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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


NA TOCA DO LEÃO / Ken Folett
NA TOCA DO LEÃO / Ken Folett

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

NA TOCA DO LEÃO

Primeira Parte

 

Há um vale no Afeganistão rodeado de montanhas agrestes. Seu nome é Vale dos Cinco Leões, lugar de que falam as mais antigas lendas, onde homens e costumes permanecem imutáveis desde tempos imemoriais. É aí que Ken Follet ambienta este seu novo e espetacular romance, com uma história exótica de espionagem, intriga internacional e amores perigosos.

Uma jovem inglesa, um médico francês e um viajante americano têm, cada um deles, motivos próprios para irem ao Afeganistão, onde os nativos das montanhas movem uma guerra de guerrilhas contra os invasores russos. Jean-Pierre traz cuidados médicos aos afegães, sua mulher Jane, que está grávida, presta ajuda e oferece conselhos às mulheres carentes da região, e Ellis, o americano, traz uma mensagem destinada a Massud. Mas primeiro ele precisa chegar a Massud, o lendário líder dos guerrilheiros afegães, porque os russos também querem achá-lo. Vivo ou morto.

A morte se esconde em ninhos camuflados, enquanto um frio comandante russo planeja usar a própria arma secreta. Enquanto isso, no Vale dos Cinco Leões, uma bonita e corajosa mulher se vê casulalmente frente a frente com uma traição, que a obriga a tomar uma decisão terrível.

Follet arma as situações ameaçadoras como só ele poderia fazer, narrando uma caçada humana em que o alvo é um casal com uma criança de colo, em fuga através de uma montanha intransponível, equilibrando-se em penhascos cobertos de gelo, perseguidos por helicópteros inimigos, vivendo momentos que evocam todos os nossos pesadelos.

 

 

Os homens que queriam matar Ahmet Yilmaz eram sérios. Estudantes turcos exilados, vivendo em Paris, já haviam assassinado um adido da embaixada turca e jogado uma bomba na casa de um alto executivo da Turkish Airlines. Escolheram Yilmaz como o próximo alvo porque ele era um rico partidário da ditadura militar e porque, convenientemente, residia em Paris.

Sua casa e escritório eram bem guardados, a limusine Mercedes blindada, mas os estudantes estavam convencidos de que todo homem tem um ponto fraco, que geralmente é o sexo. E no caso de Yilmaz eles estavam certos. Duas semanas de vigilância revelaram que Yilmaz saía de casa duas ou três noites por semana, guiando a caminhonete Renault que os empregados usavam para fazer compras, e seguia para uma rua secundária no 15º Distrito, a fim de visitar uma linda e jovem turca, que estava apaixonada por ele.

Os estudantes resolveram pôr uma bomba no Renault enquanto Yilmaz estava trepando.

Eles sabiam onde obter os explosivos: de Pepe Gozzi, um dos muitos filhos do chef ao corso Meme Gozzi. Pepe era um traficante de armas. Vendia a qualquer um, mas preferia os clientes políticos, reconhecendo alegremente que "os idealistas pagam preços mais altos". E já ajudara os turcos em seus dois atentados anteriores.

Havia um obstáculo ao plano de instalar a bomba no carro. Geralmente Yilmaz saía sozinho do apartamento da moça... mas nem sempre. Às vezes ele a levava para jantar fora. E muitas vezes ela pegava o carro e voltava meia hora depois, com pão, frutas, queijos e vinho, obviamente para um banquete íntimo. Em outras ocasiões, Yilmaz voltava para casa de táxi e deixava o carro com a moça por um ou dois dias. Os estudantes eram românticos, como todos os terroristas, e relutavam em correr o risco de matar uma bela mulher cujo único crime, facilmente perdoável, era o de amar um homem indigno de sua paixão.

Eles discutiram o problema de uma maneira democrática. Tomavam todas as decisões por voto e não aceitavam líderes; mesmo assim, havia um cuja personalidade forte o tornava dominante. Era Rahmi Coskun, jovem bonito e impetuoso, com um enorme bigode e um brilho nos olhos de quem estava fadado à glória. Foram sua energia e determinação que levaram à execução dos dois projetos anteriores, apesar dos problemas e riscos. Rahmi propôs a consulta a um perito em bombas.

Os outros a princípio não gostaram da idéia. Em quem poderiam confiar, indagaram. Rahmi sugeriu Ellis Thaler. Era um americano que se intitulava poeta, mas que na verdade ganhava a vida dando aulas de inglês e que aprendera tudo sobre explosivos como recruta no Vietnam. Rahmi o conhecia há cerca de um ano; os dois trabalharam juntos num jornal revolucionário de vida curta, chamado Chãos, assim como também organizaram juntos uma noite de poesia com a finalidade de levantar fundos para a Organização de Libertação da Palestina. Ele parecia compreender a raiva de Rahmi pelo que se estava fazendo com a Turquia e seu ódio pelos bárbaros responsáveis.

Alguns dos outros estudantes também conheciam Ellis ligeiramente, pois ele participara de diversas manifestações. Supunham-no um estudante de pós-graduação ou um jovem professor. Ainda assim, relutaram em admitir na conspiração alguém que não era turco; mas Rahmi insistiu e por fim os outros consentiram.

Ellis ofereceu prontamente uma solução para o problema: a bomba teria um artefato de controle por rádio. Rahmi ficaria numa janela em frente ao prédio da moça ou num carro estacionado, observando o Renault. Teria um pequeno transmissor de rádio, do tamanho de um maço de cigarros, do tipo usado para se abrir portas automáticas de garagem sem precisar sair do carro. Se Yilmaz entrasse sozinho no carro, como quase sempre acontecia, Rahmi apertaria o botão do transmissor, ativando um interruptor na bomba, que seria então armada e explodiria no instante em que o motor fosse ligado. Mas se a moça entrasse no carro, então Rahmi não apertaria o botão e ela poderia partir na ditosa ignorância. A bomba não ofereceria qualquer perigo enquanto não fosse armada.

- Sem botão não há explosão - disse Ellis.

Rahmi gostou da idéia e perguntou se Ellis colaboraria com Pepe Gozzi na fabricação da bomba.

Claro, respondeu Ellis.

Havia porém mais um problema.

Tenho um amigo que quer conhecer vocês dois, Ellis e Pepe, disse Rahmi. Para ser franco, ele tem de conhecer vocês, caso contrário a operação está cancelada; pois é esse amigo que nos dá o dinheiro para explosivos e carros, subornos e armas, para tudo enfim.

Por que ele quer nos conhecer?, indagaram Ellis e Pepe.

Ele precisa ter certeza de que a bomba vai funcionar e quer saber se pode confiar em vocês, explicou Rahmi, em tom de desculpa. Só precisam mostrar a bomba a ele, explicar como funciona, apertar sua mão, deixar que fite os dois nos olhos. É pedir demais, para o homem que está tornando tudo possível?

Por mim está bem, disse Ellis.

Pepe hesitou. Queria o dinheiro que ganharia na operação - sempre queria dinheiro, como o porco sempre quer o cocho, mas detestava conhecer novas pessoas.

Ellis argumentou. Esses grupos de estudantes desabrocham e morrem como mimosas na primavera, não demora muito para que Rahmi saia de cena. Mas se você conhecer o "amigo", então poderá continuar a fazer negócios com ele mesmo depois de Rahmi sumir.

Tem razão, concordou Pepe, que não era um gênio, mas podia absorver os princípios gerais dos negócios, se fossem explicados com simplicidade.

Ellis comunicou a Rahmi que Pepe aceitara. Rahmi marcou um encontro para o domingo seguinte.

Ellis acordou naquela manhã na cama de Jane. E acordou abruptamente, sentindo-se assustado, como se saísse de um pesadelo. Lembrou-se um momento depois do motivo pelo qual estava tão tenso.

Olhou para o relógio. Ainda era cedo. Repassou mentalmente o plano. Se tudo corresse bem, hoje seria a conclusão triunfante de mais um ano de trabalho paciente e cuidadoso. E poderia partilhar o triunfo com Jane, se ainda estivesse vivo ao fim do dia.

Ellis virou a cabeça para contemplá-la, mexendo-se devagar para não despertá-la. Seu coração se acelerou, como sempre acontecia quando lhe via o rosto. Ela estava deitada de costas, o nariz arrebitado apontando para o teto, os cabelos escuros espalhados pelo travesseiro, como as asas estendidas de um pássaro. Ellis contemplou a boca larga, os lábios cheios, que o beijavam com tanta freqüência e com tanto ardor. O sol da primavera revelava a penugem loura em suas faces - sua barba, dizia ele, quando queria provocá-la. Era um prazer excepcional vê-la assim, em repouso, o rosto relaxado e sem qualquer expressão. Normalmente ela era animada - rindo, franzindo o rosto, fazendo uma careta, demonstrando surpresa, ceticismo ou compaixão. A expressão mais comum era um sorriso malicioso, como o de um garotinho travesso que acaba de cometer uma brincadeira particularmente levada.

Só quando dormia ou se concentrava em algum pensamento é que Jane ficava assim; contudo, era como ele mais a amava, pois agora, quando ela se mostrava indefesa e desinibida, sua aparência insinuava a sensualidade lânguida que ardia logo abaixo da superfície, como um fogo subterrâneo, lento e quente. Quando a via assim, suas mãos ansiavam em tocá-la.

O que o surpreendera. Quando a conhecera, pouco depois de chegar a Paris, Jane lhe parecera a ativista típica que sempre se encontrava entre os jovens e os radicais nas grandes cidades, presidindo comitês e organizando campanhas contra o apartheid e pelo desarmamento nuclear, liderando marchas de protestos por El Salvador e a poluição das águas, levantando dinheiro para a população faminta do Chade e tentando promover um jovem e talentoso cineasta. As pessoas sentiam-se atraídas por sua aparência, cativadas por seu charme e energizadas por seu entusiasmo. Ellis saíra com ela umas poucas vezes, apenas pelo prazer de observar uma moça bonita estraçalhar um bife suculento; e depois - ele não podia lembrar exatamente como - descobrira que dentro daquela garota excitada havia uma mulher ardente, e se apaixonara por ela.

Correu os olhos pelo pequeno apartamento. Contemplou com satisfação os objetos pessoais familiares que davam ao lugar a marca de Jane: um lindo abajur, feito de um pequeno vaso chinês; uma estante com livros sobre economia e a pobreza no mundo; um sofá grande e macio, em que se podia afundar; uma fotografia do pai, um homem bonito, num paletó jaquetão, provavelmente tirada no início dos anos 60; uma pequena taça de prata que ela conquistara com seu pônei Dandelion em 1971, há dez anos.

Ela estava então com 13 anos, pensou Ellis, enquanto eu tinha 23; e quando ela ganhava competições com seu pônei em Hampshire, eu estava no Laos, instalando minas contrapessoais na Trilha Ho Chi Minh.

Quando ele conhecera o apartamento, quase um ano antes, Jane acabara de se mudar para lá, vinda dos subúrbios. Era então bastante despojado: um pequeno quarto de sótão, uma quitinete, um chuveiro num boxe, um lavabo no fundo do corredor. Gradativamente, ela transformara uma mansarda sombria num ninho aconchegante. Ganhava um bom salário como intérprete, traduzindo francês e russo para o inglês. Mas o aluguel também era alto - o apartamento ficava perto do Boulevard St. Michel e por isso ela comprara com cuidado, poupando o dinheiro para a mesa de mogno certa, a cama antiga e o tapete Tabriz. Era o que o pai de Ellis chamaria de uma dama de classe. Vai gostar dela, papai, pensou Ellis. Vai ficar maluco por ela.

Virou de lado, ficando de frente para ela, e o movimento despertou-a, como sabia que aconteceria. Os enormes olhos azuis de Jane contemplaram o teto por uma fração de segundo, depois ela fitou-o, sorriu e aninhou-se em seus braços.

- Oi - murmurou Jane.

Ellis beijou-a e sentiu uma ereção no mesmo instante. Continuaram assim, como estavam, enlaçados, meio adormecidos, beijando-se de vez em quando; depois, Jane passou uma perna pelos quadris de Ellis e começaram a fazer amor, languidamente, sem falar.

Ao se tornarem amantes e começarem a fazer amor de manhã e à noite, muitas vezes no meio da tarde também, Ellis presumira que tamanho tesão não duraria muito e que depois de alguns dias, talvez umas poucas semanas, a novidade se desgastaria e passariam para a média estatística de duas vezes e meia por semana ou qualquer coisa assim. Mas se enganara. Um ano depois, ainda trepavam como se estivessem em lua-de-mel.

Ela estendeu-se por cima de Ellis, deixando que todo o seu peso repousasse sobre o corpo dele. Sua pele úmida aderia à dele. Ellis passou os braços por seu corpo pequeno e comprimiu-a, enquanto a penetrava ainda mais fundo. Ela sentiu que o orgasmo de Ellis estava chegando, levantou a cabeça e fitou-o, depois beijou-o com a boca aberta, enquanto ele gozava dentro dela. No instante seguinte ela soltou um gemido baixo e estridente, e Ellis sentiu-a gozar, um orgasmo prolongado, gentil e ondulado de manhã de domingo. Ela continuou por cima dele, ainda meio adormecida. Ellis afagoulhe os cabelos. Depois de algum tempo, ela mexeu-se e murmurou:

- Sabe que dia é hoje?

- Domingo.

- É o seu domingo de fazer o almoço.

- Eu não tinha esquecido.

- Ótimo. - Houve uma pausa. - O que vai fazer para mim?

- Bife, batatas, ervilhas, queijo de cabra, morangos com creine chantilly.

"Jane levantou a cabeça, rindo." - Mas é o que você sempre faz!

- Não é não. Na última vez tivemos petit-pois.

- E na vez anterior você esqueceu, e por isso saímos para comer fora. Que tal alguma variedade em sua cozinha?

- Ei, espere um pouco. O combinado foi que cada um faria o almoço em domingos alternados. Ninguém disse coisa alguma sobre fazer um almoço diferente a cada vez.

Ela tornou a arriar por cima dele, simulando derrota. O trabalho naquele dia estivera no fundo da mente de Ellis durante todo o tempo. Precisaria da ajuda inconsciente de Jane, e aquele era o momento de pedi-la.

- Tenho de me encontrar com Rahmi esta manhã - começou ele.

- Está certo. Irei me encontrar com você depois, em seu apartamento.

- Há uma coisa que você poderia fazer por mim, se não se incomodar de chegar lá um pouco mais cedo.

- O que é?

- Faça o almoço. Não! Não! Eu estava apenas brincando. Quero sua ajuda numa pequena conspiração.

- Continue.

- Hoje é aniversário de Rahmi e seu irmão Mustafa está em Paris. Mas Rahmi não sabe. - Se tudo der certo, pensou Ellis, nunca mais mentirei para você. - Quero que Mustafa apareça de surpresa na festa de aniversário de Rahmi. Mas Vou precisar de uma cúmplice.

- Estou no jogo. - Jane saiu de cima dele e sentou na cama, cruzando as pernas. Os seios eram como maçãs, suaves, redondos e firmes. As pontas dos cabelos roçavam nos mamilos. - O que tenho de fazer?

- A coisa é simples. Preciso avisar a Mustafa para onde deve ir, mas Rahmi ainda não decidiu onde quer comer. Por isso, só poderei dar o recado a Mustafa no último minuto. E Rahmi provavelmente estará ao meu lado quando eu telefonar.

- Qual é a solução?

- Ligarei para você. Falarei uma porção de bobagens. Ignore tudo, menos o endereço. E depois ligue para Mustafa, comunique o endereço e explique a ele como chegar lá.

Tudo parecia perfeito quando Ellis concebera, mas agora a impressão era de ser uma coisa totalmente implausível. Mas Jane aparentemente não ficou desconfiada e comentou:

- Parece bastante simples.

- Ótimo - disse Ellis bruscamente, disfarçando o seu alívio.

- E depois que telefonar, quanto tempo você vai demorar para voltar?

- Menos de uma hora. Quero esperar para ver a surpresa, mas não Vou almoçar com eles.

Jane assumiu uma expressão pensativa.

- Eles convidaram você, mas não a mim. Ellis deu de ombros.

- É uma comemoração masculina.

Ele pegou o bloco de anotações na mesinha-de-cabeceira e escreveu Mustafa e o número do telefone.

Jane saiu da cama e foi até o boxe do chuveiro. Abriu a porta e a torneira. Seu ânimo mudara. Não estava mais sorrindo. Ellis perguntou:

- Por que está zangada?

- Não estou zangada, mas às vezes não gosto da maneira como seus amigos me tratam.

- Você sabe como os turcos são com as garotas.

- Exatamente... garotas. Eles não se importam com mulheres respeitáveis, mas eu sou uma garota.

Ellis suspirou.

- Você não é de se incomodar com atitudes pré-históricas de alguns chauvinistas. O que está realmente tentando me dizer?

Ela refletiu por um momento, de pé, nua, ao lado do chuveiro. Era tão deslumbrante que Ellis sentiu vontade de fazer amor outra vez. Jane finalmente explicou:

- Acho que estou querendo dizer que não gosto da minha posição. Estou comprometida com você, todos sabem disso... não durmo com mais ninguém, nem mesmo saio com outro homem... mas você não está comprometido comigo. Não vivemos juntos, não sei onde você vai ou o que faz na maior parte do tempo, não conhecemos os pais um do outro... e as pessoas sabem de tudo isso e me tratam como uma vagabunda.

- Você está exagerando.

- É o que você sempre diz.

Jane entrou no boxe e bateu a porta. Ellis pegou o aparelho de barba no estojo guardado na gaveta e foi se barbear na pia da cozinha. Já haviam tido aquela discussão antes, muito mais prolongada, ele sabia o que havia por trás: Jane queria que vivessem juntos.

Ele também queria, é claro; queria casar com ela, viver ao seu lado pelo resto da vida. Mas tinha de esperar até que aquela operação terminasse. Mas não podia dizer isso a ela, e por isso se limitava a murmurar coisas como Não estou preparado e Preciso de mais algum tempo, e as evasivas deixavam Jane furiosa. Ela achava que um ano era muito tempo para amar um homem sem arrancar-lhe qualquer tipo de compromisso. E estava certa, é claro. Mas se tudo corresse bem naquele dia, Ellis poderia acertar o problema de uma vez por todas.

Ele acabou de fazer a barba, enrolou a navalha numa toalha e guardou de volta na gaveta. Jane saiu do chuveiro e ele tomou seu lugar. Não estamos nos falando, pensou Ellis; isso é uma tolice.

Enquanto ele estava no chuveiro, Jane fez café. Ellis vestiu-se depressa, pondo um jeans desbotado e uma camisa de malha preta, foi sentar em frente a ela, no outro lado da mesinha de mogno. Jane serviu-lhe café, dizendo:

- Quero ter uma conversa séria com você.

- Está bem - Ellis apressou-se em responder. - Vamos deixar para a hora do almoço.

- Por que não agora?

- Não tenho tempo.

- O aniversário de Rahmi é mais importante do que o nosso relacionamento?

- Claro que não. - Ellis percebeu o tom de irritação em sua própria voz e uma advertência aflorou-lhe na mente: Seja gentil ou pode perdê-la. - Mas eu prometi, e o cumprimento das promessas é importante. Mas não parece tão importante assim se temos esta conversa agora ou mais tarde.

O rosto de Jane assumiu uma expressão determinada, obstinada, que Ellis já conhecia: ela a exibia quando tomava uma decisão e alguém tentava desviá-la de seu caminho.

- É importante para mim que tenhamos esta conversa agora.

Por um momento, Ellis sentiu-se tentado a contar toda a verdade imediatamente. Mas não fora assim que planejara. Dispunha de pouco tempo, sua mente se achava concentrada em outra coisa, ainda não estava preparado. Seria muito melhor deixar para depois, quando ambos estivessem relaxados e ele pudesse dizer que seu trabalho em Paris já fora concluído.

- Acho que você está sendo tola e não me deixarei intimidar, Jane. Por favor, vamos deixar para conversar depois. Tenho de ir agora.

Ele levantou-se. Enquanto se encaminhava para a porta, Jane disse:

- Jean-Pierre convidou-me a acompanhá-lo ao Afeganistão.

Era algo tão inesperado que Ellis teve de pensar por um instante, antes de poder absorver a informação. E depois indagou, incrédulo:

- Está falando sério?

- Estou, sim.

Ellis sabia que Jean-Pierre estava apaixonado por Jane. O mesmo acontecia com meia dúzia de outros homens, o que era inevitável com uma mulher como ela. Só que nenhum dos homens era um rival sério; ou pelo menos ele pensara que não, até aquele momento. Ellis começou a recuperar o controle e perguntou:

- Por que você haveria de querer visitar uma zona de guerra em companhia de um bobalhão?

- Isto não é brincadeira! - protestou Jane, com veemência. - Estou falando sobre a minha vida! "

Ele sacudiu a cabeça, ainda incrédulo.

- Você não pode ir para o Afeganistão.

- Por que não?

- Porque me ama.

- Isso não me deixa à sua disposição.

Pelo menos ela não dissera Não amo, não. Ellis olhou para o relógio. Era uma situação absurda: dentro de poucas horas diria a ela tudo o que estava querendo ouvir.

- Não é isso que estou querendo, Jane. Estamos falando sobre o nosso futuro e não é uma conversa que possa ser precipitada.

- Não Vou esperar eternamente.

- Nem eu estou pedindo que espere eternamente. Só lhe peço mais algumas horas. - Ele afagou-lhe o rosto. - Não vamos brigar por causa de umas poucas horas.

Jane levantou-se e beijou-o na boca, com força. Ellis murmurou:

- Você não vai para o Afeganistão, está bem?

- Não sei.

Ele tentou um sorriso.

- Pelo menos não antes do almoço.

Ela retribuiu ao sorriso e acenou com a cabeça.

- Muito bem, não antes do almoço.

Ellis fitou-a por mais um momento e depois saiu.

Os amplos bulevares dos Champs Elysées estavam apinhados de turistas e parisienses, empenhados num passeio matutino, movimentando-se como ovelhas num cercado, ao sol quente da primavera. Todos os cafés com mesas na calçada estavam lotados. Ellis parou perto do lugar combinado, carregando uma mochila que comprara numa loja de malas ordinárias. Parecia um americano excursionando de carona pela Europa.

Gostaria que Jane não tivesse escolhido aquela manhã para uma confrontação. Ela devia estar se remoendo agora e se mostraria irritada quando ele voltasse.

Muito bem, ele teria de levar algum tempo para dissipar sua irritação.

Ellis tratou de tirar Jane dos pensamentos e concentrou-se na tarefa que teria pela frente.

Havia duas possibilidades para a identidade do "amigo" de Rahmi, o homem que financiava o pequeno grupo terrorista. A primeira era de que fosse um turco rico, amante da liberdade, que decidira, por motivos políticos ou pessoais, que a violência contra a ditadura militar e seus partidários era justificada. Se fosse esse o caso, então Ellis ficaria desapontado.

A segunda possibilidade era de que fosse Boris.

"Boris" era um personagem lendário nos círculos em que Ellis andava - entre os estudantes revolucionários, os exilados palestinos, os conferencistas políticos ocasionais, os editores de jornais extremistas mal-impressos, os anarquistas, maoístas e armênios, os militantes vegetarianos. Dizia-se que era um russo, um agente da KGB disposto a financiar qualquer ato de violência esquerdista no Ocidente. Muitas pessoas duvidavam de sua existência, especialmente os que haviam tentado e não conseguiram arrancar fundos dos russos. Mas Ellis notara, com o tempo, que um grupo que passara meses sem fazer nada, limitando-se a formular queixas de que não tinha condições sequer para reproduzir seus panfletos, parava de repente de falar em dinheiro e se tornava muito preocupado com a segurança; pouco depois, havia um seqüestro, um atentado a tiros ou a bomba.

Era absolutamente certo, pensava Ellis, que os russos davam dinheiro a grupos como os dissidentes turcos: não podiam resistir a um meio tão barato e de baixo risco para causar problemas no Ocidente. E como os Estados Unidos financiavam seqüestradores e assassinos na América Central, ele não podia imaginar que a União Soviética fosse mais escrupulosa que seu próprio país. Além disso, como o dinheiro naquele ramo de trabalho não era guardado em contas bancárias ou transferido pelo telex, alguém precisava entregar as notas pessoalmente; portanto, tinha de haver um Boris.

Ellis queria muito conhecê-lo.

Rahmi apareceu às dez e meia em ponto, usando uma camisa Lacoste rosa e uma calça caqui impecavelmente passada. Parecia nervoso. Lançou um olhar penetrante para Ellis e depois desviou a cabeça.

Ellis seguiu-o, mantendo-se dez ou quinze metros atrás, como haviam combinado.

No café seguinte, numa mesa na calçada, estava sentado o vulto gordo e musculoso de Pepe Gozzi, usando um terno preto de seda, como se tivesse saído da missa, o que provavelmente acontecera mesmo. Tinha no colo uma pasta grande. Levantou-se e foi andando mais ou menos ao lado de Ellis, de tal forma que um observador casual não saberia se estavam juntos ou não.

Rahmi começou a subir a ladeira, na direção do Arco do Triunfo.

Ellis observou Pepe pelo canto do olho. O corso possuía um instinto animal para a autopreservação: discretamente, observou se estavam sendo seguidos, uma vez quando atravessou para o outro lado e podia olhar naturalmente pelo bulevar, enquanto esperava que o sinal mudasse, a outra ao passar por uma loja de esquina, onde podia ver as pessoas que vinham refletidas na vitrine diagonal.

Ellis gostava de Rahmi, mas não de Pepe. Rahmi era sincero, um homem de princípios, as pessoas que ele matava provavelmente mereciam morrer. Pepe era muito diferente.

Fazia tudo por dinheiro e porque era muito rude e estúpido para sobreviver no mundo dos negócios legais.

Três quarteirões a leste do Arco do Triunfo Rahmi entrou nu ma rua transversal. Ellis e Pepe foram atrás. Rahmi atravessou a rua e entrou no Hotel Lancaster.

Então aquele era o ponto de encontro. Ellis esperava que a reunião ocorresse no bar ou restaurante do hotel: sentir-se-ia mais seguro numa sala pública.

O saguão de mármore do hotel estava bastante fresco, depois do calor da rua. Ellis estremeceu. Um garçom de smoking olhou de esguelha para seu jeans. Rahmi estava entrando num elevador pequeno, na extremidade do saguão em formato de L. Seria então num quarto do hotel. Muito bem. Ellis entrou no elevador atrás de Rahmi e Pepe espremeu-se em seguida. Os nervos de Ellis estavam tensos enquanto subiam. Saltaram no quarto andar. Rahmi levou-os ao Quarto 41 e bateu na porta.

Ellis tentou manter um rosto calmo e impassível.

A porta foi aberta devagar.

Era Boris. Ellis teve certeza assim que fitou o homem, experimentou uma sensação de triunfo e, ao mesmo tempo, um calafrio de medo. Moscou estava claramente estampada no homem: do corte de cabelo comum aos sapatos reforçados e práticos, havia o estilo inconfundível da KGB na expressão dura de avaliação e na contração brutal da boca. Aquele homem não era como Rahmi ou Pepe: não era um idealista impetuoso nem um mafioso vulgar. Boris era um terrorista profissional implacável que não hesitaria em estourar os miolos de qualquer um dos três homens que se postavam agora à sua frente.

Estou à sua procura há muito tempo, pensou Ellis.

Boris manteve a porta entreaberta por um momento, protegendo parcialmente o corpo, enquanto os examinava, depois deu um passo para trás e disse em francês:

- Entrem.

Eles entraram na sala de uma suíte. Era decorada com algum requinte, mobiliada com cadeiras, mesas e um armário que parecia ser antigüidades do século XVIII. Um maço de cigarros Marlboro e um litro de conhaque livre de impostos estavam numa mesa delicada, de pernas arqueadas. Uma porta entreaberta no outro canto levava ao quarto. As apresentações de Rahmi foram nervosamente superficiais:

- Pepe. Ellis. Meu amigo.

Boris era um homem de ombros largos, que usava uma camisa branca, as mangas enroladas, deixando à mostra os antebraços musculosos e cabeludos. A calça azul de sarja era grossa demais para aquela temperatura. No encosto de uma cadeira estava pendurado um paletó quadriculado, preto e amarelo-castanho, que não combinava com a calça azul.

Ellis largou a mochila no tapete e sentou. Boris apontou para a garrafa de conhaque.

- Um drinque?

Ellis não queria beber conhaque às onze horas da manhã e disse:

- Quero, sim, por favor... um café. Boris lançou-lhe um olhar duro e hostil.

- Todos nós vamos tomar um café.

Encaminhou-se para o telefone. É um homem acostumado a que todos demonstrem medo em sua presença, pensou Ellis; não gosta que eu o trate como um igual.

Rahmi sentia-se visivelmente intimidado por Boris e se mexia ansioso, abotoando e desabotoando o botão de cima de sua camisa rosa, enquanto o russo ligava para a copa. Boris desligou e falou para Pepe, em francês:

- Tenho muito prazer em conhecê-lo. Creio que poderemos nos ajudar mutuamente.

Pepe acenou com a cabeça, sem falar. Ele sentava na cadeira de veludo inclinado para a frente, o poderoso corpo no terno preto parecendo estranhamente vulnerável em contraste com o móvel delicado, como se este pudesse quebrá-lo, e não o contrário. Pepe tem muito em comum com Boris, pensou Ellis: ambos são fortes e cruéis, sem qualquer decência ou compaixão. Se Pepe fosse russo, estaria na KGB; e se Boris fosse francês, estaria na Máfia.

- Mostre-me a bomba - pediu Boris.

Pepe abriu a valise. Estava acondicionada em blocos, com cerca de trinta centímetros de comprimento, uma substância amarelada. Boris ajoelhou-se no tapete ao lado e espetou um dos blocos com o indicador. A substância cedeu como massa de vidraceiro. Boris cheirou-a e disse a Pepe:

- Presumo que é C3. Pepe concordou.

- Onde está o mecanismo? Foi Rahmi quem respondeu:

- Na mochila de Ellis. E Ellis declarou:

- Não está, não.

Houve um silêncio total na sala por um momento. Uma expressão de pânico insinuou-se no rosto bonito e jovem de Rahmi.

- Como assim? - balbuciou ele muito agitado, os olhos assustados se deslocando de Ellis para Boris e voltando. - Você disse... eu disse a ele que você...

- Cale-se! - disse Boris, asperamente.

Rahmi ficou em silêncio. Boris olhou para Ellis, expectante. Ellis falou com uma indiferença que não sentia:

- Fiquei com medo de que pudesse haver uma armadilha e deixei o mecanismo em casa. Mas pode estar aqui em poucos minutos. Só preciso telefonar para minha garota.

Boris fitou-o fixamente, sem dizer nada, por vários segundos. Ellis sustentou o olhar com toda frieza de que era capaz. Boris acabou perguntando:

- Por que pensou que poderia ser uma armadilha?

Ellis decidiu que qualquer tentativa de justificação pareceria defensiva. E, de qualquer forma, era uma pergunta estúpida. Lançou um olhar arrogante para Boris, deu de ombros e permaneceu calado. Boris continuou a fitá-lo atentamente e depois acrescentou:

- Eu farei a ligação.

Um protesto chegou a aflorar aos lábios de Ellis, mas ele o reprimiu. Era algo que não previra. Mas manteve com extremo cuidado a pose de não-me-importo, enquanto a mente estava em rodaviva. Como Jane reagiria à voz de um estranho? E se ela não estivesse no apartamento, se resolvera romper a promessa? Lamentou a decisão de usá-la como intermediária, mas agora já era tarde demais.

- Você é um homem cauteloso - disse ele a Boris.

- E você também. Qual é o telefone?

Ellis informou. Boris escreveu o número no bloco de recados ao lado do telefone e depois começou a discar.

Os outros esperaram, em silêncio. Boris disse ao telefone:

- Alô? Estou ligando por conta de Ellis.

Talvez a voz desconhecida não a abalasse, pensou Ellis; afinal, Jane estava mesmo aguardando uma ligação extravagante. Ignore tudo, menos o endereço, ele recomendara.

- Como? - disse Boris, irritado. Ellis pensou: Mas que merda! O que será que ela disse? - Sou, sim, mas isso não importa agora. Ellis quer que você traga o mecanismo ao Quarto 41, no Hotel Lancaster, Rue de Berri.

Houve outra pausa.

Entre no jogo, Jane, pensou Ellis.

- Tem razão, é um hotel muito simpático.

Pare de brincadeira! Diga apenas que fará o que o homem está pedindo... por favor!

- Obrigado. - Uma pausa e Boris acrescentou, sarcástico: - Você é muito gentil.

Ele desligou. Ellis tentou dar a impressão de que não esperava qualquer dificuldade. Boris disse:

- Ela sabia que eu era russo. Como descobriu?

Ellis ficou perplexo por um momento e depois compreendeu. Apressou-se em explicar:

- Ela é lingüista. Conhece os sotaques. Pepe falou pela primeira vez:

- Enquanto esperamos pela chegada da mulher, vamos ver o dinheiro.

- Está certo.

Boris foi para o quarto. Enquanto ele estava ausente, Rahmi disse a Ellis, em voz baixa e sibilante:

- Eu não podia imaginar que você faria uma coisa destas!

- Nem podia mesmo - respondeu Ellis, num tom de tédio simulado. - Se soubesse o que eu tencionava fazer, não daria certo como salvaguarda, não é mesmo?

Boris voltou com um grande envelope pardo e entregou-o a Pepe. O corso abriu-o e começou a contar as notas de cem francos.

Boris abriu um maço de Marlboro, tirou um cigarro e acendeu-o.

Ellis pensou: Espero que Jane não demore a fazer a ligação para "Mustafa". Eu deveria ter avisado que era importante transmitir a mensagem no mesmo instante. Depois de algum tempo, Pepe informou:

- Está tudo aqui.

Tornou a guardar o dinheiro no envelope, passou a língua pela aba, fechou-o e o pôs numa mesa ao lado.

Os quatro homens permaneceram sentados em silêncio por vários minutos. Boris perguntou a Ellis:

- A que distância fica o seu apartamento?

- A quinze minutos de lambreta.

Houve uma batida na porta. Ellis ficou tenso.

- Ela veio depressa. - Boris abriu a porta e acrescentou, com uma expressão de repulsa, antes de voltar a seu lugar: - Café.

Dois garçons de jaqueta branca empurraram um carrinho para o interior da sala. Empertigaram-se e viraram-se, cada um empunhando uma pistola MAB Modelo D, usada pelos detetives franceses. Um deles disse:

- Ninguém se mexa.

Ellis sentiu que Boris se preparava para entrar em ação. Por que havia apenas dois detetives? Se Rahmi fizesse alguma besteira e acabasse baleado, isso criaria diversão suficiente para que Pepe e Boris, juntos, dominassem os homens armados...

A porta do quarto foi aberta e mais dois homens vestidos de garçom estavam postados ali, armados como seus colegas.

Boris relaxou, uma expressão de resignação insinuando-se em seu rosto.

Ellis compreendeu que estivera prendendo a respiração. Deixoua escapar, num longo suspiro.

Estava tudo acabado.

Um oficial de polícia uniformizado entrou na sala.

- Uma armadilha! - explodiu Rahmi. - Isto é uma armadilha!

- Cale-se! - berrou Boris, a voz áspera tornando a silenciar Rahmi. Ele virou-se para o oficial. - Protesto com veemência contra esta afronta. Por favor, registre que...

O policial socou-o na boca com a mão enfiada numa luva de couro. Boris tocou nos lábios, depois olhou para o sangue na mão. Sua atitude mudou completamente ao compreender que era muito sério para que tentasse encontrar uma saída no blefe.

- Não se esqueça da minha cara - disse ele ao oficial, a voz fria e solene. - Tornará a vê-la.

- Mas quem é o traidor? - gritou Rahmi. - Quem nos traiu?

- Ele - respondeu Boris, apontando para Ellis.

- Ellis? - balbuciou Rahmi, incrédulo.

- O telefonema - explicou Boris. - O endereço. Rahmi ficou olhando fixamente para Ellis. Parecia profundamente magoado.

Outros policiais uniformizados entraram. O oficial apontou para Pepe, dizendo:

- Aquele é Gozzi. - Dois homens algemaram Pepe e levaram-no. O oficial olhou para Boris: - Quem é você?

Boris exibia uma expressão entediada.

- Meu nome é Jan Hocht. Sou um cidadão argentino e...

- Não se dê o trabalho de continuar. Podem levá-lo. - O oficial virou-se para Rahmi. - E você?

- Não tenho nada a declarar! - gritou Rahmi, conseguindo fazer com que soasse heróico.

O oficial sacudiu a cabeça e Rahmi também foi algemado. O jovem turco lançou um olhar furioso para Ellis ao ser levado.

Os prisioneiros desceram no elevador, um de cada vez. A valise de Pepe e o envelope com as notas de cem francos foram metidos em sacos de plástico. Um fotógrafo da polícia entrou na sala e armou seu tripé. O oficial disse a Ellis:

- Há um Citroen DS preto estacionado na frente do hotel. - Hesitante, acrescentou: - Senhor.

Estou de volta ao lado certo da lei, pensou Ellis. Mas é uma pena que Rahmi seja um homem muito mais simpático que este tira.

Ele desceu no elevador. No saguão do hotel, o gerente de casaco preto e calça listrada exibia uma expressão angustiada, enquanto mais policiais entravam.

Ellis saiu para o sol. O Citroen preto estava no outro lado da rua. Havia um homem ao volante e outro sentado no banco de trás. Ellis entrou atrás. O carro partiu, acelerando. O passageiro virouse para Ellis e disse:

- Olá, John.

Ellis sorriu. Era estranho ouvir seu nome outra vez, depois de mais de um ano.

- Como está, Bill?

- Aliviado! Durante treze meses não ouvimos qualquer notícia sua além de pedidos de dinheiro. E de repente recebemos um telefonema categórico dizendo que tínhamos vinte e quatro horas para providenciar uma prisão local. Imagine o que tivemos de fazer para persuadir os franceses a fazerem isso sem explicar por quê. Os homens deviam estar prontos nas proximidades dos Champs Elysees, mas para chegar ao endereço certo tínhamos de esperar por uma ligação de uma mulher desconhecida, perguntando por Mustafa. E isso era tudo o que sabíamos!

- Não podia ser de outra   forma - murmurou   Ellis, desculpando-se.

- Não foi fácil... e agora devo alguns favores nesta cidade... mas conseguimos. Quero agora saber se valeu a pena. Quem agarramos?

- O russo é Boris - explicou Ellis.

O rosto de Bill se abriu num largo sorriso.

- Essa não! - exclamou ele. - Você me trouxe Boris. Fala sério?

- Claro.

- Puxa, é melhor eu arrancá-lo das mãos dos franceses antes que eles descubram quem é.

Ellis deu de ombros.

- Ninguém vai conseguir arrancar muitas informações dele. O homem é do tipo dedicado. O importante é que o tiramos de circulação. Eles levarão alguns anos para providenciar um substituto à altura e para que o novo Boris desenvolva os seus contatos. Enquanto isso, reduzimos consideravelmente as operações.

- Tem toda razão. A coisa é sensacional.

- O corso é Pepe Gozzi, um traficante de armas - continuou Ellis. - Foi ele quem forneceu o material para praticamente todas as ações terroristas na França durante os últimos dois anos, assim como em vários outros países. Ele é que deve ser interrogado. Mande um detetive francês conversar com seu pai, Meme Gozzi, em Marselha.

Tenho a impressão de que vai descobrir que o velho jamais gostou da idéia de a família se envolver em crimes políticos. Proponha-lhe um acordo: imunidade para Pepe, se Pepe testemunhar contra todos os terroristas políticos a quem vendeu armas e explosivos... nenhum deles é criminoso comum. Meme aceitará, porque não será considerado uma traição aos amigos. E se Meme concordar, Pepe também aceitará. Os franceses terão julgamentos por muitos anos.

- Incrível... - Bill parecia aturdido. - Em apenas um dia você agarrou os que são provavelmente os dois maiores instigadores do terrorismo no mundo.

- Um dia? - Ellis sorriu. - Levei um ano.

- Valeu a pena.

- O jovem é Rahmi Coskun. - Ellis estava se apressando, porque havia outra pessoa a quem queria contar toda a história. - Rahmi e seu grupo cometeram o atentado a bomba contra a Turkish Airlines há cerca de dois meses e antes disso mataram um adido da embaixada. Se capturar o grupo inteiro vai certamente encontrar provas concretas.

- Ou a polícia francesa os persuadirá a confessar.

- Tem razão. Dê-me um lápis e escreverei os nomes e endereços.

- Não há necessidade, John. Vamos para a embaixada e lá você me dará todas as informações.

- Não Vou voltar à embaixada.

- Não lute contra o programa, John.

- Eu lhe darei os nomes e você terá então todas as informações essenciais, mesmo que eu seja atropelado por um motorista de táxi francês louco. Se eu sobreviver.

Vou encontrá-lo amanhã de manhã e darei todos os detalhes.

- Por que esperar?

- Tenho um compromisso para o almoço. Bill revirou os olhos para o alto.

- Creio que lhe devemos isso - disse ele, relutante.

- Foi o que calculei.

- Quem é a pessoa com quem vai se encontrar?

- Jane Lambert. Foi um dos nomes que você me forneceu originalmente.

- Estou lembrado. Eu lhe disse que se conseguisse se insinuar nas afeições de Jane ela lhe apresentaria a cada esquerdista maluco, terrorista árabe, seguidor do Baader-Meinhof e poeta da vanguarda de Paris.

- Foi justamente o que aconteceu, só que acabei me apaixonando por ela.

Bill parecia um banqueiro de Connecticut informado de que o filho vai casar com a filha de um milionário preto: não sabia se ficava emocionado ou consternado.

- Ahn... como ela é realmente?

- Não é maluca, embora tenha alguns amigos malucos. O que posso lhe dizer? Ela é tão linda quanto uma pintura, inteligente que não acaba mais, um tesão insaciável.

Em suma, ela é maravilhosa. A mulher que sempre procurei durante toda a minha vida.

- Posso compreender por que você prefere comemorar com ela e não comigo. O que pretende fazer?

Ellis sorriu.

- Vou abrir uma garrafa de vinho, fritar dois bifes, contar a ela que capturo terroristas como profissão e pedi-la em casamento.

 

Jean-Pierre inclinou-se sobre a mesa da cantina e fitou a morena com uma expressão compadecida.

- Creio que sei como você se sente - disse ele, afetuosamente. - Lembro que fiquei muito deprimido ao final do primeiro ano na faculdade de medicina. Parece que o cérebro recebeu mais informação do que é capaz de absorver e a gente não sabe como dominar tudo a tempo para os exames.

- É exatamente isso - murmurou a moça, acenando com a cabeça, quase em lágrimas.

- É um bom sinal - tranqüilizou-a Jean-Pierre. - Significa que você está por dentro. As pessoas que não estão preocupadas são as que serão reprovadas.

Os olhos castanhos da moça ficaram molhados em gratidão.

- Acha mesmo?

- Tenho certeza.

Ela fitou-o com adoração. Você preferia me comer do que ao seu almoço, não é mesmo?, pensou Jean-Pierre. Ela mudou de posição, a suéter se entreabriu, deixando à mostra a renda da parte superior do sutiã. Ele sentiu-se tentado por um momento. Na ala leste do hospital havia um depósito de roupa de cama que nunca era usado

depois das nove e meia da manhã. Jean-Pierre já aproveitara o lugar mais de uma vez. Pode-se trancar a porta por dentro e deitar numa pilha macia de lençóis limpos...

A morena suspirou, espetou um pedaço de carne com o garfo e levou-o à boca. E quando ela começou a mastigar, Jean-Pierre perdeu o interesse. Detestava observar as pessoas comerem. De qualquer forma, ele estivera apenas flexionando os músculos, a fim de provar que ainda era capaz: não queria realmente seduzi-la. Ela era muito bonita, cabelos crespos, a cor quente do Mediterrâneo, possuía um corpo maravilhoso. Mas ultimamente Jean-Pierre não sentia qualquer entusiasmo por conquistas casuais. A única mulher que podia fasciná-lo por mais de alguns minutos era Jane Lambert... e ela se recusava até mesmo a beijá-lo.

Ele desviou os olhos da morena e correu-os, inquieto, pela cantina do hospital. Não viu ninguém que conhecesse. O lugar estava quase vazio: ele almoçava cedo porque estava no primeiro turno.

Seis meses já haviam transcorrido desde que contemplara pela primeira vez o rosto incrivelmente belo de Jane, no outro lado de uma sala apinhada, durante o coquetel de lançamento de um novo livro sobre ginecologia feminista. Jean-Pierre sugerira-lhe que não existia uma medicina feminista, apenas a boa e a má medicina. Ela respondera que não havia uma matemática cristã, mas apesar disso fora preciso um herege como Galileu para provar que a terra gira em torno do sol. Jean-Pierre exclamara "Tem toda razão!", em seu jeito mais cativante, os dois se tornaram amigos.

Mas Jane era resistente ao seu charme, até mesmo imune. Gostava dele, mas parecia estar comprometida com o americano, apesar de Ellis ser muito mais velho que ela.

De certa forma, isso a tornava ainda mais desejável a Jean-Pierre. Se ao menos Ellis saísse de cena... fosse atropelado por um ônibus ou algo parecido... Ultimamente, a resistência de Jane parecia estar enfraquecendo... ou seria apenas o seu desejo de que isso estivesse acontecendo? A morena perguntou:

- É verdade que você vai passar dois anos no Afeganistão?

- É, sim.

- Por quê?

- Acho que é porque creio na liberdade. E porque não estudei tanto só para fazer pontes de safena em empresários gordos.

As mentiras afloravam-lhe automaticamente aos lábios.

- Mas por que dois anos? As pessoas que fazem isso geralmente ficam de três meses a seis, um ano no máximo. Dois anos parecem uma eternidade.

- É mesmo? - Jean-Pierre exibiu um sorriso irônico. - O problema é que é difícil realizar qualquer coisa de valor num período mais curto. A idéia de enviar médicos para lá numa visita breve é extremamente ineficaz. Os rebeldes precisam é de uma assistência médica constante, um hospital que permaneça no mesmo lugar e tenha pelo menos alguns médicos em residência de um ano para outro. Como está a situação, a metade das pessoas não sabe para onde levar seus doentes e feridos, não segue as ordens do médico porque nunca o conhece bastante bem para confiar nele e nenhum tem tempo para uma educação preventiva. E o custo de transportar os voluntários para o país e trazê-los de volta faz com que seus serviços "gratuitos" se tornem bastante dispendiosos.

Jean-Pierre empenhou tanto esforço nesse discurso que quase acreditou no que dizia, precisando então lembrar a si mesmo do verdadeiro motivo para ir ao Afeganistão

e lá permanecer por dois anos. Uma voz às suas costas indagou:

- Quem vai dar os seus serviços de graça?

Ele virou-se para deparar com outro casal, carregando bandejas com comida: Valerie, residente como ele, e seu namorado, um radiologista. Os dois sentaram com Jean-Pierre e a morena. E quem respondeu à pergunta de Valerie foi a morena:

- Jean-Pierre vai para o Afeganistão, a fim de trabalhar para os rebeldes.

- É mesmo? - Valerie estava surpresa. - Ouvi dizer que você recebeu um convite maravilhoso de Houston.

- Recusei.

Ela ficou ainda mais impressionada.

- Por quê?

- Acho que vale a pena salvar as vidas de guerreiros da liberdade, mas uns poucos milionários texanos a mais ou a menos não farão qualquer diferença para nada.

O radiologista não era tão fascinado por Jean-Pierre quanto sua namorada. Ele engoliu uma porção de batata e disse:

- Não se preocupe. Quando voltar, não terá qualquer dificuldade em receber o mesmo convite... pois além de médico, será também um herói.

- Acha mesmo?

Jean-Pierre falou friamente. Não estava gostando do rumo que a conversa tomava.

- Duas pessoas deste hospital foram para o Afeganistão no ano passado - acrescentou o radiologista. - Os dois arrumaram empregos sensacionais quando voltaram.

Jean-Pierre deu um sorriso condescendente.

- É bom saber que serei empregável se sobreviver.

- É o mínimo que se pode esperar! - protestou a morena, indignada. - Depois de tamanho sacrifício!

- O que seus pais acham da idéia? - quis saber Valerie.

- Minha mãe aprova.

É claro que ela aprovava, pois adorava um herói. Jean-Pierre podia imaginar o que o pai diria a respeito de jovens médicos idealistas que iam trabalhar para os rebeldes afegães. Socialismo não significa que todos podem fazer o que quiserem! , afirmaria ele, a voz rouca e áspera, o rosto se avermelhando um pouco. O que você pensa que aqueles rebeldes são? Não passam de bandidos saqueando os camponeses que respeitam a lei. As instituições feudais precisam ser extirpadas antes que o socialismo possa triunfar. Ele bateria na mesa com o punho enorme. Para se fazer uma omelete é preciso quebrar os ovos - para se fazer o socialismo é preciso quebrar cabeças!

Não se preocupe, papai, já sei de tudo isso.

- Meu pai já morreu - disse Jean-Pierre. - Mas ele também foi um combatente da liberdade. Lutou na Resistência durante a guerra.

- O que ele fazia? - indagou o cético radiologista.

Mas Jean-Pierre não respondeu, porque avistara Raoul Clermont, o editor de La Revolte, atravessando a cantina, suado em seu terno dominical. O que estaria fazendo na cantina do hospital o gordo jornalista?

- Preciso falar com você - disse Raoul, sem qualquer preâmbulo, esbaforido.

Jean-Pierre apontou para uma cadeira.

- Raoul...

- É urgente - interrompeu-o Raoul, quase como se não quisesse que os outros ouvissem seu nome.

- Por que não nos acompanha no almoço? Poderemos então conversar à vontade.

- Lamento muito, mas não posso.

Jean-Pierre percebeu um tom de pânico na voz do gordo. Fitando-o nos olhos, compreendeu que lhe suplicavam para que não perdesse tempo. Surpreso, Jean-Pierre levantou-se.

- Está certo. - A fim de disfarçar o inesperado da situação, ele acrescentou para os outros, jovialmente: - Não comam o meu almoço... voltarei num instante.

Pegou Raoul pelo braço e os dois saíram da cantina. Jean-Pierre tencionava parar logo depois da porta e conversar, mas Raoul continuou a andar pelo corredor, anunciando:

- Monsieur Leblond é que me mandou até aqui.

- Eu já começava a imaginar que ele estava por trás disso.

Um mês antes Raoul o levara para conhecer Leblond, que o convidara a ir para o Afeganistão, aparentemente para ajudar os rebeldes, como faziam muitos jovens médicos franceses, mas na verdade com a missão de espionar para os russos. Jean-Pierre sentirase orgulhoso, apreensivo e, acima de tudo, emocionado com a oportunidade de fazer alguma coisa realmente espetacular pela causa. Seu único receio fora o de ser rejeitado pelas organizações que enviavam médicos ao Afeganistão por ser comunista.

Não tinham meios de saber que ele era membro do Partido, e Jean-Pierre certamente não lhes diria, mas podiam saber que era simpatizante do comunismo. Contudo, havia muitos comunistas franceses que se opunham à invasão do Afeganistão. Mesmo assim, havia a possibilidade de que uma organização cautelosa pudesse sugerir que Jean-Pierre estaria mais feliz se trabalhasse para algum outro grupo de guerrilheiros - também mandavam ajuda para os rebeldes de El Salvador, por exemplo. No final, porém, isso não acontecera: Jean-Pierre fora aceito prontamente pela Médecins pour la Liberte. Ele dera a boa notícia a Raoul, que lhe dissera que haveria outra reunião com Leblond. Talvez fosse aquela.

- Mas por que o pânico?

- Ele quer falar com você agora.

- Agora? - Jean-Pierre ficou irritado. - Estou de plantão. Tenho pacientes...

- Outro médico pode cuidar deles.

- Mas por que a urgência? Só Vou partir daqui a dois meses.

- Não é sobre o Afeganistão.

- O que é então?

- Não sei.

Então o que o está assustando?, especulou Jean-Pierre.

- Não tem a menor idéia?

- Só sei que Rahmi Coskun foi preso.

- O estudante turco? "

- Esse mesmo.

- Por quê?

- Não sei.

- E o que isso tem a ver comigo? Eu mal o conheço.

- Monsieur Leblond explicará tudo. Jean-Pierre levantou as mãos.

- Não posso sair do hospital desse jeito.

- O que aconteceria se você se sentisse mal? - indagou Raoul.

- Comunicaria à enfermeira-chefe, que chamaria um substituto. Mas...

- Pois então fale com ela.

Eles estavam agora na entrada do hospital e havia uma fileira de telefones internos numa parede. Isto pode ser um teste, pensou Jean-Pierre; um teste de lealdade, a fim de verificar se sou bastante sério para receber a missão. Resolveu se expor à ira da direção do hospital. Pegou o telefone e disse, ao concluir a ligação para a enfermeira-chefe:

- Surgiu um problema urgente na família e preciso me afastar. Entre em contato com o doutor Roche imediatamente.

- Pois não, doutor - respondeu a enfermeira, calmamente.

- Espero que não sejam notícias tristes.

- Eu lhe contarei tudo depois - disse ele, apressadamente.

- Até já. Ah... espere um instante. - Ele tinha uma paciente pósoperatória que sofrerá uma hemorragia durante a noite. - Como está a senhora Ferier?

- Muito bem. A hemorragia foi estancada.

- Ótimo. Fique atenta a ela.

- Está bem, doutor.

Jean-Pierre desligou e disse a Raoul:

- Já podemos ir.

Saíram para o estacionamento e embarcaram no Renault de Raoul. O interior do carro estava muito quente do sol de meio-dia. Raoul foi guiando depressa por ruas secundárias. Jean-Pierre sentiase nervoso. Não sabia exatamente quem era Leblond, mas calculava que o homem devia ser alguma coisa na KGB. Jean-Pierre descobriu-se especulando se fizera algo para ofender a tão temida organização; e, se era esse o caso, qual poderia ser a punição.

Não poderiam certamente ter descoberto qualquer coisa sobre Jane.

E o fato de ele convidá-la para acompanhá-lo ao Afeganistão não era da conta de mais ninguém. De qualquer forma, haveria outros no grupo, talvez uma enfermeira para ajudar Jean-Pierre em seu destino, talvez outros médicos, seguindo para regiões diferentes do país: por que Jane não poderia estar entre eles? Não era enfermeira, mas podia fazer um curso intensivo e tinha a grande vantagem de falar farsi, a língua persa, que era falada também na região para onde Jean-Pierre ia.

Ele esperava que Jane o acompanhasse por idealismo e pelo senso de aventura. Esperava que ela esquecesse Ellis no Afeganistão e se apaixonasse pelo europeu mais próximo, no caso, é claro, JeanPierre.

E também esperava que o Partido jamais descobrisse que ele a encorajara a viajar por motivos pessoais. Não havia necessidade de que soubessem, não havia possibilidade de descobrirem, em circunstâncias normais - ou pelo menos ele assim pensava. Mas talvez estivesse enganado. Talvez eles estivessem furiosos.

Isso é tolice, refletiu Jean-Pierre. Não fiz nada de errado: e mesmo que tivesse feito, não haveria punição. Esta é a verdadeira KGB, não a instituição mística que incute o medo nos corações dos assinantes do Reader"s Digest.

Raoul parou o carro. Estavam na frente de um luxuoso prédio residencial na Rue de l'Université. Era o mesmo lugar onde JeanPierre se encontrara com Leblond na última vez. Saltaram e entraram no prédio.

O saguão era escuro. Subiram a escada em curva para o segundo andar e apertaram uma campainha. Minha vida mudou muito, pensou Jean-Pierre, desde a última vez em que esperei diante desta porta.

Monsieur Leblond abriu-a. Era um homem baixo, franzino, calvo, de óculos, parecia um mordomo com o terno cinza-escuro e gravata prateada. Conduziu-os à sala nos fundos do apartamento onde Jean-Pierre fora entrevistado. Os frisos altos e requintados indicavam que fora outrora uma sala de estar, mas tinha agora um carpete de náilon, uma escrivaninha ordinária e algumas cadeiras de plástico laranja.

- Esperem aqui um momento - disse Leblond.

Sua voz era bastante incisiva, seca como poeira. Um sotaque leve, mas inconfundível, sugeria que seu nome verdadeiro não era Leblond. Ele saiu por uma outra porta.

Jean-Pierre sentou-se numa das cadeiras de plástico. Raoul continuou de pé. Foi nesta sala, pensou Jean-Pierre, que a voz seca me disse: Você tem sido um membro discreto e leal do Partido desde o início. Seu caráter e os antecedentes familiares indicam que serviria o Partido muito bem numa missão secreta.

Espero não ter arruinado tudo por causa de Jane, refletiu ele.

Leblond voltou com outro homem. Os dois pararam à entrada e Leblond apontou para Jean-Pierre. O segundo homem observou-o atentamente, como se gravasse o rosto na memória. Jean-Pierre sustentou seu olhar. O homem era enorme, ombros largos, como um jogador de futebol americano. Os cabelos eram compridos nos lados, mas ralos no alto da cabeça, o bigode tinha as pontas caídas. Usava um casaco verde de veludo cotelê, com um rasgão na manga. Depois de alguns segundos, ele balançou a cabeça e se retirou. Leblond fechou a porta e foi se sentar atrás da escrivaninha.

- Aconteceu um desastre - anunciou ele.

Não tem nada a ver com Jane, pensou Jean-Pierre. Graças a Deus. Leblond acrescentou:

- Há um agente da CIA no seu círculo de amigos.

- Santo Deus! - exclamou Jean-Pierre.

- Não é esse o desastre - disse Leblond, irritado. - Não é de surpreender que houvesse um espião americano entre os seus amigos. com toda certeza há também espiões israelenses, sul-africanos e franceses. O que essas pessoas teriam para fazer se não se infiltrassem nos grupos de jovens ativistas políticos? E nós também temos o nosso homem, é claro.

- Quem é?

- Você.

- Ahn... - Jean-Pierre ficou consternado: jamais pensara em si mesmo como um espião. Mas o que mais significava servir o Partido numa missão secreta? Intensamente curioso, ele perguntou: - Quem é o agente da CIA?

- Um homem chamado Ellis Thaler. Jean-Pierre ficou tão chocado que se levantou.

- Ellis?

- Você o conhece. Ótimo.

- Ellis é um espião da CIA?

- Sente-se - disse Leblond, calmamente. - Nosso problema não é o que ele é, mas sim o que ele fez.

Jean-Pierre estava pensando: se Jane descobrir isso, vai largar Ellis como se fosse uma batata quente. Eles me deixarão contar a ela? Se não permitirem, ela descobrirá de alguma outra forma? E vai acreditar? Ellis tentará negar? Leblond estava falando. JeanPierre fez um esforço para se concentrar em suas palavras.

- O desastre é que Ellis preparou uma armadilha e capturou alguém muito importante para nós.

Jean-Pierre lembrou-se que Raoul comentara que Rahmi Coskun fora preso.

- Rahmi é importante para nós?

- Não é Rahmi.

- Quem é então?

- Você não precisa saber.

- Então por que me trouxeram até aqui?

- Fique calado e escute - disse Leblond asperamente, fazendo com que Jean-Pierre sentisse medo dele pela primeira vez. - Jamais me encontrei com seu amigo Ellis.

Infelizmente, Raoul também não o conhece pessoalmente. Portanto, não conhecemos sua aparência. Mas você sabe. E foi por isso que o chamamos aqui. Sabe também onde Ellis mora?

- Sei, sim. Ele tem um quarto por cima de um restaurante na Rue de l'Ancienne Comédie.

- O quarto dá para a rua?

Jean-Pierre franziu o rosto. Só estivera lá uma vez: Ellis não tinha o hábito de convidar as pessoas a visitarem-no.

- Acho que sim.

- Não tem certeza?

- Deixe-me pensar um pouco... - Ele estivera lá de madrugada, em companhia de Jane e um grupo de outras pessoas, depois de uma sessão de cinema na Sorbonne. Ellis servira-lhes um café. Era um quarto pequeno. Jane se sentara no chão, ao lado da janela... - Dá, sim. A janela fica de frente para a rua. Mas por que isso é importante?

- Significa que você pode dar um sinal.

- Eu? Por quê? Para quem?

Leblond fitou-o com uma expressão perigosa.

- Desculpe - murmurou Jean-Pierre.

Leblond hesitou. Quando tornou a falar, a voz era um pouco mais suave, embora a expressão permanecesse impassível.

- Você vai passar pelo batismo de fogo. Lamento ter de usálo numa... ação... assim, quando ainda não fez nada para nós. Mas você conhece Ellis e está aqui, e neste momento não dispomos de mais ninguém que o conheça; e o que queremos perderá o impacto se não for realizado imediatamente. Portanto, preste atenção, pois é muito importante. Vá ao quarto de Ellis. Se ele estiver, você deve entrar... imagine algum pretexto. Chegue na janela, incline-se para fora, dê um jeito de ser visto por Raoul, que estará esperando na rua.

Raoul remexeu-se como um cachorro que ouve alguém mencionar seu nome numa conversa. Jean-Pierre perguntou:

- E se Ellis não estiver?

- Fale com os vizinhos. Tente descobrir para onde ele foi e quando voltará. Se tudo indicar que ele se ausentou apenas por uns poucos minutos ou mesmo por uma hora, você então deve esperar.

Quando ele voltar, faça como antes: entre, vá até a janela e certifique-se de que Raoul o viu. Seu aparecimento na janela é o sinal de que Ellis está no quarto... assim, não apareça na janela se ele não estiver. Entendido?

- Já sei o que quer que eu faça - respondeu Jean-Pierre. - Só não entendo qual é o propósito.

- Queremos identificar Ellis.

- E depois que eu o identificar?

Leblond deu a resposta que Jean-Pierre mal se atrevera a esperar e que o deixou emocionado:

- Vamos matá-lo, é claro.

 

Jane estendeu uma toalha branca remendada sobre a pequena mesa de Ellis e arrumou dois lugares, com um sortimento de talheres amassados. Encontrou uma garrafa de Fleurie no armário de baixo da pia e abriu-a. Sentiu-se tentada a provar, mas depois resolveu esperar por Ellis. Pôs os copos na mesa, sal e pimenta, mostarda, guardanapos de papel. Pensou se deveria começar a cozinhar. Não, era melhor deixar isso para Ellis.

Ela não gostava daquele quarto. Era despojado, apertado e impessoal. Ficara bastante chocada ao vê-lo pela primeira vez. Vinha saindo com aquele homem maduro, afetuoso e descontraído, imaginara que ele morasse num lugar que expressasse a sua personalidade, um apartamento atraente e confortável, com recordações de um passado rico em experiências. Mas nunca se poderia imaginar que o homem que morava ali fora casado, lutara numa guerra, tomara LSD e destacara-se como o capitão do time de futebol americano na escola. As paredes brancas e frias estavam decoradas com alguns posters escolhidos às pressas. A louça vinha de lojas de segunda-mão, e as panelas eram as mais ordinárias. Não havia dedicatórias nos livros de poesia na estante. Ele guardava as calças e camisas numa mala de plástico, por baixo da cama que rangia muito. Onde estavam os velhos boletins escolares, as fotografias dos sobrinhos, o exemplar tão querido de Heartbreak Hotel, o canivete de lembrança de Boulogne ou Niagara Falls, a saladeira de teca que todo mundo ganha dos pais, mais cedo ou mais tarde? O quarto nada continha de realmente importante, nenhuma das coisas que se guarda não pelo que são, mas sim pelo que representam, nenhum pedaço de sua alma.

Era o quarto de um homem retraído, um homem reservado, um homem que nunca partilharia os seus pensamentos mais íntimos com outra pessoa. Gradativamente, com uma terrível tristeza, Jane chegara à conclusão de que Ellis era mesmo assim, como o seu quarto, frio e retraído.

O que era incrível. Afinal, ele era um homem extremamente confiante. Andava com a cabeça erguida, como se nunca tivesse sentido medo de qualquer coisa, em toda a sua vida. Na cama, era desinibido, completamente à vontade com sua sensualidade. Faria qualquer coisa e diria qualquer coisa, sem ansiedade, hesitação ou vergonha.

Jane jamais conhecera um homem assim. Mas houvera muitas ocasiões - na cama, em restaurantes ou apenas andando pelas ruas - quando ela ria com ele, escutava-o falar, observava a pele em torno dos olhos se contrair enquanto ele se concentrava em pensamento ou abraçava o seu corpo quente só para descobrir que ele subitamente se desligara. E nesses instantes de desligamento ele deixava de ser amoroso, divertido, cortês, atencioso, gentil ou compassivo. Fazia com que ela se sentisse excluída, uma estranha, uma intrusa em seu mundo particular. Era como o sol a se esconder por trás de uma nuvem.

Jane sabia que teria de deixá-lo. Amava-o intensamente, mas parecia que Ellis não era capaz de amá-la da mesma forma. Ele tinha trinta e três anos, e se não aprendera até agora a arte da intimidade, nunca mais poderia aprender.

Ela se sentou no sofá e começou a ler The Observer, que comprara no caminho numa banca de publicações internacionais, no Boulevard Raspail. Havia uma notícia sobre o Afeganistão na primeira página. Parecia um bom lugar para esquecer Ellis.

A perspectiva a atraíra no mesmo instante. Embora adorasse Paris e seu trabalho fosse no mínimo variado, ela queria mais: experiência, aventura e uma oportunidade de lutar pela liberdade. Não tinha medo. Jean-Pierre explicara que os médicos eram considerados valiosos demais para serem enviados a zonas de combate. Havia sempre o risco de ser atingido por uma bomba extraviada ou de ser apanhado numa escaramuça, mas provavelmente não era pior do que o perigo de ser atropelado por um motorista parisiense. Ela se sentira curiosa pelo estilo de vida dos rebeldes afegãos.

- O que eles comem por lá? - perguntara a Jean-Pierre. - O que eles vestem? Vivem em tendas? Existem banheiros?

- Não há banheiros - respondera ele. - Nem eletricidade. Nem estradas. Nem vinho. Nem carros. Nem aquecimento central.

Nem dentistas. Nem carteiros. Nem telefones. Nem restaurantes. Nem anúncios. Nem Coca-Cola. Nem previsão de tempo, bolsa de valores, decoradores, assistentes sociais, batom, absorvente feminino, desfile de modas, coquetéis, pontos de táxi, filas de ônibus...

- Pare! - interrompera-o Jane, pois ele era capaz de continuar assim por horas a fio. - Eles devem ter ônibus e táxis.

- Não no interior. Estou indo para uma região chamada Vale dos Cinco Leões, um reduto rebelde nos contrafortes do Himalaia. Já era primitivo antes mesmo de ser bombardeado pelos russos.

Jane estava absolutamente convencida de que poderia viver feliz sem banheiros com encanamentos, batom ou previsões de tempo. Desconfiava que Jean-Pierre estava subestimando

o perigo, mesmo fora da zona de combate, mas isso não era suficiente para dissuadi-la. A mãe ficaria histérica, é claro. O pai, se ainda estivesse vivo, diria: "Boa sorte, Janey." Ele compreendia a importância de fazer alguma coisa meritória com a própria vida. Embora ele fosse um bom médico, jamais ganhara dinheiro, porque onde quer que vivessem - Nassau, Cairo, Cingapura, mas principalmente Rodésia - sempre tratava os pobres de graça, que o procuravam em levas, afugentando os clientes que podiam pagar.

O devaneio de Jane foi interrompido por passos na escada. Compreendeu que não lera mais que umas poucas linhas do jornal. Esticou a cabeça, escutando. Não pareciam os passos de Ellis. Mesmo assim, houve uma batida na porta.

Jane largou o jornal e foi abrir a porta. Lá estava Jean-Pierre. Ele se mostrou quase tão surpreso quanto ela. Ficaram se olhando em silêncio por um momento. Jane finalmente disse:

- Você parece culpado. Eu também?

- Também - respondeu Jean-Pierre, sorrindo.

- Eu estava pensando em você. Entre. Ele entrou, olhou ao redor.

- Ellis não está?

- Estou esperando-o a qualquer momento. Sente-se. Jean-Pierre arriou o corpo comprido no sofá. Jane pensou, não pela primeira vez, que ele era provavelmente o homem mais bonito que já conhecera. O rosto era perfeitamente regular, a testa alta, nariz forte e um tanto aristocrático, olhos castanho-brilhantes, a boca sensual parcialmente oculta por uma barba cheia, castanho escura, com alguns fios castanho avermelhados no bigode. As roupas eram baratas, mas escolhidas com extremo cuidado, e ele as usava com uma elegância despreocupada que Jane invejava.

Ela gostava muito de Jean-Pierre. O maior defeito dele era se ter em alta conta, exagerada; mas era tão ingênuo nisso a ponto de ser desconcertante, como uma criança jactanciosa. Jane apreciava seu idealismo e sua dedicação à medicina. Tinha um enorme charme. E também uma imaginação maníaca que podia às vezes ser muito engraçada: acionado por algum absurdo, talvez um mero lapso de língua, ele podia se lançar a um monólogo excêntrico, que se prolongava por dez ou quinze minutos. Quando alguém citara um comentário de Jean-Paul Sartre sobre o futebol, Jean-Pierre espontaneamente oferecera uma descrição de uma partida de futebol sob a ótica de um filósofo existencialista. Jane rira até doer. As pessoas diziam que a alegria de Jean-Pierre tinha o reverso da medalha, os momentos de sombria depressão, mas Jane jamais testemunhara qualquer momento assim.

- Tome um pouco de vinho de Ellis - disse ela, pegando a garrafa na mesa.

- Não, obrigado.

- Está ensaiando para a vida num país muçulmano?

- Não especialmente.

Ele parecia muito solene, e Jane indagou:

- Qual é o problema?

- Preciso ter uma conversa séria com você.

- Já tivemos, há três dias. Por acaso esqueceu? - Jane falou de modo irreverente e depois acrescentou: - Pediu-me para deixar meu namorado e ir com você para o Afeganistão... um convite a que poucas mulheres poderiam resistir.

- Fale sério.

- Está bem. Ainda não tomei minha decisão.

- Descobri uma coisa terrível sobre Ellis, Jane.

Ela fitou-o com expressão especulativa. O que estava para vir? Jean-Pierre inventaria uma história, contaria uma mentira, a fim de persuadi-la a acompanhá-lo? Ela achava que não.

- O que é?

- Ele não é quem finge ser.

Ele estava sendo melodramático demais.

- Não precisa falar com voz de agente funerário. O que está querendo me contar?

- Ele não é um poeta sem dinheiro. Trabalha para o governo americano.

Jane franziu o rosto.

- Para o governo americano? - Seu primeiro pensamento foi o de que Jean-Pierre estava querendo marcar um ponto da maneira errada. - Ele dá aulas de inglês para alguns franceses que trabalham para o governo americano, mas...

- Não é disso que estou falando. Ele espiona os grupos radicais. É um agente. Trabalha para a CIA.

Jane desatou a rir.

- Mas que absurdo! Pensou que podia me convencer a deixá-lo com uma história assim?

- É verdade, Jane.

- Não é, não. Ellis não poderia ser um espião. Pensa que eu não saberia? Estou praticamente vivendo com ele há um ano.

- Mas não vive com ele totalmente, não é mesmo?

- Isso não faz diferença. Eu o conheço muito bem. Mesmo enquanto falava, Jane estava pensando: podia explicar muita coisa. Ela não conhecia Ellis a fundo. Mas conhecia o bastante para ter certeza de que ele não era vil, mesquinho, traiçoeiro ou simplesmente mau.

- A notícia está se espalhando pela cidade - acrescentou JeanPierre. - Rahmi Coskun foi preso esta manhã e todos dizem que Ellis é o responsável.

- Por que Rahmi foi preso? Jean-Pierre deu de ombros.

- Subversão, com toda certeza. Seja como for, Raoul Clermont está circulando pela cidade à procura de Ellis e alguém quer vingança.

- Ora, Jean-Pierre, isto é cômico.

Jane sentiu de repente um calor intenso. Foi até a janela e abriua. Ao olhar para a rua, avistou a cabeça loura de Ellis passar pela porta do prédio. Ela acrescentou para Jean-Pierre:

- Ele está chegando. E você terá de repetir essa história ridícula em sua presença.

Jane ouviu os passos de Ellis na escada, enquanto Jean-Pierre dizia:

- É o que tenciono fazer. Por que pensa que estou aqui? Vim para avisá-lo que estão à sua procura.

Jane compreendeu que Jean-Pierre estava sendo sincero, acreditava de fato naquela história. Pois muito bem, Ellis esclareceria tudo dentro em pouco.

A porta foi aberta e Ellis entrou.

Ele parecia muito feliz, como se transbordasse de boas notícias. Mas o sorriso se desvaneceu um pouco ao deparar com os dois.

- Oi - disse ele.

Ellis fechou a porta e trancou-a, como era seu hábito. Jane sempre pensara que era uma excentricidade, mas agora ocorreu-lhe que era a atitude que um espião adotaria.

Tratou de afastar o pensamento da mente. Jean-Pierre foi o primeiro a falar.

- Eles estão atrás de você, Ellis. Já sabem de tudo. E querem pegá-lo.

Jane olhou de um para o outro. Jean-Pierre era mais alto do que Ellis, mas Ellis tinha os ombros largos e peito estufado. Os dois ficaram imóveis por um momento, fitando-se, como gatos a se avaliarem. Jane abraçou Ellis, beijou-o com um sentimento de culpa e disse:

- Jean-Pierre acaba de me contar uma história absurda, que você é um espião da CIA.

Jean-Pierre estava se inclinando pela janela, esquadrinhando a rua lá embaixo. Ele se virou agora para fitá-los.

- Conte a ela, Ellis.

- De onde tirou essa idéia? - perguntou Ellis.

- Está circulando pela cidade.

- E de quem exatamente você ouviu? - indagou Ellis, a voz muito firme.

- Raoul Clermont.

Ellis acenou com a cabeça. Passando a falar em inglês, ele disse:

- Quer sentar, por favor, Jane?

- Não quero não - disse ela, irritada. .

- Tenho uma coisa para lhe contar.

Não podia ser verdade. Era impossível. Jane sentiu o pânico aflorar-lhe à garganta.

- Pois então conte logo e pare de me pedir para sentar! - Ellis olhou para Jean-Pierre e disse em francês:

- Quer nos deixar a sós?

Jane começou a se sentir furiosa.

- O que vai me contar? Por que não diz simplesmente que Jean-Pierre está enganado? Diga-me que não é um espião, Ellis, antes que eu enlouqueça!

- Não é tão simples assim.

- É muito simples! - Jane não podia mais evitar o tom histérico em sua voz. - Ele diz que você é um espião, que trabalha para o governo americano, que tem me mentido, de maneira contí nua, descarada e traiçoeira, desde que nos conhecemos. Isso é verdade? É ou não? Vamos, responda! Ellis suspirou.

- Acho que é verdade.

Jane sentiu que estava prestes a explodir e berrou:

- Seu filho da puta! Seu filho da puta escroto!

O rosto de Ellis estava impassível, como se fosse de pedra.

- Eu ia lhe contar tudo hoje.

Houve uma batida na porta. Os dois a ignoraram.

- Você tem me espionado e a todos os meus amigos! - gritou Jane. - Eu me sinto terrivelmente envergonhada.

- Meu trabalho aqui está concluído - declarou Ellis. - Não preciso mais mentir para você.

- Não terá essa chance! Não quero vê-lo nunca mais! A batida tornou a soar e Jean-Pierre disse, em francês:

- Há alguém batendo na porta. Ellis murmurou:

- Não está falando sério... que nunca mais vai querer me ver. Jane respondeu:

- Será que não compreende o que fez comigo? Jean-Pierre insistiu:

- Abra logo a porra da porta, pelo amor de Deus! Jane balbuciou:

- Mas que merda!

Ela foi até a porta. Destrancou-a e abriu-a. Um homem enorme, de ombros largos, usando um paletó verde, com um rasgão na manga, estava parado ali. Jane nunca o vira antes.

- O que você quer?

E só então ela percebeu que o homem empunhava um revólver. Os poucos segundos subseqüentes pareceram passar muito devagar.

Jane compreendeu, num relance, que se Jean-Pierre estava certo ao dizer que Ellis era um espião, então provavelmente também tinha razão quando afirmara que alguém queria vingança; e que no mundo em que Ellis habitava secretamente, "vingança" podia significar uma batida na porta e um homem com um revólver na mão.

Ela abriu a boca para gritar.

O homem hesitou por uma fração de segundo. Parecia surpreso, como se não esperasse deparar com uma mulher. Os olhos foram de Jane para Jean-Pierre e voltaram: ele sabia que Jean-Pierre não era seu alvo. Mas estava confuso porque não podia ver Ellis, escondido pela porta entreaberta.

Em vez de gritar, Jane tentou bater a porta.

Enquanto ela empurrava a porta, o pistoleiro percebeu o que ela estava fazendo e esticou o pé. A porta bateu em seu sapato e voltou. Mas ao esticar o pé ele abrira os braços, a fim de manter o equilíbrio, e a arma apontava agora para o canto do teto.

Ele vai matar Ellis, pensou Jane. Ele vai matar Ellis.

Ela jogou-se em cima do pistoleiro, batendo em sua cara com os punhos, pois subitamente, embora odiasse Ellis, não queria que ele morresse.

O homem foi distraído apenas por uma fração de segundo. com um braço forte, empurrou Jane para o lado. Ela caiu sentada, machucando o cóccix.

E viu o que aconteceu em seguida com terrível clareza.

O braço que a empurrara para o lado voltou e escancarou a porta. Enquanto o homem virava a mão com a arma, Ellis avançou para ele, a garrafa de vinho erguida acima da cabeça. A arma disparou no instante em que a garrafa descia, o estampido do tiro coincidindo com o barulho de vidro quebrando.

Jane ficou olhando horrorizada para os dois homens.

E depois o pistoleiro arriou, enquanto Ellis permanecia de pé. Ela compreendeu então que o tiro não acertara.

Ellis inclinou-se e arrancou o revólver da mão do homem.

Jane levantou-se com bastante esforço.

- Você está bem? - perguntou-lhe Ellis.

- Estou viva.

Ele virou-se para Jean-Pierre.

- Quantos há na rua? Jean-Pierre olhou pela janela.

- Nenhum.

Ellis ficou surpreso.

- Devem estar escondidos. - Ele guardou a arma no bolso e foi até a estante. - Afastem-se.

Ele jogou a estante no chão. Havia uma porta por trás.

Ellis abriu-a.

Fitou Jane por um longo momento, como se tivesse alguma coisa para dizer, mas não fosse capaz de encontrar as palavras. Depois, passou pela porta e desapareceu.

Jane hesitou por um instante, depois avançou devagar até a porta secreta e espiou. Havia ali outro quarto, escassamente mobiliado, coberto pela poeira, como se não fosse ocupado há um ano. Uma porta estava aberta no outro lado e mais além havia uma escada.

Ela virou-se e correu os olhos pelo quarto de Ellis. O pistoleiro estava caído no chão, sem sentidos, no meio de uma poça de vinho. Ele tentara matar Ellis, bem ali, naquele quarto, o que já parecia irreal. Tudo parecia irreal: Ellis ser um espião; Jean-Pierre saber disso; Rahmi ser preso; o caminho de fuga de Ellis.

Ele se fora. Nunca mais quero vê-lo, ela lhe dissera, poucos segundos antes. Parecia que o seu desejo seria atendido.

Ela ouviu passos na escada.

Levantou os olhos do pistoleiro e fitou Jean-Pierre. Ele também parecia aturdido. Depois de um momento, Jean-Pierre atravessou o quarto e abraçou-a. Jane encostou a cabeça em seu ombro e desatou a chorar.

 

1982

O rio descia da linha do gelo, frio e cristalino, sempre impetuoso, e enchia o vale com seu barulho, enquanto turbilhonava pelas ravinas e passava pelos trigais, numa corrida precipitada para as distantes terras baixas. Há quase um ano que o som estivera constantemente nos ouvidos de Jane: às vezes alto, quando ela ia se banhar ou quando percorria as trilhas sinuosas entre as aldeias na encosta; às vezes suave, como agora, quando se encontrava bem alto na encosta e o Rio dos Cinco Leões era apenas um brilho e um murmúrio à distância. Quando deixava o vale, ocasionalmente, ela descobria que o silêncio era enervante, como os habitantes da cidade em férias no campo que não conseguem dormir por causa da ausência de barulho. Prestando atenção, ouviu mais alguma coisa e compreendeu que o novo som a tornara consciente do velho. Sobrepondo-se ao coro do rio, surgia o barulho de um avião de hélice.

Jane abriu os olhos. Era um Antonov, o lento e predador aparelho de reconhecimento, cujo rugido incessante era o arauto habitual dos jatos mais velozes e mais ruidosos em missão de bombardeio. Ela sentou e olhou ansiosamente pelo vale.

Estava em seu refúgio secreto, uma saliência larga e plana, no meio de um penhasco. Por cima, a projeção a escondia sem bloquear o sol, dissuadindo qualquer um que não fosse um montanhista a descer. Por baixo, o acesso ao refúgio era íngreme e pedregoso, desprovido de vegetação: ninguém podia subir sem ser ouvido e visto por Jane. Além do mais, não havia motivo para alguém ir até ali. Jane só encontrara o lugar ao sair da trilha e se perder. A privacidade era importante porque ela ia até ali para despir-se e deitar ao sol. Como as afegãs eram recatadas como freiras, ela seria linchada se a vissem nua.

À direita, a encosta poeirenta caía muito depressa. Quase na base, onde a encosta começava a nivelar, perto do rio, ficava a aldeia de Banda, cinqüenta ou sessenta casas aderindo a um terreno irregular e rochoso que ninguém podia cultivar. As casas eram feitas de pedras cinzentas e tijolos de lama, cada uma tinha um teto plano de terra compactada, estendida sobre esteiras. Ao lado da pequena mesquita de madeira havia um grupo de casas em ruínas: um dos bombardeiros russos acertara uma bomba ali há poucos meses. Jane podia ver a aldeia claramente, embora fosse uma escalada de vinte minutos lá de baixo. Correu os olhos pelos telhados e pátios murados, os caminhos de terra, procurando por crianças extraviadas. Mas, felizmente, não havia nenhuma. Banda estava deserta, sob o céu quente e azul.

À esquerda, o vale se alargava. Os pequenos campos pedregosos estavam pontilhados de crateras de bombas, e nas encostas inferiores das montanhas muitos dos antigos taludes haviam desabado. O trigo estava maduro, mas ninguém o colhia.

Além dos campos, na base do paredão rochoso que constituía o outro lado do vale, corria o Rio dos Cinco Leões, profundo em alguns lugares, raso em outros, ora largo, ora estreito, sempre rápido e sempre rochoso. Jane esquadrinhou toda a sua extensão, até onde podia avistar. Não havia mulheres tomando banho ou lavando roupas, não havia crianças brincando, não havia homens levando cavalos ou burros pelo vau.

Jane pensou em vestir-se, deixar o refúgio e subir mais um pouco pela encosta, até as cavernas. Era onde estavam os aldeões, os homens dormindo depois de uma noite de trabalho nos campos, as mulheres cozinhando e tentando evitar que as crianças se afastassem, as vacas nos currais e as cabras amarradas, os cachorros brigando por restos de comida. Provavelmente ela estava segura ali, pois os russos bombardeavam as aldeias, não as encostas nuas; mas sempre havia a possibilidade de uma bomba extraviada, e uma caverna a protegeria de tudo, a não ser de um impacto direto.

Antes de tomar uma decisão, no entanto, ela ouviu o rugido dos jatos. Estreitou os olhos contra o sol para observá-los. O barulho enchia o vale, sobrepondo-se ao troar do rio, enquanto os aviões passavam por cima, seguindo para nordeste, ainda muito altos, mas descendo, um, dois, três, quatro assassinos prateados, o auge da engenhosidade humana acionado para matar e mutilar camponeses analfabetos, derrubar casas de tijolos de lama e retornar à base a uma velocidade superior a mil quilômetros horários.

Eles desapareceram em um minuto. Banda seria poupada naquele dia. Pouco a pouco, Jane relaxou. Os jatos a apavoravam. Banda escapara completamente ao bombardeio no último verão e todo o vale tivera uma trégua durante o inverno; mas recomeçara com intensidade naquela primavera e Banda já fora atingida várias vezes, uma bomba caindo bem no centro da aldeia. Desde então, Jane odiava os jatos.

A coragem dos aldeões era espantosa. Cada família fizera um segundo lar nas cavernas lá em cima. Eles subiam a encosta todas as manhãs, passando o dia ali, para voltarem ao crepúsculo, pois não havia bombardeio à noite. Como era inseguro trabalhar nos campos durante o dia, os homens deixavam para fazê-lo à noite - ou melhor, os mais velhos o faziam, ja que os jovens mantinham-se ausentes na maior parte do tempo, atirando contra os russos na extremidade meridional do vale ou mais além.

Naquele verão os bombardeios estavam sendo mais intensos do que nunca em todas as áreas rebeldes, segundo as informações que Jean-Pierre colhera entre os guerrilheiros.

Se os afegãos de outras partes do país eram como os daquele vale, seriam capazes de se adaptar e sobreviver: salvando uns poucos bens preciosos dos escombros de uma casa bombardeada, replantando incansavelmente as hortas destruídas, cuidando dos feridos e enterrando os mortos, enviando adolescentes cada vez mais jovens para os líderes das guerrilhas. Jane estava convencida de que os russos jamais conseguiriam derrotar aquela gente, a menos que transformassem toda a região num deserto radiativo.

Já era outra questão se os rebeldes conseguiriam algum dia derrotar os russos. Eram corajosos e persistentes, controlavam os campos, mas tribos rivais odiavam-se quase tanto quanto aos invasores, e seus rifles eram inúteis contra os bombardeiros a jato e os helicópteros blindados.

Jane tratou de afastar da mente os pensamentos de guerra. Era o auge do calor do dia, a hora da sesta, quando gostava de ficar sozinha e relaxar. Pegou uma bolsa de pele de cabra com manteiga clara e começou a passá-la pela pele esticada da enorme barriga, perguntando-se como pudera ser tão tola a ponto de engravidar no Afeganistão.

Chegara com um estoque de pílulas anticoncepcionais para dois anos, um diafragma e uma caixa inteira de geléia espermicida; contudo, apenas poucas semanas depois, esquecera de recomeçar a to mar as pílulas após a menstruação e depois esquecera várias vezes de pôr o diafragma.

- Como pôde cometer um erro desses? - gritara Jean-Pierre.

Ela não pudera responder. Mas agora, deitada ao sol, alegremente grávida, os lindos seios intumescidos e uma dor permanente nas costas, ela podia compreender que fora um erro deliberado, uma espécie de delito profissional de seu inconsciente. Queria um filho, sabia que Jean-Pierre não o desejava, e por isso o tornara possível por acidente.

Por que eu queria tanto ter um filho?, perguntou a si mesma. A resposta surgiu no mesmo instante: porque eu me sentia sozinha.

- Será verdade? - disse ela, em voz alta.

Seria irônico. Jamais se sentira sozinha em Paris, vivendo só, fazendo compras apenas para si, conversando com sua imagem no espelho; mas agora, casada, passando todas as noites com o marido e trabalhando a seu lado durante a maior parte de cada dia, sentia-se isolada, assustada e sozinha.

Haviam casado em Paris pouco antes de viajarem. Parecera de certa forma um elemento natural da aventura: outro desafio, outro risco, outra emoção. Todos comentaram como eles eram felizes, lindos, corajosos e apaixonados, o que era verdade.

Não podia haver qualquer dúvida de que ela esperara tempo demais. Esperara por um amor e intimidade sempre crescentes com Jean-Pierre. Pensara que descobriria tudo sobre a infância de seu amado, do que ele realmente tinha medo, se era verdade que os homens sacudiam as gotas depois de urinarem; por sua vez, contaria a ele que o pai fora um alcoólatra, que tinha uma fantasia de ser estuprada por um negro e que às vezes chupava o polegar, quando se sentia ansiosa. Mas Jean-Pierre parecia pensar que o relacionamento depois do casamento deveria continuar exatamente como antes. Tratava-a com extrema cortesia, fazia-a rir em seus acessos cômicos, aconchegava-se desamparado em seus braços quando estava deprimido, discutia política e a guerra, fazia amor com eficiência uma vez por semana, com seu corpo esguio e jovem, as mãos fortes e sensíveis de cirurgião, comportava-se sob todos os aspectos como um namorado, e não como um marido. Jane ainda se sentia incapaz de conversar com ele sobre coisas tolas e embaraçosas, como se um turbante fazia seu nariz parecer mais comprido, como ainda se sentia furiosa pela surra que levara por ter derramado tinta vermelha no tapete da sala de estar, quando na verdade a culpada fora sua irmã Pauline. Ela queria perguntar a alguém É assim que deve ser, ou vai melhorar? Mas as amigas e a família estavam muito longe, e as mulheres afegãs achariam que suas expectativas eram afrontosas. Ela resistira à tentação de confrontar Jean-Pierre com seu desapontamento, em parte porque a queixa era muito vaga, em parte porque tinha medo da resposta dele.

Recordando, ela podia perceber que a idéia de um filho se insinuara em sua mente antes mesmo, quando saía com Ellis Thaler. Naquele ano voara de Paris a Londres para assistir ao batizado do terceiro filho de sua irmã Pauline, algo que normalmente não faria, pois detestava as reuniões formais de família. Também começara a tomar conta de um bebê para um casal que morava em seu prédio, um histérico negociante de antigüidades e sua mulher aristocrática. Gostava principalmente quando a criança chorava e ela tinha de pegá-la no colo e niná-la.

E depois, ali no vale, onde seu dever era orientar as mulheres a planejarem seus filhos, em benefício de crianças mais saudáveis, descobrira-se a partilhar a alegria com que cada nova gravidez era saudada, mesmo nas casas mais pobres e mais apinhadas. Assim, a solidão e o instinto maternal conspiraram contra o bom senso. Houve um tempo - mesmo que apenas um instante fugaz - em que compreendera que o inconsciente estava querendo engravidá-la? Teria pensado Posso ter um filho no momento em que Jean Pierre a penetrara, deslizando lenta e graciosamente como um navio para o porto, enquanto seus braços apertavam o corpo dele; ou no segundo de hesitação, imediatamente antes do orgasmo de JeanPierre, quando ele fechava os olhos com força e parecia se retirar das profundezas dela para si mesmo, uma espaçonave caindo no coração do sol; ou depois, enquanto ela resvalava feliz para o sono, com o sêmen quente dentro de si?

- Será que compreendi? - disse ela, em voz alta.

Mas pensar em fazer amor deixara-a excitada, e começou a se acariciar lascivamente, com as mãos escorregadias da manteiga, esquecendo a indagação e deixando que a mente fosse povoada com imagens de paixão, vagas e turbilhonantes.

O barulho dos jatos trouxe-a de volta ao mundo real. Olhou, apavorada, enquanto outros quatro bombardeiros passavam pelo vale e desapareciam. Depois que o barulho cessou, ela recomeçou a se acariciar, mas o clima fora arruinado. Ficou imóvel, ao sol, e pensou no filho.

Jean-Pierre reagira à gravidez de acordo com o previsto. Ficara tão furioso que quisera realizar um aborto no mesmo instante.

Jane achara esse desejo terrivelmente macabro e de repente ele lhe parecera um estranho. Mais difícil de suportar, no entanto, fora o sentimento de rejeição. O pensamento de que o marido não queria o filho a deixara desolada. Jean-Pierre agravara ainda mais a situação ao se recusar a tocá-la. Ela nunca se sentira tão desesperada em toda a sua vida. Pela primeira vez, compreendera por que as pessoas às vezes tentavam se matar. O término do contato físico fora a pior de todas as torturas ela chegara a desejar, com toda a sinceridade, que Jean-Pierre a espancasse em vez de se afastar, de tanto que precisava ser tocada. Quando se lembrava daqueles dias, Jane ainda se sentia furiosa com o marido, embora fosse ela própria quem provocara tudo.

E chegara a manhã em que ele a abraçara e pedira desculpas por seu comportamento; embora parte de Jane ainda quisesse dizer "Pedir desculpas não é suficiente, seu filho da puta", o resto dela estava desesperado pelo amor de Jean-Pierre, e por isso ela o perdoara imediatamente. Ele explicara que já estava com medo de perdêla; e se ela fosse a mãe de seu filho, então ficaria absolutamente apavorado, pois nesse caso poderia perder a ambos. A confissão levara-a às lágrimas e ela compreendera que, ao engravidar, assumira o supremo compromisso com Jean-Pierre. Tomara então a decisão de fazer com que o casamento desse certo, independente do que pudesse acontecer.

Ele se tornara mais afetuoso depois disso. Passara a se interessar pelo bebê crescendo em sua barriga, preocupava-se com a saúde e segurança de Jane, como os pais ansiosos costumam fazer. O casamento seria uma união imperfeita mas feliz, pensou Jane, imaginando um futuro ideal, com Jean-Pierre como ministro da Saúde da França, num governo socialista, ela própria eleita para o Parlamento Europeu, três filhos brilhantes, um na Sorbonne, outro na Escola de Economia de Londres e o terceiro na Escola de Arte Dramática de Nova York.

Nessa fantasia, a criança mais velha e mais inteligente era uma menina. Jane tocou na barriga, comprimindo-a de leve com as pontas dos dedos, sentindo os contornos do bebê. Segundo Rabia Gul, a velha parteira da aldeia, seria uma menina, pois podia ser sentida no lado esquerdo, enquanto os garotos cresciam no lado direito.

Por isso, Rabia prescrevera uma dieta de vegetais, especialmente pimentão verde. Para um garoto, ela recomendaria muita carne e peixe. No Afeganistão, os homens eram melhor alimentados, antes mesmo de nascerem.

Os pensamentos de Jane foram interrompidos por um estrondo alto. Ficou confusa por um momento, associando a explosão com os jatos que haviam passado vários minutos antes, a caminho para bombardear alguma outra aldeia; e depois ouviu, bem perto, o grito alto e contínuo de uma criança, em dor e pânico.

Compreendeu no mesmo instante o que acontecera. Os russos, usando táticas que aprenderam dos americanos no Vietnam, haviam coalhado o interior com minas contrapessoais.

O objetivo ostensivo era bloquear as linhas de suprimentos dos guerrilheiros; mas como as "linhas de suprimentos dos guerrilheiros" eram as trilhas nas montanhas usadas todos os dias por velhos, mulheres, crianças e animais, o verdadeiro propósito era o de semear o terror. Aquele grito significava que uma criança detonara uma mina.

Jane levantou-se de um pulo. O som parecia vir de algum lugar nas proximidades da casa do mula, a menos de um quilômetro da aldeia, já na trilha que subia pela encosta.

Jane podia vê-la, à esquerda, um pouco mais abaixo. Calçou os sapatos, pegou as roupas e correu nessa direção. O primeiro grito prolongado terminou e começou uma série de berros curtos e aterrorizados. Jane calculou que a criança percebera os danos que a mina causara a seu corpo e gritava agora de pavor. Correndo pela vegetação rasteira, Jane compreendeu que também estava entrando em pânico, tão perenptório era o chamado da criança desesperada.

- Acalme-se - murmurou para si mesma, ofegante.

Se sofresse uma queda, haveria duas pessoas em dificuldade, e não apenas uma para socorrer. Além do mais, a pior coisa para uma criança assustada era um adulto assustado.

Ela estava perto agora. A criança devia estar escondida nas moitas e não na trilha, pois todas as trilhas eram limpadas pelos homens cada vez que os russos as minavam, mas seria impossível remover as minas de toda a encosta.

Jane parou, escutando. Arfava tão alto que teve de prender a respiração. Os gritos partiam de uma área de capim e zimbros. Entreabriu as moitas e vislumbrou um pedaço de um casaco azul. A criança devia ser Mousa, o filho de nove anos tie Mohammed Khan, um dos líderes das guerrilhas. Um momento depois ela estava ao lado do menino.

Mousa estava ajoelhado na terra. Era evidente que tentara pegar a mina, pois a explosão arrancara sua mão e ele agora olhava para o coto ensangüentado, os olhos arregalados e desvairados, gritando em terror.

Jane vira muitos ferimentos durante o último ano, mas aquele a comoveu.

- Oh, Deus - murmurou ela. - Pobre menino! Ajoelhando-se na frente do menino, ela abraçou-o, murmurou sons tranqüilizadores. Ele parou de gritar depois de um momento. Jane torceu para que ele começasse a chorar, mas o menino estava chocado demais e permaneceu em silêncio. Enquanto o abraçava, ela procurou e encontrou o ponto de pressão na axila, detendo o jorro de sangue. Ia precisar de ajuda. Devia fazê-lo falar.

- O que aconteceu, Mousa? - ela perguntou, em dari. Ele não respondeu. Jane repetiu a pergunta.

- Eu pensei... - Os olhos se arregalaram ainda mais enquanto lembrava, a voz se alteou para um grito quando acrescentou: - Eu pensei que fosse UMA BOLA!

- Calma, calma - murmurou Jane. - Conte-me o que você fez.

- EU PEGUEI! EU PEGUEI!

Ela abraçou-o com força, procurando acalmá-lo.

- E o que aconteceu?

A voz do menino estava agora trêmula, mas não era mais histérica:

- Explodiu.

Ele se acalmava depressa. Jane pegou-lhe a mão direita e a colocou sob o braço esquerdo.

- Aperte onde estou apertando. - Ela guiou as pontas dos dedos de Mousa, enquanto retirava os seus. O sangue recomeçou a fluir do ferimento. - Aperte com força.

Ele obedeceu. A hemorragia cessou. Jane beijou-o na testa. Estava úmida e fria.

Ela largara suas roupas no chão, ao lado de Mousa. Usava as roupas das mulheres afegãs: um vestido em forma de saco por cima de uma calça de algodão. Pegou o vestido e rasgou o pano fino em várias tiras, depois começou a fazer um torniquete. Mousa a observava, os olhos arregalados, em silêncio. Jane quebrou um graveto seco de um zimbro e o usou para rematar o torniquete.

Ele precisava agora de uma atadura, um sedativo, um antibiótico para evitar a infecção e da mãe para evitar o trauma.

Jane vestiu a calça e amarrou o cordão. Desejou não ter sido tão precipitada ao rasgar o vestido, pois poderia ter preservado o suficiente para cobrir a parte superior do corpo. Agora, teria de torcer para não encontrar algum homem a caminho das cavernas.

E como levaria Mousa até lá? Não queria tentar fazê-lo andar. Não podia carregá-lo nas costas, pois ele provavelmente não conseguiria se segurar. Ela suspirou: teria de levá-lo nos braços. Agachouse, passou um braço pelos ombros do menino, outro por baixo das coxas. Levantou-o, fazendo força nos joelhos e não nas costas, como

aprendera nas aulas de educação física. Aninhando o menino no colo, as costas repousando sobre a elevação de sua barriga, ela começou a subir pela encosta, devagar.

Só o conseguia porque ele estava desnutrido: um garoto europeu de nove anos seria pesado demais.

Ela não demorou a deixar as moitas e encontrar a trilha. Mas sentiu-se exausta depois de quarenta ou cinqüenta metros. Nas últimas semanas cansava-se muito depressa, o que a irritava, mas aprendera a não lutar contra isso. Pôs Mousa no chão e manteve-o de pé, abraçando-o gentilmente, enquanto descansava, encostada no paredão do penhasco que se estendia a um lado da trilha. Ele mergulhara num silêncio apático, que Jane achava mais preocupante que os gritos. Assim que se sentisse melhor, tornaria a pegá-lo no colo e recomeçaria a subida.

Ela estava descansando perto do topo da colina, quinze minutos depois, quando um homem apareceu na trilha, à sua frente. Jane reconheceu-o.

- Oh, não! - murmurou ela, em inglês. - Entre todas as pessoas... Logo Abdullah!

Era um homem baixo, em torno dos 55 anos, um tanto atarracado, apesar da escassez de comida. com o turbante castanho amarelado e a calça preta larga, ele usava uma suéter em losangos de várias cores e um jaquetão listrado azul que dava a impressão de ter sido vestido outrora por um austero corretor londrino. A barba abundante era pintada de vermelho. Abdullah era o mula de Banda.

Ele desconfiava dos estrangeiros, desprezava as mulheres e odiava todos os praticantes da medicina estrangeira. Jane, sendo as três coisas, nunca tivera a menor possibilidade de conquistar sua afeição. Para agravar ainda mais a situação, muitas pessoas no vale haviam chegado à conclusão de que tomar os antibióticos de Jane era um tratamento mais eficaz para as infecções do que aspirar a fumaça de um pedaço de papel queimando em que Abdullah escrevera com tinta de açafrão; com isso, o mula estava perdendo dinheiro. Sua reação era se referir a Jane como "a prostituta ocidental". Mas era difícil ele fazer mais do que isso, pois ela e Jean-Pierre estavam sob a proteção de Ahmed Shah Masud, o líder guerrilheiro, e até mesmo um mula hesitava em enfrentar um grande herói.

Ao vê-la, Abdullah estacou abruptamente, uma expressão de extrema incredulidade transformando seu rosto normalmente solene numa máscara cômica. Era a pior pessoa que Jane poderia encontrar. Qualquer outro homem da aldeia ficaria embaraçado e talvez ofendido ao vê-la seminua, mas Abdullah ficaria enfurecido. Jane resolveu apelar para o descaramento e disse em dari:

- A paz esteja com você.

Era o começo de um intercâmbio formal de saudações, que poderia às vezes se prolongar por cinco ou dez minutos. Mas Abdullah não respondeu com o usual E com você.

Em vez disso, abriu a boca e começou, a voz alta e estridente, a insultá-la, com um jorro de imprecações que incluíam as palavras em dari para prostituta, pervertida e sedutora de crianças. Seu rosto ficou roxo de fúria, ele se adiantou e levantou o bastão.

Aquilo estava indo longe demais. Jane apontou para Mousa, que estava de pé ao seu lado, em silêncio, atordoado pela dor e fraco pela perda de sangue.

- Olhe bem! - berrou ela para Abdullah. - Não está vendo...

Mas ele estava ofuscado pela raiva. Antes que Jane pudesse concluir o que estava querendo dizer, o mula acertou com o bastão em sua cabeça. Jane soltou um grito de dor e raiva; ficou surpresa pela intensidade da dor e furiosa porque Abdullah se atrevera a agredi-la.

Ele ainda não notara o ferimento de Mousa. Os olhos do mula estavam focalizados no peito de Jane e ela compreendeu, num relance, que a visão dos seios nus de uma mulher branca ocidental, grávida, em plena luz do dia, estava tão cercada de diferentes tipos de ansiedade sexual que ele inevitavelmente explodiria. Não planejava puni-la com um ou dois golpes, como poderia castigar sua esposa por desobediência. Havia morte em seu coração.

Subitamente, Jane sentiu-se apavorada - por si mesma, por Mousa, por seu filho que ainda não nascera. Ela cambaleou para trás, fora de alcance, mas Abdullah avançou, tornando a erguer o bastão. Numa repentina inspiração, ela pulou para cima dele, espetando os dedos em seus olhos.

Ele esbravejou como um touro ferido. Estava mais indignado pelo fato de uma mulher a quem espancava ousar revidar do que propriamente machucado. Enquanto ele estava

Momentaneamente cego, Jane agarrou sua barba com as duas mãos e puxou. O mula cambaleou para a frente, tropeçou e caiu. Rolou uns poucos metros pela encosta e foi parar num salgueiro-anão.

Jane pensou: Santo Deus, o que eu fiz?

Olhando para o sacerdote pomposo e maligno em sua humilhação, Jane teve certeza de que ele nunca mais esqueceria. Poderia se queixar aos "barbas brancas", os anciãos da aldeia. Poderia procurar Masud e exigir que os médicos estrangeiros fossem embora. Poderia até tentar incitar os homens de Banda a apedrejarem Jane. Mas quase no mesmo instante em que tudo isso lhe ocorreu, ela pensou que, para apresentar qualquer queixa, Abdullah teria de contar a história em todos os seus detalhes ignominiosos,

e os aldeões certamente ririam dele, pois os afegãos podiam ser qualquer coisa, menos cruéis. Assim, talvez ela pudesse escapar.

Jane virou-se. Tinha algo mais importante com que se preocupar. Mousa continuava parado onde ela o deixara, em silêncio, impassível, chocado demais para compreender o que acontecera. Jane respirou fundo, tornou a pegá-lo no colo e continuou a subir.

Chegou à crista da colina depois de mais alguns passos e pôde andar mais depressa, pois a trilha se nivelava. Atravessou o platô rochoso. Sentia-se cansada e as costas doíam, mas estava quase chegando: as cavernas ficavam logo abaixo do topo. Alcançou o outro lado da crista e ouviu vozes de crianças ao começar a descer.

Um instante depois Jane avistou um grupo de crianças de seis anos brincando de céu-inferno, brincadeira em que duas crianças levavam uma, que tinha que segurar os dedos dos pés para o Céu - quando se dava um jeito de não os largar - ou Inferno, geralmente um depósito de lixo ou uma latrina, quando se largava. Ela compreendeu que Mousa nunca mais poderia participar daquela brincadeira e foi dominada de repente por um senso de tragédia. Nesse momento as crianças a notaram, pararam de brincar e ficaram observando-a, enquanto ela passava. Uma delas sussurrou:

- Mousa...

Outra repetiu o nome e depois o encantamento foi quebrado, todos saíram correndo à frente de Jane, gritando a notícia.

O esconderijo diurno dos aldeões de Banda parecia o acampamento no deserto de uma tribo de nômades: o chão poeirento, o sol ardente do meio-dia, os remanescentes das fogueiras de cozinhar, as mulheres encapuzadas, as crianças sujas. Jane cruzou o pequeno quadrado de terreno plano na frente das cavernas. As mulheres já se dirigiam para a caverna maior, que Jane e Jean-Pierre haviam convertido em clínica. Jean-Pierre ouviu o tumulto e saiu. Agradecida, Jane entregou-lhe Mousa, dizendo em francês:

- Foi uma mina. Ele perdeu a mão. Dê-me sua camisa. Jean-Pierre levou Mousa para o interior da caverna e estendeu-o no tapete que servia como mesa de exame. Antes de cuidar do menino, ele tirou sua camisa caqui manchada e entregou-a a Jane. Ela vestiu-a. Sentia-se um pouco tonta.

Pensou em sentar e descansar, no fundo fresco da caverna. Mas depois de dar dois ou três passos nessa direção, mudou de idéia e sentou-se onde estava. Jean-Pierre disse:

- Passe-me as mechas.

Jane ignorou-o. A mãe de Mousa, Halima, entrou correndo na caverna e começou a gritar quando viu o filho. Eu deveria acalmá-la, pensou Jane, a fim de que ela possa confortar o menino; por que não consigo levantar? Acho que Vou fechar os olhos. Só por um instante.

Ao cair da noite, Jane sabia que seu bebê estava chegando.

Quando voltou a si, depois de desmaiar na caverna, tinha o que pensou ser uma dor nas costas, causada por carregar Mousa. JeanPierre concordou com esse diagnóstico, deu-lhe uma aspirina e mandou que ficasse deitada. Rabia, a parteira, entrou na caverna para ver Mousa e olhou Jane atentamente, que na ocasião não entendeu o significado.

Jean-Pierre limpou e fez um curativo no coto de Mousa, deu-lhe penicilina e aplicou uma injeção antitetânica. O menino não morreria de infecção, como quase certamente aconteceria sem os medicamentos ocidentais. Apesar disso, no entanto, Jane conjeturou se a vida valeria a pena para ele. A sobrevivência ali já era difícil até para os mais capazes fisicamente, e as crianças aleijadas geralmente morriam cedo.

Ao final da tarde Jean-Pierre preparou-se para sair. Tinha marcado uma visita para atender os doentes em uma aldeia a vários quilômetros dali e - por algum motivo que Jane jamais compreendeu direito - nunca faltava a esses compromissos, mesmo sabendo que nenhum afegão ficaria surpreso se ele se atrasasse um dia ou uma semana.

Quando deu um beijo de despedida em Jane, ela já começava a se perguntar se a dor nas costas não seria o início do trabalho de parto, provocado prematuramente pela provação com Mousa. Mas como nunca tivera um filho antes, não podia saber com certeza e achou que seria improvável. Perguntou a Jean-Pierre, que respondeu incisivamente:

- Não se preocupe. Ainda terá de esperar mais seis semanas. Ela perguntou se não seria melhor ele ficar, de qualquer forma, mas Jean-Pierre afirmou que era totalmente desnecessário. Jane sentiu-se tola e deixou-o partir, os suprimentos médicos carregados num pônei esquelético, para poder chegar a seu destino antes do escurecer e poder começar a trabalhar bem cedo na manhã seguinte.

Quando o sol começou a se pôr atrás do paredão rochoso a oeste e o vale foi invadido pelas sombras, Jane desceu a encosta com as mulheres e crianças até a aldeia às escuras, enquanto os homens se encaminhavam para os campos, a fim de realizar a colheita, enquanto os bombardeiros dormiam.

A casa em que Jane e Jean-Pierre estavam instalados pertencia ao comerciante da aldeia, que perdera a esperança de ganhar dinheiro em tempo de guerra - não havia quase nada para vender - e fora para o Paquistão com a família. O cômodo da frente, anteriormente a loja, fora a clínica de Jean-Pierre, até que a intensidade dos bombardeios do verão expulsara os aldeões para as cavernas durante o dia. A casa tinha dois quartos nos fundos, um para os homens e seus hóspedes, outro para as mulheres e crianças. Jane e Jean-Pierre usavam esses cômodos como quarto e sala de estar. Ao lado da casa havia um pátio murado, onde ficava o fogão, e também um pequeno poço, para lavar roupa, louça e crianças. O comerciante deixara alguns móveis de fabricação doméstica, e os aldeões haviam emprestado a Jane alguns lindos tapetes para o chão. Jane e Jean-Pierre dormiam sobre um colchão, como os afegãos, mas usavam sacos de dormir em vez de cobertores. Como os afegãos, enrolavam o colchão durante o dia ou estendiam no telhado plano para arejar com o tempo bom. Durante o verão todos dormiam nos telhados.

Descer da caverna para a casa teve um efeito peculiar sobre Jane. A dor nas costas ficou muito pior e ela estava prestes a desabar de dor e exaustão quando chegou na casa. Sentia uma vontade desesperada de urinar, mas estava cansada demais para ir até a latrina lá fora, e por isso usou o penico de emergência, por trás de uma tela, no quarto. Foi nessa ocasião que notou uma pequena mancha de sangue na entreperna da calça de algodão.

Não tinha energia suficiente para subir a escada externa e pegar o colchão no telhado, por isso deitou-se num tapete no quarto. A "dor nas costas" vinha em ondas sucessivas. Ela pôs as mãos na barriga durante a onda seguinte e sentiu o volume se mexer, projetando-se para a frente enquanto a dor aumentava, depois recuando quando a dor diminuía. E não teve mais qualquer dúvida de que estava com contrações.

Ficou apavorada. Lembrou a conversa com a irmã Pauline sobre parto. Depois do primeiro filho de Pauline, Jane a visitara, levando uma garrafa de champanha e um pouco de marijuana. Quando estavam bastante relaxadas, Jane perguntara como era realmente, ao que Pauline respondera:

- Como cagar um melão.

As duas riram pelo que pareceram horas. Só que Pauline fizera o parto no hospital-escola da universidade, no centro de Londres, e não numa casa de tijolos de lama, no Vale dos Cinco Leões.

Jane pensou: O que Vou fazer?

Não devo entrar em pânico. Tenho de me lavar com água quente e sabonete; arrumar uma tesoura afiada e deixá-la na água fervendo por quinze minutos; pegar lençóis limpos para deitar em cima, tomar líquidos; e relaxar.

Mas outra contração começou antes de ela poder fazer qualquer coisa, uma dor intensa demais. Fechou os olhos e tentou fazer respirações lentas, profundas e regulares, como Jean-Pierre ensinara, mas era difícil controlar-se quando tudo o que queria era gritar de medo e dor.

O espasmo deixou-a esgotada. Ficou imóvel, recuperando-se. Compreendeu que não poderia fazer qualquer das coisas que relacionara: não conseguiria realizar nada sozinha.

Assim que se sentisse bastante forte, levantaria e iria à casa mais próxima, pedindo às mulheres que fossem chamar a parteira.

A contração seguinte veio mais cedo do que ela esperava, depois de um intervalo que parecia apenas de um ou dois minutos. Enquanto a tensão alcançava o auge, Jane disse em voz alta:

- Por que nunca dizem à gente o quanto dói!

Depois que o auge da dor passou, ela se forçou a levantar. O terror de dar à luz sozinha proporcionou-lhe a força necessária. Cambaleou do quarto para a sala. Sentia-se um pouco mais forte a cada passo. Saiu para o pátio, onde de repente um jorro de líquido quente escorreu-lhe entre as coxas, deixando a calça encharcada: a bolsa d'água rompera.

- Oh, não! - gemeu Jane. , Ela encostou-se no batente da porta. Não sabia se poderia andar sequer uns poucos metros, com a calça caindo daquela maneira. Sentiu-se humilhada e murmurou:

- Tenho de andar...

Mas uma nova contração começou e ela arriou no chão pensando: Terei de fazer tudo sozinha.

Quando abriu os olhos de novo, viu o rosto de um homem perto do seu. Parecia um xeque árabe: pele castanho-escura, olhos pretos, bigode preto, as feições aristocráticas, com malares salientes, nariz aquilino, dentes brancos, queixo comprido. Era Mohammed Khan, o pai de Mousa.

- Graças a Deus - murmurou Jane, a voz engrolada.

- Vim agradecer por salvar a vida de meu filho - disse Mohammed, em dari. - Está doente?

- Estou tendo um filho.

- Agora? - disse ele, aturdido.

- Daqui a pouco. Ajude-me a entrar em casa.

Mohammed hesitou - o parto, como todas as coisas exclusivamente femininas, era considerado impuro - mas para sua crença, a hesitação foi apenas momentânea. Ajudou Jane a ficar de pé e amparou-a, através da sala e entrando no quarto. Ela tornou a se deitar no tapete e balbuciou:

- Vá buscar ajuda.

Ele franziu o rosto, sem saber o que fazer, parecendo muito infantil e bonito.

- Onde está Jean-Pierre?

- Foi a Khawak. Preciso de Rabia.

- Está bem. Falarei com minha esposa.

- Antes de sair...

- O que é?

- Por favor, dê-me um pouco de água.

Mohammed parecia chocado. Era inaudito um homem servir uma mulher, mesmo com um simples copo d'água. Jane acrescentou:

- Da moringa especial.

Ela mantinha uma moringa com água filtrada e fervida para beber: era a única maneira de evitar os numerosos parasitas intestinais de que quase todos os habitantes locais sofriam durante toda a vida. Mohammed decidiu ignorar a convenção.

- Está certo.

Ele passou para a sala e voltou um momento depois com um copo d'água. Jane agradeceu e tomou um gole.

- Mandarei Halima chamar a parteira - disse ele.         " - Halima era sua esposa.

- Obrigada - murmurou Jane. - Diga a ela para se apressar.

Mohammed retirou-se. Jane tinha sorte por ser ele e não um dos outros homens. Qualquer outro se recusaria a tocar numa mulher doente, mas Mohammed era diferente.

Era um dos mais importantes guerrilheiros, e na prática era o representante local do líder rebelde, Masud. Mohammed tinha apenas vinte e quatro anos, mas naquele país não era uma idade muito precoce para ser um líder guerrilheiro nem ter um filho de nove anos. Ele estudara em Kabul, falava um pouco de francês, e sabia que os costumes no vale não eram as únicas formas de comportamento educado no mundo. Sua principal responsabilidade era organizar os comboios para o Paquistão, com seus suprimentos vitais de armas e munição para os rebeldes. Fora um comboio assim que trouxera Jane e Jean-Pierre ao Vale.

Esperando pela próxima contração, Jane recordou a terrível viagem. Julgava-se uma pessoa saudável, ativa e forte, capaz de andar durante o dia inteiro com relativa facilidade. Mas não previra a escassez de comida, as escaladas íngremes, as trilhas pedregosas e a diarréia debilitante. Em partes do percurso haviam se deslocado apenas à noite, com medo dos helicópteros russos. Também tiveram de enfrentar aldeões hostis em alguns lugares: temendo que o comboio atraísse um ataque russo, eles se recusavam a vender comida aos guerrilheiros, escondiam-se por trás de portas trancadas, ou orientavam o comboio para uma campina ou pomar a alguns quilômetros

de distância, um local perfeito para acampamento, mas que logo se descobria não existir.

Por causa dos ataques russos, Mohammed mudava constantemente os percursos. Jean-Pierre trouxera de Paris mapas americanos do Afeganistão, que eram melhores do que qualquer coisa que os rebeldes possuíam. Por isso, Mohammed visitava a casa com freqüência, a fim de consultá-los, antes de enviar um novo comboio.

Na verdade, Mohammed aparecia com mais freqüência do que era realmente necessário. Também falava com Jane mais do que os homens afegãos normalmente fariam, fazia contato visual um pouco além da conta e não deixava de contemplar furtivamente seu corpo. Jane achava que ele estava apaixonado por ela ou pelo menos estivera até que sua gravidez se tornara visível.

E Jane, por sua vez, sentira-se atraída por ele na ocasião em que estava furiosa com Jean-Pierre. Mohammed era esguio, moreno, forte e poderoso, e pela primeira vez em sua vida ela se sentia atraída por um empedernido porco chauvinista.

Poderia ter um caso com ele. Mohammed era um muçulmano devoto, como todos os guerrilheiros, mas ela duvidava que isso fizesse alguma diferença. Ela acreditava no que seu pai costumava dizer: "A convicção religiosa pode frustrar um desejo tímido, mas nada pode deter a luxúria genuína." Esse comentário em particular enfurecera a mãe. A verdade é que havia tanto adultério naquela puritana comunidade camponesa quanto em qualquer outro lugar, como Jane compreendera ao escutar as conversas das mulheres à beira do rio, enquanto pegavam água ou tomavam banho. E Jane também sabia como se fazia. Mohammed lhe dissera:

- Pode-se ver o peixe pular ao crepúsculo sob a cachoeira, além do último moinho. Vou até lá algumas noites para pegá-los.

Ao anoitecer, todas as mulheres ficavam cozinhando e os homens se sentavam no pátio da mesquita, conversando e fumando: amantes não seriam descobertos tão longe da aldeia e ninguém daria pela falta de Jane ou Mohammed.

A perspectiva de fazer amor junto a uma cachoeira com aquele homem bonito e primitivo tentara Jane. Mas depois ela engravidara, Jean-Pierre confessara como tinha medo de perdê-la. Jane decidira então devotar todas as suas energias a fazer com que o casamento desse certo, de qualquer maneira. Assim, ela nunca foi à cachoeira, e Mohammed deixou de admirar seu corpo depois que a gravidez se tornara patente.

Talvez fosse a intimidade latente que encorajara Mohammed a entrar e ajudá-la, quando outros homens teriam recusado e poderiam até se desviar de sua porta. Ou talvez

fosse por causa de Mousa. Mohammed tinha apenas um filho - e três filhas - e provavelmente sentia-se agora em dívida para com Jane. Conquistei um amigo e um inimigo hoje, pensou ela: Mohammed e Abdullah.

A dor começou outra vez e ela compreendeu que desfrutara de uma trégua mais longa que o habitual. As contrações estariam se tornando irregulares? Por quê? Jean-Pierre nada dissera a respeito. Mas ele esquecera uma boa parte da ginecologia que estudara há três ou quatro anos.

Aquela contração fora a pior até então e deixou-a trêmula e nauseada. O que acontecera com a parteira? Mohammed devia ter mandado a esposa buscá-la - ele não esqueceria nem mudaria de idéia. Mas ela obedeceria ao marido? Claro. As mulheres afegãs sempre obedeciam.

Mas ela podia andar devagar, conversar no caminho ou até mesmo parar em outra casa para tomar um chá. Se havia adultério no Vale dos Cinco Leões, haveria também o ciúme, e Halima certamente saberia ou pelo menos adivinharia os sentimentos do marido por Jane - as esposas sempre intuíam. Ela podia estar agora ressentida por lhe ser pedido para correr em ajuda da rival, a estrangeira exótica, de pele branca, instruída, que tanto fascinava seu marido. E de repente Jane sentiu-se furiosa com Mohammed e também com Halima. Não fiz nada de errado, pensou ela. Por que todos me abandonaram? Por que meu marido não está aqui? Quando outra contração começou, ela desatou a chorar. Era demais.

- Não posso continuar - disse ela em voz alta.

Tremia incontrolavelmente. Queria morrer antes que a dor piorasse. E soluçou:

- Oh, mamãe, ajude-me...

E de repente havia um braço forte em torno de seus ombros, uma voz de mulher em seu ouvido murmurava algo incompreensível, mas tranquilizador, em dari. Sem abrir os olhos, Jane agarrou a outra mulher, chorando e gritando, enquanto a contração se tornava mais intensa. Finalmente começou a se desvanecer, muito devagar, mas com uma sensação de alívio, como se pudesse ser a última ou pelo menos a última dolorosa.

Jane levantou os olhos e deparou com os serenos olhos castanhos e as faces escuras da velha Rabia, a parteira.

- Que Deus esteja com você, Jane Debout.

Jane sentiu-se aliviada, como se estivesse livre de um fardo opressivo.

- E com você também, Rabia Gul - sussurrou ela, agradecida.

- As dores estão vindo depressa? ! - A cada um ou dois minutos.

Outra voz de mulher disse:

- O bebê está chegando cedo.

Jane virou a cabeça e viu Zahara Gul, a nora de Rabia, uma mulher sensual de sua idade, cabelos ondulados quase pretos, a boca larga e risonha. Entre todas as mulheres da aldeia, Zahara era a única com quem Jane sentia alguma ligação.

- Fico contente de que você esteja aqui - balbuciou ela.

- O nascimento foi provocado por você ter subido com Mousa no colo - comentou Rabia.

- Só isso? - indagou Jane.

- Já é suficiente.

Então elas não sabem da briga com Abdullah, pensou Jane. Ele resolvera não contar a ninguém. Rabia acrescentou:

- Devo preparar tudo para a criança?

- Deve sim, por favor.

Só Deus sabe a que espécie de ginecologista primitiva estou me entregando, pensou Jane; mas não posso fazer isso sozinha, é absolutamente impossível.

- Gostaria que Zahara fizesse um chá? - indagou Rabia.

- Quero sim, por favor.

Pelo menos não havia nada de supersticioso nisso. As duas mulheres entraram em atividade. A simples presença delas já fazia com que Jane se sentisse melhor. Era

maravilhoso, pensou ela, que Rabia pedisse permissão para ajudar - um médico ocidental teria entrado e assumido o controle como se fosse dono do lugar. Rabia lavou

as mãos ritualmente, pedindo aos profetas para deixá-la de rosto vermelho - o que significava bem-sucedida - depois tornou a lavá-las meticulosamente, com sabão

e muita água. Zahara trouxe um pote com arruda silvestre e Rabia acendeu-o. Jane recordou que os maus espíritos eram afugentados pelo cheiro da arruda queimando.

Consolou-se com o pensamento de que a fumaça acre manteria as moscas fora do quarto.

Rabia era um pouco mais que uma parteira. Trazer crianças ao mundo era sua atividade principal, mas ela também tinha tratamentos herbáceos e mágicos para aumentar a fertilidade das mulheres que encontravam dificuldade para engravidar. Também conhecia métodos de evitar a concepção e provocar o aborto, mas havia muito menos demanda para esses serviços: as mulheres afegãs geralmente queriam ter muitos filhos. Rabia também era consultada sobre qualquer doença "feminina". E quase sempre lhe pediam para lavar os mortos - tarefa considerada impura, da mesma forma que realizar partos.

Jane observou-a se movimentar pelo quarto. Provavelmente era a mulher mais velha da aldeia, em torno dos sessenta anos. Era baixa - não devia ter mais que um metro e meio de altura - e muito magra, como a maioria das pessoas ali. O rosto moreno encarquiIhado estava emoldurado por cabelos brancos. Seus movimentos eram suaves, as mãos velhas e ossudas eram precisas e eficientes.

O relacionamento de Jane com ela começara sob desconfiança e hostilidade. Quando Jane lhe perguntara quem ela chamava no caso de partos difíceis, Rabia respondera bruscamente:

- Que o diabo esteja surdo, nunca tive um nascimento difícil e nunca perdi uma mãe ou uma criança.

Mais tarde, quando as mulheres da aldeia começaram a procurar Jane por causa de pequenos problemas menstruais ou gestações de rotina, ela as encaminhava a Rabia, em vez de receitar remédios inócuos; fora o começo de um relacionamento profissional. Rabia consultara Jane sobre uma mãe que tivera um parto recente e estava com infecção vaginal. Jane lhe dera um suprimento de penicilina e explicara como aplicá-la. O prestígio de Rabia subira ainda mais quando se espalhara a notícia de que lhe haviam sido confiados os segredos da medicina ocidental; e Jane pudera lhe dizer, sem ofensa, que ela fora a causa provável da infecção, pelo expediente de lubrificar manualmente o canal de nascimento durante o parto.

Desse momento em diante, Rabia começara a aparecer na clínica uma ou duas vezes por semana, a fim de conversar com Jane e observá-la trabalhar. Jane aproveitara essas ocasiões para explicar, de maneira casual, por que punha todos os seus instrumentos em água fervendo depois de usá-los, por que dava bastante líquido a crianças com diarréia.

Rabia, por sua vez, revelara alguns de seus segredos a Jane, que se mostrara interessada em saber o que havia nas poções. Fora fácil imaginar como algumas funcionavam: as poções para promover a gravidez continham cérebro de coelho ou fígado de gato, que podiam proporcionar os hormônios que faltavam no metabolismo da paciente; a hortelã e a erva-dos-gatos em muitos preparados provavelmente ajudavam a acabar com as infecções que impediam a concepção. Rabia também tinha um medicamento para que as esposas dessem aos maridos impotentes e não havia qualquer dúvida quanto à maneira como funcionava: continha ópio.

A desconfiança fora substituída por um cauteloso respeito mútuo. Mas Jane não consultara Rabia sobre a sua própria gravidez. Uma coisa era admitir que a mistura de folclore e feitiçaria de Rabia podia funcionar em mulheres afegãs, outra muito diferente era submeter-se a isso. Além do mais, Jane esperava que Jean-Pierre fizesse o parto. Assim, quando Rabia perguntara qual era a posição da criança e receitara uma dieta de vegetais para uma menina, Jane deixara bem claro que a sua gravidez seria à maneira ocidental. Rabia ficara magoada, mas aceitara a decisão com dignidade. E agora Jean-Pierre se encontrava em Khawak e Rabia estava ali, e Jane sentia-se contente por contar com a ajuda de uma velha que já trouxera ao mundo centenas de bebês e pessoalmente tivera onze filhos.

Não havia dor há algum tempo, mas nos últimos minutos, enquanto observava Rabia se movimentar pelo quarto, Jane vinha experimentando novas sensações em seu abdome: uma sensação nítida de pressão, acompanhada por uma crescente pressão para empurrar. O impulso tornou-se irresistível; e enquanto ela empurrava, começou a gemer, não porque sentisse dor, mas apenas pelo esforço. Ouviu a voz de Rabia, como se viesse de muito longe:

- Está começando. Isso é bom.

O impulso desapareceu depois de algum tempo. Zahara trouxe uma xícara de chá verde. Jane sentou e bebeu, agradecida. Estava morno e muito doce. Zahara tem a minha idade, pensou Jane, já teve quatro filhos, sem contar os abortos espontâneos e as crianças que nasceram mortas. Mas ela era uma daquelas mulheres que parecem transbordar de vitalidade, como uma jovem tigresa saudável. Provavelmente teria muitos outros filhos. Recebera Jane com uma curiosidade franca, quando a maioria das mulheres se mostrara desconfiada e hostil, nos primeiros dias; e Jane descobrira que Zahara se irritava com os mais tolos costumes e tradições do vale, estava ansiosa em aprender o que podia das idéias estrangeiras sobre saúde, cuidados com as crianças e nutrição. Assim, Zahara tornara-se não apenas amiga de Jane, mas também a ponta de lança de seu programa de educação sanitária.

Agora, no entanto, Jane estava aprendendo os métodos afegãos. Observou Rabia estender um plástico sobre o chão (o que usavam antes de disporem de todo aquele plástico?) e cobri-lo com uma camada de areia que Zahara trouxera num balde. Rabia pusera algumas coisas numa mesa baixa e Jane ficou satisfeita ao ver mechas de algodão limpas e uma lâmina de barbear nova, ainda no invólucro.

A necessidade de fazer força ressurgiu, e Jane fechou os olhos para se concentrar. Não doía propriamente; era mais como se estivesse com uma prisão de ventre incrível, impossível. Descobriu que gemer ajudava ao fazer força e quis explicar a Rabia que não era um gemido de agonia, mas estava ocupada demais para fazer força para falar.

Na pausa seguinte, Rabia ajoelhou-se, desamarrou o cordão da calça de Jane e depois tirou-a.

- Quer fazer água antes de ser lavada?

- Quero sim.

Ela ajudou Jane a levantar e ir para trás do biombo, segurando-a pelos ombros enquanto ela sentava no urinol.

Zahara trouxe uma tigela com água morna e levou o urinol. Rabia lavou a barriga de Jane, as coxas, as partes íntimas, assumindo pela primeira vez uma expressão animada ao fazê-lo. Depois, Jane tornou a se deitar. Rabia lavou as próprias mãos e enxugou-as. Mostrou um pote pequeno com um pó azul - sulfato de cobre, calculou Jane - e disse:

- Esta cor afugenta os maus espíritos.

- O que quer fazer com isso?

- Pôr um pouco em sua testa.

- Está bem. - Uma pausa e Jane acrescentou: - Obrigada.

Rabia passou um pouco do pó na testa de Jane. Não me importo com a magia quando é inofensiva, pensou Jane, mas o que ela fará se houver um autêntico problema médico?

E o bebê é quantas semanas prematuro?

Ela ainda se preocupava quando a próxima contração começou, e por isso não estava se concentrando em ajudar a onda de pressão, que em conseqüência foi muito dolorosa.

Não devo me preocupar, pensou ela; preciso relaxar.

Depois, sentiu-se exausta e um tanto sonolenta. Fechou os olhos. Sentiu Rabia desabotoar sua camisa - a que tomara emprestada de Jean-Pierre naquela tarde, um século antes. Rabia começou a massagear a barriga de Jane com alguma espécie de lubrificante, provavelmente manteiga clara. Cravava os dedos. Jane abriu os olhos e disse:

- Não tente deslocar o bebê.

Rabia acenou com a cabeça, mas continuou a apertar, uma das mãos na protuberância da barriga, a outra na base.

- A cabeça está certa - disse ela, finalmente. - Tudo está bem. Mas o bebê vai nascer muito depressa. Tem de levantar agora.

Zahara e Rabia ajudaram Jane a levantar e dar dois passos para o plástico coberto de areia. Rabia postou-se atrás dela e disse:

- Fique em cima dos meus pés.

Jane obedeceu, embora não entendesse a lógica do movimento. Rabia ajudou-a a se agachar, assumindo a mesma posição por trás. Então aquela era a posição de parto local.

- Sente em cima de mim - disse Rabia. - Posso agüentar você.

Jane descansou seu peso nas coxas da velha. A posição era surpreendentemente cômoda e tranqüilizante. Jane sentiu que seus músculos começavam a se contrair outra vez. Rangeu os dentes e fez força, gemendo. Zahara agachou-se à sua frente. Por algum tempo não houve coisa alguma na mente de Jane além do impulso de empurrar. A contração acabou se atenuando e ela arriou, exausta e meio adormecida, Rabia suportando todo o seu peso.

Quando recomeçou, havia uma nova dor, uma sensação intensa em sua virilha. Zahara disse de repente:

- Lá vem.

- Não faça força agora - disse Rabia. - Deixe o bebê nadar para fora.

A pressão se reduziu. Rabia e Zahara trocaram de lugar. Rabia agachou-se entre as pernas de Jane, observando atentamente. A pressão recomeçou. Jane rangeu os dentes.

Rabia disse:

- Não faça força. Fique calma. - Jane tentou relaxar. Rabia fitou-a nos olhos e levantou a mão para tocar em seu rosto, acrescentando: - Não se morda. Deixe a boca solta.

Jane deixou o queixo pender e descobriu que isso ajudava a relaxar. Experimentou uma sensação de ardência, pior do que nunca. Sabia que o bebê estava quase nascendo: podia sentir a cabeça passando, alargando a abertura a um ponto impossível. Ela gritou com a dor... que de repente diminuiu, e por um momento nada pôde sentir. Olhou para baixo. Rabia estendia as mãos entre suas coxas, pronunciando os nomes dos profetas. Através de um nevoeiro de lágrimas, Jane viu alguma coisa arredondada e escura nas mãos da parteira.

- Não puxe - balbuciou Jane. - Não puxe a cabeça.

- Não - murmurou Rabia.

Jane tornou a sentir a pressão. Foi nesse momento que Rabia disse:

- Um pequeno empurrão para o ombro.

Jane fechou os olhos e fez força, gentilmente. Um instante depois, Rabia acrescentou:

- Agora o outro ombro.

Jane fez força de novo e depois houve um enorme alívio da tensão, ela sabia que o bebê já nascera. Olhou para baixo e viu o corpo mínimo aninhado nos braços de Rabia.

A pele estava enrugada e molhada, a cabeça coberta por cabelos escuros e úmidos. O cordão umbilical parecia esquisito, um grosso cordão azul, pulsando como uma veia.

- Está tudo bem? - perguntou Jane.

Rabia não respondeu. Contraiu os lábios e soprou no rosto achatado e imóvel da criança.

Oh, Deus, a criança nasceu morta, pensou Jane.

- Está tudo bem? - repetiu ela.

Rabia soprou outra vez, a criança abriu a boquinha e gritou. Jane disse:

- Graças a Deus... está viva!

Rabia pegou uma mecha de algodão limpa na mesinha e limpou o rosto da criança.

- É normal? - indagou Jane.

Rabia finalmente falou. Fitou Jane nos olhos, sorriu e declarou:

- É, sim. Ela é normal.

Ela é normal, pensou Jane. Ela. Gerei uma garotinha. Uma menina. E de repente sentiu-se totalmente esgotada. Não podia continuar de pé por mais um momento sequer.

- Quero deitar.

Zahara ajudou-a a recuar para o colchão e ajeitou almofadas em suas costas, a fim de que ficasse sentada, enquanto Rabia segurava a criança, ainda ligada à mãe pelo

cordão umbilical. Depois que Jane estava acomodada, Rabia pôs-se a enxugar a menina com as mechas de algodão. Jane viu o cordão parar de pulsar, murchar, ficar branco.

- Pode cortar o cordão - disse ela a Rabia.

- Sempre esperamos pelas secundinas.

- Corte agora, por favor.

Rabia parecia em dúvida, mas atendeu ao pedido. Pegou um pedaço de barbante branco na mesa e amarrou em torno do cordão, alguns centímetros além do umbigo da criança.

Deveria ser mais perto, pensou Jane; mas não importa. Rabia desembrulhou a lâmina nova.

- Em nome de Alá - disse ela, cortando o cordão.

- Dê-me a criança - pediu Jane.

Rabia entregou-lhe a menina, recomendando:

- Não deixe ela mamar.

Jane sabia que Rabia estava errada nisso. E explicou:

- Ajuda as secundinas. Rabia deu de ombros.

Jane encostou o rosto da criança em seu seio. Os mamilos estavam enormes e deliciosamente sensíveis, como acontecia quando Jean-Pierre os beijava. Quando o mamilo encostou em seu rosto, a menina virou a cabeça num reflexo e abriu a boca. Assim que o mamilo entrou, ela começou a sugar. Jane ficou atônita ao descobrir que a sensação era sensual. Por um momento, sentiu-se chocada e embaraçada, mas depois pensou: Ora, não tem nada demais!

Ela sentiu mais movimentos em seu abdome. Obedeceu ao impulso de fazer força e sentiu a placenta sair, um parto pequeno e escorregadio. Rabia envolveu-a com extremo

cuidado num pedaço de pano.

A criança parou de sugar, parecia adormecida.

Zahara entregou a Jane um copo com água. Ela tomou tudo de um só gole. O gosto era maravilhoso. Pediu mais.

Estava dolorida, exausta e excepcionalmente feliz. Olhou para a menina dormindo serenamente em seu seio. Estava pronta para dormir também. Rabia disse:

- Temos de enrolar a pequena.

Jane levantou a criança - tão leve quanto uma boneca - e entregou-a à velha.

- Chantal - disse ela, quando Rabia pegou a menina. - Seu nome é Chantal.

E, depois, Jane fechou os olhos.

 

Ellis Thaler embarcou na ponte aérea da Eastern Airlines de Washington para Nova York. No Aeroporto La Guardiã pegou um táxi para o Plaza Hotel, na cidade de Nova York. O táxi parou na entrada do hotel na Quinta Avenida. Ellis entrou. No saguão, virou à esquerda e foi para os elevadores da Rua 58. Um homem de terno e uma mulher com uma sacola da Saks entraram junto com ele. O homem saltou no sétimo andar. Ellis saltou no oitavo, a mulher continuou a subir. Ellis avançou pelo enorme corredor do hotel, sozinho, até chegar aos elevadores da Rua 59. Desceu para o térreo e deixou o hotel pela entrada da Rua 59.

Convencido de que ninguém o seguia, fez sinal para um táxi no Central Park Sul, seguiu para a Penn Station e pegou o trem para Douglaston, Queens.

Alguns versos do Acalanto de Auden martelavam em sua mente, enquanto o trem rodava:

O tempo e as paixões dissipam A beleza individual das Crianças ponderadas, a sepultura Prova que a criança é efêmera.

Mais de um ano já transcorrera desde que ele posara como poeta americano inédito em Paris, mas ainda não perdera o gosto pela poesia.

Continuou a se manter atento à possibilidade de alguém o seguir, pois aquela era uma missão de que os inimigos nunca deveriam tomar conhecimento. Saltou do trem em Flushing e esperou na plataforma pelo trem seguinte. Ninguém esperou junto com ele.

Por causa das precauções meticulosas, já eram cinco horas quando chegou a Douglaston. Deixou a estação e seguiu a pé, apressado, por cerca de meia hora, pensando no contato que estava prestes a fazer, repassando as palavras que empregaria, as possíveis reações que poderia esperar.

Chegou a uma rua suburbana, com vista para o Estreito de Long Island, parou diante de uma casa pequena e bem-cuidada, com empenas que imitavam o estilo Tudor, um vitral colorido numa parede. Havia um pequeno carro japonês ao lado da casa. Quando ele subia pelo caminho, a porta da frente foi aberta por uma garota loura de treze anos. Ellis disse:

- Oi, Petal. . - Oi papai.

É!e inclinou-se para beijá-la, sentindo como sempre uma onda de orgulho e ao mesmo tempo uma pontada de culpa.

Contemplou a filha de alto a baixo. Por baixo da blusa de Michael Jackson ela estava usando um sutiã. Ele tinha certeza de que era novo e pensou: Ela já está ficando mulher.

- Não quer entrar um instante? - disse ela, polidamente.

- Claro.

Ellis seguiu-a para o interior da casa. Por trás, ela parecia ainda mais mulher. Ele se lembrou de sua primeira namorada. Tinha quinze anos e a garota não era muito mais velha que Petal... Não, espere um pouco, pensou ele; a garota era mais jovem, tinha doze anos. E eu costumava enfiar a mão por baixo de sua blusa. Que Deus proteja minha filha dos garotos de quinze anos. Eles foram para uma sala de estar pequena e impecável.

- Não quer sentar? - disse Petal. Ellis sentou.

- Posso lhe servir alguma coisa?

- Relaxe - disse Ellis. - Não precisa ser tão formal. Sou seu pai.

Ela ficou surpresa e indecisa, como se tivesse sido censurada por alguma coisa que não sabia estar errada. E, depois de um momento, anunciou:

- Tenho de escovar os cabelos. E depois poderemos ir. com licença.

Ele a via pelo menos uma vez por mês, durante o último ano, desde que voltara de Paris. Às vezes passavam o dia inteiro juntos, mas com uma freqüência maior ele apenas a levava para jantar fora, como faria naquela noite. Para estar com ela durante essa hora, Ellis tinha de fazer uma viagem

de cinco horas com o máximo de segurança. Mas é claro que Petal não sabia disso. Seu objetivo era modesto: sem muito rebuliço ou drama, queria ocupar um lugar pequeno mas permanente na vida da filha.

O que significara mudar o tipo de trabalho que fazia. Renunciara ao trabalho de campo. Seus superiores ficaram bastante insatisfeitos: afinal, eram bem poucos os bons agentes secretos (enquanto havia centenas de maus). Ele também relutara, sentindo que tinha o dever de usar seu talento. Mas não poderia conquistar a afeição

da filha se tivesse de desaparecer a cada ano ou por aí em algum canto remoto do mundo, incapaz de contar a ela o que estava fazendo, por que ou pelo menos por quanto tempo. E não podia correr o risco de ser morto justamente no momento em que Petal estava aprendendo a amá-lo.

Ele sentia falta da excitação. do perigo, da emoção da caçada e do sentimento de que realizava um trabalho importante que ninguém mais poderia fazer tão bem. Mas por muito tempo as suas ligações emocionais haviam sido passageiras, e depois de perder Jane, sentira a necessidade de pelo menos uma pessoa cujo amor fosse permanente.

Enquanto esperava, Gill entrou na sala. Ellis levantou-se. A ex-esposa estava tranqüila, num vestido branco de verão. Ele beijou o rosto que ela lhe oferecia.

- Como vai? - disse ela.

- A mesma coisa de sempre. E você?

- Estou terrivelmente ocupada.

Ela se pôs a contar, em detalhes, quantas coisas tinha para fazer, e Ellis desligou, como sempre acontecia. Gostava de Gill, embora ela o entediasse demais. Era estranho pensar que fora outrora casado com aquela mulher. Mas ela era a garota mais linda do Departamento de Inglês e ele o rapaz mais inteligente, o ano era 1967, quando todos viviam nas nuvens, qualquer coisa podia acontecer, especialmente na Califórnia. Casaram em túnicas brancas, ao final do primeiro ano, alguém tocava a Marcha Nupcial numa citara. Ellis fora então reprovado nos exames e eliminado da universidade, sendo por isso convocado. Em vez de partir para o Canadá ou Suécia, ele fora ao centro de recrutamento como um cordeiro a caminho do matadouro, surpreendendo a todos, à exceção de Gill, que a esta altura já sabia que o casamento não daria certo e só esperava para ver como Ellis daria um jeito de escapar.

Ele estava no hospital em Saigon, com um ferimento de bala na batata da perna - a lesão mais comum do piloto de helicóptero, porque o assento é blindado, mas o chão não - quando o divórcio fora consumado. Alguém largara a notificação em sua cama, quando ele se achava no banheiro, encontrara-a ao voltar, juntamente com outra Oak Leaf Cluster, sua 25ª (distribuíam medalhas profusamente naquele tempo). Acabo de me divorciar, dissera ele. Ao que o soldado na cama ao lado respondera: Deixe de merda. Quer jogar cartas?

Ela não falara da criança. Ele descobrira alguns anos depois, quando já se tornara um espião e seguira a pista de Gill como um exercício. Soubera então que ela tinha uma filha com o inconfundível nome do final dos anos 60, Petal, e um marido, Bernard, que estava consultando um especialista em fertilidade. Não lhe contar sobre Petal fora a única coisa realmente mesquinha que Gill lhe fizera, pensou Ellis, embora ela ainda alegasse que fora para o seu próprio bem.

Ele insistira em ver Petal de vez em quando e fizera com que ela parasse de chamar Bernard de "papai". Mas não procurara se tornar parte da vida familiar até o ano passado.

- Quer levar meu carro? - Gill estava dizendo.

- Se não for incômodo.

- Claro que não é.

- Obrigado.

Era embaraçoso tomar emprestado o carro de Gill, mas o percurso desde Washington era longo demais, e Ellis não queria alugar carros com freqüência naquela área, pois um dia seus inimigos poderiam descobrir, através dos registros públicos, das agências de aluguel ou das companhias de cartão de crédito, e assim tomariam conhecimento da existência de Petal. A alternativa seria usar uma identidade diferente a cada vez que alugasse um carro, mas as falsas identidades eram dispendiosas e a agência não as proporcionaria a um burocrata. Por isso, ele usava o Honda de Gill ou contratava um táxi local.

Petal voltou, os cabelos louros flutuando em torno dos ombros. Ellis levantou-se e Gill disse:

- As chaves estão no carro. Ellis disse a Petal:

- Vá para o carro. Irei daqui a um momento. - Petal saiu.

Ele virou-se para Gill e explicou: - Eu gostaria de convidá-la a passar um fim de semana em Washington. Gill foi gentil, mas firme:

- Se ela quiser, claro que pode. Se não quiser, não Vou obrigá-la.

Ellis balançou a cabeça.

- É justo. Até mais tarde.

Ele levou Petal a um restaurante chinês em Little Neck. Ela gostava de comida chinesa e relaxou um pouco depois que se afastou de casa. Agradeceu a Ellis por lhe enviar um poema no dia do seu aniversário, comentando:

- Não conheço ninguém que já tenha recebido um poema em seu aniversário.

Ellis não sabia se isso era bom ou mau.

- Acho que é melhor do que um cartão de aniversário com a fotografia de um gatinho bonito na frente.

- Tem razão. - Petal soltou uma risada. - Todas as minhas amigas acham que você é muito romântico. E o professor de inglês perguntou se você já tinha publicado alguma coisa.

- Nunca escrevi nada suficientemente bom para ser publicado. Ainda gosta das aulas de inglês?

- Gosto muito mais que de matemática. Sou horrível em matemática.

- O que está estudando? Alguma peça?

- Não. Mas de vez em quando estudamos poemas.

- Gosta de algum?

Petal pensou por um momento.

- Gosto daquele sobre os narcisos. Ellis acenou com a cabeça.

- Eu também gosto.

- Esqueci quem escreveu.

- William Wordeworth.

- Ah, isso mesmo.

- Algum outro?

- Não especialmente. Sou muito mais pela música. Você gosta de Michael Jackson?

- Não sei. Não me lembro se já ouvi os seus discos.

- Ele é sensacional. - Petal soltou uma risadinha. - Todas as minhas amigas são loucas por ele.

Era a segunda vez que ela mencionava todas as minhas amigas.

Naquele momento, o grupo de iguais era a coisa mais importante em sua vida.

- Eu gostaria de conhecer algumas de suas amigas.

- Ora, papai - respondeu ela, em tom de censura. - Tenho certeza de que não gostaria. São apenas garotas.

Sentindo-se um pouco rejeitado, Ellis concentrou-se na comida por algum tempo. Um vinho branco acompanhava a refeição: não perdera os hábitos franceses. Ao terminar de comer, ele disse:

- Estive pensando numa coisa. Por que não vai a Washington e passa um fim de semana comigo? Fica a apenas uma hora de avião e poderíamos nos divertir muito.

Ela ficou aturdida.

- O que tem em Washington?

- Poderíamos fazer uma excursão pela Casa Branca, onde vive o Presidente dos Estados Unidos. E Washington possui alguns dos melhores museus do mundo. Você não conhece meu apartamento. Tenho um quarto de hóspedes e...

Ellis parou de falar. Podia perceber que a filha não estava interessada.

- Não sei, papai... Tenho muita coisa para fazer nos fins de semana... os deveres de casa, festas, compras, as aulas de dança, uma porção de coisas...

Ellis disfarçou o desapontamento.

- Não pense mais nisso. Talvez você possa ir em outra ocasião, quando não estiver tão ocupada.

- Está bem - disse ela, visivelmente aliviada.

- Posso arrumar o quarto de hóspedes a fim de estar preparado para qualquer ocasião em que você queira me visitar.

- Ótimo.

- De que cor devo pintá-lo?

- Não sei.

- Qual é a sua cor predileta?

- Acho que rosa.

- Então será rosa. - Ellis forçou um sorriso. - Vamos embora.

No carro, voltando para casa, Petal perguntou se ele se incomodava que ela furasse as orelhas.

- Não sei - respondeu ele, cauteloso. - O que sua mãe pensa a respeito?

- Disse que por ela está bem, se você concordar.

Gill estaria cortesmente incluindo-o na decisão ou apenas lhe passando o problema?

- A idéia não me agrada - disse Ellis. - Talvez você ainda seja um pouco jovem para começar a fazer buracos no corpo para enfeite.

- Acha que sou jovem também para ter um namorado? Ellis sentiu vontade de dizer que sim. Ela parecia jovem demais.

Mas não podia impedi-la de crescer.

- Já tem bastante idade para sair com rapazes, mas não para um namoro firme.

Ele olhou para avaliar a reação de Petal. Ela parecia divertida. Talvez não falem mais em namoro firme, pensou Ellis.

O Ford de Bernard estava estacionado no caminho quando chegaram na casa. Ellis parou o Honda atrás e entrou com Petal. Bernard estava na sala de estar. Um homem pequeno, cabelos bem curtos, jovial e totalmente desprovido de imaginação. Petal cumprimentou-o com o maior entusiasmo, abraçando-o e beijandoo. Ele parecia um pouco embaraçado. Apertou a mão de Ellis firmemente, dizendo:

- O governo ainda está funcionando direitinho lá em Washington?

- A mesma coisa de sempre - respondeu Ellis.

Todos pensavam que ele trabalhava para o Departamento de Estado e sua função era ler os jornais e revistas franceses, preparando um resumo diário para a Seção da França.

- Quer uma cerveja?

Ellis não estava com vontade, mas aceitou apenas para ser cordial. Bernard foi à cozinha buscá-la. Ele era gerente de crédito de uma loja de departamentos na cidade de Nova York. Petal parecia gostar dele e respeitá-lo, e ele a tratava com profunda afeição. Ele e Gill não tinham outros filhos: o especialista em fertilidade de nada adiantara. Bernard voltou com dois copos de cerveja e entregou um a Ellis.

- Vá fazer seus deveres agora - disse ele a Petal. - Seu pai irá se despedir antes de ir embora.

Ela tornou a beijá-lo e saiu. Bernard comentou:

- Ela não é normalmente tão afetuosa. Parece exagerar quando você está presente. Não entendo.

Ellis compreendia perfeitamente, mas ainda não queria pensar a respeito.

- Não se preocupe com isso - disse ele. - Como vão os negócios?

- Até que vão bem. Os juros altos não nos afetaram tanto como receamos. Parece que as pessoas ainda estão dispostas a pegar dinheiro emprestado para comprar coisas... pelo menos em Nova York.

Bernard sentou, tomando um gole de cerveja. Ellis sempre achara que Bernard tinha medo dele fisicamente. Transparecia na maneira como ele andava, parecendo o cachorro de estimação que não tem permissão para entrar em casa, mas o faz assim mesmo e toma cuidado para se manter fora do alcance de um chute.

Os dois conversaram sobre a economia por alguns minutos e Ellis tomou a cerveja o mais depressa que pôde, depois levantou-se para ir embora. Foi até a base da escada e gritou:

- Já Vou, Petal.

Ela apareceu no alto da escada.

- Posso furar as orelhas?

- Não quer me dar algum tempo para pensar a respeito?

- Claro. Até a próxima. Gill desceu a escada.

- Vou levá-lo de carro ao aeroporto. Ellis ficou surpreso.

- Está bem. Obrigado.

Quando estavam na estrada, Gill disse:

- Ela me falou que não queria passar um fim de semana com você.

- Não há problema.

- Está aborrecido, não é mesmo?

- É tão evidente assim?

- Para mim, é, sim. Já fui casada com você. - Ela fez uma pausa. - Lamento muito, John.

- A culpa é minha. Não pensei direito. Antes de eu aparecer, ela tinha uma mãe, um pai e um lar... tudo o que qualquer criança quer. Mas eu não sou apenas supérfluo.

A minha presença ameaça a felicidade de Petal. Sou um intruso, um fator de desestabilização. É por isso que ela tanto abraça Bernard na minha presença. Não faz isso para me magoar, mas sim porque tem medo de perdê-lo. E sou eu quem lhe incute esse medo.

- Ela vai superar, John. A América está cheia de crianças com dois pais.

- Isso não é desculpa. Fui um idiota e devo assumir.

Gill tornou a surpreendê-lo, afagando seu joelho e dizendo:

- Não seja tão duro consigo mesmo. Você apenas não foi feito para isso. Compreendi um mês depois de casarmos. Você não queria uma casa, um emprego, uma comunidade suburbana, filhos. É um pouco estranho. Foi por isso que me apaixonei por você e foi por isso que o deixei partir tão facilmente. Amei-o porque era diferente, doido, original, excitante. Capaz de fazer qualquer coisa. Mas não é um homem de família.

Ellis permaneceu em silêncio, pensando a respeito do que Gill acabara de dizer, enquanto ela continuava a guiar. A intenção era a melhor possível e por isso ele se sentia agradecido; mas seria verdade? Ele achava que não. Não quero uma casa numa comunidade suburbana americana, mas bem que gostaria de ter um lar: talvez uma villa no Marrocos ou uma mansarda em Greenwich Village, ou um apartamento de cobertura em Roma. Não quero uma esposa para ser minha empregada, cozinhar, lavar, fazer compras e participar das reuniões de pais e professores; mas gostaria de uma companheira, alguém para partilhar livros, filmes e poesia, alguém para conversar à noite. Gostaria até de ter filhos, criá-los de maneira a que conheçam algo mais do que Michael Jackson.

Mas ele não disse nada sobre isso a Gill.

Ela parou o carro e Ellis percebeu que estavam na frente do terminal da Eastern. Olhou para o relógio: oito e cinqüenta. Apressando-se, pegaria o vôo das nove horas.

- Obrigado pela carona, Gill.

- O que está precisando é de uma mulher igual a você. Ellis pensou em Jane.

- Conheci uma mulher assim.

- E o que aconteceu?

- Ela casou com um médico bonito.

- O médico é louco como você?

- Acho que não.

- Pois então não vai durar. Quando foi o casamento?

- Há cerca de um ano.

- Ahn... - Gill provavelmente estava calculando que fora a ocasião em que Ellis voltara à vida de Petal em grande estilo, mas teve a generosidade de não fazer o comentário. - Aceite o meu conselho, John. Procure-a.

Ellis saltou do carro.

- Tornaremos a nos falar em breve.

- Até lá.

Ellis bateu a porta do carro e ela partiu.

Ele entrou apressadamente no terminal. Conseguiu pegar o vôo por um ou dois minutos. Enquanto o avião decolava, ele encontrou uma revista na bolsa do banco da frente e procurou por uma reportagem sobre o Afeganistão.

Acompanhava a guerra atentamente desde que Bill confirmara em Paris que Jane consumara a sua intenção de ir para lá com JeanPierre. A guerra não era mais uma notícia de primeira página. Muitas vezes uma ou duas semanas transcorriam sem que houvesse qualquer notícia a respeito. Mas agora a trégua do inverno acabara e sempre aparecia alguma coisa na imprensa pelo menos uma vez por semana.

Aquela revista apresentava uma análise da situação russa no Afeganistão. Ellis começou a ler desconfiado, pois sabia que muitos artigos emanavam da CIA: um repórter obtinha um relatório exclusivo de avaliação de informações da CIA sobre uma situação, mas na verdade se tornava um canal inconsciente para uma peça de desinformação destinada ao serviço de informações de outro país e a matéria que escrevia tinha tanta relação com a verdade quanto um artigo do Pravda.

O artigo no entanto parecia objetivo. Dizia que estava ocorrendo uma concentração de tropas e armamentos russos, em preparativo para uma grande ofensiva de verão.

Moscou considerava aquele verão crucial: era preciso esmagar os rebeldes naquele ano de qualquer maneira ou seria forçada a algum acordo com os rebeldes. Isso fazia sentido para Ellis: iria verificar o que o pessoal da CIA em Moscou estava dizendo, mas tinha a impressão de que as informações corresponderiam.

Entre os alvos principais, o artigo incluía o Vale de Panisher. Ellis lembrou-se de Jean-Pierre falar a respeito do Vale dos Cinco Tigres. Aprendera um pouco de farsi no Irã e achava que panisher significava "cinco leões", mas Jean-Pierre sempre dissera "Cinco Tigres", talvez porque não houvesse leões no Afeganistão. O artigo também mencionava Masud, o líder rebelde: Ellis lembrou que JeanPierre também falara dele.

Ele olhou pela janela, contemplando o sol poente. Não havia a menor dúvida, pensou ele, com uma pontada de medo, de que Jane correria grande perigo naquele verão.

Mas não era da sua conta. Ela agora estava casada com outro homem. De qualquer forma, Ellis não poderia fazer coisa alguma.

Ele baixou os olhos para a revista, virou a página, começou a ler sobre El Salvador. O avião voava para Washington. A oeste, o sol se pôs, e a escuridão foi aumentando.

Allen Winderman levou Ellis Thaler para almoçar num restaurante de frutos do mar à beira do Rio Potomac. Winderman chegou meia hora atrasado. Era um típico operador de Washington: terno cinzaescuro, camisa branca, gravata listrada, tão suave quanto um tubarão. Como a Casa Branca estava pagando, Ellis pediu lagosta e vinho branco.

Winderman pediu Perder e uma salada. Tudo em Winderman era muito apertado: a gravata, os sapatos, a agenda e o autocontrole.

Ellis manteve-se cauteloso. Não podia recusar um convite assim de um assessor presidencial, mas não gostava de almoços discretos e extra-oficiais e não gostava de Allen Winderman. E Winderman foi direto ao problema, anunciando:

- Quero a sua opinião. Ellis interrompeu-o:

- Em primeiro lugar, preciso saber se comunicou à Agência que iríamos nos encontrar.

Se a Casa Branca queria planejar uma ação secreta sem o conhecimento da CIA, Ellis não se envolveria.

- Claro - respondeu Winderman. - O que você sabe sobre o Afeganistão?

Ellis sentiu um súbito calafrio. Mais cedo ou mais tarde Jane estará envolvida, pensou ele. Sabem tudo a seu respeito, é claro: não fiz segredo do nosso relacionamento.

Contei a Bill em Paris que ia pedi-la em casamento. E depois liguei para ele a fim de verificar se ela fora mesmo para o Afeganistão. Tudo isso foi registrado em minha ficha. E agora este filho da puta tem conhecimento de Jane, vai usar a informação.

- Alguma coisa - respondeu ele cautelosamente.

Ellis recordou então alguns versos de Kipling e recitou-os:

Quando estiver ferido e abandonado nas planícies do Afeganistão

E as mulheres chegarem para retalhar o que restar de você,

Trate de virar o rifle e estourar os miolos.

Vá ao encontro de seu Deus como um soldado.

Winderman mostrou-se contrafeito, pela primeira vez.

- Depois de dois anos posando como um poeta, você deve saber muito dessas coisas.

- E os afegãos também - comentou Ellis. - Todos são poetas, da mesma forma que todos os franceses são gourmeteds, e todos os galeses são cantores.

- É mesmo?

- É porque eles não sabem ler nem escrever. A poesia é uma forma de arte falada.

Winderman estava ficando visivelmente impaciente: sua agenda não lhe permitia tempo para a poesia. Ellis acrescentou:

- Os afegãos são montanheses tribais selvagens, miseráveis e impetuosos, mal saídos da Idade Média. Dizem que são excepcionalmente polidos, bravos como leões e implacavelmente cruéis. O país em que vivem é árido e difícil. Mas o que você sabe a respeito deles?

- Não existe o que se poderia chamar de um afegão - disse Winderman. - Há seis milhões de pushtuns no sul, três milhões de tajiks no oeste, um milhão de uzbaks no norte e mais uma dúzia de nacionalidades com menos de um milhão de pessoas. As fronteiras modernas pouco significam para eles: há tajiks na União Soviética e pushtuns no Paquistão. Alguns estão divididos em tribos. São como os nossos índios, que jamais se consideraram americanos, mas sim apaches, crows ou sioux. E tanto lutam entre si quanto lutam contra os russos. Nosso problema é promover a união dos apaches e sioux na luta contra os caras-pálidas.

- Estou entendendo. - Ellis especulou: Quando Jane entrará nesta história? - Nesse caso, a questão principal é simples: quem será o Grande Chefe?

- Isso é fácil. O mais promissor dos líderes guerrilheiros é, de longe, Ahmed Shah Masud, do Vale de Panisher.

O Vale dos Cinco Leões. Onde está querendo chegar, seu filho da puta insidioso? Ellis estudou atentamente o rosto liso de Winderman. O homem se mantinha imperturbável.

Ellis indagou:

- O que torna Masud tão especial?

- A maioria dos líderes rebeldes se contenta em controlar suas tribos, recolher impostos e negar ao governo acesso a seu território. Masud faz mais do que isso.

Ele sai de seu baluarte nas montanhas e ataca. Está à distância de atingir três alvos estratégicos: a capital, Kabul; o túnel Salang, na única estrada de Kabul para a União Soviética; e Bagram, a principal base aérea militar. Tem condições para infligir grandes danos, e é o que faz. Estudou a arte da guerra de guerrilhas. É leitor de Mão. É incontestavelmente o rrteIhor cérebro militar do país. E dispõe de recursos. Esmeraldas são extraídas em seu vale e vendidas no Paquistão. Masud cobra uma taxa de dez por cento sobre todas as vendas e usa o dinheiro para financiar seu exército. Tem vinte e oito anos e é carismático, sendo idolatrado pelo povo. E, finalmente, é um tajik. O grupo maior é dos pushtuns e todos os outros os odeiam. Por isso, o líder não pode ser um pushtun. Os tajiks formam o segundo maior grupo. Há uma possibilidade de que todos se unam sob o comando de um tajik.

- E queremos criar todas as condições para que isso aconteça?

- Exatamente. Quanto mais fortes forem os rebeldes, mais danos causarão aos russos. Além disso, um triunfo para a comunidade de informações dos Estados Unidos seria muito importante este ano.

Não tinha a menor importância para Winderman e sua laia que os afegãos estivessem lutando por sua liberdade contra um invasor brutal, pensou Ellis. A moral andava fora de moda em Washington: o jogo do poder era tudo o que importava. Se Winderman tivesse nascido em Leningrado, em vez de em Los Angeles, seria igualmente feliz, bem-sucedido e poderoso, usaria as mesmas táticas de luta para o outro lado.

- E o que você quer de mim? - indagou Ellis.

- Quero aproveitar a sua inteligência. Há algum meio de um agente secreto promover uma aliança entre as diferentes tribos afegãs?

- Acho que sim.

A comida chegou, interrompendo Ellis e lhe proporcionando alguns momentos para pensar. Depois que o garçom se afastou, ele disse:

- Deve ser possível, desde que haja alguma coisa que eles queiram de nós... e imagino que seriam armas.

- Certo. - Winderman começou a comer, hesitante, como um homem que sofre de úlcera. Entre pequenas porções, ele disse: - No momento eles compram suas armas do outro lado da fronteira, no Paquistão. Tudo o que podem obter ali são cópias de rifles britânicos vitorianos... ou, se não as cópias, então os artigos genuínos, com um século de existência e ainda funcionando. Também roubarn Kalashnikovs de soldados russos mortos. Mas precisam desesperadamente de artilharia ligeira - canhões antiaéreos e lançadores manuais de mísseis terra-ar - a fim de poderem derrubar aviões e helicópteros.

- E estamos dispostos a lhes entregar essas armas?

- Estamos. Não diretamente... teríamos de encobrir nosso envolvimento, enviando-as através de intermediários. Mas isso não é problema. Poderíamos usar os sauditas.

- Muito bem. - Ellis provou a lagosta. Estava deliciosa. - Vou explicar o que considero a primeira providência. Em cada núcleo guerrilheiro será necessário um núcleo de homens que conheçam, compreendam e confiem em Masud. Esse núcleo torna-se o elemento de ligação para as comunicações com Masud. Ampliam a sua participação gradativamente: intercâmbio de informações no início, depois cooperação mútua e finalmente planos de batalha coordenados.

- Parece um bom esquema - comentou Winderman. - Como se poderia desenvolvê-lo?

- Eu faria Masud promover um programa de treinamento no Vale dos Cinco Leões. Cada grupo rebelde enviaria alguns jovens para lutar ao lado de Masud por algum tempo e aprender os métodos que o tornam tão vitorioso. Esses jovens aprenderiam também a respeitá-lo e a confiar nele, se é tão bom líder quanto você diz.

Winderman acenou com a cabeça, pensativo.

- É o tipo de proposta que pode ser aceito pelos líderes tribais, que rejeitariam qualquer plano que os obrigasse a aceitar ordens de Masud.

- Há algum líder rival em particular cuja cooperação seja essencial para uma aliança?

- Há, sim. E são dois: Jahan Kamil e Amai Azizi, ambos pushtuns.

- Nesse caso eu enviaria um agente com a missão de sentar os dois à mesa com Masud. Quando ele voltasse com as três assinaturas num documento, nós mandaríamos a primeira remessa de lançadores de foguetes. As remessas adicionais dependeriam do progresso do programa de treinamento.

Winderman largou o garfo e acendeu um cigarro. Não pode mais haver qualquer dúvida de que ele tem uma úlcera, pensou Ellis. Winderman disse:

- É justamente o que eu estava pensando.

Ellis percebeu que ele já calculava a maneira de assumir o crédito pela idéia. No dia seguinte estaria dizendo Nós elaboramos um plano durante o almoço e escreveria em seu relatório Especialistas em ações secretas julgaram que meu plano é viável.

- Qual é o risco maior?

Ellis refletiu por um momento.

- Se os russos pegarem o agente, poderão extrair um considerável valor de propaganda da operação. No momento, eles têm no Afeganistão o que a Casa Branca classificaria de "imagem problemática". Os aliados no Terceiro Mundo não gostam de vê-los tripudiando sobre um país pequeno e primitivo. Seus amigos muçulmanos, em particular, tendem a simpatizar com os rebeldes. O argumento soviético é de que os supostos rebeldes não passam de bandidos, financiados e armados pela CIA. Eles adorariam poder provar isso, capturando vivo um autêntico agente da CIA no país e submetendo-o a julgamento. Em termos de política global, imagino que isso poderia nos causar muitos prejuízos.

- Quais são as chances de os russos capturarem nosso homem?

- Mínimas. Se eles não conseguem pegar Masud, por que seriam capazes de capturar um agente secreto enviado para se encontrar com Masud?

- Ótimo. - Winderman apagou o cigarro. - Quero que você seja esse agente.

Ellis foi tomado de surpresa. Deveria ter percebido que isso estava para acontecer, mas se deixara absorver no problema.

- Não faço mais essas coisas.

Mas sua voz não era muito firme e ele não pôde deixar de pensar: Eu veria Jane. Eu veria Jane!

- Conversei com seu chefe pelo telefone - informou Winderman. - A opinião dele foi de que uma missão no Afeganistão poderia tentá-lo a retornar ao trabalho de campo.

Então estava tudo armado. A Casa Branca queria ter uma ação incisiva no Afeganistão e por isso pedira à CIA o empréstimo de um agente. A CIA queria que Ellis voltasse ao trabalho de campo e por isso sugerira à Casa Branca que a missão lhe fosse oferecida, sabendo ou desconfiando de que a perspectiva de se encontrar outra vez com Jane era quase irresistível.

Ellis detestava ser manipulado.

Mas queria ir ao Vale dos Cinco Leões.

Houve um silêncio prolongado. Foi rompido por Windçrmajfe que indagou, impaciente:

- Aceita?

- Pensarei sobre isso.

 

O pai de Ellis arrotou discretamente, pediu desculpa e disse:

- Estava uma delícia.

Ellis empurrou para o lado seu prato de torta de cereja com creme. Vigiava seu peso pela primeira vez na vida.

- Uma maravilha, mamãe, só que não consigo comer mais nada.

- Ninguém mais come como antigamente - comentou ela, levantando-se e começando a tirar a mesa. - É porque todo mundo anda de carro hoje em dia.

O pai empurrou a cadeira para trás.

- Tenho de fazer umas contas.

- Ainda não tem um contador? - perguntou Ellis.

- Ninguém cuida do seu dinheiro tão bem quanto você mesmo. Vai descobrir isso se algum dia ganhar bastante dinheiro.

Ele saiu da sala, encaminhando-se para o escritório. Ellis ajudou a mãe a tirar a mesa. A família mudara-se para aquela casa de quatro quartos em Tea Neck, Nova Jersey, quando Ellis tinha treze anos, mas ele podia se lembrar da mudança como se fosse ontem. Fora protelada literalmente por anos. O pai construíra a casa, sozinho a princípio, depois usando os empregados de sua crescente empresa construtora, mas sempre realizando o trabalho nos períodos de pouco movimento e abandonando-o quando os negócios estavam bons. Ao se mudarem, a casa ainda não se encontrava realmente acabada: o aquecimento não funcionava, não havia armários na cozinha, nada fora pintado. Só tiveram água quente no dia seguinte porque a mãe ameaçara com o divórcio se ela não fosse providenciada. Mas a casa finalmente ficara pronta, e Ellis, os irmãos e irmãs tinham seus quartos para crescerem. Era maior do que o pai e a mãe precisavam agora, mas ele torcia para que conservassem a casa. Sentia-se muito bem ali. Ao arrumarem a louça no lavador, ele disse:

- Mãe, lembra daquela mala que deixei aqui quando voltei da Ásia?

- Claro. Está no armário do quarto pequeno.

- Obrigado. Quero dar uma olhada.

- Pode ir. Deixe que terminarei tudo aqui.

Ellis subiu a escada e foi para o quarto pequeno no alto da casa. Raramente era usado, e a cama de solteiro estava ocupada por duas cadeiras quebradas, um sofá velho, quatro ou cinco caixas de papelão contendo livros infantis e brinquedos. Ellis abriu o armário e tirou uma pequena mala preta de plástico. Colocou-a na cama, virou os trincos de combinação e abriu-a. Havia um cheiro de mofo: há uma década que não era aberta. Tudo estava ali: as medalhas; as duas balas que haviam tirado de sua perna; o Manual Militar de Campanha FM 5-31, intitulado Armadilhas Pessoais; um retrato de Ellis parado ao lado de um helicóptero, seu primeiro Huey, sorrindo, parecendo jovem e (mas que merda!) magro; um bilhete de Frankie Amalfi que dizia Ao filho da puta que roubou minha perna - uma piada corajosa, pois Ellis desamarrara gentilmente o cordão e depois puxara a bota, levando junto o pé e a metade da perna, cortada no joelho por uma hélice

em movimento; o relógio de Jimmy Jones, parado eternamente às cinco e meia - Fique com ele, filho, dissera o pai de Jimmy a Ellis, através de um nevoeiro alcoólico, porque era amigo dele e isso é mais do que eu fui; e o diário.

Folheou o diário. Só precisava ler algumas palavras para recordar um dia inteiro, uma semana, uma batalha. O diário começava na maior animação, com um senso de aventura, alguma inibição; aos poucos, tornava-se desencantado, sombrio, desolado, desesperado e até mesmo suicida. As frases mais lúgubres despertavam imagens nítidas em sua mente: malditos vietnamitas não queriam sair do helicóptero, se estão tão ansiosos em serem salvos do comunismo por que será que não lutam? e depois o Capitão Johnson sempre foi um idiota mas que maneira de morrer, recebendo uma granada de um dos seus próprios homens e mais adiante As mulheres têm rifles por baixo das saias e os garotos têm granadas por dentro das camisas então que merda a gente deve fazer, se render? A última anotação dizia: O que há de errado com esta guerra é que estamos no lado errado. Somos os bandidos. É por isso que os garotos fogem da convocação; é por isso que os vietnamitas não lutam; é por isso que matamos mulheres e crianças; é por isso que os generais mentem para os políticos, os políticos mentem para os repórteres e a imprensa mente para o público. Depois disso, seus pensamentos haviam ficado subversivos demais para serem registrados no papel, o sentimento de culpa grande demais para ser expiado por meras palavras. Parecia-lhe que teria de passar o resto da vida endireitando os erros que cometera na guerra. Depois de tantos anos, ainda parecia assim. Quando somava os assassinos que prendera desde então, os seqüestradores e terroristas que capturara nada representavam em comparação com as toneladas de explosivos que lançara e as milhares de balas que disparara no Vietnam, Laos e Cambodja.

Ellis sabia que era irracional. Compreendera isso ao voltar de Paris e refletir por algum tempo sobre a maneira como o trabalho arruinara sua vida. Resolvera que não mais tentaria redimir os pecados da América. Mas aquilo... aquilo era diferente. Era uma oportunidade de lutar pelo homem comum, contra os generais mentirosos, os manipuladores do poder e os jornalistas de antolhos; uma oportunidade não apenas de lutar, não apenas de oferecer uma pequena contribuição, mas de fazer uma diferença concreta, mudar o curso de uma guerra, alterar o destino de um país, desfechar um golpe pela liberdade em grande escala.

E ainda havia Jane.

A simples perspectiva de tornar a vê-la reacendera sua paixão. Apenas poucos dias antes ele pudera pensar em Jane e no perigo que ela corria, depois afastara o pensamento da mente e virará a página da revista. Agora, mal conseguia parar de pensar nela. Especulou se os cabelos de Jane estariam compridos ou curtos, se ela estaria mais gorda ou mais magra, se estaria feliz com o que fazia com sua vida, se os afegãos gostavam dela e - acima de tudo - se ainda amava Jean-Pierre. Aceite o meu conselho, dissera Gill. Procure-a. A esperta Gill.

Ele pensou em Petal. Bem que tentei, disse a si mesmo; tentei ao máximo e acho que não me saí muito mal. Mas era um projeto condenado. Gill e Bernard lhe proporcionam tudo o que ela precisa. Não há lugar para mim em sua vida. Ela está feliz sem a minha participação.

Ellis fechou o diário e tornou a guardá-lo na caixa. Tirou uma caixa de jóia, pequena e ordinária. Lá dentro havia um par de pequenos brincos de ouro, cada um com uma pérola no centro. A mulher para quem os comprara, uma garota de olhos enviesados e seios pequenos, que lhe ensinara que nada é tabu, morrera antes que pudesse presenteá-la... assassinada por um soldado bêbado num bar de Saigon. Ele não a amava; apenas gostava dela e sentia-se grato. Os brincos seriam um presente de despedida.

Tirou um cartão em branco e uma caneta do bolso da camisa. Pensou por um instante e depois escreveu:

A Petal:

Pode furar as orelhas. Com todo amor, Papai.

 

O Rio dos Cinco Leões nunca era quente, mas parecia um pouco menos frio agora, no fragrante ar vespertino, ao final de um dia seco, quando as mulheres desceram para o seu trecho exclusivo da margem, a fim de tomar banho. Jane rangeu os dentes contra o frio e entrou na água com as outras, levantando o vestido devagar, à medida

que avançava mais para o fundo, até ficar na altura da cintura. Começou então a se lavar: depois de muita prática, dominara a peculiar técnica afegã de se limpar toda sem tirar as roupas.

Saiu do rio assim que acabou, estremecendo, parou perto de Zahara, que lavava os cabelos numa poça, espadanando muita água, ao mesmo tempo em que mantinha uma conversa animada. Zahara mergulhou a cabeça na água mais uma vez e depois estendeu a mão para a toalha. Tateou pela depressão na areia, mas não a encontrou.

- Onde está minha toalha? - gritou ela. - Deixei neste buraco. Quem roubou?

Jane pegou a toalha atrás de Zahara e disse:

- Está aqui. Você pôs no buraco errado.

- Foi o que disse a esposa do mula! - berrou Zahara, arrancando gargalhadas das outras.

Jane era agora aceita pelas mulheres da aldeia como uma delas. Os últimos resquícios de reserva ou cautela haviam desaparecido depois do nascimento de Chantal, que parecia ter confirmado que Jane era uma mulher como qualquer outra. A conversa à beira do rio era surpreendentemente franca - talvez porque as crianças ficassem aos cuidados das irmãs mais velhas e avós, ou mais provavelmente por causa de Zahara.

Sua voz alta, os olhos faiscantes e o riso profundo e gutural dominavam a cena. Não havia dúvida de que ela era mais extrovertida ali por ter de reprimir sua personalidade pelo resto do dia. Possuía um senso de humor vulgar, que Jane não encontrara em qualquer outro afegão, homem ou mulher. Os comentários irreverentes de Zahara e suas piadas de duplo sentido muitas vezes abriam o caminho para conversas sérias. Assim, Jane podia às vezes transformar o banho vespertino numa aula improvisada sobre educação sanitária. O controle da natalidade era o tópico mais popular, embora as mulheres de Banda estivessem mais interessadas em garantir a gravidez do que em evitá-la. Contudo, havia alguma aceitação da idéia, que Jane tentava promover, de que uma mulher tinha melhores condições para alimentar e cuidar dos filhos se nascessem a intervalos de dois anos, em vez de separados por apenas doze ou quinze meses. No dia anterior elas haviam conversado sobre o ciclo menstrual e transpirara que as mulheres afegãs estavam convencidas de que o período fértil era pouco antes e pouco depois da menstruação. Jane dissera que era do décimo segundo ao décimo sexto dia e elas pareceram aceitar. Mas Jane tinha suspeita desconcertante de que as mulheres pensavam que ela estava enganada e eram polidas demais para dizê-lo.

Havia hoje um clima de expectativa. O último comboio procedente do Paquistão estava sendo esperado a qualquer momento. Os homens trariam pequenos luxos - um xale, algumas laranjas, carne enlatada - além das armas tão importantes, munições e explosivos para a guerra.

O marido de Zahara, Ahmed Gul, um dos filhos da parteira Rabia, era líder do comboio. Zahara mostrava-se visivelmente excitada com a perspectiva de revê-lo. Quando eles estavam juntos, eram como todos os casais afegãos: ela silenciosa e subserviente, ele autoritário. Mas Jane sabia, pela maneira como os dois se olhavam, que estavam apaixonados; e era evidente, pela maneira como Zahara falava, que o amor era intensamente físico. Hoje ela estava quase fora de si de desejo, secando os cabelos com uma energia profunda e frenética. Jane podia compreendê-la; também já se sentira assim algumas vezes. Era indubitável que ela e Zahara haviam se tornado amigas porque reconheciam uma na outra um espírito afim.

A pele de Jane secou quase que imediatamente no ar quente e seco. Era agora o auge do verão, os dias eram compridos, secos e quentes. O bom tempo duraria mais um ou dois meses e depois, pelo resto do ano, seria terrivelmente frio.

Zahara ainda estava interessada no tema da conversa no dia anterior. E parou de esfregar os cabelos por um momento para dizer:

- Não importa o que as outras pessoas possam dizer, a maneira para engravidar é fazer todos os dias.

Houve concordância de Halima, a esposa de Mohammed Khan, mal-humorada, de olhos escuros.

- E a única maneira de não engravidar é nunca fazer.

Ela tinha quatro crianças, mas só um menino, Mousa. Ficara desapontada ao saber que Jane não conhecia nenhum meio de aumentar as suas chances de ter outro menino.

Zahara disse:

- Mas então o que se pode dizer a seu marido quando ele volta para casa depois de seis semanas com um comboio?

Jane comentou:

- Seja como a esposa do mula e ponha no buraco errado. Zahara explodiu numa gargalhada. Jane sorriu. Essa era uma técnica de controle da natalidade que não fora mencionada no curso intensivo que ela fizera em Paris, mas era evidente que os métodos modernos não chegariam ao Vale dos Cinco Leões por muitos anos mais. Assim, os métodos tradicionais tinham de ser aproveitados... talvez com a ajuda de um pouco de instrução.

A conversa desviou-se para a colheita. O vale era um mar de trigo dourado e cevada, porque os jovens estavam longe, lutando, durante a maior parte do tempo, e os mais velhos trabalhavam devagar na colheita ao luar. Ao final do verão, todas as famílias contariam seus sacos de farinha de trigo e cestos de frutos secos, verificariam as galinhas e cabras, reuniriam seus parcos recursos. Pensariam na iminente escassez de ovos e carne, arriscariam um palpite sobre os preços de inverno para o arroz e iogurte. Algumas famílias pegariam uns poucos bens preciosos e empreenderiam a longa jornada pelas montanhas para os campos de refugiados no Paquistão, como fizeram o comerciante da aldeia e milhões de outros afegãos.

Jane temia que os russos convertessem essa evacuação numa política oficial: incapazes de derrotar os guerrilheiros, eles tentariam destruir as suas comunidades, como os americanos fizeram no Vietnam, com o bombardeio intensivo de extensas áreas do interior. O Vale dos Cinco Leões se transformaria num deserto desabitado, e Mohammed, Zahara e Rabia se juntariam aos expatriados que viviam nos campos. Os rebeldes não poderiam resistir a uma blitz total, pois não dispunham de armas antiaéreas.

Mas as mulheres afegãs não tinham conhecimento dessas coisas. Jamais falavam da guerra, apenas das suas conseqüências. Pareciam não ter sentimentos em relação aos estrangeiros que traziam a morte súbita e a fome lenta ao vale. Encaravam os russos como um acidente da natureza, parecido com o tempo: um bombardeio era como uma geada, algo desastroso, mas que não era culpa de ninguém.

Estava escurecendo. As mulheres começaram a voltar à aldeia, Jane foi com Zahara, escutando sem muita atenção o que ela dizia e pensando em Chantal. Seus sentimentos em relação à filha haviam passado por vários estágios. Logo depois do nascimento, sentira-se exultante, com alívio, triunfo e alegria por ter gerado uma criança viva e perfeita. Depois que essa reação assentara, sentira-se totalmente angustiada. Não sabia como cuidar de uma criança e, ao contrário do que as pessoas diziam, não possuía um conhecimento instintivo de tudo. Ficara apavorada com a criança. Não houvera um ímpeto de amor maternal. Em vez disso, ela tivera sonhos e fantasias estranhos e assustadores em que a criança morria - caindo no rio, morta por uma bomba ou roubada à noite pelo tigre da neve. Não contara esses pensamentos a Jean-Pierre, com receio de que ele a julgasse louca.

Houvera conflitos com a parteira, Rabia Gul. Ela dissera que as mulheres não deviam amamentar durante os três primeiros dias porque o que saía não era leite. Jane decidira que era absurdo acreditar que a natureza pudesse fazer os seios das mulheres produzirem alguma coisa que fosse prejudicial aos recém-nascidos. Ignorara o conselho da velha. Rabia também dissera que a criança não deveria ser lavada por quarenta dias, mas Chantal tomava banho todos os dias, como qualquer bebê ocidental.

E depois Jane surpreendera Rabia a dar a Chantal manteiga misturada com açúcar, na ponta de seu dedo enrugado. Jane ficara furiosa. No dia seguinte Rabia fora cuidar de outro parto e mandara uma de suas muitas netas, uma garota de treze anos chamada Fará, para ajudar Jane. Fora uma grande melhoria. Fará não tinha preconceitos sobre os cuidados infantis e simplesmente fazia o que lhe era mandado. Não exigia pagamento: trabalhava pela comida, que era melhor na casa de Jane do que na casa de seus pais, e pelo privilégio de aprender tudo sobre bebês, como preparatório para o seu próprio casamento, que provavelmente ocorreria dentro de um ou dois anos.

Jane achava que Rabia podia estar também preparando Fará para se tornar uma futura parteira; nesse caso, a moça ganharia renome por ter ajudado a enfermeira ocidental a cuidar de sua filha.

Com Rabia fora do caminho, Jean-Pierre assumira seu papel.

Era gentil mas confiante com Chantal, atencioso e amoroso com Jane. Fora ele quem sugerira, um tanto firmemente, que Chantal poderia tomar leite de cabra fervido ao acordar à noite. Improvisara uma mamadeira com seus suprimentos médicos, a fim de poder se levantar pessoalmente para alimentar a filha. É claro que Jane sempre acordava quando Chantal chorava e permanecia desperta enquanto Jean-Pierre a alimentava; mas era muito menos cansativo e finalmente ela se livrara da tão deprimente sensação de exaustão absoluta e desesperadora.

Com o passar do tempo, ela descobrira em si mesma, embora ainda fosse ansiosa e insegura, um grau de paciência que nunca antes possuíra. Podia não ser o conhecimento instintivo profundo e a segurança que esperava, mas pelo menos lhe permitia enfrentar as crises diárias com serenidade. E naquele momento mesmo compreendeu que estava longe de Chantal há quase uma hora sem se preocupar.

As mulheres chegaram às casas que formavam o núcleo da aldeia e uma a uma desapareceu por trás dos muros de seus pátios. Jane afugentou algumas galinhas e empurrou uma vaca esquelética para poder entrar em sua casa. Lá dentro estava Fará, cantando para Chantal, à luz do lampião. A menina estava alerta, olhos arregalados, parecendo fascinada pelo canto de Fará. Era um acalanto de palavras simples e uma melodia complexa, tipicamente oriental. É uma criança bonita, pensou Jane, com as faces rechonchudas, o nariz pequeno, os olhos muito azuis.

Ela mandou Fará fazer um chá. A garota era muito tímida e chegara amedrontada e trêmula para o trabalho com os estrangeiros; mas o nervosismo diminuía e o temor inicial por Jane se convertia gradativamente em uma lealdade adoradora.

Jean-Pierre apareceu poucos minutos depois. A camisa e a calça larga de algodão estavam sujas e manchadas de sangue, havia poeira nos cabelos castanhos compridos e na barba escura. Parecia cansado. Estivera em Khenj, uma aldeia no vale a quinze quilômetros de distância, a fim de tratar dos sobreviventes de um bombardeio.

Jane ergueu-se na ponta dos pés para beijá-lo.

- Como foi? - indagou ela, em francês.

- Horrível. - Jean-Pierre retribuiu o beijo e depois foi inclinar-se sobre Chantal. - Olá, menina.

Ele sorriu e Chantal balbuciou.

- O que aconteceu? - perguntou Jane.

- A casa da família ficava a alguma distância do resto da aldeia e por causa disso eles pensaram que estavam seguros. - JeanPierre deu de ombros. - Levaram para lá alguns guerrilheiros feridos numa escaramuça mais ao sul.

É por isso que estou tão atrasado. - Sentou numa pilha de almofadas e indagou: - Tem chá?

- Já está vindo - respondeu Jane. - Que espécie de escaramuça?

Jean-Pierre fechou os olhos.

- A mesma coisa de sempre. O exército chegou em helicópteros e ocupou uma aldeia por motivos que só eles conhecem. Os aldeões fugiram. Os homens se reagruparam, receberam reforços e começaram a atacar os russos das encostas. Houve baixas nos dois lados. Os guerrilheiros finalmente ficaram sem munição e bateram em retirada.

Jane acenou com a cabeça. Sentia pena de Jean-Pierre: era deprimente cuidar das vítimas de uma batalha inútil. Banda nunca fora atacada, mas ela vivia com o temor constante de que isso pudesse acontecer. Tinha uma visão de pesadelo em que corria e corria, com Chantal no colo, enquanto os helicópteros circulavam por cima e as balas das metralhadoras se cravavam no terreno poeirento a seus pés.

Fará entrou na sala com chá verde quente, um pouco do pão achatado que eles chamavam nan e um pote de pedra com manteiga fresca. Jane e Jean-Pierre começaram a comer.

A manteiga era uma iguaria rara. O nan da noite era geralmente mergulhado em iogurte, coalhada ou óleo. Ao meio-dia normalmente comiam arroz com um molho de carne, que podia ou não ter carne dentro. Uma vez por semana tinham galinha ou cabra. Jane, ainda comendo por dois, dava-se o luxo de um ovo por dia. Naquela época do ano havia bastantes frutas frescas - damascos, ameixas, maçãs e amoras - para sobremesa. Jane sentia-se muito saudável com aquela dieta, embora a maioria das pessoas de origem inglesa pudesse considerar que eram rações de inanição e alguns franceses julgassem que era razão para suicídio. Ela sorriu para o marido e perguntou:

- Quer mais um pouco de molho Bearnaise com seu bife?

- Não, obrigado. - Ele estendeu a xícara. - Talvez outra gota do Chateau Cheval Blanc.

Jane serviu-lhe mais chá e ele fingiu provar como se fosse vinho.

- A safra de 1962 é menosprezada, por ter sucedido à inesquecível 61, mas sempre achei que sua relativa suavidade proporciona quase tanto prazer quanto a perfeição de elegância que é a característica austera de sua altiva antecessora.

Jane sorriu. Ele estava voltando a se sentir bem. Chantal gritou e Jane experimentou no mesmo instante um comichão em resposta nos seios. Pegou a menina no colo e começou a amamentá-la. Jean-Pierre continuou a comer. Jane disse:

- Deixe um pouco de manteiga para Fará.

- Está bem.

Ele saiu com o resto da refeição e retornou um instante depois com uma tigela cheia de amoras. Jane comeu enquanto Chantal mamava. Não demorou muito para que a menina estivesse adormecida, mas Jane sabia que ela despertaria dentro de poucos minutos e quereria mais. Jean-Pierre afastou a tigela para o lado e disse:

- Tenho outra queixa contra você.

- De quem? - indagou Jane bruscamente. Jean-Pierre parecia defensivo, mas obstinado.

- Mohammed Khan.

- Mas ele não falava por si mesmo.

- Talvez não.

- O que ele disse?

- Que você tem ensinado as mulheres da aldeia a serem estéreis.

Jane suspirou. Não era apenas a estupidez dos homens da aldeia que a irritava, mas também a atitude acomodada de Jean-Pierre a suas queixas. Ela queria que o marido

a defendesse, e não que se submetesse a seus acusadores.

- Abdullah Karim está por trás, é claro - murmurou ela. A mulher do mula estava sempre na beira do rio e sem dúvida comunicava ao marido tudo o que ouvia.

- Talvez você tenha de parar - comentou Jean-Pierre.

- Parar o quê?

Jane podia perceber um tom perigoso se insinuando em sua própria voz.

- De dizer a elas como evitar a gravidez.

Não era uma descrição justa do que Jane ensinara às mulheres, mas ela não estava disposta a defender-se ou a pedir desculpas.

- Por que eu deveria parar?

- Está criando dificuldades - disse Jean-Pierre, com um ar paciente que irritou Jane. - Se ofendermos demais o mula, talvez tenhamos de deixar o Afeganistão. E o que é mais importante, isso deixaria a Médecins pour la Liberte com péssima reputação e os rebeldes poderiam se recusar a aceitar outros médicos.

Afinal, esta é uma guerra santa... a saúde espiritual é mais importante que a física. Eles podem chegar à conclusão de que estarão melhor sem a gente.

Havia outras organizações que enviavam jovens médicos franceses idealistas ao Afeganistão, mas Jane nada falou a respeito. Em vez disso, comentou em tom incisivo:

- Teremos de assumir esse risco.

- Teremos? - repetiu Jean-Pierre, deixando Jane perceber que estava cada vez mais irritado. - E por quê?

- Porque só há uma coisa de valor permanente que podemos dar a esta gente: informação. É maravilhoso remendar seus ferimentos e lhes dar medicamentos para matar germes, mas eles jamais terão médicos e medicamentos em quantidade suficiente. Podemos melhorar a saúde dessa gente em caráter permanente se lhes ensinarmos noções básicas de nutrição, higiene e cuidados sanitários. É melhor ofender Abdullah do que parar de fazer isso.

- Mesmo assim, eu gostaria que você não fosse inimiga desse homem.

- Ele me bateu com um bastão! - gritou Jane, furiosa. Chantal começou a chorar. Jane forçou-se a manter a calma.

Embalou a filha por um momento e depois recomeçou a amamentála. Por que Jean-Pierre não percebia como a sua atitude era covarde? Como podia se deixar intimidar pela ameaça de expulsão daquele país desolado? Jane suspirou. Chantal afastou o rosto do seio da mãe e deixou escapar alguns ruídos insatisfeitos. E antes que a discussão pudesse continuar eles ouviram gritos distantes.

Jean-Pierre franziu o rosto, escutando, e depois levantou-se. Uma voz de homem vinha do pátio. Jean-Pierre pegou um xale e passou-o pelos ombros de Jane. Ela apertou-o na frente. Era um acordo entre os dois: o xale não chegava a cobri-la de maneira suficiente, pelos padrões afegãos, mas ela se recusava terminantemente a se retirar como uma cidadã de segunda classe se um homem entrava em sua casa quando amamentava a filha; e quem quer que objetasse, ela anunciara, era melhor não procurar o médico. Jean-Pierre gritou em dari:

- Entre.

Era Mohammed Khan. Jane estava com vontade de dizer o que pensava dele e do resto dos homens da aldeia, mas hesitou quando viu a tensão em seu rosto bonito. E Mohammed mal olhou para ela.

- O comboio sofreu uma emboscada - disse ele, sem qualquer preâmbulo. - Perdemos vinte e sete homens... e todos os suprimentos.

Jane fechou os olhos em angústia. Viajara com um comboio assim ao chegar ao Vale dos Cinco Leões e não podia deixar de imaginar a emboscada: a linha de homens de pele escura e cavalos esqueléticos, iluminada pelo luar, estendendo-se de maneira irregular por uma trilha rochosa, ao longo de um vale estreito e cheio de sombras; o barulho dos helicópteros num súbito crescendo; os foguetes luminosos, as granadas, o fogo de metralhadoras; o pânico, enquanto os homens tentavam se abrigar na encosta nua; os tiros inúteis disparados contra os invulneráveis helicópteros; e, finalmente, os gritos dos feridos, os estertores dos agonizantes.

Pensou abruptamente em Zahara; o marido dela estava no comboio.

- O que... o que aconteceu com Ahmed Gul?

- Ele voltou. !

- Graças a Deus!

- Mas está ferido.

- Quem desta aldeia morreu?

- Ninguém. Banda teve sorte. Meu irmão Matullah está bem e o mesmo acontece com Alishan Karim, o irmão do mula. Há três outros sobreviventes... dois feridos.

Jean-Pierre disse:

- Irei vê-los imediatamente.

Ele passou para a sala da frente da casa, que fora outrora a loja, depois se transformara na clínica e era agora o depósito de suprimentos médicos.

Jane pôs Chantal no berço improvisado no canto e arrumou-se apressadamente. Jean-Pierre provavelmente precisaria de sua ajuda e, se não fosse necessária, poderia prestar um apoio moral a Zahara. Mohammed comentou:

- Quase não temos mais munição.

Jane não sentiu muito pesar por isso. Estava revoltada com a guerra e não derramaria lágrimas se os rebeldes fossem obrigados por algum tempo a parar de matar os pobres soldados russos, garotos de dezessete anos com a maior saudade de casa. Mohammed acrescentou:

- Perdemos quatro comboios em um ano. Apenas três conseguiram passar.

- Como os russos puderam descobri-los?

Jean-Pierre, que escutava na sala ao lado, falou através da porta aberta:

- Eles devem ter aumentado a vigilância nos desfiladeiros com helicópteros em vôo baixo... ou talvez mesmo por fotografias de satélites.

Mohammed sacudiu a cabeça.

- Os pushtuns nos traíram.

Jane refletiu que era bem possível. Nas aldeias por que passavam, os comboios eram às vezes encarados como um ímã para os ataques russos e era concebível que alguns aldeões pudessem comprar sua segurança com informações ao inimigo sobre as suas posições... embora Jane não pudesse imaginar como eles transmitiriam as informações aos russos.

Ela pensou no que estava esperando do comboio emboscado. Pedira mais antibióticos, algumas seringas hipodérmicas e uma porção de ataduras esterilizadas. Jean-Pierre escrevera uma lista comprida de medicamentos. A organização Médecins pour Ia Liberte tinha um homem de ligação em Peshawar, a cidade no noroeste do Paquistão em que os guerrilheiros compravam suas armas. Ele podia obter os suprimentos básicos ali, mas tinha de importar os medicamentos de avião da Europa Ocidental. Era um horrível desperdício. Podiam se passar meses antes que chegassem novos suprimentos. Para Jane, era uma perda muito maior do que a da munição.

Jean-Pierre voltou, carregando a sua bolsa. Os três saíram para o pátio. Estava escuro. Jane parou por um instante, dando instruções a Fará sobre a troca de fraldas de Chantal, e depois seguiu depressa atrás dos dois homens.

Alcançou-os quando se aproximavam da mesquita. Não era um prédio magnífico. Não possuía as cores deslumbrantes ou os ornamentos requintados que se encontra nos livros ilustrados sobre a arte islâmica. Era aberto de um lado, o telhado de esteiras sustentado por colunas de pedras. Jane achava que parecia um abrigo de ônibus embelezado ou talvez a varanda de uma mansão colonial em ruínas. Uma arcada no meio do prédio levava a um pátio murado. Os aldeões não lhe dispensavam muita reverência. Oravam ali, mas também usavam o lugar como centro de reuniões, mercado, sala de aula e casa de hóspedes. E naquela noite seria um hospital.

Lampiões a óleo pendiam de ganchos nas colunas de pedra e iluminavam agora a mesquita parecida com uma varanda. Os aldeões estavam agrupados à esquerda da arcada.

Estavam deprimidos, várias mulheres choravam baixinho, podia-se ouvir as vozes de dois homens, um deles fazendo perguntas, o outro respondendo. A multidão recuou para dar passagem a Jean-Pierre, Mohammed e Jane.

Os seis sobreviventes da emboscada estavam juntos, no chão de terra batida. Os três ilesos estavam acocorados, ainda usando os gorros chitrali redondos, parecendo sujos, desolados e exaustos. Jane reconheceu Matullah Khan, uma versão mais jovem do irmão Mohammed, e Alishan Karim, mais magro que o irmão mula, mas com a mesma aparência vil. Dois dos feridos estavam sentados no chão, encostados na parede, um deles com uma faixa ensangüentada em torno da cabeça, o outro com o braço numa tipóia improvisada. Jane não conhecia qualquer dos dois e avaliou automaticamente seus ferimentos: à primeira vista, não pareciam graves.

Ahmed Gul, o terceiro ferido, estava estendido numa maça feita com dois pedaços de pau e uma manta. Os olhos estavam fechados, a pele cinzenta. Sua mulher, Zahara, agachava-se por trás, aninhando-lhe a cabeça no colo, afagando-lhe os cabelos, chorando silenciosamente. Jane não podia ver seus ferimentos, mas calculava que deviam ser graves.

Jean-Pierre pediu uma mesa, água quente e toalhas, depois foi se ajoelhar ao lado de Ahmed. Poucos segundos depois ele olhou para os outros guerrilheiros e perguntou, em dari:

- Ele estava no meio de uma explosão?

- Os helicópteros tinham foguetes - respondeu um dos homens ilesos. - E um deles explodiu ao lado de Ahmed.

Jean-Pierre virou-se para Jane e disse, em francês:

- Ele está muito mal. É um milagre que tenha sobrevivido ao resto da jornada.

Jane podia ver as manchas de sangue no queixo de Ahmed: ele estivera tossindo sangue, um sinal de lesões internas. Zahara olhou suplicante para Jane.

- Como ele está? - perguntou ela, em dari.

- Lamento muito, minha amiga - respondeu Jane, tão gentilmente quanto podia - mas ele está mal.

Zahara acenou com a cabeça, resignada: já sabia disso, mas a confirmação trouxe novas lágrimas a seu rosto bonito.

- Examine os outros para mim - Jean-Pierre pediu a Jane. - Não quero perder um minuto sequer.

Jane foi examinar os outros dois feridos.

- O ferimento na cabeça é apenas um arranhão - disse ela, depois de um momento.

- Cuide desse - murmurou Jean-Pierre.

Ele estava supervisionando a colocação de Ahmed em cima de uma mesa. Jane examinou o homem com o braço na tipóia. O ferimento era mais grave: parecia que uma bala despedaçara o osso.

- Deve ter doído muito - disse ela ao guerrilheiro, em dari. Ele sorriu e balançou a cabeça. Aqueles homens eram moldados em ferro. Jane informou a Jean-Pierre:

- A bala quebrou o osso.

Jean-Pierre não levantou os olhos de Ahmed.

- Aplique uma anestesia local, limpe o ferimento, tire os fragmentos e providencie uma tipóia limpa. Consertaremos o osso depois.

Ela começou a preparar a injeção. Jean-Pierre chamaria quando precisasse de sua ajuda. Tudo indicava que seria uma noite longa.

Ahmed morreu alguns minutos depois de meia-noite, e Jean-Pierre sentiu vontade de chorar - não de tristeza, pois mal conhecia Ahmed, mas de pura frustração, pois sabia que poderia salvar a vida do homem se dispusesse de um anestesista, eletricidade e uma sala de operações. Cobriu o rosto do morto e olhou para a esposa, que estivera de pé, imóvel, observando, por horas.

- Lamento muito.

Ela acenou com a cabeça. Jean-Pierre ficou contente por ela estar calma. Às vezes acusavam-no de não tentar tudo; pareciam pensar que ele sabia tanto que não havia coisa alguma que não pudesse curar, deixando-o com vontade de gritar para todos Eu não sou Deus. Mas aquela mulher dava a impressão de compreender.

Jean-Pierre afastou-se do cadáver. Estava esgotado. Passara o dia inteiro trabalhando em corpos mutilados, mas aquele era o primeiro paciente que perdia. As pessoas que assistiam, quase todas parentes do morto, adiantaram-se agora para cuidar do corpo. A viúva começou a chorar e Jane levou-a embora.

Jean-Pierre sentiu uma mão em seu ombro. Virou-se e se deparou com Mohammed, o guerrilheiro que organizava os comboios. Sentiu uma pontada de culpa.

- É a vontade de Alá - disse Mohammed. Jean-Pierre assentiu. Mohammed tirou do bolso um maço de cigarros paquistaneses e acendeu um. Jean-Pierre começou a recolher seus instrumentos e guardá-los na bolsa. E perguntou, sem olhar para Mohammed:

- O que você vai fazer agora?

- Enviar outro comboio imediatamente. Precisamos de munição.

Jean-Pierre ficou alerta no mesmo instante, apesar da fadiga.

- Quer dar uma olhada nos mapas?

- Quero.

Jean-Pierre fechou a bolsa e os dois homens deixaram a mesquita. As estrelas iluminavam o caminho pela aldeia até a casa do comerciante. Fará dormia na sala, num tapete, ao lado do berço de Chantal. Ela acordou e levantou-se.

- Pode ir para casa agora - dissê-lhe Jean-Pierre.

Ela saiu sem falar. Jean-Pierre pôs a bolsa no chão, depois pegou o berço com extremo cuidado e levou-o para o quarto. Chantal continuou adormecida até que ele pôs o berço no chão, quando então desatou a chorar.

- Mas o que é isso? - murmurou Jean-Pierre. Ele olhou para seu relógio de pulso e compreendeu que a menina devia estar com fome. - Mamãe já vem.

Não adiantou. Ele tirou-a do berço e começou a niná-la. Chantal se aquietou. Jean-Pierre levou-a para a sala. Mohammed ainda estava de pé, esperando. Jean-Pierre disse:

- Você sabe onde estão os mapas.

Mohammed balançou a cabeça e foi abrir uma arca de madeira pintada. Tirou um maço de mapas dobrados, selecionou vários, abriu-os no chão. Jean-Pierre, sempre ninando Chantal, espiou por cima do ombro de Mohammed, indagando:

- Onde foi a emboscada?

Mohammed apontou para um ponto próximo da cidade de Jalalabad.

As trilhas seguidas pelos comboios de Mohammed não eram indicadas naqueles ou em quaisquer outros mapas. Contudo, os mapas de Jean-Pierre mostravam alguns vales, platôs e córregos sazonais em que podia haver trilhas. Às vezes Mohammed sabia de cor o que havia ali. Em outras ocasiões ele tinha de adivinhar e discutia com Jean-Pierre a interpretação exata das linhas de contorno ou as características mais obscuras do terreno, como as morenas. JeanPierre sugeriu:

- Podia passar mais pelo norte, contornando Jalalabad. Por cima da planície em que ficava a cidade havia um labirinto de vales, como uma teia de aranha, estendendo-se entre os rios Konar e Nuristan.

Mohammed acendeu outro cigarro - como a maioria dos guerrilheiros, era um fumante inveterado - e sacudiu a cabeça em dúvida, enquanto soprava a fumaça.

- Houve emboscadas demais naquela área - disse ele. - Se ainda não estão nos traindo, certamente o farão em breve. O próximo comboio passará ao sul de Jalalabad.

Jean-Pierre franziu o rosto.

- Não sei como isso será possível. Não há nada além de campo aberto ao sul, desde o Passo Khyber. Seria avistado.

- Não usaremos o Passo Khyber - declarou Mohammed. Pôs o dedo no mapa e acompanhou a fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão, para o sul. - Atravessaremos a fronteira em Teremengal.

O dedo alcançou a cidade indicada, depois traçou um percurso de lá até o Vale dos Cinco Leões. Jean-Pierre assentiu, disfarçando seu júbilo.

- Faz sentido. Quando o próximo comboio sairá daqui? Mohammed começou a dobrar os mapas.

- Depois de amanhã. Não há tempo a perder.

Ele tornou a guardar os mapas na arca pintada e encaminhou-se para a porta. Jane entrou no instante em que ele saía. Mohammed dissê-lhe "Boa noite" distraidamente.

Jean-Pierre sentia-se satisfeito porque o belo guerrilheiro não sentia mais tesão por Jane desde que ela engravidara. Ela era inegavelmente supersensual, na opinião de Jean-Pierre, e bem capaz de se deixar seduzir; e ter um caso com um afegão causaria problemas intermináveis.

A bolsa médica de Jean-Pierre estava no chão, onde ele a deixara. Jane abaixou-se para pegá-la. O coração dele quase parou. Apressou-se em tirar a bolsa das mãos de Jane. Ela ficou um pouco surpresa e Jean-Pierre disse:

- Vou guardá-la. E você cuide de Chantal. Ela está com fome.

Ele entregou-lhe a menina. Levou a bolsa e um lampião para a sala na frente, enquanto Jane se acomodava para alimentar Chantal. Caixas de suprimentos médicos estavam empilhadas no chão de terra. Caixas já abertas estavam arrumadas nas toscas prateleiras de madeira da antiga loja. Jean-Pierre pôs a bolsa médica no balcão de azulejos azuis e tirou um objeto preto de plástico, mais ou menos do tamanho e do formato de um telefone portátil. Guardou-o no bolso da calça.

Esvaziou a bolsa, pondo num lado os instrumentos que preci savam ser esterilizados e arrumando o que não usara nas prateleiras. Voltou à sala de estar e disse a Jane:

- Vou descer até o rio para tomar um banho. Estou sujo demais para me deitar.

Jane ofereceu-lhe o sorriso sonhador e satisfeito que muitas vezes exibia quando amamentava a filha.

- Não demore. Ele saiu.

A aldeia estava finalmente adormecendo. Lampiões ainda ardiam em algumas casas e ele ouviu por uma janela o som de um choro desesperado de mulher, mas a maioria das casas estava silenciosa e escura. Passando pela última casa da aldeia ele ouviu uma voz de mulher alteada num canto triste de lamento; por um momento, sentiu o peso opressivo das mortes que causara, mas tratou de afastar o pensamento da mente.

Seguiu por uma trilha pedregosa entre dois campos de cevada, olhando constantemente ao redor e escutando com atenção: os homens da aldeia deviam estar agora trabalhando.

Ouviu num campo o barulho das foices e num terraço estreito avistou dois homens arrancando as ervas daninhas à luz de um lampião. Não falou com eles.

Chegou ao rio, atravessou o vau, subiu pela trilha sinuosa no penhasco do outro lado. Sabia que estava perfeitamente seguro, mas mesmo assim sentia-se cada vez mais tenso, enquanto subia pelo caminho íngreme, à tênue claridade.

Depois de dez minutos alcançou o ponto elevado que procurava. Tirou o rádio do bolso da calça e puxou a antena embutida. Era o mais moderno e sofisticado transmissor pequeno que a KGB possuía, mas mesmo assim o terreno era tão adverso às transmissões de rádio que os russos haviam construído uma estação especial de retransmissão, no alto de uma colina, dentro do território que controlavam, a fim de captar seus sinais e passá-los adiante.

Jean-Pierre apertou o botão de falar e disse em inglês, no código combinado:

- Aqui é Simplex. Entre, por favor.

Esperou um instante, tornou a chamar. Depois da terceira tentativa recebeu uma resposta cheia de estática, com forte sotaque:

- Aqui é Butler. Pode falar, Simplex.

- Sua festa foi um grande sucesso.

- Repito: A festa foi um grande sucesso.

- Vinte e sete pessoas compareceram e mais uma apareceu depois.

- Repito: Vinte e sete pessoas compareceram e mais uma apareceu depois.

- Em preparativo para a próxima, preciso de três camelos. No código, isso significava "Encontre-se comigo daqui a três dias".

- Repito: Você precisa de três camelos.

- Verei você na mesquita.

Isso também era código: "a mesquita" era um local a alguns quilômetros de distância, em que três vales se encontravam.

- Repito: na mesquita.

- Hoje é domingo.

Isso não era código, mas sim uma precaução contra a possibilidade de que o idiota que estivesse recebendo a mensagem não compreendesse que já passava de meia-noite, trazendo como conseqüência a chegada do contato de Jean-Pierre ao ponto de encontro um dia antes.

- Repito: Hoje é domingo.

- Encerro e desligo.

Jean-Pierre baixou a antena e tornou a guardar o rádio no bolso da calça.

Tirou as roupas depressa. Pegou no bolso da camisa uma escovinha de unhas e um pedaço pequeno de sabão. O sabão era um artigo escasso, mas ele tinha prioridade, como médico.

Entrou cautelosamente no Rio dos Cinco Leões, ajoelhou-se, espalhou a água gelada pelo corpo. Ensaboou a pele e os cabelos, depois pegou a escovinha e começou a esfregar-se: pernas, barriga, peito, rosto, braços e mãos. Trabalhou especialmente as mãos, ensaboando-as várias vezes. Ajoelhando-se na água rasa, nu e tremendo, sob a luz das estrelas, ele esfregou e esfregou, como se nunca mais fosse parar.

 

- A criança tem sarampo, gastroenterite e tinha - disse JeanPierre. - Está também imunda e desnutrida.

- Não é o que acontece com todas? - murmurou Jane.

Eles falavam em francês, como normalmente faziam ao conversarem entre si, a mãe da criança olhava de um para outro, especulando sobre o que estariam dizendo. Jean-Pierre percebeu sua ansiedade e lhe falou, dizendo simplesmente, em dari:

- Seu filho vai ficar bom.

Ele foi para o outro lado da caverna e abriu a caixa com os medicamentos. Todas as crianças levadas à clínica eram automaticamente vacinadas contra a tuberculose.

Enquanto preparava a injeção de BCG, ele observou Jane pelo canto do olho. Ela estava dando ao menino pequenos goles de uma bebida reidratante - uma mistura de glicose, sal, bicarbonate de sódio e cloreto de potássio, tudo dissolvido em água destilada. Entre os goles, ela lavava delicadamente o rosto sujo da criança. Seus movimentos eram rápidos e graciosos, como os de um artífice - talvez um oleiro moldando o barro ou um pedreiro manipulando sua pá. Jean-Pierre observou suas mãos estreitas tocarem de leve a criança assustada, em carícias tranqüilizadoras. Ele gostava daquelas mãos.

Jean-Pierre virou-se ao ajeitar a agulha, a fim de que a criança não visse. Escondendo a seringa na mão, tornou a virar-se, esperando por Jane. Contemplou-lhe o rosto, enquanto ela limpava a pele no ombro direito do menino, esfregando uma mecha de algodão embebido em álcool. Era um rosto brejeiro, olhos grandes, nariz arrebitado, a boca larga que sorria com freqüência. Mas agora a expressão era séria e Jane deslocava o queixo de um lado para outro, como se rangesse os dentes, um sinal de que estava se concentrando. Jean-Pierre conhecia todas as suas expressões, mas nenhum dos seus pensamentos.

Ele especulava muitas vezes - quase que continuamente - sobre o que Jane estaria pensando, mas tinha receio de perguntar, pois tal conversa poderia facilmente se desviar para território proibido. Ele precisava se manter em guarda constantemente, como um marido infiel, com receio de que alguma coisa que dissesse - ou mesmo a expressão de seu rosto - pudesse traí-lo. Era tabu qualquer conversa sobre verdade e desonestidade, confiança e traição ou liberdade e tirania; e o mesmo acontecia com os temas que podiam levar a isso, como amor, guerra e política. Jean-Pierre se mantinha cauteloso até mesmo quando falava de tópicos inocentes. Em conseqüência, havia uma estranha falta de intimidade em seu casamento. Fazer amor era difícil. Ele descobrira que não podia chegar ao orgasmo se não fechasse os olhos e imaginasse que se encontrava em outro lugar. Fora um alívio para ele não ter de encenar durante as últimas semanas, por causa do nascimento de Chantal.

- Estou pronta quando você estiver - anunciou Jane. Jean-Pierre percebeu que ela lhe sorria. Ele pegou o braço do menino e perguntou em dari:

- Quantos anos você tem?

- Sete.

Enquanto o menino falava, Jean-Pierre enterrava a agulha. O menino se pôs a berrar no mesmo instante. O som de sua voz levou Jean-Pierre a pensar em si mesmo quando tinha sete anos, andando em sua primeira bicicleta e caindo, chorando daquele mesmo jeito, um estridente uivo de protesto pela dor inesperada. Fitou atentamente o rosto contraído do paciente de sete anos, lembrando o quanto doera e como se sentira furioso. Descobriu-se pensando: Como vim de lá até aqui?

Jean-Pierre soltou o menino e aproximou-se da mãe. Contou trinta cápsulas de 250 miligramas de griseofulvina e entregou-as à mãe.

- Ele tem de tomar uma por dia, até acabar - disse JeanPierre, no dari mais simples. - Não dê para qualquer outra pessoa... ele precisa de todas.

Aquilo cuidaria dos vermes. O sarampo e a gastroenterite seguiriam seu curso normal até o fim. Jean-Pierre acrescentou:

- Faça ele ficar na cama até as manchas sumirem. E ele tem de beber muita água.

A mulher assentiu.

- Ele tem irmãos?

- Cinco irmãos e duas irmãs - respondeu a mulher, orgulhosa.

- Ele deve dormir sozinho ou os outros também ficarão doentes.

A mulher parecia indecisa: provavelmente só tinha uma cama para todos os filhos. Não havia nada que Jean-Pierre pudesse fazer a respeito. Ele continuou:

- Se o menino não melhorar até as cápsulas acabarem, tragão de volta à clínica.

O que a criança realmente precisava era de uma coisa que nem Jean-Pierre nem a mãe podiam proporcionar - uma abundância de comida boa e nutritiva.

Os dois deixaram a caverna, o menino magro e doente, a mãe frágil e cansada. Era bem provável que tivessem percorrido muitos quilômetros, a mãe carregando o menino durante a maior parte do caminho. Agora, voltariam a pé. O menino podia morrer de qualquer maneira. Mas não de tuberculose.

Havia mais um paciente: o malang. Era o homem santo de Banda. Meio louco, quase sempre seminu, ele vagueava pelo Vale dos Cinco Leões, desde Cornar, a cerca de quarenta quilômetros de Banda, rio acima, até Charikar, na planície controlada pelos russos, cem quilômetros a sudoeste. Falava de maneira incoerente e tinha visões. Os afegãos acreditavam que os malangs davam sorte e não apenas toleravam seu comportamento, como também lhes davam comida, bebida e roupas.

Ele entrou, usando trapos na virilha e um quepe de oficial russo. Comprimiu a barriga, simulando dor. Jean-Pierre pegou um punhado de pílulas de diamorfina e entregou-as ao homem. O louco saiu correndo com suas pílulas de heroína sintética.

- Ele deve estar viciado a esta altura - comentou Jane. Havia um tom nítido de desaprovação em sua voz.

- Tem razão - admitiu Jean-Pierre.

- Então por que continua a dar?

- O homem tem uma úlcera. O que mais posso fazer... operar? - você é o médico.

Jean-Pierre começou a arrumar a valise. Pela manhã estaria vendo os doentes em Cobak, a dez ou doze quilômetros de distância, através das montanhas... e no caminho tinha um encontro marcado.

O choro do menino de sete anos trouxera alguma coisa do passado para a caverna, como um cheiro de brinquedos velhos ou uma luz estranha que nos leva a esfregar os olhos. Jean-Pierre sentia-se um pouco desorientado. Não parava de ver as pessoas de sua infância, os rostos se sobrepondo às coisas ao redor, como cenas de um filme projetado por um aparelho fora de posição nas costas da audiência, e não na tela. Viu a sua primeira professora, de óculos de aros de aço, Mademoiselle Médecin; Jacques Lafontaine, que arrancara sangue de seu nariz por tê-lo chamado de safado; a mãe, magra, malvestida e sempre atormentada; e principalmente o pai, um homem enorme, irado, no outro lado de uma divisória gradeada.

Fez um esforço para se concentrar nos equipamentos e medicamentos de que precisaria em Cobak. Encheu um frasco com água destilada para beber enquanto estivesse lá.

Os aldeões lhe dariam comida.

Saiu com as valises e ajeitou-as no lombo da velha-égua de maus bofes que usava nessas viagens. A égua podia andar o dia inteiro em linha reta, mas relutava obstinadamente em virar nas curvas; por causa disso, Jane a apelidara de Maggie, em homenagem a Margaret Thatcher, a primeira-ministra britânica.

Jean-Pierre estava pronto. Voltou ao interior da caverna e deu um beijo leve na boca macia de Jane. Quando se virava para ir embora, Fará entrou com Chantal. A menina estava chorando. Jane desabotoou a camisa e pôs Chantal no seio no mesmo instante. JeanPierre acariciou a face rosada da filha e murmurou:

- Bon appetit.

E depois saiu. Desceu com Maggie para a aldeia deserta e seguiu para sudoeste, acompanhando a margem do rio. Andava depressa, incansável, sob o sol quente; estava acostumado.

Ao deixar a personalidade de médico para trás e pensar no encontro iminente, começou a sentir-se ansioso. Anatoly estaria lá? Ele podia ter se atrasado. Podia até ter sido capturado. Se fora capturado, teria contado tudo? Denunciara Jean-Pierre sob tortura? Um grupo de guerrilheiros estaria à espera de Jean-Pierre, implacável e sádico, sedento de vingança?

Apesar de toda a sua poesia e toda a sua piedade, aqueles afegãos eram bárbaros.

O esporte nacional era o buzkashi, um jogo perigoso e sangrento: o corpo decapitado de um bezerro era colocado no centro de um campo e duas equipes rivais se alinhavam a cavalo, em lados opostos. A um tiro de rifle, todos disparavam para a carcaça. O objetivo era pegar o corpo do bezerro, levar a um ponto determinado, a cerca de um quilômetro e meio de distância, depois trazer de volta ao círculo, sem permitir que qualquer dos adversários o arrancasse de seu poder. Quando o macabro objeto era esquartejado, como acontecia com freqüência, um juiz decidia qual a equipe que controlaria o remanescente maior. Jean-Pierre assistira a uma partida no inverno anterior, nos arredores da pequena cidade de Rokha, no fundo do vale. Assistia há uns poucos minutos quando percebera que não estavam usando um bezerro, mas sim um homem, e o homem ainda estava vivo. Repugnado, ele tentara interromper a partida, mas alguém lhe dissera que o homem era um oficial russo, como se isso fosse toda e qualquer explicação que um homem poderia querer. Os jogadores simplesmente ignoraram JeanPierre e não havia nada que ele pudesse fazer para atrair a atenção dos cinqüenta cavaleiros muito excitados, empenhados em seu jogo selvagem. Ele não ficara para observar o homem morrer, mas talvez devesse ter ficado, pois a imagem que permanecera em sua mente e lhe voltava cada vez que se preocupava em ser descoberto era a do russo, desamparado e sangrando, sendo dilacerado vivo.

O senso do passado ainda persistia; enquanto olhava para as paredes rochosas, cor de caqui, da ravina por que passava, ele viu cenas de sua infância se alternando com pesadelos de sua descoberta pelos guerrilheiros. A recordação mais antiga era a do julgamento, a sensação opressiva de indignação e injustiça que experimentara quando mandaram o pai para a cadeia. Não sabia ler, mas pôde reconhecer o nome do pai nas manchetes dos jornais. Naquela idade - devia ter quatro anos - não sabia o que significava ser um herói da Resistência. Sabia que o pai era um comunista, assim como também o eram os amigos do pai, o padre, o sapateiro e o balconista da agência postal da aldeia; mas pensava que todos o chamavam de Roland Vermelho por causa de sua pele avermelhada. Quando o pai fora considerado culpado de traição e condenado a cinco anos de prisão, disseram a Jean-Pierre que era por causa de Tio Abdul, um homem assustado, de pele marrom, que passara várias semanas em sua casa e era da FLN. Mas Jean-Pierre não sabia o que era a FLN e pensara que estavam se referindo ao elefante do jardim zoológico. A única coisa que compreendera claramente, em que sempre acreditara, fora a de que a polícia era cruel, os juizes desonestos, e o povo enganado pelos jornais.

À medida que os anos passavam, ele compreendia mais, sofria mais, a indignação aumentava. Quando fora para a escola, os outros garotos disseram que seu pai era um traidor. Jean-Pierre declarara que, ao contrário, o pai lutara corajosamente e arriscara a vida na guerra. Mas os outros não acreditaram. Ele e a mãe foram viver em outra aldeia por algum tempo, mas os vizinhos acabaram descobrindo quem eram e ordenaram a seus filhos para não brincarem com Jean-Pierre. Mas o pior eram as visitas à prisão. O pai mudara visivelmente, tornando-se pálido, magro e doentio; e pior que isso era vê-lo confinado, usando um uniforme miserável, intimidado, assustado, dizendo "Senhor" a guardas arrogantes, armados de cassetetes. Não demorara muito para que o cheiro da prisão começasse a deixar Jean-Pierre nauseado.

Ele vomitava sempre que passava pelas portas e a mãe deixara de levá-lo nas visitas.

Só depois que o pai saíra da prisão é que Jean-Pierre pudera conversar com ele à vontade, compreendendo tudo então. Percebera que a injustiça do que acontecera era ainda pior do que imaginara. Depois que os alemães invadiram a França, os comunistas franceses, já organizados em células, desempenharam um papel da maior importância na Resistência. Terminada a guerra, o pai continuara na luta contra a tirania da extrema direita. A Argélia era na ocasião uma colônia francesa. Seu povo era oprimido e explorado, mas lutava bravamente pela liberdade. Jovens franceses eram recrutados para o exército e obrigados a combater os argelinos, numa guerra cruel, em que as atrocidades cometidas pelo exército francês lembravam a muitas pessoas o trabalho dos nazistas. A FLN, que para Jean-Pierre sempre estaria associada à imagem de um velho elefante sarnento, num zoológico provinciano, era a Frente de Libertação Nacional do povo argelino.

O pai de Jean-Pierre fora uma das cento e vinte e uma pessoas muito conhecidas que assinaram um manifesto em favor da liberdade para os argelinos. A França estava em guerra e o manifesto fora considerado subversivo, pois podia ser interpretado como um estímulo aos soldados franceses para desertarem. Mas o pai fizera mais do que isso: levara uma valise cheia de dinheiro coletado entre o povo francês para a FLN, atravessando a fronteira para a Suíça e depositando num banco; acolhera Tio Abdul, que não era absolutamente um tio, mas sim um argelino procurado pela polícia secreta francesa.

Ele explicara a Jean-Pierre que eram exatamente as mesmas coisas que fizera na guerra contra os nazistas. Continuava a travar a mesma luta. O inimigo nunca fora o povo alemão, assim como não era agora o povo francês: eram os capitalistas, os donos da propriedade, os ricos e privilegiados, a classe dominante, que recorreria a todos os meios para defender sua posição, por mais brutais que fossem. Eram tão poderosos que controlavam a metade do mundo - mas mesmo assim havia esperança para os pobres, os indefesos e oprimidos, pois em Moscou o povo predominava e no resto do mundo as classes trabalhadoras se voltavam para a União Soviética em busca de ajuda, orientação e inspiração, em sua luta pela liberdade.

À medida que Jean-Pierre foi ficando mais velho a imagem se tornou empanada e ele descobriu que a União Soviética não era o paraíso dos trabalhadores; mas nada aprendeu para alterar a sua convicção básica de que o movimento comunista, orientado por Moscou, era a única esperança para as pessoas oprimidas do mundo e o único meio de destruir a polícia, os juizes e os jornais, que haviam traído seu pai de maneira tão brutal.

O pai conseguira entregar a tocha ao filho. E, como se soubesse disso, o pai entrara em declínio. Jamais recuperara o rosto vermelho. Nunca mais comparecera a manifestações, organizara bailes de levantamento de fundos ou escrevera cartas para os jornais locais. Tivera uma série de empregos burocráticos simples. Continuara a pertencer ao Partido, como não podia deixar de ser, e a um sindicato, mas não retomara a presidência de comitês, a elaboração de atas, o preparo de agendas. Ainda jogava xadrez e bebia licor de anis com o padre, o sapateiro e o homem que dirigia a agência local dos correios, mas suas discussões políticas outrora veementes careciam agora de qualquer brilho, como se a revolução pela qual se empenharam estivesse indefinidamente adiada. O pai morrera poucos anos depois. Só então Jean-Pierre descobriu que ele contraíra tuberculose na prisão e nunca se recuperara. Haviam-no privado da liberdade, destruído o seu espírito e arruinado sua saúde. Mas o pior de tudo fora o fato de marcarem-no como um traidor. Ele era um herói que arriscara a vida por seus semelhantes, mas morrera condenado por traição.

Eles se arrependeriam agora, papai, se soubessem da minha vingança, pensou Jean-Pierre, enquanto conduzia a égua esquelética pela trilha íngreme nas montanhas do Afeganistão. Graças às minhas informações, os comunistas daqui foram capazes de estrangular as linhas de suprimentos de Masud. No inverno anterior ele não conseguira estocar armas e munições. Este verão, em vez de desfechar ataques a bases aéreas, estações transmissoras de energia e comboios de caminhões nas estradas Masud está lutando para se defender da ofensiva do governo em seu território. Sozinho, papai, quase que já destruí esse bárbaro que quer levar seu país de volta às eras sinistras da selvageria, subdesenvolvimento e superstição islâmica.

Claro que estrangular as linhas de suprimentos de Masud não era suficiente. O homem já possuía projeção nacional. Além disso, tinha inteligência e força de caráter para passar de líder rebelde a presidente legítimo. Era um Tito, um De Gaulle, um Mugabe. Tinha de ser não apenas neutralizado, mas destruído - capturado pelos russos, vivo ou morto.

A dificuldade era que Masud se deslocava depressa, em silêncio, como um cervo na floresta, surgindo de repente do mato e desaparecendo no instante seguinte. Mas Jean-Pierre era paciente, e os russos também. Chegaria o momento, mais cedo ou mais tarde, em que Jean-Pierre saberia com certeza o local exato em que Masud ficaria durante as próximas 24 horas - talvez ferido ou planejando assistir a um funeral. Jean-Pierre então usaria o rádio para transmitir um código especial e o gavião atacaria.

Ele gostaria de poder contar a Jane o que realmente estava fazendo ali. Podia mesmo convencê-la de que era certo. Ressaltaria que seu trabalho médico era inútil, pois ajudar os rebeldes servia apenas para perpetuar a miséria e ignorância em que o povo vivia, atrasando o momento em que a União Soviética agarraria aquele país pelo cachaço e o levaria esperneando para o século XX. Ela podia muito bem compreender. Contudo, Jean-Pierre sabia instintivamente que ela não o perdoaria por enganá-la durante tanto tempo. Ficaria furiosa, com toda certeza. Ele podia imaginá-la, inflexível, implacável, orgulhosa. Jane o deixaria prontamente, da mesma forma como abandonara Ellis Thaler. E se sentiria ainda mais furiosa por ter sido enganada da mesma forma sucessivamente por dois homens.

Assim, no terror de perdê-la, ele continuava a enganá-la, como um homem à beira de um abismo paralisado pelo medo.

Claro que Jane sabia que alguma coisa estava errada; ele podia percebê-lo pela maneira como ela o observava às vezes. Mas JeanPierre tinha certeza de que ela achava que era um problema de relacionamento; não lhe ocorria que toda a vida do marido era uma farsa monumental.

A segurança absoluta não era possível, mas Jean-Pierre adotava todas as precauções para evitar a descoberta por ela ou qualquer outra pessoa. Quando usava o rádio, sempre falava em código, não porque os rebeldes pudessem estar na escuta - eles não tinham rádios - mas porque o exército afegão poderia captar a transmissão e estava tão infiltrado de traidores que não tinha segredos para Masud. O rádio de Jean-Pierre era bastante pequeno para ser escondido no fundo falso da maleta de médico ou no bolso de sua folgada calça afegã, quando não estava com a maleta. A desvantagem era que a potência só permitia conversas curtas com o posto avançado russo mais próximo, que era a base aérea em Bagram, a oitenta quilômetros.

Haveria necessidade de uma transmissão muito longa para informar todos os detalhes do percurso e horário dos comboios - especialmente em código - o que exigiria um rádio e uma bateria bem maiores. Jean-Pierre e Monsieur Leblond haviam chegado à conclusão de que isso não seria aconselhável. Em conseqüência, JeanPierre precisava se encontrar pessoalmente com o contato para passar as informações.

Ele subiu uma elevação e olhou para baixo. Estava na cabeceira de um pequeno vale. A trilha em que se encontrava descia para outro vale, que formava um ângulo reto com aquele e se bifurcava junto a um impetuoso córrego da montanha, faiscando ao sol da tarde. No outro lado do córrego mais um vale subia pelas montanhas, na direção de Cobak, seu destino final. No ponto em que os três vales se encontravam, neste lado do rio, havia uma pequena cabana de pedra. A região estava pontilhada por tais construções primitivas. Jean-Pierre imaginava que haviam sido erguidas por nômades e mercadores ambulantes, que as usavam como abrigo à noite.

Ele desceu a encosta, puxando Maggie. Era provável que Anatoly já estivesse ali. Jean-Pierre não onhecia seu verdadeiro nome ou posto, mas presumia que ele era da KGB e calculava, por alguma coisa que ele dissera certa ocasião a respeito de generais, que era um coronel. Qualquer que fosse o seu posto, no entanto, Anatoly certamente não era um burocrata. Entre aquele ponto e Bagram havia oitenta quilômetros de terreno montanhoso e Anatoly os percorria a pé, sozinho, levando um dia e meio. Era um russo oriental, de malares salientes e pele amarela, que com roupas afegãs passava por um uzbak, um membro do grupo étnico mongólico do norte do Afeganistão.

Isso explicava seu dari hesitante, pois os uzbaks tinham uma língua própria. Anatoly era um homem corajoso. Como não falava a língua uzbak, sempre havia a possibilidade de que pudesse ser desmascarado; e sabia que os guerrilheiro jogavam buzkashi com os oficiais russos capturados.

O risco de Jean-Pierre nesses encontros era um pouco menor. Suas viagens constantes a aldeias remotas para tratar dos doentes não despertavam muita atenção. Mas poderia haver suspeitas se alguém notasse que ele esbarrava por acaso mais de uma vez com o uzbak errante. E se algum afegão que falasse francês (como acontecia com os mais instruídos) ouvisse a conversa do médico com o uzbak, só restaria a Jean-Pierre rezar por uma morte rápida.

As sandálias não faziam barulho na trilha, e os cascos de Maggie afundavam silenciosamente na terra. Ao se aproximar da cabana, ele começou a assoviar, para o caso de outra pessoa que não Anatoly estar lá dentro. Sempre tomava cuidado de não sobressaltar os afegãos, sempre armados e sobressaltados. Jean-Pierre baixou a cabeça e entrou na cabana. Para sua surpresa, o interior fresco estava vazio. Sentou-se, encostado na parede de pedra, e acomodou-se para esperar. Acabou fechando os olhos depois de alguns minutos. Estava cansado, porém tenso demais para dormir. Era a parte pior do que fazia: o misto de medo e tédio que o dominava durante aquelas longas esperas. Aprendera a aceitar os atrasos naquele país sem relógios de pulso, mas jamais adquirira a paciência imperturbável dos afegãos. E não pôde deixar de pensar agora nos vários desastres que poderiam ter ocorrido a Anatoly. Seria irônico se Anatoly tivesse pisado numa mina contrapessoal russa e perdido o pé. Essas minas feriam mais os animais do que os seres humanos, mas nem por isso eram menos eficazes: a perda de uma vaca significaria, para uma família afegã, a mesma sorte se sua casa fosse bombardeada com todos lá dentro. Jean-Pierre não ria mais quando encontrava uma vaca ou uma cabra com uma tosca perna de madeira.

Em seu devaneio, sentiu a presença de outra pessoa e abriu os olhos, deparando com o rosto oriental de Anatoly a poucos centímetros do seu.

- Eu poderia tê-lo roubado - comentou Anatoly, num francês fluente.

- Eu não estava dormindo.

Anatoly sentou no chão de terra, cruzando as pernas. Era atarracado e musculoso, camisa e calça de algodão folgadas, turbante, lenço no pescoço e uma manta de lã marrom, chamada pattu, nos ombros. Baixou o lenço que cobria metade do rosto e sorriu, mostrando os dentes manchados do fumo.

- Como vai, meu amigo?

- Muito bem.

- E sua esposa?

Havia algo sinistro na maneira como Anatoly sempre perguntava por Jane. Os russos se opuseram à idéia de levá-la para o Afeganistão, alegando que iria interferir em seu trabalho. Jean-Pierre argumentara que de qualquer forma precisaria levar uma enfermeira, a política da Médecins pour la Liberte era sempre enviar duplas e provavelmente dormiria com qualquer mulher que o acompanhasse, a menos que ela se parecesse com King Kong. Por fim os russos concordaram, embora com relutância.

- Jane está ótima - respondeu ele. - A criança nasceu há seis semanas. Uma menina.

- Meus parabéns! - Anatoly parecia genuinamente satisfeito. - Mas não foi um pouco prematuro?

- Foi sim. Por sorte não houve complicações. E foi a parteira da aldeia quem cuidou de tudo.

- Por que não você?

- Eu não estava lá. Tinha ido me encontrar com você.

- Oh, Deus! - Anatoly parecia horrorizado. - Eu o mantive longe num dia tão importante...

Jean-Pierre ficou satisfeito com a preocupação de Anatoly, mas não deixou transparecer.

- Não se podia prever. Além do mais, valeu a pena: você acertou o comboio de que falei.

- É verdade. Suas informações foram preciosas. Parabéns outra vez.

Jean-Pierre experimentou um sentimento de orgulho, mas tentou parecer indiferente, comentando modestamente:

- Nosso sistema parece estar funcionando muito bem. Anatoly acenou com a cabeça.

- Qual foi a reação deles à emboscada?

- De crescente desespero. - Ocorreu a Jean-Pierre, enquanto falava, que outra vantagem de encontrar pessoalmente o contato era a possibilidade de lhe transmitir informações daquele tipo, sobre sentimentos e impressões, coisas que não eram bastante concretas para serem enviadas em código pelo rádio. - Eles estão constantemente ficando sem munição.

- E quando vai partir o próximo comboio?

- Partiu ontem.

- Eles estão mesmo desesperados. Isso é ótimo. Anatoly tirou um mapa do bolso da camisa. Desdobrou-o no chão. Mostrava a região entre o Vale dos Cinco Leões e a fronteira do Paquistão.

Jean-Pierre concentrou-se, recordando os detalhes que memorizara durante a conversa com Mohammed. Depois, passou a indicar para Anatoly o percurso que o comboio seguiria ao voltar do Paquistão. Ele não sabia exatamente quando os homens voltariam, pois Mohammed não podia prever quanto tempo teriam de passar em Peshawar, comprando as coisas de que precisavam. Mas Anatoly tinha agentes em Peshawar que informariam a partida do comboio dos Cinco Leões e com isso ele poderia preparar a emboscada.

Anatoly não tomou notas, mas memorizou cada palavra que Jean-Pierre disse. Repassaram tudo outra vez, com Anatoly repetindo os detalhes para Jean-Pierre, a fim de conferir tudo. O russo finalmente dobrou o mapa e tornou a guardá-lo no bolso da camisa.

- E Masud? - perguntou ele.

- Não o vemos desde que falei com você pela última vez. Só tenho me encontrado com Mohammed... e ele nunca sabe onde Masud está ou quando vai aparecer.

- Masud é uma raposa - comentou Anatoly, com uma raia demonstração de emoção.

- Mas ainda vamos pegá-lo.

- Claro que vamos. Ele sabe que a caçada está no auge e por isso trata de esconder a sua pista. Mas os sabujos já o farejaram e ele não pode se esquivar para sempre... somos muitos e fortes, estamos ansiosos em encontrá-lo.

Anatoly percebeu de repente que estava revelando seus sentimentos. Sorriu e voltou a ser prático. Tirou um pacote de pilhas do bolso e disse:

- Pilhas.

Jean-Pierre pegou o pequeno rádio no fundo falso da maleta, e trocou as pilhas velhas pelas novas. Faziam isso a cada vez que se encontravam para evitar que Jean-Pierre perdesse o contato simplesmente por falta de pilhas. Anatoly levaria as velhas para Bagram, pois não havia sentido em correr o risco de jogar ali, no Vale dos Cinco Leões, onde não havia aparelhos elétricos, pilhas de fabricação russa. Enquanto Jean-Pierre guardava o rádio, Anatoly indagou:

- Tem alguma coisa aí para bolhas? Meus pés...

Ele parou de falar abruptamente, franziu o rosto, e inclinou a cabeça para escutar melhor. Jean-Pierre ficou tenso. Até então, nunca haviam sido vistos juntos.

Provavelmente aconteceria, mais cedo ou mais tarde, e eles já haviam planejado o que fariam, comportando-se como estranhos partilhando um lugar de descanso, para continuar a conversa depois que o intruso fosse embora... ou, se o intruso desse a impressão de que tencionava permanecer por muito tempo, se afastariam juntos, como se por acaso seguissem na mesma direção. Tudo fora combinado antes, mas mesmo assim Jean-Pierre sentia agora como se a culpa estivesse estampada por todo o seu rosto.

No instante seguinte ele ouviu passos lá fora e o barulho de uma respiração ofegante; depois uma sombra escureceu a entrada iluminada pelo sol e Jane entrou na cabana.

- Jane!

Os dois homens levantaram-se bruscamente.

- O que aconteceu? - acrescentou Jean-Pierre. - Por que está aqui?

- Graças a Deus consegui alcançar você! - balbuciou ela. Pelo canto do olho, Jean-Pierre viu Anatoly cobrir o rosto com o lenço e se virar, como um afegão faria diante de uma mulher desavergonhada. O gesto ajudou Jean-Pierre a se recuperar do choque da presença dela. Ele olhou ao redor rapidamente. Por sorte, Anatoly guardara os mapas alguns minutos antes. Mas o rádio... o rádio se projetava dois ou três centímetros para fora da maleta médica.

Só que Jane não o vira... ainda.

- Sente-se - disse Jean-Pierre. - Trate de recuperar o fôlego.

Ele também se sentou e aproveitou o movimento como um pretexto para mudar a maleta de posição, escondendo o rádio de Jane.

- O que houve?

- Um problema médico que não posso resolver.

A tensão de Jean-Pierre se atenuou um pouco: receara que ela pudesse tê-lo seguido por desconfiar de alguma coisa.

- Tome um pouco de água, Jane.

Ele puxou a maleta com uma das mãos e com a outra empurrou o rádio, enquanto vasculhava lá dentro. Tirou o frasco com água limpa e entregou-o a Jane. Sentiu que as batidas do coração voltavam ao normal. Estava recuperando a presença de espírito. A prova incriminadora não mais estava à vista. O que mais havia para deixá-la desconfiada? Jane podia ter ouvido Anatoly falar em francês, mas isso não chegava a ser excepcional: se um afegão tinha uma segunda língua, era quase sempre o francês. Além do mais, um uzbak podia falar francês melhor do que falava dari. O que Anatoly estava dizendo quando ela entrara? Jean-Pierre lembrou: pedia um ungüento para bolhas nos pés. Perfeito. Os afegãos sempre pediam um remédio quando encontravam um médico, mesmo que desfrutassem de ótima saúde. Jane bebeu um pouco de água e começou a falar:

- Poucos minutos depois que você saiu trouxeram um garoto de dezoito anos com um grave ferimento na coxa. - Ela tomou outro gole. Ignorava Anatoly, e Jean-Pierre compreendeu que ela estava tão preocupada com a emergência médica que mal percebera a presença do outro homem. - Ele foi ferido na luta perto de Rokha e o pai carregou-o por todo o caminho até o vale... levou dois dias. O ferimento estava gangrenado quando eles chegaram. Apliquei seiscentos miligramas de penicilina, na nádega, e depois limpei o ferimento.

- Correto - disse Jean-Pierre.

- Alguns minutos depois ele começou a suar frio e a ficar tonto. Verifiquei o pulso: estava acelerado, mas fraco.

- Ele ficou pálido, com dificuldade para respirar?

- Isso mesmo.

- O que você fez?

- Apliquei o tratamento para choque... levantei seus pés, cobri-o com um cobertor, dei-lhe um chá... e depois vim atrás de você. - Jane estava à beira das lágrimas.

- O pai carregou-o por dois dias... não posso deixá-lo morrer.

- Isso não precisa acontecer necessariamente - disse JeanPierre. - O choque alérgico é uma reação rara mas bastante conhecida às injeções de penicilina. O tratamento é meio mililitro de adrenalina, injetado num músculo, seguido por uma anti-histamina... digamos seis mililitros de difenidramina. Quer que eu volte com você?

Ao fazer a proposta, ele olhou para Anatoly, mas o russo não deixou transparecer qualquer reação. Jane suspirou.

- Não precisa. Deve haver mais alguém morrendo no outro lado da encosta. Vá para Cobak.

- Se tem certeza de que quer assim...

- Tenho.

Um fósforo brilhou quando Anatoly acendeu um cigarro. Jane fitou-o por um instante e tornou a olhar para Jean-Pierre.

- Meio mihlitro de adrenalina e depois seis mililitros de difenidramma.

Ela levantou-se.

- Exatamente. - Jean-Pierre também se levantou e beijou-a. - Tem certeza de que pode cuidar de tudo sozinha?

- Claro.

- Tem que se apressar.

- Sim.

- Gostaria de levar Maggie? Jane refletiu por um instante.

- É melhor não. Neste caminho a gente pode ir mais depressa se andar.

- Como achar melhor.

- Até logo.

- Até logo, Jane.

Jean-Pierre observou-a sair. Ficou imóvel por algum tempo. Nem ele nem Anatole disseram qualquer coisa. Depois de um ou dois minutos, Jean-Pierre foi até a entrada da cabana e olhou para fora. Avistou Jane a duzentos ou trezentos metros de distância, subindo o vale com determinação, sozinha na paisagem escura e poeirenta. Continuou olhando até que ela desapareceu numa dobra das colinas.

Tornou a entrar na cabana e sentou-se, encostado na parede. Olhou para Anatoly e murmurou:

- Santo Deus, foi por pouco...

 

O garoto morreu.

Estava morto há quase uma hora quando Jane chegou, suada e empoeirada, exausta a ponto de um colapso. O pai a esperava na entrada da caverna, parecendo aturdido e acusador. Ela percebeu logo, por sua postura resignada e os olhos castanhos serenos, que estava tudo acabado. Ele não disse nada. Jane entrou na caverna e olhou para o garoto. Cansada demais para ficar furiosa, foi dominada pelo desapontamento. Jean-Pierre estava ausente e Zahara mergulhada em sua dor; assim, não tinha ninguém com quem partilhar sua angústia.

Chorou depois, quando estava deitada em sua cama no telhado da casa, com Chantal a seu lado, num pequeno colchão, arruIhando de vez em quando, num sono de feliz ignorância. Chorou tanto pelo pai quanto pelo garoto morto. Como ela, o pai se forçara a superar a exaustão comum, na tentativa de salvar o garoto. A tristeza dele deveria ser muito maior. As lágrimas de Jane apagaram as estrelas antes que ela adormecesse.

Sonhou que Mohammed vinha para a sua cama e fazia amor com ela, a aldeia inteira assistindo; e depois ele disse que Jean-Pierre tinha um caso com Simone, a mulher do gordo jornalista Raoul Clermont, que os dois amantes se encontravam em Cobak, onde todos pensavam que Jean-Pierre estava cuidando dos doentes locais.

No dia seguinte ela estava com todo o corpo dolorido, em decorrência de ter corrido durante a maior parte do percurso até a pequena cabana de pedra. Fora uma sorte, refletiu ela, enquanto cui dava das tarefas de rotina, que Jean-Pierre tivesse parado - presumivelmente para descansar - na pequena cabana de pedra, dando-lhe assim a oportunidade de alcançá-lo.

Ela ficara profundamente aliviada ao avistar Maggie amarrada no lado de fora e encontrar Jean-Pierre na cabana, em companhia daquele uzbak esquisito. Os dois ficaram sobressaltados quando ela entrara. Fora quase cômico. E também foi a primeira vez que ela vira um afegão levantar-se à entrada de uma mulher.

Jane subiu a encosta com a caixa de remédios e abriu o consultório na caverna. Enquanto cuidava dos casos habituais de desnutrição, malária, ferimentos infeccionados e parasitas intestinais, pensou na crise do dia anterior. Nunca ouvira falar antes de choque alérgico. Certamente as pessoas que tinham de aplicar injeções de penicilina aprendiam o que fazer nesses casos, mas seu treinamento fora tão apressado que muitas coisas foram esquecidas. Na verdade, os detalhes médicos haviam sido quase inteiramente omitidos, sob a alegação de que Jean-Pierre era um médico qualificado e estaria por perto para lhe explicar o que fazer.

Fora um período de ansiedade, sentada em salas de aula, às vezes com enfermeiras estagiárias, outras vezes sozinha, tentando absorver as regras e procedimentos da medicina e educação sanitárias, imaginando o que a aguardaria no Afeganistão. Algumas aulas não eram absolutamente tranqüilizadoras. Disseram-lhe que sua primeira tarefa seria construir para seu uso uma privada de terra. Por quê? A maneira mais rápida de melhorar a saúde do povo em países subdesenvolvidos era fazer com que deixassem de usar os rios e córregos como privadas, o que se podia conseguir dando o exemplo. Sua professora, Stephanie, uma quarentena de óculos, do tipo maternal, de macacão e sandálias, também ressaltara os perigos de se receitar medicamentos com generosidade exagerada. A maioria das doenças e lesões menores melhoraria sem ajuda médica, mas as pessoas primitivas (e não-tão-primitivas) sempre queriam pílulas e poções. Jane lembrou que o pequeno uzbak estava pedindo a JeanPierre um unguento para bolhas nos pés. Devia ter passado toda a sua vida a percorrer longas distâncias a pé, mas dizia que os pés doíam só porque encontrara um médico. O problema do excesso de prescrição - além do desperdício de medicamentos - era que uma droga aplicada por uma aflição trivial podia levar o paciente a desenvolver tolerância; assim, quando tivesse uma doença mais grave, o tratamento não teria efeito. Stephanie também aconselhara Jane a tentar trabalhar com, e não contra, os curandeiros tradicionais da comunidade. Ela tivera sucesso com Rabia, a parteira, mas não com Abdullah, o mula.

Aprender a língua fora a parte mais fácil. Em Paris, muito antes de sequer pensar em ir para o Afeganistão, ela estudara farsi, a língua persa, a fim de aperfeiçoar a sua função como intérprete. O farsi e o dari eram dialetos da mesma língua. A outra língua importante no Afeganistão era o pashto, falada pelos pushtuns. Mas o dari era a língua dos tajiks, e o Vale dos Cinco Leões se encontrava em território tajik. Os poucos afegãos que viajavam - os nômades, por exemplo - geralmente falavam tanto o pashto como o dari. Se conheciam uma língua européia, era o inglês ou o francês. O uzbak na cabana de pedra estava conversando com Jean-Pierre em francês.

Fora a primeira vez que Jane ouvira o francês falado com um sotaque uzbak. Parecera igual ao sotaque russo.

Tornou a pensar no uzbak várias vezes durante o dia. O que a deixou irritada. Era uma sensação que tinha às vezes, quando sabia que havia algo importante que deveria fazer mas não conseguia lembrar o que era. Talvez houvesse alguma coisa esquisita no homem.

Ao meio-dia ela fechou a clínica, amamentou e trocou a fralda de Chantal, depois fez o almoço de arroz e molho de carne, partilhando-o com Fará. A garota se tornara totalmente devotada a Jane, ansiosa por fazer qualquer coisa para agradá-la, relutante em voltar para sua casa à noite. Jane tentava tratá-la mais como uma igual mas isso parecia servir apenas para aumentar mais ainda a adoração de Fará.

No auge do calor, Jane deixou Chantal com Fará e desceu a encosta para o seu lugar secreto, o platô ensolarado, protegido por uma projeção rochosa por cima. Fez ali os seus exercícios pós-natais, determinada a recuperar o corpo que tinha antes. Enquanto contraía os músculos pélvicos, ela visualizou o uzbak, levantando-se na pequena cabana de pedra, a expressão de espanto em seu rosto oriental. Por algum motivo, ela experimentou uma sensação de tragédia iminente.

Ao compreender a verdade, não foi num repentino relance de percepção, mas sim como uma avalanche, começando pequena, mas crescendo de maneira inexorável, até engolfar tudo.

Nenhum afegão se queixaria de bolhas nos pés, mesmo de fingimento, pois eles não tinham conhecimento de tais coisas: era tão improvável quanto um lavrador de Gloucestershire dizer que estava com beribéri. E nenhum afegão, por mais surpreso que ficasse, rea giria à entrada de uma mulher se levantando.

Se ele não era afegão, o que seria então? O sotaque revelava, embora bem poucas pessoas fossem capazes de reconhecer.

Ela só identificava porque era uma lingüista, e falava tanto o russo como o francês.

Jean-Pierre se encontrara com um russo disfarçado de uzbak numa cabana de pedra, em um local deserto.

Teria sido por acaso? Era possível, é claro. Mas ela podia lembrar o rosto do marido quando entrara e agora era capaz de interpretar a expressão a que não dera atenção na ocasião: uma expressão de culpa.

-Não, não fora um encontro acidental, mas sim um encontro marcado. Talvez não tivesse sido o primeiro. Jean-Pierre viajava constantemente a aldeias remotas para tratar de pacientes locais. Era até desnecessariamente escrupuloso em cumprir a programação de visitas, uma insistência absurda num país sem calendários e agendas - mas não tão absurda se havia outros compromissos, uma série clandestina de encontros secretos.

E por que ele se encontrava com o russo? Isso também era óbvio, e lágrimas quentes afloraram-lhe aos olhos quando concluiu que o propósito de Jean-Pierre só podia ser a traição. Ele fornecia informações, não havia qualquer dúvida. Falava sobre os comboios. Sempre conhecia os percursos, porque Mohammed usava os seus mapas.

Conhecia as datas aproximadas, porque via os homens partindo de Banda e de outras aldeias do Vale dos Cinco Leões. Contava tudo, e era por isso que os russos haviam se tornado tão bemsucedidos em emboscar comboios durante o último ano; era por isso que havia agora no vale tantas viúvas desconsoladas e tantos órfãos tristes.

O que há de errado comigo?, pensou Jane, num súbito acesso de autocompaixão, novas lágrimas rolando-lhe pelas faces. Primeiro Ellis, depois Jean-Pierre... por que escolho esses filhos da puta? Há alguma coisa num homem dissimulado que me atrai? É o desafio de romper suas defesas? Por acaso sou louca?

Lembrou-se de Jean-Pierre argumentando que a invasão soviética do Afeganistão era justificada. Ele mudara de idéia mais tarde, e Jane pensara tê-lo convencido de que estava enganado. Era evidente agora que a mudança fora simulada. Quando resolvera vir para o Afeganistão, a fim de espionar para os russos, Jean-Pierre adotara uma posição anti-soviética como parte de seu disfarce.

Seu amor também seria simulado?

A simples indagação já era dolorosa. Jane comprimiu o rosto contra as mãos. Era quase impossível pensar a respeito. Apaixonara-se por ele, casara com ele, beijara a sua mãe de rosto azedo, acostumara-se à sua maneira de fazer amor, sobrevivera às primeiras brigas, esforçara-se para que o relacionamento desse certo, dera à luz a sua filha em medo e dor... fizera tudo isso por uma ilusão, um marido falso, um homem que não se importava absolutamente com ela? Era como andar e correr tantos quilômetros para perguntar como curar o garoto de dezoito anos

e voltar para encontrá-lo já morto? Era pior do que isso. Devia ser como o pai se sentira ao ver o filho morrer, depois de carregá-lo por dois dias.

Havia uma sensação de plenitude em seus seios e ela compreendeu que devia ser hora de Chantal mamar. Vestiu as roupas, enxugou o rosto com a manga e subiu a encosta.

A angústia foi diminuindo e ela passou a pensar mais claramente. Experimentara uma vaga insatisfação durante o ano de casamento e agora podia compreender. De certa forma, sempre sentira a impostura de Jean-Pierre. Por causa dessa barreira entre os dois, não conseguiram adquirir intimidade.

Chegando à caverna, Jane encontrou Chantal chorando, no colo de Fará. Pegou a menina e levou-a ao seio. Chantal começou a mamar. Jane sentiu o desconforto inicial, como uma cãibra no estômago, e depois uma sensação no seio agradável e um tanto erótica.

Queria ficar sozinha. Mandou Fará sair e fazer sua sesta na caverna da mãe.

Amamentar Chantal era tranqüilizante. A traição de Jean-Pierre não parecia mais um cataclisma tão terrível. Tinha certeza agora de que o amor de Jean-Pierre por ela não era simulado. De que isso serviria? Por que ele a traria para o Afeganistão? Ela não tinha qualquer utilidade em sua atividade de espionagem. Devia ser porque ele a amava.

E se a amava, todos os outros problemas podiam ser resolvidos. Jean-Pierre teria de parar de trabalhar para os russos, é claro. No momento, ela não podia se imaginar confrontando-o. Diria, por exemplo, "Já sei de tudo"? Não. Mas as palavras lhe ocorreriam quando precisasse delas. E, depois, ele teria de levá-la e a Chantal de volta à Europa.

De volta à Europa. Ao compreender que teriam de ir para casa, experimentou uma onda de alívio. Pegou-a de surpresa. Se alguém lhe perguntasse se gostava do Afeganistão, teria respondido que realizava um trabalho fascinante e meritório, que estava cumprindo muito bem sua missão, até gostando. Mas agora que tinha à sua frente a perspectiva de retornar à civilização, sua flexibilidade se dissipou e admitiu para si mesma que a paisagem árida, o frio terrível do inverno, as

pessoas estranhas, os bombardeios e o fluxo interminável de homens e garotos mutilados afetaram seus nervos ao ponto de rompimento.

A verdade, pensou ela, é que este lugar é pavoroso.

Chantal parou de mamar e dormiu. Jane deitou-a, trocou a fralda, ajeitou-a em seu colchão, tudo sem acordá-la. A serenidade inabalável da filha era uma grande bênção.

Ela dormia em todas as crises - não havia barulho ou movimento que pudesse acordá-la, se estivesse bem alimentada e confortável. Mas Chantal também era sensível aos ânimos de Jane e muitas vezes despertava quando a mãe se sentia angustiada, mesmo quando não havia barulho.

Jane sentou em seu colchão de pernas cruzadas, observando a filha adormecida e pensando em Jean-Pierre. Gostaria que ele estivesse ali naquele momento, a fim de poderem conversar. Especulou por que não estava mais furiosa - para não dizer indignada - pelo fato de Jean-Pierre estar traindo os guerrilheiros, entregando-os aos russos. Seria porque aceitara o conhecimento de que todos os homens eram mentirosos? Passara a acreditar que as únicas pessoas inocentes naquela guerra eram as mães, as esposas e as filhas nos dois lados? Seria porque o fato de ser agora esposa e mãe alterara a sua personalidade, de tal forma que uma traição não mais a indignava? Ou seria apenas porque amava Jean-Pierre? Ela não sabia.

De qualquer forma, era um momento para pensar no futuro, e não no passado. Voltariam a Paris, onde havia carteiros, livrarias e água corrente? Chantal teria lindas roupas, um carrinho, fraldas descartáveis. Os três viveriam num apartamento pequeno, em algum bairro agradável, onde o único perigo real para a vida seriam os motoristas de táxi. Jane e Jean-Pierre recomeçariam tudo, desta vez haveriam de se conhecer a fundo. Os dois se empenhariam por tornar o mundo um lugar melhor, através de meios gradativos e legítimos, sem intrigas ou traições. A experiência no Afeganistão os ajudaria a arrumar emprego para ajudar o desenvolvimento do Terceiro Mundo, talvez na Organização Mundial de Saúde. A vida conjugal seria como ela a imaginara, os três se sentindo felizes e seguros.

Fará entrou. A sesta terminara. Cumprimentou Jane respeitosamente, olhou para Chantal, constatou que a menina dormia e sentou no chão de pernas cruzadas, esperando por instruções. Era filha do filho mais velho de Rabia, Tamael Gul, que deixara a aldeia para acompanhar o novo comboio...

Jane sufocou um grito. Fará fitou-a, com uma expressão inquisitiva. Jane sacudiu a mão e Fará desviou os olhos.

Seu pai está com o comboio, pensou Jane.

Jean-Pierre traíra o comboio para os russos. O pai de Fará morreria na emboscada... a menos que Jane pudesse fazer alguma coisa para impedi-lo. Mas o quê? Um mensageiro poderia ser enviado ao encontro do comboio em Passo Khyber e desviá-lo para uma nova rota. Mohammed cuidaria disso. Mas Jane teria de lhe contar como sabia que o comboio sofreria uma emboscada... e então Mohammed mataria Jean-Pierre, provavelmente com as mãos nuas.

Se um deles tem de morrer, então que seja Ismael, e não JeanPierre, pensou Jane.

Lembrou-se então dos outros trinta e tantos homens do vale que também estavam no comboio. Deveriam todos morrer para salvar meu marido - Kahmir Khan, com a barba rala, o velho Shahazai Gul, o rosto cheio de cicatrizes, Yussuf Gul, que canta tão bonito, Sher Kador, o pastor de cabras, Abdur Mohammed, sem dentes na frente,

Ali Ghanin, que tem quatorze filhos?

Tinha de haver outro meio.

Jane foi até a entrada da caverna e olhou para fora. Agora que a sesta terminara, as crianças haviam saído das cavernas e recomeçavam suas brincadeiras, entre as rochas e espinheiros. Lá estava Mousa, de nove anos, o único filho de Mohammed - ainda mais mimado agora que só tinha uma mão - pavoneando-se com a faca nova que o apaixonado pai lhe dera. Lá estava a mãe de Fará, subindo a encosta com um feixe de lenha na cabeça. Lá estava a mulher do mula, lavando a camisa de Abdullah.

Ela não viu Mohammed ou sua mulher Halima. Mas sabia que ele estava em Banda, porque o vira pela manhã. Teria comido com a mulher e os filhos em sua caverna – a maioria das famílias tinha uma caverna própria. Estaria lá agora, mas Jane relutava em procurá-lo abertamente, pois escandalizaria a comunidade e precisava ser discreta.

O que direi a ele?, pensou Jane.

Considerou a possibilidade de um apelo direto: Faça isso por mim, porque estou pedindo. Funcionaria com qualquer ocidental que estivesse apaixonado por ela, mas os muçulmanos não pareciam ter uma visão romântica do amor; o que Mohammed sentia por ela era mais como um desejo um pouco terno. Não fazia com que ele se colocasse à sua disposição. E, além do mais, Jane não sabia se ele ainda sentia alguma coisa. O que fazer então? Mohammed não lhe devia coisa alguma. Ela nunca o tratara nem à sua mulher. Mas cuidara de Mousa... salvara a vida do menino. Mohammed tinha para com ela uma dívida de honra.

Faça isso por mim, porque salvei seu filho. Podia dar certo.

Mas Mohammed perguntaria por quê.

Mais mulheres apareciam, buscando água, varrendo para fora a sujeira de suas cavernas, cuidando dos animais, começando a preparar a comida. Jane sabia que dali a pouco veria Mohammed.

O que direi a ele?

Os russos conhecem a rota do comboio.

Como eles descobriram?

Não sei, Mohammed.

Então por que tem tanta certeza?

Não posso dizer. Ouvi uma conversa. Recebi uma mensagem do Serviço Secreto Britânico. Tenho um pressentimento. Vi nas cartas. Tive um sonho.

Era isso: um sonho.

Ela o viu. Mohammed saiu de sua caverna, alto e bonito, usando roupas de viagem: o gorro redondo chitrali, igual ao de Masud, o tipo preferido pela maioria dos guerrilheiros; opattu cor de lama, que servia como manto, toalha, cobertor e camuflagem; e as botas de couro que subiam até o meio das pernas, tiradas do cadáver de um soldado russo. Ele atravessou a área na frente das cavernas com as passadas de alguém que tem um longo caminho a percorrer antes do pôr-do-sol. Pegou a trilha na encosta que descia para a aldeia deserta.

Jane observou o vulto alto desaparecer. É agora ou nunca, pensou ela; e saiu no encalço de Mohammed. A princípio, andou devagar, de maneira casual, a fim de não ficar óbvio que o estava seguindo; e depois, assim que ficou fora do âmbito de visão das cavernas, desatou a correr. Escorregava e tropeçava na trilha, pensando: não sei o que esta correria está fazendo com as minhas entranhas. Chamou Mohammed ao divisá-lo à sua frente. Ele parou, virou-se e esperou por ela.

- Deus esteja com você, Mohammed Khan - disse Jane, quando o alcançou.

- E com você também, Jane Debout - respondeu ele polidamente.

Ela fez uma pausa, recuperando o fôlego. Mohammed observava-a, com uma expressão de divertida tolerância.

- Como está Mousa?

- Está bem e feliz, aprendendo a usar a mão esquerda. Um dia vai matar muitos russos com ela.

Era uma piada: a mão esquerda era tradicionalmente usada para trabalhos "sujos", a direita, para comer. Jane sorriu em reconhecimento a seu espírito e disse:

- Estou muito contente que tenhamos podido salvar sua vida.

Se ele achava que era um comentário desgracioso, não deixou transparecer.

- Serei eternamente seu devedor.

Era justamente o que Jane estava esperando.

- Há uma coisa que poderia fazer por mim agora. A expressão de Mohammed manteve-se impassível.

- Se estiver ao meu alcance...

Ela olhou ao redor, procurando um lugar para sentar. Estavam parados perto de uma casa bombardeada. Pedras e terras da parede da frente haviam se derramado pelo caminho e podiam ver o interior da casa, onde as únicas coisas que restavam eram um penico rachado e, absurdamente, a fotografia colorida de um Cadillac, pregada na parede. Jane sentou-se nos escombros e, depois de um momento de hesitação, Mohammed sentou-se a seu lado.

- Está ao seu alcance - disse ela. - Mas vai lhe causar algum problema.

- O que é?

- Pode pensar que se trata do capricho de uma mulher tola.

- É possível.

- Será tentado a me enganar, concordando com o pedido e depois "esquecendo" de cumpri-lo.

- Não.

- Peço para ser sincero comigo, quer recuse ou não.

- Está certo.

Já chega disso, pensou Jane.

- Quero que mande um mensageiro ao comboio e ordene que mude a rota de volta.

Ele ficou completamente aturdido: provavelmente esperava algum pedido doméstico, trivial.

- Mas por quê?

- Acredita em sonhos, Mohammed Khan? Ele deu de ombros e respondeu, evasivo:

- Sonhos são sonhos.

Talvez fosse o caminho errado, pensou Jane: uma visão podia ser melhor.

- Quando eu estava deitada na caverna, no auge do calor, tive a impressão de ver um pombo branco.

Ele se mostrou atento no mesmo instante e Jane compreendeu que dissera a coisa certa: os afegãos acreditavam que os pombos brancos eram às vezes habitados por espíritos.

Ela acrescentou:

- Mas eu devia estar sonhando, porque o pombo tentou me falar.

- Ahn...

Mohammed encarou isso como um sinal de que ela tivera uma visão e não um sonho, pensou Jane. E continuou:

- Não compreendi o que estava dizendo, embora prestasse toda atenção. Acho que falava em pashto.

Mohammed estava agora de olhos arregalados.

- Um mensageiro do território pushtun!

- E depois vi Ismael Gul, o filho de Rabia, pai de Fará, parado ao lado do pombo.

Ela pôs a mão no braço de Mohammed e fitou-o nos olhos, pensando: Eu poderia acendê-lo como a uma lâmpada elétrica, seu homem tolo e vaidoso.

- Havia uma faca em seu coração e ele chorava lágrimas de sangue. Apontou para o cabo da faca, como se quisesse que eu a tirasse do seu peito. O cabo era incrustado de pedras preciosas. - Em algum lugar, no fundo de sua mente, Jane pensava: De onde tirei toda essa história? - Levantei e avancei em sua direção. Tinha medo, mas precisava salvar sua vida. E quando estendi a mão para pegar a faca...

- O que aconteceu?

- Ele desapareceu. Acho que acordei.

Mohammed fechou a boca escancarada, recuperou o controle, franziu o rosto, como se considerasse com extremo cuidado a interpretação do sonho. Agora, pensou Jane, era o momento de consumar a persuasão.

- Pode ser tudo uma tolice - disse ela, adotando no rosto uma expressão de garotinha, pronta para acatar o julgamento masculino superior. - É por isso que estou lhe pedindo para fazer isso por mim, para a pessoa que salvou a vida de seu filho, a fim de me proporcionar paz de espírito.

Mohammed mostrou-se um pouco insolente.

- Não há necessidade de invocar uma dívida de honra.

- Isso significa que vai fazer o que estou pedindo? Ele respondeu com uma pergunta:

- Que tipo de pedras havia no cabo da faca?

Oh, Deus, pensou Jane, qual deve ser a resposta correta? Ela pensou em dizer "esmeraldas", mas depois se lembrou que essas pedras estavam associadas ao Vale dos Cinco Leões e podiam insinuar que Ismael fora morto por um traidor do vale.

- Rubis.

Mohammed balançou a cabeça, lentamente.

- Ismael não falou com você?

- Parecia estar tentando falar, sem conseguir.

Ele tornou a assentir e Jane pensou: Vamos logo, tome uma decisão. Mohammed finalmente anunciou:

- O presságio é claro. O comboio deve ser desviado. Graças a Deus, pensou Jane.

- Estou muito aliviada - murmurou ela, com absoluta sinceridade. - Não sabia o que fazer. E agora posso ter certeza de que Ahmed será salvo.

Imaginou o que poderia fazer para evitar que Mohammed mudasse de idéia. Não podia obrigá-lo a prestar um juramento. Perguntou-se se deveriam trocar um aperto de mão. Acabou se decidindo por selar a promessa com um gesto ainda mais antigo: inclinou-se para a frente e beijou-o na boca, rápida mas gentilmente, sem lhe dar qualquer oportunidade de recusar ou retribuir.

- Obrigada! Sei que é um homem de palavra.

Jane levantou-se. Deixando-o sentado, parecendo um pouco atordoado, ela se virou e subiu correndo a trilha para as cavernas.

Lá no alto, parou e olhou para trás. Mohammed descia a encosta, já a alguma distância da casa bombardeada, a cabeça empinada, os braços balançando. Ele recebeu uma grande carga do beijo, pensou Jane. Eu deveria me sentir envergonhada. Tirei proveito de sua superstição, vaidade e sexualidade. Como uma feminista, não deveria explorar seus preconceitos - mulher psíquica, mulher submissa, mulher coquete - para manipulá-lo. Mas deu certo. Deu certo!

Ela continuou a andar. Teria agora de lidar com Jean-Pierre. Ele voltaria ao anoitecer; esperaria até o meio da tarde, quando o sol estava um pouco menos quente, antes de iniciar a viagem, como Mohammed fizera. Jane tinha a impressão de que seria mais fácil manipular Jean-Pierre do que Mohammed. Por um lado, poderia dizer a verdade a Jean-Pierre. Por outro, ele estava errado.

Ela chegou às cavernas. O pequeno acampamento estava agora bastante movimentado. Jatos russos passaram ruidosos pelo céu. Todos pararam de trabalhar para observá-los, embora estivessem muito altos e muito distantes para um bombardeio. Depois que os aviões passaram, os garotos esticaram os braços como asas e saíram correndo, imitando o barulho das turbinas. Em seus vôos imaginários, perguntou-se Jane, a quem estariam bombardeando?

Ela entrou na caverna, verificou como estava Chantal, sorriu para Fará e pegou o diário. Tanto ela como Jean-Pierre escreviam no diário quase todos os dias. Era basicamente um registro médico, e o levariam de volta à Europa, em benefício de outros que seguiriam mais tarde para o Afeganistão. Haviam sido encorajados a registrar também os sentimentos e problemas pessoais, a fim de que os outros soubessem o que os esperava. Jane escrevera comentários sobre a sua gravidez e o nascimento de Chantal, mas o relato da vida emocional fora bastante censurado.

Sentou-se encostada na parede da caverna, o diário sobre os joelhos. Escreveu a história do garoto de dezoito anos que morrera de choque alérgico. Deixou-a triste, mas não deprimida - uma reação saudável, disse a si mesma.

Acrescentou detalhes resumidos dos pequenos casos daquele dia e depois, devagar, folheou as páginas anteriores do diário. Os registros na letra desleixada, comprida e fina de Jean-Pierre eram sucintos, consistindo quase exclusivamente de sintomas, diagnósticos, tratamentos e resultados: Vermes, escrevia ele, ou Malária; depois Curado ou Estável, algumas vezes Morreu. Jane tendia a escrever frases como Ela se sentia melhor esta manhã ou A mãe tem tuberculose. Leu as anotações sobre os primeiros dias de sua gravidez, mamilos doloridos, coxas engrossando, enjôo pela manhã. Ficou interessada ao constatar que quase um ano antes escrevera Estou com medo de Abdullah.

Já tinha esquecido.

Jane guardou o diário. Passou as duas horas seguintes limpando e arrumando a caverna, junto com Fará; depois, estava na hora de descer para a aldeia e preparar-se para a noite. Enquanto descia pela trilha e se ocupava na casa, Jane pensou como poderia conduzir a conversa com Jean-Pierre. Sabia o que fazer - levá-lo-ia para dar um passeio - mas não sabia exatamente o que dizer.

Ainda não tomara uma decisão quando ele chegou, poucos minutos depois. Limpou a poeira do rosto de Jean-Pierre com uma toalha úmida e depois serviu-lhe chá verde, numa xícara de porcelana. Ele estava agradavelmente cansado, em vez de exausto, Jane sabia; era um homem capaz de andar distâncias muito maiores. Ela sentou-se com ele enquanto ele tomava o chá, tentando não fitá-lo fixamente e pensando: Você mentiu para mim. Quando ele descansou por um instante, ela disse:

- Vamos sair, como costumávamos fazer. Jean-Pierre ficou um pouco surpreso.

- Aonde quer ir?

- A qualquer lugar. Não se lembra como sempre saíamos ao cair da noite no verão passado?

Ele sorriu.

- Claro que lembro.

Jane o amava quando ele sorria assim. Uma pausa e Jean-Pierre acrescentou:

- Vamos levar Chantal?

- Não. - Ela não queria ser distraída. - Chantal ficará muito bem com Fará.

- Está bem - murmurou ele, um pouco aturdido.

Jane mandou Fará preparar a refeição - chá, pão e iogurte - e depois saiu de casa com Jean-Pierre. A claridade do dia estava se desvanecendo e o ar vespertino era suave e fragrante. Era o melhor momento do dia no verão.

Enquanto passavam pelos campos, a caminho do rio, Jane recordou como se sentira naquele mesmo caminho no verão anterior: confusa, excitada, determinada a que tudo desse certo. Estava orgulhosa por ter se saído tão bem, mas contente porque a aventura terminaria em breve.

Começou a se sentir tensa à medida que se aproximava o momento do confronto, embora dissesse a si mesma que nada tinha a esconder, nada de que sentir-se culpada, nada a temer. Cruzaram o rio num ponto em que se alargava e ficava raso, sob uma projeção rochosa, depois subiram uma trilha sinuosa e íngreme pelo penhasco no outro lado. Lá no alto sentaram no chão, as pernas pendendo pelo precipício. Trinta metros abaixo o Rio dos Cinco Leões passava impetuoso, esbarrando em blocos de rocha e escumando furioso nas corredeiras. Jane contemplou o vale. O terreno cultivado era cruzado por canais de irrigação e muros de contenção de pedra. As cores verdes e douradas das colheitas maduras faziam com que os campos parecessem cacos de vidro colorido de um brinquedo quebrado. Aqui e ali a paisagem era estragada pelos danos das bombas - muros caídos, valas bloqueadas, crateras de lama entre o trigo ondulante. Um gorro redondo ou um turbante escuro ocasionais indicavam que alguns homens já estavam trabalhando, efetuando a colheita, enquanto os russos guardavam seus jatos e suas bombas para a noite. As cabeças cobertas por um lenço ou os vultos menores eram mulheres e crianças mais velhas, enquanto ainda restava alguma claridade. No outro lado do vale as terras aráveis faziam um esforço para subir pelas encostas inferiores da montanha, mas logo cediam à rocha poeirenta. Das casas à esquerda elevava-se a fumaça de alguns fogões, quase em linha reta, até ser desmanchada pela brisa. A mesma brisa trazia trechos ininteligíveis da conversa das mulheres, que tomavam banho além de uma curva do rio, correnteza acima. As vozes eram abafadas e não mais se ouvia a risada exuberante de Zahara, pois ela estava de luto. E tudo por causa de Jean-Pierre...

O pensamento proporcionou coragem a Jane e ela disse abruptamente:

- Quero que me leve para casa.

A princípio ele não entendeu e disse, irritado:

- Ora, acabamos de chegar. - Depois ele fitou-a e franziu o rosto. - Ahn...

Havia um tom de serenidade em sua voz que Jane achou perigoso e compreendeu que não poderia impor sua vontade sem luta.

- Isso mesmo - disse ela, firmemente. - Quero voltar para casa.

Jean-Pierre passou o braço por seus ombros.

- Este país às vezes deixa as pessoas deprimidas. - Ele não a fitava, contemplando o rio que corria lá embaixo. - Você é especialmente vulnerável à depressão neste momento, logo depois do parto. Dentro de algumas semanas vai descobrir...

- Não me trate com esse jeito condescendente! - falou Jane com rispidez, pois não podia deixar que ele se esquivasse com aquelas bobagens. - Poupe isso para seus pacientes.

- Está bem. - Jean-Pierre retirou o braço. - Antes de partirmos, decidimos que ficaríamos aqui por dois anos. Concordamos que os períodos de serviços curtos são ineficientes, por causa do dinheiro e tempo desperdiçados em treinamento, viagem e assentamento. Estávamos determinados a causar um impacto de verdade e por isso assumimos o compromisso de um prazo de dois anos...

- E depois tivemos uma filha.

- Não foi idéia minha!

- Seja como for, já não estou mais pensando como antes.

- Não tem direito de mudar de idéia.

- Você não manda em mim! - protestou Jane, furiosa.

- É impossível. Vamos esquecer o problema. Não adianta discutir.

- Mal começamos!

A atitude de Jean-Pierre deixava Jane cada vez mais enfurecida. A conversa se transformara numa discussão sobre os seus direitos como indivíduo e por algum motivo ela não queria ganhar pela revelação de que sabia tudo sobre o seu trabalho de espionagem - ou pelo menos ainda não. Queria que ele admitisse que ela era livre para tomar suas próprias decisões.

- Você não tem o direito de ignorar ou reprimir meus desejos. Quero ir embora neste verão.

- A resposta é não.

Jane resolveu que devia tentar argumentar.

- Estamos aqui há um ano. Já causamos um impacto. E também fizemos sacrifícios consideráveis, mais do que prevíamos. Não acha que é suficiente?

- Concordamos que ficaríamos dois anos - insistiu JeanPierre, obstinado.

- Isso foi há muito tempo, e antes de Chantal nascer.

- Nesse caso, vocês duas podem partir e eu ficarei aqui. Jane considerou essa possibilidade por um momento. A viagem para o Paquistão num comboio, carregando uma criança pequena, era difícil e perigosa. Mas não era impossível. Só que significaria deixar Jean-Pierre para trás. Ele continuaria a trair os guerrilheiros, e a intervalos de poucas semanas mais maridos e filhos do vale morreriam. E havia outro motivo para que ela não o deixasse ali: isso destruiria o casamento.

- Não - disse ela, - não posso ir sozinha. Você tem de ir também.

- Não irei - respondeu ele, irritado. - Não irei de jeito nenhum!

Jane teria agora de enfrentá-lo com o que sabia. Respirou fundo.

- Você terá de ir embora.

- Não irei. - Jean-Pierre apontou-lhe o indicador, ela o fitou nos olhos e descobriu algo que a assustou. - Não pode me obrigar. Nem tente.

- Acontece que eu posso...

- Aconselho você a não tentar - interrompeu-a Jean-Pierre, a voz terrivelmente fria.

E de repente ele parecia um estranho, um homem que Jane não conhecia. Ela se manteve em silêncio por um momento, pensando. Observou um pombo se elevar da aldeia e voar em sua direção. Pousou na encosta do penhasco, um pouco abaixo de seus pés. Não conheço esse homem!, pensou ela, em pânico. Depois de um ano inteiro, ainda não sei quem ele é!

- Você me ama? - murmurou Jane.

- Amá-la não significa que tenho de fazer tudo o que você quer.

- Isso é um sim?

Ele fitou-a fixamente. Jane sustentou o olhar, inabalável. Pouco a pouco, o brilho implacável e maníaco desapareceu dos olhos de Jean-Pierre. Ele relaxou. E depois sorriu.

- É um sim.

Jane inclinou-se para ele, Jean-Pierre tornou a passar o braço por seus ombros e acrescentou, gentilmente:

- Sim, eu amo você.

Ele beijou-a no alto da cabeça. Jane encostou o rosto em seu peito e olhou para baixo. O pombo que observara tornou a alçar vôo. Era um pombo branco, como o de sua visão inventada. Flutuou para longe, planando sem esforço para a outra margem do rio. Jane pensou: Oh, Deus, o que Vou fazer agora?

 

Foi o filho de Mohammed, Mousa - agora conhecido como Canhoto - o primeiro a avistar o comboio de volta. Ele entrou correndo na clareira diante das cavernas, gritando a plenos pulmões:

- Eles voltaram! Eles voltaram!

Ninguém precisava perguntar quem eram eles. A manhã ia pela metade, Jane e Jean-Pierre estavam trabalhando na clínica instalada na caverna. Uma insinuação de perplexidade surgiu no rosto de Jean-Pierre; ele se perguntava por que os russos não haviam usado suas informações para emboscar o comboio. Jane virou-se, a fim de que ele não percebesse o triunfo que sentia. Ela salvara as vidas de todos! Yussuf cantaria naquela noite, Sher Kador contaria suas cabras, Ali Ghanin beijaria cada um dos seus quatorze filhos. Yussuf era um dos filhos de Rabia: salvar sua vida era uma retribuição a Rabia por ajudá-la a trazer Chantal ao mundo. Todas as mães e filhas que estariam de luto agora, se não fosse por ela, podiam se regozijar.

Imaginou como Jean-Pierre estaria se sentindo. Furioso, frustrado ou desapontado? Era difícil imaginar alguém desapontado porque pessoas não haviam morrido. Jane lançou um olhar rápido para o marido, mas o rosto dele se mantinha impassível. Eu gostaria de saber o que está se passando em sua mente, pensou ela.

Os pacientes se retiraram em poucos minutos, pois todos queriam descer até a aldeia para dar as boas-vindas aos viajantes.

- Vamos descer? - perguntou Jane.

- Vá na frente - disse Jean-Pierre. - Terminarei tudo aqui e depois descerei também.

- Está certo.

Jane calculou que ele precisava de algum tempo para recuperar o controle, a fim de poder simular satisfação pelo retorno seguro, quando se encontrasse com os homens.

Pôs Chantal no colo e encaminhou-se para a trilha íngreme que descia para a aldeia. Podia sentir o calor da rocha através das solas finas das sandálias.

Ainda não enfrentara Jean-Pierre. Só que aquela situação não poderia se prolongar indefinidamente. Mais cedo ou mais tarde, Jean-Pierre saberia que Mohammed enviara um mensageiro para desviar o comboio da rota predeterminada. Perguntaria a Mohammed por que fizera isso e Mohammed falaria da "visão" de Jane. Mas Jean-Pierre sabia que Jane não acreditava em visões...

Por que tenho medo?, perguntou a si mesma. Não sou a culpada... ele é que é. Mas sinto como se o seu segredo fosse alguma coisa de que devo me envergonhar. Deveria ter falado com ele imediatamente, naquela noite em que subimos para o topo do penhasco. Guardando o segredo por tanto tempo, também me tornei uma impostora. Talvez seja isso. Ou talvez seja a expressão estranha que descubro às vezes nos olhos de Jean-Pierre...

Ela não desistira de voltar para casa, mas até agora não conseguira pensar num meio de persuadir Jean-Pierre a partir. Imaginara uma dúzia de esquemas bizarros, de simular uma mensagem dizendo que a mãe dele estava morrendo a envenenar seu iogurte com alguma coisa que provocaria os sintomas de uma doença que o obrigaria a voltar à Europa para tratamento. A mais simples e menos forçada de suas idéias fora a de ameaçar contar a Mohammed que Jean-Pierre era um espião. Nunca faria isso, é claro, pois desmascará-lo seria a mesma coisa que matá-lo. Mas Jean-Pierre pensaria que ela seria capaz de cumprir a ameaça? Provavelmente não. Seria preciso um homem duro, implacável, de coração de pedra, para acreditar que ela fosse capaz de virtualmente matar o marido - e se Jean-Pierre fosse tão duro, implacável e de coração de pedra, podia muito bem matar Jane.

Ela estremeceu, apesar do calor. Aquela história de matar era grotesca. Quando duas pessoas encontram tanto prazer no corpo uma da outra, como fazemos, pensou ela, como poderiam cometer qualquer violência contra quem amavam?

Ao chegar à aldeia, ela começou a ouvir os disparos ao acaso que caracterizavam uma comemoração afegã. Encaminhou-se para a mesquita - tudo acontecia na mesquita.

O comboio estava no pátio, homens, cavalos e bagagem, cercados por mulheres sorrindo e crianças gritando. Jane parou à beira da multidão, observando. Valeu a pena, pensou ela. Valeu a pena a preocupação e o medo, valeu a pena manipular Mohammed de forma tão indigna, a fim de testemunhar este espetáculo, os homens voltando a se encontrar, sãos e salvos, com suas esposas, mães e filhos.

O que aconteceu em seguida foi provavelmente o maior choque da vida de Jane.

Ali, no meio da multidão, entre os gorros e turbantes, aparecia uma cabeça de cabelos louros e crespos. A princípio, ela não reconheceu aquela cabeça, apesar de parecer tão familiar que lhe provocou um aperto no coração. E depois a cabeça emergiu da multidão e ela viu, escondido por trás de uma barba loura extremamente cerrada, o rosto de Ellis Thaler.

Os joelhos de Jane ficaram subitamente fracos. Ellis? Ali? Impossível!

Ele se aproximou. Usava a roupa de algodão larga dos afegãos, parecida com um pijama, uma manta suja em torno dos ombros largos. O pouco do rosto ainda visível por cima da barba estava muito bronzeado, tornando os olhos azul-celestes ainda mais impressionantes do que o habitual, como centáureas num trigal maduro.

Jane ficou atordoada. Ellis parou na sua frente, com uma expressão solene.

- Olá, Jane.

Ela descobriu que não mais o odiava. Um mês antes o teria condenado por enganá-la e espionar seus amigos, mas agora sua raiva se desvanecera. Jamais gostaria de Ellis, mas podia tolerá-lo. E era bom ouvir alguém falar inglês, pela primeira vez em mais de um ano.

- Ellis... - murmurou ela, debilmente. - O que está fazendo aqui?

- A mesma coisa que vocês.

O que isso significava? Espionar? Não, Ellis não sabia o que Jean-Pierre era. Ele percebeu a confusão de Jane e acrescentou:

- Estou aqui para ajudar os rebeldes.

Ele descobriria sobre Jean-Pierre? Jane sentiu de repente medo pelo marido. Ellis poderia matá-lo.

- De quem é a criança? - indagou Ellis.

- Minha. E de Jean-Pierre. Seu nome é Chantal.

Jane reparou que Ellis parecia profundamente triste. E compreendeu que ele esperava encontrá-la infeliz com o marido. Oh, Deus, acho que ele ainda está apaixonado por mim, pensou ela. E tentou mudar de assunto:

- Mas como vai ajudar os rebeldes?

Ele levantou sua bolsa. Era grande, comprida, no formato de uma salsicha, de lona caqui, como uma antiga mochila de soldado.

- Vou ensiná-los a explodir estradas e pontes. Nesta guerra, estou no mesmo lado que você.

Mas não no mesmo lado que Jean-Pierre, pensou Jane. O que vai acontecer agora? Os afegãos não desconfiavam de Jean-Pierre, mas Ellis era treinado nos métodos da espionagem. Mais cedo ou mais tarde descobriria o que estava acontecendo.

- Quanto tempo ficará aqui?

Se fosse uma permanência curta, ele talvez não tivesse tempo de desenvolver suspeitas.

- Durante o verão - respondeu Ellis, vagamente. Talvez ele não passasse muito tempo nas proximidades de JeanPierre.

- Onde vai se instalar?

- Nesta aldeia.

- Ahn...

Ellis percebeu o desapontamento na voz dela e exibiu um sorriso irônico.

- Acho que eu não deveria esperar que você ficasse contente em me ver...

A mente de Jane estava num turbilhão. Se pudesse forçar JeanPierre a partir, ele não mais correria qualquer perigo. Ela se sentiu subitamente capaz de confrontá-lo.

Por que será? especulou ela. É porque não tenho mais medo dele. E por que não tenho mais medo? Porque Ellis está aqui.

Eu não sabia que tinha medo de meu marido.

- Ao contrário - disse ela a Ellis, pensando Como estou calma! - Fico feliz porque você está aqui.

Houve um momento de silêncio. Era evidente que Ellis não sabia o que concluir da reação de Jane. Ele acabou murmurando:

- Tenho muitos explosivos e outros materiais no meio desta confusão. É melhor pegá-los.

Jane assentiu.

- Está bem.

Ellis virou-se e desapareceu no meio da multidão. Jane deixou o pátio, andando devagar, sentindo-se um pouco atordoada. Ellis estava ali, no Vale dos Cinco Leões, e aparentemente ainda a amava.

Jean-Pierre estava saindo quando ela chegou em casa. Ele passara por ali a caminho da mesquita, provavelmente para guardar a maleta médica. Jane não sabia o que lhe dizer.

- O comboio trouxe alguém que você conhece.

- Um europeu?

- Isso mesmo.

- Quem é?

- Vá descobrir. Terá uma surpresa e tanto.

Ele se afastou apressadamente. Jane entrou. O que Jean-Pierre faria em relação a Ellis?, pensou ela. Informaria aos russos. E os russos iam querer matar Ellis. A perspectiva deixou-a furiosa.

- Não vai haver mais mortes! - exclamou ela em voz alta. - Não permitirei!

O som de sua voz fez Chantal chorar. Jane ninou-a por um momento e a menina ficou quieta.

O que Vou fazer?, refletiu Jane.

Tenho de impedir que Jean-Pierre entre em contato com os russos.

Mas como?

O contato não pode encontrá-lo na aldeia. Portanto, tudo o que tenho de fazer é manter Jean-Pierre aqui.

Direi a ele: Deve prometer que não deixará a aldeia. Se recusar, contarei a Ellis que você é um espião e ele cuidará então para que não deixe a aldeia.

E se Jean-Pierre fizesse a promessa e depois a quebrasse?

Eu saberia que ele deixou a aldeia, saberia que estava indo ao encontro de seu contato russo, poderia alertar Ellis.

Ele tem qualquer outro meio de se comunicar com os russos?

Deve haver alguma maneira de fazer contato no caso de uma emergência.

Mas não há telefones aqui, não há agência postal, não há serviço de mensageiros, não há pombos-correio.

Ele deve ter um rádio.

Se ele tem um rádio, então não tenho como impedi-lo.

Quanto mais pensava a respeito, mais convencida Jane ficava de que o marido tinha um rádio. Ele precisava marcar os encontros em cabanas de pedra. Em teoria, podiam ter sido todos marcados antes de sua partida de Paris, mas na prática isso era quase impossível: o que aconteceria quando ele fosse obrigado a faltar a um encontro, quando se atrasasse ou quando precisasse falar urgente com o contato?

Ele deve ter um rádio.

O que posso fazer se ele tem um rádio?

Posso tirar o rádio dele.

Ela pôs Chantal no berço e olhou ao redor. Foi para a sala da frente. Ali, sobre o balcão ladrilhado, no meio do que fora outrora uma loja, estava a maleta médica de Jean-Pierre.

Era o lugar óbvio. Ninguém tinha permissão para abrir a maleta, à exceção de Jane, que nunca tinha motivo para isso.

Ela abriu-a e começou a verificar o conteúdo, tirando uma coisa de cada vez.

Não havia rádio.

Não seria tão fácil.

Ele deve ter um rádio e eu tenho de encontrá-lo, pensou Jane; se isso não acontecer, Ellis vai matá-lo ou ele matará Ellis.

Decidiu revistar a casa.

Verificou entre os suprimentos médicos nas prateleiras, procurando em todas as caixas e embalagens cujos lacres haviam sido rompidos, apressando-se com medo de que Jean-Pierre voltasse antes de acabar. Nada encontrou.

Foi para o quarto. Vasculhou as roupas de Jean-Pierre, depois as cobertas de inverno, guardadas num canto. Nada. Movendo-se mais depressa, passou para a sala de estar e procurou freneticamente por possíveis esconderijos. A arca dos mapas! Abriu-a. Somente os mapas estavam ali. Fechou-a, fazendo o maior barulho. Chantal mexeu-se no berço, mas não chorou, embora estivesse quase na hora de mamar. Você é uma boa menina, pensou Jane; graças a Deus! Olhou atrás do armário de mantimentos e levantou o tapete, para o caso de haver algum buraco escondido no chão.

Nada.

Tinha de estar em algum lugar. Não podia conceber que JeanPierre corresse o risco de esconder o rádio fora da casa, pois haveria o perigo de ser descoberto por acaso.

Voltou à loja. Se conseguisse encontrar o rádio, tudo ficaria direito: ele não teria outra opção senão ceder.

A maleta era mesmo o esconderijo óbvio, pois ele a levava a toda parte. Jane pegou-a. Era bastante pesada. Tornou a tatear por dentro. Tinha um fundo grosso.

Subitamente sentiu uma inspiração.

A maleta podia ter um fundo falso.

Sondou o fundo com os dedos. Deve estar aqui, pensou; tem de estar.

Ela enfiou os dedos pelo lado do fundo e puxou.

O fundo falso se desprendeu com facilidade.

E ali, no compartimento secreto, estava uma caixa preta de plástico. Jane pegou-a.

É isto, pensou ela; ele faz contato com os russos por este pequeno rádio.

Por que também se encontra com eles pessoalmente?

Talvez não possa revelar segredos pelo rádio, com medo de que alguém esteja na escuta. Talvez o rádio seja apenas para marcar os encontros e para emergências.

Como nas ocasiões em que ele não pode deixar a aldeia.

Ela ouviu a porta dos fundos se abrir. Apavorada, largou o rádio no chão e virou-se, olhando para a sala de estar. Viu Fará entrar, com uma vassoura.

- Santo Deus! - exclamou ela, bem alto.

Virou-se de novo, o coração disparado. Tinha de se livrar do rádio antes que Jean-Pierre voltasse.

Mas como? Não podia jogá-lo fora, pois acabaria sendo encontrado.

Tinha de destruí-lo.

Com quê?

Não dispunha de um martelo.

Uma pedra serviria.

Passou pela sala e saiu para o pátio. O muro do pátio era feito de pedras irregulares, unidas por argamassa arenosa. Ela levantou a mão e sacudiu uma das pedras de cima. Parecia firme. Experimentou outra e mais outra. A quarta pedra pareceu se desprender um pouco. Puxou com mais força. A pedra mexeu.

- Vamos, vamos! - gritou ela.

Puxou com força. A pedra cortou a pele de suas mãos. Fez mais força ainda e a pedra se desprendeu. Deu um pulo para trás quando a pedra caiu. Era mais ou menos do tamanho de uma lata de conserva.

Dava perfeitamente. Pegou-a com as duas mãos e voltou apressada para dentro da casa.

Foi para a sala da frente. Pegou no chão o rádio preto e colocouo no balcão ladrilhado. Levantou a pedra por cima da cabeça e baixou com toda a força sobre o rádio.

A caixa de plástico rachou.

Teria de bater com mais força ainda.

Levantou a pedra, tornou a bater. Desta vez a caixa quebrou, revelando as entranhas do instrumento. Jane viu um circuito impresso, um cone de alto-falante e duas pilhas com inscrições em russo. Tirou as pilhas e jogou-as no chão, e começou a despedaçar o mecanismo.

Duas mãos agarraram-na por trás abruptamente e a voz de JeanPierre gritou:

- O que está fazendo?

Jane debateu-se, desvencilhou-se por um momento e desfechou outro golpe no pequeno rádio.

Ele a agarrou pelos ombros, obrigou-a a se virar. Jane cambaleou e caiu no chão. E caiu de mau jeito, torcendo o pulso. JeanPierre olhava fixamente para o rádio; murmurou:

- Está arruinado! E é irreparável! - Agarrou-a pela camisa e levantou-a. - Não sabe o que fez!

Havia desespero e uma raiva intensa em seus olhos.

- Largue-me! - berrou Jane. Jean-Pierre não tinha o direito de agir assim, quando fora ele quem mentira para ela. - Como se atreve a me tratar assim?

- Como me atrevo?

Jean-Pierre largou a camisa, esticou o braço para trás e depois agrediu-a com toda força. O golpe acertou-a no meio da barriga. Por uma fração de segundo, Jane ficou paralisada pelo choque; depois veio a dor, lá do fundo, onde ainda estava dolorida do nascimento de Chantal. Ela gritou e dobrou-se, as mãos comprimindo a barriga.

Os olhos estavam fechados e por isso ela não viu o segundo golpe se aproximando.

O murro acertou em cheio na sua boca. Ela gritou. Mal podia acreditar que Jean-Pierre estivesse lhe fazendo aquilo. Abriu os olhos e fitou-o, com pavor de que ele a agredisse outra vez.

- Como me atrevo? - berrou Jean-Pierre. - Como me atrevo?

Jane caiu de joelhos no chão de terra e começou a chorar de dor, choque e desespero. A boca doía tanto que mal podia falar.

- Por favor, não me bata - conseguiu balbuciar. - Não me bata mais.

Ela estendeu a mão à frente, numa atitude defensiva. JeanPierre ajoelhou-se, empurrou sua mão para o lado e aproximou o rosto, quase encostando no dela.

- Há quanto tempo você sabia?

Jane passou a língua pelos lábios. Já estavam inchando. Comprimiu-os com a manga, e o pano ficou manchado de sangue.

- Desde que o encontrei naquela cabana de pedra... a caminho de Cobak.

- Mas não viu nada!

- Ele falou com sotaque russo e disse que tinha bolhas nos pés. Deduzi tudo daí.

Houve uma pausa enquanto Jean-Pierre absorvia a informação.

- E por que só resolveu agir agora? Por que não quebrou o rádio antes?

- Não tive coragem.

- E agora?

- Ellis está aqui.

- E daí?

Jane recorreu à pouca coragem que ainda lhe restava.

- Se você não parar com isso... espionar... contarei a Ellis e ele o impedirá.

Jean-Pierre segurou-a pela garganta.

- E se eu estrangular você, sua puta?

- Se alguma coisa me acontecer... Ellis vai querer saber por quê. Ele ainda me ama.

Jane não podia desviar os olhos do marido. O ódio ardia nos olhos dele.

- Agora nunca mais Vou pegá-lo! - disse ele.

Jane especulou a quem ele estaria se referindo. Ellis? Não. Masud? Seria possível que o objetivo final de Jean-Pierre fosse matar Masud? As mãos dele ainda estavam em sua garganta. Ela sentiu que apertavam. Continuou a fitá-lo, apavorada.

E foi nesse instante que Chantal chorou.

A expressão de Jean-Pierre mudou drasticamente. A hostilidade desapareceu dos olhos, o brilho tenso e obsessivo de ira se apagou; e, finalmente, para espanto de Jane, ele pôs as mãos sobre os olhos e começou a chorar.

Ela ficou incrédula. Descobriu-se a sentir pena de Jean-Pierre e pensou: Não seja idiota, o filho da puta acaba de espancá-la. Mas, contra sua vontade, ela ficou comovida pelas lágrimas e murmurou:

- Não chore...

Sua voz era surpreendentemente gentil. Ela encostou a mão no rosto do marido, que balbuciou:

- Desculpe... lamento muito o que fiz com você. O trabalho de minha vida... tudo por nada.

Jane compreendeu com espanto e um pouco de repulsa por si mesma que não estava mais com raiva de Jean-Pierre, apesar dos lábios inchados e da dor na barriga. Cedeu ao sentimento, enlaçouo e afagou-lhe as costas, como se confortasse uma criança.

- Só por causa do sotaque de Anatoly - murmurou ele. - Só por causa disso.

- Esqueça Anatoly. Deixaremos o Afeganistão e voltaremos à Europa. Partiremos com o próximo comboio.

Ele tirou as mãos do rosto e fitou-a.

- Quando voltarmos a Paris...

- O quê?

- Quando estivermos em casa... ainda Vou querer que continuemos juntos. Pode me perdoar? Amo você... sinceramente, sempre amei. E estamos casados. E há Chantal.

Por favor, Jane... por favor, não me deixe. Está bem?

Para sua surpresa, Jane não sentiu qualquer hesitação. Ali estava o homem que ela amava, seu marido, o pai de sua filha; e ele estava em dificuldade, clamando por socorro.

- Não irei a lugar nenhum.

- Prometa... prometa que não vai me deixar.

- Ela sorriu, com a boca sangrando.

- Amo você e prometo que não Vou deixá-lo.

 

Ellis sentia-se frustrado, impaciente e irritado. Frustrado porque chegara ao Vale dos Cinco Leões há sete dias e ainda não se encontrara com Masud. Impaciente porque era um purgatório diário para ele ver Jane e Jean-Pierre vivendo juntos, trabalhando juntos, partilhando o prazer da filha. E irritado porque fora ele e mais ninguém quem o levara à deplorável situação.

Fora informado de que se encontraria naquele mesmo dia com o grande homem, mas Masud ainda não aparecera. Ellis passara todo o dia anterior andando, a fim de chegar ali. Estava na extremidade sudoeste do Vale dos Cinco Leões, em território russo. Deixara Banda em companhia de três guerrilheiros - Ali Ghanin, Matullah Khan e Yussuf Gul - mas em cada aldeia pelo caminho mais dois ou três homens haviam aderido ao grupo e agora havia um total de trinta. Sentaram-se num círculo, por baixo de uma figueira, no topo de uma colina, comendo figos e esperando.

Na base da colina começava uma planície que se estendia para o sul - até Kabul, embora a cidade estivesse a oitenta quilômetros de distância e não pudessem vê-la.

Na mesma direção, só que bem mais perto, ficava a base aérea de Bagram, a apenas quinze quilômetros: seus prédios não eram visíveis, mas podiam ver de vez em quando um jato alçando vôo. A planície era um mosaico fértil de campos arados e pomares, cruzada por córregos, todos desaguando no Rio dos Cinco Leões, que corria, mais largo e mais profundo agora, mas igualmente rápido, na direção da capital. Uma estrada irregular passava pela base da colina e subia o vale, indo até a cidadezinha de Rokha, limite setentrional do território russo ali. Não havia muito movimento na estrada: umas poucas carroças de camponeses e um ou outro carro blindado. No ponto em que a estrada cruzava o rio havia uma ponte nova, construída pelos russos.

Ellis ia explodir essa ponte.

As aulas sobre explosivos que ele estava dando, a fim de encobrir por tanto tempo quanto possível a sua verdadeira missão, eram extremamente populares e ele fora obrigado a limitar o número de alunos. E tudo isso apesar de seu dari precário. Lembrava um pouco do farsi de Teerã e aprendera muita coisa de dari na viagem com o comboio até o vale. Podia falar sobre a paisagem, comida, cavalos e armas, mas ainda não era capaz de dizer coisas como A depressão no material explosivo tem o efeito de concentrar a detonação. Mesmo assim, a idéia de explodir coisas era um apelo tão grande para o machismo afegão que ele sempre tinha uma audiência atenta.

Não podia ensinar as fórmulas para calcular a quantidade de TNT necessária para um trabalho ou mesmo mostrar como usar a fita computadorizada à prova de idiotas do exército americano, pois nenhum deles conhecia a matemática da escola primária e a maioria não sabia ler. Não obstante, podia mostrar-lhes como destruir coisas com mais eficácia e ao mesmo tempo usar menos material - o que era muito importante, pois havia escassez de material bélico. Também tentara fazer com que adotassem precauções básicas de segurança, mas nisso falhara: para aqueles homens, a cautela era covardia.

E durante todo o tempo ele era torturado por Jane.

Sentia ciúme quando a via tocar em Jean-Pierre; sentia inveja quando via os dois trabalhando na clínica da caverna, com tanta eficiência e harmonia; e era consumido pelo desejo ao vislumbrar os seios intumescidos de Jane nas ocasiões em que ela amamentava a filha. Passava noites acordado, no saco de dormir, na casa de Ismael Gul, onde estava hospedado, virando-se constantemente, às vezes suando, às vezes tremendo, incapaz de encontrar qualquer posição confortável no chão de terra batida, tentando não ouvir os sons abafados de Ismael e a mulher fazendo amor, a poucos metros de distância, no quarto ao lado, e as palmas de suas mãos começavam a comichar, na ânsia de acariciarem Jane.

Não podia culpar ninguém por tudo aquilo, a não ser a si próprio. Oferecera-se para a missão na tola esperança de recuperar Jane. Fora uma atitude antiprofissional, além de imatura. Tudo o que podia fazer era sair dali o mais depressa possível.

E não podia fazer nada enquanto não encontrasse Masud.

Levantou-se e deu uma volta, irrequieto, mas tomando cuidado de permanecer à sombra da árvore, a fim de não ser visível da estrada. A poucos metros de distância havia uma massa de metal retorcido, onde um helicóptero caíra. Viu um pedaço de aço fino, mais ou menos do tamanho e do formato de um prato de jantar, o que lhe deu uma idéia. Estivera imaginando como demonstrar o efeito de cargas moldadas e agora percebia uma maneira.

Tirou da mochila um pedaço pequeno e achatado de TNT e um canivete. Os guerrilheiros se agruparam ao seu redor. Entre eles estava Ali Ghanin, um homem pequeno e disforme - nariz torto, dentes deformados, um pouco corcunda - que os outros diziam ter quatorze filhos. Ellis esculpiu o nome Ali, em caracteres persas, no TNT.

Mostrou aos homens. Ali reconheceu seu nome.

- Ali - disse ele, sorrindo e mostrando os dentes horríveis. Ellis pôs o explosivo no pedaço de aço, o lado esculpido para baixo.

- Espero que dê certo - comentou ele sorrindo.

Todos retribuíram o sorriso, embora nenhum falasse inglês. Ele tirou um rolo de estopim da espaçosa mochila e cortou um pedaço de um metro e vinte centímetros. Pegou a caixa de detonadores, tirou um, e inseriu a extremidade do estopim na cápsula cilíndrica. Prendeu o detonador na carga de TNT.

Olhou para a estrada. Não havia qualquer tráfego. Desceu a encosta com a pequena bomba e colocou-a no chão, a cerca de cinqüenta metros de distância. Acendeu o estopim com um fósforo e tornou a subir para a figueira.

Era um estopim que queimava devagar. Enquanto esperava, Ellis especulou se Masud mandara que os outros guerrilheiros o observassem e avaliassem. O líder estaria esperando pela garantia de que Ellis era um homem sério, a quem os guerrilheiros poderiam respeitar? O protocolo era sempre importante num exército, mesmo sendo um exército revolucionário. Mas Ellis não podia aguardar por muito mais tempo. Se Masud não aparecesse hoje, ele teria de abandonar toda aquela história de explosivos, confessar que era um enviado especial da Casa Branca e exigir um encontro imediato com o líder rebelde.

Houve uma explosão insignificante e uma pequena nuvem de poeira. Os guerrilheiros pareciam desapontados. Ellis foi pegar o pedaço de metal, usando o lenço, para o caso de estar muito quente. O nome Ali cortara o aço, nas letras irregulares da escrita persa. Ele mostrou aos guerrilheiros, que desataram numa conversa excitada.

Ellis ficou satisfeito: era uma demostração incontestável de que o explosivo se tornava mais poderoso onde era deprimido, ao contrário do que o bom senso podia sugerir.

Os guerrilheiros ficaram subitamente em silêncio. Ellis olhou ao redor e avistou outro grupo se aproximando da colina, formado por sete ou oito homens. Os rifles e gorros redondos indicavam que eram guerrilheiros. Ao chegarem perto, Ali empertigou-se, quase como se estivesse prestes a bater continência. Ellis perguntou:

- Quem são?

- Masud - respondeu Ali.

- Qual deles?

- O que está no meio.

Ellis observou atentamente a figura central do grupo. Masud parecia com os outros, a princípio: um homem magro, de estatura mediana, vestindo roupas caquis e botas russas. Ellis observou o rosto. Tinha a pele clara, um bigode escasso, a barba rala de um adolescente. O nariz era comprido e adunco. Os olhos escuros alertas estavam cercados por rugas que o faziam parecer cinco anos mais velho do que a sua apregoada idade de 28 anos. Não era um rosto bonito, mas oferecia um ar de inteligência intensa e autoridade serena que o distinguia dos homens ao redor. Avançou diretamente para Ellis, a mão estendida.

- Sou Masud.

- Ellis Thaler.

Ellis apertou-lhe a mão e Masud acrescentou, em francês:

- Vamos explodir aquela ponte.

- Quer começar agora?

- Quero.

Ellis pôs o equipamento na mochila, enquanto Masud circulava pelo grupo de guerrilheiros, apertando as mãos de alguns, acenando com a cabeça para outros, abraçando um ou dois, dirigindo umas poucas palavras a cada um.

Quando estavam prontos, desceram a colina como um bando irregular, a fim de que - Ellis presumiu - os observadores pensassem, se fossem vistos, que se tratava de um grupo de camponeses, em vez de uma unidade do exército rebelde. Ao chegarem à base da colina não eram mais visíveis da estrada, embora pudessem ser avistados de um helicóptero. Ellis calculou que procurariam cobertura se ouvissem um helicóptero se aproximar. Encaminharam-se para o rio, seguindo por uma trilha entre os campos cultivados. Passaram por várias casas pequenas e foram observados por pessoas que trabalhavam nos campos; algumas os ignoraram deliberadamente, outras acenaram e gritaram saudações. Alcançaram o rio e foram andando pela margem, aproveitando a possível cobertura dos blocos de rocha e da vegetação escassa à beira d'água. Quando estavam a cerca de trezentos metros da ponte um pequeno comboio de caminhões militares começou a atravessá-la; todos os guerrilheiros se esconderam, enquanto os veículos passavam, ruidosamente, a caminho de Rokha. Ellis foi postar-se sob um salgueiro e descobriu Masud ao seu lado.

- Se destruirmos a ponte - disse Masud - cortaremos a linha de suprimentos deles para Rokha.

Depois que o comboio passou, eles esperaram mais alguns minutos antes de percorrerem o resto do caminho até a ponte. Agruparam-se embaixo da ponte, invisíveis da estrada.

No meio, a ponte se elevava seis ou sete metros acima do rio, que parecia ter uns três metros de profundidade ali. Ellis constatou que era uma ponte simples, com duas vigas de aço compridas, ou longarinas, sustentando um bloco de concreto e estendendo-se de uma margem a outra, sem qualquer suporte intermediário. O concreto era uma carga morta, as vigas sustentavam toda a tensão. Bastava parti-las e a ponte estaria destruída.

Ellis iniciou os preparativos. A TNT estava em blocos amarelos de meio quilo. Fez uma pilha com dez blocos e prendeu-os juntos. Fez mais três pilhas idênticas, usando todo o seu explosivo. Usava o TNT porque era o material encontrado com mais freqüência em bombas, granadas, minas e granadas de mão, e os guerrilheiros obtinham a maior parte de seus suprimentos de artefatos russos que não explodiam. O explosivo plástico seria mais apropriado a suas necessidades, pois podia ser enfiado em buracos, enrolado em vigas, moldado em qualquer forma necessária - mas eles tinham de trabalhar com os materiais que podiam encontrar e roubar. Talvez conseguissem de vez em quando arrumar um pouco de plaslique de engenheiros russos, trocando pela maconha cultivada no vale, mas a transação - que envolvia intermediários no exército

afegão regular - era arriscada e os suprimentos, limitados. Ellis fora informado de tudo isso pelo homem da CIA em Peshawar e constatara a realidade. As vigas estavam separadas por cerca de dois metros e meio. Ellis disse em dari indicando essa distância:

- Alguém me traga um galho deste tamanho.

Um guerrilheiro afastou-se pela margem do rio e arrancou uma árvore nova. Ellis acrescentou:

- Preciso de outro, do mesmo tamanho.

Colocou uma pilha de TNT na parte inferior de uma das vigas e pediu a um guerrilheiro que a segurasse na posição. Pôs uma segunda pilha na outra viga, na mesma posição; ajeitou o galho entre as duas pilhas, a fim de mantê-las no lugar.

Vadeou o rio e fez exatamente a mesma coisa no outro lado da ponte.

Descreveu tudo o que estava fazendo numa mistura de dari, francês e inglês, deixando-os entender o que pudessem - o mais importante era que observassem o que estava fazendo e vissem os resultados. Usou Primacord, o estopim detonador que queimava seis mil metros por segundo, ligando as quatro cargas para que explodissem simultaneamente.

Fez um laço, fazendo o Primacord voltar sobre si mesmo. Explicou a Masud, em francês, que o efeito seria o estopim queimar até o TNT pelas duas extremidades; assim, se o estopim fosse cortado, por algum motivo, em um ponto, a bomba ainda explodiria. Recomendou que sempre se fizesse isso, como precaução de rotina.

Ellis sentia-se estranhamente feliz enquanto trabalhava. Havia algo de calmante nas tarefas mecânicas e no cálculo frio da quantidade de explosivo. E agora que já mostrara tudo a Masud, poderia cuidar de sua verdadeira missão.

Puxou o Primacord pela água, a fim de que ficasse menos visível - queimaria perfeitamente debaixo d'água - e levou para a margem do rio. Prendeu um detonador na extremidade do Primacord, depois acrescentou um estopim comum, de queima lenta, para quatro minutos.

- Está pronto? - ele perguntou a Masud.

- Estou.

Ellis acendeu o estopim.

Todos se afastaram depressa, subindo o rio, pela margem. Ellis sentia um certo júbilo infantil secreto pela enorme explosão que estava prestes a criar. Os outros também pareciam excitados, e ele se perguntou se seria tão ruim em disfarçar seus sentimentos quanto aqueles guerrilheiros afegãos. Mas de repente as expressões se alteraram dramaticamente. Todos ficaram alertas, como passarinhos escutando minhocas na terra; e depois Ellis ouviu também - o rumor distante de lagartas de tanques.

A estrada não era visível do lugar em que se encontravam, mas um dos guerrilheiros subiu depressa por uma árvore e informou:

- Dois.

Masud pegou o braço de Ellis.

- Pode destruir a ponte quando os tanques estiverem passando?

Mas que merda, pensou Ellis, isto é um teste!

- Posso - respondeu ele. Masud balançou a cabeça, sorrindo.

- Ótimo.

Ellis subiu pela árvore e foi se postar ao lado do guerrilheiro, olhando através dos campos para a estrada. Dois tanques pretos rodavam pesadamente pela estrada pedregosa, vindo de Kabul. Ficou tenso: era a primeira visão do inimigo. com as placas blindadas e os enormes canhões, os tanques pareciam invulneráveis, especialmente em contraste com os guerrilheiros maltrapilhos e seus rifles; apesar disso, o vale estava coalhado dos destroços de tanques que os guerrilheiros haviam destruído, com minas de fabricação doméstica, granadas bem lançadas e foguetes roubados.

Não havia outros veículos com os tanques. Não era uma patrulha, portanto, nem uma expedição ofensiva; os tanques provavelmente estavam sendo levados para Rokha depois de consertados em Bagram ou talvez chegados da União Soviética. Começou a calcular.

Os tanques avançavam a cerca de quinze quilômetros horários; chegariam portanto à ponte dentro de um minuto e meio. O estopim estava queimando há menos de um minuto, faltavam pelo menos três minutos. Daquele jeito, os tanques atravessariam a ponte e estariam a uma distância segura antes da explosão.

Ellis desceu da árvore e começou a correr, pensando: Quantos anos já se passaram desde a última vez em que estive numa zona de combate?

Ouviu passos em seu encalço e olhou para trás. Ali o seguia, sorrindo horrivelmente, e mais dois homens o acompanhavam. Os outros se abrigavam pela margem do rio.

Um momento depois ele alcançou a ponte e se abaixou, apoiado num joelho, ao lado do estopim de queima lenta, ao mesmo tempo em que tirava a mochila do ombro. Continuou a calcular, enquanto tateava pela mochila aberta e encontrava o canivete. Os tanques deviam estar agora a um minuto de distância. O estopim queimava à velocidade de trinta centímetros a cada trinta ou quarenta e cinco segundos. Aquele rolo em particular seria lento, médio ou rápido? Ellis tinha a impressão de que era rápido.

Ou seja, trinta centímetros para uma espera de trinta segundos. E em trinta segundos ele poderia correr cerca de cento e cinqüenta metros, o suficiente para se pôr em segurança, embora por um triz.

Abriu o canivete e entregou-o a Ali, que se ajoelhara ao seu lado. Depois, pegou o estopim a cerca de trinta centímetros do ponto em que se unia ao detonador, segurando com as duas mãos, para Ali cortar. Segurou a extremidade cortada com a mão esquerda e o estopim ardendo com a direita. Não sabia se já estava na hora de reacender a ponta cortada. Precisava verificar a que distância estavam os tanques.

Subiu o barranco, ainda segurando os dois pedaços de estopim. Por trás dele, o Primacord estendia-se pelo rio. Levantou a cabeça por cima do parapeito da ponte.

Os enormes tanques pretos se aproximavam. Quanto tempo ainda faltava? Ellis calculou rapidamente. Contou os segundos, avaliando o avanço dos tanques; e depois, sem calcular, mas torcendo pelo melhor, encostou a ponta acesa do estopim cortado à outra extremidade, ainda ligada às bombas.

Pôs o estopim no chão, com todo cuidado, e começou a correr.

Ali e os outros dois guerrilheiros o seguiram.

A princípio, estavam ocultos dos tanques pela margem do rio; mas quando os tanques chegaram mais perto, os quatro homens correndo se tornaram claramente visíveis.

Ellis contava os lentos segundos, enquanto o ronco dos tanques virava um estrondo.

Os artilheiros nos tanques hesitaram apenas por um momento: podia-se presumir que afegãos correndo eram guerrilheiros e, portanto, sujeitos à prática de tiro ao alvo. Houve um estampido duplo e duas granadas voaram por cima da cabeça de Ellis. Ele mudou de direção, correndo para o lado, afastando-se do rio, enquanto pensava:

O artilheiro ajusta a mira... vira o cano em minha direção... acerta o alcance... agora. Tornou a mudar de direção, correndo de volta ao rio, e um segundo depois ouviu outro estampido. A granada caiu bastante perto para salpicá-lo de terra e pedras. A próxima vai me acertar, pensou ele, a menos que a porra da bomba exploda.

Mas que merda! Por que eu tinha de mostrar a Masud como sou macho? E depois ele ouviu uma metralhadora abrir fogo. É difícil mirar de um tanque em movimento, pensou; mas talvez eles parem. Imaginou a chuva de balas de metralhadora aproximandose e passou a correr em ziguezague. Compreendeu de repente que podia adivinhar exatamente o que os russos fariam: parariam os tanques no ponto em que tivessem uma vista melhor dos guerrilheiros em fuga, que seria em cima da ponte. Mas a bomba explodiria antes de as metralhadoras atingirem os alvos? Ellis correu ainda mais depressa, o coração batendo forte, respirando aos arrancos. Não quero morrer, mesmo que ela o ame, pensou. Viu balas lascarem um bloco de rocha quase à sua frente. Mudou de rumo abruptamente, mas as balas seguiram-no. Parecia irremediável, era um alvo fácil.

Ouviu um dos guerrilheiros por trás soltar um grito, depois foi alvejado, duas vezes, em rápida sucessão: sentiu uma dor ardente no quadril e depois um impacto, como um golpe vigoroso, na nádega direita. A segunda bala paralisou-lhe a perna por um instante, ele tropeçou e caiu, machucando o peito, rolando, para ficar de

costas no chão. Sentou, ignorando a dor, e tentou se mexer. Os dois tanques haviam parado na ponte. Ali, que corria logo atrás dele, pôs as mãos agora sob as axilas

   de Ellis, tentou levantá-lo. Os dois eram alvos imóveis: os artilheiros nos tanques não poderiam errar.

E foi nesse instante que a bomba explodiu.

Um espetáculo sensacional.

As quatro explosões simultâneas partiram a ponte nas extremidades, deixando a parte do meio - com os dois tanques em cima - totalmente sem apoio. A princípio caiu

devagar, as extremidades rompidas rangendo; depois se desprendeu por completo e tombou de maneira espetacular no rio impetuoso, com um estrondo colossal. As águas

se entreabriram, deixando o leito do rio visível por um momento, e depois tornaram a se unir, com um troar medonho.

Depois que o barulho se desvaneceu, Ellis ouviu os guerrilheiros aclamando.

Alguns saíram de seus abrigos e correram para os tanques parcialmente submersos. Ali levantou Ellis. A sensação voltou às suas pernas e era de dor intensa.

- Não sei se posso andar - murmurou ele para Ali, em dari. Ellis deu um passo e teria caído se Ali não o amparasse. Ele disse, em inglês:

- Oh merda! Estou com uma bala no rabo!

Ouviu tiros. Virou a cabeça para ver os russos sobreviventes tentando escapar dos tanques e sendo alvejados pelos guerrilheiros. Aqueles afegãos eram filhos da puta implacáveis. Olhando para baixo, Ellis constatou que a perna direita da calça estava encharcada de sangue. Presumiu que devia ser do ferimento superficial; sentia que a bala ainda estava encravada no outro ferimento. Masud aproximou-se, com um sorriso largo.

- bom trabalho com a ponte - disse ele, em seu francês carregado. - Magnífico!

- Obrigado. Mas não vim até aqui para explodir pontes. - Ellis sentia-se fraco e um pouco tonto, mas aquele era o momento de declarar sua missão. - Vim para fazer um acordo.

Masud fitou-o com uma expressão de curiosidade.

- De onde você é?

- Washington. Casa Branca. Represento o Presidente dos Estados Unidos.

Masud acenou com a cabeça, sem deixar transparecer qualquer surpresa.

- Ótimo. Estou contente.

Foi nesse momento que Ellis desmaiou.

Apresentou a proposta a Masud naquela noite.

Os guerrilheiros armaram uma maca e carregaram-no pelo vale acima até Astana, onde pararam ao anoitecer. Masud já enviara um mensageiro a Banda para buscar Jean-Pierre, que chegaria no dia seguinte para extrair a bala da nádega de Ellis. Todos se acomodaram no pátio de uma casa de fazenda. A dor de Ellis abrandara, mas a viagem o deixara mais fraco. Os guerrilheiros haviam posto ataduras improvisadas em seus ferimentos.

Cerca de uma hora depois da chegada serviram-lhe chá verde, quente e adocicado, que o recuperou um pouco. Mais tarde, todos comeram amoras e iogurte como jantar.

Era o que geralmente acontecia com os guerrilheiros, como Ellis já observara durante a viagem com o comboio do Paquistão para o vale: uma ou duas horas depois de chegarem a algum lugar, a comida aparecia. Ellis não sabia se eles compravam, requisitavam ou recebiam de presente, mas calculava que lhes era dada de graça, algumas vezes de bom grado, outras com relutância.

Depois de comerem, Masud sentou-se ao lado de Ellis. Durante os minutos seguintes, os outros guerrilheiros se afastaram, deixando Masud e dois de seus lugares-tenentes a sós com Ellis. Ellis sabia que precisava falar agora com Masud, pois talvez não houvesse outra oportunidade por uma semana ou mais. Mas sentia-se muito fraco e exausto para aquela tarefa sutil e difícil. Masud disse:

- Há muitos anos um país estrangeiro pediu ao rei do Afeganistão quinhentos guerreiros para ajudar numa guerra. O rei afegão enviou cinco homens do nosso vale, com uma mensagem dizendo que é melhor ter cinco leões do que quinhentas raposas. É por isso que nosso vale passou a ser chamado de Vale dos Cinco Leões. - Ele sorriu.

- Você foi um leão hoje.

Ellis disse:

- Ouvi uma lenda dizendo que havia cinco grandes guerreiros, conhecidos como Cinco Leões, que guardavam as cinco entradas para o vale. E ouvi dizer que é por isso que chamam você de Sexto Leão.

- Já chega de lendas - disse Masud, sorrindo outra vez. - O que tem para me falar?

Ellis ensaiara aquela conversa e em seu roteiro ela não começava de maneira tão abrupta. Era evidente que Masud não adotava o estilo oriental indireto.

- Gostaria primeiro de conhecer a sua avaliação da guerra. Masud acenou com a cabeça e pensou por alguns segundos.

- Os russos têm doze mil homens em Rokha, o portão para o vale. A disposição é a de sempre: primeiro, campos minados, depois tropas afegãs, em seguida as tropas russas, a fim de impedir os afegãos de fugirem. Estão esperando mais doze mil homens como reforços. Planejam lançar uma grande ofensiva pelo vale dentro de duas semanas. O objetivo é destruir nossas forças.

Ellis se perguntou como Masud teria obtido informações tão precisas, mas não cometeu a falta de tato de indagar. Em vez disso, limitou-se a perguntar:

- E a ofensiva será vitoriosa?

- Não - respondeu Masud com serena confiança. - Quando eles atacarem, nós desapareceremos nas colinas, e assim não há ninguém para combaterem. Quando eles param, nós os atacamos de terreno mais alto e cortamos suas linhas de comunicação. Vamos desgastando-os aos poucos. E eles se descobrem a gastar vastos recursos para controlar um território que não lhes proporciona qualquer vantagem militar. E acabam batendo em retirada. É sempre assim.

Era um relato de manual sobre a guerra de guerrilhas, refletiu Ellis. Não havia a menor dúvida de que Masud poderia ensinar muito aos outros líderes tribais.

- Por quanto tempo os russos podem continuar a desfechar esses ataques inúteis?

Masud deu de ombros.

- Está nas mãos de Deus.

- Conseguirão algum dia expulsá-los do país?

- Os vietnamitas expulsaram os americanos - respondeu Masud, sorrindo.

- Sei disso... eu estava lá. Sabe como eles conseguiram?

- Um fator importante, em minha opinião, é que os vietnamitas recebiam dos russos carregamentos das armas mais modernas, especialmente mísseis portáteis terra-ar.

É a única maneira de forças guerrilheiras reagirem aos aviões e helicópteros.

- Concordo plenamente. E o que é ainda mais importante, o governo dos Estados Unidos também concorda. Gostaríamos de ajudá-los a obter armas melhores. Mas precisaríamos dar um jeito para que vocês tivessem um progresso concreto contra o inimigo com essas armas. O povo americano gosta de saber o que está recebendo em troca de seu dinheiro. Quando você acha que a resistência afegã será capaz de desfechar ataques unificados, em escala nacional, contra os russos, da maneira como os vietnamitas

faziam ao final da guerra?

Masud sacudiu a cabeça, hesitante.

- A unificação da resistência ainda se encontra num estágio inicial.

- Quais são os principais obstáculos?

Ellis prendeu a respiração, rezando para que Masud desse a resposta esperada.

- A desconfiança entre os diferentes grupos combatentes é o principal obstáculo.

Ellis soltou um disfarçado suspiro de alívio. Masud acrescentou:

- Somos tribos diferentes, nações diferentes, temos comandantes diferentes. Outros grupos guerrilheiros emborcam meus comboios e roubam meus suprimentos.

- Desconfiança - repetiu Ellis. - O que mais?

- Comunicação. Precisamos de uma rede regular de mensageiros. Em algum momento, no futuro, vamos precisar também do contato de rádio.

- Desconfiança e comunicações insuficientes. - Era isso o que Ellis esperava ouvir. - Vamos conversar a respeito de outra coisa.

Sentia-se extremamente cansado, pois perdera muito sangue. Tinha uma vontade quase irresistível de fechar os olhos.

- Vocês aqui no vale desenvolveram a arte da guerrilha com mais sucesso do que os grupos em outras regiões do Afeganistão. Outros líderes ainda desperdiçam seus recursos defendendo terras baixas e atacando posições fortes. Gostaríamos que treinassem homens de outras partes do país em táticas modernas de guerrilha. Poderia aceitar essa possibilidade?

- Claro... e creio que sei onde você está querendo chegar. Depois de um ano, haveria em cada zona da Resistência um pequeno efetivo de homens treinados no Vale dos Cinco Leões. Poderiam formar uma rede de comunicações. Compreenderiam uns aos outros, confiariam em mim...

A voz de Masud sumiu, mas Ellis pôde perceber, pela expressão em seu rosto, que ele ainda estava desenvolvendo na cabeça todas as implicações.

- Muito bem. - Ellis já estava esgotado, mas quase concluíra o acordo. - Aqui está a minha proposta. Se conseguir obter a concordância dos outros comandantes e iniciar o programa de treinamento, os Estados Unidos fornecerão os lançadores de foguetes RPG-7, mísseis terra-ar e equipamento de rádio. Mas há dois outros comandantes em particular que devem participar do acordo: Jahan Kamil, do Vale Pich; e Amai Azizi, o comandante de Faizabad.

Masud sorriu, pesaroso.

- Escolheu os mais difíceis.

- Sei disso. Pode dar um jeito?

- Dê-me algum tempo para pensar a respeito.

- Está certo.

Exausto, Ellis estendeu-se no chão frio e fechou os olhos. Um momento depois estava dormindo.

 

Jean-Pierre andava a esmo pelos campos enluarados, mergulhado na mais profunda depressão. Uma semana antes estava realizado e feliz, senhor da situação, realizando um trabalho útil, enquanto aguardava sua grande oportunidade. Agora, estava tudo acabado, sentia-se imprestável, um fracasso, superado.

Não havia saída. Repassara muitas vezes as possibilidades, terminando sempre com a mesma conclusão: tinha de deixar o Afeganistão.

Sua utilidade como espião acabara. Não tinha meios de entrar em contato com Anatoly; e mesmo que Jane não tivesse destruído o rádio, ele seria incapaz de deixar a aldeia para se encontrar com o russo, pois ela saberia no mesmo instante o que estava fazendo e contaria a Ellis. Poderia dar um jeito de silenciar Jane (não pense nisso, nem mesmo pense a respeito), mas se alguma coisa acontecesse a ela Ellis haveria de querer saber por quê. Tudo acabava em Ellis. Eu gostaria de matar Ellis, pensou Jean-Pierre, se tivesse coragem. Mas como? Não tenho revólver. O que poderia fazer... cortar sua garganta com um bisturi? Ele é muito mais forte... eu jamais

conseguiria dominá-lo.

Jean-Pierre refletiu sobre o que saíra errado. Ele e Anatoly haviam se tornado negligentes. Deveriam ter se encontrado num lugar de onde tivessem uma boa vista de todos os acessos, a fim de saberem com antecedência da aproximação de qualquer pessoa. Mas quem poderia prever que Jane o seguiria? Ele fora vítima do azar mais terrível: de o garoto ferido ser alérgico a penicilina; de Jane ter ouvido Anatoly falar; de ela reconhecer o sotaque russo; e de Ellis ter aparecido para lhe dar coragem. Fora azar. Mas os livros de história não se lembram dos homens que quase alcançaram a grandeza. Fiz o melhor, papai, pensou ele. Quase pôde ouvir a resposta do pai: Não estou interessado se você fez o melhor, quero saber apenas se foi vitorioso ou se fracassou.

Estava se aproximando da aldeia. Resolveu voltar. Vinha dormindo mal, mas não tinha outra coisa a fazer senão ir para a cama. Encaminhou-se para a casa.

O fato de ainda ter Jane não era um grande consolo. A descoberta do seu segredo parecia tê-los tornado menos íntimos, e não mais. Uma nova distância surgira entre os dois, apesar de estarem planejando o retorno e até conversando sobre o que fariam na Europa.

Mas pelo menos ainda se abraçavam na cama à noite. Era alguma coisa.

Entrou em casa. Esperava encontrar Jane já na cama, mas para sua surpresa ela ainda estava de pé. E falou no instante em que ele entrou:

- Masud mandou um mensageiro. Você tem de ir a Astana. Ellis está ferido.

Ellis ferido. O coração de Jean-Pierre bateu mais depressa.

- Como?

- Não é grave. Pelo que disse o mensageiro, acho que ele tem uma bala na bunda.

- Irei até lá pela manhã. Jane assentiu.

- O mensageiro irá com você. Poderá voltar ao cair da noite.

- Está certo.

Jane cuidava para que ele não tivesse qualquer oportunidade de se encontrar com Anatoly. A cautela era desnecessária: JeanPierre não tinha meios de marcar um encontro.

E Jane estava se precavendo contra um perigo menor e esquecendo um maior. Ellis estava ferido. Isso o deixava vulnerável. O que mudava tudo.

Agora, Jean-Pierre podia matá-lo.

Jean-Pierre passou a noite inteira acordado, pensando a respeito. Imaginou Ellis estendido sobre um colchão, por baixo de uma figueira, rangendo os dentes contra a dor de um osso estilhaçado, talvez muito pálido e fraco da perda de sangue. Viu-se preparando uma injeção. "Vou aplicar um antibiótico para evitar a infecção do ferimento", diria. E injetaria uma dose excessiva de digital, que provocaria um ataque cardíaco.

Um ataque cardíaco natural era improvável mas não impossível num homem de trinta e quatro anos, especialmente alguém que vinha desenvolvendo um esforço físico intenso, depois de um longo período de trabalho mais ou menos sedentário. De qualquer forma, não haveria inquérito, autópsia ou suspeitas; no Ocidente, com toda certeza, pensariam que Ellis fora ferido em ação e morrera dos ferimentos. E ali no vale todos aceitariam o diagnóstico de JeanPierre. Confiavam nele tanto quanto em qualquer dos lugares-tenentes de Masud - o que era natural, pois se sacrificara tanto quanto os outros pela causa, ao que lhes parecia. Somente Jane ficaria desconfiada.

E o que ela poderia fazer?

Jean-Pierre não sabia. Jane era uma adversária formidável quando contava com o apoio de Ellis, mas se tornava relativamente impotente sozinha. Jean-Pierre poderia até persuadi-la a continuar no vale por mais um ano. Podia prometer que não voltaria a trair os comboios, depois encontrar um meio de restabelecer o contato com Anatoly e aguardar a oportunidade de apontar Masud aos russos.

Deu a mamadeira a Chantal às duas horas da madrugada e depois voltou para a cama. Nem mesmo tentou dormir. Estava muito ansioso, excitado e assustado. Deitado, esperando

que o sol nascesse, pensou em todas as coisas que poderiam sair erradas: Ellis podia recusar o tratamento, ele podia aplicar uma dose errada, Ellis podia ter sofrido um mero arranhão e estaria andando normalmente, Ellis e Masud já poderiam ter deixado Astana.

O sono de Jane foi perturbado pelos sonhos. Ela se mexia e virava ao seu lado, de vez em quando murmurando sílabas incompreensíveis. Somente Chantal dormiu bem.

Jean-Pierre levantou-se pouco antes do amanhecer, acendeu o fogo e foi ao rio tomar um banho. Ao voltar, o mensageiro já estava em seu pátio, tomando o chá feito por Fará e comendo a sobra do pão do dia anterior. Jean-Pierre tomou chá, mas não foi capaz de comer qualquer coisa.

Jane amamentava Chantal no telhado. Jean-Pierre subiu e beijou as duas em despedida. Cada vez que tocava em Jane lembrava de como a esmurrara e sentia todo o seu ser estremecer de vergonha. Ela parecia tê-lo perdoado, mas ele não podia se perdoar.

Ele conduziu a velha égua pela aldeia e desceu para o rio. com o mensageiro ao lado, foi seguindo correnteza abaixo. Havia uma estrada para Astana, ou o que parecia ser uma estrada em Cinco Leões: uma faixa de terra rochosa, com dois ou três metros de largura, apropriada para carroças de madeira ou jipes militares, mas capaz de destruir um carro comum em poucos minutos. O vale era uma sucessão de gargantas rochosas estreitas, alargando-se a intervalos para formar pequenas planícies cultivadas, com dois ou três quilômetros de comprimento, pouco mais de um quilômetro de largura, em que os aldeões ganhavam um sustento escasso do solo relutante pelo trabalho árduo e irrigação eficiente. A estrada permitia que Jean-Pierre montasse nos trechos de descida. (A égua não era bastante boa para que ele montasse nas subidas.)

O vale devia ter sido, no passado, um lugar idílico, pensou ele, enquanto seguia para o sul, ao sol claro da manhã. Irrigado pelo Rio dos Cinco Leões, protegido pelos altos paredões do vale, organizado de acordo com as tradições antigas e intocado, a não ser por um ocasional transportador de manteiga de Nuristan ou um vendedor de fitas de Kabul, devia ser um remanescente da Idade Média. Agora, o século XX o alcançara, com uma vingança. Quase todas as aldeias haviam sofrido danos por bombas: um moinho de vento destruído, uma campina cheia de crateras, um antigo aqueduto de madeira arrebentado, uma ponte de pedra reduzida a escombros no rio impetuoso.

O efeito de tudo isso sobre a vida econômica do vale era evidente ao exame meticuloso de Jean-Pierre. Aquela casa era um açougue, mas o cepo de madeira na frente não mostrava carne alguma. Aquele campo invadido pelo mato fora outrora uma horta, mas seu dono fugira para o Paquistão. Havia um pomar com as frutas apodrecendo pelo chão, quando deveriam estar secando num telhado a fim de serem armazenadas para o frio e longo inverno: a mulher e as crianças que cuidavam do pomar haviam morrido, o marido se dedicava inteiramente à guerrilha. Aquela pilha de terra e madeira fora uma mesquita, e os aldeões resolveram não reconstruí-la, pois provavelmente seria bombardeada outra vez. Todo esse desperdício e destruição acontecia porque homens como Masud tentavam resistir à maré da história e enganavam os camponeses ignorantes, persuadindo-os a apoiá-los. com Masud fora do caminho, tudo aquilo terminaria.

E com Ellis fora do caminho, Jean-Pierre poderia cuidar de Masud.

Perguntou-se, ao se aproximarem de Astana, por volta de meiodia, se teria alguma dificuldade para espetar a agulha. A idéia de matar um paciente era tão grotesca que ele não sabia como reagir.

Já vira pacientes morrerem, é claro; mas sempre se sentia consumido pelo pesar por não ter podido salvá-los. Quando tivesse Ellis desamparado à sua frente, com a seringa na mão, seria torturado pela dúvida, como Macbeth, ou vacilaria, como Raskolnikov em Crime e Castigo?

Passaram por Sangana, com seu cemitério e sua praia arenosa, seguiram a estrada por uma curva do rio. Havia um trecho de terra cultivada à frente e um grupo de casas na encosta. Um ou dois minutos depois um garoto de onze ou doze anos atravessou os campos ao encontro deles e conduziu-os não para a aldeia na colina, e sim para uma casa grande à beira da terra cultivada.

Jean-Pierre ainda não tinha dúvidas, nenhuma hesitação; experimentava apenas uma apreensão ansiosa, como momentos antes de alguma prova.

Tirou a maleta da égua, entregou a rédea ao garoto e entrou no pátio da casa.

Vinte ou mais guerrilheiros estavam espalhados por ali, acocorados, olhando para o espaço, esperando com uma paciência nativa. Jean-Pierre correu os olhos ao redor e constatou que Masud não estava ali, mas avistou dois dos seus principais auxiliares. Ellis se encontrava num canto ensombreado, deitado sobre uma manta.

Jean-Pierre ajoelhou-se ao seu lado. Era evidente que Ellis sofria alguma dor da bala. Estava deitado de barriga para baixo, o rosto contraído, rangendo os dentes.

A pele era pálida e havia gotas de suor na testa. A respiração parecia áspera.

- Dói muito? - indagou Jean-Pierre, em inglês.

- E como! - respondeu Ellis, entre os dentes semicerrados.

Jean-Pierre puxou o lençol que o cobria. Os guerrilheiros haviam cortado as roupas de Ellis e ajeitado uma atadura improvisada no ferimento. Jean-Pierre tirou-a.

Pôde verificar no mesmo instante que o ferimento não era grave. Ellis sangrara muito e a bala ainda se achava alojada no músculo, devia doer muito, mas não atingira qualquer osso ou vasos sangüíneos maiores; curaria depressa.

Não, não vai curar, Jean-Pierre lembrou a si mesmo. Não vai curar absolutamente.

- Vou lhe dar primeiro algo para atenuar a dor.

- Agradeço - murmurou Ellis.

Jean-Pierre viu que Ellis tinha uma cicatriz enorme nas costas, no formato de uma cruz, e especulou como ele a conseguira. Nunca saberei, refletiu ele. Abriu a maleta.

Vou matar Ellis agora, pensou. Nunca matei ninguém, nem mesmo por acidente. Como é ser um assassino? Há pessoas fazendo isso todos os dias: homens matam as esposas, mulheres matam os filhos, assassinos matam políticos, assaltantes matam os donos das casas, carrascos matam condenados. Pegou uma seringa grande e começou a enchê-la com digitoxina: a droga vinha em frascos pequenos e tinha de esvaziar quatro para obter uma dose letal.

Como seria observar Ellis morrer? O primeiro efeito da droga seria a aceleração dos batimentos cardíacos. Ellis sentiria isso, ficaria ansioso e incomodado. E depois, quando o veneno afetasse o mecanismo de ritmo do coração, ele teria batimentos extras, um pequeno depois de cada normal. E se sentiria terrivelmente nauseado. Os batimentos acabariam se tornando totalmente irregulares, as cavidades superior e inferior do coração bateriam independentes, e Ellis morreria em agonia e terror.

O que farei, pensou Jean-Pierre, quando ele gritar de dor e pedir a mim, o médico, para socorrê-lo? Deixarei que ele saiba que o quero morto? Ele vai adivinhar que o envenenei? Direi palavras reconfortantes, tentarei atenuar a angústia de sua morte? Trate de relaxar, é apenas o efeito colateral normal do analgésico, tudo acabará bem.

A injeção estava pronta.

Posso fazê-lo, compreendeu Jean-Pierre. Posso matá-lo. Só não sei o que me acontecerá depois.

Ele descobriu a parte superior do braço de Ellis e, por pura força do hábito, esfregou uma mecha com álcool.

Masud chegou nesse momento.

Jean-Pierre não o ouvira se aproximar e por isso teve a impressão de que ele surgiu do nada, o que lhe provocou um sobressalto. Masud pôs a mão em seu ombro.

- Eu lhe dei um susto, Monsieur le docteur. - Ele ajoelhouse junto à cabeça de Ellis. E acrescentou, em francês, para o ferido: - Pensei muito na proposta do governo americano.

Jean-Pierre também estava ajoelhado, paralisado, a seringa na mão direita. Que proposta? O que estava acontecendo? Masud falava abertamente, como se Jean-Pierre fosse um dos seus companheiros - o que, de certa forma, era verdade - mas Ellis... Ellis podia sugerir que conversassem em particular.

Ellis soergueu-se, apoiado num cotovelo, com bastante esforço. Jean-Pierre prendeu a respiração. Mas tudo o que Ellis disse foi:

- Continue.

Ele está exausto demais, pensou Jean-Pierre, sente muita dor, não pode pensar em precauções; além do mais, assim como Masud, não tem motivos para desconfiar de mim.

- É boa - declarou Masud. - Mas tenho pensado como posso cumprir a minha parte do acordo.

Mas é claro!, pensou Jean-Pierre. Os americanos não mandaram para cá um dos mais importantes agentes da CIA só para ensinar alguns guerrilheiros a explodir pontes e túneis. Ellis está aqui para fazer um acordo.

Masud continuou:

- O plano de treinar homens de outras regiões deve ser explicado aos diversos comandantes. O que será bastante difícil. Eles ficarão desconfiados... especialmente se eu apresentar a proposta. Acho que você é que deve fazer isso e lhes contar o que seu governo oferece.

Jean-Pierre estava totalmente absorto na conversa. Um plano para treinar homens de outras áreas! Mas qual era a idéia por trás? Ellis falou com alguma dificuldade:

- Eu teria o maior prazer em fazer isso. Mas você precisaria reuni-los.

- Não há problema. - Masud sorriu. - Convocarei uma conferência de todos os líderes da Resistência, aqui, no Vale dos Cinco Leões, na aldeia de Darg, dentro de oito dias. Despacharei os mensageiros hoje, com a informação de que um representante do governo dos Estados Unidos está aqui para discutir o fornecimento de armas.

Uma conferência! Fornecimento de armas! Os contornos do acordo estavam se tornando definidos para Jean-Pierre. Mas o que ele deveria fazer?

- Eles virão? - indagou Ellis.

- Muitos virão - respondeu Masud. - Nossos camaradas dos desertos ocidentais não vão aparecer... é muito longe e eles não nos conhecem.

- E os dois que queremos especialmente, Kamil e Azizi? Masud deu de ombros.

- Está nas mãos de Deus.

Jean-Pierre tremia de excitamento. Aquele seria o acontecimento mais importante na história da Resistência afegã. Ellis remexeu na mochila, que estava no chão, perto de sua cabeça.

- Posso ajudá-lo a persuadir Kamil e Azizi. - Tirou dois pacotes pequenos e abriu um. Continha um pedaço retangular de metal amarelo. - Ouro. Cada barra dessas vale cinco mil dólares.

Era uma fortuna: cinco mil dólares representavam mais do que o rendimento de dois anos de um afegão médio. Masud pegou a barra, apontou para uma gravação no meio e perguntou:

- O que é isto?

- O selo do Presidente dos Estados Unidos - explicou Ellis.

Muito esperto, pensou Jean-Pierre. O tipo de coisa que impressionaria os líderes tribais e os deixaria com uma curiosidade irresistível de conhecer Ellis.

- Isso ajudará a persuadir Kamil e Azizi? - acrescentou Ellis.

Masud acenou com a cabeça.

- Acho que eles virão.

Pode apostar qualquer coisa como eles virão, pensou JeanPierre.

E de repente ele sabia exatamente o que tinha de fazer. Masud, Kamil e Azizi, os três grandes líderes da Resistência, estariam juntos na aldeia de Darg, dentro de oito dias.

Tinha de avisar a Anatoly.

E Anatoly poderia então matar a todos.

É isso, refletiu Jean-Pierre; é esse o momento por que tenho esperado desde que cheguei ao vale. Tenho Masud onde o quero... e também mais dois líderes rebeldes.

Mas como avisar a Anatoly?

Tem de haver um meio.

- Uma conferência de cúpula - comentou Masud, sorrindo, orgulhoso. - Será um bom começo para a nova união da Resistência, não é mesmo?

Ou isso ou o começo do fim, pensou Jean-Pierre. Baixou a mão, apontando a agulha para o chão, comprimiu o embolo, esvaziando a seringa. Observou o veneno ser absorvido pela terra. Um novo começo ou o princípio do fim.

Jean-Pierre aplicou um anestésico em Ellis, extraiu a bala, limpou o ferimento, pôs um novo curativo e injetou um antibiótico para evitar a infecção. Cuidou também de dois guerrilheiros que haviam sofrido ferimentos menores na escaramuça. A esta altura, já se espalhara pela aldeia a notícia de que o doutor estava ali, e os pacientes se agrupavam no pátio. Jean-Pierre tratou de um bebê com bronquite, três pequenas infecções e um mula com vermes. E, depois, almoço. No meio da tarde arrumou sua maleta e montou em Maggie para a viagem de volta.

Deixou Ellis para trás. Seria muito melhor para Ellis continuar onde estava por alguns dias, pois o ferimento sararia mais depressa se ficasse em repouso. Jean-Pierre sentia-se agora paradoxalmente ansioso para que Ellis permanecesse com boa saúde, já que a conferência de cúpula seria cancelada se ele morresse.

Enquanto subia pelo vale, na velha égua, Jean-Pierre vasculhava o cérebro à procura de um meio de entrar em contato com Anatoly. Claro que podia simplesmente dar a volta e descer o vale até Rokha, apresentando-se aos russos. Desde que não fosse fuzilado à primeira vista, estaria em pouco tempo na presença de Anatoly. Mas Jane saberia aonde fora e o que fizera, contaria a Ellis, que prontamente mudaria o local e a data da conferência.

Precisava encontrar um jeito de enviar uma carta a Anatoly. Mas quem a levaria?

Havia um tráfego constante de pessoas pelo vale a caminho de Charikar, a cidade ocupada pelos russos na planície, a mais de cem quilômetros de distância, ou de Kabul, a capital, a cento e cinqüenta quilômetros de distância. Eram fazendeiros de Nuristan levando manteiga e queijo, mercadores ambulantes vendendo panelas e outros utensílios, pastores conduzindo pequenos rebanhos de ovelhas ao mercado, famílias de nômades empenhadas em suas misteriosas atividades. Podia-se subornar qualquer um deles para levar uma carta a uma agência do correio ou simplesmente entregá-la a um soldado russo. Kabul ficava a três dias de viagem, Charikar a dois. Rokha, onde havia soldados russos, mas não tinha agência do correio, ficava a apenas um dia de viagem. Jean-Pierre estava convencido de que poderia encontrar alguém que aceitaria sua missão. Havia um perigo, é claro: a carta podia ser aberta e lida, Jean-Pierre seria descoberto, torturado e morto. Ele podia estar disposto a assumir esse risco. Mas havia outro obstáculo. Depois de receber o dinheiro, o mensageiro entregaria a carta? Não havia qualquer garantia de que ele não a "perderia" pelo caminho. Jean-Pierre talvez jamais soubesse o que acontecera. O plano era incerto demais.

Ainda não encontrara uma solução quando chegou a Banda, ao anoitecer. Jane estava no telhado da casa, aproveitando a brisa vespertina, com Chantal nos joelhos. Jean-Pierre acenou para elas, entrou na casa e pôs a maleta médica no balcão ladrilhado. Foi quando a esvaziava, ao ver as pílulas de diamorfina, que compreendeu que havia uma pessoa a quem poderia confiar a carta para Anatoly.

Encontrou um lápis na maleta. Tirou o papel de embalagem das mechas de algodão e rasgou um retângulo - no vale não havia papel para se escrever. Escreveu em francês:

Ao Coronel Anatoly, da KGB:

Parecia estranhamente melodramático, mas ele não sabia de que outra forma começar. Não conhecia o nome inteiro de Anatoly e não dispunha de um endereço. E continuou:

Masud convocou uma reunião dos líderes da Rebelião. Eles vão se encontrar daqui a oito dias, na quinta-feira, 27 de agosto, em Darg, a aldeia mais próxima ao sul de Banda. Provavelmente todos dormirão na mesquita naquela noite e passarão juntos a sexta-feira, que é um dia santo. A conferência foi promovida para que todos possam conversar com um agente da CIA que conheço pelo nome de Ellis Thaler e que chegou ao vale há uma semana.

Esta é a nossa grande oportunidade!

Acrescentou a data e assinou "Simplex".

Não tinha um envelope - não via nenhum desde que deixara a Europa. Tentou imaginar qual seria a melhor maneira de cobrir a carta. Olhando ao redor, viu uma caixa de recipientes de plástico para distribuir pílulas. Vinham com rótulos adesivos que Jean-Pierre nunca usava, porque não conhecia a escrita persa. Enrolou a carta num cilindro e ajeitou-a num dos recipientes.

Perguntou-se como endereçá-la. Em algum ponto da viagem, a mensagem passaria por um soldado russo. Jean-Pierre imaginou um burocrata de óculos, muito nervoso, num escritório frio, ou talvez um sentinela bronco, postado à frente de uma cerca de arame farpado. Não podia haver a menor dúvida de que a arte de transferir responsabilidade era tão desenvolvida no exército soviético quanto no francês na ocasião em que Jean-Pierre prestara serviço militar. Pensou na maneira de fazer a coisa parecer bastante importante para ser encaminhada a um superior. Não havia sentido em escrever "Importante", "KGB" ou qualquer outra coisa em francês, inglês ou mesmo dari, pois o soldado não seria capaz de ler qualquer delas. Jean-Pierre, por sua vez, não sabia a escrita russa. Era irônico que a mulher no teto, cuja voz ele podia ouvir a entoar um acalanto, falasse russo com fluência e, se quisesse, poderia lhe ensinar a escrever qualquer coisa. Por fim, escreveu "Anatoly - KGB", em caracteres latinos, grudou o rótulo no recipiente, colocou-o numa caixa vazia de remédio que tinha o aviso Veneno! em quinze línguas diferentes e três símbolos internacionais.

Amarrou a caixa com um barbante.

Agindo com rapidez, guardou tudo na maleta médica e substituiu as coisas que usara em Astana. Pegou um punhado de pílulas de diamorfina e meteu-as no bolso da camisa.

Finalmente envolveu a caixa de Veneno! com uma toalha puída. Saiu da casa, gritando para Jane:

- Vou ao rio tomar um banho.

- Está bem.

Jean-Pierre atravessou depressa a aldeia, acenando com a cabeça bruscamente para algumas pessoas, e saiu para os campos. Sentia o maior otimismo. Muitos riscos eram inerentes a seus planos, mas podia outra vez acalentar a esperança de um grande triunfo. Contornou um campo de trevos que pertencia ao mula e desceu uma série de terraços. A cerca de um quilômetro e meio da aldeia, num afloramento rochoso na encosta, havia uma cabana solitária que fora bombardeada. Estava escurecendo quando Jean-Pierre se aproximou. Foi avançando devagar, cauteloso, pelo terreno irregular, lamentando não ter trazido um lampião.

Parou diante da pilha de escombros que fora outrora a frente da casa. Pensou em entrar, mas foi dissuadido pelo cheiro e pela escuridão. Limitou-se a gritar:

- Ei!

Um vulto informe mexeu-se no chão, assustando-o. Ele deu um pulo para trás, praguejando.

O malang levantou-se.

Jean-Pierre fitou o rosto esquelético e a barba emaranhada do louco. E recuperando o controle, disse em dari:

- Deus esteja com você, santo homem.

- E com você, doutor.

Jean-Pierre o encontrava numa fase coerente. Ótimo.

- Como está sua barriga?

O homem acalentava uma dor de estômago: como sempre, queria drogas. Jean-Pierre deu-lhe uma pílula de diamorfina, deixando que visse as outras, antes de guardá-las no bolso. O malang tomou a pílula e murmurou:

- Quero mais.

- Pode ter mais - respondeu Jean-Pierre. - Muito mais. O homem estendeu a mão.

- Mas tem de fazer uma coisa para mim - acrescentou JeanPierre.

O louco assentiu, ansiosamente.

- Tem de ir a Charikar e entregar isto a um soldado russo. Jean-Pierre optara por Charikar, apesar de envolver mais um dia de viagem, porque temia que Rokha, sendo uma cidade rebelde temporariamente ocupada pelos russos, pudesse estar em plena confusão, acarretando a perda da mensagem; Charikar, por outro lado, ficava em território russo permanente. E optara por um soldado, em vez de uma agência do correio, porque o malang talvez não fosse capaz de comprar um selo e despachar alguma coisa.

Observou atentamente o rosto sujo do homem. Estivera se perguntando se o malang compreenderia até mesmo essas instruções simples. Mas a expressão de medo à menção

de um soldado russo indicava que ele entendia perfeitamente.

Haveria algum meio de Jean-Pierre garantir que o malang de fato cumpriria as ordens? Ele também podia jogar o pacote fora e voltar jurando que realizara a missão, pois se era bastante inteligente para compreender o que devia fazer, poderia igualmente mentir a respeito. Jean-Pierre teve uma idéia inspirada.

- E compre um maço de cigarros russos. O malang estendeu as mãos vazias.

- Sem dinheiro.

Jean-Pierre sabia que ele não tinha dinheiro. Deu-lhe cem afeganes. Isso garantiria que ele fosse a Charikar. Mas haveria algum meio de obrigá-lo a entregar o pacote?

- Se fizer o que estou pedindo, eu lhe darei todas as pílulas que quiser. Mas não tente me enganar... eu saberei se o fizer, nunca mais lhe darei as pílulas, a dor na barriga vai ficar cada vez pior, você vai inchar e depois explodir como uma granada, morrendo em agonia. Está me entendendo?

- Estou.

Jean-Pierre observou-o à claridade precária. O branco dos olhos brilhava. O malang parecia apavorado. Jean-Pierre entregou-lhe o resto das pílulas de diamorfina.

- Tome uma em cada manhã, até voltar a Banda. O louco balançou a cabeça.

- Vá agora e não tente me enganar.

O homem virou-se e começou a correr pela trilha irregular, com seu jeito esquisito, parecendo um animal. Observando-o desaparecer na escuridão que se adensava, Jean-Pierre

pensou: O futuro deste país está em suas mãos imundas, seu pobre louco. Que Deus o acompanhe.

Uma semana depois o malang ainda não voltara.

Na quarta-feira, o dia anterior à conferência, Jean-Pierre estava transtornado. A cada hora dizia a si mesmo que o homem poderia chegar na hora seguinte. Ao final de cada dia, pensava que o veria no dia seguinte.

A atividade aérea no vale aumentara, acrescentando um novo fator às preocupações de Jean-Pierre. Durante a semana inteira os jatos passaram uivando, indo bombardear outras aldeias. Banda tivera sorte: apenas uma bomba caíra ali e abrira um único e enorme buraco no campo de trevos de Abdullah. Mas o constante barulho e perigo deixavam todos nervosos. A tensão produziu um incremento previsível de pacientes com sintomas de estresse na clínica de JeanPierre: abortos espontâneos, acidentes domésticos, vômitos inexplicáveis, dores de cabeça. Eram as crianças que tinham as dores de cabeça. Na Europa, Jean-Pierre teria recomendado a psiquiatria. Ali, encaminhava-as ao mula. Nem a psiquiatria nem o Islã seriam de grande proveito, pois o problema das crianças era a guerra.

Ele cuidou dos pacientes da manhã de maneira mecânica fazendo as perguntas de rotina em dari, anunciando o diagnóstico a Jane em francês, pondo curativos em ferimentos, aplicando injeções e distribuindo recipientes de plástico com pílulas e vidrinhos de medicamentos coloridos. O malang devia ter levado dois dias para percorrer a pé o caminho até Charikar. Podia-se calcular um dia para que ele reunisse a coragem para abordar um soldado russo, uma noite para superar o impacto, mais dois dias na viagem de volta. Deveria ter chegado anteontem. O que acontecera? Perdera o pacote e preferira se manter ao largo, tremendo de medo? Tomara todas as pílulas de uma vez e ficara doente? Caíra no rio e se afogara? Fora usado pelos russos para um exercício de tiro ao alvo?

Jean-Pierre olhou para o relógio de pulso. Eram dez e meia. A qualquer momento o malang poderia chegar, trazendo um maço de cigarros russos como prova de que estivera em Charikar. JeanPierre especulou por um instante como explicaria o maço a Jane, pois ele não fumava. Concluiu que não havia necessidade de qualquer explicação para os atos de um lunático.

Ele fazia um curativo num garoto do vale vizinho, que queimara a mão numa fogueira, quando ouviu lá fora o barulho de passos e saudações, indicando que alguém chegara.

Jean-Pierre contevê a ansiedade e continuou a fazer o curativo no garoto.

Olhou para trás quando ouviu Jane falar e descobriu, desapontado, que não era o malang, mas sim dois estranhos.

Um deles disse:

- Deus esteja com você, doutor.

- E com você também. - A fim de evitar uma troca prolongada de saudações, Jean-Pierre apressou-se em acrescentar: - Qual é o problema?

- Houve um terrível bombardeio em Skabun. Muitas pessoas morreram e há inúmeros feridos.

Jean-Pierre olhou para Jane. Ainda não podia deixar Banda sem a permissão dela, pois Jane receava que ele desse um jeito de entrar em contato com os russos. Mas era evidente que ele não poderia ter promovido aquela emergência.

- Devo ir? - ele perguntou a Jane, em francês. - Ou você vai?

Jean-Pierre não queria realmente ir, pois era bem provável que teria de passar a noite inteira em Skabun. Preferia permanecer em Banda, esperando o malang.

Jane hesitou. Jean-Pierre sabia que ela estava pensando que se fosse teria de levar Chantal. Além do mais, ela sabia que não tinha condições de cuidar de ferimentos traumáticos.

- A decisão é sua - acrescentou Jean-Pierre.

- Vá você.

- Está bem. - Skabun ficava a duas horas de viagem. Se trabalhasse depressa e não houvesse muitos feridos, pensou Jean-Pierre, poderia voltar ao anoitecer. – Tentarei voltar ainda esta noite.

Ela se adiantou e beijou-o no rosto, murmurando:

- Obrigada.

Ele verificou a maleta médica: morfina para dor, penicilina para evitar infecções, seringas e fio cirúrgico, um bom suprimento de ataduras. Pôs um gorro na cabeça e uma manta nos ombros.

- Não levarei Maggie - ele informou a Jane. - Skabun não é tão longe e o caminho é péssimo.

Jean-Pierre tornou a beijá-la, depois virou-se para os dois mensageiros e acrescentou:

- Vamos embora.

Desceram para a aldeia, vadearam o rio, subiram a trilha íngreme no outro lado. Jean-Pierre pensava em Jane. Se o seu plano desse certo e os russos matassem Masud, como ela reagiria? Saberia que ele estivera por trás. Mas certamente não o denunciaria. Jane continuaria a amá-lo? Jean-Pierre a queria. Desde que viviam juntos que sofria cada vez menos das profundas depressões que antes o dominavam regularmente. Pelo simples fato de amá-lo, Jane fazia com que ele se sentisse bem. E Jean-Pierre queria isso. Mas também queria ter sucesso em sua missão. Pensou: creio que quero mais o sucesso do que a felicidade, e é por isso que estou disposto a correr o risco de perdê-la para ter a oportunidade de matar Masud. Os três homens foram andando para sudoeste, pela trilha no alto do penhasco, o estrondo do rio ressoando em seus ouvidos. JeanPierre perguntou:

- Quantos mortos?

- Muitos - respondeu um dos mensageiros. Jean-Pierre estava acostumado a respostas assim. Paciente, ele insistiu:

- Cinco? Dez? Vinte? Quarenta?

- Cem.

Jean-Pierre não acreditou, pois não havia tantos habitantes em Skabun.

- Quantos feridos?

- Duzentos.

Era absurdo. Será que o homem não sabia?, especulou JeanPierre. Ou estava exagerando, com receio de que o médico resolvesse voltar se indicasse números pequenos?

Talvez, simplesmente, ele não fosse capaz de contar além de dez.

- Que tipo de ferimentos?

- Buracos, cortes e gente sangrando.

Pareciam mais ferimentos de uma batalha. Os bombardeios produziam concussões, queimaduras e lesões decorrentes do desmoronamento de prédios. Aquele homem era obviamente uma péssima testemunha. Não havia sentido em continuar a interrogá-lo.

Três quilômetros além de Banda eles deixaram a trilha do penhasco e seguiram para o norte, por um caminho que Jean-Pierre não conhecia.

- Este é o caminho para Skabun?

- É, sim.

Devia ser um atalho que ele nunca descobrira. A direção geral era aquela mesma. Poucos minutos depois eles avistaram uma das pequenas cabanas de pedra em que os viajantes podiam descansar ou passar a noite. Para surpresa de Jean-Pierre, os mensageiros encaminharam-se para a entrada sem porta.

- Não temos tempo para descansar - declarou ele irritado. - Há feridos à minha espera.

E foi nesse instante que Anatoly saiu da cabana.

Jean-Pierre ficou atordoado. Não sabia se se sentia exultante porque agora poderia falar da conferência a Anatoly ou apavorado com a possibilidade de os afegãos matarem o russo.

- Não se preocupe - disse Anatoly, interpretando sua expressão. - Eles são soldados do exército regular afegão. Mandei que fossem buscá-lo.

Era brilhante. Não houvera qualquer bombardeio em Skabun. Tudo não passava de um estratagema inventado por Anatoly para atrair Jean-Pierre.

- Amanhã vai acontecer uma coisa da maior importância...

- Já sei, já sei - interrompeu-o Anatoly. - Recebi sua mensagem. E é por isso que estou aqui.

- E vai pegar Masud?

Anatoly sorriu sombriamente, mostrando os dentes manchados de tabaco.

- Pegaremos Masud. Acalme-se.

Jean-Pierre compreendeu que se comportava como uma criança excitada no Natal. Reprimiu seu entusiasmo com algum esforço.

- Quando o malang não voltou, pensei...

- Ele chegou ontem a Charikar - explicou Anatoly. - Só Deus sabe o que lhe aconteceu no caminho. Por que não usou o rádio?

- Quebrou. - Jean-Pierre não queria explicar o problema de Jane naquele momento. - O malang fará qualquer coisa por mim porque lhe forneço heroína, em que está viciado.

Anatoly fitou-o duro por um momento, um pouco de admiração se insinuando em seus olhos, depois murmurou:

- Fico contente que você esteja do meu lado. Jean-Pierre sorriu.

- Quero saber mais. - Anatoly passou um braço pelos ombros de Jean-Pierre, levando-o para o interior da cabana. Sentaram-se no chão de terra. Anatoly acendeu um cigarro e depois perguntou: - Como tomou conhecimento da conferência?

Jean-Pierre falou sobre Ellis, o ferimento a bala, a conversa de Masud com o americano quando ele estava prestes a matá-lo, as barras de ouro, o programa de treinamento e as armas prometidas.

- É fantástico! - comentou Anatoly. - Onde Masud está agora?

- Não sei. Mas é bem provável que ele chegue a Darg hoje. Ou amanhã, o mais tardar.

- Como sabe?

- Ele convocou a reunião... como poderia deixar de comparecer?

Anatoly acenou com a cabeça.

- Descreva o homem da CIA.

- Ele deve ter 1,80 m de altura, setenta quilos, louro, olhos azuis, trinta e quatro anos, parece um pouco mais velho, instrução superior.

- Passarei as informações pelo computador.

Anatoly levantou-se. Deixou a cabana e Jean-Pierre seguiu-o. Lá fora, Anatoly tirou do bolso um pequeno rádio transmissor, puxou a antena, apertou um botão e falou em russo. Depois, virou-se para Jean-Pierre e disse:

- Teve sucesso em sua missão, meu amigo. É verdade, pensou Jean-Pierre. Tive sucesso.

- Quando vão atacar?

- Amanhã, é claro.

Amanhã. Jean-Pierre experimentou um intenso júbilo. Amanhã.

Os outros olhavam para cima. Ele acompanhou os olhares e viu um helicóptero baixando. Anatoly devia tê-lo convocado pelo transmissor. O russo estava agora abandonando toda e qualquer cautela: o jogo quase terminava, aquela era a última cartada, o segredo e o disfarce deviam ser substituídos pela ousadia e rapidez. O aparelho pousou, com alguma dificuldade, num pequeno trecho plano, a cem metros de distância.

Jean-Pierre encaminhou-se para o helicóptero com os três outros homens. Não sabia para onde ir depois que eles partissem. Não tinha nada a fazer em Skabun, mas também não podia voltar a Banda imediatamente sem revelar que não encontrara vítimas de bombardeio. Concluiu que o melhor era passar algumas horas sentado na cabana de pedra e depois voltar. Estendeu a mão para Anatoly.

- Au revoir.

Anatoly não apertou sua mão.

- Entre.

- Como?

- Entre no helicóptero. Jean-Pierre ficou aturdido.

- Por quê?

- Você vai conosco.

- Para onde? Bagram? Para território russo?

- Isso mesmo.

- Mas não posso...

- Pare por um instante e preste atenção - disse Anatoly, paciente. - Seu trabalho está feito. A missão no Afeganistão terminou. Alcançou seu objetivo. Vamos capturar Masud amanhã. Você pode voltar para casa. E, agora, tornou-se um risco de segurança. Sabe o que planejamos fazer amanhã. Assim, não pode permanecer em território rebelde.

- Mas eu não contaria a ninguém!

- E se o torturassem? E se torturassem sua mulher em sua presença? E se esquartejassem sua filha na presença de sua mulher?

- Mas o que acontecerá com elas se eu for embora?

- Amanhã, no ataque, vamos pegar as duas e levá-las para você.

- Não posso acreditar nisso.

Jean-Pierre sabia que Anatoly estava certo, mas a idéia de não voltar a Banda era tão inesperada que o deixava desorientado. Jane e Chantal ficariam seguras? Os russos realmente iriam buscá-las? Anatoly permitiria que os três voltassem a Paris? Quando poderiam partir?

- Entre - repetiu Anatoly.

Os dois afegãos estavam parados nos lados de Jean-Pierre e ele compreendeu que não tinha opção: se se recusasse a embarcar, eles o poriam à força no helicóptero.

Ele entrou.

Anatoly e os afegãos embarcaram também e o helicóptero alçou vôo. Ninguém fechou a porta.

Enquanto o helicóptero subia, Jean-Pierre teve a sua primeira visão aérea do Vale dos Cinco Leões. O rio branco ziguezagueava pela terra parda, fazendo-o lembrar da cicatriz de um antigo ferimento de faca na testa escura de Shahazai Gul, o irmão da parteira. Avistou a aldeia de Banda, com seus campos amarelos e verdes, parecendo uma colcha de retalhos. Observou atentamente o topo da colina em que ficavam as cavernas, mas não percebeu sinais de ocupação: os aldeões haviam escolhido muito bem o seu esconderijo. O helicóptero subiu ainda mais e fez uma volta, ele não pôde mais ver Banda. Procurou por outros pontos de referência. Passei um ano de minha vida ali, pensou ele, e agora nunca mais tornarei a ver a aldeia. Identificou a aldeia de Darg, com sua mesquita de domo. Este vale foi o baluarte da Resistência, refletiu Jean-Pierre. Mas amanhã será um memorial a uma rebelião fracassada. E tudo por minha causa.

O helicóptero virou para o sul e cruzou a montanha, e em poucos segundos o vale desaparecera.

 

                                                                                CONTINUA 

 

                      

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