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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O BEIJO DO DEMÔNIO / Donna Grant
O BEIJO DO DEMÔNIO / Donna Grant

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

 

   

     Houve uma vez uma terra de lenda, de tradição. Uma terra cheia de magia e esperança, apesar de as tribos celtas lutarem umas contra as outras. Mas tudo aquilo acabou com a chegada do império romano a suas bordas.

     O todo-poderoso império de Roma, em sua tentativa por dominar o mundo, pouco a pouco abriu caminho ao longo da Grã-Bretanha. Até que chegou às terras altas e se encontrou com um inimigo como nenhum outro. Apesar de suas vitórias, nada do que os celtas pudessem fazer faria que Roma abandonasse suas queridas terras.

     Esgotados todos os recursos, os celtas se voltaram para seus leais conselheiros e aliados, os druidas.

     Respeitados e reverenciados, os druidas eram como qualquer outra sociedade. Sua magia provinha da terra em sua mais pura essência, mas havia alguns que queriam mais: mais poder, mais controle, mais de tudo.

     Indevidamente, os druidas se dividiram em duas seitas. Os Mies seguiram fiéis a sua magia e continuaram curando aos doentes e oferecendo seu conhecimento aos líderes dos clãs. Os drough, entretanto, escolheram os sacrifícios humanos e a magia negra para incrementar seu poder.

     Eram os drough os que tinham as respostas aos problemas dos celtas.

   Os Mies advertiram aos líderes tribais sobre o uso da magia negra, mas os celtas sabiam que sua força contra os romanos estava cedendo. Assim que os celtas reuniram a seus melhores guerreiros e permitiram que os Droughs fizessem seus feitiços e chamassem os deuses, que levavam longo tempo enterrados no inferno, uns deuses que no passado, tinham dominado o mundo com brutais táticas e violentos fins.

     Mas eles eram quão únicos podiam derrotar Roma.

     Os deuses, por fim liberados, atenderam com urgência a chamada dos druidas e se introduziram no corpo do guerreiro mais feroz de cada clã. Aqueles guerreiros, com a ajuda dos deuses que levavam dentro, atacaram a cada romano com o que se encontraram. As batalhas aconteceram, uma atrás de outra, até que finalmente, Roma abandonou a Grã-Bretanha.

     Mesmo assim, os deuses seguiam sedentos de sangue, seguiam famintos de batalhas. Com os romanos expulsos, os guerreiros se enfrentaram uns contra os outros... e contra qualquer um que se interpunha em seu caminho. Os rios e as terras se voltaram vermelhos pelo sangue dos celtas, e a morte flutuava no ar.

     Os droughs, ao dar-se conta de que sua magia era insuficiente, uniram-se aos mies, mas nada do que ambas as seitas fizeram pôde devolver os deuses a suas prisões no inferno. Os deuses se negavam a renunciar a possuir aos guerreiros e se faziam mais poderosos com cada pulsar, com cada morte, até que os guerreiros deixaram de ser os homens que uma vez tinham sido.

     Convocou-se uma assembleia de druidas. Desde que se produzira a separação, não se tinha convocado nenhuma. A magia fez palpitar a terra quando decidiram deixar de lado suas diferenças e suas lutas para encontrar um modo de ajudar aos celtas. Mas a magia dos druidas não pôde liberar os guerreiros.

     Incapazes de voltar a encerrar aos deuses, os druidas mesclaram a magia com a magia negra para criar um conjuro que enterrasse aos deuses, congelando-os no interior de seus hóspedes. Os guerreiros voltaram a ser os homens que uma vez tinham sido e seguiram com suas vidas sem nenhuma lembrança das atrocidades que tinham cometido. Entretanto, dentro de cada guerreiro um deus esperava. Com cada geração, os deuses foram passando de guerreiro em guerreiro, transmitindo-se assim eternamente como parte da linha de sangue.

     E assim nasceram «os guerreiros».

   Os druidas, sabedores do que tinham criado e do que podia acontecer no futuro, sempre estavam ao lado dos guerreiros. Sempre vigiando. Inclusive quando a fé dos druidas, tudo o que eram, fez-lhes esconder-se por medo de morrer, não tiveram outra alternativa que seguir vigiando. Toda a humanidade estava em perigo.

     A verdadeira história de como Roma saiu da Grã-Bretanha foi esquecida. Converteu-se em uma lenda, em um mito dos celtas, que repetiam a história uma e outra vez. Somente os druidas sabiam a verdade.

     Então, uma drough encontrou uns manuscritos ocultos. Com mais ânsia de poder que nenhum outro drough antes dela, Deirdre liberou os deuses e os controlou, o que lhe proporcionou o exército que necessitava para dominar o mundo e converter-se na deusa ante a que todo homem se ajoelharia.

     Os manuscritos, entretanto, só falavam de um clã, os MacLeod.

     Deirdre pôs toda sua atenção no clã MacLeod. Por aí começaria...

 

 

 

 

                Oeste das Highlands da Escócia.

                   Primavera de 1603

     —Definitivamente, tornaste-te louca.

     Cara pendurou a cesta no braço. O fresco vento do mar tirava as mechas da trança e os sacudia caprichosamente contra seus olhos. Os pôs detrás da orelha e sorriu a Angus. A este só ficava um dente em toda a boca, e o pouco cabelo que tinha o levava tudo de pé, dançando ao ritmo do vento selvagem do mar.

     —Não passa nada, Angus. Os melhores cogumelos de toda Escócia estão a só uns passos daqui.

     —Não se aproxime do castelo, moça. Está cheio de fantasmas. E de monstros.

     Levantou um retorcido dedo para ela. Suas sobrancelhas brancas e suaves se franziram sob sua enrugada testa.

     Não era necessário que o recordasse. Todos no clã dos MacClure sabiam a história do castelo dos MacLeod. Durante séculos, as histórias sobre como todo o clã dos MacLeod tinha sido massacrado tinham ido passando de geração em geração. Contavam-se histórias sobre fantasmas que perambulavam pelas terras e pelo castelo para assustar aos meninos.

     Mas não somente assustavam aos mais pequenos. Os adultos também juravam ter visto movimentos nas sombras do castelo dos MacLeod.

     Ninguém se atrevia a aventurar-se perto das velhas ruínas por medo de ser devorado vivo. Tampouco ajudava que estranhos e frenéticos sons, quase como uivos, ouvissem-se emanar da antiga fortaleza ao cair a noite.

     Cara aspirou profundamente e girou a cabeça para olhar o castelo. Levantava-se escuro e ameaçador sobre as sinistras nuvens que se aproximavam. A erva, de um verde brilhante em um tempo cada vez mais quente, rodeava as pedras que se elevavam no horizonte, enquanto o mar, de um intenso azul escuro, servia como cortina de fundo ao castelo. O castelo tinha duas torres interconectadas que em algum momento serviram de entrada, pois a porta tinha ardido durante o massacre, sem deixar nenhum rastro atrás de si.

     A muralha, que podia medir facilmente quase quatro metros de largura, ainda seguia em pé. Suas pedras estavam obscurecidas pelo fogo e muitas de suas bicudas almeias e pilastras estavam quebradas e em pedaços. Havia seis torres circulares que se levantavam para o céu, das quais só uma mantinha intacto o telhado.

     Cara sempre tinha querido atravessar aquelas muralhas e entrar no castelo, mas nunca tinha sido o suficientemente valente. Seu medo à escuridão e às criaturas que a habitavam a mantinha afastada da fortaleza.

     —São somente pedras convertidas em escombros —disse ao Angus — Não há fantasmas nem monstros.

     Angus avançou para situar-se a seu lado.

     —Há monstros, Cara. Escuta o que te digo, moça. Não se aproxime das ruínas ou não voltaremos a te ver nunca.

—Prometo que não entrarei no castelo, mas tenho que me aproximar para pegar os cogumelos. A irmã Abigail os necessita para seus unguentos.

   —Então deixa que a boa irmã vá recolhê-los ela mesma. Não é uma das nossas. Você sim é, Cara. Já conhece as histórias sobre os MacLeod.

     —Está bem, Angus. Sei.

     Não a importava falar de suas raízes MacClure. Ela era uma Sinclair, embora ninguém soubesse. Era um dos segredos que escondia do clã que a tinha acolhido quando era só uma menina perdida no bosque.

     Não, não era uma MacClure, mas não corrigiu Angus, um de seus únicos amigos. Sentia-se bem pertencendo a algo, embora só fosse em sua mente. Nem sequer as monjas que a criaram conseguiram fazê-la sentir que pertencia aquele lugar. Tinham-na querido, a sua maneira, mas não era o mesmo que o amor paterno.

     Não é que amaldiçoara a ninguém dos MacClure por não lhe haver aberto suas casas. Quando as monjas a encontraram, levava dias sem comer. Estava imunda, descalça e ainda aturdida, tão aturdida pela morte de seus pais que se negava a falar. Não acreditava que a ninguém interessasse saber tudo o que seus pais tinham sacrificado para salvar a ela, sua única filha.

     Como a maioria dos habitantes das Highlands, os MacClure eram uma gente supersticiosa e temiam a Cara e ao que podia tê-la afastado de seu lar. Era a mesma superstição que os mantinha afastados das ruínas do castelo que se levantava sobre o escarpado. Com um último olhar a Angus e a suas sobrancelhas franzidas, levantou suas saias e se dirigiu para as velhas ruínas, ignorando o calafrio de terror que lhe percorreu as costas.

     A brisa e o canto dos pássaros logo tragaram suas palavras. Cara mantinha um olho cravado nas ameaçadoras nuvens que se aproximavam. Com um pouco de sorte, estaria de volta no convento antes que caísse a primeira gota.

   Ficou andando desfrutando do vento primaveril e do som das aves que se aninhavam nos escarpados. Desde o equinócio da primavera, em seu décimo oitavo ano de vida, tinham começado a lhe acontecer coisas estranhas. Sentia uma espécie de... comichão nos dedos. A necessidade de tocar algo a afligia. Mas temia essa sensação, assim mantinha as mãos pegas ao corpo e fazia o impossível por ignorar essa necessidade que a instava. Ser mais diferente do que já era ainda lhe complicaria mais as coisas com os MacClure e com as monjas.

     A aldeia dos MacClure tinha sido levantada a pouca distância da antiga comunidade do castelo dos MacLeod. Depois do massacre, outros clãs não demoraram para repartir as terras dos MacLeod, e os MacClure foram um dos primeiros.

     Era uma história triste, e cada vez que olhava ao castelo não podia evitar perguntar-se o que tinha acontecido em realidade. Os MacLeod tinham sido um grande clã, temido e respeitado, mas tinha sido destruído em uma só noite. E ninguém se declarou responsável pela aniquilação.

     Um calafrio percorreu seu corpo ao recordar os uivos de animais e os gritos que ouvia algumas noites. Ela dizia aos meninos do convento que só era o vento que subia do mar e que corria entre as ruínas. Mas em seu interior, muito dentro, sabia a verdade.

     No castelo havia algo vivo.

   Quanto mais se aproximava do velho castelo, mais arrepiava o pêlo da nuca. Ficou de costas às ruínas, amaldiçoando a si mesma por deixar que o medo se apoderasse dela. Não havia nada pelo que preocupar-se. Era de dia. Somente a escuridão da noite conseguia despertar o autêntico medo nela.

     Fechou os olhos com força e tentou acalmar o temor que a invadia. Um grito afogado escapou dentre seus lábios quando o pingente que sempre tinha escondido se esquentou contra sua pele.

     Tirou o pingente por fora do vestido e observou o frasco, que estava envolto em um nó de prata. O pingente tinha sido de sua mãe e foi o último que deu a Cara antes de morrer.

     Cara soltou o pingente e deixou escapar um tremente suspiro. Sua mãe tinha pedido que sempre o levasse com ela e que protegesse o frasco. Cara não podia pensar na noite em que seus pais morreram. Sentia-se muito culpada, sentia muita ira ao pensar que a gente que a tinha amado, que a tinha cuidado, tinha dado sua vida para que ela vivesse.

     Baixou a vista e viu os cogumelos que se supunha ela tinha ido pegar. Ninguém sabia por que só cresciam no atalho que conduzia ao castelo, e inclusive havia quem dizia que os cultivavam os fantasmas. Outros diziam que era a magia que os fazia crescer ali, e embora Cara nunca o admitiria diante de ninguém, ela pensava que bem poderia tratar-se de magia. Desta vez ela se ofereceu voluntária para ir recolhê-los porque irmã Abigail os necessitava para acalmar a febre da pequena Mary.

     Cara adorava ajudar às monjas com os meninos. Isso dava quietude a uma parte de seu coração que sabia que nunca teria seus próprios filhos. Sua decisão de converter-se em monja tinha sido muito comentada. Mas havia vezes que se sentia... incompleta. Sempre acontecia quando via um casal pela aldeia. Perguntava-se como seria se um homem a tocasse, como seria trazer seus próprios filhos ao mundo e olhar a seu amado esposo aos olhos.

   Já basta, Cara.

   Sim, tinha que parar. Seguir pensando nisso somente podia lhe dar melancolia pelo que nunca seria e raiva pela morte de seus pais.

     Começou a recolher cogumelos e a desfrutar do tempo que tinha para estar a sós, coisa que raramente acontecia no convento. Deixou correr sua mente livremente, como estava acostumada a fazer enquanto recolhia os cogumelos do chão.

     Até que teve a cesta quase cheia e uma enorme nuvem tampou a luz do sol, não levantou a vista. Então se deu conta de que se aproximou das ruínas do castelo mais do que tinha imaginado. Tinha estado tão concentrada nos cogumelos e em suas fantasias que não tinha prestado a mínima atenção ao longe que tinha ido nem ao tempo que tinha estado passeando.

     Mas agora que estava no castelo se sentiu intrigada e esqueceu a tormenta que vinha. Inclusive depois de trezentos anos, ainda podiam ver-se nas pedras as cicatrizes da batalha e do fogo.

     O coração de Cara se encolheu de dor por todos os que tinham morrido ali. Ninguém tinha descoberto nunca por que o clã tinha sido massacrado. Quem quer que tinha feito o ataque não tinha deixado ninguém com vida, nem a um bebê. Todo o clã MacLeod tinha sido exterminado em uma noite.

     Estremeceu como se pudesse ouvir os gritos e o crepitar das chamas a seu redor. Tudo estava em sua mente, sabia, mas isso não evitava que o terror se apoderasse dela. O sangue gelou nas veias e o medo se apoderou dela insistindo-a a correr.

     E, entretanto, não podia mover-se.

   Piscou e se obrigou a afastar o olhar do castelo para acalmar seu acelerado coração, e então o pingente voltou a esquentar-se. Queimava tanto que o tirou e enrolou a tira de pele entre os dedos. Nunca antes tinha tido medo do pingente, e menos ainda o tinha tirado desde que sua mãe o pôs ao redor de seu pescoço. Entretanto, agora havia algo muito estranho nele, e tudo tinha começado no equinócio. Tinha o mesmo aspecto, mas ela sabia o que havia sentido.

     De repente o vento se fez mais forte e começou a revoar ao redor de Cara. Ela tentou agarrar fôlego e soltou a cesta em uma tentativa por afastar o cabelo dos olhos.

     —Não! —gritou quando o pingente de sua mãe foi arrancado de suas mãos.

     Cara seguiu o querido vínculo com seus pais enquanto este saía voando para a rochosa paisagem para aterrissar perto da borda do escarpado.

     Com o coração em um punho e com o mesmo estranho comichão nas mãos, Cara se lançou para o pingente enquanto a primeira gota de chuva aterrissava em seu braço. De repente, o vento fez baixar a temperatura. Cara elevou os olhos para a tormenta e viu que se aproximou mais do que tinha imaginado. Com o vento começando a ulular, aproximou-se para agarrar o pingente.

   Um luminoso raio cruzou o céu antes que as nuvens se abrissem e descarregassem a tormenta sobre ela. Depois de vários dias de chuva constante, a terra já estava empapada e era incapaz de absorver mais água.

     Cara ficou de joelhos, sem pensar no barro que empapava sua roupa, e se arrastou para o pingente. As lágrimas cobriam seu rosto.

     Por favor, Senhor, por favor. Não deixe que perca o pingente.

     Não deveria tê-lo tirado, não deveria ter temido o único que sua mãe tinha levado sempre junto ao coração. Uma imagem de seus pais cruzou sua mente, transladando-a a casa, mas lhe fazendo recordar quão sozinha estava, quão sozinha sempre estaria no mundo.

     —Não irei daqui sem o pingente! —gritou ao vento. Sua mãe a tinha confiado o cuidado do frasco, rogando a ela que o vigiasse. Não falharia a sua mãe. Nem agora nem nunca.

 

Lucan MacLeod estava observando a paisagem que tanto tinha amado desde que tinha descoberto sua existência quando era um moço. Apoiou seu antebraço contra a esquina da estreita janela de seu quarto do castelo, a qual dava ao sul e oferecia uma visão do escarpado e do mar.

     Nunca se cansava da beleza das Highlands, as ondas que rompiam contra o escarpado. Havia algo assombroso no aroma do mar misturado com o aroma do urze e o cardo. Aquela terra acalmava, como nenhuma outra, a ira que levava dentro.

     Eram as Highlands. Suas Highlands. E as amava.

   O que não amava era estar apanhado, e isso era, basicamente, o que tinha passado desde que ele e seus irmãos tinham voltado para casa fazia duzentos anos.

     Aquela era sua vida agora. E a odiava.

   Quantas vezes se enfureceu pela impossibilidade de deixar o castelo? Quantas vezes se sentou em seu quarto enquanto o consumia a fúria pelo que tinha passado a ele e a seus irmãos? Quantas vezes tinha rogado a Deus encontrar um modo de sair dali, de se liberar da escura tortura que ameaçava sua alma?

     Mas Deus não escutava. Não escutava ninguém.

   Estavam destinados a esconder-se do mundo, observando como o tempo mudava tudo a seu redor, enquanto eles permaneciam ali. Sozinhos. Sozinhos para sempre.

     Fechou os olhos com força e recordou como era tudo antes de que suas vidas se rasgassem. Houve um tempo no que ele observava seu clã das janelas e escutava a risada dos meninos que se levantava por cima do som das ondas. Agora aquele tempo lhe parecia um sonho, um sonho que ia se apagando com cada dia que passava, com cada pulsar de seu coração.

     Como filho do líder do clã, a Lucan nunca tinha faltado nada. Já fosse comida, bebida ou a companhia de uma mulher. As mulheres sempre tinham ido atrás dele e ele sempre tinha estado disposto a aceitá-las.

     Ele desfrutava com suas carícias, seus sorrisos e seus corpos. Agora tudo o que queria era sentir uma mulher sob seu corpo. Tinha esquecido o que era ter as suaves curvas do corpo de uma mulher contra sua pele, ter sua úmida paixão lhe rodeando enquanto ele penetrava em seu interior.

     Tinha havido momentos nos que sua necessidade tinha sido tal, que tinha pensado em deixar o castelo e sair em busca de uma jovem. Mas tinha bastado um simples olhar a seus irmãos para recordar por que se encerraram ali e por que não queriam ser vistos.

     Lucan e seus irmãos eram perigosos. Não para eles mesmos, mas sim para qualquer outra pessoa. Ali fora estava o mal, e esse mal queria utilizá-los.

     Mais de dois séculos de confinamento no castelo. Mas que outra coisa podiam fazer? Não podiam ser vistos, não tal e como eram, não como os monstros nos que se converteram. Como irmão do meio, sempre tinha estado ali para manter a paz entre seus outros irmãos. Uma rocha, sólida e forte, para manter a todos unidos, era o que dizia sua mãe dele. Não se permitia pensar no que estavam se convertendo ele e sua própria alma.

     Fallon, no passado, tomou muito a sério o papel de herdeiro do clã. Tudo o que fazia, tudo o que pensava, era por seu clã. Mas quando já não houve nenhum clã, não soube o que fazer com sua vida, nem com aquela besta sempre querendo fazer-se com o controle. Como não havia nenhum modo de mudar o que tinha acontecido, entregou-se à bebida.

   Pelo que respeitava a Quinn, quase tinha se deixado conquistar pela besta. Lucan lançou um grunhido. Besta era um nome que não fazia honra aquilo. Não havia nenhum monstro dentro deles. Era um deus primitivo banido às profundidades do inferno. Apodatoo, o deus da vingança, vivia no interior de cada um dos irmãos MacLeod. Um deus tão antigo que não havia nenhum escrito nem nenhuma historia sobre ele. E era muito pior que qualquer outra besta.

     Cada vez que aquele sentimento de desespero se apoderava de Lucan, como estava acostumado a acontecer quando chovia, encerrava-se em seu quarto, longe de seus irmãos. Eles tinham suas próprias preocupações. Não precisavam vê-lo enfrentar a seus demônios internos. Se desejasse, podia passar todo o dia auto compadecendo-se. Mas não o faria. Seus irmãos o necessitavam.

     Lucan respirou profundamente e começou a afastar-se da janela quando algo captou sua atenção. Aguçou o olhar até que descobriu uma cena que o deixou sem fôlego. Era uma mulher, uma moça e muito formosa, que tinha se atrevido a aproximar-se o suficiente do castelo para que ele pudesse ver os encantos das linhas de seu rosto. Desejou poder ver a cor de seus olhos, mas já bastava podendo ver seus carnudos lábios, que pediam ser beijados, e suas maçãs do rosto rosadas pelo vento.

     E a escura trança que pendurava pelas costas até a cintura. Faria o que fosse para ver aqueles cabelos soltos caindo por seus ombros. Fechou os punhos e se imaginou acariciando aquele corpo com seus dedos.

     Levava um vestido liso e gasto, mas que não ocultava sua estreita cintura nem seus redondos seios. Movia-se com a soltura de alguém que desfrutava estando ao ar livre, alguém que se deleitava com a beleza que a rodeava. A suave curva de seus lábios acendeu algo em seu interior quando levantou o rosto para olhar o mar. Como se procurasse a liberdade de pôr-se a voar entre as correntes de ar.

     Ela recolhia os cogumelos com cuidado, sustentava-os brandamente entre os dedos para os deixar na cesta. Quando olhou ao castelo, pareceu como se lhe doesse, como se soubesse o que tinha acontecido ali.

     Algo no interior de Lucan se revolveu, insistindo-o a querer saber mais sobre aquela mulher. Quanto mais a olhava, mais intrigado estava.

     Ninguém tinha se atrevido a aproximar-se tanto do castelo e muito menos a olhá-lo com aquela curiosidade. Se Lucan soubesse que tal beleza vivia nas cercanias, teria abandonado o castelo para ir em sua busca.

     Não fez caso do vento que soprava com força e entrecerrou os olhos para ver através da forte chuva. De repente ela lançou um alarido e se equilibrou sobre a borda do escarpado. Ouviu-se um trovão e um raio iluminou o céu do entardecer. Já tinha chovido muito os dias passados.

     —O que está fazendo? —perguntou-lhe seu irmão menor, Quinn, enquanto entrava no quarto e se aproximava de Lucan. Quinn olhou pela janela. —Por Deus!, será que está louca?

     Lucan negou com a cabeça.

   —Estava recolhendo cogumelos e de repente se equilibrou sobre a borda do escarpado.

     Quinn emitiu um grunhido. Sua ira nunca o abandonava.

     —Moça estúpida. Cairá pelo escarpado.

     Lucan se afastou da janela rapidamente enquanto seu desenvolvido sentido da audição escutava os batimentos de seu coração. Não perdeu nem um momento em afastar seu irmão, saiu correndo do quarto e percorreu o corredor antes de saltar o corrimão do terceiro piso para aterrissar no chão da planta baixa. Caiu de pé no grande salão, com os joelhos flexionados e os dedos apoiados no chão para manter o equilíbrio. Sentia um formigamento por todo o corpo, pois o deus se revolvia em seu interior.

     —Lucan?

   Não havia tempo para explicar a Fallon, o maior de todos, o que Lucan planejava. A vida da garota estava em perigo. Saiu correndo do castelo sem ser consciente da chuva e do vento que golpeavam seu cabelo e sua roupa.

   Estava atravessando a toda velocidade o que ficava da torre de entrada, quando ouviu o grito da moça ao notar que a terra que havia sob seu corpo cedia. Lucan saltou e aterrissou a poucos centímetros dela, justo quando sua mão se fechava para agarrar um pingente e o chão voltava a ceder.

     Lucan se arrastou e a agarrou pelo braço antes que se precipitasse às rochas e a água que havia abaixo. Ela ficou pendurada agarrada pelo braço, com os pés flutuando no ar e seus grandes olhos cheios de medo.

     —Aguenta! —gritou-lhe na tormenta.

     As mãos de Cara, cheias de barro, escorregavam e seus pés procuravam um apoio nas rochas do escarpado. Gritou. As lágrimas se mesclavam com a chuva.

     —Por favor —gritou — Não me deixe cair!

     Lucan fez uso de sua força e começou a subí-la, quando de repente a terra voltou a mover. Ele seguia agarrando-a enquanto ia escorregando pela borda. Justo no momento em que ambos iriam cair, ele pôde agarrar-se a uma rocha.

     Lucan olhava da borda do escarpado aquela mulher. Devia lançá-la para cima, era o único modo de salvá-la, mas se o fazia... ela veria o que realmente era.

     —Estou escorregando!

     Não podia agarrá-la melhor sem antes soltá-la, mas se não fazia algo logo ela escorregaria de sua mão. Agarrou-a mais forte, mas quanto mais lutava por não perdê-la, mais ela escorregava.

     Até que de repente já não agarrou nada.

   Seu grito ressonou em seu interior, rasgando suas vísceras. Mas, em um segundo, ele liberou o deus que levava dentro, o monstro que mantinha encerrado e afastado do mundo. Em dois saltos se situou na parte debaixo do escarpado, entre as rochas, com o tempo suficiente para estender os braços e agarrá-la em voo.

     Ele acreditava que ela se revolveria de medo assim que visse seu rosto, mas quando a olhou, descobriu que tinha os olhos fechados. Desmaiou.

     Lucan deixou escapar um suspiro. Não tinha pensado no que podia supor salvá-la, mas agora que a tinha em seus braços não o lamentava. Tinham passado décadas da última vez que tinha tido uma mulher em seus braços, e suas exuberantes curvas e seu suave corpo fizeram que sentisse uma ereção repentina e um grande desejo.

     A chuva continuava golpeando-os, mas Lucan não podia deixar de olhar seu rosto ovalado e suas maçãs do rosto, a suave curva que tinha seu pescoço ao apoiar a cabeça nele.

     —Merda —murmurou, e deu um salto para subir o escarpado.

     Aterrissou o mais brandamente que pôde para não alterar à moça e descobriu Quinn observando-o com os olhos entrecerrados, cheios de ira e de ódio. Era um olhar que se acostumou com o transcorrer dos trezentos anos.

     —Muito bem, irmãozinho —disse Quinn entre dentes — O que é que esteve escondendo de nós?

   Lucan abriu passo afastando seu irmão de seu caminho e se dirigiu ao castelo sob a insistente chuva. Já haveria tempo para perguntas mais tarde.

     Quinn o alcançou.

     —Mas que demônios crê que está fazendo? Não pode levá-la ao castelo.

     —Tampouco posso deixá-la aqui com este tempo —respondeu Lucan — Quer levá-la à aldeia assim? Além disso, desmaiou e tampouco sei onde vive.

     —É um engano, Lucan, escuta o que te digo.

     Pode ser que fossem monstros, mas isso não significava que tivessem que atuar como tais. Durante muito tempo se esconderam no castelo, observando o mundo através das janelas de sua casa em ruínas. Essa era sua única oportunidade de fazer algo bom, e não ia deixá-la escapar.

     Não quando tenho esta deliciosa sensação com ela em meus braços.

     Lucan amaldiçoou seu corpo e tentou afastar qualquer outro pensamento sobre os seios daquela mulher contra seu corpo ou seu perfume a urze e terra, que embriagava seus sentidos. O tecido empapado de seu vestido permitiu vislumbrar um de seus mamilos endurecidos pelo frio.

     Tragou saliva, desejoso de pôr seus lábios sobre o pequeno seio e chupá-lo. Notou a rigidez de seu testículo e seu sangue ardeu de desejo.

     De um chute abriu a porta do castelo e se dirigiu ao grande salão. Fallon estava recostado no banco que havia no centro da habitação e se sentou com um olhar interrogante.

     —Lucan, estou bêbado, mas não o suficiente para não me dar conta de que há uma mulher em seus braços, no castelo. O que não está permitido, devo acrescentar.

     Lucan fez caso omisso a seu irmão e subiu as escadas de dois em dois para seu dormitório. Era um dos poucos em suficientemente boas condições para deixar à moça. Fallon nunca utilizava seu dormitório e Quinn tinha destruído o seu durante seus muitos ataques de ira. O resto nem sequer os tinham visto.

     Tampouco os tinham necessitado.

     Uma vez que Lucan a teve deixado sobre a cama, acendeu o fogo para ajudá-la a aquecer e tentou acalmar seu ansioso corpo. A necessidade e a sede que sentia por ela o tinham alarmado. Quando ficou em pé, não se surpreendeu em ver Fallon e Quinn junto à porta.

     —Não deveríamos tirar sua roupa? —disse Fallon com os olhos fixos na moça— Parece que está empapada.

     —Está.

     Mas Lucan não estava disposto a colocar a prova a si mesmo com tal tentação. Não até que não conseguisse acalmar sua sede. Fechou os punhos ao pensar em lhe tirar a roupa úmida do corpo e perder-se na visão de sua branca pele. Seriam seus mamilos tão escuros como seu cabelo?

     Quinn deu um passo adiante e alargou suas garras.

     —Eu tirarei o seu vestido.

     À velocidade de raio, Lucan se interpôs entre seu irmão e a cama, no lado oposto do quarto. A garota era responsabilidade dele. Se a deixava nas mãos de Quinn, acabaria partindo-a em duas com sua cólera, e Fallon se esqueceria dela assim que agarrasse a próxima garrafa de vinho.

     —Deixa que eu me encarregue —disse Lucan.

     Quinn soltou um grunhido.

     —Todos estes anos esteve me dando lições sobre como eu tinha deixado que o deus que levamos dentro se apoderasse de mim. Pois bem, irmão, você tem feito o mesmo.

     Fallon passou uma mão pelo rosto e fechou seus olhos avermelhados.

     —Do que está falando, Quinn?

     —Se não estivesse te dedicado tanto ao vinho saberia —respondeu Quinn.

     O escuro olhar de Fallon, como o de seu pai, posou sobre Quinn.

   —O vinho é melhor que no que você se converteu.

     Quinn riu, uma risada triste e vazia.

   —Ao menos eu sei que dia é hoje. Diga-me, Fallon, lembra-se do que fez ontem? Ah, espera! O mesmo que no dia anterior, e que no dia anterior a esse.

     —E o que é que tem feito você além de destroçar tudo o que Lucan constrói? —Os olhos de Fallon se encheram de fogo e um músculo de sua mandíbula se esticou pela ira. —Não é capaz de controlar a besta nem para aguentar uma brincadeira.

     Quinn sorriu com suficiência.

     —Vejamos.

   —Já basta! —gritou Lucan quando ambos deram um passo adiante — Saiam daqui se forem brigar.

     Fallon soltou uma gargalhada, o som, vazio.

     —Já sabe que não vou lutar com ele.

   —Assim é —disse Quinn. O ressentimento enchia sua voz — Não seria o grande Fallon MacLeod se tentasse a seu deus.

     Fallon fechou os olhos e se afastou, mas não sem que Lucan pudesse ver o desespero nos olhos de seu irmão maior.

     —Todos temos que arrastar nossas desgraças, Quinn. Deixa Fallon tranquilo.

   —Eu posso me cuidar sozinho —disse Fallon, e girou para olhar Lucan. Fallon olhava à garota e Lucan. —No que estava pensando ao trazê-la aqui? Já sabe que nenhum humano pode entrar em nossos domínios, Lucan.

   A moça se removeu na cama e os três ficaram quietos olhando se despertava. Ao não fazê-lo, Lucan soltou um suspiro e indicou que partissem.

     —Baixarei em seguida —prometeu ele.

     Quando se foram, tirou os sapatos cheios de barro da moça. Tinha que tirar sua roupa ou ela pegaria um bom resfriado, mas não confiava em seu próprio corpo, ou em suas mãos, para que se mantivessem afastadas de suas curvas.

     Seus cabelos, de uma formosa cor castanha, obscureceram-se com a chuva. Agarrou uma mecha de cabelo que tinha na maçã do rosto e se maravilhou com o suave tato de sua pele. Cativou-o seu rosto, formoso e inocente, com aquela testa e sua delicada estrutura.

     Embora a única visão que tinha tido de seus olhos era quando os tinha cheios de medo, recordava-os do marrom mais profundo que jamais tinha visto. Agora se deu conta das largas e escuras pestanas que acariciavam suas bochechas enquanto dormia. Lucan não se atreveu a tocar uma mulher desde aquele fatídico dia há tanto tempo. Não confiava em si mesmo nem no deus. Mas agora havia uma mulher deitada em sua cama, dormindo, tentadora. Demorou um momento em decidir-se a tocá-la.

     Com um dedo, percorreu seu rosto até seus carnudos lábios. O perfume a cedro o embriagou. Seu perfume. Deus, tinha esquecido quão suave podia ser a pele de uma mulher, quão doce podia ser seu perfume.

     Incapaz de deter-se, percorreu seus lábios com o dedo polegar. Desejava inclinar-se e posar seus lábios sobre os dela, deslizar a língua em sua boca e escutar seus gemidos de prazer. Desejava saboreá-la.

     Pode ser que tivessem passado séculos da última vez que teve uma mulher entre seus braços, mas ainda recordava o que se sentia ao ter seus seios contra seu peito nu, e os gritos de prazer quando entrava dentro delas. Ainda recordava o que se sentia quando uma mulher lhe acariciava os ombros e afundava seus dedos entre seu cabelo.

     Recordava-o muito bem.

   O corpo de Lucan estremeceu de necessidade enquanto se imaginava tirando a roupa daquela moça, pegando seus seios com as mãos e brincando com seus mamilos. Afastou-se dela de um salto, por medo de ceder à sede que o consumia. Então foi quando descobriu que os lábios dela tinham começado a ficar azuis.

   Amaldiçoou-se mil vezes. Ele não podia morrer, mas ela, definitivamente, sim podia. Alargou uma de suas garras e fez em pedaços o vestido até a cintura. Logo o tirou, lançou-o a um lado e se apressou a tirar suas meias molhadas.

     Suas mãos estremeceram quando entraram em contato com sua pele, tão suave como tinha imaginado. Deixou posta a combinação e foi procurar uma manta. Teve que utilizar toda sua concentração para não rasgar a fina combinação e deixar-se embriagar por suas sedutoras curvas.

     Quando começou a agasalhá-la com a manta, viu que tinha a mão fechada e que entre seus dedos pendurava uma tira de pele. Aquilo devia ser o que procurava no escarpado. Franziu o cenho ao sentir algo estranho. Só custou um momento reconhecê-lo como magia.

     —Quem demônios é? —murmurou.

     Lucan se permitiu olhar seu corpo. Pernas magras, quadris largos, uma cintura tão estreita que podia abrangê-la com suas mãos, e inchados seios com mamilos duros.

     Suas mãos e sua boca desejavam tocá-la.

   Tragou o desejo que crescia em seu interior. Seu testículo, tensos, à expectativa. Mas Lucan não ia permitir que acontecesse. Não podia. Agasalhou-a com a manta e deu meia volta para sair. A moça tinha estado em perigo e ele a tinha salvado.

     Isso era tudo.

     Isso era tudo o que podia haver.

 

     Lucan tinha o olhar fixo no fogo da lareira no grande salão. Não necessitavam o calor do fogo, mas Fallon gostava de recordar como era sua vida antes que tudo mudasse.

     As chamas alaranjadas e avermelhadas devoravam a madeira do mesmo modo que o deus tinha devorado Quinn. Lucan esfregou as mãos contra a mandíbula e suspirou. Tinha uma mulher. No castelo. Ia contra todas as normas que tinham, mas que Deus lhe perdoasse, não o lamentava. Apesar do que era, pelo que havia em seu interior, ainda era um homem.

     —Lucan.

     Girou ao ouvir a voz de Fallon.

     —Pensava que já tinha se retirado.

     —Ainda não.

Fallon sempre tinha sido o mais sério dos três, mas ao menos, estava acostumado a sorrir. No passado, em seus olhos verdes havia um reflexo de alegria e esperança. Agora, em seu olhar não havia nada mais que vacuidade. Como desejava Lucan que Fallon tivesse encontrado a cura que andava procurando, mas uma vez tinha descoberto que não se podia mudar o que lhes tinham feito, Fallon tinha perdido toda esperança.

     —Diga-o. —gritou Quinn enquanto entrava a toda pressa no salão da cozinha.

     Lucan suspirou e girou para seu irmão. Houve uma vez em que o grande salão do castelo dos MacLeod esteve cheio de gente e de formosas tapeçarias. Os candelabros iluminavam a habitação e as antigas armas de seus antecessores adornavam as paredes. Agora, tudo o que ficava no salão era uma velha mesa com dois bancos e três cadeiras que Lucan tinha feito e que estavam colocadas diante da lareira.

     Ao voltar para o castelo, ele e Fallon tinham reconstruído o telhado para que não entrasse chuva. Aquilo foi antes que Fallon se entregasse à bebida. Lucan olhou atentamente seu irmão maior e desejou ter as respostas para tudo.

     O rosto de Quinn se obscureceu, sua pele se voltou negra, o deus em seu interior desejava sair.

     —Por Deus, Lucan, diga-me —disse Fallon cansado, e passou uma mão por seus alvoroçados cabelos castanho escuro. Seu cabelo costumava ter reflexos dourados quando passava tempo ao ar livre. Agora era do mesmo castanho escuro que o de sua mãe, os olhos verdes como os de seu pai, mas mais escuros, como as samambaias que cresciam no bosque.

     Lucan soltou um suspiro.

     —Deixei sair ao deus.

   Se havia algo que podia esclarecer olhos de Fallon era aquilo. Tinham aprendido muito rápido que o deus que havia em seu interior era capaz de qualquer coisa por ver-se livre, e a ira só o fazia mais poderoso. Quando o deus estava livre não podiam controlar-se, uma das razões pelas que Fallon se entregou à bebida.

     Lucan, entretanto, tinha querido poder manter o controle, assim que passou décadas aprendendo a dominar a seu deus. Resultou ser mais complicado do que imaginou e muitas vezes esteve a ponto de abandonar tudo e deixar-se arrastar à bebida, como tinha feito Fallon. Mas somente o amor a seus irmãos e a necessidade que tinha de fazer bem as coisas, fez que seguisse adiante. O dia que descobriu que podia controlar quando deixar sair ao deus e quando não, foi um dia glorioso.

     Mas não tinha sido capaz de contar a seus irmãos.

     Fallon ficou direito e afastou a garrafa de vinho a um lado.

     —Que fez o que?

     —A moça estava a ponto de cair ao vazio. Não tinha opção.

   Quinn deu um murro à parede que estava justo a seu lado. Quando afastou a mão, suas unhas se alargaram até converter-se em garras e seus pálidos olhos verdes se tornaram negros.

   —Tinha uma opção. Podia tê-la deixado morrer. Não podemos permitir que ninguém saiba que estamos aqui. Não é isso o que diz noite após noite?

   —Lucan —disse Fallon com voz suave, e sacudindo a cabeça — o que tem feito?

     —Sigo sendo o homem que era —disse Lucan em sua defesa — antes de nos converter... no que somos, não podia deixar morrer alguém, e agora tampouco penso fazê-lo. Sentamo-nos aqui, nos escondendo nesta decrépita ruína que é nosso lar, durante mais de duzentos anos, enquanto enfrentamos a todo guerreiro e wyrran que se atreveu a aproximar-se de nós. Quanto tempo mais creem que poderemos seguir lutando? Tivemos sorte. Pudemos escapar e conseguimos nos manter afastados dela desde então.

     Quinn relaxou os ombros enquanto suspirava. Seus olhos se voltaram verdes e desapareceram suas garras.

     —Odeio admití-lo, mas pode ser que Lucan tenha razão. Eu me nego a voltar para aquela prisão, Fallon.

     —Não —disse Fallon, e ficou em pé. Balançou-se ligeiramente e se apoiou na mesa para manter o equilíbrio — Já disse que não nos encontramos em posição de nos enfrentar a ela. Mas vocês façam o que quiserem.

     Lucan odiava falar dela. Deirdre tinha sido a que tinha ordenado massacrar seu clã. Deirdre tinha sido a que os tinha encerrado na montanha Cairn Toul. Deirdre tinha sido a que tinha liberado o deus de seu interior. Deirdre, uma mulher tão formosa que podia fazer que os anjos cantassem, mas com um coração tão escuro como o próprio Satã.

     —Sou um guerreiro, Fallon. Deirdre nos converteu nestes monstros, e embora siga me negando a me unir a ela, também me nego a seguir aqui sentado esperando que esse demônio domine a Escócia. Já sabe que somos mais fortes quando os três lutamos juntos. Poderíamos fazer muito mal a Deirdre se você decidisse se unir a nós.

     Fallon se encolheu de ombros.

   —Unir-me a vocês? Irmão, acredito que não. Nosso destino ficou selado no mesmo instante que Deirdre lançou seu malefício.

     —Então, simplesmente abandona? Abandona tudo?

     Quinn mudou o olhar de Fallon a Lucan.

     —Sempre odiei o muito que me chateava quando era um pirralho para que fizesse as coisas corretas, Fallon, e agora, quem não as faz é você.

     Fallon arranhou sua barba, que necessitava de um bom barbeado.

     —Tampouco é que haja muito a fazer, irmão. Os dois sabem, tão bem como eu, que cedo ou tarde ela nos apanhará. Simplesmente estamos pospondo o inevitável.

     —Lutarei até o final. Nego-me a voltar para essa montanha —disse Lucan.

     Fallon passou a mão pelo cabelo.

     —Nada disso importa agora. O que importa é a garota que há em sua cama.

     A imagem da moça, a cabeça para trás e o cabelo escuro solto, enquanto nua se retorcia de prazer sob seu corpo, passou como um relâmpago pela mente de Lucan. Tragou um suspiro para aliviar a ereção que tinha do momento em que tinha aterrissado em seus braços.

     —Levarei-a a aldeia esta noite —disse Quinn.

   Lucan deu um passo adiante. Uma intensa fúria se apoderou rapidamente dele. Não entendia sua necessidade de proteger à mulher, simplesmente tinha que fazê-lo. Não era só sua sede de tocá-la, há não ser algo muito mais profundo.

     —Leva a magia consigo —confessou. Ao ver que Quinn não retrocedia, Lucan sentiu como rugia seu deus. —Não a tocará.

     Os olhos de Quinn se voltaram negros, inclusive o branco de seus olhos se voltou negro obsidiana. Desde que o deus tinha sido posto em liberdade, cada vez que saía à luz, lhe voltavam negros. Quinn separou os lábios para mostrar suas presas e deixou crescer suas garras de novo.

   —Já basta, Quinn —a voz de Fallon retumbou no salão — Os proíbo de lutarem. Já o fizemos o suficiente no passado.

     Era um bom sinal que fossem capazes de tranquilizar-se tão rapidamente, porque todos arrastavam horríveis cicatrizes das lutas que tinham mantido quando eram incapazes de controlar à besta. Enquanto o resto da Escócia repartia as terras dos MacLeod, os irmãos enfrentavam uns aos outros, uma e outra vez.

     O olhar de Fallon se deteve em Lucan.

     —Magia? Está seguro?

     —Seguro. Não é forte, mas está aí.

     —O que pensa fazer com ela?

     Em realidade, Lucan não tinha ideia. Sabia o que queria fazer com ela em sua cama, mas essa era uma opção que não devia, nem podia tomar.

     —Não sabe nada de nós.

   —Saberá que está no castelo. Fizemos um bom trabalho para manter as pessoas afastadas, mas não sei quanto tempo poderá durar.

     Especialmente se a moça diz a todo mundo que não há fantasmas no castelo.

     Lucan e Quinn tinham criado a ideia dos fantasmas e os monstros para manter às pessoas afastadas. Com os alaridos de Quinn e a marca de suas garras nas pedras, tinha resultado fácil assustar a todos.

     —Poderia levá-la agora mesmo —disse Lucan — Mas não o farei. A tormenta ainda não passou e estava gelada. Além disso, quero saber de onde vem essa magia.

     Quinn sacudiu a cabeça e sua massa de cabelos castanho claro se moveu com ela acariciando seus ombros.

     —Tem que ir. Agora.

     —Ou o que? —perguntou Lucan — Lhe fará mal?

     —Não vou permitir que ponha em perigo o que levamos anos construindo, com ou sem magia —grunhiu Quinn.

     —Lucan —disse Fallon.

     Lucan ignorou Fallon e riu de Quinn.

     —Não temos nada mais que um castelo em ruínas.

     —Mas é nosso —disse Quinn entre dentes — Ela destruirá tudo. Nego-me a permití-lo.

     —Não a tocará.

     Lucan ficou alerta, disposto a deixar livre ao deus se tinha que fazê-lo.

     —Lucan!

     Girou a cabeça bruscamente para Fallon e o descobriu olhando a sua direita. Lucan seguiu o olhar de seu irmão maior e encontrou à moça de pé nas escadas. Seus enormes olhos observavam Lucan com uma mescla de terror e desconfiança.

     O vestido que Lucan tinha arrumado para ela, tinha pertencido à mulher de Quinn. Levava séculos passado de moda, mas lhe sentava bastante bem. Os olhos da garota eram redondos e olhavam fascinados a Lucan, como se tivesse medo de afastar o olhar. Seu rosto ainda estava pálido, mas seus lábios já não estavam azuis.

     Lucan deu um passo para ela. Sabia que tinha que manter distância, mas ela estava ali por ele. Apesar do que eram ele e seus irmãos, não iriam lhe fazer nenhum mal, e ele precisava assegurar-se de que ela soubesse.

     —Como se atreve? —disse Quinn, e começou a caminhar para a moça.

     Antes de poder chegar a ela, Lucan agarrou Quinn pela túnica e o deteve.

     —Deixe-a em paz.

     —Pôs o vestido de Elspeth!

     Lucan olhou a jovem e se deu conta de que tinha dado um passo atrás nas escadas, com as mãos apoiadas nas pedras a sua direita. As escadas não estavam em boas condições. Poderia cair e se machucar. Ao fim e ao cabo, ela era mortal.

     —Eu lhe dei o vestido —disse Lucan enquanto girava de novo para seu irmão e lançava um grunhido.

     Com uma última olhada à moça, Quinn se soltou das mãos de Lucan e se afastou. Lucan não se deu conta que Quinn não tinha podido controlar ao deus em seu interior até que olhou Fallon e viu seu rosto pálido e cauteloso. A besta tinha se feito visível.

     Merda!

     Como se podia explicar o inexplicável?

   Lucan tragou saliva e abriu suas mãos, dando-se conta muito tarde, que suas unhas se alargaram. Teriam mudado seus olhos? Sua pele? Ela não tinha começado a correr gritando, mas seu olhar se cravou na porta várias vezes.

     Ele se dirigiu lentamente para a escada, evitando assustá-la mais do que já estava. Pela extremidade do olho viu Fallon aproximar-se dela.

     Tinha os nódulos brancos de aferrar-se com tanta força à parede. Por debaixo do vestido apareceu um pé nu. As pedras sempre estavam frias, e com aquele tempo estariam muito frias. Se não ia com cuidado, cairia doente.

     Lucan a olhou de cima abaixo, aquele vestido acentuava seus grandes seios e sua estreita cintura. Seu pescoço era esbelto, formoso. Mechas de cabelo úmido pegavam a seu rosto. Ele desejava ter soltado seu cabelo. Adoraria vê-lo cair solto sobre seus ombros e passar suas mãos por entre o espesso cabelo.

     —Eu caí?—disse ela de repente. Sua voz era suave, quase um sussurro na tormenta que seguia uivando a seu redor. Seu olhar se posou em Fallon antes de voltar a Lucan.

     Lucan teria que pensar rápido. Tinha desmaiado, assim não se deu conta do que tinha acontecido.

     —Eu segurei você, não recorda?

   Ela franziu o cenho e sacudiu a cabeça. Seus escuros olhos o olhavam atentamente, sem aceitar a mentira.

     —Não. Eu escorreguei de suas mãos. Caí.

     —E eu a segurei —disse Fallon — Nós a vimos do castelo e nos apressamos a ajudá-la. Eu desci pelo escarpado se por acaso Lucan não fosse capaz de te sustentar.

     Lucan pôde ver em seu olhar que ela queria acreditar neles, mas a dúvida estava instalada em seus maravilhosos olhos cor mogno. Especialmente depois de ter visto a transformação de Quinn.

     —Sou Lucan —disse. Antes podia cativar qualquer um, mas tinham passado muitos anos da última vez que o tentou — Este é meu irmão maior, Fallon.

     Fallon lançou um olhar fugaz a Lucan. Não lhe tinha ocorrido que poderiam ter dado nomes falsos. A história do que tinha acontecido a eles ainda seguia viva. Converteu-se em uma lenda que parecia que ia perdurar para sempre.

     —Lucan? —repetiu ela — Fallon?

     Lucan pôde ver como trabalhava sua mente e ia se dando conta de que não só havia gente em um castelo que se supunha estava vazio, mas sim além disso tinham os mesmos nomes que na lenda.

     Lucan amaldiçoou a si mesmo. Não era habitual nele ser tão pouco cuidadoso. Com Fallon sempre ébrio e Quinn incapaz de controlar sua ira, tinham deixado a Lucan aos cuidados de tudo. Nunca lhes tinha falhado.

     Até agora.

     Ele fez um gesto para a cadeira que havia junto ao fogo.

     —Aproxime-se. Assim se esquentará. — Ao ver que ela não se movia, separou-se das escadas para lhe deixar passo. —Não tem nada a temer de nós.

     —E quem tirou minha roupa?

     Lucan afastou o olhar, mas não sem antes ver como Fallon levantava uma sobrancelha.

     —Estava empapada. Não queria que pegasse um resfriado.

     Ela estremeceu ante suas palavras, e de novo lhe fez um gesto para o fogo. Os trovões rugiam no exterior, sacudindo os alicerces do castelo. O trovão a impulsionou a baixar as escadas e aproximar-se do crepitante fogo.

     Com as costas contra as chamas, observou os irmãos. Mantinha-se alerta, como um animal encurralado esperando um ataque.

     —Têm-me encerrada aqui?

     Fallon pôs os olhos em branco e procurou a garrafa de vinho com o olhar enquanto voltava a sentar-se à mesa, murmurando algo que soou como «estes jovens...».

     Lucan negou com a cabeça.

     —Teria te levado a aldeia, mas com esta tormenta pensei que seria melhor te proteger do tempo.

     —Então já posso partir?

   A Lucan custou um grande esforço não gritar que não se fosse. Pelo contrário, esfregou as mãos a suas costas e assentiu.

     —Se quer enfrentar este tempo.

     —Seu acento é... diferente.

     Tinha a cabeça inclinada para um lado, a trança caía pelo ombro até roçar seu seio.

     Ele se esqueceu de respirar enquanto seu pênis se erguia. Imaginou pegando seus seios, brincando com seus mamilos até pô-los duros como pedras. Logo, envolvendo-os com seus lábios, sorvendo-os até ouvi-la gritar seu nome.

     —... não é certo, Lucan?

     Ele sacudiu a cabeça e girou e viu Fallon observando-o. Tinha tido a mente tão ocupada com pensamentos para aquela moça que não tinha ouvido nenhuma palavra do que seu irmão havia dito.

     Fallon deixou sair um suspiro.

     —Comida.

     —Ah, sim, comida.

     Lucan se dirigiu irado para as cozinhas antes que acabasse se fazendo de idiota diante de todos.

     Quem teria imaginado que uma moça com cabelo castanho e olhos cor mogno pudesse lhe fazer ferver o sangue e pôr todo seu corpo ereto somente com um olhar?

 

A mente de Cara não parava de dar voltas. Tinha quebrado a cabeça pensando no que tinha passado, e no que havia a trazido até ali.

     Recordava ter estado observando as ruínas, ter se sentido atraída por elas. Quase como se a estivessem chamando, como se estivessem lhe fazendo gestos. Logo tinha tirado o pingente porque a queimava.

     O vento o tinha arrancado das mãos, mas tinha conseguido agarrá-lo. Recordava ter sentido a terra ceder sob seu corpo e logo cair antes de poder ficar a salvo.

     Logo tinha se detido e tinha levantado a vista para encontrar A... Lucan. Ele a tinha pego de um braço, lutando para evitar que caísse, enquanto seus olhos verdes como o mar lhe rogavam que não se soltasse. Ela tinha escorregado, disso estava segura.

     A pesar do terror da queda, sabendo que acabaria golpeando-se contra as rochas e morrendo, e tinha conseguido ouvir como pulsava seu coração. Mas não recordava nada mais depois de ver seus olhos abertos pelo medo, enquanto sua mão escorregava da sua.

     Era possível que seu irmão, chamava-se Fallon, tivesse podido estar abaixo para agarrá-la ao voo quando caiu? Era a única explicação, mas uma parte de sua mente seguia sem acreditar.

     Aqueles homens ocultavam algo. Era um pressentimento, o mesmo tipo de sentimento que a tinha invadido fazia umas semanas: como se alguém a estivesse observando.

     Houve um uivo que foi rapidamente absorvido por um trovão, mas o som era inconfundível.

     Deu um salto e se aproximou rapidamente do fogo.

     A imagem do outro homem que se zangou ao vê-la com o vestido passou como um relâmpago pela sua mente. Tratou-se de um jogo das velas ou em realidade lhe tinham alargado os dentes?

     Olhou fixamente para a porta, perguntando-se se poderia conseguí-lo. Eles haviam dito que não era nenhuma prisioneira, mas não estava muito segura do que acreditar.

     —Não a deteremos.

     Ela girou e viu Fallon com os cotovelos sobre a mesa e agarrando uma garrafa de vinho. Seu cabelo era da cor da terra recém arada, escuro e grosso. Era bastante bonito, com aquela mandíbula larga e forte e seus firmes lábios, mas seus escuros olhos verdes estavam repletos de uma profunda e silenciosa dor.

     Ele fez um gesto para a porta sem afastar o olhar da garrafa.

     —Vá.

     —Então não estou presa aqui?

     Soltou uma gargalhada e levou a garrafa aos lábios. Bebeu um longo trago e se encolheu de ombros.

     —Lucan não permitirá que te aconteça nada. Ele é o melhor de nós. De todos os modos, não sei o que é pior, se a tormenta ou ficar aqui.

     Apesar de Fallon estar bêbado, ela viu a verdade de suas palavras em seus olhos. O medo lhe percorreu todas as costas. Seu pingente, que tinha descoberto que tinha pego com uma mão, vibrava sob seu vestido, entre seus seios. Não o tinha feito nunca antes, e aquilo a fez ser ainda mais consciente do que a rodeava.

   Quem eram aqueles homens? Era simples coincidência que dois deles tivessem os mesmos nomes que os irmãos da lenda dos MacLeod? Chamaria-se o terceiro Quinn?

     Realmente queria sabê-lo?

     Angus havia dito que o castelo estava habitado por monstros. Poderia ser que o velho soubesse muito mais do que estava disposto a contar.

     Cara encolheu os dedos dos pés. Tinha os pés como dois blocos de gelo de estar sobre as nuas pedras, mas não tinha sido capaz de encontrar seus sapatos, nem suas meias ao sair do dormitório. A tormenta era intensa, mas não havia razão para não conseguir chegar à aldeia.

     Na escuridão? Sozinha?

   Encolheu-se por dentro ao sentir o medo que a invadia sempre que caía a noite. Deu um passo para a porta, a luz das velas e da lareira a fez duvidar. Ao ver que Fallon não fazia outra coisa que olhá-la, deu outro passo. Sua mão já estava sobre o fecho da porta para abrí-la, quando Lucan entrou no salão com um prato de comida nas mãos.

     Seu olhar se encontrou com o de Cara e ficou gelado. Ela passou a língua pelos lábios e se deu conta que suas possibilidades de sair livre eram poucas. Foi a nostalgia e a solidão que viu em seus olhos verdes o que a fez deter-se.

     Lucan era alto e largo de ombros, uma muralha de sólido músculo que desprendia atrativo sexual. Era muito bonito e perigosamente forte. Sua túnica não conseguia esconder seus musculosos peitorais, que se estreitavam em uma esbelta cintura que logo continuava em umas pernas largas nas que se adivinhavam uns fortes músculos cobertos por suas calças marrons. Seus cachos cor ébano caíam em ondas pelos ombros, e só levava uma pequena trança a cada lado das têmporas, como os antigos guerreiros.

     No pescoço de sua túnica de cor verde escura descobriu uma grossa corrente de ouro que levava ao redor do pescoço. Não levava nenhum kilt nem tartán que dissesse a que clã pertencia, o que pareceu muito estranho. Qualquer homem das Highlands, e aqueles homens eram, sem dúvida, das Highlands, sempre levava seu tartán.

     Seu coração deu um salto quando fixou seu olhar no rosto de Lucan. Tinha umas sobrancelhas escuras que emolduravam uns olhos com umas largas pestanas. Tinha o nariz ligeiramente torcido a um lado por uma ruptura, mas que empalidecia em comparação com sua boca. Uns lábios carnudos e bem divididos, que tinha franzidos. Um calafrio percorreu seu corpo quando se surpreendeu perguntando-se como seria beijar aqueles lábios.

     Logo que o pensamento cruzou sua mente, fez uma careta. Ela ia converter-se em monja. Uma monja não deveria ter esse tipo de pensamentos, embora fossem reflexo de seus mais profundos desejos.

     —Não vá —disse Lucan.

     Cara viu como Fallon a olhava pela extremidade do olho, mas não se moveu. Não podia. O olhar de Lucan não o permitia, e ela estava apanhada em seus hipnóticos olhos, que a atraíam para ele.

     Lucan deixou o prato sobre a mesa.

     —Não deveria sair com este tempo.

     E como se o tivessem deixado entrar, naquele momento, um raio cruzou o céu e tocou o chão, deixando uma marca que fez tremer toda a terra. O estrondo ressonou em seu peito antes que o trovão retumbasse ameaçador.

     —Não está prisioneira aqui. Tem minha palavra —seguiu dizendo Lucan — Aqui estará segura até que passe a tormenta.

     Cara olhou Fallon e o descobriu observando-a, seu rosto ilegível. O que deveria fazer? Pela conversa que tinha ouvido enquanto baixava as escadas, eles queriam que partisse.

     Não todos, Lucan queria que ficasse.

     Cada fibra de seu corpo dizia que se ficasse, sua vida mudaria para sempre. Mas como ia partir com aquele tempo? Na escuridão?

     Podia ouvir o vento, sabia que, se não ia com cuidado, aquelas rajadas podiam arrastá-la ao escarpado. Já tinha conseguido sobreviver uma vez aquele dia. Queria voltar a tentá-lo tão logo?

     Com um suspiro, Cara deixou cair a mão do fecho e se dirigiu à mesa.

     —Até que amaine a tormenta.

   Estava faminta. Mal tinha provado a comida do convento, pois tinha querido sair para pegar os cogumelos.

     Sentou-se e aproximou o prato. A carne estava fria, mas deliciosa. A comeu rapidamente, junto com uns pedaços de queijo e pão. Quando levantou a vista, Lucan tinha sentado frente a ela, ao lado de Fallon.

     Era desconcertante ter aqueles dois homens olhando-a. Agora que os tinha mais perto pôde ver que o cabelo de Fallon era escuro, mas não negro como o de Lucan. Os olhos de Fallon eram de um verde escuro, enquanto que os de Lucan eram de um verde vivo, que faziam que suas escuras pestanas parecessem ainda mais largas.

Voltou a olhar os lábios de Lucan. Eram tão... sensuais. Pestanejou, surpreendida por seus pensamentos. Sentiu mariposas no estômago e o frasco que levava no pescoço voltou a esquentar-se sobre sua pele. Ela moveu rapidamente o olhar para seus olhos e os descobriu olhando-a, com um intenso olhar, apaixonado. Que esquentou seu sangue. Já não sentia o frio do que não tinha podido desfazer-se desde que se levantou naquele estranho dormitório.

     —Ainda não os agradeci —balbuciou tentando encher aquele silêncio.

     Lucan se encolheu de ombros ante suas palavras.

     Fallon tamborilava com os dedos sobre a mesa.

     —Poderíamos conhecer o nome da mulher que salvamos?

     Cara fechou os olhos envergonhada. Quando voltou a abri-los, centrou seu olhar em Fallon. Ele não a fazia sentir... tão fora de si como seu irmão.

     —Sinto muito. Sou Cara.

     —Cara.

   Ela estremeceu ao ouvir seu nome nos lábios de Lucan. Apesar das advertências de seu interior, não pôde evitar olhá-lo aos olhos.

     —Sim.

     —Vive na aldeia, Cara? —perguntou Fallon.

     Sem afastar seu olhar de Lucan, respondeu.

     —Sim.

     —Está casada? —perguntou Lucan.

     Cara apertou suas mãos contra os joelhos sob a mesa.

     —Não.

     Fallon pegou a garrafa entre as mãos.

     —Pais?

     Ela franziu o cenho, sem saber muito bem por que eles perguntavam por seus pais. Compreendeu que como o maior que era, Fallon queria saber tudo o que pudesse sobre ela, mas por quê? Ela não falava sobre seus pais. A ninguém, nem sequer às monjas. Então? Não é que fosse fazer nenhum mal aos irmãos.

     Logo se deu conta de que sim que podia lhes fazer mal. Supunha-se que não havia ninguém no castelo.

     —Isso importa? —perguntou.

     Fallon lançou um bufo.

     —Me importa.

     —Já basta —disse Lucan com uma voz tão fria como o aço.

     Cara passou a língua pelos lábios, não estava acostumada a que ninguém se preocupasse com ela. Levantou o olhar da mesa e a passeou por rodo o salão. Tinha-se feito alguns arranjos que de fora não se viam. Não era tão suntuoso como supunha que tinha sido antigamente, mas bastava para os resguardar dos elementos.

     —Vivem aqui os três? —perguntou.

     Fallon lançou um olhar a Lucan.

     —Quando a necessidade se apresenta.

     Justo atrás dela soou um estalo. Deu um salto e olhou para a porta que havia atrás. Algo estranho estava acontecendo no castelo MacLeod, mas o que era? Sua curiosidade sempre havia lhe trazido problemas. E embora uma parte em seu interior dizia que saísse correndo e que não olhasse para trás, outra parte, a mais aventureira, dizia-lhe que ficasse e averiguasse.

     Um relâmpago iluminou o salão, e quando se apagou, Cara descobriu uns olhos olhando-a de trás de Lucan e Fallon. Abriu a boca para gritar, pois nunca tinha visto uns olhos completamente negros, sem o mínimo rastro de cor.

     —Quinn —espetou Lucan enquanto ficava de pé num salto.

     —Foi você, verdade? —perguntou Cara enquanto o medo se apoderava dela. Equivocou-se ao pensar que estava a salvo. Ficou em pé e começou a afastar-se da mesa. —Você era o que estava me olhando da janela.

     Os três homens voltaram seu olhar para ela com as sobrancelhas franzidas.

     Quinn lançou um bufo.

     —Nunca a tinha visto até hoje.

     —Sei. — Ela deu outro passo para trás, aterrorizada. —Foi quando já estava aqui. Você estava na janela, seus olhos tinham um brilho amarelo quando me olhou.

     Em lugar de uma negativa ou uma explicação, como ela esperava, o rosto de Fallon empalideceu e Lucan pôs as mãos sobre a mesa, inclinou-se para ela e escrutinou seu rosto.

     —O que aconteceu? —perguntou Lucan —Necessito de todos os detalhes, Cara.

     Ela não podia acalmar a onda de alarme que crescia em seu interior e a ira que via crescer nos três homens. Deu outro passo para trás e olhou Lucan. Seu olhar era firme, forte e nada ameaçador. Isso acalmou parte de seu medo.

   —Eu... eu abri os olhos e vi... —disse encolhendo-se de ombros— algo na janela. Os olhos eram amarelos na escuridão.

     —Merda! —grunhiu Quinn, e partiu.

     Fallon ficou em pé e lançou a garrafa de vinho ao fogo, fazendo crescer as chamas enquanto o líquido derramava sobre elas.

     —Quinn!

     —Eu me encarrego —disse Quinn enquanto se apressava a subir as escadas.

     O coração de Cara se acelerou, custava-lhe respirar. O que estavam fazendo? O que tinha visto tinha sido coisa de sua imaginação, não?

     Então por que disse algo?

     Porque no mais profundo de seu ser, sabia que o que tinha visto era real.

     Ninguém tem os olhos com brilhos amarelos.

     Nem tampouco podem voltar-se negros os olhos de alguém.

     Girou para a porta do castelo e viu Lucan de pé em frente dela. Suas mãos se fecharam, agarrando o vestido, tentando controlar o pânico que se apoderava dela a cada noite. A escuridão. Os monstros. Nunca desapareciam.

     —Venha comigo. —Lucan ofereceu sua mão. Seus olhos verdes como o mar prometiam segurança, mas não podiam ocultar o desejo que ela também pôde ver.     —Eu a protegerei, Cara. Dou minha palavra.

     Houve outro estrondo. Um trovão ou alguma outra coisa? Ela não podia ir com aquela tormenta e em plena escuridão. Só ficava uma opção. Tragou saliva para desfazer o nó de pavor que tinha na garganta e pôs sua mão sobre a grande e morna mão de Lucan.

     Ele a pegou e saíram correndo do salão, cruzaram uma porta e começaram a baixar umas escadas. Os pés de Cara, intumescidos pelo frio das pedras, fizeram-na dar um tropeção. Ele a rodeou com seu braço para evitar que caísse.

     O coração deu um salto no peito ao sentir seus fortes músculos tocando seu corpo. Ela aspirou o aroma de sândalo, desejo e força. Uma embriagadora mescla que a deixou sem fôlego e a fez consciente do homem que a mantinha segura contra seu forte corpo.

     Inclusive quando já tinha recuperado o equilíbrio, ele não tirou o braço, e que Deus a assistisse, Cara descobriu que gostava de sentir seu calor, sua força.

     Ela deveria ser cautelosa com ele, pois o ambiente que se respirava no castelo era ambiente de batalha. Uma batalha contra algo que era maligno ... perigoso, e ela não queria entrar e formar parte daquilo.

     —Aonde vamos? —perguntou à medida que entravam mais e mais no castelo.

     —A um lugar seguro.

     Não havia luz e ela voltou a tropeçar na escuridão. Desta vez, Lucan a pegou em seus braços. Ela se agarrou a seus ombros e sentiu como se moviam seus músculos em baixo de suas mãos enquanto a levava nos braços.

     —Não posso ver nada —sussurrou ela.

     —Não se preocupe, eu sim.

     Como?, quis lhe perguntar, mas em lugar disso se agarrou com mais força a seu pescoço enquanto ele aumentava a velocidade. As escadas terminaram e ele seguiu correndo pelo que soava como sujeira. Pareceu-lhe ouvir chiar um rato, mas pode ser que tivesse sido ela.

     Ela nunca tinha gostado de estar assustada. Pelas noites, quando o vento balançava a terra, ela se escondia sob suas mantas, fechando forte os olhos por medo do que poderia ver se os abria.

     De repente, Lucan diminuiu o ritmo e se deteve. Deixou-a no chão a seu lado, e ouviu o ruído de uma cadeia. Ele a agarrou pela cintura enquanto abria uma porta.

     —Fique aqui —murmurou Lucan.

     Cara se envolveu com seus próprios braços. Estava acostumada ao tempo das Highlands, mas a umidade que havia ali abaixo lhe penetrava os ossos. Tampouco ajudava que não levasse postos nem seus sapatos nem suas meias para ajudá-la a esquentar as pernas.

   Uma luz começou a flamejar, ela observou a habitação e viu Lucan pendurando uma tocha de um cabo na parede. Ele insistiu que entrasse.

     Seu olhar posou na porta e o ferrolho que acabava de abrir.

     —Vai me encerrar aqui?

     Lucan negou com a cabeça.

     —Não tenho tempo para explicações, só para te pôr a salvo.

     —Do que, da tormenta?

     —Da criatura que viu.

     Ela ficou gelada. Os pelos dos braços arrepiados. O medo lhe subiu pelas costas.

     —Criatura?

     —Não sei por que está aqui, mas descobriremos.

   Ele a empurrou dentro da habitação e deu a volta para partir. Só o pensamento de ficar ali só fez que gelasse seu sangue e começasse a sentir um suor frio.

     —Aonde vai?

     Ela tentou ocultar o pânico em sua voz mas não conseguiu.

     Lucan pegou seu rosto com uma mão, seu assombroso olhar de cor verde cheia de intensidade. Era o olhar de um homem das Highlands, de um guerreiro desejando lutar até o final.

     —Vou te proteger. E procurar respostas.

     Disse as últimas palavras com a voz fria como o aço.

     Cara observou que fechava a porta atrás de si e logo tocou a bochecha justo onde ele tinha posto sua mão. Nenhum homem a tinha tocado voluntariamente antes de Lucan. Sua pele ainda estava morna pelo roce e o aroma de sândalo persistia na pequena habitação. Ela não conhecia Lucan, mas por alguma razão inexplicável, confiava nele. Sua vida estava em suas mãos, ele lutaria contra... as criaturas.

     Quando tinha visto aqueles olhos amarelos, tinha fechado os seus, por medo a não estar sonhando. Todo seu corpo estremeceu ao descobrir que em realidade estava acordada.

     Tirou o pendente de sua mãe de debaixo do vestido e passou os dedos pelo frasco. Estava quente e palpitava de energia. Habitualmente, quando necessitava consolo, agarrava o frasco, mas desta vez, o frasco não podia acalmá-la.

     A Cara falharam as pernas e se deslizou pela parede até o sujo chão. Dobrou os joelhos contra o peito, cruzou os braços ao redor das pernas e baixou a testa até os joelhos.

     Deveria ter escutado ao velho Angus e ter se mantido afastada do castelo. Ele sabia que ali havia monstros.

     Ao dar-se conta, Cara levantou a cabeça de repente. Angus sabia.

 

Lucan voltou correndo ao grande salão, com o sangue pulsando em suas veias. Tinham passado meses da última vez que tinha lutado, e se deu conta de que o estava desejando. Apodatoo, o deus que havia nele, clamava por ser liberado, e assim impor sua vingança sobre os que se atrevessem a atacar o castelo.

     E Lucan o liberou.

   Os dentes de Lucan se alargaram e suas unhas cresceram até converter-se em garras afiadas e negras, capazes de decapitar um homem de um golpe. Sua pele formigou ao voltar-se de cor ébano. Depois de sofrer a conversão quando estava na montanha de Deirdre aprendeu que cada deus tem poderes distintos e que quando um guerreiro deixa sair a seu deus, o guerreiro passa a ter a cor desse deus.

   Lucan, Fallon e Quinn se voltavam de cor negra.

Quando Lucan chegou ao grande salão, Quinn e Fallon tinham as mãos ocupadas. Os irmãos tinham visto os monstros tão diversos nos que os homens se convertiam quando havia um deus em seu interior.

     Uma criatura de cor amarela pálida se lançou sobre Lucan. Ele levantou a mão para cravar suas garras nela e arrancou sua cabeça com a outra.

     Com um movimento brusco, jogou o cadáver do monstro e se preparou para o seguinte ataque. Fez uma careta. Eram wyrran. Criaturas criadas pela magia negra de Deirdre.

     Uma e outra vez os wyrran se aproximavam deles. Eram menores do que Lucan recordava. Não tinham nem um só cabelo, suas bocas estavam tão cheias de dentes que não podiam fechar os lábios. Os wyrran bufavam, chiavam e gritavam, mas não rugiam, como fez Quinn, como faziam os guerreiros.

     —Vão... A... morrer! —gritou Fallon enquanto o fio de sua espada separava a cabeça de um wyrran de seu corpo.

   Lucan olhou seu irmão, assombrado que nem sequer então Fallon tivesse cedido ante o deus e seguisse sem se transformar. Embora não tivesse muito tempo para pensar nisso, pois quatro wyrran se equilibraram sobre ele das paredes.

     Arranharam e morderam-lhe. Lucan tirou de cima ao que mordia seu ombro. Logo, decapitou a outro com um golpe de mão. E depois, lançou ao que tinha na perna de um chute para Quinn, que o partiu em dois.

   Lucan tentou alcançar o wyrran que pendurava em suas costas. Tinha as garras afundadas em sua cintura e em seu ombro. Podia sentir que o sangue brotava de seu corpo, e a dor se aliviava com a fúria que sentia em seu interior.

     Agarrou à criatura pela parte de trás do pescoço e a fez voar sobre sua cabeça. O wyrran caiu de costas com um alarido, com os dentes apertados. Lucan se ajoelhou junto a ele, cravou suas garras no peito da criatura e arrancou seu coração.

   —Odeio estas malditas coisas —disse Fallon enquanto se aproximava de Lucan.

     Lucan lançou a um lado o coração. Levantou-se e advertiu o sangue de seu irmão.

     —Eu também.

     —Parece que Deirdre quer batalha.

   Lucan suspirou ao olhar os corpos sem vida dos wyrran. Para Deirdre eram mascotes que usava para perseguir a quem ela quisesse.

     —Estão todos mortos?

     —Isso acredito —respondeu Fallon — Onde está Quinn?

     Lucan se encolheu de ombros.

     —Estava justo aí.

     Então ouviram um alarido, o alarido de raiva de Quinn. Lucan apontou com sua garra a Fallon.

     —Fique aí se por acaso vierem mais.

     Fallon assentiu, e Lucan subiu as escadas a grandes pernadas e se apressou a procurar Quinn. Seguiu os alaridos e os bramidos até a parte mais alta da torre, onde Quinn lutava contra um monstro alto e magro. Lucan subiu para aproximar-se mais a eles, o vento e a chuva dificultavam sua visão. Até que um raio cruzou o céu e pôde ver a pele azul cobalto do guerreiro.

     —Merda —murmurou Lucan ao recordar que Quinn já tinha lutado contra um deles.

     Quinn era forte, mas seu adversário se movia tão depressa que ele não podia manter o ritmo. Em um abrir e fechar de olhos, a besta tinha Quinn agarrado pelas costas, com a cabeça pendurando a um lado da torre. Um longo braço azul cobalto se elevou, e suas garras foram parar na garganta de Quinn.

     Eram imortais, embora pudessem morrer se cortavam sua cabeça. Lucan já tinha falhado a seus irmãos uma vez ao levar Cara ao castelo. Não os decepcionaria de novo.

     Saltou e aterrissou junto ao guerreiro. Deu-lhe um reverso e seguiu ao guerreiro enquanto este caía pela lateral da torre. Ouviu Quinn gritar seu nome, mas Lucan não podia parar. Agora não.

     O guerreiro aterrissou sobre seus pés perto do escarpado momentos antes que Lucan caísse a seu lado.

     —Não pensa morrer, não? —provocou Lucan.

     Os lábios azuis se contraíram em um sorriso.

   —Minha senhora está cansada de seus jogos. Quer que voltem para sua montanha.

     O sangue de Lucan gelou em suas veias.

     —Deirdre pode querer o que for, mas não iremos a nenhuma parte.

     O guerreiro se encolheu de ombros.

     —Embora ela os queira, MacLeod, crê que são aos únicos aos que quer?

     Caminhavam em círculos, esperando o momento de atacar.

     —Assim vieram por isso? —Lucan não podia imaginar outra razão pela que Deirdre teria enviado parte de seu exército ao castelo.

     O guerreiro jogou a cabeça para trás e riu.

     —Não tem ideia, verdade?

     —Explique-me isso.    

   —Ah, Lucan —disse — Nós só somos homens bastante afortunados para ter poderes como nenhum outro. Por que negar o que está em nosso sangue? Deem ao deus que têm dentro o que quer.

     —E nos voltar como você, não? Render-nos ante Deirdre e sua necessidade de dominação? Apesar do demônio que há em mim, luto no bando do bem.

     —De verdade crê que têm escolha? Os druidas criam coisas que não é possível desfazer. Esconda-se em seu castelo tanto como possam, mas advirto-os, não serei o último de nós que verão.

     Lucan se equilibrou sobre ele, mas o guerreiro desapareceu em meio a noite. Lucan quis seguí-lo, mas o grito de Quinn das almeias o fez voltar-se em seguida.

     —Depressa —disse Quinn antes de saltar ao chão e correr para o castelo.

   Lucan passou correndo sob a guarita, junto à muralha e entrou no castelo. Encontrou o grande salão vazio. Onde estava Fallon?

     —O que é isso? —O peito de Quinn subia e baixava rapidamente enquanto a chuva caía por sua negra pele — Ouvi Fallon.

     Lucan escutou atentamente. Demorou um momento, mas finalmente ouviu a voz de Fallon.

     —Merda, está sob o castelo. Onde escondi Cara.

 

   Cara cobriu as orelhas com as mãos, mas nada amorteceu os sons que procediam de cima. Chiados desumanos, gritos horripilantes. Recordou-a muito da noite em que morreram seus pais, uma noite que se esforçava diariamente por esquecer.

     Tentou cantarolar, fazer algo que amortecesse os ruídos. Pelo menos tinha a luz da tocha. Não teria estado tão tranquila se estivesse escuro. Não suportava a escuridão.

     Começaram-lhe a fazer cócegas os dedos, e sentiu a necessidade de tocar algo. Pôs as mãos sobre o sujo chão ao tempo que outro estrondo fez com que retumbasse o castelo.

     Mal tinha começado a batalha no castelo, terminou. Apoiou a cabeça contra a parede que tinha atrás e fixou a vista no chão, esperando em silêncio que Lucan fosse lá por ela.

     Ouviu-se um ligeiro chiado na porta que pareciam garras. Ficou de pé, dando é obvio que era Lucan ou seus irmãos. Até que as dobradiças da porta rangeram.

     Deu um passo atrás e correu para a parede, com o olhar fixo na porta e no pó e a sujeira que se desprendiam cada vez que esta recebia uma sacudida.

     —Sei que está aí. Posso cheirar a ti e a sua magia —disse uma voz grave e rouca do outro lado da porta.

     Olhou ao redor da pequena habitação. Magia? Do que estava falando? Ela não tinha magia. E tampouco havia nenhum lugar por onde escapar, nenhum lugar aonde esconder-se. A única coisa que a separava do que fosse que estivesse ao outro lado era uma porta de madeira de séculos de antiguidade. Quanto mais poderia aguentar?

     Assim que esse pensamento cruzou sua cabeça, a porta rangeu. Uma risada malévola ressoou na habitação ao tempo que o homem dobrava seus esforços por afastar a porta.

     A madeira se estilhaçou com um grande rangido. Cara se apertou contra a parede com o coração desbocado. Gritou ao ver uma mão de cor cinza aparecer pelo buraco da porta.

     As garras do monstro arranharam a madeira, formando cinco largos buracos na porta. Cara se encolheu contra uma esquina enquanto um suor frio lhe percorria a pele. De um empurrão, a porta se partiu em dois. Ao ver aparecer pelo oco um rosto da mesma cor cinza, gritou de novo.

     Por entre o cabelo loiro da cabeça do monstro se sobressaíam uns grossos chifres. O monstro riu, deixando ver suas presas entre os lábios. Seus olhos, da mesma cor que a pele, repassaram-na de cima abaixo enquanto ria.

     —Que recompensa conseguirei por ser o único em te encontrar.

     Arrancou o que ficava da porta das dobradiças e se dispôs a pôr um pé na habitação.

     Mal tinha um pé dentro quando a ponta de uma espada atravessou seu estômago. O coração de Cara paralisou quando a criatura baixou o olhar para o fio que sobressaía de seu abdômen. Um instante depois, alguém tirou a besta da habitação de um puxão, fazendo que suas garras rasgassem a pedra.

     Cara olhou Fallon, com a túnica coberta de sangue.

     —Está bem? —perguntou Fallon.

     Ela assentiu.

     —Manterei-o ocupado. Saia e vá procurar Lucan.

   Fallon entrou na escuridão do corredor. Os grunhidos invadiram tudo enquanto Fallon e o monstro lutavam. Cara se dirigia para a porta da entrada quando se deteve ao ver que tinham crescido sementes ali onde tinha posto as mãos. Sem tempo para pensar nisso, tentou alcançar a tocha. Por muito que tentasse, não se soltava da sujeição.

     Cara piscou para impedir que caíssem as lágrimas que ameaçavam sair. O medo a paralisou a noite em que seus pais morreram. Se não fazia algo já, teria a mesma sorte que eles.

     Mas não podia ver nada. Como poderia esquivar ao monstro se não sabia onde estava?

     —Cara! —gritou Fallon — Corre. Agora!

     Levantou as saias e abriu caminho com os ombros através da porta quebrada, rezando por não golpear contra nada. Podia ouvir Fallon e ao outro homem, ou monstro, em meio da escaramuça. Fallon grunhiu e algo pesado golpeou a parede.

   Cara tentou esquivá-los passando depressa, mas deu contra algo que a fez cair. Caiu de bruços e esqueceu suas saias ao tirar as mãos para amortecer a queda. Ao cair, deu com o queixo contra o chão e mordeu a língua.

     A dor a invadiu e as lágrimas brotaram de seus olhos. O sabor férreo do sangue encheu sua boca. Tentou ficar de pé, mas alguém a agarrou pelo tornozelo. A gargalhada que ressoou a seu redor fez que estremecesse.

     —Aonde pensa que vai?

     O monstro puxou seu tornozelo para aproximá-la dele.

     Cara cravou os dedos no chão e a sujeira se acumulou sob suas unhas. Deu um chute para trás com o outro pé e falhou. A segunda vez que tentou, deu contra algo. Ouviu-se um grunhido, e depois a besta lançou uma maldição e puxou sua perna com brutalidade.

     Com a respiração entrecortada, começou a rezar, murmurando as orações que as monjas tinham ensinado para aliviar seus medos.

     —Pertence-nos —disse o monstro — Você e o Beijo do Demônio.

     As mãos da besta a agarraram pela cintura, e a carregou sobre ele.

     Cara sabia que se aquela besta a levava, Lucan nunca a encontraria. Ninguém nunca a encontraria, ninguém. Isso foi suficiente para ignorar o medo e arremeter contra o monstro com as mãos e os pés. Golpeou-lhe várias vezes, mas não pôde soltar-se.

     Quando este começou a caminhar, Cara soube que sua última oportunidade era Fallon, se é que seguia vivo.

     —Fallon! Fallon, por favor!

     Estava prisioneira com os pés pendurando no ar, mas no instante seguinte se encontrou no chão com um enorme peso sobre ela. Tentou mover-se, mas a criatura pesava muito. Imobilizou-a no chão e pôs-se a rir junto a seu ouvido.

     Então ouviu que Lucan gritava seu nome na escuridão. Ela tentou mover-se sob o peso do monstro mas só conseguiu que uma enorme mão agarrasse seu braço e cravasse as garras na pele.

     —Se quer que sobrevivam, não se mova —sussurrou a besta.

     Cara piscou e tratou de ver na escuridão. Tudo estava em silêncio. O único som que se ouvia era sua própria respiração entrecortada.

     —Cara! —gritou Lucan — Está ferida?

     A besta apertou seu braço.

     —Não responda.

     —Ele pode ver —sussurrou ela sem saber se a besta podia ver ou não.

   Sentiu um movimento perto dela, aproximando-se a cada pulsar de seu coração. Cara apertou os dentes para evitar que repicassem de medo e frio.

     A criatura a pôs de pé de um puxão, colocando-se atrás dela e apontando a sua garganta com uma de suas garras.

     —Atrás, MacLeod. Se não quiser que lhe corte a garganta, me deixe passar.

     —Por que está aqui? —perguntou Fallon a sua esquerda.

     Ela agradeceu mentalmente que ainda estivesse vivo.

     A besta riu com um som antinatural. E diabólico.

     —Vim pelo Beijo do Demônio. E a pela garota.

     O silêncio que seguiu indicou a Cara que os MacLeod tampouco tinham ideia do que era o Beijo do Demônio.

     —Tem duas opções. Ou a deixa partir e luta contra mim, ou morre aí mesmo.

     A voz de Lucan soava mais perto com cada palavra. A criatura grunhiu.

     —Não irei sem a garota.

     —Então morrerá.

     O monstro uivou de dor, mas não a soltou. Cara fechou os olhos com força, agradecida de estar muito escuro para ver algo. Os sons de espadas afundando-se na carne já eram o bastante aterrorizantes.

     Pelos gritos da besta, os três irmãos deviam estar atacando com os punhos e as armas. Ao final, deixou de segurá-la com tanta força e pôde liberar-se.

     Cara deu um tropeção na escuridão, e com uma mão se apoiou na parede para equilibrar-se. Não sabia para que direção ia, e já não importava. Tinha que deixar a escuridão e sair à luz.

     Uns fortes braços a agarraram pelos ombros, o suficientemente firmes para elevá-la, mas de forma bastante suave para soltar-se se queria.

     —Cara, sou eu, Lucan.

   Suas pernas fraquejaram quando suas emoções se acalmaram. Enfrentou a seu pior medo, mas agora estava segura. Segura junto a Lucan.

   Quando ele a subiu em seus braços e a afastou dos gritos, ela quis rodear seu pescoço com os braços, apoiar a cabeça em seu ombro e deixar que ele a carregasse um pouco mais.

     —O que era essa coisa? —perguntou depois de uns instantes.

     —Mais tarde.

   Seu calor a rodeava, fazendo desaparecer o frio e o medo que a tinham aprisionado durante o que lhe tinha parecido uma eternidade. Suspirou profunda e calmamente.

     —Pensei que ia morrer.

     —Disse que te protegeria.

     Sua voz deixava notar certo desgosto, como se ela tivesse que tê-lo sabido.

   Cara se acomodou em sua força, surpreendida de que ele pudesse ignorar o frio tão facilmente. Pensava também no homem forte e magro que a apertava contra ele, e no aroma que lhe produzia um torvelinho de sensações. Seus seios sentiram cócegas com o contato, e teve o imperioso desejo de passar os dedos por suas mechas de cor ébano.

     Lucan começou a subir pelas escadas que os levariam ao grande salão. Cada passo os aproximava mais à luz. Quando não pôde suportar mais seus pensamentos, levantou a vista e viu que ele a estava olhando.

     Seus olhos se fecharam. Cara podia ser inocente sobre o comportamento dos homens, mas não havia dúvida do desejo que obscurecia seus olhos. Tentou desfazer o nó de excitação que sentia na garganta. Sentia uma opressão no peito, e o vestido muito ajustado a sua pele. Desejou liberar-se de sua roupa, sentir sua pele contra a dele.

     Quando ele olhou seus lábios, Cara pensou que a beijaria. Via-o em seus olhos, na forma de sua mandíbula. Ele a desejava. E ela desejava a ele.

     A confusão a invadiu. Comprometeu-se a ser monja, a encher sua vida com Deus e ajudar aos outros. Não havia lugar em sua vida para Lucan ou a paixão que sentia dentro dela. Não era certo?

   Não sabia. Quanto mais estava junto a Lucan, mais absurda era a ideia de tomar o hábito. Tinha desejado um lar, uma família. Tinha-o encontrado no convento com as irmãs e os meninos. Pode ser que não fosse seu lugar, mas elas a tinham acolhido.

   Demorou um instante em dar-se conta que Lucan já não subia as escadas. Estavam uma vez mais no salão, enquanto a tormenta lá fora ainda rugia, como suas emoções.

     Lucan soltou suas pernas, e seu corpo deslizou até que os pés tocaram o chão. Mas nem sequer as frias pedras fizeram desaparecer o calor que a invadia.

     —Cara.

   Um calafrio a percorreu quando ele sussurrou seu nome com desejo, com necessidade... com fome.

   Obrigou-se a afastar o olhar dele antes que se esquecesse do convento e se deixasse levar pelo prazer que Lucan prometia. Então viu o sangue e os corpos sem vida que jaziam no grande salão. Não estava segura do que eram essas coisas de cor amarela pálida, mas estavam mortas.

     —Cara.

     Seus dedos agarraram sua cintura como se quisesse aproximá-la junto a ele. Sua voz soava preocupada, quase aterrorizada.

     O estrondo de um trovão a assustou. Olhou Lucan e viu sua expressão séria e espectadora. Sentiu algo agudo na cintura. Não eram as mãos de Lucan o que a assustou, a não ser as garras em seus dedos.

     Cara se liberou bruscamente de seu abraço e deu um passo atrás. Tropeçou com algo, e quando Lucan tratou de ajudá-la, rapidamente deu a volta e correu.

     —Não! —gritou com o coração palpitando grosseiramente no peito, e viu que ele tinha sangue seco no peito, entre o que ficava de túnica — Afaste-se de mim. Não sei o que é, não sei o que é tudo isto, mas quero voltar para a aldeia. Imediatamente.

     —Não permita, Lucan —disse Quinn atrás dela.

   Deu a volta e encontrou Quinn na porta do castelo e Fallon endireitando a mesa e os bancos. Não lhes tinha ouvido entrar no grande salão, porque de novo tinha estado absorta pensando em Lucan e nas doces sensações que lhe provocava.

     Pelo sangue que empapava as túnicas dos irmãos e os farrapos que ficavam de suas roupas se deu conta que estavam feridos. Queria ajudar, mas como faria se não estava segura do que eram e ainda menos do que estava acontecendo?

     Reprimiu o pânico e as lágrimas quando se deu conta que Quinn havia dito que não podia ir à aldeia.

     —Por quê? Por que não posso voltar para a aldeia?

     Seu olhar e o de Quinn se cruzaram.

     —Não há nenhuma aldeia para voltar.

 

Lucan sentou diante do fogo, com as pernas esticadas para diante e com os pés cruzados. Depois de trocar de roupa e limpar o sangue, agarrou uma das garrafas de vinho de Fallon, mas esta permaneceu intacta no chão junto a ele.

     Conteve-se, sabia fazê-lo bem, para não ir atrás de Cara quando subiu correndo as escadas com lágrimas caindo por suas bochechas.

     Tinha visto raiva em seus olhos, sabia que sentia atração por ele. Se a tivesse levado a qualquer outro lugar exceto ao grande salão, as coisas teriam acabado de outro modo. Mas não pensou. Queria tirá-la das masmorras e levá-la a uma zona iluminada para ver se estava ferida.

     Ao dar uma olhada no salão, soube que ela se horrorizaria. O deus que havia nele rugiu, pedindo que Lucan fizesse sua a Cara. Tinha contido à besta, mas por muito pouco. Então foi quando ela sentiu, e viu, as garras de Lucan. Fossem quais fossem os sentimentos que tinha por ele, desvaneceram-se assim que ela se deu conta de que ele não era humano.

     Mas tampouco era um deus. Como explicaria o que era quando em realidade não sabia?

     —A tormenta está parando —disse Fallon sentando-se junto a Lucan.

     Lucan se encolheu de ombros.

     Fallon deixou escapar um suspiro e olhou sua túnica em farrapos.

   —Como esperava que reagisse, Lucan? Estava aterrorizada. O guerreiro a agarrou e tratou de partir com ela.

     —Sei.

   Sabia. Não esperava nada de Cara, mas o ardente desejo que o tinha invadido, tinha sido intenso e o anseio devastador.

     Quinn se ajoelhou diante da lareira e jogou lenha ao fogo.

     —Do que falaram você e o guerreiro de pele azul que atirou da torre?

     Lucan se incorporou e apoiou os braços na cadeira. Esqueceu-se do guerreiro ao ver que Cara estava em perigo.

     —Disse que não éramos os únicos aos que Deirdre estava perseguindo.

     —Isso não soa nada bem —disse Fallon com o cenho franzido — Dava por certo que Deirdre tinha vindo por nós.

     Lucan negou lentamente com a cabeça.

     —Não veio por nós porque acredito que está esperando algo, mas não sei o que. Disse-o como se nos levar fosse uma recompensa mais.

     —O que te disse seu guerreiro? —perguntou Quinn a Fallon.

     Fallon passou a mão pelo rosto.

—Deixou-me inconsciente, acredito que perdi a consciência. Quando despertei, ele tinha pegado Cara e estava dizendo que tinham vindo por ela.

     —Ouvi-lhe dizer algo sobre um Beijo do Demônio —acrescentou Lucan.

     Fallon se recostou na cadeira.

     —Eu também o ouvi.

     —E bem? O que é isso? —perguntou Quinn.

     —Oxalá soubesse —respondeu Fallon.

     Lucan se levantou e começou a dar voltas. Estavam passando muitas coisas para as que não tinham resposta.

     —Acredito que Deirdre enviou os wyrran por causa de Cara.

     Quinn cruzou os braços sobre o peito.

     —É uma possibilidade. Pelo que parece, atacaram primeiro a aldeia.

     —Procurando Cara, suponho. E logo vieram aqui?

     —Isso é —disse Fallon — Ouvi o guerreiro dizer a Cara que a tinha cheirado. A ela e a sua magia.

—Merda —murmurou Lucan de novo. Magia, wyrran e guerreiros. Definitivamente, Deirdre queria a Cara.

     Fallon soprou.

   —Se Deirdre enviou somente aos wyrran e a dois guerreiros é por que não esperava encontrá-la aqui.

     —Então o guerreiro com o que falei não mentia —disse Lucan — Procuravam algo mais.

     —A Cara —disse Quinn.

   Durante um longo momento, os irmãos ficaram sentados em silêncio. Por muito que Lucan odiasse admitií-lo. Cara estava envolvida, tanto se queria como se não. Deirdre queria a Cara, mas somente por sua magia? Se fosse um homem de apostas, apostaria pelo Beijo do Demônio, fosse o que fosse.

     —Terá que falar com ela —disse Fallon em silêncio.

     Lucan suspirou.

     —Sei.

     —Voltarão —disse Quinn — Não pararão até que tenham a Cara.

     Lucan esfregou os olhos com o índice e o polegar.

     —Sim, já sei. E também temos que averiguar o que é o Beijo do Demônio e que tipo de magia possui ela.

     Quinn se sentou no lugar que tinha deixado Lucan.

     —Da próxima vez, Fallon, será-nos de mais utilidade se deixa sair ao deus.

     Fallon olhou fixamente Quinn uns instantes.

     —Nunca —grunhiu antes de ficar em pé e partir.

     Lucan esperou até que Fallon partisse e olhou Quinn.

     —Poderia ter sido mais sutil.

   —É a verdade, tanto se crê como se não. O guerreiro quase mata Fallon. Se deixar que saia o deus, terá mais força e poderá controlar seu poder.

     Lucan sabia que era verdade, mas entendia por que seu irmão tinha se negado a ceder.

     —Falarei com ele. Até então, deixe-o sozinho.

     Quinn se encolheu de ombros, mas Lucan apertou os punhos.

     —Conte-me o que aconteceu na aldeia —pediu Lucan. Precisava saber o que podia e que não podia contar a Cara.

   —Não fica nada. Os wyrran destruíram tudo. Começaram pelo convento, pelo que sei. Nem sequer se salvaram os meninos.

Lucan sabia de sobra como matavam os wyrran. Foram eles os que massacraram o clã MacLeod.

     — Não sobreviveu ninguém?

     —Só uma pessoa.

     Pela expressão cautelosa do Quinn, Lucan adivinhou que se tratava do velho que lhes tinha dado de comer.

     —Angus?

   —Assim é. Não ficava muito de vida. Perguntou por Cara e nos disse que a mantivéssemos a salvo.

     Lucan desejou que o homem tivesse conseguido. Tinha informação que podia ser de utilidade. Lucan olhou para as escadas, pensando na mulher que tinha agitado seus desejos e despertado uma sede que não sabia que tinha. Já fazia um par de horas que Cara tinha fugido de seu lado. Pareceria-lhe suficiente para dar-se conta de que não lhe faria mal?

     —Postergá-lo não servirá de nada —disse Quinn — Com Elspeth sempre era melhor tratar as coisas diretamente. Não teria por que ser distinto com outra mulher.

     Lucan olhou fixamente a seu irmão. Quinn não tinha falado de Elspeth desde que ela e seu filho foram assassinados.

     Quinn sorriu com gesto irônico a Lucan.

   —Ao contrário do que possa pensar, não esqueci o que é ser humano, ser marido e pai.

     —Nunca o duvidei.

     Lucan apoiou uma mão sobre o ombro de Quinn antes de subir as escadas.

     —Seja paciente com ela —disse Quinn.

   Lucan esperava que quisesse escutá-lo. Ao ver o medo no rosto dela, havia sentido como uma adaga no peito. Ela confiava nele, e ele a tinha assustado.

     Subiu silenciosamente dois pisos e avançou pelo corredor até seu dormitório. O resplendor de uma chama piscava na entrada, e deixou escapar um suspiro que não sabia que estava contendo. Não havia muitos lugares no castelo nos que Cara podia esconder-se, mas podia ser que o tivesse feito.

     Lucan duvidou na porta antes de dar uma olhada ao dormitório. Encontrou-a feita um novelo com o braço sob a cabeça. Havia velas acesas por todo o quarto. As velas, junto com o fogo, faziam que o quarto estivesse cheio de luz.

   Apoiou-se no marco da porta e olhou Cara dormir. Na mão tinha algo agarrado contra ela, como se tivesse medo que caísse. Estremeceu quando o vento uivou na janela.

     Lucan se aproximou até a cama e a cobriu com outra manta. Não estava seguro de se era o medo ou o vento o que a tinha feito estremecer. Poderia ser um pouco de tudo, depois do que tinha presenciado aquela noite.

     Sem poder evitá-lo, acariciou com um dedo sua bochecha até a mandíbula. Sua pele suave como uma pétala o acendeu. Embora sabia que devia manter distância, encontrou-se sentado na cama, com o corpo dela curvado em torno dele. Seu sangue ardia, seu coração palpitava. Deus santo! Quanto desejava prová-la, percorrer com a língua seus carnudos lábios e encaixar suas curvas a seu redor!

   Suas mãos foram até o final de sua trança. Com um movimento rápido, desatou-a com os dedos. Aproximou uma mecha à seu rosto e inalou sua fragrância a urze.

     Fechou os olhos, deixando que o aroma o invadisse. Seu corpo vibrava de necessidade, com um vivo desejo que só crescia quando Cara estava perto.

     Quando abriu os olhos, viu que ela o estava olhando. Seus olhos mognos tinham um ar precavido, mas também viu uma coragem que enfraqueceu seu coração. Esperou que ela falasse. Tinha perguntas que ele responderia.

     —De verdade desapareceu a aldeia?

     Ele assentiu.

     —Sim, o ataque começou na aldeia.

     —Há algum sobrevivente? Poderiam ser eles os que necessitem ajuda.

     Lucan afastou o olhar de seu rosto.

     —Não sobreviveu ninguém.

     —OH, meu Deus.

     Ela tampou a boca com a mão e fechou com força os olhos.

   Ele entendeu sua dor. Havia sentido algo muito parecido ao ver desaparecer seu clã. Ela secou as lágrimas e abriu os olhos.

     —E os meninos?

     Ele negou com a cabeça, incapaz de encontrar as palavras adequadas.

     As lágrimas chegaram depressa, com os lábios trementes.

     —O que aconteceu aqui esta noite? O que eram essas coisas?

     Lucan aspirou profundamente.

     —Oxalá fosse fácil de explicar, mas não é. Esses seres, essas criaturas que viu mortas no grande salão, surgem do mal e da magia druida. Chamam-se wyrran.

     Ela se incorporou e apoiou as costas na cabeceira, com os joelhos contra o peito.

     —Magia? A magia não existe.

   Lucan não sabia se acreditava ou não. Seus olhos negros eram claros e honestos e era inegável que seu instinto lhe dizia que ela acreditava de verdade. Como podia ser que tivesse magia e não soubesse?

     —A magia é real. Note o que viu esta noite. Essas coisas eram muito reais.

     —Há quem diz que os druidas são boas pessoas.

     —Como ocorre com tudo, há uma parte boa e uma parte má.

   Ela umedeceu os lábios e secou a última lágrima. Lucan apertou a mandíbula para conter um gemido quando se imaginou provando a boca dela com a sua própria, deslizando sua língua entre aqueles lábios e bebendo de seu embriagador sabor.

   Lucan se esforçou por manter sua respiração calma, por recordar que Cara estava assustada e necessitava amparo, e não sedução. Entretanto, sabia que ela encaixaria com ele perfeitamente, que fazer amor seria extraordinário.

   Nenhuma mulher o tinha inspirado essa necessidade, esse desejo, essa sede. Não podia rechaçar Cara mais do que sossegava ao deus que havia nele.

     —Tenho que saber o que está passando, Lucan.

     Sua voz era mais forte, o brilho de determinação em seus olhos dizia que não se renderia até que soubesse a verdade.

     Se Deirdre iria a sua busca, Cara merecia saber a verdade. Toda a verdade. Não importava o doloroso que resultasse a ele contar.

     —Faz muito tempo, em outra época, os romanos tentaram tomar o controle da Grã-Bretanha.

     Ela assentiu.

     —De Grã-Bretanha, mas não das Highlands.

     —Os romanos queriam as Highlands, mas os celtas nunca deixaram de lutar. Muitas gerações viram os romanos crescer em número e crescer em território a cada ano que passava. As tribos celtas lutaram contra os romanos o melhor que puderam.

     —Mas não puderam derrotá-los porque não se aliaram.

     Lucan sorriu, impressionado por seus conhecimentos.

     —Os clãs recorreram aos druidas em busca de ajuda. Recorreram aos druidas bons, mies, em busca de consolo e cura. Sabiam que o que necessitavam os celtas estava além de suas habilidades. Os Mies procuravam sua magia na natureza.

     »Mas os celtas que precisavam era aos outros druidas. Esses druidas, os drough, recorriam a sacrifícios humanos e à magia negra e esqueciam seus autênticos métodos druidas. Os drough sabiam que para derrotar os romanos, os celtas necessitariam ajuda especial.

     Cara apoiou o rosto em seus joelhos.

     —Que tipo de ajuda?

     Lucan se encolheu de ombros.

—Naquele momento, estou seguro que os celtas, desesperados por recuperar suas terras, fariam qualquer coisa para expulsar os romanos da Grã-Bretanha.

     —Então —insistiu Cara — o que aconteceu?

     —Os drough usaram sua magia negra e uns feitiços proibidos para invocar a uns antigos deuses que tinham sido enterrados tempo atrás no inferno. Esses deuses escolheram ao guerreiro mais forte de cada clã, e o possuíram.

     Cara tragou saliva.

     —Quantos deuses foram invocados?

     —Ninguém sabe.

     —E os deuses? Como eram de antigos?

     Lucan olhou para o fogo.

     —Tão antigos que seus nomes se perderam no tempo.

     —Vá, continue.

     —Agora que os deuses estavam dentro dos guerreiros, derrotaram facilmente aos romanos, forçando sua retirada uma e outra vez, até que Roma deixou Grã-Bretanha para não voltar nunca.

     —Então funcionou —disse ela, com as comissuras dos lábios apontando para cima.

     —Funcionou, mas quando os druidas tentaram devolver os deuses ao inferno, estes se negaram a abandonar os guerreiros. Ao não ter ninguém contra quem lutar, os guerreiros se voltaram uns contra os outros.

     Ela tentou colocar-se mais perto dele. Tinha o cenho franzido e estava muito concentrada.

     —Seguro que ninguém pensou que ocorreria algo assim.

   —Não. Tiveram que unir ambos os grupos de druidas para encontrar um feitiço que retivesse os deuses dentro dos guerreiros, já que os deuses não pensavam abandoná-los. Enquanto um deus está liberado em seu guerreiro, o homem é imortal, e tem uma força incomensurável e outras habilidades. Quando os deuses se escondem, os guerreiros voltam a ser mortais.

     »Os celtas continuaram com sua vida como se nada tivesse acontecido. O dos guerreiros possuídos e o que tinham feito, com o tempo, ficou como uma mera lenda. Esqueceu-se, exceto por parte das famílias daqueles guerreiros. Outros diziam que não era mais que um conto para assustar as pessoas.

     —Mas não era —suspirou Cara.

     —Muitos, muitos anos depois se diz que uma sacerdotisa druida do lado antigo e escuro encontrou um pergaminho que narrava a história. De algum jeito, descobriu como fazer aparecer aos deuses que estavam dentro dos guerreiros.

     Cara franziu o cenho.

     —Por que faria algo assim?

   —Queria, e quer, controlar os guerreiros para liderar um exército como nenhum outro na Grã-Bretanha. Quer controlar a Grã-Bretanha, e o mundo.

     —Você é um desses guerreiros, verdade?

     Lucan exalou um suspiro e se levantou para aproximar-se da lareira. Apoiou as mãos nas pedras e deixou o olhar perdido nas chamas vermelhas e alaranjadas.

     —Faz trezentos anos, eu era o segundo filho do latifundiário MacLeod. Quinn já estava casado e tinha um filho pequeno. Fallon tinha escolhido sua prometida e esta vinha para o castelo. Os três, com vinte homens MacLeod, nos dispúnhamos a recebê-la, e a seus guardas.

     Lucan tragou saliva. Nunca tinha falado desse dia com ninguém, nem sequer com seus irmãos. Por um acordo tácito, tinham guardado seus pensamentos para si mesmos.

     —Tudo ia segundo o previsto —continuou — Recebemos à prometida de Fallon e começamos a voltar para o castelo. Estávamos a quilômetros de distância quando vimos a fumaça. Deixamos à moça com nossos homens e Fallon, Quinn e eu viemos para o castelo a cavalo.

     Fez uma pausa ao reviver a cena mentalmente. O aroma fétido da morte, o inquietante silêncio e os corvos que se davam um banquete com os cadáveres. Entretanto, nada podia comparar-se vendo em chamas o que tinha sido um animado e buliçoso castelo, ou ver seu clã morto pelo chão. Tantos corpos, de homens e de mulheres, de jovens e velhos. A bílis subiu pela garganta quando recordou ter visto um menino nos braços de sua mãe estendido no chão com ela.

     —Lucan, não tem que fazê-lo —disse Cara.

     Ele levantou a mão para silenciá-la. Precisava falar disso. Não se tinha dado conta até então, mas uma vez que tinha começado, não podia parar.

   —Quando vimos o castelo em chamas, sabíamos que algo terrível tinha acontecido. Entretanto, não ouvimos gritos de nosso pai nem de outros homens, como deveria ter ocorrido se tivessem tentado apagar o fogo. Não vimos o que tinha ocorrido até que chegamos ao castelo.

     Endireitou-se e girou a cabeça para olhar Cara. Seus olhos escuros estavam sérios e tão penalizados que quase lhe destroçavam.

   —Certamente atacaram assim que fomos, porque os corvos já estavam ali, dando um festim. Mataram a todos os homens, mulheres e meninos. Não ficou vivo nem um cavalo, nenhuma ovelha ou uma galinha. Tudo estava morto. E queimado.

     Fechou os olhos e tragou saliva para evitar as náuseas que o provocava pensar no fedor dos falecidos.

     —A morte flutuava no ar e penetrava tudo. Não tínhamos ideia de quem tinha atacado nem por que. Em seguida, a prometida de Fallon e os outros homens chegaram ao castelo.

   »Apenas a mulher viu o que tinha ocorrido, seus homens a levaram de volta com sua família. Era por seu bem. Com a morte de nosso pai, Fallon se convertia em senhor de um clã que não existia. Não sabia o que fazer, não o sabia ninguém.

     —Tentaram descobrir quem o tinha feito? —perguntou Cara.

     Ele assentiu.

   —Havia muita gente a que enterrar, assim queimamos os corpos e centramos nossa atenção na vingança. Os vinte homens que tínhamos conosco se dirigiram para direções distintas para difundir o que tinha acontecido e ver se podiam reunir alguma informação. Fallon queria que Quinn e eu ficássemos no castelo até que os outros voltassem. Disse que um latifundiário devia ficar em caso de que alguém do clã fosse liberado e tentasse voltar.

     —Ninguém voltou, verdade?

     Lucan se aproximou da cama e se agachou junto a ela.

   —Não, não voltou ninguém. Passaram meses sem que soubéssemos nada de nossos homens. Anos depois soubemos que os tinham matado os wyrran de Deirdre.

     Cara inclinou a cabeça.

     —Quem é Deirdre?

   —Uma mulher malvada que espero que não conheça jamais. É a origem de tudo isto, é a sacerdotisa druida que encontrou o modo de liberar os deuses.

     —Deus santo —murmurou Cara, e se benzeu.

     Lucan soprou.

     —Se tivéssemos sabido o que ia nos acontecer no dia que recebemos sua carta, jamais teríamos ido.

     Os olhos de Cara se abriram de incredulidade.

     —Foram ver Deirdre?

     —Não tínhamos ideia de quem era. Disse-nos que tinha informação sobre o massacre de nosso clã. Por isso, inclusive Fallon renunciou a ficar. Entramos nas montanhas para nos encontrar com ela. Ao chegar ali, contou-nos seu plano para dominar a Grã-Bretanha e por que necessitava nossa ajuda.

   »Demo-nos conta muito tarde de que tinha sido ela quem tinha assassinado nosso clã, mas nos prendeu antes que pudéssemos escapar. Sua magia é forte, a magia negra costuma ser.

     —Falar de magia a sério me resulta difícil.

     —Depois de tudo o que viu esta noite, crê que estou mentindo?

     Ela sacudiu a cabeça e olhou as mãos.

     —Não disse isso, só digo que é difícil de acreditar.

     Lucan desejou ter esse problema.

   —Vimos de primeira mão o que a magia de Deirdre tinha sido capaz de fazer. Os seres pequenos e pálidos foram os primeiros que invocou, criados pela magia negra, a raiva e o poder. Depois, centrou-se em encontrar os clãs que tivessem deuses no interior de seus guerreiros.

     —O que fez a vocês?

     —Desatou aos deuses.

     Cara se encolheu de ombros.

     —Não o entendo.

—Quando os druidas esconderam os deuses, passaram de geração em geração, sempre possuindo aos guerreiros mais fortes. Algumas vezes o deus passava só a um guerreiro, enquanto que em outras, como ocorre comigo e com meus irmãos, o deus se separou. Sozinho, Quinn tem uma força considerável, mas quando os três lutamos juntos, somos virtualmente invencíveis.

     —O que aconteceu depois? —perguntou Cara quando ele se deteve.

   Lucan se coçou o queixo, perguntando-se se devia continuar. Então se deu conta de que assim era.

   —Uma vez liberado nosso deus, este nos deu o poder de romper nossas ataduras, embora fossem mágicas. Fomos da montanha mas nos enfurecemos pelo que tinha feito. Quanto mais nos zangávamos, mais forte se fazia nosso deus. Não sabíamos como controlar os poderes que tínhamos. Passamos décadas escondidos nas montanhas descobrindo no que nos tínhamos convertido. Brigávamos constantemente, nos culpando uns aos outros pelo que tinha passado.

     —Não era culpa de nenhum de vocês —disse Cara.

   —Talvez. Fallon tentou uma e outra vez conter a seu deus, mas foi em vão. O primeiro que aprendeu é que, ao embebedar-se, o vinho apaziguava ao deus. Uma vez descoberto isso, sempre levava uma garrafa nas mãos. O caso de Quinn foi muito pior. Perdeu sua mulher e seu filho na matança. Sentia-se responsável por suas mortes, já que era sua obrigação protegê-los. A seu modo de ver, tinha-lhes falhado, porque ele vivia e eles não.

     —E você?

—Sendo Quinn incapaz de controlar sua ira e pouco disposto a fazê-lo, e estando Fallon sempre ébrio, alguém tinha que cuidar deles.

     —E tocou a você.

     Encolheu-se de ombros.

     —Essa obrigação me levou a aprender como controlar ao deus que havia em mim, a aprender como utilizar os poderes em meu benefício sem liberá-lo.

   —E se converte no que me atacou esta noite?

     —Não exatamente—respondeu Lucan — Como te dizia, cada clã tem um deus diferente. Cada deus tem certos poderes, ou habilidades.

     Ela alargou a mão e tocou a dele, movendo os dedos sobre suas unhas.

     —E o deus que há em você?

     —Apodatoo, o deus da vingança. Aumenta minha capacidade auditiva e minha velocidade, além de minha força. E também posso controlar a escuridão e as sombras.

     —As controlar?

   —Sim, posso mover as sombras a meu desejo, e usar a escuridão em meu benefício.

     —Quando quiser?

   —Não. Só quando libero ao deus tenho pleno controle sobre esse poder. Outros os tenho sempre.

     Ela mordeu seu lábio.

     —O homem que tentou me levar era de cor cinza.

     —Eu lutei com um de cor azul cobalto. Quando o deus é liberado e controlado, o homem se transforma e se converte na cor que era o deus.

     Clara olhou as mãos de novo.

     Lucan fechou as mãos e apertou os punhos.

   —Sim, Cara. Eu também me transformo. Viu Quinn parcialmente transformado, embora não acredito que se desse conta.

     —Sim, seus olhos se voltaram negros.

     —Sim. Nossa pele, nossos olhos e nossas garras se voltam negros. Cada deus tem uma cor no que nos transformamos quando o liberamos.

     Lucan ficou paralisado quando ela se aproximou e tocou seu rosto.

     —Se esquece de quem é quando o deus te controla?

   —Não, embora possa ouví-lo. Sempre posso ouví-lo, embora não esteja liberado. Mas não esqueço quem sou, nem a quem estou protegendo.

     —Se não o tivesse visto com meus próprios olhos, diria que sua história é impossível de acreditar. É o que me agarrou quando caí, verdade?

     —Sim —Lucan umedeceu os lábios. Era o momento de perguntar a ela — Você tem magia?

     Ela franziu o cenho e seus olhos se voltaram distantes por um momento.

     —Não... não acredito.

     —Sabe por que os guerreiros foram por ti?

     —Não —respondeu sacudindo a cabeça.

     Ele já o esperava.

     —Sabe o que é um Beijo do Demônio?

     Depois de um momento de dúvida, afrouxou algo em seu vestido e sustentou um pendente com um frasco atado a ele.

     —Acredito que isto é o que querem.

     Lucan olhou o frasco prateado com um nó celta a seu redor. Estava atado a seu pescoço por uma tira de couro. Podia ser isso tão pequeno o que procurava Deirdre?

     —O que é isso?

     —Sangue de minha mãe.

 

Cara esperou enquanto Lucan observava o frasco. Ele se aproximava muito, mas nunca chegava a tocá-lo. Ela não estava segura de que o que o guerreiro cor cinza tinha chamado o Beijo do Demônio fosse o frasco que levava ao redor de seu pescoço, mas uma débil lembrança que não era capaz de esclarecer em sua mente lhe dizia que sim que o era.

     Ela tragou saliva e tentou procurar uma resposta a sua pergunta sobre se ela tinha magia. Não sabia o que era a magia assim, como ia saber se a tinha?

     E o que significa quando o frasco se esquenta?

   Existia uma possibilidade que aquele frasco fosse mágico. Ela era muito jovem quando seus pais foram assassinados, mas nunca ouviu seus pais falarem de magia. Recordaria-o.

     E, entretanto... havia algo na pergunta de Lucan que a fez recordar o comichão em seus dedos, os brotos no chão, que não estavam ali antes que ela pusesse suas mãos sobre a sujeira do chão.

     Aquilo era suficiente para fazer que se detivesse para pensar.

     —O que há de tão importante no sangue de sua mãe? —perguntou Lucan.

     Ela se encolheu de ombros fixando toda sua atenção de novo em Lucan.

     —Oxalá soubesse.

     Seu olhar se fez mais reflexivo enquanto se recostava com os braços cruzados sobre seu peito.

     —Conte-me o que aconteceu com seus pais, Cara. Onde estão?

     —Mortos.

     Ela soltou o frasco, que acabou apoiando-se sobre seu peito com um suave ruído surdo.

     —Eram do clã MacClure?

     Ela duvidou. Nunca havia dito a ninguém que recordava seu sobrenome, mas Lucan tinha sido honesto com ela.

     —Não. Meus pais eram Sinclair. As monjas me encontraram perdida no bosque e me levaram com elas ao convento, onde me criaram.

     Lucan suspirou e voltou para ela na cama. Colocou-lhe uma mecha de cabelo atrás da orelha e logo posou as mãos sobre seus ombros.

   —Eu vou cuidar de você, Cara. Prometo isso. Mas preciso saber o que aconteceu a seus pais e a história desse frasco. Quanto mais saiba, melhor poderei te proteger.

     —Entendo-o.

     E entendia, mas somente a ideia de abrir a caixa das lembranças da morte de seus pais a fazia estremecer de pavor. Rodeou-se com seus próprios braços para tentar acalmar-se.

     —São só lembranças, Cara. Não podem te fazer mal.

     Ela tragou saliva e olhou aos olhos verde mar de Lucan. Havia tanto carinho e compaixão neles... Ele tinha compartilhado sua história com ela. O mínimo que podia fazer ela, era compartilhar a sua.

     —Só tinha cinco primaveras. Lembro que sempre estava feliz, que minha mãe sempre ria. Já não posso recordar seu rosto nem o de meu pai, mas sigo recordando sua risada. E seus sorrisos.

     Lucan fez a Cara um suave gesto de assentimento.

   —Aquele dia meu pai chegava tarde para jantar. Minha mãe andava de cima abaixo, esfregando as mãos e me dizendo que comesse. Eu sabia que algo não ia bem.

     —Recorda a que clã pertenciam?

     As mãos de Lucan começaram a esfregar seus braços de cima abaixo, lhe dando calor.

     Ela negou com a cabeça.

     —Não importa. Continua.

   —Quando meu pai por fim retornou, estava suarento e lhe custava respirar. Levava sua espada na mão, da que caíam gotas de sangue.

     Ela recordava ter visto uma gota de sangue cair da folha da espada e ir parar em um atoleiro que havia no chão.

   —Meu pai estava assustado. Minha mãe começou a chorar em silêncio e se voltou para mim.

     Cara não se afastou quando Lucam a pegou e a aproximou contra seu peito. Ela inspirou sua essência e seu calor, deixando que aquilo a relaxasse. Ela o rodeou com seus braços, suas mãos agarradas a sua túnica como se ele fosse sua corda de salvamento.

     —O que aconteceu?

     Ela posou a testa sobre seu ombro e soltou um tremente suspiro.

     —Minha mãe me pôs em um buraco que tinham cavado sob o chão de nossa casa. Era o suficientemente grande para os três, mas eles não entraram comigo. Eu comecei a chorar lhes pedindo que não me deixassem sozinha.

   »Minha mãe me deu um beijo e me pôs seu pendente ao redor do pescoço. Disse-me que ali estaria segura, que me mantivesse quieta, ouvisse o que ouvisse. Logo começou a me sussurrar umas palavras que não pude entender, mas me disse que não importava.

   Cara não podia deixar de tremer. As mãos de Lucan a seguravam firmes e tenras, tranquilizadoras e alentadoras.

     —Estavam-lhe protegendo —disse — Ouviu o que era o que pensavam que ia por eles?

   —Não. Meu pai estava de cara à porta com a espada preparada. Fez-me uma piscada por cima do ombro e me disse que tudo iria bem. Nunca me tinha mentido, assim deixei que minha mãe me metesse no buraco. Ela pôs o tapete sobre a porta e me sussurrou que me amava.

   As mãos de Lucan agora tinham passado a seu cabelo, acariciando as longas e grossas mechas e massageando o couro cabeludo. Seu tato a ajudou a controlar o medo que a alagava ante as lembranças que estava enfrentando. Calafrios de prazer corriam por todo seu corpo, da cabeça até os dedos das mãos e dos pés. Gostava do tato de Lucan. Gostava e muito.

     —Estou aqui— sussurrou ele — Não deixei que o guerreiro a pegasse antes, e não vou deixar que as lembranças lhe façam nenhum dano agora.

     Ele a girou e a colocou em seu colo, com os braços segurando-a com força.

     Com a cabeça apoiada em seu peito e o batimento de seu coração sob seu ouvido, ela encontrou forças para continuar.

     —Ouvi os horripilantes alaridos e gritos muito antes que atacassem a casa. Tentei olhar por entre as tábuas do chão, mas o tapete cobria tudo.

     »Ouvi meus pais sussurrarem que se amavam antes que a porta se abrisse. Eu gritei, mas ninguém me ouviu. Meus pais lutaram contra eles, mas tudo terminou muito em breve. Logo houve silêncio.

     —Logo saiu dali?

     Ela negou com a cabeça.

     —Havia silêncio, mas eu sabia que fosse o que fosse que tivesse matado a meus pais seguia ali. Não passou muito tempo até que comecei a ouvir que rasgavam a roupa e revolviam as camas. Sentei-me no buraco com os gritos de meus pais ressoando em meus ouvidos.

   A mão de Lucan mantinha sua cabeça apoiada contra seu peito, com seu dedo polegar fazendo círculos atrás de sua orelha. Sua pele estremecia sob seu tato.

     —Quanto tempo esteve ali?

     —Não o recordo. Estava muito assustada para sair, mas a fome me obrigou a fazê-lo. Quando saí do buraco e vi o que tinham feito com minha casa e a meus pais, soube que tinha que ir tão longe como pudesse.

     Cara tragou saliva e fechou os olhos com força enquanto recordava a visão de sua mãe no chão, com sangue jorrando pela boca e seus olhos olhando ao vazio.

     —Então foi quando a encontraram as monjas? —perguntou Lucan.

   —Sim, não sei quanto tempo estive andando —respondeu ela, adivinhando o que ia perguntar a seguir. As lágrimas entupiam sua garganta. Os olhos pesavam cada vez mais com cada carícia que ele fazia no cabelo.

   Ninguém a havia tratado nunca com tanta ternura. As monjas tinham sido amáveis, mas nunca puderam substituir a seus pais. E como ela tinha pensado tomar o hábito, os homens do clã MacClure a evitavam.

     —Os gritos que ouvi esta noite recordaram ao que matou meus pais.

     Lucan ficou tenso. Seu quente fôlego acariciou sua bochecha.

     —Obrigado — sussurrou.

     Cara tratou de abrir os olhos. Havia muitas coisas que precisava saber, muitas perguntas que queria fazer, mas seus olhos se negavam a obedecer. Seu corpo estava exausto. Pela primeira vez em anos, deu-se conta de que não tinha medo da escuridão. Não quando Lucan a segurava entre seus braços.

     Justo quando estava ficando dormida, pareceu-lhe sentir os lábios de Lucan na testa.

 

Lucan observava a beleza que tinha entre os braços. Cara tinha tido que enfrentar a um duro golpe com a perda de seus pais. Podia-lhe ter acontecido uma infinidade de coisas enquanto perambulava pelas Highlands. Por sorte, as monjas a tinham encontrado.

     Foram os wyrran que tinham matado a seus pais. Mas por quê? Ele estava virtualmente convencido que sua mãe tinha utilizado algum tipo de magia druida para esconder Cara, e pode ser que inclusive para que os wyrran não encontrassem o pendente.

     Lucan não sabia muito de druidas. De fato, mal sabia algo, além de que havia druidas bons e maus, o qual não podia ajudar Cara. Pelo que ele sabia, só os druidas podiam utilizar a magia como tinha explicado Cara. Mas se seus pais eram druidas, por que queria matá-los Deirdre?

     Voltou a passar os dedos pelos castanhos cabelos de Cara, deixando que o fresco e suave cabelo se deslizasse entre suas mãos. Não podia recordar a última vez que havia tocado o cabelo de uma mulher, ou que se preocupou por uma.

     Os últimos trezentos anos lhe tinham feito pensar em muitas coisas que ele tinha dado por certas. Como tocar a alguém. Lucan não confiava em estar ao lado de uma mulher desde que Deirdre tinha deixado livre ao deus de seu interior.

     Não importava quão forte fosse sua necessidade, sempre acabava arrumando-se sozinho. Não se podia permitir o luxo de expor a alguém ao que ele era realmente. E, entretanto, em seus braços tinha uma mulher que não só tinha visto no que podia se converter, mas além disso, seguia lhe permitindo reconfortá-la enquanto revivia dolorosas lembranças.

     Ela tinha escutado sua história, sabia a verdade e seguia olhando-o com escuros e incomensuráveis olhos cheios de confiança. Nunca tinha visto ninguém tão formoso, tão impressionante. Se a tivesse visto antes de aparecer Deirdre, teria feito de Cara sua esposa. Havia algo especial nela, algo inatamente puro que o atraía a um nível que não podia, nem queria, ignorar.

     Durante aqueles trezentos e tantos anos estranhos, ninguém tinha chegado tão dentro dele como Cara. Ele se moveu e gemeu ao notar que seu membro roçava os quadris dela. O desejo, quente e violento, atravessou seu corpo, fazendo que sua ereção fosse dolorosa.

   Cara murmurou e se aconchegou contra ele. Tinha os lábios entreabertos e respirava com tranquilidade enquanto dormia. Ele sabia que tinha que deitá-la e deixá-la dormir, mas não podia deixá-la. Suas curvas eram muito suaves, seu perfume muito doce.

   Sua sede dela muito grande.

     Não. Não deixaria Cara. Não a deixaria agora. E pode ser que não a deixasse nunca.

 

Fallon observava Lucan das sombras do corredor. O modo que acariciava o cabelo de Cara e a mantinha brandamente em seu colo fez que Fallon se desse conta que a existência dos irmãos já não poderia seguir como tinha sido até então, ao menos para Lucan.

     Contemplava o rosto de seu irmão, o anseio, o desejo e a necessidade misturados enquanto olhava Cara. Fallon nunca tinha visto Lucan olhar assim uma mulher, e quisesse Fallon ou não, Cara já formava parte de suas vidas.

     Embora só o tempo sabia quanto duraria aquilo.

     De nenhum modo Fallon se permitiria preocupar-se com nenhuma mulher, tendo ao deus em seu interior não. Por uma simples razão, ele era imortal e sobreviveria a todo mundo. Por outra simples razão, ele era um monstro. Nenhuma mulher poderia suportar no que ele se convertia quando não estava ébrio de vinho.

     E nenhuma mulher quereria a um tipo em contínuo estado de embriaguez.

     Fallon se retirou da cena que estavam protagonizando Lucan e Cara. Doía-lhe muito ver o desespero com que Lucan queria aquela mulher. Se estivesse em mãos de Fallon oferecê-la, a ofereceria.

     Houve um tempo em que Fallon se acreditava invencível. Ele ia ser o próximo chefe do temido e respeitado clã MacLeod. Com que rapidez tinha mudado tudo, em questão de horas.

     Agora era o chefe, mas um chefe sem clã, nem terras. Não era nada.

     Não. É um monstro, incapaz de controlar seus próprios sentimentos.

A ira e o desespero rasgavam Fallon. Sentia que o deus lutava por sair, desejando liberar-se, para utilizar os poderes que tinha. Fallon se apressou a baixar ao salão e agarrou uma garrafa de vinho meio vazia. Bebeu sem parar até que foi incapaz de sentir ao deus em seu interior.

     Só então a ira no interior de Fallon se acalmou. Apoiou a cabeça sobre suas mãos e se deu conta de que tinha falhado a seus irmãos. Como o maior que era, deveria ter sido o que aprendesse a controlar o deus como tinha feito Lucan. Como o maior que era, deveria ter sido capaz de ajudar Quinn com sua ira e sua dor. Como o maior que era, deveria ser o que confrontasse os problemas de sua família em lugar de perder-se no vinho.

     Mas não podia.

     A tortura de saber no que se converteu depois que Deirdre liberou o deus tinha deixado uma profunda cicatriz na alma de Fallon. Já não confiava em seu próprio julgamento. Era incapaz de utilizar o título de chefe ou de tentar organizar sua família.

 Seu pai estaria envergonhado dele, mas uma vez mais, seu pai não tinha podido ver o que Fallon fazia quando o deus crescia em seu interior. Fallon tinha esquartejado animais, tinha destruído tudo o que encontrou em seu caminho. Meu Deus, tinha atacado a seus próprios irmãos!

   Graças a Deus que eles também eram imortais, ou teria tido que arrastar também suas mortes em sua consciência.

 

Cara deu a volta e se esticou. Tinha dormido profundamente, sem despertar, como costumava acontecer por causa dos pesadelos em que apareciam criaturas com inquietantes alaridos e os gritos de seus pais.

     Abriu os olhos e viu os primeiros raios do amanhecer entrando pela janela e alagando o dormitório. Surpreendeu-lhe encontrar todas as velas apagadas e as brasas do fogo apenas visíveis. Entretanto, não tinha frio.

     Lucan.

     Em um abrir e fechar de olhos, os acontecimentos do dia anterior passaram pela sua mente, desde sua mortífera queda, ao ataque e as lembranças compartilhadas entre ela e Lucan. Ele a tinha pego entre seus braços, a tinha reconfortado quando ela estava a ponto de desfalecer. Seu lustroso e forte corpo a tinha balançado, despertando nela um desejo, uma ânsia de tocá-lo e acariciá-lo. De descobrir o homem que havia sob a roupa. Ela abaixou a cabeça, envergonhada por seus pensamentos, mas apesar da vergonha, aqueles pensamentos não desapareciam, ao contrário, sua mente tinha se feito mais descarada.

     Sua boca tinha estado muito perto da dela. Se ela tivesse inclinado a cabeça, poderia ter roçado seus lábios com os seus. Um sentimento quente se pulverizou por seu corpo enquanto imaginava como teria sido beijar Lucan MacLeod. Ele era um guerreiro, um homem das Highlands com uma sexualidade selvagem, que teria feito inclusive que a irmã Abigail tivesse aqueles pensamentos.

     Cara se sentou e descobriu um oco na cama. Inclinou-se e passou as mãos sobre as mantas. Ainda desprendiam um pouco de calor e se podia adivinhar o aroma a sândalo, o que significava que Lucan tinha estado com ela toda a noite.

     Só o fato de saber o que ele era, o que havia em seu interior, deveria tê-la aterrorizado. Mas ele a tinha salvado, a tinha protegido de todas as coisas que tinham tentado afastá-la dele. Não deveria confiar nele, mas se deu conta que o fazia.

     Afastou as mantas e viu seus sapatos e suas meias perto do fogo. Com um sorriso, apressou-se a vestir-se. Até que não começou a descer as escadas para o salão não se perguntou se os corpos sem vida seguiriam ali.

     Com a mão sobre as pedras da parede que tinha ao lado, baixou lentamente e escrutinou o grande salão. Não havia nenhum corpo, nem se podia enxergar oum mínimo rastro de sangue. Tudo estava justo como tinha estado antes do ataque. Inclusive Fallon estava sentado no banco, recostado sobre a mesa, com um braço lhe tampando os olhos. Depois da história de Lucam, pôde compreender por que Fallon bebia daquele modo.

   Quinn entrou no salão a grandes pernadas e se dirigiu à mesa, seu cabelo castanho claro se movia ao vento. Ao ver Quinn, a Cara lhe partiu o coração. Depois de trezentos anos, ainda não tinha podido superar a perda de sua mulher e seu filho.

     Cara baixou os últimos degraus e olhou para o fogo. De algum modo sabia que Lucan estaria ali. Ele estava de pé de costas ao fogo, olhando-a.

     Só o fato de olhá-lo fez que sentisse um pequeno calafrio por todo o corpo, fazendo-a consciente de sua presença. Ela se dirigiu diretamente ao fogo e não se deteve até ficar justo diante dele.

     —Bom dia —disse Lucan.

     Sua voz era profunda e rica, deslizava para ela do mesmo modo que o fazia seu olhar.

     —Bom dia. Encontrei meus sapatos — disse ela, e levantou suas saias para mostrar-lhe.

     Na comissura de sua boca descobriu um sorriso.

     —Pensei que os necessitaria. E as meias.

   Cara olhou ao fogo ao sentir como seu corpo ardia sob o atento olhar de Lucan.

     —Passou a noite comigo.

     Ele assentiu com a cabeça.

     —Obrigado. Não tinha dormido tão bem em muitíssimo tempo.

     —Um prazer. —Ele fez um gesto para a mesa — Tem fome? Não temos muito.

   Ela o seguiu à mesa. Fallon tinha levantado a cabeça. Tinha os olhos vermelhos e passou as mãos pelo cabelo. Quinn deslizou no banco ao lado de Fallon de uma vez que Lucan se sentava ao lado de Cara.

   Embora tentou ignorar os olhares dos irmãos, resultou-lhe impossível. Finalmente, colocou as mãos no colo e disse:

     —Obrigada a todos por me salvar ontem à noite.

     Fallon baixou o olhar, afastando-o do seu.

     —O guerreiro quase te captura.

     —Mas não o fez —acrescentou ela.

     Sob a mesa, Lucan tinha pego sua mão. Ela o olhou, surpreendida de como seu coração se acelerou só com aquele simples gesto.

     —Lucan nos contou sua história —disse Quinn entre dentes — Não recorda a que clã pertencia?

     Ela negou com a cabeça.

     —Oxalá soubesse, mas não sei se isso mudaria algo.

   —Mudaria —disse Lucan — Recorda que te disse que havia alguns clãs dominados pelo bem? Seu clã poderia ser um deles.

     —Pareceu-me entender que não sabiam que clãs estavam envolvidos em tudo isto, e não entendo em que sentido pode ajudar o sangue de minha mãe.

     Fallon tossiu tampando a boca com a mão.

     —O guerreiro disse que tinha vindo a por ti e pelo Beijo do Demônio.

     —Acredito que o Beijo do Demônio é o pendente de minha mãe —disse ela, e tirou o frasco de debaixo do vestido. Não quis tirá-lo, assim se inclinou para que Fallon e Quinn pudessem vê-lo.

     Quando já o tinham visto, ela voltou a sentar-se e percorreu com seus dedos o frio metal do frasco. A lembrança que a tinha atormentado enquanto contava a história a Lucan havia tornado a aparecer em seus sonhos.

     —Ouvi minha mãe chamá-lo o Beijo do Demônio só uma vez, uma noite muito tarde quando pensava que estava dormida. Meu pai lhe disse que algo ia vir por ela. Não o tinha recordado até ontem à noite.

     O polegar de Lucan acariciava seus nódulos.

     —Disse seu pai o que era o que ia vir?

     —Não.

     —E alguma vez os ouviu falar de magia ou de druidas? —perguntou Fallon.

     Cara negou com a cabeça.

     Quinn afastou o prato que tinha diante e ficou tamborilando os dedos contra a mesa.

     —Por que quer Deirdre a Cara e ao pendente?

   —Deirdre? —repetiu Cara — Não pode ser a mesma Deirdre que despertou a seu deus.

    —Acredite-me, é —disse Fallon desprendendo ódio em cada palavra — Pode ser que não leve a nenhum deus em seu interior, mas é imortal graças ao conhecimento que tem da magia negra.

     Cara se deu conta de que o pouco apetite que tinha se desvaneceu. Esperava não ter que encontrar-se nunca com aquela Deirdre que tinha destruído o clã MacLeod, os irmãos e agora às pessoas de Cara. Muito tarde se recordou da aldeia.

     —Quero ver a aldeia.

     Lucan deixou de acariciar sua mão.

     —Não estou seguro que seja uma boa ideia. Não tivemos oportunidade de enterrar os mortos.

     —Preciso vê-la. —Ela olhou em seus olhos verdes e viu preocupação — Por favor, Lucan.

     Os irmãos trocaram um olhar. Lucan soltou um suspiro e fez um rápido movimento com a cabeça.

     —Só se prometer não se separar de nós. Temos que ir todos juntos.

     —Acaso espera que essas... coisas... voltem a atacar tão logo?

     Quinn deu um bufo.

     —Não há dúvidas que os wyrran atacarão de novo. Querem a você e a esse frasco, sem mencionar que Deirdre faria qualquer coisa por ter a nós de novo sob seu controle. Estou convencido que voltará a enviar suas criaturas para nos atacar.

     —Desta vez com mais wyrran —acrescentou Fallon.

     Cara girou o olhar para Lucan. Tinha a mandíbula tensa e um músculo tremia na bochecha.

     Depois de um momento de silêncio, Quinn se levantou e pôs um pé sobre o banco.

     —Se Cara for ficar, e ao parecer vai fazê-lo, precisará aprender a defender-se por si só.

     —Não tem nada a fazer frente a um wyrran.

     Fallon lançou um olhar a Quinn com o que dizia que não estava pensando com claridade.

     Lucan, que ainda mantinha agarrada a mão de Cara, pôs o outro cotovelo sobre a mesa.

     —Quinn tem razão. Não quero ver Cara enfrentado a outra situação como a de ontem à noite. Os wyrran de Deirdre não são imortais, e são o suficientemente pequenos para que Cara possa defender-se deles.

     Fallon suspirou profundamente e levantou da mesa com dificuldade.

     —Acredito que vou ver se encontro uma arma para ela.

     Cara não sabia se estava contente que fossem ensinar-lhe a defender-se ou preocupada de que fossem ensiná-la a defender-se.

     Quando Fallon e Quinn se afastaram da mesa, Cara pegou Lucan pelo braço.

     —Não posso simplesmente me esconder como ontem à noite? —sussurrou-lhe.

     Ele a olhou fixamente com um terno sorriso.

   —Se acreditasse que com isso estaria a salvo, faríamos assim. Mas os guerreiros puderam encontrá-la apesar de ter te escondido nas profundidades das masmorras. Aquele guerreiro disse que tinha te cheirado, o que quer dizer que pode cheirar sua magia. Escondê-la não servirá de nada.

     —Fantástico —disse, e fechou os olhos com força.

     Lucan ficou em pé e estendeu a mão.

     —Tudo irá bem, Cara. Confia em mim.

     —Já o faço —disse antes inclusive de dar-se conta que as palavras tinham cruzado seus lábios. Posou sua mão sobre a de Lucan e deixou que ele a levantasse do banco.

     Seus olhos se obscureceram quando o corpo de Cara roçou o seu. Custava-o respirar quando a tinha tão perto, e embora sabia que devia pôr certa distância entre eles, não podia.

     A Cara lhe cortou a respiração quando ele posou sua mão sobre seu rosto, seus dedos acariciando seu cabelo e roçando a pele de seu pescoço. Calafrios de prazer, de expectativa, percorreram sua pele.

     Ela tentou recordar-se que ia tomar os votos e converter-se em monja, mas o fato de não voltar a sentir o tato de Lucan lhe parecia um pecado em si mesmo.

     —Eu estou aqui para te proteger —murmurou Lucan.

     Cara posou suas mãos sobre seu musculoso peito e assentiu com a cabeça.

     —Sim.

     —E quem te protegerá de mim?

     Antes de poder entender o que queria dizer, ele posou sua boca sobre a sua. Seus lábios eram firmes, insistentes, enquanto se moviam sobre os seus procurando, devorando. Ela era incapaz de afastar-se dele, sumida em seu encanto. Seu desejo chamejante de vida era como a madeira seca em uma fogueira.

     Ela se aferrou a ele, com os punhos fechados se agarrava à túnica enquanto ele a apertava mais contra seu corpo. Um gemido saiu de sua garganta ao sentir seu forte corpo e sua ereção contra seu estômago.

     Ele inclinou sua boca sobre a sua enquanto sustentava sua cabeça com uma mão e agarrava um quadril com a outra. Ele gemeu quando sua língua deslizou entre seus lábios entreabertos para encontrar-se com a dela. Beijou-a com tal destreza que a deixou sem fôlego. E com ânsia de mais.

     Um delicioso calor estendeu a Cara por entre as pernas e se situou em seu estômago. Sentia os seios pesados e tinha os mamilos duros e doloridos.

     Quando ele terminou o beijo, Cara abriu os olhos e viu que tinha os braços ao redor de seu pescoço, os dedos enredados em seus cachos. Nem sequer tinha se dado conta de que se pôs nas pontas dos pés.

     —Meu Deus —murmurou Lucan.

   Cara não podia estar mais de acordo. Levantou a vista e descobriu que ele tinha os olhos entrecerrados, o desejo evidente, visível. Ela tentou tragar saliva mas seu corpo tinha deixado de lhe responder. Tinha a garganta fechada, a pele tensa. As emoções de seu interior a tinham confundida... e queriam mais. Desejosa.

     De algum modo, conseguiu afastar-se um pouco de Lucan, conseguiu soltar sua túnica. Com total desinteresse afastou as mãos de seu seio. Imediatamente, sentiu a ausência de seu calor, a ausência de seu forte corpo contra o seu.

     O que pensariam dela as monjas se soubessem que desejava esfregar seu corpo contra o seu, sentir a rigidez de sua ereção, o ter em cima com a pele de ambos tocando-se?

     Cara girou para a porta, algo que conseguisse controlar suas apaixonadas emoções. Para sua surpresa, Fallon estava de pé junto à porta, observando-os.

     —Fica conosco —disse Lucan guiando-a para a porta.

     Lucan, agarrando-a pelo cotovelo, ajudou-a a baixar os escorregadios degraus até o pátio do castelo, onde os esperava Quinn.

     —Fallon? —chamou Quinn.

     Cara se deteve ao lado de Lucan e girou para observar ao maior dos irmãos MacLeod, que estava de pé junto à porta do castelo.

     Lucan franziu as sobrancelhas e deu um passo para seu irmão.

     —O que acontece, Fallon?

     —Não saí desse castelo. Em mais de duzentos anos não saí do castelo.

   Quando levantou o olhar para seus olhos, Cara pôde ver o pânico e o desespero neles.

     Lucan voltou atrás e insistiu Fallon a sair do castelo.

     —Não fica ninguém. Tudo irá bem.

     —Necessito de meu vinho.

     Fallon tentou voltar para o castelo, mas Lucan o deteve.

     —Não, não o necessita.

     Um momento depois, Quinn estava do outro lado de Fallon.

     —Vamos, irmão. Eu saí centenas de vezes e ninguém me viu. Bom, ninguém exceto Angus —disse com um sorriso.

     Antes que Cara se desse conta do muito que sabia Angus dos irmãos, o sorriso de Quinn a deteve. Aquele sorriso o tinha transformado. Tinha desaparecido todo rastro do deus, e em seu lugar havia um homem bonito com uns zombadores olhos verdes e um cabelo castanho com reflexos dourados.

   Ela observou os três irmãos, perguntando-se quantos corações teriam quebrado antes que seu clã fosse massacrado e eles se tornassem imortais. Os três eram tremendamente bonitos, mas era Lucan, com aqueles olhos verde mar e seu secreto sorriso, que derretia seu coração.

     Lucan e Quinn ajudaram Fallon a baixar os degraus e o dirigiram para o pátio. Deteve-se quando passaram sob a porta principal e girou a olhar o castelo.

     —Por Deus, surpreende-me que ainda siga em pé —disse Fallon.

     Lucan riu.

   —Construíram-no nossos antepassados, claro que ainda segue em pé. Nem sequer o exército de Deirdre pôde derrubá-lo.

   Seu comentário fez que aparecesse um sorriso nos lábios de Fallon. Assentindo com a cabeça, o irmão maior se dirigiu para a aldeia. Cara não tinha passado por cima do brilho de seus olhos. Ela não podia imaginar estar confinada em um lugar durante dias e muito menos durante séculos.

     Gostava de ver como se comportavam os irmãos. Inclusive Quinn se relaxou, quase tinha esquecido sua ira. Cara sorriu ao ver que Quinn dava uma palmada a Lucan no ombro por causa de algum comentário e ambos rompiam em uma gargalhada que alagou a atmosfera enquanto andavam para a aldeia.

     Lucan a buscou com o olhar por cima do ombro, seu sorriso se desvaneceu. Ela franziu o cenho perguntando-se se ele teria se zangado por ter ficado um pouco atrasada. Tudo o que ela tinha querido era deixar os irmãos a sós.

     Então viu a fumaça.

     Os três homens se detiveram e a esperaram. Lucan a pegou pela mão.

     —Está segura?

     Não.

     —Sim.

     —Não há muito que ver —disse Quinn.

   Cara não resistiu quando Lucan a aproximou de seu lado. Quando viu o primeiro corpo soube que ia necessitar sua força.

     Fallon a observava.

     —Por que precisa ver tanta morte?

     —Quero me assegurar que não deixaram ninguém com vida, que não há ninguém que necessite ajuda.

     —Não há ninguém vivo. —Fallon se afastou indignado.

     Cara olhou Lucan.

     —Como sabe?

     —Quinn veio ontem à noite para comprová-lo.

     Cara mal pôde ouvir aquelas palavras enquanto seu olhar passava de um corpo a outro pelo chão. Era como um pesadelo que esperava poder despertar. Gente com a que tinha falado, com a que tinha rido, tinha desaparecido para sempre.

     Não pôde deter as lágrimas quando se aproximaram do convento e viu as monjas mortas no chão sobre os meninos. As pobres irmãs tinham feito tudo o que tinham podido para proteger aqueles meninos, mas nem sequer as rezas as tinham ajudado.

     O olhar de Cara se deteve em uns brilhantes cabelos avermelhados. Apressou-se para eles sem prestar atenção à chamada de Lucan. A visão do pálido rosto da pequena Mary trouxe a seus olhos outra onda de lágrimas. Cara não levantou a vista quando Lucan se ajoelhou a seu lado.

     —Estava recolhendo os cogumelos para a Mary. Tinha febre e a irmã Abigail estava fazendo umas ervas para ela.

     Lucan não disse nada. Ficou a seu lado, dando o tempo que necessitava para despedir-se. Quando ela começou a ficar em pé, ele estava ali para ajudá-la.

     —Enterraremos a eles? —perguntou ela.

     —Não —disse Quinn da porta, ocultando seus sentimentos — Há muitos.

     Fallon entrou no convento e assentiu com a cabeça.

     —Se isto ainda não chegou aos ouvidos dos MacClure, logo o fará. Temos que deixar tudo tal qual está.

   —Estou de acordo —disse Lucan — Quanto menos gente saiba de nós melhor.

   Cara não queria deixar sua gente à intempérie para que apodrecessem, mas os irmãos tinham razão. Se alguém descobria o que eram, iriam atrás deles sem piedade.

   —Peguemos tudo o que possamos —disse Fallon — Temos que levar ao castelo toda a comida e todas as armas que encontremos.

     Lucan a deteve antes que saísse atrás de Quinn e Fallon.

     —Quer pegar algum vestido para você?

     Ela se deu uma olhada. Estava segura que Quinn não queria vê-la com a roupa de sua esposa.

     —Não tenho nenhum outro.

     —Encontraremos um para você.

     Cara assentiu com a cabeça e ficou a andar atrás dele, intumescida pela dor e afligida, enquanto ele recolhia armas e vestidos que colocava entre seus braços estendidos. Ela pestanejava por causa das lágrimas. A caminhada de volta atravessando a aldeia foi pior que a de ida. A água tinha limpado quase todo o sangue, mas lhe revolveu o estômago quando viu um atoleiro de cor vermelha.

     —Não olhe —disse Lucan.

   —Primeiro meus pais. Agora a aldeia —disse entre lágrimas. A ira e a culpa a consumiam e as sentia como uma rocha no estômago. Ela havia feito aquilo à aldeia. Se os wyrran a tivessem encontrado, pode ser que tivessem deixado a aldeia em paz — Quanta gente mais tem que morrer por mim? Você? Seus irmãos?

     Lucan se voltou para ela, seus olhos eram quentes e serenos.

     —Somos imortais. Cara.

   —Mas podem lhes fazer dano —respondeu ela — Pode ser que não morram, mas sim que sentem a dor, não?

   —Sim —respondeu com um leve assentimento de cabeça — Mas nossas feridas se curam rápido.

    —Muita morte. Pode ser que seja melhor que me entregue a Deirdre.

     Não queria sentir o peso de mais mortes sobre seus ombros. As mortes de seus pais já lhe resultavam uma carga muito pesada. Agora Cara tinha toda a aldeia em sua consciência.

     Lucan a agarrou pelos ombros e a sacudiu levemente.

     —Não diga isso. Nunca volte a dizer isso.

     —Não sabe os planos que tem Deirdre para mim.

     Fallon lançou um grunhido quando passou a seu lado.

   —Não Cara, mas não pode ser nada bom, seja o que seja. Deirdre é toda maldade. E se andar atrás de algo, ao final o vai querer morto.

     Lucan olhou a seu irmão.

   —Fallon tem razão. Se Deirdre consegue te apanhar, tudo terá terminado, Cara. Nossa melhor opção é descobrir o que significa para ela o sangue de sua mãe e por que a quer com tanto desespero.

     —E o mais importante: por que esperou até agora para ir buscá-la Cara!? —gritou Fallon por cima do ombro enquanto se afastava da aldeia.

     A Cara deu um salto o coração ao pensar nas vezes que tinha sentido que alguém a estava observando e não tinha podido ver ninguém, em como o Beijo do Demônio se esquentava e vibrava em certas ocasiões. Tudo aquilo tinha começado no equinócio. Era simples coincidência?

     Afastou seu olhar dos penetrantes olhos de Lucan e soltou um grito quando descobriu Angus. Correu para ele. Estava sentado no chão, apoiado contra a parede de sua casa, com a cabeça caída para um lado como se estivesse dormindo.

   —Ele me advertiu que não me aproximasse do castelo — disse a Lucan enquanto ele se aproximava e se colocava atrás dela — Sabia que estavam ali, verdade?

     —Sabia.

     A emoção lhe fez um nó na garganta. Angus se voltou impreciso enquanto as lágrimas enchiam seus olhos. Ele a tinha advertido que se mantivesse afastada, não porque temesse aos irmãos, mas sim porque tinha querido mantê-los a salvo, mantê-los longe daqueles descobrimentos.

     —Era um bom homem —disse Quinn a seu lado.

     Cara voltou seu rosto para ele, assustada. Fazia só um momento, Quinn estava no castelo, mas então recordou que Lucan tinha explicado que um de seus poderes era a velocidade.

     Ela olhou a Lucan, que estava a suas costas.

   —Angus era um bom homem. Sempre com um sorriso no rosto, sempre disposto a ajudar. Era um dos poucos que não tiveram medo de falar comigo quando me trouxeram para o convento.

     Quinn assentiu com a cabeça, seu cabelo castanho solto ondeava com o vento.

     —A primeira vez que vi Angus, ele era um menino de uns cinco ou seis anos. Eu andava rondando por aí, como de costume. Nunca gritou nem saiu correndo atemorizado, nem sequer quando viu o que eu era em realidade. Ao contrário, começou a deixar comida na porta. Pouco depois se aproximou de mim. Ele nos ajudava a conseguir tudo o que necessitávamos, e soube guardar bem o segredo de nossa existência.

   Cara olhou Angus, uma mecha de cabelo branco lhe caía sobre os olhos. Lucan posou a mão sobre seu ombro, sua força e sua quietude encheram seu corpo com aquele simples gesto.

     Com um último olhar às pessoas às que tinha chegado a chamar «sua gente», deu a volta e se encaminhou para o castelo. Era hora de enfrentar ao futuro.

 

Deirdre deslizou suas mãos pelas frias rochas de seu lar nas profundidades da montanha Cairn Toul. A maioria dos druidas podiam ouvir a chamada das nascentes e as árvores, mas ela, ela ouvia as pedras. Foi a formosa e selvagem chamada de Cairn Toul a que a levou a montanha.

     A cova estava escondida, mas as pedras lhe haviam dito como encontrar a entrada. E uma vez o tinha conseguido, tinha podido ver a assombrosa glória da montanha. Sua montanha.

     Tinha passado os primeiros seis meses explorando as profundas covas e infinitos túneis, marcando-os para memorizá-los. Tomou a parte alta da montanha e a transformou em um palácio digno de uma rainha. A parte média, onde a montanha se abria em uma assombrosa caverna, utilizava-a como seu grande salão. A parte baixa, com todas as covas e os túneis, era perfeita para suas masmorras, que tinha posto em funcionamento rapidamente, com os irmãos MacLeod.

     Era uma autêntica pena que já não estivessem com ela. Apesar de todo o poder que ela tinha com a magia negra e seus guerreiros, de algum modo, os MacLeod tinham conseguido evitar que os recapturasse. Os irmãos estavam destinados a ser as armas mais fortes e persuasivas de seu exército. E ela voltaria a apanhá-los. Era só questão de tempo.

     Deixou as pedras e se dirigiu ao centro de seu dormitório, onde a esperava uma poltrona de frente a uma pequena mesa, com um espelho pendurado das pedras. A poltrona era um de seus favoritos, com aqueles braços entrelaçados e aqueles maravilhosos motivos celtas esculpidos na madeira.

     Deirdre colocou os brancos cabelos em cima de um ombro e se sentou. Só então deixou que seu cabelo solto caísse pelas costas e tocasse o chão. Seu cabelo era seu bem mais prezado. Houve um tempo em que tinha sido de uma esplêndida cor dourada, mas cada vez que tinha brincado com a magia negra, a cor se foi apagando, até que o único que ficava eram uns cabelos tão brancos como a neve.

     Acostumou-se a isso. Nos olhos tinha acontecido o mesmo. Os homens chegaram a falar do vivido azul de seus olhos, mas igual tinha passado com seu cabelo, agora só ficava um espiono do azul que uma vez tiveram. Seus olhos assustavam a todos, e ela tinha descoberto que gostava daquilo.

     Inclinou a cabeça a um lado e se olhou no espelho quando um wyrran apareceu e utilizou suas garras para lhe pentear o cabelo com delicadeza.

     —Sim, meu amor —disse Deirdre — Justo o que queria.

     Tinha criado os wyrran por pura necessidade, mas uma vez que descobriu o incondicionais que lhe eram, utilizou-os para seu benefício. Eles eram seus meninos. Pelo menos até que tivesse a todos os guerreiros sob controle.

     Aquilo a devolveu aos MacLeod. Se chegassem sequer a suspeitar a verdade, seu instável domínio se desvaneceria. Era só o medo ao que ela pudesse fazer o que mantinha aos MacLeod sob controle.

     Ela era uma drough poderosa. Tinha sido quem tinha liberado aos deuses, não era certo? Mas ainda ficava muito poder que possuir. Sempre havia mais poder.

     Aquela menina inocente dos MacClure a ajudaria a conseguir esse poder, e uma vez que Deirdre o tivesse, os MacLeod não poderiam resistir a seu encanto. Eles e o resto dos guerreiros seriam seu e estariam sob seu controle. Para sempre.

     O wyrran a olhava atentamente por cima de seu ombro, seus redondos olhos amarelos deram uma piscada. Lançou um grunhido, avisando-a que algo se aproximava.

     —Já o ouvi, meu amor —sussurrou ao wyrran — Deixe-nos sozinhos.

     Alguém chamou com força à porta e logo se ouviu um amortecido:

     —Senhora?

     —Passa —disse.

     Ela olhou através do grande espelho ovalado e viu um guerreiro, sua pele cor azul cobalto o assinalava como o portador de Amarem, o deus da angústia.

     —William —disse ela, e levantou seu rosto para o guerreiro.

     Ela dirigiu o olhar para trás do guerreiro, mas não pôde ver nem a Caladh, com sua pele cor cinza, nem tampouco a forma de nenhuma moça. O aborrecimento cobriu o rosto de Deirdre, mas se controlou.

     —Vem com as mãos vazias?

     William baixou a cabeça um instante, submisso.

     —Sim, senhora.

     —Como pode uma menina em anáguas escapar de uma dúzia de wyrran e dois guerreiros?

     Ela mantinha a voz serena enquanto utilizava a magia para recorrer a sua arma.

     As pontas de seu cabelo acariciaram seus tornozelos ao levantar-se, elevaram-se e voaram para William para agarrá-lo pelos testículo.

     —Tinha ajuda.

     A voz de William tremia. Com as mãos agarrava o cabelo de Deirdre para tentar deter o estrangulamento.

     Deirdre levantou uma sobrancelha.

     —Ajuda? Quem se atreveria a interpor-se em meu caminho e ajudá-la?

     —Os MacLeod.

     A surpresa e a excitação lhe cobriram o rosto. Relaxou o estrangulamento dos testículo de William e utilizou seu cabelo para acariciar seu pênis. Tal e como ela esperava, seu membro se endureceu e se alargou sob suas calças.

     —Os MacLeod? —repetiu ela — Está seguro?

   Ele assentiu com a cabeça e lambeu os lábios, suas mãos agora acariciavam o cabelo de Deirdre.

   —Sim. Enfrentei Quinn, logo a Lucan. Também vi Fallon. Não há dúvidas, senhora. Eram os irmãos.

     —Na aldeia?

     —No castelo.

     Deirdre riu. De todos os lugares nos que podiam estar, estavam ali. Quando conseguiram escapar de sua montanha, ela tinha enviado wyrran ao castelo MacLeod para apanhar de novo aos irmãos, porque onde poderia ir um homem das Highlands se não era de volta a seu clã? Entretanto, os irmãos não haviam retornado diretamente a seu castelo e conseguiram seguir frustrando seus planos. E tinham enfrentado a ela. Não era um bom presságio que os MacLeod tivessem a sua pequena fêmea. Deirdre necessitava Cara mais do que estava disposta a admitir.

     William seguia lhe acariciando o cabelo, agora com mais força. Lhe deu uma olhada e observou o vulto que se marcava entre suas pernas. Tinha passado certo tempo da última vez que levou um guerreiro à cama, embora só havia um guerreiro que realmente queria, só havia um guerreiro que lhe daria os filhos que necessitava para governar seu reino. Até que o tivesse de volta e de novo sob seu controle, desafogaria seus desejos como pudesse.

     —Tire a roupa, William.

     Ele obedeceu sem perguntas. Deirdre o soltou e ele ficou de pé frente a ela deixando ao descoberto toda sua gloriosa pele azul cobalto. Seu cabelo se enroscou ao redor de seu pênis e o ouviu gemer.

     —Defendiam a Cara os irmãos MacLeod?

     William tinha os olhos fechados, sua respiração se acelerou.

     —Sim, senhora. Caladh cheirou sua magia nas masmorras e foi buscá-la.

     —E o deixou sozinho?

     —É um guerreiro. Ao contrário dos MacLeod, ele aceitou a seu deus e todos os poderes que vinham com ele. É mais forte que eles.

     Não se os irmãos lutavam unidos como um só, mas ela não o disse ao William. Esperaria um dia para que Caladh retornasse com Cara, se é que tinha conseguido escapar dos MacLeod.

   —Necessito meu exército, William —disse enquanto se aproximava dele e deslizava suas mãos pelo musculoso torso do guerreiro.

     Ele abriu os olhos e assentiu.

     —Sei.

   —Dirigirá você meu exército em meu nome? Trará-me Cara e aos irmãos MacLeod?

     —Sim.

     Ela sorriu e agarrou seus testículos, fazendo-os rodar em suas mãos. Roçou sua ereção com o dorso da mão.

     —Te há posto duro.

     —Vos desejo, senhora.

     —De verdade?

     —Sim.

     Ela retrocedeu com os braços abertos aos lados e o cabelo pendurando até o chão.

     —Então, tome.

     William agarrou o pescoço de seu vestido negro com as mãos e de um puxão o arrancou do corpo. Ela sorriu quando ele a levantou do chão e se dirigiu para a cama, ao outro lado da habitação.

     O desejo fez que seus seios inchassem e que os mamilos se endurecessem, uma vez que seu sexo se umedecia. Tinham passado anos da última vez que tinha compartilhado sua cama com William. Tinha esquecido quão brusco podia ser, mas estava desejando voltar a sentí-lo.

   Ela se atirou contra a cama. Deirdre riu e abriu os braços enquanto ele se deixava cair sobre ela.

     —Nada de jogos preliminares, William. Necessito-te. Agora.

   Ele dirigiu a ponta de seu pênis para sua entrada e a penetrou. Ela gemeu e fechou os olhos enquanto imaginava que era seu guerreiro o que a penetrava em lugar de William.

   Já não ficava muito. Logo voltaria para o lugar ao que pertencia.

 

   A volta ao castelo se produziu em silêncio. Lucan sabia que levar Cara à aldeia era um engano, mas ela havia dito que precisava vê-lo. Ele tinha visto a sombra da culpa em seus olhos quando ela olhava os mortos. Não, teria sido melhor que ela não tivesse visto o que ficava da aldeia.

     Fallon revisava todas as armas procurando as que pudessem servir para armar Cara. Lucan já tinha encontrado uma espada para ela, que tinha afiado no fogo.

     Olhou Cara, que estava sentada a seu lado, costurando um vestido. Ela não havia dito nenhuma só palavra desde que retornaram da aldeia. Ele era total e dolorosamente consciente de sua cercania. Inclusive estando a poucos centímetros como estavam, ele sentia cada respiração, cada pulsar de seu coração.

     Lucan queria abraçá-la, voltar a provar seus lábios. Seu corpo estremeceu ante a lembrança daquele profundo beijo. Fechou os olhos e recordou o modo em que o corpo dela balançou contra o seu, como suas unhas tinham acariciado seu couro cabeludo e seus dedos haviam embrenhado em seus cabelos.

     Mas por cima de tudo, ele recordava seu pequeno gemido de prazer.

   Nunca deveria tê-la beijado, nunca deveria ter-se deixado arrastar pela tentação de tocá-la, mas não tinha podido evitá-lo. E agora que já a tinha provado, queria mais. Necessitava mais. Era o único no que podia pensar.

     No meio da aldeia, com todos os mortos ali estendidos, o único no que pensava era em voltar a ter o suave corpo de Cara contra o seu, seus esbeltos braços rodeando seu corpo enquanto seus dedos percorriam cada canto de sua pele.

     Lucan tomou ar profundamente e se removeu na cadeira para aliviar a tensão de seu membro. Seu testículo se esticaram ao ver como Cara lambia os lábios e girava para olhá-lo. Mal pôde conter um gemido.

     Ele pensava que estar possuído por um deus era uma tortura, mas aquilo não era nada comparado com a fome que sentia por aquela impressionante mulher que estava a seu lado. Com ela em sua vida, em seu lar, encontrava-se em um inferno completamente diferente. Um inferno que era muito pior do que nunca poderia ter imaginado.

     Porque nunca antes quis nada com tanto desespero.

   Era certo. Em seu clã tinha havido mulheres que tinham chamado sua atenção. Uma vez que decidia que queria uma mulher, dedicava-se a seduzí-la até que ela caía rendida em seus braços. Entretanto, Cara era diferente. Não era uma moça qualquer. Estava metida no meio de uma guerra de poderes mágicos, que enfrentava guerreiros uns contra os outros e com o pior dos seres querendo apanhá-la.

     Em lugar de esconder-se em um canto com as mãos nos ouvidos gritando e negando-se a ver a realidade, ela estava sentada a seu lado, costurando como se nada em seu mundo tivesse mudado absolutamente.

     O problema era que Lucan podia imaginá-la em sua vida. Podia imaginar-se abraçando-a de noite e despertando a seu lado pela manhã. Podia imaginar-se sentado a seu lado junto ao fogo depois do jantar e falando do futuro.

   Ele estaria disposto a estar sempre ao lado de Cara, solicitamente. Se não fosse um monstro. Tal e como estavam as coisas, ele não tinha nada que lhe oferecer.

   Lucan deslizou várias vezes a pedra sobre o fio da espada para afiá-la. Pôs todos seus sentidos na arma, ignorando a ânsia de seu corpo e a suave carne de Cara.

     Deslizava a pedra sobre a espada uma e outra vez. Provou o fio contra sua pele e o simples roce da arma produziu uma ferida na ponta do dedo.

     —Imortal ou não, vá com cuidado.

   Levantou a vista e encontrou Cara olhando-o, com a agulha quieta entre seus dedos.

     —Não vou morrer por um simples corte.

     Ela baixou as mãos até seu colo, já tinha se tranquilizado.

     —Quer dizer que não podem morrer?

     —Não, sim podemos morrer.

     —Como?

     —Decapitados.

     Os olhos se abriram como pratos.

     —Como sabem?

     Lucan levantou a espada no ar. Inspecionou a arma durante um momento e logo agarrou um trapo para limpá-la.

   —Sei por que Deirdre nos disse isso. Estávamos possuídos pela ira e o medo, mas pude ouvir essa parte de seu discurso.

     —Disse algo mais?

     —Sim.

     —E não a escutaram?

A voz de Cara tinha ido aumentando com cada palavra, seu rosto mostrava incredulidade.

     Lucan tentou ocultar um sorriso. Acreditava que ela não veria com bons olhos que risse de sua indignação.

     —Tentei-o. Ao menos pude ouvir essa parte.

     —Pode ser que dissesse mais coisas importantes.

     —Pode ser que sim. Pode ser que não. Tranquila, não importa.

     Ela franziu o cenho e seus lábios estreitaram enquanto girava a cabeça para o fogo.

     —O que acontece?

     O escuro olhar de Cara se encontrou com o seu.

     —Como soube Deirdre onde estava?

     —Oxalá soubesse. Crê que alguém da aldeia poderia ter-lhe dito?

   —É uma possibilidade, mas não acredito. Não contei a ninguém como morreram meus pais e ninguém sabe de onde venho. Como poderia saber alguém que eu era a pessoa que Deirdre estava procurando?

     —Boa pergunta —disse Quinn enquanto se levantava — Uma pergunta a que estive dando voltas.

     Lucan levantou as sobrancelhas.

     —Encontrou a resposta?

   —Não, mas me faz pensar. Como soube Deirdre de nós? Como sabia que éramos os que estávamos possuídos pelo deus?

     Lucan fechou forte os olhos e amaldiçoou.

   —Nos mantivemos afastados do mundo, mas, ao fazê-lo, suponho que também nos afastamos das respostas.

     Fallon grunhiu e se moveu balançando-se da mesa ao fogo, com a garrafa de vinho na mão.

     —Isso são tudo estupidezes, e sabem. Deirdre sabe tuda graças a sua magia negra.

     —Se esse fosse o caso —disse Lucan — já teria tornado a nos apanhar.

     Quinn passou seu peso de um pé a outro.

   —Não acredito que seja a magia o que conduziu Deirdre até Cara, embora sim acredito que a magia teve algo a ver.

     —Isso não tem nenhum sentido —disse Cara, e seguiu costurando.

     Lucan estava de acordo com ela.

     —Explique-se, Quinn.

—Todos sabemos quão poderosa é Deirdre, mas até que ponto? O que aconteceria se sua magia tivesse limites? Como disse Fallon, se Deirdre fosse tão poderosa já teria tornado a nos apanhar.

     Fallon franziu o cenho.

     —Está dizendo que ela não é tão poderosa como nos tem feito acreditar que é?

     —Exatamente.

     Lucan sacudiu a cabeça.

   —Eu vi com meus próprios olhos o poder que tem Deirdre. Inclusive levando um deus em nosso interior não podemos derrotá-la. Estou seguro que nenhum de vocês esqueceu a demonstração de poder que nos fez quando nos capturou.

Houve uma pausa e Lucan soube que seus irmãos estavam revivendo o momento em que Deirdre apelou à magia negra e aquela incrível força que a tinha rodeado. Seu poder tinha ido crescendo nestes trezentos anos.

     —E o fato que tenha encontrado agora Cara e não antes se deve a que algo mudou? —perguntou Quinn.

     Lucan deixou a um lado a espada e cruzou os braços sobre seu peito. Agora que Quinn tinha falado, não podia evitar perguntar-se se seu irmão teria razão.

     —Cara, aconteceu algo importante ultimamente?

   Ela levantou uma escura sobrancelha, mas não tirou o olhar do objeto que estava costurando.

     —Não, a não ser que considere importante minha decisão de me entregar a Deus e às monjas.

     Lucan ficou olhando-a boquiaberto.

     —Iria converter-se em monja?

   —Sim —respondeu ela, e aproximou mais ainda o tecido que estava costurando.

   Sem mais explicações, sem razões. Era uma formosa mulher, que sem dúvidas, teria os homens a seus pés.

     —Por quê?

     Ela lançou um suspiro e levantou o olhar para ele.

   —Por que matou meus pais. Porque no único lugar onde me sentia segura pelas noites era no convento. Não era uma MacClure. Não era parte de seu clã. Precisava pertencer a algo.

     A voz de Clara falhou e Lucan se deu conta que queria ir para ela, abraçá-la e carregar com todas suas preocupações.

     A Lucan custava respirar. Seus olhos cor mogno estavam tão cheios de arrependimento, inquietação e resolução que ele quis ser o homem que pudesse mudar sua vida. Queria que ela se aproximasse dele quando se sentisse necessitada. Queria que ela o quisesse com a mesma paixão primitiva que ardia por suas veias.

     Obrigou-se a afastar o olhar antes de fazer algo estúpido como voltar a pegá-la entre seus braços. Sua sede dela era tão feroz, tão embriagadora, que teve que agarrar-se fortemente à cadeira para não ir para ela.

Quando descobriu Fallon observando-o com um olhar de reconhecimento, Lucam se deu conta que não tinha podido manter em segredo seu desejo. Estava virtualmente seguro que Fallon tinha visto o beijo daquela manhã.

     Lucan só podia imaginar o que seu irmão maior diria. Fallon argumentaria que não havia lugar para Cara em suas vidas. E teria razão.

     Fallon argumentaria que Cara era mortal e que eles eram imortais. De novo teria razão.

     Fallon argumentaria que se Lucan alguma vez chegava a perder o controle sobre seu deus, poderia matar Cara. De novo teria razão.

    Mas apesar de todos aqueles argumentos, Lucan não podia aplacar a fome que sentia em seu interior. Era como um homem faminto ao redor de Cara, e ela era seu banquete.

   —Todos precisamos pertencer a alguma parte —disse Fallon para romper o silêncio — Todos estamos surpreendidos que uma mulher de sua formosura escolhesse tomar os votos.

   Lucan mordeu a língua para evitar sacudir seu irmão por ter dito a Cara que era formosa. Ela era a beleza personificada, mas o fato que Fallon o tivesse visto e comentado, fez Lucan pensar que Fallon poderia sentir a mesma fome que o consumia.

     E Lucan não estava disposto a compartilhar Cara com ninguém, nem sequer com seu irmão.

     Fallon entreabriu os olhos, como se pudesse ler a mente de seu irmão.

     —Tranquilo irmão —murmurou.

   Lucan olhou Cara, mas ela estava de novo olhando sua costura. Quinn estava de pé com o ombro apoiado contra a lareira e seu rosto se retorcia de ira com cada pulsar de seu coração.

     —Tem que haver algo! —gritou Quinn a Cara — Não fique aí sentada como se não se preocupasse o mínimo que uma mulher que é mais malvada que o próprio demônio vá atrás de você.

     Lucan se levantou e ficou entre Quinn e Cara. Suas unhas se alargaram até converter-se em garras e deixou que seus olhos se voltassem negros. Tinha passado muito tempo da última vez que se enfrentaram, mas Lucan não ia permitir que Quinn desafogasse sua ira em Cara.

     Uma suave mão pegou seu ombro.

     —Não passa nada —disse Cara — Quinn tem razão.

     Lucan olhou Quinn para ver se se atrevia a fazer algum movimento para ela.

     —É que o de ontem à noite o fez recordar o que se sente ao liberar o deus? —Quinn provocou Lucan — Se anda procurando briga, não precisa seguir procurando.

     Fallon golpeou com força as pedras com a palma da mão.

   —Já basta! —gritou — Quinn, controla sua ira. Lucan, controla...controle a si mesmo.

   Lucan sabia que tinha estado a ponto de dizer «sentimentos». Felizmente, Fallon não tinha permitido que Cara se desse conta do muito que influía em Lucan. Fez um pequeno gesto de assentimento.

     Quando Lucan deu a volta, Cara estava frente a ele.

     —Aconteceu algo ultimamente? —perguntou-lhe.

     —Cumpri dezoito anos. —Ela se deteve e lambeu os lábios — Mas acredito que se trata do equinócio da primavera.

   Lucan ficou tenso. Primeiro olhou Fallon, logo Quinn e descobriu que seus irmãos haviam sentido a mesma sacudida. Tinha-lhes ajudado o fato de esconder-se no castelo, fugindo de viver no mundo e portanto fazendo que esquecessem tudo o que nele havia, a apagar o fato que seu clã foi destruído no equinócio da primavera?

     —O que acontece? —perguntou Cara — por que empalideceram os três desse modo?

     Lucan se deixou cair de novo sobre a cadeira.

     —Porque o equinócio da primavera foi o dia em que mataram nosso clã.

     —Aniquilaram —corrigiu-o Quinn.

     Fallon passou uma mão pelo rosto.

     —Como podemos tê-lo esquecido?

     —Não acredito que seja simples coincidência —disse Lucan.

   —Deirdre deve utilizar o equinócio para fortalecer sua magia negra. De algum modo, dirige-a para a pessoa que busca.

     Quinn se afastou do fogo e começou a andar.

     —Merda! Isto não é nada bom.

     —Quantos são agora? —perguntou Cara — Disse que ontem à noite aqui havia dois guerreiros. Ela tem mais?

     Lucan se encolheu de ombros.

     —Lembro que ela nos disse que nós fomos os primeiros.

   —Teve mais de trezentos anos —disse Fallon — Não posso nem imaginar o número de guerreiros que terá conseguido reunir.

     Quinn soprou com ironia.

     —E vão vir por nós.

     Cara deixou a um lado o vestido que tinha estado costurando.

     —Seguro que muitos deles se negaram a unir-se a ela como vocês três.

   —É possível —admitiu Lucam — Mas não saberia por onde começar a buscá-los.

     —Conhecem alguma das famílias dos guerreiros originais?

     —Não —respondeu Fallon — Tampouco as conhecia Deirdre. Era uma das coisas que andava procurando. Ela esperava que nós tivéssemos podido lhe dizer alguns nomes, mas não pudemos. Não sabíamos nada.

     Quinn se dirigiu à porta para sair do grande salão.

     —Vou dar uma olhada aos arredores do castelo! —gritou por cima do ombro.

   —Não acredito que nos ataquem esta noite —disse Lucan — Suponho que Deirdre tomará um dia ou dois para reunir suas forças e que venham aqui por nós. Quer Cara, mas também tentará apanhar a nós três.

     Os escuros olhos de Cara ficaram olhando-o fixamente.

     —O que vamos fazer até então?

     Ele agarrou a espada que tinha encontrado para ela.

     —Até então, aprenderá a brandir uma espada.

   —Em um dia? —perguntou afogando-se em uma gargalhada — Terei sorte se consigo apontar a algo.

     Lucan sorriu.

   —Assegurarei-me que seja capaz de muito mais que simplesmente apontar. Pronta para começar seu treinamento?

     —Deixa primeiro que troque de roupa. Quinn se sentirá aliviado ao me ver sem o vestido de sua esposa.

   Lucan a observou apressar-se a subir as escadas, com a saia o suficientemente levantada para poder vislumbrar seu tornozelo. Tragou um gemido quando seus olhos posaram sobre seus quadris e sentiu um pequeno calafrio com cada degrau que subia.

     —Vá com cuidado —disse Fallon.

     Lucan olhou seu irmão.

     —Por quê?

     Fallon o observou com aborrecimento.

     —Não tente jogar comigo, Lucan. Vi como a beijava esta manhã.

     —Foi somente um beijo.

Lucan esperava que ao dizer aquelas palavras em voz alta se fizessem realidade.

   —Foi mais que um beijo. Vi o modo que a olha desde o instante em que a trouxe para o castelo. Não se esqueça do que somos. Não estamos feitos para mulheres como ela. Não estamos feitos para ninguém.

     Lucan não queria lhe acreditar, mas sabia que Fallon tinha razão.

   —Ela confia em mim. Sabe o tempo que faz que não me olhava nenhuma mulher? O tempo que faz que não tenho uma mulher entre meus braços, que não sinto seu cabelo entre meus dedos? Acaso pode recordar o suave perfume de uma mulher, a suave pele de seu pescoço atrás da orelha ou o modo em que geme quando chega ao orgasmo?

   —Não —Fallon mordeu o lábio — Não recordo nenhuma dessas coisas e é melhor assim. Não faz nenhum bem a ninguém desejar algo que não se pode ter.

     —Todos queremos algo que não podemos ter, Fallon. O objeto é diferente para cada um, se trate de guerreiros ou de mortais.

     O rosto de Fallon estava cheio de desânimo e cansaço.

   —É uma boa mulher, Lucan. Uma mortal que morrerá enquanto nós seguimos vivos. Não prometa nada que não possa dar a ela.

     Aquela era a essência da questão. Lucan queria prometer algo a ela, queria prometer-lhe tudo. Sempre que ela estivesse a seu lado.

 

Lucam esperava Cara na muralha. O sol estava alto, na metade do céu espaçoso, e um vento fresco soprava do mar. No passado, em dias assim, montava em seu corcel favorito do castelo e corria sobre ele, sobrevoando o chão sob os cascos do cavalo.

   Que inocente era Lucan naquela época, quando pensava na seguinte garota com a que se deitaria e se perguntava que brincadeira gastaria ao Quinn. Os dias pareciam intermináveis, o futuro de Lucan se desdobrava ante ele como as estrelas no céu noturno.

     Notou certo aroma de urze, girou em redondo e encontrou Cara, observando-o, com o olhar pensativo, como se lesse seus pensamentos. Sorriu timidamente e baixou as escadas do castelo para aproximar-se dele.

     —Estava muito distraído.

     Lucan se encolheu de ombros.

   —Só estava me recordando de minha vida de antes, quando as coisas eram mais singelas.

     —Tinha uma boa vida?

     —Sim, tinha.

     —Imagino que sua mãe estaria muito ocupada com três meninos.

     Ele olhou para as almeias, perto da guarita aonde estava acostumada a estar sua mãe esperando que voltassem seus filhos e seu marido.

   —Era uma mulher assombrosa. —Lucan piscou e agarrou o punho de sua espada — Preparada para começar as aulas?

     —Não estou segura —disse enquanto agarrava o punho da espada.

   A arma era pequena, o fio era uns quantos centímetros mais curto que o da espada de um homem, mas era equilibrada e de fácil manejo. Estava mais bem feita para um moço jovem, por isso servia perfeitamente para Cara. Não teria podido dirigir uma espada de homem, mas podia tentá-lo com a que tinha encontrado Lucan.

     —Tem que agarrar a arma com força, mas sem apertar muito — disse, e fez a demonstração. Uma vez ela teve pego a espada corretamente, acrescentou:

     »Agora move-a, sente seu peso, como se move no ar. Tem que confiar em sua espada, deixar que seja uma extensão de seu braço.

     Ela era uma boa aprendiz e em seguida fez o que lhe ensinava. Entretanto, ele notou que vacilava, pois não estava segura de suas próprias habilidades.

   —Bem —disse ele assentindo com a cabeça — Nota a diferença da espada nos diferentes ângulos?

     Ela assentiu, olhando fixamente a folha da espada.

     —Sim, noto-o. O peso da espada quando golpeio para baixo é imenso.

   —Exato. Se tiver vantagem sobre seu oponente, um golpe para baixo o partirá em dois. O único problema é que levantar a espada sobre sua cabeça pode te fazer vulnerável.

     —Entendo que tenha que me armar ante homens mortais, mas acredito que é inútil fazê-lo ante outros guerreiros como você e os wyrran de Deirdre.

     —Não é —disse Lucan — Se pode acabar com os mascotes de Deirdre. São pequenos como meninos e são rápidos, mas se podem burlar facilmente.

     —Posso fazê-lo.

     Ele sorriu ante suas palavras.

   —Não vai lutar contra homens das Highlands com espadas. Lutará contra pequenas criaturas desagradáveis com um fôlego nauseabundo cujos gritos podem fazer que sangrem os ouvidos. Mantenha-os afastados de você com a espada. Assim, deixe que lhe ensine isso.

     Lucan ficou detrás dela e agarrou cada um de seus braços com as mãos. Apertou o peito contra suas costas, seu ardente pênis contra as suaves costas dela. Quis baixar suas mãos acariciando seus braços até sustentar seus seios enquanto se inclinava para ela, fazendo que seus suaves suspiros invadissem o ar.

     Lutou contra o desejo que rugia com força ao contato com seu corpo e tentou centrar-se no que estava fazendo, em algo que não fosse jogá-la ao chão e lhe tirar a roupa para poder ver seu corpo. O desejo o encheu, especialmente o pênis, que se endureceu até resultar doloroso. Quando ela moveu os pés e roçou sua ereção, ele não pôde conter um gemido de necessidade.

     —Sinto-o —disse ela — Não sei o que faço.

     —Faz-o bem —disse ele entre dentes.

     Quão único queria fazer era lhe dar a volta e apertá-la entre seus braços para sentir seus seios contra ele, escutar seus suaves gemidos de prazer ao deslizar a língua dentro de sua boca e prová-la uma vez mais. Podia dedicar uma eternidade a aprender todo seu corpo e lhe dar o prazer com o que só ele podia sonhar.

     —Lucan?

     Sua voz o devolveu à realidade. Sacudiu a cabeça para limpá-la, mas o desejo se negava a diminuir.

     —Faz-o bem, Cara.

     Ela o olhou por cima do ombro, com a boca respirando de seu fôlego. Seus olhos se abriram ligeiramente, seus lábios se separaram. Seria tão fácil, tão simples, inclinar-se e juntar sua boca contra a dela...

     —Atacarão-lhe por trás —a voz de Fallon ressoou na muralha.

   Lucan girou bruscamente para olhar as escadas do castelo e viu seu irmão olhando-o. O olhar de Fallon não censurava nada, mas Lucan sabia o que pensava seu irmão de seu incontrolável desejo por Cara. Não sabia se golpeava Fallon por ter interrompido ou agradecia-lhe. Fallon baixou as escadas e se aproximou deles.

     —Os mascotes de Deirdre gostam de aproximar-se sigilosamente de sua presa.

     Cara umedeceu os lábios e olhou Lucan e depois Fallon.

     —E o que faço?

     Fallon levantou as mãos e dobrou os dedos.

   —Os wyrran usam suas garras. Têm os braços longos mas não o suficiente para te alcançar se os mantiver a raia com a espada.

   —As unhas de seus pés são tão largas como suas garras —acrescentou Lucan— Gostam de saltar sobre sua presa, usando seus pés para agarrá-la e logo mordê-la e arranhá-la até a morte.

     —Uf! —murmurou Cara.

     —O truque está em te pôr de costas contra um canto para que não possam aproximar-se de você por trás sem que se dê conta.

     Fallon assentiu.

     —Mas tome cuidado, podem subir pelas paredes.

   Cara não estava segura de por que os irmãos estavam tão decididos a que aprendesse a usar a espada. Pelo que parecia, não tinha nada que fazer contra os «mascotes» do Deirdre.

     —Relaxe-se contra mim— disse Lucan ao ouvido.

   Um calafrio percorreu suas costas ao sentir seu quente fôlego na pele. Parecia-lhe impossível pensar, com aquele duro e quente corpo contra ela. A forma em que suas mãos a acariciavam e as deliciosas sensações que a alagavam cada vez que ele se aproximava fizeram que desejasse um beijo dele.

     —Relaxe-se —disse Fallon — Deixe que Lucan te ensine os movimentos.

     Cedeu a arma a Lucan e observou como a dirigia com hábeis movimentos, com a folha da espada sempre frente a ela.

     Quando lhe separou as pernas com o joelho, ela obedeceu sem pigarrear, muito perdida no torvelinho de emoções de seu interior e no calor do sangue que se concentrava entre suas pernas.

     Fez um movimento brusco quando lhe puseram algo na mão esquerda. Fallon assentiu com a cabeça. Então viu a adaga.

   —Necessitará também isso —disse — Não perca nunca suas espadas, Cara. Nunca.

   Pela primeira vez desde que conheceu Fallon, seus escuros olhos verdes pareciam quase limpos de vinho. Quase.

     —Lembre-se de como eu disse a você que agarrasse a espada? —perguntou Lucan — Trata qualquer outra espada da mesma maneira: com força, mas sem apertar.

   Ela não o entendia, mas eles tinham crescido com a espada na mão. Se alguém sabia daquilo, eram os irmãos MacLeod.

     Respirou profundamente quando Lucan lhe levantou a perna com o joelho e a jogou para diante. Ao mesmo tempo, deu uma estocada para diante e a ponta tocou o peito de Fallon, justo sobre o coração.

     Lucan assentiu com a cabeça, roçando sua bochecha com o queixo.

     —Bem, deixe que te ensine mais.

   Uma e outra vez, Lucan a movia de um lado a outro, elevando seus braços para protegê-la de supostos ataques de Fallon. Lucan a fazia girar, dava-lhe a volta, mas sempre mantinha as armas em frente dela.

   —Tenta-o você sozinha —disse Lucan enquanto ficava um passo por diante dela.

   Cara em seguida sentiu falta de seu calor. O vento do mar a sacudiu, lhe colocando nos olhos mechas de cabelo que tinham soltado da trança.

     Separou as pernas e flexionou os joelhos. A espada estava erguida, esperando, igual à adaga. Desta vez Lucan se aproximou dela. Ela tentou investir, mas ele era rápido e ela terminou por afastar-se.

     —Boa primeira tentativa —disse Fallon sentado nas escadas, levando a taça de vinho aos lábios — Olhe aos olhos, não aos braços dos adversários.

     —Como saberei como me ataca se não olho aos braços? —perguntou.

     Lucan sorriu.

     —Olhe meus olhos.

   Ela pensou que os irmãos estavam se divertindo muito a sua custa. Era uma mulher que nunca tinha pegado em uma arma em sua vida. Com saias que dificultavam seus movimentos. Mas estava decidida a conseguí-lo. Se estavam tomando a moléstia de lhe ensinar, ela aprenderia.

     —Preparada? —perguntou Lucan.

     Cara o olhou fixamente aos olhos e assentiu. Durante uma eternidade, ele se limitou a estar de pé, olhando-a. Houve um ligeiro movimento em seu olhar justo antes de dar um passo para ela. Cara se separou dele e investiu. A ponta da adaga foi parar em um de seus lados, entre as costelas.

     —Estou impressionado.

     O elogio lhe deu o estímulo que necessitava. Lucan e Fallon se alternaram para atacá-la. Quanto mais rápida ia se fazendo ela, mais depressa se moviam eles. Ajudaram-na a encontrar seus pontos débeis e a corrigi-los.

     —Sua vantagem é sua rapidez—disse Lucan — Usa-a em seu benefício. Se te toca lutar contra um guerreiro, tentará te dominar. Mantenha-se fora de seu alcance e ataca quão máximo possa.

     —Faça-o sangrar —acrescentou Fallon —Faça-o sangrar tudo o que possa.

     Cara assentiu.

     —E os seus poderes?

     Lucan se encolheu de ombros.

   —Poderia te preparar para os que temos nós, mas cada guerreiro é diferente. Embora suponha que poderia te ajudar a saber o que pode encontrar.

     Começavam a doer os braços de os ter erguidos e mover-se como não o tinha feito nunca antes. Mas se sentiu bem ao ser parte de algo, de ter alguém que se interessava por ela.

     —Não vão... mudar? —perguntou ela.

     Lucan negou com a cabeça, enquanto suas mechas azeviche ondeavam em seu pescoço com a brisa.

     —Ainda não.

     —Creem que me assustarei?

     —Sei que o fará.

     Assustava-lhe pensar no que ele se converteria, mas também sabia que não a faria mal. Os três irmãos tinham tido muito tempo para lhe fazer dano, inclusive a estavam ensinando a proteger-se contra os de sua condição.

     Não, Lucan não lhe faria mal.

     —Tenho que aprender —sustentou ela.

     —Assim é.

     Antes que pudesse reagir, ele carregou contra ela. Cara tentou afastar-se, mas ele a agarrou pelo braço. O contato de seu corpo contra o dele fez que se esquecesse de defender-se. Então olhou em seus olhos verdes e se perdeu.

     Em seus pulmões se deteve a respiração, seu coração se acelerou no peito. O desejo que o afogava todo era imenso. Tentou dar um passo atrás e só conseguiu cravar a ponta da adaga no braço.

     —Deus santo! —exclamou ela.

     Os braços fortes de Lucan a imobilizaram, suas saias se enredaram entre as pernas dele.

     —Não passa nada, Cara.

   Ela sacudiu a cabeça e deixou cair as armas, mas o sangue não deixou de brotar e de rodar pelo braço.

   —Tenho-te feito mal.

     —Estarei bem.

     —Não.

     Tropeçou com os pés dele quando tentou afastar-se, e ambos caíram ao chão.

     Cara chiou, mas antes de cair Lucan lhe tinha dado a volta para amortecer sua queda. Ao tocar o chão, ele a girou e ficou sobre ela.

     —Te fiz mal?

     Seus preciosos olhos procuravam seu rosto, e a preocupação sulcava sua testa.

     Cara viu que seus lábios se moviam, sabia que estava falando com ela, mas não podia ouvir nada mais que seu sangue fazendo avermelhar suas orelhas por tê-lo em cima. Não sabia que o peso de um homem podia ser tão... excitante. Agarrou-se a seus ombros ao cair. Sem querer, tinha enredado os dedos na sedosa espessura de seu cabelo.

   Seu desejo devia estar escrito em seu rosto, porque os olhos dele se obscureceram e seu olhar se cravou nos lábios dela.

     Sim, me beije outra vez. Prometa-me o paraíso que me fez provar antes.

     Ele baixou a cabeça e com seus lábios roçou seu queixo. Quando se dispunha a pedir seus lábios, uma voz os interrompeu.

     —Lucan, está bem? —perguntou Fallon.

     Cara encontrou com o olhar de Lucan.

     —Te fiz mal? —perguntou Lucan.

     Ela negou com a cabeça, incapaz de pensar com coerência, e muito menos de falar. Seu corpo não a respondia quando Lucan a tocava. Ela queria coisas, desejava coisas que não podia nomear. Sabia que Lucan podia aliviar a crescente tortura de seu interior. Seus beijos, seu tato... seu calor.

     —Está bem —disse Lucan, sem afastar o olhar dela. Um instante depois, ficou de pé e a ajudou a levantar-se.

     Ela aproximou seus dedos à ferida que tinha feito a ele. Ainda havia sangue, mas através do buraco na túnica viu que a pele já se curou.

     —Te disse que sarávamos rapidamente —disse com um sorriso torcido.

   Deu-lhe um tombo no estômago quando viu o desejo em seus olhos. Tinha estado a ponto de beijá-la. O que teria passado se não os tivessem interrompido?

     E o mais importante, era ela o suficientemente valente para averiguá-lo?

   Sabia que sim. O que sentia por Lucan era intenso e assustador. Durante a maior parte de sua vida se escondeu de tudo e de todos, mas com Lucan queria experimentar algo. E graças a Deus ainda não tinha tomado os votos para ser monja. A ideia de ser monja era irrisória depois de haver sentido tal paixão.

     —É mais de meio-dia —disse Fallon — Vamos dentro para comer. Seguro que a Cara irá bem um descanso.

     Ela não se via capaz de comer, agora que seu corpo pulsava com força ante semelhante tormenta de sedução. E tudo porque Lucan se pôs sobre ela.

     —Cara —sussurrou Lucan enquanto voltavam dentro do castelo — Tenho-te feito mal?

     Ela sorriu para si.

     —Absolutamente.

   Pôs-lhe a mão na parte baixa de suas costas, guiando-a para o interior do grande salão. Seu tato era reconfortante, cada vez mais. Em tão pouco tempo, tinha repleto tanto seus sentidos que não podia pensar em outra coisa que não fosse em Lucan.

     Lucan lançou um olhar a Cara com uma expressão indefinida. Ela preferia que seu desejo fosse evidente. Arrependia-se? Depois de tudo, ele era imortal. Sua vida continuaria para sempre enquanto a dela desapareceria em um abrir e fechar de olhos. Uma semana atrás teria bastado dendo-a enviado para esconder-se, mas agora não. Talvez nunca mais.

     Uma vez mais, quando se sentaram para comer, Lucan se sentou junto a ela. Não lhe passava inadvertido a troca de olhares entre Fallon e Lucan ou a hostilidade por parte de Quinn.

     A pesar do ambiente carregado, estava contente junto a Lucan. Sem ele, não teria se atrevido a comer com Quinn e Fallon. Esperava que ter tirado o vestido de Elspeth acalmasse ao Quinn, mas parecia que só o fazia estar mais furioso.

    Quanto a Fallon, não sabia por que não deixava de olhar Lucan, com os olhos entrecerrados e a mandíbula apertada. E quanto mais se zangava, mais bebia.

     —Ave assada e fria outra vez? —queixou-se Fallon.

     Quinn se encolheu de ombros e se recostou na cadeira.

     —Teria que ter comido isso tudo ontem se queria outra coisa para hoje.

     —Ontem não estava muito bom.

     —Então deveria cozinhar em vez de se agarrar à condenada garrafa de vinho—disse bruscamente Quinn antes de cravar os dentes na carne.

     Cara observava o intercâmbio com interesse.

     —Quem caça? —perguntou.

     —Quinn —respondeu Lucan.

   Parecia que cada irmão se encarregava de uma tarefa, embora não estava segura de qual era a de Fallon.

     —Eu sei cozinhar, embora não sou muito boa —ofereceu ela.

     Lucan sorriu enquanto Quinn assentia com a cabeça.

     —Por mim bem —respondeu Quinn.

   —Não tem por que fazê-lo —disse Lucan.

     Ela se encolheu de ombros e arrancou um pedaço de carne.

     —Tenho que fazer algo.

     Fallon pôs a garrafa sobre a mesa depois de um longo trago.

     —Algo será melhor que a comida de Quinn.

     —Pelo menos não vejo tudo dobrado —grunhiu Quinn.

     Cara se centrou em sua comida. Uns instantes mais tarde, Quinn se levantou da mesa e saiu a grandes pernadas do grande salão sem dizer nenhuma palavra a ninguém.

     Casualmente, ela levantou os olhos e viu Fallon olhando-a fixamente. Já não havia raiva em seus olhos, nem seus lábios estavam apertados. Antes que matassem seu clã, Fallon tinha estado a ponto de casar-se. Em um dia tinha perdido seu lar, sua família, seu clã e sua futura esposa.

     —Queria a sua noiva? —perguntou Cara sem pensar duas vezes.

     Fallon se encolheu de ombros, como se tivesse sabido o que ela ia perguntar.

     —Mau conhecia minha prometida. Havíamos-nos visto somente uma vez antes que partisse para cá. Era um matrimônio de conveniência entre dois clãs poderosos.

     —Assim que sua felicidade não contava?

     Lucan afastou seu prato e apoiou os antebraços na mesa.

     —Como o maior que era, supunha-se que Fallon devia fazer o clã mais forte.

   —Já imagino —disse ela — Pelo menos ela você gostava de você? —perguntou a Fallon.

     Fallon sorriu com inapetência.

     —Era bastante formosa, com aquele bonito cabelo, mas era tímida e calada. Não sei como teria se arrumado no clã MacLeod.

     Cara olhou as mãos enquanto falava.

   —Quinn se casou por amor?

   —Sim—assentiu Lucan — Eram muito jovens quando se casaram. Tinham sido inseparáveis de meninos, e quando cresceram era óbvio que se casariam.

     Cara girou a cabeça para Lucan.

     —E você? Houve alguém a quem quisesse?

     —Além da minha família? Não. Não houve nenhuma mulher para mim.

     —E não é porque elas não o tentassem —disse Fallon com uma gargalhada — Não vi às mulheres perder a cabeça como o faziam por Lucan.

     Lucan arqueou as sobrancelhas e sorriu.

     —Espera um momento, irmão. Recordo-o que você também teve sua parte.

   Fallon riu a gargalhadas, fortes gargalhadas que o pegaram desprevenido.

     —Ao menos não brigamos nunca por uma mulher.

     —Graças a Deus —respondeu Lucan com um amplo sorriso.

     Seus olhos brilhavam pelas risadas, e Cara não pôde a não ser perguntar-se quando teria sido a última vez que os irmãos tinham rido.

     O sorriso de Fallon se apagou.

     —Sinto falta do calor de uma mulher em minha cama.

     Seu olhar se voltou distante, como se estivesse perdido em uma lembrança.

   Cara estremeceu ao ver aquela profunda solidão nos olhos de Fallon. Também a tinha visto nos de Quinn. Mas Lucan... Seu olhar só mostrava desejo e preocupação.

     —Já houve uma vez em que se enterrou ao deus. Pode ser que seja possível voltar a enterrá-lo. —disse Cara a Lucan.

     Ele sacudiu a cabeça.

     —Tentamos. Estivemos anos tentando encontrar o modo.

     —Mas não serviu nada —disse Fallon.

     Lucan olhou seu irmão.

     —A única pessoa que sabe como fazê-lo é Deirdre, e não acredito que esteja disposta a nos dizer isso    

     Cara não estava disposta a desistir.

   —Tem que haver um modo. Do mesmo modo que estou segura de que há outros guerreiros como vocês que se escondem de Deirdre, tem que haver algum modo de enterrar de novo aos deuses.

     Lucan passou a mão pela mandíbula enquanto meditava suas palavras.

   —Pode ser que tenha razão, mas se havia alguém que sabia como fazê-lo, posso te garantir que Deirdre o encontrou e o aniquilou.

     —Os druidas eram uma parte importante da vida dos celtas. Do mesmo modo que os celtas nunca desapareceram —disse Cara enquanto observava Lucan — os druidas tampouco o têm feito.

   —Não irão mostrar quem são —acrescentou Fallon — Os druidas eram perseguidos logo que mostravam quem eram.

     Cara se deteve e pôs os olhos em branco. Para ser uns guerreiros tão fortes, às vezes não pensavam muito.

   —Acaso não estiveram se escondendo nesta ruína de castelo durante duzentos anos ao lado de uma aldeia sem que ninguém soubesse que estavam aqui?

     Fallon fez um gesto com a cabeça.

     —Entendido.

     Ela olhou Lucan.

   —Um druida poderia ser um cristão praticante e mesmo assim acreditar nos antigos ritos.

     —Suponho que tem razão —disse Lucan — Como podemos começar a buscá-los? Não é que tenhamos tempo de sobra para ir viajando por toda Escócia e parar em cada povo ou aldeia que nos encontremos.

     —Ainda não pensei nisso.

     —Não é má ideia —disse Fallon ao cabo de um momento — O único que não tenho claro, é como poderíamos fazê-lo.

     —Poderíamos deixar o castelo —disse Cara.

     —Para ir aonde? —perguntou Lucan — Não temos nenhum lugar aonde ir.

   —Para que ficar? —argumentou Cara — Já disseram que Deirdre voltará a atacar. Poderíamos ir, procurar outros guerreiros e ver o que podemos averiguar sobre os druidas.

     Fallon ficou em pé e alargou a mão para alcançar sua garrafa de vinho.

     —É um bom plano Cara, mas eu não penso abandonar meu lar. Este castelo é tudo o que fica. Se o abandonar, dá-me medo pensar que posso voltar e descobrir que os MacClure ou qualquer outro clã decidiram fazê-lo seu. Não pude evitar que se fizessem com nossas terras, mas me nego a lhes ceder o castelo.

     Ela observou como Fallon se afastava pelo salão e se dirigia às portas do castelo.

     —Passou mais tempo fora hoje que nestas últimas centenas de anos —murmurou Lucan.

     Cara o olhou fixamente.

     —Só porque eu me sentei no lugar que ele está acostumado a ocupar.

     —Nossas vidas se viram transfornadas e acredito que isso é bom. Estivemos rondando por este castelo durante muito tempo, fazendo que não existíamos. Enfrentamos a guerreiros e a wyrran, mas deveríamos ter estado vivendo. Aprendendo deste mundo que tanto mudou.

   —Todos sabemos que o ataque é iminente. Ficar aqui e esperar que nos superem em número me parece estúpido.

     Lucan levantou a comissura dos lábios em uma tentativa de sorriso.

   —Não há nenhum lugar que possamos ir. Agora conhecem seu aroma. Os guerreiros a perseguirão até os limites da terra se for preciso.

     Cara estremeceu só de pensá-lo.

 

     Cara se levantou da banheira de madeira e pegou a toalha. Tinha sido uma surpresa encontrar a banheira em seu dormitório, cheia de água quente e fumegante. Estava segura que tinha sido Lucan quem tinha subido a banheira e a água pelas escadas.

     Não tinha pensado em quão cansada estaria depois do treinamento da manhã, mas o banho tinha feito milagres em seus doloridos músculos. Depois do almoço, o resto do dia tinha passado voando, Lucan tinha mostrado lugares onde esconder-se e várias maneiras de sair do castelo. Ela acreditava que não recordaria todas, mas ele disse que era importante que o fizesse.

     Estava tão esgotada que não recordava ter jantado, mas sim recordava que tinha sido outro momento silencioso. O único comentário de Fallon tinha sido que o pescado que tinha pego Quinn estava melhor que a ave. Ela tinha querido cozinhar, mas Quinn já tinha feito tudo. Como o corpo doía tanto, não se queixou. Pelo menos, durante o jantar Quinn falou, embora o único que disse foi que o castelo era seguro.

     Cara sacudiu a cabeça. Era impossível que três irmãos, por muito imortais e poderosos que fossem, pudessem defender sozinhos um castelo tão grande e em ruínas.

     Tocou o frasco de prata que pendurava entre seus seios. Desde que sua mãe o deu somente o tinha tirado uma vez do pescoço. O que tinha o sangue de sua mãe para que Deirdre o quisesse?

     Tentava recordar a noite em que mataram seus pais, tentava recordar se sua mãe lhe havia dito algo mais. Cara tinha chorado e não tinha querido meter-se no buraco debaixo de casa. Sua mãe tinha falado todo o tempo, mas ela não recordava nenhuma palavra do que ela havia dito.

     Tirou a toalha e pegou a camisola que tinha pego na aldeia. Ela acabava de pôr pela cabeça e o tinha deixado esta cair até o chão quando ouviu que Lucan a chamava.

     Uma parte dela se perguntou o que teria feito se ele tivesse entrado quando estava nua. A outra parte se alegrou que não o tivesse feito, porque ela teria feito o ridículo, estava convencida.

     —Sim —respondeu ela — estou aqui.

     Ele saiu das sombras, seus ombros ocupavam toda a porta.

     —Encontra-se melhor? —Sua voz era mais baixa que o normal, áspera e cheia de emoção. E que Deus a ajudasse, mas a excitava.

     —Sim.

     Ele se moveu para esconder seu rosto na sombra, escondendo seus olhos. Cara deu um passo para ele e ao mesmo tempo se aproximou da lareira.

     —Vamos fazer turnos para vigiar durante a noite —disse.

     —Embora não creiam que vão atacar esta noite.

     —Tudo é possível, e é melhor estarmos atentos.

   Ela umedeceu os lábios e vincou a saia com os dedos. Quanto mais se alargava o silêncio entre eles, mais consciente era ela de sua presença. Ele estava quieto como uma árvore, e inclusive na escuridão ela sabia que a olhava.

     —Fale algo —rogou Cara a Lucan.

     —O que?

     —Algo.

     Com grande rapidez ele estava ante ela, com os olhos ardentes de desejo. Cara deu um passo atrás, sobressaltada por sua intensidade. Ele a seguiu. O coração dela começou a pulsar com força. Sentiu excitação e um pouco de medo. Deu outro passo atrás, e como imaginava, ele a seguiu. Sua respiração se acelerou, seu peito subia e baixava com rapidez enquanto esperava. Um batimento do coração mais tarde os braços de Lucan a envolveram, aproximando-a contra seu duro peito.

     —É uma bruxa, Cara?

     Lucan acariciou-lhe o cabelo. As vibrações de sua voz a fizeram estremecer.

     —N... não.

     —Enfeitiçaste-me. Não posso deixar de pensar em você.

     Seu olhar se encontrou com o dela, depois ele baixou a cabeça e entrou em contato com sua boca. Mordiscou e lambeu os lábios dela, acoplando o corpo dela contra o seu. Os braços dela envolveram seu pescoço. Adorava a sensação de seus fortes músculos movendo-se sob suas mãos.

     Ela ficou nas pontas dos pés e separou os lábios quando ele quis entrar em sua boca. Ele gemeu, um som masculino e primitivo, quando suas línguas se tocaram.

     Cara se derreteu contra ele. Todos seus medos e preocupações tinham desaparecido, tinham sido substituídos pela paixão e o prazer. Ele a empurrou contra a parede, mas seus corpos não se separaram. O beijo se intensificou, até que a pele de Cara pareceu estar ardendo. Lucan apertou Cara contra ele, deleitando-se com o tato de suas suaves curvas. Durante todo o dia tinha desejado voltar a beijá-la, ver se podia voltar a sentir outra sacudida como a do primeiro beijo. Não tinha se equivocado. A sacudida estava ali, e ainda mais forte.

     Mas ele não tinha ido com a intenção de beijá-la de novo. Tinha ido dizer que ele faria a guarda primeiro, mas quando chegou ao dormitório e a viu nua dentro da banheira, tinha perdido todo o controle.

     Na escuridão do corredor tinha reunido as sombras a seu redor e a tinha olhado enquanto se secava, e tinha estado a ponto de gritar quando cobriu suas espetaculares curvas com a singela camisola branca. Até que ela ficou diante do fogo e ele pôde ver através do material. Seu pênis se pôs tão duro que doía. Partir não era uma opção. Possuí-la, entretanto, sim.

     Lucan gemeu quando seus grandes seios se apertaram contra seu corpo. Sua fome o consumia, impulsionava-o a tê-la mais, a saboreá-la mais. Apertou seu pênis contra ela e ouviu seu suave gemido de prazer.

   Agarrou-lhe os seios, desfrutando de seu delicioso peso e de como lhe enchiam as mãos. Passou o polegar pelo mamilo, dando voltas a seu redor até que a pequena protuberância esteve dura e rígida.

     Cara choramingava em sua boca. Seu beijo se voltava desesperado à medida que seu corpo estremecia contra ele. Ele beijou a esbelta coluna de sua garganta e seguiu baixando para provocar ao mamilo. Ela colocou as mãos entre seu cabelo, lhe agarrando a cabeça.

     —Lucan —murmurou.

     O som de seu nome em seus lábios o acendeu. Tinha passado uma eternidade da última vez que uma mulher havia dito seu nome com paixão e desejo.

     Suas mãos chegaram até seus quadris, aguentando-a enquanto esfregava seu dolorido pênis contra a branda turgidez de seu ventre. Agarrou-lhe as nádegas e a apertou contra si, colocando seu sexo contra o dela. O grito afogado de sobressalto de Cara se converteu em um suave gemido.

     A necessidade de meter-se dentro de seu quente e úmido sexo o consumia, governava-o. Levantou-lhe uma perna, agarrando-a por trás do joelho, e seguiu empurrando contra ela. Seus suaves gemidos se converteram em uma espécie de miados, e quando a levantou ainda mais, ele notou sua cálida respiração em seu pescoço.

     Ele se agachou e fechou a boca ao redor de um duro mamilo, lambendo-o através do tecido de sua camisola. Ela sussurrou seu nome, seu corpo tremia com uma necessidade que ela não entendia. Mas Lucan sim. Ele conhecia o sedutor prazer que os aguardava, e não podia esperar a tê-la nua ante si, com seu corpo aberto a ele com toda sua glória.

     Seu orgasmo estava tão perto, e fazia tanto que não tinha um, que derramaria sua semente se não entrava dentro dela em seguida ou partia dali. Cara ainda mantinha sua virtude, disso estava seguro. Sua primeira vez não podia ser selvagem e dolorosa, e isso era exatamente o que seria, já que ele não podia controlar-se.

     —Não pare. —sussurrou ela — Não pare.

     Lucan gemeu e passou a boca a seu outro mamilo e começou a mordiscá-lo Ela gritou, seu corpo continuava apertando-se contra o dele.

     Ele estava a ponto de perder o controle. O deus de seu interior estava cada vez mais ansioso, pedindo para ser liberado do desejo que esmurrava Lucan. Ele pôde notar como sua pele mudava, como suas garras e seus dentes se alargavam. Pela extremidade do olho pôde ver como as sombras se moviam para ele, como a escuridão se fechava a seu redor à medida que aumentavam seus poderes.

     Separou-se de Cara de uma sacudida e tropeçou para trás. Ela se agarrou à parede para manter o equilíbrio e o olhou com seus olhos mogno confundidos e cheios de paixão.

     —Lucan, fiz algo mal?

     Pelo amor de Deus!

     —Não, Cara. Não.

     —Então, por que parou?

     —Porque se não o tivesse feito, teria te possuído

   Ela lambeu os lábios inchados pelos beijos, fazendo que seus testículos se esticassem.

     —Eu... eu quero que me possua.

     Ele fechou suas mãos em um punho.

   —Assim não. Faz muito tempo para mim. Não posso controlar a fome que tenho por você, e te faria mal.

     —Não, não me faria isso.

     Sua fé nele o comoveu. Mas ele sabia que em sua ânsia por penetrá-la a faria mal. Alegrou-se ao ver que as sombras e a escuridão se retiraram. Fallon tinha razão, Cara merecia um bom homem, um homem mortal. Não um com o Apodatoo, um deus primitivo da vingança, em seu interior.

     —Durma um pouco — disse Lucan, e voltou para as sombras do corredor — Eu a protegerei.

     Quando esteve escondido entre as sombras a observou como tinha feito antes. A angústia de seus olhos o fazia sentir como o monstro que era. Quando ela abraçou a si mesma e se balançou adiante e atrás, Lucan esteve a ponto de cair de joelhos.

     Ele tinha sido quem tinha despertado sua paixão. Tinha-a deixado em um estado de agonia e seu corpo não estava acostumado aos sentimentos que buliam em seu interior.

     Lucan sabia que devia voltar e fazê-la chegar ao clímax, mas não confiava em si mesmo. Estava muito perto do limite. Em lugar disso, observou-a até que ela se acalmou o suficiente para acender todas as velas do dormitório e meter-se na cama.

     Sua cama.

   Ele jogou a cabeça para trás, apoiando-a contra as pedras, e amaldiçoou em silêncio. Queria tê-la em sua cama, sentir como suas pernas o agarravam enquanto ele penetrava tão dentro dela que lhe tocava a matriz. Queria escutá-la gritar seu nome quando chegava ao orgasmo, sentir que seu corpo se apertava contra o dele e o deixava seco enquanto derramava sua semente em seu interior.

     Quando teve o controle para olhá-la sem lhe arrancar a camisola abriu os olhos e descobriu que sua respiração tinha passado a ser sono.

     Só então a deixou.

 

   Quinn estava de pé no pátio interior e apertava os ombros. Seu corpo se esticava enquanto se continha. Tinha caído a noite, a lua só era uma fina silhueta entre as brilhantes estrelas. Precisava rondar, percorrer as Highlands como fazia normalmente pelas noites quando não podia enfrentar a si mesmo.

     Correria, com o vento fazendo que ardessem os olhos, enquanto cedia a seus impulsos primários e esquecia o homem que era.

     O homem que estava acostumado a ser.

     Amaldiçoou a Deirdre e a seus wyrran, que lhe tinham arrebatado sua vida e a sua família. Elspeth tinha sido pura e doce, tímida com todos exceto com ele. Com ele tinha se aberto e tinha deixado ver quanto amor tinha para dar. Tinha-lhe mostrado uma vida singela de felicidade e harmonia.

     Ela o tinha amado profundamente. A sua maneira. Quantas noites escapou para dormir com ela em seus braços só para escutá-la sussurrar que lhe amava, que ele era tudo para ela.

     Quinn nunca disse que a amava. Elspeth parecia que não o esperava nem o desejava. Agora ele se perguntava se ela teria esperado ou querido que lhe dissesse aquelas palavras ou se ele tinha pensado que ela não as necessitava. A ideia de que tinha sofrido, de que ele não tinha chegado antes que morresse, fazia que a dor que sentia dentro de si lhe queimasse ainda mais. Depois de todos aqueles anos ele ainda sentia sua perda, e a de seu filho, um filho ao que jamais poderia ensinar a disparar um arco e uma flecha, a montar a cavalo ou a brandir uma espada.

     O rancor brilhou em seus olhos. Faria com que Deirdre pagasse por aquilo. Morreria lentamente em suas mãos por toda a dor que tinha causado com sua sede de dominação. Ele veria a vida desaparecer de seu rosto, veria seu sangue derramar pelo chão como o tinha feito o de Elspeth.

     Lucan fazia a primeira guarda, e Fallon estava dentro do castelo, com seu vinho. Quinn não podia ficar no castelo, como faziam Lucan e Fallon. Em cada canto havia muitas lembranças que cada dia faziam aumentar sua ira. Não faltava muito tempo para que o deus do interior de Quinn tomasse o controle completamente. Ele desapareceria. E possivelmente aquilo tampouco era tão mau. Tinha sofrido muito, suportado muito, para querer seguir adiante. Saber que era imortal só fazia com que os dias fossem mais insuportáveis.

     Era uma das razões pelas que tomava tantos riscos. Nenhum de seus irmãos lhe diziam nada porque o entendiam. Mas eles não sentiam tanta dor como ele. Eles não tinham perdido uma mulher e um filho. Não tinham perdido toda sua vida.

   A cabeça de Quinn se esticou quando seus ouvidos escutaram um ruído. Cervos. Foi pegar o arco e a flecha que tinha perto da porta do castelo e se escondeu entre as sombras.

     Os irmãos não caçavam com frequência por medo de serem vistos, mas agora que Angus não estava para lhes trazer comida, caçar era uma necessidade.

     Quinn sorriu. Não iria percorrer as Highlands, mas caçaria uma valiosa peça.

 

   Lucan estava sentado no alto da torre meio derrubada da fachada esquerda do castelo. Não era a torre mais alta, mas proporcionava uma boa visão da aldeia MacClure, e além disso, dava a Lucan um ponto de vantagem se mais guerreiros decidiam atacá-los.

     Não o fariam, essa noite não. Mas logo sim.

     Lucan se moveu sobre as pedras e divisou um cervo perto do escarpado. Ficou tenso, perguntando-se se devia ir por seu arco. Iriam necessitar de comida, e matar um cervo com suas garras era muito sujo. Até Quinn, quando caçava, o fazia com o arco. Permitia-lhes manter seus corpos ativos, que era pelo que seguiam treinando com as espadas.

     Justo quando ia pelo arco, Lucan viu movimento em uma sombra fora do muro do castelo. Um instante depois, Quinn esticou seu arco e fez voar uma flecha, que se cravou no pescoço do cervo. Quinn já estava ao lado do cervo antes que caísse ao chão.

   Lucan observava seu irmão menor. Sentia falta dos dias de risadas e brincadeiras com seus irmãos. Se houvesse algum modo de ajudar Quinn com a dor que suportava, Lucan faria o que fosse. Mas Quinn nunca falava de Elspeth. Nunca pronunciava sequer o nome de seu filho.

     Lucan sofria por Quinn, igual sofria por Fallon. Havia muito poucas coisas que Lucan podia fazer por seus irmãos, e não eram suficientes. Estava-os perdendo, já levava tempo perdendo-os, e não era capaz de fazer nada. Nada do que fazia, nada do que dizia, ajudava-os.

     Esfregou o queixo e ficou tenso quando viu a piscada de uma chama na aldeia. Quando olhou Quinn viu que seu irmão também tinha visto algo. Quinn saltou pela lateral do escarpado até as rochas de abaixo com o cervo sobre os ombros.

     Lucan ficou em pé, dobrou os joelhos e pôs as mãos sobre as pedras. Quinn voltaria para o castelo para avisar Fallon.

     Forçando os ouvidos por cima do rugido do mar, Lucan tentou escutar os sons da aldeia. Ouviu a patada do casco de um cavalo, a tosse de um homem, mas não sabia quantos havia.

     Lucan olhou ao redor do castelo para assegurar-se de que não havia nada que fizesse que os homens fossem até ali. Quando viu a luz do dormitório de Cara ficou paralisado. Estava na parte de trás e era muito difícil que a vissem da aldeia, mas não impossível. Era um risco que não podiam correr.

     Lucan saltou da borda da torre às escadas de baixo. Sempre tinha odiado aquelas escadas estreitas e curvadas, e agora que a maior parte da zona alta da torre se derrubou sobre os degraus, ainda era mais complicado andar por elas.

     Enquanto baixava correndo pelas escadas até o corredor manteve a mão na parede. Quando se deteve na porta do dormitório rezou para que Cara estivesse dormindo. Seu medo à escuridão não deixaria que apagasse as velas e o fogo.

     Vela a vela foi apagando as chamas com os dedos polegares e índice até que só ficou uma. Então não pôde evitar olhar Cara. Estava de lado, de costas a ele, suas curvas marcadas pelo lençol que abraçava seu corpo. A trança descansava sobre o travesseiro, e tinha uns cachos enrolados ao redor das orelhas e pescoço.

     Quando apagou a última vela se voltou para a lareira. Por sorte, toda a lenha já tinha ardido e só ficavam as brasas. Rapidamente, tampou-as e correu para a porta.

     Só se deteve quando Cara deu a volta.

 

     Cara suspirou e se aconchegou sob a manta. Tinha estado tendo um doce sonho no que Lucan estava na habitação observando-a enquanto dormia, seus olhos verde mar cheios de carinho, de desejo... de fome.

     Não estava segura do que a tinha despertado, mas ao girar sobre suas costas e ver que a habitação estava sumida na escuridão, agarrou-se com força à manta. O pânico a envolveu com seus grilhões de ferro, convertendo seu sangue em gelo e fazendo que o coração palpitasse no peito.

     Um grito de espanto passou por seus lábios quando viu que nem sequer uma brasa ardia na lareira. Durante um instante só foi capaz de olhar as velas, com os olhos cobertos de lágrimas. As velas não acabaram e tampouco tinha entrado nenhuma rajada de vento que as tivesse apagado. Não, tinha-as apagado alguém.

     Estava muito escuro, muito silencioso. Podia haver algo na habitação. Um dos guerreiros ou inclusive um wyrran. Aquele pensamento fez que percorresse um calafrio por todas suas costas. Podia ficar sentada na cama fazendo-se mais perguntas ou podia acender de novo as velas.

     Começou a levantar-se da cama quando algo pesado e maciço aterrissou sobre ela, apanhando-a contra o colchão de palha. Ela lutou contra o que fosse aquilo, arranhando seus braços com as unhas, golpeando-o, inclusive tentando mordê-lo.

     Podia ouvir uma voz, mas não podia entender as palavras. E tampouco queria fazê-lo. De nenhum modo o monstro que tinha em cima ia conseguir matá-la sem lutar primeiro. Ela deu um chute e abriu a boca para chamar Lucan.

     De repente uma mão agarrou seus braços colocando-as sobre sua cabeça enquanto outra mão tampava sua boca. Ela ficou quieta, o medo fazia um nó no estômago. Ele se aproximou mais ainda, sua respiração contra o pescoço. Cara girou a cabeça e fechou os olhos.

     —Cara, sou eu. Sou Lucan.

   Ela se afundou na cama, completamente aliviada. Ele afastou a mão, seus dedos roçaram seus lábios em uma suave carícia. Cara cobrou consciência de seu corpo entre suas pernas, de sua virilidade contra seu sexo.

     —Está muito escuro —sussurrou — Necessito a luz.

     Ele sacudiu a cabeça, o cabelo acariciou sua bochecha ao cair solto a ambos os lados de seu rosto.

     —Há alguém na aldeia. Não podemos nos arriscar a que vejam a luz e venham até aqui.

   Ela compreendeu o que lhe dizia e por que tinha apagado as velas, mas estava aterrorizada e necessitava que as velas estivessem acesas.

     —Por favor, Lucan, deixa que me levante. Só acenderei uma vela. Necessito-o.

     —Cara...

     —Por favor — suplicou ela ao ouvir a voz firme.

     —Não.

     —Preciso tê-las.

     Ela empurrou com os braços tentando desfazer-se de seu abraço. Ele a mantinha colhida com firmeza, mas sem lhe fazer mal, mas aquilo a enfureceu mais ainda.

     —Lucan.

     Ele a agarrou também com a outra mão.

     —Cara, estou contigo. Nada vai te fazer mal.

     Mas ela sabia de primeira mão o tipo de coisas que rondavam na escuridão. Estavam ali, sabia. Somente a luz lhe confirmaria que estava a salvo.

     Lucan apertou os dentes quando viu que Cara não o escutava. Não estaria quieta o suficiente para agarrá-la nos braços e tirá-la da habitação. Revolveria-se a cada passo que dessem, lutando contra ele, e ele não queria lhe fazer mal. Assim fez o único que lhe ocorreu para acalmá-la.

     Beijou-a.

     Justo no momento em que seus lábios a tocaram, a fome voltou a invadí-lo com muito mais gana. Nunca tinha desaparecido, mas o fato de voltar a tocá-la, de voltar a beijá-la, tinha multiplicado seu desejo.

     Ele percorreu seus lábios com a língua procurando a entrada. Ela tinha o corpo rígido, mas já não lutava. Ela emitiu um gemido entrecortado que fez seu pênis vibrar de necessidade. O corpo dela relaxou, suas costas se arquearam enquanto se inclinava para fazer aquele beijo mais profundo.

     Lucan atravessou seus lábios com a língua e gemeu quando ela tocou sua língua com a sua. Ele somente queria beijá-la para tranquilizá-la, mas deveria ter compreendido a insensatez daquela ação.

     Ele seguiu beijando-a, abandonando-se a seu suave e desejoso corpo. Suas pernas se moviam, seus pés percorriam a parte traseira das pernas de Cara e aproximavam sua ereção a ela. Ele podia sentir seu calor, o descontrolado desejo que o chamava para ela.

     Suas mãos relaxaram sobre seu braços e entrelaçou seus dedos com os dela. O beijo se converteu em um ato frenético, apaixonado. A fome o consumia, pedia-lhe que a penetrasse, que se afundasse em seu úmido calor e a fizesse dele.

     Ele levantou seus quadris contra seu corpo, a fricção provocou que ela gemesse e repetiu o movimento. As unhas dela se afundaram no reverso de suas mãos enquanto arqueava as costas.

   Lucan acariciou seus braços com as mãos até seus flancos, seus dedos roçaram a parte inferior de seus seios. Ela deslizou as mãos entre seu cabelo. Ele sorveu seu lábio inferior entre os dentes e passou a língua sobre ele. Ela gemeu e aquilo fez que seu sangue se acendesse ainda mais.

     Beliscou-lhe o mamilo e ouviu como sua respiração se convertia em um gemido. Ele desejava sentir o pequeno mamilo entre seus lábios e chupá-lo até que ela se retorcesse contra ele com uma fome que igualasse à sua.

     Com a outra mão, acariciou-a descendo por seu flanco até a estreiteza de sua cintura e seguiu pela curva de seus quadris. Quando sua mão se encontrou com a cálida pele, sorriu e inclinou sua boca para encontrar-se com a dela.

Ao revolver-se para liberar-se de Lucan, a camisola de Cara formou redemoinhos em seus quadris, deixando suas pernas e seu sexo expostos. O simples feito de saber que só sua roupa era o que os separava fez que começasse a suar.

   Ele passou a mão por sua perna, mal roçando-a por debaixo da singela camisola branca. O tato de sua pele sobre os quadris dela fez com que seu sangue, já ardendo, começasse a ferver. Seu polegar deslizou para a suave pele dentre suas coxas e os cachos que escondiam seu sexo.

     —Lucan —murmurou entre beijos.

     Ele podia possuí-la. Ela o desejava, certamente sentia a mesma ânsia que ele. Subiu-lhe ainda mais a camisola, esfregando seu inchado membro contra a suave carne de seu sexo.

   O inconfundível assobio que ele e seus irmãos tinham aprendido de seu pai chegou a seus ouvidos. Sabia que se tratava de Quinn, mas não se importava. Tinha Cara entre seus braços. Só importava aquilo.

     O assobio soou de novo.

   Lucan estava a ponto de perder o controle. Se não deixasse Cara naquele momento, já não poderia fazê-lo. Possuiria sua inocência. Pode ser que ela desfrutasse naquele momento, mas uma vez que o visse, uma vez que o visse de verdade, arrependeria-se de tudo e o odiaria por isso. Preferia ter uma ereção durante toda a eternidade que ter que sofrer seu desdém.

     Ele deu um salto fora da cama e se afastou dela. Lhe revolveu o estômago quando ela se sentou na cama olhando-o com os olhos completamente abertos.

     —O que acontece? —perguntou.

     Ele sacudiu a cabeça.

     —Não confio em mim mesmo quando estou contigo. Perco todo o controle com um simples roce. Além disso, Quinn está chamando.

   —Mas eu quero que me toque.

     Lucan fechou forte os olhos.

     —Não, não diga isso.

     Produziu-se um rangido na cama. Ele sabia sem olhar que ela se levantou e estava de pé frente a ele.

     —Por que não posso dizer o que quero?

     Sua voz soava perto, muito perto.

     Lucan abriu os olhos e retrocedeu outro passo.

     —Não me conhece, Cara.

   —Sim o conheço —respondeu com um sensual sorriso que fez que voltassem a pôr rígidos os testículos — É o homem que me salvou, o homem que me protege, o homem que me ensina a lutar. E é o homem que acorda em mim desejos que não sabia que pudessem existir.

     —Não diria essas coisas se visse o monstro que realmente sou.

     Ela duvidou.

     —Sim as diria.

   Naquele instante ele soube que ela não poderia, não importava o muito que ambos quisessem.

     —Não.

     —Isso não sabe —respondeu.

     —Você tampouco.

     Ela levantou a cabeça.

     —Tenha fé em mim. Já demonstrou o homem que é. Já sei que está possuído por um deus, e mesmo assim o desejo.

     Lucan sabia que a não ser que ela visse o deus totalmente livre, até que não o visse como realmente era, ela seguiria acreditando que podiam estar juntos. Só podia fazer uma coisa, embora resistisse em fazê-lo, pois aquilo significaria que ela já não voltaria a olhá-lo com aqueles olhos mogno cheios de desejo. Somente haveria repulsão e ódio.

     Mas era o melhor.

     —Está segura? —perguntou-lhe.

     —Segura.

     Lucan agarrou ar profundamente e deixou livre ao deus. Passou a língua pelos alargados dentes, esticou os dedos enquanto se convertiam em garras. Não precisava olhar os braços para saber que sua pele, igual a seus olhos, tornou-se negra, podia sentí-lo, sentia aquele estranho formigamento em sua pele.

     Os olhos de Cara se abriram mais ainda, cheios de assombro. Tinha os lábios entreabertos como se fosse falar, mas não pôde articular nenhuma palavra.

     —Tal e como tinha imaginado —disse Lucan, e tentou sorrir. Sabia que ao invés de um sorriso, tinha saído uma careta, mas não se importava — Fica no dormitório até que um de nós venha aqui por você.

     Não seria ele, mas não havia nenhuma razão para dizer-lhe. Ele deu a volta e saiu a toda pressa do dormitório, odiando a si mesmo a cada passo. Chamou à escuridão para que o rodeasse, agradecendo as sombras. Ela tinha sido um brilhante ponto em seu futuro e acabava de ver que se sumiu em um nada. Mas era o melhor.

     Não era assim?

     Lucam tirou Cara de sua mente, ou ao menos o tentou, e se apressou a sair do castelo. Quando chegou ao pátio encontrou Fallon e Quinn.

     —Onde estava? —perguntou Quinn.

     O olhar sabedor de Fallon cruzou com o de Lucan.

     —Estava vendo o que fazia Cara.

     Quinn amaldiçoou.

     —Temos gente na aldeia e você só se preocupa por ver se ela estava bem?

     A luz da lua o golpeou quando uma nuvem se moveu no céu para deixar ao descoberto que tinha liberado ao deus. Os olhos de Quinn se abriram com surpresa, mas Fallon não parecia surpreso.

     —Não foi uma boa ideia —disse Fallon.

     A Lucan não importava o que pensasse Fallon.

     —Foi o melhor.

     —Mas se pode saber que demônios está acontecendo aqui? —grunhiu Quinn.

     —Nada —se apressou a dizer Lucan quando Fallon começava a falar — Quem está na aldeia?

     —O clã dos MacClure —respondeu Quinn — Estão revisando as casas.

     —Viu quantos eram?

     —Claro.

     Quinn pôs os olhos em branco ante aquela pergunta.

     —E? —insistiu Lucan.

     —Só dez, mas dois partiram assim que viram o que tinha acontecido.

     —Haverá mais a caminho —disse Fallon — Vão querer encontrar respostas.

     Lucan assentiu com a cabeça.

   —Igual às queríamos nós. Há uma parte em mim que quer lhes dar as respostas.

     —Não nos acreditariam.

     —Sei.

     Quinn cruzou os braços sobre seu peito.

     —Agora mesmo o que os preocupa é enterrar aos mortos.

     —Isso está bem.

     Fallon farejou o ar.

     —Os corpos logo começarão a cheirar.

     —Vou à aldeia —disse Lucan enquanto passava por diante de seus irmãos.

     Quinn deteve Lucan pondo uma mão sobre seu ombro.

   —Fica junto a Cara. Você foi o que jurou protegê-la. Eu irei à aldeia e me assegurarei que nenhum dos MacClure se atreva a aventurar-se ao castelo.

     Lucan observou Quinn partir.

     —Em trezentos anos, sua ira não diminuiu —disse Fallon — O fará alguma vez?

     —Uma pergunta mais importante que essa é quanto tempo fica até que já não seja capaz de controlar absolutamente ao deus.

     Fallon sacudiu a cabeça.

     —Ao que parece você não tem nenhum problema em controlar Apodatoo.

     A necessidade de enfrentar Fallon, de lançar o punho contra o rosto de seu irmão para vingar-se, afligiu Lucan.

     —Alguém tinha que cuidar de vocês dois. É que acaso queria ser eu o que chegasse a controlar ao deus e a minha ira? Acaso queria ser eu o que carregasse com toda a responsabilidade de cuidar de vocês ao longo de todos estes anos? Não, eu não pedi nada disso, mas é evidente que você não queria te fazer cargo.

     —Lucan... —começou a dizer Fallon.

     —Agora não pode tomar essas decisões. Renunciou ao direito a ser nosso líder quando começou a beber. Volta dentro. Quinn e eu nos encarregaremos de tudo.

     Lucan girou sobre seus próprios pés e de um só salto subiu até uma das almeias. Dali era fácil chegar até a torre em que estaria vigiando até o amanhecer. Não podia fazer nada mais e não confiava em si mesmo se voltava a entrar no castelo.

     Ali era onde estava Cara.

 

     Cara ficou olhando o lugar onde tinha estado Lucan. Seus olhos se acostumaram à escuridão, e com a luz da lua que entrava pela janela tinha visto tudo perfeitamente. Entretanto, não tinha estado preparada para vê-lo com o deus liberado. Tinha sido aterrador e um pouco... excitante.

   Vê-lo mudar assim, ante seus olhos, tinha sido assombroso. Sua pele tinha passado do escuro bronzeado dourado, ao negro em um abrir e fechar de olhos. As garras já as tinha visto antes, mas quando seus olhos se tornaram de cor negra obsidiana e seus dentes se alargaram, ficou claro quão perigoso era.

   Perigoso, sim, mas ela também sabia que não lhe faria mal. O tinha demonstrado de muitas maneiras distintas.

     Aquilo também a enfureceu porque sabia que ele a desejava, mas seu medo a como reagiria ante ele o fazia tornar-se para trás. Cara sempre tinha acreditado ser piedosa e inocente, mas com um beijo de Lucan MacLeod se convertia em uma libertina que não podia deixar de pensar no roce de suas mãos e sua boca contra seu corpo.

     O de fazer-se monja era algo que agora já não queria, nem podia fazer. Não havia forma de pensar naquela vida, não depois de sentir o desejo que ainda ardia em seu corpo.

     Era a segunda vez em uma noite que Lucan tinha levado seu corpo a um estado de necessidade enorme e partiu. Ela tremeu, mas não tinha ideia de como sossegar-se. Saber que Lucan também o estava passando mal tampouco a tranquilizava. De fato, exasperava-a ainda mais.

     Passeou pelo dormitório com os punhos fechados enquanto tentava normalizar sua respiração e acalmar seu corpo ardente. Demorou mais do que teria gostado porque seguia pensando em Lucan, em seus emocionantes beijos e carícias, que a deixavam sem fôlego.

     Foi somente então quando se deu conta que tinha estado de pé na escuridão. Sozinha. Cara se deteve de repente e deu uma olhada por todo o dormitório.

   Afundou-se na cama e sorriu. Fazia muito tempo que não enfrentava à escuridão com tanta valentia. Não estava segura de poder voltar a fazer, ou de quanto tempo poderia estar na habitação sem luz, mas estava assombrada de estar ali. E tinha que agradecer a Lucan. Tinha sido ele quem tinha tentado dizer que tudo iria bem, que ele estava ali para protegê-la. Ela não o tinha escutado, mas quando ele a tinha beijado toda sua atenção se centrou nele e tinha esquecido todo o resto.

   Se os guerreiros tivessem assaltado o castelo ela não teria se informado. Enquanto ela estivesse nos braços de Lucan todo o resto não importava. Parecia cruel que ela tivesse encontrado certo grau de paz e segurança justo no homem que não se considerava digno de dar-lhe.

     Se havia alguém que podia protegê-la, esse era Lucan.

   Voltou a apoiar-se contra a cabeceira e puxou as mantas para tampar-se. Lucan havia dito que ficasse ali até que um deles fosse a procurá-la. Ela desejava que fosse Lucan, porque pensava demonstrar que ainda o queria, com deus e tudo.

     Mas não teve oportunidade. Ficou em pé e se preparou para o dia, depois de ver que o sol rompia pelo horizonte. Os olhos picavam pela falta de sono e a cabeça doía de pensar em Lucan e no que podia espreitá-la na escuridão.

     Temeu por ele. Temeu pelos três irmãos, porque a pesar do poderoso deus que tinham dentro, não estavam preparados para a batalha que vinha. Quinn queria lutar, isso era óbvio, mas sua fúria tiraria o melhor dele.

     Fallon estaria disposto a empunhar sua espada e ajudar a seus irmãos, mas isso não era o que necessitavam. Necessitavam que Fallon liberasse a seu deus, que se convertesse em um guerreiro.

     E Lucan. Suspirou. Lucan tentaria ser todas as coisas para todos, porque era o que ele fazia. Quereria estar ao lado de Quinn e guardar suas costas enquanto entrasse de cabeça na batalha. Quereria ficar com Fallon porque entendia por que Fallon não liberava o deus. E quereria ficar ao lado dela para protegê-la.

   Olhasse-o como o olhasse, Lucan morreria. Não estaria concentrado, sua mente pensaria em muita gente para proteger a si mesmo e lutar contra os guerreiros.

     Era possível que Cara não soubesse muitas coisas, mas entendia que aqueles guerreiros tinham aceitado ao deus de seu interior e sabia que eram muito poderosos.

   Durante mais de trezentos anos os irmãos MacLeod tinham renegado o que havia em seu interior. Renegavam isso e recusavam descobrir quais eram seus limites. Se queriam derrotar a Deirdre isso tinha que mudar.

     Cara soltou um suspiro e esticou a cama. Uma vez feito aquilo, já não havia nenhuma razão para ficar no dormitório. Olhou pela janela, mas a aldeia apenas se via.

     Cara saiu da habitação e se dirigiu à cozinha a preparar algo para tomar o café da manhã. Não sabia onde estavam os irmãos, mas tinha que fazer algo. Já não podia ficar esperando mais tempo.

     Quando chegou à cozinha se surpreendeu ao ver o limpa e ordenada que estava. Havia três lareiras nos que se podia cozer carne com um dos grandes caldeirões, ou assá-la. Em um rincão viu um grande cervo encadeado esperando a ser sacrificado. Graças à caça e ao mar, que estava repleto de peixes, os MacLeod tinham comida de sobra.

     Cara se aproximou de uma das janelas e olhou ao exterior. Ainda se podia ver onde tinha estado o jardim. As más ervas o tinham alagado. Os poucos vasos de barro que havia ao lado do castelo estavam quebrados, destroçados durante o ataque ao castelo muitos anos atrás. Começou a sentir um formigamento nos dedos e algo lhe disse que fosse ao jardim. Cara torceu o gesto ante o montão de terra. Necessitaria-se meses para limpar o jardim, e antes, ela tinha que fazer outras coisas. Apertou os punhos e deu as costas à janela.

     Em uma mesa próxima viu algo envolto em papel e se aproximou. Antes de abri-lo já sabia que era pão.

     Angus tinha proporcionado aos irmãos pão, e certamente, algo que tinha podido lhes conseguir. Pensou nas velas que tinha acendido sem perguntar-se de onde teriam saído. No castelo não havia ninguém que fizesse velas. Tinham saído da aldeia, estava segura. Agora, quando se acabassem não haveria ninguém que fizesse mais.

     Cara estremeceu ante seu egoísmo. A irmã Abigail dizia que tinha que pensar mais nos outros, que com frequência colocava ela mesma em primeiro lugar. Quando se tratava da escuridão não tinha escolha por causa de seu medo.

     Mesmo assim, tinha estado sentada na escuridão durante horas. Tinha estado aterrada, mas Lucan a tinha tranquilizado. Tinha prometido que não havia nada nas sombras esperando para atacá-la.

   Tinha sido o mais difícil que tinha feito jamais, estar sentada na escuridão, pensando em um montão de possibilidades. Mas tampouco podia pôr em perigo aos irmãos. Lucan não teria apagado as velas se não tivesse tido perigo. Ela o entendia, e por ele enfrentou a seus demônios.

     Piscou e se centrou na cozinha. Depois de rebuscar um pouco encontrou pratos e agarrou umas bolachas de aveia e a última parte de queijo que descobriu, e se sentou no grande salão. Até que voltou da cozinha com uma jarra de água não viu Fallon de pé ao lado da mesa olhando a comida.

     —O que ocorre? —perguntou ela — Vocês guardavam o queijo?

     Fallon negou com a cabeça.

     —Faz muito tempo que não me serve uma mulher.

   —Sente-se —disse ela — Faria um pouco de pão ou sopa para jantar, mas na cozinha há poucas coisas.

     —Quase tudo nos trazia Angus. Ele e Quinn tinham uma relação especial.

     Ela olhou para a porta esperando ver Lucan. Um batimento do coração, dois, e Lucan ainda não tinha aparecido.

     —Cara... —disse Fallon.

     Ela o olhou e sorriu forçadamente.

     —Só estaremos nós dois esta manhã?

     Ele a observou um momento, captando tudo com seus grandes olhos verdes.

     —De momento sim. Quinn está na aldeia tentando descobrir algo.

     Ela recusou perguntar por Lucan, mas a pergunta queimava em seu interior. Em lugar disso ofereceu a Fallon uma bolacha de aveia e encheu sua taça de água.

   —Não nos faltava nada—disse ele depois de agarrar uma parte de queijo — Nas ladeiras havia muitas ovelhas e pescávamos no mar. Minha mãe cultivava um rico jardim cheio de ervas medicinais e flores. Sempre que queríamos tínhamos a nossa disposição leite, água e vinho. Fazia tanto tempo que não tomava leite que tinha esquecido que sabor tinha.

     —Seus irmãos e você sobreviveram quando outros teriam retornado com Deirdre.

     Ele se encolheu de ombros.

   —É possível. Lucan foi quem nos manteve unidos. Se só tivéssemos estado Quinn e eu, já faria anos que cada um teria tomado seu próprio caminho.

   —Isso não sabe. Quinn te quer. É seu único vínculo com seu passado, e embora esteja cheio de ira, isso não o esquecerá.

     Fallon inclinou a cabeça para um lado.

     —E o que tem eu, Cara? Como me vê?

     Ela se sentou, agarrou uma parte de bolacha de aveia e o mastigou, dando-se tempo para pensar. Quão último queria fazer era zangar Fallon, mas tinha perguntado. Encolheu-se de ombros ao tempo que tragava a comida.

   —Acredito que tem medo do deus, medo do que poderia fazer. Acredito que quer fazer o correto, que quer estar aí para seus irmãos, como fazia antes, mas esqueceu como.

     Fallon sorriu.

   —Como é possível que só leve aqui uns dias e veja as coisas com tanta claridade?

     —Não sei.

     Cara baixou o olhar e deu volta à bolacha.

     —O que vê em Lucan?

     Ela tinha temido que Fallon o perguntasse.

     —Nada.

     —Acredito que mente. Ao Quinn e a mim nos vê como somos. Acredito que a Lucan também o vê como é.

     —Lucan é um bom homem —disse ela.

     —Sem dúvidas, é o melhor.

     Ela levantou o olhar para Fallon.

   —Ele... ele teme decepcioná-los ou falhar com vocês. Tem muitas coisas escondidas para poder manter unidos aos três.

     A testa de Fallon se enrugou.

     —O que é que tem escondido?

     —Seus sentimentos, seus desejos, seus anseios.

     Fallon suspirou e agachou para pegar a garrafa de vinho que tinha deixado no chão. A levou aos lábios e bebeu um gole longo.

     —Jogamos tudo a perder, verdade?

     —Fizeram tudo o que podiam com o que tinham.

   Cara se levantou. Tinha pensado que queria companhia, mas Fallon tinha pinçado muito fundo em seus próprios sentimentos.

     —Vou dar um passeio.

     —Tome cuidado. Há lugares no castelo que não são seguros.

     Ela assentiu.

     —Terei.

   Lucan jogou a cabeça para trás, apoiando-a contra as pedras quando Cara saiu do grande salão. Colocou-se perto do teto, entre as sombras, onde outra escada levava a uma zona diferente do castelo que tinha ficado reduzida a escombros.

     Não tinha se dado conta que Cara os tinha visto exatamente como eram. Suas palavras tinham deixado as coisas muito claras. Entretanto, ele ainda não confiava em ficar a sós com ela.

     A sós? Nem sequer comeria com ela e Fallon, pensou.

   Era verdade, que Deus lhe ajudasse. Queria sentar-se ao lado dela, cheirar o urze de sua pele, mas se o fazia, quereria tocá-la. E isso não podia fazê-lo. Nunca mais.

     Olhou Fallon e viu que o estava observando.

     —Você também deveria vir e comer —disse Fallon.

     Lucam negou com a cabeça.

     —Vou ver o que faz Quinn. Dê uma olhada nela.

   Não esperou que Fallon respondesse, Lucan sabia que seu irmão manteria Cara a salvo. Lucan saltou ao chão e saiu a grandes pernadas do grande salão. Quinn fazia muito que tinha ido.

 

   Quinn se escondeu atrás de uma das casas e escutou o que diziam os homens. Tinham chegado vinte MacClure mais, e tinham começado a reunir os corpos. Discutiam sobre se os enterravam ou os queimavam. Como havia uns cinquenta corpos, a votação se decantava por queimá-los.

     Ouviu movimento atrás dele e olhou por cima do ombro para ver que Lucan se movia lentamente para ele, pela erva.

     —O que estão fazendo? —perguntou Lucan.

     Quinn se encolheu de ombros.

   —Sobre tudo resmungam sobre que querem encontrar a quão bastardos têm feito isto —sussurrou — Me pergunto se nós tínhamos o mesmo aspecto quando encontramos nosso clã.

   —Quer dizer consternados, furiosos, aturdidos e ressentidos? Sim, irmão, seguro que tínhamos o mesmo aspecto que eles.

     —Deirdre obteve um prazer insalubre com isto.

     Lucan soprou.

   —Nunca entenderei que algo tão belo possa ser tão malvado.

   —Nunca vi ninguém com lindos cabelos como os dela —disse Quinn, recordando — Chegavam até o chão e eram tão brancos como a neve.

     —Sim. Recordo-o. E lembro que me afogava com eles.

     Quinn fez uma careta.

   —Isso o tinha esquecido. É como se sua magia pudesse controlar seus cabelos.

     —Sei.

   Quinn quase sorriu ante o tom seco de Lucan. Não tinha sido ele mesmo desde que tinha levado Cara ao castelo. Quinn tinha pegado seu irmão observando Cara, com o olhar fixo, como se tentasse memorizar cada detalhe. Deveria dizer a Lucan que não se incomodasse, que não funcionaria, mas decidiu calar-se.

     —Quem é essa? —perguntou Lucan.

   Quinn se inclinou para um lado para ver a quem se referia Lucam. Quando Quinn viu uma pequena mulher com o cabelo mais negro que o breu, encolheu-se de ombros.

   —Não disse uma palavra. Chegou com eles, mas ninguém fala com ela e muito poucos a olham.

     —Não parece assustada.

   —E tampouco parece cômoda —disse Quinn — Não estou seguro de qual é seu papel.

     Lucan deu um golpe no queixo.

     —O homem alto e fornido é o latifundiário MacClure?

     —Sim.

     —Possivelmente ela seja sua mulher.

     Quinn os observou um momento.

     —Ele sempre a tem a seu lado, mas não a toca. É quase como se tivesse medo dela. Uma estranha maneira de tratar uma esposa.

     Lucan só respondeu com um grunhido.

Quinn estava acostumado aos silêncios de Lucan. Sempre tinha sido o pensador dos três, que esperava, observava e formulava um plano, o da cabeça fria. Era lógico que fosse ele que os mantinha unidos e quem tinha controlado ao deus de seu interior.

     Quinn sempre tinha invejado o controle que tinha Lucan sobre suas emoções. Mas nem sequer o tranquilo irmão de Quinn podia esconder o fato de que algo o perturbava, e Quinn sabia que esse algo tinha o cabelo castanho, os olhos negros e esperava no castelo.

     —O que? —grunhiu Lucan quando pegou Quinn observando-o.

     Quinn negou com a cabeça.

     —Nada. Quem está com Cara?

     —Fallon.

   Mas Quinn tinha visto como Lucan tinha se posto tenso ao pronunciar seu nome. Sim, Cara perturbava Lucan, e Quinn descobriu que a Lucan gostava. Já era hora que Lucan sentisse algo. Levava muito tempo encerrado em si mesmo.

     —Fallon cuidará dela —disse ao cabo de um momento — Confio nele.

     —O que ocorrerá quando vierem os guerreiros? Deirdre também poderia vir.

     Lucan suspirou e passou uma mão pelo rosto.

     —Fallon não deixará sair ao deus.

     —Com os três deuses seríamos mais fortes. Até você sabe.

     —Sei —admitiu Lucan — Mas tem que entender o medo de Fallon.

     Quinn afastou o olhar, sua ira saía à superfície. Sentiu como suas garras se alargavam e seus dentes se afiavam. Era a mesma ira que sentia cada vez que pensava em que Fallon se negava a fazer aquilo que mais lhes ajudaria.

   Apesar de Quinn querer estampar seu punho contra algo, tinham que permanecer em silêncio enquanto observavam. Assim voltou sua atenção, e seus pensamentos, aos MacClure.

     —Vão queimar os corpos.

     —Sim.

   Sentaram-se e escutaram enquanto o latifundiário MacClure reunia seus homens a seu redor. Sua voz era profunda e enérgica. Lucan e Quinn não tiveram que mover-se de trás das casas para ouvir que o latifundiário estava enviando seus homens para perguntar a outros clãs sobre o acontecido na aldeia.

—Esta terra está maldita —disse um homem — Os MacLeod foram massacrados nela. Justo ali, no castelo.

     Todos os olhos se voltaram para olhar o castelo. Até Quinn se voltou para olhar as ruínas de sua casa. Não havia movimento nos restos que ficavam, nada que pudesse despertar o interesse dos MacClure.

     —Acalme-se, Aliam —grunhiu o latifundiário — A terra não está maldita. Não pulverize mentiras.

     Aliam negou com a cabeça e deu um passo atrás.

     —Está, senhor. Se não, por que uma aldeia na terra que estava acostumado a ser dos grandes MacLeod morreria da mesma maneira que os MacLeod?

     —Não sabemos se é a mesma. A massacre dos MacLeod é uma lenda.

     —Uma lenda que começa com a verdade —disse uma mulher.

   Seu liso cabelo negro, sem tranças nem adornos, levantava-se com a brisa constante do mar. Percorreu o círculo de homens com o olhar.

     —O que está dizendo, Ilha? —perguntou o latifundiário.

     Quinn deu golpe a Lucan com a mão.

     —Vi-a antes.

     —Na aldeia? —perguntou Lucan.

     —Não. Antes, Lucan.

     Não demorou muito em dar-se conta que Quinn falava de antes de que se desatasse ao deus.

     Os lábios de Lucan se esticaram.

     —Onde?

     —Não o recordo.

     —Está seguro que não recorda a uma mulher que se parecia com ela? Muitas mulheres têm o cabelo negro.

   Quinn assentiu. Só tinha visto o rosto da mulher um instante, mas nesse momento tinha estado seguro.

     —Sim, mas quantas mulheres têm os olhos de um azul tão pálido?

   O olhar de Lucan se dirigiu para a mulher. Moveu-se e se colocou entre duas casas para estar mais perto.

     Quinn foi atrás dele. Não recordava onde tinha visto Ilha, mas sabia que a tinha visto. Se pudesse lembrar-se de onde... E quando...

     Ilha girou o rosto, carente de expressão, para o latifundiário MacClure.

     —Digo que Aliam tem razão. Os MacLeod foram massacrados aqui. Igual a sua gente.

     O latifundiário MacClure apertou os punhos, e Quinn não sabia se ia pegar Ilha ou não.

     —Basta.

   —Enviar a seus homens é insensato —continuou Ilha como se não o tivesse ouvido — Mantenha-os perto, senhor.

     Quinn deteve Lucan quando ia aproximar-se mais. Ilha deu a volta e se afastou do grupo de homens. Deteve-se, e de repente, deu a volta e olhou por cima do ombro para o castelo, e pela primeira vez sua face tinha uma ligeira careta de emoção.

     Era ódio.

 

   Cara se afastou rapidamente da janela, sua mão apertava sua garganta. A mulher de cabelo negro como o azeviche a tinha visto, estava segura. Um calafrio percorreu todo seu corpo, pois estava segura que aquela mulher tinha o mal no olhar.

     —Cara?

     Ela deu um salto com o som da voz de Fallon.

     —O que faz aqui acima? Lucan me matará se te faz mal.

     Ela não podia afastar o olhar da mulher de cabelo negro, suas mechas largas e lisas ondeavam ao vento. Fallon percorreu as pedras e madeiras quebradas e agarrou o braço de Cara.

     —Cara.

     —Olhe, Fallon —disse, e assinalou.

     Ele olhou pela janela e amaldiçoou entre dentes.

     —Viu-a?

     —Sim.

     —Como?

     Cara afastou o olhar da mulher.

   —Não sei. Fiquei nas sombras. Só queria ver o que ocorria na aldeia. Não fiz nenhum ruído, não me movi.

     —Acredito em você. Conhece essa mulher?

     —Não a tinha visto nunca, mas tem algo que... resulta-me familiar.

     Fallon entrecerrou seus olhos de cor verde escura.

     —Não volte a subir aqui. Poderia cair entre as tábuas.

     —Tive muito cuidado.

     Cara deu a volta para olhar o caminho que tinha percorrido. Tinha sido muito mais fácil cruzar os escombros de caminho à janela, já que a maior parte das pedras faziam de degraus. Logo tinha caminhado por cima de uma tabela. Seu olhar tinha estado na aldeia, de maneira que não tinha visto o enorme buraco que a tabela cobria, ou o fundo que cairia se tropeçava.

     —Lucan me arrancará a cabeça —balbuciou Fallon entre dentes.

     Ela tinha acreditado muito em sua habilidade para subir pelas pedras em seu desejo de chegar à janela. Agora não estava tão segura de poder voltar.

     —Não se pode ir por outro lugar?

     Fallon negou com a cabeça.

     —Não, só por este.

     —Já vejo.

     —Eu irei diante, assim me assegurarei de que tudo está estável antes que você cruze.

   Cara assentiu, não de tudo preparada para caminhar sobre o buraco. Nunca tinha tido medo às alturas, mas depois de sua queda do escarpado, as via de outra maneira.

   Fallon caminhou por cima da grossa tabela com os braços estendidos. Se tivesse sido Lucan teria saltado por cima do buraco. Mas Fallon não liberaria seu deus nem sequer para isso.

     Houve um forte rangido no silêncio. Cara ficou paralisada, com seu olhar na tabela. Fallon ficou quieto um momento e logo saltou ao outro lado. Aterrissou nas pedras, e suas botas escorregaram para o buraco. Suas mãos se agarraram às pedras enquanto se apressava a deter o escorregão.

     Quando ficou em pé, comprovou a tabela e assentiu.

     —É segura.

     —Quebrará?

     Ele umedeceu os lábios e estendeu sua mão.

     —O buraco não é tão grande. Chega até o meio e eu agarrarei sua mão e a puxarei.

     Parecia um bom plano, exceto pelo fato que ela tinha que chegar até o meio sem que se rompesse a madeira. Já tinha enfrentado à escuridão. Aquilo também podia fazê-lo.

     Pôs um pé sobre a tabela. Depois de inspirar profundamente, pôs o outro pé diante do primeiro.

     —Bem —disse Fallon, e lhe sorriu.

     —Quando sorri fica muito bonito.

     Ele riu.

     —Isso acredita? Quer dizer que deveria sorrir mais?

     —Digo que deveria tentá-lo.

     —Tentarei-o. Segue assim.

   Ela não se deu conta de que tinha dado vários passos mais até que ele o mencionou, mas agora se negava a deter-se. As pernas tremeram, fazendo que cambaleasse.

     —Conseguirá —disse Fallon — Olhe a mim, Cara. Não deixe de me olhar.

     Ela tentou, mas como ia saber que seus pés não saíam da tabela se não a olhava? Olhou para baixo e gemeu quando seu olhar caiu pelo buraco. Havia uma grande queda. Cinco pisos, para ser exatos.

     —Cara! —gritou Fallon.

   Ela levantou o olhar para ele. Já estava quase no meio. A mão dele estava quase a seu alcance. Só... um... pouco... mais...

     Ela chiou quando a tabela rangeu antes de partir-se. Cara sentiu como caía, viu como os olhos de Fallon se abriam. E com a mesma velocidade que tinha caído, parou. Quando olhou para cima, aos olhos verde mar de Lucan, tinha vontade de chorar.

     —Em nome de todo o sagrado, o que está fazendo? —grunhiu Lucan.

     Tirou-a do buraco e a deixou de pé a seu lado. Tinha-a abraçada, mantendo-a perto. Ela estava agarrada a ele, com todo o corpo tremendo.

     —É a segunda vez que te resgato em uma queda —sussurrou ele no cabelo.

   —Sinto-o muito —disse ela, com o rosto contra seu peito — Só queria ver a aldeia.

     Ela ouviu pedras rodando enquanto Fallon chegava até eles.

     —Vim buscá-la —disse.

   —E teria deixado que morresse —bramou Lucan.

     —Não —disse Cara, e pôs uma mão em seu peito enquanto se separava dele— Se tivesse feito o que Fallon me disse não teria me ocorrido nada.

     —Se tivesse feito o que te disse, não teria subido aqui acima —disse Fallon.

     Cara dirigiu um olhar desafiante a Fallon e logo voltou a olhar Lucan.

     —Obrigado, outra vez.

     Lucan fez um gesto seco com a cabeça e agarrou sua mão. Lucan foi delicado enquanto a ajudou a sair da habitação e a percorrer o corredor. Enquanto, atrás deles, Fallon resmungava que teriam que ter selado o corredor, mas que até o parvo do povo teria sabido que não devia subir até ali.

     Cara foi devidamente repreendida e se alegrou que Lucan voltasse a tocá-la. Era a primeira vez que o via em toda a manhã. Não tinha se dado conta de quanto ansiava vê-lo até que não tinham estado juntos.

     Ela se aferrou a sua mão e o seguiu até o grande salão. Mas uma vez ali, lhe soltou a mão e se foi sem dizer uma palavra.

Cara olhou Fallon atrás dela, que também estava olhando Lucan. A compreensão que Lucan em realidade não a queria, que era algo que podia arrumar como seus irmãos, fez que ardesse sua garganta.

     —Passou muito tempo desde que a vida de Lucan se voltou do contrário —disse Quinn da mesa — Eu gosto assim.

     —Quinn —o repreendeu Fallon enquanto passava por diante dele —Não faça caso ao Quinn, Cara.

     Ela esfregou as mãos. A irmã Abigail dizia que mãos ociosas eram o trabalho do demônio.

     —Tenho que fazer algo.

     Quinn se levantou e desencapou uma adaga que levava na bota. A estendeu a ela pela manga.

     —Estava a ponto de esfolar o cervo e limpá-lo.

     Cara agarrou a adaga, agradecida por ter algo que fazer.

     —Te ajudarei.

     Ela e Quinn ficaram a trabalhar em seguida, e embora tinha as mãos ocupadas, sua cabeça perambulava. Lucan. Ela não conhecia bem aos homens, mas estava segura que Lucan a desejava. Via na maneira em que a olhava e em seus beijos. Ou pelo menos, ela tinha acreditado que via. Agora já não estava segura de nada.

   Sua vida voltava a ser um caos, e tudo por culpa do Beijo do Demônio. O sangue de sua mãe. Seu sangue. Por que era tão importante? Não havia ninguém vivo que pudesse dizer a Cara a verdade. Teria que guardar a pergunta até que Deirdre a encontrasse.

     Porque Cara não tinha nenhuma dúvida, de que apesar dos esforços de Lucan, Deirdre acabaria capturando-a. Com que fim, Cara não estava segura.

     A morte, certamente.

   Ela soltou a adaga e observou o sangue que empapava suas mãos e seus antebraços.

     —Tenho que ir.

   Quinn fez uma pausa de joelhos e levantou o rosto para ela, com o cenho franzido.

     —Só é sangue. Tira-se quando te lava.

   —Tenho que ir. Aonde vou, as pessoas morrem. Meus pais e agora a aldeia. Se ficar aqui, você e seus irmãos também morrerão.

     Quinn se sentou e a contemplou.

     —Somos imortais, Cara.

     —Mas podem morrer, Lucan me dissse isso.

     Os lábios de Quinn se torceram com ironia.

     —E seguro que Lucan te disse que conosco estará mais segura.

   —Vocês têm sua própria batalha com Deirdre. Se ela não tivesse vindo me buscar vocês ainda estariam seguros.

     —Fique, Cara. Não tem ideia do que há aí fora.

     Ela riu, um som crispado para seus ouvidos.

     —Eu acreditava que viver no convento e entregar minha vida a Deus me manteria a salvo do mal.

     —Ninguém está a salvo. Ninguém. O mal ataca onde seja.

     Ela tragou as lágrimas.

     —Tem razão, é obvio. Vou tirar este sangue.

   —Segue o caminho — disse Quinn enquanto assinalava a porta da cozinha — A levará ao mar.

     Ela não sabia como ele se deu conta que precisava estar um momento a sós. Fez-lhe um gesto com a cabeça e saiu lentamente da cozinha. Não queria que Quinn soubesse o que estava planejando. Ainda não. O caminho para o mar era íngreme. Muitas vezes teve que agarrar-se às pedras para que seus pés não escorregassem debaixo dela. Seria um caminho de volta perigoso, mas ela não tinha nenhuma intenção de voltar para o castelo.

     Tinha tentado explicar a Quinn, tinha tentado que o entendesse. Ela não podia ficar ali. Não podia ficar mais tempo. Não eram só seus sentimentos por Lucan. Era porque não queria que eles morressem. Tinham sobrevivido muito tempo. Não mereciam morrer.

     E sabia que não podia ficar com Lucan e ver seu rechaço para ela. Doía-lhe muito.

   Cara nunca tinha estado naquela parte do mar. Ninguém conhecia aquele caminho do castelo, já que ninguém se aproximava das ruínas, e com o escarpado, os habitantes da aldeia tinham que pegar outra rota quando queriam pescar. O que significava que aquela baía tinha estado isolada durante trezentos anos.

     Ajoelhou-se ao lado da água e lavou as mãos. Quando acabou tinha os sapatos e a prega empapadas, mas não lhe importou. Sua mente estava pensando na maneira de partir dali sem que a vissem.

     Quinn estava ocupado com o cervo. Fallon estava ocupado com seu vinho. E Lucan certamente estaria observando a aldeia. Era o momento perfeito para desaparecer.

   Olhou para o mar, observando como chegavam as ondas. O movimento repetitivo da água sempre a tinha tranquilizado. Respirou profundamente e olhou a seu redor. O escarpado era muito alto para escalá-lo, e as rochas que se sobressaíam pela baía seriam impossíveis de cruzar com o vestido que tinha posto. Sua única opção era voltar por onde tinha vindo e encontrar outra rota ao outro lado do castelo.

     Cara levantou as saias e começou a voltar para o castelo. Estava na metade do caminho e sem fôlego, com os pulmões ardendo, quando viu outro atalho que saía para a esquerda.

     Com um olhar ao castelo, pegou-o. O caminho não era tão íngreme, e se afastava do castelo, levando-a ao longo da costa. Cara levantou as saias até os joelhos e alargou as pernadas até que esteve correndo.

     Quanto mais longe estivesse dos MacLeod, mais possibilidades teriam de sobreviver. Quando a dor do flanco se fez insuportável, deteve-se e apoiou as mãos nos joelhos. Olhou por cima do ombro, surpreendida de ter posto tanta distância entre ela e o castelo.

     Uma parte dela queria voltar, queria que Lucan enfrentasse à atração que havia entre eles. Mas não podia. Preferia afastar-se dele e que estivesse a salvo, a arriscar sua vida.

     Levantou o olhar ao sol. Era quase meio-dia. Tinha que dar-se pressa se queria estar longe antes que anoitecesse.

     —Adeus, Lucan MacLeod.

     Com um último e prolongado olhar ao castelo agarrou as saias e correu.

 

   Lucan apertou sua mão em um punho e golpeou o muro de pedra do pátio interno. As pedras romperam e caíram. A mão doeu, mas só um momento, até que começou a curar-se. Olhou as pedras que tinham caído a seus pés e suspirou.

     Sua mãe teria negado com a cabeça por deixar que seu temperamento se apoderasse dele. Tinha controlado suas emoções durante muitos anos. Em seu clã, seu controle tinha sido legendário. E agora uma garota magra o tinha feito em pedaços.

     Lucan não tinha pedido uma mulher, não tinha querido uma mulher.

     Mentiroso, pensou.

   Pôs as mãos sobre os muros e deixou que a cabeça caísse entre os ombros. Sim, tinha querido uma mulher, mas nunca pediu sentir tal fome por uma como fazia por Cara. Seu corpo ansiava o prazer que havia no corpo desejoso de uma mulher. Desejava agarrar uma mulher entre seus braços e entrar em seu úmido calor.

     Com Cara sentia muito mais que o desejo físico. E com esses sentimentos mais complexos chegava a esperança. Lucan sabia muito bem que não havia esperança para ele, nem salvação para seus irmãos. Estavam destinados a viver como faziam, isolados e sozinhos, observando o mundo do castelo.

     E quando não puderem esconderem-se mais no castelo? Então o que?

     Ele não tinha respostas, nunca as tinha tido. Voltar para casa tinha sido o que tinha mantido unidos aos irmãos. Em realidade, Lucan não tinha querido viver no castelo. Havia muitas lembranças, muita ira e ressentimento nas pedras para poder encontrar a paz. Mas tinha acalmado muito ao Quinn. Quanto a isso, havia valido a pena.

     De algum jeito, de algum modo, se conseguiam voltar a escapar de Deirdre, teriam que sair ao mundo e encontrar outro lar. Não podiam esconder-se mais. Tinham mudado muitas coisas. Eram as highlanders, mas já não encaixavam nas Highlands.

     Cara pode ensinar a você.

Lucan fechou com força os olhos. Cara nunca estava longe de seus pensamentos. Pensava nela constantemente. Foi esse mero pensamento nela enquanto ele e Quinn voltavam da aldeia o que tinha feito que Lucan a buscasse. Quando tinha encontrado ela e Fallon em uma das torres meio derrubadas e se quebrado a tabela sob os pés de Cara, Lucan tinha vivido um momento de autêntico pânico. O tempo havia parado enquanto ela gritava e caía. Ele estava na porta, a umas vinte pernadas dela, mas tinha saltado e tinha pego seu braço.

     Tinha querido sacudí-la, e pegar uma surra a Fallon por deixar que caísse. Lucan não podia deixar sozinha a Cara sem que se metesse em algum problema.

     Fallon, entretanto, voltou a demonstrar que deixaria que alguém morresse antes que liberar seu deus.

   Apesar da ira de Lucan, não podia culpar Fallon. Ele tinha seus próprios problemas, igual a todos. Possivelmente algum dia Fallon pudesse enfrentar a eles.

     Lucan se separou do muro e caminhou para a ferraria. A última vez que a tinha utilizado fazia mais ou menos uma década, quando tinha feito uma espada nova a Fallon. Como Lucan precisava fazer algo para ocupar sua mente e seu corpo, acendeu o fogo da forja e pegou um ferro. Cara necessitava de uma adaga.

 

   Cara se reprovou ter deixado o castelo sem comida nem água. Conhecia suficientemente bem a zona para saber que perto havia um arroio, mas isso significava que teria que seguí-lo, em vez de andar através do campo.

   Não tinha ideia de aonde ia, só que queria pôr a máxima distância possível entre ela e os MacLeod.

     Nem comida, nem água, nem armas. E refúgio para a noite?

   Envolveu seu corpo com seus braços. Em sua pressa por fugir, tinha atuado precipitadamente e não se preparou para a viagem. Não tinha pensado na noite e que estaria sozinha na escuridão. Sem Lucan a seu lado, voltariam a espreitar aos demônios? A primeira coisa que pensou foi em uma fogueira, mas isso atrairia uma atenção que não desejava. Cara tinha se afastado do mar fazia uma hora. A paisagem era ondulada, por toda parte surgiam rochas, mas não proporcionavam um lugar onde esconder-se. A umas duas léguas havia um bosque ao que de vez em quando iriam caçar muitos dos homens da aldeia. Esse seria seu primeiro destino.

   Ela se perguntava quanto tempo passaria antes que os irmãos se dessem conta de que se foi. Iria Lucan procurá-la? Seu coração se acelerou com aquela possibilidade, mas em realidade ela sabia que a resposta era não. Não deixariam o castelo. Sobre tudo não por alguém que lhes tinha jogado Deirdre em cima.

   Cara estava ansiosa por conhecer aquela mulher. Lucan disse que era preciosa e Cara a odiava por isso. O ciúmes que arderam dentro de Cara não tinham nenhum sentido, principalmente porque ela sabia quanto Lucan odiava a Deirdre. Mas, entretanto, a inveja persistia.

     —Idiota, idiota, idiota —resmungou Cara para si mesma.

 

   Lucan estava empapado em suor por causa do esforço de golpear o aço e do calor da forja. A forma da adaga estava ficando muito bem. Levantou o ferro com as tenazes e o inspecionou. Tinha curvado a folha, dando um ponto desumano ao final da arma. O peso estava bem, era o suficientemente leve para que a empunhasse Cara.

     Deixou as tenazes e agarrou a túnica que havia tirado horas antes. Limpou o suor do rosto com a túnica e apagou a forja. Quando saiu da ferraria era já mais de meio-dia, o que explicava a fome que tinha.

   Lucan caminhou pelo pátio interior até a cozinha e pelo desgastado caminho que o levaria até o mar. Surpreendeu-se ao ver aberta a porta que saía do muro do castelo, mas não lhe deu mais voltas, já que Quinn baixava muitas vezes ao mar.

     Enquanto Lucan descia pelo caminho, veio-lhe uma lembrança dele fugindo do castelo com seu pai antes que a mãe de Lucan os pegasse. Aquele dia o céu tinha uma cor azul brilhante, e de vez em quando o atravessavam algumas nuvens brancas e esponjosas. Ele e seu pai tinham passado a tarde pescando e jogados na areia. Tinha sido um dia glorioso.

     Quando o pé de Lucan tocou a areia se deteve e observou a pedra em que seu pai se colocava quando lançava a rede ao mar. Então parecia um gigante, alto e imponente.

     Sacudindo a cabeça, Lucan afastou aquelas lembranças e tirou as botas e as calças antes de meter-se correndo no mar. A água fria era estupenda para sua carne quente, que tinha estado muito tempo diante da forja. Seus músculos também relaxaram e voltou a recuperar o controle. Agora seria capaz de ver Cara e manter controlado seu desejo.

     Quando se teve refrescado, subiu a uma das rochas. Deitou-se, sua pele tocava a cálida rocha. Um fio de fumaça subia para o céu da aldeia onde os MacClure tinham queimado os corpos de seu clã. Lucan colocou um braço em cima dos olhos para proteger do forte sol. Não podia ficar muito, mas aproveitaria todo o tempo que tinha para si mesmo.

     Passada meia hora, levantou-se e colocou a roupa. Quando entrou no castelo viu que Quinn tinha matado o cervo e estava assando carne em um dos fornos. A boca de Lucan se fez água enquanto seu estômago rugia.

   Agarrou uma bolacha de aveia e entrou no grande salão, onde como era previsível, Fallon estava jogado no banco, com sua garrafa de vinho na mão.

     —Onde esteve? —perguntou Fallon com os olhos entreabertos.

     Lucan se sentou no outro banco.

     —Trabalhando.

    —No que?

     —Cara necessitava uma adaga que coubesse em sua mão.

     Fallon se ergueu sobre os cotovelos e olhou Lucan por cima da mesa.

     —De verdade?

     —Sim.

     Ao cabo de um momento Fallon se sentou e descansou os braços sobre a mesa.

     —Segue zangado comigo ?

     Lucan sabia que se referia à queda de Cara.

     —Não. Tinha subido lá por ela. Tem que saber que a maior parte do castelo não é seguro. Um passo em falso e poderia morrer.

     —Tentei dizer-lhe.

     Deu uns golpes ao Fallon no ombro.

     —Aprenderá.

     Quinn entrou no salão do pátio interior e fechou a porta de um chute.

     —Suponho que estão falando de Cara.

     —Não tem que pronunciar seu nome como se te azedasse o estômago —disse Lucan.

     Quinn retorceu os lábios em um sorriso irônico.

     —Não o faço. Ajudou-me a limpar o cervo. Disse que precisava fazer algo.

     —Isso é bom. Onde está agora?

     —Não sei —disse Quinn — A última vez que a vi ia baixar ao mar para lavar ao sangue das mãos.

     Lucan franziu o cenho.

     —Acabo de estar na praia e não estava.

     —Isso foi há muitas horas.

     —Então, onde está?

   —Tranquilo, Lucan —disse Fallon — Seguro que estará por aqui. Não tem aonde ir.

     Lucan respirou fundo para acalmar as espetadas de medo que o atravessavam. Então viu que Quinn estava pensando em algo.

     —O que ocorre?

     O olhar de Quinn se encontrou com o seu.

   —Não dei importância, acreditei que estava falando como o fazem muitas mulheres.

     —Quinn —bramou Fallon.

     —Disse que precisava ir. Que todo mundo que estava a seu redor morria, e que não queria que nós corrêssemos a mesma sorte —disse Quinn — Eu respondi que era uma estupidez porque somos imortais.

     Lucan se agarrou à mesa até que seus nódulos se voltaram brancos. Ouviu como a madeira começava a estilhaçar-se, mas não importava.

     —O que disse depois disso?

     —Nada. Baixou à praia.

     Lucan se separou da mesa de um salto e foi correndo pelas escadas até o dormitório de Cara. Quando não a encontrou ali, começou a gritar seu nome.

   Um momento depois Quinn e Fallon também a chamavam. Quinze minutos depois não a tinham encontrado e Lucan soube que se foi. Reuniu-se com seus irmãos no grande salão.

     —Vou buscá-la —disse Lucan.

     Quinn negou com a cabeça.

     —Isso não é sensato. Deirdre poderia atacar esta noite.

     —Poderia. Também poderia enviar guerreiros. Prometi a Cara que a protegeria.

   —Se se foi é porque obviamente não quer seu amparo —disse Fallon — Pensa.

     Lucan escutava seus irmãos, mas não pensava perder tempo discutindo.

     —Eu vou procurá-la. Ou me ajudam, com o que voltarei para casa antes, ou me impedem. É sua escolha.

     Fallon e Quinn compartilharam um olhar antes que Quinn dissesse:

     —Está bem. O que quer que façamos?

     —Preciso saber para onde foi.

     Fallon foi à porta do castelo.

     —Não acredito que foi à aldeia, mas irei olhar.

     —Eu irei ao escarpado onde a salvou —disse Quinn.

     O peito de Lucan estava tenso da frustração.

     —Eu irei à praia ver se encontro algo.

   Mas apesar do muito que procurou, Lucan não encontrou Cara. Estava voltando a subir para o castelo quando apareceram Quinn e Fallon.

     —Nada? —perguntou Lucan.

   —Nada —responderam ao uníssono.

     Cara não podia ter desaparecido.

     —Crê que tentou ir embora nadando? —perguntou Quinn.

     Lucan olhou o mar por cima do ombro e negou com a cabeça.

     —Não, não acredito.

   Seu pé escorregou e se agarrou a uma rocha maior que se sobressaía do chão. Então foi quando viu uma zona de erva que tinha sido pisada.

     —O que encontrou? —perguntou Quinn.

     Lucan se encolheu de ombros e afastou a erva alta. Em seus lábios se formou um sorriso quando viu mais erva pisoteada.

     —Este caminho faz muito tempo que não se usa —disse Fallon — O usávamos para ir procurar ovos de pássaro.

     —Também é o caminho que tomou Cara —disse Lucan. Olhou seus irmãos — Nesta noite teremos retornado.

     —Se ela quer voltar.

     Lucan olhou Fallon.

     —Não pensou com claridade. Quando falar com ela, voltará.

     Quinn cruzou os braços sobre seu peito.

     —Não é uma menina, Lucan. É uma mulher adulta.

     —Que nos necessita. Não sabemos que planos tem Deirdre para ela.

   —Então, quer mantê-la encerrada como Deirdre nos manteve ? —perguntou Fallon — Pensa, Lucan. Não pode fazê-la voltar.

     Lucan odiava que tivessem razão. Queria Cara a seu lado, embora tê-la perto fosse a tortura mais cruel imaginável.

   —Está bem. Só quero encontrá-la e me assegurar que está bem. Se não quizer voltar, não a obrigarei.

     —Quer que vá contigo? —perguntou Quinn.

     —Não, fique aqui se por acaso nos atacam.

   Lucan deu a volta e começou a baixar o atalho andando. Sentia um anseio enorme de correr, de que o chão caísse sob seus pés, e de encontrar Cara. Tão enorme que não queria que seus irmãos o vissem.

     Mas uma vez que teve perdido de vista o castelo, começou a correr. Com o coração retumbando no peito e a mente percorrendo todas as possibilidades, espremeu-se ao máximo.

     De vez em quando parava e procurava o rastro de Cara. Assim que viu que se afastava da costa, Lucan soube que se dirigia ao bosque.

     Agora nada impediria que a encontrasse.

 

     Cara se deteve para descansar contra um dos altos pinheiros do bosque. Olhou para trás, esquadrinhando entre as árvores. Durante quase duas horas tinha tido a suspeita que alguém a observava. E a seguia.

     A cada passo tentou deixar para trás o medo que não deixava de aumentar, mas foi incapaz. Os wyrran de Deirdre poderiam estar a seguindo. O coração dava golpes no peito, pulsando o dobro quando via algo mover-se entre as árvores.

   O impulso de correr era forte, mas Lucan havia dito que se mantivesse firme para saber contra o que lutava. Se havia alguma oportunidade de ganhar, tinha que levar vantagem.

     Vantagem como, tola? Não tem armas.

   Cara ainda não podia acreditar que se foi sem nada. Deu uma fugaz olhada ao redor de seus pés e viu um pau bastante longo e grosso para usá-lo como arma.

   Tirou o frasco de sua mãe de debaixo do vestido e o agarrou entre os dedos. Sua boca deixava escapar algumas orações, mas nada podia aliviar o pânico que havia nela. Tentou recordar tudo o que Lucan tinha ensinado, mas uma tarde de treinamento não a tinha convertido em uma guerreira.

   Um ramo estalou a sua direita e fez que voltasse bruscamente a cabeça, levantando o pau com as mãos. Mas não havia nada. Sabia que sua imaginação estava jogando maus pensamentos e que estava vendo monstros onde não havia.

     Deu um grito afogado ao dar volta e ver um homem de pé atrás dela. Tinha o cabelo moreno recolhido em um rabicho baixo. A camiseta cor açafrão dentro de sua saia escocesa verde escuro, azul e negra estava gasta, mas limpa. Não reconhecia o estampado do tartán, o que significava que não era de um clã vizinho.

     —Está perdida? —Ela se surpreendeu de sua voz profunda e sonora — Posso ajudá-la —continuou — É fácil perder-se no bosque.

    Ela umedeceu os lábios.

     —Esteve me seguindo.

   —Sim—respondeu ele, assentindo ligeiramente e olhando-a pacientemente com seus olhos azuis — Te vi entrar no bosque como se estivesse fugindo de algo.

     —A que clã pertence?

     Seu olhar se separou do dela por um instante.

     —Aos Shaw.

     Não havia Shaw em nenhum lugar perto dali. Não sabia se tinha sido banido ou tinha deixado o clã por si mesmo, e não estava segura de querer sabê-lo.

   —Estarei bem, obrigado por se oferecer.

   —Não parece que vá estar bem. Há muitas criaturas selvagens no bosque, e esse pau que leva não te ajudará a mantê-los a raia.

     Seria-lhe mais fácil enfrentar um javali que a um dos guerreiros.

     Ele levantou as mãos.

     —Não tenho armas e não te farei mal. Só quero te tirar do bosque sã e salva.

     Ela olhou para o céu. Logo obscureceria. E a noite traria consigo todo tipo de coisas às que não estava preparada para enfrentar. Não sem Lucan.

     —Há algum lugar aonde possa passar a noite?

   —Há uma cabana —disse ele devagar, com os olhos entrecerrados como se não estivesse seguro do que devia dizer — Posso te levar até ela.

     Cara deixou cair para trás a cabeça, contra a árvore. Não sabia o que fazer. A irmã Abigail sempre havia dito que era muito confiada. O estranho, Shaw, não parecia querer lhe fazer nenhum dano, mas isso não significava nada.

     —Não confia em mim.

     Não era uma pergunta.

     Cara sacudiu a cabeça.

     —Faz bem em não confiar —disse Shaw — Há muitas coisas com as que terá que ser cauteloso.

     Sua forma de dizê-lo fez que lhe olhasse de novo. Em seu olhar azulado viu dor e desânimo ... algo mais que lhe resultava quase familiar.

     —O que há no bosque? —perguntou ela. Tinha que sabê-lo.

     Ele dirigiu o olhar para as árvores por cima de seu ombro.

     —Nada que dê muito medo.

     Cara pensou em Lucan e no muito que desejava que estivesse a seu lado. Sentia a alma fria e só o calor de Lucan poderia lhe dar calor. As únicas coisas terríveis que ela conhecia eram os wyrran e os guerreiros. Enquanto não estivessem no bosque, poderia arrumar-se.            

     —Do que foge? —perguntou Shaw.

     Ela se encolheu de ombros.

     —De mim mesma.

     —Ah —disse ele, e assentiu — entendo.

     Ouviu-se um forte rugido a sua esquerda. Cara girou a cabeça e viu algo escuro movendo-se entre as árvores a toda velocidade. Viu garras e dentes entre o que pareciam sombras.

     Não!

     Girou para onde estava Shaw e viu que o homem tinha desaparecido e em seu lugar havia um guerreiro. Este enfrentou à ameaça avançando entre as árvores, com os lábios retraídos deixando à vista suas presas. Cara não podia afastar os olhos de sua pele, que havia se tornado de um verde escuro que lhe permitia camuflar-se facilmente no bosque.

Os irmãos se perguntaram como encontrar outros guerreiros e ela tinha descoberto um por acaso. Era amigo ou inimigo? E o mais importante, poderia vencer ao que fosse que lhes queria atacar?

     A ideia apenas se perdeu em seu pensamento quando Shaw caiu ao chão para trás, dando voltas uma e outra vez com a força de outro guerreiro sobre ele. Cara deu a volta para fugir quando viu algo dourado reluzir na pele negra do pescoço do atacante.

     Lucan.

   Este se sentou escarranchado sobre Shaw e elevou a mão. Ela fez uma careta de dor quando as garras racharam o peito de Shaw. O outro guerreiro uivou de dor e golpeou Lucan nas costas, lhe fazendo cair sobre a cabeça de Shaw.

     Ambos ficaram de pé de um salto, formando um círculo. Ao redor de Lucan viu que a escuridão lhe seguia, como se esperasse um sinal dele.

     Disse que controlava as sombras e a escuridão.

     Cara não podia deixar que aquilo continuasse.

     —Lucan! Para! Estava me ajudando—gritou.

     Lucan se deteve para olhá-la.

     —Está ferida?

     —Não.

     —Lucan? —disse Shaw — Lucan MacLeod?

   O olhar de Cara se dirigiu rapidamente para Shaw, que olhava fixamente Lucan.

   —Quem pergunta? —perguntou Lucan.

     Shaw baixou os braços. Em um abrir e fechar de olhos sua pele voltou para a normalidade e todo rastro de guerreiro desapareceu.

   —Sou Galen Shaw. Deirdre liberou a meu deus pouco depois de encontrar você e seus irmãos.

     Cara avançou um passo para eles, mas Lucan levantou uma mão para detê-la. Manteve-se em sua forma de guerreiro, com a pele negra brilhante pela débil luz do sol que se filtrava entre as árvores. Estava fascinada pela mudança nele e por quão fácil levava a dupla responsabilidade.

   —Todos os guerreiros que me encontrei tentaram me levar de novo com Deirdre —disse Lucan.

     Galen sacudiu a cabeça.

   —O que ouvimos a respeito de que você e seus irmãos escaparam de Deirdre é o que deu a muitos o valor que necessitávamos para nos liberar. Mas isso faz muito tempo, quando ela acreditava que o medo nos faria permanecer na montanha. Agora tem umas masmorras diferentes, das quais ninguém volta.

   —Poderia estar mentindo.

   —Poderia —admitiu Galen — mas não é assim. Todos os guerreiros conhecem os MacLeod. Você e seus irmãos são lenda, Lucan. Estive lhes procurando durante mais de um século.

     Lucan ficou tenso.

     —Quer ser você o que tente me devolver a Deirdre?

     Galen suspirou.

     —Ouviu algo do que disse? Seus irmãos e você não são quão únicos lutam contra Deirdre e seu plano de dominação. Temos que nos unir.

     —Sim—disse Cara — Estou de acordo.

     Lucan a ignorou, atravessando Galen com o olhar.

     Finalmente Galen suspirou.

     —Pensa nisso, MacLeod. Deirdre os encontrará algum dia.

     —Já o tem feito —disse Lucan.

     O corpo de Galen se sacudiu como se tivesse sido atravessado por uma flecha.

     —Já lutou contra ela?

     —Ainda não. Enviou seus wyrran e alguns guerreiros para procurar... outra coisa. Mas me encontraram.

     Cara se perguntou por que não havia dito a Galen que Deirdre queria a ela.

     Os olhos de Galen brilharam com espera.

     —Mataram aos guerreiros.

     —Havia dois. Um deles se foi.

     —Assim Deirdre irá lá por vocês.

     Lucan se encolheu de ombros.

     —Provavelmente.

   —Eu posso ajudar —disse Galen — Necessitarão a todos os guerreiros que possam ter.

   —Meus irmãos e eu não sobrevivemos tanto tempo por confiar na gente. A resposta é não.

     Galen olhou a ela.

     —Se mudar de ideia, já sabe onde me encontrar.

   Dito isto, desapareceu no bosque. Cara deixou cair o pau e suspirou. Então Lucan se dirigiu para ela.

—Fugiu —disse, com a mandíbula apertada pela raiva. As sombras se aproximaram dele.

     Cara assentiu. Tinha-lhe feito mal partindo. Podia ver em seus olhos.

     —Fiz, Lucan, mas somente para te proteger.

     Ele franziu o cenho.

     —Não fugiu porque tem medo de mim?

     —Não. —aproximou-se dele e pôs as mãos sobre seu peito, o calor a envolveu— Fugi porque todo mundo morre a meu redor. Não quero que morra.

     —Olhe-me, Cara.

     —Estou fazendo.

     —Não! —gritou ele — Olhe-me, olhe o que sou.

     Ela sorriu e acariciou seus lábios com os dedos, roçando com o polegar uma de suas presas.

     —Te olho, Lucan. Vejo o deus que lhe dá a imortalidade e uma força que vai além de minha compreensão. Também vejo o homem que me salvou tantas vezes e que continua me protegendo apesar de tudo. Vejo o homem que me deseja, mas que nega esse desejo pelo que é.

     —Cara.

   Ela ignorou sua advertência e deixou que suas mãos lhe percorressem o peito. Desejou que não levasse túnica para poder sentir a pele sob seus dedos.

     —Veio a por mim.

   —Jurei que a manteria a salvo. Tão somente me pergunto quem te manterá a salvo de mim.

     —Não quero me manter a salvo de você —sussurrou ela.

     Lucan agarrou os braços de Cara com as mãos e a apoiou contra a árvore. Ela suspirou com antecipação quando seu corpo golpeou violentamente contra o dele.

     —Vá, Cara. Por favor.

—Não posso —murmurou — Eu te desejo, Lucan. Desejei-o desde o primeiro momento em que vi seus olhos.

     Ele fechou os olhos.

     —Não sabe o que está dizendo.

     —Sim sei —replicou ela.

   Excitava-lhe que se mantivesse em sua forma de guerreiro. Era perigoso e imprevisível. E era seu.

     Ela ficou nas pontas dos pés e juntou seus lábios com os dele. Ele gemeu e inclinou sua boca sobre a dela, deslizando a língua entre seus lábios para invadir sua boca de um malvado prazer. Quando a língua dela tocou suas presas, ele agarrou seus quadris com as mãos.

     —Meu Deus, Cara, isso que faz... —murmurou junto a seu pescoço enquanto dava quentes e úmidos beijos.

     Ela sorriu e abriu os olhos o suficiente para ver que ele tinha voltado para a normalidade. Ele levantou a cabeça e a olhou fixamente com seus olhos verde mar.

     —Está segura? Desta vez não acredito que possa parar.

     Ela deslizou as mãos sob sua túnica para tocar seu torso musculoso e sentiu que seu estômago se retorcia de prazer.

     —Nunca quis que parasse.

     Não houve mais palavras e ele reclamou sua boca. Seus lábios eram suaves, ternos e firmes, e tinham sabor de glória. Era o que ela necessitava, seu delicioso e sedutor sabor. Mas ela queria mais. Queria entender a sensação que se desenvolvia mais abaixo de seu umbigo e fazia que seu sexo vibrasse quando Lucan a tocava.

     Puxou para cima a túnica para deixar mais à vista seu corpo escultural. Ele interrompeu o beijo o suficiente para tirar a túnica pela cabeça e atirá-la a um lado. Logo, sua boca voltou com a dela de novo, aumentando ainda mais a paixão dela e prometendo um prazer infinito.

   Lucan a sustentava como se tivesse medo que pudesse fugir. Ela sorriu por dentro. Não fugiria a nenhuma parte e ele tampouco o faria. Queria saber aonde os conduziria seu desejo.

     Lucan agarrou firmemente Cara e a apertou contra ele. Acariciou-lhe o seio, os ombros e o pescoço, ao mesmo tempo que o beijava com um desenfreio que aumentava seu desejo.

     Tinha lutado contra essa ânsia que sentia por ela e tinha perdido. Tinha-a em seus braços e ia saborear cada minuto que passasse com ela. Seus suaves gemidos faziam que seu coração palpitasse mais depressa.

     —Quero te sentir —disse ele.

     Ela assentiu com um sorriso. Ele deu um passo atrás e a ajudou a despir-se. Ajoelhou-se ante ela e levantou um de seus pequenos pés para tirar seu sapato e depois desenrolar lentamente suas grosas meias de lã ao longo de sua perna. Tocava sua pele com os dedos, maravilhado por seu suave tato.

     Olhou para cima enquanto começava a repetir o processo com a outra perna e viu que ela se agarrava à árvore com as mãos, com os olhos fechados e os lábios entreabertos. O pulso dela pulsava rapidamente em seu pescoço, lhe fazendo saber que desfrutava com o tato.

     Lucan beijou a ponta de seu pé e o deixou no chão. Esticou-se e tirou as botas, mas quando ia tirar as calças, ela o deteve com as mãos.

     —Quero fazê-lo eu —disse.

   Ele olhou seus olhos escuros e viu um desejo igual ao dele. Assentiu e seu testículo se esticou pela excitação. Desabotoou-lhe as calças e puxou elas para baixo. Seu pênis se descobriu de um salto, duro e espectador.

     Ela inspirou ar brandamente antes de rodeá-lo com os dedos. Lucan jogou a cabeça para trás e apertou os punhos. Sua forma de lhe tocar era suave e sensual, inocente e erótica. Movia a mão acima e abaixo, aprendendo o tato que tinha.

     —Está muito duro e quente, mas muito suave.

     Ele pensou que morria. Tinha esperado muito. Não haveria forma de fazer que ela chegasse ao clímax sem que ele ejaculasse, ao menos não se ela seguia lhe tocando.

     —Já não mais. —sussurrou, olhando-a —Toca a mim.

     Estendeu no chão sua túnica e a saia dela, e lhe estendeu a mão. Cara não duvidou em aceitá-la e deixar que ele a deitasse no chão.

     Percorreu seu corpo com o olhar, e viu a perfeição em cada detalhe, desde seus redondos seios de escuros mamilos, até sua cintura estreita e seus quadris mais largos, ou suas esbeltas pernas.

     Ela esticou os braços para ele, envolvendo seu pescoço. O sorriso que havia em seus lábios era pura sedução. Se a ele ocorria tentar deter o que havia entre eles, sabia que ela não o permitiria. O fato que ela o tivesse visto, que tivesse conhecido de verdade o monstro que era e que ainda o desejasse, aturdia-o.

   —Não me faça esperar —sussurrou ela — Sonhei com isto desde que nos beijamos pela primeira vez. Ensine-me o que é a paixão, Lucan. Ensina-me a promessa de prazer que vejo em seus olhos.

   Lucan estava afligido por aquelas palavras. Acariciou seu sexo e a beijou, pondo brandamente seus lábios sobre os dela. Queria fazê-lo lentamente, já que para ela era a primeira vez. Mas Cara não. Umedecia os lábios e gemia. Então não pôde mais. Daria-lhe tudo o que ela queria, sem importar o que custasse.

   Perdeu-se em seus beijos, devorando seu sabor e sua fragrância. Com as mãos percorria seu corpo, aprendendo suas curvas e as zonas sensíveis de sua pele. Ao ter seu membro entre as pernas dela, sentia seu calor e sua umidade. Queria introduzir-se dentro dela, mas não estava preparada. Ainda não.

     Rodeou seus seios com as mãos e os massageou enquanto seus polegares se moviam acima e abaixo sobre os mamilos. Ela cravou as unhas em suas costas quando a pequena protuberância ficou dura. Ele se inclinou e fechou os lábios sobre o mamilo. Excitou a ponta com os dentes, mordendo-a com delicadeza antes de lambê-la e chupá-la profundamente com a boca.

   Seus seios eram doces sorvos, seus quadris se elevavam com os dele, procurando o final que ela ainda não entendia. Lucan trocou ao outro seio e repetiu o ritual. Ela se retorceu sob seu corpo e murmurou seu nome.

     Lucan já estava em seu ponto máximo. Tinha que estar dentro dela. Deslizou a mão entre seus corpos até que seus dedos encontraram seus cachos escuros. Um sorriso se desenhou em seus lábios quando notou quão úmida estava.

     Ela gemeu quando acariciou seu sexo com os dedos, tocando uma parte dela que ninguém havia tocado antes. Nem ela o tinha imaginado.

     —Lucan —sussurrou.

     Ele deslizou um dedo dentro dela. Ah, estava tensa. Apertou a mandíbula para conter seu desejo enquanto a preparava. Com o dedo entrava e saía e seus quadris se sacudiam contra ele. Outro dedo seguiu ao primeiro. Ela gemeu e arqueou as costas. Seus duros mamilos refletiam a luz vespertina, rogando que tomasse de novo.

     Incapaz de resistir, chupou a tensa ponta e pôs um terceiro dedo dentro dela. Ela gritou, aumentando o ritmo de seus quadris.

     O pênis se arqueou, muita necessidade. Tirou a mão. Os olhos de Cara se abriram e se encontraram com os dele. A excitação cintilou no mais profundo dela quando o extremo de seu pênis roçou seu sensível sexo. Ele empurrou dentro dela e fechou os olhos ante tão delicioso prazer.

     Tirou o pênis e logo o introduziu mais dentro, no calor. Quando encontrou sua barreira, retirou-se até que somente a ponta esteve dentro dela. Com uma investida, rasgou seu hímen.

     O corpo dela se esticou e se sacudiu. Lucan ficou quieto para dar tempo a que seu corpo voltasse a ajustar a ele.

     —Acabou?

     Ele teve desejo de rir ante seu tom zangado. Olhou-a aos olhos e lhe deu um beijo.

     —Absolutamente.

     —Bem.

     A necessidade de mover-se, de afundar-se nela dura e profundamente, afligia-lhe. Controlou-se e começou a mover-se com sacudidas curtas e lentas. Ela não demorou para relaxar e começou a gemer brandamente em seu ouvido.

     —Ponha as pernas ao redor de minha cintura —disse ele.

   Assim que o fez, ele se afundou mais profundamente. Não pôde conter um gemido ao sentir que ela tinha todo seu pênis dentro. Seu ritmo se acelerou, as investidas se voltaram mais profundas e duras cada vez que ela elevava os quadris para ele.

     O prazer era enorme, muito intenso. Sabia que estava a ponto de chegar ao orgasmo, mas se negou a chegar até o final antes que Cara. Apoiou todo seu peso sobre uma mão e deslizou a outra entre eles até que alcançou o clitóris com o dedo. Ela gritou e cravou suas unhas nas costas enquanto ele a acariciava.

     Manteve um ritmo regular, atento à expressão de seu rosto ao tempo que seu corpo se esticava. Um instante depois, ela gritou enquanto alcançava o clímax. Lucan era incapaz de conter seu clímax por mais tempo. Com o corpo dela rodeando o seu, introduziu-se nela e permitiu que o ordenhasse até lhe deixar seco.

     Durante um bom tempo ficaram nessa posição. Sua respiração se misturava, seus corações pulsavam com força. Ele abriu as pálpebras e viu que ela o olhava com os olhos brilhantes.

     —Foi... —Suas palavras se apagaram enquanto se encolhia de ombros.

   Ele sabia o que queria dizer. Sobravam palavras para explicar o que tinha ocorrido, as sensações que os tinham alagado. Então uma, que definia perfeitamente o momento, cruzou sua cabeça.

     —Foi perfeito.

     Um leve sorriso apareceu nos lábios dela.

     —Sim, definitivamente foi perfeito.

     Ele pôs sua testa contra a dela.

     —Voltará comigo para o castelo?

     —Irei a qualquer lugar contigo, Lucan, inclusive às chamas do inferno.

     —Esperemos não chegar a isso —disse lhe beijando o nariz.

     Rodou sobre suas costas e a empurrou contra ele. Olhou os topos das árvores e o céu rosa e alaranjado do pôr-do-sol.

     Com o corpo satisfeito, pensou em quando tinha encontrado Cara com Galen. A necessidade de matar nunca tinha sido tão forte. Galen não estava ameaçando Cara, mas tinha estado perto dela. Para Lucan era suficiente.

   O que ainda não entendia era por que ela o desejava. Lucan tinha permanecido em sua forma de guerreiro, por isso ela pôde ver o que era, pôde ver sua raiva e o perigo que a rodeava. Em vez de afastá-la, parecia que a excitava. Deveria estar preocupado, mas gostava mais do que queria admitir.

     —No que pensa? —perguntou ela adormecida.

     —Em você.

     Ela riu.

     —Espero que seja algo bom.

     —Oxalá não tivesse fugido, Cara.

     Com um suspiro se incorporou sobre o cotovelo e o olhou.

     —Fiz o que pensava que era o melhor.

     —Sabia que fugir a converteria em uma presa fácil para Deirdre.

     —Sabia.

     —Mas fugiu de todos os modos.

     —Você mesmo me disse que Deirdre não deixaria de me perseguir. Imaginei que se deixasse que me agarrasse, você e seus irmãos teriam uma oportunidade de libertarem-se dela.

     Lucan pegou seu rosto entre as mãos.

     —É a mulher mais valente que conheço.

   —Não —disse com um ligeiro movimento de cabeça — Só uma que morre de fome.

 

     Cara queria ficar nos braços de Lucan para sempre. Não lhe importava que se aproximasse a noite. Enquanto estivesse com Lucan estaria a salvo. Mas pela maneira em que ele olhava o sol, ela soube que seu tempo tinha acabado.

     Sentou-se e admirou o corpo duro e cativante de Lucan e quis explorá-lo para alegria de seu coração. A próxima vez, estava segura que haveria uma próxima vez, passaria-lhe as mãos por todo o corpo.

     Lucan sorriu, sem nenhum incomodo por estar nu. Ela observou seu membro flácido, assombrada pelo que tinha sentido ao tê-lo entre as mãos. Ela supunha que devia sentir-se envergonhada por sua própria nudez, mas gostava de como ele a olhava. A fome de seus olhos fazia que seu estômago se agitasse.

     —Tenho que te limpar —disse ele enquanto ficava em pé com um movimento rápido.

   Cara viu seu sangue virgem sobre ele. Olhou entre suas pernas e viu que tinha umas manchas de sangue no vestido. O som de um tecido rasgando-se fez que seu olhar se dirigisse para ele. Lucan tinha rasgado sua túnica pela metade e se ajoelhou entre as pernas de Cara.

     —Se houvesse água a molharia.

     Ela se encolheu de ombros e se esticou para pegar o tecido.

     —Não importa.

     Ele não deixou que a pegasse.

     —Deite-se. Eu a limparei.

     Ela assentiu e se deitou, apoiando-se sobre seus cotovelos. Suas mãos foram delicadas enquanto limpavam o sangue e sua semente das coxas. Quando acabou de limpar ela, ele se limpou. Enterrou a túnica a certa distância, voltou até ela e se colocou a seu lado enquanto colocava as calças e as botas.

   Cara não podia afastar os olhos dele. Era um exemplar esplêndido, um highlander em todos os sentidos. Encaixava na natureza como qualquer animal, e o perigo que lhe rodeava ainda acrescentava mais atrativo.

     Era um homem que nenhuma mãe quereria para sua filha. Mas era um homem a quem qualquer filha quereria para ela.

     Lucan girou a cabeça para Cara e arqueou uma sobrancelha.

     —Ocorre algo?

     Ela passou seu olhar por suas magras nádegas e suas fortes pernas. Para ser um homem cinzelado à perfeição, era incrivelmente doce com ela.

     Cara umedeceu os lábios.

     —Tudo está bem.

   —Necessita ajuda para se vestir? —Os olhos de Lucan se obscureceram de desejo.

   Se ela não se vestisse já, não partiriam nunca, e Cara sabia o quanto Lucan queria voltar para o castelo. Ela negou com a cabeça e pegou uma meia.

     —Desta vez não.

     Lucan se apoiou contra uma árvore, com os braços cruzados sobre o peito, observando-a. Logo ela se voltou, depois de vestir-se.

     —As mulheres levam muitas roupas.

     —Eu poderia dizer o mesmo de vocês. Os highlanders agora levam kilts.

     Ele se encolheu de ombros.

     —Eu poderia levar um. Seria mais fácil quando quisesse fazer amor contigo.

     Um ardente calor alagou todo o corpo de Cara.

     —Então, voltará a me possuir?

     —Possuirei-a muitas vezes, Cara. Lutei contra o que havia entre nós, mas me escute bem: é minha.

   Quando lhe estendeu a mão, ela tomou, aceitando o que o futuro lhe proporcionasse.

     —E você é meu —disse ela quando esteve a seu lado.

     Ele assentiu.

     —Sim.

     Caminharam pelo bosque em um silêncio amigável. Aquela manhã Cara tinha pensado que tinha perdido tudo, e agora, entretanto, tinha tudo. Bom, quase, só faltava que Deirdre deixasse de procurá-la.

     —Encontramos outro guerreiro—disse ela.

     —Pode ser.

   —Entendo por que não confia nas pessoas, Lucan, mas sinto que diz a verdade.

   —Pode ser —voltou a dizer Lucan.

     Ela pôs os olhos em branco. A noite se aproximava com rapidez e enquanto chegavam a borda do bosque, Cara se deu conta que estava ansiosa para voltar para o castelo.

     De repente, Lucan se deteve, parando a ela também com o braço. Cara parou e escutou.

     —O que ocorre? —sussurrou.

   Lucan sacudiu a cabeça para que se calasse. Logo ela viu movimento na sombra de uma árvore e então Galen se situou diante deles. Ela notou como a Lucan cresciam as unhas enquanto se aferrava a sua mão.

     —O que quer, Shaw? —perguntou Lucan.

     Mas os olhos do Galen estavam cravados nela.

     —Leva-o para que o vejam todos? —perguntou, com uma voz baixa e zangada.

     Lucan a colocou atrás dele.

     —Do que está falando?

     Galen assinalou Cara.

     —O frasco. O Beijo do Demônio. Deveria estar escondido.

   Cara baixou o olhar e viu que o pendente de sua mãe estava por fora do vestido.

   —Normalmente o tenho escondido, mas só porque a gente acredita que é estranho.

     —Onde o encontrou? —perguntou Galen.

     —Não é de sua incumbência —grunhiu Lucan.

     Cara, entretanto, deu-se conta de que Galen podia saber algo do frasco. Saiu de trás de Lucan.

     —Deu-me minha mãe quando eu era pequena.

     —Os wyrran a mataram, não é certo? —perguntou Galen.

     Ela assentiu.

     —Meus pais me esconderam, e graças a isso escapei.

     —Sabe o que é o que tem? O que é?

     —Não.

     —Cara... —advertiu-lhe Lucan.

     Ela olhou Lucan e lhe tocou o braço.

     —Quis saber o que era este pendente desde que tenho uso de razão. Minha mãe já não pode me dizer isso. Negaria-me essa informação se Galen a tivesse?

     Lucan suspirou e negou com a cabeça.

     —Claro que não.

     Ela se voltou para Galen.

     —O que é este pendente?

     —Esse sangue que leva é de um drough.

   Cara recordou que Lucan havia dito que havia duas classes de druidas, mije, ou druidas bons, e os drough, ou druidas malvados.

     —Minha família era boa e decente, não era má.

     Lucan passou o braço ao redor de sua cintura e a aproximou para ele.

     —Continua — disse Lucan a Galen.

     —O ritual do sangue é uma cerimônia que todo drough realiza em seu décimo oitavo ano de vida. Supõe-se que a sangria os abre para receber magia negra.

     —Não —disse Cara — Meus pais eram boas pessoas.

     —Mudavam-se com frequência? —perguntou Galen.

     Ela abriu a boca para negar quando lhe veio à mente uma lembrança de sua família chegando à casa. Seu pai estava muito contente, e sua mãe disse que esperava que pudessem ficar mais tempo que na última aldeia.

     —Sim, verdade?

     Ela assentiu com a cabeça. Seu peito se esticava.

     —Por que nos mudávamos tanto?

     —Por Deirdre —respondeu Lucan.

     Galen assentiu levemente.

   —Deirdre esteve reunindo a todos os druidas que encontra, já sejam mije ou drough. Mata-os para ter mais poder. Os drough supõem uma ameaça para sua magia, e se diz que alguns mijes sabem como encerrar aos deuses.

   Ela olhou Lucan para ver se tinha escutado Galen. O olhar de Lucan a comoveu, estava cheio de cautela. Se um mije podia encerrar ao deus de Lucan, Cara encontraria a esse mije para ele.

     Cara tocou o frasco.

     —Um guerreiro disse que Deirdre queria o sangue. Por quê?

—O sangue de um drough contém muita magia, sobre tudo para quem o derrama ou o captura.

     Galen franziu o cenho como se acabasse de cair na conta de algo.

     —Você é o que está procurando Deirdre.

     Ela olhou Lucan.

     —Assim é.

   —Então necessitarão a todos os guerreiros que possam encontrar, MacLeod. Deirdre quer sua mulher mais do que quer a qualquer guerreiro.

     —Por quê? —perguntou Lucan.

   —O poder do sangue de Cara misturado com o de sua mãe é muito embriagador para ser ignorado por alguém como Deirdre. A quantidade de poder que obteria seria imensa. É muito pouco comum encontrar a uma druida com o sangue drough de sua mãe ao redor do pescoço.

     Cara tirou o pendente por cima da cabeça.

     —Então atirarei o sangue de minha mãe.

     —Não —disse Galen, e esticou a mão para detê-la — Não o faça.

—O que não está contando? —perguntou Lucan — Os drough são malvados. Seriam um benefício para Deirdre, e como o sangue se dá em um ritual, seria fácil para Deirdre conseguir esse sangue. Por que matá-los quando poderia os ter a seu lado?

     Galen suspirou e passou uma mão pelo rosto.

   —Deirdre é uma drough. Manteve-se com vida utilizando o sangue de seus irmãos durante mais de quinhentos anos. Cada vez que mata um drough e consegue seu sangue, volta-se mais forte. Não quer ter a nenhum drough perto que possa usurpar seu poder.

     Lucan amaldiçoou entre dentes.

   —Sua mulher tem que manter-se afastada de Deirdre a todo custo. E também tem que manter o frasco a salvo, porque algum dia poderia necessitar do sangue de sua mãe.

     —Disso me ocupo eu —disse Lucan.

     Galen apoiou seus ombros contra uma árvore.

     —Cara poderia enfrentar Deirdre com sua magia.

     —Não sei nada dos druidas nem de seus métodos —disse Cara negando com a cabeça — Nem sequer sabia o que era um drough até que Lucan me contou isso. Eu não tenho magia.

   —Isso não é certo —disse Galen — Todos os descendentes de druidas têm magia. Os Mije a buscam na natureza. Os drough tiram seu próprio sangue, e portanto, sacrificam uma parte deles mesmos ao mal. Uma vez feito isso a magia negra assume o controle.

     Ela pôs a mão no peito de Lucan.

     —Não quero usar magia negra.

     —Não terá que fazê-lo. Prometeu ele — Encontraremos uma maneira.

     Quando levantaram o olhar, Galen já não estava.

   —Necessitará algo mais que a seus irmãos, MacLeod —a voz de Galen ressonou nas árvores.

   —Move-se como o vento —disse Cara.

     —Venha —disse Lucan, e pegou sua mão — Temos que voltar para o castelo.

     Ela agarrava as saias com uma mão enquanto Lucan lhe agarrava a outra e corriam. Ele diminuiu o ritmo para que ela pudesse seguí-lo, mas ela não tinha, nem muito menos, tantas forças como ele. A noite logo cobriu a terra. Quando ela não pôde mais, Lucan a pegou em seus braços sem perder o ritmo e seguiu correndo.

     Cara apoiou a cabeça contra seu ombro e fechou os olhos enquanto sua mente recordava tudo o que Galen tinha contado. Não queria acreditar que sua mãe tinha praticado a magia negra. Na vida de Cara tinha havido muitas risadas, muito bem, para acreditar que seus pais fossem malignos.

     Mas o frasco do sangue de sua mãe dizia o contrário. Como gostaria que sua mãe estivesse ali para poder lhe perguntar.

     —Tudo irá bem — disse Lucan.

     Ela assentiu, incapaz de responder. Suas palavras tinham a intenção de reconfortá-la e tranquilizá-la, mas ela era consciente da verdade da situação, e precisaria mais que promessas para mantê-la com vida.

 

     Fallon estava de pé nas almeias com seu olhar posto no este, onde tinham visto Lucan pela última vez.

     —Já deveria ter retornado —disse Quinn.

     —Voltará.

     Fallon desejou que Quinn não tivesse notado o medo em sua voz.

     —Devia ter ido com ele.

     —Ele queria que ficássemos aqui.

     Quinn apoiou as mãos contra as pedras e soltou um suspiro.

     —Não estamos preparados, Fallon. Deirdre atacará e voltaremos a ser seus prisioneiros na montanha.

     —Estaremos preparados.

     —Basta! —bramou Quinn. Sua voz ressonou no silêncio — Basta já —disse em voz mais baixa — Admite que tem medo. Admite que não temos nenhuma possibilidade.

     Fallon olhou seu irmão mais novo e desejou ter sido o homem que seus irmãos tinham necessitado que fosse.

     —Sempre há uma possibilidade.

     —Não tente falar como nosso pai.

     Fallon passava ao lado de Quinn para voltar para grande salão quando a voz de Quinn o deteve.

     —O que é isso? —disse Quinn.

   Fallon deu a volta e seguiu o olhar de Quinn. Viu alguém correndo para o castelo com algo nos braços. Então se ouviu um assobio familiar.

     —É Lucan. E tem Cara.

   Antes que Fallon acabasse de falar, Quinn já tinha saltado por cima das almeias para cair na parte exterior do muro do castelo e corria para Lucan. Fallon se apoiou contra as pedras. Ficou ali um momento antes de caminhar para as escadas que o levariam ao pátio interior.

     Fallon se deteve e observou o pátio. Podia saltar. Sabia que se deixava sair a seu deus, aterrissaria perfeitamente. Seria um pequeno sacrifício, algo para provar a si mesmo e ao deus. Duvidou muito e se separou da borda.

   Era um estúpido por pensar que era bastante forte para controlar ao deus, como tinha feito Lucan. Fallon era muito covarde até para tentá-lo. Baixou correndo as escadas e se reuniu com Lucan e Quinn no pátio.

     —Está ferida? —perguntou Fallon quando viu que Lucan trazia Cara nos braços.

     —Não —respondeu ela — Ele não o permitiria.

     Lucan soprou.

     —Está cansada.

     Fallon seguiu Lucan ao interior do castelo. Não passou por cima o olhar entre Lucan e Cara quando ele a sentou em uma das cadeiras diante da lareira. Algo tinha mudado entre eles, e não era difícil adivinhar o que era. Fallon se alegrava por seu irmão. Depois de tudo pelo que tinham passado, Lucan merecia um pouco de felicidade.

     Cara levantou o olhar para Fallon, e logo olhou Quinn.

     —Sinto muito. De verdade pensei que partindo estava fazendo o correto.

     —Pode ficar aqui todo o tempo que precise —disse Fallon.

     O sorriso de Cara era genuíno.

     —Obrigado.

     —Tenho notícias —disse Lucan enquanto acendia o fogo.

     Aquilo despertou o interesse de Quinn.

     —Que tipo de notícias?

     —Muitas, em realidade —disse Cara — Encontrei outro guerreiro.

   Fallon olhou Lucan. Não levava a túnica, podia ter se rasgado em um combate.

     —Atacou?

   —Não —Lucan sacudiu o pó das mãos e ficou em pé quando terminou — Sabe de nós, de como escapamos de Deirdre. Disse que também esteve se escondendo de Deirdre, e que há outros como ele.

     —Outros? —repetiu Quinn.

     —Sim, outros —disse Lucan — Disse que necessitaríamos a ele e aos outros guerreiros quando Deirdre ataque.

     —Não sei —disse Fallon, e passou uma mão pelo rosto — Durante todo este tempo acreditávamos que estávamos sozinhos.

     —Galen disse que os procurou a todos —disse Cara — Poderia ser um método para derrotar a Deirdre.

     Quinn soltou um bufido.

     —Ou poderia ser um método para uma derrota total.

     —Têm outra opção?

     Fallon odiava ter que admitir, mas Cara tinha razão. Embora, com um olhar a Lucan, Fallon soube que havia algo mais.

     —O que mais ocorreu?

     Lucan suspirou.

     —Primeiro tenho que dar algo de comer a Cara. Não comeu desde esta manhã.

     Entrou na cozinha e pegou um pouco de cervo assado e o pôs em um prato. Ficava um pouco de pão e também o pegou.

     Durante um momento observou a comida. Houve um tempo em que seu prato tinha estado cheio de mantimentos variados. Sentia falta das comidas que dava por certas.

     Quando voltou para o grande salão Cara estava na mesa servindo-se da garrafa de Fallon. Lucan levantou uma sobrancelha para seu irmão maior. Fallon não compartilhava seu vinho facilmente.

     —Tem aspecto de necessitá-lo —disse Fallon a modo de explicação.

     Lucan colocou o prato entre ele e Cara e lhe fez um gesto para que comesse. Quando ela teve eleito uma parte de carne, ele agarrou outro para si mesmo. Lucan olhou como ela comia, a maneira em que seus lábios se fechavam sobre a carne e empurravam a dentada ao interior de sua boca, e a maneira em que sua língua lambia o suco de seus lábios. Teve uma ereção só a observando.

     Ela o olhou. Pela maneira em que sorriu, tinha visto a fome de Lucan. Se estivessem sozinhos, ele a jogaria em cima da mesa e voltaria a lhe fazer amor.

   Mas não estavam sozinhos, e pelo olhar de Quinn, todos sabiam quanto a queria Lucan. A questão era se sabiam que já a tinha provado. Sabiam que tinha provado uma parte do céu que alguma vez pensava provar?

     —Lucan —o insistiu Fallon.

     Ele acabou de mastigar o bocado e pôs os cotovelos sobre a mesa.

     —Galen também conhecia o Beijo do Demônio.

     —O que? —perguntou Quinn enquanto se aproximava da mesa — Como?

     Lucan negou com a cabeça.

     —Não sei.

     Fallon se sentou no banco diante dele.

     —O que averigou?

     A mão de Cara se meteu debaixo da mesa e descansou na perna de Lucan. Ela tinha medo de contar, medo do que pudessem dizer. Ele pôs sua mão sobre a dela e deu um pequeno apertão tranquilizador.

—Já sabemos por que Deirdre quer Cara—respondeu Lucan — Deirdre, conforme parece, é uma drough.

     Quinn cruzou os braços sobre seu peito e amaldiçoou.

     —Uma drough. Por que não pensamos nisso?

     —Tínhamos outras coisas na cabeça —disse Fallon.

     Era certo, mas deveriam ter reconhecido o que era Deirdre.

     —Seu uso da magia negra nos deveria ter dito isso.

     —Mas os drough desapareceram faz séculos —afirmou Quinn.

     Lucan olhou a seu irmão pequeno.

     —Seguro?

   —Estiveram escondendo-se de Deirdre —disse Cara — Em realidade, Deirdre utiliza seu sangue, o sangue de todos os druidas, para voltar-se mais forte e imortal.

   Os olhares de Fallon e de Quinn se dirigiram ao frasco que pendurava do pescoço de Cara. Lucan entrelaçou seus dedos com os dela.

     —É uma drough —disse Quinn no meio do silêncio.

   —Não—disse Lucan — É uma descendente de druidas. E um druida, por natureza, é um mije.

     Os dedos de Cara se esticaram entre os dele.

   —Para converter-se em um drough, os druidas oferecem uma parte de seu sangue em um ritual que deixa entrar a magia negra, e portanto, o mal. Esse ritual deve realizar-se no décimo oitavo ano de vida de um druida.

     —Céu santo —amaldiçoou Quinn — O tem feito, Cara?

     Ela negou com a cabeça.

   —Mas sua mãe era uma drough —disse Fallon.

     —Isso parece.

     Lucan passou seu polegar pelo dorso da mão de Cara.

     —Galen também nos informou que um mije tem o poder de encerrar a nosso deus. Queríamos encontrar outros guerreiros e um druida. Parece que encontramos as duas coisas.

     —Eu não posso encerrar ao deus —disse Cara — Não sei nada de magia.

     —Galen disse que aparecia com toda naturalidade.

   —Você me viu fazer magia, Lucan? —protestou ela — Não sou seu druida, mas encontrarei uma.

     Fallon levou o vinho aos lábios e bebeu um gole comprido. Limpou a boca com o dorso da mão.

     —Vamos ver se o entendo. Cara é uma druida. Sua mãe era uma drough, e Deirdre a matou.

     Lucan assentiu.

     —Deirdre está matando a todos os drough por sua magia.

   —Não sabemos que idade tem —disse Lucan — Com o aumento de sua magia é capaz de voltar-se imortal.

     —Estupendo —murmurou Quinn.

     Fallon coçou o queixo.

   —Deirdre quer Cara, e deduzo que ela é especial porque tem o Beijo do Demônio.

     —Sim. Deirdre conseguiria o sangue de Cara e o de sua mãe.

   —Espera—disse Quinn — Se foi Deirdre que matou aos pais de Cara, não teria conseguido já o sangue de sua mãe?

     Lucan olhou Cara procurando uma resposta.

     Cara respirou fundo.

   —Pensei nisso enquanto voltávamos para o castelo. Não acredito que Deirdre necessite o sangue de um drough. Acredito que necessita o sangue do Beijo do Demônio.

     —Estou de acordo —disse Lucan — Sangue inocente mije entregue livremente em um ritual de magia negra que consagra o mal. Não posso imaginar que classe de poderes pode conter o sangue de um Beijo do Demônio.

     Quinn passou uma mão pelo cabelo.

     —Isto cada vez é mais interessante.

   —Importa-se que Cara não se converteu em uma drough? —perguntou Fallon.

     Lucan olhou Cara, que se encolheu de ombros.

   —Não sei —disse Lucan — Galen disse que Deirdre estava caçando a todos os druidas, drough e mije.

     —Está matando aos mije?

     Lucan levantou as mãos.

   —Não sei.

     —Galen saberá —disse Cara — Ele tinha razão, Lucan. Necessitaremos dele, e não só para a próxima batalha contra Deirdre. Poderia ter as respostas a nossas perguntas.

     —Ou poderia não as ter —alegou Lucan.

   Lucan queria acreditar que Galen estava do seu lado, mas tinha passado muitos anos receando de todo mundo para confiar com tanta facilidade.

     —Temos que manter Cara afastada de Deirdre —disse Fallon.

     Quinn assentiu.

     —E de qualquer outro druida que encontremos.

 

     Cara rodou sobre suas costas e bocejou enquanto esticava os braços por cima da cabeça. Não recordava ter chegado à cama. Quão último recordava era estar sentada no grande salão com os irmãos enquanto falavam de estratégias para a batalha. Deve ter sido Lucan que a trouxe para o dormitório.

     Deu uma olhada ao travesseiro do lado e franziu o cenho. Depois de que fizessem amor, ela tinha esperado que entre os turnos de vigilância ele fosse deitar-se com ela. Incomodou-a muito que não o fizesse. Devia ter dito que não a importava que ele fosse imortal e ela não. Ela queria passar todo seu tempo com ele, por curto que fosse. Tinha mudado de opinião Lucan? Arrependia-se do que tinham feito?

     Formou-se um nó no estômago. Ou pior ainda, acreditava Lucan que ela era uma drough, e já não queria ter nada a ver com ela? Ela não era uma drough e o demonstraria.

     Como?

   Não sabia. Nem sequer sabia nada sobre os druidas e suas seitas, e muito menos como demonstrar a Lucan que não era malvada. Mas boa ou má, Deirdre a queria.

     Galen disse que podia lutar contra ela.

   Cara se sentou e deixou que as mantas baixassem até a cintura. Precisaria uma magia muito grande para enfrentar Deirdre. Para um druida que tivesse estudado a magia durante toda sua vida poderia parecer uma ideia simples, mas para Cara era impossível.

     Não sabia absolutamente nada sobre ser uma druida ou sobre a magia. Lutar contra Deirdre era completamente impossível.

     E o formigamento de seus dedos?

   Cara afastou as mantas e tirou a camisola pela cabeça. Lavou-se com a terrina de água fria que tinham deixado para ela e se vestiu. Quando entrou no grande salão encontrou Fallon afiando flechas e outras armas.

     —Bom dia, Cara —disse quando a viu.

   Ela se deteve de caminho à cozinha e disse:

     —Bom dia.

     Uma vez na cozinha Cara rebuscou um pouco e viu que alguém, certamente Quinn, havia trazido várias coisas das casas da aldeia. Encontrou farinha e levedura para fazer pão.

     Enquanto fazia a massa levantou o olhar e viu Lucan de pé na entrada, observando-a.

     —Dormiu bem? —perguntou-lhe ele.

     —Sim.

     Ele entrou na cozinha e ficou ao outro lado da mesa, diante dela. Seus olhos verde mar eram quentes enquanto percorriam o corpo de Cara.

   —Lembro quando entrava aqui sendo um moço e olhava como a cozinheira fazia pão.

     Cara sorriu.

     —Imagino que te dava uma fatia assim que saísse do forno.

   —OH sim. Inclusive a tão curta idade as mulheres já se rendiam a meus encantos.

     Ela se deteve. Ele era arrumado, mas quando sorria era irresistível.

     —Eu adoro quando sorri.

     Ele foi ao outro lado da mesa e de um puxão pôs Cara contra seu corpo. Ela tentou manter suas mãos longe dele, pois estavam cheias de farinha, mas a ele não pareceu se importar.

     —Pergunte-me —lhe pediu ele com uma voz rouca.

     —Que te pergunte o que?

     —Pergunte-me por que não fui contigo esta noite.

     Cara olhou para outro lado. Não queria que soubesse o quanto tinha desejado ter seus braços ao redor de seu corpo.

     Ele deu-lhe uma leve sacudida.

     —Pergunte-me Cara.

     —Está bem. — Ela se obrigou a olhá-lo aos olhos. —Por que não vieste comigo esta noite?

   —Porque sabia que se ia voltaria a te possuir, e seu corpo necessita tempo para curar-se. Não sabe o quanto me custou resistir.

     De todas as razões que ela tinha imaginado que poderia dar, seu bem-estar não era uma delas.

     —Podia ter me abraçado somente.

—Não—disse ele negando levemente com a cabeça — Não é suficiente. Necessito-te de um modo que me deixa perplexo. Não podia me arriscar a te fazer mal.

     —Embora eu o quisesse?

     Ele gemeu e fechou brevemente os olhos.

     —OH, moça, está me matando.

     Cara gemeu em silêncio enquanto ele a beijou. A sensação de pressão no peito desapareceu com as palavras de Lucan. Não tinha mudado de opinião, o que tinha feito tinha sido pensar nela.

   Ele a agarrou pelos quadris, empurrou-a contra ele e oprimiu seu membro excitado contra ela.

     —Se não parar agora não pararei.

     —E o pão se estragará —disse ela entre beijos.

     Lucan deixou de beijá-la.

     —Acreditava que não te queria.

   Cara pensou em mentir, mas se deu conta de que fazê-lo alteraria sua relação. Tinham sido honestos um com o outro desde o começo.

     —Sim, assim é.

     —Ontem te disse que era minha.

     —Apesar de ter descoberto que sou descendente de drough?

   —É descendente de druidas, Cara. Há uma diferença. Seus antepassados escolheram ser drough. Você não tem que fazer essa escolha.

     Mas, no fundo, Cara sabia que sim, que teria que fazer uma escolha.

     —Quando acabar aqui, venha ao pátio. Quero que pratique mais com as armas.

     Cara riu quando ele deu uma palmada no seu traseiro ao ir. Ela girou e negou com a cabeça.

     —Eu sigo opinando o mesmo, as armas mortais não me farão nenhum bem contra a magia.

     —Nunca se sabe! —gritou ele por cima do ombro.

     Cara o observou até que desapareceu no grande salão. Seu sorriso não cessou enquanto acabou com o pão e o deixou para que subisse.

     Lavou as mãos e quando se dirigia para o grande salão, o jardim chamou sua atenção. Com um olhar às mudas, seus dedos começaram com aquele comichão tão familiar. Entre as más ervas ainda havia algumas mudas, as que não se asfixiaram ainda cresciam. Com uns poucos cuidados poderiam recuperar-se.

     Cara saiu da cozinha e se ajoelhou no jardim. Assim que suas mãos tocaram as mudas, invadiu-a uma cálida sensação de satisfação. Começou a arrancar as más ervas grossas e amadurecidas. Gostava da sensação de tocar a terra, inclusive quando lhe colocou sob as unhas. Aquilo tinha algo natural e bom. Não questionou a sensação, só a seguiu. Deteve seu trabalho só para pôr o pão no forno, e em seguida voltou para o jardim. Quando chegou o meio-dia, a metade do jardim já estava limpo de más ervas e o aroma do pão recém feito alagava o ambiente.

     Com uma palmada limpou as mãos e se levantou para lavar-se deu a volta e viu Lucan apoiado contra o castelo observando-a, igual tinha feito antes na cozinha.

     —Não podia deixar que queimasse o pão.—disse ela quando ele levantou as sobrancelhas.

     —Não, suponho que não. E o jardim?

     Ela olhou o chão, contente por ver que ainda havia muitas más ervas por arrancar.

     —Não podia ficar sem fazer nada.

     —Acreditava que as mudas não tinham sobrevivido.

     Ela se encolheu de ombros.

     —Pode ser que não o façam. Muitas estavam tampadas por más ervas, mas as dei uma oportunidade.

     —Mmm —disse ele, e lhe estendeu a mão — Fallon e Quinn nos esperam.

     Cara não perdeu o olhar curioso que ele lançou ao jardim. Ela agarrou o pão e o levou ao grande salão, onde até Quinn sorriu quando viu o pão recém feito. Os irmãos partiram o pão com entusiasmo, mas a atenção de Cara voltava uma e outra vez ao jardim.

     E quando começou a perguntar-se se poderia voltar para as mudas sem que se dessem conta, soube que algo tinha mudado.

 

       —Mantenha a espada levantada —disse Lucan a Cara. Ela tinha os braços caídos e os lábios apertados, mas ele não podia adiar sua instrução. Tinha muitas coisas que aprender, e não dispunha de muito tempo.

     Fallon e Quinn faziam turnos com ele para instruí-la. Cara não se queixou nenhuma só vez, embora ele soubesse que ela não acreditava necessária aquela instrução.

     —Olhe-me aos olhos —recordou ele. O atacou, e com a ponta da espada de madeira a golpeou entre os seios — Não estava olhando.

     Ela suspirou e deu um passo atrás enquanto baixava a espada.

     —Você treinou durante anos, Lucan. Eu tenho que aprender muito em somente uns dias.

     —Mas até agora o tem feito bem —disse Fallon.

     Lucan se deu conta que Fallon havia deixado o vinho no castelo. Durante as últimas horas, só tinha bebido água. Lucan não recordava a última vez que Fallon tinha estado tanto tempo sem seu vinho.

     Quinn se sentou nos degraus ao lado de Fallon.

     —São suas saias. Dificultam-na.

     Lucan assentiu.

     —Mas não se pode fazer nada a respeito.

     —Poderia levar calças, como vocês —disse ela.

   Lucan se engasgou com sua própria saliva. Enquanto tossia imaginou que aspecto teria Cara andando pelo castelo com umas calças amoldadas a seu corpo. Adoraria poder ver aquilo, mas não queria que o visse ninguém mais.

     —Não —disse quando deixou de tossir — Não porá calças.

     Ela pôs os olhos em branco.

     —Alguma outra sugestão?

     —Esteja sempre perto de um de nós —disse Quinn.

   —Isso é fácil de dizer —replicou ela — Não é que não queira aprender, é que não acredito que possa.

   —Sim pode —disse Lucan — Já percorreste um longo caminho. Antes mal podia sustentar a espada. Com um ligeiro golpe de minha folha contra a tua, a espada te caía das mãos. Agora a colhe com firmeza.

     Fallon assentiu.

     —E é rápida, apesar das saias.

     —Os guerreiros utilizarão sua força —disse Lucan — Tentarão te dominar, mas com sua velocidade, poderá te manter afastada deles.

     Ela inclinou a cabeça.

     —Tem tanta fé em mim...

     —Está aprendendo de um MacLeod, claro que tenho fé em ti.

   Ela riu, e aquele som foi música para os ouvidos de Lucan. Quando tinha sido a última vez que o pátio tinha ouvido risos? Pelas caras de seus irmãos, eles estavam pensando o mesmo.

     —Está bem —disse Cara, e levantou a espada e a adaga — Continuemos.

   —Desta vez não se aproxime. Fique longe de mim. Utilize as armas só para desviar as minhas se me aproximar muito.

   —Recorda —disse Fallon —: os guerreiros e os wyrran atacarão com suas garras.

     Lucan assentiu.

     —Primeiro quero que se acostume a evitar a espada.

A posição de Cara se alargou, tinha os joelhos ligeiramente flexionados enquanto o olhava aos olhos. Ele estava impressionado com o muito que tinha aprendido durante o pouco tempo que tinha treinado. Ao princípio, ele o tinha feito só para lhe inculcar a ideia que podia defender-se sozinha. Todos sabiam que contra um guerreiro não tinha a mínima possibilidade.

   Mas quanto Lucan mais a observava, mais se dava conta que poderia defender-se de um guerreiro ou de um wyrran, até que ele ou um de seus irmãos fossem ajudá-la.

     Ele começou a caminhar formando um círculo ao redor de Cara, mas ela seguiu seus passos frente a ele. Lucan atacou e sorriu quando ela se afastou e com a adaga tocou seu braço. Se tivesse tido a adaga bem agarrada teria feito um corte.

   —Muito bem —gritou Quinn, com aprovação na voz — Mas a partir de agora ele já conhece esse movimento.

     Lucan foi para a direita e logo se moveu para ela pela esquerda. Ela não se deu conta de sua tática até que foi muito tarde, mas quando Lucan já ia agarrá-la, ela se agachou, rodou e se separou dele. Quando ela ficou em pé, sua adaga tocou a parte de atrás do joelho de Lucan.

     Fallon aplaudiu.

     —Impressionante, Cara. Teria sido um grande guerreiro MacLeod.

     Lucan estava absolutamente de acordo. Cara levava em seu interior o espírito das Highlands. Isso seria uma grande vantagem para ela. Ele a olhou e assentiu levemente. Ela sorriu mas se preparou para que ele não a pegasse despreparada.

     Deu-lhe pouco tempo para que se preparasse e se agachou sobre um joelho e lançou sua espada de lado para seus tornozelos. Ela saltou a tempo para evitar o golpe, e antes que Lucan pudesse ficar em pé, Cara pôs sua espada em sua garganta.

     —Ou se move com lentidão para me dar tempo o... —calou-se.

     Ele viu a cautela de seus olhos mogno.

     —Ou o que? Sai-te natural?

     —Sou uma mulher.

     Ele sorriu.

     —Notei-o.

     Ela olhou as armas de suas mãos.

     —As mulheres não lutam, Lucan.

   —Por que não? —disse Quinn — Possivelmente se eu tivesse ensinado a Elspeth teria podido salvar nosso filho.

     —Não movia a minha velocidade normal —disse Lucan — Mas tampouco me movia com lentidão.

     Agarrou-lhe a mão e a levou aos degraus. Fallon estendeu a Cara uma jarra com água. Ela bebeu um longo trago e a passou a Lucan.

     —Ontem à noite não atacaram —disse Cara.

     Lucan cruzou seu olhar com o de seus irmãos.

     —Não.

   O que significava que Deirdre estava tomando mais tempo para reunir suas forças. Deirdre era extremamente inteligente. Não reagiria até que tivesse tudo controlado. E tampouco ia esquecer tão facilmente de Cara, e se Deirdre podia capturar aos MacLeod ao mesmo tempo, seria um benefício extra.

     —O que significa? —perguntou Cara.

   —Problemas —respondeu Quinn — Significa problemas. —Seu escuro olhar se encontrou com o de Lucan.

     —Já sabe o que temos que fazer.

     Ele sabia exatamente ao que se referia.

     —Não sabemos se podemos confiar em Galen.

     —E não saberá até que não fale com ele. Quanto tempo temos antes que Deirdre ataque?

     Fallon se encolheu de ombros.

     —Poderia atacar a qualquer momento.

     Cara levantou as sobrancelhas.

     —Fale com Galen.

     —Possivelmente tenha razão —disse Quinn — Podemos nos defender contra o exército de Deirdre, mas quantos mais guerreiros tenhamos a nosso lado, melhor.

     —Disse que ele conhecia mais guerreiros, não é assim? —perguntou Fallon.

   Lucan se encolheu de ombros.

     —Isso disse.

—Que opções temos? Terá que averiguá-lo. — Lucan ainda não estava convencido. Se deixavam Galen entrar no castelo, poderia levar facilmente Cara no momento que Lucan lhe desse as costas.

     —Quer manter a salvo Cara, verdade? —perguntou Quinn.

     Lucan apertou os dentes.

     —Já sabe que sim.

     —Então temos que falar com Galen.

     Lucan soltou um suspiro.

     —Bem. Irei buscá-lo na primeira hora da manhã. —Quando começaram a discutir, ele assinalou o sol. —Agora não há tempo. O sol se porá dentro de poucas horas. —Com sua velocidade podia encontrar Galen e voltar antes que anoitecesse, e seus irmãos sabiam.

     Cara ficou em pé e afastou umas mechas de cabelo do rosto.

     —Vou lavar-me e preparar o jantar.

     Ele a observou enquanto entrava no castelo. Assim que a porta se fechou atrás dela, Fallon ficou em pé.

     —Não podemos esperar, Lucan, e você sabe.

     Quinn o observou.

     —Você é o que sempre nos diz que devemos ver o que somos e nos adaptar. Olhe a seu redor, Lucan. Temos que adaptar ao que vem.

     —Sei —admitiu.

     —Não é fácil, verdade? —perguntou Fallon.

     Lucan franziu o cenho.

     —O que?

     —Tomar decisões que afetam a alguém que te importa.

     —Tomei decisões por você e pelo Quinn durante trezentos anos.

     —Sim. —Quinn assentiu — Mas não somos a mulher que quer proclamar como tua, coisa que já é uma loucura em si mesmo.

     Lucan não queria ouvir por que ele e Cara não podiam estar juntos. Conhecia os argumentos, já que os tinha explicado a si mesmo, mas sem êxito.

     —Primeiro, o mais importante —disse Fallon — Procurar ao Galen. Já.

Lucan olhou a seu irmão maior. Por um momento pareceu o Fallon de antigamente, o Fallon de antes de seu clã ser massacrado.

     —Está me dando ordens, irmão?

     Fallon assentiu.

     —Sou o maior.

   Lucan tinha querido que Fallon aceitasse seu rol como cabeça da família durante muito tempo. Tinha pensado que jamais aconteceria, assim que se resignou a ficar ele ao mando. Agora que Fallon tinha dado um passo adiante, Lucan descobriu que não gostava.

   —Se quer derrotar Deirdre, devemos nos arriscar —disse Quinn — Todos vigiaremos de perto ao Galen. Prometo-lhe isso, Lucan.

     Ele passou uma mão pelo rosto. Não tinha sentido discutir. Se não ia ele, iria Quinn.

     —Voltarei o antes que possa.

     —Que Deus te acompanhe —disse Fallon.

     —Não percam Cara de vista —disse Lucan.

   Com o assentimento de seus irmãos, Lucan deu a volta e saiu correndo do pátio. Quando cruzou a torre de entrada lamentou o fato que não tivessem uma porta. Os guerreiros poderiam entrar igual, mas pelo menos o resto da gente não.

 

     Quinn suspirou enquanto as grandes pernadas de Lucan o tiravam do pátio.

     —Lucan sempre receou das pessoas, mas com o passar dos anos ficou pior.

     —Todos temos ficado pior com os anos, irmãozinho.

     —Viu a maneira em que olha Cara?

     Fallon riu.

     —É difícil não fazê-lo.

     —Não se preocupa? —Quinn não podia acreditar que Fallon estivesse tão tranquilo a respeito.

     —Não há nada que possa dizer que vá mudar a opinião de Lucan. Tentou manter-se afastado dela e não conseguiu. Seguro que recorda como é desejar uma mulher. Levamos muitos anos aqui sozinhos sem uma. Não se estranha que Cara tenha despertado algo dentro dele.

     Quinn negou com a cabeça.

     —Só lhe produzirá mais dor. Cara é mortal e nós imortais. Não têm nenhuma esperança.

     —Agora mesmo Lucan é feliz. Não lhe tire isso.

     —Lhe destruirá —replicou Quinn, notando que a raiva crescia em seu interior — Você sabe. Sobreviveu a muitas coisas, mas se se apaixona por Cara e a perde... nós perderemos Lucan.

     Fallon fechou os olhos e assentiu.

   —Sei, mas como posso dizer a ele que se mantenha afastado dela? —Levantou as pálpebras e seu olhar se fixou em Quinn — Tampouco te separaria de nenhuma mulher. Vivemos no inferno. Por que não tomar a pouca alegria que encontramos, já que é tão escassa?

     —Você sabe tão bem como eu que foi Lucan quem nos manteve com vida.

   —Então, quando chegar o momento, seremos nós que lhe mantenha com vida.

     Quinn observou seu irmão maior e viu seu pai no olhar verde escuro de Fallon.

   —Não crê que possamos? —perguntou Fallon.

     Quinn se encolheu de ombros.

     —Não sei.

   —Não pretendo fazê-lo sofrer, mas você sabe o que é perder uma mulher, Quinn. Se alguém pode estar aí para ajudar Lucan, esse é você.

     —Isso é discutível.

     Não queria falar de Elspeth e de seu matrimônio. Não o faria.

   —Deirdre poderia vir esta noite e levar Cara. Não acredito que importe o que façamos, perderá Cara à mãos dessa cadela malvada.

     Fallon cruzou os braços sobre seu peito e se encolheu de ombros.

     —Pode ser.

     Quinn subiu os degraus de dois em dois.

     —Já que foi você que enviou Lucan para procurar Galen, será você quem diga a Cara que se foi.

     —Ela queria que Galen viesse. Entenderá-o.

     —Ah. E isso demonstra que não sabe nada das mulheres—disse Quinn enquanto entrava no castelo.

 

     Cara derramou água sobre o rosto para tirar o suor e a sujeira. Quando se secou olhou pela cozinha para reunir comida para o jantar. Pelo modo em que estiveram olhando os irmãos, ela sabia que Fallon e Quinn tentavam convencer Lucan para que fosse procurar Galen. Por isso tinha entrado no castelo. Eles poderiam ficar ali fora até que se escondesse o sol, o que lhe proporcionava o tempo que necessitava para arrancar mais ervas daninhas do jardim. A luz se apagava com rapidez, mas não necessitava muita para arrancar as ervas. As pontas dos dedos começaram a sentir um formigamento enquanto andava para o jardim. Assim que suas mãos se inundaram na terra, uma enorme calma alagou sua alma. Desejou ter ajudado às monjas a cuidar de seu jardim. Possivelmente teria encontrado aquela paz há anos.

     Em realidade, as monjas só a deixavam sair para recolher verduras ou ervas, nada mais.

     Arrancou uma erva muito forte e a lançou a um lado enquanto pensava no fácil que tinha resultado o treinamento de Lucan. Bom, fácil não era a palavra adequada. Gostou do tempo que passou com Lucan e poder ver uma parte de seu mundo. Mas era como se seu corpo soubesse antes que sua memória o que tinha que fazer para evitar um ataque.

     Durante a metade do tempo não soube como ia evitar Lucan, simplesmente acabou fazendo-o. Ao princípio pensou que ele se movia com lentidão, mas quanto mais treinava, mais se dava conta que era ela a que se movia com mais rapidez.

     Deu um grito afogado quando seu olhar foi parar em uma planta de salsinha. Era como encontrar um tesouro. As pequenas e verdes folhas apenas se viam entre as más ervas. Cara arrancou com cuidado as más ervas e se maravilhou com o bem que estava crescendo a pequena planta.

     Seus dedos percorreram as bordas das folhas, pedindo à planta em silêncio que crescesse, que provasse o sol, a terra e a água.

     —Cara.

     Ela olhou por cima do ombro e viu Fallon e Quinn atrás dela.

     —Irei em seguida.

     —Hei... mmm... viemos te dizer algo —murmurou Fallon.

     —Diga-me.    

     Com Fallon ela nunca sabia se estava bêbado ou se duvidava na hora de falar sobre algo que considerava delicado. Além disso, ela tinha seu novo e encantador descobrimento entre os dedos. Sorriu e tirou a terra às pequenas folhas, desejosa de as ver desenvolver-se, imaginando o sabor que acrescentariam a sua simples comida.

     —Lucan partiu a procurar Galen —afirmou Quinn.

     O sorriso desapareceu dos lábios de Cara.

     —Partiu? Querem dizer que foi sozinho?

     —Sim —respondeu Fallon.

     Cara olhou aos irmãos por cima do ombro.

     —Quando disse que teria que trazer Galen aqui, esperava que fôssemos todos lhe buscar. Não é seguro para Lucan estar fora sozinho, e tampouco é seguro para os três que estejam separados.

     Fallon levantou as mãos.

     —A manteremos a salvo, Cara.

     —Não estou preocupada comigo. Estou preocupada com Lucan. Pensou o que aconteceria se Deirdre o capturasse?

     Quinn teve a delicadeza de baixar o olhar e golpear a terra com a ponta de sua bota.

     —Pensamos que seria melhor ter Galen aqui esta noite que ir todos.

     A ira invadiu o corpo de Cara. Deu a volta e fechou os olhos enquanto respirava profundamente para acalmar-se. Quando abriu os olhos e viu as bordas das folhas de salsinha de cor marrom e murchando-se deu um grito e se separou da planta. Ao cabo de um segundo, Fallon e Quinn estavam a seu lado.

     —O que ocorre? —perguntou Fallon.

     Ela assinalou a planta.

     —Faz um momento estava sã, as folhas estavam verdes e florescentes.

     Quinn passou a mão pelo rosto.

     —Santo céu.

 

     Lucan manteve uma corrida constante e regular em linha reta até o bosque. Queria estar de volta o mais breve possível, assim esperou poder encontrar facilmente Galen.

     Estava na metade de caminho do bosque quando viu alguém que andava para ele. Reduziu a marcha, seus sentidos alerta. O homem se deteve quando viu Lucan. Um momento depois, levantou a mão a modo de saudação.

     Lucan viu o tartán dos Shaw e suspirou. Cruzou os braços sobre seu peito e esperou enquanto Galen corria para ele.

     Quando Galen se aproximou, um pequeno sorriso se formou em uma esquina de sua boca.

     —Sabia que viria.

     Lucan girou para o castelo.

     —Não sabia. Teve sorte, isso é tudo.

   —Poderia discutir esse ponto contigo, Lucan, mas não me incomodarei em fazê-lo. Os dois temos nossos poderes.

     —Aonde se dirigia? —perguntou Lucan.

     —Sabia que Cara e você tinham tomado esta direção. Ia buscá-los. Vamos? Sinto que tem pressa.

     Lucan duvidou.

   —Eu não queria vir.

     —Não confia em mim.

     —Não.

     Galen o observou, seus olhares se enfrentaram.

     —Faz bem sendo precavido. São três homens contra um, poderiam me matar facilmente.

     —Isso já sei. Estou mais preocupado por Cara.

     —Ela deve ser protegida por cima de tudo —disse Galen — Deirdre não pode pôr suas mãos nela.

     —Estou de acordo. Mesmo assim, Shaw, receio em te levar comigo.

     Galen assentiu.

     —Poderia te contar o que me fez Deirdre e por que fugi, mas pensaria que é mentira. O que não pode ignorar é que para manter a salvo Cara necessita de todos os guerreiros que possa conseguir.

     Lucan não queria admitir que Galen tinha razão. Era ele quem devia proteger Cara, mas Deirdre não enviaria a uns quantos guerreiros. Ela queria Cara, e se havia algo que sabia de Deirdre era que não abandonaria sua caçada facilmente.

   —Está bem —disse ao cabo de um momento — Mas te aviso, Shaw, estaremos vigiando-o.

   —Tem minha palavra, MacLeod, que estou contra Deirdre em todos os aspectos. Sempre oporei a ela, protegendo a qualquer que tenha chamado sua atenção.

     Era tudo o que Lucan podia pedir. Não queria que Galen lhe caísse bem, mas a honestidade e a determinação dos olhos azuis do guerreiro eram inconfundíveis. Lucan corria um risco enorme levando Galen consigo, mas se arriscaria para salvar Cara.

     —Venha.

     Lucan deu a volta e alargou as pernadas até que voltou a estar correndo. Galen o seguiu facilmente, mas Lucan não esperava menos, pois tinha a um deus em seu interior.

     —Quantos mais há? —perguntou Lucan.

     Galen se encolheu de ombros.

     —Estamos repartidos por todas as Highlands. Muitos fazem o mesmo que eu e encontram a outros guerreiros para tentar pô-los de seu lado.

     —Para enfrentar a Deirdre? E por que não se esconder?

     —Não há maneira de esconder-se de Deirdre. Além disso, há muitas coisas que não sabe. Seus irmãos e você acreditam fazer o correto ao se esconder, mas só têm feito mal a vocês mesmos, acredito eu.

     Lucan apertou os punhos. Odiava que estivessem em desvantagem por terem ficado escondidos.

     —O que é que não sei?

—Preferiria contá-lo somente uma vez, se não te importar. Quando nos reunirmos com seus irmãos e com Cara lhes contarei isso tudo.

     Lucan parou e olhou Galen.

     —O que tem a ver Cara com isto?

     Umas pernadas mais tarde Galen se deteve e ficou de cara a ele.

     —Muito. Ela não quer reconhecê-lo, e você quer mantê-la afastada.

     —Só é uma moça, nada mais.

     Galen negou com a cabeça.

     —Nega-o tudo o que queira, Lucan, mas o verá por si mesmo.

   Queria pegar Galen. Forte. E logo abandoná-lo ali. Mas não podia. Tinha prometido a seus irmãos que levaria Galen ao castelo.

     —Adiante, me pegue —disse Galen. Tinha os braços cruzados e esperava.

     Nesse momento, Lucan foi prudente.

     —O que te faz pensar que quero te pegar?

    Galen rompeu a rir.

     —Seus olhos, MacLeod. Estão negros. Venha, me pegue, se sentirá melhor.

     —Sim, faria-o, mas não vou fazê-lo. Siga-me, se puder.

   Lucan começou a correr, movendo as pernas cada vez mais rápido e com o coração pulsando com força em seu peito. Fazia muito tempo que não sentia aquela liberdade que o enchia de vida, o vento contra seu rosto e o chão queimando sob seus pés.

   Tinha deslocado igualmente rápido que quando procurava Cara, mas então estava preocupado por ela. Agora desfrutava do momento, já que não sabia quando poderia desfrutar de outro igual.

     O castelo não demorou para aparecer. O olhar de Lucan percorreu as torres, mas não viu a sombra de Quinn. Com uma olhada às almeias soube que Fallon não o esperava. Não era normal que não estivessem vigiando. Onde estavam seus irmãos?

     —Voltaram para seu castelo? —A voz de Galen estava cheia de surpresa — Não nos ocorreu olhar aqui.

     Lucan não se incomodou em responder. Só havia uma razão pela que seus irmãos não estariam vigiando e essa razão era Cara. Correu mais rápido. O som de Galen gritando seu nome se perdeu no vento.

     Quando chegou ao castelo não parou no pátio, mas sim foi diretamente ao grande salão. Deteve-se quando viu Cara sentada à mesa olhando as mãos enquanto seus irmãos caminhavam a seu redor.

     —Lucan. Graças a Deus —disse Fallon enquanto se aproximava dele.

   Houve um ruído atrás de Lucaa. Deu a volta e viu Galen na entrada. Lucan fez um gesto a Galen para que entrasse. Justo quando Lucan abriu a boca para perguntar o que ocorria, o olhar escuro de Cara se dirigiu para ele. Havia tal desespero e medo em seu interior que a Lucan gelou o sangue.

   Ele começou a andar para ela, mas Fallon pôs uma mão em seu peito e o deteve. Lucan afastou sua mão, mas Fallon agarrou seu braço.

     —Lucan —grunhiu Fallon.

     Ele girou a cabeça para Fallon.

     —Necessita-me.

     —E você tem que escutar o que passou.        

   Aquilo deteve Lucan.

     —Está ferida?

     Fallon negou com a cabeça.

     —Não, não está ferida exatamente.

     —Se não me disser o que ocorreu, Fallon, arrancarei-te um membro atrás de outro.

     Lucan aguentava sua ira por muito pouco. Algo tinha ocorrido a Cara, e por Deus que averiguaria o que tinha sido para poder ajudá-la.

     —Bom, ao menos sabemos como fazer que mostre suas emoções —disse Quinn —enquanto se aproximava — Sou Quinn —disse a Galen — O que olha a Lucan é Fallon.

     —E eu sou Galen Shaw. Me alegro de conhecê-los por fim.

     Lucan sabia que devia ter feito as apresentações, mas sua mente estava ocupada com Cara.

     —Fallon.

     Fallon assentiu.

     —Estava arrancando más ervas quando fui dizer que você tinha ido.

     —Estava verde —murmurou Cara.

     Lucan a olhou. Tinha os cotovelos sobre a mesa, e as palmas das mãos diante do rosto. Não parava de passar os polegares pelas gemas dos dedos, dos mindinhos aos índices e ao reverso.

     Quinn deu um passo para aproximar-se de Lucan.

     —Zangou-se por termos deixado que partisse sozinho. Disse que tínhamos que permanecer juntos, que nenhum de nós estava a salvo sozinho.

     —Tem razão —disse Galen.

     Lucan lançou um olhar escuro a Galen.

     —O que aconteceu depois?

     Fallon se encolheu de ombros.

—Ela gritou. Quando fomos ver o que ocorria, a planta que tinha estado limpando de más ervas tinha começado a murchar e a morrer.

     Lucan estava confuso.

     —Não entendo.

   —Eu sim—disse Galen — disse a você que era uma druida. Ainda não sabe como controlar sua magia.

     Chegados a esse ponto Lucan estava disposto a tentar tudo.

     —Pode ajudá-la?

     —Posso tentar.

     Os quatro se aproximaram da mesa. Galen se sentou diante de Cara, e Lucan se deslizou no banco ao lado da moça. Agarrou sua mão. Graças a Deus, ela deixou que o fizesse, mas seguiu olhando a outra.

     —Olá, Cara —disse Galen.

     Sorriu-lhe levemente.

     —Me alegro que Lucan o tenha encontrado.

     —Sabe o que passou no jardim, verdade?

   Ela piscou rapidamente, mas isso não freou a lágrima que caía pela bochecha. Lucan a aproximou dele e sentiu sua fragrância a urze e terra.

     —Matei a planta.

     Falou tão baixinho que Lucan mal pôde ouví-la.

     Galen assentiu.

     —É uma druida.

     —Explique-o — pediu Lucan.

   —Os druidas nasceram da terra com a magia de todas as coisas naturais. É inerente aos druidas amar a sensação da terra entre os dedos, ver crescer as mudas, e inclusive as ajudar a fazê-lo. Descobrirá que muitos Mije andam descalços para estar mais perto da terra.

     Cara descansou sobre a mesa a mão que tinha livre. O calor de Lucan a tinha ajudado a deter o torvelinho que tinha dentro da cabeça.

     —Os Mije tiram a magia da terra —disse.

     Galen assentiu.

   —Igual aos drough tiram sua magia do inferno e do sangue de outros druidas.

     —Isso significa que tenho o poder para fazer que uma planta cresça e para que mora?

   —Estava zangada e estava tocando a planta. A planta tomou sua ira para si mesma, o que fez com que se murchasse.

     Cara fechou os olhos.

   —Como é possível? Druidas, guerreiros, wyrran e drough. Faz uns dias não existia nada disso.

     Lucan apertou sua mão. Ela olhou a seus olhos verde mar e tentou sorrir. Era estranho e um pouco desconcertante encontrar-se tão unida a um homem depois de um período de tempo tão curto, mas não havia dúvida que Lucan a reconfortava do mesmo modo que o tinha feito a terra entre seus dedos.

     —Não volte a ir sem me dizer adeus.

     Ele assentiu.

     —Tem minha palavra.

     Ela girou a cabeça para Galen.

     —E agora o que? Não sei nada sobre ser uma druida.

     —Eu posso te dizer tudo o que sei —disse Galen.

     Quinn apoiou as mãos na mesa, com uma expressão de ironia na boca.

     —E como é que sabe tantas coisas sobre os druidas?

     Galen dirigiu seus olhos para Quinn e manteve seu olhar.

     —Sei tantas coisas porque estive encerrado com um na montanha de Deirdre. Torturou-o todos os dias. Quando voltavam a trazê-lo para a cela, estava louco de dor. Para manter a mente clara e reduzir a dor ao mínimo, contava-me histórias.

     A história de Galen fez que a Cara lhe revolvesse o estômago.

     —O que queria fazer Deirdre com o druida?

   —O que quer de todos nós? —Galen sacudiu ligeiramente a cabeça — Como disse, os mijes conhecem o feitiço para encerrar aos deuses de nosso interior. Deirdre quer esse feitiço, e quer assegurar-se de que nenhum mije encerra o que ela liberou.

     —Por quê? —perguntou Fallon. Estava de pé no outro extremo da mesa, com os braços cruzados sobre o peito — Ela sabe como liberar os deuses, não é suficiente?

     Galen se encolheu de ombros.

     —Não sei.

     —A não ser que não o fizesse ela —disse Cara.

     Quinn soprou.

     —Acredite-me, Cara, Deirdre desatou ao deus que levamos dentro. Eu estava ali, experimentei-o.

     Ela se voltou para Lucan.

   —E se não o fez ela, ou pelo menos, não de tudo? E se só despertou? Não me contou que os guerreiros deixaram de ser homens e se converteram em monstros?

     Lucan assentiu.

     —Sim. Não ficou nada dos homens que eram. Quando se foram os romanos não distinguiam a seus seres queridos de seus inimigos.

     Cara mordeu os lábios enquanto olhava aos homens a seu redor.

     —Acredito que sei por que Deirdre quer o feitiço.

     —Fala —disse Fallon, com a voz cheia de impaciência.

     —Quando os deuses se meteram dentro dos homens, os drough lhes deram a ordem de expulsar Roma de nossas terras. Quando Roma partiu, esses guerreiros se voltaram para sua própria gente.

     —Sim—disse Galen — Matavam a outros e a eles mesmos. Não podiam deixar de lutar, embora quisessem.

     Ela estreitou sua mão ao redor da de Lucan, que segurava a dela.

   —Deirdre é uma drough, o que significa que sabe lançar feitiços. Mas eu acredito que tanto os drough como os mije se deram conta, uma vez que foram capazes de encerrar aos deuses, que era melhor proibir os feitiços para sempre.

     Quinn já estava negando com a cabeça antes que acabasse de falar.

     —Não acredito. Os druidas se dariam conta que tinham o poder de desatar e encerrar uma arma muita poderosa em qualquer momento.

     —Então por que não o fizeram? —alegou ela — Quando chegaram os saxões, por que não chamaram os guerreiros? Acredito que os druidas temiam o que tinham feito, temiam-no tanto que não queriam ter nada a ver com aquilo.

     —Incluídos os drough? —perguntou Galen — Os drough temem muito poucas coisas.

     Cara olhou Lucan e viu que tinha o cenho franzido enquanto a escutava. Fallon golpeava o dedo contra o queixo, seu olhar estava posto sobre a mesa. Ela não tinha feitos para corroborar o que havia dito. Tudo o que tinha era sua intuição.

     —Acredito —prosseguiu — que Deirdre, sendo uma drough poderosa com sua magia negra, encontrou a maneira de desatar aos deuses, mas não os liberou de tudo. Se tivesse liberado aos deuses como fizeram os antigos druidas, nenhum de vocês estaria sentado aqui hoje.

     Lucan soltou um suspiro.

   —Meu Deus, acredito que tem razão. Todas as histórias que escutei sempre sobre os guerreiros diziam que estavam fora de controle. Eu sou capaz de controlar a meu deus.

   —Não posso acreditar —disse Galen. Seus olhos azuis estavam muito abertos, sua expressão era de surpresa — Nunca pude entender por que Deirdre queria o feitiço para nos encerrar quando sabia como liberar o deus.

     Quinn se sentou no banco ao lado de Galen.

     —Céu santo.

—Agora entendo por que está demorando tanto em atacar —disse Fallon enquanto começava a andar — Acreditava que era porque queria assegurar-se que desta vez nos capturava.

     —Quer assegurar-se de capturar a Cara, pelo Beijo do Demônio, mas também porque Cara poderia saber como encerrar aos deuses —disse Lucan.

     —Mas não sei —alegou ela. Embora nenhum deles a ouviu.

     Quinn olhou a Lucan.

     —Necessitaremos de mais guerreiros.

     Cara não podia estar mais de acordo.

     —Galen, quanto acredita que poderia demorar para trazer mais guerreiros?

     —Um dia ou dois, ou mais —disse — Já informei que tinha encontrado Lucan. Como disse no bosque, levávamos mais de cem anos procurando os MacLeod.

     —Sempre fala em plural —disse Fallon — Vivem todos em uma aldeia?

     Galen negou com a cabeça.

     —Quando escapamos de Deirdre cada um tomou seu próprio caminho. Alguns saíram antes que eu, outros mais tarde, mas deixamos marcas por toda a Escócia, mensagens que transmitimos uns aos outros na antiga língua celta e que somente nós sabemos ler.

     Lucan se apoiou com um cotovelo na mesa.

     —O que quero saber é quantos guerreiros conseguiram escapar de Deirdre. Acreditava que com sua magia negra os teria detido.

     Cara também se perguntava o mesmo. Não tinha sentido que escapassem tantos.

     Galen riu.

   —As masmorras de Cairn Toul percorrem as profundidades da montanha. Deirdre escavou sua cidade no interior da montanha e ela ficou no topo, em seu palácio. Muito poucas vezes baixa às masmorras, e se o faz, nunca é um bom sinal.

   —Diz que as masmorras estão cheias? —perguntou Cara — Toda a montanha? —Ela sabia que Cairn Toul era uma montanha grande, que subia até as nuvens, mas não podia imaginar toda a montanha cheia de gente encerrada.

     —Sim—disse Galen — Seu palácio é enorme e ocupa uma grande proporção da montanha. Mas não tem encerrados só a druidas e a homens que suspeita que levam deuses no interior, encerra a tudo o que ela quer. A muitos os converte em seus escravos, utilizando a magia para controlar suas mentes.

     Fallon soltou um suspiro.

     —Como escolhe os homens que acredita que levam um deus em seu interior?

     —Acredito que a maioria das vezes os escolhe ao azar. Um dos homens que capturou disse que existia um pergaminho com nomes escrito pelos drough quando os homens foram convertidos em guerreiros pela primeira vez.

     —Existe? —perguntou Quinn.

     Galen se serviu água da jarra que havia sobre a mesa.

     —Acredito que sim, mas ninguém sabe quem o tem.

     Fallon se agachou e logo colocou uma garrafa de vinho em cima da mesa.

     —O homem lhe deu algum nome?

     Galen bebeu a água. Deixou a taça e franziu o cenho.

     —Sim, deu-lhe cinco sobrenomes.

     O silêncio reinou no grande salão. Depois de um momento, Cara se levantou e foi à cozinha preparar um pouco de comida. As notícias que estavam recebendo os MacLeod os estavam afetando muito. Nos próximos dias necessitariam toda sua força.

     Quando voltou ao salão, com os braços carregados com uma bandeja de carne, os homens estavam muito pensativos. Ela deixou a bandeja sobre a mesa e assinalou a comida.

     —Comam. Temos muitas coisas que discutir.

     Deixou escapar um suspiro quando os homens encheram seus pratos. Quinn e Fallon flanqueavam Galen, mas ele não parecia se importar. Ela queria saber mais coisas sobre Deirdre e os guerreiros. Algo que a fizesse não pensar na magia que percorria seu corpo, e em um futuro que parecia mais incerto a cada momento que passava.

 

     Lucan observou atentamente Cara. Ele não se deixou enganar pela maneira em que ela tinha dirigido a conversação sobre Deirdre e os guerreiros. Cara não estava preparada para falar de seus poderes druidas, mas teria que estar logo. Havia muito em jogo para não estarem preparados para qualquer eventualidade.

     Lucan agarrou uma parte de carne de seu prato e o deu a Cara. Ela sorriu e comeu o cervo assado. Amanhã teriam que caçar e pescar, pois quase não ficava carne. E com o que comia Galen, teriam que caçar todos os dias.

     —Disse que contou a outros que tinha me encontrado —disse Lucan a Galen— Como saberão eles onde te encontrar?

   —Deixei uma marca em um dos carvalhos grandes do bosque, fazendo-os saber que me dirigia para o oeste. Virão para aqui.

     —Se vierem —acrescentou Quinn.

     Galen deu uma dentada a uma bolacha de aveia e a tragou antes de responder.

     —Eu só abandono o bosque se for importante. Virão.

     Fallon deixou o vinho sobre a mesa depois de encher a taça até a borda.

     —Eu acredito que a questão mais importante é se chegarão a tempo.

     Lucan não podia discutir aquilo.

     —Esta noite alternaremos guardas.

     Quinn assentiu enquanto comia.

     —Temos que preparar um plano —disse Fallon.

     Lucan tinha detectado uma mudança em Fallon durante o último dia. Ainda bebia, mas nem tanto. Seus olhos estavam mais centrados, e o tom autoritário que Lucan sempre tinha odiado de pequeno tinha voltado para a voz de Fallon. Mas agora a Lucan não incomodava.

     —Estou de acordo —disse Lucan — Pensou em algo?

     O olhar de Fallon se encontrou com o seu.

     —Sim. Conhecemos este castelo, eu digo que tiremos partido.

     Lucan inspirou profundamente, preparado para lutar.

     —Uma ideia excelente.

     Como o Fallon de antigamente. Lucan olhou Quinn e viu que observava a seu irmão maior com interesse. Lucan levantou sua taça para Quinn.

   —Possivelmente não possamos matá-los, mas podemos pôr armadilhas —disse Fallon — Manterão aos guerreiros e aos wyrran ocupados até que possam sair.

     —Enquanto isso, podem atacar aos que as superem —disse Cara — Há muitas zonas nas que podem pôr armadilhas, não só dentro do castelo, mas também fora dele.

     Lucan sorriu a Cara.

     —Boa sugestão.

     Enquanto Fallon, Quinn e Galen falavam das armadilhas, Lucan fez com que Cara girasse a cabeça para ele.

     —Conseguirei-te toda a informação que necessita sobre os druidas. Tudo irá bem.

     Ela agarrou sua mão entre as suas.

   —Se minha mãe tivesse vivido teria me ensinado os métodos dos drough. Agora poderia ser perfeitamente uma drough.

     —Isso não sabe. Especular sobre como poderia ter sido o futuro só fará que lhe doa a cabeça.

     —E você quer arrumar tudo.

     Ele se encolheu de ombros.

     —Suponho que sim. Sou bom fazendo-o.

     Nos lábios de Cara se desenhou um sorriso autêntico.

     —Não é presunçoso, né?

     —Nem um pouco.

Para sua alegria, ouviu a risada de Cara, mas foi efêmera. O sorriso desapareceu e afastou o olhar do dele.

   —Tenho que recolher os pratos.

     Lucan impediu que se levantasse.

     —Cara.

   —Estou bem —disse ela, e pôs a mão em sua bochecha — Fala com eles enquanto eu arrumo a cozinha.

     Lucan deixou que recolhesse os pratos vazios e a observou enquanto saía do salão. Quando deu a volta, três pares de olhos o observavam.

     —Como vai? —perguntou Fallon — Parece que está melhor agora que você está aqui.

     Quinn negou com a cabeça.

   —Quando viu que a planta morria ficou pálida como a morte. Nada do que dizíamos a tranquilizava, e então se calou e começou a olhar as mãos.

     —Eu não gostei de sentir essa impotência —disse Fallon — Foi horrível.

     Quisessem-no ou não, Cara tinha se convertido em parte de sua família. Lucan se alegrava que seus irmãos a tivessem aceito com tanta facilidade. Seus sentimentos por Cara cresciam dia a dia, e queria que formasse parte de sua vida. Sempre.

     —Está assustada —disse Lucan — Como qualquer de nós estaria em sua situação. Não sabemos nada dos druidas, mas com Galen aqui, possivelmente ela possa paliar alguns de seus medos.

     Galen se encolheu de ombros.

     —Contarei-lhe tudo o que sei, mas as palavras não a ajudarão a aprender que magia tem.

     —Está seguro que o único modo que tem de voltar uma drough é o ritual de sangue?

   —Sim. Realiza-se com a lua cheia no décimo oitavo ano de um druida. Normalmente, a cerimônia é um grande ato, mas me disseram que agora que Deirdre os persegue, os rituais se realizam em segredo e pouca gente sabe de sua existência.

     —Conhece algum drough? —perguntou Fallon.

     Galen assentiu ligeiramente.

   —Conheci vários nas masmorras de Deirdre, mas pelo que eu sei, nenhum deles escapou.

     —Os druidas não praticam como estavam acostumados a fazê-lo —disse Quinn— Se alguém os descobrisse, queimariam-nos na estaca. Estejam onde estejam, estarão escondidos, e não só de Deirdre.

     —Estou de acordo —disse Galen — Levam a tradição druida muito arraigada. Igual à magia de Cara. Ela não pode desfazer-se dessa magia, embora queira fazê-lo. É uma parte dela.

     Lucan olhou para a porta da cozinha.

     —Igual aos deuses são uma parte de nós.

     —Sim —murmurou Fallon.

     Lucan flexionou as mãos. Cara necessitava um druida, alguém que pudesse lhe mostrar os costumes antigos e ajudá-la a aprender sua magia. O problema era que não tinham tempo para ir procurar um.

     —Não sei —disse Galen.

     Lucan o olhou e franziu o cenho.

     —Não sabe o que?

     —Se poderia encontrar um druida a tempo.

     Lucan levantou uma sobrancelha.

     —Como soube o que estava pensando?

     Galen se encolheu de ombros.

     —Não precisa ser adivinho para sabê-lo. Apenas olhando-te soube que estava pensando em Cara. Como Cara está preocupada com sua magia, a seguinte conclusão lógica era que estava pensando em encontrar um druida e trazê-lo aqui.

   Quinn soprou. Fallon negou com a cabeça e levou a taça de vinho aos lábios. Lucan não sabia se acreditava em Galen ou se perguntava se uma parte de sua habilidade seria a de ser capaz de decifrar o que alguém estava pensando.

     Lucan o deixou passar.

     —Você sabe onde há druidas, não é certo?

     —Sabia —admitiu Galen — faz uma década, mais ou menos. Certamente terão partido dali. Se sobrevivermos ao ataque de Deirdre, levarei Cara e você até eles.

     Lucan não estava seguro que Cara pudesse esperar tanto tempo.

     —Enquanto isso, conte a Cara, e a nós, tudo o que sabe sobre os druidas.

     —Tanto dos mije como dos drough —acrescentou Fallon.

     Galen assentiu levemente com a cabeça.

     —Assim o farei.

     Lucan se tornou para diante.

     —Sabe muito sobre nós, Shaw. Possivelmente seja hora de que nos fale de ti.

     Galen sorriu, em seu olhar não havia ira.

     —Não sou distinto a vocês.

     —Lamento discordar —disse Quinn.

   —Que deus há em seu interior? —perguntou Lucan — Quando lutamos se voltou de uma cor verde escura. Teria resultado muito fácil você se mesclar com o bosque.

     Galen assentiu.

     —É uma das razões pelas que vivo nele.

     —Seu deus —o apressou Fallon.

     O olhar de Galen passou à mesa.

     —Ycewold, o deus enganador.

     Lucan coçou a mandíbula. Um deus enganador. Que poderes tem Galen?

     —E sua família? Seu clã?

     —Abandonei-o.

     Só foram duas palavras, mas Lucan pôde ouvir a tristeza e a frustração na voz de Galen.

     —Deirdre acabou com outros clãs, além do nosso? —perguntou Quinn.

     Galen negou com a cabeça.

     —Não que eu saiba. O meu não o tocou. Agarraram-me quando saí para caçar.

     —Voltou com eles.

     Fallon olhava a garrafa, seus dedos agarravam o pescoço.

     Galen fechou com força os olhos antes de voltar a abrí-los.

   —Sim, queria me assegurar que estavam bem. Uma vez que vi que meu pai e minha mãe estavam bem, fui.

     —Pelo que vi, pode controlar a seu deus —disse Lucan.

     —Custou-me muito tempo aprender a fazê-lo. Fiquei no bosque, escondido nas árvores.

     Quinn se levantou e se aproximou da lareira a grandes pernadas. Agachou-se diante do fogo e avivou as chamas.

     —Nós estivemos um tempo nas montanhas.

     —Ao menos vocês tinham uns aos outros.

   Lucan assentiu. Sim, ao menos tinham uns aos outros. Não podia imaginar o que teria sido passar por aquilo sozinho. Olhou Galen com mais respeito que antes. Ainda não confiava plenamente nele, mas não podia negar que Galen tinha sua admiração. E apesar de sua inquietação, Lucan descobriu que Galen lhe caía bem.

     Pela extremidade do olho, Lucan viu que Cara ia da cozinha para as escadas. Tinha a cabeça baixa e se movia com rapidez. Não queria que a vissem. Lucan começou a ir atrás dela mas pensou que talvez precisava estar um tempo a sós. Já não escaparia. Sabia que o lugar mais seguro para ela estava com ele.

 

   Cara soltou um suspiro quando chegou à parte de cima das escadas sem que a detivesse Lucan ou algum dos outros. Parou um momento para acender a vela que levava e logo foi rapidamente a seu dormitório. Deteve-se na porta quando viu o tartán azul, verde e negro, o tecido MacLeod, cobrindo a janela.

     Lucan a devia ter pendurado essa manhã. Ela sorriu e caminhou para a janela. Passou a mão pela grossa lã, assombrada de novo pela ação de Lucan. Surpreendia-a de muitas maneiras.

     Cara deixou a vela e acendeu o fogo com a madeira que tinham deixado ali recentemente. Não havia dúvida que Lucan também se ocupou daquilo.

     Não pôde evitar sorrir. Houve um tempo, quando era mais jovem, em que tinha pensado em encontrar um marido e em ter filhos, mas aquele sonho não tinha durado muito. Logo tinha se dado conta que os homens do clã MacClure a olhavam de um modo diferente às mulheres. Permitiriam-lhe viver no clã, mas nunca formaria parte dele.

     Então foi quando decidiu converter-se em monja. Também a ajudou o fato de que se sentisse segura dentro do convento. Acreditou que Deus e os objetos sagrados manteriam afastado o mal. Que equivocada tinha estado. Sobre tantas coisas.

     Agora que tinha provado a paixão, que tinha aceito Lucan dentro de seu corpo, não podia pensar em outra coisa que não fosse estar a seu lado. Era um sonho estúpido, ela sabia, mas não podia evitá-lo. Suas vidas estariam conectadas para sempre, e não só porque tinha salvado sua vida no primeiro dia. Era algo muito mais profundo que isso.

     Amor.

     Cara se sentou diante do fogo com as pernas para um lado. Levantou as mãos e começou a soltar a trança. Com os dedos massageou o couro cabeludo, dolorido pelo peso de seu cabelo. Logo começou a pentear sua larga cabeleira.

     Lucan. Seus pensamentos nunca se afastavam do highlander imortal. Olhou as chamas avermelhadas e alaranjadas e suspirou. Suas vidas estavam entrelaçadas, mas estavam destinadas a separar-se. Sua morte, que se produziria se Deirdre a capturava, corroboraria-o, enquanto ele viveria para sempre.

     Mas ela não podia negar as profundas emoções que Lucan tinha provocado nela. Umas emoções que nunca antes tinha sentido por nenhuma outra pessoa. Assustavam-na, mas ao mesmo tempo, esses sentimentos lhe davam força e a arrastavam mais ainda para ele.

     Um ligeiro aroma de sândalo chegou a seus sentidos. Quando levantou o olhar para a porta viu Lucan. Estava de pé com as mãos pendurando sobre os flancos e a olhava atentamente.

     —É tão formosa...

     Ela sorriu ante seu elogio.

     —Igual a você.

   —Não —disse ele negando com a cabeça — As mulheres são formosas, os homens só são homens.

   —Não posso estar de acordo contigo. Tenho ante mim um homem de força, poder e magia. Um homem de músculos fortes e com um corpo agradável a meus olhos. Um homem de olhos verde mar e uma boca que me faz coisas deliciosas e perversas.

     —Tudo isso? —Ele entrou no dormitório e fechou a porta.

     —Tudo isso e mais.

     —Há mais?

     Ela sorriu ante o brilho zombador de seus olhos.

     —As conto?

     —De acordo.

     Ela deixou o pente a um lado e mordeu o lábio enquanto ele se aproximava. Ele se agachou a seu lado e esperou.

   Cara alargou a mão e agarrou a corrente que Lucan levava ao redor do pescoço, deixando que seus dedos corressem pelas trancadas fitas douradas. Tocou a cabeça do grifo e o bico aberto.

     —Acredito que é muito bonito. O grifo. O animal celta que simboliza o equilíbrio entre o bem e o mal.

     —É isso? —Seus olhos verdes estavam entrecerrados.

   —Ah, mas isso você já sabia. Me diga, Lucan MacLeod, por que leva esta corrente?

     Ele se encolheu de ombros.

     —O latifundiário deu uma a cada varão de minha família.

     —Seu pai escolheu o teu?

     —Não, foi minha mãe. Escolheu a de todos seus filhos.

     Interessante.

     —Crê que sabia o que te proporcionaria o futuro? Que seria o único de seus filhos que aprenderia a controlar a seu deus?

     —É possível. Minha mãe parecia saber tudo.

   A cabeça de grifo a cada lado da corrente cativou Cara. Os highlanders sabiam o que significavam os símbolos celtas, assim não tinha sido uma casualidade que a Lucan lhe dessem o grifo.

     —Você tem o grifo. Fallon tem um... javali, não?

     —Sim —disse Lucan assentindo ligeiramente — E Quinn tem o lobo.

     Cara afastou a mão do toque.

   —O javali significa força e cura, enquanto o lobo significa inteligência e astúcia.

   Lucan cavou uma mão no rosto de Cara. Ela fechou os olhos e se apoiou contra sua mão.

     —Cara.

     Seu nome nos lábios de Lucan era uma carícia. Ela tremeu, não de frio mas sim da paixão que ele levantava nela. Quando abriu os olhos, o rosto de Lucan estava a centímetros do dela. Viu as bolinhas douradas em seus olhos, mas, mais que isso, viu algo mais, algo que fez que parasse seu coração.

     —Cara —voltou a dizer ele enquanto se aproximava de sua boca.

     Ela abriu os lábios esperando seu beijo. Seu sabor a intoxicava, embebia-a com sua essência. Ela ficou de joelhos e se abraçou a seu pescoço. Ele inclinou sua boca sobre a dela, intensificando o beijo.

     A excitação percorreu todo o corpo de Cara. Tinha desejado e esperado que fosse a seu dormitório aquela noite. Seu corpo o necessitava de um modo que ela não podia entender.

     Ela finalizou o beijo e ficou em pé. O olhar de Lucan, intenso e escuro de desejo, seguiu-a. Seus olhos mostraram agradecimento quando ela tirou os sapatos e baixou as meias. Ele tomou ar quando ela tirou o vestido e a camiseta, voltando-se mais descarada a cada momento. O frio do dormitório não podia penetrar no calor que ela sentia por causa dos olhos de Lucan.

     Suas mãos ansiavam tocá-lo, beijá-lo e passar a língua por todo seu corpo. Mas, sobre tudo, ela queria voltar a agarrar seu membro com a mão.

     Ela umedeceu os lábios quando ele tirou as botas. Ele se desprendeu da túnica de um puxão enquanto ficava em pé. Os mamilos de Cara se endureceram sob o olhar de Lucan. O delicioso batimento do coração que havia sentido a primeira vez que ele a tocou retornou com mais força e necessidade. Ela apertou as pernas e tomou ar ante aquelas sensações.

     A boca lhe fez água quando ele tirou as calças e ficou à vista sua grossa e dura excitação. Ela alargou a mão para tocá-lo, mas Lucan lhe agarrou a mão e a fez girar, evitando que o tocasse. Empurrou-a contra a parede.

     —Meu deus, estou faminto de você — sussurrou Lucan à orelha.

   Seu quente fôlego produzia calafrios na pele de Cara. Ele esfregou sua bochecha contra o lado de sua cabeça, com a boca roçando seu pescoço enquanto sua barba arranhava sua pele. Ao mesmo tempo, apoiou seu membro contra suas costas.

     Os seios de Cara se incharam e sua respiração se acelerou. Inclinou a cabeça para um lado e gemeu quando a boca de Lucan se fechou sobre seu pescoço. Seus dentes rasparam sua pele e sua língua a molhou. Cara tremeu.

     E queria mais.

   A mão que tinha agarrada sua mão contra a parede apertou só um momento, antes de acariciar seu braço. Sua mensagem tinha sido clara: deixa a mão aí.

   Ela não se surpreendeu quando levou sua outra mão contra a parede. Seus dedos se agarraram às irregulares pedras enquanto as mãos de Lucan percorriam todo seu corpo. Ele levantou seu abundante cabelo com uma mão e beijou a base do pescoço.

   —Quanto cabelo —murmurou — quis passar os dedos por ele do primeiro momento em que te vi.

     Seus lábios beijaram primeiro um ombro, e logo o outro. Agarrou-a pelos quadris e esfregou seu membro contra suas nádegas. Ela gemeu e arqueou as costas contra ele. Lambeu o lóbulo da orelha enquanto suas mãos acariciavam seu ventre.

     Ela necessitava que a tocasse, que aplacasse a dor que tinha começado quando ele tinha entrado no dormitório, mas Cara sabia que Lucan estava tomando seu tempo. Ele prolongaria seu prazer e lhe proporcionaria um êxtase delicioso.

     Lucan tocou seus seios, beliscando os mamilos. Ela deu um grito afogado e jogou a cabeça para trás, apoiando-a sobre seu peito.

     —Lucan.

     —Sim, formosa. Sinto seu desejo.

   Ela moveu os quadris enquanto ele passava seus dedos entre seus duros mamilos. O prazer a percorreu e se concentrou entre suas pernas. Ela sentiu como ficava mais úmida e voltou a apertar as pernas. O batimento do coração era baixo e profundo, a necessidade forte e ansiosa baixava até o ventre.

     —Por favor, Lucan. Necessito-te — suplicou ela.

     Ele acariciou seu pescoço.

   —E me terá. Primeiro quero tomar meu tempo contigo. A primeira vez te necessitei tão desesperadamente... Agora não irei com pressa.

   Cara apoiou a testa contra as frias pedras e gemeu. Lucan massageou seus seios, provocando seus mamilos até que doeram e o batimento do coração que tinha entre as pernas se fez quase insuportável. Fechou os olhos extasiada quando os dedos de Lucan separaram seus cachos e tocaram sua carne acalorada.

   Tremiam-lhe as pernas, seu coração pulsava com força, e enquanto isso, Lucan percorria lentamente seu sexo. Ele introduziu um dedo dentro dela, e Cara gritou de prazer.

     A mão que tinha livre se meteu entre seu cabelo e afastou sua cabeça a um lado.

     —Mais, Cara? —Sua voz estava rouca de seu próprio desejo.

     —Sim. Mais.

     Em vez de mover o dedo em seu interior como ela esperava, tirou-o e rodeou seus clitóris. Os joelhos de Cara se dobraram ante aquela sensação.

     Lucan a agarrou nos braços e a levou até a cama. Deitou-a e se inclinou sobre ela para meter um mamilo inteiro dentro da boca.

     Apertou-lhe a cabeça contra seus seios, o desejo a matava. Ele mordeu-lhe o mamilo com delicadeza antes de passar ao outro. O sexo de Cara pulsava, impaciente por sentir o membro de Lucan em seu interior. Ela levantou os quadris e os esfregou contra seu peito.

     Quando lhe beijou o estômago, ela o olhou. Primeiro mordiscou um quadril, e logo o outro, antes de olhá-la um momento e inundar-se entre suas pernas. Cara suspirou quando lambeu o interior da coxa. Não tinha ideia de que sua pele fosse tão sensível naquela zona.

     Um momento depois ela gritou quando a língua de Lucan lambeu a sensível carne de seu sexo. Sua língua estava quente e úmida, e era maravilhosamente pecaminosa. Lambeu e chupou seu clitóris até que ela esteve cega de necessidade e seu corpo tremeu de desejo.

     Cara se agarrou às mantas enquanto ele a empurrava cada vez com mais força para o orgasmo. E de repente, o calor dele, sua dureza, afundou-se dentro dela. Então ele começou a mover-se dando empurrões rápidos e curtos, e empurrões duros e largos. Cada vez a subia mais para cima, seu corpo flutuava de prazer.

   Lucan tinha as mãos a ambos os lados da cabeça de Cara. Agarrou suas nádegas e sentiu que seus músculos se apertavam e se relaxavam enquanto ele entrava dentro dela. Ela o olhou aos olhos e viu sua sede.

     —Estamos atados —sussurrou ele.

   Ela gritou seu nome quando chegou ao orgasmo. Invadiram-na numerosas ondas de prazer, afogando-a em um abismo de gozo. Aferrou-se a Lucan e sentiu que ele estremecia enquanto se afundava dentro dela e tocava sua matriz. Sua semente a invadiu enquanto ele sussurrava seu nome contra seu cabelo.

 

   A Lucan custou um tempo recuperar o fôlego. Quando abriu os olhos encontrou Cara olhando-o com um doce sorriso de felicidade. Ele tinha provocado aquele sorriso. Tinha-lhe dado autêntico prazer. Um sorriso de satisfação se desenhou nos lábios de Lucan. Separou-se dela e deitou de barriga para cima. Ela deu a volta e se aconchegou contra ele, apoiando a cabeça contra seu peito.

Ele a envolveu com um braço, precisava tocá-la. Assustava-lhe quanto significava para ele. A ideia de perdê-la o fez sentir pânico. Tinha tentado dizer a si mesmo que era porque levava muito tempo sem estar com uma mulher, mas ele sabia que era mentira.

   —Quanto tempo tem antes que tenha que fazer a guarda? —perguntou Cara.

     —Umas horas.

     —Mmm.

     Ele baixou o olhar para ela e sorriu.

     —Tem algo em mente?

     —OH, sim. Assim é.

     Ele riu e lhe beijou a testa.

     —Obrigado por tampar a janela.

     —A ajudará durante o frio. E assim pode acender todas as velas que queira.

     —Não podemos as esbanjar.

     —Não se preocupe pelas velas. Acende todas as que necessite.

     Ela girou seu rosto para a dele e passou o dedo polegar pelos lábios.

     —É um bom homem.

     Lucan agarrou a mão e beijou a palma.

     —Queria que viesse Galen, de verdade crê que pode nos ajudar?

     —Não confia nele.

     Não era uma pergunta.

     Ele negou com a cabeça.

     —Resulta-me difícil confiar em alguém.

     —Confiou em mim.

     —Foram seus olhos.

     —Meus olhos? O que ocorre com eles?

     —Eram deslumbrantes. Olhava-os e me perdia.

     Assim que disse aquelas palavras, reconheceu-as, porque era verdade.

     Beijou-lhe um seio e pousou a mão no abdômen.

     —Eu acredito em Galen, Lucan. Dê a ele uma oportunidade.

     —Vou dar, se não, não estaria aqui.

     —O que é o que você não gosta?

     —Custa-me acreditar que escapassem tantos guerreiros de Deirdre. É muito ardilosa.

     Ela se abraçou a ele.

     —Pelo que conta Galen parece que as coisas mudaram muito na montanha de Deirdre. Se tiver encarcerado a tanta gente é lógico que pudessem escapar. Sobre tudo se forem guerreiros.

     —E que não os detectasse? Não sei.

   —Acredito que não saberemos até que não vejamos quantos guerreiros são. Se Galen tiver razão e há uma lista, poderemos nos fazer uma ideia de quantos são.

     Ele enrolou uma mecha de seu cabelo castanho ao redor de seu dedo.

     —Estive pensando nas histórias dos guerreiros que me contavam de pequeno. Não entendia por que as repetiam com tanta frequência, mas agora sei que o faziam porque os narradores queriam que soubéssemos o que tinha passado.

     —Mas tinham medo de escrevê-lo se por acaso caía nas mãos equivocadas.

     —Sim, isso acredito. Por muito que o tento, não consigo recordar se alguma vez nos disseram quantos clãs celtas havia.

     Ela realizou desenhos com as unhas sobre seu peito, fazendo que ele adormecesse.

     —Eram clãs, como lhe disseram, ou famílias? Havia muitos clãs, mas com cada clã havia várias famílias, e cada uma delas podia ter tido um guerreiro.

     Lucan ficou quieto.

   —Poderia ser outro estratagema para confundir a todo aquele que tentasse voltar a procurar os guerreiros. Pensaria que era um número...

     —Quando em realidade haveria muitos mais.

   —Deus santo, Cara. Se passava aos irmãos, como o fez conosco, poderia haver um grande número de guerreiros.

     Ela se incorporou e o beijou.

     —Os MacLeod são uma variedade especial. Não posso pensar em nenhuma outra família que pudesse ter três fortes guerreiros ao mesmo tempo.

     —Fomos um clã temido —disse ele enquanto a deitava de barriga para cima — Não ouviu as lendas sobre nós? Não há outros highlanders como os MacLeod. Somos leais e uns dos melhores amantes que viveram sobre a Terra.

     As mãos de Cara abraçaram o pescoço de Lucan.

     —OH, sim, milord. Eu mesma vi sua habilidade como amante.

     —Não sei, acredito que necessita mais lições.

     Ela riu enquanto acariciou seu pescoço.

     —Acredito que pode ser que tenha razão.

     Um assobio ressoou no silêncio da noite. Lucan se calou e levantou a cabeça para escutar.

     —O que ocorre? —perguntou Cara.

     —Fallon ou Quinn viram algo.

     Os olhos de Cara se abriram.

     —Um guerreiro?

     —Não. Foi um assobio curto e suave. Não é perigo, somente um aviso que há algo fora. Poderia ser simplesmente um javali ou um lobo.

     Ela enterrou a cabeça contra seu peito.

     —Desejaria estar em outro tempo, Lucan. Em um lugar onde pudéssemos ter uma vida normal.

   Um lugar onde ele pudesse casar-se com ela e ver como sua barriga se inchava com seu filho. Ele passou seus dedos pelo formoso e abundante cabelo de Cara.  

     —Sim.

     Lucan se recostou e manteve Cara abraçada a ele. Abriu sua mente a umas lembranças enterradas fazia tempo, lembranças de seu pai e sua mãe. Cara teria gostado deles. A mãe de Lucan teria desfrutado com seu espírito, enquanto que a seu pai teria encantado sua valentia.

     Lucan olhava a escuridão, a luz da vela piscava na parede, enquanto o fogo iluminava brandamente o dormitório. Queria ficar ali para sempre. Sem Deirdre, nem guerreiros, e sem druidas. Sem nenhum deus antigo em seu interior.

   Ele o ajuda a proteger Cara de uma maneira que sozinho não poderia.

   Aquilo era certo. Nesse aspecto, Lucan gostava de ter ao deus em seu interior.

   Por muito que ele e Cara quisessem que tudo se dissipasse, não o faria. Deirdre apareceria. Cara era uma druida e precisava aprender seus métodos e sua magia. E ele, bom, ele encontraria o conjuro que voltaria a encerrar a seu deus.

     Viveria uma vida normal com Cara.

     Não é provável que aconteça e você sabe.

     Lucan fechou os olhos com força. Aquela sede insaciável que tinha de Cara o assustava. Quinn esteve a ponto de voltar-se louco quando perdeu sua mulher e seu filho. Lucan sabia que se arrebatavam a Cara, enlouqueceria.

     Não tinha se dado conta de quão desolada era sua vida até que Cara entrou para formar parte dela. Ela havia trazido uma rajada de alegria e esperança aos seus dias.

   Ele baixou o olhar e a encontrou dormindo, sua respiração era lenta e constante. Parecia que não havia suficiente tempo para eles dois, pelo menos ainda não. Lucan se asseguraria que Deirdre deixasse Cara em paz.

     O fogo já tinha se reduzido a brasas quando Lucan retirou lentamente o braço de debaixo de Cara. Ela suspirou enquanto dormia e deu a volta. Ele não queria deixá-la, mas o tocava o turno de vigilância.

     Vestiu-se, logo reavivou o fogo e acendeu uma segunda vela se por acaso apagava a primeira. Enquanto olhava Cara se maravilhou ante a intensa atitude protetora que ela provocava nele, por não mencionar o ciúmes que havia sentido quando a tinha visto falar com Galen no bosque.

     A necessidade de fazê-la completamente sua ressoava em sua cabeça. Mas ele era um guerreiro. Como podia tomá-la como esposa? A vida com ele seria dura e perigosa, não seria a classe de vida que queria para Cara.

     Seu nome foi sussurrado do outro lado da porta. Quando olhou por cima do ombro viu Quinn aparecendo a cabeça dentro do dormitório.

     Com um último olhar a Cara, Lucan deu a volta e saiu do dormitório. Fechou a porta atrás dele, ignorando o cenho franzido de Quinn.

     —Só conseguirá te fazer mais mal —disse Quinn.

     Lucan seguiu pelo corredor para o grande salão. Galen estava sentado em uma das cadeiras, com uma perna em cima do braço da cadeira e os olhos fechados.

   —Ouviste-me?

     Lucan se deteve e olhou Quinn.

     —Ouvi, mas não vou responder. Isto é meu assunto, irmão.

     —Não, não é. É assunto de todos nós.

     —Basta, Quinn.

   —E se lhe faz um filho? —perguntou Quinn — Pensou nisso? O que será? Mortal ou um monstro como nós? Sempre pensa em tudo, mas agora não está pensando em nada. Pelo menos não com a cabeça.

   —Já basta —grunhiu Lucan, com uma entristecedora necessidade de destroçar a cara de Quinn — Cara é minha.

     Quinn observou seu irmão sair a grandes pernadas do castelo. Não tinha tido a intenção de dizer nada, mas quando tinha visto Lucan olhando Cara com aquele desejo, algo horrível e vingativo tinha estalado dentro de Quinn.

     —Por que, Quinn?

   Deu a volta para a voz de Fallon e encontrou seu irmão maior na entrada da cozinha, com as mãos apoiadas a ambos os lados da entrada. Como podia explicar Quinn o que lhe tinha entrado? Ninguém o entenderia, e menos Fallon.

     Fallon entrou no grande salão e ficou diante dele.

—Lucan encontrou um pouco de felicidade. Se Cara tiver um filho, nos encarregaremos dele. Deixe-o tranquilo.

     —Tentarei-o.

     —O que é exatamente o que te preocupa de Lucan e Cara? É o fato que Lucan tenha encontrado um pouco de paz?

     Quinn negou com a cabeça.

     —É obvio que não.

     —Então, o que é? —perguntou-lhe Fallon.

     Quinn se afastou, não estava preparado para confessar o que o tinha estado atormentando durante décadas.

     —Quinn. Responda-me. São ciúmes porque Lucan encontrou uma mulher, não é assim? Admite-o.

     Quinn fechou os punhos. Baixou o olhar e viu que sua pele se tornou negra, a ira ardia no peito. As garras cortaram suas palmas das mãos. Ele recebeu a dor, era um aviso do que era.

     E do que tinha perdido.

     —Não me ignore.

   Quinn deu a volta e atacou. Fallon saltou para trás antes que as garras de Quinn pudessem cravar em sua carne.

     —Quer saber o que ocorre? —bramou Quinn — Não posso recordá-la, Fallon. Não recordo seu rosto, nem o sabor de seus beijos. Já não recordo a cor dos olhos de meu filho, nem o som de sua risada.

   Quinn soltou um suspiro enquanto a vergonha o embargava. O mínimo que podia fazer era recordar sua mulher e seu filho, mas até isso lhe tinha sido arrebatado.

     —Não pode culpar-se por isso —disse Fallon, e colocou uma mão sobre um ombro — O tempo nos cura para que possamos confrontar o futuro.

     Quinn deu um passo atrás. Estavam ocorrendo muitas mais coisas além do fato que não pudesse recordar o rosto de sua mulher, mas já tinha contado muito a Fallon. O resto, bom, o resto seguiria sendo um segredo.

     —Tem razão, é obvio —disse Quinn.

     Ele esperou que aquilo fosse o final da conversação. Não queria voltar a falar disso. Doía-lhe o peito pelo que tinha admitido. Quando deu a volta para partir, viu que Galen se levantou e estava ao lado da cadeira observando-os.

   Como tinha podido se esquecer do convidado? Quinn amaldiçoou a si mesmo. Galen não deveria ter escutado a disputa com Fallon. Quinn esperou que Galen dissesse algo, e como não o fez, saiu do castelo. Aquela noite Quinn não descansaria.

     Já tinha feito seu turno de vigilância, mas mesmo assim, colocaria-se em uma das torres. Sob as estrelas, escondido na escuridão. Aquela era sua paz, sua salvação.

 

     Cara ficou de barriga para cima e esticou os braços por cima da cabeça. Sorriu e tocou o lugar onde tinha dormido Lucan. Tinha sido maravilhoso ficar dormida em seus braços. Nunca havia se sentido tão querida nem tão segura.

     Levantou-se da cama e afastou a borda do tartam de lã para olhar pela janela. Já tinha amanhecido. Lavou-se e se vestiu. Justo acabava de fazer as tranças quando alguém bateu na porta.

     —Sim? —gritou.

     A porta se abriu e Lucan entrou no dormitório.

     —Tem fome?

     Ela riu.

     —Muito, obrigada.

     Lucan estendeu a mão e ela tomou sem duvidar. Nem sua magia como druida nem o futuro incerto podiam apagar sua felicidade. O que tinha com Lucan era especial, e ela tinha a intenção de desfrutá-lo ao máximo durante o tempo que estivessem juntos.

     —Viu algo ontem à noite? —perguntou-lhe ela.

     —Não, mas Fallon viu um lobo.

     Lucan sorriu, mas ela viu que seus olhos não o fizeram. Quando chegaram ao grande salão, Cara se deu conta que estavam sozinhos. Ele a acompanhou até a mesa, e quando ela se sentou, ele se deslizou no banco de diante.

     Depois de dar a ela uma bolacha de aveia e uma parte de pão ela se inclinou sobre a mesa e agarrou sua mão.

     —O que ocorre?

     Ele suspirou e negou com a cabeça, seu cenho estava franzido e preocupado.

     —É Quinn.

     —O que ocorre com ele?

     —Essa é a questão, não sei. Ontem à noite me advertiu sobre estar contigo.

     Cara não estava surpreendida. Ela faria o mesmo se sua irmã se encontrasse naquela situação.

     —Quer te proteger.

     —Acredito que é muito mais que isso. Fallon me disse que Quinn admitiu que não conseguia recordar como eram sua mulher e seu filho.

   Ela estremeceu, sentia pena por Quinn. Culpar-se de suas mortes, e logo perder suas lembranças para sempre era um golpe terrível para alguém como Quinn.

   —Posso entender como o angustia isso. Culpa a si mesmo de suas mortes.

   —Como sabe isso?

   —Está em seus olhos. Ele era o homem, que se supunha que tinha que cuidá-los, mas não estava ali. Levará nas costas para sempre o peso de suas mortes a não ser que perdoe a si mesmo.

     Lucan negou com a cabeça.

     —Nunca perdoará a si mesmo, Cara.

     —Então, o único que pode fazer é estar aí para ele, como sempre esteve.

   Cara mastigou a comida e estranhou o cenho franzido da testa de Lucan. Havia algo mais.

     —Que mais disse Quinn?

     Lucan se encolheu de ombros.

     —Disse que nós poderíamos ter um filho.

     Cara deixou de mastigar e tragou. Um filho. Não lhe tinha ocorrido, e deveria tê-lo feito. Ela queria ter um filho de Lucan, mas possivelmente ele não o via do mesmo modo.

     —Pode deixar grávida a uma mulher? —perguntou ela.

   —Não sei. Não estive com uma mulher desde que mudamos. Nenhum o tem feito.

     —Galen saberá?

     Lucan arranhou o pescoço.

     —O perguntei, e não sabe.

     —Assim poderíamos estar nos preocupando com nada.

     —Não é «nada», Cara. O bebê poderia ser como eu.

     —Ou poderia ser como eu.

     Clara apertou a mão de Lucan.

     —É que não quer um filho?

     Ele negou com a cabeça.

   —Não é isso. Mas deixar grávida uma mulher é algo no que não pensei nos últimos trezentos anos.

     —Então não pense nisso agora.

   Ela sabia que pedia muito, mas em realidade não lhe importava. Se ficasse grávida, aceitaria o bebê. E se não, seria o desejo de Deus. Nenhum dos dois sabia se um guerreiro podia deixar grávida uma mulher ou não.

     —Não te importaria ter meu filho? Nem que tivesse ao deus?

     —Não, Lucan. Não me importaria.

   Ele sorriu e seu afeto a alagou. Quando ela soltou um pouco sua mão, ele colocou os dedos entre os dela e lhe piscou um olho.

     A porta do castelo se abriu e Galen entrou devagar.

     —Bom dia.

     —Bom dia —respondeu ela — Já comeu?

     Lucam soprou.

     —Come constantemente. Acredito que não vi nunca a uma pessoa comer tanto como ele.

     —O que posso dizer? Tenho fome. —Galen dirigiu um sorriso torcido — Fallon me disse que o pão o fez você.

     —Sim.

     —Há mais?

     Cara assinalou o pão que havia sobre a mesa.

     —Isso é o que fica, mas posso fazer mais.

     —Depois —disse Lucan — Esta manhã tem que treinar.

     Galen levantou as mãos.

     —Está bem. Por certo, Lucan, Quinn baixou ao mar para pescar.

     —Imaginava que o faria. Obrigado.

     Galen inclinou a cabeça e se foi.

     Cara golpeou seu dedo contra o dorso da mão de Lucan.

     —Admite-o.

     —Admitir o que?

     —Não seja teimoso. Admite que você gosta de Galen.

     Lucan lançou um forte suspiro.

     —Possivelmente um pouco.

   Mas por agora era suficiente. Cara tinha a sensação que Galen representaria um papel importante na futura batalha, e nas vidas dos irmãos MacLeod.

     —Assim vou treinar mais?

     —É obvio. Desta vez não usarei uma espada de madeira.

     —Nunca pensei que estaria impaciente por realizar essa classe de instrução.

     Ele assentiu com cumplicidade.

     —Você gosta, verdade?

     —Sim. É como uma partida de xadrez, embora você tenha que mover-se muito mais rápido. Tem que estar preparado para um montão de coisas que te pode fazer seu competidor. Se seu inimigo se mostrar mais hábil que você, acabou-se, assim tem que estar sempre atento.

   —É fácil pensar que é divertido enquanto treina, mas recorda que quando chegar o ataque será muito diferente.

     Ela tragou a sensação de medo.

     —Teme que esteja muito assustada para brigar.

   —Temo que de algum jeito te veja separada de mim e os guerreiros lhe ataquem antes que eu possa ajudá-la. Tem todo o direito a temer o que vem, Cara. Se não o fizesse, preocuparia-me.

     Suas palavras ajudaram a acalmá-la.

     —Desejaria saber quantos vêm.

     —Às vezes é melhor não sabê-lo.

     —Por quê?

     Ele acabou o último bocado de pão. Seu polegar acariciava a mão de Cara.

     —Aqui somos quatro guerreiros. Se descobríssemos que vêm vinte guerreiros e cem wyrrans, o que pensaria?

     —Que não temos nenhuma oportunidade.

   —Exato. E quando nossa mente pensa isso, já não há volta atrás. Luta, mas não luta para ganhar.

   —Já vejo —disse ela, quando o entendeu — Se não sabe, sua mente está decidida a ganhar.

     —A todo custa. Bem, está pronta para o treinamento?

     Cara agarrou a última parte de sua bolacha de aveia e se levantou.

     —Estou preparada.

     A Cara não surpreendeu ver Fallon e Galen conversando sentados nos degraus do castelo. Tocou a mão de Lucan quando ele olhou seu irmão e franziu o cenho.

     —O que ocorre?

     —Fallon. mudou.

     —Notei-o. Já não bebe tanto.

     Lucan agachou a cabeça para a dela.

     —É mais que isso. É...

     —Mais como era antes?

     Lucan assentiu.

     —Sim. Um pouco.

     Cara esperou até que estiveram no pátio e longe de Fallon antes de perguntar:

—Tentou...? —Ela levantou a mão procurando a palavra adequada — Transformar-se?

     —Não. Não acredito que haja nada que possa fazer que recorra ao deus de seu interior.

     Cara não estava tão segura. O olhar de Fallon, que antes estava desfocado e distante, agora era agudo e intenso. Ele tinha esquecido o homem que era, mas ela acreditava que pouco a pouco ia recordando.

     —Desejaria que Quinn melhorasse —disse Lucan.

     —Possivelmente o faça.

     E lhe deu mais esperança ao menor dos MacLeod. Os problemas de Quinn eram mais profundos que os de Fallon. Se Quinn não podia enfrentar a eles não teria nenhuma oportunidade.

     Cara se afastou uns passos de Lucan e procurou sua espada e sua adaga. Viu-as a esquerda, mas quando agarrou a adaga, deu-se conta que era distinta da que tinha estado utilizando. A folha era curva e o punho estava gravado com a cabeça de um grifo. Olhou rapidamente a Lucan.

     —Você?

     —Eu —disse ele assentindo. Manteve-lhe o olhar e ela viu a profundidade de seus sentimentos — Com esse punho a agarrará melhor.

     Aquilo era certo, mas não era o que tinha enchido seus olhos de lágrimas. Lucan tinha feito algo para ela, algo que os unia. Um highlander não dava seu símbolo a uma mulher facilmente. Seu polegar acariciou a cabeça de grifo enquanto seu coração ressonava em seu peito. Não, um highlander não dava seu símbolo a qualquer mulher. Quando o fazia, era para toda a vida.

     Ela ficou direita com as armas na mão.

     —É assombroso, Lucan. A guardarei para sempre.

     —Também tenho uma vagem para ela. Tem que levá-la sempre, Cara.

   Ela adotou a posição de luta e assentiu. Estava pronta para começar o treinamento. Lucan estava de pé a seu lado com seus olhos verdes brilhando e imediatamente era uma massa negra que se dirigia para ela. Cara esquivou o braço que ia para ela e deu um passo à esquerda. Mal teve tempo para equilibrar-se quando ele voltou a atacar.

     As garras de Lucan estavam estendidas, mas ela sabia que não a fariam mal. Surpreendeu-lhe o muito que ele se aproximou dela, suas grandes mãos ficaram a centímetros de seu rosto. Ela esquivou um golpe atrás do outro. Duvidava em utilizar as armas, pois embora soubesse que Lucan se curaria, não queria lhe fazer mal.

     Mas ele cada vez a atacava mais, e ela sabia que ele estava esperando que as usasse. Cara rodou para a esquerda e lançou a face da folha de sua nova adaga contra a coxa de Lucan, e logo voltou a fazê-lo atrás de seu joelho. Ela estava se afastando quando a mão dele a agarrou pelo cabelo.

     Ele puxou ela para si.

     —Não se preocupe pelo segundo golpe. Deu-me tempo para te agarrar.

     —É muito rápido. —Seu braço estava debaixo de seus peitos, o que recordava a quando tinham feito amor. Tinha o sangue quente e os mamilos enrugados.

     Ele a beijou no pescoço e a soltou.

     —Aguentaste.

     Cara sacudiu a cabeça para afastar a paixão e o olhou.

     —Perdia energia com rapidez.

     —Irão vir por ela mais de um —disse Fallon dos degraus.

     Ela soltou um suspiro. Fallon tinha razão. Era provável que a atacassem vários wyrran ao mesmo tempo. E guerreiros.

     —Nós manteremos os guerreiros ocupados —disse Lucan.

   O som de passos indicou a Cara que Fallon e Galen se levantaram dos degraus.

     —Quer dizer que o tentaremos —corrigiu Galen. Comprovou as armas de Cara— É boa. Quanto tempo leva treinando?

     Um sorriso masculino de satisfação se desenhou nos lábios de Lucan.

     —Só uns poucos dias.

     Fallon ficou diante de Cara.

   —Esqueça que é Lucan quem está diante de você. Usa as armas em todo momento. Golpeia-o todas as vezes que possa, mas ele tem razão, se seu inimigo for mais rápido, não se preocupe pelo segundo golpe. Assegure-se de se afastar dele.

     —E fique longe —acrescentou Lucan.

     Cara assentiu.

     —Vamos lá.

     Daquela vez, quando Lucan a atacou, ela estava preparada. Utilizou a espada e a adaga para deter vários golpes de suas mãos. Logo usou sua velocidade para afastar-se dele, aproximando-se só um momento para lançar sua arma contra ele.

     —Bem! —gritou Fallon quando ela teve golpeado três vezes seguidas Lucan sem que ele a tocasse.

     Cara sorriu a Lucan e os olhos deste brilharam de orgulho.

     —Como esteve isso?

     —Melhora a cada dia.

     Ela sorriu. Até que viu Galen observando-a com um olhar calculador.

     —Foi impressionante —disse Galen — Mas, como dissemos, é provável que a ataquem mais de um.

     Lucan levantou uma sobrancelha.

     —Não está preparada para isso.

   —Preciso estar —disse ela em sua defesa — Deem-me um momento de descanso e podemos tentá-lo.

     —Amanhã.

     Fallon cruzou os braços sobre seu peito e olhou Lucan.

     —Poderiam atacar esta noite. Não quer que esteja preparada?

     Ela ouviu como Lucan murmurava algo entre dentes, que soou como se fosse a arrancar a cabeça de Fallon.

     Fallon sorriu.

     —Sempre odiava que tivesse razão.

     —Não —disse Lucan, e lhe assinalou com uma garra.

     Cara riu enquanto os irmãos se olhavam.

     —Lucan, por favor.

     Ele baixou o braço enquanto o negro desaparecia de seu corpo.

     —De acordo, mas primeiro descansa.

   Não importava as vezes que o tinha visto transformar-se, ainda a intrigava. Observou-o enquanto caminhava até os degraus e se sentava.

     —Posso ver a adaga?

     Ela ficou rígida, surpreendida ao ver que Fallon se aproximou dela. Estendeu-lhe a adaga, pelo punho.

     —É obvio.

     —Interessante.

     Ele examinou a adaga antes de comprovar seu peso.

     —Fazia tempo que Lucan não fazia arma.

     —Não sabia. Agora significa ainda mais para mim.

     Fallon agarrou a adaga com o punho para cima e contemplou a cabeça de grifo.

     Cara envolveu seus dedos ao redor do punho.

     —Meus sentimentos para seu irmão são muito profundos.

     —Aparentemente, os seus para ti também. Não teria te dado o grifo se não se importasse enormemente com você.

     Agarrou a adaga de Fallon e começou a dar a volta quando a espada dele a deteve.

     —O amor pode fazer coisas maravilhosas, Cara, mas não pode deter a morte.

     Ela sabia muito bem.

     —Refere-se a que eu sou mortal e Lucan imortal.

     —Assim é —disse Fallon.

     —Não posso predizer o que passará esta noite, e muito menos no próximo ano. Ninguém pode fazê-lo. Quão único sei é que quando estou com Lucan, sinto-me completa. Não quero lhe fazer mal, igual a você. Tentei partir.

     Fallon levantou uma mão para detê-la.

     —Sei. Ele foi atrás de você. Sempre irá atrás de você. É de Lucan, e ele é teu, apesar do que queiram outros.

     —Não o aprova.

     Cara gostava de Fallon. Estar com eles tinha sido como ter uma família, uma família de verdade. Doía-lhe muito que ele não quisesse que formasse parte da vida de Lucan.

     Fallon negou com a cabeça.

     —Eu gosto de você, Cara. É boa para Lucan. O que temo é o que ocorrerá a ele quando desaparecer.

     Ela sabia que Fallon se referia a quando ela morresse. Não havia palavras que pudessem acalmar os medos de Fallon, assim que deu a volta e caminhou para os degraus. Lucan levantou uma sobrancelha a modo de pergunta, mas ela negou com a cabeça. Lucan já estava aborrecido porque Quinn tinha questionado que estivessem juntos.

     O problema era que os irmãos tinham direito a questioná-lo. Ela tinha sido de Lucan do primeiro momento em que se beijaram. Mas embora ela soubesse o que era o melhor para todos, seu coração não a deixava fazê-lo. Seu lugar estava com Lucan.

     Agora e na eternidade.

     Lucan não era idiota. Fallon havia dito algo a Cara que a tinha afligido. O vivaz sorriso que tinha adornado seu precioso rosto momentos antes, converteu-se em uma careta reflexiva.

     Lucan deu a Cara a vagem da adaga.

     —Para que sempre possa levá-la com tigo.

     Lucan a olhou enquanto atava a vagem ao redor da cintura e colocava a adaga em seu lugar. A cabeça do grifo dourado brilhava ao sol. Parecia-lhe bem ter essa parte dele.

     —É um dia claro —disse Galen — A primavera está fazendo retroceder ao inverno.

     Lucan olhou o brilhante céu azul. Não se via nenhuma nuvem.

     —Quanto sabe de nós?

     Galen sorriu e se encolheu de ombros.

     —Contaram-me histórias sobre os MacLeod desde que era pouco mais que um menino. História sobre como foi massacrado o clã e como escaparam três irmãos aos que nunca se voltou a ver. De ti e de seus irmãos se fala das Highlands até a Inglaterra. Duvido que haja alguém que não tenha ouvido falar de vocês.

     —Interessante.

     Lucan não estava nada contente de ouvir aquilo. Se alguma vez abandonava o castelo teria que mudar de nome. E aquilo era algo que não queria fazer.

     —E estiveram aqui todo o tempo? —perguntou Galen.

     Lucan levantou o olhar para o castelo.

   —A maior parte. Não podíamos ir a nenhuma outra parte. Dividiram nossas terras, mas o castelo seguiu em pé. A gente lhe tinha medo, assim que nos aproveitamos disso.

     —Uma ideia brilhante.

     —E você? Ficou no bosque?

     Galen se encolheu de ombros.

     —De vez em quando saio. Eu gosto de manter contato com o mundo. Mudou muito pouco, mas muito ao mesmo tempo.

     Lucan olhou o kilt gasto de Galen.

     —Sim.

     —Não podemos saber quanto tempo viveremos, Lucan. Têm que abandonar o castelo e ver o mundo. Não há nenhuma razão pela que não possam passar despercebidos.

     Lucan olhou Cara e viu que ela olhava a ele.

   —Eu poderia, mas Quinn não. E Fallon tampouco. Somos uma família. Mantemo-nos juntos.

     A mão de Cara deslizou ao redor de seu braço. Cobriu-lhe a mão com a sua. O tato mais simples dela era como uma parte do céu. Ele olhou às profundidades de seus olhos cor mogno e viu serenidade.

     —Preparado? —perguntou ela.

     Ele ficou em pé e a ajudou a levantar-se.

     —Preparado.

     Fallon se apoiou contra o castelo, seus braços cruzados descansavam sobre seu peito. Lucan conhecia esse olhar sério de seu irmão. Fallon não se transformaria.

     Isso deixava só ao Galen.

     Lucan fez uma careta.

     Galen riu e ficou em pé de um salto.

     —Não se preocupe, Lucan, não lhe farei mal. Eu gosto dela.

   —Parem —disse Cara — Os dois. Lucan, Galen não me fará mal. Galen, Lucan precisa confiar em você, e isso não ajuda.

     —Tem razão. —O sorriso desapareceu e Galen olhou a Lucan com sinceridade em seus olhos azuis. —Desculpe-me, Lucan. Fazia muito que não chateava a ninguém. Não pude evitá-lo.

     Lucan assentiu para Galen e logo se voltou para Cara.

     —Começaremos devagar e iremos pegando velocidade.

     Ele olhou Galen, que inclinou a cabeça, e logo os dois deram a volta. Lucan foi o primeiro em atacar Cara. Foi por suas mãos, mas ela foi mais rápida e se separou dele. Sua folha golpeou o peito de Lucan enquanto ela se afastava.

     Lucan a seguiu, e desta vez Galen atacou por trás. Ela arqueou as costas para evitar que Galen a pegasse e pôs a ponta de sua espada no pescoço de Lucan.

   Sorriu-lhe enquanto deram um passo atrás. Ao seguinte ataque Galen foi primeiro. Agarrou-a. Golpeou Cara com o punho da adaga. Ele a colheu com força pela cintura e a levantou. Lucan se uniu a eles, e quando ia agarrá-la pelas pernas, ela lhe deu um chute na barriga.

     Lucan cambaleou para trás, assombrado com a força que tinha nas pernas. Quando voltou a olhar Galen, estava agachado, agarrando o nariz, enquanto Cara estava de pé a uns passos dele.

     Fallon aplaudiu.

   —Cada vez o faz melhor, Cara. Quase sinto lástima pelos guerreiros e os wyrran que a atacarem.

     —Sim—disse Galen enquanto ficava em pé. Limpou o nariz, apesar de o sangue já ter parado — O que a ensinou, Lucan?

     Lucan olhou sua mulher, o coração se encheu de orgulho.

     —Tem um talento inato.

     Galen soprou.

   —Não sei se necessita mais prática. Poderia ser bom que Quinn e Fallon também participassem, assim ela faria uma ideia do que será em realidade.

     —Possivelmente.

   Lucan não queria que ela experimentasse nada. Queria mantê-la a salvo, encerrada onde Deirdre nunca pudesse agarrá-la.

     Mas no fundo sabia que Deirdre capturaria Cara. Não havia nenhum lugar onde pudesse levá-la, onde pudesse escondê-la, que Deirdre não pudesse a encontrar.

     Cara tinha que estar preparada, quisesse ele ou não.

    Ela se aproximou dele.

     —Durante o ataque ficarei a seu lado.

   Ele a abraçou e cobriu sua boca com a sua. Ela se afundou dentro dele, abrindo os lábios para que suas línguas pudessem tocar-se. O corpo dele se endureceu, desejoso de voltar a prová-la. Seus testículos ficaram rígidos enquanto imaginava levantando-a nos braços, as pernas dela abraçadas a sua cintura e seu membro enterrando-se em seu úmido calor. Quando ele rompeu o beijo, o pulso do pescoço de Cara ia a toda velocidade e tinha os olhos dilatados.

     —Esteve bem —sussurrou ela.

     Aetrás dele, Lucan viu que Fallon e Galen davam a volta. Não se importava que o tivessem visto beijá-la. Queria que soubessem que Cara era dele. Queria gritar ao mundo, que aquela incrível e valorosa mulher era dele.

     Estava a ponto de levá-la ao interior do castelo para lhe fazer amor quando ouviu que Fallon dizia algo.

     —O que disse? —perguntou Lucan.

     Galen riu e entrou no castelo.

     Fallon deu a volta e se encolheu de ombros com inocência.

     —Perguntei se algum dos dois estava preparado para trabalhar nas armadilhas.

   Ao princípio Lucan não acreditou. Inclusive com o afinado ouvido de Lucan, seu desejo por Cara o tinha impedido de ouvir o que Fallon havia dito em realidade.

     —Sim —disse Cara, e se soltou dos braços de Lucan.

     Lucan não tinha outra opção que seguí-los. Entretanto, tinha a intenção de ter um tempo a sós com Cara. Logo.

 

     Cara acabava de deixar a um lado um pouco de pão para que crescesse quando Quinn entrou na cozinha e deixou seis grandes peixes sobre a mesa.

     —Não acredito que sejam suficientes para o apetite de Galen —disse ela com um sorriso.

     Quinn se encolheu de ombros.

     —Por isso saio agora para caçar.

     —Os outros estão preparando as armadilhas para os guerreiros.

     Ele a olhou, seus olhos verdes não mostravam nenhuma emoção.

     —Fala a Lucan e ao Fallon que voltarei mais tarde.

     Quinn saiu da cozinha sem fazer ruído. Era óbvio que queria, e necessitava, estar um tempo a sós. Ela desejou poder ajudá-lo. Nenhum dos guerreiros era responsável pelo que levava dentro. Mereciam a felicidade, mas parecia que alguns não a queriam.

     Agarrou os peixes e começou a limpá-los. Quando teve acabado, encontrou-se no jardim. Quase tinha medo de tocar as mudas, mas se Galen tinha razão e podia as ajudar a crescer, queria tentá-lo.

     Cara se ajoelhou diante da planta que quase tinha matado no dia anterior e a envolveu entre suas mãos. Acariciou as folhas com os polegares, pondo toda sua energia na planta.

     —Sinto ter te feito mal —sussurrou — Não era minha intenção. Não conheço minha magia. Cresce para mim. Por favor.

     Um momento, dois, três, e não acontecia nada. Estava a ponto de render-se, quando as pequenas folhas, que tinham estado marrons e enrugadas, começaram a alisar-se. Um verde brilhante substituiu as bordas mortas. Seu coração palpitou mais rápido. Desejou que Lucan estivesse com ela, mas o podia mostrar mais tarde. Até então, havia outras mudas que necessitavam sua ajuda.

     Cara foi passando de planta a planta, lhes pedindo que crescessem para ela. Muitas que tinham estado cobertas de más ervas necessitavam mais magia. Pôs as mãos sobre a terra e fechou os olhos enquanto imaginava que as mudas cresciam.

     Riu quando tirou as mãos e viu o primeiro ramo verde saindo do chão. Cada vez que via que uma planta respondia, embargava-a uma estranha sensação de euforia. Era tão aditiva que queria tocar tudo e ajudá-las a crescer.

     Mas se obrigou a parar. Não sabia o suficiente de sua magia para saber o que estava ocorrendo. Como desejava que houvesse outro druida com quem poder falar. Quão último queria era fazer algo mal que pudesse pôr em perigo Lucan e sua missão para derrotar Deirdre.

     Cara detectou Quinn andando pelo pátio com alguns faisões e algumas lebres. Levantou-se e encontrou com ele na entrada da cozinha.

     —Esteve muito ocupado —disse enquanto agarrava os animais mortos.

     Ele olhou para o jardim.

     —Você também.

   —Queria ver se era certo o que disse Galen, que podia ajudar às mudas a crescer.

     —Tinha razão.

     Não havia censura na voz de Quinn, só uma leve curiosidade. Ela baixou o olhar, temendo de repente que estivesse cometendo um engano ao utilizar sua magia.

     —Confie em seus instintos — disse Quinn — Confie em si mesma.

     O olhar de Cara se encontrou com o dele.

     —Não quero fazer algo de mal.

     —Não vejo como pode fazer mal a alguém ao ajudar às mudas a crescer.

     Ela dirigiu o olhar ao jardim.

     —Sei muito poucas coisas sobre os druidas e minha magia.

     Ele soltou um suspiro.

   —Depois de trezentos anos ainda há muitas coisas que eu não sei sobre o deus de meu interior. Nós cuidaremos de você, Cara.

   Quinn partiu antes que ela tivesse tempo de responder, embora não teria sabido o que dizer.

 

     Lucan deu um passo atrás e observou a armadilha.

     —Isto deveria deter um wyrran durante um momento considerável.

   —Não sei —disse Fallon enquanto examinava a rede — Suas garras são tão afiadas como as de um guerreiro.

   —Mas não tão fortes. Eu estou de acordo com Lucan. Isto os deterá um momento —disse Galen.

     Lucan olhou para a abertura da torre. Esta estava na parte traseira do castelo, o que a convertia em um ponto de entrada perfeito para um ataque.

     Tinham posto armadilhas por todo o castelo, exceto no dormitório de Cara, na cozinha e no grande salão. Lucan inspirou e percebeu um ligeiro aroma de pão recém feito.

     —Eu senti falta disso. —Os olhos de Galen estavam fechados, e seus lábios tinham formado um sorriso — Pão recém feito. Espero que Cara tenha feito várias fogaças.

     Fallon riu.

     —Não sei de onde tira Quinn as provisões para Cara, mas não vou perguntar. Estou desfrutando muito com o pão.

     Lucan assentiu.

     —Espero que Quinn tenha pegado algum peixe. Necessitaremos com o Galen aqui.

     —Tenho fome —disse Galen — Assim sou eu.

     —Agora teremos que caçar mais, temos uma boca mais que alimentar —disse Fallon com um sorriso zombador.

     Lucan soprou.

     —Considera Galen como cinco bocas mais.

     Galen riu e começou a andar para o grande salão.

     —Tranquilos, eu também caçarei. Conheço uma aldeia não muito longe daqui onde já comprei comida antes. Posso conseguir para Cara tudo o que necessite.

     —Boa ideia —disse Lucan — Falaremos com ela hoje.

     —Posso sair com a primeira luz do dia e estar de volta antes do jantar.

     Fallon lambeu os lábios.

     —Faz muito tempo que não provo uma comida decente. Traz tudo o que Cara queira.

   Lucan riu e negou com a cabeça. Era bom ver Fallon quase como era antigamente. Baixaram vários lances de escadas em fila indiana, e logo percorreram o corredor. Fallon entrou em uma habitação que tinha a porta queimada.

     —O que ocorre?

     Lucan duvidou na entrada. Sabia, pela maneira em que Fallon se moveu, pela intensidade de seu olhar, que acontecia algo.

     Galen deu a volta e voltou junto a ele.

     —Fallon?

     —Vem alguém —disse Fallon — Espera. Há dois, não, três.

     Galen deu a volta e correu até o grande salão sem dizer uma palavra mais.

     Lucan foi rapidamente ao lado de Fallon.

     —Guerreiros?

     —Poderia ser.

     —Vamos vê-lo, de acordo?

     Fallon deu a volta e apoiou as costas contra o muro.

     —E se não forem amigos de Galen?

   —Então lutaremos contra eles, se forem de Deirdre. Se forem mortais nos asseguraremos de que continuem seu caminho.

     —As coisas são tão simples para você?

     Lucan captou as rugas de preocupação que havia ao redor dos olhos de seu irmão.

     —Faço as coisas o mais simples que posso. Não saberemos quem são até que vamos ver se vem ao castelo.

   —Sim vêm —disse Fallon enquanto passava por diante de Lucan em direção ao corredor.

     Lucan o seguiu. Em vez de tomar as escadas, saltou ao chão do salão. Queria encontrar Cara, dizer que se escondesse, mas não havia tempo. Já podia escutar a voz de Galen. Quão único Lucan podia fazer era esperar que Cara tivesse a adaga consigo.

     Quando Lucan entrou no pátio encontrou Galen nas almeias ao lado da torre de entrada. Lucan correu para as escadas que conduziam às almeias. Por cima do ombro viu que Fallon o seguia.

     Quando Lucan chegou até Galen soube, por seu tom de voz, que conhecia os homens.

   —Eu disse que viriam —disse Galen enquanto girava para Lucan — Conheço dois dos três. O loiro grande é Hayden Campbell. O de sua esquerda é Logan Hamilton. O outro, dizem-me que é Ramsey MacDonald.

     Hayden deu um passo à frente.

     —Vimos a mensagem de Galen. É certo? De verdade são os MacLeod?

   —Sim —disse Fallon enquanto se situava ao lado de Lucan — Somos os MacLeod. Eu sou Fallon e este é Lucan.

     —Onde está Quinn? —perguntou Ramsey.

     Lucan olhou ao Fallon.

     —Saiu.

     —Podemos entrar? —perguntou Hayden.

     Lucan girou para Fallon.

     —O que opina?

     —Temos escolha? —perguntou — Os necessitamos.

     Galen cruzou de braços.

     —Ainda não confiam em mim.

     Lucan esfregou os olhos com o dedo polegar e o índice.

    —Nós podemos nos cuidar sozinhos. É Cara quem me preocupa.

     Galen riu.

     —Vi-a treinar. Não tem que preocupar-se. Qualquer que saiba ler as marcas que fiz, é um amigo.

   Fallon esperou a que Lucan tomasse uma decisão. O olhar fixo que Fallon dirigiu a Lucan o recordou muito a seu pai. Lucan suspirou e girou para os homens.

     —Bem-vindos ao castelo MacLeod.

   Fallon e Galen baixaram as escadas para saudar seus convidados. Lucan rezou para que estivessem fazendo o correto. Se algum daqueles guerreiros que deixavam entrar estava lá por Cara não se perdoaria nunca.

     —Venha, Lucan —o chamou Galen.

     Lucan saltou ao pátio, caindo ao lado de Fallon. Hayden, com seu kilt de cor negra, azul escuro e verde oliva, foi o primeiro em estender a mão. Lucan agarrou ao homem alto e loiro pelo antebraço.

     Os olhos escuros de Hayden se encontraram com os de Lucan enquanto o homem loiro fazia um leve movimento com a cabeça.

     —Alegra-me ver que Deirdre não pôde lhes reter.

     —E não é que não o tenha tentado.

     Então Lucan girou para o seguinte homem enquanto Hayden falava com Fallon.

     Logan estendeu seu braço, tinha um sorriso amistoso no rosto e um olhar cor avelã muito direto.

     —Lucan.

     O kilt de Logan era de uma cor vermelha apagada, laranja escuro e laranja. Eram muito chamativos, e ficavam bem juntos.

   Lucan agarrou o braço de Logan antes de girar para o último homem, Ramsey. Ramsey era calado, reservado. Seu cabelo negro chegava até o pescoço da túnica negra, e seus olhos cinzas não perdiam nada. Ramsey não levava um kilt, como os outros. Levava uma túnica e calças, como Lucan. Avaliaram-se durante um instante.

     —Bem-vindo —disse finalmente Lucan, e lhe estendeu o braço.

     Ramsey o aceitou.

     —Obrigado.

     —Venham dentro e lhes poremos à corrente de tudo —disse Fallon.

     Os lábios de Hayden se estreitaram.

     —Tudo? Sabia que algo importante devia estar acontecendo para que Galen abandonasse o bosque. O que é?

   —Deirdre —disse Lucan enquanto passava por diante deles. Queria avisar Cara que tinham visitantes, mas outra parte dele queria mantê-la encerrada para que ninguém pudesse vê-la.

     Era irracional e primitivo, mas queria Cara só para ele. Ela riria se soubesse o que ele queria fazer, diria-lhe que tudo sairia bem, que necessitavam ajuda. Ela teria razão, mas isso não evitaria que ele se sentisse ciumento.

     —Lucan —sussurrou Fallon quando chegou a sua altura — O que ocorre?

     —Nada. Estou bem.

     Fallon negou com a cabeça, não acreditava aquela mentira.

     —Cara estará bem. Vá procurá-la para que possamos apresentá-la.

     —Ainda não —disse Lucan. Queria conhecer melhor aos homens — Desejaria que Quinn estivesse aqui.

     Fallon suspirou.

     —Eu também. Hoje precisava estar sozinho. Isso nunca nos incomodou.

     —Tampouco nunca tivemos que enfrentar Deirdre ou que nos preparar para as visitas.

   —Esperemos que traga bastante comida. Se comerem tanto como Galen, nunca teremos suficiente.

   Lucan não pôde conter uma gargalhada. Deixou que os recém chegados e Galen tomassem os bancos da mesa e ele e Fallon ficaram de pé a cada extremo.