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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O DR. ARROWSMITH / Sinclair Lewis
O DR. ARROWSMITH / Sinclair Lewis

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O DR. ARROWSMITH

Primeira Parte

 

O grande carro aberto avançava aos solavancos através de florestas e de brejos, nos desertos do Estado de Ohio, guiado por uma andrajosa rapariguita de catorze anos. A mãe ficara enterrada perto de Monongahela - ela, com as suas próprias mãos, amontoara sobre a sepultura, aberta junto à margem do rio de lindo nome, torrões cobertos de relva. O pai tiritava de febre, deitado no leito do carro, e, em torno dele, brincavam os irmãos e irmãs, pequeninos, sujos, esfarrapados e ruidosamente alegres.

Fez alto numa bifurcação do caminho forrado de erva e o doente disse, com voz trêmula:

- Emmy, é melhor voltarmos para Cincinnati. Se encontrarmos o teu tio Ed, acho que ele nos dará agasalho.

- Ninguém nos dará agasalho - disse ela. - Vamos avançar tanto quanto pudermos. Vamos para o Oeste! Há por lá muitas coisas novas, que quero ver!

Preparou o jantar, deitou as crianças e sentou-se perto do fogo, sozinha.

Tal era a bisavó de Martin Arrowsmith.

 

De pernas cruzadas, sentado na cadeira de exame do consultório de Doe Vickerson, um rapaz lia a anatomia de Gray. Chamava-se Martin Arrowsmith e residia em Elk Mills, estado de Winnemac.

Havia, em Elk Mills - em 1897 um lugarejo de aparência pobre, construído de tijolos vermelhos, e que cheirava a maçãs - a suspeita de que esta cadeira adaptável, de couro castanho, que Doe Vickerson utilizava para pequenas operações, raras extracções de dentes e freqüentes sestas, começara a sua vida como cadeira de barbeiro. Existia ainda a crença de que o seu proprietário fora algum dia chamado Dr. Vickerson, mas havia anos que era conhecido apenas pela designação de Doe, e achavam-no mais gasto e muito menos adaptável do que a cadeira.

Martin era filho de J. J. Arrowsmith, proprietário do Bazar Nova-iorquino de Confecções. Por pura obstinação e arrojo, tornara-se, aos catorze anos, o assistente, não oficial e categoricamente gratuito, do Doe, e, quando este atendia uma chamada exterior, ele substituía-o, embora ninguém jamais tivesse podido dizer em que o substituía. Era um rapaz delgado, mas não muito alto; os cabelos e os olhos vivos eram negros, a pele de alvura singular; e o contraste dava-lhe um ar de mobilidade apaixonada. A cabeça quadrada e uma razoável largura de ombros salvavam-no de qualquer aparência efeminada ou dessa timidez queixosa a que os artistas jovens chamam sensibilidade. Quando erguia a cabeça para escutar, a sua sobrancelha direita, levemente mais alta do que a esquerda, levantava-se e fremia, acrescentando a uma característica expressão de energia, de independência e de combatividade, um ar impertinente de curiosidade, que tivera o dom de irritar os professores e o director da Escola Dominical.

Martin, como muitos habitantes de Elk Mills, antes da imigração eslavo-italiana, era um norte-americano anglo-saxão puro, isto é, uma mistura de alemão, francês, escocês, irlandês, na qual entrava talvez um pouco de espanhol, provavelmente um pouco dos caracteres cujo conjunto constitui o semita, e muito do elemento inglês, que resulta, por sua vez, de uma combinação de bretão primitivo, de celta, de fenício, de romano, de germano, de dinamarquês e de sueco.

Não é certo que, ao ligar-se ao Doe Vickerson, Martin fosse inteiramente impelido pela louvável aspiração de se tornar um grande médico. Assombrava os garotos do seu grupo, fazendo pensos em escoriações, dissecando esquilos e explicando os pasmosos segredos que o estudo da fisiologia revela, mas não era totalmente isento da ambição de conquistar, entre eles, uma glória igual à de que gozava o filho do ministro episcopal, que podia fumar um charuto inteiro sem vomitar. Esta tarde, contudo, lia atentamente o capítulo do sistema linfático e murmurava as palavras compridas e perfeitamente incompreensíveis num zumbido que tornava ainda mais entorpecente a sala cheia de pó.

Era o compartimento central dos três ocupados por Doe Vickerson, que deitavam para a Rua Principal, por cima do Bazar de Confecções. Flanqueavam-na a sórdida sala de espera e o quarto de dormir do Doe. Este era um viúvo idoso; não dava a mínima importância àquilo a que chamava "iscas femininas"; e o quarto de dormir, com a sua escrivaninha vacilante e o catre forrado de cobertas sujas, era arrumado apenas por Martin, em crises não muito freqüentes de limpeza.

Esse compartimento central era simultaneamente gabinete, consultório, sala de operações, sala de estar, sala de póquer e depósito de espingardas de caça e instrumentos de pesca. Encostada a uma parede de argamassa parda, uma papeleira continha colecções zoológicas e curiosidades médicas e, a seu lado, erguia-se o objecto mais terrível e fascinante conhecido pela garotada de Elk Mills: um esqueleto com um magro dente de ouro. Nas noites em que o Doe estava ausente, Martin costumava reforçar o seu prestígio junto do seu assustado grupo, levando os componentes através das trevas profundas da sala, e riscando um fósforo de enxofre junto dos maxilares do esqueleto.

Numa tábua enverrazada, pendurada na parede, havia um lúcio empalhado. Ao lado da estufa enferrujada, uma escarradeira cheia de serradura descansava sobre um oleado pegajoso e gasto até à trama. Em cima da mesa cambaia, havia uma pilha de contas de honorários atrasados, que o Doe jurava constantemente "receber sem demora daqueles cães caloteiros", e que, em hipótese alguma, nem tempo algum, jamais receberia, de quem quer que fosse. Um ano ou dois, uma década ou duas, um século ou dois, era tudo a mesma coisa, para o laborioso médico, sob o zumbido do lugarejo.

O canto mais infecto estava reservado para o lavatório de ferro forjado, que era usado mais freqüentemente para a lavagem dos pratos sujos de ovo, do pequeno almoço, do que para esterilizar instrumentos. Na sua beira, encontravam-se uma proveta mutilada, um anzol partido, um frasco de pílulas, sem rótulo, ali esquecido, um tacão eriçado de pontas de pregos, uma velha boquilha para charutos, e, espetada numa batata, uma lanceta enferrujada.

A feroz degradação do recinto era a alma e o símbolo de Doe Vickerson; era mais interessante do que as monótonas pilhas de caixas de calçado, no Bazar de Confecções: era, para Martin Arrowsmith, um estímulo para a investigação e para a aventura.

 

O rapaz ergueu a cabeça, levantou a sobrancelha escrutadora. O passo incômodo do Doe Vickerson ressoava na escada. O Doe não estava bêbedo! Martin não teria que ajudá-lo a deitar-se.

Mas era um mau sinal que o Doe se dirigisse em primeiro lugar ao quarto de dormir. O rapaz apurou o ouvido. Ouviu o Doe abrir a parte inferior do lavatório, onde guardava a garrafa de rum da Jamaica. Depois de um longo gorgolejar, o Doe, invisível, guardou a garrafa e deu um pontapé na porta do móvel, a fechá-la. Ainda bem. Apenas um gole. Se entrasse imediatamente no consultório, estaria salvo. Mas continuou no quarto. Martin suspirou quando as portas do lavatório foram de novo abertas, quando ouviu segundo gorgolejar, e um terceiro.

O passo do Doe estava muito mais vivo quando assomou à porta do gabinete: uma massa humana acinzentada, com um tufo acinzentado de bigode, uma forma vasta, irreal, indistinta, como uma nuvem que por um momento tomasse aparência humana. Tomando a brusca ofensiva daquele que deseja evitar a discussão da sua falta, o Doe resmungou, vacilando em direcção à sua poltrona:

- Que é que fazes aqui, rapaz? Hem? Sabia que o gato buliria nalguma coisa, se deixasse a porta sem chave.

Engoliu levemente; depois, sorriu para mostrar que estava a dizer uma graça: muitas pessoas interpretavam mal o humor do Doe.

Falou com mais gravidade, esquecendo-se de vez em quando do assunto de que falava:

- A ler o velho Gray? Muito bem. A biblioteca do médico compõe-se justamente de três livros: a Anatomia de Gray, a Bíblia e Shakespeare. Estuda. Podes tornar-te um grande médico. Abre um consultório em Zenith e hás-de fazer cinco mil dólares por ano... tanto como um senador dos Estados Unidos. É preciso um alvo elevado. Nada de escorregões. Adquire conhecimentos. Curso secundário, antes de ir para a Escola de Medicina. Estuda. Química. Latim. Ciências! Sou um pobre médico falhado... sem filhos... sem ninguém... um velho bêbedo. Mas tu... tu serás um médico célebre. com cinco mil dólares por ano. A velha Murray está com uma endocardite. Nada posso fazer. Precisa de alguém que a sustente. A estrada está uma desgraça. O esgoto transbordou; tudo alagado até ao outro lado do mato. Uma desgraça. Endocardite e... Instrução, eis o que te falta. Fundamental. Aprende Química. Biologia. Eu nunca aprendi. A mulher do reverendo Jones acha que tem uma úlcera gástrica. Quer ir operar-se na cidade. Uma úlcera... É boa! Ela e o reverendo comem demais. Mas por que motivo não consertam aquele esgoto?... E, sobretudo, não sejas uma pipa de álcool como eu. E domina a ciência básica. Eu explicar-te-ei.

Martin, embora fosse um desses garotos típicos de aldeia, que costumam atirar pedras aos gatos e jogar opom-pom-pullaway, sentia-se, até certo ponto, invadir pela intoxicação dos caçadores de tesouros à medida que o Doe se esforçava por insuflar nele a sua visão do orgulho do saber, da universalidade da biologia, da triunfal exactidão da química. O Doe era um velho gordo sujo e sem virtude; a sua gramática era duvidosa, o vocabulário alarmante e as suas referências ao rival, o bom Dr. Needham, escandalosas; contudo, causava a Martin uma visão de produtos químicos a explodirem com estrondo e mau cheiro, e de animálculos de que ainda nenhum garoto de Elk Mills fazia a menor idéia.

A voz do Doe empastava-se; estava prostrado na cadeira, com o olhar vago e a boca frouxa. Martin suplicou-lhe que fosse deitar-se, mas o Doe insistiu:

- Não preciso de dormir. Não. Olha! Não sabes avaliar, mas... Estou velho agora. Ensino-te tudo o'que aprendi. Mostro a colecção. Único em todo o condado. Pioneiro da ciência.

Cem vezes já, Martin olhara docemente para os espécimes contidos na estante parda, cujo verniz começava a gretar: os escaravelhos e os pedaços de mica; o embrião de um bezerro de duas cabeças que o Doe entusiasticamente citava a todos os visitantes. O Doe parou diante do tesouro, agitando um indicador enorme, mas trêmulo.

- Olha aquela borboleta. O seu nome é Porthesia chrysorrhoea. Doe Needham não saberia ensinar-te isso! Não sabe os nomes das borboletas! Não lhe interessa que os outros saibam ou não. Gravaste o nome? - E, voltando-se para Martin: - Estás a prestar atenção? Isto interessa-te? Hem? Qual!

Ninguém aprecia o meu museu... ninguém. Sou um velho falhado.

Martin afirmou:

- É formidável, palavra!

- Escuta! Olha. Vês isto? Aqui, nesta garrafa? É um apêndice. O primeiro que foi tirado nesta zona. E fui eu quem o tirou! Aposto que o velho Doe Vickerson foi quem fez a primeira apendicectomia neste sertão! E o primeiro museu. Não é... muito grande... mas é um bom começo. Não tenho dinheiro guardado, como o Doe Needham, mas iniciei a primeira colecção. Iniciei, entendeste?

Caiu numa cadeira, murmurando:

- Sim, tens razão. Preciso de ir dormir. Por hoje estou liquidado.

Quando porém, Martin, o ajudou a erguer-se, livrou-se-lhe das mãos, pôs-se a remexer na escrivaninha e, em seguida, voltou-se, indeciso:

- vou dar-te uma coisa... para começares os teus estudos. E lembra-te do velho. Quem se lembrará deste velho?

Estendeu a preciosa lente que durante muitos anos usara nos seus estudos de botânica. Observou Martin enquanto este metia a lente no bolso, suspirou, esforçou-se por dizer mais alguma coisa e, silenciosamente, arrastou-se para o quarto.

 

O estado de Winnemac é limitado por Michigan, Ohio, Illinois e Indiana, e, como estes, pertence em parte ao Leste, e em parte ao Centro-Oeste. Sente-se lá, nas suas povoações de casas de sicómoro e de tijolos, nas suas indústrias pecuárias, a influência do Nordeste e uma tradição que remonta à Guerra Revolucionária. Zenith, a maior cidade do estado, foi fundada em 1792. Winnemac, porém, é centro-ocidental nas suas lavouras de milho e de trigo, nas granjas vermelhas e nos silos, e, apesar da grande antigüidade de Zenith, muitos condados datam apenas de 1860.

A Universidade de Winnemac está situada em Mohalis, a quinze milhas de Zenith. Conta doze mil estudantes; ao lado deste prodígio, Oxford é uma pequena escola teológica e Harvard uma distinta universidade para gentlemen. A Universidade tem um campo de baseball coberto de vidro; os edifícios medem-se por milhas; emprega centenas de jovens doutores em Filosofia para dar uma rápida instrução de sânscrito, de navegação, de contabilidade, de óptica, de engenharia sanitária, de poesia provençal, de direitos aduaneiros, de cultura de nabos, de desenho de motores, da história de Voronezh, do estilo de Mathew Arnold, do diagnóstico da myohypertropbia kymoparalytica e de publicidade do department-stores. O seu reitor é o maior produtor de dinheiro e o melhor conversador dos Estados Unidos, após o jantar; e Winnemac foi a primeira Universidade do Mundo a empregar o rádio nos seus cursos.

Não é uma escola pretensiosa, de gente rica, dedicada a coisas ociosas e absurdas. É propriedade do povo do Estado, e o que este quer, ou o que dizem que ele quer, é que seja uma espécie de moinho para fabricar homens e mulheres capazes de levarem uma vida moral, jogarem bridge, guiarem bons automóveis, serem empreendedores em negócios e ocasionalmente citarem um ou outro livro, embora não se espere que tenham tempo, algum dia, para lê-los. E uma fábrica de automóveis Ford e, se os seus produtos trepidam e roncam um pouco, são admiravelmente construídos, com peças perfeitamente permutáveis. De hora a hora, a Universidade de Winnemac ganha em número, em influência, podendo esperar-se que, por volta de 1950, tenha criado uma civilização mundial inteiramente nova, uma civilização mais ampla, mais viva e mais pura.

 

Em 1904, quando Martin Arrowsmith, aluno médio do curso de Ciências e Letras, se preparava para a Escola de Medicina, Winnemac tinha apenas uns cinco mil estudantes, mas já iniciara o seu vôo.

Martin tinha vinte e um anos. Ainda aparentava uma grande palidez, pelo contraste com os cabelos negros e lisos, mas mostrava-se um respeitável corredor, um distinto centro no basquetebol e um selvático jogador de hóquei. As colegas achavam que ele tinha "um ar tão romântico", mas como isto se passava antes da invenção do sexo e da era dospetting-parties1, limitavam-se a falar a respeito dele a distância, e Martin ignorava que poderia ter sido um herói amoroso. De resto, apesar de toda a sua obstinação, era tímido. Sem ignorar inteiramente as coisas do amor, não as transformava em ocupação. Preferia a companhia dos homens cujo orgulho viril consistia em fumar sujos cachimbos de sabugo e usar sórdidos sweaters.

A Universidade transformara-se no seu mundo. Para ele, Elk Mills não existia. O Doe Vickerson morrera, fora enterrado e estava esquecido; o pai e a mãe de Martin também se haviam ido, deixando-lhe o dinheiro apenas suficiente para o curso de Ciências e Letras, e de Medicina. A sua razão de ser era a Química e a Física e, para o ano seguinte, a perspectiva da Biologia.

O seu ídolo era o Prof. Edward Edwards, regente do departamento de Química, conhecido pelo nome de Bis. Os conhecimentos de Edwards sobre a história da química eram imensos.

 

Troca de carícias fortuitas. (N. do T.)

 

Sabia ler árabe e enfurecia os colegas ao afirmar que os Árabes se haviam antecipado em todas as suas pesquisas. O Prof. Edwards, por sua parte, não fazia pesquisas. Sentava-se diante do fogo, amimava o seu cão de pastor e soltava risadas surdas.

 

Naquela noite, Bis oferecia uma das suas pequenas reuniões íntimas. Recostado numa poltrona Morris, de belbutina castanha, fazia humor em proveito de Martin e de meia dúzia de outros jovens químicos fanáticos, e atormentava o Dr. Norman Brumfit, lente de Inglês. A sala estava cheia de cordialidade, de cerveja e de Brumfit.

Cada Universidade precisa de um Homem Selvagem para fornecer emoções e lançar o pasmo nas salas de conferência. Mesmo numa instituição tão virtuosa como a de Winnemac, havia um Homem Selvagem, na pessoa de Norman Brumfit. Era-lhe permitido, sem restrições, falar de si como de um imoral, agnóstico e comunista, conquanto todos acreditassem que ele permanecia puro, presbiteriano e republicano. Hoje, ele encontrava-se em forma. Afirmou que, quando um homem mostrava gênio, podia ter-se como certo que nas suas veias corria sangue judeu. Como todas as discussões sobre judaísmo, em Winnemac, esta trouxe à baila Max Gottlieb, lente de Bacteriologia da Escola de Medicina.

O Prof. Gottlieb era o mistério da Universidade. Sabia-se que era judeu, nascido e educado na Alemanha, e que a sua obra sobre a imunologia lhe havia dado fama no Oriente e na Europa. Quase só saía do seu cottage pardo e cercado de ervas para ir ao laboratório, e poucos estudantes, além dos discípulos, o haviam reconhecido na rua, mas todos tinham ouvido falar da sua elevada e delgada figura e do seu ar sombrio e distante. Circulavam mil fábulas a seu respeito. Passava por filho de um príncipe alemão, e dizia-se que era imensamente rico e que, se vivia tão modestamente como os outros professores, era porque estava a realizar experiências terríveis e dispendiosas, que provavelmente se relacionavam com sacrifícios humanos. Dizia-se que podia criar a vida no seu laboratório; que podia conversar com os macacos por ele inoculados; que fora expulso da Alemanha como adorador do Diabo ou como anarquista, e que todas as noites, ao jantar, bebia champanhe autêntico.

A tradição não permitia que os lentes discutissem os colegas com os estudantes; Max Gottlieb, porém, não podia ser considerado colega por ninguém. Era impessoal como o frio vento nordeste.

O Dr. Brumfít tagarelava:

- Sou bastante liberal, segundo presumo, em relação às afirmações da ciência, mas um homem como Gottlieb... Estou pronto a admitir que ele conhece tudo acerca das forças materiais; o que, porém, me admira, é que um homem como ele possa manter-se cego para com a força vital que cria todas as outras. Diz ele que o conhecimento é vão quando não assenta em colunas de números. Ora, quando um ás da ciência puder tomar o gênio de um Benjonson e medi-lo com uma jarda, então confessarei que nós, intelectuais, com a nossa absurda e inabalável crença na beleza, com a lealdade e o mundo dos sonhos, estamos extraviados!

Martin Arrowsmith não sabia ao certo o que significavam as palavras de Brumfit, o que, porém, pouco importava ao seu entusiasmo. Experimentou, contudo, uma sensação de alívio quando o Prof. Edwards, do meio das suas barbaças e por entre uma baforada de fumo, emitiu um som curiosamente semelhante a "Oh, raio! " e arrebatou a palavra de Brumfit. Normalmente, Bis teria sugerido, com uma malícia amável, que Gottlieb era uma espécie de coveiro que passava o tempo a destruir as teorias dos outros homens, em vez de ele próprio as construir. Mas naquela noite, aborrecido com a literatice sentenciosa de Brumfit, exaltou o trabalho de Gottlieb, longo, solitário e sobrecarregado de decepções, para sintetizar a antitoxina, e o seu prazer diabólico em refutar as suas próprias teses como se se tratasse das de Ehrlich ou de Sir Almroth Wright. Falou do grande livro de Gottlieb, a Imunologia, que fora lido por sete dos homens da Terra capazes de o compreender, sendo nove o número total destes.

A reunião terminou com os celebrados sonhos da Sr.a Edwards. Martin dirigiu-se lentamente para a sua pensão, através de uma noite velada de Primavera. A discussão em torno de Gottlieb despertara nele uma excitação absurda. Via-se a trabalhar num laboratório, à noite, só, absorvido nas suas pesquisas, indiferente ao triunfo acadêmico e universitário. Não se lembrava de ter visto o homem, mas sabia que o laboratório de Gottlieb ficava no edifício principal da Escola de Medicina. Desviou-se em direcção à Universidade distante. As raras pessoas que encontrou apressavam-se com a timidez da meia-noite. Penetrou na sombra do Pavilhão de Anatomia, severo como um quartel, inerte como os cadáveres que jaziam sobre as mesas da sala de dissecação. Um pouco além, erguia-se, como um austero borrão, a massa do edifício principal da escola, flanqueado de torreões. No alto de uma das suas paredes escuras, uma única luz. Martin teve um sobressalto. A luz apagara-se bruscamente, como se um observador agitado procurasse ocultar-se dele.

Nos degraus de pedra do edifício principal, dois minutos depois, apareceu, sob a lâmpada do umbral, uma figura alta, ascética, discreta, distante. As suas faces morenas eram descarnadas; o nariz, delgado e fortemente adunco. Não se apressava, como os retardatários. Não tinha consciência do mundo. Olhou para Martin e através dele; afastou-se, murmurando, os ombros abatidos, as mãos compridas traçadas nas costas. Foi-se transformando numa sombra, diluindo-se no conjunto delas.

Estava com o sobretudo coçado de um professor pobre; Martin, porém, passou a evocá-lo enrolado numa capa de veludo negro, com uma arrogante estrela de prata no peito.

 

Durante o seu primeiro dia na Escola de Medicina, Martin Arrowsmith experimentou um sentimento de elevada superioridade. Como estudante de Medicina, era mais pitoresco do que os outros estudantes, pois aqueles têm a reputação de conhecer segredos, horrores, hilariantes perversidades. Os rapazes que cursam outros ramos da ciência vão aos domínios dos estudantes de Medicina folhear os seus livros com curiosidade. Mas também como "bacharel em Artes Liberais", com o seu conhecimento das ciências fundamentais, sentia-se superior aos colegas, a maior parte dos quais não possuía aquele diploma, tendo apenas talvez um ano de curso num college luterano instalado nalgum casarão, entre as lavouras de milho.

Apesar de todo o seu orgulho, Martin estava nervoso. Pensava na eventualidade de uma operação, de uma incisão errada e fatal; e com um temor mais imediato e macabro, pensava na sala de dissecação e no edifício de pedra e aço onde se aninhava o necrotério. Ouvira o que contavam dos seus horrores os estudantes veteranos: de cadáveres suspensos por ganchos, como cachos de frutas podres, num abominável tanque de salmoura, ao fundo do pavimento sombrio; de Henry, o zelador, que tirava os corpos do tanque de salmoura, injectava-lhes zarcão nas veias, e os tratava brutalmente enquanto os empilhava no elevador.

Havia uma frescura de campina no dia outonal; Martin, porém, não a sentia. Apressou-se a entrar no vestíbulo cinzento-ardósia do edifício principal e subiu a ampla escadaria, em direcção ao gabinete de Max Gottlieb. Não reparava nos estudantes que passavam, e, quando se chocava com algum deles, murmurava um confuso pedido de desculpa. O momento era solene. Ia especializar-se em Bacteriologia; descobriria fascinantes micróbios novos; o Prof. Gottlieb ia reconhecer nele um gênio, fazê-lo seu assistente, vaticinar-lhe... Deteve-se diante do laboratório particular de Gottlieb, um pequeno gabinete com estantes cheias de provetas com tampões de algodão; um local nada imponente nem mágico, excepto quanto à cuba de temperatura constante, com o seu misterioso termômetro e os globos eléctricos. Esperou que outro estudante, confuso e gaguejante, acabasse de falar com Gottlieb, que, sombrio, descarnado, impassível, se conservava sentado à sua secretária, no pequeno escritório, e, por sua vez, precipitou-se.

Se naquela nebulosa noite de Abril, Gottlieb se lhe afigurara romanesco como um cavaleiro de capa, era agora apenas um homem de meia-idade, impertinente e severo. Colocado muito perto dele, Martin podia ver as rugas junto dos olhos de falcão. Gottlieb voltara a atenção para a mesa, onde se acumulavam velhos cadernos de notas, folhas de cálculo e um mapa maravilhosamente preciso, com curvas vermelhas e verdes que desciam até desaparecerem em zero. Os cálculos eram delicados, minuciosos, singularmente claros; e delicadas eram as mãos delgadas do cientista, ao moverem-se por entre os papéis. Gottlieb ergueu a cabeça e falou com uns restos de sotaque germânico. Mais do que mal pronunciadas, as suas palavras eram coloridas por um vivo acento estranho.

- Então, que há?

- Professor Gottlieb, o meu nome é Arrowsmith. Sou bacharel em Artes Liberais e primeiranista de Medicina. Tenho grande empenho em estudar Bacteriologia neste Outono, em vez de no ano próximo. Estudei bastante Química...

- Não. Ainda não é tempo.

- Acredite-me, professor, sei que poderia estudá-la agora.

- Há duas espécies de estudantes que os deuses me enviam. Uma, descarregam-nos sobre mim como um saco de batatas.

Não gosto de batatas e as batatas nem sempre parece terem grande afeição por mim, mas apanho-as e ensino-lhes a matar pacientes. Os da outra espécie... são pouquíssimos! Por uma razão que não se me apresenta clara, parecem desejosos de tornar-se cientistas, de trabalhar com bicharocos e cometer erros. Estes, ah! estes, agarro-os e ensino-lhes imediatamente a última lição da ciência, que é esperar e duvidar. Das batatas, nada exijo; dos loucos como o senhor, que julgam que eu possa ensinar-Lhes alguma coisa, exijo tudo. Não. O senhor é muito novo. Volte no próximo ano.

- Mas, com minha química...

- Estudou a Química Física?

- Não, professor, mas saí-me muito bem na Orgânica.

- Química orgânica! Química charada! Química fedorenta! Química de drogaria! A química física é força, é exactidão, é vida. Mas a química orgânica... essa é boa para lavadores de louça. Não. O senhor é muito novo. Volte daqui a um ano.

Gottlieb fora absoluto. Os seus dedos recurvos mostraram a porta a Martin, e o rapaz, não ousando discutir, apressou-se a obedecer-lhe. Afastou-se, abatido e pensativo. No pátio, encontrou-se com esse jovial historiador da química, Edwards Bis, e perguntou-lhe avidamente:

- Diga-me, professor, há alguma perspectiva para o médico na química orgânica?

- Perspectiva? Mas é ela que descobre as substâncias que aliviam a dor! Produz a tinta que reveste as nossas casas, colora os vestidos da sua namorada... e, talvez, nestes dias degenerados, os seus lábios de cereja! Quem diabo esteve a fazer escândalo a propósito da química orgânica?

- Ninguém. Estava a pensar no assunto - desculpou-se Martin. E encaminhou-se para o restaurante universitário, onde, com um ar ofendido e melancólico, devorou um enorme gelado de banana e uma barra de chocolate com amêndoas, enquanto meditava:

"Quero estudar Bacteriologia. Quero chegar ao fundo desta história das doenças. Aprenderei um pouco de Química Física. Mostrá-lo-ei a Gottlieb, esse diabo! Um dia hei-de descobrir o germe do cancro ou coisa parecida, e ele então ficará com cara de tolo!... Oh, Deus, tomara que não fique nauseado, quando entrar pela primeira vez na sala de dissecação... Quero estudar Bacteriologia, e já."

Evocou a fisionomia sardónica de Gottlieb; sentiu e temeu o que havia de dinâmico na faculdade de odiar desse homem. Depois, lembrou-se das rugas, e viu Max Gottlieb, não como um gênio, mas como um homem que tinha enxaquecas, que se fatigava dolorosamente, que podia ser amado.

"Queria saber se Edwards Bis sabe tanto como eu julgava que ele sabia... Que é a Verdade? " - pensou, confuso.

 

Martin experimentou certo nervosismo, no primeiro dia de dissecação. Não podia olhar para as faces desumanamente rígidas dos homens de pele terrosa que jaziam sobre as mesas de madeira. Mas eram tão impessoais, aqueles cadáveres de velhos desamparados, que, em dois dias, como os outros estudantes, ele lhes chamava Billy, Ike e o Parson, e considerava-os como havia considerado os animais, na Biologia. A própria sala de dissecação era impessoal: um sólido chão de cimento, paredes bem rebocadas entre as janelas envidraçadas e protegidas com rede de arame. Martin detestava as emanações do formaldeído; este e outros odores subtis e horríveis pareciam flutuar em torno dele, fora da sala de dissecação; mas fumava para se esquecer disso e, dentro de uma semana, explorava artérias com a irreverência alegre da juventude.

O seu companheiro de dissecação era o Rev. Ira Hinkley, conhecido na classe por um nome semelhante mas de sentido diverso.

Ira pretendia tornar-se médico missionário. Era um homem de vinte e nove anos, diplomado pelo Christian College, de Pottsburg, e pela Escola de Missões e da Bíblia da Santificação. Jogara futebol americano; era tão forte e quase tão grande como um novilho, mas nenhum novilho berrou jamais como ele berrava. Era um cristão alegre e vivaz, um optimista brincalhão que, com as suas risadas, varria o pecado e a dúvida, um alegre puritano que, com importuna virilidade, pregava a doutrina da sua minúscula seita, a Irmandade da Santificação, a qual pretendia que ter uma bela igreja era quase tão culpável como os excessos em jogos de cartas.

Martin surpreendeu-se a considerar Billy, o seu cadáver um velho de estatura abaixo da média, coberto de pústulas, com uma horrível barbicha vermelha na face macilenta e petrificada

- como uma máquina fascinante, complexa, bela, mas uma máquina. Isto danificou a sua crença, já fraca, na divindade e na imortalidade do homem. Poderia ter guardado as suas dúvidas consigo próprio, ruminando-as lentamente enquanto dissecava os nervos do braço mutilado, mas Ira Hinkley não podia deixá-lo em paz. Ira julgava-se mesmo capaz de levar os estudantes de Medicina à beatitude, que, para ele, significava cantar hinos extraordinariamente longos e aborrecidos, na capela da Irmandade da Santificação.

- Mart, meu irmão - vozeou ele -, já compreendeste que, nisto que algumas pessoas poderiam chamar uma tarefa sórdida, estamos a aprender coisas que nos capacitarão para curar os corpos e confortar as almas de inúmeros seres extraviados e infelizes?

- Almas? Hum... Ainda não encontrei nenhuma no velho Billy. A sério: acreditas nessa história?

Ira cerrou o punho, franziu a testa, soltou uma risada e, dando uma violenta palmada nas costas de Martin, berrou:

- Irmão, precisas de descobrir outra coisa para impressionar Ira Hinkley! Julgas ter em ti essas imaginárias dúvidas modernas. Mas não as tens... Estás apenas com uma indigestão. Do que precisas é de exercício e de fé. Vem à A. C. M. e eu te proporcionarei uma hora de natação, depois rezaremos juntos. Ora, seu agnóstico de meia-tigela! Tens aqui uma oportunidade para contemplar a obra do Todo-Poderoso e tudo o que retiras dela é um sentimento do teu próprio valor! Mexe-te, jovem Arrowsmith! Não sabes como és engraçado para o camarada armado de uma fé serena!

Com grande prazer do palhaço do grupo, Cliff Clawson, que trabalhava na mesa seguinte, Ira bateu com o dorso da mão nas costelas de Martin, deu-lhe na cabeça uma palmada cordial

- mas bastante pesada - e, tranqüilamente, retomou o trabalho, enquanto Martin gingava, irritado.

No curso de Ciências e Letras, Martin fora classificado entre os "bárbaros": não pertencera a nenhuma sociedade secreta de Literatura Grega. Fora "cabalado", mas conservava-se à parte, ressentido com a condescendência da aristocracia dos rapazes das cidades maiores. Agora, que a maior parte dos seus companheiros se havia dirigido para escritórios de companhias de seguros, para escolas de Direito e para os bancos, ele sentia-se solitário, e um convite da Digamma Pi, a principal fraternidade de estudantes de Medicina, tentava-o fortemente.

A Digamma Pi era uma movimentada pensão, com um bilhar e preços baixos. Ruídos fragorosos e amáveis partiam dela, durante a noite, assim como a letra da canção Quando eu Morrer não Me Enterrem; entretanto, durante três anos, os Digams tinham conquistado o primeiro lugar nos discursos de formatura e a medalha Hugh Loizeau, de Cirurgia Experimental. Neste Outono, os Digams elegeram Ira Hinkley, porque haviam adquirido má reputação - dizia-se que costumavam contrabandear "pequenas" para dentro da pensão, durante a noite - e nenhum grupo de que fizesse parte o Rev. Hinkley poderia ser considerado imoral pelo director, o que era uma vantagem, na hipótese de desejarem continuar despreocupadamente imorais.

Martin apreciava a independência do seu quarto solitário. Numa fraternidade, todas as raquetes de tênis, calças e opiniões são partilhadas em comum. Quando Ira percebeu que Martin vacilava, insistiu:

- Vamos! A Digamma precisa de ti. Tu estudas demasiado, compreendes? E pensa também na oportunidade que terás para exercer uma boa influência sobre os companheiros.

(Ira referia-se sempre aos colegas pela designação de os companheiros, que freqüentemente empregava também nas suas orações, na Associação Cristã da Mocidade.)

- Não quero influenciar ninguém. Quero aprender a profissão de médico e ganhar seis mil dólares por ano.

- Bah! Se soubesses como pareces tolo quando tentas aparentar cinismo! Quando tiveres a minha idade, compreenderás que a glória de ser médico está na capacidade de ensinar aos homens ideais elevados enquanto se alivia os seus corpos torturados.

- Pois sim; mas suponhamos que eles não queiram a minha marca particular de ideais elevados?

- Acho que precisamos de rezar juntos, Mart!

- Não. Desiste! Palavra, Hinkley, és o pior e o mais aborrecido de todos os cristãos que conheci até hoje. Podes derrotar qualquer da nossa turma; e, quando penso na maneira como tratarás os pobres pagãos, quando chegares a ser missionário, no modo como obrigarás as crianças a vestir calções e como casarás os namorados felizes com pessoas de quem eles não gostam, chego a ter vontade de gritar!

A perspectiva de trocar o seu canto tranqüilo pelo patronato do Rev. Hinkley era intolerável. Só quando Angus Duer aceitou a eleição para a Digamma Pi, Martin se resolveu a entrar para a fraternidade.

Duer era um dos poucos companheiros do curso secundário, feito por Martin, que o haviam acompanhado até à Escola de Medicina. Fora o vencedor das teses de bacharelamento. Era um rapaz calmo, de feições angulosas, cabelos ondulados, quase belo, e jamais perdia uma hora ou um bom impulso. Tão brilhante fora o seu trabalho em Química e em Biologia que um cirurgião de Chicago lhe prometera um lugar na sua clínica. Martin comparava Angus Duer com uma lâmina de navalha numa manhã de Inverno; detestava-o, sentia-se constrangido perto dele e invejava-o. Sabia que, em Biologia, Duer estivera tão preocupado com a idéia de passar nos exames que não formara um conceito geral desta ciência. Sabia que Duer era um químico astucioso que, destra e rapidamente, executava as experiências exigidas pelo curso e jamais arriscava uma experiência original que, colocando-o no terreno incerto das surpresas, poderia levá-lo à glória ou ao desastre. Estava certo de que Duer cultivava aquela atitude fria de eficiência para impressionar os mestres. Contudo, Angus sobressaía tão claramente da massa de estudantes que não podiam concluir as suas experiências, nem raciocinar, nem realizar qualquer outra coisa que não fosse cachimbar e assistir aos treinos de futebol americano, que Martin gostava dele ao mesmo tempo que o detestava, e quase docemente o acompanhou à Digamma Pi.

Martin, Ira Hinkley, Angus Duer, Cliff Clawson, o palhaço do grupo, e Pfaff, por alcunha o Gordo, foram iniciados juntamente na Digamma Pi. Era um acto barulhento e algo penoso, do qual fazia parte obrigatória cheirar assafétida. Martin estava apenas aborrecido, mas Pfaff, o Gordo, deixou-se tomar de um medo penetrante e vertiginoso, que lhe fez pulsar desordenadamente o coração.

O Gordo era, de todos os candidatos calouros, o mais útil à Digamma Pi. Fora projectado pela natureza para ser um alvo geral. Parecia-se com um bojudo garrafão; era magnificamente imbecil; acreditava em tudo, nada sabia, nada guardava na memória; e instantaneamente perdoava aos rapazes que passavam as horas de descanso a fazer troça dele. Persuadiam-no de que os emplastros de mostarda eram excelentes para resfriamentos, juntavam-se solicitamente em roda dele, aplicavam-lhe enormes emplastros nas costas e depois retiravam-nos cuidadosamente. Esconderam a orelha de um cadáver no seu novo e bonito lenço de seda, quando foi, certo domingo, jantar a casa de uma prima, em Zenith. À mesa, o Gordo mostrou o lenço, com ostentação...

Todas as noites, quando o Gordo se recolhia, tinha de tirar da cama uma colecção de objectos que os colegas atentos haviam amontoado entre as cobertas: sabão, despertadores, peixe. Era o tipo perfeito da pessoa a quem se vendem coisas inúteis. Cliff Clawson, que associava um activo tráfico às suas brincadeiras, vendeu ao Gordo, por quatro dólares, uma História da Medicina que comprara por dois, em segunda mão; mas embora o Gordo nunca a lesse nem jamais lhe fosse possível lê-la, a posse do volumoso livro vermelho dava-lhe a impressão de que era um sábio. A melhor contribuição do Gordo à Digamma era, porém, a sua crença no espiritismo. Consumia-se no terror das aparições. Estava sempre a ver fantasmas a emergirem das janelas da sala de dissecação. Os colegas tiveram o cuidado de fazê-lo ver uma grande quantidade deles, flutuando pelos corredores da fraternidade.

 

A Digamma Pi ocupava uma moradia construída nos dias prósperos de 1885. A sala de estar parecia ter sido assolada por um ciclone recente. Mesas picadas pelas facas, poltronas Morris partidas, tapetes rasgados, espalhávam-se pelo recinto; por toda a parte, viam-se livros sem capa, sapatos de hockey, barretes e pontas de cigarro. No andar superior, moravam quatro rapazes em cada quarto, e as camas de ferro eram sobrepostas, duas a duas, como nas carruagens-cama de 3.a classe.

Os Digams usavam crânios serrados como cinzeiros e das paredes dos dormitórios pendiam quadros anatômicos que eles estudavam enquanto se vestiam. No quarto de Martin havia um esqueleto completo. Ele e os companheiros de quarto haviam-no adquirido confiadamente a um vendedor de certa casa de objectos cirúrgicos de Zenith. Era um vendedor afável e simpático; deu-lhes charutos, conversou sobre várias coisas e explicou-lhes como se arranja uma grande e próspera clínica. Os rapazes compraram o esqueleto quase com um sentimento de gratidão, a prestações. Mais tarde, o vendedor tornou-se menos afável.

Martin partilhava um quarto com Cliff Clawson, Pfaff, o Gordo, e um grave segundanista, chamado Irving Watters.

Qualquer psicólogo que desejasse um homem perfeitamente normal para as suas demonstrações não poderia fazer escolha melhor do que Irving Watters. Era sempre e cuidadosamente comum; um comum sorridente, fácil e digno de confiança. Se ainda havia algum chavão que ele não usasse era porque ainda não o ouvira. Acreditava na moralidade - excepto nas noites de sábado; acreditava na Igreja Episcopal - mas não na chamada Igreja Alta; acreditava na Constituição, no darwinismo, nos exercícios sistemáticos no ginásio e no gênio do reitor da Universidade.

De todos eles, Martin preferia Cliff Clawson. Cliff era o palhaço da fraternidade; costumava soltar gargalhadas roucas, sapateava, cantava canções sem sentido, estudava cometa; era, contudo, bom rapaz, e Martin, detestanto Ira Hinkley, temendo Angus Duer, lamentando Pfaff, o Gordo, aborrecendo a amável vulgaridade de Irving Watters, voltava-se para o barulhento Cliff como para uma experiência viva. Cliff, pelo menos, tinha realidade; a realidade de um campo lavrado, de um monte fumegante de estrume. Cliff é que jogava boxe com ele; Cliff é que - embora gostasse de ficar sentado durante horas a fio, a fumar, resmungando, num magnífico ócio - Cliff é que se deixava persuadir a dar com ele um passeio de cinco milhas.

E foi Cliff quem se arriscou a morrrer atirando feijão cozido ao Rev. Ira Hinkley durante o jantar, quando este costumava mostrar-se maciça e docemente repreensivo.

Na sala de dissecação, Ira era impossível, pela sua satisfação diante de alguma idéia de Martin que o Christian College, de Pottsburg, não teria aceitado; mas, na fraternidade, era simplesmente uma peste moral. Sem cessar, tentava a irreverência profana dos colegas. Após três anos de actuação num team de futebol americano do interior, ainda acreditava com resoluto optimismo que poderia esterilizar os jovens, fazendo-lhes censuras com a suficiência de uma professora de escola dominical e a delicadeza de um elefante a correr.

Ira tinha também estatísticas sobre a Vida Pura.

Andava cheio de estatísticas. Pouco lhe importava onde as pescava; números colhidos nos jornais diários, no relatório do censo ou na "Coluna da miscelânea" do Sanctification Herald, eram igualmente válidos.

- Cliff - declarou ele, à mesa do jantar -, não posso compreender como um rapaz brilhante como tu anda sempre a chupar nesse velho e sórdido cachimbo. Sabes que 67, 9 de todas as mulheres que vão à mesa de operações têm maridos que fumam tabaco?

- Que outra coisa querias que fumassem? - perguntou Cliff.

- De onde tiraste essa percentagem? - perguntou Martin, por sua vez.

- Foi revelada num congresso médico, em Filadélfia, no ano de 1902 - condescendeu Ira. - Naturalmente, não suponho que possa fazer alguma diferença para uma malta de sabichões como vocês o facto de que algum dia venham a casar com uma adorável mulherzinha e arruinar-lhe a vida com os seus vícios. Continuem, meus bravos senhores! Um pobre e fraco pregador como eu jamais ousará fazer uma coisa tão corajosa e varonil como essa de fumar cachimbo!

Deixou-os com um ar triunfal e Martin resmungou:

- Ira dá-me vontade de abandonar a medicina e ser um honesto fabricante de arreios.

- Arre, Mart - interveio Pfaff, o Gordo -, não devias tratar Ira dessa maneira. Ele é tão sincero!

- Sincero? Ora, bolas! Uma barata também o é!

Continuavam a tagarelar, enquanto Angus Duer os observava com um silêncio superior, que deixava Martin nervoso. No seu estudo para uma carreira que fora o objecto das aspirações de toda a sua vida, encontrava tanta irritação e vacuidade como serena sabedoria; não via um único e claro caminho para a Verdade, mas mil caminhos para mil verdades remotas e duvidosas.

 

John A. Robertshaw, John Aldington Robertshaw, lente de Fisiologia da Escola de Medicina, era um tanto surdo e o único dos professores da Universidade de Winnemac que ainda usava suíças parecidas com costeletas de carneiro. Nascera no bairro elegante de Boston, Back Bay; tinha orgulho nisso e proclamava-o freqüentemente. com três outros brâmanes, formou em Mohalis uma colônia bostoniana que afectava inabalável doçura e uma sabedoria envolta numa reserva estudada. A cada passo, observava: "Quando eu estudava com Ludwig, na Alemanha..." Estava tão absorto na própria correcção, que não prestava atenção aos estudantes, individualmente, e Cliff Clawson e os outros rapazes tecnicamente conhecidos como "diabos em figura de gente" esperavam com impaciência as suas prelecções de Fisiologia.

Estas eram dadas num anfiteatro cuja disposição e tamanho não permitiam ao lente abranger com o olhar as duas extremidades, e, enquanto o Dr. Robertshaw, continuando a zumbir acerca da circulação sangüínea, olhava para a direita com o fim de descobrir quem produzia aquele afrontoso som de buzina de automóvel, lá na esquerda Cliff Clawson levantava-se para imitá-lo, com gestos ou carícias em suíças imaginárias. Certa vez, Cliff produziu a obra-prima de atirar um tijolo para dentro do lavatório, junto do estrado, exactamente quando o Dr. Robertshaw se inflamava no seu entusiasmo anual pelo efeito das placas de cobre na intensidade dos movimentos reflexos do joelho.

Martin acabara de ler as comunicações científicas de Max Gottlieb - atravessara como lhe fora possível aquele atoleiro de símbolos matemáticos - e ficara com a convicção de que as experiências se relacionavam com os fundamentos da vida e da morte, com a natureza íntima da infecção microbiana, com a química das reacções do corpo. Quando Robertshaw arengava acerca dessas pequenas experiências clássicas, experiências ao alcance de velhas solteironas, Martin ficava impaciente. No curso de Humanidades, achara que a prosódia e a composição latina eram úteis, e esperava como por uma iluminação pelo estudo de Medicina. Agora, com uma melancólica inquietação por sentir-se tão pouco razoável, observava que estava a alimentar o mesmo desprezo pelos ensinamentos de Robertshaw e também pela maior parte dos trabalhos de anatomia.

O professor de Anatomia, Dr. Oliver O. Stout, era em pessoa uma anatomia, um quadro de dissecação, um feixe de nervos, vasos sangüíneos e ossos quase a descoberto. Stout tinha uma ciência enorme e precisa; com a sua voz seca, podia repetir maior número de factos acerca do dedo mínimo do pé esquerdo do que uma pessoa se suporia capaz de aprender com relação ao referido dedo.

Nenhuma discussão travada durante o jantar da Digamma Pi era mais violenta do que o debate incessante acerca do que valia a um médico, um honesto médico normal, que ganha desafogadamente a vida e não se preocupa em fazer comunicações às associações médicas, o reter os termos anatômicos. Mas o que eles pensavam a este respeito não importava; todos estudavam com afinco as listas de nomes que habilitam um cidadão a passar nos exames e tornar-se um doutor, com um valor mercantil de cinco dólares por hora. Sábios desconhecidos tinham inventado rimas que lhes facilitavam a memória. Ao jantar - os trinta conventiculares da Digamma Pi, sentados em torno de uma mesa longa e suja, devoravam dam chowder, feijão, croquetes de bacalhau e bolo de banana - os primeiranistas repetiam com convicção, segundo lhes ensinava um doutorando:

On old Olympus' topmost top

A fat-eared German viewed a hop. 1

Assim, por associação com as letras iniciais, lembravam-se dos doze nervos cranianos: o olfativo, o óptico, o oculomotor, o troclear e os restantes. Para os Digams, era o mais nobre poema

 

1 No cume supremo do velho Olimpo, um alemão orelhudo observava um pé de lúpulo. (N. do T.)

 

do Mundo, e recordavam-se dele muitos anos depois, quando já exerciam a medicina e haviam esquecido completamente os nomes dos próprios nervos.

 

As prelecções de anatomia do Dr. Stout não eram perturbadas, mas, na sala de dissecação, faziam-se muitas tropelias. A mais inocente consistia na introdução de um petardo no cadáver em que trabalhavam as duas virginais e infelizes co-educandas. O maior êxito do ano com os calouros foi o incidente de Cliff Clawson e do pâncreas.

Cliff fora eleito presidente da classe para o ano lectivo, em razão da sua afabilidade. Nunca encontrava um colega no vestíbulo do edifício principal, sem gritar: "Como funciona esta manhã o teu apêndice vermiforme? " Ou então: "Sede bem-vinda, velha pediculose." com brilhante correcção, presidiu às assembléias da classe (assembléias indignadas, em que se combatera a pretendida permissão para os estudantes da Escola de Agricultura usarem os courts de tênis da Zona Norte), mas na vida privada ele preocupava-se menos com a correcção.

A horrível coisa aconteceu por ocasião da visita do Conselho de Regentes à Escola. Os regentes constituíam o governo supremo da Universidade; eram banqueiros, industriais e clérigos de igrejas importantes; junto deles, mesmo o reitor era uma personagem humilde. Nada lhes causava comoções mais interessantes do que a sala de dissecação da Escola de Medicina. Os pregadores faziam moral em torno dos efeitos do álcool entre os pobres, e os banqueiros em torno da indeferença pelos depósitos populares, por parte da espécie de gente que teima em abastecer as salas de dissecação. No decurso da visita - à testa do grupo iam o Dr. Stout e o secretário da Universidade, com o seu guarda-sol -, o mais roliço dos banqueiros e, dentre todos eles, o mais interessado em assuntos de educação, deteve-se perto da mesa de dissecação de Cliff Clawson, conservando o seu chapéu de coco reverentemente atrás das costas; dentro dele, Cliff colocou um pâncreas.

Ora, um pâncreas é uma coisa húmida, desagradável de se encontrar dentro do nosso chapéu novo, e, quando o banqueiro o descobriu, atirou ao chão o chapéu de coco, declarando que os estudantes de Winnemac estavam possuídos pelo Diabo. O Dr. Stout e o secretário consolaram-no, limparam-lhe o chapéu e asseguraram que haviam de castigar o homem que ousara colocar um pâncreas dentro do chapéu de coco de um banqueiro.

O Dr. Stout chamou Cliff, como presidente dos primeiranistas. Cliff deplorou o incidente. Reuniu a classe, declarou lamentar que um estudante de Winnemac fosse capaz de colocar um pâncreas dentro do chapéu de um banqueiro e disse esperar que, o culpado tivesse bastante hombridade para se levantar e confessar.

Infelizmente, o Rev. Ira Hinkley, que estava sentado entre Martin e Angus Duer, vira Cliff colocar o pâncreas. Resmungou:

- É uma vergonha! vou denunciar Clawson, embora ele seja da minha fraternidade.

- Deixa-te disso - protestou Martin. - Queres que ele seja expulso?

- É o que merecia!

Angus Duer voltou-se no banco, encarou Ira e sugeriu:

- Não podes calar a boca?

E, como Ira se acalmasse, Angus pareceu a Martin mais admirável e mais odioso do que nunca.

 

Quando se sentia deprimido e perguntava a si próprio por que razão se encontrava em Mohalis, a ouvir um Prof. Robertshaw repetir versos acerca de alemães orelhudos, a aprender o comércio da medicina tal qual Pfaff, o Gordo, ou Irving Watters, Martin encontrava alívio naquilo que considerava as suas orgias. Na verdade, eram orgias extremamente inocentes; raramente ultrapassavam abundantes libações de cerveja, na cidade adjacente de Zenith, ou os sorrisos de uma jovem operária que passeava pelas sórdidas avenidas dos bairros. Mas, para Martin, que se orgulhava da concentração da sua força e tirava alegria da lucidez do seu cérebro, estas orgias pareciam trágicas, depois de consumadas.

O companheiro que lhe merecia mais confiança era Cliff Clawson. Qualquer que fosse a quantidade de cerveja ingerida, Cliff nunca estava muito mais intoxicado do que em seu estado normal. Martin ficava abatido ou alegre, segundo a exuberância de Cliff que, por seu turno, ficava alegre ou abatido, segundo a tendência especulativa de Martin. Sentados na sala das traseiras dalgum botequim, em torno de uma mesa marcada por círculos de humidade deixados pelos copos de cerveja, Cliff agitava o dedo e engrolava:

- Só tu me compreendes, Mart. Sabes muito bem que, apesar de todos os discursos que solto para cima da cabeça sublime de tipos como Ira Hinkley, sobre a necessidade de sermos comerciais, estou justamente tão enojado desse mercantilismo da medicina como tu.

- Claro. Aposto - concordou Martin, com uma cordialidade alcoólica. - És exactamente como eu. Bolas! Aquela cara de pasta do Irving Watters... a pose do Angus Duer... o velho Gottlieb! Ideal de pesquisa! Jamais satisfazer-se com o que parece a verdade! Solitário, indiferente, plantado como um capitão na ponte do navio, trabalhar toda a santa noite, ir ao fundo das coisas!

- É isso mesmo! - observava Cliff Clawson com a voz arrastada, estropiando as palavras. - Vamos tomar outra cerveja. Olha o teu copo, Mart!

Zenith, com os seus bares, ficava a quinze milhas de Mohalis e da Universidade de Winnemac; o trajecto era vencido em meia hora pelos grandes e barulhentos eléctricos interurbanos, e os estudantes de Medicina iam a Zenith fazer as suas pândegas. Quando algum deles declarava "ter estado na cidade a noite passada", era logo objecto de piscadelas e olhares maliciosos. Mas, em companhia de Angus Duer, Martin descobriu uma nova Zenith.

Ao jantar, Duer propôs bruscamente, certo dia:

- Vamos à cidade ouvir um concerto.

Com toda a sua pretendida superioridade perante o grupo, Martin era ilimitadamente ignorante em questões de literatura, pintura e música. Admirava-se de que o ambicioso e insensível Angus Duer perdesse tempo a ouvir violinistas. Notou que Duer tinha entusiasmo por dois compositores, chamados Bach e Beethoven, provavelmente alemães, e que havia coisas no Mundo que ele ainda não entendia. No interurbano, a gravidade de uer relaxou-se e ele exclamou:

- Menino, se eu não tivesse nascido para cortar barrigas, teria sido um grande músico! Esta noite, vou conduzir-te directamente ao Céu!

Martin viu-se numa confusão de pequenas cadeiras e grandes arcos dourados, de senhoras polidas mas de expressão crítica, com programas nos regaços, de músicos pouco românticos, a produzirem sons desagradáveis e, finalmente, de uma beleza incompreensível que lhe causava uma visão de morros e florestas profundas, e depois se tornava súbita e penosamente enfadonha. Exultou.

- Hei-de vencer... terei a fama de Max Gottlieb... isto é, a sua competência... ouvirei boa música... terei lindas mulheres Bah! vou fazer grandes coisas. E ver o mundo... Mas esta música não terminará nunca?

 

Foi uma semana depois do concerto que ele redescobriu Madeline Fox.

Madeline era uma jovem bonita, muito corada, viva e voluntariosa, que Martin conhecera no curso de Humanidades. Ela prosseguia os seus estudos, aparentemente para obter um diploma de Inglês, mas efectivamente para evitar o regresso ao lar. Considerava-se uma soberba tenista; jogava com energia e grande falta de método volúveis stvoopings. Acreditava-se entendida em literatura; os afortunados aos quais dava a sua aprovação eram Hardy, Meredith, Howells e Thackeray, os quais ela não lia havia cinco anos. Freqüentemente, reprovava Martin por não apreciar Howells, por usar camisas de flanela e pela sua incapacidade para ampará-la, ao descer do eléctrico, à maneira de um herói de ficção. No curso, tinham ido juntos aos bailes, embora como dançarino Martin fosse mais entusiasta do que hábil, causando dificuldade aos outros pares decidirem o que ele tentava dançar. Martin gostava da graça e do viço de Madeline; tinha a impressão de que, com a sua educação e energia, ela de certo modo "lhe serviria". Durante o ano, vira-a raramente. Pensava nela à noite, muito tarde, projectava telefonar-lhe e não lhe telefonava. Mas, quando ruminava as suas dúvidas acerca da Medicina, aspirava pelo influxo da sua simpatia, e, na tarde de um domingo de Primavera, levou-a a um passeio ao longo do rio Chaloosa.

A partir do barranco do rio, o campo estende-se numa ondulação exuberante de outeiros. Nas grandes lavouras de cevada, nas pastagens ásperas, nos carvalhos enfezados e nas bétulas brilhantes, flutua o espírito aventuroso da fronteira, e, como jovens habitantes da planície, eles escalavam as elevações e diziam um ao outro que haviam de conquistar o mundo.

- Esses estudantes cretinos... - queixava-se ele.

- Oh, Martin, achas que "cretino" é uma palavra correcta?

- disse Madeline interrompendo-o.

Ele achava que era uma palavra decente e de constante utilidade para um homem ocupado, mas ela sorria amoravelmente.

- Bem... esses estudantes utilitários não procuram aprender a ciência médica; estão simplesmente a aprender um ofício. Querem apenas adquirir conhecimentos necessários para juntar dinheiro. Não falam de salvar vidas humanas, mas de "perder casos", isto é, perder dinheiro! E não os preocuparia perder um caso, se fosse por meio de uma operação sensacional que lhes servisse de propaganda! Causam-me asco! Quantos achas que se interessam pela obra que Ehrlich realiza na Alemanha... ou pela que Max Gottlieb está a realizar aqui mesmo! Olha, Gottlieb acaba de dar um golpe terrível nas teorias de Wright sobre a opsonina...

- Sim?

- Sim, terrível! Pensas que algum estudante se interessou pelo facto? Qual! Dizem: "Claro que a ciência tem a sua utilidade; ajuda o médico a tratar dos seus pacientes..." E logo em seguida começam a discutir a questão de saber se poderão ganhar mais dinheiro estabelecendo-se numa grande cidade, e se é melhor para um médico novo armar em camarada e levar uma vida alegre ou freqüentar a igreja e fazer o papel de homem sério. Queria que ouvisses Irve Watters. Tem uma única idéia. Julgas que essa idéia é que o homem que vence na medicina é aquele que conhece patologia? Nada disso; é aquele que abre consultório numa esquina situada na zona Nordeste, perto de uma paragem de eléctricos, com um número de telefone que seja facilmente retido pelos clientes! É o que ele afirma, palavra! Olha, eu, quando me formar, acho que vou para médico da marinha mercante. A gente conhece o mundo, pelo menos não anda a correr para baixo e para cima, no navio, a fim de tirar os clientes a algum médico rival que tenha consultório na outra coberta!

- Sim, bem sei; é terrível pensar que as pessoas, nas suas ocupações, não tenham ideal algum. Numerosos estudantes diplomados em Inglês, apenas se lembram de ensinar para ganhar dinheiro, em vez de amar o ensino, como eu.

Era embaraçante para Martin verificar que ela parecia julgar-se uma pessoa superior, exactamente como ele; mas ainda ficou mais embaraçado quando ela acrescentou:

- Ao mesmo tempo, Martin, a gente tem de ser prática! Calcula como um médico próspero terá mais dinheiro... quero dizer, posição social e poder para fazer o bem, do que um desses sábios que vivem encerrados no laboratório e ignoram o que vai pelo mundo. Olha para um médico como esse doutor Loizeau, que vai para o hospital num belo carro com chauffeur uniformizado e é adorado pelos clientes, e olha depois para esse Max Gottlieb... Mostraram-mo um dia destes: estava com um horrível fato velho, e pareceu-me que há muito tempo que não cortava o cabelo.

Enfurecido, Martin atirou-lhe estatísticas, exprobações, zelo religioso e metáforas confusas. Estavam sentados junto de um velho e vacilante tapume de sarrafos, e pelas ervas inundadas de sol zumbiam os primeiros insectos da Primavera. Vencida pela tempestade do fanatismo de Martin, ela esqueceu-se da sua frágil cultura.

- Sim, agora compreendo - gritou, sem indicar o que é que compreendia. - Tens uma bela inteligência... e uma bela integridade.

- Achas? Achas realmente?

- Palavra, e estou certa de que terás um maravilhoso futuro. E sinto-me tão contente por não seres mercantil como os outros. Não dês importância ao que dizem.

Notou que Madeline não era apenas um espírito raro e compreensivo, mas também uma mulher extremamente desejável: pele fresca, olhar terno, e, dos ombros às ancas, uma linha adorável. Quando voltavam, percebeu que ela seria para ele exactamente a companheira ideal. Sob a sua orientação, aprenderia a distinguir os vagos ideais da dura e positiva realidade da ciência. Detiveram-se no barranco do rio e olharam para o turvo Chaloosa, sobre o qual a Primavera fazia flutuar galhos de árvores. Desejou-a vivamente; lamentou as aventuras casuais de um estudante e resolveu ser um jovem puro e extremamente laborioso, para tornar-se, realmente, "digno dela".

-Oh, Madeline - gemeu -, como te quero!

Ela olhou-o timidamente.

Martin agarrou-lhe a mão; numa irreprimível explosão, tentou beijá-la. O movimento foi mal executado. Conseguiu apenas beijar-lhe a ponta do queixo, enquanto ela se debatia suplicando que não. Ao voltarem para Mohalis, não fizeram alusão a este incidente, mas havia doçura no tom das suas vozes, e agora Madeline ouvia sem impaciência Martin comparar o Prof. Robertshaw com um fonógrafo, enquanto Martin escutava, por sua vez, as observações de Madeline sobre a natureza superficial e a vulgaridade do Dr. Norman Brumfit, o frívolo lente de Inglês. Ao chegarem à pensão ela suspirou:

- Queria convidar-te para entrar, mas já é quase hora do jantar e. Virás visitar-me qualquer dia?

- Aposto que venho! - disse Martin, de acordo com as regras da linguagem amorosa em uso na Universidade de Winnemac.

Voltou apressadamente, adorando Madeline intimamente. À meia-noite, estendido no estreito leito de cima, via-lhe os olhos, ora impertinentes, ora censuradores, ora cheios de confiança nele. "Gosto dela! Amo-a! vou telefonar-lhe... E se fosse lá àsvoito horas da manhã?"

Às oito horas, porém, absorvido pelo estudo do aparelho lacrimal, não lhe foi possível pensar em olhos femininos. Tornou a ver Madeline apenas mais uma vez, na evidência do vestíbulo da pensão, entre colegas, almofadas encarnadas e malvaíscos. Depois, Martin mergulhou na febre dos estudos para os exames de fim de ano.

Na época dos exames, a fraternidade Digamma Pi mostrava o seu valor para aqueles que andam atrás da sabedoria. Gerações de Digams tinham coleccionado pontos tirados nos exames, guardando-os no sagrado Quiz Book; gênios da minúcia haviam percorrido o volume e marcado com lápis encarnado os problemas propostos mais freqüentemente no correr dos anos. Os primeiranistas, agachados num anel em torno de Ira Hinkley, na sala de estar da Digamma, ouviam-no ler os pontos que com mais probabilidades poderiam sair. Contorciam-se, puxavam os cabelos, cocavam o queixo, mordiam os dedos e batiam nas fontes num esforço para dar a resposta certa, antes que Angus Duer a lesse na chave.

No meio dos próprios sofrimentos, ainda tinham de se ocupar de Pfaff, o Gordo.

O Gordo, que fora reprovado no exame parcial de Anatomia, devia submeter-se a uma prova especial, antes de ser admitido a prestar o exame final. Os Digams tinham por ele certa ternura. O Gordo era indolente, o Gordo era supersticioso, o Gordo era idiota; contudo, dispensavam-lhe essa espécie de afeição aborrecida que teriam por um automóvel em segunda mão ou um cão enlameado. Todos o auxiliavam, tentando fazê-lo passar no exame, como se este fosse um alçapão. Bufavam, resmungavam, gemiam na sua tarefa e o Gordo gemia e bufava com eles.

Durante a noite que antecedeu a prova especial, à força de compressas, café simples, preces e blasfêmias, fizeram-no estudar até às duas da madrugada. Repetiam-lhe coisas e mais coisas, ameaçando-lhe com os punhos a cara lamentável, redonda e vermelha: "Arre! Mas não podes então lembrar-te de que a válvula bicúspide é apropria válvula mitral, e "ao o"íra? " Braços levantados, iam e vinham pela sala, lamentando-se: "Mas então ele não se lembrará jamais de nada, nada? " E voltavam à carga, com uma calma fingida: "Escuta, Gordo, não vale a pena fazermos barulho. Não te preocupes. Escuta tranqüilamente, e procura." Em tom animador: "Procura recordar uma coisa somente!"

Com muita solicitude, puseram-no na cama. Estava tão cheio de definições que a menor sacudidela tê-las-ia feito desabar.

Quando, às sete horas, despertou, olhos avermelhados, lábios trêmulos, tudo o que aprendera na véspera estava irremediavelmente esquecido.

- Não há remédio - declarou o presidente da Digamma Pi.

- É absolutamente necessário que ele leve uma cábula e corra o risco de ser apanhado com ela. Previ isso. Pregarei uma, ontem; é bastante extensa e contém a maioria das respostas.

O próprio Rev. Ira Hinkley, que fora testemunha dos horrores da noite anterior, fechou os olhos, ignorando o crime. Quem protestou foi o próprio Gordo:

- Ih! Não gosto de trapaças. Quem não pode passar num exame não tem o direito de exercer a medicina. Foi o que meu pai disse.

Deram-lhe muito café e (por alvitre de Cliff Clawson, que não estava muito certo quanto à natureza do efeito, mas que desejava conhecê-la) deram-lhe um comprimido de brometo de potássio. Depois, segurando-o com certa firmeza, o presidente da Digamma disse-lhe:

- vou meter-te esta cábula no bolso. Presta bastante atenção: no bolso de cima do casaco, atrás do lenço.

- Nunca a usarei. Não me importo de ficar chumbado choramingou o Gordo.

- Em todo o caso, deixa-a onde a pus. Talvez possas absorver pelos pulmões um pouco da sua substância, pois... - O presidente arrepelou os cabelos. A voz elevou-se-lhe, exprimindo a tragédia das vigílias, das beberagens negras e das tentativas desesperadas - pois que absorvê-la pelo cérebro, Deus bem o sabe, é coisa inteiramente impossível.

Escovaram o Gordo, puseram-no de pé e impeliram-no pela porta, na direcção do pavilhão de anatomia.

- Será possível que ele leve a tal ponto a honestidade? perguntou, espantado, Ciff Clawson.

- Nesse caso - disse o presidente - o melhor que temos a fazer é subir e começar a arrumar-lhe a mala imediatamente. E esta velha fraternidade jamais terá outro bode como o Gordo.

Entretanto, ao cabo de alguns passos, o Gordo estacou. Sob os olhos divertidos dos Digams, puxou o lenço, assoou-se tristemente, descobriu uma longa e fina tira de papel e pôs-se a lê-la, franzindo as sobrancelhas. Depois, enfiando o papel no fundo do bolso, retomou a marcha com o passo firme.

Dando-se as mãos, os Digams puseram-se a dançar, assegurando-se piedosamente uns aos outros:

- Ele vai cabular... está tudo arranjado... passará ou será apanhado!

Passou.

 

Mais ainda do que a idiotice do Gordo, as palhaçadas ruidosas de Cliff, os modos categóricos de Angus e os sermões de Ira Hinkley, as dúvidas inquietas de Martin irritavam a Digamma Pi.

Durante o período febril que antecedeu os exames, Arrowsmith mostrou-se mais particularmente agressivo em relação a esse método que, dizia ele, consiste em empregar os mais sonoros termos médicos e os esterilizado rés mais aperfeiçoados unicamente com o fim de impressionar o paciente.

- Olha, se não estás contente com o modo como estudamos Medicina - disseram-lhe os Digams -, teremos muito prazer em fazer uma subscrição para custear a tua volta para Elk Mills, onde não serás perturbado por nenhum destes espíritos mesquinhos e mercantis que te importunam aqui. Não nos ocupamos dos teus futuros métodos de trabalho; a troco de que santo te achas no dever de criticar os nossos? Cala a boca e não nos maces!

Angus Duer observou, num tom agridoce:

- Muito bem, vamos admitir que somos uns simples carpinteiros e que tu és um grande pesquisador. Há várias coisas a que poderás dedicar-te com proveito, quando tiveres deixado a ciência. Que é que sabes de arquitectura? Como estás em verbos franceses? Quantos grandes romances já leste? Quem é o primeiro-ministro da Áustria-Hungria?

Martin defendeu-se:

- Não tenho a pretensão de saber coisa alguma... Mas sei o que representa um homem como Max Gottlieb. Ele possui o bom método, enquanto os professores, essas zebras, não passam de curandeiros. Tu, Hinkley, achas que Gottlieb não é religioso, mas a sua presença no laboratório já é uma prece. Vocês não sentem, corja de idiotas, o que significa termos aqui um homem como Gottlieb, um sábio que traz novos conceitos da vida? Vocês...

Mas Cliff, com um enorme bocejo:

- Rezar num laboratório! Aposto que tiro as calças em plena aula de Bacteriologia se o Tio Gottlieb me surpreender a rezar durante as suas demonstrações!

- Vai para o diabo, ouviste? - berrou Martin. - O que digo é que vocês mantêm a medicina e a diagnose na fase da adivinhação, e nada mais. Ora, em Gottlieb, vocês têm um homem que...

E discutiram durante horas.

Quando foram todos deitar-se, quando o quarto ficou transformado num amontoado confuso de roupas atiradas aqui e ali, e de rapazes exaustos, roncando nas camas de ferro, Martin sentou-se, atormentado, junto da comprida mesa de trabalho.

Angus Duer deslizou pelo quarto, e perguntou:

- Escuta, meu velho. Estamos todos fartos das tuas críticas. Já que pensas que a medicina, como no-la ensinam, está podre, como é que, sendo tão detestavelmente honesto, não a abandonas?

Deixou Martin mais desanimado.

"Angus - pensava ele - talvez tenha razão. Devo calar ou retirar-me. Mas será isso o que eu quero? Que é de facto o que eu quero? E que vou fazer?"

 

As canções obscenas de Cliff Clawson, a sua tagarelice ruidosa, a mania que tinha de atirar coisas para os pratos dos colegas, a sua melancólica incapacidade para andar com as mãos limpas, tudo isso mortificava Angus Duer, no seu modo de ser, e ofendia a sua predilecção pelas maneiras correctas. Embora mantendo um ar de calma e segurança, Angus, durante o período de tensão dos exames, ficava interiormente tão nervoso e agitado como Martin.

Uma noite, durante o jantar, quando Cliff berrava mais do que habitualmente, Duer resmungou:

- Não poderias fazer um pouco menos de algazarra?

- Farei toda a algazarra que me der na veneta - retorquiu Cliff; e houve uma terrível discussão.

Desde então, Cliff tornou-se tão barulhento, que quase se cansava a si próprio com a própria algazarra. Fazia alarido na sala de estar, no banho e até na cama, onde, para fingir que roncava, ficava heroicamente acordado durante longas horas. Se Duer era quieto e afeiçoado aos livros, não era tímido. Perseguindo Cliff com olhos severos de magistrado, conseguiu afinal meter-lhe medo. Particularmente, Cliff queixou-se a Martin:

- Que diabo carregue o Duer! Porta-se como se eu fosse um verme. É preciso que um de nós dois deixe a Digamma Pi, e não serei eu quem sairá.

Tornou-se feroz e mais ruidoso ainda. Mas foi ele quem saiu, finalmente. Disse que os Digams eram "uma corja de malandros falhados, que nem sabiam jogar póquer decentemente", mas fugia do olhar duro de Angus Duer. E Martin seguiu-o na retirada, decidindo fazê-lo companheiro de quarto no próximo Outono.

Mas, assim como exasperara Duer, Cliff exasperou Martin. Cliff não tinha reticências. Quando não era uma história estúpida, eram perguntas como esta: "Quanto te custaram esses sapatos?

Julgas-te um Vanderbilt! " ou "Estavas na companhia de Madeline Fox? A que pretendes chegar com essa pequena?"

Martin, porém, achava compensação no seu afastamento dos jovens polidos, civilizados e laboriosos da Digamma Pi, na face dos quais já via receitas, esterilizadores de brilho resplandecente, elegantes automóveis fechados, consultórios envidraçados com letreiros dourados. Preferia à companhia deles uma solidão selvagem, pois, no ano seguinte, trabalharia com Max Gottlieb, e precisaria de tranqüilidade.

Passou o Verão a trabalhar com um grupo de operários que instalavam a rede telefônica do Estado de Montana.

O seu trabalho era suspender os cabos nos postes e fixá-los nos isoladores de vidro. Cravando nos troncos tenros e prateados de pinho as pontas de ferro fixadas nos pés, ia trepando de poste em poste e, assim, percorria até cinco milhas po'r dia.

À noite, entravam em lugarejos de casas de madeira. Para dormir, limitavam-se a retirar os sapatos e enrolavam-se numa manta de cavalo. Martin usava macaco e camisa de flanela. Parecia um trabalhador de fazenda. Trepando de manhã à noite, sem parar, respirava profundamente, as preocupações não turvavam o seu olhar e, certo dia, experimentou um milagre.

Estava empoleirado no cimo de um poste, quando, repentinamente, sem razão particular, os seus olhos se abriram e viu; como se acabasse de despertar, viu que o campo era vasto, que o Sol era doce à erva selvagem e ao trigo que amadurecia, aos velhos cavalos, os cavalos simples, plácidos e amigos, e aos seus companheiros de rostos vermelhos e engraçados; viu que a cotovia dos campos estava alerta e cheia de alegria, que os melros brilhavam junto dos charcos e que, sob a vida do sol, toda a vida desabrochava. Pouco lhe importava agora que todos os Angus Duer e Irving Watters fossem apenas ásperos comerciantes!

"Estou aqui! ", murmurou, jubiloso.

Rudes, simples e robustos como o vento do Oeste, os companheiros não alimentavam nenhuma pretensão; embora manejassem durante todo o dia um equipamento eléctrico, não se embaraçavam, como os medicastros, com um montão de termos científicos, e não cogitavam de modo algum em passar por sábios diante dos camponeses. Rindo facilmente, contentavam-se em ser eles próprios, e, como eles, Martin sentia-se satisfeito por se esquecer da sua nobre qualidade. Tinha-lhes uma afeição que, em Winnemac, jamais experimentara por quem quer que fosse, afora Max Gottlieb.

Levara no seu saco um livro, a Imunologia de Gottlieb. Percorria com freqüência meia página, antes de enterrar-se nas fórmulas químicas. Ocasionalmente, aos domingos ou nos dias de chuva, começava a lê-lo e, então, ansiava pelo laboratório; ocasionalmente, pensava em Madeline Fox, convencido de que, longe dela, estava terrivelmente isolado. Mas as semanas sucediam-se, laboriosas, descuidadas e pacíficas, e quando, pela manhã, despertava num estábulo, respirando o cheiro do feno, dos cavalos, e os perfumes do campo, onde ressoava, junto do coração do humilde lugarejo, o canto da cotovia, então somente lhe importava o trabalho diário, a benéfica tarefa que o levava rumo ao Oeste, ao Sol poente.

Arrastaram-se deste modo através dos vastos trigais de Montana, cujas lavouras, aos milhares, brilhavam como uma só lavoura, através dos campos de gado, através dos desertos espessos de capim, e, de repente, olhando uma nuvem imóvel, Martin compreendeu que contemplava as montanhas.

Agora, no comboio, já inteiramente esquecido do grupo de operários, não pensava senão em Madeline, em Cliff Clawson, em Angus Duer e em Max Gottlieb.

 

O Prof. Max Gottlieb preparava-se para assassinar uma cobaia com germes de antraz, e os alunos da cadeira de Bacteriologia estavam nervosos.

Os estudantes conheciam as bactérias sob os seus diversos aspectos; tinham manejado as placas de Petri e as alças de platina; haviam visto inofensivas culturas vermelhas de Bacillus prodigiosus prosperar em nacos de batata, e agora estavam no capítulo dos germes patogênicos e da inoculação de uma doença aguda num animal vivo. Estas duas cobaias de olhinhos de conta, que se agitavam no fundo de uma gaiola, em dois dias estariam esticadas e mortas.

A excitação de Martin não estava isenta de inquietação, da qual ele mesmo ria. com um desprezo profissional, pensava no ridículo desses visitantes leigos de laboratório, que temiam que estes micróbios sanguinários fossem logo saltar sobre eles do misterioso centrifugador, dos bancos e do próprio ar da sala. Mas sabia que, sobre a mesa do operador, na proveta rolhada com algodão, entre a cuba dos instrumentos e o vidro do bicloreto, havia milhões de germes fatais de antraz.

Os alunos, com ar respeitoso, mantinham-se a prudente distância. com o instinto da técnica, uma segurança que dava dignidade aos mínimos movimentos das suas mãos, o Dr. Gottlieb tosquiou o pêlo do ventre da cobaia segura pelo assistente. Depois, tendo ensaboado a pele com uma leve pincelada, raspou-a com a navalha e passou-lhe tintura de iodo.

(Entretanto, Max Gottlieb evocava a avidez dos seus primeiros estudantes, quando acabava de deixar a companhia de Pasteur e Koch e ainda estava impregnado de canecas de cerveja e de argumentos ferozes. Dias admiráveis, dias apaixonantes!

Die goldene Zeit! As suas sensacionais descobertas em bacteriologia haviam pasmado as primeiras turmas de discípulos, no Queen City College; os estudantes haviam-se apinhado em redor dele; queriam, ávidos, recolher os seus ensinamentos. Mas agora os alunos não passavam de uma turba indiferente e profana. Considerou o auditório; Pfaff, o Gordo, em primeiro lugar, com a cara tão expressiva como uma maçaneta de porta, as discípulas, comovidas e assustadas; apenas Martin Arrowsmith e Angus Duer eram visivelmente inteligentes. A sua memória deslizou para a imagem de um pálido crepúsculo azul, em Munique, com uma ponte e uma jovem à espera, enquanto uma música andava no ar.)

Tendo desinfectado as mãos na solução de bicloreto, Gottlieb agitou-se com um movimento rápido, os dedos abaixados como os de um pianista sobre as teclas. Em seguida, tomou a agulha de injecções do esterilizador e levantou a proveta. A sua voz flutuou, indolente, entremeada de sons alemães.

- Eis, senhores, uma cultura de Bacillus anthracis com vinte e quatro horas de existência. Estou certo de que terão notado que, sob o recipiente, havia algodão, para prevenir a ruptura do tubo. Não posso aconselhá-los a partir estes tubos de micróbios e sujar as mãos na cultura. Arriscar-se-iam simplesmente a contrair um antraz...

A turma estremeceu.

Com o dedo mínimo, o professor arrancou o tampo de algodão de modo tão preciso, que mesmo aqueles que eram de opinião que a bacteriologia não passava de uma inútil estopada e que, em matéria de laboratório, tudo quanto precisavam eram análises de urina e exames de sangue - mesmo esses sentiram por Gottlieb o respeito que lhes inspirava um homem capaz de uma prestidigitação com cartas ou de realizar uma apendicectomia em sete minutos. Agitou a boca da proveta no bico de Bunsen, advertindo, em tom monótono:

"Sempre que retirarem o tampão de um tubo, devem passar-lhe a boca pela chama. Façam disto uma regra. É uma necessidade da técnica, e a técnica, senhores, é o começo de toda a ciência. É também a coisa que menos se conhece na ciência."

A turma estava impaciente. Por que protelar assim o momento amável e terrível em que a cobaia seria inoculada?

(E Max Gottlieb, lançando um olhar ao outro animal aprisionado, pensava: "Pobre inocente! Por que matá-la para ensinar, Dummkopfe? Seria melhor fazer a experiência naquele gorducho. ")

Mergulhou a seringa na proveta, puxou o embolo destramente com o indicador e prosseguiu:

"Toma-se meio centímetro cúbico de cultura. Há em medicina duas espécies de doutores: aqueles para quem c. c. significa centímetro cúbico e aqueles para quem significa composto catártico. Os segundos são os mais prósperos."

(Não é possível representar o sotaque de Gottlieb: a pronúncia arrastada e transparente, a amabilidade sardónica, osss sibilantes, a mudança dos dd em tt ásperos e agressivos.)

Puxando com a pinça a pele do ventre do animal, que o assistente segurava, Gottlieb cravou-lhe, com um golpe rápido, a agulha. A cobaia teve um leve estremecimento, acompanhado de um pequeno guincho, e as estudantes estremeceram. Os dedos experientes do professor, tendo sentido o peritónio, calcaram o embolo. Disse, tranqüilamente:

"Este pobre animal estará em breve tão morto como Moisés." Os estudantes entreolharam-se, inquietos. "Alguns dos senhores pensarão que isto não tem importância; outros, como Bernard Shaw, classificar-me-ão na categoria dos carrascos, e dos carrascos mais monstruosos, pois mato friamente; enfim, haverá os que não pensam coisa alguma. É esta diversidade na filosofia dos homens que torna a vida interessante."

Enquanto o assistente prendia o disco de estanho na orelha da cobaia e a reenviava para a gaiola, Gottlieb registava numa caderneta o peso do animal, a hora da inoculação e a idade da cultura microbiana. Depois, com a sua caligrafia meticulosa, transcreveu as notas no quadro negro, murmurando:

"O que há, senhores, de mais interessante na vida, não é propriamente a vida, mas as reflexões que fazemos sobre ela... Da mesma forma, a parte mais importante de uma experiência não é propriamente essa experiência, mas as notas exactas e minuciosas que tomamos, a tinta. Tenho ouvido dizer que muitas pessoas hábeis se julgam capazes de reter de memória os dados. Mas tenho observado freqüentes vezes, com prazer, que tais pessoas não têm cabeça para retê-los. E felizmente que é assim, pois o mundo jamais vê os resultados das suas observações e eles não obstroem o campo da ciência. Inocularei agora outra cobaia e a aula estará terminada. Sentir-me-ei feliz se, antes da próxima, todos lerem Mário, o Epicurista, de Pater, a fim de conseguirem esse sangue-frio que é todo o segredo da perícia de laboratório."

 

Quando se precipitavam para a saída, Angus Duer disse a um dos Digams:

- Gottlieb não passa de um rato de laboratório; não tem a mínima imaginação; encosta-se aqui, em lugar de enfrentar o mundo e sentir o prazer da luta. Claro que é hábil, e a sua técnica, notável. com as suas qualidades, poderia ter-se tornado um cirurgião de primeira classe e ganhar uns cinqüenta mil dólares por ano, ao passo que ali, no laboratório, não creio que arranje um cent, além dos seus quatro mil dólares anuais.

Ira Hinkley caminhava só, a alma atormentada. Vasto, sempre a murmurar alguma coisa, o pastor era um homem extraordinariamente bondoso. Aceitava respeitosamente tudo quanto lhe diziam os lentes, por mais contraditórias que fossem as suas teorias com as outras que lhe haviam ensinado; mas esta matança de animais revoltava-o. Lembrava-se agora de que, no último domingo, na capela onde pregava durante os seus estudos de Medicina, exaltava o sacrifício dos mártires, e todos haviam entoado um cântico sobre fontes que o sangue das veias de Emmanuel enchera. Mas esta meditação perdeu-se e ele dirigiu-se para a Digamma Pi num nevoeiro de piedade melancólica.

Cliff Clawson, que caminhava ao lado de Pfaff, o Gordo, berrou:

- Notaste o pulo da cobaia, Gordo, quando Gottlieb lhe enterrou a agulha na barriga?

- Cala a boca, por favor! - suplicou Pfaff.

Martin via-se a fazer a mesma experiência, e, ao lembrar-se das mãos seguras de Gottlieb, as suas curvaram-se, procurando imitá-las.

 

As cobaias entorpeciam progressivamente. Ao cabo de dois dias, rolaram de lado, escoicinharam convulsivamente e morreram. Em dramática expectativa, os alunos estavam reunidos para a autópsia. Sobre a mesa do preparado havia um tabuleiro de madeira, marcado pelas tachas que, durante anos, haviam fixado os cadáveres. Os estudantes viam-nas ainda a dar pulinhos, cheias de vida. O assistente estendeu uma delas, fixando-a com tachas. Gottlieb esfregou-lhe o ventre com um algodão embebido em lisol, abriu-a até ao pescoço e cauterizou o coração com uma espátula em brasa; ao chiar da carne, a turma agitou-se. Como um sacerdote de mistérios diabólicos, Gottlieb, com uma pipeta, retirou o sangue enegrecido. O assistente manchou as lâminas de vidro com os pulmões, o baço, os rins e o fígado distendidos, e entregou-as ao exame da turma. Cheios de orgulho profissional, os estudantes, que haviam aprendido a usar o microscópio sem serem obrigados a fechar um dos olhos, graduavam o aparelho e, enquanto as células, como que emergindo de uma nuvem, se destacavam, nítidas e precisas, na lâmina, falavam na maravilha de identificar bacilos. Mas, sentindo atrás de si Gottlieb, que, andando de um lado para outro, os observava silenciosamente, mostravam-se contrafeitos; e rumores cheios de comoção correram ao longo dos bancos, acerca de um estudante que morrera de um entraz contraído no laboratório.

 

Martin vivia estes dias numa espécie de encantamento; o sabor de uma animada partida de hóquei, a serenidade que se eleva dos campos, a comoção de um belo trecho de música e um sentimento de criação. Despertava cedo, pensava cheio de contentamento no seu dia de trabalho e atirava-se a ele, tomado de fervor e cego para as restantes coisas.

A confusão do laboratório de bacteriologia; os estudantes em mangas de camisa, a filtrarem a gelatina de cultura, com os dedos pegajosos; os que aqueciam os meios de cultura num autoclave semelhante a um morteiro de prata, tudo isto produzia em Martin uma espécie de êxtase. O bico de Bunsen sussurrando sob os fornos de ar quente, o vapor dos esterilizadores Arnold a elevar-se até ao tecto, embaciando as vidraças, pareciam-lhe maravilhas de actividade; e não havia para ele no mundo nada mais belo do que as filas de provetas cheias de soro e rolhadas com algodão chamuscado; que uma alça de platina sobre uma proveta cintilante; que uma série de tubos de vidro, ligando misteriosamente diversos vasos; que um frasco cheio de certa tintura roxo-genciana.

Talvez por uma ingênua imitação de Gottlieb, pusera-se a trabalhar só, durante a noite, no laboratório... Na comprida sala mergulhada numa obscuridade profunda, a lâmpada de gás, atrás do microscópio, lançava um cone de luz sobre o cintilante canudo de cobre e punha reflexos nos seus cabelos negros, quando se debruçava sobre a ocular. Estudava os tripanossomas de um rato; uma roseta de oito pontas, corada com azul de metileno; um grupo de organismos delicados como um narciso, as células azul-pálido e as linhas tênues dos seus flagelos. Estava alvoroçado e um pouco ufano; conseguira corar exactamente os germes, vencendo a dificuldade de corar uma roseta sem romper a configuração petaliforme. Repentinamente, na obscuridade, ressoaram passos, os passos fatigados de Gottlieb, e uma mão pousou-lhe no ombro. Martin levantou a cabeça e, sem dizer palavra, empurrou o microscópio para o professor. com uma ponta de cigarro nos lábios, cujo fumo teria feito arderem os olhos a qualquer ser humano, Gottlieb debruçou-se para a preparação.

Regulou a luz do gás num quarto de polegada e considerou:

- Óptimo! O senhor possui a maneira e a habilidade. Há uma arte na ciência... para alguns, pelo menos. Os senhores, norte-americanos, na maioria estão cheios de idéias, mas suportam impacientemente a bela monotonia dos longos trabalhos. Vejo... já o tinha observado no laboratório... vejo que o senhor pode talvez tentar os tripanossomas da doença do sono. São muito interessantes e muito delicados de tratar. É uma doença impiedosa. Em certas aldeias da África, cinqüenta por cento dos habitantes estão afectados por ela e o desenlace é invariavelmente fatal. Sim, creio que o senhor poderia trabalhar com esses micróbios.

Era um convite a Martin para alinhar as hostes em ordem de batalha.

- Haverá, à meia-noite, no meu gabinete- prosseguiu Gottlieb - uma pequena sanduíche. Se ficar a trabalhar até essa hora, terei prazer se lá aparecer.

Timidamente, Martin, à meia-noite, atravessou o hall em direcção ao laboratório imaculado de Gottlieb, onde efectivamente encontrou, sobre a mesa, café e sanduíches extraordinariamente pequenas mas excelentes e de um sabor estranho, inteiramente novo para o seu paladar.

Gottlieb falou até que a Martin pareceu que Cliff não existia e que Angus Duer se assemelhava a um absurdo adventício.

O mestre evocou os laboratórios de Londres, os jantares e as noites glaciais de Estocolmo, os passeios no Pincio, à hora em que o Sol se oculta por detrás da cúpula de S. Pedro, o extremo perigo e o invencível asco das roupas manchadas com as dejecções dos doentes, durante uma epidemia, em Marselha. Toda a sua reserva se fundiu e falou a Martin de si próprio e da sua família, como o teria feito a um dos seus íntimos contemporâneos.

Um primo era coronel no Uruguai, e outro primo, um rabino, perecera num progrom, em Moscovo. A mulher, doente; talvez fosse cancro. Os três filhos: Míriam, a mais nova das meninas, tinha vocação para a música, mas o rapaz, de catorze anos, impertinente e preguiçoso, era uma preocupação. Quanto a ele, trabalhara durante anos na síntese dos anticorpos... Agora, achava-se num beco sem saída. Não tinha, em Mohalis, ninguém que se interessasse pelos seus trabalhos; ninguém para lhe estimular o zelo. Contudo, era com satisfação que arruinava a teoria da opsonina, o que lhe servia de consolo.

- Não, nada fiz ainda, excepto tornar-me desagradável a pessoas que alimentam pretensões demasiado grandes, mas sonho ainda realizar um dia verdadeiras descobertas. E... Não. Nem cinco vezes em cinco anos encontrei um estudante que tivesse gosto, sentimento e instinto do ofício, e imaginação para construir hipóteses. Mas creio que o senhor possui tudo isto. E se lhe puder ser útil... Não creio que consiga vir a ser um bom médico. Os bons médicos são admiráveis e freqüentemente artistas, mas o ofício deles não é para nós, solitários, que trabalhamos nos laboratórios. Certa vez, preguei na minha porta uma placa de doutor em Medicina. Estava em Heidelberga. Foi Herr Gott... sim, lá por 1875. Não pude criar grande interesse por enfaixar pernas ou examinar línguas. Era discípulo de Helmholtz, aquele alegre e impetuoso companheiro! Tentei fazer pesquisas sobre a física do som. Saiu mal; contudo, aprendi que, neste vale de lágrimas, nada há de positivo senão o método quantitativo. E fui químico, um bom gerador de fedores. Dediquei-me também à biologia. Foi bom. Descobri uma ou duas coisas E se por vezes me sinto exilado Tive de deixar a Alemanha por ter recusado cantar Die Wacht am Rhein e tentado matar um capitão de cavalaria... Ele era forte... tive de esganá-lo... O senhor vê, estou a gabar-me. Mas, nessa época, há uns trinta anos, era um ágil Kerl! Ah!... Para um bacteriologista filósofo, não existe senão uma dificuldade. Por que devemos destruir esses amáveis germes patogênicos? Teremos a certeza, quando contemplamos esses estudantes, esses feios estudantes que freqüentam a A. C. M. entoam cânticos e usam chapéus com iniciais impressas a ferro quente... teremos a certeza de que vale a pena protegê-los contra os Bacillus typhosus que com tanta elegância operam com os seus bonitos flagelos? Sabe, certa vez perguntei ao director Silva se não seria preferível deixar em liberdade, no mundo, os germes patogênicos e, dessa forma, resolver todas as questões econômicas. Mas ele não fez caso do meu método. Bem, ele é mais velho do que eu; oferece, também, segundo ouvi dizer, jantares aos quais comparecem bispos e juizes, todos muito bem trajados. Deve saber mais do que um judeu alemão que venera o pai Nietzsche, o pai Schopenhauer (o diabo que o leve: tinha espírito teológico! ), o pai Koch, o pai Pasteur, o irmão Jacques Loeb, o irmão Arrhenius. Já! Estou a dizer asneiras. Vamos ver as suas lâminas, antes de nos recolhermos.

Quando deixou Gottlieb na sua estúpida casa parda, com o rosto tão reservado como se a ceia da meia-noite, e toda aquela longa divagação jamais tivessem existido, Martin voltou para casa, apressado, completamente bêbedo.

 

Embora a bacteriologia fosse agora toda a vida de Martin, os métodos da Universidade exigiam que ele estudasse simultaneamente Patologia, Higiene, Anatomia Cirúrgica e outras matérias suficientes para sufocar um gênio.

Cliff Clawson e ele moravam num grande quarto com paredes revestidas de papel estampado, e atravancado de camas de ferro, montes de roupa suja e escarradores. Eles próprios preparavam o pequeno almoço; costumavam jantar no Ao Lanche do Peregrino ou no botequim A Gota de Orvalho. Cliff, ocasionalmente, tornava-se irritante; detestava as janelas abertas; falava acerca de meias sujas; cantava enquanto Martin estudava; e era totalmente incapaz de dizer directamente o que quer que fosse. Achava necessário mostrar-se engraçado. Observava: "Não entendes que poderíamos agora alimentar os nossos velhos semblantes? " ou: "Que tal se engorgitássemos algumas calorias? " Mas tinha para Martin um encanto que não se explicava, pela sua alegria, penetração e vaga coragem. Cliff, no conjunto, valia mais do que a soma das suas várias partes.

Na alegria do trabalho de laboratório, Martin raramente pensava nos antigos camaradas da Digamma Pi. De vez em quando, afirmava que o Rev. Ira Hinkley era um polícia de aldeia e Irving Watters um funileiro, que Angus Duer, para alcançar o triunfo, espezinhara a cabeça da avó, e que era um crime deixar Pfaff, o Gordo, praticar a medicina em pobres seres humanos, mas, em geral, ignorava-os e deixava de causticá-los. E, quando se elevou acima dos primeiros triunfos em bacteriologia e descobriu quanta coisa ainda lhe restava por saber, ficou estranhamente humilde.

Se se tornara menos desagradável para com os companheiros de turma, ficara insuportável nas aulas. Aprendera com Gottlieb a usar a palavra controle com referência à pessoa, animal ou substância química não tratados durante uma experiência, como padrão para comparação; e não havia nada mais exasperador do que isso. Quando um médico se gabava dos seus êxitos com tal droga ou aparelho eléctrico, Gottlieb resmungava sempre: "Onde estava o seu controle? Quantos casos tratou nas mesmas condições, e em quantos não aplicou o tratamento? " Agora, Martin começava a pronunciar a palavra: controle, controle, controle, onde está o seu controle? onde está o seu controle? - até que a maioria dos colegas e alguns dos professores começaram a sentir vontade de linchá-lo.

Era particularmente irritante em Farmacologia.

O lente de Farmacologia, Dr. Lloyd Davidson, teria dado um excelente lojista. Era muito popular. Um futuro médico poderia aprender com ele esta coisa entre todas importantíssima: os remédios que devem prescrever-se a um doente, especialmente quando o médico não pôde diagnosticar a doença. Os alunos escutavam-no zelosamente, guardando de cor as sagradas cento e cinqüenta receitas favoritas. (Orgulhava-se de ultrapassar em cinqüenta o número de fórmulas exigidas pelo seu antecessor.)

Martin, porém, era um rebelde. Perguntou, e publicamente:

- Doutor Davidson, como é que se sabe que o ictiol é bom para a erisipela? Isso não é apenas peixe fóssil podre, como a poeira de múmia e restos de orelha de cão que se costumavam receitar antigamente?

- Como é que se sabe? Ora, meu jovem crítico, porque milhares de médicos fizeram uso dessa substância durante anos e verificaram que os seus pacientes melhoravam. Eis tudo!

- Mas, doutor, não teriam os pacientes melhorado de qualquer outro modo? Não se trataria talvez de um post hoc, propter hoc? Terão feito experiências num conjunto de pacientes, com controles?

- Provavelmente, não... e, enquanto um gênio como o senhor, Arrowsmith, não reunir algumas centenas de pessoas com casos exactamente idênticos de erisipela, isso provavelmente jamais será tentado! Entretanto, espero que os senhores, a quem talvez faltem os profundos conhecimentos científicos do senhor Arrowsmith e o poder de manejar termos técnicos tão cômodos como controle, continuem, apenas de acordo com o meu fraco conselho, a fazer uso do ictiol!

Martin, porém, insistiu:

- Doutor Davidson, qual é, por obséquio, a utilidade de se decorarem todas essas receitas? Nós esquecer-nos-emos da maior parte, e, além disso, podemos sempre procurá-las no livro.

Davidson apertou os lábios.

- Arrowsmith, repugna-me dar a um homem como o senhor uma resposta que daria a uma criança de três anos, mas é evidente que devo dá-la. Assim, pois, o senhor terá de aprender as propriedades dos medicamentos e os elementos das receitas porque lhe digo que deve aprender! Se não vacilasse em malbaratar o tempo dos outros membros desta classe, tentaria persuadi-lo de que as minhas exposições podem ser aceitas, não pela minha humilde autoridade, senão porque elas são as conclusões obtidas, através dos séculos, por homens sensatos, mais sensatos ou, certamente, um pouco mais velhos do que o senhor, meu amigo. Mas como não desejo cair em vôos fantasiosos de retórica e eloqüência, dir-lhe-ei simplesmente que o senhor aceitará, e estudará, e decorará, porque lhe digo que assim deve fazer!

Martin pensou em abandonar o curso médico e especializar-se em Bacteriologia. Tentou aconselhar-se com Cliff, mas Cliff já perdera toda a paciência para aturar as suas impertinências, e tornou a voltar-se para a enérgica e graciosa Madeline Fox.

 

Madeline era, ao mesmo tempo, simpática e sensata. Por que não terminava o curso de Medicina, para ver depois o que desejava fazer?

Passearam, patinaram no gelo, patinaram na neve, foram ao espectáculo da Sociedade Dramática Universitária. A mãe de Madeline, que enviuvara, fora morar com a filha; haviam alugado um alojamento no último andar de um dos pequenos edidícios que começavam a substituir os velhos e familiares casarões de madeira de Mohalis. O alojamento estava cheio de literatura e decoração: um buda de bronze, de Chicago, um decalque do epitáfio de Shakespeare, uma colecção de obras traduzidas de Anatole France, uma fotografia da Catedral de Colônia, uma mesa de vime para chá, com um samovar cujo manejo ninguém compreendia na Universidade, e um álbum de bilhetes postais. A mãe de Madeline era uma respeitável matrona da Rua Principal. Era imponente, tinha os cabelos brancos, mas freqüentava a Igreja Metodista. Em Mohalis, a balbúrdia dos estudantes apavorava-a; suspirava pela sua cidade natal, pelas cadeiras da igreja e pelas reuniões do clube feminino neste ano estavam a estudar Educação e ela afligia-se por perder todos esses conhecimentos sobre os métodos da Universidade.

Com um lar e uma companhia, Madeline começou a "receber" reuniões com início às oito horas da noite, com café, bolo de chocolate, salada de frango e jogos de palavras. Convidava Martin, mas ele era avaro dos seus serões, dos seus belos serões de pesquisas. A primeira festa a que ela o atraiu foi a grande soirée do Ano bom. Havia muitas "atracções"; dançaram ao som do fonógrafo; e não cearam sobre os joelhos, mas em mesinhas cobertas com pequenos oleados.

Martin não estava habituado a tanta elegância. Embora tivesse comparecido de má vontade, ficou impressionado com a ceia, com os trajes das raparigas; compreendeu que a sua maneira de dançar estava antiquada e invejou o doutorando que sabia a valsa nova denominada Boston. Não havia vigor, graça nem saber que Martin Arrowsmith não cobiçasse, quando a noção da sua existência penetrava nas camadas da sua sensibilidade. Se era pouco propenso aos bens materiais, era, em compensação, ávido de toda a espécie de talento.

A sua admiração relutante pelos outros era absorvida pelo deslumbramento que lhe causava Madeline. Conhecera-a sob a figura de uma jovem transeunte em traje de rua, mas agora descobrira uma esquisita Madeline de interior, muito delicada no seu vestido de seda amarela. Parecia-lhe um milagre de tacto e desembaraço a maneira como ela animava os convidados, mantendo o bom humor. Tinha realmente necessidade de tacto, pois o Dr. Norman Brumfit estava presente e encontrava-se, naquela noite, com a sua mania de ser original e portar-se como um menino malcriado. Pretendeu beijar a mãe de Madeline, o que deixou a pobre senhora grandemente aborrecida; cantou uma canção negra altamente imprópria, contendo a palavra "inferno"; sustentou, perante um grupo de jovens universitárias, que os amores de George Sand talvez se justificassem em parte pela sua influência sobre os homens de talento; e, quando elas se mostraram escandalizadas, ele empertigou-se e, sob os óculos, os olhos cintilaram-lhe.

Madeline encarregou-se dele.

- Doutor Brumfit - trinava ela -, o senhor é terrivelmente sábio e, às vezes, no curso de Inglês, assusta-me mortalmente, mas outras vezes não passa de um menino mau, e não quero que o senhor arrelie as pequenas. O senhor pode ajudar-me a distribuir o sorvete, é isso o que pode fazer.

Martin sentiu adoração por Madeline. Odiou Brumfit, porque tinha o privilégio de desaparecer com ela na exígua cozinha da casa. Madeline! Era a única pessoa que o compreendia! Aqui, onde todos a disputavam e o Dr. Brumfit a olhava radiante, com uma ternura quase conjugal, ela tornava-se preciosa, era algo que ele precisava possuir.

A pretexto de ajudá-la a arranjar as mesas, achegou-se-lhe por um momento e suspirou:

- Meu Deus, como estás adorável!

- Fico satisfeita por me achares um tanto a teu gosto. Ela, a rosa e o objecto de adoração de todos, concedia-lhe a

sua graça.

- Poderei vir ver-te amanhã, à noite?

- Mas eu... Pode ser.

 

Não se pode dizer, nesta biografia de um rapaz que não foi, de modo algum, um herói, que se considerava um investigador da verdade, mas que tropeçou e escorregou durante toda a vida e se atolou em todos os atoleiros possíveis, que as intenções de Martin para com Madeline Fox fossem as que se chamam "boas". Não era um Dom João; era, porém, um pobre estudante de Medicina que teria de esperar anos até achar-se em condições de ter um meio de vida. Não pensava em casamento. Queria, como a maioria dos rapazes pobres e ardentes, tudo quanto fosse possível obter.

Quando correu para casa dela, ansiava por algo no gênero de uma aventura. Vira Madeline enternecer-se; sentiu-lhe a pequena mão sobre o rosto. Advertiu-se a si próprio: "Não te tornes idiota! Provavelmente, nada haverá. Para que antegozar assim e receber em seguida uma decepção? Sem dúvida, ela vai repreender-me por alguma gaffe cometida na reunião. Provavelmente, estará com sono e lamentará que eu tenha aparecido." Mas nem por um segundo acreditou nisso.

Premiu a campainha, viu-a abrir a porta, acompanhou-a pelo minúsculo hall, ansioso por tomar-lhe a mão. Entrou na sala de estar superiluminada - e encontrou a mãe, sólida como uma pirâmide, tão sombria como um Inverno sem sol.

Mas, naturalmente, a mãe complacentemente se retiraria, deixando-o à vontade para a sua conquista.

A mãe não se retirou.

Em Mohalis, a hora conveniente para os visitantes jovens se retirarem são as dez horas, mas, das oito até às onze e um quarto, Martin lutou com a Sr.a Fox; falou com ela em duas linguagens, um murmurar inteligível e um protesto mudo mas furioso, enquanto Madeline... Madeline assistia, sentada, bonita. Numa linguagem igualmente silenciosa, a Sr.a Fox respondeu-lhe, até que a sala ficou cheia do antagonismo de ambos, enquanto pareciam falar pacificamente acerca do tempo, da Universidade e do serviço de eléctricos para Zenith.

- Sim, naturalmente, acho que em breve haverá carros de vinte em vinte minutos - disse ele, pesadamente.

("Maldita velha, por que não vai para a cama? Viva! Ela vai desistir do tricô. Arre!... Pegou noutro novelo de lã. ")

- Sim, sim; estou certa de que eles terão de melhorar o serviço - disse a Sr.a Fox.

("Rapaz, não o conheço bem, mas acho que não é exactamente a espécie de homem que convém a Madeline. De qualquer modo, são horas de ir para casa. ")

- Claro, também acho. É preciso.

("Sei que estou a demorar-me demasiado e sei que a senhora sabe disso, mas não me importo! ")

Parecia impossível que a Sr.a Fox pudesse vencer a sua impassível persistência. Recorria à transmissão de pensamento, à força da vontade e ao hipnotismo, e, quando se levantou, derrotado, ela continuava no seu posto, extremamente plácida. Despediram-se sem entusiasmo. Madeline conduziu-o até à porta; durante um divertido meio minuto, ele teve-a a sós.

- Tanto que eu queria falar-te!

- Eu sei. Lamento-o. Outro dia! - murmurou ela. Beijou-a. Foi um beijo tempestuoso e dulcíssimo.

 

Chás, patinagem, passeios de trenó, uma reunião literária que teve como convidada de honra uma jornalista que fazia a secção social do Advocate-Times, de Zenith... Madeline precipitou-se numa orgia de distracções alegres, mas extraordinariamente fatigantes, e Martin seguiu-a obediente e dócil. Ela parecia ter dificuldades em encontrar rapazes em quantidade suficiente, e para a noite literária Martin arrastou o irascível Cliff Clawson. Cliff resmungou: "Esta é a mais terrível gaiola de pardais em que tenho entrado", mas descobriu nela um tesouro: ouvira Madeline chamar Martin pela terna designação favorita de "Martykins". Isto era precioso. Cliff passou a chamar-lhe Martykins. Cliff pediu a outros que lhe chamassem Martykins. Pfaff, -o Gordo, e Irving Watters passaram a chamar-lhe Martykins. E quando Martin queria dormir, Cliff grasnava:

- Hum, provavelmente casarás com ela. Ela tem uma pontaria mortal. Acerta num belo e jovem médico a noventa passos. Ah, terás um bonito futuro com a ciência, quando aquele rabo de saia te puser a arrancar amígdalas... Ela é uma dessas literatazinhas. Sabe tudo acerca de literatura, excepto talvez como se lê... Agora, ela não me parece mal. Mas engordará, como a velha.

Martin dizia o que era necessário, concluindo:

- Ela é a única rapariga da Universidade que tem algum espírito. As outras limitam-se a ficar sentadas e a tagarelar, e ela realiza as melhores reuniões...

- Reuniões de beijos?

- Olha lá! Aborreces-me, ouviste? Tu e eu somos uns brutos, mas Madeline Fox... ela parece-se com Angus Duer, em certos aspectos. Compreendo tudo o que nos falta: música e literatura, sim, e roupas decentes, também... não há mal em trajar bem...

- É isso exactamente o que estava a dizer-te! Ela transformar-te-á num Príncipe Alberto de camisa engomada, diagnosticando os males das viúvas ricas. Como pudeste cair por essa dama de quatro naipes... Onde está o teu controle?

A oposição de Cliff forçou-o a considerar Madeline não apenas com um interesse avaro e astuto como também com uma convicção dramática de que desejava fazê-la sua esposa.

Poucas mulheres podem por muito tempo abster-se de tentar aperfeiçoar os homens a quem distinguem, e "aperfeiçoar" significa mudar uma pessoa do que ela é, seja o que for, em outra coisa. Raparigas como Madeline Fox, jovens de temperamento artístico, não podem resistir por mais de um dia ao desejo de aperfeiçoar. Desde o momento em que o açodado Martin deixou perceber que os seus encantos o perturbavam ela investiu contra a suas roupas - o fato de belbutina, os colarinhos moles, o velho e excêntrico chapéu de feltro cinzento -, o seu vocabulário e o seu gosto literário com um vigor novo e cada vez mais protector. A sua maneira vaga de dizer: "Ora, naturalmente, toda a gente sabe que Emerson foi o maior pensador", irritava-o tanto mais pelo contraste com a melancólica sobriedade de Gottlieb.

- Ora, deixa-me emnpaz! - dizia ele a Madeline. - Tu és a coisa mais encantadora que Deus fez no mundo, quando te limitas ao que sabes, mas quando exibes as tuas idéias sobre política e quimioterapia... Ora, deixa de ser tirana! Quanto a gíria, acho que tens razão. vou suprimir todas essas expressões como "alimentar o semblante", etc. Mas não andarei de colarinho engomado!

Talvez nunca a tivesse pedido em casamento se não fosse a noite primaveril no terraço.

Ela utilizava como jardim o terraço do edifício onde morava. Levava para lá uma caixa de gerânios e um banco de ferro fundido, como os que outrora se viam nos cemitérios; pendurara duas lanternas japonesas, que estavam em farrapos e numa posição estranha. Falava com escárnio dos outros habitantes do edifício, que eram "tão prosaicos, tão convencionais que nunca subiam ao querido retiro". Comparava o seu refúgio ao terraço de um palácio mourisco, a um pátio espanhol, a um jardim japonês, a uma "pérgula da velha Provença". Para Martin, porém, parecia-se muito com um simples terraço. Estava vagamente disposto a brigar, nessa noite de Abril, quando foi visitar Madeline, e a mãe, fungando, lhe disse que ela devia estar no terraço.

- Malditas lanternas japonesas. Prefiro olhar para preparações de fígado - resmungou, subindo a escada de caracol.

Madeline estava sentada no fúnebre banco de ferro, com o

queixo entre as mãos. Desta vez, não o cumprimentou com a florida vibração habitual, mas com um vago "alô". Parecia desanimada. Martin sentiu remorsos da sua zombaria; subitamente, compreendeu o que havia de patético no desejo dela de querer fazer passar aquela faixa de papel alcatroado e aquelas esteiras de tabuinhas por um jardim maravilhoso. Quando se sentou a seu lado, disse com doçura:

- Ah, que bonita esteira puseste aqui!

- Não é tal! É horrível! Ah, Mart - gemeu, voltando-se para ele -, estou tão aborrecida comigo própria, esta noite! Procuro sempre levar os outros a pensarem que sou alguém. Não sou nada disso. Sou um bluff.

- Mas que é isso, querida?

- Ora, uma porção de coisas. O Dr. Brumfit... o diabo que o leve, mas ele tinha razão... disse-me que se eu não estudar com mais afinco terei de abandonar o curso. Disse que não faço coisa alguma, e se eu não obtiver o meu diploma de doutor em Filosofia, então adeus a um bom lugar de professora de Inglês numa boa escola, e seria bom que o conseguisse, porque não parece à pobre Madeline que alguém pense em casar com ela.

Enlaçando-a, Martin declarou em voz muito alta:

- Sei bem quem...

- Não, não estou a pescar. Esta noite, estou quase sincera. Não presto para nada, Mart. Digo a todos que sou inteligente. E acho que não me acreditam. Provavelmente, riem-se de mim quando me vou embora!

- Nada disso! Se se rissem... Queria ver alguém que o tentasse...

- É extremamente gentil e afectuoso da tua parte, mas não o mereço. A poética Madeline! com o seu vocabulário acrisolado! Sou... Martin... não passo de uma buzina de latão! Sou tudo o que o teu amigo Cliff pensa de mim. Oh, não precisas de dizer-me. Sei o que ele pensa. E... Terei de ir para casa com a mãe, e não posso suportar isso, querido, não posso suportar! Não voltarei! Que cidade aquela! Jamais acontece coisa alguma! Velhas comadres, velhotes estúpidos, sempre a dizerem as mesmas graças. Não voltarei!

Tinha a cabeça apoiada no ângulo do braço de Martin; chorava copiosamente; ele acariciava-lhe os cabelos, sem desejo algum, ternamente, enquanto lhe murmurava:

- Querida! Tenho a impressão... de que ouso amar-te. Tu

casarás comigo e... Faltam-me dois anos para terminar o meu curso de Medicina e mais dois de estágio, depois casaremos e... Bah! Contigo a ajudar-me, irei até ao cimo! Serei um grande cirurgião! Teremos tudo!

- Queridinho, sé razoável. Não quero desviar-te da tua obra científica...

- Ora... Sem dúvida que queria fazer algumas pesquisas. Mas. -. Ora, bolas! Não sou um rato de laboratório. A batalha da vida. Conquistar um lugar no mundo. Lutar com verdadeiros homens, num verdadeiro corpo-a-corpo. Se não fizer isso e também alguma obra científica, será porque não presto. Naturalmente, enquanto estiver com Gottlieb, quero aproveitar, mas depois... Oh, Madeline!

Depois, a sua faculdade de raciocínio, a um contacto mais estreito, ficou como que envolvida por um véu.

 

Temia a entrevista com a Sr.a Fox; estava certo de que ela perguntaria: "Rapaz, como espera sustentar a minha Maddy? E o senhor usa uma linguagem vulgar." Mas ela tomou-lhe a mão e disse num tom enternecido:

- Espero que o senhor e minha filha sejam felizes. Ela é boa pequena, ainda que por vezes um tanto estouvada, e sei que o senhor é gentil, bom e trabalhador. Hei-de rezar para que sejam felizes... Oh, hei-de rezar bastante! Vocês, os novos, parece que não fazem grande caso da oração, mas se o senhor soubesse como ela me tem ajudado... Ah, hei-de rogar pela vossa felicidade!

Chorava; beijou a testa de Martin com o beijo seco, suave e terno de uma velha, e ele chorou com ela.

Ao despedirem-se, Madeline cochichou:

- Menino, por mim, é indiferente, mas a mãe gostaria que fôssemos à igreja com ela. Não achas que, por uma vez, poderias fazer isso?

O mundo pasmado, o pasmado e profano Cliff Clawson tiveram o espectáculo de Martin, metido num traje esmeradamente passado a ferro, um penoso colarinho engomado e uma gravata laboriosamente enlaçada, acompanhando a Sr.a Fox e Madeline, que tagarelava discretamente, à Igreja Metodista de

Mohalis, para ouvirem um sermão do Rev. Dr. Myron Schwab sobre "A única senda para a Virtude".

Passaram pelo Rev. Ira Hinkley, que seguiu com um olhar piedoso o cativeiro de Martin.

 

Apesar de toda a sua devoção à opinião pessimista de Max Gottlieb sobre a inteligência humana, Martin acreditava que havia o que se chama progresso; que os acontecimentos tinham um significado; que o homem podia conhecer alguma coisa; que, se Madeline reconhecera uma vez que era uma rapariga capaz de enganar-se, Madeline estava salva. Sentiu-se confundido quando ela recomeçou a aperfeiçoá-lo mais vivamente do que nunca. Lamentava a vulgaridade dele e o que afirmava ser a sua mole ambição.

- Julgas-te muito forte na tua superioridade. Às vezes, fico a pensar que isso pode ser apenas indolência. Gostas de sonhar de dia pelos laboratórios. Por que estarias dispensado de decorar a Farmacologia, e isto, e aquilo? Todos os outros têm de decorar. Não, não quero beijos. Quero que te conduzas como homem e atendas à razão.

Furioso com as suas carícias, cobiçando-lhe os lábios e o doce sorriso, Martin chegou tempestuosamente ao fim do ano lectivo.

Uma semana antes dos exames, quando tentava consagrar vinte e quatro horas por dia a fazer a corte a Madeline, vinte e quatro horas a estudar para os exames, e vinte e quatro horas no laboratório de bacteriologia, prometeu a Cliff passar com ele as férias de Verão, trabalhando como criado num hotel canadiano. Encontrou-se com Madeline, à noite, e levou-a através do cerejal da Estação Experimental Agrícola.

- Sabes o que penso do teu detestável Cliff Clawson? queixou-se ela. - Acho que não te importas com a opinião que faço dele.

- Tenho ouvido as tuas opiniões, minha querida. Martin falava com prudência e certo desagrado.

- Mas posso dizer-te agora que não pediste a minha opinião acerca do projecto de te tomares criado! Francamente, não consigo compreender por que não arranjas uma ocupação própria de um gentleman para as férias, em vez de manipular pratos sujos. Não poderias trabalhar num jornal, onde te vestirias correctamente e tratarias com gente educada?

- Sim, poderia mesmo ser o redactor principal; mas, uma vez que pensas assim, não trabalharei neste Verão. É estúpido trabalhar, seja no que for. Irei para Newport, jogarei o gol e vestirei smoking todas as noites.

- Isso não te faria mal algum! Respeito o trabalho honrado. É como diz Burns. Mas servir à mesa! Oh, Mart, por que te orgulhas tanto da tua vulgaridade? Deixa de ser espírito forte, por um minuto. Escuta a noite. E aspira as flores das cerejeiras... Ou talvez um grande cientista como tu, isto é, tão superior à gente comum, esteja acima das flores das cerejeiras?

- Madeline, tens toda a razão, menos quanto às flores das cerejeiras, que já se foram há seis semanas.

- Sim Elas podem estar murchas, mas... Queres ter a bondade de me dizer o que é aquela pálida massa branca, acolá?

- Posso. Parece-me ser a camisa de um assalariado.

- Martin Arrowsmith, se pensa por um momento que casarei com um ser vulgar, tosco, egoísta, dedicado aos micróbios...

- E se pensa que me casarei com uma dama que passa o dia a incomodar-me...

Torturavam-se mutuamente; encontravam prazer nisso; e separavam-se para sempre; por duas vezes se haviam separado para sempre, a segunda vez muito asperamente, perto da sede de uma faternidade onde os estudantes cantavam dolentes canções estivais, ao som de um banjo.

Dentro de dez dias, sem tornar a vê-la, Martin partiu com Cliff para North Woods, e, na dor de a perder, no desejo da sua carne tenra, pela boa vontade dela em escutá-lo, pouco se importou com o facto de ter sido o primeiro da classe de Bacteriologia, e de Max Gottlieb o haver designado seu assistente para o ano seguinte.

 

Os criados de Nokomis Lodge, entre os pinhais de Ontário, eram todos universitários. Não eram convidados para os bailes locais; simplesmente, compareciam e tiravam as raparigas mais bonitas aos pretendentes mais antigos, vestidos correctamente de flanela branca, que denunciava a sua condição. Tinham de trabalhar apenas sete horas por dia. No resto do tempo, pescavam, nadavam e erravam pelos caminhos cheios de sombra, e Martin voltou para Mohalis descansado e enormemente apaixonado por Madeline.

Haviam-se correspondido polidamente, arrependidos, e uma vez por quinzena; depois, apaixonada e diariamente. Durante o Verão, ela fora arrastada para a sua cidade natal, perto da fronteira de Ohio com Winnemac, uma cidade maior do que a Elk Mills de Martin, mas mais castigada pelo sol, mais árida na sua cinta de pequenas fábricas. Ela suspirava, numa caligrafia grande e abandonada que cobria o papel:

Talvez nunca mais nos vejamos, mas quero que saibas o que foram para mim todas as nossas conversas sobre ciência, idéias, educação, etc. Certamente as aprecio aqui, quando ouço estes atrasados falarem o dia inteiro, abominavelmente, sobre automóveis, quanto têm de pagar às criadas, e isto e aquilo. Recebi muito de ti, mas também te dei alguma coisa, não é assim? Nem sempre estou sem razão, não achas?

"Minha querida, minha pequenina - gemia ele. - Nem sempre estou sem razão! Pobrezinha, minha pobre querida!"

Pelos meados do Verão, estavam de novo firmemente comprometidos e, embora um tanto perturbado pela caixa, uma jovem e risonha professora com belos tornozelos, do estado de Wisconsin, ele tinha tamanha saudade de Madeline que ficava acordado, a pensar em desistir do emprego e voar para as carícias dela...

O comboio do regresso foi dolorosamente lento e ele saltou em Mohalis febril de tanto sonhar com ela. Vinte minutos depois, estavam um nos braços do outro, na quietude da sala de estar de Madeline. É verdade que vinte minutos depois disso, ela zombava de Cliff Clawson, das pescarias e de todas as professoras, e se desfazia em lágrimas diante do furor de Martin.

 

O terceiro ano de Martin Arrowsmith foi um turbilhão. Assistir a prelecções sobre diagnóstico clínico, cirurgia, neurologia, obstetrícia e ginecologia, pela manhã, com demonstrações no hospital, à tarde; superintender a composição dos meios de cultura e a esterilização dos vidros de Gottlieb; instruir uma nova classe no uso do microscópio, do filtro e do autoclave; ler aqui e ali uma página científica em alemão ou francês; ver Madeline constantemente. Para realizar tudo isso, Martin vivia numa pressa histérica e foi no paroxismo dessa vertigem que começou a sua primeira pesquisa original: a sua primeira e lírica ascensão a montanhas inexploradas.

Imunizara coelhos contra a febre tifóide e acreditava que, se misturasse o sérum tirado destes animais imunes com germes tíficos, os germes morreriam. Por infelicidade, pensou ele, os germes multiplicaram-se alegremente. Ficou confundido; desconfiou da sua técnica; recomeçou a experiência por várias vezes, trabalhando até à meia-noite, levantando-se com a alvorada, para meditar sobre as suas notas. (Embora nas cartas para Madeline a sua letra fosse uma garatuja irregular, era nítida e precisa nas notas de laboratório). Quando se convenceu inteiramente de que a Natureza persistia em fazer algo que não devia, procurou, como um culpado, Gottlieb, e protestou:

- Esses malditos bichos deviam morrer neste sérum imune, mas não morrem. Há alguma coisa errada nas teorias.

- Rapaz, o senhor insurge-se contra a ciência? - grunhiu Gottlieb, batendo nos papéis que estavam em cima da mesa. Acha-se bastante competente para atacar os dogmas da imunologia?

- Permita-me, professor. Não posso calar-me, seja qual for o dogma. Eis o que obtive. Acredite-me: recomecei e repeti o trabalho e alcancei os mesmos resultados, como o senhor pode ver. Sei apenas o que observo.

Gottlieb ficou radiante.

- Dou-lhe, rapaz, a minha bênção episcopal! Esse é o caminho! Observe o que observar, e se isso violentar todos os belos e correctos dados da ciência... deite fora. Estou muito satisfeito, Martin. Mas agora descubra o Porquê, o princípio que está por detrás disso.

Comummente, Gottlieb chamava-lhe "Arrowsmith" ou "senhor" ou simplesmente "O!" Quando ficava encolerizado chamava, a ele ou a qualquer outro estudante, "doutor". Apenas nos momentos solenes é que o honrava com "Martin", e o rapaz afastou-se, como um bem-aventurado, para tentar a descoberta (mas para jamais o conseguir) do Porquê das coisas.

 

Gottlieb mandara-o a Zenith, ao grande Hospital Geral de Zenith, para fazer uma colheita de meningococos de um caso interessante. O aborrecido encarregado da portaria - que apenas se interessava em obter os nomes, os endereços comerciais e as religiões dos pacientes, e não se importava com quem morria, ou com quem escarrava no belo linóleo azul e branco, ou com quem vinha colher meningococos, uma vez que os endereços estivessem devidamente registados - altivamente o remeteu para a Enfermaria D. Ao longo dos compridos corredores, passando por inúmeros quartos dos quais espreitavam caras amareladas de velhas mulheres sentadas na cama, metidas em camisolas brancas, andava Martin, procurando dar-se um ar importante, na esperança de passar por médico, mas conseguindo apenas sentir-se extraordinariamente embaraçado.

Passou rapidamente por várias enfermarias, inclinando um pouco a cabeça, à maneira (ou o que ele imaginava ser a maneira) de um brilhante e jovem cirurgião que vai realizar uma intervenção. Estava tão absorvido no desejo de parecer um brilhante e jovem cirurgião que se perdeu completamente, dando consigo numa ala cheia de quartos particulares. Estava atrasado. Já não havia tempo para impressionar. Como todos os varões, detestava confessar-se ignorante e perguntar o caminho, mas, de má vontade, parou à porta de um quarto cujo soalho uma enfermeira praticante esfregava.

Era uma praticante pequenina e delgada, afogada num áspero vestido de zuarte, um enorme avental branco e um turbante fixado em torno da cabeça por um elástico: um uniforme tão pouco atraente como o seu balde de água. Levantou os olhos com a alerta irreverência do esquilo. - Enfermeira - disse ele -, procuro a Enfermaria D.

Ela, com indolência:

- Ah, sim?

- Efectivamente! Se puder interromper o seu trabalho...

- Posso, pois não. Essa peste da enfermeira-mor pôs-me a esfregar o soalho, e não nos compete esfregar soalhos; só porque me apanhou a fumar um cigarro. Ela é um velho estupor. Se encontra um pequeno como você por aqui, leva-o pela orelha.

- Minha cara jovem, talvez lhe interesse saber...

- Oh! "Minha cara jovem, talvez..." Parece justamente o nosso velho professor, lá em casa.

A sua indolente jovialidade, a sua maneira de tratá-lo como se fossem um par de crianças a deitar a língua de fora uma à outra numa estação ferroviária, enfureceu o jovem e compenetrado assistente do Prof. Gottlieb.

- Sou o Dr. Arrowsmith - resmungou - e, segundo creio, mesmo as enfermeiras praticantes sabem que o primeiro dever de uma enfermeira é pôr-se de pé quando fala com um médico! Preciso ir à Enfermaria D, a fim de fazer uma colheita de um micróbio perigosíssimo... Talvez lhe interesse saber isso. Se quiser ter a bondade de me orientar...

- Oh! diacho! Errei a vocação. Parece que não vou longe com esta disciplina militar. Tem razão. Ficarei de pé. - Ergueu-se. Cada um dos seus movimentos tinha a agilidade suave de uma gata a correr. - Volte, dobre à direita, depois à esquerda. Desculpe-me ter sido tão impertinente. Mas se o senhor visse esses doutores bolorentos a quem nós, as enfermeiras, temos de mostrar respeito e submissão... Palavra de honra, doutor... se é que o senhor é de facto doutor...

- Não vejo necessidade de provar-lho! - disse Martin, furioso, afastando-se. Fez todo o trajecto em busca da Enfermaria sob o domínio da raiva que lhe causara o ar zombeteiro da enfermeira. Era um cientista eminente, e fora um ultraje ter de tolerar a irreverência de uma praticante, de uma praticante singularmente vulgar, uma pequena que se exprimia de maneira plebéia e que evidentemente era do Oeste. Repetiu a sua censura: "Não vejo necessidade de provar-lho! " Estava orgulhoso de si próprio, por ter-se mostrado altaneiro. Imaginou-se a contar o caso a Madeline e concluindo: "Respondi-lhe simplesmente: Minha cara jovem, não me parece que a senhora seja a pessoa a quem deva explicar a missão que me traz aqui. E ela empalideceu."

Mas a recordação dela não empalidecera quanto Martin encontrou o estagiário que devia ajudá-lo a recolher o líquido raquideano. Ela continuava diante dele, provocadora, persistente. Teria de procurá-la e convencê-la... "Tratar-me daquela maneira... como se eu fosse qualquer..." - disse o modesto e jovem cientista.

Precipitou-se para a sala da enfermeira praticante e estavam um diante do outro quando lhe ocorreu que não preparara as coisas contundentes que devia dizer-lhe. Ela terminara a limpeza. Tirara o turbante e os seus cabelos cor de mel eram sedosos, os olhos, azuis, e infantil a fisionomia. Nada havia de uma servente nela. Podia imaginá-la a correr pela encosta de uma colina, trepando a montes de palha.

- Oh! - disse ela, gravemente. - Não tinha a intenção de ser grosseira. Estava apenas... Quando esfrego o soalho fico de mau humor. Logo vi que o senhor era uma pessoa de condição e sinto havê-lo irritado, mas parecia tão novo para ser doutor!

- Não o sou. Sou estudante. Estava a gabar-me.

- Também eu!

Sentiu uma instantânea e completa camaradagem com ela, isenta de afectações e do antagonismo que caracterizava as suas relações com Madeline. Percebeu que esta jovem era da sua própria raça. Se era vulgar, zombeteira, sem reservas, era também corajosa, tinha graça, era capaz de uma lealdade tão natural e fortuita que não parecia heróica. A voz de Martin vibrou, embora as suas palavras fossem apenas estas:

- É muito duro esse estágio de enfermaria, não é assim?

- Não muito terrível, mas é justamente tão romântico como ser uma rapariga alugada, que é como dizemos no Dakota.

- É do Dakota?

- Sou da mais operosa das cidades de todo o estado de Dakota do Norte, Wheatsylvania, com trezentos e sessenta e dois habitantes. O senhor está na Escola de Medicina da Universidade?

Para uma enfermeira que passasse por ali, os dois jovens teriam parecido pessoas absorvidas em assuntos do hospital. Martin estava parado na porta, ela junto do balde. Repusera o turbante; mal ajustado, obscurecia-lhe os cabelos brilhantes.

- Sim, sou terceiranista em Mohalis. Mas... não sei. Não gosto muito do estudo em geral. Gosto da parte do laboratório. Creio que me farei bacteriologista e farei ruído em torno de alguma dessas doidas teorias de imunologia. A clínica pouco me interessa.

- Fico satisfeita por vê-lo com essa disposição. Clínica, é só o que se faz aqui. Mas o senhor precisava de ouvir certos médicos. São uns anjinhos com os pacientes, mas com as enfermeiras, hum! Os laboratórios... devem ser alguma coisa que cheira a verdade. Acho que a gente não pode enganar uma bac... como é que se diz?... uma bactéria...

- Sim, sim. Mas como se chama?

- Eu? Ora... é um nome idiota... Leora Tozer.

- Que tem contra Leora? É um nome bonito!

Sussurro de pássaros enamorados, imperceptível murmúrio de flores primaveris que deslizam no ar tranqüilo, ladrar de cães sonolentos à meia-noite: quem poderá evocá-los sem voltar às imagens sediças? E tão natural, tão convencional, tão juvenilmente desajeitado, tão eternamente belo e autêntico como aqueles ruídos antigos foi o diálogo de Martin e Leora, naquela meia hora apaixonada em que cada um descobria no outro uma parte do seu próprio ser, vagamente perdida até então, mas aflorando agora com uma alegria espantada. Tagarelavam como o herói e a heroína de uma novela romântica, como operários explorados, como sólidos campónios, como o príncipe e a princesa. As suas palavras eram tolas e incoerentes, ouvidas uma a uma, mas tomadas em conjunto eram tão sábias e importantes como as marés ou o vento que assobia.

Ele disse-lhe que admirava Max Gottlieb; que passara por ela, de comboio, no Dakota do Norte; e que era um excelente jogador de hóquei. Ela disse-lhe que adorava as revistas teatrais; que seu pai, Andrew Jackson Tozer, nascera no Leste (designava assim o Illinois); e que não tinha gosto pela enfermagem. Não tinha uma determinada ambição pessoal; viera para ali por gostar de aventura. Insinuou, com um misto de pesar e complacência, que a enfermeira-mor não simpatizava com ela; que tinha boas intenções, mas, de uma ou outra forma, andava sempre implicada em rebeldias relacionadas com raptos à meia-noite. Nada havia de heróico na sua história, mas a sua maneira plácida de contar dava uma impressão de coragem alegre.

Ele interrompeu-a com um urgente:

- Quando é que pode dar uma fugida do hospital para jantar comigo? Hoje?

- Mas...

- Vamos, não é assim?

- Vamos.

- Quando devo vir buscá-la?

- Acha que devo aceitar? Bem... às sete.

Por todo o trajecto de volta para Mohalis, ele alternadamente se encheu de raiva e de júbilo. Informava a si próprio que era idiota fazer a longa caminhada a Zenith duas vezes num dia; lembrava-se de que estava comprometido com uma jovem chamada Madeline Fox; atormentava-se à idéia da infidelidade; afirmava que Leora Tozer não passava de uma enfermeira falsificada, tão ignorante como uma cozinheira e tão impertinente como um pequeno vendedor de jornais; resolveu por várias vezes telefonar-lhe, a cancelar o compromisso.

Compareceu no hospital às sete menos um quarto.

Teve de esperar vinte minutos numa sala semelhante à de um agente funerário. Ficou alarmado. Que fazia ali? Ela provavelmente seria mortalmente triste do outro lado de uma longa mesa de jantar. Reconhecê-la-ia, sem o uniforme? Saltou da cadeira. Ela estava à porta. O insípido uniforme azul desaparecera; estava esbelta e leve como uma criança num traje de princesa, o qual, desde a gola alta e os seios suaves e erguidos, formava uma linha recta até aos pés. Pareceu-lhe natural, quando saíram do hospital, tomar-lhe a mão e prendê-la no seu braço. Ela andava a seu lado com um passinho de dançarina, mais tímida agora do que se mostrara na dignidade das suas funções, mas levantando a cabeça para olhá-lo com confiança.

- Ficou contente por eu ter vindo? - perguntou Martin.

Ela ficou a pensar. Tinha o hábito de pensar gravemente sobre perguntas simples; e gravemente (mas com a gravidade de uma criança, não a gravidade pesada de um político ou de um chefe de escritório) confessou:

- Sim, estou contente. Estava com medo de que tivesse ficado zangado comigo por ser tão intrometida, e queria desculpar-me, e... Gostei de si por ser tão entusiasta da bacteriologia. Tenho também os meus entusiasmos. Aqui, os estagiários... andam à volta da sala, fazem barulho, mas são tão... tão idiotas, com os seus estetoscópios novos e a sua dignidade novinha em folha. Hum... - E, mais grave ainda: - Claro que fiquei contente por ter vindo... Acha que sou tola por confessá-lo?

- Você é um amor, confessando.

Ela causava-lhe uma leve vertigem. com o braço, comprimiu-lhe a mão.

- Não vai pensar que me deixo levar assim por todos os estudantes e médicos, não é assim?

- Leora! E você não pensará que procuro atrair todas as meninas bonitas que encontro? Queria... senti que podíamos ser amiguinhos. Não acha? Não acha?

- Não sei. Veremos. Aonde vamos jantar?

- Ao Grand Hotel.

- Nada disso! É muito caro. A não ser que seja um ricaço. Mas não é, não?

- Não, não sou rico. Dinheiro, o necessário para fazer á justa o curso médico. Mas quero...

- Vamos ao Bijou. É um lugar agradável e não é caro. Lembrou-se da freqüência com que Madeline Fox insinuava

que seria delicioso irem ao Grand, o hotel mais luxuoso de Zenith, mas foi a última vez que pensou em Madeline naquela noite. Leora absorvia-o. Encontrava uma ausência de preconceitos, uma maneira directa, uma singeleza surpreendentes na filha de Andrew Jakson Tozer. Era feminina, mas sem exigências: não tinha a obsessão de aperfeiçoar e raramente se ressentia; não era nem coquette nem fria. Era, na verdade, a primeira rapariga com quem ele falara despreocupadamente. Quanto a Leora, é de duvidar que tivesse encontrado oportunidade de dizer alguma coisa, pois Martin despejava todos os seus segredos, como discípulo de Gottlieb. Para Madeline, Gottlieb era um velho perverso que zombava da santidade do matrimônio e dos lírios; para Cliff, era um maçador; mas Leora ficou radiante quando Martin bateu na mesa e citou o seu ídolo: "Até hoje, mesmo na obra de Ehrlich, a maior parte das pesquisas tem sido em grande escala uma série de tentativas e de erros: o método empírico, que é o oposto do método científico, pelo qual se procura estabelecer uma lei geral governando um grupo de fenômenos, de modo que se possa predizer o que acontecerá."

Deu ênfase ao trecho, encarando-a, com um olhar penetrante, através da mesa. Insistiu:

- Compreende como ele trata todos esses caçadores de pormenores, todos esses pesquisadores fabricados em série, que se agitam no monte de estrume, como trata os médicos comercializados? Compreende?

- Acho que sim. De resto, participo do seu entusiasmo por ele. Mas faça o favor de não me assustar!

- Assustá-la? Não tinha essa intenção. É que, quando começo a pensar que a maioria desses professorzinhos não sabe nem mesmo o que...

Martin de novo se deixou arrebatar, e se Leora não percebeu inteiramente a relação da síntese dos anticorpos com a obra de Arrhenius, pelo menos escutou com uma atenção que confortava o zelo de Martin, sem nenhum dos apartes brandamente correctivos de Madeline Fox.

Teve de adverti-lo de que devia estar de volta ao hospital às dez.

- Credo, falei que me fartei! Espero que não se tenha aborrecido - disse ele, apressado.

- Encantou-me.

- E fui tão técnico e tão barulhento... Sou um desastrado!

- Fiquei contente por ter confiado em mim. Não sou profunda, não tenho cabeça, mas gosto que os homens pensem que sou bastante inteligente para ouvir o que realmente pensam e... Boa noite!

Jantaram juntos duas vezes em duas semanas, e apenas duas vezes nesse período Martin esteve com a sua verdadeira noiva, Madeline, embora ela o tivesse perseguido pelo telefone.

Veio a saber toda a história da vida de Leora. Uma tia-avó paralítica, residente em Zenith, era o motivo da sua vinda de tão longe para praticar enfermagem. O lugarejo de Wheatsylvania, no Dakota do Norte: uma rua de barracas com os elevadores de trigo, pintados de vermelho, num extremo. O pai, Andrew Jackson Tozer, a quem às vezes chamavam Jackass Tozer, proprietário do Banco, da fábrica de lacticínios e de um elevador, e assim a primeira personalidade local; piedoso nas orações de quarta-feira à noite, questionando por cada moeda que dava a Leora ou à mulher. Bert Tozer, irmão de Leora: dentes de esquilo, a corrente de ouro dos óculos presa à orelha, caixa e todo o resto do funcionalismo do Banco, instalado num compartimento da propriedade do pai. As ceias de salada, de frango e café, na Igreja dos Irmãos Unidos; lavradores luteranos alemães cantando antigos hinos teutónicos; os holandeses, os checos e os polacos. E, em redor do lugarejo, o trigo vivo, sob a cúpula de grandes nuvens. Viu Leora sempre uma "menina esquisita", fazendo submissamente a lida doméstica, mas guardando no coração a crença de que algum dia encontraria um companheiro com quem, não importava em que perigo ou pobreza, contemplaria todo o colorido mundo.

Foi no fim do seu esforço pouco frutífero para fazer-lhe entrever a sua infância que ele exclamou:

- Querida, não precisas de falar-me a teu respeito. Sempre te conheci. Não te deixarei escapar, aconteça o que acontecer. Serás minha mulher...

Disseram estas coisas de mãos dadas, uma confissão nos olhos naquele restaurante ruidoso. As primeiras palavras de Leora foram:

- vou chamar-te Sandy. Porquê? Não sei. Nada tens de ruivo, e contudo Sandy traz-me a tua lembrança, e... Oh, querido, como gosto de ti!

Martin voltou para casa noivo de duas raparigas ao mesmo tempo.

 

Prometera visitar Madeline na manhã seguinte.

Segundo todos os cânones da boa moral, devia sentir-se vil como um cão; afirmou a si próprio que devia sentir-se vil como um cão; mas não pôde seguir essa linha moral. Pensava nos patéticos entusiasmos de Madeline: na sua "pérgula provençal" e nos volumes de poesia encadernados em couro flexível que ela acariciava amorosamente com a ponta dos dedos; na gravata que lhe comprara e no orgulho que sentia quando ele se penteava como os heróis das ilustrações das revistas. Afligia-se por ter pecado contra a lealdade. Mas a sua agitação quebrou-se contra a solidez da sua união com Leora. O sentimento do seu amor apaziguava-lhe a alma. Mesmo quando, como advogado de Madeline, achava que Leora era uma pequena vulgar, que provavelmente mascava chewing-gum às escondidas e decerto aparecia em público com as unhas descuidadas, a vulgaridade dela era cara à vulgaridade que havia nele, era legítima como a ambição ou a reverência, era uma base terrena para a jovialidade dela como para a nervosa curiosidade científica dele.

Naquela fatal manhã seguinte, estava distraído no laboratório. Gottlieb teve de perguntar-lhe por duas vezes se preparara o novo caldo de cultura, e Gottlieb era um autócrata, mais severo com os favoritos do que com a massa dos estudantes. Rosnou:

- Arrowsmith, o senhor é um pateta. Meu Deus, terei de passar a vida com o Dummkopfe? Não posso estar sempre só, Martin! Também me vai trair? Há dois dias, há três dias, que não trabalhava com aplicação.

Martin saiu, murmurando: "Adoro este homem! " Na sua emaranhada disposição de ânimo, catalogava os defeitos de Madeline, as impertinências, o egoísmo, a ignorância fundamental. Elevou-se a um estado de virtude, no qual lhe era agradavelmente evidente que devia descartar-se de Madeline, inteiramente, como de uma ignomínia. Foi ter com ela à noite, preparado para explodir às primeiras recriminações, perdoar-lhe finalmente, mas desfazer o compromisso e, resolutamente, tornar de novo simples a sua vida.

Ela não se queixou. Correu para ele.

- Querido, estás tão abatido... Os teus olhos parecem cansados. Tens trabalhado muito? Senti tanto que não tivesses podido vir, esta semana. Querido, não deves matar-te. Pensa em todos os anos que tens pela frente para realizar coisas esplêndidas. Não, não fales. Quero que descanses. A mãe foi ao cinema. Senta-te aqui. Olha, vou acomodar-te nestas almofadas. Recosta-te... dorme, se quiseres... e lerei para ti The Crock of Gold. Vais gostar.

Decidiu não gostar e, como provavelmente não tinha o menor sentido de humor, é de duvidar que tenha apreciado essa dose de conforto, mas a diferença impressionou-o. Embora a voz de Madeline soasse aguda e rude, depois da lânguida doçura de Leora, lia com tal entusiasmo que se sentiu envergonhado da intenção de feri-la. Compreendeu que ela, com os seus defeitos, é que era a criança, e a independente e destemida Leora, a soberana de um mundo real. As exprobrações com que pretendera esmagá-la desvaneceram-se.

De repente, estava junto dele, suplicante:

Estive tão só sem ti, toda a semana!

Assim, ele traía ambas as mulheres. Leora é que o excitava intoleravelmente; era realmente Leora a quem ele agora acariciava; mas era Madeline quem recebia as carícias, e, quando ela suspirou: "Estou tão contente por ver que estás contente por teres vindo", ele nada pôde dizer. Queria falar sobre Leora, gritar de entusiasmo por Leora, mostrar o seu júbilo por ela, a sua paixão. Conseguiu dizer alguns galanteios, sólidos mas frios; declarou que Madeline era uma linda rapariga e uma estupenda estudante de inglês; e enquanto ela bocejava de decepção diante da sua tibieza, ele retirava-se, às dez horas. Conseguira finalmente sentir-se tão vil como um cão.

Procurou, apressado, Cliff Clawson.

Nada dissera a Cliff acerca de Leora. Temia a troça provável de Cliff. Sentiu-se orgulhoso da calma com que penetrou no quarto. Cliff estava sentado sobre a região sacra, os pés descalços em cima da mesa de estudo, lendo uma novela de aventuras de Sherlock Holmes, que se apoiava no poderoso volume da Medicina, de Osler, que ele considerava, desta forma, objecto da sua atenção.

- Cliff! Estou com vontade de beber. Cansaço, sabes? Vamos até ao Barney, ver se tomamos alguma coisa.

- Falais como alguém que tenha língua e ponha a pressa atrás do velho romboencéfalo, abrangendo o cerebelo e a medula oblongata.

- Ora, deixa-te de agudezas! Estou de péssimo humor.

- Ham! o pequeno passou algumas horas com o seu casto lírio Madeline! E ela teve a coragem de magiar Martykins? Está bem. Paremos. Ou vamos! Viva um trago!

Durante o trajecto, contou três novas histórias acerca do Prof. Robertshaw, todas elas obscenas e decerto falsas, e por pouco não levou Martin à hilaridade. O Barney era uma agência de apostas, tabacaria e, desde que Mohalis se tornara seca poropção local, bar clandestino. Cliff e Barney, homem de mãos peludas, saudaram-se reciprocamente de forma elegante e solene:

- As bênçãos da noite desçam sobre si, Barney. Possa a sua circulação permanecer sem perturbações, e especialmente o ramo carpo-dorsal da artéria cubical, por cujo bem, camarada, o Prof. Dr. Egbert Arrowsmith e eu de bom grado brindaríamos com outra garrafa daquele famoso espumante de morango.

- Cruzes, que tu, Cliff, tens uma formidável bossa para a música de queixo. Se algum dia precisar de mandar cortar um braço, quando fores doutor, hei-de procurar-te para que me operes com essa música. Espumante de morango, senhores?

A sala da frente da espelunca de Barney era um quadro impressionista, onde se confundiam, num caos, a mesa das apostas, pilhas de maços de cigarros, paus de chocolate, cartas de jogar e jornais desportivos impressos em papel cor-de-rosa. A sala contígua era mais simples: caixas de gasosas, uma grande geladeira e duas mesinhas com cadeiras desengonçadas. Barney encheu dois copos com o conteúdo de uma garrafa onde se lia claramente o rótulo Ginger Ale, um whisky de aspecto ordinário mas de efeito terrível. Cliff e Martin levaram os copos para a mesa situada no canto. O efeito foi rápido. As confusas mágoas de Martin transformaram-se em optimismo. Contou a Cliff que ia escrever um livro sobre o idealismo, mas, ao mesmo tempo, pensava em que faria algo de astucioso com relação à sua dupla promessa de casamento. Descobrira! Convidaria Leora e Madeline para jantar com ele, dir-lhes-ia a verdade e veria qual das duas o amava. Deu um grito belicoso e pediu outro whisky, chamou a Cliff belo camarada e a Barney benfeitor do povo, e, cambaleando, retirou-se em busca do telefone, que ficava isolado dos ouvidos do público, numa cabina.

No Hospital Geral de Zenith, atendeu-o o plantão da noite e o plantão da noite era um homem glacial e desconfiado.

- Isto não são horas de chamar uma praticante! Onze e meia da noite! Quem é o senhor, afinal?

Martin reprimiu o "Já lho digo, seu! " que era a sua reacção natural, e explicou que falava em nome da tia-avó inválida de Leora, e que a infeliz e velha senhora estava muito mal, e se o plantão não queria assumir a responsabilidade do assassínio de uma inocente senhora...

Quando Leora veio ao telefone, disse rapidamente, e com serenidade, pois tinha a impressão de que acabava de afastar uma ameaça à segurança dela:

- Leora? Sandy. Encontrar-me-ás na sala de espera do Grand amanhã ao meio-dia e meia hora. É preciso. É importante. Dá um jeito... a tua tia está doente, por exemplo.

- Está bem, querido. Boa noite - e foi tudo.

Precisou de longos minutos para obter resposta de casa de Madeline; a voz da Sr.a Fox soou, trêmula e sonolenta:

- Pronto, quem fala?

- E Martin.

- Quem? Quem é? O que é? Fala de casa da família Fox.

- Sim, sim! Senhora Fox, é Martin Arrowsmith quem fala.

- Ah, meu caro! O telefone acordou-me de um sono pesado, e não podia compreender o que dizia. Fiquei com tanto medo... Pensei que fosse algum telegrama ou coisa parecida. Pensei que tivesse acontecido alguma coisa ao irmão de Maddy. Mas que há, meu caro? Oh, espero que não tenha acontecido nada!

A confiança depositada nele, a afeição desta anciã deslocada, perdida numa terra estranha, comoveu-o; perdeu a sensação, transmitida pelo whisky, de que era um tipo astuto, e melancolicamente, com todo o peso da vida novamente nas costas, suspirou, dizendo que nada, nada acontecera, mas que se esquecera de dizer uma coisa a Madeline, que "shentia"... sentia ter sido forçado a telefonar tão tarde, mas que desejava falar um minuto com Mad...

Em seguida, Madeline balbuciava:

- Mas que há, querido Martin? Espero que não tenha acontecido coisa alguma! Há pouco saíste daqui...

- Escuta, querida. Esqueci-me de te dizer. Está aqui, em Zenith... um grande amigo meu que eu queria apresentar-te...

- Quem é?

- Conhecê-lo-ás amanhã. Escuta, queria que viesses encontrar-te comigo para almoçarmos. Pensei - e continuou, com uma jovialidade comedida: - Pensei em oferecer a ambos um belo almoço no Grand...

- Oh! Como és gentil!

- e queria que te encontrasses comigo no interurbano das onze e quarenta, em College Square. Pode ser?

Vagamente:

- Oh, gostaria de ir, mas... tenho um compromisso para as onze e não gosto de faltar; prometi a May Harmon ir às compras com ela... anda à procura de uns sapatos que combinem com o vestido de crepe-da-china cor-de-rosa, mas que sirvam também para passeio... e pensávamos almoçar no Ye Kollege Karavanseral... e estava quase resolvida a ir ao cinema com ela ou com outra amiguinha. A mãe diz que o novo filme sobre o Alasca é simplesmente formidável; viu-o hoje, e resolvi ir vê-lo antes que saia do cartaz, embora só Deus saiba como preciso vir para casa estudar e não ir a parte alguma...

- Bem, escuta! É importante. Não tens confiança em mim?

Vens ou não vens?

- Ora, naturalmente que confio em ti, querido. Está bem, farei o possível por estar lá. O interurbano das onze e quarenta?

- Sim.

- Em College Square? Ou na livraria Bluthman?

- Em College Square!

O doce "confio em ti" e o aborrecido "farei o possível" ressoavam-lhe ainda nos ouvidos quando Martin emergiu da cela sufocante e voltou para junto de Cliff.

- Que se passa? - interrogou Cliff. - Faleceu-te a mulher? Ou os Gigantes ganharam a nona? Barney, o nosso jovem boêmio está com um ar de necropsia. Serve-lhe depressa outro espumante de morango. Olha, doutor, acho melhor chamar um médico.

- Cala a boca - foi toda a resposta que Martin encontrou, e essa sem convicção. Antes de telefonar, estava cheio de pequenos entusiasmos; elogiara as apostas de Cliff e chamara a Barney " velho Cimex lectularius"; mas, agora, enquanto o afectuoso Cliff se esforçava por distraí-lo, permanecia mergulhado nas suas reflexões, das quais só se apartou para resmungar (com uma ponta de satisfação pessoal):

- Se soubesses todos os meus aborrecimentos... em que diabo de complicações um homem se pode meter... fecharias mais a boca!

Cliff alarmou-se.

- Escuta, velho idiota. Se é alguma dívida, arranjo o dinheiro, de qualquer modo. Se é... Foste um pouco longe com Madeline, hem?

- Deixas-me doente. Tens um espírito sujo. Não sou digno de tocar nem na mão de Madeline. Olho para ela com todo o respeito.

- O diabo me leve, se me enganas! Mas não tem importância, se é assim. Gostaria de fazer alguma coisa por ti. Olha, toma outro copo! Barney! Outra rodada!

Várias doses de whisky lançaram Martin numa nevoenta indiferença, e Cliff, cheio de solicitude, arrastou-o para casa, quando ele se dispôs a atracar-se com três enormes segundanistas. Mas, pela manhã, despertou com a cabeça a estalar e a compreensão de que ia colocar Leora e Madeline frente a frente, no almoço.

O trajecto de meia hora, com Madeline, para Zenith, pareceu-lhe uma coisa opressiva e visível, como a nuvem de um tornado. Não vivia somente o minuto actual; todos aqueles trinta inflexíveis minutos estavam presentes, simultaneamente. Enquanto preparava a frase engenhosa que devia apresentar dentro de dois minutos, podia ainda ouvir a frase desajeitada que dissera dois minutos antes. Lutava por afastar a atenção de Madeline do "grande amigo" com quem iam encontrar-se. com uma alegria falsa, descreveu uma noitada no Barney; sem nenhum êxito, tentou mostrar-se espirituoso; e, quando Madeline o advertiu sobre os males do álcool e os males da associação com pessoas imorais, sentiu um momento de alívio. Mas não pôde distrair Madeline do assunto que a atraía.

- Quem é esse homem que vamos encontrar? Porque é que estás tão misterioso? Oh, Martykins, isto não é uma partida? Vamos encontrar-nos com alguém? Ou queres apenas escapar da mãe para fazermos juntos uma festa no Grand? Oh, que divertido! Sempre desejei almoçar no Grand. Naturalmente, acho que é um tanto rococó, mas é imponente, e... Adivinhei, querido?

- Não; há alguém, sim... ora, é claro que vamos encontrar-nos com alguém!

- Então porque não me dizes quem é? Palavra de honra, Mart, que me deixas impaciente.

- Bem, vou dizer. Não é Ele; é Ela.

- Oh!

- É que... Sabes que o meu trabalho me leva aos hospitais, e algumas das enfermeiras do Geral de Zenith auxiliam muito a gente. - Ofegava. Doíam-lhe os olhos. Uma vez que a tortura do almoço iminente era inevitável, perguntava a si próprio qual a razão para continuar a resistir ao castigo. Continuou: - Há lá especialmente uma enfermeira que é uma maravilha. Aprendeu muito sobre o tratamento dos doentes, e aponta-me uma porção de casos interessantes, e parece ser boa pequena... Miss Tozer é o seu nome... Parece-me que o seu pronome é Lee ou coisa parecida e ela é tão... o pai é um dos homens poderosos do Dakota do Norte... podre de rico... grande banqueiro acho que ela resolveu dedicar-se à enfermagem para fazer a sua parte de trabalho no mundo. - Imitara o tom de elevação lírica, próprio de Madeline. - Achei que vocês gostariam de conhecer-se. Lembras-te de ter dito que há poucas raparigas em Mohalis realmente sensíveis ao ideal?

- Siiim. - Madeline fixava alguma coisa muito remota e, fosse o que fosse, não parecia agradar-lhe. - Naturalmente, terei grande prazer em conhecê-la. Qualquer amiga tua... Oh, Mart! Espero que não vás namorar; espero que não te tornes muito íntimo dessas enfermeiras. Naturalmente, nada sei dessas coisas, mas tenho ouvido dizer que algumas delas são sistemáticas caçadores de homem.

- Sim, mas deixa-me dizer que Leora não é dessas!

- Pois sim, mas... Oh, Martykins, só quero que não te deixes ludibriar, permitindo que essas enfermeiras se divirtam à tua custa! Digo-o para o teu bem. Elas levam uma vantagem tão grande... - Pobre Madeline, a quem não permitiram que andasse pelos quartos dos homens a aprender... coisas... - E tu julgas-te tão bom psicólogo, Mart, mas, palavra de honra que qualquer mulher esperta pode enrolar-te no dedo.

- Ora, parece-me que já posso cuidar de mim!

- Oh, não é isso... não tive a intenção... Mas espero que essa pessoa, essa Tozer... Tenho a certeza de que hei-de gostar dela, se é assim contigo, mas... Sou o teu verdadeiro amor, sê-lo-ei sempre, não é assim?

Ela, tão correcta sempre, ignorou a presença dos passageiros e agarrou-lhe avidamente a mão. O som da sua voz era tão doloroso que a cólera de Martin, causada pelas reflexões dela sobre Leora, se transformou em angústia. O polegar de Madeline enterrava-se dolorosamente no dorso da mão de Arrowsmith. Ele tomou um ar terno para adverti-la:

- Sim... sim... naturalmente... Mas olha, Mad. Aquele velho cretino na outra fila está a observar-nos.

De todas as infidelidades que pudesse ter cometido, foi adequadamente punido antes que chegassem ao Grand Hotel.

O Grand era, em 1907, o melhor hotel de Zenith. Os caixeiros-viajantes comparavam-no a Parker House, Palmer House, West Hotel. Depois, foi humilhado pela desdenhosa simplicidade do vasto Hotel Thorneleigh; sujo é agora o seu pavimento de mosaico, deslustrados todos os seus dourados extravagantes, e nas maciças poltronas de couro, de costuras rebentadas, refastelam-se negociantes de cavalos, que fumam charutos ordinários. Mas, no seu tempo, foi a mais orgulhosa hospedaria, entre Chicago e Pittsburg; espécie de palácio oriental, a entrada estendia-se sob vinte arcos mouriscos de azulejo, e a sala de espera, emergindo de um pavimento de mármore branco e negro, erguia-se, passando por balcões de ferro dourado, até à clarabóia de vidro verde, rosa, pérola e âmbar, sete andares acima.

Encontraram Leora na sala de espera, muito pequenina, num enorme canapé circular adaptado a uma coluna. Fitou os olhos em Madeline, serena, expectante. Martin percebeu em Leora um desalinho maior que o habitual. Pouco importava a Martin que os seus cabelos cor de mel estivessem desajeitadamente arranjados sob o chapéu preto: um pequeno cogumelo sem distinção; mas percebeu e sentiu o contraste entre a sua blusa, cujo terceiro botão faltava, a saia quadriculada, o infeliz bolero de um castanho brilhante, e o suave talhe do vestido de sarja azul de Madeline. Esquadrinhando ambas (não com a insolência do macho que escolhe, mas ansiosamente) sentiu-se mais irritado do que nunca contra Madeline. Que ela estivesse mais bem vestida era uma afronta. A sua ternura precipitou-se para Leora, envolveu-a e protegeu-a.

Entretanto, balbuciava: - achei que deviam conhecer-se... Miss Fox, quero apresentar-lhe Miss Tozer... vamos fazer uma pequena comemoração... vejam que afortunado sou: duas Rainhas de Sabá...

E, com os seus botões: "Que inferno!"

Enquanto elas nada diziam de particular uma à outra, introduziu-as na famosa sala de refeições do Grand. Era cheia de candelabros dourados, cadeiras de riço vermelho, pesada baixela de prata e velhos criados negros, de colete verde e dourado. As paredes, em torno, estavam decoradas com aspectos escolhidos de Pompeia, de Veneza, do lago de Como e de Versalhes.

- Que bela sala! - exclamou alegremente Leora.

Madeline parecia ter a intenção de dizer a mesma coisa em palavras mais longas, mas considerou os frescos mais uma vez e explicou:

- Sim, é grande.

Martin, com a morte na alma, escolhia os pratos. Trouxera quatro dólares para a orgia, compreendida a gorgeta, e a sua norma de escolha era que não devia gastar nem um cent além dos quatro dólares. Enquanto imaginava o que poderia ser "Purée St. Germain" e o odioso criado se conservava atento atrás do seu ombro, Madeline rompeu decididamente o silêncio.

Declamou com horrível polidez:

- O senhor Arrowsmith disse-me que é enfermeira, Miss... Tozer.

- Sim, mais ou menos...

- Acha isso interessante?

- Interessante?... Sim, acho interessante.

- Deve ser maravilhoso aliviar o sofrimento. Naturalmente que o meu trabalho... estou a preparar o meu doutoramento em Língua Inglesa... - anunciou o facto como se fosse herdar um condado - é um tanto seco e abstracto: sou obrigada a estudar o desenvolvimento da língua e coisas assim. com os seus estudos práticos, imagino que há-de achar isto um tanto enfadonho.

- com efeito... quero dizer... deve ser muito interessante.

- É de Zenith, Miss... Tozer?

- Não. Sou de... É uma cidadezinha... Nem mesmo isso; apenas um lugarejo... No Dakota do Norte.

- Oh! Dakota do Norte!

- Sim... Lá para o Oeste.

- Sim, sim... E pretende ficar no Leste por algum tempo? Era exactamente o que uma prima de Nova Iorque perguntara certa vez a Madeline, e a quem ela nunca perdoara.

- Sim... Espero ter uma certa permanência aqui.

- E... tem gostado daqui?

- Siiim; é um belo lugar. Estas grandes cidades... Há muitas coisas para ver.

- "Grandes? " Bem, parece-me que tudo depende do ponto de vista, não acha? Quando se fala em grandes cidades, penso sempre em Nova Iorque... Naturalmente que... Mas, acha interessante o contraste com o Dakota do Norte?

- Ora... claro que é diferente.

- Diga-me com que se parece Dakota do Norte. Sempre tive curiosidade por esses estados ocidentais. - Era o segundo plágio de Madeline. - Qual é a reacção que lhe causa?

- Creio que não entendi bem.

- Quero dizer: o efeito geral, a... impressão.

- Ah, sim... Há muito trigo e muitos suecos.

- Mas queria dizer... Acho que os habitantes do Oeste são terrivelmente viris e enérgicos, comparados connosco, do Leste.

- Não sei... É possível.

- Tem conhecido muita gente em Zenith?

- Muita, muita, não.

- Conhece o doutor Birchall, que é cirurgião do seu hospital? É um homem encantador, que não se contenta em ser apenas um hábil operador. Canta admiravelmente e é oriundo de uma das famílias mais ilustres...

- Não; penso que ainda não o vi - falou Leora.

- Oh, deve procurá-lo. E ele joga tênis com uma segurança e um garbo admiráveis. Aparece sempre nas reuniões de milionários do Royal Ridge. Um homem notável.

Martin interrompeu-a pela primeira vez.

- Notável? Ele? Não tem uma gota de inteligência.

- Meu pequeno, não empreguei "notável" nesse sentido! Martin recolheu-se novamente ao seu isolamento, enquanto

ela tornava a voltar-se para Leora e, com vivacidade crescente, perguntava se conhecia este filho de um advogado famoso e aquela distinta débutante, esta chapelaria e aquele clube. Falava familiarmente das pessoas que eram conhecidas como as primeiras da sociedade de Zenith, personagens cujos nomes apareciam diariamente nas colunas sociaia do Advocate-Times, os Cowxes, Van Antrims e Dodsworths. Martin estava espantado com a familiaridade; lembrou-se de que ela fora certa vez a um baile de caridade, em Zenith, mas não sabia que era tão íntima da alta sociedade. Certamente, e era lamentável, Leora nunca ouvira falar nessas pessoas gradas nem assistira aos concertos, às conferências, aos recitais, nos quais Madeline parecia cintilar todas as noites.

Erguendo levemente os ombros, Madeline prosseguiu:

- Bem... Naturalmente, depois de tratar com esses doutores e essas pessoas fascinantes que encontra no hospital, suponho que havia de achar as conferências muito insípidas. É isso...

- Abandonou Leora e olhou para Martin, com ar protector. Então, projectas novas experiências com os coelhos?

Ele estava sombrio. Podia atacar agora, se procedesse rapidamente.

- Madeline! Arranjei este encontro entre ambas porque... Não sei se simpatizam uma com a outra, mas desejava que sim, porque... Não tento desculpar-me. Mas não pude proceder de outra maneira. Estou comprometido com ambas e preciso de saber...

Madeline pôs-se de pé, de um salto. Nunca parecera tão altiva e tão refinada. Encarou ambos e retirou-se sem uma palavra. Depois, voltou, tocou no ombro de Leora e, serenamente, beijou-a.

- Querida, sinto muito por si. Terá com que incomodar-se! Pobre criança!

E afastou-se, com o dorso erecto. Abatido, inquieto, Martin não ousava encarar Leora. Sentiu a mão dela sobre a sua. Levantou os olhos. Ela sorria, sem nenhum embaraço, um pouco zombeteira.

- Sandy, previno-te de que nunca renunciarei a ti. Parece-me que és tão mau como ela diz; acho que sou uma tola... e desfrutável. Mas és meu! Fica sabendo que de nada te valerá prometer casamento com qualquer outra. Arrancava-lhe os olhos! Agora, não vás formar uma opinião muito alta a teu respeito! Acho que és muito egoísta. Mas tanto se me dá. És meu!

Ele disse muitas coisas sem nexo, mas belas na sua vulgaridade.

Ela raciocinou:

- Sinto que estamos mais perto um do outro do que tu e ela jamais estiveram. Talvez me prefiras porque podes dominar-me... porque te seguirei e ela nunca o faria. E sei que dás mais importância ao teu trabalho do que a mim, talvez mais do que a ti próprio. Mas sou tola e vulgar, e ela não o é. Simplesmente, o que acontece é que te admiro muito (só Deus sabe porquê, mas é assim), ao passo que ela tem bastante espírito para levar-te a admirá-la e segui-la.

- Não! Juro que não é porque posso dominar-te, Leora... Juro que não é... Acho que não é isso. Não penses, queridinha, que ela é mais brilhante do que tu. Ela é desembaraçada, mas... Mas paremos com isto! Eu encontrei-te. A minha vida começa agora!

 

A diferença entre as relações de Martin com Madeline e com Leora eqüivalia à diferença entre um duelo violento e uma serena camaradagem. Desde a primeira noite em que saíram juntos, Leora e ele entregaram-se inteiramente à sua lealdade e às suas inclinações, e certas coisas da existência de Martin ficaram estabelecidas para sempre. Entretanto, a sua absorção por ela não se perdia na estagnação. Estava sempre a fazer descobertas em torno das observações da vida que ela incubava na sua cabeça pequenina e misteriosa, enquanto fazia anéis de fumo com o cigarro e sorria em silêncio. Desejava com ânsia Leora, a mulher; ela excitava-o, e correspondia-lhe com uma paixão alegre e franca; mas com a outra Leora, com a Leora não sexual, conversava com mais pureza do que com Gottlieb ou com o seu próprio eu inquieto, enquanto ela, acenando a cabeça como uma criança, ou com uma palavra ocasional, lhe incutia confiança na sua ambição e nos seus desdéns em evolução.

 

A fraternidade Digamma Pi realizava um baile. Achavam os agitados estudantes de Medicina que a Universidade de Winnemac estava a tornar-se tão cosmopolita que era natural que eles usassem os símbolos da respeitabilidade compreendidos sob o nome genérico de "gala". Na única e embaraçada ocasião em que Martin usara fato de noite alugara-o no adelo da Universidade, mas agora precisava de mandar fazer o seu, visto que ia apresentar Leora ao mundo como seu orgulho e ornamento. Como dois velhos esposos, absorvidos um no outro e que, desconfiados, exploram ruas desconhecidas e pouco acolhedoras do centro da cidade onde residem os filhos recém-casados, Martin e Leora introduziram-se embaraçadamente por entre as magníficas instalações de Benson, Hanley e Koch, o maior department store de Zenith. Ela estava intimidada pelos reluzentes armários de mogno e cristal, pelas cartolas, pelas mantas brilhantes, pelas calças de montar de cor creme. Quando ele lhe pediu impressões sobre o smoking que provava, com a comprida gravata castanha e a camisa de colarinho mole um tanto rústicas sob o colete cavado, enquanto o caixeiro fora buscar colarinhos, ela gemeu:

- Meu Deus, Sandy, és demasiado importante para mim. Agora, não conseguirei entusiasmar-me com o meu vestido. Que figura farei a teu lado!

Ele sentiu vontade de beijá-la.

Voltando, o caixeiro gorjeou:

- Suponho, "minha senhora", que achará o seu marido muito bem com estes colarinhos de pontas voltadas.

E, enquanto o caixeiro procurava as gravatas, Martin beijou-a.

- Oh, Sandy! - suspirou ela. - Es uma dessas pessoas que vão para a frente. Nunca pensei que subiria até um homem que usa smoking e colarinho engomado. Bem, vou experimentar!

 

O salão da Universidade estava fartamente engalanado para o baile da Digamma. As paredes desapareciam sob tapeçarias, crisântemos de papel, crânios de gesso e escalpelos de madeira de dez pés de comprimento.

Durante os seis anos passados em Mohalis, Martin não freqüentara mais de vinte bailes, embora os prazeres refinados dos enlaces em público fossem o prazer principal da Universidade mista. Quando chegou ao salão, com Leora timidamente intrépida num vestido de crepe da China azul, de estilo indefinível, não se lembrou de dançar sequer um two-step, mas desejou dolorosamente que os rapazes acorressem em massa para convidar Leora, admirá-la e festejá-la. Todavia, não a apresentou aos amigos, temendo, no seu orgulho, parecer que lhe procurava par. Ficaram sós, sob a galeria, contemplando desconsoladamente a extensão do soalho, enquanto, diante deles, deslizava a torrente dos dançarinos, bela, magnífica, atraente. Leora e Martin haviam-se assegurado de que, para um baile de estudantes, o clássico smoking estava à altura das circunstâncias, como ensinava Benson, Hanley e Koch, no seu Como o Perfeito Cavalheiro Deve Trajar, mas sentiu-se inquieto à vista daqueles elegantes coletes brancos e, quando Angus Duer, esse famoso cirurgião embrionário, se aproximou, desdenhoso como um galgo e calçando luvas brancas (os objectos mais brancos, mais superlativamente brancos da Terra), Martin sentiu-se embaraçado como um jovem na puberdade.

- Vem, vamos dançar - disse ele, como se lançasse um desafio a todos os Angus Duer.

No íntimo, desejava ardentemente ir para casa.

Não teve prazer na dança, embora ela valsasse com leveza e ele próprio não fosse muito mal. Não teve prazer, nem mesmo em enlaçá-la. Não conseguiu sentir que ela estava nos seus braços. Enquanto deslizavam, viu Duer acercar-se de um admirável grupo de bonitas meninas e damas de aspecto distinto, que rodeavam o Dr. Silva, director da Escola de Medicina. Angus parecia terrivelmente à vontade, e partiu a valsar com a mais linda do grupo, deslizando, girando, cheio de agilidade. Martin tentou odiá-lo como a um idiota, mas lembrou-se de que, na véspera, Angus Duer fora eleito para a sociedade honorária de Sigma Xi.

Leora e ele voltaram exactamente para o mesmo lugar, debaixo da galeria, onde já haviam estado, e que era agora o seu esconderijo, o seu único refúgio seguro. Enquanto ele tentava parecer despreocupado e manter uma atitude digna do fato novo, amaldiçoava os homens que passavam e riam, ao lado dos jovens pares, ignorando a sua Leora.

- Ainda não há muipa gente - disse. - Dentro de pouco, todos estarão aí, e então terás muitos convites.

- Hum... não faço empenho.

("Oh, Deus, ninguém virá convidar a pobrezinha? ") Lamentava a sua falta de popularidade entre os dançarinos da Escola de Medicina. Desejou que Cliff Clawson estivesse presente; Cliff gostava de toda a espécie de reuniões, mas não podia comprar smoking. Repentinamente, exultando como se descobrisse a bem-amada, deu com os olhos em Irving Watters, esse modelo de normalidade profissional, que se insinuava em direcção a eles; mas Watters passou, limitando-se a uma inclinação de cabeça. Por três vezes, Martin esperou e desesperou, e agora todo o seu orgulho se desmoronava. Se Leora pudesse divertir-se...

"Não me importaria se ela caísse nas mãos do camarada mais amalucado de toda a Universidade e me dissesse adeus para o resto da noite. Nada me importaria, contanto que ela se divertisse! Se pudesse atrair Duer... Não, isso é uma coisa que não poderia suportar: arrastar-me até àquele snob sujo... Mas é preciso!"

Em passos desembaraçados, avançava Pfaff, o Gordo, recém-chegado. Martin agarrou-se-lhe amorosamente.

- Alô, velho! Como? Estás sozinho? Apresento-te a minha amiguinha, Miss Tozer.

Os olhos bolbosos do Gordo aprovaram as faces e a cabeleira cor de âmbar de Leora.

- Muito prazer... A dança vai principiar! Terei a honra...

- suspirou ele, de um modo tão lisonjeiro que Martin teve vontade de beijá-lo.

Não lhe ocorreu que ficara só. Encostou-se a uma coluna e experimentou viva satisfação. Sentia-se magnificamente generoso... Também não lhe ocorreu que várias raparigas, sentadas perto dele, "estavam a fazer renda", à espera de alguém que as convidasse.

Viu o Gordo apresentar Leora a um decorativo par de Digams, um dos quais a convidou para a próxima dança. Depois, recebeu mais convites do que os que poderia aceitar. O entusiasmo de Marin esfriava. Parecia-lhe que Leora se encostava demasiado aos pares, que acompanhava os passos com demasiada vivacidade. Depois da quinta dança, estava agitado. "Como se diverte! Nem tempo tem para notar que estou aqui plantado. Hum... a segurar-lhe o abafo! É formidável para ela. Mas também teria prazer em dançar um pouco. E como ela ri e olha para aquela idiota do Brindle Morgan, esse... esse cretino... Pois é, precisamos de conversar, pequena! E esses cães que tentam roubar-ma! A única coisa que eu amei! Só porque dançam melhor do que eu, e dizem uma porção de tolices... E a maldita orquestra a tocar essa música incrivelmente indecente... E ela a deixar-se levar por todos os galanteios baratos que lhe fazem... Sim, sim. Precisamos de ter uma pequena explicação!"

Quando, em seguida, ela voltou para junto dele, cercada por três alegres estudantes, ele murmurou-lhe:

- Oh, não te preocupes comigo!

- Mas não queres esta valsa? Naturalmente que a queres!

Aconchegou-se a Martin; não tinha, como Madeline, a necessidade de agir em função dos observadores. Durante a tensão de um momento eterno de espera, enquanto ele olhava ferozmente para a frente, ela tagarelava acerca da pista de dança, do tamanho da sala e dos seus "elegantes pares". Ao soar a música, ele enlaçou-a.

- Não - disse ela. - Quero falar contigo. - Levou-o para um canto e declarou peremptoriamente: - Sandy, esta é a última vez que permitirei que te mostres ciumento. Não; eu vi! Escuta! Se vamos casar, e vamos, dançarei com quantos homens quiser, e mostrar-me-ei tão divertida com eles quanto quiser. Nos jantares e nas outras coisas, acho que sempre parecerei uma ostra. Mas adoro dançar e vou fazer justamente o que desejo, e se tivesses um pouco de bom senso, terias visto que não me interesso por ninguém mais, a não ser por ti. Sou tua! Exclusivamente. Não me importarão as loucuras que fizeres... e provavelmente serão muitas. Assim, quando ficares com ciúmes, trata de dominá-los. Não estás envergonhado?

- Não estava com ciúmes... Bem, estava. Não posso impedi-los! Quero-te tanto. Belo namorado seria eu se nunca sentisse ciúmes!

- Está bem. Apenas tens de dissimular. E agora, vamos concluir a dança.

Martin era seu escravo.

 

Era considerado imoral, na Universidade de Winnemac, dançar depois da meia-noite, e a essa hora os convidados amontoavam-se na Imperial Cafeteria. Habitualmente, este restaurante fechava às oito horas, mas naquela noite conservou-se aberto até à uma e fomentou um espírito de alegria quase desenfreada. Pfaff, o Gordo, dançou uma jiga; outro, com um guardanapo no braço, imitou um criado; e uma jovem (com a desaprovação geral) fumou um cigarro.

Na porta, Cliff Clawson esperava Martin e Leora. Estava metido no seu conhecido fato cinzento, um tanto coçado, com uma camisa de flanela azul.

Cliff pretendia ser a autoridade a quem todas as amiguinhas de Martin deviam ser apresentadas para juramento. Não conhecia Leora. Martin

confessara-lhe o seu duplo compromisso; explicara-lhe que Leora era inegavelmente a mais graciosa rapariga da Terra; mas, como anteriormente gastara, no caso de Madeline, todos os adjectivos laudatórios e toda a paciência de Cliff, este não lhe deu ouvidos e preparou-se para detestar Leora, considerando-a outra sereia de moralidade.

Encarou-a com um ar superiormente hostil. Cochichou por cima do ombro de Martin:

- Não há dúvida que é uma pequena bonita... Que mal há nela?

Quando eles próprios haviam trazido do longo balcão sanduíches, café e bolos, Cliff, declarou, em tom agudo:

- com efeito! É verdadeira generosidade da parte de um casal em traje de recepção, como vocês, rebaixar-se à minha companhia entre este mundo de gente importante. É duro ficar privado dos prazeres selectos de um serão com Angus tiante Duer e bibliotecas associadas, e ter a gente de contentar-se com uma reles partida de póquer, na qual o mais esperto destramente levantou o bolo de seis dólares vírgula dez dos malandros e anjinhos reunidos. Então, Leory, supondo que você e Martykins já conversaram longamente sobre todas essas questões de pólo... Monte Carlo... etc.

Leora tinha em alto grau o poder de aceitar as pessoas como eram. Enquanto Cliff esperava a resposta, medindo-a de soslaio, ela investigava tranqüilamente o interior de uma sanduíche de galinha, limitando-se a uma vaga afirmação nasal:

- Huhum...

- Menino! Pensei que ia exclamar: "O senhor é um labrego, mas não vejo razão para que se jacte de uma gíria que Mart não me impinge!"

Cliff transformou-se num companheiro jovial e (relativamente a ele) invulgarmente sereno... Ex-trabalhador rural, ex-vendedor de livros, ex-mecânico, dispunha de tão pouco dinheiro, embora o torturasse o desejo de brilhar, que se refugiava orgulhosamente na pobreza e no sarcasmo. Quando Leora pareceu olhar para além da sua jactância, simpatizou com ela tão rapidamente como acontecera com Martin, e começaram a tagarelar alegremente. Martin sentiu-se invadido por uma cálida benevolência para com o gênero humano, inclusive Angus Duer, que se encontrava ao fundo da sala, na mesa do director

Silva e das suas argênteas mulheres. Sem reflectir, Martin ergueu-se subitamente e precipitou-se através da sala. Estendendo a mão, gritou:

- Angus, meu velho, quero dar-te os parabéns pela tua entrada na Sigma Xi. Foi muito justo.

Duer olhou a mão estendida como se fosse um instrumento já visto, mas de cujo uso não podia lembrar-se inteiramente. Agarrou-a e sacudiu-a experimentalmente. Não voltou as costas; foi mais do que grosseiro: mostrou-se condescendente.

- Boa sorte - disse Martin, repentinamente perturbado.

- Muito amável da tua parte. Obrigado.

Martin voltou para junto de Leora e Cliff, e narrou-lhes o incidente como uma tragédia cósmica. Ambos concordaram que Angus Duer merecia um tiro. No meio do relatório, Duer aproximou-se, na esteira do grupo do director Silva, e flectiu a cabeça para Martin, que, sentindo-se nobre e perfeito, lhe respondeu com um olhar fuzilante.

À partida, Cliff reteve a mão de Leora e, sublinhando as palavras:

- Querida, Mart preocupa-me muito e já receei uma vez que este pequeno fosse amarrar-se a... a festas que o transformariam num apertador de mãos. Também sou um apertador de mãos. Sei menos de medicina do que o Prof. Robertshaw, mas esse rapaz tem alguma consciência própria, e fiquei tão contente em sabê-lo atraído por uma pequena que é gente de verdade e... Ora, enredei-me nas minhas próprias patas! Queria em resumo, dizer que espero que não se importe de que o tio Cliff diga que gostou bastante de si!

Eram quase quatro horas quando Martin, depois de reconduzir Leora, voltou e se meteu na cama. Não pôde dormir. O ar superior de Angus Duer torturava-o como um insulto, como um insulto que de certo modo envolvia Leora, mas a sua raiva pueril transformara-se numa preocupação mais serena. Apesar de todo o seu snobismo e frivolidade, Duer não teria porventura algo que lhe faltava? Cliff, com a sua alegria de cãozito, a sua linguagem de camponês de vaudeville, o seu desdém pelas boas maneiras, não levava uma vida cômoda? Duer não mostrava saber dominar e guiar o espírito tacanho e rígido? Talvez houvesse uma técnica de atitudes, como havia uma de experimentação... A fluente técnica acadêmica de Gottlieb contra as mãos gordas e pesadas de Ira Hinkley... E todas estas considerações não seriam uma retirada, uma capitulação perante o falso sistema de Duer?

Estava tão cansado que, sob as pálpebras fechadas, havia lampejos de fogo. O espírito, em turbilhão, passou e repassou cada frase que dissera ou ouvira naquela noite, até que, em torno do corpo inquieto, se formou um clamor de delírio.

No dia seguinte, quando entrou no pátio da Escola de Medicina, deu inesperadamente com Angus e sentiu-se tomado pelo sentimento de culpa e embaraço, que um homem experimenta diante de outro a quem pediu dinheiro emprestado que, provavelmente, não devolverá. Mecanicamente, ia soltar um "alô", mas reprimiu-o, transformando-o num pigarro, franziu a testa e passou.

- Mart! - chamou Angus, que estava desanimadoramente calmo. - Lembras-te de que me falaste ontem à noite? Quando me fui embora, descobri que parecias melindrado. Fiquei a reflectir sobre se não me terias achado pouco delicado. Se assim foi, sinto muito. A verdade é que estava com uma tremenda dor de cabeça. Olha. Tenho quatro entradas para o espectáculo de sexta-feira, com As it Listeíh, em Zenith... com a companhia original de Nova Iorque! Queres ir? E notei que estavas com uma linda pequena, no baile. Talvez ela goste de ir connosco, ela e alguma amiguinha, não achas?

- Eu... Acho que sim... vou telefonar-lhe... É muita gentileza da tua parte convidar-nos...

Só na hora triste do crepúsculo, quando Leora já aceitara e prometera trazer consigo uma enfermeira estagiária chamada Nelly Byers, é que Martin começou a meditar:

"Sempre queria saber se ele tinha de facto dores de cabeça ontem.

Sempre queria saber se alguém lhe deu as entradas.

Porque é que não convidou a filha do director Silva para ir connosco? Achará que Leora é alguma pequena que achei na rua?

É isso; nunca fica mal com ninguém... Quer conservar a amizade de todos, para que algum dia lhe enviemos casos cirúrgicos, quando formos uns simples clínicos e ele o Grande e Único.

Por que me rebaixei daquela maneira?

Afinal de contas, tanto se me dá! Contanto que Leora se divirta... Quanto a mim, não dou um cent por essas peregrinações... Naturalmente, não. é de todo mau ver lindas mulheres bem vestidas, e a gente estar tão bem trajado como os outros... Oh, diabo, não entendo nada!"

 

Na cidade de Zenith, situada quase no Meio Oeste, o aparecimento de uma companhia com o elenco original de Nova Iorque" era um acontecimento. No Dodsworth Theatre resplandecia a aristocracia das grandes casas de Royal Ridge. Leora e Nelly Byers admiravam aquelas pessoas proeminentes doutorados pelas Universidades de Yale, Harvard e Princeton, advogados e banqueiros, fabricantes de motores e herdeiros de bens de raiz, ases do golfe, gente que conhecia familiarmente Nova Iorque - os quais, com as suas distintíssimas esposas, ocupavam as filas da frente. Miss Byers mostrou os Dodsworths, que eram freqüentemente mencionados no "Tópicos da Cidade".

Leora e Miss Byers quase estalaram de admiração pelo herói, quando ele recusou o cargo de governador; Martin estava preocupado porque a heroína era mais bela do que Leora; e Angus Duer (que dava a impressão de conhecer todas as peças teatrais apesar de não ter visto mais de meia dúzia na sua vida) admitiu que o cenário que representava "O acampamento de Jack Vanduzen nas Adirondacks. O caso, dia seguinte" era realmente muito bonito.

Martin estava com disposições definidas para a hospitalidade. Ia oferecer o jantar ao grupo e isto enchia-lhe agora o pensamento. Miss Byers explicou que deviam estar no hospital mais ou menos às onze e um quarto, mas Leora disse com indolência:

- Ora, isso pouco me importa. Saltarei pela janela. Se a gente estiver lá dentro, de manhã, a Gata Velha não pode provar que chegámos tarde.

Meneando a cabeça perante semelhante malícia, Miss Byers correu para um eléctrico, enquanto Leora, Angus e Martin se encaminhavam lentamente para o Epstein's Alt Nuremberg Café, a fim de tomarem cerveja com sanduíches de queijo suíço condimentado pela vista das legendas murais em alemão e pela armadura de papelão.

Angus estudava Leora; os seus olhos iam dela para Martin, observando os olhares enamorados de ambos. Que um jovem perspicaz se ligasse a uma jovem que não podia trazer-lhe progresso social algum, que pudesse existir entre Martin e Leora algo como uma paixão juvenil, eram provavelmente coisas inconcebíveis para ele. Concluiu que ela era convenientemente fácil. Lançou a Martin um olhar malicioso, versão refinada, e empreendeu a conquista de Leora para o seu próprio uso.

- Espero que tenha gostado da peça - disse, dirigindo-se-Lhe.

- Gostei, sim...

- Por Júpiter, que os invejo a ambos. Naturalmente, compreendo por que as raparigas se apaixonam por Martin, com esses olhos românticos; mas um pobre diabo como eu tem que estudar sem que uma única pessoa lhe dê a sua simpatia. De resto, mereço-o, pois sou tímido diante das mulheres.

Leora, com inesperado arrojo:

- Quando um homem diz isso, significa que não é tímido e que despreza as mulheres.

- Desprezá-las? Meu Deus! Palavra de honra que o meu maior desejo é ser um Dom João. Mas como proceder? Não quer dar-me uma lição? - A voz aridamente precisa de Angus tornara-se embaladora; concentrava-se em Leora como se teria concentrado na dissecção de uma cobaia. Ela, de vez em quando, sorria para Martin, como a dizer-lhe: "Não sejas ciumento, tolo. Estou magnificamente desinteressada deste hipnotizador presumido." Mas estava aturdida pela segurança insinuante de Angus, pela sua homenagem aos olhos dela, pelo seu espírito, pela sua reserva.

Martin estava torturado pelos ciúmes. Resmungou que deviam ir-se... Leora precisava de regressar... Os eléctricos eram raros depois da meia-noite e o grupo dirigiu-se para o hospital através de ruas vazias e sonoras. Angus e Leora tagarelaram excitadamente, enquanto Martin caminhava ao lado de ambos, em silêncio, amuado, orgulhoso do seu amuo. Enfiando por uma rua de garagens, chegaram em frente da massa do Hospital Geral de Zenith, um edifício longo, de cinco andares, com as janelas desertas e raras manchas de luz indecisa. Não havia ninguém nas proximidades. O rés-do-chão elevava-se apenas a cinco pés do solo e eles ergueram Leora até à saliência de pedra da janela entreaberta de um corredor. Ela deslizou para o interior, sussurrando:

- Boa noite! Obrigada!

Martin sentiu-se vazio, insatisfeito. A noite estava cheia de uma tristeza glacial. Uma luz bruxuleou subitamente numa janela acima deles e houve um grito de mulher que se desfez em gemidos. Sentiu a tragédia da separação, de perder na brevidade da vida um momento da presença física de Leora.

- vou ver se ela pôde entrar - disse.

A fria beira de pedra do peitoril arranhou-lhe as mãos, mas saltou, ergueu um joelho, arrastou-se rapidamente através da janela. Diante dele, na galeria de soalho de cortiça iluminada apenas por um fraco globo eléctrico, Leora caminhava na ponta dos pés, em direcção a um lanço de escada. Correu atrás dela, na ponta dos pés. Leora deu um gritinho quando ele a agarrou pelo braço.

- Precisamos de despedir-nos melhor do que daquela forma! - murmurou ele. - Aquele Duer cretino...

- Ssssss! Eles matar-me-iam se te apanhassem aqui. Queres que seja despedida?

- Importar-te-ias, se fosse por minha causa?

- Ora... mas... Mas eles também te expulsariam provavelmente da Escola, rapaz. Se... - Martin, através das mãos que acariciavam, sentiu Leora tremer de ansiedade. Ela espreitou ao longo do corredor, enquanto a imaginação em turbilhão de Martin criava formas furtivas, olhos que espiavam nos vãos das portas. Leora suspirou e, com resolução: - Não podemos conversar aqui. Vamos até ao meu quarto; a minha companheira está ausente esta semana. Fica ali na sombra. Se não houver ninguém lá em cima, voltarei.

Martin seguiu-a até o andar seguinte e, neste, até uma porta branca, onde entrou ofegante. Quando fechou a porta, ficou excitado por este refúgio estreito, com as camas de campanha, fotografias familiares e a roupa branca suavemente machucada. Enlaçou-a, mas, com as mãos contra o peito de Martin, Leora conservou-o afastado, queixando-se:

- Ficaste com ciúmes outra vez! Como podes desconfiar de mim dessa maneira? com aquele tolo! Uma mulher não poderia gostar dele, porque ele não lhe daria oportunidade! Gosta é de si próprio. E tu com ciúmes!

- Não estava... Sim, estava, mas não era dele, propriamente.

Ter de ficar sentado ali, arreganhar os dentes como uma hiena, deixá-lo sentado entre nós, quando eu queria conversar contigo... beijar-te! É isso. Provavelmente, terei sempre ciúmes. És tu que tens de confiar em mim. Não sou calmo; nunca o serei. Tem confiança em mim, Leora...

O beijo profundo e cheio de abandono que trocaram foi ainda mais apaixonado em memória daquela hora perdida em companhia de Angus. Esqueceram-se de que, desastradamente, a enfermeira-mor poderia irromper ali; esqueceram-se de que Angus esperava. "Bolas, esse maldito Angus que se vá embora sozinho! ", era a única reflexão de Martin, enquanto os seus olhos se fechavam e o seu sentimento de solidão se dissipava.

- Boa noite, amor... amor para sempre - disse ele com exaltação.

Na quietação espectral da galeria, riu ao pensar na irritação com que Angus se devia ter ido embora. Mas da janela descobriu Angus amontoado nos degraus de pedra, adormecido. Ao saltar no chão, assobiou, mas parou subitamente. Viu irromper da sombra um homem volumoso, que parecia trajar uniforme de porteiro e que gritou:

- Apanhei-o! Vamos voltar ao hospital e ver o que você andou a fazer lá dentro!

Agarraram-se. Martin era rijo, mas os braços do vigia sufocavam-no. Sentiu o cheiro do macacão sujo e de um corpo que não tomava banho. Martin deu-lhe com os pés nas canelas, golpeou-lhe a cara vermelha e pétrea, tentou torcer-lhe um braço. Conseguiu desprender-se, deitou a correr mas parou. A luta, no seu contraste com a doçura dorida de Leora enfurecera-o. Voltou-se para o vigia, dominado pela cólera.

De Angus, que acabava de acordar e aparecia subitamente a seu lado, veio uma voz cheia de repugnância:

- Oh, vamos embora! - disse ele. - Não suje as mãos nesse vagabundo!

O vigia berrou:

- Ah! Sou vagabundo? Já te vou mostrar! Agarrou Angus pela gola e deu-lhe um par de socos.

Sob o lampião sonolento da rua, Martin viu um homem transfigurar-se. Não era o insensível Angus que encarava o vigia; era um homicida, e os seus olhos eram os olhos terríveis do homicida, onde o menos experimentado dos homens veria uma mensagem de morte. Arfando, Angus limitou-se a dizer:

- Ele atreveu-se a tocar-me!

Um canivete apareceu-lhe na mão. E Angus saltou sobre o guarda, fazendo um grande esforço para atingir-lhe a garganta.

Quando Martin tentou contê-los, ouviu as pancadas do bastão de um polícia na calçada. Martin era delgado mas trabalhara com feno e estendera fios telefônicos. Golpeou o vigia, sabiamente, ao lado da orelha esquerda, desprendeu os punhos de Angus e arrastou-o. Correram ao longo de uma alameda, atravessaram um largo. Chegaram a uma rua vizinha, quando um eléctrico dobrava, rangendo, a esquina; correram ao lado dele, saltaram para o estribo. Estavam salvos.

Angus ficou na plataforma de trás, ofegante.

- Por Deus, eu queria matá-lo! Ele pôs-me as mãos sujas! Martin! Não me deixes sair aqui do eléctrico. Pensei que pudesse dominar-me. Uma vez, quando era rapaz, tentei matar um camarada... Palavra, queria cortar a garganta àquele porco nojento!

Quando o eléctrico penetrou no centro da cidade, Martin disse-lhe com voz persuasiva:

- Há um restaurante na Oberlin Avenue, aberto toda a noite. Podemos beber alguma coisa. Vamos lá. Far-te-á bem.

Angus tremia e gaguejava, Angus, o impassível. Martin conduziu-o ao salão de refeições, onde, entre boiões de catshup, beberam whisky puro em chávenas de café a imitar granito. Angus apoiou a cabeça no braço e começou a soluçar, indiferente aos olhares em torno, até que uma quantidade suficiente de bebida o levou ao esquecimento. Martin acompanhou-o até casa.

De volta ao seu quarto, onde Cliff ressonava, a noitada pareceu incrível a Martin, e Angus Duer ainda mais incrível do que tudo. "De agora em diante, será um dos meus bons amigos. Óptimo!"

Na manhã seguinte, no vestíbulo do Pavilhão de Anatomia, viu Angus e precipitou-se para junto dele. Angus antecipou-se-Lhe:

- Estavas abominavelmente bêbedo ontem à noite, Arrowsmith. Se não podes suportar melhor o álcool, é preferível que o deixes de todo.

E prosseguiu, impassível, olhos límpidos.

 

E o trabalho de Martin prosseguia - assistir Max Gottlieb, explicar Bacteriologia, freqüentar conferências e demonstrações no hospital - dezasseis horas inexoráveis por dia. Roubava de vez em quando alguma noite para pesquisas originais ou para espreitar os mundos agitados das publicações francesas e alemãs sobre bacteriologia; uma vez ou outra, visitava, orgulhoso, o cottage de Gottlieb, onde, contra o forro das paredes, de papel pardo manchado pela chuva, havia desenhos de Blake e um retrato assinado de Koch. Mas o resto era a dura rotina.

Neurologia, Obstetrícia, Clínica Médica, Diagnóstico Clínico; sempre algumas páginas mais do que ele podia vencer, antes de adormecer sobre a raquítica mesa de estudo.

Decorar Ginecologia, Oftalmologia, até queimar o cérebro.

Tardes monótonas de demonstrações no hospital, entre estudantes que gaguejavam e professores cansados que ladravam.

A emulatória carnificina cirúrgica dos cães, onde Angus Duer dominava, com uma perfeição impaciente.

Martin admirava o lente de Clínica Médica, T. J. H. Silva, conhecido por Tio Silva, que era também director da Escola de Medicina. Era um homenzinho redondo, com um pequeno bigode em forma de crescente. O deus de Silva era Sir William Osler, a sua religião era a arte da cura simpática e o patriotismo era o diagnóstico clínico exacto. Era um Doe Vickerson de Elk Mills, mais ilustrado, mais sério e mais seguro. Mas a reverência de Martin pelo director Silva era contrabalançada pelo aborrecimento que lhe causava o Dr. Roscoe Geake, lente de Otolaringologia.

Roscoe Geake era um vendedor ambulante. Devia ter-se saído bem com acções de petróleo. Como otolaringologista, acreditava que as amígdalas haviam sido colocadas no organismo humano com o fim de proporcionarem automóveis de luxo aos especialistas. Um médico que deixasse as amígdalas em qualquer paciente estava, segundo ele, estúpida e ignorantemente desprezando a saúde e o conforto do cliente... a saúde e o conforto futuros do médico. A sua grave atitude com relação ao septo nasal era que nunca prejudica um paciente removê-lo em parte, e se o exame mais prevenido nada pudesse encontrar de mais no nariz e na garganta do paciente, excepto que ele fumava demasiado, ainda assim o repouso forçado que se prescreve após uma operação poderia fazer-lhe bem. Geake atacava essa tolice segundo a qual se devia "deixar a natureza agir". Nada disso! O homem abastado aprecia em geral o tratamento! Não faz bom conceito dos especialistas, a não ser quando é operado de vez em quando, com alguma dor. Geake fazia uma alocução anual clássica, em que, elevando-se muito acima da otolaringologia, dava balanço a toda a medicina e explicava a médicos agradáveis como Irving Watters o método de conseguir honorários convenientes:

"O conhecimento é a coisa mais importante do mundo médico, mas não tem valor algum, a não ser que possamos vendê-lo, e para fazer isto devemos, em primeiro lugar, impor a nossa personalidade às pessoas que têm os dólares. Quer o paciente seja um amigo novo ou velho, devem ser usados sempre métodos comerciais de venda. Façam-lhe ver, e também à família aflita e abatida, o árduo trabalho de atenção e pensamento que lhes custa o caso, forçando-o assim a sentir que o bem que lhe prestaram, ou pretendem prestar-lhe, é ainda maior do que os honorários que pretendem cobrar-lhe. Depois, quando a conta for apresentada, não se surpreenderá nem dará coices."

Até aqui, Martin não manifestara uma visão ampla, na sua serena atitude de espírito. Sem dúvida, era sagaz e vivo. Não tinha momentos de elevação, quando se relacionava com o vasto Universo, se é que chegava a compreender que havia uma Porção do Universo para além dele próprio. O seu amigo Cliff era rústico, a sua querida Leora era uma rústica, por mais encantadora que fosse, e ele próprio desperdiçava energia numa actividade improdutiva e na sua admiração pelas coisas obscuras. Mas se ainda não amadurecera, pelo menos já estava perto da terra, odiava a presunção, utilizava as mãos e procurava as realidades com uma curiosidade inextinguível.

E, por vezes, percebia a comédia da vida; desprendia-se, durante uma hora deliciosa, da inanidade que consumia os que o circundavam. Assim foi a hora que antecedeu as férias de Natal, quando Roscoe Geake se elevou à glória.

O Winnemac Daily News anunciara que o Dr. Geake fora arrebatado da sua cátedra de Otolaringologia para a vice-presidência da poderosa Companhia de Instrumentos e Mobiliários Médicos A Nova Idéia, de Jersey City. Para comemorá-lo, fez um discurso final a toda a Escola de Medicina sobre "A arte e a ciência de mobilar o gabinete do médico".

Era uma pessoa perfeitamente acabada, este Geake, de óculos, cheio de entusiasmo e simpatia. Radiante, gritou para os seus amáveis discípulos:

"Meus senhores, o mal de muitos médicos, mesmo desses esplêndidos batalhadores veteranos que, através da lama e da tempestade, através das frígidas lufadas do Inverno e dos calores destemperados de Agosto, vão levar alegria e mitigar a dor dos mais humildes do inundo, mesmo desses velhos Nestores, dizia eu, é não raro fixarem-se numa rotina de que jamais se libertam. Agora que vou deixar este campo onde trabalhei por tanto tempo e com tanta felicidade, quero pedir a cada um dos senhores que leia, antes de começar a exercer a clínica, não apenas Rosenau, Howel e Gray, mas também, como preparação para se tornar o que todo o bom cidadão deve ser - isto é, um homem prático - um preciosíssimo manual de psicologia moderna, Como Vencer na Profissão de Vendedor, de Grosvenor A. Bibby. Sim, meus senhores, não se esqueçam - e esta é a última mensagem que lhes dirijo - não se esqueçam de que o homem de valor não é apenas o homem que considera as coisas com um sorriso, como também o homem que tem uma filosofia, quero dizer, uma filosofia prática, de sorte que, em vez de viver a devanear e a gastar o tempo em conversas acerca de ética, por mais esplêndida que esta seja, e de caridade, por muito gloriosa que se considere esta virtude, nunca se esquece de que, infelizmente, o mundo julga o homem pela soma de dinheiro sonante que pode amontoar. Os mestres formados pela Universidade de Hark Knocks julgam um médico, como julgam um homem de negócios, não apenas segundo os elevados ideais que diz professar como também pelos cavalos-vapor que utiliza nesses ideais e pelo rendimento que deles tira! E, sob um ponto de vista científico, não desprezem o facto de que a impressão da competência adequadamente remunerada, que se causa num paciente, é exactamente de tanta importância, nestes dias da nova psicologia, como as drogas que lhe são ministradas ou as operações a que concorda submeter-se. No minuto em que ele começar a perceber que outras pessoas apreciam e recompensam a capacidade dos senhores, nesse minuto começará a sentir o seu poder e, assim, a melhorar.

Nada é mais importante para causar boa impressão do que ter um gabinete onde, logo que o paciente entra, os senhores começam a vender-lhe a idéia de que ele está a ser convenientemente tratado. Para mim, nada significa que um médico tenha estudado na Alemanha, em Munique, em Baltimore e Rochester. Nada significa que tenha toda a ciência na ponta dos dedos, que possa diagnosticar instantaneamente, com um considerável grau de precisão, o sofrimento mais obscuro, que domine a técnica cirúrgica de um Mayo, de um Crile, de um Blake, de um Ochsner, de um Cushing. Se estiver instalado num gabinete velho e sujo, com cadeiras baratas e uma pilha de revistas esfarrapadas, o doente não terá confiança nele; resistirá ao tratamento e o médico encontrará dificuldade em cobrar e receber honorários convenientes.

Penetrando ainda abaixo da superfície desta questão, até à estética e filosofia fundamental da instalação de um consultório médico, encontramos hoje duas escolas em oposição, a Escola das Tapeçarias e a Escola Asséptica, se me permitem denominá-las assim e distingui-las apropriadamente. Ambas têm os seus méritos. A Escola das Tapeçarias sustenta que poltronas de luxo para pacientes que esperam, belas telas originais, uma estante da melhor literatura do Mundo, ricamente encadernada, juntamente com vasos de vidro lavrado e potes com palmeiras, causam uma impressão de opulência que só pode provir de pura capacidade e conhecimento. A Escola Asséptica, por seu lado, sustenta que o que o paciente deseja é essa aparência de escrupulosa higiene que só pode ser oferecida mobilando-se a sala de espera, assim como os gabinetes interiores, com cadeiras e mesas pintadas de branco, e pendurando-se numa parede cinzenta um simples desenho japonês.

Mas, senhores, parece-me evidente, tão evidente que me admiro de que ninguém tenha chegado a esta conclusão, que a sala de espera ideal é uma combinação destas duas escolas! Utilizem-se palmeiras em vasos e boas telas, que para o médico prático elas são uma parte tão necessária do seu arsenal de trabalho como um esterilizador ou um baumanómetro. Mas, na medida do possível, que tudo apresente uma alvura sanitária, e pensem nos efeitos que podem tirar, os senhores ou as suas esposas, se elas forem dotadas de gostos artísticos! Almofadas vermelhas ou de um dourado opulento, numa cadeira Morris, do mais puro esmalte branco! Uma passadeira de linóleo, toda branca, apenas com umas barras laterais rosa-pálido! Os últimos números, sem uma nódoa sequer, de revistas caras, com capas de arte, repousando sobre uma mesa branca! Meus senhores, tal é a idéia de uma imaginativa arte de vender que desejo deixar convosco; tal é o evangelho que espero propagar no meu novo campo de labuta, a Companhia de Instrumentos A Nova Idéia, de Jersey City, onde, a qualquer hora, terei muito prazer em receber e apertar as mãos de todos ou de qualquer dos senhores."

 

Durante a tempestade dos exames de Natal, Martin sentiu intensificada a necessidade de Leora. Ela tinha de regressar a casa, no Dakota, chamada (e talvez lá ficasse muitos meses) em conseqüência de doença da mãe. E Martin precisava, ou julgava precisar, de vê-la diariamente. Dormia talvez menos de quatro horas por noite. Ruminando os pontos de exame no eléctrico interurbano, o pensamento voava-lhe para junto dela e a testa franzia-se-lhe quando se lembrava dos vivazes estagiários e dos doentes masculinos que ela conhecia no hospital; então, escarnecia de si próprio, por ser tão primitivo, mas continuava a ralar-se da mesma maneira. Para vê-la, tinha de esperar durante horas, no vestíbulo, ou passear de um lado para outro, na neve, até que ela pudesse deslizar até uma janela e espreitar. Quando estavam juntos, ficavam completamente absortos. Ela tinha queda para a paixão; despertava o desejo de Martin, atormentava-o, mas era destemida e defendia-se.

Sentiu-se terrivelmente só quando se despediu dela, em Union Station.

As suas provas foram julgadas suficientes, mas, excepto em Bacteriologia e Clínica Médica, não brilhantes. Voltou, esgotado, para o laboratório, a fim de passar as férias.

Até então, revelara mais sensibilidade do que capacidade de realização, nas suas tímidas pesquisas originais. Gottlieb mostrava-se paciente.

- É um bom sistema de educação. Tudo quanto ensinamos aos estudantes nem Koch poderia aprender. Não se preocupe com as pesquisas. Havemos de chegar ao fim.

Mas esperava que Martin realizasse um ou dois milagres durante a quinzena de férias; Martin, contudo, não tinha cabeça para pensar. Distraía-se; passava o tempo a polir os objectos de vidro, e, quando transplantou as culturas dos seus coelhos, tomou notas incompletas.

Gottlieb ficou instantaneamente irritado.

- Wass giebt es damn? O senhor chama notas a isto? Dar-se-á o caso de, por o ter elogiado, o senhor deixou de trabalhar? O senhor pensa que é um Theobald Smith ou um Novy, que pode sentar-se e meditar? O senhor é da força de Pf aff!

Pelo menos uma vez, Martin ficou impávido. Disse com os seus botões, enquanto Gottlieb batia o pé como um grão-duque: "Ora bolas, também preciso de descanso. A maior parte dos alunos vai passar as férias a casa, dançar, ver os pais e divertir-se. Se Leora estivesse aqui, havíamos de ir a um teatro, logo à noite."

Apanhou, mal-humorado, o chapéu (um objecto húmido e pouco limpo), procurou Cliff Clawson, que passava as férias a dormir nos intervalos das partidas de póquer em casa de Barney, e traçou o projecto de irem à cidade tomar uma bebedeira. O projecto foi executado com tamanho êxito que, durante as férias, o repetiram sempre que ele julgava iminente a roda de tortura do trabalho sem inspiração, sempre que compreendia que eram apenas Gottlieb e Leora que o retinham ali. Depois das férias, em fins de Janeiro, verificou que o whisky o aliviava da tensão do trabalho, do terror da solidão e que depois o traía, deixando-o mais cansado, mais só. Subitamente, sentiu-se velho; lembrou-se de que tinha agora vinte e quatro anos, era um simples estudante e o seu verdadeiro trabalho nem mesmo começara. Cliff era o seu refúgio; Cliff admirava Leora e costumava ouvir a sua tagarelice a respeito dela.

Mas aconteceu a Cliff e a Martin a infelicidade do Dia do Fundador.

 

O dia 30 de Janeiro, aniversário do extinto Dr. Warburton Stonedge, fundador da Faculdade de Medicina de Winnemac, era anualmente celebrado com um banquete, rico em fraternidade, discursos e grande falta de vinho. O corpo docente reservava as suas observações mais sólidas para o acto, e era da praxe que todos os estudantes comparecessem.

Nesse ano, realizou-se no grande salão da Associação Cristã da Mocidade Universitária, uma sala nobre, com as paredes forradas de papel vermelho, retratos de doutores de suíças que se haviam transformado em missionários, e o vigamento exposto, de falso carvalho, feito de tábuas de pinho. Em torno dos convidados famosos, o Dr. Rouncefield, cirurgião de Chicago, um especialista em diabetes de Omah, um clínico de Pittsburg, estavam reunidos em massa os membros do corpo docente. Procuravam apresentar um ar festivo, mas estavam fatigados e nervosos, em conseqüência de quatro meses de ensino. As suas pálpebras estavam lassas e os olhos cansados. Todos envergavam os fatos habituais, a maioria deles não passados a ferro. Pareciam cientistas cheios de interesse; usavam palavras como flebarteriectasia, hepatocolangienterostomia, e perguntavam aos convidados: "Então, esteve há pouco em Rochester? Que fazem Charley e Will em ortopedia? " Mas estavam com fome e melancolia. Eram sete e meia, e aqueles que normalmente não jantavam às sete, jantavam às seis e meia.

No meio desta alegria triste, entrou um esplendor, uma tremenda personagem de barba negra, com um magnífico e glacial peitilho engomado, vastas sobrancelhas, olhos selvagens de gênio ou de desequilibrado. Em voz forte e maravilhosa, com vestígios de sotaque germânico, perguntou pelo Dr. Silva e navegou direito ao grupo do director como uma fragata por entre pequenos barcos de pesca.

- Quem é este camarada? - perguntou Martin.

- Vamos ver de perto - disse Cliff; e foram-se aproximando do agrupamento, que aumentava, em torno do director Silva e do mistério, que foi apresentado como Dr. Benoni Carr, farmacologista.

Ouviram o Dr. Carr dizer, com um brilho genial, para a pálida admiração dos professores assistentes, habituados à rotina escolar, que trabalhara com Schmiedeberg, na Alemanha, no isolamento da di-hidroxipentametilendiamina, falando a seguir sobre as possibilidades da quimioterapia, da cura imediata da doença do sono, da era da cura científica. "Embora seja natural dos Estados Unidos, tenho a vantagem de falar alemão desde criança, e assim talvez possa compreender melhor a obra do meu caro amigo Ehrlich. Vi-o receber uma condecoração de Sua Alteza Imperial o Kaiser. Como aquele querido e velho Ehrlich se parecia com uma criança!"

Havia por essa época (mudou, porém, curiosamente, em 1914 e 1915) uma activa secção germanófila no corpo docente. Os seus elementos curvaram-se diante deste ciclone de erudição. Angus Duer esqueceu-se de que era Angus Duer; e Martin escutou com uma atenção excitada. Benoni Carr tinha toda a individualidade de Gottlieb, todo o seu desdém pelos mestres feitos em série, todo o ar de grão-senhor, que revelava a condição provinciana de Mohalis, sem nada da susceptibilidade nervosa de Gottlieb. Martin desejava que Gottlieb estivesse presente; queria saber se os dois gigantes se chocariam.

O Dr. Carr foi colocado na mesa dos oradores, perto do director. Martin ficou pasmado ao ver o eminente farmacologista, depois de inspecionar com desgosto o mau aspecto do frango e a salada mal apresentada que constituíam a parte mais importante do menu, deitar algo de um grande frasco prateado no seu copo de água e repetir o gesto com freqüência. Ficou turbulento. Dobrou-se por trás de dois homens para bater no ombro do indignado director; contradizia os vizinhos; cantou uma estância de I'm bound away for the Wild Missourai.

Poucos fenômenos do jantar foram observados com tanta atenção pelos estudantes como as maneiras do Dr. Benoni Carr.

Depois de uma hora de alegria forçada, quando o director Silva se erguera para anunciar os oradores, Carr equilibrou-se nos pés e gritou:

- Deixemos os discursos. Só os cretinos fazem discursos. Os sábios cantam canções. Viva a pândega! Oh, trá-lá-lá, oh, trá-lá-lá, oh, trá-lá-lá uma dama! Vocês, professores, são uns tolos!

Viu-se o director Silva falar-lhe, súplice, depois conduzi-lo para fora do salão, com o auxílio de dois professores e de um jogador de futebol americano, e, no silêncio de um horror divertido, Cliff cochichou para Martin:

- Ali está o que arranjei! E o desgraçado prometeu-me não beber!

- Hem?

- Bem podia prever que ele se emborracharia e acabaria por meter os pés pelas mãos. Oh, diabo! Talvez o director não me julgue digno nem do inferno!

Explicou. O Dr. Benoni Carr nascera com o nome de Benno Karkowski. Formara-se numa escola de Medicina que fornecia diplomas em dois anos. Lera muito, mas nunca estivera na Europa. Fora profissional de números médicos de variedades, fora pedicuro, médium espírita, professor de esoterismo, chefe de sanatórios para o entretenimento de mulheres nevróticas. Cliff encontrara-o em Zenith, quando estavam bêbedos. Fora Cliff quem dissera ao director Silva que o afamado farmacologista, recém-chegado da Europa, estava em Zenith por alguns dias e talvez aceitasse um convite...

O director agradecera com ardor a Cliff.

O banquete terminou cedo e houve uma atenção inesperada para a preciosa comunicação do Dr. Roucefield sobre a esterilização do catgut.

Cliff ficou preocupado, admitindo a verdade de várias observações de Martin. No dia seguinte (sabia tratar com mulheres quando condescendia em dar-se tal incômodo) sondou a jovem secretária do director e descobriu o seu destino. Realizara-se uma reunião da comissão do corpo docente; a culpa do escândalo de Benoni Carr fora lançada sobre Cliff; e o director dissera todas as coisas que Cliff imaginara, numa quantidade que o seu talento não previra. Mas o director não o notificaria imediatamente; torturá-lo-ia com a espera, para depois executá-lo em público.

- Adeus, velho grau de Medicinae Doctor! Também nunca me dei com essa história da medicina. Acho que serei corretor de acções - disse Cliff para Martin.

Afastou-se vagarosamente, aproximou-se do director e declarou:

- Director Silva, entrei para lhe dizer que resolvi desistir do curso médico. Ofereceram-me uma óptima colocação... em Chicago... e, de qualquer modo, não aprecio muito a maneira como o senhor administra a Escola. Muito trabalho de memória e muito pouco espírito científico. Felicidades, Doe. Adeus.

- Gggggg... - fez o director Silva.

Cliff mudou-se para Zenith e Martin ficou só. Trocou o quarto para dois hóspedes, na frente da pensão, por um pequeno compartimento das traseiras, e neste estreito esconderijo sentiu mais profundamente a melancolia da solidão. O quarto dava para um terreno baldio onde o anúncio de certa conserva de carne de porco com feijão desbotava numa cerca oscilante. Via os olhos de Leora e ouvia os confortáveis desdéns de Cliff, e a quietude era tamanha que não podia suportá-la.

 

O persistente buzinar de um automóvel arrastou Martin à janela do laboratório, ao cair de uma tarde de Fevereiro. Baixou os olhos para um surpreendente automóvel de linhas elegantes e pintura creme, com enormes faróis. Lentamente, percebeu que o chauffeur, um rapaz com largo blusão cor de café, boné de xadrez, amachucado, e grossa manta, era Cliff Clawson, que lhe acenava.

Desceu apressado, e Cliff gritou-lhe:

- Alô, rapaz! Que tal o calhambeque? Es capaz de fazer o diagnóstico deste traje? Tecido escocês, palavra! O tio Cliff arranjou um lugar de vinte e cinco dólares por semana, com comissões, ouviste? Vendo automóveis. Rapaz, estava a perder-me nessa velha Escola de Medicina. Sou capaz de vender qualquer coisa a quem quer que seja. Dentro de um ano, estarei com oitenta por semana. Entra, velho. vou levar-te ao Grand e regalar-te com os pratos mais saborosos, com que estofarás esse cadáver.

As trinta e oito milhas por hora com que Cliff entrou em Zenith eram, em 1908, uma velocidade de causar vertigens. Martin descobriu um novo Cliff. Era tão ruidoso como antes, porém mais seguro, cheio de brilhantes projectos para embolsar imediatamente grandes somas de dinheiro. Os cabelos, que outrora lhe caíam, gordurosos, pela testa, tendendo a eriçar-se atrás, mantinham-se agora acamados e lisos, e o rosto tinha o rosado das massagens. Estacou diante do fabuloso Grand Hotel com um ranger de travões; antes de deixar o carro, trocou as grandes luvas de condução, de um amarelo violento, por um par de luvas cinzentas, de costuras pretas, que imediatamente retirou ao penetrar garbosamente no vestíbulo. Chamou "doçura" à jovem do vestiário e, à porta do salão de refeições, dirigiu-se ao maitre d'hôtel:

- Gus, como vai isso, como te sentes esta noite? Como vai o mucho famoso majordomoso? Olha, Gus, quero que traves relações com o Dr. Arrowsmith. Sempre que o doutor vier aqui, desejo que te mexas e lhe apresentes aquele conhecido serviço, e lhe dês tudo o que ele quiser, e se estiver pouco abonado assenta na minha conta. Muito bem, Gus. Quero uma bonita mesinha para dois, com garagem, água quente e fria, e também a tua opinião, Gustavus, acerca das ostras e de todos os ingredientes dignos de um festim de Mecenas.

- Perfeitamente, senhor; por aqui, senhor Clawson - soprou o maitre d'hòtel.

Cliff cochichou para Martin:

- Transformei-o nisto em duas semanas! Repara na minha maneira de fumar!

Enquanto Cliff escolhia os pratos, um homem deteve-se ao lado da mesa. Tinha o ar de um caixeiro-viajante zeloso que gosta de voltar para o seu bungalow suburbano todos os sábados à noite. Começava a tornar-se calvo e a engordar. Os óculos sem aro, no meio de um rosto liso e redondo, davam-lhe um ar de inocência. Olhou em torno como se desejasse encontrar alguém com quem jantar. Cliff ergueu-se de um salto, deu uma palmada no cotovelo do homem e berrou:

- Alô, Babski, meu velho. Jantas com alguém? Vem juntar-te com a Associação dos Cavalheiros do Desporto.

- Muito bem, com prazer. Minha mulher está fora - disse o homem.

- Aperta a mão do doutor Arrowsmith. Mart, apresento-te George F. Babbitt, o famosíssimo rei dos imóveis de Zenith. O senhor Babbitt acaba de adornar o seu trigésimo quarto aniversário comprando o seu primeiro carro a gasolina deste teu criado obrigado, e não quer outra vida.

Era, pelo menos da parte de Cliff e do Sr. Babbitt, um alegre encontro e, quando Martin os acompanhou nos coktails, na cerveja de São Luís e noshighballs, percebeu que Cliff era a pessoa mais generosa actualmente existente e que o Sr. George F. Babbitt era um companheiro encantador.

Cliff explicou como tinha a certeza - evidentemente, os seus distintos estudos de Medicina tinham algo a ver com isto - de que seria presidente de uma fábrica de automóveis e o Sr. Babbitt fez esta confidencia:

- Vocês, rapazes, são bastante mais novos do que eu, uns oito ou dez anos, e ainda não aprenderam, como eu, que onde se encontra o prazer é nos Ideais, em Servir e na Carreira Pública. Agora, aqui entre vocês, eu e a porta, a minha vocação não é para os imóveis, mas para a oratória. E, realmente, uma vez fiz planos de estudar Direito e meter-me na política. Muito aqui entre nós, pois não quero que isto vá mais longe, travei ultimamente algumas relações boas... conheci alguns dos jovens políticos republicanos que estão a começar. Naturalmente, a gente precisa de começar modestamente, mas posso dizer, sotto você, que espero concorrer às eleições para vereador no próximo Outono. Daí a prefeito é um passo, e outro, a governador do estado e, se verificar que a carreira me serve, não há razão para que, em dez ou doze anos, digamos em mil novecentos e dezoito ou vinte, não tenha a honra de representar o grande estado de Winnemac em Washington, distrito de Colúmbia!

Na presença de um Napoleão como Cliff, e de um Gladstone como George F. Babbitt, Martin percebeu a sua própria falta de poder e de capacidade comercial e, quando voltou para Mohalis, sentia-se inquieto. Raramente pensava na sua pobreza, mas agora, em contraste com a opulenta facilidade de Cliff, as roupas coçadas e o quarto estreito pareceram-lhe uma vergonha.

 

Uma extensa carta de Leora, dando a entender que talvez não pudesse voltar para Zenith, deixou-o ainda mais só. Nada lhe parecia valer a pena. Nesse estado de apatia, vagueava pelo laboratório durante a hora da demonstração de Bacteriologia Elementar, quando Gottlieb o mandou ao andar térreo trazer seis coelhos machos para inoculação. Gottlieb trabalhava agora dezoito horas por dia, em novas experiências; estava irascível e nervoso; dava ordens como se fossem insultos. Quando Martin voltou, distraído, com seis fêmeas em vez de machos, Gottlieb guinchou-lhe:

- O senhor é o pior idiota que já entrou neste laboratório!

O auditório, segundanistas que não se esqueciam das censuras de Martin, emitiu risinhos abafados, que lhe excitaram a raiva:

- Bem; não compreendi o que o senhor disse. E é a primeira vez que me engano. E não tolero que o senhor me fale dessa maneira!

- O senhor tolerará tudo quanto eu disser! Grosseiro! O senhor pode apanhar o chapéu e ir-se embora!

- Quer dizer que estou demitido do lugar de assistente?

- Folgo que tenha bastante inteligência para compreender isso, apesar da minha pronúncia!

Martin voltou as costas e afastou-se. Gottlieb, subitamente, pareceu confundido e deu um passo na direcção de Martin em retirada. Mas a turma, os animaizinhos que se espremiam de riso, continuava deliciada, à espera de mais; e Gottlieb encolheu os ombros, lançou um olhar aterrorizante à assistência, mandou o menos desastrado buscar os coelhos e prosseguiu, curiosamente tranqüilo.

E Martin, na taverna de Barney, bebia a grandes goles o primeiro dos whiskies que lhe permitiram delirar a noite inteira. A cada copo, admitia que tinha uma excelente oportunidade para tornar-se bêbedo e, de cada vez, jactava-se de que isso pouco se lhe dava. Se Leora estivesse mais perto do que Wheatsylvania, mil e duzentas milhas além, teria voado para junto dela, em busca de salvação. Na manhã seguinte, ainda cambaleava um pouco, e já bebera um copo para poder viver durante a manhã, quando recebeu um bilhete do director Silva, intimando-o a comparecer no seu gabinete, imediatamente.

O director fez este discurso:

- Arrowsmith, o senhor ultimamente tem ocupado a atenção do conselho do corpo docente. Excepto em uma ou duas matérias... na minha cadeira não tenho falhas a apontar... o senhor tem mostrado pouca aplicação. As suas notas têm sido suficientes, mas o senhor podia tê-las melhores. O senhor também se tem entregado à bebida. Tem freqüentado lugares de reputação muito baixa, e tem cultivado a amizade de um homem que ousou insultar-me, a mim, ao Fundador, aos nossos convidados e à Universidade. Vários membros do corpo docente se têm queixado da sua atitude de superioridade, procurando ridicularizar-nos em plena aula! Mas o doutor Gottlieb sempre o tem defendido calorosamente. Ele insistiu em que o senhor tem verdadeiro talento para investigações científicas. Ontem, à noite, contudo, confessou que o senhor acabava de se mostrar impertinente para com ele. Muito bem, rapaz, a não ser que o senhor tome imediatamente novo rumo, terei de suspendê-lo para o resto do ano e, se isso não bastar, serei forçado a pedir a sua desistência. E penso que seria conveniente, para sua humildade (o senhor parece ter um orgulho diabólico! ), seria uma boa idéia para o senhor procurar o doutor Gottlieb e começar a sua reforma apresentando-lhe desculpas...

Não foi Martin quem falou, mas o whisky:

- Isso nunca! Ele que vá para o diabo que o carregue! Dei-Lhe a minha vida e ele a atacar-me...

- Isso é absolutamente injusto para com o doutor Gottlieb. Ele apenas...

- Eu sei. Ele apenas se aborreceu de mim. Vê-lo-ei no inferno antes de pedir-lhe desculpas. A maneira como trabalhei para ele... E, quanto a Cliff Clawson, que é a quem o senhor aludia, acha que ele "ousou insultar alguém"? Apenas fez uma brincadeira, e o senhor pretendia sacrificá-lo impiedosamente. Bem fez ele!

Martin esperou então as palavras que encerrariam a sua vida científica.

O homenzinho, o rosado, rechonchudo, bom homenzinho, arregalou os olhos, pigarreou e falou com brandura:

- Arrowsmith, eu podia expulsá-lo agora mesmo, naturalmente, mas acredito que o senhor é de bom estofo. Recuso essa solução. Naturalmente, o senhor está suspenso, pelo menos até que recobre o bom senso e apresente desculpas a mim e a Gottlieb. - A sua atitude era paternal; quase levou Martin a arrepender-se; mas concluiu: - E, quanto a Clawson, a sua "brincadeira" com relação a esse indivíduo, Benoni Carr... não compreendo como me deixei embair; suponho que estava demasiado preocupado... essa brincadeira, como o senhor diz, foi a acção de um idiota ou de um garoto, e enquanto o senhor não se dispuser a reconhecer o facto, acho conveniente não voltar para o nosso meio.

- Muito bem - disse Martin, e deixou a sala.

Estava com piedade de si próprio. A verdadeira tragédia, segundo lhe parecia, era que, embora Gottlieb o tivesse traído e encerrado a sua carreira, cancelando a possibilidade de ele vir a dominar a ciência e desposar Leora, continuava a venerar o homem.

Não se despediu de ninguém em Mohalis, excepto da dona da pensão. Fez as malas, uma operação bem simples. Amontoou os livros, os cadernos, um fato coçado, a escassa roupa branca e a sua única glória, o smoking, na indócil mala de imitação de couro. Lembrou-se, com lágrimas de ébrio, da hora em que comprara aquele fato de noite.

O dinheiro de Martin, proveniente da modesta herança de seu pai, vinha em cheques bimensais do banco de Elk Mills. Dispunha agora apenas de seis dólares.

Em Zenith, deixou a mala na estação interurbana e procurou Cliff, que encontrou a praticar eloqüência acerca de um automóvel fúnebre, de um belo cinzento-pérola, no qual um armador cheio de cerveja estava jovialmente interessado. Dobrado em dois, torcido, esperou sentado no estribo de aço de uma limusine. Sentiu os olhares insistentes dos outros vendedores e das jovens estenógrafas, mas estava muito apático para que o embaraçassem grandemente.

Cliff precipitou-se afinal para ele, gritando:

- Então, meu velho, como vai isso? Vamos sair para tomar um copo.

- Optimo!

Martin sabia que Cliff o olhava atentamente. Quando entraram no bar do Grand Hotel, com os seus retratos de mulheres amáveis mas distraídas, espelhos e o longo balcão de mogno coberto de espessa laça de mármore, rompeu abruptamente o silêncio:

- Pois é; também levei a minha. O Tio Silva despachou-me por indocilidade em geral. vou vaganbundear um pouco e depois arranjar um emprego. Mas como fiquei cansado e nervoso! Escuta, podes emprestar-me algum dinheiro?

- Aposta. Tudo quanto tenho. De quanto precisas?

- Acho que uns cem dólares. Talvez tenha de andar por aí algum tempo.

- Oh, diabo não tenho essa quantia aqui, mas provavelmente posso arranjá-la no escritório. Olha, senta-te naquela mesa e espera-me.

Como Cliff obteve os cem dólares, nunca foi explicado, mas num quarto de hora estava de volta com eles. Foram jantar e Martin abusou do whisky. Cliff levou-o para a sua própria pensão, que era decididamente menos significativa de prosperidade do que as suas roupas, deu-lhe um banho frio, para reanimá-lo e meteu-o na cama. Na manhã seguinte, propôs-se arranjar-lhe um emprego; Martin, porém, recusou e deixou Zenith ao meio-dia, pelo comboio do Norte. Nos Estados Unidos resta ainda, dos dias dos pioneiros, uma alegre casta de párias, constituída por jovens andrajosos, que vagueiam de estado para estado, de "tribo" para "tribo", dominados pelo impulso dos nômadas. Usam camisas de cetineta preta e levam um embrulho. Não são vagabundos permanentes. Têm cidades base, às quais voltam, para trabalhar tranqüilamente na fábrica ou no Serviço de Estradas local, durante um ano ou uma semana; depois, com igual tranqüilidade, tornam a desaparecer. Amontoam-se à noite nos smoking cars; sentam-se, em silêncio, em bancos de sórdidas estações; conhecem todo o país sem nada saber dele, porque, numa centena de cidades, freqüentam apenas as agências de emprego, os botequins que ficam abertos toda a noite, os antros clandestinos, escabrosas casas de pensão. Nesse mundo de nômadas, desapareceu Martin. Embriagando-se continuamente, apenas semiconsciente do rumo que seguia, do que desejava fazer, envergonhado diante das freqüentes lembranças de Leora, de Cliff e das mãos ágeis de Gottlieb, largou de Zenith para a cidade de Sparta, passou pelos estados de Ohio e Michigan, de onde tomou a direcção oeste, entrando no estado de Illinois. O seu espírito era um sorvedouro. Nunca podia lembrar-se inteiramente do lugar onde estivera. Certa vez, é evidente, foi caixeiro num bar-drogaria de Minnemagantic. Outra vez, deve ter sido, durante uma semana, lavador de pratos na mal-cheirosa cozinha de um restaurante ordinário. Viajou em comboios de carga, viajou em vagãos fechados, de bagagem, viajou a pé. Era conhecido pela alcunha de Comprido, entre os camaradas, dos quais era o mais inquieto e o mais intratável.

Após certo tempo, um sentido de direcção começou a aparecer no seu louco flutuar. Tomava instintivamente o rumo do Oeste, e no Oeste, na longa névoa das campinas, Leora esperava. Durante um ou dois dias, deixou de beber. Ao despertar, não teve a impressão de ser o andrajoso e irritadiço jornaleiro errante conhecido por Comprido, mas Arrowsmith, e meditou com o espírito claro: "Por que não volto? Talvez isto tenha sido muito ruim para mim. Eu estava a trabalhar muito. Aquela tensão era demasiada. Estourei. Seria bom... Que terá acontecido aos meus coelhos? Eles deixar-me-ão voltar algum dia às pesquisas?"

Mas voltar à Universidade antes de ver Leora era impossível. A sua saudade de Leora era uma obsessão que tornava o resto da terra absurdo e sem valor. com uma astúcia equívoca, poupara a maior parte dos cem dólares que pedira a Cliff; vivera, naturalmente, muito mal, comendo guisados e pão ordinário, mas vivera com quanto ganhara ao longo das viagens. De repente, em nenhum dia determinado, em nenhuma cidade determinada do estado de Wisconsin, dirigiu-se à estação, comprou uma passagem para Wheatsylvania, Dakota do Norte, e telegrafou a Leora: "Aí amanhã, quarta-feira, 2 e 43. Sandy."

 

Atravessou o largo Mississipi para o Minnesota. Mudou de comboio em St. Paul; rolou sobre tormentosas vastidões de neve, cortadas por tênues linhas de carris. Sentiu-se livre, liberto dos pequenos campos de Winnemac e Ohio, isento da tensão nervosa dos estudos pela noite adiante e das bebedeiras até a madrugada. Recordou os dias em que estendia fios em Montana e reconquistou aquela paz serena. O pôr do Sol foi uma explosão de púrpura, à noite, quando saltou da carruagem abafada e caminhou pela plataforma de Sauk Center, aspirou o ar gelado e olhou para as grandes solitárias estrelas do Inverno. O leque da aurora boreal lançava terror e glória no céu. Voltou para o comboio com a energia dessa terra animosa. Cabeceou e ressonou num breve sono sufocado; acomodou-se no banco e conversou com nômadas amigos; tomou café forte e comeu grande quantidade de bolos de farinha de trigo preto, no restaurante de uma estação; e assim, mudando de comboio em estações anônimas, chegou finalmente aos alpendres baixos, aos dois elevadores, ao curral, ao depósito de gasolina e à caixa de água pintada de vermelho de uma estação com a plataforma cheia de lama e neve, nos arredores de Wheatsylvania. Recortando-se sobre o fundo da estação, num extravagante e enorme casacão de pele deraccoon, estava Leora. Ele devia apresentar certo ar desvairado, quando fitou os olhos nela, estremecendo sob o vento frio, na plataforma da carruagem. Leora levantou para ele as duas mãos abertas, mãos infantis em luvas vermelhas e longas. Martin saltou, largou a mala barata na plataforma da estação e ambos, indiferentes aos agasalhados fazendeiros, que abriam a boca, perderam-se num beijo.

Anos depois, num meio-dia de trópico, Martin lembrou-se da frescura das faces de Leora, sob o vento.

O comboio partiu pesadamente, fazendo estremecer a pequena estação. Ficara como um muro escuro ao longo da plataforma, a protegê-los, mas agora a claridade dos campos de neve reflectia-se neles, deixando-os expostos e conscientes.

- Mas... Mas que aconteceu? - perguntou ela, um pouco indecisa. - Não escrevias. Fiquei tão preocupada!

- Andei por aí. O director suspendeu-me... Falta de respeito para com os lentes. Isto desagrada-te?

- Naturalmente que não, se achas que estava bem...

- Venho para casar contigo.

- Não sei como poderá ser agora, mas... Sim. Ih! Vai haver zaragata com o pai. - Riu-se. - Fica sempre tão espantado e doido quando acontece qualquer coisa que ele não projectou. Será bom que estejas comigo durante a tempestade, porque não és obrigado a saber que ele gosta de planear tudo para todos e... Oh, Sandy, senti tantas saudades de ti! A mãe não está nada doente, mas eles continuam a reter-me aqui. Acho que alguém deu a entender ao pai que o povo dizia que estava falido, visto que a sua rica filhinha tinha de ir aprender enfermagem, e ele ainda não acabou com essa preocupação: Andrew Jackson Tozer precisa mais ou menos de um ano para acabar com uma preocupação. Mas Sandy! Tu aqui!

Depois do matraquear do comboio, o lugarejo pareceu mortalmente vazio. Martin podia ter percorrido os limites de Wheatsylvania em dez minutos. Provavelmente para Leora uma casa diferia da outra: ela parecia distinguir o armazém geral de Norblomdo de Frazier e Lamb; mas, para Martin, os casebres de madeira de dois pavimentos, ao longo da larga Rua Principal, eram incaracterísticos e abaixo de julgamento. Quando dobraram a esquina do armazém de gêneros e utensílios, Leora disse:

- Lá está a nossa casa, a última do outro quarteirão.

Num pânico de embaraço, Martin quis deter-se. Via aproximar-se uma tempestade: o Sr. Tozer a apontá-lo como um falhado que desejava arruinar Leora, a Sr.a Tozer a chorar.

- Mas... mas... escuta: falaste-lhes a meu respeito? - gaguejou.

- Falei. Um pouco. Disse que eras uma maravilha na Escola de Medicina, e que talvez nos casássemos quando terminasses o estágio, e depois, quando chegou o teu telegrama, eles queriam saber por que vinhas, e por que telegrafavas de Wisconsin, e qual era a cor da gravata que tinhas quando estavas a escrever o telegrama, e não consegui fazer-lhes compreender que não sabia. Discutiram a questão. Discutiram bastante. Discutem as coisas. Discutem durante o jantar. E com solenidade. Oh, Sandy, pragueja e roga algumas pragas durante a comida.

Ele estava acovardado. Os pais de Leora, ex-figuras divertidas de uma história, tornavam-se opressivamente reais à vista da casa grande, parda, com um pórtico. Uma larga janela de vidraças de cristal, com caixilhos de cor, fora aberta recentemente na parede, como sinal de prosperidade, e a garagem era nova e imponente.

Seguiu atrás de Leora, esperando a explosão. A Sr.a Tozer abriu a porta e fitou os olhos nos olhos dele, lastimosamente. Uma mulher magra, desbotada, sem graça alguma. Saudou-o como se ele não fosse tão intruso como inexplicável e discutível.

- Levas o senhor Arrowsmith ao quarto dele, Ory, ou queres que eu o conduza? - pipilou ela.

Era a espécie de casa que tem um grande fonógrafo mas nada de livros, e se havia quadros, como era provável, Martin nunca os recordou. A cama do seu quarto era cheia de protuberâncias, mas estava coberta com uma colcha severamente estampada, e o florido jarro e a bacia repousavam sobre um tapete com bordado vermelho representando cordeiros, rãs, nenúfares, e com uma legenda piedosa.

Demorou-se o mais possível, tirando da mala coisas que não precisavam de ser retiradas e vacilou quando descia a escada. Não havia ninguém na pequena sala de visitas, que cheirava a calor de estufa e a almofadas cheias com ervas balsâmicas; depois, como uma aparição, a Sr.a Tozer estava presente, preocupada com ele e tentando descobrir polidamente algo para lhe dizer.

- Fez boa viagem no comboio?

- Sim... Mas... estava muito cheio.

- Ah! Estava cheio demais?

- Sim muito movimento de viajantes.

- Pois é... É estranho. Às vezes, fico a pensar onde vai essa gente toda que anda sempre de um lado para o outro... E... estava muito frio lá na cidade... em Minneapolis e St. Paul?

- Estava, sim. Fazia muito frio.

- Ah, muito?

A Sr.a Tozer era tão calma, tão ansiosamente cortês. Martin tinha a impressão de ser um arrombador recebido como hóspede e, inquieto, perguntava a si próprio onde poderia estar Leora. Ela apareceu serenamente com café e um tremendo bolo em que apareciam, tentadoramente, passas de uva e uma brilhante camada de açúcar, e conseguiu levá-los a falar com certa facilidade sobre o frio do Inverno e o valor dos Fords quando, no meio desta brilhante cena, deslizou o Sr. Andrew Jackson Tozer, e eles descaíram novamente na polidez.

O Sr. Tozer era tão magro, incaracterístico e queimado pelo Sol como a mulher e, como ela, ele olhava, guardava silêncio e afligia-se. Espantava-se de tudo que não se relacionasse com o seu elevador de trigo, o seu estabelecimento de lacticínios, o seu modesto Banco, a Igreja dos Irmãos Unidos e a cuidadosa conservação de um carro Overland. Não era para surpreender que estivesse quase rico, pois não aceitava nada que não fosse natural e conveniente a Andrew Jackson Tozer.

Insinuou o desejo de saber se Martin "bebia", quais os seus recursos e como pudera abalar das longínquas urbanidades de Winnemac. (Os Tozers eram naturais do estado de Illinois, mas residiam no Dakota desde a infância e consideravam o Wisconsin como a orla mais remota e mais perigosa do horizonte oriental.) Eram tão enleados, tão rastejantemente polidos, que Martin pôde evitar os assuntos desagradáveis, tais como a sua suspensão. Procurou dar uma impressão de que era um jovem e sério estudante de Medicina que muito em breve ganharia boas somas de dinheiro para a manutenção da sua Leora, mas, quando começava a encostar-se ao espaldar da cadeira, foi traído pelo aparecimento do irmão de Leora.

Bert Tozer ou Albert R. Tozer, caixa e vice-presidente do Wheatsylvania State Bank, contador e vice-presidente da companhia de Armazenagem de Cereais Tozer, tesoureiro e vice-presidente dos Lacticínios Estrela, não apresentava a menor passividade ou disposição para ouvir que afectava os pais. Bertie era um moderno e completo homem de negócios. Tinha dentes salientes e nos seus óculos havia uma corrente de ouro que terminava num elegante gancho pendurado por detrás da orelha esquerda. Acreditava na construção de uma cidade, na organização de excursões em automóvel, nos escuteiros, no baseball e no enforcamento dos membros da organização operária I. W. W. e o seu desgosto mais doloroso era que Wheatsylvania fosse ainda pequena para ter uma Associação Cristã da Mocidade ou um Clube Comercial. Especada a seu lado, estava a noiva, Miss Ada Quist, filha do dono do armazém de gêneros e utensílios. Tinha o nariz aguçado, mas não tanto como a voz e o ar de suspeita com que encarava Martin.

- É Arrowsmith? - perguntou Bert. - Ahn! Pois aposto que o senhor se sente muito satisfeito aqui, nesta terra de Deus!

- Oh, é muito bonita...

- O mal dos estados orientais é que lhes falta ímpeto ou espaço para crescerem. O senhor precisa de ver uma verdadeira colheita no Dakota! Mas... como pôde abandonar a escola nesta época do ano?

- É que...

- Conheço bem o regime universitário. Freqüentei uma escola comercial em Grand Forks. Como conseguiu escapar agora?

- Pedi uma pequena licença.

- Leora diz que o senhor e ela pensam em casar.

- Nós...

- Tem algum recurso fora da sua mesada?

- Não tenho!

- É o que eu pensava! Como é então que espera sustentar sua mulher?

- Suponho que exercerei a Medicina algum dia.

- Algum dia! Então para que falar em casamento enquanto não pode sustentar uma esposa?

- Foi isso - interrompeu a dama de Bert, Miss Ada Quist -, foi isso justamente o que eu disse, Ory! - Parecia falar tanto com o nariz aguçado como com o botão da boca. - Se Bert e eu podemos esperar, acho que os outros também podem!

A Sr.a Tozer choramingou:

- Não sejas tão severo para com o senhor Arrowsmith, Bertie. Tenho a certeza de que ele quer proceder bem.

- Não sou severo para com ninguém! Mostro-me sensato. Se os pais prestassem atenção às coisas em vez de darem tratos à imaginação, eu não teria de intervir. Não gosto de me meter nos actos alheios nem de que os outros se metam nos meus. Vive, deixa os outros viverem e trata dos teus negócios é a minha divisa, e foi isso o que disse a Alec Ingleblad, um dia destes, quando estava a fazer a barba e ele tentava menoscabar os nossos negócios hipotecários; mas serei digno de censura se permitir que uma pessoa de quem nada sei procure atrair minha irmã, enquanto eu não verificar quais são os seus meios! Leora, como se cantarolasse:

- Bertie, meu cordeiro, parece-me que estás de novo a cantar muito de alto.

- Sim, e tu, Ory - gritou Bert -, se não fosse eu, terias casado com Sam Petchek, há dois anos!

Bert disse ainda, com exemplos e ilustrações, que ela era uma leviana, e, quanto a enfermagem: Enfermagem!...

Ela disse que Bert era o que era e procurou explicar a Martin o episódio de Sam Petchek. (Nunca foi bem explicado.)

Ada Quist disse que Leora não se importava de despedaçar os corações dos seus queridos pais e arruinar a carreira de Bert.

Martin dizia:

- Escutem, eu... - e não passava disto.

O Sr. e a Sr.a Tozer disseram que todos deviam manter a calma e que naturalmente Bert não queria dizer... Mas sim, era verdade; tinham de ser sensatos. Como é que o Sr. Arrowsmith podia esperar sustentar a mulher...

A conferência prolongou-se até às nove e trinta, que, como o Sr. Tozer assinalou, era a hora de todos se recolherem, e excepto quanto à discussão de cinco minutos sobre se Miss Ada Quist devia ficar para a ceia e o debate sobre o excesso de sal da última conserva de carne, apegaram-se gravemente ao inquérito sobre se Martin e Leora estavam comprometidos. Todas as pessoas interessadas, que evidentemente não abrangiam Martin e Leora, resolveram que não estavam. Bert acompanhou Martin até ao andar superior. Providenciou para que os namorados não tivessem a oportunidade de um beijo de boa-noite; e, até que o Sr. Tozer disse de baixo, em voz alta, sete minutos depois das dez: "Vais ficar aí a bater nessa tecla toda a santa noite, Bert? "

- ele mostrou-se agradável, sentando-se na cama de Martin, observando desdenhosamente a sua precária bagagem e pedindo pormenores acerca dos pais, religião, política e atitude perante os horrores do jogo de cartas e da dança.

Ao pequeno almoço, todos declararam esperar que Martin ficasse mais uma noite... havia muito espaço.

Bert declarou que Martin desceria para a cidade às dez e seria levado a visitar o Banco, o estabelecimento de lacticínios e o elevador de trigo.

Mas, às dez, Martin e Leora estavam no comboio do Leste. Foram à sede do condado, Leopolis, uma vasta cidade de quatro mil habitantes, com uma casa de três andares. À uma da tarde, o pastor luterano alemão casou-os. O gabinete do pastor era um deserto cercando uma grande e enferrujada estufa a lenha, e as testemunhas, a mulher do pastor e um velho alemão que estava a limpar o passeio com uma pá, sentaram-se na caixa da lenha, com ar sonolento. Só quando tomaram o comboio da tarde para Wheatsylvania, Martin e Leora perderam a apreensão espectral que os perseguira durante todo o dia. No fétido comboio, muito achegados, mãos entrelaçadas, inocentemente livres da separação que a pompa das cerimônias nupciais costuma lançar entre os noivos, suspiraram:

- E agora, que vamos fazer... que vamos fazer?

Na estação de Wheatsylvania, encontraram toda a família, que apresentava ar ameaçador.

Bert suspeitara de atentado ao pudor. Realizara buscas em meia dúzia de cidades, pelo telefone de longa distância, e falara para o gabinete do escrivão do condado, logo depois de a licença ser concedida. Não serenou o ânimo de Bert a observação do funcionário de que, se Martin e Leora eram maiores, nada havia a fazer, e de que "não lhe importava absolutamente nada a pessoa com quem estava a falar... Aqui, quem manda sou eu!"

Bert fora à estação, decidido a não ter contemplações com Martin e, como nisto era mestre, saiu-se perfeitamente.

Foi uma noite terrível na mansão dos Tozers.

O Sr. Tozer disse, com lentidão, que Martin assumira responsabilidades.

A Sr.a Tozer chorou e disse que esperava que Ory não tivesse, por certas razões, sido forçada a casar...

Bert disse que, se fosse esse o caso, mataria Martin...

Ada Quist disse que Ory podia ver agora no que resultava o orgulho e a presunção de voltar para a sua velha Zenith.

O Sr. Tozer disse que, de qualquer modo, havia uma coisa boa nisto: Ory compreenderia por si própria que eles não podiam deixá-la voltar para a Escola de Enfermagem e arranjar mais dificuldades...

Martin, de vez em quando, apresentava observações, insinuando que era um bom rapaz, um maravilhoso bacteriologista, e capaz de encarregar-se de sua mulher; mas ninguém, excepto Leora, o ouvia.

Bert declarou (enquanto seu pai dizia, em voz aguda: "Agora, não sejas tão severo com o rapaz") que, se Martin pensava, por um só segundo, que ia tirar um único cent dos Tozers, porque se metera onde ninguém o chamara, ele, Bert, queria tomar conhecimento disso; sim, queria tomar conhecimento disso!

E Leora observava-os, voltando a cabecita de um lado para o outro. Em certo momento, tomou posição para apertar a mão de Martin. No mais aceso da tormenta, quando Martin começava a olhar com ferocidade, ela tirou de um bolso misterioso um maço de cigarros ordinários e acendeu um. Nenhum dos Tozers descobrira que ela fumava. Fosse qual fosse o juízo que fizessem da sua moral sexual, da sua infidelidade aos Irmãos Unidos e da sua loucura em geral, não haviam suspeitado que ela pudesse cometer tamanha obscenidade como fumar. Carregaram sobre ela, enquanto Martin sufocava de raiva.

Durante estas fulminações, o Sr. Tozer conseguira traçar um plano. Por vezes, podia tomar a dianteira a Bert, a quem considerava útil mas levemente indiscreto e incapaz de compreender "todo o valor de um dólar". (O Sr. Tozer cotava-o a um dólar e noventa cents, mas o progressista Bert escassamente a mais de um quinto de dólar.) O Sr. Tozer, suavemente, deu ordens: - deviam cessar de "arranhar-se"; não tinham provas de que Martin era necessariamente um mau partido para Ory; teriam de ver; Martin voltaria imediatamente para a Escola de Medicina, e portar-se-ia bem, tiraria o curso o mais rapidamente possível, e começaria a ganhar dinheiro; Ory ficaria em casa e comportar-se-ia... e certamente nunca mais agiria como uma Mulher Má, fumando cigarros; nesse período, Martin e ela não teriam... uuuh... relações (a Sr.a Tozer ficou embaraçada e Ada Quist, famintamente atenta, esforçou-se por corar); podiam corresponder-se semanalmente, mas isso era tudo. De maneira alguma fariam... uuuh... como se estivessem casados até que ele desse licença.

- Que acha? - perguntou.

Sem dúvida, Martin pensou em desafiá-los e, com a noiva nos braços, desaparecer na noite. Mas a formatura, o estágio pareciam-lhe distar apenas um momento. Agora, tinha Leora, para sempre. Por causa dela, devia mostrar-se sensato. Voltaria a estudar e praticaria depois a medicina. Os ideais científicos de Gottlieb? O laboratório? As pesquisas? Tolices!

- Está muito bem - disse.

Não lhe ocorreu que a sua abstenção de amor começava naquela noite; só o percebeu quando, ao estender as mãos para Leora, sorrindo virtuosamente por se haver determinado a ser prudente, ouviu a Sr.a Tozer cacarejar:

- Ory, agora vai para a tua cama... no teu próprio quarto! Foi esta a sua noite de núpcias: virar-se e tornar a virar-se

na cama, a dez jardas dela.

Em certo momento, ouviu uma porta abrir-se e, vibrando, imaginou que ela vinha para o seu quarto. Esperou, com o corpo tenso. Não veio. Espreitou, decidido a descobrir o quarto dela. O seu profundo ressentimento para com o cunhado aumentou subitamente. Bert passeava no corredor, de sentinela. Se Bert fosse mais temível, Martin talvez o tivesse matado, mas não podia fazer frente àquela rectidão ridícula e de dentes salientes. Deitou-se e resolveu mandá-los todos para o diabo, de manhã, e ir-se com Leora, mas com a chegada da depressão das três horas, percebeu que em sua companhia ela provavelmente passaria fome, que ele estava desgraçado, que não era absolutamente certo que não se transformasse num bêbedo.

- Pobrezinha, não estragarei a sua vida. Mas, por Deus, como a amo! vou voltar, e como hei-de trabalhar... Poderei suportar isto?

Foi essa a sua noite de núpcias e a triste alvorada. Três dias depois, penetrava no gabinete do Dr. Silva, director da Escola de Medicina de Winnemac.

 

A secretária do director Silva ergueu a cabeça, deliciada, antegozando o que se ia ouvir. Martin, porém, disse com docilidade:

- Por obséquio, posso falar com o director?

E docemente esperou, na fila de cadeiras de carvalho, debaixo do calendário farmacêutico de Dawson Hunziker.

Quando atravessou solenemente a porta de vidros opacos do gabinete do director, encontrou o Dr. Silva com um olhar feroz. Sentado, o homenzinho parecia grande, tão redonda era a sua cabeça, tão cheio o seu bigode curvo.

- Então, senhor! Martin, solícito:

- Desejo voltar, com a sua permissão. Sinceramente, apresento-lhe desculpas e procurarei o doutor Gottlieb para me desculpar... embora honestamente não possa repelir Cliff Clawson...

O Dr. Silva ergueu-se da cadeira, muito teso. Martin procurou dominar os nervos. Não seria bem recebido? Então não tinha onde ficar, em parte alguma? Não podia lutar. Já não tinha coragem. Estava tão fatigado depois daquela viagem monótona, depois de conter-se diante dos Tozers. Como estava cansado! Olhava ansiosamente para o director.

O homenzinho sorriu e disse:

- Não se preocupe, rapaz. Está tudo muito bem! Estamos satisfeitos por ter voltado. Deixe as desculpas! Queria apenas que o senhor compreendesse a sua situação. Fez muito bem em voltar! Tinha fé em si, e receava que viéssemos a perdê-lo. Rapaz inexperiente!

Martin soluçava, muito fraco para dominar-se, muito fraco e solitário. O Dr. Silva procurou acalmá-lo, dizendo com voz

doce:

- Vamos conversar sobre tudo e ver onde está o mal. Que posso fazer por si? Compreenda, Martin, que a coisa que mais desejo na vida é ajudar a dar ao mundo o maior número possível de bons médicos, de grandes cirurgiões e clínicos. Como começou esse estado de nervos? Onde tem andado?

Quando Martin chegou a Leora e ao casamento, Silva ronronou:

- Estou encantado! Ela parece ser uma esplêndida rapariga. Bem, precisamos de tentar colocá-lo no Hospital Geral de Zenith, para o seu estágio, daqui a um ano, e torná-lo apto a sustentá-la convenientemente.

Martin lembrou-se de quantas vezes, e com quanta aspereza, Gottlieb escarnecera desses "casamentos aleg-hres como um sino de penitenciária". Saiu do gabinete transformado em discípulo de Silva; estudaria furiosamente; e a sua fé no exotismo brilhante do gênio de Max Gottlieb desvanecera-se.

 

Leora escreveu, a dizer que fora eliminada da Escola de Enfermagem por abandono e por se haver casado. Suspeitava que fora seu pai quem informara as autoridades do hospital. Depois, dizia que mandara buscar secretamente um livro de estenografia e, a pretexto de ajudar Bert, estava a treinar-se na máquina do Banco, e esperava que, no Outono seguinte, poderia reunir-se a Martin e ganhar a sua própria subsistência como estenodactilógrafa.

Martin propôs desistir de Medicina, arranjar qualquer emprego e mandar buscá-la. Leora recusou.

Embora no seu culto a Leora e ao novo deus, director Silva, ele se tivesse tornado austero, privando-se de whisky, percorrendo os livros de Medicina com uma fúria gelada, estava sempre num vácuo, desejando-a, e acelerava sempre o passo, no último quarteirão do caminho da pensão, na esperança de encontrar uma carta. Subitamente formou um plano. Já provara a vergonha: esta última vergonha não importaria. Iria para junto dela nas férias da Páscoa; forçaria Tozer a sustentá-la enquanto estudasse estenografia em Zenith; tê-la-ia junto de si durante o último ano. Pagou a Cliff o dinheiro emprestado, quando chegou de Elk Mills o cheque bimensal, e fez o seu orçamento levando em conta as menores fracçõcs. Deixando de comprar a roupa de que precisava terrivelmente, poderia executar o plano. E, durante mais de um mês, passou a tomar apenas duas refeições por dia, uma das quais constava de pão com manteiga e café. Ele próprio lavava a sua roupa branca na banheira e, salvo ocasionalmente, em momentos de abandono ferozmente deliciosos, não fumava.

A sua volta a Wheatsylvania foi como a primeira fuga, excepto que falou menos com os vagabundos que viajavam com ele, e durante todo o percurso, entre incômodos e rápidos momentos de sono nos bancos forrados de pelúcia vermelha dos carros, estudava os volumosos livros de Ginecologia e Clínica Médica. Escrevera uma carta a Leora, com certas instruções. Encontrou-se com ela nos arredores de Wheatsylvania, conversaram um pouco, beijaram-se resolutamente.

As notícias não circulavam lentamente em Wheatsylvania. Havia certo interesse nos negócios alheios e os olhos de cidadãos de cuja existência Martin não suspeitava haviam-no seguido desde a sua chegada. Quando os réus alcançaram o castelo dos papões Tozers, o pai e o irmão de Leora já estavam lá, e espumavam de raiva.

O velho Andrew Jackson recebeu-os gritando. Disse que se podia admitir que Martin não estava doido quando "fugia da escola uma vez, mas voltar a fugir uma segunda vez era de doido varrido". Diante desta diatribe, Martin e Leora sorriram com confiança.

De Bert:

- Por Deus, senhor, que isto é demais! - Bert andara a ler romances. - Oponho-me aos usos profanos, mas, quando o senhor vem perseguir minha irmã uma segunda vez tudo quanto posso dizer é: por Deus, senhor, que isto é ousadia!

Martin olhou contemplativamente pela janela. Notou três pessoas que passavam pela rua lamacenta. Todas observavam a casa dos Tozers com um interesse cheio de esperança. E falou com firmeza:

- Senhor Tozer, tenho trabalhado duramente. Tudo correu muito bem. Mas concluí que, para mim, não vale a pena viver sem minha mulher. Venho buscá-la. Legalmente, o senhor não pode impedir-me. Confesso, sem discussão, que ainda não posso sustentá-la, se ficar na Universidade. Ela vai estudar estenografia.

Dentro de alguns meses, ganhará a sua subsistência, mas, antes disso, espero que o senhor seja bastante razoável para enviar-lhe dinheiro.

- Isso é demais - disse Tozer, e Bert acrescentou:

- Esse sujeito não se contenta em, praticamente, arruinar a rapariga, e ainda vem pedir que lha sustentemos!

- Perfeitamente. Como quiserem. No fim de contas, será melhor para ela, para mim e para os senhores se eu terminar o curso médico e tiver a minha profissão; mas, se não quiserem ajudá-la, desisto do curso e vou trabalhar. Sim, eu sustentá-la-ei muito bem! Mas, aqui, ninguém a verá mais. Se continuam a proceder como idiotas, ela e eu partiremos no comboio da noite para a costa e estará tudo terminado. - Pela primeira vez, nos séculos de discussão com os Tozers, estava a ser melodramático. Sacudiu o punho sob o nariz de Bert. - E se você tentar impedir a nossa partida, Deus o ajude! A cidade vai rir-se de si!... Tu que dizes, Leora? Estás pronta a partir comigo... para sempre?

- Estou - disse ela.

Discutiram longamente. Tozer e Bert tomaram atitudes de defesa. Disseram que não podiam ser ameaçados por quem quer que fosse. Depois, Martin era um aventureiro, e como é que Leora sabia que ele não projectava viver do dinheiro que eles lhe remetessem? No fim, capitularam. Chegaram à conclusão de que este Martin novo e amadurecido, esta Leora nova e de olhar firme, estavam decididos a desistir de tudo para viverem juntos.

O Sr. Tozer queixou-se regularmente e prometeu enviar-lhe setenta dólares por mês, até que ela estivesse preparada para trabalhar num escritório.

Na estação de Wheatsylvania, olhando da janela do comboio, Martin compreendeu que este Andrew Jackson Tozer, de olhar aflito, de lábios apertados, amava a filha e sentia a sua partida.

 

Descobriu para Leora um quarto na modesta orla norte de Zenith, muitas milhas mais próximo de Mohalis e da Universidade do que o hospital; um quarto quadrado, branco e azul, com cadeiras cheias de cicatrizes, mas cômodas. Dava para um terreno baldio, cheio de erva e de brisa, o qual se estendia até aos trilhos distantes e luzentes. A senhoria era uma alemã redonda, com veia para o romance. É duvidoso que ela algum dia acreditasse que eram casados. Era uma boa mulher.

A mala de Leora chegara. Os seus livros de estenografia foram meticulosamente depositados sobre a pequena escrivaninha e os chinelinhos de feltro cor-de-rosa dispostos debaixo da cama de ferro pintada de branco. Martin acompanhou-a à janela, exaltado pelo orgulho da propriedade. Subitamente, sentiu-se tão fraco, tão cansado, que o misterioso cimento que une célula a célula pareceu dissolver-se, e teve a impressão de que ia desfalecer. Mas, enrijecendo os joelhos, deitando para trás a cabeça, apertando os lábios contra os dentes, dominou-se e gritou:

- O nosso primeiro lar!

Era intoxicador estar com ela, tranqüilamente, sem nada que os perturbasse.

O quarto, igual a um quarto qualquer, brilhava com luz especial; as ervas vigorosas e a relva áspera do terreno baldio estavam radiosas sob o Sol de Abril, e os pardais chilreavam.

- Sim - disse Leora, primeiro com a voz, depois com os lábios famintos.

 

Leora freqüentava a Universidade de Finanças e Administração Comercial de Zenith, título indicador de que se tratava de uma escola grande e razoavelmente má para estenógrafos, guarda-livros e os filhos dos cervejeiros e políticos de Zenith, incapazes de entrar para as universidades do Estado. Trotava diariamente para o eléctrico. Uma figurinha esmerada e juvenil com cadernos e lápis aguçados que se perdia no meio da horda de estudantes. Precisaria de seis meses para aprender estenografia suficiente para obter lugar num escritório de seguros.

Até Martin se formar, conservaram aquele quarto, o seu lar, cada vez mais estimado. Ninguém era mais doméstico do que estas aves migradoras. Pelo menos duas noites por semana, Martin fugia de Mohalis e vinha estudar ali. Ela tinha a habilidade de conservar-se afastada do seu caminho, de não procurar fazer-se notada, de sorte que ele, enquanto mergulhava nos seus livros como nunca fizera na companhia de Cliff, povoada de ruídos, grunhidos e pigarros, tinha sempre a sensação cálida e semiconsciente da presença dela. Às vezes, à meia-noite, exactamente quando começava a compreender que tinha fome, verificava que um prato de sanduíches aparecera a seu lado por silenciosa magia. Não comentava; mas isto não significava que fosse menos afectuoso. Leora dava-lhe um sentimento de segurança. Leora isolava-o do mundo que o martelara.

Nos seus passeios, ao jantar, no delicioso quarto de hora de abandono em que se sentavam na beira da cama, enrolados nas suas mantas, e fumavam um infalível cigarro, antes do pequeno almoço, ele explicava-lhe o seu trabalho e, quando ela própria acabava de estudar, tentava ler um dos seus livros, que não estivesse a ser compulsado. Nada sabendo, nunca aprendendo muito sobre as verdadeiras minúcias de medicina, ela compreendia contudo - talvez melhor do que Angus Duer - a filosofia e a base do trabalho de Martin. Se ele renegara Gottlieb como ídolo e o laboratório como santuário, se resolvera ser um médico prático e próspero, contudo algo do espírito de Gottlieb subsistia nele. Queria descobrir, por detrás das minúcias e das listas sonoramente impressionantes de termos técnicos, as causas das coisas, as regras gerais que submetessem o caos de sintomas dessemelhantes e contraditórios à ordem da química.

Nas noites de sábado, iam ao cinema, com toda a seriedade

- fitas de uma ou duas partes, com o cowboy Bill Anderson e uma jovem que mais tarde se tornaria famosa com o nome de Mary Pickford - e com seriedade discutiam, ao voltar, os enredos inexistentes, indiferentes aos outros transeuntes; mas, quando foram ao campo, num domingo (com quatro sanduíches e uma garrafa de ginger ale nos bolsos puídos de Martin), ele correu atrás dela, colina acima e abaixo, ambos perderam a solenidade, e não eram mais do que duas alegres crianças. Tinha a intenção, quando vinha para o quarto dela, à noite, de tomar o eléctrico nocturno para Mohalis e estar assim perto do trabalho, quando acordasse, de manhã. A sua intenção era resoluta, sempre, e ela admirava-lhe a eficiência, mas ele nunca apanhava o carro. Os passageiros do interurbano das seis horas da manhã habituaram-se à presença de um jovem pálido, ágil, que se sentava num banco de trás, curvado sobre grandes livros vermelhos, roendo distraidamente um grande sonho. Mas neste jovem nada havia do abatimento dos operários arrancados da cama ao alvorecer, para outro dia de trabalho, cinzento e inútil. Parecia curiosamente determinado, curiosamente contente.

Tudo era muito mais fácil, agora que estava parcialmente livre da honestidade tirânica do gottliebismo; da busca implacável de causas que, à medida que desciam camada após camada, pareciam cada vez mais distantes dos princípios fundamentais; da intolerável tensão de aprender, dia após dia, quanto ignorava. Animava-o a idéia de ter escapado da geladeira de Gottlieb para o mundo acessível do director Silva.

De quando em quando, via Gottlieb no pátio da escola. Cumprimentavam-se embaraçados e prosseguiam, apressados.

O penúltimo e o último ano do curso dir-se-ia terem-se fundido. Em virtude do tempo que perdera, teve de ficar em Mohalis durante o Verão. O ano e meio que mediou entre o casamento e a formatura foi um ano de turbilhonante confusão, sem estações nem datas.

Quando, segundo a definição estabelecida, "renunciara à sua maluquice e se atirara ao trabalho", conquistou a admiração do Dr. Silva e de todos os Bons Estudantes, especialmente de Angus Duer e do Rev. Ira Hinkley. Martin declarara sempre que não dava importância aos elogios, aos lugares-comuns do aplauso barato, mas, agora que os tinha, apreciava-os. Por mais que escarnecesse, sentia satisfação quando era tratado como igual por Angus, que passou o Verão como externo do Hospital Geral de Zenith, e que já tinha a inacessível dignidade de um jovem cirurgião de renome.

Durante aquele ardente Verão, Martin e Leora trabalharam até ao aturdimento, e, quando se sentavam no seu quarto, por cima dos livros e com um grande jarro de cerveja, nem os costumes nem a linguagem tinham o decoro que se poderia esperar de um par romântico, dedicado à ciência e a grandes propósitos. Não eram muito recatados. Leora passou a usar, à sua maneira casual, certas palavras, certos monossílabos anglo-saxões antigos, que teriam aterrado Angus ou Bert Tozer. Quando saíam à noite, iam economicamente a uma imitação de Coney Island, junto de um lago escumoso e fétido, e com grave prazer comiam farturas e conscienciosamente andavam na linha férrea miniatural.

O seu principal aperitivo era Cliff Clawson. Este nunca se sentia bem sozinho ou em silêncio, excepto quando dormia. É provável que o seu êxito como vendedor de automóveis viesse inteiramente do seu gosto pelas enormes doses de brilhante conversa, necessárias naquela ocupação. Não se pode determinar que parte da sua atenção a Martin e Leora era por conta da amizade e qual era devida ao seu temor de ficar sozinho, mas entretinha-os e levava-os a evadirem-se de si próprios, e nunca parecia ofendido pelo rude acolhimento de que o mau humor de Martin era por vezes culpado.

Chegava com o motor a roncar, sempre com o escape aberto. Gritava para cima:

- Vamos, meninos! Saiam da toca! Mexam-se! Vamos dar uma volta, refrescar. Pago o jantar.

Que Martin tivesse de estudar, Cliff nunca compreendia. Havia poucas justificações para a brutalidade ocasional com que Martin mostrava o seu aborrecimento, mas, agora que ele se completava em Leora, conservava-se total e egoisticamente indiferente à necessidade, por mais forte que fosse, que os outros pudessem ter da sua companhia; agora que seguia um rumo de trabalho e sentia o grato calor de uma companheira, incomodava-o a imutável torrente de humorismo pesado de Cliff. Era Leora que se mostrava cortês. Escutara muitas vezes os sete gracejos que, sob aparências diversas, constituíam todo o humorismo e filosofia de Cliff mas podia ficar durante horas numa atitude amável, enquanto Cliff falava sobre a sua lábia de vendedor, e ela com firmeza lembrava a Martin que nunca teriam um amigo mais leal ou generoso.

Cliff, porém, foi para Nova Iorque trabalhar numa nova agência de automóveis, e Martin e Leora ficaram dependentes um do outro, mais completa e felizmente do que nunca.

A sua última preocupação foi cancelada pela complacência do Sr. Tozer. Ele mostrava-se agora cordial em todas as suas cartas, embora os irritasse muito com os conselhos paternais com que se pagava de cada cheque enviado.

 

Nenhuma das febris actividades do último ano - Neurologia e Pediatria, trabalhos práticos de Obstetrícia, preencher fichas nos hospitais, assistir a operações, fazer pensos, aprender a não ficar embaraçado quando um doente pobre utilizasse o tratamento de "doutor" - era tão importante como a discussão sobre "Que faremos depois da formatura?"

É necessário ser estagiário por mais de um ano? Faremos, durante toda a vida, clínica médica ou procuraremos adquirir uma especialidade? Quais são as especialidades melhores, isto é, as mais bem pagas? Vamos para o interior ou para a cidade? Que tal o Oeste? Que tal o corpo médico do Exército; continências, botas de montar, boas mulheres, viagens, hem?

Esta discussão era martelada nos corredores do edifício principal da Escola, no hospital, durante as refeições; e quando Martin vinha para o quarto de Leora, recapitulava tudo, com muita proficiência e minúcia. Quase todas as noites "chegava a uma decisão", que amanhecia indecisa.

Certa vez, quando o Dr. Loizeau, lente de Cirurgia, operara diante de uma assistência que compreendia vários médicos visitantes de renome - a figura branca e miúda do cirurgião, abaixo deles, a dar cutiladas entre a vida e a morte, dramático como um grande actor acorrendo à chamada do público - Martin voltou certo de que fora talhado para a cirurgia. Concordou depois com Angus Duer, que acabava de ganhar a Medalha Hugh Loizeau de Cirurgia Experimental, que o operador era o leão, a águia, o soldado entre os médicos. Angus era um dos poucos que sabiam sem vacilar, com precisão, o que ia fazer: depois do estágio, trabalharia na afamada clínica de Chicago dirigida pelo Dr. Rouncefield, o eminente especialista em cirurgia abdominal. Ganharia, dizia concisamente, vinte mil dólares anuais, como cirurgião, dentro de cinco anos.

Martin explicava tudo isso a Leora. Cirurgia. Drama. Nervos impávidos. Assistência em êxtase. Vidas salvas. A ciência criando novas técnicas. Ganhar dinheiro... não se tornar mercantil, naturalmente, mas dar conforto a Leora. Europa... iriam juntos... Londres cinzenta. Os restaurantes de Viena. Leora era-lhe útil durante estes discursos. Concordava docemente; e, na noite seguinte, quando ele tentava provar que a cirurgia estava podre e que na sua maioria os cirurgiões eram simplesmente bons carpinteiros, ela concordava com mais doçura do que nunca.

Depois de Angus e do futuro médico missionário, Ira Hinkley, Pfaff, o Gordo, foi o primeiro a descobrir o futuro. Seria parteiro, ou, como os estudantes de Medicina chamavam tecnicamente, um "ladrão-de-bebés". O Gordo tinha a alma de uma parteira; simpatizava com as mulheres no seu arfar aflito, simpatizava honestamente, quase até às lágrimas, e era magnífico quando esperava quieto, sentado, a beber chá. No seu primeiro caso de parto, ao passo que o estudante que o acompanhava estava simplesmente nervoso e inquieto, ao lado do leito, na opressiva desolação do quarto de hospital, o Gordo estava aterrorizado e aspirava como jamais aspirara por coisa alguma na sua vida frouxa mas cheia de desejos, aspirava poder aliviar, tomar para si as dores da mulher desconhecida, de tez acinzentada, que não cessava de se estorcer.

Enquanto os outros iam assentando o seu rumo, ora por acaso, ora por intermédio dos parentes, Martin permanecia na dúvida. Admirava a insistência do director Silva na necessidade de o médico servir a Humanidade, mas não podia esquecer-se das horas frias e ascéticas do laboratório. Quando se aproximou o fim do quarto ano, tornou-se necessário uma decisão e ele ficou impressionado com um discurso em que o director Silva condenava a demasiada especialização e descrevia o velho médico rural, sacerdote e pai do seu povo, de espírito são sob os céus abertos, sereno pelo domínio de si próprio. Sobre isto, chegaram cartas urgentes do Sr. Tozer, a pedir a Martin que se estabelecesse em Wheatsylvania.

Tozer, evidentemente, amava a filha, teria certa simpatia por Martin, e queria-os junto de si. Wheatsylvania era uma "boa colocação", dizia ele: sólidos fazendeiros escandinavos, holandeses, checos e alemães, que pagavam as contas. O médico localizado mais perto era Hesselink, em Groningen, nove milhas e meia além, e Hesselink tinha mais serviço do que o que podia atender. Se viesse, ajudá-lo-ia a comprar as suas instalações e instrumentos; mandar-lhe-ia mesmo um cheque de vez em quando, durante o estágio de dois anos no hospital. O capital de Martin estava praticamente esgotado. Angus Duer e ele haviam recebido nomeações para o Hospital Geral de Zenith, onde se adquiria uma prática incomparável, mas o Hospital Geral de Zenith não dava aos estagiários, no primeiro ano, nada mais do que cama e mesa, e ele receava não poder aceitar a nomeação. A oferta de Tozer alvoroçou-o. Durante toda a noite, Leora e ele ficaram acordados, a tagarelar com entusiasmo sobre a liberdade do Oeste, sobre os corações bondosos e as mãos amigas dos pioneiros, sobre o heroísmo e a utilidade dos médicos rurais, e desta vez chegaram a uma decisão que permaneceu decidida.

Estabelecer-se-iam em Wheatsylvania.

Se tinha certa inclinação para as pesquisas e pela divina curiosidade de Gottlieb, muito bem: seria um médico rural como Robert Koch! Não degeneraria num zângão jogador de bridge e caçador de patos. Teria um pequeno laboratório particular. E assim chegou ao fim do ano e formou-se, olhando um tanto aturdido para a beca e o barrete de doutor. Angus obteve o primeiro lugar da turma e Martin o sétimo. Despediu-se com lamentações e considerável quantidade de cerveja; arranjou um quarto para Leora mais perto do hospital; e surgiu como Dr. Martin L. Arrowsmith, assistente médico do Hospital Geral de Zenith.

 

A Fábrica de Caixas Boardman ardia. Todo o sul de Zenith se agitou com o fulgor das nuvens baixas, o cheiro de madeira queimada, as campainhas infernais dos carros dos bombeiros. Milhares de casinhas de madeira, situadas a oeste da fábrica, estavam ameaçadas, e mulheres envoltas em mantas, homens desgrenhados, com as calças sobre a camisola, saltaram das camas e saíram a correr, com um surdo tropel, pelas ruas que a noite esfriara.

Com a calma profissional, os bombeiros, de capacete, atacavam o fogo com as suas bombas. Polícias montavam guarda diante da multidão, sacudiam os casse-têtes, gritavam: "Para trás! " O cordão de isolamento era sagrado. Apenas o proprietário da fábrica e os repórteres tiveram passagem. Um operário da fábrica foi barrado por um sargento da polícia.

- As minhas ferramentas estão lá - guinchou.

- Não quer dizer nada! - berrou o sargento, empertigado.

- Aqui ninguém passa!

Mas alguém passou. Ouviu-se, incessante, furioso, desafiador, o blã-blã-blã de uma ambulância a correr a toda a velocidade. Sem uma ordem, a multidão abriu-se e através dela, quase atropelando alguns populares, deslizou o grande carro cinzento. Na parte traseira, soberbo no seu uniforme branco, tranqüilamente sentado num banquinho, ia o Doutor: Martin Arrowsmith.

A multidão admirou-o, os polícias saltaram para recebê-lo.

- Onde está o bombeiro ferido? - perguntou ele, interrompendo-os.

- Ali naquele alpendre - gritou o sargento da Polícia, correndo ao lado da ambulância.

- Siga para lá. Não se importe com o fumo! - gritou Martin para o condutor.

Um chefe dos bombeiros conduziu-o a um monte de serradura, onde estava estendido um homem inconsciente, muito jovem, com o rosto lívido e viscoso.

- Apanhou uma forte dose de fumo de madeira verde e desmaiou. bom rapaz. Não há esperanças? - perguntou o chefe, com interesse.

Martin ajoelhou-se ao lado do homem, tomou-lhe o pulso, auscultou-o. Abrindo bruscamente um estojo preto, deu-lhe uma injecção hipodérmica de estricnina e chegou-lhe um frasco de amoníaco ao nariz.

- Ficará bom. Agora, os senhores metam-no na ambulância. Depressa!

O sargento da Polícia e o recruta mais novo do serviço de ronda moveram-se simultaneamente e simultaneamente murmuraram:

- Às ordens, Doe.

O principal repórter do Advocate-Times dirigiu-se a Martin. O seu registo civil marcava apenas vinte e nove anos, mas era o homem mais velho e talvez mais cínico do mundo. Entrevistara senadores; descobrira fraudes em sociedades de caridade e mesmo em partidas de boxe. Havia pequeninas rugas ao lado dos olhos, fumava constantemente cigarros Buli Durham e a sua opinião acerca da honra dos homens e da virtude das mulheres era péssima. com Martin ou, pelo menos, com O Doutor, foi polido.

- Resistirá, Doe? - perguntou, com acento nasal.

- Sim; acho que sim. Asfixia. O coração vai bem. Martin gritou as últimas palavras do estribo traseiro da ambulância, quando ela avançava aos solavancos, através do pátio da fábrica, do fumo espesso, em direcção à multidão que se encolhia. Ele era dono da cidade e comandava-a, ele e o condutor. Desprezavam os regulamentos de tráfego, faziam pouco do povo que voltava dos teatros e dos cinemas, que salpicava as ruas e que as esvaziava diante da célebre capota cinzenta. Olha em frente! O agente de tráfego, no entroncamento das ruas Chickasaw e Vinte, percebeu a sua aproximação, veloz como o Expresso da Meia-Noite... rrrrr... blã-blã-blã... e fez o povo evacuar a barulhenta esquina. O povo ficou imprensado entre a parede e o leito da rua, sob a ameaça dos traseiros dos cavalos e dos automóveis em marcha atrás, enquanto, como um furacão, passava a ambulância, blã-blã-blã, com o Doutor seguro numa alça, a equilibrar-se agilmente no seu perigoso banco. No hospital, o porteiro gritou:

- Ferimento de bala no Porto, Doe.

- Bem. Pode esperar que tome um gole - disse Martin placidamente.

A caminho do quarto, passou diante da porta aberta do laboratório do hospital, com as prateleiras, o grande banco, as pequenas estantes, as inertes fileiras de frascos e tubos de ensaio.

- Uü Laboratório... Que vida! Isto, sim, satisfaz a gente murmurou, exultante, e reprimiu a visão de Max Gottlieb, tão magro, tão cansado, tão paciente.

 

Os seis estagiários do Hospital Geral de Zenith, inclusive Martin e Angus Duer, moravam num quarto longo e sombrio com seis catres e seis mesas extravagantemente cobertas de fotografias, gravatas e meias rotas. Passavam horas sentados nas camas, a discutir cirurgia contra clínica médica, planeando os jantares que pretendiam gozar nas noites em que poderiam sair, e explicando a Martin, como único casado, as virtudes das várias enfermeiras que, um por um, eles cortejavam.

Martin achou a rotina do hospital levemente insípida. Embora tivesse dominado o "andar do estagiário", esse passo vivo de passagem, com o estetoscópio visível no bolso, não dominara, não pudera dominar a "atitude clínica", ao pé da cama do doente. Tinha compaixão por aquelas pessoas feridas e amareladas, que sofriam, que estavam sempre a mudar como indivíduos, mas nunca como uma monótona massa de dor; contudo depois de pensar três vezes uma ferida, estava satisfeito, queria passar a novas experiências. Mas o trabalho de assistência na rua estimulava incessantemente o seu orgulho.

O Doutor, e só o Doutor, podia entrar com segurança, à noite, na viela conhecida pelo nome de "o Porto". O seu estojo negro era um salvo-conduto. Os polícias saudavam-no, as prostitutas inclinavam a cabeça para ele, sem um dichote, os donos das tascas diziam " noite, Doe", e homens equívocos afastavam-se dos vãos das portas para deixá-lo passar. Martin tinha Poder, o primeiro poder evidente, na sua vida. E era conduzido a uma aventura incessante.

Removeu um presidente de Banco de uma casa de má fama; ajudou a família a evitar o escândalo; irritado, recusou o suborno; e depois, quando pensou no jantar que poderia ter oferecido a Leora, lamentou haver recusado. Irrompeu em quartos de hotel cheios de gás e salvou suicidas. Tomou rum da Trindade com um congressista que se batia por uma "lei seca". Atendeu um polícia assaltado por grevistas e um grevista assaltado por polícias. Assistiu a uma operação abdominal de emergência, às três horas da madrugada. A sala de operações - paredes de azulejo branco, pavimento de mosaico, clarabóia cintilante sob a geada - parecia forrada de gelo incendiado, e as grandes lâmpadas eléctricas arrancavam reflexos das caixas de vidro dos intrumentos, dos cruéis bisturis. O cirurgião, metido na longa veste branca, gorro branco, e luvas de borracha laranja-pálido, fez a rápida incisão no quadrado de carne amarelada exposto entre toalhas, aprofundou o corte em camadas de gordura, e Martin ficou imóvel, a olhar, quando o primeiro sangue se seguiu, ameaçador, ao corte. E, um mês depois, durante a enchente do rio Chaloosa, trabalhou durante setenta e seis horas, com intervalos de meia hora para dormir na própria ambulância ou sobre a mesa de um posto policial.

Saltou de um bote naquilo que fora o segundo andar de uma habitação e assistiu a um parto no último pavimento; fez pensos nas cabeças e braços de uma fila de homens; mas o que o cobriu de glória foi a façanha perfeitamente temerária de se lançar às águas e salvar a nado cinco crianças abandonadas, cheias de terror, num dos bancos de uma igreja abalada. Os jornais dedicaram-lhe grandes títulos, e quando ele voltou para beijar Leora e dormir doze horas, ficou a pensar nas pesquisas com um amargo e defensivo desdém.

"Gottlieb, aquele pobre velho caçador de pormenores inúteis! Sempre queria vê-lo nadar contra aquela corrente! " zombou o Dr. Arrowsmith para Martin.

Mas, no plantão da noite, sozinho, tinha de defrontar esse Martin que temia pôr a descoberto, e sentia saudades do laboratório, do alvoroço das descobertas imprevistas, da indagação por baixo da superfície e além do momento, da procura das leis fundamentais que o cientista (por mais profana e plebéia que seja a descrição que fizer do facto) exalta acima da cura transitória, como o religioso exalta a natureza e a terrível glória de Deus acima das amenas virtudes quotidianas. com este sentimento, havia o temor ciumento de ficar fora das coisas, de que outros marchassem à sua frente, cada vez mais seguros da técnica, mais amplamente a par dos fenômenos da química biológica, mais profundamente ousados na explicação de leis que os pioneiros apenas haviam entrevisto e tacteado.

No segundo ano de estágio, quando as comoções dos incêndios, inundações e homicídios se haviam tornado uma rotina tão mecânica como a escrituração de uma casa comercial, quando tomara conhecimento do número de maneiras estranhamente reduzido que a Humanidade imagina para ferir-se e assassinar-se, quando se tornou apenas aborrecido ter de sustentar a pretensão de ser O Doutor, Martin tentou satisfazer e talvez matar a sua indesejável ânsia científica e insinuou-se no laboratório do hospital, dedicando-se à contagem dos glóbulos sangüíneos em casos de anemia perniciosa. A sua diversão com os resíduos da pesquisa era arriscada. Por entre a excitação das operações, começou a imaginar a deliciosa quietude do laboratório. "É melhor eu acabar com isto de uma vez - disse a Leora-, já que vou instalar-me em Wheatsylvaniae se é que pretendo arranjar a vida... e, por Deus, é o que vou fazer!"

O director Silva ia freqüentemente ao hospital. Passou pela sala de espera uma noite em que Leora, de volta do escritório em que trabalhava como estenógrafa, esperava Martin para jantar. Martin apresentou-os e o homenzinho reteve-lhe a mão, fez um ronrom de aprovação e guinchou:

- Vocês, rapazes, não querem dar-me o prazer de jantar comigo? Minha mulher abandonou-me. Sou um homem só e misantropo.

Trotou entre eles, redondo e feliz. Martin e ele não eram estudante e mestre, mas dois médicos reunidos, pois o director Silva era um pedagogo que podia continuar a interessar-se por um homem que já não se sentava abaixo da sua cátedra. Levou os dois famintos a um chop-house e, num estabelecimento cheio de cômodas cadeiras, encheu-os astutamente de ganso assado e canecas de cerveja.

Concentrava-se em Leora, mas era de Martin que falava:

- Seu marido deve tornar-se um médico artista, e não um caçador de bagatelas, como esses homens de laboratório.

- Mas Gottlieb não é um caçador de bagatelas - insistiu Martin.

- Nããão. Mas com ele... Há uma diferença entre os deuses de cada um. Os deuses de Gottlieb são cínicos, são destruidores... uns desmancha-prazeres, como se diz vulgarmente: Diderot, Voltaire, Elser; grandes homens, milagrosos trabalhadores, mas homens que achavam mais divertido destruir teorias alheias do que criar uma própria. Quanto aos meus deuses, são os homens que tomam as descobertas dos deuses de Gottlieb e as adaptam aos usos de seres humanos, à conservação da sua vida! Toda a honra aos homens que inventaram as tintas e a tela, porém mais honra ainda, não é? aos Rafaéis e Holbeins, que utilizaram essas descobertas! Laennec e Osler, eis os homens! É muito bonito, isso da pesquisa pura: procurar a verdade, indiferente ao mercantilismo e à fama. Chegar ao fundo. Ignorar conseqüências e usos práticos. Mas, levando essa idéia bastante longe, acham que um homem se justificaria se nada mais fizesse do que contar as pedras do pavimento de Warehouse Avenue... sim... e se torturasse pessoas, apenas para ver como elas guincham... e depois olhasse, desdenhosamente, para um homem que tentasse tornar milhões de pessoas sadias e felizes! Não, não! Senhora Arrowsmith, este jovem Martin é uma criatura vibrante e não um escravo. Precisa de vibrar em benefício da Humanidade. Seguiu o mais elevado apelo do Mundo, mas é um diabo volúvel e experimentador. A senhora deve mantê-lo no bom caminho que tomou, minha querida menina, e não permitir que o mundo perca o benefício da sua vibração.

Depois desta solenidade, o Tio Silva levou-os a uma comédia musicada e sentou-se entre ambos, dando palmadinhas no ombro de Martin, palmadinhas no braço de Leora, engasgando-se de prazer quando o comediante meteu um pé no balde de água de cal. Na volubilidade da meia-noite, Martin e Leora derramaram a sua afeição sobre ele e viram no projecto Wheatsylvania a glória e a salvação.

Mas, alguns dias antes do fim do estágio de Martin e da sua migração para o Dakota do Norte, encontraram-se com Max Gottlieb na rua.

Martin não o vira havia mais de um ano; Leora, nunca. Parecia preocupado e doente. Enquanto Martin se perguntava, aflito, se devia passar com um simples cumprimento, Gottlieb estacou.

- Como vão as coisas, Martin? - disse ele, cordialmente. Mas os seus olhos diziam: "Por que não voltou para junto de mim?

O rapaz gaguejou qualquer coisa sem sentido, e, quando Gottlieb se afastou, curvado e caminhando como sob o efeito de uma dor, teve vontade de correr atrás dele.

Leora perguntou:

- É este o professor Gottlieb, de quem sempre me falas?

- É. Dize-ine uma coisa. Que impressão te causou?

- Não sei bem... Mas olha, Sandy, ele é o maior homem que jamais vi! Não sei porquê, mas é isto o que sinto! O doutor Silva é um encanto mas aquele é um grande homem! Teria vontade... sim, tenho vontade de vê-lo outra vez. É o primeiro homem em quem pus os olhos e pelo qual te abandonaria, se ele precisasse de mim. É tão... oh, é como uma espada... não, é como um cérebro em marcha. Coitado, Sandy, parecia tão desgraçado. Senti vontade de chorar. Lustrar-lhe-ia os sapatos!

- Eu também, Leora!

Mas, no alvoroço da partida de Zenith, na excitação da viagem para Wheatsylvania, na luta dos exames finais, na dignidade de ser um médico diplomado, esqueceu-se de Gottlieb, e, naquelas campinas do Dakota, radiosas sob o Sol dos primeiros dias de Junho, com calhandras empoleiradas em cada moirão das cercas, começou o seu trabalho.

 

No momento em que Martin encontrou Gottlieb na rua, ele estava arruinado.

Max Gottlieb era um judeu-alemão, nascido na Saxónia em 1850. Embora tivesse obtido o diploma de médico, em Heidelberg, nunca se interessara por exercer a medicina. Era discípulo de Helmholtz, e as pesquisas que, ainda muito jovem, realizou na física do som, convenceram-no da necessidade do método quantitativo na ciência médica. Depois, os descobrimentos de Koch levaram-no para a biologia. Conservando-se sempre um trabalhador atento e minucioso, alinhando longas colunas de números, compreendendo sempre a presença das variáveis incontroláveis, atacando sempre furiosamente o que considerava negligência, mentira ou ostentação, jamais demasiado indulgente para com a estupidez bem intencionada, trabalhara nos laboratórios de Koch, de Pastcur, seguira as primeiras exposições de Pearson em biometria, bebera cerveja e escrevera cartas vitriólicas, viajara pela Itália, Inglaterra e Escandinávia, e, casualmente, entre dois dias, desposara (como poderia ter comprado um casaco ou contratado uma governanta) a paciente e calada filha de um comerciante não judeu.

Iniciou então uma série de experiências, muito importantes, muito pouco dramáticas, muito longas e excessivamente inapreciadas. Já em 1881 confirmava as conclusões de Pasteur quanto à imunidade na cólera das galinhas e, por distracção e passatempo, tentou separar uma enzima do fermento. Alguns anos mais tarde, vivendo da magra herança do pai, um pequeno banqueiro, e esgotando-a descuidado e alegre, analisou criticamente a teoria da ptomaína nas doenças e investigou o mecanismo da atenuação de virulência dos microrganismos. com isto alcançou alguma fama. Talvez fosse demasiado cauteloso. E odia"i mais do que ao diabo e à fome os homens que se lançam à publicidade prematuramente.

Embora pouco se envolvesse em política, considerando-a a mais repelente e a menos científica das actividades humanas, era um alemão bastante patriota para odiar os junkers. Quando jovem, tivera uma ou duas rixas com oficiais arrogantes; certa vez, passou uma semana na prisão; enfurecia-se com freqüência diante do tratamento discriminatório dispensado aos judeus: e, com quarenta anos, dirigiu-se melancolicamente para a América, que nunca poderia tornar-se militarista nem anti-semita, primeiro para o Hoagland Laboratory de Brooklyn, depois para a Queen City University, como professor de Bacteriologia.

Fez aqui a sua primeira investigação sobre as reacções da toxina-antitoxina. Anunciou que os anticorpos, exceptuada a antitoxina, não tinham relação com o estado de imunidade de um animal, e enquanto ele próprio era atacado furiosamente no mundo pequeno mas apaixonado dos cientistas, ocupava-se calma e brutalmente das teorias dos séruns de Yersin e Marmorek.

O seu sonho mais querido, agora e durante anos de inquieta investigação, era a produção artificial de antitoxina, a produção in vitro. Certa vez, estava pronto para publicar as suas conclusões, mas descobriu um erro e, rigidamente, cancelou a publicação. Durante este período viveu só. Evidentemente não havia ninguém, em Queen City, que o considerasse mais do que um judeu excêntrico que apanhava micróbios pelo rabinho e os olhava maliciosamente; isso não era trabalho para um homem que se prezasse, numa época em que os heróis construíam pontes, experimentavam Carros sem Cavalos, inauguravam a era do Anúncio Atraente, e vendiam milhas de pano de algodão e charutos.

Em 1899, foi nomeado para a Universidade de Winnemac, como professor de Bacteriologia da Escola de Medicina, e ali trabalhou infatigavelmente cerca de doze anos. Nem uma só vez falou de resultados da espécie chamada "prática"; nem uma só vez deixou de combater as conclusões do post hoc, propter hoc, que ainda constituem grande parte da doutrina médica; nem uma só vez deixou de ser odiado pelos colegas, que o respeitavam na presença, sentiam contrafeitos o poder da sua ironia, mas que, na sua ausência, tinham prazer em chamar-lhe Mefisto, feiticeiro, desmancha-prazeres, pessimista, crítico destruidor, cínico petulante, pseudo-sábio sem dignidade nem compostura, snob intelectual, pacifista, anarquista, ateu, judeu. Diziam, com razão, que era tão dedicado à ciência pura, à arte pela arte, que preferiria ver os pacientes morrerem pela terapêutica correcta do que vê-los curados pela terapêutica errada. Construíra um santuário para a Humanidade e queria correr a pontapés todos os simples seres humanos.

O número total dos seus artigos, num activo reino científico onde os homens realmente diligentes publicavam cinco por ano, não ia além de vinte e cinco em trinta anos. Eram todos meticulosamente acabados, facilmente confrontáveis e verificáveis pelos críticos mais cheios de dúvidas.

Em Mohalis, ficou satisfeito com as óptimas instalações, com os excelentes assistentes, o material inesgotável, a abundância de cobaias e macacos; mas aborrecia-se com a rotina do ensino, e de novo o entristeceu a melancolia da falta de amigos compreensivos. Andava sempre à procura de alguém com quem pudesse conversar sem suspeita nem reserva. Quando meditava sobre a exaltação de médicos de redonda ignorância, de descobridores que não passavam de remendões ampliados, era bastante humano para irritar-se com a sua falta de fama nos Estados Unidos, mesmo em Mohalis, e para queixar-se sem muita nobreza.

Nunca jantara com uma duquesa, nunca recebera um prêmio, nunca fora entrevistado, nunca produzira nada que o público pudesse compreender, nem se envolvera, desde os seus amores de estudante, em nada que as pessoas elegantes pudessem considerar romântico. Era, de facto, um cientista autêntico.

Pertencia aos grandes benfeitores da Humanidade. Nunca haverá, em século algum, um esforço para pôr fim às grandes epidemias ou às pequenas infecções, que não tenha sido influenciado pelas pesquisas de Max Gottlieb, pois ele não formava entre aqueles que espetam bactérias e protozoários e os classificam admiravelmente. Investigava a sua química, as leis da sua existência e destruição, leis básicas, desconhecidas, na sua maioria, após uma geração de activos biólogos. Contudo, tinham razão aqueles que lhe chamavam "pessimista", pois este homem que, tanto como qualquer outro, terá sido a causa da redução das doenças infecciosas quase a zero, duvidava freqüentemente de que a redução dessas doenças tivesse qualquer valor.

Ponderava (era um debate internacional em que o acompanhavam muito poucos e muitos o atacavam) que meia dúzia de gerações quase livres de epidemias produziriam uma raça com uma imunidade natural tão baixa que, quando tornasse a aparecer uma grande peste, saltando subitamente do nada como uma nuvem que se estendesse sobre a Terra, poderia varrer todo o mundo, de sorte que os trabalhos para a salvação de vidas, aos quais ele emprestava o seu gênio, poderiam afinal de contas vir a causar a destruição de toda a vida humana.

Considerava que, se a ciência e a higiene pública removessem a tuberculose e outras grandes pragas, o mundo poderia ficar sombriamente seguro de se transformar em tamanho curral de gado humano, de se tornar de tal maneira superpovoado, que toda a beleza, quietude e sabedoria desapareceriam numa corrida faminta pela existência. Estas especulações, contudo, nunca estorvavam o seu trabalho. Se o futuro se tornasse superlotado, o futuro devia, pela restrição da natalidade ou de outra maneira, tratar de resolver o seu problema. Talvez assim procedesse, reflectia ele. Mas até esta gota de sadio optimismo desaparecia, nas suas dúvidas finais. Duvidava, com efeito, de todo o progresso do intelecto e das emoções; e duvidava, acima de tudo, da superioridade da divina Humanidade sobre os alegres cães, os gatos infalivelmente graciosos, os cavalos amorais, plácidos e irreligiosos, as gaivotas soberbamente aventureiras.

Ao passo que os charlatães da medicina, os fabricantes de remédios patenteados, os negociantes de chiclet e os altos sacerdotes da publicidade viviam em palácios, servidos por criados, e transportavam em limousines as suas sagradas pessoas, Max Gottlieb morava num exíguo cottage cuja pintura se desfazia, e ia para o laboratório numa bicicleta antiga e desconjuntada. Quanto a si, raramente protestava. Não era tão pouco razoável

- quase sempre - que exigisse simultaneamente liberdade e os frutos da escravidão popular. "Porque havia o mundo de pagar-me - disse ele certa vez a Martin - para eu fazer o que quero e o que ele não quer?"

Se em sua casa havia apenas uma cadeira confortável, na sua mesa havia cartas, longas, íntimas e respeitosas, de grandes homens da França e da Alemanha, da Itália e da Dinamarca, e de cientistas a que a Grã-Bretanha dava tamanho valor que lhes concedia títulos quase tão altos como aqueles com que recompensa fabricantes de cerveja e de cigarros e proprietários de jornais obscenos.

Mas a pobreza impedia-o de matar a sua saudade estival de sentar-se debaixo dos choupos, nas margens do Reno ou do tranqüilo Sena, a uma mesa sobre cuja toalha de xadrez houvesse pão, queijo, vinho e cerejas escuras, essas velhas e sagradas simplicidades de toda a gente.

 

A mulher de Max Gottlieb era espessa, lerda e calada; aos sessenta anos, não aprendera a falar correntemente o inglês; e o seu alemão era o alemão do burguês de lugarejo, que paga as dívidas, se superalimenta e fica corado. Se não lhe fazia confidencias, se à mesa se esquecia dela em longas reflexões, não era nem desatencioso nem impaciente, e dependia dela para o arranjo da casa e o aquecimento da sua antiquada camisa de dormir. Ela não se sentia bem, agora. Tinha náuseas e indigestões, mas continuava a trabalhar. Ouviam-se sempre as suas velhas chinelas a bater pela casa.

Tinham três filhos, todos nascidos quando Gottlieb contava mais de trinta e oito anos: Miriam, a mais nova, uma criança ardente, com inclinação para o piano, instinto da música de Beethoven, e ódio aoragtime popular nos Estados Unidos; uma irmã mais velha, que não era nada em particular; e um filho, Robert Koch Gottlieb. Era uma coisa impossível e uma desgraça. Enviaram-no, com uma preocupação que ele não merecia, para uma aristocrática escola superior, próximo de Zenith, onde travou relações com os filhos de donos de fábricas e descobriu um gosto por automóveis velozes e roupas excêntricas, e nenhum gosto pelos estudos. Em casa, proclamava que o pai era um "unhas de fome". Quando Gottlieb procurava mostrar que era pobre, o rapaz respondia que, com toda a sua pobreza, estava sempre a gastar ocultamente dinheiro com as suas pesquisas... que ele não tinha o direito de proceder assim e envergonhar o filho... que a maldita Universidade lhe fornecesse o material!

 

Poucos estudantes de Gottlieb consideravam a sua pessoa e a sua ciência mais do que simples fossos a saltar rapidamente.

 

Um desses poucos era Martin Arrowsmith.

Apesar da aspereza com que Gottlieb apontara os erros de Martin, apesar da altivez com que possa ter simulado ignorar a devoção deste, Gottlieb preocupava-se tanto com Martin como Martin com ele. Projectava grandes coisas. Se Martin desejasse realmente o seu auxílio (Gottlieb podia ser tão complacente, em particular, como era personalíssimo e exigente quando se tratava da obra científica), teria considerado a carreira do rapaz como sua própria. No decurso da pequena pesquisa original de Martin, Gottlieb rejubilou com a sua tendência para abandonar as teorias convencionais - e cômodas - da imunologia, e com o cuidado torturado com que verificava os resultados. Quando Martin, por motivos desconhecidos, se tornou negligente; quando se tornou evidente que bebia demasiado; evidente que se abanonava a algum absurdo caso pessoal, foi a trágica necessidade de amizade e um ardente respeito pela boa produção que atiraram Gottlieb contra ele. Não teve conhecimento de que Silva exigira desculpas. Isso tê-lo-ia enfurecido...

Esperava que Martin voltasse. Censurou-se: "Idiota! Era um belo talento. Devias saber que não se usa uma pá de platina para carregar carvão." Por tanto tempo quanto pôde (enquanto Martin lavava pratos e errava em comboios inacreditáveis, entre cidades impossíveis), adiou a designação de um novo assistente. Depois, toda a sua esperança esfriou, transformando-se em cólera. Considerou Martin um traidor e baniu-o da memória.

 

É possível que Max Gottlieb fosse um gênio. Sem dúvida, era louco como qualquer gênio. Durante o período do estágio de Martin, no Hospital Geral de Zenith, fez uma coisa mais absurda do que qualquer das superstições de que zombava.

Tentou transformar-se em reformador e em homem de acção! Ele, o cínico, o anarquista, tentou fundar uma instituição, e dedicou-se-lhe como uma solteirona que organiza uma liga para impedir que os garotos aprendam palavras feias.

Imaginou que, neste mundo, poderia haver uma Escola de Medicina que fosse totalmente científica, regulada pela química e pela biologia quantitativa exacta, com pouca cirurgia e nenhuma encenação, e imaginou, mais, que tal empresa poderia ser realizada na Universidade de Winnemac! E, para consegui-lo, esforçou-se por ser prático; oh, foi extremamente prático e plausível!

"Confesso que não poderíamos fabricar médicos para curar eólicas de aldeia. E os médicos comuns são admiráveis e totalmente necessários... sim, talvez o sejam. Mas já os há em demasia. E quanto ao lado "prático", se me permitirem vinte anos de ensino preciso e cuidado, curaremos a diabetes, talvez a tuberculose e o cancro, e todos esses resultados da artrite que os medicastros, sacudindo a cabeça, chamamreumatismo. Eis tudo!"

Não desejava a direcção de tal escola, nem qualquer prestígio. Tinha muito que fazer. Mas, numa reunião da Academia Americana de Ciências, conheceu certo Dr. Entwisle, jovem fisiologista de Harvard, que seria um excelente director. Entwisle sentia admiração por ele e pressentiu-lhe o desejo de ser convidado para Harvard. Quando Gottlieb esboçou a sua nova espécie de Escola de Medicina, Entwisle mostrou-se entusiasmado.

- Nada mais quero do que uma oportunidade num lugar assim - declarou com alvoroço, e Gottlieb voltou triunfante para Mohalis. A sua confiança ainda era maior porque (embora tivesse recusado sardonicamente) nessa ocasião haviam-lhe oferecido o cargo de director da Escola de Medicina da Univers; dade de West Chippewa.

Foi tão cândido, ou tão louco, que escreveu ao director Silva, concitando-o polidamente a resignar e a entregar a escola a sua obra, a sua vida - a um professor desconhecido de Harvard! Tio Silva era um cortês e velhogentleman, um digno discípulo de Osler, mas essa carta inacreditável esgotou-lhe a paciência. Respondeu que, embora visse o valor das pesquisas básicas, a Escola de Medicina pertencia ao povo do estado e a sua tarefa era dedicar-lhe atenção imediata e prática. Deu a entender que, quanto a si próprio, no momento em que julgasse a sua resignação proveitosa para a Escola, demitir-se-ia imediatamente, mas precisava de uma sugestão mais idônea do que a carta de um dos seus subordinados!

Gottlieb replicou com espírito e discrição. Pouco se lhe dava o povo do estado de Winnemac. Mereceria ele, no seu actual" estado de fraqueza de espírito, qualquer espécie de atenção? Indesculpavelmente, passando por cima de Silva, levou o seu projecto a esse grande orador e patriota, o Dr. Horace Greeley Truscott, reitor da Universidade.

O reitor Truscott disse:

- Ando de facto muito ocupado para considerar planos quiméricos, por mais engenhosos que sejam.

- O senhor está muito ocupado para considerar tudo o que não seja a venda de graus honorários a milionários, em troca de salas de atletismo - observou Gottlieb.

No dia seguinte, foi convocado para uma reunião especial do Conselho de Universidade. Como chefe do departamento médico de bacteriologia, Gottlieb era membro desse corpo soberano, e, quando entrou na longa Sala do Conselho, de tecto dourado, pesadas cortinas castanhas, sombrios quadros de pioneiros, encaminhou-se para o seu lugar habitual, meditando em coisas remotas e absorventes, sem notar o grupo de membros que cochichavam.

- Uuuu... Professor Gottlieb... quer ter a bondade de sentar-se no outro extremo da mesa? - advertiu o reitor Truscott.

Gottlieb, então, percebeu. Viu que, dos sete membros do Conselho de Regentes, os quatro que moravam em Zenith ou na vizinhança da cidade estavam presentes. Viu que não era o director do departamento acadêmico que estava sentado ao lado de Truscott, mas o director Silva. Viu que, por mais indiferentemente que conversassem, o observavam através da névoa da sua conversa.

O reitor Truscott anunciou:

- Senhores, esta reunião conjunta do Conselho da Universidade e do Conselho de Regentes é para considerar acusações contra o professor Max Gottlieb, articuladas pelo director e por mim próprio.

Gottlieb pareceu envelhecer subitamente.

- Tais acusações são: deslealdade para com o seu director, o seu reitor, os seus regentes e para com o estado de Winnemac; deslealdade para com os princípios estabelecidos da ética médica e acadêmica; egotismo delirante; ateísmo; incapacidade continuada de colaborar com os seus colegas, e tamanha incapacidade para compreender as coisas práticas que se torna perigoso deixá-lo dirigir os importantes laboratórios e a cátedra que lhe confiámos. Senhores, provarei agora cada um destes pontos, com as próprias cartas do professor Gottlieb ao director Silva.

Provou-o.

O presidente do Conselho de Regentes sugeriu:

- Gottlieb, penso que as coisas se simplificariam se o senhor nos apresentasse o seu pedido de demissão e permitisse que nos separássemos amistosamente, em vez de termos o desagradável...

- Que me cuspam na cara se eu pedir a demissão! - Gottlieb estava de pé, raivoso e magro. - Como os senhores todos têm espíritos de estudantes, espíritos de campo de golfe, torcem as minhas expressões, a minha expressão perfeitamente correcta, de um sólido ideal revolucionário, que, para mim, pessoalmente, não seria de nenhum valor ou vantagem, e transformam-na num desejo de escamotear promoções. Tolos dessa espécie julgando a honra de um homem! - O seu longo indicador era um anzol atirado à alma do reitor Truscott. - Não! Não me demitirei! O senhor pode fazer o que quiser!

- Receio, então, que tenhamos de pedir-lhe que abandone a sala enquanto votamos. - O reitor falou com uma suavidade incompatível com o seu tamanho, vigor e energia.

Gottlieb pedalou na sua vacilante bicicleta em direcção ao laboratório. Foi por meio de um simples telefonema de uma ríspida empregada do gabinete do reitor que foi informado de que "a sua resignação fora aceite".

- Descartaram-se de mim? - gemeu ele. - Como? Eu sou a glória principal, a única glória dessa escola de negociantes!

Quando compreendeu que efectivamente se haviam descartado dele, ficou envergonhado por lhes haver dado uma oportunidade para pô-lo na rua. Mas, em tudo isso, o elemento realmente desnorteador era haver, numa tentativa para se tornar político, interrompido a obra sagrada.

Necessitava imediatamente de paz e de um laboratório.

Eles perceberiam a sua loucura, quando soubessem que Harvard o chamara!

Estava ansioso pelo ambiente mais plácido de Cambridge e Boston. Por que ficara tanto tempo na rude Mohalis? Escreveu ao Dr. Entwisle, deixando perceber que estava disposto a considerar um oferecimento. Esperou um telegrama. Esperou uma semana, e recebeu uma extensa carta, em que Entwisle confessava ter-se precipitado quando falara em nome da direcção de Harvard. Entwisle apresentava os cumprimentos do corpo docente e a sua esperança de que, algum dia, poderiam ter a honra da sua presença, mas de momento...

Gottlieb escreveu à Universidade de West Chippewa, dizendo que, finalmente, estava pronto a aceitar a direcção da Escola de Medicina... e recebeu a resposta de que o posto estava preenchido, de que não haviam apreciado grandemente o tom da sua primeira carta e não lhes "interessava voltar novamente ao assunto".

Com sessenta e um anos, Gottlieb poupara apenas algumas centenas de dólares, nada mais do que algumas centenas. Como qualquer pedreiro desempregado, tinha de arranjar emprego ou passar fome. Já não era um gênio impaciente por haver interrompido a criação, mas um andrajoso professor em apuros.

Vagueou pela sua pequena casa parda, remexendo em papéis, olhando fixamente para a esposa, olhando fixamente para velhos quadros, olhando fixamente o vazio. Dispunha ainda de um mês de ensino - haviam posto uma data futura na resignação que lhe tinham imposto - mas estava muito desanimado para ir ao laboratório. Sentia-se indesejado, tinha mesmo uma impressão de ameaça física. A sua antiga segurança desfez-se em piedade por si próprio. Esperou entre um correio e outro. Certamente, viria auxílio de alguém que soubesse quem ele era, o que pretendia. Vieram muitas cartas cordiais sobre pesquisas, mas a espécie de homens com os quais se correspondia não se ocupava com as novidades interuniversitárias nem sabia das suas necessidades.

Não podia, depois da falta de sorte com Harvard e da repulsa de West Chippewa, tentar aproximar-se das universidades ou dos institutos científicos, e era bastante orgulhoso para não escrever cartas de pedido aos homens que o respeitavam. Não, procederia como um homem de negócios! Escreveu a uma agência de professores de Chicago, e recebeu uma pomposa resposta que lhe prometia interesse pelo assunto e perguntava se lhe conviria um lugar de professor de física e química numa escola secundária suburbana.

Antes que estivesse suficientemente refeito da sua raiva para poder responder, o seu lar foi dominado pela súbita agonia da esposa.

Estivera adoentada durante meses. Gottlieb aconselhara-lhe um médico, mas ela recusara e fechara-se absurdamente com o seu medo de ter um cancro no estômago. Quando começou a vomitar sangue, gritou-lhe por auxílio. O Gottlieb que zombava dos credos médicos, dos "carpinteiros" e dos "negociantes de pílulas", esquecia-se do que sabia de diagnose e, quando estava doente, ele ou a sua família, apelava para o médico com tanto desespero como qualquer leigo do sertão, para quem a doença era negra maldade de diabos desconhecidos.

Com uma simplicidade inacreditável, julgou que, como a sua desavença com Silva não era pessoal, ainda podia chamá-lo e, desta vez, teve razão. Silva apareceu, cheio de uma benevolência excessiva, resmungando entre dentes: "Quando a coisa aperta, não se recorre a Arrenhius ou a Jackes Loeb, mas a mim! " O homenzinho levou ânimo ao modesto cottage, e Gottlieb fitou nele os olhos com confiança.

A Sr.a Gottlieb sofria. Silva deu-lhe morfina. Não foi sem satisfação que se certificou de que Gottlieb não sabia nem mesmo a dose. Examinou-a; as mãos gorduchas de Silva tinham a sensibilidade, se não a precisão, dos dedos esqueléticos de Gottlieb. Percorreu com o olhar o aposento sem ar; as sombrias cortinas verdes, o crucifixo na mesa pesada e baixa, a estampa a cores de uma rapariga de uma pureza voluptuosa. Aborreceu-o a impressão de que estivera recentemente no quarto. Recordou-se. Era igual à lúgubre alcova de um merceeiro alemão a quem conhecera numa visita médica, um mês antes.

Falou a Gottlieb, não como a um colega ou a um inimigo, mas como a um doente a quem é preciso reanimar.

- Não creio que haja uma massa de tumor. Como naturalmente o senhor sabe, doutor, pode-se afirmar isso pelas diferenças na forma do bordo inferior das costelas e pela superfície abdominal durante a respiração profunda.

- Ah, sim.

- Não me parece que tenha a menor razão para preocupar-se. Mas será conveniente enviá-la imediatamente para o Hospital da Universidade; dar-lhe-emos uma refeição de prova, faremos um exame de raio X, veremos se há germes de Boas-Oppler.

Pesada, inerte, levaram-na escada abaixo. Gottlieb acompanhou-a. Se a amava, ou não, se era capaz de uma afeição doméstica comum, não se poderia descobrir. A necessidade de apelar para o director Silva prejudicara a sua opinião sobre a própria ciência. Era a afronta final, mais subtil e mais deprimente do que a proposta para ensinar química a crianças. Sentado ao lado da cama da mulher, o seu rosto moreno estava pálido, e as rugas que cavavam aquela máscara talvez exprimissem dor, talvez exprimissem medo... Nem se sabe que atitude, através dos anos de segurança e de retiro, mostrara diante do crucifixo da esposa, que Silva observara furtivamente sobre a mesa- um vistoso crucifixo de gesso numa caixa incrustada de conchas douradas.

Silva diagnosticou o mal como uma provável úlcera gástrica e prescreveu um tratamento com refeições leves e freqüentes. Ela melhorou, mas ficou quatro semanas no hospital, enquanto Gottlieb perguntava a si próprio: "Não estarão esses médicos a enganar-nos? Não será de facto cancro, que de acordo com a sua arte mística me ocultam, de mim que de nada entendo?"

Privado da silenciosa e reconfortante presença de que dependera durante cada uma das suas noites cansadas, atormentava-se, com as filhas, desesperava com os seus ruidosos exercícios de piano e a sua incapacidade para dirigir a desordenada serviçal. Quando elas já se haviam recolhido, ficava sentado sob a luz pálida da lâmpada, sozinho, imóvel, sem ler. Estava desnorteado. O seu altivo eu dir-se-ia o de um barão prepotente caído nas mãos dos servos revoltados, vergando sob uma carga imunda, o olhar, dantes orgulhoso, agora resignado, e doente de desespero, decepada a mão que empunhava a espada, enquanto moscas obscenas se moviam pelo punho em chaga.

Foi nesta ocasião que encontrou Martin e Leora numa rua de Zenith.

Não voltou a cabeça quando passaram, mas toda aquela tarde pensou neles. "Aquela rapariga... talvez fosse ela quem roubou Martin a mim... à ciência! Não! Ele tinha razão. Eis o que acontece aos loucos como eu!"

No dia seguinte àquele em que Martin e Leora partiram para Wheatsylvania, cantando, Gottlieb foi a Chicago visitar a agência de professores.

A firma era dirigida por um Homem de Acção que fora anteriormente inspector escolar de condados. Não mostrou muito interesse. Gottlieb perdeu a paciência:

- O senhor faz esforços para encontrar empregos para professores ou expede simplesmente circulares para se divertir? O senhor não está informado sobre a minha vida? Sabe quem eu sou?

O agente berrou:

- Sim, senhor, sabemos quem o senhor é! Não o sabia quando lhe escrevi pela primeira vez, mas... O senhor parece ter bons títulos como homem de laboratório, embora não me pareça que tenha produzido qualquer coisa com a mínima utilidade em medicina. Tínhamos a intenção de lhe dar uma oportunidade, como o senhor ou quem quer que seja jamais terá. John Edtooth, o magnate do petróleo de Oklahoma, resolveu fundar uma universidade que, quanto a instalação, dotação e caracter próprio, baterá tudo quando já foi tentado em matéria de educação... o maior instituto de cultura física do Mundo, com um ex-jogador do Giant de Nova Iorque como técnico de baseball! Pensámos no senhor para a Bacteriologia ou a Fisiologia... acho que o senhor poderia tentar ensinar isso também, se quisesse dar-se ao trabalho. Mas tirámos algumas informações. De alguns bons amigos nossos que temos em Winnemac. E verificámos que não se lhe pode confiar um cargo de verdadeira responsabilidade. Pois eles não o despediram por incapacidade geral? Mas agora que o senhor levou uma lição... não acha que poderia ensinar Higiene Prática na Edtooth University?

Gottlieb ficou tão enraivecido que se esqueceu de falar em inglês, e, como todas as suas pragas saíram em gíria escolar alemã, numa voz seca e estridente, toda a cena tornou-se muito cômica para as estenógrafas e para o escriturário, que ria desassombradamente. Quando saiu daquele lugar, Max Gottlieb caminhava lentamente, sem propósito, e em seus olhos havia lágrimas senis.

 

Ninguém no mundo médico atacara mais sinceramente do que Gottlieb o mercantilismo de algumas grandes firmas fabricantes de drogas, em particular Dawson T. Hunziker & Co. Inc. de Pittsburgh. A Companhia Hunziker era uma velha e honesta casa, que só trabalhava com médicos conceituados, ou, praticamente, só para médicos conceituados. Fornecia excelentes vacinas para a difteria e para o tétano, assim como os mais puros dos preparados oficiais, com os rótulos mais simples e de aspecto mais oficial, em frascos escuros, de uma modéstia afectada. Gottlieb afirmara que eles produziam vacinas duvidosas, mas voltou de Chicago para escrever a Dawson Hunziker, dizendo que já não se interessava pelo magistério e que estava pronto a trabalhar para eles, durante metade do dia, se pudesse utilizar os seus laboratórios para pesquisas possivelmente importantes, durante o resto do tempo.

Quando expedira a carta, ficou a resmungar. Sem dúvida alguma não estava em juízo perfeito. "Educação! O maior departamento de cultura física do Mundo! Incapaz de responsabilidade. Não posso ensinar. Mas Hunziker rir-se-á de mim. Disse a verdade acerca dele e terei de... Meu Deus, que farei?"

Nesta quieta tempestade, enquanto as filhas assustadas o espreitavam do vão das portas, deslizou a esperança.

A campainha do telefone tocou. Ele não atendeu. À terceira e irascível chamada, levantou o auscultador e resmungou:

- Pronto, quem fala? Uma voz indolente e nasal:

- É M. C. Gottlieb?

- É o doutor Gottlieb!

- Hum, acho que é com o senhor. vou ligar. Querem falar-lhe de longa distância.

Em seguida:

- Professor Gottlieb? É Dawson Hunziker quem fala. De Pittsburgh. Meu caro amigo, teríamos muito prazer em tê-lo na nossa casa.

- Hem? Sim...

- Sei que criticou as casas que fabricam preparados... Sim, lemos eficientemente os recortes de jornais! Mas temos a impressão de que, quando o senhor se integrar aqui e compreender melhor o espírito desta velha Firma, se entusiasmará por ela. Mas... espero que não esteja a interrompê-lo.

Assim, através de algumas centenas de milhas, do gabinete azul e ouro da sua casa em Sewickley, Hunziker falava a Max Gottlieb, sentado na sua remendada poltrona, e Gottlieb respondia com voz áspera, num último esforço de dignidade:

- Não, de modo algum.

- Pois... temos prazer em oferecer-lhe cinco mil dólares por ano, para começar, e não haverá dúvidas quanto ao meio dia de que deseja dispor. Dar-lhe-emos todo o espaço e todos os técnicos e material de que necessitar, e o senhor trabalhará sem se preocupar connosco e fará o que julgar importante. A nossa única exigência é que, se o senhor descobrir qualquer produto que for de valor real para o Mundo, ficaremos com o privilégio de fabricá-lo, e se perdermos dinheiro com isso, não terá importância. Gostamos de ganhar dinheiro, quando podemos ganhá-lo honestamente, mas o nosso principal escopo é servir a Humanidade. Naturalmente, se os produtos derem lucro, teremos muito gosto em dar-lhe uma boa comissão. Agora, quanto a pormenores práticos...

 

Gottlieb, o inimigo placidamente virulento de todos os ritos religiosos, tinha um hábito de aparência religiosa.

Freqüentemente, ajoelhava-se perto da cama e deixava o espírito errar livremente. Isto era muito semelhante a uma oração, embora não houvesse uma invocação formal, nenhuma consciência de um Ser Supremo além de Max Gottlieb. Essa noite, quando se ajoelhou, as rugas do seu rosto contraído abrandaram-se, e ele meditou: "Fui um asno quando causticava os mercantilistas! Esse comerciante tem os pés no chão. O mais reles lojista vive mais na verdade do que um professor timorato!

Comer bem! Ser livre! Não ensinar imbecis! Du Heiliger!"

Mas Dawson Hunziker não ajustou a situação com um contrato.

 

Nas revistas médicas, a Dawson Hunziker Company publicou anúncios de página inteira, em caracteres refinados, anunciando que o Prof. Max Gottlieb, talvez o mais distinto imunologista do Mundo, passara a trabalhar na firma.

Na sua clínica de Chicago, certo Dr. Rouncefield murmurou, com um sorriso reprimido: "Eis em que se transformam esses superintelectuais. Perdoem-me, se pareço rir."

Nos laboratórios de Ehrlich e Roux, Bordet e Sir David Bruce, alguns homens angustiados lamentaram: "Como pôde o velho Max entregar-se a esse negociante de pílulas? Por que não se voltou para nós? Talvez não o tenha querido... Mas acabou-se. Voilà!"

No lugarejo de Wheatsylvania, em North Dakota, um jovem médico protestou para a esposa:

- Minha Nossa Senhora! Nunca julgaria isto possível! Max Gottlieb nas mãos daqueles patifes!

- Não me admiro! - disse-lhe a mulher. - Se ele se meteu em negócios, é porque tinha alguma boa razão para isso. Como te disse, ter-te-ia deixado se...

- E isso... - disse o médico com um suspiro. - Dar e perdoar. Muito aprendi com Gottlieb e sou-lhe grato... Tomara, Leora, que ele não tenha errado!

E Max Gottlieb, com os seus três filhos e uma mulher pálida e lenta, chegava à estação de Pittsburgh, arrastando uma miserável cesta de vime, uma trouxa de imigrante e um estojo de viagem de Bond Street. Lá do comboio, os seus olhos haviam passeado pelos altivos rochedos, pelo esplendor enevoado do rio, e o seu coração estava rejuvenescido. Ali havia um ardente espírito de iniciativa, e não as terras chatas e os chatos espíritos de Winnemac. À frente da estação, todos os humildes taxis pareciam acolhê-lo, radiantes, e ele avançou como um conquistador.

 

No edifício Dawson Hunzikcr, Gottlieb encontrou laboratórios como jamais imaginara, e, em lugar dos assistentes universitários, recebeu como auxiliar um especialista que já ensinara Bacteriologia, assim como três hábeis técnicos, um dos quais falava alemão. Foi recebido com aclamações, no gabinete particular de Hunziker, o qual se assemelhava notavelmente a uma pequena catedral. Hunzikcr era calvo e comercial, quanto ao crânio, mas, quanto aos olhos, era sentimental e usava óculos de aro de tartaruga. Ficou de pé junto da sua mesa estilo Jaime l, deu a Gottlieb um charuto de Havana e disse-lhe que o haviam esperado com uma impaciência anelante.

Na enorme sala de jantar do pessoal, Gottlieb encontrou dezenas de químicos e biólogos competentes e jovens que o trataram com reverência. Simpatizou com eles. Se falavam demasiado em dinheiro, em quanto uma nova tintura de cinchona renderia e no próximo aumento dos seus salários, estavam, por outro lado, livres das pompas cuidadas dos lentes catedráticos. Na sua mocidade, o jovem Max, com o seu barrete inclinado, fora um homem alegre, e agora, durante discussões acaloradas, as suas risadas reapareceram.

A mulher parecia melhor; Míriam encontrou um excelente professor de piano; o jovem Robert matriculou-se na Universidade, naquele Outono; ocupavam uma casa espaçosa, embora velha; a libertação da inevitável rotina do curso, com o seu zunzum e a repetição anual, causava-lhe alegria; e Gottlieb jamais trabalhou com tão boa disposição na sua vida. Não tomava conhecimento de nada mais, além do laboratório, alguns teatros e salas de concerto.

Passaram-se seis meses, antes que Gottlieb compreendesse que os jovens assistentes técnicos se ressentiam com o que ele considerava joviais estocadas no seu mercantilismo. Estavam cansados dos seus entusiasmos matemáticos e alguns deles consideravam-no um velho importuno, chamando-lhe o judeu, quando se referiam a ele. Gottlieb sentiu-se, pois gostava de mostrar-se alegre com os companheiros de trabalho. Começou a fazer perguntas e a explorar o edifício Hunziker. Nada conhecia dele, além do laboratório, um ou dois corredores, a sala de jantar e o gabinete de Hunziker.

Embora distraído e pouco prático, Gottlieb teria dado um excelente Sherlock Holmes, se é que as pessoas capazes de serem excelentes Sherlock Holmes desejam tornar-se detectives. O seu espírito atravessava as aparências, atingindo a realidade. Descobriu que a Dawson Hunziker Company era exactamente tudo quanto ele afirmara em tempos. Faziam-se ali excelentes vacinas e preparados científicos, mas produzia-se também um novo "remédio para o cancro" manufacturado com orquídeas, pontificalmente recomendado, e que possuía todo o valor da lama. E vendiam a diversas empresas, que se ocupavam com a beleza feminina e afixavam cartazes de propaganda, milhões de frascos de um creme garantido para dar à tez de um guia índio do Canadá a alvura lilial dos anjos. Este tesouro saía por seiscents a garrafa e era vendido no balcão a um dólar, mas o nome de Dawson Hunziker nunca aparecia relacionado com ele.

Foi nessa época que Gottlieb conseguiu realizar a sua grande obra, depois de vinte anos de busca. Produziu antitoxina na proveta, o que queria dizer que seria possível a imunização contra certas doenças, sem fazer lentamente os séruns pela inoculação de animais. Era uma revolução, a revolução, em imunologia... se não estivesse enganado.

Revelou-o num jantar para o qual Hunziker capturara um general, um reitor de Universidade e um pioneiro da aviação. Foi um jantar comunicativo, com um admirável vinho do Reno, o primeiro vinho alemão autêntico que Gottlieb bebia após muitos anos. Girou afectuosamente o delgado copo verde; saiu dos seus sonhos e ficou excitado, alegre, curioso. Aplaudiram-no, e, durante uma hora, foi um Grande Cientista. De todos eles, Hunziker foi o mais generoso nos louvores. Gottlieb ficou a imaginar se não fora algum vil artifício que levara este bom careca a misturar-se com negociantes de artigos de beleza.

Hunziker mandou-o chamar, no dia seguinte, ao seu gabinete. Hunziker fazia convocações correctíssimas (a não ser que se tratasse de chamar uma simples estenógrafa). Enviou um brilhante secretário, com o seu traje de manhã, o qual apresentou os cumprimentos do Sr. Hunziker ao muito menos brilhante Dr. Gottlieb, e sugeriu, com a delicadeza de um botão de lírio, que, se fosse perfeitamente conveniente, se em nada alterasse as experiências do Dr. Gottlieb, o Sr. Hunziker teria muito gosto em vê-lo no seu gabinete, às três horas e um quarto.

Quando Gottlieb apareceu, Hunziker desembaraçou-se do secretário e arrastou uma alta cadeira espanhola.

- Fiquei acordado metade da noite a pensar na sua descoberta, Dr. Gottlieb. Estive a conversar com o director técnico e o gerente de vendas, e achamos que chegou o momento de agir. Tiraremos patente do seu método de sintetizar os anticorpos e imediatamente os colocaremos no mercado em grandes quantidades, com uma campanha de publicidade em grande escala... nada, bem entendido, de reclame de circo... apenas anúncios de alta classe, estritamente de acordo com a ética. Começaremos com o sérum antidiftérico. A propósito, quando o senhor receber o seu próximo cheque verificará que aumentámos os seus honorários para sete mil dólares por ano. - Hunziker ronronava agora como um gordo gatinho, e Gottlieb estava imóvel como um morto. - Não é preciso dizer, meu caro, que se houver a procura que eu prevejo, o senhor receberá óptimas comissões!

Hunziker recostou-se na poltrona, com ar de quem diz: "Então, que é a glória diante disto, rapaz?"

Gottlieb falou nervosamente:

- Acho que não se deve tirar patente de processos serológicos. Devem ficar à disposição de todos os laboratórios. E sou fortemente contrário à produção, ou mesmo a uma publicação prematura. Penso que estou no caminho certo, mas devo verificar a minha técnica, talvez melhorá-la... adquirir a certeza. Depois, penso que não haverá objecções à produção para o mercado, mas em quantidades muito pequenas e em leal concorrência com os outros, não debaixo de patentes, como se isto fosse um brinquedo para o comércio do dia de Natal!

- Meu caro amigo, compreendo-o perfeitamente. Pessoalmente, prefiriria passar toda a minha vida a produzir apenas quase de graça uma descoberta científica, sem consideração para com o simples lucro. Mas temos para com os accionistas da Dawson Hunziker Company o dever de ganhar dinheiro para eles. O senhor não compreende que eles... e muitos são pobres viúvas e órfãos... que eles inverteram as suas economias em acções nossas, e que devemos corresponder-lhes? Nada posso; sou apenas o humilde criado deles. E, noutra ordem de idéias: penso que o temos tratado muito bem, Dr. Gottlieb, que lhe temos dado liberdade completa. E pretendemos continuar a tratá-lo bem! Depois, meu amigo, o senhor ficará rico; será um dos nossos! Não gosto de fazer exigências, mas, neste ponto, o meu dever é insistir, e espero que o senhor, o mais cedo possível, começará a fabricar...

Gottlieb tinha sessenta e dois anos. A derrota de Winnemac afectara-lhe a coragem... E não tinha contrato com Hunziker.

Protestou debilmente, mas, quando se arrastou para o seu laboratório, parecia-lhe impossível abandonar este santuário e enfrentar o mundo agitado e assassino, tão impossível como tolerar uma imitação barata e ineficaz da sua antitoxina. Começou, naquela hora, uma baixa estratégia que o orgulhoso Gottlieb dos velhos tempos teria achado impossível; começou a enganar, a adiar a comunicação e a produção até que "esclarecesse alguns pontos", enquanto, semana a semana, Hunziker se mostrava mais ameaçador. E, ao mesmo tempo, preparava-se para o desastre. Mudou a família para uma casa menor, e privou-se de todos os luxos, mesmo de fumar.

Entre as suas economias, incluiu a redução da mesada do filho.

Robert era um rapaz de ombros quadrados, moreno, tempestuoso, arrogante onde parecia não haver razão para arrogância, desejado pelas jovens do tipo anêmico e pálido, das quais, porém, sempre desdenhava. Ao passo que o pai alternadamente se mostrava orgulhoso e amavelmente sardónico para com o próprio sangue judeu, o rapaz fazia-se passar na Universidade como tendo puro sangue alemão, provavelmente nobre. Era aceito cordialmente, ou mais ou menos cordialmente, numa roda de automobilistas, jogadores de póquer, sócios de um country-club, e precisava de mais dinheiro. Gottlieb achou falta de vinte dólares na sua secretária. Ele, que ridicularizava a honra convencional, tinha a honra, assim como tinha o orgulho, de um selvático e velho proprietário de terras. Uma nova miséria manchou-lhe a amargura incessante da necessidade de iludir Hunziker. Enfrentou Robert com esta pergunta:

- Meu filho, tiraste dinheiro da minha mesa?

Poucos jovens poderiam ter arrostado aquela saliência do seu nariz aquilino, aqueles olhos cavados que a raiva enchia de estrias vermelhas. Robert gritou, explodiu:

- Sim, tirei! E preciso de mais ainda. Preciso de comprar roupa e outras coisas. A culpa é tua. Puseste-me com um grupo de camaradas que têm todo o dinheiro do mundo e esperas agora que eu ande vestido como um vagabundo!

- Roubando...

- Roubando? Bolas... Estás sempre a fazer troça desses pregadores que falam sobre o Pecado, a Verdade, a Honestidade e todas essas palavras que foram tão usadas que já não significam coisa alguma... Isso pouco me importa! Daws Hunziker... o filho do velho... disse-me que podias ser milionário, e engaiolas-nos nisto, com a mãe doente... Queres saber de uma coisa? Lá em Mohalis a mãe costumava passar-me um par de dólares todas as semanas e... Estou cansado disto! Se pretendes conservar-me esfarrapado, deixo a Universidade!

Gottlieb esbravejou, mas não havia força na sua ira. Em toda a quinzena seguinte, não soube que ia fazer o filho, que ia fazer ele próprio.

Depois, tão brandamente que só o compreenderam quando haviam voltado do cemitério, sua esposa morreu, e, na semana seguinte, a filha mais velha fugiu com um sujeito que ria a propósito de nada e vivia do jogo.

Gottlieb, solitário, sentou-se. Leu e releu o Livro de Job. "Em verdade o Senhor me feriu e feriu a minha casa", murmurou. Quando Robert entrou, murmurando que se tornaria bom, o velho ergueu para ele um rosto cego e surdo. Mas, enquanto repetia as fábulas de seus pais, não lhe ocorreu acreditar nelas, nem rojar-se, tomado de medo, perante aquele Deus de Cólera, nem conseguir a tranqüilidade permitindo a Hunziker profanar a sua descoberta.

Levantou-se à hora habitual e dirigiu-se em silêncio para o laboratório. As suas experiências foram realizadas com o mesmo cuidado de sempre, e os assistentes não notaram mudança alguma, a não ser que ele não almoçou no salão. Percorreu vários quarteirões, em busca de um restaurante ordinário, onde poderia poupar trinta cents por dia.

Da névoa que obscurecia as pessoas em torno dela, Miriam emergiu.

Tinha dezoito anos, era a mais nova de todos, gorducha, e nada tinha de gracioso, excepto a boca delicada. Sempre se orgulhara do pai, compreendendo as misteriosas e absurdas obrigações da sua ciência, mas, até agora, sentira quando ele andava pesadamente e falava de raro em raro. Abandonou as lições de piano, despediu a criada, estudou o livro de cozinheira e preparou-lhe as gordas ri tu rãs de que ele gostava. O seu pesar era não ter aprendido alemão, porque ele, de vez em quando, recaía na língua da sua adolescência.

Ele olhou-a por um momento, e disse-lhe:

- Então! Um está comigo. Serias capaz de suportar a pobreza se eu me fosse embora... ensinar química numa escola secundária?

- Sim. Naturalmente. Talvez possa tocar piano num cinema.

Não poderia ter tomado aquela atitude sem a lealdade dela, e, quando Dawson Hunziker apareceu na próxima vez, no seu laboratório, dizendo: "Escute. Já esperámos bastante. Precisamos de lançar o seu trabalho no mercado", Gottlieb respondeu-lhe: "Não. Se o senhor esperar até que eu tenha feito tudo quanto puder... talvez um ano, provavelmente três... eu lha entregarei. Mas não a terá enquanto eu não tiver a certeza. Não."

Hunziker retirou-se altivamente e Gottlieb preparou-se para a sentença.

Depois, levaram-lhe o cartão do Dr. A. DeWitt Tubbs, director do McGurk Institute of Biology, de Nova Iorque.

Gottlieb já ouvira falar de Tubbs. Nunca visitara o McGurk, mas considerava-o, depois do Rockefeller e do McCormick, a organização mais sã e livre para a pesquisa científica pura no país, e se imaginara um laboratório celeste onde bons cientistas poderiam passar a eternidade em pesquisas felizes e totalmente especulativas, tê-lo-ia idealizado à semelhança do McGurk. Era-lhe agradável que o seu director viesse visi tá-lo.

O Dr. A. DeWitt Tubbs era tremendamente peludo, em todos os sítios visíveis, excepto o nariz, as fontes e as palmas das mãos, rente mas apaixonadamente peludo, como um terrier escocês. Todavia, não eram pêlos cômicos; eram os pelos da dignidade; e os seus olhos eram sérios, o passo grave, a voz uma solenidade de alto grau.

- Doutor Gottlieb, tenho grande prazer. Ouvi as suas comunicações à Academia das Ciências, mas, em meu prejuízo, não consegui até aqui ser-lhe apresentado.

Gottlieb procurava não parecer embaraçado, Tubbs olhou para os assistentes, como um conspirador numa peça política e insinuou:

- Poderemos conversar...

Gottlieb conduziu-o ao seu gabinete, que dava para um grande tumulto de trilhos curvos, desvios e vagões pardos de carga, e Tubbs voltou ao ataque:

- Chegou ao nosso conhecimento, por um curioso acaso, que o senhor se encontra nas vésperas da sua descoberta mais significativa. Ficámos todos admirados, quando o senhor deixou a actividade acadêmica, e da sua decisão de entrar para o campo comercial. Desejámos então que nos tivesse procurado.

- Os senhores ter-me-iam admitido? Não era necessário então ter vindo para cá?

- Naturalmente! Pelo que sabemos agora, o senhor não dá atenção ao lado comercial das coisas, e isto tenta-nos a procurar saber se o senhor não poderia ser persuadido a reunir-se a nós no McGurk. De sorte acabo de saltar de um comboio e correr até aqui. Teríamos muito gosto em vê-lo tornar-se membro do Instituto, e chefe do Departamento de Bacteriologia e Imunologia. O Sr. McGurk e eu nada desejamos senão o avanço da ciência. O senhor teria, naturalmente, absoluta liberdade com relação à escolha das pesquisas a que achasse melhor dedicar-se, e penso que poderíamos fornecer-lhe um pessoal e um material tão bom como o que se possa obter em qualquer parte do Mundo. com relação a salário... permita que me torne comercial e talvez rude, pois o meu comboio parte dentro de uma hora... creio que não possamos atingir os honorários sem dúvida largos que a casa Hunziker lhe dispensa, mas podemos chegar até dez mil dólares por ano...

- Oh, pelo amor de Deus, não me fale de dinheiro! Estarei com o senhor em Nova Iorque dentro de uma semana, a contar de hoje. O senhor compreende - disse Gottlieb - não tenho contrato aqui!

 

Durante toda a tarde, rodaram no cabriolé sacolejante, através das longas ondulações do prado. Nenhuma barreira havia ao seu girar, nem lago nem montanha nem localidades eriçadas de fábricas, e a brisa em torno levava o calor do Sol.

Martin gritou para Leora:

- Tenho a impressão de que toda a poeira de Zenith e as gazes do hospital foram lavadas dos meus pulmões. Dakota. Uma terra de verdade para o homem. Fronteira. Oportunidade. América!

Da erva espessa voavam filhotes de galos silvestres. Enquanto os observava por cima do trigo, o seu espírito entorpecido pelo Sol tornava-se parte da grande terra, e ele sentia-se quase liberto da impaciência com que saíra de Wheatsylvania.

- Se vão sair de carro, não se esqueçam de que o jantar é às seis horas em ponto - dissera a Sr.a Tozer, sorrindo, para açucarar a recomendação.

Na Rua Principal, o Sr. Tozer acenou-lhes e gritou:

- Estejam de volta às seis. O jantar é às seis em ponto.

Bert Tozer saiu a correr do Banco, como um mestre-escola rural que salta do único compartimento da escola, e cacarejou:

- Olhem, é melhor vocês não se esquecerem de estar de volta às seis, para o jantar, senão o velho terá um ataque. Esperará por vocês para jantar às seis horas em ponto, e quando ele diz seis horas em ponto, quer dizer seis horas em ponto, e não cinco minutos depois das seis!

- Isto tem graça - observou Leora - porque, nos vinte e dois anos que morei em Wheatsylvania, lembro-me apenas de três vezes em que o jantar foi servido sete minutos depois das seis. Vamos sair daqui, Sandy... Teremos feito bem, sob o pretexto de fazer economias, em vir morar com a família?

Antes de escaparem dos limites não muito extensos de Wheatsylvania, passaram por Ada Quist, a futura Sr.a Bert Tozer, e, através do ar sereno, ouviram-lhe a voz cortante:

- É bom voltarem às seis.

Martin costumava mostrar-se heróico.

- Arre! Voltaremos quando nos der na cabeça! - disse a Leora. Mas em ambos havia o medo cumulativo dos comentários azedos; sobre todas as suas alegres perspectivas, estava a ordem: "Voltem às seis em ponto"; e tocaram os cavalos para chegar às seis menos onze minutos, quando o Sr. Tozer voltava da fábrica de lacticínios, exactamente trinta segundos mais cedo que de costume.

- Estou satisfeito por vê-los entre nós - disse ele. - Apressem-se agora e ponham esse cavalo na cocheira. O jantar é às seis, em ponto!

Martin sobreviveu suficientemente a isto para parecer doméstico, quando anunciou à mesa:

- Demos um passeio formidável. vou gostar disto aqui. Bem, já vadiei durante dia e meio, e agora toca a trabalhar. A primeira coisa é encontrar um local para o meu consultório. Que há para alugar, Pai Tozer?

A Sr.a Tozer disse vivamente:

- Oh! Tenho uma boa idéia, Martin. Por que não instalamos o consultório no celeiro? Ficaria tão bom para a família, pois chegaria a horas para as refeições e poderia cuidar da casa se a criada saísse e Ory e eu fôssemos fazer alguma visita ou fôssemos ao Círculo do Bordado.

- No celeiro!

- Pois então? Naquele compartimento dos arreios. Tem uma parte forrada e poderíamos cobrir as paredes com um bonito papel ou mesmo com cartolina.

- Mãe Tozer, que diabo a senhora pensa que pretendo fazer? Não sou um criado de cocheira nem um garoto em busca de um lugar para esconder os ovos de passarinho! Trato de abrir um consultório de médico!

Bert interveio, persuasivo:

- Pois sim, mas ainda não é um médico completo. Apenas meteu os pés no assunto.

- O diabo me leve se não sou um médico! Desculpe a minha maneira de falar. Mãe Tozer, mas... Então não passei noites no hospital, com centenas de vidas na minha mão? Pretendo...

- Escuta, Mart - disse Bertie. - Como nós é que entramos

Com o dinheiro... não quero ser um unhas de fome, mas afinal de contas um dólar é um dólar... se somos nós que fornecemos a massa, cabe-nos resolver sobre a melhor maneira de empregá-la.

O Sr. Tozer parecia pensativo e disse, desanimado:

- É isso. Não é prudente correr riscos, quando os danados desses granjeiros exigem todo o dinheiro que podem pelo trigo e pela nata, e depois voltam descansadamente a trabalhar, sem pagar os juros dos seus empréstimos. Palavra que não vale a pena inverter dinheiro em hipotecas. Não é prudente arcarmos com novas despesas. Salta aos olhos que pode tratar a garganta doente de um homem ou receitar para uma dor de ouvidos tão bem num consultório pequeno, simples e limpo, como numa sala toda bem arranjada como um salão de dança. A Mãe arranjará um canto confortável no celeiro...

Leora atalhou:

- Olha, pai. Quero que nos emprestes mil dólares, simplesmente, para que os empreguemos como melhor nos parecer. - A sensação foi enorme. - Nós pagar-te-emos seis por cento... não... pagaremos cinco; é o bastante.

- Mas as hipotecas rendem seis, sete e oito! -gorjeou Bert.

- Cinco basta. E queremos absoluta liberdade quanto à maneira de gastar... montar o consultório e tudo o mais.

O Sr. Tozer começou:

- É um modo leviano de... Bert tomou-lhe a dianteira:

- Ory, estás louca! Acho que teremos de emprestar algum dinheiro a vocês, mas terão de vir a nós buscá-lo por partes e terão de vir a nós para uns conselhos...

Leora ergueu-se.

- Ou fazes o que digo, exactamente como digo, sem tirar nem pôr, ou Mart e eu tomamos o primeiro comboio e voltamos para Zenith, é o que tenho a dizer! Há uma porção de lugares abertos para ele, com bons salários, de modo que não precisamos de depender de ninguém!

A discussão prosseguiu longamente, mas sem grandes variações. Em dado momento, Leora dirigiu-se à escada, a fim de subir e fazer as malas; em outro momento, Martin e ela agitaram os guardanapos enquanto sacudiam os punhos, assemelhando-se notavelmente ao grupo com o de Laocoonte.

Leora venceu.

Passaram então à mais refrigerante das discussões:

- Trouxeste a tua mala do depósito? - perguntou o Sr. Tozer.

- É um absurdo deixar as coisas lá... custa vinte e cinco cents o dia de armazenagem! - exclamou dramaticamente Bert.

- Trouxe-a hoje de manhã - disse Martin.

- De facto, Martin mandou buscá-la hoje de manhã - concordou a Sr.a Tozer.

- Mandou buscá-la. Não quis trazê-la? - gemeu o Sr. Tozer.

- Não. Mandei o empregado que cuida do depósito de madeira trazê-la - disse Martin.

- Valha-nos Deus! Podia muito bem pô-la num carrinho de mão e trazê-la, poupando um quarto de dólar! - disse Bert.

- Mas um médico tem de manter uma aparência de dignidade - disse Leora.

- Ora, aparência de dignidade! Há mais dignidade em ser visto a empurrar um carrinho de mão do que em passar o dia a fumar cigarros imundos!

- Enfim, de qualquer forma... Onde a colocou? - perguntou o Sr. Tozer.

- Está lá em cima, no nosso quarto - disse Martin.

- Onde achas melhor colocá-la quando estiver vazia? O sótão está cheio - consultou o Sr. Tozer à Sr.a Tozer.

- Acho que Martin conseguirá metê-la lá.

- Por que não a coloca no celeiro?

- Credo, uma mala nova e bonita como aquela!

- E por que não pode ser no celeiro? - disse Bert. - É um lugar limpo e seco. É uma vergonha deixar vazio todo aquele excelente espaço do celeiro, depois que vocês resolveram que ele não pode abrir ali o seu precioso consultório!

De Leora:

- Bertie, sei o que faremos. Pareces ter o celeiro no crânio. Muda o teu velho Banco para lá e Martin montará o seu consultório no Banco.

- Isso é inteiramente diferente...

- Escutem; não acho bonito que vocês estejam a atenazar-se - protestou o Sr. Tozer. - Já ouviram alguma vez sua mãe e eu a discutir e a arranhar-se dessa forma? Quando pensas desarrumar a mala, Mart?

O Sr. Tozer sabia considerar celeiros e sabia considerar malas, porém o seu cérebro não era capaz de considerar ao mesmo tempo dois assuntos tão complicados.

- Posso desarrumá-la esta noite, se isso tem importância...

- Bem, acho que isso realmente não tem nenhuma importância especial, mas, quando a gente começa a fazer uma coisa...

- Mas que diferença faz se ele...

- Se ele vai procurar uma sala, em vez de aproveitar o celeiro, não pode levar um mês de férias para desfazer a mala e...

- Minha Nossa Senhora! Faço isso hoje à noite...

- E acho que podemos colocá-la no sótão...

- Já disse que está muito apertado...

- Vamos dar uma olhadela por lá depois do jantar...

- Ora, quando tentei guardar lá aquele bote de caçar patos...

Martin provavelmente não gritou, mas julgou que havia gritado. A terra livre e viril estava léguas além, e esquecida por muitos anos.

 

A procura de um local para o consultório preencheu uma quinzena de diplomacia e de uma discussão que estimulava três refeições diariamente. (Não é que a procura do consultório fosse a única coisa discutida pelos Tozers. Eles penetravam a fundo em cada momento do dia de Martin; comentavam a sua digestão, a correspondência, os passeios, os sapatos que precisavam de conserto, e se ele ainda não os levara ao sapateiro da granja, e quanto custaria o conserto, e a teologia, política e relações conjugais presumíveis do sapateiro.)

O Sr. Tozer, desde o começo, sabia qual era o perfeito consultório. Os Norbloms moravam por cima do seu armazém geral e o Sr. Tozer sabia que os Norbloms pensavam em mudar-se. Na verdade, não havia nada que tivesse acontecido ou estivesse para acontecer em Wheatsylvania que o Sr. Tozer não soubesse e não explicasse. A Sr.a Norblom estava cansada de cuidar da casa e queria ir para a pensão da Sr.a Beeson (quarto da frente, à direita de quem segue ao longo do corredor de cima, o quarto que tem as paredes de estuque e a linda estufazinha que a Sr.a Beeson comprou a Otto Krag por sete dólares e trinta e cinco cents... não, sete e um quarto é que foi).

Foram à residência dos Norbloms e o Sr. Tozer sugeriu que "seria excelente para o Doutor instalar-se sobre o armazém, se é que os Norbloms pensavam em mudar-se..."

Os Norbloms entreolharam-se, com um olhar longo, claro, cauteloso, escandinavo, e balbuciaram que "não sabiam... naturalmente era o melhor lugar da cidade..." O Sr. Norblom confessou que se, contra todas as probabilidades, eles viessem a pensar em mudar-se, provavelmente pediriam vinte e cinco dólares de aluguel mensal pelo andar, sem mobília.

O Sr. Tozer saiu da conferência internacional tão astutamente satisfeito como qualquer Sr. Ministro Tozer ou Lord Tozer, em Washington ou Londres:

- Esplêndido! Esplêndido! Nós levámo-lo a comproineter-se! Vinte e cinco, diz ele. Isto significa que, quando chegar o momento, lhe oferecemos dezoito e fecharemos por vinte e um dólares e setenta e cinco cents. Se o manobrarmos com cuidado, dando-lhe tempo para procurar a Sr.a Beeson e regular com ela o preço da pensão, tê-lo-emos justamente onde o queremos!

- Bem. Mas se os Norbloms não se decidem, precisamos tentar por outro lado - disse Martin. - Há duas salas desocupadas por trás da redacção do Eagle.

- O quê? Continuar a procurar depois de darmos aos Norbloms motivos para pensarem que fizemos um oferecimento sério e transformá-los em inimigos para o resto da vida? Seria uma bela maneira de começar a formar clientela, não achas? E devo dizer que não censuraria os Norbloms por um só instante se ficassem furiosos por deixá-los de lado dessa forma. Isto aqui não é Zenith, onde com um grito se podem obter as coisas em dois minutos!

Durante uma quinzena, enquanto os Norbloms prolongavam aflitivamente a decisão de fazer o que havia muito tempo tinham decidido fazer, Martin esperou, sem poder iniciar o seu trabalho. Enquanto não abrisse um consultório legítimo e legal, a maior parte dos habitantes do lugarejo não o consideraria um médico autêntico, mas "esse genro do Andy Tozer". Durante a quinzena, só foi chamado uma vez: para a enxaqueca de Miss Agnes Inglebland, tia e governanta da casa do barbeiro Alec Inglebland. Ficou satisfeitíssimo até ao momento em que Bert Tozer explicou:

- Ah, sim? Então ela chamou-o? Anda sempre atrás dos médicos. Não tem coisa alguma, mas experimenta sempre o último que aparece. Da última vez, foi um sujeito que apareceu aqui a vender pílulas e linimentos num Ford, e antes desse foi um médico que curava pela fé, um doido que se estabeleceu perto da Fundição do Holandês, e em seguida consultou um osteopata de Leopolis... e sempre direi que há qualquer coisa nisso da osteopatia... eles curam uma porção de gente que vocês, médicos oficiais, não conseguem esclarecer, não acha?

Martin declarou que não achava.

- Oh, vocês, os médicos! "- Bert forçou a sua maneira mais jovial, pois Bert sabia ser muito jocoso e cintilante. - Vocês são todos semelhantes, especialmente quando acabam de sair da escola e julgam saber tudo. Não podem ver nada de bom na quiroprática, nem nos cintos eléctricos, nem nos algebristas, nem em coisa alguma, porque vos tiram bons dólares.

Eis que o Dr. Martin Arrowsmith, que outrora enfurecera Angus Duer e Irving Watters com o seu sarcasmo para com os standards médicos, ergueu contra este Bert Tozer, que lhe arreganhava gostosamente a dentuça, a benevolência e o conhecimento científico de todos os médicos; proclamou que jamais remédio algum fora receitado em vão (pelo menos por qualquer diplomado de Winnemac) e que jamais qualquer operação fora desnecessariamente realizada.

Via agora Bert muitas vezes. Ia para o Banco, sentava-se, à espera de ser chamado para um caso, com os dedos a ansiarem por um penso. Ada Quist aparecia com freqüência e Bert punha de lado os seus cálculos para lhe falar de modéstia:

- Deves ter cuidado mesmo com o que pensas, quando o doutor estiver aqui, Ada. Ele esteve a contar-me uma quantidade de coisas de neurologia e dessa história de penetrar a alma alheia, que ele conhece. Não é isso, Mart? Fiquei tão assustado que até mudei a combinação do cofre.

- Hum! - disse Ada. - Ele pode troçar de outros mas não de mim. Toda a gente pode ler coisas nos livros, mas, quando chega a vez de praticá-las... Fique sabendo, Mart, que se algum dia possuir um décimo do saber que o velho Dr. Winter de Leopolis tem, viverá mais do que eu espero!

Ambos frisaram que, para uma pessoa que se julgava, pelos seus estudos em Zenith, "um colosso com o direito de levantar o nariz para nós, pobres, ignorantes e sujos campónios", a gravata de Martin estava mal posta.

Bert repetiu ao jantar todas as suas finuras de espírito e parte das de Ada.

- Não deves troçar tanto do rapaz. Essa da gravata está muito boa... mas talvez Mart se ressinta - declarou o Sr. Tozer, com um riso abafado.

Leora chamou Martin à parte, depois do jantar.

- Querido, podes suportar isto? Logo que pudermos, alugaremos a nossa própria casa. Ou achas que devemos escapulir-nos?

- Qual! vou agüentar!

- Hum... Não sei. Mas, olha, quando atacares Bert, faze-o com cuidado... eles são capazes de te enforcar.

Martin dirigiu-se lentamente para o vestíbulo. Resolveu examinar os compartimentos situados atrás da redacção do Eagle. Sem um refúgio onde estivesse fora do alcance de Bert, não poderia suportar outra semana. Não podia esperar que os Norbloms tomassem a sua resolução, embora se tivessem transformado em figuras temíveis e eternas, cuja inimizade o esmagaria; deuses prodigiosos que obscureciam esta Wheatsylvania, que era o único mundo perceptível.

Percebeu na frouxa claridade do crepúsculo, que um homem, vacilante estava a espreitá-lo. Caminhava no passeio de tábuas, diante da casa. O homem era certo Wise, um judeu russo conhecido no lugar como "Wise, o polaco". Vendia, na sua barraca, próxima do caminho de ferro, acções de minas de prata e de fábricas de automóveis, comprava e vendia fazendas, cavalos e peles de ratão. Gritou:

- É o senhor, o Doe?

- Em pessoa!

Martin ficou alvoraçado. Um cliente!

- Escute, queria que o senhor viesse dar uma volta comigo. Tenho umas coisas para lhe falar. Pode também ir até minha casa experimentar uns charutos novos que me chegaram.

Sublinhou a palavra "charutos". North Dakota era, como Mohalis, teoricamente "seca".

Martin alegrou-se. Há tanto tempo que se mantinha "seco" e a trabalhar duramente!

A loja de Wise era uma barraca de um pavimento, regularmente edificada, a meia quadra da Rua Principal, separada dos trigais, que se estendiam além, junto ao caminho de ferro. Era de pinho, cujo aroma se sentia por entre o cheiro desagradável e activo de um velho tabaco para cachimbo. Wise piscou um olho - era um homenzinho dado a confidencias e deslealdades - e murmurou:

- Acha que pode agüentar um copinho do melhor bourbon de Kentucky?

- Bah, acho que não ficarei demasiado violento.

Wise baixou os estores ralos; e, de uma gaveta empenada da escrivaninha tirou uma garrafa de que ambos beberam, limpando a boca da garrafa com um movimento circular da palma da mão. Depois, abruptamente, disse:

- Olhe, Doe. O senhor não é como estes brutamontes; o senhor compreende que, às vezes, um camarada se mete sem querer em negócios embrulhados. Mas... para encurtar uma história comprida, acho que empurrei acções mineiras de mais e em breve eles andarão por aí atrás de mim. Tenho de me raspar... é o diabo... pensava ficar estabelecido aqui por uns dois anos, desta vez. Mas... ouvi dizer que o senhor anda à procura de um consultório. Este lugar seria ideal. Ideal! Duas divisões nas traseiras além desta. Alugo-lhe tudo, móveis e o resto, por quinze dólares mensais, se o senhor me pagar um ano adiantado. E é preto no branco. Seu cunhado conhece tudo a respeito dos meus títulos de proprietário.

Martin procurou mostrar-se comercial. Pois não era um jovem médico que em breve teria dinheiro no Banco, um dos cidadãos abastados de Wheatsylvania? Voltou para casa e, sob a lâmpada da sala, com as suas margaridas verdes no vidro cor-de-rosa, os Tozers escutaram atentamente. Bert inclinara-se para ele, de boca aberta.

- Não correrias risco alugando a casa por um ano, mas não é esse o ponto - disse Bert.

- Claro que não é! Atirar-nos contra os Norbloms, agora que eles devem estar quase resolvidos a ceder a casa? Isso seria fazer-me passar por tolo, depois de todos os incômodos que tive! - resmungou o Sr. Tozer.

Moeram e remoeram o assunto quase até às dez horas, mas Martin manteve-se firme e, no dia seguinte, alugou a barraca de Wise.

Pela primeira vez na vida teve um canto inteiramente seu. Seu e de Leora.

No seu orgulho da posse, a barraca era o edifício mais senhorial da terra, e todas as suas pedras, ervas e trincos eram especiais e interessantes. Ao pôr do Sol, sentou-se no banco das traseiras (uma caixa de sabão, muito interessante e ainda não inteiramente quebrada) e, do horizonte em chamas, o campo raso, através da estreita faixa de caminho de ferro, estendia-se-Lhe até aos pés. De repente, Leora apareceu a seu lado, enlaçou-lhe o pescoço e ele cantou toda a glória do seu futuro:

- Sabes o que encontrei ali na cozinha? Uma pua velha, mas excelente, quase sem ferrugem, e posso fazer agora, com uma caixa, uma estante para provetas... uma estante minha!

 

Sem nenhuma das observações profanas acerca de "médicos negociantes" que haviam aborrecido a Digamma Pi, Martin estudou o catálogo da Companhia de Instrumentos e Mobiliários Médicos A Nova Idéia, de Jersey City. Era uma coisa primorosa. Na lustrosa capa verde, em vermelho e negro, estavam os retratos do presidente, um homem gordo e zombeteiro, que gostava de todos os médicos jovens; o gerente-geral, um homem cadavericamente catedrático que, decerto, dedicava todas as suas laboriosas noites e dias ao progresso da ciência; e o vice-presidente, antigo lente de Martin, o Dr. Roscoe Geake, que apresentava uma vivacidade própria, de óculos, directa. A capa continha também, num espaço surpreendentemente pequeno, uma quantidade de prosa poética e a inspiradora promessa:

Doutor, não imite os tímidos. Não há razão para que lhe falte a instalação que impressiona os doentes, facilita o exercício da Medicina e acarreta honras e riquezas. Todo o material de alta classe que distingue os Mestres da Profissão, dos Errados, está ao seu alcance agora mesmo, graças ao famoso Sistema de Financiamento A Nova Idéia: "Apenas uma pequena entrada e o resto DE GRAÇA, isto é, a pagar com o aumento de lucros que os aparelhos A Nova Idéia lhe trarão!"

Acima, à margem de uma coroa de louros e versais jónicas, estava a oferenda:

Não mais canteis a glória dos soldados, dos exploradores ou dos estadistas. Só o médico é verdadeiramente sábio, heróico, e incontaminado pela ambição comum. Senhores, nós os saudámos humildemente e aqui lhes oferecemos o catálogo mais completo já apresentado por qualquer casa de aparelhamento cirúrgico.

A capa posterior, embora menos esplêndida, verde e vermelha, era igualmente comovedora. Apresentava ilustrações da Instalação de Amigdalectomia Bindledorf e de um gabinete eléctrico, com a pergunta:

O doutor está a remeter os seus clientes para especialistas que lhes operem as amígdalas ou para sanatórios onde se submetem a tratamento eléctrico, etc. Se assim é, perde a oportunidade de mostrar-se um dos factores poderosos no domínio do progresso médico na sua localidade e perde óptimos honorários. Não QUER ser um profissional de alta classe? Eis a porta que se abre!

A Instalação Bindledorf não é só útil; é uma beleza esquisita, adorna e transforma qualquer consultório num consultório de classe. Garantimos que, pela montagem de uma Bindledorf e de um Gabinete Electroterapêutico Panaceático A Nova Idéia (ver os pormenores nas págs. 34 e 97) o senhor pode aumentar o seu rendimento de mil para dez mil dólares, anualmente, e satisfazer os clientes melhor do que com o tratamento mais consciencioso.

Quando soar a sua hora, doutor, e for a sua vez de receber a recompensa, ficará satisfeito com um grande funeral maçónico e com os tributos dos clientes gratos, se não houver acumulado um pecúlio para os filhos e para a esposa fiel que partilhou as suas atribulações?

O senhor pode atravessar as nevadas e o calor de Agosto, e descer ao vale de lágrimas manchado de púrpura, e lutar com as Potências das Trevas enroladas em seus mantos de ébano pela vida dos seus clientes, mas esse heroísmo é incompleto sem o Progresso moderno, que se obtém com o uso de uma instalação para Amigdalectomia Bindledorf e o Gabinete Panaceático A Nova Idéia, adquiríveis com uma pequena entrada e o resto pago nas condições mais fáceis já conhecidas na história da Medicina!

 

Martin deixou de lado esta poesia apaixonada, pois a sua opinião sobre a poesia era semelhante à sua opinião sobre os gabinetes eléctricos, mas encomendou, entusiasmado, uma mesinha de aço, um esterilizador, frascos, provetas e um engenho esmaltado de branco com fascinantes alavancas e engrenagens que o transformavam de cadeira de exame em mesa de operações. Enterneceu-se diante da fotografia de um centrifugador, enquanto Leora admirava a "estonteante sala de espera, de sete peças de carvalho negro, estofada com legítima Imitação de Couro de Barcelona, que dará ao seu consultório a classe e a distinção do consultório de qualquer especialista de alto grau de Nova Iorque".

- Hum... Podem sentar-se em cadeiras vulgares- resmungou Martin.

No sótão, a Sr.a Tozer descobriu velhas cadeiras em número bastante para a sala de espera e um antigo armário para livros que, depois de Leora o ter forrado com papel franjado, cor-de-rosa, ficou transformado num nobre armário de instrumentos. Enquanto a cadeira de exame não chegasse, Martin usaria o encaroçado sofá de Wise, e Leora diligentemente o cobriu com oleado branco. Por detrás da sala da frente da pequena loja, havia dois exíguos compartimentos, que serviam, antes, de quarto de dormir e cozinha. Martin transformou-os em sala de consultório e laboratório. Assobiando, serrou pequenas estantes para os frascos e transformou o forno de um abandonado fogão a petróleo num forno a ar quente, para esterilização.

- Mas olha, Lee, não vou brincar às pesquisas científicas. Estou farto de tudo isso.

Leora sorriu inocentemente. Enquanto ele trabalhava, ela ficava sentada na erva densa, aspirando a brisa do campo, as mãos nos tornozelos, mas a cada quarto de hora tinha de entrar e admirar.

O Sr. Tozer trouxe para casa um embrulho, à hora do jantar. A família abriu-o, entre comentários. Depois do jantar, Martin e Leora correram com o novo tesouro para o consultório e pregaram-no em seu lugar. Era uma chapa de vidro com o letreiro "Dr. Arrowsmith". Ficaram a olhá-lo, abraçados, dando alegremente pequenos gritos. com respeito, Martin murmurou:

- Palavra! Parece mentira!

Sentaram-se no banco das traseiras, exultantes com a sua libertação dos Tozers. Ao longo do caminho de ferro, matraqueava um comboio de carga com alegre ranger. O fogueiro acenou-lhes da máquina, e um guarda-freios, da plataforma do carro vermelho do chefe de comboio. Depois do comboio, apenas os grilos e uma rã distante ficaram a perturbar o silêncio.

- Nunca me senti tão feliz - murmurou Martin.

 

Trouxera de Zenith o seu estojo cirúrgico Ochsner. À medida que ia tirando os instrumentos, admirava o bisturi fino, afiado, brilhante, o forte tenótomo, as delicadas agulhas curvas. com eles, havia um boticão. O Tio Silva advertira os discípulos: "Não se esqueçam de que o médico rural tem freqüentemente de ser não apenas médico, como também dentista, sim, e sacerdote, especialista em divórcios, ferreiro, chauffeur e engenheiro de estradas, e se os senhores tiverem as mãos muito finas para essas tarefas não saiam da vizinhança de uma linha de eléctricos e de um salão de beleza." E o primeiro cliente que Martin recebeu no novo consultório, o segundo cliente em Wheatsylvania, foi Nils Krag, o carpinteiro, com um dente cariado que o fazia urrar. Foi uma semana antes da placa de vidro, e Martin disse alvoroçado de alegria a Leora:

- Já começou! Verás agora que eles começarão a chover aqui.

Não choveram. Durante dez dias, Martin remexeu no forno a ar quente ou ficou sentado à sua mesa, lendo e procurando parecer ocupadíssimo. A sua primeira alegria transformou-se em mau humor, ante o silêncio, a inactividade; sentiu vontade de gritar.

Ao fim de certa tarde, quando se preparava, com uma atitude melancólica, para voltar para casa, entrou na sala, batendo os pés, um agricultor sueco, grisalho. Resmungou:

- Doe, finquei um anzol no dedo polegar e está todo inchado.

Para o Arrowsmith, estagiário no Hospital Geral de Zenith, com um banco onde compareciam centenas de doentes por dia, o penso de uma mão teria sido menos importante do que pedir emprestado um fósforo, mas para o Arrowsmith de Wheatsylvania era uma operação febril, e o agricultor uma pessoa notável e muito interessante. Martin apertou-lhe a mão esquerda com violência e disse-lhe vivamente:

- E se houver alguma coisa, é só telefonar-me... é só telefonar-me.

Pareceu-lhe que houve um afluxo de respeitosos clientes, suficientes para justificar a única coisa pela qual Leora e ele suspiravam, a coisa sobre a qual cochichavam à noite: a compra de um automóvel para os passeios ou as visitas: as chamadas no campo.

Tinham visto o carro no armazém de Frazier.

Era um Ford, com cinco anos de idade, estofo rasgado, um motor teimoso e molas feitas por um ferreiro que jamais fizera molas. Depois do arquejar do motor a gasolina da fábrica de lacticínios, o som mais conhecido em Wheatsylvania era o que fazia Frazier ao bater com a porta do seu Ford. Batia com ela violentamente, ao chegar ao armazém e, ordinariamente, tinha de fechá-la três vezes, antes de chegar a casa.

Mas, para Martin e Leora, quando, trêmulos, compraram o carro, três pneumáticos novos e uma buzina nova, era o veículo mais impressionante da Terra. Era deles; podiam ir aonde desejassem e quando desejassem.

Durante as férias de Verão num hotel canadiano, Martin aprendera a dirigir o camião Ford que trazia os passageiros da estação, mas, quanto a Leora, era a primeira aventura. Bert fizera-lhe tantas recomendações que ela se recusara a dirigir o Overland da família. Quando, pela primeira vez, ela se sentou diante do volante, quando moveu o acelerador de mão com o dedo mínimo e sentiu nas mãos todo aquele poder, aquela magia que lhe permitia andar tão rapidamente como desejasse (dentro de limites bem claros), colocou-se acima da força humana, sentiu que podia voar como os gansos silvestres - e enterrou a máquina numa faixa de areia.

Martin tornou-se o chauffeur-demónio da localidade. Acompanhá-lo no carro queria dizer segurar o chapéu, fechar os olhos, esperar a morte. Acelerava nas esquinas, para torná-las mais interessantes. A vista de qualquer coisa no caminho, desde outro automóvel até um cão amarelo, despertava nele um frenesi que só podia dominar acelerando e tomando a dianteira. O lugarejo adorava isto e comentava: "O jovem Doe é um volante." E esperava, com amável interesse, ouvir a notícia da sua morte. É possível que metade da primeira dúzia de clientes que afluíram ao consultório estivessem apenas atacados de medo das suas correrias... e que o resto o procurou porque não havia nada grave a consultar e ele estava mais próximo do que o Dr. Hesselink, de Groningen.

 

Com os seus primeiros admiradores, Martin criou os seus primeiros inimigos.

Quando encontrava os Norbloms na rua (e em Wheatsylvania é difícil não encontrar na rua, em cada dia, todos os habitantes) trocavam olhares ferozes. Depois, indispôs-se com Pete Yeska.

Pete Yeska tinha o que ele chamava um drug store, uma loja dedicada à venda de bombons, soda, preparados farmacêuticos, papel mata-moscas, revistas, máquinas de lavar e acessórios para automóveis Ford, mas Pete morreria de fome se não fosse também agente dos correios. Dizia-se farmacêutico licenciado, mas aviava tão mal as receitas que Martin irrompeu na loja e falou-lhe de cima para baixo.

- Vocês, médicos novatos, aborrecem a gente - disse Pete.

- Eu já aviava receitas quando você estava no berço. O doutor antigo, que estava sempre aqui, enviava tudo para mim. O jeito como faço as coisas satisfaz-me, e não vou alterá-lo por sua causa ou de qualquer outro doutorzinho.

Depois disto, Martin teve de comprar ingredientes em St. Paul, com os quais encheu o seu pequeno laboratório, e passou a preparar as suas próprias pílulas e pomadas, olhando com certa saudade para as provetas raramente usadas e para a poeira que se acumulava sobre a redoma do microscópio, enquanto Pete Yeska se reunia aos Norbloms, para murmurar:

- Esse doutor novo não presta. É melhor continuar com Hesselink.

A semana fora tão vazia, tão inútil, que, quando ouviu a campainha do telefone na residência dos Tozers, às três da madrugada, acorreu como se estivesse à espera de uma mensagem de amor.

Uma voz rouca e trêmula:

- Quero falar com o doutor.

- Sim, sim. É ele quem fala.

- Aqui é Henry Novak, quatro milhas para nordeste, na estrada de Leopolis. Minha filhinha Mary está com a garganta horrivelmente inflamada. Acho que pode ser crupe e ela está muito abatida e... O senhor pode vir imediatamente?

- Ora essa! vou já.

Quatro milhas... percorrê-las-ia em oito minutos.

Vestiu-se rapidamente, saiu arrastando a velha manta parda, e deixou Leora radiante com a primeira chamada nocturna. Virou furiosamente a manivela do Ford, passou, trepidando e roncando, pela estação e entrou nos campos de trigo. Quando percorrera seis milhas segundo o velocímetro, diminuindo a marcha a cada caixa rural de correspondência, para ler o nome do proprietário, compreendeu que estava perdido. Tomou pelo caminho de uma granja e parou debaixo dos salgueiros, com o farol projectado sobre uma porção de vasilhas de leite amassadas, rodas partidas de ceifeiras, lenha serrada e caniços. Do celeiro saltou um monstruoso cão lanudo, que ladrava furiosamente, pulando contra o carro.

Uma cabeça desgrenhada surgiu de uma janela do rés-do-chão.

- Que deseja? - gritou uma voz aguda escandinava.

- Aqui é o Doutor. Onde é que mora Henry Novak?

- Ah! O Doutor! O Dr. Hesselink?

- Não! O Dr. Arrowsmith.

- Ah! O Dr. Arrowsmith. De Wheatsylvania? Ahn. O senhor está perto da casa. Tem de voltar uma milha e dobrar à direita, perto da casa de tijolos da escola e andar mais umas quarenta varas para cima... a casa tem um silo de cimento. Tem então alguém doente na casa de Henry?

- Sim, sim. A menina está com crupe... obrigado...

- Sempre pela direita. Não pode errar. Provavelmente, ninguém que haja ouvido o horrível "não

pode errar" deixou jamais de errar.

Martin manobrou o Ford, raspando num picado cepo de carniceiro; matraqueou estrada acima, enveredou por aquele lado da escola em vez deste, correu meia milha ao longo de um trilho pantanoso entre pastagens e parou diante de uma casa. No surpreendente fundo de silêncio, ouviam-se vacas ruminando, e um cavalo ergueu para ele, na escuridão, a cabeça espantada. Teve de despertar a casa com selvagens guinchos da buzina, e um camponês irritado, que berrou: "Quem está aí? Cuidado que estou com uma espingarda! " - fê-lo recuar para a estrada.

Passavam quarenta minutos da hora do telefonema, quando enveredou por um caminho cheio de sulcos e viu, na escada da porta, contra a luz do lampião, um homem meio agachado, que lhe gritou:

- O doutor? Sou Novak.

Encontrou a menina num quarto recém-construído, de paredes caiadas, pálidas portas e tecto de pinho envernizado. Apenas uma cama de ferro, uma cadeira, um cromo de Sant'Ana e um candeeiro sem quebra-luz sobre a raquítica mesinha quebravam as tintas novas do aposento, um prolongamento recente da granja. Uma mulher de ombros fortes estava ajoelhada junto da cama. Quando ela ergueu o rosto vermelho e molhado, Novak disse, persuasivo:

- Não chores mais; ele está aqui! - E para Martin: - A pequena está muito mal, mas nós fizemos tudo quanto podíamos. A noite passada e esta, aplicámos-lhe vapor à garganta e trouxemo-la para o nosso próprio quarto!

Mary era uma criança de sete ou oito anos. Martin verificou que os lábios e as pontas dos dedos estavam azuis, mas no rosto não havia vermelhidão. No esforço para expirar, retorcia-se penosamente, expelindo em seguida saliva salpicada de manchas acinzentadas. Martin, preocupado, tirou o termômetro e deu-lhe uma sacudida segundo o estilo profissional.

Era, pensou, crupe laríngeo ou difteria. Provavelmente difteria. Não havia tempo agora para um exame bacteriológico, para culturas e para uma precisão retardativa. Silva, o clínico prático, encheu o quarto, expulsando Gottlieb, o inumano amante da perfeição. Martin inclinou-se nervosamente sobre a criança que estava na cama desarranjada, tacteando-lhe, abstracto, o pulso. Sentia-se desamparado, sem o material do Hospital Geral de Zenith, as suas enfermeiras e o parecer seguro de Angus Duer. Experimentou um súbito respeito pelos solitários médicos rurais.

Tinha de tomar uma decisão, irrevogável, talvez perigosa. Usaria antitoxina diftérica. Mas certamente não podia obtê-la na casa de Pete Yeska, em Wheatsylvania.

Leopolis?

- Ligue depressa o telefone para Blassner, o farmacêutico de Leopolis - disse a Novak, tão calmamente quanto pôde. Imaginou Blassner atravessando a noite com o seu carro para entregar respeitosamente a antitoxina ao Doutor. Enquanto Novak berrava ao telefone rural, na sala de jantar, Martin esperava esperava olhos fitos na criança: a Sr.a Novak esperava que ele fizesse milagres; a agitação e o rouco arquejar da criança tornaram-se horríveis; e as notórias paredes, as notórias linhas das portas amarelo-pálido causavam-lhe uma modorra vizinha do sono hipnótico. Era demasiado tarde para qualquer coisa, excepto a antitoxina ou a traqueotomia. Deveria operar, abrir a traqueia-artéria, de modo que ela pudesse respirar? Levantou-se, inquieto; mergulhou numa sonolência e sacudiu-se para despertar. Tinha de fazer alguma coisa, diante da mãe ajoelhada ali, de boca aberta para ele, e que começava a mostrar sinais de dúvida.

- Aqueça uns panos... toalhas, guardanapos... e enrole-os no pescoço dela. Por que cargas de água ele não consegue aquela ligação? - disse, impaciente.

Quando a Sr.a Novak, arrastando as chinelas espessas, entrou com os panos quentes, Novak apareceu e declarou desanimadamente:

- Não está ninguém a dormir na farmácia e a linha da casa de Blassner não atende.

- Então, escute. Receio que isto seja grave. Preciso arranjar antitoxina. vou buscá-la a Leopolis. Continuem com estas aplicações quentes e... Era bom que tivéssemos um pulverizador. E o quarto deve ficar mais húmido. Tem um fogareiro a álcool? Deixem uma vasilha com água a ferver aqui. Nada de remédios. Estarei de volta imediatamente.

Percorreu as vinte e quatro milhas até Leopolis em trinta e sete minutos. Nem uma só vez diminuiu a velocidade nos cruzamentos da estrada. Desafiou as curvas, os obstáculos atravessados na estrada, embora sempre um ponto escuro no seu espírito temesse o estouro de um pneu e uma derrapagem. A velocidade, o abandono de toda a cautela, despertavam nele um estado de júbilo; era um desafogo estar solitário sob o ar frio, depois da tensão da vigília atenta da Sr.a Novak. No seu espírito, durante todo o percurso, estava a página de Osler sobre a difteria, a própria representação gráfica das palavras: "Em casos graves, a primeira dose deve ser de 8000..." Não. Sim, sim: "... de 10000 a 15 000 unidades."

Recobrou a confiança. Agradeceu ao deus da ciência a antitoxina e o motor a gasolina. Era, pensou ele, uma corrida com a morte.

- vou ganhá-lo... vou vencer e salvar a pobrezinha! - disse, jubiloso.

Aproximou-se de uma passagem de nível e investiu, indiferente à possibilidade de ser esmagado por algum comboio. Ouviu um silvo devorador, viu uma luz deslizar sobre os trilhos e travou. Diante dele, a dez pés das rodas dianteiras do carro, lançava-se o expresso de Seattle como um vulcão volante. O fogueiro metia carvão na fornalha e, mesmo à primeira e frouxa claridade do alvorecer, a vermelhidão da fornalha era sinistra sob o turbilhão de fumo. Instantaneamente, a aparição desfez-se e Martin ficou a tremer, mãos trêmulas sobre o volante, o pé trêmulo no travão, como se dançasse a dança de S. Vito. "Minha Nossa Senhora! ", murmurou, e pensou numa Leora viúva, abandonada aos Tozers. Mas a visão da menina Novak, lutando terrivelmente a cada respiração, dominou tudo mais. "Raio! Afoguei o motor! " - resmungou. Saltou por cima da portinhola, virou a manivela e irrompeu em Leopolis.

Para Crynssen County, Leopolis, com os seus quatro mil habitantes, era uma metrópole, mas na quietude aflitiva da alvorada era um exíguo cemitério: a rua principal, uma extensão arenosa; as lojas baixas, desoladas como choças. Encontrou um lugar em movimento; no frio escritório do Dakota Hotel, o porteiro jogava o póquer com o chauffeur do autocarro e o polícia da cidade.

Ficaram surpreendidos com a sua entrada histérica.

- Médico Arrowsmith, de Wheatsylvania. Uma criança está a morrer de difteria. Onde mora Blassner? Suba para o meu carro e mostre-me onde é.

O polícia era alto, magro e velho, tinha o colete aberto e flutuante sobre uma camisa sem colarinho, as calças amarrotadas, os olhos resolutos. Guiou Martin a casa do droguista, bateu com o pé na porta, e, com o rosto magro e hirsuto levantado para a fria claridade da madrugada, berrou:

- Ed! Oh! Venha cá!

Ed Blassner resmungou na janela de cima. Para ele, morte e médicos alvoroçados constituíam uma pequena novidade. Enquanto enfiava as calças e o casaco, fazia um discurso à esposa sonolenta sobre as dores dos droguistas e sobre o seu desejo -de mudar-se para Los Angeles e comprar terras. Mas tinha antitoxina da difteria na loja e Martin, dezasseis minutos depois de escapar de ser morto por um comboio, rodava apressado para a casa de Henry Novak.

 

A menina ainda estava viva quando entrou bruscamente na casa.

Durante todo o percurso de volta, vira-a morta e rígida. Murmurou: "Graças a Deus! " e, zangado, pediu água quente. Já não era o embaraçado doutorzinho, mas o sábio e heróico médico que vencera a corrida com a morte, e nos olhos rústicos da Sr.a Novak, na obediência nervosa de Henry, leu o seu poder.

Rápida, suavemente, deu uma injecção intravenosa da antitoxina e ficou na expectativa.

A respiração da menina não se alterou a princípio, quando se engasgava no esforço para expelir o ar. Houve um gorgolejar, uma luta em que o seu rosto escureceu, depois imobilizou-se. Martin fitou o olhar, incrédulo. Lentamente, os Novaks começaram a carregar o semblante, levando as mãos trêmulas à boca. Lentamente, compreenderam que a criança morrera.

No hospital, a morte tornara-se indiferente e natural para Martin. Dissera a Angus, ouvira enfermeiras dizerem umas às outras, desportivamente: "Olha, o cinqüenta e sete esticou agora mesmo." Agora, desesperava-o o desejo de fazer o impossível. Ela não podia estar morta. Ele ia tentar alguma coisa... Sem parar, murmurava: "Eu devia ter operado... Eu devia." Tão insistente era o pensamento que, por instantes, não compreendeu que a Sr.a Novak gritava: "Ela está morta? Morta?"

Acenou com a cabeça, temendo enfrentar o olhar da mulher.

- O senhor matou-a, com essa agulha! E não dizer nada à gente para que a gente pudesse chamar o padre!

Martin esgueirou-se por entre as lamentações e a mágoa do homem, e dirigiu-se para casa, com o coração vazio. "Nunca mais exercerei a clínica" - reflectia.

- Acabou-se - disse a Leora. - Não sirvo. Devia ter operado.

Não poderei encarar as pessoas, quando souberem disto. Acabei. vou arranjar emprego num laboratório... no Dawson Hunziker ou nalgum outro lugar.

Foi salutar o azedume com que ela protestou:

- És o homem mais orgulhoso que já se viu! Pensas que és o único médico que perdeu um doente? Sei que fizeste tudo quanto era possível.

Mas continuou, no dia seguinte, a torturar-se, e a sua tortura aumentou quando o Sr. Tozer ganiu durante o jantar:

- Henry Novak e a mulher estiveram na cidade hoje. Eles dizem que devias ter-lhe salvo a filha. Porque não prestaste mais atenção a esse caso? Devias ter dado um jeito e salvar a criança. Isto não me agrada nada, pois os Novaks têm bastante influência entre esses agricultores gringos.

Depois de uma noite em que a preocupação não lhe permitiu dormir, Martin partiu repentinamente no seu automóvel para Leopolis.

Ouvira, dos Tozers, elogios quase religiosos ao Dr. Adam Winter, de Leopolis, um homem de quase setenta anos, o médico pioneiro de Crynssen County, e agora voava para este sábio. Enquanto percorria a estrada, zombava furiosamente da sua melodramática corrida com a morte, e foi com aborrecimento que entrou na poeirenta Rua Principal. O consultório do Dr. Winter ficava por cima de um armazém de secos e molhados, numa longa fileira de lojas de tijolos de um vermelho-vivo, enfeitadas com uma cornija egípcia... de estanho. A penumbra da ampla sala de espera era agradável depois do calor e da incandescência da campina. Martin teve de esperar que três respeitáveis clientes fossem recebidos pelo Dr. Winter, um homem encanecido, com uma voz simpática de baixo, antes de ser admitido na sala de consultas.

A cadeira de exame tinha uma superioridade duvidosa sobre a que fora outrora usada por Doe Vickerson, de Elk Mills, e a esterilização era evidentemente feita numa bacia, mas a um canto havia uma instalação electroterapêutica com mais clectródios e coxins do que Martin jamais vira.

Contou a história dos Novaks e Winter gritou:

- O quê, doutor, o senhor fez tudo quanto podia fazer e mais ainda! Só lhe digo que, da próxima vez, num caso grave, convém chamar algum médico mais velho em conferência... não é que precise conselho dele, mas isso impressiona bem a família, divide a responsabilidade e impede-os de criticar a gente. Eu. freqüentemente tenho a honra de ser chamado por alguns dos meus colegas mais jovens. Espere. um momento. vou telefonar ao director da Gazette, para dar-lhe um apanhado do caso.

Depois de telefonar, o Dr. Winter esfregou as mãos com entusiasmo. Apontou o aparelhamento eléctrico.

- Já comprou uma destas coisas? Deve comprar, meu rapaz. Não é que eu a use com freqüência... a não ser com os maníacos que nada têm com isso... mas olhe, o senhor surpreender-se-ia com o que isto impressiona o povo... Muito bem, doutor, seja bem-vindo em Crynssen County. É casado? Não quereria vir com sua esposa jantar connosco num domingo destes? A Senhora Winter terá muito prazer em conhecê-los. E se algum dia puder ser-lhe útil numa conferência... Cobro apenas um pouco mais do que os meus honorários habituais, mas causa muito bom efeito discutir o caso com um médico mais velho.

De volta para casa, Martin caiu numa exaltação vã e perversa: "Aposto que vou continuar! Na pior das hipóteses, nunca farei as coisas tão mal como esse velhote fanhoso, sugador de honorários!"

Duas semanas depois, o Wheatsylvania Eagle, um untuoso jornaleco de quatro páginas, informava:

O nosso operoso confrade Leopolis Gazette assim se referiu na pretérita semana a um dos nossos munícipes, que recente e cordialmente acolhemos no nosso meio:

"O Dr. M. Arrowsmith, de Wheatsylvania, tem sido cumprimentado, segundo nos informou o valoroso pioneiro da Medicina no condado, Dr. Adam Winter, pela fraternidade médica de todo o vale do rio Pony, pois não existe ocupação nem profissão onde se aprecie mais desinteressadamente as virtudes dos confrades do que os srs. médicos, pela coragem e iniciativa que ele recentemente demonstrou, ao lado da sua capacidade científica.

Sendo chamado para atender a filhinha do conhecido agricultor Henry Novak, domiciliado perto de Delft, e encontrando a pequerrucha à morte com difteria, fez uma desesperada tentativa para salvá-la, trazendo pessoalmente antitoxina do estabelecimento de Blassner, o nosso popular droguista, que tinha em stock um fornecimento fresco, recém-chegado. Fez o percurso no seu carro a gasolina, cobrindo a distância total de 48 milhas em 79 minutos.

Afortunadamente, o nosso sempre alerta mantenedor da ordem, Joe Colby, estava no seu posto de serviço e ajudou o Dr. Arrowsmith a encontrar o bungalow do Sr. Blassner, na Red River Avenue, e este cavalheiro abandonou o leito solicitamente e forneceu ao médico o artigo necessitado, mas infelizmente a criança já estava muito mal para ser salva; mas são estes incidentes de denodo e presença de espírito, bem como de saber, que tornam a profissão médica uma das nossas maiores bênçãos."

Duas horas após a publicação disto, Miss Agnes Ingleblad apareceu para uma nova consulta sobre os seus inexistentes padecimentos, e dois dias depois Henry Novak apareceu, dizendo com orgulho:

- Pois é, Doe, nós todos fizemos tudo quanto pudemos pela pobrezinha, mas acho que me demorei muito a chamá-lo. A mulher está muito agoniada. Ela e eu lemos aquele artigo no Eagle, sobre o caso. Mostrámos ao padre. E olhe, Doe, queria que o senhor visse o meu pé. Apanhei uma espécie de dor reumática no tornozelo.

 

No fim de um ano de prática da medicina em Wheatsylvania, Martin era um médico rural sem notoriedade, mas não estava desanimado. No Verão, Leora e ele iam, no automóvel, ao Pony River, onde merendavam e nadavam com muito ruído, borrifos e imodéstia; durante o Outono, ele ia caçar patos com Bert Tozer, que se tornava quase tolerável quando se encontrava, ao pôr do Sol, numa faixa de terra entre duas entradas de um rio; e, quando o Inverno isolava o lugarejo num deserto de neve, onde o Sol não chegava, faziam corridas de trenó, jogavam as cartas, freqüentavam festas nas igrejas.

Quando apareciam clientes, Martin achava-os belos nas suas necessidades e paciente obediência. Uma ou duas vezes, perdeu a serenidade com uns joviais aldeãos que, generosamente, lhe explicaram que aparentava menos idade do que podia ter; uma ou duas vezes, bebeu demasiado whisky em partidas de póquer, na sala das traseiras do Armazém da Cooperativa; mas ficou conhecido como digno de confiança, capaz e honesto... e, em linhas gerais, era um pouco menos notável do que o barbeiro Alec Ingleblad, menos próspero que o carpinteiro Nils Krag, e menos interessante para os vizinhos do que o finlandês da garagem.

Depois, um acidente e um erro fizeram-no famoso doze milhas em redor.

Num dia de Primavera, fora pescar. Quando passou por certa casa rural, uma mulher saiu a correr, gritando que o filho engolira um dedal e ia morrer sufocado. O instrumento cirúrgico de Martin era um grande canivete de mola. Afiou-o na pedra de amolar do agricultor, esterilizou-o numa chaleira, operou a garganta da criança e salvou-lhe a vida.

Todos os jornais do vale do rio Pony publicaram a notícia e, passada esta sensação, ele curou Miss Agnes Ingleblad do seu desejo de ser curada.

Ela conseguira manter as mãos frias e a circulação lenta, e Martin foi chamado à meia-noite. Martin estava tonto de sono, em conseqüência de duas viagens por estradas lamacentas, e no seu torpor deu-lhe uma dose excessiva de estricnina, que lhe causou tamanho choque e estímulo que resolveu ficar boa. A mudança foi tão violenta que ela se tornou mais interessante do que no tempo de inválida: o povo já então achava apenas um escasso prazer nos seus sintomas. Começou a louvar Martin e todo o lugarejo dizia: "Ouvi dizer que esse Doe Arrowsmith é o único médico que Agnes consultou que conseguiu alguma coisa dela."

Reuniu uma clientela pequena, segura e de maneira alguma notável. Leora e ele mudaram-se da residência dos Tozers para uma casinha com uma sala de visitas e de jantar que ostentava uma estufa niquelada sobre um linóleo brilhante, novo, cheiroso, e um aparador de carvalho dourado com uma fosforeira, lembrança do lago Minnetonka. Ele comprou um pequeno aparelho de raios Roentgen; e fizeram-no um dos directores do Banco Tozer. Viu-se bastante ocupado para não sentir saudade dos seus dias de pesquisas científicas, que nunca haviam existido, e Leora suspirava:

- É uma coisa feroz a gente ser casada. Esperava ter de seguir-te pelas estradas e andar suja, mas nunca esperei ser um Pilar da Comunidade. Mas sou muito preguiçosa para procurar outro marido. Previno-te apenas de uma coisa: quando fores superintendente da Escola Dominical, não penses que vou tocar órgão e sorrir aos finos gracejos que fizeres sobre o facto de Willy não ter aprendido a lição da semana.

 

Assim, Martin tropeçou na respeitabilidade.

No Outono de 1912, quando o Sr. Debs, o Sr. Roosevelt, o Sr. Wilson e o Sr. Taft faziam a campanha presidencial, quando Martin Arrowsmith morava em Wheatsylvania havia ano e meio, Bert Tozer transformou-se num booster1 proeminente.

 

Homem dinâmico que dá impulsos a um movimento, a uma empresa, a uma cidade; progressista. (N. do T.)

 

Voltou da convenção estadual dos Modern Woodmen of America com idéias. Diversas cidades haviam enviado delegações de boosters à convenção, e o lugarejo de Groningen organizara um cortejo de cinco automóveis, cada um deles com um enorme galhardete: "Groningen dos Homens Brancos e da Terra Negra."

Bert, no regresso, proclamou que todos os automóveis da cidade deviam usar um galhardete relativo a Wheatsylvania. Comprara trinta e colocou-os à venda no Banco, a setenta e cinco cents cada um. Este preço, explicava Bert a quem quer que entrasse no Banco, era exactamente o preço de custo; e só se afastava onze cents da verdade. Correu para Martin e exigiu que ele fosse o primeiro a exibir o galhardete.

- Não admito uma parvoíce dessas no meu carro - protestou Martin. - Mas que idéia é essa?

- Que idéia? Fazer propaganda da tua cidade, naturalmente!

- Mas propaganda de quê? Achas que isto fará que os outros acreditem que Wheatsylvania é uma metrópole como Nova Iorque ou Jimtown, simplesmente por pendurar um farrapo cheio de pó num calhambeque em segunda mão?

- Nunca mostraste nem sombra de patriotismo! Pois fica sabendo, Mart, que se não andares com a bandeirola, providenciarei para que todos na cidade reparem nisso!

Enquanto os outros raquíticos carros da localidade anunciavam ao Mundo, ou pelo menos a algumas milhas quadradas do Mundo, que Wheatsylvania era a "Cidade Maravilha do Centro do Dakota do Norte", o barulhento Ford de Martin andava nu; e quando o seu inimigo Norblom observava: "Gosto de ver uma pessoa mostrar certo espírito público e dar valor ao lugar de onde tira o seu dinheiro" - o auditório meneava a cabeça, cuspia e começava a duvidar da fama de Martin como autor de milagres.

 

Ele tinha íntimos - o barbeiro, o director do Eagle, o homem da garagem - aos quais falava descuidadamente sobre as caçadas e sobre as colheitas, e com quem jogava póquer. Talvez tivesse demasiada intimidade com eles. Crynssen County tinha a teoria de que era perfeitamente admissível que um jovem profissional tomasse de vez em quando um copo, desde que o fizesse em segredo e o compensasse mostrando o seu zelo pelo clero da zona. Mas, com o clero, Martin era seco, e nunca ocultava o copo nem o póquer.

Se se aborrecia com o sermão do ministro dos Irmãos Unidos sobre doutrina, sobre a maldade do cinema e sobre a escandalosa remuneração dos padres, não era porque fosse um jovem distante e supersensitivo, mas porque achava mais sabor nas piadas cheias de sal do homem da garagem sobre a arte de lembrar ao parceiro que não completara a mesa, no póquer.

Por todo o estado, havia afamados jogadores de póquer, homens de aparência rústica, com rostos impassíveis, homens que se sentavam em mangas de camisa, a mascar tabaco; homens cuja observação mais longa era "Passo" e que se deliciavam em despojar o caixeiro-viajante endinheirado e condescendente. Quando corriam notícias da iminência de "uma boa roda", os parceiros do condado iam aparecendo em silêncio para o trabalho: o agente de máquinas de costura de Leopolis, o empresário de pompas fúnebres de Vanderheide's Grove, o contrabandista de St. Luke, o rubicundo gordo de Melody que não tinha profissão conhecida.

Certa vez (os homens ainda falam disso com satisfação, por todo o vale), jogaram durante setenta e duas horas ininterruptas, no escritório da garagem de Wheatsylvania. Esta fora uma cocheira de aluguel; estava cheia de arreios e longos chicotes, e o cheiro de cavalo misturava-se com as emanações da gasolina.

Os parceiros revezavam-se e às vezes dormiam no chão, uma ou duas horas, mas nunca eram menos de quatro à mesa de jogo. O fedor de cigarros fracos e baratos e de charutos fortes e baratos flutuava em torno da mesa como um espírito maligno; por toda a parte, no chão, havia pontas de cigarro ou charutos, fósforos, cartas velhas e garrafas de whisky. Entre os guerreiros, estavam Martin, o barbeiro Alec Inglebad e um engenheiro de estradas, todos eles em camisa de flanela, sem se mexerem durante horas inteiras, baralhando as cartas, olhos oblíquos e distraídos.

Quando Bert Tozer soube do caso, temeu pela boa fama de Wheatsylvania e a todos murmurava acerca do mau comportamento de Martin e da sua própria paciência. Aconteceu assim que, quando Martin estava no apogeu da sua prosperidade e crédito, como médico, ao longo do vale do rio Pony, circularam cochichos de que era um jogador, de que era um bêbedo, de que nunca ia à igreja; e todos os devotos glosavam a lamentação: "É uma lástima ver um rapaz honesto como aquele assim desencaminhado."

Martin era tão impaciente como era obstinado. Ficava ressentido com estes bem-intencionados cumprimentos: "O senhor devia deixar um gole para a gente, Doe." Ou: "Acho que o póquer pode dar-lhe uma trégua para dar um pulo lá a casa, a ver minha mulher." Incorreu numa absurda e infantil falta de tacto, quando ouviu Norblom dizer ao agente postal:

- Uma pessoa que se chama médico só porque teve sorte com essa maluca da Agnes Ingleblad, não devia andar a beber e a fazer a desgraça...

Martin parou.

- Norblom! Está a referir-se a mim?

O dono do armazém voltou-se lentamente.

- Tenho coisas mais importantes do que referir-me ao senhor - declarou.

Quando Martin prosseguiu, ouviu uma risada.

Dizia consigo mesmo que estes aldeãos eram generosos; que as suas bisbilhotices representavam, em parte, um afectuoso interesse e eram inevitáveis num lugarejo onde o acontecimento mais absorvente do ano era a merenda da Escola Dominical dos Irmãos Unidos, a 4 de Julho. Mas não podia libertar-se do mal-estar que lhe causavam aqueles comentários infindáveis e tremendamente minuciosos sobre todas as coisas. Tinha a impressão de que a menor palavra que pronunciasse no seu consultório era transmitida por um megafone para cada ouvido atento, por todas as estradas da região.

Tinha bastante gosto em conversar sobre as pescarias com o barbeiro e não se mostrava superior à meteorologicomania, mas, excepto com Leora, não tinha com quem falar sobre o seu trabalho. Angus Duer retraíra-se, mas Angus tinha os dentes em cada mudança da técnica cirúrgica e era um áspero controversista. Martin compreendeu que, se não lutasse, não só cairia numa tímida moralidade, sob a pressão do lugarejo, como também se fixaria numa rotina de receitas e curativos.

Talvez encontrasse um estímulo no Dr. Hesselink, de Groningen.

Visitara Hesselink apenas uma vez, mas por toda a parte ouvira dizer que era o profissional mais honesto do vale. Sob

um impulso, Martin dirigiu-se, de automóvel, para casa dele.

O Dr. Hesselink era um homem de quarenta anos, rosado, alto, espadaúdo. Percebia-se imediatamente que era cauteloso e que nada temia, por menos imaginação que tivesse. Recebeu Martin sem grande entusiasmo e o seu olhar fixo dizia: "Então, que deseja? Sou um homem com pouco tempo."

- Doutor - disse Martin com desembaraço - acha difícil a gente manter-se em dia com o progresso da medicina?

- Não. Leia as revistas médicas.

- Mas... não acha... palavra, não é que eu queira tornar-me sentimental, mas o senhor não acha que, sem contacto com os Grossos, a gente vai-se... brutalizando mentalmente... ficando mais ou menos sem inspiração?

- De modo nenhum! Há bastante inspiração para mim em procurar socorrer os doentes.

Consigo mesmo, Martin protestava: "Está bem; se não quer mostrar-se cordial, vá para o diabo que o carregue! " Mas voltou à carga:

- Eu sei. Mas apesar do movimento da profissão, apesar do prazer de aumentar os conhecimentos médicos, como não desanimar se o serviço não passa de uma rotina entre uma porção de camponeses?

- Arrowsmith, é possível que lhe faça uma injustiça, mas há uma porção de jovens profissionais que se sentem superiores aos camponeses e que desempenham as suas funções melhor do que o senhor. Acha que só se estivesse na cidade, com bibliotecas e reuniões médicas e o mais, é que progrediria. Pois não vejo nada que o impeça de estudar em casa! O senhor considera-se muito mais bem educado do que estes rústicos, mas noto que o senhor diz "Grossos" e coisas semelhantes. Quanto lê o senhor? Olhe, por mim, estou satisfeito. Os meus clientes pagam-me honorários que dão para viver bem; apreciam o meu trabalho e honram-me com uma eleição para o Conselho de Administração Escolar. Acho que uma boa parte destes camponeses pensa um pouco mais justamente e mais solidamente do que os elegantes que encontro na cidade. Pois é assim! Não vejo razão para a gente se sentir superior nem isolado!

"Ora, bolas! " - rosnou Martin, ao iniciar o percurso de volta. Estava irritado com a superioridade que Hesselink mostrava, não se crendo superior, mas tropeçou numa meditação desagradável. Era verdade; era apenas meio educado. Apesar de ser formado por uma Universidade, nada sabia de economia, nada de história, nada de música nem de pintura. Excepto nas apressadas digestões para os exames, não lera poeta algum, salvo Robert Service, e a única prosa, além do jornalismo médico, no qual passava os olhos actualmente, eram as notícias de baseball e de crimes, nos jornais de Minneapolis, e as histórias do Oeste, nas revistas.

Recordou as "conversas inteligentes" em que, no deserto de Wheatsylvania, julgou haver participado em Mohalis. Lembrou-se de que, para Cliff Clawson, era pedante usar qualquer frase que não fosse tão plebéia e suja como a gíria de um chauffeur de camião e que a sua própria maneira de falar só diferira largamente da de Cliff por ser menos extravagante e menos original. Salvo a filosofia de Max Gottlieb, algumas invectivas de Angus Duer, uma entre dez das digressões de Madeline Fox e os conselhos do Tio Silva, não pôde recordar nada que estivesse acima do nível da barbearia de Alec Ingleblad.

Chegou a casa odiando Hesselink; mas de modo algum se amava a si próprio; refugiou-se em Leora e, com a sua plácida aquiescência, anunciou que "vamos educar-nos, nem que isso nos rebente". Atirou-se à empresa como se atirara à bacteriologia.

Lia história européia em voz alta para Leora, que parecia interessada ou pelo menos indulgente; torturava as frases de um exemplar de The Golden Bowl, que um mestre-escola infeliz deixara na residência dos Tozers; pediu emprestado um volume de Conrad ao redactor do jornal local e depois, quando percorria de automóvel as estradas da região, julgava-se a percorrer aldeias da selva: chapéus coloniais, orquídeas, templos perdidos de divindades obscenas, com focinho de cão, rios misteriosos e banhados de sol. Adquiriu a consciência da pobreza do seu próprio vocabulário. Não se pode dizer que passou logo a exprimir-se com uma clareza digna de nota, mas é possível que, naqueles longos e intensos serões de leitura com Leora, tivesse dado um ou dois passos no rumo dos trágicos encantos do mundo de Max Gottlieb, mundo encantado, às vezes, mas trágico sempre.

Voltando, porém, a ser estudante, não se sentiu tão satisfeito como o Dr. Hesselink.

 

Gustaf Sondelius voltara à América. Na Escola de Medicina, Martin lera algo sobre Sondelius, o soldado da ciência. Possuía diplomas razoáveis e extensos, mas, rico e excêntrico, não se metia em laboratórios nem tinha um consultório digno, um lar e uma esposa elegante. Vagueava pelo mundo, combatendo epidemias, fundando instituições, fazendo discursos inconvenientes e experimentando bebidas novas. Era sueco de nascimento, alemão por educação, um pouco de tudo na maneira de falar, e os seus clubes ficavam em Londres, Paris, Washington e Nova Iorque. Falara-se nele quando estava em Batum e Fucheu, em Milão e na Bechuanalândia, em Antofagasta e no cabo Romanzoff. Manson, em Doenças Tropicais, menciona o admirável método de Sondelius para matar ratos com gás de ácido cianídrico, e The Sketch, certa vez, mencionou o seu terrível sistema no bacará.

Gustaf Sondelius proclamava, em lugares convenientes e inconvenientes, que a maioria das doenças podiam ser e deviam ser extintas; que a tuberculose, o cancro, a febre tifóide, a peste bubônica, a gripe, eram um exército de invasão contra o qual o mundo devia mobilizar-se, literalmente; que as autoridades de saúde pública devem substituir os generais e os reis do petróleo. Andava a fazer conferências pelos Estados Unidos e as suas afirmações exclamatórias apareciam em todos os jornais.

Martin torcia o nariz à maioria dos artigos jornalísticos sobre ciência ou saúde pública, mas a violência de Sondelius chocou-o e ele, subitamente, converteu-se; e esta conversão foi uma coisa importante para ele.

Dizia com os seus botões que, por mais que aliviasse os doentes, era essencialmente um homem de negócios, em concorrência com o Dr. Winter, de Leopolis, e o Dr. Hesselink, de Groningen; que, embora pudesse ser honesto, a honestidade e a cura não estavam tanto nos seus propósitos, como o ganhar dinheiro; que extinguir uma doença evitável e produzir uma população sadia seria a pior coisa do Mundo para eles; e que deviam ser, todos eles, substituídos por funcionários da saúde pública.

Como todos os ardentes agnósticos, Martin era um homem religioso. Desde a morte do seu culto por Gottlieb, procurava

inconscientemente uma nova paixão, e encontrara-a agora na guerra de Gustaf Sondelius às doenças. Imediatamente se tornou tão aborrecido para os seus clientes como anteriormente para a Digamma Pi.

Declarou aos agricultores de Delft que não tinham o direito de apresentar tantos casos de tuberculose.

Isto era de fazer perder a cabeça, porque nenhum dos seus direitos, como cidadãos norte-americanos, estava mais radicado, nem era mais freqüentemente exercido, do que o privilégio de adoecer. Diziam, cheios de irritação: "Quem pensa ele que é? Nós chamamo-lo para tratar os nossos doentes, e não para nos chefiar. Imagina que o danado disse que devemos queimar as nossas casas... e disse que cometíamos um crime se tivéssemos tuberculose aqui! Não admito que ninguém me fale desse modo!"

Para Martin, tudo se tornou evidente, demasiado evidente. A nação devia nomear os melhores médicos, imediatamente, como funcionários autocráticos, e era essa a única solução. Quanto à maneira como os funcionários deviam desempenhar satisfatoriamente o seu papel, e como o povo seria persuadido a obedecer-lhes, Martin não tinha sugestões, mas apenas uma bela fé. Durante o pequeno almoço, lamentou-se:

- Outro estúpido dia a escrever receitas para dores de barriga que nunca deviam aparecer! Se ao menos pudesse entrar no Grande Combate, ao lado de homens como Sondelius! Isto aqui cansa a gente!

Leora murmurou:

- Está bem, querido. Prometo-te ser boazinha. Não terei dores de barriga, nem tuberculose, nem nada, de modo que não precisas de fazer-me sermões!

Apesar da sua irritabilidade, mostrou-se gentil, pois Leora estava grávida.

A criança devia nascer dentro de cinco meses. Martin prometeu-lhe tudo quanto não tivera.

- Vai ter uma educação de verdade! - exclamou, com o olhar perdido, quando se sentaram no vestíbulo, no crepúsculo da Primavera. - Aprenderá bem a literatura e tudo. Nós não fizemos muita coisa... aqui estamos, fincados neste lugarejo para o resto das nossas vidas... mas talvez tenhamos ido um pouco além dos nossos pais, e ele irá além de nós.

Estava preocupado, apesar de todo o seu entusiasmo. Leora sentia, pela manhã, um mal-estar imprevisto. Até ao meio-dia, arrastava-se pela casa, desarranjada, rosto amarelento e desfigurado. Ele tornou-se uma espécie de criada e veio para casa, a fim de ajudar, enxugar os pratos e varrer a calçada da frente. Aos serões, lia-lhe, não já história e Henry James, mas Mrs. Wiggs ofthe Cabbage Patch, que ambos julgavam uma história muito boa. Sentava-se no chão ao lado do sofá em segunda mão onde ela se recostava, na sua fraqueza; tomava-lhe a mão e construía planos:

- Deixa estar... Um dia, teremos economizado bastante dinheiro para passarmos uns dois meses na Itália e em todos esses lugares. Ver todas aquelas ruazinhas estreitas e velhos castelos! Minha Nossa Senhora! Não, "minha Nossa Senhora" não. Por que não? Afinal, dá no mesmo... Deve haver uma porção deles com duzentos anos de idade, ou mais velhos ainda! E levaremos o petiz... ou a petiza... Pode ser que o diabinho queira sair menina! E ele aprenderá a descascar o italiano e o francês e tudo, como se tivesse nascido por lá, e o pai e a mãe ficarão cheios de orgulho! Oh, vamos ser um casal terrível de velhos! Nunca tivemos mais moral do que um coelho, nenhum de nós, e, provavelmente, quando tivermos setenta anos, sentar-nos-emos na soleira da porta, e fumaremos cachimbo, e riremos por trás da mão de todas as pessoas respeitáveis que passarem, e contaremos um ao outro histórias escandalosas sobre elas, até que se resolvam a dar-nos um tiro, e o nosso rapaz... ele usará cartola e terá chauffeur... e nem terá coragem de reconhecer-nos!

Já exercitado na falsa confiança do médico, gritava, quando ela ficava desfigurada, oprimida pelo enjôo matinal: "Sim, menina! Pois assim é que é! Não estarias a arranjar um bom nené, se não tivesses enjôo. Todas têm." Mentia e andava nervoso. Sempre que pensava na possibilidade de perdê-la, parecia morrer com ela. Privado da sua companhia, nada havia que desejasse fazer, nenhum lugar a que desejasse ir. De que valeria ter todo o mundo, se não pudesse mostrar-lho, se ela não estivesse ali...

Acusava a Natureza pela sua maneira de induzir seres humanos à fecundação, com todos os sedutores ardis do luar, alvos membros, e uma solidão abismal, tornando depois o nascimento tão cruel, grosseiro e ruinoso. Tornou-se abrupto e impaciente com os clientes que o chamavam do campo. Condoía-se mais do que nunca do sofrimento deles, pois os olhos haviam-se-lhe aberto para a beleza terrível da dor, mas não queria afastar-se de Leora, a fim de atendê-la.

O enjôo matutino transformou-se em violentos acessos de vômito. Subitamente, enquanto a aflição a desumanizava, Martin mandou chamar o Dr. Hesselink, e naquela tarde terrível em que a Primavera rutilava no campo, além das janelas do pobre quarto recendente a iodofórmio, tiraram-lhe a criança, morta.

Se tivesse sido possível, ele poderia ter percebido então o êxito de Hesselink, poderia ter reparado naquela gravidade e simpatia, naquela compaixão e segurança que induziam o povo a confiar-lhe a vida. Agora, Hesselink não se mostrava frio nem acrimonioso: era apenas um irmão mais velho, mais experiente, muito bondoso. Martin nada percebeu. Não era um médico. Era um rapaz cheio de espanto, menos útil a Hesselink do que a mais inepta das enfermeiras.

Quando teve a certeza de que Leora se restabeleceria, Martin sentou-se ao lado da cama, e pôs-se a lisonjeá-la:

- Precisamos agora de ter presente que nunca poderemos ter um filho, e é isso o que eu quero... Não sou grande coisa! E estraguei o meu caracter. Mas para ti hei-de ser tudo!

Leora murmurou, em voz apenas audível:

- Ele teria sido uma criança tão querida! Oh, sei que teria sido! Via-o tantas vezes! É que sabia que seria parecido contigo, quando eras pequenino. - Tentou rir. - Talvez gostasse dele porque poderia dirigi-lo. Nunca tive ninguém que se deixasse dirigir por mim. Assim, se não posso ter um filho de verdade, será a ti que darei conselhos. Quero que sejas um grande homem a quem todos admirem, como esse teu Sondelius... Querido, estava tão aflita com a tua preocupação...

Beijou-a e durante horas ficaram sentados juntos, em silêncio, em eterna compreensão, sob o crepúsculo campestre.

 

O Dr. Coughlin, de Leopolis, usava bigode vermelho, uma grande cordialidade e um Maxwell que, embora nesse Maio tivesse três anos de idade e uma pintura deplorável, ele julgava ser superior em velocidade e beleza a qualquer outro automóvel do Dakota.

Chegou a casa com um entusiasmo transbordante, pôs a cavalo no pescoço o mais novo dos três filhinhos e disse à mulher:

- Tessie, tenho uma idéia formidável.

- Pois sim, e tens um bafo formidável, também. Que bom se deixasses de provar aquela garrafa do velho Spirits Frumentus do bar!

- Qual, menina! Mas palavra, escuta-me!

- Não e não! - Beijou-o com efusão. - Nada de irmos a Los Angeles este Verão. É muito longe, com esta malta a berrar.

- Claro. Tens razão. Mas o que quero dizer é isto: empacotainos rapidamente umas coisas e vamos passar uma semana em passeio pelo estado. Pode ser amanhã ou depois de amanhã. Não tenho nada que me retenha aqui, a não ser aquele caso obstétrico, que deixarei a cargo de Winter.

- Está certo. Podemos experimentar agora as novas garrafas térmicas!

O Dr. Coughlin, sua mulher e os filhos partiram, às quatro da madrugada. O carro estava a princípio bastante bem arranjado para não apresentar interesse, mas, três dias depois, quem se aproximasse pela estrada plana, que, sem uma polegada de curva, rasgava léguas e léguas das fartas lavouras de trigo novo, via o médico com o seu fato de caqui, óculos de armação de tartaruga e boné de linho branco de oficial de marinha; sua mulher, com uma blusa de flanela verde e touca de renda. No resto do carro, reinava leve confusão. Quem viajasse perto dele notava um odre egípcio de lona com água, lama nas rodas e guarda-lamas, uma pá, dois garotos perigosamente debruçados para fora e deitando a língua de fora, as roupinhas do bebê penduradas num cordão estendido interiormente, ao longo do carro, um exemplar rasgado de Snappy Stories, sete pirolitos, um macaco, um caniço e uma barraca enrolada.

A última impressão que ficava era a de duas bandeirolas com a inscrição "Leopolis, Dakota do Norte" e "Desculpe a poeira".

Os Coughlins tinham aventuras desagradáveis. Numa ocasião, ficaram enterrados num atoleiro. com esfuziante admiração da família, o médico safou todos do carro, fazendo uma ponte de varas da cerca. Quando faltou a faísca e enquanto esperavam um mecânico chamado pelo telefone, visitaram uma quinta que possuía uma máquina eléctrica de ordenhar. Durante toda a viagem, estavam a observar e descobriram as maravilhas do grande mundo: o cineteatro de Roundup, que tinha uma orquestra constituída não só por um piano tocado à mão como também por um violino; a granja de raposas pretas, em Melody; e o reservatório de água de Severance, que passava por ser o mais alto da zona central do Dakota do Norte.

O Dr. Coughlin "dava uma volta para matar o tempo", segundo dizia a todos os médicos. Em St. Luke, tinha um amigo íntimo no Dr. Tromp; pelo menos, tinham-se visto duas vezes, nas reuniões anuais da Associação Médica do Vale do Rio Pony. Quando contou a Tromp como tinham achado ruins os hotéis, Tromp pareceu inquieto e preocupado, e suspirou:

- Se minha mulher puder arranjar as coisas, terei muito prazer em convidá-los todos para pernoitarem aqui conosco.

- Ora... Não quero constrangê-los. Isso não seria muito incômodo? - disse Coughlin.

Depois de a Sr.a Tromp se restabelecer do seu desejo de chamar o marido de parte e fazer-lhe censuras inaudíveis mas vigorosas, e depois de o mais velho dos pequenos Tromp ouvir que "não era bonito para um menino decente dar um pontapé nos seus hospedezinhos que vinham de tão longe, tão longe", ficaram todos muito contentes. A Sr.a Coughlin e a Sr.a Tromp lamentaram o preço do sabão e da manteiga, e trocaram receitas para compota de pêssegos, enquanto os homens, sentados à entrada do vestíbulo, de pernas cruzadas, sacudindo eloquentemente os charutos, se entregavam ao êxtase da conversa profissional:

- Escute doutor, que tal acha a clientela?

(Era Coughlin quem falava; podia ter sido Tromp.)

- Muito boa, muito boa. Esses alemães pagam honorários de primeira classe. Nunca lhes mando a conta, mas, quando terminam a colheita aparecem aqui e dizem: "Quanto lhe devo, doutor?"

- Huhum... Os alemães são bons pagadores.

- Se são! Quase não há alemão caloteiro.

- Isso é um facto. Diga-me uma coisa, doutor, como trata os seus casos de iterícia?

- Como os trato? Bem, se é um caso persistente, dou em geral cloreto de amónio.

- Sim? Também tenho dado cloreto de amónio, mas um dia destes vi um artigo na Revista da Associação, onde um colega sustentava que não fazia bem.

- Realmente, realmente. Mas... não vi o artigo. - Pigarro. Pausa. - Escute, doutor, acha que se pode conseguir muita coisa com a asma?

- com a asma? Olhe, aqui entre nós, doutor, vou dizer-lhe uma coisa que talvez ache engraçado, mas acredito que bofe de raposa é óptimo para a asma e também para a tuberculose. Disse isto a um especialista de pulmões de Sioux City, certa vez, e ele riu-se de mim... disse que não era científico... mas respondi-lhe: "Ora... científico! Não sei se isso é ou não a última moda da ciência, mas obtenho resultados e resultados é o que quero obter! " É o que lhe digo: um simples médico rural pode não ter uma porção de títulos, mas a gente vê uma porção de coisas misteriosas que não pode explicar e garanto que a maioria desses pretensos cientistas muito poderiam aprender com um simples médico da roça, fique o senhor sabendo!

- Isso é um facto. Quanto a mim, prefiro ficar aqui, no campo, e fazer de vez em quando uma caçada, e levar a vida assim, a ser o primeiro especialista de uma grande cidade. Uma vez, pensei em especializar-me em raios X... Pensei em ir a Nova Iorque, onde a gente pode fazer todo o curso em oito semanas... Poderia ir trabalhar em Butte ou Sioux Falls. Mas lembrei-me de que, mesmo que fizesse de oito a dez mil dólares por ano, não seria muito mais do que três mil aqui, mais ou menos... E a gente tem de levar em conta o dever para com clientes antigos.

- É isso... Escute, doutor, que espécie de camarada e aquele McMinturn, lá para o seu lado?

- Olhe, não gosto de desfazer em nenhum colega e acho que ele tem boas intenções. Mas, aqui entre nós, ele trabalha muito por palpite. Ora, veja o senhor: nós aplicamos a ciência a cada caso, em vez de nos valermos da prática e andarmos às apalpadelas, Este McMinturn... ele não é bastante habilitado. E olhe: a mulher dele é um Deus-nos-acuda... Tem a língua mais comprida dos quatro condados. E como sai a arrebanhar clientes para Mac... Talvez seja a maneira de eles trabalharem.

- E o velho Winter vai indo?

- Vai, vai indo. O senhor sabe como ele é. Naturalmente, está atrasado uns vinte anos, mas é um grande empatador... Deixa algumas toleironas na cama seis semanas mais do que é necessário, e faz duas visitas por dia e fica a taramelar... coisas absolutamente desnecessárias.

- O seu maior concorrente não é o Silzer, doutor?

- Qual nada, doutor! Não tem a metade da clientela que pretende. No que ele incomoda é que tem a língua muito frouxa gosta de ouvir-se a si próprio. Ah, escute, a propósito. Já se encontrou com esse colega novato... aquele que se estabeleceu aqui há uns dois anos... em Wheatsylvania... o Arrowsmith?

- Não, mas dizem que é um excelente rapaz.

- É, dizem que tem crânio muito bem informado e ouvi dizer que a mulher dele é uma rapariga muito inteligente.

- Ouvi dizer que Arrowsmith tem acertado muito... mas que gosta de empinar um pouco.

- É o que dizem. Uma vergonha, para um rapaz que começa e que tem mérito. Gosto de um copo, lá de vez em quando, mas um bêbedo! E vamos que ele está bêbedo e recebe uma chamada de fora! E um sujeito de lá da zona dele disse-me que Arrowsmith gosta dos livros e do estudo, mas que é livre-pensador... nunca vai à igreja.

- Isso é um facto. - Pigarro. Pausa. - É um grande erro qualquer médico não se identificar com uma boa e sólida religião, acredite nela ou deixe de acreditar. Fique certo de que um padre ou um pregador podem arranjar-nos uma porção de clientes.

- Aposto que podem! Pois esse camarada a quem me referi disse que Arrowsmith está sempre a discutir com os pregadores... Ele disse a certo reverendo que todos deviam ler esse imunologista Max Gottlieb, e esse Jacques Loeb, ou... e o senhor sabe... aquele que... não me lembro bem do que era, mas ele sustentava que podia criar peixes vivos com ingredientes químicos.

- Eu sei! É no que isso dá. É a espécie de ilusões em que caem esses colegas de laboratório, quando não têm um trabalho prático de clínica que os conserve no equilíbrio. Pois é. Se Arrowsmith se deixa levar por essa espécie de colegas, não admira que o povo não confie nele.

- É isso. - Pigarro. Pausa. - Pois é o diabo que Arrowsmith se entregue à bebida e ande a fazer das suas por aí e se descuide da família e dos clientes. Sei qual é o fim dele. Uma vergonha. Mas... que horas serão já?

 

Bert Tozer disse com voz lastimosa:

- Mart, que fizeste ao doutor Coughlin, de Leopolis? Disseram-me que anda por aí a dizer que és uma esponja e não sei que mais.

- Ah, sim? Esta gente gosta de meter-se na vida dos outros, por aqui, não é verdade?

- Aposto a vida em como gostam, e é por isso que te digo que deves deixar o póquer e a bebida. Viste-me algum dia por aí, a tomar alguma coisa?

Martin, mais aborrecido do que nunca, sentiu que todo o condado o observava. Não sentia necessidade de elogios; não tinha prazer em verificar que estava fora de ambiente; mas, por mais tenazmente que se esforçasse, via-se fora da moldura de Wheatsylvania e da monótona vida do médico rural.

De repente, sem que o planeasse, esquecido do seu orgulho do laboratório na sua admiração por Sondelius e pela guerra sanitária, viu-se metido num problema de pesquisa.

 

Grassava o carbúnculo sintomático entre o gado de Crynssen County. O veterinário do Estado fora chamado e a vacina de Dawson Hunziker fora injectada, mas a "mancha" continuava a espalhar-se. Martin ouviu os camponeses lamentarem-se. Observou que o gado injectado não apresentava nem inflamação nem aumento de temperatura. Surgiu-lhe a suspeita de que a vacina Hunziker tinha organismos vivos insuficientes e logo partiu no rastro da sua hipótese.

Obteve (com uma requisição falsa) um love da vacina e examinou-a no cochicholo que lhe servia de laboratório. Teve de fabricar pessoalmente um aparelho para as culturas anaeróbias, mas era da escola de Gottlieb, que dizia: "Um homem que, se for preciso, não souber fazer um filtro com palitos, não tem o direito de manejar um bom aparelhamento." com um grande boião e um tubo, Martin fez o seu aparelho.

Quando estava totalmente certo de que a vacina não continha organismos vivos da doença, sentiu muito mais prazer do que se tivesse verificado que o bom Dr. Dawson Hunziker estava a produzir vacina verdadeira.

Sem descansar e com o mesmo entusiasmo, isolou organismos de carbúnculo, retirados de gado doente e preparou uma vacina atenuada. Gastou muito tempo. Não se descuidou dos seus doentes, mas deixou certamente de aparecer nas rodas de palestra e de póquer. Leora e ele jantavam uma sanduíche diariamente e iam, apressados, para o laboratório, aquecer as culturas no banho-maria improvisado, uma velha panela de fazer creme de aveia, com uma lâmpada de álcool. O Martin que, cheio de impaciência, procurara Hesselink, mostrou uma paciência inesgotável na espera dos resultados. Assobiou e zumbiu, e as horas entre as sete e a meia-noite passavam num momento. Leora, franzindo placidamente a testa e com a ponta da língua no canto da boca, vigiava a temperatura como um bom cão de guarda.

Depois de três tentativas com dois malogros absurdos, obteve uma vacina que o satisfez, e injectou-a num grupo de rezes doentes. A moléstia cedeu, o que foi para Martin o fim e o prêmio, e entregou os seus apontamentos e a vacina que fabricara ao veterinário do estado. Para outros não foi o fim. Os veterinários do condado acusaram-no de se haver arrogado o direito de salvar ou matar gado; os médicos murmuravam: "É essa espécie de cabotino que arruina a dignidade da profissão. Fiquem sabendo que Arrowsmith é um niilista da medicina e um amante da notoriedade; é isso o que ele é. Tomem nota das minhas palavras: em vez de dedicar-se à clínica regular e honesta, vocês hão-de saber qualquer dia que ele abriu charlatanescamente uma casa de saúde!"

Ele comentou com Leora:

- Dignidade... Ora bolas! Se estivesse no meu rumo estava a fazer pesquisas... Não essa coisa fria e fantasista de Gottlieb, mas um trabalho realmente prático... E então teria algum amigo como Sondelius para pegar no que eu fizesse e deitá-lo pela guela do povo abaixo, e daria saúde, quer quisessem ou não quisessem, a eles, às vacas e aos gatos deles: é isso o que eu faria!

Com esta disposição, leu no seu jornal de Minneapolis, entre uma meia coluna sobre o casamento do campeão de peso meio leve e três linhas dedicadas ao linchamento de um agitador operário, a notícia:

Gustaf Sondelius, conhecida autoridade na profilaxia da cólera, fará uma palestra intitulada "Heróis da Saúde" no curso de Verão da Universidade, na próxima sexta-feira, à noite.

Entrou em casa a correr e gritou com arrebatamento:

- Leora! Sondelius vai fazer uma conferência em Minneapolis. Eu vou! Tu também! Assistimos à conferência, divertimo-nos e tudo!

- Não, vai sozinho. É bom para ti deixar a cidade, a família e a mim por uns momentos. Sairei contigo no Outono. Palavra! Se não estiver junto de ti, talvez consigas ter uma boa conversa com o doutor Sondelius.

- A oportunidade será formidável... Os médicos da grande cidade e as autoridades sanitárias do estado formarão em torno dele uma muralha de dez pés de espessura. Mas vou.

 

Fazia calor na campina, os trigais tremiam sob uma viração cansada, a cinza acumulava-se no vagão. Martin estava moído pela passagem das horas que a lentidão do comboio alongava. Dormitava, fumava, meditava. Vou deixar de lado a medicina e o resto - protestava. - vou até à carruagem dos fumadores conversar com alguém e dizer-lhe que sou vendedor de calçado."

Foi. Infelizmente, aconteceu que o seu confidente era um autêntico vendedor de calçado, com grande curiosidade pela firma que Martin representava, e ele voltou para o seu lugar com uma sensação renovada de mal-estar. Quando chegou a Minneapolis, a meio da tarde, dirigiu-se apressado à Universidade e procurou obter uma entrada para a conferência de Sondelius antes mesmo de encontrar hotel, mas não antes de encontrar o copázio de cerveja que imaginara ao longo de centenas de milhas.

Tinha um programa irregular mas agradável, para dissipar a sua primeira noite de liberdade. Nalgum lugar, havia de encontrar um grupo de pessoas distintas da localidade, que o socorreriam com as suas risadas, palestras e muitos copos, não muitos copos naturalmente, e correria de automóvel para o lago Minnetonka, onde daria umas braçadas sob o luar. Começou a busca dos companheiros, tomando um cocktail no bar de um hotel e jantando num restaurante de Hennepin Avenue. Ninguém olhou para ele, ninguém parecia desejar um companheiro. Sentia a falta de Leora e de todo o seu estado de graça, e toda a sua decidida e sincera dedicação à pândega degenerou em vontade de dormir.

Quando regressou ao hotel e se meteu na cama, lamentou: "E provavelmente a conferência de Sondelius será um desastre. Provavelmente ele é simplesmente um outro Roscoe Geake."

Na noite quente, estudantes sem rumo aproximavam-se lentamente da porta da sala de conferências, examinavam o modesto cartaz relativo a Sondelius e afastavam-se. Martin, meio tentado a fugir com eles, entrou de mau humor. Um terço da sala estava ocupado por estudantes e lentes do curso de Verão e por homens que poderiam ter sido médicos ou directores de estabelecimentos de ensino. Sentou-se atrás, abanando-se com o chapéu de palha, antipatizando com o homem de suíças que participava da fila, prevenido contra Sondelius e, quanto a si, sem quaisquer opiniões favoráveis.

Depois, a sala carregou-se de vitalidade. Pela passagem central, ineficientemente acompanhado por um homenzinho embaraçado, desceu com estrépito, um homem com um sorriso, testa ampla e uma massa de cabelos encaracolados, cor de palha: um Terra Nova em forma de homem. Martin endireitou o corpo. Cobrou forças para suportar mesmo o homem enervante das suíças, quando Sondelius começou, num bramido musical, com sotaque sueco e ritmo sueco:

"A profissão médica só pode conter um desejo: destruir a necessidade da profissão médica. Quanto aos leigos, podem estar certos de uma coisa: nove décimos do que conhecem sobre a saúde pública é inexacto e, com o outro décimo, nada conseguem. Como Butler demonstra em Erewhon - o suíno roubou-me essa idéia, também, talvez uns trinta anos antes que me ocorresse - o único crime pelo qual deveríamos enforcar os homens é ter tuberculose."

Um sussurro percorreu o auditório atento, que não sabia se era conveniente mostrar-se divertido, irritado, aborrecido ou edificado.

Sondelius era brincalhão e gostava de gritar, mas sabia encantar. com ele, Martin observou os heróis da febre amarela, Reed, Agramonte, Carrol e Lazear; com ele, desembarcou num porto mexicano, envolto no silêncio da peste e curtindo fome sob o Sol violento; com ele, subiu a cavalo por trilhos íngremes para uma cidade das montanhas, assolada pelo tifo; com ele, num lento mês de Agosto, quando as crianças ficavam esqueléticas e pergaminhadas, lutou contra um trust de gelo, sob a espada dourada e romba da lei.

"É isso o que quero fazer! Não apenas consertar corpos gastos mas fazer um mundo novo! - pensava Martin, cheio de entusiasmo. - Por Deus Nosso Senhor! Eu seria capaz de segui-lo através do fogo! E como ele desanca os interesseiros que contestam os resultados dos serviços de saúde pública! Se conseguisse chegar até ele e conversar apenas dois minutos..."

Depois da conferência, continuou na sala. Uma dezena de pessoas cercavam Sondelius, no estrado; alguns apertavam-lhe a mão; alguns faziam-lhe perguntas; um médico inquiriu, preocupado: "Mas que acha do perigo das clínicas livres e todas essas coisas que levam para o socialismo? " Martin manteve-se afastado até que abandonassem Sondelius. Um bedel fechava as janelas, firme e insinuantemente. Sondelius olhou em torno e Martin teria jurado que o Grande Homem estava sozinho. Trocou um aperto de mão com ele e disse, vacilante:

- Se... se não tem nenhum compromisso, não gostaria de sair para tomar um...

Sondelius olhou-o do alto, com um esplendor solar, e rugiu: - Tomar qualquer coisa? Acho que sim. Que tal a piada sobre o cão e as pulgas, de há pouco? Acha que eles gostaram?

- Oh, claro, aposto.

O guerreiro que falara sobre como alimentara cinco mil tártaros, como recebera um título de uma Universidade chinesa e como recusara uma condecoração de um óptimo rei balcânico, olhou cordialmente para o seu grupo de um discípulo e perguntou:

- Foi tudo bem? Terão gostado? A noite está tão quente e tenho feito nove palestras por semana: Dês Moines, Fort Dodge, La Crosse, Elgin, Joliet e... nem me lembro. Mas ter-me-ei saído bem? Terão gostado?

- Simplesmente abafante! Bah! Engoliam as suas palavras! Palavra que, na minha vida, nunca apreciei tanto uma coisa!

O profeta disse com determinação:

- Vamos! Tomo um golo. Como higienista, faço guerra ao álcool. Em quantidades excessivas é quase tão mau como o café ou mesmo como ice cream soda. Mas, como homem que gosta de conversar, acho que um bom whisky com soda é um grande dissolvente da imbecilidade humana. Há algum lugar fresco com uma Pilsener aqui, em Detroit, digo... Onde estou eu esta noite? Minneapolis?

- Parece-me que há um bom bar ao ar livre. E podemos tomar o eléctrico logo ali adiante.

Sondelius arregalou os olhos para ele.

- Oh, tenho um táxi à espera.

Martin ficou embaraçado diante deste luxo. No táxi, procurou pensar nas coisas adequadas a dizer a uma celebridade.

- Diga-me, doutor, eles têm juntas municipais de saúde Pública na Europa?

Sondelius não lhe prestou atenção.

- Viu aquela rapariga na calçada? Que tornozelos! Que ombros! É boa a cerveja desse bar? Terão um conhaque que preste? Conhece o conhaque Courvoisier 1865? Uuuh! Conferências! Juro que vou acabar com isto. E vestir smoking com uma noite como esta! Você compreende, refiro-me a todas as coisas idiotas que digo nas minhas palestras, mas vamos agora esquecer-nos da gravidade, beber, cantar Der Grafvon Luxemvurg, separar pequenas exóticas dos seus companheiros, discutir as alegrias de Die Meistersinger, que só eu aprecio!

No bar da praça pública, o tremendo Sondelius discorreu sobre o Cosmos Club, a investigação de Halle sobre a mortalidade infantil, a conveniência de misturar benedictine com apple-jack, Biarritz, Lord Haldane, o método Doane-Buckley de examinar o leite, George Gissing e homard termidor. Martin procurava uma ligação entre si e Sondelius, como se faz com as pessoas de destaque ou encontradas no estrangeiro. Poderia ter dito: "Acho que conheci um homem que se dá com o senhor"; ou "Tenho tido o prazer de ler todos os seus artigos" - mas arriscou isto:

- Já se encontrou algum dia com os dois homens de destaque da minha Escola de Medicina... Winnemac... o director Silva e Max Gottlieb?

- Silva? Não me lembro. Mas Gottlieb... Você conhece-o? Oh! - Sondelius agitou os grandes braços. - O maior de todos. O espírito da ciência! Tive o prazer de conversar com ele no McGurk. Ele não ficaria aqui a berrar, como eu! Ele faz-me parecer um palhaço de circo! Ele toma todas as minhas afirmações sobre epidemiologia e demonstra que sou um tolo! Ah! Ah! Ah! - fez jubilosamente e prosseguiu, denunciando as tarifas elevadas.

Cada assunto tinha a sua bebida adequada. Sondelius era um bebedor fantástico, forrado de zinco. Misturava Pilsener, whisky, café simples e um líquido que o criado afirmava ser absinto.

- Eu devia ir deitar-me à meia-noite - lamentou - mas é um pecado mortal interromper uma boa conversa. Tente-me um pouco. Sou fácil de tentar! Mas preciso de dormir cinco horas. Absolutamente! Faço uma palestra... é numa localidade de lowa... amanhã à noite. Agora, que estou com mais de cinqüenta anos, não posso passar com três horas, como dantes, e entretanto ocorrem-me tantas coisas novas sobre que desejo falar...

Tornou-se ainda mais eloqüente; depois, ficou aborrecido. Na mesa contígua, um homem de ar impertinente escutava-os, olhava-os de soslaio e ria deles. Do soro de Haffkine contra a cólera, Sondelius passou para a ira:

- Se esse tipo continuar a olhar para mim, caio em cima dele e rebento-o! Sou um homem pacífico, agora que já não sou novo, mas não gosto de gente que fica a olhar. vou já entender-me com ele!

Enquanto os criados acudiam apressados, Sondelius investiú na direcção do homem, ameaçando-o com os enormes punhos; mas de repente deteve-se, apertou-lhe fortemente as mãos e trouxe-o para a mesa que ocupava com Martin.

- É um conterrâneo meu, de Gottenborg. É carpinteiro. Senta-te, Nilsson, senta-te e toma alguma coisa. Ôôô... Criadoü!

O carpinteiro era socialista, adventista sueco do Sétimo Dia, argumentado feroz e amante de aguardente. Atacou Sondelius como aristocrata, atacou Martin por ignorar a ciência econômica, atacou o criado por motivo do brandy servido; Sondelius, Martin e o criado responderam com vigor; e a conversa tornou-se admirável. Saíram todos do bar para o ar livre e os três amontoaram-se no táxi, que continuava à espera e que estremeceu com a sua discussão. Por onde andaram. Martin nunca o conseguiu recordar. Talvez tivesse sonhado toda essa história. Estiveram, uma vez, numa afastada casa de pasto situada numa rua comprida, que devia ser a University Avenue; outra vez, num botequim de Washington Avenue South, onde três vagabundos dormiam na ponta do balcão; outra vez na casa do carpinteiro, onde um homem inexplicado lhes fez café.

Onde quer que fossem, estavam simultaneamente em Moscovo, Curaçao e Murwillumbah. O carpinteiro criava estados comunistas, enquanto Sondelius, proclamando que não se importava de trabalhar sob o regime socialista ou imperial, desde que pudesse dar bem-estar ao povo, aniquilava a tuberculose e, já na alvorada, punha em fuga o cancro.

Separaram-se às quatro, jurando com lágrimas nos olhos que haviam de tornar a encontrar-se, em Minnesota ou em Estocolmo, no Rio ou no Pacífico Sul, e Martin partiu para Wheatsylvania para pôr fim a todo esse absurdo de deixar o povo adoecer.

E o grande deus Sondelius matara o director Silva, como Silva matara Gottlieb, Gottlieb matara o travesso químico Edwards Bis, Edwards matara Doe Vickerson e Vickerson matara o filho do ministro, que tinha um autêntico trapézio no celeiro.

 

O Dr. Woestijne, de Vanderheide's Grove, exercia nas horas vagas o cargo de superintendente da Saúde Pública de Crynssen County, mas esse cargo não era bem remunerado e não lhe interessava muito. Quando Martin irrompeu em sua casa e se ofereceu para fazer todo o serviço por metade do ordenado, Woestijne aceitou com benevolência, assegurando-lhe que a coisa teria um grande efeito na sua clientela particular.

Assim foi. Quase arruinou a sua clientela particular.

Nunca houve nomeação oficial. Martin assinava nos documentos o nome de Woestijne (escrevendo-o de várias e interessantes maneiras, de acordo com a disposição do momento) e o Conselho de Comissários do condado dava a Martin um poder limitado, mas aquilo, no seu conjunto, era provavelmente ilegal.

Houve pouca ciência e muito menos heroísmo nas suas primeiras fúrias como funcionário da Saúde Pública, mas grande dose de irritação para os seus co-munícipes. Intrometeu-se em quintais, denunciou a Sr.a Benson pelas emanações dos seus barris cheios de cinzas, o Sr. Norblom por amontoar estéreo na rua, e a direcção da escola pública pela ventilação do edifício da escola e falta de instrução relativa ao asseio dos dentes. Os cidadãos, anteriormente, haviam-se agitado por causa da sua falta de religião, a sua moral relaxada e a sua falta de bairrismo, mas, quando foram enxotados da sua sujeira cômoda e provavelmente benéfica, explodiram.

Martin era honesto e espantosamente sério, mas se tinha a inocência da pomba, faltava-lhe a sabedoria da serpente. Não os levou a compreenderem a sua missão; pouca atenção deu mesmo a isso. A sua autoridade, como alter ego de Woestijne, era imponente no papel, mas fraca em acção, e inútil contra a obstinação que gerou.

Avançou da espionagem do lixo para um drama de infecção.

A comunidade de Delft tinha epidemia de tifo que diminuía e voltava a grassar com intensidade. Os habitantes do lugar acreditavam que provinha de uma tribo de gente errante estabelecida ilegalmente na margem do rio, seis milhas para o interior da angra, e pensaram em linchar os infractores da lei, como protesto prático e pausa interessante nas lides da lavoura de trigo. Quando Martin insistiu em que, em seis milhas, as águas da angra purificariam quaisquer despejos e que os intrusos não eram provavelmente a causa, foi amplamente criticado.

"Ele é incrível! Berra por aí que devemos ter mais preocupações sanitárias! E quando lhe mostramos onde há alguns cães danados que deviam ser mortos a tiro... não passam de uns ciganos... quando mostramos isso tudo, o que ele acha para fazer é gargantear sobre o efeito germicida ou coisa parecida", declarou Kaes, o comprador de trigo do elevador de Delft.

Cruzando pelo condado, sem descuidar, mas certamente sem aumentar a sua clientela, Martin localizou todos os casos recentes de febre tifóide num raio de cinco milhas de Delft. Examinou o serviço de distribuição do leite e gêneros alimentícios. Descobriu que a maioria dos casos havia aparecido após as visitas de uma costureira ambulante, uma solteirona virtuosa e quase doentiamente higiênica. Tivera o tifo havia quatro anos.

- Ela é uma portadora crônica dos micróbios. Tem de ser examinada - anunciou.

Encontrou-a a costurar na casa de um velho agricultor-pregador.

Com modéstia e indignação, ela recusou-se a ser examinada, e Martin, quando saiu, pôde ouvi-la chorar por causa do insulto, enquanto o pregador o amaldiçoava do portal da sua casa. Voltou com o comissário de polícia do condado, o qual deteve a costureira e a internou na enfermaria de isolamento do asilo municipal para indigentes. Encontrou biliões de bacilos do tifo nos seus dejectos.

O corpo débil e honesto da costureira não se achava à vontade na enfermaria caiada e com tecto de tábuas. Ela sentia vergonha e medo. Fora sempre uma solteirona muito estimada, doce, de olhos claros, pobres vestidos, que levava presentes para as crianças, ajudava as esposas demasiado atarefadas dos camponeses a fazerem o jantar e cantava para as crianças com voz fininha de pardal. Martin foi reprovadíssimo por persegui-la. "Ele não ousaria levá-la, se ela não fosse tão pobre", diziam; e falavam em ir libertá-la.

Martin preocupou-se. Foi visitar a costureira no asilo municipal, procurou fazê-la compreender que não havia outro lugar para ela, levou-lhe revistas e bombons. Mas manteve-se firme. Ela não podia andar em liberdade. Martin estava convencido de que ela causara pelo menos uma centena de casos de febre tifóide, com nove óbitos.

O condado ridicularizou-o. Causando febre tifóide agora, depois de andar boa durante quatro anos? Os comissários e o Conselho de Saúde Pública do Condado chamaram o Dr. Hesselink, do condado vizinho. Este concordou com Martin e os seus mapas. Agora, cada reunião dos comissários era uma batalha e não se sabia se Martin seria arruinado ou entronizado.

Leora salvou-os, a ele e à costureira.

- Por que não se faz uma subscrição para mandá-la para um grande hospital, onde possa ser tratada, ou onde a possam conservar se não conseguir curar-se? - disse ela.

A costureira foi internada num sanatório, foi cordialmente esquecida por todos para o resto da vida, e os inimigos recentes de Martin disseram dele: "É um sujeito esperto e serve para o lugar." Hesselink fez-lhe uma visita para dizer-lhe: "Você agiu muito bem desta vez, Arrowsmith. Fico satisfeito por verificar que se dedica ao serviço."

Martin ficou levemente envaidecido e imediatamente voltou a atenção para uma nova e séria epidemia. Teve bastante sorte, por atender um caso certo de varíola e vários suspeitos. Alguns destes estavam localizados do outro lado da fronteira, em Mencken County, domínio de Hesselink, e Hesselink riu-se dele. "Provavelmente, são casos benignos de varicela, todos, excepto esse outro caso. A varíola é muito rara no Verão", declarou ele, entre risadas, enquanto Martin percorria o condado acima e abaixo, irritado, divulgando o flagelo, rogando que todos se vacinassem, exclamando: "Todos os diabos andarão à solta aqui, dentro de dez ou quinze dias!"

Mas o pároco dos Irmãos Unidos, que fazia o serviço nas capelas de Wheatsylvania e em duas outras localidades, era antivacinação e pregou contra ela. Os habitantes alinharam a seu lado. Martin andou de casa em casa, fazendo apelos, oferecendo-se para tratar a todos gratuitamente. Como nunca procurara levar o povo a estimá-lo e segui-lo como a um dirigente, opuseram-se, discutiram longa e tranqüilamente, nos portais das suas casas, declararam entre risadas que Martin estava bêbedo. Embora, durante semanas, o seu estimulante fosse o café acre, servido na zona rural, os homens cochichavam uns para os outros que ele se embebedava todas as noites, que o ministro dos Irmãos Unidos ia atacá-lo do púlpito.

E passaram-se dez dias sombrios, passaram-se quinze e confirmou-se que todos os casos, menos o primeiro, eram varicela. Hesselink regozijou-se, os camponeses berraram, Martin transformou-se no alvo da terra.

Martin sentiu as conversas sobre a sua maldade apenas levemente; apenas aos serões, em que experimentou alguma depressão, pensou em fugir do lugar. Mas as risadas deixavam-no vermelho de raiva.

Leora consolou-o docemente. "Isso passa", disse. Mas não passou.

Pelo Outono, o episódio transformara-se num desses assuntos burlescos, de que os camponeses gostam em todo o Mundo. Martin, contavam jovialmente, declarava que todos quantos criassem porcos morreriam de varíola; andara a beber durante uma semana e diagnosticara tudo como varíola, desde a pedra no fígado até azia. Sem intenção de ofender, cumprimentavam-no e diziam entre pequenas risadas: "Estou com uma espinha no queixo, Doe. Não será varíola?"

Mais terríveis do que a cólera do povo são as suas risadas, e se despedaçam tiranos, com igual aspereza perseguem o santo e o sábio e sujam o seu tesouro.

Quando, de repente, começou a grassar uma verdadeira epidemia de crupe e Martin, vacilantemente, pregou o uso de antitoxina, metade da população lembrou-se do seu desaire no tratamento de Mary Novak e a outra metade gritou: "Ora, deixe-nos em paz! O senhor anda com epidemias na cabeça! " A circunstância de certo número de crianças morrerem em conseqüência do crupe não serviu para levá-los a abandonar o seu motivo burlesco.

Foi então que Martin, ao chegar a casa, veio para junto de Leora e declarou serenamente:

Estou liquidado. Tenho de sair daqui. Nada mais posso fazer neste lugar. Seriam precisos anos para que eles voltassem a confiar em mim. Como sabem ser humorísticos!... vou arranjar uma função de verdade: a saúde pública.

- Formidável! És bom demais para eles. Havemos de encontrar um lugar grande, onde apreciem o teu trabalho.

- Não, não é bem assim. Aprendi alguma coisa. Falhei aqui. Indispus-me com muita gente. Não sabia como manejá-los. Poderíamos continuar, e fá-lo-ia, se a vida não fosse tão curta e se não achasse que, de alguns modos, trabalho bem. Tenho-me preocupado com a idéia de que isto é covardia, de que vou... Como é? Ah! Tirar a mão do arado. Agora, não me importo. Ora, bolas! Sei o que posso fazer! Gottlieb compreendeu-o. E quero dedicar-me ao trabalho. Vamos para diante. Não achas que tenho razão?

- Naturalmente.

 

Lera na Revista da Associação Médica Americana que Gustaf Sondelius estava a fazer uma série de conferências em Harvard. Escreveu-lhe a perguntar se ele sabia de alguma vaga na Saúde Pública. Sondelius respondeu, numa garatuja cheia de borrões, que se lembrava com alegria da sua noite em Minneapolis, que não estava de acordo com Entwisle, de Harvard, sobre a natureza da metatrombina, que havia um excelente restaurante italiano em Boston, e que faria indagações sobre um lugar, entre os seus amigos do Serviço de Saúde Pública.

Dois dias depois, escreveu que o Dr. Almus Pickerbaugh, director da Saúde Pública da cidade de Nautilus, lowa, procurava um director assistente e provavelmente concordaria em enviar informações.

Leora e Martin agarraram-se a um almanaque.

- Bah! Sessenta e nove mil habitantes em Nautilus! Contra trezentos e sessenta e seis aqui... Não, espera; são trezentos e sessenta e sete, agora, com aquele último garoto de Pete Yeska para o qual aquele porco chamou Hesselink. Credo! Gente que sabe falar! Teatros! Talvez concertos! Leora, vamos ficar como um par de garotos que saem da escola!

Telegrafou a pedir informações, com enorme interesse do agente da estação, que também era o operador telegráfico.

O papel mimeografado que foi enviado dizia que o Dr. Pickerbaugh queria um médico assistente que dedicasse todo o seu tempo ao cargo, junto com o próprio Pickerbaugh, visto que os médicos da clínica e da escola eram médicos com clínica particular e dispunham apenas de parte do seu tempo. O assistente seria epidemiologista, bacteriologista e chefe dos funcionários burocráticos, das enfermeiras e dos inspectores leigos das leitarias e da higiene da cidade. O ordenado seria de dois mil e quinhentos dólares por ano - contra os mil e quinhentos, ou mil e seiscentos que Martin ganhava em Wheatsylvania.

Desejavam-se recomendações idôneas.

Martin escreveu a Sondelius, ao Tio Silva e a Max Gottlieb, agora no McGurk Institute, de Nova Iorque.

O Dr. Pickerbaugh informou-o: "Recebi cartas muito agradáveis do director Silva e do Dr. Sondelius, a seu respeito, mas a carta do Dr. Gottlieb é digna de nota. Ele diz que o senhor tem raras qualidades como homem de laboratório. Tenho grande prazer em oferecer-lhe o lugar. Queira telegrafar."

Só então Martin compreendeu inteiramente que ia deixar Wheatsylvania; o tédio das importunações de Bert Tozer; as bisbilhotices de Pete Yeska e dos Norbloms; e a inevitabilidade de voltar para o sul, como tantas e inalteráveis vezes voltara, na estrada de Leopolis, diante do Mato das Duas Milhas, e seguir novamente aquele caminho monótono, plano e sem uma curva; e a superioridade do Dr. Hesselink e a malícia do Dr. Coughlin; o trabalho quotidiano, que não lhe deixava tempo algum para o seu empoeirado laboratório. Deixar tudo isto pela perfeição e pelo esplendor da grande cidade de Nautilus.

- Leora, vamos embora! Vamos embora já!

 

Bert Tozer disse:

- Sabes que desgraçadamente há gente que te chamaria traidor, depois de tudo quanto fizemos por ti, e mesmo que restituísses os mil dólares, por deixares assim algum outro médico vir para cá e tirar toda essa influência da família.

Ada Quist disse:

- Acho que, se o senhor não conseguiu a simpatia do povo daqui, não vai arranjar grande coisa numa cidade grande como Nautilus! Bert e eu vamos casar-nos no ano que vem e, quando vocês falharem lá, acho que teremos de recebê-los na nossa própria casa, quando voltarem de cabeça baixa. Acham que poderíamos alugar casa para vocês pelo mesmo aluguel que pagam? Oh, Bert, por que não ficamos com o gabinete de Mart? Assim, pouparíamos dinheiro. Sempre disse, desde que estivemos juntas no colégio, que não poderias suportar uma vida regular e calma, Ory.

O Sr. Tozer disse:

- Eu, simplesmente, não posso compreeender isto, quando vais tão bem. Pois farias uns três ou quatro mil por ano, um dia, se tivesses persistência aqui. E nós não procuramos tratá-los bem? Não gosto que a minha filhinha se vá embora e me deixe sozinho, agora que estou velho. E Bert é difícil de aturar, comigo e com a mãe, mas tu e Ory sabem ouvir-nos sempre. Não podes arranjar maneira de ficar?

Pete Yeska disse:

- Doe, poderiam derrubar-me com uma pena quando ouvi dizer que se ia embora! É verdade que o senhor e eu nos desentendemos naquele caso das receitas, mas palavra que pensei em ir procurá-lo para lhe oferecer sociedade e deixar-lhe à vontade a direcção da farmácia, e talvez pudéssemos arranjar a agência Buick, e montar um lindo negócio. Sinto deveras que esteja para deixar-nos... Mas volte um dia para irmos dar uns tiros aos patos e nos rirmos um pouco do barulho que o senhor fez com a varíola. Nunca me esquecerei daquilo! Ainda um dia destes disse à minha velha, quando teve dores de ouvidos: "Cuidado, Bess, não seja varíola!"

O Dr. Hesselink disse:

- Que me diz, doutor? Vai deixar-nos? Logo agora que você e eu começávamos a levar o exercício da medicina neste fim do Mundo para onde ela deve estar! Até resolvi ir a sua casa... Que houve? Talvez o tenhamos aborrecido? Sim, acho que é esse o motivo, mas isso não significa que não o tenhamos apreciado. Em lugares pequenos como este ou Groningen, a gente tem de falar dos vizinhos para fazer alguma coisa. Ora, doutor! Vê-lo partir agora, eu que o vi transformar-se de um mero recruta num médico de verdade! Não sabe como lamento!

Henry Novak disse:

- Então, Doe, vai deixar-nos? Estamos à espera de outro petiz, e disse á mulher, justamente um dia destes: "É muito bom que a gente tenha um doutor que nos diz a verdade e não todas aquelas tolices que o Doe Winter costumava dizer à gente."

O comprador de trigo de Delft disse:

- Doe, que é que me diz? Vai-se embora? Um amigo disse-me que o senhor se ia embora e eu respondi-lhe: "Não sejas mais tolo do que o Senhor te quis fazer." Mas fiquei preocupado com isso, e vim cá e... Doe, acho que, às vezes, falo demais. Fiquei contra o senhor na epidemia do tifo, quando o senhor disse que a costureira andava a espalhar a doença, mas depois abri os olhos. Doe, se o senhor quisesse ser senador do Estado e se o senhor ficar... tenho um pouco de influência... acredite que vou tirar a camisa pelo senhor!

Alec Ingleblad disse:

- O senhor é um rapaz de sorte!

Os habitantes, em peso, foram à estação, quando o comboio partiu para Nautilus.

Durante uma centena de milhas, sob um resplendor outonal, Martin lamentou haver deixado aquela gente.

- Tenho vontade de desistir e voltar. Como era divertido jogar com os Fraziers! Nem quero pensar na espécie de médico que eles podem arranjar. Se algum charlatão for para lá ou se Woestijne relaxar novamente o serviço de saúde pública, juro que volto e corro com os dois! E, até certo ponto, é divertido ser senador no Estado.

Mas, quando começou a anoitecer e nada existia em todo o mundo turbilhonante, salvo os globos amarelos dos bicos de gás enfileirados no tecto do longo vagão, eles viram pela frente a grande Nautilus, grandes honras e realizações, a formação de uma radiosa cidade modelo e os louvores de Sondelius... talvez mesmo de Max Gottlieb.

 

Exactamente no meio da planície de terra negra de lowa, banhada apenas por um riacho insignificante e pouco fundo, a cidade de Nautilus zumbe e cintila. Em centenas de milhas, os altos pés de milho projectam-se numa floresta de fileiras rectas, e o forasteiro que, ensopado em suor, avança lentamente pelas estradas debruadas pelos milharais, sente-se perdido e nervoso pela impressão da implacável vegetação.

Nautilus é para Zenith o que Zenith é para Chicago.

Com setenta mil habitantes, é uma Zenith menor, mas não menos animada. Tem um grande hotel contra os doze de Zenith, mas esse é tão movimentado e freneticamente moderno como o seu proprietário pôde fazê-lo. A única diferença verdadeira entre Nautilus e Zentih é que, em ambos os casos, todas as ruas se parecem, mas em Nautilus elas não se parecem em tão grande número de milhas.

A dificuldade para definir a categoria de ambas é que nenhuma determinou se é verdadeiramente uma grande aldeia ou uma pequena cidade. Há residências com chauffeur e cocktails de Baccardi, mas, nas noites de Agosto, todos os habitantes, menos algumas vintenas de burgueses, se sentam em mangas de camisa na varanda da frente das suas casas. Diante do edifício comercial de dez andares, onde uma pequena revista é editada por uma mulher jovem que viveu cinco meses nos cafés de Montparnasse, há um velho casarão residencial, cheio de cômodas poltronas de bordo, e uma fileira de automóveis Ford e camiões de carga, nos quais os agricultores, de fato-macaco, vêm à cidade.

lowa tem a terra mais rica, o mais baixo índice de analfabetismo, as maiores percentagens de naturais de cor branca e de proprietários de automóveis, e as cidades mais progressistas e de maior moralidade de todos os estados, e Nautilus é a cidade mais lowana de lowa. Em cada três pessoas de mais de sessenta anos, uma passou um Inverno na Califórnia, e entre estas encontram-se o campeão do jogo da malha de Pasadena e a mulher que ofereceu o peru que Miss Mary Pickford, a princesa do cinema, comeu no seu jantar do Natal de 1912.

Nautilus distingue-se pelas casas grandes, com grandes relvados, e por uma espantosa quantidade de garagens e longas agulhas de torres de igrejas. O campo raso estende-se até às portas da cidade, e as fábricas esparsas, os inúmeros ramais ferroviários e o casario irregular dos operários encontram-se quase no meio das lavouras de milho. Nautilus fabrica moinhos de vento de aço, ferramental agrícola, inclusive o famoso adubador mecânico Daisy, e produtos do milho como a farinha Maize Mealies, apreciadíssima como elemento do pequeno almoço. Faz tijolos, vende gêneros por atacado e é a sede da Companhia Cooperativa de Seguros Combelt.

Uma das suas indústrias menores, porém mais antigas, é o Mugford Christian College, que tem uma matrícula de duzentos e dezassete estudantes, e dezasseis professores, dos quais onze são ministros da Igreja de Cristo. O conhecido Dr. tom Bissex é técnico de futebol americano, director do Serviço de Saúde, e professor de Higiene, Química, Física, Francês e Alemão. Os seus cursos de Estenografia, e Piano são conhecidos muito além dos limites de Nautilus, e certa vez, embora há alguns anos, Mugford derrotou a equipa de baseball do Grinnel College por uma contagem de onze a cinco. Jamais se aborreceu com discussões sobre o ensino da biologia evolutiva: jamais pensou em ensinar biologia.

 

Martin deixou Leora no Sims House, o segundo hotel de Nautilus, de estilo antiquado, a fim de se apresentar ao Dr. Pickerbaugh, director do Departamento de Saúde Pública.

O departamento estava situado numa rua interior do City Hall, na parte térrea das traseiras desse grande cogumelo cinzento. Quando entrou na sala de pintura acastanhada, foi cordialmente recebido pela estenógrafa e pelas duas enfermeiras visitantes. No meio do alvoroço delas - "Fez boa viagem, doutor? O doutor Pickerbaugh só o esperava amanhã ou depois, doutor. A senhora Arrowsmith veio com o senhor, doutor! " -? irrompeu Pickerbaugh, berrando boas-vindas.

O Dr. Almus Pickerbaugh tinha quarenta e oito anos. Era formado pelo Mugford College e pela Wassau Medical School. Tinha certa semelhança com o presidente Roosevelt, a mesma estrutura quadrada e o mesmo bigode eriçado, e cultivava a semelhança. Era um homem que nunca se contentava em conversar; ou falava como um turbilhão ou fazia discursos.

Recebeu Martin com quatro "Olás", que pronunciou à maneira de um aplauso universitário; mostrou-lhe todo o Departamento, levou-o ao gabinete particular do director, deu-lhe um charuto e abriu as comportas de um másculo silêncio:

- Doutor, estou satisfeitíssimo por ter comigo um homem com inclinações científicas. Não é que me considere inteiramente isento delas. Na realidade, tenho como hábito regular dedicar algum tempo à pesquisa científica, sem uma certa dose da qual mesmo a cruzada mais ardente em prol de métodos higiênicos poucos progressos faria. - Parecia o começo de uma longa conferência. Martin acomodou-se na cadeira. Tinha dúvidas quanto ao charuto, mas verificou que o ajudava a parecer mais interessado. - Mas comigo, confesso, é uma questão de temperamento. Freqüentes vezes, tenho tido a esperança de que, sem qualquer desejo de simples engrandecimento pessoal, as forças superiores possam ainda conceder-me o gênio para tornar-me simultaneamente o Roosevelt e o Longfellow do grande e universalmente crescente movimento em prol de medidas de saúde pública (acha o charuto demasiado fraco, doutor?) ou talvez seja preferível dizer o Kipling da saúde pública em vez de Longfellow, porque a despeito dos belos trechos e da elevada atmosfera moral do Sábio de Cambridge, a sua poesia carece do arrojo e da penetração de Kipling. Presumo que concorda comigo, ou concordará quando tiver uma oportunidade de ver o efeito que a nossa obra produz na cidade, e o êxito que alcançamos propagando a idéia da melhor higiene, que o mundo precisa verdadeiramente de um dirigente inspirado, corajoso, acima da craveira comum, digamos, um Billy Sunday do movimento, um homem que conhecesse como utilizar devidamente o sensacionalismo e como despertar o povo do seu letargo. Às vezes, os jornais... e eu só posso dizer que eles me lisonjeiam quando me comparam com Billy Sunday, o maior de todos os evangelistas e pregadores cristãos; às vezes, eles proclamam que sou demasiado sensacional. Ora! Se eles, pelo menos, pudessem compreender que o mal é que não sei ser bastante sensacional! Todavia, experimento, experimento, e... Olhe! Eis um cartaz, pintado por minha filha Orquídea. A poesia é a minha única e humilde contribuição, e deixe-me dizer-lhe que é citada por toda a parte:

Como ter saúde rija

Só à custa de botija?

Que assim cada higienista verdadeiro

Dê o alerta como o galo no terreiro.

Tenho outro ainda: é um trabalho secundário; não tem como escopo introduzir nos lares princípios gerais abstractos, mas o senhor ficaria surpreendido perante o efeito que causa nas donas de casas descuidadas - que naturalmente não têm a intenção de comprometer a saúde dos seus garotos e apenas precisam de instrução e de um pouco de estímulo - quando vêem um cartaz como este, ficam a pensar:

Ferva o leite, por Deus, que o caso é sério, Ou compre então passagem para o cemitério.

Tenho recebido uma porção de elogios no meu pequeno círculo por algumas dessas coisas que não me levam nem cinco minutos a rabiscar. Qualquer dia, quando o senhor tiver tempo, passe os olhos por este volume de recortes, só para ver, doutor, o que se pode fazer quando se entra para o Movimento com um espírito moderno e científico. Este é sobre uma conferência pró-temperança que fiz em Dês Moines; olhe, fiz toda a sala, e estava cheia como uma lata de sardinhas, erguer-se de repente, quando provei com estatísticas que noventa e três por cento de todos os casos de demência são causados pelo alcoolismo! E este... bem, este não tem relação directa com a saúde pública, mas servirá para mostrar-lhe a oportunidade que terá aqui para entrar em contacto com todos os movimentos em prol do bem-estar público.

Apresentou um recorte de jornal onde, emoldurando uma caricatura à pena, que o representava com uma grande cabeça, num corpo minúsculo, se lia, o título:

O DOC PICKERBAUGH,

"BOOSTER" SÍMBOLO DO CONDADO DF. F. VANGELINE, PROMOVE AQUI UM COMÍCIO PRÓ-FREQUÊNCIA DAS IGREJAS

Pickerbaugh considerou o recorte, prosseguindo:

- Foi uma reunião notável! Aumentámos a freqüência das igrejas daqui em dezassete por cento! Ah, doutor, o senhor cursou Winnemac e fez o estágio em Zenith, não foi? Bem, nesse caso, este poderia interessar-lhe. É do Zenith Advocate-Times, e da autoria de Chum Frink, que acho que concordará comigo, se alinha com Eddie Guest e Walt Mason, como os maiores, já que certamente são os mais populares, de todos os nossos poetas, mostrando que se pode sempre contar com o gosto literário do público norte-americano. Meu caro Chum! Isto foi quando fui a Zenith para falar à convenção nacional das Escolas Dominicais Congregacionais, pois sou também congregacionalista, sobre "A Moralidade da Higiene Perfeita". Pois Chum escreveu este poema dedicado à minha pessoa:

Em Zenith um só hurrah uníssono se escuta

A Almus Pickerbaugh, seu amigo sem par.

Poeta-Doutor, de punhos prontos para a luta,

Ei-lo firme, por nós, qual novo Gibraltar.

Cheio de cifras anda, e mil coisas gozadas,

Mas é o melhor e o mais audaz dos camaradas.

Por um momento, o exuberante Dr. Pickerbaugh se mostrou reservado."

- Talvez seja um tanto imodesto da minha parte mostrar, tudo isto. E, quando leio um poema com tanta originalidade e estro, quando encontro uma verdadeira obra-prima como esta, então compreendo que nada tenho de poeta, por mais que as minhas rimas sirvam para animar a Causa da Higiene. As produções do meu espírito poderão ensinar higiene e contribuir um pouco para salvar milhares de vidas preciosas, mas não são literatura, como o que Chum Frink produz. Não, acho que nada mais sou do que um simples cientista de gabinete. Contudo, o senhor verá depressa como uma destas minhas produções, só por ter um pouco de humor, penetração e alguma melodia, doura a pílula e leva gente distraída a amontoar-se na calçada, indo depois para o grande ar livre de Deus encher os pulmões de ozone e levar uma vida de verdade, máscula, de peito cabeludo. E certamente o senhor terá interesse em folhear o primeiro número de uma pequena revista semestral que estou a lançar; sei de fonte segura que certo número de directores de jornais vão fazer citações dela e assim levar avante a boa obra, assim como aumentar-lhe a circulação.

Passou a Martin um folheto intitulado Fragmentos de Picker-baugh.

Em versos e aforismos, os Fragmentos recomendavam boa higiene, boas estradas, comércio honesto e a rígida regra de moralidade. O Dr. Pickerbaugh apoiava os seus preceitos com estatísticas tão impressionantes como as que o Rev. Ira Hinkley outrora utilizava na Digamma Pi. Martin sentiu-se edificado por uma nota que revelava que, entre todas as famílias divorciadas em Ontário, Tennessee, e no Sul de Wyoming, em 1912, os maridos, na pasmosa proporção de cinqüenta e três por cento, bebiam pelo menos um copo de whisky diariamente.

Antes que esta advertência tivesse sido meditada, Pickerbaugh arrancou os Fragmentos das mãos de Martin, com um jovial:

- Oh, o senhor não há-de querer ler nada mais das minhas tolices. Poderá, para o futuro, passar os olhos por isso. Mas este segundo volume dos meus fragmentos talvez lhe interesse, apenas como uma idéia do que a gente pode fazer.

Enquanto olhava os títulos do livro de recortes, Martin compreendeu que o Dr. Pickerbaugh era muito mais conhecido do que pensara. Era apresentado como o fundador do primeiro Rotary Club de lowa; superintendente da Escola Dominical Congregacional Jonathan Edwards, de Nautilus; presidente do Clube de Pedestrianismo e Esqui, do Clube da Malha do West Side, e do Clube de Roosevelt e dos Buli Moose1 de 1912; organizador de um Piquenique Conjunto dos Woodmen, dos Moose, dos Elks, dos Mações, dos Oldfellows, da Turnverein, dos Cavaleiros de Colombo, da B'nai B'rith e da A. C. M. e como premiado por haver recitado o maior número de textos bíblicos.

 

1 Alce americano; designação dos partidários de Theodore Roosevelt na campanha presidencial de 1912. (N. do T.)

 

Tinha de apaziguar eleitores loquazes que vinham queixar-se de tudo desde emanações dos esgotos até às cervejadas nocturnas dos vizinhos; tinha de ditar a correspondência oficial à melindrosa estenógrafa, que não era uma empregada, mas uma "rapariga bonita que estava empregada"; dar publicidade aos jornais; comprar clips para papéis, cera para o soalho, e papel, pelos preços mais baixos; auxiliar, em caso de necessidade, na clínica municipal, os dois médicos que tinham consultório particular; dirigir as enfermeiras e os dois inspectores sanitários; fazer as reclamações à Companhia de Recolha do Lixo; deter, ou pelo menos repreender, todos os que cuspissem na rua; saltar para um Ford e correr a afixar avisos em casas onde havia doenças infecciosas; manter um olho entendido e implacável sobre todas as epidemias que grassassem desde Vladivostok até à Patagônia e impedir (por métodos não delineados claramente) que elas viessem matar a burguesia e mesmo paralisar as actividades comerciais de Nautilus.

Mas havia algum trabalho de laboratório: exames de leite, Wassermanns para médicos particulares, preparação de vacinas, culturas em casos suspeitos de crupe.

- Compreendo - disse Leora, enquanto se vestiam para o jantar na residência dos Pickerbaughs. - O teu serviço não te tomará mais que umas vinte e oito horas por dia, e o resto do tempo tens toda a liberdade de empregá-lo em pesquisas, a não ser que alguém te interrompa.

 

O lar do Dr. e da Sr.a Almus Pickerbaugh, nesse West Side eriçado de campanários, era um autêntico lar à moda antiga. Era uma casa de madeira com torreões, com balouços, redes, árvores de sombra dispostas um tanto desordenadamente, um relvado um tanto careca, um caramanchão um tanto húmido e uma velha cocheira com uma fila de pontas de aço ao longo da cumieira. No portão da frente havia a inscrição: REPOUSO.

Martin e Leora mergulharam num mar de cumprimentos e filhas. As oito mulheres e mulherzinhas, desde a linda Orquídea, com dezanove anos, até às duas gêmeas de cinco anos, vieram à tona, numa maré de amistosa curiosidade, todas elas tentando falar simultaneamente.

A dona da casa era uma mulher roliça, com um ar de comfiança inquieta. A sua convicção de que tudo andava muito bem estava em conflito constante com a sua consciência de que um grande número de coisas parecia andar muito mal. Beijou Leora enquanto Pickerbaugh sacudia energicamente a mão de Martin. Pickerbaugh tinha um modo de apertar com o polegar o dorso da mão alheia, que era extraordinariamente cordial e penoso.

Imediatamente afogou, mesmo as filhas, numa oração sobre o conforto do lar:

- Aqui vêem uma ilustração de saúde no lar. Observe o viço destas meninas, Arrowsmith! Nunca estiveram de cama um só dia da sua vida... praticamente... e embora a mãe tenha as suas enxaquecas, isso deve ser atribuído ao pouco cuidado com o seu regime alimentar, quando era pequena, porque o pai, o velho diácono... e era também um homem às direitas da velha escola, como os que mais o sejam, e amigo de Nathaniel Mugford, ao qual, mais do que a qualquer outro, devemos não só a fundação do Mugford College como também a tradição de integridade e combatividade que proporcionaram a nossa prosperidade actual... Mas ele não tinha conhecimento de regimes e higiene, e eu sempre achei...

As filhas foram apresentadas como Orquídea, Verbena, Margarida, Junquilha, Hibisca, Narcisa, e as gêmeas, Arbuta e Gladíola.

A Sr.a Pickerbaugh suspirou:

- Suponho que seria terrivelmente convencional chamar-Lhe minhas jóias... tenho tanto ódio a essas frases convencionais que toda a gente usa, os senhores não têm? mas jóias é o que elas são para a sua mãe e o doutor, e às vezes desejo... Naturalmente, quando começámos a dar-lhes nomes de flores, tivemos de continuar, mas se tivéssemos começado por jóias, veja Quantos nomes encantadores poderíamos ter escolhido, como Ágata, e Sardónica, e Bérila, e Topázia, e Opala, e Esmeralda, e Crisólita... é Crisólita, não é? e não Crisálida? Pois é... Muitas Pessoas deram-nos parabéns pelos nomes escolhidos. Não sei se sabem, mas as pequenas estão a ficar muito conhecidas... com os retratos a sair em tantos jornais, e temos uma equipa feminina de Baseball Pickerbaugh, unicamente com o pessoal da família... embora o doutor tenha agora que jogar nele, porque começo a ficar um pouco pesada demais.

Salvo pela idade, era impossível distinguir as filhas. Eram todas vigorosas; todas louras; todas bonitas; todas vivas; todas musicais, e não apenas puras mas de idéias clamorosamente limpas. Todas pertenciam à Escola Dominical Congregacional, e ou à Associação Cristã das Raparigas ou às Camp Fire Girls1; todas gostavam de piqueniques; e todas, menos as gêmeas de cinco anos, podiam citar, praticamente sem nenhum erro, as estatísticas mais recentes sobre os males do álcool.

- Na realidade - disse o Dr. Pickerbaugh -, nós achamos que elas são uma notável ninhada.

- Sem dúvida nenhuma! - confirmou Martin, com veemência.

- Mas o que é melhor, elas conseguem auxiliar-me a realizar a doutrina da mens sana in corpore sano. Minha mulher e eu ensinámo-las a cantar junto, tanto em casa como publicamente, e, como organização, nós chamamos-lhes Octeto Saudista.

- Sim? - disse Leora, quando se tornou evidente que Martin nada encontrara para dizer.

- Exactamente, e, dentro de algum tempo, espero popularizar o nome Saudista de extremo a extremo desta velha nação; e hão-de ver coros de meninas felizes, espalhados por toda a parte, levando a sua mensagem alada a cada canto escuro. Coros de Saudistas! Boas e entusiásticas jogadoras de bola-ao-cesto, belas e de idéias puras! Garanto-lhes, elas hão-de sacudir os indolentes e cabeçudos! Elas hão-de pôr em brios os que vivem na imundície e dizem imundícies! Já produzi um poema-divisa para os Coros de Saudistas. Querem ouvi-lo?

A juventude feminina com um sorriso que fascina,

Sabe afastar de mil horrores

Bêbedos, cuspilhões e jogadores.

Os nossos pais e professores

Disseram a razão da vida.

E assim levamos de vencida"

Os elementos destruidores.

1 Organização norte-americana de escuteiras. (N. do T.)

 

Sua vergonha despertaremos. Seus vícios todos tiraremos. Alerta, senhor Comodista, Que eu sou um saudista!

Mas naturalmente uma causa ainda mais importante é... e eu fui um dos primeiros a advogá-la... termos uma Secretária de Saúde Pública e Eugenia, no gabinete de Washington...

Na maré desta dissertação, foram arrastados através de um estupendo jantar. com um cordial: "Qual quê, pois claro que querem repetir... Isto aqui é o Palácio da Hospitalidade! " - o Dr. Pickerbaugh deixou Martin e Leora de tal modo empanturrados com pato assado, batata doce açucarada e pastéis de carne, que eles ficaram com os olhos vidrados e sentiram-se gravemente doentes. Quanto a Pickerbaugh, porém, não parecia afectado. Enquanto trinchava e engolia, continuava a discursar até que a sala de jantar, com o seu velho aparador de nogueira, quadros de Cristo por Hoffmann e quadros de vaqueiros da autoria de Remington, pareceu desvanecer-se, deixando-o numa tribuna ao lado de uma bilha com água gelada.

Nem sempre era apenas fantástico.

- Doutor Arrowsmith, afirmo-lhe que somos homens felizes por tirarmos a subsistência de um esforço honesto, numa cidade viril como esta, para tornar o povo sadio e forte. Eu poderia ganhar oito ou dez mil dólares por ano num consultório particular, e já me disseram que poderia fazer ainda mais na arte de anunciar, mas sinto-me satisfeito e os meus entes queridos sentem-se igualmente satisfeitos com o meu ordenado de quatro mil dólares. Pense no que é termos um serviço onde nada temos para vender senão honestidade, decência e fraternidade!

Martin sentiu que Pickerbaugh era sincero, e a vergonha que experimentou impediu-o de erguer-se bruscamente, agarrar Leora e tomar o primeiro comboio de carga que saísse de Nautilus.

Depois do jantar, as filhas mais novas queriam, como um enxame, amar Leora. Martin teve de colocar as gêmeas nos joelhos e contar-lhes uma história. Eram gêmeas notavelmente pesadas, mas não mais pesadas do que o trabalho de inventar um enredo. Antes de ir para a cama, o Octeto Saudista em peso cantou o famoso Hino da Saúde (letra do Dr. Almus Pickerbaugh) que Martin devia ouvir em muitos, brilhantes e vigorosos actos públicos de Nautilus. Fora adaptado à música do Hino Guerreiro da República, mas como as vozes das gêmeas eram fortes e extraordinariamente agudas, causavam um efeito particularíssimo:

Vós correis ao dinheiro ou correis à ventura? A Pátria quer que tenhais boa cultura, Forte saúde, a rua limpa, a mente pura. E assim unidos marcharemos todos.

Um espírito são em corpo sadio, Um espírito são em um corpo sadio, Um espírito são em um corpo sadio: O lema para um e para todos.

Como despedida, as gêmeas recitaram, como haviam recitado recentemente na Festa Congregacional, um dos pequeninos poemas do pai:

Que é que diz o passarinho

No seu canto matinal?

Viva a saúde geral,

Do Papá, da Mamã, do Bebezinho,

Viva, viva, vivôóô!

- Agora, queridinhas, vamos para a cama! - disse a Sr.a Pickerbaugh. - Não acha, senhora Arrowsmith, que elas nasceram actrizes? Não têm medo de auditório nenhum e como tomam a peito o seu papel... Talvez, não na Broadway, mas nos teatros mais refinados de Nova Iorque, o público ficasse louco por elas, e pode ser ainda que nos procurem para melhorar alguma peça. Vamos!

Durante a sua ausência, as outras apresentaram um pequeno programa musical.

Verbena, a secundogénita, tocou Chaminade. ("Naturalmente, nós todos gostamos da música, e propagamo-la entre os vizinhos, mas a Verbê é talvez o único verdadeiro gênio musical da família.") Mas o número inesperado foi o solo de cometa de chaves, de Orquídea.

Martin não tinha coragem de olhar para Leora. Não que fosse desdenhosamente superior a solos de corneta, Pois em les Müls, Wheatsylvania, e em zonas surpreendentemente extensas de Zenith, mulheres das mais respeitáveis tocavam solos de corneta de chaves. Mas teve a impressão de que estavam num manicômio havia dezenas de anos.

"Nunca estive tão bêbedo na minha vida. Se pudesse beber alguma coisa que me pusesse bom! ", pensava, angustiado concebeu planos histéricos e totalmente impraticáveis para fugir. Depois, a Sr.a Pickerbaugh, voltando de junto das gêmeas que continuavam a ouvir-se, sentou-se com a harpa.

Enquanto tocava, esta desbotada matrona caiu num grande devaneio, e de repente Martin imaginou-a quando, virgem, alegre e boa como uma pomba, admirara o enérgico e jovem estudante de Medicina Almus Pickerbaugh. Devia ter sido uma genuína donzela, das que floresceram por volta de 1890, a época ingênua e idílica de Howels, quando os rapazes eram puros, jogavam croquete e cantavam Swanee River; uma donzela que, sentada na varanda da frente da casa, se deixava encantar pelos lilases e esperava ter, quando casasse com Almus, um fogão niquelado alimentado automaticamente e um filho que viesse a ser missionário ou milionário.

Pela primeira vez naquela noite, Martin conseguiu dar um tom de respeitável cordialidade ao seu "Gostei muito disso". Experimentou uma impressão de vitória e sentiu-se um tanto aliviado.

Mas a orgia da noite apenas começara.

Fizeram trocadilhos, que Martin odiava e em que Leora se mostrou muito ineficiente. Figuraram charadas, no que Pickerbaugh era tremendo. Sentado no soalho, metido no casaco de peles da mulher, para representar uma foca num banco de gelo flutuante, compôs um quadro incomparável. Depois Martin, Orquídea e Hibisca (doze anos de idade) tiveram de apresentar uma charada, e houve complicações.

Orquídea era tão cheia de cândidas ternuras, de sorrisos, pancadinhas carinhosas e doces ralhos com as irmãs mais novas, mas tinha dezanove anos e não era totalmente uma criança. Sem dúvida tinha a alma tão pura e era tão delicada aos romances limpos e sadios como o Dr. Pickerbaugh declarara e ele declarava-o com freqüência, mas os rapazes não lhe passavam despercebidos, mesmo que fossem casados.

Planeou representar a palavra doleful 1 com um mendigo a pedir esmola 2 e uma caixa cheia 3 de milho. Enquanto subiam rapidamente a escada, a fim de caracterizar-se, agarrou-se ao braço de Martin e, requebrando-se, murmurou:

- Oh, doutor, estou tão contente por o senhor ser o assistente do Papá... uma pessoa nova e simpática. Oh, será feio o que estou a dizer? O que eu quero dizer... é que o senhor é tão atlético e bem parecido, e o outro subdirector... mas não diga ao Papá que disse isto... mas ele era um velho excêntrico!

Notou-lhe os olhos castanhos e os lábios virginais que nenhum buço sombreava. Enquanto Orquídea vestia o seu traje deliciosamente folgado de mendigo, notou-lhe também os tornozelos e o colo juvenil. Ela sorria-lhe, como alguém que o conhecesse havia muito tempo e disse lealmente:

- Vamos mostrar-lhes! Sei que é um actor formidável!

Quando, num alvoroço, desceram a escada, e como ela não lhe desse o braço, ele agarrou o dela, apertou-o levemente, mas, repentinamente alarmado, soltou-o com um movimento brusco.

Desde o seu casamento, estivera tão absorvido em Leora, como amante, companheiro, protector, que até àquele momento a sua aventura mais devastadora fora uma olhadela trocada num comboio com uma linda rapariga. Mas a alegria juvenil e colorida de Orquídea perturbava-o. Queria descartar-se dela, desejava não descartar-se totalmente e, pela primeira vez naqueles anos, teve receio do olhar de Leora.

Mais tarde, houve façanhas acrobáticas e uma considerável evidência de Orquídea, que não usava espartilho, que gostava de dançar e que louvou as façanhas de Martin no brinquedo "Sigam o Chefe".

Todas as filhas, menos Orquídea, foram enviadas para a cama, e o resto da festa constou do que Pickerbaugh chamava "uma pequena e serena conversa científica junto da lareira", constituída pelas suas observações sobre boas estradas, higiene rural, idéias em política e métodos de arquivo de correspondência em departamentos de Saúde Pública. Durante esta hora calma,

 

1 Doloroso, triste. (N. do T.)

2 Dole. (N. do T.)

3 Full. (N. do T.)

 

ou possivelmente hora e meia, Martin viu que Orquídea lhe observava os cabelos, a mandíbula, as mãos, e pensou, repeliu o pensamento e voltou a pensar no prazer inocente de segurar-lhe a amável mãozinha.

Viu também que Leora observava ambos e sofreu com isto, não conseguindo praticamente nenhum ensinamento dos conhecimentos de Pickerbaugh sobre o valor dos desinfectantes. Quando Pickerbaugh predisse para Nautilus, dentro de quinze anos, um Departamento de Saúde Pública três vezes maior, com muitos médicos inteiramente dedicados à clínica municipal e às escolas públicas, e possivelmente Martin como director (quanto a Pickerbaugh, estaria entregue a actividades misteriosas e interessantes, num campo mais vasto), Martin limitou-se a murmurar: "Sim, sim; isso... seria lindo", enquanto explicava inteiramente a si próprio: "Maldita pequena, que bom se não se atirasse desta maneira."

Às oito e meia, imaginara a saída como o mais alto êxtase da vida; às doze, despediu-se com nervosa vacilação.

Foram a pé para o hotel. Livre da vista de Orquídea, reanimado pelo frescor da noite, esqueceu-se da garota e aferrou-se novamente ao problema do seu trabalho em Nautilus.

- É o diabo! Não sei se poderei agüentar. Trabalhar com aquele papagaio, com as suas obras idiotas sobre bêbedos

- Não as achei muito más - protestou Leora.

- Não? Cruzes! Ele é provavelmente o pior poeta que até hoje existiu, e certamente sabe menos sobre epidemiologia do que eu pensava que um homem qualquer podia aprender sozinho. E quanto a essa... essa... como é que Cliff Clawson costumava dizer? E a propósito, que será feito de Cliff; há uns dois anos que não recebo carta dele... Ah! "opressiva domesticidade cristã..." Livra! Olha, vamos procurar um blind-pig a onde a gente possa sentar-se em companhia de arrombadores amáveis e serenos.

Ela insistiu:

- Achei os poemas bem comíveis.

- Comíveis! Que palavra!

- Não é pior do que as exclamações que usas a todo o instante! Mas o alarido da corneta daquela incrível rapariga... a mais velha... Fu!

 

1 Casa que, na época da Proibição, servia bebidas alcoólicas. (N. do T.)

 

- Pois acho que ela tocou optimamente!

- Martin, a corneta é a espécie de instrumento que o meu irmão tocaria. E tu, tão superior perante a poesia do doutor e o uso da palavra "comível"! És exactamente um provinciano tão casca-grossa como eu, e talvez ainda mais!

- Mas que é isso, Leora? Nunca te vi agastada por coisa alguma! E não podes compreender como é importante... Vês, um homem como Pickerbaugh torna simplesmente ridículo todo o Serviço de Saúde Pública, com as suas palhaçadas e a sua ignorância. Se ele disser que o ar puro faz bem, isso levar-me-á, a mim ou a qualquer outra pessoa razoável, a fechar as janelas, em vez de abri-las. E empregar a palavra "ciência" naquela versalhada imbecil é um sacrilégio!

- Bem, se queres saber o que é, Martin Arrowsmith, eu não admito mais familiaridades com essa tal Orquídea! Só te faltou abraçá-la, quando desceram a escada, e depois ficaste com os olhos pregados nela o resto da noite! Não me importo que digas palavrões, que sejas esquisito e nem mesmo que venhas mais ou menos bêbedo para casa, mas, desde aquele almoço em que tu disseste para mim e para aquela rapariga Fox: "Espero que não se importem, mas acontece que estou comprometido com ambas..." - és meu e não quero nenhuma sócia. Sou uma rústica e é bom que saibas isso, e quanto a essa Orquídea, com o seu sorriso dengoso, e as suas pancadinhas no teu braço e as suas patas ridículas... Orquídea!... Orquídea é o que ela não é! É um fel da terra!

- Mas palavra que nem me lembro qual das oito é ela.

- Hem... Então é porque namoraste todas elas. Engraçadinho!... Bem, não continuarei a bater nesta tecla. Só queria avisar-te.

No hotel, depois de desistir da tentativa de encontrar um modo rápido, jovial e convincente de prometer que não "brincaria" mais com Orquídea, gaguejou:

- Se não te importares, acho que vou descer e caminhar um pouco mais. Preciso de formar uma orientação para esse trabalho do Departamento.

Sentou-se no escritório do Sims House, um gabinete singularmente fúnebre, depois da meia-noite, e singularmente mal-cheiroso.

"Que imbecil, esse Pickerbaugh! Só queria dizer-lhe cara a cara que quase nada sabemos sobre a epidemiologia da tuberculose, por exemplo.

"De qualquer maneira é uma linda pequena. Orquídea! É como uma orquídea... não, é demasiado sadia. Se fosse um garoto para ir caçar com ela... Simpática. E portou-se como se eu fosse da sua idade, e não um velho médico. vou ser prudente, sim, sim; mas... gostaria de beijá-la uma vez; seria bom! Ela gosta de mim. Que lábios tão desejáveis; parecem... parecem botões de rosa! Leora, coitadinha. Nunca fiquei tão admirado na minha vida. com ciúmes. Bem, ela tinha razão! Nunca mulher alguma amparou tanto um homem... Lee, queridinha, então não compreendes, tolinha, que, se eu dobrasse a esquina com dezassete biliões de Orquídeas, serias tu a quem eu amaria, e nenhuma outra a não seres tu? Não posso tolerar aqueles disparates do Octeto Saudista. Ainda se instruíssem o povo, o que não acontece. Quase que seria melhor deixá-lo morrer a forçá-lo a viver para ouvir aqueles... Leora disse que eu era "um provinciano casca-grossa". Precisas de saber, minha filha, que na verdade sou bacharel em Artes Liberais e podes mesmo lembrar-te da espécie de livros que o "casca-grossa" leu para ti, no Inverno passado, até mesmo Henry James e todos aqueles, e Mas... ela tem razão. Provinciano, sim. Sei fazer culturas e preparar vacinas, mas... Entretanto, um dia quero viajar como Sondelius... Sondelius! Ah, se fosse para ele que eu estivesse a trabalhar, em vez de Pickerbaugh, havia de ser seu escravo...

E ele não gosta de fazer fitas, também? É justamente o que eu queria dizer. Essa espécie de frase. "Fazer fitas! " Brrr! Diabo! Hei-de empregar qualquer expressão que me agradar! Não sou um pedante, como Angus. Sondelius, por exemplo, pragueja, e contudo está acostumado a todos esses figurões... E vou andar tão ocupado aqui, em Nautilus, que não terei tempo nem para ler. Entretanto... Acho que eles não lêem muito, mas deve haver uma porção desses ricaços daqui que entendem de boas casas... roupas... teatros... essas coisas todas. Histórias!"

Encaminhou-se lentamente para um camião-restaurante "aberto toda a noite", e melancolicamente tomou uma xícara de café. A seu lado, sentado diante da longa tábua que servia de mesa, debaixo da imponente janela de vidro vermelho com um retrato de George Washington, estava um polícia que, enquanto mordia uma sanduíche de hamburger, perguntou:

- Escute, o senhor não é o novo médico que veio para auxiliar

Pickerbaugh? Eu vi-o no City Hall.

- Justamente. A propósito... âââh... Que tal acham Pickerbaugh por aí? Que tal lhe parece? Diga-me com franqueza, porque sou principiante aqui e... O senhor entende-me, não?

Segurando com um robusto polegar a colher dentro da xícara, o polícia sorveu o café e proclamou, enquanto o cozinheiro do restaurante ambulante, amável e sujo de gordura, sacudia a cabeça aprovativamente:

- Bem, se o senhor quer saber, ele faz um pouco de teatro, mas é uma cabeça. E fala o inglês da Rainha. O senhor já escutou um dos seus sonetos? São formidáveis! Eu lhe digo: há gente que diz que Pickerbaugh é muito intrometido, mas acho que é muito bom que ele... claro que isso não é preciso para camaradas como o senhor e eu, doutor... que ele se importe com o leite, e o lixo, e os dentes das crianças. Há uma porção de gente porca e ignorante, esses estrangeiros que precisam que se lhes meta no nariz essa história de higiene, de modo que não arranjem uma porção dessas moléstias infecciosas e comecem a pegá-las à gente, e garanto-lhe que o velho Doe Pickerbaugh é pessoa para meter isso na idéia dessa gente! E é um camaradão; não é um convencido, como alguns desses doutores. Escute esta. Um dia, apareceu no piquenique de São Patrício. É um reles protestante, mas ele e o padre Costello entenderam-se como dois velhos camaradas, e o diabo me leve se não rebentou com um sujeito de metade da idade dele! E aquele rapaz, muito metediço, bem o merecia! Lá na Força todos gostam dele, e temos de achar graça ao jeito com que ele vem e nos convence a fazermos um serviço qualquer de saúde que por lei não temos obrigação de fazer, em vez de dar uma porção de ordens idiotas. Aposto. Ele é um tipo de verdade.

- Compreendo - disse Martin; e, ao voltar para o hotel, meditava:

"Sempre queria ver é o que diria Gottlieb a respeito do homem. Que Gottlieb se lixe! Que todos se lixem, menos Leora! Não falharei aqui, da maneira como falhei em Wheatsylvania. Um dia, Pickerbaugh arranjará um emprego melhor... Isso mesmo! Ele é justamente a espécie de bluff que costuma pegar! Mas, de qualquer forma, terei então boa prática e talvez possa fazer aqui um verdadeiro Departamento de Saúde Pública. Orquídea disse que íamos patinar este Inverno... Que se lixe essa Orquídea!"

 

Martin encontrou no Dr. Pickerbaugh um chefe generoso. Estava ansioso por incorporar o poder criador e a veemência de Martin nas suas Causas e Movimentos. Os seus conhecimentos científicos eram muito mais limitados do que os das enfermeiras visitantes, mas não tinha ciúmes e só exigia de Martin a crença de que a mudança rápida e ruidosa de um lugar para outro constitui o meio (e possivelmente o fim) do Progresso.

Numa vivenda para duas famílias, em Social Hill, que não é, como o nome indica, uma colina, mas uma leve protuberância na planície, Martin e Leora alugaram o andar de cima. Havia um encanto simples nesses relvados contínuos, nessas ruas largas sob a sombra dos passeios, e havia alegria na libertação dos mexeriqueiros de Wheatsylvania.

De repente, viram-se cortejados pela alta sociedade de Nautilus.

Alguns dias depois da chegada, Martin foi chamado ao telefone para ouvir uma estridente voz masculina:

- Alô, è Martin? Aposto que não adivinhas quem fala! Martin, ocupadíssimo, refreou o impulso de observar:

"Acertou. Vá para o diabo! ", e zumbiu, com a cordialidade conveniente a um novo subdirector:

- Não. Creio que não sei quem é.

- Então faze uma tentativa.

- Han... Cliff Clawson?

- Qual quê. Mas andaste perto. Olha, acho que vais acertar desta vez! Faze outra tentativa!

A estenógrafa esperava para ir fazer apanhados de cartas, e Martin ainda não aprendera a tornar-se impessoal e indiferente em presença dela. Disse com um azedume perceptível:

- Ah, suponho que é o presidente Wilson. Olhe lá...

- Mas, Mart, é Irve Watters! Que tal achas? Que tal, hem?

O brincalhão esperava evidentemente um grande entusiasmo, mas foram necessários dez segundos para Martin se lembrar de quem poderia ser Irving Watters. Depois, reconstituiu: Watters, o insuportável tipo normal do estudante de Medicina, cuja fé no bom, no verdadeiro e no rendoso o aborrecera na Digamma Pi. Apresentou uma reacção tão afectuosa quanto pôde:

- Ora viva! E que fazes por aqui, Irve?

- Estou estabelecido aqui. Desde o fim do estágio. E arranjei uma boa clientela, também. Olha, Mart, a minha mulher e eu convidamos-te, a ti e à tua mulher... parece que casaste, não é assim?... para virem jantar connosco, amanhã, e enfronhar-te-ei em todos os assuntos locais.

O medo da hospitalidade de Watters deu força a Martin para mentir vigorosamente:

- Que pena! Tenho um compromisso para amanhã à noite e também para a noite de depois de amanhã.

- Então vem almoçar comigo amanhã, no Elks' Club e no domingo tu e a tua mulher virão jantar connosco.

Martin, perdendo a esperança:

- Creio que não poderei ir almoçar, mas... Mas jantaremos com vocês no domingo.

Uma das maiores tragédias é que não há nada mais desconsolador do que a profunda afeição dos velhos amigos que nunca foram amigos, A consternação interior de Martin diante da perspectiva de ser apanhado por Watters não diminuiu quando Leora e ele, cheios de relutância, compareceram no domingo, à uma e trinta, e foram pela fúria da velha amizade arrastados aos dias da Digamma Pi.

A casa de Watters era nova e tinha móveis embutidos, com vidros em caixilhos metálicos. Em três anos de exercício da medicina, Watters já se tornara didáctico e incrivelmente conjugal; ganhara peso e infalibilidade; e aprendera muitas coisas novas sobre as quais quis mostrar-se maçador. Tendo-se formado um ano antes de Martin e casado com uma mulher quase rica, tornara-se bondoso e hospitaleiro, com uma ênfase que despertava impulsos homicidas. A sua conversa era uma série de máximas e conselhos:

- Se persistires no Departamento de Saúde Pública uns dois anos e tiveres o cuidado de travar relações com as pessoas que convém, poderás arranjar aqui uma clientela muito rendosa. É uma cidade óptima... próspera... poucos caloteiros.

Precisas de entrar para o Country Club e jogar golfe. A melhor oportunidade do mundo para conhecer gente de recursos. Arranjei lá mais de um cliente de primeira classe. Pickerbaugh é um homem combativo, um bom booster, mas tem más tendências socialistas. Essas clínicas... uma vergonha... quantas pessoas as freqüentam, podendo pagar ao médico! Desmoralizam o povo. Eu... isto pode surpreender-te... oh, como tinhas uma porção de idéias esquisitas quando estávamos na escola, mas não és o único que pensa por si próprio!... às vezes acredito que seria melhor para a situação da saúde pública em geral se não houvesse nenhum Departamento de Saúde Pública, porque eles criam numa porção de gente o hábito de recorrer a clínicas gratuitas, em vez de procurarem médicos particulares, diminuindo os honorários dos médicos e reduzindo o seu número, de sorte que ficam menos médicos para conservar um olho vigilante sobre as moléstias. Acho que, nesta altura, já largaste aquelas idéias esquisitas que costumavas apresentar sobre o facto de sermos práticos: mercantilismo, é como costumavas chamar a isso. Agora, já podes compreender que tens de sustentar a família, e que, se não fizeres isso, ninguém mais o fará. Sempre que quiseres a ficha exacta de qualquer pessoa daqui, procura-me. Pickerbaugh é um excêntrico... ele não te daria a linha exacta... as pessoas que precisas de agarrar são essa gente séria do comércio, sólida, conservadora, próspera.

Depois, foi a vez da Sr.a Watters. Filha de um homem próspero, nada menos que o Sr. S. A. Peaseley, fabricante do Adubador Automático Daisy, andava grávida de conselhos.

- Ainda não têm filhos? - suspirou para Leora. - Mas deve tê-los! Irving e eu temos dois, e nem sabe como são interessantes para nós e como nos conservam jovens.

Martin e Leora entreolharam-se, lastimosamente.

Depois do jantar, Irving insistiu em recordar os "bons momentos que passávamos juntos na velha e querida Universidade". Não aceitou protestos.

- Sempre gostaste de nos convencer que és excêntrico, Mart. Pretendes não ter saudades da Universidade, mas eu sei... estás a fingir... tu admiras a velha escola e os nossos lentes tanto como qualquer outro. Talvez te conheça melhor do que tu próprio! Olha, vamos agora erguer um viva e cantar Winnemac,

Mãe de Homens Fortes. E:

- Não se faça rogado; porque não há-de cantar? - disse a Sr.a Watters, dirigindo-se para o piano, que atacou com firmeza.

Depois de polidamente haverem vencido o frango frito, o icecream cor de tijolo, máximas, gorgolejos e recordações, Martin e Leora saíram e comentaram, desanimados:

- Pickerbaugh deve ser um santo, pois Watters critica-o. Começo a crer que ele tem juízo suficiente para abrir o guarda-chuva quando chove.

Na sua desgraça comum, esqueceram-se de que haviam sido perturbados por uma rapariga chamada Orquídea.

 

Entre Pickerbaugh e Irving Watters, Martin foi arrastado para dentro de muitas das associações, clubes, centros e "causas" em que Nautilus era pródiga, para a Câmara de Comércio, para o Clube de Pedestrianismo e Esqui, para o Elks' Club, para os Oldfellows e para a Sociedade de Medicina de Evangeline County. Resistiu, mas disseram-lhe, um tanto ofendidos:

- Mas então, rapaz, se vai ser funcionário público, e se tem nalguma conta os esforços de todos para acolhê-lo aqui...

Leora e ele viram-se diante de tantos convites que ambos, tendo-se anteriormente queixado da pasmaceira de Wheatsylvania, queixavam-se agora de não poderem passar uma noite tranqüilamente em casa. Mas adquiriram o hábito do desembaraço social, de vestir traje de noite, de ir aos lugares sem nenhuma expectativa nervosa. Modernizaram o seu estilo rústico de dançar; aprenderam a jogar o bridge, bastante mal, e o tênis, bastante bem; e Martin, não por virtude nem heroísmo, mas simplesmente por hábito, perdeu o vezo de ressentir-se com a música dos bisbilhoteiros.

Provavelmente nunca foram identificados como adventícios pelas donas de casa que os convidavam, mas considerados um jovem e brilhante casal que, como protegido de Pickerbaugh, devia ser sério e progressista, e que, como apresentado por Irving e pela Sr.a Watters, devia ser respeitável.

Watters tornou-os na mão e conservou-os firmemente. Tinha uma casca tão espessa, que lhe era impossível compreender que as freqüentes recusas de Martin aos seus convites pudessem remotamente significar que não desejava aceitá-los. Notou traços de heterodoxia em Martin, e com afeição, diligência e um humor extraordinariamente pesado, dedicou-se à obra de salvação. Freqüentemente, procurava entreter outros convidados, chamando-o, com insistência: "Vem cá um pouco, Mart, queremos ouvir algumas dessas tuas idéias malucas!"

O seu zelo cordial era uma coisa incolor, comparado com o de sua mulher. A Sr.a Watters fora educada por seu pai e por seu marido na crença de que era o fruto final dos séculos e pôs-se a corrigir o barbarismo dos Arrowsmiths. Censurava as exclamações de Martin, o costume de fumar de Leora e as teorias de ambos sobre o leilão no bridge. Mas nunca se irritava. Irritar-se teria sido admitir que havia pessoas que não lhe reconheciam a soberania. Limitava-se a dar ordens, breves, cheias de humor e prefaciadas por um estridente: "Agora não sejam crianças", e esperava que isso resolvesse a questão.

Martin resmungava: "Oh, Senhor, entre Pickerbaugh e Irve, é mais fácil tornar-me um membro respeitável da sociedade do que continuar a luta."

Watters e Pickerbaugh, porém, não eram para Martin um apelo à respeitabilidade tão forte como a delícia de ver-se escutado em Nautilus como nunca o fora em Wheatsylvania e de sentir-se admirado por Orquídea.

 

Martin andava em busca de uma prova de precipitação para o diagnóstico da sífilis que fosse mais rápida e mais simples do que a reacção de Wassermann. Os seus dedos e o seu espírito entorpecidos estavam a habituar-se ao laboratório e às hipóteses apaixonadas, quando foi arrebatado para ajudar Pickerbaugh na campanha de propaganda. Foi persuadido a fazer o seu primeiro discurso: uma alocução intitulada "O que o laboratório ensina acerca de epidemias", no Curso Dominical Vespertino de Prelecções Livres da Igreja Universalista Estrela da Esperança.

Perturbou-se quando tentou preparar as suas notas, e, na manhã do acontecimento, sentiu um calafrio quando se lembrou da horrível coisa que ia fazer naquele dia, e ficou desesperado de embaraço quando chegou à Igrej a Estrela da Esperança.

Estava cheia de gente sisuda, de responsabilidade: Gemeu: "Vieram ouvir-me e eu nada tenho para dizer-lhes! " Sentiu-se ainda mais ridículo ao verificar que não era notado por aqueles que presumivelmente desejavam ouvi-lo, e que o encarregado da recepção, trocando profusos apertos de mão no portal bizantino, informou em tom protector:

- Encontrará uma porção de lugares nas naves laterais, rapaz.

- Eu sou o orador da tarde.

- Oh, perfeitamente, perfeitamente, doutor. Queira dirigir-se à entrada de Bevis Street, doutor.

Nas traseiras, foi untuosamente recebido na sala de espera pelo pastor e por uma comissão de três pessoas com traje desportivo e ares de intelectualidade cristã.

Apertaram-lhe sucessivament a mão, trouxeram e apresentaram-lhe mulheres com um ruge-ruge de sedas, fizeram em torno dele um círculo polido e inquieto, e esperaram consternadoramente que dissesse alguma coisa inteligente. Depois, sofrendo, espantado, mudo, foi introduzido no auditório, através de uma entrada em arco. Milhões de caras ficaram a contemplar a sua insignificância propiciatória: caras nas fileiras curvas dos bancos reservados, caras nos balcões, olhos que os seguiam, duvidavam dele e notavam que os seus tacões estavam gastos.

A agonia aumentou enquanto a assistência rezava e cantava por ele.

O pastor e o presidente leigo do Curso de Prelecções abriram o acto com devoções adequadas, enquanto Martin tremia e tentava olhar com atrevimento o povo que olhava para ele, enquanto ficou sentado, exposto, desprotegido, nu, sobre o estrado alto, o pastor leu avisos sobre a Ceia dos Missionários na terça-feira e o Clube de Marchas dos Meninos. Cantaram um ou dois hinos curtos e alegres - Martin não sabia se devia sentar-se ou ficar de pé - e o presidente orou para que "possa o nosso amigo que vos falará hoje receber forças para transmitir a sua mensagem". Durante a oração, Martin apoiou a testa na mão, sentiu-se ridículo e murmurou em delírio: "Acho que esta é a atitude apropriada... e todos eles estão de pescoço estendido para mim... livra! Ele não acaba? mas, que era que eu ia dizer sobre fumigação? Minha Nossa Senhora, ele está a acabar e agora é a minha vez!"

Fosse como fosse, estava de pé atrás da mesa, apoiado nela, e a sua voz parecia funcionar, produzindo expressões razoáveis. O borrão das caras dissipou-se e ele viu indivíduos. Escolheu um velho de expressão sagaz e procurou interessá-lo e fazê-lo rir.

Descobriu Leora, no começo da nave, acenando-lhe com a cabeça, animando-o. Arriscou-se a desviar o olhar das caras postadas directamente à sua frente. Correu os olhos pelo balcão...

O auditório tomou conhecimento de um homem jovem que falava a sério sobre soros e vacinas, mas, enquanto a sua voz zumbia, este homem jovem, de aspecto eclesiástico, notara dois tornozelos vestidos de seda que enalteciam a primeira fila do balcão, descobrira que pertenciam a Orquídea Pickerbaugh e que ela irradiava admiração.

No fim, Martin recebeu os aplausos mais entusiásticos que já conhecera - todos os conferencistas, depois de todas as conferências, sentem-se recompensados por essa espécie de aplausos

- o presidente disse as coisas mais lisongeiras jamais pronunciadas, a assistência saiu com a velocidade mais notável jamais testemunhada, e Martin descobriu-se a segurar a mão de Orquídea na sala de espera, enquanto ela cantarolava, na voz mais adorável que já ouvira:

- Oh, doutor Arrowsmith, o senhor foi simplesmente maravilhoso! A maioria desses conferencistas são uns antiquados, mas o senhor sabe impressionar! vou a correr para casa, contar ao Papá. Vai ficar tão satisfeito!

Só então verificou que Leora viera até à sala e olhava-os como uma esposa.

Quando se dirigiram para casa, Leora manteve-se em eloqüente silêncio.

- Então, gostaste da minha arenga? - disse ele, depois de um período conveniente de indignada espera.

- Gostei, não foi má. Deve ter sido difícil falar para esses estúpidos todos.

- Estúpidos? Que queres dizer com "estúpido"? Eles compreenderam-me muito bem. Foi um bom auditório.

- Achas? Bem, de qualquer forma, e graças a Deus, tu não irás longe com essas palestras tolas. Pickerbaugh gosta muito de se ouvir a si próprio e não há-de deixar-te muitas oportunidades.

- Pouco me importaria. Mas... acho que é bom a gente ter de falar em público de vez em quando. Faz pensar com mais lucidez.

- Sim, como acontece com esses políticos amáveis, inteligentes e lúcidos!

- Escuta, Lee! Naturalmente, sabe-se que o teu marido é um joão-ninguém e que não presta fora do laboratório, mas acho que podias aparentar um pouco de entusiasmo com a primeira conferência que ele fez na vida... a primeira que en-fren-tou... e em que se saiu bem.

- Ora, tolo, eu entusiasmei-me. Aplaudi bastante. Achei que estavas formidável. É que... há outras coisas que acho que podes fazer melhor. E que vamos fazer hoje à noite; refeição fria em casa ou vamos ao café?

Foi assim reduzido de herói a marido, e experimentou todos os prazeres da incompreensão.

Pensou nas suas indignidades durante toda a semana, mas, com a chegada do Inverno, houve uma febre de jantares estupidamente animados, partidas tranqüilamente desenfreadas de bridge; e a sua primeira noite em casa, a sua primeira oportunidade para brigarem com segurança e comodidade, foi uma sexta-feira. Instalaram-se para o que ele anunciou como "uma volta a uma leitura de verdade, com fisiologia e um pouco desse Arnold Bennett... uma leitura bem sossegada", mas que constou de uma procura de novidades nas revistas médicas.

Estava inquieto. Abandonou a revista. Perguntou:

- Que vestido levas amanhã ao piquenique na neve, do Pickerbaugh?

- Ainda não escolhi... Um qualquer.

- Lee, queria que me dissesses por que dizes que falei demasiado a noite passada, em casa do doutor Strafford? Sei que tenho muitos defeitos, mas não sabia que falar demasiado era um deles.

- Não era, até agora.

- Até agora!

- Olha, Sandy Arrowsmith! Andaste amuado como um fedelho malcriado, durante toda a semana. Que se passa contigo?

- Hem?... Olha que isto cansa a gente! Todos ficaram aqui tão entusiasmados com a minha palestra na Estrela da Esperança... aquela nota no Morning Frontiersman, e Pickerbaugh diz que Orquídea disse que foi um colosso... e tu nem um pio.

- E eu não aplaudi? Mas... Justamente com essa história é que queria que tu parasses.

- Ah, sim? Pois fica sabendo que vou continuar! Não é que comece a dizer coisas ocas. No domingo, apresentei ciência de verdade e eles comeram tudo. Eu não tinha compreendido que não é necessário ser melífluo para conquistar um auditório. E quanta coisa boa a gente pode fazer! Olha, divulguei mais preceitos de higiene e mais idéias sobre o valor do laboratório naqueles três quartos de hora do que... Não quero dizer que sou um colosso, mas é bom encontrarem-se pessoas dispostas a ouvir o que a gente tem para dizer e que não possam meter-se na conversa, como acontecia em Wheatsylvania. Aposto que continuei no que tão delicadamente chamas as minhas histórias idiotas...

- Sandy, isso pode ficar bem a certa gente, mas não a ti. Não posso dizer-te... é por isso que não falei mais sobre a tua palestra... não posso dizer-te como fico espantada ao ouvir-te falar todo choroso a respeito das "lindas criancinhas", a ti, que sempre fazias troça daquilo a que chamavas sentimentalismo!

- Nunca disse isso... nunca empreguei essa frase e tu bem o sabes. E é boa! Tu dizes "fazer troça"! Pois fica sabendo que o Movimento pró-Saúde Pública, corrigindo a tempo os defeitos das crianças, cuidando dos seus olhos, das amígdalas e de tudo o mais, pode salvar milhões de vidas e formar uma futura geração de...

- Eu sei! Gosto de crianças muito mais do que tu! Mas refiro-me a toda essa ridícula exibição...

- Ora essa; alguém tem de fazê-la. Não se pode trabalhar com o povo sem educá-lo. Aí está o velho Pick, que pode ser um imbecil mas faz bom trabalho com os seus versos e aquelas coisas todas. Provavelmente, tudo sairia melhor se eu soubesse escrevê-los... Que diabo, achas que não poderia aprender a fazê-los?

- São horríveis!

- Está aí uma bonita coerência da tua parte! Uma noite destas achaste que eram "formidáveis".

- Não preciso de ser coerente. Sou uma simples mulher. E tu, Martin Arrowsmith, és o primeiro que me diz isso. E para o doutor Pickerbaugh, eles estão bem, mas não para ti. Ficas bem num laboratório, a descobrir coisas, e não a fazer propaganda delas. Lembras-te de uma vez, em Wheatsylvania, quando, por cinco minutos, pensaste em ir à igreja e tornar-te um cidadão respeitável? Vais continuar o resto da vida a atolar-te na respeitabilidade para seres desenterrado de novo? Nunca aprenderás que és um bárbaro?

- Minha Nossa Senhora! Sei que sou. E... qual era aquela outra coisa amável que me chamavas?... Ah! Sou também, alma da minha alma, um imbecil casca-grossa da província! Como tu me estimulas! Quando pretendo levar uma vida honesta e útil e não andar por aí a hostilizar toda a gente, tu, a única que devia acreditar em mim, és a primeira a criticar-me!

- Talvez essa Orquídea Pickerbaugh te estimulasse melhor.

- Provavelmente! Olha, ela é muito boazinha, e gostou da minha palestra na igreja, e se pensas que vou ficar sentado aqui a ouvir a noite inteira fazeres troça do meu trabalho e dos meus amigos... vou mas é tomar um banho quente. Boa noite!

No banho, murmurou assustado que era impossível que tivesse estado a brigar com Leora. Que absurdo! Ela era a única pessoa- a propósito, onde estava Cliff? Em Nova Iorque ainda? Cliff não lhe devia uma carta? Mas de qualquer forma... Portara-se como um idiota ao perder a paciência; não devia perdê-la, ainda que Leora fosse bastante cabeçuda para não modificar as suas opiniões e não pudesse compreender que ele tinha o dom de influenciar as pessoas. Ninguém jamais o teria apoiado como ela, e ele amava-a...

Enxugou-se violentemente; correu para junto dela, cheio de arrependimento; disseram-se um ao outro que eram as pessoas vivas mais razoáveis; beijaram-se com eloqüência; e, depois, Leora reflectiu: - De qualquer modo, meu rapaz, não vou contribuir para que te enganes. Não és um booster. Es um caçador de mentiras. Engraçado, quando a gente ouve falar sobre esses caçadores de mentiras, como o professor Gottlieb e o teu Voltaire, tem a impressão de que eles não se enganavam. Mas talvez eles fossem como tu: sempre a querer afastar-se da verdade exaustiva, sempre à espera de fixar-se e enriquecer, sempre a venderem a alma ao diabo e depois logrando o pobre diabo. Eu acho... eu acho... - Soergueu-se na cama e apertou as fontes no trabalho de articulação. - Tu és diferente do professor Gottlieb. Ele nunca comete erros nem perde tempo com...

- Ele perdeu tempo na fábrica de panaceias de Hunziker, e o seu título é "doutor", e não "professor", se é que precisas de dar-lhe um...

- Se ele foi empregar-se no Hunziker, tinha alguma razão boa para isso. É um gênio; não podia errar. Ou podia, mesmo ele? Mas, de qualquer forma: tu, Sandy, tens de tropeçar com freqüência; tens de aprender, cometendo erros. vou dizer-te uma coisa: aprendes com os teus erros. Mas fico às vezes um pouco cansada, ao ver-te correr de um lado para o outro e meter o pescoço em cada armadilha... como quando te fazes um orador pisca-pisca ou quando suspiras pela tua Orquídea.

- Diacho, que é isto agora? Depois de eu me apresentar procurando fazer as pazes. É bom que nunca cometas erros! E uma pessoa perfeita num lar é bastante!

Deu uma pancada na cama. Silêncio. Doces murmúrios: "Mart... Sandy! " Ele não lhe deu atenção, e, orgulhoso de poder mostrar-se inflexível com ela, adormeceu. Durante o pequeno almoço, quando se mostrou constrangido e insistente, ela encolheu-se.

- Não faço empenho em discutir isso - disse.

Com esta atitude contrafeita foram, na tarde de sábado, ao piquenique na neve, do Pickerbaugh.

 

O Dr. Pickerbaugh era proprietário de uma pequena cabana de tábuas num mal semeado bosque de carvalhos, nas pequenas colinas ao norte de Nautilus. Uma dúzia de excursionistas tomaram dois trenós engatados, cheios de palha e trajes azuis de lã. Os guizos do trenó produziam um som excitante e as crianças saltaram para fora, a fim de correrem ao lado do veículo.

O médico da escola, solteiro, vigiava Leora com atenção; por duas vezes, arranjou-lhe o agasalho, e isto, em Nautilus, era quase comprometedor. com ciúmes, Martin voltou-se aberta e completamente para Orquídia.

O seu interesse por ela cresceu, não por vontade de castigar Leora, mas por causa da própria frescura da rosada Orquídea. Estava com uma jaqueta de tweed, gorro escocês, um vistoso lenço e os primeiros calções que uma jovem teve a audácia de exibir em Nautilus. Dava palmadinhas no joelho de Martin, e quando o seu trenó se aproximou do trenó dianteiro, num perigoso declive, cingiu-o resolutamente pela cintura.

Agora chamava-lhe "Dr. Martin", e ele chegara a um afectuoso "Orquídea".

Na cabana, houve um alarido de desembarque. Juntos, Martin e Orquídea transportaram o grande cesto de comestíveis; juntos, em esquis, deslizaram encosta abaixo. Quando os seus esquis se chocavam, rolavam juntos, e quando Orquídea se agarrava a ele, confiante e desenvolta, parecia a Martin que, na aspereza do tweed, ela ficava ainda mais tenra e maravilhosa olhos intrépidos, faces brilhantes quando retirava delas a camada de neve húmida, pernas ágeis de rapaz magro, ombros adoráveis na sua intenção de se assemelharem aos ombros vigorosos de um rapaz...

Mas: "Sou um tolo sentimental. Leora tinha razão! - resmungou consigo. - Pensei que tivesses alguma originalidade. E pobre da pequenina Orquídea... como ficaria desgostosa se soubesse que pensamentos baixos tens!"

Mas a pobre e pequenina Orquídea dizia, insinuante:

- Vamos doutor Martin! Vamos acabar naquela descida doida, ali. Somos os únicos que temos um pouco de pimenta.

- É porque somos os únicos jovens.

- É porque o senhor é assim tão jovem. Eu sou terrivelmente velha. Fico a sonhar, quando o senhor fala entusiasmado sobre as suas epidemias e outras coisas.

Martin viu que, com o infernal médico da escola, Leora deslizava numa encosta distante. Talvez fosse ressentimento, mas também talvez fosse vontade de um pouco de liberdade o que levara Leora a deixá-lo sozinho com Orquídea. E deixou de falar-lhe como se ela fosse uma criança e ele uma pessoa carregada de sabedoria; cessou de falar-lhe como se estivesse a olhar por cima do ombro. Correram para o alto da "descida doida"; lançaram-se pela escarpa e caíram, escorregando gloriosamente sobre a neve e lutando com ela.

Voltaram juntos para a cabana, verificando que os outros haviam saído. Ela tirou o sweater húmido e esfregou as mãos na blusa fina. Descobriram uma garrafa térmica com café quente e ele olhou-a como se fosse beijá-la, e ela devolveu-lhe o olhar como se não se importasse. Enquanto tiravam o farnel da cesta, cantarolaram com a intimidade da compreensão, e quando ela trinou: "Agora mexa-se, preguiçoso, e ponha aquelas taças nessa horrível mesa velha", foi como se ela se sentisse feliz por ficar com ele para sempre.

Não disseram nada comprometedor, não se seguraram as mãos, e, quando voltaram para casa, sob a escuridão onde flutuavam eléctricos flocos de neve, embora fossem sentados lado a lado ele não a enlaçou a não ser quando o trenó guinava nas curvas fechadas. Se Martin mostrava exaltação era causada preSumivelmente pelos sadios exercícios do dia. Nada aconteceu e ninguém parecia descontente. À despedida, todos os adeuses foram alegres e reconfortantes.

E Leora não fez comentários, embora durante um ou dois dias conservasse um ar de frieza que Martin, muito ocupado, não investigou.

 

Nautilus foi uma das primeiras comunidades do país a adoptar o hábito das Semanas, agora tão ricamente desenvolvido que temos a Semana da Escola do Ensino por Correspondência, a Semana da Ciência Cristã, a Semana da Osteopatia e a Semana dos Pinheiros da Geórgia.

Uma Semana não é simplesmente uma semana.

Se uma igreja, uma câmara de comércio ou uma instituição pia, agressivas, espertas, combativas e possuidoras de iniciativa, desejam melhorar, o que quer dizer, ganhar mais dinheiro, recorrem a esses poucos espíritos enérgicos que governam uma cidade, e...

 

                                                                                CONTINUA  

 

                      

O melhor da literatura para todos os gostos e idades

 

 

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