Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O COMPLÔ / Irving Wallace
O COMPLÔ / Irving Wallace

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O COMPLÔ

Primeira Parte

 

Olhou em frente, à espera.

Estavam atrasados.

Sentiu-se tentado a desviar o olhar atento da Houston Street para o frondoso outeiro em declive da ponte da estrada de ferro, à direita, para ver se o outro também estava à espera. Mas sabia que não ousaria distrair-se.

Ajoelhando-se perto da janela, na esquina do sexto andar, protegido da porta pelo semicírculo de caixas de papelão com livros, e pelo rebordo da janela meio aberta, descansou a mão esquerda enluvada na coxa e a mão direita nua na coronha do rifle, a seu lado, apoiado em três pilhas de caixas.

Concentrou-se na faixa da rua, lá embaixo. Já estavam com cerca de cinco minutos de atraso. Contudo, não se moveu e continuou à espera.

E então, a curta distância, viu-os. O desfile de carros tornou-se visível assim que virou da Main Street para a Houston. Mentalmente, contou-os. Primeiro, os motociclistas. Segundo, o carro-piloto. Terceiro, outra formação de motociclistas. Quarto, o carro principal. Quinto, a limusine Lincoln 1961, a limusine aberta sem teto de plástico transparente, com seus quatro ocupantes atrás, dificilmente identificáveis.

Seus olhos semicerraram-se e fixaram-se na limusine Lincoln só quando ela começou a mover-se, lentamente, para o norte da Houston Street, em direção à Biblioteca Escolar do Texas e, finalmente, à Triple Underpass.

Sempre atento, viu a limusine, de cromados brilhando ao sol, alcançar o cruzamento da Houston com a Elm e depois iniciar uma lenta curva para esta última, rumo a um pequeno declive a sudeste, passando por ele com destino à Triple Underpass e à via expressa.

Cravou os olhos no mostrador do grande relógio de pulso, por cima da mão enluvada. Eram doze horas e trinta minutos.

Sem pressa, utilizando as duas mãos, desprendeu a mola de segurança da Mauser 7.65, ajustou a coronha de madeira ordinária ao ombro, apoiou firmemente o cano na parte superior de uma caixa inclinada, passou o rifle 'através da janela meio aberta e encostou um joelho à parte inferior dessa janela do sexto pavimento.

Calmamente, fez mira com o olho direito colado no potente telescópio ajustado ao cano.

Logo o radiador da limusine Lincoln apareceu nitidamente ao seu olhar atento. Deslocando o rifle um pouco para cima e desviando-o para a esquerda, visou os ocupantes sentados na parte traseira do carro aberto, vendo, através da lente, suas cabeças e ombros quase em tamanho natural. Com suavidade, voltou a deslocar o campo, de forma a que a intersecção dos fios de retí-cula da lente captasse a jovem cabeça de cabelos castanhos e a enquadrasse no círculo, e então compreendeu que a tinha ao alcance.

De repente, a cabeça sumiu, encoberta pela densa folhagem de um carvalho. Depois, numa fração de segundo, mostrou-se através das folhas e dos ramos para logo desaparecer pela segunda vez. Li-nalmente, a limusine voltou a campo aberto, e a cabeça ficou de novo enquadrada no telescópio.

Com o dedo indicador, premiu o gatilho.

Um som abafado zuniu-lhe no ouvido.

Enquanto acionava a culatra para jogar fora o cartucho vazio, ouviu um segundo tiro e compreendeu que não se tratava de um eco.

Um bando de pombos, em assustada agitação, bateu barulhentamente as asas nos poleiros e levantou vôo, sobrevoando-o. Sem se distrair, manteve o olhar fixo no telescópio, onde a cabeça de cabelos castanhos se recortava friamente, mas agora com uma das mãos apertando o pescoço.

Voltou a premir o gatilho. Uma vez mais, o zumbido abafado encheu-lhe os ouvidos, seguido por uma quarta explosão distante e não o eco de seu próprio tiro. Com um movimento reflexo, abriu a arma e voltou a carregá-la.

Implacavelmente, seu olhar, reforçado pela lente, seguia o alvo, que desaparecia. A cabeça, com o crânio esfacelado, começou a tombar para a frente, depois para a esquerda. Rapidamente, premiu pela última vez o gatilho, mas sabia que o tiro falhara, pois a cabeça deixara o campo da lente de aumento demasiado depressa.

Calmamente, recuou o rifle para o interior da sala. Olhou para a ponte sobre a passagem subterrânea, onde pelo menos uma dúzia de pessoas se agitava, dispersando-se, e depois seu olhar pousou no outeiro frondoso, onde mais gente assustada parecia esforçar-se por fugir.

Ergueu-se com lentidão e apoiou-se à sua fortaleza de papelão. Cautelosamente, embora com rapidez e eficiência, tirou o lenço. Depois, segurando a Mauser com a mão enluvada, limpou o cano, o botão da culatra, o gatilho e o guarda-mato, a coronha. Metendo o lenço num dos bolsos do casaco, ainda com a arma na mão enluvada, limpou o joelho das calças com a mão livre e alisou a roupa amassada.

Agilmente, deixou a barricada de papelão e atravessou a sala que servia de depósito. Se não houvesse engano ou erro de cálculo, o corredor do sexto andar deveria estar livre. O encarregado do armazém, o funcionário dos registros, o escriturário que preenchia* as requisições, estariam todos embaixo, no quinto andar, almoçando, enquanto assistiam ao desfile. Apenas uma pessoa deveria chegar em breve àquele pavimento. Isso fora previsto.

Hesitou junto à porta, deu uma olhadela no relógio de pulso. Tinham-se passado um minuto e trinta e cinco segundos. Ainda havia bastante tempo.

Cautelosamente, avançou pelo corredor. Como supusera, estava livre. Com cuidado, mas sem precipitação, atravessou o corredor, ainda com o rifle na mão enluvada, verticalmente unido ao corpo. Junto do patamar da escada do sexto andar, ouviu-se um ruído de caixas. Caminhou nessa direção, meteu o rifle entre duas caixas e, com o sapato, ocultou-o o melhor que pôde.

Ouviu atrás de si o barulho abafado do elevador leste, depois o som sacudido da parada. Recuando ligeiramente, espiou o corredor.

A porta do elevador se abriu. A figura delgada de um jovem, segurando uma prancha articulada com fichas presas para requisição de livros, surgiu no vestíbulo. Observou o homem. Não havia engano:

era Lee Harvey Oswald.

Assim que Oswald desaparecesse na sala que ele mesmo acabava de deixar, estaria salvo.

Depois, não haveria tempo a perder. Durante esses segundos, quando Oswald visse as pilhas de caixas de papelão junto à janela e as cápsulas vazias no chão, e ouvisse, seis andares abaixo da janela aberta, a barafunda exterior, acabaria por compreender, observaria sua situação e perceberia que tinha sido utilizado. Então, Oswald não perderia tempo em sair dali.

Viu Oswald dirigir-se para a sala e desaparecer no seu interior.

Rapidamente, abandonou seu esconderijo junto das caixas, no corredor, e precipitou-se para o elevador de serviço oeste. Apertou o botão, esperou e entrou no elevador. Desceu velozmente até ao quarto andar. Deteve-se no patamar. Chegou-lhe aos ouvidos o ruído de passos de pessoas que subiam em sua direção. Precipitando-se para o vestíbulo, ocultou-se ali rapidamente. Segundos depois, vislumbrou dois homens esbaforidos, um com o uniforme da polícia de Dallas, o outro em roupa civil, dispostos a prosseguir na ascensão. Assim que os perdeu de vista, deixou o vestíbulo e retomou a descida para o primeiro andar.

Ao chegar ao térreo, consultou o relógio pela última vez. Tinham-se escoado três minutos e dez segundos. Por certo que haveria confusão na entrada principal do edifício. Mas a parte traseira deveria estar livre e desguarnecida.

Dirigiu-se para a saída dos fundos. Não apareceu ninguém para detê-lo. O que tinha sido maquinado em Viena, precisamente três meses antes desse dia, fora finalmente executado com êxito nessa remota localidade estrangeira chamada Dallas. A obra estava feita. Já era história. O futuro seria melhor por isso. E, o que era ainda melhor, o assassino lógico seria apanhado e condenado, e, portanto, o caso estaria encerrado para sempre. Todos ficariam livres de suspeitas, todos se sentiriam seguros...

Assim raciocinavam os assassinos de um presidente americano, na tarde de 22 de novembro de 1963 e nos meses e anos seguintes.

Mas estavam enganados.

A verdade é que me encontro aqui escrevendo que “ele” é conhecido e “eles” são conhecidos, que sua diabólica conspiração internacional e seu horrendo crime político são conhecidos deste repórter, cabalmente conhecidos após anos de incansáveis buscas e pesquisas.

Como o J’accuse de Zola, contra os conspiradores que se serviram do inocente capitão Dreyfus para proteger o verdadeiro autor do bordereau e os verdadeiros traidores da França, este documentado depoimento é a minha acusação e o desmascaramento dos conspiradores que se serviram do inocente Oswald para mascarar sua participação no mais infame assassinato do século XX.

E assim o mundo ouvirá finalmente a verdade.

As mãos túrgidas de Jay Thomas Doyle descansaram no teclado da máquina de escrever suíça, enquanto ele observava a última frase que escrevera.

Tinha ênfase bastante para rematar a introdução de seu livro, uma frase provocadora que atrairia certamente um milhão de leitores excitados para o núcleo de sua sensacional história. Por outro lado, bem vistas as coisas, talvez prometesse demasiado. Considerando que ainda lhe faltava a prova irrefutável, o tom categórico e autoritário daquela frase poderia provocar um desapontamento subsequente e uma reação de antagonismo por parte do próximo leitor de seu livro — e isso poderia ser fatal.

Pensativo, Jay Thomas Doyle encarou a possibilidade de modificar a última frase, ou, antes, os últimos parágrafos, mas logo compreendeu, instintivamente, que o que acabava de datilografar devia manter-se tal como fora escrito.

A aprovação de seu próximo leitor, talvez o seu último leitor, para o melhor ou para o pior, era demasiado crucial para que Doyle arriscasse a vida e o futuro por causa de um equívoco ou de moderação na narrativa. Antes correr o risco de prometer tudo e revelar apenas metade do que prometer metade e faltar inteiramente. Seu próximo leitor iria ali, a Viena, com grandes esperanças. Nenhum outro engodo teria conseguido apanhá-lo.

Em menos de duas horas, esse próximo leitor, Sydney Ormsby, diretor da Ormsby Books, filial das Ormsby Press Enterprises Ltd., de Londres, estaria sentado junto dele, em um jantar, lendo as páginas que ele escrevera e reescrevera e que reescrevia agora de novo, pelo menos pela décima vez, durante õs últimos anos. Aguentara demasiadas recusas e malogros sem conta. Aquela era a derradeira “oportunidade essencial”. O simples fato de, em vez de seguir diretamente para Paris, Sydney Ormsby ter se dirigido primeiramente a Viena, só para ler o capítulo de Doyle e seu pormenorizado rascunho, significava que o interesse do editor fora aguçado. Era preciso não desapontá-lo. No momento em que chegasse à última página, deveria continuar a mostrar-se profundamente interessado.

Se no fim da exposição não voltasse ao princípio, nada feito. Ormsby tinha se mostrado entusiasmado até então, e ainda estava em tempo de discutir o que quer que fosse. Poderia entreter Ormsby com uma velha anedota de Edgar Wallace. Wallace estava publicando um romance em série, e, no fim da excitante primeira parte, deixara seu herói caído num profundo poço, traído, perdido, sem possibilidade de escapar, e centenas de milhares de leitores ingleses ficaram de respiração suspensa à espera da segunda parte e da solução. Quando essa segunda parte apareceu, começava despreocupadamente:

“Uma vez fora do poço...”

Sim, decidiu Doyle, manteria inalterado o que escrevera, por timidez ou conservadorismo.

Retirou a folha da máquina, colocou-a debaixo das outras quatro páginas datilografadas e juntou-as ao rascunho de trinta páginas que constituía o restante do livro. Afastando da mesa, sobre a qual estava a máquina de escrever portátil, o vasto tórax c a cadeira moderna em que se encontrava, Doyle, desajeitadamente, esbarrou num pé da cama, e ouviu-se um tilintar de pratos vindo da bandeja que estava em cima da cama, à sua retaguarda.

Com um grunhido de porco, Doyle fez girar a cadeira para examinar com interesse e simpatia a bandeja bem guarnecida de comida tentadora que o serviço de quartos trouxera havia meia hora e que ele, absorto no trabalho, se esquecera de comer. Era aquilo, a cozinha do Hotel Imperial, e o fato de a gerência lhe lembrar os dias de glória com o respeito reverente que se concedia ainda na época do imperador Francisco José, que levava Doyle ao Imperial, sempre que visitava Viena, e dominava sua aversão pelos quartos perturbadoramente idênticos do hotel.

Seu quarto de solteiro, com banheiro, como a maioria dos outros cento e cinquenta e quatro quartos, contradizia o tradicional ambiente da velha cidade austríaca e as necessidades de sua pessoa. O mobiliário, funcional e reminiscente do sueco moderno, tal como as cores e a iluminação, era demasiado berrante, demasiado anguloso, e as linhas das cadeiras, do divã e das mesas eram demasiado geométricas, demasiado angulosas para sua obesidade flácida. Os amigos, os poucos que lhe restavam, descreviam-no (como tinha descrito um eminente jornalista anterior) como alguém que se assemelhava, no vestir, a uma cama por fazer.

Exceto quando se barbeava — um ato que lhe parecia tão inútil como tentar ceifar a estepe africana —, Doyle evitava os espelhos. Estava farto de suas censuras, farto da perene inclinação da risca que se movia em direção ao pouco cabelo que tentava sobreviver no topo do crânio deserto, farto dos olhos taurinos e do rubicundo nariz bulboso, plantado entre as protuberantes faces, farto do contorno dos maxilares, apoiados numa dupla barbela, far-, to dos braços enormes e do saliente abdômen que lhe encobria o cinto. Com quarenta e cinco anos e cento e vinte quilos de peso, verificados nessa manhã, sabia que era vítima das inúmeras orgias gastronômicas em incontáveis templos de sedução alimentar, tais como La Scala, The Four Seasons, Mirabelle, La Pérouse, La Réserve e Tre Scalini.

Havia ainda poucos anos, na época de sua fama, no período das duquesas, das atrizes e de Hazel, era esbelto e atraente. Mas o fracasso fizera-o mergulhar no vício da gastronomia e, com o tempo, transformara-o de guloso em glutão, pelo que já não era nem esbelto, nem atraente. Era, sem precisar de espelho para o corroborar, gordo e repulsivo. Assemelhava-se ainda a um homem, mas dobrado e redobrado. Invejava os que se abismavam no álcool ou na luxúria. Pelo menos, tratava-se de fraquezas sérias, ao passo que a sua era uma baixa comédia. Apesar de se sentir desamparado e de não gostar dos quartos do Hotel Imperial, era em hotéis como esse que se instalava, onde não tinha razão de queixa, pois havia a incomparável cozinha, urna cozinha que não era da nova, mas da velha Viena, e que satisfazia o civilizado povo do Danúbio, que comia cinco refeições ao dia que o deixavam enfartado.

Em cima da cama, a bandeja esperava, a quarta refeição, a Jause, o repasto da tarde. Os olhos porcinos de Doyle acariciavam os pratos. Havia a enorme travessa de Bauernschmaus e a dos molhos, o chucrute, as almôndegas, o café ainda quente e, também, a generosa porção de Gugelhupf mit Schlag, o tesouro de um imenso bolo encimado por uma montanha de creme batido.

Acompanhando o gesto com um suspiro asmático, Jay Thomas Doyle tirou a máquina de escrever da mesa e colocou no seu lugar a travessa com a Jause; depois, não conseguindo resistir mais, acompanhou cada garfada de um ronronar deliciado. Enquanto comia, sua tensão diminuiu, e ele examinou complacentemente a página do título do original:

CE conspiradores que mataram Kennedy:

exposição sensacional e documentada dos fatos, por Jay Thomas Doyle. Começou a voltar as páginas familiares e a corrigi-las. Uma vez mais, infalivelmente, o original levantou-lhe o moral, tal como quando era garoto e se sentia impaciente na escola, em novembro, e se reanimava ao pensar que em dezembro haveria o Natal.

Agora, as cinco páginas estavam lidas e acabadas. E o mesmo acontecia com o Bauernschmaus e o Gugelhupf mit Schlag. E Jay Thomas Doyle, com o paladar suavizado e o enorme estômago ainda insatisfeito, sentiu-se revigorado e quase disposto a enfrentar o onipotente Sydney Ormsby, sentado a uma elegante mesa do restaurante do Hotel Sacher, à espera da decisão.

Arrotando ruidosamente, Doyle pôs-se de pé e arrastou-se pelo tapete cor de alfazema até o divã onde se encontrava a pasta, uma pasta castanha e um pouco usada, aberta de encontro às almofadas. Dispunha-se a acomodar o original numa das divisões de couro e a vestir-se em seguida para o jantar, quando o despertador em cima da cômoda o advertiu de que ainda faltavam uma hora e vinte minutos para a entrevista.

Embora esse lapso de tempo fosse para ele motivo de angústia e nervosismo, já que não havia mais comida para entretê-lo, pensou que talvez pudesse aproveitá-lo. Se se concentrasse, poderia rever toda a cópia do livro e corrigir qualquer falha casual que tivesse escapado à análise crítica de tantos editores anteriores que haviam estupidamente recusado os originais precedentes. Assim, decidiu que uma nova leitura do capítulo de notas havia pouco revisto lhe refrescaria a memória, preparando-o para responder melhor à argumentação de Ormsby.

Instalando-se no desconfortável divã, apoiado à dura almofada, Doyle colocou o original a seu lado, pegou a pasta e retirou dali uma pasta-arquivo com a inscrição:

“Correspondência”.

Abrindo-a, encontrou uma cópia de sua interessante carta a Sydney Ormsby, escrita de Munique algumas semanas antes, na qual se apresentava com modesta mas eficiente pormenorização. (“Além de lhe lembrar meus três livros sobre os atuais conflitos do mundo, apresento-me como autor da coluna diária ‘Secreto e Autêntico’, que foi publicada em quinhentos e nove jornais dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, com cerca de dezesseis milhões de leitores.”) Sua carta informava em seguida, a Ormsby, que deixara a coluna para voltar aos livros, principalmente a um livro, uma sensacional exposição documentada (“que estou finalmente disposto a entregar a um editor, um livro que exige um editor com meios e facilidades para lhe garantir a maior penetração possível, e amigos altamente colocados asseguraram-me que a Ormsby Press Enterprises, Ltd. é precisamente a editora que me convém”). Em seguida, em três parágrafos comovedorcs, Doyle lançava a isca, acrescentando que teria muito gosto em se encontrar com Ormsby na sua próxima passagem por Viena, ou, então, voaria até Londres, se necessário, para apresentar o manuscrito e discuti-lo.

Presa à cópia, estava a resposta de Sydney Ormsby, escrita à máquina no mais elegante dos papéis, encabeçado por “Ormsby Press Enterprises, Ltd., Seção de Publicação de Livros, Praça do Leão Vermelho, Londres, W.C. 1” e “Gabinete do diretor”. Contra as expectativas de Doyle, a prontidão da resposta de Ormsby, seu exagerado entusiasmo e interesse, apanharam-no de surpresa.

Ormsby dizia que estava ao corrente da fama de Doyle como jornalista e que, na verdade, ele e seu irmão, Sir Austin Ormsby, eram admiradores da prosa de Doyle e liam avidamente sua coluna diária. (Este final deixara Doyle um pouco desconcertado, pois havia cerca de dois anos que não mantinha qualquer coluna para ser lida “avidamente”, mas atribuiu o erro à admiração e ao fato de suas crônicas terem se tornado tão memoráveis que continuavam a dar ao leitor comum a impressão de que prosseguiam com diária atualidade.) Ormsby e seus assistentes — escrevia ele — eram unânimes em concordar que o depoimento de Doyle sobre o assassinato de Kennedy, depoimento havia muito esperado e indispensável, depois de tantos volumes anteriores de mera especulação, podia tornar-se um dos livros mais lidos do século XX. Se Doyle estava, como dizia, disposto a que Ormsby lesse o original a título exclusivo, este, por seu lado, estava disposto, após essa leitura, a oferecer o melhor contrato em troca dos direitos exclusivos, além de um generoso adiantamento, que daria a Doyle a independência necessária para completar sua obra. Se bem que Ormsby não estivesse em Londres nas semanas seguintes (acompanhara o irmão, Sir Austin, à conferência do mais alto nível das cinco potências, da qual o irmão era delegado, e que se realizava em Paris, onde ele próprio tinha negócios)', ficaria encantado por mudar seus planos imediatamente e voar direto a Viena, a fim de jantar com Doyle no sábado à noite, 14 de junho, discutir os pormenores e concluir as formalidades de um contrato. Será que Doyle gostaria de mandar um telegrama confirmando a data?

Com o otimismo restaurado, quase com maníaca excitação, Doyle telegrafara imediatamente, marcando o jantar para as sete e meia da noite de 14 de junho, no Hotel Sacher, em Viena.

Agora, após aquela nova leitura, Doyle compreendia que a carta de Ormsby era mais do que uma promessa. Com efeito, era um contrato, ou quase, tanto quanto o podia ser uma carta, e, uma vez que o contrato oficial ia ser assinado nessa noite, acompanhado de um adiantamento, o futuro de Doyle e seu êxito estavam assegurados. Pela primeira vez em todos aqueles anos, desde que decidira realizar seu projeto, ia ter fundos suficientes para se libertar do restritivo trabalho cotidiano, fundos para ir a Moscou e permanecer lá o tempo necessário (não importava o preço) para ver Hazel Smith e conseguir uma vez mais seus favores e até remunerá-la, regressando em seguida a Nova York com a documentação que o habilitaria a completar seu tremendo best seller.

Com fremente entusiasmo, ao pensar em tudo aquilo, Doyle deixou que seus dedos se embaralhassem no monte de cartas que estavam embaixo da de Ormsby, adocicadas recusas dos cegos editores americanos que não tinham visto o potencial de seu projeto ou não tinham querido acreditar nele. Todos estavam hipnotizados pelo Relatório da Comissão Presidencial sobre o Assassinato do Presidente Kennedy e, portanto, consideravam seu trabalho “artificial”, quando, na verdade, como ele e Hazel sabiam, o Relatório Warren é que era uma fantasia, um bolo rápido e fácil, feito para contentar a consciência culpada de cidadãos americanos insatisfeitos.

Felizmente (oh!, por que não vira isso antes e não procurara mais cedo um editor inglês!), Sydney Ormsby, com base na tradição britânica, escorado na probabilidade e na lógica de que um complô figurava na maior parte dos assassinatos de figuras públicas (com base nos crimes planejados desde Thomas Becket, Eduardo V e seu irmão, Sir Thomas Overbury, o coronel Rainsborough, Lorde Cavendish, criados entre intrigas violentas e intriguistas como o Complô da Rye House, a Conspiração de Govorie, Guy Fawkes e o Complô da Pólvora, Sir Roger Casement), poderia considerar plausível o fato de uma conspiração ter provocado a morte do presidente Kennedy.

Sim, os editores ingleses possuíam as condições históricas para aceitar seu livro, tal como seus vizinhos europeus (cuja herança incluía as mortes por conjura de Henrique IV, de Raspútin, do rei Alexandre, do ministro dos Negócios Estrangeiros, Barthou, do arquiduque Francisco Fernando, do chanceler Dollfuss, de Trótski, e cujos conhecimentos incluíam a familiaridade com sociedades criminosas balcânicas, tais como a imro, a Mão Negra e a Ustasa croata, em cabalas políticas tão variadas com a nkvd e o kgb soviéticos e a Gestapo nazista, penetrando todos os seus caminhos em tempos remotos, até os idos de março), aceitariam a evidência de seu livro. Só na idiota América, amante de leite, a América, semente de capim, o povo apontaria a dedo John Wilkes Booth e o acusaria de solitário, esquecendo que Arnold, 0’Laughlin, Herold, Atzerodt, Payne, Spangler, Mudd, os Surratts foram seus conspiradores. Só na América esqueceriam os motivos que levaram Collazo e Torresola, também conspiradores, a tentar alvejar a Blair House para matar um presidente. Só na América os cidadãos fechariam os olhos e os ouvidos à vetusta e odiosa palavra do Velho Mundo, “conspiração”, e disporiam rapidamente do assassinato do presidente Kennedy, um crime nacional, o crime deles, aceitando o julgamento de uma comissão de sete homens:

que o assassino, que agira só, era um neurótico, anti-social e não impelido do estrangeiro. Graças a Deus, pensava Doyle, tivera o bom senso de se aproximar de um editor inteligente e de vastos horizontes.

Essas reflexões continuaram a animar Jay Thomas Doyle. Dentro de uma hora, mais ou menos, iria enfrentar um editor que era — ou antes, cujo irmão mais velho era — um Creso das comunicações, sem dificuldades nem entraves na Crub Street ou nas imediações da Fleet Street, um editor cujo império e vastidão conseguia espicaçar indivíduos como Lorde Beaverbrook, Cecil ITarmsworth King, Lorde Kemsley, Roy Thompson, Lorde Rothermere. Doyle perguntava a si próprio se o pedido de vinte mil libras adiantadas não seria demasiado mesquinho, como se estivesse subestimando seu depoimento. Não seria preferível trinta mil mais as despesas? Estudaria seu homem e depois decidiria.

De repente, viu que ainda tinha em cima dos joelhos o arquivo de correspondência e que as cartas de recusa dos editores americanos o haviam levado a divagar. Possuía, com efeito, uma porção dessas cartas, a que se juntavam as cópias das suas, que eram também, em certo sentido, outras tantas recusas.

Ao todo, guardava quarenta ou cinquenta cartas, algumas com várias páginas, outras com uma simples nota, havendo entre a primeira e a última uma diferença de seis anos. Eram quase todas endereçadas a “Minha querida Hazel”.

Percorrendo as cópias das cartas a Hazel, Doyle sofreu ao notar a mudança de tom. Nas cartas mais antigas, mostrava-se romântico, amoroso até. As do meio eram agressivas e misturavam amizade com negócios. As últimas, assim como as notas — e Doyle corava à medida que as ia percorrendo —, eram desesperadas, abjetas, chorosas, implorativas, lamentáveis. Muitas tinham sido dirigidas à “Srta. Hazel Smith, a/c Atlas News Association”, em Moscou. Mas havia outras endereçadas a muitos e diferentes lugares, a Belgrado, Atenas, Istambul, Calcutá, Hong Kong, sempre lugares fora de seu alcance físico, se não de sua caneta. Todas as cartas evocavam — como uma agulha arranhando sempre o mesmo sulco de um disco, sobre duas notas — a velha amizade e sua necessidade de provar com irrefutável evidência a esboçada história de uma conspiração contra Kennedy, que ela lhe contara em Viena.

A correspondência com Hazel era única, em certo aspecto. Procedia de uma única pessoa. Tinha a cópia das cartas que lhe escrevera, mas não possuía uma única carta dela, nem sequer um bilhete, uma palavra. Por outro lado, como muitas vezes se queixara em suas missivas, cia nunca estava no escritório de Moscou quando ele lhe telefonava de Nova York, de Londres, de Paris, gastando somas enormes. E nunca acusara a recepção dos recados que ele deixava à sua colega, no escritório da agência de notícias de Moscou.

Era como — e Doyle o sabia — se se dirigisse a uma pessoa inexistente. Mas a existência física de Hazel era diariamente comprovada pelos jornais. Todas as manhãs, durante os últimos anos, aquela lesma — “por Hazel Smith, correspondente especial da ana” — troçava dele. Frequentemente, sua amargura e sua ira descarregavam-se sobre a mulher que tinha nas mãos a chave de seu futuro. Outras vezes, irritava-se contra si mesmo, contra a tola indiferença com que a tratara no passado, contra o abandono em que a deixara quando era o mais importante para ela. Em suas maneiras masoquistas, um familiar fragmento de castidade poética flutuava por vezes em seu espírito. Pertencia à Noiva de luto, de William Congreve, e a citação exata, embora isso não o tornasse mais feliz, era:

“O céu não tem acessos de raiva, como o amor transformado em ódio, / Nem o inferno, fúrias, como uma mulher desprezada”.

Na verdade, ela se entregara a ele, uma submissa, posto que esquelética, virgem de Wisconsin. Ele fora seu primeiro amor e amante. Ela se dera totalmente, sem reservas, e ele a possuíra durante dois anos, até que se fartou (ou, antes, descobriu ou julgou descobrir melhores perspectivas) e a pôs rudemente de lado. No entanto, o sensato Doyle sempre considerara a “raiva” e a “fúria” dela como algo normal e razoável. Nunca, porém, conseguira compreender que essa “raiva” e essa “fúria” se dirigiam a ele. Os anos tinham passado e, aparentemente, não haviam cicatrizado as feridas daquele rompimento. Os anos tinham alterado suas posições na sociedade, e não havia dúvida de que ela gozava agora de fama e celebridade, ao passo que ele vivia da lembrança do outrora famoso Jay Thomas Doyle. Agora, que precisava dela, que fora a seu encontro despido de orgulho, admirava-se de vê-la tão impiedosa.

Todavia, continuara a acreditar no infalível magnetismo de sua presença. Nenhuma carta — compreendera-o recentemente —, nenhum telefonema conseguiriam comovê-la. Só uma confrontação pessoal, cara a cara, poderia ressuscitar a antiga amizade. Ela o amara uma vez, e voltaria a amá-lo. E, mesmo que o tempo a tivesse endurecido, haveria uma nova aproximação. É que ela crescera em meio à pobreza e ao sacrifício, e sempre aceitara como certo que a segurança era sinônimo de dinheiro. A liberalidade de Doyle, a forma como ele esbanjava dinheiro, sempre a enervara. Apesar de seu êxito atual, a ana não lhe pagava o suficiente para torná-la invulnerável a uma generosa oferta pecuniária (obrigado, sr. Ormsby). Fosse como fosse, haveria de conseguir. Por amor ou por dinheiro, arrancaria a Hazel o segredo, a informação que uma vez ela tentara dar-lhe, mas que não chegara a fazê-lo porque ele a ridicularizara, uma informação acerca da morte do presidente Kennedy, cerca de trinta meses antes de o fato se consumar.

Com um profundo suspiro, Doyle fechou o arquivo de correspondência e voltou a guardá-lo. Depois retirou da pasta de couro uma bonita capa de plástico transparente, colocando dentro dela o original.

Deixou-se ficar olhando amorosamente para o manuscrito. Esteve tentado a folheá-lo de novo, antes de submetê-lo ao julgamento de Ormsby. Sabia que cra uma fraqueza. Tinha-o lido tantas vezes, copiado tantas vezes que quase o sabia de cor. De qualquer modo, graças à última revisão, ele ficara tão polido como o diamante de Sancy, e era isso o que o alegrava e lhe despertava o desejo de gozar uma vez mais o reflexo de sua opulência. Olhou para o relógio. Faltavam cinquenta minutos. Tempo bastante para uma rápida e atenta leitura, para mudar de roupa e sair com alguns minutos de folga.

Foi então que sentiu aquele persistente vazio no estômago que exigia ser preenchido. Erguendo-se do divã, Doyle dirigiu-se para a cama, ao encontro da bandeja, esquecido de que Lucullus já a havia levado. Aborrecido com o fato, perguntou a si mesmo se não seria o momento de pedir mais duas porções de Gugelhupf mit Schlag, mas logo compreendeu que não era. Frustrado, pôs-se a percorrer com impaciência o quarto, atormentado pela fome, desanimado e sem forças, sentindo a angústia aumentar com o bambolear da barriga. De repente, atirou-se com elefantina fúria contra a mala de couro, abriu-a rapidamente e procurou, por baixo dos pijamas, das calças, camisas e meias, as rações suplementares que tinha de reserva contra a fome. Seus dedos tatearam a caixa de bombons e a lata de castanhas de caju. Agarrou a última e arrancou-a da mala, misturada com as roupas.

Transpirando com o esforço, Doyle limpou a testa e a nuca, muniu-se do abridor e abriu a lata. Arremessando a tampa e o papel oleoso que cobria as castanhas no cesto de papéis, Doyle correu para o divã e deixou-se cair pesadamente ao lado da pasta. Metendo os dedos na lata, tirou uma porção de castanhas e levou-as à boca. Trincando, mastigando, engolindo, acabou por sentir os músculos tensos sob as pregas do pescoço. Com a mão livre, pegou a pasta, colocou-a nos joelhos, abriu-a, apreciou uma vez mais a primeira página, folheou rapidamente o primeiro capítulo com as cinco páginas que tinha acabado de datilografar. Depois, segurando os papéis com uma das mãos e com a outra as castanhas de caju, começou a rever precipitadamente sua nervosa e clássica prosa, sua narrativa de grande aventura e extrema tragédia que excedia em dramatismo o melhor de Eurípcdes. Mastigando as castanhas, Doyle pôs-se a ler o pormenorizado esboço do segundo capítulo, tentando analisá-lo com os olhos de um editor britânico como Sydney Ormsby:

“Este livro começou, embora nesse tempo eu não o soubesse, em Viena, no princípio de junho de 1961. Um novo presidente americano, um vigoroso, dinâmico e jovem chefe do poder executivo, John F. Kennedy, tinha marcado em Viena seu primeiro encontro oficial com Nikita S. Khruchov, primeiro-ministro da União Soviética. Dado que na época era um grande e famoso comunista, encontrava-me em Viena também, entre os mil e quatrocentos jornalistas que tinham convergido de todas as partes do mundo para a linda e vetusta cidade austríaca de Lehár, Strauss e Francisco José, do Danúbio azul, da Ringstrasse e do Prater, para fazer a cobertura daquela eletrizante conferência dos dois grandes, marcada para as quarenta e oito horas seguintes. Foi nos últimos dezoito minutos dessas quarenta e oito horas que esbarrei num complô internacional tão ousado e chocante nos seus alicerces e implicações que desafia a credulidade. Foi em Viena, a 3 de junho de 1961, que soube que se preparava uma sinistra conspiração, organizada por um pequeno grupo do Kominform (se agiam oficialmente ou não, se eram russos ou de um país satélite soviético, não sei dizer), uma conspiração para assassinar John F. Kennedy, no Schõnbrunn, palácio fora de Viena, ou a caminho do Aeroporto Schwechat, nos arredores da cidade.

Foi ao fim da tarde do primeiro dia do presidente Kennedy em Viena, depois de sua conferência inicial com o primeiro-ministro Khruchov, na vivenda suburbana de dois andares, onde fica a embaixada dos Estados Unidos, e antes do jantar oferecido pelo presidente austríaco, Adolf Schàrf, aos dois líderes, na Grande Galeria do Palácio Schõnbrunn de Maria Teresa, que ouvi falar pela primeira vez do complô contra a vida do presidente Kennedy.

Os correspondentes que iriam fazer a cobertura da conferência, os delegados e ministros encarregados de preparar as preliminares do encontro, tanto russos como americanos, tinham chegado a Viena alguns dias antes dos dois grandes. Dado que os repórteres não respeitavam as fronteiras — o quarto poder é, em certo sentido, um mundo —, os jornalistas americanos e russos confraternizaram-se livremente, assim como alguns delegados americanos e russos:

a vodca e o gim correram, e depressa se selaram amizades, dias antes da chegada do avião do presidente Kennedy, de Washington, D.C., via Paris, e da chegada do trem do primeiro-ministro Khruchov, vindo de Moscou.

Foi três ou quatro dias depois dessa amigável confraternização entre jornalistas e delegados russos e americanos que uma velha amiga minha — uma jornalista americana pouco conhecida, uma jovem atraente que eu sabia ser extremamente ponderada — veio me procurar quase sem fôlego no Hotel Imperial. Estava na posse, segundo afirmava, ‘da mais sensacional notícia dos tempos modernos’.

Após intermináveis horas de bebida, ela se tornara íntima de um delegado russo suficientemente importante para ser conselheiro assistente do primeiro-ministro Khruchov, e recolhera suas confidências, provocadas pelos últimos copos de vodca. Ele lhe deu a entender que tinha sido abordado por um grupo de colegas comunistas, que lhe haviam pedido que se juntasse a eles para liquidar um indivíduo que, segundo pensavam, seria um obstáculo no futuro; em suma, que participasse de um complô para assassinar o presidente Kennedy naquela tarde ou no dia seguinte, em Viena. Não acedera. Mas era evidente, na sua opinião, que o crime seria praticado, em Viena ou em qualquer outra parte, num futuro próximo, e deplorava-o. Minha amiga compreendeu que não tinha arcabouço jornalístico para explorar aquela história, mas, se fosse eu a divulgá-la, todos a aceitariam e a publicariam — e não seria apenas uma notícia sensacional e momentosa, mas um freio aos conspiradores, que não ousariam levar a cabo o atentado.

Porque eu sentia relutância em explorar tão sensacional história sem provas mais concludentes, visto suspeitar que a história fora uma espécie de engodo lançado à minha amiga para desacreditar nosso democrático corpo jornalístico, recusei aceitar a história como verdadeira, escrevê-la e explorá-la.

Quando o presidente Kennedy participou do jantar no Palácio Schõnbrunn e saiu ileso, quando, no dia seguinte, assistiu à missa na Catedral de Santo Estêvão e se encontrou, pouco depois, com Khruchov na embaixada soviética de três andares, saindo ileso de ambos os locais, quando, na manhã imediata, partiu de avião a jato para Londres, igualmente ileso, compreendi que meu ceticismo era fundamentado. Não havia dúvida de que minha ingênua amiga tinha sido apanhada por um evidente engodo russo. Expulsei o disparate de rninha mente.

Tudo isso se passara em junho de 1961.

Depois, chegou novembro de 1963 — e no Hospital Parkland, de Dallas, o presidente Kennedy, com uma bala na garganta e uma enorme ferida do lado direito do crânio, jazia moribundo, e o adido de imprensa da Casa Branca anunciava, pouco depois, sua morte, causada por balas assassinas, a todo o espantado mundo.

A polícia de Dallas, o FBI e, posteriormente, a Comissão Presidencial sobre o Assassinato do Presidente Kennedy, presidida pelo ministro Earl Warren, do Supremo Tribunal, anunciaram que o crime tinha sido praticado por um único homem, não filiado a qualquer grupo político. Esse homem, afirmaram, era Lee Harvey Oswald. Mas minha memória recuou àquele fim de tarde em Viena, trinta meses antes do caso de Dallas, e então compreendi que o assassinato não tinha sido cometido por Oswald:

compreendi que fora cometido não por outro, mas por outros; por um grupo de conspiradores internacionais. E foi assim que iniciei minhas longas, difíceis e aventurosas buscas, minha pesquisa sobre a parte da história que me faltava e me havia sido parcialmente revelada em Viena, em 1961.”

Jay Thomas Doyle deixou pender o manuscrito à medida que meditava na sinceridade e veracidade das palavras escritas, tão simples e cheias de bons propósitos, quando a verdade autêntica, ou antes, a verdade total — tão inexplicavelmente complexa e atravancada por seu egoísmo e vaidade pessoais —, ainda jazia oculta no fundo de seu espírito e de sua consciência, não revelada na superficialidade das palavras.

Ao recordar a verdade total, o segredo — verdade proibida, que a maior parte dos homens não conseguia enfrentar, ou, se o fazia, não conseguia divulgar —, reconstituiu gradualmente (como uma realidade do presente com que teria de viver) o que acontecera efetivamente na Viena de 1961.

Revivendo tudo isso, lembrou-se de que era recebido na capital austríaca com a cerimônia e o respeito outrora dispensado aos príncipes de Habsburgo. Era então um grande nome, verdadeiramente grande, e era tratado como alguém de autoridade absoluta.

Admitiu que entre os jornalistas seus contemporâneos havia alguns que eram mais eruditos, mais espertos, mais inteligentes do que ele, mas não passavam de filósofos de quarta categoria, ao passo que ele era um imperador, visto ter legiões que o apoiavam. Essas legiões eram formadas por inúmeros e leais leitores, os milhões que liam sua coluna e acreditavam em suas afirmações. Quando Doyle pôs termo a seus artigos diários, aos relatos de acontecimentos vividos, dramáticos e em primeira mão, nos pontos nevrálgicos do mundo — Coréia, Argélia, Vietnam, índia, China comunista, Mississípi —, seus leitores acreditavam nele, aclamavam-no, e o coro maciço da plebe era ouvido tanto nas altas esferas de Washington como no estrangeiro. Como resultado, o elevador privativo para o sacrossanto sétimo andar do Departamento de Estado e as portas vigiadas para o Gabinete Presidencial da Casa Branca estavam sempre abertos para ele. Todos os presidentes, desde Eisenhower a Earnshaw, tinham sido seus amigos.

Até aquele período de Viena, em 1961, e talvez durante mais dois anos, Doyle trabalhara sempre só. Agências de notícias rivais mandavam grupos de repórteres para cobrir um acontecimento. Doyle era seu próprio grupo. Gozava de tal reputação que, muitas vezes, nem se dignava procurar informações. As histórias importantes chegavam até ele, e eram transformadas por sua inteligência medíocre, mas hábil na encenação, em colunas diárias sob o título “Secreto e autêntico”, as quais se tornavam em seguida o missal da opinião pública e, muitas vezes, da política nacional.

Como imperador, precisava de diversões e tributos, além de dinheiro. Exigia a melhor comida, os melhores vinhos e as mulheres mais cobiçadas. Comida e vinhos não faltavam, mas nessa época ele os ingeria com relativa moderação, como gastrônomo e não como glutão. E também havia as mulheres mais cobiçadas, as que estavam ao corrente de sua alta posição, e, embora desejasse a todas, servia-se moderadamente delas. Por causa de sua posição de destaque, era cuidadoso com as mulheres fáceis. Não queria ser precipitado das alturas para uma cama vulgar, ver seu nome submetido a amorais sentimentos de alcova, ser um vulnerável companheiro de cama apanhado entre os lençóis por tantas e tão perigosas Clitemnestras.

No entanto, não eram as mulheres fáceis c espalhafatosas o que o assustava. Seu medo dominante, que o inibia de gozar o prazer final de que necessitava, estava em não querer ser utilizado. Pelo contrário, queria ser ele a utilizar. Recusava-se a ser coagido, forçado a comprometer-se, obrigado a ceder uma parte de sua supremacia a qualquer fêmea autoritária c corrupta. Em suma, não admitia uma igualdade de fato. Queria uma súdita devotada. Não desejava uma ligação. Pretendia uma serva submissa.

E foi assim que, como diversão final, espreitou o fundo da sua eminente posição e descobriu a srta. Hazel Smith, de Baraboo, Wisconsin, repórter principiante da Atlas News Association e recentemente chegada a Nova York.

Remontando aos primeiros meses, Doyle reviu a Hazel ingênua, dócil, meiga, tímida e tendo como única ambição um mínimo de autoconservação. Sem companhia masculina, sem calor masculino, sem pertencer a ninguém, ficou extasiada e instantaneamente subjugada pela atenção de um imperador. Graças à sua submissão, Doyle encontrou a serva perfeita.

Ela não tinha nada de bonita. Sua deselegância, o cabelo cor de cenoura, os olhos míopes e as faces mirradas, os seios achatados, as ancas largas e as pernas magras nada tinham de atraente. Sem pintura no rosto, com as unhas por fazer, de andar masculino e sapatos práticos, não era certamente a convidada ideal para reuniões da alta-roda. Doyle ficou surpreso por sua própria devoção a ela, ele, que teria desdenhado um restaurante de luxo devido à sua inestética iluminação, um dinner jacket por causa de uma costura descosida, um molho béarnaise com excesso de vinagre. O certo é que gostou dela, porque era acomodatícia, porque não pedia nada, porque era como ele queria que fosse e porque estava ali. Essas eram suas virtudes, mas havia outras. Hazel dedicava-lhe uma atenção concentrada, um respeito sem limites e, sobretudo, um amor sexual sem complicações motivadas por experiências anteriores e conflitos interesseiros. Mas ao fim de ano e meio, mal compreendendo o que acontecia, Doyle começou a fartar-se dela e a sentir-se envergonhado por isso. Subira cada vez mais alto, ao passo que ela estiolara; mas não se preocupava com a possibilidade de sua dominante personalidade e suas neuróticas limitações poderem ser um freio ao desenvolvimento potencial da moça. Compreendeu que estava farto, não porque ela lhe desagradasse na vida privada, mas porque se tornara um embaraço nas frequentes aparições dele em público. Sua modéstia de caixeirinha reduzia a vaidade e o gosto dele por si mesmo, quando regressava de algum baile ou de uma recepção particular no seio da qual fora a estrela entre os selecionados e corteses convidados da alta-roda.

Nesse momento, punha-se a observá-la e a avaliá-la com olhos críticos. Quando voltava ao seu apartamento da Park Avenue, após um jantar numa casa de campo ou da cidade, onde jovens mulheres elegantes, de cabeleiras brilhantes, de vestidos decotados e ornados de pérolas, modelos saídos da vitrina, representantes de velhas famílias, o adulavam, tornava-se difícil desejar ou mostrar-se apaixonado por uma amante que enrolava os cabelos em bobs, com os dedos disformes e permanentemente sujos de mudar as fitas das máquinas de escrever, que usava roupas compradas em saldos e falava à maneira do sul, que tomava muito a sério as notícias do rádio, às onze horas, para se mostrar, de acordo com elas, alegre ou frívola, e namorar durante a tarde.

As comparações eram odiosas, mas não lhe era possível evitá-las. Sabia que estabelecer um paralelo entre os que tinham nascido num solar e uma pessoa que nunca tivera essa vantagem era desagradável, pretensioso e aviltava até quem, como ele, nascera para se celebrizar fora do esterco, do sangue, dos piolhos da Coréia, e que se tornara a “voz do povo”. Enquanto esperava uma solução para seu problema, voltara a ler Uma tragédia americana, de Dreiser, numa edição encadernada, notando uma vez mais que o herói de Dreiser, Clyde Griffiths, suspirava por uma posição social — que Doyle já possuía —, mas que a vida com a amante, uma empregada de uma fábrica, criara-lhe o mesmo conflito que o afligia, e pelo qual sofria por causa de Hazel. Dreiser resolvera o problema de seu herói fazendo com que este matasse a pobre amante. Na opinião de Doyle, tal melodrama não se adaptava a seu caso. Dreiser apenas fizera com que se sentisse culpado de sua atitude para com Hazel, pelo que pôs o livro de parte e o esqueceu.

Não conseguira, porém, expulsar Hazel do espírito. Ou, antes, seu espírito, unicamente preocupado consigo, com uma vida sua, com preconceitos próprios, oprimia-o e dominava inteiramente seu estúpido e sentimental coração.

A consciência alertada dizia-lhe:

Doyle, ande com mulheres de sua condição, enquanto pode. São o tipo de mulher que você aprecia e merece. São encantadoras e graciosas, mulheres de quem você poderá se orgulhar, produtos das mais velhas famílias americanas e inglesas, de solares imponentes, de bailes de debutantes, de Vassar, da Sorbonne; produtos de tutores severos que lhes ensinaram a ter boas maneiras, a apreciar a arte, a conversar sobre caçadas a cavalo, a dançar, a falar corretamente francês, a usar com elegância vestidos de Dior e Balenciaga.

Sua inflexível consciência dizia-lhe:

Doyle, você já se fartou de Hazel Smith, que é inferior; deixe-a enquanto é tempo. Ela não é seu gênero, e você já fez bastante por ela, foi suficientemente bom ao mostrar-lhe horizontes que de outro modo nem saberia que existem. Deixe-a. Ela seguirá seu caminho, encontrará um marido simpático, gerente de uma sapataria, caixeiro ou dentista, e viverá em Far Rockaway ou Jersey City com quatro filhos ranhosos, que terão lições de piano, ao passo que ela irá jogar bridge no clube, todas as quartas-feiras, e será muito mais feliz. Não ceda, Doyle. O sentimentalismo é bom para os artigos de sua coluna, mas não deixe que lhe arruine a vida. Olhe para ela, olhe para Hazel — “pobre Hazel” —, uma criatura superficial, simples, desajeitada, despreparada para compartilhar o seu futuro, uma moça vulgar, sem potencialidades, um produto caseiro de emigrantes russos, assustadiços e pesadões (“uns simplórios”), que vieram para Wisconsin de Narevka e Vilna nos princípios do século, pelos caminhos de Ellis Island, Gary, Indiana e Chicago, Illinois; o produto de uma casa de madeira em estado precário, com um celeiro, ervas daninhas e dentes-de-leão no canteiro da frente; o produto de reuniões familiares com tias invariavelmente chamadas Yetta, Gertrude ou Rose, de dispendiosas folias da Legião Americana, de passeios pelos campos e da Escola de Baraboo (onde mudou o nome para Smith, mais fácil de pronunciar), de dois anos num colégio de professores perto de Oshkosh e um ano como encadernadora de Hearst, em Racine; o produto de um ambiente infeliz, que lhe limitava o comportamento à mesa, fazendo com que levantasse o dedo mínimo ao pegar na colher da sopa, seu sotaque puxando para o russo, herdado dos pais imigrantes (não, não, Doyle, essa espécie de russos nunca conseguirá nada), o guarda-roupa de um negro lustroso, as roupas íntimas e os vestidos de raiom, comprados por encomenda postal na Sears, Roebuck (e mais tarde, Doyle, nas lojas Klein e, o que constituiu um grande progresso, Ohrbach).

Sua consciência arreliadora dizia-lhe:

Doyle, escute sua consciência, a não ser que isso não o preocupe.

E foi assim que, no final de dois anos, acabou por escutá-la.

Precisamente antes da Conferência de Viena, decidira que ela não era uma companheira à sua altura. O preço que pagava para que dependesse dele, sua dedicação que nada pedia, era demasiado alto, considerando o desfavor social motivado por sua presença. A organização jornalística queria que ele fizesse a cobertura dos encontros do presidente Kennedy com De Gaulle em Paris, com Khruchov em Viena, com MacMillan em Londres, e ele via nessa viagem pelo estrangeiro a oportunidade ideal para romper com Hazel. Como detestava as separações definitivas, pensou que, mesmo depois do rompimento, se viesse a precisar dela, poderia descobri-la em qualquer lugar. Mas não a queria à sua volta, quando não necessitava dela.

Já lhe tinha manifestado, nos últimos meses, o aborrecimento e a irritação que lhe causava seu amor mais do que opressivo. Agora, seu mau humor convergia dos transitórios e excêntricos caprichos para o caráter permanente da vida doméstica. Mostrava-se difícil cm sua presença, desagradável e rude, grosseiro e negligente, criticando-a, revelando-se contraditório e sarcástico, não lhe reconhecendo qualquer parcela de direitos, gabando-se constantemente, na presença dela, de seus encontros com mulheres bonitas, espirituosas e sofisticadas, e até desaparecendo do apartamento durante dias, sem qualquer explicação. Deliberadamente, também, “esquecia-se” do aniversário dela.

Todavia, Hazel suportava tudo e não se queixava. Com exceção de um tremor ocasional nos lábios, ou da mão passada pelos olhos, não traía qualquer emoção. Era como se uma tia solteirona lhe tivesse explicado outrora que os homens são assim e que o remédio é aturá-los, não fazer caso, para que tudo corra bem. Evitava as provocações dele e aceitava os castigos sem pensar em represálias. Nunca lhe daria oportunidade para uma cena. Mantinha-se estoicamente firme, e isso o enlouquecia. Compreendia que teria de fazer o que mais detestava:

dizer-lhe que estava tudo acabado.

Três dias antes de partir para Viena, encorajado por quatro uísques c uma revisão mental da incompatibilidade entre ambos, provocou uma cena na cozinha.

— Ouça, Hazel, isto é importante... temos de conversar... não podemos continuar assim.

Não conversaram, ou, antes, só ele é que falou, um monólogo de meia hora, repleto de hipocrisia pseudopsicanalítica, de egocentrismo, de autocompaixão, de orgulhosos agravos, de preocupações de impostor altruísta e, para terminar, a decisão:

— Não é só por mim que falo, Hazel, é também por você. Para o bem de nós dois, separemo-nos durante algum tempo. Enquanto eu estiver longe, poderá consagrar mais tempo a seu emprego e... a novos amigos. Terá uma casa só para você. Mandar-lhe-ei dinheiro, se você precisar, não se preocupe com isso. Mas tem de começar a pensar por si mesma. O fato de lutar pela vida lhe dará uma perspectiva diferente, você se fortalecerá, fique certa disso. Um dia ainda me agradecerá. E é tudo. Está de acordo?

Ela não o interrompera, não pronunciara uma única palavra. E não o fez quando ele acabou. A pergunta pairava entre eles, exigindo ardilosamente uma resposta que provocaria uma briga e um rompimento puro e simples. Mas ela não respondeu. Não houve briga. Sentia-se, no entanto, magoada. Tudo como habitualmente. Mostrou sua mágoa nos olhos úmidos, nos lábios trêmulos, na expressão pálida de incredulidade. Passou por Doyle em direção ao quarto, mas ele a perseguia com a mesma pergunta sem resposta:

— Está de acordo?

Deteve-se e fitou-o.

— Se é isso o que pretende... — E entrou no quarto. Foi tudo.

Ela saiu do apartamento, deixando-o limpo e em ordem, no momento em que ele regressava do escritório, na tarde do dia seguinte àquele em que se juntara ao grupo de jornalistas da Casa Branca e tomara o avião para Paris. Sentia-se livre e despreocupado, apenas com um pouco de vergonha e remorso (que a bebida, o pôquer, a cozinha francesa e o trabalho em breve dissipariam, disso estava convencido). Ocupou seu lugar no avião, procurou caras conhecidas e, de repente, sentiu um baque no coração e ofegou ruidosamente:

numa das poltronas da retaguarda, lendo calmamente, encontrava-se Hazel Smith.

O espanto transformou-se em fúria. Ela o perseguia. Aquilo era... era... era uma intromissão em sua vida privada. Precipitou-se para ela. Que diabo estava fazendo ali? Hazel fitou-o de olhos muito abertos e ingênuos. O que fazia ele ali? O mesmo motivo os juntara naquele avião. Hazel tinha sido incumbida de fazer a cobertura da viagem de Kennedy. A ana precisava de alguém que exprimisse o ponto de vista feminino, e, como a correspondente efetiva adoecera atacada por um vírus infeccioso, haviam-lhe dado aquela magnífica oportunidade de trabalhar pela primeira vez no estrangeiro. Por que ele estava tão zangado? Não era intenção dela persegui-lo. Tinha algo melhor, uma excelente ocasião para mostrar o seu valor. Não fora ele mesmo que lhe dissera que ela teria tempo para se dedicar à sua profissão? Bem, era o que estava fazendo, precisamente o que ele queria que ela fizesse. Esperava vê-lo contente, que a felicitasse, que lhe desejasse boa sorte. Continuavam amigos, não era verdade?

Com irritação crescente, Doyle confirmou que não havia dúvida de que continuavam amigos, que ele nada tinha a ver com a vida dela, que lhe desejava boa sorte. Avisava-a, porém, que ia estar muito ocupado em Paris, Viena e Londres.

O sorriso eternizava-se nos lábios de Hazel. Oh!, ela sabia melhor do que os outros o quanto ele era importante, as exigências que lhe impunham. Garantiu-lhe que estaria demasiado atarefada para se lembrar de importuná-lo. Arqueou as sobrancelhas e desfechou-lhe, com ironia:

— Está de acordo?

Doyle acusou o toque e respondeu:

— Sim, uma vez que você mesma o diz. ..

O que o mortificava, quando voltou para seu lugar, era o fato de não descobrir uma explicação para o que sentia. Foi preciso o rompimento para que o compreendesse. Três dias antes, deixara uma garota. Agora, por uma espécie de feitiço que não conseguia entender, deparava-se com uma mulher. Era razão bastante para se precaver, para receá-la ainda mais.

Nos três dias que passou em Paris, Doyle viu Hazel Smith apenas duas vezes, a primeira durante uma entrevista coletiva no teatro do Anexo C da embaixada dos Estados Unidos, no Faubourg Saint-Honoré, e a segunda no Quai d’Orsay, onde ela esperava que a sra. Kennedy deixasse seus aposentos reais. Desiludiu-o o fato tle não a ver correr atrás dele, de não o importunar, tentando inspirar-lhe compaixão. Embora inexplicavelmente, ele estava aborrecido com a independência dela. Compensava-o o fato de trabalhar em Paris — escrevera vários artigos excelentes comparando Kennedy e De Gaulle — e de encontrar elegantes senhoras francesas bastante acessíveis e às quais sua reputação impressionava grandemente.

Na última tarde, levou a magnífica e elegantíssima filha de um rico embaixador francês para jantar no Petit Bedon, da Rue Pergolèse. Seus olhos incidiram mais na beleza dela do que nos pratos. Seu perfil aristocrático e jovem, os esplêndidos brincos de diamantes, sobressaindo entre os cabelos castanhos e bem-penteados, os seios pequenos e delicados, a cintura de vespa, os quadris suaves, maldisfarçados pelo rutilante vestido de seda — tudo contradizia sua reserva e compostura de católica Bourbon. Não poupou elogios a Doyle, o que o fez sentir-se feliz. Mas havia mais. Aquilo era o que sempre desejara. Estudou-lhe as pálpebras cerradas, os lábios carnudos e vermelhos, os dedos esguios, que seguravam o cigarro dourado, e ficou maravilhado.

Porém, depois do jantar, o encanto foi breve. Ela o convidou para ir a seu apartamento oriental, na Avenue Foch. Pôs-lhe o champanha à disposição. Depois, sem falso pudor, entregou-se. Aquela facilidade surpreendeu-o, mas a promessa do corpo dela estimulou-o selvaticamente. Viu-a despida, viu-se igualmente sem roupas, até que se juntaram. E, quando tudo acabou, sentiu-se desapontado. Ela se mostrara indiferente e fria como uma clássica estátua truncada do Louvre. Fora mais uma ilusão do que uma mulher.

Mais tarde, quando regressava a seus aposentos no Hotel Georges V, Doyle compreendeu que o melhor da noite tinham sido os filés de vitela temperados com manteiga, os cogumelos, as cebolinhas, o xerez,, o queijo Gruyère, tudo isso como prato de entrada. A elegante filha do embaixador francês, envolta nas pregas do rutilante vestido de seda, proporcionara-lhe menos prazer sensual do que um desses filés. De fato — e era isso o que o desconcertava —, satisfizera-o menos do que a filha de emigrantes russos de Wisconsin.

Confuso, interrogou-se quanto às outras recompensas que lhe adviriam do êxito. Não passariam, também, de ilusórias promessas? Era um caso a verificar. De qualquer maneira, sentia certo orgulho em ter dormido com uma descendente da realeza Bourbon. O perfumado corpo nu já não lhe ocupara o espírito, mas o engrandecimento de seu nome permaneceria para sempre. Quanto a isso, não havia dúvidas. Sim, o rompimento com Hazel fora uma medida acertada. Se ao menos ela não o importunasse, nem ali nem em Viena!

Para evitar novo encontro com Hazel, Doyle prescindiu do avião da imprensa e seguiu no jato de carreira para Viena. Ao chegar ao Aeroporto de Schwecht, vários dias antes do presidente Kennedy, Doyle sentiu-se liberto, e muito mais ainda quando atravessou o Danúbio, de águas salobras e mais castanhas do que azuis, barrocos limites góticos da cidade antiga no centro do anel interior, até chegar ao Hotel Imperial, na Kárntnerring, 16.

Depois de ordenar ao porteiro de uniforme que lhe tomasse conta das malas, Doyle deixou os pilares de mármore azul com veios e o marmóreo dossel da entrada do hotel e curvou-se, como de costume, para transpor as modernas portas de vidro, pisando o enorme tapete vermelho do vestíbulo, onde o recepcionista, seu ajudante e o porteiro o esperavam. Era fascinante e agradável, e, mais do que nunca, Doyle sentiu-se encantado com as possibilidades que sua recente liberdade lhe oferecia para o futuro que começaria naquele gracioso lugar.

Não lhe apetecia trabalhar. Estava dominado pelo Scblamperei de Viena — ó desejo de não fazer nada —, e, depois de ter concedido algumas entrevistas, de ter contatado alguns amigos locais, entregou-se ao prazer. Quase sempre de braço com uma bonita garota ou uma mulher — sempre a filha ou a esposa namoradeira de um Habsburgo ou de um milionário austríaco, incluindo uma jovial Esterhazy na casa dos trinta —, ouviu as valsas de Strauss no Stadtpark, viajou na Riesenrad e no Liliputbahn de cinco xelins (a maior roda-gigante e o menor trem em que jamais andara) do Wurstelprater, e assistiu a um jogo de futebol que o Wonderteam perdeu. Acima de tudo, comeu, com distinção e boa companhia, à luz das velas dos Drei Husaren, no imponente Ilochhaus, que dominava a cidade, na encantadora relíquia que era o Schõner e na própria mesa onde Lehár jantara um dia. Aquela era a Viena que ele amava, a Alt Wien de Gluck, Haydn, Mozart, Schubert, a Viena que os venerava, mas a que faltava paciência para dar o nome de uma rua ou erguer um monumento a seu Sigmund Freud. A verdade é que Doyle estava ansioso por escrever um artigo interessante sobre semelhante paradoxo.

De repente, Viena transformou-se na cidade do Terceiro homem e não da Valsa da viúva alegre. É que Nikita Khruchov chegara, e, um dia depois, John F. Kennedy. A conferência dos dois grandes ia começar. Adeus, Scblamperei. Havia muito que fazer. A atmosfera tornou-se carregada de conversações sobre o Laos, a fiscalização internacional das experiências nucleares, o problema de Berlim, a ameaça do poder crescente da China comunista. Mal havia tempo para uns instantes de desanuviamento, e esses se verificaram apenas quando Kennedy tocou nas duas medalhas em forma de estrela que adornavam o peito de Khruchov e lhe perguntou o que significavam. Khruchov explicou orgulhosamente que eram medalhas da Paz de Lênin, ao que Kennedy retorquiu, com ironia:

“Espero que as conserve”.

Antes do início da conferência, Doyle ficou sabendo, por vê-la de relance, que Hazel Smith estava na cidade. Até então, ela não se atravessara em seu caminho. Mas agora que as reuniões dos dois grandes seguiam seu curso, Doyle via Hazel cada vez mais em evidência, sempre séria, sempre concentrada no lápis e no bloco de apontamentos, tentando a todo custo mostrar-se independente. Salvo uma ocasião em que a viu conversar animadamente com vários delegados russos, andava sempre só. Procurava não sentir pena dela, mas não o conseguia. Por diversas vezes, surpreendera-a a observá-lo, notara seu embaraço e suspeitara que ela ainda esperava pateticamente atraí-lo de novo. Por duas vezes, ele lhe prodigalizara informações e conselhos, o que fizera com que ela se mostrasse excessivamente grata. Então, para lhe lembrar que nada mudara, ignorou-a por completo. Só no quinto ou sexto dia em Viena, o último de Kennedy, Doyle reparou que Hazel não dava sinais de vida. Perguntou-se onde ela estaria, mas logo deixou de pensar no caso.

Subitamente, já noite avançada, inesperadamente, como sempre — quase espantosamente até —, Hazel irrompera por seu apartamento no Plotel Imperial, excitada, sem fôlego, derreada ao peso de um terrível segredo. Embora ele se preparasse para ir a um coquetel e à ópera (tinha a condessa Esterhazy para essa noite, que prometia ser fácil), foi obrigado a receber Hazel, pois não se sentia com coragem para tratar rudemente a moça, sozinha naquela cidade estranha, e porque, afinal, ela lhe segredara que tinha uma “bomba”, palavra que o fizera estremecer e que não ouvia desde a época dos primeiros filmes sonoros.

Fechou a porta e viu-a trêmula, numa excitação medonha, no meio do quarto. Não a convidou a sentar-se. De fato, como se recordaria mais tarde, tinham ficado de pé um em frente do outro, durante toda a entrevista.

— Muito bem, Hazel, o que se passa? — perguntou.

— Jay, eu... eu nunca deparei com uma coisa assim. É a história mais espantosa de nossa época. É terrível. Tinha de contá-la. Quando a ouvir, não me levará a mal por ter vindo aqui.

Visto que Doyle se mostrara sempre cético quanto ao faro dela para descobrir notícias, ficara automaticamente desconfiado daquilo a que Hazel chamava “a história mais espantosa de nossa época”, mas tentaria ser delicado.

— Muito bem, Hazel, desembuche. Quem, o quê, por quê, quando e onde?

— O presidente Kennedy... Vão assassinar o presidente Kennedy!

As sobrancelhas dele franziram-se, sua voz tornou-se fria:

— Quem?

— Um pequeno grupo de russos e alguns comunistas estrangeiros. Vão matá-lo.

— Quem afirma isso, além de você?

— É... não, não posso. — Mas logo se recompôs:

— Uma fonte fidedigna.

— Não basta. O que mais sabe, Hazel?

— Juro que é verdade.

— Isso é pouco, querida. Poderia contar-lhe grandes histórias do empregado do bar ou da criada do Demel, ou de um cocheiro embriagado que conduz sua carruagem pela Hauptallee, mas quem me acreditaria? Está transtornada por esse disparate de um complô comunista contra Kennedy.. .

— Vão matá-lo, aqui. É a verdade, Jay.

— Muito bem, uma conspiração para matar Kennedy, aqui mesmo. É uma grande história, concordo. Nada mais importante para as telecomunicações e para nosso governo. Mas não vai escrever artigos para uma coluna de mexericos. Seu trabalho é dar notícias, e as notícias exigem fatos — apenas fatos, querida. Agora, diga-me onde conseguiu essa história. Se não procede de uma fonte fidedigna que você possa revelar, nada vale. Quem, Hazel?

Ela engoliu em seco e explodiu:

— Um... um oficial russo... um delegado soviético. Disse-me... juro que é verdade, foi ele quem me contou.

Durante uma fração de segundo, Doyle ficou impressionado, curioso, mas logo mergulhou no ceticismo.

— Que diabo o levou a contar-lhe uma coisa dessas? Não deve regular bem. Olhe, Hazel, não...

— Espere, Jay, escute, deixe-me explicar. É melhor eu dizer tudo.

E iniciou a história, saindo-lhe as palavras aos atropelos, torrencialmente.

Nunca tinha deixado sua casa, seu país, para ir tão longe, sozinha. Nada conseguiria saber dos outros enviados especiais americanos sobre a viagem presidencial, e era difícil relacionar-se com eles, porque evitavam conhecê-la ou não a levavam a sério, ou então estavam demasiado ocupados com seus trabalhos e prazeres pessoais. De qualquer maneira, na primeira noite em Viena, quando se dispunha a regressar a seu quarto no Hotel Bristol, compreendera que necessitava desesperadamente de companhia e, por isso, dirigira-se ao bar do hotel, onde encontrara dois correspondentes americanos que bebiam com colegas russos, todos homens e visivelmente embriagados. Um dos americanos, que se havia mostrado muito reservado no avião e em Paris, mas a quem o álcool tornara sociável, reconhecera-a e acenara-lhe, convidando-a a sentar-se com ele e os amigos, porque precisavam de uma americana para provar aos russos que as mulheres de seu país não eram, como afirmavam os russos, isentas de feminilidade e do mesmo gênero que os homens americanos. O que a convidara estava demasiado embriagado para se lembrar do nome dela ou dos nomes dos russos que o acompanhavam, pelo que Hazel se apresentara a si mesma, e os russos, muito bem-educados, fizeram o mesmo. Depois de ouvir e aceitar a opinião deles sobre a feminilidade das mulheres americanas, sentara-se para beber e conversar.

Pouco depois, continuava Hazel, os americanos, já fartos, desculparam-se e foram para seus quartos, cambaleantes. Hazel viu-se sozinha com meia dúzia de russos, e quis retirar-se também, mas, quando os correspondentes comunistas descobriram que ela falava fluentemente o russo, mostraram-se encantados e não a deixaram partir, insistindo noutra rodada de bebidas.

Na hora que se seguiu, um a um, os correspondentes soviéticos foram-se retirando, a fim de dormir um pouco. Quando só havia dois com ela e um deles se preparou para sair, Hazel ergueu-se também e lhes desejou uma boa noite, mas o que continuava sentado pediu-lhe que o acompanhasse numa última bebida. Era o mais calmo, o mais simpático, e parecia tão feliz por estar junto dela que ela não pôde recusar. Livres dos outros, apenas os dois, com os cálices de vodca à frente, a conversação tornou-se mais íntima. O amigo soviético de Hazel revelou que não era jornalista, mas diplomata, um dos delegados subalternos do Partido Comunista, um dos vários encarregados de recolher, para o secretário de Imprensa do primeiro-ministro Khruchov, Mikhail Kharlamov, elementos válidos, de forma a que este pudesse facilmente esclarecer os órgãos de informação no Palácio Hofburg.

Hazel contou a Doyle que, então, fora sua vez de ficar encantada. Queria saber mais a respeito de seu companheiro russo, e, por isso, continuaram a conversar. Seguiu-se uma quinta bebida, e, quando seu novo amigo lhe pediu que fossem passear pela cidade, ela acedeu. Utilizando o carro Moskvikh, pesado e cinza-escuro, visitaram diversos locais, bebendo no Eden-Bar e no Kaiser-Bar, bebendo e dançando no Flaker-Bar, comportando-se como velhos amigos.

O amigo russo passou o dia seguinte ocupado e ela também, mas, quando a tarde chegou, ele já a esperava no Moskvikh. Foram para fora da cidade, para uma taberna perto da Capela das Carmelitas, erguida no local do pavilhão onde o arquiduque Rodolfo de Habsburgo e sua amante Maria Vetsera se suicidaram. Da taberna de Mayerling foram ao restaurante de um hotel, o Tulbinger Kogel Berghotel, nos bosques de Viena. O delegado soviético seu amigo era um solitário como ela, ansioso por uma amizade longe da pátria, e, apesar de seu inglês correto, estava maravilhado por ter descoberto uma mulher estrangeira que falava fluentemente o russo. E foi assim, entre bebidas e danças, que trocaram confidências.

E os encontros continuaram na noite seguinte, durante parte do dia imediato e na noite anterior, até aquela manhã. Ele se tornara um tanto ousado, e ambos passaram horas alegres e divertidas, sempre animados, não propriamente embriagados, mas um pouco eufóricos com todas aquelas bebidas.

De qualquer maneira, disse Hazel, a questão era que seu cavalheiresco amigo não a dispensava, e confiava nela como numa compatriota. E, na noite anterior, mostrara-se preocupado e aflito, mas, após uma série de bebidas, fora atacado por uma espécie de loucura sentimental por ela. Não valia a pena entrar em pormenores, exceto para esclarecer que, em algum lugar, no caminho, com a língua solta pelo álcool, ele começara a lhe fazer confidências. De repente, ela ouviu coisas inacreditáveis, mas ele insistia em sua veracidade. O que lhe contava explicava a sua preocupação anterior. Tinha sido abordado por um antigo colega de escola, que agora dirigia um jornal russo, o Izvéstia ou um dos Pravdas, não sabia ao certo. Enfim, fora abordado para se juntar a um grupo secreto internacional de oficiais comunistas, fanáticos na sua crença de que Kennedy dominaria o país deles, tornar-se-ia terrivelmente, perigoso no futuro e, portanto, tinha de ser imediatamente liquidado. Se isso não fosse possível, então o assassinato teria de ser perpetrado num futuro próximo.

Incapaz de acreditar no que ouvia, Hazel interrogara, na medida de suas possibilidades, o amigo russo. Este continuava a insistir na veracidade daquele louco complô contra Kennedy, afirmando que não tinha concordado com ele e dele se recusara a participar, porque não via naquilo qualquer vantagem. Mesmo assim, estava preocupado, pois os obstinados conspiradores podiam originar uma celeuma dos diabos com aquele ato, e porque ele mesmo se considerava em perigo por estar a par do complô e ter se recusado a participar dele. Contendo seu horror, na ânsia de saber mais acerca da conspiração, Hazel interrogara o bem-informado amigo, mas este, exausto e embriagado, adormecera.

— Mais tarde, quando o vi mais sóbrio, receei insistir no assunto — disse Hazel. — Ele parecia.ter esquecido o que me contara, e achei que não seria prudente lembrar-lhe. Não ignorava que estava perante qualquer coisa terrível, mas não sabia o que fazer, até que me lembrei de você, Jay. Tentei livrar-me de meu amigo durante o resto do dia, mas não o consegui. Felizmente, uma hora depois, ele foi chamado à embaixada soviética, e, logo que me vi livre, corri a informar-lhe. Agora, sabe tanto quanto eu. e, se bem que deteste trair um amigo simpático, muito sincero e decente, creio que é mais importante proteger nosso presidente e a paz futura denunciando este horrível complô. Não concorda, Jay?

Doyle ouvira atentamente, com o espírito em luta com reações contraditórias, e, agora que ela acabara sua história, sabia que o julgamento final dependeria da resposta dela a uma única pergunta:

— Hazel, não me contou tudo. Faltou uma coisa.

— O quê?

— O nome dele.

Flazel sobressaltou-se:

— Oh, não posso dizer!

— Sabe o nome dele?

— Evidentemente!

— Nesse caso, por que não o diz?

— Porque não seria elegante, isto é, não seria leal. — Interrompeu-se, confusa. — Um repórter não é obrigado a revelar as fontes de suas informações.

— Normalmente, não; mas neste caso deve fazê-lo.

— Não posso. — Sua firmeza surpreendera-o. — Aliás, não tem importância — acrescentou.

— Hazel, é a única coisa que tem importância.

— Não.

— Compreendo.

Com efeito, compreendia que ela se deixara apanhar por aquele barril russo, delegado ou não, mas sem dúvida um bêbado, um provocador. Fora demasiado ingênua em acreditar nele, deixara-se deslumbrar demasiado pelo homem, só porque fora abandonada por ele, Doyle, e consentira provavelmente que aquela esponja de vodca a levasse para a cama, não uma, mas várias vezes, dia e noite, e soubera a história por ele, ou pelos dois dólares que pusera na mesa, ou por causas mais sinistras. Não, a grande Hazel não diria o nome, uma vez que o russo, Orlov ou Potiômkin, fora ou era ainda seu amante.

Por outro lado, talvez ela não pudesse dizer o nome pela simples razão de não existir o delegado russo seu amigo. Sem dúvida aquela tosca história era uma mentira, uma intriga para se vingar dele, Doyle, que, se caísse na esparrela e publicasse tal invencionice, seria considerado por todo mundo um autêntico louco, o que o arruinaria. Logo hesitou, pois conhecia Hazel perfeitamente. Quer ela tivesse inventado aquela embaraçosa “bomba” ou esta lhe tivesse sido impingida, o certo é que ela estava ali, tentando seduzi-lo e arrastá-lo de novo para seus braços. Era isso, não duvidava. Ouvira ou forjara aquele disparate e trouxera-o a seu primeiro apaixonado como um gato doméstico quando apanha um pássaro morto e o depõe em cima do capacho, esperando como recompensa elogios e carícias. .

— Hazel — ouviu-se dizer —, você é uma criança ingênua e crédula e por isso engoliu essa mentira. Foi enganada, ou está tentando me enganar.

Hazel fitou-o incredulamente:

— O que pretende insinuar?

— Muito bem, vou dizer-lhe. Suponhamos que seu amigo russo exista e que seja delegado da conferência, do que duvido. Pois bem, ele quis ridicularizá-la. Percebe o que quero dizer?...

Os lábios dela tremeram.

— Não, não compreendo.

— Pouco importa. Ele sabe que tem à sua mercê uma jornalista simplória, que não conhece nem um bocadinho de política ou dos métodos russos, e que acreditará em tudo. Sabe que ela pertence ao poderoso serviço de informações americano. Assim, junta a seu porte de solitário sincero um semblante simpático e gentil para que ela acredite nele. Depois, fingindo-se deprimido, deixa escapar aquele gordo e fantástico segredo. E fica sentado, à espera de que ela corra como louca a escrever histericamente aquilo e a enviar o telegrama. A pequena e sensacional história mítica foi divulgada, mas lá está o secretário de Imprensa soviético para nos recusar a prova e nos atacar uma vez mais com ameaças de guerra e problemas, acusando de irresponsabilidade a imprensa capitalista c imperialista.

— Oh, não, Jay!...

— Deixe-me acabar. A pequena Hazel encontrou sua grande oportunidade, e, visto que acredita na balela, pode alcançar grande prestígio, um êxito mundial. Mas pensa que há coisa melhor a fazer:

levar a notícia a Jay Doyle, para lhe provar que é a melhor das garotas, senão, vejam, o que fez por ele... nenhuma mulher mostrou tão grande amor... e é assim que ela lhe prova que ainda o ama e que ele está em dívida. Ou talvez a pequena Hazel tenha outra coisa em vista. Talvez saiba que essa estúpida história não passa de uma invencionice, talvez a tenha até forjado, mas mesmo assim a traz ao bom, velho Jay, sabendo de antemão que cie não poderá utilizá-la sem conhecer sua fonte. Seja como for, demonstra-lhe que continua a ser leal e que será bom que ele não o esqueça. Ou, antes, talvez a querida e pequena Hazel seja mais trapaceira do que parece e diga para si mesma que vai inventar aquela história e a respectiva origem e impingi-la ao bom, velho Jay, obrigando-o a entusiasmar-se, a publicá-la e, depois, a desmenti-la. E o tolo do bom, velho Jay, que abandonou a pequena Hazel, levará um grande tombo, e Hazel terá sua vingança. Não sei qual é o motivo, mas, seja qual for, amor ou vingança, sua ingênua astúcia é tão evidente que dá vontade de rir. Eis o que penso.

O rosto dela manteve-se imóvel e pálido, e apenas os lábios se moveram:

— É isso o que pensa?

— Sim, é. Se considera essa história verdadeira, por que não a levou à ana, não a transformou numa grande reportagem, tornando-se assim uma grande heroína?

— Porque sou “a pequena Hazel” — respondeu calmamente. — Porque não sou ninguém, e até a ana teria medo de publicar tal notícia, vinda de mim, logo no meu primeiro serviço no estrangeiro. Vin aqui para oferecê-la a você, porque é genuína e seu nome lhe daria crédito e verossimilhança; e também porque sei que a cia não me levaria a sério, novata como sou. Queria vê-la publicada para salvar nosso presidente, e por isso vim ter com você, pois é o único que conheço e porque, quando transpus aquela porta, julgava ainda amá-lo.

Doyle jogou para trás a cabeça com uma gargalhada de triunfo.

— Enfim! — exclamou. — Por que não começou por aí? É então nisso que se transforma seu contozinho de fadas? Um pouco de ficção para nos juntar de novo, não é, queridinha? Nesse caso, ouça-me. Não, obrigado, por esse preço não compro. Estou farto, já não tenho paciência, nem para agradecer. Vá ter com o seu Hans Christian Andersen russo e permita que eu me apronte para ir à ópera, pois, dentro de poucos minutos, chegará uma pessoa que vai comigo... uma autêntica condessa Esterhazy, se lhe interessa saber, e seria embaraçoso. De acordo, menina? Creio que nos compreendemos agora.

Ela ficou muito ereta, rígida, olhando-o fixamente, até que disse:

— Olho para você, e é como se não o conhecesse. Sabe o que vejo? O que é realmente:

ignorante, presunçoso e estúpido. Pior que isso, um nojento filho da puta. Não quero voltar a vê-lo, nunca, nunca mais!

Com essas palavras, girou nos calcanhares, correu para a porta, saiu desarvorada do apartamento, e desde então ele não voltou a vê-la, nos anos que se seguiram.

E agora, de novo em Viena, depois de tanto tempo, num quarto individual e não numa suíte, olhando para o passado, para o que acontecera e para si próprio, viu que Hazel tinha razão. Fora um ignorante, presunçoso e estúpido. Fora um nojento filho da puta. Sobretudo, fora monumentalmente cretino.

Na noite de 22 de novembro de 1963, enquanto desligava o televisor, o terrível impacto do bom senso de Hazel e de seu erro apanhou-o em cheio. Mas só mais tarde, após a publicação do Relatório da Comissão Warren, é que esse erro se tornou uma obsessão.

Com um gesto arrebatado e a respiração ofegante, agitando a lata de castanhas e jogando na mão as poucas que restavam, afastou a dolorosa recordação e voltou-se para a risonha realidade do momento presente.

Enquanto mastigava, olhou para o glorioso original aberto sobre o amplo regaço. Aquelas belas páginas serviriam para emendar sua passada estupidez, sua cegueira por não ter apreciado o amor de Hazel, por não ter aceito seu presente de apaixonada, que teria evitado o assassinato de Kennedy, por ter zombado do que teria sido a maior reportagem de sua carreira. Mas trabalhara duramente para se reabilitar, e agora tinha esperança. Enquanto o original estivesse vivo, havia esperança. O triunfo que ele aguardava nessa noite poria termo ao seu rápido declínio para o anonimato.

Atento ao próximo encontro com Sydney Ormsby, ergueu o original dos joelhos e percorreu precipitadamente o resumo dos capítulos. Estava ali, tudo era poderoso e forte. Muitos homens, em muitos lugares, antes da publicação do Relatório Warren, haviam tentado desacreditá-lo e espalhar confusão. E tudo porque òs governos e o povo preferiam a paz dos crimes resolvidos e arquivados, o que os fazia sentirem-se mais seguros e lhes permitia ocuparem-se dos problemas diários imediatos. No que os perturbadores da paz falharam foi na sua habilidade para apresentar qualquer prova incontestável, circunstancial e teórica. Mas o manuscrito de Doyle, uma vez terminado, não poderia ser posto de parte. Não se trataria de uma teoria alicerçada em débeis conjecturas, mas de uma prova sólida, um edifício concreto, assentado em fatos já comprovados, que oferecia aos governantes e ao povo uma nova solução, que substituiria a solução errada da Comissão Warren.

Para extirpar as raízes do mito, de forma a que a verdade se patenteasse aos olhos de toda a gente, Doyle sumariou as conclusões da Comissão Warren, a fim de demonstrar as debilidades do relatório da referida comissão, a improbabilidade de Lee Harvey Oswald ser o único assassino e a inatacável evidência que conduzira dramaticamente a uma versão muito diferente do crime, fazendo deste o resultado de um complô.

Então, Doyle voltou a ler seu conciso e inteligente resumo do Relatório da Comissão Warren, esse boneco de palha que em breve faria ruir. A comissão declarava que o presidente Kennedy fora assassinado e o governador Connally, atingido por três tiros disparados por um rifle Mannlicher-Carcano, modelo 91/38, calibre 6.5 mm, com o número de identificação c 2766 e a inscrição Made in l/aly, e munido de telescópio. Os três tiros haviam sido disparados de uma janela de um sexto andar, no ângulo sudeste da Biblioteca Kscolar do Texas. Nesse sexto andar foram encontrados os cartuchos vazios que provavam terem sido disparados três tiros, e havia testemunhas que tinham visto o cano de um rifle na janela do sexto andar. Cientistas e peritos verificaram que os tiros foram disparados à retaguarda do presidente.

Então, a comissão decidira que Lee Elarvey Oswald fora o único assassino. Encontrava-se no sexto andar no momento do crime, possuía um rifle Mannlicher-Carcano de 6.5 mm, descoberto mais tarde no meio das caixas do sexto andar, e chegara à biblioteca, na manhã do assassinato, com um embrulho de papel suficientemente volumoso para esconder uma arma. “Baseada no testemunho dos peritos... a comissão concluíra que um atirador especial como Lee Harvey Oswald podia ter disparado os tiros com o referido rifle no espaço de tempo apurado.” Sete meses antes, Oswald tentara matar o general Walker, “evidenciando assim seu desprezo pela vida humana”. Pouco depois do crime, deparando-se Oswald com o agente de polícia Tippit, matara-o com um tiro de revólver e, mais tarde, resistira à prisão. Uma vez capturado, Oswald não sofrerá maus-tratos pela polícia. Concederam-lhe um advogado, mas ele o recusara.

Pouco mais de dois dias após a sua prisão, Oswald, quando era transferido para o presídio do condado, fora morto por Jack Ruby. Nada havia que fundamentasse o boato segundo o qual Ruby teria sido coadjuvado na morte de Oswald pelo Departamento de Polícia de Dallas. Nada havia que provasse que Oswald e Ruby se conhecessem. Embora Oswald tivesse passado dois anos e meio na União Soviética, até 1962, c tivesse trazido para o Texas uma esposa russa, Marina, embora houvesse contatado as embaixadas russa e cubana, embora estivesse ligado a grupos políticos de esquerda, não havia provas fundamentais de que tivesse sido utilizado, persuadido ou encorajado por um governo estrangeiro a assassinar o presidente Kennedy.

Doyle estudou, através do Relatório da Comissão Warren, a possibilidade de uma conspiração americana. “Durante toda a investigação, a comissão não descobriu provas de complô, subversão ou traição contra o governo dos EUA por parte de qualquer funcionário federal, estadual ou local.”

Visto que a comissão concluíra que Oswald tinha cometido o crime sozinho, tentava explicar os motivos que o haviam levado ao assassinato. Oswald era um indivíduo instável, hostil a toda e qualquer autoridade, incapaz de conviver com outras pessoas. Tinha ideias próprias sobre o marxismo e o comunismo e declarava-se inimigo dos Estados Unidos. Tendo falhado sempre em seus vários empreendimentos, estava decidido a conseguir um lugar na história. Para isso, levara a bom termo o infame ato, matando o presidente norte-americano.

Umedecendo os lábios, Doyle leu rápida e superficialmente seu retumbante desafio à Comissão Warren e à aceitação por esta da culpabilidade de Oswald. Enquanto voltava nervosamente as páginas e relia o caso, a satisfação de Doyle por seu trabalho esporádico de anos aumentava.

Apesar da desesperada tentativa da Comissão Warren para descobrir motivos que pudessem incriminar Oswald, Doyle provava que este não tinha quaisquer motivos conhecidos para matar Kennedy. Oswald declarara, num comício público, que não era comunista. Dissera à União das Liberdades Civis Americanas que não aprovava as observações anti-semíticas e anticatólicas feitas numa reunião da extrema direita, chefiada pelo general Walker. E, precisamente antes do assassinato, afirmara que os Estados Unidos estavam mais avançados do que a Rússia em matéria de direitos civis, louvando calorosamente o presidente Kennedy por sua campanha a favor dos referidos direitos.

Em seguida, Doyle demonstrava que Oswald não podia ter planejado assassinar Kennedy da janela da biblioteca, porque, quando conseguira emprego ali, o percurso do presidente ainda não tinha sido anunciado. Além disso, a passagem do desfile em frente da biblioteca fora uma alteração que Oswald dificilmente poderia saber. Quanto ao transporte do rifle, uma testemunha, a sra. Linnie Mae Randle, dissera que o embrulho de Oswald não tinha mais de sessenta centímetros de comprimento, ao passo que o rifle media cerca de noventa centímetros. O agente de polícia Weitzman — colecionador de armas — foi quem descobriu o rifle assassino no sexto andar e jurou que era uma Mauser de 7.65 mm, descrevendo-a em pormenor, e o promotor distrital declarara igualmente que a arma do crime tinha sido uma Mauser alemã. Assim, a partir do momento em que a polícia de Dallas soube que Oswald possuía um rifle Mannlicher-Carcano de 6.5 mm, modificou a história, e, sem mais aquela, a Mauser alemã transformou-se num rifle italiano. Como afirmava Doyle, não se descobriram impressões digitais de Oswald na arma italiana, nem havia vestígios de pólvora queimada em seu rosto.

Quanto à perícia de Oswald, desde o princípio Doyle sabia que era um ponto crucial e, por isso,’não menosprezara seu original. A comissão concluíra que Oswald utilizara uma arma italiana antiga, pelo menos com vinte e três anos, munida de uma lente moderna que adquirira de segunda mão, por pouco menos de vinte dólares (e de que nunca se servira, segundo o depoimento da mulher). Embora fosse suficientemente hábil para disparar em cinco segundos c acertar num alvo movediço a cem metros de distância, o certo é que, das seis pessoas que seguiam no carro, acertara em duas, quando ao assassino apenas uma interessava. Contudo, um campeão olímpico de tiro, usando um rifle Mannlicher-Carcano, não seria capaz de repetir a proeza de Oswald, pois se mostraria demasiado vagaroso em acionar a culatra. Além disso, havia o fato de Oswald não passar de um atirador mediano, dado que, na realidade, nunca atingira um índice excepcional. Após três anos na marinha, cujo raio de tiro aceitável era o mínimo de 190, estava apto a marcar apenas 212, quando noventa e cinco por cento dos recrutas conseguiam melhor média antes do terceiro ano.

Grande parte do processo de culpa de Oswald assentava na presunção de que três tiros, e apenas três, tinham sido disparados sobre o carro presidencial, provenientes todos da mesma direção:

da retaguarda do presidente. No entanto, o governador Connally insistira em que não tinha sido atingido por uma bala que passou primeiramente pelo presidente, se bem que devesse ter sido ferido por uma das balas que atingiram Kennedy, no caso de haver um único assassino. Por outro lado, o dr. Perry, do Hospital Parkland, confirmara que a bala em questão havia sido de “baixa velocidade”, apoiando assim a declaração do governador Connally, segundo o qual ela não tinha força para lhe penetrar no corpo.

A verdade é que, a princípio, a maior parte das pessoas que presenciaram o assassinato, incluindo o governador Connally, julgou ouvir meia dúzia de tiros. Mas a polícia, talvez porque conhecesse os limites do rifle Mannlicher-Carcano, decidira-se por três tiros, insistindo no fato de que haviam sido disparados da biblioteca. Mesmo assim, muitas testemunhas fidedignas persistiam na crença de que tinham ouvido quatro ou seis tiros, e algumas delas, incluindo um agente do serviço secreto, disseram que os tiros foram vários, disparados ao mesmo tempo.

Doyle sublinhara que isso era de grande importância. Com efeito, se houvera entre quatro e seis tiros, alguns disparados simultaneamente, a descarga não podia partir de um único homem munido de uma arma de poder de fogo relativamente baixo. Aquele rápido tiroteio exigia, pelo menos, dois assassinos. Com essa base, Doyle concluíra que houvera um total de cinco tiros, disparados por dois assassinos colocados em linha. Um fora disparado da biblioteca, à retaguarda de Kennedy, e o outro da frondosa colina, ou da cerca de madeira no alto do outeiro ou do parapeito de cimento do viaduto, todos eles situados defronte de Kennedy. Duas balas trespassaram Kennedy, outras duas feriram Connally e a quinta perdera-se, vindo a ser encontrada por um policial no gramado vizinho.

Sim, Doyle afirmava em seu original que houvera dois assassinos, embora a Comissão Warren tivesse estranhamente passado à margem dessa circunstância impressionante. Segundo a opinião de três dos médicos do Hospital Parkland, o ferimento no pescoço do presidente indicava a entrada e não a saída da bala. Isso queria dizer que alguém, na frente de Kennedy, apontara na direção do carro que se aproximava, disparando do outeiro ou do viaduto. Da retaguarda, portanto do edifício da biblioteca, proviera apenas o ferimento fatal do crânio de Kennedy. Houve grande número de testemunhas que admitiu um segundo assassino, o que disparou contra a cabeça do presidente:

Mary Woodward ouviu os tiros de rifle, vindos do outeiro; S. M. Holland ouviu quatro tiros e viu, a seguir, fumaça proveniente do outeiro; Lee E. Bowers, Jr. e um jornalista de Washington, D.C., viram um policial de motocicleta precipitar-se em direção do outeiro e subir a encosta, até que foi obrigado a recuar por causa dos tiros disparados da biblioteca. Outras testemunhas viram alguém descer o outeiro em direção à passagem subterrânea; a sra. Jena Hill viu um homem de chapéu c um comprido sobretudo marrom que corria pela linha férrea, e um empregado da estrada de ferro disse à polícia que, na sua opinião, os tiros provinham da cerca de madeira e que vira alguém arremessar um objeto qualquer na grama; James Tague, que assistia ao desfile, foi ferido no pescoço pelos fragmentos de uma bala disparada do outeiro, ao norte da Elm Street, que ricocheteara no pavimento da rua. Todas essas pessoas admitiam a existência de um cúmplice do assassino na biblioteca.

Jay Doyle, absorvido na contemplação de seu original, acenou uum gesto de concordância consigo mesmo. Seu depoimento, ao demolir o prematuro e superficial julgamento da Comissão Warren, preparava, lenta e inexoravelmente, o caminho para a aceitação pública da hipótese de um complô internacional. Sorrindo de satisfação, sentiu consolidar-se a confiança no poder de sua argumentação, a mesma que subjugaria Sydney Ormsby. Depois, enquanto examinava cuidadosamente o resto do original, Doyle pensou que, se ()rmsby não ficasse convencido com o que já estava escrito, ficaria com o esboço, em que interrogações e inexoráveis perguntas apimentavam o final dos capítulos. Doyle tinha certeza de que essas perguntas provariam a Ormsby que o assassinato tinha se mantido, até então, um mistério histórico insolúvel dos tempos modernos, pelo que Doyle merecia um substancial adiantamento que lhe permitisse prosseguir até a solução final, que estava em posse de Hazel Smith, em Moscou.

Com nervoso prazer, batendo com os dedos rechonchudos na lata vazia, Jay Doyle releu as perguntas relativas ao crime. Como Lee Oswald conseguira visto para entrar na União Soviética tão lacilmente? Quando a maior parte tinha de esperar uma ou duas semanas, por que motivo Oswald obtivera seu visto no próprio dia em que o solicitara? De que privilégios especiais gozava Oswald na Rússia? Como conseguira sair da União Soviética com uma esposa russa e entrar nos Estados Unidos (o que, geralmente, é muito difícil) com tanta facilidade? Por que razão Oswald recebera dinheiro de proveniência desconhecida, enquanto esteve desempregado nos Estados Unidos? Por que Oswald dissera ter experimentado um automóvel numa pista de Dallas, se não sabia guiar? Por que razão um técnico em armas de Irving, no Texas, declarara que, para um cliente que dizia chamar-se Oswald, montara uma lente telescópica no rifle, utilizando três parafusos, quando o telescópio da arma de Oswald estava fixado apenas por dois parafusos? Por que motivo Oswald, que o fbi conhecia perfeitamente, não fora vigiado na véspera e no dia do assassinato? Por que motivo a polícia e o fbi insistiram no fato de ele ser um atirador capaz de acertar num alvo móvel a cem metros de distância, quando falhou o tiro contra o general Walker, que era um alvo parado, apenas a alguns metros? Por que motivo a polícia de Dallas não se interessou pelo maço de cigarros vazio encontrado no depósito do sexto andar da biblioteca, tanto mais que Oswald não fumava? Por que razão Marina, a mulher de Oswald, afirmou que o rifle do marido tinha desaparecido e, mais tarde, declarou não saber que ele possuía uma arma? Por que motivo Oswald, logo após o crime, se preocupou em ir para casa buscar um casaco, quando, se fosse culpado, só pensaria em escapar da polícia? Por que razão, quando Oswald chegou a seu quarto de pensão depois do crime, um carro da polícia parou em frente, perguntou por ele e partiu em seguida? Que poderia levar Oswald a precipitar-se para o apartamento de Jaclc Ruby, depois do crime? Por que estavam as autoridades tão certas de que Oswald e Ruby nunca se tinham encontrado, quando viviam em prédios contíguos e possuíam as respectivas caixas de correio uma quase ao lado da outra? Por que o agente de polícia Tippit, antes de sair do carro para enfrentar Oswald, conversou tão cordialmente com ele, como se se tratasse de um encontro casual?

Relendo essas perguntas familiares, fascinado como sempre por suas implicações, Jay Doyle não podia resistir a um certo narcisismo literário. Por que a polícia de Dallas, tão experiente, ficara desorientada e hesitante depois do crime? Por que motivo alguns membros da polícia de Dallas deturparam ou ocultaram fatos e afirmaram publicamente estar na posse de provas que nunca apresentaram? Por que razão o xerife Decker alertou a polícia cinco minutos antes de ter sido disparado qualquer tiro? Por que motivo nem a polícia nem o fbi vigiaram a saída dos fundos da biblioteca, a não ser vinte minutos depois do crime? Por que não tomaram na devida conta as informações de uma testemunha, Worrell, que vira um homem sair pelos fundos e desaparecer? Por que motivo, como perguntou Bertrand Russell, a descrição de Oswald como assassino do policial Tippit foi transmitida pelo rádio da polícia de Dallas às doze horas e quarenta e três minutos, quando Tippit só foi morto às treze horas? Por que razão a polícia de Dallas atirou tão depressa a culpa em Oswald e por que motivo não procurou possíveis cúmplices na estrada e não mandou vigiar os aeroportos, trens e ônibus, para o caso de os suspeitos tentarem fugir? Por que razão, depois de submeterem Oswald a interrogatórios durante dois dias, o chefe da polícia de Dallas e o fbi não estavam habilitados a fornecer uma simples nota das perguntas e das respostas de Oswald? Para que foram os boletins médicos redigidos durante a autópsia do corpo do presidente, no arruinado Hospital de Bethesda? Por que foram as quinhentas e oitenta fichas de notas da Comissão Warren consideradas secretas, não sendo publicadas nem apresentadas a investigadores como Doyle?

Eram perguntas que Doyle tinha posto no papel, e havia muitas outras. Talvez algumas fossem importantes e as restantes, inúteis — pensou Doyle —, mas todas encerravam um mistério e, por isso, mereciam uma investigação a fundo, coisa que nunca fora feita. Por que motivo a testemunha secundária do assassinato do agente Tippit, um vendedor de automóveis de nome Warren Reynolds, fora selvagemente agredida em seu escritório, não muito depois da morte de Kennedy? Por que razão a namorada de seu agressor, Betty MacDonald, que tinha trabalhado para Jack Ruby como dançarina de striptease e que mais tarde fora detida com um pretexto discutível, se suicidara em sua cela? Por que motivo treze pessoas, que haviam testemunhado perante a Comissão Warren ou que tinham alguma ligação com a tragédia de Dallas, como observara o editor Penn Jones, Jr., morreram, umas assassinadas, outras suicidando-se, outras ainda devido a acidentes ou a causas desconhecidas, nos dois anos que se seguiram ao assassinato? Por que razão foi Jack Ruby admitido no Departamento de Polícia no momento exato em que Oswald ia ser transferido dali para a prisão do condado, quando até os agentes do serviço secreto eram obrigados a apresentar credenciais para entrar no edifício? Por que motivo a súbita prosperidade de Marina Oswald após o crime não foi investigada pela Comissão Warren? Por que razão o administrador dela, de quem se dizia ter conhecido Ruby, lhe fora indicado pelo fbi? Por que motivo a história de Marina, única fonte de prova, segundo a qual o marido tentara outrora matar o general Walker, fora aceita sem discussão?

Por quê, por que motivo, por que razão?

Baseado em suas pesquisas e investigações pessoais, Doyle soube que muitas outras pessoas, como ele, se interrogavam em busca das respostas e alimentavam suspeitas. Algumas chegaram mesmo a conclusões. Léo Sauvage, correspondente americano do fidedigno l.c Figaro, de Paris, escrevera que “é logicamente insustentável, legalmente indefensável e moralmente inadmissível afirmar que Lee Harvey Oswald foi o assassino do presidente Kennedy”. Essa opinião discordante — e Doyle o sabia —, assim como muitas outras, baseava-se em perguntas sem respostas, ou melhor, sem a única e verdadeira resposta, e para o mundo que a conspiração deixara de fora Doyle sabia que apenas duas pessoas tinham as respostas — a única e verdadeira resposta. Eram, evidentemente, Hazel Smith e ele mesmo. Só os dois sabiam que, em 1961, se preparava uma conspiração comunista internacional e que, em 1963, fora levada a bom termo. Porque os conspiradores necessitavam de um bode expiatório, serviram-se inteligentemente de Oswald, criando uma série de circunstâncias que vieram a incriminá-lo e a causar sua inevitável condenação. Foram os conspiradores que cometeram o crime cuidadosamente planejado, mas foi Oswald quem carregou a arma. Uma vez Oswald preso e morto (acidental ou criminosamente, Doyle não o sabia), os verdadeiros assassinos estavam a salvo com seu segredo. Mas houve duas coisas que não calcularam convenientemente:

a fragilidade de todos os segredos e a persistência de um jornalista da têmpera de Jay Thomas Doyle.

Aninhando-se no divã, Doyle mergulhara num estado de feliz divagação. No seu sonho de olhos abertos, via sua obra publicada e com uma bela encadernação. Via o êxito mundial que alcançaria:

um livro que seria um terremoto, que despertaria os espíritos dos homens, alterando-lhes as perspectivas. Seu livro abalaria a complacência americana e atearia o fogo da justiça no coração dos homens, como sucedera com O senso comum, de Thomas Paine, A desobediência civil, de Henry Thoreau, A cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher-Stowe, A selva, de Upton Sinclair, e A rua principal, de Sinclair Lewis. Com suas revelações políticas, sacudiria o mundo tão fortemente como Das Kapital, de Karl Marx, e Mein Kampf, de Adolf Hitler, embora de maneira diferente. Com sua publicação, Doyle libertar-se-ia automaticamente do abismo onde habitam os fracassados para erguer-se aos pináculos do êxito, com a riqueza e a influência restauradas e seu nome imortalizado.

Doyle apercebeu-se de que umas pancadas terrenas lhe perturbavam o doce e silencioso sonho de olhos abertos, e seu espírito, abruptamente distraído, voltou às coisas comezinhas. Pôs-se à escuta. As pancadas na porta tornaram-se mais espaçadas. Pondo de lado o precioso original, Doyle levantou-se e, surpreso, foi abrir.

Um jovem e imberbe mensageiro, envergando um elegante uniforme, como um cadete, apresentava-lhe numa bandeja de prata um solitário envelope. Procurando no bolso uma gorjeta, Doyle retirou uma mancheia de moedas austríacas, o equivalente a cinco xelins, e entregou-as ao rapaz, ao mesmo tempo em que pegava o envelope.

Fechou a porta e, observando os dizeres do fino envelope, “Para o sr. J. T. Doyle, em mãos”, ficou apreensivo. Seria de Sydney Ormsby, cancelando o jantar? Teria Ormsby contatado um editor americano, que o informara de que o manuscrito de Doyle não tinha bases e havia sido muitas vezes rejeitado? Ou teria Ormsby recebido uma chamada urgente para voltar a Paris ou regressar a Londres, mandando-lhe por isso uma mensagem avisando-o de que o encontro ficava adiado para melhor oportunidade?

Respirando ruidosamente pelo nariz, Doyle abriu o envelope e retirou duas páginas que, imediatamente, lhe aliviaram a opressão respiratória. A primeira era uma breve nota do diretor do Demel, um dos maiores gastrônomos do mundo, desculpando-se do atraso em atender o pedido de Doyle para ser incluído entre seus clientes de receitas. A segunda página continha a solicitada receita da Topfenpalatschinken, uma sobremesa de panquecas recheadas com saboroso requeijão. A leitura da receita provocou em Doyle um reflexo pavloviano, deixando-o com água na boca. E, então, detestou-se por sua fraqueza e por aquilo que a maldita receita simbolizava em sua vida atual.

Raivosamente, voltou para o divã, tentando não olhar para o original de Os conspiradores que mataram Kennedy, enquanto procurava no fundo um índice geral, puxando com força um espesso monte de folhas dobradas onde compilara “Notas e receitas para um livro de cozinha”. Abrindo-o, tentou evitar a primeira página, mas não o conseguiu, pelo que foi obrigado a ler seu título:

"As melhores receitas do Velho Mundo, por Jay Thomas Doyle”.

Rapidamente, Doyle percorreu as receitas inglesas e francesas e os cardápios de restaurantes já, coligidos e chegou à seção austríaca, onde guardou a receita de sobremesa do Demel. Estava fechando a pasta quando uma página se soltou. Erguendo-se do divã, Doyle viu que era a epígrafe do livro de cozinha:

“A descoberta de um novo prato contribui mais para a felicidade humana do que a descoberta de uma nova estrela”, e, datilografada por baixo, a origem da citação:

Brillat-Savarin. Corando daquela frivolidade e de sua degradação ao compròmeter-se em semelhante projeto, Doyle voltou a guardar a ofensiva página na pasta e escondeu-a o melhor que pôde.

De pé, imóvel diante do divã, sentia-se cheio de ódio pelo livro de cozinha — uma autêntica aberração. Não imaginava como pudera descer tanto, se bem que no íntimo o soubesse.

Sua coluna diária havia chegado ao auge quando, à custa de fadigas e canseiras, conseguira fazer em primeira mão a reportagem <lc violentos acontecimentos — a ação de fiscalização na Coréia, a Revolução Húngara alguns anos mais tarde, a convulsão argelina cm 1960, o bloqueio de Cuba, a parte inicial do conflito do Vietnam e dar-lhes colorido, filosofando acerca de suas consequências para a humanidade. Mas porque pequenos conflitos, em áreas impronunciáveis, haviam substituído as guerras, e porque esses conflitos começaram a repetir-se monotonamente, os leitores, apesar dos esforços do Departamento de Estado, começaram a perder cada vez mais o interesse e a enfastiar-se, acabando por se desinteressar também da coluna de Doyle. Sem crônicas nem jornais, Doyle entregou-se compulsivamente à comida, depois quase naturalmente, não apenas para entreter os leitores, mas porque comer se tornara seu principal interesse, e foi assim que começou a escrever artigos esporádicos sobre gastronomia e restaurantes de lugares exóticos. Quando, por último, perdeu a coluna, houve diretores de revistas ainda leais que se lembraram de seus mais recentes artigos gastronômicos e lhe confiaram uma seção sobre o assunto. Mais tarde, um editor sugerira-lhe a redação de um livro de cozinha, oferecendo-lhe um adiantamento razoável e despesas pagas. Doyle, ainda magoado com as rejeições de seu original sobre o assassinato, sucumbira perante o projeto do livro de cozinha e o adiantamento.

Chegara à Europa havia pouco mais de um mês, para comer, escrever sobre suas experiências culinárias e ganhar o suficiente para o sustento imediato e sua posterior viagem a Moscou. Mas a frustração transformara-o num glutão, de aparelho digestivo sempre insatisfeito, indo sempre além do preço da diária e de seus meios. Entretanto, sabia que, embora o horrendo livro de cozinha pudesse ajudá-lo em seu sustento, não o aproximaria de Hazel nem da solução de sua magna obra.

Era vergonhoso, ele admitia, que um talento como o seu, que dera ao mundo a notícia da reocupação de Seul, que entrevistara o general MacArthur depois de o presidente Truman o ter exonerado do comando do Extremo Oriente, que focalizara os nacionalistas porto-riquenhos quando estes recuperaram as armas deixadas na Câmara dos Deputados, que marchara com Fidel Castro na tomada de Cuba e lutara com as guerrilhas no Laos, se visse reduzido a colecionar receitas monstruosamente ricas em calorias para incluí-las num livro destinado a obesas donas-de-casa. Angustiava-o a perspectiva de ver a celebridade de sua crônica “Secreto e autêntico”, lida e admirada outrora pelos presidentes, banalizar-se a ponto de servir de capa a um livro de receitas. Não devia estar, nessa semana, ali em Viena, em conferência com pomposos rnaitres e gordos chefes de cozinhas cheias de vapor de restaurantes de luxo. Seu lugar, naquele momento, era Paris, onde deveria estar conferenciando com homens de Estado e entrevistando os ministros e chefes de Estado da União Soviética, da Grã-Bretanha, da França, dos Estados Unidos e da República Popular da China, reunidos no magnífico Palais Rose para salvar o mundo ou apressar seu fim, agora que a intratável China possuía a devastadora bomba de nêutrons.

À beira de uma depressão, Doyle foi salvo e reanimado por algo que ia esquecendo:

um salvador, chamado Sydney Ormsby, viria encontrar-se com ele naquela cidade, para uma causa comum. Por volta da meia-noite, Doyle teria os meios necessários para sua cruzada e estaria em condições de largar o maldito livro de cozinha e devolver o adiantamento que recebera por ele; com seu novo e rico aliado, poderia ir ao encontro da fama e da prosperidade. Ao lembrar-se de Ormsby, Doyle percebeu que tinha se esquecido por completo das horas. Olhou para o relógio. Faltavam apenas vinte minutos para o encontro. Não devia impressionar mal o novo patrão chegando atrasado, e isso galvanizou-o para a ação.

Rapidamente, Doyle despiu o short escocês. Depois, correndo para o banheiro, barbeou o enorme rosto em forma de lua cheia, lavou-o, enxugou-o, molhou o cabelo, penteou-se e perfumou-se com loção e água-de-colônia. Descobriu no guarda-roupa uma enrugada camisa italiana com monograma e, enquanto a vestia, examinou os três ternos bem passados. O primeiro pareceu-lhe um tanto lustroso e bastante usado, pelo que voltou a pendurá-lo. O segundo, que era o seu preferido, apresentava nódoas de comida na frente do paletó e na parte superior da calça:

vestígios de azeite e vinagre, demi-glace, mayonnaise, marinades, Worcestershire, que nenhuma lavadeira conseguiria remover. Relutantemente, Doyle voltou a pendurar também esse segundo terno. Restava o terceiro, feito por encomenda em Roma, havia quatro anos, para assistir à Conferência de Zurique. Estava razoavelmente conservado e limpo, visto que ele engordara e, por isso, vestira-o poucas vezes. Assentar-lhe-ia como um escafandro de mergulhador e apertá-lo-ia desconfortavelmente, não deixando espaço ao estômago para que se dilatasse durante a refeição, mas lhe daria um ar mais próspero e independente. Não havia possibilidade de escolha. Tinha de sacrificar o conforto àquela armadura de proteção.

Quando acabou de se arrumar, os inexoráveis ponteiros concediam-lhe nove minutos para comparecer ao encontro. Pegando a pasta com o original, Doyle saiu do quarto.

Uma vez fora do hotel, elegante mas constrangido sob o dossel do Imperial, achou que a distância até o restaurante do Hotel Sacher era suficientemente curta para percorrê-la a pé sem chegar atrasado. Recusando um táxi, seguiu pela larga Kártnerring, apreciando a atmosfera da noite promissoramente quente e suave. Quando chegou à rua principal de Viena, a Kártnerstrasse, virou à direita, juntando-se à multidão que esperava o sinal para atravessar e seguindo depois com ela. Em passadas curtas e rápidas, alheio à massa escura da Ópera Nacional que se erguia como um bloco quadrado à margem do caminho, ignorando a tentação das lojas — exceto quando se tratava do enlouquecedor aroma das salsichasquentes e da cebola, vindo de uma minúscula Gastwirtschaft, que o perseguia com insistência —, Doyle chegou à esquina. Virando à esquerda, caminhou lentamente por entre táxis e bicicletas com a graça de um urso bailarino, até o lado oposto da comercial Kärtner-strasse. Agora, com falta de ar, passava lentamente diante da porta do café e alcançava a Philharmonikerstrasse, cuja entrada, protegida por um dossel, dava para a danificada estalagem real de três andares dos Habsburgos, para o Hotel Sacher e seu restaurante.

Parou para tomar fôlego. Depois, apertando a pasta com tanta força como se contivesse um bilhete premiado da loteria, Jay Doyle penetrou no vestíbulo do hotel e dirigiu-se para a antecâmara do restaurante, com a sua galeria de retratos autografados por Romberg, Lehár, o duque de Windsor e um sem-número de hussardos fardados.

Ficou lisonjeado pelo fato de o chefe o reconhecer imediatamente e o saudar com um "Willkommen, Herr Doyle”.

— Guten Abend — respondeu Doyle no seu deficiente alemão. Como muitos baixos da ópera dos tempos idos, cujo conhecimento das línguas estrangeiras se limitava aos trechos líricos, Doyle não se entendia com o alemão, o francês e o italiano, a não ser no que se referia a pratos e bebidas especiais, pronunciando então essas línguas com correção e sem sotaque.

Satisfeito por ser conhecido depois das duas visitas que fizera ao Sacher para entrevistar a gerência do restaurante e os chefes de cozinha para seu livro de receitas, e onde provara a haute cuisine (com um generoso desconto), voltou ao inglês:

— Espero um convidado importante, o editor inglês Sydney Ormsby. Suponho que ele ainda não tenha chegado.

— Não, ainda não chegou, Herr Doyle. Mas prometo-lhe que tudo correrá conforme sua vontade. Posso indicar-lhe sua mesa?

— Obrigado. Esperarei lá por ele.

Acompanhando o chefe ao longo da comprida e estreita sala de jantar, com tapeçarias e mármores encarnados, candelabros circulares, talheres de prata e toalhas de damasco branco, austera e no entanto cheia de vida graças aos turistas ricos e aos casais vienenses sem trajes de cerimônia (no ar, a intimidade de outros tempos, de uma época em que os arquiduques se encontravam com suas amantes depois do balé-ópera), Doyle sentiu-se reanimado ao ver que escolhera o local apropriado para seu encontro.

Sentado à mesa, junto à parede de mármore, com a preciosa pasta ao alcance da mão, recusou uma bebida, entretendo-se com o guardanapo, meio atento à embaladora e suave música, de olhos postos na porta de entrada da sala de jantar. Subitamente, sua atenção concentrou-se numa jovem, encantadora e atrevida morena austríaca, muito agarrada ao companheiro, um velho obviamente riquíssimo, e Doyle sentiu toda a nostalgia de seu opulento passado. <,)imiulo desviou a cabeça e olhou para outro lado, viu que o chefe di' mesa se aproximava acenando, seguido de perto por um jovem •auprcendentemente baixo e com aspecto de jóquei, que cofiava o incongruente bigode descaído e fazia rodopiar uma bengala.

Com um esforço enorme, Doyle ergueu-se da cadeira e aprumou-se.

— O seu convidado, Herr Doyle — disse o chefe.

— Muito... muito prazer, sr. Ormsby — cumprimentou Doyl< apertando com a rechonchuda mão a do editor, ornada com um anel de brasão.

— Encantado, sinceramente encantado, sr. Doyle — respondeu Sydney Ormsby numa voz fina, com sotaque de Mayfair.

Visto que o chefe ainda se encontrava ali, Doyle completou as apresentações. Indicando desajeitadamente seu convidado, disse paia o chefe do Sacher:

— Ich erlaube mir, Herr Ormsby vorzustellen 1(1"Permita-me apresentar-lhe o sr. Ormsby.” Em alemão no original.

- N. do E.)

O chefe pegou a mão delicada, apertou-a uma, duas vezes, meio curvado, e retirou-se.

Um tanto atabalhoadamente, Doyle explicou:

— Cheio que foi bom conhecê-lo. Nunca se sabe se se virá a precisar de uma mesa reservada. Já tinha estado em Viena?

— Nunca, sr. Doyle. E parece-me que esta será a minha primeira e última visita.

— Oh, lamento. Há alguma coisa que não corre bem?

— Terei muito prazer em informá-lo. Importa-se que nos sentemos?

Desconcertado pela antipatia de Ormsby por Viena, Doyle esperou que o convidado se acomodasse e depois instalou-se também, comprimido contra a mesa. Outra coisa que desconcertou Doyle foi a inesperada aparência de seu convidado. Para Doyle, as pessoas dividiam-se em categorias estereotipadas, o que fizera com que suas simples crônicas fossem outrora tão bem aceitas pelo comum dos leitores. Para Doyle, o mundo da realeza era personificado por Francisco José; o mundo industrial, por Zaharoff; e o mundo da química, por Pasteur. Portanto, ao ouvir falar do “editor gigante”, esperava ver nada menos do que Ilearst. Em vez disso, tinha na frente a caricatura de um aluno de Eton, que lhe chegava aos ombros, aparentemente sem experiência, um pouco emproado, o irmão de alguém que devia ser impecavelmente repulsivo.

A um olhar mais atento, Doyle fixou Sydney Ormsby na totalidade, ocupado em fazer rodopiar a pequena bengala:

lustrosos cabelos cor de areia penteados para os lados, olhos de furão, nariz fino, grandes e rosadas orelhas, um bigode ralo, cor de gengibre, que escondia os dentes pequenos e amarelos, e um sorriso adenoidal e estranhamente pornográfico, que gradualmente ia se transformando numa careta. No entanto, a posição e a fortuna estavam patentes nos acessórios:

o precioso e flamejante alfinete de gravata Cartier, o relógio com a inscrição “Au vieux cadran”, a camisa de cambraia e o lenço de seda que despontava do bolsinho do terno de fibra vegetal Savile Row. Os acessórios não diminuíam a fealdade física de Ormsby. Desesperadamente, Doyle tentou acreditar que aquele jovem era algo mais do que aparentava, porque precisava acreditar que assim fosse, com efeito, porque enfim seu convidado se entusiasmara com a grande ideia do livro de Doyle e voara de muito longe para se tornar seu patrão.

Com um sobressalto, Doyle viu que o Ober, o garçom, se inclinava para Ormsby e que este lhe pedia um uísque duplo, com soda e sem gelo.

Sem preâmbulos, Doyle declarou a seu convidado:

— Se não se importa, sr. Ormsby, permito-me lembrar-lhe... que o cardápio é uma maravilha:

tem à sua frente um conhecedor. A cozinha do Sacher requer um paladar absolutamente são e crítico, pelo que a acidez do uísque poderia... bem, poderia interferir em sua apreciação do jantar. Espero que não me leve a mal, mas é que, embora seja um especialista em política, minha vocação é a gastronomia.

— Não o levo a mal. Até lhe agradeço o conselho.

— Se deseja beber, sugiro-lhe uma cerveja vienense, ou, antes, um copo de Schiuechtar.

Sydney Ormsby olhou para o garçom:

— Um uísque duplo.

Constrangido, Doyle encomendou uma garrafa de Schiuechtar.

— Agora, meu caro amigo — disse Ormsby, encarando Doyle —, quer saber por que esta é a minha primeira e última visita a Viena? Dir-lhe-ei com todo o prazer. Cheguei aqui há cinco horas, e sabe o que descobri? Que esta danada aldeia não tem mulheres, uma única fêmea, e não há vida noturna depois das dez horas.

— Se por “mulheres” quer dizer mulheres bonitas, Viena as possui e em quantidade.

— Sim? Onde? Tudo o que vi hoje foram Hausfrauen 1(1 "Donas-de-casa." Em alemão no original. - N. do E.) inchadas, caixeiras cheirando a alho e secretárias de pernas tortas.

— É claro que terá de procurar...

— Desculpe, meu caro amigo, mas não tenho tempo para procurar. Seja como for, sou capaz de julgar uma cidade numa hora.

Quer elas andem por aí, à vista de todos, quer não, garanto-lhe que isto não vale nada, Doyle.

Sem dúvida tem razão no que se refere à vida noturna. Há alguma para os turistas, mas de resto é praticamente inexistente. (Ireio que é um negócio que não vinga aqui. Depois de cinco refeições, que é a média vienense, já não se serve para nada, a não ser para ver televisão ou dormir, o que vem a dar no mesmo.

O garçom tinha trazido as bebidas, e Sydney Ormsby pegou a sua e ergueu o copo para brindar.

— A Paris... onde há ação.

Doyle ergueu o copo de cerveja, sorrindo contrafeito, e bebeu um trago, enquanto Ormsby esvaziava metade de seu uísque.

— A verdade — dizia Ormsby — é que só tenciono juntar-me a meu irmão amanhã, mas podemos concluir nosso negócio esta noite, e, nesse caso, não há motivo para não sair daqui no avião da meia-noite ou até mais cedo.

Pela primeira vez desde que se encontrava com o editor, o coração de Doyle pulsou alegremente. O otimismo de Ormsby quanto à conclusão do negócio nessa noite era tudo o que Doyle esperava. Com ou sem jantar, era preciso que aquele assunto ficasse resolvido, e sem demora. Mas, antes que pudesse prosseguir, dois pequenos cartões meteram-se de permeio entre ele e Ormsby. Eram os cardápios.

Ao tentar ocultar o cardápio e sugerir outra rodada de bebidas, uma vez que elas pareciam criar em Ormsby uma atmosfera de receptividade melhor do que a comida, Doyle ficou paralisado perante a sonora exclamação de Ormsby:

— Meu Deus, só agora reparo que estou morrendo de fome! Se não tem nenhuma objeção, podemos pedir o jantar.

Ante a repentina fome do convidado, Doyle quase perdeu a esperança no negócio.

Ormsby lia atentamente o cardápio. Depois, resmungou:

— É pior que o Almanaque de Whitaker. Não tenho paciência. Tem alguma sugestão?

Doyle respirou, aliviado. Nesse capítulo pisava terreno firme.

— Na verdade, tenho uma experiência considerável da cozinha vienense. Embora ela não possua a arte e a variedade da cozinha francesa, estou certo de que achará os pratos do Sacher excepcionais.

— Ótimo, ótimo! — exclamou Ormsby, batendo com os dedos na mesa. — Contanto que se coma. Estou com fome.

— Sim, claro. Como entrada, recomendo-lhe Butterteigpastetchen mit Geflugelragout, umas empadas de galinha com creme que se desfazem na...

— Esqueça a entrada.

— Então, uma sopa. Digamos uma Rindsuppe mit Leberkondel, que são almôndegas de fígado com consommé de carne.. .

— Se o diz, é porque é mesmo. Passemos ao prato principal...

— Sugiro-lhe a especialidade da casa, o Tafelspitz...

— Que raio é isso?

— Bem, é carne cozida, mas...

— Esqueça isso! Quanto à carne cozida, basta-me a que como em Londres.

— Mas, sr. Ormsby, não é a mesma coisa que a carne cozida inglesa. Trata-se de um sem-número de pequenas fatias que fazem do Tafelspitz do Sacher um magnífico petisco. Sugiro-lhe...

— Desculpe, sr. Doyle, mas não quero esse Tafelqualquercoisa.

Doyle, já suando, encolheu os ombros:

— Nesse caso, sugiro Wiener Schnitzel, costeletas de vitela fritas.. .

— Sr. Doyle, conheço as Wiener Schnitzel. Bom. Venha isso.

— E como sobremesa, naturalmente, os folhados que deram fama ao Sacher.. .

— Não diga! Deixe-me adivinhar... Sachertorte. — Ormsby sorriu maliciosamente. — Detesto-a.

— Detesta-a? — Doyle estava espantado. — Mas é o original bolo de chocolate, creme e damascos que o Sacher inventou para o príncipe Metternich, quando ele...

— Eles têm compota de fruta?

— Ah! Gemischtes Kompott, naturalmente.

— Nesse caso, compota de fruta. Não gosto de comer muito quando tenho negócios a tratar. E peça outro uísque.

Com um suspiro, Doyle chamou o garçom. Um tanto embaraçado, satisfez o pedido de Ormsby. Quanto a ele, hesitou, inibido pela observação do editor a propósito de comer muito. Incapaz de resistir ao tentador cardápio, rendeu-se e amaldiçoou-se por não ter tomado uma das pílulas amarelas contra o apetite exagerado. Mas ainda conseguiu lutar:

pediu uma tigela pequena de sopa em vez de uma grande, uma porção normal de Tafelspitz em vez de uma porção reforçada e, para terminar, um pouco de Sachertorte e café.

Quando o garçom chegou com a lista das bebidas, Ormsby desinteressou-se e deixou a critério de Doyle a escolha dos vinhos. Depois de uma consulta morosa, este recusou os vinhos tintos de Heuriger, por serem demasiado verdes, e pediu uma dispendiosa garrafa de Rotwein l(1 “Vinho tinto.” Em alemão no original. - N. do E.).

Voltando de novo a atenção para Ormsby, Doyle notou que u editor o observava.

— Parece-me que é um bom garfo, sr. Doyle.

Doyle quis negar, mas compreendeu que não podia ocultar .1 cara bolachuda e o proeminente abdômen.

— Como disse um dia um filósofo vienense — começou, com forçada naturalidade —, todos os homens nascem com uma sentença de morte, e, porque vivem continuamente com essa sentença em suspenso, o único comportamento sensato é “esperar o melhor e apreciar uma boa refeição”.

Ormsby sorriu:

— Um pouco triste, mas concordarei se substituir uma “boa refeição” por uma “boa mulher” e acrescentar, se é que é lícito misturar negócios com prazer, “e deliciar-se com um bom.livro”.

— Ormsby tomou o uísque de um trago e piscou os olhos:

— Foi por isso que fiz esta viagem, meu velho, para ler um bom livro.

Doyle corou. A irritação inicial de seu convidado tinha sido ofuscada pelo uísque. Ormsby tornara-se até simpático. Doyle esperou que o consommé, as torradas e os pães estivessem sobre a mesa e então disse:

— Veio ao lugar certo, sr. Ormsby. Esse livro é o produto de anos de trabalho e investigações...

— É o que diz em sua carta:

um depoimento notável. — Com a colher cheia de sopa e sem levantar os olhos, acrescentou:

— Sinto-me honrado com sua companhia. Suponho que nenhum outro editor tenha visto o original.

Esforçando-se para que a voz não o traísse, Doyle respondeu, num tom monocórdio:

— Oh, não! Não saiu de minhas mãos. Assim que o terminei, escrevi-lhe imediatamente.

— Não se arrependerá. Acontece — prosseguiu, tirando do holso um opúsculo colorido — que somos especializados em obras políticas. — Estendeu o opúsculo a Doyle e continuou:

— Isto deve interessar-lhe. É o nosso catálogo. Encontrará nele uma preponderância de livros políticos, histórias interessantes e biografias, muitas delas prefaciadas por estadistas. Como sabe, meu irmão, Sir Austin, faz parte do gabinete do primeiro-ministro. De fato, chega amanhã a Paris com o primeiro-ministro, para a conferência de cúpula na segunda-feira, e, não seria necessário dizê-lo, a posição de meu irmão atrai a nossa casa importantes figuras políticas e autores. Folheie o catálogo.

— Obrigado — disse Doyle, lisonjeado por se ver uma vez mais no rol das importantes figuras políticas e autores.

Terminada a sopa, Doyle folheou o catálogo. Flavia o habitual número de livros ingleses sobre o tempo e os pássaros, os grandes solares ducais e o críquete, sobre pintura bizantina e alemã, sobre relógios e locomotivas, a Primeira Guerra Mundial, o Grande Incêndio, a rainha Vitória, os dois Lawrences, a cultura islamita e jardins de rosas... mas havia também, como notou Doyle, autobiografias e aventuras pessoais de chefes políticos internacionais, jornalistas, exploradores e agentes secretos.

Doyle sentiu-se impressionado e orgulhoso por figurar entre eles. Devolveu o opúsculo a Ormsby, que devorava o Wiener Schnitzel, e disse:

— Será para mim uma honra figurar neste catálogo.

— Esperemos que isso seja para breve — respondeu Ormsby, entre duas colheradas, ao mesmo tempo que ocultava o relógio. — Creio que é tempo de tratarmos de negócios. Com boa vontade, concluí-los-emos numa hora. Poderei apanhar ainda o avião para Paris, esta noite, enquanto você trata de acabar de datilografar o livro. O que lhe parece?

Saboreando o delicioso Tafelspitz, Doyle hesitava cm estragar seu prazer gastronômico para se preocupar com as reações de Ormsby em face do original, durante o jantar. Além disso, desagradava-lhe a competição entre o original e o Wiener Schnitzel, se bem que o triunfo final o enchesse de júbilo.

— Como achar melhor, sr. Ormsby.

— Você tem o original. Eu tenho o contrato. Acho que o melhor é eu ler o manuscrito imediatamente. Como sabe, é uma mera formalidade, mas tem de ser... — Fez uma pausa e inquiriu:

— Não é muito longo, não é mesmo?

— Oh, de maneira nenhuma! — exclamou Doyle, correndo rapidamente o fecho da pasta e retirando dela o primeiro capítulo e o esboço. — É coisa para meia hora. — Tentou impedir que a mão lhe tremesse, enquanto estendia, por cima da mesa, o original a Ormsby. — Tenho... tenho certeza de que vai gostar.

— Não receie, meu velho — disse Ormsby, abrindo a pasta e colocando-a ao lado dos restos de Wiener Schnitzel. — Se não se importa de continuar a comer sozinho seu bife, vou me concentrar no nosso livro.

Doyle sentiu a garganta seca:

— Não se preocupe comigo. Leia.

Sydney Ormsby entregou-se imediatamente à leitura, e Doyle fingiu-se desinteressado e apenas preocupado com o Tafelspitz, que parecia ter perdido o gosto e não lhe saciava a fome.

Com aplicação, Doyle acompanhava cada fatia de bife com um bocado de pão. Tinha a testa úmida e um nó na garganta, enquanto tentava engolir o último pedaço de carne, empurrando-o com mais pão e um gole de vinho. Com a cabeça inclinada para o prato vazio, lançou um olhar ao juiz que tinha à sua frente. Ormsby percorrera quatro páginas e estava na quinta. Seguindo os olhos míopes do editor, à medida que iam de uma à outra margem do papel, Doyle quase podia repetir, palavra por palavra, o que o outro estava lendo. Fascinado, como que hipnotizado, não despregava os olhos dos de Ormsby, fitos nas páginas. Sua mão direita mergulhou distraidamente no cesto do pão, descobriu que já não havia nenhum e retirou-a. A vergonha apossou-se de Doyle. Tinha comido todos os pães. Devia pedir mais? Não, pois isso poderia distrair Ormsby. Seu traidor e insaciável estômago exigia mais. Silenciosamente, Doyle tentou acalmá-lo com restos espalhados pelo prato e com as migalhas dispersas pela mesa. Conseguiria resistir às prementes exigências do estômago? Não seria melhor pedir outra porção de Tafel-spitz? Não, iria perturbar a leitura de Ormsby.

De repente, Ormsby ergueu a cabeça e passou a língua pelos dentes:

— O primeiro capítulo está muito bom. É realmente chocante. Temos de publicá-lo depressa. — Sorvendo um trago de vinho, voltou a página e começou a ler o esboço.

Doyle respirou, aliviado. Sentia-se, agora, loucamente radiante com o admirável Ormsby. Este se transformara aos seus olhos:

era Ormsby, o sábio, Ormsby, o formoso; Péricles e Apolo num só homem. Uma a uma, Doyle viu as páginas serem voltadas e procurou no rosto de Ormsby um sinal, um mover de sobrancelhas, um pestanejar, um suspiro, qualquer coisa que significasse aprovação. Mas a cara do editor era uma máscara impenetrável.

Doyle não pôde aguUentar mais a ansiedade. Debruçou-se para a frente e segredou:

— Desculpe-me. Tenho de ir ao banheiro.

Mas Ormsby não deu mostras de tê-lo ouvido. Tentando comprimir o estômago para não bater na mesa, Doyle ergueu-se da cadeira e atravessou penosamente a sala.

Uma vez no banheiro, ficou sem perceber o que fazia ali. Com movimentos incertos, lavou as mãos, secou-as e consultou o relógio. Tinham passado cinco minutos. Mais vinte e Ormsby teria terminado. Doyle não se decidia a regressar ao campo de batalha. Foi então que o estômago, gritando por um anestésico, indicou-lhe a direção.

Abandonou rapidamente o banheiro e, passando pelo chefe de mesa, disse que ia apanhar um pouco de ar fresco, antes da Sachertorte. Uma vez na rua, Doyle virou à esquerda e quase palmilhou toda a Kártnerstrasse, até que localizou o velho café de que se havia subitamente recordado. Entretanto, ocupou uma cadeira ao lado de uma mesa de mármore, entre o fonógrafo e a máquina do café. Ignorando os jornais que o garçom lhe trouxe, Doyle explicou que estava com muita pressa e queria qualquer coisa que estivesse pronta e quente. Informado de que o Rindsgulyas estava nessas condições, encomendou uma porção dupla.

Em menos de cinco minutos, o ensopado estava na sua frente. Lançou-se a ele com o entusiasmo de um bárbaro que viola uma vestal. Comeu, mastigou e engoliu sem que o garfo parasse um momento de subir e descer. Em dez minutos, o prato estava vazio. Arrotando, Doyle pagou a conta, ergueu-se pesadamente, enfartado, saiu do café e regressou ao Sacher.

De novo no restaurante do hotel, de nervos tensos e empazinado pelo ensopado, dirigiu-se para a mesa, exercitando a mão direita, que iria assinar o contrato. Ormsby, como que alheio a tudo, acabava a compota, tendo ao lado o original aberto. Levantou os olhos numa interrogação muda, enquanto Doyle ocupava seu lugar.

— Desculpe a demora — disse ele.

Ormsby mordiscou uma fatia de pêra, mas não disse nada.

Doyle, inquieto, apontou para o original.

— Já... já terminou?

— Não sei.

Espantado, Doyle perguntou:

— Não sabe?

— Não sei se acabei. Creio que falta a última página. Onde está?

Consternado, Doyle agarrou o manuscrito aberto, percorreu a última página e depois olhou, admirado, para o editor:

— Mas é esta a última página. Está aqui. Já a leu...

— Quer dizer que é só isso? Meu caro, não estará brincando comigo?

O rosto de Doyle contraiu-se:

— Não o compreendo. Está tudo aí...

A fisionomia de Ormsby eudureceu:

— Meu bom amigo, se isso é tudo, então obrigou-me a vir inutilmente a esta miserável aldeia. O que aí tem seria aceitável, com algumas correções, para uma das séries juvenis que publicamos, intitulada Contos fantásticos de todo o mundo. É que seu pobre original não passa de um conto fantástico. Sua carta prometia-me um depoimento documentado, e, devido a seus escritos e a sua reputação, gastei tempo e dinheiro e desviei-me do caminho para ver sua mísera obra-prima. Em vez disso... bem, o que é isto, afinal? Uma mancheia de alusões e deduções requentadas e repetidas acerca dos erros existentes no Relatório da Comissão Warren, para concluir que Oswald não foi o culpado.

— Claro que não foi! — exclamou Doyle. Depois, dando-se conta de que estava chamando a atenção dos outros comensais, tentou baixar a voz:

— Oswald não foi o culpado. Foi tudo obra de uma conspiração comunista. O senhor leu o primeiro capítulo e o resumo. Ouvi a verdade em primeira mão aqui mesmo, nesta cidade, em 1961... e é autêntica. Ouvi falar do plano para assassinar Kennedy, e ele foi assassinado...

Havia certa irritação na voz de Ormsby:

— Seu presidente foi assassinado por um único homem, excêntrico e psicopata. Não há em seu livro uma única prova de que alguém tenha feito isto ou aquilo, de que tenha se tratado de um complô. O que ouviu não passou de estúpida tagarelice de uma i n-sloucada.

Doyle viu-se constrangido a implorar:

— Ouça, sr. Ormsby. Juro-lhe que é tudo verdade, é...

— É pior do que uma palermice, é uma nulidade — concluiu Ormsby, irritado. — Se é verdade, por que não cita o nome da mulher que o informou e o de seu altamente colocado amigo russo? Por que oculta os nomes dos conspiradores que planejaram a morte do presidente? Onde está essa espécie de verdade, e onde estão os depoimentos e a documentação que a apoiam?

Ao ver que Ormsby pegava na bengala, Doyle tentou desesperadamente retê-lo:

— Mas, sr. Ormsby, não compreende? Não vê que posso arranjar o que quer, todos os nomes, os depoimentos, tudo o que pede? Basta-me um contrato e um adiantamento para... para poder ir procurar as pessoas indicadas e pagar-lhes... é tudo o que preciso. O original, tal como está, é suficiente para justificar um contrato e me dar uma oportunidade...

Sydney Ormsby estava de pé:

— Meu caro, a Ormsby Press Enterprises, Limited não é uma instituição de caridade. Não fazemos doações de libras a alquimistas para encorajá-los em seus fantásticos projetos. Nosso negócio é com autores verdadeiros, que escrevem livros verdadeiros, e não com fantásticos obcecados.

Enquanto o escutava, Doyle viu como Ormsby era incrivelmente feio, e que, para cúmulo, parecia-se com alguém da antiga Roma:

o vigésimo terceiro imperador, Heliogábalo, um indivíduo sádico, asqueroso, afeminado, que aos quarenta anos pintava os olhos e as faces e mantinha a seu lado, como favorito, um robusto escravo. Era Heliogábalo sem tirar nem pôr, essa minúscula e afetada criatura que nunca usava uma túnica duas vezes, que guinchava e ria histericamente, que se servia do poder para assassinar crianças indefesas e que se rodeava de sicofantas para organizar festins com ovos de faisão, sementes cobertas de açúcar em pó, calcanhares de camelo, e que, quando sua hora chegou, foi arrancado, entre gritos e pontapés, de seu esconderijo numa latrina e depois assassinado e atirado ao Tibre.

Doyle olhou para Ormsby como que para se certificar de que era Ormsby e não esse Heliogábalo que fora morto e atirado ao Tibre.

Parecendo vir de longe, a voz gritante do editor, com sotaque de Mayfair, chegou aos ouvidos de Doyle:

— Creio que não preciso agradecer-lhe o dispendioso jantar, Doyle, uma vez que me deve muito mais por esta disparatada viagem e por lhe ter satisfeito os desejos. Boa noite.

Sozinho, Jay Thomas Doyle sentiu-se inibido de pensar. Seu insaciável estômago resmungava. Inconscientemente, decidiu acalmá-lo. Comeu a Sachertorte, tomou o café, pediu e comeu outro cesto de pãezinhos, outra Sachertorte e tomou mais duas xícaras de café. Quando não pôde mais, grasnou um “Zahlen, hitte”, e o Ober acorreu com a conta numa bandeja de prata.

Friamente, Doyle examinou cada parcela e estremeceu ao verificar o total. Se tivesse conseguido o contrato e o adiantamento de Heliogábalo, como esperava, a conta teria sido razoável. Embora lhe abalasse um pouco o orçamento, poderia considerá-la um bom investimento a curto prazo, sobre um futuro próximo que lhe traria dinheiro em abundância. Mas nas condições atuais, tendo como trabalho apenas um maldito livro de cozinha, essa conta era uma autêntica catástrofe.

Doyle tossiu e disse para o espantado garçom:

— Gostaria de falar com o chefe.

O garçom hesitou:

— Há alguma coisa errada?

— Chame o chefe.

Enquanto esperava, ansioso, Doyle perguntou-se se sua atitude deveria ser de ofendida arrogância ou de bajulação. Entretanto, o preocupado chefe apareceu e Doyle decidiu-se pela lisonja ofendida. Segurando a conta, começou:

— Herr Chef...

— Diga, Herr Doyle.

— Parece-me que há um pequeno erro de omissão. Esqueceu-se dos meus vinte por cento de desconto.

— Desconto? Não compreendo — disse o chefe, pegando a conta, mas sem olhar para ela.

Aquilo era embaraçoso, e Doyle tinha dificuldade em prosseguir; mas, agora, cada centavo contava. Quando um homem estava falido, tudo — rogos, empréstimos, roubos na expectativa de dias melhores — se justificava.

— Quero lhe lembrar apenas que, das outras vezes que vim aqui, o senhor fez-me um desconto de vinte por cento. Devo acrescentar que este jantar está ligado a interesses de publicidade. Com efeito, reservo ao Sacher um espaço considerável em meu livro de receitas, que terá grande saída. Eu...

Calou-se, envergonhado, porque via que o respeito profissional do chefe se transformava em desdém pessoal. Já não eram o comensal e o garçom, mas dois iguais que regateavam como peixeiras no mercado.

— Posso apresentar o caso à gerência, senhor, mas duvido que i resposta seja diferente. A política da maior parte dos restaurantes de luxo, na Áustria, é cooperar com a imprensa, mas dentro de t.rios limites. Foi nosso convidado duas vezes numa semana e procuramos mostrar-lhe nosso apreço. Mas não é costume que à n rceira vez o cliente espere...

A humilhação tingira as faces intumescidas de Doyle, que Icntou salvar um último vestígio de dignidade invocando a justiça:

— Seja como diz, chefe, mas pareceu-me justo que cooperasse, uma vez que tenciono ajudá-los. O dinheiro não significa nada para mim. É uma questão de princípio. Contudo, se não quer cooperar, esqueçamos isso.

O chefe fingia examinar a conta. Quando voltou a levantar a i abeça, sua atitude reassumiu a delicadeza servil, mas o tom de voz não conseguia disfarçar a irritação:

— Muito bem, Herr Doyle. Vamos transigir desta vez e cooperar. Terá um desconto de dez por cento.

Empunhando um lápis, o chefe emendou a conta e jogou-a na mesa. Fez uma rígida vênia e retirou-se.

Doyle, contando as poucas notas que possuía, compreendeu que obtivera uma vitória assaz mesquinha. Ergueu-se da mesa, bamboleando, e reparou que ninguém, nem mesmo o chefe, lhe desejava boa-noite. Com efeito, a noite não fora boa para nenhum deles.

O ar da rua, apesar da queda da temperatura, não refrescou Doyle. Era uma dessas noites opacas, que pesam no espírito e na alma, que impedem que os seres humanos vejam o que quer que seja. Caminhou às cegas pela Kártnerstrasse, como por uma comunidade desolada e sem vida, de que ele fosse o único sobrevivente.

Ficou surpreso quando descobriu a luminosidade dos neons do I lotei Imperial. Não compreendia como chegara até ali. Retomou novamente consciência de sua existência corporal. Fisicamente, sua compulsiva voracidade debilitara-o:

respirava com dificuldade e doíam-lhe o estômago e as pernas. Espiritualmente, era vítima do pior dos desesperos. O original sobre o complô e o assassinato tinha tantas chances de ser publicado como o livro de Jashar ou qualquer outro dos livros perdidos da Bíblia. Suas esperanças quanto à solução final haviam-se desvanecido, porquanto, dada sua atual situação financeira, era como se Moscou ficasse em Marte. Restava-lhe o livro de receitas, que lhe permitiria comer até a morte, mas era uma anistia cruel, porque demasiado lenta.

Entrou no vestíbulo do hotel, dirigiu-se para a mesa do porteiro, pegou a chave de seu quarto e a edição matutina internacional do Herald Tribune, de Nova York (como os teimosos parisienses, persistia em designar o velho jornal pelo nome anterior, recusando lealmente aceitar o título Washington Post).

Contra o costume e sem interesse, já que o mundo perdera seu atrativo, desdobrou o jornal e percorreu automaticamente a primeira página, enquanto atravessava o vestíbulo em direção ao elevador. A notícia dizia que os ministros de cinco potências tinham precedido os respectivos chefes na sua chegada a Paris, a fim de prepararem, no Quai d’Orsay, a agenda para a primeira conferência de alto nível, na segunda-feira seguinte. Noutra coluna, relatavam-se os preparativos, em Orly, para a recepção ao presidente dos Estados Unidos e sua comitiva, nessa tarde, assim como ao primeiro-ministro da Grã-Bretanha, na segunda-feira de manhã, ao primeiro-ministro da União Soviética e ao chefe do Partido Comunista Chinês, na segunda-feira à tarde. Os títulos principais vinham ao pé da página e referiam-se ao início de uma doca em Nova York, à apresentação das coleções dos grandes costureiros franceses, dali a dois dias, e à chegada do ex-presidente dos Estados Unidos, Emmett A. Earnshaw, a Londres, para ser homenageado pela Sociedade de Amizade Anglo-Americana.

Todas aquelas pessoas e efemérides eram tão remotas e sem relação com a vida de Doyle como se estivessem na Gazette, de Boston, de 14 de junho de 1777.

Voltando a primeira página, entrou no elevador e indicou o andar ao ascensorista. Enquanto as portas se fechavam e o sepultavam, o olhar de Doyle fixou-se alheadamente na terceira página da edição internacional do Herald Tribune; espantado, piscou os olhos e logo os arregalou. Ali, na mancha impressa, via-sp o longo e familiar rosto feminino que o fitava. E, por baixo do'rosto, o título e a notícia que o deixaram atônito:

 

“hazel smith,

FAMOSA CORRESPONDENTE DA ‘ANA*, EM PARIS

PARA A COBERTURA DA CONFERÊNCIA DE CÚPULA

 

A ana mobilizou seus principais correspondentes de todo o mundo para garantir aos leitores a cobertura completa da conferência internacional mais importante da história. Entre eles encontra-se a célebre Hazel Smith, veterana da agência ana, do escritório de Moscou, que chegou ontem a Paris para dar aos leitores informações pormenorizadas sobre as coloridas personalidades que assistirão à conferência. Iniciamos a série de crônicas diárias de Hazel Nmilh, começando com a primeira, datada de hoje, em Paris (ver coluna 8).”

Com os olhos fora das órbitas, a cabeça de Doyle guinou para ,i coluna da direita. Não havia dúvida. Ali estava a indicação “Por I luzel Smith”. Ali estava a data, “paris, 14 de junho (ana)”. Ali estava seu texto:

“A segunda cidade do mundo, a Cidade-Luz, apresenta-se hoje mais brilhante do que nunca, porque paira na atmosfera a resplandecente promessa de paz na terra. Ontem, pouco depois de ter aterrizado em Orly, jantei abundantemente no Maxim’s com as esposas de vários delegados russos, que conheci em Moscou. Elas foram unânimes na sua crença de que o primeiro-ministro Alexander Talanski e ioda a delegação da URSS estão determinados a juntar-se ao Ocidente, na convicção de que este garantirá o desarmamento nuclear e a paz futura. Desde que a China comunista testou sua primeira bomba de nêutrons e lançou seu primeiro míssil balístico intercontinental, os russos inclinaram-se para o Ocidente, cientes de que a nova China não poderá prosseguir sozinha e acabará por ter de juntar-se à comunidade pacífica das nações que lutam pelo desarmamento. E era isso o que as esposas dos russos celebravam, e sua conversa no Maxim’s não era sobre política, mas sobre moda feminina, alta costura e os modelos de Yves St.-Laurent, Marc Bohan, balenciaga, Givenchy e Legrande, que apresentavam suas coleções em concorrência com a abertura da Conferência de Cúpula. Também...”

Doyle sentiu que lhe tocavam no braço e ergueu os olhos, espantado.

Era o rapaz do elevador, que dizia:

— Seu andar, senhor.

Doyle compreendeu que as portas do elevador estavam abertas há algum tempo. Confuso, voltou a olhar para o jornal, para a fotografia de Hazel Smith (solene e subitamente bela), para a indicação de seu nome.

Seu espírito, tão magoado com a derrota dessa noite, voltava à vida, pleno de excitação.

Hazel Smith em Paris! Pela primeira vez, ao fim de tantos anos, Hazel Smith estava de novo ao seu alcance!

Numa fração de segundo, as esperanças, os sonhos de glória, reavivaram-se. Agora, tudo, tudo lhe parecia possível.

— Leve-me ao vestíbulo — ordenou ao rapaz do elevador.

— Ao vestíbulo?

— Depressa!

O assustado rapaz apertou os botões, as portas de aço fecharam-se e o elevador iniciou a descida. Entretanto, o espírito de Doyle ia se desanuviando. Com a ajuda de Deus, pensava, ainda podia se salvar. Não precisaria de adiantamentos. Não seria obrigado a ir a Moscou. Não necessitaria de ninguém, a não ser de Hazel, e ela tinha saído de seu refúgio, estava ao alcance de sua mão, quase a seus pés. Não teria de apelar para sua bolsa, apenas para o coração. Todas as mulheres têm coração, e todo coração de mulher é sensível e indulgente. Tentaria mostrar-se simpático. Faria dieta, perderia dez quilos numa semana. Voltaria a ser jovem e atraente. Amá-la-ia. Tinha-a amado já; mas agora amá-la-ia mais, como nunca amara ninguém em toda a sua vida.

— O vestíbulo, senhor — anunciou o rapaz.

Jay Thomas Doyle meteu o jornal dobrado debaixo do braço e correu, ao longo do tapete vermelho, até o porteiro, que o esperava. Tirando a carteira do bolso, Doyle extraiu algumas notas de um xelim e meteu-as na mão do confuso porteiro.

— Para você — disse Doyle. — Eis o que quero que faça. Reserve-me lugar no primeiro avião que partir esta noite para Paris... esta noite, percebeu? Tenho de estar de manhã na Conferência de Paris.

— Refere-se à Conferência de Cúpula, Herr Doyle?

— Sim, de uma certa maneira. Podemos dizer que sim — respondeu Doyle. — Estarei em meu quarto, fazendo as malas. Veja o que consegue.

Depois, ofegante e feliz, balançando a pasta de couro, Doyle voltou para o elevador a fim de se preparar para a conferência.

Enquanto a audiência aplaudia suas últimas frases, o ex-presidente dos Estados Unidos, Emmett A. Earnshaw, fez uma pausa, sorriu calorosamente e pegou o grande copod’água colocado na estante ao lado. Bebendo um gole para refrescar a garganta seca, Earnshaw ficou acenando aos conhecidos, do tablado do salão de baile do Hotel Dorchester, de Londres, recebendo com alegria a primeira manifestação pública que lhe faziam havia muitos meses.

Bamboleando suavemente nos calcanhares, Earnshaw não quis interromper as palmas. Era maravilhoso ser aplaudido e desejado por alguns, onde quer que fosse. Não havia dúvida de que, três anos depois de sua saída da Casa Branca, ainda era venerado por aquele bom e civilizado povo do outro lado do oceano, longe de sua pátria. Circunspectamente consciente da bandeira de estrelas e listras e do pavilhão da Union Jack atrás dele, da fila de dignitários, que incluía os patrocinadores, Sir Austin Ormsby e Lorde Eric Blenkinsop, sentados atrás, e jubilosamente consciente das compridas mesas ocupadas pelos quatrocentos membros da Sociedade da Amizade Anglo-Americana, que se estendiam à sua frente, a autoetima do ex-presidente elevou-se um pouco.

Os aplausos diminuíram. Ele achou preferível não estragar a boa impressão com uma oratória excessiva. De manhã, no Palácio de Muckingham, a soberana reinante da Grã-Bretanha tinha-lhe concedido o kbe, que o tornava cavaleiro honorário da Ordem do Império Britânico. A cerimônia da condecoração realizara-se à tarde. E agora, durante vinte e cinco minutos, no seu expressivo e despretensioso estilo (a que malévolos detratores políticos chamavam “estilo circunloquaz”), relembrava suas amigáveis relações com os primeiros-ministros ingleses, tanto do Partido Trabalhista como do Conservador, a herança que os Estados Unidos haviam recebido da mãe-pátria, e a necessidade, para as duas nações, de continuarem lado a lado, como modelos de democracia, de livre iniciativa e de civilização para as nações que em breve fariam parte do mundo livre.

Tudo aquilo fora dito sem repetições, utilizando uma única folha de apontamentos. Essa falta de texto preparado era uma das poucas convicções de Earnshaw. Ele gostava de pensar que se recusava a escrever seus discursos porque os textos preparados tornavam as palavras formais, destituídas de calor humano, como se fossem o eco de toques de máquinas de escrever, em vez de pancadas do coração. Recusava-se a admitir que detestava os discursos preparados porque não gostava de organizar as ideias nem do esforço de criação que o discurso escrito exigia.

Olhou para as suas críticas notas através dos óculos de aros de tartaruga, agora na ponta do nariz, passou por cima do assunto seguinte e foi diretamente à conclusão. Tirou os óculos, meteu-os no bolso do peito do casaco, percorreu com o olhar o silencioso salão de baile do Dorchester e prosseguiu no sotaque do oeste, suavizado pelos anos passados nos Estados do leste e pela experiência de sessenta e seis invernos:

— Meus bons amigos e anfitriões, a vossa gentileza, a vossa hospitalidade, assim como a Ordem do Império Britânico e o título honorífico com que a vossa rainha me quis agraciar e de que o vosso secretário dos Negócios Estrangeiros, Sir Austin Ormsby, falou esta tarde, tudo isso tornou esta noite memorável para o servidor público que sou, agora no outono de minha carreira. Nunca vos poderei agradecer o bastante. No meu país, referi-me muitas vezes ao ideal do bom e velho americanismo. Aqui, em Londres, tenho a certeza de que compreenderam que não queria dizer nada de chauvinista ou de provinciano com essas afirmações. Por americanismo entendo moralidade e decência na maneira como os homens se tratam, e nunca olvidei que a grande árvore da liberdade tem suas raízes no solo inglês. Esta noite, estamos aqui reunidos, na véspera de uma conferência das cinco potências, na qual os primeiros poderes do mundo se encontram... se juntam para... hã... para conferenciar no Palais Rose, de Paris. O vosso primeiro-ministro parte esta noite para essa crucial reunião. O nosso presidente já se encontra lá. Representam nossa fé num futuro ainda por esboçar. Que futuro? Como sabem, tivemos outrora um secretário de Estado chamado John Foster Dulles. Sim. E... hã... quando eu era presidente, o meu braço direito e assistente, sr. Simon Madlock, que Deus o tenha na sua glória, admirava Dulles tanto como eu. E muitas vezes Madlock me citava frases do último discurso de Dulles, e é uma dessas frases que vos vou citar esta noite:

“Estou convencido de que este nosso país não é apenas uma sociedade de interesses privados, mas que foi criado para ajudar a construir um mundo onde a liberdade e a justiça prevaleçam”.

Earnshaw parou para respirar, mas logo, receando aplausos prematuros, prosseguiu:

— Os nossos chefes e homens de Estado partiram para Paris e não sairão de lá enquanto os objetivos que concretizam os nossos ideais, os vossos e os meus, os dos Estados Unidos e os da Grã-Bretanha, não forem reconhecidos em todo o planeta. Portanto, em nome da liberdade e da justiça, para cada homem em particular e para todos em geral, aceito a vossa Ordem do Império Britânico com inexcedível gratidão e orgulho. Obrigado, meus amigos, e boa noite.

Uma vez mais, como aliás esperava, o ex-presidente Emmett A. Earnshaw foi envolvido por entusiásticos e ensurdecedores aplausos. Pegando a folha de apontamentos e acariciando as insígnias e a estrela da ordem, aceitou as ovações a seu mérito com uma modesta meia vênia e um meio sorriso; depois, virou as costas, rígido e aprumado apesar dos anos, e voltou para seu lugar. Condescendeu no aperto de mão de felicitações de Lorde Blenkinsop e instalou-se na cadeira.

Enquanto Sua Excelência subia ao tablado para as palavras finais, Earnshaw continuou exposto às contínuas ovações. Sentindo o frio contato de uns dedos femininos nas mãos crispadas, voltou a cabeça e viu sua sobrinha Carol, um rosto gracioso de alemã aberto num sorriso de orgulho:

— Foi maravilhoso, tio Emmett — murmurou ela.

Ele piscou um olho e apertou-lhe a mão. Sentia-se contente por ela, sua única parenta, que não fazia muito ainda assistira a tantas cenas desagradáveis, ter sido testemunha daquele triunfo. Seus olhos pousaram na jovem, admirando-a como se fosse sua filha, o que tinha praticamente sido até os dezenove anos. Era gentil e mais bonita do que graciosa — pensou —, com os cabelos curtos encaracolados, o nariz arrebitado, as faces sardentas, a

hocu cor-de-rosa, e dir-se-ia mais elegante e crescida no vestido de nigniidi feito para aquela ocasião. O discreto decote expunha-lhe o bem torneado pescoço, realçado por um colar de três voltas que .1 Mia Isabel lhe deixara. Era estranho como Carol se parecia com ele — pensou Earnshaw —, mais do que com o pai, seu irmão mais novo, havia muito falecido. Uma vez mais, apertou-lhe a mão e depois largou-a.

Voltando-se na cadeira, Earnshaw esqueceu Carol para agradecer a seu amigo Sir Austin Ormsby, sentado do outro lado. Mas, para surpresa sua, Sir Austin estava de costas para ele, debruçado para alguém que parecia um gerente de hotel e lhe acenava com a mão. Então, Sir Austin deixou seu lugar e, baixando-se para não incomodar os que ouviam as palavras de encerramento do mestre de cerimônias, atravessou a sala. Moderadamente curioso, Karnshaw observava Sir Austin, enquanto o gerente lhe segredava no ouvido, e viu o aristocrático britânico aquicscer uma e outra vez e depois, precipitadamente, mas sem perder a fleuma, dirigir-se para a porta de saída dos criados, ao fundo da sala.

Delicadamente, Earnshaw voltou a atenção para o orador, Lorde Blcnkinsop, que de longe parecia G. K. Chesterton (Chesterton tinha sido um dos escritores policiais preferidos de Earnshaw e fora-lhe recomendado por Simon Madlock por causa das aventuras do padre Brown).

Tendo Sua Excelência enaltecido o ex-presidente como um digno kbe, referia-se agora à contribuição, juntamente com a contribuição inglesa, de Earnshaw para os planos de desarmamento nuclear que estavam incluídos na agenda da próxima Conferência de Cúpula, em Paris.

Impaciente com a digressão política de Sua Excelência, pois que a política aborrecia cada vez mais Earnshaw nos últimos anos, desviou a atenção do orador para a assistência. Havia rostos demais, uma floresta sem árvores, e tentou identificar as pessoas que julgava conhecer. Examinou os cortinados azuis das paredes que circundavam o vasto salão de baile e, em seguida, fixou a luz indireta na imensa cúpula do teto, a que davam o nome de “zimbório”. Ofuscado pelo brilho, Earnshaw mergulhou em seus pensamentos até um passado recente, tão pobremente iluminado.

Estava convencido de que as coisas lhe tinham começado a correr mal no último ano de sua administração, o ano que deixara a única mancha negra, embora menor do que supunha, nos seus bons anos de serviço. Isso acontecera com o fracasso da Conferência de Zurique e quando o seu braço direito e confidente, Simon Madlock, tivera um súbito ataque cardíaco, morrendo pouco depois. É claro que havia ainda sua mulher Isabel, tão firme e confiante,e havia Carol, embora demasiado jovem para ser algo mais do que uma distração para seu perturbado espírito.

No último ano passado no gabinete presidencial, desejava apenas deixar de pensar, libertar-se das decisões a tomar e do cansaço político. E, quando o médico da Casa Branca, o almirante Oates, lhe descobriu uma deficiência cardíaca não ainda muito pronunciada e uma hipertensão, aconselhando-lhe uma vida calma, considerou chegado o momento de se aposentar.

Apesar dos protestos angustiados dos chefes do partido, Earnshaw recusou candidatar-se de novo, prometendo demonstrar boa vontade para com os convencionais apoiando seu apagado mas capaz vice-presidente. Earnshaw havia vaticinado uma vitória fácil para o seu sucessor. Mas, durante a renhida campanha eleitoral que se seguiu, obcecado pelos planos de uma aposentadoria tranquila, e incrivelmente só desde a morte de Madlock, não lutou por seu candidato com o vigor e a dedicação que devia. O candidato do partido oposicionista vencera, não apenas ao prometer irritantemente que despertaria a nação da letargia de Earnshaw e da abdicação das responsabilidades num mundo rodeado por armas nucleares, mas pelo simples fato de Earnshaw não ter apoiado seu candidato com sua própria personalidade. O candidato da oposição, um frio e rude produto de um grupo cientificamente orientado, tornara-se presidente dos Estados Unidos e, ao fim de três anos, continuava como presidente e dava agora um grande espetáculo de circo com sua presença na Conferência de Cúpula de Paris.

Embora ainda ressentido com essa rejeição de sua escolha pessoal pelo eleitorado, e a consequente retirada do comitê de seu partido, Earnshaw não se preocupava muito. A aposentadoria, pelo menos no primeiro ano, tinha sido como sonhara, pelo menos enquanto Isabel esteve a seu lado e o público lhe sorria e o venerava. Ele e Isabel tinham optado por um casarão de antigo estilo espanhol, com quinze peças, nos arrectbres do Rancho Santa Fé, ao sul de Los Angeles e perto do oceano Pacífico, que remodelaram, assim como ao modesto estábulo.

Sabia que outros presidentes não tinham encontrado o repouso com que sonhavam, depois da saída da Casa Branca. O general Eisenhower ficara surpreso com o pouco tempo que tinha para jogar golfe e com o trabalho político que lhe exigiam depois de sua aposentadoria. Eisenhower estava constantemente ocupado, durante horas e dias a fio, com líderes partidários, consultas na Casa Branca, recepções a enviados estrangeiros e a delegações de visitantes, livros para escrever e até imensas cartas para responder. Truman continuara igualmente ocupado, e a Biblioteca Truman exigia-lhe quase tanto tempo e tantas energias como os seus deveres de chefe do poder executivo, durante os anos que passou na Casa Branca.

Nos primeiros doze meses de liberdade total, Earnshaw conseguiu manter essa liberdade. Lia as listas eleitorais e sabia que era amado. Olhava para o monte de correspondência semanal e sabia que era respeitado. Mas deixava que Isabel e Carol respondessem em seu nome. Evitava os contatos políticos, exceto com um grupo de antigos camaradas. Suas aparições na televisão eram raras e breves, e geralmente só em eventos cívicos. Voltara a Washington apenas por motivo de exéquias oficiais. Deixara de visitar os dignitários do Departamento de Estado e o sabichão da Casa Branca. Devotou-se completamente ao bridge, ao pôquer, ao xadrez, ao bilhar, que jogava na magnífica mesa que Isabel mandara instalar, às histórias de mistério não demasiado longas nem complicadas e impressas em tipo bem legível. E, no tempo quente, passava metade do dia ao ar livre, com suas maravilhosas rosas, seus três cavalos e sua escuna de pesca na baía próxima. E, então, tudo acabou.

Nunca soube se a paz e o prazer tinham findado com a inesperada morte de Isabel no começo do segundo ano de sua aposentadoria, ou se com a lenta pertinácia com que o partido da oposição no poder lhe minava a reputação. Fora despertando pouco a pouco para o fato de estar perdendo o amor que sempre o rodeara e para sua dependência afetiva de um eleitorado real, ainda que anônimo, onde quer que se encontrasse. A morte de Isabel, aos sessenta e um anos, fora demasiado brusca. Uma noite ela estava ali em frente do assado, vendo televisão com ele, de cabelos encaracolados, um sorriso aberto e as bocejantes conversas de travesseiro. E, na manhã seguinte, já não estava. Deixara-o, marcando encontro para outra altura e noutro local. Aquele vazio fora terrível. Nem a lembrança e a simpatia das massas, nem o regresso temporário de velhos amigos puderam preencher o vácuo, nem mesmo a querida Carol, com seus dezessete anos e toda a sua compreensão, o conseguiu.

De qualquer forma, depois do luto, Earnshaw tentara fugir ao vazio, alheando-se da existência. Pouco a pouco, voltaram os jogos de cartas e as pescarias, o jardim foi remodelado, o estábulo, ampliado, mas isso não serviu de nada. As alegrias da aposentadoria haviam-se evaporado.

Então, um dia, não sabia qual, não sabia quando nem como, o vazio preenchera-se, enchera-se de tempo, pensou. Via-se consciente e vivo outra vez, como uma entidade, como um antigo presidente e uma personalidade. E não gostava de sua atitude anterior perante um mundo pleno, inquieto e em progresso. Tinha uma aliada em Carol, mais reservada, inteligente e sensata em sua plena maturidade. Mas, para surpresa sua, já não tinha seu vasto público, já não conseguia despertar-lhe interesse; este perdera-lhe o respeito, e, confusamente, Earnshaw compreendeu que o único prazer que lhe restava para os anos vindouros era manter intatas aquelas páginas de memória para as futuras histórias de sua bem-amada América, mas a firme promessa de páginas (no plural) fora-se reduzindo a uma página, a meia página, a uma nota, e detestava-se por isso.

A princípio, não compreendeu como aquilo acontecera ou podia acontecer. Seu ressentimento levara-o a censurar o presidente no poder, o partido da oposição e a imprensa que eles agora dominavam, graças a sua perda de prestígio. Condenara-os por terem astutamente construído o escorregador que o levaria ao precipício final. Supusera que seu objetivo fosse político:

reduzir sua participação efetiva em futuras eleições. Os repórteres, os jornalistas, tinham sido outro problema. Seu negócio eram as notícias, notícias vivas, e Earnshaw, como eremita amável, só era notícia quando dissecado por seus inimigos políticos. Os novos historiadores e os cientistas políticos, com suas pretensas e mal-alinhavadas avaliações e análises de sua personalidade e administração, eram também inevitáveis. Esses espertalhões prosperavam à custa dos presidentes envolvidos em conflitos, domésticos ou internacionais. As reações desses presidentes perante as crises eram estudadas e enaltecidas, mas, ao examinar superficialmente o mandatb de Earnshaw, a crítica considerara-o um chefe do poder executivo fácil e bom, numa época fácil e boa, um período de escassa agitação interna e isento de lutas internacionais. E por isso o haviam degradado, como se evitar perturbações e procurar prudentemente a paz fosse uma fraqueza e um pecado.

Inexplicavelmente, as acusações pessoais de Earnshaw tinham oscilado dos outros para ele. Poderia a censura e sua diminuída posição explicar-se por falha pessoal? Era possível, pensara. Sua força, seu poder, seu futuro na história sempre haviam estado nas mãos de um público digno de confiança. Tinham-no elevado ao mais alto cargo e apoiado no palácio do Executivo, porque o respeitavam e admiravam como autoridade e como herói. E, depois que se aposentara, continuaram com seu culto familiar, porque sabiam que ele continuava ali, um oráculo vivo, a voz da sabedoria que os arrancaria da confusão, responderia às suas perguntas, os libertaria da tensão, lhes incutiria fé em suas esperanças. Sim, depois que se aposentara, tinham-no procurado, mas então compreendeu que não aparecera para guiá-los. Tinham precisado dele e ele os ignorara, abandonara-os ao frio indivíduo da Casa Branca. Aos olhos deles, tinha abdicado para satisfazer seu egoísmo. Era como se um pai amado e respeitado, com muitos filhos que tinham até então confiado nele, optasse subitamente por um isolamento hedônico numa ilha perdida, indiferente às necessidades e aos problemas de sua prole, recusando-se a atender seus telefonemas, a responder às suas cartas e a recebê-los pessoalmente. Era como aquele banqueiro francês que abandonara a família para satisfazer sua necessidade egoísta de pintar no Taiti.

Earnshaw tinha deixado seu povo quando este precisava dele, e quando mais tarde voltasse não deveria ficar surpreso por não ser esperado. E sem essa massa compacta, que nunca permitiria que um usurpador o substituísse em sua estima (a não ser que ele fraquejasse ou a traísse), Earnshaw era um chefe de família sem família. E sem suas relações, ficava à mercê das tentativas dos inimigos políticos dispostos a destruí-lo. Assim, num último esforço desesperado, maior do que um ano antes, decidira lutar. À sua maneira, o melhor que soube, mandou chamar seu clã para que se juntasse a ele. Não se sabe como, convencera-se de que o antigo encanto, a antiga magia, teria o resultado que sempre tivera. Ficou chocado quando seu chamamento não foi escutado. Ficou como se seu público pensasse que ele já não existia, que a voz implorativa era apenas o murmúrio de um fantasma — ou, pior, como se a voz implorativa tivesse sido escutada, ouvida com clareza, mas não compreendida. Era como se seu comportamento fora da presidência confirmasse as opiniões dos que declaravam que esse comportamento cra o mesmo que ele tinha no cargo, e agora estava desacreditado, um herói de argila da cabeça aos pés.

Contudo, houve quem, aqui e ali, escutasse seu chamamento. Os velhos amigos da Inglaterra, por exemplo, que haviam preparado aquela manifestação e o tinham convidado. Enquanto se preparava para ir a Londres, a fé em sua antiga magia reanimou-se um pouco. Quando se encontrava nas alturas, mesmo aposentado, os articulistas gostavam de especular a seu respeito. E Isabel, assistida por Carol, entretinha-se em organizar álbuns com todas essas análises. Segundo a imprensa, a fórmula de sua magia consistia em muitos elementos:

o discurso sem afetação, a sabedoria simples (não corrompida por intelectuais, em quem não confiava), o estilo sereno e, sobretudo, o semblante bondoso e o físico atraente. Até seus piores inimigos admitiam que a aparência de Earnshaw era seu melhor trunfo, contra o qual nenhum argumento inteligente podia competir nas eleições.

Conquanto Earnshaw nunca tivesse apreciado essa especulação sobre sua aparência, pensou nela antes de ir ao encontro de seu pequeno triunfo inglês. Seu aspecto atual era pouco diferente do que tinha quando deixara a Casa Branca, havia três anos. Continuava o mesmo Earnshaw dos dias felizes, alto e aprumado, e mantinha a triunfante rusticidade do advogado do interior que fora outrora (havia tendência para esquecer que tinha sido advogado de uma companhia numa cidade do leste). Ainda exibia uma farta cabeleira grisalha, sobrancelhas espessas, ternos olhos azuis, nariz achatado, boca larga, covinhas nas faces e no queixo, tudo bem-proporcionado, num rosto comprido, franco e paternal, tudo (exceto o nariz) como um Tio Sam sem barba.

Embora Earnshaw usasse ternos de lã feitos sob medida, estes não pareciam tão caros e elegantes como de fato eram, por causa de sua altura bamboleante, de sua ligeira obesidade, dos braços compridos e das mãos grandes e avermelhadas, do andar sacudido e nervoso. Quando entrava numa sala, todos esperavam que lhes trouxesse presentes, de tal maneira parecia bom, agradável, cintilante, cordial, risonho, feliz. Quando viajava de avião, os outros passageiros sentiam-se mais seguros, como se soubessem que nada lhes aconteceria. Sentia-se muito mais à vontade com um homem capaz de citar erroneamente Mark Twain, George Ade, P. T. Barnum, Rig Lardner, Clarence Darrow, Vachel Lindsay, S. S. Van Dine, e que não conseguisse pronunciar Thorstein Veblen, René Descartes, Franz Boas, Carl Jung, Fiódor Dostoiévski, Percy Bysshe Shelley, Rufus Choate, do que com as centenas de arrogantes sabichões, que só não sabiam como conseguir quem os elegesse.

O encanto de Earnshaw não era, realmente, segredo para ninguém. Ele gostava instintivamente das pessoas, e, como resultado, elas gostavam dele. A filosofia de Earnshaw também não constituía segredo. O mundo era habitado por duas categorias de homens:

os bons e os maus. Os bons gostavam dos Estados Unidos e de Earnshaw. Os maus eram maus, não por serem cruéis, ignorantes ou tirânicos, mas porque não gostavam dos Estados Unidos nem de Earnshaw. Qualquer imbecil podia compreender isso. Se alguém de nosso círculo ou algum recém-chegado não gosta de nosso país nem de nós, não podemos ter a seu respeito uma opinião muito elevada, não é verdade?

Revivendo as lembranças passadas, mesmo as piores, vindas dos mais “recalcados freudianos da imprensa, que tentam meter todas as figuras públicas na cama de suas colunas”, como dizia Simon Madlock no seu inteligente trocadilho, Earnshaw estava convencido de não ter mudado desde os tempos de seu apogeu. Se os elementos que o haviam tornado popular existiam ainda na sua pessoa, então essa popularidade p.odia renascer. Talvez a Ordem do Império Britânico lembrasse ao público sua antiga afeição.

De repente, das profundezas de seu exame retrospectivo, Earnshaw sentiu seu nome vibrar-lhe nos ouvidos, desprendeu os olhos do zimbório flamejante e, com grande esforço, saiu do passado para o presente e aprumou-se no assento.

O corpulento par do reino havia concluído seu discurso e aponliivu para ele, e os quatrocentos convivas, espalhados por todo o salão de baile, puseram-se barulhentamente de pé, aplaudindo-o e ik lamando-o uma vez mais, e por cima do estrépito ele pôde ouvir a exclamação excitada de Carol:

— Oh, como tudo isto é maravilhoso, tio Emmett!

Larnshaw levantou-se, avançou com a exuberância de outrora, loinou o braço de Sua Excelência, murmurou alguns agradecimentos ( depois acenou repetidas vezes a seu público inglês.

As luzes tornaram-se mais brilhantes, os aplausos morreram e ou viram-se os sons indistintos de grupos que conversavam ao fundo, arrastando cadeiras e dirigindo-se para as portas envidraçadas e de batentes dourados da entrada principal, que dava para o Park Lane, onde os automóveis os esperavam, ocultos pelo nevoeiro da noite estivai.

Earnshaw tentou alcançar a sobrinha, mas viu-se rodeado por rostos ingleses intumescidos e ascéticos e impedido por mãos de estranhos que apertavam as suas, vozes estranhas que o felicitavam, e, por momentos, reviveu as emoções da noite da eleição. Quando alcançou o extremo do tablado, deparou-se-lhe uma Carol feliz que o esperava, ignorando as atenções dos jovens.

Ao fazer o balanço daquela noite, e agora que se dispunha a abandonar a festa, é que deu pelo fato de que estava exausto. Doíam-lhe os ombros e as costas; sentia os braços pesados como chumbo e as pernas entorpecidas. Fora uma longa viagem da Califórnia até Londres. Fora um dia repleto de espetáculos e acontecimentos mundanos a que não se eximira, por se tratar da primeira viagem de Carol ao estrangeiro. Fora uma noite de emoções, essa do seu regresso, e agora, depois do êxito, estava fatigado até a medula dos ossos. Só desejava ir para seus aposentos, tirar os sapatos, acender um charuto, beber um conhaque, meter-se na cama fofa e dormir até o dia seguinte. Tinha de se levantar cedo, assim como Carol, a fim de apanhar o navio para a Noruega, a Suécia e a Dinamarca.

Recusando os numerosos convites improvisados para coquetéis, ceias e visitas a clubes noturnos, com a leal concordância de Carol, Earnshaw desceu os degraus de madeira até o pavimento do salão de baile. O gerente do hotel, um empregado e dois homens do serviço secreto esperavam-no para escoltá-lo até seus aposentos. Ia dirigir-se a eles quando uma vigorosa mão o agarrou pelo cotovelo. Voltando bruscamente a cabeça, viu Sir Austin Ormsby a seu lado.

Com um movimento dos olhos, Sir Austin convidou-o para uma conversa em particular. Cansado, mas desejoso de ser agradável, Earnshaw seguiu Sir Austin até a mesa vazia mais próxima.

— Muito bem, Austin — começou Earnshaw. — Não sei lhe dizer como estou satisfeito...

— Emmett, preciso lhe falar em seus aposentos, imediatamente. Há um assunto urgente que tenho de discutir com você.

Earnshaw fez uma careta.

— Isso não pode esperar, Austin? Também quero falar com você a sós, mas ficará para amanhã, no café da manhã, antes de eu partir com Carol. Agora, confesso-lhe que me sinto derreado com tantas coisas boas... sua hospitalidade, suas manifestações. Por que não adiamos isso para amanhã de manhã?

O rosto de Sir Austin revelou uma surpreendente falta de cortesia para com uma pessoa tão delicada. Havia em seus traços uma determinação inflexível.

— Emmett, quero que me dedique alguns minutos agora.

Surgiu um problema, um assunto da maior importância para você e para seu bem-estar. Não pode ser adiado para amanhã.

A fadiga de Earnshaw transformou-se em curiosidade, a que não faltava mesmo certa ansiedade.

— O que se passa de tão urgente que não possa esperar até amanhã de manhã?

— Tem de alterar seus planos. Não é aconselhável partir amanhã para a Escandinávia.

— Ouça, Austin, que diabo vem a ser isso?

— Diz respeito à sua reputação, Emmett, e pode ser sério. Não me parece prudente discutir o caso aqui.

— Muito bem — concordou Earnshaw. — Espero-o lá em cima, digamos dentro de quinze minutos.

— Lá estarei — disse Sir Austin, preocupado.

Confuso, Earnshaw foi ter com Carol e os dois pretorianos, fazendo o possível por manter um sorriso, a fim de que a sobrinha não o interrogasse.

Deixando o salão de baile do Dorchesjter, atravessaram o luxuoso vestíbulo. Satisfeito com o fato de Carol ter entabulado conversa com a escolta, Earnshaw tentou adivinhar as estranhas insinuações de Sir Austin. Concentrando-se, deu-se conta dos hóspedes do hotel e dos visitantes, duas filas compactas no vestíbulo, que procuravam desesperadamente vê-lo. Em face de alguns aplausos dispersos, Earnshaw manteve o relutante sorriso firme e acenou, ao mesmo tempo em que se esforçava por libertar-se uma vez mais de seus pensamentos. Tentou imaginar de que espécie de assunto “da maior urgência”, que “envolvia sua reputação”, suficientemente “grave” para fazê-lo cancelar a viagem à Escandinávia, lhe queria falar Sir Austin.

A vida pessoal de Earnshaw fora sempre moderada e cheia de bom senso. Nada de censurável ou escandaloso a manchava. Sem manchas também era sua folha de serviços enquanto presidente. I certo que tinha havido o pequeno escândalo da fuga de Varney na a China comunista, na Conferência de Zurique, um acontecimento sensacionalmente explorado pela imprensa da oposição. Mas, a instâncias suas, o assunto fora discutido numa sessão do Congresso, e o poder executivo saíra ilibado de culpas, a tal ponto que, após a demissão do jovem Brennan, o caso caíra no esquecimento publico.

Além disso, não havia mais nada. Na verdade, desde que deixara a presidência e, sobretudo, nos últimos meses, as críticas à na administração tinham aumentado. Mesmo assim, nenhum dos (i íticos ousava insinuar qualquer coisa de desonesto ou inconveniente no comportamento de Earnshaw como presidente. Em geral, as uíticas eram sempre as mesmas:

Earnshaw não tinha imaginação, mostrava-se hesitante, excessivamente conservador, falho de iniciativa e autoridade. Essas críticas sempre o haviam desconcertado, mais do que irritado. Tachar de falta de imaginação uma presidência não espetacular — pensava — era como se a estabilidade fosse um crime. Os outros, os inovadores, os agitadores, os que jogavam como a vida humana — tolos dos quais seu sucessor escutava as ideias aéreas e irrealizáveis —, é que deviam ser acusados de anti-patriotismo por tratarem os compatriotas como uma manada de porcos guinéus. O certo é que sua teoria de governo — não fazer uada quando nada havia a fazer — não se tinha tornado motivo ile escândalo. Contudo, havia aparentemente qualquer coisa de errado que lhe atingia a reputação, e Earnshaw não podia deixar de estar apreensivo, visto o portador das más notícias (se o fossem) ser Sir Austin Ormsby, um milionário digno de confiança, um colaborador do gabinete do ministro, um conservador fiel, que não se rebaixaria repetindo mexericos irresponsáveis.

— Por que está tão melancólico, tio Emmett?

Surpreso, Earnshaw viu que Carol se dirigia a ele e que estava diante dos elevadores verdes, à entrada do vestíbulo.

Earnshaw afivelou um sorriso:

— Não é melancolia, querida. Talvez um pouco de cansaço. Lembre-se de que já ultrapassei os sessenta.

Ouviu o gerente do hotel dizer:

— O elevador, sr. Earnshaw.

— Vamos — decidiu Earnshaw, tocando no braço da sobrinha. Agradeceu ao gerente e ao empregado e entrou no elevador, logo seguido por Carol e pelos dois jovens agentes do serviço secreto.

— Oitavo andar — ordenou ao velho fardado do elevador.

— Eu sei, senhor — murmurou o velho, sacudindo a cabeça na direção das portas fechadas.

Quando saíram no oitavo andar, Earnshaw seguiu pelo fofo tapete com desenhos castanhos. Enquanto caminhavam por entre as lâmpadas elétricas das arandelas de metal presas nas paredes, Earnshaw ouvia Carol conversar atrás com os agentes, mas o que lhe retinia nos ouvidos era a voz alterada de Sir Austin. Talvez — pensava Earnshaw —, com toda a sua sensibilidade de inglês, ele se tivesse deixado obcecar por um assunto provavelmente sem importância.

Na interseção do segundo corredor, Earnshaw voltou à direita e parou bruscamente diante da porta com os dizeres:

“Apartamentos com criado e terraço”. Esperou com impaciência que Carol terminasse a conversa com os agentes, a fim de poder cumprimentá-los e agradecer-lhes todas as atenções.

O mais alto dos dois agentes secretos abriu a porta e disse com evidente sinceridade:

— Foi um prazer para nós, senhor presidente. Se acontecer alguma coisa, estaremos aqui.

Earnshaw transpôs a porta e começou a subir as escadas, parando uma única vez para se encostar ao corrimão de metal, a fim de respirar e convencer a sobrinha de que estava bem. No patamar, junto a uma outra porta com os dizeres “Apartamentos com terraço”, Earnshaw tocou a campainha, e a porta abriu-se quase imediatamente.

O raquítico criado, originário dos bairros pobres de Londres, inclinou respeitosamente a cabeça, dando-lhe as boas-vindas:

— Boa noite, Excelência. Espero que esteja bem.

— Ótimo, Thatcher, obrigado — respondeu Earnshaw. Afastou-se para deixar entrar Carol e depois, já no vestíbulo, parou para dizer:

— Thatcher, espero uma visita dentro de momentos... Sir Austin Ormsby, daqui a dez minutos, mais ou menos. Mande-o entrar, traga algumas bebidas, e é tudo por esta noite. Se precisar de você mais tarde, tocarei.

— Muito bem, senhor.

Desapertando o nó da gravata, Earnshaw entrou no espaçoso quarto luxuosamente mobiliado, viu Carol desaparecer no dela, que ficava em frente, permitiu que Thatcher o ajudasse a tirar a sobre-casaca e a levasse para o quarto de vestir, indo em seguida para a cozinha. Baixando os suspensórios e desabotoando lentamente a camisa engomada, Earnshaw viu-se nas portas envidraçadas que davam para o terraço. As pesadas cortinas, de flores estampadas misturadas com figuras chinesas, estavam parcialmente corridas. Através dos vidros, Earnshaw via, por entre a neblina, o pavilhão inglês que tremulava suavemente no mastro do terraço, e, para além deste, quase invisíveis na escuridão, os contornos das árvores do Hyde Park.

Durante o dia, o panorama pastoral, muito inglês, era irreal.

Essa noite, parecia-lhe insignificante, e em nada contribuía para acalmar sua apreensão.

Dando meia-volta, atravessou a sala em direção ao pequeno vestíbulo e entrou no quarto principal. As malas encontravam-se cm fila junto da janela, arrumadas pelo criado e prontas para a partida, no dia seguinte, com exceção de uma maleta aberta em cima da cama. A vista das malas aumentou-lhe a apreensão. Sir Austin havia dito que não era aconselhável partir no momento para a Escandinávia — se bem que ignorasse por que motivo.

Decidido a libertar o espírito de todo e qualquer mistério, pondo de lado as especulações, Earnshaw dirigiu-se para o banheiro, a fim de se lavar e se reanimar, embora tivesse tirado a camisa e umedecido o rosto escaldante com água fria, e voltou a pensar com insistência no seu iminente encontro com Sir Austin Ormsby e no próprio aristocrata.

Earnshaw tinha encontrado Sir Austin Ormsby pela primeira vez havia quinze anos, quando Austin herdara do pai um império de jornais, muito antes de conseguir a dignidade de cavaleiro por suas atividades políticas. Earnshaw tinha desistido então, temporariamente, de exercer a advocacia numa lucrativa empresa particular para entrar na política, e chegara a Londres como embaixador especial do novo presidente, para solucionar com os ingleses, os franceses e os alemães ocidentais uma grave disputa comercial. Demorara-se em Londres seis meses, e, embora estivesse bem relacionado com muitos membros preeminentes das delegações francesa e alemã, graças à natureza jurídica de sua ação no direito corporativo internacional, passara a maior parte de seu precioso tempo com Sir Austin.

Olhando para o passado, achava-o sem sentido, uma vez que ele e o jovem inglês (que se tinha tornado uma espécie de anfitrião social da maior parte dos visitantes estrangeiros, por causa dos enormes investimentos de sua companhia do continente) pouco ou nada tinham em comum. Nessa altura, Earnshaw contava cinquenta e um anos e Sir Austin, apenas vinte e cinco. Earnshaw era casado havia anos e Sir Austin era um solteirão impenitente.. Além disso, seus princípios eram inteiramente diversos e, portanto, suas personalidades e seus gostos não se harmonizavam. Earnshaw era então, como ainda agora, um americano despreocupado, regionalista e de origem modesta, brusco, franco, de hábitos, opiniões e gostos simples. Sir Austin era então, como agora (mas muito mais), um aristocrata em toda a acepção da palavra, pois, se sua família não entroncava no pariato de Burke, tinha sido pelo menos o principal esteio da nobreza rural de Burke.

Quanto aos encontros com Sir Austin, nessa ocasião e mais tarde, ocasionalmente, na Inglaterra e Estados Unidos, nunca tinham sido íntimos, apenas haviam fornecido a Earnshaw certas informações sobre a fortuna do jovem. Sir Austin frequentara, evidentemente, o colégio de Eton, onde os professores o consideravam uma grande promessa, e depois, naturalmente, fora para Oxford. Pretendera entrar na Igreja de Cristo, para ser “sangue da Igreja de Cristo”, mas o braço paterno mandara-o para Balliol, para que se tornasse outro MacMillan, ou, pelo menos, um Toynbee. Enquanto estudante, sonhara ser engenheiro, mas uma vez mais fora firmemente aconselhado a estudar história.

Em Oxford, para desgosto do pai, Sir Austin atravessara uma crise de identidade, revoltara-se contra a autoridade paterna e fizera-se membro de uma sociedade de liberais idealistas. O pai, que o tinha admoestado por carta, descobrira, sublinhara e mandara-lhe um recorte de jornal que descrevia os novos companheiros de Sir Austin:

“Homens de seriedade duvidosa, de olhos esgazeados, que usam ternos de tweed e grandes gravatas coloridas, tuberculosos na maioria, fumadores de cachimbo, corteses, pouco dados à alegria, eticamente cristãos”. Continuava neste teor e era assinado por alguém com o incrível nome de Muggeridge, ao que Sir Austin achara muita graça, não levando a sério nem a descrição nem a sarcástica desaprovação dos pais.

Mas depois que deixou Oxford e entrou na firma da família, o incipiente liberalismo de Sir Austin cedeu ao peso da retidão conservadora, da tradição, do dinheiro é poder e do poder exige responsabilidade e deveres. No curto espaço de tempo em que foi o herdeiro provável do império de seu pai e depois que se tornou realmente herdeiro, Sir Austin voltou gradualmente a ser o aristocrata inglês que centenas de antepassados exigiam que fosse, e assim permanecera.

O passado acadêmico de Sir Austin e seu presente confundiam-se no espírito de Earnshaw. As peças que donstituíam o todo formavam um principesco, urbano e afável fidalgo rural, ao mesmo tempo que urn ministro do trono. Sir Austin era um homem elegante, fastidioso, complexo, que afetava uma lassidão toda eduardina. Seus olhos eram velados, o nariz, fino e adunco, o bigode, curto e lustroso, o queixo, proeminente. Brilhante orador público, de estilo arrogante e irônico, escarninho, satírico e erudito, fizera sua estréia na Câmara dos Comuns, demolindo “os muito respeitáveis senhores da oposição”, e arrancara uma clamorosa ovação da Galeria dos Estrangeiros. Sir Austin acreditava no aparato, na continuidade, na decência, em Lorde Melbourne, na liberdade de imprensa e na classe governante. O solar de família, no Surrey, construído segundo Arbury Hall, tinha sido remodelado desde a época Tudor até o neogótico, embora os portões de ferro forjado, a conselho de Sir Christopher Wren, se tivessem mantido intatos. Sir Austin possuía seus cães de caça, seu Daimler preto, sua assinatura no Ateneu e nos Travellers, sua casa de cidade em Hyde Park Gate e, recentemente, gozava de mais duas comodidades:

uma era a extensão telefônica para todos os ministros do gabinete; a outra era, após trinta e nove ascéticos anos de solteiro, sua primeira mulher, a outrora Fleur Grearson, de vinte e nove anos, filha de um milionário negociante de imóveis. Quando Earnshaw a viu pela primeira vez, não ficou com boa impressão de Lady Fleur. Ela lhe parecera muito artificial, cheia de pose, demasiado perfeita, e isso fizera com que Earnshaw não se sentisse à vontade, tanto mais que a conversa dela sobre arte tinha sido demasiado técnica pura sua compreensão. A preocupação dominante de Sir Austin, como Earnshaw havia notado, era seu irmão mais novo, Sydney, que tinha frequentado a Universidade de Bristol (um pouco Ox-bridge) e cuja vida social parecia limitar-se às bebidas, à sala de jogo de White e a comentários obscenos às empregadas. Para seu sossego e de Carol, Earnshaw fora informado na noite anterior de que Sydney se encontrava ausente.

Recordando tudo isso, Earnshaw passou do banheiro para o quarto, vestiu uma camisa, uma calça cinzenta e o robe de seda que Isabel lhe havia comprado no ano anterior ao de sua morte. Enquanto apertava o cinto do robe, Earnshaw concluiu que ele e Sir Austin, embora tão diferentes em tudo, tinham se tornado amigos desde o primeiro encontro — não verdadeiros amigos, mas companheiros ou conhecidos — porque ele gostava de estar relacionado com um inglês típico da classe superior, robusto e digno de confiança, e porque Sir Austin via nele a imagem agradável e indulgente de um pai. E, embora hoje tivessem menos coisas em comum do que no passado, continuavam amigos distantes, porque Sir Austin apreciava conhecer um ex-presidente dos Estados Unidos, e Earnshaw era simplesmente um homem de hábitos.

Ouvindo passos na sala de estar, Earnshaw pegou um charuto e encaminhou-se para lá, preparado para sua entrevista com Sir Austin. Mas deparou-se com Carol, que havia trocado o vestido de noite por uma blusa cor-de-rosa e uma calça, e via televisão, no enorme aparelho embutido na parede, acima da poltrona amarela.

Ela ficou surpresa ao vê-lo.

— Julguei que já estivesse deitado, tio Emmett. É o que devia ter feito, depois de um dia como o de hoje e de toda a excitação da noite. Foi maravilhoso. Senti-me muito orgulhosa.

— Bem que gostaria de me deitar — disse ele —, mas... — A televisão incomodava-o, pelo que acrescentou:

— Carol, importa-se de ver televisão em seu quarto? Vou ficar aqui, pois tenho uns assuntos a tratar com Sir Austin. Ele deve estar chegando.

— Claro que não me importo — anuiu ela, desligando o aparelho. — Tem de falar com ele esta noite?

— Receio que sim.

— Não gosto que se canse demais. — Já ia se dirigindo para o quarto, mas retrocedeu e deu-lhe um beijo na face. — Preferia fazer-lhes companhia a ver televisão — disse. — Sir Austin fascina-me.

— São assuntos particulares. Nada que possa interessá-la.

— Eu estava brincando, tio Emmett. Mas falava a verdade quanto a Sir Austin.

— Oh, sim, é bastante interessante. Muito inteligente. Creio que é o mais novo do gabinete do primeiro-ministro. Subiu bastante, não há dúvida...

— Não me refiro precisamente a ele. Refiro-me a seu embaraço no caso de Paddy Jameson, que, afinal, nada tinha de extraordinário, isto é, a gente ouve-o falar, olha para ele e é como se isso nunca tivesse literalmente acontecido. É claVo que quem me interessa é seu irmão mais novo... Sydney Ormsby. Como sabe, foi esse meu único desapontamento na noite passada:

ver que Sydney não estava presente.

— Ainda bem que assim foi. Sydney é estúpido e um tanto irresponsável. Teria estragado a noite.

— Não para mim, tio Emmett — replicou Carol. — Li o caso Paddy Jameson quando tinha dezesseis anos... — Depois, acrescentou, enfadada:

— Além disso, uma pessoa que esteve comprometida com uma beleza como Medora Hart, que desafiou o governo e se livrou, não pode ser assim tão estúpida!

Earnshaw olhou de soslaio para a sobrinha, através da primeira baforada azul do charuto.

— Não estou entendendo de quem está falando.

— Do irmão mais novo de Sir Austin e de Medora Hart.

— Medora o quê?

— Quer dizer que não se lembra? — admirou-se Carol.

— Por favor... Lembrar-me de quê?

— Do caso Paddy Jameson, ocorrido há três anos. Paddy Jameson era um tenista vagabundo e um alcoviteiro...

Earnshaw franziu o sobrolho:

— Vamos ver isso, onde aprendeu essa palavra?

— Meu Deus, tio Emmett! Já não sou criança. Seja como for, esse Jameson tinha meia dúzia de moças vistosas, isto é, jovens e bonitas, e ajudava-as a travar relações com homens da alta, que desejavam conhecer mulheres novas e bonitas... homens importantes que queriam mulheres... e Medora Hart, devia ver as fotografias dela, pertencia a esse grupo de moças. Um de seus amantes era Sydney Ormsby... e foi então que rebentou aquele formidável escândalo. Deve lembrar-se, foi dez vezes mais excitante do que o velho caso Profumo.

Earnshaw estava completamente desnorteado:

— O caso Profumo? Que diabo vem a ser isso?

Carol bateu com a mão na testa, como se se sentisse mal:

Oh, tio Emmett! Se alguém o ouvisse! Deveria ler qualquer tuisn mais além dos artigos políticos e editoriais dos jornais. Não unhe o que perde!

— Se o que diz é uma amostra do que perco — respondeu Ernshaw secamente —, dispenso-o, obrigado.

— Tem-se encontrado com Sir Austin durante todos estes anos e não sabe o que se passou. Pois fique aí sentado e permita-me...

A campainha da porta tocou duas vezes. Earnshaw levou um dedo aos lábios e Carol engoliu as palavras. Apressadamente, o i riado atravessou a sala.

Carol fez uma careta de desilusão:

— Está bem, tio Emmett. Vou para a televisão e o senhor, para as coisas sérias. — Deu-lhe outro beijo apressado. — Lembre-mc de lhe contar a história toda, a caminho de Oslo. Não fique acordado até muito tarde. Ver-nos-emos no café da manhã. Estarei pronta.

Saiu da sala correndo. Quando a porta se fechou, Earnshaw disse ao criado para encaminhar Sir Austin Ormsby para a sala de estar.

Enquanto o criado pegava o chapéu, o sobretudo e a bengala de Sir Austin, Earnshaw apertou a mão do amigo.

— Foi uma noite maravilhosa, Austin. Devo-lhe tudo isso.

Sir Austin passou nervosamente a mão pelo cabelo e pelo pequeno bigode, depois pelos folhos de renda da camisa e disse, sem sorrir:

— Meu querido amigo, foi menos do que merecia.

Comovido, Earnshaw disse:

— Eu tomo um conhaque. E você, Austin, o que quer?

Sir Austin olhou para o criado:

— Gim e água.

Earnshaw dirigiu-se para duas poltronas de seda verde que ladeavam a lareira de mármore negro. Esperou que Sir Austin se sentasse e depois imitou-o, apoiando um dos pés no tamborete de veludo, como se quisesse mostrar que não estava muito interessado no assunto. Atrás de Sir Austin, o criado abria a falsa estante de livros, que parecia conter obras clássicas, com lombadas de couro, como as Cartas de Lorde Chesterfield e o Tom Jones de Fielding, pondo a descoberto um pequeno bar. Esperando que o criado acabasse de servir as bebidas, Earnshaw via o tempo passar e aproximar-se o momento de ficarem a sós.

— Foi quase um acontecimento, ontem à noite — comentou.

— Minha sobrinha não se cansa de elogiar o jantar no Mirabelle e o clube aonde fomos em seguida.

— O Colony. Ainda bem que ela gostou. Não é o que aprecio mais, mas Fleur pensou que seria exatamente disso que uma jovem gostaria na sua primeira noite em Londres.

— Lamento que sua mulher não pudesse ter estado presente esta noite.

— Fleur não se interessa muito por política, como sabe; mas, neste caso, ficou aborrecida por não ter podido comparecer. Você impressionou-a terrivelmente, Emmett. Mas havia a malfadada exposição na Tate. Ela é uma das organizadoras.

— Por Deus, não a levo a mal! Apenas teria gostado de vê-la.

— Seus pensamentos voltaram-se para a conversa que tivera com Carol, antes da chegada de Sir Austin. — Minha sobrinha mostrou curiosidade em conhecer sua mulher. Também perguntou por seu irmão, sentiu a falta dele, visto ele estar no comércio de livros e ela ser a principal bibliotecária do colégio.

Sir Austin franziu o patrício nariz:

— Aqui para nós, diga-lhe que não perdeu nada. Sydney tem muitos defeitos, mas não o de discutir literatura com jovens bibliotecárias. Na verdade, creio que leva bastante a sério suas responsabilidades de editor. Está agora em Viena, tratando de um assunto de livros, e depois irá ter comigo em Paris. Dir-se-ia que, neste momento, Paris atrai toda a gente por motivos diversos. A mim, toca-me o aborrecido problema da conferência. Fleur está convencida de que a apresentação das novas colações da moda se fizeram este ano mais cedo por esse motivo. E Sydney, bem... encontrar-se-ão lá muitos editores do continente, à caça de originais, e mandei Sydney para junto deles.

Calou-se ao ver o gim com água que o criado lhe apresentava. Earnshaw serviu-se de conhaque, cheirou-o e despediu o empregado:

— Obrigado, Thatcher. Não é preciso mais nada. Boa noite.

Tirou uma baforada do charuto, colocou-o num cinzeiro e sorveu um gole de conhaque, atento ao fechar da porta da cozinha. Quando viu que estava finalmente a sós com Sir Austin, olhou inquiridoramente para seu amigo inglês.

Sir Austin tinha pousado a bebida e enterrara-se na macia poltrona.

— Não quero fazê-lo perder mais tempo, Emmett, tanto mais que vai precisar dele para pensar, quando ouvir o que tenho a dizer-lhe. Não se importa que eu entre diretamente no assunto?

Não faça cerimônia — disse Earnshaw, atormentado pela mu itisidade.

Sir Austin mirou por instantes o tapete e, por fim, decidiu-se:

Não sei muito bem por onde começar. — Ergueu a cabeça prosseguiu:

— Far-lhe-ei primeiro uma pergunta. Até que ponto omlicce o dr. Dietrich von Goerlitz?

Era o último dos nomes que Earnshaw esperava ouvir no seu ip.u iamento do nono andar do Dorchester. Seu rosto comprido não escondeu a surpresa.

— Goerlitz? — repetiu. — Até que ponto o conheço?

Realmente, fazia a pergunta a si próprio. Na qualidade de ulrntoso advogado, antes de seguir a carreira política, Earnshaw li.nara com o dr. Dietrich von Goerlitz em numerosas ocasiões, lanio em Washington como nos grandes escritórios da Goerlitz I ndustriebau, em Frankfurt. Por diversas vezes, nessa época, Im a convidado a jantar no castelo ancestral de oitenta salas, a Villa Morgen, a uns doze quilômetros de Frankfurt, uma mansão edificada pela família Goerlitz antes da Guerra Franco-Prussiana. Desde então, os clientes de Earnshaw, todos gigantes industriais, partilharam numerosas patentes e licenças internacionais com Goerlitz, o que tornara rotineiros seus encontros com o rude alemão. Esses encontros deixavam sempre em Earnshaw uma sensação de desconforto, porque Goerlitz não possuía senso de humor e suas conversas se tornavam monótonas. Era capaz de discutir sobre carvão, nço, máquinas para minas, projetos de eletrificação, geradores nucleares, barcos de carga, aviões, sobre tudo o que vendia, com entusiasmo enorme, ou, então, falava raivosamente de seus rivais da Alemanha Ocidental, como Alfrcd Krupp e Von Bohlen, de Essen. No entanto, Earnshaw continuava a suportá-lo porque Goerlitz era um magnata de decisões rápidas e firmes, e um homem de palavra.

Depois que Earnshaw enveredou pela política, passara a encontrar-se mais raramente com Goerlitz. E, após o inquérito sobre o caso do Aço Spelvin, divulgado pela televisão nacional (onde o estilo cortês e familiar de Earnshaw, contrastando com a falsa legalidade da gente do procurador-geral, lhe granjeara o favor do público e contribuíra para sua campanha de propaganda presidencial e posterior entrada na Casa Branca), nunca mais vira Goerlitz. O nome tio alemão surgia ocasionalmente nas reuniões do gabinete, e Simon Madlock mencionara-o várias vezes de passagem, mas nunca mais houvera contatos pessoais entre o industrial e ele.

Então, Earnshaw compreendeu que Sir Austin lhe tinha feito uma pergunta e esperava a resposta.

— Desculpe. Estava tentando lembrar-me. Tenho notado cada vez mais, à medida que envelheço, que, quando me perguntam acerca de alguma coisa ou alguém do passado, preciso recuar até esse passado e perco-me nele. Pois bem. Quer saber se conheço ou conheci o dr. Dietrich von Goerlitz? Não creio que exista alguém que tenha sido íntimo dele. Talvez os filhos, um rapaz e duas ou três jovens casadas, mas duvido que mesmo eles o conhecessem bem. Hum... direi que mantínhamos uma amizade de natureza comercial. É claro que isso foi antes de minha eleição para presidente.

— E depois de ser presidente, Emmett?

Earnshaw hesitou:

— Compreenda:

nos primeiros tempos teria sido incorreto não manter quaisquer relações. Segundo me lembro, ele não foi levado a Nuremberg como criminoso de guerra com montes de provas substanciais. Mais tarde, talvez uns doze anos mais tarde, antes do estatuto da Alemanha Ocidental sobre as fronteiras, é que seu povo reuniu provas, e Goerlitz e outros alemães nazistas foram julgados por um tribunal militar internacional e sentenciados em Munique, sendo Goerlitz considerado culpado de.. . de quê?... de utilizar escravos no trabalho e roubar as nações ocupadas durante a Segunda Guerra Mundial... embora subsistissem dúvidas quanto a isso. Foi condenado à prisão, não me lembro por quanto tempo...

— A sentença foi de vinte anos — esclareceu Sir Austin. — Creio que ele cumpriu apenas um quarto dela, pois os russos pediram e conseguiram seu perdão, e foram-lhe restituídos os bens e as fábricas.

— Sim, recordo-me. Seu regresso foi triunfal. Li em algum lugar, recentemente, que ultrapassou Krupp em produção e vendas.

— O ministro do Desenvolvimento Ultramarino disse-me um dia destes que Goerlitz está competindo com Krupp em contratos de construção nos países subdesenvolvidos, especialmente na índia, e que está dominando, com o bloco comunista e sobretudo a China vermelha, a condução do comércio e das vendas do continente. Disse que não o tem visto?

Earnshaw aquiesceu:

— Tenho estado desligado do assunto, Austin. Ainda me encontrava na Casa Branca quando Goerlitz foi solto, mas não havia motivo para reatarmos as antigas relações. É claro que alguns de nossos colaboradores mantinham contato com ele, assim como com todos os industriais de outras nações. Creio que meu assistente, Simon Madlock, se avistou com ele em Frankfurt, no decorrer de uma viagem.

— Quando foi isso?

— Oh, não tenho certeza! Creio... bem, deve ter sido há quatro ou cinco anos. — Earnshaw calou-se e olhou com curiosidade para seu amigo inglês. — Austin, não compreendo este interrogatório acerca de Goerlitz. Parece-me irrelevante. Disse que queria falar comigo a propósito de um assunto altamente pessoal e urgente. Insinuou que esse assunto poderia ter a ver com... minha reputação. Não sei que relação possa existir entre esse alemão e minha vtdn. Há anos que não o vejo.

Sir Austin fixou o tamborete que os separava e, sem olhar para o amigo, disse:

— Emmett, receio que o dr. Dietrich von Goerlitz tenha entrado outra vez na sua vida. E de uma maneira horrível, meu caro.

Earnshaw endireitou-se de tal maneira na poltrona que os ossos de seus joelhos quase bateram coptra o tamborete. Umedeceu o bigode e depois replicou:

— O que significa tudo isso, Austin? O que está querendo dizer?

— O dr. Dietrich von Goerlitz é agora um velho, e ouvi dizer que está fisicamente em declínio. Deve andar pelos setenta anos. Tem tudo o que o dinheiro e o poder conseguem comprar. O que resta a um velho a quem nada interessa, além de seu império comercial? Uma única coisa:

pôr o passado em ordem, ou, antes, arrumar a memória, preparar uma apologia para o futuro. Lembre-se de que há um período amargo na sua vida. Foi preso como criminoso de guerra e sempre afirmou que estava inocente. Pois bem, resta-lhe fechar as antigas cicatrizes. É essa a última tarefa para um velho ressentido, com fortuna e poder. — Sir Austin hesitou, mas, por fim, dirigindo-se diretamente a Earnshaw, disse:

— Goerlitz escreveu suas memórias na Alemanha, Emmett. Descreve todas as ações desprezíveis, coisas de que se lembra e outras tiradas dos jornais, da correspondência e dos negócios. Ouvi dizer que é excessivamente franco, brutal até, e que cada palavra, cada denúncia, cada revelação sensacional está plenamente atestada por fotocópias de documentos que pretende publicar juntamente com o original. Receio, Emmett, que esteja incluído nessas memórias, num de seus piores capítulos.

— Eu? — O espanto de Earnshaw foi espontâneo e sincero. — Que diabo poderia Goerlitz escrever a meu respeito?

Sir Austin esfregou nervosamente o joelho e contemplou o tamborete.

— Detesto prosseguir com esta conversa, Emmett...

— Continue, e diga-me o que ele escreveu.

— Tenho de o fazer para sua salvaguarda. Nessas memórias, Goerlitz declara que você foi o mais indeciso dos presidentes da história americana, e, portanto, o mais irresponsável e o mais fraco. Escreve que você se recusou a reconhecer todas as crises, que era incapaz de resolvê-las, que não se interessava nem por seu trabalho nem por suas obrigações e que, por conseguinte, delegava todas as decisões e poderes a seus subordinados, especialmente Simon Madlock. E que, por causa de seu desinteresse e da carência de realismo messiânico de Madlock, caiu nas mãos da China Vermelha:

entregou a bomba de nêutrons à China devido à deserção do prof. Varney em Zurique, e cedeu-lhe outros materiais básicos, que lhe permitiram erguer seu arsenal nuclear; assim, você em primeiro lugar e Madlock em seguida são responsáveis pela trágica realidade de a China Vermelha ter-se transformado numa potência nuclear mundial. Depois, escreve...

O rosto de Earnshaw estava congestionado pela raiva.

— É uma mentira infame! -— gritou com voz trêmula. — É uma falsidade ridícula, maliciosa, própria de um patife nazista, e se o velho Goerlitz escreveu isso e ousar publicá-lo, processá-lo-ei imediatamente por calúnia e difamação. Suportei minha parte de críticas e insultos, a habitual e disparatada tagarelice política, mas essa espécie de vingança, de caráter extremamente criminoso, excede toda e qualquer intemperança discursiva. Como se atreve a fazer semelhantes acusações sem a mínima prova? Como antigo advogado e ex-presidente dos Estados Unidos, garanto-lhe...

Com expressão triste, Sir Austin ergueu a mão para interrompê-lo:

— Emmett... Tem razão, Emmett, não o censuro por estar furioso, tem motivos para isso... Mas, Emmett, ele tem fotocópias de documentos e cartas, duas delas assinadas por você, as restantes por Madlock em seu nome, ordenando que certos materiais nucleares da firma Goerlitz Industriebau fossem liquidados através de fundos governamentais secretos e entregues por Goerlitz à China vermelha, com base num crédito a longo prazo.

Cada vez mais furioso e trêmulo, Earnshaw explodiu:

— É um disparate! Mesmo que rpsse verdade, por que cargas-d’água iríamos fornecer à China comunista esses materiais por intermédio de Goerlitz?

— Segundo Goerlitz, seu conselheiro Madlock acreditava fervorosa e quase misticamente que a China vermelha se colocaria do seu lado, a favor da paz, e não recusando gestos de boa vontade em troca de auxílio, uma espécie de política do tipo da do Plano Marshall. Pressentindo que o acordo não teria a aprovação popular, Madlock tomou algumas iniciativas:

conseguiu que Goerlitz mandasse para a China máquinas para fábricas de tecidos sintéticos e de algodão, ordenou fornecimentos de ferramentas e tratores e instigou o envio de materiais para reatores nucleares, sob a designação de auxílio médico e agrícola, apesar do perigo de os reatores virem a ser utilizados na produção de combustível atômico em futuras agressões. Repito que, segundo parece, foi Madlock quem tomou essas iniciativas, aparentemente com seu consentimento e...

— O meu consentimento? — explodiu Earnshaw. — Goerlitz toma-me por louco, estúpido? Acaso pensa que trabalho contra o meu país? Ou que esse inteligente e honesto servidor público que Inj Madlock o fazia? Digo-lhe que Goerlitz se tornou um luná- i leii senil.

Bem... — começou hesitantemente Sir Austin.

Exasperado pela hesitação do outro, Earnshaw desfechou:

Onde estão esses documentos com minha assinatura de que liilu Goerlitz? Apresente-me esse livro e as tão famigeradas provas • demonstrarei imediatamente sua falsidade.

Viu que Sir Austin tentava acalmá-lo, mas era inútil. Quando Austin falou, esforçou-se todavia por escutá-lo.

— Ainda não tenho uma cópia completa do original das memórias de Goerlitz. Ninguém a tem. Mas os que, como nós, estão in» comércio de livros têm seus espiões literários. A competição é i tio grande, quando se trata de livros fora de série, que Sydney e m mantemos representantes na maior parte das capitais do Ociden- ir, e esses representantes são pagos para saber, por todos os meios, quais as obras importantes que estão sendo preparadas ou que já estão terminadas e conseguir uma leitura exclusiva desses trabalhos. (lonfesso que não hesitamos em subornar uma vez ou outra. Seja como for, nosso agente de Munique foi a Frankfurt por causa da beira Anual do Livro e deu uma chegada à casa do editor alemão, de Goerlitz, onde soube que ele tinha em seu poder — ainda que lemporariamente, pois devia remetê-lo a um agente literário francês — o original manuscrito das memórias. Graças a uma importante quantia, nosso homem conseguiu que essas memórias lhe fossem emprestadas por uma noite. Considerou-as eletrizantes e passou a noite em claro, escrevendo um resumo e copiando alguns documentos. Sua carta, anunciando o golpe e aconselhando-nos a que fizéssemos tudo para publicar a obra, chegou esta manhã. Bastou-me um relancear de olhos pelo resumo para ver que o livro terá uma enorme repercussão internacional. De fato, ao atacá-lo, Goerlitz teve o desplante de me censurar por ser seu amigo. Estranha tolice. Sabia que não nos interessaríamos por uma obra tão grosseira, mas outros menos escrupulosos publicá-la-ão em todos os países do mundo. O meu dever era evidente. Considero-o amigo e vítima de uma iniquidade. Tinha de avisá-lo para que pudesse defender-se.

Earnshaw desejava desesperadamente beber o conhaque, mas sabia que as mãos não lhe obedeceriam. Tinha as faces afogueadas e os pulmões ressequidos.

— Quer dizer, Austin, que isso... essa história de Goerlitz merece crédito?

— Sinto-me embaraçado, Emmett. Só posso lhe dizer o que vi e li.

— Onde está o material que seu agente lhe mandou? Está aí com você?

— Sim.

— Deixe-me vê-lo, por favor.

A mão direita de Sir Austin já estava no bolso do paletó. Tirou um volumoso envelope, endireitou-o e extraiu dele o que pareciam ser quatro ou cinco folhas de papel.

— O resumo — esclareceu — e uma cópia dos documentos.

Earnshaw apoderou-se das folhas e contornou a mesa em busca dos óculos. Tendo-os encontrado, ficou ao lado da mesa e percorreu em silêncio o resumo das memórias de Goerlitz. Quando acabou, examinou as fotocópias. Duas delas eram reproduções de documentos oficiais da Casa Branca, sem dúvida notas de encomendas à Goerlitz Industriebau que deviam ser enviadas para a Albânia e daí para Xangai. Ambas estavam assinadas por Emmett A. Earnshaw, presidente dos Estados Unidos.

Ficou por instantes interdito, depois caminhou vagarosamente na direção de Sir Austin, reparou que seu amigo inglês o observava e, puxando o tamborete de veludo para junto da lareira, sentou-se. Tentou dirigir a mente para um corredor da memória, mas não o conseguiu, tão grande era a escuridão. Olhando de novo para os documentos assinados, mas sem os ver, quis protestar que aquelas assinaturas haviam sido forjadas, mas sabia perfeitamente que eram suas, autênticos autógrafos.

— Sim — disse finalmente —, as assinaturas são minhas. — Jogou os papéis em cima da cadeira que deixara e voltou-se para Sir Austin. — Não... não me lembro de os ter assinado. Não é o gênero de coisas que eu assinaria, mas evidentemente o fiz, a não ser que se trate da mais hábil das falsificações, do que duvido.

— Deve haver uma explicação — interveio delicadamente Sir Austin. — Goerlitz acusa-o de ter abdicado BiTpresidência em favor de seu conselheiro, deixando-o à vontade nos negócios estrangeiros. Este persuadiu-o a negociar com a China, a menos que o enganasse, fazendo-o assinar esses papéis.

— Não! — Pensou em Simon Madlock e acrescentou:

— Nunca tentou persuadir-me fosse do que fosse e nunca me enganou.

— Mas, Emmett.. .

— Só me ocorre uma explicação. Havia tanta papelada para assinar nessa época, e, por vezes, eu estava tão cansado, que assinava tudo o que me punham na frente. Confesso-me culpado de desleixo, mas não se tratava, em geral, de assuntos importantes. Nas decisões vitais, tentei sempre analisar os problemas, ponderava-os, e tinha Simon, que me aconselhava, mas não me lembro de qualquer recomendação nesse sentido; apenas comparávamos nossas opiniões sobre a China vermelha e a maneira de manobrar os chineses. Embora noutro sentido, Simon mencionara Goerlitz, ou talvez se referisse a isso e eu não tivesse prestado atenção. Talvez pensasse que eu concordava e, por conseguinte, foi em frente. Foi dessa maneira, naturalmente, que assinei isso, juntamente com outras centenas de papéis. — Meneou a cabeça e concluiu:

— Não sei. — Pegou distraidamente o conhaque e bebeu-o.

— Muito bem — observou calmamente Sir Austin. — Você sabe que está inocente e eu também, mas há assinaturas, e, uma vez divulgadas através de um livro de êxito mundial garantido, você vai se ver em sérios embaraços. Não poderá chamar legalmente (íoerlitz à ordem. Não poderá proibir a publicação do livro ou pedir sua destruição. Poderá apenas fornecer uma explicação à imprensa. (iomo editor, desde já lhe declaro que isso não será o suficiente. Seus inimigos políticos se aproveitarão para encobrir as próprias faltas, farão de você o bode expiatório pelo fato de a China ter-se transformado numa ameaça nuclear e por quaisquer dificuldades que venham a surgir na próxima Conferência de Cúpula. Tem de estar preparado para essas eventualidades, Emmett.

Este concordou desanimadamente, incapaz de desanuviar a mente. Gostaria de ter junto de si outra mente que substituísse a sua, a de Isabel ou a de Simon Madlock, mas estava só.

— Sim — disse por fim. — Compreendo o que poderá acontecer. Tenho medo. Receio mais isso do que tudo o que possa vir a suceder. Mas não sei o que fazer.

— Ponha-lhe cobro — aconselhou com firmeza Sir Austin. — Pode impedir que seja publicado. — Levantou-se e ficou na frente de Earnshaw. — É o único caminho a seguir, não tem outra alternativa. Nenhuma.

Earnshaw estava confuso.

— Não... não estou entendendo.

Sir Austin caminhou até o meio da sala. De repente, voltou-se.

— O dr. Dietrich von Goerlitz está em Paris desde esta manhã. Hospedou-se no Hotel Ritz. Passará uma semana e meia em Paris. Tenho minhas fontes de informação, tanto como secretário dos Negócios Estrangeiros quanto como editor... e foi assim que o soube. Goerlitz foi a Paris por dois motivos:

o primeiro, para se encontrar com delegados da China comunista, com o objetivo de assinar com eles os contratos finais para um projeto de reator nuclear e de uma cidade pré-fabricada por seus engenheiros, um complexo destinado à utilização pacífica da energia nuclear ou coisa que o valha; e o segundo, a fim de entregar, sem mesmo esperar pela Feira do Livro de Frankfurt, suas memórias a um agente literário francês, que negociará os direitos de publicação internacional com os editores estrangeiros presentes em Paris. Você tem de evitar que essas memórias sejam publicadas na sua forma atual, Emmett. É preciso que o faça.

Earnshaw moveu-se no tamborete e acabou o conhaque. Depois, disse com desespero:

— Quero evitá-lo, mas não sei como.

— Cancelando sua viagem à Escandinávia- e partindo para Paris. Vá ter com Goerlitz e fale-lhe de homem para homem... tanto mais que são velhos amigos... dê-lhe como explicação a outra metade da verdade e persuada-o a modificar ou a destruir esse capítulo. Sei que o conseguirá. Teve relações de amizade com ele. Goza de prestígio. E, sejamos francos, Emmett, você tem grande encanto pessoal e, quando quer, é capaz de derreter o aço. A única solução, Emmett, é ir a Paris.

— Não, não sei.

— Não pode ter dúvidas. Se tem em algum apreço seu futuro, seu lugar na história, é forçoso que vá. Conheço sua posição nos Estados Unidos, sei o que a oposição tentou fazer-lhe. Mas você conseguiu detê-la. Há a sua biblioteca. Tem a sua autobiografia. Veio aqui para receber a Ordem do Império Britânico. Tudo está certo. Mas tudo desmoronará se você falhar agora. Bastará falar com Goerlitz em Paris. ..

Earnshaw interrompeu-o:

— Com certeza, Austin, que, como colaborador de um ministro, compreende a incorreção disso. O presidente eleito dos Estados Unidos encontra-se em Paris, representando todos os americanos numa conferência com as potências mundiais. Ver chegar um ex-presidente, sem ter sido convidado ou anunciado, um ex-presidente que advogou políticas diferentes, deve ser terrivelmente embaraçoso para ele. E para mim também.

— Compreendo. No entanto, há momentos em que somos forçados a ignorar o protocolo e quaisquer sentimentos pessoais. Pode passar lá um dia ou dois, encontrar-se com Goerlitz em caráter particular, partir e retomar sua viagem à Escandinávia.

— Não será fácil — argumentou Earnshaw. — O presidente teria de ser informado da minha presença. A imprensa saberia. Nem sei lhe dizer o quanto isso me molestaria. Você não compreende totalmente o fundo da questão. — Procurou o charuto já meio fumado. Depois, pôs-se a acendê-lo. Viu Sir Austin levantar-se e dirigir-se para o bar, a fim de se servir de outro gim com água tônica. Fumando o resto do charuto, Earnshaw tentou analisar as barreiras protocolares que se interpunham entre ele e a viagem a Paris. Então, reconheceu francamente que não era o protocolo o que o fazia resistir à sugestão de ir a Paris, mas sim seu profundo ressentimento para com o atual presidente dos Estados Unidos. A reforçar esse ressentimento, lembrou-se de um incidente ocorrido havia quatro semanas. Um dos conselheiros do presidente, um dos poucos sobreviventes do mandato de Earnshaw, estava nas proximidades do Rancho Santa Fé e telefonara-lhe. Por acaso, o secretário do presidente tinha revelado que um ministro do Supremo Tribunal, por motivos de saúde, ia ser aposentado no outono. O presidente procurava um americano apto para preencher a vaga. Tratava-se sem dúvida de uma “sondagem”. Embora Earnshaw quisesse concorrer à importante vaga no mais alto tribunal dos Estados Unidos, mostrara-se reservado. Quando o emissário não-oficial desligara, Earnshaw ficou com a certeza de que ele declararia a seu chefe que o rx-presidente ficara sensibilizado.

Earnshaw não fazia ideia de como se tinha tornado receptivo ao mostrar sua aversão pelas responsabilidades de decisão que todo ministro tem de assumir, apesar de ser atraído pela honra dessa nomeação e pelo fato de esse cargo o fazer reviver aos olhos do público.

Elavia quatro semanas, recebera um convite telefônico para se encontrar com o presidente na Casa Branca. Tais cortesias eram raras nos últimos anos, e Earnshaw aceitara sem hesitação o encontro com o presidente. A princípio, supusera que este quisesse vê-lo a fim de lhe propor o referido cargo. Depois, pensou que isso seria prematuro e que devia haver outra explicação para o convite da Casa Branca. Com efeito, aproximava-se a data da Conferência de Cúpula. A opinião pública americana estava dividida quanto à crença na concordância da República Popular da China com o desarmamento internacional. Atentos, os delegados de Pequim iriam a Paris com a certeza de que os imperialistas americanos, divididos em suas opiniões, acederiam mais facilmente a compromissos e concessões. Por conseguinte, o presidente chamava o ex-homem de Estado do partido contrário para lhe oferecer um lugar na delegação à Conferência de Cúpula. Com um ex-chefe de Estado e um atual presidente sentados lado a lado à mesa da conferência, os Estados Unidos apresentariam uma frente sólida e inabalável, e a arrogância e a teimosia chinesas ficariam reduzidas às justas proporções. Fora isso o que Earnshaw compreendera, e a oportunidade de servir de novo, de ajudar seu país, de reabilitar seu prestígio, fascinara-o. Voara para Washington cheio de pensamentos elevados.

Com surpresa e alegria, seu regresso à capital federal fora largamente relatado pela imprensa. Uma vez no gabinete presidencial, na Ala Oeste, já não sentia a nostalgia, mas o estímulo de se encontrar de novo no centro do poder (coisa que nunca sentira enquanto ocupante da elíptica sala de Hoban). O Jardim das Rosas, visível através das portas envidraçadas, à sua esquerda, estava em botão; pelas janelas de trás da mesa do atual presidente, podia ver os vidoeiros brancos que plantara e que tinham crescido consideravelmente.

Além disso, o presidente, quase sempre altivo e formal, mostrara-se muito amável. Desarmado pela hospitaleira recepção, Earnshaw sentira-se à vontade e comunicativo. Discutiram vários assuntos, a maior parte de somenos importância. Quando o presidente abordou um caso recente, julgado pelo Supremo Tribunal, Earnshaw aguardou com alvoroço. Mas o presidente não fez qualquer alusão à próxima vaga, e Earnshaw, embora um tanto surpreso, não revelou desapontamento, uma vez que ainda era cedo para isso.

Quando, finalmente, o atual presidente encetou o assunto da Conferência de Cúpula, Earnshaw esperou ansiosamente o convite. O presidente resumiu a agenda de trabalhos, falou dos obstáculos a transpor, no caso de as cinco potências chegarem a um acordo sobre o desarmamento nuclear, e, por último, declarou que a delegação americana precisava de muita prudência para fazer dessa crítica reunião um êxito. Fora por isso que mandara chamar o ex-presidente:

para ouvir sua opinião acerca de várias propostas de desarmamento e da lealdade dos governantes comunistas do povo chinês.

Entusiástica e fluentemente, para além de seus conhecimentos e experiências, Earnshaw falou sobre essas graves questões. Mas, pouco a pouco, ao cabo de dez minutos, com certeza, Earnshaw compreendeu que o nervoso presidente mal o escutava e se mostrava até desatento. Assim que Earnshaw se calou, o presidente ergueu-se, dirigiu-lhe um brusco agradecimento e mandou que introduzissem os fotógrafos no gabinete.

Foi então, enquanto era fotografado ao lado de seu sucessor, no meio de um pandemônio de câmaras e luzes, que a verdade daquele encontro apareceu a Earnshaw. Ele não tinha sido chamado à Casa Branca para ser integrado na delegação à Conferência de Cúpula. E muito menos a fim de ocupar a vaga do Supremo Tribunal. Não fora convocado com objetivo de—ministrar conselho àquele que iria representar seu querido país na Conferência de Cúpula, onde seria decidido o futuro do homem neste planeta. Haviam-no chamado com o intuito de utilizá-lo politicamente, apenas para posar para os fotógrafos e mostrar aos partidários do presidente um outro partidário, o grande-pai-branco-de-todos-os-americanos, antes de sua viagem a Paris.

Ao abandonar o gabinete presidencial, Earnshaw sentira-se irritado e humilhado, e essa humilhação continuava a mortificar-lhe o espírito.

Agora, naquele apartamento de hotel londrino, consciente da presença de sir Austin Ormsby, sentado na cadeira à sua frente, Earnshaw sacudia fortemente a cabeça:

— Não, Austin, duvido que possa ir a Paris enquanto o presidente lá estiver. Há coisas que você ignora.

— Se se trata de seu orgulho ferido, Emmett — replicou beligerantemente o secretário dos Negócios Estrangeiros —, aconselho-o a colocá-lo de parte. Ficará menos prejudicado agora do que num futuro próximo, se consentir que esse capítulo fique nas memórias de Goerlitz. O que seu sucessor sente por você, o que você sente por ele, são coisas de somenos nesta conjuntura. Só interessa Goerlitz e o que ele sente...

— Sim, talvez tenha razão — concordou Earnshaw. Então, compreendeu que sua profunda relutância em deslocar-se a Paris não era devida à presença do atual presidente, mas sim à do industrial alemão. Earnshaw compreendeu que estivera tentando iludir seu verdadeiro temor e decidiu falar francamente:

— Vou ser sincero com você, Austin. De outro modo, minha relutância em salvar-me parecer-lhe-á suspeita. Saiba que, se meu destino está nas mãos do dr. Dietrich von Goerlitz, nada me poderá preservar. A viagem a Paris seria pura perda de tempo.

— O que pretende dizer com isso?

— Que Goerlitz não tem motivos para cooperar comigo. Seu argumento certamente será que recusei ajudá-lo quando precisou de mim e que, ao pagar-me na mesma moeda, agora, não verá qualquer razão para voltar atrás. Goerlitz tem uma mentalidade comercial, insensível. Seria capaz de negociar favores, mas eu não tenho favores para negociar. Quando foi condenado como criminoso de guerra, mediante provas circunstanciais, provas hipotéticas quanto à sua participação ativa na causa nazista, Goerlitz tentou desesperadamen- ic conseguir referências válidas, isto é, de pessoas de destaque. Por duas vezes apelou para mim, pedindo-me que depusesse a seu favor 110 julgamento, que declarasse, ou, como testemunha, afirmasse que ele nunca havia sido um nazista ativo. Que diabo, Austin! Eu ia ser indicado como possível presidente, não podia ajudá-lo. Além disso, não tinha certeza se ele era ou não nazista. E também não sabia até que ponto o fato de defendê-lo afetaria minha candidatura. Lutei com minha consciência, e, antes que decidisse, o julgamento acabou e ele foi considerado culpado e condenado. Nunca mais tive relações com ele, e, pelo tom de suas memórias, vejo que ele não me perdoou. Mas não é tudo, Austin. Pouco depois, o advogado de Goerlitz sondou nosso governo para estudar uma possibilidade de perdão. Eu estava então na Casa Branca. Não me foi possível decidir, e, por isso, o advogado de Goerlitz, cansado de esperar, voltou-se para os russos. Por motivos particulares, entre os quais a utilização do industrial de gênio que é Goerlitz, os russos concordaram em que ele devia ser anistiado, fizeram pressão e conseguiram libertá-lo. Não vou dizer que esteja orgulhoso de meu equívoco, mas são esses os fatos. Agora, diga-me, o que sentirá Goerlitz ao ver-me em Paris para lhe pedir ajuda?

Sir Austin contemplou o copo que tinha entre os dedos.

— Creio que resistirá, duro como um prego, mas que acabará por ceder.

— Acha que sim?

Sir Austin ergueu os olhos.

— Sem dúvida. Você é uma das pessoas que ele odeia e tentou pôr de rastos, incluindo eu, mostrando assim todo o seu veneno. Pois bem! Agora, você vai ter com ele e, por assim dizer, humilha-se, põe sua alma a nu, admite seus erros, convence-o do atual poder que ele tem sobre você. Isso o encherá de uma espécie de sentimento de divindade e lhe recordará a frase de Alexander Pope:

“Errar é humano, perdoar é divino”. Verá que esse velho prussiano se acalma, Emmett. Então, lhe mostrará que o conteúdo desses documentos que ele pretende publicar não corresponde à verdade de seu comportamento na presidência nem de sua política como presidente, pelo que seriam mal interpretados. Aposto que ele fará uma revisão e modificará todo o capítulo, talvez acabe até por suprimi-lo.

— É muito persuasivo, Austin. Quase torna a coisa possível.

— Creio que é possível — disse Sir Austin, levantando-se. — E ainda que lhe pareça impossível, aconselho-o a tentá-la urgentemente. Nenhum homem pode permitir que se ataque assim sua reputação. Tem de defender-se com toda a energia, como se sua sobrevivência dependesse disso.

Earnshaw depôs a ponta do charuto no cinzeiro. Levantou-se e dirigiu um pálido sorriso a seu amigo inglês.

— Não sei o que será pior:

ir a Paris sujeitar-me a uma humilhação e a uma derrota, ou partir para a Escandinávia e depois voltar à Califórnia e ver o que acontece. A história determina seu próprio fluxo. Tenho certeza de que ninguém pode mudar-lhe o curso.

— Pense, ao menos, no que lhe sugeri.

Earnshaw voltou a sorrir e apoiou o braço no ombro do amigo.

— Oh, não se preocupe, que pensarei! Sonharei com isso! — disse, enquanto conduzia Sir Austin para o vestíbulo. — Perdeu muito tempo tentando salvar um velho, e creia que lhe estou muito grato.

Pegou o chapéu, o sobretudo e a bengala de Sir Austin e os entregou a ele. Já à porta, este disse:

— Fleur e eu seguimos para Paris às dez horas da manhã. Se resolver ir também, telefone-me no Ministério dos Negócios Estrangeiros, ou, se eu já tiver partido, transmita seus planos à minha secretária e ela tratará de tudo.

— É muita bondade de sua parte, Austin, mas uma viagem dessas não se pode ocultar. Tem de ser feita às claras. Se eu resolver ir a Paris, contarei com minha embaixada. Caso contrário, de novo lhe agradeço, e receberá um postal de Oslo ou de Estocolmo. Boa noite.

Depois de fechar a porta, Earnshaw voltou para a sala, sentindo-se fatigado e deprimido. Uma única palavra lhe atormentava o espírito. A palavra inimiga que apressara sua derrocada:

indecisão.

Ao cansaço físico juntava-se agora a fadiga emocional. Sentia o espírito demasiado oprimido para suportar o peso dos graves pensamentos que a indecisão fazia chocalhar. O suave esquecimento do sono não se apressava a salvá-lo daquela confusão. Nessas ocasiões, a sós consigo próprio, procurava muitas vezes alguém. Mas já não havia ninguém, a não ser Carol. Então, buscava sua companhia, ainda que por breves minutos.

Atravessou hesitantemente o vestíbulo, passou pela cozinha e foi até o quarto dela, no outro extremo da bonita sala de jantar. Não se ouvia a televisão. Devagarinho, girou a maçaneta e abriu a porta. O quarto estava às escuras, mas a lâmpada atrás dele iluminava uma parte da cama verde, e pôde vislumbrar, entre os cobertores, o perfil de Carol e sua cabeça enterrada nos travesseiros. Ao vê-la tão calmamente adormecida, invejou-a e deu graças a Deus pela bênção de sua companhia.

Fechando a porta do quarto, regressou à sala de jantar e dirigiu-se finalmente para seus aposentos. Enquanto fechava a maleta colocada em cima da cama de dossel, sentia as têmporas latejarem. A palavra “indecisão” continuava a vibrar-lhe violentamente na cabeça, e compreendeu que só teria sossego se evocasse outras palavras e tentasse ordenar as ideias.

Com esforço, procurou sair do dilema, e, embora esse esforço fosse extenuante, era menos doloroso do que continuar mergulhado no vácuo. Pouco a pouco, enquanto vestia o pijama de algodão azul, recordou algo que Sir Austin lhe dissera, qualquer coisa a propósito de sua reputação, que começava a obcecá-lo. Sir Austin referira-se à publicação da autobiografia de Earnshaw, à sua Biblioteca Presidencial e à Ordem do Império Britânico recebida naquela noite.

No meio das trevas, Earnshaw analisou com franqueza e"hones- Iidade a possibilidade de salvaguardar sua reputação. Havia muito que se tinha desinteressado de sua autobiografia como presidente. Tinha consentido que seu pessoal reunisse o material, organizasse-o c lhe desse forma, com a assistência de um antigo correspondente da Casa Branca. Consciente de que a opinião pública faria seu juízo póstumo, Earnshaw pouco mais fizera do que ditar algumas frases para o livro, corrigir certas afirmações e rever o conjunto antes de entregá-lo ao editor. Durante o tempo da impressão, quando a realidade de sua precária posição na vida americana começou .1 tornar-se evidente, chegou a acreditar que essa autobiografia lhe restituiria a antiga consideração. No íntimo, porém, o livro preocupava-o, pois seu conteúdo não passava de um mero amontoado de fatos incolores, de datas e relatórios, um volume enfadonho e totalmente falso de sua verdadeira personalidade, de seus sentimentos, de seu caráter e de suas opiniões.

Esses receios não haviam sido infundados. Quando surgiu nas livrarias, a autobiografia foi censurada por críticos e articulistas, que a tacharam de chocha e imbecil. Dos cem mil exemplares apenas se venderam dezesseis mil e quinhentos, sendo os restantes despachados por um sexto do preço original.

A Biblioteca Presidencial Earnshaw, em San Diego, despcrta- ra-lhe mais interesse. A negligência inicial, ao deixar sua organização em mãos estranhas, fora superada no último momento pela determinação em fazer dela o depósito de suas recordações como presidente, comparável à Biblioteca Franklin D. Roosevelt, em Hyde Park, à Biblioteca Truman, em Independence, à Biblioteca Eisenhower, em Abilene, à Biblioteca Kennedy, em Cambridge, à Biblioteca Johnson, em Austin. Convidara pessoalmente figuras nacionais para a inauguração, e muitas tinham comparecido. Enquanto as guiava através dos corredores e por entre as estantes, surpreendera-o subitamente o limitado número de exemplares de sua coleção, a pobreza e o desinteresse dos assuntos, o pouco que criara ou escrevera. Mesmo assim, a inauguração fora um êxito, e ele sentira renascer a esperança. Mas depois que a cerimônia acabou e a biblioteca foi aberta ao público, chocara-o o restrito número de visitantes interessados em seus papéis. Apareceram alguns turistas, evidentemente, quase todos estudantes, mas nenhum estudioso.

Esse desprezo fora seguido por outro. Uma coisa estúpida, posto que significativa. Todos os anos a opinião pública nacional elegia os vinte americanos vivos mais admirados, e, durante meia dúzia de anos, Emmett Earnshaw encabeçara a lista de nomes dessa eleição. Mas havia dois anos passara do primeiro para o quarto lugar em popularidade, e, no ano anterior, para o décimo; agora, apenas algumas semanas antes, encontrava-se em vigésimo.

E que significava a Ordem do Império Britânico, recebida nessa noite? Que tinha sido um amigo dos ingleses, que o honravam com semelhante ninharia. Mas quem, na sua pátria, se impressionaria ou se importaria com isso? A atenção do público americano convergiria não para Londres, mas para Paris, onde seu ativo chefe travava uma luta de gigante para o futuro bem-estar das nações.

Sir Austin exagerara ao preconizar o revigoramento da reputação de Earnshaw. Isso não deveria se verificar, visto já não haver nenhuma reputação. O capítulo das memórias de Goerlitz visava um alvo inexistente. Para que desferir uma flecha que se perderia no ar?

Deprimido, Earnshaw abotoou o botão de cima do pijama, calçou os chinelos e foi para a sala de estar. Automaticamente, encaminhou-se para o bar. Pela primeira vez em todos aqueles anos, precisava de outro conhaque antes de ir para a cama.

Serviu-se da bebida, encostou-se à parede, sentiu o calor reconfortante do álcool na garganta e no peito e tentou consolar-se recordando tempos melhores. Esse passado mais feliz iludiu-o, como o liilham iludido os anos mais brilhantes da Casa Branca. Tudo o que continuava gravado em seu espírito era um resumo, num livro qualquer de um jovem e petulante historiador, do estilo da presidência de Earnshaw. O historiador caracterizara-o repetindo a conhecida micdota da Revolução Francesa. Um cidadão da revolução estava jantando a uma mesa junto à janela de um restaurante de Paris, na companhia de um visitante estrangeiro. De súbito, através da janela, viu uma multidão de franceses que corriam, e imediatamente o cidadão francês se levantou e desculpou-se:

“Tenho de acompanhar aquela gente”, disse apologeticamente. “Sou seu chefe.”

Earnshaw sorveu o resto do conhaque, voltou para o quarto, apagou a luz e meteu-se debaixo dos cobertores.

Estendido, reconfortado e estonteado pelas duas doses de conhaque, prestes a adormecer, as penosas recordações desvaneceram-se deixando apenas a hesitante descoberta da única palavra.

Inexplicavelmente, um extraviado incidente do passado voltou-lhe ao espírito. Um ano depois de deixar a Casa Branca e de o novo presidente eleito a ter ocupado, realizara-se o anual e dissoluto Jantar Gridiron dos órgãos de informação de Washington, e representara-se uma sátira que não tinha sido publicada, mas que se torna uma história proibida que acabara por lhe chegar aos ouvidos. Um comediante dissera que a alcunha de Earnshaw passava a ser o Ex, abreviatura de ex-presidente, mas que, mesmo enquanto estivera na Casa Branca com o presidente, já havia quem lhe chamasse o Ex.

Hilaridade.

E nesse instante de rememoração sonolenta, a palavra reper- i niiu-lhe no cérebro, esfumou-se e morreu.

Decisão.

O Ex da Casa Branca. Tinha sido cruel, e o fato de isso continuar a magoá-lo significava que havia nele qualquer coisa que devia ci preservada. Sua vida, uma vez julgada, não lhe pertencia para que ele a oferecesse, obstinada e criminosamente, ao vácuo. Sua vida ' i.iin outras vidas, significava os parentes amados, sua Isabel, Simon, Carol, os companheiros de bridge, os dezesseis mil e quinhentos que haviam comprado seu livro, os turistas do centro-oeste que vr.ilavam sua biblioteca, a imensa multidão que tinha feito dele o iimericano mais admirado.

Decisão.

Devia muito a muitos. Devia muito a si mesmo. Não podia i unsentir que as afirmações viciadas de um alemão despeitado lhe pregassem o último prego no caixão em que seria sepultado, longe do Panteão da História.

Levantar-se-ia ao amanhecer. Notificaria a embaixada dos Estados Unidos em Londres da alteração de seu itinerário. Acordaria Carol e lhe diria que tinha assuntos importantes a resolver em Paris. Ela apreciaria Paris mais do que as capitais escandinavas. Tomaria um jato — não um jato, o médico proibira-o —, tomaria o Flecha Dourada para Paris e reservaria uma suíte no Lancaster. Falaria com Goerlitz e conseguiria uma nesga de imortalidade ou mesmo a imortalidade.

A vida tinha sido boa para ele e ele a ludibriara, porque nunca a utilizara na medida de suas possibilidades. Mas agora o faria, pelo futuro de Isabel, o futuro de Carol, por todos os eleitores e membros do partido que um dia haviam posto suas vidas nas mãos dele.

Decisão.

Seria o Ex de ex-presidente e não o Ex de extinção. Não, nunca cobriria de lama sua cabeça, se isso fosse possível e o Senhor o ajudasse. Apenas um cobertor, um fofo cobertor que o deixasse ver sem desgosto o despontar do dia.

Bocejou, sentiu-se melhor e tentou dormir...

Era enervante, numa manhã de sábado quente como aquela, ensaiar os números novos, especialmente quando não tinha decidido ainda se prolongaria o contrato no Chez 88-40-88.

Ao ouvir a gravação francesa em ritmo de jazz de velhas canções clássicas do folclore americano, que inundava, através do amplificador, o palco, Medora Hart bateu com a sandália de couro no escorregadio tablado de dança e esperou sua deixa. O calor que se infiltrava no clube noturno quase vazio, vindo das ruas de Juan-les- Pins, era sufocante, e Medora Hart preferiria poder mergulhar nas águas geladas da praia privativa do Hotel Provençal ou, o que seria melhor, andar ao ar fresco da manhã pelo extremo leste de Londres, do apartamento de sua mãe até a mercearia.

De passagem, recordou as garotas de Paddy que tinham se tornado suas amantes por sonharem com a Riviera, a Côte-d’Azur e... caramba!, se soubessem como ela detestava tudo isso! Pode-se ter, minhas meninas — pensava —, todos os iates de Villefranche, todas as piscinas do Cap-d’Antibes, todos os cassinos de Juan-les- Pins a Monte Cario, incluindo a Croisette... pode-se ter tudo isso com um perfume de Billingsgate, uma panorâmica do Soho, um passeio por Blackfriars Bridge.

O disco tocava mais alto, o ritmo acelerou-se, e, logo que soou sua deixa, Medora Hart estalou automaticamente os dedos, requebrou e ondulou os ombros num gesto profissional, excitante, aproximando-se do microfone. Acompanhando a música, meio cantando, meio recitando, numa voz ao mesmo tempo lasciva e ingênua, entoou com forçada exaltação (embora vestida, pois se tratava de um ensaio, mas estava terrivelmente quente):

“As senhoras da Cidade do Cabo cantam esta canção:

Excitação! Excitação!

A gente da Cidade do Cabo percorre cinco milhas.

Oh! no Dia da Excitação!!”

Olhando de esguelha, viu que os únicos ocupantes do clube noturno que a observavam e ouviam eram o sólido embora velho Jouvet, o proprietário, e o nervoso jovem Mauclair, o diretor artís- i ico; e agora Mauclair, de pé, atrás do proprietário, debruçava-se para lhe segredar qualquer coisa.

Desviando o olhar e representando para as mesas vazias e as cadeiras viradas, Medora Hart prosseguiu:

“Saí com meu chapéu desabado.

Excitação! Excitação!

Voltei cheia de moedas.

Oh!, no Dia da Excitação!”

Continuou até o disco acabar e achou que, por mais incongruente que fosse interpretar a canção negra americana no seu tea- tral sotaque inglês, ela era suficientemente animada, barulhenta e rítmica para a sobrecarregada atmosfera do último espetáculo. Era a hora em que o Chez 88-40-88 estava sempre superlotado, cheio de fumaça e conversas, em que os turistas americanos e alemães se embriagavam e barbudos rapazes belgas metiam as mãos por baixo das blusas curtas de suas amigas francesas.

Interrompendo-se, pegou no microfone e disse com convicção:

— Isto deve animá-los, M. Jouvet. Acho que deveria baixar as luzes, fazer incidir um foco sobre mim e deixar a orquestra tocar That old black magic. Prefiro-a a Les flonflons du bal, é de ritmo mais lento, mais fácil de acompanhar. Eu vestiria o conjunto de coquetel que trouxe de Cannes e que tem bastante que despir até o fim do espetáculo. Mais ou menos assim. .'.

Trauteando a melodia, pôs-se a simular seu projetado striptease:

— Cantarola, depois tira as luvas brancas, desabotoa lentamente e despe a jaqueta de lantejoulas — entoou. — Volta a canta- uilar, faz alguns rodopios no tablado e dirige-se para as mesas, a fim de que possam ver a blusa bem de frente, mas um pouco abaixada, e l.iz rodar furiosamente a saia, para que possam apreciar-lhe as coxas e o traseiro. Depois, volta ao tablado. Cantarola, enquanto desabotoa a blusa e a tira. A seguir, corre o fecho da saia e liberta-se dela. Depois, despe a combinação, tira as ligas e as meias. Agora, só música, nada de canto, talvez uns zumbidos ou assobios, umas quantas frases. Percorre as mesas dos clientes — talvez uns gracejos em vez de assobios, como queira — c balança o sutiã de náilon, da cor da pele; então, arranca-o, descobre os seios e executa uma espécie de dança do ventre para a galeria; depois, retomando a canção, volta-se de costas, ou talvez se possa fazer incidir um refletor sobre a assistência, solta seus arquejos entrecortados, e aparece só com um laço dourado ao pescoço e o triângulo de ouro, o que au naturel é bastante. Então, pode deslizar para o centro do palco, com todas as luzes sobre ela, de braços erguidos, pernas abertas, a cabeça para trás, de cabelos soltos e olhos fechados, numa espécie de ondulante dança de sofrimento e êxtase, apenas movendo o vetre, numa magia negra de sexo, e, ao terminar o número, lança-se para a frente, cai de joelhos, de cabeça para trás, apagam-se as luzes e ela desaparece.

Ficara tão absorvida por sua coreografia oral, criação sua, que parecia não se dirigir a ninguém, a não ser a si própria e ao microfone.

Voltou-se entusiasmada para Jouvet c Mauclair e perguntou:

— Que acham? Creio que é bom. Estou farta da palhaçada anterior.

Mauclair, que tinha puxado uma cadeira para junto de Jouvet e travava com ele uma animada conversa em voz baixa, não lhe prestou atenção. O proprietário, que escutava o diretor artístico e se mostrava tão desatento como ele, esboçou um gesto automático de concordância.

Irritada pelo esforço que despendera para dois blocos de madeira, comprimiu a boca contra o microfone c gritou:

— Concordam ou não comigo?

O rosto do proprietário, salpicado de verrugas, revelou-se subitamente alerta:

— Très bien, Medora. O que se segue? — Mas, distraído por qualquer coisa que o diretor artístico lhe confidenciava, logo esqueceu Medora.

— A seguir — respondeu ela com as mãos nos quadris —, podem ambos aller vous jaire foutre!1 (1 "Ir se foder!” Em francês no original. - N. do E.) Por mim, vou ao banheiro e, se me incomodarem, meto-os pela pia abaixo!

Atravessou o sujo palco, tão orgulhosamente quanto possível para uma mulher-criança havia muito considerada a deusa do sexo do continente. Ao passar pelos dois grosseiros franceses, ouviu-os discutir a propósito de francos, do Sindicato e da Confederação Geral do I lahalho, e continuou até a entrada do clube. Aí, perto da rua, n uilor assaltou-a, e sentiu as forças abandoná-la. Tirando algumas moedas da bolsa de couro, dirigiu-se para a máquina de Coca-Cola i ie.sim que pegou a garrafa gelada e bebeu, sentiu-se muito melhor.

Inexplicavelmente enfraquecida e apática, entrou no reservado de senhoras, acendeu as luzes, sorveu mais um gole de Coca-Cola e pós a garrafa em cima da cadeira. Abrindo a torneira que tinha a indicação “Froid”, meteu os pulsos debaixo do jato de água, pois ouvira dizer que isso arrefecia o corpo rapidamente. Em seguida, iimedeceu a testa, a parte de trás das orelhas e o pescoço, deixando que a umidade lhe deslizasse pelo peito, por entre os seios. Tendo descoberto uma toalha limpa, secou-se e, enquanto o fazia, observou sua imagem no grande espelho acima do lavatório.

Ver-se ao espelho era uma das ocupações favoritas de Medora. Raramente passava por um espelho sem parar para contemplar pensativamente o que se lhe deparava, a fim de travar um diálogo interior com a própria imagem e filosofar e analisar essa imagem, interrogando-se acerca dos ingredientes que a tinham erguido a tão grande altura e depois precipitado tão fundo, que oscilava agora à beira do inferno.

Olhou para a metade superior do metro e sessenta e dois centímetros de sua pessoa no espelho, e a figura refletida na superfície polida olhou para ela. Pondo a toalha de lado, tomou posição diagonalmente à largura do chão ladrilhado do banheiro, até conseguir se ver quase por inteiro. Os cabelos cor de linho, presos em rabo-de-cavalo, caíam-lhe pelas costas. A expressão sorridente era pura, embora ela já tivesse vinte e um anos, e os olhos, de um verde acinzentado, grandes e francos, eram límpidôs, se bem que seus pretendentes e amantes teimassem em ver neles, ao mesmo tempo, muita experiência e ingenuidade, o que ela aprendera a traduzir como significando realmente que prometiam entrega total e promiscuidade.

O narizinho delicado, sabia-o há muito, dava-lhe um ar de menina inocente. O mesmo não sucedia com a boca. Os lábios grossos, cor de cereja, espichados, revelavam uma sensualidade enfadada, contrastando com a inocência do nariz, as faces lisas e as orelhas delicadas.

O dispendioso vestido Saint-Tropez assentava perfeitamente em seu corpo perfeito, e ela sabia disso. A blusa curta e larga, com decote em forma de V, descia-lhe sobre os seios espetados, e, dado que nessa manhã não usava sutiã e a blusa era quase transparente, os vastos círculos dos mamilos e a sombra abundante dos seios eram quase visíveis. O ventre moreno, destacado pelo branco das roupas, estava desnudado. O largo cinto de couro, apertado abaixo do umbigo, mantinha a pele esticada. Admirou a ondulação das coxas, das nádegas, as pernas bem-torneadas, e cada contorno era ela própria, cada contração muscular era digna de ser vista.

Era tudo o que tinha, pensava, aquela voluptuosidade, aquele rosto e aquele corpo falsamente prometedores. Suas medidas, segundo uma revista para homens, eram simultaneamente sua identidade e seu nome. Olá, Medora Hart. Olá, 90-40-90. Olá, Medora-38 ou o que quer que fosse.

Então, pensou que Jouvet, aquele velho suíno, tinha um contrato e seria obrigado a pagá-lo até o fim. Jouvet dera a seu rendoso clube noturno o nome de Chez 88-40-88, o que significava que qualquer moça que aparecesse no seu espetáculo não tinha menos de oitenta e oito centímetros de busto, quarenta de cintura e oitenta e oito de quadris. Portanto, Medora não só estava qualificada, mas superqualificada.

Ficara satisfeita com a imagem no espelho, porque via nela sua herança, sua educação, seu valor em libras no mercado, e, enquanto isso durasse, estaria a salvo da última degradação. Com tudo isso a seu favor, poderia ser uma artista independente) caso contrário, não passaria de uma prostituta.

Divertiu-se ao verificar seu peso na balança e quase se sentiu melhor, mas ao regressar ao lavatório, vendo-se de novo no horrível espelho, logo ficou deprimida, e uma vez mais por motivos reais e familiares. É que o último olhar ao espelho fizera-a penetrar em si mesma. Havia quatro anos, na época de sua insensata glória, era assim; havia três anos, na altura do escândalo, era assim; e agora, aos vinte e um anos, era assim também. Mais três anos de exílio passariam, depois seis, e então seria velha, quando outras estariam na flor da idade, e ela não teria nada, nem lar, nem família, nem dinheiro, nem profissão, nada, a não ser as esquinas das ruas, que nada rendiam.

Pegou a Coca-Cola, sentou-se de encontro ao lavatório, de costas para o espelho, bebeu e perguntou-se o que faria — imediatamente e no dia seguinte.

Havia três oportunidades, e tinha de optar por uma. Nenhuma delas lhe resolveria o verdadeiro problema, mas duas solucionariam pelo menos o problema da subsistência diária:

não daria para viver, mas para sobreviver. Precisava de dinheiro porque gastava muito, visto deixar-se convencer de que nada havia para salvar. Também precisava de dinheiro por causa da mãe, e de sua infeliz irmãzinha (que no entanto não era muito criança, pois esquecia-se de que Cynthia crescera bastante nos últimos três anos e deveria andar pelos dezesseis anos, embora sua mente não fosse além dos sete ou oito). Precisava de dinheiro, enfim, para pagar a um procurador que se ocupasse de seu caso e a um advogado que a defendesse (e havia um famoso, grosseiro, nojento, em Eden Rock; havia sempre um advogado, mas esse era um safado e “tomaria conta daquilo”, contanto que, evidentemente, houvesse honorários, e, em vez de um substancial pagamento em dinheiro, talvez fosse sensível a outros favores, mas, caramba!, não, obrigada, não com esse!, por isso teria de ser pago em dinheiro).

Finalmente, se ganhasse a causa e lhe fosse permitido voltar legalmente à pátria de origem, precisaria de dinheiro para fazer o que sempre desejara:

tornar-se cabeleireira, para ter uma profissão limpa e honesta, que lhe permitisse encontrar um jovem sério e respeitável e esquecer o caso Paddy Jameson. Meu Deus! Como detestava Ormsby, não aquele asno impotente do Sydney, com suas extravagantes cuecas, mas seu verdadeiro Judas, Sir Austin, esse conivente afetado, esse indivíduo cruel, fraudulento, mentiroso e desprezível. Deus! Se as pessoas soubessem a verdade... Mas ali estava ela, de novo fatigada, sentindo-se escaldar por dentro e por fora, e isso não adiantava nada, como nunca adiantara, porque ninguém pode apanhar o que não está a seu alcance, seria como um rato tentando esquartejar um leão.

Com um esforço imenso, tornado possível por um treino diário ao longo de três anos, Medora expulsou Sir Austin do espírito, e isso deixou no ar o problema imediato, que era sempre o mesmo, do dinheiro imediato para a sobrevivência imediata.

Portanto, tinha três oportunidades para escolher, e devia fazer a escolha rapidamente.

A primeira a considerar era o Chez 88-40-88. Tinha sido con- i ratada para esse cabaré de Juan-les-Pins por um período de oito semanas, como principal atração, a escandalosa atriz inglesa que entoava canções e executava La danse sexy. Verificaram-se boas casas no início da temporada, mas agora, dado o afluxo turístico da Kiviera, suas poucas atuações atraíam uma multidão. O contrato de oito semanas findara com o último espetáculo, na noite anterior. Tinha quatro semanas livres até a próxima atuação, em San Remo, a que se seguiriam outras, em Gênova. Uma semana antes, um Jouvet lacrimoso abeirara-se dela agitando um telegrama. A futura atração principal, uma magricela fêmea de Montmartre, que substituiria Medora e deveria fazer sua estréia como cançonetista na noite do dia seguinte, adoecera em Marselha e cancelara o contrato.

Desesperado, o proprietário implorara a Medora que desistisse das suas quatro semanas de férias e continuasse a atuar em Juan-les-Pins. Se ficasse mais quatro semanas e o salvasse, assim como ao clube, ele lhe aumentaria o salário semanal em vinte por cento. Diria que ela continuava devido a muitos pedidos e poderia manter grande parte do espetáculo, bastando substituir três ou quatro números, de forma a que Jouvet pudesse anunciar a apresentação de um novo espetáculo.

Isso faria voltar clientes que já a tivessem visto e atrairia os turistas recentemente chegados de Cannes, Nice e até os de Juan-les-Pins. Embora farta do trabalho, a promessa de um aumento interessara Medora. Respondera a Jouvet que ia pensar no caso e lhe daria a resposta nessa noite. Então, analisando a prorrogação do contrato, não sabendo ainda se devia ou não aceitá-la, tinha de qualquer maneira, para evitar aborrecimentos, de ensaiar vários números novos para a sua atuação. Quando, de manhã cedo, Jouvet lhe telefonara, disse-lhe, ainda sonolenta, que continuava indecisa, mas que, se ele e o diretor artístico fossem ao cabaré por volta das dez horas, apresentaria alguns números novos. Depois conversariam.

A segunda oportunidade a considerar cra o Clube Lautrec de Paris. Acabava de falar com Jouvet, quando lhe levaram ao quarto um telegrama de Alphonse Michaud, o extravagante, famoso e bem- sucedido (vira seu retrato na Paris Match do mês anterior) proprietário do grande e popular Clube Lautrec, dos Champs-Élysées. Michaud declarava que, em conversa com o agente de Medora, soubera que ela estava livre durante quatro semanas, a partir de domingo. Embora seu espetáculo O Mundo Vem à Alegre Paris tivesse como atração principal os bailarinos do The Troupe, que, como Medora sabia, rivalizavam em fama com as Bluebell Girl do Lido, e apesar de o espetáculo estar recheado de artistas famosos, Michaud queria mais, e esse mais era Medora Hart.

Seu amável telegrama explicava que ele seguira seus êxitos nas capitais e salas da Europa, que via nela uma atração de fama internacional e que suas quatro semanas de atuação reforçariam o alto nível do espetáculo. Fora informado de seu salário e estava disposto a oferecer-lhe por aquele contrato mais cinquenta por cento, incluindo a viagem até Paris e de Paris ao local de seu próximo contrato, assim como o pagamento das despesas de permanência em Paris.

A primeira reação de Medora, ao ler o telegrama, foi de excitação. Durante o espetáculo só pensara naquilo. Nunca atuara numa casa tão grande e famosa como o Clube Lautrec. Nunca lhe tinham oferecido tanto dinheiro como o fazia Michaud. Se bem que o Clube Lautrec fosse um vasto antro de sensualidade, pomposo e impu- dente, sua categoria atraía a nata dos turistas, e não havia ninguém que, mais cedo ou mais tarde, não fosse lá, pelo menos uma vez. Para Medora, seria uma esplêndida oportunidade, e, de algum modo, mais um degrau. Até onde a levaria esse degrau, ela não sabia e talvez nunca viesse a saber, mas era aliciante.

No entanto, o telegrama de Michaud causara-lhe espanto. Durante três anos, desde o escândalo e o subsequente exílio, como um judeu errante, ela deambulou pelo continente europeu levando apenas a roupa do corpo, atuando em pequenos clubes de grandes cidades e em grandes clubes de cidades pequenas (como Juan-les-Pins), mas nunca lhe fora proposto um clube famoso de uma cidade famosa. Não tinha ilusões. Não a contratavam por seus dotes de canto ou dança, pois nunca passara de uma amadora, embora ultimamente houvesse adquirido certa prática. Compravam-na pura e simplesmente como se compra um livro sujo, qualquer coisa de imoral, escandadoso e proibido. Era um corpo alugado diretamente dos secretos quartos de pelúcia da riqueza e da aristocracia, para ser exibido perante os rústicos:

venham, venham todos ver o sexo desejado por seus chefes, o corpo nu que quase derrubou um governo. Aquilo era um motivo de excitação e ela o sabia (por tê-lo lido), era uma atração para milhares, para milhões que nela esqueceriam seus sonhos lascivos e suas fantasias de segunda mão. Era isso, e não uma artista. Os grandes espetáculos das grandes cidades exigiam artistas, e, por isso, nunca haviam contratado Medora Hart. Agora, o Clube Lautrec de Paris desejava Medora Hart, e isso a espantava.

Mas, durante o café da manhã completo no terraço do espaçoso quarto de casal do terceiro andar do Provençal, seu espanto foi subitamente explicado pelo telefone. Era uma chamada interurbana de seu agente de Munique. Ele acabava de chegar de Paris. Medora tinha recebido um telegrama do sr. Michaud, proprietário do famoso Clube Lautrec? Tinha. A soma proposta não era impressionante? Era. Não considerava isso a maior oportunidade de sua vida? Talvez. Que queria dizer com isso? Queria dizer (mostrava-se curiosa e desconfiada) que aquela oferta a confundia. Nunca tinha sido procurada por um clube como o Lautrec e estava certa de que seu agente havia conseguido um contrato magnífico, como sempre, mas a magnificência da coisa lhe aguçava a curiosidade, e ela gostaria de saber o que acontecera.

O agente, que era um verdadeiro agente, visto ser insensível e tratar as clientes como peças de carne expostas na vitrina de um açougue, teria muito gosto em lhe contar o que se passara com Michaud. Haviam se encontrado no Clube Lautrec, e Michaud lamentara-se por não ter uma estrela que atraísse especialmente o grande número de delegados extraordinários que, com as esposas e o pessoal adjunto, se encontravam em Paris para assistir à Conferência de Cúpula, a qual se prolongaria por duas semanas. Como o Lido, o Crazy LIorse e o Moulin Rouge, Michaud apresentava um espetáculo vivo, mas rotineiro. Visto que a concorrência dos cabarés era dura, estava disposto a tudo para conseguir um número fora do comum, com suficiente magnetismo internacional para americanos, ingleses, alemães e até russos e chineses. Então, o agente dissera-lhe que tinha precisamente essa atração, que se chamava — é claro que Michaud quis saber o nome, toda a gente a conhece — Medora Hart. Michaud dera palmadas nas coxas e concordara entusiasticamente em que era essa a atração de que precisava para atrair os estrangeiros chegados a Paris por causa da conferência, e estava disposto a contratar a admirável senhora.

Era essa a história, acrescentara o agente. Não a achava estupenda? Para Medora, de coração sangrando, pouco ou nada tinha de estupendo. Pelo contrário, era odiosa. O agente prosseguiu. Queria que ela telegrafasse imediatamente a Michaud dizendo que aceitava a proposta. Com voz entrecortada, respondeu que não sabia o que fazer. Não sabia? É que (grande mentira) comprometera-se mais ou menos a ficar em Juan-les-Pins e, por isso, não seria fácil partir. O agente encetou uma discussão a que Medora tentou esquivar-se com a astúcia feminina. Por último, o agente disse-lhe que teria de responder positiva ou negativamente a Michaud, nesse mesmo dia. No entanto, avisou, se ela recusasse, iria lamentar-se toda a vida. Se aceitasse, uma nova existência se abriria para ela.

O café, ainda na bandeja, tinha arrefecido. Deixou-se ficar sentada, contemplando os pinheiros do parque lá embaixo e o azul cintilante do Mediterrâneo, ao longe, e compreendeu que não lhe interessava aquele gênero de vida nova que o Clube Lautrec e Paris lhe propunham.

No terraço do Hotel Provençal, algumas horas antes, e agora no banheiro do Chez 88-40-88, descobriu o que a tinha deixado confusa na oferta do Clube Lautrec. Um êxito não lhe proporcionaria aquilo que realmente desejava, mas sim o que não desejava. Com efeito, o que pretendia acima de tudo, mesmo acima do dinheiro para a subsistência cotidiana, era conquistar Sir Austin Ormsby, forçá-lo a capitular e a permitir seu regresso a Londres. Se conseguisse tornar-se famosa e, portanto, aliciar um nome poderoso, para encabeçar a lista de outras pessoas igualmente poderosas, e conquistar, graças a essa aliança, Sir Austin, seria um êxito fantástico. Mas semelhante êxito ela não poderia conseguir no Clube Lautrec ou em qualquer local semelhante, visto não ter talento para tanto. A única coisa que conseguiria, ao exibir-se no Clube Lautrec, seria excitar e atrair, outra vez, os mais afamados representantes da libertinagem e levá-los para a cama. Sua aparição faria acorrer os libertinos ricos, os industriais, os poderosos ministros de diferentes governos, que, por uma noite com seu corpo nu, lhe dariam dinheiro, joias, peles — tudo, menos a única coisa que desejava:

o regresso a casa. Iriam encontrar-se com ela, desfrutá-la, pagar-lhe na única moeda que compreendiam, e, depois, a abandonariam. Voltariam para suas casas, deixando-a como antes:

sem lar e perdida, uma estrangeira exilada em terra estranha, ainda mais humilhada, degradada e prostituída.

Era isso o que detestava nas capitais, e Paris era a pior de todas. Sabia-o porque, havia três anos, começara seu exílio em Paris, ali fizera sua estréia e ali acabara de se corromper. Como teria amado Paris se a tivessem deixado só no calmo hotel da Margem Esquerda do Sena! Havia o quiosque com a tabuleta “Byrrh” na esquina, as ruelas de Saint-Germain-des-Prés, a verdura refrescante dos Jardins do Luxemburgo, os barcos das crianças no lago, o divertido guignol do Bois, os mexilhões cozidos daquele agradável bistro da Rue des Écoles; mas havia também a Paris daqueles abafadiços cabarés cheios de fumaça, o odor de carne suada da assistência, e, quando se está sozinha no palco, isso é animalesco e odioso. Quando vamos para um palco provocar a decência, revelando as partes secretas, os espectadores, ofegantes, de espírito enevoado, olhos vermelhos, lábios ressequidos, dedos nervosos e joelhos trêmulos, arremessam-se contra nós, derrubam-nos, violam-nos, como se fôssemos vítimas de uma quadrilha de raptores. Mas a tragédia não acaba aí, porque depois vêm as flores, os cartões e os próprios cavalheiros, os ricos e famosos acrobatas do sexo, a carga de cavalaria. Vêm com propostas, promessas e enfadonhas falas de amor, com o inevitável desrespeito, e deixam-nos estafadas numa cama, ao passo que eles voltam para as esposas, para os negócios. Para eles, não passa, como nos filmes do oeste, de mais uma marca na pistola, mais uma conquista feminina. Para a vítima, são as coxas doridas, a raiva no coração, uma ou outra oferta insultuosa em cima da mesa.

Era essa Paris que ela recordava e abominava, e, no entanto, os dias passados tinham sido relativamente bons, pois trabalhara num clube barato e desconhecido, na Margem Esquerda, frequentado por empregados mais ou menos decentes e motoristas de caminhão, e só quando os mais abastados a descobriram (o caso Jameson continuava nos jornais) foi que tudo se complicou e ela se viu obrigada a partir. Agora, se voltasse a Paris, para um dos maiores palácios do espetáculo, a assistência, em que predominavam sofisticados machos de todas as nacionalidades, seria ainda muito pior. Eles não lhe dariam trégua, e ela acabaria por ceder, pois tudo cansa, e a resistência é difícil quando se está só e não se tem para onde ir. Não há como se salvar, e por isso cede-se, cede-se sempre, eternamente.

Em Juan-les-Pins, pelo meno§, era um pouco melhor. Só os turistas mais idosos se mostravam um tanto importunos. A maior parte dos frequentadores era constituída por rapazes, mais puros e sãos, que a consideravam de sua época, embora um pouco mais velha e famosa. Para eles, o caso Jameson era história antiga, e a nudez dela não era pior do que a das ruas e praias. Não a solicitavam, porque havia garotas por toda parte e tudo era muito fácil, muito natural, o que lhe suavizava um pouco mais a existência.

Mas isso não sucederia em Paris. Quaisquer que fossem os motivos alegados, Paris seria a segunda hipótese a encarar.

Mas havia uma terceira oportunidade, não de trabalhar em Juan-les-Pins ou Paris, mas de não trabalhar em lugar nenhum. Precisava de férias, de quatro semanas de inatividade, sem horas marcadas, nem vestidos, nem música, nem público, nem nada. Seria essa a solução ideal.

Logo compreendeu que isso era uma mentira. Chamar férias a quatro semanas de lazer era o mesmo que considerar a morte como férias. A inatividade enchê-la-ia de tédio. Ocupar-se-ia em esvaziar seu porquinho, o seu cofre forrado de couro, que não tinha muita coisa. Pelo contrário, não lhe faltaria tempo para meditar em sua solidão e aperceber-se da falta de esperança no futuro, uma vez que consumira todas as formas de preencher as horas de ócio. Estava farta de vagabundear, do esqui aquático, dos barcos a motor, e, portanto, seu único esporte seria beber em excesso, absorver doses desmedidas de Nembutal e sonhar acordada com o que era, o que poderia ter sido, e se deveria ou não matar Sir Austin antes de se matar. Umas férias seriam apenas um vácuo em que recordaria todas as fases do exílio.

Uma vez, ao entrar numa livraria de Deauville — ou fora em Frankfurt? —, vira uns livros ingleses, e um deles, que tratava do exílio, tinha na lombada o nome de alguém chamado Ovídio ou Ibí- dio, um desses nomes comuns, mas de que nunca nos lembramos; o título, porém, ela não esquecera, pois havia-o decorado:

Exilium mors est. Mais tarde, deixara um jovem professor de línguas, que tresandava a cerveja, acariciá-la em troca da tradução:

O exílio é a morle.

Seu exílio não era só o mais injusto, mas também o mais prolongado da história, porque — pensando bem — fora banida da Inglaterra aos dezoito anos, tinha agora vinte e um, e três anos em vinte e um correspondiam a um sétimo de sua vida. Apostava que aquele Ovídio ou Ibídio não estivera exilado mais do que uns míseros anos. O exílio é a morte. Era verdade. As férias são a morte. Era verdade também. Essas quatro semanas de descanso constituíam a última oportunidade e a única a que não aderiria. Paris também não era uma vantagem a considerar, e, quanto a Juan-les-Pins, estava farta.

Deprimida, viu que continuava no reservado das senhoras e que a garrafa de Coca-Cola que tinha na mão estava vazia. Abriu a porta, jogou a garrafa ao lado da máquina e pensou em servir-se de outra Coca-Cola.

De repente, ouviu seu nome, voltou-se e deparou-se com Jouvet, que se aproximava, esfregando o queixo.

— Ah, chérie, voilà... Estava preocupado.

— Vejam quem esta aí! — exclamou, irritada. — Julguei que tinha se esquecido de que existo.

Jouvet levou as mãos à cabeça e sacudiu-a, num gesto teatral de desculpa:

— Mil perdões, mas o idiota do diretor artístico, com suas ideias novas, quer fazer disto o Folies, e fui forçado a demonstrar-lhe que não sou milionário. Mas, Medora cbérie, tem de acreditar em Jouvet. Embora eu escutasse aquele idiota, tinha os ouvidos e o coração postos em você. Seu novo número é estupendo. Aceito-o. Tem mais alguma coisa para mostrar?

— Agora, não. Não estou com disposição.

— Não faz mal. Não tem importância. Basta que ensaie amanhã à tarde com as coristas, e, mesmo que não seja perfeito, ninguém se importará. Faremos a estréia amanhã à noite. Voilà, vamos ao meu escritório. Tenho o contrato pronto.

— Não sei — disse ela, encolhendo os ombros.

Indolentemente, dirigiu-se para o salão de jantar do cabaré, e, enquanto atravessavam o tablado, Jouvet tentou persuadi-la:

— Mas, cbérie, por favor...

— Ainda não me decidi. — Pegou o desajeitado chapéu branco que estava por cima da bolsa e acrescentou:

— Dê-me tempo para pensar.

— Mas tempo... — Jouvet estremeceu. — Tempo é o que me falta, tempo é dinheiro, e é o espetáculo. Preciso saber já, para preparar os cartazes, os novos cartazes da fachada. Tenho de saber se posso contar com você ou se devo anunciar o estúpido grupo de Monte Cario. Por favor, Medora, tem de ser você, é preciso que diga “sim”, e agora mesmo.

— Neste momento só posso dizer “talvez” — respondeu, enquanto punha o chapéu. — Tenho de pensar. Saberá minha decisão amanhã de manhã, ou mesmo esta noite, se for possível. O mais provável, porém, é que seja amanhã.

— Pelo menos, de manhã cedo — implorou Jouvet, tomando-lhe paternalmente as mãos. — O tempo, Medora, é muito importante.

— Não para mim — replicou ela, pegando a bolsa e dirigindo-se para a saída.

Uma vez na rua, na Avenue Maréchal Joffre, tirou os enormes óculos escuros de aros brancos. Enquanto atravessava a Avenue Guy de Maupassant, sentiu o calor intenso queimar-lhe os braços e o torso nu, mas apreciou essa sensação. O sol parecia purificá-la e reconciliá-la com a vida.

Ao percorrer a avenida, em direção à praça principal, parecia-lhe que a cidade estava tão solitária como ela, e preferiu-a assim. Ao cair da noite, Juan-les-Pins tornar-se-ia um mundo ruidoso de sons roucos, uma folia grosseira, para os jovens, com o jazz améri- cain vindo das caves, o ciclista arrojado que fazia piruetas em frente do café Le Crystal, a multidão de adolescentes sujos, e haveria engarrafamento de carros estrangeiros, mas à meia-noite tudo voltaria a ficar calmo, tranquilo e íntimo.

Já perto da praça, voltou a pensar nas três oportunidades que se lhe ofereciam, sobretudo nas quatro semanas de inatividade. Poderia meter-se no Mercedes-Benz alugado e visitar locais semelhantes dos arredores, gozar a paz do Beaulieu, apesar de sua praia pedregosa, ou desfrutar o sol do porto de La Napoule, tranquilo apesar do tráfego aéreo. Não faltavam ali calmas ilhotas, e a Ri- viera era mais do que praias apinhadas de turistas nervosos, do que os bares de Saint-Tropez, do que Cannes ou Monte Cario. Havia semanas que não ia a Cannes, e, mesmo então, fora apenas para saborear o prato de ossobuco da Mamma, no Mère Besson, o restaurante situado atrás de La Croisette. Acima de tudo, poderia percorrer as colinas virgens da Riviera, errar pelas aldeias antigas e precariamente aninhadas nas margens da Vallée du Loup. Ou ir até Saint-Paul e sentar-se tranquilamente na vivenda de Nardeau, vendo-o pintar, ou ler até sentir sono e partilhar depois uma grande terrina de sopa à base de alho, na companhia de Nardeau, da mulher e da amante, e conversar até altas horas da noite, alheia ao significado e às belezas da vida. Lembrou-se de que não via Nardeau havia um mês e sentiu sua falta, não de seu gênio, mas de sua franqueza e amizade sincera.

Encontrou-se no meio da praça, diante das cadeiras vazias do Le Crystal, amando Juan-les-Pins por causa de suas horas claras e silenciosas. Entrou no café pensando num sorvete, correspondeu ao aceno amigável do garçom, mas logo decidiu que seria preferível voltar ao quarto do hotel, redigir o telegrama de resposta para Paris e escrever uma carta para Londres.

Deixou passar um caminhão e um Maseratti e depois atravessou calmamente a rua, até a librairie da esquina. Encontravam-se ali alguns jovens franceses, folheando livros, e havia um casal que ouvia um disco americano numa vitrola. Então, dirigiu-se para a entrada, onde se encontravam pendurados os periódicos estrangeiros e nacionais. Percebeu que, devido àquela semana tão ativa e de pensamentos tão confusos, negligenciara a leitura. Pegou um número recente da News of the World e um velho exemplar de fim de semana do Sunday Times de Londres, que comprou unicamente por causa da seção de rotogravura. Entrou apressadamente no estabelecimento, pagou os jornais e voltou a sair.

Prosseguiu ao longo do Boulevard Baudouin, com o parque nacional à esquerda e o Goud Park à direita. Já perto do hotel, cruzando o Boulevard du Littoral, uma brisa suave, vinda da praia através dos frondosos pinheiros, acariciou-lhe o rosto e a cintura, levando-a a perguntar-se se deveria mudar de roupa ou seguir diretamente para a praia do Hotel Provençal. Decidiu que o telegrama de Michaud merecia uma resposta rápida e firme, mas delicada.

Aproveitando uma interrupção do trânsito, correu para a entrada da praia do Provençal e refugiou-se lá dentro, onde a temperatura sofria uma queda tão súbita que sentiu os braços arrepiados. O quiosque e o vestiário estavam fechados para almoço. Pediu a chave na recepção, esperou o elevador e subiu até seu pavimento.

Entrando no grande e arejado quarto — gostava de espaço, sobretudo à noite, antes dos efeitos do primeiro Nembutal, de forma a poder girar à vontade até se sentir cansada ou tonta —, Medora esboçou um gesto de satisfação ao ver que a criada já o tinha arrumado. O quarto estava impecável, a bandeja do café da manhã havia sido retirada da varanda e a cama de casal não apresentava uma única ruga. Medora detestava camas que ficavam por fazer até tarde. Lembrava-se de muitas noites do passado, de um pai fraco e dominado pelo uísque, nunca presente quando necessitavam dele, mas no qual se pensava com um vago sentimento de amor, azedume e saudade.

Libertando-se do desajeitado chapéu, atirou-o em cima da cama, retirou da bolsa um lápis dourado, fechou-a e arremessou-a, juntamente com os óculos enormes, para junto do chapéu. Descalçando as sandálias, sentou-se a uma mesa com tampo de vidro, cor de marfim, no centro do quarto, abriu um bloco de telegramas com o timbre do hotel, inclinou o lápis para facilitar a escrita e, por fim, com os cotovelos fincados na mesa fria e o queixo apoiado nas mãos, tentou pensar na redação do telegrama destinado ao proprietário do Clube Lautrec, de Paris.

É claro que ia recusar:

dir-lhe-ia que estava cansada e precisava de férias, mas sem insistir demasiado na tecla, pois o instinto de sobrevivência avisava-a de que isso poderia prejudicá-la, no caso de Michaud a solicitar no futuro ou ela vir a precisar dele. Talvez fosse preferível declarar que se comprometera a prorrogar sua temporada em Juan-les-Pins. Isso implicaria que, visto ser apreciada, era muito solicitada. Deveria acrescentar que estava sinceramente grata pelo convite, que sempre desejara atuar no Clube Lautrec, e que talvez pudessem chegar a um acordo num futuro próximo.

No fundo, sabia que não haveria futuro próximo, que não teria uma segunda oportunidade em Paris, a não ser que aceitasse o presente convite. Fora solicitada devido unicamente a uma circunstância fortuita:

o afluxo de ingleses e americanos à Conferência de Cúpula, de todos os que estavam a par de seu escândalo, e seria explorada principalmente por essa assistência. Quanto a seu mérito profissional, os clubes importantes continuariam a ignorá-la no futuro como o haviam feito no passado.

Tentou uma redação breve do telegrama, não querendo utilizar muitas palavras, visto ser esse o estilo e também por uma questão de economia, mas o resultado foi decepcionante. Apresentava-a como uma pessoa demasiado atarefada, demasiado solicitada, o que não só tornava o telegrama sofisticado como provocaria gargalhadas em Michaud. Por acaso ele acreditaria se ela dissesse que continuava comprometida com o Chcz 88-40-88 ou que, pelo contrário, decidira gozar umas férias? Não, não servia. Precisava de um pretexto para recusar a proposta de Michaud, mas de forma a mantê-lo interessado.

Tentou uma segunda redação, mas deteve-se a meio, sendo tão grande a confusão de seu espírito que as palavras não lhe ocorriam. Irritada, rasgou-o e olhou através da janela para as copas das árvores e o aveludado do mar ao longe. Sentia-se perturbada demais para redigir aquele telegrama. Fá-lo-ia mais tarde. Afinal, não tinha de representar nessa noite. Iria até a praia e descansaria calmamente ao sol. Seria uma maneira de se descontrair. Depois, de espírito repousado, mandaria o telegrama para Paris.

Antes disso, porém, havia a carta para a mãe, que fazia sempre acompanhar de um desenho engraçado para a irmã, deficiente mental. Era uma carta fácil. Escrevia três vezes por semana e só telefonava durante as férias, mas detestava fazê-lo devido às terríveis saudades que sentia. Além disso, havia pouco para contar, as cartas eram realmente uma simples forma de provar que continuava viva e que — como dizia a mãe na sua escrita tosca — enquanto há vida há esperança. Precisamente como no inferno, mamãe.

Apressadamente, na rebuscada caligrafia que adotara, artificial, mas agora tão automática como a pronúncia teatral do West End, que também adotara, começou:

“Sab., 14 de junho”, por baixo do cabeçalho impresso em azul, “Le Provençal... Juan-les-Pins”, que servia de endereço. “Querida mamãe” parecia-lhe cada vez mais ridículo.

Descreveu a recepção extraordinária de que fora alvo no Chez 88-40-88. Dizia que todos queriam contratá-la, inclusive um dos melhores cabarés de Paris, mas que pensaria nisso tudo mais tarde, porque agora a única coisa que desejava era descansar quatro semanas, e depois talvez trabalhasse num número novo para seu espetáculo. Ia despender grande parte de seu mês investigando, uma vez mais, as possibilidades de regresso à pátria. Estava economizando, embora a vida no continente fosse cara. Ia falar com um famoso advogado que se encontrava em Cap-d’Antibes, que pensava que havia ludibrio nas acusações formuladas por Ormsby; além disso, parecia haver formas legais de contornar as leis. É claro que o advogado saía caro (não citava seus honorários por inteiro, porque prometera à mãe não ultrapassar determinada quantia), mas tudo o que pedisse para se ocupar do caso seria bem empregado, contanto que ela pudesse voltar para casa, para junto da mãe e de Cynthia. Para concluir essa carta de falso otimismo, assinou, como habitualmente, “Sua filha muito querida, eu” e acrescentou uma fila de xis e o esboço de um engraçado gato (que lhe lembrava Sydney Ormsby) para o qual estava apontada uma seta e a seguinte frase em maiúsculas:

“Para a minha querida Cynthy, este gato persa que um dia lhe oferecerei amorosamente, “eu”.

Demasiado fatigada para sobrescritar o envelope — faria isso e redigiria o telegrama mais tarde e entregá-los-ia ao porteiro —, deixou a carta em cima da mesa e começou a preparar-se para descer até a praia. Tirou a blusa curta, fez deslizar a calça justa pelos quadris e as pernas e, apoiando-se às costas de uma cadeira, puxou-a. Colava como adesivo. Depois, liberta da calcinha de náilon cor-de-rosa, ficou nua, e sentiu-se tão natural e à vontade como qualquer nudista da íle du Levant.

Encaminhando-se para a bolsa, em cima da cama, orgulhosa de que nenhuma parte de sua anatomia, com exceção dos seios, se apresentasse balofa e de ter aos vinte e um anos um corpo firme e rijo, acendeu um cigarro. Fumando, dirigiu-se para o guarda-roupa. No fundo do quarto, abriu a terceira gaveta, cheia de biquínis, examinou e rejeitou dois, mas ficou com o terceiro, o mais exíguo, que pesava pouco mais do que um lenço. Escolheu esse biquíni não porque sua pequenez e o fino tecido de algodão a atraíssem e excitassem (nem pensar nisso, tanto mais que ao meio-dia a praia se apresentava deserta, visto os hóspedes estarem almoçando), mas porque lhe permitia expor-se mais ao sol e, portanto, bronzear-se melhor. Preferia ter um bronzeado completo e uniforme porque, durante seu número de strip-tease, não gostava de pôr em evidência as duas manchas brancas provocadas pelo biquíni, as quais desafiavam a maquilagem e se tornavam (dentro de um clube noturno) obscenas devido à forma como lhe acentuavam os seios e os quadris.

Com muita prática, prendeu a alça do sutiã e os cordões da calcinha, depois aproximou os pés nus do espelho de corpo inteiro do banheiro, para ver se estavam convenientemente arranjados. O sutiã era um problema, como sempre, por causa das proporções dos seios. Ao erguê-lo cautelosamente para tapar a embaraçosa exposição das meias-luas dos seios morenos, a alça erguia-se também, revelando as partes mais íntimas, embora aí a pele se apresentasse bem bronzeada. Quanto à parte inferior do biquíni, um minúsculo triângulo de tecido aderente, que subia das coxas até oito centímetros abaixo do umbigo, seguro por cordões aos quadris, estava devidamente ajustado e não constituía problema. Gostou da forma como os dois fragmentos de branco lhe acentuavam a cintura frágil e as curvas bronzeadas do corpo.

Com gestos rápidos, soltou os cabelos, deixou que eles lhe tombassem pelas costas e, em seguida, perfumou-se com água-de-colônia, enfiou os pés numas sandálias de praia italianas e voltou ao quarto de dormir. Escolheu uma saída de praia de malha brilhante, vestiu-a, dirigiu-se para a cama, onde estavam os óculos de aros brancos e a bolsa, separou o caderno ilustrado do resto do volumoso Sunday Times, colocou-o na bolsa e, finalmente pronta, tomou o elevador pensando em si mesma, duas horas estendida na areia.

Tendo atravessado uma vez mais o Boulevard du Littoral, Medora entrou no arborizado parque, percorreu o caminho poeirento que a sombra dos pinheiros amenizava, voltou à luz do sol, atravessou o passeio de cimento que conduzia ao terraço da sala de jantar do Provençal e que comunicava com a praia, lá embaixo, por meio de uma escadaria de pedra, e decidiu descer. Uma olhadela no terraço convenceu-a de que os hóspedes já haviam almoçado, o que lhe permitiria ficar mais à vontade na praia.

Satisfeita, desceu os degraus, seguiu o passeio até a esquina e abriu a porta azul de sua cabina. Tirou as sandálias, despiu a saída de praia de malha, dobrou-a e arrumou-a na prateleira, retirou da bolsa o suplemento do Sunday Times, os cigarros e o isqueiro e deixou-a ao lado da saída de praia. Fechando a porta, pisou a areia macia e quente e procurou o lugar habitual. O empregado do hotel acabava de mudar de posição o guarda-sol, de forma a que a vareta não ficasse entre o corpo dela e o disco solar. Quando se aproximou, ele já havia sacudido e virado a almofada.

— Voilà, Mlle Hart. Se o sol aquecer demais, chame-me e inclinarei o guarda-sol.

Medora agradeceu distraidamente, ao mesmo tempo em que contemplava a praia, uma pequena floresta de guarda-sóis abertò^ e almofadas, e sentiu-se feliz por estar só. Tirando os óculos escuros, podia ver o profundo azul-cobalto do Mediterrâneo, virgem de ondas e banhistas, com exceção do rastro provocado por um pequeno barco manobrado por dois garotos bronzeados. Ali, nem as vozes vindas do terraço eram audíveis. Um local idílico.

Colocando suas coisas na pequena mesa ao lado da almofada, Medora verteu na mão uma porção de creme de bronzear e, lentamente, esfregou as faces, o pescoço, o tórax e as saliências do peito, por cima e por baixo do sutiã do biquíni. Preparava-se para esfregar o ventre quando foi interrompida por um rumor de vozes e uma gargalhada.

Endireitou-se, viu três casais que desciam as escadas de pedra e se reuniam ao empregado responsável pela praia. A tez esbranquiçada mostrava tratar-se de recém-chegados. Pediram almofadas e eram um tanto espalhafatosos. Ouvindo-os falar, o espírito de Medora ficou alerta. Eram turistas ingleses, não do mundo de negócios de Liverpool e muito menos de Londres, que vinham veranear ali. Suas vozes, repassadas de nostalgia popular, atraíram Medora, acordaram saudades da pátria, entristeceram-na. Atualmente, os turistas ingleses eram raros em Juan-les-Pins, e Medora não esperava vê-los naquela praia antes das férias dos bancos. Mas eis que invadiam sua praia privativa, e isso fez com que se sentisse pouco à vontade.

Suspirando, continuou a passar o creme de bronzear. Acabava de tirar os óculos para esfregar as pálpebras quando notou que se aproximavam. Ergueu a cabeça, à medida que os intrusos, guiados pelo empregado, avançavam, e viu que um deles, um homem de cabelos encaracolados, dos seus trinta anos, quase albino, quedava-se a admirar-lhe a nudez. Sorria fascinado, mas subitamente franziu a testa, recolheu o sorriso e correu para junto dos companheiros.

Voltando-lhe as costas, Medora sabia o que iria seguir-se. A questão estava em saber se ouviria o comentário excitado e incon- trolável do homem. É evidente que ouviria.

— Nigel, Nigel, olhe. Caramba! Aposto que não estou enganado! Não é Medora Elart, a garota do caso Jameson?

— Está sonhando. Onde?

— Chhh! Ali.

Insolentemente, num desafio irritado, voltou o rosto na direção das vozes e mostrou-lhes por que razão a garota de Jameson valia dez malditos xelins.

— Caramba! Macacos me mordam! — ouviu um deles exclamar, ao mesmo tempo em que ela lhes voltava as costas e punha os óculos escuros. Fez-se silêncio, e ela sentiu olhos arregalados lhe devassarem as costas nuas. Depois, ouviu os murmúrios indistintos das mulheres, gargalhadas abafadas e sussurros de admiração. Aquele dia começara bem para eles, mas o dela, como tantos outros, estava estragado.

Pensou em mostrar-se arrogante, mas não daria essa satisfação àqueles provincianos em férias, por isso se sentiu encurralada. Pelo menos, evitaria que a vissem gratuitamente. Se queriam apreciar a nudez da garota de Jameson, que pagassem para isso em qualquer maldito cabaré.

Encobriu-se com a almofada, estendeu-se de costas e agitou-se até encontrar uma posição confortável; depois, sempre de costas, de braços estendidos e pernas esticadas, deixou que o sol a possuísse, na esperança de que a cremasse e libertasse para sempre desse cruel e laborioso esforço suicida que se chama viver.

Mas pouco depois, ali inerte, enquanto o sol lhe afagava e massageava os músculos tensos, a ira cedeu a vez a fragmentos de recordações, e as personagens em frente, com seus sujos e desastrados demônios da curiosidade, dissolveram-se no aprazível braseiro vindo do alto.

E assim, tudo o que restava, como sempre, era a garota de Jameson.

Essa não é Medora Hart, a garota de Jameson? Pode apostar que sim, velho Nigel.

Aquilo surgia sempre da mesma maneira, insinuava-se num amontoado de lembranças que ela tentava expulsar, mas havia muitos fragmentos fechados nela que tornavam seus esforços inúteis, e, em vez de lutar, preferia ficar estendida e entregar-se a todos eles, a todas as experiências do passado, permitir que a memória a dominasse até enlouquecer, deixando-lhe um travo amargo de autocompaixão e chorosa desesperança.

A garota de Jameson conhecera o homem Jameson aos dezessete anos. Alguns meses antes, ciente de que nunca conseguiria juntar o dinheiro necessário para o curso de cabeleireira fazendo economias com seu salário de balconista, e certa de que seu corpo e seu rosto de adulta tinham valor comercial, respondera ao anúncio de um clube noturno do Soho, em Piccadilly Circus. O clube procurava pretendentes para o “lucrativo” lugar de vendedora de cigarros que fossem “jovens, bonitas, bem-feitas, delicadas e de temperamento afável”. Sem a mãe saber, Medora candidatara-se e, apesar de haver uma fila de pretendentes que ia até o meio da sala do cabaré, fora contratada dois minutos após o gerente a ter visto, sendo as restantes recusadas. Com um salário de nove libras por semana e cinco libras de gorjeta, em breve seria mais rica do que uma princesa.

O único aspecto desagradável de sua nova atividade era a vestimenta que teria de usar. Consistia num chapéu alto, uma blusa de cetim ousadamente exígua, que lhe deixava a roupa de baixo xi mostra, uma saia muito curta e com uma grande abertura, meias pretas de seda fina e um par de sapatos de salto alto. Fora do quarto, nunca revelara tanto de sua figura de adolescente. Mas o dinheiro atraía-a irresistivelmente, e a bandeja dos cigarros, ornada com preciosismo, tornava aquilo menos imoral; além disso, o gerente não exigia que se sentasse com os clientes, e assim, tendo informado à mãe que se tornara modelo de um fotógrafo de anúncios cuja excentricidade principal era certa preferência pelo trabalho noturno, destinado quase exclusivamente a uma chapclaria da George Street, iniciou sua atividade.

Embora situado no coração do mal-afamado e exótico Soho, na Old Compton Street, o clube em que Medora Elart fizera sua estréia em público era considerado um dos melhores cabarés de Londres. Menor que o Murray ou o Bal Tabarin, assemelhava-se ao Gargoyle ou ao Eve, mas era talvez mais frequentado. Se a opinião de Medora, baseada nos vestidos das mulheres e na pronúncia e tipo dos homens, era exata, a clientela representava a riqueza e o mundo dos negócios. O que mais a espantava, quando passava por entre aqueles machos sofisticados, noite após noite, eram as atenções de que era alvo. Embora as vistosas, dóceis e esguias comediantes, assim como as coristas, se apresentassem no palco num permanente estado de nudez, a maioria dos olhares masculinos convergia para Medora, quando ela circulava entre as mesas e os aparadores com baldes de prata com gelo para o champanha. Alguns meses depois, com a cabeça transtornada pelas gorjetas (que aceitava) e as solicitações por telefone (que recusava), começou a sentir inveja da competição vinda do palco. Infantilmente decidida a não perder seu público, foi ao escritório do gerente para sugerir uma nova roupa, desenhada por ela, que consistia num sutiã ornado de contas, em vez da blusa de cetim, e numa calcinha justa, que lhe acentuava muito mais as formas, em substituição da saia curta. O gerente concordou, acrescentou um aumento de salário ao número crescente de gorjeta, e, com esse dinheiro extraordinário, Medora começou a receber secretamente aulas particulares de dicção, etiqueta e dança.

Em seguida, ultrapassados já os dezessete anos, aceitou alguns encontros selecionados. Houve o impressionante e jovem cenarista de uma comédia que se representava na Shaftesbury Avenue, o velho proprietário de três grandes estabelecimentos, um príncipe indiano que estudava em Cambridge, c não só perdera a virgindade no primeiro encontro, mas também a ingenuidade nos outros dois, no decorrer de confusos e inestéticos amplexos. Embora satisfeita por se sentir mulher e receber dispendiosos presentes, perguntava-se que romance era aquele acerca do sexo. Se bem que parte daquele dinheiro fácil fosse gasto em novos móveis para o apartamento da mãe e com médicos para a irmã, a maior parte era despendida em roupas e acessórios (necessidades profissionais, como depressa compreendeu). Seu sonho de se tornar cabeleireira e montar uma cadeira de lojas persistia, mas as economias para a aprendizagem não tinham aumentado. De qualquer modo, era mais agradável receber todas aquelas atenções c ser desejada.

Então, uma noite, depois de fechar, apareceu Paddy Jameson.

Duas coristas haviam sido convidadas para uma ceia em May- fair, e tinham-lhes recomendado que levassem Medora. O anfitrião, um cliente do clube (que Medora nunca vira ou em quem não reparara), esperaria à porta para acompanhá-la. Medora hesitara, por causa da hora tardia, mas quando as coristas lhe garantiram que não demorariam e que, além disso, estariam presentes nobres e milionários, assim como jornalistas de renome, tratando-se portanto de uma reunião elegante, a curiosidade e a ambição de Medora fizeram com que aceitasse o convite.

O automóvel era um Rolls-Royce Silver Shadow e estava estacionado junto à porta de saída dos artistas. O anfitrião chamava-se Paddy Jameson e foi apresentado a Medora como “famoso decorador”, mas Medora nunca ouvira falar dele. A delicada ceia foi servida no luxuoso apartamento mobiliado de Jameson, em Chester Place. E, na verdade, entre os dezesseis convidados de Jameson, homens na maior parte, havia nomes que Medora conhecia dos jornais. Da meia dúzia de mulheres presentes, Medora era a que mais prendia as atenções e uma das mais requestadas pelos cavalheirescos convivas.

Para Medora, aquilo significava uma ascensão social, e ela se sentiu estimulada pelas possibilidades futuras. Já há muito que bebia, mas com moderação. Nessa noite, porém, desnorteada pelo que a rodeava, excedeu-se consideravelmente, e, às quatro horas da manhã, estava totalmente embriagada. Paddy Jameson, que andava de um lado para outro distraindo os convidados, não parecia notá-la. Enquanto os outros falavam em voz alta de sua sabedoria e de seu gênio criador, Medora sentia-se incapaz de discernir a razão de tais elogios. A seus olhos embaciados, Paddy Jameson surgia como um indivíduo amável, de cabelos claros, rosto pálido com espinhas, roupas alegres e gestos efeminados, que contava anedotas numa voz abafada e maliciosa. Mas, às quatro horas da manhã, mostrou-se solícito e interessado, e, enquanto os convidados trocavam frases de despedida e partiam, prometeu a Medora que a acompanharia até sua casa. Às cinco horas, bem depois de o último convidado ter saído, só ela e Paddy se encontravam no sofá Shera- ton, muito acolhedor, e ela se sentia bem em seus braços>xom tontura e a língua empastada, e sem forças.

Claro que era tarde demais para regressar a casa, e por isso concordou, aceitou tudo, contanto que a deixassem dormir. Ele ajudou-a a ir para o quarto, despiu-a, estendeu-a na preciosa cama Rainha Ana, fez amor com ela e foi delicioso, francamente delicioso.

Ao meio-dia, ao acordar, um pouco mais sóbria, viu-o na sua frente com bloody-marys. Protestando e fazendo caretas, aceitou um que lhe aclarou as ideias, depois outro que a fez sentir-se melhor. Então, ele tirou o roupão, e Medora ficou surpresa ao vê-lo nu, e mais ainda ao ver-se nua também. Tentou resistir às carícias, mas, sentindo-se incapaz, resignou-se. Aquilo era tremendo. Nunca fora tão completa e escandalosamente estimulada, nunca supusera que viesse a se comportar daquela maneira. A perversão e as carícias dele tinham por único objetivo excitá-la, inundá-la de prazer (o que homem algum jamais havia conseguido), e essa sensação gravara-se em sua carne.

Foi assim que se tornou a garota de Jameson. Estava irremediavelmente presa a ele, viciada e incapaz de resistir à droga da excitação. Seu instinto e a leitura de dois livros de medicina haviam-na levado a supor que talvez ele não passasse de um homossexual que, num esforço para negar sua condição, dominava as mulheres pelo prazer, transformando-as em suas escravas. Alguns meses depois, porém, Medora compreendeu que isso não era tudo e que havia algo mais nas intenções de Paddy Jameson.

Este comprara-lhe lindos vestidos e acessórios, acompanhava-a às reuniões mais desregradas, apresentava-a como frequentadora de suas próprias reuniões e nunca a ninguém que não fosse pelo menos baronete ou milionário autêntico. Até que numa noite, na imponente casa de um lorde excêntrico, nas vizinhanças de Runnymede, ela bebera demasiado, julgando-se protegida pela presença de Paddy, e depois da meia-noite, incapaz de localizá-lo, vira-se a sós com o cada- vérico senhor do solar, que apenas queria tomá-la à sua conta e protegê-la. Irritada com o abandono de Paddy, ofuscada pelas promessas de Sua Senhoria, exausta devido a todo aquele negócio sujo — além disso, que diferença fazia, o que tinha a perder? —, passara ali não só a noite mas também o fim de semana, e não fora mau de todo, antes pelo contrário, pois não se vira forçada a entregar-se, limitando-se a aguentá-lo alguns minutos na cama em troca do magnífico prazer de viver, além de suas posses, num castelo com criados de libré e, esperando por ela no assento do Bentley que a levaria a Londres, uma caixa com um casaco de zibelina e outra com uma pesada pulseira de ouro.

Assim era, portanto, e assim continuara nos oito meses seguintes, antes de estourar o escândalo. Em breve, porém, a situação se tornara clara para ela. Seu amante, Paddy Jameson, não era apenas isso, mas um homem de outras Medoras, que ocupavam vários pontos da cidade, cinco outras jovens bonitas, ambiciosas e de atrativos físicos iguais ou mesmo superiores aos dela. O trabalho de Paddy Jameson era o de decorador da alta sociedade, mas sua vocação era ser alcoviteiro. Por um lado, vivia na intimidade de homens importantes; por outro, era um libertino que descobria moças atraentes e inexperientes, dominava-as, viciava-as e depois passava-as a seu rico círculo masculino. Utilizava discretamente as amantes. Não eram cortesãs nem prostitutas:

apenas moças livres e independentes, jovens amigas, frequentadoras de suas reuniões. Não havia naquilo nenhum profissionalismo. Nenhuma das moças recebia paga direta por seus serviços. Eram simples mulheres prestativas que aceitavam presentes, e estes tomavam, por vezes, a forma de dinheiro.

Quanto a Paddy Jameson, durante esses meses Medora nunca conseguira decifrar o mistério dos lucros que daí lhe advinham. Era evidente que nunca aceitara recompensa monetária por seus serviços de intermediário. Talvez, pensava Medora, fizesse aquilo para agradar aos ricos e gozar o prazer de sua companhia. Ou talvez procedesse assim para conseguir encomendas para decoração de interiores. Esta hipótese, todavia, era improvável, pois Medora nunca o vira passar o tempo sem ser jogando tênis, nadando, em reuniões sociais ou na cama.

Nos oito meses que se seguiram, Paddy começou a espaçar as visitas. A seu pedido, ela renunciou ao lugar de vendedora de cigarros no cabaré. Com a ajuda dele, descobriu e mobiliou um encantador e luxuoso apartamento a pouca distância do Marble Arch, onde pudesse receber os ricos cavalheiros que a solicitavam. Quanto a Paddy, suas visitas diárias tornaram-se cada vez mais raras, passando gradualmente a ser semanais. Só quando o ciúme e a ira o atormentavam é que vinha mais do que uma vez por semana e ficava até a noite. É certo que ela o via frequentemente nos solitários fins de semana no campo, muitas vezes com outras moças, mas não se preocupava com isso.

Na verdade, tinham sido meses loucos e maravilhos. Por intermédio de Paddy, tivera apenas cinco amantes — ou antes, seis, contando o último. Quatro eram funcionários do governo muito conhecidos, dois deles altamente colocados. Durante esses oito meses, vivendo como uma dama da alta-roda, com requintado esplendor, Medora vira-se coberta de diamantes, vestidos, casacos de marta, antiguidades, um automóvel, serviços de porcelana de Wedgwood, um investimento na Plarrods e cerca de dez mil libras em caixa, se bem que mais tarde fosse incapaz de responder por nove mil.

Só numa ocasião aquele negócio lhe parecera detestável. Quei- xara-se a Paddy de que, a continuar daquela maneira, não haveria dinheiro que chegasse. Ele lhe sugeria que o melhor modo de se aguentar era ganhar mais. Queria ganhar mais? Isso não lhe desagradaria — dissera ela —, contanto que não se envolvesse em promiscuidade. Paddy prometeu solenemente tratar do caso, e, certa tarde, acompanhou-a a uma tradicional mansão que se espreguiça a poucos quilômetros de Hampton Court. O anfitrião era um duque, membro do gabinete ministerial; havia pelo menos duas dúzias de convidados. A princípio, parecia tratar-se de uma reunião rotineira, até que Medora percebeu, chocada, que as moças que serviam usavam reduzidas saias com avental, estando completamente nuas por baixo. Houve bebidas e cigarros em abundância, e, pouco a pouco, os homens mais velhos e as jovens despiram-se uns aos outros, e Paddy, divertido, insistira com Medora para que se associasse à brincadeira, se bem que ela se mostrasse cada vez mais impressionada. Então, a noite transformou-se num pesadelo. Duas jovens nuas fustigavam Sua Graça, prostrado num tapete de urso, cinco convidados faziam um nojento círculo de sexos no meio da sala, entre a hilaridade geral, e outros colocavam-se em fila para espreitar, através de um espelho de uma só face (sem serem vistos), um inesperado casal que forni- cava no quarto do dono da casa. Recusando-se a participar daquilo, Medora escondeu-se, depois vestiu-se e regressou a Londres.

No dia seguinte, Paddy chegou cedo e deu uma explicação para aquela noite de pesadelo, observando que só tivera em vista mostrar a Medora o que era uma orgia. Como ela se insurgisse, logo concordou em que sua reserva e sua classe não se harmonizavam com aquele gênero de coisas, mas acrescentou manhosamente que as jovens participantes recebiam presentes duas vezes mais generosos que aqueles que Medora pudesse vir a receber. Medora, porém, não estava interessada, e, por isso, nunca mais foi convidada para semelhantes orgias.

O último homem que Paddy lhe apresentara fora aquele ativo bobalhão com dentes de cabra, Sydney Ormsby, um jovem tolo que arquejava de paixão. Sua família era fabulosamente rica e influente, e ele tinha um nível de vida muito superior àquele que lhe permitia seu ordenado como membro do serviço secreto inglês. Era um emprego conseguido politicamente pela família, num esforço para lhe dar uma posição, mas que ele desempenhava mal e ansiava por deixar. Embora ele fosse um obcecado sexual, Medora considerava-o um coelho inútil e demasiado importuno. Inspirara-lhe o único bon mot de sua carreira, que repetiu a Paddy:

“A única coisa que Sydney pode aparafusar é sua coragem”. Sydney cumulara-a de dispendiosos presentes e falava com entusiasmo do futuro de ambos, o que abria a Medora a possibilidade de um casamento vantajoso.

Depois, inesperadamente, no quarto mês de sua ligação, Sydney Ormsby deixou de comparecer pela primeira vez a um enco- tro. Não viera nessa noite, nem na seguinte, nem em qualquer outra. Preocupada com tão estranho e anormal comportamento, Medora tentou falar com Paddy na manhã seguinte, na imediata, no decorrer de toda aquela semana, mas dir-se-ia que Paddy também havia desaparecido da superfície da terra.

Foi então que tudo se explicou, e Medora Hart, assustada, viu que tinha sido enganada.

As manchetes dos jornais eram maiores, mais negras, mais pro- vocadoras e terríveis do que haviam sido no caso John Profumo- Christine Keeler-Stephen Ward, de sua meninice. A Fleet Street estava de férias. O Parlamento era um tumulto. O mundo dos negócios tremia. A Inglaterra sustinha a respiração.

Paddy Jameson fora preso por um inspetor-chefe e um sargento por solicitação do serviço secreto, levado à presença de um magistrado de Marylebone e citado para julgamento no Old Bailey, a fim de responder por cinco acusações de corrupção.

Trêmula de medo, Medora leu e releu as acusações, procurando compreender até que ponto estava comprometida. Uma delas, com fundamento na Lei contra os Crimes Sexuais, era que Paddy Jameson se consagrava à descoberta de “jovens senhoras”, não nomeadas, que incitava, mediante “bens e favores”, à prática de relações sexuais condenadas pela lei, encorajando assim a prostituição. Outra das acusações era que Paddy fazia chantagem com homens ricos e influentes, a quem havia fornecido jovens de virtude duvidosa. Outra acusação, em letras maiúsculas, era que Paddy se servia de suas mulheres — “prostitutas imorais”, como lhes chamava um dos jornais — para arrancar informações de seus amantes que tra- * balhavam para o governo, algumas delas secretas, que Paddy vendia à imprensa e a certos amigos que tinha em três embaixadas estrangeiras.

Na opinião de Medora Hart, embora considerasse suas atividades através do filtro de uma consciência amoral, Paddy, suas amantes e ela própria tinham sempre agido de acordo com a lei, de forma inteiramente aceitável e legal, por assim dizer. Nas poucas vezes em que tivera medo, perguntara-se se suas atividades eram contrárias à lei, pusera as apreensões de lado, convencida de que Paddy conhecia todas as pessoas influentes e não ignorava o que podia ou não ser feito, tanto mais que os amantes eram, em certo sentido, a própria lei. Contudo, agora, pelo menos na aparência, a polícia e a imprensa pareciam pensar de maneira diferente, e o escândalo sacudia os alicerces da Grã-Bretanha, além de alimentar milhares de primeiras páginas, em centenas de línguas, dos jornais de todo o mundo. Não era apenas a divulgação de sua má conduta o que a assustava, mas sobretudo a possibilidade de vir a ser humilhada e castigada por ter feito o que não sabia ser errado.

Pensando nos meses de notoriedade com Paddy, Medora não compreendia como a vida privada deles pudera ser revelada às massas puritanas. Mas, dado que as edições das revistas de escândalos superavam as dos jornais, a verdade acabou por vir à superfície. Paddy Jameson tinha sido vítima de sua própria fraqueza, que ela ignorava, e que era o jogo. Acumulara dívidas enormes e fora ameaçado de morte por um bando de rapazes do Soho. Incapaz de conseguir com seus amigos um empréstimo pessoal vultoso, tentara fazer chantagem com o rabugento e velho duque, aquele que vivia perto de Hampton Court, o anfitrião das orgias, mas Paddy calculara mal a raiva de Sua Graça. Fulo com a chantagem de um jovem, e demasiado velho para se preocupar com sua já manchada reputação, o duque dirigira-se à Scotland Yard, provara a chantagem e confessara tudo o que sabia e de que tinha participado. Sua confissão foi levada pelos investigadores a um jornalista alcoólatra, que costumava comprar as informações de Paddy e utilizá-las, sem citar nomes, servindo-se das palavras “consta” e “propala-se” em seu jornal. Uma vez que sua consciência de católico, o fígado e a gota começavam a incomodá-lo, o jornalista acrescentou informações mais pormenorizadas à confissão de Sua Graça.

E foi assim que o escândalo estourou... pelo menos em parte. C) próprio Paddy, quando interrogado na Yard, fingiu-se furioso, clamou que se tratava de uma perseguição, defendeu seu bom nome e negou tudo. A polícia esperava que o apartamento de Paddy lhe fornecesse provas suficientes para incriminá-lo, mas as gavetas e os cofres apenas lhe patentearam uma fastidiosa respeitabilidade. Roupas da Bond Street, postais de aniversário de parentes, apólices de seguro, receitas da farmácia da esquina. Era óbvio que alguém, mais por interesse pela sorte de Jameson do que por amizade, tinha se antecipado na visita ao apartamento, e assim a polícia saiu de lá de mãos vazias.

O fracasso dos agentes da Yard e do serviço secreto não preocupou nem arrefeceu o zelo do promotor público. Este já tinha provas suficientes para ir em frente. Duas das amantes de Paddy tinham sido localizadas e presas. Quatro membros da rica clientela de Paddy haviam sido interrogados e considerados testemunhas da Coroa. Falou-se de outras moças e de patronos, mas o promotor não se deixou impressionar, certo de que elas se apresentariam voluntariamente e eles não poderiam evitar a vergonha das manchetes sensacionais e das ominosas declarações da polícia à imprensa diária.

Durante uma semana, Medora não deixou seu apartamento, mantendo-se ligada ao mundo exterior através dos jornais que sua fiel e bem-paga criada da Jamaica lhe comprava. Duas ou três vezes por dia, Medora esmiuçava cada nova edição, com o receio e a desconfiança de um velho ao consultar as páginas dos avisos fúnebres. Seu nome ainda não tinha sido mencionado. As duas amantes de Paddy que estavam sob prisão ignoravam seu nome, e das outras três, de quem mal se lembrava, só uma estava a par da sua residência e de sua história. Do mesmo modo, dos clientes de Paddy convocados como testemunhas, nenhum tinha sido seu amante. Por ora, estava a salvo. Mas de quê? Não conseguia compreender. A culpabilidade de Paddy estava provada, mas o mesmo não sucedia com as suas garotas:

simples referências à prostituição, o que para Medora era de um ridículo absoluto.

Seu medo, aquele retorno ao pavor infantil de ser castigada por imoralidade, ela só podia atribuir às tonitruantes declarações do promotor público contra a corrupção $ o pecado, que imitavam as de seu predecessor, que, ao acusar Stephen Ward durante o caso Profumo, dissera:

“Atingimos neste processo as profundezas da devassidão e da depravação”. O tom lembrava a Medora não o ministro do Supremo, Jeffreys, mas o reverendo Davidson. Não era a justiça que ela temia, mas a hipocrisia de suas sanções. A desdenhosa aversão da srta. Sadie Thompson viera-lhe ao espírito:

“Homens! Porcos nojentos e patifes! São todos iguais, todos!” E foi ao pensar nisso que Medora ficou com medo.

Para Medora, em meio ao seu isolamento, a segunda semana do escândalo apresentara-se como a mais fértil em ansiedades e expectativas. Essa semana começara da maneira mais promissora. Os preparativos para o julgamento estavam em marcha. O processo admitia, com evidente consternação, que não tinham sido descobertas outras moças, mas que continuavam as investigações a respeito dos conhecimentos masculinos de Paddy. Para Medora, era uma esperança enganadora. Depois, vieram novas edições, histórias recentes, vagamente alarmantes, mas em breve sinistras. Vários conhecidos de Paddy haviam sido localizados, tinham concordado em colaborar com a polícia, estavam sendo interrogados em segredo. Para Medora, eram mais esperanças enganadoras, mas esperanças ainda, e não desespero. Compulsivamente, atirou-se aos doces, e, entre as edições dos jornais, ouvia o rádio e esperava ansiosamente. Nenhuma notícia, costumava dizer a mãe, era boa notícia.

Então, de um dia para o outro, ao encarar a primeira e inexpressiva página do jornal da manhã, toda a esperança desmoronou:

A manchete dizia:

ORMSBY CHAMADO A DEPOR NO CASO JAMESON!

Embaixo lia-se:

NOVA TESTEMUNHA REVELA UM FUNCIONÁRIO DO SERVIÇO SECRETO, IRMÃO MILIONÁRIO DE UM MEMBRO DO PARLAMENTO QUE FOI VISTO NAS ORGIAS DE PADDY

De olhos muitos abertos, percorreu a coluna em busca de seu nome. Não estava ali. Suspirando de alívio, começou a ler a reportagem desde o princípio. Uma das últimas testemunhas tinha dado à polícia meia dúzia de nomes de pessoas influentes que conhecera recentemente, durante um coquetel no apartamento de Paddy Jameson. Entre esses nomes figurava o de Sydney Ormsby, adido ao serviço secreto britânico e irmão mais novo do preeminente político Sir Austin Ormsby, membro do Parlamento e diretor da Ormsby Press Enterprises, Ltd. O mais novo dos Ormsbys estava, na ocasião, acompanhado por uma bonita moça loura, de cerca de vinte anos. A testemunha ignorava seu nome. Contudo, o jovem Ormsby parecia ter grande familiaridade com ela, e, aparentemente, estava nas melhores relações com Paddy Jameson. A reportagem concluía declarando que Sydney Ormsby havia sido convocado pela polícia para interrogatórios.

Encerrada em seu apartamento, renunciando aos doces e ao gim com água tônica, Medora teve de se render fatalmente ao inevitável. Esperaria pelos representantes da lei. No entanto, durante todo o dia, ninguém bateu à porta. Esperou pelos jornais da tarde, e, quando estes chegaram, quase desmaiou de alívio, como se no derradeiro momento tivesse sido provisoriamente salva das galés. Havia fotografias de Sydney ao chegar ao local onde ia ser interrogado, sorrindo afetadamente e confiante. Havia um retrato de Sir Austin, com uma legenda em que se dizia que o membro do Parlamento “apoiava firmemente seu supostamente culpado irmão”. Depois, seguia-se o relato dos interrogatórios:

Sydney Ormsby negava enfadadamente as alegações da testemunha que declarara tê-lo visto no apartamento de Paddy Jameson. Sydney jurava que, embora conhecesse o réu, nunca estivera no apartamento de Jameson. Com maior firmeza, jurava também que, pelo menos com seu conhecimento, nunca fora apresentado a uma das garotas de Jameson nem deixado a sós para gozar os favores de qualquer delas. Surpreendera-o, acrescentava, saber que o tranquilo e bem-educado Jameson não passava de um alcoviteiro.

Ao ler aquilo, o alívio de Medora aumentou, e ela até se divertiu com a audácia de Sydney. Sabia que ele havia forjado uma mentira, talvez tivesse mesmo cometido perjúrio, mas convencera seus inquisidores de que era inocente e alheio ao caso. De qualquer maneira, sentiu-se mais segura, porque, se alguém na posição de Sydney Ormsby podia mentir assim sob juramento, então não precisava se alarmar. Pela primeira vez, teve a reconfortante sensação de que seu anonimato continuaria a ser preservado.

Nessa noite, depois de lavar e frisar o cabelo, sentiu-se bastante otimista para ignorar o rádio e consagrar a noite a um velho filme americano sobre o romântico sul que a televisão apresentava. Sorvendo um Grand Marnier, estendida no sofá, estava plenamente absorvida no cenário gracioso de uma plantação cercada de magnólias, com o preocupado patrão apanhado entre duas mulheres, quando de repente um agudo toque de campainha a sobressaltou, fê-la estremecer e erguer-se.

A campainha da porta retinira. Seguiram-se três pancadas breves e rápidas.

Procurando o robe, com o coração aos pulos, supôs que aquilo que mais temia acabava de acontecer. Vinham entregar-lhe uma convocação. A polícia, como tinha lido muitas vezes, aparecia sempre à meia-noite, quando a resistência era mais baixa.

Encostando-se à porta, perguntou numa voz trêmula:

— Quem é?

A resposta foi quase inaudível:

— Um amigo. Deixe-me entrar, por favor.

Desesperada, mas receosa de opor-se à lei, destrancou apressadamente a porta e abriu-a.

À primeira vista, não o reconheceu. Depois, graças a sua obse- dante leitura dos jornais, soube quem era. Estava frente a frente com o irmão aristocrático e altivo da testemunha, que a analisava de olhos semicerrados antes de dizer:

— Srta. Hart, não é? Sou Austin Ormsby. Se está só, sugiro que me convide a entrar.

Lançou uma olhada à sala de estar, depois atravessou lentamente o apartamento e voltou-se. Não quis tirar o sobretudo e recusou uma bebida, mas sentou-se numa poltrona com a bengala entre as pernas e fez-lhe sinal para que ela ocupasse o divã. Medora obedeceu e ficou à espera.

Embora a voz não o revelasse, começou por dizer que dispunha de pouco tempo e, portanto, entrava diretamente no motivo da sua visita. Como devia calcular, essa visita dizia respeito a seu irmão mais novo, Sydney, e à própria Medora. Sim, sim, apesar do que diziam os jornais, ele estava a par das relações de seu irmão com ela e Paddy Jameson. Aquilo tudo era muito aborrecido para todos, mas nada havia a fazer, tinham de ser realistas e tirar o melhor partido das circunstâncias. Mas, antes de prosseguir, queria que lhe respondesse o seguinte:

— Srta. Hart, o inspetor de polícia esteve aqui hoje?

— Não, ninguém — respondeu Medora, respirando com dificuldade.

— Ótimo! — comentou ele, se bem que não houvesse satisfação em seu rosto. — Nesse caso, ainda temos tempo.

Ia explicar-lhe tudo rapidamente, sem descer a pormenores penosos, e era preciso que ela aceitasse sua palavra. Então, começou. Tinha motivos para supor que ela e o irmão estavam em perigo iminente. Sua posição dava-lhe acesso a determinadas fontes de informação. Soubera, havia duas horas apenas, que os investigadores da polícia seguiam uma pista que, sem dúvida, iria envolver a srta. Hart e Sydney no escabroso caso Jameson. Através de um intermediário, a polícia entrara em contato com a terceira das garotas de Jameson, e esta estava disposta a fazer uma confissão completa, contanto que a lei lhe garantisse que destruiria as provas de prostituição contra ela. Nesse momento, um compromisso estava sendo discutido através do intermediário.

— Acabarão por chegar a um entendimento — disse Sir Austin —, e, então, a moça sairá de seu esconderijo e revelará os nomes de todas aquelas que colaboravam com Jameson, assim como de seus amantes. Se isto acontecer, e me parece que ocorrerá em breve, seu nome-será tornado público, srta. Hart, meu irmão voltará à baila, e aflige-me pensar no que sucederá a ambos.

Os olhos de Medora encheram-se de lágrimas, e Sir Austin tentou acalmá-la. Quando a viu recomposta, declarou que achava preferível precavê-la contra o pior para assim lhe poder indicar o melhor caminho a seguir. Com a esperança nesse melhor caminho, Medora preparou-se para ouvir o pior.

Se Medora fosse descoberta pela polícia e obrigada a depor como testemunha da Coroa contra o acusado, Paddy Jameson, seu testemunho sob juramento seria catastrófico não só para Jameson, mas também para ela e Sydney. Uma mulher jovem — sentenciou Sir Austin — tem como única riqueza sua reputação. Se houver uma mancha em seu nome, estará perdida. A apresentação de Medora Hart no tribunal prejudicá-la-ia para sempre. Além disso, se a Coroa conseguisse provar que Jameson contratava ou cedia suas amantes como prostitutas, elas viriam a ser julgadas também por prostituição, por força da Lei contra Crimes Sexuais. Talvez fosse difícil ao governo sustentar essa acusação, mas era uma possibilidade a encarar, que podia significar a prisão para Medora Hart.

Seu irmão também sofreria, admitiu Sir Austin, mas em menor grau. Se Medora viesse a confessar suas relações com ele, Sydney, por seu lado, seria forçado a admiti-lo e a apresentar-se como testemunha contra Jameson num futuro próximo, e contra Medora mais tarde. Se bem que essa espécie de escândalo raramente fosse tão prejudicial a um homem como a uma mulher — explicou Sir Austin, num tom pretensamente paternal —, não deixaria de comprometer a futura carreira de Sydney e, o que era pior, causaria aborrecimentos ao próprio Sir Austin e a toda a família Ormsby. Será que Medora compreendia todas as consequências que resultariam de sua detenção e apresentação no Old Bailey?

Medora compreendia perfeitamente; e, já mais senhora de si, compreendeu também que o irmão lhe poderia dar o máximo e Sydney o mínimo!

— Esqueceu-se de uma coisa quanto a meu testemunho — disse ela corajosamente. — Sydney iria parar na prisão por perjúrio. Jurou à polícia que nunca teve contatos conosco, e eu seria a segunda a declarar o contrário.

Sir Austin olhou-a com mais atenção e anuiu gravemente:

— Sim, srta. Hart, concordo em que é uma possibilidade. Falta saber se meu irmão negou esta manhã sob juramento. É uma questão legal que teria de ser debatida. Mas não deixa de ser uma possibilidade. De» qualquer maneira, e tem de me acreditar, não é apenas por Sidney que estou esta noite aqui, mas também para protegê-la.

Tudo aquilo era horrível, e a compostura de Medora começava a desintegrar-se. Pensando no futuro, não conseguiu reprimir por mais tempo sua agitação.

— O que se pode fazer? — perguntou, angustiada.

— O que podemos fazer? Tudo. O que pode fazer a polícia? Nada, srta. Hart, nada... contanto que não fique aqui nem colabore com ela.

— Mas estou aqui!

— Hoje, está. Mas amanhã, e é essa minha esperança e meu conselho, estará longe, fora do alcance da lei e do escândalo.

— Quer dizer que devo fugir?

  • — Fugir, srta. Hart? Nada disso. De que fugiria, se amanhã trocasse a Inglaterra pelo continente? Seria apenas uma mulher em busca de uma mudança de ares, para gozar umas férias há muito desejadas. E, dado que, neste momento, e creio que durante as próximas vinte e quatro horas, é uma cidadã livre num país livre, com direito a ir para onde quiser e a fazer o que lhe aprouver, dentro dos limites da lei, se escolher umas férias na França não há motivos para não o fazer. Como legalmente ainda não está ligada ao caso Jameson, a polícia não se interessa por você. Se, contudo, quando já estiver no continente, fora da alçada da jurisdição britânica, for convocada para testemunhar na Inglaterrra, poderá ignorar essa convocação. Garanto-lhe que tem esse direito, e não haverá nenhuma tentativa de extradição. A Coroa conseguirá as testemunhas necessárias, o julgamento prosseguirá e acabará sem você. Logo que Jameson for condenado, o caso será encerrado, seu nome, esquecido, e, após umas agradáveis férias de três ou quatro meses, poderá regressar a Londres com a reputação intata, livre e com um belo futuro a sua frente.

— E Sydney, fugirá também?

— Não será envolvido. O fato não provado de que teve relações com uma das garotas do sr. Jameson, quem poderá testemunhá-lo? Na verdade, onde está essa garota?

— Compreendo.

— Sim? Muito bem. Estou disposto a pagar-lhe as férias no continente até o julgamento terminar e você poder regressar. A única condição é que parta sem falta amanhã.

Embora a solicitude de Sir Austin não desagradasse a Medora, ela sabia perfeitamente que seu interesse era proteger o nome de família dos Ormsby; mas compreendia também que, ao salvaguardar seus interesses, salvaguardava igualmente os dela.

— Está bem. Farei o que me disser.

— É uma moça inteligente.

O olhar paternal cedeu logo vez às perguntas práticas. Tinha passaporte? Sim, conseguira um há seis meses, para passar um fim de semana em Deauville com um amigo. Podia fechar o apartamento e partir sem demora? Com certeza, contanto que pagasse o aluguel e os fornecedores e conservasse a empregada para olhar pelas coisas durante sua ausência. Tinha no apartamento papéis, correspondência, diários, fotografias, recortes ou bilhetes que pudessem ser de natureza incriminatória e que fosse necessário destruir? Absolutamente nada. Tudo já tinha sido destruído. Possuía dinheiro? Não, a não ser que empenhasse as peles e as joias. Importava-se de levar esses valores para o estrangeiro? Oh! levá-los-ia de qualquer maneira. Tinha assuntos urgentes e pessoais a tratar antes de partir? Gostaria de ver a mãe e a irmã, passar pelo banco, colocar nas malas tudo aquilo de que viria a precisar no continente, pagar o aluguel e os fornecedores e, então, deixar o apartamento.

— Faça tudo isso o mais tardar até amanhã de manhã — recomendou enfaticamente Sir Austin, ao mesmo tempo em que se levantava. — Comprar-lhe-ei uma passagem de avião para o meio-dia, entregar-lhe-ei o dinheiro suficiente para viver durante três meses e dir-lhe-ei como poderá entrar em contato comigo em caso de emergência. Esteja pronta para decolar do aeroporto de Londres às duas horas da tarde de amanha. Aterrizará no Aeroporto de Orly, nos arredores de Paris. Não se esqueça do passaporte.

— Mas poderei regressar a Londres daqui a três meses?

— Três meses, no máximo quatro, prometo-lhe.

— Graças a Deus.

— Está combinado, portanto. Não fale disso a ninguém, a não ser a seus familiares. Não telefone nem receba ninguém a partir deste momento.

-— Uma coisa mais. E se na Europa, em Paris, alguém me reconhecer?

— Não se preocupe. Mantenha os lábios cerrados e, evidentemente, não chame muita atenção antes de o julgamento terminar. Boa noite, srta. Hart, e felicidade para ambos.

Para surpresa sua, tudo se passara sem incidentes. Deixara Londres e chegara a Paris tão anonimamente como qualquer comerciá- ria em busca de uma noite de prazer.

As advertências e o auxílio de Sir Austin tinham vindo no momento oportuno. Dois dias mais tarde, os jornais londrinos chegados por via aérea e a edição internacional do Herald Tribune de Nova York chamavam Medora de “a misteriosa dama” do caso Jameson. A terceira das dissolutas cortesãs de Jameson tinha se apresentado, depusera a favor da Coroa e revelara o nome de mais três moças, entre as quais Medora, assim como uma dúzia de amantes dessas mesmas moças, entre os quais Sydney Ormsby.

*”

Apesar de haver entre ela e o escândalo o canal da Mancha, Medora continuava apreensiva quanto a sua segurança pessoal. Quando soube que a polícia tinha conhecimento de que ela deixara o país com destino desconhecido, esperou ser perseguida. Mas os jornais não a davam como testemunha, e as autoridades, tanto inglesas como francesas, não apareceram em seu hotel na Margem Esquerda para interrogá-la. Sentindo-se mais segura, sua tensão diminuiu, e pôde gozar sua nova celebridade na imprensa.

Porque Medora tinha sido a mais jovem e a mais desejada do harém de Paddy, porque vários de seus amantes eram ilustres c, sobretudo, porque havia desaparecido como fumaça, sua fama de sedutora correu mundo graças aos ficcionistas da Fleet Street e aos serviços telegráficos americanos. A princípio, aquilo assustou-a, mas em breve ela se sentiu lisonjeada, apesar das dificuldades que tinha em forjar desmentidos e explicações para a mãe, que a bombardeava com cartas histéricas mandadas aos cuidados de Cook, para Paris.

Seis semanas após seu vôo para Paris, o tão esperado julgamento começou na majestosa sala do tribunal do histórico Old Bailey. De seu retiro, Medora seguia cada palavra impressa acerca do julgamento com curioso desinteresse. Era como se estivesse assistindo a uma peça na televisão, com atores de que nunca ouvira falar. Na verdade, havia estranhos surpreendentes:

o ministro do Supremo, com sua cabeleira de náilon e a ondulante toga preta; o promotor, de feições toscas e irritantemente sarcástico; o advogado de defesa, com sua suavidade blandiciosa, um pilar da Igreja da Inglaterra. E havia também os que tinha conhecido, mas que mal reconhecia, agora, dizendo coisas que ela não se lembrava de ter ouvido antes e mencionando fatos que a fascinavam e a chocavam. Ali estavam as vítimas, encurraladas:

Paddy Jameson, o réu, gaguejando, guinchando, prestes a desmaiar; as cinco moças, testemunhas da acusação, cheias de roupas, tímidas ou atrevidas, tentando chamar a atenção defendendo-se, solicitando piedade, teimosamente respeitáveis; a parada de machos, os melhores da Inglaterra, a classe dirigente, lacônica, surpresa, ludibriada, raivosa, vítimas irritadas de Paddy.

O festival da lei continuava, um ataque demolidor, críticas provocantes, a sala do tribunal lotada. O nome de Sydney Ormsby foi mencionado por duas testemunhas, mostrando-se uma maliciosa e a outra pouco digna de confiança. O nome de Sydney, mas não o próprio Sydney, pois não havia provas seguras de que estivesse relacionado com Paddy Jameson ou com alguma das garotas de Jameson — já que a única testemunha material que podia acusá-lo tinha desaparecido, estava fora do alcance da acusação. E, ao longo do julgamento, foi a figura ilusória de Medora Hart, constantemente mencionada, que se tornou a estrela.

Exultava com essas atenções e lia fascinada as biografias em série de sua vida, de suas vicissitudes e de seus amores em The Pcopie e News of the World, os periódicos de maior circulação, que tinham sido sempre os seus preferidos. Notou que havia em sua notoriedade qualquer coisa de distinto, de Cinderela desobediente, mas só compreendeu sua fama ou infâmia quando isso lhe foi explicado por um jornalista-psicólogo no Observer, que podia ter escolhido, na opinião de Medora, melhores fotografias entre as muitas que existiam no álbum de sua mãe. Segundo o jornalista-psicólogo, os caracteres envolvidos no escândalo pareciam cativantes, coloridos, exóticos, quando vistos à distância ou através do relato de suas aventuras. Paddy tinha o ar de um Casanova espirituoso, e as moças assemelhavam-se a engraçadas Nell Gwyns, e só relutantemente eram admiradas ou invejadas por ousarem desafiar as conveniências e revoltar-se contra os rígidos princípios sociais, por se colocarem acima da decência e além das leis do homem comum. Mas, quando se observavam à distância, indistintas apesar de suas imagens e seus comportamentos, eram qualquer coisa mais, que se cobiçava secretamente. Com efeito, pertenciam a uma classe que fazia com que cada um se aborrecesse com a própria vida, tão limitada, tão cheia de ansiedades, tão reprimida, tão terrivelmente estúpida, e olhava-se para essas mulheres e esses homens e compreendia-se que se estava perdendo uma parte importante da vida, que se vivia e se morreria sem nunca gozar tão audaciosas experiências.

Mas, subitamente, os membros desse elenco de caracteres deixavam de ser vistos à distância. Erguiam-se à nossa frente, diante de nosso nariz, agarrados pela nuca, desprovidos de dignidade, independência e vida privada, confinados ao banco dos réus e julgados por seus erros. E então tornavam-se menos atraentes, deixava de haver Casanovas e Nell Gwyns, apenas gente à deriva, marcada, pervertida, deformada, sórdida, ordinária, tal como a via o olho apurado da justiça através da inexorável lente de aumento de Freud. Via-se que esse grupo sequioso de prazeres não era alegre nem descaradamente amoral, apenas solitário, perdido, fraco e receoso, destruído por suas aberrações e perversões sexuais, dando e recebendo sem amor. Eram patéticos, espalhafatosos, miseramente depravados, mesquinhos ladrões da normalidade e assustados fugitivos da vida. Os homens eram incapazes de relações naturais com mulheres sãs. As moças não eram melhores do que dez xelins de prazer atrás da sala dos funcionários.

Apenas um membro do elenco de caracteres do caso Jameson não tinha desapontado seu público escrevia o jornalista-psicólogo —, e esse era a srta. Medora Hart, que havia triunfado onde seus amigos fracassaram só porque não estivera ali em carne e osso, vista de perto, tal como era realmente, uma prostituta igual às outras garotas de Paddy. Era porque o desencantado público ainda tinha ilusões que se agarravam a Medora Hart, romantizando sua beleza, seu caráter, seus vícios, sua imoralidade. Medora Hart continuava a ser a figura ímpar e romântica do julgamento, uma apetecível deusa do sexo, só porque, como sempre, a distância arrefecia os ânimos. A única analogia possível era namoro e casamento. Quando se deseja uma mulher, mas não se pode tê-la, quando ela está longe e inacessível, presta-se culto a ela, e ela é amada com paixão permanente e julgada capaz de dispensar paradisíacos prazeres como os que teriam dispensado Helena de Tróia ou Cleópatra. Mas logo que a temos perto, em casamento legal, segura, possuída, destronada, despida de mistério e encantamento, logo que ela se torna familiar e habitual, toda a loucura romântica se desvanece. A mulher que à distância parecia uma deusa transforma-se numa enfadonha tagarela, repelente contabilista de nossos rendimentos e ama de nossos ranhosos filhos. Medora Elart continuaria a ser a deusa solitária e autêntica do sexo no miserável caso Jameson só enquanto se mantivesse à distância.

Essa análise de sua celebridade, lida nos confins de seu refúgio de Paris, confundia Medora e preocupava-a, todo aquele vil refugo a propósito de Paddy, das garotas, do que tinham sido forçadas a fazer porque a vida era assim e era lógico que moças jovens, esfomeadas e desprotegidas como ela fossem corrompidas por homens de idade, ricos e poderosos.

Mas em breve houve mais que ler, e então, farta de seu anonimato e de sua inatividade, ansiosa por ficar livre para recolher o fruto da fama recente e regressar à pátria, Medora esperava impacientemente o fim do julgamento, e, quando este acabou, a sentença foi lavrada e a implacável justiça apaziguada. Pobre Paddy! Das cinco acusações por que fora julgado, houve três, todas referentes a seu papel de fomentador da prostituição, que não foram provadas; mas as restantes, ambas referentes às suas atividades de chantagista e a seus esforços para vender a embaixadas estrangeiras os segredos de Estado que conseguira por intermédio das amantes, foram provadas. Condenaram-no a vinte anos de prisão.

Era uma notícia desagradável, essa cruel perseguição a Paddy, mas a tristeza de Medora foi logo aliviada pelas boas novas em relação a ela. A acusação decidira que, visto não ter podido convencer os jurados de que Jameson era um alcoviteiro, não estava na posse de provas suficientes para condenar as cinco garotas de Jameson presentes e a srta. Hart in absentia por prostituição. Além disso, a tranquilidade publica nada ganharia com o prolongamento do escândalo através de uma série de julgamentos sensacionalistas.

L, assim, a acusação declarou que retirava a queixa contra as garotas de Jameson, incluindo a ausente Medora, e que o caso Jameson estava definitivamente encerrado.

Em Paris, a emocionante declaração de liberdade foi recebida por Medora com a excitação de uma adolescente na manhã do dia de seu aniversário, no último dia de aula, no seu début em sociedade. Para ela, o exaustivo trabalho acabara, e no momento exato. I Iavia quase três meses que deixara Londres, e as últimas semanas de exílio forçado haviam sido quase insuportáveis. Por outro lado, o dinheiro de Sir Austin Ormsby estava no fim. Tinha menos do que o equivalente a cento e cinquenta libras em francos no cofre do hotel. Havia uma única formalidade a cumprir, antes de regressar:

escrever a Sir Austin Ormsby, para a caixa postal que ele lhe indicara, e informá-lo de sua decisão, a fim de ter certeza absoluta de que a declaração do promotor público não era uma armadilha e que ela estaria, assim como as outras garotas de Jameson, inteiramente a salvo. Telefonou à mãe para lhe pedir que lhe preparasse seu antigo quarto, que fosse buscar alguns de seus móveis no depósito e ficasse pronta para recebê-la. Depois, com toda a cautela, sem se referir ao julgamento, evidentemente, escreveu uma carta a Sir Austin, enviando-a à caixa postal em Londres.

Depois que comprou sua passagem de avião para Londres, e enquanto esperava impacientemente o sinal verde de Sir Austin, comprou presentes para a família e os amigos na Rue Rivoli e no Paubourg St.-Honoré. Passou-se uma semana sem que Sir Austin desse sinal de vida. Ela começava a preocupar-se. Nem uma única vez tinha trocado correspondência desde que deixara Londres, e, de algum modo, esperava que ele respondesse pelo correio aéreo à sua primeira carta, celebrando seu mútuo triunfo. Todavia, o correio nada trouxe. Foi então que, no décimo dia de liberdade e esperança, chegou uma carta com uma letra familiar — familiar por ser sua própria letra. Era a carta que tinha enviado a Sir Austin e que lhe voltava às mãos, trazendo no envelope o frio carimbo dos correios “Devolvido ao remetente”.

Desanimada, meteu a carta num envelope novo, endereçou-a a Sir Austin, para os escritórios da editora, e esperou dois, cinco, sete dias. Alquebrada, escreveu três cartas ao mesmo tempo, enviando uma para seu escritório, outra para a casa de campo e a terceira para o Westminster Palace, todas por via aérea e registradas. Não foi acusada a recepção de nenhuma. Desnorteada com seu fracasso, assim como com a perigosa escassez de dinheiro, enviou um telegrama a Sir Austin, e depois outro. Não recebeu qualquer resposta. Lntão sua histérica ansiedade deu lugar à raiva — era como o egoísmo de um homem que se ama e que, depois de saciado, se volta para o outro lado e se põe a dormir — e decidiu fazer o que antes não se atrevera. Telefonou a Sir Austin, para a Ormsby Press Enterprises, Ltd., em Londres, chamou sua secretária, disse-lhe que precisava falar urgentemente com Sir Austin, declinando seu nome, e ficou à espera, de novo confiante. Após um longo intervalo, a secretária voltou e disse simplesmente:

“Desculpe a demora, senhorita, mas Sir Austin não pode atender”. Furiosa, perguntou quando ele poderia atendê-la. A secretária respondeu friamente:

“Não sei dizer, senhorita. Desculpe”. E desligou. Desvairada com o descaramento daquele animal, que nem sequer fingira estar ausente da cidade, telefonou duas vezes a Sir Austin no dia seguinte, mas parece que tinham sido dadas instruções à telefonista a propósito de suas chamadas, pois esta limitou-se a responder:

“Sir Austin não pode atender hoje”.

Com esforço, nessa noite Medora conteve seu mau gênio e tentou descobrir uma explicação para o fato de Sir Austin se recusar a falar com ela ou mesmo tomar conhecimento de sua existência. Havia uma única resposta lógica:

devido à sua posição, receava ter qualquer contato com ela ou mostrar que a conhecia. Era injusto, mas pelo menos tinha sentido. Então, achou que estava exagerando a necessidade de uma palavra amiga de Sir Austin. Nesse aspecto, para ser positivamente realista, não precisava dele. Suas vidas tinham se cruzado por instantes, num momento de crise. Ele aju- dara-a. Ela ajudara-o. A crise já não os ameaçava. Suas relações haviam terminado, uma vez que o terrível julgamento também terminara. Já não havia perigo para ela. Pertencia a si própria. O ar era livre.

Na manhã seguinte, a bordo de um jato Caravelle, com o coração aos pulos, Medora voou de Paris para sua adorada Londres.

Seis horas depois, à tarde, chorosa e à beira de uma crise de nervos, Medora voava de Londres para Paris.

De novo em Orly, ainda em estado de choque, meteu as malas num táxi e ordenou ao motorista que a levasse à embaixada britânica. Em menos de trinta minutos, estava em frente do número 35 do Faubourg St.-Honoré. Depois de gratificar o motorista para que tomasse conta da bagagem, entrou no horrível e velho edifício. O contínuo, confuso com o ar aturdido de Medora, indicou-lhe um gabinete no térreo, o sujeito que ali se encontrava recambiou-a para outra seção, e a senhora que ali se encontrava fez várias chamadas internas e, finalmente, conduziu Medora à presença do jovem funcionário consular, a única pessoa que poderia resolver seu intrincado problema.

O jovem funcionário consular, um impetuoso e impudente rapaz de Manchester, tentou mostrar-se atento e sério, mas devassou-lhe o seio enquanto ela falava. Logrando desesperadamente acalmar-se, ser lúcida, Medora contou com pormenores os chocantes acontecimentos daquela manhã no aeroporto de Londres. Era súdita britânica, pois assim constava nos papéis de naturalização do pai, e regressava a casa depois de umas férias, com seu passaporte inglês perfeitamente em ordem; mas, quando rotineiramente o apresentara ao funcionário da alfândega, este, ao ver seu nome, estacou de repente, comparou seu rosto com o da fotografia do passaporte e perguntou:

“Chama-se Medora Hart?” Ela respondeu afirmativamente, e então o funcionário disse-lhe:

“Queira sentar-se, srta. Hart. Desculpe. Há qualquer coisa aqui que tenho de investigar”.

Alguma formalidade burocrática, pensara, e esperou vinte minutos, com aborrecimento crescente, até que o funcionário voltou não só com seu passaporte, mas com uma pasta cheia de papéis. Relutantemente, como um médico ao descobrir uma doença incurável num doente, informou-a de que, por motivos especiais, ela não podia entrar na Inglaterra, pelo menos enquanto sua cidadania não fosse plenamente investigada e certificada. Ela julgou tratar-se de uma brincadeira de mau gosto. Mas logo a verdade surgiu, uma verdade incrível e monstruosa. Estava temporariamente banida de sua pátria. Era Alice e ele era o Chapeleiro, e um deles estava louco.

Seus protestos, os pedidos de explicações, a afronta, em breve fizeram com que outro funcionário acorresse em auxílio do colega. Ambos tentaram esclarecer a situação. O falecido pai de Medora tinha emigrado da Hungria para a Inglaterra e pedira a naturalização britânica, mas uma investigação recente revelara que havia em seu requerimento “informações falsas”, pelo que se estava procedendo ao exame da legalidade de sua naturalização. O assunto tinha sido apresentado ao secretário de Estado do Ministério do Interior e à sua equipe de peritos para ser estudado, mas a lei tinha de ser cumprida. Tecnicamente, os membros da família dele eram estrangeiros, e, devido a essa circunstância, assim como ao fato de Medora ter nascido em Budapeste, quando de uma visita de seus pais aos parentes, ela não estava autorizada a entrar na Inglaterra, pelo menos até o assunto ser esclarecido. E, uma vez que o problema da cidadania estava pendente, a srta. Hart podia conservar o passaporte inglês e se beneficiar da proteção das leis britânicas, mas não lhe seria permitido entrar em qualquer parte do Reino Unido, a não ser que, entrementes, fosse resolvido favoravelmente o processo de naturalização de seu pai.

Ao relatar isso ao funcionário consular inglês em Paris, não pôde esquecer o que lhe acontecera a seguir no aeroporto de Londres. Lembrou-se vagamente de que começara a gritar insultos aos funcionários da alfândega, chamando-lhes porcos lunáticos, perversos, nazistas e todas as obscenidades que lhe vieram à cabeça. Berrara que era tão inglesa como eles, que aquele era seu país e que ninguém podia obrigá-la a sair de sua pátria. Depois, tentara escapar, mas um dos funcionários e um guarda do aeroporto apanharam-na, agarraram-na, não sem que ela lhes batesse e lhes cuspisse, ao mesmo tempo em que gritava que aquilo era um complô, uma coligação ilegal dos imundos funcionários do governo que tentavam incriminá-la sem julgamento, porque sabiam que já tinha escapado uma vez e estavam com medo dela.

No auge da cena, atirara-se no chão, mas fora quase arrastada por uma multidão de espectadores para uma sala, onde desatara a soluçar. O funcionário da alfândega e o guarda do aeroporto ajudaram-na a levantar-se, mostraram-se amáveis, alguém lhe deu sais para cheirar, outra pessoa apareceu com chá e uma terceira com impressos para preencher. Algum tempo depòis, meteram-na num avião e recambiaram-na para Paris. Enfraquecida e derrotada, perguntou o que deveria fazer e responderam-lhe que se mantivesse em contato regular com a embaixada britânica em Paris ou onde quer que estivesse, até que lhe fosse transmitida a decisão do caso.

— E aqui estou — disse ela ao funcionário consular.

— Muito bem, srta. Hart. Vejamos o que se pode fazer.

Entrou na sala dos arquivos, que era contígua, remexeu nas gavetas e dali passou ao gabinete de seu superior. Antes que voltasse com uma folha de papel amarelo, Medora fumou três cigarros.

Com efeito — disse ele —, está definitivamente na lista.

— Que lista? — gritou Medora.

— A dos estrangeiros indesejáveis — esclareceu, abruptamente. — É a rotina, como sabe. Quando um cidadão estrangeiro ou naturalizado chama atenção por qualquer motivo, crime, escândalo, etc., seu passado é automaticamente investigado. Isso aconteceu no seu caso, e descobriu-se uma informação falsa nos documentos de naturalização de seu pai. Técnica e temporariamente, isso faz de você uma estrangeira, infelizmente. Se vier a ser declarada estrangeira permanente, então, à luz da última revisão do Código... bem, temos de aplicar-lhe a definição...

— Continue. Quero saber.

— Pois bem. Um caráter moral duvidoso pode ser um dos motivos de impedimento para um cidadão requerer a cidadania.

Ela ficou petrificada. Caráter moral duvidoso. Era isso, então.

Suas suspeitas de algumas horas antes confirmavam-se. Não se tratava daquele miserável Ministério do Interior. Aquilo partia de Sir Austin Ormsby. Tinha-a exilado não por três meses, mas para sempre. Não admirava que nunca tivesse entrado em contato com ela. Não admirava que não tivesse respondido às cartas, aos telegramas, às chamadas telefônicas. Para ele, Medora deixara de existir, era — como diziam os franceses — ci-devant. Ele era um homem influente. Uma breve chamada telefônica para o ministro adequado — temos o mesmo clube, como sabe, é preciso manter a Inglaterra pura, conservar os jovens e os lares incorruptíveis —, uma única chamada telefônica, e o mecanismo pusera-se em marcha. Fora descoberta uma brecha. Se não existisse, ter-se-ia inventado. Aquela havia sido imediatamente aproveitada. Agora ela estava fora da vida dele. Ficaria aí o resto de seu dias. Nunca mais seria, na Inglaterra, uma fonte de escândalos em potencial para a família Ormsby. Se ao menos pudesse apanhar, munida de uma faca, aquele patife e fedorento filho da puta!

— Desculpe — ouviu o funcionário consular dizer ao mesmo tempo em que lhe devassava de novo o seio. — A única coisa a fazer é manter-se semanalmente em contato comigo. Esses assuntos, por vezes, levam tempo a resolver.

— Tempo? Quanto?

— Podem arrastar-se durante semanas, meses, até anos.

Ela teve vontade de acrescentar que aquele purgatório poderia mesmo eternizar-se, mas voltou a sentir-se enfraquecida e permaneceu calada.

— É claro que posso tentar apressar a decisão, enviar um memorando. Gastaria de ajudá-la.

Medora levantou-se.

— Obrigada. Agradeço-lhe tudo o que possa fazer.

Ele pegou a bolsa e lhe entregou, acompanhando-a relutantemente até a porta.

— Li... coisas a seu respeito. A imprensa era-lhe favorável. Estava toda de seu lado. — Hesitou:

— Se se sentir só, se precisar de companhia, um pouco de amizade, também estou só e conheço um bom lugar onde talvez possamos passar uma noite.

Devia fechar a porta ou deixá-la entreaberta? Detestou aquele jovem e desastrado louco, mas contemporizou:

— Vou estar ocupada durante uns tempos, mas procurarei manter-me em contato com os senhores.

Eram todos uma cambada de filhos da puta.

Regressou ao pequeno hotel, onde a informaram de que seu quarto ainda não tinha sido ocupado, portanto voltou a ficar com ele. Passou essa noite sentada no sofá, demasiado combalida para pensar, doente demais para comer, sentindo-se perdida. Só depois de alguns uísques e já de madrugada foi que decidiu deitar-se.

Acordou furiosa com Sir Austin Ormsby, dominada por uma ideia sanguinária de vingança. Tinha um trunfo:

a verdade acerca do que se passara realmente, a verdade acerca de como o grande Sir Austin, trêmulo e ao abrigo da noite, lhe implorara que deixasse o país, infringisse a lei e se tornasse sua cúmplice no crime, a fim de proteger o irmão e o maldito nome de sua família. Oh! Seria bonito, se aquilo aparecesse em manchetes nos jornais!

Impelida pela necessidade da vingança, mergulhou na cidade de Paris, na sua santa cruzada. Foram duas semanas duras, descontroladas, selvagens, de ronda pelos escritórios de imprensa ingleses e americanos de Paris. Falou com o diretor-adjunto do Herald Tribune de Nova York, com os chefes de redação da Reuters, da Associated Press, da United Press International, da Atlas News Association, do Times de Londres, do New York Times, do Observer, com meia dúzia de outros, e em toda parte foi regiamente recebida como uma celebridade, e ouvida. Contou a verdade sobre Sir Austin Ormsby, começando por desbobinar sua própria história com fria serenidade, colorindo-a depois com versões novas e exagerando-a cada vez mais. Em toda parte encontrou grande interesse e uma simpatia sincera — mas, no final, a recusa. As reações eram sempre as mesmas. Eram necessárias provas, documentos. Tinha alguma coisa desse gênero, qualquer escrito de Sir Austin? Não, não tinha nada, a não ser sua memória e o valor de sua palavra. Não havia dúvida de que ele fora esperto ao deixá-la com tão pouco. Infelizmente, sua palavra era insuficiente. Uma revelação dessas, sem provas irrefutáveis, poderia provocar um processo por difamação por parte de Sir Austin. Não, era impossível, se bem que todos se mostrassem ansiosos por entrevistar Medora sobre o incidente com Ormsby. Mas ela não estava com paciência para entrevistas. Apenas desejava que os jornais publicassem a verdade sobre Sir Austin.

As recusas não impediram sua determinação de prosseguir na cruzada. Havia uma dúzia de jornais franceses, e ela foi ter com eles. Uma vez mais, encontrou o mesmo interesse, a mesma simpatia e, finalmente, a recusa — e convites para jantar. A cruzada tinha falhado. De novo se sentiu perdida. Sir Austin vencera.

Depois, de um dia para o outro, o desejo de vingança fora substituído por uma necessidade maior, a necessidade de sobrevivência. Havia muito que o dinheiro de Judas de Sir Austin tinha desaparecido. As joias e as peles haviam sido vendidas, e o dinheiro voara. Agora, sentia-se nua e amedrontada. Tinha duas saídas:

suicidar-se ou tornar-se prostituta. Mas, de repente, lembrou-se de que não precisava utilizar qualquer dessas saídas. Um dos diários franceses que visitara propusera-se ajudá-la a preparar sua autobiografia, uma série de artigos assinados sobre sua sombria história — sem Sir Austin, naturalmente —, e pagar-lhe-ia bem pelos direitos. Não pensou duas vezes. Aceitou imediatamente a proposta.

Medora esperava economizar um pouco desse dinheiro para pagar um advogado que a mãe contratara para investigar na Inglaterra as causas de seu exílio. Mas nada havia para economizar. Depois de pagar as contas da mãe e as suas em Paris, nem um franco sobrava. Entretanto, a terça parte de sua autobiografia fora publicada e estava sendo discutida tanto na França como na Inglaterra, assim como cm todo o continente; Medora, porém, continuava sem dinheiro e vivia de crédito. Seu desespero era maior do que nunca. Embora seu relato autobiográfico lhe trouxesse de novo o nome à baila e ela fosse constantemente convidada para ceias em Paris, detestava essas reuniões porque sabia que a convidavam, como a qualquer cartomante ou músico em voga, apenas para entreter e distrair com sua novidade os convivas entediados. No entanto, aceitava esses convites porque lhe asseguravam refeições gratuitas. Nunca imaginara que lhe viessem a facultar uma carreira, mas, para grande espanto seu, numa dessas reuniões, num apartamento particular, no Trocadéro, foi precisamente isso o que aconteceu.

Um agente teatral de Munique, que tinha representações em todas as cidades da Europa, ficou excitado ao vê-la. Disse-lhe que sua autobiografia era comentada nos salões e cafés de todas as capitais européias. Era uma pena não aproveitar aquela publicidade. Ela não compreendeu o que ele pretendia dizer ao referir-se à publicidade inerente à série de artigos sobre a história de sua vida. Se ela estivesse — explicou ele pacientemente — no mundo do espetáculo, poderia tirar bom proveito daquilo. Mas não era uma artista — disse Medora —, embora desejasse sê-lo. O agente agarrou-se a essa declaração. Estava interessada? Estava livre? Aceitaria apresentar-se em público? Respondeu com absoluta candura que aceitaria tudo o que a ajudasse a sobreviver. Estava sem dinheiro.

— Mas que posso eu fazer? — perguntou. — Nunca trabalhei como atriz.

— Amanhã mesmo, posso inscrevê-la numa centena de clubes noturnos.

— Para fazer o quê? Diga-me.

— Sabe cantar?

— Um pouco. Nunca tive lições, mas tenho bom ouvido.

— Sabe dançar?

— Muito, pelo menos é o que julgam.

O agente recostou-se e mirou-a da cabeça aos pés. Era óbvio que não havia indecência em seu exame. O olhar e o tom de voz denotavam profissionalismo.

— Tem um corpo notável, sabe?

— Sei.

— Importar-se-ia de usá-lo?

— Não estou interessada nesse gênero — replicou Medora, acremente.

— Não, não! Refiro-me a expô-lo profissionalmente. Uma canção, um arremedo de dança, um striptease parcial.

— E quem pagaria para ver isso?

— Só por isso? Poucos. Mas por isso, mais seu maior atrativo, haveria milhares que pagariam com satisfação.

— Meu maior atrativo? — repetiu belicosamente. — A que se refere?

— Ao simples fato de ser a garota de Jameson.. . É isso, minha amiga. O que me diz?

— Quando começamos?

Fizeram-no uma semana mais tarde, num cabaré cheio de fumaça da Margem Direita, e ele obrigou-a a trabalhar duramente, sem descanso, durante aqueles três anos de triste exílio. E aquilo que tinha começado tão solitariamente havia tanto tempo, essa tortuosa viagem que não a aproximara um centímetro da pátria, levava-a agora, uma vez mais, como nos verões anteriores, a uma tarde escaldante nas areias da praia do Provençal, em Juan-les-Pins.

Repousava tranquilamente na almofada branca, abrindo os olhos por trás dos óculos escuros para o presente, num esforço para esquecer o passado, mas sabendo de antemão que o passado era tecido na fábrica do presente e que tinha de viver com ele a toda hora e momento. Piscando através dos óculos, por causa da incandescência do sol, viu que tinha o peito e as coxas muito queimados. Erguendo o braço, consultou o relógio. Estava na hora de ir ensaiar sua melancólica canção, durante cinquenta minutos. Se não saísse imediatamente do sol, seria assada viva.

Apoiou as mãos nos cotovelos e, lembrando-se dos turistas ingleses que haviam provocado aquela mísera evocação, espreitou. Felizmente, tinham desaparecido com suas descoradas e brancas peles. A praia continuava relativamente deserta, e, pelo que podia ver, os ocupantes do terraço também eram poucos.

O encarregado da praia aproximava-se.

— Posso mudar a posição do guarda-sol, srta. Hart? Caso contrário, ficará doente esta noite.

— Não, obrigada — disse ela, pondo-se de pé. — Por hoje, chega. Vou almoçar.

Espreguiçando-se, notou que uma alça do biquíni tinha se desprendido e logo a prendeu com um nó. Depois de verificar que estava em ordem, pegou o suplemento do Sunday 'Times, dirigiu-se para a cabina, enfiou as sandálias, agarrou a bolsa e encaminhou-se para o terraço.

Subiu os degraus de pedra, virou à direita, desceu rapidamente um segundo lance de escadas, passou pelas vitrinas com as sobre mesas c saladas já preparadas e foi para um varandim de madeira sobranceiro ao mar.

Desejava repousar numa das mesas de metal, à sombra de um guarda-sol, e aí almoçar e ler, mas estacou de repente. Pelo menos três das mesas estavam ocupadas por turistas hospedados no hotel, homens na maioria, americanos, ingleses, alemães e alguns franceses. Abruptamente, deu meia-volta. Como de costume, sua aparição interrompera as conversas em duas das mesas; ouviu-se um arrastar de cadeiras e todos os olhos masculinos a observaram furtivamente. Nesse instante, lamentou a exiguidade do biquíni e fez votos para que o nó da alça não se desfizesse. Sentia todos aqueles olhos sobre a pele e voltou-lhes as costas, sem um sorriso, caminhando apressada na direção da porta do bar.

Encarapitada num banco, de costas para aqueles monstros babosos, decidiu ignorá-los por completo. Mas continuava a sentir seus malditos olhos nos ombros nus, na espinha e nas nádegas.

Seu amigo francês, o amável e felizmente casado empregado do bar, apareceu logo, cumprimentando-a e esperando.

— Não tenho muita fome, Jean — disse ela. — Arranje-me uma salada niçoise e um copo de vinho. Pode ser Tavel.

— Ah, Mlle Ilart, a salada niçoise esgotou-se! Vieram os abutres e zás... foi-se. Mas se quiser esperar... só cinco minutos... posso arranjar-lhe uma fresca.

— Está bem, Jean. Mas traga-me o Tavel. Estou morta de sede.

Quando o vinho rosado lhe foi servido, ela provou-o e achou-o delicioso. Mas esse prazer foi afetado ao ouvir, atrás de si, frases lascivas pronunciadas por alguém que contava uma anedota suja sobre uma mulher nua, seguida por um coro de gargalhadas obscenas. O silêncio caiu de novo, a pressão dos olhares aumentou, e ela sentiu-se tentada a levantar-se, a arrancar o biquíni e a gritar-lhes:

“Pois bem, malditos filhos da puta, é isto o que querem ver?”

Na verdade, o que poderiam ver de diferente daquilo que tinham observado centenas de vezes antes? É uma coisa que se pode comprar de qualquer prostituta ou ver em qualquer revista de cinco francos. O espetáculo era sempre o mesmo:

os mesmos seios nus, o busto, o púbis, os quadris, as pernas, as nádegas. No entanto, quantos homens ansiavam por ver e imaginar possuir essas partes de sua anatomia como se fossem diferentes, autênticas maravilhas do mundo! Outrora, havia muito tempo já, sentia-se orgulhosa de seus atributos naturais, de todo o seu corpo nu, porque lhe trazia benesses e alegrias. Mas agora detestava esse corpo, porque lhe roubava a intimidade e a paz e levava os homens mais civilizados a portarem-se como porcos, que arquejavam e ardiam no desejo de vê-lo, senti-lo, apalpá-lo e penetrá-lo. Ali estavam atrás dela, violando-lhe a intimidade, conhecedores de seu passado e convencidos de que poderia repetir-se. Mercadoria de segunda mão. Barata. Fácil. Porém, ali, com as esposas ao lado, não podiam fazer-lhe propostas — mas já o haviam feito antes e voltariam a fazê-lo, quando as esposas fossem ao cabeleireiro da cidade ou às compras, em Cannes. Com exceção de alguns velhos dispersos, maduros como Nardeau, não havia nenhum com quem pudesse ter relações que transcendessem a cama e seu corpo.

Mas logo, enquanto saboreava o Tavel, compreendeu que não era seu corpo que deveria censurar por aquela existência infernal, mas sim Sir Austin Ormsby. Fora ele quem decretara seu exílio, esse solitário exílio que a expusera aos insultos constantes e às humilhações. Ninguém seria capaz de compreender o que era estar publicamente desprotegida e forçada ao exílio, a não ser alguém que tivesse passado pela mesma experiência.

Lembrou-se do último verão, quando trabalhava num pequeno clube no Lido, do outro lado de Veneza. Um diretor de cinema inglês, vindo de seus escritórios em Roma, travara conhecimento com ela e consentira que partilhasse sua barraca na praia Excelsior. Uma tarde, indicara-lhe um atraente homem de meia-idade, que passeava na praia, uma figura melancólica e alheada de americano em camisa e calça de sarja. Segundo lhe dissera o companheiro, tratava-se de Matthew Brennan, suspeito alguns anos antes de traição e que fora obrigado a deixar o Departamento de Estado dos EUA.

— Gostaria — disse seu companheiro pensativamente — de saber qual a sensação que o exílio provoca.

Sua própria reação fascinara-a, e a cena gravara-se para sempre cm sua mente. Ao ouvir dizer que Brennan era um “traidor”, olhara-o com antipatia; mas, logo que escutara a palavra “exílio”, sentira uma simpatia súbita. Vira seu perfil curvado e solitário distanciar-se ao longo da praia italiana, e seu coração encheu-se de benevolência por esse outro que, como ela, fora maltratado e deportado para uma ilha deserta. Um fracassado, pensara, e isso a levara a pensar também que seria bom conhecerem-se.

A salada niçoise estava à sua frente. Pegou o garfo e começou a comer. Não tinha apetite, mas comer sempre era preferível a qualquer outra coisa. Untou com manteiga um tostado pão francês, mordiscou-o, levou uma garfada de salada à boca e depois, suspirando, pôs o pão de lado e retirou da bolsa o suplemento do Sunday Times.

Enquanto comia lentamente, procurou a bonita seção ilustrada, pôs-se a virar as páginas e, com grande espanto, viu que havia uma edição especial dedicada à Conferência de Cúpula das cinco potências em Paris. A política era para ela tão vã e ridícula como a alegórica linguagem da Faerie Queene — “Quando cerrados nevoeiros ou tempestades de nuvens houver / A luz constante desta lâmpada mágica murchará” — que tentara uma vez interpretar para agradar a um de seus amantes, um barbudo que pretendia cultivá-la — caramba! —, e as ilustrações e legendas sobre o presidente dos Estados Unidos, o primeiro-ministro russo, Talanski, o presidente da China vermelha, Kuo Shutung, sobre palavras sem significado, como “bomba”, “inspeções locais” e “desmilitarização”, não tinham sentido.

Preparava-se para pôr de lado o suplemento quando viu que havia uma página com uma grande fotografia do primeiro-ministro inglês, rodeado pelos membros de seu gabinete, no momento em que saía do número 10 da Downing Street. Participando do grupo, atrás do primeiro-ministro, estava o secretário dos Negócios Estrangeiros, que outro não era senão aquele que detestava do fundo do coração. A palavra “continuação”, entre parêntesis, depois do nome de Sir Austin, indicava as páginas 36-44. Procurou a página 36 e leu ali a seguinte legenda estereotipada:

“Entre os grandes da Inglaterra, Sir Austin Ormsby, ilustre delegado à conferência, surge aqui no seu ambiente de trabalho e distrações”.

Seguiam-se fotografias de Sir Austin no gabinete da Downing Street, Sir Austin no seu carro oficial Humber, com uma pasta de documentos aberta nos joelhos, Sir Austin em Whitehall — e tudo isso a deprimiu. Já tinha visto bastantes fotografias daquele patife em seus diversos lugares de chefia, e isso só lhe patenteava sua impossibilidade de lutar contra um adversário tão forte. Prosseguiu na leitura da legenda. Dentro de uma semana — leu —, o secretário dos Negócios Estrangeiros estará em Paris para, com sua habilidade diplomática, fazer frente à intratável delegação dos comunistas chineses. Dentro de uma semana, Sir Austin estaria em Paris. Então, lembrou-se de que aquele suplemento já era da semana anterior e que, portanto, tinha se escoado uma semana e no dia seguinte seria outra vez domingo, data prevista para a chegada de Sir Austin a Paris.

Olhou para a salada e pensou:

amanhã, em Paris. Ele estaria num país onde ela era aceita, não exilada:

ela poderia alcançá-lo em uma hora e meia de avião, partindo de Nice, ou após uma noite no Train Bleu, que partia da estação de Juan-les-Pins. A possibilidade de enfrentá-lo era tentadora. Pôs-se a fantasiar, recordando uma triste e sentimental história que lera numa revista francesa e em que se dizia que outras o haviam feito — quem? — ah!, sim, a jovem de Caen, Charlotte Corday, e o poderoso Marat no seu banho, e tinham-na deixado vê-lo, e ela lhe cravara um punhal no coração. Medora tentou imaginar-se em Paris, na presença de Sir Austin, a sós, ameaçando matá-lo se ele não redigisse e assinasse um documento que lhe permitisse voltar à pátria; e o medo dele e o consequente consentimento. Mas o gosto salgado de enchova na língua fê-la regressar à praia do Provençal e ver a futilidade de seu sonho. Sir Austin era demasiado importante para ser abordado por qualquer um. E nresmo que ela o conseguisse, não tinha uma arma (como Corday com sua posição e seu punhal) com a qual pudesse forçá-lo a uma capitulação abjeta. Era um sonho sem esperança. Para se propor uma rendição, é preciso ter força. O arsenal dela estava vazio.

Desesperada, trocando o garfo pelo copo de Tavel, Medora voltou outra página, que lhe mostrava seu carrasco no teatro e, finalmente, a jovem esposa desse carrasco, Fleur Ormsby, de vinte e nove anos, com uma matilha de cães de caça, rebolando nos prados verdes de seus domínios, com o antigo empregado dos estábulos, tomando chá com a mulher do bispo, com sua criada particular, escolhendo o guarda-roupa para a conferência, com seu retrato ainda no cavalete de um estúdio com clarabóia — e com sua fabulosa coleção de Picassos, Braques, Giacomettis ç Nardeaus no fundo.

Medora odiou-a também. Odiou as aristocráticas feições cerosas, orgulhosas, altivas, endinheiradas, o cabelo sem um único fio em desalinho, a impecável roupa de linho Legrande. Medora notou que ela não tinha seios bonitos e que seus quadris eram estreitos. Leu a legenda. Enquanto Sir Austin estivesse ocupado com os ministros no Quai d’Orsay e no Palais Rose, sua mulher daria encanto e realce à parte social da conferência, deixando nela a marca indelével de sua beleza e inteligência, de suas maneiras cosmopolitas. (Ver nas páginas seguintes “Para a história de uma rainha da sociedade”).

Com relutância, Medora folheou as páginas seguintes:

os ricos antepassados de Fleur, a família Grearson. Fleur, aos cinco anos, montando um potro. Fleur, aos dez anos, com sua ama. Fleur, aos quinze anos, num colégio particular, perto de Lucerna. Fleur, aos dezoito anos, na Sorbonne; e Fleur, aos dezenove anos, em passeio pela França. Legenda:

“Durante os anos de formação, Fleur Grearson deu as costas ao Beaufort Hunt e à rotina da apresentação em sociedade e partiu para o continente. Acompanhada por jovens de sua classe e conduzindo um Ferrari vermelho, viajou pelo continente, completou sua educação com incursões no mundo da arte. ‘Como estudante estrangeira, era tímida e incapaz’, lembra ela hoje, ‘embora estivesse tão ansiosa por beber nas fontes da criação que quis conhecer e entrevistar autores como Sartre e pintores como Nardeau, que eram especialmente generosos para com sua época’ ”.

Irritada com o fato de sua inimiga ter partilhado um dia Nardeau, desviou' os olhos do texto para um retrato de Fleur Grearson, tirado no estúdio de Cannes de um famoso fotógrafo suíço, quando tinha dezenove anos. Medora analisou a reprodução em corpo inteiro de uma moça bem-proporcionada e teve de admitir que, exceto o peito chato e os quadris estreitos, ela possuía um rosto encantador, para os apreciadores do gênero, evidentemente:

maçãs salientes, boca em botão de rosa e pescoço de cisne.

Medora perguntava-se o que teria Nardeau pensado dela. Nunca dissera que a conhecia. É claro que isso se passara havia uns dez anos, e Fleur não se transformara ainda na mulher bonita dos suplementos dominicais, se bem que sua aparência de então não diferisse muito da atual, com vinte e nove anos. Além disso, Nardeau conhecera muitas mulheres e jovens de diversas nacionalidades. Nesse momento, porém, os olhos de Medora esbugalharam-se, e ela inclinou-se para a fotografia dos dezenove anos de Fleur Ormsby, analisando-a uma vez mais com um grunhido infantil de descoberta e excitação.

Medora deu largas à memória ao confrontar aquele rosto com outro, depois novamente aquele rosto, e compreendeu que estava toda trêmula devido à enormidade do que acabava de descobrir no suplemento dominical que tinha à sua frente, com o que acabava de desenterrar de um passado ainda recente. Não podia ser, era impossível, dizia consigo, tentando deter a memória; contudo, não havia dúvida. À medida que seus olhos saltavam de um para outro retrato da jovem e graciosa Fleur, mais se convencia de que a memória não a atraiçoava.

De repente, teve certeza. Colocou com força o copo de Tavel na mesa e, segurando nervosamente o suplemento aberto, tentou apreender todo o significado de sua incrível descoberta. Se era verdade — e era verdade —, mas se o fosse realmente, oh!, então teria as armas de Corday! Não apenas para uma vingança insignificante. Era também para isso, mas havia mais. Tinha as armas que a ajudariam a fugir do exílio, a libertar-se e a voltar para casa. Não havia qualquer dúvida.

Só uma pessoa possuía a chave que lhe abriria a porta da liberdade e da emancipação:

Nardeau. E Nardeau era seu amigo.

Sentiu o sangue latejar-lhe nas fontes, o coração pular e a alegria da esperança recuperada.

Dobrando rapidamente o suplemento dominical, meteu-o na bolsa e chamou Jean:

— Pago amanhã. Agora, tenho um encontro!

As cabeças dos machos haviam-se voltado lascivamente para ela, à medida que descia do banco com o biquíni precariamente preso. Não se importou. Sentia-se armada contra eles e contra Sir Austin — ou quase. Ouviu Jean gritar à sua retaguarda:

— Mas a salada...

— Já estou atrasada para o encontro — explicou por cima do ombro, e viu-se sorrindo e pensando:

“Sim, atrasada três anos”, enquanto corria para a praia.

Na cabina, vestiu a saída de praia, pintou os lábios e penteou os compridos cabelos cor de linho. Depois, pegando a bolsa, meio correndo, meio pulando pelo passeio de cimento, subiu os degraus, atravessou o parque de pinheiros, seguiu pelo Boulevard du Littoral, virou à esquerda da praia privativa do hotel e, palmilhando rapidamente o passeio, chegou à porta do vestíbulo. Descobrindo o porteiro fardado, gritou-lhe:

— Émile, traga-me o carro, por favor.

Em poucos segundos estava a caminho, depois de ter retirado o Mercedes conversível do estacionamento privativo do Hotel Provençal. Alguns minutos mais e deixava Cap-d’Antibes, tomando a Estrada Nacional 7, em direção a Nice, sem olhar para os poucos e verdejantes campos ao longo do caminho. Num cruzamento da rodovia, parou à esquerda, procurando o marco que indicava a quilometragem até Cannes-sur-Mer. Quando, atenta à curva, o alcançou, virou à esquerda, rumo ao interior montanhoso, deixando para trás a costa e o Mediterrâneo.

Conduziu o Mercedes ao longo de curvas fechadas, em marcha moderada, embora estivesse ansiosa por chegar ao destino. Posto que consciente do suplemento metido na bolsa, no assento de couro a seu lado, consciente também da dupla personalidade de Fleur Grearson e daquilo que Nardeau poderia fazer por ela, tentou afastar tudo isso do espírito. Não se permitiria o luxo de pensar nas consequências de sua descoberta. Disso dependiam muitas coisas, a última esperança de uma vida normal, e temia que o exame dos prós e dos contra lhe obscurecesse o esplendor da esperança.

Até ali, já perto de La Colle-sur-Loup, guiara o conversível quase que por instinto, tão alheia ao que a rodeava como se o conduzisse através de um túnel sem fim e às escuras. Era espantoso o que a obsessão e a ansiedade podiam fazer, pois aquele era seu passeio favorito, muito mais do que. a barulhenta multidão elegante das ruas, ao longo da costa mediterrânea. De todas as vezes que fizera essa viagem até a vivenda cor-de-rosa de Nardeau, nos últimos três anos, nunca se deixara dominar pela fadiga ou pela tensão nervosa. Gostava de acenar aos lavradores e fazendeiros, dirigindo-lhes sorrisos calorosos, de olhar para os vales verdejantes e espreitar as minúsculas aldeias ao longe, cercadas por antigas muralhas que pareciam esperar ainda os piratas mouros ou as hordas bárbaras dos hunos com suas lanças e adagas, e que, em vez disso, toleravam os turistas de shorts com suas ofensivas máquinas fotográficas.

Subindo cada vez mais em círculos, Medora mantinha-se atenta, por intuição, a uma passagem através de filas de solenes tílias entrelaçadas e canteiros de pedra cobertos de jasmins, frésias brancas, gerânios odorosos e rosas, de folhas poeirentas de um verde suave, r inúmeras oliveiras. Sabia que estava perto e, reduzindo a velocidade, rolou em direção à aldeia de Saint-Paul. Freando junto a um sinal, antes de transpor o arco que dava para a Estalagem Colombe d’Or, buzinou três vezes e espreitou pela janela aberta do carro. Podia ver uma parte do sombreado terraço exterior do restaurante, os hóspedes que bebiam vinho nas mesas, e um bando de pombos, um jovem com short de couro que atirava setas. Voltou a buzinar, e um garçom apressado acorreu.

— Monsieur, excusez-moi — disse no seu péssimo francês —, mas procuro Nardeau. Está almoçando?

— Nardeau? Non, mademoiselle!

— Merci!

Perguntou a si própria se, por acaso, ele não estaria fazendo compras numa das pequenas lojas da antiga rua calçada de Saint-Paul ou tomando sopa à mesa de um café, perto da igreja do século XII. Olhou pelo retrovisor e atentou nos habitantes e turistas que entravam e saíam do burgo fortificado, mas nenhum se assemelhava a Nardeau. Não teve paciência para estacionar o carro e ir procurá-lo. Consultando o relógio, concluiu que o mais provável era ele estar em casa, talvez trabalhando, embora fosse sábado.

Deu marcha à ré e seguiu o trânsito até poder ultrapassar os carros dos turistas e subir a vertente norte da auto-estrada, cm direção a La Fondation Macght. Depois de dois quilômetros, a decrépita ruína de um feio fortim de cimento, edificado pelos nazistas durante a ocupação, tornou-se visível da poeirenta estrada; então, Medora virou o Mercedes à esquerda, na direção da pequena e íngreme ladeira que conduzia à casa.

Como sempre, a visão inesperada e a grandiosidade da casa cor-de-rosa, de dois andares, surpreenderam-na. Parou na área de estacionamento, em frente da garagem, pegou a bolsa e apressou-se pelas lajes do pátio até o toldo da entrada. Perguntou-se se Nardeau estaria dormindo na torre do segundo andar ou na rotunda descoberta, que ficava entre a casa e o estúdio e dava para os dois acres de pomar e para a piscina de dez metros, ou se, pelo contrário, estaria profundamente imerso no trabalho, no enorme e desarrumado estúdio que, juntamente com as despensas, ocupava toda uma ala da casa.

Por instantes, hesitou diante da pesada porta de madeira com dobradiças de ferro forjado. Talvez devesse ter telefonado. Mas não, era um amigo, conhecia o passado dela, seu sofrimento, e nessa hora crucial, em que era o único a poder valer-lhe, recebê-la-ia sem cerimônias.

Ignorando a decorativa aldraba de bronze, Medora premiu com firmeza o botão da campainha.

Enquanto esperava, perguntava a si própria qual das mulheres do artista viria à porta. Mme Nardeau, sua segunda mulher, casada com ele havia quinze anos, corpulenta e de uma fanada beleza, sempre submissa, tolerante, acomodatícia, preocupando-se apenas com a debilidade do filho e com a cozinha; ou Signe Anderson, a modelo do pintor, intelectual, poliglota, uma jovem e amável sueca, modelo e amante dele havia dois anos?

Ouviu-se um ruído de passos no interior, a porta abriu-se e, alta e curvilínea, com uma blusa de seda e de saia curta de pregas, com os cabelos cinzentos terminando em rolo, de pernas nuas, apareceu Signe Anderson.

— Medora! — exclamou com visível satisfação. — Que agradável surpresa! — E acrescentou em sueco, que utilizava muitas vezes para confundir os amigos íntimos:

— Hur star det till? — Abriu os braços e Medora lançou-se neles.

— Se me pergunta como estou, estou ótima, nunca me senti melhor.

Estavam à entrada do vestíbulo. Signe fechou a porta com uma das mãos e, cingindo Medora com a outra, encarou-a:

— Está bonita como sempre. Talvez devesse dormir mais. Aposto que tem o espírito muito preocupado.

— Como de costume, Signe — concordou Medora com um sorriso triste. — Mas muito mais hoje.

Enquanto a modelo sueca a conduzia para a sala de estar, Medora sentiu de novo admiração por aquele corpo perfeito, que nunca era beijado pelo sol, mas que parecia tão saudável como qualquer criatura que vivesse ao ar livre.

— Nunca a vi tão radiante, Signe.

— Oh! É por estar com Nardeau.

— Como vai ele? Está aqui?

— Está trabalhando. Não larga o trabalho, agora. Vou me deitar e ele ainda fica. Quando acordo, já não o vejo. — Parou junto à rotunda descoberta, estendeu a mão para a brisa suave, sorriu a Medora e prosseguiu:

— Mas cu compreendo. Trata-se de sua exposição retrospectiva que abre em Paris, na próxima semana, e...

— Tinha me esquecido completamente. É claro! Li qualquer coisa a respeito dela.

— ...e embora ele se recuse a comparecer, diz que não é publicidade para ele apresentar-se na arena do Cirque cPHiver, seu orgulho obriga-o a ser o melhor. De forma que todos os dias retoca mais um quadro ou altera qualquer coisa. O último-segue dentro de dias para Paris. Quer uma xícara de chá, Medora? — perguntou, apontando para a rotunda.

— Não, obrigada. Prefiro vê-lo. É um assunto pessoal, mas urgente. Esperarei que ele acabe.

— Acabar? Nunca acaba! E também não quer que você espere. Ficaria furioso se soubesse que eu a retive.

Deu o braço a Medora e conduziu-a para a rotunda. Medora protestou:

— Receio interrompê-lo...

— Não tenha medo. Eu não posso interrompê-lo. Madame também não. O filho igualmente. Mas você... ah!, fala sempre de você com afeto e preocupação, Medora, é seu animal de estimação... Vamos dar uma olhada no estúdio.

Atravessaram a fresca rotunda e entraram num estreito corredor da casa. Enquanto seguia a sueca, Medora recordava nostalgicamente o familiar passeio. Quantas vezes o percorrera durante seu primeiro verão na Riviera, quando fora, ao longo de vários meses, a modelo favorita de Nardeau! Agora, ao lembrar esse período e relacionando o que sucedera então com o suplemento dominical que se referia a Fleur Ormsby, começou a duvidar de sua descoberta. Talvez a memória a tivesse atraiçoado, ou ela a tivesse forçado a servir seu desespero.

À porta do estúdio, em que se via a escultura de um grotesco basilisco de Nardeau — Auto-retrato, como lhe chamava o pintor —, Signe parou, escutou e bateu timidamente. Não houve resposta. Encolheu os ombros, abriu devagarinho a porta, espreitou, e depois fez um gesto silencioso a Medora. Entrou, e Medora seguiu-a.

No centro do enorme estúdio, Nardeau, de costas nuas para elas, mostrando as vértebras à medida que inclinava para o cavalete a reluzente calva, mergulhava o pincel na animada cena de Mont-martre, com seus arrojados contrastes de luz e sombra, que estava pintando.

Signe avançou na ponta dos pés, esperou que o pincel se levantasse da tela e, então, murmurou:

— Psst, cher ami. M. Nardeau est-il visible? — E então, em inglês, acrescentou em tom mais alto. — Querido, está aqui uma amiga que lhe quer falar.

A cabeça de Nardeau acenou afirmativamente, sem se voltar, e um movimento da paleta indicou a única peça do mobiliário disponível no estúdio, um enorme sofá à esquerda do cavalete. Satisfeita, Signe conduziu Medora até o sofá, após o que se retirou prontamente.

Medora instalou-se com evidente nervosismo, sabendo que Nardeau ainda não a tinha visto. O pincel voltara à pintura. Uma vez mais, apreciou o estúdio — as peças de escultura no chão e em cima das mesas manchadas:

uma representando um enorme e esguio peixe; outra, uma enrugada cabeça de aldeão; e montes de telas esticadas e sem moldura, alguns abstratos, a maior parte expressionista, e sensuais nus de Signe, retratos do filho, paisagens da Riviera, vistas de Montmartre na primavera, arlequins, ou ruas de Lyon, onde nascera. Ao lado do estúdio ficava a passagem para a pequena cozinha de Nardeau, um cubículo acanhado e quartos de depósito. Junto à porta havia um conduto de aquecimento, cujo cano subia pela parede branca. A toda a volta, janelas amplas e gradeadas. Por cima, a clarabóia, por onde se infiltravam os últimos raios da tarde.

Voltou a concentrar a atenção em Nardeau, acocorado num tosco banquinho, transportado à Paris de seu passado, assente no cavalete. Gostava do crânio liso e brilhante do amigo, de seus olhos profundos, por vezes sorumbáticos, outras vezes penetrantes, de seu achatado nariz de pugilista, da boca larga, de maxilares quadrados. Se bem que tivesse apenas um metro e sessenta e seis de altura, parecia ainda menor devido ao peito peludo em forma de barrica, às pernas anormalmente musculosas. Aos sessenta anos, era extremamente ativo — assaz vigoroso, viril —, e nenhuma das nuas e desinibidas moças da Riviera se referia a ele como se referiam desdenhosamente aos flácidos turistas idosos, a quem chamavam les croulants — os caquéticos.

Os negociantes e críticos de arte consideravam Nardeau, agora que sua fama igualava a de Picasso e de Giacometti, uma personificação do ego — insultuoso, intratável, errático, irascível, um terrorista, um ser pestilento. Mas os que o conheciam bem, como Medora, sabiam que seu comportamento era, em grande parte, uma defesa contra o holocausto a que o submetiam os negociantes e os críticos, esses sanguessugas da criação artística. Fora de sua atitude defensiva, Nardeau evidenciava uma natureza bondosa, capaz de aceitar aqueles que respeitava ou amava, não lhes regateando bondade, calor e auxílio. Se havia alguém que adorava esse gênio amigo, era sem dúvida Medora.

Aliviada, nutrindo uma esperança maior, Medora descalçou as sandálias, descobriu até os joelhos as pernas e ficou a observá-lo com deleite.

O ruído da queda das sandálias no chão pareceu distraí-lo. Ele deteve-se com o pincel úmido no ar, voltou-se lentamente para o ponto de onde viera o ruído, viu-a e, então, sua larga boca abriu-se num sorriso de prazer.

— Maydor! — exclamou, ao mesmo tempo em que largava o pincel, limpava as mãos no blusão e se punha de pé. — Maydor, poupoule! Por que essa cabra sueca não me disse que era você?

Nardeau precipitou-se para Medora, antes que esta conseguisse levantar-se, e sçus braços fortes envolveram-na, ergueram-na e fizeram-na rodopiar. Depois, beijando-a nas faces, voltou a depô-la no sofá.

— Poupoule! — murmurou com sincera alegria. — Senti sua Ialta. Há muito que tencionava telefonar-lhe, mas nunca arranjo lempo. — Sentou-se também no sofá e apontou para a paleta. — bis meu tirano! Não sei por que ando tão excitado com essa exposição retrospectiva. Para que me preocupo? Continuarei a ser Nardeau, e mais uma exposição não modificará nada.

— É uma exposição de consagração, Nardeau. Isso é importante.

— Não é importante. Os organizadores é que nos forçam a olhar para trás, a explorar o passado. Vê aquela tela? Rctoquei-a uma dúzia de vezes, ao longo do ano. É o exterior do Bateau-Lavoir, o número 13 da Rue Ravignan, em Montmartre. É como se fosse um pedaço de meu coração de jovem pintado naquela tela. Você é demasiado nova para compreender. Até o nome da rua mudou para Place Émile Goudeau. Mas, há muitos anos, todos os futuros artistas, como Picasso, poetas, bufarinheiros, vagabundos e lavadeiras moravam naquele horrível espaço. Eu cheguei mais tarde, era jovem e cheio de esperanças, por isso tentei evocar esses meses na minha pintura, na minha exposição... Mas basta. Você continua nesse clube de Juan, mostrando seu lindo busto e fazendo com que os velhos, durante uma hora, se sintam rapazes?

— Terminei o contrato na noite passada. Tenho quatro semanas livres.

Ele observava-a meticulosamente, e Medora sentiu-se embaraçada com aquele olhar penetrante.

— Maydor — perguntou, agarrando-lhe a mão com um gesto brusco —, quelle mouche t’a piqué? 1(1 “Maydor, que bicho te mordeu?” Em francês no original.- N. do E.)

Medora sabia que, sempre que falava a alguém que amava, Nardeau se exprimia no francês das ruas.

— Até agora, nada. Continua tudo na mesma.

— Voltou a tentar? Não teve sorte?

Desprendeu subitamente a mão e endireitou-se.

— Até agora, não tive sorte, nem esperança, nada — disse intencionalmente. — Mas tudo é possível... depende... depende de quem possa ajudar-me.

— Maydor, poupoule, bem sabe que farei tudo por você.

— Oxalá possa valer-me! Vou contar-lhe.

Abriu a bolsa no colo, tirou o suplemento dominical aberto na página em que se via Fleur Ormsby na adolescência e estendeu-o ao espantado artista. Apontando para o retrato, prosseguiu:

— Esta é a esposa de Sir Austin Ormsby, quando era mais nova. Leia a legenda. Diz que nessa ocasião ela viajou pela França e travou conhecimento com você. Repare no rosto dela, Nardeau. Não lhe lembra ninguém? Não a reconhece?

Ele fixou a fotografia, ergueu um pouco o suplemento, largou-o e voltou a examiná-lo.

— Receio que não, Maydor — respondeu, meneando lentamente a cabeça.

— Pense bem, por favor. Agora, ela tem vinte e nove anos. Nessa época, tinha dezenove. Foi apenas há dez anos.

— O rosto não me é familiar — disse, encolhendo os ombros num gesto de desculpa. — Dez anos, Maydor! Houve tantas mulheres...

O desespero de Medora era tão evidente que Nardeau franziu a testa e perguntou:

— Por que é tão importante que eu a reconheça?

— Vou explicar-lhe. Talvez eu não passe de uma louca que o está aborrecendo, mas sabe como me agarro às coisas. Nunca tive uma oportunidade para vencer Sir Austin Ormsby. Ele é muito importante, e agora, que pertence ao gabinete, é mais poderoso do que nunca. Chega amanhã a Paris com o primeiro-ministro inglês, para assistir à Conferência de Cúpula.

— Sim, li a notícia no Figaro, no café da manhã. Vi o nome dele e pensei em você.

— Sir Austin foi sempre um solteirão, mas há menos de um ano casou-se com essa moça da sociedade. Um autêntica senhora, diz aqui, toda graça, maneiras e fortuna, a esposa perfeita para um membro do gabinete. Que oportunidade pode ter uma qualquer como eu de lutar contra essa gente imaculada, tão cheia de perfeições? Pois bem! Nunca esqueci o único ponto fraco de Sir Austin. Sua grande preocupação é o bom nome da família. Lembre-se de que ele me expulsou da Inglaterra antes do julgamento, a fim de proteger o estúpido do irmão, só porque ele tinha o seu nome. Veja como me mantém exilada, apenas para proteger o nome da família. Ora bem! Agora tem uma esposa, alguém mais chegado a ele do que o irmão e a quem deu seu nome de família. O que aconteceria se viesse a descobrir-se que ela não é tão pura quanto o marido julga? Se viesse a saber-se que há em seu passado sombras que maculam sua reputação e que podem refletir-se nele, causando-lhe embaraços? E se fosse eu a desenterrar tudo isso? Pela primeira vez, tenho uma arma que o porá à minha mercê, não lhe parece? Posso forçá-lo a entender-se comigo, a anular as investigações da Imigração contra mim. Posso obrigá-lo a deixar-me voltar à pátria, em troca da reputação da mulher.

— Compreendo, Medora, mas você fala em círculos. Entre diretamente no assunto. O que faço eu no meio de todo esse complô?

— Há três anos, quando eu lhe servia de modelo, numa tarde em que acabamos mais cedo, quis ver outros nus de jovens mulheres que tinha pintado. Lembra-se?

— Creio que sim... Voilà, lembro-me perfeitamente! Fui buscá-los, bebemos vinho e demos nomes engraçados a cada uma das pinturas.

— Foi isso mesmo, Nardeau — confirmou ela, excitada. — Agora, escute — continuou febrilmente. — O rosto de um desses modelos nus ficou-me na memória. Recordei-o há algumas horas. Era um nu de corpo inteiro de uma jovem inglesa, que posou para você numa espécie de tapete de pele, se não me engano, de costas e toda nua, sob um dossel de flores. Creio que nessa altura lhe perguntei quem era, porque considerei a pose demasiado ousada, e você me respondeu que se tratava de uma selvagem adolescente inglesa, que tinha vindo importuná-lo e admirá-lo, uma estranha e despreocupada filha de família rica, com a qual dormira para se livrar dela e para que ela pudesse escrever isso em seu diário, e da qual pintara vários quadros, duas ou três cabeças, segundo me disse, assim como um nu que lhe deu de presente, mas que ela teve receio de levar para casa, por isso o deixou aqui. — Medora respirou fundo e prosseguiu:

— Ora, quando hoje vi o retrato de Fleur Ormsby no suplemento e li que ela o tinha conhecido, qualquer coisa tilintou em meu cérebro, Nardeau. Foi então que me lembrei e tive certeza. O rosto do suplemento, o rosto de Fleur Ormsby era o do nu que você tinha me mostrado, o nu da selvagem adolescente inglesa com quem dormira. É a mesma, posso jurá-lo. Por isso, corri logo para cá, a fim de ter certeza de que não estava enganada. — Calou-se, perserutando o rosto pensativo de Nardeau, depois implorou:

— Oh, querido amigo, lembra-se, não é verdade? Tente lembrar-se, por favor!

Ele fechara os olhos e recostara-se, perdido em seus pensamentos. Quando os abriu, sorriu:

— Já me recordo, Maydor. Lembro-me desse nu e do modelo. Mas, francamente, não sei se se trata dessa Fleur Ormsby do suplemento.

— Vamos procurá-lo — suplicou Medora, agarrando-o por um braço. — Ainda tem o nu, Nardeau?

— Se o tinha há três anos — respondeu, rindo —, continuo a tê-lo. — Levantou-se e acrescentou:

— Bem sabe que guardo sempre minhas amantes. Venha, poupoule, vamos resolver isso de uma vez para sempre.

Ansiosamente, ela o seguiu através do estúdio, passaram pela cozinha, pelo escritório, pelo primeiro depósito e entraram numa vasta sala. Nardeau acendeu a luz, e viram-se perante os tabiques dos compartimentos em que a sala havia sido dividida.

— Minha mulher classificou-os por períodos — resmungou —, de tal modo que nunca consigo encontrar o que quero. Disse que foi há dez anos?

Agachando-se, começou a tirar telas sem moldura, a observá-las e a guardá-las de novo. Irritado, passou a outro compartimento, tirou duas telas, que guardou novamente, pegou em várias outras e, de repente, arrastando um enorme quadro, com cerca de sessenta centímetros de altura e um metro e vinte de largura, exclamou:

— Voilà!

Medora conteve a respiração, enquanto ele o expunha à luz e soprava a espessa camada de pó.

Medora contemplou o nu reclinado, semelhante à Olímpia de Manet, exceto que o rosto altivo da inglesa era mais jovem e atrevido, o peito menos saliente, os quadris mais estreitos, as pernas mais compridas, todo o conjunto mais ousado e libertino do que Olímpia.

— É ela — murmurou Medora, colocando o suplemento ao lado da tela. — Veja, Nardeau.

Ele inclinou-se para a pintura e, finalmente, seus olhos brilhantes encontraram os dela.

— É a mesma moça — disse.

Medora cravou de novo o olhar na tela e sorriu maldosamente:

— A dama é uma vagabunda, como qualquer de nós.

Nardeau admirou a figura do quadro e comentou:

— Lembro-me de tudo, agora. Não era uma vagabunda, Maydor, mas, como vocês dizem, uma trollop, uma prostituta, não é? Era essa sua melhor posição, a única em que não se mostrava febril ou cansada, e, a avaliar por minha experiência das mulheres nessa época, raramente estaria febril ou cansada.

— Oh, Nardeau! Não sei como lhe manifestar...

— Espere. É preciso ter certeza.

Entregou o suplemento do jornal a Medora e, apoiando o quadro nas gordas coxas, transportou-o para fora da sala, até o escritório, colocando-o em cima da desarrumada mesa de acaju, de estilo Diretório. Ali, mirou a tela de cima a baixo, voltou-a do avesso e descobriu o que procurava.

— Costumo datar tudo — explicou, ao mesmo tempo em que se dirigia a uma estante e passava o indicador pela lombada de uma série de arquivos, amontoados na prateleira de pinho sem pintura. Retirou um e encaminhou-se para a cadeira da mesa, sem abri-lo.

— O que é isso? — inquiriu Medora.

— Meu diário das pinturas, com a data em que cada uma foi acabada e uma descrição do assunto ou do modelo... Attends, Maydor. — Seu dedo passeou pela página, parou, e ele ergueu os olhos. — Aqui está. Veja:

“Mlle Fleur Grearson — Londres, Inglaterra — Sorbonne — óleo intitulado Nu no jardim”. — Quedou-se, admirado. — Fleur, sim. Mas Grearson?

— É seu nome de solteira! — exclamou Medora. — Era Grearson, vem em todos os jornais, tornou-se uma Ormsby depois de casar-se com Sir Austin.

— Bien, tem razão. Está tudo verificado. Era o que você queria. Mas — e franziu a testa — que uso vai fazer disso?

— Tentei explicar-lhe há instantes, Nardeau. Não compreende? É a minha arma, a única possibilidade que tenho de obrigar Sir Austin a mandar retirar a proibição contra mim e deixar-me regressar à pátria.

— Sim, compreendo. Mas o que pensa fazer?

Ela estava de pé à sua frente, toda trêmula em face daquela possibilidade.

— Por favor, Nardeau, tem de me emprestar este nu de Fleur, só por uma semana. Deixe-me utilizá-lo. Tinha pensado em pedir-lhe uma fotografia, mas não seria tão verdadeira nem convincente. É desta tela que preciso. Levá-la-ei para Paris e farei saber a Sir Austin que a tenho comigo. Não deixará de me procurar para ver o quadro. Logo que o tenha visto, dar-me-á tudo o que eu quiser.

— Maydor, e se ele negar que é a mulher?

— Como? É ela! Ameaçá-lo-ei com sua publicação nos jornais, e todos verão que se trata da mulher dele. Além disso, há o seu diário.

— Não posso fazer isso, minha joia — disse Nardeau, levantando-se. — Bem sabe que não tenho medo de Ormsby nem de ninguém, mas não seria capaz de denunciar ou identificar um modelo nessas circunstâncias. Não seria correto.

— Desculpe... não era isso o que eu queria dizer. Tudo o que me interessa é a pintura. Sir Austin tem de saber. Ficará tão assustado com a possibilidade de um escândalo nos mesmos jornais que me arruinaram que voltará a agir corretamente. Tenho certeza absoluta. Verá o quadro, conseguirá a autorização para eu entrar em meu país e eu lhe jurarei que nada virá a público. Depois, devolvo-lhe o quadro.

Nardeau sorriu:

— Ele há de querer a pintura, Maydor.

— Acha que sim? — inquiriu ela, sentindo-se desfalecer.

— Quando se pretende chegar a um acordo, é preciso estar preparado. Ele só lhe conseguirá o visto de entrada se lhe entregar o nu, para que possa destruí-lo.

— Meu Deus! Nunca pensei nisso. Nesse caso, talvez seja preferível uma fotografia. Mas ele não se contentará com isso, pois sabe que podem existir cópias... Preciso do original, Nardeau. Venda-me por qualquer preço. Pagar-lhe-ei com meu salário semanal, prometo.

Ele franziu as sobrancelhas e pareceu agastado.

— É isso o que pensa de mim, menina? Tem em tão baixo apreço nossa amizade que pretende comprar minha parte? Estou desapontado.

Os olhos de Medora encheram-se de lágrimas.

— Desculpe. Não quis... — Calou-se, subitamente confusa, ao ver que o agastamento dele se transformava num largo sorriso.

— Criança louca, ainda não sabe quando Nardeau está brincando. É claro que pode ficar com esta estúpida pintura, mas não comprada. É sua, é um presente, não de amizade, mas de uma arma para combater os demônios. Entendido? Agora, leve-a e vá embora.

Com um suspiro de alívio, Medora saltou-lhe ao pescoço e beijou-lhe a testa, as faces, os lábios.

— Não imagina o que acaba de fazer por mim!

— Mas sei — resmungou, libertando-se do amplexo — o que você está me fazendo. — Fitou-a com lascivo descaramento. — Deveria ir para a cama com você, sem perda de tempo.

— Quando quiser, querido maroto — cantarolou ela, pegando a tela.

— Mas terá de ser em Londres, pois é para lá que eu vou.

Acompanhou-a até o estúdio, onde ela se calçou, e disse-lhe:

— Mas, antes disso, Paris. Quando você parte?

— Esta noite. Ainda tenho de telefonar para um clube noturno que solicita minha presença. Atuarei lá enquanto espero pelo cambaleante Sir Austin. Acredite que o farei tremer. — Levantou a tela e acrescentou:

— Esta mosca-morta vai abrir-lhe os olhos.

Já à porta, sentiu que Nardeau lhe apertava o braço. O rosto dele deixou-a perplexa.

— Maydor, sou um homem do mundo, que viveu muito, portanto siga meu conselho. Tenha cuidado, muito cuidado. Talvez o Senhor feche os olhos a essa sua pequena chantagem, mas eu não fecharei os meus sem lhe lembrar que o jogo é perigoso. Vai enfrentar e importunar pessoas onipotentes, que não se regem pelas leis do homem comum. Não estão habituadas à derrota nem a render-se a uma jovem desprotegida. Pense nisso.

Ela riu alegremente e beijou-lhe as têmporas grisalhas, ao mesmo tempo em que respondia, indicando a pintura:

— Não sou uma jovem desprotegida. Agora, tenho um aliado mais terrível do que toda a família Ormsby. Quantas potências vão estar presentes à Conferência de Cúpula? Cinco, não é? — Abriu a porta e concluiu:

— Pois agora são seis!

Tinham dormido até tarde, naquela manhã de sábado, e agora ele estava só, completamente acordado, ouvindo os ruídos de Veneza.

Os sons, amortecidos graças aos enferrujados fechos com que I rançara as duplas portas das janelas para que o quarto se mantivesse escuro e fresco, chegavam como um eco harmonioso, embora sua experiência de três anos lhe permitisse distinguir os diferentes timbres.

Com as mãos atrás da cabeça apoiada na almofada, Matthew brennan escutava. Havia o ruído constante dos saltos das mulheres e dos sapatos dos homens, batendo e arrastando-se ao longo do gasto arco de pedra, de onde se avistava a Ponte dos Suspiros, entre as sombras do estreito canal. Havia o tossir do potente motor do motoscafo ciga, que esperava na água, junto à entrada do Real lixcclsior Hotel Danieli, a lancha que conduziria as dúzias de hóspedes do hotel a seu congênere Palace Hotel Excelsior, na praia da ilha do Lido, a doze minutos de viagem por água. Havia os gritos dos excêntricos e altivos gondoleiros, agrupados defronte de suas bonitas gôndolas de altas proas, em frente do Palácio Ducal, sobre a Ponte da Palha. Havia o roncar de um vaporetto que entrava, ao mesmo tempo em que as pranchas dos táxis aquáticos batiam na plataforma flutuante do apinhado Cais de São Zacarias. Havia a calma ondulação da água na laguna do Grande Canal, ondas artificiais provocadas pela agitação das gôndolas, dos barcos a motor e de passageiros (ou ondas naturais levantadas por uma brisa havia muito desejada), contra o pavimento da Riva degli Schiavoni, a rua que separava a entrada, o térreo e o vestíbulo do Hotel Danieli da laguna.

Em suma, havia a Veneza viva e madrugadora abaixo de seu quarto.

A atenção de Matt Brennan concentrara-se num único som, agarrara-se a ele:

o da água que corria e cachoava. Pouco a pouco, esse único som transformou-se em dois, e, involuntária e estupidamente (dado que nesse momento se encontrava sozinho), ele viu-se a sorrir. É que o segundo som, mais fascinante do que o primeiro, provinha do outro lado da cama, do banheiro onde Lisa (mais correta e formalmente, Elizabeth), que se levantara dez ou quinze minutos mais cedo, tomava seu chuveiro.

Agora, ao ouvir o distante mas claro tamborilar da água na pele dela, sentiu, mais do que imaginou, o prazer de seu corpo.

Pela primeira vez desde que a conhecera, havia duas semanas, pela primeira vez com uma mulher desde o início da sua negra morte de desespero, havia três anos, agora quatro, fizera amor duas vezes na mesma noite. Tinham ido para a cama à meia-noite, e nos braços um do outro, entre segredos, carícias e mútuos abraços, seus corpos haviam se juntado. Depois, horas mais tarde, sentira-lhe a palma quente da mão em seu braço nu. Voltara-se, e ela aninhara-se-lhe nos braços, apertando-o freneticamente, e ele notara-lhe o medo e o desejo que experimentava também. Naquele frenético abraço, ambos sabiam o que o dia lhes reservava e por isso desejariam que aquela noite fosse eterna. Mais do que nunca, tinham se amado sem restrições, silenciosamente, com incontrolável paixão, e, finalmente, de espírito e corpo cansados, haviam adormecido, prolongando a noite e retardando o dia.

Mas agora o dia estava ali, já velho, tão velho como ele se sentia. O prazer começou a diluir-se em seu espírito à medida que os sons do chuveiro se tornavam inaudíveis, e ele acabou por ouvir somente a agitação da lagoa, o redemoinhar das águas, que dentro de poucas horas trariam o barco a motor que a transportaria ao trem que a faria desaparecer de sua vida.

Por causa dos últimos anos, desencantado e amargurado pela vida, Matt Brennan deixara de acreditar em milagres. Não que alguma vez tivesse acreditado neles, pois era um racionalista, mas de qualquer maneira sempre defendera a observação de uma nobre francesa do século XVIII, que, quando lhe perguntaram se acreditava em fantasmas, respondeu:

“Não. Mas tenho medo deles”. O certo é que a entrada de Lisa Collins em sua vida tinha sido um autêntico milagre.

Tinha estado morto, se é que se pode falar assim de alguém que ainda respira:

espírito morto, olhos mortos, coração morto, esperanças mortas. Fora então que surgira Lisa e o tocara de maneira quase sobrenatural, e, embora se sentisse demasiado cético para acreditar que alguém pudesse reanimar um cadáver, essa jovem, cheia de vida e entusiasmo, rapidamente reacendera nele a centelha da vida. Reanimara-o o suficiente para compreender que era um pouco mais do que um cadáver, um pouco menos do que um ser humano, e que a ressurreição total ainda seria possível.

Mas numa das últimas tardes, momentaneamente liberto do feiticeiro encanto de Lisa, ciente de que tinha de fazer uma escolha rápida e difícil, analisara uma vez mais as realidades de seu futuro, enquanto estava sentado em sua cela de monge mechitarista, transformada em escritório e estúdio, na tranquila e pequena ilha de São Lázaro da Armênia. Esse devaneio passara. Brennan tivera coragem de encarar a verdade e concluíra que nenhuma feitiçaria conseguiria fazê-lo regressar à vida.

Meditando à mesa da austera cela, Brennan compreendera que não havia lugar para__mentiras, nem era possível transformá-las em verdades. Ali, entre aquelas míseras e nuas paredes, só os fatos contavam, nunca a falsidade. Quatro anos não tinham mudado os fatos.

Quatro anos antes, Brennan era um jovem de futuro promissor, e nenhum de seus colegas do Departamento de Estado, em Washington, D.C., tinha melhores perspectivas. Tinha sido economista, diplomata, perito no campo do desarmamento nuclear, respeitado pelo secretário de Estado, pelo presidente Earnshaw, pelo assessor do presidente, Simon Madlock. Tinha sido marido e pai, o encanto de todas as bosíesses do Potomac. Fora tudo isso e muito mais para os outros, talvez menos do que para si próprio, mas, com base em seu êxito, havia razões suficientes para ser escolhido como chave mestra da Conferência de Zurique.

Fora aí que a catástrofe se dera. Zurique. O inesperado, o inconcebível acontecera de um momento para o outro, e ele vira-se passar de herói potencial para vilão. No irrepreensível livro razão das contas públicas, qualquer débito grave leva inscrito o nome daquele que o originou. Tinham de enviar a Zurique um bode expiatório, não demasiado importante ou conhecido, nem demasiado insignificante ou obscuro. As medidas de Brennan serviam perfeitamente. E assim o transformaram no criminoso perfeito. Flavia quatro anos, uma comissão do Congresso, guardiã parcial da tranquilidade pública que expunha sua obra de relações públicas na televisão, tinha-o processado, julgado, despojado cruelmente dos atributos de homem de respeito, da aura de herói, e considerara-o um traidor não-oficial e leproso oficial.

Traidor não-oficial fora o que mais o irritara, pois não havia qualquer prova oficial de traição. O governo americano e os cidadãos, precipitadamente, numa época de eventos condensados, resumidos, digeridos, miniaturizados, numa época de sim ou não, de verdadeiro ou falso, de preto ou branco, não tinham paciência para o meio-termo.

Um réu era culpado ou inocente, e o velho veredicto escocês de “Não provado” não tinha significação numa cultura de sim ou não. Nas audiências, que se haviam transformado num julgamento ilegal, o ônus da prova tinha sido transferido para o bode expiatório designado por computador. Podia o bode expiatório provar que não era responsável pela chocante fuga do professor Arthur Varney para a China vermelha? Sim, podia prová-lo, pois havia um respeitável delegado da União Soviética, Nikolai Rostov, que trabalhara lado a lado com os delegados americanos e com o próprio Brennan, que fora testemunha da fuga e podia atestar a absoluta inocência de Brennan. Nesse caso, podia o bode expiatório apresentar Rostov? Não, não podia; tentara, mas não o conseguira. Rostov desaparecera em algum lugar do interior da Rússia, em Moscou, na Sibéria ou em qualquer outro lugar. Ah!, então não havia nada, a não ser a palavra do próprio bode expiatório? Com efeito, nada mais havia além de sua palavra.

Não provado. Contudo, para o governo americano e para os cidadãos as provas eram suficientes. Culpado. Não legalmente culpado, mas mesmo assim condenado por um tribunal de cangurus e uma lei de ralé. E desse modo o bom nome de Matthew Brennan fora enlameado, e a única coisa que lhe deixaram para poder viver no mundo de seus semelhantes foi um cadáver ambulante, anônimo, que hesitava entre Alger Hiss e J. Robert Oppenheimer.

E pouco importaram seus gritos:

nenhum Nikolai Rostov aparecera para ajudá-lo, para inocentá-lo e reabilitar seu bom nome. Embora conseguisse evitar a forca, não se libertara do nó corrediço e tivera de se retirar do mundo de seus irônicos compatriotas; durante três anos, permanecera escondido, um pária, desconsiderado, sem carreira, nem mulher, nem filhos; sem futuro, nem carinho nem amor.

Foi então que Lisa surgiu e loucamente o tratou como homem de respeito, alguém com futuro, e o convenceu de que o carinho e o amor ainda eram possíveis. Tentara resistir, até que, desamparado e ansioso, sucumbira perante a fantasia dela. Mas sucumbira temporariamente, porque, após um curto período, impelido pela urgência de tomar uma decisão, conseguira isolar-se em sua cela monástica e compreendera que não lhe era possível reentrar no mundo vivo dela. Compreendera que qualquer tentativa de lhe seguir os caprichosos passos seria um desastre para ambos e que ela merecia melhor sorte. Dissera-lhe isso, mas Lisa recusou-se a concordar com ele. Insistira e, finalmente, lograra convencê-la de que sua decisão era irrevogável; e assim, na última noite, amaram-se com paixão insana, escaldante e incontrolável.

Agora, estendido em sua cama do Hotel Danieli, assustava-o o novo dia, as realidades a enfrentar, o fim de Elizabeth Collins — livre para voltar às suas auto-apresentações formais anteriores — e o fim das relações com o filho. Tinha quase se esquecido do próximo encontro com o filho, agora filho de Steffi, que devia ter chegado pouco antes a Veneza — mas tinha de enfrentar também o fim dessas relações, dizer adeus à paternidade, renunciar à recordação de seu antigo bom nome.

Sentiu que tinham ligado o ar-condicionado, o que significava que o dia começava a esquentar, e resolveu levantar-se. Mas voltou a ouvir o chuveiro, e, portanto, não havia necessidade de encurtar suas últimas horas com Lisa.

Sentou-se na cama desfeita, pegou um cigarro e, enquanto fumava, tentou esquecer o dia presente e substituí-lo por outro melhor. Procurou recordar não um dia remoto, mas um dia recente de seu recente passado. Sem dúvida que esse dia tinha existido. Havia sido o primeiro dos últimos catorze dias, cheio de beleza e sol. Fumava enquanto pensava, e, meio sorridente, ao recordar o milagre que nunca julgara possível, agarrou esse dia do passado recente e reviveu-o.

Encontrara-a pela primeira vez num fotógrafo da Piazza San Marco, aonde ia frequentemente, não para revelar qualquer filme (não tinha interesse em fixar seus anos de Veneza), mas para tagarelar com seu velho amigo, o corpulento proprietário armênio, ou a fim de lhe entregar uma mensagem ou uma encomenda de um dos padres mechitaristas da vizinha ilha de São Lázaro, um dos três últimos centros educacionais armênios.

Nessa tarde, o estabelecimento regurgitava de turistas alemães, e Brennan, apertado entre os clientes e o balcão de vidro, estendeu o embrulho ao rapaz italiano que estava junto à caixa registradora e preparava-se para se retirar quando sua atenção se concentrou numa jovem americana invulgarmente sedutora que estava a seu lado.

A moça tinha acabado de guardar um novo filme na bolsa e erguera os olhos para falar ao proprietário do estabelecimento:

— Pode me dizer onde... ?

Mas o armênio já tinha lhe voltado as costas e atendia voluvelmente um turista alemão. A jovem sorriu, contrafeita, deu meia-volta e quase se chocou com Brennan. Encolheu frivolamente os ombros e disse, como se falasse para as nuvens:

— Oh! Eu só queria saber onde fica a principal rua comercial, mas talvez um dos pombos possa me dizer.

Depois, duvidando de que Brennan falasse inglês, sorriu uma vez mais e dirigiu-se para a porta.

Brennan viu-a sair. Envergava um vestido estampado, sem mangas, encantador, suficientemente curto para mostrar as compridas pernas com meias de náilon. Achou-a atraente, e seu sotaque lembrou-lhe a Nova Inglaterra. Já se encontrava na rua, esbelta e solitária, altiva como a Eva de Rizzo no Palácio dos Doges, embora não soubesse que caminho tomar nessa cidade-ilha de cento e vinte direções. Brennan não tinha por hábito servir de Bom Samaritano aos turistas, principalmente aos turistas americanos, e nos últimos anos mostrara pouco interesse pelas bonitas moças americanas; no entanto, deu consigo no exterior, indo ao encontro dela.

— Desculpe — ouviu-se dizer, ao mesmo tempo em que ela se voltava e o fitava com seus olhos negros muito abertos. — Ouvi-a perguntar pela rua principal.

— Oh!, é americano? Não tinha certeza. Sim, queria fazer algumas compras, mas é tudo muito confuso...

Recordando seu primeiro dia em Veneza, havia três anos, olhou-a com simpatia.

— Eu sei. Mas se seguir por baixo das arcadas, dando a volta à praça, encontrará lojas excelentes. Depende do que procura, evidentemente. Linho, joias, peles, há de tudo, bom e mau. Quanto à principal rua comercial, fica em frente. — Apontou através da praça apinhada de turistas, de crianças que brincavam e de densos bandos de pombos, e acrescentou:

— Vê aquela torre de relógio, na esquina da direita?

— Sim — respondeu ela, hesitante.

Ele tentou ser paciente:

— Vê a torre com duas figuras gigantescas de mouros no cimo, o sino de bronze e o enorme relógio com algarismos romanos e os signos do zodíaco?

— Que relógio estranho! Mal acreditei, quando o vi ontem à noite.

— Bem embaixo há um arco. Dá para uma rua sinuosa e estreita, a Merceria. Basta você percorrê-la e encontrará tudo o que deseja.

— Creio que passei por lá ontem à noite. Tentava localizar o Rialto. Tomei o caminho errado, atravessei a ponte errada. Nunca vi tantas pontes.

— Quatrocentas.

— Sim? Aposto que ficam todas na... como se chama? Ah, a Merceria. Para qualquer lado que eu me vire, esbarro num muro. Perguntei a um veneziano, ele me fez dar meia-volta, apontou como você e disse:

“Sempre diritto”. O porteiro do Elotel Gritti disse-me que significava “sempre em frente”, e, por isso, segui em frente, mas perdi-me ao cabo de dez segundos. — Ergueu a bolsa um pouco mais alto e concluiu:

— Mas o senhor me deu coragem. Obrigada. Vou tentar.

Antes que se afastasse, ouviu-se o repicar dos sinos:

os bonecos mouros do relógio da torre batiam rijamente com os martelos no grande sino para assinalar o meio-dia. Bandos de pombos esvoaçavam tomando altura, depois mergulhavam, descreviam círculos por cima da Piazza San Marco e fingiam lutar, exibindo para os assistentes seu espetáculo diário.

— Oh! — exclamou, impressionada. Depois, voltou-se para Brennan e acrescentou à guisa de desculpa:

— Roubei-lhe muito tempo. Estou-lhe muito grata. É melhor ir às minhas compras.

— Demasiado tarde — avisou Brennan. — Esqueci-me de que era meio-dia. A maior parte das lojas fecha durante duas horas.

— Oh, não! — resmungou ela. — Assim, não poderei comprar nada. Tenho que partir amanhã de manhã.

— Não parta. Consagre mais um dia a Veneza.

— Quem me dera! Gostei daqui muito mais do que supunha, isto é, do pouco que vi. Mas obedeço a um itinerário.

— De negócios ou de prazer?

— Bem, são dezesseis dias de férias. Depois, regresso ao trabalho. Estou no negócio de modas, e preciso ir ver as coleções de Paris. Nunca tinha vindo à Europa, por isso aproveitei para uma rápida visita. Primeiro passei por Roma... quente, depois Florença... encantadora, apesar do barulho; em seguida vim para aqui e daqui vou para Milão, Nice, Cannes... deixe-me ver... Genebra, Zurique... creio que me esqueci de um ou dois lugares, depois Paris e as coleções de modelos da estação. Sempre ouvi dizer que um dia e meio chegava para ver Veneza.

— Não chega.

— Não chega? — perguntou, surpresa. — Fala como se vivesse aqui.

— E vivo.

Pela primeira vez, olhou-o com atenção e interesse.

— Nunca pensei que um... um americano pudesse viver permanentemente nesta cidade. Toda a gente diz que é uma ratoeira para turistas. É artista, exilado ou alguma coisa do gênero?

— Creio que sou uma dessas coisas.

Nunca conseguiu compreender o que o levara a fazer o que fez em seguida. Seria o enfado, o tédio constante, o desejo de se libertar de mais um dia sem fim? Ou seria uma tímida e até então inexistente vontade de entrar em contato com alguém tão cheio de entusiasmo, de saber se alguém lhe poderia insuflar um pouco de interesse pela existência? Ou fora a necessidade, há tanto recusada, de apreciar por instantes uma beleza mais viva do que o marmóreo esplendor de Veneza?

Enquanto conversavam, pôde observá-la. Era alta. Comparando-a consigo, concluiu que tinha pelo menos um metro e setenta de altura. Fisicamente, seu maior atrativo residia na perfeição do perfil:

ombros largos, corpo flexível, pernas finas e bem-torneadas, cabelo castanho, penteado em caracóis que lhe desciam até as faces, e no rosto olhos negros e francos. O nariz grego e a boca generosa davam-lhe um ar de garota a que não faltava certa maturidade sensual.

Enquanto falava, Brennan apercebia-se com espanto de que havia anos não se abeirava tanto de uma mulher.

— Já que lhe resta tão pouco tempo — dizia ele —, vamos aproveitar estas duas horas da sesta para visitar alguns monumentos, como a Basílica, até que as lojas voltem a abrir. Se não quiser e preferir descansar os pés, talvez não se importe que um velho americano a acompanhe numa xícara de chá ou café, não?

— Em outras palavras, isso é um convite?

— É.

— Aceito — disse ela alegremente. — Meu Deus! Receei que nunca mais se decidisse.

Segurando-a pelo cotovelo, despreocupadamente, ele ajudou-a a descer as escadas da ensolarada praça.

— Sou um pouco tímido — confessou. — Tenho vivido bastante retirado dos contatos humanos. Quer ir almoçar em algum lugar?

— Pode ser em um dos cafés daqui. Não tenho muita fome.

— Nesse caso, ali em frente, no Floriano. É o mais antigo. Abriu em 1720. Era o preferido de Lorde Byron, há um século. — Tinham chegado às sete filas de cadeiras de vime amarelas, quase todas expostas ao sol. — Prefere sentar-se ao sol ou à sombra?

— Onde for mais confortável. À sombra.

Conduziu-a por entre as filas até a nesga de sombra que protegia a última das mesas, apinhadas defronte das velhas colunas das arcadas. Esperou, de pé, que ela colocasse a bolsa numa das cadeiras. Quando se sentaram, Lisa encarou-o calmamente c disse:

— No que respeita à minha identificação, tenho uma verruga no queixo, um sinal no umbigo e sou conhecida, pelos homens que me levam a jantar fora pela primeira vez, como srta. Elizabeth Collins, fugitiva de Bridgeport, Connecticut, presentemente residente em Manhattan.

Desajeitadamente, ela estendeu-lhe a mão. Divertido, Brennan apertou-lhe delicadamente os longos dedos, replicando:

— Muito prazer, srta. Collins. — Hesitou um instante e depois acrescentou:

— Chamo-me Matthew Brennan. — Ficou na expectativa, mas nenhum sinal de reconhecimento se manifestou no rosto dela, pelo que ele respirou aliviado. — Prefiro que me trate por Matt. Ou estarei avançando demasiado, Elizabeth?

— Falemos de mim. Elizabeth é para a minha carteira de motorista, para as tias solteiras e para os clientes casados que tentam marcar entrevistas comigo. Para os outros, em frente de uma praça apinhada, tenho um diminutivo:

Lisa.

Catorze dias antes, quase à mesma hora, aquilo tinha sido o começo.

Fora um dia maravilhoso, um encantador e sereno passar de horas. Sentados no Floriano, tinham bebido uns uísques, depois ele quisera uma frittata al prosciutto, ela pedira a mesma coisa, e, em seguida, Brennan encomendara uma garrafa de Fuiggi e café para ambos. Convidada ou não, Lisa insistira em pagar metade da conta de quatro mil liras, embora ele recusasse teimosamente aceitar seu dinheiro.

Para duas pessoas que acabavam de se conhecer, era demasiada discussão para uma única tarde. A princípio, a conversa fora impessoal. Lisa fizera perguntas acerca dos locais assinalados em seu guia turístico, e ele, já um pouco esquecido da história de cada um deles, contara-lhe o que sabia o mais coloridamente possível. Quando ela lera, em seu guia turístico, a consternação de Robert Benchley, o humorista, a sua chegada a Veneza e seu desesperado telegrama a um amigo — “Ruas cheias de água. Por favor aconselhe-me.” —, Brennan rira e tentara explicar-lhe aquela estúpida ilha de cento e setenta e sete canais, uma ilha dividida pelo Grande Canal, em forma de S, que serpenteava pela cidade, ao longo de três quilômetros. Falou dos casais imortais que tinham ido a Veneza, amando-se nos palácios e hotéis das margens do canal, de Byron e de sua amante casada, a condessa Guiccioli, e d’Annunzio e de sua Duse, de Musset e de sua George Sand (embora ele tivesse caído gravemente doente pouco depois de sua chegada, e Sand tivesse se consolado com seu médico).

Lisa interrogou-o acerca da Piazza San Marco, e ele contou-lhe que Ruskin, como Napoleão antes dele, lhe chamara “a mais bela sala da Europa”. Ali, ao lado deles, estavam as altivas agulhas do Campanário, a torre sineira começada em 912, que se tinha inclinado e caído em 1902, sem ter matado uma única pessoa, e que fora restaurada dez anos mais tarde com o sino original, o mais antigo de Veneza, de novo suspenso em seu campanário. Além, atrás dele, a dourada Basílica de São Marcos, um arco-íris de mosaicos, guardada por quatro dourados cavalos helênicos de bronze, roubados de Constantinopla por piratas venezianos e de Veneza pelos soldados de Bonaparte, tendo as vindas e idas desses cavalos assinalado sempre a queda de um império. Na frente deles, viam-se os inúmeros pombos cinzentos da praça, que se balançavam ridiculamente, debicando o milho que setecentos e cinquenta mil turistas por ano lhes atiravam, embora fossem, por decreto municipal, alimentados duas vezes por dia pela cidade, à custa dos habitantes.

— Não há nada que se assemelhe a isso — prosseguiu Brennan —, nada que se lhe compare; não há uma segunda Veneza no mundo. Não sou eu que o afirmo. É Elizabeth Barrett Browning.

Todos os que foram alguém na história, disse ele, tinham estado ali sentados, e muitos haviam concordado com a sra. Browning, contando-se entre eles Goethe e Proust, Dickens e Longfellow, Shelley e Stendhal, Wagner e Whistler. De todas as grandes cidades do mundo que tinha visto, disse-lhe Brennan, só Veneza se mantinha igual ao que havia sido dois ou três séculos antes.

— Às vezes, sentado aqui, imagino Lorde Byron descendo por uma escadaria celeste para regressar a Veneza, ainda que por uma noite — prosseguiu Brennan. — A não ser pelo fato de que pensaria que os habitantes andavam fantasiados, voltaria ao Floriano, sentar-se-ia aqui como em 1819, ou montaria a cavalo na praia do Lido, sem se dar conta de qualquer mudança.

Entusiasmado, Brennan continuou. Lamentava que as pessoas que visitavam o estrangeiro fugissem de Veneza, prevenidas por enfadonhos e antissépticos amigos que insistiam em que o mau cheiro dos canais nas noites quentes e o carnaval do turismo eram insuportáveis.

— Pobres loucos! — acrescentou Brennan. — É como recusar uma entrevista com Madame du Barry, só porque corria o boato de que por vezes tinha mau hálito.

Além disso, prosseguia Brennan, detestava os bonitos e vazios guias turísticos, porque davam demasiada importância aos doges, às Madonas, aos Ticianos e às gôndolas, esquecendo a essência da verdadeira Veneza.

— Não se pode apreendê-la num dia ou dois, numa ou em duas semanas, mas talvez num ou dois anos. A essência de Veneza está na pressão que exerce sobre os visitantes. Quando se decide ficar aqui, não há para onde ir, nada para fazer, exceto descansar e aprender que pode haver plenitude no relaxamento. Não há automóvel para viajar, um táxi ou um ônibus para apanhar em toda a cidade. Não há sequer uma bicicleta. Tudo o que se pode fazer é andar, respirar, sentar-se, refletir ou sonhar, sem a opressão de deveres a cumprir, da competição, do progresso. Isso nãoé para toda a gente. Talvez não seja para você, Lisa. Mas é para mim.

— Também poderia ser para mim, Matt — respondeu calmamente. — Mas não apenas para mim. Eu teria de estar com alguém que... pensasse como você e a quem eu me submetesse.

E, assim, acabaram por falar de si mesmos.

Embaraçado pela longa fala e por seu entusiasmo, duas coisas raras nele nos últimos anos, assim como pelo que revelara de si mesmo, tentou contemporizar:

— Não há dúvida de que isto é bom para os mais velhos. Você é muito jovem. Tem uma vida à sua frente.

— Ainda bem que falou nisso — interrompeu ela, com ar circunspecto. — Quando nos encontramos, apresentou-se como um homem “de meia-idade”. Não é assim tão velho! E desculpe-me, mas também não sou uma criança. Tenho vinte e dois anos.

— Quase podia ser minha filha. Já fiz trinta e sete, estou a caminho dos trinta e oito. Tenho idade bastante para dar conselhos, e você é suficientemente nova para os receber. Portanto aceite este. Fuja dos homens enfadonhos e decrépitos como eu.

— O que preocupa você? Por que essa ideia fixa sobre a idade?

Ele se sentiu tentado a dizer-lhe, mas conteve-se, e Lisa prosseguiu:

— Conheci um sem-número de rapazes de vinte anos. Talvez eu seja um caso freudiano, mas a verdade é que os acho enfadonhos. Nunca passo com eles momentos tão agradáveis como estou passando agora com você. Isso o assusta?

Brennan deu um sorriso cansado, mas satisfeito:

— Não deve isso a mim, Lisa. É Veneza.

— Oh! Você é difícil! — protestou ela com exasperada ironia.

Sabia que o era, sempre tinha sido, embora atualmente se sentisse melhor do que nunca. Ainda não estava preparado para deixá-la partir, e, muito menos, disposto a discutir suas próprias dificuldades, que certamente a afugentariam. Tinha de organizar a defesa.

— Lamento — disse ele —, mas vou tornar-me ainda mais difícil, porque vou ser curioso. Estou interessado numa jovem de vinte e dois anos que se sente mais velha do que nova. Disse que trabalhava com moda. Mencionou Bridgeport e Manhattan. Gostaria de saber o que se passou nesse intervalo. Importa-se?

Não se importava. Ficou um pouco pensativa, um pouco divertida também, bebericando sua água de Fuiggi, segurando um cigarro pelo filtro e fumando tranquilamente. Havia realmente pouco que contar, disse, pois não tinha feito grande coisa, e decerto ele iria julgá-la impertinente e fastidiosa. Recostou-se na cadeira de vime, cruzou as compridas pernas e jogou a cabeça para trás, a fim de poder observar o céu sem nuvens, acima da praça. Os olhos de Brennan pousaram em seus lábios, depois desceram até os joelhos e as pernas esbeltas, e ele pensou que seria difícil descobrir nela algo de impertinente ou fastidioso. Sua presença excitava-o, já não sentia a habitual indolência, e o dia parecia ter-se quedado curiosamente suspenso.

Elizabeth Collins tinha nascido em Eugene, no Oregon — “há quem nasça lá, como sabe”, comentara —, mas fora criada e educada em Bridgeport, onde seus pais continuavam a morar. O pai era dentista e a mãe, hipocondríaca. Na Universidade de Connecticut, em Storrs, tinha se tornado muito popular como esportista, fora até proclamada Rainha da Pátria Futura e tivera o prazer de ver seu retrato nos jornais. Um dos organizadores daqueles concursos de beleza de sempre também apreciara o retrato, e, pondo de lado o aspecto técnico do vestido caseiro, conseguira que ela concorresse em vestido de noite e em maiô ao título de Miss New York City. Ela se classificara em segundo lugar, o que significava que não teria contratos para apresentações em público, apenas uma placa c mais fotografias nos jornais. Como resultado, devido à sua estatura, às suas proporções, ao seu busto, que media exatamente oitenta e cinco, à sua delicada estrutura óssea (pesava então cinquenta e oito quilos e tinha as costelas e as clavículas à mostra, o que era considerado chique, embora se sentisse melhor agora, com sessenta e dois), ofereceram-lhe trabalho numa agência de publicidade para posar com pouca roupa.

Deixara os estudos, apesar da histeria da mãe e de sua pressão alta, e fora para a cidade de Nova York, a fim de trabalhar como modelo de suportes, nome que no negócio de modas se costuma dar à roupa de baixo. Mas sentia-se embaraçada ao ver-se, nos cartazes de publicidade, vestindo camisola transparente ou sutiã e cinta-calça, pelo que, nas horas de descanso, pensava em arranjar alguma coisa mais decente. A segunda agência de modelos que visitara contratou-a, e em breve conseguiu um salário melhor como manequim de modas, na Casa de Fernald, na Seventh Avenue.

— Os tecidos de seda caíam-me bem, mas não tanto como os elegantes vestidos pretos decotados, com um cordão de pérolas barrocas, luvas brancas e peles. Gostaria que um dia me visse assim, Matt.

Mas apresentar as coleções no Grande Salão de Baile do Hotel Waldorf-Astoria ou na Sala de Cristal do Hotel Beverly Hills era uma tarefa exaustiva e rotineira, que não prometia nenhum futuro, a não ser o de vir a tornar-se uma rica mulher de negócios. À medida que ia subindo na casa de modas, Lisa notava que se sentia cada vez mais atraída pelo desenho. A um natural poder criador acrescentava os conhecimentos técnicos que adquirira durante suas exibições; começou a fazer perguntas, a armazenar respostas, treinando desenho, à noite, em seu apartamento. Um dia, encheu-se de coragem e mostrou ao patrão, Fernald, alguns de seus imperfeitos originais. Ele mostrara-se impressionado, corrigindo um ou dois de seus esboços, e aconselhara-a a continuar com o desenho nas horas livres. Mais impressionado ainda com o que ela fizera depois disso, matriculara-a na Escola Paroquial de Desenho, mas tirara-a de lá pouco tempo depois, receoso de que ela se banalizasse, e promovera-a de manequim a desenhista assistente. Desenhara, decorara, pregara alfinetes, cortara e, havia um ano, tinha sido promovida a desenhista efetiva e tornara-se membro do Fashion Group, Inc.

Sua meteórica ascensão tinha sido fantástica para uma moça de vinte e dois anos. E a coroa do êxito resultara num contrato, o primeiro, para fazer a cobertura das coleções dos costureiros franceses de Paris. Depois, porque não conhecia a Europa e lhe deviam muitos dias de férias, tinham-lhe concedido duas semanas e meia no estrangeiro, à sua custa, antes de se juntar aos compradores da firma, em Paris.

— E aqui estou — concluiu. — Por que me deixou falar tanto? Avisei-o de que seria enfadonha.

— Foi fascinante — replicou Brennan.

— Não acredito — ripostou. — Seja como for, já sabe tudo a meu respeito, e eu ainda não sei nada sobre você.

Era esse o momento que Brennan receava. Queria evitar a compaixão dela, tentara imaginar o que poderia dizer-lhe com exceção da verdade, mas sentia relutância em confessar-se e dar por findo o encontro. Tentou arquitetar uma fraude. Com efeito, tirando alguns fatos interessantes, mas sem importância, ela pouco lhe contara a seu respeito. Portanto, limitar-se-ia também a fatos — os fatos dele —, que, embora poucos, seriam muito mais reveladores e não deixariam de a chocar, ou, pelo menos, desiludir. Então, terminaria aquele doce encontro de dois estranhos na Piazza San Marco, cada um deles puro na opinião do outro, até que se vissem forçados a encarar as cicatrizes e as fealdades que uma conversa superficial buscava iludir.

— Perdeu a língua, sr. Brennan?

— Estava pensando no que lhe vou dizer.

— Não me diga que não tem nada de interessante.

— Sou até bastante interessante para certas pessoas — retorquiu, esboçando um sorriso. — Mas também um cadáver o é para um cirurgião.

— O que quer dizer?

— Que às vezes é preferível não saber tudo acerca de determinada pessoa.

— Não concordo — replicou ela, franzindo a testa. — Quando duas pessoas estão juntas e uma delas faz confidências, a outra deve fazê-las também. O contrário é indecente. Quando conto a verdade, gosto que me retribuam com a verdade. O que sei de você? Que vive em Veneza há muito tempo. Que gosta de Veneza. Que não gosta ou finge não gostar de você. Que é um intelectual com educação. Que atrai moças americanas e as deixa intrigadas. O que mais, Matt? Como veio parar aqui? Conte-me tudo, desde o princípio.

Ele capitulou, resignado, ao mesmo tempo em que observava dois pombos que se bamboleavam, entre as mesas, e depois, abandonando provisoriamente seu habitual cinismo e seu desinteresse, contou-lhe o que podia.

Seus pais pertenciam à alta sociedade de Filadélfia. O avô materno tinha sido o angariador da fortuna da família. Seu pai havia consagrado toda a vida a preservar a riqueza herdada. Quanto a ele, sonhava com uma carreira mais exigente, e, quando seu irmão Elia, que ele adorava, morreu na Coréia, soube qual seria essa carreira. Dedicar-se-ia à política, à difícil política da paz. Em Georgetown, seu forte tinha sido a economia. Mas as ciências políticas constituíam sua especialidade secundária. Em suma, acabara por se tornar um perito no campo do desarmamento nuclear.

Brennan tinha sido investigador econômico da Rand Corporation da Califórnia e, ao mesmo tempo, participara ativamente de meia dúzia de movimentos e organizações para a paz. Então, porque o consideravam íntegro, realista, conhecedor, dedicado e prático, nomearam-no presidente do Fundo Schweitzer para a Paz no Mundo.

Pouco a pouco, esse lugar levara-o a entrar em contato com a Casa Branca e o Departamento de Estado, até que foi designado delegado dos Estados Unidos nas Nações Unidas. Após a posse do presidente Earnshaw, a folha de serviços de Brennan chamara a atenção do poderoso assessor de Earnshaw, Simon Madlock, que o indicara ao secretário de Estado, o qual, por sua vez, o recomendara ao diretor da Agência de Desarmamento e Controle de Armas dos Estados Unidos. Brennan vira-se assim incluído entre os cento e oitenta funcionários da agência que aconselhava os negociadores de paz americanos.

Como especialista no aperfeiçoamento da segurança nacional através do controle das armas, Matthew Brennan tinha realizado uma das grandes ambições de sua vida. Já não era uma simples voz de propaganda em comissões de paz excessivamente idealistas e inúteis. Agora, como conselheiro e agente de uma repartição governamental ligada ao Departamento de Estado e ao próprio presidente, Brennan tinha se tornado uma força — uma força menor, é certo, mas de qualquer maneira uma força — na promoção do desarmamento nuclear internacional.

Haviam-no designado para um grande número de encontros e conferências sobre o desarmamento no estrangeiro — Varsóvia, Bonn, Paris, Genebra —, até que, quatro anos e um mês antes, por recomendação de Simon Madlock, fora nomeado para participar da mais importante reunião de paz, a Conferência de Zurique — mais importante porque dessa vez se contara com a ansiada presença de representantes da República Popular da China. A reunião suíça redundara num beco sem saída e num fracasso, e tivera como resultado não o desarmamento internacional, mas a discórdia e o medo, visto que, ao deixar Zurique, a China comunista levava consigo a bomba de nêutrons. E as repercussões refletiram-se na carreira e na vida de Matthew Brennan.

Era tudo. E ali estava ele, outra vez desprotegido e exposto. O idílio vespertino estava no fim. Não sentia coragem para erguer os olhos da mesa e encará-la.

Por fim, após um constrangido silêncio, olhou para ela. Ficou surpreso com a concentração de seu rosto, como se estivesse preocupada em acender um cigarro.

— Agora — disse ele —, já sabe.

— Nunca pensei que fosse uma pessoa tão importante. Lamento tê-lo aborrecido com minha estúpida tagarelice.

— Mas eu não sou... — Deteve-se, confuso. — Lisa, comprendeu tudo o que lhe disse?

— Sem dúvida. Posso repeti-lo palavra por palavra.

— Refiro-me ao problema em que estive envolvido.

— Todos nós temos problemas.

— Lisa, não se lembra de ter lido nada a meu respeito?

— Sinto-me confusa. Detesto parecer estúpida. Lamento nunca ter me interessado por política.

— Mas com certeza ouviu falar da deserção de Varney, do escândalo, das declarações da Comissão Dexter?

— Tenho uma vaga ideia. Eram eles... os perseguidores ou qualquer coisa no gênero?

Brennan recostou-se e analisou-a sob novo aspecto. Ela não sabia quem ele era ou como caíra em desgraça. Pouco a pouco, ia compreendendo. Nada mais tinha em sua vida além do escândalo. Vivera-o e continuaria a vivê-lo ao longo de meses e anos, embelezara-o por causa de seu ego ferido, a ponto de expulsar tudo o mais da existência. Mas os outros não tinham necessidade de insistir num episódio como aquele. Suas vidas estavam preenchidas por outros episódios mais recentes, mais frescos, mais atuais. Evidentemente. O que em seu espírito constituía uma totalidade não passava de uma fração no espírito dos outros. Além disso, aquela moça tinha apenas vinte e dois anos. Quando aquele caso se dera, ela devia ter uns dezoito,, e provavelmente estava tão concentrada em si própria como qualquer adolescente, séria e frívola ao mesmo tempo, apolítica, preocupada com a felicidade, a promoção e a Vida com letra maiúscula. Para ela, nessa época, as manchetes que lhe interessavam deveriam resumir-se aos últimos jogos, às modas, aos anúncios classificados.

Contudo, tinha de lhe dizer.

— Ouça, Lisa. A Comissão Conjunta para a Segurança Interna procedeu a uma série de inquéritos. Seus membros decidiram que, visto eu ter sido um esquerdista, era ainda simpatizante do comunismo, um coração ferido que procurava a paz por qualquer preço. Decidiram que tinha convencido um de nossos principais físicos nucleares a ir para a China vermelha, porque eu acreditava que isso fortaleceria a China e equilibraria a balança entre a guerra e a paz. Não conseguiram prová-lo, mas mantiveram-se nessa crença. O resultado foi que perdi minha garantia de segurança, e pediram-me que me demitisse da agência governamental, o que eu fiz. Fui considerado traidor. Não legalmente, mas nem por isso menos traidor. E é o que sou desde então. É muito nova para se lembrar, mas pergunte a seu pai. Ele sabe.

— Se tenho de perguntar a alguém — disse Lisa com solenidade —, prefiro perguntá-lo a você, Matt.

— Prefere perguntá-lo a mim?

— Sim. Isto é, no caso de ser culpado. Francamente, tudo o que disser em nada influirá no que sinto por você. Mas se com isso se sentir melhor... Pois bem, responda:

é culpado?

— Não, Lisa, não sou culpado.

— Era tudo o que eu queria saber. — Deteve-se, pensativa, e olhou uma vez mais para ele. — Contudo, há uma coisa que gostaria de saber, a não ser que a considere demasiado pessoal. É casado?

— Fui.

— Desculpe.

— Fui casado até começarem os interrogatórios. No dia em que acabaram, ela foi embora.

— Não me compete julgar, mas isso não foi muito leal.

— Não, mas foi perfeitamente compreensível. Creio que esses rompimentos têm sempre uma origem muito mais remota. De qualquer maneira, sei que o nosso teve. Olhando para o passado, verifico que Steffi e eu rompemos no próprio dia em que nos casamos. Éramos demasiado novos. Nada fiz para ser o homem que ela precisava. Era demasiado introspectivo, demasiado intelectual e abstrato para ela. Aos olhos dela, eu devia parecer agressivo, ambicioso, de forma que com os interrogatórios, ou melhor, quando voltei, abatido e considerado suspeito, a humilhação foi superior às suas forças. Pediu o divórcio, a custódia dos filhos e foi-se. Voltou a se casar.

— Tê-lo deixado nessa altura deve ter sido um rude choque.

— Houve tantos que um a mais ou a menos pouca importância tinha. Para ser franco, não fiquei com pena de perdê-la ou de perder os dezoito anos de convivência. Apenas lamentei ver-me separado de meu filho e de minha filha. Mas foi melhor assim. O que poderia eu fazer por eles? — Deslocou calmamente a cadeira e olhou para Lisa com seu meio sorriso. — Está satisfeita, senhorita?

— Matt, como veio parar em Veneza? — inquiriu ela, ignorando a pergunta.

Mas Brennan tinha decidido calar-se. Detestava as pessoas que suspiravam perpetuamente e perdoavam com trejeitos de auto-compaixão. Quando olhava para si como um todo, mas anatomicamente morto, sentia que esse devia ser seu segredo. Uma vez que aceitara continuar na terra e caminhar ao lado dos homens, tinha responsabilidades para com a comunidade. Conservaria um pouco de dignidade humana. E fora isso o que tentara durante todos aqueles anos. Compreendia, no entanto, que nem sempre procedera bem.

Continuava a ter qualidades, mas estavam corroídas pelo cinismo e pela amargura. A inocência, uma de suas melhores características, era frequentemente embotada pela ambiguidade e incerteza da reserva. Seu intelecto e sua sabedoria, atributos outrora apreciáveis, eram ocasionalmente empanados por conceitos derivados de seus sofrimentos. Sua lucidez, tão admirada, via-se por vezes toldada por sua confusão interior. Seus apartes ambíguos e autodepreciativos, que constituíam uma habilidade diplomática, eram cada vez mais envenenados por um desejo de autodestruição.

No entanto, tentou, mesmo quando não lhe interessava, e decidira continuar a tentar, agora que lhe interessava. Tinha ido longe demais nas revelações de seu deplorável e lamentável martírio. Resolveu mostrar-lhe que era mais do que isso. O que havia ela perguntado? Ah, sim! Matt, como veio parar em Veneza?

— Bem — respondeu com inflexão alegre —, depende do que quer saber. Refere-se ao aspecto financeiro? Meu pai deixou-me um crédito que é mais do que suficiente. É o que cada homem devia ter. Ou refere-se ao aspecto profissional? A princípio, tentei reabilitar-me aos olhos do governo. Uma espécie de provocação, não lhe parece? Depois, procurei conseguir alguma posição em diversos Estados, um trabalho social, no ensino, como motorista de ônibus, qualquer coisa de útil. Não tive sorte. Talvez tenham descoberto minha falta de capacidade. Um antigo diplomata raramente se adapta a essas coisas. Então, fui viajar com destino desconhecido. Ao instalar-me aqui, tentei escrever. Não deu resultado. Faltava-me vocabulário. Além disso, Hemingway já tinha dormido aqui, mais precisamente em seu hotel. Pensei proclamar-me doge e fomentar uma pequena guerra, que me permitisse utilizar meus antigos conhecimentos de intermediário da paz. Mas ninguém estava disposto a lutar, e eu menos que todos. Depois, comecei a passar minhas tardes numa pequena ilha ao largo da baía, um posto avançado de padres armênios que se interessaram por mim... chama-se São Lázaro, iremos visitá-la, se ficar por aqui mais algum tempo... e ali fui estudar línguas orientais. Há pouco, surgiu uma possibilidade de emprego numa obscura firma de importações e exportações, e, visto que tem negócios no Oriente Próximo e até no Extremo Oriente, o conhecimento de várias línguas parece ser uma vantagem. Acabarei por aprender o árabe e o hebraico. Eis aí, querida Lisa, como vim parar aqui.

— Eu queria dizer... Como veio parar aqui emocionalmente?

Tudo, pensou ele, provinha do esquema freudiano. E encolheu os ombros.

— Escondo-me. Medito. Entôo baixinho cantigas do colégio. Amo meu passatempo:

colecionar mágoas. Reuni uma bela coleção. Por outro lado, quando me sinto atrevido (Casanova era, como sabe, veneziano), coleciono curiosas e lindas desenhistas de moda com especial inclinação para homens mais velhos.

Ela riu com súbita vivacidade e observou:

— Gostei da última parte. Parece uma promessa, embora tenha de lhe pedir desculpas por ter sido tão curiosa. A verdade é que despertou meu interesse. — Ergueu o vestido dois centímetros acima dos joelhos. — Espero estar qualificada para a sua coleção.

— E está... — disse ele. Mas, antes que pudesse prosseguir no namoro, ouviu-se o ruidoso martelar do grande sino de bronze, no relógio da torre. Admirado, olhou para os mouros em movimento, depois consultou o relógio de pulso. — É inacreditável, Lisa. Há três horas que estamos aqui. Se quiser fazer compras...

— Compras? Eu queria ir fazer compras? Esqueci-me completamente. — Pegou a bolsa e acrescentou:

— Francamente, é mais agradável conversar com você. Não me lembro de já ter me divertido tanto. — Descruzou as pernas, uniu afetadamente os joelhos e encarou-o. — Obrigada, senhor. Roubei-lhe muito tempo.

Ele fingiu não se aperceber de nada e deixou-se ficar casualmente com um braço por cima do encosto da cadeira.

— Se está preocupada com o tempo, é o que mais tenho, Lisa. É a única coisa que me resta. E é todo seu, se é isso o que pretende. Será para mim um prazer ajudá-la nas compras, levá-la a ver coisas, o que quiser.

— Não se importaria? — perguntou, ansiosamente.

Ele fez sinal ao garçom.

— Tente ir embora e verá o que acontece.

Deixando o Floriano, Brennan ofereceu-lhe teatralmente o braço, que ela se apressou em aceitar, e atravessaram a praça, ziguezagueando por entre os pombos bamboleantes, os fotógrafos ambulantes, as crianças que espalhavam sementes de trigo, os bandos de estúpidos turistas de shorts, calças, vestidos de algodão, que soltavam exclamações numa babel de línguas.

Não mais se separaram nesse dia e nessa tarde. Fizeram compras na escura Merceria e na maciça Ponte Rialto. Exploraram praças estranhas, encostaram-se indolentemente em inesperadas pontezinhas e admiraram uma Madona em seu nicho. Sentaram-se na base das colunas de granito da Piazzetta, gozando o sol e observando os velhos que puxavam pelas proas as gôndolas para o cais, e deixaram-se influenciar pela silhueta da Igreja de São Jorge Maior, que se erguia de encontro ao suave céu azul acima da baía de São Marcos.

Ao fim da tarde, voltaram à praça, dirigiram-se a uma velha que estava atrás de seu carrinho de sementes, sacudindo uma lata de metal cheia de milho, compraram dois sacos e fartaram-se de rir com os pombos, que, graciosamente, vinham procurar nas suas mãos e cabelos a refeição de sementes. Ocuparam umas cadeiras de vime amarelas, ao lado de mesas amarelas com a inscrição “Martini”, na calçada do Café Quadri, beberam e deram-se as mãos, enquanto apreciavam a romântica música que a orquestra tocava num coreto próximo.

Mais tarde, caminharam até o Rialto, e ele levou-a por uma ruela escura onde ficava o Hotel Restaurante Graspo da Ua. Em sua mesa de canto, beberam Scampi e depois Valpolicella, excelente vinho tinho. Seguiram-se tagliatelle sereníssima e outro vinho, e, por último, fileto di bue grelhado na brasa e mais vinho. Falavam de vez em quando, mas a maior parte do tempo mantiveram-se t alados, sentindo-se muito íntimos.

Agora, conheciam-se melhor, e isso era pessoal e importante. Brennan falara de sua primeira mulher, de uma antiga e breve aventura com uma secretária, de suas raras experiências sexuais com mulheres italianas. Lisa, por sua vez, recordara o rapaz com o qual dormira no colégio, para saber como era, e, uma vez elucidada, decidira esperar pelo casamento. Recordara sua ida para Nova York, o impetuoso jornalista que a entrevistara para uma reportagem sobre modelos, seus encontros, e que dormira com ele durante algum lempo por se sentir só, mas a verdade é que não o amava e jurara nunca mais fazer aquilo até se casar ou, pelo menos, até se sentir profundamente apaixonada, caso um dia isso viesse a acontecer.

Antes da meia-noite, voltaram para o Floriano da Piazza San Marco, que estava ou parecia quase deserta, e a música suave e baixa e as luzes tornavam o cenário irreal e fantástico.

Tinham acabado de beber o segundo conhaque, e Brennan preparava-se para pedir um terceiro quando subitamente a encarou, largando-lhe a mão.

— É tarde, se tenciona realmente partir amanhã. Acompanhá-la-ei ao Gritti.

Ela fitou-o por instantes, sem pestanejar nem se mover, depois disse pausadamente, para que as palavras saíssem inteligíveis:

— Sr. Brennan, diga-me:

por que não me fez uma proposta?

Ele hesitou.

— Creio que por me preocupar demasiado com você para me aventurar a estragar tudo. Pensei que não estivesse disposta a ser importunada por um homem com quase o dobro de sua idade. E... não queria arriscar-me a outra negativa.

— O que o autorizou a pensar que eu me negaria? — inquiriu, continuando a fitá-lo e pondo-lhe a mão no braço. — Quanto à diferença de idade, é a mim que compete decidir, Matt. O que diria se eu lhe confessasse que o amo?

Ele olhou-a em silêncio e depois respondeu:

— Não saberia o que dizer, exceto que isso me tornaria feliz e... bem, que sinto o mesmo por você.

Ela largou-lhe o braço, pegou a bolsa e voltou a fitá-lo.

— Não quero ir para o Gritti. Vamos para o seu hotel, Matt.

— Calou-se por instantes, depois perguntou:

— Choquei-o?

— Fez com que eu me sentisse como já não me sentia há anos:

jovem, esperançoso, apaixonado... apaixonado, Lisa, e vivo.

Seguiram de braços dados, passaram pelo campanário, pelas colunas e janelas abobadadas do Palácio dos Doges, atravessaram a pequena ponte e subiram as escadas atapetadas de vermelho até o primeiro andar, percorreram um estreito corredor e galgaram outras escadas até a. porta do quarto dele.

Entraram, em silêncio. Depois, arfando, ela aninhou-se nos braços dele, e, enquanto a segurava, beijando-lhe os cabelos, a fronte e os olhos fechados, ele ouviu-a murmurar:

— Eu o amo.

Assim foi o primeiro dia e a primeira noite de sua união, e foi também o princípio.

Ao reviver esses momentos, sentado na cama, catorze dias depois, ele sentia relutância em abdicar dessas horas que foram as mais felizes de sua vida. Apagou a ponta do cigarro, pegou outro e acendeu-o distraidamente, achou-o desagradável antes do café da manhã, mas continuou a fumá-lo, ao mesmo tempo em que recordava os maravilhosos dias passados com Lisa Collins, que tinham se seguido ao primeiro. Estes eram mais difíceis de individualizar e reviver. Tinham sido experiências inesperadas, fragmentos isolados de conversas, mas tudo isso formava um conjunto e se transformava num relicário de sentimentos e emoções.

No princípio, houvera os lugares dos prazeres compartilhados, o encadeamento dos dias, uma Veneza sempre renovada. Tinham visitado a ampla Sala do Conselho do Palácio dos Doges, o Palácio Ducal, tinham admirado as maiores pinturas do mundo, o Paraíso de Tintoretto, que recobria a parede do fundo. Haviam ido ao barulhento mercado de verduras do Rialto, depois a San Giacomo, a mais antiga igreja de Veneza, onde traduziram a inscrição latina:

“Possa a lei dos mercadores em redor do templo ser nobre, os pesos, justos e os contratos, honestos”. Tinham passeado, recostados em almofadas, numa elegante gôndola que deslizava pelo Grande Canal, enquanto a canção do gondoleiro lhes unia os lábios. Haviam se sentado a uma mesa do terraço do restaurante do Hotel Danieli, à noite, saboreando cannelonni alia ligure, picata di vitello, a sobremesa coppa Danieli com sorvete, fruta e açúcar, ao mesmo tempo em que admiravam o fascínio das luzes que se cruzavam, em movimentos lentos, por cima da baía lá embaixo. Tinham andado, de mãos dadas, por entre as casas rústicas e os campos verdes de Torcello, gozado horas de repouso na cela de Brennan, no mosteiro de São Lázaro, e também se aquecido ao sol, em frente da barraca dele, na praia do Excelsior Lido.

Nas duas últimas semanas, ele tinha penetrado no mundo de Lisa, um mundo de juventude e beleza, de precocidade e entusiasmo, um mundo que cantava uma vida cheia de promessas. O mundo de Lisa era um rodopiante caleidoscópio de calças justas de náilon cor de laranja, um império de corpetes e saias cor-de-rosa, plissadas, de transparentes camisolas charlreuse e vestidos de cintura engomada, de boleros tricotados com algodão purpúreo, de blusas listradas e shorts de sarja branca, de vistosas capas, peles de chinchila, casacos esporte, de pêlo de camelo, conjunto de fazenda marrom, vestidos de passeio com vidrilhos, pulseiras encantadoras, malas e sapatos de couro. O mundo de Lisa era um cata-vento de camisas de malha, de minúsculos biquínis, de sutiãs transparentes, cor da pele, de calcinhas com fitas, de brincos de safira e colares de pérolas, de carmim-vivo e perfumes estonteantes. O mundo de Lisa era um Brueghel animado de bicicletas, quadras de tênis, esqui aquático, luar e discos de jazz, de sanduíches, pastéis, bolos de morango e doces, de não-se-aborrecer e sobe-e-desce, de rápidas correrias e risos fáceis. O mundo de Lisa era um céu aberto que não precisava de calmantes nem de pílulas para dormir, nem de vitaminas em comprimidos, nem de psicólogos ou psicanalistas, nem de velhos sonhos desfeitos; um céu que admitia no seu reino a esperteza e a ingenuidade, o tudo-é-possível, o ninguém-é-totalmente-mau, a espontaneidade e as grandes esperanças.

Era um mundo de muitos hojes, de infinitos amanhãs e de poucos passados. Era o mundo especial dos vinte e dois anos. Era o mundo de Lisa. Embora estranho a ele, Brennan penetrara-o por instantes, atordoara-se nele por instantes, quase acreditando que viria a pertencer-lhe.

Era agradável, mas não era fácil, pelo menos para um habitante de um planeta mais velho e devastado. Umas vezes sua exuberância, outras vezes sua pouca experiência da vida, inibiam Brennan. Ele sabia que para Lisa os acontecimentos, as pessoas, os costumes de seu planeta, que havia considerado moderno e contemporâneo e no qual tinha crescido, eram velhos ou antigos. Sabia que para Lisa a Segunda Guerra Mundial e o conflito da Coréia eram tão irreais como a Guerra Civil Americana; os aviões a propulsão e os mais recentes jatos eram tão ridículos como os balões de Montgolfier; F. D. R. e J. F. K. eram tão remotos como Abe Lincoln; o emprego do éter por um anestesista era tão primitivo como os encantamentos de um feiticeiro; os êxitos eram tão divertidos como os fracassos. E Elvis o quê? Presley? Quem era?

Se queria ser jovem bastante para ela, teria de vigiar as palavras. Teria de evitar, a cada passo, as referências a seu passado, pois isso revelaria que já era crescido quando ela não passava de uma criança. Teria de omitir os nomes daqueles que haviam preenchido seu passado — um presidente, um homem público, uma atriz, um atleta — para que esses nomes não o ligassem, aos olhos dela, a esse passado. Mas nem todas as alusões a esses anos podiam ser evitadas. Certa vez, quando lhe falou dos filhos, sentiu dificuldade em admitir que já tinha um filho com o curso secundário, que em breve se matricularia na universidade. Preocupava-o o fato de que cia pudesse calcular as respectivas idades e concluir que estava mais perto do filho do que dele, compreendendo, portanto, o que havia de absurdo em suas relações. Mas, quando lhe falou em seu filho Ted, teve a alegria de ver que ela, apesar de seus poucos anos, considerara logo e automaticamente esse filho como uma criança.

Achou aquilo notável. Aparentemente, não denotava qualquer suscetibilidade quanto ao número de anos que os separavam. Aparentemente, se ela tinha consciência das diferenças, estava disposta a atribuí-las não às suas idades reais, mas às experiências da vida, tendo sua própria vida sido relativamente calma e superficial, sem conflito, em oposição à vida dele, pública, comprometida c cruelmente arruinada.

Mas isso não importava. A maior parte das vezes conseguia ignorar os fatos físicos. No mundo de Lisa, sentia-se de novo vivo e feliz. Pela primeira vez havia anos detestava o prazer do sono, procurava a companhia de alguém. Voltara aos exercícios de ginástica. Renovara seu guarda-roupa. Modernizara o corte de cabelo. Começara a usar água-dc-colônia. Tentara adotar uma posição aprumada e mostrar vigor nos movimentos, como os jovens que visitavam Veneza. Desejara tornar-se mais atraente, e admirava-se de que houvesse cm sua carcaça motivos de atração para ela. Durante anos, não tinha se preocupado com a aparência exterior que apresentava ao mundo, mas agora, ao recordar fragmentos de uma reportagem ilustrada a seu respeito, publicada na imprensa inglesa dois anos antes, tornava-se consciente de sua apresentação.

Tinha o aspecto de um vagabundo benévolo, mas desiludido. Os cabelos negros começavam a tornar-se grisalhos, e um topete caído sobre o semblante carregado comprimia-lhe a fronte morena. O rosto anguloso apresentava-se descarnado, tornando os olhos castanhos ainda mais profundos, o nariz comprido ainda mais proeminente e a linha do queixo ainda mais dura. O que outrora fora o rosto de um cavalheiro bem-educado e em destaque era agora qualquer coisa de magro e enrugado que o fazia parecer ainda mais velho. Aquele rosto, que outrora fora mordaz, interrogador, firme, estava agora alterado por um ar indiferente, longínquo, sardonicamente divertido. Lembrava-se de que outrora suas roupas, seu porte, seu físico eram impecáveis. Com o tempo, antes de Lisa, tornara-se descuidado, apático, quase sujo, e seu andar revelava letargia e falta de vigor. Por assim dizer, tinham se rendido à desesperança e desistira de lutar. Tanto o espírito como o corpo haviam se tornado moles e frouxos. Desesperadamente, desejava ter encontrado Lisa, tal como era agora, dez anos antes, como ele era então.

Às vezes, estendido ao sol, em frente da barraca, na praia do Lido, via-a sair da água, uma Afrodite emergindo do Adriático, e, quando ela se aproximava, com a pele lisa e fresca a gotejar, ele cobria-se com uma toalha ou punha-se de costas para esconder os primeiros pêlos grisalhos do peito ou o proeminente abdômen, as rugas e as marcas da má vida e dos maus momentos. Raramente ria com ela. Lisa espantava-o com sua percepção e a sinceridade que daí advinha. Uma vez, depois do almoço na praia e duas bebidas, t Ia dissera com divertida exasperação:

— Matt, pare de tentar manter a barriga para dentro. Amo-o como você é. Não me interessa saber se tomou centenas de pílulas, se entrou na escola no dia em que nasci, se é pouco mais novo do que meus pais, se não pode subir umas escadas sem arfar ou se não consegue passar de uma posição subalterna. Amo-o assim mesmo, não de outra maneira, e, por favor, não jreudize nossa existência com qualquer estúpido disparate de imagem paterna. E agora leve-me para o Danieli. Quero mostrar-lhe como preciso de você.

As noites eram seus melhores momentos. Na cama, com a roupa jogada para o lado e o luar se infiltrando pelas janelas, agarrado a ela, acariciando-a, contemplando seus olhos fechados, os lábios entreabertos, sentindo-lhe a respiração contra o ombro, ouvindo seus incoerentes murmúrios, tapava os olhos e os ouvidos e possuía-a de espírito livre, finalmente vivo. Nesses deliciosos e selvagens momentos, tinha vinte e dois anos como ela, ou era ela que tinha a idade dele, ou era como se não tivessem idade. No auge desses instantes, as recordações de Zurique, de Rostov, de Madlock, dos investigadores do Congresso, de Steffi, dos filhos, dos fotógrafos, jornalistas e turistas que o apontavam na rua, da morte, tudo era esquecido. Já não se sentia à margem da humanidade, era alguém que se entregava, que tinha capacidade para dar e receber prazer, alguém que queria sobreviver, porque descobrira uma razão para isso, e, se nessa noite era possível, então o dia seguinte seria um dia de infinitas possibilidades.

Ela adormecia sempre rápida e facilmente, sem pesadelos. Ele gostava de lhe beijar as pálpebras, os meigos lábios abertos, a cova do pescoço, depois ocultar-se atrás de um dos braços estendidos dela e observar-lhe os olhos fechados, a curva do nariz e os lábios sorridentes. Em seguida, de costas, fixava os olhos nos raios do luar, sabendo que estava apaixonado, sem medo (a não ser da morte) e feliz por continuar vivo. Por fim, adormecia lentamente, de corpo satisfeito e espírito em paz. Mas, com a manhã e os ruídos de Veneza que subiam do exterior, tornava-se pouco a pouco consciente de sua verdadeira situação, do universo hostil para além da cama e daquela ilha, e seu espírito enchia-se de apreensão e seu corpo tornava-se tenso.

Fora assim na última noite, antes de adormecer, e naquela manhã, depois de acordar.

A dádiva de duas semanas não tinha sido propriamente uma dádiva, mas um empréstimo de tempo e esperança, e hoje era o décimo quinto e último dia, o tempo não podia ser prolongado, era preciso renunciar à esperança.

Pôs-se à escuta. Ela já não estava no chuveiro. Saltou da cama, atirou a ponta apagada do cigarro no cinzeiro, abotoou o pijama e foi descalço até a mesa onde estava a garrafa de água Fuiggi. Encheu um copo. A água estava tépida, mas refrescou-lhe os lábios secos e a garganta sequiosa.

Junto à porta entreaberta do banheiro, parou para admirar Lisa. Ela envergava apenas um sutiã e uma calcinha cor-de-rosa e era a imagem perfeita da feminilidade, encostada ao lavatório, com a cabeça junto ao espelho, concentrada em escurecer as sobrancelhas com um lápis.

Sem olhar para ele, perguntou:

— Já está de pé, querido? Pensei que tivesse adormecido outra vez.

— Fiquei acordado — respondeu ele, entrando no banheiro.

Aproximou-se dela por trás e beijou-a gentilmente no pescoço, o que fez com que ela contraísse involuntariamente os músculos, encolhesse os ombros e suspirasse, ao mesmo tempo em que o observava através do espelho.

— Eu o amo, querido.

Apertou-lhe os ombros nus.

— E eu a amo ainda mais, Lisa.

— Acredito. — Afastou o lápis das sobrancelhas. — O que gostaria de fazer hoje?

Ela sabia que dia era aquele, pensou Brennan, e estivera pensando nisso.

— O que você quiser. Podemos começar pelo café da manhã, talvez na praça.

— Ótimo.

Quando ela acabou de se arrumar, Brennan correu a encharcada cortina do chuveiro, desabotoou a calça do pijama e deixou-a cair. Com um pé fê-la voar, apanhou-a e pendurou-a no cabide do banheiro.

Viu que ela o observava através do espelho. Esteve tentado a encolher o abdômen, mas desistiu.

— Está bonito — disse ela, rapidamente.

— E você também — replicou —, embora um pouco vestida demais.

— Bobo!

Cuidadosamente, ele entrou na banheira e, atrás da cortina, pegou a mangueira do chuveiro e começou a molhar-se. A água estava quente, e decidiu temperá-la. Queria-a mais fria, para expulsar os sonhos vãos.

Ouviu-a perguntar:

— Matt, o que esteve fazendo durante esta meia hora?

— Estive pensando.

-— Em quê?

— Em você.

— Ora! Se fosse assim, não me deixaria partir de Veneza sozinha.

Ali estava o começo da litania de uma morte especial em Veneza.

— Querida, embora me custe, se tiver de ser assim, tudo concorrerá, de qualquer modo e no devido momento, para que isso aconteça.

Então, para evitar novas perguntas, abriu com força o chuveiro.

Vinte minutos depois, barbeado, refrescado, com um paletó de tecido fino, uma camisa esporte e calça de linho cinzenta, viu-a à janela, com as persianas de metal levantadas. Olhava tristemente para o campanário e para o zimbório que coroava a ilha de São Jorge Maior — a joia de cristal de Bocchini — através da tremeluzente laguna.

— Como é possível deixar isto? — perguntou calmamente, como que a si própria.

— Nada disto se compara com você — disse, tentando dissipar-lhe a tristeza. Obrigou-a a voltar-se e abraçou-a. Ela usava um vestido de lã azul-claro. Sem mangas e de decote pronunciado, punha-lhe a descoberto os ombros e o pescoço sem adornos. — É um lindo vestido. Não me lembro de tê-lo visto antes.

— Guardava-o para uma ocasião especial. Como esta. A cor me reaviva da tristeza. — Depois, vendo a gravidade dele, deu-lhe o braço e forçou-o a sorrir. — Desculpe, esqueça meu mau humor, Matt. Nunca me sinto bem-disposta antes do café da manhã. Vamos ver os pombos.

Deixaram o quarto, desceram as escadas e atravessaram o apinhado vestíbulo, acenando cordialmente ao porteiro, que era um aliado de todos os namorados de Veneza.

Emergindo à luz do sol na Riva degli Schiavoni, ambos se voltaram para evitar a súbita claridade, protegendo-se com óculos escuros. Lisa olhou para a fachada vermelha do Hotel Danieli, para os toldos encarnados das minúsculas varandas brancas e inquiriu:

— Outrora foi um palácio, não foi?

— Foi. Chamava-se então Palácio do Doge Dandalo. Ele ajudou a suprir de homens a Quarta Cruzada.

— Seria preferível que me ajudasse na minha cruzada com um único homem. — Voltou as costas ao hotel e, com decidido senso prático, disse:

— Não se esqueça de me lembrar da bagagem, Matt.

— O porteiro mandará um carregador buscá-la no Gritti.

— Nesse caso, está bem. Vamos comer.

Atravessaram a ponte, ouvindo soar o canhão do meio-dia atrás do Palácio dos Doges, e percorreram o passeio da margem, lutando contra a cortante brisa. Passaram pelas duas arcadas de granito da Piazzetta, abriram caminho através da densa multidão, chegaram à área sombreada entre a arcada de São Marcos e o campanário e, sem parar, quase naturalmente, dirigiram-se para o Café Floriano.

Sentados à mesa habitual, na calçada, tomaram o café da manhã cm silêncio. Quando isso sucedera, dois dias antes, Lisa admirara-se de como eles, ao contrário dos outros casais, podiam passar tão prolongados períodos sem conversar. Brennan tentara explicar-lhe:

— Talvez tenhamos menos o que dizer do que as outras pessoas, Lisa. Só nos restam o passado e o presente. Não temos futuro.

Não foram exatamente essas as palavras utilizadas, porque lhe soavam a sentimentalismo e porque, além disso, não era esse o seu estilo. E não as utilizaria agora, quer ela se preocupasse ou não com seu silêncio.

Mas após o tardio café da manhã e o primeiro cigarro gostoso, decidiram-se a falar. Ele tinha esquecido o itinerário das atividades dela em Paris e quis ouvi-lo de novo. Seus colegas da Casa de Fernald, de Nova York, chegariam ao Plaza-Athénée no dia seguinte, e ela teria de estar lá para recebê-los e conferenciar com eles. Na segunda-feira, teriam início as apresentações das novas coleções dos costureiros franceses, assim como as recepções, e ela faria parte desse alegre círculo durante duas semanas. Um mês antes, essa promessa de divertimentos tinha-lhe enchido todas as horas. Agora, era uma promessa vazia, e a perspectiva de voltar sozinha para Nova York era deprimente. O que faria Matt depois de ela partir?

Ele não ousava dizer-lhe a verdade, pois previa que a recaída no antigo desespero seria ainda mais profunda. Não podia permitir que ela pensasse que o encontro de ambos nada mais fora do que uma futilidade. E por isso representou o papel de homem inspirado. Disse-lhe que seria mais ambicioso, mais determinado no estudo daquelas novas línguas e em suas relações com a firma de importações e exportações de Gênova. E simultaneamente, motivado por ela, faria novos esforços para limpar seu nome. Prometeu-lhe reiniciar sua investigação sobre Nikolai Rostov e obter a prova de sua lealdade. Se o conseguisse, então Lisa teria notícias suas.

Aquele jogo soava falso, e ele o sabia, como sabia também que ela o percebia, mas ambos se entregaram à ilusória pretensão de um futuro em comum. Procurando um terreno mais seguro, mudou o rumo da conversa:

— A que horas da noite parte o Simplon Orient?

— Às oito e meia.

— Quer dizer que tem de estar na alfândega por volta das sete e meia. Já arrumou as malas?

— Há dias que não ponho os pés no meu quarto. Deve estar uma barafunda.

— Nesse caso, precisa de um bom par de horas para isso. — Cionsultou o relógio. — São duas e quinze. Eu a levo ao Gritti às cinco e quinze, o mais tardar. Temos três horas para nós, Lisa. Minha casa é sua, como dizem os espanhóis. O que lhe parece?

— Mas não é Veneza — disse ela. — Não hoje.

Por instantes, ficou perdida em seus pensamentos. Por fim, olhou-o com um saudoso meio sorriso que inconscientemente copiara dele e substituía a alegria do antigo.

— Talvez a praia, Matt. Você gostaria de ir lá? Apenas sol, ar e água.

— Ótimo. Vamos.

Regressaram ao Danieli para tomar o motoscafo do hotel e fazer a travessia até o Excelsior Palace, mas Lisa decidiu que seria mais divertido viajar “rusticamente”. Prosseguiram até a estação de São Zacarias e, quando o vaporetto chegou, entraram e foram sentar-se num banco de madeira desocupado, junto à balaustrada.

O ônibus aquático pôs o motor em marcha, vogou pela laguna, e, após duas paradas, o velho barco ficou cheio de turistas com máquinas fotográficas e italianos palradores com seus barulhentos filhos. Meia hora depois, atracavam na estação flutuante atrás do Cassino e, com os outros, desembarcaram na ilha do Lido. De mãos dadas, passaram da doca para a rua e, arfando, caminharam através do Lungomare Marconi, parando apenas uma vez, à sombra das arcadas, para que Lisa pudesse admirar as sedas da vitrina da loja de modas de Emilio Pucci.

Já no interior do Excelsior Palace Hotel, onde o porteiro e o chefe do pessoal, um de cada lado, saudaram cortesmente o signor Brennan, atravessaram o enorme vestíbulo e saíram no terraço. Vistas de cima, as filas de barracas multicores estendiam-se como as asas de um pássaro gigantesco que se tivesse instalado na areia escura. À frente deles estava o azul-acinzentado do Adriático, como um magnífico tapete, que se estendia até as misteriosas e exóticas paragens do outro lado do longínquo horizonte.

Desceram as escadas do hotel em direção à praia e seguiram pelo estreito passeio por trás das barracas, ignorando os comensais que almoçavam nos recantos escuros do restaurante da praia, ao ar livre. Passaram rapidamente por roliças moças italianas de biquínis e homens de negócios, mais velhos, de calções de banho. Depois, já perto da barraca 67, caminharam sobre a areia, em direção ao toldo. Enquanto Lisa desaparecia no seu interior para mudar de roupa, Brennan encomendou toalhas e dois Camparis. Em seguida, esperou na areia, de rosto voltado para o sol, absorvendo o calor, desejando que o disco solar lhe expulsasse o veneno de tantos anos e lhe desse a juventude e a força de recomeçar.

Quando Lisa apareceu, ele sentiu o coração desfalecer. No seu conjunto azul-marinho de duas peças, com o sutiã preso por finas alças em redor do pescoço e das costas, c o calção abotoado nos quadris, parecia mais alta e tão graciosa como uma deusa. Mas não era uma deusa, pensou ele, observando-lhe os movimentos felinos dos músculos sob a pele lisa, enquanto ela tirava os óculos, o relógio e as sandálias. A pele sedosa, continuou a pensar, lembrava a de Frinéia de Téspias, a cortcsã tão admirada por todos os atenienses e por fim possuída por Praxíteles. Tal como Frinéia, sua Lisa de Veneza era essencialmente modesta, preocupava-se com sua aparência em público e com a conduta em particular (como Frinéia, sua Lisa só amava na escuridão).

Mas, tal como Frinéia, aparecia anualmente no festival eleusino, despindo-se no pórtico do templo para se entregar nua ao mar e homenagear assim os deuses, também sua Lisa se entregava nua (pelo menos a seus olhos) ao mar e aí celebrava o último de seus amores de verão.

Queria-a para sempre e, sob o encanto da paixão, esteve tentado a gritar-lhe que não partisse, que esquecesse os outros e ficasse para sempre com ele em Veneza, sabendo que ela acederia alegremente, mas sabendo também que, nos anos futuros, isso seria fatal ao amor de ambos.

— Espero-o na água, Matt — gritou ela, com o rosto novamente iluminado e franco.

— Não demoro — respondeu.

Viu-a correr pela areia. Voltou-se com um suspiro, entrando na barraca, de novo só, depois de quebrado o encanto. Sobreviveria à sua fraqueza, mas só lhe restaria a saudade.

Finalmente correu para o mar, ao encontro dela. Meteu-se na água até esta lhe chegar às axilas. Nadou na direção dela com vigorosas braçadas, deram cambalhotas, borrifaram-se, lutaram e beijaram-se debaixo da água. Apanharam uma bola, brincaram e voltaram a nadar.

Por fim, exaustos, regressaram à barraca e deixaram-se cair nas cadeiras de lona, secando-se ao sol, enquanto sorviam seus Camparis.

Foi Lisa a primeira a erguer-se.

— Matt, quanto tempo nos resta?

Ele procurou o relógio, que tinha metido num sapato.

— Mais de uma hora.

— Vamos para São Lázaro. Quero gravá-lo na lembrança.

Vestiram-se depressa, e, quinze minutos depois, atravessavam as passagens subterrâneas do botei que iam dar no cais, onde alugaram um barco até a ilha.

Sentaram-se à proa, a fim de poderem gozar os salpicos de água e a brisa. À medida que a proa do barco cortava as águas da laguna, Lisa apoiava-se ao braço de Brennan, aninhava-se contra seu peito, e acabou por abraçá-lo, quando a ondulação provocada por outro barco fez o deles balançar.

Já tinham coberto cerca de um terço da distância entre o Lido e Veneza quando Brennan descortinou os contornos da minúscula ilha de São Lázaro, seu refúgio especial, mas não apenas dele. Outro ocidental expatriado, expulso da pátria por escândalo, tal como Brennan, tinha descoberto um século e meio antes as virtudes de São Lázaro. “Uma pequena ilha situada no meio de um lago tranquilo”, anotava Lorde Byron; e, de Veneza, escrevia a seu amigo Moore:

“De manhã, vou na minha gôndola, tagarelar em armênio com os frades do Convento de São Lázaro”.

De fato, fora Lorde Byron quem sugerira a Brennan aquela ilha ignorada. Como muitos outros que pensavam mais do que agiam, Brennan sempre se sentira fascinado pelos literatos de ação, intelectuais como ele, que também possuíam audácia e coragem e preferiam a aventura pessoal à aventura forjada numa poltrona.

As atividades despreocupadas de Byron sempre tinham seduzido Brennan, assim como a vida de Sir Richard Burton (assunto de uma de suas interpretações favoritas no colégio), François Villon e Giacomo Casanova sempre o haviam intrigado. De fato, fora seu interesse mútuo no campo intelectual e criador que levara Brennan e Nikolai Rostov a criarem laços de amizade na Conferência de Zurique.

Rostov fora o elo de ligação entre Brennan e o pessoal da delegação russa. Ambos se interessavam pela paz, eram peritos em desarmamento e tinham se esforçado (especialmente Rostov, que havia frequentado cursos intensivos de aperfeiçoamento no Extremo Oriente) por convencer os delegados comunistas da República Popular da China de que sua nação deveria renunciar totalmente a seu arsenal nuclear, se quisesse tornar-se membro de uma pacífica comunidade mundial das nações.

Nas noites que passaram juntos, como se tentassem esquecer as tardes de frustradas discussões diplomáticas sobre a paz, Brennan e Rostov sentavam-se durante horas no Cabaret Voltaire ou no Bierrestaurant Kropf, recordando as vidas de loucura e temeridade de seus favoritos históricos. De fato, o interesse e até o conhecimento de Rostov acerca de Lorde Byron e Sir Richard Burton eram maiores do que os de Brennan, pois a paixão de Rostov era colecionar livros e manuscritos raros, e sua coleção sobre Burton, um orientalista como ele, era volumosa. Brennan havia ficado admirado, quando de sua primeira visita à biblioteca de São Lázaro, ao descobrir uma coleção rara de livros de Sir Richard Burton — alguns eróticos e todos autografados pelo autor — que tinha sido oferecida por um milionário egípcio. E isso perturbara Brennan, porque ele fora parar naquela isolada ilha armênia em consequência — suspeitara-o depois — da traição de Rostov (ou, pelo menos, da desumana deserção de Rostov da amizade). E os primeiros hóspedes dessa ilha tinham sido as sombras de Byron e Burton, os mesmos fantasmas que haviam apresentado Brennan a Rostov numa cidade da ilha neutra que era a Suíça.

Irritado com a intrusão de Rostov na recordação de sua ilha, naquele dia, Brennan expulsou o russo do espírito e consagrou-se a São Lázaro, sem mácula e por inteiro. Contemplando o pequeno campanário, o mosteiro, o jardim fronteiro à água, que surgia indistintamente a seus olhos, abraçou Lisa e tentou recordar-se.

Depois do julgamento do Congresso, do divórcio, do desemprego, da desonra, de sua justa e desesperada fúria, voara para a Europa. Errara sem destino, até que em Veneza, sentindo-se menos oprimido do que em qualquer outra parte, se detivera com a intenção de se demorar apenas três semanas ou três meses, e acabara por ficar três anos. Ao ler atentamente a história da estranha cidade, encontrara-se inesperadamente com Lorde Byron e descobrira a ligação do poeta com São Lázaro. E assim, não tendo mais nada que fazer, Brennan decidira visitar a ilha armênia.

Gostara dela à primeira vista. Os olivais e as alas de ciprestes, o sossego e a animação do porto retirado haviam-no seduzido e ganho para sempre seu espírito perturbado e sua alma. Acima de tudo, seu apreço pelos corteses, amáveis, embora urbanos e ecléticos, padres mechitaristas e irmãos leigos tinha sido recíproco. Elogiaram sua inteligência e compreenderam sua angústia. Com base numa estima mútua, a fraternidade entre eles criara alicerces.

Poucos meses depois, Brennan recebera do abade um convite para fazer de São Lázaro seu lar e aceitar os privilégios de um gabinete para seus estudos, uma sala de onde podia ver ao longe a agulha do campanário de São Marcos. Brennan aceitou com alegria o convite. A partir de então, embora residisse em Veneza, passava a maior parte das tardes em São Lázaro, umas vezes trabalhando, outras, meditando em seu destino.

De repente, notou que Lisa se desprendera de seus braços.

— Aqui estamos — disse ela.

Ele se levantou, esperou que o barqueiro amarrasse o pequeno barco ao cais, depois ajudou Lisa a desembarcar e pediu ao barqueiro que esperasse por eles.

No tranquilo jardim que dava para a laguna, Lisa murmurou:

— Estou contente por termos vindo.

Brennan ficou silencioso durante um longo minuto, respirando o ar fresco impregnado da fragrância sem igual de São Lázaro — uma combinação de aromas que vinham da água verde da laguna, das pétalas das rosas, dos ciprestes —, e contemplou as paredes Irias do mosteiro. Dois séculos e meio antes — recordou —, São Lázaro não passava de um plano e desabitado pedaço de terra que emergia da laguna, entre a ilha principal dos Doges e a ilha do Lido. Não tinha interesse para os venezianos. Quando os exércitos turcos invadiram a Armênia em 1715, o abade Pedro Mechitar, chefe de uma seita de padres cuja religião era a Católica Romana, mas que seguiam os ritos da Igreja Oriental, fugira com seus prosélitos para Veneza. Ali recebera asilo, e, pouco depois, era-lhes oferecido o pedaço de terra deserta de São Lázaro. Nessa ilha privada, Mechitar fundara uma pequena Armênia com influências venezianas, construindo um mosteiro, uma capela, uma escola, uma biblioteca e instalando uma tipografia, fazendo da abandonada terra um dos éiltimos centros sobreviventes da cultura armênia e uma utopia em miniatura para os propensos à contemplação.

Ali, onde Brennan estava agora com Lisa, permanecera muitas vezes Lorde Byron, após sua chegada à ilha no outono de 1816. “Como divertimento”, escrevia Byron a Moore, “estudo diariamente num mosteiro armênio a língua armênia. Achei que meu espírito precisava de qualquer coisa de duro com a qual pudesse se embater...” Regularmente, Byron trabalhava com afinco na biblioteca do mosteiro, mas por fim considerara a língua “obstinada”, como um “alfabeto de Waterloo”. E Brennan compreendeu que, afinal, o que aquela ilha tinha dado ao poeta fora o mesmo que dera a ele:

um breve esquecimento da turbulência do hostil mundo exterior.

Dando o braço a Lisa, Brennan levou-a até o mosteiro e, ao longo dos passeios refrescantes do claustro, puderam ver, por entre as colunas, os frades de batina no pátio do verdejante e colorido jardim. Durante meia hora, subiram e desceram velhas escadas, sem serem interrompidos pelos discretos frades. Entraram na capela, admiraram as inscrições em diversas línguas e examinaram o molde de gesso do Uaiglon, de Canova. Subiram mais escadas, erraram pelo museu, sorrindo à sorridente múmia egípcia e tentando decifrar a carta de Longfellow. Demoraram-se na biblioteca de Byron, inspecionando uma vez mais a gramática armênia em que Sua Graça tinha colaborado. A seguir, visitaram a cela de Brennan, parando de mãos dadas diante da mesa cheia de lápis, almofadas amarelas para carimbos e dicionários de línguas orientais.

Finalmente, sentaram-se num banco ao lado de um cedro-do-líbano, no jardim do edifício central. Um padre alto e bem-barbeado, com um breviário e um ramo de rosas, passou por eles, cumprimentou amavelmente Brennan e Lisa pelos nomes e, prudentemente, seguiu seu caminho.

Os olhos de Lisa acompanharam o padre. Ela voltou-se para Brennan e inquiriu:

— O que pensarão de mim ao me verem sempre aqui com você, aos beijos e de mãos dadas, esses pobres e virtuosos monges?

— Pensarão que é alguma sobrinha minha, jovem e incestuosa.

— Oh, Matt, francamente!

— São muito experientes, tolerantes para com os defeitos e as fraquezas humanas. Veja como me aceitaram, apesar de minha fama. E como nos aceitam agora a ambos. São assaz inteligentes para compreender que a caridade de Deus também abrange os pecadores. Fecharam os olhos à vida privada de Byron, quando ele aqui esteve. Era o tema mais picante das conversas nos cafés da praça. Você sabia que, ao mesmo tempo em que trabalhava aqui, Byron tinha em Veneza uma aventura galante com a mulher de outro homem?

— Está brincando!

— É um fato. Encontrará a confirmação disso em muitas de suas cartas aos amigos. LIavia, como escreveu Byron, “um mercador de Veneza” que tinha uma esposa de vinte e dois anos, chamada Marianna...

— Vinte e dois? Não há dúvida de que está brincando...

— Juro. Sabe como ele a descrevia? Vejamos se me lembro. Sim... “Tem uns grandes e negros olhos orientais, com aquela expressão peculiar” a que Byron não podia resistir. Ora vejamos, sim... “As feições são regulares, um tanto aquilinas, a boca é pequena, a pele, clara e sedosa, com uma espécie de rubor febril” (gosto desse “rubor febril”) e “o cabelo é de um negro brilhante, ondulado, e a cor de Lady J”, e qualquer coisa acerca do corpo, sim... “esplêndido e belo”. Uma descrição prematura de você, Lisa.

— Obrigada.

— Assim, enquanto o signor Segati, o mercador enganado, trabalhava, a mulher divertia-se. Byron tornou-se o cavalier servant e Marianna tornou-se sua amorosa. E os bons e reverendos padres de São Lázaro sabiam disso e não se amofinavam. — Distraidamente, Brennan arrancou um punhado de grama e alisou-a com os dedos, ao mesmo tempo em que concluía:

— Eram tempos românticos.

— É diferente, agora?

— Não — respondeu, fitando-a. — Suponho que não, Lisa.

Com sua habitual franqueza, ela quis saber:

— Por que temos de acabar, Matt? Se você me quer realmente...

— Bem sabe que a quero.

— Nesse caso, venha comigo. Toda essa desonra... essa confusa questão... tudo isso é velho e todos já esqueceram, menos você. Podíamos começar de novo...

— Não está esquecido, Lisa. Foi recordado nessa Conferência de Cúpula, em Paris. Ainda há dias (eu não quis lhe dizer), saiu um artigo no Daily American, de Roma, uma matéria de agência telegráfica, publicada em toda parte, e lá estava o meu nome, toda a confusa questão, como você diz, não esquecida, mas relembrada:

uma súmula dos acontecimentos que conduziram à obtenção da bomba de nêutrons e de foguetes pela China e da consequente ameaça à paz que originou essa Conferência de Cúpula; e entre esses acontecimentos figurava a irresponsável ordem do nosso governo a um esquerdista e desconhecido membro da segurança, ou seja, Matthew Brennan, para que ele fosse a Zurique, onde encorajara um dos nossos principais cientistas nucleares, o professor Varney, a desertar para a China e a ajudar o chamado inimigo a fabricar a dita bomba de nêutrons. E diz que está esquecido, Lisa?

— Mas, Matt...

— Deixe isso comigo — interrompeu ele bruscamente, ao mesmo tempo em que se levantava. — Vamos, está na hora de irmos embora.

Quinze minutos depois, transportados no pequeno barco até a baía de São Marcos e a curta distância do Grande Canal, ancoraram em frente do Gritti Palace Hotel. São Lázaro já não passava de um sonho desfeito.

— Despeço-me aqui, Lisa.

Resignada, ela esboçou um gesto de compreensão.

— Tenho... tenho de estar no hotel quando meu filho chegar.

— Desculpe o fato de eu ser tão difícil — disse ela, puxando-o pela manga. — É claro que tem de estar lá. Compreendo que não possa descurar seu encontro com ele. Gostaria de poder ajudá-lo.

— Eu me arranjarei.

— Acha que ele pode ser desagradável? — perguntou, relutante em deixá-lo.

— Ted? — Encolheu os ombros. — Não sei. Dezessete anos é uma idade difícil para se poder esperar o melhor. Não sei até que ponto ele está zangado comigo nem o que pensa a meu respeito. Há muito que não o vejo. E escrevo-lhe pouco, uma vez que as respostas dele são sempre lacônicas e demasiado formais, simples cartas de obrigação. — Esboçou um meio sorriso. — Talvez se mostre um tanto constrangido, mas este encontro é muito importante para mim. Não se preocupe.

— Claro que me preocupo — replicou ela. Depois, acrescentou:

— Não precisa apressar seu filho para ter tempo de se despedir de mim. Compreenderei. Apenas peço que me telefone para Paris... e me escreva de vez em quando.

— Ted e eu jantaremos cedo. Talvez seja um jantar muito breve. Se assim for, estarei aqui às sete e meia para levá-la à estação. Caso contrário, telefonar-lhe-ei amanhã para Paris.

Ela beijou-o nos lábios e, com os olhos rasos de lágrimas, sussurrou:

— Amarei você para sempre.

Virou as costas e desapareceu no interior do hotel.

Matt Brennan sentiu-se por instantes deprimido, depois dirigiu-se lentamente para o barco que o esperava e ordenou ao barqueiro que o levasse ao Danieli.

Uma vez no vestíbulo do Danieli, encaminhava-se para as escadas quando se lembrou de que estava sem a chave. Recuando até o balcão da portaria, estendeu a mão para receber a chave e viu que lhe entregavam também uma folha de papel dobrada.

Enquanto se dirigia para as escadas, abriu o papel. Era um recado telefônico:

“O sr. Shepperd telefonou cerca das cinco horas. Está à sua espera no Hotel de La Gare Germania. O número é 26489”.

Por instantes, pensando ainda em Lisa, não conseguiu localizar o nome pouco familiar. Shepperd? Conhecia alguém com esse nome? E logo estremeceu e sentiu o rosto contrair-se. Era um nome que já tinha visto duas vezes no remetente das cartas que o filho lhe endereçava de Boston. Shepperd era o segundo marido de Steffi, e Ted, o enteado dele.

A raiva sufocou-o, enquanto subia as escadas. Ted ainda era seu filho, um filho legítimo, produto de sua carne e de seu sangue. Seu filho era Ted Brennan e não outro. Ainda recentemente, e agora de novo, o rapaz se havia revelado muito rebelde, insensível e cruel para se apresentar ao próprio pai como Ted Shepperd.

Notava-se ali o dedo de Steffi, pensou Brennan, e sua ira aplacou-se. Ted não se envergonhava, com certeza, de seu verdadeiro nome; fora Steffi quem ordenara a mudança. Como ainda era capaz de tanta maldade? Ou, perguntou a si próprio, estaria protegendo o filho com esse novo nome, para lhe facilitar a vida no colégio e salvá-lo da vergonha de uma explicação do desonrado nome de Brennan?

De qualquer maneira, era um mau prelúdio para um encontro crucial, refletiu, ao entrar no quarto. Acendeu a luz, esperançoso de que Lisa ali estivesse para consolá-lo, mas Lisa não estava. Passeou agitadamente, pensando no filho chamado Shepperd que em breve iria ver. O rapaz havia sido afetado pela notoriedade da família. Brennan sabia-o, mas nessa altura ele tinha apenas treze anos, quase catorze, e com certeza a separação e o divórcio o haviam magoado muito mais, pelo menos na época. Enquanto Steffi voltava a se casar, dando o nome de Shepperd ao filho e à filhinha e introduzindo-os no respeitável lar e na vida de um médico viúvo de Boston, Brennan viajava pelo estrangeiro. Sabia que, em certo sentido, perdera os filhos.

Visitara os Estados Unidos apenas duas vezes nos últimos três anos, sempre com perspectivas de emprego, que não se tinham concretizado, e de ambas as vezes vira rapidamente o filho, assim como a filha Tracy, que uma governanta levara a Nova York para passarem um dia com ele. A última vez em que estivera com Ted fora cerca de um ano e meio antes, e a pequenina Tracy, que estava gripada, ficara em seu quarto de hotel, rodeada de presentes, enquanto ele e Ted passavam a tarde num jogo de beisebol. O rapaz sentia-se pouco à vontade, tal como ele, mas sobrevivia em ambos algo das relações entre pai e filho, o que ajudara a salvar a tarde, repleta de histórias de família, de cachorros-quentes, das experiências de Ted no colégio e de seus filmes preferidos na televisão. Brennan contara suas aventuras na Itália. Não tinha sido muito mau, fora até quase bom, mas, apesar de tudo, Ted era um garoto de quinze anos, Shepperd não passava ainda de um estranho para ele, e o pai surgia-lhe como um companheiro fascinante e não como um traidor em fuga. Agora, que estava no segundo grau, era Ted Shepperd, porque a identidade contava muito e, além disso, Ted já sabia.

A carta que Brennan encontrara em sua caixa de correio havia três semanas fora inesperada. Não continha senão três parágrafos, estilisticamente curtos e formais. Ted classificara-se em décimo lugar no colégio. Tinha sido admitido em Yale e entraria para lá no outono. Agradecia ao pai o relógio de ouro suíço e o cheque. O presente da mãe tinha sido uma viagem de seis semanas pela Europa. Ted e dois amigos contavam estar em Veneza no dia 14 de junho. “Se estiver aí, arranjarei tempo para visitá-lo.”

Brennan escrevera imediatamente ao filho uma longa e entusiástica carta, felicitando-o por seu diploma e pela admissão em Yale. Sugerira lugares e cidades que o filho e os companheiros poderiam ter interesse em visitar durante a viagem. E, sem dúvida, estaria em Veneza, ansioso por ver o filho. “Iremos jantar juntos, Ted. Prepararei tudo.”

E agora Ted Shepperd havia chegado.

Brennan sentia-se esgotado pelo dia que acabava de passar e pelo que se avizinhava. O último que consagrara a Lisa tinha sido plenamente preenchido. Agora, o último que consagraria a Ted, ou talvez o primeiro de uma longa série, tinha de ser preenchido também.

Com esforço, dirigiu-se para a cama, sentou-se e pegou o telefone. Pediu à telefonista uma ligação para o 26489. Nervosamente, ficou à espera, ouviu o sinal e logo uma voz feminina do outro lado:

“Hotel de la Gare Germania”. Perguntou pelo sr. Ted Shepperd e voltou a esperar.

A voz masculina era grave e desconhecida. Seria Ted ou um de seus amigos?

— Alô? É Ted quem fala? — perguntou Brennan. A partir de agora não faria concessões ao Shepperd, decidiu.

— É Ted. — A voz tornara-se firme.

— Bem-vindo a Veneza, filho.

Houve uma pausa.

— Olá, como está?

— Encantado por ouvir sua voz e saber que você está aqui. Quando chegou?

— Bem... a noite passada... estacionamos o carro fora da cidade e tomamos um desses incríveis barcos.

— Já deu uma volta pela cidade?

— Já. Levantamo-nos cedo e passamos o dia todo passeando. Creio que vimos quase tudo.

— Espero que tenha gostado. Talvez possa mostrar, a você e a seus amigos, qualquer coisa que lhes tenha escapado. Quando você parte?

— Amanhã de manhã, muito cedo.

— Gostaria de convencê-lo a ficar mais um ou dois dias. Não apenas para passar mais algumas horas com você, mas porque realmente há uma quantidade de coisas merecedoras de uma visita.

— Obrigado. Mas temos pouco tempo. Ainda queremos ir a Florença, a Roma e a Capri. Além disso, já estamos fartos de Veneza.

— Desculpe — disse Brennan. — Sei que você tem seus planos. Vamos jantar juntos, não é verdade?

— Sim.

— Alguma preferência? Algum restaurante que lhe interesse conhecer?

— Não.

— Seus amigos também vão?

— Não... vou só eu. Eles convidaram umas moças americanas que encontramos esta manhã em São Marcos.

— Está livre depois do jantar?

Houve uma pausa, depois Ted respondeu com voz sumida:

— Bem... essas moças americanas são três, estã© dando a volta ao mundo e partem esta noite, de modo que prometi sair com elas.

— Muito bem. Gosto de vê-lo cm ação. — Brennan sentiu a mão pegajosa. — Sendo assim, sugiro que jantemos cedo, para que tenha mais tempo. Há aqui excelentes restaurantes. Deixe-me ver...

— Já havia pensado nisso. — Creio que descobri o lugar que nos convém. Já ouviu falar no Bar Harry?

— Sem dúvida. O de Hemingway.

— É esse mesmo. O ambiente é ótimo. Tem a melhor cozinha da Europa. Você vai gostar. Vamos então ao Harry?

— Como queira.

— O Harry, então, por unanimidade. Onde fica o seu hotel?

— Junto à estação da estrada de ferro.

— Irei buscá-lo num barco a motor, dentro de vinte minutos.

— Não é necessário — disse rapidamente Ted. — Podemos nos ver no restaurante.

— E poderá encontrá-lo?

— Hei de encontrá-lo.

— Fica ao fim da Vallaresso, na direção do canal, na esquina. Pode apanhar um vaporetto.

' — Está bem.

— Por volta das seis horas.

— Lá estarei. Agora, tenho de desligar.

— Pois bem. Espero-o à entrada.

Desligando, Brennan notou que as mãos úmidas tremiam. Queria ver o filho, queria falar com ele, embora nesse momento desse tudo para que o rapaz não estivesse em Veneza. O encontro ia ser mais difícil do que imaginara. O rapaz mostrava-se obstinadamente hostil, não evidenciava o mínimo interesse por ele, o mínimo carinho, apenas um respeito forçado. Por que rejeitara Ted tão apressadamente sua ideia de ir buscá-lo? Será que receava se encontrar a sós com o pai, sentia vergonha dele ou o odiava e, por conseguinte, limitava o dever filial a um encontro em local público?

Instintivamente, Brennan sentiu-se aliviado ao pensar que o jantar seria breve e Ted estaria ocupado em seguida... se é que essas moças americanas existiam realmente. Mas, pensando melhor, Brennan desejou subitamente que ele e Ted tivessem mais tempo, muito mais tempo, de maneira a poder conhecer o filho e a que o filho o conhecesse. Queria que Ted o compreendesse totalmente, agora que o rapaz estava na idade de compreender as coisas. Queria que soubesse a verdade, não a verdade de Steffi ou a dos jornais, mas a verdade autêntica, de modo a que pudesse deixar Veneza com verdadeiro respeito pelo pai, cumprindo assim o Quinto Mandamento.

Mas, agora, era demasiado tarde.

Depois, lembrando-se de que Ted já devia estar a caminho, pegou o telefone e chamou o porteiro. Pediu-lhe que telefonasse para o Bar Harry, falasse pessoalmente com o proprietário e lhe dissesse que Brennan e o filho iriam lá jantar dentro em breve e que gostariam qúe lhes reservasse uma das duas mesas do canto ou qualquer outra no fundo da sala.

Em seguida, trocou a camisa esporte por outra azul e pôs uma gravata azul-escura. Vestiu o paletó de tiveed e, assegurando-se de que tinha a carteira, saiu apressadamente do quarto e atravessou o corredor e o vestíbulo do hotel.

A passo largo, Brennan deixou para trás a Piazzetta, continuou ao longo do canal, ultrapassou as vitrinas de novidades da Gardinetti, passou pela estação terminal da Ópera Cômica, abriu caminho através da multidão que saía dos bancos, na estação de São Marcos, e, ao chegar à esquina, hesitou, pensando em retroceder. Encurtou o passo, vacilou, mas finalmente decidiu-se a dobrar a esquina.

Lá estava Ted, encostado à parede, junto da entrada, de mãos nos bolsos, observando o caudal de transeuntes.

Como ainda não tinha sido visto, Brennan pôde olhar atentamente o filho, e o que viu espantou-o, deu-lhe esperança e confiança. Aqueles quarenta e seis cromossomos de dezoito anos antes tinham frutificado, concluiu Brennan. O rapaz, quer gostasse disso ou não, era o filho de seu pai. Era o próprio Matt aos dezoito anos, com o cabelo da mesma cor, embora o de Ted fosse muito mais curto, a mesma magreza, o mesmo ar sério, apesar do rosto cheio de espinhas, e a mesma ossatura desconjuntada. Por coincidência ou por hereditariedade, usava a mesma camisa engomada de colarinhos caídos, a mesma gravata estreita, o mesmo casaco esporte.

Mais tranquilo, Brennan avançou em direção ao filho.

— Folgo em vê-lo, Ted. Desculpe chegar atrasado.

O rapaz voltou-se, contraído. Era quase tão alto quanto Brennan. Mexendo a cabeça, sem sorrir, aceitou sem entusiasmo o aperto de mão do pai.

— Vejo que não teve dificuldade em encontrar o bar — disse Brennan. — Está com belo aspecto, Ted. Cresceu muito desde a última vez em que o vi.

— Obrigado — respondeu Ted. E acrescentou, hesitante:

— Também está com bom aspecto.

— É Veneza... — explicou Brennan, ao mesmo tempo em que dava o braço ao filho. — Vamos nos sentar.

Guiou Ted até as portas giratórias, e entrou com o filho no Bar Harry.

Brennan relanceou os olhos pelo salão. Com exceção do bar ao lado, com dez bancos ocupados por clientes italianos, ingleses e americanos, que bebiam gim com soda e martínis secos, ao mesmo tempo em que mordiscavam sanduíches quentes de prosciutto, o andar térreo do restaurante estava relativamente vazio. Uma hora mais tarde, o local estaria cheio de fumaça e de turistas ricos, de atores e atrizes famosos, de escritores, aristocratas italianos e decadentes contesse com seus acompanhantes masculinos, ágeis, elegantes e efeminados. Mas por ora, com exceção de alguns pares espalhados pela sala, a maior parte das mesas estava desocupada, e Brennan ficou satisfeito. Teria assim alguma intimidade com o filho.

Deu uma cotovelada em Ted e apontou para a esquerda, para uma fotografia encaixilhada na parede, por cima da caixa registradora.

— É um retrato assinado por Ernest Hemingway com Giuseppe Cipriani, o italiano que abriu este local em 1931, se não estou enganado. Hemingway e Cipriani eram muito amigos.

Ted observava a fotografia com evidente interesse, o que agradou a Brennan.

— Sabe por que Giuseppe Cipriani deu a esta casa o nome de Bar Harry?

— Não.

— Cipriani não passava de um empregado de bar. Um abastado americano de Boston, Harry Pickering, travou amizade com Cipriani e emprestou-lhe dinheiro para abrir um restaurante e um bar. A fim de provar sua gratidão, Cipriani deu ao local o nome de seu patrono. É frequentado por celebridades de toda espécie. Ouvi dizer que, nos bons tempos, quatro monarcas jantaram aqui ao mesmo tempo, ocupando cada um sua mesa. Houve outros frequentadores, como Winston Churchill e... Olhe, estão nos fazendo sinal. É melhor irmos para nossa mesa.

Quando passavam pelo bar, o encarregado e seu ajudante saudaram Brennan cordialmente, e ele correspondeu com um sorriso. Depois, o próprio proprietário, radiante, apertou a mão de Brennan e evidenciou seu prazer ao ser apresentado ao rapaz. Junto à mesa do canto, dois expansivos garçons italianos cumprimentaram Brennan com familiaridade e também mostraram prazer em conhecer seu filho.

Sentado, olhando de esguelha para o rapaz, Brennan concluiu que a recepção não poderia ter sido mais afetiva, como se ele fosse da casa. A confusão estava patente no rosto de Ted, e Brennan julgou saber o motivo dessa confusão. Ted chegara ali obcecado pelo dever de se encontrar, embora relutantemente, com um pai marcado, com um moderno Benedict Arnold. Esperava, naturalmente, ver o pai infeliz, um pobre e desprezível traidor; pelo contrário, naquele local público, o atordoado Ted encontrava um pai entusiasticamente saudado, altamente respeitado e francamente admirado.

Sorrindo com simpatia para o pai e para o filho, o garçom perguntou:

— Estão celebrando, esta noite?

Brennan acenou afirmativamente.

— Quer um drinque, Ted?

— Habitualmente, não bebo. Mas posso tomar alguma coisa.

— Não quero corrompê-lo. Sugiro um Bellini. É uma especialidade da casa. Suco de pêssego e champanha. Está bem?

— Sim.

— Um Bellini — pediu Brennan ao garçom. — Para mim, o de costume. Depois, queremos jantar. Meu filho tem um encontro.

Escolheram o menu, ou, antes, Brennan escolheu, enquanto Ted respondia por monossílabos, e, quando as bebidas foram servidas, Brennan estava preparado para encomendar o jantar. Tendo convencido Ted de que os hambúrgueres do Harry, servidos com pão torrado, eram o que havia de melhor no mundo, mandou servir um ao filho e, para ele, pediu fígado de vitela com cebolas' e duas porções de cannelloni, que escolheu da lista de farinacei.

Por fim, ficaram a sós. Ted provou seu drinque de pêssego com champanha sem entusiasmo e, em seguida, olhou-o desconsoladamente. Brennan bebera seu uísque em três goles, na esperança de que o álcool o ajudasse, e, para ter certeza, pediu outra dose.

Encarando o filho de frente, animou-o. Era necessário haver comunicação.

— Como está sua mãe? — perguntou.

Ted ergueu a cabeça, mas evitou os olhos do pai.

— Está bem, está ótima, presumo. Tem consultado alguns médicos. Pensam que é uma bronquite... Agora, está no Havaí, de férias. Levou Tracy com ela.

— E Tracy? Como está?

— Como sempre. Aborrecida. Teve más notas em geografia, de modo que mamãe lhe arranjou um professor particular. É verdade, quase me esquecia... disse-me que lhe agradecesse o presente de aniversário.

— Ela me mandou uma carta bonita. Já escreve bem para seus doze anos.

— Também acho. Recebo cartas dela a cada passo. Está farta do Havaí.

— Por quê?

— Queria vir à Europa comigo.

— Bem, não se esqueça de lhe dar um beijo por mim, quando regressar. Não se esquece, Ted?

— Não, não esqueço.

— E você? Há muito que esperava este nosso encontro. Quero saber tudo a seu respeito.

Ted encarou-o, desconfiado, depois desviou os olhos.

— Tenho pouco para contar. Não há nada de especial.

Brennan acabara de esvaziar o segundo copo de uísque, fez sinal ao garçom e pediu um terceiro. Depois, prestou atenção ao filho.

— Só quero saber o que você tem feito. É difícil descobrir muito através das cartas. Estou com curiosidade de saber o que tem interessado você ultimamente, na escola e fora, que esportes e passatempos prefere, qual o gênero de amigos que possui, as moças com quem sai. E Yale... gostaria de saber que curso tenciona seguir na universidade. E o que pensa desta viagem. Onde esteve exatamente, o que viu e qual o resto de seu itinerário.

— Francamente, não sei. Deixe-me ver... — Sua voz estava sumida, e ele parecia sentir relutância em falar.

— Onde começou a viagem?

— Viemos a bordo do S.S. France, de segunda classe.

— Que tal o achou?

— Balançava muito.

— E depois?

— Londres. Alugamos um carro, um Peugeot, em Amsterdam, e seguimos viagem até...

Prosseguiu aos saltos e monotonamente, como se não desejasse compartilhar suas férias de verão com o pai. Em poucos minutos, Brennan estava no fim da terceira bebida e no final do relato feito de má vontade pelo filho. Para alívio de ambos, trouxeram os cannelloni. Desesperadamente, Ted atirou-se à pasta, enquanto Brennan, ignorando a comida, se entregava ao uísque e à observação insistente de seu confuso filho.

Quando as travessas de cannelloni foram retiradas, Brennan ia na quarta bebida, esperançoso ainda em conseguir um contato mais íntimo com o rapaz. Fez perguntas diretas sobre a vida escolar de Ted e suas relações familiares, mas Ted continuava a responder por monossílabos. O hambúrguer e o fígado de vitela apareceram e desapareceram rapidamente, em meio a grande silêncio, sem que o muro que os separava se desmoronasse.

Desesperado, depois de pedir uma mousse de chocolate para o filho e outro uísque para si, Brennan decidiu fazer um último esforço. Talvez a franqueza arrancasse o rapaz de seu retraimento.

Passou-se.um minuto sem que trocassem uma única palavra, até que Brennan, endireitando-se subitamente na cadeira, disse:

— Ted, quero perguntar-lhe uma coisa com toda a franqueza.

Dir-se-ia que está constrangido. Não parece interessado em mim e muito menos em falar de você. É uma situação estranha entre pai e filho. Portanto, responda-me:

por que diabo está em Veneza e por que quis me ver?

Apanhado de surpresa, Ted pestanejou.

— Por que vim? — inquiriu, confuso.

— Sim, por que veio? Foi sua mãe que o aconselhou a visitar-me?

— Mamãe? — perguntou, num tom enfático. — Ela nem sabe que estou aqui.

— E Tracy, sabe?

— Mais ou menos. — Refletiu por instantes e prosseguiu:

— Talvez saiba. Conversamos a esse respeito. Ela queria saber se eu o veria, pois também desejava vê-lo.

Tracy desejava vê-lo! Oh!, pensou Brennan, as filhas e os pais, o mais belo e seguro amor! Mas Tracy estava longe. O essencial, agora, era Ted, que ainda não respondera à pergunta. Brennan decidiu repeti-la:

— Muito bem, Ted, mas ainda não me disse por que está aqui. Por quê?

A confusão de Ted tinha se transformado em desconforto. Mudou de posição na cadeira e pôs-se a enrolar o guardanapo.

— Achei que devia... que devia...

Brennan interrompeu-o:

— Quer dizer que achou que era esse o seu dever?

— Queria vê-lo.

— Queria? — repetiu Brennan, perguntando a si próprio se aquele desejo teria sido espontâneo ou se não passaria de uma invenção para escamotear o que esperava dele. Brennan teve pena do rapaz, estava disposto a desistir, embora considerasse importante a revelação do mistério. — Queria ver-me, mas não sabe por quê. Seriam saudades à lembrança de um pai? Seria mera curiosidade? Desejo de ver seu pai, era o que toda a gente dizia? Ou teria sido a necessidade de se certificar de que seu pai era exatamente aquilo que os outros diziam, e em seguida, partir sem mais remorsos, livre, enfim, para me relegar ao esquecimento e transferir os restos de amor filial para seu padrasto? — Calou-se, olhando tristemente para o filho, que brincava com o guardanapo, depois franziu a testa. — É isso?

— Não, não sei. — Ted ergueu os olhos. — Não sei.

— Muito bem. Passemos adiante. — Levantou o copo de uísque. — Quer mais alguma coisa?

— Preciso ir ao banheiro.

— Por ali — disse Brennan, indicando uma porta encoberta.

Ted apoiou-se à mesa, deslizou da cadeira e saiu rápida e desajeitadamente.

Brennan relanceou os olhos pelo restaurante. O bar começava a se encher, como sempre. Do outro lado, para além das portas giratórias, podia ver o dia que declinava, na expectativa das trevas. Olhou para o relógio. O mostrador indicava sete e dez. Tinha pouco tempo, se é que havia ainda alguma coisa para dizer. Tentara tudo, mas não conseguira arrancar nada do filho, embora este tivesse arrancado alguma coisa dele. Tudo havia sido dito. No entanto, a verdade continuava por demonstrar. Talvez devesse fazer uma última tentativa, descobrir uma definição da verdade ou conformar-se com a perda definitiva do filho.

Bebeu vagarosamente e sentiu o sabor e o aroma do uísque no cérebro, um tanto turvado, embora isso o libertasse da hesitação c lhe aclarasse as ideias. Queria que Ted continuasse seu filho. Queria a sua estima. Talvez já fosse demasiado tarde para ganhar a partida, mas, quer ganhasse quer perdesse, dessa vez queria a verdade.

Esperou impacientemente, perguntando a si próprio por que motivo Ted demorava tanto, o que diria e como reagiria quando voltasse, no caso de voltar.

Viu-o avançar por entre as mesas. Quando ergueu a cabeça, Ted já estava na sua frente, de pé, fazendo um esforço para retomar a cadeira.

— Acabo de olhar para o relógio — balbuciou Ted. — Creio que está na hora de ir embora.

— Daqui a pouco — disse Brennan com firmeza. — Sente-se.

Surpreso, o rapaz ocupou seu lugar do outro lado da mesa, deixando-se cair indolentemente na cadeira, revelando no rosto cheio de espinhas sinais de hesitação e receio.

Brennan afastou o copo e, de mãos juntas, apoiou os cotovelos na mesa. Olhou diretamente para o filho.

— Deixarei você partir daqui a pouco, Ted, mas primeiro saberá a verdade.

— O que quer dizer?

— A verdade acerca de seu pai, mesmo que isso o magoe, mas a verdade pura e simples.

Ted pestanejou, mas não proferiu palavra.

— Quando o. caso se deu, você era demasiado jovem para compreender — começou Brennan. — Tinha... quantos anos?... Catorze incompletos. Agora tem quase dezoito, e, por iso, posso falar-lhe como a um adulto.

Ted protestou:

— Não precisa fazê-lo. Eu sei...

— Não sabe nada — cortou Brennan elevando a voz, o que fez com que várias pessoas que se encontravam perto erguessem os olhos. Brennan conseguiu dominar-se e recomeçou a falar em tom mais baixo e rápido:

— Tudo o que julga saber vem de fontes duvidosas e de sua mãe, cujo julgamento foi influenciado por considerações pessoais, ou de seus amigos, cujas opiniões provêm dos pais, que nunca conseguiram ter acesso ao processo, ou de sua leitura de artigos requentados nos jornais e livros de história. Tudo o que sabe, proveniente dessas fontes, leva-o a supor que é filho de um traidor, de um quinta-coluna, de um espião, de um homem que atraiçoou sua pátria. Tudo o que sabe, de acordo com suas fontes, é que seu pai é pelo menos um Klaus Fuchs, um Rosenberg, ou então um Alger Hiss. É assim, não é verdade?

— Eu nunca disse...

— Mas é assim, não é?

— Não...

— Basta, deixe de fingir! Tente ser honesto, pelo menos uma vez. — Olhou ebriamente para o filho. — É o que pensa, não é?

Ted corou e replicou em voz trêmula:

— Se é inocente, por que nunca tentou prová-lo? Por quê? Por que fugiu?

Finalmente, pensou Brennan, e sentiu-se melhor. Ódio e vergonha já não eram invisíveis. Estavam ali, evidentes, sujeitos à luta.

— Agora — disse Brennan calmamente — podemos conversar.

No entanto, não ia ser fácil. Havia muito, demasiado até, para decidir em tão pouco tempo e naquele lugar. O filho fizera finalmente uma pergunta, e talvez a resposta a ela fosse o suficiente. A verdade seria o único bastião que podia mostrar ao filho contra o assalto das distorções e mentiras.

Olhou-o por sobre a mesa. Ted estava sentado, numa atitude de expectativa e receio.

Brennan começou a falar rapidamente:

— Se eu era inocente, perguntou você, por que motivo não o provei? É uma pergunta inteligente. Eu era inocente, Ted, absolutamente inocente, não por não terem me considerado culpado, mas porque nada fiz de mau, e três pessoas sabiam disso; eu sabia, mas não pude provar nada, nem apresentar essas três pessoas. Tinha se dado um escândalo político. Era preciso um bode expiatório político. Fui eu a vítima escolhida, não por haver provas ou por justiça, mas por manobra criminosa. Parafraseando Rousseau, se não tivesse existido um senador Joe McCarthy nessa época, a sociedade tê-lo-ia inventado. Existiram McCarthys, assim como vítimas, antes do próprio McCarthy. Existiam homens assim há três anos, que reclamavam vítimas, e aconteceu de eu ser um alvo vulnerável.

Calou-se, como se refletisse sobre suas últimas palavras, e sentiu que, para o filho, mesmo para seu filho, aquilo não passava de uma defesa unilateral, de frases de autojustificação contra a augusta e unânime sentença de seus pares. Daria muito pouco a Ted, sabia-o, se não lhe desse os fatos.

— Há quatro anos — continuou Brennan —, após centenas de discussões com os representantes da China vermelha, em Varsóvia, os chineses concordaram em participar com os Estados Unidos, a União Soviética, a Grã-Bretanha e a França, de uma conferência preliminar de ministros do Exterior em Zurique... uma preparação para a reunião posterior de alto nível, em que seria assinado um tratado definitivo sobre o'desarmamento. Nesse aspecto, a China era um membro extremamente forte do clube nuclear mundial, mas mesmo assim um pouco atrasada em relação a nós na produção de bombas termonucleares de concepção avançada e, além disso, dependente de um sistema de entrega a longo prazo. No entanto, reconhecíamos que os chineses podiam tratar conosco em nível militar igual e até melhor, dentro de pouco tempo. Por outro lado, o clima na China parecia bom. O presidente Kuo mostrava-se mais realista do que seus predeccssores, mais preocupado com o fato de outro programa econômico de fomento interno vir a redundar em mais um erro, e preocupava-se menos com uma agressão militar. O presidente estava demitindo os maoístas de posições-chave e citando o antigo texto Yenan de Mao, segundo o qual a política da China devia ser a de “evitar comprometer-se definitivamente em qualquer campanha ou batalha, se a vitória fosse incerta, e evitar em absoluto um compromisso estratégico decisivo, que pusesse em risco os destinos da nação”. Era uma China com a qual se podiam encetar conversações. Mas, antes de se proceder a um encontro de alto nível, achamos que havia certas arestas que era necessário remover, arestas que envolviam conflitos de caráter geográfico... no Japão, na índia, no Sudoeste Asiático, nas fronteiras siberianas... assim como problemas de prisioneiros de guerra, comércio, etc.

“Igualmente importante, antes da projetada Conferência de Cúpula, era o aplainamento das dificuldades que se opunham ao desarmamento nuclear. Por exemplo, se cada um de nós concordasse em reduzir as capacidades de guerra convencionais, como fazê-lo equitativamente? Éramos uma potência aérea. A China era uma potência terrestre. Quem abdicaria de uma parte? Além disso, havia o problema da fiscalização. Se cada um reduzisse seu armamento por períodos de seis ou oito anos, como poderíamos ter certeza de que um país qualquer não estaria violando o tratado, ocultando algumas bombas nucleares? Ou, então, o problema dos membros dos grupos neutros de inspeção. Como poderíamos saber se os relatórios eram verdadeiros, se não estávamos tratando com agentes anticomunistas ou comunistas, com fanáticos, loucos ou instáveis? Como vê, Ted, esses pormenores tinham de ser analisados antes de irmos para a importante conferência de alto nível. Em suma, era indispensável uma reunião preliminar, que se realizou em Zurique, na Suíça.

“Quando foram convocados os nossos delegados para Zurique, Simon Madlock, o braço direito do presidente Earnshaw (hoje todos consideraram que Madlock era o verdadeiro presidente na época)... bem, Madlock chamou-me e nomeou-me delegado, devido à minha experiência no campo do desarmamento e porque sabia que minha dedicaçao à causa da paz mundial seria agradável aos chineses. Então, quase no último minuto, Madlock nomeou o professor Varney, da Caltech, para fazer parte de meu grupo. Na opinião de Madlock, a presença de Varney impressionaria os desconfiados chineses, em primeiro lugar devido ao seu prestígio, pois era o celebrado pai da bomba de nêutrons, arma que a China não possuía ainda; em segundo lugar, porque, ao contrário de seus colegas mais beligerantes, Varney fizera muitas declarações conciliatórias acerca da amizade com a China vermelha e participara ativamente de manifestações de “abaixo a bomba”, talvez para expiar suas culpas por ter ajudado a fabricar a referida arma. Comecei por fazer um pequeno inquérito à minha volta, dei mesmo uma olhadela no relatório da cia sobre Varney e comecei a ter dúvidas quanto ao professor. Arranjei coragem para me encontrar com Simon Madlock, e, frente a frente, apenas nós dois, disse-lhe que me sentiria mais à vontade sem Varney em meu grupo. Não podia lhe confessar que tinha visto um relatório secreto da cia que considerava Varney um risco para a segurança. Mas podia dizer a Madlock, e o fiz, que as noções de Varney acerca da paz eram emocionais, sem maturidade, impraticáveis, e que a presença dele impediria a aproximação realista formulada pela Agência de Controle e Desarmamento dos Estados Unidos. Madlock nem sequer quis me ouvir. Amadores como o professor Varney, insistiu ele, eram muitas vezes mais eficientes do que profissionais como eu. Além disso, o Hung Chi, o jornal do Comitê Central da China, tinha chamado Varney diversas vezes de “uma flor no reacionário jardim de sementes venenosas”. Em resumo, Varney nos acompanharia. E meu dever, além de minhas obrigações regulares, era mantê-lo num caminho tanto quanto possível prático, visto ele ser politicamente imaturo, utilizá-lo da melhor maneira e vigiá-lo de modo geral. Porque Varney era altamente individualista, Madlock não queria que ele fizesse declarações contrárias à nossa política oficial. E assim, com relutância, fomos para Zurique com Varney... Nunca tinha ouvido nada a respeito disso, não é, Ted?”

— Francamente, não.

— É verdade, e é importante para você poder julgar o que aconteceu em seguida. Não vou entrar em pormenores sobre a conferência. Ficou tudo escrito. Mas quero falar-lhe de alguém que estava lá. Nessa época, a Rússia considerava a China vermelha uma ameaça tanto para ela como para nós. Os russos estavam do nosso lado, trabalhavam com o Ocidente para trazer a China ao bom caminho. Ora, o meu colega da delegação russa era um jovem, dois ou três anos mais novo do que eu, chamado Nikolai Rostov. Um tipo simpático e dinâmico. Dir-se-ia um Górki em sua juventude. Rostov, com suas espessas sobrancelhas, sua cabeça de NeanderLhal, de roupas amarrotadas e maneiras rudes, parecia um descendente dos mujiques, o que em parte era verdadeiro. Do lado da mãe, descendia de uma família de sábios. O pai, um lavrador, era um antiintelectual, um ébrio, sem força de vontade, que vivia às custas da mulher e do filho. Rostov adorava a mãe e desprezava o pai, embora houvesse nele um pouco de ambos. Devido a uma natural disposição de espírito, Rostov era bastante erudito e capaz de citar Púchkin de trás para diante. Falava um inglês correto, embora não idiomático. E, apesar de ser um comunista leal, não era um papagaio fanático, que repetisse a todo momento a litania do dogma. Tornamo-nos até bons amigos, pelo menos era o que eu pensava. Seja como for, o professor Varney, com seu idealismo aéreo, mostrou-se tão difícil como se esperava, e Rostov detestou-o tanto como eu. Costumávamos discutir constantemente com Varney. Eu discutia suas impraticáveis ideias para a paz, e Rostov argumentava contra sua irreal interpretação da nova China.

“Então, Ted, tudo começou a correr mal, tudo se baralhou e aconteceu no mesmo, dia, aquele em que a conferência foi adiada. Eu estava tomando notas, por volta da hora do almoço, em meu quarto do Carlton-Elite, quando Rostov veio ter comigo extremamente agitado. Tinha sabido, por um sujeito do kgb, que o professor Varney havia visitado secretamente por duas vezes os delegados da China vermelha, à noite, em seus quartos do Grande Ilotei Dolder. Essa espécie de conversações privadas e unilaterais eram estritamente proibidas pelos regulamentos de segurança, e isso me enervou. Tanto Rostov como eu corremos para o Baur au Lac, onde Varney insistira em ficar por causa da vista para o lago. Nós o encontramos c lançamos-lhe na cara o que sabíamos de suas atividades, mas o velho tratou-nos como se não passássemos de crianças. Admitiu ter visitado por duas vezes os chineses, principalmente o famoso físico dr. Ho Ta-peng. Varney estava convencido de que os cientistas falavam uma língua comum. Também era de opinião que poderia realizar mais daquela maneira, com os chineses, do que nós com as formais reuniões no Kongresshaus. Tentava provar-lhes que nossas intenções eram honestas e pacíficas, e era óbvio que começavam a acreditar nele, pois já o tinham convidado a visitar Pequim.

“Ora, Rostov e eu imploramos a Varney que não prosseguisse naquele caminho, que não visitasse qualquer outro chinês sem que um de nós estivesse presente. Ao fim de uma hora exaustiva, conseguimos convencê-lo. Prometeu portar-se com juízo. Mas, assim que deixamos o hotel, novas dificuldades surgiram. Rostov decidiu falar com seus superiores, e eu resolvi telefonar diretamente a Simon Madlock, na Casa Branca. Fui ao nosso quartel-general, fiz a chamada, e a única coisa que consegui foi saber que Madlock não estava. Quando me referi à urgência da mensagem, aconselharam-mc a tentar algumas horas mais tarde.

“Voltei ao hotel, e, quando ia entrando no quarto, o telefone tocou. Era Nikolai Rostov. Tinha notícias terríveis. Acabava de saber que o professor Varney havia desertado para a China vermelha. Uma hora antes, em companhia de um grupo de delegados chineses, físicos nucleares como ele, metera-se a bordo de um avião de uma companhia do Paquistão e partira. Fiquei atordoado, sem poder falar, não só por causa da deserção, mas também por suas consequências. Rostov, porém, ainda tinha mais para contar. Não seriamos comprometidos, assegurava-me. Ele havia recebido uma nota endereçada a nós dois, escrita de próprio punho por Varney. Rostov lcu-a duas vezes para mim, e, na segunda, li-a textualmente. Dizia:

‘Caro Nikolai e Matthew. Após muitas indecisões, decidi ir para a China e consagrar-me a um trabalho de missionário, tentando convertê-la à paz. Sei que ambos lutaram esforçadamente a fim de me impedir de ver meus irmãos chineses, mas estou convencido de que seu ponto de vista está errado e o meu, certo. Só concedendo à China a igualdade é que o Ocidente poderá ganhar sua confiança, ao mesmo tempo em que obrigará os militaristas de nossos países a porem termo à sua estratégia catoniana, seu eco do grito de Catão:

Cartago deve ser destruída, e cessar com os atos agressivos. Forçá-lo-emos a tratar seriamente com a nova China, com vista a uma paz duradoura. Vou consagrar o resto de minha vida a essa paz. Desculpem minha repentina partida. É seu trabalho que faço. Esta nota absolve-os de qualquer responsabilidade em relação à minha decisão, tomada por imperativo de consciência. Varney’.

“A nota servia-me ao menos de consolo, pois eu sabia que minha posição era precária. Varney tinha sido confiado à minha guarda, apesar de meus protestos, c agora desertava para os inimigos dos Estados Unidos com os segredos americanos. Eu teria de arranjar uma explicação. Não duvidava de que essa minha explicação fosse satisfatória, visto eu ter sido um simples instrumento na ofensiva de paz de Madlock, que agia em nome do presidente Earnshaw. Contudo, compreendi intuitivamente que teria de reforçar minha defesa.

“Quando me recompus do choque inicial, perguntei a Rostov se continuava na posse da nota de despedida de Varney, que nos inocentava. Rostov garantiu-me que tinha a preciosa nota na mão. Disse-lhe que era de suma importância para mim possuir o original ou uma fotocópia. Rostov compreendeu e prometeu mandar tirar imediatamente uma fotocópia para ele, trazendo-me dentro de uma hora, pessoalmente, o original no Carlton-Elite. Pediu-me que não saísse e desligou.

“Esperei. Rostov não apareceu ao fim da hora marcada nem na seguinte. Inquieto, pus-me a fazer telefonemas, tentando localizá-lo no hotel que servia de quartel-general a sua delegação, no seu gabinete do Kongresshaus de Zurique, mas todos me respondiam que ele não estava, embora não devesse tardar. Sentia-me desorientado demais para continuar ao telefone. Corri ao hotel de Rostov e perguntei por ele. Disseram-me que já não estava ali. Tinha pago a conta havia duas horas. Insisti em que procurassem uma mensagem ou um envelope dirigido a Matthew Brennan. Não havia mensagem nem envelope. Em suma, nenhuma cópia da nota de Varney para me justificar. Muito mais tarde, soube que, quando Rostov acabou de me telefonar, agentes do kgb entraram em seu quarto e forçaram-no a regressar a Moscou, a fim de ser interrogado.

“Foi a última vez que ouvi falar de Rostov. Não voltei a vê-lo nem a ter notícias dele.

“Creio agora, Ted, que você adivinha o que se passou em seguida. A deserção de Varney para a China vermelha encheu as primeiras páginas dos jornais de todo o mundo. Isso causou um barulho dos diabos nos Estados Unidos. E, antes que eu deixasse Zurique, já se sabia que o professor Varney tinha chegado são e salvo a Pequim. Dera uma entrevista coletiva no Hotel Hsin Hsiao e fora entrevistado para o jornal oficial do governo, Hung Chi, declarando que sua missão era partilhar com os cientistas nucleares chineses a bomba de nêutrons, o que proporcionaria à China a força suficiente para obrigar as potências ocidentais a trocarem seus propósitos beligerantes por reais conversações de paz. Lembro-me de que o marechal Chen, vice-presidente do Comitê Central do Partido Comunista Chinês, disse nessa altura:

‘A paz nasce nos canos dos fuzis’. Mas a maior parte de nós não tinha esquecido a citação original, feita alguns anos antes por Mao Tsé-tung:

‘O poder nasce nos canos dos fuzis’.

“De um dia para o outro começaram a aparecer na imprensa americana editoriais que exigiam o nome do responsável por aquele horrendo erro de segurança. Eu me senti profundamente perturbado, mas confiante ainda em minha defesa pessoal. Embora não pudesse apresentar nem Varney nem Rostov para testemunharem minha inocência, possuía um terceiro, muito mais importante. Era o braço direito do presidente, Simon Madlock, que declararia que tinha sido ele quem indicara Varney para fazer parte de nossa delegação. Eu estava convencido de que ele confessaria que, em particular, eu me havia oposto à nomeação de Varney, avisando-o de que ele poderia constituir um perigo; concluiria que os acontecimentos me haviam dado razão. É que Madlock, quaisquer que fossem seus defeitos, era um homem honesto. Eu sabia que, sob juramento, proclamaria minha inocência e assumiria toda a responsabilidade do fracasso. Fui um dos vários delegados que, detidos durante três ou quatro dias em Zurique, foram submetidos a interrogatórios pela cia e outros serviços secretos. Depois, regressamos à pátria.

“Mal acabava de descer do avião, no Aeroporto Kennedy, quando soube da última e, para mim, mais terrível das notícias. Duas horas antes, no Hospital Walter Reed, Simon Madlock falecera vitimado por uma súbita crise coronária.

“Sabe como me senti, Ted? Vou lhe dizer. Como o jornalista de um desses romances policiais que você gosta de ler, que simula ter cometido um crime para apanhar o verdadeiro criminoso, sendo que o único a saber de sua artimanha é o promotor público; de repente, o promotor morre e o jornalista não tem testemunhas que provem sua inocência. Leu histórias como essa centenas de vezes, e sempre as considerou ficção ridícula. Todavia, foi o que se passou comigo.

“O resultado não se fez esperar. A Comissão Conjunta da Segurança Internacional de Dexter procedeu a um inquérito público. Inutilmente, diga-se de passagem. Consegui convencer a secretária de Madlock a procurar as notas tomadas durante nosso encontro particular. Não existiam. Tentei obter uma declaração, reconhecida, do professor Varney em Pequim. Foi tempo perdido. Procurei, através de nossa embaixada em Moscou e de nossos correspondentes na Rússia, descobrir Nikolai Rostov, para lhe pedir uma cópia da nota de Varney. Rostov tinha sumido. Durante as semanas do julgamento e ao longo do ano que se seguiu, dirigi apelos a Rostov. Não houve resposta de Rostov nem de qualquer outro, apenas um rumor de que Rostov havia sido punido por sua falta de cuidado e mandado para a Sibéria com um posto mais baixo.

“Provar minha inocência, Ted? Acredite que o tentei e tenho continuado a tentar. Mas creio que Varney está tão morto como Madlock, e Rostov continua a expiar sua culpa. Sou a única testemunha de minha própria inocência.

“Disse que fugi. Perguntou por que motivo. Vou dizer-lhe. É que fui obrigado, devido à minha condenação, a me demitir da Agência de Desarmamento. Em parte alguma havia emprego disponível para mim. Além disso, sua mãe, creio que ela não tinha outra alternativa, deixou-me e levou você e Tracy. Não havia qualquer razão para continuar numa comunidade onde me consideravam um pária, para continuar numa família que fugia de mim. Talvez fosse covardia de minha parte optar pelo exílio, mas confesso que nessa época eu era covarde. Vim, portanto, para o estrangeiro, condenei-me a esta cidade-ilha, onde me aceitaram pelo que sou e não pelo que poderia ter sido.”

Brennan calou-se, ofegante, emocionalmente fatigado, de garganta e pulmões secos. Mas logo prosseguiu com um imperceptível sorriso:

— Aqui tem o Judas do seu pai, meu rapaz. Lamento ter sido tão duro. Foi você, porém, quem o exigiu, ao vir aqui, e eu tinha de lhe dizer... não porque fosse importante para você, mas porque era importante para mim. — Sorria agora abertamente. — Tudo bem, Ted?

O rapaz fez um gesto afirmativo. Tentou falar e conseguiu-o, embora a grande custo e desviando o olhar:

— Sim.

Brennan teve pena dele. Ted tinha se mantido rígido e fleumaticamente sentado durante a longa fala, como um jovem espartano treinado para suportar e sobreviver a qualquer prova humana. Contudo, era evidente que estava perturbado. Dir-se-ia um adolescente crescido que tentava refugiar-se na infância, ao mesmo tempo em que se esforçava por resistir ao desejo. Sua compostura tinha sido abalada, e só lhe restavam fragmentos:

os olhos tristes e pestanejantes, os lábios trêmulos, as mãos que se abriam e fechavam.

Brennan sofria por ele, desejava passar-lhe um braço pelos ombros, como outrora, e apresentar-se a Ted não como advogado em causa própria, mas como pai carinhoso. Ted comparecera àquele encontro com um único objetivo. Esse objetivo tinha sido descoberto, esfarrapado, e agora, possivelmente, era presa de duas tendências, o que lhe causava estranheza e incômodo.

Brennan pressentia que na mente do filho tomava forma a recente declaração do pai. Mas essa mesma mente já estava dominada por outra declaração, esta de acusação, feita quatro anos antes, de uma mãe severa, de murmúrios dos amigos, de histórias forjadas nos jornais, anos em que o pai lhe surgia como um causador de distúrbios e não como protetor, em que via o pai como um traidor e não como alguém que inspirasse segurança. Poderia a declaração feita no Bar Harry de Veneza apagar tudo aquilo que o rapaz ouvira nos últimos anos?

Brennan não sabia. E não queria saber.

Via Ted mexer-se impacientemente na cadeira. Via que o rapaz tentava libertar-se de suas meias culpas e da total confusão que o pai representava.

— Está ficando tarde, Ted — disse Brennan. — É melhor você ir embora. Não quero que perca sua única noite na cidade de Veneza.

Ted hesitou:

— Acho... creio que sim. Estão à minha espera.

Brennan afastou a cadeira e levantou-se, tentando tornar a despedida mais fácil para o filho, que, rápida e reconhecidamente, se ergueu.

— Parte amanhã de manhã? — perguntou Brennan.

— Como disse, partiremos muito cedo para Florença e de lá para Roma.

— Gostará de ambas. Quer algumas sugestões para visitas?

— Obrigado, mas só nos restam dois dias, e meus amigos já marcaram nos guias turísticos o que lhes interessa ver.

— Nesse caso, boa sorte. — E Brennan estendeu formalmente a mão. — Escrever-lhe-ei para Yale. — Ted apertou com força a mão paterna, depois largou-a, ao mesmo tempo em que Brennan acrescentava:

— Escreva-me quando tiver algum tempo. Continuarei no mesmo lugar.

Por instantes, ficaram separados por milímetros, o filho olhando-o de frente, enternecido. O pomo-de-adão subia e descia, como se Ted se esforçasse por dizer qualquer coisa, por oferecer qualquer coisa, talvez um pouco de amor. Mas não disse nada, a não ser:

“Escreverei. Obrigado por tudo”, e Brennan nunca o saberia.

Brennan voltou-se para ver o filho atravessar a sala, transpor as portas giratórias, perder-se em Veneza e sair de sua vida. Lamentou que, ao menos uma vez, uma única vez, não lhe tivesse chamado de pai.

Brennan voltou a sentar-se, tentando compreender, e, após uns minutos de reflexão, compreendeu tudo. Ted saíra daquela maneira, incapaz de falar, porque não quisera trair a mãe, a única pessoa de quem ainda dependia.

Em sua total solidão, contemplando morosamente o copo de uísque vazio, Brennan pensou em pedir outra bebida que lhe fizesse companhia. O canto fúnebre estava ensaiado:

arrivederci, Ted; arrivederci, Lisa; arrivederci, tudo. Mas lembrou-se de que Lisa não partira ainda e prometera ir despedir-se, se lhe fosse possível.

Após ter experimentado a dor de outra partida emocional, decidiu-se pelo prazer de contemplar uma vez mais o adorável rosto de Lisa, e compreendeu que tinha de voltar a vê-la, uma última vez, por muito dolorosa que fosse a despedida. Faltavam vinte minutos para as oito. Ainda chegaria a tempo.

Retirou do bolso do paletó a carteira e, imediatamente, como sempre, a sensação de vazio dissipou-se ao sentir o enorme volume de notas estrangeiras e o passaporte sempre atualizado. Nessa noite, ao contrário de todas as outras, não queria ser Philip Nolan, o Homem sem Pátria. Decidido a renunciar a esse papel, pagou a conta, correu para o telefone que ficava no vestiário e pediu o Gritti Palace Hotel. Para surpresa sua, a telefonista informou-o de que a srta. Elizabeth Collins tinha saído havia dez minutos.

Apanhá-la-ia na estação.

Deixando apressadamente o Bar Harry, Brennan dirigiu-se para a rumorejante estação de São Marcos. Ignorando os gondoleiros, procurou um barco de aluguel, a motor, e ordenou ao piloto que o levasse o mais depressa possível à estação da estrada de ferro. Ouviu as habituais lamúrias em italiano acerca dos regulamentos de trânsito, concordou pacientemente e desceu para a escura cabina.

Quando o barco se pôs em movimento, atravessando a baía e transpondo a larga abertura do Grande Canal, Brennan sentiu-se tomado de claustrofobia. Agachando-se, saiu para a coberta e sentou-se num banco baixo, ao lado do piloto, oferecendo o rosto à brisa noturna de Veneza.

Por momentos, Brennan prestou atenção às fachadas góticas e renascentistas dos palazzi, que resplendiam às margens do canal. Depois de ter passado pelo terraço-restaurante do Gritti Palace Hotel, pôde ver o imponente contorno da Esquina da Ca’Grande, de Sansovino, o descomunal Palácio Rezzonico, os Palácios Mocenigo, onde Lorde Byron vivia na época em que encontrara e tomara como amante a condessa Guiccioli, e a seguir os dois palácios do município, que Ruskin havia gabado, louvado, e, por último, Brennan fechou os olhos ao panorama tantas vezes admirado. Sem Lisa, não tinha qualquer interesse.

Só quando o barco a motor se deteve numa parada, Brennan abriu os olhos, julgando ter chegado à estação. Ficou irritado ao verificar que haviam parado apenas por causa de um sinal de trânsito, uma luz vermelha (a sinalização luminosa do canal sempre o divertia, mas nessa noite enfureceu-o). A luz mudou, e prosseguiram. Em breve ouviu o barco embater no cais de cimento, voltou a abrir os olhos, levantou-se e viu que estava em frente da estação da estrada de ferro.

Ergueu-se agilmente, pagou três mil liras ao piloto, saltou para terra e atirou uma gorjeta ao ganzer, que, encostado ao mastro, lhe estendia a palma da mão. Sem perder tempo, Brennan atravessou a vasta praça que conduzia ao interior da estação da estrada de ferro. Sempre gostara daquele passeio, e gostou dele nesse momento, da extensão branca das águas, dos degraus da estação, das suaves vozes italianas abafadas pelos musicais acordes de Ciao, Venezia.

Ao atingir o cimo das escadas, Brennan viu um jovem italiano com um lustroso boné marrom-escuro e uma farda de imaculada brancura que se dirigia a ele, furando por entre uma multidão de recepcionistas e angariadores do hotel.

O jovem italiano levou os dedos à pala do boné, por cima da qual se lia “Royal Danieli Excelsior”, e inquiriu, solícito:

— Boa noite, sr. Brennan. Deseja alguma coisa?

— Nada, Alfredo, obrigado. Venho despedir-me de uma pessoa amiga que parte para Paris.

Já dentro da estação, Brennan consultou o relógio. Faltavam dez minutos para a partida de Lisa, e ele se sentia envergonhado de ter vindo de mãos vazias. Olhou para as lojas profusamente iluminadas, parou diante do quiosque, lançou um rápido olhar aos últimos periódicos e decidiu-se por duas revistas italianas e um exemplar desse dia do Daily American de Roma, para Lisa ler no trem.

Quando se dispunha a ir para a plataforma junto à linha do trem, olhou involuntariamente para a primeira página do Daily American de Roma, para as notícias de um mundo que já não o interessava. Uma das manchetes e o respectivo artigo referiam-se aos representantes das cinco grandes potências mundiais que estariam presentes em Paris, na Conferência de Cúpula. Uma fotografia de três colunas, no meio da primeira página, chamou a atenção de Brennan. Por cima, lia-se:

“Os chefes russos deixam Moscou, a caminho da importante Conferência de Paris”.

Automaticamente, olhou para as personagens que figuravam na fotografia oficial da Tass. Eram os rostos diferentes de uma nova Rússia, os semblantes afáveis de uma geração mais nova de comunistas russos que lograra compreender que seus futuros interesses eram iguais aos interesses dos Estados Unidos e que o obstáculo comum à prosperidade e à paz mundial residia na República Popular da China.

Brennan reconheceu imediatamente o rosto ao centro da foto, o rosto balofo do primeiro-ministro Alexander Talanski. O rosto mais duro, ao lado do do primeiro-ministro, pensou Brennan, era sem dúvida o de um herói militar da União Soviética, o vice-primeiro-ministro Zabbin. Os outros rostos, de aspecto tão sensato e benévolo (enquanto não se encontravam à mesa dos debates, refletiu Brennan), eram de gente para ele desconhecida, membros do Presidium, físicos ou especialistas, sem dúvida. Então, ao chegar ao fim do grupo, seus olhos se cravaram no último rosto, ele o analisou e sentiu a pele das têmporas e das faces arrepanhar-se. A semelhança era fantástica, mas considerava isso impossível, absolutamente impossível.

Aproximou a fotografia dos olhos. O jornal era granuloso, o rosto da personagem do extremo da fila era agora suficientemente claro para ser identificado. E ali estava, semelhante a Górki na sua juventude, o rosto do primitivo Cro-Magnon, a rude face do camponês russo em que a inteligência e a erudição se ocultavam, o rosto de Zurique, o rosto do escândalo Varney, o rosto que tinha desaparecido da face da Terra e de sua vida havia quatro anos. Seria possível? Ou tratar-se-ia de um gêmeo?

Os olhos de Brennan percorreram a legenda. Era a delegação russa à conferência, esperada em Paris na manhã do dia seguinte. “Na fila da frente, da esquerda para a direita:

ministro assist. para os Negócios do Extremo Oriente, N. Rostov...”

Rostov!

Estava confirmado. Era verdade. Tratava-se de Rostov e não de qualquer outro. Tinha sido readmitido no serviço público. Vinha a caminho de Paris. Estava vivo, era acessível, a encarnação da esperança.

Rostov!

O coração de Brennan pulsava, violento. Ele tentou dominar-se, pensar com clareza, mas o passado, o presente e o futuro — agora o futuro, também — enchiam-lhe o espírito, golpeavam-lhe o cérebro, desorientavam-no.

Admirado, olhou para o relógio da estação. Faltavam quatro minutos.

Era como se tivesse recebido uma descarga elétrica. Galvanizado, dirigiu-se para a entrada da estação e, esforçando-se por não correr, a passo largo, chegou ao cimo das escadas.

— Alfredo! — gritou.

Não se sabe como, o representante do Danieli materializou-se, murmurando, enquanto tirava o boné:

— Signor Brennan, si...

— Escute, Alfredo... — Agarrou fortemente, com a mão livre, o ombro do italiano e obrigou-o a aproximar-se — veja se não esquece nada. Surgiu uma emergência e tenho de partir para Paris, imediatamente. Não tenho tempo de fazer as malas nem de pagar a conta no hotel. Telefone para lá, chame o gerente, diga-lhe que tive de ir inesperadamente a Paris e que pode dispor de meus aposentos. Depois, fale com o porteiro e peça-lhe que mande dois criados ao apartamento 116. Que peguem as duas malas maiores, as de couro marrom, e ponham dentro delas três ternos, ou melhor, quatro, dois de noite e dois de passeio, camisas, cuecas, sapatos, pijamas, os meus artigos de toucador, e que enviem essas malas para cá e as façam despachar no primeiro trem noturno para Paris, dirigidas ao Hotel Califórnia, Rue de Berri 16. Entendeu?

— Si... si! — respondeu Alfredo, que tomava notas nas costas de um cartão do hotel.

— Diga ao porteiro que telefonarei amanhã de Paris e... — procurou no bolso do paletó e retirou uma chave, que estendeu a Alfredo. — É do meu cofre, no hotel. Diga-lhe que o autorizo a abri-lo para que me mande pelo correio as liras, o talão de cheques, os cheques de viagem e...

Foi interrompido pelo sistema de aviso aos passageiros. Brennan calou-se, ouvindo anunciar em várias línguas:

“O Simplon Orient vai partir da linha 14 para Milão, Lyon, Dijon, Paris!”

Brennan largou o ombro de Alfredo.

— Tenho de me apressar. Compreendeu tudo? Recompensá-lo-ei quando voltar. — Começou a andar, depois perguntou ansiosamente:

— Poderei embarcar sem passagem?

— Si... Si... poderá pagá-la no trem.

Brennan desatou a correr, esgueirando-se por entre os passageiros e vendedores, através da estação, em direção ao vagão, c, quando a viu na sua frente, diminuiu o passo.

Lisa estava na plataforma, quase a única pessoa que ali se encontrava, à espera, espreitando, mas disposta já a desistir. Voltou a correr, levantou um braço e gritou:

— Lisa! Lisa!

Ela o viu, e seu rosto abriu-se num sorriso de alívio. Quando Brennan a alcançou, apertou-a nos braços, beijou-a e murmurou, ofegante:

— Lisa, vou com você para Paris... aconteceu uma coisa... tenho uma oportunidade... depois eu explico.

Mas sua boca comprimira-se contra a de Brennan, do mesmo modo que o corpo vibrante, e ele não pôde dizer mais nada. Sentiu que o funcionário dos wagons-lits os separava e empurrava. Ajudou Lisa a subir o alto degrau do vagão, entraram no trem e seguiram ao longo do corredor, enquanto o Simplon Orient dava um solavanco e se punha em movimento.

Só mais tarde, depois de ter se explicado, conseguiu sentar-se, passando-lhe uma das mãos pelos ombros, e, olhando pela janela, compreendeu que as últimas luzes amarelas das ruas já tinham ficado para trás, que os neons e os edifícios do Mestre haviam recuado e que estavam de novo em terra firme. A isolada ilha encantada ficava para trás. Aquilo era terra autêntica, chão sólido, e seus pés assentavam nele, estava a descoberto, exposto, comprometido.

Por um breve instante, assaltou-o uma dúvida, o pressentimento de que, ao abandonar Veneza, nunca mais se sentiria em segurança nem voltaria a experimentar a euforia de sua ilusória proteção. Não lamentou por muito tempo a perda, recordou o último canto do Childe Hcirold e, unindo sua voz à de Byron, recitou para si mesmo:

"E dos momentos mais felizes que tecidos foram

Na teia de minha existência, alguns

De ti, bela Veneza, as cores receberam:

Há sentimentos que o Tempo não pode matar,

Nem a Tortura abafar, ou os meus já estariam frios e mortos”.

Sim, havia isso, trouxesse o amanhã o que quer que fosse. Mas havia mais. A esperança tinha morrido em Veneza, e sem esperança ele não seria senão um cadáver. Agora, porém, a esperança renascia, e ele continuava vivo.

Levou os dedos de Lisa aos lábios e beijou-os com unção. Pensou nela, no filho, em Rostov, e depois recostou-se, à espera de Paris...


 

No domingo de manhã, dia 15 de junho, a temperatura em Paris era de vinte e um graus centígrados, a neblina do alvorecer havia sido desfeita pela alta esfera solar e o dia adivinhava-se quente e bonito.

Durante a manhã, entre as nove e meia e as onze e meia, chegaram os quatro.

No Aeroporto de Orly, Jay Thomas Doyle, após duas horas e meia de vôo de Viena, e apesar do sono e da obesidade, desceu agilmente a escada do avião a jato da Austrian. A claridade intensa obrigou-o a semicerrar os olhos. No alto do aeroporto, bandeiras francesas eram agitadas pela brisa. A seus pés, uma comprida passadeira vermelha atravessava o salon d’honneur, e as mulheres de uniforme azul-cinzento, que acabavam de proceder à limpeza, abriam agora caminho aos passageiros. Em frente, membros da Garde Républicaine, com capacetes de penacho encarnado e botas pretas, de espadas ainda embainhadas, estavam perfilados. Ao lado das áreas livres, apinhava-se a multidão e circulavam agentes da CRS de uniforme azul. Foi nesse instante que Doyle se lembrou. Aqueles preparativos destinavam-se ao primeiro-ministro Talanski, que devia chegar dentro em pouco, vindo de Moscou, para assistir à Conferência de Cúpula. Apertando a pasta dos documentos que continha seu precioso original, Doyle encaminhou-se para o saguão, tomou um moderador de apetite no primeiro bebedouro que encontrou, cumpriu as formalidades alfandegárias e, uma vez na rua, entrou num táxi Renault e pediu ao motorista que o levasse ao Hotel Georges V.

Na Gare du Nord, Emmett A. Earnshaw, após seis horas de viagem, por trem e por mar, desde a Estação Vitória, de Londres, esperava sentado na poltrona verde de seu compartimento, enquanto sua sobrinha Carol, depois de apagar os vestígios de sono dos olhos, penteava cuidadosamente os cabelos. Tinha descansado pouco na noite anterior, pois uma chamada telefônica de Sir Austin acordara Earnshaw para lhe dizer que havia agora dois Flechas Douradas, partindo um às cinco da manhã e outro às onze. Porque Earnshaw preferia chegar a Paris ainda de manhã e não no meio da tarde, acordara Carol, aprontaram-se às pressas e deixaram Londres. Agora, enquanto ajudava Carol a descer do trem, Earnshaw mostrava-se indeciso diante do letreiro do vagão-dormitório, no qual se lia “Golden Arrow” e “Fleche D’Or”. Quase imediatamente, apareceu o adido do serviço estrangeiro da embaixada dos Estados Unidos, que se apresentou como sendo Callahan, seguido por outro adido da embaixada e um agente do serviço secreto. Um tanto divertido, Earnshaw mal escutou as desculpas pela ausência do embaixador, ocupado com a chegada iminente do presidente e do secretário de Estado. Contudo, o carro do embaixador estava ali à espera, inteiramente à disposição de Earnshaw durante sua permanência em Paris. Defronte da Gare du Nord, um motorista amável mantinha aberta a porta de trás da limusine Cadillac, que ostentava uma bandeira em miniatura com as estrelas e as listras, e Earnshaw entrou. Quando perguntou onde ficaria hospedado, Callahan respondeu que a embaixada tinha sido bastante afortunada, pois conseguira precisamente aquilo que Earnshaw havia solicitado, um excelente apartamento no Hotel Lancaster, que ficava perto de tudo.

Na Porte d’Italie, Medora Hart, após cerca de dezesseis horas de estrada, freara seu Mercedes esporte junto a um sinal de trânsito, puxara os óculos para a testa e consultara o Guia Michelin, percorrendo o mapa indicativo das Sorties de Paris. Descobrira o que pretendia enquanto o sinal abria e guiou em direção à Place d’Italie, tentando "não esquecer que tinha de virar à direita para alcançar o Quai d’Austerlitz e seguir depois as avenidas ao longo da margem do Sena, até chegar ao Pont de la Concorde. Só agora se apercebia de sua longa viagem e da maneira rápida como dirigira desde que deixara Nardeau, fizera suas chamadas telefônicas e abandonara o Hotel Provençal. Tinha optado pela Estrada Nacional 7, parando apenas alguns minutos para comer e descansar um pouco em. Montélimar e Dijon. Havia percorrido cerca de novecentos quilômetros. Só agora, ao penetrar no trânsito de Paris, sentia cãibras na barriga da perna direita e o pé direito dormente. Mal tinha forças para chegar ao hotel, tomar um banho e descansar. .Agradeceu mentalmente ao proprietário do Clube Lautrec, que, graças à sua influência, lhe conseguira um quarto no Hôtel San Régis.

Na Gare de Lyon, Matt Brennan e Lisa Collins, após uma viagem de catorze horas no Expresso Simplon Orient, desde Veneza, retemperados por haverem dormido nos braços um do outro a maior parte da noite, saltaram para a vasta estação. Dado que Brennan tinha telegrafado de Milão para o Hotel Califórnia, reservando quartos para eles e pedindo que fossem buscá-los, esperaram, encostados aos wagons-lits, que alguém viesse ter com eles. Depois, Brennan reparou num porteiro de hotel, fardado, que avançava encarando os excitados passageiros, e, quando ele se aproximou, o dístico “Hotel Califórnia” era claramente legível acima do bolsinho do casaco. Brennan chamou-o, e o porteiro, aliviado, informou que tinha um táxi à espera. Pegando as malas de Lisa, levou-os através da multidão de passageiros, passaram em frente das bilheterias e dirigiram-se para o táxi, um brilhante Citroen novo, que esperava defronte à Gare de Lyon. O porteiro ajudou Lisa e Brennan a se acomodarem nos assentos de trás e ocupou o lugar ao lado do motorista, ao mesmo tempo em que ordenava em francês que os levasse ao Hotel Califórnia, na Rue de Berri. O motorista resmungou, queixando-se em francês de que Paris tinha gente demais para aquela época do ano, especialmente aqueles comunistas estrangeiros, que chegavam e exigiam que os outros lhes concedessem suas reservas nucleares, de forma a poderem poupar as suas para mais tarde conquistarem o mundo, ou seja, a França.

Assim estava Paris nessa manhã de junho, a histórica Cidade Luz, que no dia seguinte se tornaria a Cidade da Esperança ou do Desespero...

Brennan quis que Lisa visse Paris como ele a tinha visto da primeira vez, e como gostava de vê-la sempre que voltava. Pediu ao motorista do táxi que não tomasse o caminho mais curto, que era pela Avenue Gabriel e pela Rue Ponthieu e os levaria diretamente ao hotel, mas que, pelo contrário, os levasse a velocidade moderada pela Avenue des Champs-Élysées. O motorista, atento ao taxímetro, grunhiu aprovadoramente.

Segurando a mão de Lisa, Brennan espreitava pelo vidro descido do carro, contemplando o Obelisco de Luxor e a Place de la Concorde, onde o trânsito era diminuto, visto ser cedo e, além disso, domingo.

Com o braço apontado para a praça, o porteiro explicava em péssimo inglês que ali, durante a Revolução, tinha sido erguida a guilhotina sob a qual o rei Luís XVI e Maria Antonieta haviam perdido a cabeça. Nem Lisa nem Brennan o escutavam, pois acabavam de entrar na majestosa Avenue des Champs-Elysées, com o imponente Arco do Triunfo ao fundo e uma gigantesca bandeira tremulando ao centro. Em sentido figurado, também haviam perdido a cabeça.

Lisa, de olhos muito abertos, olhava tudo o que lhe surgia na frente e o que desfilava pelas janelas, ignorando o guia turístico, procurando assimilar aqueles novos prazeres e, portanto, silenciosa. Como verdadeiro francês, o porteiro também mergulhou num respeitoso silêncio. E Matt Brennan sentiu-se livre, enfim, para gozar a cidade com os olhos da alma.

Afundando-se no assento do táxi, Brennan refletiu na forma engraçada como a cidade conseguia surpreendê-lo. Nos últimos anos, desde o início de suas desventuras, sempre se aproximara de Paris com receio, temendo esses lugares onde outrora tinha sido aceito com honra e onde agora era recordado com suspeita. O temor acompanhava-o e, ao desembocar nos Champs-Élysées, sentia-se sempre presa de um amor solitário.

O mesmo lhe acontecia agora, nessa manhã de domingo.

Aspirou o perfume das amendoeiras, dispostas ao longo do maior dos grandes boulevards, e observou, para além delas, as crianças francesas que brincavam nos balanços ou de cabra-cega. Lá estava o familiar Teatro Marigny, para além das árvores, o Rond-Point dos Champs-Élysées, com seus tufos verdes e a fonte pública, e, a curta distância, os laboriosos grupos de vendedores ambulantes de selos, que transacionavam sua mercadoria nessa manhã de domingo.

Passavam agora pelo edifício de esquina que albergava o pessoal e as oficinas do jornal Le Figaro, pelas duas grandes calçadas do Café do Coliseu, com franceses de meia-idade absorvidos na leitura dos jornais, ao mesmo tempo em que saboreavam brioches e café nas mesas de fórmica amarela, e petites parisietines, moças de ar travesso, envergando saia e blusa, tagarelando sob os guarda-sóis de franjas, por um ônibus com a indicação “Pont de Neuilly” e uma barraca de bilhetes da loteria nacional.

Espreitando para a transversal Rue Boêtie, Brennan podia ver o enorme anúncio luminoso onde se lia “Clube Lautrec”, assim como um enorme cartaz representando uma bailarina com uma fita em redor dos quadris e a legenda:

"Première demain:

la scandaleuse beauté anglaise en personne” 1(1 "Estréia amanhã:

a escandalosa beleza inglesa em pessoa.” Em francês no original. - N. do E.)

Nas largas calçadas, viam-se numerosas famílias francesas nas suas roupas domingueiras, rapazes de bicicleta, pombos empertigados e os farejadores de lojas que ocultavam as luxuosas vitrinas. Passavam agora em frente do número 76, o túnel de Les Arcades, que conduzia à cave do Lido, e, de repente, viram-se na esquina da Avenue des Champs-Élysées e da Rue de Berri, onde dois barbudos estudantes de belas-artes, na Margem Esquerda, pintavam no pavimento um quadro sacro, rodeados por turistas, e um vendedor, um pouco adiante, apregoava revistas estrangeiras em seu improvisado balcão de tábuas; depois, voltaram à direita e entraram na Rue de Berri.

Ao deixar os Champs-Élysées, Brennan pensava:

Paris. Era tudo o que tinha visto e muito mais. Era mille-feuilles e le scotch. Era feux d’artifice no Pont Neuf, do Dia da Bastilha. Era les grands magasins que fechavam às segundas-feiras, e épiceries abertas aos domingos. Era um carnet de tickets para o metrô. Era garçon e Service compris. Era pissoirs e les Immortels de VAcadémie Française. Era vin ordinaire e citron pressê. Era géraniums en pots e porcelaine de Limoges. Era pneumatique e zones bleues. Era le bistrot e le bidet. Era Prisunic e Cartier. Era Sincas e trufas e Flaminaires e Opéra-Comique e Vênus de Milo e a Sorbonne e jovens chamadas Gisèlc. Era Natal em junho. Era bien. Era très joli. Era Paris, sua Paris, sempre igual, e isso o fazia sentir-se extraordinariamente vivo. Não sabia se o encanto era unicamente de Paris ou devido ao fato de Lisa estar em Paris, ou de Rostov estar em Paris, o que pouco importava. Sentia-se muito bem.

Notou que sua excitação se cristalizara por breves instantes, pois acabavam precisamente de entrar na Rue de Berri.

— Vamos descer no quarteirão seguinte — disse ele.

— Acha que procedemos bem? — perguntou Lisa.

— Claro que sim — respondeu, sorrindo. — Isso é Paris.

— Gosto de Paris, é uma beleza — comentou ela, beijando-lhe a face. — E eu o amo, sr. Brennan. — Olhou em frente e acrescentou:

— Muito bem, cavalheiro, estou disposta a viver em flagrante pecado.

Não o estivera até chegarem às proximidades de Milão, na noite anterior, momento em que Matt conseguira finalmente convencer Lisa a mudar para o Hotel Califórnia e a ocupar um quarto contíguo ao dele ou, então, a compartilhar seu próprio quarto. Quanto aos aposentos que ela tinha reservado no Plaza-Athénée, podia mantê-los e fingir que estava hospedada lá para não escandalizar seu colegas, mas só os utilizaria como local de trabalho.

Brennan havia dito a Lisa que gozariam de mais intimidade no tranquilo Califórnia do que no barulhento Plaza Athénée. O que não lhe dissera fora que o Athénée era o hotel onde ele c Steffi costumavam hospedar-se e que ele não queria recordar um passado doloroso nem encontrar-se com alguém que se lembrasse dele. Depois de seu divórvio e de seu exílio, rompera com o passado e passara a ficar no Hotel Califórnia sempre que ia a Paris. Fazia-o não só porque o hotel era novo para ele, barato, simples, acessível aos restaurantes e estabelecimentos comerciais, mas porque, apesar dos jornalistas do New York Herald Tribune (também expatriados e amigos), o Califórnia não era um hotel de prestígio que atraísse celebridades e, por conseguinte, podia passar despercebido.

— Aqui estamos, Lisa — anunciou ele. — Rue de Berri, 16, o Califórnia.

— É um nome estranho para um hotel francês.

— Nem por isso. Já atravessamos a Avenue Franklin D.

Roosevelt, a seguir fica a Rue Washington, e uma noite destas vou levá-la ao Crazy Horse Saloon, que também é Paris e não Las Vegas.

O porteiro abrira a porta do táxi, mas Brennan sentia a mão reticente de Lisa em seu braço:

— Matt, estou contente por ter vindo. Não se arrependerá.

Ele a brindou com uma espécie de sorriso:

— Se for tão grande profetisa como é mulher, talvez tudo se resolva. Esperemos em Deus e no camarada Rostov.

Quando entraram no vestíbulo, o gordo porteiro, M. Dupont, de faces encarnadas e cheirando a vinho tinto como sempre, saiu correndo de seu cubículo para apertar a mão de Brennan, conhecer a companheira de seu amigo, srta. Collins, e saudá-la. Na recepção, após outra série de cumprimentos e apresentações, Brennan soube com prazer que a gerência tinha transferido vários jornalistas chineses do primeiro para o sétimo andar, a fim de poder acomodar um antigo cliente. Brennan assinou o registro de seu quarto com sala de estar e Lisa fez o mesmo para seu quarto de solteira, contíguo ao de Brennan.

Meteram-se no pequeno elevador até o primeiro andar. Brennan conduziu Lisa por um corredor escuro e entraram no quarto 110, onde dois empregados estavam ocupados, ajeitando as malas de Lisa. Feito isso, abriram as pesadas cortinas, esperaram a gorjeta e foram embora.

Lisa inspecionou com alegria o banheiro:

a funda banheira, o bidê, o lavatório e a caixa de descarga, com a corrente balançando acima do arcaico vaso. Em seguida, passou ao quarto verde, observando o guarda-roupa de espelho e a larga cama de casal. Seguiu Brennan até as janelas, que ele abriu, e debruçou-se na pequena varanda de ferro, contemplando o calmo pátio interior com seu chafariz ao centro.

Voltou-se e abraçou Brennan.

— É encantador, tranquilo, bonito e, sobretudo, tem o meu adorno preferido:

você, um Brennan barroco do século XX. É o que eu adoro... Matt, onde está instalado?

— Espere — disse ele. Indicou a porta entre as janelas e a cama. — Abra isso, Lisa, e depois verá.

Deixou o quarto 110, dobrou a esquina do 111 e entrou no 112. A velha e elegante sala de estar tinha um divã forrado de veludo castanho, assim como as cadeiras, uma mesa recoberta de couro e uma cômoda com tampo de mármore. Passou ao quarto, destrancou a segunda das duas portas que separavam os quartos e abriu-a. Do outro lado, Lisa esperava.

— Viva, aqui estou! — anunciou, fazendo-lhe uma reverência de seu espaçoso quarto.

— Devia ter-me pegado no colo — disse ela, entrando lentamente e olhando em redor. — Não cheira a pecado. Parece um bonito lar. Estou contente por você ter me instalado aqui.

Contudo, Lisa, é preciso atender às conveniências. Quando estivermos a sós, podemos manter as portas abertas. Mas quando um de nós sair, temos de fechá-las por causa dos criados e das visitas, fingir que vivemos em quartos separados.

— Não o sabia tão tartufo, sr. Brennan.

— Sou um homem galante que protege a honra da amada.

— Claro, Matt. — Foi até a sala de estar, depois voltou-se alegremente. — Oh!, adoro isto... Bem, aqui estamos... você e eu, e Paris. É fantástico. O que faremos a seguir?

Sentados na cama, fumando, combinaram o que cada um deles faria nesse primeiro dia. Ela começaria por tomar um bom banho, depois abriria as malas, separaria os materiais de trabalho e as roupas desnecessárias, voltaria a colocá-los nas malas e enviá-los-ia para o Plaza Athénée. Lá, abriria a correspondência, redigiria os relatórios acerca das coleções de moda e conferenciaria com os colegas. Quanto a Brennan, também iria tomar um banho, antes de descobrir a maneira de localizar Nikolai Rostov.

De costas voltadas para ele, para que lhe desabotoasse a blusa, Lisa disse:

— Talvez eu me veja forçada a jantar com meus colegas, esta noite.

— Aposto que sim.

— E você, o que fará, Matt? — perguntou, tirando a blusa.

— Talvez consiga contactar com Rostov. Caso contrário, tenho aqui alguns amigos.

— Moças bonitas?

— Todas têm bigode.

— Falo sério.

— É possível que eu me sinta cansado demais para sair esta noite. Darci um passeio pelos Champs-Élysées, comerei qualquer coisa num bar e voltarei cedo para traçar o programa dos próximos dias. Depois, ficarei lendo até que você chegue.

— Sim? Não gostaria de passar sozinha minha primeira noite em Paris.

— Não passará, Lisa.

— Ótimo... Posso ir ao Plaza Athénée?

— Pode, mas não com uma mala. Peça ao porteiro que lhe chame um táxi.

— Quanto devo dar de gorjeta ao motorista?

Brennan retirou do bolso um punhado de moedas e escolheu algumas.

— Se quiser passar por uma americana rica, cativar as pessoas e tornar as coisas mais fáceis para você, dê gorjetas com uma destas moedas. — Estendeu-lhe duas moedas de prata. — Esta com cabeça de mulher c facho vale cem francos antigos; a que tem apenas uma cabeça de mulher representa um franco novo. Têm ambas o mesmo valor, ou seja, vinte cents americanos. Compreendeu?

Lisa aquiesceu.

— Vê como preciso de você?

Ele beijou-a no pescoço, roçou a lace pelo suave e lustroso cabelo negro e, abrindo-lhe o fecho do sutiã, murmurou:

— E cu preciso ainda mais de você, querida.

Como o sutiã caísse e ele a abraçasse, Lisa perguntou, ansiosa:

— Não será melhor esperar pela noite?

— Não — respondeu. Depois agitou a mão e acrescentou:

— Mas esperaremos. — Ajudou-a a levantar-se. — Divirta-se, querida. E feche a porta.

Passou rapidamente a seu quarto, fechou a porta e trancou-a. Com relutância, Brennan imitou-a, foi para a sala de estar e telefonou ao porteiro para que lhe mandasse comprar artigos para barba e de toucador, assim como quatro garrafas de uísque e conhaque. Informou que suas malas deviam estar chegando e pediu a M. Dupont que fosse retirá-las na alfândega. Em seguida, solicitou uma chamada interurbana para o Hotel Danieli de Veneza.

Enquanto esperava, Brennan tirou a camisa, lavou-a e pendurou-a ao sol, perto da janela. Encheu a banheira. Entretanto, estava feita a ligação com Veneza. Soube que as malas estavam a caminho de Paris, devendo chegar nessa tarde. Disse que, afinal, tinha decidido conservar seus aposentos no Danieli, referiu-se ao envio do dinheiro c deixou mensagens para vários amigos italianos, em especial para os padres armênios de São Lázaro, que deviam estar preocupados. Prometeu regressar a Veneza dentro de duas semanas ou até mais cedo.

Uma vez metido na água tépida da banheira, tentou concentrar-se em sua missão. Desde que, na noite passada, soubera pelo Daily American de Roma da “ressurreição” de Nikolai Rostov e o contara a Lisa, ainda não tivera tempo para pensar com clareza em seus próximos movimentos. Agora, enquanto se esfregava com uma esponja ensaboada, refletia no futuro imediato. Tinha de descobrir Rostov. Tinha de falar com Rostov. Tinha de pensar no que diria a Rostov. Mas, antes de mais nada, era preciso encontrá-lo. Os últimos periódicos não davam quaisquer informações. Contudo, Brennan não duvidava que seria fácil descobri-lo, apesar de Rostov ser russo e, portanto, mais ou menos visado, pois fazia parte de uma delegação pública em uma conferência internacional pública.

Enquanto se secava e se vestia — menos a camisa, que ainda estava úmida —, Brennan soube qual seria seu próximo movimento. Sempre o soubera, desde que chegara a Paris. Telefonaria para os Serviços de Informação dos Estados Unidos, na embaixada americana, e pediria para falar com Ilerb Neely, o adido de imprensa. De todos os antigos amigos de Brennan que se haviam mantido firmes depois da condenação do Congresso, Herb Neely continuava a ser o mais sincero e leal. Brennan e Neely tinham sido companheiros de quarto em Georgetown, havia muitos anos, e trabalhado juntos em Zurique, quatro anos antes. Depois, o novo presidente nomeara um novo embaixador na França, e este escolhera Neely como adido de imprensa. Todas as vezes que Brennan passava por Paris, vindo de Veneza para lá ou regressando, sempre arranjava tempo para o ritual jantar e um serão com Neelv, sua mulher Francês c os três filhos adotivos. Com Neely, Brennan sentia-se tal como era.

Ao dirigir-se para o telefone, Brennan lembrou-se de repente de que era domingo e Neely não devia estar. No entanto, deixando-se cair no divã forrado, refletiu que todo o pessoal da embaixada deveria encontrar-se em seus postos, visto que a conferência das cinco potências sobre o desarmamento teria início na manhã seguinte, no Palais Rose.

Brennan levantou o fone e pediu Anjou 74-60, ramal 7549. Quando uma voz feminina dos Serviços de Imprensa da embaixada americana atendeu, perguntou por Herb Neely. Declinou seu nome, ficou na expectativa e foi com alívio que, pouco depois, ouviu a voz melíflua, com um ligeiro sotaque do oeste, um tanto arrastado, de Herb Neely.

— Alô! É você, Matt?

— Eu mesmo — respondeu Brennan. — Como está, Herb? Como vai a família?

— Ótima, ótima. É agradável ouvir de novo sua voz, meu velho. Francês e eu falamos sempre cm você, preocupados. Tínhamos receio de que tivesse caído no canal. Nem uma linha desde o último Natal.

— Não tem havido assunto para escrever, você bem sabe.

— Diabo, não sei, Matt. Da próxima vez, escreva a propósito de nada. Isso valerá mais para nós do que aquilo que a maior parte das pessoas escreve a propósito de qualquer coisa. Então, não há nada de novo?

— A verdade é que vi Ted ontem à noite, em Veneza.

— Está brincando? Como é que foi? Um desastre?

— Não foi fácil, mas parece-me que o abalei. Também... — Brennan hesitou, refletiu no que ia dizer e decidiu que podia ser sincero com Neely. — Há alguma coisa mais:

não estou aqui sozinho. Acompanha-me uma jovem senhora.

— São as melhores notícias que me deu nos últimos anos. O velho rejuvenescido, e não era sem tempo. Uma garota italiana?

— Americana. Veio fazer a cobertura das coleções de moda. É muito nova, e isso me embaraça um pouco.

— Felizardo!

— Minhas intenções são sérias, Herb, mas há muitas coisas a considerar.

— Espero ter a ventura de conhecê-la.

— Terá. Ouça, Herb, não quero roubar-lhe muito tempo. Sei que está muito ocupado. Não esqueci essas coisas. Telefonei-lhe por motivos específicos. Vou dizer-lhe rapidamente o que me trouxe a Paris.

— Já sei.

Apanhado de surpresa, Brennan inquiriu:

— Já sabe?

— Claro que sei. As iniciais significam Nikolai Rostov. Saiu do esconderijo e chegou esta manhã. Se você não desse notícias até amanhã, eu ia lhe telefonar para Veneza.

— Obrigado, Herb. Quando vi o nome dele, sofri um abalo.

— Acredite que aqui na embaixada ficamos surpresos.

— Agora que já sabe por que o estou aborrecendo, gostaria de lhe fazer uma pergunta.

— E eu tentarei dar-lhe uma resposta logo que possa — disse Neely. — Onde poderá encontrá-lo? É isso?

— Exatamente. Acha que está instalado na embaixada soviética?

— Duvido, Matt. Rostov é, sem dúvida, um grande peixe, mas os russos têm aqui uma quantidade de baleias, e são essas que ocupam os espaços mais seguros. Deve estar em algum hotel. Vou me informar e depois lhe telefono. Não, não pode ser... em todo caso não esquecerei seu pedido... recebi ordens para acompanhar alguns jornalistas americanos numa visita rápida aos quartéis-generais da Conferência de Cúpula, o Palais Rose, à uma hora. Tenho de lhes mostrar as instalações e dar instruções. Mas terei tempo para beber qualquer coisa e comer um sanduíche por volta do meio-dia. Nessa altura, espero já saber o que você pretende, a não ser... — fez uma pausa — que prefira ir ter comigo no Bar Crillon.

Brennan estremeceu.

— Será um pouco duro para ambos, Herb. Se o Crillon continua na mesma, iremos cair entre o pessoal de sua embaixada e alguns de meus antigos colegas do Departamento de Estado, e você compreende...

— Ainda com o cartão vermelho, hem? — gracejou Neely. Mas logo se tornou sério. — Claro que compreendo, Matt. De qualquer maneira, foi uma sugestão disparatada. Acredite que estou tentando reanimá-lo. Terapia da desconfiança. Não faça caso. Está bem, volte para seu setor. Seja como for, fica no mesmo bairro. Podemos nos encontrar na esquina dos Champs-Élysées com a Rue Marbeuf, Café Le Longchamp, ao meio-dia.

— Ao meio-dia.

Depois de ter desligado, certo de que o plano para seu perdão estava em marcha, Brennan desempacotou os artigos de toucador. Barbeou-se com vagar, imaginando qual seria sua vida depois de Rostov provar sua inocência, sua vida com Lisa, Ted e Tracy, sua nova vida em Washington, D.C. Quando acabou de se vestir, viu que faltava um quarto de hora para o meio-dia e partiu em direção aos Champs-Élysées.

No Café Le Longchamp apenas metade das mesas da calçada estava ocupada. Não viu Herb Neely. Enquanto procurava uma mesa isolada e à sombra, ouviu seu nome e, voltando-se, deparou com Neely, que lhe acenava, ao mesmo tempo em que se dirigia para ele a passo largo. Por instantes, Brennan imaginou'o amigo como um Chad Newsome saído das páginas de Os embaixadores, de Henry James. É que Brennan esperava ver Neely muito americano e preocupado, e, em vez disso, aparecia-lhe muito francês e à vontade. Tinha encontrado seu lugar ao sol, pensou Brennan, e invejou-o.

Apertaram-se as mãos e sentaram-se à mesa de café, protegida do forte sol por um toldo.

— É melhor pedir já, antes que isto encha — disse Neely, procurando em redor o garçom.

Brennan olhava afetuosamente para o amigo. O cabelo louro tinha se tornado mais ralo, mas, em compensação, as suíças eram agora mais longas e o tufo de barba no queixo (“a minha pêra imperial”, como costumava dizer) tinha-se tornado mais denso. Usava o cabelo penteado para trás, a fim de dissimular a calva, óculos sem aros encarapitados no nariz adunco, colarinho de pontas aguçadas, paletó curto e calças estreitas de verão, de origem francesa. No entanto, a maneira despreocupada de falar, com totaque do Kentucky, adquirido na infância, era americana.

Um garçom perguntou o que desejavam c voltou a desaparecer.

— Pois muito bem, meu caro iMatt. Consegui, voilà! — anunciou, retirando do bolso do paletó uma pequena folha de bloco de notas, que estendeu a Brennan. — Hôtel Palais d’Orsay. Aqui tem o endereço:

Quai Anatole France, 9. Fica do outro lado das Tulherias, junto ao rio. Atravesse o Pont Royal e vire à direita na direção da Gare d’Orsav.

— Sim, eu me lembro.

— Os russos estão quase todos nesse hotel. Sempre se hospedaram nele e continuam a fazê-lo.

— Nunca estive lá.

— E eu já estive lá por diversas vezes — disse Neely. — É um hotel bastante estranho e que eles controlam. As paredes do vestíbulo são de um amarelo sujo, com colunas igualmente sujas e velhos tapetes orientais. Mas talvez não seja tão estranho assim, uma vez que nossos amigos russos, apesar de sua inclinação para uma economia capitalista, gostam de se apegar ao mito do puro proletariado marxista. Seja como for, Nikolai Rostov, assistente do ministro para os Negócios do Extremo Oriente, dorme lá.

— Não imagina como lhe estou grato, Flerb.

— Tolice. Isso para mim não passa de rotina — retorquiu Neely. — Você é que tem a pior parte. O que tenciona fazer?

— Vê-lo — respondeu Brennan com determinação. — Perguntarei por ele ou acamparei no vestíbulo até que ele passe. Quando sairmos daqui, irei diretamente ao Hôtel Palais d’Orsay.

Neely meneou a cabeça:

— Não, hoje, não. Esqueça isso. Rostov foi diretamente do aeroporto para a reunião dos ministros das cinco potências, no Quai d’Orsay, onde estão preparando a agenda das sessões plenárias e estudando o protocolo e as normas... ou seja, a presidência, a ordem de cada delegação e das respectivas propostas... tudo muito melindroso e complicado devido à presença da China vermelha. Receio que Rostov esteja ocupado até a meia-noite. Pode lhe deixar um recado no hotel.

— Talvez. Mas gostaria de fazê-lo pessoalmente. Li em algum lugar que a sessão de abertura se realiza amanhã, às dez horas. Irei ao hotel por volta das sete ou sete e meia.

Neely começou a comer a omelete que o garçom lhe pusera na frente.

— Já pensou que pode ter dificuldade em vê-lo?

— Talvez. O certo é que Rostov me fez uma promessa há quatro anos e não a cumpriu, ou talvez o tenham impedido de contactar comigo ou com qualquer outra pessoa. Por outro lado, Rostov não respondeu ou não o deixaram responder a qualquer de meus apelos, tanto diretos como através de intermediários. É evidente, contudo, que, embora tivesse se metido em maus lençóis por causa do caso de Zurique, sendo considerado persona non grata, agora é bem visto pelo governo e talvez se recuse a colaborar comigo ou com qualquer outra pessoa relacionada com um desagradável episódio de seu passado. — Meticulosamente, Brennan pôs mais mostarda no seu sanduíche de presunto, depois ergueu os olhos:

— A única coisa a meu favor é que Rostov simpatizava sinceramente comigo, apreciava nossa amizade, embora breve, e talvez me tivesse ajudado se não o impedissem. Agora que está de novo em atividade, que é outra vez um homem importante, talvez se sinta seguro e poderoso o bastante para me ajudar, talvez o deseje até, pois era, como bem me recordo, um indivíduo impulsivo, independente...

— Sim, eu me lembro.

—.. . e pode ser que ainda o seja e não admita que ninguém o impeça de fazer o que deseja e que, conscientemente, sente que deve fazer. Apenas sei, Ilerb, que o que vou pedir é muito pouco, uma simples cópia da nota de Varney ou uma declaração assinada de que tentei reter Varney, estando por isso inocente no que respeita à sua deserção ou a qualquer erro de segurança. É muito pouco o que lhe peço, mas de grande importância para mim. Pode transformar toda a minha vida.

— Compreendo — disse Neely, olhando para a omelete. — Reconheço que tem uma excelente oportunidade — acrescentou, mas num tom pouco seguro.

Brennan largou o sanduíche.

— O que me confunde, Herb, é onde teria se metido Rostov nos últimos quatro anos e o que teria acontecido para que o primeiro-ministro Talanski o reabilitasse publicamente. Gostaria de saber. Talvez isso ajudasse.

— Ninguém sabe ao certo — disse Neely. — Quando da nossa aliança com os soviéticos, muitos se convenceram de que eles abririam seus livros e dialogariam. Mas é difícil falar com sinceridade quando se desconfiou durante tanto tempo, assim como abandonar os antigos hábitos do sigilo. — Ficou por instantes pensativo, depois prosseguiu:

— Como lhe disse pelo telefone, quando soube que Rostov tinha sido incluído no grupo soviético e vinha para cá, pensei em você. Pus-me a fazer perguntas casuais ao embaixador, a alguns amigos da comitiva do presidente, do Departamento de Estado e da cia. — Ergueu os olhos. — Não consegui muito, pois há muitas falhas, mas, conjecturando o que os espaços em branco possam representar, tentei uma versão.

— É melhor do que nada — opinou Brennan. — E qual foi o resultado?

— Antes de Zurique, em Zurique e sobretudo depois, a União Soviética jogou dados com os Estados Unidos e as democracias ocidentais. O primeiro-ministro Talanski (e acredito piamente nisso) não está interessado numa revolução marxista-leninista mundial se o preço for a destruição nuclear. Reconheço que ele acredita que conseguirá, pelo menos, a revolução social se o mundo sobreviver. O que o assusta, assim como a nós, é a China vermelha. Tem um arsenal nuclear que rivaliza com o nosso, se não em quantidade, pelo menos em qualidade, e isso é o bastante para fazer ir pelos ares este velho planeta. Mas a China, a nova China de Mao, tem-se mantido em seu mausoléu, já não é a beligerante paranóica que conhecemos quando éramos mais novos. Lembra-se dessa época, Matt? Lembra-se de quando Mao afirmava:

“Os ventos do Oriente prevalecem sobre os ventos do Ocidente”? É claro que isso foi quando sentiam ainda a dor de século e meio de invasões e opressão estrangeira. Lembro-me de Toynbee nos dizer:

“Entre 1840 e 1945 não houve país que não mordesse a China”. Ora, assim que Mao conseguiu a explosão de Lop Nor, viu que estava preparado para morder também, e há na China quem, como Chung-lcuo, sonhe em fazer de seu país o Império do Meio, o centro do universo. Sonhos adolescentes de glória. Como você sabe, depois de Mao, seus sucessores, principalmente o presidente Kuo Shutung, pragmático da extrema direita, enfrentaram as realidades do mundo exterior. Creio que você estará de acordo se eu disser que ele modificou consideravelmente a linha marxista-maoísta.

— É possível — arriscou Brennan sem convicção. — A China não tem se mostrado muito pacifista nos últimos anos.

— Sem dúvida que não, Matt. Contudo, está diferente. Veja o que aconteceu. Formosa foi neutralizada. As Nações Unidas admitiram a China vermelha. Depois disso, a China reocupou grande parte dos territórios tradicionalmente chineses, que havia perdido no passado, na Mongólia e na Sibéria, e conseguiu o controle político do Vietnam, do Camboja, da Indonésia, da Birmânia, da Tailândia, da Malásia, da Coréia, sem desencadear uma grande guerra, sem necessidade de recorrer aos três milhões de homens do Exército de Libertação Popular ou aos dez milhões de suas milícias. Tudo se fez com poucos tiros e sem ameaças de armas nucleares. Como, então? Você sabe perfeitamente, Matt.

Brennan sorriu:

— Como dizia Confúcio "I i chi i”:

“Serve-te dos bárbaros para dominar os bárbaros”.

— Exatamente. A China vermelha, depois de ter organizado e ativado seu Kominform, encorajou ou provocou, e apoiou ou financiou, todas as guerras populares, guerras de libertação nacional, revoluções, lutou pelos partidos comunistas em todos os países da Ásia. E porque isso deu resultado, foi em frente, porque o fazia em seu próprio interesse. Quando começou a haver problemas com o Japão, então interferimos imediatamente, assim como a Rússia, porque não podíamos consentir que a China vermelha se transformasse numa nação altamente industrializada. Seria um poder demasiado grande e influente que ameaçaria a paz mundial. Assim, após muitos meses de tensão nervosa, a China concordou em desistir do Japão e sentar-se conosco à mesa de uma conferência de alto nível para conversações. Creio que era seu principal objetivo, quando desencadeou a aventura japonesa.

— É o que você pensa realmente, Herb?

— Tenho certeza, e o mesmo acontece com os rapazes do Departamento de Estado. E é o que tenho tentado provar. O novo governo chinês, agora que estabeleceu sua própria esfera de influência e controle, agora que alcançou a igualdade com seus inimigos, está realisticamente ciente de que não pode lançar-se sozinho à conquista do mundo. Nenhuma nação pode, atualmente, comer o bolo sozinha. Tendo a Rússia como aliada, como o foi até 1960, a China vermelha poderia dominar todo o mundo. Mas com a Rússia do nosso lado, como agora acontece, a China sabe que não pode dominar nada, nem impor pela agressão o comunismo ao mundo, porque são muitas as forças que contra ela se levantariam. Sozinha, tudo o que a China pode fazer e tem feito é garantir a soberania nas áreas limítrofes de suas fronteiras, reocupar ocasionalmente algum velho Estado, continuar a combater o feudalismo e a promover a industrialização de seu território. Os camaradas de Pequim sabem que qualquer esforço tendente a aniquilar os outros significaria sua própria aniquilação. Assim, e para terminar, o presidente da China e o primeiro-ministro, que são conservadores, deram as costas ao expansionismo político marxista-maoísta e concluíram que era melhor sobreviver como potência igual às outras do que provocar o desaparecimento da China e do próprio planeta. Acredite, Matt, que as quizílias e os atentados da China contra os japoneses foram uma farsa para nos convencer de que ela estava mais disposta a discutir a coexistência do que a ousar a coextinção. Compreendemos, e convidamos a China a vir aqui a Paris, a juntar-se a nós para assentarmos de uma vez para sempre um sistema autêntico e eficaz de fiscalização de armas, de desarmamento, de paz. A delegação de Pequim continua a falar com fanfarronice, a atuar com fanfarronice, e a verdade é que são fanfarrões, mas muitos de nós suspeitamos que se trata de um comportamento especial de discussão. Por último, reconheço que eles sabem, tão bem como nós, que o nome do jogo é pegar ou largar. Seja como for, o grupo está completo para a conferência. E dezoito nações menores, que possuem minérios nucleares ou têm capacidade nuclear, terão de jurar obedecer ao tratado forjado por seus irmãos mais poderosos. Desculpe este pano de fundo todo, Matt, mas faço-o tantas vezes à imprensa que se tornou um hábito. Agora, passemos a Nikolai Rostov. Qual seu papel no meio de tudo isto?

— Sim, Rostov — disse Brennan, bebendo o resto do vinho. — Na Conferência de Zurique, ele e seus camaradas russos trabalharam lado a lado comigo e com nossa gente para convencermos a China a encarar a realidade (foi há quatro anos) e fazê-la compreender que teria de participar de qualquer acordo futuro sobre o desarmamento. Nessa época, as dificuldades eram remotas. Sua força nuclear não se comparava à nossa, e eles usavam uma linguagem inadequada. Depois, tudo mudou. Apanharam o professor Varney e com ele alcandoraram-se ao topo das potências nucleares. Varney deu-lhes a bomba de nêutrons, assim como informações secretas a respeito de mísseis antimíssil que podem levar à bomba N. Como consequência...

— Você e Rostov foram censurados — terminou Neely, meneando a cabeça. — Acredite que nunca o esqueci. Foram ambos postos na lista negra. Sabemos o que lhe aconteceu. Mas o que você quer saber é o que aconteceu a Rostov. Não é fácil. Tanto quanto pude descobrir, Matt, seu amigo Rostov foi apanhado pela polícia secreta soviética, levado para Moscou, mantido incomunicável nos quartéis-generais do kgb, na Praça Dzerjinski, interrogado e provavelmente julgado como traidor por um tribunal secreto. Nossos peritos pensaram que tivesse sido acusado de colaboração na entrega de segredos militares à China e condenado à morte. Mas, uma vez que apareceu vivo, a opinião geral é que foi inocentado de traição, talvez graças à carta de Varney, mas castigado e retirado do governo por causa de sua brandura para com a China, que constituía certo perigo. Várias hipóteses têm sido aventadas quanto ao lugar onde Rostov teria passado os últimos quatro anos. Há quem pense que tenha sido nomeado para um cargo diplomático inferior em Sverdlovsk, nos Urais. Outros afirmam ter ouvido dizer que Rostov fora designado administrador de Vorkuta, um campo de trabalho soviético no Ártico. Seja como for, está aqui.

— Mas por que o anistiaram? — admirou-se Brennan.

— Ninguém sabe ao certo, a não ser que foi sempre um homem da confiança de Talanski. Talvez por causa de seu bom comportamento nos últimos anos. O principal é que, desde que a Rússia cortou relações com a China, os soviéticos têm-se visto privados de informações fidedignas acerca desse país, e creio que estão furiosos por terem de se encontrar nesta importante conferência com chineses devidamente preparados e aconselhados por peritos. Rostov era um perito, como sabe, e por isso lhe perdoaram, esqueceram tudo e repuseram-no em seu lugar.

— Parece demasiado simples — argumentou Brennan.

Neely riu, tirou os óculos e pôs-se a limpá-los.

— Talvez seja. Mas foi o melhor que conseguimos forjar. É pena que nosso governo não perdoe e esqueça da mesma maneira.

Não há dúvida de que você seria útil na conferência, Matt.

— Obrigado, mas minha utilidade passou. Desperdicei muito tempo e tenho estado à margem dos acontecimentos. Seria tão inútil como Metternich discutindo o desarmamento nuclear. Surgiram muitas concepções novas desde que deixei o serviço ativo.

Neely acabou de limpar os óculos sem aros e encarapitou-os no nariz.

— Não é bem assim. Apenas surgiram algumas ideias quanto à forma de evitar um suicídio nuclear. Não foram os meios de fiscalizar o armamento que mudaram, mas o realinhamento e as novas ideias dos antagonistas potenciais. Lembra-se da primeira reunião? Os Estados Unidos tinham uma série de propostas para o desarmamento, a União Soviética possuía outras, as Nações Unidas, nenhuma. Ora, amanhã, quando os cinco países se sentarem à mesa de conversações, os Estados Unidos, a União Soviética e a Inglaterra apresentarão um plano único para a fiscalização das armas, a China vermelha opor-lhes-á o seu, as Nações Unidas limitar-se-ão ao papel de observador c a França decidirá manter-se neutra com o voto de maioria de seus convidados. Basicamente nada mudou, Matt. Os obstáculos continuam a ser econômicos, políticos e militares... a China acrescentou mais dois que lhe são peculiares:

a questão da raça e a questão do fatalismo oriental. Os chineses procurarão deixar a conferência com um tratado de proibição que lhes preserve o orgulho. Se isso for impossível, abandonarão a conferência sem assinar qualquer tratado de desarmamento e insistirão na ameaça de fornecer bombas nucleares a mais dez países sob sua influência, tanto na Ásia como na África. Se a pressão for muita, é possível que desistam, até que mais dia menos dia outro governo leve a efeito a primitiva ameaça, ainda que isso lhes custe várias centenas de milhões de vidas, porque já estão acostumados aos desastres nacionais e às calamidades, como pragas, inundações e fome, e estão habituados a morrer em escala gigantesca. Nós, não. Contudo, isso é outro problema. O certo é que as propostas ocidentais, de que ouvi falar, são bastante aceitáveis. Resumem-se a uma redução gradual das forças armadas; à destruição gradual dos arsenais nucleares e das armas convencionais, bacteriológicas e químicas; à abolição dos mísseis e dos sistemas de auxílio militar; à suspensão da produção de armas nucleares; tudo isso a se realizar em três fases, num período de seis anos. Haverá também limitação dos tipos de veículos a utilizar no espaço, uma organização internacional de fiscalização sob a égide das Nações Unidas, com equipes de inspeção e observadores espaciais, e, principalmente, a força policial da paz, convencionalmente armada, muitíssimo bem paga, composta por soldados de trinta dos países menores. E como calmante à economia chinesa, haveria um abastecimento por intermédio de todos os países que mantivessem reatores nucleares para fins pacíficos, cada um deles sujeito à estrita supervisão internacional. Serão também propostos os meios mais seguros para superar o pior de- todos os obstáculos.

— O pior de todos os obstáculos? Refere-se às explosões secretas?

— Exatamente — disse Neely. — A melhor defesa contra isso seria uma rede mundial de postos de escuta no valor de dois bilhões de dólares, equipada com os mais recentes sismógrafos suecos, que registram a força da ressaca a uma distância de milhares de quilômetros e são capazes de distinguir entre um terremoto e uma explosão nuclear subterrânea. Haveria grupos locais de inspeção e controle de armas, e os próprios inspetores seriam regularmente submetidos a testes do detector de mentiras e injetados com o soro da verdade. Haveria satélites em órbita, enviados para o espaço pela organização internacional de fiscalização, que teriam suas órbitas constantemente modificadas, de forma a que nada pudesse escapar aos olhos cósmicos. Diariamente e a todas as horas, haveria relatórios provenientes de todas as fontes e enviados ao centro de avaliação e processados por computadores, e, se qualquer relatório fosse suspeito, a força policial de paz pôr-se-ia imediatamente em ação. É esse, basicamente, o plano que esperamos e auguramos que a China aceite nos próximos dias. Não lhe parece familiar, Matt?

Escutando atentamente, Brennan sentiu, pela primeira vez desde há meses, saudades da antiga carreira, de seu velho idealismo, dos esforços desenvolvidos para uma paz efetiva. Era estranho estar de novo consciente das emoções que havia recalcado, emoções como a curiosidade, o otimismo e, por assim dizer, a fé. Concordou com o amigo:

— Sim, parece-me familiar e soa-me bem.

Subitamente, Neely levantou-se.

— Meu Deus, aí vem o carro! Isso quer dizer que tenho de ir ter com a imprensa no Palais Rose. — Apoderou-se da conta antes que Brennan o pudesse fazer e pôs-se a mexer nas notas. — Estou envergonhado. Há meio ano que não nos encontrávamos e não o deixei abrir a boca... O que vai fazer agora, Matt?

— Agora?

— Sim, depois de eu partir. Ainda não pode ver Rostov. Expliquei-lhe os motivos. Por que não vem comigo até o Palais Rose?

— Não sei se devo, Herb.

— Por que não? Vamos. Ninguém o reconhecerá. Julgarão que é funcionário da embaixada, e, além disso, haverá tanta gente, todos ocupados em tomar notas, que passará despercebido. Poderá dar uma vista de olhos pela arena da conferência. O Palais Rose é uma fascinante construção de mármore rosado que data de 1905, uma réplica do Petit Trianon de Maria Antonieta em Versalhes. Fica na Avenue Foch. Ocupa cerca de dois terços de uma quadra, sete mil e quinhentos metros quadrados, para lhe dar uma ideia, e tenho de mostrar à imprensa principalmente o grand sallon, onde os Cinco Grandes iniciarão as conversações amanhã de manhã. A partir de hoje, o grand salon será interdito a toda a gente, exceto aos delegados. Além disso, há uma boa razão para que você visite o interior. É que, nos próximos dez dias, seu amigo Rostov muito provavelmente estará lá, por vezes sob os olhares do primeiro-ministro Talanski. Se há lugar onde você pode encontrar Rostov é no Palais. E terá de conhecer o caminho, se eu puder fazê-lo entrar. Pode ser útil, Matt, não será penoso, e garanto-lhe que tudo estará acabado dentro de uma hora.

Ainda que relutantemente, Brennan deixou-se convencer pelo entusiasmo de Neely. Especialmente no que se referia a Rostov.

— Ganhou, Herb — disse, levantando-se. — Vamos ao Palais.

Enquanto se dirigiam para o brasonado automóvel cor de mostarda, parado na contre-allée, a estreita rua transversal entre o passeio e a faixa da rua paralela aos Champs-Élysées, Neely gesticulou na direção do carro, ao mesmo tempo em que informava:

— Não é dos nossos. Temos quinze na garagem da embaixada, mas a delegação de Washington requisitou a maior parte deles, de modo que tivemos de pedir uma dúzia de veículos militares à eucom, nossa base nos subúrbios de Saint-Germain, uma restituição pós-De Gaulle. Os carros já vêm com motoristas. Nada mau.

Uma vez instalados no assento de trás, Neely deu instruções ao cabo, um rapaz negro. Depois, descendo o vidro da janela, ofereceu a Brennan seu maço de Gauloises Bleues e, vendo que Brennan recusava, acendeu um cigarro para si e deleitou-se com ele.

O carro seguiu pelos Champs-Élysées e dirigiu-se para o Arco do Triunfo.

— Paris em junho — disse Neely, expelindo a fumaça. — O local e a época que prefiro. — Apontou pela janela. — Olhe para aquelas moças, Matt, de magníficos cabelos curtos, rostos gaiatos, tão atraentes, desejáveis, cheias de promessas, e a maneira simples como se vestem e caminham, como olham para nós, essas garotas francesas, sem constrangimento. É um lugar maravilhoso para se viver, ter dezessete anos e apaixonar-se num domingo como este, nos Champs-Élysées. — Voltou a espreitar pela janela. — Claro que estou satisfeito com minha cara-metade, mas estas femmes francesas são uma agradável diversão, sobretudo quando se está tão sobrecarregado de trabalho que só se quer morrer. — Voltou-se para Brennan. — Esta conferência é realmente absorvente para uma pessoa na minha posição, Matt. Pelo menos, mais cinquenta correspondentes, além dos habituais, estão aqui; é como tentar organizar, dirigir, satisfazer um batalhão de anárquicos e frustrados tenores e prima-donas. Uma coisa horrível.

— Os delegados lhe dão muito trabalho?

— Nem tanto. A maior parte pertence à comitiva pessoal do presidente. Comportam-se como emissários do xá e como se eu fosse o mensageiro eunuco, sobretudo aqueles que ainda têm penugem no queixo e acabam de sair de Poli Sei, como o jovem Wiggins, intrometido e mal-humorado, que está com o presidente. Aposto que ele nunca aprenderá o que eu esqueci acerca das relações com a imprensa. E é assim que acontecem as coisas mais imprevistas, como a chegada do Ex...

— Refere-se a Earnshaw? — perguntou Brennan, surpreso.

— Esse mesmo. A resposta de nossa geração a Warren G. Elarding. Sempre que olho para seu velho amigo Earnshaw, vejo o genial e generoso presidente Harding e recordo-me do que o pai de Harding lhe disse uma vez:

“Se você fosse uma moça, Warren, seria um obstáculo permanente para a família. Não pode dizer não”.

Brennan riu, mas logo se tornou sério:

— O que faz Earnshaw aqui?

— É o que eu gostaria de saber — respondeu Neely. — No meio da noite passada recebemos uma chamada urgente de nossa embaixada em Londres. O Ex estava a caminho de Paris. Truque de prestidigitação? Vem como correspondente acreditado da cadeia de Ormsby e da ana... quinhentas palavras para publicar por dia. Nunca julguei que conhecesse tantas palavras. Portanto, aqui temos o homem, a olhar do Olimpo para a conferência. É claro que não sei qual o verdadeiro motivo que o traz, a não ser que pretenda chamar a atenção. Na verdade, está conseguindo. Todos os jornalistas passaram a manhã batendo na minha porta, para lhes arranjar uma entrevista com Earnshaw. Não o fiz nem o posso fazer. Represento o atual presidente e não o antigo. Tenho de manter Earnshaw calado e fora do caminho. Se ele abrir a boca, pode causar embaraços à nossa delegação e à nossa política na conferência. Por isso, estou tentando dá-lo como perdido. Esta manhã, convenci Callahan a acompanhar Earnshaw e a sobrinha num longo passeio turístico, seguido de almoço no Quai d’Orsay. Tenho de esgotá-lo antes que ele nos imponha sua presença... Oh, Matt, não há uma cela vaga nessa ilha de São Lázaro?

O carro militar havia percorrido vertiginosamente metade do circuito da Étoile, e Brennan pôde respirar de novo quando entraram na tranquila elegância residencial da Avenue Foch. Continuaram por entre as imponentes residências de aristocratas franceses e os uniformes apartamentos de milionários americanos e europeus, até diminuírem a marcha à vista de um sinal de trânsito que indicava o cruzamento com a Avenue Malakoff. O cabo fez abruptamente a curva e freou em frente dos portões abertos de uma alta cerca de ferro negro, no número 122-124.

Por trás da cerca, em seguida a um vasto pátio, Brennan viu um maciço e palaciano edifício de dois andares, embora lhe tivessem dito que atualmente havia três andares nas alas. A fachada do Palais Rose apresentava uma série de janelas abauladas, embutidas em mármore cor-de-rosa. A entrada principal, por baixo da varanda gradeada do segundo andar, era formada por três portas em arco, e o acesso fazia-se por cinco largos degraus de pedra que conduziam ao vasto pátio.

— Leve-nos até lá dentro, cabo — ordenou Neely ao motorista.

O carro deu marcha à ré, depois transpôs rapidamente os portões, e eles logo se viram rodeados por policiais franceses fardados, ao mesmo tempo em que um grupo de indivíduos modestamente vestidos, com certeza uma mistura de americanos, russos, ingleses e chineses, espreitava curiosamente do outro lado da escadaria de entrada.

Enquanto Neely mostrava a um agente dos Services de Sécurité Présidentielle seu cartão de identidade e as credenciais da embaixada à conferência, Brennan ouviu-o mencionar seu nome e viu o agente aquiescer. Brennan notou, através do pára-brisa, um robusto indivíduo em traje civil que corria para eles. O agente francês dos serviços de segurança estava indicando ao motorista a fila dos automóveis estacionados, quando o homem em traje civil alcançou o carro e se pôs a caminhar a seu lado, enquanto atravessavam uma estreita faixa de estacionamento.

— Eh, Hal — disse Neely —, apresento-lhe um amigo meu, o sr. Brennan. — E voltando-se para Brennan:

— Hal, do serviço secreto.

— Há lá dentro uma multidão à sua espera, sr. Neely — informou o agente do serviço secreto. — Há meia hora que esses jornalistas não param de chegar. Nós os temos mantido no vestíbulo. Ainda bem que o senhor veio, pois começam a mostrar-se impacientes.

Neely e Brennan desceram lentamente do carro e acompanharam o agente do serviço secreto através do pátio. Subiram os degraus de pedra e entraram pela porta do centro no Palais Rose.

Embora avisado, Brennan ficou surpreso com a grande massa humana que ocupava o vasto e alto vestíbulo de colunas retangulares, de um branco esverdeado e tetos abobadados. Os representantes da imprensa americana, pelo menos uns sessenta, cobriam todo o pavimento de mármore, ocultando os quadrados cor-de-rosa e brancos, e ocupavam ainda vários degraus de granito, até um painel de mármore em cujo centro havia uma estrela. A escadaria de mármore cor-de-rosa prolongava-se até o primeiro andar.

Brennan estava tão absorto na contemplação da grandiosidade do Palais Rose que não notou que algo de insólito se passava:

os representantes da imprensa, de costas para Neely e Brennan, prestavam atenção a um homem alto, idoso e de aspecto familiar que estava de pé, em frente da estrela do painel de mármore, junto à escadaria.

— Oh, meu Deus! — resmungou Neely. E Brennan, olhando-o, pôde ler-lhe no rosto a decepção. — É o chato do Earnshaw que está dando uma entrevista coletiva. Como diabo isso aconteceu? Onde estará o tolo do Callahan? — Esticou o pescoço e procurou entre a multidão seu colega da embaixada.

Brennan dirigiu o olhar para o orador. Àquela distância, as palavras de Earnshaw eram inaudíveis, mas seu aspecto mantinha-se exatamente o mesmo de que Brennan se recordava, quando do último encontro, antes de Zurique, havia quatro anos. Era o mesmo Earnshaw de cabelos brancos rebeldes, nariz de pugilista e sorriso seráfico, o avô amável de todo mundo. Brennan tentou descobrir se ainda odiava Earnshaw ou se, simplesmente, já não sentia nada por ele. E concluiu que nunca tinha detestado realmente Earnshaw — pode-se odiar um marshmallow ou uma taça de gelatina? —, apenas o desprezava por sua fraqueza e covardia.

Por causa de Madlock — e sempre na presença de Madlock —, Brennan encontrara-se várias vezes com o presidente para conferenciar acerca do desarmamento. Achara Earnshaw afável, bronco e relativamente mal-informado. Nessa época, Brennan quase sentira afeição por Earnshaw, pois o presidente parecia admirá-lo. Após o desastre de Zurique e a morte de Madlock, Brennan esperara que Earnshaw viesse em seu auxílio. Acreditara na lealdade do presidente para com um de seus colaboradores. Estava convencido de que o presidente sabia, por intermédio de Madlock, de sua conversa particular sobre a integração de Varney na delegação enviada à Suíça. Contudo, durante as audiências Dexter, Earnshaw mantivera-se alheio e invisível. Brennan não admitia a hipótese de o presidente não saber que seu colaborador estava inocente. Acreditava que Earnshaw tinha influído na disposição do Congresso e do público — era necessário um bode expiatório —, tinha aceito a conclusão geral, subscrevera-a e consentira assim que Brennan fosse esse bode expiatório. Em suma, Earnshaw recusara opor-se à opinião pública e saíra do burburinho político puro e sem mancha.

Nessa época, Brennan não odiara seu superior, mas irritaram-no a falta de caráter do presidente, sua carência de integridade. Nos anos que se seguiram, quando a imagem de Earnshaw desapareceu de sua memória, quando a certeza de que o Ex estava a par de sua inocência foi substituída pela incerteza, Brennan deixou de sentir o que quer que fosse a respeito do antigo chefe do poder executivo. E mesmo agora, ao observar os gestos agitados de Earnshaw, Brennan sentia mais compaixão do que ódio ou raiva pelo Ex. E perguntava a si próprio se Earnshaw o reconheceria se viessem a encontrar-se frente a frente.

Notou que Neely tinha localizado Callahan e o arrastava para a entrada. Neely estava furioso, e Callahan parecia desolado. Brenhan tentou alhear-se, mas não pôde evitar ouvir a azeda troca de palavras segredadas.

— Que raio está ele fazendo aqui com os jornalistas? — perguntou Neely.

— Ouça, Herb, não tive culpa — defendeu-se Callahan. — Estou tão surpreso como você.

— Sem dúvida! Mas será comigo que o atual presidente berrará e não com você.

— Não pude evitá-lo — insistiu Callahan. — Você me disse que levasse Earnshaw a passear e o mantivesse longe daqui. Tentei fazê-lo. Mas a primeira coisa que a garota, a sobrinha dele, Carol, quis visitar foi o local onde se realizaria a conferência. Então, ele me pediu que os trouxesse ao Palais Rose. Que queria que eu fizesse?

— Se fomos capazes de impedir Khruchov de entrar na Disneylândia, você também podia ter mantido Earnshaw longe do Palais Rose — disse Neely venenosamente. — Sabia perfeitamente que eu tinha aqui um encontro com a imprensa, às treze horas.

— Claro que sabia, Herb, mas veja se compreende. Trata-se de um ex-presidente, e deu-me uma ordem. Além disso, ainda era cedo, e julguei que pudéssemos fazer a visita e sair antes da chegada dos jornalistas. Mas Carol é uma turista com T maiúsculo. Quis ver tudo, saber tudo, e a visita arrastou-se até eu sentir as pernas doídas. Ainda julguei que pudéssemos escapar, mas sua matilha começou a chegar cedo demais. Tentei empurrar Earnshaw e a sobrinha para a saída... e bumba!, caímos-lhe mesmo nos braços. Todos gritaram ao Ex que falasse, e, desde então, ainda não se calou.

— Vejamos que diabo ele está dizendo — propôs Neely, abrindo caminho por entre a multidão, seguido de perto pelo desolado Callahan e por Brennan.

Agora já podiam ouvir claramente as perguntas dos jornalistas e as empoladas, embora confusas, respostas. Alguém tinha pedido que ele comentasse aquela conferência das cinco potências, e Earnshaw respondia que as conferências de cúpula eram úteis nestes tempos de tensão em que vivíamos. Vários correspondentes tentaram interrompê-lo e obrigá-lo a cingir-se à conferência em causa, mas Earnshaw fingiu não ouvi-los e continuou a perorar como um velho professor inglês, historiando a evolução do conceito da moderna conferência de alto nível.

— Talvez saibam, talvez não, meus amigos, que toda ideia de... hã... uma conferência de cúpula convocada por potências que são... hã... poderosas, isto é, poderosas e em conflito, é uma ideia nova — dizia Earnshaw, entremeando as frases de “hãs”, pausas que sempre tinham sido para ele um flagelo, quando falava em público. — Recuando aos tempos dos carros a cavalo, ou antes, dos coches a cavalo, isto é, antes da Segunda Guerra Mundial, os chefes de Estado não se reuniam dessa maneira. Mandavam seus diplomatas a Viena, a Roma, a São Leningrado... hã... quero dizer, Petersburgo, para conferenciar, fazendo sair os cavaleiros e os bispos à frente dos reis, como se costuma dizer, e tinham razão para isso, como vêem. Nos velhos tempos, um chefe de Estado, um imperador ou um rei era considerado de origem divina, portanto, tudo o que dissesse, talvez precipitadamente, na agitação do momento, constituía a última palavra, a lei, a norma, e podia não ser o que realmente teria dito se tivesse pensado melhor, de modo que nesses tempos se considerava preferível haver diplomatas, ministros e príncipes que fizessem a maior parte do trabalho, deixando que mais tarde os chefes de Estado se encontrassem apenas para confirmar o que já tinha sido decidido. Mas a Segunda Guerra Mundial, a mecanização, os aviões, tudo isso transformou a diplomacia. Os conflitos desenvolvem-se com demasiada rapidez, e há necessidade de comunicação mais premente entre os homens de Estado, de autoridade plena, para poderem tomar decisões inadiáveis. A nossa aliada, na Segunda Guerra Mundial, a Rússia, foi governada por um único homem, pela lei de um único homem, Stálin, e só ele podia tomar uma decisão realista para a Rússia. Quer dizer... hã... bem, então... não havia segundo comandante... isto é, nenhum Molotov tinha o direito de agir independentemente, de tomar qualquer decisão; tudo o que era dito tinha de ser apreciado por Stálin para que ele decidisse o que se devia fazer, e, como sabem, isso exige tempo, coisa que não havia. Por isso, para apressar as decisões, foi inventada, como ninguém ignora, a Conferência de Cúpula, onde qualquer Stálin pode se reunir à volta de uma mesa com um Roosevelt ou um Churchill para tomarem em conjunto decisões rápidas e... hã... bem, isso explica esta conferência e estou convencido de que responde às perguntas.

Alguém perguntou se haviam convidado Earnshaw para assistir à conferência na qualidade de homem de Estado mais experiente, e Earnshaw respondeu amavelmente que se encontrava em Paris apenas como observador, jornalista como eles, e que aceitara essa missão unicamente para saber, de uma vez para sempre, o que significava ser alguém que conhecia mais do que o presidente, o seu gabinete e o Departamento de Estado. Isso suscitou um coro de gargalhadas por parte dos representantes da imprensa, e Earnshaw mostrou-se radiante.

Neely, seguido mais de perto por Callahan e Brennan, murmurou com um suspiro de alívio:

— Estamos salvos. Fala muito e não diz nada, graças a Deus. Ainda bem, Callahan, já podemos respirar fundo.

Mas, de repente, de um ponto não localizado, uma voz estridente de mulher gritou:

— Senhor pres.... sr. Earnshaw, tenho uma pergunta!

Brennan tentou descobrir quem falava, mas não o conseguiu.

Ouviu Neely segredar:

— Hazel Smith, da ana. Vamos ter problemas.

— A pergunta — prosseguiu a voz estridente — diz respeito à sua própria responsabilidade nesta crítica reunião de cúpula. Em que medida, sr. Earnshaw, sua administração contribuiu para a crise internacional que conduziu a esta conferência, que a tornou indispensável?

Brennan sentiu um baque no coração, medo de que seu nome fosse evocado, e ouviu Neely segredar a Callahan:

— Aí está o problema. Vou pôr-lhe fim.

Brennan viu o adido de imprensa da embaixada esgueirar-se por entre a multidão, depois concentrou uma vez mais a atenção cm Earnshaw. O rosto deste tinha se tornado cor de púrpura, e seus lábios haviam se cerrado.

— Senhorita — disse asperamente o Ex —, sem o trabalho de minha administração não teria havido esta conferência. Teria havido guerra e destruição. Nós, o sr. Madlock e eu, tentamos inculcar em nossos colegas estrangeiros a ideia de que apenas a razão e o bom senso poderiam manter a paz, e julgo que o conseguimos... hã... o conseguimos admiravelmente. Como prova...

Earnshaw prosseguiu na exaltação de sua administração, como uma criança que embeleza um conto de fadas, considerando-se a si e a Madlock os dois bons príncipes gêmeos e chamando a China vermelha de o orgulhoso dragão que eles haviam domado e enjaulado. Depois, rematou com uma inexata citação de São Lucas, que atribuiu a São Marcos.

Aproveitando uma pausa de Earnshaw, Neely transpôs a muralha formada pelos correspondentes da frente, subiu até junto dele, saudou-o, apertou-lhe a mão e agradeceu-lhe. Enquanto Earnshaw resmungava, confuso, Neely voltou-se para o grupo de jornalistas e disse-lhes que a submissão de Earnshaw àquele interrogatório havia sido muito generosa, mas que o ex-presidente estava ali para fazer perguntas acerca da conferência e não para dar respostas, além do que, tinha direito a um domingo de descanso. Tudo fora dito calma e habilmente, o que fez com que Brennan olhasse com admiração para o amigo, lamentando não possuir talento igual para impor sua autoridade.

Sem largar o braço de Earnshaw, Neely anunciou ao grupo:

— Esperem dois minutos, enquanto acompanho nosso ex-presidente até seu carro. É permitido fumar aqui, mas não lá em cima. Voltarei dentro de momentos, e então iremos visitar a sala da conferência.

Os jornalistas abriram alas para Neely e Earnshaw, a quem se juntara a sobrinha, passarem. Progrediam lentamente. Earnshaw, alvo das atenções, acenava a velhos conhecidos e detinha-se aqui e ali para apertar as mãos dos jornalistas que havia conhecido durante sua passagem pela Casa Branca.

Já estavam perto de Callahan e Brennan, que sc sentia pouco à vontade com a proximidade de Earnshaw e tentava sair dali quando foi empurrado de encontro a uma coluna. Livre do aperto, Earnshaw parou, passou a mão pela testa, olhou em redor e esboçou um sorriso, certo de que não havia esquecido ninguém. Seus olhos pousaram em Brennan, e o sorriso alargou-se num cumprimento amigável:

— Olá! Creio que me lembro de você. — Hesitou. — Já nos encontramos antes?

Brennan engoliu em seco, ficou hirto e respondeu com brusquidão:

— Já, sr. Earnshaw. Quando estava na Casa Branca. Sou Matthew Brennan.

— Brennan, mas claro! — A testa de Earnshaw enrugou-se levemente, depois seu rosto transformou-se numa careta e o sorriso desapareceu ao reconhecê-lo completamente. — Já me recordo — disse friamente. — Estou surpreso por vê-lo aqui.

— Não mais do que eu — replicou Brennan.

Earnshaw estava para argumentar, mas dominou-se. Deu um rápido aceno a Brennan, voltou-lhe as costas, deu o braço à sobrinha e, acompanhado por Neely, dirigiram-se para a porta de saída que Callahan mantinha aberta.

— Desculpe, Matt — disse Neely, já de volta. — São coisas que acontecem.

— Não tem importância — tranquilizou-o Brennan, ao mesmo tempo em que dizia para consigo que, na verdade, aquilo nada significava, pois uma vez mais se sentia vingado e igual a qualquer outro, antecipando o ajuste de contas a que procederia, depois de falar com Rostov.

— Tenho de acompanhar essa demoníaca horda até lá em cima — disse Neely. — Tem certeza de que não se importa? Se não se sente à vontade, pode ir embora.

— Estou bem — respondeu Brennan, desafiadoramente.

— Ótimo. Tenho de conduzir as operações. Aconselho-o a ficar na retaguarda.

Brennan esperou que o amigo começasse a subir a escadaria de mármore seguido pelo barulhento e indisciplinado grupo de jornalistas. Aguardou que chegassem ao primeiro andar e, então, subiu também.

Lá em cima, os jornalistas formaram uma coluna irregular, dobraram uma esquina e penetraram numa comprida e espaçosa galeria. Atravessaram o pavimento assoalhado, entre altas janelas e sob um teto branco, abobadado e de frisos dourados. À distância, Brennan podia ouvir o eco da voz de Neely.

— Estão na Salle des Glaces, a Sala dos Espelhos, uma cópia em miniatura da galeria do Palácio de Versalhes — anunciou o adido de imprensa. — Seguimos agora diretamente para o grand salon do Palais Rose, onde os chefes das cinco potências -se reunirão amanhã. Este palácio foi construído por uma americana, Anna Gould, filha de um célebre magnata das estradas de ferro, Jay Gould. Ela e o marido, o marquês Boniface de Castellane, receberam quatro mil convidados no dia da inauguração. Anna Gould abandonou o palácio em 1939 e, pouco depois, quando os nazistas ocuparam Paris, o governador militar alemão da França, o general Karl Heinrich von Stulpnagel, fez dele sua residência. Mas creio que, para torná-lo mais seguro, mandou fazer um enorme abrigo para bombas por baixo do palácio. Ainda não foi inaugurado... Bem, aqui estamos. Esta porta espelhada dá para o grand salon. — Brennan entrou com os últimos. Encostou-se à cornija de uma lareira, ao mesmo tempo em que os jornalistas americanos formavam um duplo círculo em redor do salon. Enquanto seu amigo Neely conversava com alguns dos mais preeminentes membros do grupo de jornalistas, Brennan examinou a sala.

Com aguda saudade, viu aquele magnífico salão repleto com as delegações e as memoráveis conferências de seu passado. Entrara em muitas dessas salas de reunião antes de Zurique — imponentes salas palacianas em Londres, Bonn, Genebra e Roma —, quando era participante, ao lado de um embaixador americano ou de um secretário de Estado, escutando, tomando notas, sendo muitas vezes chamado para dar um conselho ou reforçar com fatos uma declaração política, ou ainda para esclarecer e explicar uma linha do Livro Negro do Departamento de Estado. Isso o enchia ao mesmo tempo de orgulho e profunda satisfação por colaborar com os condutores e agitadores de homens, por ser um dos representantes da humanidade que tentavam extirpar os horrores da guerra e da carnificina. Sabia que seu irmão Elia, um excelente moço, sacrificado a esses horrores, teria sido seu orgulho. Mas agora, ali em Paris, sentia que essa saudade o arrastava para o desânimo. Era doloroso ser um estranho, sem utilidade nem préstimo, quando havia tanto trabalho que necessitava desesperadamente ser feito. A raiva e a autocompaixão apoderaram-se de seu espírito, seus Cilas e Caribdes íntimos, e com determinação evitou-os e ocupou-se com as superficialidades que o rodeavam.

Tinha conhecido outras salas noutras residências reais, mas nenhuma tão impressionante como aquela. Dominando o grand salon do Palais Rose e ocupando a maior parte do centro, havia a maior mesa redonda que os olhos de Brennan jamais tinham contemplado. Uma espessa toalha cor de tabaco estendia-se por cima dela como um oleado por cima de um campo de jogos, e, ao redor da enorme mesa circular, havia — contou-as — vinte cadeiras. Quinze eram douradas, como verificou, de encostos retos e sem braços. As cinco restantes tinham assentos de veludo, encostos de palhinha e braços de trono, poltronas para os grandes, o quinteto de homens extraordinários, escolhidos por milhões de seus semelhantes para decidirem o destino do homem na Terra.

Dado que Neely se dirigia agora para a mesa e o silêncio pesava sobre a sala, Brennan examinou rapidamente o que ainda havia para ver:

quatro candelabros de cristal que sobressaíam das paredes de mármore rosa-pálido, quatro enormes medalhões de gesso branco no alto das paredes, representando as quatro artes, três grandes janelas abertas para o que parecia ser um jardim.

Uma estranha atmosfera, pensou Brennan, para três democratas e dois comunistas que iam conferenciar sobre armas nucleares.

Neely estava de mão erguida, chamando a atenção do grupo, ao mesmo tempo em que, com a outra, ajustava os óculos sem aros. Os correspondentes preparavam os lápis, as canetas c os blocos de notas.

— Uma vez que esta é sua única oportunidade de visitar esta sala, de onde sairão as reportagens que terão de escrever nos próximos dez dias, é natural que lhes interesse observar atentamente o que aqui está e saber tudo o que for possível para emprestar colorido e animação a seus artigos — começou Neely. — Não temos muito tempo, pois dentro em breve chega a imprensa russa e, depois dela, a inglesa. Portanto, continuemos. Este grand salon só foi utilizado uma vez como sala de conferência internacional. Em 1949, o governo francês pediu a Anna Gould que lhe alugasse o Palais Rose para uma reunião dos quatro primeiros-ministros das quatro potências. Ela cedeu-o a ele gratuitamente. Em 1949, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, a França e a União Soviética, representados por Acheson, Bevin, Schuman e Vichinski, encontraram-se aqui. Nas décadas que se seguiram, o Palais Rose esteve desabitado. Agora, uma vez mais, o governo francês cedeu-o para esta conferência e mobiliou-o com cadeiras e mesas tiradas do Palácio Eliseu, na cidade, e do Petit Trianon, em Versalhes.

Neely calou-se, fazendo uma pausa necessária para os jornalistas fazerem apontamentos, e olhou para Brennan, que observava o grupo. Depois, prosseguiu:

— No caso de lhes interessar, para além das três vidraças há um imponente jardim, muito bonito, com vasos de pedra decorados com cupidos e cheios de flores, sendo a estátua principal uma Vênus nua. Aproveitem isso como lhes aprouver. Há bancos no jardim. Esperemos que toda esta beleza exerça um efeito salutar e calmante nos chefes de Estado.

Houve gargalhadas, Neely agradeceu com um sorriso crispado e prosseguiu:

— Devo acrescentar que o jardim dá para a Avenue Foch, que fica, portanto, à sua esquerda. Voltemos agora ao assunto principal, a mesa da conferência. É feita de uma madeira rara e foi especialmente desenhada e construída para esta histórica conferência. Cada um dos cinco chefes sentar-se-á numa dessas poltronas Luís XIV (como podem ver, estão forradas de veludo vermelho e a madeira é dourada), e cada um deles terá junto de si três membros de sua comitiva nas respectivas cadeiras ao lado:

dois intérpretes e um ministro ou secretário. Esta noite, serão colocadas cinco pequenas mesas, cada uma delas atrás de uma poltrona, onde ficarão instaladas as secretárias que estenografarão as conversações. Naturalmente, haverá cartões para indicar os lugares de cada grupo.

— Sr. Neely — ouviu-se a estridente voz feminina —, onde ficarão os outros delegados?

Neely pareceu admirado.

— Ia falar nisso — respondeu, acrescentando entre parênteses:

— Contudo, avisei-os de que não haveria tempo para perguntas durante nossa visita. Se quiserem fazê-las, telefonem-me ou dirijam-se ao gabinete do adido de imprensa, na embaixada dos Estados Unidos. Seja como for, os outros delegados ficarão instalados no andar de cima. Podem ver os telefones e os respectivos fios, que lhes permitirão comunicar-se com as salas adjacentes ou com qualquer ponto de Paris. Isto é, se o primeiro-ministro Talanski precisar de uma informação para responder a uma pergunta do presidente da China vermelha, Kuo Shu-tung, pode telefonar aos especialistas dos Assuntos do Extremo Oriente e consultá-los rapidamente, ou mandar-lhes uma mensagem por um hinssier. É claro que a maior parte dessas coisas será feita à noite, em particular, dentro de cada embaixada. As reuniões diurnas serão mais formais. Como me disse o embaixador, quando há mais do que dois ou três a uma mesa de conferência, cada delegado tende mais a fazer discursos e a perorar do que a participar de uma conversa franca. O principal progresso resulta dos encontros dos diversos chefes nos bastidores; discutem-se os problemas entre duas bebidas nas embaixadas, nas residências dos embaixadores ou nos apartamentos dos hotéis.

Apontando com o dedo, Neely chamou a atenção geral para as seis portas.

— Aquelas portas dão para outras salas do Palais Rose, transformadas em gabinetes das delegações à conferência. Os delegados americanos ocuparão um vasto quarto verde, outrora utilizado por um duque. Os chineses terão como quartel-general, mais apropriadamente, um quarto forrado de damasco vermelho, transformado agora em sala de trabalho. Os russos ocuparão um quarto branco e dourado... também muito apropriadamente... na ala esquerda do Palais. E assim por diante. Antes de sairmos, mostrar-lhes-ei esses quartos. Verão que o governo francês não descurou o quarto poder. Uma sala de jantar e um salão de fumar, mobiliados com mesas, telefones, máquinas de escrever e bufê, foram convertidos em gabinetes de imprensa para alguns de vocês e outros jornalistas das restantes nações, encarregados da cobertura de uma parte da conferência no Palais Rose.

“A primeira sessão plenária desta conferência está marcada para as dez horas de amanhã, neste salão. O protocolo diplomático seguirá os trâmites do Congresso de Viena, de 1815. A primeira reunião está prevista para cerca do meio-dia. À tarde, por volta das quinze horas, os ministros dos Negócios Estrangeiros de cada delegação se encontrarão no Quai d’Orsay, enquanto os chefes de Estado tomarão parte em cerimônias especiais na Câmara Municipal e assistirão às habituais formalidades junto ao Arco do Triunfo. Aconselho todos os correspondentes responsáveis pela reportagem do Palais Rose a estarem nos gabinetes de imprensa o mais tardar até as nove horas e trinta minutos de amanhã, para as declarações e indicações de última hora. Penso que é tudo. Ao sairmos daqui, mostrar-lhes-ei os gabinetes de trabalho dos diferentes delegados, e estará terminada a visita. Obrigado. Escrevam, mas rezem também... por vocês, por nós e por todo o mundo preocupado.”

— Amém! — gritou alguém.

Rodeado pelo grupo ondulante de jornalistas, Neely deixou o grand salon, e Brennan ficou de novo para trás, entre os últimos.

Vinte minutos depois, a visita estava terminada, e Neely, seguido pelo grupo de correspondentes, dirigiu-se para o frígido vestíbulo. A maior parte dos jornalistas partiu imediatamente, mas alguns ficaram conversando com os colegas e rivais, enquanto Brennan procurava furtar-se à curiosidade, esperando junto às portas da frente por Neely.

Receoso de ser reconhecido, Brennan suspirava nervosamente pelo amigo. Por fim, viu Neely, que tirava os óculos sem aros, esfregava os olhos, ao mesmo tempo em que escutava cinco jornalistas, duas mulheres e três homens. De repente, Neely disse qualquer coisa, fez um gesto de despedida e abandonou o grupo. Tinha visto Brennan e dirigia-se para ele, mas não vinha só. Uma corpulenta mulher de cabelos ruivos, com uma bolsa a tiracolo, sobre um conjunto de saia e casaco marrom, seguia-o a passo largo, grasnando. Aflito e obviamente decidido a escapar dela, Neely prosseguia em seu caminho, ao mesmo tempo em que dava respostas curtas.

Quando já estavam perto, Brennan pôde ouvir Neely dizer com aspereza:

— É tudo por agora, srta. Smith. Se souber mais alguma coisa acerca da mulher do presidente, telefonar-lhe-ei, na ana.

Tinham parado em frente de Brennan, e este reconheceu-a imediatamente, pois tinha visto seu retrato nos jornais, poucos dias antes. De fato, Lisa apontara para a fotografia daquela mulher e dissera que gostaria de ser correspondente estrangeira como Hazel Smith, uma profissão muito romântica e cheia de aventuras. Não havia dúvida de que estava na presença de Hazel Smith, concluiu Brennan.

Apesar da voz estridente, dos cabelos ruivos visivelmente pintados, das feições que pareciam um desenho cubista, da roupa de corte severo, Hazel Smith era inexplicavelmente mais feminina do que Brennan esperava. Talvez, pensou, fosse por causa da prudência de seus olhos vivos, da boca pequena e exageradamente pintada, ou talvez devido à esplêndida rotundidade dos quadris que contrastavam com tudo o mais e faziam dela uma mulher de verdade.

Os olhos vivos e curiosos voltaram-se para Brennan, observaram-no surpresos e desviaram-se de novo para Neely.

— Fico à espera, sr. Neely. Estou preparando uma grande reportagem com as esposas e tenho de incluir nossa primeira-dama. Não se esqueça. ..

— Dei-lhe minha palavra, srta. Smith — disse Neely com impaciência. Voltou-se abruptamente e agarrou o braço de Brennan. — Muito bem, Matt, vamos embora. Temos de...

Antes que conseguissem alcançar a saída, Hazel Smith interceptou-lhes o caminho.

— Chamou-lhe Matt? — perguntou a Neely, ao mesmo tempo em que encarava Brennan. Depois, fez estalar os dedos e, sem tirar os olhos de Brennan, acrescentou:

— Esta minha memória fotográfica! Pareceu-me na verdade reconhecê-lo, mas não tinha...

— Já estamos atrasados — disse Neely rapidamente, tentando arrastar Brennan, mas Hazel Smith estacara diante deles como um rochedo.

Ignorando o adido de imprensa, continuou:

— Matt vem de Matthew, e no meu tempo Matthew' não era só o Mateus dos Evangelhos, era o das audiências Dexter. É Matthew Brennan, não é?

— Sou — respondeu Brennan, tentando conter-se. — Chamo-me Matt Brennan. Ou, antes, sou Matthew Brennan.

Ela soltara-se como uma flecha de um arco, visando-o como se ele fosse Julius Rosenberg ou Klaus Fuchs, e Brennan sorriu, resignado.

— Em carne e osso — acrescentou Brennan.

Neely puxava-o desesperadamente pelo braço, tentando libertá-lo, mas Brennan tranquilizou-o:

— Está tudo bem, Herb.

— Sou Hazel Smith, da ANA — dizia ela —, e...

— Eu sei — atalhou Brennan.

— Muito bem. Nesse caso, não ignora que estou preparando uma série de reportagens sobre indivíduos estranhos enviados a Paris ou arrastados até aqui por causa da conferência. — Fez uma pausa para procurar na atulhada bolsa uma caneta, que encontrou, e um bloco de notas, que não encontrou, depois prosseguiu:

— Você vai me proporcionar uma história maravilhosa. Será um sucesso. — Desviou os olhos da grande bolsa e continuou:

— Compreende, o fantasma de um famoso diplomata volta a visitar os locais de seus antigos triunfos... o delegado não oficialmente exilado surge das brumas do passado... Oh, não olhe assim para mim, sr. Brennan, não tenha receio de Hazel Smith. Isto pode lhe ser útil. Pode dar-lhe oportunidade de se comunicar com meio milhão de leitores. Para dar-lhe uma ideia do que penso, dir-lhe-ei que tenho uma entrevista, daqui a uma hora, com essa irritante inglesinha que está sendo anunciada no Clube Lautrec, Medora Hart, mas vou desistir. Seu enfadonho escândalo não tem metade do interesse humano que tem o seu. — E, para concluir, voltando a inspecionar a bolsa:

— Por que não vamos para um café e.. .

— Não perca tempo — disse Brennan.

Ela calou-se, olhou-o, surpresa, e inquiriu:

— O quê?

— Não perca tempo procurando o bloco de notas. Não teria o que escrever nele. Não estou aqui para conceder entrevistas.

— Isso é uma recusa? Pois saiba que comete um erro. Já lhe disse que uma história patética pode lhe ser útil. Se cooperar, talvez eu lhe fique grata e me sinta generosamente inclinada a seu favor. Tenho certeza de que minha história despertaria considerável boa vontade para com você. E só Deus sabe como precisa dela, sr. Brennan.

— Não, obrigado, srta. Smith. Lamento.

Hazel Smith encolheu os ombros, agitou ameaçadoramente o lápis antes de o guardar na bolsa e premiu o fecho com brusquidão.

— É o seu funeral, sr. Brennan. — Olhou piedosamente para ele e meneou a cabeça:

— É muito pouco esperto em comportar-se assim. Toda gente conhece suas responsabilidades na presente crise mundial. Só teria vantagem em pôr a imprensa de seu lado. Se continuar a agir dessa maneira, pode vir a arrepender-se deveras, a