suas lâminas? Será que o cachorro as tinha roubado?

- Maldito seja. Não!

Renata invadiu o corredor central do edifício... e, então, parou abruptamente quando chegou à parte posterior do lugar e seus olhos pousaram no fardo de feno perto do poste de madeira.

Cuidadosamente dobrado em cima dele e colocado perfeitamente ao lado do par de sapatos que tinha deixado para trás na noite anterior estava também a capa de seda e veludo que continha suas preciosas adagas. Segurou-as para certificar-se de que a capa de tecido não estava vazia. Quando sentiu o peso familiar em sua palma, não pôde conter um sorriso.

Nikolai.

Ele tinha guardado as adagas para ela. Ele as havia recolhido, envolvido e deixado ali, como se soubesse quanto significavam para ela.

Por que faria isso? O que esperava que sua bondade comprasse? Na verdade, pensava que sua confiança poderia ser ganha tão facilmente ou esperava outra oportunidade para impor-se do mesmo modo que havia feito com aquele beijo?

Ela realmente não queria pensar nos beijos de Nikolai. Se pensasse, então deveria admitir para si que o beijo tinha sido inesperado e à força, e que apenas ele era culpado por aquilo ter ocorrido.

Mas a verdade era que ela tinha aproveitado.

Santa Maria! Só de pensar nele um calor lento e líquido acendia-se em seu coração e em seu sexo.

Ela queria mais dele, apesar de cada instinto de sobrevivência de seu corpo ter gritado para que ela se afastasse, que escapasse rapidamente. Ela tinha fome dele – naquele momento e agora. Queimava por ele – em um lugar que ela pensava estar completamente congelado e morto. E o comentário a respeito do que ele tinha visto nos olhos de Mira - a implicação de tudo - poderia envolver Renata e ele intimamente juntos, o que era ainda mais inquietante. Graças a Deus ele se foi. Graças a Deus, ele provavelmente nunca voltaria depois do que tinha descoberto ali.

Muito tempo havia passado desde que Renata ajoelhava-se para rezar. Ela não se ajoelhava diante de ninguém mais, nem sequer de Yakut em seu pior momento, mas inclinou a cabeça e pediu aos céus que mantivesse Nikolai longe daquele lugar. Longe dela.

Já não estava com ânimo para treinar, sobretudo quando as lembranças do que tinha acontecido ali ainda estavam tão recentes em sua cabeça. Renata pegou seus sapatos e caminhou de volta para a casa. Entrou e se dirigiu ao corredor que levava ao seu quarto, esperando ter ao menos algumas horas de sono.

De repente, deu-se conta de que havia algo errado, mesmo antes de notar que a porta de Mira não estava fechada.

Nenhuma luz estava acesa no quarto da menina, mas ela estava acordada. Renata escutou sua suave voz na escuridão, queixando-se que tinha sono e não queria levantar. Mais pesadelos?, Renata se perguntou, sentindo uma pontada de compaixão pela menina. Mas, então, outra voz gemeu entre os dentes acima dos protestos aturdidos de Mira, uma voz fria, áspera e impaciente.

- Pare de choramingar e abra seus olhos, cadelinha.

Renata pressionou a mão contra a porta e a empurrou amplamente.

- Que diabos pensa que está fazendo, Lex?

Ele estava inclinado sobre a cama de Mira, apertando dolorosamente as mãos nos ombros da menina. Sua cabeça virou quando Renata entrou no quarto, mas ele não soltou Mira.

- Preciso do oráculo de meu pai. E não vou responder às suas perguntas, então, seja amável e saia daqui, inferno.

- Rê, ele está machucando meus braços.

A voz de Mira era baixa, sacudida pela dor.

- Abra os olhos, maldita - Lex grunhiu. - E talvez eu pare de te machucar.

- Tire suas mãos de cima dela, Lex.

Renata parou ao pé da cama, com as lâminas embainhadas.

- Tire as mãos dela! Agora!

Lex zombou.

- Não até que eu tenha terminado com ela.

Quando deu a Mira uma sacudida forte, Renata soltou uma rajada de fúria mental. Era só um fio de energia, só uma fração do que podia dar, mas Lex uivou, seu corpo se sacudiu como se tivesse sido golpeado por milhares de volts de eletricidade. Cambaleou para trás, deixando Mira cair e afastando-se da cama, caindo com o traseiro no chão.

- Cadela! – gritou com os olhos soltando um fogo âmbar e com as pupilas fragmentadas fortemente no centro. - Eu devia matá-la por isso. Devia matar a pequena pirralha e você, suas cadelas!

Renata o golpeou de novo, dando-lhe outra pequena amostra de agonia. Ele se deixou cair, agarrando a cabeça e gemendo com a segunda rajada debilitante. Ela esperou, observando como ele se esforçava para levantar-se de uma postura desajeitada do chão. Da maneira que estava agora, ele não representava ameaça alguma para ela, mas em algumas horas estaria recuperado, e Renata estaria vulnerável. Aí então ela teria uma pequena dívida a pagar.

Mas no momento, Mira já não era do interesse de Lex, e isso era tudo que importava. Lex a fulminou com o olhar quando se arrastou até seus pés.

- Saia do meu... caminho... vadia maldita!

As palavras estavam sufocadas, balbuciadas entre seus ofegos enquanto ele torpemente se dirigia para a porta aberta. Quando Lex saiu do campo de visão de Renata, com os passos dele ecoando no corredor externo, ela aproximou-se de Mira e tentou acalmá-la.

- Está tudo bem, querida?

Mira assentiu.

- Eu não gosto dele, Rê. Ele me assusta.

- Eu sei, querida.

Renata deu um beijo na testa da garota.

- Não vou deixar que ele faça mal a você. Está a salvo comigo. Essa é uma promessa, certo?

Outro gesto de assentimento, mais fraco dessa vez, enquanto Mira voltava a cabeça ao travesseiro e exalava um suspiro sonolento.

- Rê? - perguntou em voz baixa.

- Sim, ratinho?

- Você nunca vai me abandonar, não é mesmo?

Renata ficou olhando fixamente aquele rosto inocente na escuridão, sentindo seu coração apertado no peito.

- Nunca vou abandonar você, Mira. Jamais... Exatamente como prometemos.


Capítulo 11

A lua elevava-se, projetando manchas de luz sobre o lago Wannsee, em uma zona exclusiva do subúrbio de Berlim. Andreas Reichen recostou-se em sua cadeira almofadada no gramado que ficava na parte de trás de sua propriedade privada no Refúgio. Ele tentava absorver um pouco da paz e da tranquilidade noturnas. Apesar da brisa agradável e morna, e do lago de águas calmas e escuras, os pensamentos dele eram taciturnos e turbulentos.

As notícias do último Primeira Geração assassinado, dessa vez na França, fora um duro golpe. Parecia-lhe que o mundo ao seu redor estava ficando cada vez mais insano. Não apenas o mundo da Raça – seu mundo -, mas também a humanidade. Tanta morte e destruição. Tanta angústia por todos os lados.

No fundo de seu estômago, Andreas tinha a terrível sensação de que isso era apenas o começo. Dias mais sombrios estavam por vir. Provavelmente estivessem a caminho há muito tempo e ele tinha sido demasiado ignorante; estivera demasiado entretido com seus prazeres pessoais para se dar conta disso.

Um desses prazeres, aliás, aproximava-se por trás dele: com passos elegantes e inconfundíveis, a mulher caminhou pelos jardins bem cuidados da propriedade e sentou-se sobre a grama.

Os pequenos braços de Helene rodearam os ombros largos de Andreas.

- Olá, querido.

Reichen aproximou-se para acariciar-lhe a cálida pele enquanto a mulher inclinava-se para beijá-lo. Ela tinha uma boca suave e persistente, e seus longos cabelos escuros guardavam ainda um vestígio de óleo de rosas.

- Quando cheguei, seu sobrinho me disse que você estava aqui fora há horas - murmurou ela, erguendo a cabeça para olhar o lago. - Posso ver por quê. É uma vista encantadora.

- E agora está ainda mais encantadora - disse Reichen, levantando a cabeça para olhar a mulher.

Helene sorriu sem acanhamento, há muito tempo já acostumada com aquela adulação.

- Alguma coisa está te incomodando, Andreas. Você não é do tipo que fica sentado se queixando do quanto a vida é injusta.

Será que ela o conhecia tão bem assim? Eles tinham sido amantes durante o ano anterior, uma brincadeira amorosa casual que, de alguma forma, transformara-se em algo mais profundo, se não exclusivo. Reichen sabia que Helene tinha outros homens em sua vida - homens humanos -, da mesma forma que ela sabia que ele ocasionalmente buscava prazer com outras mulheres. Não era uma relação infestada de ciúmes ou de possessão. Mas isso não significava que não houvesse carinho. Eles compartilhavam uma preocupação mútua um pelo outro e um vínculo de confiança que se estendia além das barreiras que geralmente tornavam as relações entre humanos e homens da Raça impossíveis.

Helene tinha se tornado uma amiga e, ultimamente, era uma companheira indispensável no importante trabalho de Reichen com os guerreiros de Boston.

Ela sentou-se no grande braço da cadeira.

- Deu as notícias à Ordem sobre o recente assassinato em Paris?

Reichen assentiu.

- Sim. E eles me disseram que houve também uma tentativa de assassinato em Montreal algumas noites atrás. Pelo menos essa falhou, um milagre do destino. Mas haverá outras. Temo que muitas outras mortes acontecerão antes que a fumaça finalmente se dissipe. A Ordem está convencida de que deterá essa loucura toda, mas às vezes me pergunto se o mal trabalhando aqui não é maior do que qualquer bem.

- Você está deixando que isto o consuma - disse Helene, enquanto preguiçosamente afastava o cabelo da testa. - Já sabe, se precisa de algo a fazer com seu tempo, poderia ter procurado a mim em vez da Ordem. Eu poderia tê-lo colocado para trabalhar no clube como meu assistente pessoal. Não é muito tarde para mudar de ideia. E asseguro-lhe que apenas os benefícios já valeriam a pena.

Reichen riu.

- Tentador, de fato.

Helene inclinou-se e mordiscou-lhe a orelha, sua respiração fazendo cócegas quentes sobre a pele masculina.

- Seria só uma posição temporária, é obvio. Vinte ou trinta anos, um piscar de olhos para você. Eu estarei enrugada e grisalha e você se entusiasmará por um novo brinquedo mais atraente que possa manter o ritmo de suas selvagens exigências.

Reichen estava surpreso ao ouvir a pontada de nostalgia na voz de Helene. Ela nunca tinha falado sobre o futuro com ele, nem tampouco ele com ela. Era mais ou menos compreensível que não poderia haver um futuro, tendo em vista que ela era mortal e ele – a menos que prolongasse sua exposição aos raios UVA ou sofresse um intenso dano no corpo - continuaria vivendo durante um tempo próximo ao da eternidade.

- O que está fazendo esbanjando seu tempo comigo quando poderia ter qualquer outro homem? – perguntou Reichen, movendo os dedos ao longo da suave linha do ombro de Helene. - Poderia estar casada com alguém que a adorasse, criando uma ninhada de crianças belas e inteligentes.

Helene arqueou uma impecável sobrancelha.

- Suponho que nunca fui do tipo que faria uma escolha convencional.

Nem ele, de fato. Reichen admitia que seria muito fácil ignorar tudo o que ela e a Ordem tinham descoberto há alguns meses. Ele podia esquecer a maldade que tinham vasculhado até à cova montanhosa nas colinas Boêmias. Podia fingir que nada daquilo existia, descumprir sua oferta de ajudar aos guerreiros respondendo por seu papel como líder de um Refúgio e voltar para seus libertinos e descuidados hábitos.

Mas a única verdade era que ele tinha se cansado daquela vida há tempos. Anos atrás, alguém o havia acusado de ser um eterno menino egoísta e irresponsável. E, naquele momento, a pessoa tinha razão. Especialmente quando ele tinha sido suficientemente tolo para deixar escapar uma mulher e o amor que ela lhe havia dado. Depois de muitas décadas de autopiedade, ele se sentia bem em fazer a diferença. Ou em tentar fazê-la, de qualquer forma.

- Não esperava que você viesse esta noite só para me distrair com seus beijos e com essas atraentes ofertas de emprego - disse, sentindo que a seriedade abatia-se sobre Helene.

- Não, não foi por isso que vim, infelizmente. Pensei que deveria saber que uma das minhas garotas do clube está desaparecida. Lembra-se de que mencionei Gina, uma de minhas garotas mais novas, que apareceu com marcas de mordida no pescoço na semana passada?

Reichen assentiu.

- A que tinha falado sobre um novo namorado rico com quem estava saindo.

- Essa mesmo. Pois bem, não é a primeira vez que ela falta ao trabalho, mas sua companheira de quarto disse-me esta tarde que Gina não passa em casa ou dá notícias há mais de três dias. Pode não ser nada, mas pensei que gostaria de saber.

- Sim. Tem alguma informação sobre o homem com quem se encontrava? Uma descrição, um nome, algo?

- Não. A companheira de apartamento dela nunca o conheceu e, por isso, não pôde me dizer nada.

Reichen considerou as numerosas coisas que podiam ocorrer a uma jovem que se encontrava inconscientemente com um macho da Raça. Embora a maioria deles fosse de membros que respeitavam a lei da nação vampírica, havia outros que revelavam seu lado selvagem.

- Preciso que, discretamente, investigue no clube esta noite, veja se alguma das outras garotas ouviu Gina mencionar algo sobre esse namorado. Procure por nomes, lugares aos quais ela possa ter ido com ele. O menor detalhe pode ser importante.

Helene assentiu, mas havia uma nota de interesse em seus olhos.

- Prefiro esse seu lado sério, Andreas. É incrivelmente sexy.

A mão dela deslizou por baixo da abertura da camisa de seda dele conforme suas longas e pintadas unhas brincavam sobre seu musculoso abdômen. Embora os pensamentos de Reichen fossem nefastos, seu corpo respondeu ao toque especialista da mulher. Seus dermoglifos começaram a encher-se de cor e sua visão afiou-se com uma rajada de cor âmbar que rapidamente preencheu sua íris. Mais abaixo, seu pênis ficou ereto, crescendo onde agora descansava sua palma.

- Eu realmente não deveria ficar - murmurou ela com a voz rouca e zombadora. - Não quero chegar tarde no trabalho.

Quando ela começou a se levantar, Reichen a deteve.

- Não se preocupe com isso. Conheço a mulher que dirige o lugar. Pedirei desculpas por você. Sei de fonte segura que ela gosta muito de mim.

- Você gosta dela?

Reichen grunhiu, deixando visível as pontas de suas presas com seu amplo sorriso.

- A pobre está louca por mim.

- Louca por uma coisa arrogante como você? - zombou Helene. - Querido, não se adule. Ela poderia querê-lo apenas por causa de seu decadente corpo.

- É o suficiente - respondeu ele. - Mas não ouvirá queixas minhas de maneira alguma.

Helene sorriu, sem resistir enquanto ele a puxava sobre seu colo e entregava-lhe um beijo profundo, masculino e faminto.

Ao anoitecer, Lex estava completamente recuperado do golpe que Renata lhe desferira. Sua ira - seu ódio por ela – permanecia, todavia.

Ele a amaldiçoava em sua mente enquanto se inclinavae sobre uma putrefata parede de uma casa infestada de ratos no pior subúrbio de Montreal, assistindo a um jovem humano apertar o braço com um cinto de couro velho. Com a ponta solta presa entre os dentes quebrados e cariados, o drogado cravou a agulha de uma imunda seringa em um lugar cheio de crostas e hematomas que percorriam o esquálido braço. Gemeu enquanto a heroína entrava em sua corrente sanguínea.

- Ah, caramba, cara! - soltou um trêmulo suspiro enquanto liberava seu torniquete e caía para trás contra um colchão podre no chão. Correu as mãos tatuadas pelo rosto pálido e cheio de espinhas, e pelos cabelos castanhos ensebados. – Ah! Essa porcaria é das boas, cara.

- Sim - Lex disse com a voz sem fôlego, na fria e úmida escuridão.

Não tinha economizado em drogas; o dinheiro era de pouco interesse para ele. Sem dúvida o drogado que vendia o corpo nas ruas nunca tinha ganhado tanto dinheiro. Lex estava disposto a apostar que os serviços pessoais do jovem nunca haviam alcançado uma soma tão alta. Ele tinha saltado no interior do carro quando Lex parou e lhe mostrou cem dólares e um pacote de heroína.

Lex moveu a cabeça e olhou como o humano saboreava sua dose de alívio. Eles estavam sozinhos no miserável quarto de um edifício abandonado. O lugar tinha sido invadido por vagabundos e viciados quando chegaram, mas só levou uns minutos para Lex – e uma irresistível ordem mental, cortesia de sua linhagem de segunda geração da Raça - conduzir os humanos para fora e deixar que ele exercesse sua atividade sem ser incomodado.

Ainda deitado no chão, o drogado tirou a camisa regata e começou a desabotoar os folgados e imundos jeans azuis. Acariciou-se grosseiramente enquanto abria a braguilha, os olhos turvos rolando em seu crânio, buscando distraidamente através da escuridão.

- Então, quer que eu chupe seu pau ou o quê, cara?

- Não - Lex disse, enojado apenas com a ideia.

Ele afastou-se de sua posição, cruzando o quarto, e caminhou lentamente em direção ao drogado. Por onde começar com ele?, perguntou-se preguiçosamente. Tinha que esgotar essa coisa com cuidado ou teria de voltar para a rua e procurar outra pessoa.

Esbanjando seu tempo precioso.

- Prefere minha bunda, então, cara? - comentou o michê. - Se quiser me comer, vai ter de pagar o dobro. Essa é minha regra.

A risada de Lex foi baixa e genuinamente divertida.

- Não estou interessado em comer você. Já é suficientemente mau que tenha que olhar para você, que tenha que sentir seu cheiro repugnante. O sexo não é a razão pela qual está aqui.

- Bem, o que diabos você quer então? – ao dizer isso, uma nota de pânico cortou o ar, um súbito golpe de adrenalina humana que os sentidos de Lex facilmente detectaram. - Estou seguro que não me trouxe aqui para uma conversa educada.

- Não - Lex concordou.

- Está bem. Está bem, que porra eu pareço para você, seu merda?

Lex sorriu.

- Uma isca.

Com movimentos tão rápidos que nem sequer o olho humano mais aguçado poderia seguir, Lex estendeu a mão e derrubou o drogado no chão. O vampiro tinha uma faca na mão e cravou-a no macilento abdômen do humano, rasgando-lhe a pele.

O sangue surgiu da ferida, quente, úmido e perfumado.

- Ah, Jesus! - gritou o humano. - Ah, meu Deus! Você me apunhalou!

Lex recuou e deixou que o homem caísse sobre o chão. Era tudo que podia fazer para não investir contra o drogado com uma sede cega.

A transformação física de Lex foi rápida, provocada pela súbita presença de sangue fresco fluindo. Sua visão se aguçou enquanto suas pupilas se estreitavam, um brilho âmbar lavava o quarto enquanto seus olhos transformavam-se nos de um predador. Suas presas alargaram-se atrás de seus lábios e a saliva inundou-lhe a boca enquanto a urgência de se alimentar crescia.

O drogado estava soluçando agora, emitindo sons patéticos enquanto apertava a enorme ferida em seu estômago.

- Você está louco, seu merda? Podia ter me matado!

- Ainda não - respondeu Lex entre suas presas.

- Tenho que sair daqui - murmurou o homem. - Tenho que conseguir ajuda...

- Fique - ordenou Lex, sorrindo enquanto a mente do homem murchava sob aquela ordem.

Teve que se obrigar a manter distância. Deixar que a situação se esvaísse enquanto pudesse. Uma ferida no estômago sangrava rápido, mas a morte viria lentamente. Lex precisava dele vivo durante um tempo longo o suficiente para que o cheiro do sangue viajasse pela rua e entrasse nos becos dos arredores.

O humano que tinha comprado era meramente uma isca pronta para ser jogada na água. Lex procurava atrair um peixe maior.

Sabia tão bem como qualquer outro membro da Raça que nada atraía um vampiro mais rápido - e mais certeiramente – do que uma presa humana sangrando. E fazer isso em um ponto obscuro da cidade, onde até mesmo a escória da sociedade humana adentrava um estado de terror secreto, Lex presumia, atrairia a presença de Renegados.

Não se decepcionou.

Os dois primeiros vieram farejando ao redor da casa abandonada em minutos. Os Renegados eram viciados sem esperança, tanto quanto o drogado que agora se aconchegava em posição fetal, chorando em silêncio no chão, enquanto sua vida se apagava lentamente.

Embora poucos da Raça se perdessem na luxúria do sangue – a permanente e insaciável sede de sangue –, aqueles que raramente o faziam jamais se libertavam. Viviam nas sombras, monstros selvagens sem raízes, cujo único objetivo era viver alimentando sua fome.

Lex escondeu-se no canto do quarto enquanto os dois predadores se arrastavam para dentro. Eles imediatamente caíram sobre o humano, rasgando-o com presas que nunca se desvaneciam, os olhos ardendo com a cor e o calor do fogo.

Outro Renegado encontrou o quarto. Este era maior do que os outros, mais brutal enquanto se jogava para a matança e começava a alimentar-se. Uma briga explodiu entre os selvagens. Os três se pegaram como cães raivosos. Batendo os punhos, os dedos e as presas estripando a carne e os ossos, cada macho poderoso lutava viciosamente para ganhar um pedaço da presa.

Lex olhava paralisado. Aturdido pela violência e bêbado pelo cheiro de tanto sangue derramado, humano e da Raça.

Olhou e esperou.

Os Renegados lutaram um contra o outro até a morte, como animais selvagens que eram. No final, só um deles demonstraria ser o mais forte.

E era desse que Lex precisava.

Após um dia inteiro esperando o anoitecer, Nikolai agora tinha outras duas horas para passar antes de poder tomar seu voo de volta para Boston.

O guerreiro considerou seriamente não ir ao aeroporto e viajar a pé, mas até mesmo com sua resistência da Raça e sua hipervelocidade, mal atravessaria o estado de Vermont antes que o amanhecer o obrigasse a esconder-se de novo. E, francamente, a ideia de dormir em um celeiro com um bando de animais agitados não o empolgava a colocar um tênis e pegar a estrada.

Portanto, esperaria.

Maldição.

Ele e a paciência nunca foram amigos íntimos e, quando o sol finalmente se pôs e ele pode sair do refúgio, Niko já estava à beira da insanidade.

Supôs que aquele aborrecimento o guiava pelos subúrbios de Montreal, onde esperava encontrar algo divertido para fazer enquanto o mau humor passava. Não se preocupava em como usaria o tempo, mas havia deliberadamente procurado a única região da cidade onde a probabilidade de encontrar uma razão para usar seus punhos ou suas armas eram maiores.

Naquele conjunto de becos infestados de ratos, suas escolhas imediatas eram limitadas aos traficantes - de drogas ou de pessoas - e prostitutas de ambos os gêneros, sem discriminação. Mais de um idiota o olhou enquanto ele andava pela rua sem direção aparente. Alguém foi inclusive suficientemente estúpido para mostrar a ponta de uma faca enquanto passava, mas Niko só se deteve e deu ao bastardo desdentado um sorriso de orelha a orelha, mostrando suas presas como um convite e, rapidamente, a ameaça desapareceu.

Embora não fosse contra tipo algum de confronto, a luta contra humanos estava abaixo de sua capacidade. Preferia um desafio maior. O que ele realmente queria encontrar agora era um Renegado. No verão passado, Boston estivera afundada até os joelhos de vampiros viciados em sangue. A luta tinha sido dura e pesada - com pelo menos uma perda trágica para a Ordem -, mas Nikolai e o resto dos guerreiros tinham completado sua missão de manter a cidade limpa.

Outras zonas metropolitanas ainda perdiam civis ocasionalmente por conta da luxúria por sangue, e Niko apostaria seu testículo esquerdo que Montreal não era diferente. Mas além dos cafetões, traficantes e prostitutas, aquela extensão de tijolo e asfalto estava tão morta quanto a cripta na qual ele tinha sido forçado a passar o dia.

- Ei, querido - a mulher sorriu para ele de uma porta coberta de sombras enquanto ele passava. - Busca algo específico ou está apenas olhando as vitrines?

Nikolai grunhiu, mas se deteve.

- Sou um cara diferente.

- Bem, possivelmente tenho o que você precisa - ela sorriu e se moveu de sua pose sobre o degrau de concreto. - De fato, tenho exatamente o que você precisa, querido.

Ela não era uma beleza, com seus quebradiços e desgrenhados cabelos, olhos apagados e pele pálida, mas Nikolai não esperava gastar muito tempo olhando sua cara. Ela cheirava bem, seu desodorante e o spray de cabelo podiam ser considerados fragrâncias de aroma limpo. Para os sentidos afiados de Niko, a mulher cheirava a cosméticos e perfumes, com um toque de uso recente de drogas que exalava por seus poros.

- O que diz? - perguntou ela, aproximando-se furtivamente. - Quer ir a algum lugar? Se tiver vinte dólares, terá meia hora.

Nikolai observou a pulsação no pescoço da mulher. Já fazia vários dias que não se alimentava. E ele tinha duas horas pela frente sem fazer nada...

- Sim - disse assentindo. - Vamos.

Ela pegou a mão dele e o guiou, virando a esquina onde ficava o edifício, rua abaixo em direção a um beco vazio.

Nikolai não perdeu tempo. Mal se distanciaram de potenciais observadores, tomou a cabeça da mulher em suas mãos e despiu seu pescoço para mordê-la. Seu grito assustado foi esmagado imediatamente quando ele afundou as presas na veia saltante e começou a beber.

O sangue da mulher era medíocre – o habitual cobre pesado das células vermelhas humanas, mas enlaçadas com uma acidez doce e amarga das pedras de heroína e cocaína que ela tinha usado durante seu trabalho à noite. Nikolai tragou vários goles, sentindo o fluxo de energia do sangue através de seu corpo em uma baixa vibração. Não era raro para um vampiro da Raça excitar-se com o ato de se alimentar. A resposta era puramente física, um despertar de células e músculos.

O fato de seu pênis estar completamente ereto e exigindo alívio não o surpreendeu, mas sim o fato de sua cabeça estar nadando em pensamentos sobre uma mulher com cabelos escuros - uma mulher que ele não tinha intenção de ver de novo - que fazia Niko ficar em estado de alerta.

- Humm, não pare - sua companheira humana se queixou, puxando sua boca de volta à ferida no pescoço. Ela também estava sentindo os efeitos da alimentação, cativada como todos os humanos ficavam quando eram mordidos pela Raça. - Não pare, querido.

A visão de Nikolai estava alagada de fogo âmbar enquanto ele abraçava de novo a garganta da mulher. Sabia que ela não era Renata, mas enquanto suas mãos roçavam as pernas nuas por baixo da saia curta que ela usava, ele se imaginou acariciando as belas e longas coxas de Renata. Imaginou que era o sangue de Renata que o alimentava, que era o corpo de Renata que respondia tão apaixonado ao seu contato.

Eram os febris ofegos de Renata que o guiavam enquanto ele rasgava a calcinha barata com uma mão e usava a outra para libertar-se da própria calça.

Precisava estar dentro dela.

Precisava...

Caramba.

Uma ligeira brisa formou redemoinhos através do beco, trazendo consigo o fedor de vampiros Renegados. E havia muito sangue derramado também. Sangue humano. Muito, muito sangue, mesclado com o cheiro vil de Renegados sangrando.

- Jesus Cristo.

Que porra estava acontecendo?

Ele puxou a saia da mulher para baixo e lambeu-lhe a ferida do pescoço, selando sua mordida.

- Pedi que não parasse...

Mas Niko nem lhe deu tempo de terminar seu pensamento. Pondo a palma sobre sua testa, apagou tudo de sua mente.

- Saia daqui - disse.

Niko já estava correndo pelo beco quando ela saiu de seu atordoamento e começou a caminhar. O guerreiro seguiu seu olfato até um dilapidado edifício não longe de onde estava. Aquele fedor emanava do interior da construção, alguns apartamentos acima da rua.

Nikolai subiu a escada de incêndio até o segundo andar. Seus olhos estavam virtualmente marejados pelo entristecedor aroma de morte que saía daquele andar. Com a mão sobre a pistola embainhada em seu quadril, Niko se aproximou. Não havia sons do outro lado da maltratada porta cheia de pichações. Apenas morte – humana e vampírica. Niko girou o trinco e se preparou para o que encontraria.

Tinha sido um massacre.

Um aparente drogado permanecia em posição fetal entre refugos de seringas e outros lixos que cobriam o chão cheio de sangue. O corpo do drogado estava tão arruinado que era praticamente irreconhecível como humano, apenas o sexo era distinguível. Os outros dois corpos foram atacados ferozmente também, mas definitivamente eram da Raça, ambos Renegados, a julgar pelo tamanho e pelo cheiro deles.

Nikolai pôde imaginar o que ocorrera ali: uma batalha letal por causa da presa. A luta era recente, provavelmente tinha ocorrido apenas alguns minutos atrás. E os dois chupadores de sangue mortos não teriam sido capazes de se destruir antes que um ou outro caísse.

Havia pelo menos mais um Renegado envolvido naquela briga.

Se Niko tivesse sorte, o vencedor ainda poderia estar na região, lambendo suas feridas. Esperava que sim, porque adoraria dar ao bastardo doente uma prova de sua pistola 9 mm. Nada poderia desejar “tenha um bom dia” tão bem quanto a veia sanguínea corrompida de um Renegado encontrando uma fusão alérgica de uma dose venenosa de titânio.

Nikolai foi para a janela fechada e puxou os painéis presos. Se estava procurando ação, ele tinha encontrado - e aos montes. Abaixo, na rua, havia um Renegado enorme. Estava ensanguentado e maltratado.

Mas, maldito seja! Ele não estava sozinho.

Alexei Yakut estava com ele.

Incrivelmente, Lex e o Renegado caminhavam para um sedan que os esperava e entraram.

- Que porra está acontecendo? - murmurou Niko enquanto o carro arrancava e saía pela rua.

O guerreiro esteve a ponto de saltar pela janela aberta e seguir a pé quando um grito estridente soou atrás dele. Uma mulher tinha andado até a área da matança e agora gritava de terror, com um dedo acusador apontando na direção de Niko. Ela gritou suficientemente alto mais uma vez, despertando a atenção de cada drogado e traficante da vizinhança.

Nikolai olhou para a testemunha e para a sangrenta evidência de uma luta que parecia tudo, menos humana.

- Maldição - grunhiu, olhando por cima do ombro a tempo de ver o carro de Lex desaparecer ao virar a esquina.

- Está bem - disse à mulher enquanto deixava a janela e se aproximava dela. - Você não viu nada.

Apagou sua memória e a tirou do quarto. Então, pegou uma faca de titânio e cravou-a nos restos de um dos Renegados mortos.

Enquanto o corpo começava a se dissolver, Niko se preparou para limpar o resto da bagunça que Lex e seu insólito sócio haviam deixado para trás.


Capítulo 12

Renata estava no balcão da cozinha da propriedade de Sergei Yakut, com uma faca na mão.

- Que tipo de geleia quer esta noite: uva ou morango?

- Uva - respondeu Mira. – Não, espere. Quero de morango.

A menina estava sentada na beira da bancada de madeira ao lado de Renata, suas pernas penduradas e seus braços cruzados. Vestida com uma camiseta púrpura, calças azuis desgastadas e um velho par de tênis, Mira poderia se passar por qualquer outra menina esperando o jantar. Mas as meninas normais não eram obrigadas a comer a mesma coisa praticamente todos os dias. As pequenas meninas normais tinham famílias que as amavam e cuidavam delas. Viviam em casas bonitas, em ruas bonitas e arborizadas, com cozinhas brilhantes, despensas cheias e com mães que sabiam preparar refeições maravilhosas.

Pelo menos, isso é o que Renata imaginava quando pensava na representação ideal de uma família normal. Ela não imaginava isso baseada em algum tipo de experiência pessoal. Como menina de rua antes que Yakut a encontrasse e a levasse para casa, Mira tampouco sabia o que era normal. Mas era esse tipo saudável, o tipo de vida normal, que Renata desejava para a garota, embora aquilo parecesse um desejo insignificante ali, de pé na cozinha imunda de Sergei Yakut, ao lado de um fogão que provavelmente não funcionava, embora tivesse gás correndo nele.

Como Renata e Mira eram as únicas na cabana que se alimentavam de comida, Yakut tinha deixado em suas mãos que ela e a menina se alimentassem regularmente. Renata não prestava realmente atenção em sua alimentação e odiava não ser capaz de oferecer a Mira algo agradável de vez em quando.

- Um dia sairemos e teremos um jantar de verdade, com cinco pratos diferentes. Além de sobremesa - acrescentou, passando a geleia de morango em uma fatia de pão branco. - Talvez tenhamos duas sobremesas cada uma.

Mira sorriu sob o curto véu negro que lhe caía sobre a pequena ponta do nariz.

- Será que a sobremesa será de chocolate?

- De chocolate. Com certeza. Tome, pegue - disse, entregando o prato com um sanduíche de geleia.

Renata se apoiou no balcão enquanto Mira cortava uma pequena parte do sanduíche e comia como se fosse tão delicioso como qualquer menu de cinco pratos que pudesse imaginar.

- Não se esqueça de tomar seu suco de maçã.

- Está bem.

Renata cravou o canudo na caixa de suco e colocou-a ao lado de Mira. Depois, começou a limpar o balcão. Cada músculo de seu corpo feminino se retesou quando ela ouviu a voz de Lex na cozinha.

Ele havia saído ao anoitecer. Renata realmente não sentiu sua falta, mas não se perguntou o que esteve fazendo desde que saiu. A resposta para aquela pergunta veio na forma de uma gargalhada de mulher bêbada - várias mulheres bêbadas, pelo som do riso e os chiados atravessando a área principal da cabana.

Lex frequentemente levava mulheres humanas para casa para servir seu exército com sangue e diversão. Às vezes, ele as mantinha lá por vários dias. Geralmente compartilhava suas presas com os outros guardas, todos as usavam e apagavam o ataque de suas mentes antes de devolvê-las às suas vidas. Estar sob o mesmo teto que Lex quando ele estava bem-humorado a deixava enojada, mas o que mais lhe enfurecia era o fato de Mira ser exposta àqueles jogos macabros.

- O que está acontecendo ali fora, Rê? - perguntou.

- Termine seu sanduíche - disse Renata a Mira quando a garota parou de comer para escutar o alvoroço na outra sala. - Fique aqui. Volto já.

Renata saiu da cozinha e atravessou o corredor.

- Bebam, senhoritas! - gritou Lex, deixando cair uma caixa de garrafas de licor no sofá de couro.

Ele não consumiria álcool, nem os outros favores que oferecia na festa. Tirou alguns sacos plásticos brancos e enrolados, cada um bastante cheio com o que provavelmente era cocaína, e os jogou sobre a mesa. O sistema de som foi ligado, um baixo vibrando fortemente sob a letra de um hip-hop.

Lex agarrou a morena curvilínea com risada frívola e a colocou sob seu braço.

- Eu lhe disse que teríamos muita diversão! Agora venha aqui e me mostre sua gratidão.

Certamente Lex estava em um raro estado de ânimo, de bom humor. E não era um milagre. Retornou com um bom grupo: cinco mulheres vestidas com saltos altos, pequenos tops e microssaias. A princípio, Renata achou que eram prostitutas, mas observando-as mais de perto, estavam muito limpas e muito frescas sob toda a maquiagem pesada para fazerem parte da vida das ruas. Provavelmente eram apenas garotas ingênuas do clube, que não tinham se dado conta de que o persuasivo e atraente homem que as recolheu era na realidade alguém saído de um pesadelo.

- Venham e conheçam meus amigos - Lex disse ao grupo de mulheres enquanto se dirigia até os outros machos da Raça para mostrar a eles a captura da noite. Houve um momento de apreensão evidente enquanto os quatro guardas fortemente armados olhavam lascivamente seus aperitivos humanos. Lex empurrou três mulheres para os ansiosos vampiros.

- Não sejam tímidas, garotas. Esta é uma festa, afinal. Vão e digam olá.

Renata percebeu que ele estava retendo as duas garotas mais bonitas. Típico de Lex, obviamente tinha reservado o melhor para ele. Renata estava a ponto de girar e voltar à cozinha – e tentar ignorar a orgia sangrenta que estava a ponto de começar. Mas, antes que pudesse dar dois passos, Sergei Yakut apareceu trovejando de seus aposentos privados.

- Alexei! - a fúria vibrava do vampiro mais velho em ondas de calor. Ele olhou Lex com olhos brilhantes cor de âmbar. – Você esteve fora durante horas. Por onde andou?

- Estive na cidade, pai – Lex esboçou um sorriso generoso, como se dissesse que seu tempo fora de suas obrigações não fosse inteiramente para servir suas próprias necessidades. - Olhe o que eu trouxe.

Lex afastou uma das mulheres de seu abraço para que Yakut a inspecionasse. Yakut nem olhou para o prêmio que Lex lhe oferecia, só olhou para as duas mulheres que Lex guardava para si.

O Primeira Geração grunhiu.

- Você tira porcaria da sola de seu sapato e me diz que é ouro?

- Nunca - respondeu Lex. - Pai, eu nunca...

- Bem. Estas duas serão minhas - disse, indicando as mulheres que Lex havia reservado para si.

Furioso como deveria estar, humilhado com a espetada em seu orgulho, Lex não disse palavra alguma. Baixou o olhar e esperou em silêncio que Yakut recolhesse suas duas companheiras e se dirigisse com elas para seus aposentos privados.

- Não queremos ser incomodados - Yakut ordenou sombriamente. - Por razão alguma.

Lex assentiu em uma reverência contida.

- Sim, pai. Claro. Como quiser.

Nikolai ouviu a música e as vozes antes mesmo de estar a quinhentos metros da propriedade de Yakut. Aproximou-se, movendo-se através do bosque como um fantasma, passando pelo carro de Lex, estacionado na parte de trás, com o capô ainda quente por causa da viagem à cidade.

Niko não estava seguro do que encontraria. Não esperava uma maldita festa, mas isso era o que parecia estar acontecendo dentro da casa principal. O lugar estava iluminado como uma árvore de natal, as luzes saíam das janelas da sala, onde alguém estava entretido com várias mulheres. Um rap pesado vibrava por todo o caminho de terra por baixo das botas de Nikolai enquanto ele se aproximava pelo lado da construção e lançava uma olhada para dentro.

Lex estava lá, muito bem. Ele e o resto dos guarda-costas de Yakut, reunidos todos em uma sala rústica. Três mulheres jovens dançavam nos tapetes de pele vestidas somente com roupas íntimas, todas claramente embriagadas, tendo em vista a quantidade de bebidas alcoólicas e drogas sobre a mesa mais próxima. Os quatro guardas da Raça uivavam e as animavam, provavelmente a segundos de se jogarem sobre seus corpos ingênuos.

Lex, enquanto isso, estava sentado, curvado em um sofá de pele, os olhos escuros fixos nas mulheres apesar de seus pensamentos parecerem estar a quilômetros de distância. Não havia sinal do malicioso Lex que esteve na cidade. Tampouco havia sinais de Sergei Yakut, e o fato de a segurança inteira estar entretida com aquele pequeno espetáculo fez os instintos de Niko mudarem para o alerta vermelho.

- Que demônios está acontecendo? - Niko pronunciou baixo.

Mas ele sabia a resposta inclusive antes que começasse a mover-se pela parte posterior da propriedade, onde ficavam os aposentos de Yakut - lá, um sutil, porém persistente aroma, confirmou o pior temor de Niko.

Maldito seja! Havia um Renegado ali.

Nikolai também sentiu o cheiro de sangue fresco derramado, proveniente de um humano. O aroma era quase entristecedor quanto mais se aproximava do quarto de Yakut. Sangue e sexo, para ser exato, como se o Primeira Geração estivesse fazendo um banquete.

Um grito repentino irrompeu na noite.

De mulher. Um som de terror total, vindo de dentro do quarto de Yakut.

Depois, disparos amortecidos.

Pá, pá, pá!

Nikolai voou através da porta traseira do refúgio, sem se surpreender ao encontrá-la destrancada e parcialmente aberta. Irrompeu no quarto de Yakut com sua pistola semiautomática na mão, pronta para lançar a carga completa de balas de titânio reforçado.

A cena que o saudou era uma carnificina total.

Na cama estava Sergei Yakut, esparramado nu em cima de uma mulher presa sob seu corpo sem vida, com a garganta rasgada onde o vampiro esteve se alimentado apenas alguns segundos antes. Ela não se movia e não havia cor em sua pele ou no cabelo, já que a maior parte dela estava coberta pelo sangue de Yakut e também por seu próprio.

Faltava a metade do rosto do Primeira Geração. A cabeça de Sergei Yakut era pouco mais do que pedaços de osso, tecido e sangue restantes das três balas que tinham sido disparadas a queima-roupa na parte posterior de seu crânio. Ele estava morto e o Renegado que o matara estava também preso pelo desejo de sangue, a ponto de não se dar conta da presença de Nikolai. O filho da mãe tinha deixado a pistola que tinha utilizado para matar Yakut e agora estava ocupado com a outra mulher, também nua, que tinha sido apanhada no canto do quarto. Seus olhos estavam voltados para trás e ela não se movia. Caramba, ela também não estava respirando, embora o Renegado seguisse bebendo dela em seu pescoço destroçado pelas presas enormes.

Niko se moveu por trás do filho da mãe e colocou o canhão da arma contra sua cabeça desgrenhada. Apertou o gatilho e provocou explosões de titânio no cérebro do canalha. O Renegado caiu no chão, retorcendo-se com espasmos por causa do golpe. O titânio fez efeito rápido e o vampiro moribundo lançou um grito tão forte que sacudiu as velhas vigas de madeira da cabana como um trovão.

Renata saiu voando da cozinha com sua pistola pronta. Seus sentidos de batalha estavam esticados como cordas de piano, o crepitar de disparos distantes e o uivo desumano que o seguiram, procedentes do outro lado do refúgio. A música seguia soando na grande sala. As visitantes de Lex já não estavam vestidas e seguiam estridentes com o contínuo fluxo de drogas e álcool. As mulheres estavam sobre os guardas que, pelo olhar faminto, não notariam se uma bomba explodisse no quarto ao lado.

- Idiotas - Renata os acusou baixo. - Nenhum de vocês escutou isso?

Lex levantou os olhos, a preocupação obscureceu sua expressão, mas ela realmente não estava esperando uma reação por parte dele. Ela correu para o corredor do quarto de Yakut. O corredor estava escuro, o ar parado. Tudo muito silencioso. Muito parado.

A morte dependurava-se como um véu, quase asfixiante, enquanto ela se aproximava da porta aberta do alojamento do vampiro.

Sergei Yakut já não estava vivo; Renata sentiu em seus ossos. Pólvora, sangue e um entristecedor aroma adocicado de podridão a advertiram de que ela caminhava para algo terrível. Todavia, nada poderia tê-la preparado realmente para o que viu quando empurrou a porta com a arma levantada e sustentada com ambas as mãos, pronta para matar quem estivesse em seu caminho.

A visão de toda aquela morte, todo aquele sangue, toda aquela violência pegou Renata de surpresa. A morte estava por toda parte: na cama, no chão, nas paredes.

E também no corpo inerte de Sergei Yakut.

Nikolai estava no centro da carnificina, seu rosto e a camisa escura estavam salpicados de cor escarlate. Em sua mão havia uma grande pistola semiautomática, a ponta do cano ainda fumegante por seu recente disparo.

- Você? - a palavra deslizou dos lábios de Renata, a comoção e a incredulidade como uma bola de gelo em seu intestino. Olhou o corpo de Yakut – seus restos - espalhado sobre a cama, em cima da mulher sem vida.

- Meu Deus - ela sussurrou, surpreendida ao vê-lo na propriedade de novo, mas ainda mais surpresa pelo resto do que estava vendo. – Você... você o matou.

- Não - o guerreiro disse movendo a cabeça sombriamente. – Eu não o matei, Renata. Havia um Renegado aqui com Yakut – disse indicando a grande massa de fumegantes cinzas no chão, a fonte do aroma ofensivo. - Eu matei o Renegado, mas era muito tarde para salvar Yakut. Sinto muito.

- Abaixe a arma – ela disse, sem se interessar pelas desculpas. Ela não precisava delas. Renata sentiu pena pelo final violento de Yakut, um sentimento de incredulidade a surpreendeu por ele estar realmente morto. Mas não havia dor. Nada que absolvesse Nikolai de sua aparente culpa. Apontou firmemente para seu alvo e entrou um pouco mais no quarto. – Abaixe a arma. Agora.

Mas Niko manteve o controle firme de sua pistola 9 mm.

- Não posso fazer isso Renata. Não o farei, não enquanto Lex estiver respirando.

Ela franziu a testa, confusa.

- O que tem Lex?

- Este assassinato foi obra dele, não minha. Ele trouxe o Renegado aqui. Trouxe as mulheres para distrair os guardas e Yakut para que o Renegado pudesse se aproximar o suficiente para matá-lo.

Renata escutou, mas manteve o alvo sob sua mira. Lex era uma víbora, certo, mas um assassino? Realmente planejaria a morte de seu próprio pai?

Só então Lex e os outros guardas se aproximaram pelo corredor.

- O que aconteceu? Algo errado...

Lex se calou quando chegou à porta aberta do quarto do pai. Em sua visão periférica, Renata o viu olhar primeiro o corpo de Yakut na cama e, depois, Nikolai. Cambaleou para trás – um passo, não muito mais do que uma pausa. Então explodiu com muita raiva.

- Filho da mãe! Maldito assassino filho da mãe.

Lançou-se, mas foi uma tentativa em vão, que abandonou completamente quando a pistola de Nikolai girou em sua direção. O guerreiro não fraquejou, nem o olhar nem um músculo sequer de seu corpo. Estava completamente calmo enquanto olhava Lex pelo canhão da arma, inclusive quando a arma de Renata e a dos outros guardas apontavam para ele.

- Vi você na cidade esta noite, Lex. Eu estava lá. Na casa do drogado, a isca que você usou para atrair os vampiros Renegados. O filho da mãe que você trouxe esta noite pra cá. Eu vi tudo.

Lex zombou.

- Foda-se você e suas mentiras! Você não viu porra nenhuma, maldito!

- O que você prometeu ao Renegado em troca da cabeça de seu pai? Dinheiro não importa aos viciados em sangue. A vida de quem você ofereceu como prêmio? A de Renata? Talvez a da garota, Mira?

O peito de Renata se apertou diante daquele pensamento. Atreveu-se a dar uma rápida olhada em Lex e o encontrou friamente zombador diante do guerreiro, dando uma leve sacudida de cabeça.

- Você dirá qualquer coisa nesse momento para salvar o seu pescoço. Nada funcionará. Não quando você mesmo ameaçou a vida de meu pai não faz nem vinte horas. - Lex girou para ver Renata. - Você também o escutou, não foi?

Ela assentiu contrariada, recordando como Nikolai deu a Sergei Yakut uma advertência pública de que alguém precisava detê-lo.

Agora Nikolai tinha retornado e Yakut estava morto.

Mãe do Céu, ela pensou, olhando uma vez mais o corpo sem vida do vampiro que a manteve prisioneira pelos últimos dois anos. Ele estava morto.

- Meu pai não estava correndo perigo algum até que a Ordem entrou no jogo - Lex disse. - Uma tentativa fracassada, e agora isso, um banho de sangue. Você esperou para fazer seu movimento. Você e o Renegado que trouxe com você esta noite, esperando uma oportunidade para atacar. Só posso deduzir que veio matar meu pai desde o começo.

- Não - disse Nikolai, com um brilho de luz âmbar em seus olhos azuis de inverno. - Quem estava esperando para matá-lo era você, Lex.

Em uma fração de segundo, ela viu os tendões de Nikolai flexionarem-se enquanto seu dedo começava a pressionar o gatilho da arma, e disparou nele uma forte explosão mental. Por menos consideração que tivesse por Alexei, ela não podia deixá-lo morrer naquela noite. Nikolai rugiu, a coluna vertebral arqueada, o rosto retorcendo de dor.

Mais efetiva que as balas, a explosão o derrubou de joelhos em um instante. Os quatro guardas irromperam no quarto e tomaram-lhe a pistola e o resto das armas. Os canhões de quatro revólveres foram colocados na cabeça do guerreiro, à espera de ordens para matar. Um dos guardas armou o gatilho, ávido pelo derramamento de sangue, embora o quarto já estivesse repleto.

- Abaixem as armas – disse Renata. Olhou Lex, cujo rosto estava repleto de ira, seus olhos azuis e brilhantes, suas presas afiadas visíveis entre os lábios entreabertos. – Diga-lhe para que se retirem, Lex. Matá-lo apenas nos fará assassinos a sangue frio.

Incrivelmente, Nikolai começou a rir. Levantou a cabeça, com um esforço evidente, enquanto a explosão ainda o detia.

- Ele tem que me matar, Renata, porque não pode arriscar-se a ter uma testemunha. Não é verdade, Lex? Ninguém pode caminhar por aí sabendo seu segredo sujo.

Lex tirou sua própria pistola e se dirigiu diretamente a Nikolai. Colocou o canhão da pistola contra a testa do guerreiro. Grunhiu, seu braço tremendo pela ferocidade de sua raiva. Renata estava imóvel, horrorizada diante do medo de que ele, de fato, apertasse o gatilho. Ela estava perdida, uma parte dela queria acreditar no que Nikolai dissera – que era inocente – e outra parte estava temerosa em acreditar. O que havia dito de Lex simplesmente não podia ser verdade.

- Lex - ela disse, o único som no quarto. – Lex... não faça isso.

Ela estava a menos de uma pausa de golpeá-lo como tinha feito a Nikolai quando a arma lentamente foi baixada.

Lex rosnou, deixando-a um pouco mais tranquila.

- Eu gostaria de uma morte mais lenta para esse bastardo do que a que sou capaz de lhe dar. Levem-no para a sala principal e prendam-no - disse aos guardas. – Depois, alguém se encarregue de cuidar do corpo de meu pai. Tirem as garotas que estão no outro cômodo da propriedade. Quero todo este caos sangrento limpo imediatamente.

Lex voltou-se com um olhar sombrio para Renata quando os guardas começaram a arrastar Nikolai para fora do quarto.

- Se ele tentar algo, descarregue toda a sua força nesse filho da mãe.


Capítulo 13

- Pardonnez-moi, monsieur Fabien. Há uma chamada telefônica para o senhor. De um monsieur chamado Alexei Yakut.

Edgar Fabien fez um gesto desdenhoso para o macho da Raça que o servia como secretário pessoal e continuou admirando no espelho do armário o corte de suas calças feitas sob medida. Ele estava experimentando um traje novo e, naquele momento, nada que Alexei Yakut tivesse a lhe dizer era suficientemente importante para justificar uma interrupção.

- Diga-lhe que estou em uma reunião e não posso ser incomodado.

- Desculpe-me, senhor, mas já o informei que o senhor está indisponível. Ele diz que é um assunto urgente que requer sua imediata atenção.

Com uma reflexão, Fabien olhou para trás furiosamente por baixo das pálidas sobrancelhas arrumadas. Não se esforçou para ocultar os sinais externos de sua irritação crescente, que se mostraram pelo brilho âmbar de seus olhos e pela repentina agitação das cores de seus dermoglifos, que formavam redemoinhos e um arco sobre seu peito nu e seus ombros largos.

- Basta - disse ao alfaiate enviado da loja Givenchy do centro da cidade. O humano recuou imediatamente, recolhendo seus alfinetes e sua fita métrica e obedientemente se afastando às ordens de seu Mestre. Ele pertencia a Fabien – um dos muitos Subordinados que o vampiro da Raça de segunda geração empregava pela cidade. - Fora daqui, vocês dois.

Fabien desceu do soalho do armário e se aproximou do telefone que estava na mesa. Esperou até que ambos os serventes tivessem abandonado o quarto e a porta fosse fechada atrás deles.

Com um grunhido, tomou o aparelho e apertou o botão que piscava para conectar-se à chamada de Alexei Yakut.

- Sim - sussurrou ele com frieza. - Qual é o assunto urgente que simplesmente não pode esperar?

- Meu pai está morto.

Fabien balançou sobre seus calcanhares, realmente surpreendido pela notícia. Exalou um suspiro com a intenção de soar aborrecido.

- Que conveniente para você, Alexei. Terei que oferecer felicitações junto com minhas condolências?

O herdeiro aparente de Sergei Yakut ignorou a alfinetada.

- Havia um intruso na mansão esta noite. De algum modo, ele conseguiu entrar sigilosamente no lugar. Matou meu pai em sua cama, a sangue frio. Ouvi a perturbação e tentei intervir, mas... bem... Era muito tarde para salvá-lo. Estou desolado, certamente.

Fabien grunhiu.

- Obviamente.

- Mas supus que você devesse ser notificado a respeito do crime. E também suspeitei que você e a Agência viriam aqui imediatamente para deter o assassino de meu pai.

Cada célula no corpo de Fabien se deteve.

- O que está dizendo? Que tem alguém sob custódia? Quem?

Um riso baixo se escutou no outro lado da linha.

- Vejo que finalmente tenho sua atenção, Fabien. O que acharia se eu dissesse que tenho um membro da Ordem sob minha custódia, esperando por você aqui no albergue? Estou seguro de que há algumas pessoas que pensam que um guerreiro a menos para lutar seria excelente.

- Você não está realmente tentando me convencer de que esse guerreiro é responsável pela morte de Sergei Yakut, não é?

- Estou apenas dizendo que meu pai está morto e estou no comando de seus domínios agora. Digo que tenho um membro da Ordem em minhas mãos, e estou disposto a entregá-lo a você. Um presente, se quiser.

Edgar Fabien guardou silêncio durante um longo momento, considerando o imenso prêmio que Alexei Yakut lhe oferecia. A Ordem e seus membros ativos tinham poucos aliados dentro da Agência. Menos ainda dentro do círculo privado ao qual Fabien pertencia.

- E o que espera em troca desse... presente?

- Já disse quando nos conhecemos. Quero entrar. Quero uma parte em qualquer ação que você esteja tentando fazer. Uma parte grande, entende? – Lex riu, bastante cheio de si. - Você precisa de mim ao seu lado, Fabien. Penso que isso é óbvio para você agora.

A última coisa que Edgar Fabien ou qualquer de seus sócios precisava ao seu lado era um ambicioso maldito como Alexei Yakut. Ele era um perigo em potencial, alguém que teria de ser tratado com cuidado. Se Fabien tivesse que escolher, optaria por uma exterminação rápida, mas teria que ser alguém mais em última instância para fazer aquela escolha.

Quanto ao membro cativo da Ordem, isso era, de fato, intrigante. Era um presente digno a se considerar, e as muitas atraentes possibilidades que isso representava faziam o coração de quase quatrocentos anos de idade de Fabien pulsar um pouco mais rápido.

- Terei que fazer alguns... acertos - disse ele. - Pode levar uma hora, mais ou menos, para alinhar os recursos e ir até a sua casa para recuperar o prisioneiro.

- Uma hora - Alexei Yakut aceitou ansiosamente. - Não me faça esperar mais do que isso.

Fabien engoliu sua resposta ácida e terminou a chamada com um consentimento:

- Até logo então.

Sentou-se na mesa e olhou para a linha do horizonte noturno que brilhava intermitentemente à distância, bem além de seu imóvel no Refúgio. Então, dirigiu-se para o cofre e virou a fechadura da combinação, pegando a manivela para abri-lo. Dentro havia um telefone celular reservado apenas para chamadas de emergência. Ele teclou um número programado e esperou que o sinal cifrado conectasse. Quando a voz asfixiante do outro lado respondeu, Fabien disse:

- Temos um problema.

As correntes pesadas rodeavam o torso nu de Nikolai, atando-o a uma cadeira de madeira esculpida. Ele sentia restrições similares em suas mãos, que estavam presas atrás de si, e em seus pés, amarrados pelos tornozelos e presos com força contra as pernas da cadeira.

Nikolai tinha levado uma surra, e não apenas da rajada mental debilitante, cortesia de Renata. Graças àquele golpe demolidor, ficou inconsciente durante algum tempo, lutando para levantar suas pálpebras, inclusive agora. É obvio, parte da dificuldade devia-se ao fato de seu rosto ter sido golpeado e arruinado, os olhos estavam inchados, os lábios arrebentados e amargos com o sabor do próprio sangue. Ele estava muito fraco para uma verdadeira luta quando Lex e seus guardas tinham trabalhado nele como em um saco de boxe enquanto tiravam-lhe até a cueca e o arrastavam para o grande quarto da residência para esperar por seu destino.

Nikolai não sabia há quanto tempo estava sentado ali. Tempo suficiente para que suas mãos ficassem inchadas pela falta de circulação. Tempo suficiente para ter notado quando Renata passou pelo quarto, protetoramente conduzindo Mira para longe da repugnante cena. Tinha observado uma mecha de seu cabelo empapado em suor, vendo a dor e a tensão em seu rosto quando ela lançou um olhar sinistro em sua direção.

Sua reverberação provavelmente a golpeava muito duramente agora, ele supunha. Niko disse para si que a pontada que sentiu era apenas outro músculo gritando pelo abuso; ele não podia ser tão estúpido para sentir algum tipo de simpatia pelo sofrimento da fêmea. Ele não podia ser tão estúpido para se preocupar com o que ela pensava a respeito dele - isso se ela, de fato, tivesse acreditado nas acusações feitas por Lex – mas, maldição, ele realmente se importava. Sua frustração por não poder falar com Renata apenas aumentava sua dor física e sua fúria.

Do outro lado da sala, os quatro guardas examinavam as armas e as rodas de titânio com as pontas ocas feitas a mão, criações pessoais de Nikolai. Eles tinham todos os pertences do guerreiro dispostos sobre uma mesa, fora de seu alcance. O celular de Niko - seu vínculo com a Ordem - estava despedaçado no chão. Lex tinha tido o grande prazer de esmagá-lo sob sua bota antes de partir, deixando Nikolai sob a supervisão de seus guardas.

Um dos machos da Raça disse algo que fez os outros três rirem antes que girasse com a semiautomática de Niko e apontasse em sua direção. Nikolai não estremeceu. De fato, ele mal respirava, olhando pela fenda torcida de seu olho esquerdo, todos seus músculos desabados como se ainda estivesse inconsciente e inconsciente sobre o que acontecia ao seu redor.

- Que tal se o acordássemos? - brincou o guarda com a arma na mão. Ele a balançou para Niko, tentadoramente dentro do alcance de sua mão, se os braços de Niko não estivessem fortemente amarrados atrás dele. A boca da 9mm baixou lentamente, além de seu peito, logo acima de seu abdômen definido. - Eu sugiro castrarmos esse pedaço de porcaria assassino. Tiramos suas bolas e deixamos que a Agência o leve em pedaços.

- Kiril, deixe de ser idiota - um dos outros advertiu. - Lex disse que não podíamos tocá-lo.

- Lex é uma garotinha. - O polido aço negro chiou com o frio entalhe quando Kiril martelou. - Em dois segundos esse guerreiro vai ser somente uma garotinha também.

Nikolai se manteve muito quieto quando a arma foi pressionada em sua virilha. Parte de sua paciência nasceu do verdadeiro temor, já que ele era bastante aficionado por suas partes viris e não tinha desejo algum de perdê-las. Mas era inclusive mais primitivo que ele entendesse que as oportunidades de reverter a situação a seu favor eram poucas e breves. Ele tinha superado a maioria dos efeitos internos do talento de Renata, mas não podia estar seguro de sua força física a menos que tentasse.

E se tentasse agora e falhasse... bem, ele não queria contemplar as possibilidades de afastar-se sem sua virilidade intacta se tentasse escapar de suas ataduras e conseguisse apenas um disparo impulsivo de Kiril.

Uma dura palmada golpeou a lateral da sua cabeça.

- Está aí, guerreiro? Tenho algo para você. Hora de despertar.

Com os olhos fechados para ocultar a mudança da cor azul para o âmbar, Nikolai deixou que sua cabeça caísse mole com o golpe. Mas, dentro dele, a fúria começava a acender. Ele tinha que manter a calma. Não podia deixar que Kiril ou os outros vissem a mudança de seus dermoglifos e arriscar-se a mostrar que estava completamente acordado e consciente. E totalmente de saco cheio.

- Acorde! - grunhiu Kiril.

Começou a levantar o queixo de Niko, mas então um ruído fora do recinto chamou sua atenção. Cascalho salpicando e rangendo debaixo de pneus de veículos que se aproximavam. Uma frota deles, pelo som.

- A Agência está aqui - um dos outros guardas anunciou.

Kiril afastou-se de Nikolai, mas tomou seu tempo para desarmar a pistola. Do lado de fora, os veículos reduziam a velocidade, até pararem. Portas se abriram. Botas golpeando o caminho de cascalho foram ouvidas quando os Agentes do Refúgio se aproximaram. Nikolai contou mais de meia dúzia de pares de pés movendo-se para a casa.

Inferno.

Se ele não saísse daquela situação rapidamente, despertaria nas mãos da Agência. E, para um membro da Ordem, um grupo que a Agência há muito tempo desejava extinguir, a detenção faria que Lex e o tratamento de seus guardas parecesse uma temporada em um spa. Se caísse nas mãos da Agência agora, especialmente quando o acusavam de assassinar um Primeira Geração, Niko sabia, sem sombra de dúvidas, que também acabaria morto.

Lex saudou os recém-chegados como se fossem uma corte.

- Por aqui - indicou de algum lugar fora do recinto. – Prendi o filho da mãe. Ele está esperando lá dentro.

- Ele prendeu o filho da mãe - murmurou Kiril acidamente. - Duvido que Lex pudesse manter seu próprio traseiro mesmo que usasse ambas as mãos.

Os outros guardas riram cautelosamente.

- Venha - disse Kiril. - Vamos pôr o guerreiro de pé para que a Agência possa levá-lo daqui.

A esperança surgiu no peito de Niko. Se o liberassem das algemas, poderia ter uma pequena possibilidade de escapar. Muito pequena, tendo em vista o som próximo das botas e a capacidade armamentista que se dirigia em sua direção do exterior da casa. Mas pequena era muitíssimo melhor do que nenhuma.

Ele manteve o corpo sem vida na cadeira, inclusive enquanto Kiril se abaixava diante dele e tirava as correntes que estavam ao redor de seus tornozelos. A impaciência o corroía. Cada impulso de Nikolai dizia que levantasse seu joelho e golpeasse o guarda por baixo da mandíbula.

Ele teve que se reprimir com os dentes mordendo a língua para manter-se imóvel, com a respiração mais superficial que pudesse, esperando a melhor oportunidade enquanto o guarda dava a volta por trás e recolhia os cadeados que fechavam as correntes em seu torso e pulsos. Um giro da chave. Um estalo rangente do aço quando a fechadura se abriu.

Nikolai flexionou seus dedos, tomou uma respiração profunda, sem restrições.

Abriu os olhos. Sorriu abertamente aos companheiros de Kiril um instante antes de levantar os braços e agarrar a cabeça grande de Kiril com as mãos.

Com um movimento fluido, deu um giro violento e saltou para cima, fora da cadeira. As correntes caíram e Nikolai estava de pé com o forte estalo do rompimento do pescoço de Kiril.

- Santo Cristo! - gritou um dos guardas.

Alguém lançou um disparo frenético. Os outros dois procuraram por suas armas.

Niko puxou bruscamente a pistola de Kiril fora de sua cartucheira e devolveu o fogo, derrubando um guarda com uma bala na cabeça.

A situação gerou gritos de alarme no corredor. As botas começaram a golpear. Um pequeno exército de Agentes chegaria para tomar o controle da situação.

Maldito seja.

Não tinha muito tempo para fugir antes que ele estivesse contemplando os canos de não menos do que meia dúzia de pistolas em poucos segundos.

Nikolai arrastou o corpo morto de Kiril diante de si e o manteve ali como um escudo. O cadáver tomou um par de golpes rápidos quando Niko começou a se mover para trás, para a janela que ficava do outro lado do grande quarto.

Na porta agora aberta havia um grupo de Agentes vestidos de preto, todos munidos com algumas armas de fogo semiautomáticas, que o observavam bastante sérios.

- Parado, maldito!

Niko lançou um olhar por cima do ombro para a janela que estava alguns metros atrás dele. Essa era sua melhor - sua única - opção. Render-se agora e sair pacificamente com seus executores da Agência era uma alternativa que ele se negava a considerar.

Com um rugido, Niko agarrou o peso morto de Kiril e balançou o corpo para a janela de cristal. Manteve-o perto quando a janela estilhaçou, usando o cadáver do vampiro como escudo para conseguir sair do alcance do vidro quebrado e assim atravessar o improvisado buraco.

O guerreiro da Raça escutou uma ordem atrás de si – uma ordem de um dos Agentes para que abrissem fogo.

Ele sentia o ar fresco da noite sobre o rosto, sobre o cabelo e sobre o corpo nu umedecido pelo suor. Mas, antes que ele pudesse registrar o menor sabor da liberdade...

Pá! Pá! Pá!

Suas costas nuas arderam como se estivessem em chamas. Seus ossos e músculos sentiram-se flexíveis, e dentro de si dissolveu-se uma onda de bílis e ácido que lhe chamuscou a parte posterior da garganta. A visão de Nikolai mergulhou em uma escuridão repentina que o devorou. Ele sentiu a terra surgir rapidamente debaixo de si quando ele e o cadáver de Kiril caíram abaixo da janela.

Então, já não sentiu mais nada.

 

 

CONTINUA

Capítulo 10

Nikolai despertou na escuridão total, com a cabeça descansando sobre o caixão de um homem aparentemente rico de Montreal que estava morto há 67 anos. O chão de mármore do mausoléu era um pouco duro para as horas de descanso, mas tinha servido muito bem para Niko. A noite estava perigosamente perto da alvorada quando ele deixara o território de Yakut e, além disso, ele certamente já havia dormido em lugares piores do que o cemitério que tinha encontrado no extremo norte da cidade.

Com um gemido, sentou-se e abriu o telefone celular para verificar que horas eram. Merda, ainda era uma hora da tarde; tinha aproximadamente sete ou oito horas para esperar ali antes do anoitecer, quando seria seguro sair. Sete ou oito horas a mais e ele já estava angustiado pelo tempo de inatividade que teria de atravessar.

Sem dúvida alguma, Boston estaria se perguntando sobre ele agora. Niko teclou a discagem rápida que chamava o escritório central da Ordem. No meio do segundo toque, Gideon respondeu.

- Niko, pelo amor de Deus! Já estava na hora de você passar um relatório - o sotaque do inglês vago do guerreiro soou um pouco áspero. Nada surpreendente, considerando que Niko estava ligando no meio do dia. – Diga, você está bem?

- Sim, estou bem. Meu objetivo aqui em Montreal ficou ainda mais difícil de ser alcançado desde domingo, mas, fora isso, está tudo bem.

- Não conseguiu encontrar Sergei Yakut, então?

Niko riu.

- Ah, encontrei o bastardo facilmente. O Primeira Geração está vivinho e abanando o rabo. Mora ao norte da cidade em uma espécie de mansão à la Gengis Khan.

O guerreiro deu a Gideon um rápido resumo de tudo o que havia acontecido desde sua chegada a Montreal - do chute no traseiro que recebera de Renata como boas-vindas até as poucas e estranhas horas que passara no refúgio de Yakut, as quais culminaram com a localização de humanos mortos e largados na parte de trás da casa e sua subsequente expulsão de lá.

Ele descreveu a recente tentativa fracassada de acabar com a vida do Primeira Geração e o incrível papel que Mira desempenhou para frustrar tal ataque. Niko deixou de fora a parte sobre o que ele tinha visto nos olhos de Mira. Não viu razão alguma para compartilhar os detalhes daquela visão que, apesar da insistência de Renata em afirmar que Mira nunca se enganava, tinha praticamente zero chance de se realizar - não, agora havia exatamente zero chance de a visão acontecer.

Deveria ter sido um alívio para ele saber disso. A última coisa de que precisava era se meter com uma mulher, especialmente uma peça desse jogo macabro como Renata. A companheira unida pelo laço de sangue a Yakut. A ideia ainda o corroía, muito mais do que deveria, aliás. E ele não se sentia particularmente bem com o fato de que a mais leve lembrança daquele beijo era suficiente para fazê-lo ficar duro como o granito da tumba que o rodeava.

Ele a desejava, e por uma fração de segundo, quando deixou o refúgio de Yakut, pensou que ela poderia segui-lo. Não tinha motivo algum para pensar isso, mas tinha sido um golpe no estômago, uma sensação de que talvez Renata pudesse correr atrás dele e pedir-lhe que a tirasse dali.

E se o tivesse feito? Cristo, ele tinha que ser muito idiota só para considerar essa hipótese.

- Então - disse a Gideon, retornando mentalmente para a realidade, - não podemos contar com nenhum tipo de cooperação de Sergei Yakut. Ele basicamente me disse isso antes de me enxotar para fora e de eu o chamar de bastardo doente que precisa de focinheira e coleira.

- Jesus, Niko! - suspirou Gideon, provavelmente passando a mão pelo cabelo loiro por conta da frustração. - Disse mesmo isso a um Primeira Geração? Teve sorte que ele não tenha arrancado a sua língua antes de expulsá-lo.

Provavelmente era verdade, Nikolai reconheceu para si. E talvez tivesse perdido mais que a língua se Yakut soubesse o tipo de desejo que ele tinha por Renata.

- Sabe que sou alérgico a puxa-saquismo, mesmo se o saco em questão for o de um Primeira Geração. Se isso era uma missão de relações públicas, vocês escolheram o cara errado.

- Não me diga.

Gideon riu ao soltar outra maldição em voz baixa. - Você vai voltar para Boston, então?

- Não vejo razão para ficar aqui. A menos que você ache que Lucan não olharia torto se eu voltar e colocar fogo na casa de horrores de Yakut. Tirando-o de cena, pelo menos por um tempo.

Estava brincando... em grande parte do que falava. Mas o silêncio da resposta de Gideon revelava que seu companheiro guerreiro sabia o que estava dando voltas na cabeça de Niko.

- Sabe que não pode fazer nada disso, cara. Nada fora dos limites.

- E isso é uma merda - murmurou Nikolai.

- Sim, é. Mas essas decisões pertencem à Agência, não a nós.

- Estou lhe dizendo que Yakut não é diferente dos Renegados que tiramos das ruas, Gid. Diabos! Pelo que vi, ele é ainda pior. Ao menos os Renegados podem colocar a culpa de sua selvageria na sede por sangue. Yakut nem sequer pode agarrar-se ao vício de sangue como desculpa para caçar esses humanos por aí afora. Ele é um predador, um assassino.

- Ele está protegido - disse Gideon firmemente. - Mesmo que não fosse um Primeira Geração, continuaria sendo um civil. E um membro da Raça. Não podemos tocar nele, Niko. Não sem atirar um monte de bosta no ventilador. Portanto, o que quer que esteja pensando em fazer, não o faça.

Nikolai exalou bruscamente.

- Esqueça o que eu disse. Para que horas devo planejar minha viagem de volta a Boston?

- Terei que fazer algumas chamadas, mas o jato particular ainda está esperando por você no aeroporto. Posso mandar uma mensagem de texto com a hora assim que o voo estiver confirmado.

- Tudo bem. Vou descansar e esperar para sair.

- E, afinal, onde você está?

Nikolai olhou para o caixão atrás dele, depois para o outro em frente e para a urna de bronze que estava acumulando pó em um pedestal contra a parede de trás do escuro mausoléu.

- Encontrei um lugarzinho tranquilo para descansar no extremo norte da cidade. Dormindo como um morto, de fato. Ou com eles, em todo caso.

- Falando em mortos, temos um relatório de outro assassinato de Primeira Geração no exterior - disse Gideon.

- Cristo. Escolheram abatê-los como moscas, não é verdade?

- Ou, ao que parece, estão tentando. Reichen está acompanhando o relatório de Berlim. Recebemos um e-mail dele informando que hoje, mais tarde, haverá uma atualização.

- É bom saber que temos olhos e ouvidos nos quais podemos confiar por ali - disse Niko. - Caramba, Gideon. Nunca teria imaginado que pudesse dar algum valor a um Refúgio civil, mas Andreas Reichen está demonstrando ser um aliado muito bom. Talvez Lucan devesse recrutá-lo oficialmente para a Ordem.

Gideon riu.

- Não ache que ele não tenha considerado isso. Infelizmente, somos somente um passatempo de meio período para a jornada de Reichen. Ele pode ter a alma de um guerreiro, mas seu coração pertence a seu Refúgio em Berlim.

E a certa fêmea humana, pelo que Nikolai entendia. Segundo Tegan e Rio, dois guerreiros que tinham passado muito tempo com Andreas Reichen no Escritório Central de Berlim, o líder do Refúgio alemão estava romanticamente envolvido com Helene, a proprietária de um bordel.

Era incomum que um guerreiro da Raça pudesse ter mais de um encontro ocasional, ou uma breve relação com uma mulher mortal, mas Niko não estava a ponto de questioná-lo porque certamente Helene também estava sendo uma fonte útil de informação para a Ordem no exterior.

- Então, escute-me - disse Gideon. - Espere calmamente onde está e eu o avisarei assim que tiver a informação de sua partida para esta noite. Está bem?

- Sim. Você sabe como me encontrar.

O murmúrio de uma voz feminina aveludada, suavizada pelo sono, atravessou o telefone.

- Ah, inferno, Gid. Não me diga que está na cama com Savannah!

- Eu estava - respondeu ele, acentuando com força o tempo passado. - Agora que ela está acordada, diz que vai tomar uma ducha quente e uma xícara de café forte.

Nikolai gemeu.

- Caramba. Diga-lhe que sinto pela... interrupção.

- Ouça, querida - Gideon chamou sua amada companheira, unidos pelo laço de sangue por cerca de trinta anos. - Niko diz que sente por ser um bastardo grosseiro e por nos despertar nessa hora tão inoportuna.

- Obrigado - murmurou Niko.

- De nada.

- Ligarei de novo do avião.

- Tudo bem - disse Gideon. - Ouviu, amor? Niko quer que diga que está para desligar. Ele diz que você deve retornar para a cama e me permitir violá-la lentamente desde sua inteligente e formosa cabeça até seus deliciosos e pequenos dedinhos dos pés – disse Gideon a Savannah, que agora estava sentada ao seu lado.

Nikolai riu.

- Soa divertido. Ponham no viva-voz para que eu possa pelo menos escutar.

Gideon bufou.

- Nem pense. Ela é toda minha.

- Bastardo egoísta - Niko arrastou as palavras sarcasticamente. – Vejo você mais tarde.

- Bem, até mais tarde. E, Niko, sobre a situação de Yakut: sério, nem pense em bancar o cowboy, ok? Temos questões mais importantes do que lutar e tentar encurralar um Primeira Geração solto. Não é nossa área, sobretudo agora.

Quando Niko não concordou imediatamente, Gideon limpou a garganta.

- Seu silêncio não me dá exatamente uma tranquilidade, meu caro. Preciso saber que você está escutando isso.

- Sim - disse Nikolai. - Estou escutando. Vejo você em Boston mais tarde.

Niko desligou o celular e o colocou de volta no bolso.

Embora muito o irritasse pensar em fazer vista grossa para Yakut e para suas doentias atividades, ele sabia que Gideon tinha razão. E mais: ele sabia que o líder da Ordem, Lucan, assim como o resto dos guerreiros no complexo de Boston, diria a mesma coisa.

Esquecer Sergei Yakut, pelo menos por enquanto: isso era o mais sábio, a coisa mais inteligente que podia fazer.

E, enquanto isso, seria prudente esquecer Renata também. Ela fez sua cama, afinal de contas. O fato de, evidentemente, tê-la feito com um sádico como Sergei Yakut não era problema de Nikolai. Absolutamente. Renata, a linda dama de gelo, não era assunto seu e ele estaria melhor longe dela.

Bem longe do ninho de víboras que tinha descoberto nos domínios de Yakut.

Restavam apenas algumas horas antes do anoitecer e, então, ele poderia deixar tudo aquilo para trás.

Ela nunca havia se acostumado a dormir com a luz do dia, não nos dois anos em que tinha vivido a serviço de um vampiro.

Renata estava em sua cama, inquieta, incapaz de relaxar e fechar os olhos até mesmo por alguns minutos. Virou-se, colocando-se de costas e deixando escapar um suspiro, mantendo seu olhar fixo nas vigas de madeira do teto.

Pensava no guerreiro... Nikolai.

Ele tinha partido há várias horas, mas ela ainda sentia o peso do desprezo dele pressionado sobre ela. Odiava que tivesse visto Yakut alimentando-se dela. Tinha sido difícil fingir que não estava envergonhada quando sustentou seu olhar do outro lado do quarto. Ela tinha tentado não parecer afetada, mas, por dentro, estava tremendo, com sua pulsação martelando quase fora de controle.

Ela não queria que Nikolai a visse assim. Ainda mais pelo fato de ele ter enumerado os brutais crimes de Yakut, claramente pensando que ela era parte deles também. Ela não conseguia esquecer o olhar acusador que o macho da Raça tinha lhe dirigido.

Isso era ridículo.

Nikolai era da Raça assim como Yakut. Ele era um vampiro igual a Yakut e, como tal, tinha de se alimentar de humanos para sobreviver. Mesmo com seu limitado conhecimento sobre a Raça, Renata sabia que beber de seres humanos era a única forma de a Raça obter seu alimento. Os amigáveis vampiros não usavam os bancos de sangue, nos quais poderiam recolher um litro de O- pelo caminho. Nem os animais eram um substituto para o sangue humano.

Sergei Yakut e todo o resto da Raça compartilhavam o mesmo impulso: a necessidade dos glóbulos vermelhos dos Homo sapiens, tomados diretamente de uma veia aberta.

Eles eram selvagens e letais. Mesmo que na maioria das vezes parecessem humanos, em seu coração – ou em sua alma, se é que eles ainda tinham uma – faltava toda a humanidade. Por que ela deveria pensar que Nikolai era diferente?

Mas ele tinha parecido diferente, mesmo que só um pouco, quando tinham discutido no canil - quando a tinha beijado. Por Deus! Ele na realidade tinha parecido muito diferente dos outros da Raça que ela conhecia. Não era como Yakut, tampouco como Lex.

O que provavelmente só demonstrava que ela era uma tola.

E que era também uma fraca. Que outra coisa poderia explicar o dilacerador desejo de que Nikolai voltasse? Ele poderia tê-la tirado daquele lugar quando havia partido?

Ela frequentemente não se permitia ter esperanças vãs ou perder tempo imaginando coisas que nunca aconteceriam. Mas por um momento... por um breve e egoísta momento ela se imaginou sendo arrancada, libertada dos braços de ferro de Sergei Yakut.

Por um instante, ela se perguntou o que poderia ter vontade de fazer quando estivesse livre do sádico Primeira Geração, livre de tudo que a mantinha ali... e isso havia sido glorioso.

Envergonhada por seus pensamentos, Renata jogou as pernas para um lado da cama para se sentar. Ela não podia ficar ali um minuto a mais, não enquanto sua mente estivesse girando com pensamentos que não lhe fariam bem algum.

A verdade é que aquela era a sua vida. O mundo de Yakut era o seu mundo, o recinto e seus inúmeros segredos grotescos eram sua realidade inflexível. Ela não sentia pena de si, nunca sentira. Nem no orfanato do convento por todos aqueles anos de sua infância, nem no dia em que fora expulsa para sempre de sua casa com as Irmãs da Benevolente Misericórdia aos 14 anos de idade.

Nem mesmo naquela noite, há dois verões, quando foi arrancada das ruas de Montreal e presa com um grupo de outras pessoas assustadas nos currais do celeiro dentro da propriedade de Sergei Yakut.

Ela não tinha derramado uma só lagrima de autopiedade em todo esse tempo. E, com certeza, não iria começar agora.

Renata levantou-se e saiu de seu modesto quarto. A casa principal estava em silêncio àquela hora, as poucas janelas do lugar estavam completamente fechadas para afastar os letais raios de sol. Renata tirou a barra de ferro grossa da porta exterior e saiu andando na gloriosa tarde de verão, cálida e brilhante.

Dirigiu-se ao canil. Entre todo o drama da última noite, não só com Nikolai mas também depois, ela tinha esquecido completamente que suas adagas estavam lá fora. Ser negligente e descuidada a incomodava. Nunca deixava os punhais fora de seu alcance. Eles eram parte dela agora, como tinham sido no dia em que os tinha tomado.

- Estúpida, estúpida - sussurrava para si enquanto entrava no antigo canil e olhava para o poste em que esperava encontrar a lâmina incrustada que tinha atirado contra Nikolai.

Não estava ali.

Um grito de incredulidade e angústia deslizou por seus lábios.

O guerreiro levou suas lâminas? Será que o cachorro as tinha roubado?

- Maldito seja. Não!

Renata invadiu o corredor central do edifício... e, então, parou abruptamente quando chegou à parte posterior do lugar e seus olhos pousaram no fardo de feno perto do poste de madeira.

Cuidadosamente dobrado em cima dele e colocado perfeitamente ao lado do par de sapatos que tinha deixado para trás na noite anterior estava também a capa de seda e veludo que continha suas preciosas adagas. Segurou-as para certificar-se de que a capa de tecido não estava vazia. Quando sentiu o peso familiar em sua palma, não pôde conter um sorriso.

Nikolai.

Ele tinha guardado as adagas para ela. Ele as havia recolhido, envolvido e deixado ali, como se soubesse quanto significavam para ela.

Por que faria isso? O que esperava que sua bondade comprasse? Na verdade, pensava que sua confiança poderia ser ganha tão facilmente ou esperava outra oportunidade para impor-se do mesmo modo que havia feito com aquele beijo?

Ela realmente não queria pensar nos beijos de Nikolai. Se pensasse, então deveria admitir para si que o beijo tinha sido inesperado e à força, e que apenas ele era culpado por aquilo ter ocorrido.

Mas a verdade era que ela tinha aproveitado.

Santa Maria! Só de pensar nele um calor lento e líquido acendia-se em seu coração e em seu sexo.

Ela queria mais dele, apesar de cada instinto de sobrevivência de seu corpo ter gritado para que ela se afastasse, que escapasse rapidamente. Ela tinha fome dele – naquele momento e agora. Queimava por ele – em um lugar que ela pensava estar completamente congelado e morto. E o comentário a respeito do que ele tinha visto nos olhos de Mira - a implicação de tudo - poderia envolver Renata e ele intimamente juntos, o que era ainda mais inquietante. Graças a Deus ele se foi. Graças a Deus, ele provavelmente nunca voltaria depois do que tinha descoberto ali.

Muito tempo havia passado desde que Renata ajoelhava-se para rezar. Ela não se ajoelhava diante de ninguém mais, nem sequer de Yakut em seu pior momento, mas inclinou a cabeça e pediu aos céus que mantivesse Nikolai longe daquele lugar. Longe dela.

Já não estava com ânimo para treinar, sobretudo quando as lembranças do que tinha acontecido ali ainda estavam tão recentes em sua cabeça. Renata pegou seus sapatos e caminhou de volta para a casa. Entrou e se dirigiu ao corredor que levava ao seu quarto, esperando ter ao menos algumas horas de sono.

De repente, deu-se conta de que havia algo errado, mesmo antes de notar que a porta de Mira não estava fechada.

Nenhuma luz estava acesa no quarto da menina, mas ela estava acordada. Renata escutou sua suave voz na escuridão, queixando-se que tinha sono e não queria levantar. Mais pesadelos?, Renata se perguntou, sentindo uma pontada de compaixão pela menina. Mas, então, outra voz gemeu entre os dentes acima dos protestos aturdidos de Mira, uma voz fria, áspera e impaciente.

- Pare de choramingar e abra seus olhos, cadelinha.

Renata pressionou a mão contra a porta e a empurrou amplamente.

- Que diabos pensa que está fazendo, Lex?

Ele estava inclinado sobre a cama de Mira, apertando dolorosamente as mãos nos ombros da menina. Sua cabeça virou quando Renata entrou no quarto, mas ele não soltou Mira.

- Preciso do oráculo de meu pai. E não vou responder às suas perguntas, então, seja amável e saia daqui, inferno.

- Rê, ele está machucando meus braços.

A voz de Mira era baixa, sacudida pela dor.

- Abra os olhos, maldita - Lex grunhiu. - E talvez eu pare de te machucar.

- Tire suas mãos de cima dela, Lex.

Renata parou ao pé da cama, com as lâminas embainhadas.

- Tire as mãos dela! Agora!

Lex zombou.

- Não até que eu tenha terminado com ela.

Quando deu a Mira uma sacudida forte, Renata soltou uma rajada de fúria mental. Era só um fio de energia, só uma fração do que podia dar, mas Lex uivou, seu corpo se sacudiu como se tivesse sido golpeado por milhares de volts de eletricidade. Cambaleou para trás, deixando Mira cair e afastando-se da cama, caindo com o traseiro no chão.

- Cadela! – gritou com os olhos soltando um fogo âmbar e com as pupilas fragmentadas fortemente no centro. - Eu devia matá-la por isso. Devia matar a pequena pirralha e você, suas cadelas!

Renata o golpeou de novo, dando-lhe outra pequena amostra de agonia. Ele se deixou cair, agarrando a cabeça e gemendo com a segunda rajada debilitante. Ela esperou, observando como ele se esforçava para levantar-se de uma postura desajeitada do chão. Da maneira que estava agora, ele não representava ameaça alguma para ela, mas em algumas horas estaria recuperado, e Renata estaria vulnerável. Aí então ela teria uma pequena dívida a pagar.

Mas no momento, Mira já não era do interesse de Lex, e isso era tudo que importava. Lex a fulminou com o olhar quando se arrastou até seus pés.

- Saia do meu... caminho... vadia maldita!

As palavras estavam sufocadas, balbuciadas entre seus ofegos enquanto ele torpemente se dirigia para a porta aberta. Quando Lex saiu do campo de visão de Renata, com os passos dele ecoando no corredor externo, ela aproximou-se de Mira e tentou acalmá-la.

- Está tudo bem, querida?

Mira assentiu.

- Eu não gosto dele, Rê. Ele me assusta.

- Eu sei, querida.

Renata deu um beijo na testa da garota.

- Não vou deixar que ele faça mal a você. Está a salvo comigo. Essa é uma promessa, certo?

Outro gesto de assentimento, mais fraco dessa vez, enquanto Mira voltava a cabeça ao travesseiro e exalava um suspiro sonolento.

- Rê? - perguntou em voz baixa.

- Sim, ratinho?

- Você nunca vai me abandonar, não é mesmo?

Renata ficou olhando fixamente aquele rosto inocente na escuridão, sentindo seu coração apertado no peito.

- Nunca vou abandonar você, Mira. Jamais... Exatamente como prometemos.


Capítulo 11

A lua elevava-se, projetando manchas de luz sobre o lago Wannsee, em uma zona exclusiva do subúrbio de Berlim. Andreas Reichen recostou-se em sua cadeira almofadada no gramado que ficava na parte de trás de sua propriedade privada no Refúgio. Ele tentava absorver um pouco da paz e da tranquilidade noturnas. Apesar da brisa agradável e morna, e do lago de águas calmas e escuras, os pensamentos dele eram taciturnos e turbulentos.

As notícias do último Primeira Geração assassinado, dessa vez na França, fora um duro golpe. Parecia-lhe que o mundo ao seu redor estava ficando cada vez mais insano. Não apenas o mundo da Raça – seu mundo -, mas também a humanidade. Tanta morte e destruição. Tanta angústia por todos os lados.

No fundo de seu estômago, Andreas tinha a terrível sensação de que isso era apenas o começo. Dias mais sombrios estavam por vir. Provavelmente estivessem a caminho há muito tempo e ele tinha sido demasiado ignorante; estivera demasiado entretido com seus prazeres pessoais para se dar conta disso.

Um desses prazeres, aliás, aproximava-se por trás dele: com passos elegantes e inconfundíveis, a mulher caminhou pelos jardins bem cuidados da propriedade e sentou-se sobre a grama.

Os pequenos braços de Helene rodearam os ombros largos de Andreas.

- Olá, querido.

Reichen aproximou-se para acariciar-lhe a cálida pele enquanto a mulher inclinava-se para beijá-lo. Ela tinha uma boca suave e persistente, e seus longos cabelos escuros guardavam ainda um vestígio de óleo de rosas.

- Quando cheguei, seu sobrinho me disse que você estava aqui fora há horas - murmurou ela, erguendo a cabeça para olhar o lago. - Posso ver por quê. É uma vista encantadora.

- E agora está ainda mais encantadora - disse Reichen, levantando a cabeça para olhar a mulher.

Helene sorriu sem acanhamento, há muito tempo já acostumada com aquela adulação.

- Alguma coisa está te incomodando, Andreas. Você não é do tipo que fica sentado se queixando do quanto a vida é injusta.

Será que ela o conhecia tão bem assim? Eles tinham sido amantes durante o ano anterior, uma brincadeira amorosa casual que, de alguma forma, transformara-se em algo mais profundo, se não exclusivo. Reichen sabia que Helene tinha outros homens em sua vida - homens humanos -, da mesma forma que ela sabia que ele ocasionalmente buscava prazer com outras mulheres. Não era uma relação infestada de ciúmes ou de possessão. Mas isso não significava que não houvesse carinho. Eles compartilhavam uma preocupação mútua um pelo outro e um vínculo de confiança que se estendia além das barreiras que geralmente tornavam as relações entre humanos e homens da Raça impossíveis.

Helene tinha se tornado uma amiga e, ultimamente, era uma companheira indispensável no importante trabalho de Reichen com os guerreiros de Boston.

Ela sentou-se no grande braço da cadeira.

- Deu as notícias à Ordem sobre o recente assassinato em Paris?

Reichen assentiu.

- Sim. E eles me disseram que houve também uma tentativa de assassinato em Montreal algumas noites atrás. Pelo menos essa falhou, um milagre do destino. Mas haverá outras. Temo que muitas outras mortes acontecerão antes que a fumaça finalmente se dissipe. A Ordem está convencida de que deterá essa loucura toda, mas às vezes me pergunto se o mal trabalhando aqui não é maior do que qualquer bem.

- Você está deixando que isto o consuma - disse Helene, enquanto preguiçosamente afastava o cabelo da testa. - Já sabe, se precisa de algo a fazer com seu tempo, poderia ter procurado a mim em vez da Ordem. Eu poderia tê-lo colocado para trabalhar no clube como meu assistente pessoal. Não é muito tarde para mudar de ideia. E asseguro-lhe que apenas os benefícios já valeriam a pena.

Reichen riu.

- Tentador, de fato.

Helene inclinou-se e mordiscou-lhe a orelha, sua respiração fazendo cócegas quentes sobre a pele masculina.

- Seria só uma posição temporária, é obvio. Vinte ou trinta anos, um piscar de olhos para você. Eu estarei enrugada e grisalha e você se entusiasmará por um novo brinquedo mais atraente que possa manter o ritmo de suas selvagens exigências.

Reichen estava surpreso ao ouvir a pontada de nostalgia na voz de Helene. Ela nunca tinha falado sobre o futuro com ele, nem tampouco ele com ela. Era mais ou menos compreensível que não poderia haver um futuro, tendo em vista que ela era mortal e ele – a menos que prolongasse sua exposição aos raios UVA ou sofresse um intenso dano no corpo - continuaria vivendo durante um tempo próximo ao da eternidade.

- O que está fazendo esbanjando seu tempo comigo quando poderia ter qualquer outro homem? – perguntou Reichen, movendo os dedos ao longo da suave linha do ombro de Helene. - Poderia estar casada com alguém que a adorasse, criando uma ninhada de crianças belas e inteligentes.

Helene arqueou uma impecável sobrancelha.

- Suponho que nunca fui do tipo que faria uma escolha convencional.

Nem ele, de fato. Reichen admitia que seria muito fácil ignorar tudo o que ela e a Ordem tinham descoberto há alguns meses. Ele podia esquecer a maldade que tinham vasculhado até à cova montanhosa nas colinas Boêmias. Podia fingir que nada daquilo existia, descumprir sua oferta de ajudar aos guerreiros respondendo por seu papel como líder de um Refúgio e voltar para seus libertinos e descuidados hábitos.

Mas a única verdade era que ele tinha se cansado daquela vida há tempos. Anos atrás, alguém o havia acusado de ser um eterno menino egoísta e irresponsável. E, naquele momento, a pessoa tinha razão. Especialmente quando ele tinha sido suficientemente tolo para deixar escapar uma mulher e o amor que ela lhe havia dado. Depois de muitas décadas de autopiedade, ele se sentia bem em fazer a diferença. Ou em tentar fazê-la, de qualquer forma.

- Não esperava que você viesse esta noite só para me distrair com seus beijos e com essas atraentes ofertas de emprego - disse, sentindo que a seriedade abatia-se sobre Helene.

- Não, não foi por isso que vim, infelizmente. Pensei que deveria saber que uma das minhas garotas do clube está desaparecida. Lembra-se de que mencionei Gina, uma de minhas garotas mais novas, que apareceu com marcas de mordida no pescoço na semana passada?

Reichen assentiu.

- A que tinha falado sobre um novo namorado rico com quem estava saindo.

- Essa mesmo. Pois bem, não é a primeira vez que ela falta ao trabalho, mas sua companheira de quarto disse-me esta tarde que Gina não passa em casa ou dá notícias há mais de três dias. Pode não ser nada, mas pensei que gostaria de saber.

- Sim. Tem alguma informação sobre o homem com quem se encontrava? Uma descrição, um nome, algo?

- Não. A companheira de apartamento dela nunca o conheceu e, por isso, não pôde me dizer nada.

Reichen considerou as numerosas coisas que podiam ocorrer a uma jovem que se encontrava inconscientemente com um macho da Raça. Embora a maioria deles fosse de membros que respeitavam a lei da nação vampírica, havia outros que revelavam seu lado selvagem.

- Preciso que, discretamente, investigue no clube esta noite, veja se alguma das outras garotas ouviu Gina mencionar algo sobre esse namorado. Procure por nomes, lugares aos quais ela possa ter ido com ele. O menor detalhe pode ser importante.

Helene assentiu, mas havia uma nota de interesse em seus olhos.

- Prefiro esse seu lado sério, Andreas. É incrivelmente sexy.

A mão dela deslizou por baixo da abertura da camisa de seda dele conforme suas longas e pintadas unhas brincavam sobre seu musculoso abdômen. Embora os pensamentos de Reichen fossem nefastos, seu corpo respondeu ao toque especialista da mulher. Seus dermoglifos começaram a encher-se de cor e sua visão afiou-se com uma rajada de cor âmbar que rapidamente preencheu sua íris. Mais abaixo, seu pênis ficou ereto, crescendo onde agora descansava sua palma.

- Eu realmente não deveria ficar - murmurou ela com a voz rouca e zombadora. - Não quero chegar tarde no trabalho.

Quando ela começou a se levantar, Reichen a deteve.

- Não se preocupe com isso. Conheço a mulher que dirige o lugar. Pedirei desculpas por você. Sei de fonte segura que ela gosta muito de mim.

- Você gosta dela?

Reichen grunhiu, deixando visível as pontas de suas presas com seu amplo sorriso.

- A pobre está louca por mim.

- Louca por uma coisa arrogante como você? - zombou Helene. - Querido, não se adule. Ela poderia querê-lo apenas por causa de seu decadente corpo.

- É o suficiente - respondeu ele. - Mas não ouvirá queixas minhas de maneira alguma.

Helene sorriu, sem resistir enquanto ele a puxava sobre seu colo e entregava-lhe um beijo profundo, masculino e faminto.

Ao anoitecer, Lex estava completamente recuperado do golpe que Renata lhe desferira. Sua ira - seu ódio por ela – permanecia, todavia.

Ele a amaldiçoava em sua mente enquanto se inclinavae sobre uma putrefata parede de uma casa infestada de ratos no pior subúrbio de Montreal, assistindo a um jovem humano apertar o braço com um cinto de couro velho. Com a ponta solta presa entre os dentes quebrados e cariados, o drogado cravou a agulha de uma imunda seringa em um lugar cheio de crostas e hematomas que percorriam o esquálido braço. Gemeu enquanto a heroína entrava em sua corrente sanguínea.

- Ah, caramba, cara! - soltou um trêmulo suspiro enquanto liberava seu torniquete e caía para trás contra um colchão podre no chão. Correu as mãos tatuadas pelo rosto pálido e cheio de espinhas, e pelos cabelos castanhos ensebados. – Ah! Essa porcaria é das boas, cara.

- Sim - Lex disse com a voz sem fôlego, na fria e úmida escuridão.

Não tinha economizado em drogas; o dinheiro era de pouco interesse para ele. Sem dúvida o drogado que vendia o corpo nas ruas nunca tinha ganhado tanto dinheiro. Lex estava disposto a apostar que os serviços pessoais do jovem nunca haviam alcançado uma soma tão alta. Ele tinha saltado no interior do carro quando Lex parou e lhe mostrou cem dólares e um pacote de heroína.

Lex moveu a cabeça e olhou como o humano saboreava sua dose de alívio. Eles estavam sozinhos no miserável quarto de um edifício abandonado. O lugar tinha sido invadido por vagabundos e viciados quando chegaram, mas só levou uns minutos para Lex – e uma irresistível ordem mental, cortesia de sua linhagem de segunda geração da Raça - conduzir os humanos para fora e deixar que ele exercesse sua atividade sem ser incomodado.

Ainda deitado no chão, o drogado tirou a camisa regata e começou a desabotoar os folgados e imundos jeans azuis. Acariciou-se grosseiramente enquanto abria a braguilha, os olhos turvos rolando em seu crânio, buscando distraidamente através da escuridão.

- Então, quer que eu chupe seu pau ou o quê, cara?

- Não - Lex disse, enojado apenas com a ideia.

Ele afastou-se de sua posição, cruzando o quarto, e caminhou lentamente em direção ao drogado. Por onde começar com ele?, perguntou-se preguiçosamente. Tinha que esgotar essa coisa com cuidado ou teria de voltar para a rua e procurar outra pessoa.

Esbanjando seu tempo precioso.

- Prefere minha bunda, então, cara? - comentou o michê. - Se quiser me comer, vai ter de pagar o dobro. Essa é minha regra.

A risada de Lex foi baixa e genuinamente divertida.

- Não estou interessado em comer você. Já é suficientemente mau que tenha que olhar para você, que tenha que sentir seu cheiro repugnante. O sexo não é a razão pela qual está aqui.

- Bem, o que diabos você quer então? – ao dizer isso, uma nota de pânico cortou o ar, um súbito golpe de adrenalina humana que os sentidos de Lex facilmente detectaram. - Estou seguro que não me trouxe aqui para uma conversa educada.

- Não - Lex concordou.

- Está bem. Está bem, que porra eu pareço para você, seu merda?

Lex sorriu.

- Uma isca.

Com movimentos tão rápidos que nem sequer o olho humano mais aguçado poderia seguir, Lex estendeu a mão e derrubou o drogado no chão. O vampiro tinha uma faca na mão e cravou-a no macilento abdômen do humano, rasgando-lhe a pele.

O sangue surgiu da ferida, quente, úmido e perfumado.

- Ah, Jesus! - gritou o humano. - Ah, meu Deus! Você me apunhalou!

Lex recuou e deixou que o homem caísse sobre o chão. Era tudo que podia fazer para não investir contra o drogado com uma sede cega.

A transformação física de Lex foi rápida, provocada pela súbita presença de sangue fresco fluindo. Sua visão se aguçou enquanto suas pupilas se estreitavam, um brilho âmbar lavava o quarto enquanto seus olhos transformavam-se nos de um predador. Suas presas alargaram-se atrás de seus lábios e a saliva inundou-lhe a boca enquanto a urgência de se alimentar crescia.

O drogado estava soluçando agora, emitindo sons patéticos enquanto apertava a enorme ferida em seu estômago.

- Você está louco, seu merda? Podia ter me matado!

- Ainda não - respondeu Lex entre suas presas.

- Tenho que sair daqui - murmurou o homem. - Tenho que conseguir ajuda...

- Fique - ordenou Lex, sorrindo enquanto a mente do homem murchava sob aquela ordem.

Teve que se obrigar a manter distância. Deixar que a situação se esvaísse enquanto pudesse. Uma ferida no estômago sangrava rápido, mas a morte viria lentamente. Lex precisava dele vivo durante um tempo longo o suficiente para que o cheiro do sangue viajasse pela rua e entrasse nos becos dos arredores.

O humano que tinha comprado era meramente uma isca pronta para ser jogada na água. Lex procurava atrair um peixe maior.

Sabia tão bem como qualquer outro membro da Raça que nada atraía um vampiro mais rápido - e mais certeiramente – do que uma presa humana sangrando. E fazer isso em um ponto obscuro da cidade, onde até mesmo a escória da sociedade humana adentrava um estado de terror secreto, Lex presumia, atrairia a presença de Renegados.

Não se decepcionou.

Os dois primeiros vieram farejando ao redor da casa abandonada em minutos. Os Renegados eram viciados sem esperança, tanto quanto o drogado que agora se aconchegava em posição fetal, chorando em silêncio no chão, enquanto sua vida se apagava lentamente.

Embora poucos da Raça se perdessem na luxúria do sangue – a permanente e insaciável sede de sangue –, aqueles que raramente o faziam jamais se libertavam. Viviam nas sombras, monstros selvagens sem raízes, cujo único objetivo era viver alimentando sua fome.

Lex escondeu-se no canto do quarto enquanto os dois predadores se arrastavam para dentro. Eles imediatamente caíram sobre o humano, rasgando-o com presas que nunca se desvaneciam, os olhos ardendo com a cor e o calor do fogo.

Outro Renegado encontrou o quarto. Este era maior do que os outros, mais brutal enquanto se jogava para a matança e começava a alimentar-se. Uma briga explodiu entre os selvagens. Os três se pegaram como cães raivosos. Batendo os punhos, os dedos e as presas estripando a carne e os ossos, cada macho poderoso lutava viciosamente para ganhar um pedaço da presa.

Lex olhava paralisado. Aturdido pela violência e bêbado pelo cheiro de tanto sangue derramado, humano e da Raça.

Olhou e esperou.

Os Renegados lutaram um contra o outro até a morte, como animais selvagens que eram. No final, só um deles demonstraria ser o mais forte.

E era desse que Lex precisava.

Após um dia inteiro esperando o anoitecer, Nikolai agora tinha outras duas horas para passar antes de poder tomar seu voo de volta para Boston.

O guerreiro considerou seriamente não ir ao aeroporto e viajar a pé, mas até mesmo com sua resistência da Raça e sua hipervelocidade, mal atravessaria o estado de Vermont antes que o amanhecer o obrigasse a esconder-se de novo. E, francamente, a ideia de dormir em um celeiro com um bando de animais agitados não o empolgava a colocar um tênis e pegar a estrada.

Portanto, esperaria.

Maldição.

Ele e a paciência nunca foram amigos íntimos e, quando o sol finalmente se pôs e ele pode sair do refúgio, Niko já estava à beira da insanidade.

Supôs que aquele aborrecimento o guiava pelos subúrbios de Montreal, onde esperava encontrar algo divertido para fazer enquanto o mau humor passava. Não se preocupava em como usaria o tempo, mas havia deliberadamente procurado a única região da cidade onde a probabilidade de encontrar uma razão para usar seus punhos ou suas armas eram maiores.

Naquele conjunto de becos infestados de ratos, suas escolhas imediatas eram limitadas aos traficantes - de drogas ou de pessoas - e prostitutas de ambos os gêneros, sem discriminação. Mais de um idiota o olhou enquanto ele andava pela rua sem direção aparente. Alguém foi inclusive suficientemente estúpido para mostrar a ponta de uma faca enquanto passava, mas Niko só se deteve e deu ao bastardo desdentado um sorriso de orelha a orelha, mostrando suas presas como um convite e, rapidamente, a ameaça desapareceu.

Embora não fosse contra tipo algum de confronto, a luta contra humanos estava abaixo de sua capacidade. Preferia um desafio maior. O que ele realmente queria encontrar agora era um Renegado. No verão passado, Boston estivera afundada até os joelhos de vampiros viciados em sangue. A luta tinha sido dura e pesada - com pelo menos uma perda trágica para a Ordem -, mas Nikolai e o resto dos guerreiros tinham completado sua missão de manter a cidade limpa.

Outras zonas metropolitanas ainda perdiam civis ocasionalmente por conta da luxúria por sangue, e Niko apostaria seu testículo esquerdo que Montreal não era diferente. Mas além dos cafetões, traficantes e prostitutas, aquela extensão de tijolo e asfalto estava tão morta quanto a cripta na qual ele tinha sido forçado a passar o dia.

- Ei, querido - a mulher sorriu para ele de uma porta coberta de sombras enquanto ele passava. - Busca algo específico ou está apenas olhando as vitrines?

Nikolai grunhiu, mas se deteve.

- Sou um cara diferente.

- Bem, possivelmente tenho o que você precisa - ela sorriu e se moveu de sua pose sobre o degrau de concreto. - De fato, tenho exatamente o que você precisa, querido.

Ela não era uma beleza, com seus quebradiços e desgrenhados cabelos, olhos apagados e pele pálida, mas Nikolai não esperava gastar muito tempo olhando sua cara. Ela cheirava bem, seu desodorante e o spray de cabelo podiam ser considerados fragrâncias de aroma limpo. Para os sentidos afiados de Niko, a mulher cheirava a cosméticos e perfumes, com um toque de uso recente de drogas que exalava por seus poros.

- O que diz? - perguntou ela, aproximando-se furtivamente. - Quer ir a algum lugar? Se tiver vinte dólares, terá meia hora.

Nikolai observou a pulsação no pescoço da mulher. Já fazia vários dias que não se alimentava. E ele tinha duas horas pela frente sem fazer nada...

- Sim - disse assentindo. - Vamos.

Ela pegou a mão dele e o guiou, virando a esquina onde ficava o edifício, rua abaixo em direção a um beco vazio.

Nikolai não perdeu tempo. Mal se distanciaram de potenciais observadores, tomou a cabeça da mulher em suas mãos e despiu seu pescoço para mordê-la. Seu grito assustado foi esmagado imediatamente quando ele afundou as presas na veia saltante e começou a beber.

O sangue da mulher era medíocre – o habitual cobre pesado das células vermelhas humanas, mas enlaçadas com uma acidez doce e amarga das pedras de heroína e cocaína que ela tinha usado durante seu trabalho à noite. Nikolai tragou vários goles, sentindo o fluxo de energia do sangue através de seu corpo em uma baixa vibração. Não era raro para um vampiro da Raça excitar-se com o ato de se alimentar. A resposta era puramente física, um despertar de células e músculos.

O fato de seu pênis estar completamente ereto e exigindo alívio não o surpreendeu, mas sim o fato de sua cabeça estar nadando em pensamentos sobre uma mulher com cabelos escuros - uma mulher que ele não tinha intenção de ver de novo - que fazia Niko ficar em estado de alerta.

- Humm, não pare - sua companheira humana se queixou, puxando sua boca de volta à ferida no pescoço. Ela também estava sentindo os efeitos da alimentação, cativada como todos os humanos ficavam quando eram mordidos pela Raça. - Não pare, querido.

A visão de Nikolai estava alagada de fogo âmbar enquanto ele abraçava de novo a garganta da mulher. Sabia que ela não era Renata, mas enquanto suas mãos roçavam as pernas nuas por baixo da saia curta que ela usava, ele se imaginou acariciando as belas e longas coxas de Renata. Imaginou que era o sangue de Renata que o alimentava, que era o corpo de Renata que respondia tão apaixonado ao seu contato.

Eram os febris ofegos de Renata que o guiavam enquanto ele rasgava a calcinha barata com uma mão e usava a outra para libertar-se da própria calça.

Precisava estar dentro dela.

Precisava...

Caramba.

Uma ligeira brisa formou redemoinhos através do beco, trazendo consigo o fedor de vampiros Renegados. E havia muito sangue derramado também. Sangue humano. Muito, muito sangue, mesclado com o cheiro vil de Renegados sangrando.

- Jesus Cristo.

Que porra estava acontecendo?

Ele puxou a saia da mulher para baixo e lambeu-lhe a ferida do pescoço, selando sua mordida.

- Pedi que não parasse...

Mas Niko nem lhe deu tempo de terminar seu pensamento. Pondo a palma sobre sua testa, apagou tudo de sua mente.

- Saia daqui - disse.

Niko já estava correndo pelo beco quando ela saiu de seu atordoamento e começou a caminhar. O guerreiro seguiu seu olfato até um dilapidado edifício não longe de onde estava. Aquele fedor emanava do interior da construção, alguns apartamentos acima da rua.

Nikolai subiu a escada de incêndio até o segundo andar. Seus olhos estavam virtualmente marejados pelo entristecedor aroma de morte que saía daquele andar. Com a mão sobre a pistola embainhada em seu quadril, Niko se aproximou. Não havia sons do outro lado da maltratada porta cheia de pichações. Apenas morte – humana e vampírica. Niko girou o trinco e se preparou para o que encontraria.

Tinha sido um massacre.

Um aparente drogado permanecia em posição fetal entre refugos de seringas e outros lixos que cobriam o chão cheio de sangue. O corpo do drogado estava tão arruinado que era praticamente irreconhecível como humano, apenas o sexo era distinguível. Os outros dois corpos foram atacados ferozmente também, mas definitivamente eram da Raça, ambos Renegados, a julgar pelo tamanho e pelo cheiro deles.

Nikolai pôde imaginar o que ocorrera ali: uma batalha letal por causa da presa. A luta era recente, provavelmente tinha ocorrido apenas alguns minutos atrás. E os dois chupadores de sangue mortos não teriam sido capazes de se destruir antes que um ou outro caísse.

Havia pelo menos mais um Renegado envolvido naquela briga.

Se Niko tivesse sorte, o vencedor ainda poderia estar na região, lambendo suas feridas. Esperava que sim, porque adoraria dar ao bastardo doente uma prova de sua pistola 9 mm. Nada poderia desejar “tenha um bom dia” tão bem quanto a veia sanguínea corrompida de um Renegado encontrando uma fusão alérgica de uma dose venenosa de titânio.

Nikolai foi para a janela fechada e puxou os painéis presos. Se estava procurando ação, ele tinha encontrado - e aos montes. Abaixo, na rua, havia um Renegado enorme. Estava ensanguentado e maltratado.

Mas, maldito seja! Ele não estava sozinho.

Alexei Yakut estava com ele.

Incrivelmente, Lex e o Renegado caminhavam para um sedan que os esperava e entraram.

- Que porra está acontecendo? - murmurou Niko enquanto o carro arrancava e saía pela rua.

O guerreiro esteve a ponto de saltar pela janela aberta e seguir a pé quando um grito estridente soou atrás dele. Uma mulher tinha andado até a área da matança e agora gritava de terror, com um dedo acusador apontando na direção de Niko. Ela gritou suficientemente alto mais uma vez, despertando a atenção de cada drogado e traficante da vizinhança.

Nikolai olhou para a testemunha e para a sangrenta evidência de uma luta que parecia tudo, menos humana.

- Maldição - grunhiu, olhando por cima do ombro a tempo de ver o carro de Lex desaparecer ao virar a esquina.

- Está bem - disse à mulher enquanto deixava a janela e se aproximava dela. - Você não viu nada.

Apagou sua memória e a tirou do quarto. Então, pegou uma faca de titânio e cravou-a nos restos de um dos Renegados mortos.

Enquanto o corpo começava a se dissolver, Niko se preparou para limpar o resto da bagunça que Lex e seu insólito sócio haviam deixado para trás.


Capítulo 12

Renata estava no balcão da cozinha da propriedade de Sergei Yakut, com uma faca na mão.

- Que tipo de geleia quer esta noite: uva ou morango?

- Uva - respondeu Mira. – Não, espere. Quero de morango.

A menina estava sentada na beira da bancada de madeira ao lado de Renata, suas pernas penduradas e seus braços cruzados. Vestida com uma camiseta púrpura, calças azuis desgastadas e um velho par de tênis, Mira poderia se passar por qualquer outra menina esperando o jantar. Mas as meninas normais não eram obrigadas a comer a mesma coisa praticamente todos os dias. As pequenas meninas normais tinham famílias que as amavam e cuidavam delas. Viviam em casas bonitas, em ruas bonitas e arborizadas, com cozinhas brilhantes, despensas cheias e com mães que sabiam preparar refeições maravilhosas.

Pelo menos, isso é o que Renata imaginava quando pensava na representação ideal de uma família normal. Ela não imaginava isso baseada em algum tipo de experiência pessoal. Como menina de rua antes que Yakut a encontrasse e a levasse para casa, Mira tampouco sabia o que era normal. Mas era esse tipo saudável, o tipo de vida normal, que Renata desejava para a garota, embora aquilo parecesse um desejo insignificante ali, de pé na cozinha imunda de Sergei Yakut, ao lado de um fogão que provavelmente não funcionava, embora tivesse gás correndo nele.

Como Renata e Mira eram as únicas na cabana que se alimentavam de comida, Yakut tinha deixado em suas mãos que ela e a menina se alimentassem regularmente. Renata não prestava realmente atenção em sua alimentação e odiava não ser capaz de oferecer a Mira algo agradável de vez em quando.

- Um dia sairemos e teremos um jantar de verdade, com cinco pratos diferentes. Além de sobremesa - acrescentou, passando a geleia de morango em uma fatia de pão branco. - Talvez tenhamos duas sobremesas cada uma.

Mira sorriu sob o curto véu negro que lhe caía sobre a pequena ponta do nariz.

- Será que a sobremesa será de chocolate?

- De chocolate. Com certeza. Tome, pegue - disse, entregando o prato com um sanduíche de geleia.

Renata se apoiou no balcão enquanto Mira cortava uma pequena parte do sanduíche e comia como se fosse tão delicioso como qualquer menu de cinco pratos que pudesse imaginar.

- Não se esqueça de tomar seu suco de maçã.

- Está bem.

Renata cravou o canudo na caixa de suco e colocou-a ao lado de Mira. Depois, começou a limpar o balcão. Cada músculo de seu corpo feminino se retesou quando ela ouviu a voz de Lex na cozinha.

Ele havia saído ao anoitecer. Renata realmente não sentiu sua falta, mas não se perguntou o que esteve fazendo desde que saiu. A resposta para aquela pergunta veio na forma de uma gargalhada de mulher bêbada - várias mulheres bêbadas, pelo som do riso e os chiados atravessando a área principal da cabana.

Lex frequentemente levava mulheres humanas para casa para servir seu exército com sangue e diversão. Às vezes, ele as mantinha lá por vários dias. Geralmente compartilhava suas presas com os outros guardas, todos as usavam e apagavam o ataque de suas mentes antes de devolvê-las às suas vidas. Estar sob o mesmo teto que Lex quando ele estava bem-humorado a deixava enojada, mas o que mais lhe enfurecia era o fato de Mira ser exposta àqueles jogos macabros.

- O que está acontecendo ali fora, Rê? - perguntou.

- Termine seu sanduíche - disse Renata a Mira quando a garota parou de comer para escutar o alvoroço na outra sala. - Fique aqui. Volto já.

Renata saiu da cozinha e atravessou o corredor.

- Bebam, senhoritas! - gritou Lex, deixando cair uma caixa de garrafas de licor no sofá de couro.

Ele não consumiria álcool, nem os outros favores que oferecia na festa. Tirou alguns sacos plásticos brancos e enrolados, cada um bastante cheio com o que provavelmente era cocaína, e os jogou sobre a mesa. O sistema de som foi ligado, um baixo vibrando fortemente sob a letra de um hip-hop.

Lex agarrou a morena curvilínea com risada frívola e a colocou sob seu braço.

- Eu lhe disse que teríamos muita diversão! Agora venha aqui e me mostre sua gratidão.

Certamente Lex estava em um raro estado de ânimo, de bom humor. E não era um milagre. Retornou com um bom grupo: cinco mulheres vestidas com saltos altos, pequenos tops e microssaias. A princípio, Renata achou que eram prostitutas, mas observando-as mais de perto, estavam muito limpas e muito frescas sob toda a maquiagem pesada para fazerem parte da vida das ruas. Provavelmente eram apenas garotas ingênuas do clube, que não tinham se dado conta de que o persuasivo e atraente homem que as recolheu era na realidade alguém saído de um pesadelo.

- Venham e conheçam meus amigos - Lex disse ao grupo de mulheres enquanto se dirigia até os outros machos da Raça para mostrar a eles a captura da noite. Houve um momento de apreensão evidente enquanto os quatro guardas fortemente armados olhavam lascivamente seus aperitivos humanos. Lex empurrou três mulheres para os ansiosos vampiros.

- Não sejam tímidas, garotas. Esta é uma festa, afinal. Vão e digam olá.

Renata percebeu que ele estava retendo as duas garotas mais bonitas. Típico de Lex, obviamente tinha reservado o melhor para ele. Renata estava a ponto de girar e voltar à cozinha – e tentar ignorar a orgia sangrenta que estava a ponto de começar. Mas, antes que pudesse dar dois passos, Sergei Yakut apareceu trovejando de seus aposentos privados.

- Alexei! - a fúria vibrava do vampiro mais velho em ondas de calor. Ele olhou Lex com olhos brilhantes cor de âmbar. – Você esteve fora durante horas. Por onde andou?

- Estive na cidade, pai – Lex esboçou um sorriso generoso, como se dissesse que seu tempo fora de suas obrigações não fosse inteiramente para servir suas próprias necessidades. - Olhe o que eu trouxe.

Lex afastou uma das mulheres de seu abraço para que Yakut a inspecionasse. Yakut nem olhou para o prêmio que Lex lhe oferecia, só olhou para as duas mulheres que Lex guardava para si.

O Primeira Geração grunhiu.

- Você tira porcaria da sola de seu sapato e me diz que é ouro?

- Nunca - respondeu Lex. - Pai, eu nunca...

- Bem. Estas duas serão minhas - disse, indicando as mulheres que Lex havia reservado para si.

Furioso como deveria estar, humilhado com a espetada em seu orgulho, Lex não disse palavra alguma. Baixou o olhar e esperou em silêncio que Yakut recolhesse suas duas companheiras e se dirigisse com elas para seus aposentos privados.

- Não queremos ser incomodados - Yakut ordenou sombriamente. - Por razão alguma.

Lex assentiu em uma reverência contida.

- Sim, pai. Claro. Como quiser.

Nikolai ouviu a música e as vozes antes mesmo de estar a quinhentos metros da propriedade de Yakut. Aproximou-se, movendo-se através do bosque como um fantasma, passando pelo carro de Lex, estacionado na parte de trás, com o capô ainda quente por causa da viagem à cidade.

Niko não estava seguro do que encontraria. Não esperava uma maldita festa, mas isso era o que parecia estar acontecendo dentro da casa principal. O lugar estava iluminado como uma árvore de natal, as luzes saíam das janelas da sala, onde alguém estava entretido com várias mulheres. Um rap pesado vibrava por todo o caminho de terra por baixo das botas de Nikolai enquanto ele se aproximava pelo lado da construção e lançava uma olhada para dentro.

Lex estava lá, muito bem. Ele e o resto dos guarda-costas de Yakut, reunidos todos em uma sala rústica. Três mulheres jovens dançavam nos tapetes de pele vestidas somente com roupas íntimas, todas claramente embriagadas, tendo em vista a quantidade de bebidas alcoólicas e drogas sobre a mesa mais próxima. Os quatro guardas da Raça uivavam e as animavam, provavelmente a segundos de se jogarem sobre seus corpos ingênuos.

Lex, enquanto isso, estava sentado, curvado em um sofá de pele, os olhos escuros fixos nas mulheres apesar de seus pensamentos parecerem estar a quilômetros de distância. Não havia sinal do malicioso Lex que esteve na cidade. Tampouco havia sinais de Sergei Yakut, e o fato de a segurança inteira estar entretida com aquele pequeno espetáculo fez os instintos de Niko mudarem para o alerta vermelho.

- Que demônios está acontecendo? - Niko pronunciou baixo.

Mas ele sabia a resposta inclusive antes que começasse a mover-se pela parte posterior da propriedade, onde ficavam os aposentos de Yakut - lá, um sutil, porém persistente aroma, confirmou o pior temor de Niko.

Maldito seja! Havia um Renegado ali.

Nikolai também sentiu o cheiro de sangue fresco derramado, proveniente de um humano. O aroma era quase entristecedor quanto mais se aproximava do quarto de Yakut. Sangue e sexo, para ser exato, como se o Primeira Geração estivesse fazendo um banquete.

Um grito repentino irrompeu na noite.

De mulher. Um som de terror total, vindo de dentro do quarto de Yakut.

Depois, disparos amortecidos.

Pá, pá, pá!

Nikolai voou através da porta traseira do refúgio, sem se surpreender ao encontrá-la destrancada e parcialmente aberta. Irrompeu no quarto de Yakut com sua pistola semiautomática na mão, pronta para lançar a carga completa de balas de titânio reforçado.

A cena que o saudou era uma carnificina total.

Na cama estava Sergei Yakut, esparramado nu em cima de uma mulher presa sob seu corpo sem vida, com a garganta rasgada onde o vampiro esteve se alimentado apenas alguns segundos antes. Ela não se movia e não havia cor em sua pele ou no cabelo, já que a maior parte dela estava coberta pelo sangue de Yakut e também por seu próprio.

Faltava a metade do rosto do Primeira Geração. A cabeça de Sergei Yakut era pouco mais do que pedaços de osso, tecido e sangue restantes das três balas que tinham sido disparadas a queima-roupa na parte posterior de seu crânio. Ele estava morto e o Renegado que o matara estava também preso pelo desejo de sangue, a ponto de não se dar conta da presença de Nikolai. O filho da mãe tinha deixado a pistola que tinha utilizado para matar Yakut e agora estava ocupado com a outra mulher, também nua, que tinha sido apanhada no canto do quarto. Seus olhos estavam voltados para trás e ela não se movia. Caramba, ela também não estava respirando, embora o Renegado seguisse bebendo dela em seu pescoço destroçado pelas presas enormes.

Niko se moveu por trás do filho da mãe e colocou o canhão da arma contra sua cabeça desgrenhada. Apertou o gatilho e provocou explosões de titânio no cérebro do canalha. O Renegado caiu no chão, retorcendo-se com espasmos por causa do golpe. O titânio fez efeito rápido e o vampiro moribundo lançou um grito tão forte que sacudiu as velhas vigas de madeira da cabana como um trovão.

Renata saiu voando da cozinha com sua pistola pronta. Seus sentidos de batalha estavam esticados como cordas de piano, o crepitar de disparos distantes e o uivo desumano que o seguiram, procedentes do outro lado do refúgio. A música seguia soando na grande sala. As visitantes de Lex já não estavam vestidas e seguiam estridentes com o contínuo fluxo de drogas e álcool. As mulheres estavam sobre os guardas que, pelo olhar faminto, não notariam se uma bomba explodisse no quarto ao lado.

- Idiotas - Renata os acusou baixo. - Nenhum de vocês escutou isso?

Lex levantou os olhos, a preocupação obscureceu sua expressão, mas ela realmente não estava esperando uma reação por parte dele. Ela correu para o corredor do quarto de Yakut. O corredor estava escuro, o ar parado. Tudo muito silencioso. Muito parado.

A morte dependurava-se como um véu, quase asfixiante, enquanto ela se aproximava da porta aberta do alojamento do vampiro.

Sergei Yakut já não estava vivo; Renata sentiu em seus ossos. Pólvora, sangue e um entristecedor aroma adocicado de podridão a advertiram de que ela caminhava para algo terrível. Todavia, nada poderia tê-la preparado realmente para o que viu quando empurrou a porta com a arma levantada e sustentada com ambas as mãos, pronta para matar quem estivesse em seu caminho.

A visão de toda aquela morte, todo aquele sangue, toda aquela violência pegou Renata de surpresa. A morte estava por toda parte: na cama, no chão, nas paredes.

E também no corpo inerte de Sergei Yakut.

Nikolai estava no centro da carnificina, seu rosto e a camisa escura estavam salpicados de cor escarlate. Em sua mão havia uma grande pistola semiautomática, a ponta do cano ainda fumegante por seu recente disparo.

- Você? - a palavra deslizou dos lábios de Renata, a comoção e a incredulidade como uma bola de gelo em seu intestino. Olhou o corpo de Yakut – seus restos - espalhado sobre a cama, em cima da mulher sem vida.

- Meu Deus - ela sussurrou, surpreendida ao vê-lo na propriedade de novo, mas ainda mais surpresa pelo resto do que estava vendo. – Você... você o matou.

- Não - o guerreiro disse movendo a cabeça sombriamente. – Eu não o matei, Renata. Havia um Renegado aqui com Yakut – disse indicando a grande massa de fumegantes cinzas no chão, a fonte do aroma ofensivo. - Eu matei o Renegado, mas era muito tarde para salvar Yakut. Sinto muito.

- Abaixe a arma – ela disse, sem se interessar pelas desculpas. Ela não precisava delas. Renata sentiu pena pelo final violento de Yakut, um sentimento de incredulidade a surpreendeu por ele estar realmente morto. Mas não havia dor. Nada que absolvesse Nikolai de sua aparente culpa. Apontou firmemente para seu alvo e entrou um pouco mais no quarto. – Abaixe a arma. Agora.

Mas Niko manteve o controle firme de sua pistola 9 mm.

- Não posso fazer isso Renata. Não o farei, não enquanto Lex estiver respirando.

Ela franziu a testa, confusa.

- O que tem Lex?

- Este assassinato foi obra dele, não minha. Ele trouxe o Renegado aqui. Trouxe as mulheres para distrair os guardas e Yakut para que o Renegado pudesse se aproximar o suficiente para matá-lo.

Renata escutou, mas manteve o alvo sob sua mira. Lex era uma víbora, certo, mas um assassino? Realmente planejaria a morte de seu próprio pai?

Só então Lex e os outros guardas se aproximaram pelo corredor.

- O que aconteceu? Algo errado...

Lex se calou quando chegou à porta aberta do quarto do pai. Em sua visão periférica, Renata o viu olhar primeiro o corpo de Yakut na cama e, depois, Nikolai. Cambaleou para trás – um passo, não muito mais do que uma pausa. Então explodiu com muita raiva.

- Filho da mãe! Maldito assassino filho da mãe.

Lançou-se, mas foi uma tentativa em vão, que abandonou completamente quando a pistola de Nikolai girou em sua direção. O guerreiro não fraquejou, nem o olhar nem um músculo sequer de seu corpo. Estava completamente calmo enquanto olhava Lex pelo canhão da arma, inclusive quando a arma de Renata e a dos outros guardas apontavam para ele.

- Vi você na cidade esta noite, Lex. Eu estava lá. Na casa do drogado, a isca que você usou para atrair os vampiros Renegados. O filho da mãe que você trouxe esta noite pra cá. Eu vi tudo.

Lex zombou.

- Foda-se você e suas mentiras! Você não viu porra nenhuma, maldito!

- O que você prometeu ao Renegado em troca da cabeça de seu pai? Dinheiro não importa aos viciados em sangue. A vida de quem você ofereceu como prêmio? A de Renata? Talvez a da garota, Mira?

O peito de Renata se apertou diante daquele pensamento. Atreveu-se a dar uma rápida olhada em Lex e o encontrou friamente zombador diante do guerreiro, dando uma leve sacudida de cabeça.

- Você dirá qualquer coisa nesse momento para salvar o seu pescoço. Nada funcionará. Não quando você mesmo ameaçou a vida de meu pai não faz nem vinte horas. - Lex girou para ver Renata. - Você também o escutou, não foi?

Ela assentiu contrariada, recordando como Nikolai deu a Sergei Yakut uma advertência pública de que alguém precisava detê-lo.

Agora Nikolai tinha retornado e Yakut estava morto.

Mãe do Céu, ela pensou, olhando uma vez mais o corpo sem vida do vampiro que a manteve prisioneira pelos últimos dois anos. Ele estava morto.

- Meu pai não estava correndo perigo algum até que a Ordem entrou no jogo - Lex disse. - Uma tentativa fracassada, e agora isso, um banho de sangue. Você esperou para fazer seu movimento. Você e o Renegado que trouxe com você esta noite, esperando uma oportunidade para atacar. Só posso deduzir que veio matar meu pai desde o começo.

- Não - disse Nikolai, com um brilho de luz âmbar em seus olhos azuis de inverno. - Quem estava esperando para matá-lo era você, Lex.

Em uma fração de segundo, ela viu os tendões de Nikolai flexionarem-se enquanto seu dedo começava a pressionar o gatilho da arma, e disparou nele uma forte explosão mental. Por menos consideração que tivesse por Alexei, ela não podia deixá-lo morrer naquela noite. Nikolai rugiu, a coluna vertebral arqueada, o rosto retorcendo de dor.

Mais efetiva que as balas, a explosão o derrubou de joelhos em um instante. Os quatro guardas irromperam no quarto e tomaram-lhe a pistola e o resto das armas. Os canhões de quatro revólveres foram colocados na cabeça do guerreiro, à espera de ordens para matar. Um dos guardas armou o gatilho, ávido pelo derramamento de sangue, embora o quarto já estivesse repleto.

- Abaixem as armas – disse Renata. Olhou Lex, cujo rosto estava repleto de ira, seus olhos azuis e brilhantes, suas presas afiadas visíveis entre os lábios entreabertos. – Diga-lhe para que se retirem, Lex. Matá-lo apenas nos fará assassinos a sangue frio.

Incrivelmente, Nikolai começou a rir. Levantou a cabeça, com um esforço evidente, enquanto a explosão ainda o detia.

- Ele tem que me matar, Renata, porque não pode arriscar-se a ter uma testemunha. Não é verdade, Lex? Ninguém pode caminhar por aí sabendo seu segredo sujo.

Lex tirou sua própria pistola e se dirigiu diretamente a Nikolai. Colocou o canhão da pistola contra a testa do guerreiro. Grunhiu, seu braço tremendo pela ferocidade de sua raiva. Renata estava imóvel, horrorizada diante do medo de que ele, de fato, apertasse o gatilho. Ela estava perdida, uma parte dela queria acreditar no que Nikolai dissera – que era inocente – e outra parte estava temerosa em acreditar. O que havia dito de Lex simplesmente não podia ser verdade.

- Lex - ela disse, o único som no quarto. – Lex... não faça isso.

Ela estava a menos de uma pausa de golpeá-lo como tinha feito a Nikolai quando a arma lentamente foi baixada.

Lex rosnou, deixando-a um pouco mais tranquila.

- Eu gostaria de uma morte mais lenta para esse bastardo do que a que sou capaz de lhe dar. Levem-no para a sala principal e prendam-no - disse aos guardas. – Depois, alguém se encarregue de cuidar do corpo de meu pai. Tirem as garotas que estão no outro cômodo da propriedade. Quero todo este caos sangrento limpo imediatamente.

Lex voltou-se com um olhar sombrio para Renata quando os guardas começaram a arrastar Nikolai para fora do quarto.

- Se ele tentar algo, descarregue toda a sua força nesse filho da mãe.


Capítulo 13

- Pardonnez-moi, monsieur Fabien. Há uma chamada telefônica para o senhor. De um monsieur chamado Alexei Yakut.

Edgar Fabien fez um gesto desdenhoso para o macho da Raça que o servia como secretário pessoal e continuou admirando no espelho do armário o corte de suas calças feitas sob medida. Ele estava experimentando um traje novo e, naquele momento, nada que Alexei Yakut tivesse a lhe dizer era suficientemente importante para justificar uma interrupção.

- Diga-lhe que estou em uma reunião e não posso ser incomodado.

- Desculpe-me, senhor, mas já o informei que o senhor está indisponível. Ele diz que é um assunto urgente que requer sua imediata atenção.

Com uma reflexão, Fabien olhou para trás furiosamente por baixo das pálidas sobrancelhas arrumadas. Não se esforçou para ocultar os sinais externos de sua irritação crescente, que se mostraram pelo brilho âmbar de seus olhos e pela repentina agitação das cores de seus dermoglifos, que formavam redemoinhos e um arco sobre seu peito nu e seus ombros largos.

- Basta - disse ao alfaiate enviado da loja Givenchy do centro da cidade. O humano recuou imediatamente, recolhendo seus alfinetes e sua fita métrica e obedientemente se afastando às ordens de seu Mestre. Ele pertencia a Fabien – um dos muitos Subordinados que o vampiro da Raça de segunda geração empregava pela cidade. - Fora daqui, vocês dois.

Fabien desceu do soalho do armário e se aproximou do telefone que estava na mesa. Esperou até que ambos os serventes tivessem abandonado o quarto e a porta fosse fechada atrás deles.

Com um grunhido, tomou o aparelho e apertou o botão que piscava para conectar-se à chamada de Alexei Yakut.

- Sim - sussurrou ele com frieza. - Qual é o assunto urgente que simplesmente não pode esperar?

- Meu pai está morto.

Fabien balançou sobre seus calcanhares, realmente surpreendido pela notícia. Exalou um suspiro com a intenção de soar aborrecido.

- Que conveniente para você, Alexei. Terei que oferecer felicitações junto com minhas condolências?

O herdeiro aparente de Sergei Yakut ignorou a alfinetada.

- Havia um intruso na mansão esta noite. De algum modo, ele conseguiu entrar sigilosamente no lugar. Matou meu pai em sua cama, a sangue frio. Ouvi a perturbação e tentei intervir, mas... bem... Era muito tarde para salvá-lo. Estou desolado, certamente.

Fabien grunhiu.

- Obviamente.

- Mas supus que você devesse ser notificado a respeito do crime. E também suspeitei que você e a Agência viriam aqui imediatamente para deter o assassino de meu pai.

Cada célula no corpo de Fabien se deteve.

- O que está dizendo? Que tem alguém sob custódia? Quem?

Um riso baixo se escutou no outro lado da linha.

- Vejo que finalmente tenho sua atenção, Fabien. O que acharia se eu dissesse que tenho um membro da Ordem sob minha custódia, esperando por você aqui no albergue? Estou seguro de que há algumas pessoas que pensam que um guerreiro a menos para lutar seria excelente.

- Você não está realmente tentando me convencer de que esse guerreiro é responsável pela morte de Sergei Yakut, não é?

- Estou apenas dizendo que meu pai está morto e estou no comando de seus domínios agora. Digo que tenho um membro da Ordem em minhas mãos, e estou disposto a entregá-lo a você. Um presente, se quiser.

Edgar Fabien guardou silêncio durante um longo momento, considerando o imenso prêmio que Alexei Yakut lhe oferecia. A Ordem e seus membros ativos tinham poucos aliados dentro da Agência. Menos ainda dentro do círculo privado ao qual Fabien pertencia.

- E o que espera em troca desse... presente?

- Já disse quando nos conhecemos. Quero entrar. Quero uma parte em qualquer ação que você esteja tentando fazer. Uma parte grande, entende? – Lex riu, bastante cheio de si. - Você precisa de mim ao seu lado, Fabien. Penso que isso é óbvio para você agora.

A última coisa que Edgar Fabien ou qualquer de seus sócios precisava ao seu lado era um ambicioso maldito como Alexei Yakut. Ele era um perigo em potencial, alguém que teria de ser tratado com cuidado. Se Fabien tivesse que escolher, optaria por uma exterminação rápida, mas teria que ser alguém mais em última instância para fazer aquela escolha.

Quanto ao membro cativo da Ordem, isso era, de fato, intrigante. Era um presente digno a se considerar, e as muitas atraentes possibilidades que isso representava faziam o coração de quase quatrocentos anos de idade de Fabien pulsar um pouco mais rápido.

- Terei que fazer alguns... acertos - disse ele. - Pode levar uma hora, mais ou menos, para alinhar os recursos e ir até a sua casa para recuperar o prisioneiro.

- Uma hora - Alexei Yakut aceitou ansiosamente. - Não me faça esperar mais do que isso.

Fabien engoliu sua resposta ácida e terminou a chamada com um consentimento:

- Até logo então.

Sentou-se na mesa e olhou para a linha do horizonte noturno que brilhava intermitentemente à distância, bem além de seu imóvel no Refúgio. Então, dirigiu-se para o cofre e virou a fechadura da combinação, pegando a manivela para abri-lo. Dentro havia um telefone celular reservado apenas para chamadas de emergência. Ele teclou um número programado e esperou que o sinal cifrado conectasse. Quando a voz asfixiante do outro lado respondeu, Fabien disse:

- Temos um problema.

As correntes pesadas rodeavam o torso nu de Nikolai, atando-o a uma cadeira de madeira esculpida. Ele sentia restrições similares em suas mãos, que estavam presas atrás de si, e em seus pés, amarrados pelos tornozelos e presos com força contra as pernas da cadeira.

Nikolai tinha levado uma surra, e não apenas da rajada mental debilitante, cortesia de Renata. Graças àquele golpe demolidor, ficou inconsciente durante algum tempo, lutando para levantar suas pálpebras, inclusive agora. É obvio, parte da dificuldade devia-se ao fato de seu rosto ter sido golpeado e arruinado, os olhos estavam inchados, os lábios arrebentados e amargos com o sabor do próprio sangue. Ele estava muito fraco para uma verdadeira luta quando Lex e seus guardas tinham trabalhado nele como em um saco de boxe enquanto tiravam-lhe até a cueca e o arrastavam para o grande quarto da residência para esperar por seu destino.

Nikolai não sabia há quanto tempo estava sentado ali. Tempo suficiente para que suas mãos ficassem inchadas pela falta de circulação. Tempo suficiente para ter notado quando Renata passou pelo quarto, protetoramente conduzindo Mira para longe da repugnante cena. Tinha observado uma mecha de seu cabelo empapado em suor, vendo a dor e a tensão em seu rosto quando ela lançou um olhar sinistro em sua direção.

Sua reverberação provavelmente a golpeava muito duramente agora, ele supunha. Niko disse para si que a pontada que sentiu era apenas outro músculo gritando pelo abuso; ele não podia ser tão estúpido para sentir algum tipo de simpatia pelo sofrimento da fêmea. Ele não podia ser tão estúpido para se preocupar com o que ela pensava a respeito dele - isso se ela, de fato, tivesse acreditado nas acusações feitas por Lex – mas, maldição, ele realmente se importava. Sua frustração por não poder falar com Renata apenas aumentava sua dor física e sua fúria.

Do outro lado da sala, os quatro guardas examinavam as armas e as rodas de titânio com as pontas ocas feitas a mão, criações pessoais de Nikolai. Eles tinham todos os pertences do guerreiro dispostos sobre uma mesa, fora de seu alcance. O celular de Niko - seu vínculo com a Ordem - estava despedaçado no chão. Lex tinha tido o grande prazer de esmagá-lo sob sua bota antes de partir, deixando Nikolai sob a supervisão de seus guardas.

Um dos machos da Raça disse algo que fez os outros três rirem antes que girasse com a semiautomática de Niko e apontasse em sua direção. Nikolai não estremeceu. De fato, ele mal respirava, olhando pela fenda torcida de seu olho esquerdo, todos seus músculos desabados como se ainda estivesse inconsciente e inconsciente sobre o que acontecia ao seu redor.

- Que tal se o acordássemos? - brincou o guarda com a arma na mão. Ele a balançou para Niko, tentadoramente dentro do alcance de sua mão, se os braços de Niko não estivessem fortemente amarrados atrás dele. A boca da 9mm baixou lentamente, além de seu peito, logo acima de seu abdômen definido. - Eu sugiro castrarmos esse pedaço de porcaria assassino. Tiramos suas bolas e deixamos que a Agência o leve em pedaços.

- Kiril, deixe de ser idiota - um dos outros advertiu. - Lex disse que não podíamos tocá-lo.

- Lex é uma garotinha. - O polido aço negro chiou com o frio entalhe quando Kiril martelou. - Em dois segundos esse guerreiro vai ser somente uma garotinha também.

Nikolai se manteve muito quieto quando a arma foi pressionada em sua virilha. Parte de sua paciência nasceu do verdadeiro temor, já que ele era bastante aficionado por suas partes viris e não tinha desejo algum de perdê-las. Mas era inclusive mais primitivo que ele entendesse que as oportunidades de reverter a situação a seu favor eram poucas e breves. Ele tinha superado a maioria dos efeitos internos do talento de Renata, mas não podia estar seguro de sua força física a menos que tentasse.

E se tentasse agora e falhasse... bem, ele não queria contemplar as possibilidades de afastar-se sem sua virilidade intacta se tentasse escapar de suas ataduras e conseguisse apenas um disparo impulsivo de Kiril.

Uma dura palmada golpeou a lateral da sua cabeça.

- Está aí, guerreiro? Tenho algo para você. Hora de despertar.

Com os olhos fechados para ocultar a mudança da cor azul para o âmbar, Nikolai deixou que sua cabeça caísse mole com o golpe. Mas, dentro dele, a fúria começava a acender. Ele tinha que manter a calma. Não podia deixar que Kiril ou os outros vissem a mudança de seus dermoglifos e arriscar-se a mostrar que estava completamente acordado e consciente. E totalmente de saco cheio.

- Acorde! - grunhiu Kiril.

Começou a levantar o queixo de Niko, mas então um ruído fora do recinto chamou sua atenção. Cascalho salpicando e rangendo debaixo de pneus de veículos que se aproximavam. Uma frota deles, pelo som.

- A Agência está aqui - um dos outros guardas anunciou.

Kiril afastou-se de Nikolai, mas tomou seu tempo para desarmar a pistola. Do lado de fora, os veículos reduziam a velocidade, até pararem. Portas se abriram. Botas golpeando o caminho de cascalho foram ouvidas quando os Agentes do Refúgio se aproximaram. Nikolai contou mais de meia dúzia de pares de pés movendo-se para a casa.

Inferno.

Se ele não saísse daquela situação rapidamente, despertaria nas mãos da Agência. E, para um membro da Ordem, um grupo que a Agência há muito tempo desejava extinguir, a detenção faria que Lex e o tratamento de seus guardas parecesse uma temporada em um spa. Se caísse nas mãos da Agência agora, especialmente quando o acusavam de assassinar um Primeira Geração, Niko sabia, sem sombra de dúvidas, que também acabaria morto.

Lex saudou os recém-chegados como se fossem uma corte.

- Por aqui - indicou de algum lugar fora do recinto. – Prendi o filho da mãe. Ele está esperando lá dentro.

- Ele prendeu o filho da mãe - murmurou Kiril acidamente. - Duvido que Lex pudesse manter seu próprio traseiro mesmo que usasse ambas as mãos.

Os outros guardas riram cautelosamente.

- Venha - disse Kiril. - Vamos pôr o guerreiro de pé para que a Agência possa levá-lo daqui.

A esperança surgiu no peito de Niko. Se o liberassem das algemas, poderia ter uma pequena possibilidade de escapar. Muito pequena, tendo em vista o som próximo das botas e a capacidade armamentista que se dirigia em sua direção do exterior da casa. Mas pequena era muitíssimo melhor do que nenhuma.

Ele manteve o corpo sem vida na cadeira, inclusive enquanto Kiril se abaixava diante dele e tirava as correntes que estavam ao redor de seus tornozelos. A impaciência o corroía. Cada impulso de Nikolai dizia que levantasse seu joelho e golpeasse o guarda por baixo da mandíbula.

Ele teve que se reprimir com os dentes mordendo a língua para manter-se imóvel, com a respiração mais superficial que pudesse, esperando a melhor oportunidade enquanto o guarda dava a volta por trás e recolhia os cadeados que fechavam as correntes em seu torso e pulsos. Um giro da chave. Um estalo rangente do aço quando a fechadura se abriu.

Nikolai flexionou seus dedos, tomou uma respiração profunda, sem restrições.

Abriu os olhos. Sorriu abertamente aos companheiros de Kiril um instante antes de levantar os braços e agarrar a cabeça grande de Kiril com as mãos.

Com um movimento fluido, deu um giro violento e saltou para cima, fora da cadeira. As correntes caíram e Nikolai estava de pé com o forte estalo do rompimento do pescoço de Kiril.

- Santo Cristo! - gritou um dos guardas.

Alguém lançou um disparo frenético. Os outros dois procuraram por suas armas.

Niko puxou bruscamente a pistola de Kiril fora de sua cartucheira e devolveu o fogo, derrubando um guarda com uma bala na cabeça.

A situação gerou gritos de alarme no corredor. As botas começaram a golpear. Um pequeno exército de Agentes chegaria para tomar o controle da situação.

Maldito seja.

Não tinha muito tempo para fugir antes que ele estivesse contemplando os canos de não menos do que meia dúzia de pistolas em poucos segundos.

Nikolai arrastou o corpo morto de Kiril diante de si e o manteve ali como um escudo. O cadáver tomou um par de golpes rápidos quando Niko começou a se mover para trás, para a janela que ficava do outro lado do grande quarto.

Na porta agora aberta havia um grupo de Agentes vestidos de preto, todos munidos com algumas armas de fogo semiautomáticas, que o observavam bastante sérios.

- Parado, maldito!

Niko lançou um olhar por cima do ombro para a janela que estava alguns metros atrás dele. Essa era sua melhor - sua única - opção. Render-se agora e sair pacificamente com seus executores da Agência era uma alternativa que ele se negava a considerar.

Com um rugido, Niko agarrou o peso morto de Kiril e balançou o corpo para a janela de cristal. Manteve-o perto quando a janela estilhaçou, usando o cadáver do vampiro como escudo para conseguir sair do alcance do vidro quebrado e assim atravessar o improvisado buraco.

O guerreiro da Raça escutou uma ordem atrás de si – uma ordem de um dos Agentes para que abrissem fogo.

Ele sentia o ar fresco da noite sobre o rosto, sobre o cabelo e sobre o corpo nu umedecido pelo suor. Mas, antes que ele pudesse registrar o menor sabor da liberdade...

Pá! Pá! Pá!

Suas costas nuas arderam como se estivessem em chamas. Seus ossos e músculos sentiram-se flexíveis, e dentro de si dissolveu-se uma onda de bílis e ácido que lhe chamuscou a parte posterior da garganta. A visão de Nikolai mergulhou em uma escuridão repentina que o devorou. Ele sentiu a terra surgir rapidamente debaixo de si quando ele e o cadáver de Kiril caíram abaixo da janela.

Então, já não sentiu mais nada.

 

 

CONTINUA

Capítulo 10

Nikolai despertou na escuridão total, com a cabeça descansando sobre o caixão de um homem aparentemente rico de Montreal que estava morto há 67 anos. O chão de mármore do mausoléu era um pouco duro para as horas de descanso, mas tinha servido muito bem para Niko. A noite estava perigosamente perto da alvorada quando ele deixara o território de Yakut e, além disso, ele certamente já havia dormido em lugares piores do que o cemitério que tinha encontrado no extremo norte da cidade.

Com um gemido, sentou-se e abriu o telefone celular para verificar que horas eram. Merda, ainda era uma hora da tarde; tinha aproximadamente sete ou oito horas para esperar ali antes do anoitecer, quando seria seguro sair. Sete ou oito horas a mais e ele já estava angustiado pelo tempo de inatividade que teria de atravessar.

Sem dúvida alguma, Boston estaria se perguntando sobre ele agora. Niko teclou a discagem rápida que chamava o escritório central da Ordem. No meio do segundo toque, Gideon respondeu.

- Niko, pelo amor de Deus! Já estava na hora de você passar um relatório - o sotaque do inglês vago do guerreiro soou um pouco áspero. Nada surpreendente, considerando que Niko estava ligando no meio do dia. – Diga, você está bem?

- Sim, estou bem. Meu objetivo aqui em Montreal ficou ainda mais difícil de ser alcançado desde domingo, mas, fora isso, está tudo bem.

- Não conseguiu encontrar Sergei Yakut, então?

Niko riu.

- Ah, encontrei o bastardo facilmente. O Primeira Geração está vivinho e abanando o rabo. Mora ao norte da cidade em uma espécie de mansão à la Gengis Khan.

O guerreiro deu a Gideon um rápido resumo de tudo o que havia acontecido desde sua chegada a Montreal - do chute no traseiro que recebera de Renata como boas-vindas até as poucas e estranhas horas que passara no refúgio de Yakut, as quais culminaram com a localização de humanos mortos e largados na parte de trás da casa e sua subsequente expulsão de lá.

Ele descreveu a recente tentativa fracassada de acabar com a vida do Primeira Geração e o incrível papel que Mira desempenhou para frustrar tal ataque. Niko deixou de fora a parte sobre o que ele tinha visto nos olhos de Mira. Não viu razão alguma para compartilhar os detalhes daquela visão que, apesar da insistência de Renata em afirmar que Mira nunca se enganava, tinha praticamente zero chance de se realizar - não, agora havia exatamente zero chance de a visão acontecer.

Deveria ter sido um alívio para ele saber disso. A última coisa de que precisava era se meter com uma mulher, especialmente uma peça desse jogo macabro como Renata. A companheira unida pelo laço de sangue a Yakut. A ideia ainda o corroía, muito mais do que deveria, aliás. E ele não se sentia particularmente bem com o fato de que a mais leve lembrança daquele beijo era suficiente para fazê-lo ficar duro como o granito da tumba que o rodeava.

Ele a desejava, e por uma fração de segundo, quando deixou o refúgio de Yakut, pensou que ela poderia segui-lo. Não tinha motivo algum para pensar isso, mas tinha sido um golpe no estômago, uma sensação de que talvez Renata pudesse correr atrás dele e pedir-lhe que a tirasse dali.

E se o tivesse feito? Cristo, ele tinha que ser muito idiota só para considerar essa hipótese.

- Então - disse a Gideon, retornando mentalmente para a realidade, - não podemos contar com nenhum tipo de cooperação de Sergei Yakut. Ele basicamente me disse isso antes de me enxotar para fora e de eu o chamar de bastardo doente que precisa de focinheira e coleira.

- Jesus, Niko! - suspirou Gideon, provavelmente passando a mão pelo cabelo loiro por conta da frustração. - Disse mesmo isso a um Primeira Geração? Teve sorte que ele não tenha arrancado a sua língua antes de expulsá-lo.

Provavelmente era verdade, Nikolai reconheceu para si. E talvez tivesse perdido mais que a língua se Yakut soubesse o tipo de desejo que ele tinha por Renata.

- Sabe que sou alérgico a puxa-saquismo, mesmo se o saco em questão for o de um Primeira Geração. Se isso era uma missão de relações públicas, vocês escolheram o cara errado.

- Não me diga.

Gideon riu ao soltar outra maldição em voz baixa. - Você vai voltar para Boston, então?

- Não vejo razão para ficar aqui. A menos que você ache que Lucan não olharia torto se eu voltar e colocar fogo na casa de horrores de Yakut. Tirando-o de cena, pelo menos por um tempo.

Estava brincando... em grande parte do que falava. Mas o silêncio da resposta de Gideon revelava que seu companheiro guerreiro sabia o que estava dando voltas na cabeça de Niko.

- Sabe que não pode fazer nada disso, cara. Nada fora dos limites.

- E isso é uma merda - murmurou Nikolai.

- Sim, é. Mas essas decisões pertencem à Agência, não a nós.

- Estou lhe dizendo que Yakut não é diferente dos Renegados que tiramos das ruas, Gid. Diabos! Pelo que vi, ele é ainda pior. Ao menos os Renegados podem colocar a culpa de sua selvageria na sede por sangue. Yakut nem sequer pode agarrar-se ao vício de sangue como desculpa para caçar esses humanos por aí afora. Ele é um predador, um assassino.

- Ele está protegido - disse Gideon firmemente. - Mesmo que não fosse um Primeira Geração, continuaria sendo um civil. E um membro da Raça. Não podemos tocar nele, Niko. Não sem atirar um monte de bosta no ventilador. Portanto, o que quer que esteja pensando em fazer, não o faça.

Nikolai exalou bruscamente.

- Esqueça o que eu disse. Para que horas devo planejar minha viagem de volta a Boston?

- Terei que fazer algumas chamadas, mas o jato particular ainda está esperando por você no aeroporto. Posso mandar uma mensagem de texto com a hora assim que o voo estiver confirmado.

- Tudo bem. Vou descansar e esperar para sair.

- E, afinal, onde você está?

Nikolai olhou para o caixão atrás dele, depois para o outro em frente e para a urna de bronze que estava acumulando pó em um pedestal contra a parede de trás do escuro mausoléu.

- Encontrei um lugarzinho tranquilo para descansar no extremo norte da cidade. Dormindo como um morto, de fato. Ou com eles, em todo caso.

- Falando em mortos, temos um relatório de outro assassinato de Primeira Geração no exterior - disse Gideon.

- Cristo. Escolheram abatê-los como moscas, não é verdade?

- Ou, ao que parece, estão tentando. Reichen está acompanhando o relatório de Berlim. Recebemos um e-mail dele informando que hoje, mais tarde, haverá uma atualização.

- É bom saber que temos olhos e ouvidos nos quais podemos confiar por ali - disse Niko. - Caramba, Gideon. Nunca teria imaginado que pudesse dar algum valor a um Refúgio civil, mas Andreas Reichen está demonstrando ser um aliado muito bom. Talvez Lucan devesse recrutá-lo oficialmente para a Ordem.

Gideon riu.

- Não ache que ele não tenha considerado isso. Infelizmente, somos somente um passatempo de meio período para a jornada de Reichen. Ele pode ter a alma de um guerreiro, mas seu coração pertence a seu Refúgio em Berlim.

E a certa fêmea humana, pelo que Nikolai entendia. Segundo Tegan e Rio, dois guerreiros que tinham passado muito tempo com Andreas Reichen no Escritório Central de Berlim, o líder do Refúgio alemão estava romanticamente envolvido com Helene, a proprietária de um bordel.

Era incomum que um guerreiro da Raça pudesse ter mais de um encontro ocasional, ou uma breve relação com uma mulher mortal, mas Niko não estava a ponto de questioná-lo porque certamente Helene também estava sendo uma fonte útil de informação para a Ordem no exterior.

- Então, escute-me - disse Gideon. - Espere calmamente onde está e eu o avisarei assim que tiver a informação de sua partida para esta noite. Está bem?

- Sim. Você sabe como me encontrar.

O murmúrio de uma voz feminina aveludada, suavizada pelo sono, atravessou o telefone.

- Ah, inferno, Gid. Não me diga que está na cama com Savannah!

- Eu estava - respondeu ele, acentuando com força o tempo passado. - Agora que ela está acordada, diz que vai tomar uma ducha quente e uma xícara de café forte.

Nikolai gemeu.

- Caramba. Diga-lhe que sinto pela... interrupção.

- Ouça, querida - Gideon chamou sua amada companheira, unidos pelo laço de sangue por cerca de trinta anos. - Niko diz que sente por ser um bastardo grosseiro e por nos despertar nessa hora tão inoportuna.

- Obrigado - murmurou Niko.

- De nada.

- Ligarei de novo do avião.

- Tudo bem - disse Gideon. - Ouviu, amor? Niko quer que diga que está para desligar. Ele diz que você deve retornar para a cama e me permitir violá-la lentamente desde sua inteligente e formosa cabeça até seus deliciosos e pequenos dedinhos dos pés – disse Gideon a Savannah, que agora estava sentada ao seu lado.

Nikolai riu.

- Soa divertido. Ponham no viva-voz para que eu possa pelo menos escutar.

Gideon bufou.

- Nem pense. Ela é toda minha.

- Bastardo egoísta - Niko arrastou as palavras sarcasticamente. – Vejo você mais tarde.

- Bem, até mais tarde. E, Niko, sobre a situação de Yakut: sério, nem pense em bancar o cowboy, ok? Temos questões mais importantes do que lutar e tentar encurralar um Primeira Geração solto. Não é nossa área, sobretudo agora.

Quando Niko não concordou imediatamente, Gideon limpou a garganta.

- Seu silêncio não me dá exatamente uma tranquilidade, meu caro. Preciso saber que você está escutando isso.

- Sim - disse Nikolai. - Estou escutando. Vejo você em Boston mais tarde.

Niko desligou o celular e o colocou de volta no bolso.

Embora muito o irritasse pensar em fazer vista grossa para Yakut e para suas doentias atividades, ele sabia que Gideon tinha razão. E mais: ele sabia que o líder da Ordem, Lucan, assim como o resto dos guerreiros no complexo de Boston, diria a mesma coisa.

Esquecer Sergei Yakut, pelo menos por enquanto: isso era o mais sábio, a coisa mais inteligente que podia fazer.

E, enquanto isso, seria prudente esquecer Renata também. Ela fez sua cama, afinal de contas. O fato de, evidentemente, tê-la feito com um sádico como Sergei Yakut não era problema de Nikolai. Absolutamente. Renata, a linda dama de gelo, não era assunto seu e ele estaria melhor longe dela.

Bem longe do ninho de víboras que tinha descoberto nos domínios de Yakut.

Restavam apenas algumas horas antes do anoitecer e, então, ele poderia deixar tudo aquilo para trás.

Ela nunca havia se acostumado a dormir com a luz do dia, não nos dois anos em que tinha vivido a serviço de um vampiro.

Renata estava em sua cama, inquieta, incapaz de relaxar e fechar os olhos até mesmo por alguns minutos. Virou-se, colocando-se de costas e deixando escapar um suspiro, mantendo seu olhar fixo nas vigas de madeira do teto.

Pensava no guerreiro... Nikolai.

Ele tinha partido há várias horas, mas ela ainda sentia o peso do desprezo dele pressionado sobre ela. Odiava que tivesse visto Yakut alimentando-se dela. Tinha sido difícil fingir que não estava envergonhada quando sustentou seu olhar do outro lado do quarto. Ela tinha tentado não parecer afetada, mas, por dentro, estava tremendo, com sua pulsação martelando quase fora de controle.

Ela não queria que Nikolai a visse assim. Ainda mais pelo fato de ele ter enumerado os brutais crimes de Yakut, claramente pensando que ela era parte deles também. Ela não conseguia esquecer o olhar acusador que o macho da Raça tinha lhe dirigido.

Isso era ridículo.

Nikolai era da Raça assim como Yakut. Ele era um vampiro igual a Yakut e, como tal, tinha de se alimentar de humanos para sobreviver. Mesmo com seu limitado conhecimento sobre a Raça, Renata sabia que beber de seres humanos era a única forma de a Raça obter seu alimento. Os amigáveis vampiros não usavam os bancos de sangue, nos quais poderiam recolher um litro de O- pelo caminho. Nem os animais eram um substituto para o sangue humano.

Sergei Yakut e todo o resto da Raça compartilhavam o mesmo impulso: a necessidade dos glóbulos vermelhos dos Homo sapiens, tomados diretamente de uma veia aberta.

Eles eram selvagens e letais. Mesmo que na maioria das vezes parecessem humanos, em seu coração – ou em sua alma, se é que eles ainda tinham uma – faltava toda a humanidade. Por que ela deveria pensar que Nikolai era diferente?

Mas ele tinha parecido diferente, mesmo que só um pouco, quando tinham discutido no canil - quando a tinha beijado. Por Deus! Ele na realidade tinha parecido muito diferente dos outros da Raça que ela conhecia. Não era como Yakut, tampouco como Lex.

O que provavelmente só demonstrava que ela era uma tola.

E que era também uma fraca. Que outra coisa poderia explicar o dilacerador desejo de que Nikolai voltasse? Ele poderia tê-la tirado daquele lugar quando havia partido?

Ela frequentemente não se permitia ter esperanças vãs ou perder tempo imaginando coisas que nunca aconteceriam. Mas por um momento... por um breve e egoísta momento ela se imaginou sendo arrancada, libertada dos braços de ferro de Sergei Yakut.

Por um instante, ela se perguntou o que poderia ter vontade de fazer quando estivesse livre do sádico Primeira Geração, livre de tudo que a mantinha ali... e isso havia sido glorioso.

Envergonhada por seus pensamentos, Renata jogou as pernas para um lado da cama para se sentar. Ela não podia ficar ali um minuto a mais, não enquanto sua mente estivesse girando com pensamentos que não lhe fariam bem algum.

A verdade é que aquela era a sua vida. O mundo de Yakut era o seu mundo, o recinto e seus inúmeros segredos grotescos eram sua realidade inflexível. Ela não sentia pena de si, nunca sentira. Nem no orfanato do convento por todos aqueles anos de sua infância, nem no dia em que fora expulsa para sempre de sua casa com as Irmãs da Benevolente Misericórdia aos 14 anos de idade.

Nem mesmo naquela noite, há dois verões, quando foi arrancada das ruas de Montreal e presa com um grupo de outras pessoas assustadas nos currais do celeiro dentro da propriedade de Sergei Yakut.

Ela não tinha derramado uma só lagrima de autopiedade em todo esse tempo. E, com certeza, não iria começar agora.

Renata levantou-se e saiu de seu modesto quarto. A casa principal estava em silêncio àquela hora, as poucas janelas do lugar estavam completamente fechadas para afastar os letais raios de sol. Renata tirou a barra de ferro grossa da porta exterior e saiu andando na gloriosa tarde de verão, cálida e brilhante.

Dirigiu-se ao canil. Entre todo o drama da última noite, não só com Nikolai mas também depois, ela tinha esquecido completamente que suas adagas estavam lá fora. Ser negligente e descuidada a incomodava. Nunca deixava os punhais fora de seu alcance. Eles eram parte dela agora, como tinham sido no dia em que os tinha tomado.

- Estúpida, estúpida - sussurrava para si enquanto entrava no antigo canil e olhava para o poste em que esperava encontrar a lâmina incrustada que tinha atirado contra Nikolai.

Não estava ali.

Um grito de incredulidade e angústia deslizou por seus lábios.

O guerreiro levou suas lâminas? Será que o cachorro as tinha roubado?

- Maldito seja. Não!

Renata invadiu o corredor central do edifício... e, então, parou abruptamente quando chegou à parte posterior do lugar e seus olhos pousaram no fardo de feno perto do poste de madeira.

Cuidadosamente dobrado em cima dele e colocado perfeitamente ao lado do par de sapatos que tinha deixado para trás na noite anterior estava também a capa de seda e veludo que continha suas preciosas adagas. Segurou-as para certificar-se de que a capa de tecido não estava vazia. Quando sentiu o peso familiar em sua palma, não pôde conter um sorriso.

Nikolai.

Ele tinha guardado as adagas para ela. Ele as havia recolhido, envolvido e deixado ali, como se soubesse quanto significavam para ela.

Por que faria isso? O que esperava que sua bondade comprasse? Na verdade, pensava que sua confiança poderia ser ganha tão facilmente ou esperava outra oportunidade para impor-se do mesmo modo que havia feito com aquele beijo?

Ela realmente não queria pensar nos beijos de Nikolai. Se pensasse, então deveria admitir para si que o beijo tinha sido inesperado e à força, e que apenas ele era culpado por aquilo ter ocorrido.

Mas a verdade era que ela tinha aproveitado.

Santa Maria! Só de pensar nele um calor lento e líquido acendia-se em seu coração e em seu sexo.

Ela queria mais dele, apesar de cada instinto de sobrevivência de seu corpo ter gritado para que ela se afastasse, que escapasse rapidamente. Ela tinha fome dele – naquele momento e agora. Queimava por ele – em um lugar que ela pensava estar completamente congelado e morto. E o comentário a respeito do que ele tinha visto nos olhos de Mira - a implicação de tudo - poderia envolver Renata e ele intimamente juntos, o que era ainda mais inquietante. Graças a Deus ele se foi. Graças a Deus, ele provavelmente nunca voltaria depois do que tinha descoberto ali.

Muito tempo havia passado desde que Renata ajoelhava-se para rezar. Ela não se ajoelhava diante de ninguém mais, nem sequer de Yakut em seu pior momento, mas inclinou a cabeça e pediu aos céus que mantivesse Nikolai longe daquele lugar. Longe dela.

Já não estava com ânimo para treinar, sobretudo quando as lembranças do que tinha acontecido ali ainda estavam tão recentes em sua cabeça. Renata pegou seus sapatos e caminhou de volta para a casa. Entrou e se dirigiu ao corredor que levava ao seu quarto, esperando ter ao menos algumas horas de sono.

De repente, deu-se conta de que havia algo errado, mesmo antes de notar que a porta de Mira não estava fechada.

Nenhuma luz estava acesa no quarto da menina, mas ela estava acordada. Renata escutou sua suave voz na escuridão, queixando-se que tinha sono e não queria levantar. Mais pesadelos?, Renata se perguntou, sentindo uma pontada de compaixão pela menina. Mas, então, outra voz gemeu entre os dentes acima dos protestos aturdidos de Mira, uma voz fria, áspera e impaciente.

- Pare de choramingar e abra seus olhos, cadelinha.

Renata pressionou a mão contra a porta e a empurrou amplamente.

- Que diabos pensa que está fazendo, Lex?

Ele estava inclinado sobre a cama de Mira, apertando dolorosamente as mãos nos ombros da menina. Sua cabeça virou quando Renata entrou no quarto, mas ele não soltou Mira.

- Preciso do oráculo de meu pai. E não vou responder às suas perguntas, então, seja amável e saia daqui, inferno.

- Rê, ele está machucando meus braços.

A voz de Mira era baixa, sacudida pela dor.

- Abra os olhos, maldita - Lex grunhiu. - E talvez eu pare de te machucar.

- Tire suas mãos de cima dela, Lex.

Renata parou ao pé da cama, com as lâminas embainhadas.

- Tire as mãos dela! Agora!

Lex zombou.

- Não até que eu tenha terminado com ela.

Quando deu a Mira uma sacudida forte, Renata soltou uma rajada de fúria mental. Era só um fio de energia, só uma fração do que podia dar, mas Lex uivou, seu corpo se sacudiu como se tivesse sido golpeado por milhares de volts de eletricidade. Cambaleou para trás, deixando Mira cair e afastando-se da cama, caindo com o traseiro no chão.

- Cadela! – gritou com os olhos soltando um fogo âmbar e com as pupilas fragmentadas fortemente no centro. - Eu devia matá-la por isso. Devia matar a pequena pirralha e você, suas cadelas!

Renata o golpeou de novo, dando-lhe outra pequena amostra de agonia. Ele se deixou cair, agarrando a cabeça e gemendo com a segunda rajada debilitante. Ela esperou, observando como ele se esforçava para levantar-se de uma postura desajeitada do chão. Da maneira que estava agora, ele não representava ameaça alguma para ela, mas em algumas horas estaria recuperado, e Renata estaria vulnerável. Aí então ela teria uma pequena dívida a pagar.

Mas no momento, Mira já não era do interesse de Lex, e isso era tudo que importava. Lex a fulminou com o olhar quando se arrastou até seus pés.

- Saia do meu... caminho... vadia maldita!

As palavras estavam sufocadas, balbuciadas entre seus ofegos enquanto ele torpemente se dirigia para a porta aberta. Quando Lex saiu do campo de visão de Renata, com os passos dele ecoando no corredor externo, ela aproximou-se de Mira e tentou acalmá-la.

- Está tudo bem, querida?

Mira assentiu.

- Eu não gosto dele, Rê. Ele me assusta.

- Eu sei, querida.

Renata deu um beijo na testa da garota.

- Não vou deixar que ele faça mal a você. Está a salvo comigo. Essa é uma promessa, certo?

Outro gesto de assentimento, mais fraco dessa vez, enquanto Mira voltava a cabeça ao travesseiro e exalava um suspiro sonolento.

- Rê? - perguntou em voz baixa.

- Sim, ratinho?

- Você nunca vai me abandonar, não é mesmo?

Renata ficou olhando fixamente aquele rosto inocente na escuridão, sentindo seu coração apertado no peito.

- Nunca vou abandonar você, Mira. Jamais... Exatamente como prometemos.


Capítulo 11

A lua elevava-se, projetando manchas de luz sobre o lago Wannsee, em uma zona exclusiva do subúrbio de Berlim. Andreas Reichen recostou-se em sua cadeira almofadada no gramado que ficava na parte de trás de sua propriedade privada no Refúgio. Ele tentava absorver um pouco da paz e da tranquilidade noturnas. Apesar da brisa agradável e morna, e do lago de águas calmas e escuras, os pensamentos dele eram taciturnos e turbulentos.

As notícias do último Primeira Geração assassinado, dessa vez na França, fora um duro golpe. Parecia-lhe que o mundo ao seu redor estava ficando cada vez mais insano. Não apenas o mundo da Raça – seu mundo -, mas também a humanidade. Tanta morte e destruição. Tanta angústia por todos os lados.

No fundo de seu estômago, Andreas tinha a terrível sensação de que isso era apenas o começo. Dias mais sombrios estavam por vir. Provavelmente estivessem a caminho há muito tempo e ele tinha sido demasiado ignorante; estivera demasiado entretido com seus prazeres pessoais para se dar conta disso.

Um desses prazeres, aliás, aproximava-se por trás dele: com passos elegantes e inconfundíveis, a mulher caminhou pelos jardins bem cuidados da propriedade e sentou-se sobre a grama.

Os pequenos braços de Helene rodearam os ombros largos de Andreas.

- Olá, querido.

Reichen aproximou-se para acariciar-lhe a cálida pele enquanto a mulher inclinava-se para beijá-lo. Ela tinha uma boca suave e persistente, e seus longos cabelos escuros guardavam ainda um vestígio de óleo de rosas.

- Quando cheguei, seu sobrinho me disse que você estava aqui fora há horas - murmurou ela, erguendo a cabeça para olhar o lago. - Posso ver por quê. É uma vista encantadora.

- E agora está ainda mais encantadora - disse Reichen, levantando a cabeça para olhar a mulher.

Helene sorriu sem acanhamento, há muito tempo já acostumada com aquela adulação.

- Alguma coisa está te incomodando, Andreas. Você não é do tipo que fica sentado se queixando do quanto a vida é injusta.

Será que ela o conhecia tão bem assim? Eles tinham sido amantes durante o ano anterior, uma brincadeira amorosa casual que, de alguma forma, transformara-se em algo mais profundo, se não exclusivo. Reichen sabia que Helene tinha outros homens em sua vida - homens humanos -, da mesma forma que ela sabia que ele ocasionalmente buscava prazer com outras mulheres. Não era uma relação infestada de ciúmes ou de possessão. Mas isso não significava que não houvesse carinho. Eles compartilhavam uma preocupação mútua um pelo outro e um vínculo de confiança que se estendia além das barreiras que geralmente tornavam as relações entre humanos e homens da Raça impossíveis.

Helene tinha se tornado uma amiga e, ultimamente, era uma companheira indispensável no importante trabalho de Reichen com os guerreiros de Boston.

Ela sentou-se no grande braço da cadeira.

- Deu as notícias à Ordem sobre o recente assassinato em Paris?

Reichen assentiu.

- Sim. E eles me disseram que houve também uma tentativa de assassinato em Montreal algumas noites atrás. Pelo menos essa falhou, um milagre do destino. Mas haverá outras. Temo que muitas outras mortes acontecerão antes que a fumaça finalmente se dissipe. A Ordem está convencida de que deterá essa loucura toda, mas às vezes me pergunto se o mal trabalhando aqui não é maior do que qualquer bem.

- Você está deixando que isto o consuma - disse Helene, enquanto preguiçosamente afastava o cabelo da testa. - Já sabe, se precisa de algo a fazer com seu tempo, poderia ter procurado a mim em vez da Ordem. Eu poderia tê-lo colocado para trabalhar no clube como meu assistente pessoal. Não é muito tarde para mudar de ideia. E asseguro-lhe que apenas os benefícios já valeriam a pena.

Reichen riu.

- Tentador, de fato.

Helene inclinou-se e mordiscou-lhe a orelha, sua respiração fazendo cócegas quentes sobre a pele masculina.

- Seria só uma posição temporária, é obvio. Vinte ou trinta anos, um piscar de olhos para você. Eu estarei enrugada e grisalha e você se entusiasmará por um novo brinquedo mais atraente que possa manter o ritmo de suas selvagens exigências.

Reichen estava surpreso ao ouvir a pontada de nostalgia na voz de Helene. Ela nunca tinha falado sobre o futuro com ele, nem tampouco ele com ela. Era mais ou menos compreensível que não poderia haver um futuro, tendo em vista que ela era mortal e ele – a menos que prolongasse sua exposição aos raios UVA ou sofresse um intenso dano no corpo - continuaria vivendo durante um tempo próximo ao da eternidade.

- O que está fazendo esbanjando seu tempo comigo quando poderia ter qualquer outro homem? – perguntou Reichen, movendo os dedos ao longo da suave linha do ombro de Helene. - Poderia estar casada com alguém que a adorasse, criando uma ninhada de crianças belas e inteligentes.

Helene arqueou uma impecável sobrancelha.

- Suponho que nunca fui do tipo que faria uma escolha convencional.

Nem ele, de fato. Reichen admitia que seria muito fácil ignorar tudo o que ela e a Ordem tinham descoberto há alguns meses. Ele podia esquecer a maldade que tinham vasculhado até à cova montanhosa nas colinas Boêmias. Podia fingir que nada daquilo existia, descumprir sua oferta de ajudar aos guerreiros respondendo por seu papel como líder de um Refúgio e voltar para seus libertinos e descuidados hábitos.

Mas a única verdade era que ele tinha se cansado daquela vida há tempos. Anos atrás, alguém o havia acusado de ser um eterno menino egoísta e irresponsável. E, naquele momento, a pessoa tinha razão. Especialmente quando ele tinha sido suficientemente tolo para deixar escapar uma mulher e o amor que ela lhe havia dado. Depois de muitas décadas de autopiedade, ele se sentia bem em fazer a diferença. Ou em tentar fazê-la, de qualquer forma.

- Não esperava que você viesse esta noite só para me distrair com seus beijos e com essas atraentes ofertas de emprego - disse, sentindo que a seriedade abatia-se sobre Helene.

- Não, não foi por isso que vim, infelizmente. Pensei que deveria saber que uma das minhas garotas do clube está desaparecida. Lembra-se de que mencionei Gina, uma de minhas garotas mais novas, que apareceu com marcas de mordida no pescoço na semana passada?

Reichen assentiu.

- A que tinha falado sobre um novo namorado rico com quem estava saindo.

- Essa mesmo. Pois bem, não é a primeira vez que ela falta ao trabalho, mas sua companheira de quarto disse-me esta tarde que Gina não passa em casa ou dá notícias há mais de três dias. Pode não ser nada, mas pensei que gostaria de saber.

- Sim. Tem alguma informação sobre o homem com quem se encontrava? Uma descrição, um nome, algo?

- Não. A companheira de apartamento dela nunca o conheceu e, por isso, não pôde me dizer nada.

Reichen considerou as numerosas coisas que podiam ocorrer a uma jovem que se encontrava inconscientemente com um macho da Raça. Embora a maioria deles fosse de membros que respeitavam a lei da nação vampírica, havia outros que revelavam seu lado selvagem.

- Preciso que, discretamente, investigue no clube esta noite, veja se alguma das outras garotas ouviu Gina mencionar algo sobre esse namorado. Procure por nomes, lugares aos quais ela possa ter ido com ele. O menor detalhe pode ser importante.

Helene assentiu, mas havia uma nota de interesse em seus olhos.

- Prefiro esse seu lado sério, Andreas. É incrivelmente sexy.

A mão dela deslizou por baixo da abertura da camisa de seda dele conforme suas longas e pintadas unhas brincavam sobre seu musculoso abdômen. Embora os pensamentos de Reichen fossem nefastos, seu corpo respondeu ao toque especialista da mulher. Seus dermoglifos começaram a encher-se de cor e sua visão afiou-se com uma rajada de cor âmbar que rapidamente preencheu sua íris. Mais abaixo, seu pênis ficou ereto, crescendo onde agora descansava sua palma.

- Eu realmente não deveria ficar - murmurou ela com a voz rouca e zombadora. - Não quero chegar tarde no trabalho.

Quando ela começou a se levantar, Reichen a deteve.

- Não se preocupe com isso. Conheço a mulher que dirige o lugar. Pedirei desculpas por você. Sei de fonte segura que ela gosta muito de mim.

- Você gosta dela?

Reichen grunhiu, deixando visível as pontas de suas presas com seu amplo sorriso.

- A pobre está louca por mim.

- Louca por uma coisa arrogante como você? - zombou Helene. - Querido, não se adule. Ela poderia querê-lo apenas por causa de seu decadente corpo.

- É o suficiente - respondeu ele. - Mas não ouvirá queixas minhas de maneira alguma.

Helene sorriu, sem resistir enquanto ele a puxava sobre seu colo e entregava-lhe um beijo profundo, masculino e faminto.

Ao anoitecer, Lex estava completamente recuperado do golpe que Renata lhe desferira. Sua ira - seu ódio por ela – permanecia, todavia.

Ele a amaldiçoava em sua mente enquanto se inclinavae sobre uma putrefata parede de uma casa infestada de ratos no pior subúrbio de Montreal, assistindo a um jovem humano apertar o braço com um cinto de couro velho. Com a ponta solta presa entre os dentes quebrados e cariados, o drogado cravou a agulha de uma imunda seringa em um lugar cheio de crostas e hematomas que percorriam o esquálido braço. Gemeu enquanto a heroína entrava em sua corrente sanguínea.

- Ah, caramba, cara! - soltou um trêmulo suspiro enquanto liberava seu torniquete e caía para trás contra um colchão podre no chão. Correu as mãos tatuadas pelo rosto pálido e cheio de espinhas, e pelos cabelos castanhos ensebados. – Ah! Essa porcaria é das boas, cara.

- Sim - Lex disse com a voz sem fôlego, na fria e úmida escuridão.

Não tinha economizado em drogas; o dinheiro era de pouco interesse para ele. Sem dúvida o drogado que vendia o corpo nas ruas nunca tinha ganhado tanto dinheiro. Lex estava disposto a apostar que os serviços pessoais do jovem nunca haviam alcançado uma soma tão alta. Ele tinha saltado no interior do carro quando Lex parou e lhe mostrou cem dólares e um pacote de heroína.

Lex moveu a cabeça e olhou como o humano saboreava sua dose de alívio. Eles estavam sozinhos no miserável quarto de um edifício abandonado. O lugar tinha sido invadido por vagabundos e viciados quando chegaram, mas só levou uns minutos para Lex – e uma irresistível ordem mental, cortesia de sua linhagem de segunda geração da Raça - conduzir os humanos para fora e deixar que ele exercesse sua atividade sem ser incomodado.

Ainda deitado no chão, o drogado tirou a camisa regata e começou a desabotoar os folgados e imundos jeans azuis. Acariciou-se grosseiramente enquanto abria a braguilha, os olhos turvos rolando em seu crânio, buscando distraidamente através da escuridão.

- Então, quer que eu chupe seu pau ou o quê, cara?

- Não - Lex disse, enojado apenas com a ideia.

Ele afastou-se de sua posição, cruzando o quarto, e caminhou lentamente em direção ao drogado. Por onde começar com ele?, perguntou-se preguiçosamente. Tinha que esgotar essa coisa com cuidado ou teria de voltar para a rua e procurar outra pessoa.

Esbanjando seu tempo precioso.

- Prefere minha bunda, então, cara? - comentou o michê. - Se quiser me comer, vai ter de pagar o dobro. Essa é minha regra.

A risada de Lex foi baixa e genuinamente divertida.

- Não estou interessado em comer você. Já é suficientemente mau que tenha que olhar para você, que tenha que sentir seu cheiro repugnante. O sexo não é a razão pela qual está aqui.

- Bem, o que diabos você quer então? – ao dizer isso, uma nota de pânico cortou o ar, um súbito golpe de adrenalina humana que os sentidos de Lex facilmente detectaram. - Estou seguro que não me trouxe aqui para uma conversa educada.

- Não - Lex concordou.

- Está bem. Está bem, que porra eu pareço para você, seu merda?

Lex sorriu.

- Uma isca.

Com movimentos tão rápidos que nem sequer o olho humano mais aguçado poderia seguir, Lex estendeu a mão e derrubou o drogado no chão. O vampiro tinha uma faca na mão e cravou-a no macilento abdômen do humano, rasgando-lhe a pele.

O sangue surgiu da ferida, quente, úmido e perfumado.

- Ah, Jesus! - gritou o humano. - Ah, meu Deus! Você me apunhalou!

Lex recuou e deixou que o homem caísse sobre o chão. Era tudo que podia fazer para não investir contra o drogado com uma sede cega.

A transformação física de Lex foi rápida, provocada pela súbita presença de sangue fresco fluindo. Sua visão se aguçou enquanto suas pupilas se estreitavam, um brilho âmbar lavava o quarto enquanto seus olhos transformavam-se nos de um predador. Suas presas alargaram-se atrás de seus lábios e a saliva inundou-lhe a boca enquanto a urgência de se alimentar crescia.

O drogado estava soluçando agora, emitindo sons patéticos enquanto apertava a enorme ferida em seu estômago.

- Você está louco, seu merda? Podia ter me matado!

- Ainda não - respondeu Lex entre suas presas.

- Tenho que sair daqui - murmurou o homem. - Tenho que conseguir ajuda...

- Fique - ordenou Lex, sorrindo enquanto a mente do homem murchava sob aquela ordem.

Teve que se obrigar a manter distância. Deixar que a situação se esvaísse enquanto pudesse. Uma ferida no estômago sangrava rápido, mas a morte viria lentamente. Lex precisava dele vivo durante um tempo longo o suficiente para que o cheiro do sangue viajasse pela rua e entrasse nos becos dos arredores.

O humano que tinha comprado era meramente uma isca pronta para ser jogada na água. Lex procurava atrair um peixe maior.

Sabia tão bem como qualquer outro membro da Raça que nada atraía um vampiro mais rápido - e mais certeiramente – do que uma presa humana sangrando. E fazer isso em um ponto obscuro da cidade, onde até mesmo a escória da sociedade humana adentrava um estado de terror secreto, Lex presumia, atrairia a presença de Renegados.

Não se decepcionou.

Os dois primeiros vieram farejando ao redor da casa abandonada em minutos. Os Renegados eram viciados sem esperança, tanto quanto o drogado que agora se aconchegava em posição fetal, chorando em silêncio no chão, enquanto sua vida se apagava lentamente.

Embora poucos da Raça se perdessem na luxúria do sangue – a permanente e insaciável sede de sangue –, aqueles que raramente o faziam jamais se libertavam. Viviam nas sombras, monstros selvagens sem raízes, cujo único objetivo era viver alimentando sua fome.

Lex escondeu-se no canto do quarto enquanto os dois predadores se arrastavam para dentro. Eles imediatamente caíram sobre o humano, rasgando-o com presas que nunca se desvaneciam, os olhos ardendo com a cor e o calor do fogo.

Outro Renegado encontrou o quarto. Este era maior do que os outros, mais brutal enquanto se jogava para a matança e começava a alimentar-se. Uma briga explodiu entre os selvagens. Os três se pegaram como cães raivosos. Batendo os punhos, os dedos e as presas estripando a carne e os ossos, cada macho poderoso lutava viciosamente para ganhar um pedaço da presa.

Lex olhava paralisado. Aturdido pela violência e bêbado pelo cheiro de tanto sangue derramado, humano e da Raça.

Olhou e esperou.

Os Renegados lutaram um contra o outro até a morte, como animais selvagens que eram. No final, só um deles demonstraria ser o mais forte.

E era desse que Lex precisava.

Após um dia inteiro esperando o anoitecer, Nikolai agora tinha outras duas horas para passar antes de poder tomar seu voo de volta para Boston.

O guerreiro considerou seriamente não ir ao aeroporto e viajar a pé, mas até mesmo com sua resistência da Raça e sua hipervelocidade, mal atravessaria o estado de Vermont antes que o amanhecer o obrigasse a esconder-se de novo. E, francamente, a ideia de dormir em um celeiro com um bando de animais agitados não o empolgava a colocar um tênis e pegar a estrada.

Portanto, esperaria.

Maldição.

Ele e a paciência nunca foram amigos íntimos e, quando o sol finalmente se pôs e ele pode sair do refúgio, Niko já estava à beira da insanidade.

Supôs que aquele aborrecimento o guiava pelos subúrbios de Montreal, onde esperava encontrar algo divertido para fazer enquanto o mau humor passava. Não se preocupava em como usaria o tempo, mas havia deliberadamente procurado a única região da cidade onde a probabilidade de encontrar uma razão para usar seus punhos ou suas armas eram maiores.

Naquele conjunto de becos infestados de ratos, suas escolhas imediatas eram limitadas aos traficantes - de drogas ou de pessoas - e prostitutas de ambos os gêneros, sem discriminação. Mais de um idiota o olhou enquanto ele andava pela rua sem direção aparente. Alguém foi inclusive suficientemente estúpido para mostrar a ponta de uma faca enquanto passava, mas Niko só se deteve e deu ao bastardo desdentado um sorriso de orelha a orelha, mostrando suas presas como um convite e, rapidamente, a ameaça desapareceu.

Embora não fosse contra tipo algum de confronto, a luta contra humanos estava abaixo de sua capacidade. Preferia um desafio maior. O que ele realmente queria encontrar agora era um Renegado. No verão passado, Boston estivera afundada até os joelhos de vampiros viciados em sangue. A luta tinha sido dura e pesada - com pelo menos uma perda trágica para a Ordem -, mas Nikolai e o resto dos guerreiros tinham completado sua missão de manter a cidade limpa.

Outras zonas metropolitanas ainda perdiam civis ocasionalmente por conta da luxúria por sangue, e Niko apostaria seu testículo esquerdo que Montreal não era diferente. Mas além dos cafetões, traficantes e prostitutas, aquela extensão de tijolo e asfalto estava tão morta quanto a cripta na qual ele tinha sido forçado a passar o dia.

- Ei, querido - a mulher sorriu para ele de uma porta coberta de sombras enquanto ele passava. - Busca algo específico ou está apenas olhando as vitrines?

Nikolai grunhiu, mas se deteve.

- Sou um cara diferente.

- Bem, possivelmente tenho o que você precisa - ela sorriu e se moveu de sua pose sobre o degrau de concreto. - De fato, tenho exatamente o que você precisa, querido.

Ela não era uma beleza, com seus quebradiços e desgrenhados cabelos, olhos apagados e pele pálida, mas Nikolai não esperava gastar muito tempo olhando sua cara. Ela cheirava bem, seu desodorante e o spray de cabelo podiam ser considerados fragrâncias de aroma limpo. Para os sentidos afiados de Niko, a mulher cheirava a cosméticos e perfumes, com um toque de uso recente de drogas que exalava por seus poros.

- O que diz? - perguntou ela, aproximando-se furtivamente. - Quer ir a algum lugar? Se tiver vinte dólares, terá meia hora.

Nikolai observou a pulsação no pescoço da mulher. Já fazia vários dias que não se alimentava. E ele tinha duas horas pela frente sem fazer nada...

- Sim - disse assentindo. - Vamos.

Ela pegou a mão dele e o guiou, virando a esquina onde ficava o edifício, rua abaixo em direção a um beco vazio.

Nikolai não perdeu tempo. Mal se distanciaram de potenciais observadores, tomou a cabeça da mulher em suas mãos e despiu seu pescoço para mordê-la. Seu grito assustado foi esmagado imediatamente quando ele afundou as presas na veia saltante e começou a beber.

O sangue da mulher era medíocre – o habitual cobre pesado das células vermelhas humanas, mas enlaçadas com uma acidez doce e amarga das pedras de heroína e cocaína que ela tinha usado durante seu trabalho à noite. Nikolai tragou vários goles, sentindo o fluxo de energia do sangue através de seu corpo em uma baixa vibração. Não era raro para um vampiro da Raça excitar-se com o ato de se alimentar. A resposta era puramente física, um despertar de células e músculos.

O fato de seu pênis estar completamente ereto e exigindo alívio não o surpreendeu, mas sim o fato de sua cabeça estar nadando em pensamentos sobre uma mulher com cabelos escuros - uma mulher que ele não tinha intenção de ver de novo - que fazia Niko ficar em estado de alerta.

- Humm, não pare - sua companheira humana se queixou, puxando sua boca de volta à ferida no pescoço. Ela também estava sentindo os efeitos da alimentação, cativada como todos os humanos ficavam quando eram mordidos pela Raça. - Não pare, querido.

A visão de Nikolai estava alagada de fogo âmbar enquanto ele abraçava de novo a garganta da mulher. Sabia que ela não era Renata, mas enquanto suas mãos roçavam as pernas nuas por baixo da saia curta que ela usava, ele se imaginou acariciando as belas e longas coxas de Renata. Imaginou que era o sangue de Renata que o alimentava, que era o corpo de Renata que respondia tão apaixonado ao seu contato.

Eram os febris ofegos de Renata que o guiavam enquanto ele rasgava a calcinha barata com uma mão e usava a outra para libertar-se da própria calça.

Precisava estar dentro dela.

Precisava...

Caramba.

Uma ligeira brisa formou redemoinhos através do beco, trazendo consigo o fedor de vampiros Renegados. E havia muito sangue derramado também. Sangue humano. Muito, muito sangue, mesclado com o cheiro vil de Renegados sangrando.

- Jesus Cristo.

Que porra estava acontecendo?

Ele puxou a saia da mulher para baixo e lambeu-lhe a ferida do pescoço, selando sua mordida.

- Pedi que não parasse...

Mas Niko nem lhe deu tempo de terminar seu pensamento. Pondo a palma sobre sua testa, apagou tudo de sua mente.

- Saia daqui - disse.

Niko já estava correndo pelo beco quando ela saiu de seu atordoamento e começou a caminhar. O guerreiro seguiu seu olfato até um dilapidado edifício não longe de onde estava. Aquele fedor emanava do interior da construção, alguns apartamentos acima da rua.

Nikolai subiu a escada de incêndio até o segundo andar. Seus olhos estavam virtualmente marejados pelo entristecedor aroma de morte que saía daquele andar. Com a mão sobre a pistola embainhada em seu quadril, Niko se aproximou. Não havia sons do outro lado da maltratada porta cheia de pichações. Apenas morte – humana e vampírica. Niko girou o trinco e se preparou para o que encontraria.

Tinha sido um massacre.

Um aparente drogado permanecia em posição fetal entre refugos de seringas e outros lixos que cobriam o chão cheio de sangue. O corpo do drogado estava tão arruinado que era praticamente irreconhecível como humano, apenas o sexo era distinguível. Os outros dois corpos foram atacados ferozmente também, mas definitivamente eram da Raça, ambos Renegados, a julgar pelo tamanho e pelo cheiro deles.

Nikolai pôde imaginar o que ocorrera ali: uma batalha letal por causa da presa. A luta era recente, provavelmente tinha ocorrido apenas alguns minutos atrás. E os dois chupadores de sangue mortos não teriam sido capazes de se destruir antes que um ou outro caísse.

Havia pelo menos mais um Renegado envolvido naquela briga.

Se Niko tivesse sorte, o vencedor ainda poderia estar na região, lambendo suas feridas. Esperava que sim, porque adoraria dar ao bastardo doente uma prova de sua pistola 9 mm. Nada poderia desejar “tenha um bom dia” tão bem quanto a veia sanguínea corrompida de um Renegado encontrando uma fusão alérgica de uma dose venenosa de titânio.

Nikolai foi para a janela fechada e puxou os painéis presos. Se estava procurando ação, ele tinha encontrado - e aos montes. Abaixo, na rua, havia um Renegado enorme. Estava ensanguentado e maltratado.

Mas, maldito seja! Ele não estava sozinho.

Alexei Yakut estava com ele.

Incrivelmente, Lex e o Renegado caminhavam para um sedan que os esperava e entraram.

- Que porra está acontecendo? - murmurou Niko enquanto o carro arrancava e saía pela rua.

O guerreiro esteve a ponto de saltar pela janela aberta e seguir a pé quando um grito estridente soou atrás dele. Uma mulher tinha andado até a área da matança e agora gritava de terror, com um dedo acusador apontando na direção de Niko. Ela gritou suficientemente alto mais uma vez, despertando a atenção de cada drogado e traficante da vizinhança.

Nikolai olhou para a testemunha e para a sangrenta evidência de uma luta que parecia tudo, menos humana.

- Maldição - grunhiu, olhando por cima do ombro a tempo de ver o carro de Lex desaparecer ao virar a esquina.

- Está bem - disse à mulher enquanto deixava a janela e se aproximava dela. - Você não viu nada.

Apagou sua memória e a tirou do quarto. Então, pegou uma faca de titânio e cravou-a nos restos de um dos Renegados mortos.

Enquanto o corpo começava a se dissolver, Niko se preparou para limpar o resto da bagunça que Lex e seu insólito sócio haviam deixado para trás.


Capítulo 12

Renata estava no balcão da cozinha da propriedade de Sergei Yakut, com uma faca na mão.

- Que tipo de geleia quer esta noite: uva ou morango?

- Uva - respondeu Mira. – Não, espere. Quero de morango.

A menina estava sentada na beira da bancada de madeira ao lado de Renata, suas pernas penduradas e seus braços cruzados. Vestida com uma camiseta púrpura, calças azuis desgastadas e um velho par de tênis, Mira poderia se passar por qualquer outra menina esperando o jantar. Mas as meninas normais não eram obrigadas a comer a mesma coisa praticamente todos os dias. As pequenas meninas normais tinham famílias que as amavam e cuidavam delas. Viviam em casas bonitas, em ruas bonitas e arborizadas, com cozinhas brilhantes, despensas cheias e com mães que sabiam preparar refeições maravilhosas.

Pelo menos, isso é o que Renata imaginava quando pensava na representação ideal de uma família normal. Ela não imaginava isso baseada em algum tipo de experiência pessoal. Como menina de rua antes que Yakut a encontrasse e a levasse para casa, Mira tampouco sabia o que era normal. Mas era esse tipo saudável, o tipo de vida normal, que Renata desejava para a garota, embora aquilo parecesse um desejo insignificante ali, de pé na cozinha imunda de Sergei Yakut, ao lado de um fogão que provavelmente não funcionava, embora tivesse gás correndo nele.

Como Renata e Mira eram as únicas na cabana que se alimentavam de comida, Yakut tinha deixado em suas mãos que ela e a menina se alimentassem regularmente. Renata não prestava realmente atenção em sua alimentação e odiava não ser capaz de oferecer a Mira algo agradável de vez em quando.

- Um dia sairemos e teremos um jantar de verdade, com cinco pratos diferentes. Além de sobremesa - acrescentou, passando a geleia de morango em uma fatia de pão branco. - Talvez tenhamos duas sobremesas cada uma.

Mira sorriu sob o curto véu negro que lhe caía sobre a pequena ponta do nariz.

- Será que a sobremesa será de chocolate?

- De chocolate. Com certeza. Tome, pegue - disse, entregando o prato com um sanduíche de geleia.

Renata se apoiou no balcão enquanto Mira cortava uma pequena parte do sanduíche e comia como se fosse tão delicioso como qualquer menu de cinco pratos que pudesse imaginar.

- Não se esqueça de tomar seu suco de maçã.

- Está bem.

Renata cravou o canudo na caixa de suco e colocou-a ao lado de Mira. Depois, começou a limpar o balcão. Cada músculo de seu corpo feminino se retesou quando ela ouviu a voz de Lex na cozinha.

Ele havia saído ao anoitecer. Renata realmente não sentiu sua falta, mas não se perguntou o que esteve fazendo desde que saiu. A resposta para aquela pergunta veio na forma de uma gargalhada de mulher bêbada - várias mulheres bêbadas, pelo som do riso e os chiados atravessando a área principal da cabana.

Lex frequentemente levava mulheres humanas para casa para servir seu exército com sangue e diversão. Às vezes, ele as mantinha lá por vários dias. Geralmente compartilhava suas presas com os outros guardas, todos as usavam e apagavam o ataque de suas mentes antes de devolvê-las às suas vidas. Estar sob o mesmo teto que Lex quando ele estava bem-humorado a deixava enojada, mas o que mais lhe enfurecia era o fato de Mira ser exposta àqueles jogos macabros.

- O que está acontecendo ali fora, Rê? - perguntou.

- Termine seu sanduíche - disse Renata a Mira quando a garota parou de comer para escutar o alvoroço na outra sala. - Fique aqui. Volto já.

Renata saiu da cozinha e atravessou o corredor.

- Bebam, senhoritas! - gritou Lex, deixando cair uma caixa de garrafas de licor no sofá de couro.

Ele não consumiria álcool, nem os outros favores que oferecia na festa. Tirou alguns sacos plásticos brancos e enrolados, cada um bastante cheio com o que provavelmente era cocaína, e os jogou sobre a mesa. O sistema de som foi ligado, um baixo vibrando fortemente sob a letra de um hip-hop.

Lex agarrou a morena curvilínea com risada frívola e a colocou sob seu braço.

- Eu lhe disse que teríamos muita diversão! Agora venha aqui e me mostre sua gratidão.

Certamente Lex estava em um raro estado de ânimo, de bom humor. E não era um milagre. Retornou com um bom grupo: cinco mulheres vestidas com saltos altos, pequenos tops e microssaias. A princípio, Renata achou que eram prostitutas, mas observando-as mais de perto, estavam muito limpas e muito frescas sob toda a maquiagem pesada para fazerem parte da vida das ruas. Provavelmente eram apenas garotas ingênuas do clube, que não tinham se dado conta de que o persuasivo e atraente homem que as recolheu era na realidade alguém saído de um pesadelo.

- Venham e conheçam meus amigos - Lex disse ao grupo de mulheres enquanto se dirigia até os outros machos da Raça para mostrar a eles a captura da noite. Houve um momento de apreensão evidente enquanto os quatro guardas fortemente armados olhavam lascivamente seus aperitivos humanos. Lex empurrou três mulheres para os ansiosos vampiros.

- Não sejam tímidas, garotas. Esta é uma festa, afinal. Vão e digam olá.

Renata percebeu que ele estava retendo as duas garotas mais bonitas. Típico de Lex, obviamente tinha reservado o melhor para ele. Renata estava a ponto de girar e voltar à cozinha – e tentar ignorar a orgia sangrenta que estava a ponto de começar. Mas, antes que pudesse dar dois passos, Sergei Yakut apareceu trovejando de seus aposentos privados.

- Alexei! - a fúria vibrava do vampiro mais velho em ondas de calor. Ele olhou Lex com olhos brilhantes cor de âmbar. – Você esteve fora durante horas. Por onde andou?

- Estive na cidade, pai – Lex esboçou um sorriso generoso, como se dissesse que seu tempo fora de suas obrigações não fosse inteiramente para servir suas próprias necessidades. - Olhe o que eu trouxe.

Lex afastou uma das mulheres de seu abraço para que Yakut a inspecionasse. Yakut nem olhou para o prêmio que Lex lhe oferecia, só olhou para as duas mulheres que Lex guardava para si.

O Primeira Geração grunhiu.

- Você tira porcaria da sola de seu sapato e me diz que é ouro?

- Nunca - respondeu Lex. - Pai, eu nunca...

- Bem. Estas duas serão minhas - disse, indicando as mulheres que Lex havia reservado para si.

Furioso como deveria estar, humilhado com a espetada em seu orgulho, Lex não disse palavra alguma. Baixou o olhar e esperou em silêncio que Yakut recolhesse suas duas companheiras e se dirigisse com elas para seus aposentos privados.

- Não queremos ser incomodados - Yakut ordenou sombriamente. - Por razão alguma.

Lex assentiu em uma reverência contida.

- Sim, pai. Claro. Como quiser.

Nikolai ouviu a música e as vozes antes mesmo de estar a quinhentos metros da propriedade de Yakut. Aproximou-se, movendo-se através do bosque como um fantasma, passando pelo carro de Lex, estacionado na parte de trás, com o capô ainda quente por causa da viagem à cidade.

Niko não estava seguro do que encontraria. Não esperava uma maldita festa, mas isso era o que parecia estar acontecendo dentro da casa principal. O lugar estava iluminado como uma árvore de natal, as luzes saíam das janelas da sala, onde alguém estava entretido com várias mulheres. Um rap pesado vibrava por todo o caminho de terra por baixo das botas de Nikolai enquanto ele se aproximava pelo lado da construção e lançava uma olhada para dentro.

Lex estava lá, muito bem. Ele e o resto dos guarda-costas de Yakut, reunidos todos em uma sala rústica. Três mulheres jovens dançavam nos tapetes de pele vestidas somente com roupas íntimas, todas claramente embriagadas, tendo em vista a quantidade de bebidas alcoólicas e drogas sobre a mesa mais próxima. Os quatro guardas da Raça uivavam e as animavam, provavelmente a segundos de se jogarem sobre seus corpos ingênuos.

Lex, enquanto isso, estava sentado, curvado em um sofá de pele, os olhos escuros fixos nas mulheres apesar de seus pensamentos parecerem estar a quilômetros de distância. Não havia sinal do malicioso Lex que esteve na cidade. Tampouco havia sinais de Sergei Yakut, e o fato de a segurança inteira estar entretida com aquele pequeno espetáculo fez os instintos de Niko mudarem para o alerta vermelho.

- Que demônios está acontecendo? - Niko pronunciou baixo.

Mas ele sabia a resposta inclusive antes que começasse a mover-se pela parte posterior da propriedade, onde ficavam os aposentos de Yakut - lá, um sutil, porém persistente aroma, confirmou o pior temor de Niko.

Maldito seja! Havia um Renegado ali.

Nikolai também sentiu o cheiro de sangue fresco derramado, proveniente de um humano. O aroma era quase entristecedor quanto mais se aproximava do quarto de Yakut. Sangue e sexo, para ser exato, como se o Primeira Geração estivesse fazendo um banquete.

Um grito repentino irrompeu na noite.

De mulher. Um som de terror total, vindo de dentro do quarto de Yakut.

Depois, disparos amortecidos.

Pá, pá, pá!

Nikolai voou através da porta traseira do refúgio, sem se surpreender ao encontrá-la destrancada e parcialmente aberta. Irrompeu no quarto de Yakut com sua pistola semiautomática na mão, pronta para lançar a carga completa de balas de titânio reforçado.

A cena que o saudou era uma carnificina total.

Na cama estava Sergei Yakut, esparramado nu em cima de uma mulher presa sob seu corpo sem vida, com a garganta rasgada onde o vampiro esteve se alimentado apenas alguns segundos antes. Ela não se movia e não havia cor em sua pele ou no cabelo, já que a maior parte dela estava coberta pelo sangue de Yakut e também por seu próprio.

Faltava a metade do rosto do Primeira Geração. A cabeça de Sergei Yakut era pouco mais do que pedaços de osso, tecido e sangue restantes das três balas que tinham sido disparadas a queima-roupa na parte posterior de seu crânio. Ele estava morto e o Renegado que o matara estava também preso pelo desejo de sangue, a ponto de não se dar conta da presença de Nikolai. O filho da mãe tinha deixado a pistola que tinha utilizado para matar Yakut e agora estava ocupado com a outra mulher, também nua, que tinha sido apanhada no canto do quarto. Seus olhos estavam voltados para trás e ela não se movia. Caramba, ela também não estava respirando, embora o Renegado seguisse bebendo dela em seu pescoço destroçado pelas presas enormes.

Niko se moveu por trás do filho da mãe e colocou o canhão da arma contra sua cabeça desgrenhada. Apertou o gatilho e provocou explosões de titânio no cérebro do canalha. O Renegado caiu no chão, retorcendo-se com espasmos por causa do golpe. O titânio fez efeito rápido e o vampiro moribundo lançou um grito tão forte que sacudiu as velhas vigas de madeira da cabana como um trovão.

Renata saiu voando da cozinha com sua pistola pronta. Seus sentidos de batalha estavam esticados como cordas de piano, o crepitar de disparos distantes e o uivo desumano que o seguiram, procedentes do outro lado do refúgio. A música seguia soando na grande sala. As visitantes de Lex já não estavam vestidas e seguiam estridentes com o contínuo fluxo de drogas e álcool. As mulheres estavam sobre os guardas que, pelo olhar faminto, não notariam se uma bomba explodisse no quarto ao lado.

- Idiotas - Renata os acusou baixo. - Nenhum de vocês escutou isso?

Lex levantou os olhos, a preocupação obscureceu sua expressão, mas ela realmente não estava esperando uma reação por parte dele. Ela correu para o corredor do quarto de Yakut. O corredor estava escuro, o ar parado. Tudo muito silencioso. Muito parado.

A morte dependurava-se como um véu, quase asfixiante, enquanto ela se aproximava da porta aberta do alojamento do vampiro.

Sergei Yakut já não estava vivo; Renata sentiu em seus ossos. Pólvora, sangue e um entristecedor aroma adocicado de podridão a advertiram de que ela caminhava para algo terrível. Todavia, nada poderia tê-la preparado realmente para o que viu quando empurrou a porta com a arma levantada e sustentada com ambas as mãos, pronta para matar quem estivesse em seu caminho.

A visão de toda aquela morte, todo aquele sangue, toda aquela violência pegou Renata de surpresa. A morte estava por toda parte: na cama, no chão, nas paredes.

E também no corpo inerte de Sergei Yakut.

Nikolai estava no centro da carnificina, seu rosto e a camisa escura estavam salpicados de cor escarlate. Em sua mão havia uma grande pistola semiautomática, a ponta do cano ainda fumegante por seu recente disparo.

- Você? - a palavra deslizou dos lábios de Renata, a comoção e a incredulidade como uma bola de gelo em seu intestino. Olhou o corpo de Yakut – seus restos - espalhado sobre a cama, em cima da mulher sem vida.

- Meu Deus - ela sussurrou, surpreendida ao vê-lo na propriedade de novo, mas ainda mais surpresa pelo resto do que estava vendo. – Você... você o matou.

- Não - o guerreiro disse movendo a cabeça sombriamente. – Eu não o matei, Renata. Havia um Renegado aqui com Yakut – disse indicando a grande massa de fumegantes cinzas no chão, a fonte do aroma ofensivo. - Eu matei o Renegado, mas era muito tarde para salvar Yakut. Sinto muito.

- Abaixe a arma – ela disse, sem se interessar pelas desculpas. Ela não precisava delas. Renata sentiu pena pelo final violento de Yakut, um sentimento de incredulidade a surpreendeu por ele estar realmente morto. Mas não havia dor. Nada que absolvesse Nikolai de sua aparente culpa. Apontou firmemente para seu alvo e entrou um pouco mais no quarto. – Abaixe a arma. Agora.

Mas Niko manteve o controle firme de sua pistola 9 mm.

- Não posso fazer isso Renata. Não o farei, não enquanto Lex estiver respirando.

Ela franziu a testa, confusa.

- O que tem Lex?

- Este assassinato foi obra dele, não minha. Ele trouxe o Renegado aqui. Trouxe as mulheres para distrair os guardas e Yakut para que o Renegado pudesse se aproximar o suficiente para matá-lo.

Renata escutou, mas manteve o alvo sob sua mira. Lex era uma víbora, certo, mas um assassino? Realmente planejaria a morte de seu próprio pai?

Só então Lex e os outros guardas se aproximaram pelo corredor.

- O que aconteceu? Algo errado...

Lex se calou quando chegou à porta aberta do quarto do pai. Em sua visão periférica, Renata o viu olhar primeiro o corpo de Yakut na cama e, depois, Nikolai. Cambaleou para trás – um passo, não muito mais do que uma pausa. Então explodiu com muita raiva.

- Filho da mãe! Maldito assassino filho da mãe.

Lançou-se, mas foi uma tentativa em vão, que abandonou completamente quando a pistola de Nikolai girou em sua direção. O guerreiro não fraquejou, nem o olhar nem um músculo sequer de seu corpo. Estava completamente calmo enquanto olhava Lex pelo canhão da arma, inclusive quando a arma de Renata e a dos outros guardas apontavam para ele.

- Vi você na cidade esta noite, Lex. Eu estava lá. Na casa do drogado, a isca que você usou para atrair os vampiros Renegados. O filho da mãe que você trouxe esta noite pra cá. Eu vi tudo.

Lex zombou.

- Foda-se você e suas mentiras! Você não viu porra nenhuma, maldito!

- O que você prometeu ao Renegado em troca da cabeça de seu pai? Dinheiro não importa aos viciados em sangue. A vida de quem você ofereceu como prêmio? A de Renata? Talvez a da garota, Mira?

O peito de Renata se apertou diante daquele pensamento. Atreveu-se a dar uma rápida olhada em Lex e o encontrou friamente zombador diante do guerreiro, dando uma leve sacudida de cabeça.

- Você dirá qualquer coisa nesse momento para salvar o seu pescoço. Nada funcionará. Não quando você mesmo ameaçou a vida de meu pai não faz nem vinte horas. - Lex girou para ver Renata. - Você também o escutou, não foi?

Ela assentiu contrariada, recordando como Nikolai deu a Sergei Yakut uma advertência pública de que alguém precisava detê-lo.

Agora Nikolai tinha retornado e Yakut estava morto.

Mãe do Céu, ela pensou, olhando uma vez mais o corpo sem vida do vampiro que a manteve prisioneira pelos últimos dois anos. Ele estava morto.

- Meu pai não estava correndo perigo algum até que a Ordem entrou no jogo - Lex disse. - Uma tentativa fracassada, e agora isso, um banho de sangue. Você esperou para fazer seu movimento. Você e o Renegado que trouxe com você esta noite, esperando uma oportunidade para atacar. Só posso deduzir que veio matar meu pai desde o começo.

- Não - disse Nikolai, com um brilho de luz âmbar em seus olhos azuis de inverno. - Quem estava esperando para matá-lo era você, Lex.

Em uma fração de segundo, ela viu os tendões de Nikolai flexionarem-se enquanto seu dedo começava a pressionar o gatilho da arma, e disparou nele uma forte explosão mental. Por menos consideração que tivesse por Alexei, ela não podia deixá-lo morrer naquela noite. Nikolai rugiu, a coluna vertebral arqueada, o rosto retorcendo de dor.

Mais efetiva que as balas, a explosão o derrubou de joelhos em um instante. Os quatro guardas irromperam no quarto e tomaram-lhe a pistola e o resto das armas. Os canhões de quatro revólveres foram colocados na cabeça do guerreiro, à espera de ordens para matar. Um dos guardas armou o gatilho, ávido pelo derramamento de sangue, embora o quarto já estivesse repleto.

- Abaixem as armas – disse Renata. Olhou Lex, cujo rosto estava repleto de ira, seus olhos azuis e brilhantes, suas presas afiadas visíveis entre os lábios entreabertos. – Diga-lhe para que se retirem, Lex. Matá-lo apenas nos fará assassinos a sangue frio.

Incrivelmente, Nikolai começou a rir. Levantou a cabeça, com um esforço evidente, enquanto a explosão ainda o detia.

- Ele tem que me matar, Renata, porque não pode arriscar-se a ter uma testemunha. Não é verdade, Lex? Ninguém pode caminhar por aí sabendo seu segredo sujo.

Lex tirou sua própria pistola e se dirigiu diretamente a Nikolai. Colocou o canhão da pistola contra a testa do guerreiro. Grunhiu, seu braço tremendo pela ferocidade de sua raiva. Renata estava imóvel, horrorizada diante do medo de que ele, de fato, apertasse o gatilho. Ela estava perdida, uma parte dela queria acreditar no que Nikolai dissera – que era inocente – e outra parte estava temerosa em acreditar. O que havia dito de Lex simplesmente não podia ser verdade.

- Lex - ela disse, o único som no quarto. – Lex... não faça isso.

Ela estava a menos de uma pausa de golpeá-lo como tinha feito a Nikolai quando a arma lentamente foi baixada.

Lex rosnou, deixando-a um pouco mais tranquila.

- Eu gostaria de uma morte mais lenta para esse bastardo do que a que sou capaz de lhe dar. Levem-no para a sala principal e prendam-no - disse aos guardas. – Depois, alguém se encarregue de cuidar do corpo de meu pai. Tirem as garotas que estão no outro cômodo da propriedade. Quero todo este caos sangrento limpo imediatamente.

Lex voltou-se com um olhar sombrio para Renata quando os guardas começaram a arrastar Nikolai para fora do quarto.

- Se ele tentar algo, descarregue toda a sua força nesse filho da mãe.


Capítulo 13

- Pardonnez-moi, monsieur Fabien. Há uma chamada telefônica para o senhor. De um monsieur chamado Alexei Yakut.

Edgar Fabien fez um gesto desdenhoso para o macho da Raça que o servia como secretário pessoal e continuou admirando no espelho do armário o corte de suas calças feitas sob medida. Ele estava experimentando um traje novo e, naquele momento, nada que Alexei Yakut tivesse a lhe dizer era suficientemente importante para justificar uma interrupção.

- Diga-lhe que estou em uma reunião e não posso ser incomodado.

- Desculpe-me, senhor, mas já o informei que o senhor está indisponível. Ele diz que é um assunto urgente que requer sua imediata atenção.

Com uma reflexão, Fabien olhou para trás furiosamente por baixo das pálidas sobrancelhas arrumadas. Não se esforçou para ocultar os sinais externos de sua irritação crescente, que se mostraram pelo brilho âmbar de seus olhos e pela repentina agitação das cores de seus dermoglifos, que formavam redemoinhos e um arco sobre seu peito nu e seus ombros largos.

- Basta - disse ao alfaiate enviado da loja Givenchy do centro da cidade. O humano recuou imediatamente, recolhendo seus alfinetes e sua fita métrica e obedientemente se afastando às ordens de seu Mestre. Ele pertencia a Fabien – um dos muitos Subordinados que o vampiro da Raça de segunda geração empregava pela cidade. - Fora daqui, vocês dois.

Fabien desceu do soalho do armário e se aproximou do telefone que estava na mesa. Esperou até que ambos os serventes tivessem abandonado o quarto e a porta fosse fechada atrás deles.

Com um grunhido, tomou o aparelho e apertou o botão que piscava para conectar-se à chamada de Alexei Yakut.

- Sim - sussurrou ele com frieza. - Qual é o assunto urgente que simplesmente não pode esperar?

- Meu pai está morto.

Fabien balançou sobre seus calcanhares, realmente surpreendido pela notícia. Exalou um suspiro com a intenção de soar aborrecido.

- Que conveniente para você, Alexei. Terei que oferecer felicitações junto com minhas condolências?

O herdeiro aparente de Sergei Yakut ignorou a alfinetada.

- Havia um intruso na mansão esta noite. De algum modo, ele conseguiu entrar sigilosamente no lugar. Matou meu pai em sua cama, a sangue frio. Ouvi a perturbação e tentei intervir, mas... bem... Era muito tarde para salvá-lo. Estou desolado, certamente.

Fabien grunhiu.

- Obviamente.

- Mas supus que você devesse ser notificado a respeito do crime. E também suspeitei que você e a Agência viriam aqui imediatamente para deter o assassino de meu pai.

Cada célula no corpo de Fabien se deteve.

- O que está dizendo? Que tem alguém sob custódia? Quem?

Um riso baixo se escutou no outro lado da linha.

- Vejo que finalmente tenho sua atenção, Fabien. O que acharia se eu dissesse que tenho um membro da Ordem sob minha custódia, esperando por você aqui no albergue? Estou seguro de que há algumas pessoas que pensam que um guerreiro a menos para lutar seria excelente.

- Você não está realmente tentando me convencer de que esse guerreiro é responsável pela morte de Sergei Yakut, não é?

- Estou apenas dizendo que meu pai está morto e estou no comando de seus domínios agora. Digo que tenho um membro da Ordem em minhas mãos, e estou disposto a entregá-lo a você. Um presente, se quiser.

Edgar Fabien guardou silêncio durante um longo momento, considerando o imenso prêmio que Alexei Yakut lhe oferecia. A Ordem e seus membros ativos tinham poucos aliados dentro da Agência. Menos ainda dentro do círculo privado ao qual Fabien pertencia.

- E o que espera em troca desse... presente?

- Já disse quando nos conhecemos. Quero entrar. Quero uma parte em qualquer ação que você esteja tentando fazer. Uma parte grande, entende? – Lex riu, bastante cheio de si. - Você precisa de mim ao seu lado, Fabien. Penso que isso é óbvio para você agora.

A última coisa que Edgar Fabien ou qualquer de seus sócios precisava ao seu lado era um ambicioso maldito como Alexei Yakut. Ele era um perigo em potencial, alguém que teria de ser tratado com cuidado. Se Fabien tivesse que escolher, optaria por uma exterminação rápida, mas teria que ser alguém mais em última instância para fazer aquela escolha.

Quanto ao membro cativo da Ordem, isso era, de fato, intrigante. Era um presente digno a se considerar, e as muitas atraentes possibilidades que isso representava faziam o coração de quase quatrocentos anos de idade de Fabien pulsar um pouco mais rápido.

- Terei que fazer alguns... acertos - disse ele. - Pode levar uma hora, mais ou menos, para alinhar os recursos e ir até a sua casa para recuperar o prisioneiro.

- Uma hora - Alexei Yakut aceitou ansiosamente. - Não me faça esperar mais do que isso.

Fabien engoliu sua resposta ácida e terminou a chamada com um consentimento:

- Até logo então.

Sentou-se na mesa e olhou para a linha do horizonte noturno que brilhava intermitentemente à distância, bem além de seu imóvel no Refúgio. Então, dirigiu-se para o cofre e virou a fechadura da combinação, pegando a manivela para abri-lo. Dentro havia um telefone celular reservado apenas para chamadas de emergência. Ele teclou um número programado e esperou que o sinal cifrado conectasse. Quando a voz asfixiante do outro lado respondeu, Fabien disse:

- Temos um problema.

As correntes pesadas rodeavam o torso nu de Nikolai, atando-o a uma cadeira de madeira esculpida. Ele sentia restrições similares em suas mãos, que estavam presas atrás de si, e em seus pés, amarrados pelos tornozelos e presos com força contra as pernas da cadeira.

Nikolai tinha levado uma surra, e não apenas da rajada mental debilitante, cortesia de Renata. Graças àquele golpe demolidor, ficou inconsciente durante algum tempo, lutando para levantar suas pálpebras, inclusive agora. É obvio, parte da dificuldade devia-se ao fato de seu rosto ter sido golpeado e arruinado, os olhos estavam inchados, os lábios arrebentados e amargos com o sabor do próprio sangue. Ele estava muito fraco para uma verdadeira luta quando Lex e seus guardas tinham trabalhado nele como em um saco de boxe enquanto tiravam-lhe até a cueca e o arrastavam para o grande quarto da residência para esperar por seu destino.

Nikolai não sabia há quanto tempo estava sentado ali. Tempo suficiente para que suas mãos ficassem inchadas pela falta de circulação. Tempo suficiente para ter notado quando Renata passou pelo quarto, protetoramente conduzindo Mira para longe da repugnante cena. Tinha observado uma mecha de seu cabelo empapado em suor, vendo a dor e a tensão em seu rosto quando ela lançou um olhar sinistro em sua direção.

Sua reverberação provavelmente a golpeava muito duramente agora, ele supunha. Niko disse para si que a pontada que sentiu era apenas outro músculo gritando pelo abuso; ele não podia ser tão estúpido para sentir algum tipo de simpatia pelo sofrimento da fêmea. Ele não podia ser tão estúpido para se preocupar com o que ela pensava a respeito dele - isso se ela, de fato, tivesse acreditado nas acusações feitas por Lex – mas, maldição, ele realmente se importava. Sua frustração por não poder falar com Renata apenas aumentava sua dor física e sua fúria.

Do outro lado da sala, os quatro guardas examinavam as armas e as rodas de titânio com as pontas ocas feitas a mão, criações pessoais de Nikolai. Eles tinham todos os pertences do guerreiro dispostos sobre uma mesa, fora de seu alcance. O celular de Niko - seu vínculo com a Ordem - estava despedaçado no chão. Lex tinha tido o grande prazer de esmagá-lo sob sua bota antes de partir, deixando Nikolai sob a supervisão de seus guardas.

Um dos machos da Raça disse algo que fez os outros três rirem antes que girasse com a semiautomática de Niko e apontasse em sua direção. Nikolai não estremeceu. De fato, ele mal respirava, olhando pela fenda torcida de seu olho esquerdo, todos seus músculos desabados como se ainda estivesse inconsciente e inconsciente sobre o que acontecia ao seu redor.

- Que tal se o acordássemos? - brincou o guarda com a arma na mão. Ele a balançou para Niko, tentadoramente dentro do alcance de sua mão, se os braços de Niko não estivessem fortemente amarrados atrás dele. A boca da 9mm baixou lentamente, além de seu peito, logo acima de seu abdômen definido. - Eu sugiro castrarmos esse pedaço de porcaria assassino. Tiramos suas bolas e deixamos que a Agência o leve em pedaços.

- Kiril, deixe de ser idiota - um dos outros advertiu. - Lex disse que não podíamos tocá-lo.

- Lex é uma garotinha. - O polido aço negro chiou com o frio entalhe quando Kiril martelou. - Em dois segundos esse guerreiro vai ser somente uma garotinha também.

Nikolai se manteve muito quieto quando a arma foi pressionada em sua virilha. Parte de sua paciência nasceu do verdadeiro temor, já que ele era bastante aficionado por suas partes viris e não tinha desejo algum de perdê-las. Mas era inclusive mais primitivo que ele entendesse que as oportunidades de reverter a situação a seu favor eram poucas e breves. Ele tinha superado a maioria dos efeitos internos do talento de Renata, mas não podia estar seguro de sua força física a menos que tentasse.

E se tentasse agora e falhasse... bem, ele não queria contemplar as possibilidades de afastar-se sem sua virilidade intacta se tentasse escapar de suas ataduras e conseguisse apenas um disparo impulsivo de Kiril.

Uma dura palmada golpeou a lateral da sua cabeça.

- Está aí, guerreiro? Tenho algo para você. Hora de despertar.

Com os olhos fechados para ocultar a mudança da cor azul para o âmbar, Nikolai deixou que sua cabeça caísse mole com o golpe. Mas, dentro dele, a fúria começava a acender. Ele tinha que manter a calma. Não podia deixar que Kiril ou os outros vissem a mudança de seus dermoglifos e arriscar-se a mostrar que estava completamente acordado e consciente. E totalmente de saco cheio.

- Acorde! - grunhiu Kiril.

Começou a levantar o queixo de Niko, mas então um ruído fora do recinto chamou sua atenção. Cascalho salpicando e rangendo debaixo de pneus de veículos que se aproximavam. Uma frota deles, pelo som.

- A Agência está aqui - um dos outros guardas anunciou.

Kiril afastou-se de Nikolai, mas tomou seu tempo para desarmar a pistola. Do lado de fora, os veículos reduziam a velocidade, até pararem. Portas se abriram. Botas golpeando o caminho de cascalho foram ouvidas quando os Agentes do Refúgio se aproximaram. Nikolai contou mais de meia dúzia de pares de pés movendo-se para a casa.

Inferno.

Se ele não saísse daquela situação rapidamente, despertaria nas mãos da Agência. E, para um membro da Ordem, um grupo que a Agência há muito tempo desejava extinguir, a detenção faria que Lex e o tratamento de seus guardas parecesse uma temporada em um spa. Se caísse nas mãos da Agência agora, especialmente quando o acusavam de assassinar um Primeira Geração, Niko sabia, sem sombra de dúvidas, que também acabaria morto.

Lex saudou os recém-chegados como se fossem uma corte.

- Por aqui - indicou de algum lugar fora do recinto. – Prendi o filho da mãe. Ele está esperando lá dentro.

- Ele prendeu o filho da mãe - murmurou Kiril acidamente. - Duvido que Lex pudesse manter seu próprio traseiro mesmo que usasse ambas as mãos.

Os outros guardas riram cautelosamente.

- Venha - disse Kiril. - Vamos pôr o guerreiro de pé para que a Agência possa levá-lo daqui.

A esperança surgiu no peito de Niko. Se o liberassem das algemas, poderia ter uma pequena possibilidade de escapar. Muito pequena, tendo em vista o som próximo das botas e a capacidade armamentista que se dirigia em sua direção do exterior da casa. Mas pequena era muitíssimo melhor do que nenhuma.

Ele manteve o corpo sem vida na cadeira, inclusive enquanto Kiril se abaixava diante dele e tirava as correntes que estavam ao redor de seus tornozelos. A impaciência o corroía. Cada impulso de Nikolai dizia que levantasse seu joelho e golpeasse o guarda por baixo da mandíbula.

Ele teve que se reprimir com os dentes mordendo a língua para manter-se imóvel, com a respiração mais superficial que pudesse, esperando a melhor oportunidade enquanto o guarda dava a volta por trás e recolhia os cadeados que fechavam as correntes em seu torso e pulsos. Um giro da chave. Um estalo rangente do aço quando a fechadura se abriu.

Nikolai flexionou seus dedos, tomou uma respiração profunda, sem restrições.

Abriu os olhos. Sorriu abertamente aos companheiros de Kiril um instante antes de levantar os braços e agarrar a cabeça grande de Kiril com as mãos.

Com um movimento fluido, deu um giro violento e saltou para cima, fora da cadeira. As correntes caíram e Nikolai estava de pé com o forte estalo do rompimento do pescoço de Kiril.

- Santo Cristo! - gritou um dos guardas.

Alguém lançou um disparo frenético. Os outros dois procuraram por suas armas.

Niko puxou bruscamente a pistola de Kiril fora de sua cartucheira e devolveu o fogo, derrubando um guarda com uma bala na cabeça.

A situação gerou gritos de alarme no corredor. As botas começaram a golpear. Um pequeno exército de Agentes chegaria para tomar o controle da situação.

Maldito seja.

Não tinha muito tempo para fugir antes que ele estivesse contemplando os canos de não menos do que meia dúzia de pistolas em poucos segundos.

Nikolai arrastou o corpo morto de Kiril diante de si e o manteve ali como um escudo. O cadáver tomou um par de golpes rápidos quando Niko começou a se mover para trás, para a janela que ficava do outro lado do grande quarto.

Na porta agora aberta havia um grupo de Agentes vestidos de preto, todos munidos com algumas armas de fogo semiautomáticas, que o observavam bastante sérios.

- Parado, maldito!

Niko lançou um olhar por cima do ombro para a janela que estava alguns metros atrás dele. Essa era sua melhor - sua única - opção. Render-se agora e sair pacificamente com seus executores da Agência era uma alternativa que ele se negava a considerar.

Com um rugido, Niko agarrou o peso morto de Kiril e balançou o corpo para a janela de cristal. Manteve-o perto quando a janela estilhaçou, usando o cadáver do vampiro como escudo para conseguir sair do alcance do vidro quebrado e assim atravessar o improvisado buraco.

O guerreiro da Raça escutou uma ordem atrás de si – uma ordem de um dos Agentes para que abrissem fogo.

Ele sentia o ar fresco da noite sobre o rosto, sobre o cabelo e sobre o corpo nu umedecido pelo suor. Mas, antes que ele pudesse registrar o menor sabor da liberdade...

Pá! Pá! Pá!

Suas costas nuas arderam como se estivessem em chamas. Seus ossos e músculos sentiram-se flexíveis, e dentro de si dissolveu-se uma onda de bílis e ácido que lhe chamuscou a parte posterior da garganta. A visão de Nikolai mergulhou em uma escuridão repentina que o devorou. Ele sentiu a terra surgir rapidamente debaixo de si quando ele e o cadáver de Kiril caíram abaixo da janela.

Então, já não sentiu mais nada.

 

 

CONTINUA

Capítulo 10

Nikolai despertou na escuridão total, com a cabeça descansando sobre o caixão de um homem aparentemente rico de Montreal que estava morto há 67 anos. O chão de mármore do mausoléu era um pouco duro para as horas de descanso, mas tinha servido muito bem para Niko. A noite estava perigosamente perto da alvorada quando ele deixara o território de Yakut e, além disso, ele certamente já havia dormido em lugares piores do que o cemitério que tinha encontrado no extremo norte da cidade.

Com um gemido, sentou-se e abriu o telefone celular para verificar que horas eram. Merda, ainda era uma hora da tarde; tinha aproximadamente sete ou oito horas para esperar ali antes do anoitecer, quando seria seguro sair. Sete ou oito horas a mais e ele já estava angustiado pelo tempo de inatividade que teria de atravessar.

Sem dúvida alguma, Boston estaria se perguntando sobre ele agora. Niko teclou a discagem rápida que chamava o escritório central da Ordem. No meio do segundo toque, Gideon respondeu.

- Niko, pelo amor de Deus! Já estava na hora de você passar um relatório - o sotaque do inglês vago do guerreiro soou um pouco áspero. Nada surpreendente, considerando que Niko estava ligando no meio do dia. – Diga, você está bem?

- Sim, estou bem. Meu objetivo aqui em Montreal ficou ainda mais difícil de ser alcançado desde domingo, mas, fora isso, está tudo bem.

- Não conseguiu encontrar Sergei Yakut, então?

Niko riu.

- Ah, encontrei o bastardo facilmente. O Primeira Geração está vivinho e abanando o rabo. Mora ao norte da cidade em uma espécie de mansão à la Gengis Khan.

O guerreiro deu a Gideon um rápido resumo de tudo o que havia acontecido desde sua chegada a Montreal - do chute no traseiro que recebera de Renata como boas-vindas até as poucas e estranhas horas que passara no refúgio de Yakut, as quais culminaram com a localização de humanos mortos e largados na parte de trás da casa e sua subsequente expulsão de lá.

Ele descreveu a recente tentativa fracassada de acabar com a vida do Primeira Geração e o incrível papel que Mira desempenhou para frustrar tal ataque. Niko deixou de fora a parte sobre o que ele tinha visto nos olhos de Mira. Não viu razão alguma para compartilhar os detalhes daquela visão que, apesar da insistência de Renata em afirmar que Mira nunca se enganava, tinha praticamente zero chance de se realizar - não, agora havia exatamente zero chance de a visão acontecer.

Deveria ter sido um alívio para ele saber disso. A última coisa de que precisava era se meter com uma mulher, especialmente uma peça desse jogo macabro como Renata. A companheira unida pelo laço de sangue a Yakut. A ideia ainda o corroía, muito mais do que deveria, aliás. E ele não se sentia particularmente bem com o fato de que a mais leve lembrança daquele beijo era suficiente para fazê-lo ficar duro como o granito da tumba que o rodeava.

Ele a desejava, e por uma fração de segundo, quando deixou o refúgio de Yakut, pensou que ela poderia segui-lo. Não tinha motivo algum para pensar isso, mas tinha sido um golpe no estômago, uma sensação de que talvez Renata pudesse correr atrás dele e pedir-lhe que a tirasse dali.

E se o tivesse feito? Cristo, ele tinha que ser muito idiota só para considerar essa hipótese.

- Então - disse a Gideon, retornando mentalmente para a realidade, - não podemos contar com nenhum tipo de cooperação de Sergei Yakut. Ele basicamente me disse isso antes de me enxotar para fora e de eu o chamar de bastardo doente que precisa de focinheira e coleira.

- Jesus, Niko! - suspirou Gideon, provavelmente passando a mão pelo cabelo loiro por conta da frustração. - Disse mesmo isso a um Primeira Geração? Teve sorte que ele não tenha arrancado a sua língua antes de expulsá-lo.

Provavelmente era verdade, Nikolai reconheceu para si. E talvez tivesse perdido mais que a língua se Yakut soubesse o tipo de desejo que ele tinha por Renata.

- Sabe que sou alérgico a puxa-saquismo, mesmo se o saco em questão for o de um Primeira Geração. Se isso era uma missão de relações públicas, vocês escolheram o cara errado.

- Não me diga.

Gideon riu ao soltar outra maldição em voz baixa. - Você vai voltar para Boston, então?

- Não vejo razão para ficar aqui. A menos que você ache que Lucan não olharia torto se eu voltar e colocar fogo na casa de horrores de Yakut. Tirando-o de cena, pelo menos por um tempo.

Estava brincando... em grande parte do que falava. Mas o silêncio da resposta de Gideon revelava que seu companheiro guerreiro sabia o que estava dando voltas na cabeça de Niko.

- Sabe que não pode fazer nada disso, cara. Nada fora dos limites.

- E isso é uma merda - murmurou Nikolai.

- Sim, é. Mas essas decisões pertencem à Agência, não a nós.

- Estou lhe dizendo que Yakut não é diferente dos Renegados que tiramos das ruas, Gid. Diabos! Pelo que vi, ele é ainda pior. Ao menos os Renegados podem colocar a culpa de sua selvageria na sede por sangue. Yakut nem sequer pode agarrar-se ao vício de sangue como desculpa para caçar esses humanos por aí afora. Ele é um predador, um assassino.

- Ele está protegido - disse Gideon firmemente. - Mesmo que não fosse um Primeira Geração, continuaria sendo um civil. E um membro da Raça. Não podemos tocar nele, Niko. Não sem atirar um monte de bosta no ventilador. Portanto, o que quer que esteja pensando em fazer, não o faça.

Nikolai exalou bruscamente.

- Esqueça o que eu disse. Para que horas devo planejar minha viagem de volta a Boston?

- Terei que fazer algumas chamadas, mas o jato particular ainda está esperando por você no aeroporto. Posso mandar uma mensagem de texto com a hora assim que o voo estiver confirmado.

- Tudo bem. Vou descansar e esperar para sair.

- E, afinal, onde você está?

Nikolai olhou para o caixão atrás dele, depois para o outro em frente e para a urna de bronze que estava acumulando pó em um pedestal contra a parede de trás do escuro mausoléu.

- Encontrei um lugarzinho tranquilo para descansar no extremo norte da cidade. Dormindo como um morto, de fato. Ou com eles, em todo caso.

- Falando em mortos, temos um relatório de outro assassinato de Primeira Geração no exterior - disse Gideon.

- Cristo. Escolheram abatê-los como moscas, não é verdade?

- Ou, ao que parece, estão tentando. Reichen está acompanhando o relatório de Berlim. Recebemos um e-mail dele informando que hoje, mais tarde, haverá uma atualização.

- É bom saber que temos olhos e ouvidos nos quais podemos confiar por ali - disse Niko. - Caramba, Gideon. Nunca teria imaginado que pudesse dar algum valor a um Refúgio civil, mas Andreas Reichen está demonstrando ser um aliado muito bom. Talvez Lucan devesse recrutá-lo oficialmente para a Ordem.

Gideon riu.

- Não ache que ele não tenha considerado isso. Infelizmente, somos somente um passatempo de meio período para a jornada de Reichen. Ele pode ter a alma de um guerreiro, mas seu coração pertence a seu Refúgio em Berlim.

E a certa fêmea humana, pelo que Nikolai entendia. Segundo Tegan e Rio, dois guerreiros que tinham passado muito tempo com Andreas Reichen no Escritório Central de Berlim, o líder do Refúgio alemão estava romanticamente envolvido com Helene, a proprietária de um bordel.

Era incomum que um guerreiro da Raça pudesse ter mais de um encontro ocasional, ou uma breve relação com uma mulher mortal, mas Niko não estava a ponto de questioná-lo porque certamente Helene também estava sendo uma fonte útil de informação para a Ordem no exterior.

- Então, escute-me - disse Gideon. - Espere calmamente onde está e eu o avisarei assim que tiver a informação de sua partida para esta noite. Está bem?

- Sim. Você sabe como me encontrar.

O murmúrio de uma voz feminina aveludada, suavizada pelo sono, atravessou o telefone.

- Ah, inferno, Gid. Não me diga que está na cama com Savannah!

- Eu estava - respondeu ele, acentuando com força o tempo passado. - Agora que ela está acordada, diz que vai tomar uma ducha quente e uma xícara de café forte.

Nikolai gemeu.

- Caramba. Diga-lhe que sinto pela... interrupção.

- Ouça, querida - Gideon chamou sua amada companheira, unidos pelo laço de sangue por cerca de trinta anos. - Niko diz que sente por ser um bastardo grosseiro e por nos despertar nessa hora tão inoportuna.

- Obrigado - murmurou Niko.

- De nada.

- Ligarei de novo do avião.

- Tudo bem - disse Gideon. - Ouviu, amor? Niko quer que diga que está para desligar. Ele diz que você deve retornar para a cama e me permitir violá-la lentamente desde sua inteligente e formosa cabeça até seus deliciosos e pequenos dedinhos dos pés – disse Gideon a Savannah, que agora estava sentada ao seu lado.

Nikolai riu.

- Soa divertido. Ponham no viva-voz para que eu possa pelo menos escutar.

Gideon bufou.

- Nem pense. Ela é toda minha.

- Bastardo egoísta - Niko arrastou as palavras sarcasticamente. – Vejo você mais tarde.

- Bem, até mais tarde. E, Niko, sobre a situação de Yakut: sério, nem pense em bancar o cowboy, ok? Temos questões mais importantes do que lutar e tentar encurralar um Primeira Geração solto. Não é nossa área, sobretudo agora.

Quando Niko não concordou imediatamente, Gideon limpou a garganta.

- Seu silêncio não me dá exatamente uma tranquilidade, meu caro. Preciso saber que você está escutando isso.

- Sim - disse Nikolai. - Estou escutando. Vejo você em Boston mais tarde.

Niko desligou o celular e o colocou de volta no bolso.

Embora muito o irritasse pensar em fazer vista grossa para Yakut e para suas doentias atividades, ele sabia que Gideon tinha razão. E mais: ele sabia que o líder da Ordem, Lucan, assim como o resto dos guerreiros no complexo de Boston, diria a mesma coisa.

Esquecer Sergei Yakut, pelo menos por enquanto: isso era o mais sábio, a coisa mais inteligente que podia fazer.

E, enquanto isso, seria prudente esquecer Renata também. Ela fez sua cama, afinal de contas. O fato de, evidentemente, tê-la feito com um sádico como Sergei Yakut não era problema de Nikolai. Absolutamente. Renata, a linda dama de gelo, não era assunto seu e ele estaria melhor longe dela.

Bem longe do ninho de víboras que tinha descoberto nos domínios de Yakut.

Restavam apenas algumas horas antes do anoitecer e, então, ele poderia deixar tudo aquilo para trás.

Ela nunca havia se acostumado a dormir com a luz do dia, não nos dois anos em que tinha vivido a serviço de um vampiro.

Renata estava em sua cama, inquieta, incapaz de relaxar e fechar os olhos até mesmo por alguns minutos. Virou-se, colocando-se de costas e deixando escapar um suspiro, mantendo seu olhar fixo nas vigas de madeira do teto.

Pensava no guerreiro... Nikolai.

Ele tinha partido há várias horas, mas ela ainda sentia o peso do desprezo dele pressionado sobre ela. Odiava que tivesse visto Yakut alimentando-se dela. Tinha sido difícil fingir que não estava envergonhada quando sustentou seu olhar do outro lado do quarto. Ela tinha tentado não parecer afetada, mas, por dentro, estava tremendo, com sua pulsação martelando quase fora de controle.

Ela não queria que Nikolai a visse assim. Ainda mais pelo fato de ele ter enumerado os brutais crimes de Yakut, claramente pensando que ela era parte deles também. Ela não conseguia esquecer o olhar acusador que o macho da Raça tinha lhe dirigido.

Isso era ridículo.

Nikolai era da Raça assim como Yakut. Ele era um vampiro igual a Yakut e, como tal, tinha de se alimentar de humanos para sobreviver. Mesmo com seu limitado conhecimento sobre a Raça, Renata sabia que beber de seres humanos era a única forma de a Raça obter seu alimento. Os amigáveis vampiros não usavam os bancos de sangue, nos quais poderiam recolher um litro de O- pelo caminho. Nem os animais eram um substituto para o sangue humano.

Sergei Yakut e todo o resto da Raça compartilhavam o mesmo impulso: a necessidade dos glóbulos vermelhos dos Homo sapiens, tomados diretamente de uma veia aberta.

Eles eram selvagens e letais. Mesmo que na maioria das vezes parecessem humanos, em seu coração – ou em sua alma, se é que eles ainda tinham uma – faltava toda a humanidade. Por que ela deveria pensar que Nikolai era diferente?

Mas ele tinha parecido diferente, mesmo que só um pouco, quando tinham discutido no canil - quando a tinha beijado. Por Deus! Ele na realidade tinha parecido muito diferente dos outros da Raça que ela conhecia. Não era como Yakut, tampouco como Lex.

O que provavelmente só demonstrava que ela era uma tola.

E que era também uma fraca. Que outra coisa poderia explicar o dilacerador desejo de que Nikolai voltasse? Ele poderia tê-la tirado daquele lugar quando havia partido?

Ela frequentemente não se permitia ter esperanças vãs ou perder tempo imaginando coisas que nunca aconteceriam. Mas por um momento... por um breve e egoísta momento ela se imaginou sendo arrancada, libertada dos braços de ferro de Sergei Yakut.

Por um instante, ela se perguntou o que poderia ter vontade de fazer quando estivesse livre do sádico Primeira Geração, livre de tudo que a mantinha ali... e isso havia sido glorioso.

Envergonhada por seus pensamentos, Renata jogou as pernas para um lado da cama para se sentar. Ela não podia ficar ali um minuto a mais, não enquanto sua mente estivesse girando com pensamentos que não lhe fariam bem algum.

A verdade é que aquela era a sua vida. O mundo de Yakut era o seu mundo, o recinto e seus inúmeros segredos grotescos eram sua realidade inflexível. Ela não sentia pena de si, nunca sentira. Nem no orfanato do convento por todos aqueles anos de sua infância, nem no dia em que fora expulsa para sempre de sua casa com as Irmãs da Benevolente Misericórdia aos 14 anos de idade.

Nem mesmo naquela noite, há dois verões, quando foi arrancada das ruas de Montreal e presa com um grupo de outras pessoas assustadas nos currais do celeiro dentro da propriedade de Sergei Yakut.

Ela não tinha derramado uma só lagrima de autopiedade em todo esse tempo. E, com certeza, não iria começar agora.

Renata levantou-se e saiu de seu modesto quarto. A casa principal estava em silêncio àquela hora, as poucas janelas do lugar estavam completamente fechadas para afastar os letais raios de sol. Renata tirou a barra de ferro grossa da porta exterior e saiu andando na gloriosa tarde de verão, cálida e brilhante.

Dirigiu-se ao canil. Entre todo o drama da última noite, não só com Nikolai mas também depois, ela tinha esquecido completamente que suas adagas estavam lá fora. Ser negligente e descuidada a incomodava. Nunca deixava os punhais fora de seu alcance. Eles eram parte dela agora, como tinham sido no dia em que os tinha tomado.

- Estúpida, estúpida - sussurrava para si enquanto entrava no antigo canil e olhava para o poste em que esperava encontrar a lâmina incrustada que tinha atirado contra Nikolai.

Não estava ali.

Um grito de incredulidade e angústia deslizou por seus lábios.

O guerreiro levou suas lâminas? Será que o cachorro as tinha roubado?

- Maldito seja. Não!

Renata invadiu o corredor central do edifício... e, então, parou abruptamente quando chegou à parte posterior do lugar e seus olhos pousaram no fardo de feno perto do poste de madeira.

Cuidadosamente dobrado em cima dele e colocado perfeitamente ao lado do par de sapatos que tinha deixado para trás na noite anterior estava também a capa de seda e veludo que continha suas preciosas adagas. Segurou-as para certificar-se de que a capa de tecido não estava vazia. Quando sentiu o peso familiar em sua palma, não pôde conter um sorriso.

Nikolai.

Ele tinha guardado as adagas para ela. Ele as havia recolhido, envolvido e deixado ali, como se soubesse quanto significavam para ela.

Por que faria isso? O que esperava que sua bondade comprasse? Na verdade, pensava que sua confiança poderia ser ganha tão facilmente ou esperava outra oportunidade para impor-se do mesmo modo que havia feito com aquele beijo?

Ela realmente não queria pensar nos beijos de Nikolai. Se pensasse, então deveria admitir para si que o beijo tinha sido inesperado e à força, e que apenas ele era culpado por aquilo ter ocorrido.

Mas a verdade era que ela tinha aproveitado.

Santa Maria! Só de pensar nele um calor lento e líquido acendia-se em seu coração e em seu sexo.

Ela queria mais dele, apesar de cada instinto de sobrevivência de seu corpo ter gritado para que ela se afastasse, que escapasse rapidamente. Ela tinha fome dele – naquele momento e agora. Queimava por ele – em um lugar que ela pensava estar completamente congelado e morto. E o comentário a respeito do que ele tinha visto nos olhos de Mira - a implicação de tudo - poderia envolver Renata e ele intimamente juntos, o que era ainda mais inquietante. Graças a Deus ele se foi. Graças a Deus, ele provavelmente nunca voltaria depois do que tinha descoberto ali.

Muito tempo havia passado desde que Renata ajoelhava-se para rezar. Ela não se ajoelhava diante de ninguém mais, nem sequer de Yakut em seu pior momento, mas inclinou a cabeça e pediu aos céus que mantivesse Nikolai longe daquele lugar. Longe dela.

Já não estava com ânimo para treinar, sobretudo quando as lembranças do que tinha acontecido ali ainda estavam tão recentes em sua cabeça. Renata pegou seus sapatos e caminhou de volta para a casa. Entrou e se dirigiu ao corredor que levava ao seu quarto, esperando ter ao menos algumas horas de sono.

De repente, deu-se conta de que havia algo errado, mesmo antes de notar que a porta de Mira não estava fechada.

Nenhuma luz estava acesa no quarto da menina, mas ela estava acordada. Renata escutou sua suave voz na escuridão, queixando-se que tinha sono e não queria levantar. Mais pesadelos?, Renata se perguntou, sentindo uma pontada de compaixão pela menina. Mas, então, outra voz gemeu entre os dentes acima dos protestos aturdidos de Mira, uma voz fria, áspera e impaciente.

- Pare de choramingar e abra seus olhos, cadelinha.

Renata pressionou a mão contra a porta e a empurrou amplamente.

- Que diabos pensa que está fazendo, Lex?

Ele estava inclinado sobre a cama de Mira, apertando dolorosamente as mãos nos ombros da menina. Sua cabeça virou quando Renata entrou no quarto, mas ele não soltou Mira.

- Preciso do oráculo de meu pai. E não vou responder às suas perguntas, então, seja amável e saia daqui, inferno.

- Rê, ele está machucando meus braços.

A voz de Mira era baixa, sacudida pela dor.

- Abra os olhos, maldita - Lex grunhiu. - E talvez eu pare de te machucar.

- Tire suas mãos de cima dela, Lex.

Renata parou ao pé da cama, com as lâminas embainhadas.

- Tire as mãos dela! Agora!

Lex zombou.

- Não até que eu tenha terminado com ela.

Quando deu a Mira uma sacudida forte, Renata soltou uma rajada de fúria mental. Era só um fio de energia, só uma fração do que podia dar, mas Lex uivou, seu corpo se sacudiu como se tivesse sido golpeado por milhares de volts de eletricidade. Cambaleou para trás, deixando Mira cair e afastando-se da cama, caindo com o traseiro no chão.

- Cadela! – gritou com os olhos soltando um fogo âmbar e com as pupilas fragmentadas fortemente no centro. - Eu devia matá-la por isso. Devia matar a pequena pirralha e você, suas cadelas!

Renata o golpeou de novo, dando-lhe outra pequena amostra de agonia. Ele se deixou cair, agarrando a cabeça e gemendo com a segunda rajada debilitante. Ela esperou, observando como ele se esforçava para levantar-se de uma postura desajeitada do chão. Da maneira que estava agora, ele não representava ameaça alguma para ela, mas em algumas horas estaria recuperado, e Renata estaria vulnerável. Aí então ela teria uma pequena dívida a pagar.

Mas no momento, Mira já não era do interesse de Lex, e isso era tudo que importava. Lex a fulminou com o olhar quando se arrastou até seus pés.

- Saia do meu... caminho... vadia maldita!

As palavras estavam sufocadas, balbuciadas entre seus ofegos enquanto ele torpemente se dirigia para a porta aberta. Quando Lex saiu do campo de visão de Renata, com os passos dele ecoando no corredor externo, ela aproximou-se de Mira e tentou acalmá-la.

- Está tudo bem, querida?

Mira assentiu.

- Eu não gosto dele, Rê. Ele me assusta.

- Eu sei, querida.

Renata deu um beijo na testa da garota.

- Não vou deixar que ele faça mal a você. Está a salvo comigo. Essa é uma promessa, certo?

Outro gesto de assentimento, mais fraco dessa vez, enquanto Mira voltava a cabeça ao travesseiro e exalava um suspiro sonolento.

- Rê? - perguntou em voz baixa.

- Sim, ratinho?

- Você nunca vai me abandonar, não é mesmo?

Renata ficou olhando fixamente aquele rosto inocente na escuridão, sentindo seu coração apertado no peito.

- Nunca vou abandonar você, Mira. Jamais... Exatamente como prometemos.


Capítulo 11

A lua elevava-se, projetando manchas de luz sobre o lago Wannsee, em uma zona exclusiva do subúrbio de Berlim. Andreas Reichen recostou-se em sua cadeira almofadada no gramado que ficava na parte de trás de sua propriedade privada no Refúgio. Ele tentava absorver um pouco da paz e da tranquilidade noturnas. Apesar da brisa agradável e morna, e do lago de águas calmas e escuras, os pensamentos dele eram taciturnos e turbulentos.

As notícias do último Primeira Geração assassinado, dessa vez na França, fora um duro golpe. Parecia-lhe que o mundo ao seu redor estava ficando cada vez mais insano. Não apenas o mundo da Raça – seu mundo -, mas também a humanidade. Tanta morte e destruição. Tanta angústia por todos os lados.

No fundo de seu estômago, Andreas tinha a terrível sensação de que isso era apenas o começo. Dias mais sombrios estavam por vir. Provavelmente estivessem a caminho há muito tempo e ele tinha sido demasiado ignorante; estivera demasiado entretido com seus prazeres pessoais para se dar conta disso.

Um desses prazeres, aliás, aproximava-se por trás dele: com passos elegantes e inconfundíveis, a mulher caminhou pelos jardins bem cuidados da propriedade e sentou-se sobre a grama.

Os pequenos braços de Helene rodearam os ombros largos de Andreas.

- Olá, querido.

Reichen aproximou-se para acariciar-lhe a cálida pele enquanto a mulher inclinava-se para beijá-lo. Ela tinha uma boca suave e persistente, e seus longos cabelos escuros guardavam ainda um vestígio de óleo de rosas.

- Quando cheguei, seu sobrinho me disse que você estava aqui fora há horas - murmurou ela, erguendo a cabeça para olhar o lago. - Posso ver por quê. É uma vista encantadora.

- E agora está ainda mais encantadora - disse Reichen, levantando a cabeça para olhar a mulher.

Helene sorriu sem acanhamento, há muito tempo já acostumada com aquela adulação.

- Alguma coisa está te incomodando, Andreas. Você não é do tipo que fica sentado se queixando do quanto a vida é injusta.

Será que ela o conhecia tão bem assim? Eles tinham sido amantes durante o ano anterior, uma brincadeira amorosa casual que, de alguma forma, transformara-se em algo mais profundo, se não exclusivo. Reichen sabia que Helene tinha outros homens em sua vida - homens humanos -, da mesma forma que ela sabia que ele ocasionalmente buscava prazer com outras mulheres. Não era uma relação infestada de ciúmes ou de possessão. Mas isso não significava que não houvesse carinho. Eles compartilhavam uma preocupação mútua um pelo outro e um vínculo de confiança que se estendia além das barreiras que geralmente tornavam as relações entre humanos e homens da Raça impossíveis.

Helene tinha se tornado uma amiga e, ultimamente, era uma companheira indispensável no importante trabalho de Reichen com os guerreiros de Boston.

Ela sentou-se no grande braço da cadeira.

- Deu as notícias à Ordem sobre o recente assassinato em Paris?

Reichen assentiu.

- Sim. E eles me disseram que houve também uma tentativa de assassinato em Montreal algumas noites atrás. Pelo menos essa falhou, um milagre do destino. Mas haverá outras. Temo que muitas outras mortes acontecerão antes que a fumaça finalmente se dissipe. A Ordem está convencida de que deterá essa loucura toda, mas às vezes me pergunto se o mal trabalhando aqui não é maior do que qualquer bem.

- Você está deixando que isto o consuma - disse Helene, enquanto preguiçosamente afastava o cabelo da testa. - Já sabe, se precisa de algo a fazer com seu tempo, poderia ter procurado a mim em vez da Ordem. Eu poderia tê-lo colocado para trabalhar no clube como meu assistente pessoal. Não é muito tarde para mudar de ideia. E asseguro-lhe que apenas os benefícios já valeriam a pena.

Reichen riu.

- Tentador, de fato.

Helene inclinou-se e mordiscou-lhe a orelha, sua respiração fazendo cócegas quentes sobre a pele masculina.

- Seria só uma posição temporária, é obvio. Vinte ou trinta anos, um piscar de olhos para você. Eu estarei enrugada e grisalha e você se entusiasmará por um novo brinquedo mais atraente que possa manter o ritmo de suas selvagens exigências.

Reichen estava surpreso ao ouvir a pontada de nostalgia na voz de Helene. Ela nunca tinha falado sobre o futuro com ele, nem tampouco ele com ela. Era mais ou menos compreensível que não poderia haver um futuro, tendo em vista que ela era mortal e ele – a menos que prolongasse sua exposição aos raios UVA ou sofresse um intenso dano no corpo - continuaria vivendo durante um tempo próximo ao da eternidade.

- O que está fazendo esbanjando seu tempo comigo quando poderia ter qualquer outro homem? – perguntou Reichen, movendo os dedos ao longo da suave linha do ombro de Helene. - Poderia estar casada com alguém que a adorasse, criando uma ninhada de crianças belas e inteligentes.

Helene arqueou uma impecável sobrancelha.

- Suponho que nunca fui do tipo que faria uma escolha convencional.

Nem ele, de fato. Reichen admitia que seria muito fácil ignorar tudo o que ela e a Ordem tinham descoberto há alguns meses. Ele podia esquecer a maldade que tinham vasculhado até à cova montanhosa nas colinas Boêmias. Podia fingir que nada daquilo existia, descumprir sua oferta de ajudar aos guerreiros respondendo por seu papel como líder de um Refúgio e voltar para seus libertinos e descuidados hábitos.

Mas a única verdade era que ele tinha se cansado daquela vida há tempos. Anos atrás, alguém o havia acusado de ser um eterno menino egoísta e irresponsável. E, naquele momento, a pessoa tinha razão. Especialmente quando ele tinha sido suficientemente tolo para deixar escapar uma mulher e o amor que ela lhe havia dado. Depois de muitas décadas de autopiedade, ele se sentia bem em fazer a diferença. Ou em tentar fazê-la, de qualquer forma.

- Não esperava que você viesse esta noite só para me distrair com seus beijos e com essas atraentes ofertas de emprego - disse, sentindo que a seriedade abatia-se sobre Helene.

- Não, não foi por isso que vim, infelizmente. Pensei que deveria saber que uma das minhas garotas do clube está desaparecida. Lembra-se de que mencionei Gina, uma de minhas garotas mais novas, que apareceu com marcas de mordida no pescoço na semana passada?

Reichen assentiu.

- A que tinha falado sobre um novo namorado rico com quem estava saindo.

- Essa mesmo. Pois bem, não é a primeira vez que ela falta ao trabalho, mas sua companheira de quarto disse-me esta tarde que Gina não passa em casa ou dá notícias há mais de três dias. Pode não ser nada, mas pensei que gostaria de saber.

- Sim. Tem alguma informação sobre o homem com quem se encontrava? Uma descrição, um nome, algo?

- Não. A companheira de apartamento dela nunca o conheceu e, por isso, não pôde me dizer nada.

Reichen considerou as numerosas coisas que podiam ocorrer a uma jovem que se encontrava inconscientemente com um macho da Raça. Embora a maioria deles fosse de membros que respeitavam a lei da nação vampírica, havia outros que revelavam seu lado selvagem.

- Preciso que, discretamente, investigue no clube esta noite, veja se alguma das outras garotas ouviu Gina mencionar algo sobre esse namorado. Procure por nomes, lugares aos quais ela possa ter ido com ele. O menor detalhe pode ser importante.

Helene assentiu, mas havia uma nota de interesse em seus olhos.

- Prefiro esse seu lado sério, Andreas. É incrivelmente sexy.

A mão dela deslizou por baixo da abertura da camisa de seda dele conforme suas longas e pintadas unhas brincavam sobre seu musculoso abdômen. Embora os pensamentos de Reichen fossem nefastos, seu corpo respondeu ao toque especialista da mulher. Seus dermoglifos começaram a encher-se de cor e sua visão afiou-se com uma rajada de cor âmbar que rapidamente preencheu sua íris. Mais abaixo, seu pênis ficou ereto, crescendo onde agora descansava sua palma.

- Eu realmente não deveria ficar - murmurou ela com a voz rouca e zombadora. - Não quero chegar tarde no trabalho.

Quando ela começou a se levantar, Reichen a deteve.

- Não se preocupe com isso. Conheço a mulher que dirige o lugar. Pedirei desculpas por você. Sei de fonte segura que ela gosta muito de mim.

- Você gosta dela?

Reichen grunhiu, deixando visível as pontas de suas presas com seu amplo sorriso.

- A pobre está louca por mim.

- Louca por uma coisa arrogante como você? - zombou Helene. - Querido, não se adule. Ela poderia querê-lo apenas por causa de seu decadente corpo.

- É o suficiente - respondeu ele. - Mas não ouvirá queixas minhas de maneira alguma.

Helene sorriu, sem resistir enquanto ele a puxava sobre seu colo e entregava-lhe um beijo profundo, masculino e faminto.

Ao anoitecer, Lex estava completamente recuperado do golpe que Renata lhe desferira. Sua ira - seu ódio por ela – permanecia, todavia.

Ele a amaldiçoava em sua mente enquanto se inclinavae sobre uma putrefata parede de uma casa infestada de ratos no pior subúrbio de Montreal, assistindo a um jovem humano apertar o braço com um cinto de couro velho. Com a ponta solta presa entre os dentes quebrados e cariados, o drogado cravou a agulha de uma imunda seringa em um lugar cheio de crostas e hematomas que percorriam o esquálido braço. Gemeu enquanto a heroína entrava em sua corrente sanguínea.

- Ah, caramba, cara! - soltou um trêmulo suspiro enquanto liberava seu torniquete e caía para trás contra um colchão podre no chão. Correu as mãos tatuadas pelo rosto pálido e cheio de espinhas, e pelos cabelos castanhos ensebados. – Ah! Essa porcaria é das boas, cara.

- Sim - Lex disse com a voz sem fôlego, na fria e úmida escuridão.

Não tinha economizado em drogas; o dinheiro era de pouco interesse para ele. Sem dúvida o drogado que vendia o corpo nas ruas nunca tinha ganhado tanto dinheiro. Lex estava disposto a apostar que os serviços pessoais do jovem nunca haviam alcançado uma soma tão alta. Ele tinha saltado no interior do carro quando Lex parou e lhe mostrou cem dólares e um pacote de heroína.

Lex moveu a cabeça e olhou como o humano saboreava sua dose de alívio. Eles estavam sozinhos no miserável quarto de um edifício abandonado. O lugar tinha sido invadido por vagabundos e viciados quando chegaram, mas só levou uns minutos para Lex – e uma irresistível ordem mental, cortesia de sua linhagem de segunda geração da Raça - conduzir os humanos para fora e deixar que ele exercesse sua atividade sem ser incomodado.

Ainda deitado no chão, o drogado tirou a camisa regata e começou a desabotoar os folgados e imundos jeans azuis. Acariciou-se grosseiramente enquanto abria a braguilha, os olhos turvos rolando em seu crânio, buscando distraidamente através da escuridão.

- Então, quer que eu chupe seu pau ou o quê, cara?

- Não - Lex disse, enojado apenas com a ideia.

Ele afastou-se de sua posição, cruzando o quarto, e caminhou lentamente em direção ao drogado. Por onde começar com ele?, perguntou-se preguiçosamente. Tinha que esgotar essa coisa com cuidado ou teria de voltar para a rua e procurar outra pessoa.

Esbanjando seu tempo precioso.

- Prefere minha bunda, então, cara? - comentou o michê. - Se quiser me comer, vai ter de pagar o dobro. Essa é minha regra.

A risada de Lex foi baixa e genuinamente divertida.

- Não estou interessado em comer você. Já é suficientemente mau que tenha que olhar para você, que tenha que sentir seu cheiro repugnante. O sexo não é a razão pela qual está aqui.

- Bem, o que diabos você quer então? – ao dizer isso, uma nota de pânico cortou o ar, um súbito golpe de adrenalina humana que os sentidos de Lex facilmente detectaram. - Estou seguro que não me trouxe aqui para uma conversa educada.

- Não - Lex concordou.

- Está bem. Está bem, que porra eu pareço para você, seu merda?

Lex sorriu.

- Uma isca.

Com movimentos tão rápidos que nem sequer o olho humano mais aguçado poderia seguir, Lex estendeu a mão e derrubou o drogado no chão. O vampiro tinha uma faca na mão e cravou-a no macilento abdômen do humano, rasgando-lhe a pele.

O sangue surgiu da ferida, quente, úmido e perfumado.

- Ah, Jesus! - gritou o humano. - Ah, meu Deus! Você me apunhalou!

Lex recuou e deixou que o homem caísse sobre o chão. Era tudo que podia fazer para não investir contra o drogado com uma sede cega.

A transformação física de Lex foi rápida, provocada pela súbita presença de sangue fresco fluindo. Sua visão se aguçou enquanto suas pupilas se estreitavam, um brilho âmbar lavava o quarto enquanto seus olhos transformavam-se nos de um predador. Suas presas alargaram-se atrás de seus lábios e a saliva inundou-lhe a boca enquanto a urgência de se alimentar crescia.

O drogado estava soluçando agora, emitindo sons patéticos enquanto apertava a enorme ferida em seu estômago.

- Você está louco, seu merda? Podia ter me matado!

- Ainda não - respondeu Lex entre suas presas.

- Tenho que sair daqui - murmurou o homem. - Tenho que conseguir ajuda...

- Fique - ordenou Lex, sorrindo enquanto a mente do homem murchava sob aquela ordem.

Teve que se obrigar a manter distância. Deixar que a situação se esvaísse enquanto pudesse. Uma ferida no estômago sangrava rápido, mas a morte viria lentamente. Lex precisava dele vivo durante um tempo longo o suficiente para que o cheiro do sangue viajasse pela rua e entrasse nos becos dos arredores.

O humano que tinha comprado era meramente uma isca pronta para ser jogada na água. Lex procurava atrair um peixe maior.

Sabia tão bem como qualquer outro membro da Raça que nada atraía um vampiro mais rápido - e mais certeiramente – do que uma presa humana sangrando. E fazer isso em um ponto obscuro da cidade, onde até mesmo a escória da sociedade humana adentrava um estado de terror secreto, Lex presumia, atrairia a presença de Renegados.

Não se decepcionou.

Os dois primeiros vieram farejando ao redor da casa abandonada em minutos. Os Renegados eram viciados sem esperança, tanto quanto o drogado que agora se aconchegava em posição fetal, chorando em silêncio no chão, enquanto sua vida se apagava lentamente.

Embora poucos da Raça se perdessem na luxúria do sangue – a permanente e insaciável sede de sangue –, aqueles que raramente o faziam jamais se libertavam. Viviam nas sombras, monstros selvagens sem raízes, cujo único objetivo era viver alimentando sua fome.

Lex escondeu-se no canto do quarto enquanto os dois predadores se arrastavam para dentro. Eles imediatamente caíram sobre o humano, rasgando-o com presas que nunca se desvaneciam, os olhos ardendo com a cor e o calor do fogo.

Outro Renegado encontrou o quarto. Este era maior do que os outros, mais brutal enquanto se jogava para a matança e começava a alimentar-se. Uma briga explodiu entre os selvagens. Os três se pegaram como cães raivosos. Batendo os punhos, os dedos e as presas estripando a carne e os ossos, cada macho poderoso lutava viciosamente para ganhar um pedaço da presa.

Lex olhava paralisado. Aturdido pela violência e bêbado pelo cheiro de tanto sangue derramado, humano e da Raça.

Olhou e esperou.

Os Renegados lutaram um contra o outro até a morte, como animais selvagens que eram. No final, só um deles demonstraria ser o mais forte.

E era desse que Lex precisava.

Após um dia inteiro esperando o anoitecer, Nikolai agora tinha outras duas horas para passar antes de poder tomar seu voo de volta para Boston.

O guerreiro considerou seriamente não ir ao aeroporto e viajar a pé, mas até mesmo com sua resistência da Raça e sua hipervelocidade, mal atravessaria o estado de Vermont antes que o amanhecer o obrigasse a esconder-se de novo. E, francamente, a ideia de dormir em um celeiro com um bando de animais agitados não o empolgava a colocar um tênis e pegar a estrada.

Portanto, esperaria.

Maldição.

Ele e a paciência nunca foram amigos íntimos e, quando o sol finalmente se pôs e ele pode sair do refúgio, Niko já estava à beira da insanidade.

Supôs que aquele aborrecimento o guiava pelos subúrbios de Montreal, onde esperava encontrar algo divertido para fazer enquanto o mau humor passava. Não se preocupava em como usaria o tempo, mas havia deliberadamente procurado a única região da cidade onde a probabilidade de encontrar uma razão para usar seus punhos ou suas armas eram maiores.

Naquele conjunto de becos infestados de ratos, suas escolhas imediatas eram limitadas aos traficantes - de drogas ou de pessoas - e prostitutas de ambos os gêneros, sem discriminação. Mais de um idiota o olhou enquanto ele andava pela rua sem direção aparente. Alguém foi inclusive suficientemente estúpido para mostrar a ponta de uma faca enquanto passava, mas Niko só se deteve e deu ao bastardo desdentado um sorriso de orelha a orelha, mostrando suas presas como um convite e, rapidamente, a ameaça desapareceu.

Embora não fosse contra tipo algum de confronto, a luta contra humanos estava abaixo de sua capacidade. Preferia um desafio maior. O que ele realmente queria encontrar agora era um Renegado. No verão passado, Boston estivera afundada até os joelhos de vampiros viciados em sangue. A luta tinha sido dura e pesada - com pelo menos uma perda trágica para a Ordem -, mas Nikolai e o resto dos guerreiros tinham completado sua missão de manter a cidade limpa.

Outras zonas metropolitanas ainda perdiam civis ocasionalmente por conta da luxúria por sangue, e Niko apostaria seu testículo esquerdo que Montreal não era diferente. Mas além dos cafetões, traficantes e prostitutas, aquela extensão de tijolo e asfalto estava tão morta quanto a cripta na qual ele tinha sido forçado a passar o dia.

- Ei, querido - a mulher sorriu para ele de uma porta coberta de sombras enquanto ele passava. - Busca algo específico ou está apenas olhando as vitrines?

Nikolai grunhiu, mas se deteve.

- Sou um cara diferente.

- Bem, possivelmente tenho o que você precisa - ela sorriu e se moveu de sua pose sobre o degrau de concreto. - De fato, tenho exatamente o que você precisa, querido.

Ela não era uma beleza, com seus quebradiços e desgrenhados cabelos, olhos apagados e pele pálida, mas Nikolai não esperava gastar muito tempo olhando sua cara. Ela cheirava bem, seu desodorante e o spray de cabelo podiam ser considerados fragrâncias de aroma limpo. Para os sentidos afiados de Niko, a mulher cheirava a cosméticos e perfumes, com um toque de uso recente de drogas que exalava por seus poros.

- O que diz? - perguntou ela, aproximando-se furtivamente. - Quer ir a algum lugar? Se tiver vinte dólares, terá meia hora.

Nikolai observou a pulsação no pescoço da mulher. Já fazia vários dias que não se alimentava. E ele tinha duas horas pela frente sem fazer nada...

- Sim - disse assentindo. - Vamos.

Ela pegou a mão dele e o guiou, virando a esquina onde ficava o edifício, rua abaixo em direção a um beco vazio.

Nikolai não perdeu tempo. Mal se distanciaram de potenciais observadores, tomou a cabeça da mulher em suas mãos e despiu seu pescoço para mordê-la. Seu grito assustado foi esmagado imediatamente quando ele afundou as presas na veia saltante e começou a beber.

O sangue da mulher era medíocre – o habitual cobre pesado das células vermelhas humanas, mas enlaçadas com uma acidez doce e amarga das pedras de heroína e cocaína que ela tinha usado durante seu trabalho à noite. Nikolai tragou vários goles, sentindo o fluxo de energia do sangue através de seu corpo em uma baixa vibração. Não era raro para um vampiro da Raça excitar-se com o ato de se alimentar. A resposta era puramente física, um despertar de células e músculos.

O fato de seu pênis estar completamente ereto e exigindo alívio não o surpreendeu, mas sim o fato de sua cabeça estar nadando em pensamentos sobre uma mulher com cabelos escuros - uma mulher que ele não tinha intenção de ver de novo - que fazia Niko ficar em estado de alerta.

- Humm, não pare - sua companheira humana se queixou, puxando sua boca de volta à ferida no pescoço. Ela também estava sentindo os efeitos da alimentação, cativada como todos os humanos ficavam quando eram mordidos pela Raça. - Não pare, querido.

A visão de Nikolai estava alagada de fogo âmbar enquanto ele abraçava de novo a garganta da mulher. Sabia que ela não era Renata, mas enquanto suas mãos roçavam as pernas nuas por baixo da saia curta que ela usava, ele se imaginou acariciando as belas e longas coxas de Renata. Imaginou que era o sangue de Renata que o alimentava, que era o corpo de Renata que respondia tão apaixonado ao seu contato.

Eram os febris ofegos de Renata que o guiavam enquanto ele rasgava a calcinha barata com uma mão e usava a outra para libertar-se da própria calça.

Precisava estar dentro dela.

Precisava...

Caramba.

Uma ligeira brisa formou redemoinhos através do beco, trazendo consigo o fedor de vampiros Renegados. E havia muito sangue derramado também. Sangue humano. Muito, muito sangue, mesclado com o cheiro vil de Renegados sangrando.

- Jesus Cristo.

Que porra estava acontecendo?

Ele puxou a saia da mulher para baixo e lambeu-lhe a ferida do pescoço, selando sua mordida.

- Pedi que não parasse...

Mas Niko nem lhe deu tempo de terminar seu pensamento. Pondo a palma sobre sua testa, apagou tudo de sua mente.

- Saia daqui - disse.

Niko já estava correndo pelo beco quando ela saiu de seu atordoamento e começou a caminhar. O guerreiro seguiu seu olfato até um dilapidado edifício não longe de onde estava. Aquele fedor emanava do interior da construção, alguns apartamentos acima da rua.

Nikolai subiu a escada de incêndio até o segundo andar. Seus olhos estavam virtualmente marejados pelo entristecedor aroma de morte que saía daquele andar. Com a mão sobre a pistola embainhada em seu quadril, Niko se aproximou. Não havia sons do outro lado da maltratada porta cheia de pichações. Apenas morte – humana e vampírica. Niko girou o trinco e se preparou para o que encontraria.

Tinha sido um massacre.

Um aparente drogado permanecia em posição fetal entre refugos de seringas e outros lixos que cobriam o chão cheio de sangue. O corpo do drogado estava tão arruinado que era praticamente irreconhecível como humano, apenas o sexo era distinguível. Os outros dois corpos foram atacados ferozmente também, mas definitivamente eram da Raça, ambos Renegados, a julgar pelo tamanho e pelo cheiro deles.

Nikolai pôde imaginar o que ocorrera ali: uma batalha letal por causa da presa. A luta era recente, provavelmente tinha ocorrido apenas alguns minutos atrás. E os dois chupadores de sangue mortos não teriam sido capazes de se destruir antes que um ou outro caísse.

Havia pelo menos mais um Renegado envolvido naquela briga.

Se Niko tivesse sorte, o vencedor ainda poderia estar na região, lambendo suas feridas. Esperava que sim, porque adoraria dar ao bastardo doente uma prova de sua pistola 9 mm. Nada poderia desejar “tenha um bom dia” tão bem quanto a veia sanguínea corrompida de um Renegado encontrando uma fusão alérgica de uma dose venenosa de titânio.

Nikolai foi para a janela fechada e puxou os painéis presos. Se estava procurando ação, ele tinha encontrado - e aos montes. Abaixo, na rua, havia um Renegado enorme. Estava ensanguentado e maltratado.

Mas, maldito seja! Ele não estava sozinho.

Alexei Yakut estava com ele.

Incrivelmente, Lex e o Renegado caminhavam para um sedan que os esperava e entraram.

- Que porra está acontecendo? - murmurou Niko enquanto o carro arrancava e saía pela rua.

O guerreiro esteve a ponto de saltar pela janela aberta e seguir a pé quando um grito estridente soou atrás dele. Uma mulher tinha andado até a área da matança e agora gritava de terror, com um dedo acusador apontando na direção de Niko. Ela gritou suficientemente alto mais uma vez, despertando a atenção de cada drogado e traficante da vizinhança.

Nikolai olhou para a testemunha e para a sangrenta evidência de uma luta que parecia tudo, menos humana.

- Maldição - grunhiu, olhando por cima do ombro a tempo de ver o carro de Lex desaparecer ao virar a esquina.

- Está bem - disse à mulher enquanto deixava a janela e se aproximava dela. - Você não viu nada.

Apagou sua memória e a tirou do quarto. Então, pegou uma faca de titânio e cravou-a nos restos de um dos Renegados mortos.

Enquanto o corpo começava a se dissolver, Niko se preparou para limpar o resto da bagunça que Lex e seu insólito sócio haviam deixado para trás.


Capítulo 12

Renata estava no balcão da cozinha da propriedade de Sergei Yakut, com uma faca na mão.

- Que tipo de geleia quer esta noite: uva ou morango?

- Uva - respondeu Mira. – Não, espere. Quero de morango.

A menina estava sentada na beira da bancada de madeira ao lado de Renata, suas pernas penduradas e seus braços cruzados. Vestida com uma camiseta púrpura, calças azuis desgastadas e um velho par de tênis, Mira poderia se passar por qualquer outra menina esperando o jantar. Mas as meninas normais não eram obrigadas a comer a mesma coisa praticamente todos os dias. As pequenas meninas normais tinham famílias que as amavam e cuidavam delas. Viviam em casas bonitas, em ruas bonitas e arborizadas, com cozinhas brilhantes, despensas cheias e com mães que sabiam preparar refeições maravilhosas.

Pelo menos, isso é o que Renata imaginava quando pensava na representação ideal de uma família normal. Ela não imaginava isso baseada em algum tipo de experiência pessoal. Como menina de rua antes que Yakut a encontrasse e a levasse para casa, Mira tampouco sabia o que era normal. Mas era esse tipo saudável, o tipo de vida normal, que Renata desejava para a garota, embora aquilo parecesse um desejo insignificante ali, de pé na cozinha imunda de Sergei Yakut, ao lado de um fogão que provavelmente não funcionava, embora tivesse gás correndo nele.

Como Renata e Mira eram as únicas na cabana que se alimentavam de comida, Yakut tinha deixado em suas mãos que ela e a menina se alimentassem regularmente. Renata não prestava realmente atenção em sua alimentação e odiava não ser capaz de oferecer a Mira algo agradável de vez em quando.

- Um dia sairemos e teremos um jantar de verdade, com cinco pratos diferentes. Além de sobremesa - acrescentou, passando a geleia de morango em uma fatia de pão branco. - Talvez tenhamos duas sobremesas cada uma.

Mira sorriu sob o curto véu negro que lhe caía sobre a pequena ponta do nariz.

- Será que a sobremesa será de chocolate?

- De chocolate. Com certeza. Tome, pegue - disse, entregando o prato com um sanduíche de geleia.

Renata se apoiou no balcão enquanto Mira cortava uma pequena parte do sanduíche e comia como se fosse tão delicioso como qualquer menu de cinco pratos que pudesse imaginar.

- Não se esqueça de tomar seu suco de maçã.

- Está bem.

Renata cravou o canudo na caixa de suco e colocou-a ao lado de Mira. Depois, começou a limpar o balcão. Cada músculo de seu corpo feminino se retesou quando ela ouviu a voz de Lex na cozinha.

Ele havia saído ao anoitecer. Renata realmente não sentiu sua falta, mas não se perguntou o que esteve fazendo desde que saiu. A resposta para aquela pergunta veio na forma de uma gargalhada de mulher bêbada - várias mulheres bêbadas, pelo som do riso e os chiados atravessando a área principal da cabana.

Lex frequentemente levava mulheres humanas para casa para servir seu exército com sangue e diversão. Às vezes, ele as mantinha lá por vários dias. Geralmente compartilhava suas presas com os outros guardas, todos as usavam e apagavam o ataque de suas mentes antes de devolvê-las às suas vidas. Estar sob o mesmo teto que Lex quando ele estava bem-humorado a deixava enojada, mas o que mais lhe enfurecia era o fato de Mira ser exposta àqueles jogos macabros.

- O que está acontecendo ali fora, Rê? - perguntou.

- Termine seu sanduíche - disse Renata a Mira quando a garota parou de comer para escutar o alvoroço na outra sala. - Fique aqui. Volto já.

Renata saiu da cozinha e atravessou o corredor.

- Bebam, senhoritas! - gritou Lex, deixando cair uma caixa de garrafas de licor no sofá de couro.

Ele não consumiria álcool, nem os outros favores que oferecia na festa. Tirou alguns sacos plásticos brancos e enrolados, cada um bastante cheio com o que provavelmente era cocaína, e os jogou sobre a mesa. O sistema de som foi ligado, um baixo vibrando fortemente sob a letra de um hip-hop.

Lex agarrou a morena curvilínea com risada frívola e a colocou sob seu braço.

- Eu lhe disse que teríamos muita diversão! Agora venha aqui e me mostre sua gratidão.

Certamente Lex estava em um raro estado de ânimo, de bom humor. E não era um milagre. Retornou com um bom grupo: cinco mulheres vestidas com saltos altos, pequenos tops e microssaias. A princípio, Renata achou que eram prostitutas, mas observando-as mais de perto, estavam muito limpas e muito frescas sob toda a maquiagem pesada para fazerem parte da vida das ruas. Provavelmente eram apenas garotas ingênuas do clube, que não tinham se dado conta de que o persuasivo e atraente homem que as recolheu era na realidade alguém saído de um pesadelo.

- Venham e conheçam meus amigos - Lex disse ao grupo de mulheres enquanto se dirigia até os outros machos da Raça para mostrar a eles a captura da noite. Houve um momento de apreensão evidente enquanto os quatro guardas fortemente armados olhavam lascivamente seus aperitivos humanos. Lex empurrou três mulheres para os ansiosos vampiros.

- Não sejam tímidas, garotas. Esta é uma festa, afinal. Vão e digam olá.

Renata percebeu que ele estava retendo as duas garotas mais bonitas. Típico de Lex, obviamente tinha reservado o melhor para ele. Renata estava a ponto de girar e voltar à cozinha – e tentar ignorar a orgia sangrenta que estava a ponto de começar. Mas, antes que pudesse dar dois passos, Sergei Yakut apareceu trovejando de seus aposentos privados.

- Alexei! - a fúria vibrava do vampiro mais velho em ondas de calor. Ele olhou Lex com olhos brilhantes cor de âmbar. – Você esteve fora durante horas. Por onde andou?

- Estive na cidade, pai – Lex esboçou um sorriso generoso, como se dissesse que seu tempo fora de suas obrigações não fosse inteiramente para servir suas próprias necessidades. - Olhe o que eu trouxe.

Lex afastou uma das mulheres de seu abraço para que Yakut a inspecionasse. Yakut nem olhou para o prêmio que Lex lhe oferecia, só olhou para as duas mulheres que Lex guardava para si.

O Primeira Geração grunhiu.

- Você tira porcaria da sola de seu sapato e me diz que é ouro?

- Nunca - respondeu Lex. - Pai, eu nunca...

- Bem. Estas duas serão minhas - disse, indicando as mulheres que Lex havia reservado para si.

Furioso como deveria estar, humilhado com a espetada em seu orgulho, Lex não disse palavra alguma. Baixou o olhar e esperou em silêncio que Yakut recolhesse suas duas companheiras e se dirigisse com elas para seus aposentos privados.

- Não queremos ser incomodados - Yakut ordenou sombriamente. - Por razão alguma.

Lex assentiu em uma reverência contida.

- Sim, pai. Claro. Como quiser.

Nikolai ouviu a música e as vozes antes mesmo de estar a quinhentos metros da propriedade de Yakut. Aproximou-se, movendo-se através do bosque como um fantasma, passando pelo carro de Lex, estacionado na parte de trás, com o capô ainda quente por causa da viagem à cidade.

Niko não estava seguro do que encontraria. Não esperava uma maldita festa, mas isso era o que parecia estar acontecendo dentro da casa principal. O lugar estava iluminado como uma árvore de natal, as luzes saíam das janelas da sala, onde alguém estava entretido com várias mulheres. Um rap pesado vibrava por todo o caminho de terra por baixo das botas de Nikolai enquanto ele se aproximava pelo lado da construção e lançava uma olhada para dentro.

Lex estava lá, muito bem. Ele e o resto dos guarda-costas de Yakut, reunidos todos em uma sala rústica. Três mulheres jovens dançavam nos tapetes de pele vestidas somente com roupas íntimas, todas claramente embriagadas, tendo em vista a quantidade de bebidas alcoólicas e drogas sobre a mesa mais próxima. Os quatro guardas da Raça uivavam e as animavam, provavelmente a segundos de se jogarem sobre seus corpos ingênuos.

Lex, enquanto isso, estava sentado, curvado em um sofá de pele, os olhos escuros fixos nas mulheres apesar de seus pensamentos parecerem estar a quilômetros de distância. Não havia sinal do malicioso Lex que esteve na cidade. Tampouco havia sinais de Sergei Yakut, e o fato de a segurança inteira estar entretida com aquele pequeno espetáculo fez os instintos de Niko mudarem para o alerta vermelho.

- Que demônios está acontecendo? - Niko pronunciou baixo.

Mas ele sabia a resposta inclusive antes que começasse a mover-se pela parte posterior da propriedade, onde ficavam os aposentos de Yakut - lá, um sutil, porém persistente aroma, confirmou o pior temor de Niko.

Maldito seja! Havia um Renegado ali.

Nikolai também sentiu o cheiro de sangue fresco derramado, proveniente de um humano. O aroma era quase entristecedor quanto mais se aproximava do quarto de Yakut. Sangue e sexo, para ser exato, como se o Primeira Geração estivesse fazendo um banquete.

Um grito repentino irrompeu na noite.

De mulher. Um som de terror total, vindo de dentro do quarto de Yakut.

Depois, disparos amortecidos.

Pá, pá, pá!

Nikolai voou através da porta traseira do refúgio, sem se surpreender ao encontrá-la destrancada e parcialmente aberta. Irrompeu no quarto de Yakut com sua pistola semiautomática na mão, pronta para lançar a carga completa de balas de titânio reforçado.

A cena que o saudou era uma carnificina total.

Na cama estava Sergei Yakut, esparramado nu em cima de uma mulher presa sob seu corpo sem vida, com a garganta rasgada onde o vampiro esteve se alimentado apenas alguns segundos antes. Ela não se movia e não havia cor em sua pele ou no cabelo, já que a maior parte dela estava coberta pelo sangue de Yakut e também por seu próprio.

Faltava a metade do rosto do Primeira Geração. A cabeça de Sergei Yakut era pouco mais do que pedaços de osso, tecido e sangue restantes das três balas que tinham sido disparadas a queima-roupa na parte posterior de seu crânio. Ele estava morto e o Renegado que o matara estava também preso pelo desejo de sangue, a ponto de não se dar conta da presença de Nikolai. O filho da mãe tinha deixado a pistola que tinha utilizado para matar Yakut e agora estava ocupado com a outra mulher, também nua, que tinha sido apanhada no canto do quarto. Seus olhos estavam voltados para trás e ela não se movia. Caramba, ela também não estava respirando, embora o Renegado seguisse bebendo dela em seu pescoço destroçado pelas presas enormes.

Niko se moveu por trás do filho da mãe e colocou o canhão da arma contra sua cabeça desgrenhada. Apertou o gatilho e provocou explosões de titânio no cérebro do canalha. O Renegado caiu no chão, retorcendo-se com espasmos por causa do golpe. O titânio fez efeito rápido e o vampiro moribundo lançou um grito tão forte que sacudiu as velhas vigas de madeira da cabana como um trovão.

Renata saiu voando da cozinha com sua pistola pronta. Seus sentidos de batalha estavam esticados como cordas de piano, o crepitar de disparos distantes e o uivo desumano que o seguiram, procedentes do outro lado do refúgio. A música seguia soando na grande sala. As visitantes de Lex já não estavam vestidas e seguiam estridentes com o contínuo fluxo de drogas e álcool. As mulheres estavam sobre os guardas que, pelo olhar faminto, não notariam se uma bomba explodisse no quarto ao lado.

- Idiotas - Renata os acusou baixo. - Nenhum de vocês escutou isso?

Lex levantou os olhos, a preocupação obscureceu sua expressão, mas ela realmente não estava esperando uma reação por parte dele. Ela correu para o corredor do quarto de Yakut. O corredor estava escuro, o ar parado. Tudo muito silencioso. Muito parado.

A morte dependurava-se como um véu, quase asfixiante, enquanto ela se aproximava da porta aberta do alojamento do vampiro.

Sergei Yakut já não estava vivo; Renata sentiu em seus ossos. Pólvora, sangue e um entristecedor aroma adocicado de podridão a advertiram de que ela caminhava para algo terrível. Todavia, nada poderia tê-la preparado realmente para o que viu quando empurrou a porta com a arma levantada e sustentada com ambas as mãos, pronta para matar quem estivesse em seu caminho.

A visão de toda aquela morte, todo aquele sangue, toda aquela violência pegou Renata de surpresa. A morte estava por toda parte: na cama, no chão, nas paredes.

E também no corpo inerte de Sergei Yakut.

Nikolai estava no centro da carnificina, seu rosto e a camisa escura estavam salpicados de cor escarlate. Em sua mão havia uma grande pistola semiautomática, a ponta do cano ainda fumegante por seu recente disparo.

- Você? - a palavra deslizou dos lábios de Renata, a comoção e a incredulidade como uma bola de gelo em seu intestino. Olhou o corpo de Yakut – seus restos - espalhado sobre a cama, em cima da mulher sem vida.

- Meu Deus - ela sussurrou, surpreendida ao vê-lo na propriedade de novo, mas ainda mais surpresa pelo resto do que estava vendo. – Você... você o matou.

- Não - o guerreiro disse movendo a cabeça sombriamente. – Eu não o matei, Renata. Havia um Renegado aqui com Yakut – disse indicando a grande massa de fumegantes cinzas no chão, a fonte do aroma ofensivo. - Eu matei o Renegado, mas era muito tarde para salvar Yakut. Sinto muito.

- Abaixe a arma – ela disse, sem se interessar pelas desculpas. Ela não precisava delas. Renata sentiu pena pelo final violento de Yakut, um sentimento de incredulidade a surpreendeu por ele estar realmente morto. Mas não havia dor. Nada que absolvesse Nikolai de sua aparente culpa. Apontou firmemente para seu alvo e entrou um pouco mais no quarto. – Abaixe a arma. Agora.

Mas Niko manteve o controle firme de sua pistola 9 mm.

- Não posso fazer isso Renata. Não o farei, não enquanto Lex estiver respirando.

Ela franziu a testa, confusa.

- O que tem Lex?

- Este assassinato foi obra dele, não minha. Ele trouxe o Renegado aqui. Trouxe as mulheres para distrair os guardas e Yakut para que o Renegado pudesse se aproximar o suficiente para matá-lo.

Renata escutou, mas manteve o alvo sob sua mira. Lex era uma víbora, certo, mas um assassino? Realmente planejaria a morte de seu próprio pai?

Só então Lex e os outros guardas se aproximaram pelo corredor.

- O que aconteceu? Algo errado...

Lex se calou quando chegou à porta aberta do quarto do pai. Em sua visão periférica, Renata o viu olhar primeiro o corpo de Yakut na cama e, depois, Nikolai. Cambaleou para trás – um passo, não muito mais do que uma pausa. Então explodiu com muita raiva.

- Filho da mãe! Maldito assassino filho da mãe.

Lançou-se, mas foi uma tentativa em vão, que abandonou completamente quando a pistola de Nikolai girou em sua direção. O guerreiro não fraquejou, nem o olhar nem um músculo sequer de seu corpo. Estava completamente calmo enquanto olhava Lex pelo canhão da arma, inclusive quando a arma de Renata e a dos outros guardas apontavam para ele.

- Vi você na cidade esta noite, Lex. Eu estava lá. Na casa do drogado, a isca que você usou para atrair os vampiros Renegados. O filho da mãe que você trouxe esta noite pra cá. Eu vi tudo.

Lex zombou.

- Foda-se você e suas mentiras! Você não viu porra nenhuma, maldito!

- O que você prometeu ao Renegado em troca da cabeça de seu pai? Dinheiro não importa aos viciados em sangue. A vida de quem você ofereceu como prêmio? A de Renata? Talvez a da garota, Mira?

O peito de Renata se apertou diante daquele pensamento. Atreveu-se a dar uma rápida olhada em Lex e o encontrou friamente zombador diante do guerreiro, dando uma leve sacudida de cabeça.

- Você dirá qualquer coisa nesse momento para salvar o seu pescoço. Nada funcionará. Não quando você mesmo ameaçou a vida de meu pai não faz nem vinte horas. - Lex girou para ver Renata. - Você também o escutou, não foi?

Ela assentiu contrariada, recordando como Nikolai deu a Sergei Yakut uma advertência pública de que alguém precisava detê-lo.

Agora Nikolai tinha retornado e Yakut estava morto.

Mãe do Céu, ela pensou, olhando uma vez mais o corpo sem vida do vampiro que a manteve prisioneira pelos últimos dois anos. Ele estava morto.

- Meu pai não estava correndo perigo algum até que a Ordem entrou no jogo - Lex disse. - Uma tentativa fracassada, e agora isso, um banho de sangue. Você esperou para fazer seu movimento. Você e o Renegado que trouxe com você esta noite, esperando uma oportunidade para atacar. Só posso deduzir que veio matar meu pai desde o começo.

- Não - disse Nikolai, com um brilho de luz âmbar em seus olhos azuis de inverno. - Quem estava esperando para matá-lo era você, Lex.

Em uma fração de segundo, ela viu os tendões de Nikolai flexionarem-se enquanto seu dedo começava a pressionar o gatilho da arma, e disparou nele uma forte explosão mental. Por menos consideração que tivesse por Alexei, ela não podia deixá-lo morrer naquela noite. Nikolai rugiu, a coluna vertebral arqueada, o rosto retorcendo de dor.

Mais efetiva que as balas, a explosão o derrubou de joelhos em um instante. Os quatro guardas irromperam no quarto e tomaram-lhe a pistola e o resto das armas. Os canhões de quatro revólveres foram colocados na cabeça do guerreiro, à espera de ordens para matar. Um dos guardas armou o gatilho, ávido pelo derramamento de sangue, embora o quarto já estivesse repleto.

- Abaixem as armas – disse Renata. Olhou Lex, cujo rosto estava repleto de ira, seus olhos azuis e brilhantes, suas presas afiadas visíveis entre os lábios entreabertos. – Diga-lhe para que se retirem, Lex. Matá-lo apenas nos fará assassinos a sangue frio.

Incrivelmente, Nikolai começou a rir. Levantou a cabeça, com um esforço evidente, enquanto a explosão ainda o detia.

- Ele tem que me matar, Renata, porque não pode arriscar-se a ter uma testemunha. Não é verdade, Lex? Ninguém pode caminhar por aí sabendo seu segredo sujo.

Lex tirou sua própria pistola e se dirigiu diretamente a Nikolai. Colocou o canhão da pistola contra a testa do guerreiro. Grunhiu, seu braço tremendo pela ferocidade de sua raiva. Renata estava imóvel, horrorizada diante do medo de que ele, de fato, apertasse o gatilho. Ela estava perdida, uma parte dela queria acreditar no que Nikolai dissera – que era inocente – e outra parte estava temerosa em acreditar. O que havia dito de Lex simplesmente não podia ser verdade.

- Lex - ela disse, o único som no quarto. – Lex... não faça isso.

Ela estava a menos de uma pausa de golpeá-lo como tinha feito a Nikolai quando a arma lentamente foi baixada.

Lex rosnou, deixando-a um pouco mais tranquila.

- Eu gostaria de uma morte mais lenta para esse bastardo do que a que sou capaz de lhe dar. Levem-no para a sala principal e prendam-no - disse aos guardas. – Depois, alguém se encarregue de cuidar do corpo de meu pai. Tirem as garotas que estão no outro cômodo da propriedade. Quero todo este caos sangrento limpo imediatamente.

Lex voltou-se com um olhar sombrio para Renata quando os guardas começaram a arrastar Nikolai para fora do quarto.

- Se ele tentar algo, descarregue toda a sua força nesse filho da mãe.


Capítulo 13

- Pardonnez-moi, monsieur Fabien. Há uma chamada telefônica para o senhor. De um monsieur chamado Alexei Yakut.

Edgar Fabien fez um gesto desdenhoso para o macho da Raça que o servia como secretário pessoal e continuou admirando no espelho do armário o corte de suas calças feitas sob medida. Ele estava experimentando um traje novo e, naquele momento, nada que Alexei Yakut tivesse a lhe dizer era suficientemente importante para justificar uma interrupção.

- Diga-lhe que estou em uma reunião e não posso ser incomodado.

- Desculpe-me, senhor, mas já o informei que o senhor está indisponível. Ele diz que é um assunto urgente que requer sua imediata atenção.

Com uma reflexão, Fabien olhou para trás furiosamente por baixo das pálidas sobrancelhas arrumadas. Não se esforçou para ocultar os sinais externos de sua irritação crescente, que se mostraram pelo brilho âmbar de seus olhos e pela repentina agitação das cores de seus dermoglifos, que formavam redemoinhos e um arco sobre seu peito nu e seus ombros largos.

- Basta - disse ao alfaiate enviado da loja Givenchy do centro da cidade. O humano recuou imediatamente, recolhendo seus alfinetes e sua fita métrica e obedientemente se afastando às ordens de seu Mestre. Ele pertencia a Fabien – um dos muitos Subordinados que o vampiro da Raça de segunda geração empregava pela cidade. - Fora daqui, vocês dois.

Fabien desceu do soalho do armário e se aproximou do telefone que estava na mesa. Esperou até que ambos os serventes tivessem abandonado o quarto e a porta fosse fechada atrás deles.

Com um grunhido, tomou o aparelho e apertou o botão que piscava para conectar-se à chamada de Alexei Yakut.

- Sim - sussurrou ele com frieza. - Qual é o assunto urgente que simplesmente não pode esperar?

- Meu pai está morto.

Fabien balançou sobre seus calcanhares, realmente surpreendido pela notícia. Exalou um suspiro com a intenção de soar aborrecido.

- Que conveniente para você, Alexei. Terei que oferecer felicitações junto com minhas condolências?

O herdeiro aparente de Sergei Yakut ignorou a alfinetada.

- Havia um intruso na mansão esta noite. De algum modo, ele conseguiu entrar sigilosamente no lugar. Matou meu pai em sua cama, a sangue frio. Ouvi a perturbação e tentei intervir, mas... bem... Era muito tarde para salvá-lo. Estou desolado, certamente.

Fabien grunhiu.

- Obviamente.

- Mas supus que você devesse ser notificado a respeito do crime. E também suspeitei que você e a Agência viriam aqui imediatamente para deter o assassino de meu pai.

Cada célula no corpo de Fabien se deteve.

- O que está dizendo? Que tem alguém sob custódia? Quem?

Um riso baixo se escutou no outro lado da linha.

- Vejo que finalmente tenho sua atenção, Fabien. O que acharia se eu dissesse que tenho um membro da Ordem sob minha custódia, esperando por você aqui no albergue? Estou seguro de que há algumas pessoas que pensam que um guerreiro a menos para lutar seria excelente.

- Você não está realmente tentando me convencer de que esse guerreiro é responsável pela morte de Sergei Yakut, não é?

- Estou apenas dizendo que meu pai está morto e estou no comando de seus domínios agora. Digo que tenho um membro da Ordem em minhas mãos, e estou disposto a entregá-lo a você. Um presente, se quiser.

Edgar Fabien guardou silêncio durante um longo momento, considerando o imenso prêmio que Alexei Yakut lhe oferecia. A Ordem e seus membros ativos tinham poucos aliados dentro da Agência. Menos ainda dentro do círculo privado ao qual Fabien pertencia.

- E o que espera em troca desse... presente?

- Já disse quando nos conhecemos. Quero entrar. Quero uma parte em qualquer ação que você esteja tentando fazer. Uma parte grande, entende? – Lex riu, bastante cheio de si. - Você precisa de mim ao seu lado, Fabien. Penso que isso é óbvio para você agora.

A última coisa que Edgar Fabien ou qualquer de seus sócios precisava ao seu lado era um ambicioso maldito como Alexei Yakut. Ele era um perigo em potencial, alguém que teria de ser tratado com cuidado. Se Fabien tivesse que escolher, optaria por uma exterminação rápida, mas teria que ser alguém mais em última instância para fazer aquela escolha.

Quanto ao membro cativo da Ordem, isso era, de fato, intrigante. Era um presente digno a se considerar, e as muitas atraentes possibilidades que isso representava faziam o coração de quase quatrocentos anos de idade de Fabien pulsar um pouco mais rápido.

- Terei que fazer alguns... acertos - disse ele. - Pode levar uma hora, mais ou menos, para alinhar os recursos e ir até a sua casa para recuperar o prisioneiro.

- Uma hora - Alexei Yakut aceitou ansiosamente. - Não me faça esperar mais do que isso.

Fabien engoliu sua resposta ácida e terminou a chamada com um consentimento:

- Até logo então.

Sentou-se na mesa e olhou para a linha do horizonte noturno que brilhava intermitentemente à distância, bem além de seu imóvel no Refúgio. Então, dirigiu-se para o cofre e virou a fechadura da combinação, pegando a manivela para abri-lo. Dentro havia um telefone celular reservado apenas para chamadas de emergência. Ele teclou um número programado e esperou que o sinal cifrado conectasse. Quando a voz asfixiante do outro lado respondeu, Fabien disse:

- Temos um problema.

As correntes pesadas rodeavam o torso nu de Nikolai, atando-o a uma cadeira de madeira esculpida. Ele sentia restrições similares em suas mãos, que estavam presas atrás de si, e em seus pés, amarrados pelos tornozelos e presos com força contra as pernas da cadeira.

Nikolai tinha levado uma surra, e não apenas da rajada mental debilitante, cortesia de Renata. Graças àquele golpe demolidor, ficou inconsciente durante algum tempo, lutando para levantar suas pálpebras, inclusive agora. É obvio, parte da dificuldade devia-se ao fato de seu rosto ter sido golpeado e arruinado, os olhos estavam inchados, os lábios arrebentados e amargos com o sabor do próprio sangue. Ele estava muito fraco para uma verdadeira luta quando Lex e seus guardas tinham trabalhado nele como em um saco de boxe enquanto tiravam-lhe até a cueca e o arrastavam para o grande quarto da residência para esperar por seu destino.

Nikolai não sabia há quanto tempo estava sentado ali. Tempo suficiente para que suas mãos ficassem inchadas pela falta de circulação. Tempo suficiente para ter notado quando Renata passou pelo quarto, protetoramente conduzindo Mira para longe da repugnante cena. Tinha observado uma mecha de seu cabelo empapado em suor, vendo a dor e a tensão em seu rosto quando ela lançou um olhar sinistro em sua direção.

Sua reverberação provavelmente a golpeava muito duramente agora, ele supunha. Niko disse para si que a pontada que sentiu era apenas outro músculo gritando pelo abuso; ele não podia ser tão estúpido para sentir algum tipo de simpatia pelo sofrimento da fêmea. Ele não podia ser tão estúpido para se preocupar com o que ela pensava a respeito dele - isso se ela, de fato, tivesse acreditado nas acusações feitas por Lex – mas, maldição, ele realmente se importava. Sua frustração por não poder falar com Renata apenas aumentava sua dor física e sua fúria.

Do outro lado da sala, os quatro guardas examinavam as armas e as rodas de titânio com as pontas ocas feitas a mão, criações pessoais de Nikolai. Eles tinham todos os pertences do guerreiro dispostos sobre uma mesa, fora de seu alcance. O celular de Niko - seu vínculo com a Ordem - estava despedaçado no chão. Lex tinha tido o grande prazer de esmagá-lo sob sua bota antes de partir, deixando Nikolai sob a supervisão de seus guardas.

Um dos machos da Raça disse algo que fez os outros três rirem antes que girasse com a semiautomática de Niko e apontasse em sua direção. Nikolai não estremeceu. De fato, ele mal respirava, olhando pela fenda torcida de seu olho esquerdo, todos seus músculos desabados como se ainda estivesse inconsciente e inconsciente sobre o que acontecia ao seu redor.

- Que tal se o acordássemos? - brincou o guarda com a arma na mão. Ele a balançou para Niko, tentadoramente dentro do alcance de sua mão, se os braços de Niko não estivessem fortemente amarrados atrás dele. A boca da 9mm baixou lentamente, além de seu peito, logo acima de seu abdômen definido. - Eu sugiro castrarmos esse pedaço de porcaria assassino. Tiramos suas bolas e deixamos que a Agência o leve em pedaços.

- Kiril, deixe de ser idiota - um dos outros advertiu. - Lex disse que não podíamos tocá-lo.

- Lex é uma garotinha. - O polido aço negro chiou com o frio entalhe quando Kiril martelou. - Em dois segundos esse guerreiro vai ser somente uma garotinha também.

Nikolai se manteve muito quieto quando a arma foi pressionada em sua virilha. Parte de sua paciência nasceu do verdadeiro temor, já que ele era bastante aficionado por suas partes viris e não tinha desejo algum de perdê-las. Mas era inclusive mais primitivo que ele entendesse que as oportunidades de reverter a situação a seu favor eram poucas e breves. Ele tinha superado a maioria dos efeitos internos do talento de Renata, mas não podia estar seguro de sua força física a menos que tentasse.

E se tentasse agora e falhasse... bem, ele não queria contemplar as possibilidades de afastar-se sem sua virilidade intacta se tentasse escapar de suas ataduras e conseguisse apenas um disparo impulsivo de Kiril.

Uma dura palmada golpeou a lateral da sua cabeça.

- Está aí, guerreiro? Tenho algo para você. Hora de despertar.

Com os olhos fechados para ocultar a mudança da cor azul para o âmbar, Nikolai deixou que sua cabeça caísse mole com o golpe. Mas, dentro dele, a fúria começava a acender. Ele tinha que manter a calma. Não podia deixar que Kiril ou os outros vissem a mudança de seus dermoglifos e arriscar-se a mostrar que estava completamente acordado e consciente. E totalmente de saco cheio.

- Acorde! - grunhiu Kiril.

Começou a levantar o queixo de Niko, mas então um ruído fora do recinto chamou sua atenção. Cascalho salpicando e rangendo debaixo de pneus de veículos que se aproximavam. Uma frota deles, pelo som.

- A Agência está aqui - um dos outros guardas anunciou.

Kiril afastou-se de Nikolai, mas tomou seu tempo para desarmar a pistola. Do lado de fora, os veículos reduziam a velocidade, até pararem. Portas se abriram. Botas golpeando o caminho de cascalho foram ouvidas quando os Agentes do Refúgio se aproximaram. Nikolai contou mais de meia dúzia de pares de pés movendo-se para a casa.

Inferno.

Se ele não saísse daquela situação rapidamente, despertaria nas mãos da Agência. E, para um membro da Ordem, um grupo que a Agência há muito tempo desejava extinguir, a detenção faria que Lex e o tratamento de seus guardas parecesse uma temporada em um spa. Se caísse nas mãos da Agência agora, especialmente quando o acusavam de assassinar um Primeira Geração, Niko sabia, sem sombra de dúvidas, que também acabaria morto.

Lex saudou os recém-chegados como se fossem uma corte.

- Por aqui - indicou de algum lugar fora do recinto. – Prendi o filho da mãe. Ele está esperando lá dentro.

- Ele prendeu o filho da mãe - murmurou Kiril acidamente. - Duvido que Lex pudesse manter seu próprio traseiro mesmo que usasse ambas as mãos.

Os outros guardas riram cautelosamente.

- Venha - disse Kiril. - Vamos pôr o guerreiro de pé para que a Agência possa levá-lo daqui.

A esperança surgiu no peito de Niko. Se o liberassem das algemas, poderia ter uma pequena possibilidade de escapar. Muito pequena, tendo em vista o som próximo das botas e a capacidade armamentista que se dirigia em sua direção do exterior da casa. Mas pequena era muitíssimo melhor do que nenhuma.

Ele manteve o corpo sem vida na cadeira, inclusive enquanto Kiril se abaixava diante dele e tirava as correntes que estavam ao redor de seus tornozelos. A impaciência o corroía. Cada impulso de Nikolai dizia que levantasse seu joelho e golpeasse o guarda por baixo da mandíbula.

Ele teve que se reprimir com os dentes mordendo a língua para manter-se imóvel, com a respiração mais superficial que pudesse, esperando a melhor oportunidade enquanto o guarda dava a volta por trás e recolhia os cadeados que fechavam as correntes em seu torso e pulsos. Um giro da chave. Um estalo rangente do aço quando a fechadura se abriu.

Nikolai flexionou seus dedos, tomou uma respiração profunda, sem restrições.

Abriu os olhos. Sorriu abertamente aos companheiros de Kiril um instante antes de levantar os braços e agarrar a cabeça grande de Kiril com as mãos.

Com um movimento fluido, deu um giro violento e saltou para cima, fora da cadeira. As correntes caíram e Nikolai estava de pé com o forte estalo do rompimento do pescoço de Kiril.

- Santo Cristo! - gritou um dos guardas.

Alguém lançou um disparo frenético. Os outros dois procuraram por suas armas.

Niko puxou bruscamente a pistola de Kiril fora de sua cartucheira e devolveu o fogo, derrubando um guarda com uma bala na cabeça.

A situação gerou gritos de alarme no corredor. As botas começaram a golpear. Um pequeno exército de Agentes chegaria para tomar o controle da situação.

Maldito seja.

Não tinha muito tempo para fugir antes que ele estivesse contemplando os canos de não menos do que meia dúzia de pistolas em poucos segundos.

Nikolai arrastou o corpo morto de Kiril diante de si e o manteve ali como um escudo. O cadáver tomou um par de golpes rápidos quando Niko começou a se mover para trás, para a janela que ficava do outro lado do grande quarto.

Na porta agora aberta havia um grupo de Agentes vestidos de preto, todos munidos com algumas armas de fogo semiautomáticas, que o observavam bastante sérios.

- Parado, maldito!

Niko lançou um olhar por cima do ombro para a janela que estava alguns metros atrás dele. Essa era sua melhor - sua única - opção. Render-se agora e sair pacificamente com seus executores da Agência era uma alternativa que ele se negava a considerar.

Com um rugido, Niko agarrou o peso morto de Kiril e balançou o corpo para a janela de cristal. Manteve-o perto quando a janela estilhaçou, usando o cadáver do vampiro como escudo para conseguir sair do alcance do vidro quebrado e assim atravessar o improvisado buraco.

O guerreiro da Raça escutou uma ordem atrás de si – uma ordem de um dos Agentes para que abrissem fogo.

Ele sentia o ar fresco da noite sobre o rosto, sobre o cabelo e sobre o corpo nu umedecido pelo suor. Mas, antes que ele pudesse registrar o menor sabor da liberdade...

Pá! Pá! Pá!

Suas costas nuas arderam como se estivessem em chamas. Seus ossos e músculos sentiram-se flexíveis, e dentro de si dissolveu-se uma onda de bílis e ácido que lhe chamuscou a parte posterior da garganta. A visão de Nikolai mergulhou em uma escuridão repentina que o devorou. Ele sentiu a terra surgir rapidamente debaixo de si quando ele e o cadáver de Kiril caíram abaixo da janela.

Então, já não sentiu mais nada.

 

 

CONTINUA

Capítulo 10

Nikolai despertou na escuridão total, com a cabeça descansando sobre o caixão de um homem aparentemente rico de Montreal que estava morto há 67 anos. O chão de mármore do mausoléu era um pouco duro para as horas de descanso, mas tinha servido muito bem para Niko. A noite estava perigosamente perto da alvorada quando ele deixara o território de Yakut e, além disso, ele certamente já havia dormido em lugares piores do que o cemitério que tinha encontrado no extremo norte da cidade.

Com um gemido, sentou-se e abriu o telefone celular para verificar que horas eram. Merda, ainda era uma hora da tarde; tinha aproximadamente sete ou oito horas para esperar ali antes do anoitecer, quando seria seguro sair. Sete ou oito horas a mais e ele já estava angustiado pelo tempo de inatividade que teria de atravessar.

Sem dúvida alguma, Boston estaria se perguntando sobre ele agora. Niko teclou a discagem rápida que chamava o escritório central da Ordem. No meio do segundo toque, Gideon respondeu.

- Niko, pelo amor de Deus! Já estava na hora de você passar um relatório - o sotaque do inglês vago do guerreiro soou um pouco áspero. Nada surpreendente, considerando que Niko estava ligando no meio do dia. – Diga, você está bem?

- Sim, estou bem. Meu objetivo aqui em Montreal ficou ainda mais difícil de ser alcançado desde domingo, mas, fora isso, está tudo bem.

- Não conseguiu encontrar Sergei Yakut, então?

Niko riu.

- Ah, encontrei o bastardo facilmente. O Primeira Geração está vivinho e abanando o rabo. Mora ao norte da cidade em uma espécie de mansão à la Gengis Khan.

O guerreiro deu a Gideon um rápido resumo de tudo o que havia acontecido desde sua chegada a Montreal - do chute no traseiro que recebera de Renata como boas-vindas até as poucas e estranhas horas que passara no refúgio de Yakut, as quais culminaram com a localização de humanos mortos e largados na parte de trás da casa e sua subsequente expulsão de lá.

Ele descreveu a recente tentativa fracassada de acabar com a vida do Primeira Geração e o incrível papel que Mira desempenhou para frustrar tal ataque. Niko deixou de fora a parte sobre o que ele tinha visto nos olhos de Mira. Não viu razão alguma para compartilhar os detalhes daquela visão que, apesar da insistência de Renata em afirmar que Mira nunca se enganava, tinha praticamente zero chance de se realizar - não, agora havia exatamente zero chance de a visão acontecer.

Deveria ter sido um alívio para ele saber disso. A última coisa de que precisava era se meter com uma mulher, especialmente uma peça desse jogo macabro como Renata. A companheira unida pelo laço de sangue a Yakut. A ideia ainda o corroía, muito mais do que deveria, aliás. E ele não se sentia particularmente bem com o fato de que a mais leve lembrança daquele beijo era suficiente para fazê-lo ficar duro como o granito da tumba que o rodeava.

Ele a desejava, e por uma fração de segundo, quando deixou o refúgio de Yakut, pensou que ela poderia segui-lo. Não tinha motivo algum para pensar isso, mas tinha sido um golpe no estômago, uma sensação de que talvez Renata pudesse correr atrás dele e pedir-lhe que a tirasse dali.

E se o tivesse feito? Cristo, ele tinha que ser muito idiota só para considerar essa hipótese.

- Então - disse a Gideon, retornando mentalmente para a realidade, - não podemos contar com nenhum tipo de cooperação de Sergei Yakut. Ele basicamente me disse isso antes de me enxotar para fora e de eu o chamar de bastardo doente que precisa de focinheira e coleira.

- Jesus, Niko! - suspirou Gideon, provavelmente passando a mão pelo cabelo loiro por conta da frustração. - Disse mesmo isso a um Primeira Geração? Teve sorte que ele não tenha arrancado a sua língua antes de expulsá-lo.

Provavelmente era verdade, Nikolai reconheceu para si. E talvez tivesse perdido mais que a língua se Yakut soubesse o tipo de desejo que ele tinha por Renata.

- Sabe que sou alérgico a puxa-saquismo, mesmo se o saco em questão for o de um Primeira Geração. Se isso era uma missão de relações públicas, vocês escolheram o cara errado.

- Não me diga.

Gideon riu ao soltar outra maldição em voz baixa. - Você vai voltar para Boston, então?

- Não vejo razão para ficar aqui. A menos que você ache que Lucan não olharia torto se eu voltar e colocar fogo na casa de horrores de Yakut. Tirando-o de cena, pelo menos por um tempo.

Estava brincando... em grande parte do que falava. Mas o silêncio da resposta de Gideon revelava que seu companheiro guerreiro sabia o que estava dando voltas na cabeça de Niko.

- Sabe que não pode fazer nada disso, cara. Nada fora dos limites.

- E isso é uma merda - murmurou Nikolai.

- Sim, é. Mas essas decisões pertencem à Agência, não a nós.

- Estou lhe dizendo que Yakut não é diferente dos Renegados que tiramos das ruas, Gid. Diabos! Pelo que vi, ele é ainda pior. Ao menos os Renegados podem colocar a culpa de sua selvageria na sede por sangue. Yakut nem sequer pode agarrar-se ao vício de sangue como desculpa para caçar esses humanos por aí afora. Ele é um predador, um assassino.

- Ele está protegido - disse Gideon firmemente. - Mesmo que não fosse um Primeira Geração, continuaria sendo um civil. E um membro da Raça. Não podemos tocar nele, Niko. Não sem atirar um monte de bosta no ventilador. Portanto, o que quer que esteja pensando em fazer, não o faça.

Nikolai exalou bruscamente.

- Esqueça o que eu disse. Para que horas devo planejar minha viagem de volta a Boston?

- Terei que fazer algumas chamadas, mas o jato particular ainda está esperando por você no aeroporto. Posso mandar uma mensagem de texto com a hora assim que o voo estiver confirmado.

- Tudo bem. Vou descansar e esperar para sair.

- E, afinal, onde você está?

Nikolai olhou para o caixão atrás dele, depois para o outro em frente e para a urna de bronze que estava acumulando pó em um pedestal contra a parede de trás do escuro mausoléu.

- Encontrei um lugarzinho tranquilo para descansar no extremo norte da cidade. Dormindo como um morto, de fato. Ou com eles, em todo caso.

- Falando em mortos, temos um relatório de outro assassinato de Primeira Geração no exterior - disse Gideon.

- Cristo. Escolheram abatê-los como moscas, não é verdade?

- Ou, ao que parece, estão tentando. Reichen está acompanhando o relatório de Berlim. Recebemos um e-mail dele informando que hoje, mais tarde, haverá uma atualização.

- É bom saber que temos olhos e ouvidos nos quais podemos confiar por ali - disse Niko. - Caramba, Gideon. Nunca teria imaginado que pudesse dar algum valor a um Refúgio civil, mas Andreas Reichen está demonstrando ser um aliado muito bom. Talvez Lucan devesse recrutá-lo oficialmente para a Ordem.

Gideon riu.

- Não ache que ele não tenha considerado isso. Infelizmente, somos somente um passatempo de meio período para a jornada de Reichen. Ele pode ter a alma de um guerreiro, mas seu coração pertence a seu Refúgio em Berlim.

E a certa fêmea humana, pelo que Nikolai entendia. Segundo Tegan e Rio, dois guerreiros que tinham passado muito tempo com Andreas Reichen no Escritório Central de Berlim, o líder do Refúgio alemão estava romanticamente envolvido com Helene, a proprietária de um bordel.

Era incomum que um guerreiro da Raça pudesse ter mais de um encontro ocasional, ou uma breve relação com uma mulher mortal, mas Niko não estava a ponto de questioná-lo porque certamente Helene também estava sendo uma fonte útil de informação para a Ordem no exterior.

- Então, escute-me - disse Gideon. - Espere calmamente onde está e eu o avisarei assim que tiver a informação de sua partida para esta noite. Está bem?

- Sim. Você sabe como me encontrar.

O murmúrio de uma voz feminina aveludada, suavizada pelo sono, atravessou o telefone.

- Ah, inferno, Gid. Não me diga que está na cama com Savannah!

- Eu estava - respondeu ele, acentuando com força o tempo passado. - Agora que ela está acordada, diz que vai tomar uma ducha quente e uma xícara de café forte.

Nikolai gemeu.

- Caramba. Diga-lhe que sinto pela... interrupção.

- Ouça, querida - Gideon chamou sua amada companheira, unidos pelo laço de sangue por cerca de trinta anos. - Niko diz que sente por ser um bastardo grosseiro e por nos despertar nessa hora tão inoportuna.

- Obrigado - murmurou Niko.

- De nada.

- Ligarei de novo do avião.

- Tudo bem - disse Gideon. - Ouviu, amor? Niko quer que diga que está para desligar. Ele diz que você deve retornar para a cama e me permitir violá-la lentamente desde sua inteligente e formosa cabeça até seus deliciosos e pequenos dedinhos dos pés – disse Gideon a Savannah, que agora estava sentada ao seu lado.

Nikolai riu.

- Soa divertido. Ponham no viva-voz para que eu possa pelo menos escutar.

Gideon bufou.

- Nem pense. Ela é toda minha.

- Bastardo egoísta - Niko arrastou as palavras sarcasticamente. – Vejo você mais tarde.

- Bem, até mais tarde. E, Niko, sobre a situação de Yakut: sério, nem pense em bancar o cowboy, ok? Temos questões mais importantes do que lutar e tentar encurralar um Primeira Geração solto. Não é nossa área, sobretudo agora.

Quando Niko não concordou imediatamente, Gideon limpou a garganta.

- Seu silêncio não me dá exatamente uma tranquilidade, meu caro. Preciso saber que você está escutando isso.

- Sim - disse Nikolai. - Estou escutando. Vejo você em Boston mais tarde.

Niko desligou o celular e o colocou de volta no bolso.

Embora muito o irritasse pensar em fazer vista grossa para Yakut e para suas doentias atividades, ele sabia que Gideon tinha razão. E mais: ele sabia que o líder da Ordem, Lucan, assim como o resto dos guerreiros no complexo de Boston, diria a mesma coisa.

Esquecer Sergei Yakut, pelo menos por enquanto: isso era o mais sábio, a coisa mais inteligente que podia fazer.

E, enquanto isso, seria prudente esquecer Renata também. Ela fez sua cama, afinal de contas. O fato de, evidentemente, tê-la feito com um sádico como Sergei Yakut não era problema de Nikolai. Absolutamente. Renata, a linda dama de gelo, não era assunto seu e ele estaria melhor longe dela.

Bem longe do ninho de víboras que tinha descoberto nos domínios de Yakut.

Restavam apenas algumas horas antes do anoitecer e, então, ele poderia deixar tudo aquilo para trás.

Ela nunca havia se acostumado a dormir com a luz do dia, não nos dois anos em que tinha vivido a serviço de um vampiro.

Renata estava em sua cama, inquieta, incapaz de relaxar e fechar os olhos até mesmo por alguns minutos. Virou-se, colocando-se de costas e deixando escapar um suspiro, mantendo seu olhar fixo nas vigas de madeira do teto.

Pensava no guerreiro... Nikolai.

Ele tinha partido há várias horas, mas ela ainda sentia o peso do desprezo dele pressionado sobre ela. Odiava que tivesse visto Yakut alimentando-se dela. Tinha sido difícil fingir que não estava envergonhada quando sustentou seu olhar do outro lado do quarto. Ela tinha tentado não parecer afetada, mas, por dentro, estava tremendo, com sua pulsação martelando quase fora de controle.

Ela não queria que Nikolai a visse assim. Ainda mais pelo fato de ele ter enumerado os brutais crimes de Yakut, claramente pensando que ela era parte deles também. Ela não conseguia esquecer o olhar acusador que o macho da Raça tinha lhe dirigido.

Isso era ridículo.

Nikolai era da Raça assim como Yakut. Ele era um vampiro igual a Yakut e, como tal, tinha de se alimentar de humanos para sobreviver. Mesmo com seu limitado conhecimento sobre a Raça, Renata sabia que beber de seres humanos era a única forma de a Raça obter seu alimento. Os amigáveis vampiros não usavam os bancos de sangue, nos quais poderiam recolher um litro de O- pelo caminho. Nem os animais eram um substituto para o sangue humano.

Sergei Yakut e todo o resto da Raça compartilhavam o mesmo impulso: a necessidade dos glóbulos vermelhos dos Homo sapiens, tomados diretamente de uma veia aberta.

Eles eram selvagens e letais. Mesmo que na maioria das vezes parecessem humanos, em seu coração – ou em sua alma, se é que eles ainda tinham uma – faltava toda a humanidade. Por que ela deveria pensar que Nikolai era diferente?

Mas ele tinha parecido diferente, mesmo que só um pouco, quando tinham discutido no canil - quando a tinha beijado. Por Deus! Ele na realidade tinha parecido muito diferente dos outros da Raça que ela conhecia. Não era como Yakut, tampouco como Lex.

O que provavelmente só demonstrava que ela era uma tola.

E que era também uma fraca. Que outra coisa poderia explicar o dilacerador desejo de que Nikolai voltasse? Ele poderia tê-la tirado daquele lugar quando havia partido?

Ela frequentemente não se permitia ter esperanças vãs ou perder tempo imaginando coisas que nunca aconteceriam. Mas por um momento... por um breve e egoísta momento ela se imaginou sendo arrancada, libertada dos braços de ferro de Sergei Yakut.

Por um instante, ela se perguntou o que poderia ter vontade de fazer quando estivesse livre do sádico Primeira Geração, livre de tudo que a mantinha ali... e isso havia sido glorioso.

Envergonhada por seus pensamentos, Renata jogou as pernas para um lado da cama para se sentar. Ela não podia ficar ali um minuto a mais, não enquanto sua mente estivesse girando com pensamentos que não lhe fariam bem algum.

A verdade é que aquela era a sua vida. O mundo de Yakut era o seu mundo, o recinto e seus inúmeros segredos grotescos eram sua realidade inflexível. Ela não sentia pena de si, nunca sentira. Nem no orfanato do convento por todos aqueles anos de sua infância, nem no dia em que fora expulsa para sempre de sua casa com as Irmãs da Benevolente Misericórdia aos 14 anos de idade.

Nem mesmo naquela noite, há dois verões, quando foi arrancada das ruas de Montreal e presa com um grupo de outras pessoas assustadas nos currais do celeiro dentro da propriedade de Sergei Yakut.

Ela não tinha derramado uma só lagrima de autopiedade em todo esse tempo. E, com certeza, não iria começar agora.

Renata levantou-se e saiu de seu modesto quarto. A casa principal estava em silêncio àquela hora, as poucas janelas do lugar estavam completamente fechadas para afastar os letais raios de sol. Renata tirou a barra de ferro grossa da porta exterior e saiu andando na gloriosa tarde de verão, cálida e brilhante.

Dirigiu-se ao canil. Entre todo o drama da última noite, não só com Nikolai mas também depois, ela tinha esquecido completamente que suas adagas estavam lá fora. Ser negligente e descuidada a incomodava. Nunca deixava os punhais fora de seu alcance. Eles eram parte dela agora, como tinham sido no dia em que os tinha tomado.

- Estúpida, estúpida - sussurrava para si enquanto entrava no antigo canil e olhava para o poste em que esperava encontrar a lâmina incrustada que tinha atirado contra Nikolai.

Não estava ali.

Um grito de incredulidade e angústia deslizou por seus lábios.

O guerreiro levou suas lâminas? Será que o cachorro as tinha roubado?

- Maldito seja. Não!

Renata invadiu o corredor central do edifício... e, então, parou abruptamente quando chegou à parte posterior do lugar e seus olhos pousaram no fardo de feno perto do poste de madeira.

Cuidadosamente dobrado em cima dele e colocado perfeitamente ao lado do par de sapatos que tinha deixado para trás na noite anterior estava também a capa de seda e veludo que continha suas preciosas adagas. Segurou-as para certificar-se de que a capa de tecido não estava vazia. Quando sentiu o peso familiar em sua palma, não pôde conter um sorriso.

Nikolai.

Ele tinha guardado as adagas para ela. Ele as havia recolhido, envolvido e deixado ali, como se soubesse quanto significavam para ela.

Por que faria isso? O que esperava que sua bondade comprasse? Na verdade, pensava que sua confiança poderia ser ganha tão facilmente ou esperava outra oportunidade para impor-se do mesmo modo que havia feito com aquele beijo?

Ela realmente não queria pensar nos beijos de Nikolai. Se pensasse, então deveria admitir para si que o beijo tinha sido inesperado e à força, e que apenas ele era culpado por aquilo ter ocorrido.

Mas a verdade era que ela tinha aproveitado.

Santa Maria! Só de pensar nele um calor lento e líquido acendia-se em seu coração e em seu sexo.

Ela queria mais dele, apesar de cada instinto de sobrevivência de seu corpo ter gritado para que ela se afastasse, que escapasse rapidamente. Ela tinha fome dele – naquele momento e agora. Queimava por ele – em um lugar que ela pensava estar completamente congelado e morto. E o comentário a respeito do que ele tinha visto nos olhos de Mira - a implicação de tudo - poderia envolver Renata e ele intimamente juntos, o que era ainda mais inquietante. Graças a Deus ele se foi. Graças a Deus, ele provavelmente nunca voltaria depois do que tinha descoberto ali.

Muito tempo havia passado desde que Renata ajoelhava-se para rezar. Ela não se ajoelhava diante de ninguém mais, nem sequer de Yakut em seu pior momento, mas inclinou a cabeça e pediu aos céus que mantivesse Nikolai longe daquele lugar. Longe dela.

Já não estava com ânimo para treinar, sobretudo quando as lembranças do que tinha acontecido ali ainda estavam tão recentes em sua cabeça. Renata pegou seus sapatos e caminhou de volta para a casa. Entrou e se dirigiu ao corredor que levava ao seu quarto, esperando ter ao menos algumas horas de sono.

De repente, deu-se conta de que havia algo errado, mesmo antes de notar que a porta de Mira não estava fechada.

Nenhuma luz estava acesa no quarto da menina, mas ela estava acordada. Renata escutou sua suave voz na escuridão, queixando-se que tinha sono e não queria levantar. Mais pesadelos?, Renata se perguntou, sentindo uma pontada de compaixão pela menina. Mas, então, outra voz gemeu entre os dentes acima dos protestos aturdidos de Mira, uma voz fria, áspera e impaciente.

- Pare de choramingar e abra seus olhos, cadelinha.

Renata pressionou a mão contra a porta e a empurrou amplamente.

- Que diabos pensa que está fazendo, Lex?

Ele estava inclinado sobre a cama de Mira, apertando dolorosamente as mãos nos ombros da menina. Sua cabeça virou quando Renata entrou no quarto, mas ele não soltou Mira.

- Preciso do oráculo de meu pai. E não vou responder às suas perguntas, então, seja amável e saia daqui, inferno.

- Rê, ele está machucando meus braços.

A voz de Mira era baixa, sacudida pela dor.

- Abra os olhos, maldita - Lex grunhiu. - E talvez eu pare de te machucar.

- Tire suas mãos de cima dela, Lex.

Renata parou ao pé da cama, com as lâminas embainhadas.

- Tire as mãos dela! Agora!

Lex zombou.

- Não até que eu tenha terminado com ela.

Quando deu a Mira uma sacudida forte, Renata soltou uma rajada de fúria mental. Era só um fio de energia, só uma fração do que podia dar, mas Lex uivou, seu corpo se sacudiu como se tivesse sido golpeado por milhares de volts de eletricidade. Cambaleou para trás, deixando Mira cair e afastando-se da cama, caindo com o traseiro no chão.

- Cadela! – gritou com os olhos soltando um fogo âmbar e com as pupilas fragmentadas fortemente no centro. - Eu devia matá-la por isso. Devia matar a pequena pirralha e você, suas cadelas!

Renata o golpeou de novo, dando-lhe outra pequena amostra de agonia. Ele se deixou cair, agarrando a cabeça e gemendo com a segunda rajada debilitante. Ela esperou, observando como ele se esforçava para levantar-se de uma postura desajeitada do chão. Da maneira que estava agora, ele não representava ameaça alguma para ela, mas em algumas horas estaria recuperado, e Renata estaria vulnerável. Aí então ela teria uma pequena dívida a pagar.

Mas no momento, Mira já não era do interesse de Lex, e isso era tudo que importava. Lex a fulminou com o olhar quando se arrastou até seus pés.

- Saia do meu... caminho... vadia maldita!

As palavras estavam sufocadas, balbuciadas entre seus ofegos enquanto ele torpemente se dirigia para a porta aberta. Quando Lex saiu do campo de visão de Renata, com os passos dele ecoando no corredor externo, ela aproximou-se de Mira e tentou acalmá-la.

- Está tudo bem, querida?

Mira assentiu.

- Eu não gosto dele, Rê. Ele me assusta.

- Eu sei, querida.

Renata deu um beijo na testa da garota.

- Não vou deixar que ele faça mal a você. Está a salvo comigo. Essa é uma promessa, certo?

Outro gesto de assentimento, mais fraco dessa vez, enquanto Mira voltava a cabeça ao travesseiro e exalava um suspiro sonolento.

- Rê? - perguntou em voz baixa.

- Sim, ratinho?

- Você nunca vai me abandonar, não é mesmo?

Renata ficou olhando fixamente aquele rosto inocente na escuridão, sentindo seu coração apertado no peito.

- Nunca vou abandonar você, Mira. Jamais... Exatamente como prometemos.


Capítulo 11

A lua elevava-se, projetando manchas de luz sobre o lago Wannsee, em uma zona exclusiva do subúrbio de Berlim. Andreas Reichen recostou-se em sua cadeira almofadada no gramado que ficava na parte de trás de sua propriedade privada no Refúgio. Ele tentava absorver um pouco da paz e da tranquilidade noturnas. Apesar da brisa agradável e morna, e do lago de águas calmas e escuras, os pensamentos dele eram taciturnos e turbulentos.

As notícias do último Primeira Geração assassinado, dessa vez na França, fora um duro golpe. Parecia-lhe que o mundo ao seu redor estava ficando cada vez mais insano. Não apenas o mundo da Raça – seu mundo -, mas também a humanidade. Tanta morte e destruição. Tanta angústia por todos os lados.

No fundo de seu estômago, Andreas tinha a terrível sensação de que isso era apenas o começo. Dias mais sombrios estavam por vir. Provavelmente estivessem a caminho há muito tempo e ele tinha sido demasiado ignorante; estivera demasiado entretido com seus prazeres pessoais para se dar conta disso.

Um desses prazeres, aliás, aproximava-se por trás dele: com passos elegantes e inconfundíveis, a mulher caminhou pelos jardins bem cuidados da propriedade e sentou-se sobre a grama.

Os pequenos braços de Helene rodearam os ombros largos de Andreas.

- Olá, querido.

Reichen aproximou-se para acariciar-lhe a cálida pele enquanto a mulher inclinava-se para beijá-lo. Ela tinha uma boca suave e persistente, e seus longos cabelos escuros guardavam ainda um vestígio de óleo de rosas.

- Quando cheguei, seu sobrinho me disse que você estava aqui fora há horas - murmurou ela, erguendo a cabeça para olhar o lago. - Posso ver por quê. É uma vista encantadora.

- E agora está ainda mais encantadora - disse Reichen, levantando a cabeça para olhar a mulher.

Helene sorriu sem acanhamento, há muito tempo já acostumada com aquela adulação.

- Alguma coisa está te incomodando, Andreas. Você não é do tipo que fica sentado se queixando do quanto a vida é injusta.

Será que ela o conhecia tão bem assim? Eles tinham sido amantes durante o ano anterior, uma brincadeira amorosa casual que, de alguma forma, transformara-se em algo mais profundo, se não exclusivo. Reichen sabia que Helene tinha outros homens em sua vida - homens humanos -, da mesma forma que ela sabia que ele ocasionalmente buscava prazer com outras mulheres. Não era uma relação infestada de ciúmes ou de possessão. Mas isso não significava que não houvesse carinho. Eles compartilhavam uma preocupação mútua um pelo outro e um vínculo de confiança que se estendia além das barreiras que geralmente tornavam as relações entre humanos e homens da Raça impossíveis.

Helene tinha se tornado uma amiga e, ultimamente, era uma companheira indispensável no importante trabalho de Reichen com os guerreiros de Boston.

Ela sentou-se no grande braço da cadeira.

- Deu as notícias à Ordem sobre o recente assassinato em Paris?

Reichen assentiu.

- Sim. E eles me disseram que houve também uma tentativa de assassinato em Montreal algumas noites atrás. Pelo menos essa falhou, um milagre do destino. Mas haverá outras. Temo que muitas outras mortes acontecerão antes que a fumaça finalmente se dissipe. A Ordem está convencida de que deterá essa loucura toda, mas às vezes me pergunto se o mal trabalhando aqui não é maior do que qualquer bem.

- Você está deixando que isto o consuma - disse Helene, enquanto preguiçosamente afastava o cabelo da testa. - Já sabe, se precisa de algo a fazer com seu tempo, poderia ter procurado a mim em vez da Ordem. Eu poderia tê-lo colocado para trabalhar no clube como meu assistente pessoal. Não é muito tarde para mudar de ideia. E asseguro-lhe que apenas os benefícios já valeriam a pena.

Reichen riu.

- Tentador, de fato.

Helene inclinou-se e mordiscou-lhe a orelha, sua respiração fazendo cócegas quentes sobre a pele masculina.

- Seria só uma posição temporária, é obvio. Vinte ou trinta anos, um piscar de olhos para você. Eu estarei enrugada e grisalha e você se entusiasmará por um novo brinquedo mais atraente que possa manter o ritmo de suas selvagens exigências.

Reichen estava surpreso ao ouvir a pontada de nostalgia na voz de Helene. Ela nunca tinha falado sobre o futuro com ele, nem tampouco ele com ela. Era mais ou menos compreensível que não poderia haver um futuro, tendo em vista que ela era mortal e ele – a menos que prolongasse sua exposição aos raios UVA ou sofresse um intenso dano no corpo - continuaria vivendo durante um tempo próximo ao da eternidade.

- O que está fazendo esbanjando seu tempo comigo quando poderia ter qualquer outro homem? – perguntou Reichen, movendo os dedos ao longo da suave linha do ombro de Helene. - Poderia estar casada com alguém que a adorasse, criando uma ninhada de crianças belas e inteligentes.

Helene arqueou uma impecável sobrancelha.

- Suponho que nunca fui do tipo que faria uma escolha convencional.

Nem ele, de fato. Reichen admitia que seria muito fácil ignorar tudo o que ela e a Ordem tinham descoberto há alguns meses. Ele podia esquecer a maldade que tinham vasculhado até à cova montanhosa nas colinas Boêmias. Podia fingir que nada daquilo existia, descumprir sua oferta de ajudar aos guerreiros respondendo por seu papel como líder de um Refúgio e voltar para seus libertinos e descuidados hábitos.

Mas a única verdade era que ele tinha se cansado daquela vida há tempos. Anos atrás, alguém o havia acusado de ser um eterno menino egoísta e irresponsável. E, naquele momento, a pessoa tinha razão. Especialmente quando ele tinha sido suficientemente tolo para deixar escapar uma mulher e o amor que ela lhe havia dado. Depois de muitas décadas de autopiedade, ele se sentia bem em fazer a diferença. Ou em tentar fazê-la, de qualquer forma.

- Não esperava que você viesse esta noite só para me distrair com seus beijos e com essas atraentes ofertas de emprego - disse, sentindo que a seriedade abatia-se sobre Helene.

- Não, não foi por isso que vim, infelizmente. Pensei que deveria saber que uma das minhas garotas do clube está desaparecida. Lembra-se de que mencionei Gina, uma de minhas garotas mais novas, que apareceu com marcas de mordida no pescoço na semana passada?

Reichen assentiu.

- A que tinha falado sobre um novo namorado rico com quem estava saindo.

- Essa mesmo. Pois bem, não é a primeira vez que ela falta ao trabalho, mas sua companheira de quarto disse-me esta tarde que Gina não passa em casa ou dá notícias há mais de três dias. Pode não ser nada, mas pensei que gostaria de saber.

- Sim. Tem alguma informação sobre o homem com quem se encontrava? Uma descrição, um nome, algo?

- Não. A companheira de apartamento dela nunca o conheceu e, por isso, não pôde me dizer nada.

Reichen considerou as numerosas coisas que podiam ocorrer a uma jovem que se encontrava inconscientemente com um macho da Raça. Embora a maioria deles fosse de membros que respeitavam a lei da nação vampírica, havia outros que revelavam seu lado selvagem.

- Preciso que, discretamente, investigue no clube esta noite, veja se alguma das outras garotas ouviu Gina mencionar algo sobre esse namorado. Procure por nomes, lugares aos quais ela possa ter ido com ele. O menor detalhe pode ser importante.

Helene assentiu, mas havia uma nota de interesse em seus olhos.

- Prefiro esse seu lado sério, Andreas. É incrivelmente sexy.

A mão dela deslizou por baixo da abertura da camisa de seda dele conforme suas longas e pintadas unhas brincavam sobre seu musculoso abdômen. Embora os pensamentos de Reichen fossem nefastos, seu corpo respondeu ao toque especialista da mulher. Seus dermoglifos começaram a encher-se de cor e sua visão afiou-se com uma rajada de cor âmbar que rapidamente preencheu sua íris. Mais abaixo, seu pênis ficou ereto, crescendo onde agora descansava sua palma.

- Eu realmente não deveria ficar - murmurou ela com a voz rouca e zombadora. - Não quero chegar tarde no trabalho.

Quando ela começou a se levantar, Reichen a deteve.

- Não se preocupe com isso. Conheço a mulher que dirige o lugar. Pedirei desculpas por você. Sei de fonte segura que ela gosta muito de mim.

- Você gosta dela?

Reichen grunhiu, deixando visível as pontas de suas presas com seu amplo sorriso.

- A pobre está louca por mim.

- Louca por uma coisa arrogante como você? - zombou Helene. - Querido, não se adule. Ela poderia querê-lo apenas por causa de seu decadente corpo.

- É o suficiente - respondeu ele. - Mas não ouvirá queixas minhas de maneira alguma.

Helene sorriu, sem resistir enquanto ele a puxava sobre seu colo e entregava-lhe um beijo profundo, masculino e faminto.

Ao anoitecer, Lex estava completamente recuperado do golpe que Renata lhe desferira. Sua ira - seu ódio por ela – permanecia, todavia.

Ele a amaldiçoava em sua mente enquanto se inclinavae sobre uma putrefata parede de uma casa infestada de ratos no pior subúrbio de Montreal, assistindo a um jovem humano apertar o braço com um cinto de couro velho. Com a ponta solta presa entre os dentes quebrados e cariados, o drogado cravou a agulha de uma imunda seringa em um lugar cheio de crostas e hematomas que percorriam o esquálido braço. Gemeu enquanto a heroína entrava em sua corrente sanguínea.

- Ah, caramba, cara! - soltou um trêmulo suspiro enquanto liberava seu torniquete e caía para trás contra um colchão podre no chão. Correu as mãos tatuadas pelo rosto pálido e cheio de espinhas, e pelos cabelos castanhos ensebados. – Ah! Essa porcaria é das boas, cara.

- Sim - Lex disse com a voz sem fôlego, na fria e úmida escuridão.

Não tinha economizado em drogas; o dinheiro era de pouco interesse para ele. Sem dúvida o drogado que vendia o corpo nas ruas nunca tinha ganhado tanto dinheiro. Lex estava disposto a apostar que os serviços pessoais do jovem nunca haviam alcançado uma soma tão alta. Ele tinha saltado no interior do carro quando Lex parou e lhe mostrou cem dólares e um pacote de heroína.

Lex moveu a cabeça e olhou como o humano saboreava sua dose de alívio. Eles estavam sozinhos no miserável quarto de um edifício abandonado. O lugar tinha sido invadido por vagabundos e viciados quando chegaram, mas só levou uns minutos para Lex – e uma irresistível ordem mental, cortesia de sua linhagem de segunda geração da Raça - conduzir os humanos para fora e deixar que ele exercesse sua atividade sem ser incomodado.

Ainda deitado no chão, o drogado tirou a camisa regata e começou a desabotoar os folgados e imundos jeans azuis. Acariciou-se grosseiramente enquanto abria a braguilha, os olhos turvos rolando em seu crânio, buscando distraidamente através da escuridão.

- Então, quer que eu chupe seu pau ou o quê, cara?

- Não - Lex disse, enojado apenas com a ideia.

Ele afastou-se de sua posição, cruzando o quarto, e caminhou lentamente em direção ao drogado. Por onde começar com ele?, perguntou-se preguiçosamente. Tinha que esgotar essa coisa com cuidado ou teria de voltar para a rua e procurar outra pessoa.

Esbanjando seu tempo precioso.

- Prefere minha bunda, então, cara? - comentou o michê. - Se quiser me comer, vai ter de pagar o dobro. Essa é minha regra.

A risada de Lex foi baixa e genuinamente divertida.

- Não estou interessado em comer você. Já é suficientemente mau que tenha que olhar para você, que tenha que sentir seu cheiro repugnante. O sexo não é a razão pela qual está aqui.

- Bem, o que diabos você quer então? – ao dizer isso, uma nota de pânico cortou o ar, um súbito golpe de adrenalina humana que os sentidos de Lex facilmente detectaram. - Estou seguro que não me trouxe aqui para uma conversa educada.

- Não - Lex concordou.

- Está bem. Está bem, que porra eu pareço para você, seu merda?

Lex sorriu.

- Uma isca.

Com movimentos tão rápidos que nem sequer o olho humano mais aguçado poderia seguir, Lex estendeu a mão e derrubou o drogado no chão. O vampiro tinha uma faca na mão e cravou-a no macilento abdômen do humano, rasgando-lhe a pele.

O sangue surgiu da ferida, quente, úmido e perfumado.

- Ah, Jesus! - gritou o humano. - Ah, meu Deus! Você me apunhalou!

Lex recuou e deixou que o homem caísse sobre o chão. Era tudo que podia fazer para não investir contra o drogado com uma sede cega.

A transformação física de Lex foi rápida, provocada pela súbita presença de sangue fresco fluindo. Sua visão se aguçou enquanto suas pupilas se estreitavam, um brilho âmbar lavava o quarto enquanto seus olhos transformavam-se nos de um predador. Suas presas alargaram-se atrás de seus lábios e a saliva inundou-lhe a boca enquanto a urgência de se alimentar crescia.

O drogado estava soluçando agora, emitindo sons patéticos enquanto apertava a enorme ferida em seu estômago.

- Você está louco, seu merda? Podia ter me matado!

- Ainda não - respondeu Lex entre suas presas.

- Tenho que sair daqui - murmurou o homem. - Tenho que conseguir ajuda...

- Fique - ordenou Lex, sorrindo enquanto a mente do homem murchava sob aquela ordem.

Teve que se obrigar a manter distância. Deixar que a situação se esvaísse enquanto pudesse. Uma ferida no estômago sangrava rápido, mas a morte viria lentamente. Lex precisava dele vivo durante um tempo longo o suficiente para que o cheiro do sangue viajasse pela rua e entrasse nos becos dos arredores.

O humano que tinha comprado era meramente uma isca pronta para ser jogada na água. Lex procurava atrair um peixe maior.

Sabia tão bem como qualquer outro membro da Raça que nada atraía um vampiro mais rápido - e mais certeiramente – do que uma presa humana sangrando. E fazer isso em um ponto obscuro da cidade, onde até mesmo a escória da sociedade humana adentrava um estado de terror secreto, Lex presumia, atrairia a presença de Renegados.

Não se decepcionou.

Os dois primeiros vieram farejando ao redor da casa abandonada em minutos. Os Renegados eram viciados sem esperança, tanto quanto o drogado que agora se aconchegava em posição fetal, chorando em silêncio no chão, enquanto sua vida se apagava lentamente.

Embora poucos da Raça se perdessem na luxúria do sangue – a permanente e insaciável sede de sangue –, aqueles que raramente o faziam jamais se libertavam. Viviam nas sombras, monstros selvagens sem raízes, cujo único objetivo era viver alimentando sua fome.

Lex escondeu-se no canto do quarto enquanto os dois predadores se arrastavam para dentro. Eles imediatamente caíram sobre o humano, rasgando-o com presas que nunca se desvaneciam, os olhos ardendo com a cor e o calor do fogo.

Outro Renegado encontrou o quarto. Este era maior do que os outros, mais brutal enquanto se jogava para a matança e começava a alimentar-se. Uma briga explodiu entre os selvagens. Os três se pegaram como cães raivosos. Batendo os punhos, os dedos e as presas estripando a carne e os ossos, cada macho poderoso lutava viciosamente para ganhar um pedaço da presa.

Lex olhava paralisado. Aturdido pela violência e bêbado pelo cheiro de tanto sangue derramado, humano e da Raça.

Olhou e esperou.

Os Renegados lutaram um contra o outro até a morte, como animais selvagens que eram. No final, só um deles demonstraria ser o mais forte.

E era desse que Lex precisava.

Após um dia inteiro esperando o anoitecer, Nikolai agora tinha outras duas horas para passar antes de poder tomar seu voo de volta para Boston.

O guerreiro considerou seriamente não ir ao aeroporto e viajar a pé, mas até mesmo com sua resistência da Raça e sua hipervelocidade, mal atravessaria o estado de Vermont antes que o amanhecer o obrigasse a esconder-se de novo. E, francamente, a ideia de dormir em um celeiro com um bando de animais agitados não o empolgava a colocar um tênis e pegar a estrada.

Portanto, esperaria.

Maldição.

Ele e a paciência nunca foram amigos íntimos e, quando o sol finalmente se pôs e ele pode sair do refúgio, Niko já estava à beira da insanidade.

Supôs que aquele aborrecimento o guiava pelos subúrbios de Montreal, onde esperava encontrar algo divertido para fazer enquanto o mau humor passava. Não se preocupava em como usaria o tempo, mas havia deliberadamente procurado a única região da cidade onde a probabilidade de encontrar uma razão para usar seus punhos ou suas armas eram maiores.

Naquele conjunto de becos infestados de ratos, suas escolhas imediatas eram limitadas aos traficantes - de drogas ou de pessoas - e prostitutas de ambos os gêneros, sem discriminação. Mais de um idiota o olhou enquanto ele andava pela rua sem direção aparente. Alguém foi inclusive suficientemente estúpido para mostrar a ponta de uma faca enquanto passava, mas Niko só se deteve e deu ao bastardo desdentado um sorriso de orelha a orelha, mostrando suas presas como um convite e, rapidamente, a ameaça desapareceu.

Embora não fosse contra tipo algum de confronto, a luta contra humanos estava abaixo de sua capacidade. Preferia um desafio maior. O que ele realmente queria encontrar agora era um Renegado. No verão passado, Boston estivera afundada até os joelhos de vampiros viciados em sangue. A luta tinha sido dura e pesada - com pelo menos uma perda trágica para a Ordem -, mas Nikolai e o resto dos guerreiros tinham completado sua missão de manter a cidade limpa.

Outras zonas metropolitanas ainda perdiam civis ocasionalmente por conta da luxúria por sangue, e Niko apostaria seu testículo esquerdo que Montreal não era diferente. Mas além dos cafetões, traficantes e prostitutas, aquela extensão de tijolo e asfalto estava tão morta quanto a cripta na qual ele tinha sido forçado a passar o dia.

- Ei, querido - a mulher sorriu para ele de uma porta coberta de sombras enquanto ele passava. - Busca algo específico ou está apenas olhando as vitrines?

Nikolai grunhiu, mas se deteve.

- Sou um cara diferente.

- Bem, possivelmente tenho o que você precisa - ela sorriu e se moveu de sua pose sobre o degrau de concreto. - De fato, tenho exatamente o que você precisa, querido.

Ela não era uma beleza, com seus quebradiços e desgrenhados cabelos, olhos apagados e pele pálida, mas Nikolai não esperava gastar muito tempo olhando sua cara. Ela cheirava bem, seu desodorante e o spray de cabelo podiam ser considerados fragrâncias de aroma limpo. Para os sentidos afiados de Niko, a mulher cheirava a cosméticos e perfumes, com um toque de uso recente de drogas que exalava por seus poros.

- O que diz? - perguntou ela, aproximando-se furtivamente. - Quer ir a algum lugar? Se tiver vinte dólares, terá meia hora.

Nikolai observou a pulsação no pescoço da mulher. Já fazia vários dias que não se alimentava. E ele tinha duas horas pela frente sem fazer nada...

- Sim - disse assentindo. - Vamos.

Ela pegou a mão dele e o guiou, virando a esquina onde ficava o edifício, rua abaixo em direção a um beco vazio.

Nikolai não perdeu tempo. Mal se distanciaram de potenciais observadores, tomou a cabeça da mulher em suas mãos e despiu seu pescoço para mordê-la. Seu grito assustado foi esmagado imediatamente quando ele afundou as presas na veia saltante e começou a beber.

O sangue da mulher era medíocre – o habitual cobre pesado das células vermelhas humanas, mas enlaçadas com uma acidez doce e amarga das pedras de heroína e cocaína que ela tinha usado durante seu trabalho à noite. Nikolai tragou vários goles, sentindo o fluxo de energia do sangue através de seu corpo em uma baixa vibração. Não era raro para um vampiro da Raça excitar-se com o ato de se alimentar. A resposta era puramente física, um despertar de células e músculos.

O fato de seu pênis estar completamente ereto e exigindo alívio não o surpreendeu, mas sim o fato de sua cabeça estar nadando em pensamentos sobre uma mulher com cabelos escuros - uma mulher que ele não tinha intenção de ver de novo - que fazia Niko ficar em estado de alerta.

- Humm, não pare - sua companheira humana se queixou, puxando sua boca de volta à ferida no pescoço. Ela também estava sentindo os efeitos da alimentação, cativada como todos os humanos ficavam quando eram mordidos pela Raça. - Não pare, querido.

A visão de Nikolai estava alagada de fogo âmbar enquanto ele abraçava de novo a garganta da mulher. Sabia que ela não era Renata, mas enquanto suas mãos roçavam as pernas nuas por baixo da saia curta que ela usava, ele se imaginou acariciando as belas e longas coxas de Renata. Imaginou que era o sangue de Renata que o alimentava, que era o corpo de Renata que respondia tão apaixonado ao seu contato.

Eram os febris ofegos de Renata que o guiavam enquanto ele rasgava a calcinha barata com uma mão e usava a outra para libertar-se da própria calça.

Precisava estar dentro dela.

Precisava...

Caramba.

Uma ligeira brisa formou redemoinhos através do beco, trazendo consigo o fedor de vampiros Renegados. E havia muito sangue derramado também. Sangue humano. Muito, muito sangue, mesclado com o cheiro vil de Renegados sangrando.

- Jesus Cristo.

Que porra estava acontecendo?

Ele puxou a saia da mulher para baixo e lambeu-lhe a ferida do pescoço, selando sua mordida.

- Pedi que não parasse...

Mas Niko nem lhe deu tempo de terminar seu pensamento. Pondo a palma sobre sua testa, apagou tudo de sua mente.

- Saia daqui - disse.

Niko já estava correndo pelo beco quando ela saiu de seu atordoamento e começou a caminhar. O guerreiro seguiu seu olfato até um dilapidado edifício não longe de onde estava. Aquele fedor emanava do interior da construção, alguns apartamentos acima da rua.

Nikolai subiu a escada de incêndio até o segundo andar. Seus olhos estavam virtualmente marejados pelo entristecedor aroma de morte que saía daquele andar. Com a mão sobre a pistola embainhada em seu quadril, Niko se aproximou. Não havia sons do outro lado da maltratada porta cheia de pichações. Apenas morte – humana e vampírica. Niko girou o trinco e se preparou para o que encontraria.

Tinha sido um massacre.

Um aparente drogado permanecia em posição fetal entre refugos de seringas e outros lixos que cobriam o chão cheio de sangue. O corpo do drogado estava tão arruinado que era praticamente irreconhecível como humano, apenas o sexo era distinguível. Os outros dois corpos foram atacados ferozmente também, mas definitivamente eram da Raça, ambos Renegados, a julgar pelo tamanho e pelo cheiro deles.

Nikolai pôde imaginar o que ocorrera ali: uma batalha letal por causa da presa. A luta era recente, provavelmente tinha ocorrido apenas alguns minutos atrás. E os dois chupadores de sangue mortos não teriam sido capazes de se destruir antes que um ou outro caísse.

Havia pelo menos mais um Renegado envolvido naquela briga.

Se Niko tivesse sorte, o vencedor ainda poderia estar na região, lambendo suas feridas. Esperava que sim, porque adoraria dar ao bastardo doente uma prova de sua pistola 9 mm. Nada poderia desejar “tenha um bom dia” tão bem quanto a veia sanguínea corrompida de um Renegado encontrando uma fusão alérgica de uma dose venenosa de titânio.

Nikolai foi para a janela fechada e puxou os painéis presos. Se estava procurando ação, ele tinha encontrado - e aos montes. Abaixo, na rua, havia um Renegado enorme. Estava ensanguentado e maltratado.

Mas, maldito seja! Ele não estava sozinho.

Alexei Yakut estava com ele.

Incrivelmente, Lex e o Renegado caminhavam para um sedan que os esperava e entraram.

- Que porra está acontecendo? - murmurou Niko enquanto o carro arrancava e saía pela rua.

O guerreiro esteve a ponto de saltar pela janela aberta e seguir a pé quando um grito estridente soou atrás dele. Uma mulher tinha andado até a área da matança e agora gritava de terror, com um dedo acusador apontando na direção de Niko. Ela gritou suficientemente alto mais uma vez, despertando a atenção de cada drogado e traficante da vizinhança.

Nikolai olhou para a testemunha e para a sangrenta evidência de uma luta que parecia tudo, menos humana.

- Maldição - grunhiu, olhando por cima do ombro a tempo de ver o carro de Lex desaparecer ao virar a esquina.

- Está bem - disse à mulher enquanto deixava a janela e se aproximava dela. - Você não viu nada.

Apagou sua memória e a tirou do quarto. Então, pegou uma faca de titânio e cravou-a nos restos de um dos Renegados mortos.

Enquanto o corpo começava a se dissolver, Niko se preparou para limpar o resto da bagunça que Lex e seu insólito sócio haviam deixado para trás.


Capítulo 12

Renata estava no balcão da cozinha da propriedade de Sergei Yakut, com uma faca na mão.

- Que tipo de geleia quer esta noite: uva ou morango?

- Uva - respondeu Mira. – Não, espere. Quero de morango.

A menina estava sentada na beira da bancada de madeira ao lado de Renata, suas pernas penduradas e seus braços cruzados. Vestida com uma camiseta púrpura, calças azuis desgastadas e um velho par de tênis, Mira poderia se passar por qualquer outra menina esperando o jantar. Mas as meninas normais não eram obrigadas a comer a mesma coisa praticamente todos os dias. As pequenas meninas normais tinham famílias que as amavam e cuidavam delas. Viviam em casas bonitas, em ruas bonitas e arborizadas, com cozinhas brilhantes, despensas cheias e com mães que sabiam preparar refeições maravilhosas.

Pelo menos, isso é o que Renata imaginava quando pensava na representação ideal de uma família normal. Ela não imaginava isso baseada em algum tipo de experiência pessoal. Como menina de rua antes que Yakut a encontrasse e a levasse para casa, Mira tampouco sabia o que era normal. Mas era esse tipo saudável, o tipo de vida normal, que Renata desejava para a garota, embora aquilo parecesse um desejo insignificante ali, de pé na cozinha imunda de Sergei Yakut, ao lado de um fogão que provavelmente não funcionava, embora tivesse gás correndo nele.

Como Renata e Mira eram as únicas na cabana que se alimentavam de comida, Yakut tinha deixado em suas mãos que ela e a menina se alimentassem regularmente. Renata não prestava realmente atenção em sua alimentação e odiava não ser capaz de oferecer a Mira algo agradável de vez em quando.

- Um dia sairemos e teremos um jantar de verdade, com cinco pratos diferentes. Além de sobremesa - acrescentou, passando a geleia de morango em uma fatia de pão branco. - Talvez tenhamos duas sobremesas cada uma.

Mira sorriu sob o curto véu negro que lhe caía sobre a pequena ponta do nariz.

- Será que a sobremesa será de chocolate?

- De chocolate. Com certeza. Tome, pegue - disse, entregando o prato com um sanduíche de geleia.

Renata se apoiou no balcão enquanto Mira cortava uma pequena parte do sanduíche e comia como se fosse tão delicioso como qualquer menu de cinco pratos que pudesse imaginar.

- Não se esqueça de tomar seu suco de maçã.

- Está bem.

Renata cravou o canudo na caixa de suco e colocou-a ao lado de Mira. Depois, começou a limpar o balcão. Cada músculo de seu corpo feminino se retesou quando ela ouviu a voz de Lex na cozinha.

Ele havia saído ao anoitecer. Renata realmente não sentiu sua falta, mas não se perguntou o que esteve fazendo desde que saiu. A resposta para aquela pergunta veio na forma de uma gargalhada de mulher bêbada - várias mulheres bêbadas, pelo som do riso e os chiados atravessando a área principal da cabana.

Lex frequentemente levava mulheres humanas para casa para servir seu exército com sangue e diversão. Às vezes, ele as mantinha lá por vários dias. Geralmente compartilhava suas presas com os outros guardas, todos as usavam e apagavam o ataque de suas mentes antes de devolvê-las às suas vidas. Estar sob o mesmo teto que Lex quando ele estava bem-humorado a deixava enojada, mas o que mais lhe enfurecia era o fato de Mira ser exposta àqueles jogos macabros.

- O que está acontecendo ali fora, Rê? - perguntou.

- Termine seu sanduíche - disse Renata a Mira quando a garota parou de comer para escutar o alvoroço na outra sala. - Fique aqui. Volto já.

Renata saiu da cozinha e atravessou o corredor.

- Bebam, senhoritas! - gritou Lex, deixando cair uma caixa de garrafas de licor no sofá de couro.

Ele não consumiria álcool, nem os outros favores que oferecia na festa. Tirou alguns sacos plásticos brancos e enrolados, cada um bastante cheio com o que provavelmente era cocaína, e os jogou sobre a mesa. O sistema de som foi ligado, um baixo vibrando fortemente sob a letra de um hip-hop.

Lex agarrou a morena curvilínea com risada frívola e a colocou sob seu braço.

- Eu lhe disse que teríamos muita diversão! Agora venha aqui e me mostre sua gratidão.

Certamente Lex estava em um raro estado de ânimo, de bom humor. E não era um milagre. Retornou com um bom grupo: cinco mulheres vestidas com saltos altos, pequenos tops e microssaias. A princípio, Renata achou que eram prostitutas, mas observando-as mais de perto, estavam muito limpas e muito frescas sob toda a maquiagem pesada para fazerem parte da vida das ruas. Provavelmente eram apenas garotas ingênuas do clube, que não tinham se dado conta de que o persuasivo e atraente homem que as recolheu era na realidade alguém saído de um pesadelo.

- Venham e conheçam meus amigos - Lex disse ao grupo de mulheres enquanto se dirigia até os outros machos da Raça para mostrar a eles a captura da noite. Houve um momento de apreensão evidente enquanto os quatro guardas fortemente armados olhavam lascivamente seus aperitivos humanos. Lex empurrou três mulheres para os ansiosos vampiros.

- Não sejam tímidas, garotas. Esta é uma festa, afinal. Vão e digam olá.

Renata percebeu que ele estava retendo as duas garotas mais bonitas. Típico de Lex, obviamente tinha reservado o melhor para ele. Renata estava a ponto de girar e voltar à cozinha – e tentar ignorar a orgia sangrenta que estava a ponto de começar. Mas, antes que pudesse dar dois passos, Sergei Yakut apareceu trovejando de seus aposentos privados.

- Alexei! - a fúria vibrava do vampiro mais velho em ondas de calor. Ele olhou Lex com olhos brilhantes cor de âmbar. – Você esteve fora durante horas. Por onde andou?

- Estive na cidade, pai – Lex esboçou um sorriso generoso, como se dissesse que seu tempo fora de suas obrigações não fosse inteiramente para servir suas próprias necessidades. - Olhe o que eu trouxe.

Lex afastou uma das mulheres de seu abraço para que Yakut a inspecionasse. Yakut nem olhou para o prêmio que Lex lhe oferecia, só olhou para as duas mulheres que Lex guardava para si.

O Primeira Geração grunhiu.

- Você tira porcaria da sola de seu sapato e me diz que é ouro?

- Nunca - respondeu Lex. - Pai, eu nunca...

- Bem. Estas duas serão minhas - disse, indicando as mulheres que Lex havia reservado para si.

Furioso como deveria estar, humilhado com a espetada em seu orgulho, Lex não disse palavra alguma. Baixou o olhar e esperou em silêncio que Yakut recolhesse suas duas companheiras e se dirigisse com elas para seus aposentos privados.

- Não queremos ser incomodados - Yakut ordenou sombriamente. - Por razão alguma.

Lex assentiu em uma reverência contida.

- Sim, pai. Claro. Como quiser.

Nikolai ouviu a música e as vozes antes mesmo de estar a quinhentos metros da propriedade de Yakut. Aproximou-se, movendo-se através do bosque como um fantasma, passando pelo carro de Lex, estacionado na parte de trás, com o capô ainda quente por causa da viagem à cidade.

Niko não estava seguro do que encontraria. Não esperava uma maldita festa, mas isso era o que parecia estar acontecendo dentro da casa principal. O lugar estava iluminado como uma árvore de natal, as luzes saíam das janelas da sala, onde alguém estava entretido com várias mulheres. Um rap pesado vibrava por todo o caminho de terra por baixo das botas de Nikolai enquanto ele se aproximava pelo lado da construção e lançava uma olhada para dentro.

Lex estava lá, muito bem. Ele e o resto dos guarda-costas de Yakut, reunidos todos em uma sala rústica. Três mulheres jovens dançavam nos tapetes de pele vestidas somente com roupas íntimas, todas claramente embriagadas, tendo em vista a quantidade de bebidas alcoólicas e drogas sobre a mesa mais próxima. Os quatro guardas da Raça uivavam e as animavam, provavelmente a segundos de se jogarem sobre seus corpos ingênuos.

Lex, enquanto isso, estava sentado, curvado em um sofá de pele, os olhos escuros fixos nas mulheres apesar de seus pensamentos parecerem estar a quilômetros de distância. Não havia sinal do malicioso Lex que esteve na cidade. Tampouco havia sinais de Sergei Yakut, e o fato de a segurança inteira estar entretida com aquele pequeno espetáculo fez os instintos de Niko mudarem para o alerta vermelho.

- Que demônios está acontecendo? - Niko pronunciou baixo.

Mas ele sabia a resposta inclusive antes que começasse a mover-se pela parte posterior da propriedade, onde ficavam os aposentos de Yakut - lá, um sutil, porém persistente aroma, confirmou o pior temor de Niko.

Maldito seja! Havia um Renegado ali.

Nikolai também sentiu o cheiro de sangue fresco derramado, proveniente de um humano. O aroma era quase entristecedor quanto mais se aproximava do quarto de Yakut. Sangue e sexo, para ser exato, como se o Primeira Geração estivesse fazendo um banquete.

Um grito repentino irrompeu na noite.

De mulher. Um som de terror total, vindo de dentro do quarto de Yakut.

Depois, disparos amortecidos.

Pá, pá, pá!

Nikolai voou através da porta traseira do refúgio, sem se surpreender ao encontrá-la destrancada e parcialmente aberta. Irrompeu no quarto de Yakut com sua pistola semiautomática na mão, pronta para lançar a carga completa de balas de titânio reforçado.

A cena que o saudou era uma carnificina total.

Na cama estava Sergei Yakut, esparramado nu em cima de uma mulher presa sob seu corpo sem vida, com a garganta rasgada onde o vampiro esteve se alimentado apenas alguns segundos antes. Ela não se movia e não havia cor em sua pele ou no cabelo, já que a maior parte dela estava coberta pelo sangue de Yakut e também por seu próprio.

Faltava a metade do rosto do Primeira Geração. A cabeça de Sergei Yakut era pouco mais do que pedaços de osso, tecido e sangue restantes das três balas que tinham sido disparadas a queima-roupa na parte posterior de seu crânio. Ele estava morto e o Renegado que o matara estava também preso pelo desejo de sangue, a ponto de não se dar conta da presença de Nikolai. O filho da mãe tinha deixado a pistola que tinha utilizado para matar Yakut e agora estava ocupado com a outra mulher, também nua, que tinha sido apanhada no canto do quarto. Seus olhos estavam voltados para trás e ela não se movia. Caramba, ela também não estava respirando, embora o Renegado seguisse bebendo dela em seu pescoço destroçado pelas presas enormes.

Niko se moveu por trás do filho da mãe e colocou o canhão da arma contra sua cabeça desgrenhada. Apertou o gatilho e provocou explosões de titânio no cérebro do canalha. O Renegado caiu no chão, retorcendo-se com espasmos por causa do golpe. O titânio fez efeito rápido e o vampiro moribundo lançou um grito tão forte que sacudiu as velhas vigas de madeira da cabana como um trovão.

Renata saiu voando da cozinha com sua pistola pronta. Seus sentidos de batalha estavam esticados como cordas de piano, o crepitar de disparos distantes e o uivo desumano que o seguiram, procedentes do outro lado do refúgio. A música seguia soando na grande sala. As visitantes de Lex já não estavam vestidas e seguiam estridentes com o contínuo fluxo de drogas e álcool. As mulheres estavam sobre os guardas que, pelo olhar faminto, não notariam se uma bomba explodisse no quarto ao lado.

- Idiotas - Renata os acusou baixo. - Nenhum de vocês escutou isso?

Lex levantou os olhos, a preocupação obscureceu sua expressão, mas ela realmente não estava esperando uma reação por parte dele. Ela correu para o corredor do quarto de Yakut. O corredor estava escuro, o ar parado. Tudo muito silencioso. Muito parado.

A morte dependurava-se como um véu, quase asfixiante, enquanto ela se aproximava da porta aberta do alojamento do vampiro.

Sergei Yakut já não estava vivo; Renata sentiu em seus ossos. Pólvora, sangue e um entristecedor aroma adocicado de podridão a advertiram de que ela caminhava para algo terrível. Todavia, nada poderia tê-la preparado realmente para o que viu quando empurrou a porta com a arma levantada e sustentada com ambas as mãos, pronta para matar quem estivesse em seu caminho.

A visão de toda aquela morte, todo aquele sangue, toda aquela violência pegou Renata de surpresa. A morte estava por toda parte: na cama, no chão, nas paredes.

E também no corpo inerte de Sergei Yakut.

Nikolai estava no centro da carnificina, seu rosto e a camisa escura estavam salpicados de cor escarlate. Em sua mão havia uma grande pistola semiautomática, a ponta do cano ainda fumegante por seu recente disparo.

- Você? - a palavra deslizou dos lábios de Renata, a comoção e a incredulidade como uma bola de gelo em seu intestino. Olhou o corpo de Yakut – seus restos - espalhado sobre a cama, em cima da mulher sem vida.

- Meu Deus - ela sussurrou, surpreendida ao vê-lo na propriedade de novo, mas ainda mais surpresa pelo resto do que estava vendo. – Você... você o matou.

- Não - o guerreiro disse movendo a cabeça sombriamente. – Eu não o matei, Renata. Havia um Renegado aqui com Yakut – disse indicando a grande massa de fumegantes cinzas no chão, a fonte do aroma ofensivo. - Eu matei o Renegado, mas era muito tarde para salvar Yakut. Sinto muito.

- Abaixe a arma – ela disse, sem se interessar pelas desculpas. Ela não precisava delas. Renata sentiu pena pelo final violento de Yakut, um sentimento de incredulidade a surpreendeu por ele estar realmente morto. Mas não havia dor. Nada que absolvesse Nikolai de sua aparente culpa. Apontou firmemente para seu alvo e entrou um pouco mais no quarto. – Abaixe a arma. Agora.

Mas Niko manteve o controle firme de sua pistola 9 mm.

- Não posso fazer isso Renata. Não o farei, não enquanto Lex estiver respirando.

Ela franziu a testa, confusa.

- O que tem Lex?

- Este assassinato foi obra dele, não minha. Ele trouxe o Renegado aqui. Trouxe as mulheres para distrair os guardas e Yakut para que o Renegado pudesse se aproximar o suficiente para matá-lo.

Renata escutou, mas manteve o alvo sob sua mira. Lex era uma víbora, certo, mas um assassino? Realmente planejaria a morte de seu próprio pai?

Só então Lex e os outros guardas se aproximaram pelo corredor.

- O que aconteceu? Algo errado...

Lex se calou quando chegou à porta aberta do quarto do pai. Em sua visão periférica, Renata o viu olhar primeiro o corpo de Yakut na cama e, depois, Nikolai. Cambaleou para trás – um passo, não muito mais do que uma pausa. Então explodiu com muita raiva.

- Filho da mãe! Maldito assassino filho da mãe.

Lançou-se, mas foi uma tentativa em vão, que abandonou completamente quando a pistola de Nikolai girou em sua direção. O guerreiro não fraquejou, nem o olhar nem um músculo sequer de seu corpo. Estava completamente calmo enquanto olhava Lex pelo canhão da arma, inclusive quando a arma de Renata e a dos outros guardas apontavam para ele.

- Vi você na cidade esta noite, Lex. Eu estava lá. Na casa do drogado, a isca que você usou para atrair os vampiros Renegados. O filho da mãe que você trouxe esta noite pra cá. Eu vi tudo.

Lex zombou.

- Foda-se você e suas mentiras! Você não viu porra nenhuma, maldito!

- O que você prometeu ao Renegado em troca da cabeça de seu pai? Dinheiro não importa aos viciados em sangue. A vida de quem você ofereceu como prêmio? A de Renata? Talvez a da garota, Mira?

O peito de Renata se apertou diante daquele pensamento. Atreveu-se a dar uma rápida olhada em Lex e o encontrou friamente zombador diante do guerreiro, dando uma leve sacudida de cabeça.

- Você dirá qualquer coisa nesse momento para salvar o seu pescoço. Nada funcionará. Não quando você mesmo ameaçou a vida de meu pai não faz nem vinte horas. - Lex girou para ver Renata. - Você também o escutou, não foi?

Ela assentiu contrariada, recordando como Nikolai deu a Sergei Yakut uma advertência pública de que alguém precisava detê-lo.

Agora Nikolai tinha retornado e Yakut estava morto.

Mãe do Céu, ela pensou, olhando uma vez mais o corpo sem vida do vampiro que a manteve prisioneira pelos últimos dois anos. Ele estava morto.

- Meu pai não estava correndo perigo algum até que a Ordem entrou no jogo - Lex disse. - Uma tentativa fracassada, e agora isso, um banho de sangue. Você esperou para fazer seu movimento. Você e o Renegado que trouxe com você esta noite, esperando uma oportunidade para atacar. Só posso deduzir que veio matar meu pai desde o começo.

- Não - disse Nikolai, com um brilho de luz âmbar em seus olhos azuis de inverno. - Quem estava esperando para matá-lo era você, Lex.

Em uma fração de segundo, ela viu os tendões de Nikolai flexionarem-se enquanto seu dedo começava a pressionar o gatilho da arma, e disparou nele uma forte explosão mental. Por menos consideração que tivesse por Alexei, ela não podia deixá-lo morrer naquela noite. Nikolai rugiu, a coluna vertebral arqueada, o rosto retorcendo de dor.

Mais efetiva que as balas, a explosão o derrubou de joelhos em um instante. Os quatro guardas irromperam no quarto e tomaram-lhe a pistola e o resto das armas. Os canhões de quatro revólveres foram colocados na cabeça do guerreiro, à espera de ordens para matar. Um dos guardas armou o gatilho, ávido pelo derramamento de sangue, embora o quarto já estivesse repleto.

- Abaixem as armas – disse Renata. Olhou Lex, cujo rosto estava repleto de ira, seus olhos azuis e brilhantes, suas presas afiadas visíveis entre os lábios entreabertos. – Diga-lhe para que se retirem, Lex. Matá-lo apenas nos fará assassinos a sangue frio.

Incrivelmente, Nikolai começou a rir. Levantou a cabeça, com um esforço evidente, enquanto a explosão ainda o detia.

- Ele tem que me matar, Renata, porque não pode arriscar-se a ter uma testemunha. Não é verdade, Lex? Ninguém pode caminhar por aí sabendo seu segredo sujo.

Lex tirou sua própria pistola e se dirigiu diretamente a Nikolai. Colocou o canhão da pistola contra a testa do guerreiro. Grunhiu, seu braço tremendo pela ferocidade de sua raiva. Renata estava imóvel, horrorizada diante do medo de que ele, de fato, apertasse o gatilho. Ela estava perdida, uma parte dela queria acreditar no que Nikolai dissera – que era inocente – e outra parte estava temerosa em acreditar. O que havia dito de Lex simplesmente não podia ser verdade.

- Lex - ela disse, o único som no quarto. – Lex... não faça isso.

Ela estava a menos de uma pausa de golpeá-lo como tinha feito a Nikolai quando a arma lentamente foi baixada.

Lex rosnou, deixando-a um pouco mais tranquila.

- Eu gostaria de uma morte mais lenta para esse bastardo do que a que sou capaz de lhe dar. Levem-no para a sala principal e prendam-no - disse aos guardas. – Depois, alguém se encarregue de cuidar do corpo de meu pai. Tirem as garotas que estão no outro cômodo da propriedade. Quero todo este caos sangrento limpo imediatamente.

Lex voltou-se com um olhar sombrio para Renata quando os guardas começaram a arrastar Nikolai para fora do quarto.

- Se ele tentar algo, descarregue toda a sua força nesse filho da mãe.


Capítulo 13

- Pardonnez-moi, monsieur Fabien. Há uma chamada telefônica para o senhor. De um monsieur chamado Alexei Yakut.

Edgar Fabien fez um gesto desdenhoso para o macho da Raça que o servia como secretário pessoal e continuou admirando no espelho do armário o corte de suas calças feitas sob medida. Ele estava experimentando um traje novo e, naquele momento, nada que Alexei Yakut tivesse a lhe dizer era suficientemente importante para justificar uma interrupção.

- Diga-lhe que estou em uma reunião e não posso ser incomodado.

- Desculpe-me, senhor, mas já o informei que o senhor está indisponível. Ele diz que é um assunto urgente que requer sua imediata atenção.

Com uma reflexão, Fabien olhou para trás furiosamente por baixo das pálidas sobrancelhas arrumadas. Não se esforçou para ocultar os sinais externos de sua irritação crescente, que se mostraram pelo brilho âmbar de seus olhos e pela repentina agitação das cores de seus dermoglifos, que formavam redemoinhos e um arco sobre seu peito nu e seus ombros largos.

- Basta - disse ao alfaiate enviado da loja Givenchy do centro da cidade. O humano recuou imediatamente, recolhendo seus alfinetes e sua fita métrica e obedientemente se afastando às ordens de seu Mestre. Ele pertencia a Fabien – um dos muitos Subordinados que o vampiro da Raça de segunda geração empregava pela cidade. - Fora daqui, vocês dois.

Fabien desceu do soalho do armário e se aproximou do telefone que estava na mesa. Esperou até que ambos os serventes tivessem abandonado o quarto e a porta fosse fechada atrás deles.

Com um grunhido, tomou o aparelho e apertou o botão que piscava para conectar-se à chamada de Alexei Yakut.

- Sim - sussurrou ele com frieza. - Qual é o assunto urgente que simplesmente não pode esperar?

- Meu pai está morto.

Fabien balançou sobre seus calcanhares, realmente surpreendido pela notícia. Exalou um suspiro com a intenção de soar aborrecido.

- Que conveniente para você, Alexei. Terei que oferecer felicitações junto com minhas condolências?

O herdeiro aparente de Sergei Yakut ignorou a alfinetada.

- Havia um intruso na mansão esta noite. De algum modo, ele conseguiu entrar sigilosamente no lugar. Matou meu pai em sua cama, a sangue frio. Ouvi a perturbação e tentei intervir, mas... bem... Era muito tarde para salvá-lo. Estou desolado, certamente.

Fabien grunhiu.

- Obviamente.

- Mas supus que você devesse ser notificado a respeito do crime. E também suspeitei que você e a Agência viriam aqui imediatamente para deter o assassino de meu pai.

Cada célula no corpo de Fabien se deteve.

- O que está dizendo? Que tem alguém sob custódia? Quem?

Um riso baixo se escutou no outro lado da linha.

- Vejo que finalmente tenho sua atenção, Fabien. O que acharia se eu dissesse que tenho um membro da Ordem sob minha custódia, esperando por você aqui no albergue? Estou seguro de que há algumas pessoas que pensam que um guerreiro a menos para lutar seria excelente.

- Você não está realmente tentando me convencer de que esse guerreiro é responsável pela morte de Sergei Yakut, não é?

- Estou apenas dizendo que meu pai está morto e estou no comando de seus domínios agora. Digo que tenho um membro da Ordem em minhas mãos, e estou disposto a entregá-lo a você. Um presente, se quiser.

Edgar Fabien guardou silêncio durante um longo momento, considerando o imenso prêmio que Alexei Yakut lhe oferecia. A Ordem e seus membros ativos tinham poucos aliados dentro da Agência. Menos ainda dentro do círculo privado ao qual Fabien pertencia.

- E o que espera em troca desse... presente?

- Já disse quando nos conhecemos. Quero entrar. Quero uma parte em qualquer ação que você esteja tentando fazer. Uma parte grande, entende? – Lex riu, bastante cheio de si. - Você precisa de mim ao seu lado, Fabien. Penso que isso é óbvio para você agora.

A última coisa que Edgar Fabien ou qualquer de seus sócios precisava ao seu lado era um ambicioso maldito como Alexei Yakut. Ele era um perigo em potencial, alguém que teria de ser tratado com cuidado. Se Fabien tivesse que escolher, optaria por uma exterminação rápida, mas teria que ser alguém mais em última instância para fazer aquela escolha.

Quanto ao membro cativo da Ordem, isso era, de fato, intrigante. Era um presente digno a se considerar, e as muitas atraentes possibilidades que isso representava faziam o coração de quase quatrocentos anos de idade de Fabien pulsar um pouco mais rápido.

- Terei que fazer alguns... acertos - disse ele. - Pode levar uma hora, mais ou menos, para alinhar os recursos e ir até a sua casa para recuperar o prisioneiro.

- Uma hora - Alexei Yakut aceitou ansiosamente. - Não me faça esperar mais do que isso.

Fabien engoliu sua resposta ácida e terminou a chamada com um consentimento:

- Até logo então.

Sentou-se na mesa e olhou para a linha do horizonte noturno que brilhava intermitentemente à distância, bem além de seu imóvel no Refúgio. Então, dirigiu-se para o cofre e virou a fechadura da combinação, pegando a manivela para abri-lo. Dentro havia um telefone celular reservado apenas para chamadas de emergência. Ele teclou um número programado e esperou que o sinal cifrado conectasse. Quando a voz asfixiante do outro lado respondeu, Fabien disse:

- Temos um problema.

As correntes pesadas rodeavam o torso nu de Nikolai, atando-o a uma cadeira de madeira esculpida. Ele sentia restrições similares em suas mãos, que estavam presas atrás de si, e em seus pés, amarrados pelos tornozelos e presos com força contra as pernas da cadeira.

Nikolai tinha levado uma surra, e não apenas da rajada mental debilitante, cortesia de Renata. Graças àquele golpe demolidor, ficou inconsciente durante algum tempo, lutando para levantar suas pálpebras, inclusive agora. É obvio, parte da dificuldade devia-se ao fato de seu rosto ter sido golpeado e arruinado, os olhos estavam inchados, os lábios arrebentados e amargos com o sabor do próprio sangue. Ele estava muito fraco para uma verdadeira luta quando Lex e seus guardas tinham trabalhado nele como em um saco de boxe enquanto tiravam-lhe até a cueca e o arrastavam para o grande quarto da residência para esperar por seu destino.

Nikolai não sabia há quanto tempo estava sentado ali. Tempo suficiente para que suas mãos ficassem inchadas pela falta de circulação. Tempo suficiente para ter notado quando Renata passou pelo quarto, protetoramente conduzindo Mira para longe da repugnante cena. Tinha observado uma mecha de seu cabelo empapado em suor, vendo a dor e a tensão em seu rosto quando ela lançou um olhar sinistro em sua direção.

Sua reverberação provavelmente a golpeava muito duramente agora, ele supunha. Niko disse para si que a pontada que sentiu era apenas outro músculo gritando pelo abuso; ele não podia ser tão estúpido para sentir algum tipo de simpatia pelo sofrimento da fêmea. Ele não podia ser tão estúpido para se preocupar com o que ela pensava a respeito dele - isso se ela, de fato, tivesse acreditado nas acusações feitas por Lex – mas, maldição, ele realmente se importava. Sua frustração por não poder falar com Renata apenas aumentava sua dor física e sua fúria.

Do outro lado da sala, os quatro guardas examinavam as armas e as rodas de titânio com as pontas ocas feitas a mão, criações pessoais de Nikolai. Eles tinham todos os pertences do guerreiro dispostos sobre uma mesa, fora de seu alcance. O celular de Niko - seu vínculo com a Ordem - estava despedaçado no chão. Lex tinha tido o grande prazer de esmagá-lo sob sua bota antes de partir, deixando Nikolai sob a supervisão de seus guardas.

Um dos machos da Raça disse algo que fez os outros três rirem antes que girasse com a semiautomática de Niko e apontasse em sua direção. Nikolai não estremeceu. De fato, ele mal respirava, olhando pela fenda torcida de seu olho esquerdo, todos seus músculos desabados como se ainda estivesse inconsciente e inconsciente sobre o que acontecia ao seu redor.

- Que tal se o acordássemos? - brincou o guarda com a arma na mão. Ele a balançou para Niko, tentadoramente dentro do alcance de sua mão, se os braços de Niko não estivessem fortemente amarrados atrás dele. A boca da 9mm baixou lentamente, além de seu peito, logo acima de seu abdômen definido. - Eu sugiro castrarmos esse pedaço de porcaria assassino. Tiramos suas bolas e deixamos que a Agência o leve em pedaços.

- Kiril, deixe de ser idiota - um dos outros advertiu. - Lex disse que não podíamos tocá-lo.

- Lex é uma garotinha. - O polido aço negro chiou com o frio entalhe quando Kiril martelou. - Em dois segundos esse guerreiro vai ser somente uma garotinha também.

Nikolai se manteve muito quieto quando a arma foi pressionada em sua virilha. Parte de sua paciência nasceu do verdadeiro temor, já que ele era bastante aficionado por suas partes viris e não tinha desejo algum de perdê-las. Mas era inclusive mais primitivo que ele entendesse que as oportunidades de reverter a situação a seu favor eram poucas e breves. Ele tinha superado a maioria dos efeitos internos do talento de Renata, mas não podia estar seguro de sua força física a menos que tentasse.

E se tentasse agora e falhasse... bem, ele não queria contemplar as possibilidades de afastar-se sem sua virilidade intacta se tentasse escapar de suas ataduras e conseguisse apenas um disparo impulsivo de Kiril.

Uma dura palmada golpeou a lateral da sua cabeça.

- Está aí, guerreiro? Tenho algo para você. Hora de despertar.

Com os olhos fechados para ocultar a mudança da cor azul para o âmbar, Nikolai deixou que sua cabeça caísse mole com o golpe. Mas, dentro dele, a fúria começava a acender. Ele tinha que manter a calma. Não podia deixar que Kiril ou os outros vissem a mudança de seus dermoglifos e arriscar-se a mostrar que estava completamente acordado e consciente. E totalmente de saco cheio.

- Acorde! - grunhiu Kiril.

Começou a levantar o queixo de Niko, mas então um ruído fora do recinto chamou sua atenção. Cascalho salpicando e rangendo debaixo de pneus de veículos que se aproximavam. Uma frota deles, pelo som.

- A Agência está aqui - um dos outros guardas anunciou.

Kiril afastou-se de Nikolai, mas tomou seu tempo para desarmar a pistola. Do lado de fora, os veículos reduziam a velocidade, até pararem. Portas se abriram. Botas golpeando o caminho de cascalho foram ouvidas quando os Agentes do Refúgio se aproximaram. Nikolai contou mais de meia dúzia de pares de pés movendo-se para a casa.

Inferno.

Se ele não saísse daquela situação rapidamente, despertaria nas mãos da Agência. E, para um membro da Ordem, um grupo que a Agência há muito tempo desejava extinguir, a detenção faria que Lex e o tratamento de seus guardas parecesse uma temporada em um spa. Se caísse nas mãos da Agência agora, especialmente quando o acusavam de assassinar um Primeira Geração, Niko sabia, sem sombra de dúvidas, que também acabaria morto.

Lex saudou os recém-chegados como se fossem uma corte.

- Por aqui - indicou de algum lugar fora do recinto. – Prendi o filho da mãe. Ele está esperando lá dentro.

- Ele prendeu o filho da mãe - murmurou Kiril acidamente. - Duvido que Lex pudesse manter seu próprio traseiro mesmo que usasse ambas as mãos.

Os outros guardas riram cautelosamente.

- Venha - disse Kiril. - Vamos pôr o guerreiro de pé para que a Agência possa levá-lo daqui.

A esperança surgiu no peito de Niko. Se o liberassem das algemas, poderia ter uma pequena possibilidade de escapar. Muito pequena, tendo em vista o som próximo das botas e a capacidade armamentista que se dirigia em sua direção do exterior da casa. Mas pequena era muitíssimo melhor do que nenhuma.

Ele manteve o corpo sem vida na cadeira, inclusive enquanto Kiril se abaixava diante dele e tirava as correntes que estavam ao redor de seus tornozelos. A impaciência o corroía. Cada impulso de Nikolai dizia que levantasse seu joelho e golpeasse o guarda por baixo da mandíbula.

Ele teve que se reprimir com os dentes mordendo a língua para manter-se imóvel, com a respiração mais superficial que pudesse, esperando a melhor oportunidade enquanto o guarda dava a volta por trás e recolhia os cadeados que fechavam as correntes em seu torso e pulsos. Um giro da chave. Um estalo rangente do aço quando a fechadura se abriu.

Nikolai flexionou seus dedos, tomou uma respiração profunda, sem restrições.

Abriu os olhos. Sorriu abertamente aos companheiros de Kiril um instante antes de levantar os braços e agarrar a cabeça grande de Kiril com as mãos.

Com um movimento fluido, deu um giro violento e saltou para cima, fora da cadeira. As correntes caíram e Nikolai estava de pé com o forte estalo do rompimento do pescoço de Kiril.

- Santo Cristo! - gritou um dos guardas.

Alguém lançou um disparo frenético. Os outros dois procuraram por suas armas.

Niko puxou bruscamente a pistola de Kiril fora de sua cartucheira e devolveu o fogo, derrubando um guarda com uma bala na cabeça.

A situação gerou gritos de alarme no corredor. As botas começaram a golpear. Um pequeno exército de Agentes chegaria para tomar o controle da situação.

Maldito seja.

Não tinha muito tempo para fugir antes que ele estivesse contemplando os canos de não menos do que meia dúzia de pistolas em poucos segundos.

Nikolai arrastou o corpo morto de Kiril diante de si e o manteve ali como um escudo. O cadáver tomou um par de golpes rápidos quando Niko começou a se mover para trás, para a janela que ficava do outro lado do grande quarto.

Na porta agora aberta havia um grupo de Agentes vestidos de preto, todos munidos com algumas armas de fogo semiautomáticas, que o observavam bastante sérios.

- Parado, maldito!

Niko lançou um olhar por cima do ombro para a janela que estava alguns metros atrás dele. Essa era sua melhor - sua única - opção. Render-se agora e sair pacificamente com seus executores da Agência era uma alternativa que ele se negava a considerar.

Com um rugido, Niko agarrou o peso morto de Kiril e balançou o corpo para a janela de cristal. Manteve-o perto quando a janela estilhaçou, usando o cadáver do vampiro como escudo para conseguir sair do alcance do vidro quebrado e assim atravessar o improvisado buraco.

O guerreiro da Raça escutou uma ordem atrás de si – uma ordem de um dos Agentes para que abrissem fogo.

Ele sentia o ar fresco da noite sobre o rosto, sobre o cabelo e sobre o corpo nu umedecido pelo suor. Mas, antes que ele pudesse registrar o menor sabor da liberdade...

Pá! Pá! Pá!

Suas costas nuas arderam como se estivessem em chamas. Seus ossos e músculos sentiram-se flexíveis, e dentro de si dissolveu-se uma onda de bílis e ácido que lhe chamuscou a parte posterior da garganta. A visão de Nikolai mergulhou em uma escuridão repentina que o devorou. Ele sentiu a terra surgir rapidamente debaixo de si quando ele e o cadáver de Kiril caíram abaixo da janela.

Então, já não sentiu mais nada.

 

 

CONTINUA

Capítulo 10

Nikolai despertou na escuridão total, com a cabeça descansando sobre o caixão de um homem aparentemente rico de Montreal que estava morto há 67 anos. O chão de mármore do mausoléu era um pouco duro para as horas de descanso, mas tinha servido muito bem para Niko. A noite estava perigosamente perto da alvorada quando ele deixara o território de Yakut e, além disso, ele certamente já havia dormido em lugares piores do que o cemitério que tinha encontrado no extremo norte da cidade.

Com um gemido, sentou-se e abriu o telefone celular para verificar que horas eram. Merda, ainda era uma hora da tarde; tinha aproximadamente sete ou oito horas para esperar ali antes do anoitecer, quando seria seguro sair. Sete ou oito horas a mais e ele já estava angustiado pelo tempo de inatividade que teria de atravessar.

Sem dúvida alguma, Boston estaria se perguntando sobre ele agora. Niko teclou a discagem rápida que chamava o escritório central da Ordem. No meio do segundo toque, Gideon respondeu.

- Niko, pelo amor de Deus! Já estava na hora de você passar um relatório - o sotaque do inglês vago do guerreiro soou um pouco áspero. Nada surpreendente, considerando que Niko estava ligando no meio do dia. – Diga, você está bem?

- Sim, estou bem. Meu objetivo aqui em Montreal ficou ainda mais difícil de ser alcançado desde domingo, mas, fora isso, está tudo bem.

- Não conseguiu encontrar Sergei Yakut, então?

Niko riu.

- Ah, encontrei o bastardo facilmente. O Primeira Geração está vivinho e abanando o rabo. Mora ao norte da cidade em uma espécie de mansão à la Gengis Khan.

O guerreiro deu a Gideon um rápido resumo de tudo o que havia acontecido desde sua chegada a Montreal - do chute no traseiro que recebera de Renata como boas-vindas até as poucas e estranhas horas que passara no refúgio de Yakut, as quais culminaram com a localização de humanos mortos e largados na parte de trás da casa e sua subsequente expulsão de lá.

Ele descreveu a recente tentativa fracassada de acabar com a vida do Primeira Geração e o incrível papel que Mira desempenhou para frustrar tal ataque. Niko deixou de fora a parte sobre o que ele tinha visto nos olhos de Mira. Não viu razão alguma para compartilhar os detalhes daquela visão que, apesar da insistência de Renata em afirmar que Mira nunca se enganava, tinha praticamente zero chance de se realizar - não, agora havia exatamente zero chance de a visão acontecer.

Deveria ter sido um alívio para ele saber disso. A última coisa de que precisava era se meter com uma mulher, especialmente uma peça desse jogo macabro como Renata. A companheira unida pelo laço de sangue a Yakut. A ideia ainda o corroía, muito mais do que deveria, aliás. E ele não se sentia particularmente bem com o fato de que a mais leve lembrança daquele beijo era suficiente para fazê-lo ficar duro como o granito da tumba que o rodeava.

Ele a desejava, e por uma fração de segundo, quando deixou o refúgio de Yakut, pensou que ela poderia segui-lo. Não tinha motivo algum para pensar isso, mas tinha sido um golpe no estômago, uma sensação de que talvez Renata pudesse correr atrás dele e pedir-lhe que a tirasse dali.

E se o tivesse feito? Cristo, ele tinha que ser muito idiota só para considerar essa hipótese.

- Então - disse a Gideon, retornando mentalmente para a realidade, - não podemos contar com nenhum tipo de cooperação de Sergei Yakut. Ele basicamente me disse isso antes de me enxotar para fora e de eu o chamar de bastardo doente que precisa de focinheira e coleira.

- Jesus, Niko! - suspirou Gideon, provavelmente passando a mão pelo cabelo loiro por conta da frustração. - Disse mesmo isso a um Primeira Geração? Teve sorte que ele não tenha arrancado a sua língua antes de expulsá-lo.

Provavelmente era verdade, Nikolai reconheceu para si. E talvez tivesse perdido mais que a língua se Yakut soubesse o tipo de desejo que ele tinha por Renata.

- Sabe que sou alérgico a puxa-saquismo, mesmo se o saco em questão for o de um Primeira Geração. Se isso era uma missão de relações públicas, vocês escolheram o cara errado.

- Não me diga.

Gideon riu ao soltar outra maldição em voz baixa. - Você vai voltar para Boston, então?

- Não vejo razão para ficar aqui. A menos que você ache que Lucan não olharia torto se eu voltar e colocar fogo na casa de horrores de Yakut. Tirando-o de cena, pelo menos por um tempo.

Estava brincando... em grande parte do que falava. Mas o silêncio da resposta de Gideon revelava que seu companheiro guerreiro sabia o que estava dando voltas na cabeça de Niko.

- Sabe que não pode fazer nada disso, cara. Nada fora dos limites.

- E isso é uma merda - murmurou Nikolai.

- Sim, é. Mas essas decisões pertencem à Agência, não a nós.

- Estou lhe dizendo que Yakut não é diferente dos Renegados que tiramos das ruas, Gid. Diabos! Pelo que vi, ele é ainda pior. Ao menos os Renegados podem colocar a culpa de sua selvageria na sede por sangue. Yakut nem sequer pode agarrar-se ao vício de sangue como desculpa para caçar esses humanos por aí afora. Ele é um predador, um assassino.

- Ele está protegido - disse Gideon firmemente. - Mesmo que não fosse um Primeira Geração, continuaria sendo um civil. E um membro da Raça. Não podemos tocar nele, Niko. Não sem atirar um monte de bosta no ventilador. Portanto, o que quer que esteja pensando em fazer, não o faça.

Nikolai exalou bruscamente.

- Esqueça o que eu disse. Para que horas devo planejar minha viagem de volta a Boston?

- Terei que fazer algumas chamadas, mas o jato particular ainda está esperando por você no aeroporto. Posso mandar uma mensagem de texto com a hora assim que o voo estiver confirmado.

- Tudo bem. Vou descansar e esperar para sair.

- E, afinal, onde você está?

Nikolai olhou para o caixão atrás dele, depois para o outro em frente e para a urna de bronze que estava acumulando pó em um pedestal contra a parede de trás do escuro mausoléu.

- Encontrei um lugarzinho tranquilo para descansar no extremo norte da cidade. Dormindo como um morto, de fato. Ou com eles, em todo caso.

- Falando em mortos, temos um relatório de outro assassinato de Primeira Geração no exterior - disse Gideon.

- Cristo. Escolheram abatê-los como moscas, não é verdade?

- Ou, ao que parece, estão tentando. Reichen está acompanhando o relatório de Berlim. Recebemos um e-mail dele informando que hoje, mais tarde, haverá uma atualização.

- É bom saber que temos olhos e ouvidos nos quais podemos confiar por ali - disse Niko. - Caramba, Gideon. Nunca teria imaginado que pudesse dar algum valor a um Refúgio civil, mas Andreas Reichen está demonstrando ser um aliado muito bom. Talvez Lucan devesse recrutá-lo oficialmente para a Ordem.

Gideon riu.

- Não ache que ele não tenha considerado isso. Infelizmente, somos somente um passatempo de meio período para a jornada de Reichen. Ele pode ter a alma de um guerreiro, mas seu coração pertence a seu Refúgio em Berlim.

E a certa fêmea humana, pelo que Nikolai entendia. Segundo Tegan e Rio, dois guerreiros que tinham passado muito tempo com Andreas Reichen no Escritório Central de Berlim, o líder do Refúgio alemão estava romanticamente envolvido com Helene, a proprietária de um bordel.

Era incomum que um guerreiro da Raça pudesse ter mais de um encontro ocasional, ou uma breve relação com uma mulher mortal, mas Niko não estava a ponto de questioná-lo porque certamente Helene também estava sendo uma fonte útil de informação para a Ordem no exterior.

- Então, escute-me - disse Gideon. - Espere calmamente onde está e eu o avisarei assim que tiver a informação de sua partida para esta noite. Está bem?

- Sim. Você sabe como me encontrar.

O murmúrio de uma voz feminina aveludada, suavizada pelo sono, atravessou o telefone.

- Ah, inferno, Gid. Não me diga que está na cama com Savannah!

- Eu estava - respondeu ele, acentuando com força o tempo passado. - Agora que ela está acordada, diz que vai tomar uma ducha quente e uma xícara de café forte.

Nikolai gemeu.

- Caramba. Diga-lhe que sinto pela... interrupção.

- Ouça, querida - Gideon chamou sua amada companheira, unidos pelo laço de sangue por cerca de trinta anos. - Niko diz que sente por ser um bastardo grosseiro e por nos despertar nessa hora tão inoportuna.

- Obrigado - murmurou Niko.

- De nada.

- Ligarei de novo do avião.

- Tudo bem - disse Gideon. - Ouviu, amor? Niko quer que diga que está para desligar. Ele diz que você deve retornar para a cama e me permitir violá-la lentamente desde sua inteligente e formosa cabeça até seus deliciosos e pequenos dedinhos dos pés – disse Gideon a Savannah, que agora estava sentada ao seu lado.

Nikolai riu.

- Soa divertido. Ponham no viva-voz para que eu possa pelo menos escutar.

Gideon bufou.

- Nem pense. Ela é toda minha.

- Bastardo egoísta - Niko arrastou as palavras sarcasticamente. – Vejo você mais tarde.

- Bem, até mais tarde. E, Niko, sobre a situação de Yakut: sério, nem pense em bancar o cowboy, ok? Temos questões mais importantes do que lutar e tentar encurralar um Primeira Geração solto. Não é nossa área, sobretudo agora.

Quando Niko não concordou imediatamente, Gideon limpou a garganta.

- Seu silêncio não me dá exatamente uma tranquilidade, meu caro. Preciso saber que você está escutando isso.

- Sim - disse Nikolai. - Estou escutando. Vejo você em Boston mais tarde.

Niko desligou o celular e o colocou de volta no bolso.

Embora muito o irritasse pensar em fazer vista grossa para Yakut e para suas doentias atividades, ele sabia que Gideon tinha razão. E mais: ele sabia que o líder da Ordem, Lucan, assim como o resto dos guerreiros no complexo de Boston, diria a mesma coisa.

Esquecer Sergei Yakut, pelo menos por enquanto: isso era o mais sábio, a coisa mais inteligente que podia fazer.

E, enquanto isso, seria prudente esquecer Renata também. Ela fez sua cama, afinal de contas. O fato de, evidentemente, tê-la feito com um sádico como Sergei Yakut não era problema de Nikolai. Absolutamente. Renata, a linda dama de gelo, não era assunto seu e ele estaria melhor longe dela.

Bem longe do ninho de víboras que tinha descoberto nos domínios de Yakut.

Restavam apenas algumas horas antes do anoitecer e, então, ele poderia deixar tudo aquilo para trás.

Ela nunca havia se acostumado a dormir com a luz do dia, não nos dois anos em que tinha vivido a serviço de um vampiro.

Renata estava em sua cama, inquieta, incapaz de relaxar e fechar os olhos até mesmo por alguns minutos. Virou-se, colocando-se de costas e deixando escapar um suspiro, mantendo seu olhar fixo nas vigas de madeira do teto.

Pensava no guerreiro... Nikolai.

Ele tinha partido há várias horas, mas ela ainda sentia o peso do desprezo dele pressionado sobre ela. Odiava que tivesse visto Yakut alimentando-se dela. Tinha sido difícil fingir que não estava envergonhada quando sustentou seu olhar do outro lado do quarto. Ela tinha tentado não parecer afetada, mas, por dentro, estava tremendo, com sua pulsação martelando quase fora de controle.

Ela não queria que Nikolai a visse assim. Ainda mais pelo fato de ele ter enumerado os brutais crimes de Yakut, claramente pensando que ela era parte deles também. Ela não conseguia esquecer o olhar acusador que o macho da Raça tinha lhe dirigido.

Isso era ridículo.

Nikolai era da Raça assim como Yakut. Ele era um vampiro igual a Yakut e, como tal, tinha de se alimentar de humanos para sobreviver. Mesmo com seu limitado conhecimento sobre a Raça, Renata sabia que beber de seres humanos era a única forma de a Raça obter seu alimento. Os amigáveis vampiros não usavam os bancos de sangue, nos quais poderiam recolher um litro de O- pelo caminho. Nem os animais eram um substituto para o sangue humano.

Sergei Yakut e todo o resto da Raça compartilhavam o mesmo impulso: a necessidade dos glóbulos vermelhos dos Homo sapiens, tomados diretamente de uma veia aberta.

Eles eram selvagens e letais. Mesmo que na maioria das vezes parecessem humanos, em seu coração – ou em sua alma, se é que eles ainda tinham uma – faltava toda a humanidade. Por que ela deveria pensar que Nikolai era diferente?

Mas ele tinha parecido diferente, mesmo que só um pouco, quando tinham discutido no canil - quando a tinha beijado. Por Deus! Ele na realidade tinha parecido muito diferente dos outros da Raça que ela conhecia. Não era como Yakut, tampouco como Lex.

O que provavelmente só demonstrava que ela era uma tola.

E que era também uma fraca. Que outra coisa poderia explicar o dilacerador desejo de que Nikolai voltasse? Ele poderia tê-la tirado daquele lugar quando havia partido?

Ela frequentemente não se permitia ter esperanças vãs ou perder tempo imaginando coisas que nunca aconteceriam. Mas por um momento... por um breve e egoísta momento ela se imaginou sendo arrancada, libertada dos braços de ferro de Sergei Yakut.

Por um instante, ela se perguntou o que poderia ter vontade de fazer quando estivesse livre do sádico Primeira Geração, livre de tudo que a mantinha ali... e isso havia sido glorioso.

Envergonhada por seus pensamentos, Renata jogou as pernas para um lado da cama para se sentar. Ela não podia ficar ali um minuto a mais, não enquanto sua mente estivesse girando com pensamentos que não lhe fariam bem algum.

A verdade é que aquela era a sua vida. O mundo de Yakut era o seu mundo, o recinto e seus inúmeros segredos grotescos eram sua realidade inflexível. Ela não sentia pena de si, nunca sentira. Nem no orfanato do convento por todos aqueles anos de sua infância, nem no dia em que fora expulsa para sempre de sua casa com as Irmãs da Benevolente Misericórdia aos 14 anos de idade.

Nem mesmo naquela noite, há dois verões, quando foi arrancada das ruas de Montreal e presa com um grupo de outras pessoas assustadas nos currais do celeiro dentro da propriedade de Sergei Yakut.

Ela não tinha derramado uma só lagrima de autopiedade em todo esse tempo. E, com certeza, não iria começar agora.

Renata levantou-se e saiu de seu modesto quarto. A casa principal estava em silêncio àquela hora, as poucas janelas do lugar estavam completamente fechadas para afastar os letais raios de sol. Renata tirou a barra de ferro grossa da porta exterior e saiu andando na gloriosa tarde de verão, cálida e brilhante.

Dirigiu-se ao canil. Entre todo o drama da última noite, não só com Nikolai mas também depois, ela tinha esquecido completamente que suas adagas estavam lá fora. Ser negligente e descuidada a incomodava. Nunca deixava os punhais fora de seu alcance. Eles eram parte dela agora, como tinham sido no dia em que os tinha tomado.

- Estúpida, estúpida - sussurrava para si enquanto entrava no antigo canil e olhava para o poste em que esperava encontrar a lâmina incrustada que tinha atirado contra Nikolai.

Não estava ali.

Um grito de incredulidade e angústia deslizou por seus lábios.

O guerreiro levou suas lâminas? Será que o cachorro as tinha roubado?

- Maldito seja. Não!

Renata invadiu o corredor central do edifício... e, então, parou abruptamente quando chegou à parte posterior do lugar e seus olhos pousaram no fardo de feno perto do poste de madeira.

Cuidadosamente dobrado em cima dele e colocado perfeitamente ao lado do par de sapatos que tinha deixado para trás na noite anterior estava também a capa de seda e veludo que continha suas preciosas adagas. Segurou-as para certificar-se de que a capa de tecido não estava vazia. Quando sentiu o peso familiar em sua palma, não pôde conter um sorriso.

Nikolai.

Ele tinha guardado as adagas para ela. Ele as havia recolhido, envolvido e deixado ali, como se soubesse quanto significavam para ela.

Por que faria isso? O que esperava que sua bondade comprasse? Na verdade, pensava que sua confiança poderia ser ganha tão facilmente ou esperava outra oportunidade para impor-se do mesmo modo que havia feito com aquele beijo?

Ela realmente não queria pensar nos beijos de Nikolai. Se pensasse, então deveria admitir para si que o beijo tinha sido inesperado e à força, e que apenas ele era culpado por aquilo ter ocorrido.

Mas a verdade era que ela tinha aproveitado.

Santa Maria! Só de pensar nele um calor lento e líquido acendia-se em seu coração e em seu sexo.

Ela queria mais dele, apesar de cada instinto de sobrevivência de seu corpo ter gritado para que ela se afastasse, que escapasse rapidamente. Ela tinha fome dele – naquele momento e agora. Queimava por ele – em um lugar que ela pensava estar completamente congelado e morto. E o comentário a respeito do que ele tinha visto nos olhos de Mira - a implicação de tudo - poderia envolver Renata e ele intimamente juntos, o que era ainda mais inquietante. Graças a Deus ele se foi. Graças a Deus, ele provavelmente nunca voltaria depois do que tinha descoberto ali.

Muito tempo havia passado desde que Renata ajoelhava-se para rezar. Ela não se ajoelhava diante de ninguém mais, nem sequer de Yakut em seu pior momento, mas inclinou a cabeça e pediu aos céus que mantivesse Nikolai longe daquele lugar. Longe dela.

Já não estava com ânimo para treinar, sobretudo quando as lembranças do que tinha acontecido ali ainda estavam tão recentes em sua cabeça. Renata pegou seus sapatos e caminhou de volta para a casa. Entrou e se dirigiu ao corredor que levava ao seu quarto, esperando ter ao menos algumas horas de sono.

De repente, deu-se conta de que havia algo errado, mesmo antes de notar que a porta de Mira não estava fechada.

Nenhuma luz estava acesa no quarto da menina, mas ela estava acordada. Renata escutou sua suave voz na escuridão, queixando-se que tinha sono e não queria levantar. Mais pesadelos?, Renata se perguntou, sentindo uma pontada de compaixão pela menina. Mas, então, outra voz gemeu entre os dentes acima dos protestos aturdidos de Mira, uma voz fria, áspera e impaciente.

- Pare de choramingar e abra seus olhos, cadelinha.

Renata pressionou a mão contra a porta e a empurrou amplamente.

- Que diabos pensa que está fazendo, Lex?

Ele estava inclinado sobre a cama de Mira, apertando dolorosamente as mãos nos ombros da menina. Sua cabeça virou quando Renata entrou no quarto, mas ele não soltou Mira.

- Preciso do oráculo de meu pai. E não vou responder às suas perguntas, então, seja amável e saia daqui, inferno.

- Rê, ele está machucando meus braços.

A voz de Mira era baixa, sacudida pela dor.

- Abra os olhos, maldita - Lex grunhiu. - E talvez eu pare de te machucar.

- Tire suas mãos de cima dela, Lex.

Renata parou ao pé da cama, com as lâminas embainhadas.

- Tire as mãos dela! Agora!

Lex zombou.

- Não até que eu tenha terminado com ela.

Quando deu a Mira uma sacudida forte, Renata soltou uma rajada de fúria mental. Era só um fio de energia, só uma fração do que podia dar, mas Lex uivou, seu corpo se sacudiu como se tivesse sido golpeado por milhares de volts de eletricidade. Cambaleou para trás, deixando Mira cair e afastando-se da cama, caindo com o traseiro no chão.

- Cadela! – gritou com os olhos soltando um fogo âmbar e com as pupilas fragmentadas fortemente no centro. - Eu devia matá-la por isso. Devia matar a pequena pirralha e você, suas cadelas!

Renata o golpeou de novo, dando-lhe outra pequena amostra de agonia. Ele se deixou cair, agarrando a cabeça e gemendo com a segunda rajada debilitante. Ela esperou, observando como ele se esforçava para levantar-se de uma postura desajeitada do chão. Da maneira que estava agora, ele não representava ameaça alguma para ela, mas em algumas horas estaria recuperado, e Renata estaria vulnerável. Aí então ela teria uma pequena dívida a pagar.

Mas no momento, Mira já não era do interesse de Lex, e isso era tudo que importava. Lex a fulminou com o olhar quando se arrastou até seus pés.

- Saia do meu... caminho... vadia maldita!

As palavras estavam sufocadas, balbuciadas entre seus ofegos enquanto ele torpemente se dirigia para a porta aberta. Quando Lex saiu do campo de visão de Renata, com os passos dele ecoando no corredor externo, ela aproximou-se de Mira e tentou acalmá-la.

- Está tudo bem, querida?

Mira assentiu.

- Eu não gosto dele, Rê. Ele me assusta.

- Eu sei, querida.

Renata deu um beijo na testa da garota.

- Não vou deixar que ele faça mal a você. Está a salvo comigo. Essa é uma promessa, certo?

Outro gesto de assentimento, mais fraco dessa vez, enquanto Mira voltava a cabeça ao travesseiro e exalava um suspiro sonolento.

- Rê? - perguntou em voz baixa.

- Sim, ratinho?

- Você nunca vai me abandonar, não é mesmo?

Renata ficou olhando fixamente aquele rosto inocente na escuridão, sentindo seu coração apertado no peito.

- Nunca vou abandonar você, Mira. Jamais... Exatamente como prometemos.


Capítulo 11

A lua elevava-se, projetando manchas de luz sobre o lago Wannsee, em uma zona exclusiva do subúrbio de Berlim. Andreas Reichen recostou-se em sua cadeira almofadada no gramado que ficava na parte de trás de sua propriedade privada no Refúgio. Ele tentava absorver um pouco da paz e da tranquilidade noturnas. Apesar da brisa agradável e morna, e do lago de águas calmas e escuras, os pensamentos dele eram taciturnos e turbulentos.

As notícias do último Primeira Geração assassinado, dessa vez na França, fora um duro golpe. Parecia-lhe que o mundo ao seu redor estava ficando cada vez mais insano. Não apenas o mundo da Raça – seu mundo -, mas também a humanidade. Tanta morte e destruição. Tanta angústia por todos os lados.

No fundo de seu estômago, Andreas tinha a terrível sensação de que isso era apenas o começo. Dias mais sombrios estavam por vir. Provavelmente estivessem a caminho há muito tempo e ele tinha sido demasiado ignorante; estivera demasiado entretido com seus prazeres pessoais para se dar conta disso.

Um desses prazeres, aliás, aproximava-se por trás dele: com passos elegantes e inconfundíveis, a mulher caminhou pelos jardins bem cuidados da propriedade e sentou-se sobre a grama.

Os pequenos braços de Helene rodearam os ombros largos de Andreas.

- Olá, querido.

Reichen aproximou-se para acariciar-lhe a cálida pele enquanto a mulher inclinava-se para beijá-lo. Ela tinha uma boca suave e persistente, e seus longos cabelos escuros guardavam ainda um vestígio de óleo de rosas.

- Quando cheguei, seu sobrinho me disse que você estava aqui fora há horas - murmurou ela, erguendo a cabeça para olhar o lago. - Posso ver por quê. É uma vista encantadora.

- E agora está ainda mais encantadora - disse Reichen, levantando a cabeça para olhar a mulher.

Helene sorriu sem acanhamento, há muito tempo já acostumada com aquela adulação.

- Alguma coisa está te incomodando, Andreas. Você não é do tipo que fica sentado se queixando do quanto a vida é injusta.

Será que ela o conhecia tão bem assim? Eles tinham sido amantes durante o ano anterior, uma brincadeira amorosa casual que, de alguma forma, transformara-se em algo mais profundo, se não exclusivo. Reichen sabia que Helene tinha outros homens em sua vida - homens humanos -, da mesma forma que ela sabia que ele ocasionalmente buscava prazer com outras mulheres. Não era uma relação infestada de ciúmes ou de possessão. Mas isso não significava que não houvesse carinho. Eles compartilhavam uma preocupação mútua um pelo outro e um vínculo de confiança que se estendia além das barreiras que geralmente tornavam as relações entre humanos e homens da Raça impossíveis.

Helene tinha se tornado uma amiga e, ultimamente, era uma companheira indispensável no importante trabalho de Reichen com os guerreiros de Boston.

Ela sentou-se no grande braço da cadeira.

- Deu as notícias à Ordem sobre o recente assassinato em Paris?

Reichen assentiu.

- Sim. E eles me disseram que houve também uma tentativa de assassinato em Montreal algumas noites atrás. Pelo menos essa falhou, um milagre do destino. Mas haverá outras. Temo que muitas outras mortes acontecerão antes que a fumaça finalmente se dissipe. A Ordem está convencida de que deterá essa loucura toda, mas às vezes me pergunto se o mal trabalhando aqui não é maior do que qualquer bem.

- Você está deixando que isto o consuma - disse Helene, enquanto preguiçosamente afastava o cabelo da testa. - Já sabe, se precisa de algo a fazer com seu tempo, poderia ter procurado a mim em vez da Ordem. Eu poderia tê-lo colocado para trabalhar no clube como meu assistente pessoal. Não é muito tarde para mudar de ideia. E asseguro-lhe que apenas os benefícios já valeriam a pena.

Reichen riu.

- Tentador, de fato.

Helene inclinou-se e mordiscou-lhe a orelha, sua respiração fazendo cócegas quentes sobre a pele masculina.

- Seria só uma posição temporária, é obvio. Vinte ou trinta anos, um piscar de olhos para você. Eu estarei enrugada e grisalha e você se entusiasmará por um novo brinquedo mais atraente que possa manter o ritmo de suas selvagens exigências.

Reichen estava surpreso ao ouvir a pontada de nostalgia na voz de Helene. Ela nunca tinha falado sobre o futuro com ele, nem tampouco ele com ela. Era mais ou menos compreensível que não poderia haver um futuro, tendo em vista que ela era mortal e ele – a menos que prolongasse sua exposição aos raios UVA ou sofresse um intenso dano no corpo - continuaria vivendo durante um tempo próximo ao da eternidade.

- O que está fazendo esbanjando seu tempo comigo quando poderia ter qualquer outro homem? – perguntou Reichen, movendo os dedos ao longo da suave linha do ombro de Helene. - Poderia estar casada com alguém que a adorasse, criando uma ninhada de crianças belas e inteligentes.

Helene arqueou uma impecável sobrancelha.

- Suponho que nunca fui do tipo que faria uma escolha convencional.

Nem ele, de fato. Reichen admitia que seria muito fácil ignorar tudo o que ela e a Ordem tinham descoberto há alguns meses. Ele podia esquecer a maldade que tinham vasculhado até à cova montanhosa nas colinas Boêmias. Podia fingir que nada daquilo existia, descumprir sua oferta de ajudar aos guerreiros respondendo por seu papel como líder de um Refúgio e voltar para seus libertinos e descuidados hábitos.

Mas a única verdade era que ele tinha se cansado daquela vida há tempos. Anos atrás, alguém o havia acusado de ser um eterno menino egoísta e irresponsável. E, naquele momento, a pessoa tinha razão. Especialmente quando ele tinha sido suficientemente tolo para deixar escapar uma mulher e o amor que ela lhe havia dado. Depois de muitas décadas de autopiedade, ele se sentia bem em fazer a diferença. Ou em tentar fazê-la, de qualquer forma.

- Não esperava que você viesse esta noite só para me distrair com seus beijos e com essas atraentes ofertas de emprego - disse, sentindo que a seriedade abatia-se sobre Helene.

- Não, não foi por isso que vim, infelizmente. Pensei que deveria saber que uma das minhas garotas do clube está desaparecida. Lembra-se de que mencionei Gina, uma de minhas garotas mais novas, que apareceu com marcas de mordida no pescoço na semana passada?

Reichen assentiu.

- A que tinha falado sobre um novo namorado rico com quem estava saindo.

- Essa mesmo. Pois bem, não é a primeira vez que ela falta ao trabalho, mas sua companheira de quarto disse-me esta tarde que Gina não passa em casa ou dá notícias há mais de três dias. Pode não ser nada, mas pensei que gostaria de saber.

- Sim. Tem alguma informação sobre o homem com quem se encontrava? Uma descrição, um nome, algo?

- Não. A companheira de apartamento dela nunca o conheceu e, por isso, não pôde me dizer nada.

Reichen considerou as numerosas coisas que podiam ocorrer a uma jovem que se encontrava inconscientemente com um macho da Raça. Embora a maioria deles fosse de membros que respeitavam a lei da nação vampírica, havia outros que revelavam seu lado selvagem.

- Preciso que, discretamente, investigue no clube esta noite, veja se alguma das outras garotas ouviu Gina mencionar algo sobre esse namorado. Procure por nomes, lugares aos quais ela possa ter ido com ele. O menor detalhe pode ser importante.

Helene assentiu, mas havia uma nota de interesse em seus olhos.

- Prefiro esse seu lado sério, Andreas. É incrivelmente sexy.

A mão dela deslizou por baixo da abertura da camisa de seda dele conforme suas longas e pintadas unhas brincavam sobre seu musculoso abdômen. Embora os pensamentos de Reichen fossem nefastos, seu corpo respondeu ao toque especialista da mulher. Seus dermoglifos começaram a encher-se de cor e sua visão afiou-se com uma rajada de cor âmbar que rapidamente preencheu sua íris. Mais abaixo, seu pênis ficou ereto, crescendo onde agora descansava sua palma.

- Eu realmente não deveria ficar - murmurou ela com a voz rouca e zombadora. - Não quero chegar tarde no trabalho.

Quando ela começou a se levantar, Reichen a deteve.

- Não se preocupe com isso. Conheço a mulher que dirige o lugar. Pedirei desculpas por você. Sei de fonte segura que ela gosta muito de mim.

- Você gosta dela?

Reichen grunhiu, deixando visível as pontas de suas presas com seu amplo sorriso.

- A pobre está louca por mim.

- Louca por uma coisa arrogante como você? - zombou Helene. - Querido, não se adule. Ela poderia querê-lo apenas por causa de seu decadente corpo.

- É o suficiente - respondeu ele. - Mas não ouvirá queixas minhas de maneira alguma.

Helene sorriu, sem resistir enquanto ele a puxava sobre seu colo e entregava-lhe um beijo profundo, masculino e faminto.

Ao anoitecer, Lex estava completamente recuperado do golpe que Renata lhe desferira. Sua ira - seu ódio por ela – permanecia, todavia.

Ele a amaldiçoava em sua mente enquanto se inclinavae sobre uma putrefata parede de uma casa infestada de ratos no pior subúrbio de Montreal, assistindo a um jovem humano apertar o braço com um cinto de couro velho. Com a ponta solta presa entre os dentes quebrados e cariados, o drogado cravou a agulha de uma imunda seringa em um lugar cheio de crostas e hematomas que percorriam o esquálido braço. Gemeu enquanto a heroína entrava em sua corrente sanguínea.

- Ah, caramba, cara! - soltou um trêmulo suspiro enquanto liberava seu torniquete e caía para trás contra um colchão podre no chão. Correu as mãos tatuadas pelo rosto pálido e cheio de espinhas, e pelos cabelos castanhos ensebados. – Ah! Essa porcaria é das boas, cara.

- Sim - Lex disse com a voz sem fôlego, na fria e úmida escuridão.

Não tinha economizado em drogas; o dinheiro era de pouco interesse para ele. Sem dúvida o drogado que vendia o corpo nas ruas nunca tinha ganhado tanto dinheiro. Lex estava disposto a apostar que os serviços pessoais do jovem nunca haviam alcançado uma soma tão alta. Ele tinha saltado no interior do carro quando Lex parou e lhe mostrou cem dólares e um pacote de heroína.

Lex moveu a cabeça e olhou como o humano saboreava sua dose de alívio. Eles estavam sozinhos no miserável quarto de um edifício abandonado. O lugar tinha sido invadido por vagabundos e viciados quando chegaram, mas só levou uns minutos para Lex – e uma irresistível ordem mental, cortesia de sua linhagem de segunda geração da Raça - conduzir os humanos para fora e deixar que ele exercesse sua atividade sem ser incomodado.

Ainda deitado no chão, o drogado tirou a camisa regata e começou a desabotoar os folgados e imundos jeans azuis. Acariciou-se grosseiramente enquanto abria a braguilha, os olhos turvos rolando em seu crânio, buscando distraidamente através da escuridão.

- Então, quer que eu chupe seu pau ou o quê, cara?

- Não - Lex disse, enojado apenas com a ideia.

Ele afastou-se de sua posição, cruzando o quarto, e caminhou lentamente em direção ao drogado. Por onde começar com ele?, perguntou-se preguiçosamente. Tinha que esgotar essa coisa com cuidado ou teria de voltar para a rua e procurar outra pessoa.

Esbanjando seu tempo precioso.

- Prefere minha bunda, então, cara? - comentou o michê. - Se quiser me comer, vai ter de pagar o dobro. Essa é minha regra.

A risada de Lex foi baixa e genuinamente divertida.

- Não estou interessado em comer você. Já é suficientemente mau que tenha que olhar para você, que tenha que sentir seu cheiro repugnante. O sexo não é a razão pela qual está aqui.

- Bem, o que diabos você quer então? – ao dizer isso, uma nota de pânico cortou o ar, um súbito golpe de adrenalina humana que os sentidos de Lex facilmente detectaram. - Estou seguro que não me trouxe aqui para uma conversa educada.

- Não - Lex concordou.

- Está bem. Está bem, que porra eu pareço para você, seu merda?

Lex sorriu.

- Uma isca.

Com movimentos tão rápidos que nem sequer o olho humano mais aguçado poderia seguir, Lex estendeu a mão e derrubou o drogado no chão. O vampiro tinha uma faca na mão e cravou-a no macilento abdômen do humano, rasgando-lhe a pele.

O sangue surgiu da ferida, quente, úmido e perfumado.

- Ah, Jesus! - gritou o humano. - Ah, meu Deus! Você me apunhalou!

Lex recuou e deixou que o homem caísse sobre o chão. Era tudo que podia fazer para não investir contra o drogado com uma sede cega.

A transformação física de Lex foi rápida, provocada pela súbita presença de sangue fresco fluindo. Sua visão se aguçou enquanto suas pupilas se estreitavam, um brilho âmbar lavava o quarto enquanto seus olhos transformavam-se nos de um predador. Suas presas alargaram-se atrás de seus lábios e a saliva inundou-lhe a boca enquanto a urgência de se alimentar crescia.

O drogado estava soluçando agora, emitindo sons patéticos enquanto apertava a enorme ferida em seu estômago.

- Você está louco, seu merda? Podia ter me matado!

- Ainda não - respondeu Lex entre suas presas.

- Tenho que sair daqui - murmurou o homem. - Tenho que conseguir ajuda...

- Fique - ordenou Lex, sorrindo enquanto a mente do homem murchava sob aquela ordem.

Teve que se obrigar a manter distância. Deixar que a situação se esvaísse enquanto pudesse. Uma ferida no estômago sangrava rápido, mas a morte viria lentamente. Lex precisava dele vivo durante um tempo longo o suficiente para que o cheiro do sangue viajasse pela rua e entrasse nos becos dos arredores.

O humano que tinha comprado era meramente uma isca pronta para ser jogada na água. Lex procurava atrair um peixe maior.

Sabia tão bem como qualquer outro membro da Raça que nada atraía um vampiro mais rápido - e mais certeiramente – do que uma presa humana sangrando. E fazer isso em um ponto obscuro da cidade, onde até mesmo a escória da sociedade humana adentrava um estado de terror secreto, Lex presumia, atrairia a presença de Renegados.

Não se decepcionou.

Os dois primeiros vieram farejando ao redor da casa abandonada em minutos. Os Renegados eram viciados sem esperança, tanto quanto o drogado que agora se aconchegava em posição fetal, chorando em silêncio no chão, enquanto sua vida se apagava lentamente.

Embora poucos da Raça se perdessem na luxúria do sangue – a permanente e insaciável sede de sangue –, aqueles que raramente o faziam jamais se libertavam. Viviam nas sombras, monstros selvagens sem raízes, cujo único objetivo era viver alimentando sua fome.

Lex escondeu-se no canto do quarto enquanto os dois predadores se arrastavam para dentro. Eles imediatamente caíram sobre o humano, rasgando-o com presas que nunca se desvaneciam, os olhos ardendo com a cor e o calor do fogo.

Outro Renegado encontrou o quarto. Este era maior do que os outros, mais brutal enquanto se jogava para a matança e começava a alimentar-se. Uma briga explodiu entre os selvagens. Os três se pegaram como cães raivosos. Batendo os punhos, os dedos e as presas estripando a carne e os ossos, cada macho poderoso lutava viciosamente para ganhar um pedaço da presa.

Lex olhava paralisado. Aturdido pela violência e bêbado pelo cheiro de tanto sangue derramado, humano e da Raça.

Olhou e esperou.

Os Renegados lutaram um contra o outro até a morte, como animais selvagens que eram. No final, só um deles demonstraria ser o mais forte.

E era desse que Lex precisava.

Após um dia inteiro esperando o anoitecer, Nikolai agora tinha outras duas horas para passar antes de poder tomar seu voo de volta para Boston.

O guerreiro considerou seriamente não ir ao aeroporto e viajar a pé, mas até mesmo com sua resistência da Raça e sua hipervelocidade, mal atravessaria o estado de Vermont antes que o amanhecer o obrigasse a esconder-se de novo. E, francamente, a ideia de dormir em um celeiro com um bando de animais agitados não o empolgava a colocar um tênis e pegar a estrada.

Portanto, esperaria.

Maldição.

Ele e a paciência nunca foram amigos íntimos e, quando o sol finalmente se pôs e ele pode sair do refúgio, Niko já estava à beira da insanidade.

Supôs que aquele aborrecimento o guiava pelos subúrbios de Montreal, onde esperava encontrar algo divertido para fazer enquanto o mau humor passava. Não se preocupava em como usaria o tempo, mas havia deliberadamente procurado a única região da cidade onde a probabilidade de encontrar uma razão para usar seus punhos ou suas armas eram maiores.

Naquele conjunto de becos infestados de ratos, suas escolhas imediatas eram limitadas aos traficantes - de drogas ou de pessoas - e prostitutas de ambos os gêneros, sem discriminação. Mais de um idiota o olhou enquanto ele andava pela rua sem direção aparente. Alguém foi inclusive suficientemente estúpido para mostrar a ponta de uma faca enquanto passava, mas Niko só se deteve e deu ao bastardo desdentado um sorriso de orelha a orelha, mostrando suas presas como um convite e, rapidamente, a ameaça desapareceu.

Embora não fosse contra tipo algum de confronto, a luta contra humanos estava abaixo de sua capacidade. Preferia um desafio maior. O que ele realmente queria encontrar agora era um Renegado. No verão passado, Boston estivera afundada até os joelhos de vampiros viciados em sangue. A luta tinha sido dura e pesada - com pelo menos uma perda trágica para a Ordem -, mas Nikolai e o resto dos guerreiros tinham completado sua missão de manter a cidade limpa.

Outras zonas metropolitanas ainda perdiam civis ocasionalmente por conta da luxúria por sangue, e Niko apostaria seu testículo esquerdo que Montreal não era diferente. Mas além dos cafetões, traficantes e prostitutas, aquela extensão de tijolo e asfalto estava tão morta quanto a cripta na qual ele tinha sido forçado a passar o dia.

- Ei, querido - a mulher sorriu para ele de uma porta coberta de sombras enquanto ele passava. - Busca algo específico ou está apenas olhando as vitrines?

Nikolai grunhiu, mas se deteve.

- Sou um cara diferente.

- Bem, possivelmente tenho o que você precisa - ela sorriu e se moveu de sua pose sobre o degrau de concreto. - De fato, tenho exatamente o que você precisa, querido.

Ela não era uma beleza, com seus quebradiços e desgrenhados cabelos, olhos apagados e pele pálida, mas Nikolai não esperava gastar muito tempo olhando sua cara. Ela cheirava bem, seu desodorante e o spray de cabelo podiam ser considerados fragrâncias de aroma limpo. Para os sentidos afiados de Niko, a mulher cheirava a cosméticos e perfumes, com um toque de uso recente de drogas que exalava por seus poros.

- O que diz? - perguntou ela, aproximando-se furtivamente. - Quer ir a algum lugar? Se tiver vinte dólares, terá meia hora.

Nikolai observou a pulsação no pescoço da mulher. Já fazia vários dias que não se alimentava. E ele tinha duas horas pela frente sem fazer nada...

- Sim - disse assentindo. - Vamos.

Ela pegou a mão dele e o guiou, virando a esquina onde ficava o edifício, rua abaixo em direção a um beco vazio.

Nikolai não perdeu tempo. Mal se distanciaram de potenciais observadores, tomou a cabeça da mulher em suas mãos e despiu seu pescoço para mordê-la. Seu grito assustado foi esmagado imediatamente quando ele afundou as presas na veia saltante e começou a beber.

O sangue da mulher era medíocre – o habitual cobre pesado das células vermelhas humanas, mas enlaçadas com uma acidez doce e amarga das pedras de heroína e cocaína que ela tinha usado durante seu trabalho à noite. Nikolai tragou vários goles, sentindo o fluxo de energia do sangue através de seu corpo em uma baixa vibração. Não era raro para um vampiro da Raça excitar-se com o ato de se alimentar. A resposta era puramente física, um despertar de células e músculos.

O fato de seu pênis estar completamente ereto e exigindo alívio não o surpreendeu, mas sim o fato de sua cabeça estar nadando em pensamentos sobre uma mulher com cabelos escuros - uma mulher que ele não tinha intenção de ver de novo - que fazia Niko ficar em estado de alerta.

- Humm, não pare - sua companheira humana se queixou, puxando sua boca de volta à ferida no pescoço. Ela também estava sentindo os efeitos da alimentação, cativada como todos os humanos ficavam quando eram mordidos pela Raça. - Não pare, querido.

A visão de Nikolai estava alagada de fogo âmbar enquanto ele abraçava de novo a garganta da mulher. Sabia que ela não era Renata, mas enquanto suas mãos roçavam as pernas nuas por baixo da saia curta que ela usava, ele se imaginou acariciando as belas e longas coxas de Renata. Imaginou que era o sangue de Renata que o alimentava, que era o corpo de Renata que respondia tão apaixonado ao seu contato.

Eram os febris ofegos de Renata que o guiavam enquanto ele rasgava a calcinha barata com uma mão e usava a outra para libertar-se da própria calça.

Precisava estar dentro dela.

Precisava...

Caramba.

Uma ligeira brisa formou redemoinhos através do beco, trazendo consigo o fedor de vampiros Renegados. E havia muito sangue derramado também. Sangue humano. Muito, muito sangue, mesclado com o cheiro vil de Renegados sangrando.

- Jesus Cristo.

Que porra estava acontecendo?

Ele puxou a saia da mulher para baixo e lambeu-lhe a ferida do pescoço, selando sua mordida.

- Pedi que não parasse...

Mas Niko nem lhe deu tempo de terminar seu pensamento. Pondo a palma sobre sua testa, apagou tudo de sua mente.

- Saia daqui - disse.

Niko já estava correndo pelo beco quando ela saiu de seu atordoamento e começou a caminhar. O guerreiro seguiu seu olfato até um dilapidado edifício não longe de onde estava. Aquele fedor emanava do interior da construção, alguns apartamentos acima da rua.

Nikolai subiu a escada de incêndio até o segundo andar. Seus olhos estavam virtualmente marejados pelo entristecedor aroma de morte que saía daquele andar. Com a mão sobre a pistola embainhada em seu quadril, Niko se aproximou. Não havia sons do outro lado da maltratada porta cheia de pichações. Apenas morte – humana e vampírica. Niko girou o trinco e se preparou para o que encontraria.

Tinha sido um massacre.

Um aparente drogado permanecia em posição fetal entre refugos de seringas e outros lixos que cobriam o chão cheio de sangue. O corpo do drogado estava tão arruinado que era praticamente irreconhecível como humano, apenas o sexo era distinguível. Os outros dois corpos foram atacados ferozmente também, mas definitivamente eram da Raça, ambos Renegados, a julgar pelo tamanho e pelo cheiro deles.

Nikolai pôde imaginar o que ocorrera ali: uma batalha letal por causa da presa. A luta era recente, provavelmente tinha ocorrido apenas alguns minutos atrás. E os dois chupadores de sangue mortos não teriam sido capazes de se destruir antes que um ou outro caísse.

Havia pelo menos mais um Renegado envolvido naquela briga.

Se Niko tivesse sorte, o vencedor ainda poderia estar na região, lambendo suas feridas. Esperava que sim, porque adoraria dar ao bastardo doente uma prova de sua pistola 9 mm. Nada poderia desejar “tenha um bom dia” tão bem quanto a veia sanguínea corrompida de um Renegado encontrando uma fusão alérgica de uma dose venenosa de titânio.

Nikolai foi para a janela fechada e puxou os painéis presos. Se estava procurando ação, ele tinha encontrado - e aos montes. Abaixo, na rua, havia um Renegado enorme. Estava ensanguentado e maltratado.

Mas, maldito seja! Ele não estava sozinho.

Alexei Yakut estava com ele.

Incrivelmente, Lex e o Renegado caminhavam para um sedan que os esperava e entraram.

- Que porra está acontecendo? - murmurou Niko enquanto o carro arrancava e saía pela rua.

O guerreiro esteve a ponto de saltar pela janela aberta e seguir a pé quando um grito estridente soou atrás dele. Uma mulher tinha andado até a área da matança e agora gritava de terror, com um dedo acusador apontando na direção de Niko. Ela gritou suficientemente alto mais uma vez, despertando a atenção de cada drogado e traficante da vizinhança.

Nikolai olhou para a testemunha e para a sangrenta evidência de uma luta que parecia tudo, menos humana.

- Maldição - grunhiu, olhando por cima do ombro a tempo de ver o carro de Lex desaparecer ao virar a esquina.

- Está bem - disse à mulher enquanto deixava a janela e se aproximava dela. - Você não viu nada.

Apagou sua memória e a tirou do quarto. Então, pegou uma faca de titânio e cravou-a nos restos de um dos Renegados mortos.

Enquanto o corpo começava a se dissolver, Niko se preparou para limpar o resto da bagunça que Lex e seu insólito sócio haviam deixado para trás.


Capítulo 12

Renata estava no balcão da cozinha da propriedade de Sergei Yakut, com uma faca na mão.

- Que tipo de geleia quer esta noite: uva ou morango?

- Uva - respondeu Mira. – Não, espere. Quero de morango.

A menina estava sentada na beira da bancada de madeira ao lado de Renata, suas pernas penduradas e seus braços cruzados. Vestida com uma camiseta púrpura, calças azuis desgastadas e um velho par de tênis, Mira poderia se passar por qualquer outra menina esperando o jantar. Mas as meninas normais não eram obrigadas a comer a mesma coisa praticamente todos os dias. As pequenas meninas normais tinham famílias que as amavam e cuidavam delas. Viviam em casas bonitas, em ruas bonitas e arborizadas, com cozinhas brilhantes, despensas cheias e com mães que sabiam preparar refeições maravilhosas.

Pelo menos, isso é o que Renata imaginava quando pensava na representação ideal de uma família normal. Ela não imaginava isso baseada em algum tipo de experiência pessoal. Como menina de rua antes que Yakut a encontrasse e a levasse para casa, Mira tampouco sabia o que era normal. Mas era esse tipo saudável, o tipo de vida normal, que Renata desejava para a garota, embora aquilo parecesse um desejo insignificante ali, de pé na cozinha imunda de Sergei Yakut, ao lado de um fogão que provavelmente não funcionava, embora tivesse gás correndo nele.

Como Renata e Mira eram as únicas na cabana que se alimentavam de comida, Yakut tinha deixado em suas mãos que ela e a menina se alimentassem regularmente. Renata não prestava realmente atenção em sua alimentação e odiava não ser capaz de oferecer a Mira algo agradável de vez em quando.

- Um dia sairemos e teremos um jantar de verdade, com cinco pratos diferentes. Além de sobremesa - acrescentou, passando a geleia de morango em uma fatia de pão branco. - Talvez tenhamos duas sobremesas cada uma.

Mira sorriu sob o curto véu negro que lhe caía sobre a pequena ponta do nariz.

- Será que a sobremesa será de chocolate?

- De chocolate. Com certeza. Tome, pegue - disse, entregando o prato com um sanduíche de geleia.

Renata se apoiou no balcão enquanto Mira cortava uma pequena parte do sanduíche e comia como se fosse tão delicioso como qualquer menu de cinco pratos que pudesse imaginar.

- Não se esqueça de tomar seu suco de maçã.

- Está bem.

Renata cravou o canudo na caixa de suco e colocou-a ao lado de Mira. Depois, começou a limpar o balcão. Cada músculo de seu corpo feminino se retesou quando ela ouviu a voz de Lex na cozinha.

Ele havia saído ao anoitecer. Renata realmente não sentiu sua falta, mas não se perguntou o que esteve fazendo desde que saiu. A resposta para aquela pergunta veio na forma de uma gargalhada de mulher bêbada - várias mulheres bêbadas, pelo som do riso e os chiados atravessando a área principal da cabana.

Lex frequentemente levava mulheres humanas para casa para servir seu exército com sangue e diversão. Às vezes, ele as mantinha lá por vários dias. Geralmente compartilhava suas presas com os outros guardas, todos as usavam e apagavam o ataque de suas mentes antes de devolvê-las às suas vidas. Estar sob o mesmo teto que Lex quando ele estava bem-humorado a deixava enojada, mas o que mais lhe enfurecia era o fato de Mira ser exposta àqueles jogos macabros.

- O que está acontecendo ali fora, Rê? - perguntou.

- Termine seu sanduíche - disse Renata a Mira quando a garota parou de comer para escutar o alvoroço na outra sala. - Fique aqui. Volto já.

Renata saiu da cozinha e atravessou o corredor.

- Bebam, senhoritas! - gritou Lex, deixando cair uma caixa de garrafas de licor no sofá de couro.

Ele não consumiria álcool, nem os outros favores que oferecia na festa. Tirou alguns sacos plásticos brancos e enrolados, cada um bastante cheio com o que provavelmente era cocaína, e os jogou sobre a mesa. O sistema de som foi ligado, um baixo vibrando fortemente sob a letra de um hip-hop.

Lex agarrou a morena curvilínea com risada frívola e a colocou sob seu braço.

- Eu lhe disse que teríamos muita diversão! Agora venha aqui e me mostre sua gratidão.

Certamente Lex estava em um raro estado de ânimo, de bom humor. E não era um milagre. Retornou com um bom grupo: cinco mulheres vestidas com saltos altos, pequenos tops e microssaias. A princípio, Renata achou que eram prostitutas, mas observando-as mais de perto, estavam muito limpas e muito frescas sob toda a maquiagem pesada para fazerem parte da vida das ruas. Provavelmente eram apenas garotas ingênuas do clube, que não tinham se dado conta de que o persuasivo e atraente homem que as recolheu era na realidade alguém saído de um pesadelo.

- Venham e conheçam meus amigos - Lex disse ao grupo de mulheres enquanto se dirigia até os outros machos da Raça para mostrar a eles a captura da noite. Houve um momento de apreensão evidente enquanto os quatro guardas fortemente armados olhavam lascivamente seus aperitivos humanos. Lex empurrou três mulheres para os ansiosos vampiros.

- Não sejam tímidas, garotas. Esta é uma festa, afinal. Vão e digam olá.

Renata percebeu que ele estava retendo as duas garotas mais bonitas. Típico de Lex, obviamente tinha reservado o melhor para ele. Renata estava a ponto de girar e voltar à cozinha – e tentar ignorar a orgia sangrenta que estava a ponto de começar. Mas, antes que pudesse dar dois passos, Sergei Yakut apareceu trovejando de seus aposentos privados.

- Alexei! - a fúria vibrava do vampiro mais velho em ondas de calor. Ele olhou Lex com olhos brilhantes cor de âmbar. – Você esteve fora durante horas. Por onde andou?

- Estive na cidade, pai – Lex esboçou um sorriso generoso, como se dissesse que seu tempo fora de suas obrigações não fosse inteiramente para servir suas próprias necessidades. - Olhe o que eu trouxe.

Lex afastou uma das mulheres de seu abraço para que Yakut a inspecionasse. Yakut nem olhou para o prêmio que Lex lhe oferecia, só olhou para as duas mulheres que Lex guardava para si.

O Primeira Geração grunhiu.

- Você tira porcaria da sola de seu sapato e me diz que é ouro?

- Nunca - respondeu Lex. - Pai, eu nunca...

- Bem. Estas duas serão minhas - disse, indicando as mulheres que Lex havia reservado para si.

Furioso como deveria estar, humilhado com a espetada em seu orgulho, Lex não disse palavra alguma. Baixou o olhar e esperou em silêncio que Yakut recolhesse suas duas companheiras e se dirigisse com elas para seus aposentos privados.

- Não queremos ser incomodados - Yakut ordenou sombriamente. - Por razão alguma.

Lex assentiu em uma reverência contida.

- Sim, pai. Claro. Como quiser.

Nikolai ouviu a música e as vozes antes mesmo de estar a quinhentos metros da propriedade de Yakut. Aproximou-se, movendo-se através do bosque como um fantasma, passando pelo carro de Lex, estacionado na parte de trás, com o capô ainda quente por causa da viagem à cidade.

Niko não estava seguro do que encontraria. Não esperava uma maldita festa, mas isso era o que parecia estar acontecendo dentro da casa principal. O lugar estava iluminado como uma árvore de natal, as luzes saíam das janelas da sala, onde alguém estava entretido com várias mulheres. Um rap pesado vibrava por todo o caminho de terra por baixo das botas de Nikolai enquanto ele se aproximava pelo lado da construção e lançava uma olhada para dentro.

Lex estava lá, muito bem. Ele e o resto dos guarda-costas de Yakut, reunidos todos em uma sala rústica. Três mulheres jovens dançavam nos tapetes de pele vestidas somente com roupas íntimas, todas claramente embriagadas, tendo em vista a quantidade de bebidas alcoólicas e drogas sobre a mesa mais próxima. Os quatro guardas da Raça uivavam e as animavam, provavelmente a segundos de se jogarem sobre seus corpos ingênuos.

Lex, enquanto isso, estava sentado, curvado em um sofá de pele, os olhos escuros fixos nas mulheres apesar de seus pensamentos parecerem estar a quilômetros de distância. Não havia sinal do malicioso Lex que esteve na cidade. Tampouco havia sinais de Sergei Yakut, e o fato de a segurança inteira estar entretida com aquele pequeno espetáculo fez os instintos de Niko mudarem para o alerta vermelho.

- Que demônios está acontecendo? - Niko pronunciou baixo.

Mas ele sabia a resposta inclusive antes que começasse a mover-se pela parte posterior da propriedade, onde ficavam os aposentos de Yakut - lá, um sutil, porém persistente aroma, confirmou o pior temor de Niko.

Maldito seja! Havia um Renegado ali.

Nikolai também sentiu o cheiro de sangue fresco derramado, proveniente de um humano. O aroma era quase entristecedor quanto mais se aproximava do quarto de Yakut. Sangue e sexo, para ser exato, como se o Primeira Geração estivesse fazendo um banquete.

Um grito repentino irrompeu na noite.

De mulher. Um som de terror total, vindo de dentro do quarto de Yakut.

Depois, disparos amortecidos.

Pá, pá, pá!

Nikolai voou através da porta traseira do refúgio, sem se surpreender ao encontrá-la destrancada e parcialmente aberta. Irrompeu no quarto de Yakut com sua pistola semiautomática na mão, pronta para lançar a carga completa de balas de titânio reforçado.

A cena que o saudou era uma carnificina total.

Na cama estava Sergei Yakut, esparramado nu em cima de uma mulher presa sob seu corpo sem vida, com a garganta rasgada onde o vampiro esteve se alimentado apenas alguns segundos antes. Ela não se movia e não havia cor em sua pele ou no cabelo, já que a maior parte dela estava coberta pelo sangue de Yakut e também por seu próprio.

Faltava a metade do rosto do Primeira Geração. A cabeça de Sergei Yakut era pouco mais do que pedaços de osso, tecido e sangue restantes das três balas que tinham sido disparadas a queima-roupa na parte posterior de seu crânio. Ele estava morto e o Renegado que o matara estava também preso pelo desejo de sangue, a ponto de não se dar conta da presença de Nikolai. O filho da mãe tinha deixado a pistola que tinha utilizado para matar Yakut e agora estava ocupado com a outra mulher, também nua, que tinha sido apanhada no canto do quarto. Seus olhos estavam voltados para trás e ela não se movia. Caramba, ela também não estava respirando, embora o Renegado seguisse bebendo dela em seu pescoço destroçado pelas presas enormes.

Niko se moveu por trás do filho da mãe e colocou o canhão da arma contra sua cabeça desgrenhada. Apertou o gatilho e provocou explosões de titânio no cérebro do canalha. O Renegado caiu no chão, retorcendo-se com espasmos por causa do golpe. O titânio fez efeito rápido e o vampiro moribundo lançou um grito tão forte que sacudiu as velhas vigas de madeira da cabana como um trovão.

Renata saiu voando da cozinha com sua pistola pronta. Seus sentidos de batalha estavam esticados como cordas de piano, o crepitar de disparos distantes e o uivo desumano que o seguiram, procedentes do outro lado do refúgio. A música seguia soando na grande sala. As visitantes de Lex já não estavam vestidas e seguiam estridentes com o contínuo fluxo de drogas e álcool. As mulheres estavam sobre os guardas que, pelo olhar faminto, não notariam se uma bomba explodisse no quarto ao lado.

- Idiotas - Renata os acusou baixo. - Nenhum de vocês escutou isso?

Lex levantou os olhos, a preocupação obscureceu sua expressão, mas ela realmente não estava esperando uma reação por parte dele. Ela correu para o corredor do quarto de Yakut. O corredor estava escuro, o ar parado. Tudo muito silencioso. Muito parado.

A morte dependurava-se como um véu, quase asfixiante, enquanto ela se aproximava da porta aberta do alojamento do vampiro.

Sergei Yakut já não estava vivo; Renata sentiu em seus ossos. Pólvora, sangue e um entristecedor aroma adocicado de podridão a advertiram de que ela caminhava para algo terrível. Todavia, nada poderia tê-la preparado realmente para o que viu quando empurrou a porta com a arma levantada e sustentada com ambas as mãos, pronta para matar quem estivesse em seu caminho.

A visão de toda aquela morte, todo aquele sangue, toda aquela violência pegou Renata de surpresa. A morte estava por toda parte: na cama, no chão, nas paredes.

E também no corpo inerte de Sergei Yakut.

Nikolai estava no centro da carnificina, seu rosto e a camisa escura estavam salpicados de cor escarlate. Em sua mão havia uma grande pistola semiautomática, a ponta do cano ainda fumegante por seu recente disparo.

- Você? - a palavra deslizou dos lábios de Renata, a comoção e a incredulidade como uma bola de gelo em seu intestino. Olhou o corpo de Yakut – seus restos - espalhado sobre a cama, em cima da mulher sem vida.

- Meu Deus - ela sussurrou, surpreendida ao vê-lo na propriedade de novo, mas ainda mais surpresa pelo resto do que estava vendo. – Você... você o matou.

- Não - o guerreiro disse movendo a cabeça sombriamente. – Eu não o matei, Renata. Havia um Renegado aqui com Yakut – disse indicando a grande massa de fumegantes cinzas no chão, a fonte do aroma ofensivo. - Eu matei o Renegado, mas era muito tarde para salvar Yakut. Sinto muito.

- Abaixe a arma – ela disse, sem se interessar pelas desculpas. Ela não precisava delas. Renata sentiu pena pelo final violento de Yakut, um sentimento de incredulidade a surpreendeu por ele estar realmente morto. Mas não havia dor. Nada que absolvesse Nikolai de sua aparente culpa. Apontou firmemente para seu alvo e entrou um pouco mais no quarto. – Abaixe a arma. Agora.

Mas Niko manteve o controle firme de sua pistola 9 mm.

- Não posso fazer isso Renata. Não o farei, não enquanto Lex estiver respirando.

Ela franziu a testa, confusa.

- O que tem Lex?

- Este assassinato foi obra dele, não minha. Ele trouxe o Renegado aqui. Trouxe as mulheres para distrair os guardas e Yakut para que o Renegado pudesse se aproximar o suficiente para matá-lo.

Renata escutou, mas manteve o alvo sob sua mira. Lex era uma víbora, certo, mas um assassino? Realmente planejaria a morte de seu próprio pai?

Só então Lex e os outros guardas se aproximaram pelo corredor.

- O que aconteceu? Algo errado...

Lex se calou quando chegou à porta aberta do quarto do pai. Em sua visão periférica, Renata o viu olhar primeiro o corpo de Yakut na cama e, depois, Nikolai. Cambaleou para trás – um passo, não muito mais do que uma pausa. Então explodiu com muita raiva.

- Filho da mãe! Maldito assassino filho da mãe.

Lançou-se, mas foi uma tentativa em vão, que abandonou completamente quando a pistola de Nikolai girou em sua direção. O guerreiro não fraquejou, nem o olhar nem um músculo sequer de seu corpo. Estava completamente calmo enquanto olhava Lex pelo canhão da arma, inclusive quando a arma de Renata e a dos outros guardas apontavam para ele.

- Vi você na cidade esta noite, Lex. Eu estava lá. Na casa do drogado, a isca que você usou para atrair os vampiros Renegados. O filho da mãe que você trouxe esta noite pra cá. Eu vi tudo.

Lex zombou.

- Foda-se você e suas mentiras! Você não viu porra nenhuma, maldito!

- O que você prometeu ao Renegado em troca da cabeça de seu pai? Dinheiro não importa aos viciados em sangue. A vida de quem você ofereceu como prêmio? A de Renata? Talvez a da garota, Mira?

O peito de Renata se apertou diante daquele pensamento. Atreveu-se a dar uma rápida olhada em Lex e o encontrou friamente zombador diante do guerreiro, dando uma leve sacudida de cabeça.

- Você dirá qualquer coisa nesse momento para salvar o seu pescoço. Nada funcionará. Não quando você mesmo ameaçou a vida de meu pai não faz nem vinte horas. - Lex girou para ver Renata. - Você também o escutou, não foi?

Ela assentiu contrariada, recordando como Nikolai deu a Sergei Yakut uma advertência pública de que alguém precisava detê-lo.

Agora Nikolai tinha retornado e Yakut estava morto.

Mãe do Céu, ela pensou, olhando uma vez mais o corpo sem vida do vampiro que a manteve prisioneira pelos últimos dois anos. Ele estava morto.

- Meu pai não estava correndo perigo algum até que a Ordem entrou no jogo - Lex disse. - Uma tentativa fracassada, e agora isso, um banho de sangue. Você esperou para fazer seu movimento. Você e o Renegado que trouxe com você esta noite, esperando uma oportunidade para atacar. Só posso deduzir que veio matar meu pai desde o começo.

- Não - disse Nikolai, com um brilho de luz âmbar em seus olhos azuis de inverno. - Quem estava esperando para matá-lo era você, Lex.

Em uma fração de segundo, ela viu os tendões de Nikolai flexionarem-se enquanto seu dedo começava a pressionar o gatilho da arma, e disparou nele uma forte explosão mental. Por menos consideração que tivesse por Alexei, ela não podia deixá-lo morrer naquela noite. Nikolai rugiu, a coluna vertebral arqueada, o rosto retorcendo de dor.

Mais efetiva que as balas, a explosão o derrubou de joelhos em um instante. Os quatro guardas irromperam no quarto e tomaram-lhe a pistola e o resto das armas. Os canhões de quatro revólveres foram colocados na cabeça do guerreiro, à espera de ordens para matar. Um dos guardas armou o gatilho, ávido pelo derramamento de sangue, embora o quarto já estivesse repleto.

- Abaixem as armas – disse Renata. Olhou Lex, cujo rosto estava repleto de ira, seus olhos azuis e brilhantes, suas presas afiadas visíveis entre os lábios entreabertos. – Diga-lhe para que se retirem, Lex. Matá-lo apenas nos fará assassinos a sangue frio.

Incrivelmente, Nikolai começou a rir. Levantou a cabeça, com um esforço evidente, enquanto a explosão ainda o detia.

- Ele tem que me matar, Renata, porque não pode arriscar-se a ter uma testemunha. Não é verdade, Lex? Ninguém pode caminhar por aí sabendo seu segredo sujo.

Lex tirou sua própria pistola e se dirigiu diretamente a Nikolai. Colocou o canhão da pistola contra a testa do guerreiro. Grunhiu, seu braço tremendo pela ferocidade de sua raiva. Renata estava imóvel, horrorizada diante do medo de que ele, de fato, apertasse o gatilho. Ela estava perdida, uma parte dela queria acreditar no que Nikolai dissera – que era inocente – e outra parte estava temerosa em acreditar. O que havia dito de Lex simplesmente não podia ser verdade.

- Lex - ela disse, o único som no quarto. – Lex... não faça isso.

Ela estava a menos de uma pausa de golpeá-lo como tinha feito a Nikolai quando a arma lentamente foi baixada.

Lex rosnou, deixando-a um pouco mais tranquila.

- Eu gostaria de uma morte mais lenta para esse bastardo do que a que sou capaz de lhe dar. Levem-no para a sala principal e prendam-no - disse aos guardas. – Depois, alguém se encarregue de cuidar do corpo de meu pai. Tirem as garotas que estão no outro cômodo da propriedade. Quero todo este caos sangrento limpo imediatamente.

Lex voltou-se com um olhar sombrio para Renata quando os guardas começaram a arrastar Nikolai para fora do quarto.

- Se ele tentar algo, descarregue toda a sua força nesse filho da mãe.


Capítulo 13

- Pardonnez-moi, monsieur Fabien. Há uma chamada telefônica para o senhor. De um monsieur chamado Alexei Yakut.

Edgar Fabien fez um gesto desdenhoso para o macho da Raça que o servia como secretário pessoal e continuou admirando no espelho do armário o corte de suas calças feitas sob medida. Ele estava experimentando um traje novo e, naquele momento, nada que Alexei Yakut tivesse a lhe dizer era suficientemente importante para justificar uma interrupção.

- Diga-lhe que estou em uma reunião e não posso ser incomodado.

- Desculpe-me, senhor, mas já o informei que o senhor está indisponível. Ele diz que é um assunto urgente que requer sua imediata atenção.

Com uma reflexão, Fabien olhou para trás furiosamente por baixo das pálidas sobrancelhas arrumadas. Não se esforçou para ocultar os sinais externos de sua irritação crescente, que se mostraram pelo brilho âmbar de seus olhos e pela repentina agitação das cores de seus dermoglifos, que formavam redemoinhos e um arco sobre seu peito nu e seus ombros largos.

- Basta - disse ao alfaiate enviado da loja Givenchy do centro da cidade. O humano recuou imediatamente, recolhendo seus alfinetes e sua fita métrica e obedientemente se afastando às ordens de seu Mestre. Ele pertencia a Fabien – um dos muitos Subordinados que o vampiro da Raça de segunda geração empregava pela cidade. - Fora daqui, vocês dois.

Fabien desceu do soalho do armário e se aproximou do telefone que estava na mesa. Esperou até que ambos os serventes tivessem abandonado o quarto e a porta fosse fechada atrás deles.

Com um grunhido, tomou o aparelho e apertou o botão que piscava para conectar-se à chamada de Alexei Yakut.

- Sim - sussurrou ele com frieza. - Qual é o assunto urgente que simplesmente não pode esperar?

- Meu pai está morto.

Fabien balançou sobre seus calcanhares, realmente surpreendido pela notícia. Exalou um suspiro com a intenção de soar aborrecido.

- Que conveniente para você, Alexei. Terei que oferecer felicitações junto com minhas condolências?

O herdeiro aparente de Sergei Yakut ignorou a alfinetada.

- Havia um intruso na mansão esta noite. De algum modo, ele conseguiu entrar sigilosamente no lugar. Matou meu pai em sua cama, a sangue frio. Ouvi a perturbação e tentei intervir, mas... bem... Era muito tarde para salvá-lo. Estou desolado, certamente.

Fabien grunhiu.

- Obviamente.

- Mas supus que você devesse ser notificado a respeito do crime. E também suspeitei que você e a Agência viriam aqui imediatamente para deter o assassino de meu pai.

Cada célula no corpo de Fabien se deteve.

- O que está dizendo? Que tem alguém sob custódia? Quem?

Um riso baixo se escutou no outro lado da linha.

- Vejo que finalmente tenho sua atenção, Fabien. O que acharia se eu dissesse que tenho um membro da Ordem sob minha custódia, esperando por você aqui no albergue? Estou seguro de que há algumas pessoas que pensam que um guerreiro a menos para lutar seria excelente.

- Você não está realmente tentando me convencer de que esse guerreiro é responsável pela morte de Sergei Yakut, não é?

- Estou apenas dizendo que meu pai está morto e estou no comando de seus domínios agora. Digo que tenho um membro da Ordem em minhas mãos, e estou disposto a entregá-lo a você. Um presente, se quiser.

Edgar Fabien guardou silêncio durante um longo momento, considerando o imenso prêmio que Alexei Yakut lhe oferecia. A Ordem e seus membros ativos tinham poucos aliados dentro da Agência. Menos ainda dentro do círculo privado ao qual Fabien pertencia.

- E o que espera em troca desse... presente?

- Já disse quando nos conhecemos. Quero entrar. Quero uma parte em qualquer ação que você esteja tentando fazer. Uma parte grande, entende? – Lex riu, bastante cheio de si. - Você precisa de mim ao seu lado, Fabien. Penso que isso é óbvio para você agora.

A última coisa que Edgar Fabien ou qualquer de seus sócios precisava ao seu lado era um ambicioso maldito como Alexei Yakut. Ele era um perigo em potencial, alguém que teria de ser tratado com cuidado. Se Fabien tivesse que escolher, optaria por uma exterminação rápida, mas teria que ser alguém mais em última instância para fazer aquela escolha.

Quanto ao membro cativo da Ordem, isso era, de fato, intrigante. Era um presente digno a se considerar, e as muitas atraentes possibilidades que isso representava faziam o coração de quase quatrocentos anos de idade de Fabien pulsar um pouco mais rápido.

- Terei que fazer alguns... acertos - disse ele. - Pode levar uma hora, mais ou menos, para alinhar os recursos e ir até a sua casa para recuperar o prisioneiro.

- Uma hora - Alexei Yakut aceitou ansiosamente. - Não me faça esperar mais do que isso.

Fabien engoliu sua resposta ácida e terminou a chamada com um consentimento:

- Até logo então.

Sentou-se na mesa e olhou para a linha do horizonte noturno que brilhava intermitentemente à distância, bem além de seu imóvel no Refúgio. Então, dirigiu-se para o cofre e virou a fechadura da combinação, pegando a manivela para abri-lo. Dentro havia um telefone celular reservado apenas para chamadas de emergência. Ele teclou um número programado e esperou que o sinal cifrado conectasse. Quando a voz asfixiante do outro lado respondeu, Fabien disse:

- Temos um problema.

As correntes pesadas rodeavam o torso nu de Nikolai, atando-o a uma cadeira de madeira esculpida. Ele sentia restrições similares em suas mãos, que estavam presas atrás de si, e em seus pés, amarrados pelos tornozelos e presos com força contra as pernas da cadeira.

Nikolai tinha levado uma surra, e não apenas da rajada mental debilitante, cortesia de Renata. Graças àquele golpe demolidor, ficou inconsciente durante algum tempo, lutando para levantar suas pálpebras, inclusive agora. É obvio, parte da dificuldade devia-se ao fato de seu rosto ter sido golpeado e arruinado, os olhos estavam inchados, os lábios arrebentados e amargos com o sabor do próprio sangue. Ele estava muito fraco para uma verdadeira luta quando Lex e seus guardas tinham trabalhado nele como em um saco de boxe enquanto tiravam-lhe até a cueca e o arrastavam para o grande quarto da residência para esperar por seu destino.

Nikolai não sabia há quanto tempo estava sentado ali. Tempo suficiente para que suas mãos ficassem inchadas pela falta de circulação. Tempo suficiente para ter notado quando Renata passou pelo quarto, protetoramente conduzindo Mira para longe da repugnante cena. Tinha observado uma mecha de seu cabelo empapado em suor, vendo a dor e a tensão em seu rosto quando ela lançou um olhar sinistro em sua direção.

Sua reverberação provavelmente a golpeava muito duramente agora, ele supunha. Niko disse para si que a pontada que sentiu era apenas outro músculo gritando pelo abuso; ele não podia ser tão estúpido para sentir algum tipo de simpatia pelo sofrimento da fêmea. Ele não podia ser tão estúpido para se preocupar com o que ela pensava a respeito dele - isso se ela, de fato, tivesse acreditado nas acusações feitas por Lex – mas, maldição, ele realmente se importava. Sua frustração por não poder falar com Renata apenas aumentava sua dor física e sua fúria.

Do outro lado da sala, os quatro guardas examinavam as armas e as rodas de titânio com as pontas ocas feitas a mão, criações pessoais de Nikolai. Eles tinham todos os pertences do guerreiro dispostos sobre uma mesa, fora de seu alcance. O celular de Niko - seu vínculo com a Ordem - estava despedaçado no chão. Lex tinha tido o grande prazer de esmagá-lo sob sua bota antes de partir, deixando Nikolai sob a supervisão de seus guardas.

Um dos machos da Raça disse algo que fez os outros três rirem antes que girasse com a semiautomática de Niko e apontasse em sua direção. Nikolai não estremeceu. De fato, ele mal respirava, olhando pela fenda torcida de seu olho esquerdo, todos seus músculos desabados como se ainda estivesse inconsciente e inconsciente sobre o que acontecia ao seu redor.

- Que tal se o acordássemos? - brincou o guarda com a arma na mão. Ele a balançou para Niko, tentadoramente dentro do alcance de sua mão, se os braços de Niko não estivessem fortemente amarrados atrás dele. A boca da 9mm baixou lentamente, além de seu peito, logo acima de seu abdômen definido. - Eu sugiro castrarmos esse pedaço de porcaria assassino. Tiramos suas bolas e deixamos que a Agência o leve em pedaços.

- Kiril, deixe de ser idiota - um dos outros advertiu. - Lex disse que não podíamos tocá-lo.

- Lex é uma garotinha. - O polido aço negro chiou com o frio entalhe quando Kiril martelou. - Em dois segundos esse guerreiro vai ser somente uma garotinha também.

Nikolai se manteve muito quieto quando a arma foi pressionada em sua virilha. Parte de sua paciência nasceu do verdadeiro temor, já que ele era bastante aficionado por suas partes viris e não tinha desejo algum de perdê-las. Mas era inclusive mais primitivo que ele entendesse que as oportunidades de reverter a situação a seu favor eram poucas e breves. Ele tinha superado a maioria dos efeitos internos do talento de Renata, mas não podia estar seguro de sua força física a menos que tentasse.

E se tentasse agora e falhasse... bem, ele não queria contemplar as possibilidades de afastar-se sem sua virilidade intacta se tentasse escapar de suas ataduras e conseguisse apenas um disparo impulsivo de Kiril.

Uma dura palmada golpeou a lateral da sua cabeça.

- Está aí, guerreiro? Tenho algo para você. Hora de despertar.

Com os olhos fechados para ocultar a mudança da cor azul para o âmbar, Nikolai deixou que sua cabeça caísse mole com o golpe. Mas, dentro dele, a fúria começava a acender. Ele tinha que manter a calma. Não podia deixar que Kiril ou os outros vissem a mudança de seus dermoglifos e arriscar-se a mostrar que estava completamente acordado e consciente. E totalmente de saco cheio.

- Acorde! - grunhiu Kiril.

Começou a levantar o queixo de Niko, mas então um ruído fora do recinto chamou sua atenção. Cascalho salpicando e rangendo debaixo de pneus de veículos que se aproximavam. Uma frota deles, pelo som.

- A Agência está aqui - um dos outros guardas anunciou.

Kiril afastou-se de Nikolai, mas tomou seu tempo para desarmar a pistola. Do lado de fora, os veículos reduziam a velocidade, até pararem. Portas se abriram. Botas golpeando o caminho de cascalho foram ouvidas quando os Agentes do Refúgio se aproximaram. Nikolai contou mais de meia dúzia de pares de pés movendo-se para a casa.

Inferno.

Se ele não saísse daquela situação rapidamente, despertaria nas mãos da Agência. E, para um membro da Ordem, um grupo que a Agência há muito tempo desejava extinguir, a detenção faria que Lex e o tratamento de seus guardas parecesse uma temporada em um spa. Se caísse nas mãos da Agência agora, especialmente quando o acusavam de assassinar um Primeira Geração, Niko sabia, sem sombra de dúvidas, que também acabaria morto.

Lex saudou os recém-chegados como se fossem uma corte.

- Por aqui - indicou de algum lugar fora do recinto. – Prendi o filho da mãe. Ele está esperando lá dentro.

- Ele prendeu o filho da mãe - murmurou Kiril acidamente. - Duvido que Lex pudesse manter seu próprio traseiro mesmo que usasse ambas as mãos.

Os outros guardas riram cautelosamente.

- Venha - disse Kiril. - Vamos pôr o guerreiro de pé para que a Agência possa levá-lo daqui.

A esperança surgiu no peito de Niko. Se o liberassem das algemas, poderia ter uma pequena possibilidade de escapar. Muito pequena, tendo em vista o som próximo das botas e a capacidade armamentista que se dirigia em sua direção do exterior da casa. Mas pequena era muitíssimo melhor do que nenhuma.

Ele manteve o corpo sem vida na cadeira, inclusive enquanto Kiril se abaixava diante dele e tirava as correntes que estavam ao redor de seus tornozelos. A impaciência o corroía. Cada impulso de Nikolai dizia que levantasse seu joelho e golpeasse o guarda por baixo da mandíbula.

Ele teve que se reprimir com os dentes mordendo a língua para manter-se imóvel, com a respiração mais superficial que pudesse, esperando a melhor oportunidade enquanto o guarda dava a volta por trás e recolhia os cadeados que fechavam as correntes em seu torso e pulsos. Um giro da chave. Um estalo rangente do aço quando a fechadura se abriu.

Nikolai flexionou seus dedos, tomou uma respiração profunda, sem restrições.

Abriu os olhos. Sorriu abertamente aos companheiros de Kiril um instante antes de levantar os braços e agarrar a cabeça grande de Kiril com as mãos.

Com um movimento fluido, deu um giro violento e saltou para cima, fora da cadeira. As correntes caíram e Nikolai estava de pé com o forte estalo do rompimento do pescoço de Kiril.

- Santo Cristo! - gritou um dos guardas.

Alguém lançou um disparo frenético. Os outros dois procuraram por suas armas.

Niko puxou bruscamente a pistola de Kiril fora de sua cartucheira e devolveu o fogo, derrubando um guarda com uma bala na cabeça.

A situação gerou gritos de alarme no corredor. As botas começaram a golpear. Um pequeno exército de Agentes chegaria para tomar o controle da situação.

Maldito seja.

Não tinha muito tempo para fugir antes que ele estivesse contemplando os canos de não menos do que meia dúzia de pistolas em poucos segundos.

Nikolai arrastou o corpo morto de Kiril diante de si e o manteve ali como um escudo. O cadáver tomou um par de golpes rápidos quando Niko começou a se mover para trás, para a janela que ficava do outro lado do grande quarto.

Na porta agora aberta havia um grupo de Agentes vestidos de preto, todos munidos com algumas armas de fogo semiautomáticas, que o observavam bastante sérios.

- Parado, maldito!

Niko lançou um olhar por cima do ombro para a janela que estava alguns metros atrás dele. Essa era sua melhor - sua única - opção. Render-se agora e sair pacificamente com seus executores da Agência era uma alternativa que ele se negava a considerar.

Com um rugido, Niko agarrou o peso morto de Kiril e balançou o corpo para a janela de cristal. Manteve-o perto quando a janela estilhaçou, usando o cadáver do vampiro como escudo para conseguir sair do alcance do vidro quebrado e assim atravessar o improvisado buraco.

O guerreiro da Raça escutou uma ordem atrás de si – uma ordem de um dos Agentes para que abrissem fogo.

Ele sentia o ar fresco da noite sobre o rosto, sobre o cabelo e sobre o corpo nu umedecido pelo suor. Mas, antes que ele pudesse registrar o menor sabor da liberdade...

Pá! Pá! Pá!

Suas costas nuas arderam como se estivessem em chamas. Seus ossos e músculos sentiram-se flexíveis, e dentro de si dissolveu-se uma onda de bílis e ácido que lhe chamuscou a parte posterior da garganta. A visão de Nikolai mergulhou em uma escuridão repentina que o devorou. Ele sentiu a terra surgir rapidamente debaixo de si quando ele e o cadáver de Kiril caíram abaixo da janela.

Então, já não sentiu mais nada.

 

 

CONTINUA

Capítulo 10

Nikolai despertou na escuridão total, com a cabeça descansando sobre o caixão de um homem aparentemente rico de Montreal que estava morto há 67 anos. O chão de mármore do mausoléu era um pouco duro para as horas de descanso, mas tinha servido muito bem para Niko. A noite estava perigosamente perto da alvorada quando ele deixara o território de Yakut e, além disso, ele certamente já havia dormido em lugares piores do que o cemitério que tinha encontrado no extremo norte da cidade.

Com um gemido, sentou-se e abriu o telefone celular para verificar que horas eram. Merda, ainda era uma hora da tarde; tinha aproximadamente sete ou oito horas para esperar ali antes do anoitecer, quando seria seguro sair. Sete ou oito horas a mais e ele já estava angustiado pelo tempo de inatividade que teria de atravessar.

Sem dúvida alguma, Boston estaria se perguntando sobre ele agora. Niko teclou a discagem rápida que chamava o escritório central da Ordem. No meio do segundo toque, Gideon respondeu.

- Niko, pelo amor de Deus! Já estava na hora de você passar um relatório - o sotaque do inglês vago do guerreiro soou um pouco áspero. Nada surpreendente, considerando que Niko estava ligando no meio do dia. – Diga, você está bem?

- Sim, estou bem. Meu objetivo aqui em Montreal ficou ainda mais difícil de ser alcançado desde domingo, mas, fora isso, está tudo bem.

- Não conseguiu encontrar Sergei Yakut, então?

Niko riu.

- Ah, encontrei o bastardo facilmente. O Primeira Geração está vivinho e abanando o rabo. Mora ao norte da cidade em uma espécie de mansão à la Gengis Khan.

O guerreiro deu a Gideon um rápido resumo de tudo o que havia acontecido desde sua chegada a Montreal - do chute no traseiro que recebera de Renata como boas-vindas até as poucas e estranhas horas que passara no refúgio de Yakut, as quais culminaram com a localização de humanos mortos e largados na parte de trás da casa e sua subsequente expulsão de lá.

Ele descreveu a recente tentativa fracassada de acabar com a vida do Primeira Geração e o incrível papel que Mira desempenhou para frustrar tal ataque. Niko deixou de fora a parte sobre o que ele tinha visto nos olhos de Mira. Não viu razão alguma para compartilhar os detalhes daquela visão que, apesar da insistência de Renata em afirmar que Mira nunca se enganava, tinha praticamente zero chance de se realizar - não, agora havia exatamente zero chance de a visão acontecer.

Deveria ter sido um alívio para ele saber disso. A última coisa de que precisava era se meter com uma mulher, especialmente uma peça desse jogo macabro como Renata. A companheira unida pelo laço de sangue a Yakut. A ideia ainda o corroía, muito mais do que deveria, aliás. E ele não se sentia particularmente bem com o fato de que a mais leve lembrança daquele beijo era suficiente para fazê-lo ficar duro como o granito da tumba que o rodeava.

Ele a desejava, e por uma fração de segundo, quando deixou o refúgio de Yakut, pensou que ela poderia segui-lo. Não tinha motivo algum para pensar isso, mas tinha sido um golpe no estômago, uma sensação de que talvez Renata pudesse correr atrás dele e pedir-lhe que a tirasse dali.

E se o tivesse feito? Cristo, ele tinha que ser muito idiota só para considerar essa hipótese.

- Então - disse a Gideon, retornando mentalmente para a realidade, - não podemos contar com nenhum tipo de cooperação de Sergei Yakut. Ele basicamente me disse isso antes de me enxotar para fora e de eu o chamar de bastardo doente que precisa de focinheira e coleira.

- Jesus, Niko! - suspirou Gideon, provavelmente passando a mão pelo cabelo loiro por conta da frustração. - Disse mesmo isso a um Primeira Geração? Teve sorte que ele não tenha arrancado a sua língua antes de expulsá-lo.

Provavelmente era verdade, Nikolai reconheceu para si. E talvez tivesse perdido mais que a língua se Yakut soubesse o tipo de desejo que ele tinha por Renata.

- Sabe que sou alérgico a puxa-saquismo, mesmo se o saco em questão for o de um Primeira Geração. Se isso era uma missão de relações públicas, vocês escolheram o cara errado.

- Não me diga.

Gideon riu ao soltar outra maldição em voz baixa. - Você vai voltar para Boston, então?

- Não vejo razão para ficar aqui. A menos que você ache que Lucan não olharia torto se eu voltar e colocar fogo na casa de horrores de Yakut. Tirando-o de cena, pelo menos por um tempo.

Estava brincando... em grande parte do que falava. Mas o silêncio da resposta de Gideon revelava que seu companheiro guerreiro sabia o que estava dando voltas na cabeça de Niko.

- Sabe que não pode fazer nada disso, cara. Nada fora dos limites.

- E isso é uma merda - murmurou Nikolai.

- Sim, é. Mas essas decisões pertencem à Agência, não a nós.

- Estou lhe dizendo que Yakut não é diferente dos Renegados que tiramos das ruas, Gid. Diabos! Pelo que vi, ele é ainda pior. Ao menos os Renegados podem colocar a culpa de sua selvageria na sede por sangue. Yakut nem sequer pode agarrar-se ao vício de sangue como desculpa para caçar esses humanos por aí afora. Ele é um predador, um assassino.

- Ele está protegido - disse Gideon firmemente. - Mesmo que não fosse um Primeira Geração, continuaria sendo um civil. E um membro da Raça. Não podemos tocar nele, Niko. Não sem atirar um monte de bosta no ventilador. Portanto, o que quer que esteja pensando em fazer, não o faça.

Nikolai exalou bruscamente.

- Esqueça o que eu disse. Para que horas devo planejar minha viagem de volta a Boston?

- Terei que fazer algumas chamadas, mas o jato particular ainda está esperando por você no aeroporto. Posso mandar uma mensagem de texto com a hora assim que o voo estiver confirmado.

- Tudo bem. Vou descansar e esperar para sair.

- E, afinal, onde você está?

Nikolai olhou para o caixão atrás dele, depois para o outro em frente e para a urna de bronze que estava acumulando pó em um pedestal contra a parede de trás do escuro mausoléu.

- Encontrei um lugarzinho tranquilo para descansar no extremo norte da cidade. Dormindo como um morto, de fato. Ou com eles, em todo caso.

- Falando em mortos, temos um relatório de outro assassinato de Primeira Geração no exterior - disse Gideon.

- Cristo. Escolheram abatê-los como moscas, não é verdade?

- Ou, ao que parece, estão tentando. Reichen está acompanhando o relatório de Berlim. Recebemos um e-mail dele informando que hoje, mais tarde, haverá uma atualização.

- É bom saber que temos olhos e ouvidos nos quais podemos confiar por ali - disse Niko. - Caramba, Gideon. Nunca teria imaginado que pudesse dar algum valor a um Refúgio civil, mas Andreas Reichen está demonstrando ser um aliado muito bom. Talvez Lucan devesse recrutá-lo oficialmente para a Ordem.

Gideon riu.

- Não ache que ele não tenha considerado isso. Infelizmente, somos somente um passatempo de meio período para a jornada de Reichen. Ele pode ter a alma de um guerreiro, mas seu coração pertence a seu Refúgio em Berlim.

E a certa fêmea humana, pelo que Nikolai entendia. Segundo Tegan e Rio, dois guerreiros que tinham passado muito tempo com Andreas Reichen no Escritório Central de Berlim, o líder do Refúgio alemão estava romanticamente envolvido com Helene, a proprietária de um bordel.

Era incomum que um guerreiro da Raça pudesse ter mais de um encontro ocasional, ou uma breve relação com uma mulher mortal, mas Niko não estava a ponto de questioná-lo porque certamente Helene também estava sendo uma fonte útil de informação para a Ordem no exterior.

- Então, escute-me - disse Gideon. - Espere calmamente onde está e eu o avisarei assim que tiver a informação de sua partida para esta noite. Está bem?

- Sim. Você sabe como me encontrar.

O murmúrio de uma voz feminina aveludada, suavizada pelo sono, atravessou o telefone.

- Ah, inferno, Gid. Não me diga que está na cama com Savannah!

- Eu estava - respondeu ele, acentuando com força o tempo passado. - Agora que ela está acordada, diz que vai tomar uma ducha quente e uma xícara de café forte.

Nikolai gemeu.

- Caramba. Diga-lhe que sinto pela... interrupção.

- Ouça, querida - Gideon chamou sua amada companheira, unidos pelo laço de sangue por cerca de trinta anos. - Niko diz que sente por ser um bastardo grosseiro e por nos despertar nessa hora tão inoportuna.

- Obrigado - murmurou Niko.

- De nada.

- Ligarei de novo do avião.

- Tudo bem - disse Gideon. - Ouviu, amor? Niko quer que diga que está para desligar. Ele diz que você deve retornar para a cama e me permitir violá-la lentamente desde sua inteligente e formosa cabeça até seus deliciosos e pequenos dedinhos dos pés – disse Gideon a Savannah, que agora estava sentada ao seu lado.

Nikolai riu.

- Soa divertido. Ponham no viva-voz para que eu possa pelo menos escutar.

Gideon bufou.

- Nem pense. Ela é toda minha.

- Bastardo egoísta - Niko arrastou as palavras sarcasticamente. – Vejo você mais tarde.

- Bem, até mais tarde. E, Niko, sobre a situação de Yakut: sério, nem pense em bancar o cowboy, ok? Temos questões mais importantes do que lutar e tentar encurralar um Primeira Geração solto. Não é nossa área, sobretudo agora.

Quando Niko não concordou imediatamente, Gideon limpou a garganta.

- Seu silêncio não me dá exatamente uma tranquilidade, meu caro. Preciso saber que você está escutando isso.

- Sim - disse Nikolai. - Estou escutando. Vejo você em Boston mais tarde.

Niko desligou o celular e o colocou de volta no bolso.

Embora muito o irritasse pensar em fazer vista grossa para Yakut e para suas doentias atividades, ele sabia que Gideon tinha razão. E mais: ele sabia que o líder da Ordem, Lucan, assim como o resto dos guerreiros no complexo de Boston, diria a mesma coisa.

Esquecer Sergei Yakut, pelo menos por enquanto: isso era o mais sábio, a coisa mais inteligente que podia fazer.

E, enquanto isso, seria prudente esquecer Renata também. Ela fez sua cama, afinal de contas. O fato de, evidentemente, tê-la feito com um sádico como Sergei Yakut não era problema de Nikolai. Absolutamente. Renata, a linda dama de gelo, não era assunto seu e ele estaria melhor longe dela.

Bem longe do ninho de víboras que tinha descoberto nos domínios de Yakut.

Restavam apenas algumas horas antes do anoitecer e, então, ele poderia deixar tudo aquilo para trás.

Ela nunca havia se acostumado a dormir com a luz do dia, não nos dois anos em que tinha vivido a serviço de um vampiro.

Renata estava em sua cama, inquieta, incapaz de relaxar e fechar os olhos até mesmo por alguns minutos. Virou-se, colocando-se de costas e deixando escapar um suspiro, mantendo seu olhar fixo nas vigas de madeira do teto.

Pensava no guerreiro... Nikolai.

Ele tinha partido há várias horas, mas ela ainda sentia o peso do desprezo dele pressionado sobre ela. Odiava que tivesse visto Yakut alimentando-se dela. Tinha sido difícil fingir que não estava envergonhada quando sustentou seu olhar do outro lado do quarto. Ela tinha tentado não parecer afetada, mas, por dentro, estava tremendo, com sua pulsação martelando quase fora de controle.

Ela não queria que Nikolai a visse assim. Ainda mais pelo fato de ele ter enumerado os brutais crimes de Yakut, claramente pensando que ela era parte deles também. Ela não conseguia esquecer o olhar acusador que o macho da Raça tinha lhe dirigido.

Isso era ridículo.

Nikolai era da Raça assim como Yakut. Ele era um vampiro igual a Yakut e, como tal, tinha de se alimentar de humanos para sobreviver. Mesmo com seu limitado conhecimento sobre a Raça, Renata sabia que beber de seres humanos era a única forma de a Raça obter seu alimento. Os amigáveis vampiros não usavam os bancos de sangue, nos quais poderiam recolher um litro de O- pelo caminho. Nem os animais eram um substituto para o sangue humano.

Sergei Yakut e todo o resto da Raça compartilhavam o mesmo impulso: a necessidade dos glóbulos vermelhos dos Homo sapiens, tomados diretamente de uma veia aberta.

Eles eram selvagens e letais. Mesmo que na maioria das vezes parecessem humanos, em seu coração – ou em sua alma, se é que eles ainda tinham uma – faltava toda a humanidade. Por que ela deveria pensar que Nikolai era diferente?

Mas ele tinha parecido diferente, mesmo que só um pouco, quando tinham discutido no canil - quando a tinha beijado. Por Deus! Ele na realidade tinha parecido muito diferente dos outros da Raça que ela conhecia. Não era como Yakut, tampouco como Lex.

O que provavelmente só demonstrava que ela era uma tola.

E que era também uma fraca. Que outra coisa poderia explicar o dilacerador desejo de que Nikolai voltasse? Ele poderia tê-la tirado daquele lugar quando havia partido?

Ela frequentemente não se permitia ter esperanças vãs ou perder tempo imaginando coisas que nunca aconteceriam. Mas por um momento... por um breve e egoísta momento ela se imaginou sendo arrancada, libertada dos braços de ferro de Sergei Yakut.

Por um instante, ela se perguntou o que poderia ter vontade de fazer quando estivesse livre do sádico Primeira Geração, livre de tudo que a mantinha ali... e isso havia sido glorioso.

Envergonhada por seus pensamentos, Renata jogou as pernas para um lado da cama para se sentar. Ela não podia ficar ali um minuto a mais, não enquanto sua mente estivesse girando com pensamentos que não lhe fariam bem algum.

A verdade é que aquela era a sua vida. O mundo de Yakut era o seu mundo, o recinto e seus inúmeros segredos grotescos eram sua realidade inflexível. Ela não sentia pena de si, nunca sentira. Nem no orfanato do convento por todos aqueles anos de sua infância, nem no dia em que fora expulsa para sempre de sua casa com as Irmãs da Benevolente Misericórdia aos 14 anos de idade.

Nem mesmo naquela noite, há dois verões, quando foi arrancada das ruas de Montreal e presa com um grupo de outras pessoas assustadas nos currais do celeiro dentro da propriedade de Sergei Yakut.

Ela não tinha derramado uma só lagrima de autopiedade em todo esse tempo. E, com certeza, não iria começar agora.

Renata levantou-se e saiu de seu modesto quarto. A casa principal estava em silêncio àquela hora, as poucas janelas do lugar estavam completamente fechadas para afastar os letais raios de sol. Renata tirou a barra de ferro grossa da porta exterior e saiu andando na gloriosa tarde de verão, cálida e brilhante.

Dirigiu-se ao canil. Entre todo o drama da última noite, não só com Nikolai mas também depois, ela tinha esquecido completamente que suas adagas estavam lá fora. Ser negligente e descuidada a incomodava. Nunca deixava os punhais fora de seu alcance. Eles eram parte dela agora, como tinham sido no dia em que os tinha tomado.

- Estúpida, estúpida - sussurrava para si enquanto entrava no antigo canil e olhava para o poste em que esperava encontrar a lâmina incrustada que tinha atirado contra Nikolai.

Não estava ali.

Um grito de incredulidade e angústia deslizou por seus lábios.

O guerreiro levou suas lâminas? Será que o cachorro as tinha roubado?

- Maldito seja. Não!

Renata invadiu o corredor central do edifício... e, então, parou abruptamente quando chegou à parte posterior do lugar e seus olhos pousaram no fardo de feno perto do poste de madeira.

Cuidadosamente dobrado em cima dele e colocado perfeitamente ao lado do par de sapatos que tinha deixado para trás na noite anterior estava também a capa de seda e veludo que continha suas preciosas adagas. Segurou-as para certificar-se de que a capa de tecido não estava vazia. Quando sentiu o peso familiar em sua palma, não pôde conter um sorriso.

Nikolai.

Ele tinha guardado as adagas para ela. Ele as havia recolhido, envolvido e deixado ali, como se soubesse quanto significavam para ela.

Por que faria isso? O que esperava que sua bondade comprasse? Na verdade, pensava que sua confiança poderia ser ganha tão facilmente ou esperava outra oportunidade para impor-se do mesmo modo que havia feito com aquele beijo?

Ela realmente não queria pensar nos beijos de Nikolai. Se pensasse, então deveria admitir para si que o beijo tinha sido inesperado e à força, e que apenas ele era culpado por aquilo ter ocorrido.

Mas a verdade era que ela tinha aproveitado.

Santa Maria! Só de pensar nele um calor lento e líquido acendia-se em seu coração e em seu sexo.

Ela queria mais dele, apesar de cada instinto de sobrevivência de seu corpo ter gritado para que ela se afastasse, que escapasse rapidamente. Ela tinha fome dele – naquele momento e agora. Queimava por ele – em um lugar que ela pensava estar completamente congelado e morto. E o comentário a respeito do que ele tinha visto nos olhos de Mira - a implicação de tudo - poderia envolver Renata e ele intimamente juntos, o que era ainda mais inquietante. Graças a Deus ele se foi. Graças a Deus, ele provavelmente nunca voltaria depois do que tinha descoberto ali.

Muito tempo havia passado desde que Renata ajoelhava-se para rezar. Ela não se ajoelhava diante de ninguém mais, nem sequer de Yakut em seu pior momento, mas inclinou a cabeça e pediu aos céus que mantivesse Nikolai longe daquele lugar. Longe dela.

Já não estava com ânimo para treinar, sobretudo quando as lembranças do que tinha acontecido ali ainda estavam tão recentes em sua cabeça. Renata pegou seus sapatos e caminhou de volta para a casa. Entrou e se dirigiu ao corredor que levava ao seu quarto, esperando ter ao menos algumas horas de sono.

De repente, deu-se conta de que havia algo errado, mesmo antes de notar que a porta de Mira não estava fechada.

Nenhuma luz estava acesa no quarto da menina, mas ela estava acordada. Renata escutou sua suave voz na escuridão, queixando-se que tinha sono e não queria levantar. Mais pesadelos?, Renata se perguntou, sentindo uma pontada de compaixão pela menina. Mas, então, outra voz gemeu entre os dentes acima dos protestos aturdidos de Mira, uma voz fria, áspera e impaciente.

- Pare de choramingar e abra seus olhos, cadelinha.

Renata pressionou a mão contra a porta e a empurrou amplamente.

- Que diabos pensa que está fazendo, Lex?

Ele estava inclinado sobre a cama de Mira, apertando dolorosamente as mãos nos ombros da menina. Sua cabeça virou quando Renata entrou no quarto, mas ele não soltou Mira.

- Preciso do oráculo de meu pai. E não vou responder às suas perguntas, então, seja amável e saia daqui, inferno.

- Rê, ele está machucando meus braços.

A voz de Mira era baixa, sacudida pela dor.

- Abra os olhos, maldita - Lex grunhiu. - E talvez eu pare de te machucar.

- Tire suas mãos de cima dela, Lex.

Renata parou ao pé da cama, com as lâminas embainhadas.

- Tire as mãos dela! Agora!

Lex zombou.

- Não até que eu tenha terminado com ela.

Quando deu a Mira uma sacudida forte, Renata soltou uma rajada de fúria mental. Era só um fio de energia, só uma fração do que podia dar, mas Lex uivou, seu corpo se sacudiu como se tivesse sido golpeado por milhares de volts de eletricidade. Cambaleou para trás, deixando Mira cair e afastando-se da cama, caindo com o traseiro no chão.

- Cadela! – gritou com os olhos soltando um fogo âmbar e com as pupilas fragmentadas fortemente no centro. - Eu devia matá-la por isso. Devia matar a pequena pirralha e você, suas cadelas!

Renata o golpeou de novo, dando-lhe outra pequena amostra de agonia. Ele se deixou cair, agarrando a cabeça e gemendo com a segunda rajada debilitante. Ela esperou, observando como ele se esforçava para levantar-se de uma postura desajeitada do chão. Da maneira que estava agora, ele não representava ameaça alguma para ela, mas em algumas horas estaria recuperado, e Renata estaria vulnerável. Aí então ela teria uma pequena dívida a pagar.

Mas no momento, Mira já não era do interesse de Lex, e isso era tudo que importava. Lex a fulminou com o olhar quando se arrastou até seus pés.

- Saia do meu... caminho... vadia maldita!

As palavras estavam sufocadas, balbuciadas entre seus ofegos enquanto ele torpemente se dirigia para a porta aberta. Quando Lex saiu do campo de visão de Renata, com os passos dele ecoando no corredor externo, ela aproximou-se de Mira e tentou acalmá-la.

- Está tudo bem, querida?

Mira assentiu.

- Eu não gosto dele, Rê. Ele me assusta.

- Eu sei, querida.

Renata deu um beijo na testa da garota.

- Não vou deixar que ele faça mal a você. Está a salvo comigo. Essa é uma promessa, certo?

Outro gesto de assentimento, mais fraco dessa vez, enquanto Mira voltava a cabeça ao travesseiro e exalava um suspiro sonolento.

- Rê? - perguntou em voz baixa.

- Sim, ratinho?

- Você nunca vai me abandonar, não é mesmo?

Renata ficou olhando fixamente aquele rosto inocente na escuridão, sentindo seu coração apertado no peito.

- Nunca vou abandonar você, Mira. Jamais... Exatamente como prometemos.


Capítulo 11

A lua elevava-se, projetando manchas de luz sobre o lago Wannsee, em uma zona exclusiva do subúrbio de Berlim. Andreas Reichen recostou-se em sua cadeira almofadada no gramado que ficava na parte de trás de sua propriedade privada no Refúgio. Ele tentava absorver um pouco da paz e da tranquilidade noturnas. Apesar da brisa agradável e morna, e do lago de águas calmas e escuras, os pensamentos dele eram taciturnos e turbulentos.

As notícias do último Primeira Geração assassinado, dessa vez na França, fora um duro golpe. Parecia-lhe que o mundo ao seu redor estava ficando cada vez mais insano. Não apenas o mundo da Raça – seu mundo -, mas também a humanidade. Tanta morte e destruição. Tanta angústia por todos os lados.

No fundo de seu estômago, Andreas tinha a terrível sensação de que isso era apenas o começo. Dias mais sombrios estavam por vir. Provavelmente estivessem a caminho há muito tempo e ele tinha sido demasiado ignorante; estivera demasiado entretido com seus prazeres pessoais para se dar conta disso.

Um desses prazeres, aliás, aproximava-se por trás dele: com passos elegantes e inconfundíveis, a mulher caminhou pelos jardins bem cuidados da propriedade e sentou-se sobre a grama.

Os pequenos braços de Helene rodearam os ombros largos de Andreas.

- Olá, querido.

Reichen aproximou-se para acariciar-lhe a cálida pele enquanto a mulher inclinava-se para beijá-lo. Ela tinha uma boca suave e persistente, e seus longos cabelos escuros guardavam ainda um vestígio de óleo de rosas.

- Quando cheguei, seu sobrinho me disse que você estava aqui fora há horas - murmurou ela, erguendo a cabeça para olhar o lago. - Posso ver por quê. É uma vista encantadora.

- E agora está ainda mais encantadora - disse Reichen, levantando a cabeça para olhar a mulher.

Helene sorriu sem acanhamento, há muito tempo já acostumada com aquela adulação.

- Alguma coisa está te incomodando, Andreas. Você não é do tipo que fica sentado se queixando do quanto a vida é injusta.

Será que ela o conhecia tão bem assim? Eles tinham sido amantes durante o ano anterior, uma brincadeira amorosa casual que, de alguma forma, transformara-se em algo mais profundo, se não exclusivo. Reichen sabia que Helene tinha outros homens em sua vida - homens humanos -, da mesma forma que ela sabia que ele ocasionalmente buscava prazer com outras mulheres. Não era uma relação infestada de ciúmes ou de possessão. Mas isso não significava que não houvesse carinho. Eles compartilhavam uma preocupação mútua um pelo outro e um vínculo de confiança que se estendia além das barreiras que geralmente tornavam as relações entre humanos e homens da Raça impossíveis.

Helene tinha se tornado uma amiga e, ultimamente, era uma companheira indispensável no importante trabalho de Reichen com os guerreiros de Boston.

Ela sentou-se no grande braço da cadeira.

- Deu as notícias à Ordem sobre o recente assassinato em Paris?

Reichen assentiu.

- Sim. E eles me disseram que houve também uma tentativa de assassinato em Montreal algumas noites atrás. Pelo menos essa falhou, um milagre do destino. Mas haverá outras. Temo que muitas outras mortes acontecerão antes que a fumaça finalmente se dissipe. A Ordem está convencida de que deterá essa loucura toda, mas às vezes me pergunto se o mal trabalhando aqui não é maior do que qualquer bem.

- Você está deixando que isto o consuma - disse Helene, enquanto preguiçosamente afastava o cabelo da testa. - Já sabe, se precisa de algo a fazer com seu tempo, poderia ter procurado a mim em vez da Ordem. Eu poderia tê-lo colocado para trabalhar no clube como meu assistente pessoal. Não é muito tarde para mudar de ideia. E asseguro-lhe que apenas os benefícios já valeriam a pena.

Reichen riu.

- Tentador, de fato.

Helene inclinou-se e mordiscou-lhe a orelha, sua respiração fazendo cócegas quentes sobre a pele masculina.

- Seria só uma posição temporária, é obvio. Vinte ou trinta anos, um piscar de olhos para você. Eu estarei enrugada e grisalha e você se entusiasmará por um novo brinquedo mais atraente que possa manter o ritmo de suas selvagens exigências.

Reichen estava surpreso ao ouvir a pontada de nostalgia na voz de Helene. Ela nunca tinha falado sobre o futuro com ele, nem tampouco ele com ela. Era mais ou menos compreensível que não poderia haver um futuro, tendo em vista que ela era mortal e ele – a menos que prolongasse sua exposição aos raios UVA ou sofresse um intenso dano no corpo - continuaria vivendo durante um tempo próximo ao da eternidade.

- O que está fazendo esbanjando seu tempo comigo quando poderia ter qualquer outro homem? – perguntou Reichen, movendo os dedos ao longo da suave linha do ombro de Helene. - Poderia estar casada com alguém que a adorasse, criando uma ninhada de crianças belas e inteligentes.

Helene arqueou uma impecável sobrancelha.

- Suponho que nunca fui do tipo que faria uma escolha convencional.

Nem ele, de fato. Reichen admitia que seria muito fácil ignorar tudo o que ela e a Ordem tinham descoberto há alguns meses. Ele podia esquecer a maldade que tinham vasculhado até à cova montanhosa nas colinas Boêmias. Podia fingir que nada daquilo existia, descumprir sua oferta de ajudar aos guerreiros respondendo por seu papel como líder de um Refúgio e voltar para seus libertinos e descuidados hábitos.

Mas a única verdade era que ele tinha se cansado daquela vida há tempos. Anos atrás, alguém o havia acusado de ser um eterno menino egoísta e irresponsável. E, naquele momento, a pessoa tinha razão. Especialmente quando ele tinha sido suficientemente tolo para deixar escapar uma mulher e o amor que ela lhe havia dado. Depois de muitas décadas de autopiedade, ele se sentia bem em fazer a diferença. Ou em tentar fazê-la, de qualquer forma.

- Não esperava que você viesse esta noite só para me distrair com seus beijos e com essas atraentes ofertas de emprego - disse, sentindo que a seriedade abatia-se sobre Helene.

- Não, não foi por isso que vim, infelizmente. Pensei que deveria saber que uma das minhas garotas do clube está desaparecida. Lembra-se de que mencionei Gina, uma de minhas garotas mais novas, que apareceu com marcas de mordida no pescoço na semana passada?

Reichen assentiu.

- A que tinha falado sobre um novo namorado rico com quem estava saindo.

- Essa mesmo. Pois bem, não é a primeira vez que ela falta ao trabalho, mas sua companheira de quarto disse-me esta tarde que Gina não passa em casa ou dá notícias há mais de três dias. Pode não ser nada, mas pensei que gostaria de saber.

- Sim. Tem alguma informação sobre o homem com quem se encontrava? Uma descrição, um nome, algo?

- Não. A companheira de apartamento dela nunca o conheceu e, por isso, não pôde me dizer nada.

Reichen considerou as numerosas coisas que podiam ocorrer a uma jovem que se encontrava inconscientemente com um macho da Raça. Embora a maioria deles fosse de membros que respeitavam a lei da nação vampírica, havia outros que revelavam seu lado selvagem.

- Preciso que, discretamente, investigue no clube esta noite, veja se alguma das outras garotas ouviu Gina mencionar algo sobre esse namorado. Procure por nomes, lugares aos quais ela possa ter ido com ele. O menor detalhe pode ser importante.

Helene assentiu, mas havia uma nota de interesse em seus olhos.

- Prefiro esse seu lado sério, Andreas. É incrivelmente sexy.

A mão dela deslizou por baixo da abertura da camisa de seda dele conforme suas longas e pintadas unhas brincavam sobre seu musculoso abdômen. Embora os pensamentos de Reichen fossem nefastos, seu corpo respondeu ao toque especialista da mulher. Seus dermoglifos começaram a encher-se de cor e sua visão afiou-se com uma rajada de cor âmbar que rapidamente preencheu sua íris. Mais abaixo, seu pênis ficou ereto, crescendo onde agora descansava sua palma.

- Eu realmente não deveria ficar - murmurou ela com a voz rouca e zombadora. - Não quero chegar tarde no trabalho.

Quando ela começou a se levantar, Reichen a deteve.

- Não se preocupe com isso. Conheço a mulher que dirige o lugar. Pedirei desculpas por você. Sei de fonte segura que ela gosta muito de mim.

- Você gosta dela?

Reichen grunhiu, deixando visível as pontas de suas presas com seu amplo sorriso.

- A pobre está louca por mim.

- Louca por uma coisa arrogante como você? - zombou Helene. - Querido, não se adule. Ela poderia querê-lo apenas por causa de seu decadente corpo.

- É o suficiente - respondeu ele. - Mas não ouvirá queixas minhas de maneira alguma.

Helene sorriu, sem resistir enquanto ele a puxava sobre seu colo e entregava-lhe um beijo profundo, masculino e faminto.

Ao anoitecer, Lex estava completamente recuperado do golpe que Renata lhe desferira. Sua ira - seu ódio por ela – permanecia, todavia.

Ele a amaldiçoava em sua mente enquanto se inclinavae sobre uma putrefata parede de uma casa infestada de ratos no pior subúrbio de Montreal, assistindo a um jovem humano apertar o braço com um cinto de couro velho. Com a ponta solta presa entre os dentes quebrados e cariados, o drogado cravou a agulha de uma imunda seringa em um lugar cheio de crostas e hematomas que percorriam o esquálido braço. Gemeu enquanto a heroína entrava em sua corrente sanguínea.

- Ah, caramba, cara! - soltou um trêmulo suspiro enquanto liberava seu torniquete e caía para trás contra um colchão podre no chão. Correu as mãos tatuadas pelo rosto pálido e cheio de espinhas, e pelos cabelos castanhos ensebados. – Ah! Essa porcaria é das boas, cara.

- Sim - Lex disse com a voz sem fôlego, na fria e úmida escuridão.

Não tinha economizado em drogas; o dinheiro era de pouco interesse para ele. Sem dúvida o drogado que vendia o corpo nas ruas nunca tinha ganhado tanto dinheiro. Lex estava disposto a apostar que os serviços pessoais do jovem nunca haviam alcançado uma soma tão alta. Ele tinha saltado no interior do carro quando Lex parou e lhe mostrou cem dólares e um pacote de heroína.

Lex moveu a cabeça e olhou como o humano saboreava sua dose de alívio. Eles estavam sozinhos no miserável quarto de um edifício abandonado. O lugar tinha sido invadido por vagabundos e viciados quando chegaram, mas só levou uns minutos para Lex – e uma irresistível ordem mental, cortesia de sua linhagem de segunda geração da Raça - conduzir os humanos para fora e deixar que ele exercesse sua atividade sem ser incomodado.

Ainda deitado no chão, o drogado tirou a camisa regata e começou a desabotoar os folgados e imundos jeans azuis. Acariciou-se grosseiramente enquanto abria a braguilha, os olhos turvos rolando em seu crânio, buscando distraidamente através da escuridão.

- Então, quer que eu chupe seu pau ou o quê, cara?

- Não - Lex disse, enojado apenas com a ideia.

Ele afastou-se de sua posição, cruzando o quarto, e caminhou lentamente em direção ao drogado. Por onde começar com ele?, perguntou-se preguiçosamente. Tinha que esgotar essa coisa com cuidado ou teria de voltar para a rua e procurar outra pessoa.

Esbanjando seu tempo precioso.

- Prefere minha bunda, então, cara? - comentou o michê. - Se quiser me comer, vai ter de pagar o dobro. Essa é minha regra.

A risada de Lex foi baixa e genuinamente divertida.

- Não estou interessado em comer você. Já é suficientemente mau que tenha que olhar para você, que tenha que sentir seu cheiro repugnante. O sexo não é a razão pela qual está aqui.

- Bem, o que diabos você quer então? – ao dizer isso, uma nota de pânico cortou o ar, um súbito golpe de adrenalina humana que os sentidos de Lex facilmente detectaram. - Estou seguro que não me trouxe aqui para uma conversa educada.

- Não - Lex concordou.

- Está bem. Está bem, que porra eu pareço para você, seu merda?

Lex sorriu.

- Uma isca.

Com movimentos tão rápidos que nem sequer o olho humano mais aguçado poderia seguir, Lex estendeu a mão e derrubou o drogado no chão. O vampiro tinha uma faca na mão e cravou-a no macilento abdômen do humano, rasgando-lhe a pele.

O sangue surgiu da ferida, quente, úmido e perfumado.

- Ah, Jesus! - gritou o humano. - Ah, meu Deus! Você me apunhalou!

Lex recuou e deixou que o homem caísse sobre o chão. Era tudo que podia fazer para não investir contra o drogado com uma sede cega.

A transformação física de Lex foi rápida, provocada pela súbita presença de sangue fresco fluindo. Sua visão se aguçou enquanto suas pupilas se estreitavam, um brilho âmbar lavava o quarto enquanto seus olhos transformavam-se nos de um predador. Suas presas alargaram-se atrás de seus lábios e a saliva inundou-lhe a boca enquanto a urgência de se alimentar crescia.

O drogado estava soluçando agora, emitindo sons patéticos enquanto apertava a enorme ferida em seu estômago.

- Você está louco, seu merda? Podia ter me matado!

- Ainda não - respondeu Lex entre suas presas.

- Tenho que sair daqui - murmurou o homem. - Tenho que conseguir ajuda...

- Fique - ordenou Lex, sorrindo enquanto a mente do homem murchava sob aquela ordem.

Teve que se obrigar a manter distância. Deixar que a situação se esvaísse enquanto pudesse. Uma ferida no estômago sangrava rápido, mas a morte viria lentamente. Lex precisava dele vivo durante um tempo longo o suficiente para que o cheiro do sangue viajasse pela rua e entrasse nos becos dos arredores.

O humano que tinha comprado era meramente uma isca pronta para ser jogada na água. Lex procurava atrair um peixe maior.

Sabia tão bem como qualquer outro membro da Raça que nada atraía um vampiro mais rápido - e mais certeiramente – do que uma presa humana sangrando. E fazer isso em um ponto obscuro da cidade, onde até mesmo a escória da sociedade humana adentrava um estado de terror secreto, Lex presumia, atrairia a presença de Renegados.

Não se decepcionou.

Os dois primeiros vieram farejando ao redor da casa abandonada em minutos. Os Renegados eram viciados sem esperança, tanto quanto o drogado que agora se aconchegava em posição fetal, chorando em silêncio no chão, enquanto sua vida se apagava lentamente.

Embora poucos da Raça se perdessem na luxúria do sangue – a permanente e insaciável sede de sangue –, aqueles que raramente o faziam jamais se libertavam. Viviam nas sombras, monstros selvagens sem raízes, cujo único objetivo era viver alimentando sua fome.

Lex escondeu-se no canto do quarto enquanto os dois predadores se arrastavam para dentro. Eles imediatamente caíram sobre o humano, rasgando-o com presas que nunca se desvaneciam, os olhos ardendo com a cor e o calor do fogo.

Outro Renegado encontrou o quarto. Este era maior do que os outros, mais brutal enquanto se jogava para a matança e começava a alimentar-se. Uma briga explodiu entre os selvagens. Os três se pegaram como cães raivosos. Batendo os punhos, os dedos e as presas estripando a carne e os ossos, cada macho poderoso lutava viciosamente para ganhar um pedaço da presa.

Lex olhava paralisado. Aturdido pela violência e bêbado pelo cheiro de tanto sangue derramado, humano e da Raça.

Olhou e esperou.

Os Renegados lutaram um contra o outro até a morte, como animais selvagens que eram. No final, só um deles demonstraria ser o mais forte.

E era desse que Lex precisava.

Após um dia inteiro esperando o anoitecer, Nikolai agora tinha outras duas horas para passar antes de poder tomar seu voo de volta para Boston.

O guerreiro considerou seriamente não ir ao aeroporto e viajar a pé, mas até mesmo com sua resistência da Raça e sua hipervelocidade, mal atravessaria o estado de Vermont antes que o amanhecer o obrigasse a esconder-se de novo. E, francamente, a ideia de dormir em um celeiro com um bando de animais agitados não o empolgava a colocar um tênis e pegar a estrada.

Portanto, esperaria.

Maldição.

Ele e a paciência nunca foram amigos íntimos e, quando o sol finalmente se pôs e ele pode sair do refúgio, Niko já estava à beira da insanidade.

Supôs que aquele aborrecimento o guiava pelos subúrbios de Montreal, onde esperava encontrar algo divertido para fazer enquanto o mau humor passava. Não se preocupava em como usaria o tempo, mas havia deliberadamente procurado a única região da cidade onde a probabilidade de encontrar uma razão para usar seus punhos ou suas armas eram maiores.

Naquele conjunto de becos infestados de ratos, suas escolhas imediatas eram limitadas aos traficantes - de drogas ou de pessoas - e prostitutas de ambos os gêneros, sem discriminação. Mais de um idiota o olhou enquanto ele andava pela rua sem direção aparente. Alguém foi inclusive suficientemente estúpido para mostrar a ponta de uma faca enquanto passava, mas Niko só se deteve e deu ao bastardo desdentado um sorriso de orelha a orelha, mostrando suas presas como um convite e, rapidamente, a ameaça desapareceu.

Embora não fosse contra tipo algum de confronto, a luta contra humanos estava abaixo de sua capacidade. Preferia um desafio maior. O que ele realmente queria encontrar agora era um Renegado. No verão passado, Boston estivera afundada até os joelhos de vampiros viciados em sangue. A luta tinha sido dura e pesada - com pelo menos uma perda trágica para a Ordem -, mas Nikolai e o resto dos guerreiros tinham completado sua missão de manter a cidade limpa.

Outras zonas metropolitanas ainda perdiam civis ocasionalmente por conta da luxúria por sangue, e Niko apostaria seu testículo esquerdo que Montreal não era diferente. Mas além dos cafetões, traficantes e prostitutas, aquela extensão de tijolo e asfalto estava tão morta quanto a cripta na qual ele tinha sido forçado a passar o dia.

- Ei, querido - a mulher sorriu para ele de uma porta coberta de sombras enquanto ele passava. - Busca algo específico ou está apenas olhando as vitrines?

Nikolai grunhiu, mas se deteve.

- Sou um cara diferente.

- Bem, possivelmente tenho o que você precisa - ela sorriu e se moveu de sua pose sobre o degrau de concreto. - De fato, tenho exatamente o que você precisa, querido.

Ela não era uma beleza, com seus quebradiços e desgrenhados cabelos, olhos apagados e pele pálida, mas Nikolai não esperava gastar muito tempo olhando sua cara. Ela cheirava bem, seu desodorante e o spray de cabelo podiam ser considerados fragrâncias de aroma limpo. Para os sentidos afiados de Niko, a mulher cheirava a cosméticos e perfumes, com um toque de uso recente de drogas que exalava por seus poros.

- O que diz? - perguntou ela, aproximando-se furtivamente. - Quer ir a algum lugar? Se tiver vinte dólares, terá meia hora.

Nikolai observou a pulsação no pescoço da mulher. Já fazia vários dias que não se alimentava. E ele tinha duas horas pela frente sem fazer nada...

- Sim - disse assentindo. - Vamos.

Ela pegou a mão dele e o guiou, virando a esquina onde ficava o edifício, rua abaixo em direção a um beco vazio.

Nikolai não perdeu tempo. Mal se distanciaram de potenciais observadores, tomou a cabeça da mulher em suas mãos e despiu seu pescoço para mordê-la. Seu grito assustado foi esmagado imediatamente quando ele afundou as presas na veia saltante e começou a beber.

O sangue da mulher era medíocre – o habitual cobre pesado das células vermelhas humanas, mas enlaçadas com uma acidez doce e amarga das pedras de heroína e cocaína que ela tinha usado durante seu trabalho à noite. Nikolai tragou vários goles, sentindo o fluxo de energia do sangue através de seu corpo em uma baixa vibração. Não era raro para um vampiro da Raça excitar-se com o ato de se alimentar. A resposta era puramente física, um despertar de células e músculos.

O fato de seu pênis estar completamente ereto e exigindo alívio não o surpreendeu, mas sim o fato de sua cabeça estar nadando em pensamentos sobre uma mulher com cabelos escuros - uma mulher que ele não tinha intenção de ver de novo - que fazia Niko ficar em estado de alerta.

- Humm, não pare - sua companheira humana se queixou, puxando sua boca de volta à ferida no pescoço. Ela também estava sentindo os efeitos da alimentação, cativada como todos os humanos ficavam quando eram mordidos pela Raça. - Não pare, querido.

A visão de Nikolai estava alagada de fogo âmbar enquanto ele abraçava de novo a garganta da mulher. Sabia que ela não era Renata, mas enquanto suas mãos roçavam as pernas nuas por baixo da saia curta que ela usava, ele se imaginou acariciando as belas e longas coxas de Renata. Imaginou que era o sangue de Renata que o alimentava, que era o corpo de Renata que respondia tão apaixonado ao seu contato.

Eram os febris ofegos de Renata que o guiavam enquanto ele rasgava a calcinha barata com uma mão e usava a outra para libertar-se da própria calça.

Precisava estar dentro dela.

Precisava...

Caramba.

Uma ligeira brisa formou redemoinhos através do beco, trazendo consigo o fedor de vampiros Renegados. E havia muito sangue derramado também. Sangue humano. Muito, muito sangue, mesclado com o cheiro vil de Renegados sangrando.

- Jesus Cristo.

Que porra estava acontecendo?

Ele puxou a saia da mulher para baixo e lambeu-lhe a ferida do pescoço, selando sua mordida.

- Pedi que não parasse...

Mas Niko nem lhe deu tempo de terminar seu pensamento. Pondo a palma sobre sua testa, apagou tudo de sua mente.

- Saia daqui - disse.

Niko já estava correndo pelo beco quando ela saiu de seu atordoamento e começou a caminhar. O guerreiro seguiu seu olfato até um dilapidado edifício não longe de onde estava. Aquele fedor emanava do interior da construção, alguns apartamentos acima da rua.

Nikolai subiu a escada de incêndio até o segundo andar. Seus olhos estavam virtualmente marejados pelo entristecedor aroma de morte que saía daquele andar. Com a mão sobre a pistola embainhada em seu quadril, Niko se aproximou. Não havia sons do outro lado da maltratada porta cheia de pichações. Apenas morte – humana e vampírica. Niko girou o trinco e se preparou para o que encontraria.

Tinha sido um massacre.

Um aparente drogado permanecia em posição fetal entre refugos de seringas e outros lixos que cobriam o chão cheio de sangue. O corpo do drogado estava tão arruinado que era praticamente irreconhecível como humano, apenas o sexo era distinguível. Os outros dois corpos foram atacados ferozmente também, mas definitivamente eram da Raça, ambos Renegados, a julgar pelo tamanho e pelo cheiro deles.

Nikolai pôde imaginar o que ocorrera ali: uma batalha letal por causa da presa. A luta era recente, provavelmente tinha ocorrido apenas alguns minutos atrás. E os dois chupadores de sangue mortos não teriam sido capazes de se destruir antes que um ou outro caísse.

Havia pelo menos mais um Renegado envolvido naquela briga.

Se Niko tivesse sorte, o vencedor ainda poderia estar na região, lambendo suas feridas. Esperava que sim, porque adoraria dar ao bastardo doente uma prova de sua pistola 9 mm. Nada poderia desejar “tenha um bom dia” tão bem quanto a veia sanguínea corrompida de um Renegado encontrando uma fusão alérgica de uma dose venenosa de titânio.

Nikolai foi para a janela fechada e puxou os painéis presos. Se estava procurando ação, ele tinha encontrado - e aos montes. Abaixo, na rua, havia um Renegado enorme. Estava ensanguentado e maltratado.

Mas, maldito seja! Ele não estava sozinho.

Alexei Yakut estava com ele.

Incrivelmente, Lex e o Renegado caminhavam para um sedan que os esperava e entraram.

- Que porra está acontecendo? - murmurou Niko enquanto o carro arrancava e saía pela rua.

O guerreiro esteve a ponto de saltar pela janela aberta e seguir a pé quando um grito estridente soou atrás dele. Uma mulher tinha andado até a área da matança e agora gritava de terror, com um dedo acusador apontando na direção de Niko. Ela gritou suficientemente alto mais uma vez, despertando a atenção de cada drogado e traficante da vizinhança.

Nikolai olhou para a testemunha e para a sangrenta evidência de uma luta que parecia tudo, menos humana.

- Maldição - grunhiu, olhando por cima do ombro a tempo de ver o carro de Lex desaparecer ao virar a esquina.

- Está bem - disse à mulher enquanto deixava a janela e se aproximava dela. - Você não viu nada.

Apagou sua memória e a tirou do quarto. Então, pegou uma faca de titânio e cravou-a nos restos de um dos Renegados mortos.

Enquanto o corpo começava a se dissolver, Niko se preparou para limpar o resto da bagunça que Lex e seu insólito sócio haviam deixado para trás.


Capítulo 12

Renata estava no balcão da cozinha da propriedade de Sergei Yakut, com uma faca na mão.

- Que tipo de geleia quer esta noite: uva ou morango?

- Uva - respondeu Mira. – Não, espere. Quero de morango.

A menina estava sentada na beira da bancada de madeira ao lado de Renata, suas pernas penduradas e seus braços cruzados. Vestida com uma camiseta púrpura, calças azuis desgastadas e um velho par de tênis, Mira poderia se passar por qualquer outra menina esperando o jantar. Mas as meninas normais não eram obrigadas a comer a mesma coisa praticamente todos os dias. As pequenas meninas normais tinham famílias que as amavam e cuidavam delas. Viviam em casas bonitas, em ruas bonitas e arborizadas, com cozinhas brilhantes, despensas cheias e com mães que sabiam preparar refeições maravilhosas.

Pelo menos, isso é o que Renata imaginava quando pensava na representação ideal de uma família normal. Ela não imaginava isso baseada em algum tipo de experiência pessoal. Como menina de rua antes que Yakut a encontrasse e a levasse para casa, Mira tampouco sabia o que era normal. Mas era esse tipo saudável, o tipo de vida normal, que Renata desejava para a garota, embora aquilo parecesse um desejo insignificante ali, de pé na cozinha imunda de Sergei Yakut, ao lado de um fogão que provavelmente não funcionava, embora tivesse gás correndo nele.

Como Renata e Mira eram as únicas na cabana que se alimentavam de comida, Yakut tinha deixado em suas mãos que ela e a menina se alimentassem regularmente. Renata não prestava realmente atenção em sua alimentação e odiava não ser capaz de oferecer a Mira algo agradável de vez em quando.

- Um dia sairemos e teremos um jantar de verdade, com cinco pratos diferentes. Além de sobremesa - acrescentou, passando a geleia de morango em uma fatia de pão branco. - Talvez tenhamos duas sobremesas cada uma.

Mira sorriu sob o curto véu negro que lhe caía sobre a pequena ponta do nariz.

- Será que a sobremesa será de chocolate?

- De chocolate. Com certeza. Tome, pegue - disse, entregando o prato com um sanduíche de geleia.

Renata se apoiou no balcão enquanto Mira cortava uma pequena parte do sanduíche e comia como se fosse tão delicioso como qualquer menu de cinco pratos que pudesse imaginar.

- Não se esqueça de tomar seu suco de maçã.

- Está bem.

Renata cravou o canudo na caixa de suco e colocou-a ao lado de Mira. Depois, começou a limpar o balcão. Cada músculo de seu corpo feminino se retesou quando ela ouviu a voz de Lex na cozinha.

Ele havia saído ao anoitecer. Renata realmente não sentiu sua falta, mas não se perguntou o que esteve fazendo desde que saiu. A resposta para aquela pergunta veio na forma de uma gargalhada de mulher bêbada - várias mulheres bêbadas, pelo som do riso e os chiados atravessando a área principal da cabana.

Lex frequentemente levava mulheres humanas para casa para servir seu exército com sangue e diversão. Às vezes, ele as mantinha lá por vários dias. Geralmente compartilhava suas presas com os outros guardas, todos as usavam e apagavam o ataque de suas mentes antes de devolvê-las às suas vidas. Estar sob o mesmo teto que Lex quando ele estava bem-humorado a deixava enojada, mas o que mais lhe enfurecia era o fato de Mira ser exposta àqueles jogos macabros.

- O que está acontecendo ali fora, Rê? - perguntou.

- Termine seu sanduíche - disse Renata a Mira quando a garota parou de comer para escutar o alvoroço na outra sala. - Fique aqui. Volto já.

Renata saiu da cozinha e atravessou o corredor.

- Bebam, senhoritas! - gritou Lex, deixando cair uma caixa de garrafas de licor no sofá de couro.

Ele não consumiria álcool, nem os outros favores que oferecia na festa. Tirou alguns sacos plásticos brancos e enrolados, cada um bastante cheio com o que provavelmente era cocaína, e os jogou sobre a mesa. O sistema de som foi ligado, um baixo vibrando fortemente sob a letra de um hip-hop.

Lex agarrou a morena curvilínea com risada frívola e a colocou sob seu braço.

- Eu lhe disse que teríamos muita diversão! Agora venha aqui e me mostre sua gratidão.

Certamente Lex estava em um raro estado de ânimo, de bom humor. E não era um milagre. Retornou com um bom grupo: cinco mulheres vestidas com saltos altos, pequenos tops e microssaias. A princípio, Renata achou que eram prostitutas, mas observando-as mais de perto, estavam muito limpas e muito frescas sob toda a maquiagem pesada para fazerem parte da vida das ruas. Provavelmente eram apenas garotas ingênuas do clube, que não tinham se dado conta de que o persuasivo e atraente homem que as recolheu era na realidade alguém saído de um pesadelo.

- Venham e conheçam meus amigos - Lex disse ao grupo de mulheres enquanto se dirigia até os outros machos da Raça para mostrar a eles a captura da noite. Houve um momento de apreensão evidente enquanto os quatro guardas fortemente armados olhavam lascivamente seus aperitivos humanos. Lex empurrou três mulheres para os ansiosos vampiros.

- Não sejam tímidas, garotas. Esta é uma festa, afinal. Vão e digam olá.

Renata percebeu que ele estava retendo as duas garotas mais bonitas. Típico de Lex, obviamente tinha reservado o melhor para ele. Renata estava a ponto de girar e voltar à cozinha – e tentar ignorar a orgia sangrenta que estava a ponto de começar. Mas, antes que pudesse dar dois passos, Sergei Yakut apareceu trovejando de seus aposentos privados.

- Alexei! - a fúria vibrava do vampiro mais velho em ondas de calor. Ele olhou Lex com olhos brilhantes cor de âmbar. – Você esteve fora durante horas. Por onde andou?

- Estive na cidade, pai – Lex esboçou um sorriso generoso, como se dissesse que seu tempo fora de suas obrigações não fosse inteiramente para servir suas próprias necessidades. - Olhe o que eu trouxe.

Lex afastou uma das mulheres de seu abraço para que Yakut a inspecionasse. Yakut nem olhou para o prêmio que Lex lhe oferecia, só olhou para as duas mulheres que Lex guardava para si.

O Primeira Geração grunhiu.

- Você tira porcaria da sola de seu sapato e me diz que é ouro?

- Nunca - respondeu Lex. - Pai, eu nunca...

- Bem. Estas duas serão minhas - disse, indicando as mulheres que Lex havia reservado para si.

Furioso como deveria estar, humilhado com a espetada em seu orgulho, Lex não disse palavra alguma. Baixou o olhar e esperou em silêncio que Yakut recolhesse suas duas companheiras e se dirigisse com elas para seus aposentos privados.

- Não queremos ser incomodados - Yakut ordenou sombriamente. - Por razão alguma.

Lex assentiu em uma reverência contida.

- Sim, pai. Claro. Como quiser.

Nikolai ouviu a música e as vozes antes mesmo de estar a quinhentos metros da propriedade de Yakut. Aproximou-se, movendo-se através do bosque como um fantasma, passando pelo carro de Lex, estacionado na parte de trás, com o capô ainda quente por causa da viagem à cidade.

Niko não estava seguro do que encontraria. Não esperava uma maldita festa, mas isso era o que parecia estar acontecendo dentro da casa principal. O lugar estava iluminado como uma árvore de natal, as luzes saíam das janelas da sala, onde alguém estava entretido com várias mulheres. Um rap pesado vibrava por todo o caminho de terra por baixo das botas de Nikolai enquanto ele se aproximava pelo lado da construção e lançava uma olhada para dentro.

Lex estava lá, muito bem. Ele e o resto dos guarda-costas de Yakut, reunidos todos em uma sala rústica. Três mulheres jovens dançavam nos tapetes de pele vestidas somente com roupas íntimas, todas claramente embriagadas, tendo em vista a quantidade de bebidas alcoólicas e drogas sobre a mesa mais próxima. Os quatro guardas da Raça uivavam e as animavam, provavelmente a segundos de se jogarem sobre seus corpos ingênuos.

Lex, enquanto isso, estava sentado, curvado em um sofá de pele, os olhos escuros fixos nas mulheres apesar de seus pensamentos parecerem estar a quilômetros de distância. Não havia sinal do malicioso Lex que esteve na cidade. Tampouco havia sinais de Sergei Yakut, e o fato de a segurança inteira estar entretida com aquele pequeno espetáculo fez os instintos de Niko mudarem para o alerta vermelho.

- Que demônios está acontecendo? - Niko pronunciou baixo.

Mas ele sabia a resposta inclusive antes que começasse a mover-se pela parte posterior da propriedade, onde ficavam os aposentos de Yakut - lá, um sutil, porém persistente aroma, confirmou o pior temor de Niko.

Maldito seja! Havia um Renegado ali.

Nikolai também sentiu o cheiro de sangue fresco derramado, proveniente de um humano. O aroma era quase entristecedor quanto mais se aproximava do quarto de Yakut. Sangue e sexo, para ser exato, como se o Primeira Geração estivesse fazendo um banquete.

Um grito repentino irrompeu na noite.

De mulher. Um som de terror total, vindo de dentro do quarto de Yakut.

Depois, disparos amortecidos.

Pá, pá, pá!

Nikolai voou através da porta traseira do refúgio, sem se surpreender ao encontrá-la destrancada e parcialmente aberta. Irrompeu no quarto de Yakut com sua pistola semiautomática na mão, pronta para lançar a carga completa de balas de titânio reforçado.

A cena que o saudou era uma carnificina total.

Na cama estava Sergei Yakut, esparramado nu em cima de uma mulher presa sob seu corpo sem vida, com a garganta rasgada onde o vampiro esteve se alimentado apenas alguns segundos antes. Ela não se movia e não havia cor em sua pele ou no cabelo, já que a maior parte dela estava coberta pelo sangue de Yakut e também por seu próprio.

Faltava a metade do rosto do Primeira Geração. A cabeça de Sergei Yakut era pouco mais do que pedaços de osso, tecido e sangue restantes das três balas que tinham sido disparadas a queima-roupa na parte posterior de seu crânio. Ele estava morto e o Renegado que o matara estava também preso pelo desejo de sangue, a ponto de não se dar conta da presença de Nikolai. O filho da mãe tinha deixado a pistola que tinha utilizado para matar Yakut e agora estava ocupado com a outra mulher, também nua, que tinha sido apanhada no canto do quarto. Seus olhos estavam voltados para trás e ela não se movia. Caramba, ela também não estava respirando, embora o Renegado seguisse bebendo dela em seu pescoço destroçado pelas presas enormes.

Niko se moveu por trás do filho da mãe e colocou o canhão da arma contra sua cabeça desgrenhada. Apertou o gatilho e provocou explosões de titânio no cérebro do canalha. O Renegado caiu no chão, retorcendo-se com espasmos por causa do golpe. O titânio fez efeito rápido e o vampiro moribundo lançou um grito tão forte que sacudiu as velhas vigas de madeira da cabana como um trovão.

Renata saiu voando da cozinha com sua pistola pronta. Seus sentidos de batalha estavam esticados como cordas de piano, o crepitar de disparos distantes e o uivo desumano que o seguiram, procedentes do outro lado do refúgio. A música seguia soando na grande sala. As visitantes de Lex já não estavam vestidas e seguiam estridentes com o contínuo fluxo de drogas e álcool. As mulheres estavam sobre os guardas que, pelo olhar faminto, não notariam se uma bomba explodisse no quarto ao lado.

- Idiotas - Renata os acusou baixo. - Nenhum de vocês escutou isso?

Lex levantou os olhos, a preocupação obscureceu sua expressão, mas ela realmente não estava esperando uma reação por parte dele. Ela correu para o corredor do quarto de Yakut. O corredor estava escuro, o ar parado. Tudo muito silencioso. Muito parado.

A morte dependurava-se como um véu, quase asfixiante, enquanto ela se aproximava da porta aberta do alojamento do vampiro.

Sergei Yakut já não estava vivo; Renata sentiu em seus ossos. Pólvora, sangue e um entristecedor aroma adocicado de podridão a advertiram de que ela caminhava para algo terrível. Todavia, nada poderia tê-la preparado realmente para o que viu quando empurrou a porta com a arma levantada e sustentada com ambas as mãos, pronta para matar quem estivesse em seu caminho.

A visão de toda aquela morte, todo aquele sangue, toda aquela violência pegou Renata de surpresa. A morte estava por toda parte: na cama, no chão, nas paredes.

E também no corpo inerte de Sergei Yakut.

Nikolai estava no centro da carnificina, seu rosto e a camisa escura estavam salpicados de cor escarlate. Em sua mão havia uma grande pistola semiautomática, a ponta do cano ainda fumegante por seu recente disparo.

- Você? - a palavra deslizou dos lábios de Renata, a comoção e a incredulidade como uma bola de gelo em seu intestino. Olhou o corpo de Yakut – seus restos - espalhado sobre a cama, em cima da mulher sem vida.

- Meu Deus - ela sussurrou, surpreendida ao vê-lo na propriedade de novo, mas ainda mais surpresa pelo resto do que estava vendo. – Você... você o matou.

- Não - o guerreiro disse movendo a cabeça sombriamente. – Eu não o matei, Renata. Havia um Renegado aqui com Yakut – disse indicando a grande massa de fumegantes cinzas no chão, a fonte do aroma ofensivo. - Eu matei o Renegado, mas era muito tarde para salvar Yakut. Sinto muito.

- Abaixe a arma – ela disse, sem se interessar pelas desculpas. Ela não precisava delas. Renata sentiu pena pelo final violento de Yakut, um sentimento de incredulidade a surpreendeu por ele estar realmente morto. Mas não havia dor. Nada que absolvesse Nikolai de sua aparente culpa. Apontou firmemente para seu alvo e entrou um pouco mais no quarto. – Abaixe a arma. Agora.

Mas Niko manteve o controle firme de sua pistola 9 mm.

- Não posso fazer isso Renata. Não o farei, não enquanto Lex estiver respirando.

Ela franziu a testa, confusa.

- O que tem Lex?

- Este assassinato foi obra dele, não minha. Ele trouxe o Renegado aqui. Trouxe as mulheres para distrair os guardas e Yakut para que o Renegado pudesse se aproximar o suficiente para matá-lo.

Renata escutou, mas manteve o alvo sob sua mira. Lex era uma víbora, certo, mas um assassino? Realmente planejaria a morte de seu próprio pai?

Só então Lex e os outros guardas se aproximaram pelo corredor.

- O que aconteceu? Algo errado...

Lex se calou quando chegou à porta aberta do quarto do pai. Em sua visão periférica, Renata o viu olhar primeiro o corpo de Yakut na cama e, depois, Nikolai. Cambaleou para trás – um passo, não muito mais do que uma pausa. Então explodiu com muita raiva.

- Filho da mãe! Maldito assassino filho da mãe.

Lançou-se, mas foi uma tentativa em vão, que abandonou completamente quando a pistola de Nikolai girou em sua direção. O guerreiro não fraquejou, nem o olhar nem um músculo sequer de seu corpo. Estava completamente calmo enquanto olhava Lex pelo canhão da arma, inclusive quando a arma de Renata e a dos outros guardas apontavam para ele.

- Vi você na cidade esta noite, Lex. Eu estava lá. Na casa do drogado, a isca que você usou para atrair os vampiros Renegados. O filho da mãe que você trouxe esta noite pra cá. Eu vi tudo.

Lex zombou.

- Foda-se você e suas mentiras! Você não viu porra nenhuma, maldito!

- O que você prometeu ao Renegado em troca da cabeça de seu pai? Dinheiro não importa aos viciados em sangue. A vida de quem você ofereceu como prêmio? A de Renata? Talvez a da garota, Mira?

O peito de Renata se apertou diante daquele pensamento. Atreveu-se a dar uma rápida olhada em Lex e o encontrou friamente zombador diante do guerreiro, dando uma leve sacudida de cabeça.

- Você dirá qualquer coisa nesse momento para salvar o seu pescoço. Nada funcionará. Não quando você mesmo ameaçou a vida de meu pai não faz nem vinte horas. - Lex girou para ver Renata. - Você também o escutou, não foi?

Ela assentiu contrariada, recordando como Nikolai deu a Sergei Yakut uma advertência pública de que alguém precisava detê-lo.

Agora Nikolai tinha retornado e Yakut estava morto.

Mãe do Céu, ela pensou, olhando uma vez mais o corpo sem vida do vampiro que a manteve prisioneira pelos últimos dois anos. Ele estava morto.

- Meu pai não estava correndo perigo algum até que a Ordem entrou no jogo - Lex disse. - Uma tentativa fracassada, e agora isso, um banho de sangue. Você esperou para fazer seu movimento. Você e o Renegado que trouxe com você esta noite, esperando uma oportunidade para atacar. Só posso deduzir que veio matar meu pai desde o começo.

- Não - disse Nikolai, com um brilho de luz âmbar em seus olhos azuis de inverno. - Quem estava esperando para matá-lo era você, Lex.

Em uma fração de segundo, ela viu os tendões de Nikolai flexionarem-se enquanto seu dedo começava a pressionar o gatilho da arma, e disparou nele uma forte explosão mental. Por menos consideração que tivesse por Alexei, ela não podia deixá-lo morrer naquela noite. Nikolai rugiu, a coluna vertebral arqueada, o rosto retorcendo de dor.

Mais efetiva que as balas, a explosão o derrubou de joelhos em um instante. Os quatro guardas irromperam no quarto e tomaram-lhe a pistola e o resto das armas. Os canhões de quatro revólveres foram colocados na cabeça do guerreiro, à espera de ordens para matar. Um dos guardas armou o gatilho, ávido pelo derramamento de sangue, embora o quarto já estivesse repleto.

- Abaixem as armas – disse Renata. Olhou Lex, cujo rosto estava repleto de ira, seus olhos azuis e brilhantes, suas presas afiadas visíveis entre os lábios entreabertos. – Diga-lhe para que se retirem, Lex. Matá-lo apenas nos fará assassinos a sangue frio.

Incrivelmente, Nikolai começou a rir. Levantou a cabeça, com um esforço evidente, enquanto a explosão ainda o detia.

- Ele tem que me matar, Renata, porque não pode arriscar-se a ter uma testemunha. Não é verdade, Lex? Ninguém pode caminhar por aí sabendo seu segredo sujo.

Lex tirou sua própria pistola e se dirigiu diretamente a Nikolai. Colocou o canhão da pistola contra a testa do guerreiro. Grunhiu, seu braço tremendo pela ferocidade de sua raiva. Renata estava imóvel, horrorizada diante do medo de que ele, de fato, apertasse o gatilho. Ela estava perdida, uma parte dela queria acreditar no que Nikolai dissera – que era inocente – e outra parte estava temerosa em acreditar. O que havia dito de Lex simplesmente não podia ser verdade.

- Lex - ela disse, o único som no quarto. – Lex... não faça isso.

Ela estava a menos de uma pausa de golpeá-lo como tinha feito a Nikolai quando a arma lentamente foi baixada.

Lex rosnou, deixando-a um pouco mais tranquila.

- Eu gostaria de uma morte mais lenta para esse bastardo do que a que sou capaz de lhe dar. Levem-no para a sala principal e prendam-no - disse aos guardas. – Depois, alguém se encarregue de cuidar do corpo de meu pai. Tirem as garotas que estão no outro cômodo da propriedade. Quero todo este caos sangrento limpo imediatamente.

Lex voltou-se com um olhar sombrio para Renata quando os guardas começaram a arrastar Nikolai para fora do quarto.

- Se ele tentar algo, descarregue toda a sua força nesse filho da mãe.


Capítulo 13

- Pardonnez-moi, monsieur Fabien. Há uma chamada telefônica para o senhor. De um monsieur chamado Alexei Yakut.

Edgar Fabien fez um gesto desdenhoso para o macho da Raça que o servia como secretário pessoal e continuou admirando no espelho do armário o corte de suas calças feitas sob medida. Ele estava experimentando um traje novo e, naquele momento, nada que Alexei Yakut tivesse a lhe dizer era suficientemente importante para justificar uma interrupção.

- Diga-lhe que estou em uma reunião e não posso ser incomodado.

- Desculpe-me, senhor, mas já o informei que o senhor está indisponível. Ele diz que é um assunto urgente que requer sua imediata atenção.

Com uma reflexão, Fabien olhou para trás furiosamente por baixo das pálidas sobrancelhas arrumadas. Não se esforçou para ocultar os sinais externos de sua irritação crescente, que se mostraram pelo brilho âmbar de seus olhos e pela repentina agitação das cores de seus dermoglifos, que formavam redemoinhos e um arco sobre seu peito nu e seus ombros largos.

- Basta - disse ao alfaiate enviado da loja Givenchy do centro da cidade. O humano recuou imediatamente, recolhendo seus alfinetes e sua fita métrica e obedientemente se afastando às ordens de seu Mestre. Ele pertencia a Fabien – um dos muitos Subordinados que o vampiro da Raça de segunda geração empregava pela cidade. - Fora daqui, vocês dois.

Fabien desceu do soalho do armário e se aproximou do telefone que estava na mesa. Esperou até que ambos os serventes tivessem abandonado o quarto e a porta fosse fechada atrás deles.

Com um grunhido, tomou o aparelho e apertou o botão que piscava para conectar-se à chamada de Alexei Yakut.

- Sim - sussurrou ele com frieza. - Qual é o assunto urgente que simplesmente não pode esperar?

- Meu pai está morto.

Fabien balançou sobre seus calcanhares, realmente surpreendido pela notícia. Exalou um suspiro com a intenção de soar aborrecido.

- Que conveniente para você, Alexei. Terei que oferecer felicitações junto com minhas condolências?

O herdeiro aparente de Sergei Yakut ignorou a alfinetada.

- Havia um intruso na mansão esta noite. De algum modo, ele conseguiu entrar sigilosamente no lugar. Matou meu pai em sua cama, a sangue frio. Ouvi a perturbação e tentei intervir, mas... bem... Era muito tarde para salvá-lo. Estou desolado, certamente.

Fabien grunhiu.

- Obviamente.

- Mas supus que você devesse ser notificado a respeito do crime. E também suspeitei que você e a Agência viriam aqui imediatamente para deter o assassino de meu pai.

Cada célula no corpo de Fabien se deteve.

- O que está dizendo? Que tem alguém sob custódia? Quem?

Um riso baixo se escutou no outro lado da linha.

- Vejo que finalmente tenho sua atenção, Fabien. O que acharia se eu dissesse que tenho um membro da Ordem sob minha custódia, esperando por você aqui no albergue? Estou seguro de que há algumas pessoas que pensam que um guerreiro a menos para lutar seria excelente.

- Você não está realmente tentando me convencer de que esse guerreiro é responsável pela morte de Sergei Yakut, não é?

- Estou apenas dizendo que meu pai está morto e estou no comando de seus domínios agora. Digo que tenho um membro da Ordem em minhas mãos, e estou disposto a entregá-lo a você. Um presente, se quiser.

Edgar Fabien guardou silêncio durante um longo momento, considerando o imenso prêmio que Alexei Yakut lhe oferecia. A Ordem e seus membros ativos tinham poucos aliados dentro da Agência. Menos ainda dentro do círculo privado ao qual Fabien pertencia.

- E o que espera em troca desse... presente?

- Já disse quando nos conhecemos. Quero entrar. Quero uma parte em qualquer ação que você esteja tentando fazer. Uma parte grande, entende? – Lex riu, bastante cheio de si. - Você precisa de mim ao seu lado, Fabien. Penso que isso é óbvio para você agora.

A última coisa que Edgar Fabien ou qualquer de seus sócios precisava ao seu lado era um ambicioso maldito como Alexei Yakut. Ele era um perigo em potencial, alguém que teria de ser tratado com cuidado. Se Fabien tivesse que escolher, optaria por uma exterminação rápida, mas teria que ser alguém mais em última instância para fazer aquela escolha.

Quanto ao membro cativo da Ordem, isso era, de fato, intrigante. Era um presente digno a se considerar, e as muitas atraentes possibilidades que isso representava faziam o coração de quase quatrocentos anos de idade de Fabien pulsar um pouco mais rápido.

- Terei que fazer alguns... acertos - disse ele. - Pode levar uma hora, mais ou menos, para alinhar os recursos e ir até a sua casa para recuperar o prisioneiro.

- Uma hora - Alexei Yakut aceitou ansiosamente. - Não me faça esperar mais do que isso.

Fabien engoliu sua resposta ácida e terminou a chamada com um consentimento:

- Até logo então.

Sentou-se na mesa e olhou para a linha do horizonte noturno que brilhava intermitentemente à distância, bem além de seu imóvel no Refúgio. Então, dirigiu-se para o cofre e virou a fechadura da combinação, pegando a manivela para abri-lo. Dentro havia um telefone celular reservado apenas para chamadas de emergência. Ele teclou um número programado e esperou que o sinal cifrado conectasse. Quando a voz asfixiante do outro lado respondeu, Fabien disse:

- Temos um problema.

As correntes pesadas rodeavam o torso nu de Nikolai, atando-o a uma cadeira de madeira esculpida. Ele sentia restrições similares em suas mãos, que estavam presas atrás de si, e em seus pés, amarrados pelos tornozelos e presos com força contra as pernas da cadeira.

Nikolai tinha levado uma surra, e não apenas da rajada mental debilitante, cortesia de Renata. Graças àquele golpe demolidor, ficou inconsciente durante algum tempo, lutando para levantar suas pálpebras, inclusive agora. É obvio, parte da dificuldade devia-se ao fato de seu rosto ter sido golpeado e arruinado, os olhos estavam inchados, os lábios arrebentados e amargos com o sabor do próprio sangue. Ele estava muito fraco para uma verdadeira luta quando Lex e seus guardas tinham trabalhado nele como em um saco de boxe enquanto tiravam-lhe até a cueca e o arrastavam para o grande quarto da residência para esperar por seu destino.

Nikolai não sabia há quanto tempo estava sentado ali. Tempo suficiente para que suas mãos ficassem inchadas pela falta de circulação. Tempo suficiente para ter notado quando Renata passou pelo quarto, protetoramente conduzindo Mira para longe da repugnante cena. Tinha observado uma mecha de seu cabelo empapado em suor, vendo a dor e a tensão em seu rosto quando ela lançou um olhar sinistro em sua direção.

Sua reverberação provavelmente a golpeava muito duramente agora, ele supunha. Niko disse para si que a pontada que sentiu era apenas outro músculo gritando pelo abuso; ele não podia ser tão estúpido para sentir algum tipo de simpatia pelo sofrimento da fêmea. Ele não podia ser tão estúpido para se preocupar com o que ela pensava a respeito dele - isso se ela, de fato, tivesse acreditado nas acusações feitas por Lex – mas, maldição, ele realmente se importava. Sua frustração por não poder falar com Renata apenas aumentava sua dor física e sua fúria.

Do outro lado da sala, os quatro guardas examinavam as armas e as rodas de titânio com as pontas ocas feitas a mão, criações pessoais de Nikolai. Eles tinham todos os pertences do guerreiro dispostos sobre uma mesa, fora de seu alcance. O celular de Niko - seu vínculo com a Ordem - estava despedaçado no chão. Lex tinha tido o grande prazer de esmagá-lo sob sua bota antes de partir, deixando Nikolai sob a supervisão de seus guardas.

Um dos machos da Raça disse algo que fez os outros três rirem antes que girasse com a semiautomática de Niko e apontasse em sua direção. Nikolai não estremeceu. De fato, ele mal respirava, olhando pela fenda torcida de seu olho esquerdo, todos seus músculos desabados como se ainda estivesse inconsciente e inconsciente sobre o que acontecia ao seu redor.

- Que tal se o acordássemos? - brincou o guarda com a arma na mão. Ele a balançou para Niko, tentadoramente dentro do alcance de sua mão, se os braços de Niko não estivessem fortemente amarrados atrás dele. A boca da 9mm baixou lentamente, além de seu peito, logo acima de seu abdômen definido. - Eu sugiro castrarmos esse pedaço de porcaria assassino. Tiramos suas bolas e deixamos que a Agência o leve em pedaços.

- Kiril, deixe de ser idiota - um dos outros advertiu. - Lex disse que não podíamos tocá-lo.

- Lex é uma garotinha. - O polido aço negro chiou com o frio entalhe quando Kiril martelou. - Em dois segundos esse guerreiro vai ser somente uma garotinha também.

Nikolai se manteve muito quieto quando a arma foi pressionada em sua virilha. Parte de sua paciência nasceu do verdadeiro temor, já que ele era bastante aficionado por suas partes viris e não tinha desejo algum de perdê-las. Mas era inclusive mais primitivo que ele entendesse que as oportunidades de reverter a situação a seu favor eram poucas e breves. Ele tinha superado a maioria dos efeitos internos do talento de Renata, mas não podia estar seguro de sua força física a menos que tentasse.

E se tentasse agora e falhasse... bem, ele não queria contemplar as possibilidades de afastar-se sem sua virilidade intacta se tentasse escapar de suas ataduras e conseguisse apenas um disparo impulsivo de Kiril.

Uma dura palmada golpeou a lateral da sua cabeça.

- Está aí, guerreiro? Tenho algo para você. Hora de despertar.

Com os olhos fechados para ocultar a mudança da cor azul para o âmbar, Nikolai deixou que sua cabeça caísse mole com o golpe. Mas, dentro dele, a fúria começava a acender. Ele tinha que manter a calma. Não podia deixar que Kiril ou os outros vissem a mudança de seus dermoglifos e arriscar-se a mostrar que estava completamente acordado e consciente. E totalmente de saco cheio.

- Acorde! - grunhiu Kiril.

Começou a levantar o queixo de Niko, mas então um ruído fora do recinto chamou sua atenção. Cascalho salpicando e rangendo debaixo de pneus de veículos que se aproximavam. Uma frota deles, pelo som.

- A Agência está aqui - um dos outros guardas anunciou.

Kiril afastou-se de Nikolai, mas tomou seu tempo para desarmar a pistola. Do lado de fora, os veículos reduziam a velocidade, até pararem. Portas se abriram. Botas golpeando o caminho de cascalho foram ouvidas quando os Agentes do Refúgio se aproximaram. Nikolai contou mais de meia dúzia de pares de pés movendo-se para a casa.

Inferno.

Se ele não saísse daquela situação rapidamente, despertaria nas mãos da Agência. E, para um membro da Ordem, um grupo que a Agência há muito tempo desejava extinguir, a detenção faria que Lex e o tratamento de seus guardas parecesse uma temporada em um spa. Se caísse nas mãos da Agência agora, especialmente quando o acusavam de assassinar um Primeira Geração, Niko sabia, sem sombra de dúvidas, que também acabaria morto.

Lex saudou os recém-chegados como se fossem uma corte.

- Por aqui - indicou de algum lugar fora do recinto. – Prendi o filho da mãe. Ele está esperando lá dentro.

- Ele prendeu o filho da mãe - murmurou Kiril acidamente. - Duvido que Lex pudesse manter seu próprio traseiro mesmo que usasse ambas as mãos.

Os outros guardas riram cautelosamente.

- Venha - disse Kiril. - Vamos pôr o guerreiro de pé para que a Agência possa levá-lo daqui.

A esperança surgiu no peito de Niko. Se o liberassem das algemas, poderia ter uma pequena possibilidade de escapar. Muito pequena, tendo em vista o som próximo das botas e a capacidade armamentista que se dirigia em sua direção do exterior da casa. Mas pequena era muitíssimo melhor do que nenhuma.

Ele manteve o corpo sem vida na cadeira, inclusive enquanto Kiril se abaixava diante dele e tirava as correntes que estavam ao redor de seus tornozelos. A impaciência o corroía. Cada impulso de Nikolai dizia que levantasse seu joelho e golpeasse o guarda por baixo da mandíbula.

Ele teve que se reprimir com os dentes mordendo a língua para manter-se imóvel, com a respiração mais superficial que pudesse, esperando a melhor oportunidade enquanto o guarda dava a volta por trás e recolhia os cadeados que fechavam as correntes em seu torso e pulsos. Um giro da chave. Um estalo rangente do aço quando a fechadura se abriu.

Nikolai flexionou seus dedos, tomou uma respiração profunda, sem restrições.

Abriu os olhos. Sorriu abertamente aos companheiros de Kiril um instante antes de levantar os braços e agarrar a cabeça grande de Kiril com as mãos.

Com um movimento fluido, deu um giro violento e saltou para cima, fora da cadeira. As correntes caíram e Nikolai estava de pé com o forte estalo do rompimento do pescoço de Kiril.

- Santo Cristo! - gritou um dos guardas.

Alguém lançou um disparo frenético. Os outros dois procuraram por suas armas.

Niko puxou bruscamente a pistola de Kiril fora de sua cartucheira e devolveu o fogo, derrubando um guarda com uma bala na cabeça.

A situação gerou gritos de alarme no corredor. As botas começaram a golpear. Um pequeno exército de Agentes chegaria para tomar o controle da situação.

Maldito seja.

Não tinha muito tempo para fugir antes que ele estivesse contemplando os canos de não menos do que meia dúzia de pistolas em poucos segundos.

Nikolai arrastou o corpo morto de Kiril diante de si e o manteve ali como um escudo. O cadáver tomou um par de golpes rápidos quando Niko começou a se mover para trás, para a janela que ficava do outro lado do grande quarto.

Na porta agora aberta havia um grupo de Agentes vestidos de preto, todos munidos com algumas armas de fogo semiautomáticas, que o observavam bastante sérios.

- Parado, maldito!

Niko lançou um olhar por cima do ombro para a janela que estava alguns metros atrás dele. Essa era sua melhor - sua única - opção. Render-se agora e sair pacificamente com seus executores da Agência era uma alternativa que ele se negava a considerar.

Com um rugido, Niko agarrou o peso morto de Kiril e balançou o corpo para a janela de cristal. Manteve-o perto quando a janela estilhaçou, usando o cadáver do vampiro como escudo para conseguir sair do alcance do vidro quebrado e assim atravessar o improvisado buraco.

O guerreiro da Raça escutou uma ordem atrás de si – uma ordem de um dos Agentes para que abrissem fogo.

Ele sentia o ar fresco da noite sobre o rosto, sobre o cabelo e sobre o corpo nu umedecido pelo suor. Mas, antes que ele pudesse registrar o menor sabor da liberdade...

Pá! Pá! Pá!

Suas costas nuas arderam como se estivessem em chamas. Seus ossos e músculos sentiram-se flexíveis, e dentro de si dissolveu-se uma onda de bílis e ácido que lhe chamuscou a parte posterior da garganta. A visão de Nikolai mergulhou em uma escuridão repentina que o devorou. Ele sentiu a terra surgir rapidamente debaixo de si quando ele e o cadáver de Kiril caíram abaixo da janela.

Então, já não sentiu mais nada.

 

 

                                                           CONTINUA