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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM / Jorge Amado
NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM / Jorge Amado

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM

Primeira Parte

 

As notas que compõem esta navegação de cabotagem (ai quão breve a navegação dos curtos anos de vida!), à proporção que me vinham à memória, começaram a ser postas no papel a partir de janeiro de 1986. Zélia e eu nos encontrávamos num quarto de hotel em Nova York, ambos com pneumonia — os dois, parece incrível —, febre alta, ameaça de hospital. Viajáramos a Nova York para participar do Congresso Internacional do Pen Club, não comparecemos a nenhuma sessão, tampouco às festividades, não ouvimos um único discurso, relatório, comunicação, não soubemos dos debates. O que, na opinião de nosso compadre João Ubaldo Ribeiro, também ele convidado e presente ao Congresso, foi a vantagem que tiramos da dupla pneumonia. Vantagem e das boas — afirmou o romancista ao nos visitar.

De logo quero avisar que não assumo qualquer responsabilidade pela precisão das datas, sempre fui ruim para as datas, elas me perseguem desde os tempos de colégio interno. Estudante de história, interessado nas figuras e nos feitos, esquecia as datas e eram as datas que os professores exigiam. A referência a ano e a local destina-se apenas a situar no tempo e no espaço o acontecido, a recordação. Quanto aos apontamentos não datados, traduzem a experiência adquirida no correr dos anos: sentimentos, emoções, conjecturas. Se alguém desejar as lembranças da infância do autor deve recorrer a um texto datado de 1980, publicado em livro sob o título de O Menino Grapiúna — as ilustrações de Floriano Teixeira compensam o preço do volume. Nesta navegação de cabotagem nomes de mulheres foram, por um motivo ou outro, substituídos pelo nome único de Maria, nenhum mais belo: Maria cada uma, todas elas, passageiras embarcadas nas escalas, sombras fugidias no cais do porto, de porto em porto, ciranda do velho marinheiro.

Tinha eu seis anos de idade ao término da Primeira Grande Guerra, a de 1914/1918, quando do impacto da Revolução de Outubro, do estabelecimento do Congresso dos Sovietes em nome dos trabalhadores, chego aos oitenta anos quando o mundo nascido de duas guerras mundiais e da revolução socialista se esboroa e nas ruas se discute e se planeja uma nova carta geográfica e política, quando o impossível acontece, ruem muros, nações, impérios. Fragmentos do Muro de Berlim são vendidos como brinde por espertos negociantes norte-americanos.

Teorias, ideologias — teorias ditas científicas, ideologias consideradas de pureza incontestável — que seduziram intelectuais, mobilizaram multidões, massas populares, comandaram lutas, revoltas, guerras em nome da felicidade do homem, dividiram o mundo em dois, um bom, um ruim, se revelam falsas, pérfidas, limitadoras: conduziram à opressão e não à liberdade e à fartura. Proletários de todos os países, perdoai-nos!, lia-se na faixa conduzida pelos moscovitas na Praça Vermelha durante o desfile de um 7 de novembro recente.

O que parecia definitivo se desintegra, deixa simplesmente de existir. A História acontece diante de nós, nos vídeos de televisão, transformações espantosas, mudanças inimagináveis, num ritmo tão rápido, tão absurdamente rápido que um dia vale anos, a semana tem a medida de um século. Só tenho pena de não me restar o tempo necessário para ver em que tudo isso vai dar. Bem que gostaria.

Oitenta anos vividos intensa, ardentemente, de face para a vida, em plenitude. Minha criação romanesca decorre da intimidade, da cumplicidade com o povo. Aprendi com o povo e com a vida, sou um escritor e não um literato, em verdade sou um obá — em língua iorubá da Bahia obá significa ministro, velho, sábio: sábio da sabedoria do povo.

Consciente e contente que assim seja, reúno nesta Navegação de Cabotagem lembranças de alguém que teve o privilégio de assistir, e por vezes de participar de acontecimentos em certa medida consideráveis, de ter conhecido e por vezes privado com figuras determinantes. Publico esses rascunhos pensando que, talvez, quem sabe, poderão dar idéia do como e do porquê. Trata-se, em verdade, da liquidação a preço reduzido do saldo de miudezas de uma vida bem vivida. Deixo de lado o grandioso, o decisivo, o terrível, o tremendo, a dor mais profunda, a alegria infinita, assuntos para memórias de escritor importante, ilustre, fátuo e presunçoso: não vale a pena escrevê-las, não lhes encontro a graça.

Não nasci para famoso nem para ilustre, não me meço com tais medidas, nunca me senti escritor importante, grande homem: apenas escritor e homem. Menino grapiúna, cidadão da cidade pobre da Bahia, onde quer que esteja não passo de simples brasileiro andando na rua, vivendo. Nasci empelicado, a vida foi pródiga para comigo, deu-me mais do que pedi e mereci. Não quero erguer um monumento nem posar para a História cavalgando a glória. Que glória? Puf! Quero apenas contar algumas coisas, umas divertidas, outras melancólicas, iguais à vida. A vida, ai, quão breve navegação de cabotagem!


 

 

Moscou, 1952.

Os desmemoriados

 

Ilya Eremburg* e eu chegamos silenciosos de uma conversa com figuras gradas nos altos escalões a propósito de nosso amigo Jan Drda**, atendendo pedido que ele me fez em Praga, de onde venho para receber o Prêmio Internacional Stalin da Paz: o prêmio me credencia. Estamos em janeiro de 1952, vinte graus abaixo de zero, vento gélido varre as ruas de Moscou, emborcamos os cálices de vodca no apartamento da rua Gorki, Ilya me diz: Jorge, somos escritores que jamais poderemos escrever memórias, sabemos demais. No abalo da conversa que acabamos de ter, balanço a cabeça concordando.

* Ilya Eremburg (1891/1967), escritor soviético.

** Jan Drda, (1915/1970), escritor tcheco.

 

Afirmação categórica, não impediu que, alguns anos depois, durante o período de Kruchev, ao se abrir uma brecha no obscurantismo soviético, ao despontar de uma pequena luz no meio das trevas, o autor de Degelo publicasse sete tomos de memórias, sete, nada menos: no sétimo Zélia e eu figuramos, simpáticos personagens. E isso não é tudo, pois Irina*** me contou, em 1988, estar pondo em ordem os papéis do pai com o fim de editar vários volumes de memórias inéditas que ele não conseguiu publicar sequer durante a abertura de Kruchev: Ilya sabia demais.

*** Irina Eremburg, filha de Ilya.

 

Durante minha trajetória de escritor e cidadão tive conhecimento de fatos, causas e conseqüências, sobre os quais prometi guardar segredo, manter reserva. Deles soube devido à circunstância de militar em partido político que se propunha mudar a face da sociedade, agia na clandestinidade, desenvolvendo inclusive ações subversivas. Tantos anos depois de ter deixado de ser militante do Partido Comunista, ainda hoje quando a ideologia marxista-leninista que determinava a atividade do Partido se esvazia e fenece, quando o universo do socialismo real chega a seu triste fim, ainda hoje não me sinto desligado do compromisso assumido de não revelar informações a que tive acesso por ser militante comunista. Mesmo que a inconfidência não mais possua qualquer importância e não traga conseqüência alguma, mesmo assim não me sinto no direito de alardear o que me foi revelado em confiança. Se por vezes as recordo, sobre tais lembranças não fiz anotações, morrem comigo.

 

Nova York, 1986.

Os apressados

 

Depois de uma semana de cama com pneumonia — o que me consolava era ver Zélia no mesmo leito com febre alta, lavada em suor, isto sim é solidariedade! —, desço pela primeira vez ao hall do hotel em Nova York onde me espera um jornalista de El País, de Madri.

Inverno rigoroso, o Central Park está gelado, o termômetro acusa quatorze graus negativos, o Congresso Internacional do Pen Club vem de terminar sem que a ele tenhamos comparecido uma vez sequer, o hotel está lotado de congressistas vindos de cerca de quarenta países. Envolto no sobretudo de gola levantada, preocupo-me em passar desapercebido, no desejo de evitar explicações e lamúrias.

Ao sair do elevador, avisto Mário Soldati que apressado se dirige para a cabine: também ele me viu, tenho certeza. Finjo que não o vejo, ele finge que não me vê, passamos um pelo outro, lado a lado, como se não nos conhecêssemos.

No dia seguinte, sem pressa, descontraídos, sentados nas poltronas do vestíbulo, conversamos à batons rompus, na rua o frio, o vento, a neve. Somos velhos amigos, leitores um do outro, sua narrativa (Le Festin du Commandeur, L'Ami Jesuite) parece-me da melhor ficção contemporânea, ademais Soldati presidiu o Júri do Prêmio Internacional Nonino que me foi conferido em 1984. Mais do que um prêmio, uma festa italiana de confraternização e alegria: polenta, cabrito, pasta — o melhor fetuccini que já comi —, vinhos e grapa, a grapa Nonino, é claro. Segundo me informou Soldati, com evidente conhecimento de causa, e eu repeti no pequeno discurso que pronunciei e ninguém ouviu, barulho ensurdecedor, a grapa Nonino não contente de ser a melhor do mundo é afrodisíaca.

Tenho horror a hospitais, os frios corredores, as salas de espera, ante-salas da morte, mais ainda a cemitérios onde as flores perdem o viço, não há flor bonita em campo-santo. Possuo, no entanto, um cemitério meu, pessoal, eu o construí e inaugurei há alguns anos quando a vida me amadureceu o sentimento. Nele enterro aqueles que matei, ou seja, aqueles que para mim deixaram de existir, morreram: os que um dia tiveram minha estima e a perderam.

Quando um tipo vai além de todas as medidas e de fato me ofende, já com ele não me aborreço, não fico enojado ou furioso, não brigo, não corto relações, não lhe nego o cumprimento. Enterro-o na vala comum de meu cemitério — nele não existem jazigos de família, túmulos individuais, os mortos jazem em cova rasa, na promiscuidade da salafrarice, do mau-caráter. Para mim o fulano morreu, foi enterrado, faça o que faça já não pode me magoar.

Raros enterros — ainda bem! — de um pérfido, de um perjuro, de um desleal, de alguém que faltou à amizade, traiu o amor, foi por demais interesseiro, falso, hipócrita, arrogante — a impostura e a presunção me ofendem fácil. No pequeno e feio cemitério, sem flores, sem lágrimas, sem um pingo de saudade, apodrecem uns tantos sujeitos, umas poucas mulheres, uns e outras varri da memória, retirei da vida.

Encontro na rua um desses fantasmas, paro a conversar, escuto, correspondo às frases, às saudações, aos elogios, aceito o abraço, o beijo fraterno de Judas. Sigo adiante, o tipo pensa que mais uma vez me enganou, mal sabe ele que está morto e enterrado.


 

Paris, 1949.

Educação sentimental

 

João Jorge chegou a Paris com quatro meses de idade, em língua francesa aprendeu a balbuciar as primeiras palavras, por muitos anos conservou o acento, o erre carregado.

Vasco Prado* vinha buscá-lo no hotel, colocava-o no colo, atrás do guidom, lá se ia João na bicicleta do escultor pelas ruas de Paris na primavera: adorava Vasco e a bicicleta.

Adorava também um zazou**, namorado de la bonne alsaciana que se ocupava dele enquanto Zélia estava nas aulas da Sorbonne ou em tarefas do Partido. No Jardim de Luxemburgo, bonne e zazou se encontravam, saíam empurrando o carrinho polonês, de madeira: João, nele sentado, os olhos vivos, aprendia a geografia da Rive Gauche.

Não apenas a geografia, pois o passeio se interrompia no sixième*** diante do prédio onde o zazou habitava pequeno quarto. O carrinho posto ao lado da cama de solteiro, sob os olhos vivíssimos do menino, o casal percorria os largos caminhos, as estreitas vielas da fornicação, em grande estilo, ao estilo dos existencialistas contestatários da sociedade burguesa. O zazou jurava por Sartre, a alsaciana suspirava em alemão, João Jorge aprendia.

*Vasco Prado, escultor.

**zazou—jovem que se distinguiu pela paixão pelo jazz e pelos trajes excêntricos, em Paris de pós-guerra.

***sixième arrondissement — bairro de Paris.

 

Paris, 1991.

Fuga

 

Fugi do Brasil no mês de agosto para não ver Mirabeau Sampaio* andar para a morte, sorrindo, a reviver, no adormecimento a que está reduzido, as histórias que amava contar, repetindo-as a qualquer pretexto ou sem pretexto algum, relembrando, emocionando-se, exaltando-se: suma de minha frente senão te mato, seu filho-da-puta! Quase podemos acompanhar nos sorrisos, nos esgares, nos estremecimentos, os lances da narrativa que nos é familiar, a Carybé* e a mim. Das visitas que lhe fazemos, saímos com os olhos úmidos, Zélia em lágrimas. Vou-me embora, não agüento mais, boto distância, deixo a morte do outro lado do oceano.

*José Mirabeau Sampaio, escultor e pintor.

**Carybé (Hector Júlio Páride Bernabó), pintor.

 

Mirabeau, o mais antigo dos meus companheiros de aventura, somos amigos desde o ano de 1923, das aulas do sábio padre Torrend, do bronco padre Faria no Colégio Antônio Vieira. Mirabeau ganhava todas as medalhas na festa de fim de ano, as que sobravam iam para Antônio Balbino* ou para Antônio Vieira de Melo**, no segundo ano ganhei uma, em catecismo, inexplicável engano. Pela vida afora andamos juntos durante quase setenta anos, o que nós fizemos só Deus sabe, se é que sabe.

*Antônio Balbino (1912/1992), político, governador da Bahia de 55 a 59.

** Antônio Vieira de Melo, jornalista.

 

Certa feita, aí por 1935, em frente ao Tabaris, de onde saímos tresnoitados, bêbados, Mirabeau, exibindo um revólver, propôs-me assassinarmos naquela mesma noite o chefe baiano da Ação Integralista, não tenho idéia de quem seria. Deu-nos trabalho, a mim e a Edgard, desarmá-lo, fazê-lo desistir do projeto político.

Edgard Rogaciano Ferreira foi seu chofer desde os tempos da rica e tresloucada juventude: o jogo, o tango, a bebida, as argentinas, os carros-esporte, as baratinhas, os cabriolés, os primeiros da Bahia. Permaneceu seu chofer inclusive durante os dez anos em que Mirabeau não teve automóvel, cuidava dele como se cuida de um filho ou de um pai, anjo da guarda a protegê-lo nas noites de boêmia.

Estendido na cama, Mirabeau nos fita, a Carybé e a mim postados diante dele a dizer tolices, a recordar Raquel Puccio e outras portenhas, fantasmas do passado, a repetir quem somos para ver se nos reconhece e se de novo nos reunimos a conversar e a rir, será que nos enxerga? De pronto sorri como se nos identificasse, mas permanece mudo e logo volta a ensimesmar-se.

Carybé escreve-me da Bahia: Mirabeau vivo e no além. Perseguido pela morte, busco escapar, perdê-la na distância tão difícil.

 

 

Milão, 1949.

Il piu noto

 

Diante da vitrine de uma livraria, na grande galeria no centro de Milão, Zélia, alvoroçada, aponta para um livro: olhe! Vejo um exemplar da edição de Terras do Sem Fim*, meu primeiro livro traduzido em italiano, a capa atraente reproduz cerâmica de Picasso.

*Terre del Finemondo, Bompiani, Milão.

 

— Veja o cartaz! — Zélia, assanhadíssima. O cartaz não é propriamente um cartaz, apenas um cartão retangular ao pé do volume, informando sobre o autor: Il piu noto scrittore brasiliano. Zélia lê em voz alta, repete; il piu noto. Vamos em frente, repletos.

Logo adiante, outra livraria, paramos em frente à vitrine em busca de Terras. Em vez, deparamos com a tradução de um livro de Erico Veríssimo, Olhai os lírios do campo, se bem me recordo. Ao pé do exemplar um cartaz, ou seja, um retângulo de cartão, a informação sobre o autor; Il piu noto scrittore brasiliano.

Rimos, Zélia e eu, desinflamos. No quiosque da esquina compro um cartão-postal e os selos competentes e o endereço para Erico em Porto Alegre, conto-lhe o ocorrido: "Durante cinco minutos e vinte metros fui 'il piu noto', passei-te a faixa."

 

 

Rio de Janeiro, 1977.

Amor

 

O enfermeiro empurra o veículo (como se chama? não sei) que transporta Glória Machado do quarto da Casa de Saúde Doutor Eiras para a sala de cirurgia onde Paulo Niemeyer vai operá-la do cérebro. Glória se despede do marido Alfredo, dos filhos, de Zélia e de mim que viemos visitá-la, sendo cardíaca teme não voltar.

Tamanho homem, tão seguro de si, inabalável, inflexível, empedernido, Alfredo Machado* se entrega, chora que nem uma criança.

*Alfredo da Cruz Machado (1922/ 1991), editor.

 

 

São Paulo, 1945

O desafio

 

Quando, durante o Primeiro Congresso de Escritores Brasileiros, reunido em São Paulo nos inícios de 1945, me apaixonei por Zélia, comuniquei ao poeta Paulo Mendes de Almeida, meu amigo e amigo dela, apontando-a entre as muitas senhoras e moças que acorriam às sessões, umas poucas para acompanhar os debates, a maioria para namorar.

— Aquela ali vai ser minha mulher.

Paulo riu na minha cara:

— Aquela qual? Zélia? Jamais, não é mulher para teu bico. Mulher honesta, meu velho, não é dessas que andam por aí dando a uns e a outros, essas que você...

Naquele tempo, solteiro após ter-me separado de Matilde*, eu rosetava de leito em leito: mulheres em abundância, tantas, eu quase não dava abasto, sobravam da agenda em grande parte ocupada pela atividade política. Tendo brigado comigo, Oswald de Andrade, de súbito pudico, me intitulou de Rasputin da Linha Justa na primeira página de um quotidiano paulista. Linha Justa, referência ao discutido projeto de restauração democrática do Partido Comunista que passava pelo apoio a Getúlio Vargas, Rasputin nem tanto, exagero de Oswald: eu apenas descansava das lides políticas no regaço de casadas e solteiras (Maria Quatrocentona chegou donzela) mas, ao conhecer Zélia, arriei bandeira e pedi paz.

*Matilde Garcia Rosa (1916/1986), primeira mulher de J. A.

 

— Não é o que você está pensando, Paulo. Falo de vivermos juntos, dela ser minha companheira, esposa, se você faz questão da palavra.

— Zélia? Você está maluco? Conheço Zélia, você não a conhece. Mulher direita está ali, não há duas. Não perca seu tempo, desista.

Coisa parecida me disse o pintor Clóvis Graciano, também amigo meu e dela:

— Zélia? Ela é casada e séria, você não sabe? Nem pense, tire da cabeça.

Não desisti, não tirei da cabeça, estava me roendo de paixão, fiz o que o diabo duvida, não deu outra, em julho Zélia veio morar comigo. Não vai durar seis meses, agouraram, dura até hoje.

 

 

São Paulo, 1945.

Fofoca

 

Foram dizer a dona Angelina, mãe de Zélia, que a filha dela tinha largado o marido para ir viver com o escritor Monteiro Lobato. Dona Angelina, coitada, endoidou.

 

 

Bahia, outubro de 1989.

Campanha eleitoral

 

Sentado na velhíssima (e arruinada) cadeira-do-papai, tão feia quanto cômoda, acompanho na televisão o desenrolar da campanha eleitoral, ouço os diversos candidatos à Presidência da República e seus sequazes. Espio com um olho só, o direito, estou caolho: a pálpebra esquerda tombou há duas semanas em Moscou, tanto o meu coração se confrangeu com a situação do Império e dos povos soviéticos — não havia pão nas padarias e meus amigos, importantes dignitários ou gente simples, previam hipóteses sinistras, guerra civil ou golpe de estado com a volta da repressão — sucedera na China —, o retorno ao obscurantismo. Conversas inimagináveis ainda há um ano, quando eu ali estivera na comitiva de Sarney e encontrara ainda uns restos de esperança e de entusiasmo, apesar das dificuldades econômicas.

Vejo com um olho só, mas escuto com os dois ouvidos e não quero acreditar no que ouço, tão asquerosa e virulenta é a baixaria na disputa dos votos, tão pobres, indigentes, os discursos dos candidatos, todos eles. O melhorzinho, por evitar a demagogia e os insultos, ainda é — quem o diria! — o do candidato do Partido Comunista Brasileiro, o jovem deputado Roberto Freire, ao menos propõe uma reflexão sobre o Brasil. Não chegará a lugar nenhum, se bem obtenha certo sucesso de estima — terá votação pequena, não tanto por ser comunista, sobretudo por ter se declarado ateu.

Atento, acompanho nos vídeos a trajetória de Lula, candidato do poderoso Partido dos Trabalhadores, cuja fundação durante o regime militar tanto me alvoroçou. Não conheço Lula pessoalmente, dele falam-me bem e acredito. Parece-me homem direito, hoje coisa rara, sua atuação de dirigente sindical nas greves dos metalúrgicos, durante a ditadura, foi exemplar. O alarmante sectarismo de seu discurso eleitoral, ao que tudo indica, não é inerente à sua personalidade, decorre da própria campanha, influência talvez dos ideólogos do PCdoB que a dirigem e orientam. Discurso de um atraso pasmoso, como é possível imaginá-lo diante dos acontecimentos do leste europeu, ao fim de uma época, quando ruem teorias e estados, desmorona o socialismo real, se assiste ao funeral da ditadura do proletariado? Discurso classista, aponta exatamente para a ditadura do proletariado: tão antigo e superado, dá pena.

Chamo a atenção de Zélia para o fato de que jamais, no decorrer dos dois programas diários de propaganda eleitoral, em nenhum momento o candidato do PT pronunciou a palavra povo, nem ao povo se dirigiu. Fala em nome da classe operária e a ela se dirige, amanhã no poder será a ditadura em nome dos trabalhadores, em nome do socialismo. Zélia não se altera, mantém íntegro seu entusiasmo cívico, trauteia, em resposta, o belo jingle de Chico Buarque: Lula-lá. Eu lhe digo, para atazaná-la:

— O discurso de Lula parece escrito em Tirana pela viúva de Enver Hodja*.

Dou-me conta de que estou dizendo a pura verdade.

*Enver Hodja (1898/1985), ditador albanês de 1945 a 1985.

 

Do ponto de vista do autor, as boas traduções de seus livros são aquelas que ele não pode ler, em meu caso a imensa maioria. Negação que sou para línguas, a começar pelo português — escrevo em baianês, língua decente, afro-latina — só posso ler em francês e em espanhol, em italiano com dificuldade, dicionário à mão, e acabou-se o que era doce.

Quando se pode ler a tradução, por melhor que seja o tradutor — tenho tido excelentes, capazes, devotados —, existe sempre o detalhe, por vezes mínimo, que choca, agride, dói: onde foi parar a marca sutil do personagem, o ângulo de visão do acontecido, as nuances da emoção, o peso exato de uma palavra? Imagine-se a dor no coração ao ver xoxota ou xibiu, doces designações da boca do mundo, traduzidas por sexo de mulher ou vulva, bunda virando nalgas. Nalgas, uma bunda de mulata que se preza? Jamais!

As traduções em chinês que beleza! Não por acaso a arte maior da China é a escrita dos ideogramas. Em árabe, tirante o fato de jamais ter recebido um dracma, um dinar de direitos autorais — ainda há dois meses comprei nas livrarias de Tânger cinco livros meus vertidos para o árabe, edições libanesas e piratas, as cinco — também me enchem as medidas. O mesmo digo daquelas impressas em caracteres hebreus, em letras georgianas, gregas ou armênias, signos japoneses, o alfabeto cirílico também serve. Mesmo compostas em alfabeto latino, as traduções são ótimas, nada a criticar, quando em vietnamita, em norueguês, em turco, em islandês, só me dão alegria, mesmo quando não me dão direitos autorais. Tenho livros em línguas estranhas, do coreano ao turcomênio, do tailandês ao macedônio, do albanês ao persa e ao mongol. Outro dia recebi do Paraguai exemplar da tradução em guarani da história do Gato Malhado e da Andorinha Sinhá, o título me encanta: Karai Mbarakaja, que quererá dizer? Rio sozinho, ufano, mas as plumas da vaidade não tardam em cair ao dar-me conta de que com certeza sou melhor escritor em guarani do que em português.

 

 

Rio de Janeiro, 1957.

Le connaisseur

 

Em vias de separar-se, o casal reconcilia-se para, a meu pedido, hospedar Pablo Neruda, honra insigne. Desejo proporcionar ao poeta tudo a que tem direito nessa visita ao Rio, acompanhado de Matilde, sua nova esposa. Mobilizo amigos e admiradores: admiradores numerosos, fanáticos, acorrem à redação do Paratodos. Puxando a fila Neném Lampreia* que ali e então conheceu Moacyr Werneck de Castro*: mútua paixão devoradora, imperativa.

*Moacyr Werneck de Castro, jornalista e escritor; Neném Lampreia, sua mulher.

 

O apartamento, mistura de conforto e de bom gosto, em Ipanema, Matilde deslumbrou-se com a praia, o casal, uma simpatia. A esposa loira e lânguida, malfalada, em geral em estado de semi-embriaguez quando não total, ardente devoradora de homens: foi rica herdeira de nobres latifundiários, cafezais sem fim, está pobre de marré marré. O marido, bom moço, corno manso e prazenteiro, ao casar-se dera o golpe do baú, esvaziou o baú com competência e chifres. Pablo, hóspede habitual — viajante sem pouso, bardo sem verba de hotel — encontrou na extensa romaria pelo mundo acolhimento e mimo em castelos e mansões de estadistas e de milionários, mordomias principescas, nenhuma mais calorosa e cordial do que a do jovem casal do Rio de Janeiro.

Andavam a doidivanas e o marido em maré baixa, dinheiro escasso, gastaram o que tinham e o que não tinham, pediram emprestado para abastecer a adega com os vinhos chilenos da predileção de Pablo, para fornir a dispensa com acepipes refinados, caviar, patês, trufas, salmão defumado, carestias para o paladar fino do poeta. Pablo encantadíssimo com os hospedeiros e a hospedagem: preciosos, compadre!

Conversa vai, conversa vem, Pablo ficou sabendo que a dona da casa possuía em comum com os irmãos o que sobrara do latifúndio herdado com a morte dos pais: resto de terra improdutiva, capoeira brava, permanecia de pé a casa-grande de arquitetura colonial, merecedora de tombamento pelo Patrimônio Histórico e Artístico, coisa de verse e de gozar-se, Neruda mostrou-se interessado em ver e em gozar, o casal decidiu promover um fim de semana nas ruínas da fazenda. Em nosso automóvel não cabíamos todos, convocou-se matrimônio amigo, dono de um Mercedes. Lá fomos nós, Zélia e eu, na comitiva, éramos oito contando com os donos da casa: o dinheiro parco não lhes permitira número maior de convidados, Pablo sugerira Vinícius de Moraes, não deu. A loira e o marido reuniram o que restava de vinho chileno, de patê, de salmão defumado — o caviar e as trufas já tinham se acabado —, juntaram as sobras, rumamos para a serra, a propriedade situava-se a alguns quilômetros de Miguel Pereira.

Casa patriarcal de senhores de escravos, pomar em decadência, patos e galinhas ciscando nos destroços da senzala, a tranqüilidade, a paz, o ócio, eis-nos parados no tempo, nos dias de ontem, doce fim de semana regado a vinho andino das melhores safras.

O vinho chileno e o refinado de-comer terminaram exatamente no jantar de domingo, na mesma noite devíamos regressar ao Rio. Devíamos mas não regressamos, pois Pablo, regalado, decidiu permanecer ao menos mais dois dias na fazenda: nos quedaremos hasta el miércoles, decretou. A dona da casa, um pouco ébria como sempre, aplaudiu a decisão com entusiasmo, para comemorá-la esvaziou a última garrafa do tinto chileno, un terciopelo na poética classificação do hóspede famoso.

O marido pôs as mãos na cabeça. Que fazer? No vão de uma janela aberta sobre a noite desabafou comigo, sentia-se humilhado. Alimentar os convidados não era problema de monta, sacrificariam uns patos, umas galinhas, o criador, irmão da dona da casa, que se danasse. O vinho chileno, porém, não havia onde obtê-lo e se houvesse cadê dinheiro para pagá-lo? Tamanho desespero me afetou, entrei em cena: não se aflija pelo vinho.

Segunda-feira cedo, os convidados ainda dormiam, recolhemos, ele e eu, as garrafas vazias, de brancos e de tintos, os chilenos mais nobres e mais caros, enchemos um saco, metemos no carro e lá fomos, o marido e eu, para Miguel Pereira. Num armazém de secos e molhados adquiri — fiz questão de pagar, não era muito dinheiro — vinhos nacionais de tipos mais ou menos semelhantes, com a ajuda do balconista ali mesmo baldeamos os nacionais para as garrafas vazias dos chilenos, arrolhamos bem arrolhadas, de volta à casa-grande os brancos postos a gelar no refrigerador, os tintos à vista na garrafeira.

Pouco afeito aos vinhos rio-grandenses, naquele então muito deixavam a desejar, declarei-me indisposto da barriga, abstive-me. Garrafa por garrafa, o vinho foi bebido todo ele, entre exclamações patrióticas do poeta ao degustá-lo — não há vinho que se compare ao chileno, o francês tem mais fama, mas não é melhor—, discursava Pablo, connaisseur. Acompanhado pela dona da casa no copo e nas exclamações, nos elogios à vendange andina: tirante o uísque, ela não era connaisseuse.

 

 

Pequim, 1987.

Singularidade

 

Em Pequim, Fan Weixin, tradutor para o chinês de livros de língua portuguesa, de brasileiros traduziu José de Alencar e Herberto Salles, traz-me exemplar de tradução de Dona Flor e seus Dois Maridos, edição modesta porém decente, Fan está contente com a repercussão do romance da moça baiana.

Folheio o volume, relembro cenas de amor, Dona Flor e Vadinho, os dois na cama, a rosa-chá e a pimenta-malagueta, desconfiado pergunto a Fan Weixin:

— Como traduziste as patifarias de Vadinho?

Os lábios do tradutor abrem-se num sorriso malandro, quase brasileiro:

— Ao pé da letra.

No fim desse mesmo ano hospedamos na casa do Rio Vermelho um jovem casal de amigos chineses. Ele é Ho-Ping, filho de Eva e Emi Siao (Siao Sam), Eva fotógrafa alemã, Emi um dos poetas mais famosos da China, foi íntimo amigo de Maiakowski*, deputado, biógrafo de Mao, durante vários anos representante da China no secretariado do Conselho Mundial da Paz, na Tchecoslováquia. Ho-Ping, dito Pupsik, nasceu em Praga, alguns meses antes de Paloma: pais bobocas, inventávamos no Castelo dos Escritores** futuro noivado entre os dois infantes. Eva e Emi regressaram à China, gramaram dezesseis anos de prisão durante a mal denominada Revolução Cultural, Emi saiu da cadeia muito enfermo, logo faleceu.

*Maiakowski (1893/1930), poeta soviético.

**Castelo de Dobris, perto de Praga, onde J. A. viveu com a família de 1950 a 1952.

 

Ela é Ting-Li, esposa de Ho-Ping, filha de Liu Chão Shi, que foi Presidente da República Popular da China, secretário-geral do Partido Comunista, liquidado politicamente e assassinado durante os anos infelizes do domínio da Banda dos Quatro — os assassinos inventaram que Liu Chão Shi morrera num desastre de avião.

Jovem casal encantador, trocam pernas nas ruas da Bahia, adoram a cidade, o casario, a culinária, os mercados, o povo alegre e cordial. Nos intervalos dos passeios, no jardim da casa do Rio Vermelho, Ting Li lê Dona Flor e seus Dois Maridos em chinês e em inglês. Pergunto-lhe o que acha das duas traduções. Pensa um pouco, responde:

— Ambas são boas, gostei das duas. Em inglês a história é mais picante, em chinês é mais romântica. Para você ter uma idéia da singularidade de cada uma: em chinês Dona Flor chama Vadinho de volta com o coração, em inglês ela o chama com aquilo que tem debaixo das calcinhas.

— E como se diz em chinês aquilo que ela tem debaixo das calcinhas?

Ting Li sorri, encabulada, pronuncia uma palavra, soou-me linda, um trino de pássaro, me esqueci, que pena.

 

 

Bahia, 1988.

Os sapos

 

O sapo enorme, de cerâmica, abandonado no jardim da casa de Carybé, exposto à chuva, coberto de limo. Os donos da casa não estão, não posso perder viagem, grito por Aurélio*, transportamos o sapo para o carro. Aurélio chama minha atenção para detalhe precioso: o grande sapo carrega nas costas um filhote pequenino, lindo.

*Aurélio Sodré, motorista de J. A.

 

Colocado no parapeito do janelão da sala de jantar, sobre os azulejos de Carybé, as armas de Oxóssi e as de Oxum, o sapão assumiu a presidência da confraria de sapos que se espalha nos jardins, sob a piscina, ao lado da varanda, em cima dos móveis, nas estantes, em todas as partes da casa, pois o sapo é o meu bicho. Sapos de todos os feitios, esculpidos nas matérias mais diversas — cerâmica, pedra-sabão, papel-machê, ferro, acrílico, vindos dos quatro cantos do mundo: do México, da Tailândia, da Inglaterra, do Peru, de Ouro Preto, do Camboja, de Portugal, da China e por aí vai. Até hoje Carybé não se deu conta do roubo, espero que jamais o descubra.

Logo que viemos morar na Bahia, durante meses e meses um sapo-cururu habitou no jardim, numa espécie de tanque ali existente. Também ele enorme, quase do tamanho do que roubei de Carybé, desmedido. Só que o de Carybé é de barro, o nosso era vivo e nos dias de muita chuva abrigava-se na varanda onde cantava sua alegria de viver.

Carybé morria de inveja de nosso sapo-cururu, a cobiça transparecia-lhe no rosto ao ver Zélia cocar as costas do bicho que inflava de contentamento. Zélia gravou-lhe o coaxar poderoso num pequeno aparelho portátil que levamos escondido à casa de Carybé em dia de chuva. Conversávamos no atelier, Nancy servia gostosuras, bebíamos um trago, Zélia achou maneira de colocar o gravador em funcionamento no interior da bolsa semi-aberta, o canto do sapo-cururu ressoou, os olhos de Carybé se iluminaram:

— Tão ouvindo? Tem um cururu vivendo no jardim...

Precipitou-se escada abaixo, sob a chuva, até hoje procura seu sapo-cururu.

 

 

Rio, Paris, 1991.

A estátua

Utilizo pela primeira vez o direito que me cabe, na qualidade de premiado, de indicar candidato ao Prêmio Internacional Lenine, indico o nome do compositor (e escritor) Chico Buarque de Holanda.

Do Rio, de onde me dirijo ao Júri, escrevo a Chico que está em Paris comunicando-lhe ter levado seu nome à consideração dos jurados do Prêmio Lenine. Quais serão esses juízes, quem o Presidente? Não tenho a mais mínima idéia. Naquele tempo antigo, presidia o Júri o Presidente da Academia de Ciências da URSS, os vice-presidentes eram o sábio chinês Kuo-Mo-Jo e o poeta francês Louis Aragon, dele faziam parte, entre outros, Anna Seghers, Ilya Eremburg, Pablo Neruda, Alexandre Fadeev, hoje todos mortos. Membro do Comitê Central do PCUS*, Fadeev era o manda-chuva.

*PCUS — Partido Comunista da União Soviética.

 

Ao chegar a Paris encontro na secretária eletrônica recado de Chico, pergunta-me como se chamará o Prêmio Lenine em dezembro, data em que deve ser concedido: Prêmio Petrogrado, Prêmio São Petersburgo?

Acabo de ver, na televisão, a estátua de Lenine sendo derrubada do pedestal, em Vilnius, na Lituânia. Em Moscou passaram-lhe a corda no pescoço, não a derrubaram porque o buldôzer não chegou a tempo, a estátua é enorme, pesada demais para mãos nuas, mesmo raivosas. Leningrado voltou a ser São Petersburgo, creio que não mais haverá prêmio coisíssima nenhuma: a outrora imensa consagração que começou sendo Prêmio Stalin que eu e Oscar Niemeyer recebemos... quando? No século passado? Nem Prêmio Lenine, tampouco Prêmio São Petersburgo, cheguei atrasado pois o comboio da História some na distância em velocidade maior que a da luz. Com a corda no pescoço, vacilo sob o peso da estátua em meu cangote, digo a Zélia:

— O Prêmio do Chico foi para a cucuia.

 

 

São Paulo, 1945.

Congresso de escritores

 

O Primeiro Congresso de Escritores Brasileiros, convocado pela recém-formada Associação Brasileira de Escritores (ABDE), reunido no Teatro Municipal de São Paulo ultrapassou de muito os limites de festivo convescote literário para ganhar foros de acontecimento histórico, marco na luta contra a ditadura do Estado Novo ainda no poder mas já abalada nos seus fundamentos pelas derrotas militares de Hitler.

Fui despachado da Bahia para São Paulo pelo pecê com a tarefa de colaborar na organização do conclave, tentar impor-lhe a linha política dos comunistas. A chamada Unha justa daqueles que estavam de acordo com a direção partidária saída da Conferência da Mantiqueira*, pois muitos dela discordavam e só vieram acolher-se ao redil quando receberam ordens expressas de Prestes, ainda preso mas já mandando e desmandando.

*Conferência de reorganização do PCB, realizada em 1943, em Minas Gerais.

 

Presidi a delegação da seção baiana da ABDE (Homero Pires, Odorico Tavares, Dias da Costa, Alberto Passos Guimarães, James Amado, Edison Carneiro, Jacinta Passos, Vasconcelos Maia, entre outros) e fui um dos vice-presidentes do Congresso. O presidente foi o contista Aníbal Machado, escritor respeitado e bem-visto, considerado eqüidistante das duas correntes maiores que se debateram no plenário e nos bastidores: a democrática e a comunista.

Da primeira, constituída por liberais, democratas-cristãos e social-democratas, pode-se dizer ter sido o germe da UDN**, Partido político de atuação posterior bastante dúbia, e da Esquerda Democrática (depois Partido Socialista). Apoiada por comunistas não-alinhados (Caio Prado Júnior, Mário Schemberg que, aliás, não tardaram a se alinhar), obedecia à batuta de Carlos Lacerda. Carlos rompera com o pecê em 1942, iniciava o percurso Político que o levaria, em tempo relativamente curto, ao Governo "O Estado da Guanabara e à chefia civil do golpe militar de 1964.

**UDN — União Democrática Nacional.

 

A segunda reunia os comunistas ortodoxos, menos numerosos, porém ativos, atuantes. Entre eles Dyonélio Machado, Dalcídio Jurandir, Moacyr Werneck de Castro, Barão de Itararé (Aparício Torelly), Raul Riff, Alina Paim. Membro do Bureau Político do Partido, Pedro Pomar deslocara-se para São Paulo com o fim de nos orientar, impedir vacilações e desvios. Eu mantinha contato diário com ele em encontros clandestinos nos quais lhe transmitia informações e ele me dava diretrizes, ditava ordens.

Levadas pela habilidade e pela cortesia de Aníbal Machado, as duas correntes chegaram a um acordo para a redação do documento final, a declaração solene dos escritores brasileiros. Pela primeira vez, no manifesto resultante do Congresso, condenou-se a ditadura do Estado Novo sem no entanto mencionar a pessoa do ditador, Getúlio Vargas, na ocasião nosso aliado, dos comunas. Na sessão de encerramento, Oswald de Andrade, furando o acordo estabelecido sobre número e nomes dos oradores, tomou da palavra e propôs a candidatura do Brigadeiro Eduardo Gomes* para a Presidência da República, foi o delírio.

*Brigadeiro Eduardo Gomes (1896/1981), militar e político.

 

Fora das sessões plenárias e das comissões era a festa e que festa! Ininterrupta, delirante, as rédeas soltas. Coquetéis — recordo animadíssimo coquetel em casa de Nelson Palma Travassos, cronista bem-humorado, dono da Gráfica da Revista dos Tribunais, anfitrião rico e amável, onde reparei em Zélia pela primeira vez —, festinhas, danças improvisadas, bate-coxas animados, comilanças, beberanças e, acima de tudo, a boa fodilhança: como se fodeu nesse Congresso, inimaginável! Vinícius de Moraes, galã de cinema, ia de mão em mão, melhor dito de xoxota em xoxota. Tampouco posso me queixar.

 

 

Rio de Janeiro, 1947.

Dúvida

 

Datas, quem as recorda? Sou ruim de datas, não me canso de dizer. Cada um dos apontamentos que venho redigindo significa pergunta aos familiares: lembram-se desse fato? Lembram-se de todos, se bem cada qual o rememore à sua maneira. Em que data se passou? Ninguém sabe dizer com precisão e se escuto de alguém afirmação peremptória é quase certo que comete erro.

No caso do livro de memórias de Nicolás Guillén, o poeta confundiu data e local, esqueceu fatos e detalhes, pois escreve que nos conhecemos na Paris de 1949, quando nosso primeiro encontro se deu no Rio de Janeiro em 1947. Não se lembrou do recital de poemas na ABI, eu o apresentei ao público, exatamente no dia e na hora em que João Jorge nascia. Foi de Nicolás a primeira visita que a recém-parida Zélia recebeu no hospital em Copacabana. Dito o último poema, mi pátria es dulce por fuera y muy amarga por dentro, cessadas as palmas do auditório, atirei-me num táxi, na pressa de ver mulher e filho, Nicolás me acompanhou.

O poeta cubano esteve no Brasil diversas vezes, antes e depois da revolução fidelista, presença sempre marcante, irradiava simpatia. Sua poesia, de acento negro e contestatário, Canción de cuña para despertar un negrito, conquistara vasta audiência brasileira, e o mulato risonho, de melenas cuidadas, bom de galanteio, conquistava corações femininos. Maria Ninfomaníaca o recomendava às amigas idem-idem: não percam, um fodão! A propaganda sendo a base do negócio, a freguesia aumentava, Nicolás sempre bem-acompanhado. De natural vaidoso, considerava cada aventura, mesmo breve, um caso de amor:

— Maria dos Anzóis Carapuça está apaixonada por mim, compadre. Desesperadamente! — Habituado, considerava o fato normal, mas uma dúvida o perturbava. — Será que ela me ama, a mim, o homem, Nicolás, ou será que se entrega devido aos poemas de Guillén? Que pensas, compadre? — Dúvida atroz, exigia a verdade: — a verdade, compadre, diga-me!

Minha resposta foi sempre idêntica, no Rio, em Paris, em Praga, em Moscou, em Havana, praças onde o vi às voltas com loiras loiríssimas, as preferidas se bem não exclusivas: Rosa* é mulata, das Antilhas, Rosa, tu melancólica..., seu amor da vida inteira:

*Rosa, mulher de Nicolás Guillén.

 

— Apaixonada por ti e por teus poemas, compadre, ama o homem e o poeta, os dois num só, Nicolás Guillén.

Nicolás sorria em concordância, passava o pente nas melenas, contente da vida, não era outra sua opinião. Mas em seguida nova dúvida se impunha, a consumi-lo:

— E se os poemas não existissem, tu pensas, compadre, que ela me amaria? Sem os poemas, ainda assim, me amaria?

 

 

Nice, 1990.

O triste fim

 

Do carnaval de Nice endereço cartão-postal a Paulo Loureiro* no Recife. Durante anos companheiros no Partido Comunista, parceiros na mesa de pôquer com Carlos Pena Filho** e Ruy Antunes***, anfitrião sem igual na praia deslumbrante, gozador e solidário, amigo de toda a vida, Paulo e eu nos tratamos de velhos bolcheviques, irreversíveis — juntos rimos da tolice e da fanfarronada: "Presido o Júri do Carnaval dos Carnavais, meu Paulo, triste fim de um velho bolchevique."

*Paulo Loureiro, químico, professor universitário.

**Carlos Pena Filho (1930/1960),poeta.

***Ruy Antunes, advogado, professor universitário.

 

 

Bahia, 1964.

Golpe de estado

 

Desperto com a notícia, nem por esperada menos infeliz: os gorilas tomaram das armas, depuseram o governo de João Goulart. Na véspera, em conversa com Luiza e Jenner Augusto*, eu previra o golpe para daí a quinze, vinte dias.

*Jenner Augusto, pintor, Luiza, sua mulher.

 

Os telefonemas se sucedem, sabemos de prisões, casas invadidas, estamos preparados, Zélia e eu, para o que der e vier, quem veio foi Wilson Lins** ideólogo dos milicos. Ao ouvir o anúncio do nome do visitante, Zélia se arma em guerra, comento para arrefecer-lhe o ânimo: Wilson vem nos ver porque é nosso amigo. Poderia acrescentar: o amigo que jamais me faltou, nos momentos mais difíceis sempre presente e solidário.

Conversamos literatura e outras baboseiras, como se os acontecimentos não tivessem acontecido. Ao despedir-se, Wilson recomenda: qualquer coisa me telefonem em seguida, se eu não estiver Anita** saberá onde me encontrar. Wilson Lins: nunca falhou.

*Wilson Lins, escritor e político.

**Anita, mulher de Wilson Lins.

 

Ao fim da tarde vou com Antônio Celestino*** a uma exposição de pintura na Galeria Renot, os óleos de Henrique Oswald recriam as igrejas da Bahia num fundo de mistério, Celestino compra um quadro, compro outro. Gastar dinheiro numa hora dessas, incerta, não será loucura? Não vou concorrer para que os milicos restrinjam minha vida, não modificarei meus hábitos. Penduro a igreja de Henrique Oswald no quarto de dormir.

***Antônio Celestino, crítico de arte e bancário, português.

 

 

Maceió, 1933.

Visita

 

Em meados de 1933 embarquei num paquete do Lloyd Brasileiro, do tamanho de uma caixa de fósforos, o Conde de Baependi, arribando do porto do Rio de Janeiro para o porto fluvial da cidade de Penedo, no rio São Francisco, no então distante Estado de Alagoas. Levava-me o objetivo único de conhecer pessoalmente o romancista Graciliano Ramos, nome àquela data sem qualquer ressonância junto aos leitores e aos críticos: ainda não havia editado nenhum livro. Acontecera-me ler, porém, os originais de Caetés, tomara-me de tamanho entusiasmo que decidi viajar até Alagoas para comunicar ao autor minha admiração, de viva voz. Tinha eu vinte e um anos incompletos e acabara de publicar Cacau.

Desconhecido do público e da crítica, o nome de Graciliano começara no entanto a ressoar nos meios literários do Rio de Janeiro; com o tempo viria a afirmar-se no conceito geral como o principal ficcionista da chamada geração de trinta. O poeta e desenhista Santa Rosa, risonho mulato paraibano recém-chegado ao Rio — via Maceió, onde servira no Banco do Brasil — trouxera notícia de um literato alagoano, ex-comerciante, ex-prefeito de cidade do interior, por fim funcionário público, na ocasião, se não me engano, Diretor da Imprensa Oficial. Os textos dos extraordinários relatórios, apresentados por ele ao deixar a Prefeitura de Palmeira dos índios, circularam de mão em mão no limitado território literário da então capital da República e das letras pátrias.

Não eram realmente vastos os limites geográficos desse território, iam da Travessa do Ouvidor, endereço da Livraria e Editora Schmidt, até a Cinelândia, onde funcionavam o movimentado consultório do poeta (e médico) Jorge de Lima e a não menos movimentada redação do Boletim de Ariel, na sede da Ariel Editora. Nesses locais — a Editora José Olympio só se mudou de São Paulo para o Rio em 1934 —, os literatos se reuniam para falar de cultura e da vida alheia, comentar livros, elaborar projetos, afirmar ou desancar glórias estabelecidas ou nascentes. População literária pequena, produção editorial reduzida, todos os autores se conheciam, liam-se todos os livros. Penso que naqueles idos não passávamos de uns trezentos os indivíduos que se dedicavam às letras em todo o país. Hoje só no bairro do Rio Vermelho existem mais de cem, na cidade da Bahia mais de mil, Nosso Senhor do Bonfim seja louvado!

Em 1933 os ecos da Semana de Arte Moderna esvaíam-se, afirmava-se o Romance de Trinta, expressão literária dos movimentos políticos e populares que resultaram na revolução da Aliança Liberal. Em verdade o ciclo ficcional pós-modernista se iniciara em 1928, no rastro da Coluna Prestes, com o lançamento de A bagaceira de José Américo de Almeida. Aliás coube a José Américo, Ministro da Viação do primeiro governo Vargas, revelar aos confrades residentes no Rio a existência de um romance ainda inédito de autoria do tal Prefeito de Palmeira dos índios, o dos relatórios.

A notícia deu lugar a um telegrama do poeta e editor Augusto Frederico Schmidt ao desconhecido romancista pedindo que lhe enviasse os originais, ele os editaria em livro. Os originais chegaram e foram fazer companhia a vários outros nas gavetas da secretária no gabinete ao fundo da livraria onde o poeta batia papo, namorava por telefone, escrevia seus poemas e buscava como arranjar dinheiro para levar adiante o programa da Editora: naquele então a mais importante editora de literatura brasileira.

Os freqüentadores habituais da livraria folheavam os originais depositados nas gavetas da mesa do poeta, por vezes levavam um manuscrito para ler em casa. Devo a publicação de O País do Carnaval, meu romance de estréia, ao fato de Tristão da Cunha*, figura influente na vida literária da época, ter levado consigo os originais que na gaveta fatal aguardavam vez, para terminar em casa a leitura iniciada no gabinete do poeta enquanto o esperava. A opinião de Tristão da Cunha foi decisiva para que Schmidt não só o publicasse como para que ele escrevesse um prefácio.

*Tristão da Cunha, diplomata, escritor, tradutor de Shakespeare.

 

Li o manuscrito de Caetés, fiquei empolgado — não faz muito reli o romance de estréia de Graciliano, não mudei minha opinião de rapazola: a atmosfera da cidadezinha, a escrita admirável. Outros livros de Graça são maiores, o romancista cresceu mas Caetés persiste inteiro. Foi tal o impacto que me causou a leitura dos originais que resolvi conhecer o autor pessoalmente, tomei passagem no Conde de Baependi, ao chegar a Aracaju estava noivo, sucedia a cada viagem pela costa do Brasil. Um ano depois, em 1934, Schmidt publicou o primeiro romance do mestre Graça, logo depois saiu São Bernardo em edição Ariel.

O Conde de Baependi deixou-me em Penedo, desde então uma de minhas cidades preferidas, de quando em quando tomamos o carro, Zélia e eu, vamos dormir em Penedo para ver a manhã nascer sobre o rio São Francisco, trazida nas barcaças e nas canoas, andar em meio ao casario, parar à sombra das igrejas e dos conventos. Certa feita levamos conosco nossa amiga Antoinette Hallery*, deslumbrou-se em tcheco e em francês: piekne krasnie! oh la la!

*Antoinette Hallery, editora tcheca

 

Andando em bonde-de-burro, ainda circulavam na Penedo de 1933, esperei o automóvel que Valdemar Cavalcanti*, com coluna de livros em gazeta de Maceió, sobrinho do Prefeito, enviou para me buscar. A viagem, em estrada de terra e buracos, durou o dia inteiro, cheguei a Maceió no fim da tarde, coberto de poeira, no hotel tomei um banho, saí em busca do romancista, fui encontrá-lo num bar, bebia café negro em xícara grande, cercado pelos intelectuais da terra — todos eles reconheciam a ascendência do autor ainda inédito, era o centro da roda. Ficamos amigos na mesma hora.

*Valdemar Cavalcanti (1912/ 1982), jornalista.

 

Desde aquela tarde até a sua morte, acompanhei dia a dia, com admiração e amizade, a vida de Graciliano Ramos e sua criação literária, poucas se lhe comparam. Cheguei de Santiago do Chile às vésperas de sua morte, escalado para falar à beira do túmulo, não consegui passar das primeiras palavras. Depois sua filha Luísa tornou-se minha irmã ao casar-se com James; Fernanda, neta de Graciliano, flor dos Ramos e dos Amado, é minha sobrinha, misturaram-se nossos sangues.

Eu o recordo como vi pela primeira vez, na mesa do bar: chapéu-palheta, a bengala, o cigarro, a face magra, sóbrio de gestos. Parecia seco e difícil, diziam-no pessimista, era terno e solidário, acreditava no homem e no futuro.

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Wroclaw, Polônia, 1948.

A memorialista

 

Que artifícios usou Maria da Bahia, natural das Alagoas, para conseguir se misturar aos correspondentes estrangeiros que vieram cobrir o Congresso Mundial dos Intelectuais Paz? Quando a conheci na Bahia era estudante e ativista, um azougue, esguia e maneira, mulata cabo-verde, popular nas hostes do Partido Comunista e na Faculdade de Direito. O exemplo do que não deve ser uma militante digna desse título, na estreita opinião de Maria Vitalina, dirigente coroca e puritana. Dirigente, mas não puritano, Mário Schemberg, membro da delegação brasileira ao Congresso, responde à minha pergunta com bonomia:

— Maria da Bahia tem bom molejo de cintura. Cintura de vespa.

Além de mim — sou um dos vice-presidentes do Congresso — e de Mário, nossa delegação é composta por um grupo variado e simpático de intelectuais comunistas, recordo alguns nomes: Arnaldo Estrela e sua mulher, a violinista Mariuccia Yacovino, o escultor Vasco Prado, o pintor Carlos Scliar, a escritora Zora Seljan, a pianista Ana Stela Schic, o compositor Cláudio Santoro. Por nenhum deles, tampouco por Mário ou por mim, Maria da Bahia demonstra interesse jornalístico — somos prata da casa em meio a tanto ouro internacional —, exige que eu a apresente aos grandes das letras e das artes, para começar a Picasso e a Ilya Eremburg. Afinal, argumenta, representa na Europa o diário O Momento, órgão baiano do pecê. Desde quando?, me pergunto, mas faço-lhe a vontade.

Ali mesmo, na sala do Congresso, Picasso lhe concede rápida entrevista: veio a Wroclaw sobretudo para exigir da tribuna que cesse a perseguição do ditador Videla, no Chile, ao poeta Pablo Neruda, expulso do Senado, caçado pela polícia. Onde, como e quando Maria aliciou o fotógrafo hindu que registra o encontro para o jornal baiano? De braço dado com Picasso, a repórter, íntima do gênio.

Ocupadíssimo, com mil coisas a fazer, Eremburg acede em recebê-la para longa entrevista, na qual, a pedido de Maria, deverá analisar em profundidade o significado do Congresso, os problemas da paz e a responsabilidade dos intelectuais:

— Amanhã, às sete da manhã, no meu hotel. — Fornece-lhe o nome do hotel e o número do apartamento.

No dia seguinte, Maria da Bahia me narra o acontecido:

— Bati na porta, ele mandou que eu entrasse, entrei; estava nu em pêlo, deitado na cama, me disse: — Tire a roupa, depressa, só tenho meia hora, às sete e meia vou tomar o café da manhã com Fedosiev. — Fedosiev, esclareço, diretor do Pravda, membro do CC do PCUS, é um dos responsáveis políticos pelo Congresso. Maria prossegue: — Sorriu, abriu lugar para mim na cama, me deu pressa.

— E você?

Sorriso angelical, Maria da Bahia, nascida em Palmeira dos índios, faz um muxoxo, olha para o chão:

— Obedeci, que podia fazer? — Levanta os olhos, ajeita o cabelo negro e liso: — Ordens de um soviético, tinha de obedecer. Depois, ele me disse: peça ao Jorge que lhe fale do Congresso, pode pôr em minha boca o que ele lhe disser. — Maria da Bahia toma do papel e da caneta, pronta para a entrevista.

Saído do inferno da guerra, batido pela vida, Ilya andava pelos cinqüenta anos, aparentava mais, nós lhe dizíamos o velho. Entendo que Maria vá para a cama com Enrique Amorim, galã latino, mas com Ilya, por quê? Por que, Maria da Bahia?

Aquele sorriso cândido, os olhos puros, sonhadores;

— Pra quando eu escrever minhas memórias.

Não teve tempo de escrevê-las, morreu num desastre de automóvel ao voltar ao Brasil, dois anos depois. Mas a entrevista — Ilya Eremburg, em Wroclaw, fala à nossa enviada especial — obteve sucesso, despertou polêmica.

 

 

Budapeste, 1951.

Honra e orgulho

 

Estou em Budapeste em efervescência, em pleno processo Rajk*, os processos da era stalinista vão se renovar, agora de país em país, em todas as democracias populares. A ruptura de Tito com Stalin deu o sinal de partida para a grande purga, o Santo Ofício comunista inicia as visitações. Crédulo, incondicional, acredito nas histórias de complôs e traições, vejo em cada um dos acusados inimigo jurado da Revolução, da classe operária, do esplendor do amanhã.

*Processo político que condenou à morte o dirigente comunista húngaro Lázlo Rajk(1909): executado em 1949, reabilitado em 1955.

 

No terraço do bar alguns amigos se encontram para beber comigo, conversar, saudar o camarada brasileiro, escritor bem-visto pelos leitores, as traduções de Jubiabá e de Terras do Sem Fim obtêm sucesso. O tradutor, comunista magiar, vivera durante anos em São Paulo, regressara à pátria após a derrota do nazismo, está Presente, ajuda na conversa: quase todos falam francês, mas quando a língua húngara domina, ele me permite seguir e entender a discussão.

Sucede invariavelmente nas reuniões onde um estrangeiro é o centro das atenções que, a partir de certo momento, esgotados os temas de conversa com o hóspede, impõem-se os assuntos de interesse dos nativos, o adventício de participante passa a ouvinte. Assim sucedeu naquela noite em Budapeste: a discussão do processo Rajk deixou de lado as amabilidades literárias, a miséria do terceiro mundo, o erotismo das mulheres tropicais, o bate-papo pegou fogo.

O jovem poeta se exalta, contente de exibi-lo, não abre mão de seu francês sem acento, será que entendo o que afirma, conclusivo? Diz que a confissão de um dos acusados — de todos, contam-me depois — foi arrancada à base de torturas praticadas nos cárceres pela polícia política. Tortura? Devo ter ouvido mal, não falou tortura, certamente, o que foi que ele disse? — pergunto em dúvida, em agonia. Minha honra e meu orgulho consistem em saber, de certeza absoluta, que num regime comunista, numa sociedade socialista, jamais, jamais, nunca jamais, um preso poderá ser submetido à tortura: intelectual, moral, muito menos física. Meu espanto, meu pasmo provoca chalaça, debocham de minha santa ingenuidade, devo ser o último dos idiotas, quem não sabe que a tortura come solta?

Arrasado escuto da boca dos presentes no atropelo da língua húngara, na tradução implacável, histórias de arrepiar, detalhes que me atingem no coração, me destroçam, sinto-me desonrado, conspurcado meu orgulho comunista: torturam, sim, e como! Os policiais que servem e defendem o regime são os mesmos do tempo da ocupação nazista, a profissão de guardião da ordem está acima e além das ideologias.

Com febre e frio atravesso a primeira noite de dúvida, o coração traspassado, o estômago embrulhado, ânsia de vômito: a polícia comunista me espanca e pisoteia, obriga-me a confessar o que não fiz. Assim começou minha travessia do deserto.

 

 

São Paulo, 1981.

Esperança vã.

 

A fundação do Partido dos Trabalhadores, em pleno regime militar, me entusiasma, o PT nasce nos sindicatos, parido pelas greves dos metalúrgicos, auspiciosa notícia. Vamos ter, por fim, pensei, um verdadeiro partido operário, integrado, orientado, dirigido por trabalhadores. Acaba-se o tempo dos falsos partidos operários — os partidos comunistas e trotskistas, os trabalhistas — nos quais intelectuais, em sua maioria medíocres e presunçosos, pequeno-burgueses arrogantes e vazios, ditam ordens com acento portunhol, arrogam-se representantes do proletariado, em seu nome sonham assumir o poder e mandar brasa. Fardam-se com uniforme de dirigentes revolucionários, lêem, sem muito entender, brochuras traduzidas do russo ou do chinês para o espanhol, consideram-se sábios, arrotam teorias, juram por Marx e Lenine, por Stalin (ou Trotsky) e Mao, seriam grotescos se não fossem perigosos: no poder não há quem os segure, serão capazes de qualquer estupidez, de qualquer monstruosidade, como está sobejamente provado — Stalin continua a ser o ídolo a imitar.

Conheci e tratei com muitos desses indivíduos, em escalões diversos do poder — por vezes o pequeno poder de uma célula do Partido —, alguns não eram más pessoas, mas estavam todos deformados. De repente perdiam a fisionomia humana, bonecos repletos de ideologia de segunda mão, de marxismo, de leninismo, de maoísmo, aprendida de oitiva, pois não são de muito ler — no particular não lhes nego certa razão, pois Marx reinventado em soviético é dose para elefante, fica tão estulto quanto chato.

Ah! o bode perde o pêlo mas não perde o ranço, ao saber da fundação do PT bati palmas, veemente, tomado de entusiasmo, rasguei elogios nas colunas dos jornais, congratulei-me com Eduardo Suplicy. A ilusão durou pouco, logo o PT virou frente de grupelhos e de siglas radicais, os mesmos subintelectuais dos Pecês (acrescidos dos padres corajosos e sectários da teologia da libertação), sob o comando de ex-dirigentes stalinistas e maoístas que perderam toda e qualquer perspectiva política, já não acreditam em nada: são apenas aproveitadores. O PT ficou igual a qualquer dos antigos partidos operários, a qualquer dos partidos brasileiros, um saco de gatos.

Em verdade não existem partidos políticos no Brasil com princípios e compromissos, existem frentes onde cabem todos os segmentos ideológicos, onde convivem direita e esquerda no vaivém dos interesses pessoais. Não são partidos, são siglas que se intitulam democráticas, trabalhistas, social-democráticas, liberais, socialistas, sem que tais denominações tenham a ver com tomada de posição, razão de luta ou de governo, uma desfaçatez. E ainda por cima pretendem estabelecer o parlamentarismo. Parlamentarista que sou, tremo de medo. Parlamentarismo sem partidos, ah! esse parlamentarismo à brasileira vai ser uma graça, uma bambochata!

 

 

Lisboa, 1989.

A tia

 

A cada encontro no restaurante de Mimi, no Parque Mayer — sem o Restaurante Amadora o Parque já não é o mesmo —, Antônio Alçada Baptista* apresenta-me à mais bela de ofícios diferentes: a mais bela advogada de Portugal, a mais bela redatora, a mais bela dançarina e por aí vai, são muitas. A mais bela? Maneira de louvar do sedutor: bonitas todas, umas mais, outras menos, charmosas, elegantes, sobretudo apaixonadas. Antônio as pastoreia, ar de frade em férias, pecaminoso.

*Antônio Alçada Baptista, escritor português.

 

Ensaísta consagrado, polêmico, Antônio estreou na ficção com romance que fez época, entusiasmo da crítica, prêmios, best-seller, O nó e os laços: o começo do livro é um achado. Gosto do romance, mas ainda sinto em certas páginas a presença do ensaísta a debater idéias. Vou me deparar com o ficcionista puro, solto na condução da narrativa, num pequeno romance, Catarina ou o sabor da maçã — atualmente utilizam o termo novela para designar um romance curto ou um conto longo, a novidade não me seduz, o número de páginas não determina gênero literário. A história me toma e leva no encanto da leitura, a prosa suculenta, os personagens de carne e sangue, não de caneta e tinta, a vida lisboeta, Antônio Alçada se entregando por inteiro ao prazer da escrita: sucesso estrondoso e merecido.

Outro romancinho, Tia Suzana, meu amor, delícia igual ao da maçã, descreve as intimidades de pensamento, religião e cama do narrador, um rapazola — o autor fazendo-se de personagem? Só o próprio Antônio poderia responder — e uma sua tia, balzaquiana. Na cama coçam-se mutuamente as costas, catam-se cafunés, trocam beijinhos, mordiscam-se os lóbulos das orelhas, escorrem as mãos dos rostos aos pés, nos altos e baixos e nada mais acontece, acredite quem quiser. Ternura inocente de sobrinho e tia, ela, se bem moça, mais velha do que ele, a camisola de dormir mal encobre a perfeita anatomia, nos dias friorentos o calor, nos dias calorentos o frescor do corpo. Dela decerto, dessa tia meio freira meio diaba, herdou Antônio o ar de frade em férias, prevaricador.

— Tu queres me convencer, Antônio, que jamais tu e tua tia chegaram às vias de fato?

— Primeiro não somos eu e minha tia, são o personagem e a Suzana, tia dele. Mas, ainda que fôssemos eu e a tia, posso te garantir que tudo não passou de ternura, nada além das cosquinhas.

— As cosquinhas, os cafunés, os toques, os beijinhos, os fornicoques, tudo platônico?

— Tudo. Mais pura e inocente que tia Suzana nunca houve. Antônio Alçada Batista fala sério, o ar de frade imaculado.

Acredite quem quiser, eu hein! não sou daqui, não conheço os costumes locais, os hábitos de cama, na Bahia tia Suzana não escapava.

 

 

Rio de Janeiro, 1953.

Anti-semitismo

 

Quando tudo já está em ordem — passagens, passaportes, vistos de saída — para o embarque no dia seguinte, domingo, da delegação de intelectuais brasileiros que irá visitar a União Soviética, um dos privilegiados adoece, abre vaga. Trata-se da segunda delegação, a primeira acontecera no ano anterior, dela haviam participado Graciliano Ramos, Dalcídio Jurandir, Arnaldo Estrela, Mariuccia Yacovino, Sinval Palmeira*. Gastáramos tempo, Maurício Grabóis, membro do Bureau Político do Partido, na ocasião dizia-se Comissão Executiva, e eu próprio, responsável na Comissão de Cultura, estudando cada nome detidamente, pesando e comparando, para enviar à pátria do socialismo os melhores, os mais dignos de tal regalia, prêmio sem tamanho. Recordo alguns dos escolhidos: Djanira, José Geraldo Vieira, Miécio Tati, James Amado, Dias Gomes, Lila Ripoll, Cláudio Santoro, Danúbio Gonçalves, todos desse porte, aliando ao talento a lealdade partidária, a solidariedade incondicional à URSS.

*Sinval Palmeira, advogado

 

Vale a pena mencionar que vivíamos a época do stalinismo desvairado: os processos, as condenações, os campos de concentração, o anti-semitismo nem por camuflado menos monstruoso. Não era fácil ser, como eu o era, militante comunista, menos ainda alto dirigente como era Maurício Grabóis, a quem me ligava velha amizade dos tempos de juventude na Bahia. Inteligente e simpático, de trato agradável, educado, Maurício não exibia o azedume e a prepotência habituais aos mandatários do Partido que viviam na suspeita e na desconfiança, duvidando de tudo e de todos. Morreu comunista, comandante de guerrilha no Pará, lutando contra a ditadura militar.

Coube-me decidir sozinho sobre o preenchimento da vaga, pois, tendo ela acontecido num sábado, eu não tinha possibilidade de ouvir Grabóis antes da partida da delegação no domingo, ele vivia e atuava na clandestinidade, nossos "pontos" eram marcados com antecedência. Um nome me ocorreu, por todos os motivos o mais indicado, o do pintor Carlos Scliar, jovem artista de sucesso, cabo artilheiro da FEB, habituado a viagens ao estrangeiro, dono de passaporte. Consegui uma ligação telefônica para Porto Alegre onde ele vivia, convidei-o: ouve, Carlitos: se tens passaporte em ordem e se estiveres amanhã antes do fim da tarde no Rio, com visto de saída, embarcarás à noite para Moscou. Estarei aí amanhã a tempo de embarcar, garantiu Scliar. Assim foi.

Ao encontrar Grabóis na reunião semanal, num canto qualquer do Rio, noite alta, ele estava transtornado, uma fera, não escondia o mau humor, a irritação, a indignação, o medo para tudo dizer:

— O que te passou pela cabeça para escolher Scliar? Eu não tenho nada a ver com isso, já disse a Arruda* que a culpa é toda tua. Por que diabo?

*Diógenes de Arruda Câmara, dirigente comunista.

 

— Scliar é um dos artistas mais importantes do Partido, militante firme, ninguém merece tanto a indicação. O que tens contra ele?

A voz de Maurício veio da sombra, incerta:

— Ele é judeu...

— Tu também és judeu... — repliquei espezinhando.

— Por isso mesmo... — na voz trêmula do membro do

Bureau Político transparecia o medo, dava pena.

Medo de ser afastado, posto fora do Partido, sua trincheira de luta, para ele não havia outra. Então eu também senti medo, medo pânico — tudo, menos ser expulso, retirado do combate, acusado de estar a serviço do inimigo.

 

Entre meus pertences prezo de forma especial uns poucos objetos, de valor variável, por tê-los recebido de amigos que não cultivam o hábito de presentear, muito ao contrário, têm fama de sovinas — todos eles, sem exceção, consideram a fama injusta.

Possuo uma bolsa retangular, de bom tamanho, que carrego comigo para toda parte, nela guardo meus documentos, talões de cheque, papéis importantes, retratos de meus filhos e dois de Zélia, um recente, outro de 1945, ano em que a conheci. Foi-me dada de presente por Dorival Caymmi*, meu irmão quase gêmeo — até hoje Carybé diz que não acredita.

*Dorival Caymmi, compositor e cantor.

 

Certo dia — conto a história —, Dorival me apareceu sobraçando bolsa tão maneira, gostei tanto, elogiei demais, terminei pedindo que me desse de mimo, prova de estima: será a primeira, supliquei. Me respondeu que não podia, pois lhe tinha sido oferecida por Stela* em data aniversária, impossível desprender-se dela. Ao regressar ao Rio, porém, me mandaria uma igual. Não acreditei na promessa, quem acreditaria? Mas, como diz o dito popular, o impossível acontece, dias depois recebi, enviada do Rio por Dorival, bolsa idêntica e nova: convoquei Carybé e Mirabeau para ter testemunhas do milagre.

*Stela Maris, pseudônimo de Adelaide Tostes, mulher de Caymmi, cantora.

 

Esse senhor Dorival Caymmi, o moço Caymmi, meu parceiro e cúmplice — se ele escrevesse escreveria meus romances, se eu compusesse comporia suas músicas —, ao me oferecer a famosa bolsa, reconhecia ter-me afanado uma quantidade de bengalas, além das que, de moto próprio, lhe ofertei: certa feita atravessei a Europa e o oceano Atlântico levando na mão enorme bastão de pastor do País de Gales, galho de árvore longo, pesado e espinhento. Dos muitos objetos de minha propriedade surrupiados pelo cantor das graças da Bahia, só não lhe perdôo o rádio russo que eu trouxe de Moscou e dei a Paloma, ainda solteira. Dorival o pediu emprestado para ouvir os jogos da Copa do Mundo de setenta, nunca mais Paloma pôs a vista no pequeno aparelho, de muita estática, mas ainda em bom estado.

Coleciona rádios, bengalas, pedras semipreciosas e otras cositas más, várias outras. Quando sai de visita a amigos leva ao ombro respeitável embornal, quase um saco de viagem, no qual recolhe o que vai obtendo de casa em casa. Entra em casa alheia, apenas a conversação se inicia, pergunta se alguém ali não tem uma prendazinha para mim — quem resiste ao pedido? Uma prendazinha aqui, outra acolá, quando regressa ao lar, aos braços de Stela Maris, conduz féria vasta, a colheita do dia, espalha em cima da mesa ou do sofá, dá o balanço, feliz da vida. Falo de Dorival Caymmi meu mabaça, compositor, poeta, doutor honoris causa, obá da Bahia, um dos brasileiros principais: sua canção de amor, melodia linda.

Exibo na casa do Rio Vermelho caótica coleção de arte popular, de certo valor pelo número e procedência das peças e pela qualidade de algumas delas — carta de pescador esquimó gravada em dente de elefante-marinho, presente de Eremburg, vaso de opalina com as armas imperiais de Nicolau I, tzar de todas as Rússias, oferta de Sacha Fadeev e, entre as mais belas, um boi, o maior de todos os bois de barro amassado pelas mãos mágicas de mestre Vitalino de Caruaru, nos primeiros tempos de sua criação artesanal.

Acredite quem quiser, sei que é difícil acreditar, o zebu de Vitalino foi-me dado de regalo por João Condé* e eu afirmo que ele estava sóbrio, não tinha febre, saúde perfeita, quando me fez o dom. Um rasgo de loucura desses que levam os indivíduos a atirar dinheiro pela janela. Faz mais de cinqüenta anos desse lance incrível ou seja, há mais de meio século João Conde me roga que lhe restitua o boi, o maior boi de Vitalino, cerâmica sem preço: vale uma fortuna, segundo me diz o incauto ex-proprietário, os olhos marejados de lágrimas, autênticas.

*João Condé, homem de letras.

 

Esse senhor João Condé devia ter-me dado não apenas o boi aqui citado e, sim, toda a sua imensa coleção de peças dos artesãos de Pernambuco, algumas das imagens de santos — possui muitas, nenhuma lhe custou um níquel sequer — e uns quadros do pintor Cícero Dias, dos que lhe afana quando passa por Paris, e ainda não estaria pagando o que me deve. Não me refiro aos originais de romances, cartas e textos, de depoimentos escritos especialmente, o material inumerável com que concorri para os seus Arquivos Implacáveis. Refiro-me às belas que chamou aos peitos fazendo-se passar por mim: naqueles tempos, diziam, nós nos parecíamos. Ele namorava e assinava autógrafos como se fosse eu. — Autógrafos?

— Muitos, nem imaginas...

— Em livros, João?

— Em livros quando elas me trazem os exemplares, senão em pedaços de papel, não estou para gastar dinheiro comprando teus livros. Se ainda fossem do Zé Lins*...

*José Lins do Rego (1901/1957), escritor.

 

Encontrava-me eu na Argentina, exilado, soube que no Rio um gaúcho me buscava, armado de revólver, para matar-me a sangue-frio, eu o teria feito corno com a ajuda da esposa lá dele, turista às ordens em Copacabana, quando os chifres ele os devia a João Conde, namorador.

Por felicidade tratava-se de um gaúcho da fronteira, meio brasileiro, meio argentino, não era de temer-se. Se o chifrudo fosse paraguaio, o conquistador caruaruense estaria hoje morto e enterrado: na lápide sobre o túmulo, gravado a bala, meu nome, pseudônimo de João Conde.

 

 

Paris, 1991.

Álvaro Salema

 

A morte de Álvaro Salema chega-me pelo telefone, repetida: primeiro Nuno*, logo José Carlos**, por fim Celestino, solidários, tristíssimos, um telefonema atrás do outro. Ai, meu Deus! exclamo quando Nuno me diz: desculpa chamar-te para má notícia, Salema morreu. Quem foi? — pergunta Zélia ao escutar meu lamento: a cada semana pelo menos um amigo vai-se embora, o vazio se torna maior.

*Nuno Lima de Carvalho, jornalista português.

**José Carlos de Vasconcelos, jornalista português, diretor do Jornal de Letras.

 

A partir de agora Portugal será menos ensolarado, menos alegre, menos fraterno. Perco o amigo português de toda a minha vida, o amigo perfeito, o de todos os instantes, aquele que tudo sabia e tudo podia entender. Os acontecimentos dos últimos anos, a crise da sociedade soviética deixavam-no enfermo, num silêncio doloroso, percebi que ia se retirando da vida, sem alarde, na discrição com que vivera. Quando estivemos juntos em agosto deste ano aparentava melhor saúde, estás ótimo, eu lhe disse, estou no fim, me respondeu. Senti que não voltaria a vê-lo, ainda bem que vim a Lisboa a tempo de encontrá-lo, de comer à mesa de Elisa*, de com ele recordar Ferreira de Castro, Fernando Namora, nossos mortos.

*Elisa, mulher de Álvaro Salema.

 

Eu projetara ir a Portugal nesse outubro assistir à posse de Marcos Vinícius Vilaça na Academia de Ciências, aplaudir o colega de duas Academias, Calá e Auta Rosa** estarão na festa, será alegre patuscada. Já não irei, cadê coragem de olhar para o rosto de Elisa, de pronunciar o nome de Álvaro?

**José Júlio de Calasans Neto, gravador e pintor, Auta Rosa, sua mulher.

 

Escrevo a Luís Forjaz Trigueiros***. Luís não teve ânimo de me telefonar, pediu a Celestino que o fizesse. Estamos órfãos, Luís, do melhor dos amigos, não voltaremos a ter outro igual. Será que conseguiste elegê-lo membro da Academia de Ciências como tanto desejavas, pergunto-lhe, ou não chegaste a convencê-lo?

O homem mais modesto, o mais tímido, o mais corajoso, o mais leal, o mais digno, Álvaro Salema. Em silêncio se retirou de cena, pouco antes do final da tragicomédia, personificava a decência, já não tinha lugar no palco.

***Luís Forjaz Trigueiros, escritor português.

 

 

Bahia, 1929.

Lenita

 

Dias da Costa*, Edison Carneiro** e eu, em 1929, escrevemos em colaboração um romance sob o título de El-Rey, publicado em folhetim em O Jornal, órgão da Aliança Liberal na Bahia. Um editor do Rio, A. Coelho Branco Filho — jamais o esquecerei, pois foi o primeiro a colocar meu nome na capa de um livro, o primeiro a me ficar devendo direitos autorais —, lançou-o em volume em 1930, capa medonhosa, com o título de Lenita. Livrinho com todos os cacoetes da época, Medeiros e Albuquerque o definiu: uma pura abominação. Um único subliterato não poderia tê-lo feito tão ruim, foi necessário que se juntassem três.

*Oswaldo Dias da Costa (1907/ 1974), escritor.

**Edison Carneiro (1912/1972), escritor e etnógrafo.

 

 

Rio de Janeiro, 1960.

Apoio eleitoral

 

Eduardo Portella, um dos meus cúmplices mais permanentes e ativos, o que aprontamos juntos daria para compor volumosa antologia político-literária, telefona-me para pedir uma palavra de apoio a Jarbas Maranhão, candidato a uma cadeira no Senado, por Pernambuco.

Baiano de nascimento, Eduardo é muito ligado à vida pernambucana, cursou a Faculdade de Direito no Recife, mexe com a política local, aliás mexe e remexe com a política brasileira em geral, com a literatura nem falar. Além de ser pouco ligado à política de Pernambuco, já escrevi manifesto de apoio a Miguel Arraes, candidato a Governador, não apenas meu amigo, também correligionário de esquerda. Candidato pelo PSD, conservador, Jarbas Maranhão não pode ser meu candidato, explico a Eduardo, ele não aceita minhas razões, amigo é para as coisas difíceis, para as fáceis não faz falta a amizade. Termino por lhe prometer uma palavra simpática sobre Jarbas a quem estimo pessoalmente.

Quebro a cabeça em busca da maneira de atender ao pedido de Eduardo sem causar dano à campanha de Arraes. Astucio uma saída velhaca: escrevo uma carta a Jarbas Maranhão composta de três parágrafos, dois pequenos, o do começo e o do fim, um grande, o do meio. No do começo falo bem de Jarbas, político honrado e sério, no do fim desejo-lhe sucesso na campanha. No parágrafo do meio me alongo no elogio a Miguel Arraes e a seus companheiros de legenda, após explicar que não posso apoiar a candidatura de Jarbas pois, homem de esquerda, sustento outros candidatos, exatamente os da chapa "do imbatível Arraes que conduzirá Pernambuco ao progresso e à justiça social". Divirto-me Pensando na cara de Eduardo quando ler a carta que eu considero uma obra-prima de malandragem política. Mando a secretária entregá-la em mão própria a Eduardo para que a remeta a Jarbas. Ele me telefona agradecendo sem maiores comentários, a discrição surpreende-me.

Alguns dias depois recebo, enviados por Pelópidas da Silveira*, recortes dos jornais do Recife anunciando meu apoio à candidatura de Jarbas Maranhão. Pelópidas, espantado, decepcionado, pergunta: qual o motivo dessa carta absurda? Leio a missiva estampada em todos os jornais: o texto, na viagem de meu apartamento à casa do candidato, reduzira-se bastante. Dos três parágrafos que a compunham restaram apenas os dois pequenos, o elogio a Jarbas Maranhão e os votos de sucesso na campanha. O parágrafo do meio, o grandão, onde eu fazia a apologia de Miguel Arraes e dizia de meu compromisso com sua chapa, fora cortado e jogado fora. Quem teria utilizado a tesoura: Jarbas, no Recife, ao receber a carta ou já saíra do Rio adaptada? Até hoje não sei. Vinguei-me. Jarbas foi derrotado, eu andava pela Bahia, telegrafei a Eduardo Portella: "Apesar de nosso apoio Jarbote tubulou."

*Pelópidas da Silveira, político.

 

 

Rio de Janeiro, 1983.

Os tijolos

 

No speech que improvisa ao receber o Prêmio Molière, Fernanda Montenegro conta que um de seus avós, operário italiano, trabalhara de pedreiro na construção desse Teatro Municipal do Rio de Janeiro onde tenho a honra de lhe entregar a láurea: mais merecida, impossível.

O avô imigrante colocara os tijolos, levantara as paredes do teatro em cujo palco, com platéia de pé a aplaudi-la, a neta gloriosa, a estrela, busca conter as lágrimas. Gloriosos, ela e o marido, Fernando Torres, e a filha, a outra Fernanda, a jovem, a bisneta do pedreiro, palmilhando os caminhos abertos pela mãe.

Fernanda Montenegro, artista notável, cidadã exemplar, voz e garra na luta pela democracia, concorreu para o fim da ditadura militar. Convidada a assumir o Ministério da Cultura por José Sarney, pediu quarenta e oito horas para refletir. Enquanto pesava os prós e os contras, a notícia circulou, quando ela se deu conta a fila dos pretendentes a sinecuras e a mordomias dava a volta no quarteirão. Não houvesse outras razões, bastaria essa para que, apavorada, agradecesse e recusasse.

 

 

Rio de Janeiro, 1942

Política

 

No meio da noite somos retirados da Casa de Correção, levados à Polícia Central, mais uma vez identificados, notificados da residência obrigatória, cada um na cidade de seu nascimento — no meu caso a polícia se engana, dá-me a capital do Estado como domicílio, sou baiano da zona do cacau, nasci no município de Itabuna. Mandam-nos em liberdade por volta das três da madrugada, chove a cântaros.

Somos os seis comunas que, juntamente com mais uma quarentena de exilados, voltaram para a pátria, entregaram-se, quando o governo brasileiro declarou guerra ao eixo nazi-fascista, os seis que não estávamos condenados nem processados, os demais têm pena a cumprir, vão gramar três anos de prisão até o decreto da anistia. Seis comigo, os outros cinco são Fernando de Lacerda, comunista histórico, exilado na União Soviética desde 1930, o escritor Ivan Pedro de Martins, dois operários gaúchos, não me recordo quem fosse o quinto.

Quase de manhã chego à casa dos pais de Matilde, rebocando Fernando de Lacerda que não tem para onde ir. No dia seguinte a casa da Urca se transforma em centro de agitação política. O primeiro a aparecer foi Carlos Lacerda, sobrinho de Fernando, comuna em vias de romper com o Partido. Tio e sobrinho trancam-se numa sala, conversam a sós, participo da parte final do debate, o desacordo entre Carlos e o Partido é total, ao despedir-se do tio Carlos despede-se de sua fase de militância comunista, vai se transformar em visceral adversário.

Na noite desse primeiro dia de liberdade compareço ao jantar oferecido a Graciliano Ramos, o romancista comemora cinqüenta anos de idade, Gustavo Capanema, Ministro da Educação, preside o ágape — eta palavrinha mais filha-da-mãe, aqui a utilizo em homenagem ao ministro. Estão presentes editores, escritores, artistas: José Olympio, Carlos Drummond, Augusto Frederico Schmidt, Lúcia Miguel Pereira, Otávio Tarquínio de Souza, Samuel Wainer, Valdemar Cavalcanti, Moacyr Werneck de Castro, o que há de mais representativo na vida literária do Rio.

Na cabeceira da mesa, em meio à conversa — conta-me no dia seguinte o velho Graça —, Capanema lhe pergunta: "E o Jorge Amado, que é feito dele? Por onde anda?" — sou uma espécie de assombração. "O Jorge está aqui, sentado defronte de nos, saiu ontem da cadeia" — responde o romancista e me aponta com o dedo. Ministro da Educação do Estado Novo, Gustavo Capanema é um liberal, estranho em meio aos dutras e aos góis monteiros. Acena para mim, contente de me ver em liberdade.

Terminado o jantar Capanema aproxima-se, diz-me coisas amáveis, aproveito para lhe anunciar a posição dos comunistas de apoio a Getúlio e ao governo na luta contra o Eixo, no esforço de guerra, chegou a hora de marcharmos juntos, insinuo. O Ministro escuta com atenção, mas se abstém de comentários.

 

 

Lisboa, 1979.

O gourmet

 

Estamos saindo para o almoço no restaurante da Mimi, no Parque Mayer, Zélia chama-me a atenção: olhe quem está ali. Olho, vejo Gilberto Freyre reclinado num dos sofás do hall do Hotel Tivoli, a seu lado Madalena. Dirigimo-nos para eles.

Gilberto acaba de chegar da Espanha onde lhe renderam homenagens, recebeu um prêmio, se não me engano. Noto-o cansado, tomado pela gripe, está com baixo astral, a gripe derrota qualquer um. Na semana a seguir cumprirá compromissos em Portugal, novas homenagens, mas tem cinco dias seus, chegou sem avisar ninguém, os admiradores não sabem, nem os literatos nem os chatos, deseja aproveitar os cinco dias livres para repousar. Pede-nos reserva sobre sua presença na cidade.

Ligam-me a Gilberto Freyre estima e admiração, não fui vassalo de sua corte mas tive plena consciência da significação de Casagrande & senzala apenas publicado em 1933 e a proclamei aos quatro ventos: em suas páginas aprendemos por que e como somos brasileiros, mais que um livro foi uma revolução. Na cena política coincidimos e divergimos, jamais as divergências resultaram em desestima, levaram ao afastamento. Quando o Estado Novo o agrediu de forma estulta, sujou de infâmia os muros de Apipucos, Anísio Teixeira, Odorico e eu fizemos Gilberto vir à Bahia para receber a solidariedade dos intelectuais da terra, reunidos em torno do pernambucano para denunciar o terrorismo da ditadura. Por ocasião do lançamento do primeiro livro de Zélia, Anarquistas, Graças a Deus, Gilberto dedicou-lhe artigo consagrador, se já não me tivesse no bolso do colete, me teria comprado para sempre.

Tive a ver com a derradeira homenagem que recebeu em vida. Para organizar as "belles étrangères" dedicadas à literatura brasileira no Salon du Livre de Paris, veio ao Brasil, em 1977, um representante do Ministério da Cultura da França, Jean-Claude Terrac, procurou-me na Bahia para anunciar-me que do programa constavam homenagens a Carlos Drummond de Andrade e a mim, sessões solenes, franceses ilustres nos elogios. Respondi-lhe que só aceitaria se elas fossem estendidas a Gilberto, merecia tanto quanto Drummond, muito mais que eu. Assim aconteceu, Jean Duvignaud fez com autoridade e brilho a louvação da obra do mestre de Apipucos.

Quis saber onde íamos almoçar: a gripe o deixara com fastio, sem apetite, no entanto para combatê-la, evitar seqüelas, devia alimentar-se, organismo debilitado é pasto dos bacilos, onde pensávamos almoçar? Vamos à Mimi, dissemos, expliquei-lhe o Parque Mayer e o Restaurante Amadora, o encanto das três irmãs, Glória, Amadora, Mimi, a ementa caseira, a freguesia de gente de teatro e de imprensa, não figurava nos guias de turismo, mas que requinte de cozinha! Se desejam provar, venham conosco.

O fastio desapareceu assim Gilberto saboreou a primeira colher da acorda, seguiu-se o peixe, robalo cozido com couve e batatas, para equilibrar Glória pôs na mesa o frango corado com arroz de manteiga, Gilberto chamando a si entre suspiros, e os queijinhos frescos e os pastéis-de-nata e o arroz-doce para finalizar à portuguesa. Não está nos guias de turismo? Pois devia estar, protestou o mestre do Recife degustando o cálice de ginginha, oferta da casa.

Durante os cinco dias de anonimato em Lisboa, Gilberto e Madalena foram habitues do restaurante de Mimi no Parque Mayer. A gripe curou-se ao caldo verde, apetite devorador sucedeu ao fastio, que fastio pode resistir ao rim de porco assado na brasa, especialidade de Amadora? Que apetite não se abre de entrada às pataniscas de bacalhau servidas por Glória? Sem contar à sobremesa as recordações de Mimi, ex-corista do teatro de revista — ainda não perdeu a graça juvenil.

Nos cinco dias de ócio, de gourmandise, passados em Lisboa, Gilberto almoçou e jantou na Mimi, até que começasse a cumprir as obrigações da celebridade.

 

 

Rio de Janeiro, 1967.

Os doze

 

Guimarães Rosa e eu, após o julgamento do Prêmio Walmap, cujo júri fora constituído por ele, por Antônio Olinto* e por mim, levamos mais de um mês nos divertindo ao telefone com o pretexto de colocar de pé um Prêmio dos Mestres do Romance Brasileiro: júri para ninguém botar defeito, seria formado pelos doze maiores do atual romance brasileiro, decidira Rosa. O autor de Sagarana levava horas ao telefone, adorava: eu já era seu amigo íntimo de intermináveis telefonemas quando o conheci pessoalmente num almoço em casa de Miriam e Pedro Bloch**.

*Antônio Olinto, escritor.

**Pedro Bloch, escritor e médico, Miriam, sua mulher.

 

Rosa garante o apoio financeiro de um banco de Minas Gerais para dotação grandiosa a fazer de nosso Prêmio o mais cobiçado do país, apesar disso terminamos por desistir do empreendimento, pois não conseguimos alcançar a dúzia de mestres prevista para a composição do júri. Chegamos a oito concordâncias, começando, é claro e natural, pelos nossos nomes, o dele e o meu, não fôssemos nós os donos da idéia. Erico Veríssimo, Adonias Filho, Josué Montello, Campos de Carvalho, Dalcídio Jurandir, Dyonélio Machado, não conseguimos a difícil unanimidade de dois necessária aos outros quatro nomes.

Propus Marques Rebelo, o de Marafa e A estrela sobe, Rosa recusou: bom contista, romancista medíocre. Precisamos de uma mulher, disse eu, citando autora badalada. Rosa implacável: ruim demais, tente reler um romance dela, vai ver que não chegará ao fim, se fosse um júri de cronistas ainda vá. Assim gastávamos boa parte da manhã, passamos em revista a ficção nacional, não conseguimos os quatro mestres que nos faltavam.

O melhor mesmo é desistir, concluiu Rosa, conformado. Você já pensou na tempestade que iria desabar sobre nós quando descobrissem ter sido nossa a iniciativa e a escolha dos jurados? Já pensou na raiva dos que não estivessem colocados entre os doze? íamos ser arrastados na rua da amargura.

Abandonamos o projeto, mas não os telefonemas, o prazer da conversa matutina, conversa de sotaque quando vinham à tona nomes de certos confrades, notabilidades.

 

 

Rio de Janeiro, 1931.

A professora

 

Convidado pelos pais de Haroldo Aguinaga vou ao Teatro Municipal, companhia italiana monta a ópera de Carlos Gomes, Il Guarani. O médico ilustre agradece com o convite o exemplar de O País do Carnaval, recém-publicado, que eu lhe enviara com dedicatória, até então pensava que o amigo do filho estudante de direito era um vagabundo a mais a lhe filar a bóia. Somos cinco no camarote, o casal Aguinaga, uma senhora da alta, amiga da família, Haroldo e o penetra. Os pais nas cadeiras da frente, nas do meio a grã-fina e eu, ao fundo Haroldo.

Balzaquiana, tendo dobrado o cabo dos quarenta, mas em plena forma, feliz o Vice-Almirante da Marinha de Guerra que a tem de esposa, a grã-fina para mim é o ideal em matéria de mulher, ideal inaccessível, ai! Dela se evola perfume fino, aquele para o qual foi criado o adjetivo embriagador, penetra-me nas narinas, entontece-me, ajuda-me a suportar os dós-de-peito da prima-dona, Cecy obesa, de busto afrontoso, melenas loiras. Haroldo abandona o camarote, vai fumar no corredor.

Eis que sinto dedos a tocar-me o joelho, sobem pelas coxas, atingem a boa altura, os dedos suaves se estendem em mão que afaga, que cobre, segura, aperta. Volto do susto para o gozo incontido, me esporro, a senhora fita-me nos olhos, morde os lábios, deve estar gozando, penso enquanto inundo a cueca. De pé, ao fundo, de retorno à penumbra do camarote, Haroldo se diverte. Nas escadarias do teatro, apontando a convidada que embarca no automóvel dos Aguinaga, ele me aconselha.

— Vá em frente, Maria Vice-Almirante é maravilha, está doidinha por ti. Vais comer do bom e do melhor e ganhar pijamas de seda — por ora vamos os dois às criadas do Leme e de Copacabana.

Não demora uma semana e Maria Vice-Almirante se despe no Hotel Leblon onde, levado por ela, entro pela primeira vez. Deslumbra-me a juventude do corpo da balzaquiana, conservado em cremes e óleos, aspiro o perfume de fêmea, de mulher civilizada, os seios fartos, um corte de bisturi dá-lhe graça ao ventre, os pêlos ruivos da xoxota, flor, jóia exótica. Estende-se na cama, as mãos sob a nuca, espreguiça-se, toma de um cigarro, antes que o acenda atiro-me sobre ela, fauno, sátiro, machão, vou comê-la como ela nunca foi comida. Em dois lances a executo, tenho-a no pau desde a noite do teatro, saio dela em gala e em glória, todo eu canto vitória, espero expressões de regozijo, o louvor da tesão, tenho dezenove anos, julgo-me o maior.

Maria Vice-Almirante desata na gargalhada, olha para minha cara, para a estrovenga a meio mastro, quanto mais olha mais ri, dobra a gaitada, aponta-me com o dedo, riso incontrolável: fourire é o bom termo pois madame usa e abusa do francês. Eu a escuto rir, abobalhado, de súbito ridículo, tenho vontade de ir-me embora.

Por fim, a duras penas, ela se controla, toma de minha mão, faz-me deitar a seu lado, enfia os dedos sábios entre os pêlos de meu peito, toca-me os mamilos:

— Que machão, não é? Tolo! Que pensas que eu sou? Vim aqui para quê? Sou um objeto, um buraco de meter, ou uma mulher apaixonada? Tu não sabes nada, pobre ignorante. — O rosto de Maria Vice-Almirante se ilumina: — Melhor assim, vou te ensinar, ser tua professora, quando voltar para a Europa — o marido é adido naval em capital do Velho Mundo, mesmo se eu recordasse em qual eu não diria — te deixarei em ponto de bala. Para as outras, não me importa.

Cumpriu o prometido, o que sei de melhor nessa matéria aprendi com ela, fez-me doutor de borla e capelo, sou-lhe grato: de quando em quando sinto-lhe o odor de fêmea, revejo os seios de pegar e apertar, recordo o xibiu pequeno, os pêlos ruivos. Me educou.

 

Pensar pela própria cabeça custa caro, preço alto. Quem se decidir a fazê-lo será alvo do patrulhamento feroz das ideologias, as de direita e as de esquerda e as volúveis: há de tudo, e todas implacáveis. Ver-se-á acusado, xingado, caluniado, renegado, posto no pelourinho, crucificado. Ainda assim vale a pena, seja qual for o pagamento, será barato: a liberdade de pensar pela própria cabeça não tem preço que a pague.

 

 

Buenos Aires, 1942.

Convivência

 

Vou visitar Júlio de Mesquita Filho* para comunicar-lhe a decisão tomada na reunião de Montevidéu pelos exilados comunistas, ratificada na véspera em Buenos Aires: dado que o Brasil declarou guerra ao eixo nazi-fascista, colocou-se ao lado das Nações Unidas, nosso lugar, nosso posto de combate é na pátria, o tempo do exílio terminou, a nova tarefa é ajudar o governo no esforço de guerra. Recito meu relambório com convicção e jactância, Julinho Mesquita ouve-me com boa educação e ceticismo:

*Júlio de Mesquita Filho (1892/1969), diretor do jornal O Estado de S. Paulo.

 

— Vocês vão se entregar à polícia? É demais. Discutimos, cada vez que nos encontramos discutimos, mas ao cabo e ao fim chegamos a alguma concordância, mesmo pequena é valiosa. Não naquela vez da despedida.

— Gesto bonito, pode ser, mas tresloucado. — Julinho me fita com comiseração, profetiza: — Vocês ainda vão virar getulistas.

Não deu outra. A "linha justa" do Partido aprovada na Conferência da Mantiqueira iria nos conduzir à aliança com os queremistas, aos braços de Getúlio. Digo até breve, ele me pergunta se pode me ser útil, está às ordens, só falta puxar da carteira, agradeço, de nada necessito. Renovamos as expressões de estima, regresso a Montevidéu, a partida para o Brasil já tem data marcada.

Meu relacionamento com Júlio de Mesquita se iniciou em 1941 quando cheguei a Buenos Aires para escrever O Cavaleiro da Esperança e o Partido me deu a tarefa de tratar com os liberalóides, a gente de Armando Sales de Oliveira, a hora era de alianças na luta contra o fascismo e de convivência com os políticos que rotulávamos de liberais com menosprezo e desconfiança. De início apenas cordial, com o passar do tempo e a repetição dos encontros, o conhecimento se transformou em estima, deu lugar à amizade.

Julinho liderava o grupo de exilados que na Argentina combatiam o Estado Novo sob a orientação de Armando Sales, o ex-candidato à Presidência da República encontrava-se nos Estados Unidos. O Estado de S. Paulo fora desapropriado, o governo o chamara a si, de trincheira da liberdade passara a porta-voz da ditadura, Julinho se sentia ofendido e colérico. O Estadão mais que Patrimônio da família Mesquita, era patrimônio da democracia brasileira.

Entre nós se estabeleceu um clima de mútua confiança, a fidalguia do quatrocentão paulista venceu meu pé-atrás, durante cerca de dois anos de quando em quando discutíamos política, pesávamos nossos acordos e desacordos, estudávamos o que fazer juntos, eles e nós, não mais nos estranhávamos, deixamos de ser inimigos. Julinho acompanhou com interesse a pesquisa em que me empenhei para escrever a louvação do Cavaleiro da Esperança, recomendou-me livros, lembro-me de um deles, de autoria de Aureliano Leite de quem eu viria a ser colega na Constituinte. Levei para Julinho um dos primeiros exemplares da edição Claridad de La Vida de Luiz Carlos Prestes. O político e jornalista da Revolução Constitucionalista guardara admiração e afeto pela figura legendária de Prestes a quem tratava por Capitão — a patente do jovem oficial quando se revoltou em 1924. Um elo a mais a nos unir, a facilitar a convivência. Éramos homens de princípios os dois, mas não éramos nem intransigentes nem sectários. A diferença consistia em ser ele educado e eu um porra-louca, mas Julinho achava divertida minha insolência comunista.

 

 

Bahia, 1968.

O papagaio devasso

 

Na leitura de jornais brasileiros nos dias atuais, agrada-me o avanço da liberdade de linguagem, os palavrões deixaram de existir, quer dizer deixaram de ser considerados como tais. Os vocábulos ditos cabeludos já não passam de palavras normais, desaparecido o preconceito que os discriminava, a censura que os proibia.

Não era assim até há bem pouco tempo, a imprensa levava em conta a pudicícia dos leitores, a falsidade, a hipocrisia, mais ainda a reprovação de órgãos da sociedade, as restrições religiosas. Vejo em minha frente Odorico Tavares erguer os braços para fazer mais eloqüente o protesto contra a linguagem do cronista Guido Guerra, literato noviço que ele acolhera nas colunas respeitáveis do Diário de Notícias: esse sujeito quer fechar o meu jornal! Guido usara numa crônica a palavra porreta, expressão correntia na boca dos baianos, vetada nas páginas das gazetas.

Apesar dos esporros e ameaças — mando-o embora, este é um jornal sério — Guido persistia no uso e abuso de termos e locuções pouco católicas, ganhara o apelido de papagaio devasso pela crueza do estilo, fazia sucesso junto aos leitores. Esse imprudente aparecera com seu jeito canhoto nas rodas literárias, feio, despenteado, as calças ameaçando desabar, abria caminho a toque de caixa, a golpes de tacape, verve e ousadia. Eu acudira, nem sei por quê, a uma tarde de autógrafos, o dito cujo lançava seu primeiro livro, de crônicas. Apostei no neófito, acontece-me fazê-lo, não tenho tido motivo de arrependimento: poucas vezes dei a mão à palmatória, quase não errei nas previsões. Guido correspondeu à aposta, o cronista cresceu, dele nasceram o contista e o romancista: quando assina novo lançamento em livraria de Demê*, a fila se estende rua afora.

No Diário de Notícias o mundo vinha abaixo, Odorico anunciava a demissão do réprobo. Não demitia, não passava do esporro, dos gritos, das ameaças, Guido deixava o gabinete prometendo para não cumprir, o poeta Tavares cochichava: o bandido tem talento, as crônicas levam graça, até Gersina* gosta.

*Dmeval Chaves, livreiro.

*Gersina, mulher de Odorico Tavares.

 

 

Nova York, 1979.

Portinari

 

Em casa de Julie e Harry Belafonte jantamos em família: os pais de Julie, a irmã de Harry. Alfredo Machado está conosco. Harry me diz: depois do jantar quero te mostrar uma coisa, uma surpresa, vais gostar.

Encontramos os Belafonte nos quatro cantos do mundo. Com Georges Moustaki vamos jantar com eles em Paris, antes do concerto de Harry no Olympia, uma apoteose. Em companhia de Gregory Peck vamos, pelas ruas de Havana, os Belafonte e nós. Numa festa de iniciação em casa de santeria Zélia, presente com Julie e Harry, chama a atenção para o fato de que os iniciandos, iaôs de primeiro santo, são quase todos brancos. Em Cuba como no Brasil o candomblé deixou de ser seita de negros para tornar-religião popular onde as raças se confundem, por vezes as classes sociais. Na Bahia latifundiários, banqueiros e políticos freqüentam as casas de santo, em época de eleição os ebós se sucedem, os carregos de Exu, as mandingas de Xangô. Houve ultimamente sensível abertura nas restrições cubanas às crenças de origem fetichista. Quando em 1962 estivemos pela primeira vez na ilha de Fidel, a santeria era perseguida e proibida, agora é tolerada.

Harry Belafonte desembarca no Rio de Janeiro, os repórteres o aguardam no aeroporto, cercam-no, os microfones das rádios, as câmaras de televisão, ele os enfrenta, gozador:

— Que veio fazer no Brasil?

— Vim visitar meu amigo Jorge Amado.

— E que mais?

— Mais nada, acha pouco?

No dia de meu aniversário, invade-me o apartamento, traz de presente uma estatueta de gesso, medonhosa, roubada no hall do vizinho.

Harry Belafonte não é tão-somente o cantor famoso, o astro de cinema, é também um lutador pelos direitos dos homens, o combatente contra o apartheid, o amigo de Martin Luther King. Ao vê-lo comandando o programa comemorativo dos vinte anos do assassinato de King, recordo outro grande negro de quem fui igualmente amigo, Paul Robeson*. Têm os dois a mesma estatura, a mesma consciência, representam a dignidade do homem.

*Paul Robeson (1898/1976), cantor norte-americano.

 

Terminado o jantar, Harry e Julie nos levam ao quarto de dormir: sobre a cabeceira do leito, em lugar de honra, um óleo de Cândido Portinari, o picadeiro de um circo, desses bem pobrinhos que vão de cidadezinha em cidadezinha — os artistas, os assistentes, um cavalo azul.

— Comprei ontem numa galeria onde fui ver uma exposição de Leger. Estava no acervo, tarei por ele.

Lá fora é o inverno, a neve cobre o pavimento das ruas, no apartamento dos Belafonte reencontro, além do calor da amizade, a cor, a graça, a poesia do Brasil.

 

 

Tirana, 1950.

Sangue

 

Ismail Kadaré* se aproxima de mim na recepção oferecida pelo Presidente Mitterrand aos quarenta escritores estrangeiros convidados para a abertura do "Fureur du Livre", invenção de Jack Lang — também na relação os brasileiros Nélida Pinon e João Ubaldo Ribeiro, João não veio, desdenhou. O romancista albanês ouviu falar de visita minha à Albânia, mas não sabe a data.

*Ismail Kadaré, escritor albanês.

 

— Em 1950, faz disso mais de quarenta anos, você devia ser menino de calças curtas.

Fui a Tirana para o Congresso Albanês pela Paz, a Albânia me conquistou, a paisagem de olivais, o porto de mar no Adriático, não maior do que o de Ilhéus, o povo orgulhoso dos feitos ainda recentes na guerra contra Hitler e Mussolini, a pobreza e a esperança. A pequena capital, menor que Feira de Santana, em companhia de Wanda Jacubowska eu a percorri de ponta a ponta, na sola dos sapatos. Escrevi na época páginas líricas dando conta do meu entusiasmo. Conheci Enver Hodja, conversei com ele...

— Ele o recebeu? — admira-se Kadaré recordando-se da grandeza do tirano.

— Eu representava o Conselho Mundial da Paz — esclareço. Até que Hodja me deu uma colher de chá, prendeu-me a conversar por mais de uma hora, a contar glórias, a desvendar projetos, a enaltecer Stalin, mas, humanizando-se, recordou o médico Fuad Saad, de São Paulo, com quem dividira quarto de estudante em pensão pobre de Lyon (ou de Marseille?) quando bolsistas na França, os dois. Na despedida, de novo herói, manda recado para Prestes:

— Diga ao camarada Luiz Carlos para não esquecer que a Revolução para surtir efeito e se consolidar deve ser sangrenta. Sem correr muito sangue, nada feito.

 

Onde quer que esteja levo o Brasil comigo mas, ai de mim, não levo farinha de mandioca, sinto falta todos os dias, ao almoço e ao jantar.

 

 

Bahia, 1990.

O porquê das coisas

 

Meu neto Jorginho, filho de Rízia, aquela mãe!, caçula de João Jorge, às vésperas de completar seis anos, constata a coincidência de nomes, parece-lhe estranha, me interpela no desejo de entender o porquê:

— Vô, você também se chama Jorge — como eu?

 

 

Rio de Janeiro, 1979.

Contagem de votos

 

Pedro Costa* nos espera com Paloma na descida do navio, regressamos da Europa, Zélia e eu, me comunica que José Sarney é candidato à Academia Brasileira. Lastimo, mas não poderei lhe dar meu voto, já estou comprometido.

*Pedro Costa, arquiteto, genro de J. A.

 

Fui um dos que incentivaram Orígenes Lessa a se candidatar à vaga aberta com a morte de José Américo. Sou leitor e admirador do paulista, contista admirável, valorizo o espírito profissional, ainda tão raro no Brasil, que condiciona sua criação literária. Voto em Orígenes com alvoroço, poucos merecem como ele ocupar cadeira na Academia.

Também com satisfação votaria em José Sarney. Não o conhecia pessoalmente quando saiu a primeira edição do Norte das Águas, mandou-me um exemplar, li os contos, escrevi-lhe para dizer quanto estimara o livro. Encantou-me o conhecimento íntimo que revelava da vida popular da gente maranhense, ele a recriou numa escrita rica de invenção. Não fosse Orígenes o outro candidato, eu teria sido seu eleitor de cabresto.

Passada a eleição, Orígenes me contou que uma tia sua, bastante idosa, tendo ouvido a notícia pela televisão em Lençóis Paulista, telefonou-lhe para felicitá-lo pelo honroso segundo lugar: soubera pelo jornal das oito, segundo lugar não é para qualquer um. Quando, na eleição seguinte, Orígenes foi eleito, o sucesso do sobrinho já não lhe subiu à cabeça, acostumara-se.

Nas vésperas da eleição de Sarney, Josué Montello, cabo eleitoral imbatível, o apoio de Josué vale meia eleição, declarou a um repórter que seu candidato se elegeria com vinte e seis votos, pelo menos, vinte e seis eram certos, contados a dedo. Sarney foi eleito com vinte e dois, teriam bastado dezenove, o repórter cobrou a Josué os quatro que faltavam:

— Em eleição da Academia, para ter vinte e dois votos é preciso contar vinte e seis, absolutamente garantidos. Se contar vinte e dois a derrota é certa, não passará de dezessete.

 

 

Bahia, 1969.

O subversivo

 

A edição de James Amado das poesias completas de Gregório de Matos, edição da maior importância, seja pelo estudo de James que a completa, seja pelo interesse que criou em torno da obra e da personalidade do Boca do Inferno, apareceu em 1969. Primeira edição em sete volumes, inaugurou a editora Janaína, de vida curta e edições limitadas a Gregório e a Fagundes Varela, mereceu o apoio do escritor Luiz Viana Filho, então governador do Estado. A cooperação não passou em brancas nuvens: ajuda à cultura ou à subversão, quiseram saber as autoridades fardadas de Brasília, os generais apertaram o crânio, aperrearam a vida do Governador, já suspeito por escrever livros. As polícias paramilitares tiveram ordem de investigar sobre esse tal Gregório do Inferno, boca suja que insultava os donos do poder. A Inquisição, ontem e hoje, acabará um dia?

 

 

Bahia, 1982.

Os queijos

 

Para completar a manhã de trabalho, duro ofício de escrever livros, antes de sair para o almoço numa tasca de Cascais, qualquer delas é a melhor — redijo estes apontamentos no Estoril ensolarado, a primavera começou antes da data —, conto uma história de queijos franceses. Passou-se há alguns anos quando os editores Jean-Claude Lattès e Jean Rosenthal com as excelentíssimas esposas desembarcaram na Bahia pela primeira vez. Não tinham avisado dia e hora de chegada, desceram do avião de madrugada, pelo meio da manhã telefonaram, Zélia e eu nos tocamos para o hotel na pressa de abraçá-los.

Na portaria, à frente do grupo, Jean-Claude empunhava uma baguete de pão francês e uma garrafa de Château Chalon, vin jaune de minha preferência, pronunciou breve discurso. Os franceses quando visitam os amigos levam pão, vinho e queijo, assim o fazemos Françoise e Jean, Nicole e eu ao chegar à vossa casa, à Bahia. Aqui está o pão, entregou a baguete a Zélia, aqui está o vinho, estendeu-me a garrafa; quanto ao queijo aqui está ele, exibiu documento da alfândega, o camembert, o roquefort, o brie e o chèvre tinham sido apreendidos — é proibida a entrada de queijos no Brasil.

Não adiantou Jean-Claude dizer ao fiscal que le plateau de fromages me era destinado. Gentil, porém insubornável, o funcionário riu na cara do editor francês: já sabemos, todos os queijos que aqui apreendemos são destinados a Jorge Amado, todos, sem exceção.

 

 

Moscou, 1953.

Os seios de Valentina

 

Ilya Eremburg aproveita a sessão do Bureau do Conselho Mundial da Paz para reunir em torno de Kuo-Mo-Jo amigos soviéticos e estrangeiros, uma dúzia de pessoas. Kuo-Mo-Jo, sábio chinês de fama mundial, na Ásia seu nome é uma legenda, trata-se do único lingüista que conhece cinqüenta mil ideogramas, para ler um jornal basta conhecer três mil, um professor universitário sabe sete, um erudito dez mil. Duas vezes ministro de Chang Kai-Chek, representando os comunistas nas alianças com o líder nacionalista, membro do Bureau Político do Partido Comunista que quatro anos antes, em 1949, assumira o poder e proclamara a República Popular da China, da qual é vice-presidente, vice-presidente também do Conselho Mundial da Paz e do Júri do Prêmio Internacional Stalin, eis alguns dos muitíssimos títulos que Kuo-Mo-Jo ostenta ou melhor não ostenta, pois é homem simples, sem arrogância, de trato amável e extrema simpatia. Uma das figuras mais notáveis do mundo socialista, um dos líderes mais respeitados do movimento comunista internacional, anda pelos sessenta anos, não aparenta a idade, chinês não tem idade.

Na sala do apartamento, a mesa baixa e longa na fartura dos comes e bebes: peixes defumados, caviar, salmão, as frutas, a vodca, o conhaque, os vinhos da Geórgia e da Moldávia. Nos dois lados da mesa e nas cabeceiras estamos sentados Konstantin Fedin, Konstantin Simonov, Podovkine, os franceses Pierre Cot e Vercors, o romeno Mihail Sadoveanu, o italiano Pietro Nenni* e o casal brasileiro. Simonov trouxe a esposa, célebre atriz de teatro, elegantérrima, de beleza cantada em prosa e verso, beleza eslava: os seios pródigos, alvos de leite, saltam do decote generoso, visão fatal. Chama-se Valentina Ferova, para ela Simonov escreveu um livro de poemas de amor, sensuais, quase eróticos, que mereceu a reprovação de Stalin: por que as editoras gastam dinheiro na publicação de livros dessa espécie? Com o quê foi para o pau toda a poesia de amor da União Soviética, a começar pela de Maiakowski. Mulher famosa, como se vê, a sublime Valentina: quando morreu, de há muito separada de Simonov, ele compareceu ao velório, depôs junto ao esquife mil cravos vermelhos em memória, mil, nenhum a menos.

*Fedin, Simonov, Podovkine, escritores e cineasta soviéticos; Vercors, escritor francês, Pierre Cot e Pietro Nenni, políticos francês e italiano; Sadoveanu, escritor romeno.

 

Sentado em frente à bela, ausente da conversa que rola em francês e ele não fala nenhuma língua ocidental, fala dezoito do oriente, ademais mandara Liu, seu intérprete, esperar na ante-sala, Kuo-Mo-Jo dedica-se a fitar o decote do vestido de gala de Valentina, os olhos presos aos seios fornidos, deslumbrantes mananciais. Cego para tudo o mais, esvaziava por boa educação o cálice de vodca colocado em sua frente. Para livrar-se, bebia-o de um trago, Lluba*, dona-de-casa atenta, voltava a enchê-lo, ele a emborcá-lo.

*Lluba, mulher de Ilya Eremburg.

 

Na China, é bom que se repita, os seios das mulheres, zona erógena por excelência, são o que existe de mais sagrado, sempre escondidos, desde cedo sujeitos à pressão das faixas de panos que os impedem de crescer, seios pequenos das chinesas, ocultos, tabu absoluto. Seios monumentais de Valentina, praticamente à mostra, os olhos do preclaro dirigente, do insigne homem de estado, plantados, fixos, nas mamas voluptuosas.

Distantes do drama, nós discutíamos literatura, arte, cinema, acalorados, só nos demos conta da catástrofe — será a palavra exata? — quando o absurdo aconteceu: Kuo-Mo-Jo, na aparência inteiro, apesar de toda a vodca que consumira, o rosto impassível, sem tirar os olhos das tetas russas, ubérrimas, teatrais, levantou-se, deu a volta à mesa, parou diante da senhora Simonov, adiantou as duas mãos e com elas tomou-lhe dos seios, nelas os prendeu, dava a impressão que para sempre.

Ali, diante de nós, estarrecidos, Kuo-Mo-Jo, vice-presidente múltiplo, comunista histórico, o maior sábio da Ásia, eminência, as duas mãos no decote do vestido de Valentina Ferova Simonov, uma no seio direito, outra no esquerdo, a segurar, no rosto imóvel estampada a felicidade suprema. Imobilidade assim total, nós, Paralisados, sem fala, silêncio igual nunca se vira desde o começo do mundo, não se voltará a ver. Olhávamos embasbacados, emudecidos, estátuas de pedra.

Liu, que não perdia seu chefe de vista, veio da saleta e o tomou pelos cotovelos, com firme delicadeza o afastou e o conduziu para o elevador. Ilya e Lluba, restituídos à vida, foram despedi-lo. Na sala a discussão, literatura, arte, cinema, recomeçou onde se interrompera, se perdera o interesse, ninguém deixava ver: era como se o acontecido não tivesse havido. Desde essa noite de espanto passei a devotar ainda maior estima a Kuo-Mo-Jo.

 

 

Bahia, 1978.

Dólares à mão cheia

 

Luiz Carlos Barreto, pai e mãe do atual cinema brasileiro, telefona-me do Rio, virá à Bahia para tratar de importante assunto de nosso mútuo interesse, marca encontro. Sou amigo de Luiz Carlos de muito antigamente, de seus tempos de repórter fotográfico — excelente fotógrafo — em O Cruzeiro, gosto da família toda, de Lucy, de Bruno, de Fábio, de Paula, do craque Cláudio Adão* e de dona Lucíola, rainha-mãe, poderosa. Luiz Carlos produziu o filme adaptado de Dona Flor e seus Dois Maridos dirigido por Bruno, sucesso mundial.

*Cláudio Adão, jogador de futebol.

 

Chega no início da tarde, abanca-se, tira o paletó, atira-me a proposta que ele considera irrecusável, jamais se viu coisa semelhante no cinema nacional, cairei de costas, em delírio de grandeza assinarei:

— Venho te oferecer um contrato de quinhentos mil dólares pelos direitos de cinema de Tieta... — repete: — quinhentos mil dólares. — O livro Tieta do Agreste, êxito nas livrarias, o filme Dona Flor, êxito nos cinemas.

Fita-me, estira as pernas, acende o charuto, sorriso de vitória na cara simpática de nordestino. Sorrio também, toco-lhe no joelho:

— Meio milhão de dólares, Luiz?

Puxa fumaça do charuto, executivo displicente, habituado ao trato de somas fabulosas, aos royalties incríveis, produtor de Hollywood e cercanias:

— Isso! Meio milhão...

— Meio milhão! E tens coragem de dizer que és meu amigo...

— E sou, não é de hoje.

— Dizes que és meu amigo e vens me fazer proposta dessa ordem, proposta de inimigo...

— Hein?

— Tu queres, Luiz, que eu passe o resto de minha vida a te cobrar esse dinheirão, tu a me enrolares até que eu morra de cansaço e de desgosto sem ter recebido sequer um dolarzinho de amostra. Não, tu não és meu amigo, Luiz.

Luiz Carlos se dá conta, o sorriso finório de executivo se dobra em boa gargalhada cearense. Sirvo-lhe uísque, conversamos à la godaça, tarde de amigos, Luiz Carlos demora-se até a hora de ir para o aeroporto, Aurélio vai levá-lo. Na porta, os braços estendidos para a despedida:

— Quer dizer que não aceitas?

Esta foi a primeira peripécia de Tieta no cinema, existiram outras, nenhuma tão generosa em matéria de dólares à mão cheia.

 

 

Bahia, 1966.

Mãe senhora

 

Na madrugada o telefone me desperta, a voz em lágrimas de Stela de Oxóssi, minha irmã de santo, quase não pode falar:

— Meu irmão, nossa Mãe morreu...

Era domingo, por acaso sou o único obá que se encontra na cidade, devo assumir sozinho os encargos da morte de mãe Senhora, a soberana. No axé reinam o desespero e a confusão, a iyakekerê, Ondina, a desafeta, que só aparece uma vez por ano na festa de Xangô, está presente, as rivais se olham de través, palavras de sotaque em meio ao pranto, a guerra dos santos pela sucessão já começou, devo decidir o que fazer, não penso tomar partido, se bem Stela seja minha irmã e candidata.

— Esta mulher não pode tocar na cabeça de minha mãe! São quatro horas da manhã, vou ao Gantois buscar mãe

Menininha, irmã-de-santo da morta, ambas de Oxum, única de seu porte, para que tome da navalha e venha retirar o oxu da cabeça de Senhora, libertar o egun. Menininha, Creusa, Carmem, as ebonins e as iaôs arrancam os cabelos, rojam-se no chão. Volto ao Opô Afonjá trazendo mãe Menininha, encontro Mário Obá Telá*, abraço-o aliviado, agora somos dois a providenciar e resolver. Menininha entra no quarto onde está o corpo, descobre a cabeça de Senhora, ergue a navalha.

*Mário Bastos, remendão de sapatos.

 

A notícia invade a cidade e a comove. O enterro sai no fim da tarde da Igreja do Rosário dos Negros, no Pelourinho, se estende pelas ruas, cortejo imenso no caminho do Cemitério das Quintas. Imenso e lento, enterro nagô: dois passos à frente, um atrás, o canto do axexê cobre o choro no adeus à iyalorixá que mandava e desmandava.

O babalaô Nezinho* recebe a notícia pelo rádio em seu Ilê em Muritiba, vem correndo para alcançar o enterro: depositário da confiança de Senhora, sentava à sua direita no terreiro. No rosto o espanto, não entende o que se passou.

*Manoel Cerqueira Amorim (1902/ 1973), babalaô.

 

— Eu sabia que a morte fora decretada, mas não era a Mãe quem devia morrer, não era ela que os encantados haviam condenado. Só tem uma explicação: para salvar o ente querido, ela trocou de cabeça, enganou o santo.

Na véspera à tarde eu levara um médico, Menandro Novais, a ver Senhora que sofria, ele a encontrou cansada, agoniada, recomendou repouso. Mais que enferma, desesperada. Sabia que a morte ia golpear, não lhe restou outra solução, trocou as cabeças, conclui Nezinho, dois passos à frente, um atrás.

Não me peçam para explicar o que significa a troca de cabeças, são coisas da Bahia, quem sabe sabe.

 

 

Moscou, 1957. Paris, 1990.

Poesia

 

Talvez devido à praga da declamação, epidêmica no Brasil dos anos trinta, a poesia para mim ficou restrita à leitura, quando muito a dois: ler poesia de amor com a namorada a meia-voz é prazer insólito. Dá gosto ver em Moscou, no Parque Gorki, jovens casais a curtir Puskin e Iessenine, as cabeças encostadas, mãos entrelaçadas nas páginas de um livro. Fugi das declamadoras como da peste amarela, devo no entanto confessar que por mais de uma vez me emocionei ao ouvir dizer poesia. Não faz muito, em Paris, na Sorbonne, Zélia e eu, em companhia de Alice Raillard*, ouvimos Maria de Jesus Barroso* declamar grandes vates portugueses: Camilo Peçanha, Mário de Sá-Carneiro, José Régio, Fernando Pessoa. Isenta de qualquer grandiloqüência, a atriz vive cada estrofe, nos envolve em poesia, límpida nascente de emoção. A língua portuguesa na pronúncia de Maria de Jesus tem o acento da eternidade, a poesia me invade, me penetra, corre em meu sangue, bate em meus ossos.

*Alice Raillard, tradutora francesa.

*Maria de Jesus Barroso, atriz portuguesa, mulher do Presidente Mário Soares.

 

Outra vez foi em Moscou, vai mais distante. Eram os tempos da abertura de Kruchev, no Teatro de Sátira davam uma peça sobre Maiakowski, a vida do poeta contada através de seus poemas. O texto da peça era composto somente com versos de Maiakowski e com as acusações feitas à sua poesia pelos críticos ideólogos — críticos e ideólogos defecavam insultos e catilinárias de duas latrinas situadas no alto do cenário, crítica latrinária, o asco. No palco quatro atores viviam quatro diferentes Maiakowski: o revolucionário, o amante, o surrealista, qual o quarto? Ou seriam apenas três?

Não falo nem entendo a língua russa, mas a força tão profunda da poesia mexeu com minhas tripas, comovi-me quase às lágrimas. Jamais esquecerei o momento em que Maiakowski suicida penetrou no palco para se dar à morte: entrou declamando o poema com que inculpou Iessenine por se ter suicidado. Arrepiado ouvi.

 

Dediquei boa parte de minha vida a desancar o imperialismo norte-americano, mal dos males, horror dos horrores, bête noire, vilão do filme, responsável pelas desgraças do mundo, peste, fome e guerra, as tiranias, a ameaça atômica — repeti com afinco e ênfase todas as frases-feitas do discurso de esquerda.

Em meio à demagogia, verdades a granel: o desmascaramento, a denúncia da tentativa de domínio econômico e político, dos golpes militares em nossas pátrias da América Latina, ditaduras e ditadores feitos nas coxas dos embaixadores ianques, os Pinochets, os Videlas, a Redentora de 1964. Não me arrependo da artilharia gasta em artigos e discursos, pronunciamentos para desmascarar a impostura, denunciar a agressão, a face do imperialismo é mesquinha e sangrenta.

Repito contudo a dois por três que os bens materiais mais valiosos que possuo, eu os devo ao imperialismo, pilhéria de gosto duvidoso ao ver dos puritanos. Em verdade eu os devo a meu trabalho — ao meu e ao de Zélia, não distingo nem separo: a casa do Rio Vermelho, na Bahia, a mansarda sobre o Sena, no Marais, em Paris.

Em 1962 a Metro-Goldwyn-Mayer comprou-me os direitos cinematográficos de Gabriela — a tradução editada por Alfred Knopf figurava nas listas de best-sellers das gazetas de Nova York e de Los Angeles, pagou-me preço barato, eu era então muito pouco divulgado naquelas bandas. Para mim um dinheirão, ainda por cima em dólares, senti-me rico. A Metro demorou mais de vinte anos para realizar o filme, por duas vezes busquei recomprar os direitos, na segunda tentativa ofereci o dobro do que recebera, por duas vezes a Metro recusou em cartas idênticas: não pensamos nos desfazer dessa nossa mercadoria — mercadoria, a palavra usada.

Com os dólares imperialistas do cinema de Hollywood pude realizar o sonho de ter uma casa na Bahia. Planejada e construída com amor por Gilberbert Chaves, na época jovem arquiteto, colocado hoje entre os maiores, para torná-la singular, além do talento e da perícia de Gilberbert contribuíram artistas da Bahia e dos arredores: Carybé, Mário Cravo, Lew Smarchevski, Genaro de Carvalho, Jenner Augusto, Hansen Bahia, Calasans Neto, Tati Moreno, Udo Knoff, Chico Brenand, Aldemir Martins, o ceramista José Franco, de Portugal. Portas, grades, placas de cerâmica, azulejos, esculturas, sem falar nos óleos, desenhos, gravuras, peças de artesanato — precisaria vender à empresa ianque os direitos de cinema de outro livro se devesse pagar as doações, as dádivas.

Lew Smarchevski, pintor, arquiteto, mestre de saveiro, navegador, industrial, baiano de Odessa, desenhou e realizou os móveis; o artesão Manu, do candomblé do Gantois, forjou as armas de Oxóssi que dominam a construção e o Exu que guarda e protege a casa. A mando de mãe Senhora, mestre Didi* implantou o fundamento, cavucou a terra e nela ocultou o axé aos pés do Compadre, o Exu da potente estrovenga. Zélia e eu plantamos as árvores do jardim, uma a uma, à exceção dos sapotizeiros centenários e da muda de manga-carlota: junto às suas raízes, onde estão os bancos de azulejos, quero ser enterrado quando chegar o dia — aproveito a chance e aqui deixo esse rogo para que os meus o cumpram.

*Deoscóredes Maximiliano dos Santos, filho de Mãe Senhora, personalidade das religiões afro-brasileiras.

 

Em 1985 a editora Bantam, de Nova York, pagou-me adiantamento relevante pelos direitos de tradução de Tocaia Grande, o preço desabitual mereceu comentário do New York Times, possibilitou-me a realização de outro sonho: um pied-à-terre em Paris. Descontados os impostos e a comissão do agente, os cobres da Bantam, somados ao pé-de-meia de Zélia, suas economias, deram na exata para pagar a mansarda do Quai des Celestins: da janela vemos o Sena, a Notre Dame, a Torre Eiffel e na ilha de Saint Louis, bem defronte, o apartamento de Georges Moustaki*.

*Georges Moustaki, cantor e compositor grego.

 

 

Curitiba, 1941.

Paixão

 

Maria a Chinesa desembarca com armas e bagagens na cama do hotel de Curitiba, aproveitamos cada minuto da noite de esponsais, agora e sempre, ai eu ladrão!

 

 

Buenos Aires, 1942.

Separação

 

Maria a Chinesa arrecada armas e bagagens, amanhã irá embora, aproveitamos cada minuto da noite de despedida, agora e nunca mais, ai eu ladrão!

 

 

Rio de Janeiro, 1946.

Liberdade religiosa

 

Em janeiro de 1946 tomei posse na Câmara Federal de Deputados da cadeira para a qual fora designado pelos votos dos eleitores de São Paulo. Assumira com Prestes o compromisso de exercer o mandato durante três meses, voltando em seguida a meu trabalho de escritor. Fiquei dois anos, até que, num dia de janeiro de 1948, fomos expulsos do Parlamento, eu e meus companheiros de bancada.

Dia triste, de derrota política, a batalha pelos mandatos durara meses, árdua e áspera —, batalha perdida, sabíamos desde o começo. Dia alegre, pois me livrei do fardo da deputação, não nasci para parlamentar, sou refratário às tribunas e aos discursos, só amo fazer o que me dá alegria, o que me diverte. Custou-me esforço colocar-me à altura do mandato, creio que não fui de todo mau deputado, apesar de minhas limitações e das decorrentes da suspeição que cercava a bancada comunista e do sectarismo que dirigia sua atuação. Fiz o possível, tarefa difícil e chata.

Se de algo me envaideço quando penso nos dois anos que Perdi no Parlamento é da emenda que apresentei ao Projeto de Constituição — Senado e Câmara reunidos em Assembléia Constituinte, discutimos e votamos a Constituição de 1946 —, emenda que, vitoriosa, mantida até hoje veio garantir a liberdade de crença no Brasil*.

*Inciso 6o do artigo 5º da atual Constituição.

 

A República, ao ser proclamada, decretara a separação entre o Estado e a Igreja — a Católica Romana —, mas a liberdade religiosa que dela devia decorrer não passara do papel, uma farsa. Colocada por inteiro — a teologia da libertação ainda não existia — a serviço da riqueza e do obscurantismo dos senhores de terras e do poder, a Igreja Católica conservou todos os privilégios, todas as regalias. Dinheiro farto dos cofres do Estado para os "colégios de padre", subsídios de todo tipo, consideração oficial, absoluta: o Senhor Bispo mandava e desmandava, os Governadores beijavam-lhe reverentes o anel episcopal. As demais religiões, cristãs ou não, comiam o pão que o diabo amassou. Para as apelações protestantes, as tendas espíritas, os cultos populares de origem africana restavam a discriminação, as restrições de todo tipo, a perseguição policial.

Em 1946 andei pelo interior do Ceará em campanha eleitoral, Zélia à minha ilharga, vimos coisas de pôr o cabelo em pé; templos protestantes saqueados, incendiados por massas de fanáticos enfurecidos sob o comando de sacerdotes católicos, a cruz erguida em guerra, aos gritos de Viva Cristo Rei. Os mesmos fanáticos capitaneados pelos mesmos padres que destruíram em poucos minutos o palanque de onde devíamos falar, Zélia e eu, em comício que não conseguimos realizar. Escapamos com vida por entre ameaças de beatas desvairadas e facas de sangrar porcos exibidas por jagunços, nunca vi a morte tão de perto. Zélia recebeu uns empurrões de velhas carolas, quis reagir, temi o pior, por sorte conseguimos embarcar num caminhão e partir em disparada. Liberdade, nem religiosa nem política.

Se protestantes e espíritas passavam maus pedaços, das religiões afro-brasileiras nem falar. Desde mocinho, rapazola cursando a vida popular baiana, inclusive nas casas-de-santo, nos terreiros de candomblé, com Edison Carneiro, Artur Ramos*, Aydano do Couto Ferraz**, foi-me dado testemunhar a violência desmedida com que os poderes do Estado e da Igreja tentaram aniquilar os valores culturais provenientes de África. Buscavam exterminar tradições, costumes, línguas tribais, os deuses, eliminar por completo as crenças da gente mais pobre e mais sofrida.

*Artur Ramos (1903/1954), antropólogo.

**Aydano do Couto Ferraz (1914/ 1989), jornalista.

 

Menino de quatorze anos comecei a trabalhar em jornal, a freqüentar os terreiros, as feiras, os mercados, o cais dos saveiros, logo me alistei soldado na luta travada pelo povo dos candomblés contra a discriminação religiosa, a perseguição aos orixás, a violência desencadeada contra pais e mães-de-santo, iaôs, ekedes, ogans, babalaôs, obás. Não vou me demorar no que me foi dado ver, os lugares sagrados invadidos e destruídos, iyalorixás e babalorixás presos, espancados, humilhados, nunca esquecerei de pai Procópio, as costas em sangue, resultado da surra de chicote no xadrez. Tais misérias e a grandeza do povo da Bahia são a matéria-prima de meus romances, que os leia quem quiser saber como as coisas se passaram. A emenda da liberdade religiosa custou-me trabalho e astúcia. A astúcia de não colocar o assunto diante da bancada ou em reunião do Bureau Político, de levá-lo diretamente a Prestes, chefe inconteste, talvez por isso mesmo menos sectário, mais aberto que os outros dirigentes. Aproveitei a vinda ao Rio de Giocondo*, figura respeitada — comandante militar da revolta de Natal, em 1935, condenado a dez anos de prisão, vivera com nome falso até a anistia, militante provado, homem decente — para em sua companhia ir conversar com Prestes. Familiar do problema, Giocondo o expôs em todos os detalhes, chamando a atenção do secretário-geral para os dividendos que o Partido poderia obter junto ao povo se tomasse a si a defesa das religiões populares; assim conseguimos o aval do dirigente máximo para a emenda. Se eu a houvesse levado à bancada ou ao conjunto da direção, jamais teria obtido autorização para apresentá-la: sendo a religião o ópio do povo, droga ainda pior era o candomblé, barbaria primitiva, incompatível com o socialismo, nossa meta. Quanto a mim, na opinião de vários camaradas, escritor imoral, não passava de pequeno-burguês portador de sérios desvios ideológicos. Armado com o aval do Cavaleiro da Esperança, comecei por acusar as assinaturas dos componentes da bancada, nem sequer Prestes, senador pelo Distrito Federal, a assinou. De comunista apenas eu, mais fácil fazê-la tramitar como projeto de intelectual conhecido, ligado às seitas afro-brasileiras, bem-visto apesar de comuna. Fosse da bancada a emenda nasceria morta.

*Giocondo Dias (1913/1987) foi secretário-geral do PCB.

 

O exercício do mandato pela bancada comunista tornara-se cada vez mais difícil à proporção que o clima democrático resultante da vitória das Nações Unidas sobre o nazismo cedia lugar às discórdias da guerra fria. Os deputados dos demais partidos nos olhavam com olhos de suspeita, quando não de repulsa. Qualquer emenda ou projeto da bancada via-se rejeitado in limine. O que estará por detrás disso? perguntavam-se senadores e deputados do PSD, da UDN, do PTB ou do PST, descobriam na proposição mais inocente o famigerado dedo de Moscou. As gerações atuais não sabem o que significavam o dedo e o olho de Moscou: estavam em toda a parte ameaçando a sociedade estabelecida, a religião, a moral, os bons costumes, a família brasileira. Havia também o ouro de Moscou, mas essa já é outra história.

Emenda batida a máquina, eu a assinei e fui em busca de Luiz Viana Filho, baiano e escritor, autor de livro sobre O Negro no Brasil, deputado pela UDN, submeti-lhe o texto da emenda, convidei-o a assiná-la, baiano e escritor ele a assinou. Fiquei à espreita de Gilberto Freyre, deputado por Pernambuco (pela Esquerda Democrática, creio), o mestre de Apipucos não comparecia a todas as sessões, não dava tamanha confiança à Assembléia, quando subia à tribuna o plenário se enchia, as galerias ficavam repletas, os jornalistas agitavam-se indóceis, Otto Lara Resende deve se lembrar. Mal o vi, seqüestrei-o dos admiradores, levei-o a um canto, mostrei-lhe a emenda — os xangós do Recife vão poder dançar em paz —, ele colocou-lhe o valioso autógrafo, comentou em voz baixa, o sorriso sedutor: por que não pensei nisso? Assim andei de bancada em bancada, de deputado a deputado, de Otávio Mangabeira a Milton Campos, de Hermes Lima a Café Filho, de Nestor Duarte a Vargas Neto, obtive para mais de oitenta assinaturas, o apoio de Cirilo Júnior e o de Prado Kelly, líderes do PSD e da UDN. Com a aprovação da emenda, a liberdade religiosa foi inscrita na Constituição, tornou-se lei.

Essa a minha contribuição para a Constituição Democrática de 1946. Transformada em artigo de lei a emenda funcionou, a perseguição aos protestantes, a violação de seus templos, das tendas espíritas, a violência contra o candomblé e a umbanda tornaram-se coisas do passado. Para algo serviu minha eleição, a pena de cadeia que cumpri no Palácio Tiradentes, constituinte apagado, deputado de pouca valia.

 

 

Rio de Janeiro, 1932.

Cobra Norato

 

Do oceano Índico onde navega num maru qualquer no rumo do Japão, Raul Bopp me envia os originais dos poemas que escreve a bordo margeando a costa da África: ninguém mais convicto da negritude brasileira do que o poeta gaúcho descendente de alemães.

Andejo, Bopp trilhou os caminhos do mundo, os mais longos foram os da Amazônia, ele a entendeu e amou, do encontro com o rio e a selva nasceu o poema brasileiro por excelência, nada maior nos deu o modernismo, intitula-se Cobra Norato. Os poemas negros, a Ariel os editou, reunidos sob o título de Urucungo, com capa de Santa Rosa, a primeira que o paraibano desenhou no Rio.

Juntos com Carlos Echenique alugamos casa em Ipanema — em 1932 o bairro apenas começava a se erguer sobre as areias — para nela residir e receber senhoras de nossas relações, não demorou vivia tanta gente, tanta, na sala e nos dois quartos que Raul teve de mudar-se para um quarto do outro lado da rua. Ficamos amigos no dia em que nos conhecemos e o fomos até o fim de sua vida.

Cônsul no Japão, na viagem dos poemas ia assumir o consulado, revelou-se o mais eficiente diplomata, terminou embaixador também de extrema competência. A obra que imortalizou seu nome, Cobra Norato, data de antes, dos idos da antropofagia. Por volta dos anos sessenta, publicou-se uma edição fora de comércio, a norato ilustrada com gravuras de Oswaldo Goeldi, o que se pode denominar de ouro sobre o azul.

 

 

Rio de Janeiro, 1971.

Casamento

 

Uma fotografia mostra-me entrando na Igreja de São Bento, arrastando Paloma pela mão, vê-se na foto, entre outros amigos, Eduardo Portella, José Mauro Gonçalves, Carlos Ribeiro e Antônio Houaiss. Atravessamos a porta do templo na hora marcada, dez horas em ponto, nunca se viu coisa igual em casamento de certa relevância: unem-se famílias de dois beletristas conhecidos, de presença significativa na vida cultural. Pedro vem correndo para o altar, encontrava-se no confessionário, na sacristia. Aprendi a pontualidade nos anos vividos na Europa, no Brasil hábito infeliz, sou o único brasileiro pontual, o que me causa os maiores embaraços. Será que desta vez não estou exagerando? Paloma ainda retoca o cabelo, eu já me encontro na porta do elevador. Quem sabe o faço para deixar claro que não vou me dobrar aos costumes da família Costa, de impontualidade legendária, contam-se histórias, algumas hilariantes. Paloma casa-se com Pedro, filho de Nazareth e Odylo Costa, filho.

A cerimônia é presidida por dom Timóteo* que chegou expressamente da Bahia. Figura admirável, de rara sensibilidade, distante do habitual dogmatismo católico, tão habitual e estreito quanto o comunista, dom Timóteo é subversivo capitão das hostes da resistência à ditadura militar reunidas em torno de dom Hélder Câmara, Arcebispo de Recife e Olinda, que, nos embates da vida, evoluiu de posições de direita para alianças de esquerda.

*Dom Timóteo Amoroso Anastácio, monge beneditino, abade do Mosteiro de São Bento, na Bahia.

 

Casamento ecumênico, o noivo católico praticante, de família tradicionalmente católica, sobre Odylo li, em artigo de crítico respeitado, tratar-se de poeta católico, a classificação pareceu-me limitadora de uma poesia que se eleva acima de tais contingências ideológicas; a noiva filha de pais ateus, criada à margem de qualquer religião — inclusive das religiões populares, de origem africana, apesar do pai ser obá de Xangô. A esse casamento ecumênico dom Timóteo empresta a graça mágica da poesia, a ternura da amizade, usa palavras simples para falar da vida e do amor, não consigo defender-me da emoção.

Não posso tampouco deixar de sentir certa inquietação, certo temor: conseguirá Paloma adaptar-se à nova família, de usos e costumes tão diferentes dos nossos? Observo o casal diante do monge, atento às palavras sábias e belas. Pedro, menino delicado e frágil, perfil de jovem erudito, devorador de livros, será capaz de mastigar a vida? Por vezes eu o estranho, sogro por demais grosso para genro de natureza tão sensível, timidez e orgulho. Será Paloma capaz de resistir às dificuldades do dia-a-dia, aos azares e crueldades da vida, da vida e do convívio, às crueldades do amor? Conseguirá atravessar as grandes tormentas e as pequenas misérias? Conseguirá relacionar-se bem com os sogros, com as cunhadas, com os cunhados? Espero que sim, Paloma se parece comigo, tanto, somos iguais em quase tudo. Diferente de João, filho de sua mãe Zélia, a bondade em pessoa, a aceitação da vida, a tranqüila segurança, a alegria tranqüila. Eu e Paloma somos mais complicados, menos bondosos, menos generosos do que Zélia e João, somos mais egoístas, mais rudes. Em troca possuímos certa malícia, certa flexibilidade, conseguimos contornar os impulsos que podem levar à incompreensão, conduzir ao desastre. Pensando em mim próprio e em minha vida em companhia de Zélia, concedo um voto de confiança a Paloma.

 

 

Rio de Janeiro, 1971.

A agnóstica

 

Após o casamento de Paloma, no automóvel — vamos da igreja dos beneditinos para o almoço em casa de Odylo, em Santa Teresa —, Lalu*, toda nos trinques, reclama do sermão de dom Timóteo Amoroso, a seu ver discriminatório em relação à neta:

*Lalu, apelido de Eulália Leal Amado, mãe de J. A.

 

— Toda hora atirava na cara da menina que ela não é católica, que não foi batizada...

— Casamento ecumênico, minha mãe, de um católico com uma não-católica... Dom Timóteo não estava ofendendo Paloma...

— Nem por se tratar desses modernismos, o frade não precisava contar que Paloma não é católica, botar na boca do mundo... A pobrezinha ali, ouvindo... Também tu e Zélia que necessidade tinham de espalhar que ela não é católica?

E Lalu, seria ela católica? Batizada, com certeza, mas de religião fraca. Tirante as promessas a Santo Antônio, o das coisas desaparecidas e achadas, a quem ela tratava de Tonho, com intimidade, não lhe sobrava crença para a sobremesa. Céptica e crítica, não acreditava na vida eterna, gostava dessa que se vive na terra, mesmo limitada e vã. Sou bem seu filho.

 

 

Londres, 1970.

Chaplin

 

De partida para a Europa vou me despedir de Walter da Silveira*, despedir é o verbo correto: Walter está desenganado. Leal e exigente, o amigo mais ciumento de quantos tive em minha vida, indignava-se com supostas desatenções, cobrava. Ao ouvir-lhe a voz no telefone, eu começava Por lhe perguntar: me diga, Walter, estamos de bem ou de mal? Do outro lado do fio ele desatava na risada, perdoava-me a desatenção, só ele sabia qual e quando.

*Walter da Silveira (1913/1970), advogado e crítico de cinema.

 

Encontro-o contente apesar da enfermidade: recém-publicado, seu ensaio sobre Charles Chaplin recolhe louvores, Glauber gostou, Paulo Gil Soares, no Rio, Fernando da Rocha Perez, na Bahia, desdobram-se em elogios, Walter exibe-me recortes. Pede-me o favor de levar um exemplar com dedicatória para Chaplin, deverei postá-lo na Europa: quer ter certeza de que ele o receberá. Teme que não lhe chegue às mãos o que despachou do Brasil por via aérea e sob registro. Recebo o volume, aceito a incumbência, fique descansado, porei no correio em Londres, minha primeira escala.

Ao fazê-lo, junto ao livro carta que Antônio Olinto traduz para o inglês e eu assino, relembro a Chaplin o Prêmio Mundial da Paz que ele aceitou e recebeu em sua casa na Suíça, falo de Walter, digo quem é, o quanto lhe deve o cinema brasileiro, o amor que dedica à obra do gênio que criou a figura de Carlitos, peço que acuse o recebimento para o endereço do autor do ensaio, na Bahia, acrescento que Walter está morrendo.

Antes de falecer, Walter recebeu duas cartas, remetidas ambas da residência do mestre maior do humanismo em nosso século: uma do escritório, despacho formal da secretária, acusa a chegada do volume e agradece. A outra, carta pessoal de Charles Chaplin: sensibilizado, fala do livro, mensagem de estima e afeto, calorosa.

 

 

Rio de Janeiro, 1930/1940.

As belas

 

Quando desembarquei no Rio de Janeiro, em 1930, subliterato ávido, conheci o mais belo casal da literatura brasileira — assim o classificou Augusto Frederico Schmidt ao fazer as apresentações: esse aqui — a mão gorda no meu ombro — é um primo do Gilberto Amado.

O mais belo casal, realmente belo, tinha razão o poeta, constituíam-no a cronista Eneida de Moraes, paraense, cabocla linda, e o crítico literário Múcio Leão, pernambucano alto e bem-posto, um regalo de homem, como dizia minha prima Maria que rabiscava versos e ornava de chifres a testa rica do marido comerciante de tecidos.

Na década de trinta a quarenta a paisagem literária do Rio orgulhava-se de algumas escritoras de invulgar formosura: poetisas, romancistas, cronistas cuja presença desencadeava guerra sem quartel entre os colegas masculinos.

Cecília Meireles, os olhos verdes, ao ver de muitos a mais bela, grande voz da poesia em língua portuguesa. Adalgisa Nery, viúva do pintor Ismael Nery, paixão de tantos — Jorge de Lima, Murilo Mendes, José Lins do Rego —, casou-se com Lourival Fontes, foi a mais deslumbrante das embaixatrizes, escreveu um bom romance, Dinah Silveira de Queiroz, ao tempo esposa do jurista Narcélio de Queiroz, por ela o grande editor perdeu a cabeça mas, bem-casada, a romancista desdenhou o potentado. Graciliano Ramos, ao conhecê-la, louvou-lhe o livro de estréia com veemência inabitual. Não sendo de elogio fácil e tendo me dito que ainda não havia lido o romance de Dinah, cobrei-lhe a intrujice. Ainda não li mas já gostei, quem vier me dizer que é ruim briga comigo. Da beleza de Eneida já falei, manteve-se linda mesmo no fim da vida, quando a moléstia tentou fazê-la ausente e feia sem o conseguir.

A meu ver, entre todas a mais formosa, a sem-igual, Yone Stamato, escrevia poemas e transtornou a cabeça de poetas e prosadores, citava-se os nomes de Cassiano Ricardo e de Menotti del Picchia entre outros em delírio, eu a conheci em 1938, no Dom Casmurro*, quando a esplendorosa Yone teve um caso com a redação daquele semanário de literatura.

*Dom Casmurro, revista literária, de 1937 a 1946.

 

 

Bahia, 1988,

O japonês

 

Floriano Teixeira nasceu no Maranhão há mais tempo do que demonstra, na Bahia engordou mas não envelheceu, patriarca jovial entre filhos e netos. No leme do barco, Alice* parece mansa, é destemida, garante a travessia no mar encapelado. O sangue indígena predomina na mistura brasileira do maranhense.

*Alice, mulher de Floriano Teixeira.

 

Morou no Ceará onde viveu e conviveu, ninguém de tão boa convivência, fez e desfez na Universidade, fundou Museu, afirmou-se um dos principais desenhistas brasileiros. Lina Bo Bardi* balizou em 1963 exposição dos desenhos de Floriano no Museu de Arte Moderna da Bahia, ele veio inaugurar a mostra, ficou de vez e para sempre. Na Bahia Alice pariu Pedrinho, o caçula, e a pintura desabrochou no atelier do Rio Vermelho, ali labuta o artista na criação quotidiana de beleza.

*Lina Bo Bardi (1914/1992), arquiteta italiana.

 

Ilustrou livros de alguns amigos, inclusive meus, deu a Dona Flor a formosura cabo-verde e os modos serenos de Alice, a secreta sensualidade, deitou-se com Lívia, Gabriela, Tieta e Tereza Batista na rede da imaginação e as reinventou, sou seu devedor.

Na casa da rua Ilhéus recebe com cortesia admiradores e fregueses, dá corda à conversa, pois é conversador de natureza. A turista milionária a quem Lew Smarchewski recomendou comprar quadro de Floriano examina as telas e o pintor:

— O senhor é paulista, seu Floriano?

— Eu? Não senhora. Sou maranhense — responde o índio,

— Se não é paulista por que então parece japonês?

 

 

Rio de Janeiro, 1968.

Os mabaças

 

O filme de Fernando Sabino e David Neves, A Casa do Rio Vermelho, um dos doze documentários que a dupla dedicou a escritores brasileiros, tem vinte minutos de duração dos quais os senhores Carybé e Dorival Caymmi desperdiçam uns seis ou sete a dizer mal de mim, o mocinho da película.

Fernando e David foram à Bahia para a filmagem, os dois figurantes não estavam, exibiram-se depois, no Rio. Disseram horrores, que eu fazia e acontecia, inventava e produzia, pintava o diabo, amarrava o bode, criticaram-me as bengalas, os bonés e o bigode, as camisas coloridas, as bermudas, as sandálias.

Assisto o filme, vejo os dois compadres fazendo minha caveira, no entanto sou o terceiro a formar com eles a trinca dos doutores do povo da Bahia, três obás de Xangô, senhores respeitáveis. Meus dois mabaças, Caymmi e Carybé, não merecem confiança, não são pessoas sérias, línguas de trapo, corações de ouro, a voz e a face da Bahia.

 

 

Rio, 1947.

Semelhança

 

Médicos e doentes se atropelam para ver passar Maria, a della Costa, esplendor de beleza: atravessa os corredores da maternidade, vem de visita a Zélia que na véspera dera à luz um menino, João Jorge.

Enfermeiras vão buscar o infante no berçário e o trazem para o banho na presença da mãe feliz. Desnudam-no das fraldas, mergulham-no na água tépida. A atriz examina o corpo do recém-nascido, aponta:

— Olha a piquinha dele... Igualzinha à do pai.

 

 

Petrópolis, 1984.

O comendador

 

Escondido em Petrópolis, na casa de Glória e Alfredo Machado, confortável e fraterna, trabalho como um forçado no romance Tocaia Grande. O telefone insiste, Zélia atende — também ela trabalha em seu terceiro livro de memórias, Senhora Dona do Baile —, vem me tirar da máquina de escrever:

— Não podes deixar de atender, é o Embaixador da França. Francês que sou, de coração, vou ao telefone. O Embaixador me comunica que vem de receber notícia auspiciosa, apressa-se a transmiti-la: o governo da França, em ato assinado pelo Presidente François Mitterrand, vem de me condecorar com a Legião de Honra, no grau de Comendador. Cinco outros condecorados concedem à honraria significação ainda maior, pois são os cineastas Federico Fellini e Joris Ivens, amigo de toda a vida, os escritores Norman Mailer, Alberto Moravia e Yachar Kemal — também velhos amigos o italiano e o turco. Declaro-me honradíssimo e assim me sinto.

O Embaixador fixa data para eu estar em Paris na cerimônia da outorga da condecoração. Desejoso de não interromper a escrita do romance, ao ouvir o Embaixador dizer que irá à Bahia na semana seguinte exatamente para entregar a Pierre Verger a Legião de Honra que também acaba de lhe ser concedida, proponho que o diplomata na mesma ocasião me condecore: à Bahia vou num dia, volto no outro, para Paris gastarei uma semana, pelo menos.

O Embaixador perde o rebolado, meu desconhecimento do protocolo quase o ofende:

— Nem pense nisso! O senhor recebe a Legião de Honra no grau de Comendador, só o Presidente da República pode entregar-lhe o título, pendurar a medalha em seu pescoço. Verger é oficial, posso fazê-lo, eu, Embaixador da França.

Ah, minha sacrossanta ignorância! Desculpo-me, marco a viagem, sigo para Paris. O Presidente Mitterrand acresce à honra que me confere palavras generosas sobre meu trabalho de escritor.

Vejo na sala de l'Elysée meus amigos franceses mais queridos, sinto um frio nas tripas, os olhos úmidos. Para Zélia vale como uma reparação, comemoramos no Palais de l'Elysée 35 anos de nossa expulsão da França.

 

 

Petrópolis, 1984.

Coluna social

 

De volta de Paris com a comenda da Legião de Honra, recebo telefonema de Ibrahim Sued, abraço de felicitações. Jornalista bem-informado, revela-me que sou o único Comendador da Legião de Honra existente no Brasil, Completa, fofoqueiro amável:

— Roberto Marinho e Nascimento Brito vão morrer de inveja, são apenas oficiais.

Dias depois leio na Coluna de Ibrahim que Roberto Marinho foi promovido a Comendador, ainda bem, já não estou sozinho. Fico sabendo também que existe uma associação dos brasileiros condecorados com a Legião de Honra, entro de sócio, mas não freqüento.

 

 

Bahia, 1928.

Academia dos rebeldes

 

A Academia dos Rebeldes foi fundada na Bahia em 1928 com o objetivo de varrer com toda a literatura do passado — raríssimos os poetas e ficcionistas que se salvariam do expurgo — e iniciar a nova era.

Colocada sob a égide de Pinheiro Viegas, poeta baudelairiano, recordo verso de um soneto: "acho o mundo, afinal, drolático e macabro", panfletário temido, epigramista virulento, o oposto do convencional e do conservador, personagem de romance espanhol, espadachim, faleceu em 1932. A antiacademia sobreviveu ao patrono, durou ainda um ano, o último a obter ingresso em suas hostes foi Walter da Silveira.

Único vivo do grupo que compôs a Academia, no exercício da saudade faço o balanço dos livros publicados pelos Rebeldes, por cada um de nós. A Obra Poética e Iararana, de Sosígenes Costa: sua poesia, nossa glória e nosso orgulho; a obra monumental de Edison Carneiro, pioneiro dos estudos sobre o negro e o folclore, etnólogo eminente, crítico literário, o grande Edison; os Sonetos do mal-querer e os Sonetos do bem-querer, de Alves Ribeiro, jovem guru que traçou nossos caminhos; os dois livros de contos de Dias da Costa, Canção do Beco, Mirante dos Aflitos; os dois romances de Clóvis Amorim, O Alambique e Massapê; o romance de João Cordeiro, devia chamar-se Boca Suja, o editor Calvino Filho mudou-lhe o título para Corja; as coletâneas de poemas de Aydano do Couto Ferraz, a de sonetos de Da Costa Andrade; os volumes de Walter da Silveira sobre cinema — some-se com meus livros, tire-se os nove fora, o saldo, creio, é positivo.

Não varremos da literatura os movimentos do passado, não enterramos no esquecimento os autores que eram os alvos prediletos de nossa virulência: Coelho Neto, Alberto de Oliveira e em geral todos os que precederam o modernismo. Mas sem dúvida concorremos de forma decisiva — nós, os Rebeldes, e mais os moços do Arco & Flexa* e os do Samba** — para afastar as letras baianas da retórica, da oratória balofa, da literatice, para dar-lhe conteúdo nacional e social na reescrita da língua falada pelos brasileiros. Fomos além do xingamento e da molecagem, sentíamo-nos brasileiros e baianos, vivíamos com o povo em intimidade, com ele construímos, jovens e libérrimos nas ruas pobres da Bahia.

*Arco & Flexa, revista literária, de 1928 a 1929.

**Samba, revista literária, de 1928 a 1929.

 

 

Cannes, 1985.

A quase ministra

 

Nomeado Governador de Brasília, José Aparecido de Oliveira deixa o Ministério da Cultura, Sarney, que herdara gabinete composto por Tancredo nos acordos eleitorais, resolve aproveitar a ocasião para ampliá-lo convidando uma personalidade feminina para o cargo vago, gesto inteligente.

Convida Fernanda Montenegro, a atriz recusa, Sarney acaba por descobrir Zélia no Festival de Cannes, oferece-lhe o Ministério, Zélia também recusa, Sarney insiste. Perplexa, Zélia não entende as razões que levam o Presidente a fazer-lhe tal convite. São evidentes, lhe digo. Escritora de sucesso, pessoa competente, séria, hábil, simpática, escolha de primeira, ministra retada.

Zélia pergunta-me se falo sério ou se a estou gozando. Nunca falei tão sério e nunca te gozei. Ela pede-me, então, que lhe diga com franqueza: mesmo se fosse assim como tu pensas, queria saber o que significaria para ti ser esposo da Ministra da Cultura. Resposta na ponta da língua:

— Sarney deseja uma mulher compondo o Ministério, correto. Se aceitares, ele contará com ministra bela, simpática, capaz eu...

— ...e ...?

— ... e divorciada.

 

 

Londres, 1976.

Arte brasileira

 

Na casa de campo de Fleur Cowel, a alguns quilômetros de Londres, Zélia se alvoroça ao ser apresentada a Janet Gaynor, convidada para o weekend como nós. Janet a teria conquistado ao lhe falar de Gabriela, Clove and Cinnamon se a admiração de Zélia não datasse dos filmes de outrora, dos áureos tempos.

Além da atriz norte-americana, encontro no jardim da mansão inglesa — uma parte da construção data do século onze — outra senhora célebre, essa minha velha conhecida. Falo de Yemanjá, a deusa do mar do povo da Bahia. Aqui chegou, a este jardim britânico, pelas mãos criadoras de Carybé, escultura em madeira de mágica beleza.

Figura ilustre, pintora conhecida, Embaixadora de Franklin Delano Roosevelt, amiga do Brasil, Fleur Cowel possui em sua coleção de arte algumas peças brasileiras. Na sala principal de seu apartamento em Picadilly, na casa que pertenceu a Lord Byron, em lugar de honra, talha monumental de Calasans Neto, paisagem da Bahia. No quarto de dormir, atrás do leito antigo, digno de museu, uma tapeçaria de Genaro de Carvalho. Também na casa de campo de Alfred Knopf*, em Purchaise, nas aforas de Nova York, deparo-me com tapeçaria de Genaro iluminando a sala de jantar.

*Alfred Knopf (1892/1984), editor norte-americano.

 

No apartamento tríplex de Elspith e Hans Juda*, em Londres, um grande óleo de Cândido Portinari, oferecido por Assis Chateaubriand de quem os Juda são conselheiros para a aquisição de pintura inglesa — as peças que compõem a preciosa coleção que se encontra no Museu de Feira de Santana, bem conservada ao que me dizem, foram por eles escolhidas.

*Hans Juda e Elspith, jornalista inglês e sua mulher, crítica de arte.

 

Além do quadro de Portinari, uma igrejinha baiana do naïf Cardoso e Silva, meu amigo Cardosinho, figura na sala de visitas dos Juda, colocada entre uma tela de Leger e uma de Chagall, fico indócil ao vê-la: no meio de tantas soberbias a igrejinha de São Lázaro não desmerece, não faz feio.

 

 

Ilhéus, 1924.

Os coronéis do cacau

 

Na roda dos notáveis, no cais do porto, no mercado do peixe, na estação do trem, eu os acompanho, espio e ouço, eu os aprendo, aos coronéis do cacau. Não contam bravatas, preferem os casos bem-humorados.

Na saga de matar e morrer conquistaram a terra virgem, desbravaram a mata, comandaram jagunços, plantaram as árvores dos frutos de ouro, ergueram cidades, semearam cruzes nos caminhos abertos pelas tropas de burros, nos atalhos das tocaias. Minha mãe Eulália dormia com a repetição sob o travesseiro, o marido, coronel João Amado de Faria, ausente, nos rumos da guerra, à frente dos cabras. Da coragem indômita nasceu a civilização grapiúna (os poetas, os ficcionistas, tantos), batida sobre o sangue derramado. Os coronéis do cacau, eu os aprendo, irão ser meus personagens nas histórias de espantar.

Menino xereta, acompanho meu pai, meu tio Álvaro Amado, dois coronéis, um sério, trabalhador, o outro ladino, aventureiro. Ouço, vejo, me educo com o compadre Braz Damásio, com Basílio de Oliveira, Sinhô Badaró, Adonias Aguiar, Misael Tavares, Domingos Maron. Os árabes são muitos, vieram do oriente, os turcos de Ilhéus e Itabuna, os Maron e os Medauar. Os negros são raros mas existem: como esquecer o negro José Nique, herói de minha infância, cercado na mata, baleado, rompendo o cerco, chegando de madrugada lavado em sangue à casa da fazenda de meu pai? A maior parte, inumerável confraria de sergipanos, nação provinda da pobreza do Estado vizinho. Alguns poucos se gabam de sangue europeu, quem sabe sangue azul, nobreza e fidalguia. O coronel Ramiro Berbert de Castro — pai de Demostinho*, o campeão do porto, tio-avô de Zé Berbert**, dele o cronista herdou a verve e a inventiva, os repentes — orgulha-se da ascendência francesa, o nome dos Berbert nos pergaminhos dos corsários.

*Demósthenes Berbert de Castro (1913/1987), fazendeiro, homem político.

*José Augusto Berbert de Castro, jornalista.

 

Na viração da tarde, na sombra das amendoeiras, em frente ao palacete dos Berbert, o coronel Ramiro conta suas andanças na capital de onde acaba de chegar. Grande fazendeiro, riquíssimo, um tanto canguinha, a idade já lhe pesa no andar, se reflete na voz, mas a animação não cede, o coronel não se entrega. Fornece aos ouvintes, seus iguais, notícia fresca de interesse público: vem de ser instalada na cidade da Bahia, no Largo do Teatro, no alto da Ladeira da Montanha, pensão de luxo, raparigas de truz. Funciona sob a direção competente de madame recém-chegada de Paris via Rio de Janeiro, atende por Madame La Chatte. Erudito em termos fesceninos aprendidos com as putas francesas, o Coronel ilustra a ignorância grapiúna:

— Chatte em francês quer dizer boceta.

Para Nelson Schaun, intelectual maximalista, admitido na roda em consideração à cultura, chatte quer dizer gata, de boceta não sabia.

— Pois fique sabendo.

Estando na Bahia, informado da inauguração do Nid d'Amour — ninho de amor, traduz o jornalista Schaun, dando o troco —, o coronel Ramiro comparece ao evento. Foi entrando na sala repleta de mulheres, foi anunciando com a altanaria dos coronéis do cacau:

— Boa noite, meninas. Sou o coronel Pedro Catalão, de Ilhéus. O coronel Pedro Catalão, de Ilhéus, figura de legenda nas pensões de putas, nos castelos, célebre pela riqueza e pelo fausto, pela prodigalidade, acendia o charuto usando notas de quinhentos mil-réis em lugar de fósforos. Quarentão, ainda jovem se comparado ao coronel Ramiro Berbert, garboso, elegante, trajes cortados no Rio de Janeiro, sempre na estica, os bigodes em ponta, o topete no cabelo, as botas de montar e o rebenque de prata, Pedro Catalão, o ai-Jesus do mulherio. Perdulário, seus excessos engordavam nas fofocas das comadres, nas cadeiras dos barbeiros, nas rodas de conversa. O raparigal em peso, em Ilhéus, em Itabuna, em Água Preta, na capital, sem excetuar uma que fosse, sonha com a cama de Pedro Catalão, forrada de notas de quinhentos, sem falar na tesão: dava três ou quatro, uma atrás da outra, aquele garanhão — aprendo esses particulares nas ruas de Ilhéus, quando menino. Eduardo Catalão, filho do coronel, futuro Ministro da Agricultura de João Goulart, foi meu colega na escola de dona Guilhermina, sua irmã Maria Alice, criança linda, minha primeira namorada, casou com um general, cada vez mais linda.

Coronel Ramiro Berbert tendo se proclamado o coronel Pedro Catalão, viu-se rodeado de mulheres-damas, francesas, polacas, argentinas e uma negra que, pelo volume da bunda, ele pensou nacional e era senegalesa, falava língua enrolada. Madame La Chatte só faltou pôr-se de joelhos para lamber-lhe as botas, as raparigas desfilaram uma a uma diante do milionário, a caftina informava especialidades refinadas de boceta, boca e cu. De preço não se falou, comunicar a tabela da casa ao coronel Catalão pior que ofensa seria gafe colossal. Pedro Catalão pagava sempre o duplo quando não o triplo das tabelas, sem precisar conhecê-las.

— Escolhi duas moçoilas, uma francesa, a outra polaca. A polaca era tão loira que magoava a vista, a francesa era ruiva, as ruivas têm parte com o cão. Cheguei a pensar na negra, deixei para outra oportunidade. Passei a noite com as duas, elas se desdobraram em competência, cada qual mais viciada, faziam de um tudo, a francesa propôs usar um chicotinho, achei demais. Eu rindo por dentro, passando pelo compadre Pedro, um pagode.

Coronel Ramiro Berbert percorre a assistência com o olhar arteiro, vê o menino ao lado do pai no reino dos céus, ouvinte jubiloso:

— É teu filho, João Amado? Ouvi dizer que é inteligente, quem sai aos seus não degenera. — Prossegue o relato: — Atravessei a noite na caçoada de ser compadre Catalão. De manhã, na despedida, meti a mão no bolso, puxei a carteira e a abri na vista das gringas, carteira recheada de notas de quinhentos. Para troçar com o compadre Catalão, tirei uma de cem mil-réis, botei em cima da cama para elas dividirem entre as duas, fui embora, Ficaram sem fala, sem ação: na faina a noite inteira com o coronel Pedro Catalão, cada uma esperava pelo menos duas pelegas de quinhentos, um conto de réis, daí pra mais. E para completar a caçoada...

Encara a roda presa à narrativa, os coronéis em riso, atento o letrado Nelson, o menino em transe, cofia o bigode branco:

— ... para completar a zombaria não tive tesão de propósito.

Eu aprendia os coronéis nas ruas de Ilhéus, os jagunços nas roças de cacau, cursava meus preparatórios antes de vir para as universidades dos becos e ladeiras da Bahia.

 

 

DOBRIS, 1950.

Mandelinka.

 

Participei de muita coisa ridícula em minha vida, poucas comparáveis à caça que, em companhia de eminentes escritores tchecos e eslovacos e de alguns estrangeiros em férias, empreendi contra a praga das mandelinkas nos arredores do castelo de Dobris. As mandelinkas, arma na guerra fria que se avolumava entre os Estados Unidos e a União Soviética.

Constava que os imperialistas norte-americanos, monstros sem alma, dirigidos pelo FBI e pela CIA, haviam enviado aviões carregados com toneladas de mandelinkas para despejá-las sobre as plantações, os campos de batatas, trigo, cereais. Espécie de besouro ou de lagarta, já não me lembro, a mandelinka reduzia a nada os esforços dos camponeses nas cooperativas em luta pelas safras: assim a fome devastaria os estados socialistas e conduziria à contestação.

Haveria resquício de verdade ou o alarme não passava de simples conto da carochinha? Nem por isso deixava a população, arregimentada pelos organismos partidários e sociais, de sair à caça das mandelinkas, em campanha nacional. As autoridades alertavam os patriotas: jornais, estações de rádio, cartazes diziam do perigo e reproduziam o inimigo, desenhos em todas as partes. Agora me recordo, tratava-se de um besourinho, a imagem cobria as caixas de fósforo, eu era fumante inveterado: uma espécie de joaninha.

Não escapamos da caça às mandelinkas os escritores residentes ou em férias no castelo, Emi Siao, Jean Laffite, Gabriel D'Arboussier acompanhamos os nacionais ao campo de batatas e o percorremos folha a folha à procura das malditas pulgas ianques atiradas dos aviões. Incapaz, nunca achei nenhuma, outros afirmavam aos gritos vitórias sobre o imperialismo, mas cadáver de mandelinka nunca me foi dado ver.

Em compensação fui o campeão de rapidez, ganhei de todos. Jan Drda, dirigente, responsável, gozador que não podia dar-se o luxo da dúvida ainda menos da gozação, ao ver-me passar impetuoso e célere, piscava-me o olho na cumplicidade da tolice assumida em nome da ideologia. Piscava-me o olho, logo gritava alerta exibindo entre os dedos gordos invisíveis mandelinkas. Cada coisa!

 

 

Lisboa, 1984.

O soluço

 

Dário Castro Alves sabe Lisboa de cor e salteado, as ruas, os becos, as ladeiras, palácios e igrejas, monumentos, os restaurantes de luxo, as tascas, começou a aprender Lis-boa lendo Eça de Queiroz, completou o curso ao servir como Embaixador do Brasil em Portugal. Leva-me a beber licores esquisitos, vinhos do porto divinos em tabernas conhecidas apenas pelos requintados, é recebido de braços abertos, freguês preclaro e assíduo.

Não conheci embaixador mais competente, creio que sob todos os aspectos, posso dar testemunho da solidariedade humana. Durante o drama de Glauber morrendo num quarto de hospital Dário não cumpriu apenas os deveres do cargo, foi presença constante ao pé do leito. Casado com Dinah Silveira de Queiroz*, ele a fez feliz todos os dias, todas as horas desde que a conheceu e por ela se apaixonou. Enferma, Dinah foi encontrar-se com a morte no Brasil, Dário ia e vinha, entre São Paulo e Lisboa, acompanhei seu calvário.

*Dinah Silveira de Queiroz (1910/ 1984), escritora.

 

Demorara-se no Brasil ao lado de Dinah, encargos inadiáveis da Embaixada exigiam sua ida a Portugal, os médicos lhe disseram que poderia viajar se fosse por alguns dias, Dinah estava condenada mas o desenlace não seria assim tão rápido, Dário tomou o avião para Lisboa, ao desembarcar soube no aeroporto que o estado da esposa se agravara, estava por um fio. No próprio aeroporto marcou a volta pelo avião da noite, o primeiro a sair para o Brasil, foi à chancelaria despachar os assuntos urgentes, almoçamos com ele na residência, nos telefonemas de São Paulo a vida de Dinah se esvaía.

No caminho para o aeroporto se deteve no Casino Estoril Para cumprir obrigação de diplomata: a inauguração de uma exposição de artesanato português, com uma única representação estrangeira, a do Ceará, terra de Dário.

No hall de entrada Dário Castro Alves, Embaixador do Brasil, ao lado de Manuel Telles, diretor da empresa concessionária do Casino, aguardava a chegada de Manuela Eanes, senhora do Presidente da República, seria ela a inaugurar a exposição. Engolindo o sofrimento, Dário recebia convidados, saudava-os, desculpava-se, vinha para onde estávamos, Zélia e eu, abraçava-nos, continha a duras penas o soluço e as lágrimas.

O embaixador não poderia partir antes que a primeira-dama do país percorresse a exposição de ponta a ponta: para destacá-lo dos estandes portugueses, haviam situado o cearense no fim da mostra. Quando a senhora do Presidente chegou, ao cumprimentá-la, eu lhe pedi que, rompendo o protocolo, começasse a visita pelo fim, para libertar o embaixador, deixá-lo partir para o aeroporto, o rosto belo de Manuela Eanes cobriu-se de tristeza. Ladeada pelo Embaixador do Brasil e pelo Diretor do Casino inaugurou a exposição, abreviou o ato, demorou-se um minuto diante do artesanato cearense, com palavras de afeto liberou o diplomata.

Acompanhamos Dário ao automóvel, olhou para Zélia e para mim, cobriu o rosto com as mãos, deixou que as lágrimas escorressem, que o soluço escapasse do peito.

 

 

Bahia, 1969.

Os ossos

 

Compareço ao enterro dos ossos de Corisco, lugar-tenente de Lampião, morto em combate na caatinga pela polícia fardada. Um sertanejo explicou a Ranulfo Prata*: o sertão vive na balança da desgraça, de um lado a seca e os cangaceiros, de outro lado a polícia militar, sozinha pesa mais que os outros dois.

*Ranulfo Prata (1896/1942), escritor.

 

Ossos escondidos durante anos sob o colchão da cama por Dada, sua mulher. Eram duas mulheres no bando: Maria Bonita, a de Lampião, e ela, Sérgia da Silva Chagas, a de Corisco. Amparada em muletas, perdera uma perna nos tiroteios, Dada ganha a vida, sustenta família numerosa com o rendimento do artesanato de bolsas, reproduções dos embornais que costurava para os cangaceiros. Em luta desigual contra o terror, conseguiu resgatar a cabeça de Corisco da exibição no macabro museu que os doutores da falsa ciência instalaram nas dependências da Faculdade de Medicina — ali o poder do latifúndio expôs para exemplo e escarmento as carantonhas de Lampião, de Maria Bonita, de Zé Baiano, de Corisco, dos demais do grupo. Havia quem considerasse esse museu uma casa de cultura.

Falsa ciência, falsa cultura: é o que mais se vê. A cultura nasce do povo, ele a conserva viva e leva avante na realização dos mestres. Privei com alguns dos mestres, dos verdadeiros, no universo da ciência, das letras e das artes: Picasso, Sartre, Frédéric Joliot-Curie, meu privilégio foi tê-los conhecido. Não menor o apanágio de ter merecido a amizade dos criadores da cultura popular da Bahia, de dizer irmão a Camafeu de Oxóssi, de haver sido mote para trova de cordel de Cuíca de Santo Amaro e de Rodolfo Coelho Cavalcanti, de possuir casarios de Willys, de Licídio Lopes, igrejinhas de Cardoso e Silva, madeiras do Louco, de acompanhar Pastinha até a última roda de capoeira angola, de ser sócio remido do afoxé Filhos de Gandhi.

 

 

Viena, 1954.

A pressa

 

Egydio Squeff* surge no hotel em que estou e no qual se hospedam dirigentes partidários, personalidades do Conselho Mundial da Paz. Regressa da China onde permaneceu durante seis meses, enviado pelo pecê para estudar jornalismo — como se Squeff não soubesse jornalismo para ditar cátedra no Rio e em Pequim. Hóspede do partido chinês, habitou numa casa destinada a quadros responsáveis, ambiente fechado de alta hierarquia.

*Egydio Squeff (1911/1974), jornalista.

 

Acompanho-o ao quarto onde deposita a mala e um enorme embrulho em papel pardo, material que o pecê chinês envia para o pecê brasileiro no quadro do intercâmbio ideológico, Egydio guarda o pacote no armário. Somos velhos amigos, na alegria do reencontro desejo prolongar a conversa, saber das últimas realizações da grande república popular, do socialismo na versão maoísta, mas Squeff mostra-se pouco disposto ao bate-papo político. Viajará na manhã seguinte para Paris de onde seguirá para o Rio, trocará de avião no aeroporto. Dispõe de pouco tempo em Viena.

Manifesta extrema urgência de ir às putas, imediatamente: Posso emprestar-lhe alguns xelins para o descarrego? Os camaradas chineses forneceram-lhe uns magros dólares, o justo para o hotel austríaco, os táxis, o almoço na escala em Paris, se gastar com mulheres correrá o risco de ficar desprevenido. Estranho a correria atrás das quengas, pois sei que no Brasil Maria Paulistana aguarda, amante mais ávida e mais sábia não poderia ele desejar, por que não esperar as quarenta e oito horas que faltam para o encontro com a bem-amada na cama das sabedorias, dos refinamentos? Squeff não esconde a impaciência: — Jorge, hoje completam seis meses e cinco dias que não sei o que é mulher. Seis meses e cinco dias reduzido à bronha, meu irmão, à masturbação, seis meses de punheta, não agüento mais. Os chineses só faltaram me capar. Na China trepar fora do lar é crime, quem se atreve paga caro. Caro demais.

— Não me diga... Nem uma chinesinha?

— Nem pensar. Estritamente proibido. Não digo que não houvesse algumas que até dariam com satisfação, mas cadê coragem? Na China, seu Jorge, pior que a castidade só o medo. Chega de punheta, hoje é meu dia, Deus é grande. Passa-me os xelins, depressa.

Passo-lhe os xelins, Squeff se informa na portaria do hotel, sai em disparada.

 

Você não acredita, Ester Lavigne Sá Barreto, baiana de Itabuna, parenta de Artur Lavigne e de Raymundo Sá Barreto, ancorada em Blumenau, Gabriela nessas frias alemanhas, em sua carta nega-me o direito à modéstia, pois sendo escritor devo ser de natural vaidoso, cheio de mim ao sol de minhas merdolências. Invocando a qualidade de leitora exige lhe revele ao menos uma das muitas razões que decerto imagino possuir para gabar-me, encher-me de ufania, balão inflado ao vento, não um balão qualquer, mas o próprio Zepelim.

Pois lhe revelarei motivo de vaidade, quando o recordo penso que algo fiz pela terra da Bahia, nossa terra, chão e céu. O motivo é duplo, condiciona a ciência e a arte. Trata-se da descoberta mágica, do encontro da pátria verdadeira, território para a pesquisa e a criação, do desembarque de dois cidadãos eminentes, dois dos que mais concorreram para fazer da Bahia o que ela é, reconstruir-lhe a memória, restaurar-lhe a vida. Homem de ciência o mais velho, etnólogo, historiador, feiticeiro; artista o mais jovem, mestre do desenho e da aquarela, pintor e escultor, um duende, um capeta.

Pierre Verger, aristocrata francês, Fatumbi na África negra, no reino de Oyó, Ojuobá na Bahia, Verger estudou e revelou os laços umbilicais que ligam África e Brasil: o tráfico dos escravos, a saga dos orixás, os ritos afros e os ritos brasileiros dos candomblés, semelhanças e diferenças, a ciência das folhas e da adivinhação, o mistério e a mistura. Um dia o fidalgo gaulês abandonou a partícula, as armas e os brasões, as cartas de nobreza, com a máquina fotográfica a tiracolo partiu para o Oriente: sua obra de fotógrafo, da China a Cuba, da Tailândia ao Haiti, o retrato em corpo inteiro da Bahia dos anos 50, é incomensurável. Maior só a do cientista, a do Doutor de la Recherche Scientifique de France, o colaborador de Roger Bastide, o babalaô Fatumbi, Professor da Universidade de Ifá no reino de Xangô, especialista em assuntos africanos na Universidade Federal da Bahia, Ojuobá no terreiro do Opô Afonjá, levantado por mãe Senhora, a venerável.

Pierre Fatumbi Ojuobá Verger veio para a Bahia porque leu a tradução francesa de Jubiabá, ou seja, Bahia de Tous les Saints.

Nascido em Buenos Aires de pai italiano e andejo e de mãe brasileira, Hector Júlio Paride de Bernabó — nome demais para um artista, bom nome para cantor de tango: Júlio de Bernabó, el Bandoneón Divino, para cafifa: Hector Paride, el Papito, ele o abandonou pelo de Carybé —, andou por ceca e meca buscando a pátria, pintou o bode no planalto andino, atravessou os pampas a cavalo envergando poncho vermelho e barrete frígio para engabelar Nancy — e a engabelou —, um dia leu Jubiabá em tradução argentina, embarcou para a Bahia.

Recém-desembarcado passou a pintar painéis por encomenda de Anísio Teixeira, de Edgard Santos e de Clemente Marianni revestiu a cidade de arte e personagens. Fez bori no Opô Afonjá, mãe Senhora tocou-lhe a cabeça com a navalha, mãe Menininha do Gantois deu-lhe o adjá a segurar, Oxóssi lhe ordenou desenhar, pintar e esculpir, fixar a cidade e o povo, a memória e a vida. Recriou a Bahia inteira, de suas mãos nascem as mulatas, os pescadores de xaréu, as iaôs, as ekedes, os capoeiristas, as putas, na gravura, na aguada, no desenho, no óleo, e os orixás talhados na madeira estão no Museu do Negro, paridos no trato da goiva e do macete. Carybé amigou-se com a Bahia e a fecundou.

Dei à Bahia o sábio e o artista, acha pouco? Tenho ou não motivo para vaidade? Não foi você, diz-me o bom senso, quem os trouxe na barra do mistério, foi o pai Jubiabá para quem Gilberto Gil compôs uma canção e Nelson Pereira dos Santos rodou um filme. Recolho-me à minha modesta condição, intérprete menor do povo da Bahia, com o que me basta e sobra.

 

 

Parati, 1979.

Telegrama

 

A convite de Bruno Barreto assisto à tomada de algumas cenas do filme Gabriela que ele dirige para a Metro-Goldwyn-Mayer. Parati merece a câmera de Carlo de Palma, mas porque filmar aqui o que se passou nas terras do cacau? Nada em Parati recorda Ilhéus, são a água e o vinho, não entendo o porquê da escolha. Após o jantar Marcello Mastroianni recita-me os termos do telegrama que enviou a Sofia Loren dias atrás.

Sofia escapou por três vezes de viver personagens meus. Nos idos de cinqüenta Sérgio Amidei* transformou Mar Morto em cenário de filme, ofereceu à jovem atriz o rol de Lívia. Na ocasião mostrou-me carta na qual Sofia aceitava o papel após ter lido o livro: encanta-me a idéia de viver essa negrinha brasileira. Depois a Metro a contratou para fazer três filmes nos Estados Unidos, um dos quais seria Gabriela, cenário de Dalton Trumbo**, a diva só participou do primeiro, história de uma freira italiana: tendo engravidado abriu mão do contrato, a Metro abriu mão da filmagem. Por fim convidada por Lina Wertmuller para ser Tieta, não apenas aceitou como se sujeitou à cadeia para viver a moça do Agreste — a falência do Banco Ambrosiano enterrou o projeto, a produção não chegou a começar.

* Sérgio Amidei, cineasta italiano, roteirista.

** Dalton Trumbo (1905/1976), escritor e cenarista norte-americano.

 

Processada na Itália por motivos relacionados com o imposto de renda, Sofia embarcou para Roma a fim de cumprir o compromisso assumido com Lina, passou um ou dois dias no xilindró até que o juiz a mandasse em paz. Na mesma ocasião Mastroianni, Nacib da nova Gabriela, viu-se obrigado a seguir para Assunção em busca de visto brasileiro de trabalho. Leu nos jornais notícia da detenção de Sofia, enviou-lhe telegrama: Quem poderia imaginar QUE NOSSAS CARREIRAS TERMINARIAM DE FORMA TÃO LASTIMÁVEL: EU no Paraguai, tu na cadeia — 10 in Paraguay, tu in galera.

 

 

Bahia, 1991.

Pelé

 

Que ser decente é Pelé, nascido Edson Arantes do Nascimento, grande brasileiro, igual aos maiores. Artista incomparável da arte do futebol, igual não houve antes, não haverá de novo, moleque de Minas Gerais deslumbrou os povos, menino de dezesseis anos ganhou a Copa do Mundo na Suécia, durante décadas alegrou os olhos e os corações, cada gol uma obra-prima, gênio da redonda, símbolo da dignidade do esportista.

Leio nos jornais declaração sua a propósito da tragédia que outro grande do futebol está vivendo: Diego Maradona. Nas brumas da droga, nas malhas da máfia, denunciado, acusado, processado, expulso, castigado, arrastado na rua da amargura, exposto à fúria e ao nojo, prato feito para os chacais da imprensa, para o orgasmo dos invejosos: os rancorosos que não perdoam os grandes, pedem a cabeça, decretam o fim do pobre pibe deslumbrado com a glória, por ela corroído. É preciso ser Pelé para carregar a glória às costas com simplicidade.

Pele diz a palavra justa, aquela que eu queria ouvir: plena de grandeza humana. Não é hora de acusar Diego, de apontá-lo com o dedo em riste, degradá-lo, enterrá-lo em vida no estádio vazio, fugir dele como da peste. Há que apoiá-lo no transe fatal, ajudá-lo, estender-lhe a mão, dizer-lhe: meu irmão, amanhã o estádio estará repleto, a bola rolará e de teus pés ela partirá para o gol da vitória e o delírio da torcida. É bom encontrar um ser decente em meio a tanta mesquinhez, ao ódio desatado na ronda dos escrotos: sobram, pululam, se esporram.

Certa mídia brasileira detesta Pelé e busca empanar-lhe a glória. Para que sua grandeza merecesse loas ele deveria ser bêbado e mau-caráter, vegetar na miséria e na atribulação.

 

 

Paris, 1948.

Os ídolos

 

Ao embarcar para a Europa, em janeiro de 1948, levava na bagagem o desejo de conhecer alguns escritores de minha admiração, os que haviam iluminado com poemas e romances os anos da guerra, quem sabe teria a oportunidade de vê-los, saudá-los, talvez conversar com eles, os meus ídolos.

Anna Seghers, a da Sétima Cruz; Ilya Eremburg, o de A Queda de Paris e dos artigos de fogo e sangue, crônica da bravura e do heroísmo no front russo-alemão; Mihail Cholokov, o da saga do Don, os romances desmedidos; os poetas da resistência francesa, Paul Eluard, "liberdade escrevo teu nome..." e Louis Aragon. Esses os principais. De quase todos me tornei amigo, tive o privilégio.

Anna e Ilya, amigos mais que amigos, me enriqueceram, me fizeram melhor. Paul Eluard, fraterno de Neruda, com ele convivi de perto, levei-o a participar de tarefas brasileiras, a falar em ato de solidariedade a Prestes, cuja liberdade estava ameaçada: Eluard um encanto de pessoa.

Convivi também com Louis Aragon, trabalhei com ele em tarefas partidárias, Aragon fez traduzir e publicar dois livros meus. Seara Vermelha, antes da edição em livro saiu em Lettres Françaises com xilogravuras de Scliar; para o desconhecido escritor brasileiro, que eu era, uma glória. Com Aragon não fui além da estima literária e da convivência partidária, por mais de uma vez esbarramos um no outro: Aragon e sua corte, não nasci cortesão, nasci amigo.

Apenas conheci Mihail Cholokov e de logo o detestei. Levado por Ilya, fui receber na estação os delegados soviéticos ao Congresso de Wroclaw, entre eles estava Cholokov. Saltou bêbado do trem, apareceu uma única vez na sala do congresso, bêbado embarcou de volta para Moscou.

Quanto mais soube dele mais dele me afastei: homem do aparelho do partido, da intriga e da denúncia, grão-russo chovinista, provocador, contavam histórias de arrepiar a propósito de sua atuação e de seu dogmatismo. Apenas dogmático, sectário, estreito, ou pior que isso, policial? Não me arrisco a uma conclusão.

Na sala do II Congresso dos Escritores Soviéticos, em 1954 ao vê-lo da tribuna denunciar confrades, acusando-os de inimigos do socialismo, Anna Seghers, sentada a meu lado, murmurava: é um fascista! Não passa de um fascista! Estremecia de indignação.

Tão mesquinho, mísero indivíduo, tão grande, imenso romancista! Depois de Leon Tolstoi, pode ter havido alguém tão grande, mas não maior. Só a epopéia da Guerra e Paz pode se comparar à do Don Silencioso. Nem por lhe repudiar a ação política deixei de admirar os romances de Cholokov. Na luta contra o sistema soviético, o governo dos comunistas, Soljenitzyn, com o apoio e o aplauso de muitos, tentou retirar-lhe a autoria dos romances — negá-los, impossível —, anunciando que teriam sido escritos por um fulano qualquer. Coloquei a denúncia de quarentena, em luta política toda arma é válida e não há honradez de grão-russo que se mantenha íntegra: tão grão-russo chovinista Soljenitzyn quanto Cholokov, e aos dois acrescento outro gigante em prosa e verso: Pasternak.

Mau-caráter, péssimo cidadão, infame delator, sem dúvida mas daí à novela de televisão do roubo de originais e de sua apropriação, há um abismo. Nem por ignóbil indivíduo, Cholokov deixou de ser para mim o romancista que deu um nó em minhas tripas.

 

 

Frankfurt, 1976.

O agente gratuito

 

Estávamos num coquetel oferecido por importante editor alemão, no quadro da Feira do Livro de Frankfurt, conversávamos, Alfredo Machado, Klaus Piper* e eu, quando vi o escritor Osman Lins que se aproximava.

*Klaus Piper, editor alemão.

 

— Conhece Osman Lins? — perguntei a Alfredo.

— Pessoalmente não.

Fiz as apresentações. Surpreendeu-me a reação de Osman Lins ao ouvir o nome de Alfredo Machado: o rosto do contista pernambucano iluminou-se num sorriso caloroso.

— Alfredo Machado? — estendeu a mão: — Eu estava à sua procura querendo lhe ser apresentado. Para lhe agradecer...

Voltando-se para mim, explicou:

— Você sabe, Jorge, que devo a Alfredo Machado estar traduzido em alemão? Foi ele quem, sem ser meu editor nem meu amigo, sem nunca ter me visto, enviou meus livros para a consideração da editora alemã que passou a me publicar. Foi meu agente literário com a diferença que não me cobrou comissão...

Assim era Alfredo Machado: quantos escritores brasileiros devem à sua iniciativa, gratuita e generosa, tradução e publicação em outras línguas? Sei de uns quantos, alguns dos quais nem sequer eram seus editados, tampouco seus amigos: para Alfredão importava apenas a qualidade do livro, o talento do autor.

 

Sou de um tempo em que ao ouvir bater na porta se dizia: Se é de paz pode entrar. Quem bate à porta é de paz e de amizade, o ator Zé Trindade, artista de cinema e de televisão, celebridade desde os tempos das chanchadas, agora percorre o interior do país, faz a alegria das platéias das cidadezinhas.

Com as empregadas da casa aprendo a humildade, a não me vangloriar, a importância é sempre relativa, dou-me conta. Ouço a cozinheira Agripina dizer a Eunice* que vem lhe informar quem chamou à porta e ela fez entrar:

Eunice Ferreira, arrumadeira na casa de J. A.

 

— Zé Trindade? Não me diga! Seu Jorge é mesmo importante, é amigo de Zé Trindade.

Tem razão. Zé Trindade na tevê, na tela do cinema, no rádio, em pessoa, é ídolo popular queiram ou não os elitistas da cultura, uns bestalhões, sua amizade me dá status, importância. Agripina, Eunice, Detinha vêm espiá-lo do corredor, a meu convite entram na sala, se aproximam deslumbradas, estendem as mãos a Zé Trindade, ele as abraça, repete um bordão de rádio, careta cômica de televisão, o riso se espraia.

 

 

Praga, 1951.

Sibelius

 

Em meio à massa de notícias, artigos, reportagens, documentos, o in memoriam imediato à morte de Alberto Moravia, mestre romancista, companheiro cordial, encontro curiosa referência a meu nome.

Em crônica nas páginas de La Repubblica, um colaborador do jornal comenta indignado a injustiça de Moravia falecer sem ter recebido o Prêmio Nobel, revela que assim aconteceu devido à oposição tenaz do acadêmico sueco Arthur Lundqvist* ao nome do autor de La Romana. Lundqvist, um dos cinco membros da Academia que escolhem a cada ano o Nobel de literatura, esclarece o articulista. Acrescenta: o mesmo Lundqvist que impediu que o Nobel fosse concedido a Kazantzakis e se opõe ao nome do brasileiro Jorge Amado. Meu nome, hein! Falado para o Nobel, discutido, navego em mar de rosas, a citação deixa-me regalado mesmo se os suecos me passam para trás: nunca me imaginei candidato ao Nobel.

*Nils Arthur Lundqvist, poeta sueco.

 

Quando do assunto que aqui passo a relatar, meu compadre Pablo Neruda, de quem Lundqvist era amigo, traduzira poemas do Canto General para o sueco, me informou: Arthur está furioso contigo, não engoliu o veto a Sibelius**, eu tentei convencê-lo que não tinhas culpa, mas ele não quis me ouvir. Anos depois outro compadre meu, Miguel Angel Asturias, aliás Prêmio Nobel, de volta de conferências em Estocolmo, me perguntou em Paris diante de um assado de javali digno de qualquer prêmio: que história é essa do prêmio a Sibelius que sabotaste, compadre? Lundqvist tomou raiva de ti, te detesta. Limpo o molho de javali que me escorre pelo queixo, digo a Miguel não faltar razão ao ensaísta escandinavo: vou te contar o sucedido, compadrito.

*Jean Sibelius (1865/1957), compositor finlandês.

 

Na mesma oportunidade da fundação, em 1949, do Conselho Mundial da Paz, instituiu-se o Prêmio Mundial da Paz com uma dotação em dinheiro de quinze mil dólares (pagos pelos soviéticos), a ser distribuído anualmente a três personalidades da literatura, das artes plásticas, da ciência, do cinema, da música. Os premiados seriam escolhidos por um júri internacional integrado por dirigentes do movimento da paz.

Membros do Júri, somos escolhidos Pierre Cot* e eu para os postos de Presidente e de Secretário. Na minha qualidade de secretário, coordeno as candidaturas à láurea e aos dólares, levo os dossiês aos demais componentes do júri, informo ao mesmo tempo os caciques soviéticos que manejam as rédeas do Conselho, não escondo que, devido ao cargo, eu detinha certo poder de manobra e decisão, respeitados os limites políticos. Entre os membros do júri contava-se o acadêmico sueco Arthur Lundqvist, representante dos partidários da paz escandinavos.

*Pierre Cot (1895/ 1977), político francês.

 

Lembro aqui, para informar sobre a importância do Prêmio Mundial da Paz, algumas das figuras que o receberam: Picasso, Charles Chaplin, o poeta turco Nazim Hikmet, o romancista islandês (depois Prêmio Nobel) Halldor Laxness, Joris Ivens, Wanda Wachlewska, Rafael Alberti, Chostakovitch, Leopoldo Mendez, Chi-Pai-Shei, a cineasta polaca Wanda Jacubowska, um brasileiro: Josué de Castro.

Apresentado por Lundqvist, constava da relação inicial de candidatos, naquele ano de 1951, o nome do compositor Sibelius. Antes mesmo que a relação se tornasse oficial, fui chamado às talas por Alexander Korneichuk, dramaturgo — assisti em Moscou a uma única peça de sua autoria, chinfrim —, vice-presidente da Ucrânia, membro do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética. Fora das funções oficiais e da responsabilidade Partidária era conviva amável, dado às mulheres e à bebida, o lado mais simpático do personagem. Em 1952, no Congresso Mundial de Viena, apresentei-o a Maria delia Costa, a atriz participava da delegação brasileira, Korneichuk deslumbrou-se, perdeu a cabeça.

Ao convocar-me não estava deslumbrado, estava categórico, colocou o dedo em cima do nome de Sibelius na lista dos possíveis candidatos, disse: esse jamais! Compositor famoso, ardente patriota, Sibelius compusera canções e hinos de exaltação a seus compatriotas que com parcos recursos se batiam contra os exércitos soviéticos na guerra russo-finlandesa de 1939: Sibelius estava no índex, a URSS queria vê-lo morto e enterrado. Korneichuk, casado com a romancista Wanda Wachlewska, de origem polaca, cidadã soviética, conselheira de Stalin, feia e severa: malgré tout ça pessoa de bom trato, éramos amigos, por ela o dirigente soubera da candidatura do compositor antes que eu lhe desse conhecimento da lista. Os prêmios não eram decididos sem a aprovação dos soviéticos.

Informei Korneichuk da posição de Pierre Cot, simpático à candidatura de Sibelius, ele não se comoveu: diga a Cot que esse jamais, se ele quiser venha falar comigo. Pierre Cot, eminente político francês, deputado, ex-ministro da Aviação, um dos aliados mais considerados do Partido Comunista da França, personalidade forte, subiu nas fumaças ao receber o recado de Korneichuk, esbravejou, anotou importância e brios. Afinal quem decide de prêmios e premiados? O júri internacional ou o pecê da URSS? Vou lhe dizer as últimas, confiou-me, ao partir para o encontro com o vice-presidente da Ucrânia, admirei-lhe a integridade e a coragem, o estofo de herói.

Regressou manso, em companhia de Frédéric Joliot-Curie, presidente do Conselho Mundial, grande cientista, Prêmio Nobel, comunista convicto. Decerto Frédéric ajudara Pierre Cot a engolir o sapo, um sapo cururu: o nome de Sibelius foi riscado da lista. Quem não engoliu o sapo, não lhe atravessou na garganta, foi Lundqvist, ficou safado da vida, largou o júri e o movimento da paz, recolheu-se à sua Academia da Suécia. Não sei se brigou com Korneichuk e com Pierre Cot, duvido. Levei a culpa, alguma tive, não fui contudo o autor do crime, não passei de mero cúmplice. Carreguei com a culpa inteira, o que me aconteceu repetidas vezes, devo a circunstâncias como essa alguns de meus mais sinceros e contumazes desafetos.

Se Arthur Lundqvist se opõe a meu nome nas discussões do Nobel devido ao fracasso da candidatura de Sibelius, não lhe tiro razão. Se porém me nega pão e água por lhe parecer de baixa extração os romances que escrevo, a razão lhe sobra. Não escrevo para ganhar prêmios, outros motivos me inspiram e me ordenam, não receber o Nobel não me aflige, nunca pensei merecê-lo, conheço meus limites melhor que qualquer dos críticos que desancam meus livros. Ao demais opino ser um infeliz o escritor que trabalha e cria em função de prêmios e honrarias, mesmo quando o prêmio é porreta, a grana supimpa e o candidato a candidato é merecedor: se rebaixa, faz-se pequeno, desmerece a sua criação.

Conheço alguns desses aflitos no Brasil e em Portugal, vivem em correria e ansiedade que seriam dramáticas se não fossem cômicas. Sofrem horrores nas agruras da competição, da cavação, rastejam no delírio da autopromoção, oferecem triste, ridículo espetáculo. Para eles o Prêmio Nobel não é sonho, é pesadelo.

 

 

Lisboa, 1974.

Ditaduras

 

Entramos em Portugal por Elvas, Zélia empunha o volante de um Peugeot 504 repleto de bagagens — naquele então viajávamos de navio, a travessia do Atlântico durava uma semana de lazer, eu levava para o Rio Vermelho caixas e caixas de livros e de arte popular. Hoje a viagem dura onze horas de terror num avião, duas malas de roupas, chama-se isso de progresso. Recomendo:

— Vamos bem devagar, meu amor, esta pode ser nossa ultima estada em Portugal, vamos ver tudo, coisa a coisa, para guardar nos olhos.

Na fronteira a polícia fardada nos interrogara, pretendera abrir todos os volumes, nem em tempos de Salazar tal absurdo acontecera. Perco a paciência, puto da vida faço o maior esporro, quando o alferes me pergunta o que contém o caixão que ele pensa termos escondido no interior do carro, respondo: contém munição, se quer saber, armas, bombas. Por sorte um capitão atende aos meus berros, leitor de Gabriela pede autógrafo, libera carro, livros, passageiros.

Amo por demais essa parte de Portugal, é verão, as casas, as flores, o povo — numa dessas aldeias, na de Grândola, nasceu a canção da vila morena, sinal para o levante dos cravos. Vamos devagar, Zezinha, ela trauteia a canção de José Afonso, por vales e montes vamos.

O pecê português avança para o poder com sede e fome atropela. O primeiro-ministro Vasco Gonçalves se não tem a carteirinha do Partido está decerto entre os encapuçados, conheço as reprises desse filme, todas. Se não bastasse o modelar sectarismo de Cunhal*, sem paradigma, outros partidos ditos do proletariado, dirigidos por intelectualóides, grupelhos ainda mais estreitos, importaram do Brasil o stalinista Arruda Câmara para presidir as purgas. No comando militar Otelo de Carvalho, tão fero herói quão xucro político. Chico Lyon de Castro** conta-me que os comunas quiseram apropriar-se da Europa-América, ele resistiu, mas não sabe o que poderá vir a acontecer.

*Álvaro Cunhal político português, secretário-geral do PC.

**Francisco Lyon de Castro, editor português.

 

No Hotel Tivoli — dois ou três andares estão ocupados por retornados angolanos —, Fernando Namora me revela seus temores:

— Será a ditadura, a pior de todas, seu Jorge, aquela contra a qual não podes lutar, fazer a menor crítica. Se a fizeres serás escorraçado, o labéu de vendido, de traidor te marcará a face. Quem lutava contra Salazar era um patriota, um bravo, contra Cunhal será o último dos fascistas. Ditadura de esquerda, vade retro!

Vade retro, ora pois, alvíssaras, não aconteceu. De Ramalho Eanes a Mário Soares navega a democracia, consolidada. Deus é brasileiro, nunca duvidei, mas desconfio que imigrou, veio viver em Portugal.

 

 

Paris, 1974.

As rosas

 

Por pouco minha paixão pelo futebol me fez perder a amizade de Françoise Xenaquis, não tivesse a escritora superado com bom humor a decepção da negativa abrupta em resposta à sua gentileza de marcar dia e hora para me entrevistar:

— Na mesma hora do jogo Brasil x Polônia? Cest de la folie. Impossible.

Foi durante a Copa do Mundo de 1974, Copa infeliz, a partida iria decidir quem ficaria em terceiro lugar, perdemos. Só dei conta da gafe que cometera após ter enfiado os cornos da derrota, falado mal do técnico — técnicos éramos todos nós, brasileiros, àquela época de futebol tricampeão do mundo, hoje andamos mais sujos que pau de galinheiro.

Dizer a um intelectual francês que se recusa hora para uma reportagem literária quando se está lançando um romance é mais que gafe, indelicadeza, é erro indesculpável. Estava indo para as livrarias a tradução francesa de Tenda dos Milagres, Françoise, boa amiga, responsável por literatura e livros em Le Matin, se propunha a dar-me espaço em seu jornal, badalar o livro, duas páginas de entrevista — e o imbecil mandava a oferta às favas para assistir pela televisão um match de futebol. Creio que me perdoou por imbecil, relevou o absurdo.

Amiga de longa data, Françoise Xenaquis atribui-me ter-lhe feito a cabeça em outros tempos. Em 1949 leu Les Chemins de la faim*, tradução de Seara Vermelha, tornou-se comunista por uns anos, enveredou pela literatura para sempre. Nos idos de 60, relembrando as leituras da adolescência, Françoise escreveu que mandaria uma rosa durante um ano, a cada dia, ao editor que reeditasse a tradução francesa de Seara. Desde então desabrocharam em edições as rosas de Françoise, as rosas da amizade.

*Les Chemins de la Faim, Éditeurs Français Reunis

 

 

Fazenda Lovera, São Paulo, 1960.

O poeta

 

Em 1960 Zélia e eu tivemos o privilégio de acompanhar Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre Brasil afora, empreitada excitante e divertida. Um dos maiores êxitos da viagem do filósofo existencialista ele o obteve em Araraquara, a notável conferência pronunciada ante um público de estudantes em frenesi, Sartre carregado em triunfo. Dela voltávamos no rumo da capital paulista, íamos pernoitar na Fazenda Lovera, hóspedes do casal Júlio Mesquita Filho.

O diretor de O Estado de S. Paulo reunia naquela noite numerosos convidados para um jantar em homenagem às duas celebridades internacionais cuja estada no Brasil merecia do jornal paulista cobertura espetacular. Cobertura ao jeito do Estadão, ou seja: noticiário completo e isento, um repórter designado especialmente para acompanhar Simone e Sartre em suas andanças brasileiras e, ao mesmo tempo, o comentário polêmico nas páginas opinativas — a controvérsia, a crítica, a rejeição do discurso esquerdista dos visitantes, da pregação revolucionária, Sartre vivia a campanha da independência da Argélia, porta-bandeira e porta-voz dos patriotas argelinos que se batiam contra o exército francês de ocupação.

O jornal tratava com respeito os insignes, não regateava elogios ao filósofo dublê de romancista e teatrólogo, à memorialista, cujos livros, os dela e os dele, exerciam tamanha influência sobre o pensamento dos intelectuais e das massas populares. Em troca, nos editoriais o Estadão baixava o pau, de rijo, no posicionamento político, na mensagem dos visitantes, teses libertárias que iriam desembocar na conquista de Paris pela juventude francesa em maio de sessenta e oito. Jornalismo como deve ser e em geral não é.

Jantar grandioso, não sei quantos convidados, o que São Paulo tinha de mais representativo, a intelectualidade tupiniquim e os magnatas. Comida de se lamber os beiços, os vinhos, os licores, a doçaria afro-brasileira, as frutas incomparáveis e o à-vontade da aristocracia quatrocentona. Na cabeceira da mesa central os donos da casa e os homenageados. Eu estava numa das mesas laterais, ao lado de Carlão, filho de Julinho, um dos jovens herdeiros dos Mesquita, meu camarada, morreu moço, uma lástima. Acompanhávamos de longe a animada conversa entre hospedeiros e hóspedes, Julinho gastando seu francês da Sorbonne, falando sem parar, Sartre a ouvir, atento.

— Imagino as barbaridades que o velho está dizendo a Sartre ... — debochado, Carlão desata em riso, eu o acompanho.

O diálogo entre o filósofo francês e o jornalista brasileiro durou todo o jantar, animadíssimo. Julinho parecia empolgado, segundo Carlão estaria tentando convencer o pai do existencialismo, o revolucionário enragé, a aderir a De Gaulle. Carlão e eu passamos a inventar os termos da conversa que prosseguia na cabeceira da mesa, Julinho veemente, Sartre atônito, atravessamos o rega-bofe a adivinhar e a rir.

Terminado o festim Sartre e Simone se recolheram ao quarto preparado no capricho para eles, o pinico de louça antigo arrancou exclamações de Sartre, aplausos de Simone, nós os acompanhamos para dizer-lhes boas-noites e saber como se sentiam. Apesar de habituado ao trato dos políticos, das personalidades, dos grandes do mundo, Jean-Paul Sartre estava de fato impressionado:

—Nunca vi ninguém igual a Monsieur Mesquita — acentuava o a —, é fascinante. Nunca vi ninguém tão conservador, tão reacionário. O que ele me disse é inimaginável! Por vezes pareceu-me estar ouvindo alguém da Idade Média.

Pensei explicar-lhe o fenômeno Júlio Mesquita Filho, mas a noite ia avançada, deixei para fazê-lo na viagem para São Paulo. Não foi preciso, tudo ficou claro na manhã seguinte. Claro ou ainda mais obscuro, não posso garantir.

Após a fartura regia do café com leite de fazenda brasileira, antes de embarcarmos no automóvel, Julinho Mesquita levou seus hóspedes a percorrer os cafezais que se estendiam a partir dos fundos da casa-grande. Ia na frente, entre Sartre e Simone, falava, explicava; um pouco atrás, cercados por pessoas da família, Zélia e eu nos encantávamos com o verdor e o viço da plantação.

No carro, em caminho da capital paulista, Sartre pareceu-me perturbado como se sentisse abalado seu saber sem dúvidas. Me disse mais ou menos o seguinte:

— Esse Brasil é um país absurdo, surrealista tu dizes, mas isso não diz tudo, não explica nada, o Brasil não tem lógica, nunca se pode ter certeza. Quando se pensa ter entendido logo nos damos conta de que cometemos erro, de que o certo é diferente, um disparate.

Fitou a mim e a Zélia, pediu explicação:

— Me digam como é que um homem tão reacionário, tão estreito como Monsieur Mesquita, de repente, ao falar dos cafezais, se transforma num poeta, o mais terno e amoroso? Um poeta, o que ele me disse foi pura poesia, estou feliz de tê-lo conhecido.

 

 

São Paulo, 1988.

O prazer da vida

 

Zélia foi passar o dia em casa de Luiz Carlos*, meu irmão Joelson vem almoçar comigo no hotel, conta-me que está tomando aulas de desenho.

*Luiz Carlos Veiga, filho de Zélia.

 

— De desenho? — pergunto, sorridente, já não me espanto.

— Creio que levo jeito — responde-me ele, sério. Doutor Joelson Amado, Joca na intimidade, o irmão do meio o melhor de nós três, dos filhos de dona Eulália e do coronel João Amado de Faria. Durante anos diretor do departamento de neuropediatria do Hospital do Estado, médico pediatra de grande clientela, curou a dor de barriga e o defluxo de filhos de milionários e de gente famosa — da atriz Glória Menezes, do pintor José Morais, do escritor Ricardo Ramos, de Regina e Boni Oliveira, dos netos de Segall, filhos de Beatriz e Maurício — e dos rebentos de todos os membros do Partido Comunista, Comitê Estadual de São Paulo, estes últimos numerosos e gratuitos. Sua clínica ocupava um andar inteiro em edifício de consultórios médicos no centro da cidade.

Nesse tempo de medicina e de vida social, jantares, coquetéis, recepções, Joelson não tinha sossego, entrava às sete da manhã no Hospital, almoçava correndo, o bip ao lado do prato para atender mães agoniadas, vivia morto de sono, sem tempo para nada: viagens, passeios, diversões, ócio, proibidos. Tampouco sobrava tempo a Fanny, sua esposa, foniatra, professora universitária, para viver a vida. Tímido, circunspecto, introvertido, cansado, de pouca conversa e menos riso, Joelson estava ficando solene e chato, preocupava-me.

Um dia a vista começou a lhe faltar, a ameaça de cegueira se acentuou, obrigando-o a abandonar a clínica, o doutor Hilton Rocha, sumidade mineira e mundial, salvou o que lhe restava de visão. Condenado ao ócio, desde então Joelson dedicou-se a viver, acumulando, numa ânsia de quem quer reaver o tempo perdido, ocupações e interesses os mais variados. É hoje um homem alegre jovial, extrovertido, de muita conversa e muito riso, o oposto do chato e do solene, a mais feliz das criaturas que conheço.

Faz teatro, toca piano, dança tango, dá-se à declamação de poesia, é ginasta, pratica a natação e, como se não bastasse, conta-me que vai estudar desenho. Viaja, passeia, curte os filhos, as noras e os netos, a sogra, os cunhados, os sobrinhos, a parentela toda, sábio conselheiro, animado companheiro — não faz distinção entre os descendentes de seu sangue grapiúna e os do sangue judeu de Fanny. Por falar em Fanny, Joelson me deve tê-la conhecido em 1945, quando ela era minha secretária, a mais competente que já tive: melhor esposa não existe. James, o caçula dos três irmãos, viu Joelson representar, ator secundário num teatro de amadores. Fortemente impressionado resumiu sua opinião numa frase um tanto ou quanto enigmática:

— É uma coisa!

 

 

Bahia, 1967.

A passionária

 

O telefone me tira da cama às cinco da manhã. O pai de José Luís Pena, colega de João Jorge, me informa que o filho dele e o meu foram presos de madrugada com mais uma centena de estudantes durante vigília universitária de protesto. Não é a primeira cadeia de João Jorge, não será a última. Decido acordar Wilson Lins, governista poderoso, amigo certo, ligo o telefone, o próprio Wilson atende:

— Estou chegando agorinha mesmo da polícia, consegui soltar quase todos, mais de cem. Ficaram presos só dezoito, os contumazes, vão ser ouvidos, depois serão mandados embora. João se encontra entre os dezoito, estive com ele, está bem. O Artur de Mirabeau também ficou entre os perigosos.

Artur Sampaio, filho de Mirabeau, por quê? Não o sabia perigoso. Menino ótimo, sério, estudioso, cursa administração de empresas para ser de futuro executivo poderoso, assim será. Em matéria de contestação estudantil à ditadura eu o sei apenas solidário, seu nome não se inscreve entre os dos promotores das badernas que tanto inquietam os gorilas. Curioso, busco saber por que o colocaram entre os dezoito.

Por ser irmão de Maria, esclarece-me Artur em liberdade, paguei por ela, na hora do bafafá capou o gato. Maria Sampaio, agitadora, é bem a filha de Norma, não tem papas na língua nem meias-medidas, passionária adolescente, bela, ardente, flama libertária. Nada lhe contém o impulso, bem o sei.

Alguns dias antes ela comandara a vaia — a maior de minha vida — com que no Teatro Castro Alves a estudantada protestou contra a decisão do júri de música popular do qual fizemos parte Cyva de Oliveira*, Dorival Caymmi e eu, a convite de Carlos Coqueijo Costa**. A meninada torcia por certas músicas de protesto, se boas ou más pouco importava, importava, sim, a contestação. Em geral ruins, perderam para as merecedoras, proclamados os resultados foi aquela vaia. Moças e rapazes gritavam na platéia, desatinados, sob as ordens de Maria Sampaio. Traidores!, insultavam.

— Traidores de quê? — pergunta-me Caymmi, sem entender. — As músicas que premiamos são as melhores.

Melhores ou piores, não se tratava disso. Ainda vejo Maria Sampaio de pé em cima da cadeira vaiando aos berros seus bons tios Dorival e Jorge, ambos de seu afeto, nem por isso a salvo do sectarismo adolescente, da assuada.

*Cyva de Oliveira, cantora, diretora do Quarteto em Cy.

**Carlos Coqueijo Costa (1924/1988), jurista e compositor.

 

Não sendo esportista não tenho recordes a exibir, nenhum. Nenhum? Menos verdade, tenho um e esse não é de se desprezar, aqui o exibo: percorri o Brasil, de ponta a ponta, em estado de prisioneiro político, talvez não seja o único a tê-lo feito, mas estou nesse campeonato.

Nos primeiros dias de 1937, às vésperas do golpe do Estado Novo, fui preso em Manaus, acusado de ali ter ido para preparar, em conluio com o folclorista Nunes Pereira, uma insurreição de índios da Amazônia, nada mais, nada menos. Depois de dois meses de cadeia, um tanto quanto pândego, embarcaram-me no navio Pedro I, sob a vigilância de tira federal em visita à família amazonense nas festas de fim de ano. Durante cerca de vinte dias, de porto a porto, desci a costa brasileira, de Manaus ao Rio de Janeiro. Em Belém a polícia armou um fuzuê a bordo, me trancou no camarote, nas demais escalas, à parte não poder desembarcar, tudo correu tranqüilo. No Rio levaram-me à polícia, à noite me puseram em liberdade.

Tendo regressado do Uruguai e da Argentina, encontrava-me em Porto Alegre, em agosto de 1942, ia todas as noites à redação do Correio do Povo para saber dos últimos telegramas da guerra e bater papo com Raul Riff*. Tomávamos média com pão e manteiga num botequim em frente, onde a polícia, numa meia-noite, me tomou preso, na manhã seguinte meteu-me no trem em companhia de um delegado. A viagem de Porto Alegre ao Rio durou uns quatro dias, em São Paulo mudamos de trem, fiquei no xilindró uns meses, soltaram-me a tempo de ir passar o natal na fazenda com o coronel João Amado e dona Eulália.

*Raul Riff, jornalista.

 

 

Bahia, 1968.

O maldito

 

Por vias travessas recebo os originais de um livro de poemas, acompanhados de palavras escritas a mão: leia, guarde, um dia conversaremos, você me dirá o que acha. Conheço bem a letra, não faz falta assinatura: o autor dos poemas comanda a guerrilha urbana, seqüestra embaixadores, liberta presos políticos, caçam-no todas as polícias, as civis e as militares, torturadores e gorilas, chama-se Carlos Marighela.

Poemas ardentes e ingênuos, mais revolução do que inspiração, musicaram alguns na Nicarágua: o grande poema de Marighela foi sua vida, tem da epopéia e da berceuse, devotamento e luta, a determinação, a pureza, o destemor, a lealdade. Eu o conheci rapazola, cursava a Escola Politécnica da Bahia, tomado preso ainda adolescente cumpriu pena de dez anos de prisão, passou a juventude entre as grades da cadeia, não perdeu o ânimo, não se fez amargo, conservou o riso de menino, sabia rir como poucos são capazes, riso franco, sadio, confiante. Homem de ação e não teórico arrogante, a poesia marcou cada instante de sua vida.

Depois que o assassinaram seu nome foi tabu: maldito, não era pronunciado nem ouvido, nem sugeri-lo se podia: censuraram música de Jorge Ben, Charles Anjo 45, Charles podia ser Carlos, Carlos Marighela. Fraternos desde a adolescência, juntos prosseguimos na difícil travessia da esperança e do desespero — eu o vi chorar ao escutar o relato dos crimes de Stalin, perdêramos nosso pai —, militava na determinação e no escrúpulo, eu o sabia feito de ternura e ira. Em 1974 rompi com o tabu, escrevi sobre ele no Bahia de Todos os Santos: "...retiro da maldição e do silêncio e aqui inscrevo seu nome de baiano, Carlos Marighela."

Um dia chegou-me à casa do Rio Vermelho um telegrama anônimo mandado de São Paulo. Comunicava que os ossos de Carlos Marighela, se não aparecesse pessoa da família para reclamá-los, seriam atirados à vala comum: quem telegrafou não sei, porque a mim, entendo. Levei o telegrama ao irmão de Carlos, funcionário da Petrobrás, e a Carlinhos, meu sobrinho. Os dois tomaram o ônibus para São Paulo, foram resgatar os ossos.

A memória de Carlos nós a resgatamos tempos depois ao enterrar aqueles ossos no Cemitério das Quintas, na Bahia, à sombra de monumento concebido por Oscar Niemeyer, pronunciei umas palavras, houve quem chorasse.

 

 

Rio de Janeiro, 1954.

A impaciente

 

Costureira, há dias na máquina a pedalar, Quitéria conta e reconta sua vida: pernambucana, da caatinga, em Recife costurava para nossa amiga Otília Barbosa*, veio para o Rio, Zélia a adotou. Sertaneja, troncuda, busto farto, rosto largo, olhos miúdos, um fio de navalha, cabeleira presa, o pente de tartaruga enfiado no coque, um monumento: possuída por um espírito das trevas — é espírita militante — certo dia soltou a cabeleira, a juba inundou a sala de costura, coisa de ver-se. Quem inventou a expressão um breve contra a luxaria o fez, estou certo, pensando em Quitéria.

No meio da conversa a revelação me surpreende: Quitéria refere-se a uma filha, reside nos arredores do Recife, é casada, está grávida:

— Uma filha, Quitéria? Vai ter neto? E eu que pensava que você fosse donzela.

Quitéria fita-me, percebo o protesto na nesga dos olhos quase fechados:

— Donzela? E eu lá tenho paciência para isso?

*Otília Barbosa, irmã do poeta Odorico Tavares.

 

 

Praga, 1950.

O secretário

 

Négre aux vastes espoirs, meu conhecido das plaquetes publicadas por Pierre Seghers, editor de poesia, encontro René Depestre, rapazola, num beco sem saída em Praga-Posto fora da França, o exilado haitiano, moço poeta, militante comunista, recém-casado, buscara asilo na Tchecoslováquia, onde o Partido assumira o poder, pátria socialista. Enfim em paz para dedicar-se à poesia e à luta pela liberdade de seu país distante e pobre.

Nem paz nem meia paz, Praga vive o terror do processo Slansky*, o medo e as denúncias, prisões repletas. Depestre teme pela esposa, a bela Edith, judia rumena, suspeita de espionagem. Por que suspeita, ninguém sabe, mas a fuxicaria predomina e as ameaças crescem. Os organismos que acolheram René vivem a covardia ambiente, desconvidam o convidado, há quem lhe sugira solução conforme os tempos: abandonar a esposa, renegar a companheira, a suspeita é ela, não ele, o poeta reage, indignação e asco. Assim o encontro sem ter para onde levar a mala de exilado e sua bela judia, por judia posta na pauta dos duvidosos.

*Processo político da era stalinista que condenou à morte um grupo de comunistas tchecos; Rudolf Slansky (1901) foi executado em 1952 e reabilitado em 1955.

 

Convido-o a vir para Dobris, para o Castelo dos Escritores onde residimos, Zélia e eu, René aceita mas será que a União dos Escritores aceitará? Vou falar com Jan Drda, secretário-geral, membro do Comitê Central, herói da resistência contra o nazismo, autor da Barricada Muda, livro consagrado, meu amigo. Drda considera o caso, é homem decente, mas o clima pesa inclusive sobre ele, não se sente seguro. Convidar René a União não o fará, mas juntos encontramos uma fórmula que permitirá a hospedagem do casal Depestre no Castelo: nomeio René meu secretário, a responsabilidade é minha.

Foi assim que, por um breve período, o escritor René Depestre, o de Hadrianna de tous mes rêves, hoje celebridade literária, Prix Renaudot**, foi meu secretário, apenas nominal, sem obrigações, sem salário: pôde trabalhar sua poesia mineral noir enquanto as mulheres dos escritores tchecos morriam de ciúmes ao ver Edith estendida ao sol, no parque do Castelo, seminua, o corpo suspeitoso de judia bela.

**Um dos grandes prêmios literários franceses.

 

 

Belgrado, 1986.

A desterrada

 

O que vim fazer aqui? — no coquetel oferecido pelo embaixador Cláudio Garcia de Souza aos hóspedes brasileiros em Belgrado, escuto queixa da senhora iugoslava, considera-se desterrada, consome-se nas saudades do Brasil, pergunta o que veio fazer na pátria onde nasceu.

Pátria, em verdade sua pátria, é o Brasil onde desembarcou aos dois anos de idade com os pais imigrantes, onde cresceu, estudou, adolescente carioca igual a tantas meninas da Tijuca e da Vila Isabel, namorou, noivou e se casou com moço iugoslavo, funcionário administrativo da Embaixada. Com a guerra a Embaixada esvaziou-se, o jovem funcionário, porém, não abandonou os encargos do posto, resguardando os pertences, cuidando dos acervos com responsabilidade e eficiência, sem salário, subsistindo só Deus sabe como.

Retornaram à normalidade ao fim da guerra as relações diplomáticas, o patriota prosseguiu na Embaixada, peça importante nos serviços da missão, incansável. Assim atravessou os anos até chegar a idade de aposentar-se, quando regressou à Iugoslávia, levando a esposa para lá viverem modestamente da aposentadoria, como modestamente haviam vivido do salário no Brasil.

A senhora não se conforma, tudo na Iugoslávia lhe é estranho, clima e costumes, a maneira de viver. No Brasil ficaram os gostos, os hábitos, os interesses que são os seus. O que vim fazer aqui, pergunta, se esta não é minha terra, apenas o lugar onde nasci, minha terra é aquela onde cresci, vivi, labutei, envelheci. De tudo sente falta: do calor, da cordialidade, do não-me-importismo, do "deixa para lá", do "dá-se um jeitinho" e das novelas de televisão:

— Como passar o resto da vida sem minhas novelas? Nem umazinha que seja para matar saudades. No ano passado, uma vez por semana, aos sábados, davam um capítulo da série sobre Lampião e Maria Bonita, era meu dia de rir e de chorar, minha hora de alegria. Agora nem isso, como suportar?

 

 

Rio, Buenos Aires, Santiago, 1953.

Enterro

 

Tomo o avião para Santiago, com escala em Buenos Aires, recebo com alívio a tarefa da viagem, possibilita-me deixar para trás a agonia de Graciliano, à beira da morte num leito de hospital. Sou de absoluta covardia diante da morte de amigos. No Rio vacilo entre o sofrimento da visita ao velho Graça e a vergonha de não estar ao lado de Heloísa* na vigília atroz. Vou a Santiago botar de pé um congresso continental de cultura, decisão do Conselho Mundial da Paz, de cujo Bureau sou membro.

*Heloísa, mulher de Graciliano Ramos.

 

Em Buenos Aires trato do assunto com os camaradas do Partido argentino, encontro Rodolfo Ghioldi e Codovilla na última lona, na maior depressão com as notícias alarmantes da saúde de Stalin: é como se nosso pai estivesse à morte. Depois, noite da Avenida de Mayo, leio no placar de um jornal a • formação, nem por esperada menos tremenda, do falecimento, fico parado, solitário, perdido, os olhos secos, o coração apertado.

No aeroporto de Santiago, Neruda, Volodia Teitelboim, Rubem Azocar, outros amigos e camaradas, arrasados: usam gravatas negras em sinal de luto. Apenas desembarco recebo um telegrama do Rio, ordem expressa para voltar pelo primeiro avião. Não encontro lugar nos grandes aviões, disciplinado arrisco-me no dia seguinte num vôo via Assunção e São Paulo, viagem péssima em velho bimotor, com tempestade sobre o solo paraguaio. Zélia me espera no aeroporto, como eu imaginava fora convocado para compor a delegação do Partido ao enterro de Stalin. Apenas, naquele meio-tempo em busca de avião, os dirigentes do pecê soviético trataram de enterrar Stalin, decerto no medo de que ressuscitasse e outra vez assumisse as rédeas do poder. Tão depressa, não dera tempo de avisar.

Não acompanho os funerais de Stalin, levo ao cemitério o corpo de Graciliano Ramos, deram-me a tarefa de falar à beira do túmulo em nome do Partido. Tento fazê-lo, as lágrimas crescem em soluços, deixo a despedida partidária a Dalcídio Jurandir*.

*Dalcídio Jurandir (1909/1979), escritor.

 

Durante quase vinte anos fui "insubmisso", ou seja, alguém que não cumpriu a lei do serviço militar obrigatório, deixou de se apresentar para ser incorporado às fileiras do Exército. Antimilitarista, com horror a tudo que cheira (mal) a caserna e a farda, não obedeci à chamada, desertei.

Quando eu fora convocado, Anísio Teixeira* intercedera por mim junto a um general qualquer, deram-me um ano de prazo para que de novo comparecesse e envergasse o uniforme. Terminado o prazo eu andava não sei onde, não compareci passei a insubmisso.

*Anísio Teixeira (1900/1971), educador baiano.

 

Situação incômoda, obrigou-me a praticar várias outras irregularidades para ir vivendo sem o documento comprobatório de estar em dia com o serviço militar.

Candidato a deputado por São Paulo, em 1945, não juntei a caderneta militar à documentação exigida para a validação da candidatura. Prometi fazê-lo em vinte e quatro horas, não o fiz, como poderia fazê-lo se não a possuía? Salvou-me a eleição a falta de seriedade — a boa falta de seriedade — com que as coisas são feitas no Brasil: jamais alguém reclamou a falta do documento.

Cassação de mandatos à vista, perseguição provável a Prestes, o Partido decidiu minha ida para a Europa em missão de denúncia e protesto; como viajar se não tinha passaporte e como obtê-lo sem o indispensável documento militar? Giocondo Dias propôs-me ir tirá-lo na Bahia, onde presidia a Comissão de Recrutamento o famoso general Lobo, na época coronel, creio, o mesmo capitão Lobo que foi carcereiro de Graciliano em Recife e mereceu do escritor perfil definitivo nas Memórias do Cárcere: o Lobo é bom sujeito, Giocondo conhecia a vida e os homens.

Ao ver-me o comandante Lobo riu com gosto: tive em mãos seu dossiê, devia lhe prender, mandei arquivar, você já passou dos trinta e cinco anos, tem direito a carteira de reservista de última categoria. Já está preparada, faltando apenas o retrato, trouxe?

Entregou o retrato ao ordenança:

— Só que você vai jurar a bandeira em ato público, com direito a ombro-armas dos soldados, toque de cometa e discurso meu.

Assim foi: tropa em posição de sentido, as cometas, os tambores, a bandeira desfraldada, discurso anticomunista do comandante, jurei fidelidade, recebi a caderneta de última categoria, deixei de ser insubmisso, continuei antimilitarista, ainda o sou.

 

 

Bahia, 1970.

Revelação

 

Regalado escuto Stela Maris, o nome da cantora de blues no rádio carioca substituiu o de Adelaide Tostes que um dia Samuel Wainer* e eu demos em casamento a Dorival Caymmi numa vara de família no Rio de Janeiro. Cercada de parentes e aderentes, na casa baiana da Pedra da Sereia, Stela revela que um primo qualquer — a família Tostes é inumerável — fizera a caridade a uma prima de quinze primaveras, incompletas e urgentes. A ex-estrela da Rádio Mayrink Veiga usa para contar o conto a língua clássica de Gregório de Matos:

*Samuel Wainer, (1912/1980), jornalista.

 

— Comeu-lhe os tampos todos, a boceta e o cu, não fez por menos...

A velha tia, Tostes mineira, hóspede dos Caymmi, maior de sessenta anos, há mais de vinte viúva de leito papai-mamãe, dedicada desde então a novenas e trezenas, desconhece tais hábitos das cidades grandes, se assombra:

— E cu se come, minha filha?

— Come, minha tia, cu se come...

O corpo da beata estremece sob o impacto da revelação: — Virge! Só de ouvir me arrupeio!

 

 

Bahia, 1964.

Língua portuguesa

 

Em Lisboa disseram a Luís Forjaz Trigueiros que na Bahia o calor, além de tórrido, é constante, jamais faz frio. Luís viaja ao Brasil em missão cultural, pede a Maria Helena que coloque na mala apenas roupas leves, as mais leves. Assim desembarcou desvestido com elegância para o verão feroz.

Ora, em lugar de calor senegalês, uma onda fria abateu-se sobre a cidade, frio ainda mais difícil de suportar devido à umidade, o escritor sentiu-se enregelar. Dado que o inverno se manteve, não lhe coube opção senão ir à compra de agasalho. Luís se informou, rumou para a rua Chile, a de comércio fino e caro de prendas de vestir cavalheiros e senhoras. Deteve-se ante uma loja: ali se exibia a peça exata que buscava para com ela resguardar o peito, evitar o resfriado, a gripe, a pneumonia: Luís Forjaz pretende-se chegado a enfermidades nos brônquios e pulmões, o perigo de gripe o horroriza. De lã, chique, discreta, na cor preferida, estava à sua espera. Luís adentrou o estabelecimento, o vendedor acorreu solícito, colocou-se a seu serviço.

— Desejo comprar uma camisola — informou o literato luso, sorrindo com a delicadeza que o caracteriza.

Não menos delicado o balconista:

— O cavalheiro se enganou, aqui só vendemos artigos masculinos, mas na loja em frente, de artigos para senhoras, o senhor encontrará variado estoque de camisolas... Não tendo entendido, algum engano havia, Luís insistiu:

— Eu disse camisola...

— Já lhe disse que não temos. — O caixeiro elevou a voz desconfiando que o simpático freguês fosse surdo de nascença.

— Como não tem, se acabo de ver na montra uma camisola castanha na medida própria?

— Onde disse ter visto camisola?

O balconista sentiu-se perdido, além de surdo o freguês falava língua desconhecida, nem espanhol, nem francês, menos ainda inglês, dialetos que o rapaz identificava, familiar de sotaques e pronúncias. Não sabendo o que dizer, riu e cocou a cabeça. Um parvo persuadiu-se Luís Trigueiros, e, sem mais delongas, tomando-o gentilmente pelo braço — aos parvos deve-se tratar com firmeza sem no entanto abandonar a cortesia —, levou-o até a porta de onde triunfante, mostrou-lhe na montra a camisola castanha:

— Ali está ela, a camisola, quanto vale?

A risada do rapaz não era mal-educada, mas continha uma ponta de deboche:

— Ilustre cavalheiro, fique sabendo que em bom português o senhor quer comprar um pulôver marrom igual ao que está na vitrine, não é isso? Por que não disse logo? Um suéter porreta e o preço é de arrasar...

Encontrei Luís no hotel envergando a camisola castanha, ou seja, o pulôver marrom, não sendo ainda o brasileiro competente que viria a ser anos depois devido aos azares da política, o escritor estava indignado:

— O gajo diz-me duas palavras em francês, uma em inglês e afirma estar falando em português, em bom português.

— Em nosso bom português, Luís, o do Brasil.

Hoje Luís Forjaz Trigueiros traça na maciota nosso misturado português de mestiços, mas, para escrever sua prosa escorreita, forte, terna e colorida, conserva-se fiel ao português de Portugal, à língua de Camões.

 

 

Moscou, 1954.

Le crapaud

 

Chegamos à casa de Lluba e Ilya para o almoço. Lida, a cozinheira, é minha leitora, se desdobra ao saber que estarei à mesa, come-se e bebe-se do melhor em casa dos Eremburg. O dono da casa está ocupado em conferência com um manda-chuva do Pravda que veio lhe dar as coordenadas do Partido para uma série de artigos sobre política externa, matéria da qual Ilya é uma espécie de porta-voz do governo soviético. Enquanto aguardamos, bebemos vinho da adega de Goebbels*.

*Goebbels (1897/ 1945), ministro da Propaganda e da Informação na Alemanha nazista.

 

O Presidente da Academia de Ciências, personalidade com acesso aos segredos, telefonara a Ilya para transmitir-lhe notícia sensacional, de primeira mão, privilégio de uns raros, está num pé e noutro. Saiu a sentença condenando Beria** à morte? — pergunta Ilya, o telefonema acontece durante o julgamento do ex- patrão da polícia política. Que Beria nem meio Beria, o acadêmico perde o comedimento: falo-te de assunto da maior gravidade e tu me vens de Beria, coisa à-toa. Sei de ciência certa que amanhã pela manhã serão postos à venda nos gastronomes do centro de Moscou os vinhos da adega de Goebbels, aconselho-te acordar cedo, reunir toda tua gente, assim poderás comprar a maior quantidade possível de garrafas.

**Beria (1899/1953), dirigente comunista executado após a morte de Stalin.

 

Entre os bens valiosos, indústrias, máquinas, ouro e prata, requisitados pelo Exército Vermelho quando da tomada de Berlim, levados para Moscou, encontrava-se a garrafeira de Goebbels, a maior da Europa, a mais rica em vinhos de classe, confiscados das reservas, das caves mais bem servidas dos países vinícolas ocupadas pelas tropas hitleristas, sobretudo da França. Guardados durante quase dez anos, transladados para anônimas garrafas, em todas o mesmo rótulo: vinho, sem qualquer outra indicação, foram postas à venda por preço mais barato do que o pago pelos vinhos da Moldávia ou da Geórgia. Ilya e Lluba madrugaram, convocaram Lida, a mãe de Lida, o chofer, as duas secretárias, os pais das secretárias, a filha Irina, o genro, não sei mais quem, um batalhão — entre eles conseguiram adquirir cerca de oitocentas garrafas, um pouco mais. Depois a fila engrossou, os soviéticos compravam e pagavam sem perguntar o que estavam comprando, produto posto à venda logo se esgotava: assim era.

Roleta-russa, a cada garrafa que se abre: que prêmio nos caberá agora? Seja qual for a procedência, a casta, o ano, a cuvée, sempre de classe superior, sempre néctar dos deuses, os vinhos da adega de Goebbels, cuja venda foi o fato mais importante acontecido entre a morte de Stalin e a abertura do XX Congresso*, comparado com ele a condenação e a execução de Beria não Passavam de faits divers, acidentes de pouca monta. Enquanto esperamos, degustamos: além dos vinhos o caviar, o salmão defumado, os sprots, se ainda não provaram sprots, vão depressa provar para saber o que é bom.

*Congresso do PCUS no qual Kruchev denunciou os crimes de Stalin.

 

Ilya sai do gabinete, apresenta-me ao chefão do Pravda, oferece-lhe vinho de Goebbels, o porreta prefere vodca, emborca de um trago, vai-se embora. Ilya toma da garrafa do tinto, classifica-o bordeaux, saboreia devagar, busca adivinhar-lhe a safra e o château, o que sabe de vinhos é parte de sua legenda. Enquanto Lida serve a mesa, coloca os pratos fumegantes, Ilya relata detalhes do encontro com o dirigente.

As paredes do gabinete do escritor eram cobertas por gravuras e desenhos de mestres franceses, coleção milionária. Em frente à escrivaninha uma gravura de Picasso, Le Crapaud, prova do artista com dedicatória. Ao bater os olhos no quadro, sapo disforme, desintegrado, o homem do Pravda, teórico do realismo-socialista, estremece nas bases, desvia a vista da ignomínia: a isso os capitalistas chamam arte, exclama à beira da apoplexia. Como é possível que o camarada Eremburg pendure tais excrescências, podridão da burguesia, nas paredes de seu apartamento? E esse tal de Picasso se diz comunista, é o cúmulo.

Ilya interrompe-lhe a catilinária:

— O camarada sabe o título dessa gravura, o que ela representa?

— Não, não sei... O que sei...

— Representa o imperialismo norte-americano.

Humaniza-se o ideólogo, volta a contemplar o quadro, balança a cabeça, livre da ameaça de infarto, pratica a autocrítica:

— O imperialismo norte-americano? Agora entendo, Picasso é membro do Partido francês, não é? Camarada direito, que talento!

 

 

Maceió, 1979.

O seqüestro

 

Diante do hotel, de volta da sessão solene na Academia de Letras de Alagoas, Luciana foi seqüestrada, levaram-na seis indivíduos, ocupavam dois fuscas: além do constrangimento, a falta de conforto.

Luciana Stegagno Picchio, professora emérita, personalidade marcante na cultura e na vida literária italianas, conhece como ninguém as literaturas de Brasil e Portugal, autora de uma História da Literatura Brasileira sem similar em nossas edições organizadora da obra poética de Murilo Mendes, trabalho de gigante, pesquisadora, articulista, ensaísta, mestra de gerações — de suas aulas e de seu exemplo nasceram brasilianistas da qualidade de Giorgi Marotti, Giovanni Ricciardi e Maria Luisa Cusati —, sua dedicação à literatura brasileira só se compara à de Alice Raillard, na França, de Thomas Colchie nos Estados Unidos. O que devemos, nós brasileiros, a Luciana não se pode pagar, não há como.

Adido cultural do Brasil junto à Embaixada na Itália, Mauro Santayana quis demonstrar nosso reconhecimento, propôs ao Itamaraty fosse concedida a Ordem do Cruzeiro do Sul a Luciana. Em lugar da Cruzeiro do Sul o Ministro, ou um burocrata qualquer respondendo pelo Ministro no setor da Cultura, diminuiu a gratidão para uma condecoração em ordem menos importante, Mauro ficou safado da vida, com toda razão (um beijo, Vânia*, de Zélia e meu, para ti e Mauro). Ao saber do caso entro em contacto com meu cúmplice Napoleão Sabóia, levamos o assunto a Sarney, o Presidente decreta a Cruzeiro do Sul, faz questão de entregar a insígnia pessoalmente ao vir à França para o bicentenário**, Luciana acabou ganhando duas homenagens, melhor assim.

*Vânia, mulher de Mauro Santayana.

**Bicentenário da Revolução Francesa.

 

Pois se despedira ela do Presidente da Academia e da excelentíssima esposa que a tinham acompanhado até o hotel, ainda na porta Luciana escutou um psiu e o seu nome dito em voz baixa, olhou e viu no outro lado da rua o moço a acenar.

Luciana estava cansada, a sessão se prolongara em coquetel: ao tilintar dos copos despertaram os graves senhores que cochilavam enquanto na tribuna ela discorria sobre poesia, dizia poemas de Murilo Mendes em português e em italiano, analisava-os com Perspicácia e autoridade. Na recepção, a fadiga cresceu: batida de caju, de coco, de limão, casquinhas de siri, conversa com um e outro, explica Quasimodo* ao Governador, Montale** à primeira-dama, gastar talento e erudição em reunião social é tarefa estafante. Ainda assim, bem-educada, Luciana atendeu ao chamado do jovem, adiantou-se para o fusca do qual de súbito saltaram mais dois rapazes. Cercada, viu-se metida no automóvel, sem violência, mas com determinação, um moço segurava-lhe o pulso, decerto para impedir qualquer tentativa de reação. Um dos tipos avisara: trata-se de um seqüestro, não grite, não reaja, não tente escapulir. O carro partiu em marcha acelerada, um segundo fusca dava-lhe cobertura.

*Salvatore Quasimodo, escritor italiano.

**Eugênio Montale, poeta italiano.

 

Luciana nunca tinha sido seqüestrada antes, quando jovem fora raptada ao menos duas vezes, mas é grande a diferença entre rapto e seqüestro, as violências de amor deixam gratas lembranças. Agora temia o pior, pois os assaltos sucediam-se em todo o Brasil, marginais trocavam reféns por dinheiro, no caso dela que dinheiro? Quem sabe seriam terroristas internacionais, o terrorismo campeava, mas ela não era líder nem exercia mandato no Parlamento, que interesse teria para o terror político? Os três que iam no carro não tinham cara de terroristas — como é cara de terrorista?, perguntou-se, não sabia —, mais bem de rapazolas, quem sabe hippies, tarados sexuais? Saíram da cidade, rumaram para as bandas das lagoas, foram parar num chalé isolado. 0 bandido mais idoso — teria uns vinte e cinco anos, parecia o chefe do bando —, aquele que a tomara pelo pulso, deu-lhe a mão para ajudá-la a sair do fusca.

Vivenda confortável, na sala de jantar mesa servida com as especiarias alagoanas, sururu em cinco temperos diferentes, caranguejos, camarões, lagostas, refresco de pitanga e de cajá, água-de-coco, havia também uísque caso ela preferisse. Os seis seqüestradores se apresentaram, declinaram nomes e títulos, um título único ostentado pelos seis: somos poetas. Ali estava au grand complet a diretoria provisória do Grupo dos Poetas Jovens das Alagoas, dois deles com brochuras de poemas editadas, os demais à espera de editor, o que a segurara pelo pulso — com delicadeza — era o presidente.

Marginais da literatura oficial, adversários da academia, do conservadorismo, do passadismo, das gerações poéticas de cinqüenta e de sessenta, eram os modernos, os da nova poesia, da novíssima. Tinham seqüestrado Luciana para poder com ela conversar, discutir, debater, confraternizar, admiravam-na, conheciam seu trabalho, tinham lido artigos e ensaios, dela sabiam tudo, o humanismo e a humanidade. Queriam ouvi-la discorrer sobre poesia, mas na Academia não punham os pés, que ela perdoasse o atrevimento, mas não podiam agir de outra forma para tê-1a com eles em convívio de cultura e amizade, de amor — eram poetas, mereciam indulgência.

Proclamaram-na Rainha dos Poetas Jovens das Alagoas, o bate-papo se prolongou noite a fora, seis jovens ardentes, plenos de talento, Luciana ouviu-lhes os poemas até a madrugada. Permaneceram juntos até a barra da manhã, quando foram assistir ao nascer do sol à beira da lagoa. Nem seqüestradores em busca de resgate, nem terroristas, nem tarados sexuais, poetas apenas, belos rapagões.

Na Pedra do Sal*, à brisa do mar, Luciana me conta a aventura alagoana, o seqüestro, em verdade rapto a recordar os da juventude, doces lembranças. Dá-me os nomes dos seqüestradores, vou receber livros e poemas manuscritos, vão me escrever. Escrevem-me até hoje, enviam-me brochuras, poemas, recortes de jornal, acompanho-lhes a carreira, os sucessos. O grupo se dissolveu, a diretoria provisória abdicou do mandato, mas para os jovens poetas das Alagoas Luciana continua Rainha da Poesia, conselheira e inspiradora.

*Pedra do Sal, casa de praia de J. A.

 

 

Nova York, 1963.

A tinta e o sangue

 

Alfred Knopf decide publicar a tradução em língua inglesa de Grande sertão: veredas, pede-me prefácio, dá-me pressa. Eu o redijo no quarto de hotel, desabituei-me de escrever a mão, custa-me esforço, nele defendo duas teses que causarão escândalo nas províncias literárias do Brasil.

Começo por afirmar que Guimarães Rosa não é romancista mineiro e, sim, baiano, Montes Claros não é planalto de Minas, é sertão da Bahia. Pode parecer brincadeira mas empresto à idéia significação literária. Desejo aproximar a ficção de Rosa de Maria Dusá, de Lindolfo Rocha, escritor baiano, nascido mineiro, distanciá-la de O mameluco Boaventura, de Eduardo Frieiro, mineiro de nascimento e letras. Quero filiar a criação de Rosa à narrativa nordestina, escrita com sangue, não com tinta.

Ainda discuto tinta e sangue ao recusar os termos em que a crítica brasileira, em sua grande maioria, situa a grandeza do escritor. Todos os louvores, levados ao exagero do faniquito, da histeria, são dedicados à escrita do autor de Sagarana. De fato, por maiores sejam os elogios à linguagem de Rosa — a língua brasileira é uma antes dele, outra depois —, são todos justos e merecidos. Mas contesto as afirmações dos louvaminheiros que se masturbam ante a pesquisa e a fantasia lingüísticas de Rosa: não reside na escrita o fundamento de sua obra, não é ela que faz eterna e universal.

Por mais extraordinária seja a importância da escrita, ela se reduz à proporção em que a obra de Rosa ganha mundo e se faz traduzir em línguas diferentes. Em espanhol já se atenua, em italiano, em francês se limita ainda mais, em inglês, em alemão o trabalho da língua se dilui, a invenção das palavras, a novidade da frase vai se desfiando, a teia de aranha se desfaz. O que restará dela quando a ficção de Rosa chegar ao chinês, ao coreano, ao georgiano, ao armênio, em vez do alfabeto latino, a composição em hieróglifos, signos, ideogramas? O que restará da palavra fabricada no laboratório, da frase composta com a tinta na ponta da caneta? Já nada restará da escrita, da linguagem, da invenção formal.

Restarão, imortais, o sangue da gente recriada pelo criador de personagens, a cor, o odor, os sentimentos, os locais, os hábitos descritos pelo criador de ambientes, restarão o Brasil e o povo brasileiro, o sertão desmedido, a desmedida bravura, a ânsia e o amor, restará o sangue quando a tinta se apagar de todo. A criação de Guimarães Rosa conquistará o mundo e permanecerá no tempo, não porque ele pesquisou e inventou uma escrita nova, diferente, ela será universal e eterna porque Rosa escreveu com sangue e não com tinta as histórias do seu povo.

 

 

São Paulo, 1945.

Oswald

 

Abro um jornal, se não me engano o Diário de São Paulo, caio das nuvens: catilinária de Oswald de Andrade* contra mim. Nossa amizade, fraterna, vinha dos anos trinta, ele, Raul Bopp e eu sempre juntos. Sozinhos, Raul e eu o sustentamos contra os ataques e o silêncio, na hora em que os literatos juravam por Mário* em desvario, recusavam Oswald com engulhos, não lhe davam vez.

*Oswald de Andrade (1890/ 1954); Mário de Andrade (1893/ 1945), escritores paulistas, chefes de fila do modernismo.

 

Começo a saber do que se passou por intermédio de Pedro Pomar, dirigente nacional do pecê com jurisdição sobre São Paulo: Oswald o procurara para queixar-se, disposto a abandonar o Partido no qual ingressara (ou voltara a ingressar) poucos meses antes. A decisão não me surpreendeu, Oswald não era homem para suportar a disciplina partidária, as tenazes do centralismo democrático, forma de sujeição férrea, absoluta. Surpreenderam-

me, isso sim, as acusações feitas a mim, elevado por ele à condição de manda-chuva do Partido, e de imbatível garanhão, espécie de tirano sexual a profanar a família paulista, a tornear chifres de cabrões, a descabaçar donzelas. Pior que isso, atribuiu-me opiniões que eu não expressara, restrições de todo tipo a figuras determinantes da cultura, inclusive e sobretudo a ele, Oswald.

Aos poucos fico a par da intriga nos mínimos detalhes, a fofocagem, a salafrarice. Oswald se magoara por não ter sido indicado candidato à Câmara Federal na lista do Partido, nela figuravam escritores: Monteiro Lobato, Caio Prado Júnior, José Geraldo Vieira e eu — Lobato renunciou à candidatura antes da eleição. Quanto a mim, na medida de minha influência, tudo fizera para que Oswald figurasse na chapa, cheguei a ir ao Rio conversar com Prestes, dizer-lhe da importância cultural do pai da antropofagia, Prestes não o considerava confiável, Arruda pôs uma pedra sobre o assunto: não traz nem meia dúzia de votos.

A sordidez da intrigalhada me enojou: envolveram Oswald numa teia de mentiras, convenceram-no de que eu, com medo da concorrência, o sabotara, responsável único pela ausência de seu nome na chapa do pecê. Fiquei sabendo quais os instigadores principais, o mau poeta, o editor rancoroso — não recordo os nomes, risquei-os da memória. Furiosos por não terem sido eles também nomeados candidatos, sem coragem de acusarem a direção, voltavam-se contra mim. Não fui ouvido nem cheirado na confecção da lista, dei um único palpite, já o referi: tentei obter vaga exatamente para Oswald, não fui levado a sério, cortaram-me as asas.

Não o procurei para tentar esclarecer o mal-entendido, o fato dele ter acreditado que eu agira em seu detrimento feriu-me fundo, ofendeu-me, achei que não lhe cabia direito de duvidar de minha amizade. Deixamos de nos ver e de nos falar. Por algum tempo ele continuou a me atacar, em momento algum ergui a voz, não escrevi uma única palavra contra ele, conservei intactos a admiração e o bem-querer.

Só voltei a ver Oswald uma vez, pouco antes de sua morte, num coquetel em São Paulo, estava numa cadeira de rodas, apertamo-nos as mãos, nos emocionamos os dois, sou de choro difícil, saí da sala para não chorar em público.

 

 

Bahia, 1981.

A solução

 

Vou ao Chame-Chame visitar Mirabeau no dia de seu aniversário, completa setenta anos, saúde de ferro, está inteiro, segundo me diz, querendo dizer que não nega fogo, as namoradas aí estão de prova.

Viúvo, Mirabeau vive sozinho na casa da rua Ary Barroso onde nos reuníamos para o pôquer aos sábados e domingos — ele, eu, Odorico Tavares, Wilson Lins, Yves Palermo, vez por outra David Araújo e Carlinhos Mascarenhas, o mão-de-gato — residência, atelier, museu. As mesas holandesas vindas da loja dos Moreira* os armários, as escrivaninhas, os pesos de papel, os quadros de Carybé e Jenner Augusto, as esculturas de Mário Cravo e as dele próprio, Mirabeau Sampaio, escultor premiado, no hall de entrada o Cristo e a Pietà, duas peças de madeira, belas. E a coleção inigualável de santos antigos, cerca de quinhentas imagens — a Nossa Senhora de Frei Agostinho da Piedade, uma das quatro únicas peças assinadas pelo mestre santeiro, o maior após Aleijadinho, não há dinheiro que a pague, custou meia pataca a Mirabeau.

*Casa Moreira, um dos principais antiquários da Bahia.

 

Pintor, recria em suas telas as santas da coleção, vende bem, clientela numerosa e fiel, confidencia-me: para manter a tarifa, faço abatimento se me pagam à vista, aumento o preço se o pagamento é parcelado. Certa feita perdi a cabeça, dei um quadro de graça, sabes a quem ? A Fafá de Belém, já lhe havia feito abatimento, pois gosto de ouvi-la cantar mas quando ela se dobrou na gargalhada e espiei pelo decote do vestido, perdi o bom-senso, dei-lhe a tela de presente. Desenha e pinta, come com apetite, ouve música, conversa com os amigos, seu prazer maior, o preferido. O preferido? Não sei, pois Mirabeau namora muito e o gosto do namoro é pelo menos igual ao do convívio dos amigos.

Eu o vejo quase todos os dias e todos os dias ele tem uma história a me contar, referente às namoradas, são muitas, todas elas de vinte e três anos incompletos, menos as contemporâneas dos tempos d'antanho, saudosistas, que lhe trazem presentes, gravatas, lenços, cuecas de agasalho. Catitas e dadivosas todas elas, de categoria social e estado civil variáveis: estudantes, balconistas, secretárias, bem ou mal-casadas ou por casar, noivas em flor, cândidas, vigaristas, personagens cativantes. Por vezes coincido com uma delas, Mirabeau a apresenta e rápido a despede. Revela-me em segredo que não confia em Carybé: além de lhe roubar imagens, tenta bolinar suas namoradas. Também Caymmi se comporta mal, toma liberdades com as moças.

Na visita dos setenta anos Mirabeau me narra historinha exemplar que revela seu bom caráter e a finura de aflita pretendente. Era ela esposa de um amigo de seu filho Artur, vitorioso executivo. Conhecera-lhe o marido ao tempo em que os dois moços freqüentavam a Escola de Administração, comparecera à festa de formatura e ao casamento do rapaz: esteta, casara-se no meio artístico. Bailarina de profissão, morena de truz, levada dos diabos, a esposa ama as artes e os artistas do palco e do pincel, se apaixona fácil, presenteia o marido com chifres esculpidos, cinzelados. Como não podia deixar de acontecer, apaixonou-se por Mirabeau, e quando se apaixona a morena investe disposta a realizar seus sonhos.

Viu-se Mirabeau cercado, solicitado, perseguido, a estrela do bale resolvera dormir com ele custasse o que custasse, ele tirava o corpo fora, se negava, em atenção ao marido dela, amigo de seu filho Artur, a fogosa não desistia, recomeçava. Estavam os dois nessa punheta moral quando um dia a dadivosa aparece excitadíssima:

— Vai ser hoje, Miraba, vai ser hoje! Fulaninho, coitadinho, viaja hoje de tarde para o Rio, de noite venho dormir aqui, em tua cama, vai ser um conforto!

Mirabeau arregalou os olhos, assumiu ar digno, próprio para impor respeito e colocar ponto final na arrelia:

— Não posso fazer uma coisa dessas, minha filha, impossível. Teu marido é amigo fraterno de Artur, é como se fosse meu sobrinho, é gente minha. Fique sabendo que mulher de amigo meu para mim, é homem... — repetiu, enfático: — ... é homem.

— Homem? Pra você eu sou homem, Miraba?

— Exatamente.

— Então me enrabe, Miraba, me enrabe esta noite, vai ser o máximo.

Mirabeau termina de contar, fita a distância, pensativo. Pergunto:

— E você, Mirabeau, enrabou?

Ele, sincero:

— Mais ou menos.

 

 

Bahia, 1968.

A maldição

 

Com Pierre Verger, personagem múltiplo, cientista, professor universitário, ensaísta, fotógrafo, aristocrata, repórter, feiticeiro da linha de Ifá, Fatumbi na África, Ojuobá na Bahia, visitamos casa-de-santo no subúrbio de Portão, estou no rastro da revolta dos negros males, ocorrida em 1832, a personalidade do alufá Licutã me fascina.

Trabalho no romance Tenda dos Milagres, Pedro Archanjo é a soma de muita gente misturada: o escritor Manuel Quirino, o babalaô Martiniano Eliseu do Bomfim, Miguel Santana Obá Aré, o poeta Artur de Sales, o compositor Dorival Caymmi e o alufá Licutã — e eu próprio, é claro. De todos eles Archanjo incorpora um traço, uma singularidade, a preferência, o tom de voz, o gosto da comida, o trato das mulheres, a malícia. Tento saber mais acerca do alufá e da nação malê.

No terreiro vazio, além de nós dois, somente a mãe-de-santo e a feita que, a pedido de Pierre, ela convocou para a conversa. Iaô de beleza delicada, frágil, mulata cor de canela, cabelos longos, nariz afilado, grandes olhos cismarentos. Cordial, sorridente, conversa descontraída, é filha de Oxum, o charme e o dengue. Costureira, tem dois filhos, conta do marido chofer de caminhão, ogan de Oxóssi como vosmicê, meu pai, okê.

Ao ouvir porém a pergunta de Verger sobre a possível origem malê, para Pierre, conhecedor, tal origem é evidente, a iaô se fecha em copas, vão-se o sorriso e a cordialidade, repele a insinuação com repugnância e medo: malê, eu? Me desculpe, meu pai, nunca soube disso, se ouviu falar fique sabendo que é conversa de sotaque de gente que não tem o que fazer e fica futricando a vida alheia Nervosa, encurta a conversa, toma a bênção, vai-se embora, escarreirada: foge da maldição que persegue o povo malê. Mãe Mirinha do Portão, filha de Yemanjá, guardiã do caboclo Pedra Preta, confirma: ninguém aceita ter nas veias sangue mussumirim, de onde vem a maldição, ela própria não sabe, sabe apenas que existe e apavora.

Nós o sabemos, Pierre e eu. Não nos surpreende a discrição, a negativa ouvida de tantas bocas: sou de nação iorubá, congo, angola, gêge, nagô, ijexá, não tenho avô malê, Deus me livre e guarde! Os males durante quatro dias, quando da revolta, ocuparam e governaram a cidade da Bahia, após a derrota os senhores de escravos, os donos do poder destituídos pelos negros durante aqueles quatro dias absurdos, ordenaram a repressão mais brutal, mais violenta, mais arrasadora: a ordem era matar todos os males, homens, mulheres e crianças, não deixar rastro sobre a terra.

Assim foi feito. Bárbara, implacável, na competência da selvageria, por onde os carrascos passaram a maldição se implantou. Persiste ainda hoje, cento e cinqüenta anos após, a designação malê provoca calafrios, desata o medo pânico. Malê ah não, meu pai.

Bem pouca coisa consegui sobre o alufã. A revolta dos males tem tentado vários escritores que andaram buscando informações inexistentes. Mestre Pedro Calmon, historiador competente, baiano ainda mais, em seus começos escreveu uma novela sobre a conspiração dos negros muçulmanos. Muçulmanos e racistas, não quiseram o apoio dos outros negros, por bárbaros e fetichistas, a revolta se limitou e a derrota provocou o fogo do inferno, o genocídio da nação malê, a maldição que perdura e apavora.

 

Pelo gosto de Lalu os filhos teriam sido médicos, os três, ela tinha em alta consideração o exercício da medicina, o título de doutor: um Médico, costumava dizer, levanta o nome da família.

Somente Joelson, o do meio, deu a Lalu a felicidade do filho doutor, formado em Faculdade de Medicina, portador do estetoscópio e do termômetro. Para cúmulo da alegria, médico de crianças, pediatra. Joelson, o preferido mesmo antes do diploma de médico.

Pois foi seu nascimento que devolveu a Lalu o gosto de viver, perdido com a morte de Jofre aos três anos de idade na gripe espanhola. Lalu se entregou à dor, deixou de lado qualquer vaidade de elegância, qualquer vestígio de alegria, foi choro e abandono. O coronel João Amado, contudo, competente como era, conseguiu engravidá-la, Joelson nasceu — 55 centímetros, um bitelo —, Lalu renasceu das cinzas.

Não lhe bastando a circunstância, Joca atendeu ao aviso de Lalu, quando ela o viu médico, de anel de esmeralda e bata branca, sentiu-se realizada. Quanto aos outros dois, também objetos de entranhado amor, esses se haviam desviado para os caminhos incertos da literatura. Sem falar que os três, inclusive o esculápio, em certo momento se inscreveram comunistas. Ora, Lalu amava dizer com orgulho que seus três filhos tinham horror à política e não a praticavam. Se alguém lhe recordava a militância partidária, Lalu respondia com desprezo:

— Partido Comunista? Um partidinho de merda, não conta.

Hoje, nem de merda. Na URSS foi proibido, aliás a URSS já era. Sei que é assim e não acredito.

 

 

Lisboa, 1981.

Funeral

 

Além dos irmãos de sangue, de entranhado amor, o doutor tranqüilo e jovial e o canhoto das arestas, hoje polidas, tive e tenho irmãs e irmãos filhos de outros pais que não dona Eulália e o coronel João Amado, nem por isso de amor menos entranhado. Além de Lila* que morreu aos quinze anos, mal a conheci, não houve tempo e ocasião, e do filho e da filha que Zélia pariu de nosso leito, tive e tenho filhos que não fiz, arrebanhei-os nos desvãos da vida e os quis e quero como se os houvesse feito. Em Lisboa assisto à agonia de filho bem-amado, como me foi possível suportar a descida de Glauber Rocha ao inferno?

*Eulália Dalila Jorge Amado (1935/1950), filha do primeiro casamento de J. A.

 

Levei um ano para me recuperar do mês atroz: Glauber no hospital morrendo, os olhos esbugalhados, tentando manter-se inteiro, guloso da vida vivendo anelante os dias derradeiros, eu, Zélia e João Ubaldo derrotados, os únicos a amá-lo deveras em meio à multidão que lhe enchia o quarto de fumaça e ilusão.

Após a feijoada, num domingo, comentamos com João e Berenice* preocupados: ele está verde e tosse sem parar. Três dias depois o telefonema sobressalta-me no hotel: Glauber hospitalizado em Sintra, tuberculoso, vomitara sangue. Fomos buscá-lo, João e eu, e o transportamos para Lisboa, começaram os exames, o temor, a esperança: não, não tem câncer, exames negativos, a festa no hospital. Tinha câncer de pulmão, dele morreu dias depois. Entupindo o quarto, a recua dos aproveitadores a conversar, a fumar, a cheirar, a corvejar, o desamor. No leito, as faces encovadas, os olhos de pedinte, Glauber não queria morrer, ai não queria, tinha ainda muito que fazer, era um menino.

*Berenice, mulher de João Ubaldo Ribeiro.

 

Se às onze da manhã eu ainda não chegara ao hospital, o telefone soava: cadê você, também me abandonou, não vem mais me ver? Lá ia eu, vazio, um zumbi nas ruas de Lisboa, trespassado. Ainda vejo na fresta da porta o olhar de desespero, de adeus para sempre adeus, quando partimos do hospital quase correndo, Zélia, João e eu, para não vê-lo na maca a caminho do avião. Embarcaram-no a tempo de morrer no Brasil.O funeral coube às carpideiras, aos que na antevéspera tanto concorreram para sua morte, os que o enterraram em vida — me sinto enterrado num poço de merda, me disse no Rio, antes de partir para a Europa —, os que o acusaram de traidor, vendido, covarde, gorila, filho-da-puta. Esses que hoje são as viúvas de Glauber Rocha, vestem luto, choram lágrimas de crocodilo, se aproveitam, se apropriam, usufruem. Deles o funeral, são os coveiros.

A memória, porém, do menino terrível e terno, o cangaceiro antônio das mortes, deus e o diabo na terra do sol, São Jorge vencendo o dragão do mal, xangô no toque do barravento, na hora de filmar e de afirmar, a memória escapa aos velhacos, aos aproveitadores, aos festivos da mídia: face do povo, renasce cada vez que filme seu é exibido na tela de um cinema.

 

 

Luanda, 1979.

O angolano

 

Entre os heróis aprendidos nos bancos escolares, dou preferência ao índio Poti, ao negro Henrique Dias, dois brasileiros, empunharam armas ao lado de escassos patriotas portugueses, puseram a correr os holandeses* — a corte portuguesa já dera a colônia por perdida.

*Expulsão dos holandeses — Henrique Dias lutou na primeira e segunda batalhas de Guararapes, 1648/1649.

 

Em Luanda, uma das faces da Bahia, a outra é Lisboa, o diretor do Museu Histórico, Henrique Abrantes, exibe-me troféus de guerra, alguns de épocas remotas, outros da luta recente pela independência. Ao ouvir-me citar o nome de Henrique Dias, perguntou-me se eu sabia que o negro, personagem da história do Brasil, era natural de Angola. Espanto-me, não sabia, pensava-o filho de africanos nascido em senzala do nordeste. Nasceu aqui, garante-me o diretor, apóia-se em documentos, pode exibi-los see eu quiser, dispenso.

Conta-me uma história que dá nova dimensão ao herói do manual de História do Brasil. A expedição militar que saiu do Rio de Janeiro com o objetivo de expulsar os holandeses de Angola deveria ter contado com a bravura e a competência comprovadas de Henrique Dias. Designado capitão do batalhão dos negros importante troço das tropas, na última hora foi destituído do comando e afastado da viagem. Os secretas a serviço do governo da colônia haviam descoberto um plano subversivo, trama do angolano — Henrique Dias não pretendia se limitar à expulsão dos holandeses, seu projeto libertário era botar para fora de Angola os invasores batavos e na mesma vassourada os colonizadores lusos, proclamar a independência.

Aqui fica a informação como a recebi, nem tirei nem acrescentei, eu a deixo aos cuidados dos doutos da categoria de Thales de Azevedo, José Calasans, Dias Tavares, ou seja, Luiz Henrique.

 

 

Nice, 1990.

A primeira-dama

 

No hotel, fim de tarde, tarde da Cote d'Azur, o sol de inverno descendo sobre o mar, comentamos, Zélia e eu, o sucesso de Gil* no show da véspera, ele o merece, sobretudo na hora da orfandade do filho, tão sofrida. O telefone soa, no hall a doutora Annie Sidro, doutora em sociologia e em carnaval — seu livro sobre o carnaval de Nice é um monumento — está com ela uma senhora, acaba de chegar de Bucareste via Paris, veio à França na comitiva do primeiro-ministro Pietro Roman, em visita oficial. Deslocou-se até Nice para encontrar o professor de direito que a orientou quando, bolsista romena, preparava tese de doutorado, ao saber que estou na cidade deseja cumprimentar-me. Resmungo palavrões ante a invasão do nosso fim de tarde, noblesse oblige, descemos ao encontro da brava Annie.

*Gilberto Gil, compositor e cantor.

 

Noblesse oblige e vale a pena, pois deparamos com senhora menor de trinta anos, de extrema beleza e extrema elegância, um pedaço de descaminho. Nervosíssima, tensa a não mais poder, na Romênia sucedem motins e a violência tomou conta das mas de Bucareste, manifestações hostis ao governo provisório do Comitê de Salvação Nacional, presidido por Ion Iliescu. Postada no hall do hotel, os derradeiros raios de sol a iluminam, ela fulge ao crepúsculo, declara chamar-se Dana e deseja falar comigo.

Na mesa do bar, Dana molha os lábios no copo de uísque, inicia discurso inflamado, interminável, conta de seu país em convulsão, da capital liberta e ocupada. Narrativa dura, de crueldade e espanto: a luta contra o regime feudal de Ceaucescu, ditadura de terror e sangue, a tragédia dos torturados, dos assassinados, do massacre; a tragédia do ditador deposto e de sua mulher, os corpos expostos, o povo em cólera, a libertação substituindo o medo e o silêncio pelo ódio e pelo desejo de vingança, caça às bruxas, confusa: quem é quem, quem deve ser preso agora e quem logo depois. A narrativa é tétrica, os dias vividos em cativeiro ela e o marido, Dana estremece ao contar, acende cigarro sobre cigarro, esvazia o copo de uísque, as doses se sucedem. Annie, Zélia e eu estamos esmagados sob tamanha opressão, a vida intelectual reduzida a zero, a miséria das massas populares, a ditadura de Ceaucescu só é comparável às de Hitler e de Stalin.

Dana cita o marido a cada instante, ele é ídolo e paixão, seu deus menino, um grande homem, declara, um professor, um mestre. Levantado contra Ceaucescu, a ele a Romênia deve em grande parte o fim da tirania, a queda do ditador. Tanto ela fala no marido e em seus feitos que, curioso de saber, me animo a Perguntar: seu marido, quem é ele?

— Sou Dana Iliescu — me responde.

— A esposa do Presidente?

— Sou eu.

Porra!, exclamo, quer dizer, não exclamo, penso: esse camarada Presidente tem bom gosto e apetite, já sessentão escolheu para esposa mulher moderna, juventude, elegância e formosura reunidas, a primeira-dama da Romênia é de ninguém botar defeito. A conversa se prolonga até a hora em que Annie Sidro, cônscia de suas obrigações carnavalescas, nos leva para o palanque. Despedimo-nos de Dana, tocados por sua angústia e seu devotamento, ela deve regressar na manhã seguinte para Paris. No palanque, vendo o desfile dos carros alegóricos, comentamos a aflição da primeira-dama: saída da ditadura, a Romênia busca o caminho difícil da democracia por entre manifestações, protestos choques sangrentos, ameaças, pavores. Pelas últimas notícias Bucareste é devastado campo de batalha.

No dia seguinte, após o almoço, o telefone nos devolve Dana Iliescu, a viagem adiada por vinte e quatro horas, quer nos ver para cumprir ordens do marido Presidente da República. Tivera-o ao telefone, contara do encontro com Zélia e comigo, ele ordenou que ela voltasse para nos oferecer uma taça de champanhe, prova da estima em que nos tem.

Dana quer vir imediatamente, ela precisa de apoio, a pobrezinha, compadece-se Zélia, coração materno, desisto da sesta, descemos ao encontro da primeira-dama da Romênia. Recuso o champanhe, ofereço uísque, ela também prefere, a conversa da véspera recomeça. Dana conta intimidades da família, é a segunda esposa de Iliescu, viúvo quando ela o conheceu na Universidade e se apaixonaram: não consigo saber se ela era aluna, colega ou assistente dele, fosse o que fosse acabaram na cama, casaram-se, são cônjuges felizes. Dana passou a manhã comprando presentes para os netos do marido, para o filho do primeiro casamento e para a nora, alimentos, vestuário e brinquedos, em Bucareste não há o que comprar. Ainda bem que a agitação diminuiu, o Presidente pode respirar, Dana aproveita e nos convida a visitar a Romênia, fazem 30 anos que lá estivemos pela última vez. Aparece no hotel o moço Tawil*, veio combinar almoço para o dia seguinte, ao ver Dana fica deslumbrado, ao saber quem é toma da máquina fotográfica, exerce a profissão de jornalista. Dana traça o uísque com coragem, fala, fala, conta, conta sem parar, Tawil está nas nuvens, que reportagem vai mandar para A Tarde: a primeira-dama da Romênia, salve! Dana se despede horas depois, partirá pela manhã, em Paris se reintegrará à comitiva do primeiro-ministro.

*Eduardo Jasmim Tawil, jornalista.

 

No terceiro dia, manhãzinha, Dana ao telefone: seu avião partirá no fim da tarde, convida-se para o almoço marcado na véspera com o repórter, simpatia de rapaz, virá nos encontrar no hall do hotel. Abandono a idéia de pizzaria, reservo mesa em restaurante de classe, não se pode levar a modesta pizzaria de pobretões uma primeira-dama, mesmo que seja de um país tão conturbado, noblesse oblige.

Dana surge no apogeu da elegância, comprara uns trapos em Nice, uns quantos vestidos, blusas, pulôveres, sapatos finíssimos, alguma roupa íntima, camisola francesa. No aeroporto de Paris trocará de avião, assumirá o lugar de honra na comitiva do primeiro-ministro, à noitinha estará nos braços do Presidente matando saudades. Esta noite vai ter! sussurro no ouvido de Zélia, ela me fita, olhar de repreensão, o casal Iliescu a comove, o amor a uni-los deixa Zélia exaltada, ordena-me mais respeito, por favor — sinto-me pequeno.

Almoçamos bem e caro, Eduardo Tawil, repórter competente, fotografa, toma notas, redige, sai do restaurante direto para o fax que levará ao povo baiano notícias quentes de Bucareste em fogo, entrevista com a primeira-dama da Romênia, matéria de primeira página, e notícia do almoço na coluna de July. Dana se despede pela terceira vez, juras de amizade, à bientôt. Lá se vai ela promenade afora, saltos altíssimos dos sapatos, elegância suprema, xale ao pescoço e ao vento. Não posso impedir-me de imaginá-la à noite nos braços amorosos de seu Presidente, mas não me atrevo a revelar a Zélia meus pecaminosos pensamentos, salafrários: feliz noite, caro Presidente, formosa primeira-dama, amantíssimos!

O conhecimento de Dana torna ainda maior nosso interesse pelos acontecimentos da Romênia, acompanhamos a campanha eleitoral, os debates, as dificuldades, a eleição para a Presidência da República: Iliescu, candidato a continuar no posto não mais devido a acordo político e, sim, eleito pelo povo — o que, aliás, aconteceu: votação consagradora.

Na ocasião leio em Le Figaro ampla reportagem sobre a Jornada eleitoral. Foto em duas colunas ilustra a matéria: Iliescu em companhia da esposa deposita o voto na urna. Grito:

— Zélia vem ver tua amiga primeira-dama votando... Zélia acorre:

— Quem, Dana? Me mostre...

Um tanto quanto envelhecida, em verdade bastante. A primeira-dama da foto é outra, senhora simples e idosa. Zélia, de queixo caído, a voz diminuída:

— Mas essa não é Dana...

— Dana não é a primeira, deve ser a segunda-dama. Em 1991 vamos à Itália, sou membro do júri do Prêmio de

Literatura Latina da União Latina, será concedido pela segunda, vez. Da primeira foi outorgado a Juan Carlos Onetti, mestre romancista uruguaio, o segundo será ganho por José Cardoso Pires, mestre romancista português. Faz parte do júri o escritor romeno Dan Haulica, temos amigos comuns em Bucareste e em Paris, o fato dele ser leitor e admirador de Luandino Vieira apressa nossa confraternização. Haulica é amigo de Iliescu, íntimo. Zélia conta-lhe a história de Dana: após a foto denunciadora, Zélia concedera-lhe categoria de amante, imaginara história de amor adulterino, ilegal e exaltante paixão devoradora, nascida e vivida na luta pela liberdade, tentei concorrer com detalhes insinuados pela camisola francesa, fui vetado: você só pensa nisso.

Dan Haulica ouve, surpreso, indignado, nega a Dana qualquer crédito, nem esposa, nem amante, Iliescu é seriíssimo, corretíssimo, jamais deu-se a aventuras, viveu e vive para o lar, cidadão recatado. Ademais nunca teve filhos, muito menos netos, são ele e a esposa e se bastam. Digo a Zélia:

— Acabas de perder até os netos de Iliescu, quanto a mim perdi a noite de amor presidencial e a camisola. Não nos restou nada.

Será verdade? Sendo de caráter duvidoso, devo confessar que guardo da jovem ex-primeira-dama, formosura maior, elegância de tacos altos fulgindo ao sol do crepúsculo no hall do hotel, dela guardo viva lembrança — eu e os leitores de A Tarde, da Bahia — ainda lhe concedo a cama presidencial por mais pudico seja o mandatário. Não o sei anacoreta nem capado, e Dana é um pedaço de mau caminho, encruzilhada de Exu, passo perdido, o mistério que a envolve ainda não foi de todo desvendado, ainda aguardo o fim do enredo, que meu amigo Dan Haulica me per doe, meu caráter é suspeitoso.

 

 

Rio de Janeiro, 1960.

Litígio

 

João Gilberto* ao telefone, aflito: — Jorginho, recebi uma convocação do juiz para estar em São Paulo na quinta-feira, não posso ir, tenho programa de rádio, preciso de um advogado que me represente. Você conhece todo mundo em São Paulo me arranje um, que seja bom.

*João Gilberto, cantor e compositor.

 

Durante apresentação na capital paulista, Joãozinho desentendeu-se com um colega, rebentou o violão na cabeça do fulano, corre processo na justiça, o cantor da bossa-nova não sabe para onde se virar.

Prometo cuidar do assunto, ligo para Luiz Coelho* em São Paulo, além de escritor de bons livros policiais, o único no Brasil, não sei de outro, Luiz é advogado de banca prestigiosa e boa-praça. Conto-lhe das peripécias de Joãozinho com o violão e de suas agonias jurídicas, no outro lado do interurbano Luiz escuta, ao cabo e ao fim responde:

*Luiz Coelho (1911/1975), escritor e advogado.

 

— Estou a par, mas infelizmente não vou poder representar o João Gilberto. Vou te dar o nome de três colegas, todos os três de primeira ordem, qualquer deles ficará feliz de cuidar do caso — fornece nomes, endereços, telefones, horários: praça boníssima, amigo prestimoso, Luiz Coelho.

Resta-me uma pergunta e a faço:

— Tu não podes por quê? Vais viajar?

— Não, nada disso. É que sou o advogado da outra parte.

 

 

Rio de Janeiro, 1961.

Anticolonialismo

 

Ainda muito jovem, mas já de extrema competência, Eduardo Portella viu-se nomeado presidente (ou diretor, não importa: o chefão) do Instituto Afro-Asiático que Jânio Quadros acabara de criar. O Instituto foi um dos principais sustentáculos da política externa que Jânio buscou implantar, rompendo com a tradicional submissão do Itamaraty às ordens do Departamento de Estado norte-americano: a política externa do Brasil era traçada em Washington. Eleito Presidente da República, Jânio Quadros, maluco e visionário, rompeu com essa humilhante tradição, em sua mesa trabalho viam-se os retratos de Nasser, Nehru e Tito, o Brasil passou a figurar no mapa do terceiro mundo. Já é tempo de fazer-se justiça a aspectos positivos do governo de Jânio que significaram a ruptura com hábitos e posturas atrasados, retrógrados, com a mentalidade colonial dos governantes. Por essas e outras foi corrido do poder: a renúncia não passou da tentativa de sacudir a nação, levantar o povo para impedir a deposição já decidida nos quartéis, pelos militares, de acordo com a embaixada dos Estados Unidos.

O Instituto Afro-Asiático significou também o abandono do apoio do governo brasileiro, irrestrito, a Salazar e à ação colonialista do governo português, o reconhecimento da guerra de libertação travada em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau. Pela primeira vez órgão oficial do governo brasileiro ousou contestar o colonialismo lusitano. Entre outras medidas revolucionárias — emprego o adjetivo em seu sentido maior e não na esquerdizante limitação ideológica —, tomadas pelo Instituto, vale a pena citar o fato de ter trazido ao Brasil uma delegação de guerrilheiros angolanos: com o golpe de 1964 foram presos e torturados, se não me engano estava entre eles o poeta Costa Andrade.

Alguns nomes de conselheiros e funcionários do Instituto bastam para identificar-lhe a capacidade e os rumos: Josué de Castro, Maria Yeda Linhares, Fernando Henrique Cardoso, Cândido Mendes, Clarice Lispector, James Amado, José Mauro Gonçalves, nomes que dispensam comentários. Portella criou importante coleção de livros, puxo pela memória, cito alguns títulos: Dois Caminhos da Revolução Africana, de Moacyr Werneck de Castro, Nacionalismo e Desenvolvimento, de Cândido Mendes, Contos Negros do Brasil, de Deoscóredes Maximiliano dos Santos

— esse autor de nome tão esdrúxulo outro não é senão o mestre Didi, dos candomblés da Bahia, filho de sangue de mãe Senhora, venerável iyalorixá.

Com sua disposição para o estudo e para a administração da cultura, Eduardo Portella não só trouxe para a mesa dos debates os problemas da África e da Ásia como ajudou a traçar os caminhos da política africana no Brasil. Com seu livro África, colônias e cúmplices deu-lhe régua e compasso. Sob sua direção, a revista Tempo Brasileiro divulgou idéias, definiu problemas, colaborou para a tomada de posição de inúmeros intelectuais.

Portella, apenas nomeado, com a seriedade que o caracteriza, buscou de imediato atualizar-se a respeito da realidade afro-asiática capacitar-se. Foi à livraria dos irmãos Zahar, Jorge e Ernesto, e ali deixou encomenda sem tamanho: ensaios, estudos, romances, volumes de poesia, de Senghor a Césaire, passando por d'Arboussier, cartas geográficas, mapas-múndi, livros de arte, uma biblioteca, empenhou os salários de um ano, fatura imensa. Ernesto Zahar prometeu urgência, ainda assim a carga preciosa demorou a chegar ao Rio, consignada de Londres onde o correspondente dos Zahar havia reunido o material procedente de Dakar e Tóquio, Lisboa e Luanda, Pequim e Hong Kong, Colombo e Adis-Abeba e por aí vai.

Afinal chegou, uma dúzia de caixões de variadas dimensões. Avisado, Portella correu à livraria, talão de cheque em punho, camionete para transportar as Áfricas, a árabe e a negra, as Ásias pegando fogo, recolheu mapas, álbuns de arte, o romance, a poesia, a livralhada, pagou a nota, uma fortuna. Arruinado e contente, tocou-se para casa. Antes mesmo de começar a abrir os caixões buscou-me pelo telefone para alardear a boa-nova, foi me encontrar na Livraria São José:

— Jorge, os livros...

— Eduardo? Te procurava feito doido. Já sabes ou não? O governo caiu, Jânio renunciou, os gorilas ameaçam não dar posse a Jango, a confusão é geral...

Do outro lado da linha, a voz murcha de Portella:

— Renunciou? Os militares vão assumir? E eu que acabo de pagar os livros que encomendei, chegaram hoje, agorinha mesmo. Fiquei a pão e água. Marcamos encontro, discutimos, reunimos gente, começamos a agir para sustentar Goulart, garantir-lhe a posse, fizemos misérias, foi divertido às pampas. Quanto aos livros, Eduardo os leu, um a um. Minha sobrinha Mariana herdou o mapa-múndi.

 

 

Roma, 1948.

O poder

 

Tomamos o ônibus em Paris para Roma, vamos assumir o poder. Oficialmente nossa viagem se destina a cobrir para a imprensa comunista do Brasil as eleições italianas*, somos três com credenciais de correspondente estrangeiro, Zora Seljan, Carlos Scliar e eu. Zora fará as reportagens e algumas entrevistas, Scliar desenhará cenas de rua e retratos de dirigentes, caberá a mim entrevistar Togliatti e Pietro Nenni, fazer a análise política da vitória. Da vitória, sim, pois o Partido Comunista Italiano vai ganhar as eleições, subirá ao poder, formará o novo gabinete em aliança com os socialistas de Nenni. Participaremos da grande festa, hurra!

*Eleições de 1948.

 

Os comunistas perderam as eleições, os democratas-cristãos conservaram o governo, estávamos os três na redação de L'Unitá curtindo notícias falsas quando Togliatti chega e declara: perdemos. Abatidos fomos jantar pizza com Dário Puccini* numa cantina barata, já não podemos esbanjar, não conquistamos o poder. Zora rasga e joga numa lata de lixo a reportagem mais verídica e emocionante das eleições, tempo perdido. Para não perder tempo, queria tê-lo livre para a festa, redigira com antecedência o noticiário da vitória eleitoral, contando como acontecera, detalhes saborosos, a grandiosidade da comemoração, o povo nas ruas com bandeiras, a música e as estrofes do hino avanti popolo, reportagem para entusiasmar e comover. Mais prudente, Carlitos deixou para fazer os desenhos depois, fizera apenas um, a redação de L'Unitá lotada de jornalistas estrangeiros, em primeiro plano Dominique de Santis, enviada de Action, e Oleg Ignatiev, do Konsomolska Pravda de Moscou.

*Dário Puccini, professor universitário, escritor.

 

Perdemos as eleições, nem por isso a viagem foi inútil ou triste. A derrota não limitou as festividades, no encontro em casa de Guttuso** estava meio mundo, de Moravia a Zavattini, de Carlo Levi a De Santis, de Emilio Sereni a Giancarlo Pajetta, sem falar nas condessas comunistas fervorosas, iniciei em Roma minha colheita de amizades, prossegui em Florença: Vasco Pratolini, em Milão: Elio Vittorini. Dário Puccini já havia traduzido Capitães da Areia***, traduziu depois outros livros meus, bate-se até hoje pela literatura brasileira, como se fosse escritor nascido no Rio de Janeiro. Fala o português na perfeição, pronúncia carioca, foi-lhe ensinado por moça brasileira com quem teve amores — aprendeu na cama, não há forma melhor de se aprender os idiomas do que trocando língua, boca na boca em ais de amor.

**Renato Guttuso (1912/1987), pintor.

***I banditti del porto, Edizioni Sociales.

 

Zora retorna a Paris onde tem tarefas a cumprir, Carlitos e eu vamos para Gênova esperar Zélia que chega do Rio com João Jorge. Do cais eu a vejo no deque do navio, o infante ao colo, minha madona, o coração dispara no peito, enfim a terei nos braços, não há poder que se compare.

 

 

São Paulo, 1945.

O admirador

 

Sou bom de cadeia, tirei de letra as minhas prisões, nem depressivo nem ruidoso, será que hoje suportaria o xadrez com igual desenvoltura?

Numa de minhas prisões aconteceu algo tragicômico, merece relato. Ainda durante o Estado Novo, em meados de 1945, a polícia política de São Paulo montou uma armadilha na sede do Comitê de Ajuda às Nações Unidas, leia-se à União Soviética, sala que pouco a pouco se transformara em sede de todos os organismos, alguns fantasmas, ligados ao Partido Comunista. Todas as tardes eu lá aparecia para encontros políticos, pequenas reuniões, receber e transmitir tarefas. Ao chegar naquele dia encontrei a polícia, à frente o delegado Luiz Apolônio, famoso. Na sede do Comitê ou em suas residências foram presas cerca de quinhentas pessoas, intelectuais, sindicalistas, ativistas. Caio Prado Júnior e eu, após breve passagem na Central, fomos mandados para a Casa de Detenção, ocupamos a cela onde Monteiro Lobato cumprira pena por ter afirmado que existia petróleo no Brasil.

Numa sala enorme, o assoalho coberto de colchões, encontramos preso único o pintor Clóvis Graciano. O que fazes aqui? — perguntei e ele respondeu: — Estava te esperando. Tentamos obter que colocassem Clóvis na cela de Lobato, não conseguimos. por volta de duas da manhã puseram-nos em liberdade, a mim e a Caio, na porta do presídio Frota Moreira nos esperava. Oswald de Andrade ficou fulo porque não o prenderam, desconsideração.

A história ligada a essa prisão que merece relato tem a ver com um leitor mineiro, de passagem por São Paulo. Telefonou-me, comprara a coleção de meus livros, vendia-se pelo crediário, pedia-me para autografá-los, marquei-lhe encontro na sede do Comitê às quatro horas, fui levado preso às três, o meu leitor entrou em cana uma hora depois, em vez do autor encontrou os tiras.

No dia seguinte meu apartamento virou uma babilônia, parentes de presos reclamando medidas, havia uma senhora espanhola cuja filha sindicalista fora levada pela polícia, que me responsabilizava aos berros pelo que pudesse suceder à moça: minha filha é virgem! Caio Prado e eu fomos discutir com o Chefe de Polícia*, bacharel bem-humorado, as prisões começaram a ser relaxadas, vinte e quatro horas depois da trampa policial estavam todos na rua, inclusive a virgem imaculada. Todos menos um, o meu leitor: esse permanecia preso com sua coleção de livros, pois por ele ninguém se interessara. Preso permaneceu por uns dois dias e permaneceria longo tempo se a família, estranhando não ter ele voltado a Minas na data marcada e não ter dado notícias, preocupada com seu desaparecimento, não começasse a procurá-lo nos hospitais, com passagem pela morgue, foi encontrá-lo na cadeia, acusado de comunista. Decerto abandonou a coleção de livros na cela onde habitara dois ou três dias, não sei exatamente quantos.

*Pedro de Oliveira Ribeiro Sobrinho.

 

 

Viana do Castelo, 1992.

Gastronomia

 

No almoço, o molho a escorrer-me pelo queixo, desfaço-me em elogios à galinha ao molho pardo, Nuno me corrige com conhecimento de causa:

— Repare na ementa — lê em voz alta: — Arroz de galo de pé descalço ou seja ave solta a ciscar ao chão, o sabor é outro que não o dos frangos de aviário que não sabem a nada.

Nuno Lima de Carvalho, cidadão múltiplo, jornalista, crítico de arte, especialista em pintura naïve, também em turismo, em gastronomia nem se fala, confrade-mor da Confraria dos Gastrônomos do Minho, que poderosa confraria! Conhece os restaurantes do país um a um, os pratos ele os conhece todos quando não os inventa e os batiza: deve-se a Nuno o arroz-doce à prior de Vila Franca, gulodice a comer e a repetir» de cujo abuso nasceu a sentença do padre Sérgio*: antes faça mal que sobre. Arrasta-me pelo norte de Portugal, inauguro lápides em casas-de-pasto de renome e tradição, se meus livros forem de todo esquecidos restará a memória do glutão nas placas comemorativas de almoços e jantares, opíparos. No roteiro dos opíparos, do melhor ao melhor, vou do Vitor em São João de Rei ao Natário em Viana do Castelo, o bacalhau do Vitor! o pão-de-ló do Natário, os rissóis de dona Custodinha!

*Padre Sérgio Augusto Pereira, diretor do Seminário de Viana do Castelo, jornalista, gastrônomo, careca, boa-pinta.

 

Em Viana, no Salão Nobre da Câmara, celebram-se as glórias de Manuel Natário e de dona Custódia, sua esposa, pasteleiros. São condecorados, recebem diploma e medalha, elogios nos discursos de governadores e presidentes de conselho, feliz o país que festeja cozinheiros, condecora pasteleiros, concede à mesa, à culinária, categoria de tema de cultura conforme ensinamento de Miguel Torga, escritor português à medida de seu povo.

No jantar faço praça do cabrito assado ao forno, Nuno aponta-me a cozinha da tasca, me ensina:

— O segredo está nos fornos de lenha, é preciso conservá-los, impedir que os apaguem, que substituam brasa de lenha pelo gás ou pela eletricidade.

O ajudante de cozinha revolve as brasas, sobem labaredas do forno de lenha: que não os extingam, pelo amor de Deus! O molho do cabrito escurece os beiços do bom Nuno Lima de Carvalho, um colosso, na estatura, na gastronomia, na amizade: ele limpa os lábios com um gole de vinho verde, adora vinho verde.

 

 

Bahia, 1985.

Barba

 

Márcio Tavares d'Amaral, filósofo e poeta, ilustre professor universitário, grave catedrático, letrado familiar de Joyce e de Kafka, incorrigível líder estudantil, saudoso das passeatas e das molequeiras, com as mãos sobre a boca imita sons de saxofone, as sirenes dos carros de polícia e das ambulâncias, com acento alfacinha canta músicas de protesto de Sérgio Godinho. Está hospedado na casa do Rio Vermelho com Teresa, flor dos Costa, conversamos enquanto ele faz a barba. Conversa longa, Márcio não leva menos de meia hora a barbear-se: um dia demorei apenas vinte e cinco minutos, mas aconteceu somente naquela vez, me diz. Eu não gasto mais de cinco minutos, admiro-me de diferença tamanha, Márcio me explica:

— Você conhece o verbo escanhoar? É o que eu uso. Você conjuga outro: raspar a barba, para ser sincero uma xucrice.

Conto-lhe que Graciliano Ramos fazia a barba com navalha antiga, nunca usou gilete. Os olhos de Márcio se iluminam:

— Isso é o supra-sumo, não chego a tanto.

Barba escanhoada, Márcio aproxima-se do muro, desata a sirene da polícia na rua Alagoinhas: vizinhos saem portas afora a ver o que ocorre. O riso de Teresa tranqüiliza os passarinhos.

 

 

Paris, 1949.

Paloma

 

De ministério em ministério, de repartição em repartição, acompanho Pablo Picasso pelas ruas de Paris, no esforço para resolver o problema da estada de Pablo Neruda na França. Trotávamos de déu em déu, o dia é especial para o pintor: Françoise, sua mulher, fora para o hospital com dores de parto. Ele desejava menina, se chamaria Paloma: a paloma da paz, desenho de Picasso, cobre os muros da cidade na propaganda do I Congresso Mundial dos Partidários da Paz que vai se iniciar no dia seguinte na sala Pleyel.

Neruda desembarcara em Paris uma semana antes, habilitado com passaporte falso que o identificava cidadão guatemalteco don Antônio dos anzóis carapuça, de bastos bigodes, adido cultural, qualquer coisa assim. O passaporte lhe fora fornecido por Miguel Angel Asturias, embaixador da Guatemala na Argentina que, ao atender à necessidade do amigo, punha em jogo o cargo e a carreira. Não hesitara um minuto quando Pablo, fugitivo do Chile, onde havia sido expulso do Senado, lhe colocara o problema.

A princípio conhecida apenas por mim e por Alfredo Varela — o romancista de El Rio Oscuro, dirigente do pecê argentino —, por Laurent Casanova, responsável no Bureau Político do pecê francês pelos problemas culturais e pelo movimento da paz, por Louis Aragon e Françoise Leclerc em cujo apartamento estava hospedado, a presença do poeta, secretíssima, logo se tornou segredo de polichinelo. A comitiva de admiradores engordava a cada dia com a chegada para o Congresso de intelectuais latino-americanos: Juan Marinello, Nicolás Guillén, Miguel Otero Silva. Alfredo Gravina, o pintor Venturelli. Passaporte ilegal, Pablo estava impedido de participar do conclave e corria o risco de ser detido e posto fora da França a qualquer momento.

De autoridade a autoridade, Picasso encaminha a solução, eu o acompanho, sou de pouca ajuda mas faço-lhe companhia. De meia em meia hora entramos num bistrô, Picasso telefona para o hospital, pede notícias da parturiente, fica sabendo que Françoise ainda não deu à luz. Numa dessas vezes, porém, a pergunta é acolhida com hosanas: nascera a menina Paloma, a mãe passa bem, Picasso exulta.

Ora, o problema de Neruda, àquela hora, estava praticamente resolvido, restavam detalhes finais, deles eu poderia me encarregar sozinho. Vai ver tua filha e tua mulher, propus, Picasso recusou: só quando terminar. O Ministério do Interior e o Quai d'Orsay encontraram por fim a solução: Pablo deixaria a França de carro, a polícia da fronteira estaria avisada para não criar problema, voltaria assim que tivesse passaporte em ordem.

Na Suíça, onde La Hormiga* o aguardava, um ex-cônsul do Chile, admirador incondicional, prolongara velho passaporte chileno que Delia trouxera de Santiago. O ex-cônsul, aposentado, guardara os timbres e os carimbos, poderiam ser de utilidade um dia, foram. Assim o poeta regressou a Paris não mais na pele de don Antônio dos anzóis carapuça e, sim, na do chileno Naftali Ricardo Reyes, seu nome verdadeiro. Ainda não oficializara o pseudônimo, o que fez quando retornou ao Chile: nem Antônio dos bigodes, nem Naftali Reyes, para sempre Pablo Neruda, poeta e militante.

*La Hormiga, apelido de Delia dei Carril, na época mulher de Neruda.

 

Picasso cuidou do caso até vê-lo completamente resolvido, me encarreguei da viagem, designei guarda-costas, dois jovens comunas brasileiros no gozo de bolsas de estudo em Paris, Paulo Rodrigues e Alberto Castiel, levaram o bigodudo don Antônio à Suíça, trouxeram Delia e Pablo para a França, ele de passaporte legal e sem bigodes.

De volta ao hotel contei a Zélia as andanças do dia, os telefonemas de Picasso para o hospital, o nascimento de Paloma.

— Se um dia tivermos uma filha ela se chamará Paloma. — Decide Zélia, arrebatada.

O caso se deu em 1949, nossa Paloma nasceu em 1951. Até parece de propósito, a sementinha foi posta em Varsóvia durante o II Congresso Mundial dos Partidários da Paz, a paloma de Picasso nos muros da cidade, inspiradora.

 

 

Bahia, 1991.

Plebiscito

 

Recebo a visita do prefeito de Jandaíra, cidadezinha situada no norte da Bahia, na divisa com Sergipe, a praia de Mangue Seco, a mais bela do mundo — por uma vez sou peremptório — fica em seus limites. Vem convidar-me para a festa da mudança do nome do município: Jandaíra, obedecendo ao decidido em plebiscito pela população, passará a se chamar Sant'Ana do Agreste, nome da cidade imaginária onde decorre grande parte da ação do romance Tieta do Agreste, pastora de cabras.

A ação do romance e a da novela Tieta, escrita por Aguinaldo Silva, produzida pela Globo, baseada em meu romance. A novela bateu recordes de audiência — segundo leio em artigo de crítico paulista de televisão as novelas baseadas em meus romances destinam-se ao sucesso porque as putas que descrevo são pessoas estimáveis, sofridas porém direitas, se escreveu com a intenção de me chatear perdeu o tempo e o latim, enganou-se, me sensibilizou. Nas ruas e largos de Sant'Ana do Agreste, na gente ali posta a circular e a viver, o povo de Jandaíra reconheceu sua cidade.

Houve mesmo quem reclamasse, eu teria sido injusto e incorreto ao trocar o nome da cidade, pois fora em Jandaíra que Tieta vivera e armara tantas e tão boas. Me acontece ser assim acusado de quando em quando: Bruno Barreto, no desejo de explicar o acento italiano de Nacib, dublado por Mastroianni no filme Gabriela*, disse, em entrevista aos jornais, que tendo realizado uma pesquisa em Ilhéus, descobrira que Nacib não era árabe e, sim, italiano. Vejam a que está sujeito um romancista: Bruno rouba-me a nacionalidade de personagem que eu criei, os habitantes de Jandaíra acusam-me de sabotar sua cidade: eu desconhecia a existência de Jandaíra quando escrevi Tieta.

*Produção da Metro-Goldwyn-Mayer, em 1983.

 

Prometo ir com Zélia, o prefeito me informa que Roberto Marinho também se comprometeu a comparecer, vai ser festa de arromba.

 

 

Casablanca, 1989.

A história da mulher de seu Vieira

 

Aproveito para contar a história da mulher do senhor Vieira, tal como se deu, tintim por tintim, circulam versões desencontradas, cada qual conta o conto à sua maneira, a maioria ouviu o galo cocoricar mas não sabe da música a metade.

Estávamos Calasans Neto e Auta Rosa, Zélia e eu em

Casablanca, hospedados em um dos dois melhores hotéis da cidade, Auta descobriu uma barata no quarto, comunicou a Zélia, o hotel foi para a lista negra. Como viajaríamos naquele mesmo dia para Marrakech, decidimos visitar o outro melhor hotel, no lado oposto da praça, bisbilhotar conforto e limpeza, nele reservar acomodações para nossa volta, uma semana após, se valesse a pena.

Na portaria buscávamos informações sobre os quartos quando um senhor ainda jovem, bem-posto, ar esportivo, que me fitava curioso, perguntou-me se eu era brasileiro, escritor e se meu nome era... Efusão patriótica, troca de gentilezas, o compatriota ao saber ao que vínhamos elogiou o hotel, limpíssimo, nem sombra de baratas, propôs mostrar-nos seu apartamento para que julgássemos. Tentei recusar, quem disse, dona Rosa e dona Zélia queriam comprovar as vantagens, aceitaram, impuseram, acompanhamos o senhor Vieira — Vieira, de Santa Catarina, se apresentara — ao oitavo andar. Tomou a frente, bateu à porta, foi aberta por uma criança de seus cinco anos. Onde vai a corda vai a caçamba, disse o anfitrião, não sei por que a declaração me fez imaginá-lo viúvo a correr coxia com a filha órfã. Entramos às apalpadelas pelo corredor ao lado da casa de banho, o apartamento mergulhado na mais negra escuridão. Vieira adiantou-se quarto adentro, direto para o janelão, eu atrás dele, os demais atrás de mim. Num repelão Vieira abre as cortinas, a luz matinal de Casablanca invade a habitação, ouve-se um grito de mulher: Vieira, o que é isso? É Jorge Amado, minha filha, explica o bom leitor no auge do contentamento, aponta-me com o dedo, em seguida me informa: essa aí minha esposa. Olho e vejo essa aí estendida nua em pêlo no leito de casal, êxtase, visão, como direi? Não direi nada, nada disse, apenas arregalei os olhos, essa aí ergueu o busto, a luz banhou-lhe os seios, aleluia! Dona de casa civilizada convidou-me a sentar na cama, convite que não estendeu aos demais, certamente por não lhe terem sido apresentados: o marido pronunciara apenas o meu nome.

Sentei-me por um instante fugidio, pois Zélia já dava por visto e aprovado o apartamento, agradecia e se mandava, arrastando-nos na pressa de sair, ainda hoje não entendo o motivo de tanto açodamento: Vieira acompanhou-nos à porta, a criança pela mão, dissemos muito obrigado, despedimo-nos. A caminho do elevador comentei com Calasans, as senhoras iam à frente:

— Lavaste os olhos, hein, Cala?

— Lavei os olhos, como?

— Ora, como! Com a nudez da mulher de seu Vieira.

— Nudez? Que me contas, que história é essa?

Ora pois, após cruzar a porta, aturdido pela escuridão, Calasans Neto deixara-se ficar no corredor do apartamento, não chegara a entrar no quarto e eu não me dera conta. Ao saber do acontecido acometeu-lhe ataque de loucura, queria a pulso retomar com o pretexto de ter esquecido o boné, quem sabe a esposa do Vieira continuava nua como eu a vira.

— Teu boné está em tua cabeça, Cala. Dormiste no ponto, agora é tarde.

Partimos para Marrakech, lá estivemos durante uma semana. Constatei que nem as maravilhas da cidade, nem a medina, nem sequer o topless das suecas à beira da piscina no oásis, nada conseguia retirar a cabeça de Calá da mulher de seu Vieira que ele, ai, não vira nua por preguiça.

Voltamos a Casablanca, fomos nos hospedar no hotel sem baratas onde havíamos reservado cômodos. Na recepção, antes mesmo de entregar o passaporte, Calá quis saber de seu Vieira.

— Vieira? O senhor se refere ao brasileiro da mulher bonita. — com as mãos o funcionário traçava-lhe as formas do corpo: — Quelle femme, cher Monsieur! — estalou a língua, som concupiscente, informou: — Viajou ontem para o Rio de Janeiro.

Aí fica a história verdadeira. O mais que contam, o artista armado de binóculo, trepado numa palmeira para brechar quarto do casal Vieira, e outras estripulias, não passam de invenções a engrossar o folclore do mestre Cala, Rei de Itapuã, Imperador do Abaeté.

 

 

Rio de Janeiro, 1946.

Anti-salazarismo

 

Subo à tribuna da Assembléia Nacional Constituinte, sou deputado eleito por São Paulo, leio e comento carta que venho de receber de Portugal. Escrevem-me dois jovens, declaram-se meus leitores, leituras clandestinas, pois os livros de minha autoria são proibidos na metrópole e nas colônias portuguesas.

Requisitório contra o salazarismo, a carta denuncia a opressão reinante, depoimento comovente, os signatários apenas saíram da adolescência, moços que se iniciam nas lides da cultura: no quadro da ditadura do Estado Novo português a ação cultural se entremeia com a luta política. No Brasil estamos em lua-de-mel com a democracia reconquistada pelos exércitos das Nações Unidas, a presença dos pracinhas brasileiros nos campos de batalha da Europa ajudou a derrubar o nosso Estado Novo, em parte cópia do lusitano, meu discurso é ouvido com atenção, ainda não há quem se atreva a assumir a tribuna para contestar a denúncia, defender o lúgubre ditador.

Os jovens signatários da carta chamam-se José Rabaça e Antônio Alçada Baptista, mais de vinte anos depois irei conhecê-los pessoalmente. Convidado em casa de Rabaça, industrial e jornalista, no sopé da Serra da Estrela, ele me pergunta: recorda-se de uma carta que provocou discurso seu na Câmara? Lembra-se das assinaturas? Não se lembra? Eram a de Antônio Alçada Baptista e a minha.

Somos hóspedes de Antônio Alçada Baptista na casa de pedras que ele possui na serra, a casa mais bela do mundo, segundo Odylo Costa, filho, não discuto, mas ajunto que é também a casa menos cômoda do universo. Foi ele quem nos trouxe a jantar com os Rabaça. Ensaísta brilhante e polêmico, Antônio Alçada Baptista, ainda não é o romancista que irei ler e amar daí a alguns anos. Mas já o admiro e estimo. Mesmo na discordância de posições e idéias, como não admirar-lhe a escrita cristalina, a seriedade e a cultura de intelectual europeu, como não estimar a flexibilidade quase brasileira, a ânsia de entender e conviver?

 

 

Praia, 1986.

O requebro

 

Encaminhamo-nos para a sala onde se dará o banquete oferecido pelo Presidente da República de Cabo Verde ao Presidente da República do Brasil: Sarney veio a Praia em visita oficial.

Zélia aperta-me o braço, faz-me parar, sorri. Em nossa frente no corredor, a senhora Aristides Pereira, mulher do Presidente primeira-dama do país, a simpatia em pessoa. Não se imaginando seguida, ouvindo a música que vem da sala, antes de nela penetrar, executa um passo de dança, parece um gingado de samba, é um requebro de morna, ritmo e baile de Cabo Verde, o mesmo dengue, idêntico meneio de ancas, a bunda em vaivém.

 

 

Ulan Bator, 1952.

O diretor de divisão

 

Apenas desembarcamos as confusões lingüísticas começaram no aeroporto de Ulan Bator repleto de autoridades: membros do Governo, dirigentes do Partido, representantes da União de Escritores, do Movimento da Paz, da União das Mulheres para saudar Zélia e Rosa, da Juventude Comunista, dos Pioneiros e por aí vai. Nossa visita à Mongólia é acontecimento nacional sem precedentes, ninguém demonstra interesse pelo mais antigo e menos importante país de democracia popular. Encravada entre a URSS e a China, dois terços do território constituídos pelo deserto de Gobi, nação de pastores sujeita ao regime do socialismo real, desconhecida e menosprezada, a ex-Mongólia Exterior, desde 1921 independente, ignorada pelos intelectuais comunistas, proibida aos turistas, recebe a visita de um membro do Bureau do Conselho Mundial da Paz. Mais do que isso, de personalidade condecorada com o Prêmio Internacional Stalin, no caso eu próprio, e de um poeta famoso, Nicolás Guillén. Lembro-me das delegações, das bandeiras, dos aplausos à descida do avião, mas o que guardo até hoje no fundo dos olhos é a visão do imenso vale gelado, em derredor as montanhas altíssimas, cenário tão esplendoroso poucas vezes vi em minha vida. Faz um frio de trinta graus abaixo de zero.

O Ministro da Cultura, futuro primeiro-ministro, aproxima' se do microfone, discursa em mongol, um intérprete traduz para o russo, vocês estão em minhas mãos, gaba-se Zélia, única de nós quatro a saber umas quantas palavras da língua russa. Segue-se a tradução para inglês, o intérprete é um baixinho, engrola rápido as palavras, continuam em minhas mãos, em boas mãos, sussurra Zélia, única de nós quatro a entender e a maltratar a língua inglesa, de lá para cá seu inglês fez-se opulento, não o era quando baixamos do avião em Ulan Bator, muito ao contrário, era bem barco. Cobro da poliglota a tradução, Zélia responde-me impávida: deu-nos as boas-vindas, ranjo-lhe os dentes, devolvo-lhe o gracejo, estamos em boas mãos, não é? Estamos é no mato sem cachorro.

Desconhecendo o mongol, o russo e o inglês, não me esforço para agradecer em francês, faço-o em português, mas termino vivando em russo: za mir! viva a paz! Não houve tradução, imagino o espanto dos radiouvintes que me escutaram em baianês, em homenagem a eles gastei a saudação soviética, aprendida nos congressos.

Os carros nos conduzem ao hotel, nas ruas o povo se exibe em trajes mongóis, casacos, gorros, botas, peles de carneiros, cores vivas, os homens se nos afiguram altos, as mulheres lindas. O Ministro, as autoridades, os representantes das organizações sociais que nos acompanham vestem-se à européia, fazem triste figura nos trajes ocidentais, diminuem de estatura, perdem a personalidade. Creio que as roupas européias, peças de alfaiataria moscovita, pertencem ao governo para uso acidental, quando indispensável, é o caso.

No hotel somos apresentados a estrambótico personagem, enverga uma espécie de guarda-pó branco sobre a calça e o paletó de defunto bem menor. Não conseguimos saber quem tosse, por mais Zélia se esforçasse, Rosa Guillén pensa que seja um barbeiro, aconselha: aproveita, Nicolás, para podar as melenas. O intérprete sobra nas roupas emprestadas, o grandão não cabe nas que lhe tocaram, ambos de meia-idade, todos os mongóis, exceto as crianças, aparentam estar entre os trinta e os quarenta anos.

Lá vamos em companhia oficial e numerosa visitar a cidade, o intérprete traduz para o inglês as explicações do Ministro diante dos poucos edifícios de tijolos ou de cimento, Zélia se empenha, dá para reconhecermos os palácios do governo e do parlamento, a sede do Comitê Central, a universidade. Bem mais do que as contadas construções de arquitetura soviética, medonhosa, nos interessam as tendas espalhadas no vale, centenas e centenas, de lã espessíssima de camelo, redondas, amplas, confortáveis, a chaminé no centro, pastores bigodudos, mulheres gordas: a outra cidade, a provisória, muito maior e mais atraente do que a de pedra e cal.

Durante o inverno os pastores acorrem do deserto, erguem suas tendas, a população da capital duplica. Naqueles começos de 1952 o censo acusava cinqüenta mil habitantes permanentes em Ulan Bator, no inverno ultrapassava os cem mil: a população total da República não atingia um milhão de pessoas. Detemo-nos diante do palácio do Deus vivo — antes da invasão dos japoneses a Mongólia era uma teocracia governada por Buda redivivo —, construção chinesa, de madeira, bela, existe ainda outro convento budista na cidade. O Deus vivo aliou-se a Sukh Bator para expulsar os russos brancos que haviam substituído os invasores japoneses na opressão ao povo mongol, após a vitória manteve-se no poder até morrer, em 1924, quando a Mongólia independente proclamou o regime socialista. Os cem mil monges dos tempos passados reduziram-se a mil, dos mil mosteiros sobraram cem. Ao fim de nossa estada visitamos o Buda vivo, mais que vivo, vivíssimo, se não está inscrito no Partido é simpatizante, faz-nos o elogio do governo comunista.

Perdemos boa parte das explicações do Ministro. Com a ajuda do baixinho Zélia consegue transmitir-lhe nosso apelo angustiado: um intérprete de francês, pelo amor de Deus, de Marx e de Lenine, nossos deuses, se houver de espanhol melhor ainda, pois Rosa não fala outra língua. Voz de lástima, o Ministro confessa: não existe na República quem domine o francês, espanhol nem sonhar: gestos expressivos de impotência, sinto-o humilhado, causa-me dó. Devemos nos contentar com o intérprete de inglês na tradução de Zélia, continuamos em suas mãos: reconhecido eu as beijo, ao senti-la deprimida.

Jantar pantagruélico sob o olhar atento do senhor do guarda-pó, de pé em nossa frente. Quem será ele, que função exerce? Não é barbeiro como o viu Rosa, Zélia o enxerga diretor do restaurante. Nicolás e eu, a seu convite, provamos a bebida nacional, cachaça feita de leite de jumenta, achamos abominável, mas como ele insiste na dose, repetimos, de gole em gole começamos a apreciá-la.

O programa marca para a manhã seguinte encontro com os membros do Governo, no Palácio, e visita à sede do Comitê Central, à tarde sessão no Parlamento, ida à Universidade, como faremos para entender e responder saudações, manter conversa?

Estamos a findar a primeira refeição do dia, não menos pantagruélica, eis que surge o Ministro da Cultura acompanhado por um senhor de meia-idade (como todos os mongóis) apresenta-o aos gritos: françuski! françuski! Bonjour!, exclamamos em uníssono, bonjour contesta em voz baixa, quase inaudível o tradutor de francês tão reclamado, haviam-no descoberto, existia.

Já atrasados partimos a correr para o Palácio do Governo, tentei puxar conversa com o intérprete, mas ele não deu trela. Sentamo-nos em torno à mesa de reuniões do Ministério, ao lado das mais altas figuras da Mongólia, os chefões, os grandes do Partido, o primeiro-ministro inicia a saudação. O intérprete traduz lentamente, palavra por palavra, no rosto mongol insondável, imperscrutável, percebo a tensão que lhe vai no peito. Voz monocórdia, francês correto com o acento russo dos locutores soviéticos. Nicolás e eu agradecemos, contamos de Cuba, a Cuba de Batista, e do Brasil, em mongol o intérprete é rápido e vibrante. Partimos para o Comitê. O Ministro exulta.

Fazemo-nos amigos do intérprete, ele nos narra sua história: os anos tranqüilos de professor primário, de repente o terror, os suores frios, o pânico daquela madrugada quando a polícia política invadiu sua habitação, despertou-o e o levou sem lhe dar qualquer explicação. Nosso pedido de um tradutor francês pusera os órgãos de informação em polvorosa, busca aqui, busca acolá, interroga nos quatro cantos da cidade, de casa em casa. terminaram por obter da boca de uma funcionária da Biblioteca Nacional informação da existência de um professor de primeiras letras, modesto cidadão, conhecido por o francês, por se dedicar ao estudo dessa língua: infelizmente me esqueci como se diz o francês em mongol, Zélia tampouco se recorda.

Na ocasião decorei a expressão e a usava para falar com ele, não consegui jamais pronunciar-lhe o nome, só mesmo Zélia foi capaz de guardá-lo e repeti-lo.

Sozinho, sem professor, sem escola, sem Aliança Francesa sem curso de qualquer espécie, aprendera a língua que o seduzira ouvindo as transmissões em francês da rádio soviética. Descobriu na Biblioteca Nacional uma gramática francesa — de tanto a estudar ele a sabia inteira, de memória — e três livros em francês dois romances de Alexandre Dumas, Os três mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo, o terceiro era um tratado de vinhos e queijos. Ele os lera e relera dezenas de vezes, os decorara, conhecia na ponta da língua d'Artagnan e Edmond Dantes, o camembert, o roquefort, o chèvre, as melhores safras dos bordeaux e dos bourgognes. Cada noite escutava as transmissões em francês da Rádio de Moscou, não perdia uma.

Por pouco morre de susto quando os agentes da polícia política invadiram-lhe o quarto e o levaram. Considerou-se perdido: moeda corrente do stalinismo, as denúncias e as condenações, os processos políticos sucediam-se nas democracias populares. Quando o interrogaram sobre seu interesse pela língua francesa compreendeu que ao estudá-la e ao escutá-la cometera crime contra a Pátria e o Partido a ser punido com a morte. Confessou.

Para surpresa sua, em vez de meterem-no no xadrez, meteram-no em trajes europeus, mal cabia nas calças, o paletó comprimia-lhe o peito, não abotoava. Conduziram-no à sede do Comitê Central onde lhe deram a tarefa de servir de intérprete a um detentor de Prêmio Internacional Stalin, a um poeta famoso e às suas mulheres. Estavam com pressa, aproximava-se a hora do encontro no Palácio do Governo, arrastaram-no para o hotel, na porta entregaram-no ao Ministro da Cultura.

Começou seu metier de tradutor do mongol para o francês, traduzindo membros do Gabinete, dirigentes, ministros, o secretário-geral, o primeiro-ministro. Até o momento em que respondeu ao nosso bonjour, jamais havia ele pronunciado uma única palavra em francês, nenhuma, nunca, jamais. História para não se acreditar, sucedeu na República Popular da Mongólia, em fevereiro de 1952, quando lá estive com Zélia e os compadres Rosa e Nicolás Guillén.

Tornamo-nos amigos do intérprete que aos poucos foi se descontraindo, por ele ficamos sabendo que o senhor do guarda-pó era médico, responsável pela nossa saúde. Por curiosidade aqui transcrevo o nome do doutor, letra por letra: Ludvsanderjiin Zolzhargal, quem puder que o pronuncie. O tradutor do inglês continuou traduzindo para Zélia, opinei que ela não devia ter direito às traduções de nosso françuski, Zélia deu de ombros, mostrou-me a língua.

Propusemos aos intérpretes e às moças da Organização de Mulheres postas à disposição de Zélia e de Rosa que retomassem os trajes mongóis, ficaram felizes. Cresceu a formosura das jovens, cresceu a estatura do baixinho, nosso francês virou outro homem: elegante, forte, impávido. Ao despedirmo-nos perguntei como lhe poderia ser útil, pediu-me que assinasse para ele as edições em francês de revistas soviéticas, Temps Actuels, Litterature Soviétique, Cahiers du Communisme, as que houvesse. Assim o fiz ao chegar a Moscou, assinei-as por cinco anos, o prazo máximo.

Em dezembro daquele mesmo ano encontrei-me em Viena, no Congresso Mundial da Paz, com o Ministro da Cultura, chefe da delegação mongol, perguntei-lhe pelo intérprete de francês: como ia, o que fazia, retornaram a dar aulas na escola primária?

— Escola primária? Está maluco? — falava em russo, uma austríaca competente em vários idiomas traduzia. — íamos perder uma preciosidade tal? Hoje ele é o diretor da Divisão Francesa do Ministério do Exterior, criada após vossa visita.

 

Romancista de putas e de vagabundos, classifica-me com menosprezo um graúdo da crítica literária. A classificação me agrada, passo a repeti-la para definir minha criação romanesca.

Gosto da palavra puta, simples e límpida, tenho horror aos termos prostituta, marafona; pejorativos e discriminatórios. Em três palácios de governo relembrei que sou apenas um romancista de putas e de vagabundos, colocando o acento na palavra puta, com júbilo. No Palácio do Planalto, em Brasília, na cerimônia da criação por José Sarney, então Presidente da República, da fundação cultural que leva meu nome. No Palácio do Conselho de Estado, em Sofia, na Bulgária, ao receber o Prêmio Dimitrov. No Palácio de Belém, em Lisboa, quando o Presidente Ramalho Eanes me retirou da condição de "escritor maldito" e me entregou a Ordem de Santiago à Espada. Em toda circunstância, a meu lado, as putas e os vagabundos.

 

 

Bahia, 1967.

A passeata

 

Pouco afeita à mentira, incapaz de trapacear, Paloma nos anuncia que naquela tarde participará da passeata dos estudantes, manifestação de rua contra a ditadura militar, o irmão João Jorge, universitário, é um dos organizadores. Paloma vai completar dezesseis anos, secundarista, aluna do Colégio de Aplicação, será sua primeira passeata. Ar decidido, disposta a discutir se encontrar resistência familiar: certos pais de exaltado discurso esquerdista ficam em pânico na hora dos filhos se exporem, assumem a prudência e a proibição. Aviso dado e não contestado, Paloma parte heróica.

Zélia se apronta às pressas, recolhe a chave do carro, diz-me até logo:

— Onde vais?

— Se você pensa que vou deixar minha filha sozinha na passeata você não me conhece.

Sorrio, eu a conheço, e como! Lá se vai ela, entre preocupada e álacre, de retorno aos dias paulistas de 1945, ao fim da guerra. Passeatas, comícios, Zélia era a própria animação, subia nos palanques, discursava, porta-bandeira nos desfiles. A paixão ela a herdou do pai anarco-comunista, vítima da ditadura, saiu da prisão para morrer em casa, chamava-se Ernesto Gattai, técnico e piloto de automóveis.

No Colégio de Aplicação a Diretora apavorada tenta impedir que os alunos tomem parte na manifestação. Patética apela para Paloma, exemplo de bom comportamento:

— Pensa em tua mãe, Paloma!

Zélia salta do carro na porta do Colégio, a diretora exulta:

— Tua mãe veio te buscar, graças a Deus. Paloma grita sua decepção:

— Mãe!

— Vim para a passeata, vamos.

Os meninos despencam como frutos maduros de uma árvore que alguém sacudisse. Ao lado da filha estreante, a veterana subversiva faz o percurso de perigos, entoando hinos, gritando slogans, reclamando democracia. Na janela, na casa do Campo Grande, Nair e Genaro de Carvalho* reconhecem, assombrados, Zélia em meio à meninada. João Jorge vai na frente, na primeira fila a dos comandantes, aponta a irmã e a mãe aos camaradas: minha mãe!

*Genaro de Carvalho (1921/ 1971), tapeceiro, Nair, sua mulher, pintora.

 

Mãe e filha chegam em casa numa alegria de primavera, comentam os lances do percurso, têm os olhos injetados. Os soldados desembarcaram das viaturas brandindo os cassetetes, atirando bombas de gás lacrimogêneo, dissolveram a passeata. Zélia me avisa:

— Não perco mais nenhuma.

 

 

Rangoon, 1957.

A bagagem

 

Dou dois conselhos e não cobro por nenhum dos dois. Aprendi às minhas custas, e no caso referido em primeiro lugar aprendi às custas de Zélia: ao se ver à venda objeto que se deseja comprar, deve-se comprá-lo de imediato. Deixar para depois, para mais adiante, corre-se o perigo de nunca mais encontrar o que tanto se queria possuir.

Em Karachi, no Paquistão, Zélia descobriu na vitrine o par de sapatos de sua vida: desejados, lindos, exatamente iguais aos que vira nos pés da grã-fina do Itamarati cujo marido servira na Índia, desde então sonhara um dia desfilar calçando maravilha semelhante. íamos apressados, ela ainda quis parar, efetuar a compra, forcei a mão. Argumentei: recém-desembarcados no Paquistão, viajaríamos a índia, o Ceilão, a Birmânia — sapatos como aqueles sobrariam nas lojas, ainda mais bonitos e com certeza mais baratos, Zélia conformou-se, desistiu. Rodamos Paquistão, Ceilão, índia, Birmânia, de norte a sul, de leste a oeste, vinos coisas de assombrar, nunca mais encontramos sapatos iguais aos que não deixei Zélia comprar. Ainda hoje não esqueceu, de quando em vez me cobra os sapatos de sua vida.

Aconselho igualmente não se deixar bagagem seguir viagem desacompanhada, corre o perigo de perder-se, conosco aconteceu na índia e dessa desdita Zélia teve culpa, não somente ela, também Pablo Neruda. Vindos de Colombo, baixamos do avião em Madras, a vacina contra o cólera nos derrubara, a alfândega superlotada. Estávamos mortos de cansaço, viajáramos de madrugada, desembarcáramos doidos para o repouso no hotel. Percorreríamos a índia, nos deteríamos em Bombaim e Nova Delhi, em Calcutá tomaríamos o avião para Rangoon. Arriado num banco assisti Zélia e Pablo confabularem com os guardas alfandegários: deixaríamos com eles a bagagem, para recebê-la em Calcutá, ao fim da excursão. Protestei, protesto débil de moribundo, não tive sucesso, apelei para Matilde, absteve-se, vi com olhos de despedida minha máquina de escrever ser entregue a destino incerto. Pablo, vais perder o pacote com os originais de teu novo livro de poemas. Homem incrédulo, não confias no terceiro mundo? — acusa-me de reacionário.

Para cada casal pequena bolsa de viagem, o espaço maior, mais do dobro, destinado aos trapos da senhora: combinações, camisetas, blusas, foulards, anáguas, cintas, sutiãs. Ao cavalheiro coube o direito a uma camisa, uma cueca, um par de meias, dois lenços e olhe lá.

Lá fomos nós pela Índia a nos abarrotar de beleza e de miséria, em certo momento, em meio a tanta miséria, eu já não conseguia vislumbrar a beleza. No hotel de Bombaim, vendo-me chegar sozinho ao quarto, a camareira me propôs menina de doze anos por não sei quantas rupias, poucas, diante de minha recusa informou que em vez da menina podia ser menino da mesma idade, os ingleses por vezes preferiam. Estendeu-me a mão de bruxa, cobrava a proposta e a informação. Em Nova Delhi, as crianças miseráveis nos acompanhavam pelas ruas cantando cantigas de esmoler, Zélia ainda guarda a melopéia nos ouvidos, havia um aleijado, igual a um sapo, andava sobre as mãos, mais rápido que os demais — voltávamos correndo para o hotel. Em Calcutá os monges budistas e os crentes em geral defecavam nas aforas do templo, cada pedra uma obra de arte, cada passo um monte de merda.

Quanto à bagagem, como eu previra, desaparecera nos caminhos da índia, prolongamos nossa estada em Calcutá para esperá-la, não chegava — as vacas sagradas ocupavam a via pública, os mosquitos também sagrados alimentavam-se de nosso sangue ateu, e os macacos ah, os macacos eram os reis da índia, mandavam e desmandavam, subiam em nossas costas, tentavam arrancar nossas gravatas, metiam a mão nos bolsos, nos pescoços, puxavam os pêlos do peito, só faltavam nos enrabar.

Cúmplices, responsáveis pelo sucedido com as malas — malas, bolsas, sacos de viagem, máquina de escrever, manuscrito de poemas —, Zélia e Pablo concluíram que a bagagem fora enviada para Rangoon. Por que haviam de enviá-las a Rangoon, procurei saber, não via motivo nem maneira, não me responderam, ao chegar a Rangoon lá não estavam, por que haviam de estar? De mau humor, sem roupa para mudar, infeliz, tão por baixo eu estava que me faltava ânimo até para atirar o malfeito na cara de Zélia, cara que a coitada não sabia onde esconder. Na de Pablo não adiantava, os poetas são seres superiores, colocam-se acima dessas contingências.

Em Rangoon chovia sem parar, nossos agasalhos na bagagem perdida, fartos de debater o assunto criamos multa em dinheiro para quem se referisse a las valijas, Pablo fugia ao pagamento referindo-se a las inombrables, eu pendurava-me ao telefone tentando contactar o cônsul brasileiro de Calcutá, jamais consegui completar a ligação. Nas ruas, acreditando-nos norte-americanos, os nacionalistas exaltados nos insultavam, nos ameaçavam, o que devíamos fazer? Apanhar sem revidar, aplaudindo a surra anti-imperialista ou nos juntarmos a eles na manifestação subversiva correndo perigo de cadeia birmanesa?

Em Rangoon comemoramos o dois de julho, data da independência da Bahia e do aniversário de Zélia. Para os festejos, Pablo escreveu um poema, só me recordo do primeiro verso: En este Rangoon de mierda...

 

Aproveito a bagagem desaparecida — perdida para sempre, pensei na ocasião, na China a recuperamos mês e meio depois de tê-la abandonado em Madras, como foi parar em Pequim até hoje não sei, milagres acontecem até nos países comunistas, Buda é grande e Mao é seu profeta — aproveito a arrumação das bolsas de viagem no atropelo da alfândega hindu para revelar de público, com veemência e asco, minha repulsa a duas peças do vestuário feminino.

Os peitorais, que horror! Podem designá-los com o nome que ferirem — os pomposos: corpete, porta-seios, os graciosos: corpinho, sutiã — para mim esses panos que as mulheres amarram no peito para esconder e deformar os seios são peitorais medievais e na maioria feios. Mesmo os pequeninos, leves, finos, bonitinhos, de filo e renda que mais mostram do que escondem, mesmo esses destinados à prática da sacanagem marcam e alteram o viço dos seios, desfiguram e enfeiam Os seios devem viver soltos sob o vestido, a blusa, a bata — ah, o vislumbre dos seios negros no decote da bata das baianas vendedoras de acarajé, gostosura maior do tabuleiro — por que ter vergonha dos seios, escondê-los como se fossem deformações, obscenidades? Soltos sob o vestido, ainda mais desejáveis do que na exibição do topless.

Que dizer, então, das monstruosas cintas de borracha que as mulheres usam para comprimir, reduzir, esmagar a bunda no desejo de aparentar o visual de esqueleto — os ossos estão em moda, moda mais burra, quem gosta de osso é cachorro já dizia seu Ernesto, pai de Zélia, amante da boa carne. As tais cintas, sucessoras dos cintos de castidade da Idade Média, deformam, maltratam, magoam a parte mais formosa e delicada da anatomia feminina. Refiro-me à bunda em seu conjunto, em sua complexidade, com as riquezas que contém na frente e atrás, em cima e embaixo, não preciso enumerá-las. Tenho por essas cintas de borracha, ou do que sejam, mais do que aversão, tenho repugnância, são medonhas e, ademais, cheiram mal — nunca cheirei nenhuma, mas estou convencido de que fedem. Mulher metida numa dessas cintas vira robô, avantesma, quem teve curiosidade de ver, ficou sabendo.

Devia-se votar uma lei nos parlamentos do mundo proibindo por anti-higiênico e antiestético o uso de sutiã e de cintas, lanço meu grito de guerra: liberdade para os seios e as bundas, basta de opressão! A beleza deve ser exibida, não há por que escondê-la, dela se envergonhar. Encabeço um manifesto de repúdio aos peitorais e às cintas de borracha (e similares) — já conto com três assinaturas além da minha: a de Carybé, a de René Depestre e a de meu genro Pedro Costa, pessoas as três de reconhecido bom gosto.

 

 

Taipa, 1970.

O busto

 

Ferreira de Castro nos ensina o norte de Portugal no verão sem mácula, de cidade em cidade, de aldeia em aldeia, conhece cada recanto, paisagens e histórias, de Oliveira dos Azemeis onde nasceu à fronteira espanhola. Mesmo com o calor de julho veste-se para o rigor do inverno, não abandona o terno pesado, o colete e o chapéu, não sei de ninguém com tamanha fobia a resfriados, nenhum francês o ganha no repúdio às correntes de ar. No carro pede a Zélia que lhe cante o Luar do Sertão, cantiga em que é vidrado.

Perto de Guimarães, na localidade de Taipa, ergueram-lhe um busto, os portugueses se orgulham do romancista traduzido em todas as línguas, carregado de prêmios — vem de receber a Águia de Ouro de Nice, atribuído por um júri internacional presidido por Miguel Angel Asturias. O busto no parque da aldeia, à sombra das árvores, próximo a um banco onde conversam labregos na folga do domingo. Louvo o gesto da municipalidade e da gente do lugar, a homenagem, o autor de A Selva não comparte de meu entusiasmo:

— Uma pena, botaram-me a perder o veraneio. Todos os anos, no verão, vinha aqui para uns dias de descanso. Antes do sol se pôr, à tarde, sentava-me naquele banco — aponta o banco junto ao busto —, conversava sobre a chuva e o bom tempo, a vida e a morte com os patrícios, sabem coisas, contavam-me das pessoas e dos costumes, os detalhes com que se fazem os romances. Sabes como é.

O vento na praça, Ferreira de Castro ajeita o cachecol:

— Conheciam-me como o homem do chapéu porque ando de cabeça coberta para não apanhar defluxo, não sabiam quem eu fosse, conversavam à tripa solta, eu era um deles. Agora, acabou-se, não serei eu quem irá sentar-se diante do busto, papel ridículo. Deixei de vir ao veraneio, a conversa se perdeu, já nada me contam, passei a ser Vossa Excelência, dão-me boa-tarde e se despedem, uma tristeza. Vamos embora antes que pensem que vim aqui para vos exibir o busto, pavonear-me.

 

 

Rio de Janeiro, 1932.

O aprendiz de romancista

 

Aprendiz de romancista, embriagado com o sucesso de crítica de O País do Carnaval, escrito em 1930, publicado em 1931, escrevo a correr Ruy Barbosa número 2, na mesma linha romanesca de influência européia, debate intelectual de idéias (sic), bobageira. Gastão Cruls, escritor de presença marcante na vida literária, dirige uma nova editora, a Ariel, e uma revista mensal, importantíssima, o Boletim de Ariel. Colaborador da revista, deixo os originais do novo romance com o autor de A Amazônia que eu vi que, uma semana após, concorda em publicá-lo, sem entusiasmo ao que me parece.

Excetuando-se artigo áspero de Antônio de Alcântara Machado — senti-me infeliz por ser admirador irrestrito do contista de Brás, Bexiga e Barra Funda, mas nem por isso lhe retirei minha admiração, permaneço irrestrito —, a crítica foi de rara benevolência para com meu primeiro romance. Os três grandes críticos da época, mestre João Ribeiro, Medeiros e Albuquerque e Agripino Grieco foram unânimes no louvor do estreante. João Ribeiro augurou-lhe êxitos, prognosticou-lhe carreira brilhante na ficção nacional. Medeiros e Albuquerque que havia considerado Lenita uma pura abominação, saudou O País do Carnaval com entusiasmo. Agripino Grieco, panfletário mordaz, contundente, arrasador, livro que passasse pelo crivo de sua análise estava consagrado, talvez por ser amigo de Pinheiro Viegas, patrono da Academia dos Rebeldes, Grieco excedeu-se nos elogios. Eu me pavoneava nas livrarias, na Católica, na Schmidt, na Garnier, de crista alta. Nunca mais consegui a mesma complacência dos críticos, a partir do segundo romance passei a receber pau de criar bicho.

Quanto à venda, não podia me iludir: dos mil exemplares da edição Schmidt, eu próprio devo ter adquirido mais ou menos metade da tiragem para oferecer a amigos e conhecidos. Como não recebi direitos autorais, o poeta dublê de editor era bom de poesia, ruim de pagamento, a estréia em livro custou-me parte considerável das mesadas remetidas de Ilhéus pelo coronel João Amado.

Não só me pavoneava, também namorava, batia papo nos cafés e nas livrarias, ia à Faculdade fazer baderna, e lia, lia muito. Sou desde moço e até hoje infatigável devorador de romances. Terminada a escrita do volumoso Ruy Barbosa número 2, dediquei-me aos livros de sucesso naquele então: A Bagaceira, de Zé Américo, Menino de Engenho, de Zé Lins, Judeus sem Dinheiro, de Mike Gold, Passageiros de Terceira, de Kurt Klaber, A Torrente de Ferro, de Serafimovitch, A Derrota, de Fadeev, A Cavalaria Vermelha, de Babel — a fase inicial da literatura soviética possuía uma aura romântica, era ardente e vigorosa, ainda livre e criadora. Lendo A Bagaceira virei escritor brasileiro, lendo os russos, alemão e o judeu norte-americano desejei ser romancista proletário. Escrevi Cacau, nada tinha a ver com O País do Carnaval. "Será um romance proletário?", perguntava na nota de entrada. Voltei a Gastão Cruls, pedi devolução dos originais de Ruy Barbosa número 2, em casa os destruí. Deixei com o contista os originais de Cacau para que os lesse e opinasse. Alguns dias depois Gastão — alto, elegante, finíssimo, o cigarro na ponta da piteira longa, ser civilizado — me disse apontando para as páginas datilografadas de Cacau:

— Quase tudo que está aqui é bom, mas é pouco. Você, porém, ainda não pode fazer mais. De qualquer maneira Cacau vai ser um grande sucesso, vou publicá-lo imediatamente.

Assim fez. Com ilustrações de Santa Rosa, as primeiras do desenhista que revolucionou as capas e as ilustrações dos livros brasileiros, Cacau esgotou em quarenta dias a edição de dois mil exemplares: a proibição de venda por subversivo, decretada pela polícia carioca, ajudou o sucesso de público. A liberação deveu-se à intervenção de Oswaldo Aranha* e a vigoroso protesto de O Globo.

Livrinho maniqueísta, mas que livrinho retado!

*Oswaldo Aranha (1894/1960), político, na época ministro da Justiça.

 

 

Rio de Janeiro, 1970.

O batavo

 

Gilberto Amado* chega da Europa, me convida para jantar, é portador de carta que me envia seu colega soviético na Corte Internacional de Justiça, somos primos, damo-nos bem um com o outro. Mestiço sergipano de boa cepa, cidadão importante, Gilberto foi deputado, senador, embaixador no Chile e na Finlândia, é jurista eminente, eminente literato, personalidade de proa na vida brasileira, move-se cercado por uma corte de admiradores.

*Gilberto Amado (1887/1969), escritor, jurista e diplomata.

 

Antes que cheguem Odylo e Magalhães Júnior, também convidados, Gilberto leva -me ao gabinete, desdobra sobre a mesa e trabalho preciosidade recebida de presente em Amsterdã, onde estivera: pergaminho antigo, mapa traçado quando da derrota dos holandeses, ao fim da tentativa de colonização das terras do nordeste. A carta mostra lugares de Pernambuco, Alagoas, Sergipe, norte da Bahia, localidades nas quais famílias vindas da Holanda ou constituídas no Brasil pelos invasores deixaram-se ficar, não quiseram voltar à pátria de origem. Lá está em Sergipe, mais exatamente em Estância, terra de nosso avô José Amado, de nossos pais, o nome de família dos Amado. Gilberto aponta com o dedo:

— Somos holandeses! — exulta com a descoberta.

— Será? — exponho minhas dúvidas: — Não te esqueças que na comitiva de Nassau vieram para a colônia holandesa os judeus que ao fugir da Inquisição em Espanha e Portugal se abrigaram na Holanda, Nassau os trouxe para o Brasil, muitos aqui ficaram. Não te esqueças também que existe Amado às pampas em Portugal, na Espanha, no Médio Oriente, quem sabe esses Amado de Estância eram judeus sefardins? Batavos ou judeus, gente boa.

Gilberto olha-me com pouca simpatia, enrola o mapa, guarda-o na gaveta, que eu saiba não voltou a exibi-lo nunca mais.

 

Não existe, nunca existiu, decerto jamais existirá guerra tão estúpida, tão monstruosa, tão fratricida quanto esta em que se confrontam judeus e árabes no massacre de populações civis, no terrorismo, no holocausto de inocentes, no preconceito, no atraso, no racismo. Guerra de família, ah o ódio entre os irmãos!, não há guerra assim tão desatinada, despida de qualquer razão, guerra para servir a interesses dos fabricantes e traficantes de armas, dos comerciantes da morte: deviam estar na cadeia, estão nos palácios, dão ordens aos governos. No Oriente Médio, semitas uns e outros, primo-irmãos, árabes e judeus matam e morrem por terceiros: fruto da guerra fria, telecomandada de Washington e Moscou, essa guerra, mais que outra qualquer, é a negação do humanismo, é o cancro do racismo, a lepra da intolerância, a aids do espírito de seita: tenta apresentar-se luz do tabernáculo, pedra sagrada de Meca e de Medina, quando é o oposto da fé e da cultura.

Ah, essa guerra entre irmãos judeus e árabes, noite da Idade Média na madrugada do século XXI, é necessário terminar com ela o quanto antes. Para que existam, livres e fraternos, o Estado de Israel, pátria de judeus, e o Estado da Palestina, pátria de árabes, a poesia do rei Salomão, a inventiva de Sheerazade, Moisés e Maomé nasceram do mesmo ventre de mulher na travessia do deserto.

Quando da guerra dos seis dias, na cidade de São Paulo, no país Brasil onde as raças se misturaram, uniram-se judeus e árabes, brasileiros uns e outros, desfilaram no mesmo cortejo de paz e humanismo, juntos disseram não à carnificina, ah, o orgulho de ser brasileiro cresceu dentro de meu peito, orvalhou meu coração. Depois as missões diplomáticas dos países árabes e de Israel impediram, usando de todos os meios de pressão, que a manifestação se transformasse em exemplo para o mundo. Velho brasileiro mestiço, tenho em minhas veias sangue judeu e sangue árabe, prossigo na passeata de São Paulo: enquanto durar a guerra imunda não aceitarei convite ou honraria que me venha do estado judeu, do mundo árabe, sou o irmão de Amos Oz*, o mabaça de Naguib Mahfuz**, quero atravessar a fronteira dos Estados da Palestina e de Israel, no dia da paz, quando a família dos semitas de novo se sentar à mesa para repartir o pão.

*Amos Oz, escritor israelense.

**Naguib Mahfuz, escritor egípcio, Prêmio Nobel de Literatura.

 

 

Wroclaw, Polônia, 1948.

Os cavalos

 

Companheiros de velha data em reuniões, conclaves e comícios no Montevidéu*, reencontro Enrique Amorim, o romancista uruguaio de El caballo y su sombra, no Congresso Mundial de Intelectuais pela Paz, em Wroclaw. Convida-me para assistir à projeção de um documentário cinematográfico sobre criação de cavalos na amplidão dos pampas, ou seja, na vastidão de sua fazenda na Banda Oriental: Enrique é latifundiário, o que não o impede de ser comunista.

*Em 1941/1942.

 

Em nossas pátrias da América Latina, propriedade latifundiária e militância comunista se deram sempre às mil maravilhas, poderia citar extensa relação de opulentos senhores de terra que acumulam posições de esquerda do maior radicalismo. Como me confidenciava meu inesquecível Giovanni Guimarães ao chegará à idade madura fazendeiro e maoísta: quanto mais cresce a fazenda mais à esquerda tenho de me posicionar para que saibam que não renego minhas convicções. Ria aquela risada feliz que ainda hoje ressoa em meus ouvidos, ah Giovanni, que saudade!

Na pequena cabine de cinema, invejo Enrique Amorim cercado de mulheres, jovens e irrequietas líderes feministas a rodear o macho latino, alto, espadaúdo, risonho, bonito, milionário comunista, bel'uomo na voz cristalina de Maria de Firenze, bella donna. Na tela cavalos e éguas, de raças apuradas, correm livres nos campos infinitos para a linha do horizonte, as crinas ao vento as narinas dilatadas, alimárias magníficas, feitas de força e elegância. Vestido de gaúcho, garboso na indumentária folclórica, o romancista Amorim à frente dos peões, cavalga sobre o pasto verde e os corações das convidadas.

Logo a correria cessa, cavalos e éguas são levados para o cruzamento — na intenção do aprimoramento da raça, explica Enrique, competente e malicioso. Filmadas nos mínimos detalhes, em grandes planos, as cenas do acasalamento dos eqüinos animam a assistência, ouvem-se gritinhos incontidos, risos nervosos. Maria de Praha, assessora da delegação tchecoslovaca, deixa escapar exclamação de êxtase quando a tela inteira é ocupada pelo membro descomunal de um cavalo pampa no ato de montar uma égua negra que estremece nas patas: Christa Pana!, grita, empolgada. Enrique aproveita para explicar que o calibre desmesurado é atributo dos uruguaios, dos cavalos e dos homens. Maria da Bahia, que em verdade é alagoana, pequena jornalista sem jornal, sente umedecer-se a calcinha de rendas, suspira, bate palmas.

Enrique Amorim é conduzido em triunfo, qual das marias o terá primeiro? O documentário é bem filmado, mas outra coisa é ver de perto cavalos e éguas cruzando na fazenda, fascinantes, explica Enrique: na tela falta o perfume do campo, embriagador.

 

 

São Paulo, 1944.

O quadro

 

Após o jantar Segall leva-me ao atelier, além de dona Geny estão conosco Lucy Citti Ferreira e Sérgio Milliet*, encontro-me de passagem por São Paulo, vim da Bahia para o lançamento de São Jorge dos Ilhéus.

*Sérgio Milliet (1898/1966), poeta e ensaísta.

 

Ligam-me a Lasar Segall laços de amizade nascidos de minha admiração, sou tarado por sua pintura. Com a inconsciência da idade escrevo sobre arte, afirmo besteiras, mas acerto ao colocá-lo nas alturas, proclamá-lo o mestre principal: a afirmação agrada ao brasileiro provindo das estepes com passagem pela Alemanha.

Não sei quem mais se assombra, se Lucy, se Sérgio, quando Segall espalha no chão do atelier quatro ou cinco guaches, cada qual mais belo: escolha um entre eles, me diz. Anuncia em alta voz: vou lhe dar um quadro de presente, amigo, balança a cabeça como se ele próprio duvidasse. Engulo em seco, termino por me decidir: a moça na rede dentro da paisagem tropical. A moça, decerto Lucy, aluna e modelo.

Estendo a mão para tomar posse da dádiva, Segall é mais rápido, volta a guardá-la: vou colocar passe-partout, entregarei depois. Regresso à Bahia sem o guache, em começos de 1945 venho viver em São Paulo, alugo apartamento na Avenida São João, penduro nas paredes telas de Pancetti, Graciano, Flávio de Carvalho, Quirino da Silva, Rebolo, Nonê de Andrade, ofertas dos artistas. Janto com freqüência em casa de Segall, um dia venço o embaraço, reclamo o presente feito há quase um ano, o quadro oferecido, jamais entregue, desejo tê-lo em meu apartamento. Não há dúvida, tem razão, amigo, concorda Segall: não me esqueci, tive propostas e não vendi. Espero sair com o guache, saio com as mãos vazias, não me atrevo a reclamar.

Dias depois Segall me telefona, passará pelo apartamento após o almoço. Chega na hora marcada acompanhado por um operário armado de martelo, pregos e outros apetrechos, sob o braço o quadro, emoldurado: moldura branca, até hoje a conservo igual. Segall escolhe o centro da parede principal de onde faz retirar meu retrato pintado por Quirino, manda que o operário tome as medidas, estabeleça o espaço, coloque os grampos, ele próprio, Lasar Segall, pendura a paisagem com a moça na rede: a sala do apartamento se ilumina e se engrandece. Afasta-se, olha, volta, ajeita, toma distância para ver melhor.

— Parabéns, amigo, soubeste escolher, uma beleza de quadro. Custa-me desprender-me dele. Vez por outra Segall aparecia, visita honrosa, agradecia. Não vim visitar você, amigo, vim visitar meu quadro, estava com saudades. Sentava-se em frente a admirar.

 

 

Paris, 1988.

Neném

 

Gilberto* telefona de Lyon, acaba de chegar do Rio, traz- me a morte de Neném, ele a carrega ao colo como se leva uma criança no embalo dos braços, eu a recebo pela segunda vez, dias antes fora o frio telefonema do jornalista pedindo opinião sobre o secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro. Não consigo conter o pranto, choramos juntos, o filho de Giocondo e eu: uma parte de mim se foi, a melhor a mais brava, a mais decente. Gilberto soluça: morreu com teu nome na boca.

*Gilberto Santana Dias, físico.

 

Já me haviam contado: quando saía da inconsciência e retornava ao mundo por alguns instantes, perguntava por mim, éramos siameses. Juntos batalhamos, erramos e aprendemos. Aprendemos na carne a diferença entre a grandeza dos ideais e a miséria da ideologia, ficamos sabendo que o grande homem pode diminuir em anão quando o vírus do mando — ainda que seja nesga ínfima do poder absoluto — lhe invade o sangue e lhe atinge o coração. Havíamos aprendido tudo o que havia a aprender e ninguém mais podia nos enganar, mas não ficamos nem áridos nem pérfidos, conservamos intacto o sonho que iluminou nosso percurso.

Morreu Giocondo Dias, agora sou metade apenas. Penso em Anna Seghers: a escritora e o militante, a alemã e o brasileiro, cravejaram a certeza no peito, jamais renegariam mesmo se a evidência os deixasse — e os deixou — sozinhos em meio à multidão de camaradas. Soldado, com os galões de cabo, comandou o levante militar de 1935 em Natal, deram-no por morto com não sei quantas facadas, não o levaram preso, não se prende defunto, Giocondo segurou o fio de vida, costurou as feridas, marchou em frente, sustentado por Lurdes prenha de meses.

Viveu clandestino boa parte de sua existência, na Bahia com nome falso era o cabeça do pecê, quem de fato o dirigia, sob a cobertura do operário mandado do Rio pela direção, tinha bom senso, ouvia e aprovava, e a algaravia dos arruda-boys que arrotavam marxismo — alguns ainda o arrotam e peidam. Só nós dois, ele e eu, sabíamos por fora e por dentro e poderíamos conta a saga daqueles anos da guerra na Bahia, Giocondo colocou de pé e pôs a andar o maior movimento de massas pela democracia) contra o fascismo, até então visto no Brasil, o povo desfilou nas ruas conduzindo os retratos de Churchill, Roosevelt, Stalin, gritava viva Stalin, por mais que desejassem não foi possível impedir. Giocondo comandou do esconderijo, seu esconderijo era o meio da rua, o povo em torno.

Após a breve vida pública na legalidade, dirigente, deputado, ouvido e acatado, desceu de novo aos porões de clandestino, por mais de dez anos cuidou da segurança de Prestes. No império dos militares, comandou mais uma vez da ilegalidade, nos encontrávamos nas esquinas do mundo, nas encruzilhadas do Brasil, já então sabíamos como as coisas eram e se passavam, modesto e discreto Giocondo sorria, ternura e desengano, jamais o desencanto pela vida: abandonar, isso nunca, tomava-me do braço, afirmativo: mais além da merda chegaremos à relva de flores, ao rio de águas puras, à decência do homem.

Na primavera eu o vi enamorado, Lurdes era insubstituível, ele sabia, mas Giocondo não abria mão de viver em plenitude. No comício de Lisboa, ele observava a reação de Maria, a militante vibrava a cada palavra de Cunhal, o orador perorava estreitezas definitivas do começo do mundo leninista, nada aprendera. Giocondo sorria, conhecia o enredo da primeira à última linha, mas o ardor dos camaradas portugueses, o entusiasmo de Maria o comoviam.

Sou metade de mim mesmo, tomo dos braços de Gilberto, coloco sobre os ombros a morte de Neném. Sua mãe, la mamma italiana, sua mulher Lurdes e eu próprio, os três e mais ninguém, o tratávamos por Neném.

 

 

Praia de Maria Farinha, 1960.

Cansaço

 

Encostado no coqueiro, Amaro Amarelo louva a nudez da alemã: estendida ao sol, na popa do barco, os pêlos loiros, ela e o marido rumam para o mar largo. Amaro Amarelo ajuda o alemão a colocar a embarcação em ordem enquanto a gringa despe o maio e assume o sol para doirar o corpo, bunda, seios e ventre, brancarrona. Se Deus quiser e o ajudar, Amaro Amarelo ainda há de comer uma brancarrona, Nosso Senhor não irá abandoná-lo para todo o sempre no alvéo. Amaro também cristão e batizado, no entanto somente doutor Paulo merece regalias do céu, uma atrás da outra, cada qual mais loira: o dia de sorte de Amaro chegará. Informa sobre o regime dos ventos, os cuidados a tomar na navegação, não cobra pela estafa mas aceita a moeda de níquel que o cabrão lhe dá, sendo um esteta considera-se pago com a visão do xibiu de frau Katherina, moedas de ouro.

Amaro Amarelo, amarelo pelo macilento da pele, moço de mais ou menos trinta anos, já aposentado pelo Instituto, como não sei — ele diz sou do Institute, assim explica o ócio permanente à sombra dos coqueiros ou na rede pendurada na choupana de palha. Dedica-se em tempo integral, sem solução de continuidade a não fazer nada, ocupação na qual é imbatível. Protegido de Paulo Loureiro por ser bom de papo e por conhecer na ponta da língua a vida e os amores da vizinhança nas duas margens de Maria Farinha, a do mar e a do rio, qual a mais luminosa?

Diante de nós, nos fundos da casa dos Loureiro, outro Amaro, Amaro da Conceição, constrói um banheiro para proporcionar a quem chega do mar, coberto de sal, o luxo de uma chuveirada antes de transpor o postigo. Aprecio e celebro a competência e a rapidez de Amaro da Conceição na preparação do barro, na colocação dos tijolos, no manejo da colher de pedreiro, a parede cresce a olhos vistos. Também Amaro Amarelo acompanha o movimento do operário, seu xará e seu contrário, os vaivéns, a azáfama para concluir a tarefa contratada. Amaro Amarelo ergue o corpo, esquece a xoxota da alemoa, os chifres do alemão, queixa-se:

— Fico tão cansado vendo seu Amaro da Conceição trabalhar que até sinto dor nas costas, não agüento mais tanto trabalho, vou pra rede descansar um pouco.

 

 

Moscou, 1954.

Complô

 

Anna Seghers me telefona do Hotel Nacional, fica defronte da Praça Vermelha — Zélia e eu estamos no Metropol, diante do Bolshoi, em companhia de Neruda e de Guillén, Acabo de chegar, me diz, preciso falar contigo com a maior urgência, imediatamente: a voz nervosa. Anna veio a Moscou como eu e tantos outros escritores dos cinco continentes convidados a assistir ao II Congresso dos Escritores Soviéticos, evento de extrema significação no universo da esquerda intelectual.

Anna não veio apenas para o Congresso, deve também participar da reunião do júri do Prêmio Internacional Stalin, é jurada: quanto a mim sou premiado, a maior das honrarias que recebera até então, dá-me na URSS status de diplomata, importância de dirigente. É sobre o Prêmio Stalin que Anna deseja me falar. Umas quantas pessoas pelo mundo afora acreditam em mim, atribuem-me poderes que eu não tenho, capacidade de resolver qualquer problema, não sei por quê. Anna Seghers é uma dessas irresponsáveis.

O problema que a aflige e ela me transmite para que a aconselhe parece-me de gravidade incontestável, refere-se a Bertholt Brecht. Jantei com Brecht em casa de Anna — ela e o dramaturgo moram no mesmo edifício de quatro pisos em Berlim Leste, Anna no segundo, ele no quarto, se não me engano —, sou amigo de Helena Weil, sua mulher, colegas no júri do Prêmio Internacional da Paz, do Conselho Mundial. Com Brecht só vim a ter maior contato quando da filmagem por Alberto Cavalcanti* da peça O Senhor Puntila e seu criado Matti, na Wien Film. Penso ter concorrido para que o teatrólogo e o cineasta pudessem se entender: de início se estranharam.

*Alberto Cavalcanti (1897/1982), cineasta.

 

Acontece que Brecht passou a ser olhado com desconfiança pelo pecê alemão, partido de um sectarismo além do imaginável. Sem que fosse levada em conta sua vida inteira dedicada à causa do socialismo, a obra extraordinária do dramaturgo foi acusada de formalista, não se enquadrava nas normas do realismo-socialista ditadas por Zdanov. Para começo de conversa, o Partido decidira, segreda-me Anna, retirar-lhe o uso do teatro que os soviéticos lhe haviam deixado quando se retiraram de Berlim, no qual Brecht e sua companhia Berliner Ensemble se instalaram e realizam trabalho de repercussão mundial.

Anna parte para a luta em defesa do amigo, arma-se o complô. Está aflita: vão fazer a vida de Bertholt impossível, tu sabes como são essas coisas, não preciso te dizer. Mas há uma maneira, uma única, deparar com tudo isso e lhe garantir segurança, tranquilidade, a paz necessária a seu trabalho. E que maneira é essa? Obter para ele o Prêmio Stalin: se o tiver ninguém ousará tocar nele em seu teatro. Quero que me ajudes, o júri vai se reunir daqui a quatro dias.

Foi uma correria. Primeiro a conversa com Eremburg, no apartamento da rua Gorki, Anna conta nos dedos os votos certos para Brecht: o de Ilya, o de Neruda, o dela, quem sabe o de Aragon, o velho a interrompe, brusco:

— Não perca tempo com isso. O que importa é o apoio de Sacha — Sacha é Alexandre Fadeev que, no júri, representa o PCUS, a cujo Comitê Central pertence, membro efetivo — se ele achar que está bem ninguém vai discutir. Só há uma coisa a fazer: falar com ele.

Toma do telefone para marcar o encontro, marca, recomenda a Anna: vá com Jorge, Sacha gosta dele. Era verdade, Fadeev me estimava, considerava-me um camarada direito, em quem se podia confiar. Lá fomos nós, Anna e eu, conversar com o secretário-geral da União dos Escritores Soviéticos.

Foi mais fácil do que pensávamos. Exposto o problema, o autor de A Jovem Guarda não vacilou um momento, emprestou total apoio à sugestão de Anna, deu-lhe sua aprovação. Colocaria o nome de Bertholt Brecht na relação dos premiados, dos possíveis premiados, retificou, pois quem dava a última palavra, segundo ele, era o Bureau Político do Partido. Seria verdade? Não sei, não era fácil saber onde a verdade, onde o jogo de interesses. Fosse como fosse, Bertholt Brecht teve o prêmio, o pecê alemão arrepiou carreira, desistiu de incomodá-lo. Incomodar, verbo fraco, nem de longe dá idéia das misérias a que o sujeitariam, o poço de infâmias em que o afundariam.

 

 

São Paulo, 1984.

Capim barba-de-bode

 

Na platéia do teatro, sentada entre mestre Calá e o prefeito de São Paulo, Mário Covas, Auta Rosa exclama: não, não acredito... Não acreditava no que seus olhos viam, seus ouvidos escutavam: no palco Dorival Caymmi e Carybé cantam a cantiga do capim barba-de-bode: uai uai meu capim barba-de-bode...

Completo cinqüenta anos de livro publicado, em meio ao festival comemorativo posto de pé por João Agripino Dória — força da natureza, amigo devotado e perigoso: você se descuida ele organiza um programa de homenagens —, companhia paulista de teatro remonta adaptação argentina de Dona Flor e seus dois Maridos, eu a vira dois anos antes em La Plata, a história de dona Flor em ritmo de tango.

Ao fim do espetáculo os artistas me chamam ao palco, ao agradecer anuncio a presença na sala do compositor Dorival Caymmi, aquele que ensinou a Vadinho o passo do siri-boceta, assim está contado no romance. Sob aplausos, Caymmi sobe à cena, a platéia reclama-lhe demonstração da dança baiana, ninguém a conhece. Dorival promete se exibir se Carybé, também presente, vier cantar com ele a melodia ideal para o baile do siri-boceta, a música do capim barba-de-bode, Carybé não vacila, serelepe junta-se aos artistas, na boca da cena ele e Caymmi cantam e bailam: uai uai / meu capim barba-de-bode / faz tempo que nós não vai / faz tempo que nós não fode!

A platéia delira, Dona Flor, Vadinho, o farmacêutico Madureira dançam o passo do siri-boceta, o elenco inteiro faz coro com Dorival e Carybé, Auta Rosa não acredita, o Prefeito aplaude: uai uai meu capim barba-de-bode.

 

 

Bahia, 1970.

Poder escritor

 

Nas gazetas a notícia do projeto de censura aos livros de autoria do professor Alfredo Buzaid, Ministro da Justiça no governo Médici. Vivemos o momento mais negro da ditadura militar: a tortura é o pão quotidiano do regime, o cerco aos democratas se estreita: cárceres repletos, seqüestras, assassinatos. Sucedem-se leis e decretos, liqüida-se a cidadania. Pelo Projeto em vias de ser lei, será estabelecida a censura prévia para a publicação de livros: obrigatoriedade do envio dos originais aos censores, a publicação será permitida na íntegra ou com cortes ou simplesmente proibida.

Tomo do telefone, ligo para Érico Veríssimo em Porto Alegre: — Leste o projeto de censura?

— Que horror! Precisamos fazer alguma coisa. — E o que venho te propor. Somos os dois escritores mais lidos do país, os de maior público, é tempo de exercermos nosso poder.

Proponho a Erico, e ele imediatamente aceita, redigirmos e assinamos declaração dizendo que jamais, em nenhuma hipótese, enviaremos originais à censura prévia mesmo que isso signifique renunciar à publicação de nossos livros no Brasil. Ali mesmo mo, ao telefone, encontramos entre os dois os termos enérgico da declaração e combinamos a estratégia a adotar para que ela apareça nos jornais. Ele em Porto Alegre, eu na Bahia, daremos cópia às folhas locais e às sucursais dos órgãos cariocas e paulistas algum há de publicar. Assim fazemos.

Vou ver Jorge Calmon* na redação de A Tarde, ele lê a declaração, garante-me o maior destaque. Vou aos demais quotidianos da cidade e às sucursais, Florisvaldo Matos era correspondente de jornal do Rio, vibrou. Tiro e queda: na manhã seguinte o documento assinado por Erico e por mim está na maioria dos matutinos do Rio, de São Paulo, de Porto Alegre, da Bahia. Os escritores começam a emprestar solidariedade, telefonam, escrevem, telegrafam às redações dando-nos apoio: o primeiro a fazê-lo, se bem me recordo, foi o poeta Ledo Ivo. Manifestos contra a censura prévia recolhem assinaturas, o protesto se amplia em movimento nacional.

Declaração dúbia do Ministro, promete reexaminar o projeto, termina por engavetá-lo, a censura prévia não resiste ao impacto, vai para a lata do lixo autoritário. Para alguma coisa há de servir possuir grande público, leitores em profusão, merecer carinho e respeito: o poder dos escritores.

*Jorge Calmon, jornalista, diretor de A Tarde.

 

 

Paris, 1991.

A injustiça

 

Pela manhã, José Guilherme Merquior ao telefone: um dos prazeres durante as estadas em Paris, o bate-papo descontraído com Zé Guilherme. Nem sequer o fato dele saber tanto sobre temas nos quais sou a suma ignorância chega a perturbar o gozo da conversa, pois ele torna fácil o assunto mais árido, não cultiva a presunção, não se arroga a professor.

Nossa amizade percorreu caminho de pedras, em priscas eras Zé Guilherme desancara não sei mais qual dos meus romances ou todos eles, já não recordo, recebi na circunstância vários recortes da reprimenda — sobram sempre os prestativos, os pressurosos que remetem, com palavras de repúdio, repúdio no papel, júbilo no coração, o que se escreve de negativo sobre o confrade, artigo positivo ninguém perde tempo e selo de correio com envio e comentário. Não sou dos que consideram inimigos os colegas pouco afeitos aos meus livros, persisti a ler e a admirar o jovem erudito. Quando nos vimos pela primeira vez ele pareceu-me estranhar a cordialidade do defunto. Estabeleceu-se entre nós relacionamento cortês que pouco a pouco cresceu em amizade bem mais valiosa para mim do que elogio em artigo de jornal.

Zé Guilherme conta-me com verve e agudeza almoço de casamento na aristocracia francesa, compareceu à festa no Castelo medievo da família materna, a paterna vive em iates e aviões, possui multinacionais, convescote de fidalgos e milionários, mijo-me de rir. Não foi, porém, para caricaturar a festa do casório que me telefona, mas para me dizer que, vizinho de mesa de Maurice Druon, por ele soube...

Antes que me diga o que soube, eu o interrompo para falar de Druon*: tu sabes o que é amor à primeira vista, mas tinhas conhecimento de amizade à primeira vista? Amizade à primeira vista a que nos ligou, ao romancista de La fin des hommes e a mim, conhecemo-nos em jantar de Josué Montello de quem é parente por serem os dois mestiços maranhenses, demo-nos conta de imediato que éramos amigos de infância, temos muito em comum o potentado das letras e o pobretão. Estimo a novelística de Druon, a qualidade da escrita e a força da narrativa, mais além dos títulos acadêmicos sua presença se afirma na popularidade dos leitores.

*Maurice Druon, escritor francês, secretário-perpétuo da Academia Francesa.

 

Correção de diplomata, Zé Guilherme não me interrompe, escuta-me até o fim, quando acabo de gastar os adjetivos ele concorda nos elogios a Druon e me diz que também o dito-cujo ralam bem de mim e lhe anunciara o que decerto eu já sabia... Sabia o quê, Zé Guilherme? O prêmio, homem! Que prêmio? Ao dar-se conta que não sei de nada, lastima-se da inconfidência, desconversa, fala de outra coisa, assunto não lhe falta. Embarco com ele em riso e em gozação, o bate-papo com Zé Guilherme é o que se pode pedir de melhor para começar a jornada, esqueço por completo a inconfidência interrompida.

Três ou quatro dias depois, durante coquetel na Gallimard, outro amigo, outro potentado da literatura francesa de quem sou devoto não é de hoje, Jean d'Ormesson, me felicita pelo Prêmio Mundial Cino del Duca que vem de me ser concedido, membro do júri presidido por Druon, votou em mim. Ao lado, Zé Guilherme me cutuca, gozador: era o prêmio a que se referira na conversa ao telefone.

Na entrega do diploma e do cheque, sentado na primeira fila, lá estava ele, esquálido, a palidez, os olhos fundos, comido pela doença, a cabeça derrubada entre as mãos, Hilda o sustentava, foi a última vez que o vi. Mesmo enfermo, condenado, viera abraçar o confrade e companheiro. De tudo quanto se passou naquele dia, nada me deixou mais abafado, mais tenso de emoção quanto a presença de quem ia morrer daí a um mês. Ai a injustiça dessa morte, José Guilherme em plena maturidade criadora, ai a injustiça!

 

 

Rio de Janeiro, 1954.

Internacionalismo

 

Sabendo que estou de viagem para a Europa com escala na Polônia, Ziembinski me procura, a aflição o transtorna, problema delicado, pede-me ajuda. O governo da Polônia há algum tempo o pressiona para que ele retorne à pátria a qualquer preço, as autoridades do Ministério da Cultura dão-lhe urgência, marcam prazo, exigem resposta imediata. Não saberão por acaso que o cidadão polonês Zbigniew Ziembinski já não existe, existe um brasileiro com esse nome, ator, diretor, tão brasileiro ou mais do que os aqui nascidos?

A guerra trouxe Ziembinski para o Brasil, a ele, a Turkov e a Madame Stipinska. Todos sabem o que a vinda e a permanência de Ziembinski significaram para o teatro brasileiro: uma coisa antes dele, outra depois. Na Polônia deixara um filho, em duas ocasiões levei-lhe algum dinheiro enviado pelo pai. Um rapagão, cursava o Conservatório Dramático de Varsóvia, apresentei-o ao poeta Iwaszkiewicz* que, segundo soube, o protegeu.

*Jaroslav Iwaszkiewicz (1894/1980),poeta polonês.

 

Turkov, após algumas montagens extraordinárias, zarpou para Israel, Madame Stipinska deslumbrou nos palcos do Rio, o apelo da pátria levou-a de volta para ser a primeira-dama do cinema e do teatro poloneses. Com o retorno da atriz deu a louca nos polacos, queriam o metteur-en-scène fosse como fosse, tinham necessidade dele, apelavam para seu patriotismo, mestre Ziembinski estava atropelado. Só via uma maneira de escapar à imposição do Ministro da Cultura, de convencer os responsáveis: a recusa do pecê brasileiro. Se o pecê se opusesse à sua partida, os poloneses deixariam de insistir, para alguma coisa havia de servir o internacionalismo proletário. Era indispensável que eu fosse portador da negativa do Partido brasileiro, que a levasse aos altos escalões do polonês, só assim o deixariam em paz. Vendo-o tão aflito, disse-lhe que ficasse descansado, o Partido exigiria sua permanência no Brasil.

Ao dar-lhe garantias arriscava pouco, conhecendo os intestinos do Partido tinha certeza que a opinião dos mandatários seria, como foi, a de atender ao pedido. Na reunião com a direção para receber as últimas instruções coloquei o problema de Ziembinski, obtive o acordo, levei o recado e o transmiti. Nem tudo era erro lá por cima, existiam acertos. Ao expor o problema de Ziembinski só não disse que adiantara a resposta sem a ter, era piroquete mas nem tanto.

 

 

Ponta Delgada, 1989.

Prêmio Camões

 

Escuto Miguel Torga que pronuncia o discurso, vejo na tribuna um homem inteiro, não se lhe sente a idade, o rosto marcado de camponês, a força das palavras se estende sobre a sala, prende e arrasta os ouvintes, por vezes dureza de pedra, de súbito a carícia de uma nascente de água. Estamos dominados pelo sortilégio, esse senhor que lê um discurso escrito, sozinho na tribuna, sem outros instrumentos além das folhas de papel e a pronúncia exata, esse senhor é um mágico em número de prestidigitação, que seduz e arrebata a platéia. Assim o tem feito durante os muitos anos de vida e de trabalho, o escritor Miguel Torga: na poesia, na ficção, na extensa e densa narrativa do Diário, esse prestidigitador da palavra escrita recriou a vida e a iluminou. Não basta dizer que falo do escritor Miguel Torga, é imprescindível completar a afirmação: o mágico na tribuna, lendo seu discurso, é o escritor português Miguel Torga, a condição portuguesa condiciona e esclarece a obra realizada, a vida vivida.

Enquanto escuto a oração com que o mestre agradece o Prêmio Camões, concedido pela primeira vez por um júri composto de escritores portugueses e brasileiros e atribuído, como não podia deixar de ser, a Miguel Torga, eu me pergunto o motivo por que não lhe foi dado ainda o Prêmio Nobel. Pergunta cretina, talvez já que Torga e sua literatura estão acima dos prêmios, sejam eles quais forem, os pequenos ou os grandes, nem sequer o cheque que por vezes os acompanha faz falta à pobreza do escritor. Um escritor que se preza não escreve para obter prêmios e, sim, para se comunicar, dizer e refletir, considerar, compreender, re-criar a vida, servir ao homem.

De qualquer maneira ao me fazer a pergunta não posso deixar de constatar a indiferença, a desestima, o descaso revelados pela Academia da Suécia em relação à língua portuguesa. E o faço quando penso em escritores portugueses da altura de Ferreira de Castro e Fernando Namora que morreram sem o Prêmio Nobel — para citar apenas dois entre outros igualmente merecedores pois para que a esses dois fosse outorgado assinei petições, fiz declarações, como aliás o fiz por Miguel Torga. Quando penso que os romancistas brasileiros Erico Veríssimo e Guimarães Rosa, o poeta Carlos Drummond de Andrade, tampouco foram distinguidos com o Nobel concluo que realmente nossa língua portuguesa (as diversas línguas portuguesas, a de Camões e a de Alencar, a de Luandino Vieira e a de Baltazar Lopes) não é levada na devida consideração pelos acadêmicos suecos. Resta-nos ainda esperar, pois o senhor que ocupa a tribuna em Ponta Delgada, nos Açores, é um rijo português, que carrega sem esforço o peso dos anos.

 

 

Bahia, 1991.

O livreiro

 

Na soledade da voz em desamparo, Edivaldo Boaventura* recorda Zitelman Oliva na tribuna da Academia de Letras da Bahia. A emoção perpassa na sala, se estende. Na mesa, sobre o estrado, Lygia** como se fosse talhada em pedra, sinto a lágrima nascer e se apagar na face de Clarinha. Atrás de mim Ró, meu sobrinho, o rosto do pai, a saudade. Wilson Lins, na presidência da cerimônia, está de volta ao passado, relembra um tempo que se foi. Quase a meu lado, Jorge Calmon fita o vazio que se povoa de lembranças. Zitelman atravessa a sala.

*Edivaldo Boaventura, educador.

**Lygia, mulher de Zitelman Oliva.

 

É um jovem estudante, vem até onde estou e me sorri. Decerto faz calor, pois o suor escorre do rosto do rapazola apenas saído da adolescência, carrega pacotes de livros, títulos proibidos pela ditadura do Estado Novo. Militante antifascista, o moço empapado de suor é uma espécie de livreiro subversivo que exerce seu comércio de política e cultura nos desvãos da ilegalidade.

Estamos em 1943, enfrentam-se os exércitos das Nações Unidas e do Eixo nazi-fascista, a guerra está presente e comanda a vida de cada um de nós na cidade da Bahia — a cidade da Bahia de então, provinciana e fascinante com seus trezentos mil habitantes, seriam tantos? Na guerra contra o fascismo e a ditadura, Zitelman Oliva, estudante pobre, precário livreiro, soldado da democracia, ocupa seu posto de combate nas fileiras da cultura junto a alguns dos que hoje nos reunimos nesta sala para ouvir Edivaldo. Outros não puderam vir, partiram antes de Zitelman: Giovanni, Giocondo, o negro Batista*, Jacinta Passos*.

*João Batista de Lima e Silva (1921/1979), jornalista.

*Jacinta Passos (1914/1973), poeta.

 

No passar do tempo, o livreiro subversivo fez-se fundador de jornal, diretor de banco, professor universitário, membro da Academia, figura de proa da vida intelectual, patriarca. Com a mesma paixão juvenil de comunista converteu-se ao catolicismo, tornou-se íntimo de Deus. Quanto a mim, velho ateu, por devoção a Zitelman acabei freguês em Paris de loja de objetos católicos de extremo bom gosto. A cada viagem ali buscávamos, Zélia e eu, peça de artesanato para a coleção do amigo: figura de presépio polonês, medalha antiga, a madeira de um santo medieval. Há poucos dias, regressando da Europa, rompemos com o hábito, Zitelman já não está para receber lembrança de viagem, deixou a Bahia, a família, os companheiros. Na voz de Edivaldo Boaventura o reencontramos, atravessa a sala, vem ficar a meu lado, sorri, coloca a mão no ombro de Ró.

 

 

Paris, 1988.

Quai de la tournelle

 

No caminho dominical do Quai de Celestins para o pequeno restaurante chinês, rue du Sommerard, nas vizinhanças da Sorbonne, vamos devagar, Zélia e eu, no gozo da beleza: envoltos na doce luz do outono, paramos nos bouquinistas longo do cais do Sena. Nas pontes, casais de namorados se detêm para o beijo e a carícia. Assim como nós o fazíamos, Zélia e eu quando naquele antanho* habitamos a Paris da Rive Gauche, dos estudantes e dos exilados. Por que não fazê-lo novamente agora quarenta anos depois, se o rio é o mesmo Sena, as pontes se conservam iguais e a luz do outono não mudou nas torres da Notre Dame, se ainda somos namorados? Nesta cidade de Paris, também os velhos têm direito ao beijo.

*1948/1949.

 

De repente vejo no bouquinista, ao preço de 20 francos exemplar da edição francesa de um livro de Monteiro Lobato sob o título de La vengeance de 1'arbre et autres contes*. Tradução de Urupês, eu não sabia de sua existência — deve, no entanto estar consignada no catálogo de autores e livros brasileiros traduzidos em francês, organizado no capricho por Estela dos Santos Abreu — tradução de Georgette Tavares Bastos, viúva do poeta, tradutora aplicada e entusiasta de vários livros brasileiros inclusive de um meu, Dona Flor*. São passados dez anos da publicação. Urupês, livro de minha predileção, fico a pensar: será que a tradução francesa teve êxito? O volume na mão tenho a impressão que conduzo e exibo um pedaço do Brasil no Quai de la Tournelle.

*Éditions Universitaires, 1978.

*Dona Flor et ses deux maris, Stock, Livre de Poche.

 

 

Bahia, 1991. Latinidade

 

Telefonema de Paris, encomenda de artigo para um número especial de Le Nouvel Observateur a propósito do quinto centenário da Descoberta da América. Tema: Brasil, país latino. Digo que sim, escreverei, ponho-me a pensar.

Brasil, país latino? Somos latinos, nós, brasileiros? Uma espécie rara de latinos, a verdade é que somos mestiços, mulatos mais brancos ou mais negros, da cor de cobre dos índios. Zélia, filha de pai e mãe italianos, nascida em São Paulo, será ela latina? De sangue, vá lá, culturalmente com certeza não.

Usamos na Bahia duas expressões, criadas ambas, penso eu, pelo norte-americano Donald Pierson*, para definir nossa proclamada latinidade e nossa sonegada condição africana. Diz-se branco baiano àqueles mestiços de pele clara e alta posição social: brancos baianos foram, por exemplo, os irmãos Mangabeira, João, o grande jurista, e Otávio, deputado, Ministro do Exterior, Governador do Estado. Diz-se mulata branca àquelas mestiças alvas, por vezes loiras, cuja negritude desponta nos lóbulos das orelhas, nos lábios grossos, na bunda roliça e pujante. O bom exemplo de mulata branca é Marta Rocha, a formosa baiana que não foi eleita Miss Universo por ter duas polegadas a mais de ancas, as duas polegadas imortais da mistura de sangue alemão com sangue negro.

*Donald Pierson, antropólogo norte-americano.

 

 

Escorial, 1990.

Cachê

 

Convidados a participar dos cursos de Verão da Universidad Complutense, ficamos hospedados no Escoriai em próprio da Universidade construído em priscas eras por Franco para hospedar convidados estrangeiros em visita ao "Valle de los Caídos".

Participarei de mesa-redonda que estudará a literatura de língua portuguesa no quadro de seminário sobre a novelística espanhola, o colonialismo cultural espanhol reduz as literaturas de língua portuguesa a uma única literatura e a coloca como apêndice da novelística espanhola, enquanto Zélia intervirá em outro seminário cujo tema é "política e imigração". Além de mim estão na mesa-redonda o romancista português Cardoso Pires, o professor espanhol Perfecto Cuadrado, o poeta brasileiro Cláudio Murilo, diretor da Casa do Brasil.

O autor de Alexandrina Alpha me pergunta se já me pagaram o cachê que nos é devido por nossa participação, modestas 45 mil pesetas, ele, Cardoso, já as embolsou. Ainda não, me queixo, ele propõe-se a me acompanhar até o local do pagamento. Lá vamos, recolho as pesetas, timidamente Zélia pergunta se ela não terá também cachê a receber por sua família de imigrantes e seus anarquistas. Não só tem como lhe pagam, diante de nós, do romancista luso e do baiano, noventa mil pesetinhas, exatamente o que recebemos ele e eu reunidos (e humilhados). Acusamos o colonialismo espanhol por tal discriminação: literatura de língua portuguesa (literaturas, corrijo) 45 mil, imigração política, o dobro. Zélia, nas asas da ufania, pergunta se não queremos algum emprestado.

 

Sou deveras incompetente, inepto, a lista das coisas que todo mundo sabe fazer e eu não sei é longa. Aqui inscrevo apenas alguns exemplos: não sei dançar, cantar, assoviar, nadar, multiplicar, dividir por mais de dois números, empregar os verbos, pronunciar corretamente, dirigir automóvel (mas já soube andar de bicicleta com razoável equilíbrio). Não sirvo para grande coisa.

 

 

Paris, 1948.

A aposta

 

Encontro Picasso na entrada do edifício, tomamos o eleva-dor, agradeço-lhe a presença, sorri: agradecer por quê se sou amigo de Pablo? O gabinete de Aragon* no Ce Soir está como sempre repleto de literatos, a turma de Les Lettres Françaises ali se encontra diariamente para receber as bênçãos, ouvir os pareceres de Sua Santidade o Papa Louis, abraço Pierre Daix e Claude Morgan, confraternizo com o grego André Kedros às voltas com as provas de seu primeiro romance, Un navire en pleine ville.

*Louis Aragon (1897/1982), poeta francês, na época diretor do vespertino Ce Soir.

 

Representantes dos pecês do Chile, da Argentina e do Brasil nos reunimos com Aragon e Picasso para estudar e tomar medidas em defesa de Pablo Neruda, vítima de perseguição desencadeada no Chile: expulso do Senado, posto na clandestinidade, sob ameaça de prisão, faz-se necessário protestar. Decidimos o envio imediato de telegrama a Videla* responsabilizando-o pelo que pudesse vir a suceder ao poeta, reclamando para ele garantias de vida e plena liberdade. Telegrama a ser assinado pelos grandes da cultura francesa, capaz de impressionar os políticos chilenos. Os comunas latino-americanos residentes em Paris colherão as assinaturas, redigimos o texto, libelo acusatório, pauta de exigências, estabelecemos lista de personalidades a serem procuradas.

*Gabriel Gonzalez Videla, Presidente do Chile de 1946 a 1952.

 

Cito o nome de Jean-Paul Sartre, causo escândalo, os de Les Lettres Françaises riem em minha cara, pisei nos calos de Aragon que se enfurece: Sartre, um inimigo, jamais assinará. Naquele momento as relações do filósofo existencialista com o Partido Comunista da França eram péssimas, xingavam-se com ferocidade e competência. Ouso discordar de Aragon, afirmo o contrário: considero possível obter-se a assinatura do filósofo pois, acompanhando a atuação de Sartre, comprovo que, mesmo em divergência com os comunistas, jamais assume posições reacionárias. Aragon range os dentes, acusa-me de nada entender de política, sou um inconseqüente, cobre Sartre de impropérios, a firmeza de Louis nas posições de Partido atinge a grosseria, diria que me olha com raiva se não fosse com desprezo. Mantenho-me firme, proponho-me a ir pessoalmente buscar a assinatura do renegado e a de Simone*, aposto que vou consegui-las. Aragon, ainda sarcástico porém mais calmo, aceita a aposta: nem assinatura nem meia assinatura, quanto mais as duas: vá se quiser, receberá um não redondo, em pagamento da aposta espero ouvir a autocrítica do camarada. Existencialismo e autocrítica, modas da época.

*Simone de Beauvoir.

 

Eu estivera com Jean-Paul Sartre uma única vez, na sede da editora que então publicava seu teatro e lançara a tradução de Terras do Sem Fim. Ao ser-me apresentado, foi mais que cortês, disse-me ter lido o Terras e ter gostado, nadei em mar de rosas, a vaidade levou-me a acreditar. Igual a todo o mundo literário, eu sabia de hábitos de Sartre, dos almoços no Lipp onde ele e Simone tinham mesa cativa, lá apareci com a cópia do telegrama, Sartre me reconheceu, mais um motivo da vangloria, expliquei-lhe os percalços de Neruda, mostrei-lhe o texto da mensagem a Videla, pedi-me a assinatura e a de Simone. Não houve a menor hesitação, Sartre assinou, Simone também, agradeci, só faltei beijar-lhes as mãos, me toquei envolto em júbilo: não havia nas ruas de Paris àquela hora literato mais feliz.

No mesmo gabinete de Ce Soir voltamos a nos encontrar os três comunas latino-americanos para a entrega das assinaturas obtidas. Zélia sagrara-se campeã absoluta, folha repleta, metade da Câmara de Deputados, Senadores, a negritude em peso: Senghor, Aimé Césaire, d'Arboussier, Houphouet-Boigny*. Sem exteriorizar a satisfação que me ia n'alma, sem tripudiar — quem era eu? —, exibi a cópia do telegrama com as assinaturas de Sartre e de Simone. Aragon tomou da folha de papel, examinou os jamegões, balançou a cabeça, decerto exercendo a autocrítica propôs: o nome dele deve encabeçar a lista. Não encabeçou: o nome de Sartre seguiu-se ao do poeta de Les Yeux d'Elsa — sei poemas de memória —, os cardeais não aceitaram: isso não, Louis, primeiro tu, ele depois.

*Léopold Senghor, Aimé Césaire, poetas, deputados; Gabriel d'Arboussier, Felix Houphouet-Boigny, deputados e dirigentes do Rassemblement Democratique Africain.

 

Tornei-me amigo de Sartre e de Simone, viajamos juntos pela Europa, no dia mais longo do ano passamos fome em Helsinque, Percorremos o Brasil de norte a sul, em 1950 ele fez publicar Cacau em Les Temps Modernes, em 1961 foi a vez de Quincas Berro d'Água. Certa feita, na década de setenta, almoçávamos com ele e Simone no Lipp, Sartre me revelou que sabia da aposta com Argon: inconfidência de um membro do Colégio de Cardeais, os cardeais não merecem confiança.

 

 

Rio de Janeiro, 1932.

A cadelinha lulu

 

Alta madrugada, curtindo a bebedeira, de volta da farra, constatamos ao chegar a Copacabana, Raymundo Magalhães Júnior* e eu próprio, que uma linda e bem-tratada cadelinha lulu, alva de leite, perfumada, nos acompanha. Tínhamos vindo a pé da Lapa onde havíamos ido às putas caras: acontecia em dias de pagamento. Magalhães era habitue de mais de uma pensão, feio como o diabo, sortudo com as mulheres, fama de machão. Eu me desenvolvia por entre as domésticas de Copacabana e Leme, vez por outra uma patroa para desenfastiar.

*Raymundo Magalhães Júnior (1907/1981), escritor.

 

Recordávamos a pensão onde havíamos bebido e praticado, ficava na rua Conde de Lage, mas não fazíamos a mais mínima idéia de que artimanhas teríamos usado para que a cadelinha nos seguisse na longa marcha para a zona sul. A visão da pequena companheira de viagem curou-nos do resto da cachaça, lá voltamos nós para o alegre rendez-vous em busca da proprietária do animal. Encontramos a pensão em alvoroço, a dona da cadela fora de si, num mar de lágrimas, loira como os trigais maduros do verso célebre, propunha-se francesa. Atracou-se com a lulu, mon amour, mon petit, foi a festa. Magalhães aproveitou-se, ficou para a festa. Sóbrio e sozinho retomei a marcha na fímbria da manhã.

 

 

Port-de-France, 1991.

Mulataria

 

Na mairie de Port-de-France Zélia e eu somos recebidos por M. le Depute Maire que outro não é senão nosso velho amigo Aimé Césaire, grande poeta da língua francesa, mestre das Antilhas e da negritude. Trago para ele os dois volumes da nova tiragem das poesias de Gregório de Matos na edição de James Amado. Falamos de poesia, de mestiçagem, de música, o nome de Dorival Caymmi vem à tona, Caymmi andou por aqui, trazido por Annik Thebia-Melsan*, cantou para o povo da Martinica suas cantigas da Bahia.

*Annik Thebia-Melsan, diplomata francesa, foi adida cultural no Brasil

 

No seminário com o tema "literatura e cana-de-açúcar" onde falei sobre José Américo de Almeida e José Lins do Rego, encontro pessoas, o romancista Xavier d'Orville, o professor Emile Eadie, que recordam a passagem do moço baiano, moço ainda hoje, os cabelos brancos, a cadência da música, a sabedoria do povo. Gregório de Matos, Aimé Césaire, Léopold Senghor, Gabriel d'Arboussier, Jacques Roumain*, Lima Barreto, Jacques Alexis*, Nicolás Guillén, René Depestre, Henri Lopes*, Dorival Caymmi, Gilberto Gil, quantos e quantos mais, inumeráveis, músicos, poetas, romancistas — Simone Schwarz-Barte, por exemplo, para citar uma mulher, que romancista! —, mulataria sem igual na força da criação, na originalidade da mistura.

*Jacques Roumain (1907/1944), escritor haitiano.

*Jacques Stephen Alexis (1921/ 1961), escritor haitiano.

*Henri Lopes, escritor congolês.

 

 

Luanda, 1979.

Novela de televisão

 

Convidado de Agostinho Neto não o encontro durante a estada em Angola, manda-me recado por Antônio Jacinto*, está de partida para Moscou onde vai se operar, e não regressa, sua morte comove o povo. Na difícil situação em que Angola se encontra, o poeta presidente era fator de confiança, é triste o aspecto do país, a fome se instala.

*Antônio Jacinto, poeta angolano.

 

Como se estivesse na Bahia percorro Luanda de ponta a ponta, nem em Luanda nem em Lisboa me sinto fora da Bahia, somos angolanos e portugueses ao mesmo tempo, misturados. Viajo pelo interior, não vou longe, a guerra civil não permite andanças maiores, mas posso constatar aqui e ali os males da ideologia, repetidos. Na cooperativa socialista em que foi transformado o imenso latifúndio — terá havido de fato alguma mudança ou mudou apenas o rótulo, o patrão? — cooperadores benévolos vindos da Bulgária em nome do internacionalismo proletário não conseguem conviver nem congraçar-se, enquanto os angolanos convivem às maravilhas e se congraçam com técnicos brasileiros de empresas que ali estão para ganhar dinheiro. No hotel onde nos hospedam em Luanda, o diretor, camarada iugoslavo mandado para ajudar o socialismo afro, é um príncipe loiro, solidariedade superior, distante e fria.

— E os cubanos? — pergunta-me em Lisboa Fernando Namora: — São populares?

— Não me pareceu.

— Os chamados libertadores nunca o são — reafirma o romancista. — Entre libertador e conquistador a distância é pequena, não cabe um passo de soldado.

Os camaradas angolanos levam-me ao bairro proletário por excelência, o muceque operário, dizem de boca cheia, para um encontro com quadros e militantes, comparece muita gente. Espero ter de discutir política, falar do Brasil, das injustiças sociais, da ditadura militar, de problemas do socialismo, busco preparar-me. Ao contrário do esperado, à exceção de duas ou três perguntas de dirigentes destinadas a dirigir o debate, não o dirigem, as demais, de homens, mulheres, jovens em grande maioria, se reportam à novela de televisão adaptada de Gabriela, Cravo e Canela que vem de ser dada na cadeia oficial e única.

— Me diga, camarada, é verdade que Gabriela morreu num desastre de caminhão?

O interesse dos presentes se refere às figuras da novela, seus destinos, para os que aqui a assistiram não existem limites entre a realidade e a ficção. Nossa acompanhante, irmã do Ministro da Defesa, quer saber de Zélia se Mundinho Falcão e Gerusa, personagens, tinham se casado após o término da transmissão. Zélia me acusa de ter impedido o matrimônio, sujeito mais ruim.

Contam-me que para manter a pureza ideológica das massas, a projeção de cada capítulo era precedida e sucedida por um comentário a cargo de teórico do comitê central alertando sobre desvios e incorreções no conteúdo do enlatado. O comentário posterior durou pouco, deixaram de fazê-lo ao constatar que, ao fim do capítulo, os assistentes desligavam imediatamente os aparelhos. Os anteriores duraram até o último episódio, denunciando as impurezas da obra: os telespectadores, no receio de perder o começo do capítulo, aturavam a aula de marxismo-leninismo, preço a pagar.

 

 

Rio de Janeiro, 1935.

O funcionário público

 

Secretário de Educação do Distrito Federal na administração de Pedro Ernesto, Anísio Teixeira me convida para seu gabinete, um conto de réis por mês, ordenado bem-vindo, sou pai de família, mulher e filha.

Começo a trabalhar, trabalho maneiro, cuido da agenda de Anísio, represento-o em almoços, eis que acontece a quartelada de novembro. Othales Marcondes leva Anísio de automóvel para São Paulo a tempo de evitar a prisão do secretário demissionário, limpo as gavetas do gabinete, caio fora antes da chegada da polícia.

Funcionário público pela primeira e última vez, não completo um mês no cargo, não dá sequer para receber o ordenado.

 

 

São João de Meriti, 1946.

A rede de casal

 

A casa, simples e agradável, situava-se no alto de pequena colina, a chácara toda media vinte e um mil metros quadrados cobertos por oitocentas laranjeiras. Pés de toranjas de duas ou três variedades, limeiras, limoeiros, pés de fruta-pão, sapotizeiros, goiabeira, mangueiras, mamoeiros completavam o pomar. Uma louca criação de aves — galinhas de raças, patuassus, gansos, marrecos — animava o Peji de Oxóssi, nosso esconderijo, situado entre Caxias e São João de Meriti, no Estado do Rio. Nele Zélia e eu curtimos enfim nossa lua-de-mel.

Vivíamos juntos desde julho de 1945, mas não nos sobrara tempo para namorar tanto quanto desejaríamos: eu dirigia o quotidiano paulista do Partido Comunista, o Hoje, tarefa que tomava a maior parte de meu tempo, Zélia se revelara imbatível ativista da Comissão de Finanças. Como se fosse pouco, a campanha eleitoral começara. Candidato a deputado federal, eu saía nos fins de tarde para comícios noturnos no interior, chegava pela madrugada. Resolvemos transferir a lua-de-mel para depois das lições.

As eleições realizaram-se em novembro, deputado eleito deixei com a direção do Partido minha carta de renúncia, partimos de viagem eu e Zélia. Viagem de núpcias, já era tempo. Apenas começávamos a sentir o sabor da lua-de-mel, passáramos alguns dias no Rio Grande do Sul, na chácara de Henrique Scliar, estávamos no Uruguai, devíamos ir a Buenos Aires, quando chegou telegrama urgente de Prestes reclamando minha presença no Rio daí a três dias. Comuna enquadrado, tomei o primeiro avião para o Brasil, Zélia comigo, ansioso para saber o motivo da intempestiva convocação.

Outro não era que o de tomar posse da cadeira de deputado. Ora, eu condicionara a aceitação de minha candidatura — escritor já bastante popular, meu nome traria votos para a legenda do Partido — à garantia de que, se eleito, renunciaria ao mandato dando lugar à convocação do suplente. Queria retornar a meu trabalho literário, já bastante comprometido pela atividade de militante. Recordei a Prestes o compromisso assumido pela direção. Antes de viajar entregara a Arruda Câmara o documento de renúncia. Prestes estava a par, salientou que fora ele quem levara a direção a admitir a minha exigência — podia um militante por acaso fazer naquele então qualquer exigência, justa, mínima, fosse qual fosse, ao Partido? Por isso mesmo sentia-se no direito de apelar para minha consciência de comunista responsável: que iriam dizer aqueles eleitores que tinham votado em mim, sobretudo os não-comunistas, se eu não assumisse? Iriam acusar o Partido de ter usado meu nome para obter votos, estratagema sujo, malandragem, os inimigos se aproveitariam para fazer a maior exploração e por aí afora, aquela argumentação. Propôs-me assumir o mandato por três meses e então efetivar a renúncia. Três meses, nem um dia a mais, assegurou-me Prestes.

Resolvemos não alugar apartamento no Rio onde certamente o Partido me sobrecarregaria de tarefas, além das decorrentes do trabalho parlamentar, e ocuparia o tempo de Zélia, a Comissão Nacional de Finanças ameaçava requisitá-la. Na intenção de escrever um romance já amadurecido na cabeça, Seara Vermelha, preferi ficar o mais longe possível do Comitê Central. Assim adquirimos o sítio de laranjeiras e nele vivemos durante ano e meio: um caseiro bastava para cuidar das plantações e das aves: as aves merecem capítulo à parte. Nina, sua filha, se ocupava da casa.

O casal húngaro que plantara o terreno e elevara a casa tinha o gosto europeu do conforto e, ao lado da vivenda, à sombra das árvores, construíra uma espécie de pátio, local de lazer, sítio de repouso. Enredadeiras subiam pelos pilares de alvenaria, flores explodiam em cada recanto, mesa rústica onde pousar pratos e copos, garrafas, sobre as lajes do chão espreguiçadeiras estendidas, penduradas dos galhos das mangueiras redes cearenses, brancas e amplas, de varandas bordadas, redes de casal. Assim era o Peji de Oxóssi, pequeno paraíso.

Ali transamos, indóceis, adoidados, nossa tão adiada lua-de-mel. Zélia parecia uma menina; o alemão, nosso vizinho, pensava que ela fosse minha filha, aliás passei a vida ouvindo a mesma repetida pergunta sobre Zélia: é sua filha?

Acordava cedíssimo, trabalhava no romance boa parte da manhã, por vezes a ele voltava à noite — ah, o bom tempo em que varava a noite batucando na máquina cenas e capítulos. Após o almoço, às treze horas, tomava um carro de aluguel, contratado por mês para me levar e trazer do Peji a Caxias — os dez por cento dos proventos de deputado que o Partido me deixava davam exatos para pagar essa condução: eu devia viver de meus direitos autorais, segundo a direção. Em Caxias embarcava no ônibus que me depositava na Praça Mauá, daí trotava até o Palácio Tiradentes onde funcionava a Assembléia Nacional Constituinte formada pela Câmara e pelo Senado reunidos. A sessão começava às quatorze horas, eu assistia, participava — extremamente ativo na Comissão de Educação e Cultura —, quando os trabalhos se encerravam fazia o caminho de volta, em geral chegava em casa entre sete e oito horas da noite. Por vezes, em dias de sessão noturna, não tinha hora de chegar.

Terminado o jantar Zélia e eu costumávamos descansar no Pátio onde corria a brisa, eu lhe contava os acontecidos do dia, ela ouvia ávida por detalhes sobre a atuação da bancada comunista — a primeira num parlamento brasileiro. Por vezes adormecíamos no embalo da rede. Numa daquelas redes cearenses, de casal, João Jorge foi feito, em noite de lua cheia, à luz das estrelas e ao ruído dos grilos.

 

 

Bahia, 1956.

O jumento

 

Na década de cinqüenta, o alemão Karl Hansen vivia numa cabana na praia de Amaralina, na Bahia, em companhia da mulher Rosa e dois filhos, a menina, o menino e de um jumento batizado Sigmund Freud, animal de estimação da família, montaria do alemão. Sendo o jegue pequenino e Karl grandalhão, o cavaleiro fazia a alegria dos pescadores e dos capitães da areia, ao vê-lo montado no asno, os pés tocando o chão indo de visita a Carybé no Rio Vermelho. Naquele então, Amaralina era um dos extremos da cidade, o mais distante fim das linhas de bondes.

Mocetão, Karl viera de Hamburgo para o Brasil com um irmão arquiteto, o irmão permaneceu em São Paulo, ele descobriu a Bahia, ali assentou a tenda de campanha, casa de barro batido, adquirida a crédito a um peixeiro. Vivia pobremente do comércio de arte gráfica, cavava a madeira, nela gravava a vida da gente da cidade, era xilógrafo. Da janela do bar São Miguel, no Pelourinho, observava o vaivém das putas e dos marginais, o resultado foi um álbum de gravuras, hoje preciosidade. Eu o conheci quando o realizava, prefaciei a edição. Dez anos depois escrevi o texto para outro álbum de Hansen, também gravuras do Pelourinho, via crucis de uma nação de pobres: artesãos, raparigas, bêbados, desordeiros de todo tipo, crianças sem pai nem mãe. Profeta e marinheiro, deixara de ser Karl Hansen era Hansen Bahia, na saudade, na aflição da distância juntam o nome da cidade ao de família para marcar o chão de sua arte, a pátria de adoção. Trouxera com ele das brumas de Hamburgo a segunda esposa, Use. A jovem alemã, Walkiria de trancas loiras, desembarcara trajando manto bordado em Adis Abeba. leões e lanças, a pantera e o Leão de Judá, o casal vivera na Abissínia, fundara e dirigira a Escola de Belas-Artes, capricho do Négus. Em dois tempos a hamburguesa virou baiana de saia rendada e turbante na cabeça, os pescadores diziam-na Inaê, rainha do mar.

Ao rever Ilse que deixara menina ao partir de Hamburgo para viajar o mundo, Hansen se apaixonara pela mocetona: aprendiz de artista ela o olhava com olhos de discípula em êxtase, Hansen sonhou casar-se. A diferença de idade porém o assustou, resolveu consultar pessoa experiente, seu pai (lá dele), abalizado bebedor de cerveja, habitava casa de campo nos arredores. Pediu-lhe a bênção, explicou-lhe o dilema: sofria paixão de adolescente na idade madura, a noiva, lolita rechonchuda. Não seria mais certo escolher noiva já entrada em anos? O pai refletiu, considerou:

— Mulher velha come tanto quanto mulher moça, até mais, adoece muito mais, gasta dinheiro em remédio. Case com a moça, faz melhor negócio.

— Meu papai é um poeta — comenta Hansen ao contar o caso.

Casou e foi feliz, Ilse se devotou por completo a seu mestre de arte e de amor, não conheci casal assim unido, tão perfeito. Quando ele morreu, ela não resistiu à solidão, foi reencontrá-lo na Rua dos Gravadores no céu das putas, dos vagabundos e dos artistas.

Durante a primeira residência na Bahia na década de cinqüenta, um dia, de manhã cedinho, o alemão Karl encontrou na soleira da porta, na areia, uma enorme pedra de âmbar, pesava quilos, o mar ali a deixara de presente para o artista mais pobre do Brasil e da Alemanha reunidos. É âmbar, não é âmbar, desentenderam-se Karl e Rosa, o gravador recolheu uma amostra do pedregulho, tomou o bonde, deu a amostra a examinar aos irmãos Moreira*. Âmbar, dos melhores, se a pedra é grande, vale fortuna, você está rico para o resto da vida.

*Manolo e José Alberto Moreira, proprietários da Casa Moreira, antiquários.

 

Laudo em punho, Hansen somou os níqueis, tomou um taxi para chegar mais depressa com a notícia alvissareira. Chegou, Rosa dormia ao sol, ao saber da pureza e do valor do âmbar, contou-lhe o sucedido: Sigmund Freud, o jegue, esfomeado, fome de séculos, fome nordestina, devorara com gosto e rapidez a dádiva do oceano, fruto do mar, inesperada gulodice, fizera as honras à fortuna do alemão. Hansen não se alterou não era de alterar-se por tão pouco, que iria fazer com a dinheirama, uma dor de cabeça, dela se livrara: alisou o focinho do jegue, beijou-lhe a testa, foi trabalhar a madeira, seu ofício.

 

Recebo presentes de comer e de beber, guloseimas de amigos espalhados pelo mundo, mimos de bem-querer: excitam o paladar, exaltam o coração.

Sou tarado por pitu, só de pensar em pitu escalfado em ovos fico com água na boca. Fruto-do-rio mais saboroso que qualquer fruto-do-mar, camarão, lagosta, lagostim, seu reino é o rio Cachoeira, na região do cacau, tem o gosto de minha infância grapiúna. Dois amigos, fazendeiros de cacau e letrados (não há contradição, existem em número maior do que se pensa, basta citar Adonias Filho, Itazil Benício dos Santos, Florisvaldo Matos, Hélio Pólvora), abastecem-me de pitus: Moysés Alves, de Itabuna, Raymundo Sá Barreto, de Ilhéus. Moysés ama a pintura, coleciona quadros; Raymundo ama a literatura, escreve memórias de Ilhéus, vale a pena ler.

Do Piauí, Liete, princesa da família Tajra, envia ainda quente do forno um prato de raro sabor, sublime: frito de capote, sabem o que é? Se não sabem tomem o avião para Teresina, lá descobrirão, quitute de se comer até fartar: galinha d'angola e farinha de mandioca, parece simples, mas não é.

Nascido para artista de cinema, reduzido pelos fados à pá de pedreiro, pobre de Jó, Rufino gasta as economias que não tem, toma uns cobres emprestados, traz-me o teiú que encontrou à venda no subúrbio da cidade. Escrevi sublime para o frito de capote, digo divino para o teiú moqueado. O teiú é um lagarto, ao vê-lo nas mãos dadivosas de Rufino, o banqueiro Antônio Celestino torceu a cara, convidei-o para o almoço do teiú, traçou três pratos e pediu mais.

O senador Lourival Batista, vice-presidente do Comitê Mundial da Luta Contra o Tabagismo, com sede em Londres, ex-governador do Estado de Sergipe, nasceu baiano em Feira de Santana, fomos colegas no Ginásio Ypiranga. Envia-me isopores repletos de sorvetes, ah, incomparáveis, da Sorveteria Cinelândia, de Aracaju: são mais de quarenta sabores, vão da jaca ao umbu, do jenipapo ao tamarindo, do cacau à pinha, do caju ao cajá, da graviola à pitanga, um desperdício, um abuso! Um detalhe: os sorvetes da Cinelândia não engordam.

Os requintes da doçaria portuguesa: o pão-de-ló mandado de Viana do Castelo, prenda de dona Custodinha e siô Manuelsinho, Custódia e Manuel Natário, pasteleiros de Nossa Senhora da Agonia. Os pastéis-de-nata, os de Belém, encomendas de Clarinda e Nuno Lima de Carvalho a cada portador: às vezes o portador não resiste, come-me os pastéis-de-nata, melaram na viagem me disse um deles quando cobrei a remessa. Nuno Simões, fidalgo de esquerda militante anti-salazarista, fornecia-me vinho fino, aquele que os desalumiados intitulam vinho do Porto, de velhas idades, de safras preciosas, ainda possuo meia dúzia de garrafas. Outro que também já morreu, José Machado Leite, mandava-me caixas de conhaque Macieira, começou a mandá-las quando saiu a edição portuguesa de Tenda dos Milagres, em 1968. Invadiu o Hotel Tivoli no comando de duas caixas, duas dúzias de garrafas, me disse: à página 278 de Tenda dos Milagres Pedro Archanjo bebe conhaque Macieira. Já que falo de portugueses, quero lembrar os quilos de bacalhau que Alves Redol nos enviava para Paris quando eu e Zélia lá vivíamos na pobreza do exílio.

Começara a escrever Dona Flor e seus Dois Maridos, pedi a minha comadre Norma Sampaio para ir visitar a proprietária da Escola de Culinária Sabor e Arte — eu copiara o nome da placa à porta da casa na rua do Sodré — para lhe explicar que iria usar e abusar do nome de sua Escola no novo romance. Norma voltou com a autorização e a novidade: dona Edna Leal era prima carnal de Lalu, minha prima em segundo grau. De então para cá nas festas de aniversário, nas de fim de ano, de São João, no Dois de Julho, a qualquer pretexto, Edna nos envia bolo sem tamanho, delícia confeitada, obra de arte, presente de Dona Flor: publicado o livro, os vizinhos passaram a designá-la com o nome da personagem.

Glutão que sou, guloso, comilão, adoro receber esses de-comeres, as garrafas preciosas de vinho fino — invenção de Deus inspirado pela paisagem do Alto Douro —, mas não sei fritar um ovo, cozinhar uma salsicha, parvo também em culinária. Apesar disso em meus romances reproduzo receitas da cozinha baiana — não perde em refinamento para nenhuma outra. Posso garantir pela qualidade e exatidão das receitas, são testadas, podem utilizá-las sem receio, foram-me fornecidas por cozinheiras mãos-de-fada: Anália, patroa do Yemanjá, ai, as moquecas de Anália, Dete, da Ilha de Itaparica, aí, o mingau de puba, o cuscuz de tapioca de Dete, ai! As receitas de dona Flor eu as copiei do caderno de Dorothy Alves, esposa de Moysés: quando Aldemir Martins recorda os pitus que comeu na mesa farta e esmerada dos Alves lambe os beiços e suspira.

 

 

Rio de Janeiro, 1987.

Batismo

 

Paloma, minha filha, maior de trinta e cinco anos, mãe de duas filhas, converteu-se ao catolicismo, vai se batizar, por amor, creio eu.

 

 

Paris, 1986.

Maçonaria

 

João Jorge está de férias em Paris, inaugura nossa mansarda sobre o Sena, no Marais. Intriga-me, certo fim de tarde, vê-lo todo enfatiotado, terno azul, sapatos pretos, camisa social, gravata, ele que se veste tão informal, sandálias, calça Lee, t-shirt. Desejo saber a razão dos trajes solenes.

— Vou visitar uma loja maçônica.

— Loja maçônica? Para fazer o quê, meu filho?

— Sou portador de mensagem de minha loja na Bahia.

— Tua loja? És maçom? Desde quando?

— Há muitos anos.

Este mundo é um espanto, tem razão o poeta Fernando Assis Pacheco.

Bahia, 1966. Aeroporto

No aeroporto Zélia e eu aguardamos Neruda que, estando no Brasil, vem passar o fim de semana conosco na Bahia, matar saudades. Esbaforido aparece Ariovaldo Matos*, a quem eu dera a informação. Ariovaldo publica um semanário, tem dificuldades de dinheiro e de censura, vive entre a redação e a cadeia. Pablo viajara ao Brasil para a cerimônia de inauguração em São Paulo do monumento em memória de Garcia Lorca. Obra de Flávio de Carvalho, menos de uma semana após a solenidade o monumento foi destruído pelos esbirros da ditadura militar, as forças armadas não estimam os poetas.

*Ariovaldo Matos (1926/1988), escritor e jornalista.

 

Acompanhado por Matilde, Pablo desce do avião, nos abraçamos peito contra peito, face contra face, faz tempo que não nos vemos. Tendo vindo para o júbilo do reencontro fraterno na cidade predileta — o casario, a música, a capoeira, o vatapá, o camarões e as lagostas — e não para a masturbação dos funerais, Pablo sussurra-me ao ouvido, a voz magoada:

— No me preguntes por nadie, compadre, se murieron todos. Restamos solamente nosotros.

Sob a batuta de Ariovaldo, as baianas cercam o poeta, atam-lhe ao pulso a fita do Bonfim, a branca, a de Oxalá, dão-lhe as boas-vindas.

 

 

Rio de Janeiro, 1953.

Exposição

 

Pancetti* zanga-se comigo, ameaça romper relações, fazer escândalo, considera-me um ingrato, não mereço a fama de bom amigo, não adianta dar-lhe explicações, não as aceita. Exige que eu intervenha junto ao pecê e junto às autoridades soviéticas para que seja realizada em Moscou uma exposição de suas obras — considera minha intervenção decisiva, ai de mim!

*José Pancetti (1904/1959), pintor.

 

Bem que gostaria de ver a pintura de Pancetti exposta não apenas em Moscou mas em todas as capitais do mundo, mas o reconhecimento internacional das artes plásticas brasileiras torna-se difícil por se encontrarem limitadas aos cânones da Escola de Paris. Será que existe pintor nacional, à exceção de Lasar Segall, tão judeu alemão quanto brasileiro, capaz de interessar os críticos e os colecionadores europeus? Refiro-me à pintura e à escultura, não falo do desenho e da gravura: Aldemir Martins obteve o grande prêmio de desenho da Bienal de Veneza. Para a repercussão mundial falta aos nossos pintores realizar pintura brasileira, não apenas na temática e nas cores, mas também na inventiva plástica, deixar de copiar a Escola de Paris, fazer como fizeram os mexicanos: a pintura do México é nacional, não está presa às modas da Europa. Por isso mesmo que original e própria, se Projeta, se impõe mais além das galerias e das coleções do país. Falta aos nossos artistas criar a expressão brasileira das artes Plásticas. Enquanto não o fizerem somente os naïfs existirão no mercado internacional. O embuste do sucesso e das vendas em mostras na Europa, em galerias alugadas pelos artistas, retumba no noticiário da imprensa brasileira, nas colunas sociais: a arte de Fulaninha, de Sicrano ou de Beltrano conquistou Paris.

No caso da União Soviética a coisa se complica devido a razões ideológicas: as teses de Zdanov, o teórico de Stalin para a literatura e as artes, consideram arte degenerada tudo quanto foge aos limites da academia. As telas de Picasso, de Chagall, de Matisse, de toda a grande pintura moderna, estão trancadas em salas do Ermitage*, proibidas ao público, não são mostradas nem expostas. Exposição de Pancetti, nem pensar.

*Museu do Ermitage, em Leningrado.

 

Basta que fales com Eremburg e estará tudo resolvido, decreta o pintor, dou-me conta que realmente acredita em sabotagem de minha parte, fico indignado, ele não tem direito de duvidar de amizade tantas vezes comprovada. Ao mesmo tempo não posso lhe dizer a verdade sem lhe ferir a vaidade: duvido que Ilya aprecie sua pintura. Quanto às autoridades soviéticas junto às quais Pancetti valoriza minha influência, para elas a pintura de nosso marinhista está condenada pelo regime, excluída das salas de exposição: se não exibem Picasso por que irão exibir Pancetti?

Certa feita, naqueles idos de cinqüenta, Neruda, patriota chileno, amigo devotado, pretendeu obter de Eremburg prefácio, ao menos uma frase, para o catálogo de José Venturelli*, seu patrício e protegido. Ilya examinou uma a uma as reproduções que Pablo lhe entregara, ia vendo e exclamando: execrable!, horrible!, abominable! Pablo não chegou a formular o pedido.

*José Venturelli, pintor chileno.

 

O mesmo Ilya Eremburg obteve durante o consulado de Kruchev que lhe fosse permitido montar uma exposição de quadros de Picasso. Apesar das limitações de todo tipo, nenhuma notícia nos veículos de comunicação, sala acanhada, distante do centro de Moscou, uma única porta para entrada e saída dos visitantes, o desconforto, ainda assim a mostra foi sucesso sem medida. A notícia correu de boca em boca; marcado o vernissage para as dezessete horas, ao meio-dia começou a se formar a fila» às quatro da tarde era impossível entrar na rua lotada pela multidão que ameaçava invadir o local, forçar a porta fechada, que se abriu a meio enquadrando Ilya: vocês esperaram mais de trinta anos por essa exposição, esperem mais meia hora, não dêem pretexto para que retirem a autorização.

O pedido de Pancetti, a exigência para que eu lhe consiga convite para expor seus quadros em Moscou, sala onde fazê-lo, passou-se bem antes da abertura de Kruchev, durante a ditadura ideológica de Zdanov: exposição de Pancetti, nem pensar. Mas não há razão que o convença, se não expõe em Moscou, em Leningrado, em Kiev, em Tibilice, o culpado sou eu e mais ninguém. Termino por me irritar e mandá-lo às favas: brigue se quiser, dane-se. Danou-se, brigou comigo.

 

 

Paris, 1991.

A premiada

 

Jack Lang* faz-me subir ao estrado no momento da entrega do Prêmio Nacional de Tradução a Alice Raillard. Estamos na Ópera Garnier, assistimos à cerimônia da outorga dos Prix Nationaux des Arts et des Lettres.

*Jack Lang, Ministro da Cultura da França.

 

Cada vez que entro no salão nobre da Ópera de Paris sinto-me ofuscado pela beleza, naquela tarde ainda mais, pois o prêmio dado a Alice é um pouco meu, sou seu traduzido, o único presente entre os brasileiros que ela traduziu e deu a ler ao público francês, os demais não estão em Paris. Alice traduziu João Ubaldo, Campos de Carvalho, Antônio Olinto, Darcy Ribeiro, Raduan Nassar, Dyonélio Machado, o poeta João Cabral, e esse vosso servidor. Leitora das grandes editoras, militante de nossa literatura, muitos dos livros brasileiros relacionados nos catálogos das casas francesas ali estão por recomendação e esforço seu, de Antônio Torres a Chico Buarque, a ela devemos a publicação da Obra Poética de Drummond, das Memórias do Cárcere de Graciliano.

Concorro com minhas palmas para as ovações com que a audiência saúda Maria Casarés, prêmio de teatro, e Juliette Greco, prêmio da canção. Aplaudo quando se dirigem ao tablado o cineasta Jacques Doillon, o poeta Jacques Roubaud, o pintor Luc Boltanski, quando o prêmio de literatura é remetido a Louis-René des Forêts, Alice está em boa companhia. Pergunto-me quando no Brasil premiaremos os grandes tradutores, como Ivo Barroso e Cláudio Veiga os dois transpuseram para o português do Brasil os poetas da frança, em matéria de prêmios ainda estamos no regime das igrejinhas e das cavações, ainda não atingimos a seriedade.

Esse prêmio nacional coroa a obra de uma tradutora excepcional, coroa igualmente um devotamento de todos os instantes, muito devemos a Alice, bate-se por nós, ergue alto as bandeiras de nossa ficção e de nossa poesia. Eu a encontro às voltas com os pernas de Ferreira Gullar, após haver terminado a tradução Livro de Histórias do pajé da ilha de Itaparica, compadre João

Ubaldo. Não sabe apenas de seus traduzidos, sabe de todos os demais que valem a pena, é devota de Moacyr Scliar e de Márcio de Souza, de Fernando Sabino e de Inácio de Loyola Brandão Quanto a mim, além da tradução de ao menos meia dúzia de romances, devo-lhe o livro de Conversations, meu retrato de corpo inteiro na moldura da amizade.

Autor feliz por ter tido tradutores da qualidade de Conrad Detrez, Jean Orecchioni, Georges Boisvert, Isabel Meyrelles, a eles e a Alice devo meu público de língua francesa. Jack Lang dá-me a palavra, digo apenas que sou melhor escritor nas traduções de Alice Raillard do que nos originais em língua portuguesa.

 

 

Madri, 1966.

Tudo azul

 

Preparo a viagem à Europa de toda a família, Zélia, João Jorge, Paloma e eu: João voltou ao Brasil em 1952 falando tcheco com acento francês, tinha cinco anos de idade, Paloma nascera em Praga. Desejamos mostrar a Europa a nossos filhos adolescentes, estabelecemos ao sabor das circunstâncias políticas um roteiro para excursão que durará os meses das férias escolares. Obtive o visto espanhol que até então me fora negado, em troca a entrada em Portugal me foi recusada mais uma vez, compro passagens em pequeno navio cujo porto de destino é Vigo, na Galícia, com escalas nas Canárias e em Lisboa. Dizia-se "os navios dos galegos" a esses barcos modestos, quase familiares, pois neles embarcavam e deles desembarcavam os galegos da Bahia em visita a Pontevedra. Se a recusa portuguesa me incomodava, não conhecer Portugal era uma das tristezas de minha vida, derrotava-me a impossibilidade de ir à França, não poder voltar a Paris, andar no Boul'Mich' com João, como costumávamos fazer, ele menino: festejou no Hotel Saint Michel seu primeiro aniversário, não poder iniciar Paloma nas belezas da cidade tão amada, mostrar-lhe a Notre Dame e o Louvre.

Lembrei-me de que amigos meus, Anna Seghers, Pietro Nenni, expulsos da França pelas mesmas razões que eu e Zélia pediam e obtinham visto de entrada quando necessitavam vir às reuniões do Movimento da Paz; um visto especial, limitado no tempo: no máximo quinze dias, e no espaço: circulação reduzida a determinados lugares. Escrevi então uma carta a Guilherme Figueiredo, ao tempo exercendo as funções de adido cultural na Embaixada do Brasil, um adido diferente: não fez do cargo mordomia, trabalhou pela difusão da cultura brasileira, não procurou traduzir e editar livro seu, e sim dos confrades.

Conhecia e era amigo de Guilherme de toda a vida, ao menos de toda a vida literária: creio ter sido dos primeiros a saudar a estréia Ao romancista com artigo entusiasta quando da publicação de Trinta anos sem paisagem. Juntos lutamos contra o Estado Novo — luta que levara o pai de Guilherme, general Euclides Figueiredo, à prisão por longos anos —, concordamos e discordamos nas reuniões e congressos da ABDE*, ele da esquerda democrática, eu comunista, nossa amizade se reforçou nas diferenças. Visto com olhos de suspeita pelos sectários do pecê, Guilherme era autor popularíssimo na União Soviética e nos países de democracia popular, sua dramaturgia — As raposas e as uvas, Um Deus dormiu lá em casa, para citar apenas duas peças — triunfava nos teatros do mundo socialista, de Moscou a Pequim, de Praga a Sofia, de Varsóvia a Bucareste e Budapeste: os demais autores brasileiros não lhe chegavam aos pés em popularidade.

*Associação Brasileira de Escritores, fundada em 1944.

 

Escrevi carta a Guilherme recordando minha situação, infeliz sem direito a entrada e permanência na França, Zélia em idênticas condições, referi-me ao tal visto especial, pedi-lhe para se informar sobre o que devíamos fazer para recebê-lo. A resposta não tardou, além das explicações, a papelada que eu e Zélia deveríamos preencher solicitando os vistos excepcionais. Nosso pedido seria considerado pelas autoridades, Guilherme acreditava que obteríamos quinze dias em Paris. Vibramos de entusiasmo ante a perspectiva de mostrar Paris a Paloma, rever com João o Jardim do Luxemburgo: preenchemos a papelada, juntamos as fotos requeridas, botei o envelopão no correio para Guilherme. Embarcaríamos para Vigo daí a quatro dias, pedi que ele, se a conseguis-se, remetesse a autorização de entrada para a embaixada do Brasil em Madri.

Partimos com a decepção de não poder descer em Portugal, mas com a ilusão de visto francês, mesmo limitado, uma coisa compensava a outra. Em Lisboa recebemos a boa-nova: as autoridades lusas nos permitiam desembarcar desde que minha presença não fosse notícia na imprensa, as esperanças parisienses cresceram: o governo do general De Gaulle não haveria de ser mais drástico do que o de Salazar.

Andamos a Galícia, seguimos de trem para Madri, na Embaixada encontrei telegrama de Guilherme: tudo azul, pode vir tranqüilo, só faltei desmaiar de emoção. Quinze dias depois, de automóvel, chegávamos à fronteira da Espanha com a França, as crianças na maior animação, Zélia e eu inquietos, temendo o controle da polícia francesa. Apresentamos os passaportes, o policial os examinou, pôs-lhes os carimbos de entrada, entramos. Em Paris, num restaurante de Les Halles, o Les Halles antigo, o de mercado de alimentação, diante de uma perna de javali e de um vinho tinto generoso, Guilherme nos contou como as coisas se passaram.

Recebidos os materiais que eu lhe mandara, os pedidos de visto, fora em pessoa levá-los à repartição competente do Ministério do Interior, ou seja, da polícia, e os entregara ao funcionário de serviço. Enquanto ele os protocolava e determinava prazo para a resposta, Guilherme, impulsivo de natureza e de família, foi se enchendo, acumulando raiva, o sangue lhe subia à cabeça. Assim, quando o funcionário lhe estendeu as senhas com os números dos processos, ele recusou recebê-las e pediu de volta a papelada. Segundo me contou, desejou rasgá-la ali mesmo nas fuças do monsieur, tão indignado estava com a humilhação a que nos sujeitavam, a mim e a Zélia, as autoridades francesas, mas sentiu-se coibido devido à missão diplomática que exercia. Conhecendo-o como o conheço, ainda hoje me pergunto se não será verdadeira a versão corrente, os papéis rasgados ali mesmo, ante o assombro do senhor do ministério.

De volta à casa, na rua Tilsitt — nome de rua, título de romance de Guilherme — ainda arfante de raiva, escreveu carta a André Malraux, Ministro da Cultura, expôs-lhe os fatos a partir da decisão do governo Jules Moche, tomada e posta em execução em dezembro de 1949, até a solicitação de visto especial, de apenas alguns dias com circulação limitada: veja, caro Ministro, como é tratado na França um escritor brasileiro. Carta enviada, três dias depois Guilherme é convocado ao Ministério das Relações Exteriores: no Quai d'Orsay lhe comunicam que haviam sido canceladas todas as medidas tomadas contra mim e Zélia há dezesseis anos por um governo submisso aos vaivéns da guerra fria.

Não apenas nós tivemos permissão de voltar à França e de amá-la de corpo presente — todos os demais a quem na mesma ocasião foram negadas permanência e entrada em território francês tiveram seus direitos restabelecidos e entre eles se encontravam Pablo Neruda, Mário Schemberg, Carlos Scliar, Ana Stela Schic, Jacques Danon, vinte outros, pelo menos.

Em certa ocasião, não podendo mais suportar o exílio das ruas de Paris, Neruda entrara de automóvel pela fronteira da Suíça, não lhe pediram o passaporte, feliz da vida hospedou-se em casa de amigos no subúrbio, de onde foi retirado pela polícia dois dias depois e colocado na mesma fronteira com a Suíça. Também Carlos Scliar, convidado ao vernissage de exposição de nossa amiga Vieira da Silva tomou o avião — tanto tempo passado, mais de dez anos, imaginou terminadas as restrições —, desembarcou no aeroporto de Paris, entregou o passaporte, o policial consultou o livrinho, aquele, viu-lhe o nome, quiseram embarcá-lo de volta para o Brasil no primeiro vôo, Carlitos teve a maior dificuldade em obter que o deixassem seguir para a Bélgica. Conforme se comprova não somos apenas nós, Zélia e eu, que devemos o privilégio da França a Guilherme Figueiredo e a André Malraux.

Tudo azul, ainda bem: obrigado, amigo e companheiro, merci, Guilherme Figueiredo.

 

Tantas vezes passei diante da casa de Jacques Prévert na Cite Vernon, nas proximidades do Moulin Rouge, sinto pena de não ter tocado à porta: Jacques, sou eu, venho do Brasil, sei teus versos, escuta: "jamais d'été jamais d'hiver/jamais d'automne ni de printemps/ simplement le beau temps tout le temps", uma estrofe de Barbara: "quelle connerie la guerre", é epígrafe de romance meu, temos o mesmo horror à guerra, o mesmo amor à gente simples. Os presunçosos, os fátuos, os cheios-de-si não amam teus versos, são incapazes da poesia. Faltou-me coragem de chamar-lhe à porta, o medo de incomodar, de ser intruso.

Pensei em ir ver Erskine Caldwell* ao sabê-lo em Paris a caminho da Bulgária. Venho de longe, lhe diria, em 1937, em Nova York, assisti a A Estrada do Tabaco, depois vi o filme de John Ford, devorei os teus romances, acho que nos parecemos ao contemplar o campo e recriar a vida como o pequeno pode se parecer com o grande Igual a ti eu desejei que os países tivessem um Ministério da Paz em vez de um Ministério da Guerra como ocorre para desgraça dos povos. Além do receio de molestas não tive ânimo de roubar tempo ao romancista, é curto o tempo de criar e de viver.

*Erskine Caldwell (1903/1987), escritor norte-americano.

 

Eu estava em Moscou quando os escritores festejaram os oitenta e cinco anos de Serafimovitch. Torrente de ferro foi um dos primeiros romances soviéticos que eu li, e que romance! Desejei me incorporar ao grupo de confrades russos que ia cumprimentá-lo, não quis passar por intrometido, perdi a ocasião de conhecer alguém que me influenciara.

Por medo, por pudor, por timidez, deixei de expressar minha admiração, dizer de minha estima, de meu amor fraterno a tantos de quem fui devoto, invade-me o desgosto. No caso de André Malraux, porém, meu sentimento é de remorso, pois dele eu era devedor, jamais pude lhe dizer de minha gratidão. Admirava-o desde a juventude, da leitura de La Condition Humaine, há cenas do romance que se me gravaram na cabeça, ainda hoje as vejo como numa tela de cinema, penso que li toda sua obra de ficção, de Les Conquérants a L'Espoir.

Por duas vezes Malraux teve influência decisiva em minha travessia francesa. Foi dele, segundo me consta, a opinião que levou a Editora Gallimard a publicar, em 1938, a tradução de meu romance Jubiabá*; os tradutores, Michel Berveiller e Pierre Hourcade, haviam sujeitado o manuscrito à sua leitura e aprovação. Foi ele igualmente que, acionado por uma carta de Guilherme Figueiredo, se moveu e obteve a anulação das medidas tomadas contra Zélia e contra mim, em dezembro de 1949, quando nos vimos postos fora da França e impedidos de voltar. Por que não fui procurá-lo para lhe dizer muito obrigado, se tanto desejei fazê-lo? Chegava a Paris, pensava: desta vez vou vê-lo, mas em seguida me perguntava: com que direito irás, pequeno escrevinhador, um joão-ninguém no rol das coisas, com que direito irás incomodar quem dirige um ministério ao sol da glória? Nunca consegui a coragem necessária, capaz de vencer o temor de ser chato, o horror de ser inoportuno.

*Bahia de Tous les Saints, Gallimard, Paris.

 

Não sei sequer como ele era no trato com as pessoas, mas sei que o cidadão esteve à altura do criador, penso em André Malraux e o vejo na cabine do avião nos céus da Espanha em guerra.

 

 

Rio de Janeiro, 1952.

O Mundo da Paz

 

Tarefa política, de volta da União Soviética e dos países de democracia popular do leste europeu, escrevo livro de viagens, o elogio sem vacilações do que vi, tudo ou quase tudo parece-me positivo, stalinista incondicional silenciei o negativo como convinha. Para falar da Albânia plagiei título de Hemingway: A Albânia é uma festa. Em verdade ainda não era o pesadelo em que se transformou, estava começando.

Publicado no Brasil pela editora do pecê, O Mundo da Paz vendeu cinco edições em poucos meses, valeu-me processo na justiça, acusado de autor subversivo. Convidei João Mangabeira para meu advogado, mas não cheguei a ir a juízo, o magistrado a cargo do processo mandou arquivá-lo com sentença repleta de sabedoria: de tão ruim, o livro não chega a ser subversivo, é tão-somente sectário. Em verdade, não escreveu "de tão ruim", o acréscimo quem o faz sou eu, autocrítica tardia mas sincera.

Dei razão ao meritíssimo, retirei O Mundo da Paz de circulação, risquei-o da relação de minhas obras, busco esquecê-lo mas, de quando em vez, colocam em minha frente um exemplar com pedido de autógrafo. Autografo, o que posso fazer se o escrevi?

 

 

Rio de Janeiro, 1966.

Subilatório

 

Miécio Tati* me telefona, ninguém sabe mais do que Miécio sobre meus livros, meu trabalho literário, sabe mais do que eu. Pede o significado exato da palavra subilatório, que mais uma vez vem de encontrar em Dona Flor e seus Dois Maridos, mas já a lera antes em outros romances de minha lavra.

*Miécio Tati (1913/ 1980), escritor.

 

Subilatório, meu compadre: palavra mais pedante, mais fidalga, mais excêntrica, mais singular, popular e erudita, mágica para tudo dizer, longa de escrever, difícil de pronunciar, palavra mais que baiana, soteropolitana, significa ânus ou seja cu.

Deve-se usar de preferência, como ensina mestre Edison Carneiro em seu Vocabulário do falar baiano, para designar o fiofó de mulher loira, negra, morena, mulata, cabo-verde desde que seja bela e tenha o cu em flor.

 

 

Bahia, 1977.

Segundo congresso afro-brasileiro

 

Os anais refletem e expõem as diferenças a marcarem o dois Congressos Afro-Brasileiros: editados* pela José Olympio os do primeiro, realizado em Recife em 1934 sob a égide de Gilberto Freyre, os do segundo, reunido na Bahia em 1937, posto de pé por Edison Carneiro, saíram numa coleção de estudos dirigida por Artur Ramos**. Diferenças patentes.

*Na coleção Documentos Brasileiros

**Editora Civilização Brasileira.

 

O Primeiro Congresso foi esforço e compromisso de intelectuais, a participação direta do povo negro quase não existiu, ficou reduzida à festa oferecida aos congressistas por pai Adão em seu xangô. Na Bahia, também o Segundo Congresso contou com a participação de mestres da categoria de Donald Pierson, Artur Ramos, de Edison e do maestro Camargo Guarnieri, teve além disso a presença efetiva, na organização e nos debates, de figuras ímpares da cultura negra, basta citar a iyalorixá Aninha e o babalaô Martiniano Eliseu do Bomfim, na época uma espécie de Papa das religiões de origem africana. Os grandes candomblés da Bahia, das diversas nações, festejaram o evento, o peji de Yemanjá, no Axé Opô Afonjá, foi inaugurado durante o Congresso. Aninha me levou a ver o orixá, suspendeu o candeeiro sobre as comidas do santo nas gamelas de barro, abriu a cortina, do outro lado estava Yemanjá: uma nascente de água.

O Congresso da Bahia significou um passo adiante nos estudos sobre o negro brasileiro, foi tarefa dos intelectuais e do povo. A presença da África não se reduziu a tema para o estudo de eruditos, foi passo de dança, cantiga ritual, depoimento vivo. Coube-me a honra de saudar, em nome dos congressistas, mãe Aninha e pai Martiniano, eles eram a origem e o futuro.

Ainda está por avaliar-se a importância de Edison na implantação e no desenvolvimento dos estudos sobre o negro no Brasil, não apenas os livros que escreveu e publicou, hoje clássicos, mas também a atuação quotidiana. Todos nós fomos levados às casas-de-santo por sua mão de iniciado. Por ter sido o pioneiro, marcou com as cores políticas da esquerda o mistério dos axés. Não por acaso quando os inimigos da democracia estabeleceram a ditadura do Estado Novo, os candomblés foram abrigos de perseguidos, esconderijos de comunistas. O próprio Edison encontrou refúgio no peji de Oxum, no Opô Afonjá. Ainda ekede, mãe Senhora, guardiã da casa do encantado das águas mansas, estava no segredo, cuidou do fugitivo, aprendeu e ensinou.

 

 

Lisboa, 1991.

Elogio

 

No decorrer da concatenação e da escrita destes apontamentos, por mais de uma vez, ao menos três, pensei me referir ao Tivoli, hotel de Lisboa, dar testemunho. Ao redigir o apontamento onde recordo Gilberto Freyre saindo do hall do hotel para ir almoçar no restaurante da Mimi, cheguei a abrir parênteses para cantar loas ao Tivoli, a louvação se alongou, extralimitou da nota, abri o parênteses, não cheguei a fechá-lo, sobrou.

Mas hoje aconteceu-me ouvir de Vinagre*, um dos chefes da portaria, meu correligionário de idéias, a informação de que estou completando vinte e cinco anos de hóspede do Tivoli, a data exige comemoração. De fato aqui nos hospedamos, Zélia, João Jorge, Paloma e eu pela primeira vez em janeiro de 1966. Era inverno, João Jorge completara 18 anos, barba à Che Guevara, universitário subversivo e namorador, vestia calças lee desbotadas com gloriosos rasgões, envergava sectário sobretudo russo, o meu celebérrimo Couraçado Potemkin, metido nele cruzei os invernos socialistas, de Praga a Pequim, de Ulan Bator a Sofia, de Varsóvia a Budapeste, de Bucareste a Moscou, desafiei o frio e a neve, os cinqüenta graus abaixo de zero na travessia da Sibéria: tecido grosso, gola de pele, vinha até os pés, não havia frio para ele. Vinha até os pés mas ainda assim dava para ver que João Jorge calçava tênis e não usava meias, o pessoal do Tivoli se perturbou: ainda não vira hóspede tão original.

*Antônio dos Reis Vinagre.

 

Como disse, por mais de uma vez tomei da máquina de escrever para redigir um apontamento sobre o Tivoli, por que não o fiz? Creio que por puro e simples preconceito: vão pensar e dizer que não me cobram a estadia ou que me fazem abatimento, puxo o saco dos proprietários para levar vantagem, sei lá que mais. Assim sendo começo por dizer que pago o preço do quarto, não gozo de redução nem de outras mordomias, fico à vontade para proclamar que o Tivoli é o único hotel do mundo no qual o hóspede encontra, ao mesmo tempo, conforto das cinco estrelas máximas e o calor humano de uma pensão familiar. Disse conforto, digo luxo pois a tapeçaria de Lurçat no restaurante é um, luxo de nababos. O Tivoli é o oposto desses hotéis americanos, frios e solitários, onde o cliente é uma coisa, uma conta, um cartão de crédito, não é uma pessoa. O Tivoli é hotel e casa de família, aqui vai de graça a propaganda pois o louvor é merecido e o velho marinheiro deseja consigná-lo na escala de Lisboa, entre as boas lembranças da navegação de cabotagem.

 

 

Ilha de Marajó, 1977.

Chove nos campos de cachoeira

 

O monomotor sobrevoa a Ilha de Marajó, dia encoberto, céu de nuvens, chove sem parar, somos convidados dos Steiner, Ruth e Rodolfo, vão conosco no avião.

Os Steiner, nossa família paraense — temos parentes em todas as comarcas do Brasil —, possuem fazendas em Marajó, criam búfalos, zelam pelas tartarugas. Nossa amizade se iniciou com o cruzamento de cachorros pugs, coube a Mister Pickwick, macho de nossa criação, ser de minha maior estima, comer o cabaço da mais linda cadelinha carlin, chegou donzela ao Rio Vermelho, voltou prenha para Belém — devo a Picuco e a Popota o conhecimento desses Steiner do Pará, gente de primeira.

Dádiva do rio Amazonas ao mar Atlântico, situada entre águas que se chocam e se misturam, a doce e a salgada, solo encharcado, jamais terra firme, tampouco superfície líquida, território de mangue, pasto de lama onde os pés se afundam, a Ilha de Marajó, diferente de tudo quanto eu vira. O gado pasta na planície a perder de vista.

De súbito, como se a violência da chuva o atirasse de encontro à terra, o aparelho desce sobre uma povoação construída em cima de palafitas: cabanas, casas pequenas, quase uma taba de índios. Rodolfo me diz o nome do lugar, chama-se Cachoeira, ali se desenrola a ação de romance de Dalcídio Jurandir, Ruth completa a informação: o romance de estréia, Chove nos campos de cachoeira.

Sei do livro, não só por tê-lo lido em originais como porque fui eu quem criou o Prêmio de Romance Dom Casmurro quando redator-chefe do semanário de Brício de Abreu. Não tínhamos dinheiro para dotação da láurea mas obtive com Omer Mont'Alegre, diretor literário das Edições Vecchi, contrato de publicação do romance vencedor e constituí júri mais valioso do

que um cheque magro: Álvaro Moreyra, Jorge de Lima, Oswald de Andrade, Erico Veríssimo, José Lins do Rego, já não lembro todos. Júri numeroso e consagrador. Concorrendo com mais de cem candidatos, o romance de Dalcídio foi escolhido por unanimidade, o prêmio revelou ao público brasileiro um dos grandes de nossa ficção. Com Chove nos campos de cachoeira, Dalcídio iniciou a saga do Extremo Norte, dez volumes, dez obras-primas.

O avião volta a subir, a chuva engrossa, tento abafar o medo para admirar a paisagem onde o gado pasta. Descemos na pista da fazenda, a única de cimento em toda a Ilha. Espera-nos a montaria, veículo extraordinário, canoa feita para navegar no rio, desliza em terra sobre a lama do mangue puxada por três cangas de búfalos. Saí de Marajó onde se misturam mar e rio alguns quilos mais gordo, culpados os pitéus da cozinha paraense, do pato no tucupi ao sarapatel de tartaruga. De lembrança levei comigo carga completa de bicho-de-pé, eu andava descalço no mangue, no pasto e no curral.

 

 

Havana, 1986.

Reflexão

 

Na sede do Comitê Central a conversa com Fidel se prolonga, além de Zélia está presente Bolanos*, Vice-Ministro do Exterior, deixará o cargo para ser Embaixador de Cuba no Brasil: Sarney vem de restabelecer relações diplomáticas com a ilha dos barbudos, rompidas pelos gorilas em 1964.

*Jorge Bolanos, diplomata cubano.

 

Fala-se das coisas, tantas, comuns ao Brasil e a Cuba, laços que são a garantia de um intercâmbio positivo nos terrenos mais diversos, se ademais de estima houver respeito mútuo. Há muito o que fazer para recuperar o tempo perdido seja na aplicação do conceito que determinou por decênios a política externa brasileira: o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil, seja na tentativa cubana de exportar revolução.

Dias antes eu escutara longo discurso de Fidel — qual dos seus discursos não é longo? — na inauguração do Instituto de Cinema latino-Americano, colocado sob a presidência de Garcia Márquez, Fidel se declarara homem de reflexão. Nem sempre o foi, mas acredito na sinceridade do discurso: eu o creio disposto à meditação antes de partir para o ato impetuoso, basta considerar a melhoria do relacionamento com a Igreja Católica e com os padres — os da teoria da libertação, de preferência. Atento a tais propósitos, coloco na mesa das reflexões problema que me parece primordial como fator de amizade: somos primos-irmãos brasileiros e os cubanos. Possuímos, brasileiros e cubanos, um motivo maior de compreensão e de unidade, a nos distinguir dos demais povos latino-americanos — somos gente do mesmo sangue, produto da mesma mistura, únicos no continente. Reafirmo acentuo: de fato os únicos pois, além de indígenas e latinos, somos africanos de origem e crença, de cultura e hábitos, não é mesmo Comandante? Não encontro no entanto referência a essa afinidade, não vejo que se lhe dê a importância devida. Nem em Cuba tampouco nos documentos, no discurso, nas proposições da esquerda brasileira, como se não fosse patente o sangue africano que nos identifica, a Cuba e ao Brasil, e, ao mesmo tempo, nos diversifica em relação aos demais países da América Latina.

Nossa mistura é a mesma, é idêntico o nosso sincretismo cultural, digo a Fidel, e lhe proponho seja feito um esforço de conhecimento e de aproximação entre os valores negros da cultura brasileira e da cultura cubana. Constato com prazer a existência em Cuba de uma abertura religiosa, padres brasileiros estão sendo esperados em Havana, e a santeria já não é perseguida e condenada por bárbara e contra-revolucionária — com Julie e Harry Belafonte, Zélia pôde assistir, na véspera, a uma festa de iaôs. Por que não iniciar então intercâmbio entre o candomblé e a santeria, ambos de origem iorubá, são idênticos os deuses da Bahia e os de Santiago de Cuba. Se vão chegar sacerdotes católicos para dizer missas nas igrejas da ilha, por que não trazer a Havana, para a festa de Xangô, as iyalorixás: Stela de Oxóssi, Olga do Alaketu, Creusa do Gantois? Por que não enviar aos terreiros da Bahia para a festa de Yemanjá, no dois de fevereiro, os babalorixás cubanos? Ou será que as religiões populares, desembarcadas dos navios negreiros, valem menos para os barbudos do que a Igreja de Cristo aportada nas caravelas de Colombo?

Solto na sala do Comitê Central os orixás para a reflexão de Fidel Castro naqueles dias em fase de abertura do regime farto de problemas, com eles se defronta o visitante em cada esquina de Havana.

 

 

Praga, 1951/1952.

O medo

 

Posso tocar o medo com a mão. Erguido em nossa frente o muro da devassa na visitação do Santo Ofício comunista. Separa vida e morte, a morte infamante dos traidores, ninguém está a salvo das ameaças, nem o mais ilustre nem o mais poderoso: bocas trancadas, olhares fugidios, a dúvida, a desconfiança, o medo.

Nas forcas stalinistas balouçam os cadáveres dos mais poderosos dos principados tcheco e eslovaco, ainda ontem senhores da corda e do baraço, Slansky, Clementis, Gaminder, a cúpula do Partido. Antes já tinham executado Rajk na Hungria, a onda de processos e purgas se alastra no mundo socialista, as confissões e as sentenças. Em Praga Arthur London escapou da morte, pegou prisão perpétua: também ele confessara os crimes monstruosos. Certamente os renegados o enganaram, pois é-nos impossível, a Zélia e a mim, acreditar que Gerard*, herói da Espanha e da Resistência, o mais leal dos comunistas, seja um traidor.

*Gerard, nome de guerra de Arthur London.

 

Nós o conhecemos, a ele e a Lise, sabemos que são gente de bem, incapaz de felonia, a palavra traição não cabe no vocabulário de quem dedicou a vida à causa. Lise é posta contra a parede da fidelidade à Revolução, querem que renegue o marido, mandam-na para o trabalho manual numa fábrica de material de aviação. A ela e a Antoinette, a brava Antoinette, amorosa de camarada brasileiro, assessora de Gaminder.

Tratei com Gaminder, secretário de relações exteriores do Partido Comunista da Tchecoslováquia no poder, atento e amável escuta-me pedinte do pecê brasileiro na ilegalidade, potentado concede as graças, os favores. Lembro o desvelo com que cuidou da viagem de Ligia e Anita, irmã e filha de Prestes, fugitivas do Brasil para o exílio em Moscou. Antoinette me atende na sede do Comitê Central, me anuncia ao chefe, volta: espere um pouco, ele vai receber o camarada, demora-se fazendo sala.

Certa feita apresentei-me acompanhado de companheiro paulista, trocaram olhares, a labareda crepitou, juraram-se amor eterno, prometeram-se em esponsais. Coisa mais difícil do mundo, casamento de russa ou de nacional de qualquer democracia-popular com estrangeiro, aconteciam paixões, a batalha pelo casamento uma epopéia. Que o diga Otávio Araújo*, viveu anos em Moscou antes de obter consentimento, disso sabe também Guido Araújo**, atravessou os círculos do inferno para levar Mila de esposa de Praga para a Bahia. E os que tentaram e não conseguiram? Conheço ao menos duas dúzias a começar por Fernando Santana*** até hoje uma tcheca loira sonha com o mulato inzoneiro. Imagine-se então se a presumida noiva se chama Antoinette, está sob suspeita, posta em castigo, pretensão absurda mais que impossível. Recolhi lágrimas e bramido: as que ela chorou, o grito que ele não pôde reprimir.

*Otávio Araújo, pintor.

**Guido Araújo, cineasta, Mila, sua mulher.

***Fernando Santana, político, dirigente comunista.

 

Esforço-me para cumprir com meu dever, não é fácil ser digno, decente, quando o medo ergue a muralha da desconfiança e do equívoco, cada palavra, um simples gesto, pode levar ao Tribunal da Inquisição. Também eu tenho medo, não estou isento, não sou Bayard, le chevalier sans peur et sans reproche. Sans reproche sim, pois me sinto acima de qualquer suspeita, considero-me militante devotado, leal, fiel, intransigente, considero a União Soviética a pátria de todos os oprimidos e vejo em Stalin o pai dos povos e de cada um de nós. Que posso temer, se é assim? Não, porém, sans peur: quando penso em London que acredito inocente, o pavor me invade. Mas vou em frente, não intimorato e, sim, apreensivo, sustenta-me o ânimo o fato de ser Prêmio Internacional Stalin, recompensa maior à fidelidade incondicional. Me atrevo, mas o faço encagaçado, e o faço porque se não o fizesse perderia o gosto de viver e de certo perderia Zélia. Vou em frente, creio possuir certa margem de imunidade que me permite a honradez, moeda rara.

Em Budapeste peço para visitar Gyorgy Lukács* caído em desgraça, retiraram-lhe postos e honrarias, exigência dos ideólogos soviéticos do realismo-socialista, o filósofo magiar é um herético formalista, mas eu o admiro e estimo desde nosso encontro em Wroclaw, seguido da leitura de livro seu sobre teoria literária. O secretário do pecê húngaro, responsável pelas relações com os partidos estrangeiros, olha-me com estranheza, promete providências para atender-me, cumpre o prometido, encontro-me com Lukács, falamos disso e daquilo, nenhuma referência à situação em que se encontra. No edifício do Comitê Central, ao estender-me a mão, o camarada secretário murmura, inesperado: quero lhe agradecer por seu pedido — agora sou eu quem olha com estranheza o dirigente.

*Gyorgy Lukács (1885/1971), filósofo húngaro.

 

Em Bucareste faço pedido idêntico com maior afoiteza, pois a contingência é menos grave: consigo ver e abraçar o romancista Zaharia Stancu, destituído da secretaria-geral da União de Escritores Romenos e do Comitê Central do Partido. Stancu passou a vida a subir e descer a escada do poder, ora nas alturas, ora na merda.

Zélia encontra Lise na rua, em Praga, convida-a a vir nos ver em Dobris: a solidão das famílias dos condenados é total, o medo destrói relações, apreços, amizades. Gesto de maluca, aí, somos um pouco loucos, Zélia e eu, não conseguimos conter impulsos. Acolhemos Lise, a mulher do renegado, veio almoçar conosco num domingo, no Castelo dos Escritores onde habitamos. Ela chega com os filhos e a mãe, indomável espanhola, quando transpomos a porta do restaurante em tão reprovável companhia, cessa o ruído das conversas, morre o riso das facécias, silêncio tumular. Somos irresponsáveis, irresponsável é o termo que emprega, menos a me censurar do que a me justificar, a escritora tcheca Marine Puimanova, Prêmio Nacional: você é estrangeiro, por que se mete em assunto nosso? Está se expondo.

Dias de medo, malditos, desgraçados, prolongam-se em semanas e meses infelizes. As dúvidas crescem, não devemos duvidar, não queremos duvidar, queremos continuar com a crença intacta, a certeza, o ideal. Nas noites insones, nos contemplamos, Zélia e eu, um nó na garganta, vontade de chorar.

 

 

Évora, 1987.

Preferência

 

Leitora de Évora, amável e exaltada como sabem ser as portuguesas, cobra-me em carta opinião sobre Fernando Pessoa. Todos falam sobre Pessoa, o maior entre os maiores, não ouço sua voz no coro dos encômios. Que motivo deter-mina esse silêncio estranho? Diga-me o que acha da poesia dele, por favor.

Poeta extraordinário, imenso poeta, quem pode negar a grandeza de Fernando Pessoa? Não eu, certamente. Mas por que, cara Manuela Miranda Mendes, classificá-lo, categórica, o maior entre os maiores? Mania mais intolerante essa do maior e do melhor de todos que nós brasileiros herdamos de vocês, portugas. Onde fica o caolho Camões, aquele que, no dizer do povo da Bahia, vê mais com um olho só do que nós com os nossos três? O dos Lusíadas ou o dos Sonetos, conforme o gosto do leitor, para meu gosto o dos Sonetos.

Poeta imenso, ninguém duvida, mas Pessoa não é o meu poeta português: pondo de parte os citados sonetos de Camões hors-concours, meu poeta lusitano é Cesário Verde, enche-me as medidas.

E entre os vivos. Curiosa e provocadora você quer saber e cita três nomes ilustres de poetas verdadeiros. Desculpe-me, Manuela, meu poeta português vivo não é nenhum dos três de sua preferência, o de minha predileção, cuja poesia singular me faz pensar e me comove, chama-se Fernando Assis Pacheco, labuta na redação de O Jornal para ganhar o pão e o vinho quotidianos, descansa no regaço da senhora Rosarinho, é pai de moças lindas, em geral arquitetas, e do doutor João Pacheco, jovem erudito. No dia em que Fernando reunir em volume sua poesia impura, você, Manuela Miranda Mendes, na Universidade de Évora ou em praça pública vai proclamá-lo o maioral.

Ouça e me diga se não tenho razão: uma parte da vida é o que somos/outra parte o que para nós inventam.

Bahia, 1928. O candidato

Nas páginas de um livro de andanças e lembranças do romancista Herberto Salles, deparo com o louvor do contista Dias da Costa, meu compadre Oswaldo, em tantas circunstâncias meu irmão. Quando menos espero, eis que vem fazer-me companhia.

Dos Estados Unidos, um desses pesquisadores universitários que dedicam a vida a estudar determinado assunto ou determinado aspecto de um assunto e o estudam em profundidade, até a exaustão, são incríveis de tão devotados, mister William Rouele que se especializou em "literaturas de língua portuguesa na Rússia tzarista e na União Soviética", me remete a relação completa até a data, dos autores brasileiros traduzidos nas diversas línguas da URSS: ali está a Canção do beco, de Dias da Costa, em versão para o ucraniano. Não posso lhe dar sequer a surpresa da notícia, Oswaldo se foi de viagem para sempre, sem saber que possuía leitores em Kiev. Contista da admiração de Graciliano Ramos e de Sérgio Milliet, ainda no mês passado Claude Couffon*, que sabe tudo sobre as literaturas de línguas espanhola e portuguesa, poeta e ensaísta, Prix National de la Traduction, me falou sobre o conto de Oswaldo, Alucinação, pensa colocá-lo numa antologia: obra-prima de humor, assinala.

*Claude Couffon, escritor francês, hispanista.

 

Em plena organização da Academia dos Rebeldes e às vésperas do lançamento da revista literária Meridiano, que, é claro, iria revolucionar a literatura nacional, aparece-nos, na sede da Academia em embrião, segunda mesa à esquerda no Bar Brunsuwik, atrás da Praça Municipal, um jovem desempregado, magro, baixo, elegante, simpático, propõe-se a coletar anúncios para a futura revista nas cidades do recôncavo para onde tenciona viajar no rastro de xoxota andeja.

Tomou lugar à mesa, entrou direto na conversa maligna, de sotaque, e que sotaque tinha o baixinho! Ao se despedir, no fim da tarde, voltaria no dia seguinte pela resposta, quisemos saber a opinião de Pinheiro Viegas:

— Para literato, ótimo, para agenciador de anúncios, nulo.

Sem os anúncios de Oswaldo, mas com um artigo seu, virulenta pasquinada contra o parnasianismo, a revista Meridiano circulou, primeiro e único número. Não revolucionou a literatura nacional, mas fez um barulho danado nos currais baianos da subliteratura, entre os grupos do Arco & Flexa, do Samba e os avulsos, empenhados todos em guerra Mundial contra o academicismo e a se entredevorarem na guerrilha urbana das injúrias, dos doestos, dos xingamentos, a baixaria modernista.

Ninguém tão terno amigo, devorador de romances igual a mim, jogador de canastra e de buraco, num tempo antigo boêmio debochado nas ruas da Bahia: acontecia passarmos, Oswaldo e eu, uma semana inteira hospedados em pensão de putas, nossas namoradas, xodós como se dizia.

 

Para mim meus romances só existem enquanto os escrevo, ao colocar a palavra fim ao pé da página, o romance que me consumiu o juízo e me comeu as carnes deixa de existir — não é bem isso: continua a existir, mas já não é meu. Passa a pertencer aos outros: editores críticos, tradutores, leitores, aos leitores sobretudo. Meu, exclusivamente meu, somente durante o tempo dos dedos no teclado da máquina de escrever na busca dos caminhos da narrativa, quando concebo e levanto ambientes e personagens, pouco a pouco os desentranho da cabeça, do coração, dos culhas e os vejo vivos no papel, chorando e rindo — duro, difícil, emocionante ofício o de escritor, Há quem diga que o faço bem, há quem diga que o faço mal, eu o faço o melhor que posso, não busco outra ocupação, pois não sei fazer mais nada.

Não tenho o hábito de reler meus livros, raras vezes uma página aqui outra acolá por casual necessidade. Não os releio nem os reescrevo como fazem diversos literatos. O livro a meu ver tem data — na concepção, na escrita, no conteúdo, na criação artística e humana —, data que corresponde à personalidade do autor quando o elaborou e escreveu. Delimita a experiência adquirida até então, a posição perante o mundo e a vida, a maneira de ver e de pensar, os ideais, a ideologia, as limitações, as aspirações, designa um homem em tempo e circunstância que já não se repetirão. Se reescrevo o livro serão outros o tempo e a circunstância, também o livro já não será o mesmo, ainda que melhore a escrita, a composição da história, a condição dos personagens, ao reescrevê-lo eu o perdi, ao burilá-lo eu o reneguei.

As reedições de meus livros saem iguais às primeiras, apenas as gralhas vão em constante aumento, Paloma, que os andou relendo para saber o que os personagens comem, me informa que os erros gráficos se contam por milhares. Tampouco jamais buli nas dedicatórias, também elas são datadas — mesmo em se tratando de pessoas a quem deixei de estimar nem assim lhes retirei o nome da oferenda mesmo se retirei o indivíduo do meu bem-querer. Refiro-me, é claro, às edições brasileiras, as traduções escapam a meu controle. Lá estão os nomes todos, um a um — quando escrevi o livro estimava ou admirava o fulano a quem o dediquei, se depois ele se revelou calhorda, o nome permanece na dedicatória datando a escrita e a ingenuidade do autor.

 

 

Moscou, 1951.

Carta

 

Com cuidado extremo, Fedor Keliin abre a pasta de couro, retira a de papelão, de entre as folhas de papel almaço que o protegem extrai o manuscrito amarelado, bem inestimável, relíquia: carta de Máximo Gorki de punho e letra.

A Fedor Keliin muito deveram as literaturas de línguas portuguesa e espanhola, hispanista histórico traduziu e divulgou na URSS autores da península ibérica e da América Latina. Houve quem o criticasse por colocar métrica e rima nos poemas de versos livres de Neruda — em russo sou êmulo de Puskin, graceja Pablo —, a verdade é que o bom Keliin se bateu por nossas letras junto às editoras e às revistas literárias. Nos idos de trinta se batia por Eça de Queiroz sem obter êxito, as editoras fechavam as portas ao romancista português.

Exibe-me a cada, vejo a letra de Gorki no alfabeto cirílico, o russo é autor de minha devoção, com ele aprendi a amar os vagabundos, devorei-lhe os contos, os romances, o teatro, na primeira viagem à União Soviética corria a ver Bas-Fond declamado em língua de gringo comunista, só faltei chorar. Keliin me conta o episódio da carta que lhe deu a vitória na peleja com o sectarismo dos editores.

Eça havia sido traduzido nos começos do século, um único livro, depois da Revolução de Outubro não voltara às livrarias. Os originais da tradução de O crime do Padre Amaro sob o sovaco, Keliin ia de editora em editora. Desesperava-se quando Gorki retornou da Itália e passou a comandar a vida literária, decidiu escrever-lhe expondo o problema, pedindo sua intervenção junto às editoras. Não esperava resposta, intervenção talvez, arriscar não custa. Recebeu resposta, aquela carta que ufano me mostrava no quarto do Hotel Metropol.

Aponta-me com o dedo uma linha, traduz a frase de Gorki sobre o autor de Os Maias: Eça de Queiroz é um dos cumes do romance mundial. É preciso dizer que não demorou a aparecer nas livrarias a tradução de O crime do Padre Amaro?. Logo seguida pela de A relíquia, Keliin não costumava dormir no ponto.

Fedor Keliin recolhe o manuscrito entre as folhas de papel almaço, coloca-o na pasta de papelão que guarda na velha pasta de couro, trazida da Espanha, lá estivera, no front de Madri, durante a guerra.

 

 

Rio de Janeiro, 1961.

Boatos

 

Eduardo Portella e eu agitamos a vida política e intelectual através da coluna (lidíssima) de José Mauro Gonçalves* na Última Hora de Samuel Wainer. Inventamos sucessos, atribuímos proposições, frases e ditos a figuras de relevo, mandamos brasa Nada, no entanto, irrefletido e gratuito, cada nota que pomos em circulação tem razão de ser, nosso objetivo é a democracia.

*José Mauro Gonçalves, jornalista.

 

Propalamos a candidatura de Augusto Frederico Schmidt a senador por Sergipe, os políticos sergipanos entram em crise, pomos na boca de Barbosa Lima Sobrinho, pessoa de nossa admiração, frase de espírito a propósito de Jânio e Juscelino, a frase faz sucesso, nós a escutamos repetir nas rádios, na televisão. Ouvido por uma rádio Barbosa Lima nega a autoria da frase, mas a elogia: não é minha mas é boa. A cada manhã alimentamos a coluna de José Mauro de informações, autênticas todas: se não o eram passam a ser.

Na luta contra os milicos, após a renúncia de Jânio, em defesa da posse de João Goulart, dias de incertezas e ameaças, bolávamos e espalhávamos boatos, tudo quanto pudesse prejudicar os golpistas, transmitíamos por telefone, circulavam, acontecia-nos recebê-los de volta. Num começo de noite, Eduardo me telefona, a excitação na voz:

— Acabam de me telefonar de Brasília, sabes o que acontece? Desentendimento entre os generais... Ouça...

Revela-me detalhes do desacordo entre os chefes militares. Notícia sensacional e, sobretudo, de fonte fidedigna.

— Não te entusiasmes, Eduardo, tu te esqueces que esse boato nós o inventamos hoje de manhã. Voltou enriquecido, é normal. Mas a fonte fidedigna somos nós, tu e eu.

 

 

Paris, 1992.

Os direitos humanos

 

Assino a carta para Madame Weil*; membro do Júri, na poderei comparecer à reunião onde serão escolhidos os contemplados com o Prix de Ia Mémoire, concedidos anualmente pela Fondation France Liberte. Estamos de partida para Zurique, Zélia e eu, vamos participar de encontro com leitores no quadro de uma promoção sobre a cultura brasileira. Penaliza-me não estar presente, em ocasiões anteriores dei meu voto à Fundação da Ilha de Gorée, ao organismo que defende os direitos do povo curdo, diariamente violados no Iraque, na Turquia, à Amnesty International, o trabalho realizado pela Amnesty parece-me digno do maior apreço sobretudo pela isenção — talvez por isso mesmo nem sempre é reconhecido.

*Eva Weil, Presidente do Júri do Prix de la Mémoire.

 

Por falar em prêmios, considero as contingências que os cercam, penso em injustiças e em erros, me pergunto, tenho vontade de perguntar em altos brados: por que ainda não foi concedido a Danielle Mitterrand o Prêmio Nobel da Paz? Ninguém o merece tanto, ela é hoje o símbolo dos direitos humanos, de sua defesa intransigente. A Presidente da Fondation France Liberte é exemplo e incentivo, onde quer que se erga a bandeira dos direitos negados e agredidos, lá se encontra a combatente de dedicação sem fronteiras e sem limites. Onde estão os parlamentares da Noruega que não lhe outorgam a láurea do bom combate?

De Danielle Mitterrand se poderia dizer, para nomeá-la, que se trata da esposa de François Mitterrand, um dos poucos estadistas contemporâneos, em nossos dias somente Mihail Gorbachev possui sua estatura, primeira dama da França cujos destinos seu marido preside, não é pouca coisa. Eu direi porém que ela é não apenas a mulher do Presidente da República, Madame Mitterrand — ela é isso e muito mais: é Danielle Mitterrand, não passeia pelas capitais em visita oficial, viaja em defesa da liberdade, não se alimenta com as gaiatices, os desfiles de moda, a fofocagem que são o prato de cada refeição das primeiras-damas das cortes republicanas. Não se exibe no palco das iluminuras sociais, é a defensora dos direitos humanos nas arenas da luta, do protesto, da solidariedade. Mais que a esposa do Presidente, é a companheira do socialista, do europeu Mitterrand, François e Danielle se completam.

 

 

São Paulo, 1968.

Tarde de autógrafos

 

Vejo e não acredito! — contaram-me que José Olympio exclamara incrédulo diante da foto estampada em O Estado de S. Paulo. Outros também acharam incrível, no entanto sucedeu.

A foto mostrava a fila de leitores à espera de autógrafo na livraria Teixeira por ocasião do lançamento da primeira edição de Tenda dos Milagres. Em grande plano, de pé, ao lado do autor no ato de dedicar um exemplar, um leitor espera. Esse leitor é ninguém mais ninguém menos que Júlio de Mesquita Filho, ali postado em toda sua altura e em toda sua majestade. Só mesmo vendo para crer: o diretor de O Estado de S. Paulo numa sessão de autógrafos na intenção de solicitar assinatura de um escritor.

Quatro ou cinco dias antes eu lhe enviara o Tenda com dedicatória afetuosa, por que cargas d'água viera ele pessoalmente à livraria, trazendo a reboque um dos fotógrafos do jornal? Ao chegar adquirira o livro, fizera questão de pagar, o livreiro tentara oferecer, entrou na fila que se estendia rua afora, ah isso era demais, o editor e o livreiro foram buscá-lo, trouxeram-no até a mesa onde eu assinava, cumprimentou-me, passou-me o volume, autografei, Julinho mandou que o fotógrafo repetisse a chapa, abraçou-me, foi-se embora.

No dia seguinte, em página nobre, clichê em duas (ou três?) colunas, o Estadão noticiava a realização da tarde de autógrafos, dava conta da presença na livraria de Júlio de Mesquita Filho em busca de autógrafo em exemplar do Tenda dos Milagres, novo sucesso do romancista etcetera e tal, elogios a granel, a maior propaganda para o livro. Maior ainda a prova de consideração, incrível. No Rio, José Olympio olhava a foto, não acreditava no que seus olhos viam.

Na véspera, ou seja, no dia do lançamento, o Estado publicara artigo de Arnaldo Pedroso d'Horta arrasando o livro e o autor. Arnaldo era meu desafeto desde a publicação de Os Subterrâneos da Liberdade, razões de ordem política, não perdia vaza para esculhambar-me. O Estadão concedia — e certamente ainda concede — total liberdade de opinião a seus colaboradores, o artigo fora estampado como devido. Julinho porém quis provar de público sua estima e a do jornal pelo livro e pelo autor. Arrebanhou fotógrafo, com ele dirigiu-se para a Livraria Teixeira, a foto registrou o acontecido: eu a lhe entregar o Tenda dos Milagres, ele a recebê-lo.

— Vejo e não acredito! — exclamou José Olympio.

Devia no entanto acreditar, pois conhecia Julinho Mesquita de longa data e longo convívio. A presença do diretor de O Estado de S. Paulo na tarde de autógrafos me envaideceu, mas não me surpreendeu.

 

 

Rio, 1961.

O colarinho e a proposta

 

Ao ingressar na Academia Brasileira o imortal (sic) recente, de fardão novinho em folha, tem a ilusão que irá reformar a instituição, limpar-lhe o ranço, acabar de vez com os preconceitos e as pequenezes, fazê-la como ela devia ser, a Academia, e não será jamais.

Eleito em 1961, ao vestir o fardão para ir tomar posse da cadeira cujo primeiro ocupante foi Machado de Assis, tendo como patrono José de Alencar, cadeira para romancista, sentindo-me afogar pelo infame colarinho de celulóide, peço a Zélia uma tesoura, com urgência, e o reduzo a metade da altura, posso respirar. Tão grande a surpresa de Zélia, não lhe deu tempo de protestar e impedir o sacrilégio.

Nessa ocasião o Prêmio Machado de Assis, o maior do cenáculo, destinado a recompensar a cada ano a obra completa de um escritor, tinha a mísera dotação de 25 mil cruzeiros. No mesmo ano de 1961 a Editora Nacional, de Othales Marcondes, criara, para compensar livro de poesia inédito, prêmio de 400 mil cruzeiros, dezesseis vezes maior que o Machado de Assis. Não tive a menor hesitação: na primeira sessão a que compareci após a posse redigi, assinei e entreguei à Presidência proposta formal aumentando a dotação de nosso prêmio para quinhentos mil.

Austregésilo de Athayde recebeu o papel, leu, balançou a cabeça, disse: remeterei ao plenário em tempo útil. Até hoje, trinta anos depois, minha primeira e única proposta não chegou ao plenário para discussão e votação. Tempo útil da Academia Braseira.

 

 

Lisboa, aeroporto, 1953.

O jantar

 

Se me perguntassem qual o prêmio maior que me foi dado receber em minha vida de escritor, o momento culminam eu responderia sem vacilar:

— O jantar na sala de trânsito do aeroporto de Lisboa.

A foto do famoso jantar, publicada no livro de Álvaro Salema*, foi reproduzida por José Carlos de Vasconcelos no Jornal de Letras de Lisboa: apareço sentado entre Ferreira de Castro e Maria Lamas**, vê-se ao fundo o famigerado inspetor da PIDE, Rosa Casaco, envolvido depois no assassinato do general Delgado. Mário Dionísio***, um dos presentes, recordou em artigo no mesmo Jotaele os detalhes daquela prova de amizade, de solidariedade, ação de luta contra o salazarismo no apogeu, quem a consideraria possível?

*Jorge Amado, Presença em Portugal, editora Europa-América.

**Maria Lamas (1893/1983), escritora portuguesa.

***Mário Dionísio, escritor e pintor português.

 

Voltando de Moscou, via Estocolmo, telégrafo a Ferreira de Castro pedindo-lhe que venha me ver no aeroporto de Lisboa, onde demorarei uma hora na sala de trânsito durante a parada do avião. Escritor maldito, sem direito a visto de entrada, via-me limitado à sala de trânsito nas sucessivas viagens que entre 1952 e 1960 realizei à Europa.

Fora encarregado de consultar Ferreira de Castro sobre a possibilidade de lhe ser conferido o Prêmio Mundial da Paz. Contava com o prestígio do romancista para que pudesse romper o cordão de isolamento que a polícia política estabelecia em meu redor, mas não confiava demasiado, o salazarismo não era de brincar em serviço. Daquela vez brincou. Ou apenas quis utilizar o jantar como uma trampa para identificar, confirmar, observar inimigos do regime capazes de audácia tal, temerários?

Imagine-se minha surpresa e minha comoção ao deparar-me na sala de trânsito não só com o autor de A lã e a neve: vários escritores portugueses — alguns rostos conhecidos, a maioria conhecida só de nome — ali me esperavam para saudar e abraçar o companheiro com entrada proibida em Portugal. Sentaram-me ao centro da grande mesa, de um lado Ferreira de Castro, na cadeira do outro lado iam-se revezando os demais, um de cada vez, para duas palavras de afeto. Rápida hora de exaltação, ninguém comeu os manjares servidos, era outro o alimento com que se alimentavam a luta e o sonho.

Admiro-me com a quantidade de fotógrafos, acionam as câmaras sem parar, insistindo em registrar todas as presenças, comento com Alves Redol*: — Muitos fotógrafos, hein...

— Um é nosso, os outros são da PIDE — me explica.

Noite sem comparação, essa da sala de trânsito em Lisboa, embarquei no avião de coração repleto, no aeroporto a polícia salazarista cerca, detém, interroga promotores e convivas do jantar.

*Alves Redol (1911/ 1969), escritor português.

 

Leitores me interrogam, por carta ou de viva voz, querendo saber o que penso das adaptações de romances de minha autoria para o cinema, o rádio, o teatro, a televisão. Vários livros meus foram transformados em cenários para filmes, peças de teatro, novelas e séries de tevê, deles foram extraídos bales, histórias em quadrinhos.

Repito o que já disse e escrevi: a adaptação de um romance para qualquer outro meio de comunicação é sempre uma violência contra o autor. Por melhor que seja a adaptação, haverá sempre algo fundamental que se modifica, diminui ou cresce, se deturpa ao ser transferido das páginas do livro para o palco ou para as telas, a grande dos cinemas, a pequena das televisões.

É natural que assim suceda. Ao escrever um romance realizo trabalho artesanal, sou um artesão tentando alcançar a arte literária. Quando inicio um livro somos apenas eu, a máquina de escrever, o papel em branco. Esse caráter artesanal desaparece quando o romance é adaptado: cinema, rádio, televisão são o oposto do artesanato, são indústria e comércio, o produto a ser oferecido, a ser visto ou ouvido (e não lido) deve corresponder às exigências do mercado. Para realizar um filme não bastam o autor, o papel em branco, a máquina de escrever (máquina de escrever no meu caso de velho atrasadão, os jovens escritores como dona Zélia Gattai, Fernando Sabino, João Ubaldo Ribeiro utilizam computadores, salve eles!). Da realização de um filme participa pequena multidão: o produtor, o diretor, o cenarista e o cenógrafo, os diretores de fotografia e de som, o compositor, os músicos, os intérpretes, os técnicos de toda espécie, de iluminação, de vestuário e bote gente nisso, um nunca acabar. Na televisão acrescem a audiência, o público, os telespectadores que, sentados ante os vídeos, assistem os episódios da novela e sobre ela, sobre a história e os personagens exercem influência decisiva: um simples figurante cai no gosto do público pode passar à personagem principal, as tramas se desdobram em função da audiência. O autor do romance sente-se agredido a cada instante, de repente não mais reconhece sua obra

Por que então você aceita que adaptem seus romances, se sabe que irá se chatear, se aborrecer, sofrer? Por três motivos, volto a responder, os três de igual importância. Começo por constatar que mesmo nas piores adaptações, naquelas que mais se distanciam da obra original, de seu conteúdo, de sua verdade, algo resta daquilo que o escritor quis dizer, da emoção que desejou transmitir, algo permanece, se reafirma, quase sempre o essencial Esta a primeira razão.

Em segundo lugar porque a obra escrita alcança um público de alguns milhares de leitores, a tiragem de dez mil exemplares já é considerável, um best-seller brasileiro anda pelos vinte mil e olhe lá, existem os casos excepcionais, os exageros de cem, duzentos mil, bem raros os verdadeiros. Enquanto isso os filmes, as novelas e séries de televisão são vistos por milhões de espectadores, incluindo milhares e milhares de analfabetos sem possibilidade de acesso ao livro. Tieta — falo da novela de televisão escrita por Aguinaldo Silva baseada em meu romance — era vista cada noite por cinqüenta milhões de apaixonados, segundo me informam. Aquele algo que restou de meu romance alcançou essa massa imensa.

Para ser honesto devo acrescentar o terceiro motivo, também ele substancial. Sou um escritor que vive exclusivamente dos direitos autorais provenientes das edições, traduções e adaptações de meus livros, não tenho outra fonte de renda.

Aproveito para responder a outra pergunta: se acompanho o trabalho do adaptador, se com ele discuto, concordo, discordo, exijo modificações, fidelidade etcetera e tal. Nada disso, não me envolvo com a adaptação, deixo inteira e completa liberdade ao adaptador não quero saber de nada, de nada, absolutamente. Penso que uma adaptação para ser boa deve ser recriação e não pastiche da obra adaptada. Se o autor se mete vai dar em droga.

Para terminar, um conselho dado de graça, fruto da experiência. Se você não quer sofrer com a adaptação de seu romance, meu confrade, não assista ao filme, à novela, à peça, à desgraceira. Receba os direitos autorais adiantados, cobre alto, o mais alto que puder, é uma compensação — e não assista, recuse ir ao cinema, ao teatro, evite a televisão, se não quer se aporrinhar.

 

 

Rio de Janeiro, 1947.

Infração à lei

 

Deve-se de quando em quando infringir a lei, praticar ato proibido. Maneira de se protestar contra leis injustas, ilegítimas ou idiotas. Eu o fiz e ainda o faço, hoje cometo pequenas infrações, no passado pratiquei algumas substanciais devido quase sempre à minha atividade política.

Quando João Jorge nasceu, o código civil considerava adulterinos os filhos dos casais sem certidão de casamento: ambos desquitados e não havendo divórcio, Zélia e eu vivíamos em doce amigação, nem assinatura de juiz da vara de família, nem bênção de padre para tapear — com o matrimônio religioso alguns acasalados buscavam legitimar a união.

Adulterino, João? Por que se não cometíamos adultério, apenas nos amávamos? Não tive dúvidas, rumei para o cartório de registros de nascimentos e sob minha fé de deputado federal comuniquei a vinda ao mundo de João Jorge, filho legítimo de Jorge e Zélia Amado, cônjuges. Dois outros deputados, meus colegas de bancada, Claudino José da Silva e Gervásio de Azevedo, testemunharam em falso, assim João foi filho legítimo e não adulterino.

Hoje quando infrinjo, transgrido a lei, eu o faço para protestar, afirmar minha posição contra preconceitos e injustiças, violências. O fato de romper com a lei iníqua deixa-me sempre alegre e confortado.

 

 

NO MAR BÁLTICO, 1951.

Furacão

 

No ferry-boat que nos transporta da Alemanha para a Suécia, Halldor Laxness* come peixe cru, a travessa em sua frente servida com fartura, é noite de breu, sopram ventos de inverno no mar Báltico. Animação de escritores em torno do islandês, os franceses Vercors e Jean Laffite**, o argentino Alfredo Varela, o romeno Sadoveanu, o chinês Emi Siao, o uruguaio Gravina***, vamos todos à reunião do movimento da paz. Varela e Laffite acompanham Halldor no repasto dos peixes crus, abstenho-me.

*Halldor Laxness, escritor islandês, Prêmio Nobel.

**Jean Laffite, escritor francês.

***Alfredo Gravina, escritor uruguaio.

 

O furacão desaba, cerca o barco, faz dele gato e sapato, entendo por que se compara navio a casca de ovo na tempestade, marinheiros passam apressados, amarram objetos, a animação decai, os literatos entreolham-se no cagaço e no mal do mar em fúria, começa a retirada. Zélia foi a primeira, quase o vento a arrasta e a atira às vagas, um marinheiro chegou a tempo de ampará-la, ajuda-a a descer para o wagon: nosso trem vai no bojo do ferry-boat. Emi, marinheiro da poesia, segue-lhe o exemplo, Vercors e Gravina o imitam, Varela pede penico, Laffite resiste gosta de peixe cru, de súbito se levanta e parte com urgência, vomita no corredor. Insensível que sou ao enjôo no mar, benefício das viagens do menino, do adolescente entre a Bahia e Ilhéus nos navios da Bahiana, acompanho Halldor na mesa mas não na refeição, a aguardente sueca me esquenta o peito. O romancista me espia pelo canto do olho, até quando se manterá a resistência do confrade brasileiro?

Sou leitor de Laxness desde meus anos de exílio no Rio da Prata, lera edições argentinas de Salka Valka e El Pueblo Independiente, tenho sua novelística em grande estima e o disse de público ao remeter-lhe o Prêmio Internacional da Paz, do Conselho Mundial, alguns anos depois Laxness ganhará o Prêmio Nobel. Na Coleção Romances do Povo, publiquei a tradução brasileira de Estação Atômica, a Editora Vitória, do pecê, não lhe pagou direitos, tampouco os recebi da editora de Reykjavik que, a conselho de Halldor, traduziu Mar Morto ao islandês, ele o lera em alemão.

O furacão brinca com o ferry-boat, o vento uiva, as ondas varrem o convés, estamos encharcados, Halldor dá por finda a refeição, oferece-me o braço para chegarmos ao corredor, aceito, estou bêbado, rio à-toa: posso não ser tão bom romancista quanto tu mas sou um velho marinheiro, capitão de longo curso. No wagon Zélia me conta sua odisséia, a história cura-me a cachaça, sinto-me culpado, por que a deixei partir sozinha?

Em Estocolmo, Halldor leva-nos a ver a adaptação cinematográfica de Salka Valka, filme sueco, Zélia aplaude, eu prefiro o romance. Em 1958, somos, Laxness e eu, os primeiros escritores ligados por cordão umbilical à União Soviética a protestar contra a campanha (vil) desencadeada em Moscou contra Pasternak, a quem havia sido atribuído o Prêmio Nobel: o Doutor Jivago era best-seller mundial. Romance de interesse limitado, em compensação a poesia do russo é desmedida.

Privei com Halldor Laxness, boa amizade dos tempos da campanha pela paz, mas, quando me lembro dele, eu o vejo na mesa do barco, a travessa de peixe cru em sua frente, para o romancista da Islândia era como se o furacão não existisse.

 

 

Bahia, 1928.

Remorso

 

Inconseqüentes nem tanto, ignorantes decerto, arrasávamos reputações literárias, sob a pecha de academicismo, parnasianismo, passadismo. Ser passadista, crime sem perdão, nós, os Rebeldes, fazíamos justiça sumária, enterrávamos livros e autores. Nem imaginávamos que pudéssemos ser a Jovem Inquisição Literária desembarcada na Bahia.

Comigo, tudo bem, na frente da batalha dos modernistas contra os passadistas. Escrevia horrores a propósito de tantos e tantos outros que depois vim a ler e a admirar, de alguns me fiz amigo, estimei: Afrânio Peixoto, por exemplo, presença determinante na vida cultural, ser adorável. Só me deu remorso naquele então de pasquinadas o insulto a Coelho Neto, de todos o mais agredido, reduzido à última expressão: lhe neguei pão e água, para sempre o condenei por medíocre prosador, insignificante romancista. Coberto de vergonha, pois dele havia lido o Rei negro e gostara, gostara do estilo e da inventiva. Não tínhamos o direito de gostar.

 

 

Praga, 1991.

Caça às bruxas

 

Presido a sessão dedicada aos intelectuais e à democracia no Fórum Cultura e Democracia, reunido em Praga sob os auspícios da UNESCO e do Presidente Havei, da Tchecoslováquia. Estão inscritos para debater o tema os romancistas André Brink, da África do Sul, Tahar Ben Jelloun, de Marrocos, o húngaro Jorgen Konrad, Presidente do Pen Club Internacional, o Presidente do Conselho Nacional de Cultura do México, Victor Flores Ojea e Jean Daniel, diretor de Le Nouvel Observateur. Os Problemas se avolumam com a abertura para a vida democrática dos países até ontem satélites do império soviético.

Antes de passar a palavra aos oradores inscritos, eu a concedo e Graça Machel, viúva de Samora Machel, líder do povo moçambicano na luta pela independência, vitimado num desastre de avião. Pedira-me que lhe concedesse a oportunidade de ler declaração assinada pelas mulheres presentes ao Fórum que se consideram discriminadas, não obtiveram direito à tribuna. Concordo, lhe concedo a palavra, o protesto feminista ressoa na sala. Ao romper com o protocolo da reunião, exerço, creio, a democracia, tão falada e badalada, tão limitada e desservida.

Ao abrir a sessão pronuncio algumas palavras de inquietação e alerta que repercutiram além dos limites da sala de debates, do âmbito do Fórum. Inquieta-me ver iniciar-se nova caça às bruxas ameaça mortal à débil democracia que tenta se estabelecer sobre as ruínas das ditaduras apeadas do poder no leste europeu.

Na União Soviética, o presidente da Rússia, Boris Ieltsin, ainda ontem membro do Bureau Político do PCUS, tenta colocar seu antigo partido na ilegalidade, num gesto tão antidemocrático quanto os que praticara ao tempo de dirigente marxista-leninista. Correta e necessária, a decisão de retirar o pecê do aparelho do Estado, das repartições civis e militares, privá-lo dos privilégios de partido único, de força dirigente. Mas colocar os comunistas na ilegalidade, negar-lhes o direito a pensar e a opinar, é repetir o autoritarismo bronco e brutal do regime marxista derrotado. Onde a democracia recém-conquistada?

Assusta-me a explosão de uma nova caça às bruxas, a perseguição ideológica, em nome da democracia, àqueles que ontem, por essa ou por aquela razão, de consciência, de seita ou de vil interesse, não importa, foram ou são comunistas, exerceram atividade partidária com maior ou menor responsabilidade. Vejo crescer nos países das antigas democracias-populares a tendência a delatar, a perseguir, a condenar, vejo impor-se a mesma desgraçada realidade política que caracterizou a era comunista. Inclusive na Tchecoslováquia, em contradição com sua revolução pacífica, sem sangue e sem desespero, mesmo em Praga sinto a voz de vingança e de ódio pedir leis iníquas, antidemocráticas.

Alarmado levanto a voz para protestar: devemos distinguir entre os que enganaram e os que foram enganados. Se não tomarmos cuidados para impedir a caça às bruxas, em lugar de sustentar a democracia, estaremos possibilitando que das cinzas do stalinismo ressurja o fascismo, e tenhamos de novo o massacre e o genocídio.

Jean Daniel, o primeiro dos oradores, retoma minhas palavras e delas retira a conseqüência justa e necessária. Devemos condenar Gorki porque ele secundou Stalin? Devemos esquecer A Mãe, Os Vagabundos, Bas Fond, a obra imortal do humanista?

 

 

Rio de Janeiro, 1939. São Paulo, 1944.

Parecença

 

Nas proximidades do antigo Teatro Fênix encontro Procópio Ferreira*, por que a cara amarrada e o despropósito se somos amigos do peito?

— Gritei teu nome para te cumprimentar no outro lado da avenida, fizeste ouvido mouco, não me respondeste, pensei que estavas armado em besta.

Joracy Camargo** confirma a desatenção: cruzara comigo, eu passara a seu lado como se não o visse. Não fui eu o desatento, explico, e, sim, James Amado, irmão caçula.

*Procópio Ferreira (1898/1979), ator.

**Joracy Camargo (1899/1973), dramaturgo.

 

Dez anos mais moço, éramos parecidíssimos, James é Jorge cagado e cuspido, dizia o coronel João Amado, apesar da diferença de idade havia quem nos tomasse por gêmeos. Joelson, o do meio, saíra à família de Lalu, homens altos e bonitos.

Em 1944, na cidade de São Paulo, durante o coquetel com que se festejava a publicação de São Jorge dos Ilhéus, na Livraria Brasiliense, aproveitando a aglomeração, Maria Mão Boba correu a mão maneira pelos baixios de James, trabuqueou o croquete do jovem literato pensando trabuquear o do festejado autor. A expressão trabuquear o croquete não é minha, é de Dorival Caymmi, definição poética para audácias manuais.

A mão boba da sabidona serviu para desmascarar a incoerência de James. Não respondera à saudação de Procópio, simulara não ter visto Joracy, mas não rejeitou o impulso da afoita: não sou ele, mas sou o irmão muito mais moço, estou escrevendo um romance, sou bom na queda, vai ganhar com a troca, experimente.

 

 

Rio de Janeiro, 1957.

Tradução russa

 

Desembarco de Moscou, corro ao hospital para visitar José Lins do Rego, os médicos dão-lhe poucos dias de vida, trago-lhe um presente, O moleque Ricardo em língua russa, edição publicada na URSS em 1940, logo esgotada, ao fim e ao cabo consegui um exemplar.

Sobre essa tradução várias vezes conversamos, ele nunca acreditara que ela existisse, as repetidas afirmações não passariam de balela, invenção de amigos comunistas no desejo de "cretinizá-lo". Nem mesmo quando lhe contei, ao voltar ao Brasil em 1952, ter visto um exemplar na Biblioteca Lenine, tê-lo tido em minhas mãos: viu mesmo? — duvidou.

A cada ida à União Soviética empenhava-me na busca do livro, falei com meio mundo, com todos os que se interessavam por literatura brasileira, editores, críticos, tradutores. Soube por Iuri Kalugin* que o tradutor (ou a tradutora) possuía um único exemplar, não o podia ceder, terminei por desistir. Imagine-se minha alegria quando em 1957 o mesmo Kalugin me entregou o volume que pertencera à tradutora — era tradutora, sim. Morrera, Kalugin confiscara o exemplar, guardara para mim, Zé Lins vai ficar contente.

*Iuri Kalugin, jornalista soviético, tradutor para o russo de livros brasileiros.

 

Trago o livro comigo, o moleque Ricardo falando russo, apenas chego fico sabendo que o romancista está às vésperas da morte, toco-me para o hospital, lá encontro João Conde à cabeceira do enfermo. Entrego o volume a Zé Lins, a alegria inunda-lhe o rosto: é verdade, existe, eu não acreditava. Folheia o volume, espia as páginas como para se convencer, já não cabe dúvida nos olhos úmidos.

Na porta do elevador João Conde soluça no meu ombro.

 

Na Bahia leio A Tarde diariamente, em Paris Le Monde, é um vício, não passo sem eles, se não os leio fazem-me falta: têm a cara do lugar. Nos outros lugares leio o que me vem à mão, sem preferência.

Na China, ao tomar dos jornais, compreendi o que é a dor de ser analfabeto, não podia sequer traduzir o alfabeto cirílico para o latino como buscava fazer em Moscou, empunhando o Pravda. Em Xangai publicavam um tablóide de quatro páginas em inglês, Xangai News, e eu, que de inglês sei menos que qualquer chofer de táxi, li-o de cabo a rabo, como se estivesse lendo português. Em Ulan Bator, na Mongólia, caiu-me nas mãos um volume em alemão, me pareceu de leitura fácil. Pude dar-me conta de que tratava de espécies animais.

 

 

Luanda, 1979.

O preço pago em sangue

 

No almoço de despedida oferecido pelos escritores de Angola ao confrade brasileiro, no brinde de Luandino Vieira a confidencia:

— Paguei com sangue a leitura de teus livros.

Narra acontecimento de 1954: o colonialismo português, opressão política, a censura a jornais e livros, a luta áspera. Indo para casa, passou na livraria para dar uma olhadela, o livreiro lhe fez sinal que esperasse a partida do freguês. Mostrou-lhe então, com as precauções devidas, a preciosidade rara e cara: os três volumes de Os Subterrâneos da Liberdade, edição brasileira recém-saída, recém-chegada, recebida e vendida por vias travessas, o negociante arrisca-se, para arriscar-se cobra alto.

Assanhado, Luandino pergunta o preço, consulta os bolsos, conta os caraminguás, nem metade do necessário, onde arranjar o resto? Não venda, venho buscar, avisa, parte à procura de quem possa lhe emprestar a quantia avultada para o pobre subversivo, não será fácil. Vai em agonia, eis que depara em seu caminho com um banco de sangue aberto no hospital. Nem um minuto de vacilação: entra, arregaça a manga da camisa, estende o braço, a veia, vende sangue, sangue bastante para completar o pagamento dos volumes dos Subterrâneos, volta em marcha forçada à livraria.

Os cristais da fraternidade na voz de mestre Luandino:

— Paguei com meu sangue a leitura de teus livros, meu irmão.

 

 

Rio de Janeiro, 1945.

Heresia

 

No assombro, a boca aberta, Zélia a duras penas contém o protesto italiano, o acanhamento a impede de clamar contra o absurdo, acabava de ser apresentada aos sogros, conhecimentos de três dias: engoliu o sapo, sapo-boi. Acompanhara-me ao Rio para que meus pais a vissem e aprovassem, o coronel João Amado a recebe com efusão, dona Eulália a estuda com olhos de desconfiança.

Na batalha pela conquista do afeto do Coronel e de Lalu, Zélia, cozinheira graduada em massas por seu pai Ernesto*, peninsular de boa boca e rígidos princípios culinários, prepara aquela macarronada, receita de família, o molho é segredo que passa de pai a filho. Tendo provado, o doutor Joelson Amado se declara devoto dos méritos da cunhada, não lhe poupa elogios enche o prato, esfrega as mãos. Dona Eulália faz ar de desagrado, torce a cara, o que não a impede de servir-se com fartura e repetir. O prato maior, porém, o macarrão transbordando pelas bordas é do chefe da família, o Coronel gosta de comer bem e bastante.

*Ernesto Gattai (1885/1940), mecânico, corredor de automóvel.

 

Zélia segue-lhe os movimentos à espera da garfada e do louvor à qualidade da cozinha da nora paulista, o gosto do pitéu será dado de relevo na apreciação da escolha da companheira feita pelo filho. O Coronel, também ele, é estrito em seus princípios: recusa o queijo ralado, corta uma banana em rodelas e as coloca sobre o macarrão. Depois toma do farinheiro, cobre a massa feita no capricho com a farinha de mandioca, acompanhamento indispensável a qualquer prato, seja qual for. Revolve macarrão, farinha, banana, enfia o garfo, enche a boca, a mistura sabe-lhe bem.

Nem sequer o grunhido de aplauso restabelece o equilíbrio emocional de Zélia, diminui o seu assombro, olha-me boquiaberta: macarrão com farinha e rodelas de banana, mamma mia, heresia!

Heresia ou inovação? De mim nunca ousei experimentar, desejo manter a paz na freguesia, mas estou quase certo que a farinha de mandioca deve dar sabor especial, superior, à cozinha italiana: custa experimentar?

 

 

Monte Estoril, Portugal, 1992.

Dignidade

 

Telefono a Oscar Niemeyer, em nome de Sérgio Machado*, para convidá-lo a ilustrar livro póstumo de Carlos Drummond de Andrade, O amor natural, poemas eróticos que a Record está em vias de publicar. Juntar Drummond e Niemeyer será o máximo, proclama o jovem editor na esperança de resposta positiva.

*Sérgio Machado, editor.

 

A idéia interessa a Oscar, tudo depende do tempo, promete estudar o assunto. Conversamos sobre o mundo que vira pelo avesso, o que falta ainda acontecer? Estraçalha-se o que parecia definitivo, desfazem-se certezas implacáveis, riscam-se do mapa nações, estados, federações, dissolvem-se ideologias, enterram-se teorias ditas científicas, apaga-se o farol que iluminava o mundo. Havíamos de viver, Oscar e eu, para assistir à desagregação da União Soviética, ainda bem que Prestes morreu antes. Também Giocondo Dias foi poupado de presenciar o fim do sonho que motivou nossa vida. De certa maneira, no que se refere à atuação dos comunistas no Brasil, Giocondo foi um precursor da perestroika.

Leio nos jornais ter sido Oscar o primeiro a assinar o manifesto de um novo partido comunista, o antigo muda de nome. Onde há miséria, deverá haver um comunista de pé na tentativa de construir um mundo novo, declara o arquiteto. Não conheço ninguém mais coerente que Oscar, incapaz de vacilar. Certa feita, voltávamos da Europa num paquete italiano, tinha havido o XX Congresso do pecê soviético, vivíamos a era de Kruchev, a denúncia dos erros e crimes de Stalin, no tombadilho conversávamos o mundo e as mudanças, nada abala a convicção de Oscar:

— Grande mesmo, seu Jorge, foi o Zé dos Bigodes.

Por maior possa ser a discordância, impossível negar a dignidade com que, um dos grandes artistas do mundo de hoje, o arquiteto Oscar Niemeyer — a arquitetura é minha vida — se mantém irredutível.

 

 

Vilarinho das Furnas, Serra do Jerez, 1970.

O caixão de defunto

 

O engenheiro João Vasconcelos, primo de Antônio Celestino em cuja casa no Minho estamos passando uns dias, leva-nos, a Zélia, a Paloma e a mim, Serra do Jerez abaixo, à localidade de Vilarinho das Furnas, pequena aldeia condenada a desaparecer do mapa com a abertura das comportas da barragem construída no vale para alimentar a nova hidrelétrica.

Tomamos por carreiros ínvios, a distância é longa, aliás há uma semana não faço outra coisa senão marchar pela Serra do Jerez em companhia de Celestino e do primo João — o senhor engenheiro agrônomo, dizem os serranos — que conhece a região palmo a palmo. Dia histórico, o dia derradeiro de Vilarinho das Furnas, amanhã o vilarejo já não existirá, encoberto pelas águas. Vamos assistir ao êxodo dos habitantes.

Nas fraldas da montanha, lá no fundo a aldeia, em pedra e em rosas vermelhas e amarelas, as flores explodem nos portais das casas, as cabras pastam cachos de uvas verdes na rua comprida, plantada de vinhedos. Foram trazidas das montanhas, agrupadas, acompanharão os pastores na expatriação. Em frente às moradas se acumulam os pertences, reduzidos bens da pobreza, postas em cestos as galinhas cacarejam, os campônios vão e vêm recolhendo objetos: arrancados de seu chão, de seu dia-a-dia. Pessoas de idade madura, a maioria, muitos velhos, muitas velhas, apoiados em bengalas e cajados, aglomeram-se na hora da partida. As posses da aldeia e de cada um dos aldeões levadas para os carros-de-boi que transportarão Vilarinho das Furnas para o desterro. Em frente às cabras, sinto-me profeta, não estou ao sopé da Serra do Jerez, estou no Velho Testamento.

O engenheiro recolhe a pedra do batente de uma casa, vai levá-la de memória, não pode conter as lágrimas, mas as mulheres e os homens parecem de pedras como as casas, faces duras, cavadas, olhos vidrados, barba por fazer, bigodões, calças de pano grosso, as camisas e os coletes, cabeças cobertas com chapéus. Não ouvi lamúrias, soluços, rogos de praga, blasfêmias, lágrimas apenas as do engenheiro João. A sobriedade do povo na desgraça, eles partem, condenados, abandonam a vida que viveram, o chão que habitaram, os vinhedos que plantaram, as roseiras ao pé das portas, desabrochadas, rosas em sangue: amanhã tudo terá terminado, em vez da aldeia será o lago. Disseram que a morte é necessária ao progresso.

Eis que o cortejo atinge o fim, a população de Vilarinho das Furnas remonta a serra, os últimos a partir levam o caixão de defunto que transportava os mortos para o cemitério: um único caixão, bastava para todos.

 

 

Bahia, 1956.

O proxeneta

 

Acerto com minha amiga Maria de São Pedro*, mãos de fada no tempero das moquecas, almoço de arromba para convidados portugueses, escritores presentes às Jornada Luso-Brasileiras. O restaurante de Maria de São Pedro situa-se no velho Mercado Modelo, o primeiro, o verdadeiro, atende saveiristas, comerciários, a fama da cozinha de minha comadre ainda não se espalhara, três ou quatro intelectuais o freqüentamos: Wilson Lins, Odorico Tavares, Godofredo Filho, eu próprio. Assim começou a celebridade, hoje o restaurante que ostenta o nome da grande cozinheira, no novo Mercado, é atração turística. Não desonra o antigo: Luiz Domingos, filho de Maria de São Pedro, obá de Xangô, cultua os orixás e zela pela memória daquela que foi mestra maior na arte da cozinha.

*Maria de São Pedro dos Santos (1901/1958).

 

Proponho a Maria fechar o restaurante ao público a partir das treze horas, quando a freguesia habitual já foi servida, para receber meus convidados. Tirante o pintor Cícero Dias, que realiza exposição retrospectiva no Museu de Arte Moderna — no hall do Teatro Castro Alves —, os outros comensais são portugueses ilustres: Joaquim Paço d'Arcos e Maria da Graça, sua esposa, João Gaspar Simões e Isabel da Nóbrega, na ocasião marido e mulher, Jorge de Sena, Adolfo Casais Monteiro, Urbano Tavares Rodrigues, não me lembro de todos, coubemos apertados numa Kombi. Almoço de alta qualidade, o esplendor da cozinha baiana, do arroz de haussá ao efó, do vatapá à moqueca de siri mole, do caruru à galinha de xinxim, ao quitandê, os mondrongos lamberam os beiços, a conversa decorreu cordial, apesar de se encontrarem à mesa adversários políticos, inimigos de morte. Tarefa ingente, eu reunira figuras ligadas ao governo português e opositores ferozes do salazarismo. Sendo eu próprio opositor feroz, não discriminei: jamais discriminei fosse quem fosse por pensar dessa ou daquela maneira. Tudo correu bem, pois eram educados uns e outros e a Bahia é a pátria da convivência e do comedimento.

Na volta para o hotel mandei o chofer parar a Kombi por um momento na Ladeira da Montanha diante dos castelos ali estabelecidos, nas portas e janelas putas seminuas pautavam os dentes, acenaram convites. Informei aos nobres congressistas de além-mar:

— Aqui se localiza, como vêem, parte do meretrício da cidade, existem castelos também na Praça da Sé, na Ladeira de São Francisco, e até na Barra Avenida, castelos de luxo, preços salgados. Esses daqui não são tão caros, no Pelourinho e na Carne Seca estão os barateiros.

Atentos, portugueses e portuguesas ouviam em silêncio minha dissertação sobre o meretrício da cidade. Sério, compenetrado, apontei o famoso puteiro de Mãezinha, onde exerciam francesas, portenhas e mulatas nacionais: baixando a voz, revelei:

— Aquela ali, uma das pensões de raparigas mais freqüentadas, pertence a Odorico Tavares.

— A casa? — indagou uma senhora.

— A casa não sei a quem pertence, falo do negócio.

— A quem? — estranhou o romancista Paço d'Arcos.

— A Odorico Tavares.

— O Jorge Amado se refere ao nosso amigo, ao poeta, ao jornalista, ao diretor dos Diários Associados?

— Esse mesmo, nosso querido Odorico.

— Não é possível! — protestou não sei mais quem.

Cícero Dias meteu colher de sopa na conversa:

— Não é só esta pensão que ele possui, Odorico é comanditário de mais três, de muita freguesia. Embolsa um bom dinheiro.

Ante o espanto geral, as senhoras escandalizadas, explico:

— Pensavam que realmente Odorico compra santos antigos, quadros de pintores célebres, vive no luxo, um nababo, um perdulário, com o mísero salário que Assis Chateaubriand lhe paga? Sua largueza quem a sustenta são essas infelizes raparigas... — Mandei que a Kombi prosseguisse para o hotel.

No hall do hotel ainda persistiam o pasmo e a reprovação, as senhoras não escondiam o desapontamento, doutor Odorico, pessoa tão distinta, quem diria — eis que vejo na rua dirigindo-se para a entrada o discutido poeta Tavares. Abandono o grupo às suas estranhezas, alcanço Odorico, conto-lhe a história, ele se aproxima da roda de escritores que emudecem ao vê-lo, as senhoras retiram-se sem responder ao boa-tarde. Odorico baixa a voz, avisa:

— Aproveitando que as senhoras foram à sesta quero informar aos caros amigos que possuo em bairros da cidade algumas casas de tolerância, pensões de mulheres-da-vida — aqui dão o nome de castelos. Já dei ordens às caftinas para fazerem quinze por cento de desconto nos preços de tabela para os estrangeiros participantes das Jornadas.

O silêncio se faz maior a cada palavra do diretor dos Associados, Odorico não perde o rebolado:

— Respondo pela qualidade das mulheres: são o escol, a nata, a fina flor, as francesas são as mais caras, mas, se querem um conselho, recomendo as negras.

Escritor, jornalista, diretor de dois quotidianos, íntimo do Governador, membro da Academia, um dos donos da cidade, Odorico Tavares. Companheiro sem comparação na mesa de pôquer, na ciranda da poesia, no prazer da vida, no amor à arte, se trato das pessoas, gozador como ele só, o que inventamos daria para volumoso livro de absurdos. A roda se desfaz, persiste no hall do hotel uma atmosfera de constrangimento.

Carlos Eduardo da Rocha* me contou que alguns congressistas, sabendo-o íntimo de Odorico, vieram lhe perguntar se era necessário apresentar credencial para obter abatimento, pediram os endereços.

*Carlos Eduardo da Rocha, poeta e crítico de arte.

 

 

Berlim, 1972.

Herói positivo

 

Jurgen Gruner, diretor da Verlag Volk und Welt, me escreve narrando o drama que passou a viver após a reunificação da Alemanha. Aquela que foi a monumental editora de literatura estrangeira da finada República Democrática Alemã, a Alemanha do Leste, está ameaçada de não sobreviver à transformação de empresa estatal em empresa privada, de não poder superar as dificuldades nascidas da livre concorrência.

A notícia deixa-me penalizado, da Volk und Welt só posso ralar bem. Detentora dos direitos de tradução de meus livros na RDA, ela os publicou, a todos eles, boas traduções, belas edições, gráfica primorosa, tiragens enormes, pagou-me os direitos autoras, tudo nos conformes.

Minto quando digo que publicou todos os meus livros, houve uma exceção, um livro que a Volk und Welt não traduziu nem publicou. Em 1972 recebi carta do responsável literário (sic) da editora: recusava-se a editar Tereza Batista Cansada de Guerra, dava-me a razão, ideológica: uma puta não pode ser herói positivo de um romance.

Herói positivo, sabem o que isso significava na literatura do mundo do socialismo real, esse que se acabou? Se não sabem não procurem saber, não paga a pena.

 

 

Paris, 1948.

O número

 

Paris, casa de Picasso, em torno à mesa de jantar, somos uns poucos na tentativa de convencê-lo a comparecer ao Congresso de Intelectuais pela Paz que se vai reunir em Wroclaw, na Polônia: Louis Aragon, Alexander Korneichuk, Pierre Gamara, Emílio Sereni e a cineasta polonesa Wanda Jacubowska, cujo filme de estréia triunfa nas salas de cinema. Wanda está sentada ao lado do pintor.

Picasso, intransigente na recusa, não irá, peçam-lhe outra coisa, pode doar um quadro, se preciso. Comparecer, jamais, perda de tempo, tem mais o que fazer, deve pintar. Gastaram-se todos os argumentos, caíram todos no vazio, terminamos por desistir, o Congresso não contará com a estrela de Guernica. Queijos e vinhos, comenta-se o filme de Wanda Jacubowska.

Picasso demora o olhar no braço nu da cineasta, vê o número gravado, pergunta de que se trata.

— Meu número no campo de concentração onde estive durante a guerra.

Picasso passa de leve a ponta dos dedos no braço da moça de Varsóvia, olha para nós, dirige-se a Aragon:

— Eu vou, podem contar comigo.

Foi e fez discurso, esteve o tempo todo. Depois desenhou, para outros congressos, a paloma signo da paz. Tocara com os dedos a desgraça da guerra, o terror.

 

 

Ilhéus, 1929.

A fonte

 

O livro de José Paulo Paes* sobre a poesia de Sosígenes Costa veio situar o poeta grapiúna no lugar que lhe compete na lírica brasileira: não apenas um dos maiores, um dos raros a não se parecer com nenhum outro, estrela solitária. De primeira grandeza. José Paulo já lhe havia concedido o Prêmio Jabuti, quando da publicação da Obra poética, concede-lhe agora o reconhecimento da crítica e da história literárias.

Sosígenes conservara-se inédito até 1959 quando alguns amigos reunimos seus poemas na Obra poética**, revelação, bem poucos o conheciam. Recordo minha surpresa ao ouvir a pergunta de Carlos Coqueijo Costa, nos começos das carreiras de jurisconsulto e de compositor — Coqueijo era múltiplo, fazia de um tudo e bem —, queria o endereço de Sosígenes que se mudara de Ilhéus para o Rio, pretendia musicar versos do vate do cacau, De Sosígenes e de seus poemas quase nada se sabia.

*José Paulo Paes, escritor.

**Edição Leitura, 1959.

 

Na Academia dos Rebeldes venerávamos Artur de Sales, mas em se tratando de modernos jurávamos por Sosígenes, membro da Academia, opúnhamos seu nome aos da constelação do Arco & Flexa: Godofredo, Carvalho Filho, Ramayana, Hélio Simões. Nascido em Belmonte, cujo mar cantou, o mar deixou muita cousa: aqui por estes quintais, vivia em Ilhéus, dentro da noite, Ilhéus rebrilha / qual grande búfalo de fogo, secretário da Associação Comercial, retraído ao extremo, poucas amizades. Entre as quais dona Eulália e o coronel João Amado que o estimavam por sabê-lo poeta e pelo esmero da educação. Sosígenes aparecia para almoçar, demorava-se a cavaquear, a comentar a vida da cidade, mesmo recluso estava a par de tudo, glosava com mordacidade, o coronel se regalava.

Minha prima Diná passava as férias em nossa casa, tínhamos a mesma idade, bonitona, despreconceituosa, moderna, assanhada, sapeca dizia minha mãe, apostou comigo que namoraria Sosígenes, modificando-lhe os hábitos sexo-sentimentais, duvidei. Fez-lhe a corte, conseguiu, arrulhavam à noite na meia-luz da varanda deserta, o namoro entusiasmou o coronel. Estão vendo? O que dizem dele não é verdade, gosta de mulher, vive nos agarros com Diná. O coronel gostaria de levar os maldizentes para ver e crer.

Diná esperava acordada que eu chegasse do puteiro para dar-me relatório do chamego, os progressos do poeta no conhecimento de seu corpo de mulher, polegada a polegada, beijo a beijo. Uma noite a encontrei feliz, cantou vitória: sabes onde me beijou hoje? Adivinha! Lá? — quis saber. Lá!, me respondeu.

A malícia deu lugar ao devaneio: sabes como ele chama aquela lá? Adivinha. Chama de fonte: bebi em tua fonte, me disse, lindo, não é? Na noite seguinte me deu a ler o poema que para festejar o acontecido Sosígenes escrevera e lhe entregara copiado a mão, se intitula Vou na fonte beber água: bebo então a água de teu rosto / nesta redoma cheia de sabão / como se bebe água de flor com gosto / nesta bacia que se abriu no chão.

 

Os radicais da negritude nacional são mulatos brasileiros, uns mais escuros, outros mais claros, cujo único ideal fia vida é serem negros norte-americanos, de preferência ricos.

 

 

Rio de Janeiro, 1954.

Os anarquistas

 

Deslumbra-me a conversa dos dois velhos anarquistas, o escritor e a operária: o mundo liberto das injustiças e dos preconceitos, nem o poder do Estado, nem a lei fosse qual fosse. Trinta anos depois escreverei um romance, Tocaia Grande, nascera naquele dia quando dona Angelina chorou de emoção ao abraçar Thomas da Fonseca*.

*Thomas da Fonseca (1877/ 1968), escritor português, líder anarquista.

 

Thomas da Fonseca, prosador ilustre, em Portugal mais do que ilustre, uma legenda viva, símbolo da resistência ao fascismo, da audácia do pensamento livre: o sonho da sociedade sem fronteiras de qualquer espécie. Angelina D'Acol Gattai, imigrante italiana, tinha quatro anos de idade quando desembarcou no Brasil, a família de camponeses vênetos de Pieve di Cadore veio trabalhar nas fazendas de café de São Paulo após a abolição da escravatura. Aos nove anos Angelina entrou de operária têxtil numa fábrica do Brás, na paulicéia desvairada. Fez-se anarquista ao conhecer Ernesto, os Gattai vieram de Florença, atravessaram o mar nos porões imundos para realizar o sonho do agrônomo Giovanni Rossi: fundar nas selvas do Paraná a Colônia Cecília, experiência de sociedade anarquista na América, sob o patrocínio de Dom Pedro II, Imperador — já então era o Brasil um país surrealista. A colônia durou quatro anos, a mesquinhez do quotidiano a liquidou, mas as idéias libertárias afirmaram-se e floresceram na cidade de São Paulo das primeiras indústrias e dos grêmios das classes laboriosas. Angelina namorou o mecânico Ernesto nas reuniões e festas operárias — imigrantes italianos, espanhóis e portugueses encontravam-se, discutiam, discursavam, declamavam, encenavam peças. As poesias e as canções anarquistas da península, as peças de Pietro Gori: Angelina, primeira-dama no palco proletário. Ressoava o canto da Catalunha em fogo: donde vascon paquetes y listas / que tan pronto te veo correr / voy al Congreso de los anarquistas / que reclaman un derecho: vivir / Escúchame un momento se quieres / Anarquista, que quiere decir? /Es la inmensa falange obrera / que reclama un derecho: vivir! Os poemas de Guerra Junqueiro, os livros de Thomas da Fonseca, a italiana Angelina, anarquista brasileira, declamava o vate português, sabia de memória trechos incendiários do prosador. Mesmo quando o marido Gattai subiu na vida, de motorista dos Prado, paulistas quatrocentões, passou a agente dos automóveis Alfa Romeo, de libertário virou militante do Partido Comunista, Angelina manteve intacta a quimera, o sonho.

Ancião, as barbas brancas desciam-lhe sobre o peito, de passagem pelo Rio, Thomas da Fonseca veio me visitar, ao escritor como ele também proibido em Portugal, amigo de seu filho Branquinho*, eu o recebi no alvoroço da admiração, abertos os braços do bem-querer: jamais uma visita me honrara tanto. Enquanto conversávamos política e letras, Zélia saiu correndo em busca de dona Angelina, por feliz acaso também no Rio, em nossa casa, para comunicar que seu ídolo, dela, Angelina, estava na sala tomando cafezinho.

*Branquinho da Fonseca (1905/ 1974), escritor português.

 

Dona Angelina não acreditou: Thomas da Fonseca, ali em pessoa? Impossível. Repreendeu a ousadia da filha, que, com tal atrevimento, lhe faltava ao respeito, levando na chalaça suas idéias e seus mitos. Fez-se necessário que eu a fosse buscar para que viesse à sala e, em lágrimas, beijasse as mãos ossudas do ancião. Ficaram a conversar.

Dona Angelina declamou trechos dos livros de Thomas da Fonseca, sabia páginas inteiras de memória, agora eram os olhos do escritor que se iluminavam. A tertúlia prosseguiu em utopia, Zélia e eu ouvintes deslumbrados.

 

 

Roma, 1985.

Vasco Pratolini

 

A notícia da morte de Vasco Pratolini despenca sobre mim na tarde enevoada de Paris, cerca-me de lembranças, entristece-me. Estivemos juntos pela última vez em 1985, em Roma, num jantar em casa de Giuseppe De Santis*, serão de saudade, um tanto quanto melancólico: somente nós, os três casais, e o mundo de recordações a nos ligar. Os anos de após guerra, a militância, a criação comprometida com o povo e com o ser humano, dois romancistas e um cineasta, três antigos comunas que juntos viveram um sonho de fraternidade, festa de esperanças que se transformou em funeral de ilusões.

*Giuseppe De Santis, cineasta italiano.

 

Poucos romances contemporâneos tocaram-me de forma tão profunda quanto Crônica di poveri amanti, quando o li, em 1948, história de amor no quadro de Florença, grande e justo sucesso que situou Pratolini na primeira fila da literatura italiana. Riso amaro filme de De Santis deslumbrou-me nos últimos anos da década de quarenta com seu humanismo popular, sua graça picaresca.

O vinho, os queijos, a pasta feita na hora, três amigos, três sobreviventes, quarenta anos depois. Não nos ligam apenas a literatura e o cinema, a arte, liga-nos a vida que um dia vivemos, acontecimentos que testemunhamos, movimentos de que participamos, testemunhas e protagonistas.

Um fato, Guttuso na tribuna do Congresso dos Intelectuais pela Paz, em Wroclaw, na Polônia; um detalhe, um nome recordado, Alberto Cavalcanti filmando em Viena; um grito de cólera, ai Lukács condenado em Budapeste, um olhar de ternura, um gesto de amizade, a solidariedade inteira e incontida, te lembras? Passamos a noite a nos lembrar, pela madrugada concluímos que, apesar de tudo, valeu a pena.

 

 

Rio de Janeiro, 1947.

O signatário

 

Certa tarde, em março ou abril de 1947, não garanto pela precisão da data, Villa-Lobos* apareceu na Comissão de Educação e Cultura da Câmara Federal, da qual eu fazia parte, representante da bancada comunista, e onde gozava de certo prestígio, pois trabalhava duro.

*Heitor Villa-Lobos (1887/1959).

 

O grande compositor brasileiro, um dos brasileiros maiores, se empenhava na divulgação do canto orfeônico nas escolas municipais do Rio de Janeiro, se entregava, num trabalho apaixonado, à organização e manutenção de não sei quantos corais de crianças e jovens, admirável cruzada pela educação musical, que nem sempre obtinha das autoridades o apoio necessário — que projeto cultural realmente válido merece apoio das autoridades no Brasil? Villa-Lobos veio à Câmara dos Deputados, à Comissão de Educação e Cultura, em busca de verbas.

O autor das Bachianas Brasileiras, mundialmente famoso, possuía alguns hobbies conhecidos, o charuto, o jogo de bilhar, a mentira: gozava fama de grande mentiroso. Recordo ter ouvido de Erico Veríssimo engraçadíssima história de uma conferência pronunciada por Villa-Lobos, se não me engano em Washington, proferida em português. Admirador do compositor, encontrava-se Erico entre o público quando soube que surgira um problema: a pessoa que devia assegurar a tradução da conferência não comparecera, o tempo passava, os ouvintes impacientes. Os responsáveis solicitaram a ajuda de Erico, que assim se viu na tribuna, ao lado do conferencista, a traduzir o que ele contava, histórias incríveis, absurdas, segundo o romancista de O Tempo e o Vento:

— Dizia coisas espantosas com a maior naturalidade do mundo, nunca vi ninguém mentir tanto. Começou por declarar que tinha nascido na selva, numa tribo de índios guerreiros... A partir daí não parou mais.

Naquele dia, na Comissão de Educação e Cultura, no Palácio Tiradentes, após ter obtido meu total apoio à sua demanda de verbas, conhecendo minha posição política e querendo me agradar, Villa puxou uma baforada do charuto e me informou:

— Acabo de ser convidado para reger minhas obras numa série de concertos em Moscou.

Eu sabia, havia lido a notícia nos jornais, felicitei-o, dei testemunho da popularidade de suas composições na URSS, várias vezes as escutara transmitidas pelas rádios soviéticas, disse-lhe como e quanto o sucesso de sua criação musical concorria para fazer o Brasil conhecido no estrangeiro. Villa puxou mais fumaça do charuto:

— Você sabe quem assina o convite?

Isso eu não sabia, perguntei se teria sido o Diretor da Orquestra Sinfônica de Moscou ou da Orquestra Sinfônica da República federativa da Rússia, quem?

— Bote sinfônica nisso, veja se adivinha.

— Chostakovitch*? — aventurei impando de orgulho patriótico.

Mais fumaça, um sorriso, a revelação:

Quem assinou foi Lenine**, do próprio punho.

Diante do meu espanto, estávamos em 1947, o grande Villa:

— Está duvidando? Trago o convite para você ver.

*Dmitry Chostakovitch (1906/1975), compositor soviético.

**V. I. Lenine (1870/ 1924).

 

 

Rio, 1975.

Academia

 

No voto em eleição para a Academia Brasileira de Letras prevalece sempre a circunstância, independente da condição literária dos candidatos, inclusive dos laços de afeição. Não me foi possível votar em Odylo Costa, filho, sogro de Paloma, meu amigo de priscas eras — estamos os dois na fotografia histórica que registra o jantar da nova geração, em 1932, Odylo era o mais jovem dos novos, saudados com carinho pelos velhos Álvaro Moreyra e Peregrino Júnior. Quando Odylo me telefonou de Lisboa para declarar-se candidato, já eu estava comprometido com Joracy Camargo: concitara o teatrólogo a apresentar-se, não podia abandoná-lo.

Candidato, meu primo Genolino Amado, cronista aprazível, deixou um volume de memórias gostoso de se ler, dividi os escrutínios — o que fiz poucas vezes em mais de trinta anos de acadêmico. Dois votos para Genolino, em memória do coronel João Amado, seu tio, dois votos para Bernardo Elis, excelente contista, companheiro de lides partidárias em nosso tempo de bardos comunistas. No apartamento do Rio de Janeiro, onde estava de passagem, entreguei aos dois a carta que acompanha os votos do ausente, voltei para a Bahia. Bernardo, gentil e ingênuo, deixou com Genolino a carta e a tarefa de nela colocar, em envelopes fechados, os sufrágios para os quatro escrutínios. Ao que parece Bernardão não teve voto meu, pagou caro a boa educação — candidato à Academia não pode confiar, confiou, fodeu-se.

Na eleição em que foi eleito, não pude votar em Bernardo apesar da admiração pelo escritor e da estima pelo companheiro. Acontecia a candidatura de Juscelino Kubitschek, não era escritor, não era meu amigo, mantínhamos relações de mútua simpatia, apenas. A circunstância política levou-me a votar nele e até fui acusado por Ney Braga, Ministro da Educação do general de plantão, de ser o inventor da candidatura Kubitschek. Não era verdade: o mentor, o grande eleitor de Juscelino foi Josué Montello, seu amigo de todos os instantes.

Lendo o Diário do Entardecer, vejo que Josué, em conversa com Juscelino, antes da eleição, lhe ensinara o que repetiu a um jornalista, tempos depois: para obter vinte votos acadêmicos é imprescindível contar com vinte e seis, ao menos. Juscelino cultivava o otimismo, esperou a quase unanimidade, decepcionou-se com a derrota, contou, como voto certo, votos que não teve.

Uma tarde, eu estava no Rio, Juscelino veio me ver, fofocar a eleição, deleitável tarefa de candidatos e acadêmicos. Acabam de chegar de João Pessoa, fora visitar José Américo: vai votar em mim, me disse, satisfeito.

— Tem certeza?

— Absoluta. Quando Presidente fiz-lhe favor de monta, referente a seu filho militar. Ontem, ao visitá-lo, ele recordou o fato, declarou-se meu devedor.

— Ele lhe disse que sufragaria seu nome?

— E era preciso? Não disse, mas é óbvio.

Eu sabia que José Américo, pessoa cara a meu coração de amigo, tão grande brasileiro, ia votar em Bernardo Elis, compromisso que vinha da eleição anterior. Tomei do telefone, liguei para a Paraíba, falei com o mestre de A bagaceira. Confirmou-me que votaria em Bernardão, prometera, cumpriria. Fazia-o constrangido, pois devia inesquecível favor a Juscelino, não podia, porém, faltar à palavra empenhada. Outros, vários outros deixaram de votar em Kubitschek pressionados pelos gorilas para quem a derrota do ex-Presidente, civil e democrata, tornara-se ponto de honra. Eleição mais vergonhosa do que essa só a que derrotou Santiago Dantas*, logo após o golpe de 1964 — antes do golpe Santiago estava mais que eleito, o medo leva a misérias, a baixezas: o medo e as gorjetas.

*Santiago Dantas, (1911/1964), jurista e político.

 

 

Bahia, 1974.

Jornalismo

 

Edwaldo Pacote* tomou a peito a novela Gabriela, da Globo, a primeira adaptada de romance meu: encomendou a Aldemir Martins e a Carybé uma exposição de "gabrielas" para marcar o acontecimento. Aldemir fez os desenhos sob os créditos, imagens do nordeste que de logo marcaram a qualidade da realização.

*Edwaldo Pacote, jornalista, homem de televisão.

 

Infatigável, Pacote vem à Bahia comunicar-me que a Globo decidiu entregar o papel título a uma jovem comediante praticamente desconhecida, seu nome é Sônia Braga. Não a conheço nem de figura nem de nome, nunca a vi em pessoa, nem na televisão Veja Vila Sésamo, um programa infantil, aconselha-me, ela aparece num segundo papel, verá que é uma boa atriz. Quanto à figura Pacote exibe-me revista onde Sônia posa nua, magnificência. Propõe-me fazer a apresentação da Gabriela à imprensa na casa do Rio Vermelho, com a presença de jornalistas do Rio e de São Paulo, Recife e Porto Alegre, assim conhecerei Sônia pessoalmente. Marca a data, Zélia determinará comes e bebes.

O primeiro a chegar para o encontro é Gilberto Mansur, jornalista de São Paulo, para mim um ilustre desconhecido. Recebo-o com cortesia, ele, no curioso hábito dos repórteres brasileiros, de causar impacto, atira-me com uma pergunta à cara, antes mesmo de servir-se do uísque escocês legítimo, Zélia trata bem os jornalistas e os atores.

— Por que você impôs Sônia Braga à Globo para o papel de Gabriela?

— Como é que você sabe que eu impus Sônia Braga à Globo?

— Em São Paulo é público e notório, todos sabem.

— Porque Sônia é minha amante.

Mansur olha para mim, hesita por um instante, explode em riso, aceita o uísque, desde então somos amigos. Depois chegam os demais, Sônia pela mão fraterna de Edwaldo, faço sala à estrela da novela:

— Tenho muito prazer em conhecê-la. Somos amantes, sabia?

Sônia Braga, minha filha, três vezes minha filha, por Gabriela, por Dona Flor, nos vídeos de televisão, nas telas dos cinemas, na camarinha do candomblé do Gantois sou seu pai pequeno, Sônia, cavalo de Yemanjá galopando sobre o mar.

 

 

Rio de Janeiro, 1956.

O sobrevivente

 

Valério Konder*, que não me retirou sua estima quando deixei de militar no Partido Comunista, dá-me notícia da campanha desencadeada contra mim, pela direção do Partido, no estrangeiro: disseram cobras e lagartos, fui tratado de traidor e vendido. Diógenes de Arruda Câmara, na época uma espécie de dono do Partido (e da verdade), declarou numa reunião do Comitê Central: em seis meses ele deixará de existir como escritor e homem de esquerda. Vamos acabar com ele.

*Valério Konder, médico sanitarista.

 

Nas fofocas que me chegam a esse propósito, uma me entristece: Pedro Motta Lima**, meu velho amigo e camarada de longo caminho, andara fazendo minha caveira mundo afora, na URSS, na Bulgária, em Cuba, sei lá onde. Entristeço-me, mas compreendo: comunista imemorial, bolchevique comprovado, obediente às ordens recebidas, meu bom Pedro deve ter dado seu recado de coração apertado, disciplina é disciplina, não lhe guardo rancor. Outros cumpriram as ordens alegremente, sempre fui visto com desconfiança pelos intelectuais cooptados à direção partidária, o que esses disseram e fizeram não chegou a me entristecer.

O que me admira até hoje é que a afirmativa do enraivecido dirigente não tenha se convertido em realidade, que sua previsão não se tenha cumprido. Sobrevivi, quem o diria.

**Pedro Motta Lima (1889/1966), jornalista.

 

Sendo o antidoutor por excelência, o antierudito, trovador popular, populachero, escrevinhador de cordel, penetra na cidade das letras, um estranho nos saraus da inteligentzia, universidades da França, da Itália e do Brasil fizeram-me doutor honoris causa, vamos lá saber por quê.

No Brasil, a alegria superou a honra, pois na Universidade da Bahia elevaram-me doutor ao lado de Carybé e de Caymmi e na do Ceará vestiram comigo a toga do saber na solene cerimônia Eduardo Portella e Aldemir Martins, quatro doutores de verdade, criadores de cultura. Se não me pretendo mestre como eles, deles sou mabaça, corre em nossas veias o mesmo sangue mestiço do povo brasileiro, condiciona nossa arte e nossa literatura.

 

 

Paris, 1985.

Erudição falha

 

A cada visita ao dúplex de Pierre Seghers*, Zélia e eu ad-mirávamos a grande tela de Di Cavalcanti*, pendurada no alto da escada, reencontrávamos o Brasil, o sol e as mulatas, Di lhe ofertara o quadro quando da visita de Pierre ao Rio de Janeiro, em 1956.

*Pierre Seghers, editor francês.

**Emiliano Di Cavalcanti (1987/ 1976), pintor.

 

Um dia, enquanto o casal Seghers descansava na tranqüilidade do campo, em Creteuil, um ladrão erudito, à frente de quadrilha especializada em roubo de arte, penetrou no apartamento, deixou as paredes nuas, levou toda a coleção. Toda, exceto o quadro de Di que restou solitário sobre a escada: a erudição do chefe da gangue não incluía a arte brasileira.

Valdemar Szaniecki, dito Lindinho quando pobre e malhado juiz de futebol na Bahia, tendo vindo a São Paulo arbitrar uma partida, gostou da praça, trocou o apito pelas artes plásticas, especializou-se em Pancetti, Di e Carybé, tornou-se logo milionário, possui edifícios de apartamentos, quadra de tênis, campo de golfe, dá-se o luxo de compor música popular, escrever letras, parceiro de Tom Zé, nascido na tribo de Moisés é filho-de-santo de Olga do Alaketu, Lindinho sincretizou Jeová com Oxalá! Os bolsos repletos de dólares, vasculha as capitais européias em busca de quadros de revenda certa no Brasil, lucros polpudos. Zélia lhe contou do quadro de Di, o que sobrara da mão baixa do ladrão, Valdemar atacou e quando Lindinho ataca, quem lhe pode resistir? Trouxe o quadro de volta para o Brasil onde o cedeu — Lindinho não vende, cede — por preço astronômico.

Em termos de mercado de arte internacional, Valdemar o comprou barato, ainda assim pagou por ele bom dinheiro, Pierre Seghers ao embolsar os dólares fez autocrítica:

— Não imaginei que um quadro do Di Cavalcanti valesse tanto. Nem eu nem o canalha do ladrão.

 

 

São Paulo, 1945.

Os Gattai

 

Celebramos Caio Prado Júnior na livraria repleta de admiradores. Paulo Mendes de Almeida aponta-me Wanda meio escondida à sombra de uma estante: — Veja como é bela! Repare no rosto, rosto de escudo, uma beleza hereditária, de séculos.

Os poetas sabem, eu apenas confirmo: a irmã mais velha de Zélia é realmente bela, o rosto plácido, sonhador, escudo de Veneza. Não tive tantas oportunidades como desejaria de conviver com Wanda, com seu marido José, com seus filhos, mas ouço-lhe a cada dia o louvor na boca da irmã caçula. Zélia guarda-lhe intacta a admiração de menina, para ela Wanda simboliza a perfeição.

Tampouco conheci de perto os irmãos, Remo e Mário, Tito de apelido, não foram de minha intimidade. Radical, Tito cultivava da boca para fora a aspereza e a intransigência, mantinha correspondência com Zélia, estivesse ela onde estivesse cobrava-lhe a fidelidade comunista. Da boca para dentro era protético de fama e clientela. Seu cliente James Amado o promoveu a dentista — almas irmãs, confraternizaram na má-língua, línguas de trapo —, até hoje faz o elogio do profissional e do cidadão. Levou-lhe clientes, Ricardo Ramos entre outros — no atelier do perito cresceu a animação do bate-boca, o ranger das dentaduras em roda de sotaque.

Quem eu conheço de sobejo é Vera, a irmã do meio, privei com ela, com seu marido Paulo, homem bondoso, inteligente e lido, fomos amigos. O filho único do casal, meu sobrinho Fábio, está na relação dos seres de meu carinho, trata-se de uma espécie de força da natureza desencadeada na família. Igual a mim, nasceu destinado à carreira cinematográfica, igual a mim as agruras da vida impediram-no de realizar a vocação. Ainda assim foi mais longe do que eu, não passei de obscuro coadjuvante do cinema nacional na fase heróica das chanchadas, fase áurea: não havia subvenções oficiais, mas havia público, espectadores.

Fábio iniciou com brilho o que deveria ter sido ininterrupta cadeia de sucessos, assistente de direção de Mário Brazini em dois filmes na década de cinqüenta, nos dois figurou de ator, demonstrou aptidão, sobrava-lhe bossa, iria longe com certeza não fosse tão frágil a estrutura da cinematografia brasileira. Mário Brazini gabava a qualidade do assistente, eu enalteço os méritos do ator.

No primeiro filme uma aparição fugaz, apenas, não deu para guardar memória. No segundo, porém, coube a Fábio viver o papel — curto mas inesquecível — de repórter fotográfico: em meio à massa de fãs, espreitava a chegada de famosa estrela para fotografá-la à sua revelia. Quando a gloriosa desceu do carro, Fábio gritou-lhe o nome para tê-la de frente para a objetiva: Gilda! Sua única aparição, sua única fala, mas que aparição, que fala! Quem viu O filho do cangaceiro jamais esquecerá aquele grito saído das entranhas, Gilda!, jamais esquecerá a expressão do repórter fotográfico no momento de acionar a câmera, realmente o ponto alto da película. Quem viu o filme? Se desejam saber, Zélia e eu o vimos ao menos três vezes, Janaína, João Jorge, Paloma, levados pela tia Vera, mãe coruja, foram à matinê durante todas as tardes enquanto a película de Brazini ocupou a sala do cinema Ricamar, em Copacabana. Mas, ah, que vocação resiste às inconseqüências do Brasil? Uma lástima, não me conformo.

Vera foi perfeita na dedicação a Zélia, não a desamparou jamais. Enquanto a caçula vivia o exílio nos descaminhos da política, ela a substituiu nos cuidados com Luiz Carlos; no Rio tomou conta de João Jorge e de Paloma, possibilitando à irmã a circunavegação pelos avessos do mundo.

Um dia Zélia decidiu contar suas memórias de filha de imigrantes italianos, ao tomar da máquina de escrever levava na retina a imagem de dois heróis de sua infância: o pai Ernesto, revolucionário, preso político, campeão de corridas de automóvel, a intrepidez e a flama, e a irmã Wanda, a do rosto de escudo, a bela de Firenze nascida em São Paulo. Ao terminar a escrita de Anarquistas, graças a Deus, a esses dois heróis se haviam somado as figuras, quem sabe ainda mais sedutoras, da mãe Angelina, operária, e da irmã Vera, a do meio; haviam crescido nas páginas do livro para o primeiro plano na foto da família.

Quem definia Vera com precisão era dona Angelina — quando alguém vinha comentar as viagens da filha mais moça, andanças européias, africanas, asiáticas, do Bósforo ao mar Báltico, do rio Amarelo ao mar Negro, ela repetia a afirmação: Zélia nasceu com a estrela, mas Vera, essa sim, é um colosso. Está em casa bem do seu, eu digo: Vera, vamos a São Caetano visitar tia Joana e ela em dois tempos está pronta, de chapéu na cabeça e sombrinha na mão. Um dia eu lhe disse: Vera, tenho necessidade de ir a Santos, não sei como fazer, pois acredite o senhor: não passou meia hora estávamos as duas no ônibus para Santos, imagine! Vera, sim, é um colosso! Concordo e dou testemunho, Vera é poderosa.

Nenhum dos cinco filhos paridos do matrimônio da vêneta D'Acol com o toscano Gattai permaneceu no gueto da imigração, europeus de olhos azuis, casaram-se todos eles com gente de outras procedências. Não apenas os cinco irmãos Gattai: os italianos aqui chegados em busca de trabalho ou de liberdade logo misturaram sangues e costumes com os nacionais. Para me limitar à família, uma filha do Tito, Marice (Ma do pai Mário, rice da mãe Clarice, adoro esses nomes estrambóticos, afirmação pública do amor dos cônjuges), Marice casou-se com um filho de árabes, a prima Odila uniu-se em matrimônio a um japonês, o citado Fábio tomou de esposa a cabocla Carmem no interior de Minas — a relação da mistura ocuparia páginas e páginas, mesclam-se sangues europeus, africanos, asiáticos, indígenas, forjam a raça brasileira, evviva! axé!

Jamais esquecerei o assombro de Zélia ao ver-se tratada de carcamana em Paris, num banquete de políticos e intelectuais, creio que foi Emílio Sereni quem ergueu o copo para beber à brindar à beleza da mulher italiana ali tão bem representada pela camarada Gattai.

— Italiana, eu? — protestou, espantada. — Desde quando?

Brasileira de quatro costados, o dengue, o requebro, o samba no pé, aliás ali mesmo deu prova: presente ao regabofe estava João Saldanha, pebolista e pé-de-valsa, ele e Zélia fizeram uma demonstração de como se dança o samba digna de profissionais em boate carioca. O cinema, a vocação de Fábio, qual a de Zélia? A tela dos cinemas, o palco dos teatros, o vídeo das cadeias de televisão, as pistas de dança? Em qualquer que fosse seria ídolo, nasceu artista, as agruras da vida não lhe deram chance: as agruras, ai.

 

 

Moscou, 1954.

Monsieur le Prix

 

O Pravda publica a lista dos contemplados com o Prêmio Internacional Stalin, notícia de destaque na primeira página, vibro de contentamento, entre os merecedores da suprema distinção leio os nomes de Bertholt Brecht e de Nicolás Guillén. Por Brecht me interessei junto a Sacha Fadeev, eu e Zélia sustentamos o ânimo de Nicolás na agonia da espera.

Rosa ficara em Havana, Nicolás convida Zélia para lhe entregar a medalha e o diploma, ele os receberá em sessão plenária do Congresso dos Escritores Soviéticos. Para o Congresso viemos a Moscou, o cubano é nosso vizinho no corredor do hotel, a qualquer pretexto envia-nos bilhetes, assina-se Monsieur le Prix. Feliz como uma criança, nós também.

O nome nos jornais, os poemas no rádio e na televisão, na boca das declamadoras, praga soviética, o vate nos convoca e nos senta diante do vídeo para escutar o recital de uma delas: gorda e rouquenha, um dinossauro. Nicolás saboreia com deleite os poemas em russo e os identifica, elogia a megera, também nós a aplaudimos por que empanar a alegria do amigo? Porreta!, exagero em baianês

Redijo um telegrama endereçado a Nicolás, peço a Marina* que o traduza, do posto de correio instalado no recinto do Congresso eu o despacho para o Metropol. Mensagem de paixão ardente, declaração de amor, proposta de cama, assina-o suposta admiradora, apenas o prenome, Natacha. Termos exaltados: meu poeta genial meu vate tropical, fiquei deslumbrada ao ouvir teus poemas na televisão, sou uma brasa acesa pelo fogo de tua poesia, estou apaixonada, quero te encontrar o quanto antes e por aí a fora de ardência em ardência. Lembro-me do final do telegrama: te amo, te amo, te amo, telefona-me, telefona-me — seguia-se a assinatura.

*Marina Kontrizin, intérprete soviética.

 

Empunhando o telegrama, acompanhado pela intérprete, Nicolás invade-nos o quarto:

— Compadres, tem uma mulher em Moscou apaixonada por mim, me enviou um telegrama, só que é meio burra, pede que eu lhe telefone e não manda o número...

 

 

São Paulo, 1972.

O concorrente

 

No dia do lançamento de Tereza Batista Cansada de Guerra, em São Paulo, recebo convite para ir à mesma hora a outra tarde de autógrafos: o livro se intitula Um cão uivando para a lua, o nome do autor é Antônio Torres, nada me diz. Trata-se de um estreante.

Por se tratar de estreante e baiano decido passar na livraria onde meu concorrente se exibirá antes de ir para a Siciliano autografar o romance de Tereza. Está comigo Calasans Neto que cavou na madeira vinte e cinco talhas para ilustrar a história da moça sertaneja, o livro é tanto dele quanto meu. Por ele fiquei sabendo que Torres é baiano, do sertão como Tereza, e boa-praça. Não o encontramos, bom brasileiro impontual, chegará com atraso, eu sou pontual, tenho pressa, hora marcada, compro um exemplar do Cão e o deixo com pedido de autógrafo e votos de sucesso na carreira. Leio o romance ao recebê-lo, descubro um romancista e tanto, aposto em Antônio Torres.

Aposto bem, aquele primeiro livro é o começo de uma das obras mais realizadas do moderno romance brasileiro. No decorrer de vinte anos, dos uivos do cão às aventuras de um táxi em partida para Viena, passando por Esta Terra, um clássico que se impôs em não sei quantas línguas, o moço sertanejo mostrou-se digno concorrente. Fizemo-nos amigos, ele já o era de Cala, de Myriam Fraga, de Guido Guerra. Amigos meus, de outras plagas, também apostaram no jovem Torres: Alice Raillard, Tom Colchie, a alemã Ray-Gude Mertin, fiéis da literatura brasileira em busca de novos valores. Não por acaso Severo Sarduy* escolheu Um táxi para Viena d'Áustria como primeiro lançamento brasileiro em sua coleção na Gallimard, Nouvelle Croix du Sud.

*Severo Sarduy, escritor cubano.

 

Vinte anos de trabalho, outro dia Antônio me escreveu:

— Só agora com o Táxi me sinto um escritor profissional.

Custa trabalho e tempo, exige paciência, força de vontade. Os que pensam que é fácil se estrepam.

 

 

Rio de Janeiro, 1983.

Le troubadour et le prestidigitateur

 

Revejo Yves Montand na recepção oferecida em sua honra pela Air France no Rio de Janeiro e volto a me conturbar com a pergunta que então me fez e a resposta que ele próprio deu, uma opinião apenas, coisa à-toa na aparência, para mim significou premonição.

Não sei sobre o que teriam conversado, na mastigação do Peru, na degustação dos vinhos, o troubadour francês e o homem de letras brasileiro — mineiro, vale acentuar, a referência pode ser importante na solução do enigma. Apontando Otto Lara Resende que se evolava, sim se evolava para as bandas da cozinha, Montand indagou como se de antemão conhecesse a verdade: Qui est ce Monsieur? Un écrivain, je sais, mais plus que ça, bien sûr. Sem esperar minha resposta, completou: un prestidigitateur, c'est ça! Olhamos, Otto Lara já não era, se esfumara.

Levo um soco no peito ao ouvir a notícia da morte de Yves Montand, estamos em Paris, não faz uma semana Zélia me chamou, venha correndo, para vê-lo na televisão. Yves jubiloso em Saint-Paul-de-Vence trazendo pela mão o filho de três anos. De novo Zélia me chama, a voz dorida, a má notícia: fere-me a violência da morte inesperada, ficamos em silêncio, envoltos na tristeza.

Nós o conhecemos, a ele e a Simone Signoret, em 1948, na França, nos anos de exílio, de euforia comunista, tempo de certezas as dúvidas não haviam ainda começado. Jean Cassou nos apresentou em casa de André Wurmser, nas jornadas da paz fiz-me amigo de Simone. Transcorridos muitos anos, ela presidiu o jantar, promovido por Jean-Claude Lattès, com que a editora Hachette comemorou meus setenta anos, reunindo amigos franceses antigos e recentes.

Mais de quarenta anos são passados, ainda hoje trago comigo a emoção que me dominou quando, no Théâtre du Chatelet, interrompendo o canto — o concerto intitulava-se Chansons Populaires de France —, Yves Montand disse o poema Barbara, de Jacques Prévert, um calor de labareda me envolveu e acalentou.

Em 1983, a pedido de Madeleine Archer, responsável pelos prêmios Molière, escrevi uma carta a Yves Montand insistindo para que viesse ao Brasil, sua presença nos ajudaria a varrer a ditadura moribunda. Yves veio e com ele vieram a filha de Simone, Catherine Alegret, e Jorge Semprun, o romancista espanhol mabaça de Montand. Ovacionado no Teatro Municipal, quando se pensava que os aplausos iam terminar eles redobravam, não tinham fim, o troubadour pôde dar-se conta da significação de sua presença na festa dos artistas cariocas.

Restou por explicar o problema da definição, um prestidigitador: pareceu-me perfeita até onde pode ser perfeita a tentativa de definir-se aquele que prossegue sendo para nós, seus compatriotas e devotos, esfinge indecifrável. Vim a saber que houve um segundo encontro, o que conversaram não foi revelado, mas de volta a Paris o troubadour se referiu, segundo me contaram, ao caráter aliciador do personagem e à aura de mistério a revesti-lo. Quando o revi, me perguntou: et lui, comment ça va? Não falou o nome, não era necessário.

Cest um prestidigitateur!, acertara em cheio. Quando da pergunta feita na recepção, provocado em meus brios, contei do saber e da malícia, da sutileza, do imprevisto, da obscura evidência, da contraditória exatidão do guru mineiro. Yves Montand ouviu-me em silêncio como se tudo aquilo para ele não fosse novidade, como se houvesse entendido o abstruso numa única conversa e soubesse O Lara Resende de cor e salteado, enquanto para nós do terceiro mundo a incógnita persiste, pois Hélio Pellegrino* levou consigo a chave adivinha, quando embarcou para a viagem, aquela que sabeis.

*Hélio Pellegrino, psicanalista.

 

 

Bahia, 1962.

Os escultores

 

Agnaldo* morreu menino aos trinta e seis anos, vítima da doença de Chagas, um charlatão dublê de tira de polícia aplicou-lhe injeção milagrosa, tiro e queda na cura da enfermidade tida por incurável. Com ele se enterrou a mais excepcional vocação de escultor já revelada no Brasil.

*Agnaldo dos Santos (1926/ 1962).

 

Moleque de Itaparica, começou criança a ganhar a vida, na Ilha exerceu o ofício de caieiro, antes de vir para a capital. Na Bahia foi trabalhar no atelier de Mário Cravo, cortava e preparava madeira para as peças do escultor: a fase das esculturas em madeira parece-me fundamental na obra de Mário, basta citar o Antônio Conselheiro que Pietro Bardi comprou e ofereceu ao Museu de Arte Moderna da Bahia, a Tentação de Santo Antônio que se encontra na Secretaria de Planejamento, no Centro Administrativo, a Yemanjá que sobrevoa a sala de jantar da casa do Rio Vermelho, o Cangaceiro que eu fui visitar em clube de Vitória, o Capoeirista que domina o hall de um hotel em Brasília. 0 tempo destruiu peças igualmente importantes quando Mário se voltou para outros materiais, o ferro, o aço, a pedra-sabão, a fibra de vidro e se desinteressou pelas peças cortadas na madeira.

Labutava Agnaldo a desbastar madeira para o mestre, Mário o viu talhando pedaços de pau, nada disse, apenas ficou de olho nos exercícios do negro alto, forte e bonito, operário competente, quem sabe mais que isso. Não se passou muito tempo, num sábado, ao efetuar o pagamento da semana, Mário lhe informou:

— Agnaldo, você está despedido.

— Despedido? O que foi que fiz? — Agnaldo não entendia a razão do desemprego.

Não fez nada de mal, você está despedido do trabalho mas venha todos os sábados receber o salário da semana. Agnaldo continuava sem entender, entendia cada vez menos. Mário riu seu riso debochado e generoso:

— Se você continuar aqui, brincando com madeira, nunca vai passar de um sub-Mário Cravo, nunca vai chegar a Agnaldo. Vá pra casa, meta a cara, quando vier aos sábados receber a grana traga o que fez pra me mostrar.

Já escrevi que compadre Mário é uma força da natureza por capricho dos deuses desencadeada na Bahia, ferreiro de Exu saído dos infernos, bigodes arrogantes, devassos, a boca de gargalhada um dos pais da arte moderna da Bahia. A arte moderna da Bahia começou com ele, com Genaro de Carvalho e Carlos Bastos, a esses primeiros se juntaram Carybé, Rubem Valentim, Mirabeau, Jenner Augusto, Hansen Bahia. Mário foi o mestre principal da geração que se seguiu à primeira leva revolucionária, influiu sobre jovens plenos de talento e de vocação: Calasans, Lew, Antônio Rebouças, Fernando Coelho, Tati Moreno, Jorge Costa Pinto. Sem falar que forjou Cravo Neto na cama de Lúcia, santa Lúcia. Filho de sangue, Mariozinho, mas os artistas baianos quase todos nasceram em seu atelier, de seus ensinamentos. Mário foi fundamental e definitivo.

Escultor único em sua singularidade, primeiro sem segundo, Agnaldo não se assemelhou a nenhum outro. Possuo na casa do Rio Vermelho a Virgem com a coroa de pregos, tem a face negra, o corpo de baiana, Madona mulata, brasileira. O Oxóssi está no apartamento do Rio, veio da África no navio negreiro, na selva do Brasil Agnaldo o recriou jagunço, herói do cangaço, vaqueiro do sertão, orixá mulato no bando de Lampião. Mestiços a madona e o orixá, África e Europa, não mais a África, não mais a Europa, o Brasil. Representante da cultura mestiça brasileira, conquistou o Grande Prêmio Internacional de Escultura no Festival de Arte Negra, em Dakar.

Nos começos da vida artística, ainda sem fama e sem fregueses, Agnaldo talhou carrancas e as vendeu como se as tivesse obtido no rio São Francisco, trabalho de anônimos, são as mais belas carrancas que existem, Carybé possui uma delas, animal fantasmagórico, dragão, uma das coisas, tantas, que ele tem e eu invejo.

Vejo Agnaldo nos dias finais, tomado pelo mal de Chagas, custava-lhe talhar o orixá no tronco de árvore. Levados por mim a seu atelier, dois compadres meus, pernambucanos, Paulo Loureiro e Ruy Antunes, compraram as últimas peças que realizou. As demais tinham ido para o marchand que contratara por dez réis furados sua produção e o explorou durante a vida inteira.

 

 

Rio de Janeiro, 1942.

Cheque

 

Posto em liberdade, após alguns meses de xadrez, a polícia política dá-me oito dias para sair do Rio, ir para a Bahia, cidade onde devo permanecer com residência obrigatória e obrigatória apresentação à Delegacia de Ordem Política e Social uma vez por semana — jamais me apresentei.

Não tenho um centavo, não sei como me arranjar para partir, cumprir a ordem. Aníbal Machado* vem em meu socorro obtém com seu irmão Cristiano, diretor de companhia de navegação fluvial no rio São Francisco, futuro candidato à Presidência da República, passagem de graça em navio de sua empresa, de Pirapora a Juazeiro, a idéia de navegar o São Francisco me encanta. Dessa viagem irá nascer Seara Vermelha, romance que escrevi em 1946.

*Aníbal Machado (1894/1964), escritor.

 

Falta-me, porém, dinheiro para o resto, para o trem do Rio a Pirapora, para as despesas durante a viagem, a passagem de Juazeiro à Capital baiana, onde buscá-lo? Eis que recebo recado de Bibi Ferreira: soube de minha libertação, quer me falar, tem assunto a tratar comigo. Casada na época com Carlos Lage, empresário rico, Bibi montara companhia própria, marca-me encontro no Teatro Fênix onde se apresenta em peça adaptada por Miroel Silveira de A Moreninha, de Macedo. Inicia sua esplêndida carreira de sucessos, antes representara ao lado de Procópio Ferreira, seu pai, juntos fizeram um Molière extraordinário: intérprete de Molière fora de série, se Procópio houvesse nascido francês estaria na galeria dos gênios do palco, dos imortais.

Assisto ao espetáculo: radiante de juventude e sedução Bibi contracena com Graça Melo*, esbanja talento, domina a platéia que a aclama, conversamos em seu camarim. Bibi almeja viver no palco a figura fatal de Eugênia Câmara, cômica portuguesa do século passado, a grande paixão, o desvairado amor de Castro Alves, encomenda-me peça sobre a vida do poeta dos escravos, não pode haver tema mais apaixonante, Bibi acha que sou o indicado para escrevê-la. Nunca escrevi teatro, não sei como fazê-lo, não me tenta, começo a explicar por que não posso aceitar a proposta, antes que diga não Bibi toma da caneta, assina um cheque de vinte mil cruzeiros, coloca-o na minha mão. Balanço a cabeça, de acordo, aceito a prebenda, já tenho o dinheiro para as despesas de viagem. Bibi não quis sequer contrato, confia em mim, de assinatura basta a do cheque. Saio do Fênix com os cobres e a prebenda.

*Graça Melo, ator.

 

Quebro a cabeça durante cerca de dois anos: não nasci dramaturgo, sofro de desvio profissional, só sei conceber em termos de romance. Finalmente com muito esforço e pouca técnica coloco uma peça no papel, de início intitulada O amor de Castro Alves, passou a se chamar O Amor do Soldado para evitar confusão com o ABC. Em 1944 vou ao Rio, levo os originais e os entrego a Bibi, mas ela já não está à frente da companhia, não tem possibilidades de montar a peça encomendada. Fica com o texto datilografado, segundo ela, o manuscrito e a dedicatória valem os vinte mil cruzeiros do adiantamento, não lhe devo nada.

Primeira e única incursão na dramaturgia, pecinha mais ruim, a culpa é de Bibi. Felizmente jamais foi levada ao palco e eu não reincidi, não repeti a tentativa: variadas vezes têm-me proposto cheques gordos para escrever novela de televisão, obra de teatro. Mesmo continuando pobre e necessitado, não voltei a embolsar o cheque e aceitar a prebenda. Bastou-me uma vez quando Bibi Ferreira quis viver Eugênia Câmara. Fico imaginando que imortal Eugênia não seria a cômica portuguesa na paixão de Bibi: amorável e dissoluta, na abolição com o poeta, seu herói, na cama com seu menino Ceceu, a comê-lo e traí-lo, devassa como está nos versos de amor que para Eugênia ele compôs em desvario: Eu quero ver teu peito intumescido I ao sopro da volúpia arfar erguido...

 

Por maiores esforços tenha feito, jamais consegui localizar no céu as estrelas da constelação do Cruzeiro do Sul — uma de minhas frustrações: todo mundo vê, será que vê?

 

 

Monte Estoril, 1992.

O não-candidato

 

Da Bahia, ao telefone, Rosane lê-me em dólares telegramas de candidatos à vaga de Chico de Assis Barbosa* na Academia Brasileira de Letras, estou no Monte Estoril, em Portugal, escrevendo ao sol do inverno manso, gostosura.

*Francisco de Assis Barbosa (1914/ 1991), escritor.

 

Apenas ela desliga, Luís Forjaz Trigueiros chama e me diz que recebeu carta de Ascendino Leite, não sei por que cargas d'água penso que o romancista paraibano também é candidato. Antes que se esclareça o qüiproquó fico desgostoso, pois desejando tanto votar em Ascendino, já tenho compromisso para a vaga do Chico. Se alguém merece a Academia é Ascendino, pelos romances e mais ainda pela série de volumes de seu Diário, que cobre a literatura e a vida literária brasileiras contemporâneas. Obra singular em nossas letras, tão pobres de diários e memórias.

Polêmico, discutidor, brigão, Ascendino passou a vida comprando barulhos e desafetos, mas nas horas decisivas comportou-se sempre de forma correta e generosa. Assim agiu durante as perseguições de sessenta e quatro, após o golpe militar, defendendo inimigos, assumindo a liberdade de pensamento e de expressão, o oposto do que dele disseram e afirmaram. Escritor de primeira, confrade de primeiríssima.

Respiro aliviado quando Luís esclarece o engano: Ascendino não é candidato à Academia, ainda não é, espero que o seja um dia para que eu tenha o prazer de lhe dar meu voto.

 

Meu materialismo não me limita, respondeu Pedro Archanjo na tenda dos milagres, quando o intelectual estranhou que um materialista exercesse funções de babalaô de candomblé — aqui repito a afirmação do sábio do povo, pardo, paisano e pobre, ao reafirmar meu materialismo imune ao vírus da aids ideológica.

 

 

São João de Rei, 1969.

Os novos-ricos

 

Na casa senhorial de São João de Rei, ao lado da Póvoa do Lanhoso, nas cercanias de Braga, habitam os pais de Antônio Celestino, avô de netos meus, amigalhaço. O pai seu Pedrosa, em verdade é padrasto: dona Virgínia das Dores viúva, casou-se com o professor Pedrosa, letrado, diretor de colégio, afável criatura. Ela, a fidalga, Virgínia das Dores Simões d'Almeida Pedrosa, outrora Celestino, conserva-se bela e altiva, a nobreza da casta e das virtudes, escreve versos — uma das netas lhe herdará a vocação.

Pai amantíssimo de três filhas, a do meio mãe de meus netos ainda o é mais da filha caçula, a dos poemas, não esconde a vaidade quando lhe gabam os versos de Carminha*. Baiano do Minho, esse senhor Celestino, bancário a vida toda, banqueiro por uns tempos, é um dos responsáveis pelo florescimento das artes modernas na Bahia. Diretor do Banco Econômico, com o aval de Miguel Calmon** e o apoio de Ângelo Calmon de Sá**, abriu carteira para o financiamento de exposições e a venda de quadros e esculturas, iniciativa de evidente importância para as finanças sempre incertas dos artistas. Em A Tarde exerce a crítica de arte, douta e moderna, não direi imparcial, pois Celestino é devoto da amizade e a amizade é partidária. Escreveu um livro, Gente da Terra, sobre os plásticos da Bahia, os de sua preferência: Carybé, Carlos Bastos, Floriano, Cala, Fernando Coelho, Mário Cravo, a curriola toda.

*Maria do Carmo Celestino, poeta.

**Miguel Calmon (1912/1967) e Ângelo Calmon de Sá, banqueiros.

 

Impossível esquecer a manhã sinistra do incêndio do antigo Mercado Modelo, o verdadeiro: assisti Celestino abrir crédito imediato para os barraqueiros em pânico. E o vi chorar quando se deparou pela primeira vez com o casebre em ruínas onde vivia em Pau da Lima o pintor Cardoso e Silva. Ameaçado de solidão na viuvez, teve a sorte de casar-se com a senhora Maria da Conceição Esteves de Oliveira, da nobreza rural, planta maçãs, colhe olivas, produz azeite e vinho e todos a conhecem e estimam por Sãozinha, professora da escola dos meninos pequenos. Em mais de um romance eu o coloquei de personagem, saiu-se bem, com honra e brio, Antônio Celestino no, personagem e tanto.

Me perdi falando do amigo, mas quero contar dos pais, o professor, lido, civilizado, e a senhora altiva e bondadosa, havia ainda o velho tio padre, enfermo. Em torno, nas terras de lavrar, os campônios, hábitos feudais: eu os enxergava na cozinha onde bebiam um trago para calentar, o inverno do Minho é rigoroso. Relações de respeito e estima com os senhores da Casa do Ribeiro, soberana, uma distância de castas e o paternalismo.

A pobreza levou à imigração dezenas de milhares de portugueses, repetindo os que no passado haviam embarcado para o Brasil encaminharam-se para a França, a Alemanha, a Inglaterra, os países ricos da Europa, em busca de trabalho. Bom imigrante o português, nós o sabemos: muitos deles tiraram o pé da lama, economizaram, vieram e vêm aplicar o dinheiro na terrinha santa, que as benesses do primeiro mundo não conseguiram fazê-los esquecer. São os franciús, os avec, constroem residências dotadas de conforto, medonhosas, as casas estilo maison com janelas tipo fenêtres conforme se diz em Braga, conspurcam a paisagem do Minho, do Alto Douro, dos Trás-os-Montes.

Estava eu curtindo o frio inverno em casa de dona Virgínia e seu Pedrosa quando Amélia, a mocinha que cuida da cozinha e dos gatos, veio anunciar a presença à porta de um casal de antigos servos, de volta a Portugal, em férias. Haviam imigrado dez anos antes para a França, acabavam de levantar nas imediações sua maison. Queriam cumprimentar os ex-patrões.

Testemunhei a mudança dos hábitos imposta pela realidade: o surgimento dos novos-ricos na província portuguesa. Onde recebê-los perguntavam-se em dúvida a fidalga e o professor, na cozinha como sempre o tinham feito ou deviam convidá-los à sala de visitas? Afinal já não eram os mesmos pobretões, servos da terra. Durou pouco o ataranto, dona Virgínia e Seu Pedrosa decidiram, disseram a Amélia que os fizesse entrar na sala. Lá os vi, sentados no sofá, o casal bem-posto, bem-vestido, ele de gravata, ela nos trinques da Galerie Lafayette, novos senhores. Ainda assim diziam Vossa Excelência aos antigos patrões, em reverência diante dos fidalgos, é mais difícil mudar por dentro do que por fora.

 

 

Rio de Janeiro, 1960.

Telefonema

 

Quase meia-noite, na sala Antônio Maria* dedilha o violão dá-nos a conhecer composição recente, frevo apenas concluído, o telefone soa, atendo com impaciência, voz de mulher pergunta se sou o próprio.

*Antônio Maria, compositor e jornalista.

 

— Sou sua leitora, daquelas, compro e leio todos os seus livros. Acabo de suspender a leitura de Os Velhos Marinheiros para lhe telefonar.

Sob o título de Os Velhos Marinheiros, o editor reunira num volume as histórias de Quincas Berro d'Água e do Capitão Vasco Moscoso de Aragão, a edição vinha de ser posta à venda. A leitora prossegue, exaltada:

— Parei de ler na página onde o Capitão está bêbado e desmoralizado na pensão miserável de Belém, não tive coragem de prosseguir. Estou telefonando para lhe dizer que se você não o reabilitou, não lhe restituiu a dignidade e a alegria, jamais voltarei a ler um livro seu.

Retorno ao frevo, à conversa na sala, dou notícia do telefonema. Antônio Maria escuta, ri seu riso de boca escancarada, confessa:

— Eu também parei na mesma página, levei dois dias para retomar a leitura, tive medo que o Capitão fosse se matar.

 

 

Paris, 1991.

Graham Greene

 

Vai-se da vida um dos escritores contemporâneos de minha admiração: Graham Greene habitava em Antibes, eu o conheci no Rio de Janeiro em tempos de antanho. Conversamos duas ou três vezes, Zélia e eu jantamos com ele em companhia de Zora e Olinto.

A obra do romancista eu a estimo entre as maiores de nossa época: discutiu todos os problemas, assumiu posições de vanguarda, aumentou a população com personagens que andam por aí mais vivos do que nós. Por ser escritor agradável de ler-se e por ser dos mais lidos, por ser popular em todos os sentidos, os ressentidos não lhe amam os livros nem lhe suportam a fama, relegam-no à vala comum dos fáceis.

Pensei reencontrá-lo em Moscou, em 1989, na reunião do Comitê Diretor da revista Literatura Estrangeira — que fim teria levado a publicação que a partir do primeiro número significou audácia e abertura na divulgação das literaturas estrangeira na União Soviética? Graham Greene e eu fazíamos parte do Comitê Internacional da revista. Graham Greene não pôde ir, a saúde não lhe permitiu a viagem, ainda bem, pois iria sofrer demais, como eu sofri, com a visão da URSS se desmantelando, os problemas, os rancores, os nacionalismos, os radicalismos, a incerteza.

Eu o reencontro nos artigos que lhe estudam a obra e a personalidade nos jornais e revistas da Europa. No Jornal de Letras de Lisboa, Francisco José Viegas informa sobre idiossincrasias de Greene: nunca perdoou a Burgess determinadas imprecisões sobre seus livros, nem a Lundqvist, da Academia Sueca, o ter dito que o Nobel nunca poderia ser atribuído a Greene. Lundqvist, o fatal: em matéria de rejeição estou em boa companhia, além de Alberto Moravia, Graham Greene.

 

 

Bahia, 1965.

Reencarnações

 

Cardoso e Silva, dito Cardosinho. Poeta, três coletâneas de sonetos editadas, centenas de sonetos inéditos, comida para os ratos na pocilga onde habitava em Pau da Lima — alimentam-se de poesia, comentava puxando fumaça do cachimbo. Filósofo, duas plaquetes de elucubrações metafísicas, pintor naïf. Vivia da venda das pequenas telas que conduzia embrulhadas nas páginas de A Tarde, as igrejas da Bahia, as famosas e as capelinhas, a Igreja de São Francisco, a do Bonfim, a capela de São Lázaro, pintou-as todas, possuo uma quantidade. Alfredo Machado quando vinha à Bahia comprava ao menos meia dúzia e dobrava o pagamento: os Preços de Cardosinho eram dez réis de mel coado, nunca se vendeu beleza a tão baixo preço. Maçom, espírita — kardecista, corrigia —, pobre de Cristo sem ter onde cair morto, vivia em alegria, amor à vida só comparável ao de Norma Sampaio ou de Calasans Neto. Cardosinho, uma das mais doces criaturas que conheci e estimei, eu trazia-lhe das viagens cachimbos raros e boinas bascas. Com sua boina, seu cachimbo, sua gargalhada, Cardoso e Silva. Assinava-se Cardoso & Sa.:, após o a o sinal maçônico.

Diziam-no mentiroso, acusação injusta. As histórias fantasmagóricas que contava ele as vivera todas em suas cinqüenta sete reencarnações, as comprovadas. Algumas desastradas, abomináveis. O mau ladrão, na cruz ao lado de Jesus, não era outro senão ele. Reencarnara na pele do cardeal Pierre Cochon, o patife que, vendido aos ingleses, condenou Joana d'Arc à fogueira. La Pucelle d'Orleans, mesmo depois da canonização, santa de altar, não o perdoou, não lhe dava trégua, continuava a persegui. Io na ânsia de vingar-se. Em certa ocasião tentou matá-lo, quase mata a mim e a Camafeu de Oxóssi quando, na companhia de Cardosinho, íamos a um almoço no Mercado, não fosse Aurélio o volante que é, teríamos desencarnado. A Donzela surgiu a cavalo, de lança em punho, envergando a armadura, saíra de uma nuvem, investiu. Atropelou o automóvel, quis transpassar com a lança o pescoço de Cardoso Cochon, errou por pouco, quando me dei conta o pintor estava estendido no chão do veículo, escondendo o rosto, pedindo perdão.

Teve igualmente reencarnações da melhor qualidade, foi profeta, secretário de Moisés gravou as tábuas da lei, eremita no deserto, o poeta Omar Kayaan e o tribuno Danton. A reencarnação perfeita, a mais feliz, deu-se no Ceará no século passado: nasceu jumento lerdo e pacífico, propriedade do Cônego Alencar, o pai do romancista de Iracema, no lombo o conduzia da Igreja para a casa da comadre, trabalho maneiro, capim farto, boa vida.

Soldado português, em Itaparica, na guerra contra os holandeses, padre católico devasso, parceiro de Gregório de Matos na pândega com as putas, senhor de engenho e de escravos, escravo malê, chefe de motim. Várias vezes o acompanhei a visitar túmulo seu no pequeno cemitério da Igreja do Pilar: ali Cardosinho estava enterrado ou seja Pedro Miguel Tibiriçá, herói da Independência. Capitão no Batalhão dos Periquitos, sob as ordens do general Pierre Labatut, morreu em combate nas aforas da cidade da Bahia.

Cardosinho aponta-me os desenhos gravados no mármore da lápide: repare na reprodução da assinatura, a letra é igual à minha, veja o formato do rosto, traços iguais aos meus, eu era valente e bonitão. Narra peripécias, a travessia bélica do recôncavo, a febre nacionalista que o levou a mudar o nome — deixou de assinar-se Perdigão para ser Tibiriçá —, amores com fidalgas e mucamas, ri a risada de hemiplégico, feliz da vida eterna.

 

 

Paris, 1986.

Domínio público

 

Em auditório ilustre de Paris, sob a presidência de Jack Lang, Georges Raillard* analisa em profundidade a poesia de Carlos Drummond de Andrade, alvo da homenagem dos intelectuais franceses, a Gallimard prepara a edição de suas poesias completas, a presença universal do poeta nos engrandece, espero que lhe concedam o Prêmio Nobel. No Rio de Janeiro, no desfile das Escolas de Samba, enredo da Mangueira, Carlos Drummond vem de ser proclamado campeão do carnaval. No salão de Paris consagram-no literatos refinados, os mestres europeus; na passarela do samba, o povo brasileiro.

*Georges Raillard, escritor francês.

 

Penso no claro enigma de Carlos Drummond de Andrade. Raríssimos os poetas e prosadores cujas criações deixam de lhes pertencer, transformam-se em domínio público, em bem de todos. Assim sucede com a obra poética de Carlos Drummond, poeta tão distante da facilidade — sua poesia por vezes tão difícil, sempre à altura da obra-prima, deixou de pertencer ao vate tímido e recatado para se tornar sentimento e condição dos brasileiros, influiu sobre todos, sem exceção, e a todos emocionou. Qual de nós não diz que tinha uma pedra no meio do caminho, repetindo verso seu? Que homem do povo — quantos deles analfabetos — não perguntou na hora da dificuldade: e agora, José, repetindo verso seu? Drummond é o exemplo do poeta que extralimitou do livro e sensibilizou a nação inteira, inclusive aqueles que nunca o leram, sequer um verso. Sua poesia fez-se dito popular, frase correntia, samba-enredo de Escola de Samba, rosa do povo. Depois de Castro Alves, somente ele, nenhum outro.

 

 

São Luís do Maranhão, 1977.

Reconciliação

 

Estou fazendo a barba na manhã do hotel em São Luís, o rádio ligado, ouço a notícia da morte de Carlos Lacerda, sobressalto-me, a gilete corta-me o queixo, ardem-me os olhos. Vejo-me rapazola nos comícios da Aliança Nacional

Libertadora, nos corredores da Faculdade de Direito, petulante autor de cacau, depois na redação de Diretrizes, primeira fase, a comunista: sempre juntos, Carlos e eu.

Fomos amigos de todos os momentos na década de 30, fraternos, em dias de luta, de perseguição, Carlos escondido após a intentona de 1935, os anos difíceis do Estado Novo, compusemos a quatro mãos letra para música de Dorival Caymmi, canção romântica: nossos passos pela estrada, / o teu corpo nos meus braços...

Depois nossos caminhos políticos se bifurcaram, Carlos tomou as estradas que conduzem ao poder, prossegui militante comunista. As divergências ideológicas não cavaram abismo entre nós, as boas relações pessoais persistiram até que Carlos em editorial na Tribuna da Imprensa agrediu Zélia com grosseria. Ela se ofendeu, tinha razão, tanto mais que carregara ao colo Sérgio primeiro, Sebastião depois, infantes um e outro, em conjunturas precárias quando Carlos buscava trabalho em São Paulo e Ziloca para cuidar dos filhos tinha o apoio das amigas: Zélia, Aparecida Mendes, Isabel* devotadas. Solidário com Zélia rompi relações com o pasquineiro.

*Isabel Mendonça

 

Amigos comuns, Wilson Lins, Alfredo Machado, João Conde, tentaram repetidas vezes reaproximar-nos. Alfredo ameaçou levá-lo à casa do Rio Vermelho, pedi que não o fizesse, era a casa de Zélia e eu não a via disposta à indulgência. Um dia, pouco antes de sua morte, o correio me trouxe exemplar de livro de Carlos, A casa de meu avô e uma palavra dele: tudo que desejo é não morrer teu inimigo, senti um frio nos ovos. Mostrei livro e recado a Zélia, ela nada disse.

Tampouco eu lhe disse que tomei de um exemplar de O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, nele coloquei dedicatória afetuosa como se jamais houvesse acontecido desavença, mandei-o para Carlos. Soube que, por acaso, chegou em dia de seu aniversário e ele o exibiu à família e aos amigos; o melhor presente, dissera.

Na manhã de São Luís, após o silêncio, o choque da notícia, Zélia fala:

— Você respondeu a ele, eu sei.

Balanço a cabeça em assentimento, sempre pensei que ela adivinhara, nunca havíamos tocado no assunto.

— Ainda bem.

O choro irrompe incontrolável, podemos então recordar os dias de amizade.

 

 

Bahia, 1958.

O blefe

 

De passeio na Bahia, hóspede de Odorico, seu parente afim, Carlos Pena Filho incorpora-se à roda de pôquer: em Pernambuco é presença certa nos torneios em casa de Ruy Antunes ou de Paulo Loureiro, ao lado de Marcos e de Benaia. Ri com as histórias de Mirabeau, ele as escuta pela primeira vez, nós as sabemos de cor e salteado, na opinião de Yves Palermo, confirmada por Odorico, além de falastrão Mirabeau é trampolineiro, narra os casos para desviar a atenção dos parceiros na hora do blefe.

Também Carlinhos, sem intenção malévola, conta anedota acontecida no Recife: literatos dados à boêmia, Mauro Mota, Ariano Suassuna, Otávio Freitas Júnior, Marcos Vinícius Vilaça, Edilberto Coutinho, Marcos Accioly, outros que tais, bebem e discutem no Bar Savoy, celebrizado por Carlinhos num poema: nas mesas do Bar Savoy / o refrão tem sido assim: / são trinta copos de chope, / são trinta homens sentados, / trezentos desejos presos, / trinta mil sonhos frustrados.

Entre os assíduos um amigo de Mauro, boêmio de muita classe e poucas letras, passa horas a beber uísque e a ouvir as discussões sobre poesia, estética, marxismo, o soneto e o concretismo, de Sartre a Ferreira Gullar, de Ascenço Ferreira a João Cabral, o neo-realismo, o formalismo, o realismo-socialista e outras baboseiras. Um dia, nos vapores do uísque, se enche, perde o respeito, abre o coração:

— Nunca vi se gastar tanto tempo discutindo assuntos tão sem propósito, tão áridos, tão chatos quando se poderia estar ralando de boceta, assunto lindo, conheço onze variedades...

Rimos, Mirabeau não ri, especialista, pesquisador, sábio buceteiro:

— Onze variedades, santa ignorância! Só de chupeta já selecionei cinco categorias, na contagem geral cheguei a vinte e sete espécies de xoxotas.

Parado a ouvir, Odorico não replica a aposta, rápido Mirabeau recolhe a mesa, sem suspender o discurso, detalha a diversificação dos grelos, entre grandes (de machonas), médios e pequenos, roxos e róseos, pode citar para mais de vinte tipos — não resiste, abate o jogo sobre as fichas: dois pares brancos.

— Ladrão! Cínico! Vigarista! — brada Odorico fora de si.

Na mão de Odorico, inútil, a seqüência máxima, com seus dois pares de nove Mirabeau arrastou a mesa no blefe das bocetas.

 

Cama de casal, exijo nas portarias dos hotéis, sou casado com comunhão de corpos. Não abro mão do corpo bem-amado no trânsito da noite, calor, desvelo, segurança.

 

 

Bahia, 1960/ 1980.

Partidas e contrapartidas

 

Pintei e bordei com meus amigos, eles pintaram e bordaram comigo, preguei peças, inventei partidas, enrolei, fui enrolado, burlas e intrujices, dei e recebi o troco, zombei, zombaram, o que Carybé não aprontou às minhas custas?

Aprontou tantas e tais e eu caí como um patinho, fosse contá-las escreveria um livro, reduzo-me a duas delas às quais reagi, levando a melhor: as outras ele que as conte para rir de novo, o trapaceiro. No momento rio eu, se me dão licença.

Apenas nos instaláramos na Bahia, despedi um jardineiro, por incompetente. Ao saber, Carybé, de conluio com Tibúrcio Barreiros*, procurador do Tribunal do Trabalho, armou uma daquelas, me deixou de início nas vascas da agonia. Utilizando papel timbrado do Tribunal, os dois patifes forjaram uma convocação em boa e devida forma — para dar-lhe autenticidade falsificaram a firma de um juiz —, marcando-me audiência para o dia seguinte, às duas da tarde. Eu deveria explicar porque não pagara o devido ao trabalhador vítima de demissão sem justa causa, o dito cujo apresentara queixa, motivo para processo e julgamento. Vi-me arrastado na rua da amargura, acusado de burguês explorador do proletariado, sujeito a multa elevada e ao escárnio público.

*Tibúrcio Barreiros (1928/1988), advogado

 

Fulo da vida, havia pago mais do que o devido, procurei Walter da Silveira, advogado de sindicatos operários junto às Varas de Trabalho, contei-lhe do jardineiro, indenização e gratificação, mostrei-lhe a convocatória, Walter estranhou: tudo ilegal. Brigão por natureza, ao ver a assinatura do juiz entrou em transe: esse indivíduo é um mau caráter, meu inimigo, aproveito a irregularidade, vou acabar com ele, fique descansado, deixe comigo. Marcamos encontro no Tribunal na hora aprazada.

Ao chegar em casa Zélia revelou-me a tramóia e os autores. Estreante em tais enredos, Tibúrcio telefonara às gargalhadas, despejara o saco. Em troca Zélia lhe informou que eu saíra para encarregar Walter da Silveira de minha defesa, Tibúrcio tremeu nos alicerces, Walter era osso duro de roer. Diga a Jorge que largue de mão, tudo não passou de brincadeira, Walter é maluco, volto a telefonar.

Voltaram a telefonar, ele e Carybé. Pedi a Zélia para atender às chamadas e dizer aos dois comparsas que, para me vingar, decidira topar a provocação, iria ao Tribunal assistir Walter atirar com a convocatória na cara do juiz. Foi um deus-nos-acuda, Tibúrcio em pânico, o posto de procurador ameaçado, Carybé sentindo-se responsável pela demissão do amigo; eu os cozinhei o dia inteiro, só à noitinha concordei em abandonar a causa, desobrigar o advogado.

A dificuldade foi obter que Walter desistisse da pendência, queria a todo transe desmascarar o juiz, desmoralizá-lo. Tive de apelar para os ritos da amizade: vais prejudicar a carreira de Tibúrcio, só então se acalmou e achou graça.

De outra feita Carybé afanou no atelier de Mirabeau — fora visitá-lo, não o encontrara — imagem de Nossa Senhora esculpida por Frei Agostinho da Piedade, uma das quatro únicas peças assinadas pelo famoso santeiro do século dezoito, jóia da não menos famosa coleção de imaginária, vale uma fortuna, menina dos olhos do colecionador, inveja e cobiça dos demais. Colocou a imagem no carro, dirigiu-se à casa do Rio Vermelho, subiu a pequena escada que leva à porta de entrada, depositou a santa no batente, tocou a campainha, caiu ora sem ser visto. Fui abrir, deparei com a peça, identifiquei a mão de gato de Carybé, recolhi a imagem e a guardei em lugar seguro, disse a Zélia: vamos nos divertir às custas do compadre. Passado algum tempo Mirabeau telefonou: Carybé não tem jeito, roubou a Nossa Senhora de Frei Agostinho, telefonei, negou, atribuiu a você, disse que a viu no Rio Vermelho. A mim?, protestei. Tu sabes que não sou de brincar com santos de coleção, muito menos com peça de tal monta — era verdade —, deve estar em casa dele, isso sim. Mirabeau ficou um tanto inquieto: vou falar com ele de novo, disse, brincadeira tem limite: a Pietà vá lá, ele ja roubou mais de dez vezes, numa delas levou uma semana para restituir, mas a peça assinada de Frei Agostinho já é demais. Botei lenha na fogueira, lembrei-lhe o quadro de Jenner: tens toda razão, Carybé está abusando, imagine se ele perde a imagem ou se decide ficar com ela? Onde anda o quadro de Jenner que ele tirou de teu escritório na vista dos empregados e até hoje nega? Mirabeau subiu a serra

Seguiu-se telefonema de Carybé, falou disso e daquilo, terminou por perguntar se não tínhamos — Zélia, eu ou dona Eunice — atendido à porta e lá encontrado um objeto. Objeto? Na porta? Lá não tínhamos ido, se a campainha soara não a ouvíramos, talvez ainda esteja lá, vou ver, Carybé ficou à espera ao telefone. Fui, voltei: na porta não tem nada, compadre, o que aprontaste desta vez? Afobou-se e terminou por confessar que deixara na porta a Nossa Senhora de Frei Agostinho da Piedade, simples pagodeira, é claro. Fiz-me de alarmado: perdeste o juízo, compadre? Largar peça de tamanho valor fora da porta, dando sopa, nos tempos que vivemos, de furtos e assaltos? Em mim Carybé não confia, mas confia em Zélia e quando a comadre confirmou nada termos encontrado, Carybé perdeu o rebolado.

Não tardou a aparecer, vasculhou a casa sem encontrar a santa que eu escondera no armário de Lalu, nem Lalu sabia. No entremeio eu telefonara a Mirabeau para acalmá-lo — aflito, queria chamar a polícia —, também ele veio nos visitar, juntos acompanhamos o desespero de Carybé, penou as penas do inferno, até que Zélia, não suportando ver tanto padecimento do compadre, deu o serviço.

Nessas duas vezes eu ganhei, nas demais, tantas e tantas, ganhou ele, o senhor Hector Júlio Paride de Bernabó, todo esse nome e embusteiro.

 

 

Cascais, 1991.

Vamos acabar com ele

 

No correio reenviado de Paris, carta de Otto Lara Resende, deixo as demais de lado, dou-lhe a merecida primazia. O guru comenta a tempestade que desabou sobre a cabeça de Fernando Sabino, motivada pela publicação de seu recente Zélia, uma paixão, biografia romanceada, a vida e os amores da Ministra da Economia, Zélia Cardoso de Melo, ainda tão jovem e já tão falada, o nome na boca do mundo.

Humor e indignação ottorresendianos nos comentários sobre a traumática experiência de Fernando. Os ataques, as acusações ao livro pelos patrões da crítica literária, de repente guardiões da moral pequeno-burguesa, da hipocrisia da sociedade, e por líderes feministas em crise de histeria, desatados uns e outras em fúria e pudicícia nas revistas e jornais cariocas e paulistas. Uma boa parte — constata Otto — deve ter sido ditada pela inveja e sentimentos menores. Você sabe, melhor que ninguém, que entre nós escritores ou artistas não podem fazer sucesso e sobretudo ganhar dinheiro para sobreviver. Tem de passar fome na sarjeta e morrer logo, não mais tuberculoso, mas de Aids.

É isso aí. A baixaria dos literatos de plantão nas colunas da imprensa escrita esteve à altura dos duzentos mil exemplares vendidos em dois meses e dos direitos autorais correspondentes. Ademais Fernando exibe saúde de ferro e é escritor agradável, o antichato por excelência, como agüentar tanta coisa sem explodir de inveja?

Fernando Sabino, escritor profissional em país de amadores, trinta anos de sucesso, desde o lançamento do romance de estréia, O encontro marcado, publicado em 1956. Êxito tão grande, o autor se assustou, ficou com medo que um segundo romance não saísse à altura do primeiro, emigrou para a crônica, gênero do qual fez-se mestre, crônica sempre marcada pelo ficcionista em férias. O susto durou vinte e cinco anos quando por fim o estreante de O encontro marcado publicou O grande mentecapto, o segundo romance repetiu o sucesso do primeiro. Seguiu-se um terceiro, O menino no espelho, obra-prima, o livro de Fernando Sabino de minha preferência. Três romances, dúzia e meia de volumes de crônicas, contos, viagens, entrevistas deram a Sabino posição excepcional em nossas tetras, público enorme e fiel, sempre crescente. Tanta fama, uma fábula de direitos autorais, traduções, adaptações, viagens aos States, à Europa e para culminar o indivíduo se anuncia baterista de jazz, ah, insuportável! A ordem correu entre a gentalha: vamos acabar com ele.

Não foram razões literárias, discordâncias estéticas que ditaram a opinião dos críticos, quem a comandou foi a inveja cumprindo a ordem emanada dos calhordas: vamos acabar com ele. Aliás alguns dos articulistas escreveram horrores do livro, do autor e da biografada, declarando ao mesmo tempo que por precaução não haviam lido Zélia, uma paixão. Boa crítica é isso se querem saber, o resto é bobagem, atraso de uns pobres-diabos por aí.

 

 

Bahia, 1935.

O preço da glória

 

Dirigida por Dias da Costa, a revista O Momento, de inflamado conteúdo antifascista e evidente influência do Partido Comunista, no âmbito da luta contra o integralismo, divulga em suas páginas centrais entrevista de Pedro Rego, ilustrada com o retrato do filósofo.

Tipo de rua, vagabundo profissional, achacador impenitente, Pedro Rego é o criador do movimento filosófico intitulado "nossismo", de concepção mística e de positivas conseqüências para as finanças do aliciante Pedro Rego — vive dos emolumentos (parcos) com que os simpatizantes contribuem para a expansão da nova doutrina. Pedro Rego comanda o Nosso, navio que navega numa lágrima e se dirige ao fim do mundo onde, em data a ser marcada, correrá a loteria instituída pelo criador do nossismo e os prêmios serão distribuídos. Pedro Rego vende a preço razoável — não há preço fixo, depende do freguês — bilhetes para a viagem no oceano da lágrima com direito a concorrer aos prêmios funambulescos quando chegar o dia do sorteio, ou seja, o dia do juízo final. O filósofo não intenta enganar quem quer que seja nem criar seita ou organização partidária, apenas recolhe uns trocados para a cachaça quotidiana, copiosa.

Estava na ordem do dia naquele ano de 1935 a famosa tômbola lançada pelo escritor Plínio Salgado, Chefe Nacional da Ação Integralista, movimento político de corte fascista: influências do salazarismo e do corporativismo romeno. A tômbola destinava-se a fortalecer as finanças do partido dos galinhas-verdes (assim nós, os da esquerda, designávamos o movimento de direita). A entrevista com Pedro Rego era uma gozação em regra na teoria e na ação dos integralistas, a tômbola denunciada como assalto à bolsa dos incautos. Pedro Rego estabelecia as diferenças entre sua honrada loteria e a fraudulenta do Chefe Nacional, entre a filosofia liberal do nossismo — cujo Mestre e Guia era o general Juracy Magalhães, àquele tempo Governador do Estado — e a doutrina reacionária do integralismo. Pedro Rego lavava a égua, Dias da Costa mandava brasa.

Na banca de jornais de Ibrahim, comuna exaltado, na Praça Municipal, exposta, aberta nas páginas da entrevista, exibindo a foto do filósofo, a revista vendida ao preço de 500 réis o exemplar. Ufano, Pedro Rego vai e vem pela rua Chile à cata de pacóvios ou de bonacheirões de quem tomar algum, O Momento na mão, a satisfação sobrando dos olhos e da boca. Morde o freguês nos cobres para a viagem do Nosso, vende-lhe o bilhete, embolsa o subsídio, dá-lhe de brinde o exemplar da revista, volta à banca de Ibrahim, retirado bolso a pequena moeda, com ela bate no balcão, anuncia:

— Vou mandar 500 réis à merda, vou comprar O Momento.

Empunha a revista, retorna à rua Chile.

 

                                                                                CONTINUA