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VINTE E QUATRO
KENT, INGLATERRA
Alfred Vicary estava a ser levado ao ponto de rutura. Apesar da pressão intensa para capturar os espiões, Vicary mantivera o seu velho projeto - a rede Becker. Tinha
pensado em pedir para voltar a ela apenas depois de os espiões serem presos. Mas depressa repudiou a ideia. Ele era o génio por detrás da rede Becker, ela era a sua obra-prima. Tinham sido necessárias inúmeras horas para a criar e muitas mais para a manter. Continuaria a controlá-la e a tentar capturar os espiões ao mesmo tempo. Era uma tarefa brutal. O olho direito tinha começado a tremer-lhe, como acontecia durante os exames finais em Cambridge, e ele reconheceu os primeiros sintomas de um esgota-
mento nervoso.
Partridge era o nome de código de um camionista depravado cujos percursos acabavam por o levar a zonas militares restritas em Suffolk, Kent e East Sussex. Era partidário das ideias de Sir Oswald Mosley, o fascista britânico, e servia-se do dinheiro que ganhava a espiar para comprar prostitutas. Às vezes, levava as raparigas consigo para que durante as viagens lhe fizessem sexo oral enquanto guiava. Gostava de Karl Becker porque Becker tinha sempre uma rapariga escondida algures e estava sempre disposto a partilhar - até mesmo com um tipo da laia de Partridge.
Mas Partridge existia apenas na imaginação de Vicary, nas ondas hertzianas e na cabeça dos agentes alemães que o controlavam a partir de Hamburgo. As fotos de vigilância aérea tiradas pela Luftwaffe
tinham detetado atividade desconhecida no sudeste de Inglaterra e Berlim mandou Becker avaliar a atividade do inimigo e prestar informações no espaço de uma semana. Becker tinha passado a missão a Partridge - ou melhor, Vicary tinha-o feito por ele. Era a oportunidade de que Vicary estava à espera - um convite da Abwehr para transmitir informações falsas sobre o fictício First United States Army Group que se estava a formar no sudeste de Inglaterra.
Partridge - de acordo com o cenário engendrado por Vicary tinha passado de camião pela região rural de Kent ao meio-dia. Na verdade, Vicary tinha feito esse mesmo percurso nessa manhã, na parte de trás de um Rover oficial. Do banco em pele alto, embrulhado numa manta de viagem, Vicary pôs-se a imaginar os indícios de um aumento de atividade militar que um agente como Partridge conseguiria detetar. Poderia detetar mais camiões militares na estrada. Poderia reparar num grupo de oficiais americanos
no pub onde fosse almoçar. Na garagem onde parasse para pôr gasolina poderia ouvir rumores de que as estradas vizinhas estavam a ser alargadas. As informações eram
triviais e as pistas pequenas, mas totalmente consistentes com o disfarce de Partridge. Vicary não podia permitir que ele descobrisse qualquer coisa tão extraordinária
como o posto de comando do general Patton; os homens da Abwehr responsáveis por Partridge nunca acreditariam que um agente como ele fosse capaz disso. Mas as pequenas
pistas de Partridge, quando incorporadas no resto do estratagema de logro, ajudariam a pintar o quadro que os serviços secretos britânicos queriam que os alemães
vissem - uma maciça força aliada à espera para atacar do outro lado do Canal, em Calais.
Vicary escreveu a mensagem de Partridge enquanto voltava para Londres. O relatório seria encriptado, usando um código especial da Abwehr, e Karl Becker enviá-lo-ia para Hamburgo a partir da sua cela, já com a noite avançada. Vicary imaginou mais uma noite passada a dormir pouco ou nada. Quando terminou a mensagem, fechou os olhos e encostou a cabeça ao vidro da janela, enrolando o impermeável para o utilizar como almofada. O balançar do Rover e o murmúrio suave do motor embalaram-no num sono leve e intermitente. Sonhou outra vez com a França, só que desta vez foi Boothby - e não
Brendan Evans - quem veio ter consigo ao hospital de campanha. Morreram mil homens, Alfred, e a culpa é toda tua! Se tivesses capturado os espiões, estavam agora vivos! Vicary forçou-se a abrir os olhos e viu de relance a região rural que estava a atravessar antes de adormecer novamente.
Desta vez, está deitado na cama, numa bela manhã de primavera, vinte e cinco anos antes - a manhã em que fez amor com Helen pela primeira vez. Está a passar o fim
de semana na grande herdade do pai de Helen. Pela janela do quarto, Vicary consegue ver o Sol da manhã a lançar gradualmente
uma luz cor-de-rosa sobre as encostas.
É o dia em que pensam dar conta ao pai de Helen dos seus planos de casamento. Ouve baterem suavemente à porta - no sono, o som é exatamente o mesmo - e vira a cabeça mesmo a tempo de ver Helen, linda e acabada de acordar, a entrar no quarto vestindo apenas uma camisa de noite branca. Deita-se na cama ao lado dele e beija-o na boca. Tenho andado apensar em ti a manhã inteira, Alfred, meu querido. Enfia a mão debaixo do lençol, desaperta-lhe o pijama e toca nele suavemente, com os seus dedos compridos e lindos. Helen, pensei que quisesses esperar até estarmos... Ela silencia-o beijando-lhe os lábios. Não quero discutir mais isto. Mas temos de nos despachar. Se o papá descobre, mata-nos aos dois. Põe-se em cima dele, com cuidado, para não lhe magoar o joelho. Levanta a camisa de dormir e, com as mãos, guia-o para dentro de si. Há um instante de resistência. Helen faz mais força, solta um rápido arquejo de dor e ele está dentro dela. Ela leva-lhe as mãos aos seios. Ele já tocou neles, mas apenas através da roupa e dos sutiãs firmes. Agora, estavam livres por baixo da camisa e eram macios e maravilhosos. Ele tenta desabotoar-lhe a camisa, mas ela não deixa. Rápido, querido, rápido. No fim, ele queria que ela ficasse - para a abraçar e fazer tudo outra vez -, mas ela endireita a camisa rapidamente, beija-o e volta depressa para o quarto.
Ele acordou nos subúrbios da zona leste de Londres, com um ligeiro sorriso na cara. Não tinha achado a primeira vez com Helen desapontante - tinha sido simplesmente diferente do que esperava. Nas suas fantasias juvenis, o sexo envolvia sempre mulheres com seios enormes, que gritavam e gemiam de êxtase. Mas com Helen, tinha sido lento e delicado, e, em vez de gritar, ela sorriu e beijou-o
com ternura. Não foi ardente, mas foi perfeito. E foi perfeito porque a amava desesperadamente.
Também tinha sido assim com Alice Simpson, mas por outras razões. Vicary gostava dela; supunha até que pudesse estar apaixonado por ela, independentemente do que isso significasse. Acima de tudo, gostava da companhia dela. Era inteligente e espirituosa e, como Helen, um pouco irreverente. Dava aulas de literatura numa escola feminina de somenos importância e escrevia peças de teatro medíocres sobre pessoas ricas que pareciam ter sempre conversas catárticas e propícias a alterar vidas ao mesmo tempo que bebericavam xerez de cor clara e chá Earl Grey, em salas de estar elegantemente mobiladas. Também escrevia, sob pseudónimo, romances de amor que Vicary, embora não fosse fã do género, considerava bastante bons. Uma vez, Lillian Walford, a sua secretária no University College, apanhou-o a ler um dos livros de Alice Simpson. No dia seguinte, trouxe-lhe uma pilha de romances de Barbara Cartland. Vicary ficou mortificado. Quando faziam amor, todas as personagens dos romances
de Alice Simpson ouviam ondas a rebentarem e sentiam os céus desabarem sobre si. Na vida real, ela era tímida, ternurenta e um pouco sensível e insistia sempre em
fazer amor às escuras. Por mais de uma vez, Vicary fechou os olhos e viu a imagem de Helen, com a sua camisa de noite branca, banhada pela luz do Sol matinal.
A relação dele com Alice Simpson tinha esmorecido com a guerra. Continuavam a falar pelo menos uma vez por semana. Ela tinha ficado sem o apartamento logo no início
da Blitz e passou uma temporada em casa de Vicary, em Chelsea. Jantavam juntos ocasionalmente, mas há vários meses que não faziam amor. De repente, apercebeu-se
de que era a primeira vez que pensava em Alice Simpson desde que Edward Kenton, ao atravessarem o caminho de entrada para o chalé de Matilda, tinha dito o nome de Helen.
HAM COMMON, SURREY
A grande e bastante feia mansão vitoriana de três andares encontrava-se cercada por uma linha dupla de vedações em todo o seu
perímetro e uma paliçada para a proteger dos olhos do mundo exterior. Tinham sido construídas estruturas de aço pré-fabricadas em redor dos quatro hectares de jardim, para abrigar a maioria dos empresados. Em tempos, tinha sido conhecida como Latchmere House um hospício e centro de recuperação para vítimas de neurose de guerra durante a Primeira Guerra Mundial. Mas, em 1939, tinha sido convertida no principal centro de interrogatório e encarceramento do MI5, sendo-lhe atribuída a designação militar de Campo 020.
A cela para onde levaram Vicary cheirava a mofo, desinfetante e, ligeiramente, a couve cozida. Não havia sítio para pendurar o casaco
- os guardas do Corpo dos Serviços Secretos faziam todos os possíveis por evitar suicídios - e, por isso, não o despiu. Além disso, o sítio parecia uma masmorra medieval - frio e húmido, o espaço ideal para apanhar uma infeção nos brônquios. A cela tinha uma única característica que a tornava altamente funcional - uma janela minúscula e estreita, através da qual tinha sido pendurada uma antena. Vicary abriu a tampa da mala rádio, fornecida pela Abwehr, que tinha trazido consigo - a mesmíssima que tinha confiscado a Becker em
1940. Ligou o rádio à antena e pô-lo a funcionar. As luzes começaram a brilhar em tons de amarelo enquanto Vicary selecionava a frequência
correta.
Bocejou e espreguiçou-se. Eram 23h45. Becker devia enviar a mensagem à meia-noite. Pensou: Raios, porque é que a Abwehr escolhe sempre umas horas tão horríveis para
os agentes enviarem mensagens?
Karl Becker era um mentiroso, um ladrão e um tarado sexual um homem sem princípios morais nem lealdade. No entanto, era capaz de ser encantador e inteligente e, com o passar dos anos, Becker e Vicary tinham construído algo parecido com uma amizade profissional. Ele entrou na cela, no meio de dois guardas imponentes, com as mãos algemadas. Os guardas tiraram-lhe as algemas e foram-se embora sem dizer uma palavra. Becker sorriu e estendeu a mão. Vicary apertou-a; estava fria como o calcário de uma cave.
A cela tinha uma pequena mesa de madeira aplainada e duas cadeiras velhas e gastas. Vicary e Becker sentaram-se à frente um do outro, como se se preparassem para se defrontarem num jogo de xadrez.
O rebordo da mesa, preto, tinha sido queimado por cigarros abandonados a meio. Vicary entregou um pequeno pacote a Becker, que, como uma criança, o abriu de imediato. Lá dentro, estavam meia dúzia de maços de tabaco e uma caixa de chocolates suíços. Becker olhou para essas coisas e depois para Vicary.
- Cigarros e chocolate... não veio cá para me seduzir, pois não, Alfred?
Becker conseguiu simular uma gargalhada, mas a vida na prisão tinha-o mudado. Os seus lustrosos fatos franceses tinham sido substituídos por um austero fato-macaco cinzento, bem engomado e que lhe caía surpreendentemente bem nos ombros. Oficialmente, estava a ser vigiado devido à possibilidade de se suicidar - algo que Vicary considerava absurdo - e usava umas alpercatas de lona macia e sem atacadores. O seu corpo pequeno e firme tinha assumido uma súbita disciplina imposta pelos locais pequenos; os braços sempre a agitarem-se e as gargalhadas exuberantes, que vira nas fotografias de vigilância antigas, tinham desaparecido. Estava sentado direito como um fuso, como se alguém tivesse uma pistola encostada às suas costas, e começou a ordenar o chocolate, os cigarros e os fósforos como se estivesse a estabelecer uma fronteira para lá da qual Vicary não se devia aventurar.
Becker abriu um maço e, com pequenas pancadas, fez sair dois cigarros, entregando um a Vicary e ficando com o outro. Acendeu um fósforo e estendeu-o a Vicary antes de acender o seu próprio cigarro. Ficaram sentados em silêncio durante algum tempo, cada um estudando o seu respetivo ponto na parede da cela - velhos compinchas que já contaram todas as histórias que sabem e que agora se contentam em estar simplesmente ao lado um do outro. Becker saboreou o cigarro, rolando o fumo na língua, como se fosse um excelente vinho Bordeaux, e soprando-o depois, num fluxo fino, para o teto baixo de pedra. Naquele espaço minúsculo, o fumo acumulou-se lá em cima como as nuvens de uma tempestade.
- Por favor, dê cumprimentos meus ao Harry - disse Becker por fim.
- Assim farei.
- É um bom homem, um bocadinho para o obstinado, como todos os polícias. Mas não é mau tipo.
- Não sei o que faria sem ele.
- E como está o irmão Boothby?
Vicary soltou um longo suspiro e respondeu:
- Como sempre.
- Todos temos os nossos nazis, Alfred.
- Estamos a pensar em enviá-lo para o outro lado. Rindo-se, Becker serviu-se da ponta do cigarro para acender outro.
- Vejo que trouxe o meu rádio - disse. - Que feito heróico realizei eu desta vez para o Terceiro Reich?
- Assaltou o número 10 de Downing Street e roubou os documentos pessoais do primeiro-ministro.
Becker lançou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada curta e brutal.
- Espero estar a exigir mais dinheiro àqueles sacanas sovinas! E que não seja falso como o que me meteu em sarilhos da última vez.
- Claro.
Becker olhou para o rádio e depois para Vicary.
- Nos bons velhos tempos, teria pousado um revólver em cima da mesa e deixar-me-ia tratar eu próprio do assunto. Agora, traz-me um rádio fabricado por uma ótima e honesta empresa alemã e deixa que eu me vá matando aos poucos.
- É um mundo terrível este onde vivemos, Karl. Mas ninguém o obrigou a tornar-se espião.
- É melhor do que a Wehrmacht - atirou Becker. - Sou um velho, como o Alfred. Seria recrutado e enviado para o Leste para combater os cabrões dos russos. Não, obrigado. vou ficar à espera que a guerra termine aqui mesmo, no meu agradável sanatoriozinho inglês.
Vicary deitou uma olhadela ao relógio - faltavam dez minutos para Becker começar a sua comunicação. Enfiou a mão no bolso e tirou de lá a mensagem em código que Becker devia enviar. A seguir, mostrou a fotografia tirada do passaporte da mulher holandesa chamada Christa Kunst. Uma recordação distante passou rapidamente pelo rosto de Becker e depois dissipou-se.
- Sabe quem ela é, não sabe, Karl?
- Encontrou a Anna - exclamou ele, sorrindo. - Muito bem, Alfred. Muito bem mesmo. Bravo!
Vicary estava sentado, como um homem que se esforça por ouvir uma música ao longe, com as mãos fechadas em cima da mesa, sem tomar notas. Sabia que era melhor fazer o mínimo de perguntas possível; era melhor deixar que Becker o conduzisse onde queria. Como se estivesse a caçar um veado, Vicary não se mexeu, colocando-se contra o vento. O cigarro, em que ainda não tinha tocado, ardia, transformando-se em cinza, num cinzeiro de metal que tinha junto ao cotovelo. Pela janela estreita, ouvia uma tempestade noturna a fustigar o pátio de exercícios. Como sempre, Becker começou a história pelo meio e falando de si próprio. Durante algum tempo, o seu corpo manteve uma imobilidade regimental, mas, à medida que a história se foi desenvolvendo, começou a agitar os braços e a servir-se de dedos precisos para urdir a sua trama diante dos olhos de Vicary. Como todos os monólogos de Becker, havia becos sem saída e desvios para relatos de bravura, dinheiro ganho e conquistas sexuais. Por vezes, deixava-se cair num prolongado e especulativo silêncio; noutras, contava as coisas tão depressa que era acometido por ataques de tosse.
- É a maldita humidade da minha cela - disse ele, explicando-se. - É uma coisa que vocês, ingleses, fazem muito bem.
Prosseguiu:
- As pessoas como eu quase não recebem treino. Oh, claro, uma ou outra palestra de uns idiotas em Berlim, que nunca viram a Inglaterra sem ser num mapa. É assim
que se avalia a dimensão de um exército, dizem-nos. É assim que se usa o rádio.
É assim que se morde o comprimido para se suicidarem, na hipótese altamente improvável
de o MI5 vos arrombar aporta de casa. E depois enviam-nos para Inglaterra, de barco ou avião, para vencermos a guerra pelo Fúhrer.
Fez uma pausa para acender outro cigarro e abriu a caixa de chocolates.
- Tive sorte. Estava a fazer-me passar por um imigrante legal. Vim de avião, com um passaporte suíço. Sabe o que é que fizeram
a outro tipo? Puseram-no a desembarcar em Sussex numa jangada de borracha. O submarino partiu de França sem jangadas especiais da Abwehr, não identificadas. Tiveram de utilizar um dos botes salva-vidas do submarino, com uma insígnia da Kriegsmarine. Dá para acreditar numa coisa destas?
Vicary acreditava, sim; a Abwehr revelava-se horrendamente desleixada na forma como preparava e introduzia os agentes em Inglaterra. Lembrou-se do rapaz que tinha tirado da praia na Cornualha, em setembro de 1940. Os homens da Divisão Especial que o revistaram encontraram-lhe no bolso uma caixa de fósforos de um popular clube noturno de Berlim. Depois, houve o caso de Gosta Caroli, um cidadão sueco que foi largado de paraquedas em Northhamptonshire, próximo da aldeia de Denton. Foi descoberto por um trabalhador rural irlandês chamado Paddy Daly, que se encontrava a dormir debaixo de uma sebe. Caroli trazia um fato decente e cinzento de flanela e uma gravata com nó ao estilo continental. Admitiu que tinha sido largado de paraquedas em Inglaterra e entregou a pistola automática e trezentas libras em dinheiro vivo. As autoridades locais passaram-no para o MI5, que o levou prontamente para o Campo 020.
Becker enfiou um chocolate na boca e estendeu a caixa a Vicary.
- Vocês, britânicos, levaram a questão da espionagem mais a sério do que nós, alemães. Tiveram de o fazer porque estavam fracos. Tiveram de recorrer ao logro e à trapaça para ocultar a vossa fraqueza. Mas, agora, têm a Abwehr presa pelos tomates.
- Mas houve outros com quem revelaram mais cuidado - disse Vicary.
- Sim, houve outros.
- Tipos diferentes de agentes.
- Absolutamente - concordou Becker, tirando outro chocolate.
- São deliciosos, Alfred. Tem a certeza de que não quer um?
A precisão com que Becker carregava nos botões era surpreendente - a precisão e a grande rapidez. Vicary atribuiu isso ao facto de ter sido um violinista com formação clássica antes de a sua vida
dar a volta infeliz, fosse ela qual fosse, que o tinha feito ir parar onde se encontrava naquele momento. Vicary ouviu, através de auscultadores sobressalentes, Becker identificar-se, esperando depois pelo sinal de confirmação do operador em Hamburgo. Como sempre, Vicary sentiu um pequeno calafrio. Dava-lhe enorme prazer o facto de estar a enganar o inimigo - a mentir-lhe com tanta perícia. Gostava do contacto íntimo - ser capaz de ouvir a voz do inimigo, mesmo tratando-se apenas de um bipe eletrónico entre uma neblina de silvos atmosféricos. Vicary pôs-se a imaginar como se sentiria horrivelmente se fosse ele a ser enganado. Por alguma razão, deu por si a pensar em Helen.
O operador em Hamburgo deu ordem a Becker para que prosseguisse. Becker olhou para a mensagem de Vicary e digitou-a rapidamente. A seguir, esperou pela confirmação de Hamburgo e depois terminou a comunicação. Vicary tirou os auscultadores e desligou o rádio. Becker iria ficar amuado durante algum tempo, como acontecia sempre depois de enviar mais uma mensagem de Vicary da Operação Double Cross. Como um homem que sente um intenso acesso de culpa depois de copular com a amante e quer ficar sozinho com os seus pensamentos atormentados. Vicary sempre suspeitara que Becker se sentisse envergonhado por trair os seus próprios serviços - que as suas palavras bombásticas sobre as trapalhadas e a incompetência da Abwehr serviam apenas para ocultar a sua própria culpa por ser um falhado e um cobarde. Não que tivesse grande escolha; da primeira vez que Becker se recusasse a enviar uma das mensagens de Vicary, seria despachado para a prisão de Wandsworth para ir ter com o carrasco.
Vicary temia tê-lo perdido. Becker fumou e comeu mais alguns chocolates sem oferecer nenhum a Vicary. Vicary arrumou o rádio lentamente.
- Vi-a uma vez em Berlim - afirmou Becker de repente. - Separaram-na de imediato do resto de nós, meros mortais. Não quero que me cite em relação a isto, Alfred. vou só contar-lhe o que ouvi. Os rumores, as conversas. Se acabar por não ser completamente exato, não quero que Stephens venha cá e me comece a atirar contra as paredes.
Vicary acenou com a cabeça de forma compreensiva. Stephens era o coronel R. W. G. Stephens, o comandante do Campo 020, mais conhecido como Tin-Eye1. Antigo oficial do exército indiano, Stephens usava um monóculo, era maníaco e vestia-se sempre impecavelmente, com o seu casquete e o uniforme dos Fuzileiros de Peshawar. Era de ascendência alemã e falava a língua fluentemente. E também era detestado tanto pelos prisioneiros como pelo MI5. Uma vez, tinha dado uma repreensão severa a Vicary, em público, por ele ter chegado atrasado cinco minutos a um interrogatório. Nem mesmo os quadros mais importantes, como Boothby, se encontravam imunes às suas tiradas e ataques violentos de mau humor.
- Dou-lhe a minha palavra, Karl - disse Vicary, voltando a sentar-se à mesa.
- Disseram que ela se chamava Anna Steiner, que o pai era uma espécie de aristocrata. Da Prússia, um sacana rico, com uma cicatriz na cara provocada por um duelo, andou metido na diplomacia. Conhece esse tipo de gente, não conhece, Alfred?
Becker não esperou por uma resposta.
- Meu Deus, era linda... alta como o raio. Falava inglês com um sotaque britânico perfeito. Segundo os rumores, a mãe era inglesa. No verão de 36, vivera em Espanha a foder um cabrão de um fascista espanhol qualquer chamado Romero. Acontece que o senhor Romero era caçador de talentos para a Abwehr. Telefona para Berlim, recebe uma quantia por a ter descoberto e entrega-a. A Abwehr aperta com ela. Dizem à encantadora Anna que a pátria precisa dela e que, se não colaborar, o papá Von Steiner
vai ser enviado para um campo de concentração.
- E quem era o agente responsável por ela?
- Não sei o nome dele. Um sacana mal-encarado. Esperto, como o Alfred, só que impiedoso.
- Chamava-se Vogel?
- Não sei, é possível.
1 Literalmente, Olho de Lata. (N. do T.)
- E nunca mais a viu?
- Não, só dessa vez.
- Então o que lhe aconteceu?
Becker foi acometido por mais um ataque de tosse, que um novo cigarro pareceu curar.
- Estou a dizer-lhe o que ouvi, não o que sei. Compreende a diferença, Alfred?
- Compreendo a diferença, Karl.
- Ouvimos dizer que havia um campo, algures nas montanhas a sul de Munique. Muito isolado, com todas as estradas à volta fechadas. Um inferno para as pessoas da zona. De acordo com os rumores, era um sítio para onde enviavam alguns agentes especiais, aqueles que pretendiam infiltrar de forma mais profunda.
- E ela era um desses agentes?
- Sim, Alfred. Já falámos disso. Esteja atento, por favor - respondeu Becker, outra vez a atacar os chocolates. - Era como se uma aldeia inglesa tivesse caído do céu e aterrado no meio da Baviera. Havia umpub, um pequeno hotel, chalés, até uma igreja anglicana. Cada agente era enviado para um chalé, onde ficaria no mínimo seis meses. De manhã, liam jornais londrinos no café enquanto bebiam chá e comiam bolos. Faziam as compras em inglês e ouviam os programas de rádios populares da altura na BBC. Eu cá nunca tinha ouvido o It's That Man Again até vir para Londres.
- Continue, Karl.
- Tinham códigos e procedimentos especiais para encontros. Davam-lhes mais treino no manuseamento de armas. Matar em silêncio. À noite, até enviavam putas inglesas aos rapazes para que pudessem foder em inglês.
- E a mulher?
- Dizem que andava a foder o agente responsável por ela... como é que disse que ele se chamava? Vogel? Mais uma vez, era só um rumor, Alfred.
- E alguma vez se encontrou com ela no Reino Unido?
- Não.
- Quero a verdade, Karl! - disparou Vicary, tão alto que um dos guardas enfiou a cabeça para dentro da cela, para se certificar de que não havia qualquer problema.
- Estou a dizer-lhe a verdade. Jesus, você é o Alfred Vicary num minuto e o Heinrich Himmler no outro. Nunca mais a voltei
a ver.
Vicary passou a falar em alemão. Não queria que os guardas escutassem
a conversa.
- Sabe o nome de cobertura dela?
- Não - respondeu Becker na mesma língua.
- E sabe a morada dela?
- Não.
- Sabe se ela está ativa em Londres?
- Tanto quanto sei, até podia estar ativa na Lua, Alfred.
Vicary soltou um suspiro audível de frustração. Eram tudo informações interessantes, mas, tal como a descoberta do assassínio de Beatrice Pymm, não o colocavam mais perto da sua presa.
- Contou-me tudo o que sabia dela, Karl? Becker sorriu.
- Supostamente, é incrível na cama - respondeu, reparando que Vicary ficara corado. - Peço desculpa, Alfred. Meu Deus, às vezes, esqueço-me do pudico que você é.
Continuando a falar em alemão, Vicary perguntou:
- Porque não nos contou isso antes... a parte dos agentes especiais?
- Isso é que contei, meu caro Alfred.
- A quem é que contou? Nunca me contou a mim.
- Contei a Boothby.
Vicary sentiu o sangue subir-lhe à cara e o coração começar a bater furiosamente. Boothby? Por que raio havia Boothby de interrogar Karl Becker? E por que razão havia de o fazer sem Vicary estar presente? Becker era seu agente. Vicary tinha-o prendido. Vicary tinha-o feito mudar de lado. Vicary controlava-o.
Vicary, com o rosto calmo, perguntou:
- Quando é que contou isso a Boothby?
- Não sei. É difícil ter noção do tempo aqui dentro. Há um ou dois meses. Talvez em setembro. Não, talvez tenha sido em outubro. Sim, acho que foi em outubro.
- E o que lhe disse ao certo?
- Falei-lhe dos agentes, falei-lhe do campo.
- E falou-lhe da mulher?
- Sim, Alfred, contei-lhe tudo. É um cabrão maldoso. Não gosto dele. Se fosse a si, tinha cuidado com ele.
- E estava mais alguém com ele?
- Sim, um tipo alto. Bonito, como uma estrela de cinema. Louro, de olhos azuis. Um autêntico super-homem alemão. Mas magro, magro como um espeto.
- E o espeto tinha nome?
Becker atirou a cabeça para trás e fez questão de mostrar que estava a tentar lembrar-se.
- Jesus, era um nome engraçado. De uma ferramenta ou qualquer coisa assim - disse Becker, beliscando a cana do nariz. - Não, de uma coisa que se pode utilizar em casa. Mop1? Bucket2? Não, Broome! É isso, Broome! Imagine bem: o tipo parece um espeto e dá pelo nome de Broome3. Às vezes, vocês, ingleses, têm um sentido de humor maravilhoso.
Vicary tinha pegado na mala rádio e estava a bater ao de leve com os nós dos dedos na porta grossa.
- Porque não deixa ficar o rádio, Alfred? Às vezes, uma pessoa sente-se sozinha aqui dentro.
- Lamento, Karl.
A porta abriu-se e Vicary atravessou-a.
- Ouça, Alfred, os cigarros e os chocolates estavam ótimos, mas da próxima vez traga uma rapariga, sim?
1 Esftegona. (N. do T.)
2 Balde. (N. do T.)
3 No original, trocadilho com o nome Broome e a palavra stick, que juntas daria broomstick ou cabo de vassoura. (N. do T.)
Vicary dirigiu-se para o gabinete do chefe dos guardas e pediu os livros de registo de outubro e novembro. Demorou alguns segundos, mas encontrou a entrada de que estava à procura.
5-10-43, PRISIONEIRO: BKCKKR, K.
NÚMERO DE VISITAS: 2 NOMES/DEPTO.: NÃO, OBRIGADO.
VINTE E CINCO
BERLIM
- Meu Deus, que frio que está hoje de manhã - disse o Brigadefúhrer Walter Schellenberg.
- Pelo menos, ainda tem um teto sobre a cabeça - respondeu o contra-almirante Wilhelm Canaris. - Os bombardeiros Halifax e Lancaster divertiram-se imenso ontem à
noite. Centenas de mortos, milhares sem casa. Lá se foi a invulnerabilidade do nosso glorioso Reich de mil anos.
Canaris olhou para Schellenberg, à procura de uma reação. Como sempre, a juventude daquele homem impressionou-o. com apenas trinta e três anos, era chefe da Secção VI do Sicherheitsdienst - mais conhecido como SD - os serviços secretos e de segurança das SS. A Secção VI era responsável pela recolha de informações relativas aos inimigos do Reich em território estrangeiro, uma missão muito semelhante à da Abwehr. Por consequência, os dois homens travavam uma terrível competição.
Eram um par que não combinava: o pequeno, lacónico e velho almirante de cabelos brancos, que falava ceceando ligeiramente; e o atraente, enérgico e jovem Brigadefúhrer, absolutamente implacável. Filho de um fabricante de pianos de Saarland, Schellenberg foi pessoalmente recrutado para o aparelho de segurança nazi por Reinhard Heydrich, o comandante do SD assassinado por combatentes da Resistência checoslovaca em maio de 1942. Uma das luminárias do partido nazi, Schellenberg prosperava na sua atmosfera paranóica
e perigosa. Tinha o gabinete, parecido com uma catedral, repleto de escutas, com metralhadoras incorporadas na secretária para poder matar qualquer visitante ameaçador carregando apenas num botão. Islãs raras ocasiões em que se dava ao luxo de descontrair, Schellenberg gostava de passar tempo com a sua refinada coleção de pornografia. Uma vez, mostrou as fotografias a Canaris como se fosse um homem a mostrar instantâneos da família, gabando-se das fotos que ele próprio coreografava para satisfazer os seus bizarros apetites sexuais. Schellenberg usava um anel com uma pedra preciosa azul, com uma cápsula de cianeto por baixo. E também lhe tinha sido colocado um dente falso contendo uma dose letal desse veneno.
Presentemente, Schellenberg tinha apenas dois objetivos: destruir Canaris e a Abwehr e conseguir obter para Adolf Hitler o segredo mais importante da guerra, a hora
e o local da invasão anglo-americana da França. Schellenberg não sentia mais que desprezo pela Abwehr e pelo grupo de velhos oficiais à volta de Canaris, a quem
chamava zombeteiramente Pais Natal. Canaris sabia perfeitamente que Schellenberg o queria eliminar e, no entanto, entre os dois havia uma trégua precária. Schellenberg
tratava o velho Admirai com deferência e respeito; Canaris admirava verdadeiramente o impetuoso e brilhante jovem oficial e gostava da sua companhia.
E era por isso que começavam a maior parte das manhãs da mesma maneira, atravessando a cavalo o Tiergarten, lado a lado. Isso dava a cada um a oportunidade de controlar o que o outro estava a fazer, de trocar invetivas, de sondar fraquezas. E Canaris também gostava destes passeios por uma outra razão. Sabia que, pelo menos durante uma hora do dia, o jovem general não estava a planear ativamente a sua aniquilação.
- Lá está o senhor outra vez, Herr Admirai - disse Schellenberg. - Sempre a olhar para o lado negro das coisas. Suponho que isso faça de si um cínico, não?
- Não sou cínico, Herr Brigadefúhrer. Sou cético. Há uma diferença importante.
Schellenberg riu-se.
- Essa é a diferença entre nós, os que estamos no Sicherheitsdienst, e os senhores que fazem parte da Abwehr, da velha guarda.
Nós só vemos possibilidades infinitas. Os senhores só vêem perigos. Nós somos corajosos, não temos medo de arriscar. Os senhores preferem enfiar a cabeça na areia... sem ofensa, Herr Admirai.
- Não me ofendeu, meu jovem amigo. Tem direito à sua opinião, por mais mal informada que possa ser.
O cavalo de Canaris atirou a cabeça para trás e resfolegou. A sua respiração gelou numa nuvem de ar que, a seguir, se afastou ao sabor do suave vento da manhã. Canaris olhou em redor, observando a devastação do Tiergarten. A maioria das limeiras e dos castanheiros tinha desaparecido, queimada pelas bombas incendiárias dos aliados. Diante deles, mais à frente no trilho, encontrava-se a cratera de uma bomba, do tamanho de um Kúbelwagen1. Havia milhares de outras espalhadas pelo parque. Canaris, puxando as rédeas, fez o cavalo contorná-la. Dois dos seguranças de Schellenberg seguiam-nos a pé, sem fazer barulho. Outro ia alguns passos à frente deles, com a cabeça a rodar de um lado para o outro lentamente. Canaris sabia que havia mais seguranças que não conseguia ver, nem com os seus olhos bem treinados.
- Ontem à noite veio parar uma coisa muito interessante à minha secretária.
- Ai sim? E como é que ela se chamava?
Schellenberg, rindo-se, incitou o cavalo com as esporas a começar a trotar ligeiramente.
- Tenho uma fonte em Londres que fez uns trabalhos para o NKVD há bastante tempo, incluindo o recrutamento de um estudante de Oxford que é agora um agente no seio do MI5. Continua a falar com o homem de tempos a tempos e vai ouvindo coisas. E passa essas coisas para mim. O agente do MI5 é um espião russo, mas eu tenho acesso à colheita, por assim dizer.
- Notável - exclamou Canaris num tom seco.
- Churchill e Roosevelt não confiam em Estaline. Não o informam de nada. Recusaram-se a dizer-lhe alguma coisa acerca da hora e do local da invasão. Acham que Estaline seria capaz de nos revelar
1 Veículo militar desenhado por Ferdinand Porsche e construído pela Volkswagen durante a Segunda Guerra Mundial para uso das forças armadas da Alemanha nazi. (N. do T.)
o segredo para que os Aliados fossem destruídos na França. com os britânicos e os americanos fora da luta, Estaline tentaria acabar connosco sozinho e deitar a mão
à Europa toda para si próprio.
Já ouvi essa teoria. Não sei se lhe dou grande importância.
- Em todo o caso, o meu agente diz que o MI5 anda em crise. Diz que o seu homem, Vogel, organizou uma operação que os deixou assustados de morte. A investigação está a ser conduzida por um oficial chamado Vicary. Já ouviu falar dele?
- Alfred Vicary - respondeu Canaris. - Antigo professor do University College de Londres.
- Francamente impressionante - afirmou Schellenberg com sinceridade.
- Ser um agente dos serviços secretos eficaz passa por conhecer o adversário, Herr Brigadefúhrer - disparou Canaris, detendo-se em seguida por momentos, para dar tempo a Schellenberg para absorver o golpe. - Fico contente por saber que Kurt lhes anda a dar água pela barba.
- A situação está tão tensa que Vicary já se encontrou com Churchill em pessoa, para o pôr a par dos avanços na investigação.
- Isso não é assim tão surpreendente, Herr Brigadefúhrer. Vicary e Churchill são velhos amigos.
Canaris olhou de soslaio para Schellenberg para ver se a cara deste registava qualquer traço de surpresa. As conversas entre ambos transformavam-se frequentemente em competições com o objetivo de marcar pontos, com cada um dos homens a tentar surpreender o outro com pequenos pedaços de informação.
- Vicary é um historiador de renome. Já li a obra dele. Surpreende-me que o senhor não. Tem uma mente perspicaz. Pensa como Churchill. Já andava a avisar o mundo sobre o senhor e os seus amigos antes de alguém ter prestado atenção.
- Então, o que é que Vogel anda a fazer? Talvez o SD possa dar alguma ajuda.
Canaris permitiu-se dar uma rara mas curta gargalhada.
- Por favor, Brigadefúhrer Schellenberg. Se o senhor vai ser tão transparente, estes passeios a cavalo matinais vão perder o encanto muito depressa. Além do mais, se quer saber o que é que Vogel anda a fazer, pergunte ao pedófilo simplesmente. Eu sei que ele pôs os
nossos telefones sob escuta e introduziu os seus espiões em Tirpitz Ufer.
- É interessante que diga isso. Fiz essa mesma pergunta ao Reichsfúhrer Himmler ontem à noite ao jantar. Parece que o Vogel é muito cuidadoso. Muito dado a segredos.
Consta que os arquivos dele nem sequer fazem parte do registo central da Abwehr.
- Vogel é um verdadeiro paranóico e é extremamente cauteloso. Guarda tudo no gabinete dele. E eu não pensaria em tentar armar-me em duro com ele. Tem um assistente chamado Werner Ulbricht que já viu o pior desta guerra. O homem está sempre a limpar as suas Ljigers. Nem eu me aproximo do gabinete de Vogel.
Schellenberg puxou as rédeas do cavalo até este parar. A manhã estava sossegada e silenciosa. Ao longe, ouviu-se o rosnar dos primeiros carros da manhã ao longo da Wilhelmstrasse.
- Vogel é o tipo de homem de que nós gostamos no SD... inteligente, determinado.
- Só há um problema - lançou Canaris. - Vogel é um ser humano. Tem um coração e uma consciência. Alguma coisa que me diz que não iria encaixar no vosso pessoal.
- Porque não deixa que eu e ele nos encontremos? Talvez possamos pensar numa forma de aliar os nossos recursos para o bem do Reich. Não há razão para o SD e a Abwehr
andarem sempre a atirar-se um ao outro desta maneira.
Canaris sorriu.
- Os nossos serviços atiram-se um ao outro, Brigadefúhrer Schellenberg, porque o senhor está convencido de que eu sou um traidor do Reich e porque tentou mandar-me
prender.
O que era verdade. Schellenberg tinha reunido um dossiê com dezenas de alegações de traições cometidas por Canaris. Em 1942, entregou o dossiê a Heinrich Himmler, mas Himmler nada fez. Canaris também tinha dossiês e Schellenberg suspeitava que o dossiê da Abwehr sobre Himmler incluísse material que o Reichsfúhrer preferiria não ver tornado público.
- Isso já foi há muito tempo, Herr Admirai. Pertence ao passado. Canaris espetou o tacão da bota de montar no cavalo e recomeçaram a avançar. Os estábulos surgiram ao longe.
- Posso cometer a ousadia de sugerir uma interpretação para a sua proposta de auxílio, Brigadefúhrer Schellenberg?
- Claro.
- O senhor gostaria de fazer parte desta operação por uma de duas razões. A primeira razão é que poderia sabotar a operação, de modo a diminuir ainda mais a reputação da Abwehr. Ou, segunda razão, poderia roubar as informações recolhidas por Vogel e ficar com todos os louros e glória para si mesmo.
Schellenberg abanou a cabeça devagar.
- Esta falta de confiança entre nós é uma pena. Tão aborrecida.
- É, não é?
Entraram nos estábulos ao mesmo tempo e desmontaram. Dois cavalariços apareceram a correr e levaram os cavalos.
- Um prazer, como sempre - afirmou Canaris. - Tomamos o pequeno-almoço juntos?
- Adoraria, mas receio que o dever me chame.
- Ai sim?
- Uma reunião com Himmler e Hitler, às oito em ponto.
- Que felizardo. Qual é o tema?
Walter Schellenberg sorriu e pousou a mão enluvada no ombro do homem mais velho.
- Isso gostaria o senhor de saber.
- Como estava a Velha Raposa esta manhã? - perguntou Hitier quando Walter Schellenberg entrou pela porta, às oito horas em ponto.
Himmler já lá estava, sentado no sofá muito confortável e a beber um café. Era essa a imagem que Schellenberg gostava de apresentar aos superiores - demasiado ocupado para chegar antes da hora a uma reunião e fazer conversa de circunstância, mas suficientemente disciplinado para ser pontual.
- Tão cauteloso como sempre - respondeu Schellenberg, servindo-se de uma chávena de café a escaldar.
Havia um jarro com leite verdadeiro. Nos tempos que corriam, até os quadros do SD tinham dificuldade em assegurar um fornecimento contínuo.
- Recusou-se a dizer-me o quer que fosse em relação à operação de Vogel. Diz que não sabe nada dela. Autorizou Vogel a atuar sob condições de extremo secretismo, permitindo-se não ser informado dos pormenores.
- Talvez seja melhor desse modo - afirmou Himmler, de rosto impassível e com a voz a não revelar qualquer emoção. - Quanto menos o bom do almirante souber, menos poderá revelar ao inimigo.
- Eu fiz a minha própria investigação - anunciou Schellenberg. - Sei que Vogel enviou pelo menos um novo agente para Inglaterra. Teve de se servir da Luftwaffe para
o introduzir e o piloto que voou nessa missão foi muito cooperante - explicou Schellenberg, abrindo a pasta e retirando de lá dois exemplares do mesmo dossiê, entregando
um a Hitler e o outro a Himmler. - O agente chama-se Horst Neumann. O Reichsfúhrer é capaz de se lembrar daquele caso em Paris há algum tempo. Um homem das SS foi
morto num bar parisiense. Neumann foi o homem que esteve envolvido nisso.
Himmler deixou cair o dossiê, que aterrou em cima da mesa de café ao redor da qual se encontravam sentados.
- A utilização de um homem desses por parte da Abwehr é uma autêntica bofetada na cara das SS e um desrespeito à memória do homem que ele assassinou! Mostra o desprezo de Vogel pelo partido e pelo Fúhrer.
Hitler continuava a ler o dossiê e parecia genuinamente interessado.
- Talvez Neumann seja simplesmente o homem certo para a tarefa, Herr Reichsfúhrer. Veja bem o dossiê dele: nascido em Inglaterra, membro condecorado dos Fallschirmjàger, Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro com Folhas de Carvalho. No papel, um homem extraordinário.
Já há algum tempo que Schellenberg não via o Fiihrer mostrar-se tão lúcido e sensato.
- Concordo - disse Schellenberg. - À exceção dessa única mancha no currículo, Neumann aparenta ser um soldado extraordinário.
Himmler olhou para Schellenberg com o rosto lívido. Não gostava de ser contrariado à frente do Fúhrer, por mais brilhante que Schellenberg pudesse ser.
- Talvez devêssemos atacar Canaris agora - afirmou Himmler.
Afastá-lo, pôr o Brigadefiihrer Schellenberg a comandar e juntar
a Abwehr e o SD num único e poderoso serviço secreto. Dessa forma, o Brigadefiihrer Schellenberg poderia dirigir a operação de Vogel pessoalmente. Parece que as
coisas arranjam sempre maneira de sair mal quando envolvem o almirante Canaris.
Uma vez mais, Hitler discordou do assessor em quem mais confiava.
- Se o amigo russo de Schellenberg tiver razão, este homem, Vogel, parece ter posto os britânicos em fuga. Intervir agora seria um erro. Não, Herr Reichsfiihrer, Canaris vai continuar a ocupar o seu cargo por enquanto. Talvez ele esteja a fazer uma coisa acertada, para variar.
Hitler levantou-se.
- Agora, se os senhores me derem licença, tenho outros assuntos que exigem a minha atenção.
Dois Mercedes oficiais estavam à espera na berma, com os motores ligados. Houve um momento de embaraço enquanto decidiam que carro levar, mas Schellenberg cedeu discretamente e entrou para o banco de trás do Mercedes de Himmler. Sentia-se vulnerável quando não se encontrava rodeado pelos seus seguranças, mesmo quando estava com Himmler. Durante o curto trajeto, o Mercedes blindado de Schellenberg nunca se afastou mais do que um ou dois metros do para-choques traseiro da limusina de Himmler.
- Como sempre, um desempenho impressionante, Herr Brigadefiihrer - disse Himmler.
Schellenberg conhecia o seu superior suficientemente bem para perceber que o comentário não pretendia ser um elogio. Himmler, o segundo homem mais poderoso da Alemanha, estava irritado por ter sido contrariado diante do Fúhrer.
- Obrigado, Herr Reichsfúhrer.
- O Fúhrer quer obter o segredo da invasão de tal forma que isso lhe está a toldar o raciocínio - disse Himmler num tom neutro.
- O nosso dever é protegê-lo. Compreende o que lhe estou a dizer, Herr Brigadefuhrer?
- Absolutamente.
- Quero saber qual é a jogada de Vogel. E se o Fiihrer não nos deixa fazer isso a partir de dentro, vamos ter de o fazer a partir de fora. Coloque Vogel e o assistente dele, Ulbricht, sob vigilância vinte e quatro horas por dia. Utilize todos os meios ao seu dispor para penetrar em Tirpitz Ufer. Além disso, arranje maneira de introduzir um homem no centro de comunicações de rádio em Hamburgo. Vogel tem de comunicar com os agentes. Quero alguém a ouvir o que estiver a ser dito.
- Sim, Herr Reichsfiihrer.
- E, Walter, não fique tão macambúzio. Não tardará muito a deitarmos as mãos à Abwehr. Não se preocupe. Vai ser tudo seu.
- Obrigado, Herr Reichsfiihrer.
- A não ser, claro, que me volte a contrariar à frente do Fúhrer. Himmler bateu ao de leve com a mão na divisória de vidro, com
tão pouca força que quase não se ouviu. O carro encostou à berma, tal como o de Schellenberg, logo atrás. O jovem general ficou sentado, sem se mexer, até que um dos seguranças apareceu junto à porta para o acompanhar no percurso de três metros até ao seu carro.
VINTE E SEIS LONDRES
Catherine Blake já estava arrependida da decisão de ter ido pedir ajuda aos Pope. Sim, tinham-lhe relatado a vida de Peter Jordan em Londres pormenorizadamente. Mas o preço a pagar tinha sido bastante avultado. Fora ameaçada de extorsão, arrastada para um bizarro jogo sexual e forçada a assassinar duas pessoas. Agora, a polícia estava envolvida. O homicídio de uma proeminente figura do mercado negro e do submundo como Vernon Pope surgia em destaque em todos os jornais londrinos. No entanto, a polícia tinha dado informações falsas aos jornalistas - dissera que as vítimas tinham sido encontradas com as gargantas cortadas e não esfaqueadas no olho e no coração. Era óbvio que estavam a tentar separar as pistas falsas das verdadeiras. Ou será que o MI5 já estaria envolvido? De acordo com os jornais, a polícia queria interrogar Robert Pope, mas não conseguira encontrá-lo. Catherine poderia dar uma ajuda. Pope estava sentado a uns seis metros dela, no bar do Savoy, a beber um uísque lentamente e com um ar furioso.
Por que razão estava Pope ali? Catherine achava que sabia a resposta. Pope estava ali porque suspeitava que Catherine estivesse envolvida no assassinato do irmão. Para ele, não seria difícil encontrá-la. Pope sabia que Catherine andava à procura de Peter Jordan. Tudo o que precisava de fazer era ir aos locais que Peter Jordan frequentava e as hipóteses de Catherine lá aparecer eram grandes.
Ela voltou-lhe as costas. Não tinha medo de Robert Pope - era mais um incómodo do que uma ameaça. Desde que se mantivesse à vista de toda a gente, ele pensaria duas vezes antes de tentar fazer-Ihe alguma coisa. Catherine já estava à espera disto. Como medida de precaução, tinha começado a andar com a pistola para todo o lado. Era necessário, mas uni aborrecimento. Tinha de levar uma mala maior para poder esconder a arma. Era pesada e batia-lhe na anca quando andava. A arma, ironicamente, era também uma ameaça à sua segurança. Não era fácil explicar a um polícia londrino por que razão se andava com uma pistola Mauser, de fabrico alemão, com silenciador.
Mas decidir se deveria ou não matar Robert Pope não era a maior preocupação de Catherine Blake, pois, nesse instante, Peter Jordan entrou no bar do Savoy acompanhado por Shepherd Ramsey.
Ela interrogou-se sobre qual dos homens seria o primeiro a avançar. As coisas estavam prestes a ficar interessantes.
- Tenho uma coisa boa a dizer desta guerra - afirmou Shepherd Ramsey quando ele e Peter Jordan se sentaram a uma mesa num canto do bar. - Tem feito maravilhas em relação aos meus ativos líquidos. Enquanto ando para aqui a armar-me em herói, o valor das minhas ações disparou. Já fiz mais dinheiro nos últimos seis meses do que em dez anos a trabalhar na companhia de seguros do paizinho.
- E porque não dizes ao teu querido paizinho para ir dar uma volta?
- Ele ficava perdido sem mim.
Shepherd fez sinal ao empregado e pediu um martíni. Jordan pediu um uísque duplo.
- Um dia difícil no escritório, queridinho?
- Duríssimo.
- Diz-se por aí que andas a trabalhar numa nova e diabólica ar-
ma secreta.
- Sou engenheiro, Shep. Construo pontes e estradas.
- Qualquer idiota podia fazer isso. Não andas aqui a construir o raio de uma autoestrada.
- Pois não, não ando.
- Então quando é que me vais contar no que é que andas a trabalhar?
- Não posso. Tu sabes que não posso.
- Sou só eu, o velho Shep. Podes contar-me tudo e mais alguma coisa.
- Adorava, Shepherd, mas, se te contasse, tinha de te matar e depois Sally ficava viúva e Kippy deixava de ter pai.
- Kippy anda outra vez com problemas em Buckley. O raio do miúdo mete-se em mais sarilhos do que eu fazia.
- E isso não é dizer pouco.
- O diretor ameaça expulsá-lo. Sally teve de lá ir no outro dia para ouvir um sermão e lhe dizerem que Kippy precisa de uma influência masculina forte na vida dele.
- Não sabia que ele tinha sequer uma.
- Muito engraçado, parvalhão. Sally anda a ter problemas com o carro. Diz que precisa de pneus novos, mas que não os pode comprar por causa do racionamento. Diz que não puderam abrir a casa de Oyster Bay para passar lá o Natal este ano porque não havia óleo combustível para aquecer o raio do sítio.
Shepherd reparou que Peter Jordan estava a olhar fixamente para a bebida.
- Peço desculpa, Peter, estou a aborrecer-te?
- Não mais do que o costume.
- Achei só que umas notícias lá da terra te poderiam animar.
- E quem diz que eu preciso que me animem?
- Peter Jordan, já não te via com essa cara há imenso tempo. Quem é ela?
- Não faço ideia.
- Não me queres explicar isso?
- Esbarrei nela durante o blackout, literalmente. Arranquei-lhe as compras dos braços. Foi muito embaraçoso. Mas ela tinha qualquer coisa.
- E ficaste com o número de telefone dela?
- Não.
- Então e um nome?
- Sim, fiquei com um nome.
- bom, isso já é alguma coisa. Meu Deus! Diria que estás um bocadinho enferrujado. Diz-me como era ela.
Peter Jordan disse-lhe: alta, cabelo castanho a cair-lhe sobre os ombros, uma boca grande, maçãs do rosto lindas, os olhos mais espetaculares que ele já tinha visto.
- Isso é interessante - exclamou Shepherd.
- Porquê?
- Porque essa mulher está mesmo ali.
Geralmente, os homens de uniforme punham Catherine nervosa. Mas quando Peter Jordan começou a atravessar o bar na sua direção, ela achou que nunca tinha visto um homem que ficasse tão bem como ele no seu uniforme azul-escuro da marinha americana. Era um homem extraordinariamente atraente - não tinha reparado até que ponto na noite anterior. O casaco do uniforme assentava-lhe perfeitamente nos ombros e no peito fortes, como se tivesse sido feito à medida por um alfaiate de Manhattan. Tinha uma cintura elegante e o andar revelava a confiança tranquila que apenas os homens senhores de si próprios e bem-sucedidos possuem. O cabelo era escuro, praticamente preto, em nítido contraste com a pele clara. Os olhos tinham uma desconcertante tonalidade verde - verde-claro, como os de um gato - e a boca era suave e sensual. E abriu-se num sorriso agradável quando ele reparou que ela estava a olhar.
- Penso que esbarrei em si na noite passada, durante o blackout
- disse ele, estendendo-lhe a mão. - Chamo-me Peter Jordan.
Ela apertou-lhe a mão e depois, distraidamente, deixou que as unhas lhe passassem sobre a palma quando a largou.
- E eu chamo-me Catherine Blake - respondeu.
- Sim, eu lembro-me. Parece estar à espera de alguém.
- E estou, mas parece que ele me deixou pendurada.
- bom, então eu cá diria que ele é um grande parvo.
- E só um velho amigo, na verdade.
- Posso oferecer-lhe agora o tal copo? - perguntou Jordan. Catherine olhou para Jordan e sorriu; a seguir, lançou um olhar
rápido a Robert Pope, que se encontrava a observá-los atentamente, do outro lado do bar.
- Por acaso, gostava imenso de ir para um sítio um bocadinho mais sossegado para falarmos. Ainda tem aquela comida toda em casa?
- Um ou dois ovos, um pouco de queijo, talvez uma lata de tomate. E muito vinho.
- Parecem-me os ingredientes necessários para uma ótima omeleta.
- Deixe-me só ir buscar o casaco.
Encostado ao balcão do bar, Robert Pope ficou a vê-los esgueirarem-se pelo meio da multidão e entrarem no salão. Terminou a bebida calmamente, esperou uns segundos
e depois saiu do bar e seguiu-os discretamente. À saída do hotel, o porteiro acompanhou-os até um táxi. Pope, atravessando a rua rapidamente, observou o táxi a afastar-se.
Dicky Dobbs estava sentado ao volante da carrinha. Ligou o motor quando Pope entrou. A carrinha arrancou, afastando-se do passeio, em direção ao trânsito noturno. Não havia necessidade de ir a correr, disse Pope a Dicky. Sabia para onde eles iam. Recostou-se no banco e fechou os olhos por uns minutos enquanto Dicky seguia para oeste, a caminho da casa geminada de Jordan, em Kensington.
Durante o percurso de táxi até casa de Peter Jordan, Catherine Blake apercebeu-se, bastante repentinamente, de que estava nervosa. Isso não acontecia por um homem que possuía o segredo mais importante da guerra se encontrar sentado ao lado dela. Simplesmente, não era muito boa naquilo - os rituais da corte e dos encontros. Pela primeira vez em muito tempo, pensou no seu aspeto. Sabia que era uma mulher atraente - uma mulher linda. Sabia que a maioria dos homens a desejava. Mas, durante a estadia em Inglaterra, tinha feito todos os possíveis por esconder o seu aspeto, por se misturar. Tinha adotado o visual de uma atormentada viúva de guerra: meias escuras e opacas, que ocultavam as formas das longas pernas, saias que lhe assentavam mal, disfarçando-lhe a curva das ancas, camisolas de lã grossa de homem, que lhe escondiam os seios redondos. Naquela
noite, trazia um vestido chamativo que tinha comprado antes da guerra, apropriado para bebidas no Savoy. Ainda assim, pela primeira vez na vida, Catherine estava preocupada por poder não ser suficientemente bonita.
Mas havia outra coisa que estava a incomodar Catherine. Por que razão tinham sido precisas circunstâncias daquelas para estar finalmente com um homem como Peter Jordan? Ele era inteligente, atraente, bem-sucedido e, bem, aparentemente normal. A maior parte dos homens que Catherine conhecera já estaria a comportar-se de forma muito diferente naquela altura. Lembrou-se da primeira vez com o pai de Maria Romero, Emílio. Não se tinha preocupado com flores ou romance; mal a tinha beijado. Limitou-se a empurrá-la para a cama e a fodê-la. E Catherine não se tinha importado. Na verdade, até gostava bastante disso assim. O sexo não era uma coisa para ser feita por amor e respeito. Ela nem sequer retirava prazer da conquista. Para Catherine, tratava-se de um ato de pura gratificação física. Emílio Romero compreendia; infelizmente, Emilio compreendia muitas coisas acerca dela.
Há muito que tinha desistido da ideia de se apaixonar, casar e ter filhos. A sua independência obsessiva e a desconfiança profundamente enraizada em relação às outras pessoas nunca lhe possibilitariam a dedicação emocional necessária a um casamento; o egoísmo e a satisfação desregrada dos seus próprios desejos nunca lhe permitiriam cuidar de uma criança. Só se sentia segura com um homem se tivesse total controlo, emocional e fisicamente. Estes sentimentos manifestavam-se no próprio ato sexual. Há muito que Catherine tinha descoberto ser incapaz de atingir um orgasmo se não estivesse por cima.
Tinha construído uma imagem do tipo de vida que queria para si própria. Quando a guerra terminasse, iria para um sítio quente a Costa do Sol, o sul da França - se calhar a Itália, onde compraria uma pequena villa com vista para o mar. Viveria sozinha, cortaria o seu próprio cabelo e estender-se-ia na praia até ficar com a pele completamente morena e, se precisasse de um homem, trá-lo-ia para a villa e servir-se-ia do corpo dele até ficar satisfeita, para depois o expulsar
e sentar-se à lareira e ficar outra vez sozinha a ouvir o ruído do mar. Talvez deixasse Maria passar lá uns tempos consigo de vez em quando. Maria era a única que a compreendia. E era por isso que Catherine tinha ficado tão magoada com a traição de Maria.
Catherine não se odiava por ser como era, nem se amava a si mesma. Nas poucas ocasiões em que refletira sobre a sua própria psicologia, tinha-se considerado uma personalidade bastante interessante. E também tomara consciência de que era a pessoa ideal para ser uma espia - emocional, física e intelectualmente. Vogel tinha reconhecido isso, tal como Emilio. Detestava-os aos dois, mas não conseguia encontrar defeitos nas conclusões de ambos. Naquele instante, olhou para o seu reflexo no espelho retrovisor e veio-lhe à cabeça uma palavra - espiã.
O táxi parou em frente da casa de Jordan. Ele pegou-lhe na mão para a ajudar a sair do táxi e, a seguir, pagou ao taxista. Destrancou a porta de casa e disse-lhe
para entrar. Fechou a porta antes de acender as luzes - regras do blackout. Por um instante, Catherine sentiu-se desorientada e vulnerável. Não gostava de estar num sítio estranho com um desconhecido às escuras. Jordan acendeu rapidamente as luzes e iluminou a sala.
- Meu Deus! - exclamou ela. - Como arranjou um alojamento destes? Pensava que os oficiais americanos estavam todos amontoados em hotéis e pensões.
Catherine sabia a resposta, claro. Mas precisava de fazer a pergunta. Era raro um oficial americano viver sozinho num sítio assim.
- O meu sogro comprou a casa há vários anos. Passava muito tempo em Londres, tanto em negócios como em lazer, e resolveu que queria ter cá uma segunda casa. Tenho
de admitir que fico contente por ele a ter comprado. A ideia de passar a guerra enlatado como uma sardinha no Grosvenor House não me seduz nada. Por fa-
vor, deixe-me guardar-lhe o casaco.
Ajudou-a a tirar o sobretudo e foi pendurá-lo no armário. Catherine observou a sala de estar. Estava elegantemente mobilada, com o género de sofás e cadeiras de couro muito confortáveis que se encontra num clube privado londrino. As paredes eram revestidas com
painéis; os soalhos de madeira estavam tingidos de um castanho carregado e tão encerados que tinham um brilho lustroso. Os tapetes espalhados um pouco por todo o lado eram de excelente qualidade. A sala tinha uma característica singular - as paredes estavam repletas de fotografias de pontes.
- Então é casado - disse Catherine, certificando-se de que havia um ligeiro tom de desapontamento na voz.
- Desculpe? - retorquiu ele, regressando à sala.
- Disse que o seu sogro é dono desta casa.
- Suponho que devia ter dito ex-sogro. A minha mulher morreu num acidente de automóvel antes da guerra.
- Peço desculpa, Peter. Não queria...
- Por favor, não há problema. Já foi há muito tempo. Ela apontou para a parede com a cabeça e disse:
- Gosta de pontes.
- Pode dizer-se isso, sim. Construo-as.
Catherine atravessou a sala e olhou de perto para uma das fotografias. Era da ponte do rio Hudson, que tinha garantido a Jordan o prémio de Engenheiro do Ano, em 1938.
- Foi o Peter que desenhou estas?
- Na verdade, são os arquitetos que as desenham. Eu sou engenheiro. Fazem um esboço em papel e eu digo-lhes se a coisa vai aguentar-se em pé ou não. Às vezes, faço-os alterar o esboço. Noutras, se for assim tão fantástico como aquele, arranjo maneira de fazer com que funcione.
- Parece um desafio.
- E pode ser - respondeu ele. - Mas, às vezes, também pode ser entediante e chato, e é um tema de conversa aborrecido em cocktails.
- Não sabia que a marinha precisava de pontes.
- E não precisa.
Jordan parou por uns instantes e depois disse:
- Peço desculpa, não posso falar do meu...
- Por favor. Acredite, eu compreendo as regras.
- Posso ser eu a cozinhar, mas não posso garantir que a comida seja comestível.
- Indique-me só onde é a cozinha.
- Por aquela porta. Se não se importa, gostava de mudar de roupa. Ainda não me consegui habituar a andar com o raio deste uniforme.
- com certeza.
Ela observou os movimentos seguintes dele com muita atenção. Jordan tirou as chaves do bolso das calças e destrancou uma porta. Devia ser o escritório. Ligou a luz e esteve lá dentro menos de um minuto. Quando voltou para a sala, já não trazia a pasta. Provavelmente, tinha-a guardado no cofre. Subiu as escadas. O quarto dele ficava no primeiro andar. Era perfeito. Enquanto ele estivesse a dormir lá em cima, ela podia arrombar-lhe o cofre e fotografar o que estava dentro da pasta. Neumann certificar-se-ia de que as fotografias chegavam a Berlim e os analistas da Abwehr examiná-las-iam para descobrirem a natureza do trabalho de Peter Jordan.
Ela atravessou a entrada para a cozinha e foi acometida por um instante de pânico. Por que razão estaria ele a tirar de repente o uniforme? Será que ela tinha feito alguma coisa mal? Cometido algum erro? Será que ele estava a telefonar naquele preciso momento ao MI5? Será que o MI5 estava a ligar para a Divisão Especial? Será que ele desceria as escadas e se iria pôr com falinhas mansas até que eles arrombassem a porta e a prendessem?
Catherine obrigou-se a acalmar. Era ridículo.
Quando abriu a porta do frigorífico, apercebeu-se de uma coisa. Não fazia a menor ideia de como se fazia uma omeleta. Maria fazia omeletas excelentes - iria imitar simplesmente tudo o que ela fazia. Tirou do frigorífico três ovos, uma pequena quantidade de manteiga e um pedaço de queijo cheddar. Abriu a porta da pequena despensa e encontrou uma lata de tomate e uma garrafa de vinho. Abriu-a, descobriu os copos de vinho e serviu-os aos dois. Não esperou por Jordan voltar para provar o vinho; era delicioso. Sabia-lhe a plantas silvestres, alfazema e alperce, e fê-la pensar na sua villa imaginária. Aquecer os tomates primeiro - era isso que Maria fazia, só que dantes, em Paris, os tomates eram frescos e não estes enlatados horríveis.
Abriu a lata, escorreu a água, cortou os tomates aos pedaços e atirou-os para uma frigideira quente. De imediato, a cozinha começou a cheirar a tomate e ela bebeu mais um pouco de vinho antes de partir e bater os ovos e ralar o queijo para dentro de uma tigela. Sorriu - a rotina doméstica de preparar um jantar para um homem era-Ihe tão estranha. Foi então que pensou: Talvez Kurt Vogel devesse acrescentar um curso de culinária à sua escolazinha de espiões da Abwehr.
Jordan pôs a mesa na sala de jantar enquanto Catherine terminava a omeleta. Tinha vestido umas calças de algodão cor de caqui e Catherine ficou outra vez impressionada com a beleza dele. Queria soltar o cabelo - fazer qualquer coisa que a tornasse mais atraente aos olhos dele -, mas não fugiu da personagem que tinha criado para si mesma. A omeleta estava surpreendentemente boa e comeram-na muito depressa, antes que ficasse fria, acompanhando-a com o vinho, um Bordeaux anterior à guerra que Peter Jordan tinha trazido de Nova Iorque para Londres. No final da refeição, Catherine sentia-se bem e descontraída. Jordan também parecia sentir-se assim. Aparentava não suspeitar de nada - parecia aceitar o facto de se terem encontrado como uma absoluta coincidência.
- Já esteve nos Estados Unidos? - perguntou ele enquanto levantavam a mesa e levavam a louça para a cozinha.
- Por acaso, vivi dois anos em Washington quando era pequena.
- A sério?
- Sim, o meu pai trabalhava no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Era diplomata. Foi colocado em Washington no início dos anos vinte, depois da Primeira Guerra Mundial. Gostei muito da cidade. Tirando o calor, claro. Meu Deus, Washington é mesmo opressivo no verão! O meu pai arrendou um chalé na Chesapeake Bay para passarmos os verões. Tenho recordações muito agradáveis desses tempos.
Era tudo verdade, só que o pai de Catherine tinha trabalhado para o Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão e não para o Ministério dos Negócios Estrangeiros inglês. Catherine decidira que era preferível pegar no máximo possível de aspetos da sua própria vida.
- E o seu pai ainda é diplomata?
- Não, morreu antes da guerra.
- E a sua mãe?
- A minha mãe morreu quando eu era muito pequena - respondeu Catherine, empilhando os pratos sujos no lava-louças. - Eu lavo se o Peter secar.
- Esqueça. Tenho uma senhora que vem cá duas vezes por semana. Vai cá estar amanhã de manhã. E que tal um copo de brandy?
- Seria ótimo.
Por cima da lareira, estavam fotografias em molduras prateadas e ela olhou para elas enquanto Jordan servia o brandy. Foi ter com ela à frente da lareira e passou-lhe um dos copos.
- A sua mulher era muito bonita.
- Sim, era. A morte dela foi muito dura para mim.
- E o seu filho? Quem é que toma conta dele agora?
- A irmã de Margaret, Jane.
Ela deu um gole no brandy e olhou para ele.
- Não parece muito entusiasmado com isso.
- Meu Deus, é assim tão óbvio?
- Sim, é.
- Na verdade, Jane e eu nunca nos demos muito bem. E, para ser sincero, gostava que Billy não estivesse ao cuidado dela. É egoísta, mesquinha e mimada como tudo, e tenho medo que vá fazer com que Billy também seja assim. Mas a verdade é que não tinha de facto escolha. Um dia depois de me alistar na marinha, fui enviado para Washington e, passadas duas semanas, estava num avião para Londres.
- O Billy é a cara do pai - disse Catherine. - Tenho a certeza de que não tem nada com que se preocupar.
Jordan sorriu e retorquiu:
- Espero que tenha razão. Por favor, sente-se.
- Tem a certeza? Não quero mante-lo...
- Já não passava uma noite assim tão agradável há imenso tempo. Por favor, fique mais um pouco.
Sentaram-se ao lado um do outro, no grande sofá de couro.
Jordan disse:
- Então explique-me lá como é que uma mulher incrivelmente linda como a Catherine não é casada.
Catherine sentiu-se corar.
- Meu Deus, até está a corar. Não me diga que nunca lhe disseram que é linda.
Ela sorriu e respondeu:
- Não, é só que já passou muito tempo.
- Então já somos dois. Já há muito tempo que não dizia a uma mulher que ela era linda. Na verdade, até me consigo lembrar da última vez. Foi quando acordei e vi a cara de Margaret no dia em que ela morreu. Nunca pensei que seria capaz de achar que outra mulher fosse linda depois disso. Até ter feito figura de parvo ao ir de encontro a si na noite passada, durante o blackout. A Catherine deixou-me sem fôlego.
- Obrigado. Posso garantir-lhe que a atração foi mútua.
- E foi por isso que não me deu o seu número de telefone?
- Não queria que pensasse que eu era uma devassa.
- Raios, estava com esperanças de que fosse uma devassa.
- Peter - exclamou ela, espetando-lhe o dedo na perna.
- E vai responder à minha pergunta ou não? Porque não é casada? Catherine fitou a lareira durante um momento.
- Eu fui casada. O meu marido, Michael, foi abatido quando sobrevoava o canal da Mancha na primeira semana da Batalha de Inglaterra. Nunca conseguiram recuperar o corpo. Na altura, estava grávida e perdi o bebé. Os médicos disseram que o motivo fora o choque provocado pela morte de Michael - explicou Catherine, desviando o olhar da lareira para o rosto de Jordan. - Ele era bonito e corajoso e o mundo inteiro para mim. Durante imenso tempo, depois de ele morrer, nunca olhei duas vezes para outro homem. Comecei a sair em encontros há pouco tempo, mas nada de minimamente sério. E depois um americano tonto qualquer, que não tinha a lanterna para o blackout acesa, foi contra mim no meio do passeio, em Kensington, e...
Houve um longo e ligeiramente desconfortável momento de silêncio. A lareira estava a apagar-se. Catherine ouviu o ruído de uma tempestade a levantar-se e a chuva
a bater no passeio, do lado de fora da janela. Apercebeu-se de que podia ficar assim durante muito tempo, sentada junto à lareira, com o seu brandy e aquele homem simpático e gentil. Meu Deus, Catherine, o que é que te deu? Por um momento, tentou forçar-se a odiá-lo, mas não foi capaz. Desejou que ele nunca fizesse nada que a ameaçasse, nada que a obrigasse a matá-lo.
Fez questão de mostrar que estava a olhar para o relógio.
- Meu Deus, vejam-me só as horas - disse. - São onze. Já lhe tomei demasiado tempo. Devia mesmo ir-me embora...
- Em que estava a pensar ainda agora? - perguntou Jordan, como se não tivesse ouvido uma única palavra do que ela tinha acabado de dizer.
No que estava ela a pensar? Boa pergunta.
- Compreendo que não pode falar do seu trabalho, mas vou fazer-lhe uma pergunta e quero que me diga a verdade.
- Juro que sim.
- Não vai desaparecer e fazer com que o matem, pois não?
- Não, não vou fazer com que me matem. Prometo.
Ela inclinou-se para a frente e deu-lhe um beijo na boca. Os lábios dele não responderam.
Ela afastou-se, pensando: Será que cometi um erro? Se calhar, ele não estava pronto para isto?
Ele disse:
- Peço desculpa. É só que já passou muito tempo.
- Também já passou muito tempo para mim.
- Se calhar, precisamos de tentar outra vez.
Ela sorriu e beijou-o novamente. Desta vez, a sua boca reagiu à dela. Ele puxou-a para perto de si. Ela gostou da sensação de ter os seios encostados a ele.
Passado um momento, ela afastou-se.
- Se não me for embora agora, acho que nunca vou conseguir fazê-lo.
- Não sei se quero que se vá embora.
Ela deu-lhe um último beijo e perguntou:
- Quando é que o vou voltar a ver?
- Posso levá-la a jantar amanhã à noite... isto é, um jantar a sé rio? Num sítio onde se possa dançar.
- Adorava.
- E que tal outra vez no Savoy, por volta das oito?
- Parece-me perfeito.
A fria rajada de chuva e a visão de Pope e Dicky sentados numa carrinha ali estacionada fizeram Catherine Blake regressar à realidade. Pelo menos, eles não tinham interferido. Talvez se contentassem, por enquanto, em observar de longe.
O trânsito do final da noite era reduzido. Em Brompton Road, fez rapidamente sinal a um táxi para parar. Entrou e pediu ao taxista que a levasse para a estação de Victoria. Virando-se para trás, viu Pope e Dicky a seguirem-na.
Na estação, pagou ao taxista e entrou, desaparecendo entre uma multidão de passageiros que saía de um comboio tardio acabado de chegar a Londres. Olhou por cima do ombro e viu Dicky Dobbs a entrar no terminal a correr, com a cabeça a rodar de um lado para
o outro.
Rapidamente, saiu por outra porta e desapareceu no meio do blackout.
VINTE E SETE
BAVIERA, ALEMANHA: MARÇO DE 1938
O seu chalé na aldeia secreta de Vogel é pouco sólido e está cheio de correntes de ar, o sítio mais frio onde ela já esteve. Mas tem uma lareira e, durante a tarde,
enquanto estuda códigos e procedimentos para as comunicações por rádio, um homem da Abwehr aparece lá para deixar acendalhas e troncos secos de abeto para a noite. Naquele momento, a lareira está a apagar-se e o frio a embrenhar-se pelo chalé, por isso ela levanta-se e atira um par de grandes troncos para o meio das brasas. Vogel está deitado no chão, em silêncio, atrás dela. É um amante horrível: aborrecido, egoísta, todo ele cotovelos e joelhos. Até quando lhe tenta dar prazer se mostra
desajeitado, bruto e alheado. É espantoso que ela tenha conseguido sequer seduzi-lo. Mas ela tem as suas rabões. Se Vogel se apaixonar ou ficar obcecado por ela,
não quererá enviá-la para Inglaterra. Parece estar a resultar. Ainda há pouco, quando esteve dentro dela, professou-lhe o seu amor. Mas agora, deitado no tapete e a olhar fixamente para o teto, parece arrepender-se das suas palavras.
- As vees, não quero que vás - di ele.
- Que vá onde? -- Para Inglaterra.
Ela volta para junto dele, deita-se ao seu lado no tapete e beija-o. O hálito dele é horrível: cigarros, café, dentes podres.
- Pobre Vogel, pus-te o coração de pernas para o ar, não foi?
- Sim, acho que puseste. As vees, penso em levar-te comigo para Berlim. Posso arranjar-te um apartamento lá.
- Isso seria maravilhoso - responde ela, mas apensar que seria preferível ser presa pelo MI5 a passar a guerra como amante de Kurt Vogel num casebre qualquer em Berlim.
- Mas és demasiado valiosa para a Alemanha para passar a guerra em Berlim. Tens de atravessar as linhas inimigas e ir para Inglaterra - di ele, parando para acender um cigarro. - E depois há outra coisa, acho eu. Ponho-me a pensar: porque é que uma mulher linda se iria apaixonar por um homem como eu? E depois tenho a resposta. Acha que ele não a vai enviar para Inglaterra se estiver apaixonado por ela.
- Não sou suficientemente inteligente nem ardilosa para faer uma coisa dessas.
- E claro que és. Foi por isso que te escolhi. Ela sente a raiva crescer dentro de si.
- Mas gostei do tempo que passámos juntos. Emílio disse que tu eras ótima na cama. A melhor foda da porra da minha vida inteira -foi assim que o Emílio descreveu a coisa. Mas a verdade é que Emílio tem tendência a ser um bocadinho ordinário. Disse que até eras melhor do que as putas mais caras. Disse que queria que ficasses em Espanha para seres amante dele. Tive de lhe pagar o dobro da quantia habitual. Mas, acredita em mim, valeste bem o dinheiro.
Ela levanta-se.
- Põe-te a andar daqui, já! Vou-me embora amanhã de manhã. Já estou farto deste buraco infernal!
- Oh, sim, vais-te embora amanhã de manhã. Mas não é para onde pensas. Só há um problema. Os teus instrutores disym-me que continuas relutante em matar com a tua
faca. Dizem que disparas muito bem, melhor até do que os rapazes. Mas dizem que és lenta com a faca de ponta e mola.
Ela não diz nada, limita-se a olhar ferozmente para ele, deitado no tapete e iluminado pela lareira.
- Tenho uma sugestão para ti. Sempre que tiveres de utilizar a faca, pensa no homem que
te fez sofrer quando eras uma menininha.
Ela fica de boca aberta, horrorizada. Só contou isso a uma pessoa em toda a sua vida. Maria. Mas Maria deve ter contado a Emílio e o cabrão do Emílio contou a Vogel.
- Não sei do que estás a falar - di ela, mas não há convicção nas suas palavras.
- É claro que sabes. Foi isso que te tornou o que és, uma cabra impiedosa do caralho.
Ela reage instintivamente. Dá um passo em frente epontapeia-o com violência por baixo do queixo. A cabeça dele salta para trás e bate com estrondo no chão. Viça
muito quieto, talve inconsciente. Afaça dela está no chão, ao lado da lareira; treinaram-na para a ter sempre por perto. Pega nela, carrega na mola e a lâmina reluzente
sai com um estalido. A lu da lareira, é de um vermelho vivo. Ela avança em direção a Vogel. Quer matá-lo, espetar-lhe afaça numa das áreas de morte que lhe ensinaram:
o coração, os rins, o ouvido ou os olhos. Mas naquele momento já Vogel se está a levantar, apoiado no cotovelo, com uma pistola na mão apontada à cabeça dela.
- Muito bem - diz ele, com o sangue a jorrar-lhe da boca. - Acho que agora estás preparada. Guarda afaça e senta-te. Precisamos de falar. E, por favor, veste qualquer
coisa. Estás com um ar ridículo aí nessa figura.
Ela põe um roupão e aviva as brasas enquanto ele se veste e trata da boca.
- Es um perfeito cabrão. Só se fosse parva é que trabalhava para ti, Vogel.
- Nem penses sequer em desistir agora. Eu fornecia à Gestapo provas bastante convincentes da traição do teu pai ao Fuhrer. Não ias querer ver as coisas que eles
faem a essas pessoas. E se alguma vez fizeres seja o que for para me trair quando estiveres em Inglaterra, entrego-te aos britânicos numa bandeja de prata. Se achas
que aquele tipo te fez sofrer quando eras pequena, pensa só em ser violada repetidamente por um bando de guardas de prisão ingleses nojentos. Vais ser a prisioneira
preferida deles, acredita. Duvido que se dessem sequer ao trabalho de te enforcar.
De um momento para o outro, ela ficou muito quieta na escuridão. Está apensar em como lhe rachar o crânio com o atiçador de ferro fundido, mas Vogel continua a segurar
na pistola. Ela apercebe-se de que foi manipulada por ele. Pensou que o estava a enganar - pensou que tinha o controlo da situação -, mas era Vogel quem o tinha durante todo aquele tempo. Estava a tentar instilar-Ihe a capacidade de matar. Ela apercebe-se de que ele fe de facto um belíssimo trabalho.
Vogel está outra ve a falar:
- Já agora, matei-te hoje à noite, enquanto me deixavas foder-te. Anna Katarina von Steiner, de vinte e sete anos, morreu num infeliz acidente de automóvel, à saída
de Berlim, há uma hora. Uma pena imensa. Um desperdício de talento tão grande.
Vogel já se encontra vestido, com um pano molhado encostado à boca. Está manchado com o seu sangue.
- Vais para a Holanda amanhã de manhã, exatamente como combinámos. Passas lá seis meses e consolidas a tua identidade firmemente; a seguir, vais para Inglaterra. A.qui tens os teus documentos para a Holanda, o dinheiro e o bilhete de comboio. Tenho pessoas em Amesterdão que te vão contactar e orientar-te a partir daí.
Ele avança e para muito perto dela.
- Anna desperdiçou a vida. Mas Catherine Blake pode fazer coisas grandiosas.
Ela ouve a porta fechar-se depois de ele sair, ouve o barulho das botas a avançarem ruidosamente pela neve, à saída do chalé. Naquele momento, está tudo muito silencioso,
à exceção do crepitar da lareira e do sibilar do vento cortante a agitar os abetos, do lado de fora da janela. Ela fica imóvel por um momento; a seguir, sente o
corpo começar a sofrer convulsões. Já não é possível continuar em pé. Cai de joelhos diante da lareira e começa a chorar incontrolavelmente.
BERLIM
Kurt Vogel estava a dormir na cama de campanha no seu gabinete quando ouviu um ruído surdo, de qualquer coisa a raspar, que o fez endireitar-se, sobressaltado.
- Quem está aí?
- Sou só eu, senhor.
- Werner, por amor de Deus! Pregaste-me um susto de morte a arrastar o raio da tua perna de pau assim. Pensei que era o Frankenstein que aí vinha para me assassinar.
- Peço desculpa, senhor. Achei que gostaria de ver isto imediatamente - respondeu Ulbricht, entregando-lhe o duplicado de uma comunicação. - Acabou de chegar de Hamburgo... uma mensagem da Catherine Blake, enviada de Londres.
Vogel leu-a rapidamente, com o coração aos pulos.
- Ela travou contacto com Jordan. Quer que Neumann comece a fazer recolhas regulares o mais depressa possível. Meu Deus, Werner, ela conseguiu mesmo fazê-lo!
- Evidentemente, uma agente extraordinária. E uma mulher extraordinária.
- Sim - exclamou Vogel num tom distante. - Avisa Neumann, em Hampton Sands, assim que puderes. Diz-lhe para começar com as recolhas de acordo com o plano preestabelecido.
- Sim, senhor.
- E contacta o gabinete do almirante Canaris. Quero informá-lo dos desenvolvimentos logo de manhãzinha.
- Sim, senhor.
Ulbricht saiu, deixando Vogel sozinho no escuro. Interrogou-se como teria ela conseguido fazê-lo. Tinha esperanças de que um dia ela terminasse a missão para que pudesse dispensá-la. Deixa de te enganares a ti mesmo, velhote. Queria que ela terminasse a missão para poder vê-la só mais uma vez, para lhe explicar por que razão a tinha tratado de forma tão horrível naquela última noite. Tinha sido para o seu próprio bem. Ela não percebera isso na altura, mas talvez, com o passar do tempo, o conseguisse perceber. Imaginou-a naquele preciso momento. Estará assustada? Correrá perigo? Claro que corria perigo. Estava a tentar roubar segredos dos Aliados no coração de Londres. Um passo em falso e acabaria nos braços do MI5. Mas se havia uma mulher capaz de fazer isso, era ela. O coração e o maxilar partidos de Vogel comprovavam-no.
Heinrich Himmler estava a analisar uma pilha de papelada, no seu gabinete em Prinz Albrechtstrasse, quando a chamada do Brigadefuhrer Walter Schellenberg foi passada para a sua secretária.
- Boa noite, Herr Brigadefuhrer. Ou devo dizer bom dia?
- São duas da madrugada. Não pensei que ainda estivesse no gabinete.
- Não há descanso para quem trabalha. Em que posso ajudar?
- Tem que ver com a questão de Vogel. Consegui convencer um agente da sala de comunicações da Abwehr que seria do seu interesse colaborar connosco.
- Muito bem, general.
Schellenberg informou Himmler da mensagem do agente de Vogel em Londres.
Himmler disse:
- Então, o seu amigo Horst Neumann está prestes a entrar em ação.
- Pelos vistos, sim, Herr Reichsfúhrer.
- vou informar o Fúhrer dos desenvolvimentos amanhã de manhã. Tenho a certeza de que vai ficar muito satisfeito. Esse homem, Vogel, parece ser um oficial muito capaz. Se ele roubar o segredo mais importante da guerra, não me admiraria que o Fúhrer o nomeasse sucessor de Canaris.
- Consigo lembrar-me de candidatos mais merecedores para o cargo, Herr Reichsfúhrer - atirou Schellenberg.
- Aconselho-o a arranjar maneira de assumir o controlo da situação. Caso contrário, é capaz de se ver fora da disputa.
- Sim, Herr Reichsfúhrer.
- Vai andar a cavalo com o almirante Canaris no Tiergarten amanhã de manhã?
- Como de costume.
- Para variar, talvez consiga descobrir qualquer coisa de útil. E não se esqueça de dar os meus calorosos cumprimentos à Velha Raposa. Boa noite, Herr Brigadefúhrer.
Himmler pousou o auscultador no descanso delicadamente e regressou à interminável papelada.
VINTE E OITO
HAMPTON SANDS, NORFOLK
Um amanhecer cinzento rompia entre nuvens densas quando Horst Neumann atravessou a mata de pinheiros e subiu ao topo das dunas. O mar revelou-se à sua frente, cinzento e calmo nessa manhã sem vento, com ondas pequenas a rebentarem na vastidão aparentemente infinita da praia. Neumann usava um fato de treino cinzento, com uma camisola de gola alta por baixo para aquecer, e ténis de couro pretos e macios. Inspirou profundamente o ar frio e revigorante e depois desceu as dunas rapidamente e caminhou pela areia macia. A maré estava a descer e havia uma faixa extensa de areia dura e plana, perfeita para correr. Esticou as pernas, soprou para as mãos e começou a corrida a um ritmo moderado. As andorinhas-do-mar e as gaivotas grasnaram em sinal de protesto e afastaram-se.
Tinha recebido uma mensagem de Hamburgo ao início da manhã, ordenando-lhe que começasse a recolher regularmente material de Catherine Blake, em Londres. As recolhas deveriam ser feitas de acordo com o plano que Kurt Vogel lhe dera na quinta à saída de Berlim. O material deveria ser depositado à entrada de uma porta em Cavendish Square, onde um funcionário da embaixada portuguesa o iria buscar e, em seguida, enviaria para Lisboa dentro da mala diplomática. Parecia simples. Mas Neumann tinha noção de que servir de correio o faria cair diretamente nas garras das forças de segurança britânicas. E estaria na posse de informações que lhe garantiriam uma viagem para o cadafalso se fosse preso. Em combate, sabia sempre
onde estava o inimigo. No trabalho de espionagem, o inimigo podia estar em qualquer lado. Podia estar sentado ao lado dele num café ou num autocarro, e Neumann talvez nunca o soubesse.
Neumann demorou vários minutos até sentir calor e as primeiras gotas de suor lhe surgirem na testa. A corrida fez o seu efeito mágico, o mesmo efeito mágico que produzia nele desde criança. Foi invadido pela agradável sensação de estar a flutuar, quase a voar. A respiração era regular e calma, e ele conseguia sentir toda a tensão a desaparecer-lhe do corpo. Escolheu uma meta imaginária na praia, a cerca de oitocentos metros de distância, e acelerou o ritmo.
Os primeiros quatrocentos metros correram bem. Deslizou pela praia, com as suas longas passadas a devorarem a areia e os ombros e os braços soltos e descontraídos. Os restantes quatrocentos metros foram mais difíceis. A respiração de Neumann tornou-se difícil e irregular. O ar frio rasgava-lhe a garganta. Os braços pareciam carregar pesos de chumbo. A meta imaginária surgiu a duzentos metros de distância. A parte de trás das coxas retesou-se subitamente e a sua passada encurtou. Fez de conta que estava na última volta da final dos 1500 metros dos Jogos Olímpicos - os Jogos que eu falhei por me terem mandado ir matar polacos, russos, gregos e franceses! Imaginou que havia apenas um homem à frente dele e que lhe estava a ganhar terreno com uma lentidão atroz. A meta encontrava-se a cinquenta metros. Era um pequeno monte de limo que tinha sido ali deixado pela maré-alta, mas na imaginação de Neumann era uma verdadeira meta, com uma fita, homens com casacos brancos e cronómetros e a bandeira olímpica a esvoaçar sobre o estádio, ao sabor de uma brisa suave. Bateu ferozmente com os pés contra a areia dura, curvou o corpo sobre o limo, parou aos tropeções e fez um grande esforço para recuperar o fôlego.
Era um jogo idiota - um jogo que ele já fazia consigo próprio desde pequeno -, mas servia um propósito. Tinha provado a si mesmo que estava finalmente em forma outra vez. Tinha levado meses a recuperar do espancamento que sofrera às mãos dos homens das SS, mas tinha conseguido. Sentia-se fisicamente preparado para
qualquer coisa com que pudesse ser confrontado. Neumann caminhou durante um momento, antes de começar a correr devagar. Foi então que reparou em Jenny Colville a observá-lo do cimo das dunas.
Neumann sorriu-lhe quando ela se aproximou. Era mais atraente do que ele se lembrava - uma boca grande e expressiva, olhos azuis, uma pele clara ruborizada pelo frio
matinal. Usava uma camisola de lã grossa, um gorro de lã, um oleado e calças enfiadas às três pancadas dentro de umas botas de borracha. Atrás dela, do outro lado
das dunas, Neumann via o fumo branco de um incêndio acabado de apagar a
espalhar-se pelo meio dos pinheiros. Jenny parou junto dele. Parecia cansada e dava a sensação
de ter dormido com aquela roupa vestida. Ainda assim, sorriu com considerável encanto enquanto o examinava, de mãos na cintura.
- Muito impressionante, senhor Porter - lançou ela. Neumann achava sempre o seu sotaque de Norfolk, cerrado e
monocórdico, difícil de compreender.
- Se não soubesse, diria que estava a treinar para qualquer coisa.
- Os velhos hábitos são difíceis de perder. Além disso, faz bem ao corpo e à alma. Devias tentar um dia destes. Tirava-te esses quilos a mais.
- Ah! - exclamou ela, empurrando-o em jeito de brincadeira.
- Já estou demasiado escanzelada. É o que os rapazes da aldeia dizem todos. Gostam de Eleanor Carrick porque ela tem grandes... bom, o senhor sabe. Ela vai até à praia com eles e pagam-lhe para desabotoar a blusa.
- Eu vi-a ontem na aldeia - disse Neumann. - É uma vaca gorda. Tu és duas vezes mais bonita do que Eleanor Carrick.
- Acha que sim?
- Sem dúvida - respondeu Neumann, esfregando os braços energicamente e batendo com os pés na areia. - Preciso de andar. Caso contrário, vou ficar teso que nem um carapau.
- Quer companhia?
Neumann assentiu com a cabeça. Não era verdade, mas Neumann não viu mal nisso. Jenny Colville tinha uma tremenda paixoneta de
rapariguinha por ele; era evidente. Arranjava desculpas para aparecer no chalé dos Dogherty todos os dias e nunca recusava um convite de Mary para tomar chá ou jantar. Neumann tentara prestar a dose apropriada de atenção a Jenny e evitara cuidadosamente colocar-se em qualquer situação em que pudesse ficar a sós com ela. Até àquele momento. Iria tentar tirar proveito da conversa - avaliar se a sua história de cobertura se estava a aguentar bem na aldeia. Caminharam em silêncio, com Jenny a contemplar o mar. Neumann agarrou numa mão-cheia de pedras e fê-las ressaltar pelas ondas. Jenny perguntou:
- Importa-se que falemos da guerra?
- Claro que não.
- Os seus ferimentos... foram graves?
- Suficientemente graves para abreviarem os meus dias de combate e darem-me um bilhete de ida para casa.
- Onde o feriram?
- Na cabeça. Um dia, quando te conhecer melhor, levanto o cabelo e mostro-te as cicatrizes.
Ela olhou para ele e sorriu.
- A sua cabeça parece-me ótima.
- E o que queres dizer com isso, Jenny Colville?
- Significa que o senhor é um homem bonito. E também é inteligente. Consigo perceber isso.
O vento soprou uma madeixa de cabelo sobre a cara de Jenny. Ela voltou a enfiá-la debaixo do gorro com um ligeiro movimento da mão.
- Só não consigo perceber o que está a fazer num sítio como Hampton Sands.
Então a sua história de cobertura levantara suspeitas na aldeia!
- Precisava de um sítio para descansar e recuperar. Os Dogherty ofereceram-se para me receber e passar uma temporada com eles e eu aceitei.
- E porque é que eu não acredito nessa história?
- Mas devias, Jenny. É a verdade.
- O meu pai acha que o senhor é um criminoso ou membro do IRA. Diz que o Sean já foi membro do IRA.
- Jenny, consegues mesmo imaginar Sean Dogherty como membro do Exército Republicano Irlandês? Além disso, o teu pai tem problemas bem graves com que lidar.
O rosto de Jenny ensombrou-se. Ela parou de andar e voltou-se para olhar de frente para ele.
- E o que quer dizer com isso?
Neumann receou que tivesse ido longe demais. Talvez fosse melhor bater em retirada, arranjar uma desculpa e mudar de assunto. Mas houve qualquer coisa que o fez querer terminar o que tinha começado. Pensou: Por que razão não sou capaz de ficar de boca calada e passar em branco este assunto? Sabia a resposta, claro. O seu próprio padrasto fora um sacana violento, sempre pronto a desferir uma bofetada com as. costas da mão ou um comentário cruel que lhe levava as lágrimas aos olhos. Tinha a certeza de que Jenny Colville sofrera abusos físicos bem piores do que alguma vez lhe acontecera a ele. Queria dizer-lhe alguma coisa que a fizesse compreender que as coisas não precisavam de ser sempre assim. Queria dizer-lhe que não estava sozinha. Queria ajudá-la.
- Quer dizer que ele bebe demasiado - disse Neumann, estendendo a mão e tocando-lhe na face delicadamente. - E quer dizer que maltrata uma rapariga linda e inteligente que não fez absolutamente nada para merecer isso.
- Acha mesmo isso? - perguntou ela.
- O quê?
- Que sou linda e inteligente. Nunca ninguém me tinha dito isso.
- Claro que acho.
Ela pegou-lhe na mão e caminharam mais um bocado.
- Tem alguma rapariga? - perguntou-lhe ela.
- Não.
- Porque não?
De facto, porque não? A guerra. Era a resposta fácil. Na verdade, nunca tivera tempo para uma rapariga. A sua vida fora uma longa série de obsessões: uma obsessão por perder o seu lado inglês e tornar-se um
bom alemão, uma obsessão por se tornar campeão olímpico, uma obsessão por se tornar o membro mais condecorado dos Fallschirmjàger. A sua última amante fora uma camponesa francesa da aldeia perto do seu posto de escuta. Tinha-se revelado meiga numa altura em que Neumann precisava desesperadamente de ternura e, todas as noites, durante
um mês, deixava-o entrar pelas traseiras do seu chalé e levava-o em segredo para a sua cama. Quando fechava os olhos, Neumann ainda conseguia ver-lhe o corpo, a encostar-se ao seu, à luz tremeluzente das velas no quarto dela. Ela tinha feito o voto de lhe beijar a cabeça todas as noites até ficar boa. No fim, Neumann foi
invadido pelo sentimento de culpa de um ocupante e acabou com tudo. Naquele momento, temeu pelo que poderia acontecer à rapariga quando a guerra terminasse.
- Por um momento, ficou com uma cara triste - disse Jenny.
- Estava a pensar numa coisa.
- Eu diria que estava a pensar em uma pessoa. E, pela sua cara, essa pessoa era uma mulher.
- És uma rapariga muito perspicaz.
- E ela era bonita?
- Era francesa e muito bonita.
- E partiu-lhe o coração?
- Pode dizer-se que sim.
- Mas o senhor é que a deixou.
- Sim, suponho que sim.
- Porquê?
- Porque a amava demasiado.
- Não entendo.
- Um dia vais entender.
- E o que quer dizer com isso?
- Quer dizer que és muito nova para andares por aí com um tipo como eu. vou terminar a minha corrida. Sugiro que vás para casa e vistas qualquer coisa limpa. Parece que estiveste a dormir na praia a noite toda.
Olharam um para o outro de uma forma que dizia que ambos sabiam que era verdade. Ela deu meia-volta para se ir embora e depois parou.
- Nunca faria nada que me magoasse, pois não, James?
- Claro que não.
- Jura?
- Juro.
Ela deu um passo em frente e beijou-o na boca muito rapidamente, antes de se virar e desatar a correr pela areia. Neumann abanou a cabeça e, a seguir, deu meia-volta e recomeçou a correr pela praia.
VINTE E NOVE LONDRES
Alfred Vicary sentia que se estava a afundar em areia movediça. Quanto mais se debatia, mais fundo se enterrava. De cada vez que descobria uma nova pista ou indício, parecia ficar mais longe. Começava a duvidar das hipóteses de vir a apanhar os espiões.
A origem do seu desespero era um par de mensagens alemãs descodificadas que tinha chegado de Bletchley Park nessa manhã. A primeira mensagem era de um agente alemão
no Reino Unido a pedir a Berlim para que começassem a ser feitas recolhas regulares. A segunda era de Hamburgo para um agente alemão no Reino Unido dizendo-lhe para
fazer precisamente isso. Era um desastre. A operação alemã - fosse qual fosse - parecia estar a ser bem-sucedida. Se o agente requisitara um correio, era lógico
que o agente conseguira alguma coisa. Vicary foi acometido pelo medo de que, se conseguisse de facto apanhar os espiões, poderia ser demasiado tarde.
A luz vermelha incidia sobre a porta de Boothby. Vicary carregou na campainha e aguardou. Passou um minuto e a luz continuava vermelha. Era mesmo típico de Boothby exigir uma reunião urgente e depois deixar a vítima à espera.
Porque não nos contou isso antes?
Isso é que contei, meu caro Alfred... Contei a Boothby.
Vicary voltou a carregar na campainha. Seria realmente possível que Boothby soubesse da existência da rede Vogel e não lhe tivesse contado? Não fazia sentido absolutamente nenhum. Vicary só se
conseguia lembrar de uma única explicação possível. Boothby tinha-se oposto veementemente à atribuição do caso a Vicary e deixara isso claro desde o início. Mas será que a oposição de Boothby incluiria sabotar ativamente os esforços de Vicary? Era bem possível. Se Vicary não conseguisse apresentar qualquer progresso na resolução do caso, Boothy poderia ter argumentos para o despedir e dar o caso a outra pessoa, uma pessoa em quem confiasse - um agente de carreira, talvez, não um dos novos recrutas que Boothby tanto detestava.
A luz passou por fim para verde. Atravessando as imponentes portas duplas, Vicary jurou que não sairia dali sem esclarecer a situação.
Boothby estava sentado à secretária.
- Conte-me tudo, Alfred.
Vicary informou Boothby do conteúdo das duas mensagens e da sua teoria em relação ao que significavam. Boothby escutou-o, agitando-se e contorcendo-se na cadeira.
- Por amor de Deus! - disparou. - As notícias relacionadas com este caso pioram a cada dia que passa.
Vicary pensou: Mais uma contribuição brilhante, Sir Basil.
- Fizemos alguns progressos na tentativa de reunir informações sobre a agente. Karl Becker identificou-a como sendo Anna von Steiner. Nasceu no Guy's Hospital, em Londres, no Dia de Natal, em 1910. O pai era Peter von Steiner, diplomata e aristocrata abastado da Prússia Ocidental. A mãe era uma inglesa chamada Daphne Harrison. A família continuou em Londres até a guerra rebentar e, a seguir, mudou-se para a Alemanha. Devido à posição do Steiner, Daphne Harrison não foi detida por razões de segurança durante a guerra, como aconteceu com muitos cidadãos britânicos. Morreu de tuberculose, em 1918, na herdade dos Steiner, na Prússia Ocidental. Após a guerra, Steiner e a filha andaram a saltar de nomeação em nomeação, incluindo outra curta passagem por Londres no início dos anos vinte. Steiner também trabalhou em Roma e em Washington.
- Está cá a parecer-me que era espião - interrompeu Boothby.
- Mas continue, Alfred.
- Em 1937, Anna Steiner desapareceu. Depois disso, só podemos especular. É treinada pela Abwehr, enviada para a Holanda para estabelecer a sua falsa identidade holandesa de Christa Kunst e depois entra em Inglaterra. Já agora, Anna Steiner, supostamente, morreu num acidente de automóvel à saída de Berlim em março de 1938. Evidentemente, Vogel inventou isso.
Boothby levantou-se e começou a andar de um lado para o outro do gabinete.
- É tudo muito interessante, Alfred, mas só há uma falha fatal. Baseia-se em informações que lhe foram dadas por Karl Becker. Becker era capaz de dizer o quer que fosse para cair nas nossas boas graças.
- Becker não tem razão nenhuma para nos mentir acerca disto, Sir Basil. E a história dele é consistente com as poucas coisas de que
temos a certeza.
- Tudo o que estou a dizer, Alfred, é que duvido muito da veracidade de tudo aquilo que esse homem diga.
- Então porque passou tanto tempo com ele este outubro? -- retorquiu Vicary.
Sir Basil estava parado em frente à janela, a olhar lá para baixo, para a última luz a sumir-se da praça. Virou a cabeça bruscamente, recuperando a seguir a compostura e voltando-se lentamente para encarar Vicary.
- A razão que me fez falar com Becker não é da sua conta.
- Becker é meu agente - respondeu Vicary, com a raiva a infiltrar-se na voz. - Eu é que o prendi, eu é que o fiz mudar de lado, eu é que o controlo. Ele deu-lhe informações que se poderiam ter revelado úteis para este caso e, no entanto, o senhor preferiu não me revelar essas informações. Gostava de saber porquê.
Boothby já se encontrava bastante calmo.
- Becker contou-me a mesma história que a si: agentes especiais, um campo secreto na Baviera, códigos especiais e procedimentos especiais para encontros. E, para lhe ser sincero, Alfred, não acreditei nele na altura. Não tínhamos mais nenhuns indícios que fundamentassem a história dele. Agora já temos.
Era uma explicação perfeitamente lógica - superficialmente, pelo menos.
- E porque não me falou disso?
- Já foi há muito tempo.
- E quem é Broome?
- Lamento, Alfred.
- Eu quero saber quem é Broome.
- E eu estou a tentar dizer-lhe o mais delicadamente possível que não tem direito a saber quem é Broome - respondeu Boothby, abanando a cabeça. - Meu Deus! Isto não é nenhuma associação universitária onde nos sentamos e partilhamos conhecimentos profundos. Esta agência trabalha em contraespionagem. E funciona à luz de um conceito muito simples: necessidade de saber. Alfred não tem necessidade de saber quem é Broome porque isso não afeta nenhum caso que lhe tenha sido atribuído. Por isso mesmo, não é da
sua conta.
- E o conceito da necessidade de saber corresponde a uma licença para enganar outros agentes?
- Eu não utilizaria a palavra enganar - respondeu Boothby, como se a palavra fosse uma obscenidade. - Significa simplesmente que, por razões de segurança, um agente tem só o direito de saber aquilo que é necessário para levar a cabo a sua missão.
- Então e a palavra mentir? Utilizaria essa palavra?
A discussão parecia estar a causar sofrimento físico a Boothby.
- Suponho que haja alturas em que talvez seja necessário não se ser completamente sincero com um agente para salvaguardar a operação que está a ser realizada por outro. com certeza que isso não é uma surpresa para si, pois não?
- Claro que não, Sir Basil - retorquiu Vicary, hesitando depois um pouco enquanto decidia se devia prosseguir com o interrogatório ou ficar por ali. - Estava só a pensar por que razão me mentiu ao dizer que não tinha lido o dossiê de Kurt Vogel.
O sangue pareceu fugir da cara de Boothby e Vicary conseguia vê-lo a fechar a mão e a abri-la dentro do bolso das calças. Era uma estratégia arriscada e a cabeça de Grace Clarendon estava em jogo. Quando Vicary se fosse embora, Boothby ligaria a Nicholas Jago, da
divisão dos Registos, e exigiria respostas. Por certo que Jago se aperceberia de que a fuga de informação partira de Grace Clarendon. Não se tratava de uma questão de somenos; podia ser despedida de imediato. Mas Vicary estava convencido de que não iriam tocar em Grace, já que isso apenas provaria que as informações que tinha prestado estavam corretas. Rogou a Deus para que tivesse razão.
- Anda à procura de um bode expiatório, Alfred? Alguém ou alguma coisa para atribuir as culpas pela sua incapacidade em resolver este caso? Devia ter mais noção do perigo que isso representa do que qualquer um de nós. A história está repleta de exemplos de homens fracos que consideraram oportuno arranjar um bode expiatório conveniente.
Vicary pensou: E o senhor não está a responder à minha pergunta. Ergueu-se e disse:
- Boa noite, Sir Basil.
Boothby manteve-se em silêncio enquanto Vicary se dirigia para a porta.
- Há mais uma coisa - disse Boothby por fim. - Não me parece que seja necessário dizer-lhe isto, mas vou fazê-lo em todo o caso. O nosso tempo não é ilimitado. Se não houver progressos em breve, somos capazes de vir a ter de fazer... bom, mudanças. compreende, não é, Alfred?
TRINTA LONDRES
Ao entrarem no Savoy Grill, a banda começou a tocar "And a Nightingale Sang on Berkeley Square". O desempenho era fraco com falhas e um pouco apressado -, mas, ainda assim, a canção era bonita. Jordan pegou na mão dela sem dizer palavra e dirigiram-se para a pista de dança. Era um dançarino excelente, com estilo e confiança, e apertava-a bem junto de si. Tinha vindo diretamente do seu gabinete e usava o uniforme. Trouxera a pasta consigo. Obviamente, não havia nada de importante lá dentro, pois deixara-a na mesa. Fosse como fosse, parecia nunca tirar os olhos de cima dela por muito tempo.
Passado um momento, Catherine reparou numa coisa: toda a gente na sala parecia estar a olhar para eles. Era extremamente enervante. Durante seis anos, tinha feito tudo o que estava ao seu alcance para que não reparassem nela. E estava naquele momento a dançar com um deslumbrante oficial da marinha americana, no hotel mais chique de Londres. Sentia-se exposta e vulnerável, mas, ao mesmo tempo, retirava uma estranha satisfação por estar a fazer uma coisa completamente normal para variar.
O seu próprio aspeto tinha com certeza qualquer coisa que ver com a atenção de que eram alvo. Vira-o nos olhos de Jordan, uns minutos anos, quando entrara no bar. Nessa noite, estava estonteante. Usava um vestido preto de material sintético, muito aberto nas costas e com um decote que lhe realçava as formas dos seios. Tinha o cabelo
caído, preso por um elegante gancho adornado com jóias, e um colar de pérolas com duas voltas. Maquilhara-se com cuidado. Em tempo de guerra, os cosméticos eram
de qualidade extremamente fraca, mas ela não precisava de muito - um pouco de batom para lhe acentuar os contornos da generosa boca, um bocadinho de blush para
fazer sobressair ainda mais as proeminentes maçãs do rosto, um toque de eyeliner à volta dos olhos. Não retirava especial satisfação do seu aspeto. Sempre pensara
na sua beleza em termos objetivos, da forma -como uma mulher poderia avaliar a sua porcelana preferida ou um tapete antigo valioso. Ainda assim, já tinha passado
muito tempo desde que entrara pela última vez numa sala e observara as cabeças virarem-se na sua direção. Era o tipo de mulher em que ambos os sexos reparavam. Os
homens mal conseguiam não ficar boquiabertos, as mulheres franziam o sobrolho com inveja. Jordan perguntou:
- Já reparaste que toda a gente nesta sala está a olhar para nós?
- Já reparei nisso, sim. Importas-te?
- Claro que não - respondeu ele, recuando uns centímetros para poder olhar para a cara dela. -Já não me sentia assim há imenso tempo, Catherine. E pensar que tive
de fazer a viagem toda até Londres para te encontrar.
- Ainda bem que o fizeste.
- Posso confessar-te uma coisa?
- Claro que podes.
- Não dormi quase nada depois de te teres ido embora ontem à noite.
Ela sorriu e puxou-o para perto de si, de forma a ficar com a boca colada ao ouvido dele.
- Também te vou confessar uma coisa. Não dormi nada.
- E em que estavas a pensar?
- Diz-me tu primeiro.
- Estava a pensar que queria imenso que não te tivesses ido embora.
- Os meus pensamentos foram bastante parecidos.
- Estava a pensar em beijar-te.
- Eu acho que te estava a beijar.
- Não quero que esta noite te vás embora.
- Acho que terias de me expulsar fisicamente se quisesses que eu me fosse embora.
- Acho que não precisas de te preocupar com isso.
- Acho que gostava que me beijasses outra vez agora mesmo, Peter.
- Então e estas pessoas todas que estão a olhar para nós? O que achas que vão fazer se eu te beijar?
- Não tenho a certeza. Mas estamos em 1944 e isto é Londres. Tudo pode acontecer.
- com os cumprimentos do cavalheiro ao balcão - disse o empregado, abrindo uma garrafa de champanhe no momento em que eles voltaram para a mesa.
- E o cavalheiro tem nome? - perguntou Jordan.
- Nenhum que me tenha revelado, senhor.
- E como era o aspeto dele?
- Parecia-se bastante com um jogador de râguebi bronzeado, senhor.
- Oficial da marinha americana?
- Sim, senhor.
- Shepherd Ramsey.
- O cavalheiro gostaria de tomar uma bebida com os senhores.
- Agradeça ao cavalheiro pelo champanhe, mas diga-lhe para esquecer o resto.
- Claro, senhor.
- Quem é Shepherd Ramsey? - perguntou Catherine depois de o empregado se afastar.
- Shepherd Ramsey é o meu amigo mais antigo e querido no mundo inteiro. Gosto dele como de um irmão.
- Então porque não o deixas vir beber um copo connosco?
- Porque, pela primeira vez na minha vida adulta, gostava de fazer qualquer coisa sem ele. Além disso, não te quero partilhar.
- Otimo, já que eu também não te quero partilhar - disse Catherine, erguendo o copo de champanhe. - À ausência de Shepherd.
Jordan riu-se.
- À ausência de Shepherd. Fizeram um brinde.
Catherine acrescentou:
- E ao blackout, sem o qual eu nunca me teria cruzado contigo.
- Ao blackout- repetiu Jordan, hesitando depois um pouco. Eu sei que isto soa provavelmente a um lugar-comum horrível, mas não consigo parar de olhar para ti.
Catherine sorriu e inclinou-se sobre a mesa.
- E eu não quero que pares de olhar para mim, Peter. Porque achas que pus este vestido?
- Estou um bocadinho nervoso.
- Eu também, Peter.
- Estás tão linda, aí deitada ao luar.
- Tu também estás lindo.
- Não. A minha mulher...
- Desculpa. É só que nunca vi um homem que fosse assim tão bonito. Tenta não pensar na tua mulher apenas por uns minutos.
- É muito difícil, mas estás a tornar as coisas um bocadinho mais fáceis.
- Pareces uma estátua, aí ajoelhado.
- Uma estátua muito velha a cair aos bocados.
- Uma estátua linda.
- Não consigo parar de tocar em ti... de tocar neles. São tão bonitos. Tenho andado a sonhar em tocar assim neles desde o primeiro instante em que te vi.
- Podes tocar neles com mais força. Não magoa.
- Assim?
- Oh, meu Deus! Sim, Peter, assim mesmo. Mas também quero tocar em ti.
- Sabe tão bem quando fazes isso.
- Sabe?
- Ah, sim, sabe!
- É tão duro. É tão bom. E há mais outra coisa que eu te quero fazer.
- O quê?
- Não consigo dizê-lo em voz alta. Chega-te só mais perto.
- Catherine...
- Vá lá, querido. Prometo que não te vais arrepender.
- Oh, meu Deus, isso sabe mesmo tão bem!
- Então não queres que pare?
- Ficas tão bonita a fazer isso.
- Quero fazer com que te sintas bem.
- E eu quero fazer com que tu te sintas bem.
- Posso mostrar-te como.
- Acho que sei como.
- Ah, Peter, a tua língua sabe tão bem! Oh, por favor, toca-me nos seios enquanto fazes isso!
- Quero estar dentro de ti.
- Depressa, Peter.
- Oh, és tão suave, tão maravilhosa! Oh, meu Deus, Catherine, vou...
- Espera! Ainda não, querido. Faz-me um favor e deita-te de costas. Deixa-me fazer o resto.
Ele fez o que ela pediu. Ela pegou-lhe na mão e guiou-o para dentro do seu corpo. Podia ter ficado simplesmente ali parada e deixado que ele terminasse, mas queria que fosse assim. Sempre soube que Vogel lhe iria fazer isto. Por que razão quereria ele uma agente se não fosse para seduzir oficiais aliados e roubar-lhes os segredos? Sempre achou que o homem seria gordo, peludo, velho e feio, não como Peter. Se iria ser a puta de Vogel, mais valia tirar prazer disso. Oh, meu Deus, Catherine, não devias estar a faer isto. Não devias estar a perder o controlo desta maneira. Mas não conseguia evitá-lo. Estava a ter prazer. E estava a perder o controlo. Deixou cair a cabeça para trás, levou as mãos aos seios, acariciando os mamilos com os dedos, e, passado um momento, sentiu a descarga quente dele dentro de si e foi inundada por ela numa sucessão de ondas maravilhosas.
Já era tarde, no mínimo, quatro da madrugada, embora Catherine não pudesse ter a certeza porque estava demasiado escuro para conseguir ver o relógio em cima da mesa de cabeceira. Não importava. Tudo o que importava era que Peter Jordan estava a dormir profundamente ao lado dela. A sua respiração era profunda e regular. Tinham comido uma farta refeição, bebido muito e feito amor duas vezes. A não ser que ele tivesse um sono muito leve, provavelmente continuaria a dormir mesmo que houvesse um ataque aéreo da Luftwaffe naquele preciso momento. Levantou-se da cama discretamente, vestiu o roupão de seda que ele lhe tinha dado e atravessou o quarto em silêncio. A porta estava entreaberta. Catherine puxou-a mais uns centímetros, escapuliu-se pela abertura e fechou-a depois de passar.
O silêncio ecoou nos seus ouvidos. Conseguia sentir o coração a ribombar-lhe no peito. Forçou-se a acalmar. Tinha-se esforçado muitíssimo - arriscado muitíssimo - só para chegar àquele ponto. Bastaria um erro idiota para destruir tudo o que tinha feito. Desceu rapidamente pela escadaria estreita. As escadas rangeram. Ficou paralisada, à espera de ouvir se Jordan acordava. Lá fora, um carro passou na rua e fez levantar a água do chão. Um cão ladrava algures. Ao longe, ouviu-se a buzina de uma carrinha. Apercebeu-se de que não passavam dos sons habituais da noite, que as pessoas nunca ouviam por estarem a dormir. Rapidamente, desceu o resto das escadas e avançou pelo corredor. Encontrou as chaves dele em cima de uma mesa pequena, ao lado da carteira dela. Pegou em ambas as coisas e lançou-se ao trabalho.
Catherine tinha objetivos limitados naquela noite. Queria assegurar acesso regular ao escritório de Jordan e aos seus documentos pessoais. Para isso, precisava de ter uma cópia das chaves da porta da frente, da porta do escritório e da pasta dele. O chaveiro de Jordan tinha várias chaves. A chave da porta da frente era óbvia; era maior do que as outras. Enfiou a mão na carteira e tirou de lá um bocado de barro preto e macio. Afastou a chave-mestra das restantes e pressionou-a no barro, deixando lá gravada uma impressão nítida. A chave da pasta também era evidente; era a mais pequena de todas. Repetiu
o mesmo processo, gravando outra impressão nítida. A porta do escritório iria ser mais difícil; havia várias chaves que pareciam poder ser a que a abria. Só havia uma maneira de descobrir qual era. Pegou na carteira e na pasta de Jordan, levou tudo até ao escritório trancado, do outro lado da sala, e começou a experimentar as várias chaves. A quarta chave que experimentou entrou na fechadura e ajustou-se a ela. Tirou-a e pressionou-a no barro.
Catherine podia finalmente parar, no que seria já uma noite bastante bem-sucedida. Poderia fazer cópias das chaves e voltar quando Jordan não estivesse em casa e fotografar tudo o que se encontrasse no escritório dele. E iria fazer isso; mas queria mais naquela noite. Queria provar a Vogel que tinha conseguido, que era uma agente talentosa. Segundo os seus cálculos, saíra da cama há menos de dois minutos. Podia dar-se ao luxo de gastar mais outros dois.
Destrancou a porta do escritório, entrou e acendeu a luz. Era uma divisão elegante, mobilada como a sala de estar, de uma forma masculina. Havia uma grande secretária, uma cadeira de couro e um estirador, com um banco alto de madeira à sua frente. Catherine enfiou a mão na carteira e tirou de lá duas coisas, a máquina fotográfica e a pistola Mauser com silenciador. Pousou a Mauser em cima da secretária. Encostou a máquina ao olho e tirou duas fotografias do escritório. A seguir, abriu a pasta de Jordan. Estava praticamente vazia
- apenas uma carteira, um estojo para os óculos e uma pequena agenda revestida a couro. Pensou: Pelo menos, é um começo. Talvez lá estivessem nomes de homens importantes com quem Jordan se tinha encontrado. Se a Abwehr soubesse com quem ele se estava a encontrar, talvez conseguissem descobrir qual a natureza do seu trabalho.
Quantas vezes tinha feito isto no campo de treinos? Meu Deus, até lhe tinha perdido a conta: cem, no mínimo, sempre com Vogel ao lado dela com o raio do cronometro.
Demasiado tempo! Demasiado barulho! Demasiada luz! Não chega! Eles vêm aí! Foste apanhada! O que faes agora? Pousou a agenda na secretária e acendeu o candeeiro
desta. Possuía uma haste flexível e um abajur sobre a lâmpada para fixar a luz para baixo, perfeita para fotografar documentos.
Três minutos. Agora, trabalha depressa, Catherine. Abriu a agenda e ajustou o candeeiro de modo que a luz incidisse diretamente sobre a página. Se o fizesse num
ângulo errado, ou se a luz estivesse demasiado perto, os negativos ficariam arruinados. Fê-lo exatamente como Vogel lhe tinha ensinado e começou a tirar as fotografias.
Nomes, datas, pequenas notas escritas nas garatujas de Peter. Fotografou mais algumas páginas e depois descobriu uma coisa muito interessante. Uma das páginas continha esboços rudimentares de uma figura em forma de caixa. Havia números na página, que pareciam representar dimensões. Catherine fotografou essa página para ter a certeza de que captava a imagem.
Quatro minutos. Mais uma coisa naquela noite: o cofre. Estava aferrolhado ao chão, junto à secretária. Vogel tinha-lhe dado uma combinação que supostamente o abriria. Catherine ajoelhou-se e girou a fechadura. Seis dígitos. Quando rodou para o último número, sentiu a fechadura dar um estalido. Agarrou no trinco e fez força. O trinco saltou para a posição de abertura. A combinação tinha resultado. Abriu a porta e espreitou lá para dentro: dois dossiês cheios de papéis, vários blocos de notas de folhas destacáveis. Levaria horas a fotografar tudo. Iria esperar. Apontou a máquina para o interior do cofre e tirou uma fotografia.
Cinco minutos. Altura de voltar a pôr tudo onde estava. Fechou a porta do cofre, recolocou o trinco na posição trancada e girou a fechadura. Guardou o barro na carteira com cuidado, para não danificar as impressões. Seguiram-se a máquina e a Mauser. Enfiou novamente a agenda de Jordan na pasta dele e trancou-a. Depois, desligou as luzes e saiu do escritório. Fechou a porta e trancou-a.
Seis minutos. Demasiado tempo. Levou tudo outra vez para a sala e deixou as chaves, a pasta dele e a carteira dela em cima da mesa. Feito! Precisava de uma desculpa. Estava com sede. E era verdade tinha a boca seca dos nervos. Entrou na cozinha, tirou um copo do armário e encheu-o com água da torneira. Bebeu-a de imediato, encheu novamente o copo e levou-o para o quarto, subindo as escadas.
Catherine sentiu-se inundada por uma sensação de alívio e, ao mesmo tempo, de incrível poder e triunfo. Por fim, após meses de
treino e anos à espera, tinha feito alguma coisa. De repente, percebeu que gostava da espionagem - a satisfação de planear e executar uma operação meticulosamente, o prazer infantil de saber um segredo, ter conhecimento de algo que alguém não quer que se saiba. Era perfeita para isso, sob todos os aspetos.
Abriu a porta e entrou outra vez no quarto.
Peter Jordan estava sentado na cama, banhado pelo luar.
- Onde é que andaste? Estava preocupado contigo.
- Estava a morrer de sede - respondeu ela, sem acreditar que aquela voz calma e controlada era realmente a sua.
- Espero que também me tenhas trazido água - retorquiu ele. Oh, graças a Deus! Podia respirar novamente.
- Claro que trouxe.
Passou-lhe o copo de água e ele bebeu-a. Catherine perguntou:
- Que horas são?
- Cinco da manhã. Tenho de me levantar daqui a uma hora para estar numa reunião às oito.
Ela beijou-o.
- Então ainda temos uma hora.
- Catherine, é impossível eu conseguir...
- Oh, aposto que consegues.
Deixou o roupão de seda cair-lhe dos ombros e encostou-lhe a cara aos seios.
Nessa manhã, umas horas mais tarde, Catherine Blake avançava a passos largos pelo Chelsea Embankment enquanto uns chuviscos cortantemente frios caíam ao longo do rio. Durante a sua preparação, Vogel tinha-lhe fornecido uma sequência de vinte pontos de encontro, cada qual num local diferente no centro de Londres, cada qual numa hora ligeiramente diferente. Tinha-a obrigado a memorizá-los e ela partia do princípio de que tivesse feito a mesma coisa com Horst Neumann antes de o enviar para Inglaterra. De acordo com as regras estabelecidas, cabia a Catherine decidir se o encontro teria ou não lugar. Se visse alguma coisa de que não gostasse - uma cara
suspeita, homens dentro de um carro estacionado -, podia cancelá-lo e tentariam de novo no local seguinte na lista, à hora especificada.
Catherine não viu nada fora do normal. Deitou uma olhadela ao
relógio: dois minutos adiantada. Continuou a andar e, inevitavelmente, pensou no que se tinha passado na noite anterior. Preocupava-a a possibilidade de ter levado as coisas com Jordan demasiado longe, demasiado depressa. Esperava que ele não tivesse ficado chocado com as coisas que ela tinha feito ao corpo dele nem com as coisas que lhe tinha pedido para fazer ao seu. Se calhar, uma inglesa da classe média não se teria comportado assim. Agora é demasiado tarde para dúvidas, Catherine.
Aquela manhã fora como um sonho. Sentiu-se como se tivesse sido transformada por magia noutra pessoa e largada noutro mundo. Vestiu-se e fez café enquanto Jordan fazia a barba e tomava banho; a placidez do cenário doméstico pareceu-lhe bizarra. Sentiu uma pontada de medo quando ele destrancou a porta do escritório e entrou. Será que deixei alguma coisa fora do sítio? Será que ele percebe que eu estive lá à noite? Tinham partilhado um táxi. Durante a curta viagem até Grosvenor Square, foi invadida por outro pensamento: E se ele não quiser voltar a ver-me? Nunca lhe tinha ocorrido isso antes desse momento. Teria sido tudo em vão se ele não gostasse verdadeiramente dela. As suas preocupações revelaram-se infundadas. Quando o táxi chegou a Grosvenor Square, ele convidou-a para jantar nessa noite num restaurante italiano em Charlotte Street.
Catherine virou-se e voltou para trás, ao longo do Embankment. Neumann já lá se encontrava, caminhando na direção dela, com as mãos bem enfiadas nos bolsos do casacão,
com a gola levantada para se proteger da chuva e o chapéu mole de abas caídas enterrado até aos olhos. Tinha um aspeto apropriado para um agente de campo: pequeno,
anónimo e, no entanto, vagamente ameaçador. Se lhe vestissem um fato, podia ir a um cocktail em Belgravia. Vestido como estava naquele momento, podia andar pelas
docas mais duras de Londres e ninguém se atreveria a olhar para ele duas vezes. Catherine interrogou-se se ele teria estudado representação, como ela tinha feito.
- Estás com ar de quem precisa de beber um café - disse ele.
- Há um sítio simpático e quente não muito longe daqui.
Neumann estendeu-lhe o braço. Ela agarrou-o e caminharam sem pressas ao longo do Embankment. Estava muito frio. Ela deu-Ihe o rolo e ele deixou-o cair no bolso descontraidamente, como se fossem trocos. Vogel treinara-o bem.
Catherine perguntou:
- Presumo que saibas onde tens de entregar isto, certo?
- Cavendish Square. Um funcionário da embaixada portuguesa chamado Hernandez vai buscá-lo às três da tarde e colocá-lo na mala diplomática. Irá para Lisboa hoje à noite e estará em Berlim de manhã.
- Muito bem.
- E o que é, já agora?
- A agenda dele, umas fotografias do escritório. Não é muito, mas é um começo.
- Impressionante - atirou Neumann. - E como é que conseguiste isso?
- Deixei-o levar-me a jantar; depois, deixei-o levar-me para a cama. Levantei-me a meio da noite e entrei no escritório sem ele dar conta. A combinação funcionou, já agora. E também o que estava dentro do cofre.
Neumann abanou a cabeça.
- Isso é arriscado como um raio. Se ele aparecer lá em baixo, metes-te num bonito sarilho.
- Eu sei. E é por isso que preciso disto - respondeu ela, enfiando a mão na carteira e entregando-lhe o barro com as impressões das chaves. - Arranja-me alguém que faça cópias disto e entrega-as no meu apartamento ainda hoje. Amanhã, quando Jordan for trabalhar, volto a entrar em casa dele e tiro fotografias a tudo o que estiver no escritório.
Neumann enfiou o barro no bolso.
- Certo. Mais alguma coisa?
- Sim, daqui para a frente, não há mais conversas destas. Cruzamo-nos um com o outro, eu dou-te o rolo e tu vais-te embora e entrega-lo ao português. Se tiveres uma mensagem para mim, aponta-a e dá-ma. Entendido?
- Entendido. Pararam.
- bom, tem um dia muito ocupado à sua frente, senhor Porter. Deu-lhe um beijo na cara e sussurrou-lhe ao ouvido:
- Arrisquei a vida por essas coisas. Não lixes tudo agora.
A seguir, deu meia-volta e afastou-se ao longo do Embankment.
O primeiro problema com que Horst Neumann se confrontou nessa manhã foi descobrir alguém que lhe fizesse cópias das chaves de Peter Jordan. Nenhuma loja respeitável no West End faria cópias de chaves com base numa impressão. Na verdade, provavelmente chamariam todas a Polícia Metropolitana e fariam com que ele fosse preso. Precisava de ir a um bairro onde pudesse encontrar um lojista disposto a tratar do assunto pelo preço certo. Caminhou ao longo do Tamisa, atravessou a ponte de Battersea e dirigiu-se para o sul de Londres.
Neumann não demorou muito a encontrar aquilo que procurava. As montras da loja tinham sido arrasadas por uma bomba. Por isso, estavam entaipadas com contraplacado. Neumann entrou. Não havia clientes, apenas um homem mais velho ao balcão, com uma camisa azul grossa e um avental sujo.
Neumann perguntou:
- Faz chaves, amigo?
O homem da loja inclinou a cabeça na direção do afiador. Neumann tirou o barro do bolso.
- Sabe fazer chaves a partir de uma coisa destas?
- Sim, mas vai sair-lhe caro.
- E que tal dez xelins?
O homem sorriu; já só tinha metade dos dentes.
- Acho que é música para os meus ouvidos - respondeu ele, pegando no barro. - Estão prontas amanhã ao meio-dia.
- Preciso delas já.
O homem estava outra vez com o seu sorriso horrendo estampado na cara.
- bom, nesse caso, vai custar-lhe outros dez xelins.
Neumann colocou o dinheiro em cima do balcão.
- Fico aqui à espera enquanto as faz, se não se importar.
- Como queira.
À tarde, a chuva parou. Neumann andou bastante. Quando não estava a andar, estava a saltar de um autocarro para outro e a entrar e a sair do metro a correr. Tinha apenas recordações muito vagas de Londres de quando era criança e até gostou de passar o dia na cidade. Era um alívio em relação à modorra de Hampton Sands. Não havia lá nada para fazer, exceto correr na praia, ler e ajudar Sean com as ovelhas nos prados. Quando saiu da loja de ferragens, enfiou as cópias das chaves no bolso e atravessou de novo a ponte de Battersea. Pegou no barro de Catherine, amassou-o de forma a apagar as impressões e atirou-o para o Tamisa. Penetrou na superfície com um sonoro bloop e desapareceu no fundo das águas agitadas.
Deambulou por Chelsea e Kensington e acabou por ir dar a Earl's Court. Colocou a chaves num envelope e enfiou o envelope na caixa de correio de Catherine. A seguir, almoçou num café apinhado, numa mesa junto à janela. Sentada a duas mesas de distância dele, uma mulher fez-lhe olhinhos durante o almoço, mas Neumann trouxera o jornal para servir de proteção e só ocasionalmente desviou os olhos para lhe sorrir. Era tentador; ela até era atraente e talvez fosse uma maneira agradável de passar o resto da tarde e sair das ruas por um bocado. Mas não era seguro. Pagou a conta, piscou-lhe o olho e foi-se embora.
Quinze minutos mais tarde, parou junto a uma cabine telefónica, levantou o auscultador e marcou um número local. Quem atendeu foi um homem que falava inglês com um sotaque carregado. Delicadamente, Neumann perguntou pelo senhor Smythe; o homem que estava do outro lado da linha protestou com um pouco de veemência a mais e respondeu que naquele número não havia ninguém chamado Smythe. Depois, desligou o telefone de forma violenta. Neumann sorriu e voltou a pousar o auscultador. A troca de palavras correspondia a um código rudimentar. O homem era o correio português, Carlos
Hernandez. Quando Neumann telefonasse a perguntar por alguém cujo nome começasse por S, o correio devia dirigir-se a Cavendish Square para recolher o material.
Ainda tinha uma hora para matar. Entrou em Kensington, contornando o Hyde Park, e chegou a Marble Arch. As nuvens adensaram-se e começou a chover - de início, apenas umas gotas frias e gordas, depois uma carga de água constante. Abrigou-se dentro de uma livraria, numa pequena rua junto a Portman Square. Deu uma vista de olhos por uns instantes, declinando a ajuda da rapariga de cabelos escuros que se encontrava no cimo de uma escada a encher de livros as estantes mais altas. Escolheu um livro de T. S. Eliot e um novo romance de Graham Greene, intitulado O Ministério do Medo. Enquanto Neumann pagava, a rapariga professou o seu amor por Eliot e convidou-o para tomar café quando fizesse a sua pausa às quatro da tarde. Ele declinou a oferta, mas disse que passava frequentemente por aquela zona e que voltaria um dia destes. A rapariga sorriu, enfiou os livros num saco de papel castanho e respondeu que gostaria que ele o fizesse. Neumann saiu da livraria, acompanhado pelo tinido da campainhazinha presa ao topo da porta.
Chegou a Cavendish Square. A chuva abrandou, passando a chuviscos gelados. Estava demasiado frio para esperar num banco da praça, por isso deu várias voltas, sem tirar os olhos da porta no canto sudoeste.
Passados vinte minutos daquilo, o gordo chegou.
Usava um fato cinzento, um sobretudo cinzento, um chapéu de coco e comportava-se como se estivesse prestes a roubar um banco. Introduziu a chave na porta como se estivesse a penetrar em território inimigo e entrou. Quando a porta se fechou, Neumann atravessou a praça, tirou o rolo do bolso do jaquetão e enfiou-o pela ranhura para o correio. Do outro lado da porta, ouviu o gordo a grunhir quando se baixou para o apanhar. Neumann afastou-se e continuou o seu passeio pela praça, mais uma vez sem tirar os olhos da casa. O diplomata português saiu de lá cinco minutos depois, apanhou um táxi passado um momento e desapareceu.
Neumann olhou para o relógio. Faltava mais de uma hora para o seu comboio. Pensou em regressar à livraria por causa da rapariga.
A ideia de um café e de uma conversa inteligente seduzia-o. Mas até as conversas inocentes eram um potencial campo de minas. Falar a língua e compreender a cultura eram duas coisas diferentes. Poderia fazer um comentário estúpido e ela poderia desconfiar. Não justificava o risco.
Abandonou Cavendish Square, com os livros debaixo do braço, e apanhou o metro em direção a leste, para Liverpool Street, onde embarcou no comboio do final da tarde para Hunstanton.
TERCEIRA PARTE
TRINTA E UM BERLIM
- Chama-se Operação Mulberry - começou por dizer o almirante Canaris - e, neste momento, não fazemos a mais pequena ideia do que se trata.
Por breves instantes, um sorriso surgiu nos lábios do Brigadefuhrer Walter Schellenberg, evaporando-se depois tão depressa como uma chuvada de verão. Canaris não
contara a novidade a Schellenberg durante o passeio a cavalo que tinham dado pelo Tiergarten ao início da manhã. Vislumbrando naquele momento a reação de Schellenberg, não sentiu remorsos por não a ter revelado logo ao jovem general. Os encontros de ambos a cavalo obedeciam a uma tácita regra de base: esperava-se que cada um deles os utilizasse para seu próprio benefício. Canaris decidia se devia partilhar ou não informações baseando-se numa fórmula simples - ajudava a sua causa? Mentir abertamente era malvisto. Mentir levava a represálias e as represálias estragavam a atmosfera afável dos passeios.
- Há poucos dias, a Luftwaffe tirou estas fotografias de vigilância - explicou Canaris, pousando duas fotos ampliadas na mesa de café baixa e elegante em redor da qual se encontravam sentados. Isto é Selsey Bill, no sul de Inglaterra. Temos quase a certeza de que estes locais de construção estão relacionados com o projeto - anunciou Canaris, servindo-se de uma caneta prateada como ponteiro. Obviamente, qualquer coisa muito grande está a ser construída à pressa aqui. Há uma imensa quantidade de cimento e vigas de aço armazenados. Nesta fotografia, vê-se um andaime.
- Impressionante, almirante Canaris - disse Hitler. - E que mais é que sabem?
- Sabemos que vários dos melhores engenheiros britânicos e americanos estão a trabalhar no projeto. E também sabemos que o general Eisenhower está pessoalmente envolvido. Infelizmente, falta-nos uma peça muito importante do quebra-cabeças... o objetivo das estruturas de betão gigantes. - Canaris parou por um momento e, a seguir, rematou: - Se descobrirmos essa peça que nos falta, é bem possível que sejamos capazes de resolver o quebra-cabeças da invasão aliada.
Hitler estava visivelmente impressionado com o relatório de Canaris.
- Só tenho mais uma pergunta, Herr Admirai - disse Hitler.
- A origem das suas informações... qual é?
Canaris hesitou. O rosto de Himmler crispou-se e, a seguir, o Reichsfúhrer atirou:
- com certeza que não acha, almirante Canaris, que alguma coisa que seja aqui dita hoje de manhã vá sair desta sala, pois não?
- Claro que não, Herr Reichsfúhrer. Um dos nossos agentes em Londres está a receber as informações diretamente de um dos membros de posição mais elevada da equipa Mulberry. O homem que está na origem da fuga de informação não sabe que se encontra exposto. De acordo com as fontes do Brigadefúhrer Schellenberg, os serviços secretos britânicos têm conhecimento da nossa operação, mas ainda não a conseguiram parar.
- Isso é verdade - confirmou Schellenberg. - Uma fonte muito fidedigna informou-me que o MI5 está a funcionar em modo de crise.
- Muito bem, muito bem. Como é agradável ver o SD e a Abwehr a trabalharem em conjunto, para variar, em vez de andarem a atirar-se um ao outro. Talvez seja um sinal de coisas boas para o futuro.
Hider voltou-se para Canaris.
- Talvez o Brigadefúhrer Schellenberg o possa ajudar a desvendar o mistério dessas caixas de betão.
Schellenberg sorriu e disse:
- Precisamente aquilo em que eu estava a pensar.
TRINTA E DOIS LONDRES
Catherine Blake atirou pão seco aos pombos em Trafalgar Square. Um sítio estúpido para um encontro, pensou. Mas Vogel gostava da imagem dos seus agentes a reunirem-se tão perto do centro do poder britânico. Tinha entrado pelo sul, depois de atravessar o St. James's Park e percorrer a Pall Mall. Neumann devia vir do norte, de St. Martin's Place e do Soho. Catherine, como sempre, estava um minuto ou dois adiantada. Queria ver se era seguida antes de decidir se prosseguiria ou não com o encontro. A praça brilhava com a chuva matinal. Um vento frio tinha-se levantado do rio e uivava através de um monte de sacos de areia. Um letreiro que indicava o abrigo mais próximo oscilava com a ventania, como se estivesse confuso em relação à direção.
Catherine olhou para norte, no sentido de St. Martin's Place, no momento em que Neumann entrou na praça. Observou-o a aproximar-se. Atrás dele, uma densa multidão de peões acotovelava-se ao longo do passeio. Algumas pessoas continuavam a seguir por St. Martin's Place, outras cortavam e, tal como Neumann, atravessavam a praça. Não havia maneira de saber ao certo se ele estava ou não a ser seguido. Espalhou o resto do pão pelo chão e levantou-se. Os pássaros assustaram-se, desataram a voar e viraram-se para o rio como um esquadrão de caças Spitfire.
Catherine começou a caminhar na direção de Neumann. Estava especialmente ansiosa por entregar aquele rolo. Na noite anterior,
Jordan tinha trazido para casa uma agenda diferente - uma que ela nunca tinha visto - e guardara-a no cofre. Nessa manhã, depois de ele sair para o gabinete em Grosvenor Square, ela regressou à casa. Quando a empregada doméstica de Jordan se foi embora, Catherine entrou discretamente, servindo-se das suas chaves, e fotografou a agenda inteira.
Neumann já estava a poucos metros de distância. Catherine tinha colocado o rolo num pequeno envelope. Tirou o envelope do bolso e preparou-se para o passar para a mão de Neumann e continuar a andar. Mas Neumann parou à frente dela, pegou no envelope e entregou-lhe um papel.
- Uma mensagem do nosso amigo - disse, desaparecendo em seguida na multidão.
Leu a mensagem de Vogel enquanto bebia um café fraco num estabelecimento em Leicester Square. Leu-a novamente para ter a certeza de que a compreendia. Quando terminou, dobrou o bilhete e enfiou-o na carteira. Iria queimá-lo quando chegasse ao seu apartamento. Deixou umas moedas em cima da mesa e foi-se embora.
Vogel começava a mensagem com um elogio ao trabalho que Catherine tinha realizado até então. Mas dizia que eram necessárias informações mais específicas. E também queria um relatório escrito de todos os passos que ela tinha dado até esse ponto: como fizera a abordagem, como conseguira acesso aos documentos pessoais de Jordan, tudo o que ele lhe tinha dito. Catherine achou que sabia o que isso queria dizer. Estava a fornecer informações de qualidade superior e Vogel queria assegurar-se de que a fonte não se encontrava comprometida.
Seguiu para norte, subindo Charing Cross Road. De vez em quando, parava a fim de olhar para as montras das lojas e verificar se era seguida. Virou para Oxford Street e pôs-se na fila para apanhar um autocarro. O autocarro apareceu de imediato e ela entrou e sentou-se no andar de cima, perto da parte de trás.
Já suspeitava que o material que Jordan trazia para casa não traçasse o cenário completo do seu trabalho. Fazia sentido. com base
no relatório de vigilância que os Pope lhe tinham dado, Jordan alternava entre dois gabinetes durante o dia, um no quartel-general do SHAEF, em Grosvenor Square, e outro, mais pequeno, ali perto. Sempre que transportava material de um gabinete para o outro, levava-o algemado ao pulso.
Catherine precisava de ver esse material.
Mas como?
Pensou na hipótese de se cruzarem uma segunda vez, um encontro acidental em Grosvenor Square. Ela podia convencê-lo a irem para casa dele e passarem a tarde na cama. Mas era muito arriscado. Jordan poderia ficar desconfiado com mais um encontro fortuito. Não havia garantia de que fosse para casa com ela. E, mesmo que fosse, seria quase impossível ela escapulir-se da cama a meio da tarde e fotografar o que ele tinha dentro da pasta. Catherine recordou-se de uma coisa que Vogel lhe tinha dito durante o seu treino: Quando os
que estão sentados à secretária se tornam descuidados, os agentes de campo morrem. Decidiu que iria ser paciente e esperar. Se continuasse a gozar da confiança de
Peter Jordan, o segredo do seu trabalho apareceria na pasta dele mais cedo ou mais tarde. Daria a Vogel o relatório escrito que ele queria, mas não iria mudar de
tática por enquanto.
Catherine olhou pela janela. Deu-se conta de que não sabia onde estava - ainda em Oxford Street, mas em que parte de Oxford Street? Tinha estado tão concentrada a pensar em Vogel e em Jordan que, por momentos, perdera a noção de onde se encontrava. O autocarro atravessou Oxford Circus e ela descansou. Foi então que reparou na mulher que a observava. Estava sentada à frente de Catherine e olhava fixamente para ela. Catherine desviou a cabeça e fingiu estar a olhar pela janela, mas a mulher continuava a fitá-la. O que se passa com o raio da mulher? Porque está a olhar para mim desta maneira? Olhou de relance para a cara da mulher. Havia qualquer coisa nela que lhe era vagamente familiar.
O autocarro estava a aproximar-se da paragem seguinte. Catherine começou a pegar nas suas coisas. Não iria arriscar. Iria sair imediatamente. O autocarro abrandou e parou junto à berma. Catherine preparou-se para se levantar. Foi então que a mulher, esticando a mão, lhe tocou no braço e perguntou:
- Anna, querida. És mesmo tu?
O sonho recorrente começou depois de ela matar Beatrice Pymm. Começa sempre da mesma maneira. Ela está a brincar no chão do quarto de vestir da mãe. A. mãe, sentada
diante do seu toucador, aplica pó de arroz num rosto perfeito. O papá entra no quarto. Traz um smoking branco, com medalhas penduradas ao peito. Debruça-se, beija
a mãe no pescoço e di-lhe que precisam de se despachar se não vão chegar atrasados. Kurt Vogel é o seguinte a aparecer. Traz um fato escuro, como um cangalheiro,
e tem a cara de um lobo. Tem as coisas dela nas mãos: uma linda faca de ponta e mola prateada com diamantes e rubis em forma de suástica no cabo, uma pistola Mauser
com silenciador atarraxado ao cano, uma mala com um rádio lá dentro.
- Despacha-te - sussurra-lhe. - Não podemos chegar atrasados. O Fiihrer está extremamente ansioso por te conhecer.
Ela atravessa Berlim numa carruagem puxada por cavalos. Vogel, o lobo, segue logo atrás deles, com passos largos e rápidos. A festa é como uma nuvem
iluminada por velas. Mulheres lindas dançam com homens lindos. Hitler está a dissertar no centro da sala. Vogel encoraja-a a ir falar com o Fiihrer. Ela atravessa
a multidão resplandecente e repara que está toda a gente a olhar para ela. Acha que é por ser linda, mas, passado um momento, já toda a gente parou de falar, a banda
já parou de tocar e estão todos a fitá-la.
- Você não é uma rapariguinha! Você é uma espiã ao serviço da Abwehr!
- Não, não sou!
- É claro que é! É por isso que tem uma faca de ponta e mola e esse rádio!
- Não! Não é verdade! E é então que Hitler diz:
- Foi você que matou aquela pobre mulher em Sujfolk... Beatríce Pymm.
- Não é verdade! Não é verdade!
- Prendam-na! Enforquem-na!
Está toda a gente a rir-se dela. De repente, fica nua e eles riem-se ainda mais. Ela volta-se para Vogel afim de lhe pedir ajuda, mas ele já fugiu, abandonando-a.
E é então que ela grita e se endireita subitamente na cama, a suar em bica, e
diz a si própria que foi apenas um sonho. Apenas o raio de um sonho parvo.
Catherine Blake apanhou um táxi para Marble Arch. O episódio no autocarro deixara-a bastante abalada. Repreendeu-se a si mesma por não ter lidado melhor com aquilo. Tinha saído do autocarro a correr, sobressaltada, depois de a mulher a ter chamado pelo seu nome verdadeiro. Devia ter ficado sentada e explicado calmamente à mulher que estava enganada. Foi um erro de cálculo terrível. Várias pessoas no autocarro tinham-lhe visto a cara. Era o seu pior pesadelo.
Aproveitou a viagem de táxi para se acalmar e ponderar bem o que se tinha passado. Sabia que era sempre uma possibilidade remota - a possibilidade de se cruzar com alguém que a reconhecesse. Tinha vivido em Londres durante dois anos, após a morte da mãe, quando o pai foi destacado para a embaixada alemã. Tinha estado numa escola inglesa para raparigas, mas não tinha feito amigas chegadas. Tinha voltado ao país uma única vez depois disso - com Maria Romero, numas curtas férias em 1935. Tinham
ficado em casa de amigos de Maria e conhecido muitos outros jovens ricos em festas, restaurantes e cinemas. Tinha tido uma breve relação amorosa com um rapaz inglês de cujo nome não se conseguia lembrar. Vogel decidira que era um risco aceitável. As probabilidades de se cruzar realmente com alguém que conhecesse eram remotas. Se isso acontecesse, a sua reação deveria ser sempre a mesma: Peço desculpa, mas deve ter-me confundido com outra pessoa. Durante seis anos, não tinha acontecido. Tinha-se tornado descuidada. Quando acabou por acontecer, entrou em pânico.
Lembrou-se por fim de quem era a mulher. Chamava-se Rose Morely e tinha sido cozinheira na casa do pai em Londres. Catherine mal se recordava dela - apenas que cozinhava bastante mal e que servia a carne demasiado passada. Catherine tinha tido muito pouco contacto com a mulher. Era espantoso como ela a tinha reconhecido.
Havia duas hipóteses: ignorar aquilo e fazer de conta que nunca tinha acontecido ou investigar e tentar determinar a dimensão dos danos.
Catherine escolheu a segunda opção.
Pagou ao taxista em Marble Arch e saiu do táxi. O crepúsculo estava a dissipar-se rapidamente no blackout. Várias carreiras de autocarro convergiam em Marble Arch,
incluindo o autocarro de que ela tinha acabado de fugir. com sorte, Rose Morely sairia ali para apanhar outro autocarro. O autocarro onde iria virar para Park Lane,
em direção a Hyde Park Corner. Se Rose continuasse no autocarro, Catherine iria tentar entrar sem que ela notasse.
O autocarro aproximou-se. Rose Morely ainda estava sentada no mesmo lugar. Quando o autocarro começou a abrandar, levantou-se. Catherine tinha acertado. O autocarro parou. Rose saiu pela porta de trás.
Catherine avançou e perguntou:
- A senhora é Rose Morely, não é? A boca da mulher abriu-se de espanto.
- Sim... e tu ar a Anna. Eu sabia que eras tu. Só podia ser. Não mudaste nada desde que eras rapariguinha. Mas como é que chegaste aqui tão...
- Quando percebi que era a Rose, segui-a num táxi - disse Catherine, interrompendo-a.
O som do seu nome verdadeiro, dito no meio de uma multidão de gente, fê-la estremecer. Pegou no braço de Rose Morely e encaminhou-se para a escuridão do Hyde Park.
- Vamos dar uma volta - disse Catherine. -Já passou tanto tempo, Rose.
Nessa noite, Catherine escreveu à máquina o relatório para Vogel. Fotografou-o, queimou-o no lavatório da casa de banho e, a seguir, queimou a fita da máquina, tal como Vogel lhe ensinara. Levantou os olhos e deparou com o seu reflexo no espelho. Desviou o olhar. O lavatório estava preto devido à tinta e às cinzas. Os dedos dela também estavam pretos, tal como as mãos.
Catherine Blake - espia.
Pegou no sabão e começou a esfregá-lo nas mãos.
Não foi uma decisão difícil. Foi pior do que ela podia ter imaginado. Emigrei para Inglaterra antes da guerra, tinha explicado enquanto
caminhavam pelo trilho, na escuridão que ia aumentando. Não conseguia suportar a ideia de continuar a viver sob o domínio de Hitler. Eram verdadeiramente horrorosas as coisas que ele andava afazer, especialmente aos judeus.
Catherine Blake - mentirosa.
Devem ter-te feito passar um mau bocado.
O que quer dier com isso?
As autoridades, a polícia. Um sussurro: os serviços secretos militares.
Não, não, não foi nada difícil.
Agora, trabalho para um homem chamado comandante Higgins. Cuido dos filhos dele. A mulher foi morta durante a Blitz coitadinha. O comandante Higgins trabalha para
o Almirantado. Diz que se partiu do princípio de que todas as pessoas que entraram no país antes da guerra eram espiões alemães.
Ai sim?
Tenho a certeza de que o comandante Higgins vai ter interesse em saber que não foste incomodada.
Não há necessidade de estar a falar disto ao comandante Higgins, pois não, Rose?
Mas não havia como escapar. O povo britânico estava bem ciente da ameaça representada pelos espiões. Estava por todo o lado: nos jornais, na rádio, nos filmes. Rose não era parva. Iria falar do encontro ao comandante Higgins e o comandante Higgins iria telefonar para o MI5, e o MI5 infestaria o centro de Londres com agentes à procura dela. Toda a meticulosa preparação envolvida na criação do seu disfarce seria arruinada por um encontro acidental com uma empregada doméstica que tinha lido demasiados romances de espionagem.
O Hyde Park durante o blackout. Até poderia ser a Floresta de Sherwood, se não fosse o zumbido longínquo do trânsito em Bayswater Road. Elas tinham ligado as lanternas para o blackout, dois feixes estreitos de uma frágil luz amarela. Rose levava as compras na outra mão. Meu Deus, experimenta alimentar crianças com pouco mais de cem gramas de carne por semana. Tenho medo que elas acabem por ficar atrofiadas. Um arvoredo surgiu diante delas, uma mancha escura e disforme em contraste com a última luz no céu a ocidente. Tenho de me ir embora, Anna. Foi tão bom ver-te. Andam um bocadinho mais. Faz isso aqui, no meio das árvores. Ninguém vai ver. A polícia vai culpar um bandido ou refugiado qualquer. Toda a gente sabe que, com a guerra, a criminalidade de rua atingiu níveis alarmantes no West End. Leva-lhe
a comida e o dinheiro. Faz com que pareça que foi um assalto que correu mal. Foi átimo voltar a vê-la passados estes anos todos, Rose. Separaram-se no meio das árvores, com Rose a seguir para norte e Catherine para sul. Foi então que Catherine deu meia-volta e foi atrás dela. Enfiou a mão na carteira e tirou de lá a Mauser. Precisava que fosse uma morte muito rápida. Rose, esqueci-me de uma coisa. Rose parou e virou-se. Catherine ergueu a Mauser e, antes de Rose poder soltar qualquer som, deu-lhe um tiro no olho.
A maldita tinta não queria sair. Encheu as mãos de espuma mais uma vez e esfregou-as com uma escova até ficarem em carne viva. Perguntou-se por que razão não tinha vomitado desta vez. Vogel disse que seria mais fácil passado um tempo. A escova eliminou a tinta. Ela olhou de novo para o espelho, mas desta vez não desviou os olhos do reflexo. Catherine Blake - assassina. Catherine Blake - homicida.
TRINTA E TRÊS LONDRES
Alfred Vicary achou que uma noite passada em casa lhe poderia fazer bem. Apetecia-lhe andar e, por isso, saiu do gabinete uma hora antes do pôr do Sol, tempo suficiente para chegar a Chelsea antes de ficar retido por causa do blackout. Estava uma bela tarde, fria mas sem chuva e com muito pouco vento. Nuvens cinzentas e inchadas, com a barriga cor-de-rosa por causa do Sol que se punha, flutuavam sobre o West End. Londres estava com vida. Observou as multidões em Parliament Square, deslumbrou-se com as armas antiaéreas em Birdcage Walk, deambulou pelos silenciosos desfiladeiros das casas georgianas de Belgravia. A sensação do ar invernoso nos pulmões era maravilhosa e obrigou-se a não fumar. Contraíra uma tosse seca igual à que tinha durante os exames finais em Cambridge e jurara que iria deixar de fumar aquelas malditas coisas quando a guerra terminasse.
Atravessou Belgrave Square e caminhou em direçao a Sloane Square. O feitiço quebrou-se; estava outra vez a pensar no caso. Na verdade, nunca o abandonava. Umas vezes, conseguia afastá-lo ligeiramente mais do que outras. Janeiro tinha-se transformado em fevereiro. A primavera não tardaria a vir e depois a invasão. E o peso de ser bem-sucedida ou não poderia recair única e exclusivamente nos ombros de Vicary.
Pensou na última mensagem que os descodificadores em Bletchley Park lhe tinham enviado. A mensagem fora enviada, na noite anterior,
a um agente a atuar no interior do Reino Unido. A mensagem não incluía nome de código, mas Vicary partiu do princípio de que era um dos espiões que andava a perseguir. Dizia que as informações recebidas até então tinham sido boas, mas que eram precisas mais. E também pedia um relatório que explicasse como o agente tinha contactado a fonte. Vicary tentou ver um ponto positivo. Se em Berlim precisavam de mais informações, era porque não possuíam um quadro completo. E se não possuíam um quadro completo, ainda havia tempo para Vicary estancar a fuga de informações. O caso apresentava-se de tal modo desolador que ele precisava de ganhar alento graças a esse tipo de raciocínio.
Atravessou Sloane Square e embrenhou-se por Chelsea. Lembrou-se de fins de tarde assim, há muito tempo - antes da guerra, antes do maldito blackout -, em que ia a pé para casa desde o University College com uma pasta a rebentar de livros e documentos. As suas preocupações eram bem mais simples nessa altura. Será que pus os alunos a dormir com a palestra que dei hoje? Será que vou terminar o meu próximo livro antes do fim do prazo?
Houve outra coisa que lhe ocorreu enquanto caminhava. Era o raio de um ótimo agente dos serviços secretos, independentemente do que Boothby pudesse dizer. E também se adequava a esse cargo por natureza. Não era vaidoso. Não necessitava de elogios ou louvores públicos. Contentava-se perfeitamente em labutar em segredo e guardar as suas vitórias para si mesmo. Gostava do facto de ninguém saber o que ele fazia realmente. Era dado a segredos e reservado por natureza, e ser agente dos serviços secretos apenas reforçava isso.
Pensou em Boothby: Por que razão foi buscar o dossiê de Vogel e mentiu sobre isso? Por que razão se recusou a transmitir o aviso de Vicary a Eisenhower e a Churchill? Por que razão interrogou Karl Becker, mas não divulgou as provas da existência de uma outra rede alemã? Vicary não conseguia encontrar uma explicação lógica para as ações dele. Eram como notas que Vicary não conseguia conciliar numa melodia agradável.
Chegou a casa, em Draycott Place. Abriu a porta e avançou a custo até à sala de estar às escuras, passando pelo meio do correio
por abrir, acumulado há já vários dias. Pôs a hipótese de convidar Alice para jantar, mas resolveu que não tinha forças para conversas de cortesia. Encheu a banheira com água quente e deixou-se ficar de molho enquanto ouvia música sentimental na telefonia. Bebeu um copo de uísque e leu os jornais. Desde que ingressara no mundo dos serviços secretos, já não acreditava em nada do que eles diziam. Foi então que o telefone começou a tocar. Tinha de ser do gabinete, já mais ninguém se dava ao trabalho de lhe telefonar. Saiu da banheira com dificuldade e embrulhou-se no roupão. O telefone estava no escritório. Levantou o auscultador e disse:
- Sim, Harry?
- A sua conversa com Karl Becker deu-me uma ideia - lançou Harry sem preâmbulos.
Vicary estava a molhar com a água da banheira os papéis que se encontravam espalhados em cima da secretária. A empregada doméstica sabia que era proibido pensar sequer em entrar no escritório. Em consequência este era uma ilha de confusão erudita na sua de outro modo imaculada e estéril casa.
- Anna Steiner viveu dois anos em Londres com o pai diplomata, no início da década de vinte. Os diplomatas estrangeiros e ricos têm empregados: cozinheiros, mordomos, criadas.
- Tudo isso é verdade, Harry. Espero que leve a algum lado.
- Há três dias que ando a contactar todas as agências da cidade, para tentar descobrir os nomes das pessoas que trabalharam naquela casa.
- Boa ideia.
--Já tenho alguns. A maioria morreu; os outros estão velhos como a caruma. Mas havia um nome que prometia: Rose Morely. Quando era nova, trabalhou como cozinheira em casa dos Steiner. Hoje descobri que trabalha para o comandante Higgins, do Almirantado, na casa dele em Marylebone.
- bom trabalho, Harry. Marque uma reunião logo pela manhãzinha.
- Era o que eu queria fazer, mas alguém acabou de lhe dar um tiro no olho e deixou o corpo no meio do Hyde Park.
- Estou pronto daqui a cinco minutos.
- Tem um carro à espera à porta de casa.
Passados cinco minutos, Vicary saiu de casa e trancou a porta. Foi nesse momento que se apercebeu de que se tinha esquecido por completo do almoço que tinha marcado com Helen.
A motorista era uma jovem atraente, que fazia parte da Marinha Real Britânica e não disse uma palavra durante a curta viagem. Levou-o o mais próximo possível da cena do crime - a cerca de duzentos metros, no fundo de uma pequena elevação. Tinha recomeçado a chover e ele pediu-lhe o chapéu de chuva emprestado. Saiu do carro e fechou a porta suavemente, como se tivesse chegado a um cemitério para um enterro. Â sua frente, viu vários feixes compridos de luz branca a saltitarem para trás e para a frente, como mini-holofotes a tentarem localizar um bombardeiro Heinkel no meio do céu noturno. Um dos feixes de luz incidiu sobre si, obrigando-o a proteger os olhos do brilho intenso. A caminhada era mais longa do que calculava; a ligeira elevação mais parecia uma pequena colina. A erva era comprida e estava muito húmida. Tinha as calças encharcadas do joelho para baixo, como se tivesse acabado de atravessar a vau um riacho. Quando se aproximou, os feixes das lanternas baixaram-se como se fossem espadas. Um superintendente-chefe Qualquer Coisa agarrou-o delicadamente pelo cotovelo e acompanhou-o o resto do caminho. Teve o bom senso de não dizer o nome de Vicary.
Um oleado tinha sido estendido à pressa sobre o corpo. A chuva fizera uma poça no centro e estava a escorrer pela borda como uma catarata minúscula. Harry estava agachado junto ao crânio desfeito. Harry no seu elemento, pensou Vicary. Parecia tão descontraído e calmo a pairar sobre o cadáver que até podia estar a descansar à sombra num dia quente de verão. Vicary inspecionou a cena. O corpo tinha caído para trás e aterrado com os braços e as pernas bem abertos, como uma criança a fazer anjos na neve. A terra em redor da cabeça estava preta do sangue. Uma mão continuava agarrada a um saco de compras de pano e, dentro do saco, Vicary viu latas de legumes e um tipo qualquer de carne embrulhado em papel do talho.
O papel estava a pingar sangue. O que anteriormente se encontrava dentro de uma carteira estava espalhado junto aos pés. Vicary não viu dinheiro no meio das coisas.
Harry reparou em Vicary ali parado, em silêncio, e foi ter com ele. Ficaram lado a lado durante um longo momento, sem nenhum deles falar, como enlutados à beira de uma sepultura, com Vicary a bater com cuidado nos bolsos à procura dos óculos em meia-lua.
- Pode ser uma coincidência - afirmou Harry -, mas a verdade é que não acredito nelas. Especialmente quando está em causa uma mulher que morreu com um bala enfiada no olho.
Harry parou de falar por uns instantes e por fim revelou emoção.
- Jesus, nunca tinha visto ninguém fazer uma coisa destas. Os bandidos de rua não dão tiros na cara das pessoas. Só os profissionais é que fazem isso.
- Quem encontrou o corpo?
- Um homem que ia a passar. Já o interrogaram. A história dele parece bater certo.
- E há quanto tempo é que está morta?
- Só há umas horas. O que significa que foi morta ao final da tarde ou ao início da noite.
- E ninguém ouviu o tiro?
- Não.
- Se calhar, a arma tinha um silenciador?
- É possível.
O superintendente aproximou-se.
- Ora, ora, Harry Dalton, o homem que resolveu o caso de Spencer Thomas.
O superintendente olhou de relance para Vicary; a seguir, o seu olhar regressou a Harry.
- Ouvi dizer que agora andavas a trabalhar para as tropas não oficiais.
Harry conseguiu esboçar um pálido sorriso.
- Olá, chefe. Vicary disse:
- vou declarar este assunto uma questão de segurança nacional a partir de agora. Amanhã de manhã, vai ter a papelada necessária em
cima da sua secretária. Quero que Harry coordene a investigação. Tudo tem de passar por ele. Harry vai escrever uma declaração em seu nome. Quero que isto seja descrito como um roubo que deu para o torto. Descreva a ferida com precisão. Não se ponham a inventar em relação aos pormenores da cena do crime. Quero que a declaração diga que a polícia anda à procura de dois refugiados de origem incerta, vistos no parque por volta da hora do homicídio. E quero que os seus homens procedam com discrição. Obrigado, superintendente. Harry, encontramo-nos logo de manhãzinha.
Harry e o superintendente ficaram a ver Vicary descer a colina a coxear e a desaparecer pela escuridão pesada dentro. O superintendente virou-se para Harry e perguntou:
-Jesus Cristo, qual é o raio do problema dele?
Harry ficou no Hyde Park até o corpo ser levado. Já passava da meia-noite. Pediu boleia a um dos polícias. Podia ter pedido um carro do departamento, mas não queria que o departamento soubesse para onde ia. Saiu de carro perto do apartamento de Grace Clarendon e fez o resto do caminho a pé. Ela tinha voltado a dar-lhe a sua antiga chave e ele entrou sem bater à porta. Grace dormia sempre como se fosse uma criança - de barriga para baixo, com os braços e as pernas esticados e um pé pálido a sair debaixo dos cobertores. Harry despiu-se sem fazer barulho, na escuridão, e tentou enfiar-se na cama sem a acordar. As molas da cama rangeram sob o seu peso. Ela despertou, rebolou e beijou-o.
- Pensei que me tinhas deixado outra vez, Harry.
- Não, foi só uma noite muito longa e muito suja. Ela apoiou-se no cotovelo.
- O que aconteceu?
Harry contou-lhe. Não havia segredos entre eles.
- É possível que ela tenha sido morta pelo agente de que andamos à procura.
- Parece que viste um fantasma.
- Foi mau. Ela levou um tiro na cara. É difícil esquecer uma coisa dessas, Grace.
- Posso fazer-te esquecer?
Ele só queria dormir. Sentia-se exausto e estar perto de um cadáver fazia-o sentir-se sempre sujo. Mas ela começou a beijá-lo, primeiro lenta e suavemente. A seguir, estava a implorar-lhe que a ajudasse a tirar a camisa de noite de flanela às flores, e foi aí que a loucura começou. Fazia sempre amor com ele como se estivesse possuída, esgadanhando e arranhando-lhe o corpo, puxando-o como se tentasse arrancar veneno de uma ferida. E quando ele penetrou nela, chorou e suplicou-lhe que nunca voltasse a deixá-la. E depois, enquanto ela dormia ao seu lado, Harry foi invadido pelo pensamento mais horrível da sua vida. Deu por si a desejar que o marido dela nunca regressasse da guerra.
TRINTA E QUATRO LONDRES
Reuniram-se em volta de uma grande maquete do porto Mulberry na tarde seguinte, numa sala secreta do número 47 de Grosvenor Square: agentes americanos e britânicos
afetos ao projeto, o chefe de gabinete de Churchill, o general Sir Hastings Ismay, e dois generais do gabinete de Eisenhower, que estavam sentados tão quietos que até podiam ser estátuas.
A reunião até começou cordialmente, mas, depois de alguns minutos, os ânimos exaltaram-se. Houve acusações e contra-acusações, incriminações de lentidão e distorção e até alguns insultos pessoais rapidamente lamentados. As estimativas de construção britânicas eram demasiado otimistas! Vocês, americanos, estão a ser demasiado impacientes, demasiado... bem, demasiado americanos, raios! Era a pressão, todos concordaram, e recomeçaram do princípio.
O resultado da invasão dependia de terem os portos artificiais prontos e operacionais pouco depois da chegada das primeiras tropas. Mas quando faltavam pouco mais de três meses até ao Dia D, o projeto Mulberry encontrava-se irremediavelmente atrasado. São o raio das Phoenixes, disse arrastadamente um dos agentes ingleses, que por acaso se encontrava destacado para uma das componentes mais bem-sucedidas do Mulberry.
Mas era verdade: os gigantescos caixões de betão, a espinha dorsal de todo o projeto, estavam perigosamente atrasados. Os problemas eram tantos que até poderia ser engraçado se a parada não fosse
tão alta. Havia uma grave escassez de betão e de ferro para varas de reforço. Havia muito poucos locais de construção e não havia espaço nos portos da costa sul do Reino Unido para acostar unidades já terminadas. Havia escassez de trabalhadores qualificados e os trabalhadores que se encontravam ao serviço estavam fracos e malnutridos devido à grave escassez de comida.
Era um desastre. Sem os caixões de betão a funcionarem como paredão, todo o projeto Mulberry era impraticável. Precisavam de alguém que fosse aos locais de construção logo pela manhãzinha, para realizar uma avaliação realista das possibilidades de as Phoenixes serem finalizadas a tempo, alguém que tivesse supervisionado grandes projetos e soubesse fazer modificações no terreno, ao nível das plantas, assim que a construção se iniciasse.
Escolheram o ex-engenheiro da Northeast Bridge Company, o comandante Peter Jordan.
TRINTA E CINCO
LONDRES
A morte a tiro no Hyde Park surgiu nas primeiras edições dos jornais vespertinos londrinos. Todos eles citavam o falso comunicado da polícia. Os investigadores estavam a tratar o homicídio como um roubo que deu para o torto; a polícia andava à procura de dois homens que se julgava serem da Europa de Leste - muito provavelmente, polacos -, vistos perto do local do homicídio pouco antes de este ter ocorrido. Harry até tinha inventado duas descrições, bastante vagas, dos suspeitos. Todos os jornais se lamentaram do aumento chocante dos crimes de rua violentos no West End que tinha acompanhado a chegada da guerra. Os artigos incluíam relatos de homens e mulheres que tinham sido espancados e roubados nos meses anteriores por bandos de refugiados à deriva, soldados bêbados e desertores.
Vicary sentiu uma ponta de culpa ao folhear os jornais sentado à secretária, ao início da tarde. Acreditava no carácter sagrado da palavra escrita e sentia-se mal por estar a enganar a imprensa e as pessoas. Mas a culpa foi facilmente suavizada. Era impossível dizer a verdade - que Rose Morely podia muito bem ter sido assassinada
por uma espiã alemã.
A meio da tarde, Harry Dalton e uma equipa de agentes da Polícia Metropolitana já tinham reconstituído as últimas horas de vida de Rose Morely. Harry estava no gabinete
de Vicary, com as pernas compridas apoiadas em cima da secretária, fazendo com que Vicary ficasse a olhar para as solas gastas dos seus sapatos.
- Entrevistámos a criada que trabalha em casa do comandante Higgins - afirmou Harry. - Ela disse que a Rose tinha saído para ir fazer as compras. Saía quase todas as tardes, antes de as crianças chegarem da escola. O recibo que encontrámos no saco era de uma loja em Oxford Street, perto de Tottenham Court Road. Entrevistámos o homem da loja. Lembrava-se dela. Aliás, lembrava-se de quase tudo o que ela tinha comprado. Disse que ela tinha encontrado uma mulher que conhecia, também empregada doméstica. Tomaram as duas chá num café do outro lado da rua. Falámos com a empregada que lá trabalha. Ela confirmou isso.
Vicary estava a ouvir com atenção, olhando fixamente para as mãos.
- A empregada diz que Rose atravessou Oxford Street e se pôs na fila para apanhar um autocarro em direção a oeste. Coloquei homens no máximo de autocarros possível. Há cerca de meia hora, descobrimos o revisor que estava no autocarro de Rose. Lembrava-se muito bem dela. Disse que ela tinha falado por breves instantes com uma mulher muito alta e muito bonita, que saiu do autocarro com bastante pressa. Disse que quando o autocarro chegou a Marble Arch, essa mesma mulher muito alta e muito bonita estava lá à espera. Disse que ele próprio nos teria contactado se os jornais não tivessem dito que a polícia já tinha os seus suspeitos e que nenhum deles era uma mulher muito alta e muito bonita.
Uma datilógrafa assomou a cabeça à porta do gabinete e anunciou:
- Peço desculpa por interromper, mas estão a ligar para si, Harry. É um tal sargento Meadows. Diz que é urgente.
Harry atendeu o telefonema na sua secretária.
- Você é o mesmo Harry Dalton que resolveu o caso de Spencer Thomas?
- O próprio - respondeu Harry. - Em que é que o posso ajudar?
- Tem que ver com o assassinato no Hyde Park. Acho que tenho uma coisa para si.
- Desembuche, sargento. Estamos um bocadinho apertados de tempo por aqui.
- Ouvi dizer que o suspeito é uma mulher - disse Meadows.
- Alta, bonita, entre os trinta e os trinta e cinco anos.
- É possível. O que sabe?
- Ando a trabalhar no homicídio de Pope.
- Já li sobre isso - retorquiu Harry. - Mal posso acreditar que alguém teve tomates para cortar a garganta a Vernon Pope e à miúda dele.
- Na verdade, Pope foi esfaqueado no olho.
- Não me diga!
- Pois - exclamou Meadows. - E a namorada foi no coração. Uma só facada... quase cirúrgica.
Harry lembrou-se do que o patologista do Ministério do Interior tinha dito sobre o corpo de Beatrice Pymm. A última costela do lado esquerdo apresentava um rasgão. Uma possível facada no peito.
Harry disse:
- Mas os jornais...
- Não se pode confiar em tudo aquilo que se lê nos jornais, pois não, Harry? Nós alterámos as descrições dos ferimentos para filtrar os maluquinhos. Ficaria surpreendido
com a quantidade de gente que quer ficar com os louros por ter matado o Vernon Pope.
- Nem por isso. Ele era um perfeito sacana. Continue, sargento.
- Uma mulher que corresponde à descrição da vossa rapariga foi vista a entrar no armazém dos Pope na noite em que o Pope foi morto. Tenho duas testemunhas.
- Meu Deus!
- E a coisa ainda melhora. Logo a seguir aos assassinatos, Robert Pope e um dos capangas dele entraram por uma pensão dentro, em Islington, à procura de uma mulher. Parece que se enganaram na morada. Desapareceram dali num ápice. Mas não sem terem dado primeiro uma tareia à proprietária.
- E porque é que só agora é que me estão a contar isto? - disparou Harry. - Pope já foi morto há quase duas semanas!
- Porque o meu superintendente acha que eu ando à caça de gambozinos. Está convencido de que Pope foi morto por um rival. Não quer que percamos tempo com teorias alternativas, como ele diz.
- Quem é o seu superintendente?
- Kidlington.
- Oh, Jesus! O Saint Andrew?
- O próprio. E há mais outra coisa. Interroguei Robert Pope uma vez a semana passada. Quero interrogá-lo novamente, mas ele anda escondido. Ainda não o conseguimos localizar.
- E Kidlington está aí agora?
- Estou a vê-lo sentado no gabinete a tratar do raio da papelada.
- Continue a olhar. Acho que vai gostar disto.
Harry quase ia morrendo ao correr da sua secretária para o gabinete de Vicary. Contou-lhe tudo muito rapidamente, enumerando os pormenores tão depressa que, por duas vezes, Vicary teve de lhe pedir para parar e voltar ao início. Depois de terminar, Harry marcou o número por Vicary e passou-lhe o auscultador.
- Está, superintendente-chefe Kidlington? Daqui fala Alfred Vicary, do Ministério da Guerra. Estou bem, obrigado. Mas receio precisar da sua ajuda num assunto bastante importante. Tem que ver com o homicídio de Pope. vou declará-lo uma questão de segurança nacional a partir de agora. Um membro da minha equipa vai já seguir para o seu gabinete. Chama-se Harry Dalton. É capaz de se lembrar dele. Lembra-se? Otimo. Gostaria de uma cópia de todo o dossiê relativo ao caso. Porquê? Lamento, mas não posso revelar mais nada, superintendente. Obrigado pela sua cooperação. Boa tarde.
Vicary desligou o telefone. Bateu com a palma da mão com força na secretária e olhou para Harry, sorrindo pela primeira vez em várias semanas.
Catherine Blake preparou a carteira para aquela noite: a faca de ponta e mola, a pistola Mauser, a máquina fotográfica. Ia encontrar-se com Jordan para irem jantar. Partiu do princípio de que seguiriam depois para a casa dele para fazerem amor; era o que acontecia sempre. Fez chá e leu os jornais vespertinos. O assassinato de Rose Morely no Hyde Park era a principal notícia do dia. A polícia acreditava
que o que estava em causa era um roubo em que as coisas tinham ficado fora de controlo e acabado num assassinato. Até tinham dois suspeitos. Tal como ela pensara. Era perfeito. Despiu-se e tomou um longo banho de imersão. Estava a enxugar o cabelo molhado com uma toalha quando o telefone tocou. Só havia uma pessoa em todo o Reino Unido que sabia o número dela - Peter Jordan. Catherine fingiu-se surpreendida por ouvir a voz dele do outro lado da linha.
- Infelizmente, vou ter de cancelar o nosso jantar. Desculpa, Catherine. É só que apareceu uma coisa muito importante.
- Eu percebo.
- Ainda estou no gabinete. Preciso de ficar cá até altas horas da noite.
- Peter, não tens obrigação de me dar nenhuma explicação.
- Eu sei, mas quero. Tenho de sair de Londres amanhã de manhã, muito cedo, e tenho uma data de trabalho para fazer antes disso.
- Não vou fingir que não fico desiludida. Tinha imensa vontade de estar contigo hoje à noite. Já não te vejo há dois dias.
- Parece um mês. Eu também te queria ver.
- E achas que está completamente fora de questão?
- Não vou chegar a casa pelo menos antes das onze da noite.
- Tudo bem.
- E vem um carro buscar-me a casa às cinco da manhã.
-- Tudo bem também.
-- Mas, Catherine...
- O que eu sugiro é o seguinte. vou ter contigo à porta da tua casa, às onze. Preparo qualquer coisa para comermos. Podes descontrair e preparar-te para a tua viagem.
- Eu preciso de dormir alguma coisa.
- E eu deixo-te dormir, prometo.
- Ultimamente, não temos andado a dormir muito.
- Eu vou fazer os possíveis por me refrear.
- Vemo-nos às onze.
- Perfeito.
A luz vermelha brilhava sobre as portas duplas de Boothby há muito tempo. Vicary estendeu a mão para carregar na campainha uma segunda vez - uma violação flagrante de um dos decretos de Boothby -, mas deteve-se. Do outro lado das pesadas portas, ouviu duas vozes a discutirem acaloradamente, uma nitidamente feminina e a outra
de Boothby. Não me pode fazer isto! Era a voz da mulher, de repente ainda mais alta e ligeiramente histérica. Em resposta, a voz de Boothby ficou mais calma, como
a de um pai a dar tranquilamente um sermão ao filho que errou. Sentindo-se um idiota, Vicary encostou o ouvido a meio das duas portas. Sacana! Sacana dum raio! Era
a mulher outra vez. A seguir, o som de uma porta a bater com toda a força. Subitamente, a luz passou para verde. Vicary ignorou-a. O gabinete de Sir Basil possuía
uma entrada privada, utilizada apenas pelo próprio lorde e senhor e pelo diretor-geral. Mas não era assim tão privada; se Vicary aguardasse o tempo suficiente, a
mulher viraria a esquina e ele poderia ver quem ela era. Ouviu o barulho dos sapatos de salto alto a baterem furiosamente no chão do corredor. Ela virou a esquina.
Era Grace Clarendon. Parou e semicerrou os olhos na direção de Vicary, em sinal de indignação. Uma lágrima correu-lhe pela face. Limpou-a com o punho e depois desapareceu
pelo corredor.
O gabinete estava às escuras, à exceção do candeeiro aceso na secretária de Boothby. Tresandava ao cigarro que ardia, sem que ninguém lhe tivesse tocado, junto ao cotovelo de Boothby. Este estava a analisar uni dossiê, de suspensórios e em mangas de camisa. Sem levantar os olhos, ordenou a Vicary que se sentasse apontando com a sua caneta de ouro para uma das cadeiras à frente da secretária.
- Estou a ouvir - disse.
Vicary colocou-o a par das novidades rapidamente. Contou a Boothby os resultados do dia de investigação ao assassinato de Rose Morely. Falou-lhe da possível ligação entre a agente alemã e o assassinato de Vernon Pope. Explicou-lhe que era imperativo encontrar Robert Pope e interrogá-lo. Pediu-lhe que todos os homens
disponíveis o auxiliassem a procurar Pope. Boothby manteve um silêncio estóico durante o relatório de Vicary. Tinha suspendido o hábito de se mexer sem parar e parecia estar a ouvir com mais atenção do que o costume.
- bom - disse Boothby por fim -, isto são as primeiras boas notícias que temos no que diz respeito a este caso. Espero mesmo, para seu bem, que tenha razão em relação à ligação entre estes assassinatos.
Começou a perorar sobre a importância da paciência e do trabalho de campo. Vicary estava a pensar em Grace Clarendon. Sentiu-se tentado a perguntar a Boothby por que razão tinha ela acabado de estar ali no gabinete, mas não conseguia suportar a ideia de outro sermão sobre a necessidade de saber. Vicary sentia-se terrivelmente mal em relação a isso. Tinha cometido um erro de cálculo. Tinha posto a cabeça de Grace em jogo para poder ganhar uma vantagem inútil numa discussão que se encontrava perdida e Boothby tinha-a decepado. Perguntou-se se ela teria sido despedida ou teria escapado apenas com uma advertência severa. Era um membro valioso da equipa, inteligente e dedicada. Esperava que Boothby a tivesse poupado.
Boothby disse:
- vou telefonar ao chefe dos vigias imediatamente e mandá-lo disponibilizar o máximo de homens que ele possa dispensar.
- Obrigado, Sir Basil - respondeu Vicary, levantando-se para se ir embora.
- Sei que tivemos as nossas discordâncias acerca deste caso, Alfred, e espero mesmo que tenha razão nisto - afirmou Boothby, hesitando antes de prosseguir. - Falei com o diretor-geral há poucos minutos.
- Ai sim? - retorquiu Vicary.
- Deu-lhe as vinte e quatro horas da praxe. Se nada disto trouxer avanços significativos, receio que seja retirado do caso.
Depois de Vicary se ter ido embora, Boothby esticou-se sobre a secretária e pegou no auscultador do seu telefone seguro. Marcou o número e aguardou que atendessem.
Como de costume, o homem do outro lado da linha não se identificou, limitando-se a dizer:
- Sim?
Boothby também não se identificou.
- Parece que o nosso amigo se está a acercar da presa dele afirmou Boothby. - O segundo ato está prestes a começar.
O homem do outro lado da linha murmurou algumas palavras e, a seguir, interrompeu a ligação.
O táxi parou à porta de casa de Peter Jordan às onze horas e cinco minutos. Catherine viu-o parado no passeio, à frente da porta, com a lanterna para o blackout na mão. Saiu do táxi e pagou ao taxista. Ouviu-se um motor a ligar algures mais à frente na rua. O táxi arrancou. Ela avançou na direção de Jordan e ouviu o rugido de um motor, o som de pneus a derraparem na rua molhada. Virou a cabeça na direção do som e viu a carrinha avançar para ela. Estava apenas a um ou dois metros de distância, demasiado perto para Catherine se poder desviar. Fechou os olhos e ficou à espera de morrer.
Na realidade, Dicky Dobbs nunca tinha matado ninguém. Claro, tinha partido a sua conta de ossos, dado cabo da sua quota-parte de caras. Até tinha estropiado um tipo que se recusara a pagar para proteção. Mas de facto nunca tinha tirado a vida a uma pessoa. Eu até devo gostar de matar a cabra. Ela tinha assassinado Vernon e. Vivie. Tinha-se escapado dele tantas vezes que já perdera a conta. E só Deus sabia o que andava a fazer com o oficial americano. O táxi virou para a rua às escuras. Dicky rodou a chave suavemente, ligando o motor da carrinha. Carregou no acelerador ligeiramente, abastecendo o motor de combustível. A seguir, pousou a mão em cima do manipulo das mudanças e esperou. O táxi arrancou. A mulher começou a atravessar a rua. Dicky engatou a primeira e carregou a fundo no acelerador.
Uma escuridão suave e quente envolveu-a. Não tinha noção de nada, apenas de um zumbido distante nos ouvidos. Tentou abrir os olhos, mas não foi capaz. Tentou respirar, mas não foi capaz. Pensou no pai e na mãe. Pensou em Maria e sonhou que estava outra vez em Espanha, deitada em cima de uma rocha quente, junto ao riacho. Nunca tinha havido uma guerra; Kurt Vogel nunca tinha entrado na vida dela. Foi então que, lentamente, foi tomando consciência de uma dor aguda na nuca e de um enorme peso a fazer-lhe pressão no corpo. Os pulmões imploraram por oxigénio. O corpo começou a sofrer espasmos, como se quisesse vomitar, mas mesmo assim ela não conseguiu vomitar. Viu luzes brilhantes, como cometas, a deslocarem-se a toda a velocidade por um vazio negro e vasto. Estava qualquer coisa a abaná-la. Estava alguém a chamá-la. E, bastante repentinamente, percebeu que afinal não estava morta. As convulsões terminaram e conseguiu por fim respirar. A seguir, abriu os olhos e viu a cara de Peter Jordan. Catherim, consegues ouvir-me, querida? Estás bem? Meu Deus, acho que ele te tentou matar! Catherine, consegues ouvir-me?
Nem um nem outro tinham grande vontade de comer. Mas ambos queriam beber qualquer coisa. Jordan tinha uma pasta algemada ao pulso - era a primeira vez que trazia uma assim para casa. Dirigiu-se ao escritório e destrancou-o. Catherine ouviu-o ao girar a fechadura do cofre, abrir a porta pesada e depois fechá-la de novo. Saiu do escritório e foi para a sala de estar. Serviu dois copos muito grandes de brandy e levou-os para o quarto, no andar de cima.
Despiram-se devagar enquanto bebiam o brandy. Catherine estava com dificuldades em segurar o copo. As mãos tremiam-lhe, o coração ribombava-lhe no peito, sentia-se como se estivesse prestes a vomitar. Forçou-se a beber um pouco do brandy. O calor da bebida tomou conta dela e sentiu que estava a começar a descontrair.
Tinha cometido um erro de cálculo terrível. Nunca devia ter ido ter com os Pope. Devia ter pensado noutra maneira qualquer. Mas também tinha cometido um outro erro. Também devia ter matado Robert Pope e Dicky Dobbs quando teve essa oportunidade.
Jordan sentou-se na cama, ao lado dela.
- Não sei como és capaz de estar tão calma em relação a isto disse ele. - Afinal de contas, ias sendo morta ainda há pouco. Tens direito a mostrar-te um pouco abalada.
Outro erro. Devia fingir-se mais assustada. Devia pedir-lhe para a abraçar e lhe dizer que estava tudo bem. Devia agradecer-lhe por lhe ter salvado a vida. Já não estava a pensar com clareza. Estava tudo a fugir-lhe do controlo, conseguia senti-lo. Rose Morely... os Pope... Pensou na pasta que Jordan tinha acabado de guardar no cofre. Pensou no que se encontrava lá dentro. Pensou no facto de ele a ter trazido para casa algemada ao pulso. O segredo mais importante da guerra - o segredo da invasão - podia muito bem estar ao seu alcance. E se estivesse mesmo ali? E se ela pudesse realmente roubá-lo? Queria terminar aquela missão. Já não se sentia segura. Já não se sentia capaz de viver a vida dupla que tinha vivido durante seis anos. Já não se sentia capaz de continuar com aquela relação com Peter Jordan. Já não se sentia capaz de lhe dar o seu corpo todas as noites e, a seguir, entrar sorrateiramente no escritório dele. Uma missão e depois sais. Vogel tinha-lhe prometido
isso. Ia obrigá-lo a cumprir a palavra.
Catherine acabou de se despir e deitou-se na cama. Jordan continuava sentado na borda, a beber o brandy e a olhar fixamente para a escuridão.
- Chama-se a isso reserva inglesa - lançou ela. - Não nos é permitido mostrar as nossas emoções, mesmo quando somos quase atropelados durante o blackout.
- Então e quando é que vos é permitido mostrar as vossas emoções? - respondeu ele, ainda a olhar para o nada.
- Também podias ter sido morto esta noite, Peter - retorquiu ela. - Porque fizeste aquilo?
- Porque me apercebi de uma coisa quando vi aquele maldito idiota a avançar para cima de ti. Apercebi-me de que estou desesperada, louca e completamente apaixonado por ti. Estou-o desde o momento em que entraste na minha vida. Nunca pensei que alguém me fosse fazer feliz outra vez. Mas tu fizeste, Catherine. E aterroriza-me que tudo vá desaparecer novamente.
- Peter - disse ela baixinho.
Ele tinha as costas voltadas para ela. Ela levantou a mão e agarrou-Ihe o ombro para o puxar para baixo, mas o corpo dele estava rígido.
- Sempre me perguntei onde é que eu estava no momento exato em que ela morreu, o que é que eu estava a fazer. Sei que parece mórbido, mas andei obcecado com isso durante imenso tempo. Foi por não ter estado lá para a ajudar. Foi por a minha mulher ter morrido sozinha, numa tempestade numa autoestrada em Long Island. Sempre me perguntei se não havia alguma coisa que eu pudesse ter feito. E quando estava ali parado hoje à noite, vi tudo aquilo a acontecer mais uma vez. Mas, desta vez, eu podia fazer alguma coisa... alguma coisa para impedir isso. E, por isso, fiz.
- Muito obrigado por me teres salvado a vida, Peter Jordan.
- Acredita, os motivos foram puramente egoístas. Esperei muito tempo para te encontrar, Catherine Blake, e nunca mais quero voltar a estar sem ti.
- Estás a falar a sério?
- Estou a falar do fundo do coração.
Ela voltou a esticar-se para o puxar e desta vez ele não ofereceu resistência. Beijou-o várias vezes e disse:
- Meu Deus, Peter, amo-te tanto.
Ficou surpreendida pela facilidade com que a mentira lhe saiu dos lábios. De repente, ele queria imenso tê-la. Catherine deitou-se de costas e abriu as pernas para ele, e quando ele a penetrou, ela sentiu o corpo subir de encontro ao dele. Arqueou as costas na direção dele e sentiu-o bem dentro de si. Aconteceu tão subitamente que a fez arquejar. Depois de tudo terminar, deu por si a rir sem conseguir parar.
Ele encostou a cabeça ao peito dela.
- Raios, o que é assim tão engraçado?
- É só que tu me fazes muito feliz, Peter... muito feliz mesmo.
Alfred Vicary fez uma vigília agitada em St. James's Street. Às nove horas, subiu as escadas até à cantina para comer qualquer coisa. Como habitualmente, a ementa
era atroz, sopa de batata e um peixe branco qualquer cozido a vapor, que pelo sabor parecia ter vindo do
rio. Mas descobriu que estava morto de fome e chegou mesmo a repetir. Outro agente, um antigo advogado que parecia cronicamente de ressaca, perguntou a Vicary se queria jogar uma partida de xadrez. Vicary jogou mal e sem entusiasmo, mas ainda conseguiu ganhar a partida com uma série de jogadas bastante brilhantes no final. Tinha esperanças de que fosse uma alegoria do desfecho do caso.
Grace Clarendon passou por ele na escadaria. Agarrava com força uma pilha de ficheiros nos braços, como uma rapariguinha da escola a levar os livros. Lançou um olhar malévolo a Vicary e desceu ruidosamente para a masmorra da divisão dos Registos.
De regresso ao gabinete, tentou trabalhar - a rede Becker exigia grande atenção -, mas era escusado.
Porque não nos contou isso antes?
Contei a Boothby.
Harry telefonou a dar notícias pela primeira vez - nada.
Precisava de dormir uma hora. O barulho dos teleimpressores, outrora tão apaziguantes, mais parecia martelos pneumáticos. A cama de campanha, outrora aquilo que o livrava das insónias, transformou-se num símbolo de tudo o que havia de mal na vida dele. Durante trinta minutos, deslocou-a de um lado para o outro do gabinete, primeiro encostando-a a uma parede, depois a outra e, por fim, no centro. A senhora Blanchard, a supervisora das datilógrafas do turno da noite, assomou a cabeça dentro do gabinete de Vicary, sobressaltada com a algazarra. Serviu um copo de uísque enorme a Vicary, mandou-o bebê-lo e voltou a colocar a cama no sítio habitual.
Harry ligou novamente - nada.
Ele pegou no telefone e marcou o número de Helen. Um homem irritado atendeu. Está? Está? Porra, quem fala? Vicary pousou o auscultador silenciosamente.
Harry deu notícias pela terceira vez - ainda nada.
Abatido, Vicary escreveu uma carta de demissão. Já leu o dossiê de Vogel?
Não.
Rasgou a carta em pedacinhos e enfiou-os no saco que usava para destruir documentos confidenciais. Deitou-se na cama, com a luz do candeeiro da secretária a incidir-lhe no rosto, e pôs-se a olhar fixamente para o teto.
Interrogou-se sobre a razão que a teria levado a envolver-se com os Pope. Seriam cúmplices dela, também envolvidos em espionagem além dos negócios do mercado negro e da proteção? Improvável, pensou. Talvez ela os tivesse contactado por causa de serviços que lhe poderiam prestar: gasolina obtida no mercado negro, armas, homens para organizar uma operação de vigilância. Vicary só poderia ter a certeza quando prendesse e interrogasse Robert Pope. Mesmo assim, planeava analisar as operações dos Pope ao microscópio. Se visse alguma coisa de que não gostasse, acusá-los-ia a todos de espionagem ao serviço da Alemanha e prendê-los-ia durante muito tempo. Mas e em relação a Rose Morely? Seria possível que tudo não passasse de uma coincidência horrível? Que Rose tivesse reconhecido Anna Steiner e pago por isso com a vida? Muito possível, pensou Vicary. Mas iria pressupor o pior dos cenários - que, na verdade, Rose Morely também era uma agente. Iria efetuar uma investigação minuciosa ao passado dela antes de dar o seu assassinato por encerrado.
Olhou para o relógio: uma da manhã. Pegou no telefone e voltou a marcar o número. Desta vez, era a voz de Helen que estava do outro lado da linha. Era a primeira vez que a ouvia em vinte e cinco anos.
Está? Está? Quem fala, por favor? Vicary queria falar, mas não era capaz. Oh, raios partam! E a ligação foi interrompida.
Catherine destrancou a porta do escritório e fechou-a sem fazer barulho depois de entrar. Acendeu o candeeiro da secretária. Tirou a máquina fotográfica e a pistola Mauser da carteira. Pousou a pistola com cuidado em cima da secretária, com a coronha virada para si, de forma que a pudesse levantar rapidamente, pronta a disparar, caso fosse necessário. Ajoelhou-se defronte do cofre e girou a fechadura de um lado para o outro. Fez rodar o trinco e a porta abriu-se. Lá dentro, estava a pasta - fechada. Usando a sua chave, abriu-a e espreitou para o interior.
Um livro preto encadernado, com as palavras ULTRASSECRETO só PARA BIGOT na capa.
Ela sentiu o coração começar a bater mais depressa.
Catherine levou o livro para a secretária, pousou-o e tirou uma fotografia à capa.
Abriu-o e leu a primeira página:
PROJETO PHOENIX
1) ESPECIFICAÇÕES DAS PLANTAS
2) PLANO DE CONSTRUÇÃO
3) EXECUÇÃO
Catherine pensou: Meu Deus, consegui realmente!
Fotografou essa página e virou para a seguinte.
Páginas atrás de páginas com plantas - fotografou-as a todas.
Outra página, intitulada requisitos de reboque - fotografou-a.
Ficou sem rolo. Tirou o que já tinha gasto e colocou um novo na máquina. Fotografou mais duas páginas.
Foi então que ouviu o barulho no andar de cima. Jordan a sair da cama.
Virou para a página seguinte e fotografou-a.
Catherine ouviu-o a andar pelo quarto.
Virou para a página seguinte e fotografou-a.
Ouviu a água a correr na casa de banho.
Fotografou mais duas páginas. Nunca mais voltaria a ter acesso àquele documento, sabia-o. Se lá estivesse realmente o segredo da invasão, ela tinha de continuar a trabalhar. Enquanto ia tirando fotografias, pensou no que faria se ele a apanhasse ali. Matá-lo com a Mauser. Ninguém ouviria nada graças ao silenciador. Poderia acabar de fotografar os documentos, ir-se embora, seguir para Hampton Sands, encontrar Neumann, avisar o submarino. Continua a trabalhar... E o que aconteceria quando as forças de contraespionagem do SHAEF encontrassem o corpo de um oficial que sabia o segredo da invasão? Lançariam de imediato uma investigação. Descobririam que ele tinha sido visto com uma mulher. Iriam procurar a mulher e, ao não conseguirem localizá-la, iriam concluir que ela era uma agente. Iriam concluir também que os documentos dentro do cofre dele tinham sido fotografados; que o segredo da invasão se encontrava comprometido. Ela pensou: Não entres aqui, Peter Jordan. Para teu bem e para o meu.
Ouviu o barulho do autoclismo a funcionar.
Só mais umas páginas. Fotografou-as depressa. Feito! Fechou o dossiê, guardou-o novamente na pasta e voltou a colocá-la no cofre. Fechou a porta sem fazer barulho e rodou a chave. Pegou na Mauser, engatilhou-a e apagou a luz. Abriu a porta e escapuliu-se para o corredor. Jordan ainda estava lá em cima.
Pensa depressa, Catherine!
Atravessou o corredor e abriu a porta da sala de estar. Guardou a Mauser na carteira e pousou-a no chão. Acendeu a luz e dirigiu-se para o carrinho das bebidas. Acalma-te. Respira fundo. Pegou num copo e estava a enchê-lo de brandy quando Peter Jordan entrou na sala.
Harry Dalton estava à espera à porta do armazém dos Pope numa carrinha de vigilância do departamento. Tinha dois homens consigo. O sargento Meadows, da Polícia Metropolitana, e um vigia chamado Clive Roach. Harry estava sentado à frente, no banco do passageiro, com Roach ao volante. Meadows estava a aproveitar para dormir uns minutos no banco de trás.
Amanhecia. Tinha sido uma noite longa e horrivelmente aborrecida. Harry sentia-se exausto, mas sempre que tentava dormir via uma de duas visões distintas: Rose Morely caída no Hyde Park, morta, e a cara de Grace Clarendon enquanto faziam amor. Queria enfiar-se na cama dela e dormir sem parar. Queria abraçá-la e nunca mais a largar. Estava outra vez enfeitiçado por ela.
As visões de Grace foram interrompidas pelo ruído de uma carrinha a encostar em frente do armazém. Um homem alto e forte saiu da carrinha, do lado do condutor. Mesmo à fraca luz matinal, Harry conseguiu perceber quem era.
- Conhece-o? - perguntou Clive Roach. Harry respondeu:
- Sim. Chama-se Dicky Dobbs.
- Tem ar de ser lixado.
- É o capanga principal do Pope, o tipo que lhe faz os trabalhinhos.
- Se eu andasse fugido, acho que o ia querer por perto para me proteger.
- Tem razão - concordou Harry. - Acorde a Bela Adormecida aí .atrás.
Dobbs destrancou a porta mais pequena do portão e entrou no armazém. Passado um momento, a porta principal começou a subir. Dobbs voltou a sair e a entrar na carrinha.
Roach ligou o motor no momento em que Meadows se sentava.
Dobbs enfiou a carrinha no armazém.
Roach carregou no acelerador a fundo e a carrinha avançou em grande velocidade, entrando no armazém antes de Dobbs poder fechar a porta outra vez.
Harry saltou da carrinha.
Dobbs gritou:
- Mas o que pensam que estão a fazer, foda-se? Meadows ripostou:
- Vira-te de costas, põe as mãos no ar e cala-te, caralho! Harry deu um passo em frente e abriu a porta de trás da carrinha
com força. Robert Pope estava sentado no chão. Olhou para cima, sorriu e disse:
- Ora, ora, o meu velho amigo Harry Dalton.
Catherine Blake apanhou um táxi para o seu apartamento. Era cedo, pouco depois do amanhecer, e o céu apresentava um monótono tom cinzento-madrepérola. Ela tinha seis horas antes de se encontrar com Horst Neumann em Hampstead Heath. Lavou a cara e o pescoço e mudou de roupa, vestindo uma camisa de dormir e um roupão. Precisava desesperadamente de dormir umas horas, mas tinha de fazer uma coisa primeiro.
Naquela noite, tinha sido por um triz. Se Jordan tivesse descido as escadas uns segundos antes, teria sido obrigada a matá-lo. Disse-Ihe que não tinha conseguido dormir - que estava perturbada por quase ter sido morta e que achou que um copo de brandy a ajudaria a acalmar os nervos. Ele pareceu aceitar a desculpa dela para ter saído da cama a meio da noite, mas ela duvidava que a fosse engolir duas vezes.
Foi para a sala de estar e sentou-se à mesa de escrever. Abriu a gaveta e tirou uma única folha de papel e uma caneta. Escreveu três palavras na folha: Tira-me já daqui! Pousou a folha em cima da secretária e ajustou o candeeiro para que a luz ficasse num ângulo mais adequado. Tirou a máquina da carteira e encostou-a ao olho. Pôs a mão esquerda ao lado da folha. Vogel iria reconhecê-la; tinha uma cicatriz no polegar, no sítio onde se tinha cortado durante uma das malditas aulas em que ele lhe ensinava a matar em silêncio. Fotografou a mão e o bilhete duas vezes e, a seguir, queimou o bilhete no lavatório da casa de banho.