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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O AMOR E O PODER / Colleen McCullough
O AMOR E O PODER / Colleen McCullough

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

 

Não tendo obrigações pessoais a cumprir em relação a nenhum dos novos cônsules, Caio Júlio César e seus filhos integraram-se no cortejo que começara perto da sua casa, em honra do cônsul sénior Marco Minúcio Rufo. Ambos os cônsules viviam no Palatino, mas a casa do cônsul júnior Espúrio Postúmio Albino situava-se numa zona mais elegante. Constava que as dívidas de Postúmio Albino haviam subido vertiginosamente, o que também não era de admirar: era o preço de ser cônsul.

Não se pode dizer que Caio Júlio César se preocupasse muito com o pesado fardo das dívidas contraídas durante a ascensão política; e, segundo parecia, nunca os seus filhos viriam a ter preocupações dessa ordem. Eram decorridos quatrocentos anos desde que um Júlio se sentara na cadeira curul de marfim dos cônsules, quatrocentos anos desde que um Júlio conseguira juntar esse dinheiro. A linhagem dos Júlios era tão brilhante, tão augusta, que as gerações sucessivas foram deixando passar as oportunidades de encher os cofres familiares, e, com o correr dos séculos, a família de Júlio ia empobrecendo. Cônsul? Impossível! Pretor, imediatamente inferior a cônsul? Impossível! Não, só um lugarzinho humilde mas seguro de membro da segunda linha do Senado era a herança de um Júlio naqueles tempos, incluindo o ramo da família que tinha por nome César, devido ao cabelo espesso e abundante.

Por isso, a toga que o servo particular de Júlio César drapeou sobre o seu ombro esquerdo, envolvendo-lhe o corpo até lhe pender do braço, era a simples toga branca do homem que nunca poderia aspirar à cadeira curul de marfim dos altos cargos públicos. Apenas os sapatos vermelho-escuros, o anel de ferro de senador e a faixa púrpura de cinco polegadas de largura no ombro direito da túnica distinguiam o seu trajo do dos filhos Sexto e Caio, que usavam sapatos vulgares, e só os anéis de sinete e a estreita faixa púrpura de cavaleiros por cima das túnicas.

 

 

 

 

Embora a aurora ainda não tivesse rompido, já se realizavam pequenas cerimónias a anunciar o dia. Uma breve oração e a oferenda aos deuses do lar de um bolo salgado colocado no átrium, e a seguir, quando o servo encarregado de atender à porta avisasse que tinha avistado os archotes descendo a colina, uma vénia a Jano Patúlcio, o deus que permitia abrir as portas com segurança.

Pai e filhos saíram para a estreita álea de seixos, onde se separaram. Os dois jovens integraram-se nas fileiras dos cavaleiros que antecediam o novo cônsul sénior, enquanto Caio Júlio César esperou que Marco Minúcio Rufo passasse com os seus lictores, para então se juntar aos senadores que o seguiam.

Foi Márcia que murmurou uma saudação a Jano Clúsio, o deus que presidia ao fechar das portas, e ainda Márcia que despachou os criados bocejantes para outras tarefas. Depois de saírem os homens, podia ocupar-se da sua pequena expedição. Onde estariam as raparigas? Respondeu-lhe uma gargalhada vinda da salinha acanhada que as raparigas consideravam sua; e lá estavam sentadas as filhas, as duas Júlias, tomando o pequeno-almoço de pão fino barrado com mel. Como eram adoráveis!

Desde sempre se dissera que todas as Júlias eram uns tesouros, dado que tinham o dom raro e afortunado de tornarem felizes os seus homens. E estas duas Júlias prometiam manter a tradição familiar.

Júlia Maior - a quem chamavam Júlia - tinha quase dezoito anos. Alta e senhora de uma dignidade séria, tinha os cabelos claros de um tom amarelo-acastanhado com reflexos de bronze presos num rolo na nuca, e os seus grandes olhos cinzentos observavam o mundo com ar sério mas pacato. Era uma Júlia serena e intelectual.

Júlia Menor - a quem chamavam julilla - tinha dezasseis anos e meio. Fora o último rebento nascido daquele matrimónio, mas só passara a ser bem-vinda depois de ter crescido o suficiente para encantar os sensíveis pais, bem como os três irmãos mais velhos. Era da cor do mel. A pele, o cabelo, os olhos, possuíam suaves gradações de âmbar. Fora de certeza Julilla a rir: Julilla ria-se por tudo e por nada. Era uma Júlia irrequieta e pouco intelectual.

- Estão prontas, meninas? - perguntou a mãe.

Enfiaram o resto do pão pegajoso pela boca abaixo, passaram delicadamente os dedos numa taça de água e por um pano, e saíram da sala atrás de Márcia.

- Está frio - disse a mãe, tirando dos braços de um servo as capas quentes de lã, pesadas e deselegantes.

As raparigas ficaram desiludidas mas sabiam que não valia a pena protestar; resignaram-se a ficar enroladas como lagartas dentro de casulos, só de cara à vista, por entre as dobras fulvas do tecido caseiro. Enfaixada de modo idêntico às filhas, Márcia formou com estas e com os servos o seu pequeno séquito, e conduziu-o para a rua.

Habitavam nesta modesta casa do baixo Gérmalo do Palatino desde que o pai Sexto a cedera ao filho mais novo, Caio, para além de quinhentas iugera de boa terra entre Bovilas e Arícia - um legado suficiente para garantir que Caio e a família teriam com que manter um lugar no Senado. Mas não, infelizmente, o bastante para subir os degraus do cursus honorum, a Via da Honra que conduzia ao pretorado e ao consulado.

O pai Sexto teve dois filhos e não conseguiu separar-se de nenhum deles; uma decisão bastante egoista, visto que significava que o seu património - já de si diminuto, pois também tivera um pai sentimental e um irmão mais novo a cujas necessidades era preciso prover - fora dividido entre Sexto, o filho mais velho, e Caio, o mais novo. Por isso, nenhum dos filhos pôde alcançar o cursus honorum, ser pretor e cônsul.

O irmão Sexto não fora tão sentimental como o pai Sexto; mas com o mesmo resultado! Com a esposa Popília, criou três filhos, fardo intolerável para uma família senatorial. Por isso, ganhou a coragem necessária para se separar do filho mais velho e deu-o a adoptar a Quinto Lutácio Catulo, que não tinha filhos, passando a gozar assim de um conspícuo património para si próprio, ao mesmo tempo que assegurava uma boa herança para o primogénito, O velho Catulo, o adoptante, era extremamente rico, e tinha o maior prazer em pagar uma fortuna enorme pela hipótese de adoptar um rapaz de ascendência patrícia, óptimo aspecto e inteligência razoável. O dinheiro que o rapaz fez ganhar ao irmão Sexto - o seu verdadeiro pai - foi cuidadosamente investido em terrenos urbanos e rurais, e esperava-se que desse o lucro suficiente para permitir aos dois filhos mais novos uma hipótese nas magistraturas séniores.

Exceptuando o inteligente irmão Sexto, a maior dificuldade dos Césares era a tendência para terem mais de um filho, e não se deixarem sensibilizar pela situação difícil em que isso os colocava. Nunca conseguiam dominar os afectos, deixar que alguns dos seus demasiado abundantes elementos masculinos fossem adoptados, nem fazer com que os filhos que criavam casassem nadando em dinheiro. Por este motivo, as vastas propriedades que possuíam outrora foram diminuindo com o decorrer dos séculos, divididas em parcelas cada vez mais pequenas, para prover às necessidades de dois ou três filhos, enquanto boa parte delas era vendida e transformada em dotes para as filhas.

O marido de Márcia era de facto um desses Júlios Césares - um pai excessivamente sentimental, demasiado orgulhoso dos filhos e escravizado pelas filhas para ser sensato como deve ser um romano. O filho mais velho deveria ter sido adoptado e já há alguns anos que as duas raparigas também deveriam ter sido prometidas em casamento a homens ricos; o filho mais novo também deveria ter ficado comprometido com uma noiva rica. Só o dinheiro possibilitava altas carreiras políticas. já há muito tempo que o sangue patrício passara a ser considerado um inconveniente.

Não era um dia de Ano Novo muito auspicioso. Frio, ventoso, caía uma chuva miudinha que molhava o saibro tornando-o perigosamente escorregadio e aumentava o cheiro pestilento das fogueiras já extintas. A aurora tinha despontado tarde devido a estar encoberto o sol, e este era um dia feriado romano que toda a gente preferia passar no espaço apertado das suas casas, estendida nas enxergas de palha, a jogar o jogo sem idade a que dão o nome de ”entalar o chouriço” .

Se o tempo estivesse bom, as ruas apinhar-se-iam de gente de todas as camadas sociais à procura de um lugar donde pudessem ver bem o cerimonial no Fórum Romano e no Capitólio; assim, Márcia e as filhas não tiveram dificuldade em seguir a pé sem que a escolta de servos tivesse de recorrer à força para abrir caminho às senhoras.

A álea estreita onde ficava a casa de Caio Júlio César dava para o Clivus Victoriae, um pouco acima da Porta de Rómulo, a antiga passagem para as muralhas da velha cidade do Palatino, grandes blocos de pedra colocados pelo próprio Rómulo, e actualmente cobertos de vegetação, enterrados sob as construções ou marcados com as gravações das iniciais de seiscentos anos de turistas. Virando à direita para subir o Clivus Vietoriae em direcção à esquina onde o Gérmalo do Palatino ia dar ao Fórum Romano, as senhoras chegaram cinco minutos depois ao seu destino, que era uma zona vazia no lugar que tinha a melhor vista.

Doze anos antes, existira ali uma das melhores casas de Roma. Agora, o local apresentava poucos vestígios da sua existência, Apenas se via aqui e ali uma pedra meio enterrada por entre as ervas. O panorama era magnífico; do lugar onde os servos montaram os tamboretes portáteis para’ Márcia e as duas Júlias, as mulheres tinham à frente uma visão desimpedida do Fórum Romano e do Capitólio, com o declive acidentado da Subura a fazer sobressair no horizonte os contornos das colinas a norte da cidade.

-já sabes? - perguntou Cecília, que era mulher do banqueiro Tiro Pompónio. Encontrava-se em avançado estado de gravidez e estava sentada junto da sua tia Pília. Moravam perto, numa rua abaixo da dos Césares.

- Não. O quê? - perguntou Márcia, inclinando-se para a frente.

- Os cônsules, padres e augures começaram as orações e os ritos logo à meia-noite, para poderem acabá-los a tempo...

- Eles fazem-no sempre! - disse Márcia, interrompendo-a. - Se se enganarem, têm de voltar ao princípio.

- Bem sei. Não sou assim tão ignorante! - disse Cecília com azedume, irritada por estar a ser posta no seu lugar por uma filha de pretor.

- Acontece que eles não se enganaram! Os auspícios foram maus. Quatro relâmpagos do lado direito e uma coruja no altar augurial, guinchando como se a matassem. E agora, o mau tempo... Não vamos ter um bom ano, nem bons cônsules.

- Também podia ter-te dito o mesmo, sem precisar de corujas nem de relâmpagos - disse Márcia, cujo pai morrera antes de chegar a cônsul, mas como pretor urbanus construíra o grande aqueduto que trazia água potável até Roma, e cuja memória se mantinha viva como de um dos maiores que desde sempre passaram pelo governo. - Para começar, um conjunto miserável de candidatos, e mesmo assim os eleitores não conseguiram escolher os melhores no meio desse grupo tão desprezível. Creio bem que Marco Minúcio Rufo fará um esforço, mas Espúrio Postúmio Albino!... Eles nunca prestaram.

- Quem? - perguntou Cecília, que não era muito esperta.

- O clã dos Postúmios Albinos - respondeu Márcia de olhos fixos nas filhas, para ver se estavam bem; tinham encontrado quatro raparigas pertencentes a dois dos Cláudios Pulcros: eram tantas, que nunca se conseguia mantê-las todas na ordem! E não era costume elas portarem-se bem. Mas as raparigas que se encontravam no local da antiga casa de Flaco tinham andado juntas na escola em crianças, e era impossível erguer barreiras sociais contra uma casta quase tão aristocrática como a dos Júlios Césares. Especialmente porque os Cláudios Pulcros também tinham de combater eternamente os inimigos da antiga nobreza, que eram o excessivo número de filhos, aliado à diminuição das terras e do dinheiro. Agora, as filhas tinham levado os tamboretes para o sítio onde estavam as outras raparigas, sem qualquer vigilância... Onde estariam as mães delas? Ah! Estavam a falar com Sila. Suspeito! Isso arrumava de vez a questão.

- Meninas! - gritou Márcia com rispidez.

Duas cabeças cobertas viraram-se na direcção dela.

- Voltem já para aqui, imediatamente.

Elas obedeceram.

- Mamã, por favor, não podemos ficar com as nossas amigas? - perguntou a jovem Julilla de olhos implorantes.

- Não - disse Márcia no tom definitivo de que Era Assim Mesmo. Lá em baixo no Fórum Romano, ia-se formando a procissão, à medida que o longo cortejo serpenteando como um crocodilo vindo da casa de Marco Minúcio Rufo se juntava ao outro igualmente comprido que se formara a partir da casa de Espúrio Postúmio Albino. Os cavaleiros abriam o desfile, não tantos como seriam se fizesse sol naquele dia de Ano Novo, mas era um ajuntamento bastante respeitável de cerca de setecentos homens. À medida que o dia clareava, mas com a chuva a cair um pouco mais forte, foram subindo o Clivus Capitolinus em direcção ao lugar onde, na primeira curva do caminho curto e acidentado, os sacerdotes e os carniceiros aguardavam, com dois touros de um branco imaculado presos por cordas brilhantes, de cornos dourados e papadas agrinaldadas. Na retaguarda dos cavaleiros caminhavam os vinte e quatro lictores dos novos cônsules. A seguir aos lictores vinham os próprios cônsules, e a seguir a estes os senadores, os Pais Conscritos’: os que ocupavam magistraturas séniores, de togas debruadas a púrpura, enquanto o resto da Assembleia vestia simples togas brancas. E por fim, vinham todos os que não tinham direito a fazer parte do cortejo, espectadores e a hoste de clientes dos cônsules.

”Que lindo!”, pensou Márcia. Uns mil homens subiam devagar a rampa em direcção ao templo de Júpiter Optimus Maximus, o Grande Deus de Roma, que se erguia imponente no alto da mais meridional das colinas que constituíam o Capitólio. Os Gregos construíam os templos assentes no chão, mas os Romanos edificavam-nos sobre plataformas grandiosas com imensos degraus, e eram de facto muitos os que iam dar ao Júpiter Optimus Maximus. ”Que lindo!”, pensou Márcia de novo, quando

 

Nota: Tradução do termo Patresconscripti - patrícios do Senado, denominados ”patres” pelos reis de Roma no período anterior à República, passando depois a ser conscritos pelos censores. (N. da T.)

 

os animais sacrificiais e a sua escolta se juntaram ao cortejo e seguiram todos até que finalmente se agruparam o melhor possível no espaço reduzido em frente ao grandioso templo que ficava mais acima. Algures no meio deles estavam o marido e os dois filhos, que pertenciam à classe dominante da mais poderosa cidade do mundo.

No meio do cortejo também se encontrava Caio Mário, Como ex-pretor, usava a toga praetexta debruada a púrpura, e nos sapatos senatoriais vermelho-escuros tinha a fivela em forma de crescente que o pretorado lhe consentia. No entanto, isso não lhe bastava. Fora nomeado pretor há cinco anos; devia já ter passado a cônsul há três anos. Mas sabia agora que nunca o deixariam candidatar-se ao consulado. Nunca. Porquê? Porque não era suficientemente bom. Era essa a única razão. Quem já ouvira falar de uma família de nome Mário? Ninguém.

Caio Mário era um novo-rico vindo do meio rural, um militar, com a reputação de não saber falar grego, e a quem a excitação ou a ira podiam levar a falar o latim vernáculo com inflexões do Norte do país. Não interessava que tivesse meios para comprar e vender metade do Senado; não interessava que num campo de batalha pudesse ultrapassar tacticamente ambas as metades do Senado. O que interessava era o sangue. E o seu não era suficientemente bom.

Caio Mário vinha do Arpino - que não distava assim tantas milhas de Roma, mas que como se encontrava perigosamente próximo da fronteira entre o Lácio e o Sâninio se tornava um pouco suspeito nas suas lealdades e inclinações; entre os Italianos, os Samnitas ainda eram os inimigos mais obstinados de Roma, A total cidadania romana chegara tarde ao Arpíno - apenas setenta e oito anos antes - e o distrito ainda não gozava de estatuto municipal próprio.

Ah! Mas era tão belo! Acocorado nas faldas dos altos Apeninos, um vale fértil acolhia os rios Liris e Melfa, onde a vinha se dava com maravilhosos resultados tanto para a mesa como para a produção vinícola, onde as sementes rendiam cento e cinquenta e as ovelhas eram gordas e a lã tinha uma qualidade surpreendente. Pacífico. Verde. Pachorrento. Mais fresco do que se esperava no Verão; mais quente do que era normal no Inverno. A água dos dois rios estava cheia de peixe; além disso, as densas florestas nas montanhas na orla da bacia do Arpino ainda forneciam madeira esplêndida para a construção de navios e edifícios. E havia pinheiros destinados a fazer pez e outros que serviam para archotes, carvalhos para preparar a cama de bolotas dos porcos no Outono, ricos presuntos e enchidos e carne de salmoura que fariam as honras da mesa de qualquer nobre em Roma - o que não era raro acontecer.

A família de Mário vivia no Arpino há séculos e orgulhava-se da sua latinidade. Mário seria um nome volsco ou samnita? Soaria a oscano só por haver Samnitas e Volscos com o nome de Mário? Não! Mário era latino. Ele, Caio Mário, era tão bom como qualquer um desses nobres altivos e arrogantes que tanto se deleitavam com a sua exclusão. De facto - e era mesmo isso que o magoava - era muito melhor do que qualquer deles. Tinha essa sensação.

Como podia um homem explicar uma sensação? Uma sensação que ele abrigava como um hóspede que se recusasse a partir, por menos hospitaleiro que fosse o seu comportamento. Passara muito, muito tempo desde que ela se instalara na sua mente, tempo mais do que suficiente para que os acontecimentos dos anos seguintes já lhe tivessem mostrado a sua inutilidade, incitando-a a desalojar-se em desespero de causa. No entanto, isso nunca acontecera. Vivia hoje no seu espírito de uma forma tão viva e indómita como no início, ao todo o tempo de meia vida.

”Como o mundo era estranho!”, pensou Caio Mário, olhando as caras vítreas dos homens de togas debruadas a púrpura que o rodeavam àquela hora desolada do meio da tarde, no meio da chuva miudinha. Não, não havia nenhum Tibério nem um só Caio Semprónio Graco entre eles! Não contando com Marco Emílio Escauro e Públio Rutílio Rufo, restava um bando de homens bem insignificantes. Porém, todos o consideravam a ele - Caio Mário - como se fosse uma pessoa insignificante e pretensiosa com mais defeitos do que virtudes. Apenas porque lhes corria nas veias o sangue certo. Qualquer deles sabia que se as circunstâncias o proporcionassem, ele poderia vir a ter o direito de se intitular o Primeiro Homem de Roma. Tal como Cipião Africano, Emílio Paulo, Cipião Emiliano e talvez meia dúzia de outros que assim se haviam denominado ao longo dos séculos.

O Primeiro Homem de Roma não era forçosamente o melhor; era o primeiro entre os homens que eram seus iguais em posição social e oportunidades. E ser o Primeiro Homem de Roma era muito melhor do que a realeza, a autocracia, o despotismo, o que quer que fosse. O Primeiro Homem de Roma possuía esse título unicamente por ser proeminente, e tinha a consciência de que havia à sua volta muitos outros ansiosos por suplantá-lo - outros que podiam suplantá-lo legalmente e sem derramamento de sangue, mostrando um tipo de proeminência superior. Ser o Primeiro Homem de Roma era mais importante que ser cônsul; os cônsules sucediam-se ao ritmo de dois por ano, ao passo que com o decorrer dos séculos da República Romana, apenas um pequeno número de homens viria a ser aclamado Primeiro Homem de Roma.

De momento, Roma não tinha Primeiro Homem - efectivamente, não havia Primeiro Homem desde a morte de Cipião Emiliano, dezanove anos antes. Não havia dúvida de que Marco Emílio Escauro se tinha aproximado disso, mas não possuía o poder suficiente - a auctoritas, como lhe chamavam, uma mistura de poder, autoridade e fama características de Roma - para merecer esse título, nem este lhe era aplicado. Excepto por si próprio!

De repente, houve grande agitação e burburinho entre a multidão de senadores; o senador sénior, Marco Minúcio Rufo, ia oferecer ao Grande Deus o seu touro branco, mas este não estava a portar-se à altura - deve ter tido um pressentimento, para evitar a última ração de forragem envenenada. Não iria ser um bom ano, dizia-se já por todo o lado. Maus presságios durante a vigília nocturna dos cônsules, um dia com um tempo péssimo, e agora a primeira das duas vítimas resfolegava e saltava, com meia dúzia de acólitos sacerdotais agarrados aos seus cornos e às orelhas - imbecis, deviam ter-lhe posto uma argola no nariz, por precaução. Nu até à cintura, como os outros subordinados, o acólito que levava o martelo colossal não esperou que a cabeça do touro se erguesse ao céu, ao que se seguiria a inclinação da mesma para o chão; mais tarde, sempre se podia argumentar com êxito que o animal tinha levantado e baixado a cabeça dúzias de vezes durante a sua luta pela sobrevivência. Ele avançou e brandiu a arma de ferro para cima e para baixo com tanta rapidez que os contornos desta se esbateram. O ruído seco do vento foi logo seguido por outro, o som do embate dos joelhos do touro ao cair no pavimento de pedra, com as suas mil e seiscentas libras de peso. Então, o homem meio-despido que empunhava o cutelo enterrou-lhe o instrumento de lâmina dupla no cachaço e o sangue jorrou por todos os lados; uma parte foi recolhida nas taças dos sacrifícios, a maior quantidade formou um rio fumegante e pegajoso correndo sem rumo, dissolvendo-se e diluindo-se no terreno alagado pela chuva.

cinicamente distante, com meio sorriso a revirar-lhe os cantos dos lábios grossos, enquanto via um desviar-se rapidamente, outro ficar indiferente ao facto de ter o sapato a ensopar-se e outro ainda tentando fingir que não estava quase a vomitar.

Ah! Ali estava o homem que ele devia observar! O sujeito jovem, mas já amadurecido, nas imediações dos cavaleiros sem no entanto ter a faixa de cavaleiro no ombro direito da túnica; não estava ali há muito tempo e agora voltava a afastar-se, descendo o Clivus Capitolinus em direcção ao Fórum. Mas não antes que Caio Mário visse os seus extraordinários olhos cinzento-esbranquiçados faiscar, dilatar-se, absorver o espectáculo do sangue com avidez. Certo de que nunca o tinha visto antes, Caio Mário interrogava-se sobre quem seria; não era certamente uma pessoa qualquer. Tinha um ar epiceno, uma beleza tão feminina como masculina. E que coloração surpreendente! A pele branca como leite, os cabelos da cor do sol nascente. Era a encarnação de Apolo. Teria sido assim? Não. O deus nunca tivera uns olhos como os do mortal que acabara de partir; eram os olhos de alguém que sofria, e não valia a pena ser-se deus para sofrer, não é?

Embora o segundo touro tivesse sido mais drogado, também lutou, até com mais força. Desta vez, o homem do martelo não conseguiu acertar à primeira, e a pobre criatura enlouquecida virou-se numa fúria cega para atacar. Então, um sujeito inteligente agarrou-lhe o saco oscilante do escroto e, nesse momento único, a sua acção fez estremecer em conjunto os carniceiros, o homem do martelo e o do cutelo. Lá tombou o touro, borrifando de sangue toda a gente na área de duas dúzias de passos, o que incluía os cônsules: Espúrio Postúmio Albino estava encharcado, tal como o seu irmão mais novo, Aulo, que se encontrava mesmo atrás dele, um pouco ao lado. Caio Mário olhou-os de soslaio, imaginando se o presságio iria ser o que já havia previsto. De qualquer modo, era mau sinal para Roma.

E o seu hóspede indesejável, a sensação, teimava em não o abandonar; ultimamente tinha até aumentado muito de intensidade. Como se estivesse a chegar o momento. O momento em que ele, Caio Mário, passaria a ser o Primeiro Homem de Roma. Cada parcela de senso comum dentro de si - e havia muitas - gritava que a sua sensação era uma traidora, uma armadilha que o atraiçoaria e levaria à ignomínia e à morte.

Não obstante, continuava a experimentá-la, essa sensação indestrutível de que viria a ser o Primeiro Homem de Roma. ”Ridículo!”, argumentou o homem de eminente bom senso: tinha quarenta anos, alcançara com dificuldade o sexto e último lugar entre os seis eleitos para pretores cinco anos antes; agora era demasiado tarde para tentar alcançar o consulado sem o benefício de um nome e uma grande hoste de clientes. A sua altura já se fora. Era passado, só passado.

Os cônsules estavam finalmente a tomar posse; aquele asno pomposo do Lúcio Cecílio Metelo Dalmático, rejubilante no seu título de Pontifex Maximus, despachava à pressa as orações finais, e em breve o cônsul sénior Minúcio Rufo mandaria o mensageiro convocar o Senado para reunião no templo de Júpiter Optimus Maximus. Aí, fixariam a data do Festival Latino nos montes Albanos; discutiriam quais as províncias que deviam mudar de governadores, e que governadores veriam o seu mandato prorrogado; traçariam os lotes dividindo as províncias entre os pretores e os cônsules; qualquer tribuno da plebe por conta própria começaria a falar do Povo com grande entusiasmo; Escauro esmagaria o tonto presunçoso com o pé como se fosse um escaravelho; e um dos muitos Cecílios Metelos falaria longa e interminavelmente do declínio dos padrões morais e éticos da geração mais nova de Roma até que dúzias de vozes à sua volta o mandassem calar e acalmar-se. O mesmo Senado de sempre o mesmo Povo - a mesma Roma o mesmo Caio Mário. Agora com quarenta e sete anos. Daí a uma década teria cinquenta e sete, e na seguinte, sessenta e sete, e então atirá-lo-iam para uma pira de toros a arder, e lá desapareceria ele no meio do fumo. Adeus, Caio Mário, novo-rico vindo das pocilgas de Arpino, seu não-romano...

Com efeito, o mensageiro deu o toque de chamada. Suspirando, Caio Mário começou a mover-se, erguendo a cabeça para ver se tinha alguém ao alcance dos pés a quem pudesse pisar com força para se sentir bem. Não havia ninguém. Era óbvio. Nesse preciso momento, os seus olhos encontraram-se com os de Caio Júlio César, que sorria como se soubesse exactamente o que Caio Mário estava a pensar.

Apanhado, Caio Mário devolveu o olhar. Não passava de um simples membro das últimas bancadas do Senado, mas era muito mais que um mero intriguista de corredor, o mais idoso dos Júlios Césares a entrar para o Senado, agora que lhe morrera o irmão mais velho, Sexto. Alto, direito como um militar, de ombros largos, a sua bela nuca de cabelos prateados com tons de ouro era uma coroa à medida do rosto sulcado e perfeito. Não era novo, não podia ter menos de cinquenta e cinco anos, mas parecia vir a transformar-se num daqueles anciãos secos que a nobreza patrícia produzia com monótona regularidade, que iam cambaleando a todas as reuniões do Senado ou do Povo aos noventa anos e até mais, e mantinham um louvável bom senso. O tipo de pessoas que não se matavam com um cutelo de sacrifícios. O tipo de pessoas que quando tudo começara - haviam feito de Roma o que ela era hoje, apesar da pletora de Cecílios Metelos. Melhores do que todos os outros juntos.

- Qual dos Metelos discursará hoje? - perguntou César quando ficaram lado a lado e começaram a subir os muitos degraus do templo.

- Um que ainda não tem nome - respondeu Caio Mário, com as pestanas subindo e descendo como pernas de centopeias. - Quinto Cecílio, dos antigos Metelos, irmão do nosso venerado Pontifex Maximus.

- E ele porquê?

- Porque vai candidatar-se a cônsul no próximo ano, ao que parece. Por isso, tem de começar já a fazer campanha - explicou-lhe Caio Mário, afastando-se para deixar o homem mais velho antecedê-lo ao entrarem na morada do Grande Deus, Júpiter Optimus Maximus.

- Acho que tens razão - comentou César.

A ampla sala central do templo estava reduzida à semi-escuridão, tão fraca era a luz exterior. Porém, o rosto cor-de-tijolo do Grande Deus resplandecia como se o iluminasse uma luz interior. Era muito velho, fora modelado em terracota há séculos pelo famoso escultor etrusco Vulca, embora tivesse vindo posteriormente a receber vestes de marfim, cabelos de ouro, sandálias de ouro, um raio de ouro e até pele de prata nos braços e pernas, e unhas de marfim nos dedos das mãos e dos pés. Apenas a sua face mantivera a cor daquele barro ricamente colorado de vermelho, de cara rapada à etrusca, que Roma havia herdado; o sorriso apalermado dos seus lábios cerrados que os elevava quase até às orelhas conferia-lhe o aspecto de pai imbecil, decidido a ignorar os disparates do filho.

De cada lado da sala do Grande Deus abria-se outra sala; a da esquerda alojava a sua filha Minerva; a da direita pertencia a sua mulher, Juno. Cada uma das damas tinha uma linda estátua na cella, e aceitava com resignação a presença de um hóspede não-convidado, pois quando o templo fora construído dois dos antigos deuses haviam-se recusado a mudar-se; à boa maneira dos romanos, os antigos deuses acabaram por ficar ao lado dos novos.

- Caio Mário - disse César -, não queres vir amanhã jantar comigo?

Que surpresa! Caio Mário pestanejou, aproveitando essa fracção de tempo para se decidir. Quereria alguma coisa? Sem dúvida. Mas não devia ser nenhuma ninharia. E uma coisa que ninguém podia dizer dos Júlios Césares era que fossem snobes. Um Júlio César não precisava de ser snobe. Quem podia traçar a sua linhagem pelo lado masculino até lulo, Eneias, Anquises e à deusa Vénus tinha segurança suficiente para se dar com quem lhe apetecesse, desde um trabalhador das docas a um Cecílio Metelo.

- Agradeço-te, Caio Júlio - disse Mário. - Terei muito gosto em jantar contigo.

Lúcio Cornélio Sila acordou quase sóbrio antes da aurora, no dia de Ano Novo. Descobriu que estava deitado no sítio certo, com a madrasta do lado direito e a amante do esquerdo, mas cada uma das damas - se é que se podia ser eufemístico ao ponto de lhes chamar tal coisa - estava de costas para ele, e completamente vestida. Isto indicou-lhe que não tinha sido chamado a executar as suas funções, uma dedução reforçada pelo facto de ter sido acordado por uma erecção enorme e estranhamente dolorosa. Por uns momentos ficou deitado, tentando ver o seu terceiro olho a observá-lo acima da barriga com uma continência indecorosa, mas como de costume foi ele que perdeu a competição desigual. Só havia uma coisa a fazer: recompensar o ingrato. Foi com esta ideia em mente que pôs a mão direita de fora e levantou a bainha da túnica da madrasta, enquanto com a esquerda fazia o mesmo à amante. Após o que as duas mulheres, que fingiam dormir, se ergueram na cama e começaram a desancá-lo, batendo-lhe impiedosamente.

O que fiz eu? - gritou ele, enrolando-se numa posição defensiva e protegendo as virilhas, onde a enorme erecção sucumbira como um odre de vinho vazio.

Elas estavam ansiosas por contar-lho - as duas ao mesmo tempo. No entanto, ele recordava agora a razão para si mesmo; era conveniente, pois as duas a gritar ao mesmo tempo tornavam a explicação incompreensível. Metróbio, que um raio lhe coma os olhos! Oh! Mas que olhos! De um tom escuro líquido como azeviche polido, orlados de pestanas negras tão compridas que podiam enrolar-se à volta de um dedo. Uma pele que mais parecia de nata, caracóis pretos soltos sobre os ombros magros e o traseiro mais encantador do mundo. Tinha catorze anos de idade e era Milenar no vício, o aprendiz do velho Cílax, o actor - e um safado, um tormento, um prostituto, um tigrezinho.

De um modo geral, ultimamente Sila preferia as mulheres, mas Metróbio era um caso à parte. O rapaz viera à festa com Cílax, vestido de Cupido da Vénus vermelha de Cílax, com um ridículo par de asas preso às costas e uma saia minúscula de cardaço de Quios em torno da cintura, tingida com uma imitação barata de açafrão que desbotara um pouco, porque a sala estava totalmente fechada e havia um Calor abafado, deixando-lhe marcas de amarelo-alaranjado entre as coxas, o que servia apenas para chamar a atenção para o que se encontrava ali escondido, mas de rabo de fora.

Desde o primeiro olhar fascinara Sila, e Sila havia-o fascinado. Quantos mais homens no mundo tinham a pele tão alva como a neve e os cabelos da cor do sol nascente e olhos tão claros que eram quase brancos Para não falar de um rosto que lançara o pânico em Atenas há uns anos, quando um Emílio que ficara incógnito passara clandestinamente o jovem Sila, pobre e de dezasseis anos, num barco para Patras, e gozara dos seus favores durante todo o trajecto até Atenas pela estrada mais comprida ao longo da costa do Peloponeso.

Em Atenas, Sila foi posto logo na rua; aquele Emílio era demasiado importante para ter qualquer mancha ligada à sua masculinidade Os Romanos desprezavam a homossexualidade; os Gregos consideravam-na a forma mais elevada de amor. Por isso, o que uns ocultavam por medo e pavor, os outros pavoneavam à vista dos seus deslumbrados semelhantes. Para Sila, no entanto, cedo se provou que uns não eram melhores que os outros, pois não havia dúvida nenhuma de que o medo e o pavor implicavam um certo picante - e muito mais licenciosidade. Os Gregos, como aprendeu bem depressa, tinham relutância em pagar por aquilo de que podiam facilmente desfrutar sem despesas, mesmo quando o prémio era tão raro como um Sila. Por isso, fez chantagem com Emílio para obter uma passagem de primeira classe para Roma, e deixou Atenas para sempre.

É claro que o estado adulto mudara tudo. Desde que a barba lhe crescera o suficiente para ter de se barbear todos os dias e lhe nascera no peito um tufo de pêlos ruivos, a sua atracção pelos homens desaparecera - e com ela, a licenciosidade. As mulheres, como veio a descobrir, eram mais tolas e tinham uma ânsia de estabilidade que as tornava presa fácil de explorar. Em criança, nunca conhecera muitas mulheres, pois a mãe morrera antes de ele ter idade suficiente para formar uma recordação que pudesse guardar no seu íntimo, e o pai, um bêbedo arruinado, pouco ligava à prole. Sila tinha uma irmã dois anos mais velha, Cornélia Sila; de aspecto igualmente espectacular, não deixara fugir a hipótese de casamento com um camponês rico do Piceno, chamado Lúcio Nónio, e partiu para o Norte na companhia dele, para gozar o possível luxo que a vida no Piceno lhe poderia oferecer. Isso fez com que Sila, de dezasseis anos, tivesse de tomar conta do pai sem qualquer auxílio, o que afectara a qualidade das suas vidas, principalmente ao nível da limpeza.

Quando Sila fez vinte e quatro anos, o pai tornou a casar. Não foi o acontecimento social do ano mas trouxe algum alívio ao jovem, que durante anos se habituara a ter de arranjar dinheiro para saciar a inesgotável sede do pai. Com efeito, a nova esposa deste (chamada Clitumna, camponesa da Umbria por nascimento) era viúva de um comerciante riquíssimo e conseguira herdar todos os bens do falecido destruindo o testamento e mandando a sua filha única para a Calábria, casando-a com um vendedor de azeite.

O que viu Clitumna no decadente Sila sénior nunca o filho conseguiu compreender; até que Clitumna o convidou para compartilhar a sua espaçosa cama no Gérmalo do Palatino, e rapidamente saltou da cama do novo marido para entrar na do jovem Sila. Nesse momento ele descobriu que ainda ardia em si uma pequena faísca de lealdade e afecto pelo importuno pai, dado que se desenvencilhou de Clitumna com o maior tacto possível e se foi embora rapidamente.

Conseguira poupar algum dinheiro e descobriu dois quartos numa enorme ínsula no Esquilino, perto do Agger, por uma renda que o seu pecúlio dava à justa para pagar: seis mil sestércios por ano. Isto proporcionava-lhe um quarto para ele e outro onde o seu servo dormia e cozinhava, para além do trabalho de lavandaria de uma rapariga que vivia dois andares acima no edifício a desfazer-se, e fazia todos os tipos de serviços a vários inquilinos. Uma vez por semana, ela levava a roupa suja pela álea até ao lugar onde uma encruzilhada fazia alargar o labirinto de ruas numa praça pequena e irregular; aí havia um sacrário de encruzilhada, uma sala onde se reunia a associação de vigilância do altar do deus das encruzilhadas e uma fonte que vertia um fio de água pela boca de um velho e feio Sileno para dentro de um tanque com fundo de pedra, doado à cidade um dos muitos por esse grande velho historiador, Catão, o Censor, um homem tão prático como humilde fora o seu nascimento. Lutando para ganhar espaço, ela batia as túnicas de Sila nas pedras, pedia o auxílio de outra lavadeira para espremer as roupas até ficarem secas fazendo o mesmo serviço à companheira), e a seguir levava-lhe a roupa cuidadosamente dobrada. O preço era modesto: uma rápida entrada-por-saída e sem que ninguém soubesse, especialmente o velho passarão irascível que vivia com ela.

Foi então que conheceu a bela Nicópole. Cidade da Vitória, era o que significava o nome no seu grego materno. E certamente para Sila era isso mesmo, visto que era viúva, vivia bem e estava doida por ele. O único problema era que, embora de bom grado o sustentasse com prodigalidade, era demasiado esperta para lhe dar uma mesada. Como reconheceu Sila com tristeza, era gémea da sua madrasta Clitumna. As mulheres eram loucas, mas umas loucas inteligentes. Ou então ele é que era demasiado transparente.

Dois dias depois de se ter mudado da esplêndida casa de Clitumna, o pai morreu, tendo-se empanturrado de felicidade perfeita até acabar com uma doença de fígado; e se tivesse sido ele o preço que Clitumna estava disposta a pagar para lhe apanhar o filho, este ardil acabara por resultar, especialmente depois de Sila ter descoberto que Clitumna não se opunha de modo nenhum a partilhar os seus favores e a sua cama com Nicópole, a devassa grega. Os três iniciaram uma relação agradável na casa do Palatino, mas que tinha um elemento perturbador: o fraco de Sila por rapazinhos. Não era grave, segundo garantiu às duas mulheres; não gostava dos inocentes, não desejava seduzir os filhos dos senadores que iam fazer exercícios ao Campo de Marte, esgrimindo com espadas de madeira e saltando em cima de almofadas albardadas como se fossem cavalos verdadeiros. Não. Sila gostava de prostitutos, bonitos rapazes profissionais, prontos para o que desse e viesse; a verdade é que eles o faziam recordar-se de si próprio quando tinha a mesma idade.

Mas como as duas mulheres detestavam os prostitutos e por, apesar dos seus apetites sexuais, continuar a ser muito homem, resistia aos seus ímpetos nesse sentido para manter a harmonia doméstica, ou então procurava saciar-se muito longe do alcance dos olhos de Clitumna e Nicópole. Isto até à véspera de Ano Novo, as últimas horas do consulado de Públio Cornélio Cipião Nasica e Lúcio Calpúrnio Béstia, as horas derradeiras antes do início do consulado de Marco Minúcio Rufo e Espúrio Postúmio Albino. A véspera de Metróbio, assim se podia chamar, no que dizia respeito a Clitumna e Nicópole.

Os três adoravam teatro, mas não as coisas intelectuais de Sófocles, Esquilo e Eurípedes, com todas aquelas máscaras e gemidos vibrantes e a poesia empolgada. Não. Eles gostavam da comédia - das chalaças e risinhos abafados em latim de Plauto, Névio e Terêncio, e, acima de tudo, da imbecilidade simples e sem máscaras da pantomima, com as suas prostitutas nuas, tolos desajeitados, peidos bem sonoros, piadas encadeadas, enredos inverosímeis feitos no momento a partir de repertórios tradicionais. Margaridas altas espetadas em traseiros que se saracoteavam; o movimento de um dedo valia mais que mil palavras; sogros vendados que tomavam tetas por melões maduros; todos os adultérios eram desvairados e os deuses bêbedos - nada era sagrado no reino de Mimo.

Eram amigos de todos os actores e directores de comédias em Roma. Festa que dessem não prestava se não estivesse presente uma multidão de ”nomes”. Para eles, o teatro trágico não existia - e nisso eram verdadeiros Romanos, que os Romanos adoravam acima de tudo uma boa gargalhada.

Assim, para a festa da véspera de Ano Novo foram convidados Cílax, Astera, Milão, Pédocles, Dafne e Mársias. É claro que foi um baile de máscaras; Clitumna delirou com a fantasia, tal como Nicópole, e Sila gostava de personificações femininas de um certo tipo: em que o espectador se pode rir das palhaçadas de um homem desinibido a fazer troça das mulheres.

Sila vestira-se da Górgona Medusa, com uma peruca de cobras vivas que fazia a sala inteira gritar de medo cada vez que ele baixava a cabeça ameaçando avançar, e um grande volume flutuante de pregas de cardaço de Quios que evidenciavam demasiado a sua cobra maior. A madrasta apareceu fantasiada de macaco, o que implicava ter de fazer cabriolas e coçar-se, metida num casaco felpudo e com as nádegas pintadas de azul. Bastante mais ortodoxa por ser mais bonita do que Clitumna, Nicópole viera vestida de Diana dos Bosques, expondo as pernas compridas e esguias e os seios perfeitos enquanto saltava, fazendo as flechas da aljava bater ao ritmo da música de gaitas, sinos, liras e tambores.

A festa começou num ritmo alegre. Sila, no seu trajo de cobras, teve um êxito inegável, mas Clitumna, o Macaco, era a mais cómica. O vinho corria; os risos e gritos ecoavam pelo jardim do peristilo nas traseiras da casa e punham doidos os vizinhos conservadores, muito antes que a véspera de Ano Novo desse lugar ao próprio dia. O último convidado a chegar foi Cílax, que entrou portas adentro a baloiçar no alto de umas sandálias altas com solas de cortiça, com uma peruca loura, enormes tetas avolumando a esplendorosa toga, e maquilhado como uma prostituta velha. Pobre Vénus! A seu reboque, como Cupido, vinha Metróbio.

A cobra maior de Sila lançou uma olhada e ergueu-se em menos de um segundo, o que não agradou nem ao Macaco nem à Diana dos Bosques Nem a Cílax E então, seguiram-se cenas delirantes como as que animam uma farsa ou uma pantomina um rabo azul a tremelicar, uns seios nus a tremelicar, uma peruca loura a tremelicar, uma cobra maior a tremelicar e um rapaz coberto de penas a tremelicar A culminar no maior tremelique de todos, que era Metróbio e Sila gozando uma pequena sodomia a um canto que tinham imaginado ser mais escondido do que era de facto

Sila sabia de antemão que estava a cometer um erro terrível, mas não lhe serviu de nada Mal viu a tinta a escorrer daquelas pernas sedosas e o comprimento das pestanas que encobriam aqueles olhos brilhantes, negros como a noite, Sila ficou derrotado, envolvido, irremediavelmente conquistado E quando passou a mão através da saia pregueada que o rapaz usava e a levantou apenas o suficiente para ver como eram belos e pelados e morenos os dotes por baixo dela, nada no mundo poderia impedi-lo de fazer o que fez puxar o rapaz para um canto por detrás dum grande pufe e possuí-lo

A farsa quase se transformou em tragédia Clitumna pegou numa taça rara de vidro de Alexandria, partiu-a e atirou-se com unhas e dentes à cara de Sila Após o que Nicópole foi direita a Clitumna com um jarro de vinho e Cílax se dirigiu a Metróbio com uma das suas sandálias altas de solas de cortiça Todos os outros pararam, divertindo-se a observar, encantados. Felizmente, Sila não estava suficientemente bêbedo para ter perdido as suas excelentes capacidades físicas, e por isso tratou-os com brusquidão e dureza deu a Cílax um soco num olho demasiado pintado, que o deixou negro durante um mês, atirou as pontas aguçadas de uma aljava de flechas às longas pernas descobertas de Diana e deitou Clitumna sobre os joelhos, tornando-lhe as nádegas tão escuras como a tinta azul que as cobria. Depois, deu ao rapaz um prolongado beijo na boca em sinal de agradecimento e retirou-se para a cama em estado de grande enjoo

Só na madrugada do dia de Ano Novo é que Sila percebeu o que o preocupava. Não era a farsa Nem sequer a comédia. Era uma tragédia tão estranha e terrivelmente imbricada como as que Sófocles alguma vez imaginara acerca do grotesco dos deuses e dos homens, no seu pior estado de desespero. Hoje, dia de Ano Novo, era o aniversário de Sila. Fazia exactamente trinta anos E então, já sem sinais da sua Medusa da noite anterior, voltou-se para olhar as duas mulheres que berravam e regateavam em cima da cama e fitou-as com tanta frieza e dor e ódio que elas ficaram logo mudas como pedras e se sentaram, incapazes de se mexer enquanto ele vestia uma túnica branca lavada e o escravo lhe colocava a toga, peça de vestuário que não usava há anos, excepto para ir ao teatro. Só quando ele saiu é que as duas mulheres conseguiram mover-se, e então olharam uma para a outra e choraram lágrimas ruidosas; não pela sua dor mas Pela de Sila, que ainda nem tinham começado a compreender.

A verdade é que Lúcio Cornélio Sila, hoje com trinta anos, estava a viver uma mentira. Sempre vivera uma mentira. O mundo em que vivera durante trinta anos - um mundo habitado por bêbedos e mendigos, actores e prostitutas, charlatães e homens libertos - não era de modo nenhum o seu mundo.

Roma estava cheia de homens com o apelido Cornélio. Mas haviam recebido esse apelido porque um pai ou um avô ou qualquer ascendente tinha pertencido - como escravo ou camponês - a um patrício da alta aristocracia chamado Cornélio. Quando esse patrício Cornélio os emancipava do vínculo em honra de qualquer casamento, nascimento ou funeral, ou então porque havia sido poupado nos soldos o preço da liberdade, recebiam o nome dele e, por conseguinte, também se tornavam Cornélios. Todos esses Cornélios eram clientes de algum Cornélio patrício, visto que estavam em dívida para com ele devido à cidadania que tinham adquirido com o nome.

Exceptuando Clitumna e Nícópole, as pessoas que Lúcio Cornélio Sila conhecia deduziam que ele era um desses Cornélios, o filho ou neto da algum Cornélio escravo ou camponês, com a sua tez de bárbaro, muito mais plausível num escravo do que num camponês. Afinal, havia nobres patrícios chamados Cornélio Cipião e Cornélio Lêntulo e Comélio Mérula, mas quem alguma vez ouvira falar de um patrício chamado Cornélio Sila? Ninguém sabia o que significava a palavra ”Sila”!

Mas a verdade é que Lúcio Cornélio Sila, inscrito pelos censores de acordo com as suas posses entre os capite censi, a grande massa de Roma, que não possuía bens absolutamente nenhuns, era afinal um nobre patrício, filho de um nobre patrício, neto de um nobre patrício e por aí fora, passando por todas as gerações que remontavam aos tempos que antecediam a própria fundação de Roma. As suas origens tornavam Sila eminentemente elegível para a glória total da ascensão política, o cursus honorum. Por nascimento, estava ao seu alcance o consulado.

A sua tragédia residia na penúria, na incapacidade por parte do pai de prover tanto os meios como os bens necessários para integrar o filho nem que fosse na mais baixa das cinco classes económicas; tudo o que o pai lhe legara fora a pura e simples cidadania. Não estava destinada a Sila a faixa púrpura no ombro direito da túnica - nem a estreita dos cavaleiros nem a larga dos senadores. Havia pessoas que o conheciam, e ao ouvi-lo dizer que pertencia à tribo Cornélia troçavam dele. Imaginando que as suas origens remontavam à escravatura, sabiam muito bem que nesse caso a sua tribo teria de ser a Esquilina urbana ou a Suburana urbana. Porque a Cornélia rural era das quatro mais antigas das trinta e cinco tribos romanas, e não contava com membros dos capite censi.

No seu trigésimo aniversário, Síla deveria estar prestes a entrar para o Senado - quer como questor eleito aprovado pelos censores, quer por direito próprio adquirido pelo nascimento, nomeado pelos censores sem que fosse necessário ser eleito.

Mas em vez disso, não passava de um joguete sustentado por duas mulheres ordinárias, e não havia no mundo qualquer esperança de vir a ter poder sobre o tipo de sorte que lhe permitisse exercer o direito de primogenitura. O ano seguinte era ano de nomeações - Oh! Poder apresentar-se no tribunal dos censores no Fórum Romano e mostrar-lhes a prova de que possuía bens que lhe davam um rendimento de um milhão de sestércios por ano! Era o mínimo para um senador. Ou mesmo bens que lhe rendessem quatrocentos mil sestércios por ano! Era o mínimo para ser cavaleiro. Mas na realidade, não possuía nada e os seus rendimentos nunca haviam excedido os dez mil sestércios ao ano, nem mesmo agora que era sustentado por mulheres. A definição de pobreza abjecta em Roma era a impossibilidade de possuir um escravo, e isso significava que tinha havido alturas na vida de Sila em que fora pobre de maneira abjecta. Ele, um Cornélio patrício.

Durante os dois anos de corajosa provocação em que vivera na ínsula do Esquilino, perto do Agger, fora obrigado a arranjar trabalho no cais do porto de Roma, abaixo da Ponte de Madeira; carregara ânforas de vinho e esvaziara arcas de trigo para manter o escravo que mostrava ao mundo que Lúcio Cornélio Sila não era abjectamente pobre. Porque à medida que envelhecia, aumentava também o seu orgulho - ou antes, a consciência da sua profunda humilhação. Nunca havia sucumbido ao anseio de ter um emprego fixo, aprender um ofício numa fundição ou numa oficina de carpinteiro, ou tornar-se escriba, ser secretário de um comerciante ou copiar manuscritos para uma casa editora ou biblioteca. Quando um homem trabalhava no cais ou nos jardins do mercado ou em qualquer projecto de construção, ninguém perguntava nada; quando ia para o mesmo local de trabalho todos os dias, todos faziam perguntas. Sila nem podia alistar-se no exército para isso também era necessário possuir bens. Autorizado a chefiar um exército devido ao seu nascimento, Sila nunca havia manejado uma espada, nunca montara a cavalo ou atirara uma lança, nem mesmo nos campos de treino e recintos de exercícios que rodeavam a Villa Pública, no Campo de Marte. Ele, um Cornélio patrício. Se tivesse recorrido a algum Cornélio patrício, seu parente mais afastado, talvez a concessão de um empréstimo avultado lhe tivesse resolvido a situação. Mas o orgulho que afinal tinha estômago para ser sustentado por mulheres ordinárias impedia-o de fazê-lo. Porque já não existiam Cornélios patrícios do ramo Sila, havia apenas Cornélios afastados, e indiferentes à sua lamentável situação. Preferia não ser ninguém e não ser dono de ninguém a ser alguém e ter de resmungar sob o peso das obrigações de clientela que implicava um empréstimo pesado. Ele, um Cornélio patrício.

Quando saiu, precipitando-se pela porta da casa da madrasta, não fazia a menor ideia do local para onde se dirigiria. Queria apenas respirar um pouco de ar puro, desanuviar a angústia a caminhar. Clitumna escolhera um local estranho para viver, dadas as suas origens: uma rua de advogados de sucesso, senadores de segunda ordem e cavaleiros de rendimentos médios, demasiado abaixo no Gérmalo do Palatino para poderem desfrutar da vista, mas apesar de tudo convenientemente perto do centro político e comercial da cidade, o Fórum Romano, e das suas capelas, mercados e colunatas circundantes. Era evidente que Clitumna gostava da segurança do lugar, longe da ansiedade e do crime da Subura, mas as suas festas ruidosas e amigos duvidosos tinham sido o motivo de muitas delegações iradas dos vizinhos, que preferiam a paz e o sossego. De um lado, tinha Tito Pompónio, prosperíssimo banqueiro mercador e director de uma companhia, e do outro vivia Caio Júlio César, um senador.

Na verdade, não se viam com muita frequência. Essa era uma das vantagens (ou inconvenientes, vendo a questão de outro ponto de vista) das casas que davam para dentro, com as paredes exteriores desprovidas de janelas e um pátio central: o jardim do peristilo - protegido dos vizinhos pelos quartos, que o rodeavam completamente. Mas não havia dúvida de que quando as festas de Clitumna se expandiam da sala de jantar para o jardim do peristilo, a cacofonia penetrava muito para além dos limites da sua propriedade, transformando-a na pior praga do bairro.

A aurora despontara. À sua frente, Sila podia ver as mulheres de Caio Júlio César num passo vivo em cima das altas solas de cortiça e dos saltos ainda mais altos dos seus sapatos de Inverno, com os pezinhos elevados acima da água das estrumeiras. ”Vam ver a cerimónia de tomada de posse”, pensou ele, afrouxando o passo e observando as formas delas sob a roupa justa, com a apreciação inconsciente de homem de impulsos sexuais poderosos e penetrantes. A mulher era uma Márcia, filha do construtor do Aqueduto Márcio, e não passava muito dos quarenta. Ainda elegante e bem cuidada, alta, era uma senhora morena com uma beleza acima da média. No entanto, não podia rivalizar com as filhas. Estas eram verdadeiras Júlias, umas beldades loiras, embora na opinião de Sila os louros coubessem à mais nova. Porque de tempos a tempos as via sair para o mercado, onde iam fazer compras com os olhos; as bolsas, tanto quanto ele sabia, eram tão magras como os corpos. Era uma família que só por um triz se mantinha senatorial. O cavaleiro Tiro Pompónio, o outro vizinho de Clitumna, era muitíssimo mais abastado.

O dinheiro: governava o mundo. Sem ele, um homem não era nada. Por isso, quando um homem se elevava a uma posição onde pudesse deitar mão a qualquer hipótese de enriquecer, não admirava que o fizesse sempre. Para se enriquecer através da política, tinha de se assegurar a eleição como pretor; a fortuna fazia-se nesse momento, os anos de grandes despesas acabavam por auferir dividendos. Porque o pretor iria governar uma província, e aí era um deus, podia servir-se à vontade do erário. Se possível, travava uma pequena guerra contra qualquer tribo bárbara confinante, levava o ouro e os tesouros sagrados, vendia os cativos como escravos e amealhava os lucros. Mas se as perspectivas de guerra fossem sombrias, existiam sempre outras vias: podia negociar cereais e outras mercadorias principais, podia emprestar dinheiro a taxas de juro exorbitantes (e usar o exército para cobrar os juros, se necessário), falsificar os livros de contas depois de recebidas as taxas, racionar a atribuição das cidadanias romanas subindo-lhes o preço, receber honorários ilícitos pelo que quer que fosse, desde a promulgação de contratos governamentais até à isenção do tributo de uma cidade em relação a Roma.

Dinheiro. Mas como arranjá-lo? Como era possível obter o necessário para entrar para o Senado? Sonhos, Lúcio Cornélio Sila! Sonhos!

Quando as duas mulheres de César viraram à direita entrando no Clivus Victoriae, Sila ficou a saber para onde se dirigiam. Para a área Flacciana, o local da casa de Flaco. Na altura em que Sila parou na rua acima da rampa íngreme, coberta da erva fraca de Inverno, as senhoras Julianas estavam a sentar-se em tamboretes desarmáveis, e um sujeito com ar trácio que conduzira a escolta de escravos afanava-se a montar uma tenda aberta à frente para abrigar a sua ama da chuva, que caía com força considerável. As duas Júlias, reparou Sila, passaram pouquíssimo tempo sentadas ao pé da mãe: quando ela começou a falar com a mulher de Tiro Pompónio, grávida em fim de tempo, pegaram nos tamboretes e abalaram para o lugar onde as raparigas de Cláudio Pulcro estavam sentadas a uma distância razoável das mães. As mães? Ah! Licínia e Domícia. Ele conhecia muito bem as duas mulheres, pois tinha conseguido dormir com ambas. Sem olhar para a direita nem para a esquerda, desceu a encosta até ao local onde se encontravam.

- Minhas senhoras - disse, inclinando a cabeça -, que dia horrível! Todas as mulheres da colina sabiam quem era ele - um aspecto dolorosamente interessante da situação de Sila. Os seus amigos da canalha pensavam que era um deles, mas a nobreza romana não cometia o mesmo erro. Eles sabiam que Sila era genuíno! Eles conheciam a sua história e a sua ascendência. Uns eram levados a lamentá-lo, enquanto outros, poucos, como Licínia e Domícia, se divertiam sexualmente com ele, mas ninguém o ajudava.

O vento soprava de Nordeste e trazia consigo um cheiro ácido de fogo apagado, uma mistura de odores de carvão molhado, tília queimada, e corpos apodrecidos enterrados aos milhares. No Verão anterior, todo o Viminal e a parte alta do Esquilino haviam sido destruídos pelas chamas, fora o pior incêndio de que alguém em Roma tinha memória. Cerca de um quinto da cidade ardera antes que a populaça reunida tivesse conseguido demolir uma área bastante vasta de edifícios para cortar o caminho às chamas através das ínsulas divididas em habitações apinhadas da Subura e do baixo Esquilino; o vento e a extensão da Via Longa tinham evitado a sua passagem para o pouco povoado Quirmal exterior, a colina mais setentrional dentro das Muralhas Sérvias.

Embora já tivesse passado meio ano desde o fogo, a partir do local onde Sila se encontrava, no espaço vazio da casa de Flaco, a horrível cicatriz cobria os montes até à distância de mil pés a seguir ao Mercado, uma milha quadrada de solo enegrecido, de prédios meio destruidos, de desolação. Ninguém sabia ao certo quantas pessoas tinham morrido. De qualquer modo, foram as suficientes para que deixasse de haver falta de habitação nos tempos que se seguiram. Por isso a reconstrução era lenta; apenas aqui e ali se erguiam andaimes de madeira de cem pés e mais, sinal de que uma nova ínsula de vários apartamentos ia engordar a bolsa de algum senhorio citadino.

Imensamente divertido, Sila pressentiu a tensão de Licínia e Domícia no momento em que repararam em quem estava a cumprimentá-las; por nada deste mundo iria mostrar-se reconhecido e deixá-las em paz. Que sofressem, porcas tolas! - Cada uma delas saberá que dormi com a outra?

- interrogou-se, e achou que não. O que deu um delicioso toque picante ao encontro. Sem deter os olhos, observou os olhares disfarçados que dirigiam uma à outra e às poucas mulheres como Márcia que partilhavam o lugar com elas. Oh! Márcia, não! Pilar de rectidão! Monumento de virtude!

- Foi uma semana terrível - disse Licínia numa voz muito aguda, fixando as colinas queimadas.

- Sim - disse Domícia aclarando a garganta.

- Fiquei aterrorizada - balbuciou Licínia. - Vivíamos nas Carinas na altura, Lúcio Cornélio, e o fogo cada vez se aproximava mais. Naturalmente, logo que se extinguiu, convenci Ápio Cláudio a mudar-se para este lado da cidade. Em parte nenhuma se está livre de um incêndio, mas não há dúvida de que é melhor ter o Fórum e o pântano entre nós e a Subura!

- Foi lindo - disse Sila, recordando com passara todas as noites daquela semana no topo da Escadaria de Vesta, imaginando que aquilo que via em toda a sua monstruosa glória era uma cidade inimiga após um saque, e ele o general romano que o ordenara. - Lindo! - repetiu.

O modo maldoso como pronunciou a palavra fez Licínia olhar contra vontade para a cara dele, e o que viu fê-la afastar os olhos muito depressa, e arrepender-se amargamente de alguma vez se ter posto sob o domínio deste homem. Além de ser demasiado perigoso, Sila não era muito bom da cabeça.

- No entanto, há males que vêm por bem - prosseguiu ela de modo brilhante. - Os meus primos Públio e Lúcio Licínio compraram muitos dos terrenos desocupados depois do incêndio. Dizem que o seu valor deve aumentar muito nos próximos anos.

Ela era dos Licínios Crassos, dos milionários de longa data. Porque não conseguia ele arranjar uma noiva rica, como Ápio Cláudio Pulcro fizera? É simples, Sila! Porque nenhum pai ou irmão ou tutor de uma rapariga nobre alguma vez consentiria em tal casamento.

O seu prazer em falar com as mulheres desvaneceu-se; sem uma palavra, deu meia volta e subiu a colina a passos largos em direcção ao Clivus Victoriae. As duas Júlias, como reparou ao passar, tinham sido chamadas à ordem e estavam sentadas ao lado da mãe, protegidas pela tenda. Deixou os seus olhos estranhos percorrê-las como flechas, pondo de parte ajúlia Mais Velha, mas demorando-se de forma apreciativa najúlia Mais Nova. Deuses, era linda! Um bolo de mel embebido em néctar, um prato digno do Olimpo. Sentiu uma dor no peito e esfregou por debaixo da toga para fazê-la passar. Mas não deixou de reparar que ajúlia Mais Nova tinha virado o tamborete para poder observá-lo até o perder de vista.

Desceu a Escadaria de Vesta indo dar ao Fórum Romano e subiu o Clivus Capitolinus até chegar às últimas filas da multidão agrupada em frente do templo de Júpiter Optimus Maximus. Um dos seus talentos peculiares era a capacidade de fazer arrepiar de inquietação as pessoas que o rodeavam, de modo que se afastassem da sua vizinhança; usava-a acima de tudo para apanhar um bom lugar no teatro, mas agora o seu talento servia-lhe para abrir caminho até ao início da multidão de cavaleiros, onde ficou a desfrutar de uma vista perfeita do lugar do sacrifício. Apesar de não ter direito a estar ali, sabia que ninguém iria expulsá-lo. Poucos cavaleiros sabiam quem era ele, e mesmo entre os senadores havia caras que não lhe eram familiares, mas conheciam-no bastantes homens presentes, e isso assegurava que a sua presença seria tolerada.

Havia coisas que o isolamento da corrente principal da vida pública dos nobres não podia erradicar; talvez, ao fim de tantas gerações - mil anos de gerações - estivessem de facto no sangue, pequenos sinos dobrando a finados de ruína ou desgraça. Por sua livre vontade, nunca se preocupara em seguir os acontecimentos políticos no Fórum Romano, tendo concluído que era melhor ser ignorante do que desgastar-se para levar uma vida que não podia ter. E, no entanto, parado à frente das fileiras de cavaleiros, sabia que ia ser um mau ano. O sangue dizia-lhe que ia ser outro dos que se haviam revelado um grande número de anos maus, desde que Tibério Semprónio Graco fora assassinado, e, dez anos depois, o seu irmão Caio Graco obrigado a pôr termo à própria vida. Os cavaleiros haviam aparecido subitamente no Fórum, e a sorte de Roma fora destruída.

Era quase como se Roma estivesse a degenerar, a necessitar de uma lufada de ar puro na política. ”Um ajuntamento”, pensou ele, varrendo com o olhar as fileiras de homens medíocres e insignificantes. Estavam ali homens, meio adormecidos e de pé apesar da fria chuva miudinha, que haviam sido responsáveis pela morte de mais de trinta mil valiosos soldados romanos e italianos em menos de dez anos, a maioria deles em nome da avidez pessoal. De novo o dinheiro. Dinheiro, dinheiro, dinheiro. Embora o poder também estivesse em causa. Nunca se devia esquecer ou subestimar o poder. Qual comandava o outro? Qual era o meio e qual era o fim? Devia depender dos indivíduos. Mas em que parte deste triste grupo estavam os grandes, aqueles que iriam engrandecer Roma em vez de empobrecê-la?

O touro branco estava a portar-se mal. Não era caso para grande admiração, vendo os cônsules do ano. ”Eu”, pensou, ”é que não colocava de bom grado o meu pescoço branco debaixo do cutelo em honra do Espúrio Postúmio Albino, por mais patrício que seja. E onde obtiveram eles o dinheiro?” Então, lembrou-se: Os Postúmios Albinos casaram-se sempre com o dinheiro. Malditos.

O sangue começou a jorrar. Havia muito sangue dentro de um touro adulto. Que desperdício. Energia, poder, uma força de Hércules. Mas com uma cor lindíssima, de um carmesim bem rico, liso e no entanto espesso, correndo monte abaixo por entre os pés. Fascinava-o; não conseguia deixar de olhar. Tudo o que transbordava de energia teria de ter sempre uma coloração avermelhada? O fogo, o sangue, os cabelos - os seus cabelos. O pénis. Os sapatos senatoriais. Os músculos. O metal fundido. A lava...

Era altura de se ir embora. Mas ir para onde? Ainda cheios da visão de tanto sangue, os seus olhos ao erguerem-se foram deparar-se com o olhar desafiador de um senador alto, vestido com a toga praetexta dos senadores magistrados. Era incrível! Ali estava um homem! Mas quem seria? Não era parecido com nenhuma das Famílias Importantes; embora isolado daquela espécie, Sila conhecia infalivelmente os seus traços físicos.

Quem quer que fosse o sujeito, certamente não pertencia a uma Família Importante. Por uma razão: o nariz indicava que tinha uma costela celta; era demasiado curto e direito para ser de um Romano puro. Seria então Piceno? E que sobrancelhas gigantescas! Outro traço celta. A sua cara tinha duas cicatrizes de combate, mas nenhuma o desfigurava. Sim, um cliente formidável, violento, altivo e inteligente. Uma águia real.

Quem seria? Não era ex-cônsul; esses, Sila conhecia todos os vivos, por mais velhos que fossem. Então, pretor. Não dos deste ano, no entanto, porque esses estavam reunidos atrás dos cônsules, com um ar imensamente importante e quase tão prometedor como uma rainha velha com um ataque de hemorróidas.

Aaaah! Sila voltou-se abruptamente e afastou-se a passos largos de tudo aquilo, incluindo o ex-pretor com semblante de águia. Era a altura de se ir embora. Mas para onde ir? Que outro destino tinha ele que não fosse o seu único refúgio, entre os corpos húmidos e envelhecidos da madrasta e da amante? Encolheu os ombros, fez um sorriso de desprezo. Havia destinos piores, lugares piores. ”Mas não,” disse uma voz no fundo da sua mente, ”para um homem que devia estar hoje a entrar para o Senado.”

O problema de ser um soberano ungido em visita à cidade de Roma era que não se podia atravessar o seu pomerium, o limite sagrado. Por isso Jugurta, Rei da Numídia, era obrigado a passar o dia de Ano Novo perdendo tempo a esperar em vão na villa alugada por um preço escandalosamente caro, nas encostas mais elevadas do monte Píncio, que dava para a enorme curva do Tibre envolvendo o Campo de Marte. O agente que lhe reservara a villa ficara encantado com o seu aspecto, a vista panorâmica do Janículo e do monte Vaticano, o relvado verde das duas pequenas planícies separadas pelo Tibre dos Campos de Marte e do Vaticano, a larga faixa azul do grande rio. De certeza que não havia na Numídia rios do tamanho do velho Pai Tibre, gaguejara o agentezeco presunçoso, dissimulando ao mesmo tempo o facto de estar ao serviço de um senador que professara lealdade eterna à causa da Numídia, e no entanto ansioso por fechar um negócio para a sua villa que lhe permitisse comprar um bom abastecimento das mais caras enguias de água doce para os meses seguintes. Porque pensariam eles que qualquer homem - para já não falar de um rei! - que não fosse romano era automaticamente parvo e ingénuo? Jugurta bem sabia a quem pertencia a villa, e também sabia muito bem que estava a ser roubado na renda; mas havia alturas e lugares para a franqueza, e Roma no momento em que ele fez o negócio da villa não era o lugar nem a altura certa para a tal franqueza.

Do sítio onde estava sentado na loggía em frente do vasto jardim do Peristilo, a vista era desimpedida. Mas para Jugurta, era um panorama estreito, e quando o vento soprava do lado certo, o fedor dos fertilizantes postos de noite nos jardins do mercado para lá do Campo de Marte e à volta da Via Recta era suficientemente forte para o fazer desejar ter escolhido outro local, algures perto de Bovilas ou Túsculo. Habituado às enormes distâncias da Numídia, considerava a viagem de quinze milhas de Bovilas a Roma uma insignificância. E - como de qualquer modo não podia entrar na cidade - de que lhe servia ficar alojado à distância bastante para poder cuspir sobre os seus limites sagrados?

Se se virasse a um ângulo de noventa graus, é claro que poderia ver as escarpas das traseiras do Capitólio e o outro lado do sólido templo de Júpiter Optimus Maximus - onde, nesse preciso momento, conforme os seus agentes lhe tinham explicado, os novos cônsules presidiam à primeira reunião senatorial do seu ano em funções.

Como se lidaria com os Romanos? Se o soubesse, já não seria o homem preocupado que só para consigo mesmo admitia ser.

No início, as coisas haviam parecido bastante simples. O seu avô fora o grande Masinissa, que criara o Reino da Numídia a partir dos escombros dispersos ao longo de duas mil milhas da costa africana devido à derrota romana em Cartago. Primeiro, a aquisição de poder de Masinissa em seu proveito tivera a clara conivência de Roma; embora mais tarde, quando ele se havia tornado incomodamente poderoso e o sabor púnico da sua organização fizera Roma especular sobre o aparecimento de uma nova Cartago, Roma se tivesse de certo modo virado contra ele. Felizmente para a Numídia, Masinissa morrera na altura certa, e, sabendo bem que um rei forte é sempre sucedido por um fraco, deixou que a Numídia fosse dividida por Cipião Emiliano entre os seus três filhos. Cipião Emiliano era tão esperto! Não dividiu o território da Numídia em três; em vez disso, dividiu as obrigações reais. O mais velho ficou com a custódia do tesouro e dos palácios; o do meio foi nomeado chefe militar da Numídia; e o mais novo herdou todas as funções ligadas à lei e à justiça. O que significava que o filho que tinha o exército não tinha dinheiro para fomentar a insurreição, o que tinha o dinheiro não tinha o exército para a insurreição, e o que tinha a lei do seu lado, não tinha nem dinheiro nem exército para se insurgir contra quem quer que fosse.

Antes de tempo e acumulando ressentimentos que mesmo assim podiam ter fomentado a insurreição, os filhos mais novos morreram, deixando o mais velho, Micipsa, a governar sozinho. No entanto, ambos os irmãos mortos haviam deixado filhos a complicar o futuro: dois legítimos e um bastardo chamado Jugurta. Um desses jovens ascenderia ao trono quando Micipsa morresse - mas qual? Então, já de idade avançada, Micipsa, até aí sem descendência, teve dois filhos, Adérbal e Hiêmpsal. Na corte fervilharam as rivalidades, pois a escala de idades de todos esses potenciais herdeiros estava exactamente ao contrário. Jugurta, o bastardo, era o mais velho de todos, e os filhos do rei em funções eram simples bebés.

O avô Masinissa desprezara Jugurta, não tanto por ser bastardo mas porque a mãe pertencia à raça mais humilde do reino: era uma rapariga nómada berbere. Micipsa herdara a aversão de Masinissa em relação a Jugurta, e quando reparou que este se transformara num indivíduo bem parecido e inteligente, arranjou maneira de eliminar o seu potencial contendor mais velho na ascensão ao trono. Cipião Emiliano pedira à Numídia o envio de tropas para o auxiliar no cerco à Numância, e por isso, Micipsa fez sair o seu exército sob o comando de Jugurta, pensando que este morreria em Espanha.

Mas tal não aconteceu. Jugurta partiu para a guerra demonstrando-se um guerreiro nato; para além de ter feito logo amigos entre os romanos, dois dos quais viria a prezar como os melhores e mais queridos que tinha. Eram os tribunos militares juniores ligados às hostes de Cipião Emiliano, e chamavam-se Caio Mário e Públio Rutílio Rufo. Tinham os três a mesma idade, vinte e três anos.

No final da campanha, quando Cipião Emiliano convocou Jugurta à tenda de comando com o intuito de proferir uma homilia aconselhando-o a tratar honradamente com Roma e não com quaisquer romanos em especial, Jugurta conseguiu manter um ar sério. Porque se o seu contacto com os romanos durante o cerco da Numância lhe ensinara alguma coisa acerca deles, uma era que quase todos os romanos que aspiravam a cargos públicos elevados tinham uma falta crónica de dinheiro. Ou por outras palavras, podiam ser facilmente comprados.

No seu regresso à Numídia, Jugurta levou uma carta de Cipião Emiliano para o Rei Micipsa. Elogiava tanto a coragem, o bom senso e a superior inteligência de Jugurta que o velho Micipsa afastou de si a aversão que herdara do pai. E pela mesma altura em que Caio Semprónio Graco morria no Bosque de Furrina, abaixo do monte Janículo, o rei Micipsa adoptou formalmente Jugurta e elevou-o ao estatuto de sénior entre os herdeiros ao trono da Numídia. Apesar disso, teve o cuidado de indicar que Jugurta nunca deveria ser rei, as suas funções eram simplesmente as de assumir a guarda dos filhos do próprio Micipsa, que agora entravam na adolescência

Pouco tempo depois de ter firmado estas disposições, o Rei Micipsa morreu, deixando dois herdeiros menores ao trono e Jugurta como regente. Mas no espaço de um ano, o filho mais novo de Micipsa, Hiêmpsal, foi assassinado por instigação de Jugurta, o mais velho, Adérbal, conseguiu escapar à trama de Jugurta e fugiu para Roma, onde se apresentou ao Senado exigindo que Roma resolvesse as questões da Numídia e retirasse a Jugurta toda a autoridade

- Por que teremos tanto medo deles? - perguntou Jugurta, saltando dos seus pensamentos e recordações para o momento presente, em que o véu de chuva miudinha varria os campos de exercícios e os jardins do mercado, obscurecendo completamente a distante margem do Tibre

Havia cerca de vinte homens na loggia, mas à excepção de um deles, eram todos guarda-costas Não eram gladiadores profissionais, mas sim os próprios homens de Jugurta da Numídia - na realidade, os mesmos que haviam trazido a Jugurta a cabeça do jovem Príncipe Hiêmpsal sete anos antes, e repetido a oferta cinco anos mais tarde com a cabeça do Príncipe Adérbal

A única excepção - o homem a quem Jugurta dirigira esta pergunta

- era um indivíduo corpulento com aspecto de semita, só um pouco mais baixo que Jugurta, sentado numa cadeira confortável ao lado do rei Uma pessoa de fora podia ter imaginado que seriam parentes consanguíneos próximos, e eram-no, embora fosse um facto que o rei preferia esquecer A desprezada mãe de Jugurta era uma simples rapariga nómada de uma tribo atrasada dos berberes Getulos, uma rapariga insignificante, que por um golpe do destino recebera uma cara e um corpo dignos de Helena de Tróia E a companhia do rei nesse triste dia de Ano Novo era o seu meio-irmão, filho da sua humilde mãe e do cortesão com quem o pai de Jugurta a havia casado por conveniência. Esse meio-irmão chamava-se Bomílcar, e era muito leal

- Por que teremos tanto medo deles? - voltou a perguntar Jugurta com maior insistência, mais desesperadamente.

Bomílcar suspirou

- Penso que a resposta é simples Tem um elmo de aço parecido com uma bacia voltada ao contrário e uma túnica vermelho-acastanhada coberta por uma longa cota de malha. Tem uma pequena espada ridícula, um punhal quase do mesmo tamanho e uma ou duas lanças de gume pequeno. Não é um mercenário. Nem sequer é pobre. É um militar romano. Jugurta resmungou, acabando por assentir.

- Essa é só uma parte da resposta, Bomílcar. Os soldados romanos não são imortais; também morrem.

- Custam muito a morrer - disse Bomílcar.

- Não. É mais que isso. Não entendo! Podes comprá-los como se compra pão na padaria, e por isso deveriam ser por dentro tão moles como o pão. Mas não são.

- Referes-te aos chefes?

- Os chefes. Os distintos Pais Conscritos do Senado. São totalmente corruptos! Por isso, deviam estar a apodrecer de decadência. Moles a ponto de se derreterem, imateriais. Mas não. São duros como pedras, frios como o gelo, subtis como um sátrapa dos Partos. Nunca desistem. Pegas num deles, amansa-lo até ficar totalmente servil, mas a seguir desaparece logo. Lidas sempre com uma cara diferente consoante as circunstâncias.

- Para não dizer que quando precisas de repente de um, não podes comprá-lo, não porque não tenha preço, mas porque não tens a quantia, seja ela qual for, e não estou a falar de dinheiro - disse Bomílcar.

- Odeio-os a todos - disse Jugurta entredentes.

- Também eu. Mas isso não nos livra deles, pois não?

- A Numídia é minha! - gritou o rei. - Eles nem a querem, como sabes! O que querem é interferir. Intrometer-se!

Bomílcar abriu os braços.

- Não mo perguntes, Jugurta, porque não sei. Tudo o que sei é que estás aqui em Roma, e que o resultado está nas mãos dos deuses.

”E está mesmo”, pensou o rei da Numídia, retomando os seus pensamentos.

Quando o jovem Adérbal fugira para Roma seis anos antes, Jugurta não teve dúvidas sobre o que havia de fazer, e fê-lo depressa. A caminho de Roma partiu um grupo de embaixadores seus carregados de ouro, prata, jóias, obras de arte, tudo o que pudesse corresponder às fantasias de um nobre romano. Era interessante que nunca se pudesse suborná-los com mulheres ou rapazes. Apenas com bens negociáveis. O resultado da empresa foi bastante satisfatório, dadas as circunstâncias.

Eram obcecados por comités e comissões, os Romanos, e nada lhes agradava mais do que enviar um pequeno grupo de oficiais aos confins mais remotos da Terra, para investigar, pontificar, adjudicar, melhorar. Quaisquer outros limitar-se-iam a marchar à frente de um exército, mas os romanos apareciam de toga, escoltados apenas por lictores, convocavam de emergência os soldados; começavam a transmitir ordens e esperavam que lhes obedecessem como se tivessem chegado ao comando de exércitos. E a maior parte das vezes obedeciam-lhes.

O que o levou de novo à primeira pergunta: por que teremos tanto medo deles? Porque temos. Lá isso temos. Mas porquê? Talvez por haver sempre um Marco Emílio Escauro entre eles?

Fora Escauro que havia impedido o Senado de decidir a favor de Jugurta, quando o jovem Adérbal foi queixar-se a Roma. Uma voz solitária num organismo de trezentos homens! No entanto, a voz solitária prevalecera, continuara a atormentá-los até que Jugurta conseguiu conquistar a simpatia deles para a sua posição. Fora Escauro que havia forçado um compromisso inaceitável tanto para Jugurta como para Adérbal: um comité de dez senadores romanos chefiados pelo cônsul Lúcio Opímio viajaria até à Numídia, e aí após investigações feitas no local decidiria o que fazer. E o que fez o comité? Dividiu o reino. Adérbal ficou com a parte Oriental tendo Cirta por capital. A Ocidental coube a Jugurta, que se viu entalado entre Adérbal e o Reino da Mauritânia. Contentes com a solução, os romanos regressaram a casa. Jugurta começou imediatamente a observar o seu rato Adérbal, à espera do momento para atacar. E para ficar protegido a oeste, casou com a filha do rei da Mauritânia.

Esperou pacientemente durante quatro anos, e depois atacou Adérbal e o seu exército entre Cirta e o porto marítimo. Derrotado, Adérbal voltou a Cirta e organizou a defesa, com o auxílio do grande e influente contingente de mercadores romanos e italianos que constituíam a espinha dorsal do sector de negócios da Numídia. Nada havia a estranhar na sua presença no país; onde quer que se fosse no mundo, encontrava-se um contingente de homens de negócios romanos e italianos dominando o sector comercial local, mesmo em lugares com poucas ligações com Roma e sem protecção.

Obviamente, as notícias da guerra entre Jugurta e Adérbal haviam chegado aos ouvidos do Senado em pouco tempo; o Senado respondeu enviando um comité de três encantadores jovens filhos de senadores (o que proporcionaria à geração mais nova uma experiência útil, dado que não havia nada realmente importante nesta questiúncula) para dar uma palmada de advertência na Numídia. Jugurta entrou primeiro em contacto com eles, manobrou-os para que não se encontrassem com Adérbal ou com os habitantes de Cirta, e mandou-os para casa carregados de presentes riquíssimos.

A seguir, Adérbal conseguiu fazer chegar uma carta a Roma, uma carta implorando auxílio; sempre do lado de Adérbal, Marco Emílio Escauro partiu logo para a Numídia, à frente de mais um comité de investigação. Mas tão perigosa era a situação que encontraram em África que se viram forçados a permanecer dentro dos limites da Província da África Romana, e por fim foram obrigados a voltar a Roma sem entrevistar qualquer dos rivais pretendentes ao trono nem influenciar o curso da guerra. Jugurta prosseguiu então, e conquistou Cirta. Compreensivelmente, Adérbal foi logo executado. Menos Compreensivelmente, Jugurta deu largas ao seu rancor em relação a Roma mandando executar sem excepção todos os homens de negócios romanos e italianos de Cirta: ao fazê-lo ultrajava Roma sem qualquer esperança de conciliação.

A notícia do massacre dos romanos e italianos residentes em Cirta chegara a Roma quinze meses antes, no Outono. E um dos tribunos eleitos da plebe, Caio Mémio, fez um alarido tão grande no Fórum que nenhum suborno de Jugurta chegaria para esconjurar a catástrofe. O cônsul eleito júnior Lúcio Calpúrnio Béstia foi convocado para ir à Numídia no início das suas funções, para mostrar a Jugurta que não podia exterminar romanos e italianos como muito bem lhe apetecesse.

Mas Béstia era um homem que podia ser subornado, e Jugurta subornou-o, pelo que seis meses antes conseguira negociar uma paz com Roma, e dera trinta elefantes de guerra a Béstia, bem como uma pequena oferta em dinheiro para o Tesouro de Roma e uma quantia muito maior, que não foi revelada, destinada aos cofres particulares de Béstia. Roma parecia ter ficado satisfeita; Jugurta era finalmente o rei incontestado de toda a Numídia.

Mas Caio Mémio, esquecido do facto de terem cessado as suas funções como tribuno da plebe, nunca mais se calara. Dia após dia, prosseguia a campanha para colocar toda a questão da Numídia sob a luz mais cruenta; dia após dia acusava Béstia de extorquir dinheiro a Jugurta em troca da ocupação do trono; e finalmente Caio Mémio alcançou o seu objectivo, que era forçar o Senado a agir. O Senado enviou para a Numídia o pretor Lúcio Cássio Longino, com instruções precisas para trazer o rei Jugurta em pessoa a Roma, onde seria obrigado a fornecer a Caio Mémio os nomes de todos os que tinha vindo a subornar ao longo dos anos. Se lhe tivessem pedido que respondesse perante o Senado, a situação não seria tão perigosa; mas Jugurta iria responder perante o Povo.

Quando Cássio, o pretor, chegou a Cirta e notificou o rei, Jugurta não pôde recusar-se a acompanhá-lo no regresso a Roma. Mas porquê? Por que teriam todos tanto medo? O que poderia Roma efectivamente fazer? Invadir a Numídia? Havia sempre mais Béstias em funções do que Caios Mémios! Então, por que teriam todos tanto medo? Seria pela humilhação por parte dos romanos ao mandarem calmamente um só homem deitar a mão ao soberano dum país grande e rico, e fazê-lo obedecer?

Jugurta submeteu-se, fez as malas resignado, adulou alguns nobres para que o acompanhassem, seleccionou os cinquenta melhores homens da Guarda Real da Numídia e embarcou com o pretor Cássio. Isto passara-se há dois meses. Dois meses durante os quais quase nada acontecera.

Oh! Caio Mémio cumprira o prometido! Reuniu uma Assembleia da Plebe no Circo Flamínio, que ficava fora dopomerium, os limites sagrados da cidade, e por conseguinte constituía um local de reunião onde Jugurta, o soberano ungido, podia ir em pessoa. A finalidade do encontro era possibilitar a qualquer romano interessado, de todas as camadas, ouvir pessoalmente o rei da Numídia responder às perguntas de Caio Mémio: quem havia subornado, quanto dinheiro tinha pago? Toda a gente em Roma sabia exactamente que tipo de perguntas iria fazer Caio Mémio. Por isso, a Assembleia no Circo Flamínio tinha uma frequência extremamente elevada, a arena estava apinhada de retardatários acomodados em bancos de madeira, esperando ouvir alguma coisa, apesar da distância.

No entanto, Jugurta ainda sabia como tratar da sua defesa; a Espanha e os anos que se lhe haviam seguido tinham-no ensinado demasiado bem para que pudesse esquecer-se. Comprou um tribuno da plebe.

Oficialmente, os tribunos da plebe eram inferiores na hierarquia magisterial e em categoria senatorial. Os tribunos da plebe não tinham imperium eis mais uma palavra para a qual a linguagem númida não tinha equivalente! Imperium! Imperium significava o tipo de autoridade que um deus na Terra pode possuir. Era por isso que um mero pretor podia notificar um grande rei para que este o acompanhasse. Os governadores de províncias tinham imperium. Os cônsules tinham imperium. Os pretores tinham imperium. Os edis curuis tinham imperium. Mas cada um deles possuía uma força ou um tipo diferente de imperium. A única prova palpável de imperium era o lictor. Os lictores eram auxiliares profissionais que iam à frente do detentor do imperium abrindo-lhe caminho, carregando aos ombros osfasces, os feixes de varas atados por cordões de cor carmesim.

Os censores não tinham imperium. Nem os edis plebeus. Nem os questores. Nem o mais importante para os propósitos de Jugurta os tribunos da plebe. Estes últimos eram os representantes eleitos da plebe, esse grande volume do corpo de cidadãos romanos impossibilitados de reclamar a alta distinção de serem patrícios. O patrício era o aristocrata antigo, cuja família vinha das fileiras dos Pais de Roma. Quatrocentos anos antes, quando a República era nova, só os patrícios contavam. Mas à medida que alguns plebeus iam ganhando dinheiro e poder e forçando o acesso à cadeira curul, também queriam ser aristocratas. O resultado foi o nobilis, o nobre. Assim, ao patrício veio juntar-se o nobre, numa aristocracia dual. Para se ser nobre, apenas bastava ter um cônsul na família, e não havia nada que impedisse um plebeu de vir a ser cônsul. A honra plebeia e a sua ambição ficavam satisfeitas.

A plebe tinha a sua própria assembleia do governo, em que nenhum patrício podia participar ou votar. Não obstante, a plebe tornara-se tão poderosa e eclipsara tanto os patrícios que este jovem organismo, a Assembleia da Plebe, votava quase todas as leis. Elegiam-se dez tribunos para se encarregarem dos interesses da plebe. E eram renovados todos os anos. Era o pior aspecto do governo romano: os seus magistrados exerciam o cargo apenas por um ano, pelo que nunca era possível comprar um homem que durasse o suficiente para ser realmente útil. Todos os anos era preciso comprar vários.

Não, um tribuno da plebe não tinha imperium, nem era um magistrado sénior; aparentemente, não tinha qualquer importância. E, no entanto, conseguira tornar-se o magistrado mais importante de todos. Nas suas mãos estava o verdadeiro poder, pois só ele tinha o poder do veto, que afectava todos; à excepção de um ditador, ninguém era imune ao veto, e não existia nenhum ditador em funções há aproximadamente cem anos. Um tribuno da plebe podia vetar um censor, um cônsul, um pretor, o Senado, os seus nove parceiros tribunos da plebe, reuniões, assembleias, eleições o que quer que fosse, podia vetá-lo e provavelmente fazia-o. Além disso, a sua pessoa era sacrossanta, o que significava que não podia ser fisicamente impedido de executar as suas obrigações. Para além destas, era ele que criava as leis. O Senado não podia criar uma lei; tudo o que o Senado podia fazer era recomendar que fosse criada uma determinada lei.

Era óbvio que tudo isto se destinava a impor um sistema de verificações e equilíbrios com vista a restringir o potencial poder político de qualquer organismo ou indivíduo. Se os Romanos pertencessem a uma estirpe superior de animais políticos, o sistema também funcionaria; mas como não o eram, a maior parte das vezes não funcionava. Porque de todos os povos na história do mundo, os Romanos eram os mais versados em descobrir meios legais de contornar a lei.

Por isso, o rei Jugurta comprou um tribuno da plebe - uma pessoa insignificante e não um membro das Famílias Importantes nem um homem rico. No entanto, Caio Bébio, era um tribuno da plebe eleito na altura conveniente, e quando o fluxo de denários de prata foi despejado à sua frente, em silêncio, vazou o seu achado para dentro de uma dúzia de sacas grandes e passou a ser propriedade do rei da Numídia.

Quando o Ano Velho estava a terminar, Caio Mémio convocou a grande sessão no Circo Flamínio e arrastou Jugurta à força perante ela. Então, com o rei parado de modo submisso de pé nos Rostros Flamínios e a multidão em completo silêncio, Caio Mémio fez-lhe a primeira pergunta.

- Subornaste Lúcio Opímio? - perguntou ao rei.

E antes que o rei pudesse responder, Caio Bébio disse o que tinha a dizer:

- Proíbo-te que respondas a Caio Mémio, Rei Jugurta! - foi tudo o que Caio Bébio disse. Não precisou de dizer nem mais uma palavra. Era um veto. Impedido de responder por um tribuno da plebe, Jugurta legalmente não podia ser forçado a responder. Por isso, a Assembleia da Plebe dispersou; os milhares de desiludidos tornaram a casa resmungando; Caio Mémio estava tão zangado que os seus amigos tiveram de levá-lo sob controlo; e Caio Bébio afastou-se a passos largos mostrando um ar de grande virtude que não enganava ninguém.

Mas o Senado não concedera a Jugurta autorização para regressar a casa, e por isso no dia de Ano Novo ali estava ele, sentado na sua loggia alugada, terrivelmente cara, amaldiçoando Roma e maldizendo os Romanos. Nenhum dos novos cônsules havia ainda dado qualquer indicação de que pudesse estar interessado em aceitar uma doação privada; nenhum dos novos pretores valia o esforço de suborno e os novos tribunos da plebe também não eram encorajadores.

O problema do suborno era que não podia ser simplesmente lançado às águas; o peixe tinha de vir à superfície e fazer movimentos vorazes, mostrando desse modo que estava interessado em engolir um isco de ouro. Se ninguém nadasse evidenciando o seu interesse através de trejeitos, era preciso deitar a linha à água e esperar com toda a paciência possível.

No entanto como podia ele ficar sentado e esperar pacientemente, quando o seu reino era o alvo de numerosos pretendentes ambiciosos? Gauda, filho legítimo de Mastanábal, e Massiva, filho de Gulusa, tinham muitos direitos, embora não fossem de modo nenhum os únicos a reivindicá-los. Era-lhe vital regressar ao seu país. Apesar disso, ali estava sentado, impotente. Se se fosse embora sem a autorização do Senado, a sua partida podia ser vista como um acto de guerra. Tanto quanto sabia, ninguém em Roma queria a guerra, mas não tinha provas suficientes que lhe indicassem para que lado o Senado se inclinaria caso abandonasse a cidade. E embora não pudesse votar leis, o Senado dominava todas as decisões dos negócios estrangeiros, desde o declarar guerra ao governar as províncias romanas. Os seus agentes haviam-no informado de que Marco Emílio Escauro ficara furioso com o veto de Caio Bébio. E Escauro tinha um enorme poder de decisão no Senado, até já uma vez o fizera dar uma reviravolta apenas com uma mão. Escauro era da opinião que Jugurta não augurava nada de bom a Roma.

Bomílcar, o meio-irmão, estava sentado, quieto, esperando que Jugurta saísse da sua meditação. Não tinha nada a comunicar, mas conhecia demasiado bem o seu rei para virar o barco de través quando ainda se mostravam sinais de tempestade. Um homem maravilhoso, Jugurta. Tantas capacidades inatas! E que difícil tinha sido a sua sorte devido ao nascimento humilde. Por que seria tão importante a hereditariedade? O sangue cartaginês de toda a nobreza númida estava muito marcado em Jugurta, mas então, também o estava o sangue berbere que recebera da mãe. Ambos eram povos semitas, mas os Berberes viviam no Norte de África há muito mais tempo que os cartagineses.

Em Jugurta, as duas correntes semitas conjugavam-se na perfeição. Da beleza berbere da mãe herdara os olhos cinzento-claros, o nariz direito e o rosto longo e magro e também dela havia herdado a altura. Mas do sangue cartaginês do pai Mastanábal tinham vindo os caracóis negros em espiral, os pêlos negros e densos do corpo, a pele escura e o esqueleto de ossos enormes. Talvez por isso fosse tão impressionante: era chocante ver aqueles olhos em alguém tão escuro, e assustador. Helenizadas por séculos de contacto com os Gregos, as classes superiores da Numídia usavam roupas gregas, que não se ajustavam bem ajugurta, cujo melhor aspecto era de elmo, couraça e grevas, a espada de lado, montado num impaciente cavalo de guerra. ”Que pena”, pensou Bomílcar, ”os romanos em Roma nunca terem visto o rei vestido para o combate”, e a seguir estremeceu, horrorizado com a ideia. Era tentação do destino pensar isso! Era melhor ir oferecer à deusa Fortuna um sacrifício no dia seguinte, para que os romanos nunca chegassem a ver Jugurta com as suas vestes bélicas.

O rei estava a descontrair-se; o rosto amenizara-se-lhe. Era terrível ter de banir a sua paz meio-ganha; sobrecarregá-lo com uma nova preocupação. Mas era preferível que a ouvisse do seu mais leal barão, o próprio irmão, em vez de lhe chegarem as notícias através de qualquer agente idiota, ávido de causar o máximo de consternação.

- Meu senhor e rei? - interrogou Bomílcar perscrutando.

Os olhos cinzentos voltaram-se imediatamente na sua direcção.

- Sim?

- Ouvi um boato ontem, em casa de Quinto Cecílio Metelo. Atingiu Jugurta no seu ponto fraco, claro; Bomílcar podia ir aonde quisesse em Roma, porque não era um rei ungido. Era Bomílcar que era convidado para jantar e não Jugurta.

- O quê? - perguntou bruscamente o rei.

- Massiva apareceu aqui em Roma. E ainda por cima, conseguiu interessar o cônsul Espúrio Postúmio Albino pelo seu caso e tenciona pedir a Albino que faça uma petição no Senado.

O rei sentou-se rapidamente, voltando a cadeira de forma a poder ver a cara de Bomílcar.

- Interrogava-me onde se tinha metido esse minúsculo verme miserável - disse. - Agora já sei, não é? Mas porquê ele e não eu? Albino deve saber que lhe pagarei mais do que Massiva alguma vez poderá pagar.

- Não foi isso que soube pelas minhas fontes - disse Bomílcar pouco à vontade. - Suspeito que fizeram um acordo que depende de Albino receber a Província Africana para seu governo. Estás encravado aqui em Roma; Albino apressa-se a partir para a Província Africana com um pequeno exército, e basta uma marcha rápida para atravessar a fronteira até Cirta, e... ”Saúdem todos o rei Massiva da Numídia!” Imagino que o rei Massiva da Numídia terá a maior vontade de pagar a Albino o que ele lhe pedir.

- Tenho de voltar! - gritou o rei.

- Eu sei! Mas como? Diz-me, como?

- Pensas que ainda terei alguma hipótese de influenciar Albino? Ainda tenho dinheiro disponível, posso arranjar mais!

Bomílcar abanou a cabeça enfaticamente.

- O novo cônsul não gosta de ti - disse. - Esqueceste-te de enviar-lhe uma prenda pelo seu aniversário, que foi no mês passado. Massiva não se esqueceu de lhas enviar quando ele foi eleito cônsul e pelo aniversário.

- Foram os meus agentes, excomungados! -Jugurta mostrou os dentes. - Começam a pensar que vou perder, e por isso nem tentam. Mordiscou o lábio e humedeceu-o com a língua. - Vou perder? Bomílcar sorriu.

- Tu? Nunca!

- Não sei... Massiva! Sabes que me tinha esquecido totalmente dele? Pensei que estava na Cirenaica, com Ptolomeu Apião - Jugurta encolheu os ombros, viu-se que recobrava o ânimo. - Pode ser falso. Quem to contou?

- O próprio Metelo. Ele sabe. Ultimamente está muito atento à opinião pública; tenciona concorrer a cônsul no próximo ano. Não quer dizer que aprove o acordo que Albino está a fazer. Se aprovasse, não me teria dito uma palavra sobre o assunto. Mas conheces Metelo; é dos romanos sérios e virtuosos, nem lhe passa pela cabeça o suborno. E não lhe agrada ver reis acampados às portas de Roma.

- Metelo pode dar-se ao luxo de ser recto e virtuoso! - disse Jugurta causticamente. - Há algum Metelo que não seja tão rico como Creso? Eles repartem a Espanha e a Ásia entre si. Pois não hão-de repartir a Numídia! Nem o fará Espúrio Postúmio Albino, se eu puder impedi-lo! - O rei sentou-se muito direito na cadeira. - Massiva está mesmo cá?

- Segundo Metelo, sim.

- Temos que esperar até que se saiba qual o cônsul que irá governar a África e qual irá para a Macedónia.

Bomílcar bufou ironicamente.

- Não me digas que acreditas nas sortes!

- Não sei no que acredito acerca dos Romanos - disse o rei melancolicamente. - Talvez ache que já está decidido, talvez me interrogue se as sortes não dirão que embora eles estejam a rir-se de nós, deixaram tudo à mercê da sorte. Por isso, vou esperar, Bomílcar. Quando souber o resultado das sortes, decidirei o que fazer.

Dito isto, tornou a virar a cadeira e continuou a contemplar a chuva.

Tinham nascido três filhos na antiga casa de estuque perto do Arpino: Caio Mário era o mais velho; a seguir veio a irmã, Maria, e por fim um segundo filho, Marco Mário. Esperava-se que quando crescessem viessem a atingir um lugar proeminente na vida do distrito e da cidade, mas ninguém sonhara que qualquer dos três se aventuraria a ir mais longe. Pertenciam à nobreza rural, eram proprietários rurais fanfarrões antiquados e vigorosos os Mários, aparentemente destinados a serem pessoas importantes apenas dentro dos limites do seu pequeno domínio do Arpino. A ideia de que um deles viesse a entrar para o Senado de Roma era impensável; Catão, o Censor, já dera bastante que falar devido às suas origens rústicas, e proviera de um local não muito longe de Túsculo, a umas simples quinze milhas das Muralhas Sérvias de Roma. Por isso, nenhum proprietário rural imaginava que o seu filho pudesse vir a ser senador romano.

Não era uma questão de dinheiro, porque havia bastante; os Mários tinham a melhor das situações económicas. O Arpino era uma localidade rica de muitas milhas quadradas, e a maior parte da terra dividia-se entre três famílias - os Mários, os Gratídios e os Túlios Cíceros. Quando era necessária uma pessoa de fora para desposar um Mário, um Gratídio ou um Túlio Cícero, os batedores dirigiam-se não a Roma mas sim a Putéolos, onde vivia a família Grânio. Os Grânios eram um clã próspero de comerciantes marítimos proveniente do Arpino.

A noiva de Caio Mário tinha sido escolhida quando ele ainda era um rapaz pequeno, e esperou pacientemente na casa dos Grânios em Putéolos até crescer, porque era ainda mais nova do que o noivo. Mas quando Caio Mário se apaixonou, não foi por uma mulher. Ou por um homem. Apaixonou-se pelo exército - um reconhecimento natural, alegre e espontâneo do cônjuge. Alistado como cadete no seu décimo sétimo aniversário e lamentando o facto de não haver guerras importantes a decorrer, conseguiu no entanto permanecer ao serviço nas fileiras dos oficiais mais novos das legiões de cônsules, até que com a idade de vinte e três anos foi enviado para as tropas particulares de Cipião Emiliano contra a Numância, em Espanha.

Não tardou muito que se tornasse amigo de Públio Rutílio Rufo e do príncipe Jugurta da Numídia, visto que eram todos da mesma idade, e Cipião Emiliano, que lhes chamava o Trio Terrível, demonstrava grande estima por eles. Nenhum dos três provinha das altas esferas de Roma. Jugurta era um perfeito desconhecido, a família de Públio Rufo não estava no Senado há mais de cem anos e até agora ainda não conseguira chegar ao consulado, e Caio Mário provinha de uma família de proprietários rurais. Naquela altura, era claro que nenhum deles tinha qualquer interesse pela política romana; tudo o que lhes interessava era a carreira das armas.

Mas Caio Mário era um caso muito especial. Nascera para ser soldado, mas mais que isso, nascera para chefiar soldados.

- Sabe o que deve fazer e como fazê-lo - disse Cipião Emiliano, soltando um suspiro que podia ser de inveja. Não era que Cipião Emiliano não soubesse o que devia fazer e como fazê-lo, mas ouvia falar os generais na sala de jantar e conhecia bem o grau de espontaneidade inata contida na sua própria carreira militar. Pouquíssima, para dizer a verdade. O grande talento de Cipião Emiliano consistia na organização, e não na sua carreira militar. Acreditava que se uma campanha fosse exaustivamente delineada na sala de projectos, mesmo antes do alistamento do primeiro soldado, pouco importava o valor militar para o resultado final.

Era aí que Caio Mário estava à vontade. Aos dezassete, ainda era pequeno e magro. Sempre fora uma criança que comia mal e a mãe estragava-o com mimos, enquanto o pai secretamente o desprezava. Depois, atou firmemente o primeiro par de botas militares e afivelou as placas de uma boa couraça de bronze sobre as suas sólidas vestes interiores de couro. E cresceu em mente e espírito até suplantar todos, não só física e intelectualmente, mas também em força, coragem e independência. Até ao ponto em que a mãe começou a rejeitá-lo e foi a vez de ser o pai a inchar de orgulho por ele.

Na opinião de Mário, não havia vida como aquela, ser parte integrante da maior máquina militar que o mundo alguma vez tivera - a legião romana. Nenhuma marcha de treino era demasiado árdua, nenhuma lição de esgrima era longa ou imoral, nenhuma tarefa demasiado humilhante para conter a maré enchente do seu enorme entusiasmo. Não lhe importava muito o que lhe mandavam fazer, desde que continuasse no exército.

Foi também na Numância que encontrou o cadete de dezassete anos que viera de Roma para se juntar às tropas especiais de Cipião Emiliano a pedido expresso deste. Esse rapaz era Quinto Cecílio Metelo, o irmão mais novo do Cecílio Metelo que, após uma campanha contra as tribos dos montes Dalmáticos do llírico, viria a adoptar o cognome de Dalmático e fazer-se nomear Pontifex Maximus, a maior honra na religião do Estado.

O jovem Metelo era um Cecílio Metelo típico: trabalhador dedicado, sem qualquer jeito para trabalhos de mãos, mas determinado a fazê-los e convencido de que os fazia na perfeição. Embora a lealdade à sua classe impedisse Cipião Emiliano de dizê-lo, talvez o irritasse o rapaz de dezassete anos versado em todos os assuntos, porque Cipião o entregou aos cuidados do Trio Terrível, Jugurta, Rutílio Rufo e Mário, pouco depois de oJovem Metelo ter chegado à Numância espanhola. Não tendo idade para se compadecerem, ficaram tão ressentidos como desagradados por lhes ter sido entregue essa mó obstinada. E vingaram-se no jovem Metelo; não cruelmente, apenas com dureza.

Enquanto a Numância resistia e Cipião Emiliano estava ocupado, o rapaz aguentou a sua sorte. Depois, a Numância caiu. Foi virada ao contrário, estripada. E todos, desde o mais alto oficial até ao mais baixo soldado, receberam autorização para se embriagarem. O Trio Terrível também se embebedou. Tal como Quinto Cecílio Metelo, pois calhara ser o seu aniversário: fazia dezoito anos. E o Trio Terrível achou que tinha muita piada atirar o aniversariante para dentro de um chiqueiro.

Saiu do meio da porcaria já sóbrio, praguejando de raiva e de rancor.

- Seus... Seus míseros novos-ricos! Quem pensam que são? Deixem-me dizer-lhes! Tu não passas de um estrangeiro seboso, Jugurta! Não serves nem para lamber as botas a um romano! E tu és um adulador arrogante, Rutílio! Quanto a ti, Caio Mário, não passas de um italiano provinciano que não sabe uma palavra de grego! Como se atrevem? Como se atrevem? Não vêem quem sou eu? Não entendem de que família provenho? Sou um Cecílio Metelo, e nós éramos reis da Etrúria antes que se pensasse sequer na existência de Roma! Durante meses sofri os vossos insultos, mas agora basta! Tratarem-me como um subordinado, como fosse eu o inferior! Como se atrevem? Como se atrevem?

Jugurta, Rutílio Rufo e Caio Mário ficaram a abanar-se suavemente no alto da vedação do chiqueiro, com olhos de mocho, de expressão parada no rosto. Então, Públio Rutífio Rufo, que era um desses indivíduos raros, de erudição tão profunda quanto eram práticos os seus conhecimentos militares, passou uma perna por cima da vedação e conseguiu equilibrar-se escarranchado nela, com um sorriso rasgado.

- Não me entendas mal, aprecio de facto tudo o que disseste, Quinto CecílIO - disse. - Mas o problema é que tens na cabeça esterco de porco, no lugar da coroa, ó Rei da Etrúria! - Ouviu-se uma risada. - Vai tomar um banho, e a seguir, volta a contar-nos. Talvez consigamos ouvir-te sem nos rirmos.

Metelo levantou a mão e esfregou a cabeça com fúria, demasiado enraivecido para aceitar conselhos sensatos, especialmente quando transmitidos com um sorriso daqueles.

- Rutílio! - proferiu. - Que nome é esse, a adornar as listas do Senado? Umas nulidades de Osca, é o que vocês são! Campónios!

- Vá lá! - disse Rutílio gentilmente. - O meu etrusco chega para traduzir o significado de ”Metelo” para latim, bem sabes. - Saltou do sítio onde estava sentado na vedação e olhou para Jugurta e Mário. Significa ”livre do serviço como mercenário” - disse-lhes em tom grave.

Era demasiado. O jovem Metelo atirou-se a Rutílio Rufo e fê-lo aterrar no cheiroso lamaçal, onde os dois rolaram, brigaram e se esmurraram sem força suficiente para se magoarem até Jugurta e Mário decidirem que se estava bem ali, e mergulharam para junto deles. Fazendo alarido com as suas gargalhadas, meteram-se na lama no meio dos porcos mais insolentes, que, como porcos insolentes que eram, não resistiam a investigá-los completamente. Quando o Trio Terrível parou de se sentar em cima de Metelo e de esfregar nele os excrementos, o rapaz levantou-se com esforço e desapareceu.

- Hão-de pagar-mas por isto! - disse entredentes

- Vê lá se tens juízo! - disse Jugurta, dando largas a uma alegria ruidosa.

Mas a roda, pensou Caio Mário enquanto saía do banho e pegava na toalha para se enxugar, dá a volta completa, faça-se o que se fizer. Os impropérios vindos da boca do fedelho de uma casa nobre não deixavam de ser impropérios. Afinal quem eram eles, o Trio Terrível da Numância. Eram, um estrangeiro sebento, um arrogante curtidor de favores e um campónio italiano que não sabia grego. Era só isso que eram. Roma havia-lhes ensinado bem a verdade das coisas.

Jugurta deveria ter sido reconhecido rei da Numídia já há vários anos, trazido com firmeza e amabilidade para o curral dos reis-clientes de Roma, e mantido aí com bons conselhos e jogo limpo. Em vez disso, sofrera a inimizade implacável de toda a facção de Cecílio Metelo, e estava agora em Roma metido entre a espada e a parede, enfrentando o último combate contra um grupo de pretendentes ao trono da Numídia, obrigado a comprar o que o seu valor e capacidade deviam ter-lhe proporcionado de graça e às claras.

E o pequeno cabeça de vento do Públio Rutílio Rufo, o pupilo favorito de Panécio, o filósofo, admirado por todo o Círculo Cipiónico - escritor, soldado, Pessoa de espírito, político de excelência extraordinária - perdera o consulado no mesmo ano em que Mário muito a custo alcançara o pretorado. Não só as origens de Rutílio não eram suficientemente boas, como também incorrera na inimizade dos Cecílios Metelos, e isso significava que, tal como jugurta, passava a ser inimigo de Marco Emílio Escauro, estreitamente aliado aos Cecílios Metelos, e glória principal da sua facção.

Quanto a Caio Mário, como diria Quinto Cecílio Metelo Suíno, tinha-se saído melhor do que faria qualquer provinciano italiano sem conhecimentos de grego. Porque decidira vir para Roma tentar a ascensão política? Era simples. Porque Cipião Emiliano (tal como a maioria dos patrícios mais importantes, Cipião Emiliano não era snobe) pensava que ele deveria vir. Era um homem demasiado bom para se desperdiçar assim, sucedendo a um proprietário rural, dissera Cipião Emiliano. Ainda por cima, se não se tornasse pretor nunca poderia vir a comandar um exército em Roma.

Portanto, Caio Mário candidatou-se a tribuno da plebe dos soldados, entrou com facilidade, a seguir apresentou-se como candidato a questor, foi aprovado pelos censores - e viu-se, um provinciano italiano que não sabia grego, membro do Senado de Roma. Fora surpreendente! A sua família no Arpino ficara espantada! Tivera o seu tempo de serviço e conseguira disputar uma pequena promoção. Estranho era ter o apoio de Cecílio Metelo a garantir-lhe a eleição para tribuno da plebe na época duramente reaccionária que se seguira à morte de Caio Graco. Quando Caio Mário tentara pela primeira vez a eleição para o Colégio de Tribunos da Plebe, não conseguira entrar; no ano em que entrara, a facção de Cecílio Metelo estava convencida de que o havia conquistado. Até ele mostrar o contrário, agindo vigorosamente para preservar a liberdade da Assembleia da Plebe, não mais ameaçada pelo domínio do Senado do que após a morte de Caio Graco. Lúcio Cecílio Metelo Dalmático tentou forçar a promulgação de uma lei que reduzia os poderes legislativos da Assembleia da Plebe e Caio Mário vetou-a. E Caio Mário não podia ser persuadido, aliciado ou forçado a retirar o seu veto.

Mas aquele veto saiu-lhe caro. Após um ano como tribuno da plebe, tentou concorrer a uma das duas magistraturas edis, apenas para ser derrotado pelo lobby de Cecílio Metelo. Então, lutou tenazmente pela pretura, e mais uma vez esbarrou com a oposição de Cecílio Metelo. Sob as indicações de Metelo Dalmático, ambos haviam usado o tipo de difamação habitual - era impotente, maltratava rapazinhos, comia excrementos, pertencia a sociedades secretas ligadas aos vícios báquicos e órficos, aceitava todos os tipo de subornos, dormia com a irmã e a mãe. Mas também tinham utilizado uma forma mais insidiosa de difamação e de modo mais eficaz: disseram muito simplesmente que Caio Mário não era romano, que Caio Mário era um provinciano italiano qualquer, e que Roma podia criar filhos verdadeiros suficientes para que não fosse necessário eleger um Caio Mário para o cargo de pretor. Era um argumento eficaz.

Os menos críticos pensaram que, em comparação com as outras, a calúnia mais arrasadora de todas era a inferência perpétua de que Caio Mário não podia ser aceite por não saber grego. A afronta não era verdadeira; ele falava muito bem grego. No entanto, os seus tutores eram gregos asiáticos o pedagogo provinha de Lâmpsaco, no Helesponto, e o grammaticus era de Amiso, na costa do Ponto e falavam grego com um sotaque cerradíssimo. Por isso, Caio Mário aprendera grego com um tom fanhoso que o estigmatizava como impropriamente educado como um tipo de pessoa comum, mal-educada. Foi obrigado a considerar-se derrotado; não falar grego ou falar imenso grego asiático, dava o mesmo efeito. Consequentemente, ignorava a calúnia recusando-se a falar a língua que indicava que um homem era suficientemente educado e conhecedor.

Não fazia mal. Ficara à tangente em último lugar entre os pretores, mas apesar de tudo ficara. E sobrevivera a um assalto de subornos forjado contra ele logo a seguir à eleição. Suborno! Como se ele tivesse tido possibilidades para isso! Não, naquela altura não tinha o dinheiro necessário para comprar uma magistratura. Mas felizmente havia entre os eleitores bastantes homens que já conheciam o seu valor como soldado ou então tinham ouvido falar dele a alguém que o conhecia. O eleitorado romano demonstrava sempre um fraco por um soldado excelente, e foi esse fraco que ganhou por ele.

O Senado enviou-o para a Espanha Ulterior como governador, pensando que assim ficaria longe da vista, longe do coração, e talvez até fosse útil. Mas como era um militar primoroso, prosperou.

Os Iberos - especialmente as tribos meio-submetidas do oeste lusitano e do noroeste cantábrico - eram exímios num tipo de guerra que não se adaptava à maioria dos comandantes romanos, tal como não era adequada às legiões romanas: nunca iniciavam a batalha da maneira tradicional, não davam nenhuma importância ao princípio universalmente aceite de que era preferível jogar tudo na hipótese remota de uma batalha decisiva a incorrer nos terríveis custos da guerra prolongada. Os Iberos já haviam percebido que estavam a lutar uma guerra prolongada, uma guerra que tinham de continuar, se quisessem preservar a sua identidade celtibérica; estavam empenhados numa luta contínua pela independência social e cultural.

Mas certamente por não terem dinheiro para manter uma guerra prolongada, fizeram uma guerra civil. Nunca davam combate. Em vez disso, lutavam fazendo emboscadas, assaltos, assassínios e devastando os bens do inimigo. Ou seja, os bens dos Romanos. Nunca apareciam onde eram esperados, nunca marchavam em coluna, nunca se reuniam fosse em que quantidade fosse, nunca eram identificáveis pelos uniformes ou pelas armas. Limitavam-se a atacar de surpresa. Pareciam surgir do nada. E depois, desapareciam sem deixar rasto nos magníficos desfiladeiros das suas montanhas, como se nunca tivessem existido. Quem fosse inspeccionar uma pequena cidade acusada pelos serviços secretos romanos de participar num massacre bem orquestrado encontrava-a tão pacífica, inocente e irrepreensível como um burro dócil e paciente.

Era uma terra fabulosamente rica, a Espanha. Por isso, todos haviam querido possuí-la. Os indígenas ibéricos originais cruzavam-se há séculos com elementos célticos invasores que entravam pelos Pirenéus, e as incursões de Berberes e Mouros através dos estreitos que separam a Espanha da África tinham enriquecido ainda mais o cadinho local de raças.

Depois, há mil anos, vieram os Fenícios de Tiro, de Sídon e de Bérito na costa síria, e depois deles os Gregos. Duzentos anos antes, tinham vindo os Cartagineses, eles próprios descendentes dos Fenícios sirios que haviam fundado um império com base na Cartago africana; e terminara assim o isolamento relativo da Espanha. Porque os Cartagineses vinham para Espanha com o intuito de extrair os seus metais: ouro, prata, chumbo, zinco, cobre e ferro. As montanhas espanholas eram ricas de todos esses metais, e em toda a parte no mundo a procura de bens criados à custa de uns e a riqueza criada à custa de outros aumentavam rapidamente. O poder cartaginês baseava-se no minério espanhol. Até o estanho vinha de Espanha, embora não se encontrasse aí; era extraído nas Cassitérides da fábula, as ilhas de Estanho algures nos confins do globo habitado, chegava a Espanha pelos pequenos portos cantábricos e percorria as rotas de comércio espanholas até às praias do mar Central.

Os Cartagineses, povo marítimo, haviam possuído a Sicília, a Sardenha e também a Córsega, o que significava que mais cedo ou mais tarde deveriam ter dificuldades com Roma, destino que os acometera cento e cinquenta anos antes. E três guerras depois três guerras que lhes levaram mais de cem anos a combater Cartago estava morta, e Roma tinha adquirido a primeira das suas colónias ultramarinas. Incluindo as minas de Espanha.

O sentido prático de Roma vira de imediato que a Espanha era melhor governada a partir de duas localidades diferentes; a península dividia-se nas duas províncias da Espanha Citerior Hispania Citerior e Espanha Ulterior Hispania Ulterior. O governador da Espanha Ulterior controlava todo o Sul e Oeste do país a partir de uma base nas terras do interior imensamente férteis do rio Bétis, que tinha a antiga cidade fenícia de Gades perto da sua foz. O governador da Espanha Citerior dominava todo o Norte e Leste da península, a partir de uma base na planície costeira oposta às ilhas Baleares, e mudava de capital de acordo com as necessidades. As terras do longínquo Oeste a Lusitânia e as terras do Noroeste a Cantábria permaneceram intactas durante muito tempo.

Apesar do exemplo dado por Cipião Emiliano à Numância, as tribos de Espanha continuaram a resistir à ocupação romana com emboscadas, assaltos, assassínios e devastação da propriedade. ”Bem”, pensou Caio Mário deparando com este interessante cenário ao chegar à Espanha Ulterior com as funções de governador, ”também posso lutar através de emboscadas, assaltos, assassínios e devastação da propriedade!” E começou a fazê-lo com grande êxito. As fronteiras da Espanha romana foram forçadas até à Lusitânia e à poderosa cadeia de montanhas ricas de minérios onde nasciam os rios Bétis, Anãs e Tejo.

Não era exagero nenhum dizer que a fronteira romana avançou, e os conquistadores romanos continuaram a encontrar depósitos de minérios cada vez mais ricos, especialmente prata, cobre e ferro. E, naturalmente, o governador da província que obtivera as novas fronteiras em nome de Roma estava na linha da frente dos que adquiriram concessões de terras ricas de minérios. O Tesouro de Roma ficou com a sua parte, mas preferiu deixar a posse das minas e a extracção dos minérios nas mãos de particulares, que o faziam com muito mais eficácia e com um tipo de crueldade exploradora muito mais consistente.

Caio Mário enriqueceu. Depois, enriqueceu mais. Todas as novas minas lhe pertenciam total ou parcialmente; isto tornou-o sócio comanditário das grandes companhias que se libertavam das suas obrigações para se dedicarem a todo o tipo de operações comerciais - desde a compra, venda e embarcação de cereais até ao comércio bancário e às obras públicas - por todo o mundo romano, e também na própria cidade de Roma.

Regressou de Espanha tendo sido votado imperator pelas suas tropas, o que significava que tinha o direito de se candidatar ao Senado para alcançar o triunfo; considerando a quantidade de pilhagens, impostos e tributos que adicionara aos rendimentos gerais, o Senado não podia fazer mais que corresponder aos desejos dos soldados. E por isso, Mário conduziu a antiga quadriga triunfal ao longo da via tradicional na parada da vitória, antecedido pela prova amontoada das suas vitórias e depredações, com os carros alegóricos representando quadros e geografia e estranhas vestes tribais; e sonhava ser cônsul dentro de dois anos. Ele, Caio Mário, do Arpino, o provinciano italiano desprezado que não sabia grego, havia de ser cônsul da cidade mais importante do mundo. E voltaria a Espanha para terminar a sua conquista e transformá-la num próspero par de províncias incontestavelmente romanas. Mas haviam passado cinco anos desde que regressara a Roma. Cinco anos! A facção de Cecílio Metelo tinha finalmente triunfado: agora, já nunca viria a ser cônsul.

- Penso que vou vestir o fato de linho de Quios - disse Mário ao servo particular, que aguardava ordens. Muitos homens no lugar de Mário teriam permanecido na água do banho e pedido que fossem esfregados, coçados e massajados pelos escravos, mas Caio Mário preferia fazer ele mesmo as tarefas sujas, mesmo agora. Aos quarenta e sete anos ainda era um homem de óptima figura. O físico não o envergonhava em aspecto nenhum! Por mais ociosos que fossem os seus dias, fazia sempre bastante exercício, praticava com os halteres e os pesos, nadava se pudesse várias vezes ao longo do Tibre até ao limite a que chamavam o Trigarium, e a seguir corria desde o distante Campo de Marte até à sua casa nos flancos do Arx do Capitólio. O seu cabelo começava a rarear um pouco no alto da cabeça, mas ainda tinha suficientes caracóis castanho-escuros para os pentear para a frente num penteado respeitável. Isso. Tinha de ser. Se nunca fora uma beldade, nunca o viria a ser. Tinha um belo rosto (aliás, tinha mesmo um rosto muito expressivo), mas não podia rivalizar com o de Caio Júlio César!

Era interessante. Porque se daria ele a tanto trabalho com o cabelo e as roupas para o que prometia ser uma pequena refeição familiar na sala de jantar de um modesto senador de segunda ordem? Um homem que nem tinha sido edil, para já não falar em pretor. Escolhera vestir nada menos que o fato de linho grego de Quios! Comprara-o alguns anos antes, sonhando com os banquetes que iria oferecer durante o seu consulado e nos anos seguintes, quando fosse um dos estimados ex-cônsules, os consulares, como eram conhecidos.

Era aceitável uma pessoa vestir-se para um banquete particular com roupas menos austeras que a toga branca e a túnica, que tinham por único enfeite uma faixa púrpura; e a túnica tecida de linho de Quios adornada com colgaduras era um espectáculo sumptuoso de ouro e púrpura. Felizmente, não havia leis limitativas dos gastos privados do Estado que impedissem um homem de se vestir com tantos enfeites e luxo quanto lhe apetecesse. Havia apenas uma Lex Licinia, que regulamentava a quantidade de raridades culinárias que um homem podia ter à mesa - e ninguém ligava a isso. Além de que Caio Mário tinha muitas dúvidas de que a mesa de César estivesse cheia de peixes deliciosos e de ostras.

Nem por um momento ocorreu a Caio Mário procurar a mulher antes de partir. já há alguns anos que a esquecera - se é que de facto alguma vez se lembrara dela. O casamento efectuara-se durante o limbo assexuado da infância e prolongou-se pelo limbo assexuado da falta de amor ou mesmo de afinidades em adultos durante vinte e cinco anos sem filhos. Um homem com tantas inclinações marciais e fisicamente tão activo como era Caio Mário só procurava consolo sexual quando a sua ausência era lembrada por algum encontro ocasional com uma mulher atraente, e a sua vida não se tinha notabilizado pela existência de muitas. Apenas de tempos a tempos gozava uma ligeira estroinice com qualquer bela mulher que o atraísse (se ela estivesse disponível e disposta), ou com uma rapariga da casa, ou (em campanha) com alguma cativa.

Mas Grânia, a sua mulher? Esquecera-a, mesmo quando estava a menos de dois pés de distância, recordando-lhe que gostaria que dormissem juntos as vezes que bastassem para conceber uma criança. Coabitar com Grânia era como conduzir uma marcha de treino através de um nevoeiro impenetrável. O que se sentia era tão amorfo que se ia comprimindo, transformando-se numa coisa bem diferente, mas do mesmo modo não identificada. Ocasionalmente, notava-se uma mudança na temperatura ambiente, restos de humidade num substracto habitualmente pegajoso. Quando o clímax chegava, se ele abria a boca, era para bocejar.

Não sentia a mínima pena de Grânia. Nem tentou alguma vez entendê-la. Simplesmente era a mulher dele, a sua velha ave de capoeira que nunca tivera plumagem vigorosa, nem na juventude. O que ela fazia durante os dias - ou noites - desconhecia-o Mário, e também não o preocupava. Grânia a levar uma vida dupla de depravação licenciosa? Se alguém o tivesse sugerido, ter-se-ia rido até às lágrimas. E teria boas razões para isso. Grânia era tão casta quanto era porca. Não havia comparação entre Cecília Metela (a impúdica, que era irmã de Dalmático e Metelo Suíno e mulher de Lúcio Licínio Lúculo) e Grânia de Putéolos!

As suas minas de prata pagaram a casa no Arx do Capitólio, do lado do Campo de Marte que dava para as Muralhas Sérvias, os terrenos mais caros de Roma; as suas minas de cobre pagaram os mármores coloridos que revestiam as colunas de tijolo e cimento e as divisões e pavimentos; as suas minas de ferro pagaram os serviços do melhor pintor de murais de Roma para preencher os espaços rebocados entre as pilastras e as divisões com cenas de caçadas ao veado e jardins de flores e paisagens em trompe Poeil; as suas parceiras de cama de várias grandes companhias pagaram as estátuas e os Hermes, as fabulosas mesas de madeira de cidreira sobre os seus pedestais de marfim embutido a ouro, os canapés e cadeiras de ouro e com incrustações, os cortinados gloriosamente bordados, as portas de bronze fundido; o próprio Himeto arranjara o enorme jardim do peristilo, dando tanta atenção à subtil combinação de perfumes como às cores dos botões; e o grande Dólico criara o grande tanque central com as suas fontes e peixes e lírios e lódãos e soberbas esculturas de tamanho maior do que o natural de tritões, nereides, ninfas, golfinhos e serpentes marinhas de movimentos ondulantes.

A tudo isto, diga-se de passagem, Caio Mário não ligava a menor importância. Não passava de espectáculo obrigatório. Dormia numa cama de campanha no quarto mais pequeno e simples da casa, apenas com a bainha e a espada penduradas numa parede e a velha capa militar noutra, tendo por único relampejo de cor a bandeira do vexillum, bastante suja e esfrangalhada que a sua legião preferida lhe dera quando a campanha em Espanha chegou ao fim. Ah! Isso é que era vida para um homem!

O único valor que o consulado e o cargo de pretor tinham para Caio Mário era o facto de ambos darem acesso ao comando militar mais elevado. Mas cônsul muito mais do que pretor! E a partir de agora já sabia que nunca viria a ser cônsul. Não iriam votar num homem insignificante, por mais dinheiro que tivesse.

Caminhava com um clima do mesmo tipo do do dia anterior, uma horrível chuva miudinha e uma humidade penetrante, esquecendo - o que era bastante habitual - que trazia uma fortuna às costas. No entanto, pusera o seu sagum de campanha sobre os enfeites - uma capa espessa, engordurada e malcheirosa que protegia dos frios dolorosos dos desfiladeiros alpinos ou das chuvadas de dias em Epiro. Era o tipo de vestimenta de que precisava um soldado. Chegava-lhe um cheiro forte e nauseabundo às narinas como a exalação de vapor de uma padaria, de abrir o apetite, voluptuoso, vivamente acalentador.

- Entra, entra! - disse Caio Júlio César, recebendo ele mesmo o seu convidado à porta e estendendo as mãos bem feitas para receber o horrível sagum. Mas depois de lhe ter pegado, não o passou de imediato ao escravo de serviço com receio de que o cheiro se lhe colasse à pele; em vez disso, acariciou-o com respeito antes de o entregar cuidadosamente.

- Eu diria que este já viu bastantes campanhas - comentou então, não pestanejando à visão de Caio Mário em toda a ostentação grosseira de um fato de linho grego de Quios em ouro e púrpura.

- Foi o único sagum que possuí em toda a vida - disse Caio Mário, não dando pelo facto de o seu drapeado de tecido de Quios ter tombado do avesso.

- Lígure?

- Claro. O meu pai deu-mo novinho a estrear quando fiz dezassete anos e fui em serviço como cadete. Mas digo-te - continuou Caio Mário sem reparar no tamanho reduzido e na simplicidade da casa de Caio Júlio César, enquanto passava para a sala de jantar -, quando chegou a minha vez de equipar e vestir as legiões, verifiquei se todos os homens recebiam capas destas; não se podia esperar que continuassem de boa saúde se ficassem todos molhados ou gelados até aos ossos - pensou em qualquer coisa decerto importante e acrescentou rapidamente: - É evidente que não lhes cobrei mais do que o preço médio para artigos militares! Qualquer comandante que valha o pão que come devia poder ficar com os custos extra das pilhagens suplementares.

- E tu vales o pão que comes, bem sei - disse César ao sentar-se no canto esquerdo do leito do meio, indicando ao convidado o lugar da direita, que era o lugar de honra.

Os servos retiraram-lhes os sapatos, e, quando Caio Mário recusou os vapores de um braseiro, ofereceram meias; ambos os homens aceitaram, e ajustaram a seguir o ângulo de inclinação adaptando os coxins que tinham debaixo dos ombros a uma posição confortável. O criado que servia o vinho avançou, auxiliado por outro que transportava as taças.

- Os meus filhos devem estar a chegar, e as senhoras virão antes de começarmos a comer - disse César, levantando a mão para indicar que não queria mais vinho. - Espero, Caio Mário, que não julgues avareza da minha parte se te pedir respeitosamente que o tomes como eu, com bastante água. Tenho um motivo muito válido, mas não creio que possa explicar-to tão cedo. Simplesmente, a única razão que posso dar-te desde já é que nos ajuda a manter-nos na posse total das nossas capacidades. Além do mais, as senhoras sentem-se pouco à vontade quando vêem os homens beber vinho sem água.

- Beber vinho não faz parte das minhas fraquezas - respondeu Caio Mário, descontraindo-se e fazendo sinal de parar ao criado mal ele começara a servir e mandando encher o copo de água quase até ao cimo. - Se um homem se preocupa o bastante com a sua companhia para aceitar um convite para jantar, deve usar a língua para falar, e não para a enrolar.

- Bem dito! - gritou César, sorridente.

- No entanto, estou imensamente intrigado!

- A seu tempo ficarás ao corrente de tudo.

Tombou o silêncio. Os dois homens beberam pouco à vontade um gole daquela água com sabor a vinho. Como se conheciam apenas de se cumprimentarem ao passar, um senador a outro, esta oferta inicial de amizade não podia deixar de ser difícil. Especialmente por o anfitrião ter embargado a única coisa que podia pô-los mais rapidamente à vontade: o vinho.

César aclarou a garganta e pousou a taça sobre a mesa estreita que chegava mesmo abaixo do canto interior do leito.

- Suponho, Caio Mário, que não estás entusiasmado com o lote de magistrados deste ano - disse.

- Deuses, não! Não mais do que tu, penso.

- São fracos, é certo. Por vezes penso se teremos razão em insistir que as magistraturas durem apenas um ano. Talvez quando tivermos a sorte de pôr no cargo um homem verdadeiramente bom devamos deixá-lo ficar já mais tempo, para fazer mais coisas.

- É uma tentação, e se os homens não fossem homens, poderia resultar - disse Mário.

- Mas existe um impedimento.

- Um impedimento?

- Quem irá dizer-nos que um bom homem éde facto um bom homem? Ele mesmo? O Senado? As Assembleias do Povo? Os cavaleiros? Os votantes, sujeitos incorruptíveis como são, insensíveis a subornos?

César riu-se.

- Bem, sempre pensei que Caio Graco era um bom homem. Quando concorreu pela segunda vez ao lugar de tribuno da plebe, apoiei-o Caiorosamente, tal como também apoiei a sua terceira tentativa. Não é que o meu apoio conte muito, só pelo facto de ser patrício...

- E aí tens, Caio Júlio - disse Mário com tristeza. - Sempre que Roma consegue fazer com que apareça um bom homem, ele é derrubado. E é derrubado porquê? Porque se preocupa mais com Roma do que com a família, a facção, ou as finanças.

- Não penso que isso se aplique apenas aos Romanos - disse César, levantando as delicadas sobrancelhas até franzir o sobrolho. - As pessoas são o que são. Vejo poucas diferenças entre Romanos, Gregos, Cartagineses, Sírios e muitos outros que queiras referir, pelo menos no que diz respeito à inveja ou à ambição. A única forma que o melhor homem para o cargo tem de mantê-lo para cumprir as suas potenciais sugestões é tornar-se rei. De facto, e não só por título.

- E Roma nunca aceitaria um rei - disse Mário.

- Não aceitou, nos últimos quinhentos anos. Cansámo-nos de reis. É estranho, não é? A maior parte do mundo prefere o regime absoluto. Mas nós, Romanos, não. Nem os Gregos.

Mário sorriu ironicamente.

- Isso acontece porque Roma e a Grécia estão cheias de homens que se consideram todos reis. E afinal Roma não se transformou numa democracia verdadeira lá por termos corrido com os nossos reis.

- Claro que não! A democracia verdadeira é um dos inatingíveis filosóficos gregos. Repara na barafunda que os Gregos fizeram dela; por isso, que hipótese temos nós, sensatos romanos? Roma é o domínio de muitos por alguns: as Famílias Importantes - César pronunciou a frase com indiferença.

- E um Homem Novo, ocasionalmente - disse Caio Mário, Homem Novo.

- E um Homem Novo, ocasionalmente - concordou César com serenidade.

Os dois filhos da casa de César entraram na sala de jantar exactamente como devem comportar-se os rapazes novos: de um modo másculo, e no entanto com deferência, mais comedidos do que tímidos, não se pondo em evidência mas também não tentando passar despercebidos.

Sexto Júlio César era o mais velho, ia fazer vinte e cinco anos, era alto e com o cabelo de um bronze aloirado, de olhos acinzentados. Habituado a avaliar os jovens, Caio Mário detectou uma estranha sombra nele: havia uma leve marca de exaustão na pele por baixo dos olhos, e tinha os lábios apertados, mas não da forma correcta.

Caio Júlio César Júnior, que ia fazer vinte e dois anos, mais robusto do que o irmão e até mais alto, era um rapaz de cabelos de um louro dourado e olhos azuis brilhantes. Devia ser inteligentíssimo, pensou Mário, mas não muito convincente ou opinioso.

juntos, formavam um bonito par de irmãos, de feições romanas, elegantes, que qualquer senador romano ambicionaria procriar. Senadores do futuro.

- Tiveste sorte com os teus filhos, Caio Júlio - disse Mário, enquanto os rapazes se sentavam no leito, dispostos no ângulo recto à direita do pai; a menos que estivessem à espera de outros convidados (ou então, era uma dessas casas escandalosamente progressistas onde as mulheres se deitavam para jantar), o terceiro leito, no ângulo recto à esquerda de Mário, deveria ficar vago.

- Sim, penso que tive sorte - disse César, sorrindo para os filhos com uma expressão tanto de amor como de respeito. Depois, apoiando-se no cotovelo, voltou-se para poder olhar para Mário, e a expressão mudou para uma curiosidade cortês. - Não tens filhos, pois não?

- Não - disse Mário sem qualquer mágoa.

- Mas és casado?

- Suponho que sim! - disse Mário, e riu. - Nós, os militares, somos todos iguais. A nossa verdadeira vida é o exército.

- Acontece - disse César, e mudou de assunto.

A conversa de antes do jantar era cultivada, bem-disposta e muito delicada, reparou Mário; ninguém daquela casa tinha necessidade de deitar abaixo outra pessoa que lá vivesse, todos mantinham excelentes relações uns com os outros, não se fazia sentir nenhuma discordância latente. Ficou curioso de saber como seriam as mulheres, pois o pai, afinal de contas, era apenas em parte a causa daquele resultado feliz; embora fosse casado com um pudim de Putéolos, Mário não era parvo, e não sabia de nenhuma mulher da nobreza romana que não tivesse grande influência no que dizia respeito à educação dos filhos. Quer fosse devassa ou recatada, idiota ou intelectual, era sempre uma pessoa a considerar.

Então entraram as mulheres, Márcia e as duas Júlias. Arrebatadoras! Absolutamente arrebatadoras, incluindo a mãe. Os servos puseram cadeiras para elas no centro vazio do ”U” formado pelos três leitos e pelas mesas de jantar, e Márcia ficou sentada em frente ao marido, Júlia em frente de Caio Mário e Julilla sentada diante dos seus dois irmãos. Quando sabia que os pais não estavam a olhar para ela mas somente o convidado, deitava a língua de fora aos irmãos, como Mário reparou, divertido.

Apesar da ausência de peixe-zorro, e de ostras, e da presença do vinho fortemente aguado, foi um jantar encantador, servido por escravos discretos e de ar satisfeito, que nunca abriam caminho indelicadamente entre as mulheres e as mesas, nem negligenciavam as suas obrigações. A comida era simples, mas excelentemente cozinhada, os sabores naturais das carnes, frutos e legumes não estavam disfarçados com essências duvidosas de garum e misturas esquisitas de especiarias exóticas do Oriente; era de facto o tipo de comida que o soldado Mário preferia.

Aves assadas com misturas simples de pão, cebolas e ervas do jardim, os mais leves pães acabados de cozer, duas variedades de azeitonas, pudins feitos de leve farinha de espelta com ovos e queijo, enchidos campestres grelhados na brasa e cobertos com uma fina camada de alho e mel diluído, duas excelentes saladas de alface, pepino, chalota e aipo (cada uma com um molho diferente à base de óleo e vinagre), e uma maravilhosa mistura ligeiramente estufada de bróculos, abóbora-menina e couve-flor coberta batida com óleo e avelã ralada. O azeite era doce e de primeira pressão, o sal era seco, e a pimenta - da melhor qualidade - mantida intacta até um dos comensais fazer sinal pedindo ao rapaz que tinha essa tarefa que moesse um pouco no almofariz com o pilão. A refeição terminou com pequenas tartes de frutos, uns cubos pegajosos de sementes de sésamo unidas com mel de tomilho, formas de massa cheias de picado de passas e embebidas em xarope de figos, e dois queijos esplêndidos.

- Arpino! - exclamou Mário, segurando uma fatia do segundo queijo, com a sua face de sobrancelhas salientes, momentaneamente parecendo anos mais novo. - Conheço bem este queijo! O meu pai fá-lo. O leite vem de ovelhas de dois anos de idade, que apenas são ordenhadas depois de terem pastado durante uma semana no prado do rio, onde cresce a erva-do-leite.

- Que bom! - disse Márcia, sorrindo-lhe sem qualquer sinal de afectação ou constrangimento. - Sempre gostei deste queijo, mas a partir de agora passarei especialmente a procurá-lo. O queijo do Arpino feito por Caio Mário... O teu pai também é Caio Mário?

No momento em que foi levado o último prato, as mulheres levantaram-se para sair, sem tomarem uma gota de vinho, mas tendo jantado com apetite e bebido muita água.

Ao levantar-se, Júlia sorriu-lhe com o que pareceu estima sincera, reparou Mário; conversara delicadamente sempre que ele iniciara alguma conversa, mas não quis transformar o diálogo entre Mário e o pai numa conversa a três. No entanto, não parecera aborrecida; seguira o que os dois homens haviam dito com evidente interesse e compreensão. Era uma rapariga realmente amorosa, uma rapariga serena que, apesar disso, não parecia destinada a transformar-se num pudim.

A irmã mais nova, Julilla, era uma marota: encantadora, sim, mas também incontrolável, pensou Caio Mário. Mimada e teimosa e sabendo bem como manipular a família para levar a melhor. Mas havia nela uma coisa mais inquietante; ele sabia avaliar as raparigas com a mesma perspicácia com que analisava os rapazes. E Julilla provocou-lhe uma ligeira crispação; algures nela havia um defeito, Mário estava certo disso. Não era exactamente falta de inteligência, embora fosse menos culta do que a irmã mais velha e os irmãos e não se importasse nada com a sua ignorância. Não era bem vaidade, embora fosse óbvio que tinha consciência e grande estima pela sua beleza. Então, Caio Mário encolheu mentalmente os ombros e pôs de parte o problema e Julilla; não iria preocupar-se com o assunto.

Os jovens demoraram-se mais cerca de dez minutos, e a seguir pediram licença e saíram. Caíra a noite; o relógio de água começou a gotejar as horas das trevas, duas vezes mais longas que as de claridade. Estava-se no meio do Inverno, e finalmente o calendário estava de acordo com as estações, graças à exigência do Pontífice Máximo, Lúcio Cecílio Metelo Dalmático, que achava que as datas e as estações deviam coincidir - muito grego, de facto. O que interessava, desde que os olhos e os órgãos que eram sensíveis à temperatura indicassem qual era a estação, e o calendário oficial exposto no Fórum Romano mostrasse que dia e mês eram?

Quando os servos vieram acender as lamparinas, Mário notou que o óleo era da melhor qualidade, e os pavios não eram feitos de estopa grosseira mas sim de linho convenientemente tecido.

- Leio muito - disse César, seguindo o olhar de Mário e interpretando as suas observações com a mesma exactidão misteriosa que mostrara no encontro de olhos do dia anterior no Capitólio. - E infelizmente não durmo muito bem. Há anos, quando as crianças chegaram à idade de participar em conselhos de família, tivemos uma reunião especial em que decidimos que a cada um de nós devia ser permitido um pequeno luxo. Márcia escolheu uma cozinheira de primeira classe, recordo-me bem, mas como nos beneficiava directamente a todos, votámos que ela deveria ter um tear novo, o último modelo de Patávio, e sempre o tipo de fio de que gosta, apesar de ser muito mais caro. Sexto escolheu a possibilidade de visitar os Campos de Fogo atrás de Putéolos, várias vezes por ano.

Um olhar de ansiedade aflorou por momentos o rosto de César; e deu um suspiro profundo.

- Há certas características hereditárias nos júlios Césares - explicou -, a mais famosa das quais, além de sermos louros, e o mito de que todas as júlias nascem com o dom de fazerem felizes os seus homens. Uma dádiva da fundadora da nossa família, a deusa Vénus, embora nunca tenha ouvido dizer que Vénus tenha feito felizes muitos mortais. Nem Vulcano, nesse aspecto. Ou mesmo Marte! No entanto, é o que diz o mito das nossas mulheres. Mas há outros dotes menos salutares em alguns de nós, incluindo o que foi herdado por Sexto. já deves ter ouvido falar da doença: padece de arquejos. Quando tem um dos seus acessos, ouvimo-lo arquejar sem sabermos onde está, e nos piores ataques fica com a cara negra. já por várias vezes chegámos a pensar que o perderíamos.

Então era isso que estava escrito no sobrolho do jovem Sexto! Arquejava, o desgraçado. Isso iria atrasar-lhe a carreira, sem dúvida.

- Sim - disse Caio Mário. - Conheço a doença. Meu pai diz que é sempre pior quando o ar está cheio de folhelhos, durante as colheitas, ou de pólen, no Verão, e que os que sofrem desse mal devem afastar-se dos animais, especialmente dos cavalos e dos cães. Durante o serviço militar, mantém-no em movimento.

- Ele descobriu por si próprio - disse César, suspirando de novo.

- Termina a tua história acerca do conselho de família, Caio Júlio disse Mário, fascinado; assim tanta democracia não tinham eles na mais pequena isonomia da Grécia! Que estranhos eram estes júlios Césares!

Para o olhar apressado de alguém de fora, eram perfeitamente correctos, os pilares patrícios da comunidade. Mas para uma pessoa de dentro, eram chocantemente pouco ortodoxos!

- Bem, o jovem Sexto escolheu ir regularmente aos Campos de Fogo, porque parece que os vapores sulfúricos lhe fazem bem - disse o pai. Continuam a fazer, e ainda lá vai.

- E o mais novo? - perguntou Caio Mário.

- Caio disse que só havia uma coisa no mundo que pretendia como privilégio, embora não se pudesse considerar um luxo. Pediu que o autorizassem a escolher a mulher.

As sobrancelhas de Mário, peludamente vivas, dançavam para cima e para baixo.

- Deuses! E concedeste-lhe esse privilégio?

- Sim!

- E se o rapaz faz o truque habitual e se apaixona por uma devassa, ou por uma prostituta velha?

- Casa com ela, se for esse o seu desejo. No entanto, não creio que o jovem Caio seja assim tão tolo. Tem a cabeça bem assente nos ombros disse o pai baboso com tranquilidade.

- Então vocês casam-se à antiga maneira dos patrícios, confarreatio, para o resto da vida? - acentuou Mário, mal acreditando no que ouvira.

- Sim!

- Deuses!

- A mais velha, júlia, também é muito ajuizada - continuou César. Optou por tornar-se membro da biblioteca de Fânio. Eu tinha pensado pedir exactamente a mesma coisa, mas não fazia sentido pertencermos os dois, e por isso associei-a a ela. A nossa bebé, a Julilla, não é nada sensata. Mas suponho que as borboletas não precisam da sabedoria para nada. Limitam-se - encolheu os ombros e sorriu de modo estranho - a alegrar o mundo. Eu odiaria um mundo sem borboletas. E já que fomos imprevidentes ao ponto de termos quatro filhos, é bom que a nossa borboleta só tenha vindo em último lugar. E tenha tido a graça de ser fêmea quando veio.

- O que pediu ela? - sorriu Caio Mário.

- Oh! Aquilo que esperávamos. Carnes doces e roupas.

- E tu, privaste-te de ser membro da biblioteca?

- Escolhi a melhor lamparina de óleo e os melhores pavios, e fiz negócio com a Júlia. Se eu pudesse requisitar os seus livros, ela poderia usar as minhas lamparinas para ler.

Mário abandonou-se a um sorriso ocioso, apreciando enormemente o autor daquela pequena história moral. Como gozava uma vida simples, alegre e livre de invejas! Rodeado por uma mulher e pelos filhos a quem se esforçava por agradar, por quem se interessava como indivíduos. Assim, não era de admirar que fosse tão certeiro nas análises do carácter dos seus rebentos, e que tivesse a certeza de que o jovem Caio não iria buscar uma mulher aos esgotos da Subura.

Aclarou a garganta.

- Caio Júlio, esta noite tem sido absolutamente encantadora. Mas creio que chegou a altura de me dizeres por que tinha de ficar sóbrio.

- Se não te importas, primeiro mandarei embora os servos - disse César. - O vinho está aqui ao nosso alcance, e agora que chegou o momento da verdade, não precisamos de ser tão abstêmios.

A sua meticulosidade surpreendeu Mário, já habituado à completa indiferença com que as classes altas de Roma encaravam os seus escravos domésticos. Não era pelo modo como os tratavam, pois costumavam ser bons para o seu pessoal, mas sim porque pareciam pensar que eles eram seres inanimados e empalhados quando se tratava de poderem ouvir o que deveria ser privado. Era um hábito com o qual Mário nunca se conciliara; tal como César, o seu pai sempre acreditara firmemente na necessidade de mandar embora os servos.

- Eles fazem imensas intrigas - disse César quando se encontraram sozinhos atrás de uma porta fechada. - E nós temos vizinhos intrometidos dos dois lados. Roma pode ser muito grande, mas quando se trata de espalhar boatos no Palatino, não passa de uma aldeia! Márcia contou-me que várias amigas suas se rebaixam ao ponto de pagarem aos servos alguns boatos - e dão bónus quando os boatos acertam! Além disso, os servos também pensam e sentem, por isso é melhor não os envolver.

- Tu, Caio Júlio, devias ter sido cônsul, e depois o nosso mais eminente consular, e a seguir deverias ter sido eleito censor - disse Mário com sinceridade.

- Estou de acordo contigo, Caio Mário. De facto devia! Mas não tenho dinheiro para ambicionar cargos tão elevados.

- Eu tenho dinheiro. É por isso que estou aqui? E que me mantiveste sóbrio?

César pareceu chocado.

- Meu caro Caio Mário, é claro que não! Estou mais perto dos sessenta do que dos cinquenta! Neste estádio, a minha carreira pública já está petrificada. Não, simplesmente estou preocupado com os meus filhos, e com os filhos deles, quando chegar a altura.

Mário sentou-se direito e virou-se no leito para encarar o convidado, que fez o mesmo. Como a sua taça estava vazia, Mário pegou no jarro e despejou um resto de vinho sem água, bebeu-o e fez uma expressão de espanto.

- É isto o que temos estado a aguar a noite inteira até perder o sabor? - perguntou.

César sorriu.

- Não! Não sou assim tão rico, garanto-te. O vinho que aguamos era de uma colheita vulgar. Este, guardo-o para ocasiões especiais.

- Então, sinto-me lisonjeado - Mário olhou para César por baixo das sobrancelhas. - O que queres de mim, Caio Júlio?

- Auxílio. Em troca, auxiliar-te-ei - disse César, enchendo a sua taça do excelente vinho.

- E como se irá processar este auxílio mútuo?

- É simples. Tornando-te membro da família.

- O quê?

- Estou a dar-te a escolher das minhas duas filhas a que mais te agradar - disse César paciente.

- Um casamento?

- Com certeza que é um casamento!

- Oh! Isso é que é uma ideia! - Mário viu de imediato as possibilidades. Verteu mais um pouco do aromático Falerno na taça, e não disse nada.

- Todos serão obrigados a reparar em ti se a tua mulher for uma Júlia - disse César. - Felizmente não tens filhos nem filhas. Por isso, qualquer mulher que tomes neste estádio da tua vida deve ser nova, e provir de uma estirpe fértil. É bastante compreensível que estejas à procura de outra mulher, ninguém ficará surpreendido. Mas se essa mulher for uma Júlia, pertence à melhor família patrícia, e os teus filhos terão nas veias o sangue dos Júlios. Indirectamente, o casamento com uma júlia enobrece-te, Caio Mário. Todos serão obrigados a ver-te de modo diferente do que te têm visto até agora. Porque o teu nome será elevado pela grande dignitas, o prestígio e o valor públicos, da família mais augusta de Roma. Dinheiro, não temos. Mas dignitas, isso temos. Os Júlios Césares são descendentes directos da deusa Vénus através de lulo, filho do seu filho Eneias. E assim um pouco do nosso esplendor também passará para ti, César pousou a taça e suspirou, embora com um sorriso.

- Garanto-te, Caio Mário: de verdade! Não sou o filho mais velho da minha geração da família dos Júlios, mas temos as imagens de cera nos armários, remontamos a mais de mil anos atrás. O outro nome da mãe de Rómulo e Remo, aquela a quem chamam Rea Sílvia, era Júlia! Quando coabitou com Marte e concebeu os seus filhos gémeos, fomos nós que demos a forma mortal a Rómulo e Remo, e por isso, a Roma.

- Alargou-se-lhe o sorriso; não um sorriso de quem se mete a si mesmo a ridículo, mas de puro prazer pelos seus ilustres ascendentes. - Éramos os Reis de Alba Longa, a maior de todas as cidades latinas, pois foi o nosso ascendente lulo que a fundou, e quando foi saqueada por Roma fomos trazidos para Roma e elevados na hierarquia da cidade para acrescentar peso à pretensão romana de conduzir a raça latina. E embora Alba Longa nunca tenha sido reconstruída, até hoje, o sacerdote dos montes Albanos é um Júlio.

Não podia fazer nada; Mário inspirou profundamente, com receio. Mas não disse nada, limitou-se a ouvir.

- A um nível mais humilde - continuou César - eu próprio não tenho poucas aspirações, apesar de nunca ter tido dinheiro para me candidatar aos altos cargos públicos. O meu nome torna-me famoso entre os eleitores. Sou galanteado por pessoas que subiram socialmente; e as Centúrias que votam nas eleições consulares estão cheias deles, como sabes. E sou muito respeitado pela nobreza. A minha dignitas pessoal é irrepreensível, tal como era a de meu pai - terminou César muito sério.

Novas perspectivas se abriam diante de Caio Mário, que não conseguia afastar os olhos do belo rosto de César: ”Sim! Eram descendentes de Vénus! Qualquer deles era belo. O aspecto tem importância (ao longo de toda a história do mundo, sempre foi preferível ser louro). Os filhos que eu tiver de uma Júlia podem ser louros e no entanto também ter narizes longos e irregulares como os romanos! Teriam tão bom aspecto como seriam pouco comuns. Que é a diferença entre os louros Júlios Césares, de Alba Longa, e os Pompeus louros, de Piceno. Os Júlios Césares têm inegavelmente ar de romanos, ao passo que os Pompeus parecem celtas.”

- Tu queres ser cônsul - continuou César, - isso é claro para toda a gente. As tuas actividades na Espanha Ulterior quando eras pretor produziram clientes. Mas infelizmente correm boatos de que és também cliente, e isso transforma os teus clientes em clientes do teu patrão.

O convidado sorriu mostrando os dentes, que eram grandes e brancos e de aspecto forte.

- Não passa de uma calúnia! - disse zangado. - Não sou cliente de ninguém!

- Acredito em ti, mas não é isso que as pessoas em geral acreditam

- sustentou César - e o que se acredita de um modo geral é mais importante do que a verdade. Qualquer pessoa de bom senso esquecerá a pretensão do clã dos Herénios em declarar-te cliente deles, pois o clã de Herénio, é muitíssimo menos latino do que o clã Mário, do Arpino. Mas os Cecílios Metelos também têm a pretensão de que dependes deles como cliente. E nos Cecílios Metelos acredita-se. Porquê? Por uma razão. Porque a família da tua mãe Fulcínia é etrusca, e o clã dos Mários possui terras na Etrúria. A Etrúria é um feudo tradicional dos Cecílios Metelos.

- Nenhum Mário ou Fuicínio foi alguma vez cliente de qualquer Cecílio Metelo! - disse Mário, interrompendo-o, cada vez mais furioso.

- São demasiado manhosos para dizerem que sou cliente deles numa situação em que tivessem de prová-lo!

- É evidente - disse César. - No entanto, têm-te uma aversão pessoal, o que dá um peso considerável à pretensão. As pessoas comentam-no constantemente. Dizem que é uma aversão demasiado pessoal para derivar unicamente da forma como lhes torceste os narizes quando eras tribuno da plebe.

- É pessoal! - disse Mário, rindo contrafeito.

- Conta-me.

- Uma vez atirei o irmão mais novo do Dalmático, o que vai indubitavelmente ser cônsul no ano que vem, para dentro de um chiqueiro na Numância. De facto, fomos três a atirá-lo, e desde então nenhum de nós três foi muito longe com os romanos que detêm influência.

- Quem eram os outros dois?

- Públio Rutílio Rufo e o rei da Numídia.

- Ah! Resolveu-se o mistério - César juntou as pontas dos dedos e comprimiu-as contra os lábios franzidos. - Apesar disso, a acusação de seres um cliente desonroso não é a única mancha ligada ao teu nome. Existe outra, com a qual é mais difícil lidar.

- Então, antes de passarmos a essa mancha, Caio Júlio, como sugeres que eu desfaça o boato acerca de ser cliente? - perguntou Mário.

- Casando com uma das minhas filhas. Ao seres aceite como marido de uma filha minha, isso fará o mundo entender que não reconheço qualquer sombra de verdade nessa história de seres cliente. E espalha a história do chiqueiro em Espanha! Se possível, pede a Públio Rutílio Rufo para confirmá-la. Todos terão então uma explicação mais que aceitável para o gênero de aversão de Cecílio Metelo - disse César sorrindo. - Deve ter tido graça; um Cecílio Metelo rebaixado ao nível de... nem dos porcos romanos!

- Teve graça - limitou-se a dizer Mário, ansioso por prosseguir. - E qual é a outra mancha?

- Deves com certeza estar a par dela, Caio Mário.

- Não consigo descobrir nenhuma, Caio Júlio.

- Diz-se que fazes negócio. Mário sobressaltou-se, espantado.

- Mas como posso fazer qualquer negócio diferente de três quartos do resto do Senado? Não possuo mercadorias em nenhuma companhia que me autorizem a votar ou a influenciar os negócios das companhias! Sou apenas sócio comanditário, forneço o capital! É isso o que dizem de mim, que tenho um papel activo no comércio?

- Com certeza que não. Meu caro Caio Mário, ninguém pensa! Rejeitam-te com uma zombaria, a simples frase: ”Ele faz negócio.” As implicações são imensas, embora nunca se diga nada de concreto! Por isso, os que não têm a sensatez de se informarem são levados a pensar que a tua família faz negócio há várias gerações, que tu próprio controlas companhias, impostos rurais, engordas à custa dos abastecimentos de cereais - disse César.

- Estou a entender - disse Mário de lábios apertados.

- É bom que entendas - disse César delicadamente.

- Não faço nada que qualquer Cecílio Metelo não faça! Até devo estar menos activamente metido no negócio.

- Concordo. Mas se eu tivesse vindo a aconselhar-te, Caio Mário disse César -, teria tentado convencer-te de que deverias evitar qualquer negócio que não estivesse ligado à posse de terras ou de bens. As tuas minas são irrepreensíveis; são bens sólidos. Mas para um Homem Novo as transacções comerciais com companhias não são muito acertadas. Deverias ter-te limitado a negócios que sejam absolutamente irrepreensíveis para um senador: terrenos ou bens.

- Queres dizer que as minhas actividades com as companhias são mais uma indicação de que não sou nem nunca poderei ser um nobre romano - disse Caio Mário com amargura.

- Precisamente!

Mário endireitou os ombros; seria uma perda de tempo e de energia insistir no sofrimento de tão manifesta injustiça. Em vez disso, dirigiu os seus pensamentos para o projecto aliciante de casar com uma rapariga da família de Júlio.

- Acreditas mesmo que casar com uma filha tua vai melhorar assim tanto a minha imagem pública, Caio Júlio?

- Não pode deixar de fazê-lo.

- Uma Júlia... Então, por que não me proponho casar com uma Sulpícia, ou com uma Cláudia, ou uma Emília ou uma Cornélia? Uma rapariga de qualquer das antigas famílias patrícias também serviria, até melhor! Ficaria com o nome antigo e com muito mais possibilidades políticas - disse Mário.

Sorrindo, César abanou a cabeça.

- Não ligo a provocações, Caio Mário, por isso, não percas tempo a tentá-lo. Sim, poderias casar com uma Cornélia ou uma Emília. Mas todos saberiam que a tinhas comprado. A vantagem de casar com uma Júlia consiste no facto de os Júlios Césares nunca terem vendido as filhas a nulidades endinheiradas desejosas de talhar carreiras públicas para si e uma herança nobre para a sua progenitura. O próprio facto de te terem permitido casar com uma Júlia mostrará ao mundo que és merecedor de todas as honras políticas, e que as manchas ligadas ao teu nome são calúnias. Os Júlios Césares sempre foram superiores, para venderem as filhas. É um facto universalmente conhecido. - César fez uma pausa por um momento para pensar, e a seguir acrescentou: - Vou aconselhar veementemente os meus filhos a converterem em capital a nossa subtileza e casarem as suas filhas com nulidades endinheiradas assim que puderem! Mário reclinou-se para trás com uma segunda taça cheia.

- Caio Júlio, por que motivo me ofereces esta hipótese? - perguntou.

César franziu o sobrolho.

- Há duas razões - disse. - A primeira é talvez pouco razoável, mas foi dela que proveio a minha decisão de alterar a nossa tradição familiar de obter capital financeiro através dos filhos. Bem vês, quando reparei em ti ontem, na cerimónia da tomada de posse, fui visitado por uma premonição. Não sou homem dado a premonições, convém que o saibas. Mas juro-te por todos os deuses, Caio Mário, que de repente soube que estava a olhar para um homem que, se lhe fosse dada essa hipótese, iriaO PRIMEIRO levar Roma a fugir de um perigo terrível. E também soube que se não te dessem a hipótese, Roma deixaria de existir - encolheu os ombros e estremeceu. - Há uma marca muito grande de superstição em todos os romanos e nas famílias realmente antigas, e que está muito desenvolvida. Eu acreditei no que senti. E depois de ter passado um dia inteiro, ainda acredito no que senti. E não seria adorável, pensei para comigo mesmo, que eu, um humilde senador de segunda ordem, desse a Roma o homem de que Roma irá necessitar tanto?

- Eu senti o mesmo - disse Mário bruscamente. - Sinto-o desde que fui para a Numância.

- Aí tens! já somos dois.

- E a tua segunda razão, Caio Júlio? César suspirou.

- Cheguei a uma idade em que tenho de encarar o facto de não ter conseguido até agora dar aos meus filhos tanto quanto devia como pai. Amor, isso tiveram. Conforto material, tiveram, sem o fardo do demasiado conforto material. Educação, também tiveram. Mas esta casa, mais quinhentas iugera de terra nos montes Albanos constituem todos os meus bens. - Sentou-se, cruzou as pernas e voltou a inclinar-se para a frente.

- Tenho quatro filhos. São demasiados, como sabes. Dois filhos e duas filhas. Aquilo que possuo não possibilitará as carreiras públicas dos meus filhos, nem sequer carreiras de segunda ordem, como o pai deles. Se eu dividir o que possuo pelos meus dois filhos, nenhum deles se habilitará ao censo senatorial. Se deixar o que tenho ao mais velho, Sexto, ele terá o mesmo destino que eu. Mas o mais novo, Caio, ficará numa penúria tal que nunca poderá habilitar-se ao censo dos cavaleiros. Com efeito, farei dele um Lúcio Cornélio Sila... Conheces Lúcio Cornélio Sila? - perguntou César.

- Não - respondeu Mário.

- A sua madrasta é minha vizinha do lado, uma mulher pavorosa de classe humilde, sem juízo mas muito rica. No entanto, tem um parente de sangue que herdará o dinheiro, um sobrinho, suponho. Como sei tanto acerca da situação dela? É o castigo de se ter um vizinho que por acaso também é senador. Ela importunou-me pedindo que lhe fizesse o testamento, e nunca mais se Caiou. O afilhado, Lúcio Cornélio Sila, vive com ela, segundo diz, porque literalmente não tem mais nenhum sítio para onde ir. Imagina: um Cornélio patrício com idade para ser senador neste momento, mas sem qualquer esperança de entrar no Senado. É um indigente!

O seu ramo da família decaiu há muito e o pai não tinha absolutamente nada; para ajudar ao infortúnio de Lúcio Cornélio, começou a beber, e o pouco que restava foi bebido já há muitos anos. Foi o pai que casou com a minha vizinha do lado, que alojou o filho debaixo do seu tecto desde que o marido morreu, mas não sabe fazer mais nada por ele. Tu, Caio Mário, foste imensamente mais feliz que Lúcio Cornélio Sila, pois ao menos a tua família era suficientemente abastada para te dar os bens e os lucros de senador quando chegou a oportunidade de entrares para o Senado. O teu estatuto de Homem Novo não podia afastar-te do Senado quando surgisse a oportunidade, ao passo que o falhanço no teste das posses certamente o teria feito. Lúcio Cornélio Sila é de nascimento impecável, de ambos os lados. Mas a penúria excluiu-o da sua posição legítima na ordem das coisas. E penso que me preocupo demasiado com o bem-estar do meu filho mais novo para o reduzir a ele, ou aos seus filhos ou aos filhos dos seus filhos, à situação de um Lúcio Cornélio Sila - disse César com alguma paixão.

- O nascimento é um acidente! - disse Mário com igual paixão. Por que há-de ter o poder de ditar o rumo de toda uma vida?

- Por que há-de tê-lo o dinheiro? - opôs César. - Vá, Caio Mário, admite lá que todos os homens de todos os países valorizam o nascimento e o dinheiro. Com efeito, acho a sociedade romana mais flexível do que muitas outras. Comparada com o Reino dos Partos, por exemplo, Roma é tão ideal como a hipotética República de Platão! Em Roma têm de facto existido casos de homens que cresceram do nada. Não é que eu pessoalmente tenha alguma vez admirado qualquer deles - disse César, meditativo. - O combate parece destruí-los como homens.

- Então, talvez seja melhor Lúcio Cornélio Sila ficar onde está - disse Mário.

- De modo nenhum! - disse César com firmeza. - Admito que o facto de seres um Homem Novo te infligiu um destino cruel e injusto, Caio Mário. Mas pertenço à minha classe o suficiente para lamentar o destino de Lúcio Cornélio Sila! - Assumiu a expressão decidida de um homem de negócios. - No entanto, o que me preocupa neste momento é o destino dos meus filhos. As minhas filhas, Caio Mário, não têm dote! Nem consigo juntar uma insignificância para elas, porque iria empobrecer os meus filhos. Isso significa que as minhas filhas não têm qualquer hipótese de casar com homens da sua classe. Peço desculpa, Caio Mário, se ao dizer isto julgares que te insultei. Mas não me refiro a homens como tu, quero dizer... - fez um movimento vago com as mãos. - Deixa-me repetir-to. Quero dizer que terei de casar as minhas filhas com homens de que não gosto, que não admiro, com quem não tenho nada em comum. Também não as casaria com homens da sua classe de quem não gostasse! O que quero é um homem decente, honrado, simpático. Mas não terei possibilidades de descobri-lo. Os que se me apresentarem pedindo as mãos das minhas filhas serão uns ingratos presunçosos a quem eu preferia mostrar o dedo do pé em vez da palma da mão. É como o destino de uma viúva rica; os homens decentes não a quererão, receando ser tomados por caçadores de fortunas, e por isso os que lhe restam em escolha são os caçadores de fortunas.

César mudou de posição, sentando-se na parte de trás do leito, com os pés a balouçar.

- Importavas-te, Caio Mário, se déssemos um passeio pelo jardim? Está frio lá fora, bem sei, mas posso dar-te um agasalho quente. Tem sido uma noite longa, e não muito fácil para mim. Começo a sentir os ossos presos.

Sem dizer palavra, Mário levantou-se do leito, pegou nos sapatos de César, calçou-lhos e atou-os com a eficiência de um espírito organizado. Depois, fez o mesmo aos seus e levantou-se, segurando César por baixo do cotovelo.

- É por isso que gosto tanto de ti - disse César. - Nada a despropósito, nenhumas pretensões.

Era um peristilo pequeno, mas tinha um certo charme que poucos pátios-jardins possuíam. Apesar da estação, ainda despontavam ervas aromáticas de odores deliciosos, e os plantios compunham-se na sua maioria de plantas de folhas perenes. Os pequenos hábitos do campo custavam a desaparecer nos Júlios Césares, reparou Mário, com um frémito de animação e contentamento. Ao longo dos beirais, onde podiam apanhar sol sem ficarem molhadas, havia centenas de pequenos molhos de pulcárias a secar, tal como na casa do seu pai, no Arpino. No fim de janeiro, seriam colocadas em todas as gavetas de roupas e cantinhos de uma ponta à outra do domus, para afastar pulgas, peixinhos de prata e parasitas de todos os tipos. A pulcária era cortada no solstício de Inverno para secar; Mário não imaginara que existisse alguma casa em Roma que soubesse da sua existência.

Como tinha havido um convidado para o jantar, os candelabros que pendiam do tecto da colunata à volta do peristilo ardiam com uma chama fraca, e as pequenas lamparinas de bronze que iluminavam os caminhos do jardim conferiam um delicado tom de âmbar ao mármore finíssimo dos seus bordos redondos. A chuva cessara, mas pesadas gotas de água cobriam todos os arbustos e o ar estava nevoento e gélido.

Nenhum dos dois homens reparou nisso. De cabeças encostadas (eram ambos altos, por isso era confortável encostar as cabeças uma à outra), caminharam pelos passeios, e finalmente pararam perto do pequeno tanque de repuxo ao meio do jardim, com o seu quarteto de dríades de pedra servindo de apoio a archotes. No Inverno, o tanque ficava vazio e o repuxo desligado.

”Isto”, pensou Caio Mário (cujo tanque e repuxo estavam cheios de água o ano inteiro graças a um sistema de aquecimento), ”é genuíno. Nenhum dos meus tritões e golfinhos e jorros de água me emocionam tanto como esta velha relíquia.”

- Estás interessado em casar com alguma das minhas filhas? - perguntou César sem ansiedade, embora parecesse comunicá-la.

- Estou, sim, Caio Júlio - disse Caio Mário num tom decidido.

- Causa-te pena divorciares-te da tua mulher?

- De modo nenhum - Mário aclarou a garganta. - E o que exiges tu de mim, Caio Júlio, em troca da oferta de uma noiva e do teu nome?

- Muito, de facto - disse César. - Dado que serás admitido na família mais como um segundo pai do que como cunhado, o que eéum privilégio da idade!, espero que dês um dote à minha outra filha e contribuas para o bem-estar de ambos os meus filhos. No caso da filha desditosa e do mais novo, estão necessariamente em causa bens e dinheiro. Mas deves prontificar-te a amparar os dois rapazes quando entrarem para o Senado e iniciarem a sua viagem em direcção ao consulado. Quero que ambos sejam cônsules, bem vês. O meu filho Sexto é um ano mais velho do que o mais velho dos dois rapazes do meu irmão Sexto, e por isso o meu filho Sexto será o primeiro desta geração de júlios Césares a chegar à idade de concorrer ao consulado. Quero que seja cônsul no ano certo, doze anos depois de entrar para o Senado, quarenta e dois anos após o seu nascimento. Será o primeiro cônsul Juliano em quatrocentos anos. Quero essa distinção! Senão, Lúcio, filho do meu irmão Sexto será o primeiro cônsul Juliano no ano seguinte.

Fazendo uma pausa para observar a face mal iluminada de Mário, César levantou uma mão tranquilizadora.

- Nunca houve ressentimentos entre o meu irmão e eu enquanto ele era vivo, nem existe agora entre mim e os meus e os seus dois filhos. Mas um homem deve ser cônsul no ano certo. Dá melhor aspecto.

- O teu irmão Sexto deu o filho mais velho a adoptar, não foi? perguntou Mário, tentando lembrar-se de uma coisa que qualquer romano saberia sem sequer pensar.

- Sim, há muito tempo. O seu nome também era Sexto; é o nome que habitualmente damos aos nossos filhos mais velhos.

- Claro! Quinto Lutácio Catulo! Ter-me-ia lembrado se usasse César no nome, mas não usa, pois não? Vai certamente ser o primeiro César a alcançar o consulado, é muito mais velho do que qualquer dos outros.

- Não - disse César, abanando a cabeça enfaticamente. -já não é um César, é um Lutácio Catulo.

- Deduzo que o velho Catulo pagou bem pelo seu filho adoptivo disse Mário. - Parece haver imenso dinheiro na família do teu falecido irmão.

- Sim, pagou muito dinheiro. Tal como tu pagarás pela tua nova mulher, Caio Mário.

- Júlia. Casarei com Júlia - disse Mário.

- Não casas com a mais nova? - perguntou César parecendo surpreendido. - Bem, admito que fico feliz, apenas por achar que nenhuma rapariga deve casar antes dos dezoito anos, e a julilla ainda falta um ano e meio. De facto, penso que fizeste a escolha certa. No entanto, sempre considerei julilla a mais atraente e interessante das duas.

- Não admira; és pai dela - disse Mário mostrando os dentes. - Não, Caio Júlio. A tua filha mais nova não me tenta de modo nenhum. Se ela não adorar o sujeito com quem casar, vai dar-lhe muito que fazer. Sou demasiado velho para caprichos de raparigas. Ao passo que me parece que júlia tem tanto juízo como beleza. Nela agradou-me tudo.

- Será uma excelente mulher de cônsul.

- Pensas deveras que conseguirei ser cônsul? César acenou com a cabeça.

- Certamente! Mas não para já. Casa primeiro com Júlia, e depois deixa assentar as coisas e as pessoas. Tenta arranjar uma guerra decente que dê para uns anos. Ajuda imenso se tiveres na folha de serviços um êxito militar recente a teu favor. Oferece os teus serviços a alguém como delegado sénior. Depois, concorre ao consulado ao fim de dois ou três anos, - Mas então terei já cinquenta e cinco - retorquiu Mário desanimado. - Eles não gostam de eleger homens tão acima da idade normal.

- Tu já és demasiado velho agora, e assim o que interessam mais dois ou três anos? Ser-te-ão muito úteis se os usares bem. E não pareces ter a idade que tens, Caio Mário, isso é um factor importante. Se já estivesses a espigar, seria muito diferente. Mas pelo contrário, és a imagem da saúde e do vigor; e és um homem grande, o que impressiona sempre os eleitores centuriais. Com efeito, quer sejas o Homem Novo ou não, se não tivesses incorrido na inimizade dos Cecílios Metelos não terias sido um forte contendor ao consulado há três anos atrás, na tua altura certa para isso? Se fosses um indivíduo insignificante e sem qualquer préstimo, nem uma Júlia ajudava. Como as coisas estão, serás cônsul, não tenhas receio.

- O que queres exactamente que faça pelos teus filhos?

- Em termos de bens?

- Sim - disse Mário, esquecendo as vestes finas de linho de Quios e sentando-se num banco de mármore branco não polido. Como ficou aí sentado durante algum tempo e o banco estava húmido, quando se levantou tinha por todos os lados uma mancha pintalgada de um rosa-púrpura de ar estranhamente natural. A tinta púrpura da sua roupa passou para a pedra porosa e fixou-se, pelo que o banco se tornou com o tempo (ao fim de uma geração ou duas) uma das peças de mobiliário mais admiradas e apreciadas que outro Júlio César levaria para o Domus Publicus do Pontífice Máximo. Entretanto, para o Caio Júlio César que concluíra um negócio de casamento com Caio Mário, o banco era um presságio; um presságio lindo, lindo. Quando chegou o escravo, de manhã, a contar-lhe o milagre e ele próprio o viu (o escravo estava mais receoso do que horrorizado: toda a gente conhecia o significado régio da cor púrpura), soltou um suspiro de perfeita satisfação. Porque o banco púrpura lhe dizia que ao fechar este negócio de casamento estava a conduzir a família para o púrpura dos mais altos cargos. E isso uniu-se na sua mente a um estranho pressentimento; sim, Caio Mário tinha um lugar no destino de Roma que Roma ainda não sonhara. César tirou o banco do jardim e pô-lo no átrium, mas nunca contou a ninguém como ele se transformara, assim da noite para o dia, ricamente salpicado com veios púrpura e rosa. Um presságio!

- Para o meu filho Caio, preciso de boas terras suficientes para lhe garantir um lugar no Senado - dizia agora César ao seu convidado.

- Acontece que neste preciso momento há seiscentas iugera de terra excelente à venda, mesmo ao lado das minhas quinhentas, nos montes Albanos.

- O preço?

- Espantoso, dada a sua qualidade e a proximidade de Roma. É um vendedor, infelizmente - César respirou fundo. - Quatro milhões de sestércios: um milhão de denários - disse heroicamente.

- De acordo - disse Mário, como se César tivesse dito quatro mil sestércios em vez de quatro milhões. - No entanto, parece-me que será mais prudente de momento mantermos secretos os nossos acordos.

- Oh! Absolutamente! - disse César com fervor.

- Então, eu próprio te trarei amanhã essa quantia, em dinheiro disse Mário, sorrindo. - E o que mais desejas?

- Espero que antes que o meu filho mais velho entre para o Senado, tenhas passado a consular. Terás influência e poder, tanto por esse facto como pelo casamento com a minha Júlia. Espero que uses a tua influência e poder para propor os meus filhos quando eles concorrerem para os vários cargos. De facto, se entrares para um cargo militar para te ajudar a vencer as dificuldades durante os próximos dois ou três anos, espero que os leves contigo para a guerra. Não são inexperientes, foram ambos cadetes e oficiais juniores, mas precisam de fazer mais serviço militar para lhes ajudar às carreiras, e sob o teu comando estarão o melhor possível.

Em privado, Mário não achava que nenhum dos jovens fosse feito da massa de que se fazem os grandes comandantes, mas julgava que dariam oficiais mais que competentes, e por isso limitou-se a dizer:

- Terei muito prazer em acolhê-los, Caio Júlio. César continuou a trabalhá-lo.

- No que diz respeito às carreiras políticas, têm a grande desvantagem de serem patrícios. Como sabes, daí resulta que não podem concorrer a tribunos da plebe, e causar sensação como tribuno da plebe é de longe o método mais eficaz de firmar uma reputação política. Os meus filhos terão de tentar a edilidade curul, que é proibitivamente cara! Por isso, espero que garantas que tanto Sexto como Caio sejam eleitos edis curuis, com dinheiro suficiente para poderem realizar o tipo de jogos e espectáculos de que o povo se lembrará com afecto quando for votar para a eleição dos pretores. E se for necessário que os meus filhos comprem votos em qualquer fase da carreira, conto contigo para lhes fornecer o dinheiro.

- De acordo - disse Caio Mário, e estendeu a mão direita com uma vivacidade comedida, considerando a extensão dos pedidos de César; estava a comprometer-se numa união que lhe iria custar no mínimo dez milhões de sestércios.

Caio Júlio César pegou-lhe na mão e apertou-a com força, Caiorosamente.

- Excelente! - disse, rindo.

Voltaram-se para regressar a casa, onde César ordenou a um servo sonolento que trouxesse o velho sagum ao seu dono.

- Quando posso ver Júlia e falar com ela? - perguntou Mário quando a sua cabeça emergiu da abertura no centro do círculo do sagum, do tamanho de uma roda.

- Amanhã à tarde - disse César, abrindo ele mesmo a porta principal. - Boa noite, Caio Mário.

- Boa noite, Caio Júlio - disse Mário, e saiu para o frio cortante do vento norte, que começava a soprar.

Caminhou para casa sem dar por ele, quente como já não se sentia há muito tempo. Seria possível que o seu hóspede indesejável, aquela sensação, tivera razão em continuar a viver dentro dele? Ser cônsul! Pôr os pés da sua família bem assentes no chão consagrado da nobreza romana! Se pudesse fazê-lo, tinha de gerar um filho. Outro Caio Mário.

As Júlias partilhavam uma salinha, onde se encontraram na manhã seguinte para tomar o pequeno-almoço. Julilla estava especialmente irrequieta, saltitando, incapaz de sossegar.

- O que se passa? - perguntou a irmã, exasperada.

- Não sentes? Há qualquer coisa no ar, e quero encontrar-me com Clodilla no mercado das flores esta manhã; prometi-lhe que ia! Mas imagino que vamos ter de ficar todos em casa para mais uma daquelas conferências familiares tão aborrecidas - disse Julilla, melancólica.

- Sabes? - disse Júlia. - Tu não aprecias nada! Quantas raparigas conheces que tenham o privilégio de dizer o que pensam de uma conferência familiar?

- Que absurdo! São aborrecidas, nunca falamos de nada de interessante; só de servos, tutores e coisas impossíveis. Quero deixar a escola, estou farta do Homero e daquele maçador do velho Tucídides! Que utilidade têm para uma rapariga?

- Distinguem-na como culta e bem-educada - disse Júlia em tom repreensivo. - Não queres um bom marido?

Julilla deu uma risada.

- A minha ideia de bom marido não inclui Homero e Tucídides, respondeu. - Oh! Quero sair esta manhã! - e pôs-se aos saltos.

- Conhecendo-te como te conheço, se quiseres sair hás-de arranjar maneira de fazê-lo - disse Júlia. - Agora importas-te de te sentar e comer? Uma sombra escureceu a porta; as raparigas olharam para cima, de boca escancarada. O pai, ali!

- Júlia, quero falar contigo - disse ele ao entrar, e desta vez ignorando Julilla, a sua favorita.

- Oh! Tata! Nem um beijo de bons-dias? - perguntou a filha preferida, fazendo beicinho.

Ele olhou-a com ar ausente, deu-lhe um beijo rápido na bochecha, e depois conseguiu a presença de espírito suficiente para lhe sorrir.

- Se arranjares alguma coisa para fazer, minha borboleta, não achas melhor saíres?

O rosto dela transformou-se, numa expressão de alegria.

- Obrigada, tata, obrigada! Posso ir ao mercado das flores? E ao Porticus Margaritaria?

- Quantas pérolas vais comprar hoje? - perguntou-lhe o tata, sorrindo.

- Milhares! - gritou ela, preparando-se para sair.

Quando passou por ele, César pôs-lhe um denário de prata na mão esquerda.

- Não chega nem para a pérola mais pequenina, mas talvez dê para um lenço - disse ele.

- Tata! Oh! obrigada! - gritou Julilla com os braços à volta do pescoço do pai, beijando-o. A seguir, desapareceu.

César olhou então com muita meiguice para a filha mais velha.

- Senta-te, Júlia - disse.

A rapariga sentou-se, na expectativa, mas o pai não disse mais nada até Márcia entrar e instalar-se ao lado da filha.

- Que é, Caio Júlio? - perguntou Márcia, curiosa, embora não apreensiva.

O homem ficou de pé, apoiando o seu peso ora num pé ora no outro, e depois assestou sobre Júlia toda a beleza dos seus olhos azuis.

- Minha querida, gostaste de Caio Mário? - perguntou. -Sim, tata, gostei.

- Por quê?

Ela avaliou cuidadosamente a questão.

- Pelo seu modo de falar simples mas honesto, suponho. E pela sua falta de afectação. Veio confirmar o que sempre suspeitei.

- Ah, sim?

- Sim. Acerca dos boatos que estamos sempre a ouvir; que não sabe grego, que é um simplório execrável do campo, que fez a sua reputação militar à custa dos outros e graças aos caprichos de Cipião Emiliano. Sempre me pareceu que as pessoas falavam demasiado, com muito despeito e a todo o momento, para que pudesse ser verdade. Depois de conhecê-lo, tenho a certeza. Não é nenhum simplório, nem me parece que tenha atitudes de rústico. É inteligentíssimo! E muito culto. Oh, o grego dele não soa bem ao ouvido, mas a única falha é o sotaque. A construção e o vocabulário são excelentes. Tal como o seu latim. Achei que tem umas sobrancelhas extremamente distintas, não achou? O seu gosto a vestir é um pouco ostensivo, mas espero que seja por culpa da mulher.

- Neste ponto, Júlia parou, parecendo subitamente agitada.

- Júlia! Gostaste mesmo dele! - disse César, com uma curiosa nota de receio na voz.

- Sim, tata, claro que gostei - disse ela, confusa.

- Fico muito contente por ouvi-lo, porque vais casar com ele - proferiu César abruptamente, faltando-lhe naquela situação pouco habitual o seu famoso tacto e diplomacia.

Júlia pestanejou.

- Vou?

E Márcia sublinhou:

- Vai?

- Sim - disse o tata, e sentiu uma necessidade imperiosa de sentar-se.

- E quando foi exactamente que chegaste a essa conclusão? - perguntou Márcia, dando à voz um maligno tom de despeito. - Onde a viu ele, para a pedir?

- Não foi ele que a pediu - replicou César na defensiva. - Eu ofereci-lhe Júlia. Ou Julilla. Foi por isso que o convidei para jantar connosco. Márcia fitou-o agora com uma expressão que punha claramente em dúvida a sua sanidade.

- Tu ofereceste a um Homem Novo que quase podia ser pai delas, a possibilidade de escolher uma das tuas filhas para mulher? - perguntou, agora furiosa.

- Sim, ofereci.

- Porquê?

- É óbvio que sabes quem é ele.

- Claro que sei quem é ele.

- Também deves saber que é o homem mais rico de Roma.

- Sim!

- Minhas meninas - disse César num tom sério, tratando do mesmo modo mulher e filha -, sabem muito bem o que temos de enfrentar. Quatro filhos e sem os bens nem o dinheiro necessários para lhes dar o melhor. Dois rapazes que têm a linhagem e a inteligência necessárias para chegarem ao topo, e duas raparigas que têm a linhagem e a beleza necessárias para só casarem com os melhores. Contudo... sem dinheiro! Eles sem dinheiro para o cursus honorum, e elas sem dinheiro para os dotes.

- Sim - disse Márcia em tom inexpressivo. Como o seu pai tinha morrido antes de ela ter idade para casar, os filhos da sua primeira mulher combinaram com os executores do testamento fazer com que não ficasse com nada de valioso. Caio Júlio César desposara-a por amor, e como Márcia tinha apenas um dote reduzido, a sua família ficou feliz com a união. Sim, haviam casado por amor - e tinham sido recompensados com a felicidade, a tranquilidade, e três crianças extremamente bem adaptadas e uma linda borboleta. Mas nunca deixara de sentir-se humilhada pelo facto de César não obter através do casamento nenhuma melhoria financeira.

- Caio Mário precisa de uma mulher Patrícia, proveniente de uma família cuja integridade e dignitas sejam tão impecáveis como a sua estirpe - explicou César. - Devia ter sido eleito cônsul há três anos, mas os Cecílios Metelos impediram-no, e na sua condição de Homem Novo casado com uma mulher da Campânia, não possui ligações familiares capazes de se lhes oporem. A nossa Júlia obrigará Roma a tomar Caio Mário a sério. A nossa júlia dar-lhe-á posição social, elevará a sua dignitas, e o seu valor e prestígio públicos subirão mil vezes. Em contrapartida, Caio Mário tomou a seu cargo a solução das nossas dificuldades financeiras.

- Oh, Caio! - disse Márcia, com os olhos a encher-se de lágrimas.

- Oh, Pai! - disse Júlia, com uma expressão comovida.

Agora que via a fúria da mulher dissipar-se e a filha entusiasmada, César ficou descansado.

- Reparei nele na cerimónia de posse dos novos cônsules, anteontem. O que é estranho é que nunca tinha dado bem por ele antes; nem mesmo quando foi mal sucedido na candidatura a cônsul. Mas no dia de Ano Novo, talvez não seja exagero dizer que se me abriram os olhos... Compreendi que era um grande homem! Compreendi que Roma irá necessitar dele. Não sei ao certo quando tive a ideia de me ajudar auxiliando-o. Mas quando entrámos no templo e ficámos juntos, ela já estava lá em espírito, completamente formada. Por isso, corri o risco, e convidei-o para jantar.

- E foste mesmo tu que lhe fizeste a proposta, e não o contrário? perguntou Márcia.

- Fui.

- As nossas preocupações acabaram?

- Sim - disse César. - Caio Mário pode não ser romano de Roma, mas na minha opinião é homem de palavra. Acredito que cumprirá a sua parte do acordo.

- Qual é a sua parte do acordo? - perguntou a mãe, com o seu sentido prático, sacando mentalmente do ábaco.

- Hoje, vai dar-me quatro milhões de sestércios em dinheiro, para a compra daquele terreno ao lado do nosso em Bovilas. O que significa que o jovem Caio terá bens suficientes para assegurar um lugar no Senado, sem ser preciso mexer na herança de Sexto. Irá ajudar os nossos dois rapazes a serem edis curuis. Irá ajudá-los a fazer o que for necessário para serem eleitos cônsules na devida altura. E apesar de não termos discutido pormenores, há-de dar um bom dote à Julilla.

- E o que fará pela Júlia? - perguntou Márcia com secura. César ficou com uma expressão vazia.

O que fará pelajúlia? - repetiu. - O que mais pode fazer pelajúlia, senão casar com ela? Afinal de contas, ela não tem dote, e vai certamente custar-lhe uma fortuna torná-la sua mulher.

- Geralmente uma rapariga recebe o dote, para poder dispor de independência financeira após o casamento, especialmente no caso de se divorciarem. Embora algumas mulheres sejam suficientemente tolas para darem o dote aos maridos, nem todas as mulheres o fazem, e o dote tem de aparecer quando o casamento acaba, mesmo que o marido tenha feito uso dele. Insisto para que Caio Mário dê um dote a Júlia que lhe possibilite viver, se em qualquer altura se divorciar dela - disse Márcia num tom que não admitia qualquer argumento.

- Márcia, não posso pedir mais dinheiro ao homem! - retorquiu César.

- Lamento, mas vais ter de fazê-lo. Com efeito, surpreende-me que não tenhas pensado nisso tu mesmo, Caio Júlio - Márcia suspirou exasperada.

- Nunca entendi por que razão o mundo funciona na crença falaciosa de que os homens são melhores nos negócios do que as mulheres! É que não são. E tu, querido marido, tens menos jeito para os negócios do que a maior parte dos homens! A Júlia é a única causadora da nossa mudança de sorte, e por isso temos o dever de lhe garantir um bom futuro, também a ela.

- Admito que tens razão, querida - disse melancolicamente César mas não posso pedir-lhe mais dinheiro!

Júlia olhava ora um, ora o outro; não era a primeira vez que assistia a uma divergência de opiniões, claro, especialmente quanto a assuntos de dinheiro, mas era a primeira vez que era ela o assunto central, o que a afligia. Por isso, interveio a fim de contentar os dois, dizendo:

- Não faz mal, a sério! Eu mesma pedirei um dote a Caio Mário. Não tenho receio de fazê-lo. Ele entenderá.

- Júlia! Queres mesmo casar com ele! - sobressaltou-se Márcia.

- Claro que quero, Mamã. Acho-o encantador!

- Minha filha, é trinta anos mais velho do que tu! Vais ficar viúva muito depressa.

- Os rapazes novos são aborrecidos, fazem-me lembrar os meus irmãos. Prefiro mil vezes casar com alguém como Caio Mário - disse a filha intelectual. - Serei boa para ele, juro. Amar-me-á e nunca se há-de arrepender dos gastos.

- Quem iria imaginar uma coisa destas? - perguntou César a ninguém em especial.

- Não fiques tão espantado, tata, Vou fazer dezoito anos em breve; sabia que farias o meu casamento este ano, e devo confessar que estava receosa. Não exactamente pelo casamento em si, mas apenas pela pessoa que viria a ser o meu marido. Ontem à noite, quando conheci Caio Mário... pensei logo para comigo mesma que seria um encanto arranjares-me alguém como ele - Júlia corou. - Não é nada parecido contigo, tata, e, no entanto, é parecido: achei-o muito justo, meigo e honesto.

Caio Júlio César olhou para a mulher.

- Não é um prazer único descobrir que gostamos realmente dos nossos filhos? Amarmos os nossos filhos é natural. Mas o afecto? O afecto tem de ser merecido - disse.

Dois encontros com mulheres no mesmo dia enervavam mais Caio Mário do que a perspectiva de combater um exército inimigo dez vezes maior do que o seu. Um era o primeiro encontro com a sua futura noiva e a mãe desta; o outro era o último encontro com a sua mulher actual.

A prudência e o cuidado ditavam que visse Júlia antes de Grânia, para evitar que surgissem dificuldades inesperadas. Por isso, à oitava hora do dia - ou seja, a meio da tarde - chegou à casa de Caio Júlio César, desta vez vestido com a toga debruada a púrpura, sozinho e aliviado da carga de um milhão de denários de prata; a quantia atingia o peso de dez mil libras, o que equivalia a 160 talentos, ou 160 homens carregados. Felizmente, ”em dinheiro” era uma expressão relativa; Caio Mário trouxe uma ordem de pagamento do banco.

No gabinete de Caio Júlio, entregou ao dono da casa um rolo de pele de Pérgamo.

- Fiz tudo com a maior discrição possível - disse ele, enquanto César desenrolava o pergaminho e passava os olhos pelas poucas linhas nele escritas. - Como podes ver, tratei com os teus banqueiros de fazer o depósito de duzentos talentos de prata em teu nome. Não há maneira de descobrirem a origem do depósito sem que se perca muito mais tempo do que uma firma de banqueiros se daria ao luxo de perder, só para satisfazer a curiosidade de qualquer um.

- O que vem dar ao mesmo. Pareceria que recebi um suborno! Se eu não fosse um senador tão insignificante, alguém no meu banco iria alertar o pretor urbano - disse César, deixando o pergaminho enrolar-se e pondo-o de lado.

- Duvido que alguém tenha sido alguma vez subornado com uma quantia tão grande, até mesmo um cônsul cheio de influência - disse Caio Mário sorridente.

César estendeu a mão direita.

- Não tinha imaginado isto em talentos - disse ele. - Deuses! Pedi-te um mundo! Tens a certeza de que não ficaste em apuros?

- De modo nenhum - Mário teve dificuldade em separar os seus dedos do aperto de mão convulsivo de César. - Se o terreno que pretendes for ao preço que me referiste, estou a dar-te quarenta talentos a mais. Representam o dote da tua filha mais nova.

- Não sei como agradecer-te, Caio Mário - César largou por fim a mão de Mário, aparentando cada vez menos à-vontade. - Tenho tentado convencer-me de que não estou a vender a minha filha, mas neste momento já duvido. Sinceramente, Caio Mário, eu não venderia a minha filha! Acredito que o futuro dela contigo e o estatuto dos vossos filhos será ilustre.

Acredito que cuidarás bem dela, e que a estimarás como quero que a minha filha seja estimada - a sua voz denotava impaciência; com uma quantia tão grande não poderia fazer a vontade a Márcia e pedir mais, em seguida, como dote para Júlia. Por isso, levantou-se da sua mesa de trabalho com pouca firmeza, pegando no pergaminho de um modo mais casual do que o seu coração ou a mente alguma vez o levariam a pegarlhe. Depois, enfiou-o no sinus da toga, onde as suas pregas faziam uma curva abaixo do braço direito, que estava livre, formando um bolso espaçoso. - Não descanso enquanto isto não estiver no meu banco - hesitou e depois disse: - Júlia só faz dezoito anos no início de Maio, mas não desejo protelar o vosso casamento até meados de junho, e por isso, se estiveres de acordo, poderemos marcar a cerimónia para qualquer altura em Abril.

- É aceitável - disse Mário.

-já tinha decidido fazê-lo - continuou César, preenchendo o vazio desconfortável criado pelo seu mal-estar. - É aborrecido uma rapariga nascer exactamente no início da única época do ano que se diz trazer infortúnio ao casamento. Embora eu não entenda por que razão hão-de ser vistos como portadores de infortúnio o pino da Primavera e o início do Verão - libertou-se da sua disposição anterior. - Espera aqui, Caio Mário. Vou chamar Júlia.

Agora era a vez de Caio Mário ficar enervado, apreensivo; esperou na sala pequena mas arrumada com uma ansiedade terrível. Oh! Que ao menos ela não estivesse muito relutante! Nada no comportamento de César sugeria que o estivesse, mas ele sabia muito bem que havia coisas que nunca lhe diriam, e ansiava por uma Júlia realmente disposta. Contudo - como podia ela acolher de bom grado uma união tão pouco de acordo com o seu sangue, a sua beleza, a sua juventude? Quantas lágrimas teria vertido quando lhe deram a notícia? Suspiraria ela por algum belo jovem aristocrata que o senso comum e a necessidade tornavam inaceitável? Um provinciano italiano já de certa idade que não sabia grego - que marido para uma Júlia!

A porta que dava para a colunata do fundo do jardim do peristilo abriu-se para dentro, e o sol entrou no gabinete de César como uma fanfarra de trompetes, dourada, com o brilho do latão que cegava, e Júlia no meio, de mão direita estendida, a sorrir.

- Caio Mário - disse ela com prazer; o sorriso começava nos seus olhos.

- Júlia - disse Mário, aproximando-se o bastante para lhe apertar a mão, mas sem saber o que fazer com ela, ou o que fazer a seguir. Aclarou a garganta. - O teu pai contou-te?

- Oh, sim! - O sorriso não se desvaneceu; até cresceu, e no seu comportamento não havia nenhuma imaturidade ou timidez de menina. Pelo contrário, parecia ter perfeito controlo sobre si mesma e sobre a situação, com uma ponderação régia, com o poder de uma princesa, e no entanto subtilmente submissa.

- Não te importas? - perguntou Mário abruptamente.

- Estou encantada - disse Júlia com os seus lindos olhos grandes, ternos e cinzentos ainda sorridentes; como que para encorajá-lo, com os dedos contornou-lhe a palma da mão, e apertou-a com suavidade. - Caio Mário, não fiques tão preocupado! Na verdade, estou sincera e honestamente encantada!

Ele ergueu a mão esquerda, embaraçada nas pregas da toga, e pôs as mãos da rapariga entre as suas, observando-lhe as perfeitas unhas ovais, os dedos macios e esguios.

-já sou um velho! - disse.

- Então, devo gostar de velhos, porque gosto de ti.

- Gostas de mim?

Ela pestanejou.

- Claro! Senão não teria concordado em casar contigo. O meu pai é o mais gentil dos homens, não é um tirano. Por mais que esperasse que eu estivesse disposta a casar contigo, nunca, nunca me teria forçado a isso.

- Mas tens a certeza de que não te forçaste a ti mesma? - perguntou ele.

- Não era preciso - disse pacientemente Júlia.

- Há com certeza algum jovem de quem gostas mais!

- De modo nenhum. Os jovens parecem-se demasiado com os meus irmãos.

- Mas... Mas... - ele procurou com esforço qualquer objecção, e disse por fim: - As minhas sobrancelhas!

- Acho-as maravilhosas - respondeu a rapariga.

Mário sentiu o sangue subir-lhe ao rosto, sem saber como controlá-lo e ficou ainda com menos equilíbrio; depois, apercebeu-se de que, embora ela estivesse calma e senhora de si, era apesar de tudo completamente ingénua e não entendia nada do transe por que ele estava a passar.

- O teu pai disse que casávamos em Abril, antes do teu aniversário. Concordas? - perguntou.

Ela franziu o sobrolho.

- Penso que sim, se é o que o pai diz. Mas eu preferia antecipá-lo para Março, se tu e ele concordarem. Queria casar na festa de Anna Perenna.

Era um dia apropriado, mas também um dia de infortúnio. A festa de Anna Perenna, comemorada no primeiro dia de lua cheia de Março, estava associada à Lua e ao velho Ano Novo. Em si, o dia era propício, mas o dia seguinte não o era.

- Não receias que o teu primeiro dia de casada se inicie com maus presságios? - perguntou.

- Não - disse Júlia. - Casando-me contigo, todos os presságios serão bons.

Colocou a sua mão esquerda sob a direita dele, de modo a ficarem de mãos dadas, e fitou-o com ar sério.

- A minha mãe deu-me pouco tempo para estar contigo a sós - disse e há uma questão que devemos esclarecer antes que ela entre. O meu dote... - Aí o sorriso da rapariga desapareceu, substituído Por um olhar sério e reservado. - Não prevejo uma relação infeliz contigo, Caio Mário, pois não há nada em ti que me faça duvidar do teu carácter ou integridade, e sei que o mesmo acharás de mim. Se nos respeitarmos um ao outro, seremos felizes. No entanto, a minha mãe é inflexível quanto a um dote, e o meu pai está muito desolado com a atitude dela. Ela diz que devo receber um dote, para o caso de resolveres divorciar-te de mim. Mas o meu pai já considera excessiva a tua generosidade, e odeia ter de te pedir mais ainda. Por isso, disse-lhes que seria eu a pedir-to, e tenho de fazê-lo antes de entrar a mamã. Porque ela vai falar nisso.

Não havia cupidez no olhar dela, apenas preocupação.

- Seria possível pôr uma quantia de parte, ficando acordado que será tanto tua como minha se, como espero, não encontrarmos motivos para divórcio? Porém, no caso de nos divorciarmos, seria minha.

Que boa advogada era ela! Uma verdadeira Romana. Tudo tão cuidadosamente dito, graciosamente inofensivo, e no entanto claro como a água.

- Penso que é possível - respondeu Mário, num tom sério.

- Tens de ter a certeza de que não posso gastá-lo enquanto estivermos casados - disse Júlia. - Desse modo, poderás confiar em mim.

- Se é essa a tua vontade, é o que farei - disse ele. - Mas não é necessário fazer um acordo. Terei muito gosto em dar-te agora uma quantia que ficará em teu nome, com a qual farás o que entenderes.

Escapou-lhe uma gargalhada.

- Ainda bem que me escolheste a mim e não à Julilla! Não, muito obrigada, Caio Mário. Prefiro o modo honrado - disse gentilmente a rapariga. - Agora beijas-me, antes que a minha mãe chegue?

O pedido do dote não o transtornou nada, ao passo que este pedido sim. De repente, percebeu como era vital não fazer nada que a desiludisse - ou pior ainda, que lhe provocasse aversão por ele. Contudo, o que percebia ele de beijos, de fazer amor? A sua estima pessoal nunca exigira o encorajamento das suas raras amantes quanto as suas capacidades como amante, porque nunca lhe interessara o que elas achavam da sua forma de fazer amor ou dos seus beijos; nem fazia a mais pequena ideia do que as raparigas novas esperavam dos seus primeiros amantes. Devia apertá-la e beijá-la apaixonadamente, devia deixar este contacto inicial castamente ligeiro? Prazer ou respeito, já que o amor era no máximo uma esperança para o futuro? Júlia era imponderável - não tinha pistas quanto ao que ela esperava - ou ao que ela queria. Tudo o que sabia Mário, era que agradar-lhe se tornava muito importante para ele.

Acabou por se aproximar dela sem lhe libertar as mãos e baixou a cabeça, não muito, pois era invulgarmente alta. Os lábios dela estavam fechados e frios, eram suaves e sedosos; o instinto resolveu-lhe o dilema, quando fechou os olhos e se limitou simplesmente a receber o que ela quisesse dar. Era uma experiência completamente nova para ela, que Júlia desejava sem saber o que lhe traria, pois César e Márcia haviam mantido as suas filhas protegidas, castas, ignorantes, mas não totalmente inibidas. Esta rapariga, a intelectual, não se desenvolvera segundo as mesmas linhas que a irmã mais nova, mas não era incapaz de sentimentos fortes. A diferença entre Júlia e Julilla era em qualidade, não em capacidade.

Por isso, quando as suas mãos tentaram libertar-se, ele soltou-as de imediato, e ter-se-ia afastado se ela não lhe tivesse posto logo os braços à volta do pescoço. O beijo animava-se. Júlia abriu ligeiramente os lábios e Mário usou as mãos livres para abraçá-la. Larga e pregueada, a toga impedia um contacto demasiado íntimo, o que convinha aos dois; e foi com naturalidade que esta estranha forma de descoberta chegou ao fim.

Márcia, entrando ruidosamente, não apanhou nenhum deles em falta, pois embora estivessem abraçados, a boca dele estava encostada à bochecha de Júlia, e ela, de pálpebras cerradas, tinha um ar tão satisfeito e inatacável como um gato a quem tivessem feito festas como devia ser.

Sem que nenhum deles estivesse confuso, separaram-se e viraram-se para encarar a mãe - que parecia, pensou Caio Mário, ostensivamente carrancuda. Nela, uma aristocrata menos recente que os Júlios Césares, Mário pressentiu uma certa mágoa, e compreendeu que Márcia teria preferido que Júlia casasse com alguém da sua classe, mesmo que isso significasse que não entraria nenhum dinheiro para a família. Contudo, a sua felicidade nesse momento era completa; podia dar-se ao luxo de perdoar o despeito da sua futura sogra, talvez dois anos mais nova do que ele. Porque de facto a mulher tinha razão; Júlia merecia alguém da idade dela e melhor do que um provinciano italiano avançado nos anos, e que não sabia grego. O que não significava que ele tencionasse mudar de ideias acerca do casamento! Pelo contrário, cabia-lhe demonstrar a Márcia que Júlia ia para o melhor dos homens.

- Eu pedi um dote, Mamã - disse Júlia de imediato -, e está tudo combinado.

Márcia teve a elegância de se mostrar pouco à vontade.

- Essa era a minha função - disse ela. - Não era a da minha filha, nem a do meu marido.

- Compreendo - disse ele dum modo agradável.

- Foste muito generoso. Agradecemos-te, Caio Mário.

- Discordo, Márcia. Tu é que foste muito generosa. Júlia é uma pérola inestimável - disse Mário.

A frase ficou a ecoar-lhe na mente, e por isso, quando Mário deixou a casa pouco depois e a décima hora do dia ainda estava no futuro, virou à direita em vez de virar à esquerda, ao fim das Escadas de Vesta e contornou o belo templo circular dedicado a Vesta, subindo o estreito desfiladeiro entre a Regia e o Domus Publicus. Foi então dar à Via Sacra, no sopé da pequena rampa denominada Clivus Sacer.

Transpôs em grandes passadas o Clivus Sacer, ansioso por chegar ao Porticus Margaritaria antes de terem partido os mercadores todos. Nesta grande e aberta arcada comercial construída à volta de um quadrângulo central encontravam-se os melhores joalheiros de Roma. Ganhara o nome pelos vendedores de pérolas que aí tinham assentado praça quando fora erigido; nessa época, a derrota de Aníbal vira todas as rigorosas leis que limitavam as despesas, que proibiam as mulheres de usar jóias rescindidas, e como resultado disso as mulheres de Roma fizeram gastos descontrolados em todo o tipo de bagatelas.

Mário queria comprar uma pérola para Júlia, e sabia exactamente aonde se dirigir, tal como todos os que viviam em Roma: ia à casa comercial de Fabrícius Margarita. O primeiro Marcus Fabrícius fora o primeiro de todos os vendedores de pérolas, e montara a sua loja quando todas as pérolas existentes vinham de mexilhões de água doce, de ostras de falésia, rocha e lama, e de abrigos, e na sua maioria eram pequenas e escuras. Mas Marcus Fabrícius dava tanta importância às pérolas que seguiu, como um cão de caça, as rotas lendárias, viajou até ao Egipto e até à Arábia Nabateia em busca de pérolas de oceano - e encontrou-as. No início, eram ainda desanimadoramente pequenas e de forma irregular, mas tinham a verdadeira cor das pérolas, de um branco cremoso, e provinham das águas do Sinus Arabicus, perto da distante Etiópia. Depois, quando o seu nome se tornou conhecido, descobriu um fosso de pérolas nos mares à volta da índia e da ilha de Taprobana, em forma de pêra, mesmo abaixo da índia. Foi nessa altura que se atribuiu o cognome de Margarita e estabeleceu um monopólio de comércio de pérolas de oceano. Agora, na época do consulado de Marco Minúcio Rufo e Espúrio Postúmio Albino, o seu neto - outro Marcus Fabrícius Margarita - estava tão bem fornecido, que um homem rico poderia ter a certeza de encontrar na loja, no momento, a pérola adequada.

Fabrícius Margarita, com efeito, tinha uma pérola adequada na mão, mas Mário foi para casa sem a levar, preferindo vê-la, da cor do luar e do tamanho de um berlinde, enfiada num pesado colar de ouro, rodeada de outras pérolas mais pequenas, processo esse que demorava alguns dias. A novidade de querer presentear uma mulher com artigos preciosos dominou os seus pensamentos, aos encontrões Por entre as recordações do beijo da rapariga e do seu desejo de ser noiva dele. Não era grande galanteador, mas sabia o suficiente acerca das mulheres para reconhecer que Júlia não correspondia à imagem de uma rapariga capaz de fazer uma aliança em que não desse o seu coração; e a simples ideia de possuir um coração tão puro, tão jovem, e de sangue tão azul como o de Júlia, enchia-o do tipo de gratidão que se afirmava enchendo-a de bens preciosos. Via a vontade dela como uma vingança; um presságio para o futuro; era a sua pérola de valor inestimável, e por isso devia receber pérolas, as lágrimas de uma distante lua tropical, caídas no oceano mais profundo, que haviam solidificado ao atingir o fundo. E ia dar-lhe uma pedra de adamas indiana, mais dura do que qualquer substância conhecida e do tamanho de uma avelã, e uma bonita pedra verde de smaragdus com veios azuis no centro, vinda da longínqua Cítia... e uma pedra de carbúnculus, tão brilhante e reluzente como uma bolha cheia de sangue novo...

Era evidente que Grânia estava em casa. Quando saía ela? Esperava o dia inteiro a partir da nona hora, para ver se o seu marido vinha jantar, adiando a refeição alguns minutos de cada vez, punha furioso o seu cozinheiro extremamente caro, e com frequência acabava por ficar a fungar enquanto comia o seu repasto solitário destinado a reavivar o apetite inexistente de um glutão saído de qualquer cura de jejum.

A obra-prima culinária feita pelo artista na cozinha era sempre, mas sempre desperdiçada, quer Mário jantasse fora ou em casa; Grânia gastara uma fortuna num cozinheiro capaz de pôr em êxtase o Epicuro mais exigente. Quando Mário ficava em casa para o jantar, eram-lhe apresentados pratos como arganazes recheados com pasta de fígado, os mais pequenos papa-figos que se podem imaginar, vegetais exóticos e quantidades de molhos picantes demasiado ricos para o seu gosto e para a sua barriga, embora não para a sua bolsa. Tal como a maioria dos militares, sentia-se o homem mais feliz do mundo com um naco de pão e uma taça de sopa de ervilhas com toucinho fumado, e não se importava nada de falhar uma refeição ou duas. A comida era combustível necessário ao corpo e não ao prazer. Que após tantos anos de casamento Grânia ainda não tivesse conseguido entendê-lo, era um sintoma da enorme distância que os separava.

O que Mário estava prestes a fazer a Grânia não era próprio dele, por menor que fosse o afecto que tinha pela mulher. A sua relação fora sempre impregnada de culpa por parte dele, pois sabia que Grânia se casara na perspectiva de uma vida de felicidade conjugal, acolhedora, com crianças e jantares em família, uma vida centrada no Arpino, mas com muitas viagens a Putéolos, e talvez duas semanas de férias em Roma durante os ludi Romani em Setembro.

Mas desde a primeira vez que a vira até à primeira noite com ela, Grânia deixara-o tão indiferente que Mário nem conseguira começar a fingir gostar e sentir desejo. Não por ser feia, visto que não o era; o seu rosto redondo era bastante agradável, até lhe fora descrito como sendo bonito, com grandes olhos rasgados e uma boca pequena de lábios carnudos. Não por ser conflituosa, visto que não o era; com efeito, o seu comportamento havia-se adaptado de forma a agradar-lhe do melhor modo que sabia. O problema era que ela não podia agradar-lhe, nem que lhe enchesse a taça de cantáridas e tirasse um desses cursos de dança lasciva tão em voga.

A maior parte da sua culpa vinha-lhe de saber que ela não fazia a mais pequena ideia da razão porque não podia agradar-lhe, mesmo após muitos interrogatórios dolorosos acerca do assunto; Mário nunca era capaz de dar respostas satisfatórias, porque sinceramente ele próprio desconhecia a razão, e era esse o problema principal.

Durante os primeiros quinze anos, Grânia fizera um esforço digno de apreço para manter a linha, que não era má de todo - peito farto, cintura fina, elegante de ancas - e secava os cabelos negros penteando-os ao sol depois da lavagem, para ficarem com matizes ruivos e lustrosos; e contornava os doces olhos castanhos com uma linha negra de stibium; e tinha o cuidado de nunca cheirar a suor ou a menstruação.

Se havia alguma diferença nele nesta noite do início de janeiro, quando o servo encarregado da porta o fez entrar na sua casa, era o facto de ter finalmente encontrado uma mulher que lhe agradava mesmo, com quem ansiava por casar-se, por compartilhar uma vida. Talvez ao comparar as duas, Grânia e Júlia, conseguisse por fim encontrar a resposta esquiva. E realmente compreendeu logo. Grânia era prosaica, inculta, robusta, doméstica, a mulher ideal para um proprietário rural romano. Júlia era aristocrata, culta, imponente, política, a mulher ideal para um cônsul romano. Ao casá-lo com Grânia, a sua família supusera naturalmente que ele iria ser um proprietário rural latino, sendo essa a sua herança familiar, e aquela mulher adequava-se-lhe. Mas Caio Mário era uma águia, fugiu da gaiola do Arpino. Aventureiro e ambicioso, formidavelmente inteligente, tinha chegado longe e tencionava ir mais longe ainda, especialmente agora, que lhe fora prometida uma Júlia dos Júlios Césares. Ela era o tipo de mulher que Mário queria! O tipo de mulher de que ele precisava.

- Grânia! - chamou, deixando tombar o enorme volume da sua toga no magnífico chão de mosaicos do átrio e saindo de dentro dela antes que o servo que se apressou a vir buscá-la tivesse tempo de salvar a sua brancura do contacto com as botas lamacentas de Caio Mário.

- Sim, querido? - veio Grânia a correr da sua salinha deixando um rasto de alfinetes e pregadeiras e migalhas, demasiado gorda hoje em dia, visto que aprendera a consolar a sua amarga solidão com demasiadas carnes doces e figos cobertos de xarope.

- No tablinum, por favor Caio Mário fez um movimento brusco com o ombro ao dirigir-se energicamente para a sala.

Num passo precipitado, ela entrou logo a seguir ao marido.

- Fecha a porta disse Caio Mário, dirigindo-se à sua cadeira preferida, por detrás da grande mesa de trabalho, sentando-se, e obrigando-a deste modo a ficar sentada como um cliente, do lado oposto a uma grande extensão de malaquite polida de cantos de ouro trabalhado.

- Sim, querido? perguntou Grânia sem receio, pois o marido nunca era grosseiro com ela de propósito, nem a tratava mal a não ser por negligência.

Caio Mário franziu as sobrancelhas, revirando um ábaco de marfim nas mãos; mãos que sempre amara por serem tão graciosas como fortes, de palma quadrada mas de dedos longos, e ele usava-as como um especialista, com uma decisão firme. Com a cabeça de lado, olhou para ele, para o estranho com quem estava casada há vinte e cinco anos. Um homem atraente, era o seu veredicto agora, igual a mil outros veredictos. Ainda o amaria? Como o podia saber? Ao fim de vinte e cinco anos, o que sentia era como um tecido complicado sem qualquer padrão, tão arejado em alguns pontos que a luz da sua mente brilhava através dele, contudo tão denso noutros que ficava pendurado como uma cortina entre os seus pensamentos e a sua vaga ideia de quem e o que era Grânia como pessoa. Raiva, dor, desorientação, ressentimento, mágoa, autocompaixão tantas, tantas emoções! Algumas sentidas há tanto tempo que quase tinham sido esquecidas, outras ainda frescas e recentes, pois tinha agora quarenta e cinco anos, a menstruação começava a diminuir, o seu pobre ventre improdutivo encolhia. Se havia uma emoção que predominasse era a desilusão comum, deprimente, sem inspiração. Esses dias, até os oferecera a Vediovius, deus padroeiro das desilusões.

Os lábios de Mário abriram-se para falar; por natureza, eram cheios e sensuais, mas ele disciplinara-os, dando-lhes contornos vigorosos antes de a mulher se aproximar. Grânia inclinou-se um pouco para a frente, para captar tudo o que ele fosse dizer, com todas as fibras do seu ser levadas à tensão máxima com o esforço de concentração.

- Vou divorciar-me de ti disse o marido, entregando-lhe o pregaminho onde cedo, nessa manhã, tinha escrito a carta de divórcio.

O que ele disse penetrou a custo; Grânia estendeu o rectângulo espesso e levemente malcheiroso de pele macia sobre a mesa de trabalho e estudou-o como um presbíope até as palavras lhe fornecerem uma resposta. A seguir, passou os olhos do pergaminho para o marido.

- Não fiz nada para merecer isto - disse num tom inexpressivo.

- Discordo - replicou ele.

- O quê? O que fiz eu?

- Não tens sido uma mulher adequada.

- E precisaste de vinte e cinco anos para chegar a essa conclusão?

- Não. Soube-o desde o início.

- Por que não te divorciaste nessa altura?

- Não me pareceu na altura que isso fosse importante.

Oh! Ofensa atrás de ofensa, insulto atrás de insulto! O pergaminho vibrou-lhe nas mãos, atirou-o fora e fechou os punhos apertando-os com força.

- Sim, é o resultado final de tudo isto! - disse por fim suficientemente viva para se enfurecer. - Nunca fui importante para ti. Nem sequer suficientemente importante para te divorciares de mim. Então, por que o fazes agora?

- Quero voltar a casar - respondeu Mário.

A incredulidade afastou a fúria; os olhos de Grânia esbugalharam-se.

- TU?

- Sim. Propuseram-me uma aliança de casamento com uma rapariga de uma família patrícia muito antiga.

- Então, Mário! O que dantes era tão indiferente agora passou a ser snobe?

- Não. Não acredito nisso - retorquiu ele desapaixonadamente, escondendo o mal-estar tão bem como a culpa. - Simplesmente, este casamento significa que serei cônsul.

O fogo da indignação morreu nela, apagado pelo vento frio da lógica. Como podia alguém argumentar contra isto? Como podia alguém lançar culpas? Como se podia lutar contra uma coisa tão inevitável? Embora Mário nunca tivesse discutido com ela a sua rejeição política, Grânia conhecia-a. E chorara por ele, desejara poder rectificar o pecado da omissão desses nobres romanos que controlavam a política romana. Contudo, o que podia fazer uma Grânia de Putéolos? Era rica, respeitável, impecável como as noivas eram. Mas completamente falha de influência, sem parentes capazes de rectificar a quota-parte de injustiças dele; se Caio Mário era um proprietário rural latino, ela era filha de um comerciante da Campânia, o mais baixo que havia aos olhos de qualquer nobre romano. Até há pouco tempo, a família dela não tinha direito de cidadania.

- Entendo - disse inexpressivamente.

E o marido teve a bondade de deixar as coisas assim, para não a deixar entrever o seu entusiasmo, o pequeno rebento Caioroso do amor que germinava no seu coração adormecido. Deixá-la pensar que era um mero golpe de oportunismo político.

- Lamento, Grânia - disse Mário com delicadeza.

- Também eu, também eu - respondeu ela, começando de novo a tremer, mas desta vez à perspectiva gélida da viuvez por ausência, uma solidão ainda mais intolerável do que o tipo de solidão a que estava habituada. A vida sem Caio Mário? Impensável.

- Se servir de consolação, a aliança foi-me oferecida; não fui eu que a procurei.

- Quem é ela?

- A filha mais velha de Caio Júlio César.

- Uma Júlia! Isso é um voo alto! Certamente serás cônsul, Caio Mário.

- Também julgo que sim - e pôs-se a brincar com a sua pena favorita de junco, com o pequeno frasco de pórfiro para a areia, de tampa perfurada de ouro, com o tinteiro feito de um único bloco de ametista polida.

- Tu ficas com o teu dote, claro, e é mais do que adequado às tuas necessidades. Investi-o em empreendimentos mais lucrativos do que fez o teu pai, e como não lhe tocaste, agora é muito grande - aclarou a garganta.

- Suponho que quererás viver perto da tua família, mas estou a pensar se na tua idade não será mais aconselhável teres a tua própria casa, especialmente estando o teu pai morto e sendo o teu irmão o pater familias.

- Nunca dormiste comigo as vezes suficientes para me dares um filho

- disse ela, magoada no mais profundo âmago da sua gélida solidão. Oh! Quem me dera ter um filho!

- Alegra-me muito que não tenhas! O nosso filho seria meu herdeiro, e o casamento com Júlia não teria o mesmo significado - Mário percebeu que a frase não estava no tom certo, e acrescentou: - Sê sensata, Grânia! Os nossos filhos estariam agora crescidos e a viver a sua vida. Não iriam dar-te nenhum consolo.

- Pelo menos, haveria netos - contrapôs ela, de lágrimas nos olhos.

- Eu não estaria tão terrivelmente só!

- Há anos que te digo para arranjares um cãozinho! - Não foi dito com dureza, era apenas um conselho importante; ele pensou num conselho melhor, e acrescentou: - De facto o que devias fazer era voltar a casar.

- Nunca! - gritou a mulher. Mário encolheu os ombros.

- Como queiras. Voltando à conversa sobre onde devias viver, estou disposto a comprar uma villa perto do mar, em Cumas, e instalar-te lá. Cumas fica a uma distância muito cómoda de liteira de Putéolos: bastante perto para poderes ir visitar a tua família um dia ou outro, e suficientemente longe para te garantir o sossego.

Já não havia esperança.

- Obrigada, Caio Mário.

- Não me agradeças! - Levantou-se e deu a volta à secretária para ajudá-la a erguer-se, pondo uma mão impessoal sob o cotovelo dela. - É melhor contares ao meu mordomo o que se passa, e pensa que escravos queres levar contigo. Mandarei um dos meus agentes ir amanhã procurar uma casa adequada em Cumas. Pô-la-ei em meu nome, claro está, mas ficarás com um arrendamento vitalício, ou então, até casares. Está bem, está bem! já sei que disseste que não o farias, mas os pretendentes hão-de pegar-se a ti como moscas num pote de mel. Tu és rica. - Tinham chegado à porta da salinha dela, e aí ele parou, retirando a mão. - Gostaria que não estivesses cá depois de amanhã. De manhã, de preferência. Suponho que Júlia quererá fazer alterações na casa antes de se mudar, e casamos dentro de oito semanas, o que não me dá muito tempo para fazer as alterações que ela quiser. Por isso, depois de amanhã de manhã. Só Posso trazê-la cá para ver a casa depois de tu saíres; não seria próprio.

Grânia começou a fazer uma pergunta - uma coisa qualquer - mas ele já se afastava.

- Não esperes por mim para o jantar - ainda gritou ao atravessar a larga extensão do átrium. - Vou visitar Públio Rutílio Rufo e duvido que regresse antes de te deitares.

Pronto. Não seria para ela uma grande mágoa deixar de ocupar aquela casa enorme como um celeiro; sempre a detestara e odiava o caos urbano de Roma, Confundia-a pensar por que razão ele escolhera viver na húmida e triste vertente Norte do Arx do Capitólio, embora soubesse que a exclusividade extrema do lugar tinha tido grande influência nele. Mas havia tão poucas casas na vizinhança que ir visitar os amigos implicava longos trajectos por muitas escadarias, e politicamente era uma estagnação; os vizinhos eram todos grandes comerciantes com pouco interesse pela política.

Acenou ao servo que se encontrava à porta do lado de fora da salinha.

- Vai já chamar o mordomo, por favor - disse-lhe.

O mordomo entrou, um grego imponente de Corinto que conseguira obter a sua própria educação e depois se vendera como escravo para fazer fortuna e acabar por adquirir a cidadania romana.

- Strophantes, o amo vai divorciar-se de mim - disse a mulher sem vergonha, pois não havia vergonha na questão. - Tenho de estar fora daqui depois de amanhã, de manhã. Por favor, prepara a minha bagagem.

Ele fez uma vénia, escondendo a surpresa; era um casamento que não esperava ver acabar antes da morte, pois o que o rodeava era um torpor mumificado e não os amargos combates que habitualmente levavam ao divórcio.

- Tenciona levar pessoal, domina? - perguntou, certo da sua permanência na casa, dado que pertencia a Caio Mário e não a Grânia.

- O cozinheiro, com certeza. E todos os criados da cozinha, para ele não ficar muito infeliz, não achas? As minhas servas, a minha costureira, a minha cabeleireira, os escravos encarregados do meu banho e ambos os pagens - disse ela, incapaz de pensar em mais alguém de quem dependesse e gostasse.

- Com certeza, domina - e afastou-se de imediato, morto por comunicar este mexerico ao resto do pessoal, e especialmente ansioso por dar a notícia da partida ao cozinheiro: esse convencido mestre das caçarolas não ia acolher bem a mudança de Roma para Putéolos!

Grânia vagueou pela sua salinha espaçosa reparando naquele ar confortável de desarrumação, fitando as suas tintas e a caixa de trabalhos, e o baú cravejado de pregos onde repousava o enxoval de roupa para bebé, reunido com esperança, dilacerantemente inútil.

Como não eram as mulheres que escolhiam ou compravam a mobília, Caio Mário não iria oferecê-la; os olhos dela ficaram um pouco mais brilhantes, as lágrimas caíram para dentro, em vez de rolarem pelas bochechas, e não foram substituídas. Com efeito, ela apenas tinha o dia de amanhã antes de deixar Roma, e Cumas não era um dos maiores empórios do mundo. Amanhã iria comprar mobília para a nova villa! Que bom poder escolher o que quisesse! Amanhã, afinal, iria ser um dia atarefadíssimo, sem tempo sequer para pensar, nem horas vazias para sofrer. Muita da dor e do choque iniciais começaram logo a evaporar-se; poderia sobreviver à próxima noite, agora que tinha a diversão das compras para antecipar com prazer.

- Berenice! - chamou, e quando a rapariga apareceu ordenou-lhe: Quero jantar já, avisa na cozinha.

Arranjou papel para fazer a lista de compras, por entre a desordem da sua mesa de trabalho, e deixou-a aí, Pronta a usar mal acabasse de comer. E havia mais uma coisa que ele lhe tinha dito - sim, era isso, o cãozinho. Amanhã compraria um cãozinho, o primeiro artigo da lista.

A euforia durou até terminar o solitário jantar de Grânia, altura em que despertou do choque e mergulhou imediatamente na dor. Levou as mãos aos cabelos, puxando-os e arrancando-os em frenesi; a boca abria-se-lhe num grito cortante, as lágrimas corriam como rios. Todos os servos se afastaram, deixando-a abandonada na sala de jantar, a uivar sobre o tecido dourado e púrpura que cobria o seu leito.

- Ouçam-na! - disse o cozinheiro com amargura, fazendo uma pausa na arrumação das panelas, caçarolas, instrumentos; o som da agonia da ama chegava nítido até aos seus domínios no extremo mais distante do jardim do peristilo. - Que razões tem ela para chorar? Eu é que vou para o degredo... enquanto ela já lá viveu um ror de anos, o velho estafermo!

O sorteio que concedeu a província da África Romana a Espúrio PostúniÃo Albino realizou-se no dia de Ano Novo; menos de vinte e quatro horas depois, o novo cônsul hasteou a bandeira que defendia, que era a do Príncipe Massiva, da Numídia.

Espúrio Albino tinha um irmão, Aulo, dez anos mais novo do que ele, admitido recentemente no Senado, e ansioso por criar nome. Por isso, enquanto Espúrio Albino tentava a todo o custo favorecer indirectamente o seu novo cliente Massiva, coube a Aulo Albino escoltar o príncipe por todos os lugares públicos da cidade, apresentando-o aos romanos dignos de nota, e segredando aos agentes de Massiva que tipo de prendas mais conviriam aos romanos dignos de nota que o príncipe ia conhecendo. Tal como a maioria dos membros da casa real da Numídia, Massiva era um semita bem estabelecido, elegante e com miolos na cabeça, capaz de usar o seu charme e pródigo na distribuição de dádivas. A sua maior vantagem não assentava na legitimidade inegável do seu direito, mas sim no prazer de Roma em ver o campo dividido; não havia a menor excitação num Senado unido, nem havia interesse numa série de votos unânimes, nem reputações a criar numa cooperação amigável.

No final da primeira semana do Ano Novo, Aulo Albino apresentou formalmente o caso do Príncipe Massiva à Assembleia, e, em seu nome, reclamou a passagem do trono da Numídia para o ramo legítimo. Era o discurso feito por Aulo, e era um bom discurso. Todos os Cecílios Metelos ficaram sentados a ouvir e depois aplaudiram no final, enquanto Marco Emílio Escauro ficava satisfeito por se associar ao apoio da petição de Massiva. Disse que esta era a resposta a pergunta tão debatida sobre o que havia a fazer quanto à Numídia - trazê-la para o bom caminho com um rei legítimo nos rins, e não um pretendente desesperado cuja linha sanguínea não chegava para harmonizar todo o país a seguir a ele, e que havia estabelecido a posse do trono através do crime e do suborno. Antes que Espúrio Albino concluísse o encontro, já no Senado se ouviam boatos indicadores de que estaria disposto a votar a favor da demissão do rei actual, e da substituição deste por Massiva.

- Estamos afundados em água a ferver - disse Bomílcar a Jugurta.

- De repente, deixei de ser convidado para mais jantares, e os nossos agentes já não conseguem encontrar ouvidos que os escutem.

- Quando é a votação no Senado? - perguntou o rei, com voz calma e firme.

- No décimo quarto dia antes das Calendas de Fevereiro há a próxima reunião marcada para a Assembleia: isto é, sete dias a contar de amanhã.

O rei endireitou os ombros.

- Vai ser contra mim, não vai?

- Sim, Majestade - disse Bomílcar.

- Nesse caso, não vale a pena tentarmos continuar a fazer as coisas à moda dos romanos - Jugurta crescia visivelmente de tamanho, numa hedionda imponência agora inchada, que estivera escondida desde que ele viera para Itália com Lúcio Cássio. - A partir de agora, farei as coisas à minha maneira, à maneira da Numídia.

A chuva parou e despontou um sol frio; os ossos de Jugurta ansiavam pelos ventos mais quentes da Numídia, o corpo desejava ardentemente o conforto amigável e generoso do seu harém, tal como a sua mente suspirava pela lógica cruel do comportamento simples na Numídia. Era a boa altura de ir para casa! O momento oportuno para começar a recrutar e terminar um exército, visto que os Romanos nunca mais iam desistir.

Caminhou dum lado para o outro da colunata que ladeava o gigantesco jardim do peristilo, depois acenou para Bomílcar e dirigiu-se com ele a grandes passadas até ao ar livre, perto da fonte que ruidosamente esparrinhava a sua água.

- Nem um pássaro pode ouvir-nos - disse então.

Bomílcar ficou tenso, preparou-se.

- Massiva tem de desaparecer - disse o rei.

- Aqui? Em Roma?

- Sim, e dentro dos próximos sete dias. Se Massiva não estiver morto antes da votação do Senado, a nossa tarefa tornar-se-á muito mais difícil. Com Massiva morto, não poderá haver votação, e ganhamos tempo.

- Eu próprio o matarei - disse Bomílcar.

Mas jugurta abanou a cabeça violentamente.

- Não! Não! O assassino tem de ser um romano - disse. - A tua missão será encontrar o assassino romano que vai matar Massiva por nós. Bomílcar olhou-o estarrecido.

- Meu senhor e rei, estamos num país estrangeiro! Não sabemos onde nem como, quanto mais quem!

- Pergunta a um dos nossos agentes. Tem que haver um em quem possamos confiar - disse jugurta.

Isto era mais concreto; Bomílcar Pensou por momentos, mordendo os curtos pêlos da barba abaixo do lábio inferior com os seus dentes fortes.

- Agelasto - disse finalmente. - Marco Servílio Agelasto, o homem que nunca se ri. O pai é romano, e ele nasceu e cresceu aqui. Mas o seu coração está com a sua mãe númida, disso tenho eu a certeza.

- Deixo o assunto a teu cargo. Trata disso - disse o rei, e afastou-se.

Agelasto pareceu atónito.

- Aqui? Em Roma?

- Não só aqui, como também dentro dos próximos sete dias - disse Bomílcar. - Mal o Senado votar a favor de Massiva, o que fará de certeza!, teremos pela frente uma guerra civil na Numídia. jugurta não desiste, bem sabes. Mesmo que estivesse disposto a desistir, os Getulos não o deixavam.

- Mas eu não faço a mais pequena ideia de como encontrar um assassino!

- Então, faz tu mesmo o serviço.

- Não seria capaz! - lamentou-se Agelasto.

- Tem de ser feito! Certamente numa cidade destas dimensões haverá gente suficiente disposta a matar por uma boa quantia - insistiu Bomílcar.

- Claro que há! Metade do proletariado, para não exagerar. Mas não frequento esses ambientes, não conheço nenhum dos proletários! A única coisa que posso fazer é aproximar-me do primeiro sujeito andrajoso que encontrar, fazer tinir um saco de ouro e pedir-lhe que mate um príncipe da Numídia! lastimou-se Agelasto.

- Porque não? perguntou Bomílcar.

- Porque ele pode fazer queixa de mim ao pretor urbano, é só por isso!

- Mostra-lhe primeiro o ouro, e garanto-te que não o fará. Nesta cidade, toda a gente tem o seu preço.

- Talvez seja mesmo assim, Barão disse Agelasto, mas não estou preparado para pôr à prova a teoria.

E dessa posição ninguém podia demovê-lo.

Todos diziam que a Subura era o esgoto de Roma, e por isso foi à Subura que Bomílcar se dirigiu, vestido com modéstia, e sem um único escravo a escoltá-lo. Tal como qualquer visitante distinto em Roma, haviam-lhe dito que não devia aventurar-se pelo vale a noroeste do Fórum Romano, e agora entendia porquê. Não era por as ruas da Subura serem mais estreitas que as do Palatino, nem por os edifícios serem tão opressivamente altos como os do Viminal e do alto Esquilino.

Não, o que distinguia a Subura na primeira experiência eram as pessoas, mais do que Bomílcar já tinha visto alguma vez. Surgiam de milhares de janelas, berrando umas para as outras, abriam caminho por entre turbas de gente tão grandes que todo o movimento se reduzia a um passo de caracol, comportavam-se de todas as formas grosseiras e agressivas de que era capaz a raça humana, cuspiam e urinavam e faziam os seus despejos em qualquer espaço que vissem livre, e estavam sempre prontos a desencadear uma briga só por alguém os olhar de lado.

A segunda impressão era a de uma sordidez dominante, um fedor terrível. À medida que ia do civilizado Argileto até à Fauces Suburae, à medida que o trecho inicial da via pública era conhecido, Bomílcar não conseguia aperceber-se de nada para além do cheiro e da sujidade. Escamadas e em mau estado, as próprias paredes dos prédios exsudavam imundícies que formavam regatos, como se os tijolos e vigas de que eram feitos tivessem sido ligados com detritos. Por que motivo, deu consigo a pensar, não teriam simplesmente deixado todo o distrito arder o ano passado, em vez de se esforçarem tanto por salvá-lo? Nada nem ninguém na Subura merecia ser salvo! Então, à medida que penetrava mais com o cuidado de não sair da Subura Maior, como chamavam ágora à rua principal, evitando qualquer dos espaços entre os prédios de cada um dos lados, pois se o fizesse, poderia nunca mais encontrar a saída - a surpresa foi tomando o lugar do nojo. Porque começou a ver a vitalidade e robustez dos seus habitantes, e a sentir uma alegria que transcendia a sua compreensão.

A língua que ouvia era uma mistura de latim, grego e um pouco de aramaico, uma gíria que provavelmente não podia ser entendida por alguém que não vivesse na Subura, pois nos seus passeios pelas outras localidades de Roma nunca tinha ouvido nada parecido.

Havia lojas por todo o lado, bares onde se comiam petiscos, todos aparentemente prósperos - havia obviamente dinheiro por ali - misturados com padarias, talhos, tabernas onde se podia beber vinho, e minúsculas lojinhas que pareciam (pelo que ele podia aperceber-se espreitando para a escuridão) vender todo o tipo de coisas, desde peças de barbante a panelas, lamparinas e velas de sebo. No entanto, notava-se que a alimentação era o melhor dos negócios; pelo menos, dois terços das lojas dedicavam-se a um ou outro aspecto do negócio de alimentos. Também havia fábricas: ele ouvia o batimento das prensas ou o zunir das rodas de esmeril ou o matraquear dos teares, mas esses ruídos provinham de entradas apertadas ou de ruelas laterais, e encontravam-se irremediavelmente fundidos com o que pareciam ser prédios de inquilinos, com vários andares. Como poderia alguém sobreviver naquele sítio?

Até nas pequenas praças e cruzamentos principais havia muita gente; a forma como conseguiam lavar a roupa nos tanques das fontes, e os carregadores de água, espantaram-no. Cirta - cidade de que ele, como númida, se orgulhava imenso - não passava de uma grande aldeia comparada com Roma, como acabou por admitir. Até Alexandria, suspeitava, não teria mão-de-obra que chegasse para um formigueiro como a Subura.

Apesar de tudo, havia lugares onde os homens se juntavam para se sentarem a beber e a passar o tempo. Esses lugares pareciam limitar-se aos cruzamentos principais, mas nem disso podia ter a certeza, relutante como estava em deixar a rua principal. Tudo continuava a acontecer bruscamente, em fragmentos de cenas que se desenrolavam à sua frente e se fechavam numa nova lufada de gente, desde um homem que batia num miúdo a uma mulher que batia numa criança carregada. Mas os interiores escuros das tabernas dos cruzamentos - não sabia que outro nome deveria dar-lhes - eram oásis de relativa paz. Homem forte no vigor da idade, Bomílcar decidiu finalmente que não encontraria nada mais brilhante se não entrasse numa delas. Afinal de contas, viera à Subura procurar um assassino romano, pelo que tinha de encontrar um lugar onde pudesse meter uma conversa com alguém da populaça local.

Saiu da Subura Maior e subiu o Vicus Patricii, uma rua principal que ia dar ao monte Viminal, e descobriu uma taberna de cruzamento na base de um espaço triangular onde a Subura Menor se juntava com o Vicus Patricii; o tamanho do sacrário e a fonte indicaram-lhe que este era certamente um compitum, uma intersecção, muito importante. Assim que baixou a cabeça para passar pelo baixo lintel da porta, todos os rostos que se encontravam lá dentro e deviam ser pelo menos uns cinquenta se levantaram e se viraram para ele, subitamente rígidos. O zumbido das conversas parou.

Peço desculpa disse Bomílcar, aguentando sem medo, de olhos ocupados em busca do rosto pertencente ao chefe. Ah! Ali, no canto do fundo, à esquerda! Com efeito, à medida que o choque inicial de verem um perfeito estranho se foi dissolvendo, os outros voltaram-se para fixarem este rosto único o rosto do chefe. Era um rosto mais romano do que grego, pertencente a um homem de estatura pequena e que andaria talvez pelos trinta e cinco anos. Bomílcar virou-se para olhar directamente para ele e dirigiu-lhe o resto dos comentários, esperando que o seu latim fosse suficientemente fluente para falar na língua nativa, mas foi obrigado a usar o grego.

- Peço desculpa repetiu. Penso ser culpado de infracção. Procurava uma taberna onde pudesse sentar-me a beber um copo de vinho. Andar é tarefa que dá sede.

Amigo, isto é uma associação privada disse o chefe num grego atroz mas compreensível.

- Não há tabernas públicas? perguntou Bomílcar.

Na Subura não, amigo. Aqui estás fora da tua zona. Volta para a Via Nova.

- Sim, conheço a Via Nova, mas sou um estranho em Roma, e penso sempre que não se pode captar o verdadeiro sabor de uma cidade se não se penetrar no seu bairro mais populoso disse Bomílcar, oscilando entre a fatuidade do turista e a ignorância do estrangeiro.

O chefe mirava-o e remirava-o de alto a baixo, avaliando-o com sagacidade.

Tens sede, amigo? perguntou. Agradecido, Bomílcar apoderou-se do gambito.

- Tenho sede que chega para pagar um copo a todos os que aqui estão - disse.

O chefe empurrou o homem sentado no banco a seu lado e deu umas pancadas no banco.

- Bem, se os meus honrados colegas concordarem, poderemos tornar-te membro honorário. Mexe-me esses pés, amigo - voltou a cabeça com indiferença. - Se concordarem todos em tornar este senhor membro honorário, digam sim!

- Sim! - gritaram em coro.

Bomílcar procurou em vão o balcão ou o vendedor, respirou em segredo e pousou a bolsa na mesa de tal modo que um ou dois denários saíram pela abertura; ou o assassinavam pelo seu conteúdo ou seria mesmo membro honorário.

- Posso? - perguntou ao chefe.

- Brómido, traz uma boa caneca para o senhor e para os membros disse o chefe ao criado que tinha desalojado para dar lugar a Bomílcar. O bar que usamos é na porta ao lado - explicou.

A bolsa entornou mais alguns denários.

- Basta?

- Para uma rodada chega e sobra, amigo. Outras moedas tilintaram ao sair.

- E que tal várias rodadas?

Ouviu-se um suspiro; todos ficaram visivelmente descontraídos. O criado Brómido recolheu as moedas e desapareceu porta fora seguido de três ajudantes impacientes, enquanto Bomílcar estendia ao chefe a mão direita.

- Chamo-me juba - disse.

- Lúcio Decúmio - disse o chefe, apertando-lhe vigorosamente a mão. -Juba! Que nome é esse?

- É mouro. Sou da Mauritânia.

- Mauri... o quê? Onde fica?

- Em África.

- África? - Era evidente que Bomílcar podia ter dito a Terra dos Hiperbóreos; teria significado o mesmo (isto é, nada) para Lúcio Decúmio.

- Muito longe de Roma - explicou o membro honorário -, um lugar distante a oeste de Cartago.

- Ah! Cartago! Por que não disseste logo? - Lúcio Decúmio virou-se para olhar fixamente o rosto da sua interessante visita. - Pensava que Cipião Emiliano não tinha deixado ninguém vivo - disse.

Não deixou. A Mauritânia não é Cartago, fica longe, a oeste de Cartago. Ficam as duas em África, é tudo disse Bomílcar pacientemente. O que era dantes Cartago é agora a Província Romana de África. Para onde vai o cônsul deste ano, Espúrio Postúmio Albino.

Lúcio Decúmio encolheu os ombros.

Cônsules? Vão e vêm, amigo, vão e vêm. Não faz diferença à Subura, eles não vivem por aqui, entendes? Mas desde que admitas que Roma manda no mundo, és bem-vindo à Subura, amigo. Até os cônsules.

- Acredita, eu sei que Roma manda no mundo disse Bomílcar com emoção. O meu senhor... o rei Boco da Mauritânia... enviou-me a Roma para pedir ao Senado que o fizesse Amigo e Aliado do Povo de Roma.

- O que não sabes tu? notou Lúcio Decúmio indolente. Brómido chegou, cambaleando sob o peso de uma caneca enorme,

seguido por outros igualmente carregados, e passou a distribuir as bebidas refrescantes por todos; começou por Decúmio, que lhe deu um soco doloroso na coxa.

-Aqui, idiota, não tens modos? perguntou. Serve primeiro o senhor que pagou, senão arranco-te as tripas.

Bomílcar recebeu uma taça cheia até acima em segundos, e ergueu-a para fazer uma saúde.

- Ao melhor lugar e aos melhores amigos que encontrei até agora em Roma disse, e bebeu o péssimo vinho com um prazer fingido. Deuses, eles deviam ter intestinos de aço!

Também apareceram tigelas de comida, pepinos pequenos em picles e cebolas e avelãs, pedaços de aipo e rodelas de cenoura, uma mistura fedorenta de peixe miúdo salgado que desapareceu num ápice. Bomílcar não conseguiu comer nada daquilo.

À tua, Juba, velho amigo! disse Decúmio.

Juba! gritavam os outros em coro, com um humor óptimo.

Dentro de meia hora, Bomílcar sabia mais acerca da Roma dos trabalhadores do que alguma vez sonhara, e achava-a fascinante; o facto de saber muito menos acerca da Numídia dos trabalhadores não lhe ocorreu. Todos os membros da associação trabalhavam, descobriu, sabendo que em cada dia um grupo diferente de homens usava as instalações da associação; a maior parte deles parecia ter folga de oito em oito dias. Cerca de um quarto dos homens na sala usavam pequenos barretes cónicos atrás da nuca, indicando que eram homens livres, escravos libertos; para sua surpresa, Bomílcar percebeu que alguns dos outros ainda eram escravos, contudo parecia que estavam ao mesmo nível dos outros membros, e que trabalhavam no mesmo tipo de profissões pelo mesmo pagamento e as mesmas horas e as mesmas folgas - o que achou muito estranho, mas obviamente era normal aos olhos de todos. E Bomílcar começou a entender a verdadeira diferença entre um escravo e um homem livre: um homem livre podia ir e vir e escolher o lugar e tipo de trabalho que quisesse, ao passo que um escravo pertencia ao patrão, era propriedade do patrão, e por isso não podia decidir a sua vida. Bastante diferente da escravatura na Numídia. Mas então, reflectiu com justeza, visto que era um homem justo, cada nação tem as suas regras e leis sobre a escravatura, não há duas iguais.

Ao contrário dos outros membros, Lúcio Decúmio tinha lugar cativo.

- Sou o guarda da associação - disse, tão sóbrio como quando bebera o primeiro trago.

- Que tipo de associação é? - perguntou Bomílcar, tentando fazer durar a bebida o máximo de tempo possível.

- Não imagino que saibas o que é - disse Lúcio Decúmio. - Isto, amigo, é uma associação de vigilância do altar dos deuses das encruzilhadas. Uma congregação peculiar, uma espécie de colégio, de facto. Registada pelos edis e pelo pretor urbano, abençoada pelo Pontífice Máximo. As associações de vigilância das encruzilhadas remontam à era dos reis, antes de existir a república. Há muito poder no lugar onde se cruzam grandes estradas. Refiro-me às compita peculiares, e não às vossas encruzilhadas pequenas e insignificantes de ruas e vielas. Sim, há muito poder nas encruzilhadas. Quero dizer: imagina que eras um deus e olhavas Roma lá do alto. Ficarias confuso se quisesses lançar um raio ou um bocado de peste, não é verdade? Se subires ao Capitólio, entenderás bem o que quero dizer: um amontoado de telhados vermelhos tão juntos como os ladrilhos de um mosaico. Mas se olhares melhor, podes sempre ver as brechas onde as grandes estradas se cruzam, as compita como temos aqui perto. Pois bem, se fosses um deus, era aí que lançarias o teu raio ou a tua praga de peste, exacto? Mas acontece que nós Romanos somos inteligentes, amigo. Mesmo inteligentes. Os reis pensaram que teríamos de proteger-nos nas encruzilhadas. E é por isso que as encruzilhadas foram postas sob a protecção dos Lares, e se construíram sacrários em honra dos Lares em todas as encruzilhadas, mesmo antes de haver fontes. Não reparaste no sacrário contra a parede do lado de fora da associação? Aquela coisinha em forma de torre?

- Reparei disse Bomílcar começando a ficar confuso. Mas exactamente quem são os Lares? São mais do que deuses?

- Há Lares por todo o lado, centenas, milhares disse Decúmio vagamente. - Roma está cheia de Lares. A Itália também, dizem, embora eu nunca tenha ido a Itália. Não conheço nenhum soldado, por isso não sei dizer se os Lares também vão para o ultramar com as legiões. E cabe-nos a nós, às associações de vigilância das encruzilhadas, tratar bem dos nossos Lares. Mantemos o sacrário em ordem e as oferendas recebidas, mantemos a fonte limpa, retiramos carros tombados, corpos mortos, na sua maioria de animais, e mudamos o cascalho quando cai um prédio. E por altura do Ano Novo fazemos grandes festas, as Compitais, como lhes chamamos. Aconteceu há só poucos dias, e é por isso que não temos dinheiro para o vinho. Gastámos os nossos fundos e leva tempo a poupar mais dinheiro.

- Estou a entender disse Bomílcar, que na verdade não entendia; os antigos deuses romanos eram para ele um mistério insolúvel. Vocês têm de financiar a festa totalmente entre vocês?

- Sim e não disse Lúcio Decúmio, coçando o sovaco. Recebemos algum dinheiro do pretor urbano para a festa, que chega para assar uns porcos... Depende de quem for o pretor urbano. Alguns são mesmo generosos. Outros são tão sovinas que a merda deles não tem cheiro.

A conversa desviou-se para perguntas curiosas sobre a vida em Cartago; era impossível fazê-los entender que existia mais algum lugar em África, pois os seus conhecimentos de História e Geografia pareciam provir do que haviam respingado nas suas visitas ao Fórum Romano, que não era assim tão longe da sua associação mas era mesmo assim um lugar distante. Quando visitavam o Fórum Romano, era aparentemente porque a inquietação política lhe emprestava interesse e dava um sabor a circo, ao centro de governação de Roma. Por consequência, a sua visão da vida política de Roma era de certo modo enviesada; o seu ponto alto parecia ter ocorrido durante os distúrbios que culminaram na morte de Caio Semprónio Graco.

Finalmente, chegara o momento. Os membros estavam tão habituados à sua presença que já não reparavam nele, e além disso estavam aturdidos pelo excesso de vinho. No entanto, Lúcio Decúmio ainda estava sóbrio; os seus olhos azuis inquiridores nunca deixavam a cara de Bomílcar. Não era por acaso que aquele Juba estava aqui, no meio de pessoas que lhe eram inferiores; andava decerto em busca de qualquer coisa.

- Lúcio Decúmio - disse Bomílcar, inclinando tanto a cabeça para perto do romano que só este poderia ouvi-lo - tenho um problema, e espero que me possas dizer o que devo fazer para resolvê-lo.

- Sim, amigo?

- O meu senhor, o rei Boco, é muito rico.

- Deve ser rico, se é rei.

- O que preocupa o rei Boco são as suas perspectivas de continuar rei - disse Bomílcar devagar. - Tem agora um grande problema.

- O mesmo problema que tu, amigo?

- Exactamente o mesmo.

- Como posso ajudar? - Decúmio tirou uma cebola da tigela de legumes em vinagre que estava na mesa e começou a mastigá-la pensativamente.

- Em África, a resposta podia ser simples. O rei daria uma ordem, e

o homem que constitui o nosso problema seria executado - Bomílcar parou, pensando quanto tempo levaria ele a ficar a par do assunto.

- Então, o problema tem um nome!

- Exacto. Massiva.

- Parece um nome mais latino do que juba - disse Decúmio.

- Massiva é um Númida, não é Mauritano. - As borras do vinho pareciam fascinar Bomílcar, que as mexeu com o dedo. - A dificuldade é que Massiva está a viver aqui em Roma. Cria-nos problemas.

- Entendo em que ponto Roma dificulta as coisas - disse Decúmio, num tom que dava ao comentário sentidos diversos.

Bomílcar olhou para o homenzinho, espantado; ali estava um cérebro de subtileza, bem como de faculdade. Respirou fundo.

- A minha participação torna-se mais perigosa, porque sou um estranho em Roma - disse. - Bem vês, tenho de encontrar um romano que esteja disposto a matar o príncipe Massiva. Aqui, em Roma.

Lúcio Decúmio nem pestanejou.

- Não é difícil - disse.

- Não é?

- O dinheiro compra tudo em Roma, amigo.

- Então podes dizer-me aonde hei-de dirigir-me? - perguntou Bomílcar.

- Não vás mais longe, amigo, não vás mais longe - disse Decúmio, engolindo o resto da cebola. - Era capaz de cortar as goelas de meio Senado só para ter a hipótese de comer ostras em vez de cebolas. Quanto rende o trabalho?

- Quantos denários estão nesta bolsa? Bomílcar esvaziou-a sobre a mesa.

- Não chegam para matar.

- E o que me dizes à mesma quantidade em ouro? Decúmio deu-lhe uma forte pancada na coxa.

- Isso mesmo! Assim é que é falar! Negócio fechado, amigo. Bomílcar sentia a cabeça a andar à roda, mas não era do vinho, que despejara sub-repticiamente para o chão durante a última hora.

- Metade amanhã e metade depois do trabalho feito disse, empurrando as moedas para dentro da bolsa.

Uma mão tingida, de unhas sujas, travou-o.

Deixa isto aqui como prova de boa fé, amigo. E volta amanhã. Espera lá fora, perto do sacrário. Iremos até minha casa conversar.

Bomílcar levantou-se.

Estarei aqui, Lúcio Decúmio. E no caminho para a porta, parou para olhar de frente o rosto mal barbeado do guarda da associação. Já mataste alguém? perguntou.

Decúmio levou o seu dedo indicador até ao lado direito do nariz.

Um sinal vale tanto como um piscar de olhos para um barbeiro cego, amigo disse. Na Subura ninguém se vangloria dos seus feitos.

Satisfeito, Bomílcar sorriu para Decúmio e saiu para a aglomeração da Subura Menor.

Marco Lívio Druso, que tinha sido cônsul dois anos antes, festejou o seu triunfo a meio da segunda semana de Janeiro. Fora escolhido para governador da província da Macedónia no ano em que era cônsul, e tendo tido a sorte de ver a atribuição prorrogada, prosseguiu uma guerra de fronteiras muito bem sucedida contra os Escordiscos, uma tribo de Celtas inteligentes e bem organizados que hostilizava continuamente a Macedónia romana. Mas em Marco Lívio Druso encontraram um homem de capacidades excepcionais e foram derrotados. Para Roma, o resultado fora mais benéfico do que de costume; Druso teve a sorte de conseguir conquistar uma das maiores fortalezas dos Escordiscos e encontrar nela, guardadas em segredo, uma parte considerável das riquezas deste povo. A maior parte dos governadores festejavam vitórias no final do seu tempo em funções, mas toda a gente concordou que Marco Lívio Druso merecia essa honra mais do que ninguém.

O príncipe Massiva era convidado do cônsul Espúrio Postúmio Albino nas festividades, e por isso foi-lhe atribuído um lugar excelente no Circo Máximo, donde assistiu à passagem da longa parada triunfal através do Circo, maravilhando-se ao descobrir em primeira mão o que sempre lhe haviam contado, que os romanos possuíam a arte de organizar espectáculos, e sabiam encená-los melhor do que qualquer outro povo. Como era de esperar, o seu grego era excelente, e por isso havia entendido o resumo do relato pré-triunfal, e encontrava-se de pé, pronto a partir antes de as legiões terem cruzado a Porta Capena ao abandonarem a vasta arena. O grupo consular saiu por uma porta privada que dava para o Fórum Boarium, apressou-se a subir as escadas de Caco até ao Palatino, e redobrou o passo, Percorrendo o caminho mais curto possível, doze lictores encaminharam-se por ruas quase desertas, com as solas cravejadas das suas botas de inverno a martelar o pavimento de pedra.

Dez minutos depois de terem abandonado os lugares no Circo Maximo, os acompanhantes de Espúrio Postúmio Albino desceram ruidosamente as Escadas de Vesta até ao Fórum Romano, dirigindo-se ao Templo de Castor e Pólux. Aqui, na plataforma do alto da escadaria deste edifício imponente, deviam sentar-se os dois cônsules com os seus convidados, para verem a parada descer a Via Sacra da Vélia em direcção ao Capitólio; para não ofenderem o vencedor, tinham de estar nos seus devidos lugares quando surgisse a parada.

- Todos os outros magistrados e Pais Conscritos desfilam à frente da parada - explicou Espúrio Postúmio Albino ao Príncipe Massiva - e os cônsules do ano são sempre convidados formalmente a desfilar, tal como são convidados para a festa que o vencedor oferece a seguir no Templo de Júpiter Optimus Maximus. Mas não fica bem ao cônsul aceitar algum dos dois convites. Este é o grande dia do vencedor, e por isso deverá ser ele a pessoa mais distinta nos festejos, e quem tem mais lictores. Assim, os cônsules observam sempre de uma posição de importância, e o vencedor manifesta-lhes o seu apreço ao passar. Contudo, não o ofuscam.

O príncipe mostrara ter compreendido, apesar de ser um perfeito estrangeiro e de a sua falta de contacto com os romanos limitar a compreensão da descrição geral que lhe faziam. Ao contrário de Jugurta, passara a vida toda ligado à África não-romana.

Mal o grupo consular chegou à junção das Escadas de Vesta com a Via Nova, a sua progressão foi retardada pela multidão em massa, Roma em peso tinha saído à rua, com as suas centenas de milhar de pessoas, para assistir ao triunfo de Druso; as informações que penetravam até nas ruas mais miseráveis da Subura haviam garantido a todos que o triunfo de Druso ia figurar entre os mais fantásticos.

Quando estavam de serviço, transportando osfasces em Roma, os lictores vestiam simples togas brancas; hoje, o seu trajo tornava-os ainda mais anónimos, pois Roma inteira se vestia de branco para assistir a um triunfo, todo e qualquer cidadão vestia a toga alba em vez da túnica. Por conseguinte, os lictores tinham dificuldade em abrir caminho ao grupo consular, que ia abrandando à medida que a multidão aumentava. Na altura em que chegou ao Templo de Castor e Pólux, deixara de ser uma unidade, e o príncipe Massiva, acompanhado por guarda-costas particulares, ficara tão atrasado que perdera todo o contacto com os outros.

A sua noção de exclusividade e a sua realeza não-romana instigavam-no ao ultraje, perante a atitude familiar e desrespeitosa das centenas de pessoas que se amontoavam à sua volta; os seus guarda-costas foram afastados, e perdeu-os de vista por uns momentos.

Era o instante tão esperado por Lúcio Decúmio; investiu com precisão; rápido, certeiro e repentino. Esmagado contra o príncipe Massiva por um movimento espontâneo da multidão, enfiou o seu punhal especialmente afiado sob o lado esquerdo da real caixa toráxica, virando-o imediatamente para cima com um golpe brutal, largou o punho mal sentiu que a lâmina tinha entrado toda e já se esgueirara por entre uma dúzia de corpos antes que começasse a correr o sangue, ou que o Príncipe Massiva conseguisse gritar por socorro. Com efeito, o Príncipe não gritou por socorro; limitou-se a cair onde estava, e quando os guarda-costas recuperaram os ânimos e afastaram as pessoas à volta do seu amo assassinado, Lúcio Decúmio ia já a meio caminho da parte baixa do Fórum em direcção à baía do Argileto, uma mera gota no meio de um mar de togas brancas.

Passaram bem uns dez minutos até que alguém pensasse comunicar a notícia a Espúrio Albino e a seu irmão Aulo, já instalados no pódio do templo e despreocupados em relação ao facto de não aparecer o príncipe Massiva. Os lictores apressaram-se a fazer um cordão à volta da área, a multidão foi empurrada noutra direcção, e Espúrio e Aulo Albino ficaram parados a ver um homem morto e os seus planos destruídos.

Terá de esperar disse Espúrio por fim. Não podemos ofender Marco Lívio Druso perturbando o seu triunfo voltou-se para o chefe do grupo de guarda-costas, que no caso do Príncipe Massiva se compunha de gladiadores romanos contratados, e falou-lhe em grego. - Transporta o príncipe Massiva para sua casa, e espera lá até eu chegar - disse ele.

O homem fez um sinal afirmativo. Fizeram uma padiola grosseira com a toga de Aulo Albino, onde o corpo foi levado aos ombros de seis gladiadores.

Aulo aceitou a desgraça menos fleumaticamente do que o irmão mais velho; fora ele que até então beneficiara de toda a generosidade de Massiva; Espúrio sentia que podia esperar pela sua parte até ver Massiva instalado no trono da Numídia durante a campanha africana. Porém Aulo era tão impaciente como ambicioso, e estava ansioso por ultrapassar Espúrio, - jugurta! - disse ele entredentes. - Foi jugurta!

- Nunca conseguirás prová-lo - disse Espúrio, suspirando. Subiram os degraus do Templo de Castor e Pólux: e tomaram os lugares assim que os magistrados e senadores apareceram por detrás do volume imponente do Domus Publicus, a casa estatal onde habitavam as Vestais e o Pontifex Maximus. Apenas se podia ver de relance, mas dentro de pouco tempo, ficaram mesmo à vista, e a grande procissão desceu a colina, até ao ponto em que a Via Sacra terminava ao lado do local baixo onde se reuniam os Comícios. Espúrio Albino e Aulo Albino estavam com o ar de quem não tem nada em que pensar para além do gozo do espectáculo e do respeito por Marco Lívio Druso.

O encontro de Bomílcar e Lúcio Decúmio foi ruidoso sem dar nas vistas; ficaram lado a lado ao balcão de um bar na esquina de cima do Grande Mercado até servirem a cada um deles um pastel recheado com uma rodela de chouriço com alho, e a seguir afastaram-se com naturalidade, trincando delicadamente os seus petiscos, que estavam muito quentes.

- Um dia bom para o efeito, amigo - disse Lúcio Decúmio. Envolvido por um manto de lã que lhe ocultava as feições, Bomílcar suspirou.

- Espero que o dia continue bom - disse ele.

- Este é um dia que vai acabar na perfeição. Garanto-te, amigo disse Lúcio Decúmio com satisfação.

Bomílcar remexeu por baixo do manto e encontrou a bolsa com a segunda metade do ouro de Decúmio.

- É certo?

- Tão certo como um homem cujos sapatos cheiram mal sabe que pisou merda - disse Decúmio.

A saca de ouro mudou de mãos, invisivelmente. Bomílcar virou-se para partir, de coração leve.

- Agradeço-te, Lúcio Decúmio disse.

- Não, amigo, o prazer é todo meu! E Lúcio Decúmio permaneceu onde estava, mirando com alegria o seu pastel de carne até este desaparecer. - Ostras em vez de cebolas disse em voz alta, começando a subir a Fauces Suburae com um passo alegre e a saca de ouro segura, colada à pele.

Bomílcar deixou a cidade pela Porta Fontinal e desceu ao Campo de Marte, apressando-se à medida que a multidão diminuía. Entrou pela porta principal da villa de Jugurta sem encontrar ninguém que conhecesse, e despiu alegremente o manto. O rei fora muito amável e dera folga a todos os escravos da casa para irem ver o triunfo de Druso, e ainda um denário de presente a cada um. Por isso não havia olhos estranhos a testemunhar o regresso de Bomílcar, além dos guarda-costas fanaticamente leais e servos númidas.

Jugurta estava no seu lugar habitual, sentado na loggia do andar superior, por cima da entrada.

- Está feito disse Bomílcar.

O rei apertou com força o braço do irmão.

Oh! Bom homem! disse ele, sorrindo.

- Estou feliz por ter corrido tudo tão bem - disse Bomílcar.

Está mesmo morto?

O meu assassino garantiu-me que sim: que era tão certo como um homem cujos sapatos cheiram mal sabe que pisou merda os ombros de Bomílcar agitavam-se com as gargalhadas. É um tipo pitoresco, o meu rufia romano. Mas extraordinariamente eficiente e bastante calmo.

Jugurta descontraiu-se.

No momento em que ouvirmos dizer que o meu primo Massiva está morto, será melhor convocarmos uma reunião com os nossos agentes. Teremos de fazer muita pressão para que o Senado me reconheça a posse do trono e nos deixe regressar a casa. Fez um esgar. Não posso esquecer-me de que ainda tenho de lutar contra o meu lastimoso meio-irmão inválido profissional, o querido e adorado Gauda.

Mas houve um que não apareceu, quando os agentes de Jugurta receberam ordens para se reunirem na sua villa. No momento em que soube do assassínio do príncipe Massiva, Marco Servílio Agelasto pedi uma audiência com o cônsul Espúrio Albino. O cônsul mandou um secretário dizer que estava muito ocupado, mas Agelasto manteve-se firme na sua intenção, até o secretário esgotado e em estado de desespero o levar à presença do irmão mais novo, Aulo, que ficou agitadíssimo ao ouvir o que Agelasto tinha a dizer. Espúrio Albino foi chamado e ouviu impassível, enquanto Agelasto repetia a história, depois agradeceu-lhe, anotou a sua morada e um depoimento e despediu-se dele com uma delicadeza que bastaria para fazer sorrir a maioria dos homens; mas não alguém como Agelasto.

- Tomaremos providências através do praetor urbanus, com a legalidade possível nestas circunstâncias - disse Espúrio mal se viu a sós com o irmão mais novo. - É um assunto demasiado importante para deixarmos Agelasto intentar a acção. Eu mesmo o farei, mas ele é vital para o nosso caso, porque é o único cidadão romano entre eles, excepto o assassino misterioso. Caberá aopraetor urbanus decidir exactamente como será processado Bomílcar. Irá sem dúvida consultar o Senado, pedir uma orientação para proteger o traseiro. Mas se eu falar com ele pessoalmente, e lhe disser que a minha opinião legal é que o facto de o crime ter sido cometido num dia de triunfo para um cidadão romano prevalece sobre o seu estatuto de não-cidadão... Bem, penso que posso aliviá-lo dos seus receios. Especialmente se valorizar o facto de o príncipe Massiva ter sido cliente do cônsul e estar sob a protecção deste. É vital que Bomílcar seja julgado e condenado em Roma por um tribunal romano. A simples audácia do crime obrigará a facção de Jugurta no Senado a calar-se. Tu, Aulo, podes preparar-te para mover a acção em qualquer dos tribunais. Eu tratarei de assegurar que será consultado o praetor Peregrinus, dado que em geral é o homem que trata dos processos relacionados com não-cidadãos. Ele pode querer defender, apenas para manter a legalidade das coisas. Mas seja como for, Aulo, vamos destruir as hipóteses de Jugurta obter o apoio do senado para a sua causa, e a seguir veremos se encontramos outro pretendente ao trono.

- Tal como o príncipe Gauda?

- Tal como o príncipe Gauda, por menos que preste. Afinal de contas, ele é o meio-irmão legítimo de Jugurta. Basta-nos conseguir que Gauda nunca venha a Roma suplicar em pessoa - Espúrio sorriu para Aulo. - Vamos fazer fortuna este ano na Numídia, juro!

Mas Jugurta abandonara qualquer ideia de lutar de acordo com as leis romanas. Quando o pretor urbano e os seus lictores chegaram à vila no monte Píncio para prenderem Bomílcar sob acusação de conspiração e assassínio, por momentos o rei sentiu-se tentado a recusar-se terminantemente a entregar Bomílcar, e ver o que acontecia. Acabou por contemporizar, afirmando que como nem a vítima nem o réu eram cidadãos de Roma, não conseguia entender o que tinha Roma a ver com a questão. O pretor urbano respondeu afirmando que o Senado decidira que o réu tinha de responder a acusações num tribunal romano por haver provas de que o assassino era com toda a certeza um cidadão romano. Um tal Marco Servílio Agelasto, um cavaleiro romano, fornecera provas disso, e dissera em juramento que ele próprio fora contactado para efectuar o assassínio.

- Nesse caso disse Jugurta, lutando ainda -, o único magistrado que pode prender o meu barão é o pretor dos estrangeiros. O meu barão não é um cidadão romano, e o meu domicílio, que é também o dele, fica fora da jurisdição do pretor urbano!

- Foste mal informado disse o pretor urbano melifluamente. Será o praetor peregrinus a tomar conta do caso, é evidente. Mas o imperium do praetor urbanas estende-se até ao quinto marco miliário a partir de Roma, e por conseguinte a tua villa situa-se dentro da minha jurisdição e não na do pretor dos estrangeiros. Agora, por favor, manda chamar o barão Bomílcar.

O barão Bomílcar foi chamado e levado rapidamente para as celas das Lautumias, onde ficaria a aguardar julgamento num tribunal especialmente reunido. Quando Jugurta enviou os seus agentes pedindo que Bomílcar fosse libertado sob caução ou pelo menos que fosse aprisionado em casa de um cidadão de prestígio, em vez do caos tumultuoso das Lautumias o pedido foi recusado. Bomílcar teve de permanecer na única prisão de Roma.

As Lautumias tinham iniciado a sua existência várias centenas de anos antes como pedreira, num lado do Arx do Capitólio; eram agora um aglomerado de blocos soltos de pedra, acumulados na encosta do lado do baixo Fórum Romano. Podiam alojar cerca de cinquenta prisioneiros em celas vergonhosamente talhadas, sem qualquer tipo de segurança; os presos podiam deambular por onde muito bem lhes apetecesse dentro das suas paredes, e eram impedidos de vaguear até ao exterior por lictores de sentinela, ou, nas raras ocasiões em que prendiam alguém realmente perigoso, por grilhetas. Como o lugar estava geralmente vazio, a visão dos lictores de sentinela era uma grande novidade; pelo que a reclusão de Bomílcar em breve se tornou uma das notícias mais divulgadas em Roma graças aos lictores, que de modo nenhum se opunham a gratificar a curiosidade dos transeuntes.

A mediocridade de Lúcio Decúmio era meramente social; não se estendia seguramente ao seu aparelho cerebral, que funcionava extremamente bem. Conseguir o lugar de custódio duma associação de vigilância das encruzilhadas era um feito notável. Por isso, quando uma ponta dos boatos penetrou no coração da Subura, Lúcio Decúmio somou dois e dois, e deparou-se com uma resposta de quatro dedos. O nome era Bomílcar e não juba, e a nacionalidade era númida e não mauritana. No entanto, teve logo a certeza de que era o seu homem.

Aplaudindo em vez de condenar a fraude de Bomílcar, lá foi Lúcio Decúmio parar às celas das Lautumias, onde ganhou entrada pelo simples expediente de fazer um sorriso largo, mostrando os dentes aos dois lictores de sentinela antes de abrir caminho violentamente por entre eles.

- Merda de ignorante! - disse um deles, esfregando o lado atingido.

- Engole! - disse Decúmio, fugindo agilmente para trás de um pilar quase desfeito e esperando que os queixosos à porta se calassem.

Por falta de funcionários militares ou civis para fazerem cumprir a lei, Roma geralmente obrigava o seu Colégio de Lictores a fornecer membros para todos os tipos de tarefas. Havia talvez trezentos lictores no total, mal pagos pelo Estado, e por isso muito dependentes da generosidade daqueles a quem serviam; viviam num edifício com um terreno sem vedações por detrás do Templo dos Lares tutelares na Via Sacra, e apenas achavam satisfatória a localização porque também ficava por detrás do longo prédio da melhor estalagem de Roma, onde sempre podiam cravar uma bebida. Os lictores escoltavam todos os magistrados que possuíam imperium, e lutavam pela hipótese de servir um governador que fosse para fora, pois assim partilhavam a sua quota-parte de saques e gratificações. Os lictores representavam as trinta divisões de Roma denominadas as curiae. E os lictores podiam ser postos de sentinela quer nas Latumias, quer no Tuliano, mesmo ao lado, onde os condenados à morte esperavam escassas horas pelo estrangulador. Estar de sentinela era das tarefas menos desejáveis que um lictor podia receber do chefe do seu grupo de dez lictores. Não havia gorjetas, nem subornos, nem nada. Por conseguinte, nenhum dos lictores estava interessado em perseguir Lúcio Decúmio dentro do edifício; o seu trabalho era guardar a porta e era tudo o que fariam, por Júpiter.

Eh! Amigo, onde estás? gritou Decúmio numa voz suficientemente alta para ser ouvida pelos banqueiros da Basílica Porcia.

Os pêlos dos braços e pescoço de Bomílcar eriçaram-se; pôs-se de pé. E agora, acabou-se, pensou ele, e esperou paralisado que Decúmio chegasse, escoltado por um grupo de magistrados e outros funcionários.

Decúmio apareceu. Mas sozinho. Quando viu Bomílcar, hirto, encostado à parede do lado de fora da cela (que tinha uma abertura sem grades nem portas com a largura suficiente para um homem atravessar de rastos - o que Bomílcar não possuía era a prova da sua completa mistificação da forma como os Romanos pensavam e agiam, pois não podia acreditar na verdade que a prisão era um conceito estranho aos Romanos), Decúmio sorriu para ele, com ar satisfeito, e entrou na sala sem porta.

- Quem te denunciou, amigo? perguntou, estendendo o seu corpo magro sobre um bloco tombado de alvenaria.

Dominando a sua tendência para tremer, Bomílcar humedeceu os lábios.

- Bem, se não foste tu antes, tonto, vais fazê-lo agora! disse com brusquidão.

Decúmio olhou para ele de olhos cada vez mais abertos; uma luz ia começando a surgir pouco a pouco.

Vá lá, amigo, não te preocupes com coisas dessas disse ele com suavidade. Aqui ninguém nos ouve; só há um par de lictores à porta, e estão a uns vinte passos daqui. Ouvi dizer que tinhas sido preso, e por isso achei por bem vir cá saber o que foi que correu mal.

- Agelasto disse Bomílcar. Marco Servílio Agelasto!

Queres que lhe faça o mesmo que fiz ao príncipe Massiva?

Ouve: por que não desapareces daqui? gritou Bomílcar, desesperado. Não entendes que vão começar a pensar por que razão vieste até aqui? Se alguém te viu perto do príncipe Massiva, és um homem morto!

Pronto, amigo, pronto! Não te preocupes mais: ninguém me conhece, e ninguém se rala por eu estar aqui. Isto não são as masmorras dos Partos, amigo, a sério! Só te põem aqui para pregar um susto ao teu patrão, é só isso. Não se importam nada se fugires de noite; isso só indica que és culpado e apontou para o buraco na parede exterior.

Não posso fugir disse Bomílcar.

Como queiras Decúmio encolheu os ombros. E essa ave do Agelasto? Queres que o afaste do caminho? Faço-o pelo mesmo preço... Pago na entrega, desta vez; confio em ti.

Fascinado, Bomílcar chegou por progressão lógica à conclusão de que Lúcio Decúmio não só acreditava no que estava a dizer, como tinha indubitavelmente razão. Se não fosse por Jugurta, teria aproveitado aquela fuga; mas se cedesse à tentação, só os deuses sabiam o que aconteceria a Jugurta.

- Receberás mais uma saca de ouro - disse.

- Onde vive esse sujeito que, a avaliar pelo nome, nunca se ri?

- No monte Célio, no Vicus Capiti Africae.

- É um belo bairro novo! - disse Decúmio num tom apreciativo. Esse tal Agelasto deve estar a sair-se bem! No entanto, isso torna-o fácil de encontrar, morando num sítio onde os pássaros cantam mais alto do que os vizinhos. Não te preocupes, faço-te isso imediatamente. Depois logo me pagas, quando o teu patrão te tirar daqui. Manda-me o ouro para a associação. Eu estarei lá para o receber.

- Como sabes que o meu patrão me vai tirar daqui?

- Claro que vai, amigo! Só te fecharam aqui para lhe pregarem um susto. Mais uns dias e deixam-no tirar-te daqui. Mas depois, aceita o meu conselho e vai para casa logo que possas. Não fiques por Roma, está bem?

- Deixar cá o rei à mercê deles? Não sou capaz!

- Claro que és! O que pensas que lhe farão aqui em Roma? Dar-lhe uma pancada na cabeça e atirá-lo ao Tibre? Não! Nunca! Não é assim que eles fazem, amigo - disse Lúcio Decúmio, o conselheiro entendedor.

- Só há uma razão para eles matarem, e é a sua preciosa República. Sabes, as leis e a Constituição, e coisas do género. Podem matar um ou dois tribunos da plebe discordantes, como fizeram a Tibério e a Caio Graco, mas nunca matariam um estrangeiro em Roma. Não te preocupes com o teu patrão, amigo. Aposto que também o mandam para casa, se fugires. Bomílcar olhou fixamente Decúmio, admirado.

- E contudo, nem sabes onde fica a Numídia! - disse ele devagar. Nunca foste a Itália! Então, como conheces o funcionamento dos nobres romanos?

- Bem, é diferente - disse Decúmio, levantando-se da sua pedra e preparando-se para partir. - Vem com o leite! Bebemo-lo com o leite que mamamos. Quero dizer, para além de um ou outro golpe de sorte como tu, que apareçam, quando não há jogos, em que outro lugar pode um homem vibrar a não ser no Fórum Romano? E nem precisas de ir lá em pessoa para teres emoções fortes. Elas vêm ter contigo, amigo. Tal como o leite que mamaste.

Bomílcar estendeu a mão.

- Agradeço-te, Lúcio Decúmio. Afinal és o único homem completamente honesto que conheci em Roma. Hei-de enviar-te o dinheiro.

- Não te esqueças: para a associação! Ah! E o seu dedo direito elevou-se, indo tocar o lado direito do nariz. Se alguns amigos teus necessitarem de ajuda prática para resolverem os seus pequenos problemas, diz-lhes que aceito alguns contratos por fora! Gosto desta actividade.

Agelasto morreu, mas como Bomílcar estava nas Lautumias e nenhum dos lictores sonhou relacionar Decúmio com o motivo da prisão de Bomílcar, a acção que Espúrio e Aulo Albino estavam a preparar contra o barão númida enfraqueceu. Ainda tinham o depoimento extraído a Agelasto, mas não havia dúvida de que a sua ausência como testemunha principal no processo era um desastre. Aproveitando a oportunidade proporcionada pela morte de Agelasto, Jugurta pediu ao Senado uma caução para Bomílcar. Embora Caio Mémio e Escauro tivessem discutido aCaioradamente acerca da sua atribuição, o barão Bomílcar acabou por ser libertado, mas Jugurta teve de pôr cinquenta dos seus auxiliares númidas à custódia de Roma; foram distribuídos pelas casas de cinquenta senadores, e Jugurta foi obrigado a dar ao Estado uma grande quantia em dinheiro, ostensivamente para pagar a manutenção dos seus reféns.

A sua causa, como é evidente, estava irremediavelmente arruinada. No entanto, deixara de se preocupar, pois sabia que já não havia esperança de vir a obter a aprovação de Roma para a sua permanência no trono. Não devido à morte de Massiva, mas porque os Romanos nunca haviam tido a menor intenção de aprová-la. Atormentavam-no há anos, fazendo-o dançar conforme a sua música, e rindo-se dele às escondidas. Por isso, com o consentimento do Senado ou sem ele, iria para casa. Para organizar um exército e começar a treiná-lo no combate às legiões que estavam para chegar.

Bomílcar partiu para Putéolos no momento em que foi libertado, embarcou de lá para África e conseguiu escapar imune. Após o que o Senado lavou as mãos do caso de Jugurta. Vai para casa, disseram, devolvendo-lhe os cinquenta reféns (mas não o dinheiro). Vai-te embora de Roma, vai-te embora da Itália, sai das nossas vidas.

A última visão que o rei da Numídia teve de Roma foi do topo do Janículo, que ele obrigou o seu cavalo a subir, para poder ver a forma do seu destino: Roma. Ali estava ela, rolando e ondulando entre as paredes dos seus penhascos repentinos, entre sete colinas e sete vales, um mar de telhas vermelho-alaranjadas e paredes de estuque com pinturas brilhantes, os ornamentos a adornar os frontões dos templos lançando raios de luz em brilho para o céu, pequenas vias para os deuses usarem. Uma cidade vívida e colorida de terracota, verde com árvores e relvados onde o espaço o permitia.

Mas jugurta não viu nada para admirar. Olhou durante muito tempo, certo de que nunca mais veria Roma.

- Uma cidade à venda - disse então - e quando encontrar um comprador, desaparecerá num abrir e fechar de olhos.

E partiu em direcção à Via Ostiense.

Clitumna tinha um sobrinho. Como era filho da sua irmã, não tinha o nome de família, Clitumno; o seu nome era Lúcio Gávio Stichus, o que indicava a Sila que algum antepassado do pai dele havia sido escravo. Por que outra razão teria a alcunha de Stichus? Era nome de escravo, mas mais do que isso. Stichus era o nome do escravo arquétipo, o nome a brincar, o nome com que se metiam com eles. Contudo, Lúcio Grávio Stichus insistia que a sua família herdara o nome por estar há muito associada à escravatura; tal como o pai e o avô, pelo menos, Lúcio Gávio Stichus negociava com escravos, dirigia uma pequena agência bem instalada de servos domésticos, situada no Porticus Metelii, no Campo de Marte. Não era uma empresa ambiciosa ao serviço da elite, mas antes um negócio próspero ao serviço daqueles cujas bolsas não chegavam para pagar mais de dois ou três escravos.

Que estranho, pensou Sila quando o mordomo o informou que o sobrinho da sua ama estava no gabinete, como lhe apareciam tantos Gávios à frente. Tinha havido o alegre companheiro de bebida do seu pai, Marco Gávio Broco, e o caro grammaticus Quinto Gávio Mirro. Gávio. Não era um apelido muito comum nem um nome distinto. No entanto, conhecia três Gávios.

Bem, o Gávio que havia bebido com o seu pai e o Gávio que lhe dera uma formação fora do comum provocavam nele sentimentos que não o incomodava possuir; mas StIchus era diferente. Se suspeitasse que Clitumna havia tido a honra de uma visita do seu horrível sobrinho, não teria vindo a casa, e permaneceu um momento no átrium considerando o que fazer a seguir - sair de casa, ou desaparecer para uma parte da casa onde Stichus não metesse o bico.

O jardim. Com um aceno e um sorriso face ao cuidado do mordomo em avisá-lo, passou o gabinete e entrou no peristilo, encontrou um lugar um pouco aquecido pelo sol fraco, e sentou-se a olhar de olhos semicerrados para a pavorosa estátua de Apolo perseguindo uma Dafne que era já mais uma árvore do que uma dríade. Clitumna adorava-a, razão pela qual a tinha comprado. Mas alguma vez o Senhor da Luz tivera cabelos de um amarelo tão agressivo, ou olhos de um azul tão pútrido, ou uma pele tão macilenta? E como se podia admirar um escultor tão distante dos critérios do ascetismo, que transformava todos os dedos das mãos de Dafne em ramos idênticos de um verde vivo, e todos os dedos dos pés de Dafne em semelhantes raízes de um castanho sombrio? O idiota chegara até - devia achar que era esse o seu toque de mestre - a borrar o pobre seio humanóide que restava a Daffie com um fio de seiva púrpura saindo do mamilo nodoso! Olhar de olhos semicerrados foi o único modo que Sila encontrara de preservar a peça, quando tudo o que sobrava dos seus sentidos ofendidos ansiavam por rachá-la com um machado.

- O que faço eu aqui? - perguntou à pobre Dafne, que devia ter ficado horrorizada, mas que se limitou a fazer um sorriso afectado. Ela não respondeu.

- O que faço eu aqui? - perguntou a Apolo. Apolo não respondeu.

Ergueu a mão para comprimir os dedos contra os olhos, e fechou-os, e iniciou o processo tão habitual de se disciplinar para a... não era exactamente aceitação, era mais um tipo de resistência carrancuda. Gávio. Pensar num Gávio sem ser o tal Stichus. Pensar em Quinto Gávio Mirro, o homem que lhe dera uma formação fora do comum.

Tinham-se conhecido pouco depois do sétimo aniversário de Sila, quando o rapazito magro mas forte tentava ajudar o bêbedo do pai a ir para casa, para o quarto de solteiro no Vicus Sandalarius, onde viviam na altura. Sila Sénior tinha caído na rua, e Quinto Gávio Mirro viera em auxílio do rapaz. Os dois juntos levaram o homem para casa, com Mirro fascinado pelo aspecto de Sila e com o latim que ele falava, disparando-lhe perguntas durante todo o percurso.

Mal Sila Sénior se sentou na beira da sua enxerga de palha, o velho grammaticus sentou-se na única cadeira existente e começou a extrair do rapaz tudo o que ele sabia da história da sua família. E acabou explicando que era professor, e oferecendo-se para ensinar o rapaz a ler e escrever de graça. A situação miserável de Sila surpreendeu-o: um Cornélio patrício de potencial evidente, enfiado por penúria até ao fim da vida no meio dos prostíbulos das zonas mais pobres de Roma? Era coisa em que nem se devia pensar. O rapaz deveria, no mínimo, ser preparado para ganhar a vida como funcionário ou escriba! E se por qualquer motivo a sorte de Sila mudasse e ele tivesse a oportunidade de abraçar o modo de vida a que tinha direito, sendo apenas impedido de fazê-lo por ignorância?

Sila aceitara a oferta de ser ensinado, mas desdenhara o elemento grátis. Sempre que podia, roubava o suficiente para meter na mão do velho Quinto Gávio Mirto um denário de prata ou uma galinha anafada, e, quando era mais crescido, vendia-se para obter esse denário de prata. Se Mirto desconfiava que esses pagamentos eram feitos à custa da honra, nunca o disse; porque tinha a sensatez de entender que, ao pagá-los, o rapaz mostrava o valor que dava à sua inesperada oportunidade de aprender. Por isso aceitava as moedas mostrando prazer e gratidão, e nunca deu a Sila o menor motivo para pensar que se preocupava muito com a sua proveniência.

Aprender retórica e seguir o percurso de um grande defensor dos tribunais era um sonho que Sila sabia que nunca poderia vir a alcançar, o que tornava ainda mais ilustres os modestos esforços de Quinto Gávio Mirro. Porque era graças a Mirro que ele falava o mais puro grego ático, e adquirira pelo menos os rudimentos básicos de retórica. A biblioteca de Mirro era extensa, e por isso Sila lera Homero e Píndaro e Hesíodo, Platão e Menandro e Eratóstenes, Euclides e Arquimedes. E também lera em latim: Énio, Átio, Cássio Hemina, Catão, o Censor. Ao esmiuçar todo e qualquer rolo de pergaminho que apanhava, descobria um mundo onde a sua situação podia ser esquecida por algumas horas preciosas, um mundo de heróis nobres e grandes feitos, factos científicos e fantasia filosófica, o estilo da literatura e o estilo da matemática. Felizmente, a única qualidade que o seu pai não perdera muito antes de Sila nascer era o seu belo latim; assim, Sila não tinha razão para se envergonhar do seu latim, mas também falava na perfeição o calão da Subura, e um latim razoavelmente correcto, embora das classes baixas, o que implicava que não podia mexer-se nas esferas de Roma sem comentários.

A pequena escola de Quinto Gávio Mirro sempre fora numa esquina sossegada do Macellum Cuppedenis, o mercado de flores e especiarias que ficava atrás do Fórum Romano, no seu lado oriental. Como não tinha dinheiro para as instalações mas tinha de ensinar no domínio público, como Mirro diria, que melhor lugar havia para transmitir conhecimentos aos espessos cérebros dos jovens romanos do que entre os estonteantes cheiros das rosas e violetas, pimenta preta e canela?

Não era para Mirro um lugar como tutor residente de qualquer presumido rapaz mimado plebeu, nem a exclusividade de meia dúzia de cavalheirescos jovens da nobreza ensinados numa sala de aula bem isolada do ruído das ruas. Não, Mirro mandava apenas o seu único escravo instalar a sua cadeira alta e os bancos dos alunos num lugar onde os compradores não passassem por cima deles, e ensinava-lhes a ler, escrever e aritmética ao ar livre, por entre os gritos e rugidos e locais de venda dos comerciantes de flores e especiarias. Se não fosse estimado e não tivesse feito um pequeno desconto a rapazes e raparigas cujos pais tinham tendas no Cuppedenis, em breve teria sido intimidado a mudar-se; mas como era muito estimado e fazia descontos, autorizavam-no a ter a escola na mesma esquina até morrer, quando Sila tinha uns quinze anos.

Mirro levava dez sestércios por semana a cada aluno, e geralmente tinha entre dez e quinze crianças (sempre mais rapazes do que raparigas, apesar de nunca deixar de ter algumas). Os seus rendimentos eram de cerca de cinco mil sestércios por ano; daí, tirava mil sestércios para pagar um quarto de solteiro bonito e espaçoso na casa de um dos seus antigos alunos; gastava cerca de mil sestércios por ano a alimentar-se bastante bem a si e ao seu escravo idoso mas dedicado, e gastava o resto do dinheiro em livros. Se não estivesse a ensinar por ser dia de mercado ou feriado, podia ser encontrado a consultar livros nas bibliotecas e livrarias e casas editoras do Argileto, uma rua larga que partia do Fórum Romano e passava pela Basílica Emília e pelo Senado.

- Oh, Lúcio Cornélio - costumava dizer, quando tinha o rapaz consigo depois de ter terminado as lições, desesperado (embora nunca mostrasse esse desespero) por manter o rapaz a salvo, para afastá-lo das ruas -, algures neste enorme mundo, alguém escondeu as obras de Aristóteles! Se soubesses quanto anseio por lê-lo! Uma obra tão extensa, uma mente tal... Imagina, foi o tutor de Alexandre, o Grande! Dizem que escreveu acerca de tudo: o mal e o bem, gatos e cães, folhas e músculos, os deuses e os homens, sistemas de pensamento e o caos da imbecilidade. Que bom seria ler as obras perdidas de Aristóteles!... - Então, encolhia os ombros, chupava os dentes do modo irritante que todos os seus alunos ridicularizavam pelas costas há décadas, batia com as mãos num pequeno laivo de frustração, e brincava, deixando sair o agradável aroma do cabedal e o cheiro acre do papel da melhor qualidade. - Não faz mal, não faz mal - ia dizendo entretanto - eu não devia queixar-me, pois tenho sempre o meu Homero e o meu Platão.

Quando morreu, o que aconteceu num período de frio após o seu velho escravo ter escorregado na escadaria gelada e partido o pescoço (é incrível como quando a linha que une duas pessoas se estreita tanto - pensou Sila na altura - ambos os desígnios se juntam), era fácil ver como ele fora amado. Não era para Quinto Gávio Mirto a indignidade odiosa de um lugar de pobre nas caieiras para além do Agger; não, teve uma procissão decente, carpideiras profissionais, um elogio, uma pira perfumada com mirra e incenso e bálsamo de Jericó, e uma bela campa para alojar as suas cinzas. Houve um pagamento aos guardas dos registos de óbitos no Templo de Vénus Libitina, amabilidade do excelente cangalheiro contratado para tratar do funeral de Mirro. Este tinha sido organizado e pago por duas gerações de alunos, que o choraram com verdadeira mágoa.

Sila foi de olhos secos e cabeça erguida no meio da multidão que acompanhou Quinto Gávio Mirro para fora da cidade, até ao local da incineração, deitou o seu ramo de rosas para o fogo intenso, e pagou um denário de prata ao cangalheiro, pela sua parte. Mas mais tarde, após o seu pai ter ficado enrodilhado num monte encharcado de vinho e a sua infeliz irmã ter arrumado as coisas o melhor que podia, Sila sentou-se no canto da sala onde os três estavam todo o tempo, e meditou sobre o seu tesouro achado numa descrença dolorosa. Porque Quinto Gávio Mirro preparara a sua morte tão bem como a vida; o testamento fora registado e ficara a cargo das Vestais; era um simples documento, pois não tinha dinheiro para deixar a ninguém. Tudo o que deixara - os livros e a sua preciosa maqueta do Sol e da Lua e dos planetas girando à volta da Terra - foi para Sila.

Sila chorou então, numa agonia triste e vazia; o melhor, o mais querido e único amigo verdadeiro que tivera morreu, mas todos os dias da sua vida iria ver a pequena biblioteca de Mirro, e recordá-lo.

- Um dia, Quinto Gávio - disse, na sua dor espasmódica -, encontrarei as obras perdidas de Aristóteles.

Era evidente que não conseguiu manter os livros e a maqueta durante muito tempo. Um dia, chegou a casa e encontrou o canto onde estava a sua enxerga de palha sem nada mais além da enxerga, O pai levara-lhe os tesouros acumulados com tanto amor por Quinto Gávio Mirro e vendera-os para comprar vinho. Seguiu-se então a única ocasião da vida de Sila com o pai em que tentou cometer parricídio; felizmente, a irmã estava presente e interpôs-se no meio deles até o bom senso voltar. Foi pouquíssimo tempo depois que ela se casou com o seu Nónio e foi com ele para Piceno. Quanto ao jovem Sila, nunca esqueceu, e nunca perdoou. No fim da sua vida, quando possuía milhares de livros e meia centena de maquetas do Universo, ainda insistia na biblioteca perdida de Quinto Gávio Mirro, e na sua dor.

O truque mental resultou; Sila regressou ao momento presente e ao grupo de Apolo e Dafne, de cores berrantes e mal executado. Quando os seus olhos o percorreram e encontraram a estátua ainda mais horrível de Perseu segurando a cabeça de Medusa, quase se pôs de pé num salto, pronto a falar com Stichus. Entrou pelo jardim e dirigiu-se ao gabinete de trabalho, que era a sala geralmente reservada para o uso do chefe da casa; por falta deste, fora dado a Sila, que funcionava mais ou menos como o homem da casa.

O pequeno peido borbulhento enchia a boca de figos em xarope quando Sula entrou no tablinium, limpando os dedos sujos e pegajosos nos montes de livros acumulados pelas paredes cheias de divisórias.

- ooOh! - relinchou Stichuis ao ver Sila, e retirou as mãos subitamente.

- Felizmente sei que és demasiado estúpido para ler - disse Sila fazendo um estalido com os dedos para chamar o servo que estava à porta.

- Vem cá - disse para o servo, um bonito grego dispendioso que não valia um décimo do que Clitumna pagara por ele. - Traz uma bacia de água e um pano limpo, e limpa a porcaria que o senhor Stichuis fez.

Os seus olhos misteriosos fixaram Stichuis, com a malícia de um bode, e disse àquele infeliz, que tentava limpar o xarope das mãos esfregando-as na caríssima túnica:

- Gostava que deixasses de pensar que eu tenho um armazém de livros ilustrados indecentes! Não tenho. Por que havia de tê-los? Não preciso deles. Os livros ilustrados indecentes são para as pessoas que não têm coragem parafazer nada. Pessoas como tu, Stichuis.

- Um dia - disse Stichuis, - esta casa e tudo o que está dentro dela será meu. Nessa altura, não serás tão arrogante!

- Espero que ofereças muitos sacrifícios Para adiar esse dia, Lúcio Gávio, porque é provável que seja o teu último dia. Se não fosse Clitumna, cortava-te em pedacinhos e dava-te a comer aos cães. Stichus olhou para a toga que cobria o possante corpo de Sila, levantando as sobrancelhas; não era que tivesse medo de Sila, conhecia-o há muito tempo, mas pressentia o perigo escondido na fogosa cabeça de Sila, e por isso geralmente avançava com prudência. Um modo de conduta reforçado pelo facto de saber que a sua velha tiazinha Clita não podia ser demovida da vil devoção pelo sujeito. No entanto, à sua chegada uma hora antes, encontrara a tia e a sua liberal companheira em bom estado por o seu querido Lúcio Cornélio ter saído enfurecido de toga. Quando Stichus sacou toda a história de Clitumna, desde Metróbio até à rixa subsequente, ficou chocado. Enjoado.

Por isso, sentara-se na cadeira de Sila e disse:

- Estamos mesmo muito romanos hoje! Fomos à tomada de posse dos cônsules, não fomos? Que vontade de rir! A tua ascendência nem de longe é tão boa como a minha.

Sila tirou-o da cadeira agarrando-lhe o maxilar com os dedos da mão direita dum lado e o polegar do outro, uma prisão tão estranhamente dolorosa que a vítima nem conseguiu gritar; mal recuperou o fôlego para o fazer, viu a cara de Sila e não gritou, ficou tão mudo e quedo como a tia e a sua liberal companheira haviam ficado na madrugada desse dia.

- A minha ascendência - disse Sila com prazer - não te diz respeito. Agora, sai do meu gabinete.

- Não há-de ser o teu gabinete para sempre! - disse Stichus ofegando, fugindo para a porta e quase esbarrando com o escravo que voltava com uma bacia de água e um pano.

- Não contes com isso - foi o remoque de despedida de Sila.

O escravo caro entrou de esguelha no gabinete, tentando ter um ar sério. Sila mirou-o de alto a baixo com irritação.

- Limpa isso, minha flor pretensiosa - disse, e foi procurar as mulheres. Stichuis havia vencido Sila na opinião de Clitumna, que se encontrava fechada com o sobrinho precioso e não devia ser incomodada, disse o mordomo, em tom de desculpa. Por isso, Sila percorreu a colunata que rodeava o jardim do peristilo até aos aposentos onde vivia a sua amante Nicópole. Havia cheiros deliciosos saindo da cozinha no canto extremo do jardim, lugar também partilhado pela sala de banho e pela latrina; tal como a maioria das casas do Palatino, a de Clitumna estava ligada à rede de abastecimento de água e aos esgotos, aliviando assim o pessoal da tarefa de carregar água da fonte pública e juntar o conteúdo dos penicos à latrina pública mais próxima ou aos esgotos que iam dar à valeta. - Sabes, Lúcio Cornélio - disse Nicópole pondo de lado os bordados -, se deixasses as tuas ambições aristocráticas de vez em quando, terias muito mais êxito.

Ele sentou-se num leito confortável com um suspiro, aconchegando-se um pouco melhor na sua toga por o quarto estar frio, e deixou a serva particular chamada Bithy tirar-lhe as botas de Inverno. Era uma rapariga alegre com um nome impossível de pronunciar, vinda dos remotos bosques da Bitínia; Clitumna pagara-a barata ao sobrinho, e inadvertidamente adquirira um tesouro. Quando a rapariga acabou de desapertar as botas, apressou-se a sair do quarto; pouco depois, voltou com um par de meias espessas e quentes que alisou com cuidado nos pés de Sila, perfeitos e brancos como a neve.

- Obrigado, Bithy - disse ele, sorrindo para ela e esticando uma mão descuidada para lhe emaranhar o cabelo.

Ela ficou absolutamente radiante. Que engraçada, pensou ele com uma ternura que o surpreendeu, até descobrir que Bithy lhe fazia lembrar a rapariga da casa do lado. Julilla...

- Como dizes? - perguntou a Nicópole, que parecia, como de costume, impermeável ao frio.

- Por que há-de esse ambicioso rastejante do Stichus herdar tudo, quando Clitumna for juntar-se aos seus dúbios ascendentes? Se conseguisses mudar a tua táctica uma fracção, Lúcio Cornélio, meu caríssimo amigo, deixava-te tudo a ti. E ela tem muito, acredita!

- O que estará ele a fazer? Estara a queixar-se de que o ofendi? - perguntou Sila, tirando uma taça de frutos das mãos de Bithy com outro sorriso especial.

- É evidente que está! E estou certa de que está a fazer muitos bordados. Não te culpo de modo nenhum, ele é detestável, mas é o único familiar dela... E Clitumna ama-o, por isso é cega aos erros dele. Mas ama-te ainda mais a ti, maroto orgulhoso como és! Por isso, quando voltares a vê-la, não sejas frio e altivo e não te recuses a dar explicações: conta-lhe uma história sobre o Stichus Pegajoso ainda melhor do que a que ele está a contar acerca de ti.

Ele olhou-a meio-intrigado, meio-céptico.

- Continua. Ela nunca seria tão estúpida que caísse nessa - disse.

- Oh, querido Lúcio! Quando queres, consegues fazer qualquer mulher cair em qualquer anzol que lhe atires. Tenta! Só esta vez? Por mim? disse Nicópole com meiguice.

- Não. Acabava por ser eu enrolado, Nica.

- Sabes bem que não - insistiu Nicópole.

- Nem todo o dinheiro do mundo me faria rastejar por causa de Clitumna!

- Ela não tem todo o dinheiro do mundo, mas tem mais do que o suficiente para te introduzir no Senado - sussurrou a tentadora, suplicando.

- Não! Estás enganada, de facto estás. Há esta casa, admitamo-lo, mas ela gasta todos os denários que ganha... E o que ela não gasta, gasta o Stichus Pegajoso.

- Não é assim. Porque pensas que os banqueiros dela seguem com tanta atenção as suas palavras como se fosse Cornélia, a Mãe dos Gracos? Porque tem uma grande fortuna investida na posse deles, e não gasta metade dos seus rendimentos. Para além do mais, demos ao Stichus Pegajoso o que lhe é devido, não lhe faltam sestércios. Enquanto o contabilista e o gerente do seu falecido pai puderem trabalhar, o negócio do Stichus há-de continuar a correr muito bem.

Sila sentou-se estremecendo, soltando as pregas da toga.

- Nica, não ias contar-me uma história, pois não?

- Contava-ta, mas não acerca disto - respondeu ela, enfiando a agulha com lã Púrpura entrelaçada com fios de ouro.

- Vai viver até aos cem anos - disse ele então, deixando-se cair no leito e devolvendo a taça de bagos a Bithy, saciado.

- Concordo que pode viver até aos cem anos - disse Nicópole, enfiando a agulha no tecido e puxando o fio brilhante com muito, muito cuidado. Os seus grandes olhos escuros vigiavam Sila tranquilamente. - Mas também pode não viver. A família dela não viveu até muito tarde, como sabes.

Ouviram-se ruídos no exterior; Lúcio Gávio Stichus estava a despedir-se da Tia Clitumna.

Sila levantou-se, deixou a serva calçar-lhe umas pantufas gregas abertas atrás. O enorme volume da toga tombou no chão, mas não pareceu reparar nisso.

- Muito bem, Nica, vou tentar apenas desta vez - disse, e fez um sorriso amarelo. - Deseja-me sorte!

Mas antes que ela pudesse fazê-lo, já Sila tinha saído.

A entrevista com Clitumna não correu bem; Stichus fizera o seu trabalho com astúcia, e Sila não conseguiu ser humilde como Nicópole pretendera.

- Foi tudo por tua culpa, Lúcio Cornélio - disse Clitumna com irritação, revirando a dispendiosa franja do xaile entre os dedos. - Não fazes o mínimo esforço para seres simpático para o meu pobre rapaz, ao passo que ele tenta sempre estar a mais de meia distância!

- É um porco com-pretensões-como-se-pudesse-tê-las - disse Sila entredentes.

Nesse momento, Nicópole, que estivera a ouvir à porta, passou graciosamente através dela e foi-se enrolar no leito ao lado de Clitumna; olhou para Sila com resignação.

- O que se passa? - perguntou, com um ar de inocência.

- São os meus dois Lúcios - disse Clitumna. - Não se dão bem um com o outro, e eu gostava tanto que se dessem!

Nicópole desembaraçou a franja dos dedos, a seguir retirou alguns fios que haviam ficado presos nos suportes das jóias, e pôs a palma da mão de Clitumna a repousar sobre a sua bochecha.

- Oh, pobre rapariga! - cantarolou. - Vocês, Lúcios, são um bando de galos de capoeira, é esse o problema.

- Bem, vão ter de aprender a entender-se - disse Clitumna -, porque o meu querido Lúcio Gávio vai deixar o seu apartamento e vem viver connosco na próxima semana.

- Então, mudo-me eu - disse Sila.

As mulheres começaram a guinchar, Clitumna num tom estridente, Nicópole como uma gatinha que tivesse sido apanhada.

- Portem-se como pessoas da vossa idade! - sussurrou Sila, baixando a cara até esta ficar a poucas polegadas da de Clitumna. - Ele sabe mais ou menos o que se passa cá em casa, mas como supões que irá aguentar-se a viver na mesma casa com um homem que dorme entre duas mulheres, sendo uma delas a sua própria tia?

Clitumna começou a chorar.

- Mas ele quer vir! Como posso dizer que não ao meu sobrinho?

- Não te preocupes! Eu acabarei com todas as razões de queixa, mudando-me - disse Sila.

Quando ele ia começar a afastar-se, Nicópole esticou a mão e agarrou-lhe o braço.

- Sila, querido Sila, não vás! - gritou. - Poderás dormir comigo, e sempre que Stichus não estiver, Clitumna virá juntar-se a nós.

- Ah! Muito astucioso! - disse Clitumna endurecendo. - Quere-lo todo para ti, sua porca cobiçosa!

Nicópole ficou branca.

- Então o que mais sugeres? Foi a tua estupidez que nos fez ficar nesta trapalhada!

- Calem-se as duas! - rosnou Sila no tom que todos os que o conheciam bem haviam aprendido a recear mais do que qualquer outro grito de outro homem. - Têm ido tanto a espectáculos de pantomina que começam a viver neles. Cresçam, não sejam tão grosseiras e tão estúpidas! Detesto esta maldita situação, estou farto de ser meio homem!

- Tu não és meio homem! Tens duas metades: uma minha, e outra da Nica! - disse Clitumna com maldade.

Não era possível dizer o que magoava mais, se a fúria ou a mágoa; perfeitamente sério, no limiar da loucura, Sila olhou para as suas torturadoras, incapaz de pensar, incapaz de ver.

- Não posso continuar! - disse, com o espanto na voz.

- Que disparate! Claro que podes - disse Nicópole com a presunção de quem sabia indubitavelmente que tinha o seu homem onde o queria: debaixo do pé. - Agora vai fazer qualquer coisa construtiva. Sentir-te-ás melhor amanhã. É sempre assim.

Sair de casa, ir fazer qualquer coisa - qualquer coisa construtiva... Os pés de Sila tropeçaram rua acima, em vez de a descerem, levaram-no sem dar por isso do Gérmalo ao Palatino, até essa parte do Palatino que ia dar à saída do Circo Máximo e à Porta Capena.

As casas eram mais estreitas aqui, e havia muitos espaços parecidos com parques; o Palatino não era muito elegante, ficava demasiado longe do Fórum Romano. Sem ligar ao facto de estar muito frio e de ter apenas vestida a sua túnica de usar por casa, sentou-se numa pedra e ficou a olhar para a vista; não para os brancos lugares vazios do Circo Máximo nem os belos templos do Aventino, mas para a visão de si mesmo infindavelmente reclinado num futuro terrível, uma via torcida de pele e ossos sem qualquer propósito. A dor era como uma cólica sem a libertação da purga; tremeu de dor até ouvir os dentes bater, e não sabia que estava a gemer em voz alta.

- Estás doente? - perguntou a vozinha tímida.

De início, quando olhou para cima não viu nada, a sua agonia ensornbrou-lhe os olhos, mas depois clarearam, e ela foi ficando mais focada a pouco e pouco, desde o queixo aguçado até à linha dourada dos cabelos, uma cara em forma de coração que era só olhos, enormes e cor-de-mel, com muito receio dele.

Ajoelhou-se à frente dele, enrolada no seu casulo feito em casa, tal como ele a vira no local da casa de Flaco.

- Júlia - disse com um arrepio.

- Não, Júlia é a minha irmã. A mim, chamam-me Julilla - disse, sorrindo para ele. - Estás doente, Lúcio Cornélio?

- Não tenho nada que um médico seja capaz de curar. - A sanidade e a memória estavam a regressar; compreendeu a verdade humilhante do comentário de Nicópole, sentir-se-ia melhor no dia seguinte. E odiava, mais do que qualquer outra coisa na vida. - Gostava tanto, mas tanto, tanto! de enlouquecer! - disse. - Mas parece que não posso.

Julilla ficou onde estava.

- Se não podes, é porque as Fúrias ainda não te querem.

- Estás aqui sozinha? - perguntou ele num tom reprovador. - O que estão os teus pais a fazer, para te deixarem sair a esta hora?

- A minha serva está comigo - disse ela tranquilamente, pondo-se de cócoras. A travessura fez-lhe faiscar os olhos, virar os cantos da boca.

- É boa rapariga. É uma pessoa muito leal e discreta.

- Queres dizer que te deixa ir aonde quiseres e não faz queixa de ti. Mas um dia - disse o homem que era sempre apanhado -, serás apanhada.

- Até o ser, de que me vale preocupar-me?

Ficando em silêncio, ela estudou-lhe o rosto com uma curiosidade natural, gostando do que via.

- Vai para casa, Julilla - disse ele, suspirando. - Se fores apanhada, que não seja comigo.

- Por seres má pessoa? - perguntou ela. Isso provocou nele um sorriso.

- Se quiseres.

- Eu não penso que o sejas!

Oh! Que deus a teria enviado? Obrigado, deus desconhecido! Os seus músculos aliviavam-se; sentiu-se subitamente leve, como se o tivesse tocado algum deus, benigno e bom. Uma sensação estranha para alguém que não conhecia nada de bom.

- Eu sou má pessoa, Julilla - disse ele.

- Que disparate! - a voz dela era firme e afirmativa.

Não era uma principiante, ele reconhecia os sintomas de uma paixoneta de rapariga, e sabia afastá-la com um acto grosseiro ou assustador. Mas não podia. Com ela não, que não o merecia. Por ela, iria buscar à sua saca de truques o melhor dos truques de Lúcio Cornélio Sila, livre de artifícios, sem obscenidade nem vileza nem bajulação.

- Agradeço-te pela tua fé, jovem Julilla - disse ele um pouco a medo, sem saber o que ela queria ouvir, na ânsia de mostrar o melhor de si mesmo.

- Eu tenho algum tempo - disse a rapariga com ar sério -, podemos falar?

Ele mudou de lugar na sua rocha.

- Está bem. Mas senta-te aqui; o chão está demasiado húmido.

- Dizem que desonras o teu nome. Mas não vejo como isso é possível, pois ainda nunca tiveste hipótese de provar que és diferente.

- Eu diria que o teu pai é o autor desse comentário.

- Que comentário?

- Que eu desonro o meu nome. Ela ficou chocada.

- Oh, não! O tata não! É o homem mais sensato do mundo.

- Ao passo que o meu era o mais tolo. Estamos nos extremos opostos no espectro de Roma, jovem Julilla.

Ela arrancou as ervas altas à volta da base da rocha, puxando-a em longos rizomas, e teceu-as depois com os dedos ágeis até formar uma coroa.

- Toma - disse, estendendo-lha.

Ficou com a respiração suspensa; o futuro convulsionava-se, abria-se para lhe mostrar qualquer coisa, voltava a fechar-se após uma vista de olhos dolorosamente breve.

- Uma coroa de ervas? - perguntou. - Não! Não pode ser para mim!

- Claro que é para ti - insistiu a rapariga, e como Sila não fazia qualquer gesto para a receber, inclinou-se e pôs-lha na cabeça.

- Devia ser de flores, mas ainda não as há nesta altura do ano. Ela não entendia! Bem, não ia ser ele a dizer-lho.

- Só se dá uma coroa de flores ao nosso amor - disse por fim.

- Tu és o meu amor - disse ela, com suavidade.

- E só por algum tempo, rapariga. Há-de passar.

- Nunca!

Ele levantou-se, riu-se dela.

- Ora! Não podes ter mais de quinze anos - disse.

- Dezasseis! - respondeu ela depressa.

- Quinze, dezasseis, que diferença faz? És um bebé.

Corada de indignação, a sua expressão tornou-se firme, dura.

- Não sou nenhum bebé! - gritou.

- Claro que és - ele voltou a rir-se. - Olha para ti, toda enfaixada, uma pequena boneca rechonchuda. - Isso! já estava melhor! Havia de pô-la no seu lugar.

Com efeito pôs, mas fez mais do que isso. Ficou abatida, murcha, neutra. A luz morreu nela.

- Não me achas bonita? - perguntou. - Sempre pensei que era.

- Crescer é uma tarefa cruel - disse Sila com aspereza. - Suponho que todas as famílias dizem às filhas que são bonitas. Mas o mundo Julga segundo padrões diferentes. Serás aceitável quando cresceres, não hás-de ficar sem marido.

- Só te quero a ti - murmurou ela.

- Isso é agora. De qualquer modo, desilude-te, minha boneca gorducha. Foge antes que te puxe pela cauda. Vai!

julilla fugiu, deixando a serva muito para trás, chamando por ela em vão. Sila ficou a olhar até ambas desaparecerem na crista da encosta atrás dele.

Ainda tinha a coroa de ervas na mão, a cor aloirada fazia um contraste subtil com os seus caracóis cor de fogo; tirou-a, mas não a deitou fora, ficou a segurá-la entre as mãos e a olhar para ela. A seguir, enfiou-a na túnica e virou-se para partir.

Coitada. Afinal de contas, tinha-a ofendido. No entanto, tinha de ser desencorajada; a última complicação de que precisava na vida era ter a filha da vizinha de Clitumna a sonhar do outro lado do muro, e ainda por cima filha de senador.

A cada passo que avançava ao afastar-se, a coroa de erva fazia-lhe cócegas na pele, lembrando-lhe. Corona Graminea. Coroa de ervas. Que lhe fora oferecida aqui no Palatino, onde centenas de anos antes fora a cidade original de Rómulo, um grupo de cabanas ovais cobertas de colmo, tal como a cabana tratada com tanto carinho perto das Escadas de Caco. Uma coroa de ervas que lhe fora dada por uma personificação de Vénus - uma das verdadeiras raparigas de Vénus, uma júlia. Um presságio.

- Se acontecer, construir-te-ei um templo, Vénus Vitoriosa - disse em voz alta.

Porque finalmente vi, o seu caminho. Perigos, desesperado. Mas para quem não tinha nada a perder e tudo a ganhar, é possível, apesar detudo.

A luz difusa do Inverno tombava pesadamente quando Sila tornou a casa de Clitumna e perguntou onde estavam as senhoras. Na sala de jantar, de cabeças encostadas, à espera dele antes de darem início à refeição. Era óbvio que tinha sido o pobre Sila o assunto da conversa; afastaram-se no leito, e tentaram fazer um ar tolamente inocente.

- Preciso de dinheiro - disse ele secamente.

- Lúcio Cornélio... - começou Clitumna com um ar desconfiado.

- Cala-te, mísera prostituta velha! Preciso de dinheiro.

- Lúcio Cornélio, mas...

- Vou de férias - disse ele, sem intenções de lhes fazer companhia.

- É contigo. Se me quiseres de volta, se quiseres mais daquilo que te dou... dá-me mil denários. Senão, deixarei Roma para sempre.

- Dar-te-emos metade cada uma - disse Nicópole inesperadamente, com os olhos escuros fixos no rosto de Sila.

- Agora - disse ele.

- Talvez não haja tanto dinheiro em casa - objectou Nicópole.

- É bom que haja, porque não vou esperar.

Quando Nicópole foi ao quarto dele, um quarto de hora mais tarde, encontrou-o a fazer as malas. Debruçando-se sobre a cama de Sila, observou-o em silêncio até que o homem se dignou a reparar nela.

Mas foi a mulher que cedeu primeiro.

- Vais ter o teu dinheiro. Clitumna já mandou o mordomo a casa do banqueiro - disse. - Aonde vais?

- Não sei nem me interessa. Basta que seja para bem longe daqui

- replicou, enquanto dobrava as meias em conjunto, e depois enfiou-as nas botas fechadas; cada movimento seu era tão económico como eficiente.

- Arrumas as coisas como um soldado.

- Como sabes?

- Fui amante de um tribuno militar em tempos. Fiz vida de soldado, não acreditas? As coisas que se fazem quando se é novo! Adorava-o. Por isso, fui com ele para Espanha e para a Ásia - suspirou.

- O que aconteceu? - Perguntou ele, enrolando a sua segunda melhor túnica à volta de um par de calções de cabedal pelos joelhos.

- Ele foi morto na Macedónia e eu voltei para casa. - Sentia pena, mas não era pelo amante morto. Pena de Lúcio Cornélio, apanhado numa armadilha, um belo leão destinado a qualquer arena imunda. Por que havia de amar-se? Magoava tanto. Então ela sorriu; mas não era um sorriso bonito. - Deixou-me tudo o que tinha em testamento e fiquei bastante rica. Havia imensas pilhagens nessa altura.

- Dói-me o coração - troçou ele, envolvendo as lâminas no invólucro de linho e pondo-o num dos lados do alforge.

O rosto dela retorceu-se.

- Esta casa é desagradável - disse. - Como odeio isto! Todos somos amargos e infelizes. Quantas coisas agradáveis dizemos uns aos outros? Pouquíssimas e preciosas. Insultos e afrontas, rancor e malícia. Por que estou aqui?

- Porque, minha querida, estás a ficar um bocado gasta - disse ele, reforçando a observação da mulher. - Não és a rapariga que eras quando percorreste a Espanha e a Ásia.

- E tu odeias-nos - disse ela. - Será daí que vem o mau ambiente? De ti? juro-te que está cada vez pior.

- Concordo que está. É por isso que me vou embora por uns tempos - firmou as duas sacas com uma correia, e tomou-lhes o peso. - Quero ser livre. Quero passar uns tempos numa cidade de província onde ninguém conheça a minha maldita cara, comer e beber até vomitar, engravidar no mínimo meia dúzia de raparigas, entrar em cinquenta combates com homens que julgam poder vencer-me com um braço atrás das costas, encontrar todos os rapazes bonitos que houver no caminho até lá e pôr-lhes os traseiros a arder - sorriu com maldade. - E a seguir, minha querida, virei mansamente para casa, para ti e para o Stichus Pegajoso e para a Tia Clita, e viveremos todos felizes para sempre.

O que não lhe contou era que ia levar Metróbio consigo; e também não o contou ao velho Cílax.

Nem contou a ninguém, nem mesmo a Metróbio, o que ia fazer. Porque não eram férias. Era uma missão de investigação. Sila ia fazer inquéritos sobre assuntos como a Farmacologia, a Química e a Botânica.

Não regressou a Roma senão nos fins de Abril. Deixou Metróbio no apartamento elegante do rés-do-chão no monte Célio fora das Muralhas Sérvias, e foi a seguir ao Vallis Camenarum devolver o carro e as mulas que aí alugara num estábulo. Depois de pagar a conta, atravessou os alforges sobre o ombro direito e começou a dirigir-se para Roma. Nenhum servo viajara com ele; juntamente com Metróbio haviam-se remediado com o pessoal das várias estalagens e casas de posta onde haviam ficado por toda a parte na península.

Ao percorrer com dificuldade a Via Ápia até onde a Porta Capena interrompia as pedras de vinte pés de altura das muralhas de Roma, a cidade parecia-lhe muito bem. Dizia a lenda que as Muralhas Sérvias tinham sido erigidas pelo rei Sérvio Tulo antes de ser estabelecida a República, mas tal como a maioria dos nobres, Sila sabia que essas fortificações só existiam há trezentos anos, desde que os Gauleses haviam saqueado a cidade. Os Gauleses tinham surgido em hordas numerosas vindos dos Alpes ocidentais, espalhando-se pelo enorme vale do rio Pó, no distante Norte, avançando pouco a pouco até à península da Itália, tanto do lado Leste como Oeste. Muitos estabeleceram-se onde paravam, especialmente na úmbria e no Piceno, mas os que desceram a Via Cássia através da Etrúria dirigiram-se a Roma - e tendo chegado a Roma, por pouco não tiraram a cidade de uma vez por todas aos seus donos. Foi só depois disso que construíram as Muralhas Sérvias, enquanto os povos italianos do Vale do Pó, toda a úmbria e o Norte do Piceno misturavam o seu sangue com os Gauleses, assim se tornando mestiços que viriam a ser desprezados. Nunca mais as muralhas de Roma caíram na ruína; fora uma lição dura, e o medo dos invasores bárbaros ainda provocava arrepios de horror nos Romanos.

Embora existissem algumas ínsulas de apartamentos caros no monte Célio, o cenário na sua maior parte era pastoril até Sila chegar à Porta Capena: o Vallis Camenarum, para fora dela, fora oferecido para estábulos, cercas de gado, matadouros e pastagens destinados aos animais que vinham a este mercado, o maior de Itália. Para dentro da Porta Capena ficava a verdadeira cidade. Não era a selva congestionada da Subura e do Esquilino, e no entanto era urbana. Ele caminhou a passos largos ao lado do Circo Máximo e subiu os Degraus de Caco até ao Gérmalo do Palatino, a seguir ao qual só uma pequena distância o separava da casa de Clitumna.

À porta, tomou fôlego e bateu a aldraba. E entrou num mundo de mulheres aos berros. Que Nicópole e Clitumna estavam felizes por vê-lo era nítido. Choraram e relincharam, enroscaram-se à volta do seu pescoço até Sila as afastar, e depois continuaram a rodeá-lo de muito perto, sem o deixarem em paz.

- Onde vou dormir? - perguntou, recusando-se a entregar os alforges ao servo que ansiava por poder levá-los.

- Comigo - disse Nicópole, resplandecendo triunfante para Clitumna, que ficou de repente cabisbaixa.

A porta do gabinete estava completamente fechada, reparou Sila ao seguir Nicópole até à colunata, deixando a madrasta no átrium, torcendo as mãos.

- O Stichus Pegajoso deve estar bem escondido, não? - perguntou a Nicópole quando chegaram aos aposentos dela.

- É aqui - disse a mulher, ignorando a pergunta, tão ansiosa estava por mostrar-lhe as suas novas instalações.

O que fizera fora ceder-lhe a sua salinha espaçosa, ficando ela com um quarto e uma sala muito mais pequena. Sila ficou cheio de gratidão; olhou-a com uma certa tristeza, gostando mais dela naquele momento do que já alguma vez tinha gostado.

- É todo meu? - perguntou.

- Todo teu - disse Nicópole, sorrindo. Atirou os alforges para cima da cama.

- O Stichus? - perguntou, impaciente por saber o pior.

Era evidente que a mulher queria que Sila a beijasse, que fizesse amor com ela, mas conhecia-o demasiado bem para saber que ele não precisava de consolo sexual unicamente por ter estado longe dela e de Clitumna. O amor teria de esperar; suspirando, Nicópole reconciliou-se com o papel de informadora.

- Stichus está realmente muito bem entrincheirado - respondeu, enquanto se dirigia aos alforges para os desfazer em vez de Sila.

Ele afastou-a com firmeza, despejou os alforges atrás de uma das arcas de roupa e mudou-se para a sua cadeira preferida, que se encontrava atrás de uma mesa de trabalho novinha em folha. Nicópole sentou-se na cama.

- Quero todas as notícias - disse o homem.

- Bem, o nosso Stichus está cá, dorme no cubículo do amo e usa o gabinete, claro. Tem sido melhor do que se esperava por um lado, porque o Stichus por perto todos os dias é difícil de aguentar, mesmo para Clitumna. Mais alguns meses, e prevejo que ela o ponha na rua. Foi inteligente da tua parte afastares-te - a mão de Nicópole alisava o monte de almofadas a seu lado, distraída. - Não o compreendi na altura, admito-o, mas tinhas razão e eu enganei-me. O Stichus entrou aqui como um general triunfante, e tu não estavas cá para lhe ensombrar a glória. As coisas mudaram, digo-te! Os teus livros foram para o caixote do lixo. Está tudo bem, os servos recuperaram-nos... E todas as roupas e objectos pessoais que deixaste foram para o lixo a seguir aos livros. Como o pessoal gosta de ti e o odeia, nada do que é teu se perdeu: está tudo neste quarto.

Os seus olhos pálidos percorreram as paredes, o belo chão de mosaicos.

- Isto é bonito - disse ele. E a seguir: - Continua.

- Clitumna ficou destroçada. Não contara que Stichus deitasse fora as tuas coisas. De facto, acho que nem queria que o sobrinho se mudasse para cá, mas quando ele disse que queria, não conseguiu arranjar forma de recusar. O parentesco, o último familiar e tudo o resto... Clitumna não é muito esperta, mas sabia perfeitamente que ele só queria mudar-se para cá para correr contigo daqui para fora. O Stichus não é insensível. Mas quando não estavas ca para ver as tuas coisas a serem deitadas fora, atingiu o máximo do prazer. Não houve discussões, nem oposição, nem sequer... presença. Apenas um pessoal passivo e mal-humorado, uma Tiazinha Clita muito lacrimejante, e eu - Bem, quanto a mim, limito-me a olhar para ele como se não existisse.

A pequena serva Bithy entrou de lado pela porta, com um prato de bolos de leite, pastéis, empadas e bolos, pousou-o no canto da secretária com um sorriso tímido para Sila, e espiou a faixa de cabedal que unia os dois alforges, e que espreitava por detrás da arca da roupa. Atravessou o quarto para arrumar as coisas.

Sila moveu-se tão depressa que Nicópole não o viu interceptar a rapariga; num momento ele estava reclinado confortavelmente na sua cadeira, e no momento seguinte a rapariga estava a ser gentilmente afastada da arca da roupa. Sorrindo-lhe, Sila beliscou Bithy suavemente na bochecha e empurrou-a porta fora. Nicópole ficou a olhar.

- Como estás preocupado com essas sacas! - disse. - O que tens dentro delas? Pareces um cão a guardar um osso.

- Deita-me vinho - disse ele voltando a sentar-se e escolhendo um pastel de carne do prato.

Nicópole atendeu o pedido, mas não estava disposta a deixar esquecer o assunto.

- Vamos lá, Lúcio Cornélio, o que tens dentro dessas sacas que não queres que ninguém veja? - E pôs-lhe à frente um copo de vinho puro. Desceram-lhe os dois cantos da boca; fez um gesto com as mãos que indicava uma exasperação crescente.

- O que pensas? Estive longe das minhas raparigas durante quase quatro meses! Admito que não penso em vocês a toda a hora, mas pensei em vocês! Especialmente ao ver uma coisinha que achei que podia agradar a uma ou outra.

O rosto dela atenuou-se, resplandeceu. Sila não costumava dar prendas. Com efeito, Nicópole não se lembrava de ela ou Clitumna alguma vez terem recebido qualquer presente, nem dos mais baratos, e era uma estudiosa da natureza humana com a sabedoria suficiente para perceber que era uma prova de parcimónia e não de pobreza; os generosos dão sempre, até mesmo quando não têm nada para dar.

- Oh! Lúcio Cornélio! - exclamou radiante. - A sério? Quando posso ver

-Quando eu estiver pronto - disse o homem, virando a cadeira para poder ver através da grande janela que ficava atrás dele. - Que horas são?

- Não sei. Deve estar perto da oitava hora, suponho. Ainda não está na hora do jantar - disse a mulher.

Ele levantou-se, dirigiu-se à arca da roupa e tirou os alforges de lá de trás, atravessando-os sobre o ombro.

- Voltarei a tempo para o jantar.

De queixo caído, Nicópole viu-o dirigir-se para a porta.

- Sila! És a criatura mais aborrecida do mundo inteiro. Juro! Acabaste de chegar a casa, e já partes para outro lado qualquer! Bem, duvido que precises de visitar Metróbio, pois levaste-o contigo!

Foi o grão de areia que fez travar o processo. Fitou-a mostrando os dentes.

-já entendi! Cílax veio fazer queixas, não foi?

- Podes dizê-lo. Chegou como um actor trágico no papel de Antígona e partiu como um actor de comédia fazendo de eunuco. Clitumna pô-lo aos guinchos! - E riu-se da recordação.

- Está bem para aquela velha prostituta. Sabes que nunca deixou que o rapaz aprendesse a ler e a escrever, de propósito?

Mas os alforges voltavam à tortura.

- Não confias em nós o bastante para os deixares cá enquanto sais? - perguntou.

- Não sou tonto - respondeu, e partiu.

Curiosidade feminina. Silafoi idiota por tê-la ignorado. Por isso, lá foi para o Grande Mercado com os seus alforges, e durante a hora seguinte dedicou-se a uma paródia concentrada de compras com o que restara dos mil denários, esse resto que pensara poupar para o futuro. Mulheres! Porcas curiosas e intrometidas! Por que não havia pensado nisso?

Os alforges estavam pejados de lenços e braceletes, chinelas orientais e futilidades para o cabelo, e foi acolhido em casa de Clitumna por um servo, visto que as senhoras e o Senhor Stichus estavam na sala de jantar, mas haviam optado por esperar um pouco antes de comer.

- Diz-lhes que estarei lá daqui a pouco tempo - disse, e dirigiu-se para os aposentos de Nicópole.

Não parecia haver ninguém por perto, mas para ficar em segurança fechou as persianas da janela, e depois trancou a porta. Amontoou as prendas compradas à pressa em cima da mesa de trabalho, ao lado de alguns rolos de livros. Ignorou a saca da esquerda; despejou sobre a cama a camada de roupa à superfície da saca da direita. A seguir, do fundo desta retirou dois pares de meias enroladas, e virou-as e revirou-as até saírem dois pequenos frascos cujas tampas estavam fortemente seladas com cera.

Depois, tirou uma caixa lisa de madeira, suficientemente pequena para caber na mão; como se não fosse capaz de usá-la, levantou a tampa, que se ajustava na perfeição. O conteúdo não era inspirador: apenas umas onças de um pó quase branco. Voltou a pousar a tampa; os seus dedos colocaram-na no lugar com firmeza. Então, olhou à volta do quarto, franzindo as sobrancelhas. Onde pô-la? Onde?...

Uma fila de pequenos armários decrépitos de madeira parecidos com maquetas de templos ocupava o topo de um aparador longo e estreito: as relíquias da casa de Cornélio Sila. Tudo o que herdara do pai, tudo o que o pai não conseguira vender para comprar vinho, provavelmente mais por falta de comprador do que por vontade de vender. Cinco armários, todos cubos com dois pés de aresta; cada um deles tinha portas de madeira pintadas na fachada, no meio de um palanque saliente de colunas; cada uma tinha um frontão decorado com figuras do templo no topo e nas bases; e em cada um dos entablamentos simples por baixo do frontão, estava inscrito o nome de um homem. Um era o antepassado comum a todos os sete ramos da Família patrícia dos Cornélios; outro era Públio Cornélio Rufino, cônsul e ditador há mais de duzentos anos; outro era o seu filho, duas vezes cônsul e uma vez ditador durante as guerras saninitas, e posteriormente expulso do Senado por açambarcar a prata; outro ainda era o primeiro Rufino a chamar-se Sila, sacerdote devotado a Júpiter durante toda a sua vida; e o último era o seu filho pretor, Públio Cornélio Sila Rufino, famoso por ter criado os ludi Apollinares, os jogos de Apolo.

Foi o armário do primeiro Sila que ele abriu, com muito cuidado, pois a madeira nunca fora tratada durante muitos anos, e ficara frágil. Outrora, a tinta havia sido brilhante, as pequenas figuras em relevo bem nítidas; agora estavam desmaiadas, lascadas. Tencionava arranjar um dia o dinheiro necessário para restaurar os armários antigos, e ter uma casa com um átrium imponente onde pudesse dispor os seus armários com orgulho. Contudo, de momento parecia apropriado esconder os dois pequenos frascos e a caixa do pó no armário de Sila, o flamen Dialis, o homem mais sagrado em Roma na sua época, ao serviço dejúpiter Optimus Maximus.

O interior do armário estava ocupado com uma máscara de cera de tamanho natural e com peruca, estranhamente real, tão bem lhe tinham sido aplicadas as cores. Os olhos fitavam Sila, azuis em vez do seu tom cinzento pálido; a pele de Rufino era clara, mas não tão clara como a de Sila; e o cabelo, espesso e encaracolado, era mais ruivo-avermelhado do que dourado. Havia bastante espaço à volta da máscara para esta poder ser retirada, pois estava presa a um bloco de que se podia separar. A última vez que saíra tinha sido no funeral do pai, que Sila pagara com uma série de encontros com um homem que detestava.

Sila fechou as portas com carinho, depois puxou com um sacão as escadas do pódio, que pareciam polidas e sem emendas. Mas, tal como num templo verdadeiro - o pódio do armário do seu antepassado era oco.

- Sila encontrou o lugar certo, e das escadas da frente abriu-se uma gaveta. Não era um esconderijo intencional mas sim um receptáculo seguro para arquivar os relatos escritos dos feitos do antepassado, bem como uma descrição pormenorizada da sua estatura, maneira de andar, postura, hábitos físicos e marcas distintivas do corpo. Porque quando um Sila morria, contratavam um actor para pôr a máscara e imitar o antepassado morto com tanta precisão que se pudesse pensar que regressara para ver o último descendente da sua nobre família ser despedido do mundo que ele próprio havia em tempos adornado.

Os documentos relativos a Públio Cornélio Sila Rufino, o sacerdote, estavam dentro da gaveta, mas havia espaço de sobra para os frascos e a caixa; Sila colocou-os lá dentro, a seguir fechou a gaveta e assegurou-se de que a abertura era indetectável. O seu segredo estaria a salvo com Rufino.

Sentindo-se mais à vontade, Sila abriu as persianas e destrancou a porta. E juntou o monte de inutilidades espalhadas na mesa de trabalho, com um sorriso malicioso ao ver o rolo de pergaminho que tirou de entre os outros ali amontoados.

Era evidente que Lúcio Gávio Stichus ocupava o lugar do anfitrião, do lado esquerdo do leito do meio; era uma das poucas salas de jantar onde as mulheres ficavam reclinadas em vez de se sentarem em cadeiras de espaldar direito, pois nem Clitumna nem Nicópole se pautavam por padrões antiquados.

- Tomem, raparigas - disse Sila lançando a sua braçada de prendas aos dois rostos femininos adoradores que seguiam a sua entrada na sala como as flores seguem o sol. Ele havia escolhido bem, coisas que podiam ter vindo de qualquer outro lugar que não um mercado de Roma, e coisas que nenhuma delas se envergonharia de usar.

Mas antes de se esgueirar habilmente para o espaço entre Clitumna, e Nicópole no primeiro leito, pousou com violência em frente de Stichus o livro enrolado que trazia.

- Uma pequena lembrança para ti, Stichus - disse.

Enquanto Sila se acomodava entre as duas mulheres, que responderam com risinhos e ronronadelas, Stichus, espantado por receber uma prenda, desatou as fitas que atavam o livro, e desenrolou-o. Apareceram-lhe duas manchas vermelhas nas bochechas marcadas pelo acne, e os seus olhos esbugalhados absorveram as figuras masculinas magnificamente desenhadas e pintadas, de pênis erectos ao desempenharem todo o tipo de feitos atléticos uns com os outros, no papiro que não levantava qualquer suspeita. De mãos a tremer, enrolou a coisa e atou-a, e seguidamente teve de arranjar coragem para olhar o seu benfeitor. Os medonhos olhos de Sila observavam-no por cima da cabeça de Clitumna, emitindo silenciosos sinais de desprezo.

- Obrigado, Lúcio Cornélio - exclamou Stichus num tom agudo.

- De nada, Lúcio Gávio - disse Sila, com a voz saindo-lhe do fundo da garganta.

Nesse preciso momento, o gustatio - o primeiro prato - chegou, aumentado à pressa, suspeitou Sila, em honra da sua chegada, pois além da quantidade habitual de azeitonas, salada de alface e ovos cozidos, continha pequenos enchidos campestres e pedaços de atum em óleo. Imensamente divertido, lançando olhares de viés a Stichus, sozinho no seu leito, Sila comeu com gosto, enquanto Clitumna se encostava a ele o mais que podia, e Nicópole lhe acariciava despudoradamente a virilha.

- Que novidades há aqui por casa? - perguntou, quando foi levantado o primeiro prato.

- Nada de especial - disse Nicópole, mais interessada com o que se passava debaixo da sua mão.

Sila virou-se para Clitumna.

- Não acredito nela - disse, enquanto pegava na mão de Clitumna e lhe mordiscava os dedos. Depois, quando viu o olhar de repugnância no rosto de Stichus, começou a lamber os dedos com volúpia. - Diz-me, amor - uma lambidela -, porque me recuso a acreditar - outra lambidela - que nada tenha acontecido - várias lambidelas.

Felizmente, chegaram nesse momento os fercula - os pratos principais; a gulosa Clitumna retirou a mão e estendeu-a para agarrar o carneiro assado com molho de tomilho.

- Os nossos vizinhos têm estado ocupados - disse ela entre duas garfadas. - Para compensar o sossego que temos tido com a tua estadia fora - um suspiro. - A mulher de Tiro Pompónio teve um rapaz em Fevereiro.

- Deuses! Mais um banqueiro mercador sedento por dinheiro! - foi o comentário de Sila. - Cecília Pília está bem, creio?

- Muito! Não tem qualquer problema.

- E do lado de César? - pensava na agradável julilla e na coroa de erva que esta lhe dera.

- Grandes novidades por esses lados! - Clitumna lambeu os dedos.

- Tiveram um casamento: um negócio de sociedade.

Deu uma coisa ao coração de Sila: pareceu tombar como uma pedra até ao fundo das suas entranhas e ficar lá a bater, por entre a comida. A mais estranha das sensações.

- A sério? - manteve um tom desinteressado.

- Com efeito! A filha mais velha de César casou, nada menos que com Caio Mário! Não é repelente?

- Caio Mário...

- Não o conheces? - perguntou Clitumna.

- Acho que não. Mário ... Deve ser um Homem Novo.

- Exacto. Foi pretor há cinco anos, nunca chegou ao consulado, claro. Mas foi governador da Espanha Ulterior, e fez por lá uma fortuna enorme. Minas e coisas afins - explicou Clitumna.

Por uma razão qualquer, Sila lembrou-se do homem com semblante de águia, na cerimónia de posse dos novos cônsules; usava uma toga debruada a púrpura.

- Como é ele?

- Grotesco, meu querido! Tem umas sobrancelhas monstruosas! Parecem centopeias peludas - Clitumna serviu-se de bróculos estufados.

- E é no mínimo trinta anos mais velho do que júlia, coitadinha.

Di - O que tem isso de tão estranho? - perguntou Stichus, sentindo que era tempo de dizer qualquer coisa. - Pelo menos metade das raparigas de Roma casam com homens com idade para serem pais delas.

Nicópole encolheu os ombros.

- Eu não diria metade, Stichus - disse ela. - Um quarto é mais correcto.

- Repugnante! - disse Stichus.

- Repugnante, nada! - disse Nicópole vigorosamente, sentando-se de forma a poder olhar melhor para ele. - Deixa-me dizer-te, cara-de-peido, que os homens mais velhos têm muitas vantagens para uma rapariga! Ao menos os homens mais velhos aprenderam a ter consideração e sensatez! Os meus piores amantes tinham todos menos de vinte e cinco anos. Pensam que sabem tudo, mas não sabem nada. Principiantes! E como ser-se atingida por um touro. Acaba tudo antes de ter começado.

Como Stichus tinha vinte e três anos, levantou a cabeça com ar importante.

- Pensas que sabes tudo, não? - troçou. O olhar que recebeu foi à altura.

- Sei mais do que tu, cara-de-peido - disse ela.

- Vamos estar alegres esta noite! - exclamou Clitumna. - O nosso querido Lúcio Cornélio está de volta.

O querido Lúcio Cornélio agarrou-se logo à madrasta e fê-la rebolar no leito, fazendo-lhe cócegas até ela guinchar e espernear. Nicópole vingou-se fazendo cócegas a Sila, e o primeiro leito transformou-se numa melde.

Era demais para Stichus; amachucando o seu livro novo, saiu do leito e abandonou a sala a passos largos, sem saber se haviam reparado na sua partida. Como iria desalojar aquele homem? A Tia Clita estava embrutecida! Nem enquanto Sila estivera fora conseguira convencê-la a mandá-lo embora. Ela apenas chorara, dizendo que era pena os seus dois queridos não se darem bem.

Apesar de não ter comido quase nada, Stichus não se preocupava com issso, pois tinha uma quantidade considerável de produtos comestíveis no gabinete de trabalho - um pote com os seus figos preferidos em xarope, uma pequena travessa de pastéis de mel que o cozinheiro tinha ordens de manter cheia, algumas geleias aromáticas vindas da Pártia, uma caixa de passas redondas e sumarentas, bolos de mel e vinho com mel. Sem carneiro e bróculos passava ele bem; toda a sua gulodice ia para os doces.

De queixo apoiado na mão, com uma lamparina quíntupla a afugentar o início da noite, Lúcio Gávio Stichus mastigava figos em xarope, enquanto examinava longamente as ilustrações do livro que Sila lhe dera, e lia o pequeno texto em grego que as acompanhava. Era óbvio que o presente era um modo de Sila dizer que ele não precisava daqueles livros, pois tinha feito tudo aquilo, mas isso não lhe diminuíra o interesse; Stichus não tinha assim tanto orgulho. Ah! Ah! Ah! Ah! Estava a acontecer qualquer coisa por debaixo da sua túnica bordada! E levou a mão do queixo ao colo com uma inocência furtiva que era um desperdício para o seu público: um pote de figos em xarope.

Cedendo a um impulso - desprezou-se a si mesmo por senti-lo. Lúcio Cornélio Sila foi na manhã seguinte ao Palatino, até ao local onde encontrara Julilla. Estava-se agora no auge da Primavera, e as extensões verdes exibiam flores por toda a parte, narcisos e anémonas, jacintos, violetas, até mesmo uma rosa ocasional; as macieiras silvestres e os pessegueiros estavam totalmente floridos em branco e rosa, e a pedra sobre a qual se sentara em janeiro estava agora quase escondida pela erva, dum verde luxuriante.

Escoltada pela sua serva, lá estava Julilla; parecia mais magra, com um tom de mel mais desmaiado. E quando o viu, uma alegria viva e triunfante percorreu-o dos olhos à pele e aos cabelos - tão linda! Nunca na história do mundo houvera outra mulher mortal tão bonita! Todo encrespado, Sila deteve-se cheio dum receio parecido com o horror. Vénus: ela era Vénus, reguladora da vida e da morte. Pois o que era a vida para além do princípio procriativo, e o que era a morte senão a sua extinção? Tudo o mais era cenário, os ornamentos que os homens inventavam para se convencerem de que a vida e a morte tinham de fazer mais sentido. Ela era Vénus. Mas isso transformá-lo-ia em Marte, o seu semelhante em divindade - ou seria apenas Anquises, um homem mortal sobre quem ela se precipitara pelo lapso de tempo de uma pulsação do Olimpo?

Não, ele não era Marte. A vida preparara-o para ser um mero ornamento, e mesmo assim do tipo mais inferior e de pior gosto; quem poderia ser senão Anquises, o homem unicamente famoso por Vénus se ter abatido sobre ele, desejando-o por um momento? Tremeu de ira, dirigiu a sua frustração odiosa contra ela, e deste modo bombeou veneno nas suas veias, criando um desejo irreprimível de lhe bater, de a reduzir de Vénus a Julilla.

- Ouvi dizer que tinhas regressado ontem - disse ela, sem se mexer,

- Tens espiões por aí? - respondeu Sila, recusando aproximar-se mais dela.

- Não é preciso na nossa rua, Lúcio Cornélio. Os servos sabem tudo

- replicou a rapariga.

- Espero que não julgues que vim aqui hoje à tua procura, porque não é verdade. Vim em busca de paz.

A beleza dela aumentava, de facto, embora ele pensasse que tal não seria possível. A minha rapariga-de-mel, pensou. Parecia mel na língua. Tal como Vénus.

- Significa que perturbo a tua paz? - perguntou ela, demasiado segura de si para a sua pouca idade.

Ele riu, obrigando-se a fazê-lo num tom leve, divertido, frívolo.

- Deuses, rapariguinha, tens muito que crescer! - exclamou, rindo de novo. - Eu disse que tinha vindo aqui em busca de paz. Significa que pensei encontrá-la aqui, não é? E logicamente, a resposta deve ser que tu não perturbas o mínimo a minha paz.

Ela ripostou.

- De modo nenhum! Pode indicar apenas que não esperavas encontrar-me aqui.

- O que vai dar de novo à indiferença - disse ele.

Era uma competição desigual, era evidente; aos olhos de Sila, ela encolhia, perdia o seu brilho, uma imortal que passara a ser mortal. O rosto contraíu-se-lhe, mas ela não conseguiu chorar, ficou a observá-lo maravilhada, incapaz de reconciliar o aspecto do homem e o que ele dizia com o verdadeiro instinto do seu coração, dizendo-lhe a cada batida que o apanhara nas suas malhas.

- Eu amo-te! - disse, como se isso explicasse tudo. Outra risada.

- Quinze anos! Que sabes tu do amor? -já tenho dezasseis anos! - disse ela.

- Olha, rapariguinha - disse Sila, num tom áspero -, deixa-me em paz! Não só és uma praga como te estás rapidamente a transformar num embaraço - virou-se, e desapareceu sem olhar para trás.

Julilla não se desmanchou em lágrimas; teria sido melhor para o seu bem-estar futuro se o tivesse feito. Porque um acesso de lágrimas apaixonado e doloroso tê-la-ia convencido de que se enganara, de que não tinha qualquer hipótese de apanhá-lo. No ponto em que as coisas estavam, dirigiu-se a Criseide, a serva, que fingia estar absorvida na perspectiva do Circo Máximo vazio. Tinha o queixo erguido, tal era o seu orgulho.

- Vai ser difícil - disse ela - mas não faz mal. Mais cedo ou mais tarde, hei-de tê-lo, Criseide.

- Não me parece que te queira - disse Criseide.

- Claro que quer! - disse Julilla com ironia. - Ele quer-me desesperadamente!

O convívio de há muito tempo com Julilla fez com que Criseide se calasse; em vez de tentar argumentar com a ama, suspirou, encolheu os ombros.

- Faz como achares melhor - disse.

- É o que costumo fazer - respondeu Julilla.

Começaram a dirigir-se para casa. O silêncio entre elas era pouco habitual, pois tinham a mesma idade e haviam crescido juntas. Mas quando chegaram ao templo da Magna Mater, Julilla falou com determinação.

- Recusar-me-ei a comer - disse. Criseide parou.

- E o que achas que vai adiantar? - perguntou.

- Em janeiro, ele disse-me que estava gorda. E estou. -Julilla, não estás!

- Estou, sim. É por isso que não como carnes doces desde janeiro. Estou um pouco mais magra, mas ainda não é o suficiente. Ele gosta de mulheres magras. Repara na Nicópole. Tem uns braços que parecem espetos.

- Mas é uma velha! - disse Criseide. - O que fica bem em ti não lhe ficaria bem a ela. Além disso, vais preocupar os teus pais se deixares de comer, pensarão que estás doente!

- Ainda bem - disse Julilla. - Se pensarem que estou doente, Lúcio Cornélio pensará o mesmo. E preocupar-se-á imenso comigo. Argumentos melhores e mais convincentes Criseide não podia arranjar, pois não era muito esperta nem sensata. Por isso, desfez-se em lágrimas, o que agradou enormemente a Julilla.

Quatro dias depois de Sila ter regressado a casa de Clitumna, Lúcio Gávio Stichus teve uma perturbação digestiva que o prostrou; alarmada, Clitumna chamou meia dúzia dos físicos mais famosos do Palatino, tendo todos eles diagnosticado um acesso de envenenamento alimentar.

- Vómitos, cólicas, diarreia- um quadro clássico - disse o porta-voz, o físico romano Públio Popílio.

- Mas ele não comeu nada que nós não tenhamos comido também!

- protestou Clitumna, sem consolo para os seus medos.

- Com efeito, até não tem comido tanto como nós, e é isso que me preocupa.

- Ah, domina, penso que estás muito enganada. - insistiu o mais barulhento deles, Atenodoro Sículo, um clínico que possuía a famosa persistência investigadora dos Gregos; tinha entrado em todas as salas que davam para o átrium e depois em todos os compartimentos à volta do jardim do peristilo.

- Deves saber que Lúcio Gávio tem meia loja de carne doce no seu gabinete

- Pff! - exclamou Clitumna. - Meia loja de carne doce! Alguns figos e pastéis, e é tudo. Na verdade, mal lhes toca.

Os seis médicos olharam uns para os outros

- Domina, ele passa dia e noite a comê-los, segundo me contou o pessoal - disse Atenodoro, o Grego da Sicília. - Sugiro que o convenças a pôr de parte as doçarias Se comer alimentos melhores, não só os problemas digestivos se resolverão como a sua saúde geral melhorará.

Lúcio Gávio Stichus ia tendo conhecimento de tudo isto, deitado na cama, demasiado fraco para se defender devido à violência do purgante, com os olhos ligeiramente protuberantes saltando de uma cara para outra à medida que a conversa prosseguia.

- Tem borbulhas e a pele tem má cor - disse um grego de Atenas, - Faz exercício?

- Não tem necessidade disso - disse Clitumna, com o primeiro sinal de dúvida na voz - A sua profissão obriga-o a correr dum lado para o outro, anda sempre a mexer, juro!

- Qual é a tua profissão, Lúcio Gávio? - perguntou o Espanhol.

- Sou traficante de escravos - disse Stichus.

Como todos os Públios Popílios tinham começado a sua vida em Roma como escravos, os seus olhos ficaram subitamente com um ar mais doentio do que os de Lúcio Gávio e afastaram-se deste sob o pretexto de que era hora de partir

- Se quiser alguma coisa doce, deve limitar-se ao vinho com mel disse Públio Popílio. - Não deve ingerir alimentos sólidos por mais um ou dois dias, e quando voltar a sentir fome, pode fazer uma dieta normal. Mas atenção. eu disse normal, domina! Feijões em vez de carnes doces. Saladas em vez de carnes doces. Colações frias em vez de carnes doces.

O estado de Stichus melhorou durante a semana seguinte, mas já nunca se restabeleceu completamente. Embora ingerisse comida alimentícia e integral, sofria de acessos periódicos de náuseas, vómitos, dores e disenteria, nunca tão graves como o ataque inicial, mas que o debilitavam. Começou a perder peso, um pouco de cada vez, e por isso as pessoas da casa não se aperceberam.

No fim do Verão, já não conseguia arrastar-se até ao seu escritório no Porticus Metelli, e os dias em que desejava ficar deitado ao sol eram cada vez mais raros. O fabuloso livro ilustrado que Sila lhe dera deixou de interessá-lo, e consumir qualquer tipo de comida passou a ser uma tortura para ele. Apenas tolerava o vinho com mel, e mesmo esse, nem sempre.

Em Setembro, já todos os médicos de Roma tinham sido chamados para observá-lo, e muitos e variados eram os diagnósticos, para não falar dos tratamentos, especialmente após Clitumna ter começado a recorrer a curandeiros.

- Dá-lhe o que ele quiser - disse um dos médicos.

- Não lhe dês nada até ficar bom - disse outro.

- Não lhe dês senão feijões - disse um médico de crença pitagórica.

- Consola-te - disse o médico grego intrometido, Atenodoro Sículo.

- Seja o que for, obviamente não é contagioso. Eu creio que é uma doença do intestino delgado. No entanto, os que entrarem em contacto com ele ou tiverem de despejar o seu vaso de noite devem lavar muito bem as mãos em seguida, e não devem aproximar-se da cozinha nem da comida.

Dois dias depois, Lúcio Gávio Stichus morreu. Apesar da sua mágoa, Clitumna deixou Roma logo a seguir ao funeral, pedindo a Sila e a Nicópole que fossem com ela para Circeios, onde tinha uma villa. Mas embora Sila a acompanhasse até ao litoral da Campânia, ele e Nicópole recusaram-se a sair de Roma.

Quando voltou de Circeios, Sila beijou Nicópole e saiu dos seus aposentos.

- Vou voltar a ocupar o gabinete de trabalho e o meu quarto de dormir - disse. - Afinal, agora que o Stichus Pegajoso está morto, sou eu quem mais se aproxima de ser filho dela - ia pondo os rolos profusamente ilustrados num braseiro; com a repugnância estampada no rosto, acenou para Nicópole, que observava da porta do gabinete. - Olha para isto! Não há nada aqui que não meta nojo!

A garrafa de vinho com mel estava metida num anel sobre a dispendiosa consola de madeira de cedro, encostada a uma das paredes. Levantando-a, Sila olhou para a marca impregnada por entre as espirais sofisticadas da madeira, e assobiou.

- Que barata! Adeus, Stichus Pegajoso!

E atirou a garrafa pela janela aberta até à colunata do peristilo. Mas foi cair mais longe, e estilhaçou-se em mil cacos no soco da estátua preferida de Sila, Apolo perseguindo a dríade Dafne. Uma enorme estrela de vinho xaroposo desfigurou a pedra suave e começou a pingar em longos veios que se infiltraram no solo. Precipitando-se até à janela para ver, Nicópole deu uma risada.

- Tens razão - disse ela. - Que barata! - e mandou a sua serva particular, Bithy, limpar o pedestal com um trapo e água.

Ninguém reparou nas marcas de pó branco coladas ao mármore, pois este também era branco. A água cumpriu a sua função: o pó desapareceu.

- Alegra-me que tenhas falhado a estátua - disse Nicópole, sentando-se no joelho de Sila enquanto observavam Bithy a limpar.

- Lamento - disse Sila, com um ar muito divertido.

- Lamentas? Lúcio Cornélio, terias estragado aquela magnífica pintura! Ao menos o soco é apenas de mármore.

O lábio superior dele revirou-se, pondo os dentes a descoberto.

- Bah! Porque parece que estou sempre rodeado de pessoas tolas e sem gosto? - perguntou, expulsando Nicópole do colo com uma palmada.

A nódoa desapareceu completamente; Bithy espremeu o trapo e despejou a bacia no canteiro dos amores-perfeitos.

- Bithy! - chamou Sila. - Lava as mãos, rapariga, e lava-as bem! Não se sabe de que morreu Stichus, e ele gostava muito de vinho com mel. Vai lá!

Radiante por ele ter reparado nela, Bithy foi.

- Descobri hoje um jovem interessantíssimo - disse Caio Mário a Públio Rutílio Rufo.

Estavam sentados no precinto do templo de Tellus, nas Carinas, que ficava ao lado da casa de Rutílio Rufo.

- Estamos melhor aqui do que no meu peristilo - explicava RutiliO Rufo ao conduzir a sua visita até ao banco de madeira na área do templo espaçoso mas lúgubre. - Os nossos antigos deuses estão abandonados, especialmente o meu caro vizinho Tellus prosseguiu, enquanto se sentavam. Todos estão muito ocupados a fazer salamaleques à Magna Mater da Ásia para se lembrarem que Roma é melhor servida pela sua própria deusa da Terra!

Foi para afastar a homilia vaga acerca dos mais antigos, obscuros e misteriosos deuses de Roma que Caio Mário escolheu falar do seu encontro com o jovem interessante. A sua artimanha resultou, claro; Rutílio Rufo nunca estava imunizado contra pessoas interessantes de qualquer idade ou sexo.

Quem era? perguntava ele agora, voltando o focinho para o sol, com os olhos fechados de prazer, como cão velho que era.

- O jovem Marco Lívio Druso, que deve ter... uns dezassete ou dezoito anos.

O meu sobrinho Druso? Mário virou a cabeça.

- Teu?

Sim, se for o filho do Marco Lívio Druso que triunfou em Janeiro último e tenciona candidatar-se a censor no próximo ano disse Rutílio Rufo.

Mário riu, abanou a cabeça.

Que vergonha! Porque será que nunca me lembro dessas coisas?

Provavelmente disse Rutílio secamente porque a minha mulher, Lívia, que, só para te refrescar a memória, era irmã do pai do nosso jovem interessante, já morreu há muitos anos, e nunca saía, e nunca jantava comigo quando eu tinha convidados. Os Lívios Drusos têm tendência para desencorajar as suas mulheres, infelizmente. Era uma joiazinha, a minha mulher. Deu-me dois belos filhos mas nunca uma discussão. Estimava-a.

Eu sei disse Mário pouco à vontade, não se sentindo bem pelo facto de ter sido apanhado: nunca os conheceria a todos? Mas embora Rutílio Rufo fosse um velho amigo, Mário não se lembrava de alguma vez ter conhecido a mulher dele. Devias voltar a casar disse ele, que ultimamente andava muito entusiasmado com a ideia de casamento.

O quê? Para tu não pareceres tão conspícuo? Não, obrigado. Encontro o escape necessário para as minhas paixões escrevendo cartas um olho azul escuro abriu-se, espreitando Mário. De qualquer modo, porque tens tão boa impressão do meu sobrinho Druso?

- Na última semana fui contactado por diferentes grupos de Aliados Italianos, de diferentes povos, e todos se queixavam amargamente de que Roma está a desperdiçar as suas tropas - disse Mário devagar. - Na minha opinião, têm razão de queixa. Quase todos os cônsules, por uma década ou mais, desperdiçaram as vidas dos soldados, e com tanta despreocupação como se os homens fossem estorninhos ou pardais! E os primeiros a perecer têm sido as Tropas Aliadas dos Italianos, pois tornou-se um hábito colocá-los à frente dos romanos em situações que ponham a vida em risco. É raro um cônsul lembrar-se realmente que os soldados aliados italianos são homens de posses e são pagos pelos seus povos, e não por Roma.

Rutílio Rufo nunca menosprezava uma conversa indirecta; conhecia Mário bem demais para pensar que o que ele dizia não teria alguma coisa a ver com o sobrinho Druso. Por isso, respondeu de bom grado a esta divagação aparente.

- Os Aliados Italianos vieram sob a protecção militar de Roma unificar a defesa da península - disse. - Em troca dos seus soldados, obtiveram um estatuto especial como nossos aliados e receberam muitos benefícios, dos quais o mais pequeno não terá sido um agrupamento dos povos da península. Eles dão as suas tropas para lutarmos todos por uma causa comum. De outro modo, estariam ainda a combater uns contra os outros

- e, indubitavelmente, perdendo mais homens no processo do que qualquer cônsul romano.

- É discutível - disse Mário. - Em vez disso podiam ter combinado formar uma nação italiana!

-já que a aliança italiana é um facto, e é-o há duzentos ou trezentos anos, meu caro Caio Mário, não consigo ver aonde queres chegar opôs Rutílio.

- As delegações que me procuraram insistem que Roma está a usar as suas tropas para combater guerras estrangeiras sem qualquer benefício para a Itália como um todo - explicou Mário pacientemente. - O isco com que acenámos primeiro aos povos italianos foi a concessão da cidadania romana. Mas há perto de oitenta anos que nenhuma comunidade italiana ou latina recebe a cidadania, como sabes. Foi preciso haver a revolta de Fregelas para obrigar o Senado a fazer concessões às comunidades de Direitos Romanos!

- Isso é simplificar demasiado as coisas - disse Rutílio Rufo. - Nós não prometemos aos Aliados Italianos a manumissão geral. Demos-lhes a cidadania gradual em troca da lealdade compatível: os Direitos Latinos em primeiro lugar.

- Os Direitos Latinos têm pouquíssima importância, Públio Rutílio! Na melhor das hipóteses, concedem uma cidadania enganadora de segunda classe, e não dão direito de voto em qualquer eleição romana.

- Sim, mas durante estes quinze anos desde a revolta de Fregelas, tens de admitir que as coisas melhoraram para os possuidores dos Direitos Romanos - disse Rutílio Rufo com teimosia. - Qualquer homem com uma magistratura numa cidade de Direitos Romanos obtém agora automaticamente a total cidadania de Roma para si e para a sua família.

- Bem sei, bem sei, e significa que existe agora uma quantidade considerável de cidadãos romanos em todas as cidades de Direitos Latinos e não param de crescer! Para não falarmos de a lei fornecer a Roma novos cidadãos que são exactamente do género que mais convém: são homens de posses e grande importância local, homens em quem se pode confiar para votarem do modo certo em Roma - troçou Mário.

As sobrancelhas de Rutílio Rufo levantaram-se.

- E que mal há nisso? - perguntou.

- Sabes, Públio Rutílio, por mais aberto e progressista que sejas em muitos aspectos, no fundo és um nobre romano tão caturra como Cneu Domício Aenobarbo! - disse Mário de modo incisivo, sem afastar o seu mau gênio. - Porque não conseguirás ver que Roma e a Itália estão juntas?

- Porque não estão - disse Rutílio Rufo, cujo sentido de plácido bem-estar começava a desvanecer-se. - Na verdade, Caio Mário, como podes estar aqui, dentro das muralhas de Roma, a advogar a igualdade política entre os Romanos de Roma e os Italianos? Roma não é a Itália! Não foi por acaso que Roma se tornou o primeiro lugar do mundo, nem o fez com tropas italianas! Roma é diferente.

- Queres dizer que Roma é superior - disse Mário.

- Sim! - Rutílio Rufo pareceu inchar. - Roma é Roma. Roma é superior.

- Nunca te ocorreu, Rutílio Rufo, que se Roma incluísse toda a Itália, e até mesmo a Gália italiana do Pó, sob sua hegemonia, acabaria por ficar ameaçada? - perguntou Mário.

- Absurdo! Roma deixaria de ser romana - disse Rutílio.

- E assim, deduzes tu, seria inferior.

- Claro.

- Mas a situação actual é ridícula - insistiu Mário. - A Itália é um tabuleiro de xadrez! Regiões com a total cidadania, regiões com Direitos Latinos, regiões com o mero estatuto de aliados, todas misturadas. Lugares como Alba Longa e Esérnia, detentoras dos Direitos Latinos, completamente rodeadas pelos italianos dos Marsos e Samnitas, colónias de cidadãos implantadas no meio das Gálias ao longo do Pó... Como pode haver qualquer verdadeiro sentimento de identidade com Roma?

- Semear colónias romanas e latinas pelos povos italianos mantém-nas a trabalhar para nós - disse Rutílio Rufo. - Os que têm a total cidadania ou os Direitos Latinos não nos trairão. Não valeria a pena trair-nos, tendo em conta a alternativa.

- Penso que te referes à guerra contra Roma - sugeriu Mário.

- Bem, eu não iria tão longe - retorquiu Rutilio Rufo. - Diria antes que isso constituiria uma perda de privilégios que as comunidades romana e latina considerariam insuportável. Para já não falar na perda de valor e posição social.

- A dignitas é tudo - disse Mário.

- Precisamente.

- Então crês que os homens influentes dessas comunidades romana e latina levariam a melhor contra a ideia duma aliança dos povos italianos contra Roma? Rutílio Rufo ficou chocado.

- Caio Mário, porque tomas essa posição? Não és nenhum Caio Graco, e certamente não és nenhum reformador!

Mário pôs-se de pé, andou algumas vezes para cá e para lá em frente ao banco e virou-se, dirigindo os seus olhos medonhos sob as sobrancelhas ainda mais medonhas para Rutílio Rufo, que era muito mais pequeno e estava encolhido, em posição nitidamente defensiva.

- Tens razão, Públio Rutílio, não sou nenhum reformador, e associar o meu nome ao de Caio Graco dá vontade de rir. Mas sou um homem prático e, lisonjeia-me dizê-lo, tenho uma boa dose de inteligência. Além do mais, não sou um romano de Roma, como todos os que o são se esforçam por mo apontar. Bem, pode ser que as minhas origens bucólicas me dêem um certo afastamento em relação a Roma que nenhum dos romanos alguma vez terá. E vejo problemas no tabuleiro de xadrez da nossa Itália. Vejo, Públio Rutílio! Ouvi há dias o que tinham a dizer os Aliados Italianos e notei que houve uma mudança no vento. Para o bem de Roma, espero que os nossos cônsules dos próximos anos sejam mais sensatos no uso das tropas romanas do que os da década anterior.

- Também eu, embora não exactamente pelos mesmos motivos disse Rutílio Rufo. - A má estratégia é criminosa, especialmente quando origina o desperdício das vidas dos soldados, sejam eles romanos ou italianos - olhou para o obscuro Mário com irritação. - Senta-te, peço-te! Ainda apanho um torcicolo.

- Tu é que me pões a cabeça à roda - disse Mário, mas sentou-se obedientemente, esticando as pernas.

- Tens feito clientes entre os italianos - disse Rutílio Rufo.

- Exacto - Mário observou o seu anel senatorial, feito de ouro em vez de ferro, pois apenas as mais antigas famílias senatoriais mantinham a tradição do anel de ferro. - No entanto, não estou só nessa actividade, Públio Rutílio. Cneu Domício Aenobarbo listou cidades inteiras de clientes seus, principalmente por ter conseguido reduzir-lhes os impostos.

- Ou mesmo conseguindo-lhes a anulação dos impostos, tenho de sublinhar.

- Exacto. Nem Marco Emílio Escauro se livra de fazer clientes entre os italianos do Norte - disse Mário.

- Sim, mas admito que ele é menos brutal do que Cneu Domício objectou Rutílio Rufo, que era partidário de Escauro. - Ao menos, sempre faz boas acções a favor das cidades dos seus clientes: seca um pântano, ou constrói novos edifícios públicos.

- Dou-te razão. Mas não deves esquecer-te dos Cecílios Metelos na Etrúria, que andam muito ocupados.

Rutílio Rufo deu um suspiro profundo.

- Caio Mário, quem me dera saber exactamente o que demoras tanto tempo a dizer!

- Nem eu sei bem o que é - disse Mário. - Apenas pressinto uma grande agitação entre as Famílias Importantes, uma nova consciência da importância dos Aliados Italianos. Não me parece que estejam conscientes de que essa importância poderá vir a ser perigosa para Roma, agem unicamente por um instinto que não compreendem. Pressentirão alguma coisa?

- Tu certamente pressentes qualquer coisa - disse Rutílio Rufo. És um homem extremamente perspicaz, Caio Mário. E por mais que te zangues por eu o ter feito, também tomei nota do que disseste. Aparentemente, um cliente não é grande coisa. O patrono pode ajudá-lo muito mais do que ele ao patrono. Até haver uma eleição, ou uma ameaça de calamidade. Talvez ele apenas possa auxiliar recusando-se a apoiar quem quer que vá contra os interesses do patrono. Os pressentimentos são importantes, concordo contigo. São como faróis: iluminam campos inteiros de factos escondidos, frequentes vezes muito antes que a lógica o faça. Por isso, talvez estejas certo no que diz respeito à agitação. E é possível que alistar todos os Aliados Italianos ao serviço de uma importante família romana seja uma forma de esconjurar este perigo que, como insistes, é obscuro. Honestamente, não sei se o será.

- Nem eu - disse Mário. - Mas estou a reunir clientes.

- E a engrossar o novelo - disse Rutílio Rufo, sorrindo. - Se bem me lembro, começámos por falar do meu sobrinho Druso...

Mário dobrou as pernas e levantou-se tão depressa, que espantou Rutílio Rufo; este retomara a sua posição de olhos fechados.

- Pois foi! Vem comigo, Rutílio Rufo, talvez ainda não seja tarde para te mostrar um exemplo do novo sentimento pelos Aliados Italianos nas Famílias Importantes!

Rutílio levantou-se.

- Eu vou contigo, vou! Mas aonde?

- Ao Fórum, claro - disse Mário, descendo a encosta do precinto do templo em direcção à rua. Enquanto caminhavam, Mário ia falando. Há um julgamento a decorrer, e se tivermos sorte, chegaremos antes de ter terminado.

- Surpreende-me que estejas ao corrente - disse Rutílio Rufo secamente; Mário não costumava ligar aos julgamentos do Fórum.

- Surpreende-me que não tenhas ido lá todos os dias - contrapôs Mário. - Afinal de contas, é a estreia do teu sobrinho como defensor.

- Não! - disse Rutílio Rufo. -já tinha feito a estreia há alguns meses,

quando dirigiu a acusação contra o tribuno principal do Tesouro para recuperar alguns fundos que haviam desaparecido misteriosamente.

- Oh! - Mário encolheu os ombros, e acelerou o passo. - Então, isso

explica o que pensei ter sido uma falha da tua parte. No entanto, Públio Rutílio, devias seguir mais de perto a carreira do jovem Druso. Se o tivesses feito, terias achado mais sentido aos meus comentários acerca dos Aliados Italianos.

- Esclarece-me - disse Rutílio Rufo, começando a arfar um pouco; Mário nunca se lembrava que as suas pernas eram mais compridas.

- Reparei, porque ouvi alguém falar no mais belo latim que ja se ouviu, e com uma voz igualmente bela. Um novo orador, pensei, e parei para ver quem era. Nem mais nem menos que o teu jovem sobrinho Druso! Embora não soubesse quem era até ter perguntado, e ainda me envergonho por não ter associado o nome dele com a tua família.

- Contra quem está ele a dirigir a acusação? - perguntou Rutílio Rufo.

- O que é interessante é que não está a dirigir a acusação - disse Mário -, está a fazer a defesa, e perante o pretor estrangeiro, se não te importas! E um caso importante; existe um júri.

- O assassínio dum cidadão romano?

- Não. Falência.

- É pouco habitual - disse Rutílio Rufo, arfando.

- Suponho que deve ser uma espécie de lição - disse Mário, sem abrandar. - O queixoso é o banqueiro Caio ópio, o defensor é um homem de negócios dos Marsos, de Marrúbio, chamado Lucius Fraucus. De acordo com o meu informador, um verdadeiro observador profissional dos tribunais, ópio está cansado das dívidas avultadas entre os italianos que têm contas no seu banco, e decidiu que era tempo de fazer um italiano servir de exemplo aqui em Roma. O seu objectivo é assustar o resto de Itália, de forma a manterem o que suspeito serem exorbitantes taxas de juro.

- Os juros - disse Rutílio Rufo com dificuldade - estão fixados nos dez por cento.

- Se fores romano - disse Mário - e, de preferência, um romano das classes económicas mais elevadas.

- Continua, Caio Mário, e acabarás como os irmãos Gracos: morto!

- Disparate!

-E preferia... mesmo... ir para casa - arfou Rutílio Rufo.

- Estás a ficar mole - disse Mário, deitando um olhar de esguelha ao companheiro de trajecto. - Uma boa campanha faria milagres à tua respiração, Públio Rutílio.

- Um bom descanso é que faria milagres à minha respiração - Rutílio Rufo abrandou. - Não entendo para que fazemos isto.

- Por uma razão: porque quando deixei o Fórum, o teu sobrinho ainda tinha umas boas duas horas e meia para fazer o sumário da acusação - disse Mário. - É um dos julgamentos experimentais, relacionados com a mudança de procedimentos jurídicos. Por isso, as testemunhas foram ouvidas primeiro; depois, a Acusação teve duas horas para fazer o sumário da acusação, e a Defesa teve três horas, após as quais o pretor estrangeiro irá pedir o veredicto ao júri.

- Não há nada de mal na forma antiga - disse Rutílio Rufo.

- Não sei, achei que a forma actual tornou o processo mais interessante para os espectadores - disse Mário.

Desciam o Clivus Sacer, com o Fórum Romano mesmo em frente, e as figuras no tribunal do pretor estrangeiro não haviam mudado de posição enquanto Mário se afastara.

- óptimo, chegámos a tempo para a arenga - disse Mário.

Marco Lívio Druso ainda estava a discursar, e a assistência ouvia ainda em silêncio profundo. Com muito menos de vinte anos de idade, o jovem defensor era de peso médio e físico encorpado, tinha cabelos negros e compleição escura: não era um defensor que impressionasse apenas pela presença física, embora o seu rosto fosse bastante agradável.

- Não é espantoso? - perguntou Mário a Rutílio num sussurro. Tem o dom de fazer as pessoas pensarem que está a falar pessoalmente para elas e para mais ninguém.

E tinha-o. Mesmo à distância - pois Mário e Rutílio Rufo estavam no fim da multidão - os seus olhos escuros pareciam olhar profundamente os seus olhos, e apenas eles.

- Em parte nenhuma diz que o facto de um homem ser romano o faça automaticamente ficar conforme à lei - dizia o jovem. - Não falo em nome de Lucius Fraucus, o réu; falo em nome de Roma! Falo em nome da honra! Falo em nome da integridade! Falo em nome da justiça! Não daquela justiça que interpreta uma lei no seu sentido mais literal, mas da justiça que interpreta uma lei no seu sentido mais lógico. A lei não devia ser uma tábua enorme e pesada que tomba sobre um homem e o comprime numa figura uniforme, pois os homens não são uniformes. A lei devia ser um lençol suave que tomba sobre um homem e evidencia a forma única por debaixo da sua igualdade exterior. Devemos sempre lembrar-nos que nós, cidadãos de Roma, servimos de exemplo para o resto do mundo, especialmente nas nossas leis e tribunais. Alguma vez se viu noutro lado tal sofisticação? Tal planeamento? Tal inteligência? Tal cuidado? Tal sabedoria? Não o admitem mesmo os Gregos de Atenas? Não o admitem os Alexandrinos? Não o admitem os Pergamitas?

A sua linguagem corporal era soberba, apesar das graves desvantagens da sua estatura e físico, que não se adaptavam à toga; para usar uma toga superlativamente, um homem tinha de ser alto, largo de ombros e de anca estreita, e mover-se com uma graça perfeita. Marco Lívio Druso não preenchia nenhum desses requisitos. E no entanto, fazia maravilhas com o corpo, do mais pequeno movimento dum dedo ao movimento mais amplo do braço direito. Os gestos da cabeça, as expressões do rosto, as variações do modo de andar - tudo era tão excelente!

- Lucius Fraucus, um italiano de Marrúbio - prosseguiu ele -, é a vítima e não o culpado. Ninguém, nem o próprio Lucius Fraucus!, discorda do facto de esta grande quantia de dinheiro avançado por Caio ópio ter desaparecido. E ninguém discorda que esta enorme quantia tem que ser devolvida a Caio ópio, bem como o juro que o empréstimo venceu. Seja de que modo for, será devolvido. Se necessário, Lucius Fraucus está disposto a vender as suas casas, as suas terras, os seus investimentos, os seus escravos, a sua mobília - tudo o que possui! E é mais do que suficiente para a restituição!

Avançou pela fila da frente do júri e olhou para os homens das fileiras centrais.

- Ouviram as testemunhas. Ouviram o meu colega experiente, que proferiu a acusação. Lucius Fraucus foi quem pediu o empréstimo. Mas não foi o ladrão. Por isso, digo-o eu, é Lúcius Fraucus a verdadeira vítima desta fraude, e não Caio ópio, o seu banqueiro. Se o condenarem, membros conscritos do júri, sujeitá-lo-ão à maior penalização da lei, visto que se aplica a um homem que não é cidadão da nossa grandiosa cidade, nem detentor dos Direitos Latinos. Todos os bens de Lúcius Fraucus serão vendidos em hasta pública, e sabem o que isso significa... Não atingirão nem de longe o seu valor real, e podem até não chegar para pagar a restituição desta quantia - a frase final foi dita com o mais expressivo dos olhares dirigido às filas laterais, onde se encontrava o banqueiro Caio ópio, sentado numa cadeira desdobrável, acompanhado por uma comitiva de funcionários e contabilistas.

- Pois bem! Nem de longe atingirão o seu valor real! Após o que, membros conscritos do júri, Lúcius Fraucus será vendido como escravo por dívida, até perfazer a diferença entre a quantia pedida e a obtida pela venda dos seus bens em hasta pública. Lúcius Fraucus poderá ser mau avaliador de carácter na escolha dos seus empregados superiores, mas nos negócios Lúcius Fraucus é um homem notavelmente perspicaz e de grande sucesso. Contudo... Como poderá ele alguma vez pagar a sua dívida se o fizerem escravo, se ficar sem bens e na miséria? Chegaria a ter qualquer utilidade para Caio ópio como funcionário?

O jovem concentrava agora todo o seu vigor e vontade no banqueiro romano, um homem de aspecto brando, de cerca de cinquenta anos, que parecia extasiado com o que o jovem dizia.

- Para um homem que não é um cidadão romano, uma pena de crime dá logo origem a uma coisa, antes de tudo o mais. Terá de ser chicoteado. Não será açoitado com varas, como os cidadãos romanos, o que pode provocar uma pequena marca, mas principalmente uma ofensa à sua dignidade. Não! Será chicoteado! Fustigado com o chicote até não sobrar mais nada além da pele e dos músculos, e ficará mutilado para o resto da vida, com mais cicatrizes do que qualquer escravo das minas.

Os pêlos da parte de trás do pescoço de Mário eriçaram-se; pois se o jovem não estava a olhar de frente para ele - um dos maiores donos de minas de Roma - os seus olhos enganavam. No entanto, como podia o jovem Druso ter descoberto um espectador atrasado na última fila duma multidão tão numerosa?

- Nós somos Romanos! - gritou o jovem. - A Itália e os seus cidadãos estão sob a nossa protecção. Portar-nos-emos como donos de minas para com homens que contam com o nosso exemplo? Condenaremos um homem inocente por uma questão técnica, apenas por ser dele a assinatura presente num empréstimo? Ignoraremos o facto de ele estar disposto a proceder à restituição completa? Atribuir-lhe-emos, afinal, menos justiça do que atribuiríamos a um cidadão de Roma? Chicotearemos um homem que preferia usar um barrete de burro pela sua tolice ao creditar num ladrão? Tornaremos viúva uma mulher? Tornaremos órfãos os filhos dum pai extremoso? Com certeza que não, conscritos membros do júri! Porque nós somos Romanos. Nós somos um tipo melhor de homens!

Com um rodopio de lã branca, o orador voltou-se e saiu da proximidade do banqueiro, criando assim um instante em que todos os olhos seguiram deslumbrados o banqueiro; todos os olhos, excepto os de vários jurados na primeira fila, que fitavam na mesma direcção dos outros cinquenta e um membros do júri. E os de Caio Mário e Públio Rutílio Rufo. Um jurado olhou fixamente para ópio, passando o indicador pela base do pescoço, como se tivesse comichão. A resposta não se fez esperar: um levíssimo acenar de cabeça do grande banqueiro. Caio Mário sorriu.

- Obrigado, praetorperegrinus - disse o jovem, ao fazer uma vénia ao pretor estrangeiro, parecendo subitamente rígido e tímido, já sem a alma que o possuía como quando perorava.

- Obrigado, Marco Lívio - disse o pretor estrangeiro, e dirigiu o olhar para o júri. - Cidadãos de Roma, peço que inscrevam o vosso veredicto nas tábuas e o concedam ao tribunal.

Houve uma grande movimentação por todo o tribunal; todos os jurados tiraram pequenos quadrados de barro e lápis de carvão. Mas não escreveram nada; em vez disso, focaram o olhar nas nucas da frente, no meio da fila central. O homem que fizera uma pergunta-fantasma ao banqueiro Ópio pegou no lápis e desenhou uma letra na sua tábua de barro, deu a seguir um enorme bocejo, com os braços esticados atrás da cabeça, de tábua ainda na mão esquerda e com as múltiplas pregas da toga caídas sobre o ombro direito, à medida que o braço se esticava no ar. Os outros jurados escrevinharam depois com afinco, e entregaram as tábuas aos lictores que se encontravam entre eles.

Foi o próprio pretor estrangeiro que fez a contagem; de respiração suspensa, todos aguardaram o veredicto. Olhando para cada uma das tábuas, o pretor lançava-as para dentro de um dos dois cestos sobre a mesa à sua frente, a maioria para dentro de um deles, e poucos para dentro do outro. Quando as cinquenta e uma tábuas tinham sido distribuídas, levantou a cabeça.

- ABSOLVO - disse. - Quarenta e três a favor, oito contra. Lúcius Fraucus, de Marrúbio, cidadão do Povo dos Marsos, nossos Aliados Italianos, foste absolvido por este tribunal, mas apenas sob a condição de procederes à restituição completa como ficou prometido. Cabe-te combinar esse assunto com Caio Ópio, teu credor, antes de terminar o dia.

E era tudo. Mário e Rutílio Rufo esperaram que a multidão acabasse de cumprimentar o jovem Marco Lívio Druso. Finalmente, apenas os amigos de Druso o rodeavam, muito excitados. Mas quando o homem alto de sobrancelhas aterradoras e o baixo que todos sabiam ser tio de Druso se aproximaram do grupo, toda a gente se afastou envergonhada.

- Felicito-te, Marco Lívio - disse Mário, estendendo a mão.

- Agradeço-te, Caio Mário.

- Muito bem - disse Rutílio Rufo.

Voltaram-se em direcção à saída do Fórum do lado de Vélia e começaram a andar.

Rutílio Rufo deixou a conversa a cargo de Caio Mário e Druso, alegre por ver que o seu jovem sobrinho estava a amadurecer tanto como defensor, mas bastante ciente das insuficiências por baixo daquele exterior robusto. O jovem Druso, pensou o Tio Públio, era um rapazola desprovido de humor, brilhante mas atacado por uma doença estranha, que nunca possuiria a subtileza de detectar o ridículo, e à medida que a sua vida passasse, não conseguiria evitar muita dor. Sério, obstinado, ambicioso.

Incapaz de largar, quando os seus dentes ferravam um problema. Sim, mas por tudo isso, dizia de si para si o Tio Públio, o jovem Druso era um cachorro honrado.

- Teria sido muito mau para Roma se o teu cliente tivesse sido condenado - disse Mário.

- Muito mau, mesmo. Fraucus é um dos homens mais importantes de Marrúbio, e um dos anciãos do Povo dos Marsos. Claro que não será tão importante quando tiver devolvido o que devia a Caio ópio, mas há-de fazer mais dinheiro - disse Druso.

Tinham chegado à Vélia quando Druso perguntou:

- Sobem o Palatino? - E parou em frente ao templo de Júpiter Stator.

- Não - disse Públio Rutílio Rufo, emergindo dos seus pensamentos. - Caio Mário vem jantar comigo, sobrinho.

O jovem Druso fez uma vénia solene aos seus séniores e começou a subir o Clivus Palatinus; por detrás de Mário e Rutílio Rufo surgiu a forma pouco atraente de Quinto Servílio Cepião Júnior, o melhor amigo do jovem Druso, que corria para alcançá-lo. Druso devia tê-lo ouvido, mas não esperara.

- Eis uma amizade que me desagrada - disse Rutílio Rufo, observando os dois rapazes que diminuíam de tamanho.

- Sim?

- São impecavelmente nobres e terrivelmente ricos, os Servílios Cepiões, mas o tamanho dos seus miolos é inversamente proporcional à estatura, e por isso não é uma amizade entre pares - disse Rutílio Rufo.

- O meu sobrinho parece preferir o tipo de deferência e sicofantismo do jovem Cepião Júnior a um tipo mais estimulante, para não dizer enriquecedor!, de camaradagem com outros dos seus iguais. É uma pena. Receio, Caio Mário, que a devoção de Cepião Júnior dê ao jovem Druso uma impressão falsa da sua capacidade de chefia.

- Em combate? Rutílio Rufo estacou.

- Caio Mário, existem outras actividades para além da guerra, e outras instituições para além dos exércitos! Não, referia-me à presidência do Fórum.

Mais tarde nessa semana, Mário voltou a procurar o seu amigo Rutilio Rufo, e encontrou-o furiosamente a fazer as bagagens.

- Panécio está a morrer - explicou Rutílio pestanejando, para afastar as lágrimas.

- É terrível! - disse Mário. - Onde está ele? Conseguirás chegar a tempo?

- Assim o espero. Está em Tarso, e mandou-me chamar. Imagina, mandar-me chamar a mim, com todos os romanos que ensinou!

O olhar de Mário era afável.

- Porquê? Afinal de contas, eras o seu melhor aluno.

- Não, não - disse o homem, parecendo pensar noutra coisa.

- Vou Para casa - disse Mário.

- Nem penses - disse Rutílio Rufo, indicando o caminho para o seu gabinete, um compartimento horrivelmente desarrumado, que parecia superlotado de mesas cheias de livros, a maioria dos quais parcialmente desenrolados, alguns equilibrados numa ponta e tombando para o chão, numa balbúrdia de valioso papel egípcio.

- O jardim - disse Mário com firmeza, não encontrando lugar onde se empoleirar naquele caos, mas consciente de que Rutílio Rufo poderia deitar a mão a qualquer livro nos tempos livres, por mais escondido que parecesse aos olhares dos estranhos.

- O que estás a escrever? - perguntou, ao vislumbrar uma longa faixa de papel tratado de Fânio sobre uma mesa, meio coberto com a caligrafia inconfundível de Rufo, limpa e fácil de ler na proporção inversa à arrumação do seu gabinete.

- Trata-se de um assunto sobre o qual terei de consultar-te - disse Rutílio, dirigindo-se para a saída. - Um manual de informação militar. Após a nossa conversa sobre os generais disparatados que Roma tem tido nos últimos anos, achei que era tempo de uma pessoa competente fazer uma dissertação útil. Até aqui, tem sido apenas logística e planeamento básico, mas agora estou a entrar nas tácticas e estratégia, onde tu brilhas muito mais do que eu. Por isso, vou ter de espremer-te os miolos.

- Considera-os espremidos - Mário sentou-se num banco de madeira no jardim pequeno, sem sol e bastante abandonado, no lado coberto de ervas daninhas onde estava a fonte que não funcionava. - Tiveste alguma visita do Metelo Suíno? - perguntou.

- Com efeito, tive, hoje de manhã - disse Rutílio, vindo descansar para um banco em frente ao de Mário.

- Também veio visitar-me esta manhã.

- É espantoso como mudou pouco, o nosso Quinto Cecílio Metelo Suíno. - disse Rutílio Rufo, rindo. - Se houvesse um chiqueiro aqui perto ou se a minha fonte merecesse esse nome, acho que tinha voltado a enfiá-lo lá dentro.

- Compreendo-te, mas não acho que fosse boa ideia - disse Mário.

- O que veio ele dizer-te?

- Vai candidatar-se a cônsul.

- Quer dizer, se alguma vez houver eleições! O que deu àqueles dois malucos para se candidatarem de novo a tribunos da plebe, quando até os Gracos fracassaram?

- Isso não deve atrasar as eleições centuriais, nem as eleições do Povo - disse Rutílio Rufo.

- É claro que atrasará! Ou então, dois pretendentes a uma segunda designação farão os seus colegas vetar todas as eleições - contrapôs Mário, - Sabes como são os tribunos da plebe: mal abocanham um osso, ninguém os detém.

Rutílio riu-se ruidosamente.

- Penso saber como são os tribunos da plebe! Fui um dos piores. E tu também, Caio Mário.

- Bem, sim...

- Haverá eleições, não tenhas receio - disse Rutílio com à-vontade.

- Parece-me que os tribunos da plebe serão eleitos quatro dias antes dos Idos de Dezembro, e todos os outros seguir-se-ão logo após os Idos.

- E o Metelo Suíno será cônsul - disse Mário.

Rutílio inclinou-se para a frente, juntando as mãos.

- Ele sabe qualquer coisa.

- Não te enganas, velho amigo. Ele sabe mesmo algo que nós não sabemos. Fazes ideia do que será?

- Jugurta. Planeia uma guerra contra Jugurta.

- É o que penso - disse Mário. - Mas será ele a começá-la ou Espúrio Albino?

- Não creio que Espúrio Albino tenha a força interior necessária para isso. Mas o tempo o dirá - afirmou Rutílio tranquilamente.

- Ofereceu-me um lugar de legado sénior no seu exército.

- E a mim também.

Olharam um para o outro e sorriram.

- Nesse caso, é melhor encarregarmo-nos de descobrir o que se passa - disse Mário, pondo-se de pé. - Espúrio Albino deve estar a chegar para as eleições, ninguém teve de lhe dizer que não teríamos eleições em breve.

- Deve ter partido da Província Africana antes de poderem chegar-lhe aos ouvidos essas notícias - disse Rutílio Rufo, passando pelo gabinete de trabalho.

- Vais aceitar a oferta do Suíno?

- Só aceitarei se tu aceitares, Caio Mário.

- Excelente!

O próprio Rutílio abriu a porta principal.

- E como tem passado Júlia? Não terei hipótese de vê-la. Mário resplandeceu.

- Maravilhosa, linda, gloriosa!

- Velho tonto - disse Rutílio, e empurrou Mário para a rua. - Mantém o ouvido rente ao chão enquanto eu estiver fora, e escreve-me se ouvires ruídos marciais.

- É o que farei. Faz uma boa viagem.

- No Outono? De barco, vai ser um verdadeiro calvário, e até posso afogar-me.

- Tu, não - disse Mário a sorrir. - O Pai Neptuno não te levava, não seria capaz de estragar os planos do Suíno.

Júlia estava grávida, e muito contente com isso; a única tensão que sofria era o zelo excessivo que Mário lhe dirigia.

- Sinceramente, Caio Mário, estou perfeitamente bem - disse pela milésima vez; era Novembro, o bebé deveria nascer em Março do ano seguinte, e já começava a notar-se que estava grávida. Contudo, resplandecera com a frescura tradicional das futuras mães, sem qualquer perturbação de enjoo ou inchaço.

- De certeza? - perguntou o marido cheio de cuidados.

- Vai-te daqui! - disse ela, mas com doçura e a sorrir. Tranquilizado, o marido tolo deixou-a com as servas na salinha de trabalho e foi para o gabinete. Era o único lugar na casa onde podia esquecê-la. Não porque tentasse esquecê-la; mas havia muitas vezes em que precisava de pensar noutras coisas.

Tais como o que estava a acontecer em África. Sentado à mesa de trabalho, pegou em papel e começou a escrever na sua prosa seca e simples a Públio Rutílio Rufo, desembarcado são e salvo em Tarso, após uma viagem rapidíssima.

Tenho assistido a todas as reuniões do Senado e da Plebe, e finalmente parece que vamos ter eleições num futuro muito próximo. Tal como disseste, quatro dias antes dos Idos de Dezembro. Públio Licínio Lúculo e Lúcio Ânio começam a perder terreno; não penso que consigam obter segundos mandatos como tribunos da plebe. Com efeito, a impressão geral neste momento é de que planearam convencer todos disso para chamar a atenção do eleitorado para os seus nomes. Poderão ambos vir a ser cônsules, mas nenhum causou sensação como tribuno da plebe - o que não admira, pois não são reformadores, Por isso, que melhor modo terão de causar sensação do que incomodando todos os votantes de Roma? Devo estar a tornar-me cínico. Será possível para um provinciano que não sabe grego?

Como sabes, as coisas têm estado muito sossegadas em África, embora as nossas fontes de informações secretas relatem que Jugurta está de facto a recrutar e treinar um exército muito grande - e à moda dos romanos! Não obstante, as coisas estiveram muito menos calmas quando Espúrio Albino regressou há mais de um mês, para organizar as eleições. Apresentou o seu relatório ao Senado, salientando o facto de ter mantido o seu próprio exército de três legiões, uma composta por auxiliares locais, outra de tropas romanas estacionadas em África e outra que trouxera consigo de Itália, na Primavera passada. Ainda não tiveram o baptismo de fogo. Espúrio Albino não tem inclinações marciais, ao que parece. Não posso dizer o mesmo do Suíno.

Mas o que exasperou os nossos veneráveis colegas do Senado foi a notícia de que Espúrio Albino arranjou maneira de indigitar o seu irmãozinho, Aulo Albino, para governador da Província Africana e comandante do exército africano na sua ausência! Imagina! Suponho que se Aulo Albino fosse questor dele, teria de passar no escrutínio do Senado, mas - bem sei que é do teu conhecimento mas volto a dizer-to - o lugar de questor não era suficientemente grandioso para Aulo Albino, pelo que foi colocado no pessoal do seu irmão como legado sénior Sem a aprovação do Senado! E lá está a nossa Província Romana de África a ser governada na ausência do governador por um exaltado de trinta anos de idade, sem experiência nem inteligência superior. Marco Escauro espumou de raiva e fez ao cônsul uma diatribe que ele não esquecerá muito depressa, asseguro-te. Mas está feito. Apenas podemos esperar que o governador Aulo Albino proceda acertadamente. Escauro duvida que tal aconteça, E eu também, Públio Rutílio.

A carta seguiu para Públio Rutilio Rufo antes das eleições; Mário esperava que fosse a última, e que o Ano Novo encontrasse Públio Rutílio de novo em Roma. Então, chegou uma carta de Rutílio, informando-o que Panécio ainda estava vivo, e tão rejuvenescido ficara ao ver o seu antigo aluno que provavelmente viveria mais meses do que o estado da sua doença sugerira. ”Espera-me quando me vires, algures na Primavera, antes do Suíno embarcar para África, ”dizia a carta de Rutílio.

Por isso, quando Mário voltou a sentar-se para escrever de novo para Tarso, já o Ano Velho chegava ao fim.

Obviamente não duvidavas que o Suíno seria eleito cônsul, e estavas certo. Contudo, o Povo e a Plebe acabaram as eleições antes das Centúrias, sem que surgisse surpresa alguma no resultado. Por isso, os questores ocuparam os seus cargos no quinto dia de Dezembro e os novos tribunos da plebe no décimo dia - o único tribuno da plebe que parece ter interesse é Caio Mamílio Limetano. E três dos novos questores prometem - os nossos famosos oradores e estrelas forenses Lúcio Licínio Crasso e o seu melhor amigo, Quinto Mácio Cévola, são dois deles, mas acho o terceiro ainda mais interessante: um sujeito muito impertinente e corrosivo duma família plebeia recente, Caio Servilio Giducia, de quem deverás lembrar-te dos seus tempos de tribunal - diz-se ultimamente que é o melhor legislador que Roma já teve. Não gosto dele. O Suíno ficou em primeiro lugar nas eleições centuriais, pelo que será o cônsul sénior do próximo ano. Mas Marco Júnio Silano nãoficou muito atrás. Defacto, a votação foi totalmente conservadora. Não havia nenhum Homem Novo entre os pretores. Em vez disso, os seis incluíam dois patrícios e umpatrício adoptado por uma família plebeia - Quinto Lutício Catulo César. Para o Senado foi um excelente voto, e traz boas perspectivas para o Ano Novo.

E eis que, meu caro Públio Rutílio, caiu um meteorito. Parece que Aulo Albino foi tentado por boatos sobre a existência dum enorme tesouro na cidade númida de Suthul. Por isso, esperou o bastante para ter a certeza de que o irmão estava irrevogavelmente a caminho de Roma, para as eleições, e invadiu a Numídia! À frente de três legiões reles e inexperientes, repara bem! O cerco de Suthul foi mal sucedido, claro está - o povo da cidade fechou as portas e riu-se dele do topo das muralhas. Mas em vez de admitir que não era capaz defazer um pequeno cerco, quanto mais uma campanha inteira, o que fez Aulo Albino? Voltou para a Província Romana?, ouço-te perguntar, como homem eminentemente sensato que és. Bem, essa teria sido a tua opção se fosses o Aulo Albino, mas não foi a dele. Ele acabou o seu cerco e continuou a marchar rumo à Numídia ocidental! Sempre à frente das suas três reles e inexperientes legiões! Jugurta atacou-o a meio da noite, perto da cidade de Calama, e venceu Aulo Albino de tal modo que o irmãozinho do nosso cônsul se rendeu incondicionalmente. E Jugurta obrigou todos os romanos e auxiliares a submeterem-se ao jugo. Após o quejugurta obrigou Aulo Albino a assinar um tratado segundo o qual lhe dava tudo o que ele não conseguira obter do Senado!

Recebemos essas notícias em Roma, não de Aulo Albino mas sim dejugurta, que enviou ao Senado uma cópia do tratado, com uma carta a acompanhá-la, queixando-se duramente da traição romana ao invadir um País Pacífico que não levantara um dedo sequer contra Roma. Quando digo quejugurta escreveu ao Senado, quero de facto dizer que teve o descaramento de escrever ao seu Maior e mais antigo inimigo, Marco Emílio Escauro, nas suas funções de Princeps Senatus. Foi um insulto calculado aos cônsules, claro está, escolher endereçar a sua correspondência ao Presidente da Assembleia. Como Escauro ficou furioso! Convocou logo uma reunião do Senado, e obrigou Espúrio Albino a divulgar muito do que fora habilmente escondido, incluindo o facto de Espúrio não desconhecer totalmente os planos do irmãozinho, como alegara de início. A Assembleia ficou boqueaberta. Depois, ficou aborrecida, e a facção de Albino mudou de opinião imediatamente, deixando Espúrio sozinho a admitir que recebera a notícia de Aulo numa carta que recebera dias antes. Por Espúrio viemos a saber quejugurta mandou Aulo regressar à África Romana e o proibiu de pôr um dedo para além da fronteira da Numídia. E lá está o ambicioso e jovem Aulo AlbIno à espera, pedindo ao irmão directivas quanto ao que deve fazer.

Mário suspirou, dobrou os dedos; o que era uma alegria para Rutílio Rufo era uma tarefa aborrecida para ele, que não gostava de escrever cartas. Prossegue, disse ele para si mesmo. E prosseguiu.

Naturalmente o mais humilhante foi Jugurta ter obrigado o exército romano a submeter-se ao jugo. É raro acontecer, mas nunca deixa de perturbar toda a cidade, dos mais mesquinhos aos importantes - sendo esta a minhaprimeira experiência neste campo, vi-me tão perturbado, humilhado e destroçado como o mais romano dos Romanos. Creio bem que teria sido igualmente doloroso para ti, pelo que me alegro por não teres estado cá para presenciar as cenas, pessoas de luto- chorando e arrancando os cabelos, muitos dos cavaleiros sem a faixa estreita nas túnicas, senadores com afaixa estreita em vez da larga, todo o Território Inimigo fora do templo de Belona apinhado de oferendas para dar uma severa lição ajugurta. A fortuna concedeu uma linda campanha ao Suíno no próximo ano, e tu e eu teremos um dia de campo - desde que aprendamos a dar-nos bem com o Suíno como nosso comandante!

O novo tribuno da plebe Caio Mamílio exige a todo o custo o sangue dos Postúmios Albinos - quer que o irmão Aulo Albino seja executado por traiÇão, e que o irmão Espúrio Albino também seja julgado, nem que seja por ter tido a estupidez de indigitar Aulo Albino para governador na sua ausência. Mamílio exige mesmo a criação dum tribunal especial, e quer julgar todos os romanos que alguma vez tiveram ligações duvidosas com Jugurta desde a altura de Lúcio Opímio, nem mais. É tal a disposição dos Pais Conscritos, que ele provavelmente levará a melhor. É a submissão ao jugo. Todos concordam que o exército e o seu comandante deviam ter morrido onde lutaram, em vez de submeter o seu país à humilhação abjecta. Nisso discordo, claro está, tal como penso que discordarias. Um exército vale tanto como o seu comandante, qualquer que seja o seu potencial.

O Senado elaborou e enviou uma carta duríssima ajugurta, informando-o de que Roma não podia nem iria reconhecer um tratado obtido através de um homem que não detinha imperium, e que por isso não possuía a autoridade do Senado nem do Povo de Roma para comandar um exército, governar uma província ou assinar um tratado.

E porfim, mas não menos importante, Públio Rutílio Rufo, Caio Mamílio obteve um mandato da Assembleia da Plebe para formar um tribunal especial onde todos os que tiveram ou se suspeite de haverem tido ligações com Jugurta serão julgados por traição. Isto é um pós-escrito, redigido no último dia do Ano Velho. O Senado acabou por compilar uma lista dos homens que serão julgados. Alegremente ajudado por Caio Mémio, finalmente vingado. Para mais, neste tribunal especial mamiliano, as hipóteses de condenação por traição são muito maiores do que se fosse um tribunal tradicional, em julgamentos conduzidos pela Assembleia Centurial. Até ao momento, já surgiram os nomes de Lúcio Opímio, Lúcio Calpúrnio Béstia, Caio Pórcio Catão, Caio Sulpicio Galba, Espúrio Postúmio Albino e do seu irmão. O sangue tem importância, no entanto. Espúrio Albino reuniu um formidável número de defensores para argumentarem no Senado que seja o que for que o seu irmãozinho Aulo tenha feito, não pode legalmente ir a tribunal visto que nuncafoi legalmente detentor de imperium. Daí deduz-se que Espúrio Albino irá assumir as culpas de Aulo, e será certamente condenado. Parece-me estranho que, se as coisas sepassarem como prevejo, o causador, Aulo AIbino, acabe por sair desta submissão ao jugo com a carreira intacta!

Ah! E Escauro será um dos três presidentes da Comissão Mamiliana, como denominam este tribunal. Aceitou o cargo com alegria.

E étudo do Ano Velho, Públio Rutílio. Um ano importante, vendo tudo por junto. Após a esperança ter desaparecido, a minha cabeça veio à superfície das águas políticas de Roma, graças à bóia do meu casamento com Júlia. O Metelo Suíno anda a cortejar-me, e homens que nunca tinham reparado em mim agora falam-me como a um igual. Toma cuidado contigo na viagem de volta e retorna em breve.DURANTE O CONSULADO DE QUINTO CECÍLIO METELO

E MARCO JÚNIO SILANO Panécio morreu em Tarso a meio de Fevereiro, o que deixou Públio Rutílio Rufo com pouco tempo para regressar a casa antes do início da campanha; inicialmente planeara fazer a maior parte da viagem por terra, mas a urgência obrigou-o a arriscar-se a ir por mar.

- E tive sorte - disse a Caio Mário no dia seguinte ao da chegada a Roma, antes dos Idos de Março.

- Por uma vez, os ventos sopraram na direcção certa.

Mário sorriu.

- Bem te disse, Públio Rutílio, que nem o Pai Neptuno teria a coragem de estragar os planos do Suíno! Com efeito, também tiveste sorte por outras razões: se ficasses em Roma, terias a tarefa pouco invejável de ir junto dos Aliados Italianos convencê-los a entregar as tropas.

- Que é o que tens feito, pelo que deduzo.

- Desde os princípios de janeiro, quando as sortes encarregaram Metelo da guerra africana contra Jugurta. Oh! O recrutamento não foi difícil, com a Itália inteira morta por se vingar do insulto da submissão ao jugo. Mas são cada vez mais raros homens do tipo certo - disse Mário.

- Nesse caso, é preferível esperarmos que o futuro não traga a Roma mais tragédias militares - disse Rutílio Rufo.

- De facto, é preferível.

- Como se portou o Suíno contigo?

- De um modo geral foi bastante delicado - respondeu Mário. Veio ver-me no dia a seguir à tomada de posse, e pelo menos teve a cortesia de ser franco acerca dos seus motivos. Perguntei-lhe por que razão me queria a mim e a ti, dado que tínhamos feito dele parvo naquela altura na Numância. E respondeu que não queria saber da Numância para nada. O que o preocupava era ganhar esta guerra em África, e não conhecia melhor modo de o fazer do que usando os serviços dos dois homens no mundo melhor equipados para compreender a estratégia de Jugurta.

- É uma ideia astuciosa - disse Rutilio Rufo. - Como comandante, ficará com a glória. O que lhe interessa quem ganha a guerra no seu lugar, se é ele que irá na quadríga triunfal e receberá todas as honras? Não será a ti nem a mim que o Senado concederá o último nome de Numídico, mas sim a ele.

- Bem, ele precisa mais do que nós. Metelo Suíno é um Cecílio, Públio Rutílio! O que indica que é a cabeça que lhe rege o coração, especialmente no que diz respeito à pele.

- Oh, muito bem dito! - exclamou Rutílio Rufo apreciativamente,

- E já anda a intrigar no Senado para o seu mandato se alargar até ao próximo ano - disse Mário.

- O que demonstra que avaliou bem Jugurta todos estes anos, para entender que a submissão da Numídia não será fácil. Quantas legiões vai levar?

- Quatro. Duas romanas e duas italianas.

- Mais as tropas estacionadas em África... Digamos, mais duas legiões. Sim, deve conseguir, Caio Mário.

- Estou de acordo.

Mário levantou-se da mesa de trabalho e foi buscar vinho.

- Que notícia é essa acerca de Cneu Cornélio Cipião? - perguntou Rutílio Rufo, aceitando mesmo a tempo a taça que Mário lhe estendera, dado que Mário deu uma gargalhada estrondosa e entornou a bebida.

- Oh, Públio Rutílio Rufo, foi maravilhoso! Sinceramente, nunca deixo de me surpreender com as bizarrias dos antigos nobres romanos. Havia Cipião, respeitavelmente eleito pretor e governador da Espanha Ulterior quando foram tiradas as sortes para as províncias dos pretores. Mas o que faz ele? Levanta-se no Senado e solenemente recusa a honra de governar a Espanha Ulterior! ”Porquê?”, pergunta Escauro, admirado, porque foi ele que supervisionou a tiragem das sortes. ”Porque”, diz Cipião com uma honestidade que me parece comovedora, ”eu iria saqueá-la. ”Deitou a assembleia abaixo: risadas, gritos hilariantes, pateadas e palmas, E quando por fim o barulho cessou, Escauro limitou-se a dizer: ”Concordo, Cneu Cornélio, que saquearias o lugar.” Por isso agora vão enviar Quinto Servilio Cepião para governar a Espanha Ulterior, em vez de Cipião.

- Ele também vai saquear o lugar - disse Rutílio a sorrir.

- É claro, é claro! Todos o sabiam, incluindo Escauro. Mas ao menos Cepião tem a gentileza de fingir que não o fará, para que Roma possa fechar os olhos a Espanha e a vida possa decorrer normalmente - disse Mário, de trás da mesa de trabalho. - Adoro este lugar, Públio Rutílio, adoro mesmo.

- Alegra-me que Silano fique por cá.

- Felizmente alguém tem de governar Roma! Que desculpa! O Senado fez positivamente tudo para prorrogar o cargo de governador da Macedónia a Minúcio Rufo, garanto-te. E estando esse cargo preenchido, a Silano só restava Roma, onde as coisas se vão mantendo mais ou menos por si. Silano à frente de um exército era uma perspectiva que faria empalidecer o próprio Marte.

- Absolutamente! - disse Rutílio Rufo com ardor.

- Até agora, tem sido um bom ano - prosseguiu Mário. - Não só a Espanha foi salva dos carinhos de Cipião e a Macedónia dos de Silano, como a própria Roma está consideravelmente mais desprovida de patifes, se é que mereço perdão por chamar patifes a alguns dos nossos consulares.

- Referes-te à Comissão MamiliaW

- Precisamente. Béstia, Galba, Píraio, Caio Catão e Espúrio Albino foram todos condenados, e há mais julgamentos marcados, embora não haja surpresas. Caio Mémio tem tido o maior empenho a ajudar Mamílio a procurar provas de conluio com Jugurta, e Escauro é um presidente implacável do tribunal. Embora tenha falado em defesa de Béstia, a seguir virou-se e votou a favor da sua condenação.

Rutílio Rufo sorriu.

- Um homem tem de ser flexível - disse. - Escauro tinha que desempenhar o seu dever em relação a um colega consular falando a favor dele, mas isso não o afastaria do seu dever em relação ao tribunal. Escauro nunca o faria.

- Não, Escauro não o faria.

- E para onde foram os condenados? - perguntou Rutílio Rufo.

- Alguns parecem escolher Massília para lugar de exílio, embora Lúcio Opímio tenha ido para a Macedónia ocidental.

- Mas Aulo Albino sobreviveu.

- Sim. Espúrio Albino ficou com todas as culpas, e a assembleia concedeu-lhe esse direito por votação - disse Mário, e respirou. - Foi uma bela questão legal.

Júlia entrou em trabalho de parto nos Idos de Março, e quando as parteiras informaram Mário de que o parto não ia ser fácil, chamou de imediato os pais de Júlia.

- O nosso sangue é muito velho e muito fraco - disse César a Mário com irritação, enquanto se sentavam no gabinete de Mário, marido e pai unidos pelo amor mútuo e pelo receio.

- O meu não - disse Mário.

- Mas isso não pode ajudá-la! Poderá ajudar a filha dela, se tiver uma rapariga, e ficaremos gratos por isso. Eu esperava que o casamento com Márcia injectasse um pouco da robustez plebeia na minha linhagem, mas Márcia ainda é demasiado nobre, pelo que parece. A mãe era patrícia, uma Sulpícia. Sei que há quem defenda que o sangue deve ser mantido puro, mas tenho reparado repetidas vezes que as raparigas de famílias antigas têm tendência para sangrar no parto. Por que outro motivo é a taxa de mortalidade muito mais alta nas raparigas das famílias antigas do que nas outras? - e César passou a mão pelo cabelo prateado-dourado.

Mário não podia ficar mais tempo sentado; levantou-se e começou a caminhar para trás e para a frente.

- Ela tem a melhor assistência que há - disse, acenando na direcção da sala de parto, de onde ainda não haviam começado a irromper ruídos alguns.

- Não conseguiram salvar o sobrinho de Clitumna no Outono passado - disse César, começando a ficar melancólico.

- Quem? A tua inconveniente vizinha do lado?

- Sim, essa Clitumna. O sobrinho morreu em Setembro último, após uma doença prolongada. Era um sujeito jovem, parecia bastante saudável. Os médicos fizeram tudo o que lhes pareceu possível, mas ele morreu. Desde então que isto me aflige.

Mário notou no sogro uma expressão vazia.

- Porque há-de afligir-te? - perguntou. - Qual é a ligação que existe? César mordeu o lábio.

- As coisas acontecem sempre em grupos de três - disse, num tom desanimado. - A morte do sobrinho de Clitumna foi uma morte na minha proximidade e dos meus. Terá de haver mais duas mortes.

- Se assim foi, as mortes ocorrerão nessa família.

- Não necessariamente. Apenas têm de ocorrer três mortes, todas de algum modo relacionadas entre si. Mas até ocorrer a segunda morte, desafio um profeta a adivinhar qual será a relação.

Mário elevou as mãos, em parte por irritação, em parte por desespero.

- Caiojúlio, Caio Júlio! Tenta ser optimista, peço-te! Ninguém veio dizer que Júlia se encontrava em perigo de morte, apenas me disseram que o parto não ia ser fácil. Por isso, chamei-te para me ajudares a passar esta terrível espera, e não para me fazeres ficar tão triste que não veja um raio de luz!

Envergonhado, César fez um esforço consciente.

- Com efeito, estou contente por a hora de Júlia ter chegado - disse com uma certa brusquidão. - Não tenho querido incomodá-la, mas quando estiver despachada do parto, espero que tenha algum tempo para falar com Julilla.

Para si mesmo, Mário achava que o que Julilla precisava era de um bom açoite no rabo, dado por mão de pai implacável, mas conseguiu mostrar-se interessado; afinal de contas, ele nunca tinha sido pai, e agora que (se tudo corresse bem) ia passar a sê-lo, tinha que admitir a hipótese de vir a ser um tata tão extremoso como Caio Júlio César.

- O que se passa com Julilla? César suspirou.

- Não come. Tivemos dificuldade em fazê-la comer durante algum tempo, mas nos últimos quatro meses piorou. Perde libra atrás de libra! E agora tem tendência para desmaiar, cai no chão como uma pedra. Os médicos não lhe encontram mal nenhum.

”Oh! Virei mesmo a ser assim?”, perguntou Mário para consigo mesmo; não há nada nessa rapariga mimada que não se cure com uma boa dose de indiferença! No entanto, achou que fornecia um bom assunto, pelo que tentou falar acerca dela.

- Imagino que vais querer que Júlia tente perceber o que se passa.

- Queria!

- Deve estar apaixonada por alguém inadequado - disse Mário, completamente desconhecedor, mas totalmente certo.

- Absurdo! - disse César com dureza.

- Como sabes que é absurdo?

- Porque os médicos pensaram nisso e fizeram interrogatórios completos - disse César na defensiva.

- A quem perguntaram? A ela?

- Evidentemente.

- Teria sido mais útil perguntarem à serva dela.

- Caio Mário!

- Não estará grávida?

- Caio Mário!

- Escuta, sogro, de nada serve começares a ver-me como um insecto nesta altura - disse Mário sem emoção. - Eu sou da família; não sou um estranho. Se eu, com a minha experiência extremamente limitada de raparigas de dezasseis anos vejo estas possibilidades, também tu devias considerá-las, e ainda mais. Leva a serva para o teu gabinete e bate-lhe até obteres a verdade... Garanto-te que cederá, se a interrogares bem: tortura e ameaças de morte!

- Caio Mário, nunca serei capaz disso! - retorquiu César, horrorizado ao simples pensamento de tais medidas draconianas.

- Não precisarias de fazer mais do que bater-lhe com uma vara disse Mário pacientemente. - Um rabo moído e a mera referência à tortura extrairão dela tudo o que sabe.

- Não serei capaz disso! - repetiu César. Mário suspirou.

- Então faz as coisas à tua maneira. Mas não julgues que sabes a verdade só por teres perguntado à Julilla.

- Sempre houve verdade entre mim e os meus - disse César. Mário não respondeu, apenas ficou com um ar céptico. Bateram à porta do gabinete.

- Entre! - gritou Mário, contente com a interrupção. Era um pequeno físico grego da Sicília, Atenodoro.

- Domine, a tua mulher pede para te ver - disse a Mário -, e penso que lhe faria bem se viesses.

O que quer que existia dentro do peito de Mário precipitou-se para o seu ventre; respirou aos soluços, perdendo a calma. César levantara-se e olhava o médico dolorosamente.

- Ela está... Está...? - César não conseguiu acabar.

- Não, não! Mantenham a calma, domini, ela está bem - disse o Grego, tranquilizador.

Caio Mário nunca estivera na presença de uma mulher em trabalho de parto, e estava aterrorizado. Não era difícil ver os mortos e feridos em combate; eram companheiros de armas, estivessem do lado que estivessem, e um homem sabia sempre que apenas a Fortuna o livrara de ser um deles. No caso de Júlia, a vítima era alguém muito amado, que devia ser protegido e amparado, a quem se devia poupar toda a dor possível.

Mas agora júlia era não menos vítima do que qualquer inimigo, posta no seu leito de dor por causa dele. Pensamentos preocupantes para Caio Mário.

Apesar disso, tudo parecia muito normal quando ele entrou na sala de parto. Júlia estava de facto deitada no leito. O banco de parto - a cadeira especial onde ela seria sentada quando entrasse na fase final do trabalho de parto - estava decentemente tapado a um canto, pelo que nem reparou nele. Para seu grande alívio, ela não parecia extenuada nem extremamente doente, e no momento em que o viu, sorriu-lhe radiante, estendendo as mãos.

Ele tomou-as e beijou-as.

- Estás bem? - perguntou um pouco tolamente.

- Claro que estou! Mas vai demorar algum tempo, segundo me disseram, e estou a sangrar um bocadinho. Mas não há razão para preocupações nesta fase. - Um espasmo de dor percorreu-lhe o rosto; as suas mãos apertaram-se nas dele com uma força que Mário lhe desconhecia, e aí ficaram Presas durante cerca de um minuto antes de ela voltar a descontrair-se. - Apenas queria ver-te - concluiu, como se não tivesse havido qualquer interrupção. - Posso ver-te de vez em quando, ou será muito incómodo para ti?

- Quero muito ver-te, meu amor pequenino - disse ele, inclinando-se para beijá-la na linha onde a testa e o cabelo se uniam, e alguns caracóis finos e fofos se agrupavam. Estavam húmidos, como o informaram os seus lábios, e também tinha a pele húmida. Pobre querida.

- Tudo correrá bem, Caio Mário - disse, largando as mãos dele. Tenta não ficar tão preocupado. Sei que vai tudo correr bem! O tata ainda está contigo?

- Está.

Ao voltar-se para sair, deparou com um olhar feroz de Márcia, a um canto, acompanhada por três velhas parteiras. Deuses! Ali estava alguém que não lhe perdoaria tão cedo o ter feito isto à sua filha!

- Caio Mário! - gritou Júlia quando ele chegou à porta. Ele olhou para trás.

- O astrólogo está cá? - perguntou a mulher.

- Ainda não, mas foi já chamado.

Pareceu ficar aliviada.

- Ainda bem!

O filho de Caio Mário nasceu vinte e quatro horas mais tarde, nun charco de sangue. Por pouco custava a vida à mãe, mas a vontade que ela tinha de sobreviver era muito forte, e depois de os médicos a terem entrouxado com trapos e lhe terem elevado as pernas, a hemorragia abrandou e acabou por parar.

- Ele será um homem famoso, dóminus, e a sua vida será cheia de grandes acontecimentos e aventuras - disse o astrólogo, evitando sabiamente aqueles aspectos intragáveis que os pais nunca gostam de conhecer.

- Então viverá? - disse César secamente.

- Sem dúvida que viverá, dóminus. - Um dedo velho e bastante encardido pousou-se sobre uma oposição importante, ocultando-a. - Terá o mais alto cargo do país: está aqui nesta carta, para todo o mundo ver. E outro dedo longo e encardido apontou para um trígono.

- O meu filho será cônsul - disse Mário com grande satisfação.

- Certamente - disse o astrólogo, e acrescentou: - Mas não será um homem tão importante como o pai, como indica o quincôncio.

E isto agradou ainda mais a Mário.

César encheu duas taças do melhor vinho de Falerno, sem água, e deu uma delas ao genro, resplandecente de orgulho.

- Ao teu filho e meu neto, Caio Mário - disse. - Brindo aos dois.

Assim, quando nos fins de Março o cônsul Quinto Cecílio Metelo embarcou para a Província Africana com Caio Mário, Públio Rutílio Rufo, Sexto Júlio César, Caio Júlio César Júnior e quatro legiões prometedoras, Caio Mário pôde partir com a alegria de saber que a mulher estava livre de perigo, e que o filho estava a desenvolver-se bem. Até a sogra se tinha dignado a voltar a falar com ele!

- Tem uma conversa com a Julilla - disse ele a júlia mesmo antes de partir. - O teu pai está muito preocupado com ela.

Sentindo-se mais forte e resplandecente de alegria por o seu filho ser um bebé magnificamente grande e saudável, Júlia lamentava apenas uma coisa: não ter recuperado o suficiente para acompanhar Mário até à Campânia, para passar alguns dias com ele antes da sua partida de Itália.

- Deves referir-te àquela ridicularia de ela não comer - disse júlia acomodando-se mais confortavelmente ao abraço de Mário.

- Não sei mais que o que teu pai me contou, mas percebi que era sobre isso - disse Mário. - Terás de desculpar-me, pois nunca me interesso por raparigas jovens.

A mulher, uma rapariga jovem, sorriu secretamente. Sabia que o marido nunca pensava nela como jovem, mas como alguém da idade dele, com a mesma maturidade e inteligência.

- Falarei com ela - disse Júlia, elevando a face para receber um beijo.

- Oh, Caio Mário, que pena eu não estar ainda bem para tentar arranjar um irmãozinho ou irmãzinha para o nosso pequeno Mário!

Mas antes que Júlia pudesse preparar-se para falar com a sua irmã doente, chegaram a Roma notícias sobre os Germanos, e Roma entrou em pânico. Desde que os Gauleses haviam invadido a Itália trezentos anos antes e quase tinham vencido o inexperiente exército romano, a Itália vivia no temor das incursões bárbaras; fora para os proteger delas que os Povos Aliados Italianos haviam decidido unir os seus destinos a Roma, e fora para se protegerem delas que Roma e os seus Aliados Italianos haviam lutado permanentemente ao longo das fronteiras de milhares de milhas da Macedónia, entre o mar Adriático e o Helesponto Trácio. Fora para protegê-los contra elas que Cneu Domício Aenobarbo criara um caminho decente por terra entre a Gália italiana e os Pirenéus espanhóis apenas dez anos antes, e submetera as tribos que viviam ao longo do rio Ródano, com vista a enfraquecê-las ao pô-las em contacto com os costumes romanos e ao colocá-las sob a protecção militar de Roma.

Até há cinco anos, os bárbaros gauleses e celtas constituíam o maior motivo de temor para os Romanos; mas depois apareceram em cena os Germanos, e subitamente, por comparação, Gauleses e Celtas passaram a parecer civilizados, mansos e tratáveis. Como todos os espantalhos, esses temores não derivavam do que era conhecido, mas do que se desconhecia. Os Germanos tinham surgido do nada (durante o consulado de Marco Emílio Escauro), e após infligirem uma terrível derrota a um exército romano enorme e excelentemente treinado (durante o consulado de Cneu Papiro Carbo) desapareceram de novo, como se nunca tivessem existido. Misteriosos. Incalculáveis. Desconhecedores dos padrões morais tais como são entendidos e respeitados por todos os povos que habitavam as margens do mar Central. Senão, por que motivo, quando essa terrível derrota lhes abrira toda a Itália como uma mulher indefesa numa cidade saqueada, teriam os Germanos virado as costas e desaparecido? Não fazia sentido! Mas eles tinham virado as costas, tinham mesmo desaparecido; e à medida que os anos passavam desde a horrível derrota de Carbo, os Germanos iam-se tornando pouco mais que uma Lamia, uma Mormolyse espantalho para assustar crianças. O terror tão antigo das invasões bárbaras retomou o seu lugar normal, algures entre um tremor de medo e um sorriso de descrédito.

E agora, mais uma vez surgidos do nada, os Germanos estavam de volta, caindo às centenas de milhar na Gália Transalpina, onde o rio Ródano derivava do lago Lemano; e as terras dos Éduos e dos Ambarros inundavam-se de Germanos, todos de dez pés de altura, brancos e pálidos, gigantes tirados das lendas, fantasmas vindos de qualquer mundo bárbaro subterrâneo do Norte. Os Germanos precipitaram-se até ao vale ameno e fértil do Ródano, esmagando toda e qualquer coisa animada pelo caminho, desde homens a ratos, desde florestas a fetos, com a mesma indiferença em relação às colheitas nos campos como aos pássaros nos céus.

A notícia chegou a Roma com dois dias de atraso, pelo que não foi possível avisar o cônsul Quinto Cecílio Metelo e o seu exército, já chegados à Província Africana. Assim, apesar da sua tolice, o cônsul Marco Júnio Silano, mantido em Roma para governar onde pudesse fazer menos estragos, passou a ser o melhor de que o Senado dispunha sob os pesos gémeos dos costumes e da lei. Porque um cônsul em funções não podia ser destituído em favor de qualquer outro comandante se se mostrasse disposto a empreender uma guerra. E Sílano mostrou-se deliciado com a perspectiva de levar a cabo uma guerra contra os Germanos. Tal como Cneu Papiro Carbo cinco anos antes dele, Silano vira carruagens germanas carregadas de ouro e cobiçara esse ouro.

Depois de Carbo ter provocado o ataque dos Germanos e sofrido uma esmagadora derrota, os Germanos haviam-se esquecido de recolher as armas e armaduras que os romanos derrotados haviam deixado consigo ao morrerem, ou abandonado para acelerarem o ritmo da luta. Deste modo, a prudente Roma - e não os esquecidos Germanos - enviou equipas para recolher todos os vestígios de armas e equipamentos e trazê-los para serem armazenados em Roma. Este tesouro militar ainda se encontrava em armazéns espalhados pela cidade, à espera de uso. Os limitados recursos dos fabricantes de armas e equipamentos tinham sido esgotados por Metelo e pela sua expedição africana no início da campanha, sendo por isso realmente uma sorte as legiões constituídas à pressa por Silano poderem ser equipadas com este material escondido; embora os recrutas que não tinham armas nem armaduras tivessem de comprá-las ao Estado, o que fez com que o Estado tivesse um pequeno lucro com as novas legiões de Silano.

Arranjar tropas para Silano era muito mais difícil. Os recrutas esforçavam-se imenso, e sob uma urgência opressiva. Frequentemente, as qualificações por posse eram esquecidas; homens ansiosos por servir mas sem as posses necessárias para se alistarem eram incorporados à pressa; a sua incapacidade para se armarem e protegerem era rectificada com o material recolhido por Carbo, e o seu custo era deduzido do pagamento de compensação de refractários. Os veteranos na reforma eram aliciados a sair da inércia bucólica - a maioria sem grande preocupação, pois a inércia bucólica não se adequava muito aos homens que haviam feito as suas dez estações de tropa, e por isso não podiam voltar a ser chamados.

E por fim, estava feito. Marco Júnio Silano partiu para a Gália Transalpina à frente de um esplêndido exército de sete legiões, com uma grande arma de cavalaria composta por trácios misturados com alguns gauleses das partes mais colonizadas da província romana da Gália. Estava-se em finais de Maio, escassas oito semanas após ter chegado a Roma a notícia da invasão germana. Durante esse tempo, Roma recrutara, armara e treinara parcialmente um exército de cinquenta mil homens, incluindo a cavalaria e não-combatentes. Só um espantalho tão grande como os Germanos podia ter estimulado tal esforço heróico.

Mas apesar de tudo, é uma prova do que nós, Romanos, podemos, quando queremos disse Caio Júlio César à mulher, Márcia, no regresso; haviam viajado para ver as legiões iniciar a sua marcha subindo a Via Flamínia em direcção à Gália Italiana, um espectáculo deslumbrante e animador.

Sim, desde que Silano esteja à altura disse Márcia, uma verdadeira mulher de senador, activamente interessada pela política.

Não te parece que esteja disse César.

Nem a ti, se quiseres admiti-lo. No entanto, ao ver tantas botas a marchar ao longo da Ponte Múlvia, fiquei contente por termos Marco Emílio Escauro e Marco Lívio Druso como censores disse Márcia, com um suspiro de satisfação. Marco Escauro tem razão: a Ponte Múlvia abana, e não aguentará outra inundação. O que poderíamos fazer nós se todas as nossas tropas estivessem ao Sul do Tibre e fossem obrigadas a marchar à pressa para o Norte? Estou muito contente por ele ter sido eleito, pois jurou reconstruir a Ponte Múlvia. Um homem maravilhoso!

César sorriu com um certo azedume, mas disse, tentando ser justo:

Escauro está a tornar-se uma instituição, o maldito! É um homem de espectáculo, um impostor espantoso... e três quartos dele são falsidade.

No entanto, a única parte que não é falsa vale muito mais do que qualquer homem no total, e por isso, devo perdoar tudo o resto. Além de que ele está certo: precisamos de um novo programa de obras públicas, e não apenas de manter os niveis de emprego. Todos esses avaros observadores minuciosos dos dinheiros dos senadores que temos aturado como censores nos últimos anos mal valem o papel em que fazem os censos! A Escauro o que lhe é devido: ele tenciona tratar de alguns assuntos que deviam ter sido resolvidos há muito tempo. Embora eu não possa aprovar a secagem dos pântanos à volta de Ravena, ou os seus planos para construir um sistema de canais e diques entre Parma e Modena.

- Sê generoso, Caio Júlio! - disse Márcia com uma certa brusquidão. excelente que ele refreie o Pó! Com os Germanos a invadir a Gália Transalpina, não precisamos de impedir os nossos exércitos de alcançarem os desfiladeiros alpinos do Pó!

- Sempre concordei que era benéfico - disse César, acrescentando a seguir com uma desaprovação obstinada: - No entanto, parece-me incrível que, no total, ele tenha conseguido manter firmemente o seu plano de obras públicas nas áreas em que os seus clientes abundam, e é provável que o seu número seja seis vezes maior quando terminar. A Via Emília percorre o caminho desde o Arimino, no Adriático, até à Taurásia, no sopé dos Alpes ocidentais: trezentas milhas de clientes comprimidos com a mesma solidez das pedras que a pavimentam.

- E que tenha boa sorte! - disse Márcia com igual obstinação. Suponho que também encontrarás motivo de escárnio no levantamento e pavimentação da via da costa oeste!

- Esqueceste-te de falar do ramo que unirá a via da costa oeste à Via Emília! - troçou César. - E ele põe o seu nome em todo o lado! A Via Emília Scauri. Bah!

- Rezingão - disse Márcia.

- Intolerante - disse César.

- Há alturas em que desejava não gostar tanto de ti - replicou Márcia.

- Há alturas em que posso dizer o mesmo - insistiu César.

Nesse momento, apareceu Julilla. Estava extremamente magra, mas não esquelética, e mantinha-se no mesmo estado há dois meses. julílla descobrira um equilíbrio que lhe permitia paracer digna de piedade mas que a impedia de chegar ao ponto em que morrer se tornaria uma forte possibilidade, se não de fome, certamente por doença. A morte não estava no plano condutor de Julilla, nem o seu espírito estava inquieto.

Tinha dois objectivos: um era obrigar Lúcio Cornélio Sila a admitir que a amava, e o outro era comover a sua família até um ponto de viragem, pois só então, e ela sabia-o, teria a mais pequena hipótese de garantir a autorização do pai para casar com Sila. Por muito jovem e mimada que fosse, não cometera o erro de subestimar o seu poder em relação ao do pai. Ele podia amá-la perdidamente, podia fazer-lhe todas as vontades até ao limite dos seus recursos monetários; no entanto, quando se tratasse da pessoa com quem ela ia casar, seguiria os seus próprios desejos sem ligar aos dela. Se fosse suficientemente maleável para aceitar o marido que ele lhe escolhesse tal como Júlia aceitara - o pai ficaria radiante, com uma alegria simples, e também sabia que César procuraria alguém que tomasse conta dela, a amasse e tratasse sempre bem e com respeito. Mas Lúcio Cornélio Sila para marido? Nunca, nunca o pai o consentiria, e nenhuma razão que ela ou Sila lhe pudesse apresentar o faria mudar de ideias. Poderia chorar, suplicar, declarar amor eterno, poderia virar-se do avesso, que o pai nunca daria o seu consentimento. Especialmente agora, que ela tinha um dote de cerca de quarenta talentos um milhão de sestércios no banco, o que a tornava elegível, e arruinava as hipóteses de Sila conseguir convencer o pai de que queria casar com Julilla unicamente por causa dela. Isto é, quando admitisse que queria casar.

Em criança, Julilla nunca demonstrara grande paciência, mas agora que ela era necessária, tinha-a para dar e vender. Tão paciente como um pássaro a chocar um ovo estéril, Julilla embarcou no seu plano condutor, consciente de que para obter o que queria o casamento com Sila tinha de saber esperar e aguentar mais do que todos, desde a sua vítima, Sila, ao seu controlador, Caio Júlio César. Tinha mesmo a noção de algumas das armadilhas ao longo do seu caminho para o sucesso Sila, por exemplo, podia casar noutro lado ou deixar Roma, ou adoecer ou morrer. Mas ela fazia o que podia para evitar essas possibilidades, principalmente usando a sua doença fictícia como uma arma apontada ao coração do homem que ela sabia bem não consentir em vê-la. Como sabia isso? Porque tentara vê-lo muitas vezes durante os primeiros meses depois de ele ter voltado a Roma, apenas para sofrer recusa atrás de recusa, culminando na informação que lhe dera escondidos como estavam atrás de um pilar grosso no Porticus Margaritaria de que se ela não o deixasse em sossego, deixaria Roma para sempre.

O plano condutor evoluíra devagar, a partir desse primeiro contacto que fora o germe inicial, quando ele lhe chamara gorducha e a afastara.

Cessou de devorar doces e perdeu algum peso, e não recebeu dele qualquer compensação para as suas mágoas. Depois, quando ele regressara a Roma e fora ainda mais grosseiro, a sua convicção endurecera, e começou a recusar-se a ingerir alimentos. No início foi difícil, mas mais tarde descobriu que quando mantinha este estado de meia-inanição durante o tempo suficiente sem sucumbir ao impulso de se empanturrar, a sua capacidade de comer diminuía, e as torturas da fome desapareciam completamente.

Por isso, na altura em que Lúcio Gávio Stichus havia morrido, oito meses antes, o plano condutor de Julilla estava mais ou menos delineado; permaneciam apenas alguns problemas por resolver, desde encontrar uma fórmula de se manter em primeiro plano na mente de Sila até descobrir um modo de se manter num equilíbrio de peso que lhe permitisse sobreviver.

Com Sila, comunicava por carta.

Amo-te, e nunca me cansarei de dizê-lo. Se as cartas são o único modo de me fazer ouvir, então escreverei cartas. Dezenas. Centenas. Milhares, se os anos se sucederem. Cobrir-te-ei de cartas, afogar-te-ei em cartas, esmagar-te-ei com cartas. Existe outro modo mais romano do que a escrita de cartas? Alimentamo-nos delas, tal como eu me alimento escrevendo-te. Que valor tem a comida, quando me negas o alimento de que o meu coração e o meu espírito carecem. Meu mais cruel, mais ingrato, mais impiedoso amado! Como podes permanecer longe de mim. Quebra a parede entre as nossas casas, força a entrada no meu quarto, beija-me mil vezes! Mas não o farás. Ouço-te dizê-lo, aqui deitada, demasiado fraca para abandonar o meu leito feio e odioso. Que fiz eu para merecer a tua indiferença, a tua frieza? Certamente em qualquer ponto sob a tua pele tão branca está oculta alguma minúscula parcela da mais pequena feminilidade, a essência que te dei a guardar, e por isso a Julilla que vive na casa ao lado, no seu leito feio e odioso, não passa de um simulacro magro e seco cada vez mais sombrio, mais esbatido. Um dia, desaparecerei, e tudo o que restará de mim será essa feminilidade, sob a tua pele tão branca. Vem ver-me, vem ver o que fizeste! Beija-me mil vezes, pois eu amo-te.

O equilíbrio alimentar fora mais difícil. Decidida a não ganhar peso, continuava a perdê-lo, apesar dos esforços que fazia para o manter. E um dia, toda a equipa de físicos que se reunia há meses na casa de Caio Júlio César, numa vã tentativa de curá-la, foi ter com Caio Júlio César e defendeu que ela devia ser alimentada à força. Mas como físicos que eram, haviam deixado a tarefa suja a cargo da família. Pelo que a casa inteira reuniu coragem e se preparou para o esforço, desde o servo mais novo até aos irmãos Caio e Sexto, Márcia e o próprio César. Foi uma prova física de que ninguém quis lembrar-se mais tarde - Julilla gritando como se estivesse a ser morta e não ressuscitada, fazendo uma resistência enfraquecida, vomitando cada garfada, cuspindo tapando a boca e sufocando. Quando César ordenou enfim que o horror acabasse, a família reuniu-se em conselho e concordou sem qualquer voz contra que acontecesse o que acontecesse a Julilla no futuro, alimentada à força é que não seria novamente.

Mas a algazarra que Julilla fizera durante a tentativa de a alimentarem à força revelara o segredo; agora, toda a vizinhança conhecia as preocupações de César. Não que a família tivesse escondido as suas preocupações por vergonha, só que Caio Júlio César detestava mexericos, e tentava sempre não ser o seu causador.

Em sua salvação apareceu nem mais nem menos que Clitumna, a vizinha do lado, apetrechada com um alimento que, segundo garantiu, Julilla ia ingerir voluntariamente, e que permaneceria lá dentro, uma vez ingerido. César e Márcia receberam-na com Caior, e ficaram a escutá-la fervorosamente.

- Arranjem leite de vaca - disse Clitumna com ar importante, gozando a experiência nova de ser o centro das atenções dos Césares. - Sei que não é fácil de encontrar, mas creio bem que há alguns sujeitos no Vallis Camenarum que ordenham vacas. Então, por cada taça de leite, junta-se um ovo de galinha e três colheres de mel. Bate-se até fazer espuma e junta-se meia taça de vinho forte mesmo no fim. Se se deitar o vinho antes de bater, não se obtém a espuma no alto. Se tiverem uma taça de vidro, dêem-lha aí, pois a bebida é muito bonita de ver - de um rico tom rosado, com um lindo amarelo na parte de cima. Se ela o absorver, ficará certamente mais forte e saudável - disse Clitumna, que bem se lembrava do período de inanição da sua irmã, quando fora impedida de casar com um sujeito totalmente inconveniente de Alba Longa, junto ao lago Fúcino: nem mais nem menos que um encantador de serpentes!

- Experimentaremos - disse Márcia com os olhos cheios de lágrimas.

- Resultou com a minha irmã - disse Clitumna, e suspirou. - Quando recuperou do encantador de serpentes, casou com o pai do meu querido Stichus.

César levantou-se.

- Vou já mandar alguém ao Camenarum - disse, virando costas. Depois, apareceu de novo. - E o ovo de galinha? Tem de ser o décimo ovo ou serve um ovo vulgar? - perguntou.

- Nós usámos ovos vulgares - disse Clitumna, repousando confortavelmente na cadeira.

- A qualidade de dimensões extra pode perturbar o equilíbrio da bebida.

- E o mel? - insistiu César. - Mel latino vulgar ou devíamos experimentar o do Himeto ou mel não fumado?

- O mel latino vulgar serve perfeitamente - disse Clitumna com firmeza. - Quem sabe? Talvez tenha sido o fumo do mel vulgar que a curou. Não fujamos da receita original, Caio Júlio.

- Certo - César voltou a desaparecer.

- Oh! Se ao menos ela conseguir aceitá-la! - disse Márcia, com a voz a tremer. - Vizinha, não sabemos o que fazer!

- Imagino que não saibam. Mas não façam tanto rebuliço, pelo menos que ela não ouça - aconselhou Clitumna, que conseguia ser sensata quando o seu coração não estava envolvido, e teria alegremente deixado Julilla morrer se tivesse sabido das cartas acumuladas no quarto de Sila. Franziu as sobrancelhas. - Não queremos que haja uma segunda morte nestas duas casas - disse ela, e fungou lamuriosamente.

- De modo nenhum! - gritou Márcia. E com o seu sentido de conveniência social a vir ao de cima, prosseguiu delicadamente - Espero que tenhas recuperado um pouco da perda do teu sobrinho, Clitumna. É muito difícil; sei-o bem.

- Cá me vou arranjando - disse Clitumna, que sentia pesar por Stichus a muitos níveis, mas que a um nível vital acabara por ver a sua vida facilitada, sem a fricção entre o falecido Stichus e o seu querido Sila. Deu um suspiro profundo, muito parecido com os de Julilla, embora não o soubesse.

Esse encontro foi o primeiro de muitos, pois quando a bebida fez os seus efeitos, a família de César viu-se sujeita a uma enorme obrigação para com a vizinha grosseira.

- A gratidão - disse Caio Júlio César, que se habituou a esconder-se no seu gabinete mal ouvia a voz de Clitumna no átri’um - pode ser um terrível incómodo!

- Oh, Caio Júlio, não sejas tão miserável! - disse Márcia na defensiva. - Clitumna é muito amável, e não podemos ofendê-la... O que te arriscas a fazer ao evitá-la tão persistentemente.

- Eu sei que é amabilíssima! - exclamou o chefe da família, picado.

- É disso que me queixo!

O plano condutor de julilla complicara a vida de Sila a um ponto que não lhe daria muita satisfação se ela soubesse. Mas a rapariga não sabia, pois ele escondia o seu tormento de todos excepto de si mesmo, e fingia uma indiferença face à dor dela que enganava por completo Clitumna, sempre cheia de notícias sobre a situação na casa ao lado, agora que passara a ser vista como milagreira salva-vidas.

- Gostava que fosses falar à pobre rapariga - disse Clitumna, rabugenta, pela altura em que Marco júnio Silano comandava as suas sete legiões para norte da Via Flamínia. - Ela pergunta muito por ti, Lúcio Cornélio.

- Tenho mais que fazer do que andar atrás de uma mulher dos Césares

- disse Sila bruscamente.

- Que absurdo! - disse Nicópole com vigor. - Não tens nada que fazer.

- E tenho culpa disso? - perguntou ele, virando-se contra a sua amante com uma violência súbita que a fez retirar-se assustada. - Eu podia estar ocupado! Podia estar a marchar com Silano para combater os Germanos.

- E porque não foste? - perguntou Nicópole. - Eles baixaram as qualificações de propriedade tão drasticamente, que, com o teu nome, estou certa de que conseguirias alistar-te.

Os lábios dele deixaram a descoberto os caninos afiados e desmesurados, que concediam ao seu sorriso uma maldade de fera,

- Eu, um Cornélio patrício, alistar-me numa legião? - perguntou.

- Preferia ser vendido como escravo aos Germanos!

- E poderás ser, se os Germanos não forem detidos. Sinceramente, Lúcio Cornélio, há alturas em que mostras bem demais como és o teu principal inimigo! Ficas aqui, quando tudo o que Clitumna te pedia era um favor pequeníssimo por uma rapariga moribunda, que se lamuria de tu não teres tempo nem interesse... Consegues exasperar-me! - Um pequeno brilho surgiu-lhe nos olhos. - Afinal de contas, Lúcio Cornélio, tens de admitir que a tua vida aqui é muito mais agradável desde que Lúcio Gávio Stichus expirou tão convenientemente... - e pronunciou de lábios fechados uma cançoneta popular que dizia que o cantor matara o seu rival no amor, saindo-se bem. - Expirou convenientemennnte! cantou ela, aos trinados.

O rosto dele endureceu, permanecendo no entanto estranhamente inexpressivo.

- Minha querida Nicópole, porque não vais até ao Tibre e me fazes o enorme favor de saltar?

A conversa sobre Julilla foi prudentemente abandonada. Mas era um assunto que parecia estar sempre a surgir e, em segredo, Sila sofria, consciente da sua vulnerabilidade, incapaz de mostrar preocupação. Um dia em que a tola serva de Julilla fosse apanhada a transportar uma carta, ou a própria Julilla fosse apanhada no acto de escrever uma delas - o que seria dele? Quem acreditaria que ele, com o seu passado, fosse inocente em qualquer tipo de intriga? Uma coisa era ter um passado suspeito, mas se os censores o considerassem culpado de corromper a moral da filha de um senador patrício - Sila nunca, mas mesmo nunca, seria aceite no Senado. E ele estava decidido a alcançar o Senado.

O que ansiava era por sair de Roma, mas não ousava fazê-lo - o que poderia a rapariga fazer na sua ausência? E por mais que odiasse ter de admiti-lo, não podia abandoná-la enquanto ela estava tão doente. Por mais que a doença fosse auto-infligida, não deixava de ser uma doença grave. A sua mente dava voltas como um animal desorientado, incapaz de se fixar, incapaz de se disciplinar por um caminho lógico ou sensato. Tirava a coroa de ervas do seu esconderijo num dos seus armários ancestrais e ficava sentado, segurando-a nas mãos, quase chorando num frenesi de ansiedade; pois sabia onde ia e o que queria fazer, e aquela rapariga marota era uma complicação inaceitável, e no entanto, aquela rapariga marota fora o início de tudo aquilo, com a sua coroa de ervas - o que havia de fazer, que havia de fazer? já era bastante difícil ter que seguir o seu caminho sem falhas através do pântano das suas intenções futuras, sem o esforço adicional causado por Julilla.

Até consideraria a hipótese de suicídio, ele, que era a última pessoa no mundo de quem se esperaria tal coisa - uma fantasia, uma saída deliciosa em relação a tudo, o sono sem fim. E depois, os seus pensamentos voltavam ajulilla - porquê? Não a amava, não era capaz de amar. Contudo, havia momentos em que a queria, desejava mordê-la e beijá-la e empalá-la até ela gritar numa dor estática; e havia outros, especialmente quando estava acordado, entre a amante e a sogra, em que a odiava, desejava sentir o seu pescoço magro entre as mãos, queria ver a sua cara ruborizar e os olhos esbugalhar-se mal ele esgotasse o último sopro de vida dos seus pulmões. Então, chegava outra carta - porque não se limitava a deitá-las fora, ou as levava ao pai dela com um olhar feroz e o pedido de que acabasse aquele incómodo? Nunca o fez. Lia-os, os pedidos apaixonados e desesperantes que a serva dela continuava a introduzir no sinus da toga dele, em lugares demasiado públicos para chamar a atenção para o seu gesto; ele lia cada uma delas uma dúzia de vezes, e depois guardava-a nos armários ancestrais, juntamente com as outras.

Mas nunca cedeu na sua decisão de não ir vê-la.

E a Primavera deu lugar ao Verão, e o Verão aos dias de canícula de Sextilis, quando Sirius, a estrela da Canícula, brilhava taciturnamente sobre uma Roma paralisada pelo Caior. Então, enquanto Silano subia com confiança o Ródano marchando em direcção as massas agitadas de Germanos, começou a chover na Itália central. E continuou a chover. Para os naturais da Roma soalheira era um destino pior do que os dias de canícula de Sextilis. Deprimente, altamente incómodo, uma preocupação em caso de inundações, uma maçada em todas as frentes. Os mercados não podiam abrir, a vida política era impossível, os julgamentos tinham de ser adiados, e a taxa de criminalidade subia em flecha. Os homens encontravam as mulheres in flagrante delito e assassinavam-nas, os celeiros deixavam entrar água e o trigo ficava molhado, o Tibre subia apenas o suficiente para garantir que algumas latrinas públicas transbordassem e os excrementos boiassem fora das suas portas, aumentava a falta de vegetais quando o Campo de Marte e o Campo do Vaticano ficavam cobertos por algumas polegadas de água, e as ínsulas elevadas e mal construídas começavam a esboroar-se, ou apresentavam súbitas rachas em paredes e fundações. Toda a gente se constipava; os idosos e os enfermos começavam a morrer de pneumonia, os jovens, de difteria e de amigdalite, pessoas de todas as idades, dessa doença misteriosa que paralisava o corpo e, se sobrevivessem, deixava um braço ou uma perna murcha e enfraquecida.

Clitumna e Nicópole começaram a discutir todos os dias, e todos os dias Nicópole fazia notar a Sila, num murmúrio, como a morte de Stichus fora conveniente para ele.

Então, ao fim de duas semanas inteiras a chover sem piedade, as nuvens baixas arrastaram os seus últimos farrapos pelo horizonte a Leste, e o sol apareceu. Roma fumegava. Gavinhas de vapor encaracolavam-se, saindo das lajes e telhas; o ar tornara-se espesso de vapor. Todas as varandas, loggias, jardins do peristilo e janelas da cidade se enchiam de roupas bolorentas que contribuíam para o bafio geral, e as casas onde havia bebés pequenos - como a do banqueiro Tiro Pompónio - viam subitamente os seus jardins do peristilo superlotados de fraldas. Os sapatos tinham que ser limpos do bolor, todos os livros nas casas dos letrados tinham que ser desenrolados e inspeccionados minuciosamente em busca de fungos insidiosos, as gavetas de roupa e armários tinham de ser arejados.

Mas havia um aspecto animador nessa humidade fétida; a época dos cogumelos chegava com uma abundância surpreendente. Sempre ávida das sombrinhas fragrantes após o normal Verão seco, toda a cidade se empanturrava de cogumelos, tanto ricos como pobres.

E Sila encontrava-se mais uma vez carregado de cartas de Julilla, após duas semanas de chuva que haviam impedido a serva da rapariga de encontrá-lo para lhas introduzir dentro da toga. O seu desejo de deixar Roma aumentou até saber que se não se livrasse do miasma vaporoso de Roma pelo menos por um dia, acabaria finalmente por enlouquecer. Metróbio e o seu protector, Cílax, estavam de férias em Cumas, e Sila não queria passar sozinho aquele dia de tréguas. Por isso, resolveu levar Clitumna e Nicópole a fazer um piquenique no seu lugar preferido fora da cidade.

- Venham, raparigas - disse-lhes na terceira madrugada seguida que se mostrava bonita. - Ponham os vossos trapos de sair, que vou levá-las a fazer um piquenique!

As raparigas - nenhuma das quais se sentia jovial - olharam-no com a ironia amarga dos que não têm disposição para serem libertos da sua neurastenia, e recusaram-se a deixar a cama comunal, embora a noite húmida a tivesse deixado encharcada de suor.

- Precisam as duas de ar fresco - insistiu Sila.

- Nós vivemos no Palatino porque o ar daqui é do melhor - disse Clitumna virando as costas.

- Nesta altura, o ar do Palatino não é melhor do que o ar de qualquer região de Roma: cheira mal aos esgotos e lavagens - disse. - Venham lá! Aluguei um carro e iremos na direcção de Tiffitir. Vamos fazer um almoço nos bosques: veremos se apanhamos um peixe ou dois e um bom coelho nalguma armadilha, e regressaremos a Roma antes de anoitecer sentindo-nos muito mais felizes.

- Não - disse Clitumna lamuriosamente. Nicópole hesitou.

- Bem...

Era o suficiente para Sila.

Apronta-te. Voltarei daqui a pouco - disse, esticando-se com luxúria. -já estou farto de ficar engaiolado aqui dentro desta casa! -Também eu - disse Nicópole, e saiu da cama.

Clitumna continuou deitada, voltada para a parede, enquanto Sila se dirigiu à cozinha para encomendar um almoço de piquenique.

- Vem - disse ele a Clitumna, enquanto vestia uma túnica limpa e apertava umas botas abertas.

Ela recusou-se a responder.

Assim, o grupo do piquenique consistiu apenas em Nicópole e Sila e uma enorme cesta de guloseimas que o cozinheiro misturou à última da hora, desejoso de também poder ir. Na base das Escadas de Caco esperava-os um carro de duas rodas; Sila ajudou Nicópole a sentar-se no lugar do passageiro, e subiu para o lugar do condutor.

- Cá vamos nós! - disse alegremente, pegando nas rédeas e experimentando um extraordinário acesso de leveza, uma rara sensação de liberdade. Confessou para si mesmo que não lamentava a recusa de Clitumna. Nicópole era companhia suficiente. - Vamos, mulas! - gritou.

As mulas andaram bem, o carro desceu ruidosamente o vale de Múrcia, onde ficava o Circo Máximo, e saiu da cidade pela Porta Capena. A vista, no início, não era nem interessante nem animadora, pois a estrada de circunvalação que Sila tomara em direcção a leste atravessava os grandes cemitérios de Roma. Tumbas e mais tumbas - não os imponentes mausoléus e sepulcros dos ricos e dos nobres, que ladeavam todas as artérias fora da cidade, mas pedras tumulares de almas mais pobres. Todos os Romanos e Gregos, mesmo os mais indigentes, sonhavam ter depois de morrerem um templo principesco a testemunhar que haviam existido. Por esse motivo, tanto os pobres como os escravos pertenciam a associações fúnebres, e davam a mais pequena migalha que podiam em contribuição para os fundos da associação, cuidadosamente geridos e investidos; o desvio de fundos era corrente em Roma, tal como em qualquer lugar onde haja seres humanos, mas as associações fúnebres eram policiadas tão ciosamente pelos seus membros, que os seus gestores não tinham outra hipótese que não fosse a de serem honestos. Um bom funeral e um belo monumento eram importantes.

Uma encruzilhada formava o ponto central da enorme necrópole dispersa por todo o Campo Esquilino, e nessa encruzilhada ficava o grandioso templo de Vénus Libitina, no meio de uma mata coberta de folhas de árvores sagradas. Dentro do pódium do templo estavam os registos onde eram inscritos os nomes dos cidadãos romanos que morriam, e também aí se encontravam arcas e arcas com o dinheiro pago ao longo dos séculos para registar todos os cidadãos mortos. Em consequência disso, o templo era imensamente rico; os fundos pertenciam ao Estado, mas nunca eram aplicados. A Vénus era aquela que presidia aos mortos e não aos vivos, a Vénus que presidia à extinção da força procriativa. E a mata do seu templo era o quartel-general da associação romana dos coveiros. Atrás do precinto da Vénus Libitina havia uma área aberta onde eram construídas as piras fúnebres, e para lá dessa área ficava o cemitério dos pobres, uma estrutura sempre diferente de fossos cheios de corpos, musgo e terra. Poucos cidadãos e não-cidadãos, optavam por ser sepultados, excepto os judeus, que eram enterrados numa secção da necrópole, e os aristocratas da Família Famosa dos Cornélios, que eram enterrados ao longo da Via Ápia; assim, a maioria dos monumentos transformava o Campo Esquilino numa pequena cidade de urnas apinhadas com cinzas em vez de corpos em decomposição. Ninguém podia ser enterrado dentro do limite sagrado de Roma, nem mesmo os mais importantes.

Contudo, mal a carruagem passou debaixo dos arcos dos dois aquedutos que levavam água às colinas que pululavam a nordeste da cidade, a vista mudou. Os terrenos agrícolas espraiavam-se em todas as direcções, primeiro hortas, e a seguir pastagens e campos de trigo.

Apesar do efeito que as enxurradas haviam feito na Via Tiburtina (a camada densamente comprimida de cascalho, pó de tufo calcário e areia a cobrir as pedras havia sido corroída), os dois que iam na carruagem divertiam-se muito. O sol estava quente, mas a brisa arrefecia-os, a sombrinha de Nicópole tinha o tamanho certo para fazer sombra à pele branca de Sila, bem como à sua pele cor de azeitona, e as mulas mostraram ser um par bastante aceitável. Demasiado sensato para forçar o ritmo, Sila deixava a parelha encontrar o seu passo, e as milhas sucediam-se alegremente.

Ir a Tibur e voltar no mesmo dia era impossível, mas o lugar preferido de Sila ficava muito perto de Tibur. A alguma distância para lá dos limites de Roma havia uma floresta que se aproximava da região que se elevava a uma altitude cada vez maior, até ao maciço da Grande Rocha, a maior montanha de Itália. Essa floresta cortava diagonalmente a Estrada durante cerca de uma milha antes de se desviar em corta-mato; a estrada entrava então no vale muito fértil e arável do rio Ânio.

No entanto, a aproximadamente uma milha, a floresta tinha um solo mais duro, e foi aí que Sila abandonou a estrada, conduzindo as mulas por um caminho de carroças que mergulhava na mata e acabava por se extinguir.

- Chegámos - disse Sila, descendo e vindo ajudar Nicópole, que estava ríspida e um pouco dorida. - Sei bem que não parece muito animador, mas anda um pouco comigo e vou mostrar-te um local que vale bem a viagem.

Primeiro, ele desatrelou as mulas e prendeu-as, depois, levou o carro para fora do carreiro, pô-la à sombra e tirou a cesta de piquenique, levando-a ao ombro.

- Como sabes lidar tão bem com mulas e arreios? - perguntou Nicópole enquanto seguia Sila, escolhendo cuidadosamente o caminho.

- Qualquer pessoa que tenha trabalhado no porto de Roma, sabe disse Sila por cima do ombro carregado. - Abranda agora! Não vamos para longe e não temos pressa.

Com efeito, haviam feito um bom tempo. Como era início de Setembro, as doze horas de claridade ainda eram longas, tinham sessenta e cinco minutos cada uma; ainda faltavam duas horas para o meio-dia quando Sila e Nicópole entraram nos bosques.

- Isto não é floresta virgem - disse ele -, deve ser por isso que ninguém corta árvores. Antigamente, esta terra era para o trigo, mas depois os cereais passaram a vir da Sicília e Sardenha e da Província Africana e os agricultores deixaram as árvores voltar a crescer, pois o terreno é pobre.

- És surpreendente, Lúcio Cornélio - disse ela, tentando acompanhar as enormes passadas de Sila. - Como sabes tantas coisas acerca do mundo?

- Tenho sorte. Fixo tudo o que ouço ou leio.

Então, entraram numa clareira encantadora, cheia de ervas e flores tardias de Verão - um universo cor-de-rosa e branco, grandes emaranhados floridos de rosas brancas e rosadas com rebentos irregulares e lupinos de grandes hastes, rosados e brancos. Através da clareira corria um riacho formado pela água da chuva; o seu leito estava cheio de rochas com reentrâncias, que dividiam as águas em suaves poças profundas e cascatas espumantes; o sol brilhava e reluzia na sua superfície, por entre libelinhas e pequenos pássaros.

- Que lindo! - exclamou Nicópole.

- Descobri este lugar no ano passado, quando saí durante aqueles meses - disse ele, pondo o cesto à sombra. - O carro perdeu uma roda no sítio onde o carreiro se desvia para dentro da floresta, e tive de mandar Metróbio numa das mulas a Tibur para pedir auxílio. Enquanto esperava, fui explorando isto.

Nicópole não teve a mais pequena satisfação ao saber que o desprezado e temido Metróbio vira indubitavelmente esse lugar primeiro, mas não disse nada, limitou-se a deitar-se na erva e ficar a ver Sila tirar o grande odre de vinho do interior do cesto. Ele colocou o odre no riacho, onde uma barreira natural de rocha o barrava, depois tirou a túnica e as botas abertas, que constituíam todo o seu vestuário.

Os sinais de boa disposição de Sila ainda permaneciam nos seus ossos, tão quentes como o sol que lhe aquecia a pele; esticou-se sorrindo e olhou em volta, para a clareira, com um afecto que não tinha nada a ver com Metróbio ou Nicópole. Simplesmente, o prazer dele provinha de um divórcio das situações que limitavam tanto a sua vida normal, num lugar onde podia convencer-se de que o tempo não passava, a política não existia, as pessoas não estavam sujeitas a classes, e o dinheiro era uma invenção para o futuro. Os seus momentos de felicidade pura eram tão poucos e raros ao longo da marcha de exercício da sua vida, que se lembrava de cada um deles com uma nitidez lancinante: o dia em que a trapalhada de floreios numa folha de papel subitamente se transformou em pensamentos compreensíveis, a hora em que um homem de grande meiguice e compreensão lhe mostrara como o acto de amor podia ser perfeito, a surpreendente antevisão da morte do seu pai e a percepção de que essa clareira numa floresta era o primeiro terreno a que ele alguma vez pudera chamar seu, pois não pertencia a mais ninguém que se preocupasse o suficiente para visitá-lo excepto ele. E era tudo. A soma total. Nada disso se baseava numa apreciação da beleza ou mesmo do processo de viver; representava a aquisição da instrução, o prazer erótico, a libertação da autoridade e a propriedade. Pois eram essas as coisas que Sila prezava, que Sila queria.

Nicópole olhava-o, fascinada, sem mesmo entender o mínimo que fosse da origem da felicidade dele, maravilhada com a brancura absoluta da pele do seu corpo ao sol - um espectáculo que ela nunca vira - e O ouro ardente da nuca e do peito e das virilhas. Era tudo demasiado para poder resistir; despiu a túnica leve e a camisa que usava por baixo, com a sua longa cauda apanhada entre as pernas e presa à frente, até ficar também nua e poder disfrutar do beijo do sol.

Caminharam até uma das poças mais fundas, arfando com o frio. Permaneceram aí o tempo suficiente para aquecerem enquanto Sila brincava com os mamilos espetados e os belos seios dela, e depois subiram com esforço pela encosta de ervas espessas e fizeram amor até secarem. De seguida, almoçaram pãezinhos e queijos e ovos meio-cozidos e asas de galinha, regados com vinho gelado. Ela fez uma coroa de flores para o cabelo de Sila, depois fez outra para si mesma, e deu três voltas rolando, pela mera recompensa voluptuosa de estar viva.

- Oh! Isto é maravilhoso! - disse ela num suspiro. - Clitumna não sabe o que perde.

- Clitumna nunca sabe o que perde - disse Sila.

- Oh, não sei - disse Nicópole, indolente, com a vespa da discórdia zumbir-lhe na mente. - Sente a falta do Stichus Pegajoso - e começou cantarolar entre dentes a canção sobre o assassínio, até apanhar o olhar de viés dele, indicando que começava a enfurecer-se. Não acreditava que Sila tivesse planeado a morte de Stichus, mas quando pela primeira vez o sugerira, recebera interessantes ecos de alarme vindos de Sila, e continuou por simples curiosidade.

Era altura de parar. Pondo-se de pé num salto, estendeu as mãos a Sila, que ainda se encontrava deitado ao comprido.

- Vem, mandrião; quero passear debaixo das árvores e arrefecer - disse ela. Ele levantou-se obedientemente, pegou-lhe na mão e caminharam os dois sob as goteiras da floresta, onde não havia ramagens a estragar o tapete de folhas encharcadas, quentes ao fim do dia de sol. Era maravilhoso andar descalço,

E lá estavam eles! Um exército em miniatura dos cogumelos mais estranhos que Nicópole alguma vez vira, sem a mais pequena marca de insectos ou patas de animais, do branco mais puro, de copa espessa e carnuda, pé estreito e exalando um estonteante cheiro a terra.

- Que bom! - exclamou, tombando de joelhos. Sila fez uma careta.

- Vamos - disse-lhe.

- Não sejas mau só por não gostares de cogumelos! Por favor, Lúcio Cornélio, peço-te! Vai à cesta buscar um pano: vou levar alguns cogumelos destes para o meu jantar - disse Nicópole em tom decidido.

- Podem não ser comestíveis - objectou ele, sem se mexer.

- É absurdo, claro que são comestíveis! Olha! Não têm nenhuma membrana a cobrir as lâminas, nem manchas, nem são vermelhos. E cheiram muito bem. E isto não é um carvalho, pois não? - e olhou para a árvore na base da qual os cogumelos cresciam.

Sila olhou para as folhas dentadas e sentiu a inevitabilidade do destino, o dedo apontado da sua deusa da sorte.

- Não, não é um carvalho - respondeu.

- Então, por favor! Peço-te! - disse ela num tom meigo. Sila suspirou.

- Está bem, como queiras.

Um exército inteiro de cogumelos pereceu enquanto Nicópole escolhia o seu achado, e a seguir embrulhou-o no lenço que Sila lhe trouxera e colocou-o carinhosamente no fundo do cesto, onde ficaria protegido do Calor no caminho para casa.

- Não entendo como tu e Clitumna não gostam de cogumelos - disse Nicópole quando estavam de novo acomodados no carro, e as mulas trotavam na direcção dos seus estábulos.

- Nunca gostei de cogumelos - disse Sila, desinteressado.

- Mais ficam para mim - retorquiu ela, dando uma risada.

- Que têm estes de tão especial? - perguntou Sila. - Nesta altura, podes comprar toneladas de cogumelos nos mercados ao preço da chuva.

- Estes são meus - tentou ela explicar -, fui eu que os encontrei, fui eu que vi como eram perfeitos, fui eu que os apanhei. Os do mercado estão velhos, cheios de bichos, buracos, aranhas, os deuses sabem que mais. Os meus são mais saborosos, garanto-te.

E eram mais saborosos. Quando Nicópole os levou para a cozinha, o cozinheiro mirou-os com um ar desconfiado, mas teve de admitir que não lhes encontrava qualquer defeito à vista ou ao cheiro.

- Frita-os em óleo - disse Nicópole.

O escravo encarregado dos vegetais trouxera dos mercados um enorme cesto de cogumelos, nessa manhã - tão baratos que todo o pessoal fora autorizado a comê-los, o que fizera o dia inteiro. Por isso, ninguém Se sentiu tentado a roubar alguns dos recém-chegados; o cozinheiro pôde fritá-los o bastante para os amaciar e aquecer, e pô-los num prato com um pouco de pimenta acabada de moer e suco de cebola, e mandou-os para a sala, para Nicópole. Que os comeu sofregamente, pois o seu apetite aumentara com o passeio - e com o amuo monumental de Clitumna. Era evidente que, quando já era demasiado tarde para enviar um servo que os chamasse, Clitumna se arrependera de ter decidido não ir ao famoso piquenique. Sujeita a um salmo sobre o assunto durante o jantar inteiro, reagiu mal, e terminou o dia anunciando que dormiria sozinha.

Dezoito horas mais tarde, Nicópole sentiu uma dor na barriga. Sentiu náuseas, mas não tinha diarreia, e admitiu que a dor era aceitável, pois já havia tido dores bem piores. Depois, urinou um fluido vermelho com sangue e entrou em pânico.

Chamaram logo os médicos; a vida familiar decorreu com normalidade; Clitumna enviou servos à procura de Sila, que saíra de manhã cedo sem avisar aonde iria.

Quando o ritmo cardíaco de Nicópole aumentou e a tensão arterial baixou, o semblante dos físicos tornou-se sério. Ela teve uma convulsão, a sua respiração tornou-se lenta e superficial, o coração começou a fibrilar, e entrou em coma profundo. Ninguém se lembrou de pensar nos cogumelos.

- Deficiência renal - disse Atenodoro da Sicília, que era agora o físico mais bem sucedido do Palatino.

Todos os outros concordaram.

E aproximadamente na altura em que Sila regressava a casa, apressado, Nicópole morria duma hemorragia interna: segundo os médicos, fora vítima de colapso sistémico total.

- Devíamos fazer uma autópsia - disse Atenodoro.

- Estou de acordo - disse Sila, que não falou dos cogumelos.

- É contagioso? - perguntou Clitumna pateticamente, parecendo velha e doente e desesperadamente só.

Todos disseram que não.

A autópsia confirmou o diagnóstico de deficiência renal e hepática: os rins e o fígado estavam inchados, congestionados e cheios de hemorragias. A membrana que envolvia o coração de Nicópole sangrara, tal como o interior do estômago, o intestino delgado e o cólon. O cogumelo de aspecto inocente chamado O Destruidor executara bem a sua tarefa subtil.

Foi Sila que preparou o funeral de Nicópole (Clitumna estava demasiado prostrada para isso) e dirigiu o cortejo fúnebre, à frente das estrelas dos teatros de comédia e pantomina romana; a sua presença garantia uma boa comparência, o que teria agradado a Nicópole.

E quando, a seguir, Sila voltou para casa de Clitumna, encontrou Caio Júlio César à espera dele. Despindo a sua toga escura do cortejo fúnebre, Sila juntou-se a Clitumna e à sua visita na salinha dela. Em poucas ocasiões vira Caio Júlio César, e não conhecia o senador; Sila achou muito estranho que um senador visitasse Clitumna devido à morte súbita de uma prostituta grega, pelo que foi prudente e meticulosamente educado na altura das apresentações.

- Caio Júlio - disse, fazendo uma vénia.

- Lúcio Cornélio - disse César, também fazendo uma vénia.

Não deram um aperto de mãos, mas quando Sila se sentou, César voltou ao seu lugar com ar aparentemente tranquilo. Virou-se para a chorosa Clitumna e falou com meiguice.

- Minha cara, para quê ficar? - perguntou. - Márcia está à tua espera ali ao lado. Pede ao teu mordomo que te leve lá. As mulheres necessitam doutras mulheres em alturas de mágoa.

Sem uma palavra, Clitumna levantou-se e cambaleou até à porta, enquanto o visitante foi buscar a sua toga escura, donde tirou um pequeno rolo de papel, que colocou sobre a mesa.

- Lúcio Cornélio, a tua amiga Nicópole pediu-me para fazer o seu testamento e deixá-lo ao cuidado das Vestais há muito tempo. A senhora Clitumna está a par do seu conteúdo, razão pela qual não precisou de ficar a ouvir-me lê-lo.

- Sim? - perguntou Sila, destroçado. Não sabia o que mais dizer, e por isso ficou sentado, olhando para César com um olhar vazio.

César foi até ao cerne da questão.

- Lúcio Cornélio, a senhora Nicópole nomeou-te seu herdeiro único. A expressão de Sila permaneceu vazia.

- Nomeou?

- Nomeou.

- Penso que se tivesse pensado nisso, saberia que iria fazê-lo - disse Sila, recuperando. - Não é que me importe muito. Tudo o que ela tinha, gastava-o.

César olhou para ele intensamente.

- Não gastou tudo. A senhora Nicópole era muito rica.

- Absurdo!

- É verdade, Lúcio Cornélio, era muito rica. Não possuía bens, mas era viúva de um tribuno militar que enriqueceu à custa de muitas pilhagens. O que ele lhe deixou, foi investido. Nesta manhã, as suas posses ascendem a duzentos mil denários.

Não era possível confundir a autenticidade do choque de Sila. O que quer que César pensasse dele até esse momento, sabia que estava agora a olhar um homem que não possuía qualquer dado sobre esta informação; Sila ficOU estupefacto.

Depois, encostou-se na cadeira, pôs as mãos trementes à frente do rosto e disse com dificuldade.

- Tudo isso! Nicópole?

- Tudo isto. Duzentos mil denários. Ou oitocentos mil sestércios, se preferires. Uma quantia de cavaleiro.

Sila baixou as mãos.

- Oh, Nicópole! - disse.

César levantou-se, estendendo-lhe a mão. Sila apertou-a, desorientado.

- Não, Lúcio Cornélio, não te levantes - disse César amavelmente.

- Meu caro, não posso dizer-te como me alegro por ti. Sei que é difícil afastar a mágoa neste estágio, mas gostava que soubesses que muitas vezes desejei de todo o coração que um dia melhorasses a tua fortuna... e a tua sorte. Amanhã, reconhecerei oficialmente o testamento. Será melhor ires ter comigo ao Fórum à segunda hora. Perto do santuário de Vesta. Por agora, desejo-te um bom dia.

Depois de César ter saído, Sila ficou sentado, imóvel, durante muito tempo. A casa estava tão silenciosa como a urna de Nicópole; Clitumna ficara provavelmente na casa ao lado, com Márcia, e os servos arrastavam-se pela casa.

Talvez tivessem passado seis horas antes que ele se levantasse por fim, emperrado e dorido, e se espreguiçasse um pouco. O sangue começou a correr, enchendo o seu coração de fogo.

- Lúcio Cornélio, estás finalmente no teu caminho - disse ele, e comeÇou a rir.

Embora tivesse começado muito baixo, o seu riso ia avolumando e transformou-se num grito, num rugido, numa risada hilariante; os servos, escutando aterrorizados, discutiam entre si qual deles se aventuraria a entrar na salinha de Clitumna. Mas antes que tivessem chegado a uma decisão, Sila parou de rir.

Clitunna envelheceu quase de um dia para o outro. Apesar de os seus anos mal perfazerem a soma de cinquenta, a morte do sobrinho apressara o seu processo de envelhecimento e agora a morte da mais querida amiga - e amante - compusera a devastação. Nem Sila tinha o poder de tirá-la da depressão. Não havia pantomina ou farsa que a fizesse sair de casa, nem as visitas habituais como Cílax ou Mársia provocavam sequer um sorriso. O que a surpreendia era a diminuição do mundo dos seus íntimos, tal como a progressão da sua senilidade; se Sila a abandonasse

- pois o que herdara de Nicópole o libertara da dependência económica em relação a ela - ficaria completamente só. Uma perspectiva que temia acima de qualquer outra coisa.

Pouco depois da morte de Nicópole, mandou chamar Caio Júlio César,

- Não podemos deixar nada aos mortos - disse ela -, por isso, tenho de alterar o meu testamento.

O testamento foi alterado e deixado no novo ao cuidado das Vestais. No entanto, andava entristecida. As lágrimas caíam-lhe em cascata, as suas mãos, outrora laboriosas, pousavam no colo como duas folhas de massa crua, à espera que o cozinheiro lhes pusesse o recheio. Todos andavam preocupados; todos sabiam que não havia nada a fazer excepto esperar que o tempo fornecesse a cura. Se houvesse tempo.

Para Sila, o tempo chegara.

A última missiva de Julilla dizia:

Amo-te, apesar de os meses e, neste momento, os anos me terem mostrado como épouco correspondido o meu amor, como te interessa pouco o meu destino. Em Julho último fiz dezoito anos, por direito devia estar casada, mas consegui adiar esse mal necessário através da doença. Tenho de casar contigo e com ninguém mais senão contigo, meu querido Lúcio Cornélio. E o meu pai hesita, incapaz de me apresentar como noiva adequada ou mesmo desejável, e manter-me-ei assim até tu vires ter comigo e me dizeres que casas comigo. Uma vez disseste que eu era um bebé, que ultrapassaria o meu amor imaturo por ti, mas certamente ao fim de tanto tempo - passaram quase dois anos - provei o meu valor, provei que o meu amor por ti é tão constante como o regresso do sol vindo do Sul todas as Primaveras. Desapareceu a tua esguia senhora grega que eu tanto odiava, e amaldiçoava e desejava ver morta, morta, morta. Vês como soupoderosa, Lúcio Cornélio? Então, porque não compreendes que não me podes fugir? Nenhum coração pode conter tanto amor como o meu sem gerar reciprocidade, Tu amas-me, eu sei que me amas. Vem ver-me, ajoelha ao lado do meu leito de dor e mágoa, deixa-me encostar a tua cabeça ao meu peito e dá-me o teu beijo. não me condenes à morte! Escolhe deixar-me viver. Escolhe casar comigo.

Sim, para Sila, o tempo chegara. Era tempo de pôr fim a muitas coisas. Tempo de se libertar de Clitumna e julilla, e de todas as outras odiosas ligações humanas que limitavam o seu espírito e lançavam névoas tão sombrias nos cantos da sua mente. Até Metróbio tinha de ser afastado.

Por isso, em meados de Outubro, Sila foi bater à porta de Caio Júlio César a uma hora em que podia esperar confiantemente que o dono estivesse em casa. E esperar confiantemente que as mulheres da casa estivessem recolhidas nos seus aposentos; Caio Júlio César não era o gênero de marido ou pai capaz de permitir que as suas mulheres se misturassem com os seus clientes ou amigos do sexo masculino. Apesar de uma das razões para ir bater à porta de Caio Júlio César fosse ver-se livre de julilla, não tinha qualquer vontade de vê-la; todo o seu ser, toda a parte pensante, todas as suas fontes de energia tinham de concentrar-se em Caio Júlio César e no que tinha a dizer a Caio Júlio César. O que tinha a dizer tinha de ser dito sem levantar qualquer suspeita ou quebra de confiança.

Já se havia encontrado com César para reconhecer oficialmente o testamento de Nicópole e recebera a sua herança tão facilmente, sem qualquer censura, o que o tornava agora duplamente cauteloso. Mesmo quando se apresentara aos censores, Escauro e Druso, tudo correra tão suavemente como uma produção teatral bem orquestrada, pois César insistira em ir com ele, e servira de garante da autenticidade de todos os documentos que apresentara ao escrutínio censorial. No fim de tudo aquilo, nada mais nada menos que Marco Lívio Druso e Marco Emílio Escauro haviam-se levantado para lhe apertar a mão e haviam-no felicitado com sinceridade. Era como um sonho - mas era possível que nunca mais tivesse de acordar?

Deste modo, sem a menor necessidade de forçar nada, entrara imperceptivelmente numa relação com Caio Júlio César que amadurecia num tipo de tolerância amigável mas distante. A casa de César, nunca tinha ido; a relação prosseguira no Fórum. Ambos os filhos de César estavam em África com o seu cunhado, Caio Mário, mas Sila conhecera um pouco Márcia durante as semanas após a morte de Nicópole, pois ela tomara a seu cargo visitar Clitumna. E não fora difícil de entender que Márcia o olhava de viés; Clitumna, suspeitou, não era tão discreta como devia quanto à relação esquisita entre Sila, ela mesma e Nicópole. Contudo, sabia muito bem que Márcia o achava perigosamente atraente, embora os modos dela lhe dessem a entender que classificara a sua atracção algures entre a beleza de uma cobra e de um escorpião.

Eram estes os motivos de ansiedade de Sila ao bater à porta de Caio Júlio César em meados de Outubro, consciente de que não se atrevia a adiar mais a fase seguinte dos seus planos. Tinha de agir antes que Clitumna começasse a animar-se. E isso significava que tinha de ter confiança em Caio Júlio César.

O rapaz de serviço à porta abriu-a de imediato, e não hesitou em dizer-lhe que entrasse, o que indicava que Sila fora incluído na lista dos que César estava pronto para ver a qualquer hora.

- Caio Júlio recebe? - perguntou.

- Sim, Lúcio Cornélio. Peço-te que esperes - disse o rapaz, e apressou-se na direcção do gabinete de César.

Preparado para esperar um pouco, Sila deambulou pelo átrium modesto, reparando que este compartimento, tão simples e sem adornos, fazia o átrium de Clitumna parecer a antecâmara do harém de um potentado oriental. E enquanto meditava na natureza do átrium de César, Julilla apareceu.

Durante quanto tempo teria tentado convencer os servos que pudessem ficar à porta para a avisarem quando Lúcio Cornélio aparecesse? E quanto tempo demoraria o servo a ir chamar César, a quem devia ter avisado primeiro?

Essas duas perguntas surgiram na mente de Sila mais depressa do que o tempo que o raio leva a extinguir-se, mais depressa do que a resposta do corpo dele ao choque de vê-la.

Os seus joelhos enfraqueceram; teve de se apoiar ao primeiro objecto que viu, que por acaso era um jarro de água em prata e ouro, pousado numa consola. Como o jarro não estava bem apoiado na mesa, o impulso dele deslocou-o, e o jarro caiu no chão com um ruído vibrante e estridente, enquanto Julilla saía do compartimento a correr, de mãos no rosto.

O barulho ecoou como o interior da gruta da Sibila de Cumas, e lançou todos em alvoroço. Consciente de que tinha perdido qualquer vestígio de cor que ainda lhe restava, Sila deixou as pernas vergarem-se completamente e a toga escorregar até ao chão e ficou aí sentado com a cabeça entre os joelhos e os olhos quase fechados, tentando apagar a imagem do esqueleto envolto na pele dourada de Julilla.

Quando César e Márcia o puseram de pé e o ajudaram a entrar no gabinete, ele tinha razões para estar agradecido pelo tom cinzento da sua pele, pelo azul desmaiado dos lábios; pois dava mesmo a imagem de UM homem verdadeiramente doente.

Um golo de vinho puro fê-lo retomar uma aparência de normalidade, e foi capaz de sentar-se no leito com um suspiro, limpando o sobrolho com a mão. Algum deles teria visto? E onde se metera julilla? O que poderia dizer? o que poderia fazer?

César tinha um ar muito triste, tal como Márcia.

- Lamento, Caio Júlio - disse ele, voltando a sorver o vinho. - Um desmaio... não sei o que me aconteceu.

- Está à vontade, Lúcio Cornélio - disse César. - Eu sei o que te aconteceu. Viste um fantasma,

Não, este não era um homem que se pudesse enganar, ou pelo menos de um modo banal. Era demasiado inteligente, demasiado perspicaz.

- Era a mais nova? - perguntou ele.

- Sim - disse César, e fez à mulher um sinal para que saísse, e esta saíu logo, sem qualquer olhar ou murmúrio.

- Eu costumava vê-la há alguns anos, perto do Porticus Margaritaria na companhia das amigas - disse Sila -, e achava que ela era... tudo o que uma rapariga romana deve ser: sempre alegre, nunca era rude... não sei. E uma vez no Palacium... eu estava mal... tinha uma dor na alma, não sei se entendes.

- Sim, penso que entendo - disse César.

- Pensou que eu estava doente, e perguntou se podia ajudar-me. Não fui muito agradável para ela: tudo o que pensava era que não gostarias que ela se relacionasse com alguém como eu. Mas não havia maneira de se afastar, e eu não conseguia ter a dureza suficiente. Sabes o que fez ela? - Os olhos de Sila estavam ainda mais estranhos do que de costume, pois tinha as pupilas dilatadas e enormes, e à volta delas havia dois anéis de um branco-acinzentado pálido com dois anéis pretos-acinzentados em volta; olhavam para César um pouco às cegas, e não pareciam humanos.

- O que fez? - perguntou César gentilmente.

- Fez-me uma coroa de ervas! Fez-me uma coroa de ervas e pô-la na minha cabeça. A mim! E eu vislumbrei... vislumbrei... qualquer coisa! Fez-se um silêncio. Como nenhum dos dois homens sabia como rompê-lo, prolongou-se durante muito tempo, durante o qual cada um reunia os seus pensamentos e divagava, pensando se o outro seria um aliado ou um adversário. Nenhum deles queria forçar o assunto.

- Bem - disse César, com um suspiro -, por que vieste ver-me, Lúcio Cornélio?

Era a sua forma de dizer que aceitava a inocência de Sila, independentemente do modo como interpretasse o comportamento da filha. E era a sua maneira de dizer que não queria ouvir falar mais sobre a filha; Sila, que pensara falar das cartas de julilla, decidiu não o fazer.

A primeira razão para visitar César parecia agora muito distante, e irreal. Mas Sila endireitou os ombros e levantou-se do leito e sentou-se na cadeira, mais viril, onde se sentavam os clientes de César, e assumiu o ar de cliente.

- É Clitumna - disse. - Queria falar contigo acerca dela. Ou talvez deva falar com a tua mulher acerca de Clitumna. Mas a pessoa certa para abordar és certamente tu. Ela não é a mesma pessoa. Deves aperceber-te disso. Deprimida, chorosa, desinteressada. O seu comportamento não me parece de modo nenhum normal. Ou mesmo normal nesta fase do desgosto. Acontece que não sei o que fazer - encheu o peito de ar. - Tenho um dever para com ela, Caio Júlio. Sim, é uma pobre mulher ordinária e não é propriamente um ornamento para a vizinhança, mas tenho um dever para com ela. Foi boa para o meu pai, e tem sido boa para mim, E não sei o que fazer para ajudá-la, não sei mesmo.

César recostou-se na cadeira, achando que havia alguma coisa que destoava neste pedido. Não era que duvidasse o mínimo da história de Sila, pois vira Clitumna com os seus próprios olhos, e ouvira Márcia - falar bastante sobre o assunto. Não, o que perturbava César era que Sila tivesse vindo pedir conselhos; era uma atitude que não tinha a ver com Sila, pensou César, que duvidava da incerteza que Sila dizia sentir quanto ao que faria à madrasta, de quem as más línguas diziam ser também sua amante. Acerca disso, César não estava preparado para se arriscar a adivinhar; se o facto de ele ter vindo procurar auxílio fornecesse alguma indicação disso, seria provavelmente uma mentira torpe, os mexericos típicos do Palatino. Tal como o boato de que a madrasta de Sila tinha um envolvimento sexual com a mulher que morrera, Nicópole. Tal como o boato de que Sila tinha um envolvimento sexual com ambas e ao mesmo tempo! Márcia dissera que achava algo de suspeito na situação, mas, quando pressionada, não pudera fornecer provas concretas. César não se inclinava a acreditar nesses boatos por simples ingenuidade; isso devia-se antes a uma exigência pessoal que não só ditava o seu comportamento como se reflectia nas suas crenças em relação ao comportamento dos outros. Uma coisa era ter provas seguras, e outra, bastante diferente, era o que constava. Apesar disso, houve qualquer coisa que não lhe pareceu verdadeira nesta vinda de Sila, em busca de conselhos.

Foi nesta altura que ocorreu a César uma resposta. Nem por um momento pensou que houvesse algo estabelecido entre Sila e a sua filha mais nova - mas um homem como Sila desmaiar ao ver uma rapariga de ar esfomeado era incrível! Depois surgiu aquela história estranha dajulilla lhe ter oferecido uma coroa de ervas. César conhecia bem o que isso significava. Talvez se tivessem encontrado apenas algumas vezes, e quase sempre de passagem mas, decidiu César, existia alguma coisa entre eles. Nada de mal nem de mau gosto, nem sequer de astucioso. Mas alguma coisa sim. Alguma coisa que merecia ser observada com muita atenção. Naturalmente não podia aceitar qualquer relacionamento entre eles. E se tinham afinidades, isso seria muito mau. julilla devia casar com um homem que pudesse manter-se de cabeça erguida nos círculos a que pertenciam os Césares.

Enquanto César se reclinava na cadeira e meditava nestes assuntos, Sila encostou-se na sua e pensou no que estaria a passar pela mente de César. Por causa de julilla, a entrevista não decorrera de acordo com os planos, nem de longe. Como pôde ter tido tão pouco controlo? Desmaiar! Ele, Lúcio Cornélio Sila! Depois de se ter traído tão obviamente, não lhe restara senão explicar-se a este pai atento, e isso implicara contar parte da verdade; se isso ajudasse Julilla, tê-la-ia contado toda, mas não achava que César gostasse de ler aquelas cartas. Tornei-me vulnerável para Caio Júlio César, pensou Sila, e essa sensação desagradou-lhe muito.

- Tens em mente algum plano para Clitumna? - perguntou César. Sila franziu as sobrancelhas.

- Bem, ela tem uma villa em Circeios, e penso se não seria boa ideia convencê-la a ficar lá por algum tempo - disse.

- Por que motivo mo perguntas?

As sobrancelhas ficaram mais franzidas; Sila viu um abismo abrir-se a seus pés, e conseguiu saltá-lo.

- Tens razão, Caio Júlio. Por que motivo to pergunto? A verdade é que estou entre Cila e Caríbdis, e esperava que me estendesses um remo e me salvasses.

- De que modo posso salvar-te? O que queres dizer com isso?

- Penso que Clitumna tem instintos suicidas - respondeu Sila.

- Oh!

- O problema é: como posso contrariá-lo? Sou um homem, e com Nicópole morta, não há literalmente mulher nenhuma da casa de Clitumna ou da sua família, ou mesmo entre as suas servas, em posição de suficiente confiança e afecto para auxiliar Clitumna. - Sila inclinou-se para a frente, animado com o assunto. - Roma agora não é lugar para ela, Caio Júlio! Mas como posso enviá-la para Circeios sem uma mulher em quem confie? Não sei se serei eu que ela queira ver neste momento, e além disso, eu... eu... eu tenho que fazer em Roma! O que tinha pensado era se a tua mulher estaria disposta a ir com Clitumna para Circeios durante umas semanas. Estes instintos suicidas não durarão muito, estou certo, mas de momento estou muito preocupado. A villa é muito confortável, e embora esteja a arrefecer, Circeios faz bem à saúde em qualquer altura do ano. Pode fazer bem à tua mulher respirar um pouco o ar do mar.

César ficou visivelmente tranquilizado, como se lhe tivessem tirado das suas costas dobradas um peso enorme.

- Compreendo, Lúcio Cornélio, compreendo. É melhor do que julgas. A minha mulher tornou-se de facto a pessoa de quem depende mais Clitumna. Infelizmente, não posso dispensá-la. Viste Julilla, pelo que não precisas de explicações sobre a gravidade da situação. A minha mulher é necessária em casa. Nem ela consentiria em ir, por mais que goste de Clitumna.

Sila tinha um ar impaciente.

- Julilla não podia ir para Circeios com elas? A mudança pode operar maravilhas!

Mas César abanou a cabeça.

- Não, Lúcio Cornélio, lamento, mas está fora de questão. Eu próprio terei de ficar em Roma até à Primavera. Só poderia aprovar que a minha mulher e a minha filha se ausentassem de Roma se pudesse estar com elas, não por ser egoísta ao ponto de lhes recusar um prazer, mas porque me preocuparia com elas o tempo todo que estivessem fora. Se Julilla estivesse bem, era diferente. Por isso, não.

- Compreendo, Caio Júlio, e partilho os teus sentimentos - Sila levantou-se para partir.

- Manda Clitumna para Circeios, Lúcio Cornélio. Ela ficará bem.

César acompanhou o seu convidado à Porta, e abriu-a ele mesmo.

- Obrigado por teres suportado as minhas tolices - disse Sila.

- Não foi fardo nenhum. Com efeito, alegra-me muito que tenhas vindo. Penso que agora poderei lidar melhor com a minha filha. E confesso que gosto mais de ti devido aos acontecimentos desta manhã, Lúcio Cornélio. Mantém-me informado acerca de Clitumna - e, sorrindo, César estendeu-lhe a mão.

Mas mal fechou a porta atrás de Sila, César foi procurar Julilla. Estava na salinha da mãe, chorando, desolada, de cabeça afundada nos braços contra a mesa de trabalho, Com um dedo nos lábios, Márcia levantou-se mal César apareceu à porta; saíram juntos e deixaram-na a chorar.

- Caio Júlio, isto é terrível - disse Márcia, de lábios apertados.

- Eles têm-se visto.

Um rubor ardente surgiu de baixo da pele castanho-pálida de Márcia; abanou a cabeça com tanta violência, que os ganchos que lhe prendiam os cabelos num rolo se soltaram, e o rolo pendeu, meio desenrolado na nuca.

- Não, não se têm visto! - juntou as mãos, torceu-as. - Que vergonha! Que humilhação!

César apoderou-se das mãos que se contorciam e apertou-as suave mas firmemente.

- Acalma-te, mulher, acalma-te! As coisas não devem ser assim tão más para adoeceres. Agora conta-me.

- Que desilusão! Que inconveniência!

- Acalma-te. Começa desde o início.

- Não tem nada a ver com ele, foi tudo obra dela! A nossa filha, Caio Júlio, passou os últimos dois anos envergonhando-se a si e à família, atirando-se a um homem que não só não servia para lhe limpar os sapatos como também não a quer! E mais, Caio Júlio, mais do que isso! Tem tentado atrair a sua atenção não comendo para Sila se sentir culpado por algo que não fez nada para merecer! Cartas, Caio Júlio! A serva entregou-lhe centenas de cartas, acusando-o de indiferença e negligência, culpando-o pela sua doença, implorando o amor dele como uma cadela a rastejar! Dos olhos de Márcia saltavam lágrimas, mas eram lágrimas de desilusão, de fúria terrível.

- Acalma-te - repetiu César. - Vem, Márcia, podes chorar mais logo. Tenho que falar com Julilla, e tu tens de assistir.

Márcia acalmou-se, secou os olhos; voltaram juntos para a salinha. Julilla ainda estava a chorar, não reparara que estava sozinha. Suspirando, César sentou-se na sua cadeira preferida, procurando no sinus da toga até encontrar o lenço.

- Toma, Julilla, assoa o nariz e pára de chorar, sê boa rapariga - disse, pondo o lenço no braço da filha. - Acabaram-se as lágrimas. Chegou a altura de falarmos.

A maior razão para as lágrimas de Julilla residia no terror de ter sido descoberta, e por isso o tom reconfortantemente firme e imparcial da voz do pai permitiram-lhe que fizesse o que ele mandara. As lágrimas pararam; sentou-se de cabeça erguida, com o corpo frágil sacudido por soluços convulsivos.

- Tens deixado de comer por causa de Lúcio Cornélio Sila? - perguntou o pai.

Ela não respondeu.

-Julilla, não podes evitar a pergunta, e não terás perdão por te teres mantido em silêncio. Lúcio Cornélio é a causa de tudo isto?

- Sim - murmurou a rapariga.

A voz de César continuou forte, firme, imparcial, mas as suas palavras queimavam ainda mais Julilla devido ao tom; assim falava ele a um escravo que tivesse cometido qualquer erro imperdoável, nunca com a filha. Até agora.

- Começarás a entender a dor, a preocupação, a fadiga que causaste a toda a família durante mais de um ano? Desde que começaste a definhar, tornaste-te o ponto à volta do qual todos temos girado. Não apenas eu, a tua mãe, os teus irmãos e a tua irmã, mas também os nossos servos leais e admiráveis, os nossos amigos, os nossos vizinhos. Levaste-nos ao auge da loucura. E para quê? Podes explicar-me para quê?

- Não - sussurrou ela.

- Absurdo! É claro que podes! Tens brincado um jogo connosco, Julilla. Um jogo cruel e egoísta, orientado com paciência e inteligência dignas de propósitos mais nobres. Tu apaixonaste-te - aos dezasseis anos de idade! - por um sujeito que sabias ser inadequado, que nunca teria a minha aprovação. Um sujeito que entendeu a sua inadequação e não te encorajou de modo nenhum. Por isso começaste a agir fraudulentamente, com astúcia, com um objectivo tão manipulatório e explorador ...! Faltam-me as palavras, Julilla - disse César sem emoção.

A filha estremeceu.

A mulher estremeceu.

- Parece que tenho de refrescar-te a memória, filha. Sabes quem sou eu?

Julilla não respondeu, cabisbaixa.

- Olha para mim!

O rosto dela ergueu-se então, de olhos alagados fixos em César, aterrorizados e ferozes.

- Não, vejo que não sabes quem sou eu - disse César, ainda em tom de conversa. - Por isso, vejo-me obrigado a dizer-te. Sou o paterfamilias, o chefe absoluto desta casa. A minha palavra faz a lei. Os meus actos não podem ser postos em causa. O que quer que eu faça ou diga dentro dos limites desta casa, posso fazê-lo e dizê-lo. Nenhuma lei do Senado e Povo de Roma se ergue entre mim e a minha autoridade absoluta sobre a minha casa, a minha família. Roma estruturou as suas leis de modo a garantir que a família romana se encontre acima da lei de todos excepto do pater familias. Se a minha mulher cometer adultério, Julilla, posso matá-la, ou mandar matá-la. Se o meu filho for culpado de torpeza moral, ou cobardia, ou qualquer outro tipo de imbecilidade social, posso matá-lo, ou mandar matá-lo. Se a minha filha não for casta, Julilla, posso matá-la, ou mandar matá-la. Se qualquer membro da minha casa, desde a minha mulher, passando pelos meus filhos e filhas até à minha mãe, aos meus servos, transgredir os limites do que eu considero uma conduta decente, posso matá-lo, ou mandar matá-lo. Entendes, Julilla?

Os olhos da filha não se haviam desviado do rosto dele.

- Sim - disse a rapariga.

- Custa-me tanto, como me envergonha informar-te que transgrediste os limites do que eu considero uma conduta decente, filha. Tornaste a tua família e os servos desta casa, e acima de tudo, tornaste o seu pater familias, tuas vítimas. Bonecos. Teus joguetes. E para quê? Para o teu próprio gozo, para tua satisfação pessoal, pelo mais abominável dos motivos: apenas por ti própria.

- Mas eu amo-o, tata! - gritou ela. César levantou-se, ultrajado.

- Amor? O que sabes tu dessa emoção incomparável, Julilla? Como podes manchar a palavra ”amor” com qualquer imitação grosseira que tenhas experimentado? É amor transformar a vida do amado num tormento? É amor obrigar o amado a um compromisso que ele não quer, que não pediu? Será isto amor, Julilla?

- Penso que não - murmurou ela, e acrescentou -, mas pensei que era.

Os olhos dos pais encontraram-se acima da cabeça dela; em ambos transpareceu uma dor arrevesada e amarga ao compreenderem as limitações de Julilla, as suas próprias ilusões.

- Acredita, Julilla, o que quer que tenhas sentido e te fez comportar de maneira tão desprezível e desonrosa não era amor. - disse César, e levantou-se. - Não haverá mais leite de vaca, nem mais ovos, nem mais mel. Comerás o mesmo que o resto da família. Ou então, não comerás.

É um assunto que não me diz respeito. Como teu pai e como paterfamilias, tratei-te desde o nascimento com honra, com respeito, com carinho, com consideração, com tolerância. Tu não me tiveste suficientemente em boa conta para me retribuires. Não te rejeito. E não te vou matar, nem mandar matar-te Mas a partir de agora, o que quer que faças é inteiramente da tua conta. Ofendeste-me a mim e aos meus, julilla. Talvez ainda mais imperdoavelmente, ofendeste um homem que não te deve nada, pois não te conhece e não tem qualquer relação contigo. Mais tarde, quando estiveres menos aterradora de ver, exigirei que peças desculpa a Lúcio Cornélio Sila Não exijo uma desculpa tua por qualquer de nós, pois perdeste o nosso amor e respeito, e isso faz com que as desculpas percam o valor.

E abandonou a salinha

O rosto de Julilla contorceu-se; virou-se instintivamente para a mãe e tentou acolher-se nos braços desta. Mas Márcia afastou-se, como se as roupas da filha estivessem envenenadas.

- Nojenta! - disse a mãe, em tom estridente. - Tudo isto por causa de um homem que nem merecia lamber o chão que os Césares pisam!

- Oh, Mamã!

- Não me venhas com isso Querias ser adulta, Julilla, querias ser bastante mulher para casares Agora, aprende a viver com isso - e Márcia também abandonou a salinha.

Escreveu Caio Júlio César dias mais tarde ao seu genro, Caio Mário:

E assim, o infeliz assunto está finalmente a acabar, Quem me dera poder dizer quejulilla aprendeu a lição, mas duvido muito, Dentro de alguns anos, Caio Mário, também tu enfrentarás os tormentos e dilemas da paternidade, e quem me dera poder dar-te o conforto de dizer que aprenderás com os meus erros. Mas não aprenderás. Pois tal como cada criança que nasce neste mundo é diferente e tem de ser tratada de modo diferente, também cada pai o é. Onde teremos errado com Julilla? Honestamente, não o sei, Nem sei se errámos. Talvez afalha seja inata, intrínseca, Estou amargamente magoado, bem como a pobre Márcia, que disso deu mais mostras pela sua subsequente rejeição de todas as aproximações amistosas e arrependidas dejulilla. A criança sofre terrivelmente, mas questionei-me sobre se deveríamos manter as distâncias de momento, e decidi que devemos fazê-lo. Amor, sempre lhe demos, mas uma oportunidade de se disciplinar, ainda não a teve. Para que tudo isto tenha algum proveito para ela, terá de sofrer.

O sentido dajustiça obriga-me a procurar o meu vizinho Lúcio Cornélio Sila e fazer-lhe um pedido de desculpas colectivo, que terá de servir até ao aspecto de Julilla melhorar e poder pedir-lhe desculpa em pessoa. Embora ele não quisesse entregá-las, insisti para que devolvesse todas as cartas dejulilla - por uma vez rara ser pater familias valeu de alguma coisa. Mandei Julilla queimá-las, mas só depois de ter lido todas aquelas parvoíces a mim e à sua mãe. Que terrível ter de ser tão duro para alguém da mesma carne e do mesmo sangue! Mas receio que apenas a mais humilhante das lições entrará no pequeno coração egoísta de Julilla.

Bem. Chega dejulilla e das suas histórias. Coisas muito mais importantes se estão a passar. Eu poderei vir a ser o único a enviar esta notícia para a Província Africana, pois prometeram-mefirmemente que esta irá num barco rápido que deixará Putéolos amanhã. Marco Júnio Silano foi chocantemente derrotado pelos Germanos. Mais de trinta mil homens estão mortos, e o mesmo está tão desmoralizado e mal comandado que destroçou em todas as direcções. Não é que Silano pareça importar-se, ou será mais correcto dizer que parece valorizar mais a sua própria sobrevivência do que a das suas tropas. Foi ele mesmo que trouxe a notícia para Roma, mas numa versão tão atenuada que conseguiu adiantar-se à indignação pública, e quando a verdade foi conhecida, retirara à calamidade a maior parte do seu peso chocante. É evidente que a intenção dele é livrar-se de ser acusado de traição, e penso que será bem sucedido. Se fosse a Comissão Mamiliana a julgá-lo, era possível que fosse condenado. Mas um julgamento na Assembleia Centurial, com todas aquelas regras e regulamentos antiquados e tantos jurados? Não compensa o esforço de começar os procedimentos, é assim que sente a maioria de nós.

E, ouço-te perguntar, o que aconteceu aos Germanos? Continuam a precipitar-se para a costa do mar Central? Os habitantes de Massília estão a empacotar as suas coisas em pânico? Não. Pois acreditas que tendo aniquilado o exército de Silano, de imediato viraram costas e se dirigiram para norte? Como se pode lidar com um inimigo tão enigmático, tão completamente imprevisível? Digo-te, Caio Mário, nós trememos dos pés à cabeça. Porque eles voltarão. Mais tarde, segundo parece, e não em breve, hão-de voltar. E não temos comandantes para lhes fazerem frente que sejam melhores do que Marco Júnio Silano. Como é habitual nos dias que correm, as legiões de Aliados Italianos constituíram a maioria das baixas, embora também tenham tombado muitos soldados romanos. E o Senado tem agora de lidar com uma corrente de queixas, desde os Marsos aos Samnitas, e uma quantidade de outros Povos italianos.

Mas para terminar num tom mais leve, estamos de momento a ter uma batalha hilariante com o nosso estimado censor Marco Emílio Escauro. O outro sensor, Marco Lívio Druso, morreu subitamente há três semanas, o que originou o fim abrupto do lustrum dos censores. Evidentemente, Escauro é forçado a retirar-se. Mas recusa-se! E é aí que reside a hilariedade, Mal terminou o funeral de Druso, o Senado convocou e ordenou a Escauro que abandonasse os seus deveres censoriais, para que o lustrum fosse oficialmente concluído na cerimónia habitual. Escauro recusou.

- ”Eu fui eleito censor, estou a meio dos contratos para os meus programas de construção, e não posso de modo nenhum abandonar o meu trabalho neste ponto”, disse ele.

”Marco Emílio, Marco Emílio, não te cabe decidir!”, disse Metelo Dalmático Pontifex Maximus. ”A lei diz que quando um censor morre em funções, o lustrum termina, e o outro censor tem de demitir-se de imediato.”

- ”Não me interessa o que diz a lei!”, retorquiu Escauro.

- ”Não posso demitir-me agora, e não o farei.”

Pediram e suplicaram, gritaram e discutiram, tudo em vão. Escauro estava decidido a criar um precedente, desprezando as convenções e permanecendo censor. Por isso, voltaram a pedir e suplicar, gritar e discutir. Até que Escauro perdeu a paciência e as maneiras.

- ”Estou-me nas tintas para vocês todos!”, gritou, e foi direito aos seus contratos e mapas.

Então, Dalmático Pontífice Máximo convocou outra reunião do Senado, e obrigou-a a promulgar um consultum formal exigindo a demissão imediata de Escauro. Partiu uma delegação para o Campo de Marte, e conferenciou com ele, sentado no pódio do templo de júpiter Stator, edifício que escolhera para o seu gabinete, por ser mesmo ao lado do Porticus Metelii, onde a maioria dos empreiteiros da construÇão têm a sua sede.

Como sabes não sou um dos homens de Escauro. Ele é tão astuto como Ulisses, e é um mentiroso tão grande como Paris. Mas, oh, gostava que o tivesses visto transformá-los em picado! Como um exemplar humano tão feio, magro e baixo como o Escauro consegue fazer isso, é coisa que não entendo - nem tem um único cabelo na cabeça! Márcia diz que são os seus belos olhos verdes e a sua ainda mais bela voz e o magnífico sentido de humor. Bem, admito o sentido de humor, mas o charme dos seus aparelhos ocular e vocal escapam-me.

Márcia diz que sou um homem típico, embora não saiba o que quer dizer ela com isso. As mulheres têm a tendência para procurar refúgio em comentários deste género quando apanhadas pela lógica, segundo descobri. Mas deve haver também uma lógica obscura no seu êxito, e quem sabe? Talvez Márcia tenha razão.

E lá estava ele sentado, o pequeno poseur, rodeado de toda a magnificência do primeiro templo de mármore de Roma, e as gloriosas estátuas dos generais de Alexandre, O Grande, todos montados a cavalo, que Metelo Macedónico pilhou de Péla, a antiga capital de Alexandre. Dominando tudo. Como é isto possível, um baixote romano sem cabelos ultrapassando os cavalos magníficos em dimensões naturais de Lisipo? Juro que sempre que vejo os generais de Alexandre, espero vê-los descer dos seus plintos e ir-se embora nos cavalos, tão diversos como Ptolomeu Parmenião.

Mas estou a divagar. Voltemos ao assunto, então. Quando Escauro viu a delegação, pôs de lado contratos e empreiteiros e sentou-se muito direito na sua cadeira curul, de toga perfeitamente drapeada, com um pé esticado na pose clássica.

- ”Então?” Perguntou, dirigindo a pergunta a Dalmático Pontifex Maximus, que fora escolhido para porta-voz.

”Marco Emílio, o Senado promulgou um consultum exigindo que te demitas imediatamente”, disse esse infeliz.

- ”Não o farei”, disse Escauro.

- ”Tens de demitir-te!”, baliu Dalmático.

- ”Não tenho defazer nada!”, disse Escauro, e virou-lhes as costas, dizendo aos empreiteiros que se aproximassem de novo. ”O que estava eu a dizer antes de ter sido interrompido tão grosseiramente?”, perguntou.

Dalmático, voltou a tentar. ”Marco Emílio, peço-te!”

Mas tudo o que recebeu pelas suas preocupações pontificais foi um ”Estou-me ralando para ti!”

Após o Senado ter disparado a sua flecha, o problema foi transferido para a Assembleia da Plebe, tornando assim a Plebe responsável por uma questão que não fora criada por ela, considerando que é a Assembleia Centurial, um organismo muito mais exclusivo do que a Assembleia da Plebe, que elege os censores. No entanto, a Plebe reuniu para discutir a situação de Escauro, e concedeu ao seu Colégio de Tribunos uma última tarefa do seu ano em funções, Receberam ordens para tirar Marco Emílio Escauro das suas funções de censor, fosse de que modo fosse.

Por isso, ontem, no nono dia de Dezembro, dez tribunos da Plebe dirigiram-se para o templo dejúpiter Stator, com Caio Limetano à frente.

- ”Tenho ordens do Povo de Roma, Marco Emílio Escauro, para te depor das tuasfunções como censor”, disse Mamílio.

- ”Como não foi o Povo de Roma que me elegeu, o Povo não pode depor-me”, disse Escauro, com o seu scone careca brilhando ao sol como uma maçã de Inverno polida.

”Não obstante, Marco Emílio, o Povo é soberano, e o Povo diz que deves sair”, disse Mamílio.

- ”Não sairei!”, disse Escauro,

”Nesse caso, Marco Emílio, tenho autorização do Povo para te prender e manter-te na prisão até te demitires formalmente”, disse Mamílio.

- ”Toca-me com um dedo que seja, Caio Mamílio, e voltarás a ter a voz de soprano da tua juventude!”, disse Escauro.

Pelo que Mamílio se voltou para a multidão que se juntara para ver o espectáculo e gritou: ”Povo de Roma, chamo-vos a testemunhar que interponho aqui o meu veto contra quaisquer actividades censoriais futuras de Marco Emílio Escauro!”, declarou.

E evidentemente, isso concluiu a questão. Escauro enrolou os contratos e entregou tudo aos seus funcionários, mandou o escravo dobrar a cadeira de marfim, e ficou afazer vénias em todas as direcções para a multidão que aplaudia, pois o que esta prefere acima de tudo é uma boa confrontação entre os seus magistrados, e adorava Escauro de todo o coração por ter a coragem que os Romanos admiram nos seus magistrados. De seguida, desceu a passos largos as escadas do templo, deu uma palmada no cavalo de Perdicas ao passar, e abandonou o campo, levando os louros.

César suspirou, encostou-se na cadeira e achou que era melhor comentar as notícias que Mário - de modo nenhum um correspondente tão palavroso como o seu sogro - lhe enviara da província romana em África, onde Metelo, segundo parecia, conseguira afundar a guerra contrajugurta num lamaçal de acções inconsistentes e mau comando. Ou pelo menos, era essa a versão de Mário, embora não coincidisse com os relatos que Metelo estava sempre a enviar para o Senado.

Ouvirás dizer em breve - se é que ainda não tomaste conhecimento disso que o Senado prorrogou o comando de Quinto Cecílio da Província Africana e da guerra contrajugurta. Estou certo de que não ficarás surpreendido. É que espero que, tendo saltado esta grande barreira, Quinto Cecílio Metelo aumente a actividade militar, pois uma vez que o Senado prorrogue o comando de um governador, ele pode estar certo de deter esse comando até considerar terminado o perigo para a sua província. É uma táctica perspicaz permanecer inerte até ao termo do ano consular e o imperium proconsular ser outorgado.

Mas sim, concordo que o teu general foi chocantemente dilatório em não começar sequer a campanha senão quase no fim do Verão, especialmente tendo em conta que chegou no início da Primavera. Mas os seus despachos dizem que o exército precisava de muito treino, e o Senado acredita nele. E também me escapa o motivo porque te terá escolhido a ti, homem de infantaria, para chefiar a sua arma de cavalaria, tal como =parece um desperdício dos talentos de Públio Rutílio usá-lo como praefectusfabrum, quando serviria melhor em campo e não a andar a tratar de colunas de abastecimento e reparações da artilharia. Contudo, éprerrogativa de um general usar os seus homens como melhor lhe aprouver, desde os delegados séniores até aos recrutas auxiliares.

Roma inteira ficou deliciada com a notícia da captura de Vaga, embora deva sublinhar que a tua carta dizia que a cidade se tinha rendido. E - se me permites que advogue a favor de Quinto Cecílio - não consigo ver por que motivo te indignas tanto com a escolha de Turpílio, amigo de Quinto Cecílio, para comandante da guarnição de Vaga. Será importante?

Impressionou-me muito mais a tua versão da batalha no rio Mútul do que a versão contida no despacho senatorial de Quinto Cecílio, o que devia consolar-te da minha pontinha de cepticismo, e assegurar-te de que permaneço do teu lado. E estou certo de que tens razão ao dizer a Quinto Cecílio que a melhor forma de ganhar a guerra contra a Numídia é capturar o próprio Jugurta, pois, tal como tu, acredito que é ele a origem de toda a resistência na Numídia.

Lamento que esteprimeiro ano tenha sido tão frustrante para ti, e que Quinto Cecílio tenha aparentemente decidido que pode vencer sem usar quer o teu talento, quer o de Públio Rutílio. Ser-te-á muito mais difícil ser eleito cônsul no ano depois do próximo se não tiveres uma oportunidade de brilhar nas próximas campanhas da Numídia, Mas, Caio Mário, não espero que aceites tal tratamento, e estou certo de que encontrarás forma de brilhar, apesar de tudo o que Quinto Cecílio possa fazer de mau.

Terminarei com um assunto do Fórum. Devido à perda do exército de Sílano na Gália Transalpina, o Senado eliminou uma das últimas leis de Caio Graco que ainda subsistiam, nomeadamente a que limita o número de vezes que um homem se pode alistar. Já não têm de ser dezassete, nem os dez anos de tropa o excluem do serviço militar, nem mesmo seis campanhas. É um sinal dos tempos. Tanto Roma como a Itália estão rapidamente a ficar desprovidas de homens para as legiões.

Trata bem de ti, e escreve logo que as minhas fracas tentativas de defender Quinto Cecílio se tenham apagado o suficiente para te permitir pensar em mim com afecto. Permaneço o teu sogro, e continuo a ter muito boa opinião de ti,

E esta, Pensou Caio Júlio César, era uma carta que merecia bem ser enviada, cheia de notícias e bons conselhos e consolo. Caio Mário recebê-la-ia antes de expirar o ano velho.

Afinal, foi apenas em finais de Dezembro que Sila acompanhou Clitumna até Circeios, cheio de solicitude e meiguice. Embora tivesse receado que os seus planos falhassem, pois com o tempo a disposição de Clitumna poderia melhorar, a mudança extraordinária da sua sorte continuou a favorecê-lo, pois Clitumna continuava profundamente deprimida, como Márcia com certeza não deixaria de comunicar a César.

Tal como as outras villas da Campânia, a de Clitumna não era muito grande, mas mesmo assim era bastante maior do que a casa do Palatino; os romanos que faziam férias e podiam pagar o luxo de possuir villas de campo gostavam de se sentir rodeados de espaço. Situada no alto do promontório vulcânico e com praia privativa, a villa ficava a alguma distância de Circeios, e não havia vizinhos por perto. Um dos muitos construtores especuladores que frequentavam a costa da Campânia havia-a construído durante o Inverno de três anos antes, e Clitumna comprara-a mal descobrira que o construtor tinha talento para canalizações e instalara um chuveiro e uma banheira.

Por isso, a primeira coisa que Clitumna fez ao chegar foi tomar um duche, jantando a seguir. Depois, ela e Sila deitaram-se em quartos separados, e sozinhos. Ele apenas ficou em Circeios durante dois dias, dedícando todo o seu tempo a Clitumna, que continuava desconsolada, embora não quisesse que Sila partisse.

- Tenho uma surpresa para ti - disse ele, enquanto caminhava com Clitumna pelos terrenos que rodeavam a vila, de manhã cedo, no dia em que regressou a Roma.

Mesmo isso mal provocou uma resposta.

- Sim? - respondeu a mulher.

- Na primeira noite de lua cheia terás a tua surpresa - disse Sila, em tom sedutor.

- Noite? - perguntou ela, minimamente interessada.

- Noite, e de lua cheia! Isto é, desde que seja uma noite amena e se veja a lua cheia.

Estavam parados em frente da alta fachada da villa, a qual, como a maioria das villas, fora construída num terreno inclinado, com uma loggia no topo da secção frontal, onde o dono podia sentar-se a ver a vista. Atrás da fachada estreita havia um vasto jardim do peristilo, e atrás do jardim ficava a villa propriamente dita, onde se situavam os quartos. Os estábulos ficavam ao nível do chão, com os alojamentos do pessoal que lá trabalhava mesmo por cima, situando-se a loggia também no andar superior.

O terreno à frente da villa de Clitumna formava um declive e era coberto por ervas e um emaranhado de roseiras que se estendiam até ao topo do penhasco, e fora perfeitamente delineado, com uma fila de árvores de cada lado, o que garantia a privacidade no caso de construirem outra villa no lote de terreno ao lado.

Sila apontou para a grande mata de pinheiros e ciprestes, à esquerda.

- É segredo, Clitumna - disse o homem, no que ela chamava a sua ”voz rosnadora”, que era sempre sinal de uma corte amorosa prolongada e particularmente deliciosa.

- O que é o segredo? - perguntou Clitumna, começando a ficar ansiosa.

- Se te dissesse, deixava de ser segredo - murmurou Sila, mordiscando-lhe a orelha.

Ela contorceu-se e animou-se um pouco.

- O segredo é o mesmo que a surpresa na noite da lua?

- Sim. Mas tens de manter tudo em segredo, incluindo o facto de eu te ter prometido uma surpresa. juras? - juro - disse ela.

- Tudo o que tens de fazer é sair de casa no início da terceira hora de escuridão, oito dias após a noite de ontem. Deves descer completamente sozinha, e esconder-te naquela mata - disse Sila, acariciando-lhe a anca. A apatia dela desaparecera.

- Oh! É uma surpresa agradável? - perguntou, dizendo a última palavra com uma voz aguda.

- Será a surpresa maior de toda a tua vida - respondeu Sila -, e não se trata de uma promessa vã, querida. Mas exijo algumas condições. Ela enrugou o nariz como uma miúda e disse com um sorriso afectado:

- Sim?

- Antes de tudo, ninguém pode saber, nem mesmo a pequena Bithy. Se o confidenciares a alguém, a tua surpresa transformar-se-á em desilusão. E ficarei muito, muito zangado. Não queres que eu fique muito, muito zangado, pois não, Clitumna?

Ela tremeu.

- Não, Lúcio Cornélio.

- Então, guarda bem o segredo. A tua recompensa será surpreendente, uma experiência completamente nova e diferente - sussurrou ele.

- Com efeito, se conseguires manter um ar especialmente abatido a partir de agora, será ainda melhor, garanto-te.

- Portar-me-ei bem, Lúcio Cornélio - disse a mulher com ardor.

Sila conseguia entender o percurso seguido pela mente dela, e sabia que Clitumna se convencera de que a surpresa era uma companheira nova e agradável - feminina, atraente, sexualmente desejável, adequada e uma boa linguareira para passar os longos dias que separariam as adoráveis noites. Mas já conhecia Sila demasiado bem para saber que tinha de seguir as suas condições, senão voltaria a afastar quem quer que fosse para sempre - instalando-a talvez num apartamento, agora que tinha o dinheiro de Nicópole. Além disso, ninguém se opunha a Sila quando ele ficava sério, razão pela qual os servos de casa de Clitumna não diziam palavra sobre o que se passara entre Clitumna, Nicópole e Sila, e se alguma vez haviam dito qualquer coisa, fora com um medo tal que o impacto das suas palavras ficara muito atenuado.

- Há mais uma condição - disse ele. Ela aconchegou-se-lhe.

- Sim, querido Lúcio?

- Se a noite não for boa, a surpresa não pode vir. Por isso, tens de respeitar o tempo. Se a noite estiver húmida, espera pela próxima noite seca.

- Compreendo, Lúcio Cornélio.

Assim, Sila partiu para Roma num carro alugado, deixando Clitumna fielmente abraçada ao seu segredo, e tentando apresentar um quadro de depressão aguda. Mesmo Bithy, com quem Cliturrina se habituara a dormir, acreditava na desolação da sua senhora.

Ao chegar a Roma, Sila mandou chamar o mordomo da casa de Clitumna no Palatino; não fora transferido para Circeios porque a villa tinha o seu próprio mordomo, que tomava conta da casa durante a ausência da dona - e a enganava com astúcia. O mesmo fazia o mordomo da casa do Palatino.

- Quantos servos deixou a senhora aqui, Lamus? - perguntou Sila, sentando-se à mesa de trabalho do gabinete; era evidente que estava a fazer uma lista qualquer, pois tinha-a debaixo da mão.

- Apenas eu, dois rapazes de dentro, duas raparigas, um rapaz encarregado de ir ao mercado e o ajudante de cozinheiro, Lúcio Cornélio disse o mordomo.

- Vou ter de contratar pessoal extra, pois daqui a quatro dias, Lamus, darei uma festa.

Sila estendeu a lista ao mordomo estupefacto, que não sabia se havia de protestar que a senhora Clitumna não lhe falara de nenhuma festa na sua ausência, ou alinhar com a ideia e rezar para que não houvesse distúrbios a seguir, quando viessem as contas. Então, Sila aliviou-o.

- Isto é comigo, por isso sou eu que pago - disse Sila -, e terás um grande bónus, sob duas condições: primeiro, se colaborares em todos os preparativos para a festa, e depois, se não a mencionares à senhora Clitumna quando regressar a casa, seja quando for. Entendeste?

- Completamente, Lúcio Cornélio - disse Lamus, fazendo uma grande vénia; a generosidade era um assunto que todos os escravos que haviam chegado a mordomos percebiam quase tão bem como a manipulação dos livros de contas.

Sila foi logo contratar dançarinas, músicos, acrobatas, cantores, mágicos, bobos, e outros. Porque ia ser uma festa para acabar com as festas, uma que pretendia que se ouvisse por todo o Palatino. A sua última paragem foi no apartamento de Cílax, o actor de comédia.

- Quero pedir Metróbio emprestado - disse, entrando abruptamente no compartimento que Cílax preferira escolher para sala de estar em vez de gabinete. Era o apartamento de um sibarita, com aromas de incenso e madeira de cássia, submerso em tapeçarias, cheio de leitos e pufes estofados com a melhor lã.

Cílax sentou-se indignado, no momento em que Sila se afundava num dos leitos voluptuosamente almofadados.

- Sinceramente, Cílax, és tão suave como creme de leite e ovos, e tão decadente como um potentado sírio! - disse Sila. - Porque não arranjas algum mobiliário vulgar de crina de cavalo? Isto faz um homem sentir-se nos braços duma enorme prostituta! Bah!

- Estou-me nas tintas para o teu gosto - ciciou Cílax.

- Desde que me entregues Metróbio, podes estar-te nas tintas para o que quiseres.

- Por que hei-de fazê-lo, seu... seu selvagem? - Cílax passou as mãos pelos caracóis pintados de louro, cuidadosamente penteados; abriu e fechou as longas pestanas escurecidas com stibium, e revirou os olhos.

- Porque o rapaz não te pertence de corpo e alma - disse Sila, experimentando o pufe com o pé para ver se era menos mole.

- Ele pertence-me de corpo e alma! E nunca mais foi o mesmo, desde que mo roubaste e levaste a passear por toda a Itália, Lúcio Cornélio! Não sei o que lhe fizeste, mas estragaste-mo!

Sila mostrou os dentes.

- Fiz dele um homem, não é verdade? já não gosta de comer a tua trampa, não é? Ah! - e com esta expressão de repugnância, Sila levantou a cabeça e rosnou - Metróbio!

O rapaz entrou a correr pela porta adentro e atirou-se a Sila, cobrindo-lhe o rosto de beijos.

Por cima da nuca negra do rapaz, Sila abriu um olho mortiço a Cílax e agitou as sobrancelhas cor de gengibre.

- Desiste, Cílax, o teu rapaz prefere-me - disse, e demonstrou a verdade da sua afirmação, levantando a aba do rapaz para mostrar a erecção deste. Cílax desatou a chorar, manchando a cara de stibium.

- Vem, Metróbio - disse Sila, levantando-se com esforço. À porta, voltou-se para trás para atirar um papel dobrado ao choroso Cílax. - Há festa em casa de Clitumna dentro de quatro dias - disse-lhe. - Vai ser a melhor de todas, por isso engole o teu mau-humor e aparece. Poderás voltar a ficar com Metróbio, se vieres.

Todos foram convidados, incluindo Hércules Atlas, que era considerado o homem mais forte do mundo, e alugava os seus serviços em feiras e festas e festivais dum lado ao outro de Itália. Nunca sendo visto fora de portas sem estar vestido com uma pele de leão roída pelas traças e transportando um osso enorme, Hércules Atlas era um pouco uma instituição. Não obstante, era raro convidarem-no para festas, onde fazia o seu número de homem-forte, pois quando o vinho lhe escorria pela garganta como a água no Aqueduto Márcio, Hércules Atlas ficava muito agressivo e com mau génio.

- És desequilibrado do miolo, para convidares aquele touro! - disse Metróbio, brincando com os caracóis brilhantes de Sila enquanto se debruçava sobre o ombro dele para espreitar mais uma lista. A verdadeira mudança ocorrida em Metróbio durante a sua estadia com Sila fora a sua instrução; Sila ensinara o rapaz a ler e a escrever. Desejoso de ensinar-lhe todas as artes que conhecia, desde a representação à sodomia, Cílax fora demasiado astuto para lhe proporcionar uma coisa tão emancipadora como a instrução.

- Hércules Atlas é meu amigo - disse Sila, beijando os dedos do rapaz um por um com muito mais prazer do que quando beijara os de Clitumna.

- Mas fica doido quando está bêbedo! - protestou Metróbio. - Vai deitar a casa abaixo, e provavelmente um ou dois convidados! Contrata-O para actuar, mas não o aceites como convidado!

- Não posso fazê-lo - disse Sila, com um ar preocupado. Puxou o rapaz por cima do ombro e sentou-o no colo. E Metróbio pôs-lhe os braços à volta do pescoço e elevou o rosto. Sila beijou-lhe as pestanas muito devagar, com muita doçura.

- Lúcio Cornélio, por que não ficas comigo? - perguntou Metróbio, aconchegando-se ao braço de Sila com um suspiro de prazer.

Os beijos cessaram. Sila franziu as sobrancelhas.

- Estás muito melhor com Cílax - disse subitamente.

Metróbio abriu uns olhos enormes e escuros, totalmente inundados de amor.

- Não estou, a sério, não estou! As prendas e as aulas de representação e o dinheiro não me interessam, Lúcio Cornélio! Gostava muito mais de estar contigo, por mais pobres que fôssemos!

- A tua oferta é tentadora, e ficava contigo num abrir e fechar de olhos - se tencionasse continuar pobre - disse Sila, abraçando o rapaz como se quisesse guardá-lo no seu íntimo. - Mas não tenciono continuar pobre. Tenho o dinheiro de Nicópole e estou a especular com ele. Um dia, terei o bastante para me apresentar à admissão no Senado.

Metróbio endireitou-se.

- O Senado! - virando-se, fixou o rosto de Sila. - Mas tu não podes, Lúcio Cornélio! Os teus antepassados eram escravos como eu!

- Não eram, não - disse Sila, retribuindo o olhar. - Eu sou um Cornélio patrício. O meu lugar é no Senado.

- Não acredito!

- É verdade - disse Sila calmamente. - É por isso que não posso aceitar a tua oferta, por mais sedutora que seja. Quando eu puder candidatar-me ao Senado, terei de me tornar um modelo de decoro: nada de actores nem de mimos... e nada de rapazes bonitos - deu uma palmada nas costas de Metróbio e abraçou-o. - Agora, toma atenção à lista, rapaz, e deixa-te de meneios! Não ajudam nada a minha concentração. Hércules Atlas vem como convidado e vem actuar, e está decidido.

De facto, Hércules Atlas foi dos primeiros convidados a chegar. A notícia da orgia que se aproximava já percorrera a rua de alto a baixo, claro, e os vizinhos haviam-se preparado para aguentar uma noite de gritos, guinchos, música alta e barulhos inímagináveis de coisas a partirem-se. Como de costume, era com mascarados. Sila vestira-se como a ausente Clitumna, com xailes de franjas, anéis e uma peruca cheia de caracóis enrolados como chouriços, e estava sempre a fazer imitações sinistras do seu riso abafado, das risadas, das gargalhadas estrondosas. E como os convidados a conheciam bem, a representação foi muito apreciada, Metróbio voltou a aparecer equipado com asas, mas nesta noite era mais um ícaro do que um Cupido, e derretera inteligentemente as extremidades das asas, pelo que estas pendiam e pareciam meio destruídas. Cílax veio de Minerva, e arranjara-se de forma a fazer a deusa sombria e maria-rapaz parecer uma prostituta velha e demasiado maquilhada. Quando viu Metróbio agarrado a Sila, começou a embebedar-se, e em breve esqueceu a maneira como devia usar o escudo, a roca, o mocho empalhado e a lança, e acabou por tropeçar neles a um canto, onde ficou a chorar até adormecer,

Deste modo, Cílax não pôde ver a sucessão infinita de números, os cantores que começaram com melodias gloriosas e trinados espantosos e acabaram com canções simples como

A minha irmã Rosarinho

Casou com o Gustavo do moinho Que lhe moeu o centeio

Debaixo da torre do meio Disse o pai - Isto acabou.

- Está visto que ele te apanhou. Casas-te já, e mais nada,

Senão dou-te uma paulada!

que eram muito populares entre os convidados, que sabiam a letra e podiam acompanhar.

Havia dançarinas que se despiam com uma arte requintada, exibindo a púbis sem o mais pequeno pêlo, e um homem cujo os cães amestrados dançavam tão bem - se não com igual lubricidade - e um famoso número com animais, de Arinóquia, em que actuavam uma rapariga e um burro

- com muita, muita popularidade entre o público, em que a metade masculina estava demasiado intimidada com os dotes do burro para se ocupar da rapariga, a seguir.

Hércules Atlas desempenhou o seu número em último lugar, mesmo antes de a festa se dividir entre os que estavam demasiado bêbedos para pensarem em sexo, e os que estavam suficientemente bêbedos para não pensarem em mais nada. Os libertinos reuniram-se à volta da colunata do jardim do peristilo, onde Hércules Atlas se colocara sobre um estrado firme. Depois de fazer o aquecimento dobrando algumas barras de ferro e estalar alguns toros grossos como se fossem ramos finos, o homem forte apanhou às dúzias raparigas que gritavam, carregando-as sobre os ombros, em cima da cabeça e debaixo dos braços. A seguir, elevou uma bigorna ou duas com as mãos e começou a suar vigorosamente, mais temível que qualquer leão em qualquer arena. Com efeito, estava a divertir-se imenso, pois o vinho escorria pela sua garganta como a água pelo Aqueduto Márcio, e a sua capacidade para comer e beber era tão fenomenal como a sua força. O problema era que, quanto mais bigornas levantava, mais desconfortáveis ficavam as raparigas, até que os seus gritos de alegria se transformaram em gritos de terror.

Sila correu para o meio do jardim e deu uma pancada delicada no joelho de Hércules Atlas.

- Vá, amigo, larga as raparigas - disse, do modo mais amável. - Estás a esmagá-las com esses bocados de ferro.

Hércules Atlas largou as raparigas imediatamente. Mas em vez delas, pegou em Sila, perdendo o temperamento amigável.

- Não venhas dizer-me como hei-de fazer o meu número! - bramiu, e enrolou Sila à volta da cabeça, como os sacerdotes de ísis levam as suas varas; a peruca, os xailes e vestes de Sila despenharam-se.

Alguns dos convivas entraram em pânico; outros decidiram ajudar, arriscando-se a aproximar-se e suplicando ao homem forte enlouquecido que pusesse Sila no chão. Mas Hércules Atlas resolveu o dilema de todos, enfiando Sila debaixo do braço com tanta naturalidade como um comprador o faz a um embrulho, e abandonando as festividades. Não havia forma de impedi-lo. Abrindo caminho por entre os corpos que se lançavam contra ele com violência como mosquitos, empurrou o servo encarregado da porta com um soco na cara que o fez percorrer meio átrium, e desapareceu na rua levando Sila.

No alto das Escadas de Vesta, parou.

- Fui bem? Fiz tudo bem, Lúcio Cornélio? - perguntou, pondo Sila no chão com delicadeza.

- Fizeste tudo na perfeição - disse Sila, cambaleando um pouco, pois estava tonto. - Vem, vou levar-te a casa.

- Não é necessário - disse Hércules Atlas puxando para cima a pele de leão e começando a descer a Escadaria de Vesta. - Moro a um passo daqui, Lúcio Cornélio, e a lua está quase cheia.

- Insisto - disse Sila, alcançando-o.

- Faz o que quiseres - respondeu Hércules Atlas, encolhendo os ombros.

- É menos público pagar-te dentro de casa do que no meio do Fórum - disse Sila pacientemente.

- Oh! Está certo! - Hércules Atlas bateu com a mão na cabeça bem musculada. - já nem me lembrava de que ainda não me tinhas pago. Vem, então.

Vivia em quatro compartimentos no terceiro andar de uma ínsula para lá do Clivus Orbius, no extremo da Subura, mas numa área bastante melhor. Mal entrou, Sila viu logo que os escravos tinham aproveitado para passar a noite fora, esperando sem dúvida que quando o amo chegasse não estivesse em estado de fazer contas de cabeça. Não parecia haver nenhuma mulher na casa, mas Sila resolveu confirmar.

- A mulher não está? - perguntou. Hércules Atlas cuspiu,

- Mulheres! Detesto-as - disse.

Havia um jarro de vinho e algumas taças em cima da mesa a que os dois homens se sentaram. Sila tirou uma bolsa bem recheada de onde a tinha escondido dentro de uma tira de linho à roda da cintura. Enquanto Hércules Atlas enchia duas taças de vinho, Sila desatou as tiras que atavam a bolsa e tirou com destreza um rolo farto de papel do seu interior. Depois, virou o fundo da bolsa ao contrário e fez correr sobre a mesa uma torrente de moedas de prata brilhantes. Com demasiada rapidez: três ou quatro rolaram até à borda e caíram no chão, tilintando.

- Eh! - gritou Hércules Atlas pondo-se de gatas para apanhar o seu pagamento.

Enquanto estava ocupado a rastejar pelo chão, Sila, não se preocupando com o tempo, desenrolou o papel que tirara e deitou o pó branco dentro deste para a taça que estava mais longe; à falta de qualquer utensílio, mexeu o vinho com os dedos até Hércules Atlas se arrastar da posição de gatas para ficar de pé, sentando-se em seguida.

- Saúde - disse Sila, pegando na taça mais próxima e batendo amavelmente com ela na do homem forte.

- Boa saúde, e obrigado por uma noite esplêndida - disse Hércules inclinando a cabeça para trás e elevando a taça, e despejando-a sem fazer uma pausa para respirar. A seguir, voltou a encher a taça e engoliu uma segunda dose, aparentemente ainda com o mesmo ar nos pulmões.

Sila levantou-se, pos a sua taça na mão do homem forte e levou a outra taça, enfiando-a na sua túnica.

- Uma pequena lembrança - disse. - Boa noite - e esgueirou-se lentamente pela porta fora.

A ínsula estava em sossego, com o seu passeio à volta do pátio central bem resguardado para impedir que o lixo fosse despejado no vão. Muito depressa e sem ruído, Sila desceu três lanços de escadas e saiu para a rua estreita sem ninguém o ver. A taça que furtara foi parar dentro dum esgoto; Sila ficou à escuta até a ouvir estilhaçar-se muito abaixo, e depois atirou também o pedaço de papel. No Poço de Juturna, abaixo das Escadas de Vesta, fez uma pausa, mergulhou as mãos e os braços nas suas águas calmas e lavou, lavou e lavou. Isso! Deveria ser mais que suficiente para lavar o pó branco que pudesse ter ficado agarrado à sua pele branca ao abrir o papel e mexer o vinho que Hércules Atlas engolira tão bem.

Mas não voltou para a festa. Afastou-se completamente do Palatino, indo em direcção da Via Nova, através da Porta Capena. Fora da cidade, entrou num dos muitos estábulos da vizinhança que alugavam cavalos ou carros aos residentes em Roma; poucos romanos possuíam mulas, cavalos, meios de transporte. Era mais barato e mais fácil alugá-los.

O estábulo que escolheu era bom e famoso, mas a sua ideia de segurança era muito vaga; o único moço de serviço estava a dormir em cima de um fardo de palha. Sila ajudou-o a entrar num sono mais profundo com um soco na nuca, e demorou-se andando para trás e para a frente, a escolher uma mula de aspecto forte e amigável. Como nunca na vida tinha posto uma sela numa montada, demorou algum tempo a entender precisamente o que devia fazer, mas ouvira dizer que os animais sustinham a respiração enquanto a cilha estava a ser apertada, e por isso esperou pacientemente até verificar que os pulmões da mula estavam normais, montou e bateu levemente com os calcanhares nos flancos do animal.

Embora fosse um principiante a montar, não tinha medo de cavalos nem de mulas, e confiava na sorte para conduzir a montada. Os quatro chifres - um de cada lado da sela - mantinham um homem seguro na garupa do animal, desde que este não fosse dado a dar pinotes, e nesse aspecto as mulas eram mais dóceis do que os cavalos. O único freio que conseguira fazer a mula aceitar fora um bridão liso, mas o seu corcel parecia estar à vontade e a mascar bem nele, e por isso, dirigiu-se à Via Ápia iluminada pela lua com toda a confiança na sua capacidade de fazer uma grande distância antes da manhã. Era cerca de meia-noite.

A cavalgada pareceu-lhe extenuante, pois não estava habituado a montar. Acompanhar a liteira de Clitumna era uma coisa, mas esta apressada viagem era outra muito diferente. Ao fim de algumas milhas, as suas pernas doíam-lhe insuportavelmente de penderem sem apoio, e as nádegas contorciam-se com o esforço de mantê-lo direito na sela, e os testículos sentiam todo e qualquer solavanco Contudo, a mula andava bem, e chegou a Tripontium antes da madrugada.

A partir daí, deixou a Via Ápia e fez corta-mato em direcção a costa, pois havia algumas estradas grosseiras que atravessavam os Paúis Pontinos, e o caminho era muito mais curto - e igualmente muito menos público do que se seguisse a Via Ápia até Tarracina, indo depois para Norte, em direcção a Circeios.

Parou perto de um grupo de árvores num ermo, pois o terreno era seco e firme, e não parecia haver mosquitos. Amarrando a mula a um cabresto que tinha pensado roubar, colocou a sela à sombra de um pinheiro, e dormiu um sono sem sonhos.

Dez curtas horas de luz mais tarde, e após ter bebido e dado de beber à mula num riacho próximo, Sila concluiu a viagem Escondido do olhar de todos os que pudessem vê-lo por uma capa com capuz que levara do estábulo, prosseguiu com bastante mais ligeireza do que antes, apesar da terrível dor na espinha e da dor no traseiro e nos testículos. Até aí, não tinha comido nada, mas não sentia fome, a mula comera uma boa erva, e por isso estava satisfeita e muito repousada. E ao lusco-fusco, chegou ao promontório onde ficava a villa de Clitumna, desmontando com um verdadeiro alívio. Mais uma vez livrou a mula da sela e do freio, mais uma vez a amarrou para ela poder pastar Mas desta vez, deixou-a sozinha a descansar.

Tivera sorte A noite estava perfeita, calma e estrelada, nem uma nuvem se via na fria abóbada anil E quando a segunda hora da noite começou a esgotar-se, a lua nasceu atrás dos montes e pouco a pouco foi enchendo a paisagem com a sua luminosidade estranha, uma luz que concedia aos olhos o poder de ver, mas era em si mesma invisível.

E a sensação da sua própria inviolabilidade aumentou em Sila, afugentou o cansaço e a dor, apressou o fluxo do seu sangue gelado e fez a sua mente, curiosamente calma, entrar numa fase de puro divertimento. Era feliz, era afortunado Tudo corria em beleza, e continuaria a correr em beleza E isso queria dizer que podia passar o tempo numa bruma de bem-estar, podia mesmo divertir-se Quando a hipótese de se ver livre de Nicópole se apresentara tão súbita e inesperadamente, não tinha tido tempo de gozá-la, apenas pudera tomar uma decisão rápida e esperar que as horas passassem. As suas investigações durante as férias com Metróbio haviam-lhe revelado O Destruidor, mas fora Nicópole que escolhera a sua própria morte; ele apenas fora envolvido como catalizador. A sorte é que a arrastara até ali, A sorte dele. Mas esta noite, fora o cérebro que o arrastara até ali; a sorte acompanhá-lo-ia. E quanto ao medo - o que havia a temer?

Clitumna estava lá, à espera à sombra dos pinheiros, ainda sem impaciência, mas preparando-se para ficar impaciente se a surpresa se atrasasse. No entanto, Sila não se revelou imediatamente; antes, inspeccionou toda a área, para ter a certeza de que ela não trouxera ninguém consigo. E de facto viera sozinha. Até os estábulos e quartos desabitados por baixo da loggia estavam vazios de pessoas, interessadas ou desinteressadas.

Ao aproximar-se, fez ruído para a tranquilizar. Assim, quando Clitumna o viu surgir do escuro, estava preparada para que fosse ele, e estendeu os braços.

- Oh! Mesmo como tinhas dito! - murmurou, rindo baixinho no pescoço dele. - A minha surpresa! Onde está a minha surpresa?

- Primeiro um beijo? - perguntou Sila, com os dentes brancos mais claros do que a pele desta vez, tão estranho era o luar, tão mágico era o encantamento que o arrebatava.

Desejosa dele, Clitumna ofereceu-lhe avidamente os lábios. E estava bem levantada, com a boca colada à dele, nos bicos dos pés, quando ele lhe partiu o pescoço. Fora tão fácil. Canja. Era provável que nem tivesse dado por nada, pois ele não detectou sinais disso nos seus olhos bem abertos quando a mão lhe empurrou a cabeça para trás, indo ter com a outra mão que lhe mantinha as costas direitas, num movimento rápido como um golpe. Fácil. Canja. O som chegou, tão cortante, tão nítido! E quando Sila a libertou, esperando que ela tombasse, Clitumna elevou-se ainda mais em bicos de pés e começou a dançar para ele, de mãos na cinta, a cabeça pendendo obscenamente, solavancos e saltos e palpitações que culminaram num rodopiar até cair num emaranhado de cotovelos e joelhos, feia, profundamente deselegante. O cheiro acre e quente da urina expelida veio então ao encontro das narinas dele, e logo a seguir o fedor mais forte da descarga dos intestinos.

Não gritou. Não se afastou. Gozou tudo aquilo com um prazer imenso, e enquanto a mulher dançava para ele, observou fascinado, e quando a viu cair, observou, afastando-se.

- Bem, Clitumna - disse -, não morreste donzela.

Era necessário levantá-la, embora isso significasse ficar sujo de terra, manchado, cheio de nódoas. Não deviam restar marcas na erva fresca coberta de orvalho, indicações de que um corpo tinha sido arrastado razão principal pela qual decidira que teria de ser uma noite sem chuva. Por isso levantou-a, com excrementos e tudo, e levou-a ao colo durante o curto percurso até ao penhasco, com as vestes dela apertadas de forma a manter presos os excrementos, pois não queria que ficasse um rasto de fezes pela erva.

já tinha escolhido o lugar ideal, e dirigiu-se para lá sem hesitar, dado que o marcara com pedras brancas no dia anterior, quando a trouxera. Os seus músculos agruparam-se, contraíram-se; desfez-se dela para sempre, um belo rendilhado de rouparias, atirou-a fora de vez, a prumo como se fosse um pássaro fantasma a cair pelos rochedos abaixo. Ali ficou estendida, uma coisa informe à deriva, que o mar apenas transportaria para longe se houvesse uma tempestade violenta. Porque era vital que estivesse ferida; Sila não queria ganhar um lugar na prisão.

Tal como de madrugada, amarrou a mula perto do riacho, mas antes de levá-la a beber, entrou no riacho completamente vestido com a sua túnica de mulher, e lavou as últimas marcas da madrasta, Clitumna. Após o que havia mais uma coisa a fazer, e que fez ao sair da água. No seu cinto havia um pequeno punhal dentro duma bainha; com a ponta afiada, fez um pequeno corte na pele da têmpora direita, cerca duma polegada abaixo da linha dos cabelos. Começou a sangrar de imediato, como todos os cortes no escalpe, mas era apenas o início. Não podia ficar com um ar composto ou uniforme. Por isso, puxou cada um dos lados da ferida com o dedo médio e o indicador de cada mão até a carne se separar de modo desigual, aumentando consideravelmente a ferida. O fluxo de sangue aumentou dramaticamente, caindo nas vestes que usara na festa, imundas e molhadas, e empapando o tecido de um modo maravilhosamente ensanguentado. Isso! Excelente! Tirou da bolsa do cinto uma almofada de linho branco preparada para o efeito, e apertou-a com força à volta do corte, e a seguir atou-a com uma tira de linho. O sangue escorrera-lhe pelo olho esquerdo; limpou-o com uma mão, pestanejando, e foi buscar a mula.

Cavalgou a noite inteira, escoucinhando a mula com dureza sempre que ela abrandava, pois estava muito cansada. No entanto, sabia que se dirigia para o estábulo, e, como todos os seus iguais, tinha um coração melhor e músculos mais robustos do que um cavalo. Gostava de Sila; era esse o segredo da sua bela resposta. Gostava do conforto do freio numa boca mais habituada à dor das barbelas; gostava do seu silêncio e economia; gostava da sua calma. E por causa dele, trotava, galopava, ia a passo, retomava o trote alongado assim que podia, com vapor a sair-lhe do pêlo desgrenhado em pequenas pistas que se desfaziam atrás deles. Porque não sabia da mulher que ficara lá, de pescoço partido antes da queda, nos rochedos cruéis em frente da sua enorme villa branca. Aceitava Sila tal como o achara, e achara-o extremamente amável.

A uma milha dos estábulos, Sila desmontou e retirou-lhe a tacha, lançando-a para uns arbustos; depois, deu-lhe uma palmada na garupa e mandou-a em direcção aos estábulos, certo de que ela encontraria o caminho. Mas quando o homem começou a arrastar-se para a Porta Capena, a mula seguiu-o, e viu-se forçado a atirar-lhe pedras até que o animal percebesse, abanasse a cauda e partisse.

Abafado na sua capa de mulher, Sila entrou em Roma quando o céu a oriente se enchia de pérolas; em nove horas de setenta e quatro minutos cada uma, fizera o caminho de Circeios até Roma, um feito nada pequeno para uma mula cansada e um homem que apenas aprendera a montar durante o trajecto.

A Escadaria de Caco ia do Circo Máximo até ao Gérmalo do Palatino, e era rodeada pelo terreno mais venerado - o espírito da cidade original de Rómulo vivia algures por ali, e uma pequena gruta insignificante e uma nascente na rocha indicavam o lugar onde a loba amamentara os gêmeos Rómulo e Remo depois de estes terem sido abandonados. Para Sila, pareceu o local ideal para deixar os seus ornamentos, pelo que a capa e a tira foram cuidadosamente enfiadas num tronco de árvore atrás do monumento do génio Loci. A ferida recomeçou logo a sangrar, mas lentamente; e assim, as pessoas da rua de Clitumna que se levantavam cedo, ficaram espantadas ao ver o homem desaparecido aparecer cambaleante com uma túnica de mulher cheia de sangue, imunda e maltratada.

Em casa de Clitumna estava tudo a pé; ninguém se deitara desde que Hércules Atlas partira irritado trinta e duas horas antes. Quando o servo abriu a porta a Sila, de aspecto terrível, acorreu gente de toda a parte a socorrê-lo. Puseram-no na cama, deram-lhe banho, e foi chamado nada mais nada menos que Atenodoro da Sicília para ver a ferida, e o próprio Caio Júlio César veio da casa ao lado perguntar o que tinha acontecido, pois todo o Palatino andara à procura dele.

- Conta-me o que puderes - disse César, sentando-se ao pé da cama. Sila tinha um ar convincente. Havia uma sombra azul de dor e de cansaço nos seus lábios, a pele descolorida estava ainda mais pálida que de costume, e tinha os olhos vidrados de exaustão, cheios de derrames.

- Foi tolice - disse ele, articulando mal as palavras. - Não devia ter tentado interferir com Hércules Atlas. Mas sou forte, e sei tomar conta de mim mesmo. Mas nunca contei que um homem pudesse ser tão forte como ele mostrou que era... Pensei que ia fazer o seu número, nada mais. Estava tremendamente bêbedo, e levou-me com ele! Não pude fazer nada para impedi-lo. A certa altura pôs-me no chão. Tentei fugir, e ele deve ter-me batido, não sei. Mas dei comigo numa álca na Subura. Devo ter ficado para lá estendido pelo menos um dia. Mas sabes como é a Subura

- todos me deixaram como estava. Quando me pude mexer, vim para casa. É tudo, Caio Júlio.

- És um homem com muita sorte - disse César, de lábios apertados.

- Se Hércules Atlas te tivesse levado para o seu apartamento, podias ter partilhado o destino dele.

- O destino dele?

- O teu mordomo foi a minha casa ontem, ao ver que não vinhas, e perguntou-me o que devia fazer. Depois de ouvir a história, levei alguns gladiadores aos alojamentos do homem forte, e encontrei uma carnificina absoluta. Por qualquer razão, Hércules Atlas havia destruído o lugar: estilhaçou toda a mobília, fez grandes buracos nas paredes COM OS punhos, aterrorizou tanto os outros inquilinos que ninguém se aproximou. Estava deitado no meio da sala de estar, morto. Pessoalmente, acredito que se lhe tenha rompido uma artéria no cérebro, e terá enlouquecido com a agonia. Ou então, terá sido envenenado por algum inimigo - uma expressão de desagrado surgiu no rosto de César, mas que foi logo apagada. - Fez uma balbúrdia repelente ao morrer. Penso que os servos foram os primeiros a encontrá-lo, mas haviam partido há muito, quando cheguei. Como não encontrámos dinheiro nenhum no local, presumo que levaram com eles tudo o que puderam, e fugiram. Por exemplo, recebeu algum pagamento pela actuação na tua festa? Se recebeu, não estava no apartamento.

Sila fechou os olhos, sem necessitar de fingir cansaço.

- Tinha-lhe pago com antecedência, Caio Júlio, e por isso não posso dizer-te se teria lá o dinheiro César pôs-se de pé.

- Bem, fiz tudo o que podia. - Olhou com dureza para a figura imóvel na cama, sabendo que o seu olhar seria em vão, pois os olhos de Sila permaneceram fechados. - Lamento-te profundamente, Lúcio Cornélio - disse -, mas as coisas não podem continuar assim. A minha filha ia morrendo de inanição devido a uma ligação emocional imatura em relação a ti, e ainda não recuperou. O que te torna num vizinho importuno para mim, embora tenha de absolver-te por não teres encorajado a minha filha, e deva ser justo e admitir que ela foi bastante insuportável para ti. Tudo me sugere que seria melhor se vivesses noutro lugar. Mandei notícias à tua madrasta em Circeios, informando-a do que se passou na sua ausência. Também a informei de que deixou de ser bem-vinda nesta rua, e ficaria mais confortável nas Carinas ou no Célio. A vizinhança é sossegada. Magoar-me-ia ter de enviar uma queixa, e um processo, ao pretor urbano, para defender o nosso direito ao repouso, à calma e ao bem-estar físico. Mas com ou sem mágoa, estou pronto a pôr em movimento esse processo se for necessário, Lúcio Cornélio. Tal como os outros vizinhos, já tive a minha conta.

Sila não se moveu, não abriu os olhos; enquanto César tentava perceber quanto da sua homilia tinha sido absorvida, os seus ouvidos ouviram ressonar. Virou imediatamente as costas, e saiu.

Mas foi Sila que recebeu em primeiro lugar uma carta de Circeios, e não Caio Júlio César. No dia seguinte, chegou um mensageiro com uma missiva do mordomo de Clitumna, informando que o corpo da senhora Clitumna fora encontrado na base do penhasco que delimitava a sua propriedade. O pescoço partira-se durante a queda, mas não havia circunstâncias suspeitas. Como Sila sabia, escrevia o mordomo, o estado mental da senhora Clitumna era nos últimos tempos de extrema depressão. Sila pôs as pernas para fora da cama e levantou-se.

- Prepara-me um banho e a toga - disse.

A pequena ferida na sobrancelha estava a sarar bastante bem, mas os cantos estavam ainda lívidos e inchados; para além disso, nada fazia suspeitar o seu estado do dia anterior.

- Manda chamar Caio Júlio César - disse a Lamus, o mordomo, depois de se vestir.

Da entrevista que se aproximava, percebeu Sila claramente, dependia todo o seu futuro. Graças aos deuses, Cílax levara Metróbio da festa, embora o rapaz tivesse protestado que queria ver o que tinha acontecido ao seu amado Sila. Isso e a chegada antecipada de César ao local eram as únicas falhas nos planos de Sila. Que fuga! A sua sorte estava mesmo numa fase ascendente! A presença de Metróbio na casa de Clitumna quando César havia sido chamado pelo preocupado Lamus poderia ter feito Sila sofrer as suas consequências para sempre. Não, César nunca maldiria Sila por coisas que ouvisse, mas ver a prova com os seus próprios olhos modificaria completamente as coisas. E Metróbio não se teria acanhado de aparecer. Estou numa situação muito delicada, disse Sila para consigo mesmo, e é tempo de parar. Pensou em Stichus, em Nicópole, em Clitumna, e sorriu. Agora, podia parar.

Recebeu César com todo o aspecto de patrício romano, de um branco imaculado, com a faixa estreita de cavaleiro adornando-lhe o ombro direito da túnica, e a cabeça magnífica com o cabelo cortado e penteado num estilo masculino mas composto.

- Peço desculpa por ter de arrastar-te de novo até aqui, Caio Júlio disse Sila, e entregou a César um pequeno rolo de papel. - Acabou de chegar esta carta de Circeios, e pensei que devias lê-la imediatamente.

Sem qualquer mudança de expressão, César leu o papel muito devagar, mexendo os lábios, mas emitindo apenas um som muito baixo. Estava a avaliar - e Sila sabia-o - cada uma das palavras ao separá-las do fluxo interminável de letras no papel. No final, pousou a carta.

- É a terceira morte - disse César, e pareceu alegrar-se com esse facto.

- A tua família ficou tristemente reduzida, Lúcio Cornélio. Peço-te que aceites as minhas condolências.

- Presumi que havias feito o testamento de Clitumna - disse Sila, mantendo-se muito direito, em pé. - Senão, asseguro-te que não te teria incomodado.

- Sim, fiz-lhe vários testamentos, o último dos quais logo após a morte de Nicópole - o seu belo rosto, os seus olhos azuis francos, tudo em César era cuidadosamente, legalmente prudente. - Gostava que me dissesses, Lúcio Cornélio, exactamente o que sentias pela tua madrasta.

Aí estava ela, a situação mais delicada. Tinha de avançar com tanto cuidado e segurança como um gato no peitoril de uma janela cheio de cacos, a doze andares do chão.

- Lembro-me de te ter dito qualquer coisa antes, Caio Júlio - disse mas fico contente por ter a oportunidade de falar um pouco mais sobre ela. Era uma mulher muito tola e ordinária, mas eu gostava dela.

O pai - o rosto contorceu-se-lhe - era um bêbedo incorrigível. A única vida de que me recordo com ele, e durante alguns anos, também com a minha irmã mais velha, até ela se casar e ir embora, era um pesadelo. Não éramos da pequena aristocracia empobrecida, Caio Júlio. Não vivíamos de modo nenhum de acordo com as nossas origens. Éramos tão pobres que não tínhamos nenhum escravo, nem um. Se não tivesse sido a caridade de um velho professor do mercado, eu, um patrício da gens Cornélia, nem sequer teria aprendido a ler e a escrever. Nunca fiz o meu treino militar básico no Campo de Marte, nem aprendi a montar a cavalo, nem fui pupilo de nenhum defensor nos tribunais. Da carreira militar, da retórica, da vida pública, nada sei. Foi isto o que o meu pai fez por mim. Por isso... eu gostava dela. Casou com o meu pai e levou-nos para sua casa, e quem sabe? Se o meu pai e eu tivéssemos ido viver para a Subura, talvez eu um dia enlouquecesse e o matasse, e ofendesse os deuses para lá de qualquer perdão. Assim, até ele morrer, Clitumna tirou-lhe um peso de cima, e eu fui libertado. Sim, gostava dela.

- Ela também gostava de ti, Lúcio Cornélio - disse César. - O seu testamento é muito simples e claro. Deixa-te tudo o que tinha.

Calma, calma! Nada de alegrias excessivas, mas também nada de grandes tristezas! O homem que tinha à sua frente era muito inteligente e devia conhecer bem os homens.

- Deixou-me o suficiente para entrar no Senado? - perguntou, olhando César nos olhos.

- Mais do que o suficiente. Sila ficou visivelmente abatido.

- Não... posso... acreditar! - gaguejou. - Tens a certeza? Eu sei que ela tinha esta casa e a villa de Circeios, mas não pensei que houvesse muito mais.

- Antes pelo contrário, era uma mulher extremamente rica: dinheiro investido, acções e quotas em todos os tipos de companhias, bem como numa dúzia de naus mercantes. Aconselho-te a despojares-te das naus e das acções nas companhias, e a comprares bens com os fundos que realizares. Irás precisar de ter os teus negócios completamente em ordem, se quiseres satisfazer os censores.

É um sonho! - disse Sila.

Compreendo que o sintas, Lúcio Cornélio. Mas fica descansado, que é um sonho bastante real - César parecia calmo, não sentira repulsa pela reacção de Sila, nem suspeita de uma dor fingida que o senso comum lhe indicaria que um Lúcio Cornélio Sila não poderia sentir por uma Clitumna, por mais bondosa que a mulher tivesse sido para o pai dele.

- Ela podia ter vivido Por anos e anos - disse Sila, em tom meditativo. - Afinal de contas, o meu destino é feliz, Caio Júlio. Nunca pensei poder vir a dizer isto. Vou sentir a falta dela. Mas espero que nos anos vindouros, o mundo diga que a maior contribuição dada por ela foi a sua morte. Porque tenciono vir a ser um ornamento para a minha classe e para o Senado. - Teria soado bem? Teria deixado implícito o que queria?

- Concordo, Lúcio Cornélio, que ela se alegraria ao pensar que usaste produtivamente o seu legado - disse César, entendendo da forma certa o que Sila dissera. - E, segundo creio, acabaram-se as festas loucas? Acabaram-se os amigos duvidosos?

- Quando um homem pode desposar a vida a que o seu nascimento lhe dá direito, não há necessidade de festas loucas ou de amigos duvidosos - Sila suspirou. - Eram um modo de passar o tempo. Penso que isso deve ser para ti inexplicável. Mas a vida que vivi durante mais de trinta anos tem pesado no meu pescoço como uma enorme mó.

- É evidente - disse César.

Um pensamento horrível ocorreu a Sila.

- Mas não há censores! O que poderei fazer?

- Como não há necessidade de eleger outros durante os próximos quatro anos, uma das condições que Marco Escauro colocou na sua demissão voluntária, como tal, foi que os novos censores deviam ser eleitos em Abril próximo. Terás de te moderar até então - disse César com calma. Sila preparou-se, respirou fundo.

- Caio Júlio, tenho mais um pedido a fazer-te - disse.

Os olhos azuis adquiriram uma expressão que Sila foi incapaz de sondar, como se César soubesse o que se aproximava - no entanto, como era isso possível, se a ideia lhe ocorrera nesse preciso instante? A ideia mais brilhante de todas, a mais afortunada. Visto que se César desse o seu consentimento, a apresentação de Sila aos censores teria um peso muito maior do que todo o dinheiro em si, muito mais efeito do que o seu próprio direito adquirido à nascença, desfigurado como estava pelo tipo de vida que havia levado.

- O que me queres pedir, Lúcio Cornélio? - perguntou César.

- Que me aceites como marido da tua filha julilla - respondeu Sila.

- Mesmo depois de te ter importunado tanto?

-Eu... amo-a - disse Sila, e acreditou no que dissera.

- Neste momento, Julilla não se encontra de modo nenhum em estado de pensar em casar - disse César -, mas tomarei nota do teu pedido, Lúcio Cornélio - sorriu. - Talvez vocês se mereçam um ao outro, ao fim de tantas preocupações.

- Ela deu-me uma coroa de ervas - disse Sila. - E sabes, Caio Júlio, que foi desde então que a minha sorte mudou?

- Acredito em ti - disse César, levantando-se para sair. - No entanto, de momento, não diremos nada a ninguém acerca do teu interesse em casar com Julilla. Mais particularmente, peço-te que te mantenhas afastado dela. Sintas o que sentires pela minha filha, ela continua a tentar encontrar saída para a sua situação árdua, e não quero que lhe seja apresentada qualquer solução fácil.

Sila acompanhou César à porta, e acenou de lá, sorrindo de lábios fechados; pois ninguém melhor do que o seu dono conhecia o efeito que teriam aqueles caninos demasiado longos e afiados. Não eram para Caio Júlio César os sorrisos gélidos e desagradáveis. Não, César devia ser acarinhado e cortejado. Desconhecendo a proposta que César fizera um dia a Caio Mário acerca de uma filha sua, Sila chegara à mesma conclusão. Que melhor modo havia de se tornar caro aos censores - e ao eleitorado

- do que tomando uma Júlia por mulher? Especialmente quando havia uma tão acessível que quase morrera por ele.

- Lamus! - gritou Sila quando fechou a porta.

- Lúcio Cornélio?

- Não te incomodes com o jantar. Põe a casa de luto pela senhora Clitumna, e ordena o regresso de todos os servos de Circeios. Vou já tratar do funeral.

E, pensou Sila, arrumando à pressa as suas coisas, levarei comigo Metróbio, e despedir-me-ei. Despedir-me-ei de todos os vestígios da vida anterior, despedir-me-ei de Clitumna. De nada sentirei a falta, exceptuando Metróbio. E vou sentir muito a sua falta.

 

TERCEIRO ANO DURANTE O CONSULADO DE SÉRVIO Sulpício Galba e Quinto Hortêncio Com a chegada das chuvas de Inverno, a guerra contra a Numídia tal como tinha sido até então - chegou a um impasse desanimador, sem que nenhuma das partes pudesse desdobrar as suas tropas em linha. Caio Mário recebeu a carta do sogro, César, pensou no seu conteúdo e interrogou-se se o cônsul Quinto Cecílio Metelo Suíno saberia que viria a ser procônsul quando começasse o Novo Ano, com a prorrogação do seu comando - um triunfo já assegurado para o futuro. Ninguém no quartel-general de útica referiu sequer a derrota de Marco Júnio Silano pelos Germanos, ou a perda de todas as suas tropas.

O que não significava, pensou Mário, ressentido, que esses factos não fossem do conhecimento de Metelo; porém, como de costume, o seu legado sénior Caio Mário seria o último a saber. O infeliz Rutílio Rufo fora incumbido da tarefa de supervisionar as guarnições fronteiriças durante o In-verno, o que o afastava do conhecimento de quaisquer desenvolvimentos súbitos da guerra; e Caio Mário, reconvocado em funções a Útica, viu-se no lugar de subordinado do filho de Metelo Suíno! Esse jovem, apenas com vinte anos de idade e cadete ao serviço pessoal do pai, gozava da tarefa de comandar a guarnição de útica e as suas defesas, de modo que em qualquer assunto relacionado com as disposições militares de útica, Mário tinha de submeter-se ao insuportavelmente arrogante Bacorinho - como em breve passou a ser chamado - não podendo decidir nada sozinho. Exceptuando a fortaleza de útica, os deveres de Mário envolviam desempenhar todas as tarefas desagradáveis que o governador não queria fazer - tarefas mais próprias dos questores do que de um legado sénior.

Consequentemente, os ânimos andavam agitados e o autocontrolo de Mário ia rapidamente diminuindo, especialmente quando Metelo Bacorinho se divertia à custa de Mário, coisa que gostava muito de fazer, agora que o pai mostrara que ficava igualmente divertido. A derrota próxima no rio Mútul levara Rutílio Rufo e Mário a tecerem duras críticas ao general, e levara Mário a dizer-lhe que a melhor forma de ganhar a guerra contra a Numídia seria capturar o próprio Jugurta.

- Como posso fazer tal coisa? - perguntara Metelo, bastante punido no primeiro combate para ouvir.

- Com um subterfúgio - respondera Rutílio Rufo.

- Que tipo de subterfúgio?

- Isso - disse Caio Mário, em conclusão - terás de descobrir por ti mesmo, Quinto Cecílio.

Mas agora que todos estavam de novo a salvo na Província Africana, suportando o tédio dos dias húmidos e das tarefas de rotina, Metelo Suíno guardou para si os seus projectos. Isto é, até entrar em contacto com um nobre númida chamado Nabdalsa e se ver obrigado a convocar Mário à entrevista com esse homem.

- Porquê? - perguntou Mário sem cerimónia. - Não és capaz de fazer sozinho as tuas tarefas sujas, Quinto Cecílio?

- Acredita, Caio Mário, que se Rutílio Rufo estivesse aqui, não usaria os teus préstimos! - disse Metelo com brusquidão. - Mas conheces Jugurta melhor que eu, e presumo que isso significa que estás mais à vontade que eu para saber como funcionam os Númidas! Tudo o que quero é que estejas atento a este Nabdalsa e me digas depois o que pensas dele.

- Surpreende-me que confies em mim a ponto de pensares que te darei uma opinião honesta - replicou Mário.

Metelo ergueu as sobrancelhas, genuinamente estupefacto.

- Mas estás aqui para lutar contra a Numídia, Caio Mário. Por que motivo não me darias uma opinião honesta?

- Então manda entrar o sujeito, Quinto Metelo, e farei o que puder. Mário ouvira falar de Nabdaisa, embora nunca o tivesse conhecido; era um partidário do pretendente legítimo ao trono da Numídia, o príncipe Gauda, que vivia de momento uma vida quase digna de um rei não longe de Útica, na povoação próspera que surgira no lugar da Antiga Cartago. Nabdaisa vinha da parte do príncipe Gauda, na Antiga Cartago, e foi recebido Por Metelo com frieza.

Metelo explicou-se; a forma melhor e mais rápida de resolver a questão da Numídia e colocar o príncipe Gauda no trono era, com efeito, capturar o próprio Jugurta. O príncipe Gauda - ou Nabdalsa - fazia alguma ideia de como se poderia processar a captura de Jugurta?

- Através de Bomílcar, dominus - respondeu-lhe Nabdalsa. Metelo arregalou os olhos.

- Bomílcar? Mas é o meio-irmão de jugurta, o seu barão mais honesto!

- Neste momento, as relações entre eles estão bastante tensas - disse Nabdalsa.

- Porquê? - perguntou Metelo.

- É uma questão de sucessão, dóminus. Bomílcar quer ser designado regente, para o caso de acontecer alguma coisa a jugurta, mas jugurta recusa-se a aceitá-lo.

- Regente e não herdeiro?

- Bomílcar sabe que nunca poderia ser herdeiro, dóminus. jugurta tem dois filhos. No entanto, são ainda muito novos.

Encolhendo os ombros, Metelo tentou penetrar nos pensamentos daquelas mentes estranhas.

- Porque se opõe jugurta? Pensava que Bomílcar representaria a escolha ideal.

- É a linha de parentesco, dóminus - explicou Nabdalsa. - O barão Bomílcar não é descendente do rei Masinissa, pelo que não pertence à casa real.

- Estou a entender - Metelo endireitou-se. - Muito bem, então vê o que podes fazer para convencer Bomílcar de que devia aliar-se a Roma.

- E voltou-se para Mário. - Que surpresa! Pensar-se-ia que um homem sem a nobreza que lhe permitisse ascender ao trono seria o regente ideal.

- Na nossa sociedade, será - disse Mário. - Na de jugurta, é um convite a que os seus filhos o assassinem. De que outro modo poderia Bomílcar ascender ao trono senão matando os herdeiros de jugurta e fundando uma nova dinastia?

Metelo virou-se de novo para Nabdalsa.

- Obrigado, barão Nabdalsa. Podes retirar-te.

Mas Nabdalsa não estava disposto a retirar-se tão depressa.

- Dominus, preciso ainda de um pequeno favor - disse-lhe.

- O que é? - disse Metelo, não muito satisfeito.

- O príncipe Gauda está ansioso por conhecer-te, e ignora por que motivo ainda não lhe foi oferecida essa oportunidade. O teu ano como governador da Província Africana está prestes a chegar ao fim, contudo, o príncipe Gauda espera um convite para te conhecer.

- Se quer conhecer-me, quem o impede? - perguntou o governador de modo terminante.

- Ele não pode apresentar-se assim, Quinto Cecílio - disse Mário. Tens de fazer-lhe um convite formal.

- Oh! Muito bem, se isso basta, far-lhe-ei um convite - disse Metelo, escondendo um sorriso.

E como o convite foi feito para o dia seguinte, de modo que Nabdalsa pudesse levá-lo pessoalmente à Antiga Cartago, o príncipe Gauda fez uma visita ao governador.

Não foi um encontro feliz; era difícil descobrir dois homens tão diferentes como Gauda e Metelo. Fraco e enfermiço e não muito esperto, Gauda comportava-se do modo que achava decente e Metelo considerava atrozmente despótico. Dado que, tendo tido conhecimento de que devia fazer-se um convite formal antes que o convidado real da Antiga Cartago pudesse fazer a visita, Metelo deduziu que o visitante deveria mostrar-se humilde, obsequioso mesmo. Mas bem pelo contrário: Gauda iniciou os debates enfurecendo-se por Metelo não se ter levantado para o cumprimentar, e terminou a audiência pouco depois, retirando-se altivamente da presença do governador.

- Eu pertenço à realeza! - queixou-se depois Gauda a Nabdalsa.

- Toda a gente o sabe, Majestade - reconfortou-o Nabdalsa. - Mas os Romanos são muito estranhos no que respeita à realeza. Consideram-se superiores a ela porque depuseram os seus reis há muitas centenas de anos, e desde então optaram por governar sem os reis.

- Não me interessa que eles adorem merda! - disse Gauda, com os seus sentimentos dilacerados ainda doridos. - Eu sou o filho legítimo do meu pai, ao passo que Jugurta é apenas o seu bastardo! E quando apareço entre esses Romanos, eles deviam fazer-me vénias, deviam dar-me um trono para me sentar, e deviam escolher cem dos seus melhores soldados e pô-los ao meu serviço como guarda-costas!

- É verdade, é verdade! - exclamou Nabdalsa. - Vou falar com Caio Mário. Talvez Caio Mário consiga trazer Quinto Cecílio à razão.

Todos os Númidas haviam ouvido falar de Caio Mário e Públio Rutílio, porque Jugurta espalhara a fama deles quando regressara da Numância e os vira frequentemente, na sua recente visita a Roma.

- Então, vai falar com Caio Mário - disse Gauda, e retirou-se com uma fúria monumental para a Antiga Cartago, para matutar no mal que Metelo lhe fizera em nome de Roma, enquanto Nabdalsa tentava discretamente combinar uma entrevista com Caio Mário.

- Farei o que puder, barão - disse Mário, suspirando.

- Ficar-te-ia agradecido, Caio Mário - disse Nabdalsa com emoção. Mário sorriu.

- O teu senhor real anda a descarregar as suas fúrias em cima de ti? A resposta de Nabdalsa foi um olhar expressivo.

- O problema, amigo, é que Quinto Cecílio Metelo se considera de origens infinitamente melhores do que qualquer príncipe númida. Desconfio muito que alguém, especialmente eu, possa convencê-lo a mudar de tom. Mas tentarei, porque quero que fiques livre para sondar Bomílcar. É muito mais importante do que quaisquer querelas entre governantes e príncipes - prosseguiu Mário.

- A profetisa síria diz que a família de Cecílio Metelo vai a caminho da queda - disse Nabdalsa pensativamente.

- A profetisa síria?

- Uma mulher chamada Marta - disse o númida. - O príncipe Gauda encontrou-a na Antiga Cartago, onde parece que foi abandonada há alguns anos por um capitão da marinha que acreditava que ela tinha conseguido amaldiçoar-lhe o barco. No início, apenas os humildes a consultavam, mas agora a sua fama é muito grande e o príncipe Gauda levou-a para a corte. Profetizou que o príncipe Gauda há-de ser de facto rei da Numídia, depois da queda de Jugurta. Embora essa queda, segundo diz ela, não vá acontecer tão cedo.

- E sobre a família Cecílio Metelo?

- Diz que a família Cecílio Metelo já passou o zénite do seu poder, e diminuirá em número e terá menos saúde, ultrapassada... entre outros, por ti mesmo, dóminus.

- Quero falar com essa profetisa síria - exclamou Mário.

- Pode combinar-se. Mas terás de vir à Antiga Cartago, pois ela não sai da casa do príncipe Gauda - disse Nabdalsa.

Uma audiência com Marta, a profetisa síria, implicava primeiro uma audiência com o príncipe Gauda; resignado, Mário escutou a litania de queixas acerca de Metelo e fez promessas de que não tinha a menor ideia de como poderia cumprir.

- Garanto, Majestade, que quando estiver em posição disso, assegurarei que sejas tratado com todo o respeito e deferência a que o teu nascimento te dá direito - disse ele, fazendo uma vénia maior do que Gauda alguma vez podia desejar.

- Que chegue esse dia! - disse Gauda com ansiedade, mostrando os dentes muito estragados ao sorrir. - Marta diz que em breve serás o Primeiro Homem de Roma. Por esse motivo, Caio Mário, desejo tornar-me um dos teus clientes e farei com que os meus partidários na província da África Romana também se tornem teus clientes. Além de que, quando eu for rei da Numídia, toda a Numídia fará parte da tua clientela.

Mário ouviu-o espantado; ele, um mero pretor, estava a receber uma oferta que até um Cecílio Metelo bem poderia desejar em vão! Oh, tinha mesmo de encontrar-se com essa tal Marta, a profetisa síria!

Pouco depois teve essa hipótese, pois ela pedira para vê-lo, e Gauda ordenara que o conduzissem até aos seus aposentos na enorme villa que lhe servia de palácio temporário. Um olhar rápido bastou para fazer ver a Mário, a quem haviam pedido que esperasse na salinha dela, que a profetisa era tida em grande estima, pois os seus aposentos tinham sido fabulosamente mobilados, as paredes tinham os mais belos murais que ele alguma vez vira e o chão era pavimentado com mosaicos tão bons como os murais.

Quando ela entrou vinha vestida de púrpura, outro sinal de honra que não era habitualmente atribuído àqueles cujo nascimento não era real. E real é que ela não era. Era uma velha senhora pequena e magra a cheirar a urina e cujos cabelos não deviam ser lavados, segundo Mário suspeitou, há muitos anos. Parecia estrangeira, com um enorme nariz afilado predominando numa face com mil rugas, e um par de olhos negros que emanavam uma luz tão viva e orgulhosa e vigilante como os de uma águia. Os seios haviam-lhe tombado como duas meias vazias com pedras no fundo, e pendiam debaixo da fina camisa púrpura de Tiro, única peça que ela usava acima da cintura. Tinha um xaile púrpura de Tiro atado nas ancas, as mãos e os pés estavam quase negros de henna, e, ao andar, tilintava uma miríade de guizos, pulseiras, anéis e berloques, tudo em ouro maciço. Preso por um penre de ouro maciço, um véu de gaze púrpura de Tiro cobria-lhe a parte de trás da nuca e tombava-lhe sobre a espinha como uma bandeira num dia sem vento.

- Senta-te, Caio Mário - disse ela, apontando para uma cadeira um dedo com uma unha comprida que brilhava em todo o seu comprimento, dos muitos anéis que o enfeitavam.

Mário fez o que ela lhe disse, incapaz de tirar os olhos do rosto envelhecido e moreno da mulher.

- O príncipe Gauda contou-me que disseste que serei o Primeiro Homem de Roma - começou, e viu-se forçado a aclarar a garganta. Gostaria de saber mais coisas.

Ela começou a falar num cacarejar típico de velha, mostrando umas gengivas só com um incisivo amarelo no maxilar superior.

- Oh, sim! Tenho a certeza de que o serás - disse ela, e bateu as palmas para chamar um servo. - Traz-nos uma infusão de folhas secas e aqueles bolos pequenos de que eu gosto - ordenou. Depois, disse a Caio Mário:

- Não demora muito. Quando vier, falaremos. Até lá, ficaremos em silêncio.

Não querendo ofendê-la, ficou como lhe fora pedido - em silêncio

- e quando chegou a infusão fumegante, sorveu o chá da chávena que ela lhe deu, com o nariz desconfiado, os instintos cautelosos. Não sabia muito mal, mas como não estava habituado a bebidas quentes, queimou a língua e pôs a chávena de lado. Ela, nítidamente conhecedora, bebeu em minúsculos sorvos, concluindo cada uma com um trago sonoro de prazer.

- É delicioso, embora me pareça que preferias vinho.

- Não. De modo nenhum - murmurou Mário delicadamente.

- Come um bolo - pronunciou a mulher, de boca cheia.

- Agradeço-te, mas não.

- Está bem, está bem, posso fazer uma previsão! - disse ela, e passou a boca por mais um bocado do líquido quente. Fez surgir uma garra imperiosa. - Dá-me a tua mão direita.

Ele deu. Ela pegou-lhe.

- Será grandioso o teu destino, Caio Mário - profetizou, devorando com os olhos as múltiplas rugas na palma da mão dele. - Que mão! Dá forma a tudo a que se dedica. E que linha do coração! Domina o teu coração, domina a tua vida, domina tudo, excepto a marca dos anos, Caio Mário, pois essa ninguém pode entender. Mas resistirás a muito que outros homens não conseguem. Há uma doença terrível... Mas vencê-la-ás na primeira vez, segundo parece, e mesmo na segunda vez... Há inimigos, inimigos sem conta... Mas conseguirás vencê-los... Serás cônsul no ano a seguir ao que agora começa, o que quer dizer, no próximo ano... Sete vezes ao todo serás cônsul, e serás chamado o Terceiro Fundador de Roma, porque irás salvar Roma do maior perigo de todos!

Ele apercebia-se do seu rosto escaldante, tão quente como uma lança posta ao lume. Do zumbido rodopiante dentro da sua cabeça. Do coração batendo como um hortator martelando a um ritmo de bate-estacas. De um véu espesso e vermelho à frente dos olhos. Porque ela estava a dizer a verdade. Ele sabia-o.

- Tens o amor e respeito de uma grande mulher - continuou Marta, tocando-lhe agora as pregas mais pequenas da pele - E o sobrinho dela será o maior Romano de todos os tempos

- Não, eu é que vou ser - disse ele de imediato, com as reacções do corpo voltando à normalidade ao ouvir esta notícia menos agradável

- Não, é o sobrinho dela - disse Marta teimosamente - Um homem

muito mais importante que tu, Caio Mário Tem o mesmo primeiro nome que tu, Caio Mas a sua família é a família dela, e não a tua

O facto estava arquivado, não podia esquecê-lo

- E o meu filho? - perguntou

- O teu filho também será um homem importante Mas não tão importante como o seu pai, nem viverá tantos anos como tu No entanto, ainda estará vivo quando o teu tempo chegar

Ela afastou-lhe a mão e pôs os seus pés descalços e sujos - de dedos tilintando com guizos, tornozelos retinindo de pulseiras - sob a almofada

- Vi tudo o que há para ver, Caio Mário - disse-lhe, depois reclinou-se e fechou os olhos

- Agradeço-te, Marta Profetisa - proferiu Mário, pondo-se de pé e sacando da bolsa - Quanto?

Ela abriu os olhos, maldosamente negros, perversamente vivos

- Para ti não há pagamento É paga suficiente estar na companhia dos que são realmente grandiosos Os pagamentos são para o príncipe Gauda, que nunca será um homem importante, embora venha a ser rei

- voltaram os cacarejos - Mas sabes, Caio Mário, tão bem como eu, que não tens dotes para ver o futuro Tens dotes para ver no coração dos homens, e o príncipe Gauda tem um coração pequeno

- Então, agradeço-te de novo

- Ah, tenho um favor a pedir-te - disse Marta, quando ele se dirigia para a porta

Mário virou-se imediatamente

- Sim

- Quando fores cônsul pela segunda vez, Caio Mário, leva-me para Roma e trata-me com honra. Desejo ver Roma antes de morrer

- Verás Roma - disse ele, e deixou-a

Cônsul sete vezes Primeiro Homem de Roma. O Terceiro Fundador de Roma’ Que maior destino poderia haver? Como poderia outro Romano ultrapassá-lo? Caio Devia referir-se ao filho do seu cunhado mais novo.

Caio Júlio César Júnior. Sim, o seu filho seria sobrinho de Júlia- o único que se chamaria Caio, certamente.

- Só por cima do meu cadáver - disse Caio Mário, e montou a cavalo, regressando a útica.

Tentou obter uma entrevista com Metelo no dia seguinte, e encontrou o cônsul mergulhado numa pilha de documentos e cartas de Roma, pois viera um barco nessa noite, com grande atraso devido ao mar tempestuoso.

- Notícias excelentes, Caio Mário! -disse Metelo, excepcionalmente afável.

- O meu mandato em África foi prorrogado, com imperium proconsular e é provável que haja outra prorrogação, se eu precisar de mais tempo. - Esse pedaço de papel foi abandonado, ele pegou noutro, apenas para os mostrar aos dois, pois obviamente já os lera antes de Mário chegar; ninguém passava a vista por palavras em silêncio com um olhar brilhante de entendimento, pois tinham de ser desenredadas umas das outras e lidas em voz alta para ajudar o processo de desemaranhá-las.

- Agrada-me que o meu exército esteja intacto, pois a falta de tropas em Itália tornou-se aguda, graças a Silano, na Gália. Não sabes, pois não? Sim, o meu colega proconsular foi derrotado pelos germanos. Uma chocante perda de vidas. - Pegou noutro rolo e ergueu-o. - Silano escreve que havia mais de meio milhão de gigantes germanos no campo de batalha. - Fez tombar outro pergaminho, brandiu a Mário aquele que ainda tinha na mão. - Aqui vem o Senado a notificar-me que anulou a lex Sempronia de Caio Graco, que limitava o número de campanhas que um homem deve executar. Bons tempos! Podemos convocar milhares de veteranos se precisarmos - concluiu Metelo em tom de grande satisfação.

- Isso é má legislação - respondeu Caio Mário. - Se um veterano quisesse reformar-se, ao fim de dez anos ou seis campanhas completas devia ser autorizado a fazê-lo sem recear que tornasse a ser convocado. Estamos a destruir os pequenos proprietários, Quinto Cecílio! Como pode um homem deixar a sua quinta durante o que podem ser agora vinte anos ao serviço nas legiões, e esperar vê-la prosperar durante a sua ausência? Como pode gerar filhos que tomem o seu lugar tanto na sua pequena quinta como nas nossas legiões? Passa a ser cada vez mais a sua mulher estéril a ter de tratar da terra, e as mulheres não têm força, previsão nem aptidão para tal. Devíamos procurar os nossos soldados noutro lado... e devíamos protegê-los dos maus generais.

Metelo irritou-se, apertou os lábios.

- Caio Mário, não estás em posição de criticar a sabedoria do organismo governante mais ilustre da nossa sociedade! - retorquiu. - Quem te julgas tu?

- Parece-me que me disseste uma vez quem eu era, Quinto Cecílio, há muitos anos. Se bem me lembro, descreveste-me como um provinciano italiano que não sabe grego. E será mesmo verdade. Mas não me impede de comentar o que me parece que é uma péssima legislação respondeu-lhe Mário, mantendo um tom de voz neutro. - Nós... e por nós refiro-me ao Senado, de cujo corpo ilustre faço tanto parte como tu!... estamos a autorizar uma classe inteira de cidadãos a morrer por não termos a coragem nem a presença de espírito para deter esses ditos generais que andamos a pôr em campo há anos! Não se pode desperdiçar o sangue dos soldados romanos, Quinto Cecílio, temos de mantê-lo vivo e de boa saúde!

Mário levantou-se, inclinou-se sobre a mesa de Metelo e continuou a sua diatribe.

- Quando designámos o nosso exército, era para campanhas dentro de Itália, para que os homens pudessem voltar a casa todos os Invernos, e tratar dos seus campos, gerar os seus filhos, e dirigir as suas mulheres. Mas agora, quando um homem se alista ou é convocado, é embarcado para o ultramar, e em vez de uma campanha que dura apenas um Verão, esta prolonga-se por anos, durante os quais nunca consegue ir a casa, pelo que as suas seis campanhas podem levar doze ou mesmo quinze anos a completar-se, e em qualquer outro lugar que não a sua pátria! A legislação de Caio Graco tentava impedí-lo, e evitava de facto que os pequenos proprietários de Itália se tornassem a presa de criadores de gado especuladores! - respirava com esforço, e deu uma olhadela irónica a Metelo. Ah, mas esqueci-me, não foi, Quinto Cecílio? Tu próprio és um desses criadores de gado especuladores, não és? E como gostarias de ver as pequenas propriedades cair nas tuas mãos por os homens que deviam estar a geri-las morrerem em qualquer campo estrangeiro por mera avidez e descuido aristocráticos!

- Ah! Chegámos ao ponto principal! - gritou Metelo, pondo-se de pé e aproximando a cara da de Mário. - Aí está! Avidez e descuido aristocráticos, hem! É a aristocracia que te está atravessada, não é? Bem, deixa-me dizer-te umas coisas, Caio Mário Novo-Rico! O facto de casares com umajúlia não te transforma em aristocrata!

- Não o quereria - rosnou Mário. - Desprezo-vos a todos... com a única excepção do teu sogro, que por milagre conseguiu permanecer um homem decente, apesar da sua ascendência!

Há muito que as vozes deles se haviam transformado em berros, e fora do compartimento todos os ouvidos se voltavam para eles.

- Força, Caio Mário! - disse um tribuno dos soldados.

- Dá-lhe onde lhe dói, Caio Mário! - exclamou outro.

- Mija nofellator arrogante, Caio Mário! - disse um terceiro, sorrindo. O que tornava evidente que toda a gente gostava muito mais de Caio Mário do que de Quinto Cecílio Metelo, desde os oficiais aos recrutas.

Mas os gritos tinham ido mais longe que o compartimento; quando entrou o filho do cônsul, Quinto Cecílio Metelo Júnior, o pessoal do cônsul tentou parecer o extremo da eficiência e da actividade. Sem lhes dignar olhar sequer para eles, Metelo Bacorinho abriu a porta da sala do pai.

- Pai, as vossas vozes ouvem-se a milhas de distância! - disse o jovem, lançando um olhar de ódio a Mário.

Tinha parecenças físicas com o pai, era de altura e estatura médias, de olhos castanhos, com o aspecto de romano médio, e nada o faria salientar-se no meio de uma multidão.

A interrupção acalmou Metelo, embora contribuisse pouco para atenuar a fúria de Mário. Nenhum dos antagonistas fez qualquer movimento para voltar a sentar-se. O jovem Metelo Bacorinho ficou de lado, alarmado e perturbado, apaixonadamente dedicado ao pai mas fora do seu elemento, especialmente ao pensar nas afrontas que acumulara na cabeça de Caio Mário desde que o pai o nomeara comandante da guarnição de útica. Pois agora, via pela primeira vez um Caio Mário diferente; fisicamente enorme, de uma bravura e coragem e inteligência para além das capacidades de qualquer Cecílio Metelo.

- Não vejo o menor interesse em continuar esta conversa, Caio Mário - disse Metelo, escondendo as tremuras nas mãos apoiando-as na mesa.

- Por que motivo me procuraste?

- Vim dizer-te que tenciono abandonar as minhas funções nesta guerra no final do próximo Verão - disse Mário. - Regresso a Roma para me candidatar a cônsul.

Metelo parecia não acreditar no que ouvira.

- Vais fazer o quê?

- Vou a Roma candidatar-me às eleições consulares.

- Não vais, não - disse Metelo. - Comprometeste-te como meu legado sénior, e com mperium de propretor!, durante o meu mandato como governador da Província Africana. O meu mandato foi agora prorrogado. E o mesmo se passa com o teu.

- Podes desobrigar-me.

- Se quiser desobrigar-te. Mas não quero - replicou Metelo. - Com efeito, se pudesse, Caio Mário, enterrava-te aqui o resto da vida!

- Não me forces a fazer nada que me seja muito desagradável, Quinto Cecílio - disse Mário, em tom bastante amistoso.

- Forçar-te a fazer nada que te seja o quê? Vai-te embora daqui, Caio Mário, vai fazer qualquer coisa de útil. Não me roubes mais tempo! Metelo olhou para o filho e sorriu-lhe conspirativamente.

- Insisto que desejo ser desobrigado das minhas funções nesta guerra, para poder candidatar-me a cônsul em Roma, no próximo Outono. Encorajado pelo ar da indiferença cada vez mais superior e senhoril

do pai, Metelo Bacorinho começou a dar risadas abafadas, que ajudavam a animar o espírito do pai.

- Deixa que te diga, Caio Mário - disse a sorrir. - Tens agora cinquenta anos de idade. O meu filho tem vinte. Posso sugerir que te candidates a cônsul no mesmo ano que ele? Nessa altura, já terás conseguido aprender o suficiente para poderes sentar-te na cadeira dos cônsules! Embora tenha a certeza de que o meu filho teria o maior prazer em dar-te alguns conselhos. O jovem Metelo desatou às gargalhadas.

Mário olhou para eles por debaixo das sobrancelhas hirsutas, com o seu rosto de águia muito mais orgulhoso e altivo do que os dos antagonistas. - Serei cônsul. Fica descansado, Quinto Cecílio, que serei cônsul: não uma, mas sete vezes.

E abandonou a sala, deixando os dois Metelos de olhos esbugalhados a fitá-lo, numa mistura de espanto e medo. Pensando por que motivo não conseguiam achar nada de divertido naquela afirmação taxativa.

No dia seguinte, Mário voltou à Antiga Cartago e pediu que fosse recebido pelo príncipe Gauda.

Ao ser admitido à presença do príncipe, com um joelho em terra, comprimiu os lábios contra a mão mole e pegajosa de Gauda.

- Levanta-te, Caio Mário! - exclamou Gauda deliciado, encantado com a visão deste homem de magnífico aspecto prestando-lhe homenagem com um respeito e admiração tão genuínos.

Mário começou a levantar-se, mas caiu com ambos os joelhos no chão, de mãos estendidas.

- Alteza Real disse, não sou digno de me apresentar na tua presença, porque venho aqui na condição do mais humilde dos suplicantes.

- Levanta-te, levanta-te! protestou Gauda, ainda mais deliciado.

- Não ouvirei nada do que me queres pedir se estiveres de joelhos! Aqui, vem sentar-te ao meu lado e diz-me o que pretendes.

A cadeira que Gauda indicou ficava realmente ao lado dele, mas um degrau abaixo do trono principesco. Fazendo grandes vénias até à cadeira, Mário sentou-se na ponta, como se se sentisse desconfortável pela irradiação do único ser confortavelmente sentado, o próprio Gauda.

- Quando te inscreveste como meu cliente, príncipe Gauda, aceitei essa honra espantosa, pois achei que poderia promover a tua causa em Roma. Porque tencionava candidatar-me a cônsul no Outono. Mário deteve-se e deu um suspiro profundo. Mas isso não acontecerá! Quinto Cecílio Metelo fica na Província Africana, porque o seu mandato como governador foi prorrogado, o que indica que eu, como seu legado, não posso abandonar as minhas funções sem a sua autorização. Quando lhe disse que queria candidatar-me a cônsul, recusou-se a deixar-me partir de África um dia que fosse antes dele.

O descendente da casa real da Numídia ficou rígido com a fúria fácil de um inválido mimado; bem se lembrava da recusa de Metelo em levantar-se para o receber, em fazer-lhe uma vénia, em conceder-lhe um trono na presença do governador, em recusar-lhe uma escolta romana.

Mas isto ultrapassa tudo o que possa ser razoável, Caio Mário! exclamou. Como poderemos obrigá-lo a mudar de ideias?

- Majestade, apelo para a tua inteligência, para a tua compreensão da situação: estou cheio de temor! gritou Caio Mário. E exactamente isso que temos de fazer, obrigá-lo a mudar de ideias fez uma pausa. Sei qual vai ser a tua sugestão, mas talvez seja melhor que venha dos meus lábios do que dos teus, visto que é um assunto sórdido. Peço-te pois que me autorizes a expô-lo!

Expõe-no disse Gauda pomposamente.

- Alteza Real, Roma e o Senado, e mesmo o Povo, através das suas duas assembleias, têm de ser inundados de cartas! Cartas escritas por ti... e por todos os cidadãos, bucólicos, cultivadores de cereais, mercadores e intermediários de toda a província da África Romana. Cartas informando Roma da incompetência crassa revelada pela conduta de Quinto Cecílio Metelo na guerra contra a Numídia, cartas explicando que os poucos êxitos que tivemos se devem todos a mim, e de modo algum a Quinto Cecílio Metelo. ”Milhares” de cartas, meu príncipe! E não escritas apenas uma vez, mas vezes sem conta, até Quinto Cecílio ceder, e me autorizar a partir para Roma, para me candidatar às eleições consulares.

Gauda relinchou ditosamente.

- Não é simplesmente espantoso, Caio Mário, como as nossas mentes estão concertadas? As cartas eram exactamente o que eu ia sugerir!

- Bem, como eu disse, já o sabia - disse Mário, com ar humilde, Mas é possível, Majestade?

- Possível? Claro que é possível! - respondeu Gauda. - Só requer tempo e influência e dinheiro... E penso, Caio Mário, que entre nós dois podemos reunir muito mais tempo, influência e dinheiro do que Quinto Cecílio Metelo, não achas?

- Espero bem que sim - disse Mário.

É evidente que Mário não deixou as coisas assim. Encontrou-se pessoalmente com todos os homens romanos, latinos e italianos importantes de um extremo ao outro de África, apresentando como desculpa para as viagens tão longínquas e constantes as suas obrigações em relação a Metelo. Levava consigo um mandado secreto do príncipe Gauda, prometendo todo o tipo de concessões na Numídia, quando fosse rei. E pedindo a todos que se inscrevessem como clientes de Caio Mário. A chuva e a lama e as enchentes dos rios não podiam deter Caio Mário; prosseguiu o seu caminho alistando clientes e recolhendo promessas de cartas, cartas e mais cartas. Milhares e milhares de cartas. Cartas suficientes para afundar o barco de Quinto Cecílio Metelo no mar da extinção política.

Em Fevereiro, começaram a chegar as cartas da província da África Romana dirigidas a qualquer homem ou organismo importante, e continuaram a chegar em todos os barcos que se seguiram. Dizia uma das primeiras, de Marco Célio Rufo, cidadão romano proprietário de centenas de lugera de terra no vale do rio Bágrada, e produtor de 240 braçadas de trigo para o mercado romano:

Quinto Cecílio fez pouquíssimo em África, que não fosse zelar pelos seus Própros interesses, É minha opinião que a intenção que tem deprolongar esta guerra se destina a aumentar a sua glória pessoal e a alimentar o seu desejo de Poder, No último Outono, divulgou que era a sua estratégia para enfraquecer a posiÇão do rei Jugurta queimar as colheitas númidas e assaltar as cidades da Numídia, especialmente aquelas onde existiam tesouros. Em consequência disso, as minhas terras e as terras de muitos outros cidadãos romanos nesta província foram postas em perigo, porque há grupos de assalto númidas que estão agora a exercer actos de retaliação na província romana. Todo o vale do Bágrada, tão vital para o abastecimento de Roma, vive todos os dias no meio do maior temor.

Além do mais, chegou aos meus ouvidos, bem como aos de muitos outros, que Quinto Cecílio Metelo nem sequer sabe orientar os seus legados, quanto mais o exército. Desperdiçou deliberadamente o potencial de homens tão bons e capazes que tinha à sua disposição, como Caio Mário e Rutílio Rufo, colocando um a comandar a sua insignificante unidade de cavalaria, e o outro ao seu serviço como praefectus fabrum. O seu comportamento em relação ao príncipe Gauda, que é considerado pelo Senado e pelo Povo de Roma como o governante legítimo da Numídia, tem sido insuportavelmente arrogante, inconsciente, e por vezes, até mesmo cruel.

Em conclusão, tenho de dizer que o pequeno sucesso que as campanhas do ano passado tenham tido, se deve apenas aos esforços de Caio Mário e Públio Rutílio Rufo. Sei que não tiveram o menor crédito nem agradecimento pelas suas diligências. Permitir-me-ás apresentar Caio Mário e Públio Rutílio Rufo à tua consideração e condenar com o maior vigor a conduta de Quinto Cecílio Metelo?

Esta missiva foi endereçada a um dos maiores e mais importantes mercadores de cereais de Roma, um homem cuja importância entre os senadores e cavaleiros era enorme. Naturalmente, ao tomar conhecimento da conduta vergonhosa de Metelo na guerra, ficou indignado; a sua voz repetiu a informação a todo o tipo de ouvidos interessantes, com um efeito imediato. E à medida que os dias passavam e o volume de cartas se mantinha, à sua voz vieram juntar-se muitas outras. Os Pais Conscritos começavam a tremer quando viam aproximar-se um banqueiro ou plutocrata marítimo, e a satisfação complacente do imensamente poderoso clã dos Cecílios Metelos ia rapidamente caindo no desânimo.

Lá partiram cartas do clã Cecílio Metelo para o seu estimado membro Quinto Cecílio, procônsul da Província Africana, pedindo-lhe que diminuisse a sua arrogância para com o príncipe Gauda, tratasse os seus delegados séniores com mais consideração do que tratava o filho e tentasse obter algumas vitórias estrondosas contra Jugurta.

Entretanto, rebentou o escândalo de Vaga, que, tendo-se rendido a Metelo em fins de Outono, se revoltara agora e executara a maioria dos seus homens de negócios italianos; a revolta fora fomentada por Jugurta - com a conivência do próprio amigo pessoal de Metelo, o comandante de guarnição Turpílio. Metelo cometeu o erro de defender Turpílio quando Mário pediu em voz alta que fosse julgado em tribunal por alta traição, e na altura em que a história chegou a Roma através de centenas de cartas, já parecia que o próprio Metelo era tão culpado da traição como Turpílio. Lá seguiram mais cartas do clã Cecílio Metelo para o seu estimado Quinto Cecílio em útica, pedindo-lhe que escolhesse melhor os amigos, se quisesse insistir em defendê-los de acusações de alta traição.

Passaram muitas semanas até que Metelo fosse levado a acreditar que era Caio Mário o autor da campanha romana das cartas; e mesmo quando se viu obrigado a acreditar, foi lento a entender o significado da guerra epistolar - e ainda mais lento a opor-se-lhe. Ele, um Cecílio Metelo, levado ao descrédito em Roma por um Caio Mário e um fingidor hipócrita e meia dúzia de mercadores coloniais ordinários? Impossível! Roma não funcionava assim. Roma pertencia-lhe a ele, não a Caio Mário.

De oito em oito dias, tão regular como um calendário, Mário apresentava-se a Metelo e pedia que fosse dispensado do serviço no final de Sextilis; porém, com a mesma regularidade, Metelo recusava.

Com toda a justiça para Metelo, tinha mais em que pensar além de Mário e de meia dúzia de reles cartas que apareciam em Roma; a maior parte das suas energias dirigiam-se para Bomílcar. Nabdalsa levara muitos dias a preparar uma entrevista entre ele e Bomílcar, e a seguir, muitos mais dias para marcar uma entrevista secreta entre os dois. Mas o encontro veríficou-se nos fins de Março, num pequeno anexo adjunto à resídência do governador em útica, onde Bomílcar entrou clandestinamente.

Eles conheciam-se bastante bem, claro está, pois fora Metelo que mantivera Jugurta informado através de Bomílcar durante aqueles últimos dias desesperantes em Roma, fora Bomílcar que tirara proveito da hospitalidade de Metelo e não o seu rei, retido como estivera no pommerium da cidade.

No entanto, havia poucas subtilezas sociais neste encontro; Bomílcar estava irritável, receoso de que fosse detectada a sua presença em Utica, e Metelo estava pouco seguro de si no seu papel de chefe de espionagem. Por isso, Metelo não esteve com meias medidas.

- Quero terminar esta guerra quanto antes e com o mínimo de baixas possível em homens e em equipamentos - disse. - Roma precisa de mim noutro lugar que não um posto avançado como África.

- Sim, já ouvi falar dos Germanos interrompeu-o Bomílcar, com suavidade.

- Então entendes a pressa disse Metelo.

- Entendo, com efeito. Mas não consigo compreender o que posso fazer para abreviar as hostilidades.

- Sou levado a crer, e depois de pensar bastante, estou convencido disso, que a forma melhor e mais rápida de decidir o destino da Numídia de modo favorável para Roma é eliminar o rei Jugurta disse o procônsul.

Bomílcar olhou pensativamente para o procônsul. Não se comparava com um Caio Mário, sabia-o muito bem: nem mesmo com um Rutílio Rufo. Era mais orgulhoso, mais altivo, muito mais consciente do seu posto, mas não tão competente nem distinto. Como acontecia sempre com os Romanos, Roma era importante. Mas o conceito de Roma para um Cecílio Metelo era muito diferente do conceito de Roma que tinha Caio Mário. O que intrigava Bomílcar era a diferença entre o velho Metelo dos tempos que passara em Roma e o Metelo que governava a Província Africana; pois embora tivesse conhecimento das cartas, não fazia ideia da importância destas.

- É verdade que Jugurta é o ponto de origem da resistência númida a Roma disse Bomílcar. Contudo, talvez não te apercebas da impopularidade que tem Gauda na Numídia. A Numídia nunca consentirá em ser governada por Gauda, seja ele legítimo ou não.

À menção do nome de Gauda, uma expressão de desagrado perpassou o rosto de Metelo.

Bah! exclamou, acenando com uma mão. Uma nulidade! Um indivíduo de aparência insignificante, para já não falar como governante.

- Os seus olhos castanho-claros fixaram-se judiciosamente no rosto carregado de Bomílcar. Se acontecesse alguma coisa ao rei Jugurta, eu, e Roma, claro! tinha mais em mente colocar no trono da Numídia um homem cujo bom senso e experiência o ensinaram a acreditar que os interesses da Numídia ficam mais bem servidos num reinado de clientela que respeite Roma.

Estou de acordo; penso que os interesses da Numídia são mais bem servidos desse modo. E Bomílcar humedeceu os lábios. Considerar-me-ias um possível rei da Numídia, Quinto Cecílio?

Absolutamente! disse Metelo.

Óptimo! Nesse caso, contribuirei de bom grado para a eliminação de Jugurta.

- Em breve, espero - disse Metelo, sorrindo.

- O mais breve possível. Não há razão para uma tentativa de assassínio. Jugurta é demasiado cauteloso. Além de que tem toda a lealdade da sua guarda real. Nem me parece que um golpe resultasse. A maioria da nobreza está satisfeita com o modo como Jugurta tem governado a Numídia... e com o modo como tem conduzido a guerra. Se Gauda fosse uma alternativa mais atraente, talvez o caso fosse bem diferente. Eu - Bomílcar fez um esgar - não tenho nas veias o sangue de Masinissa, o que significa que precisarei de todo o apoio de Roma para conseguir subir ao trono.

- Então, o que se fará? - perguntou Metelo.

- Penso que a única solução é levar Jugurta a uma situação em que possa ser capturado por um exército romano - não numa batalha, mas numa emboscada. Então, poderás matá-lo no local, ou levá-lo preso e fazer o que quiseres com ele a seguir - respondeu Bomílcar.

- Muito bem, barão Bomílcar. Posso contar com notícias tuas a tempo de montar essa emboscada?

- Claro. Os ataques fronteiriços são a melhor oportunidade, e Jugurta tenciona efectuar muitos, mal o terreno esteja bastante seco. Mas aviso-te, Quinto Cecílio. Podes falhar várias vezes antes de teres êxito na captura de um homem tão astucioso como Jugurta. Afinal de contas, não posso pôr em risco a minha própria sobrevivência... Se morrer, não terei o menor préstimo para Roma nem para mim mesmo. Fica descansado, acabarei por conduzilo a uma boa armadilha. Jugurta não poderá ter sempre uma vida regalada.

No total, Jugurta estava bem satisfeito com a forma como as coisas estavam a decorrer. Embora tivesse sofrido bastante com os ataques de Mário às zonas mais povoadas do seu reino, sabia - melhor que ninguém - que as dimensões reduzidas da Numídia eram a sua maior vantagem e protecção. E as zonas povoadas da Numídia, ao contrário de outras nações, tinham menos importância para o rei do que o deserto. A maior parte dos soldados da Numídia, incluindo a cavalaria de armamentos ligeiros tão famosa por todo o mundo, eram recrutados entre os povos que viviam uma existência semi-nómada nas regiões mais interiores do país, mesmo no lado mais distante das poderosas montanhas onde o paciente Atlas carregava o céu aos ombros; esses povos eram conhecidos como Getulos e Garamantes; a mãe de Jugurta pertencia à tribo dos Getulos.

Depois da rendição de Vaga, o rei assegurou-se de que não deixava dinheiro ou tesouros em qualquer cidade por onde os romanos pudessem passar numa marcha de treino; foi tudo transferido para lugares como Zama e Capsa, distantes, de difícil infiltração, construídos como cidadelas em picos que não podiam ser escalados e rodeados pelos Getulos, fanaticamente leais. E Vaga acabou por não redundar em nenhuma vitória romana; mais uma vez, Jugurta comprara um romano, o comandante da guarnição, Turpílio. O amigo de Metelo. Ah!

Não obstante, tinha mudado alguma coisa. À medida que as chuvas de Inverno começaram a diminuir, Jugurta cada vez se convencia mais disso. O problema era que não conseguia descobrir o que mudara. A sua corte era móvel; transferia-se constantemente de uma cidadela para outra, de modo que, aonde quer que chegasse, tinha a certeza de encontrar caras afectuosas, braços amigos. E no entanto havia qualquer coisa errada. Não tinha a ver com as suas ordens, nem com os exércitos, nem com as linhas de abastecimentos, nem sequer com a lealdade das suas muitas cidades e distritos e dos homens das tribos. O que pressentia era um pouco mais do que um sopro, um sacão, um zumbido de alerta ao perigo vindo de qualquer parte muito próximo dele. Embora nem uma vez associasse essa premonição à sua recusa de indigitar Bomílcar para regente.

- E a corte disse para Bomílcar enquanto seguiam de Capsa para Cirta nos finais de Março, à frente de uma enorme companhia de cavalaria e infantaria.

Bomílcar virou a cara e olhou de frente para os olhos claros do seu meio-irmão.

- A corte?

Há por aí velhacaria, irmão. Semeada e cultivada por aquele excremento nojento do Gauda, era capaz de apostar disse Jugurta.

Uma revolução palaciana?

Não sei bem. Só sei que há qualquer coisa errada. Sinto-a nos ossos.

Um assassino?

- Sinceramente não sei, Bomílcar! Os meus olhos viram-se para doze direcções diferentes ao mesmo tempo, e sinto os ouvidos andarem à roda, de tão ocupados. E no entanto, acontece que o meu faro descobriu qualquer coisa errada. E tu? Não sentes nada? - perguntou, completamente seguro do afecto, confiança e lealdade de Bomílcar.

Por três vezes, Bomílcar atraiu o desconhecedor Jugurta a uma cilada, e por três vezes Jugurta conseguiu livrar-se, sem a ajuda de armas. Sem nunca suspeitar do meio-irmão.

Eles estão a ficar demasiado espertos disse Jugurta após o falhanço da terceira emboscada romana. Isto é obra de Caio Mário ou Públio Rutílio Rufo e não de Metelo rosnou. Tenho um espião a seguir-me, Bomílcar.

Bomílcar conseguiu parecer sereno.

Admito que exista essa possibilidade. Mas quem se atreveria a tanto?

Não sei disse Jugurta, com muito má cara. Mas descansa, que mais tarde ou mais cedo, hei-de sabê-lo.

No final de Abril, Metelo invadiu a Numídia, persuadido por Rutílio Rufo a contentar-se de início com um alvo mais pequeno do que a capital, Cirta; em vez disso, os exércitos romanos marcharam para Tala. Chegou uma mensagem de Bomílcar, que havia atraído Jugurta em pessoa até Tala, e Metelo fez uma quarta tentativa para capturar o rei. Mas como não estava no temperamento de Metelo tomar Tala de assalto com a rapidez e decisão exigidas, Jugurta escapou, e o ataque tornou-se num cerco. Um mês mais tarde, Tala capitulou e, para grande surpresa de Metelo, rendeu um grande fornecimento de riquezas que Jugurta trouxera consigo para Tala e que foi obrigado a deixar para trás quando fugiu.

Quando Maio deu origem a Junho, Metelo marchou para Cirta, onde teve outra surpresa agradável. Porque a capital númida se rendeu sem combater. Um grande número de homens de negócios romanos e italianos constituía uma significativa força pró-Roma na política da cidade. Além disso, Cirta não gostava mais de Jugurta do que ele gostava de Cirta.

O clima estava quente e muito seco, normal naquela época do ano; Jugurta fugiu da desleixada rede de informações romana, dirigindo-se para Sul, para as terras dos Getulos, e a seguir para Capsa, terra de origem da tribo da sua mãe. Capsa era uma cidadela de montanha, pequena mas muito fortificada no meio do ermo dos Getulos, e tinha grande afecto por Jugurta, pois fora aí que a sua mãe vivera depois da morte do marido, o pai de Bomílcar. E fora o lugar onde Jugurta guardara a maior parte dos seus tesouros.

Foi para aqui, em Junho, que os homens de Jugurta trouxeram Nabdalsa, apanhado a fugir da Cirta ocupada pelos romanos depois de os espiões de Jugurta às ordens dos romanos terem finalmente obtido provas da traição de Nabdalsa que justificassem informar o rei. Apesar de ter sido sempre conhecido como o homem de Gauda, Nabdalsa não fora impedido de movimentar-se livremente por toda a Numídia; como ainda era primo afastado e tinha nas veias sangue de Masinissa, era tolerado e considerado inofensivo.

- Mas agora, tenho a prova - disse Jugurta - de que tens colaborado activamente com os romanos. Se a notícia me desilude, é principalmente por teres sido suficientemente tolo para lidar com Metelo, em vez de Caio Mário. - Estudou Nabdalsa, preso com correntes de ferro ao ser capturado, e com marcas visíveis dos maus tratos dos homens de Jugurta. - É claro que não estás metido nisto sozinho - disse, pensativamente. - Quem dos meus barões conspirou contigo?

Nabdalsa recusou-se a responder.

- Torturem-no - disse Jugurta com indiferença,

A tortura na Numídia não era sofisticada, embora, tal como todos os déspotas à moda do Oriente, Jugurta tivesse masmorras e prisões a longo prazo. Nabdalsa foi atirado para uma das masmorras de Jugurta, afundada na base da colina rochosa onde se elevava Capsa, e onde se entrava apenas através de múltiplos túneis vindos do palácio dentro das muralhas da cidadela. Aí, os soldados sub-humanos que sempre herdavam esses lugares aplicaram-lhe a tortura.

Pouco depois, tornou-se óbvio o motivo por que Nabdalsa optara por servir o homem inferior, Gauda: era fraco, falava. Bastara a remoção dos dentes e das unhas de uma das mãos. Chamado a ouvir a confissão, o confiante Jugurta levou Bomílcar consigo.

Sabendo que nunca deixaria o mundo subterrâneo onde ia entrar, Bomílcar olhou para o horizonte ilimitado do céu de um azul magnífico, respirou o ar doce do deserto, encostou as costas da mão contra as folhas sedosas de um arbusto florido. E caminhou a custo, para levar consigo as memórias para a escuridão.

A câmara mal arejada exalava um cheiro fétido: excrementos, vomitado, suor, sangue, águas estagnadas e tecido morto misturados, formando um miasma de Tártaro, uma atmosfera que nenhum homem podia aspirar sem sentir medo. O próprio Jugurta entrou no compartimento com um arrepio.

A inquirição procedeu com enormes dificuldades, pois as gengivas de Nabdalsa continuavam a sangrar profusamente, e o nariz partido impedia as tentativas de estancar a hemorragia tapando a boca. Que estupidez, pensou Jugurta, dilacerado por uma mistura de horror à visão de Nabdalsa e fúria pela inconsciência dos seus brutos, que haviam principiado pelo lugar que deviam ter deixado livre e a coberto das suas intenções.

Não era que importasse muito. Nabdalsa pronunciou a única palavra vital à terceira pergunta de Jugurta, e não foi muito difícil de perceber, murmurada por entre o sangue.

Bomílcar.

- Deixem-nos disse o rei para os seus brutos, mas teve a prudência de mandar-lhes retirar o punhal de Bomílcar.

A sós com o rei e o semiconsciente Nabdalsa, Bomílcar suspirou.

A única coisa que lamento disse é isto ir matar a nossa mãe.

Era a coisa mais inteligente que podia ter dito, dadas as circunstâncias, pois valeu-lhe um golpe único do machado do carrasco, em vez da morte lenta que o meio-irmão tencionava infligir-lhe.

- Porquê? perguntou Jugurta. Bomílcar encolheu os ombros.

- Quando cresci o bastante para os anos começarem a pesar-me, irmão, descobri como me tinhas enganado. Trataste-me com o mesmo desprezo com que tratarias um macaco de estimação.

O que querias? perguntou Jugurta.

Ouvir-te chamar-me irmão à frente de todos. Jugurta olhou-o com genuíno espanto.

E elevar-te acima da tua posição? Meu caro Bomílcar, é o pai que conta e não a mãe! A nossa mãe é uma mulher berbere dos Getulos e nem sequer é filha de um chefe. Não tem distinção social a transmitir. Se eu te chamasse irmão à frente de todos, quem me ouvisse, deduziria que eu estava a adoptar-te na linhagem de Masinissa. E isso, como tenho dois filhos que são os herdeiros legais, seria imprudente, para não dizer mais.

- Devias ter-me indigitado para seu guardião e regente - disse Bomílcar.

- E elevar-te acima da tua posição? Meu caro Bomílcar, o sangue da nossa mãe impede-o! O teu pai era um barão menor, um homem relativamente insignificante. Ao passo que o meu pai era filho legítimo de Masinissa. Foi do meu pai que herdei a realeza.

Mas tu não és filho legítimo, pois não?

Não sou. Porém o sangue está lá. E o sangue é que conta. Bomílcar virou as costas.

- Acaba com isso - disse. - Fui eu que falhei - não foste tu, mas eu. É razão suficiente para morrer. No entanto, tem cuidado, jugurta.

- Cuidado? Com quê? Tentativas de assassínio? Mais traições, outros traidores?

- Com os Romanos. Eles são como o sol e o vento e a chuva. Acabam por reduzir tudo a pó.

jugurta chamou os brutos, que se precipitaram prontos para o que fosse preciso, não encontrando nenhuma rebeldia, e ficaram à espera de ordens.

- Matem os dois - disse jugurta, avançando em direcção à porta. Mas façam-no depressa e mandem-me as duas cabeças.

As cabeças de Bomílcar e Nabdalsa foram expostas nas ameias de Capsa, para que todos as vissem. Uma cabeça era mais que um simples talismã da vingança real sobre um traidor; devia ser afixada em qualquer local público, para mostrar as pessoas que tinha morrido o homem certo e para impedir o aparecimento de algum impostor - jugurta disse para consigo mesmo que não sentia qualquer mágoa, apenas se sentiu mais solitário do que antes. Fora uma lição necessária: um rei não podia confiar em ninguém, nem mesmo no seu irmão.

Contudo, a morte de Bomílcar teve duas consequências imediatas. Uma foi jugurta tornar-se totalmente esquivo, nunca ficando mais de dois dias no mesmo sítio, nunca informando a sua guarda para onde ia a seguir, nunca permitindo que o exército conhecesse os seus planos; a autoridade era exercida pelo rei e mais ninguém. A outra consequência dizia respeito ao seu sogro, o rei Boco da Mauritânia, que não auxiliara Roma activamente contra o marido da sua filha, mas também não auxiliara jugurta contra Roma; jugurta enviou imediatamente batedores à corte de Boco, e pressionou mais o sogro para que se aliasse à Numídia, com o fim de expulsar Roma de África.

No fim do Verão, a posição de Quinto Cecílio Metelo em Roma fora completamente minada. Ninguém conseguia descortinar uma palavra de apreço acerca dele ou do modo como conduzira a guerra. E no entanto, as cartas continuavam a chegar, regulares, implacáveis, extremamente influentes.

Depois da captura de Tala e da rendição de Cirta, a facção de Cecílio Metelo conseguira ganhar algum terreno entre os lobbies dos cavaleiros, mas então chegaram notícias de África que tornaram claro que nem Tala nem Cirta poriam termo à guerra; e a seguir, chegaram relatórios de recontros inúteis, infindáveis, de avanços no Oeste da Numídia sem qualquer efeito, de fundos desperdiçados e seis legiões mantidas em campo, com enormes custos para o Tesouro e sem um fim para as despesas em vista. Graças a Metelo, a guerra contra Jugurta arrastar-se-ia certamente pelo menos por mais um ano.

As eleições proconsulares foram marcadas para meados de Outubro, e o nome de Mário agora na boca de todos era constantemente divulgado como candidato. Mas o tempo passava e ele não aparecia em Roma. Metelo mantinha-se inflexível.

Insisto que devo ir disse Mário a Metelo talvez pela quinquagésima vez.

- Insiste quantas vezes quiseres respondeu Metelo. Não irás.

No próximo ano serei cônsul disse Mário.

Um novo-rico como tu ser cônsul? Impossível!

- Tens receio de que os eleitores me elejam, não tens? perguntou Mário, com ar enfatuado. Não me deixas ir porque sabes que serei eleito.

Não posso acreditar que qualquer verdadeiro Romano votasse em ti, Caio Mário. No entanto, és um homem extremamente rico, o que significa que podes comprar votos. Se alguma vez no futuro fores eleito cônsul... e não será no próximo ano!... podes ter a certeza de que dispenderei todas as minhas energias para provar em tribunal que compraste o cargo!

Não preciso de comprar o cargo, Quinto Cecílio, nunca comprei cargos. Por isso, podes experimentar disse Mário, ainda irritantemente enfatuado.

Metelo enveredou por uma conduta diferente.

Não te autorizo a ir, resigna-te. Como um Romano puro, trairia a minha classe se te autorizasse a ir. O consulado, Caio Mário, é um cargo muito alto para as tuas origens italianas. O homem que se senta na cadeira de marfim deve ser de nascimento adequado, pelos feitos dos seus antepassados, bem como pelos seus. Preferia cair em desgraça e estar morto a ver um italiano dos povos limítrofes Samnitas, um campónio semi-iletrado que nunca devia ter chegado a pretor!, sentado na cadeira de marfim dos cônsules! Faz o pior que possas, ou o melhor! Não tem qualquer importância para mim. Preferia estar em desgraça e bem morto a dar-te autorização para ires a Roma.

Se necessário, Quinto Cecílio, ficarás as duas coisas disse Mário, e abandonou o gabinete.

Públio Rutílio Rufo tentou trazer os dois homens à razão, preocupado com Roma e com Mário.

- Ponham de lado a política - disse-lhes. - Nós os três estamos aqui em África para vencer Jugurta, mas nenhum de vocês está interessado em concentrar as energias para esse objectivo. Preocupa-vos mais o levar a melhor um sobre o outro do que vencer Jugurta, e eu, de uma vez por todas, já estou farto desta situação!

- Estás a acusar-me de negligenciar as minhas obrigações, Públio Rutílio? - perguntou Mário, perigosamente calmo.

- Não, claro que não! Estou a acusar-te de negares o génio que sei que possuis em assuntos de guerra. Igualo-te tacticamente. Igualo-te logisticamente. Mas quando se chega à estratégia, Caio Mário, o aspecto da guerra a longo prazo, ninguém te iguala. No entanto, dedicaste algum tempo ou meditação a uma estratégia para ganharmos esta guerra? Não!

- E qual é o meu lugar neste hino de louvor a Caio Mário? - perguntou Metelo, de lábios apertados. - Nesta questão, qual é o meu lugar no hino de louvor a Caio Mário? Ou não sou importante?

- És importante, seu snobe rematado, porque és o comandante titular nesta guerra! - vociferou Rutílio Rufo. - E se pensas que és melhor em táctica e logística do que eu, ou melhor em táctica, logística e estratégia do que Caio Mário, não deixes de dizê-lo, peço-te! Não é que te sentisses mal. Mas se são louvores que queres, estou pronto para te conceder este: não és tão venal como Espúrio Postúmio Albino, nem tão pouco eficiente como Marco Júnio, Silano. O teu maior problema é não seres tão bom como pensas que és. Quando mostraste inteligência suficiente para me alistares a mim e a Caio Mário como teus legados séniores, pensei que os anos já deviam ter-te melhorado. Mas afinal estava enganado. Desperdiçaste os nossos talentos e o dinheiro do Estado. Não estamos a ganhar esta guerra, estamos num impasse extremamente caro. Por isso, segue o meu conselho, Quinto Cecílio! Deixa Caio Mário ir para Roma, deixa Caio Mário candidatar-se a cônsul... e deixa-me organizar os nossos recursos e planear as nossas manobras militares. Quanto a ti, dedica as tuas energias a minar o domínio de Jugurta sobre o seu povo. Pela minha parte, concedo-te toda a glória pública, desde que dentro destas paredes admitas a verdade do que estou a dizer.

- Não admito nada - disse Metelo.

E as coisas continuaram assim até aos fins do Verão e inícios do Outono. Era impossível detectar Jugurta, que parecia ter desaparecido da face da terra. Quando até para o soldado mais baixo passou a ser óbvio que já não iria haver nenhum confronto entre o exército romano e o exército númida, Metelo afastou-se da longínqua Numídia Ocidental e partiu de Cirta em campanha.

Soube-se que o rei Boco da Mauritânia cedera finalmente às tácticas de pressão de Jugurta, formara o seu exército e se juntara ao genro algures no Sul; diziam os boatos que planeavam avançar juntos sobre Cirta. Esperando entrar finalmente em combate, Metelo tomou as suas disposições e escutou Caio Mário e Rutílio Rufo com mais interesse do que habitualmente. Mas o previsto não chegou a acontecer. Os dois exércitos ficaram a algumas milhas de distância, com Jugurta recusando-se a ser atraído. Voltou a estabelecer-se o impasse, a posição romana estava demasiado defendida para Jugurta a atacar, e a posição númida era demasiado efémera para tentar Metelo a deixar o seu campo.

E então, doze dias antes das eleições consulares em Roma, Quinto Cecílio Metelo Suíno libertou formalmente Caio Mário das suas funções como legado sénior na campanha contra Jugurta.

Parte! disse Metelo, com um sorriso amável. Descansa, Caio Mário, que farei Roma saber que te ”libertei” antes das eleições.

- Pensas que não chegarei lá a tempo disse Mário.

- Não penso nada, Caio Mário. Mário sorriu.

Não deixa de ser verdade disse, e estalou os dedos. E onde está o papel que diz que fico formalmente livre? Dá-mo.

Metelo entregou a ordem de marcha a Mário, com um sorriso parado, e quando Mário alcançou a porta, disse, sem