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O ESPIÃO IMPROVAVEL
O ESPIÃO IMPROVAVEL

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

 

ONZE
SELSEY, INGLATERRA
- Foi a coisa mais estranha que alguma vez vi, Mabel - disse Arthur Barnes à mulher ao pequeno-almoço naquela manhã.
Barnes tinha andado a passear, como fazia todas as manhãs, com a sua querida corgi Fionna pela zona do porto. Parte dele ainda estava aberta aos civis; grande parte tinha sido selada e designada como uma zona militar restrita. Toda a gente se interrogava sobre o que estavam os militares a fazer ali. Ninguém falava sobre isso. O alvorecer foi tardio nessa manhã - céu cinzento-escuro, chuva de vez em quando. Fionna estava sem trela, correndo de um lado para o outro das docas.
Fionna avistou a coisa primeiro, depois Barnes.
- O raio de um gigantesco monstro de betão, Mabel. Como um bloco de apartamentos deitado de lado.
Dois rebocadores estavam a empurrá-lo para o mar. Barnes trazia uns binóculos no casaco - uma vez, um amigo tinha visto a torre cónica de um submarino alemão e Barnes morria de vontade de ter também o vislumbre de um. Tirou os binóculos do casaco e levou-os aos olhos.
O monstro de betão trazia atracado a ele um barco com uma proa larga e achatada que cortava o mar agitado. Barnes analisou ao pormenor o lado de bombordo - Repara, Mabel, que é difícil destinguir o bombordo do estibordo - e descortinou um navio costeiro ligeiro, com um punhado de tipos militares no convés.
- Não queria acreditar, Mabel - contou ele enquanto acabava a última torrada. - Eles batiam palmas e aplaudiam dando abraços
uns aos outros e palmadinhas nas costas - revelou, abanando a cabeça. - Imagina só. Hitler tem o mundo debaixo das patas e os nossos rapazes ficam excitados porque conseguem pôr a flutuar um grande pedaço de cimento.
A gigantesca estrutura flutuante de betão, avistada por Arthur Barnes nessa sombria manhã de janeiro, tinha o nome de código de Phoenix. Tinha 60,96 metros de comprimento, 15,24 metros de largura e deslocava mais de 6000 toneladas de água. Estava planeado construírem-se mais de duzentas. Os seus interiores - invisíveis do ponto de observação privilegiado de Barnes em frente do porto eram um labirinto de câmaras vazias e válvulas para controlar a entrada da água, já que a Phoenix não tinha sido projetada para ficar à superfície por muito tempo. Fora projetada para ser rebocada através do canal da Mancha e afundada na costa da Normandia. As Phoenixes eram apenas uma componente de um enorme projeto dos Aliados para construírem um porto artificial em Inglaterra e rebocá-lo para a França no Dia D. O nome de código global para o projeto era Operação Mulberry.
Foi Dieppe que lhes ensinou a lição, Dieppe e os desembarques anfíbios no Mediterrâneo. Em Dieppe, local do raide desastroso dos Aliados à França, em agosto de 1942, os alemães negaram aos Aliados o uso do porto pelo maior tempo possível. No Mediterrâneo, destruíram os portos antes de os abandonarem, tornando-os impraticáveis durante longos períodos. Os planeadores da invasão concluíram que tentar capturar um porto intacto era impossível. Decidiram que os homens e o material deviam chegar a terra firme da mesma maneira - nas praias da Normandia.
O problema era o tempo. Estudos dos padrões meteorológicos ao longo da costa francesa mostravam que não se podia esperar que períodos de boas condições durassem mais do que quatro dias consecutivos. Assim, os planeadores da invasão tiveram de assumir que o material teria de chegar a terra firme durante uma tempestade.
Em julho de 1943, o primeiro-ministro Winston Churchill e uma delegação de trezentos oficiais partiram para o Canadá a bordo do
Queen Mary. Churchill e Roosevelt iam encontrar-se no Quebeque, em agosto, para aprovar os planos da invasão da Normandia. Durante a viagem, o professor J. D. Bernal, um distinto físico, fez uma demonstração espetacular numa das luxuosas casas de banho do navio. Deitou na banheira alguns centímetros de água, com o lado raso a representar as praias da Normandia e o lado mais fundo a baía do Sena. Bernal colocou vinte barcos de papel na banheira e utilizou uma escova para as costas a fim de simular condições tempestuosas. Os barcos afundaram-se imediatamente. Bernal encheu depois um colete salva-vidas, a que a RAF chamava Mae West, e atravessou-o na banheira de lado a lado como um quebra-mar. A escova para as costas foi outra vez usada para criar uma tempestade, mas desta vez os barcos sobreviveram. Bernal explicou que a mesma coisa iria acontecer na Normandia. Uma tempestade resultaria numa devastação: era necessário um porto artificial.
No Quebeque, os britânicos e os americanos concordaram em construir dois portos artificiais para a invasão da Normandia, cada um com a capacidade do grande porto de Dover. Dover demorou sete anos a construir; os britânicos e os americanos tinham cerca de oito meses. Era uma tarefa de dimensões inimagináveis. Cada Mulberry custou 20 milhões de libras. A economia britânica, paralisada por quatro anos de guerra, tinha que fornecer quatro milhões de toneladas de betão e aço. Seria necessário centenas de engenheiros de topo, bem como dezenas de milhares de trabalhadores especializados. Levar os Mulberries de Inglaterra para a França no Dia D iria requerer todos os rebocadores disponíveis no Reino Unido e na Costa Leste dos Estados Unidos.
A única tarefa igual à de construir os Mulberries seria a de os manter secretos - provado pelo facto de Arthur Barnes e a sua corgi Fionna ainda estarem à beira-mar quando o navio de cabotagem transportando a equipa de engenheiros britânicos e americanos acostou na doca. A equipa desembarcou e encaminhou-se para um autocarro que os esperava. Um dos homens separou-se do grupo e dirigiu-se para um carro oficial à espera para o levar outra vez para Londres. O condutor saiu do carro, abriu rapidamente a porta de trás e o comandante Peter Jordan entrou.
NOVA IORQUE: OUTUBRO DE 1943
Abordaram-no numa sexta-feira. Havia de se lembrar sempre deles como Laurel e Hardy; o gordo e atarracado americano, que cheirava a aftershave barato e à cerveja
e salsicha do seu almoço; o magro e delicado inglês, que apertou a mão a Jordan como se estivesse à procura do pulso. Na realidade, os nomes deles eram Leamann e
Broome - ou pelo menos era o que diriam os cartões de identificação que acenaram ao passarem por ele. Leamann disse que estava no Ministério da Guerra americano;
Broome, o inglês magro, murmurou qualquer coisa sobre estar ligado ao Ministério da Guerra britânico. Nenhum dos homens estava de farda - Leamann usava um fato castanho e coçado que estava muito esticado no estômago corpulento e apertado nas virilhas; Broome, um fato de corte elegante de um cinento-carvão, demasiado quente para o outono americano.
Jordan recebeu-os no seu magnífico escritório na Baixa de Manhattan. Leamann susteve pequenos arrotos enquanto admirava a espetacular vista de Jordan sobre as pontes do rio East; aponte de Brooklyn, aponte de Manhattan, o bairro de Williamsburg. Broome, que mostrava pouco interesse pelas coisas feitas pelo ser humano, comentava o tempo - um perfeito dia de outono, um céu aul cristalino, um brilhante pôr do Sol cor de laranja. Uma tarde para faer crer que Manhattan é o sítio mais espetacular
da Terra. Dirigiram-se para a janela a sul e conversaram enquanto observavam os cargueiros a entrarem e a saírem do porto de Nova Iorque.
- Fale-nos do trabalho que fa agora, senhor Jordan - disse Leamann com um ligeiro sotaque do sul de Boston.
Era um assunto sensível. Ainda era o engenheiro-chefe da Northeast Bridge Company, que ainda era a maior empresa de construção de pontes da Costa Leste. Mas o sonho de começar a sua própria empresa de engenharia tinha morrido com a guerra, tal como temera.
Parecia que Leamann tinha memorizado o seu curriculum e, nesse momento, recitava-o como se jordan tivesse sido nomeado para um prémio.
- Primeiro do seu ano no Rensse/aer Polytechnic Institute. Engenheiro do Ano em 1938. A Scientífic American diz que o senhor é o maior desde o fulano que inventou
a roda. O senhor é um caso muito sério, senhor Jordan.
Uma versão amplificada do artigo da Scientific American estava pendurada numa parede, numa elegante moldura preta. A fotografia que lhe tiraram naquela altura parecia
a de outro homem. Era mais magro agora - havia quem
dissesse que estava mais atraente - e, apesar de ainda não estar nos quarenta, salpicos grisalhos tinham aparecido nas fontes.
Broome, o inglês magro, estava a passear pelo escritório, escrutinando as fotografias e os modelos das pontes que a empresa tinha desenhado e construído.
- Tem muitos alemães a trabalhar aqui - disse Broome, como se fosse uma novidade paraJordan.
Uma verdade - alemães nos quadros de engenharia e alemães no pessoal administrativo. A própria secretária de
Jordan era uma mulher chamada Miss Hofer, cuja família
viera de Estugarda para a América quando ela era pequena. Ainda falava inglês com sotaque alemão. Foi então que, como que para provar a exatidão do comentário de
Broome, dois rapaces estafetas passaram pela porta de jordan a tagarelarem em alemão com sotaque de Berlim.
-Que tipo de inspeçoes de segurança lhes fizeram?
Era Eemann a falar outra vez. Jordan conseguia perceber que ele era um tipo qualquer de polícia, ou pelo menos tinha sido polícia noutra vida. Estava escrito no
corte modesto do fato puído e na expressão de determinação canina no seu rosto. Para Eeamann, o mundo estava cheio de pessoas más e ele era a única coisa que existia
entre a ordem e a anarquia.
- Não lhes fademos inspeçoes de segurança. Aqui construímos pontes, não bombas.
- E como sabem se eles não são simpatizantes do outro lado?
- Eeamann. Isso não é um nome alemão?
O rosto gordo de Eeamann fechou-se numa carranca.
- Irlandês, por acaso.
Broome parou a inspeção aos modelos de pontes rindo-se com a troca de palavras.
- Conhece um homem chamado Walker Hardegen? -perguntou ele a seguir. Jordan teve a impressão desconfortável de que tinha sido investigado.
- Penso que já conhece a resposta dessa pergunta. E sim, a família dele é alemã. Ele fala a língua e conhece o país. Tem sido de um valor incalculável para o meu
sogro.
-Quer dizer, o seu ex-sogro? -perguntou Broome.
- Mantivemo-nos muito chegados mesmo depois da morte da Margaret. Broome estava debruçado sobre outro modelo.
- Isto é uma ponte suspensa?
- Não, é um desenho de um arco de ponte. Não é engenheiro, pois não?
Broome levantou os olhos e sorriu como se achasse a pergunta de certo modo ofensiva.
- Não, claro que não. Jordan sentou-se à secretária.
- Muito bem, meus senhores, chegou a altura de me dizerem ao que vêm.
- Tem que ver com a invasão da Europa - disse Broome. - Podemos precisar da sua ajuda.
-Querem que eu construa uma ponte entre a Inglaterra e a França? bereuntou Jordan com um sorriso.
-Qualquer coisa parecida com isso - respondeu leamann. Broome estava a acender um cigarro. Soprou uma elegante nuvem defumo na direção do rio.
- De facto, senhor Jordan, não é nada parecido com isso.
DOZE LONDRES
Os céus desabaram num violento aguaceiro enquanto Alfred Vicary se apressava por Parliament Square em direção às Salas de Guerra Subterrâneas, o quartel-general de Winston Churchill debaixo dos passeios de Westminster. O primeiro-ministro tinha telefonado pessoalmente a Vicary, pedindo-lhe para o ver imediatamente. Vicary vestira rapidamente o uniforme e, com a pressa, abandonou o quartel-general do MI5 sem chapéu de chuva. Assim, a sua única defesa contra a investida da chuva gelada era acelerar o passo, com uma mão a apertar a gola do impermeável e a outra a segurar uma quantidade de dossiês sobre a cabeça, como um escudo. Passou apressadamente pelas estátuas contemplativas de Lincoln e Beaconsfield e, a seguir, completamente encharcado, apresentou-se à sentinela da Marinha Real, na porta reforçada com sacos de areia do número 2 de Great George Street.
O MI5 estava em pânico. Na noite anterior, duas mensagens descodificadas da Abwehr tinham chegado de Bletchley Park por correio motorizado. Confirmavam as piores suspeitas de Vicary - pelo menos dois agentes estavam em atividade no Reino Unido sem o conhecimento do MI5 e parecia que os alemães planeavam enviar mais um. Era um desastre. Vicary, depois de ler as mensagens com o coração apertado, telefonou para casa de Sir Basil e deu as notícias. Sir Basil contactou o diretor-geral e outros oficiais superiores envolvidos na
Operação Double Cross. À meia-noite, as luzes fervilhavam no quinto andar. Vicary estava agora à frente de um dos mais importantes casos da guerra. Tinha dormido menos de uma hora. A cabeça doía-lhe, tinha os olhos a arderem, os seus pensamentos iam e vinham cmflashes turbulentos e caóticos.
A sentinela deu uma vista de olhos à identificação de Vicary e fez-lhe sinal para entrar. Vicary desceu as escadas e atravessou o pequeno átrio. Ironicamente, Neville
Chamberlain mandara começar as obras nas Salas de Guerra Subterrâneas no dia em que regressou de Munique a declarar a paz no nosso tempo. Vicary pensava sempre naquele
lugar como um monumento subterrâneo ao fracasso da conciliação. Escudado por 1,22 metros de qmento reforçado com os velhos carris do elétrico de Londres, o labirinto
subterrâneo era considerado absolutamente à prova de bomba. As armas secretas mais vitais do governo britânico estavam albergadas ali, juntamente com o posto de
comando pessoal de Churchill.
Vicary percorreu o corredor, com os ouvidos cheios do matraquear das máquinas de escrever e do barulho de uma dúzia de telefones não atendidos. O teto baixo era
reforçado com a madeira de um dos barcos de guerra de Nelson. Um sinal avisava CUIDADO com A CABIÍÇA. Vicary, com um escasso metro e sessenta e oito, passou facilmente
por baixo dele. As paredes, outrora da cor da nata do Devonshire, tinham-se esbatido num bege baço como um jornal velho. Os soalhos estavam cobertos com um velho
linóleo castanho. Por cima, numa braçadeira da canalização de drenagem, Vicary podia ouvir o gorgolejar da canalização dos New Public Offices, à superfície. Apesar de o ar ser filtrado por um sistema de ventilação especial, cheirava a corpos sujos e a fumo de cigarro velho. Vicary aproximou-se de uma porta onde estava outra sentinela da Marinha Real em posição de descanso. A sentinela pôs-se em sentido quando Vicary passou, com o barulho dos calcanhares amortecidos por um tapete de borracha especial.
Vicary olhou para os rostos do pessoal que trabalhava, vivia, comia e dormia debaixo de terra na fortaleza do primeiro-ministro. A palavra pálidos não fazia justiça ao seu estado; eram habitantes das cavernas macilentos e cor de cera que se deslocavam rapidamente
pelo labirinto subterrâneo. Subitamente, o gabinete sem janelas de Vicary em St. James's Street já não parecia assim tão mau. Pelo menos, estava à superfície. Pelo menos, havia qualquer coisa parecida com ar fresco.
Os aposentos particulares de Churchill estavam localizados na sala 65A, contígua à sala de mapas e do outro lado do corredor da Sala de Comunicações Transatlânticas. Um assessor fez entrar de imediato Vicary, que foi recebido com os olhares gelados de um bando de burocratas que parecia estar à espera desde a última guerra. Era um espaço pequeno, grande parte dele ocupado por uma cama pequena feita com lençóis cinzentos do exército. Aos pés da cama, estava uma mesa com uma garrafa e dois copos. A BBC tinha instalado um microfone permanente para Churchill poder fazer a sua transmissão radiofónica na segurança da sua fortaleza subterrânea. Vicary reparou no pequeno sinal na sombra que dizia SILÊNCIO - NO AR. A sala continha apenas um item luxuoso, um humidifícador para os charutos Romeoj Julieta do primeiro-ministro.
Churchill, de roupão de seda verde e com o primeiro charuto do dia entre os dedos, estava sentado à sua pequena secretária. Manteve-se aí quando Vicary entrou na sala. Vicary sentou-se na borda da cama e fitou a figura à sua frente. Não era o mesmo homem que Vicary tinha visto naquela tarde de maio de 1940. Também não era a figura segura e bem-disposta das atualidades e dos filmes de propaganda. Era obviamente um homem que tinha trabalhado demais e dormido muito pouco. Acabava de regressar ao Reino Unido, tendo chegado do Norte de África poucos dias antes, onde tinha estado a convalescer depois de sofrer um pequeno ataque de coração e contrair uma pneumonia. Os olhos estavam raiados de vermelho, o rosto inchado e pálido. Esboçou um débil sorriso ao seu velho amigo.
- Olá, Alfred, como é que tem passado? - perguntou Churchill quando a sentinela da Marinha Real fechou cuidadosamente a porta.
- Bem, mas eu é que lhe devia estar a perguntar isso. O senhor é que tem estado sob pressão.
- Melhor do que nunca - retorquiu Churchill. - Ponha-me ao corrente dos factos.
- Intercetámos duas mensagens de Hamburgo para dois agentes alemães em atividade no Reino Unido - informou Vicary, entregando as mensagens a Churchill. - Como sabe, temos estado a agir na suposição de que tínhamos prendido, enforcado ou feito mudar de lado todos os agentes alemães a atuarem no Reino Unido. Isto é obviamente um grande golpe. Se os agentes transmitiram qualquer informação que contradiga o material que enviámos através da Operação Double Cross, os alemães vão suspeitar de tudo. E também julgamos que estão a planear introduzir um novo agente no país.
- E o que estamos a fazer para os deter?
Vicary informou Churchill das medidas que tinham tomado até
ao momento.
- Mas, infelizmente, senhor primeiro-ministro, as hipóteses de capturar o agente à entrada não são boas. Antigamente, no verão de
1940, por exemplo, quando eles estavam a introduzir espiões para a invasão, estávamos prontos para os capturar porque muitas vezes os alemães diziam aos agentes já em atividade no Reino Unido precisamente quando, onde e como os novos espiões iam entrar.
- E esses agentes estavam a trabalhar para nós como agentes duplos.
- Ou na cela de uma prisão, sim. Mas, neste caso, a mensagem para o agente em atividade era muito vaga, apenas uma frase codificada: executar procedimento de receção número um. Partimos do princípio de que diga tudo o que o agente precisa de saber. Infelizmente, a nós não nos diz nada. Apenas podemos adivinhar como é que o novo espião está a planear entrar no país. E, a não ser que tenhamos muita sorte, as hipóteses de o capturar são, no mínimo, escassas.
- Maldição! - praguejou Churchill, batendo com a mão no braço da cadeira.
Ergueu-se e serviu brandy para os dois. Olhou fixamente para dentro do copo, resmungando consigo próprio, como se se tivesse esquecido de que Vicary estava ali.
- Lembra-se da tarde em 1940 em que lhe pedi para vir trabalhar para o MI 5?
- Certamente, senhor primeiro-ministro.
- Eu tinha razão, não tinha?
- O que quer dizer?
- Tem passado o melhor tempo da sua vida, não tem? Olhe para si, Alfred, está um homem completamente diferente. Céus, eu queria ter o seu bom aspeto.
- Obrigado, senhor primeiro-ministro
- Tem feito um ótimo trabalho. Mas não vai significar nada se esses espiões alemães encontrarem o que procuram. Percebe isso, Alfred?
Vicary suspirou profundamente e respondeu:
- Percebo os riscos envolvidos, senhor primeiro-ministro.
- Quero-os detidos, Alfred, Quero-os esmagados.
Vicary pestanejou rapidamente e, inconscientemente, tocou no bolso do casaco à procura dos óculos em meia-lua. O charuto de Churchill tinha-se apagado na sua mão. Reacendendo-o, saboreou um momento de fumo tranquilo.
- Como está o Boothby? - perguntou Churchill por fim. Vicary voltou a suspirar.
- Como sempre, senhor primeiro-ministro.
- A dar apoio?
- Quer ser mantido a par de todos os passos que dou.
- Por escrito, suponho. Boothby é um defensor das coisas por escrito. O gabinete do homem produz mais papel que o Times, diabos o levem!
Vicary permitiu-se um ligeiro riso abafado.
- Nunca lhe disse isto, Alfred, mas tive as minhas dúvidas se conseguiria ter sucesso. Se o Alfred tinha verdadeiramente o que era preciso para agir no mundo dos serviços secretos militares. Oh, nunca duvidei que tivesse os miolos, a inteligência. Mas duvidei que possuísse a espécie de astúcia grosseira necessária para ser um bom agente dos serviços de secretos. Também duvidei que conseguisse ser suficientemente impiedoso.
As palavras de Churchill espantaram Vicary.
- Então porque está a olhar para mim assim, Alfred? E um dos homens mais decentes que alguma vez conheci. Normalmente, os homens que têm sucesso no seu tipo de trabalho são homens como
Boothby. Ele prendia a própria mãe se pensasse que isso beneficiava a sua carreira, ou apunhalava o inimigo pelas costas.
- Mas eu mudei, senhor primeiro-ministro. Fiz coisas que nunca pensei ser capaz de fazer. E também fiz coisas de que me envergonho.
Churchill pareceu perplexo.
- Vergonha?
- Quando se é contratado para limpar chaminés, fica-se com os dedos pretos - retorquiu Vicary. - Sir James Harris escreveu estas palavras quando foi ministro em Haia, em 1785. Detestava o facto de lhe pedirem para pagar subornos a espiões e informadores. Às vezes, quem me dera que ainda fosse assim tão simples.
Vicary lembrou-se da noite em setembro de 1940. Ele e a sua equipa tinham-se escondido no meio da urze no topo de uma escarpa sobranceira a uma praia rochosa da Cornualha, abrigados da chuva fria debaixo de um oleado preto. Vicary sabia que o alemão viria nessa noite; a Abwehr tinha pedido a Karl Becker para lhe preparar uma festa de receção. Ele não passava de um rapaz, lembrou-se Vicary, e, no momento em que atingiu a praia na sua balsa insuflável, estava meio morto de frio. Caiu nas mãos dos homens da Divisão Especial, balbuciando em alemão, feliz por estar vivo. Os documentos dele eram atrozes, as duzentas libras mal forjadas e o inglês limitado a umas poucas amabilidades bem ensaiadas. Era tão mau que Vicary teve de conduzir o interrogatório em alemão. O espião tinha sido encarregado de recolher informações sobre as defesas costeiras e, quando chegasse a invasão, de fazer sabotagem. Vicary concluiu que ele era inútil. Imaginou quantos mais iguais àquele teria Canaris - mal treinados, mal equipados e mal financiados, praticamente sem qualquer hipótese de sucesso. Manter o logro elaborado pelo MI5 requeria que executassem alguns espiões, portanto Vicary recomendou o seu enforcamento. Assistiu à execução na prisão de Wandsworth e nunca iria esquecer a expressão nos olhos do espião quando o carrasco lhe enfiou o capuz na cabeça.
- Tem de transformar o coração numa pedra, Alfred - disse Churchill num sussurro rouco. - Não temos tempo para sentimentos como vergonha ou compaixão, nenhum de nós, agora não. Tem
de deixar de lado quaisquer princípios que ainda possua, deixar de lado quaisquer sentimentos de compaixão que ainda possua, e fazer tudo o que for necessário para vencer. Isso ficou claro?
- Ficou, senhor primeiro-ministro.
Churchill aproximou-se, inclinou-se e falou num tom confessional:
- Há uma verdade infeliz acerca da guerra. Embora seja praticamente impossível que um só homem ganhe uma guerra, é inteiramente possível que um só homem a perca.
Churchill fez uma pausa e, a seguir, rematou:
- Para bem da nossa amizade, Alfred, não seja esse homem! Vicary, abalado com o aviso de Churchill, reuniu as suas coisas
e dirigiu-se para a porta. Abriu-a e saiu para o corredor. Na parede, o quadro da meteorologia, atualizado de hora a hora, indicava tempo chuvoso. Vicary ouviu Churchill atrás de si, sozinho no quarto subterrâneo, murmurando consigo próprio. Vicary levou uns instantes a perceber o que o primeiro-ministro estava a dizer.
- Maldito tempo inglês! - murmurava Churchill. - Maldito tempo inglês!
Por instinto, Vicary procurou pistas no passado. Leu e releu descodificações de mensagens enviadas por agentes no Reino Unido para operadores de rádio em Hamburgo. Descodificações de mensagens enviadas por Hamburgo para os agentes no Reino Unido. Histórias de casos, mesmo de casos em que ele próprio tinha estado envolvido. Leu o relatório final de um dos primeiros casos que tinha tratado, um incidente que terminara no norte da Escócia, num lugar adequadamente chamado Cape Wrath1. Leu a carta de recomendação que estava no seu processo, escrita de má vontade por Sir Basil Boothby, chefe de divisão, com cópia enviada para Winston Churchill, primeiro-ministro. Sentiu-se novamente cheio de orgulho.
Harry Dalton andava de um lado para o outro, entre o gabinete de Vicary
e a divisão dos Registos, como um batedor de estradas medieval, trazendo novos documentos
para um lado e devolvendo os
1 Cabo da Ira. (N. do T.)
antigos para o outro. Alguns agentes, cientes da tensão crescente no gabinete de Vicary, passavam pela sua porta em grupos de dois e três como automobilistas por
um acidente na estrada - olhos desviados, mas lançando rápidas e temerosas olhadelas. Quando Vicary acabava um love de dossiês, Harry perguntava: Alguma coisa? Vicary
fazia uma careta e respondia: Não, nada, raios!
Às duas horas daquela tarde, as paredes estavam a fechar-se sobre ele. Tinha fumado demasiados cigarros e bebido demasiadas chávenas de chá preto forte.
- Preciso de ar fresco, Harry.
- Saia daqui durante algumas horas. Fazia-lhe bem.
- vou dar um passeio, comer qualquer coisa, se calhar.
- Quer companhia?
- Não, obrigado.
Um chuvisco gelado, como o fumo de uma batalha próxima, caiu sobre Westminster enquanto Vicary caminhava ao longo do Embankment. Um vento cruelmente frio levantou-se do rio, fez retinir os sinais da rua temporários e em mau estado, e assobiou através de uma pilha de madeira despedaçada e tijolos partidos, onde antes se erguera um edifício esplêndido. Vicary deslocou-se rapidamente com o seu coxear mecânico, por causa do joelho rígido, com a cabeça baixa e as mãos mergulhadas nos bolsos do casaco. Pelo aspeto da sua cara, um transeunte podia deduzir que estava atrasado para uma reunião importante ou a fugir de alguma desagradável.
A Abwehr tinha apenas umas quantas maneiras de introduzir um agente no Reino Unido. Muitos eram postos em terra em barcos pequenos saídos de um submarino. Vicary tinha acabado de ler o relatório da captura dos agentes duplos com o nome de código Mutt e Jeff. Tinham chegado a terra num hidroavião, perto da aldeia de pesca de arenque MacDuff, em Moray Firth. Vicary já tinha pedido à Guarda Costeira e à Marinha Real para estarem particularmente vigilantes. Mas o litoral inglês estendia-se por muitos milhares de quilómetros, impossíveis de cobrir totalmente. Vicary sabia que as hipóteses de apanhar um agente numa praia escura eram escassas.
A Abwehr tinha introduzido espiões no Reino Unido de paraquedas. Era impossível ter em conta cada centímetro quadrado do espaço aéreo, mas Vicary tinha pedido à RAF para estar atenta a aeronaves isoladas.
A Abwehr tinha aterrado e desembarcado agentes na Irlanda e no Ulster. Para chegarem a Inglaterra tinham de apanhar o ferry. Vicary tinha pedido aos operadores do ferry em Liverpool para manterem debaixo de olho os passageiros desconhecidos: qualquer pessoa não familiarizada com a rotina da travessia de ferry, pouco à vontade com a língua ou com a moeda. Não lhes podia dar uma descrição porque não a tinha.
O passeio em andamento vivo e o tempo frio fizeram-lhe fome. Entrou numpub perto da estação de Victoria e pediu uma empada de legumes e meia caneca de cerveja.
Tem de transformar o coração numa pedra, dissera Churchill.
Infelizmente, já tinha feito isso há muito tempo. Helen. Era a filha mimada e atraente de um industrial próspero, e Vicary, apesar de saber que era um erro, apaixonara-se loucamente por ela. A relação começou a desfazer-se na tarde em que fizeram amor pela primeira vez. Por qualquer razão, o pai de Helen tinha lido corretamente os sinais; o modo como eles davam a mão no regresso do lago, a maneira como Helen tocava no cabelo já ralo de Vicary. Nessa noite, chamou Helen para uma conversa privada. Em nenhuma circunstância, ela seria autorizada a casar com o filho de um escriturário, que frequentara a universidade com uma bolsa de estudos. O pai de Helen ordenou-lhe que terminasse a relação tão rápida e discretamente quanto possível, e ela fez exatamente o que lhe tinha sido dito. Era esse tipo de rapariga. Vicary nunca a recriminou por isso e ainda a amava. Mas qualquer coisa se apagou nele nesse dia. Supôs que fosse a sua capacidade de acreditar. Perguntava-se se alguma vez a recuperaria.
É praticamente impossível que um só homem ganhe uma guerra.
Vicary pensou: Raios partam o Velho por pôr esse peso nos meus ombros.
A dona do pub, uma mulher corpulenta, apareceu ao pé da mesa.
- Estava assim tão mau, meu querido?
Vicary olhou para o prato. As cenouras e as batatas tinham sido empurradas para o lado e estivera a passear distraidamente a ponta da faca pelo molho da carne. Olhou para o prato com mais atenção e verificou que tinha traçado um mapa de Inglaterra na mistela castanha.
Perguntou a si mesmo: Onde é que aquele maldito espião irá aterrar?
- Estava bom - disse Vicary educadamente, entregando o prato. - Acho que não estava com tanta fome como pensava.
Na rua, Vicary levantou a gola do sobretudo e começou a voltar para o escritório.
E inteiramente possível que um só homem a perca.
Folhas mortas crepitavam no caminho de Vicary enquanto ele se apressava ao longo de Birdcage Walk. A última luz da tarde recuava lentamente. Na escuridão crescente, Vicary podia ver as cortinas do blackout fecharem-se como pálpebras nas janelas sobranceiras ao St. James's Park. Imaginou Helen numa das janelas a vê-lo apressar-se pelo passeio lá em baixo. Entrou numa feroz fantasia em que, resolvendo o caso, prendendo os espiões e ganhando a guerra, iria provar que era digno dela e ela o voltaria a aceitar.
Não seja esse homem.
Havia mais qualquer coisa que Churchill tinha dito; tinha-se queixado da chuva incessante. O primeiro-ministro, seguro no abrigo da sua fortaleza subterrânea, a queixar-se do tempo...
Vicary passou rapidamente pelo guarda do quartel-general do MI5, sem apresentar o distintivo de identificação.
- Conseguiu inspirar-se? - perguntou Harry quando Vicary voltou para o gabinete.
- Talvez. Se precisasse de meter de repente um espião no país, Harry, que caminho usava?
- Acho que vinha pelo leste... Kent, East Anglia e até mesmo pelo leste da Escócia.
- Exatamente o que pensei.
- E então?
- Se estivesse a montar uma operação rapidamente, que meio de transporte usava?
- Depende.
- Vá lá, Harry!
- Acho que escolhia um avião.
- E porque não um submarino... pôr o espião em terra com uma balsa?
- Porque é mais fácil arranjar um pequeno avião rapidamente do que um submarino precioso.
- Exato, Harry. E do que precisa para colocar um espião em Inglaterra por avião?
- bom tempo, para já.
- Certo outra vez, Harry.
Vicary agarrou subitamente no auscultador do telefone e esperou que a telefonista atendesse.
- Daqui fala Vicary. Ligue-me ao serviço meteorológico da RAF imediatamente.
Uma jovem atendeu um momento depois.
- Sim?
-- Daqui fala Vicary, do Ministério da Guerra. Preciso de uma informação sobre o tempo.
- Que tempo tão desagradável que estamos a ter, não é?
- Sim, sim - respondeu Vicary impacientemente - Quando é que vai melhorar a leste?
- Esperamos que o sistema atual se desloque para o mar alto amanhã à tarde, em qualquer altura.
- E vamos ter céu limpo?
- Cristalino.
- Raios!
- Mas não por muito tempo. Há outra frente atrás desta, a deslocar-se rapidamente pelo país para sudeste.
- E a que distância está?
- É difícil dizer. Provavelmente doze a dezoito horas.
- E depois disso?
- O país inteiro vai ficar encharcado na próxima semana... neve e chuva intermitente.
- Obrigado.
Vicary desligou o telefone e voltou-se para Harry.
- Se a nossa teoria for válida, o nosso espião vai tentar entrar no país de paraquedas amanhã à noite.
TREZE
HAMPTON SANDS, NORFOLK
A descida de bicicleta até à praia demorava normalmente cerca de cinco minutos. Ao fim da tarde, Sean Dogherty resolveu cronometrá-la apenas para ter a certeza.
Pedalou a uma cadência cuidadosa e sem pressas, com a cabeça inclinada para o vento refrescante vindo do mar. Desejou que a bicicleta estivesse em melhor estado.
Como a própria Inglaterra em tempo de guerra, estava gasta, batida, a precisar desesperadamente de manutenção. Chocalhava e chiava a cada volta dos pedais. A corrente precisava de óleo, que era escasso, e os pneus estavam tão carecas e remendados que até parecia que Dogherty se deslocava só nos aros.
A chuva diminuíra a meio do dia. Nuvens gordas e esfarrapadas flutuavam por cima da cabeça de Dogherty como balões de barragem a flutuarem nos seus ancoradouros. Atrás dele, o Sol punha-se no horizonte como uma bola de fogo. Os pântanos e as encostas brilhavam com uma bela luz cor de laranja.
Dogherty sentiu uma intensa excitação a crescer no seu peito. Não sentia nada igual desde a primeira vez que se tinha encontrado com o contacto da Abwehr em Londres, no início da guerra.
A estrada acabava num pequeno pinhal no sopé das dunas. Um sinal desgastado pelo mau tempo avisava que havia minas na praia. Dogherty, como toda a gente em Hampton Sands, sabia que não havia nenhuma. No cesto da bicicleta, Dogherty tinha colocado um recipiente
fechado com um litro de preciosa gasolina. Retirou o recipiente, empurrou a bicicleta para dentro do pinhal e encostou-a cuidadosamente a uma árvore.
Dogherty olhou para o relógio - exatamente cinco minutos.
Um trilho seguia pelo meio das árvores. Dogherty seguiu-o, com areia e agulhas secas de pinheiro por debaixo dos pés, e atravessou as dunas. O barulho da rebentação das ondas enchia o ar.
O mar abriu-se à frente dele. A maré tinha atingido o ponto mais alto duas horas antes. Naquele momento, já estava a vazar rapidamente e com força. À meia-noite, hora a que estava prevista a descida, iria haver uma larga faixa de areia seca e lisa ao longo da linha de água, perfeita para a aterragem em paraquedas de um agente.
Dogherty tinha a praia por sua conta. Voltou para os pinheiros e passou os cinco minutos seguintes a recolher lenha suficiente para três pequenas fogueiras de sinalização. Precisou de quatro viagens para levar a lenha para a praia. Verificou o vento - de nordeste, a uns trinta e três quilómetros por hora. Dogherty empilhou a madeira em linha reta, separando as pilhas umas das outras cerca de vinte metros, para indicar a direção do vento.
O crepúsculo estava a terminar. Dogherty abriu o recipiente da gasolina e regou a madeira. À noite, teria de esperar ao pé do rádio até receber o sinal de Hamburgo a avisar que o avião se estava a aproximar. Nessa altura, teria de descer até- à praia, acender as fogueiras e recolher o agente. Simples, se tudo corresse conforme planeado.
Dogherty começou a voltar para trás pela praia. Foi então que viu Mary parada no topo das dunas, uma silhueta recortada pelos últimos raios do pôr do Sol, com os braços cruzados debaixo do peito. O vento atirava-lhe o cabelo para a cara. Ele tinha-lhe dito na noite anterior, tinha-lhe dito que a Abwehr o tinha mandado recolher um agente. Tinha-lhe pedido para sair de Hampton Sands até estar tudo acabado, tinham amigos e família em Londres com quem ela podia ficar. Mary tinha recusado ir. Não lhe tinha dito uma palavra desde então. Andavam aos encontrões no pequeno chalé, num silêncio zangado, evitando entreolharem-se, com Mary a bater com os tachos no fogão e a partir pratos e chávenas por causa dos nervos abalados. Era como se tivesse ficado para o punir com a sua presença.
Quando Dogherty chegou ao topo das dunas, Mary tinha partido. Seguiu o caminho até ao sítio onde tinha deixado a bicicleta. Mary tinha-a levado. Mais um round na nossa guerra silenciosa, pensou Dogherty. Levantou a gola para se proteger do vento e voltou para o chalé.
Jenny Colville descobriu o lugar quando tinha dez anos - uma pequena depressão nos pinheiros, a algumas centenas de metros da estrada, abrigada do vento por um par de grandes rochas. Um esconderijo perfeito. Tinha construído um tosco fogão de acampamento, amontoando rochas num círculo e pondo uma pequena grelha de metal no topo. Colocou os elementos de uma fogueira - agulhas de pinheiro, erva seca das dunas, pequenos galhos caídos das árvores e chegou-lhes um fósforo. Soprou suavemente e um instante depois a fogueira ganhou vida.
Ela conservava uma pequena mala escondida debaixo das rochas, coberta com uma camada de agulhas de pinheiro. Afastou as agulhas e tirou-a de lá. Jenny abriu a tampa e retirou o que estava lá dentro: um cobertor de lã gasto, uma pequena panela de metal, uma caneca de esmalte lascada e uma caixa de chá seco e poeirento. Jenny desdobrou o cobertor e estendeu-o ao pé da fogueira. Sentou-se e aqueceu as mãos nas chamas.
Dois anos antes, um aldeão tinha descoberto as suas coisas e concluído que um vagabundo estava a viver na praia. Isso causou a maior agitação em Hampton Sands desde
o incêndio na St. John's Church, em 1912. Jenny manteve-se afastada durante algum tempo. Mas o escândalo acalmou rapidamente e ela pôde voltar.
As chamas morreram, deixando uma camada de brasas vermelhas incandescentes. Jenny encheu o bule com água de um cantil que trouxera de casa. Assentou a panela na
grelha e esperou que começasse a ferver, ouvindo o som do mar e do vento a assobiar entre os pinheiros.
Como de costume, o local exerceu a sua magia.
Começou a esquecer-se dos seus problemas - do pai.
Ao princípio da tarde, quando chegou a casa vinda da escola, ele estava sentado à mesa da cozinha, bêbado. Depressa se iria tornar beligerante, depois zangado e
depois violento. Iria descarregar na pessoa mais próxima; inevitavelmente, seria Jenny. Decidiu esquivar-se
à tareia antes que ela pudesse acontecer. Fez-lhe um prato de sanduíches pouco abundante e um bule de chá e colocou-os na mesa. Ele não disse nada, não mostrou nenhum
interesse em saber onde ela ia quando Jenny vestiu o casaco e se esgueirou pela porta.
A água ferveu. Jenny juntou-lhe o chá, tapou-a e tirou-a do lume. Pensou nas outras raparigas da aldeia. Estariam em casa a jantar com os pais, a falarem sobre os
acontecimentos do dia e não a esconderem-se nas árvores ao pé da praia, sem outra companhia que não o som das ondas e uma chávena de chá. Isso tinha-a tornado diferente,
mais velha, mais esperta. Tinha sido despojada da sua infância, do seu tempo de inocência, forçada a confrontar-se muito cedo na vida com o facto de o mundo poder
ser um sítio diabólico.
Meu Deus, porque é que ele me odeia tanto? O que é que eu alguma vez
fiz que o magoasse?
Mary tinha feito o seu melhor para explicar o comportamento de Martin Colville. Ele ama-te, tinha dito Mary vezes sem conta, mas está ferido, zangado e infeliz e
descarrega na pessoa de quem gosta mais.
Jenny tinha tentado pôr-se no lugar do pai. Lembrava-se vagamente do dia em que a mãe juntou as suas coisas e partiu. Lembrava-se do pai a implorar e a suplicar-lhe
que ficasse. Lembrava-se da expressão da cara dele quando ela recusou, lembrava-se do som do estilhaçar dos copos, dos pratos partidos, das coisas horríveis que
disseram um ao outro. Durante muitos anos, não lhe disseram para onde a mãe tinha ido, simplesmente não se falava disso. Quando Jenny perguntava ao pai, ele ia-se
embora num silêncio tempestuoso. Mary foi quem acabou por lhe dizer. A mãe tinha-se apaixonado por um homem de Birmingham e tido um caso com ele, vivendo juntos
desde então. Quando Jenny perguntou por que razão a mãe nunca a tinha tentado contactar, Mary não lhe pôde dar uma resposta. Para tornar as coisas piores, Mary disse
a Jenny que ela se tinha tornado a cara da mãe. Jenny não tinha provas disso - a última memória que tinha da mãe era a de uma mulher desesperada e zangada, com os
olhos inchados e vermelhos de chorar - e o pai tinha destruído todas as fotografias dela há muito tempo.
Jenny verteu o chá, apertando a caneca de esmalte junto do corpo para aquecer. Rajadas de vento agitavam o topo das árvores por
cima da sua cabeça. A Lua apareceu, seguida pelas primeiras estrelas. Jenny conseguia sentir que iria ser uma noite muito fria. Não iria poder ficar muito tempo.
Deitou dois pedaços de lenha para a fogueira e ficou a olhar para as sombras a dançarem nas rochas. Acabou o chá e enrolou-se numa bola, com a cabeça apoiada nas
mãos.
Imaginou-se noutro lugar qualquer, em qualquer sítio exceto Hampton Sands. Queria fazer algo grandioso e não voltar mais. Tinha dezasseis anos. Algumas das raparigas mais velhas das aldeias vizinhas tinham ido para Londres e para outras cidades grandes para aceitarem trabalhos que os homens tinham largado para irem para a guerra. Ela podia encontrar trabalho numa fábrica, servir à mesa, qualquer coisa.
Estava a começar a adormecer quando pensou ouvir um som perto da água. Por um momento, interrogou-se se haveria realmente vagabundos a viverem na praia. Assustada, Jenny pôs-se de pé. Os pinheiros acabavam nas dunas. Deslocou-se cuidadosamente pelo pinhal, pois tinha escurecido rapidamente, e iniciou a subida da areia. Parou no topo, com a vegetação da duna a dançar ao sabor do vento por baixo dos seus pés, e olhou na direção do som. Viu uma figura com um oleado, botas de mar e um chapéu impermeável com abas largas.
Sean Dogherty.
Parecia estar a empilhar madeira, a andar de um lado para o outro, a calcular alguma distância. Talvez Mary estivesse certa. Talvez Sean tivesse endoidecido.
Depois, Jenny descortinou outra figura no topo das dunas. Era Mary, ali de pé, ao vento, de braços cruzados, olhando para Sean em silêncio. A seguir, Mary voltou-se e foi-se embora silenciosamente sem esperar por Sean.
Quando Sean ficou fora de vista, Jenny apagou as brasas, guardou as suas coisas e pedalou de regresso a casa. O chalé estava vazio, frio e escuro quando chegou. O pai tinha saído, a lareira estava apagada há muito. Não havia nenhuma nota a explicar o seu paradeiro. Ficou acordada na cama durante algum tempo, a ouvir o vento, a rever a cena que tinha testemunhado na praia. Havia qualquer coisa muito errada naquilo, concluiu. Qualquer coisa muito errada mesmo.
- De certeza que podemos fazer mais qualquer coisa, Harry disse Vicary a andar de um lado para o outro do gabinete.
- Já fizemos tudo o que podíamos fazer, Alfred.
- Talvez devêssemos verificar outra vez com a RAF.
- Acabei de verificar com a RAF.
- Alguma coisa?
- Nada.
- bom, ligue para a Marinha Real...
- Acabei de falar para a Cidadela.
- E?
- Nada.
- Cristo!
- Tem de ser paciente.
- Não sou dotado de paciência natural, Harry.
- Já reparei.
- E quanto a...
- Liguei para oferry de Liverpool
- E então?
- Parado por causa do mar bravo.
- Então esta noite eles não vêm pela Irlanda.
- Não é muito provável.
- Talvez estejamos a abordar isto de uma perspetiva errada, Harry.
- O que quer dizer?
- Talvez devêssemos focar a nossa atenção nos dois agentes que já estão no Reino Unido.
- Estou a ouvir.
- Vamos voltar aos registos de passaportes e de imigração.
- Cristo, Alfred, eles não mudaram desde 1940. Juntámos todos os que achávamos que eram espiões e prendemos toda a gente de quem tínhamos dúvidas.
- Eu sei, Harry. Mas talvez haja alguma coisa em que não tenhamos reparado.
- Tal como?
- Diabos, como quer que eu saiba?
- Eu arranjo os registos. Mal não pode fazer.
- Talvez estejamos sem sorte, Harry.
- Alfred, conheci uma série de polícias com sorte no meu tempo.
- Sim, Harry?
- Mas nunca conheci um poli cia preguiçoso com sorte.
- Onde quer chegar, Harry?
- vou buscar os registos e fazer um bule de chá.
Sean Dogherty saiu do chalé pela porta das traseiras e percorreu o caminho até ao celeiro. Vestia uma camisola grossa e um oleado e trazia um candeeiro a petróleo. As últimas nuvens tinham desaparecido. O céu era um tapete azul-escuro carregado de estrelas, com uma Lua brilhante a três quartos. O ar estava dolorosamente frio.
Uma ovelha baliu quando ele abriu a porta do celeiro e entrou. O animal tinha-se enredado na cerca nesse dia. Na luta para se libertar, tinha arranjado maneira de cortar a pata e de abrir um buraco na cerca ao mesmo tempo. Naquele momento, estava deitada numa cama de feno no canto do celeiro.
Dogherty ligou o rádio e começou a mudar o penso, cantarolando serenamente para acalmar os nervos de ambos. Tirou o penso ensanguentado, substitui-o por um novo e prendeu-o de forma a ficar seguro.
Estava a admirar o seu trabalho quando o rádio crepitou, dando sinal de vida. Dogherty atravessou o celeiro a correr e colocou os auscultadores. A mensagem era breve. Enviou um sinal de confirmação e saiu do celeiro velozmente.
O percurso até à praia demorou menos de três minutos.
Dogherty desmontou no fim da estrada e puxou a bicicleta para dentro das árvores. Trepou as dunas, desceu pelo outro lado e correu ao longo da praia. As fogueiras de sinalização estavam intactas, prontas para serem acesas. Ao longe, conseguia ouvir o ronco baixo de um avião.
Pensou: Meu Deus, ele está mesmo a chegar.
Acendeu as fogueiras. Em poucos segundos, a praia resplandecia de luz.
Dogherty, agachado na vegetação das dunas, esperou que o avião aparecesse. O aparelho desceu sobre a praia e um momento depois um ponto preto saltou da parte de trás do avião. O paraquedas abriu-se com um estalido enquanto o avião virava e se dirigia para o mar alto.
Dogherty levantou-se da vegetação da duna e correu pela praia, O alemão fez uma aterragem perfeita, rolou e já estava a recolher o paraquedas preto quando Dogherty chegou.
- Deve ser o Sean Dogherty - disse ele num inglês perfeito de colégio particular.
- É verdade - respondeu Sean, espantado. - E você deve ser o espião alemão.
O homem franziu o sobrolho.
- Qualquer coisa do género. Oiça, meu velho, eu trato disto. Porque não apaga essas malditas fogueiras antes que o mundo inteiro saiba que estamos aqui?

SEGUNDA PARTE
CATORZE
PRÚSSIA ORIENTAL: DEZEMBRO DE 1927
Os veados estão a passar fome este inverno. Saem dos bosques e esgaravatam os prados em busca de comida. O grande macho está lá, ao pôr do Sol, com o nariz a furar
a neve por um bocado de erva congelada. Eles estão atrás de uma pequena elevação, Anna de barriga para baixo, o papá acocorado ao lado dela. Ele sussurra instruções,
mas ela não o ouve. Não precisa de instruções. Tinha estado à espera deste dia. Tinha-o imaginado. Tinha-se preparado para ele.
Ela está a introduzir as balas no cano da espingarda. É nova, a coronha lisa, sem um risco e a cheirar a óleo de limpar armas. É o seu presente de aniversário. Hoje quinze anos.
O veado também é o seu presente.
Tinha querido apanhar um veado antes, mas o papá recusara. "É uma coisa muito emocional, matar um veado", tinha-lhe dito em jeito de explicação. "É difícil de descrever.
Tens de experimentar e eu não deixo que isso aconteça até teres idade suficiente para compreender."
É um tiro difícil - cento e cinquenta metros, com vento lateral gelado e forte. A cara de Anna arde com o frio, o corpo estremece, os dedos ficaram entorpecidos
nas luvas. Coreógrafa o tiro na cabeça; aperta o gatilho suavemente, tal como na carreira de tiro. Exatamente como o papá lhe ensinou.
O vento sopra em rajadas. Ela espera.
Ergue-se sobre um joelho e coloca a espingarda em posição de disparar.
O veado, assustado com o barulho da neve a ser esmagada debaixo de Arma, levanta a enorme cabeça e vira-a na direção do som.
Rapidamente, ela vê a cabeça do macho na mira, tem em conta o vento lateral e dispara. A bala penetra no olho do macho e ele cai no prado branco de neve como uma
trouxa sem vida.
Ela baixa a arma e volta-se para o papá. Está à espera que ele esteja a sorrir, a aplaudir, que tenha os braços abertos para a acolher e lhe dizer quão orgulhoso
está. Em vez disso, a cara dele é uma máscara vazia enquanto olha primeiro para o veado morto e depois para ela.
- O teu pai sempre quis um filho, mas eu não lhe dei um - disse-lhe a mãe quando estava de cama a morrer de tuberculose, no quarto ao fundo do corredor. - Sê o que
ele quiser que tu sejas. Ajuda-o, Anna. Toma conta dele por mim.
Tinha feito tudo o que a mãe pedira. Tinha aprendido a andar a cavalo, a disparar e afazer tudo o que os rapaces fazem, só que melhor. Tinha viajado com o papá para
os postos diplomáticos. Na segunda-feira, vão partir para a América, onde o papá vai ser primeiro conselheiro.
Anna tinha ouvido falar dos gangsters na América a deslocarem-se nas ruas nos seus enormes carros pretos, a dispararem sobre toda agente que vissem. Se os gangsters
tentarem ferir o papá, ela vai dar-lhes um tiro nos olhos com a sua nova arma.
Nessa noite, deitam-se juntos na cama do papá, com uma grande quantidade de lenha a arder com intensidade na lareira. Lá fora, há uma tempestade. O vento ruge e as árvores batem na casa. Anna acha sempre que estão a tentar entrar porque têm frio. O fogo crepita e o fumo emite um cheiro quente e maravilhoso. Encosta a cara à do papá e põe os braços à volta do peito dele.
- Para mim, foi difícil a primeira vez que matei um veado - di ele como que a admitir uma falha. - Quase pus a minha arma de lado. Porque não foi difícil para ti,
minha querida Anna?
- Não sei, papá, simplesmente não foi!
- Tudo o que conseguia ver eram os olhos daquela maldita coisa afitarem-me. Uns enormes olhos castanhos. Belos. Depois vi a vida a abandoná-los e senti-me pessimamente.
Não consegui tirar a maldita coisa da cabeça durante uma semana.
- Não vi os olhos. Voltou-se para ela no escuro.
- O que viste? Ela hesitou.
- Vi a cara dele.
- A. cara de quem, querida? -pergunta ele, confuso. - A cara do veado?
- Não, papá, não a do veado.
- Anna, querida, de que raio estás a falar?
Ela quer desesperadamente dizer-lhe, dizer a alguém. Se a mãe ainda fosse viva, talvez lhe conseguisse dizer a ela. Mas não tem coragem para contar ao papá. Ficaria
louco. Não seria justo para ele.
- De nada, papá. Agora estou cansada - responde ela, beijando-o na cara. - Boa noite, papá. Sonhos cor-de-rosa.
LONDRES: JANEIRO DE 1944
Tinham passado seis dias desde que Catherine Blake recebera a mensagem de Hamburgo. Durante esse tempo, pensara muito e arduamente na hipótese de a ignorar.
Alfa era o nome de código de um ponto de encontro no Hyde Park, um caminho pelo meio de um pequeno bosque. Não conseguia evitar sentir-se inquieta com a ideia de ir para a frente com o encontro. O MI5 prendera dezenas de espiões desde 1940. De certeza que alguns desses espiões tinham contado tudo o que sabiam antes de irem ter com o carrasco.
Teoricamente, isso não devia fazer diferença no caso dela. Vogel prometera que com ela seria diferente. Teria procedimentos de rádio diferentes, procedimentos de encontro diferentes e códigos diferentes. Mesmo que todos os outros espiões em Inglaterra fossem presos e enforcados, não teriam maneira de chegar até ela.
Catherine desejou poder partilhar da confiança de Vogel. Ele estava a centenas de quilómetros, separado do Reino Unido pelo canal da Mancha, a voar às cegas. O mais pequeno erro podia levá-la à prisão ou à morte. Como o ponto de encontro, por exemplo. Estava uma noite terrivelmente fria; alguém a vaguear pelo Hyde Park ficava
automaticamente sob suspeita. Era um erro idiota, tão incaracterístico de Vogel. Devia estar sob grande pressão. Era compreensível. Aproximava-se uma invasão, toda a gente sabia disso. A única questão era quando e onde.
Sentia-se relutante em ir ao encontro por outra razão: receava ser arrastada para o jogo. Tinha-se habituado a viver confortavelmente
- talvez demasiado confortavelmente. A sua vida adquirira uma estrutura e uma rotina. Tinha um apartamento confortável, o seu trabalho de voluntariado no hospital e o dinheiro de Vogel para subsistir. Estava relutante em pôr-se em perigo nesta fase final da guerra. Não se achava de maneira nenhuma uma alemã patriótica. O seu disfarce parecia totalmente seguro. Podia esperar pelo fim da guerra e depois voltar para Espanha. Voltar para a grande estancia no sopé das colinas. Voltar para Maria.
Catherine entrou no Hyde Park. O trânsito da tarde em Kensington Road diluiu-se num zunido agradável.
Tinha duas razões para ir ao encontro.
A primeira era a segurança do pai. Catherine não se tinha voluntariado para trabalhar para a Abwehr como espiã, tinha sido forçada a fazê-lo. O instrumento de coerção
de Vogel era o pai dela. Tinha deixado claro que o pai seria prejudicado - preso, atirado para um campo de concentração, morto mesmo - se ela não aceitasse ir para
o Reino Unido. Se agora recusasse aceitar uma missão, a vida do pai ficaria certamente em perigo.
A segunda razão era mais simples - ela estava desesperadamente sozinha. Tinha sido destacada e isolada há seis anos. Os agentes vulgares podiam usar os seus rádios.
Tinham algum contacto com a Alemanha. Não lhe tinha sido permitido quase nenhum contacto. Era curiosa; queria falar com alguém que pertencesse ao seu lado. Queria
ser capaz de deixar cair o disfarce por alguns minutos apenas, de largar a identidade de Catherine Blake.
Meu Deus, pensou ela, mas eu já quase não me consigo lembrar do meu nome verdadeiro.
Decidiu ir ao encontro.
Caminhou ao longo da margem do lago Serpentine, vendo um bando de patos a apanhar peixe nas fendas do gelo. Seguiu o caminho em direção às árvores. A última luz tinha desaparecido; o céu era
um tapete de estrelas cintilantes. O blackout tinha uma coisa boa, pensou ela: podiam ver-se as estrelas à noite, mesmo no coração do West End.
Meteu a mão na carteira e procurou a coronha da sua pistola com silenciador, uma Mauser automática 6.35. Estava lá. Se alguma coisa parecesse fora do normal, usá-la-ia. Tinha feito uma promessa nunca se deixaria prender. A ideia de estar fechada numa fedorenta prisão britânica qualquer punha-a doente fisicamente. Tinha pesadelos com a sua própria execução. Via as caras risonhas dos ingleses antes de o carrasco lhe colocar o capuz preto na cabeça e a corda à volta do pescoço. Usaria o seu comprimido para se suicidar ou morreria a lutar, mas nunca deixaria que lhe tocassem.
Um soldado americano passou na direção contrária. Tinha uma prostituta agarrada a ele que lhe estava a esfregar as virilhas e a enfiar a língua no ouvido. Era uma cena habitual. As raparigas trabalhavam em Piccadilly. Poucas gastavam tempo ou dinheiro em quartos de hotel. Trabalho de parede, chamavam-lhe os soldados. As raparigas limitavam-se a levar os clientes para becos ou parques e a levantar as saias. Algumas mais ingénuas acreditavam que foder de pé evitava que ficassem grávidas.
Inglesas estúpidas, pensou Catherine
Meteu-se por entre o arvoredo e esperou que o agente de Vogel aparecesse.
O comboio da tarde de Hunstanton chegou à estação de Liverpool Street com meia hora de atraso. Horst Neumann recolheu o seu pequeno saco de viagem de couro da prateleira
da bagagem e juntou-se à fila dos passageiros que enchiam o cais. A estação estava num caos. Grupos de passageiros cansados vagueavam pelo terminal como vítimas de um desastre natural, com caras inexpressivas, desesperadamente à espera de comboios atrasados. Soldados dormiam onde lhes apetecia, com as cabeças apoiadas nos sacos de viagem. Alguns polícias do caminho de ferro fardados circulavam pelo meio da multidão, tentando manter a ordem. Todos os bagageiros eram mulheres. Neumann desceu para a plataforma. Pequeno, ágil, alerta, abriu caminho através da densa multidão.
Os homens junto à saída tinham autoridade estampada neles. Vestiam fatos amarrotados e usavam chapéu de coco. Interrogou-se se estariam à procura dele. Não havia maneira nenhuma de terem uma descrição sua. Instintivamente, enfiou a mão no interior do casaco, à procura da coronha da pistola. Estava lá, escondida no cós das calças. Procurou também a carteira, no bolso do peito. O nome no bilhete de identidade dizia James Porter. O seu disfarce era o de caixeiro-viajante de produtos farmacêuticos. Roçou pelos dois homens ao passar e juntou-se à multidão que se acotovelava em Bishopsgate.
A viagem, excetuando o inevitável atraso, tinha corrido sem problemas. Partilhara o compartimento com um grupo de jovens soldados. Durante algum tempo, tinham-lhe deitado olhares malévolos enquanto lia o jornal. Neumann calculava que qualquer jovem saudável e bem-parecido à paisana estaria sujeito a uma certa dose de desprezo. Disse-lhes que tinha sido ferido em Dunquerque e trazido para Inglaterra meio morto, a bordo de um rebocador de alto-mar - um dos barcos pequenos. Os soldados convidaram Neumann a juntar-se-lhes num jogo de cartas e ele dera-lhes uma tareia.
A rua estava escura como breu, com a única iluminação fornecida pelos faróis do trânsito do início da noite, que ia avançando pela rua, e pelas lanternas de blackout
que muitos transeuntes transportavam. Sentiu-se como se estivesse no meio de um jogo de crianças, a tentar realizar às cegas uma tarefa ridiculamente simples. Por duas vezes, chocou com um peão a caminhar na direção oposta. Outra vez, colidiu com uma coisa fria e dura e começou a desculpar-se antes de perceber que era um poste de iluminação.
Teve de se rir. De facto, Londres tinha mudado desde a sua última visita.
Nascera com o nome de Nigel Fox, em Londres, em 1919, filho de mãe alemã e pai inglês. Quando o pai morreu em 1927, a mãe voltou para a Alemanha e instalou-se em Dusseldorf. Um ano mais tarde, voltou a casar com um construtor rico chamado Erich Neumann, um disciplinador duro que não estava interessado em ter um enteado
chamado Nigel que falasse alemão com sotaque inglês. Mudou imediatamente o nome do rapaz para Horst, autorizou-o a usar o seu nome de família e inscreveu-o numa das mais duras escolas militares do país. Horst era muito infeliz. Os outros rapazes gozavam-no por causa do seu alemão deficiente. Pequeno, facilmente intimidável, vinha para casa a maior parte dos fins de semana com olhos negros e lábios cortados. A mãe sentia-se cada vez mais preocupada: Horst tinha-se tornado reservado e metido consigo mesmo. Erich achava que era bom para ele.
Mas quando Horst fez catorze anos, a sua vida mudou. Numa competição de atletismo aberta a todos, entrou nos 1500 metros com os calções da escola e descalço. Terminou muito abaixo dos cinco minutos, impressionante para um rapaz sem treino. Um treinador da federação nacional viu a corrida. Encorajou Horst a treinar e convenceu a escola a dar-lhe condições especiais.
Horst reviveu. Livre da escravidão das aulas de educação física da escola, passava as tardes a correr pelos campos e montanhas. Gostava de estar só, longe dos outros rapazes. Nunca tinha sido tão feliz. Tornou-se rapidamente um dos melhores atletas juniores do país em corrida e uma fonte de orgulho para a escola. Aderiu à Hitler Jugend
- a Juventude Hitleriana. De repente, rapazes que implicavam com ele nos anos anteriores procuravam a sua atenção. Em 1936, foi convidado a assistir aos Jogos Olímpicos em Berlim. Viu o americano Jesse Owens espantar o mundo ao ganhar quatro medalhas de ouro. Conheceu Adolf Hitler numa receção à Juventude Hitleriana e até lhe apertou a mão. Ficou tão entusiasmado que telefonou para casa para contar à mãe. Erich ficou imensamente orgulhoso. Sentado na tribuna, Horst sonhou com 1944, ano em que teria idade suficiente e rapidez suficiente para competir pela Alemanha.
A guerra iria mudar tudo isso.
Entrou para a Wehrmacht no início de 1939. A sua condição física e a atitude de lobo solitário chamaram a atenção dos Fallschirmjàger, a tropa paraquedista. Foi enviado para a escola de paraquedismo em Stendhal e aterrou na Polónia no primeiro dia da guerra. Seguiram-se a França, Creta e a Rússia. Obteve a sua Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro no fim de 1942.
Paris terminaria com os seus dias de paraquedismo. Uma noite, já tarde, foi a um bar tomar um brandy. Um grupo de oficiais das SS tomara conta da sala das traseiras
para uma festa privada. A meio da bebida, Neumann ouviu um grito vindo dessa sala. O francês atrás do balcão ficou petrificado, demasiado aterrado para investigar. Neumann atuou por ele. Quando abriu a porta, viu uma rapariga francesa em cima da mesa, com os braços e pernas presos por homens das SS. Um maior estava a violá-la e outro batia-lhe com um cinto. Neumann entrou a correr e aplicou um soco brutal na cara do major. A cabeça deste acertou na esquina de uma mesa: nunca recuperou a consciência.
Os outros homens das SS arrastaram-no para um beco, espancaram-no selvaticamente e deixaram-no à beira da morte. Passou três meses num hospital a recuperar. As lesões na cabeça foram tão severas que foi declarado incapaz para saltar de paraquedas. Por causa do seu inglês fluente, foi colocado num posto de escuta dos serviços secretos do exército, no norte de França, onde passou os dias sentado em frente de um recetor de rádio numa cabana limitada e claustrofóbica, a monitorizar comunicações via rádio com origem do outro lado do canal da Mancha, em Inglaterra. Era um trabalho escravo.
Foi então que apareceu o homem da Abwehr, Kurt Vogel. Tinha um aspeto doentio e cansado e, noutras circunstâncias, Neumann poderia ter pensado que ele era um artista ou um intelectual. Disse que procurava homens qualificados que quisessem ir fazer espionagem em Inglaterra. Disse que pagaria o dobro do ordenado de Neumann na Wehrmacht. Neumann estava completamente farto. Aceitou de imediato. Nessa noite, deixou a França e voltou para Berlim com Vogel.
Uma semana antes de ir para o Reino Unido, Neumann foi levado para uma quinta no distrito de Dahlem, mesmo à saída de Berlim, para uma semana de reuniões e de intensa preparação. As manhãs eram passadas no celeiro, onde Vogel tinha montado uma plataforma de saltos para Neumann treinar. Um salto real foi considerado fora de questão por razões de segurança. Também melhorou a sua habilidade com armas de fogo, que já era impressionante, e com métodos para matar silenciosamente. As tardes eram ocupadas com o essencial do trabalho de campo: saltos de treino, procedimentos especiais para encontros,
códigos e rádio. Algumas vezes, as instruções eram dadas apenas por Vogel. Outras vezes, este trazia o assistente, Werner Ulbricht. Neumann referia-se a ele, a brincar, como Watson, e Ulbricht aceitava-o com uma satisfação pouco comum nele. No final das tardes, com a luz do inverno a morrer sobre a paisagem coberta de neve da quinta, Neumann tinha autorização para correr durante quarenta e cinco minutos. Durante três dias, deixaram-no correr sozinho. Mas, no quarto dia, com a cabeça cheia dos segredos de Vogel, foi seguido à distância por um jipe.
As noites pertenciam a Vogel. Depois de uma ceia em grupo na cozinha da casa da quinta, Vogel levava Neumann para o estúdio e ensinava-o à lareira. Nunca usava notas, pois Vogel, como Neumann podia ver, tinha o dom da memória. Vogel falou-lhe de Sean Dogherty e dos procedimentos para o salto. Falou-lhe de uma agente chamada Catherine Blake. Falou-lhe de um agente americano chamado Peter Jordan.
Todas as noites, Vogel revia matéria antiga antes de adicionar outro nível de detalhe. Apesar da informalidade da atmosfera da quinta, o seu guarda-roupa nunca mudava: fato escuro, camisa branca e gravata escura. A voz dele era irritante como uma dobradiça enferrujada, mas captava a atenção de Neumann com a sua intensidade e singeleza de propósitos. Na sexta noite, satisfeito com o progresso do pupilo, Vogel até se permitiu um ligeiro sorriso, que rapidamente disfarçou com a mão direita, embaraçado com os seus dentes medonhos.
Entrar no Hyde Park pelo norte, tinha-lhe lembrado Vogel na última reunião. A partir de Bayswater Road. Era o que Neumann estava a fazer. Seguir o caminho até às árvores sobranceiras ao lago. Fazer uma passagem para ter a certeza de que o lugar está limpo. Fazer a aproximação numa segunda passagem. Deixá-la decidir se é para continuar. Ela saberá se é seguro. Ela é muito boa.
O homem baixo apareceu no trilho. Usava um sobretudo de lã e um chapéu de abas. Passou rapidamente, sem olhar para ela. Ela interrogou-se se estaria a perder o poder de atrair os homens.
Ficou à espera debaixo das árvores. As regras para os encontros eram específicas. Se o contacto não aparecer exatamente à hora marcada, ir-se embora e voltar no dia seguinte. Decidiu esperar mais um minuto e depois ir-se embora.
Ouviu os passos. Era o mesmo homem que tinha passado por ela um momento antes. Quase chocou com ela na escuridão.
- Penso que estou mesmo um pouco perdido - disse ele com um sotaque que ela não conseguiu identificar. - Pode indicar-me para que lado fica Park Lane?
Catherine olhou para ele com atenção. Ostentava um sorriso para todas as ocasiões, com os olhos azul-claros a brilharem por baixo da aba do chapéu.
Ela apontou para oeste.
- É para aquele lado.
- Obrigado.
Ele começou a afastar-se e depois voltou-se.
- Quem deve ascender à colina do Senhor? Ou quem deve ficar no seu lugar sagrado?
- Aquele que tem as mãos limpas, e um coração puro; Quem não tenha levado a alma à vaidade, nem tenha jurado falso.
Ele riu-se e disse:
- Catherine Blake, tão certo como eu estar vivo e a respirar. Porque é que não vamos a algum lado quente onde possamos falar?
Catherine procurou dentro da carteira e retirou a lanterna para o blackout.
- Tem uma coisa destas? - perguntou ela.
- Infelizmente, não.
- Isso é um erro estúpido. E erros estúpidos como esse podem matar-nos aos dois.
QUINZE LONDRES
Quando Harry Dalton ainda estava no Met1, era considerado um investigador meticuloso, arguto e implacável, que acreditava que nenhuma pista, por mais trivial que fosse, podia ser descartada. A sua grande oportunidade surgiu em 1936. Duas rapariguinhas tinham desaparecido de um pátio de recreio no East End e Harry foi destacado para a equipa especial de agentes a investigar o caso. Depois de três dias sem dormir e de intenso trabalho, Harry prendeu um vagabundo chamado Spencer Thomas. Harry dirigiu o interrogatório. No seu dia de descanso, chefiou uma equipa de busca a um lugar isolado junto ao estuário do Tamisa, onde Thomas lhe tinha dito que iria encontrar os corpos mutilados das raparigas. Nos dias que se seguiram, encontrou os corpos de uma prostituta em Gravesend, de uma criada em Bristol e de uma dona de casa em Sheffield. Spencer Thomas foi preso num manicómio para criminosos loucos. Harry foi promovido a inspetor.
Nada na sua experiência profissional o tinha preparado para um dia tão frustrante como o que estava a ter. Procurava um agente alemão, mas não tinha uma única pista ou orientação. O seu único recurso era telefonar às forças policiais locais e pedir relatórios de qualquer coisa fora do usual, de qualquer crime que pudesse ter sido
1 Abreviatura para Metropolitan Police Service of London: Serviço da Polícia Metropolitana de Londres. (N. do T.)
cometido por um espião em movimento. Não podia dizer-lhes que andava à procura de um espião, seria uma violação de segurança. Andava à pesca e Harry Dalton detestava pescar.
A conversa que Harry teve com um polícia de Evesham foi típica.
- Como disse que era o seu nome?
- Harry Dalton.
- A telefonar de onde?
- Do Ministério da Guerra em Londres.
- Estou a ver. E o que quer de mim?
- Quero saber se recebeu alguns relatórios de crimes que possam ter sido cometidos por alguém em fuga.
- Tais como?
- Tais como carros roubados, bicicletas roubadas, cupões de racionamento roubados, gasolina. Use a sua imaginação!
- Estou a ver.
- E?
- De facto, tivemos uma participação de uma bicicleta roubada.
- A sério? Quando?
- Esta manhã.
- Isso pode ser alguma coisa.
- As bicicletas são terrivelmente valiosas nos dias que correm. Tinha um traste velho a enferrujar no meu barracão. Tirei-a para fora, limpei-a um pouco, vendi-a a um cabo ianque por dez libras. Dez libras! Dá para acreditar? Aquela coisa não valia dez xelins.
- Isso é interessante. E quanto à bicicleta roubada?
- Aguente um minuto - como é que disse que era o seu nome?
- Harry.
- Harry. Aguente um minuto, Harry... George, ouvimos mais alguma coisa a respeito daquela bicicleta desaparecida em Sheep Street? Sim, essa... O que queres dizer com isso, ele encontrou-a? Onde é que ela estava, raios?.... No meio do pasto? E como é que lá foi parar, raios?... Ai fez? Meu Deus do céu! Ainda está aí, Harry?
- Ainda estou aqui.
- Lamento. Falso alarme.
- Não faz mal. Obrigado por ter procurado.
- Não há problema.
- Se ouvir alguma coisa...
- Será o primeiro a saber, Harry.
- Adeus.
Ao fim da tarde, tinha atendido dezenas de chamadas de polícias das zonas rurais, cada uma mais bizarra do que a outra. Um polícia de Bridgewater telefonou para comunicar uma janela partida.
- Parece um caso de roubo com arrombamento? - perguntou Harry
- Nem por isso.
- Porquê?
- Porque foi o vitral da igreja.
-Certo. Mantenham os olhos abertos.
Um polícia de Skegness informou que alguém tinha tentado entrar nu.mpub fora de horas.
- O homem que procuro pode não estar familiarizado com as leis de licenciamento inglesas - disse-lhe Harry.
- Então vou verificar isso com mais atenção.
- Ótimo. Mantenha-se em contacto. Voltou a telefonar vinte minutos mais tarde.
- Era apenas uma mulher aqui da terra à procura do marido. Um bêbado completo, lamento dizê-lo.
- Raios!
- Lamento, Harry, Não pretendia dar-lhe esperanças.
- Só que deu, mas obrigado por ter verificado isso.
Harry olhou para o relógio: quatro horas, mudança de turno na divisão dos Registos. Grace vinha trabalhar. Pensou: Talvez ainda consiga aproveitar alguma coisa deste dia. Desceu no elevador para a divisão dos Registos e encontrou-a a empurrar um carrinho metálico a transbordar de dossiês. Tinha cabelo curto louro-branco e o batom barato daqueles tempos de guerra, vermelho cor de sangue, dava-lhe um ar de se ter embonecado para um homem. Vestia uma camisola infantil de lã cinzenta e uma saia preta um pouco curta demais. As meias grossas não conseguiam esconder a forma das pernas longas e atléticas.
Ela viu Harry e sorriu-lhe calorosamente. No mundo da divisão dos Registos, Grace era a exceção. Vernon Kell, o fundador do Serviço, achava que só os membros da aristocracia ou os familiares de
agentes do MI5 eram de confiança para um trabalho tão delicado. Em resultado disso, a divisão dos Registos estava sempre povoada por um quadro de funcionárias debutantes muito belas. Grace era uma rapariga da classe média, filha de um professor de liceu. Viu Harry e sorriu calorosamente. Depois, apenas com uma olhadela de lado dos seus bonitos olhos verdes, disse-lhe para ir ter com ela a uma das pequenas salas secundárias. Juntou-se-lhe um momento depois, fechou a porta e deu-lhe um beijo na cara.
- Olá, Harry, querido. Como é que tens passado?
- Muito bem, Grace, é bom ver-te.
Tinha começado em 1940, durante um ataque aéreo noturno a Londres. Abrigaram-se juntos no metropolitano e de manhã, quando se ouviu o aviso de que estava tudo bem, ela levara-o para o seu apartamento e para a sua cama. Era atraente, de uma maneira não convencional, e uma amante arrebatada e desinibida - um agradável e conveniente escape da pressão da agência. Para Grace, Harry era alguém bondoso e meigo que ajudava a passar o tempo até que o marido voltasse do exército.
Podiam ter continuado assim durante toda a guerra. Mas passados três meses, Harry ficou subitamente esmagado pela culpa. O pobre desgraçado está a lutar pela vida no Norte de África e eu estou aqui, em Londres, a ir para a cama com a mulher dele. A culpa provocou nele uma crise ainda maior. Era jovem, talvez devesse estar no exército a arriscar a vida em vez de andar pelo Reino Unido a caçar espiões relativamente inofensivos. Disse a si próprio que o trabalho do MI5 era vital para o esforço de guerra - indispensável -, mas a incómoda dúvida persistiu. O que é que eu faria no campo de batalha? Pegava na minha arma e lutava ou encolhia-me num buraco de trincheira? Contou a Grace o que sentia na noite em que rompeu a ligação. Fizeram amor pela última vez, com beijos salgados das lágrimas. Maldita guerra, não parava ela de dizer. Nojenta, horrorosa e maldita guerra.
- Preciso de um favor, Grace - disse Harry em voz baixa.
- Olha-me só para ti, Harry. Não telefonas, não escreves, não me trazes flores. Depois apareces de repente e dizes que precisas de um favor - respondeu ela, sorrindo e beijando-o outra vez. - Está bem, do que precisas?
- Preciso de ver a lista de acessos a um dossiê. A cara dela fechou-se.
- Vá lá, Harry. Sabes que não posso fazer isso.
- Um homem da Abwehr chamado Vogel. Kurt Vogel.
Uma expressão de reconhecimento surgiu na cara dela e depois dissipou-se.
- Grace, não preciso de te dizer que estamos a trabalhar num caso muito importante.
- Eu sei que estás a trabalhar num caso importante, Harry. Todo o departamento anda a murmurar sobre isso.
- Quando Vicary desceu para ver o dossiê de Vogel, este tinha desaparecido. Foi falar com Jago e, dois minutos depois, tinha o raio da coisa nas mãos. Jago inventou uma história qualquer e disse que tinha sido posto fora do sítio.
Ela estava a esgravatar iradamente nos dossiês do carrinho. Agarrou num monte deles e começou a colocá-los nos respetivos lugares nas prateleiras.
- Eu sei isso tudo, Harry.
- E como é que sabes?
- Porque ele me culpou a mim. O filho da mãe escreveu uma carta de reprimenda e meteu-a no meu processo.
- Quem é que te culpou?
- Jago - sibilou ela
- Porquê?
- Para proteger a pele, claro.
Ela estava outra vez a esgravatar nos dossiês. Harry aproximou-se e pegou-lhe nas mãos para a fazer parar.
- Grace, eu preciso de ver aquela lista de acessos.
- A lista de acessos não te vai dizer nada. A pessoa que tinha o dossiê antes do Vicary não deixa pistas.
- Grace, por favor. Suplico-te.
- Gosto quando suplicas, Harry.
- Sim, eu lembro-me.
- Porque não apareces lá em casa uma noite destas para jantar? Passou a ponta do dedo pelas costas da mão de Harry. Estava
preta de selecionar dossiês.
- Sinto falta da tua companhia. Conversamos, damos umas gargalhadas, nada mais.
- Ia gostar disso, Grace.
Era verdade. Tinha imensas saudades dela.
- Se disseres a alguém onde é que arranjaste isto, Harry, juro por Deus que...
- Fica só entre nós.
- Nem ao Vicary - insistiu ela. Harry pôs a mão sobre o coração.
- Nem ao Vicary.
Grace pegou noutra mão-cheia de dossiês e, a seguir, olhou para ele. com os seus lábios vermelhos, articulou as iniciais BB.
- Como é possível que não tenha uma única pista? - perguntou Basil Boothby quando Vicary se enterrou no sofá fundo e muito confortável.
Sir Basil tinha pedido atualizações noturnas sobre o progresso da investigação. Vicary, conhecedor da paixão de Boothby por receber coisas escritas, sugeriu uma nota concisa, mas Sir Basil quis ser informado em pessoa.
Nessa noite, Boothby tinha um compromisso. Murmurara qualquer coisa sobre os americanos para explicar o facto de estar vestido formalmente quando Vicary entrou no gabinete. Enquanto falava, a sua mão enorme estava empenhada num esforço infrutífero para colocar um botão de punho de ouro no punho engomado da camisa. Sir Basil tinha um criado particular em casa para o auxiliar nessas tarefas fastidiosas. As informações de Vicary ficaram suspensas por um momento enquanto Boothby chamava a sua bonita secretária para o ajudar a vestir-se.
Isso deu a Vicary um momento para processar as informações que Harry lhe tinha dado. Tinha sido Sir Basil a tirar o dossiê de Vogel. Tentou lembrar-se da primeira conversa. O que tinha Sir Basil dito? A divisão dos Registos pode ter alguma coisa sobre ele.
A secretária de Boothby retirou-se silenciosamente. Vicary retomou o relato. Tinham homens a vigiar todas as estações de caminho
de ferro de Londres. Tinham as mãos atadas porque não havia nenhuma descrição dos agentes que deviam procurar. Harry Dalton tinha compilado uma lista dos locais que se sabia serem utilizados pelos agentes alemães para pontos de encontro. Vicary tinha homens a vigiar o maior número possível.
- Dava-lhe mais homens, Alfred, mas não há mais - disse Boothby. - Os vigias estão todos a fazer turnos duplos e triplos. O chefe dos vigias anda a queixar-se de que o Alfred está a dar cabo deles. O frio está a matá-los. Metade já foi apanhada pela gripe.
- Compreendo as dificuldades que os vigias estão a passar, Sir Basil. Estou a utilizá-los o mais sensatamente possível.
Boothby acendeu um cigarro e sorveu o seu gim com angustura enquanto andava de um lado para o outro da sala.
- Temos três agentes alemães à solta no país, fora do nosso controlo. Não preciso de lhe dizer como isto é grave. Se um desses agentes tentar contactar um dos nossos agentes duplos, vamos ter problemas. Todo o aparelho da Operação Double Cross estará em perigo.
- O meu palpite é que não vão tentar contactar outros agentes.
- E porque não?
- Porque acho que Vogel está a dirigir a sua própria operação. Acho que estamos a lidar com uma rede de espiões independente, de que nunca ouvimos falar.
- Isso é apenas um palpite, Alfred. Temos de lidar com factos.
- Já leu alguma vez o dossiê do Vogel? - perguntou Vicary o mais descontraidamente possível.
- Não.
E és um mentiroso, pensou Vicary.
- A julgar pela maneira como este caso se está a desenrolar, eu diria que Vogel manteve uma rede de agentes adormecidos no Reino Unido desde o princípio da guerra. Se tivesse de adivinhar, o agente principal atua em Londres, o subagente algures no interior, onde lhe seja possível acolher um agente rapidamente. O agente que chegou ontem à noite está de certeza aqui para informar o agente principal da missão que tem de realizar. Tanto quanto sabemos, até podem estar a encontrar-se neste preciso momento em que estamos aqui a falar. E nós estamos a ficar cada vez mais para trás.
- Interessante, Alfred, mas é tudo baseado em conjeturas.
- Conjeturas baseadas na experiência, Sir Basil. Na ausência de factos provados, receio que seja o nosso único recurso - retorquiu Vicary, hesitando depois, consciente
da reação que a sua próxima sugestão iria provavelmente gerar. - Entretanto, penso que devíamos marcar uma reunião com o general Betts para o informar dos desenvolvimentos.
A cara de Boothby transformou-se numa carranca zangada. O brigadeiro-general Thomas Betts era o chefe-adjunto dos serviços secretos do SHAEF. Alto, parecido com
um urso, Betts tinha um dos lugares menos invejados de Londres: garantir que nenhum das várias centenas de agentes americanos e ingleses que sabiam o segredo da
operação Overlord revelasse esse segredo ao inimigo, intencional ou não intencionalmente.
- Isso é prematuro, Alfred.
- Prematuro? Sir Basil, foi o senhor que o disse. Temos três espiões alemães à solta.
- Tenho de ir ao fundo do corredor informar o diretor-geral daqui a nada. Se lhe sugerir que comuniquemos as nossas falhas aos americanos, vai cair-me em cima sem dó nem piedade
- Tenho a certeza de que o diretor-geral não será muito duro consigo, Sir Basil - respondeu Vicary, sabendo que Boothby tinha convencido o diretor-geral de que era um elemento indispensável. Além de que dificilmente se poderá considerar uma falha.
Boothby parou de andar de um lado para o outro.
- E o que lhe chamaria?
- Um contratempo temporário. Boothby resfolegou e esmagou o cigarro.
- Não permito que manche a reputação deste departamento, Alfred. Não vou permiti-lo.
- Talvez haja mais uma coisa que deva considerar para além da reputação deste departamento, Sir Basil.
- O quê?
Vicary esforçou-se por sair do sofá fundo e macio.
- Se os espiões tiverem sucesso, podemos muito bem perder a guerra.
- bom, então faça qualquer coisa, Alfred.
- Obrigado, Sir Basil. Não há dúvida de que é um bom conselho.
DEZASSEIS LONDRES
De Hyde Park apanharam um táxi para EarPs Court. Pagaram ao taxista quando faltavam uns quatrocentos metros para o apartamento dela. Durante o pequeno trajeto a pé, voltaram para trás duas vezes e Catherine fingiu que fazia uma chamada de uma cabine telefónica. Não estavam a ser seguidos. A senhoria, de seu nome Hodges, estava à entrada quando chegaram. Catherine deu o braço a Neumann. A senhora Hodges lançou-lhes um olhar de desaprovação quando subiram as escadas.
Catherine estava relutante em levá-lo até ao apartamento. Tinha protegido ciosamente a sua localização e recusado dar a morada a Berlim. A última coisa de que precisava era de um agente do MI5 a bater-Ihe à porta a meio da noite. Mas encontrarem-se em público estava fora de questão: tinham muito para discutir e fazê-lo num café ou numa estação de comboios era muito perigoso.
Observou Neumann à medida que ele dava uma volta pelo apartamento. Conseguia perceber pelo passo preciso e pela economia de gestos que, em tempos, tinha sido soldado. O inglês dele era perfeito. Era evidente que Vogel o tinha escolhido cuidadosamente. Pelo menos, não tinha enviado um amador qualquer para a informar da missão. Ele dirigiu-se à janela da sala de estar, abriu as cortinas e olhou para baixo, para a rua.
- Mesmo que eles estejam lá fora, nunca os conseguirá descobrir - disse Catherine enquanto se sentava.
- Eu sei, mas faz-me sentir melhor se olhar - respondeu ele, afastando-se da janela. - Foi um dia longo. Sabia-me bem uma chávena de chá.
- Tem tudo o que precisa na cozinha. Sirva-se.
Neumann pôs água a ferver no fogão e depois voltou para a sala.
- Como é que se chama? - perguntou-lhe ela. - O seu nome verdadeiro.
- Horst Neumann.
- É soldado. Pelo menos, foi. Qual é o seu posto?
- Sou tenente.
Ela sorriu.
- Bem, eu tenho um posto mais elevado.
- Sim, eu sei... major.
- Qual é o seu nome de cobertura?
- James Porter.
- Deixe-me ver a sua identificação.
Ele entregou-lha. Ela examinou-a cuidadosamente. Era uma falsificação excelente. Devolveu-lha.
- É boa - disse ela. - Mas mostre-a apenas se for absolutamente necessário. Qual é a sua cobertura?
- Fui ferido em Dunquerque e saí do exército por invalidez. Agora, sou caixeiro-viajante.
- E onde está alojado?
- Na costa de Norfolk, numa aldeia chamada Hampton Sands. Vogel tem um agente lá chamado Sean Dogherty. É um simpatizante do IRA e tem uma pequena quinta.
- E como entrou no país?
- De paraquedas.
- Muito impressionante - disse ela com sinceridade.
- E Dogherty acolheu-o? Estava à sua espera?
- Sim.
- Vogel contactou-o por rádio?
- Presumo que sim.
- Isso quer dizer que o MI5 anda atrás de si.
- Penso que avistei dois dos homens deles na Liverpool Street.
- Isso faz sentido. De certeza que andam a vigiar as estações retorquiu ela, acendendo um cigarro. - O seu inglês é excelente. Onde o aprendeu?
Enquanto ele lhe contava a história, Catherine observou-o cuidadosamente, pela primeira vez. Era pequeno e bem constituído: talvez tivesse sido um adeta, um jogador de futebol ou um corredor de fundo. O cabelo era escuro, os olhos de um azul penetrante. Era, obviamente, inteligente - não como alguns dos imbecis que ela tinha conhecido na escola de espiões da Abwehr, em Berlim. Duvidava que alguma vez tivesse estado atrás das linhas inimigas como agente e, contudo, não mostrava quaisquer sinais de nervosismo. Ela tinha mais algumas perguntas antes de ouvir o que ele tinha para dizer.
- Como é que acabou neste tipo de trabalho?
Neumann contou-lhe a história: tinha sido membro dos Fallschirmjàger, tinha visto ação em tantos sítios que já nem se lembrava. Contou-lhe sobre Paris. Sobre a sua transferência para a unidade de escuta da Funkabwehr no norte da França. E, finalmente, sobre o seu recrutamento por Kurt Vogel.
- O nosso Kurt é muito bom a encontrar trabalho para os incansáveis - disse Catherine quando ele acabou. - Então, o que é que Vogel tem em mente para mim?
- Uma missão e depois acabou-se. De volta à Alemanha.
A chaleira chiou. Neumann foi à cozinha e ocupou-se do chá. Uma missão e depois acabou-se. De volta à Alemanha. E com um antigo e altamente competente paraquedista para a ajudar a escapar. Estava impressionada. Sempre assumira o pior, que quando a guerra acabasse seria esquecida no Reino Unido e forçada a defender-se sozinha. Os britânicos e os americanos, assim que a inevitável vitória chegasse, atirar-se-iam aos ficheiros capturados da Abwehr. Encontrariam o nome dela, aperceber-se-iam de que nunca estivera presa e viriam atrás dela. Essa era outra razão por que escondera tanta informação de Vogel, não queria deixar um rasto em Berlim para os inimigos a perseguirem. Mas era óbvio que Vogel queria que ela regressasse à Alemanha e tinha tomado medidas para que isso acontecesse.
Neumann voltou à sala de estar com um bule de chá e duas canecas. Pousou tudo em cima da mesa e sentou-se novamente.
Catheríne perguntou-lhe:
- Qual é o seu trabalho, para além de me informar da minha missão?
- Tudo o que precisar, basicamente. Sou o seu correio, o seu agente de apoio e o seu operador de rádio. Vogel quer que continue a não usar o rádio. Está convencido de que não é seguro. Apenas pode usar o rádio se precisar de mim. Contacta Vogel com um sinal combinado previamente e Vogel contacta-me a mim.
Ela assentiu com a cabeça e depois perguntou:
- E quando acabar tudo? Como é que vamos sair do Reino Unido? E, por favor, não me venha com algo do estilo heróico, como roubar um barco e navegar até França. Porque não é possível.
- Claro que não. Vogel arranjou-lhe um bilhete de primeira classe num submarino.
- Qual?
- O U-509.
- Onde?
- No mar do Norte.
- Isso é muito grande. Onde, exatamente?
- Em Spurn Head, na costa de Lincolnshire.
- Moro aqui há cinco anos, tenente Neumann. Eu sei onde fica Spurn Head. E como chegamos ao submarino?
- Vogel tem um barco e um capitão à nossa espera numa doca do rio Humber. Quando for hora de partir, eu contacto-o e ele leva-nos ao submarino.
Ela pensou: Então, Vogel tem um esquema de fuga montado de que nunca me falou.
Catherine bebericou o chá, observando Neumann por cima da borda da caneca. Era remotamente possível que ele fosse um homem do MI5 a fazer passar-se por um agente alemão. Ela podia entrar em joguinhos idiotas - como testar o alemão dele ou fazer-lhe perguntas sobre um pequeno café conhecido em Berlim -, mas, se ele fosse realmente do MI5, seria suficientemente esperto para evitar uma armadilha tão óbvia. Conhecia a gíria, sabia muita coisa sobre Vogel e a sua história parecia credível. Decidiu deixá-lo continuar. Quando Neumann estava prestes a falar, as sirenes de ataque aéreo soaram.
- Precisamos de levar isto a sério? - perguntou Neumann.
- Viu o edifício que está por trás deste?
Neumann tinha-o visto, uma pilha de tijolos partidos e madeira estilhaçada.
- Onde fica o abrigo mais próximo?
- Ao virar da esquina - respondeu ela, sorrindo-lhe. - Bem-vindo de volta a Londres, tenente Neumann.
Era o início da noite do dia seguinte quando o comboio de Neumann entrou na estação de Hunstanton. Sean Dogherty estava a fumar ansiosamente na plataforma quando ele saiu do comboio.
- Como é que correu? - perguntou Dogherty enquanto se dirigiam para a carrinha.
- Sem problemas.
Dogherty conduzia desconfortavelmente depressa pela estrada sinuosa e esburacada. Era um calhambeque velho, a necessitar urgentemente de uma revisão a julgar pelos barulhos que fazia. Os faróis tinham as proteções do blackout. Um feixe trémulo de uma luz amarela fraca tentava, em vão, iluminar a estrada. Neumann tinha a sensação de estar a percorrer uma casa estranha e escura, com apenas um fósforo como iluminação. Passaram por aldeias desertas e escuras
- Holme, Thornham, Titchwell -, sem luzes acesas, lojas e casas de campo completamente fechadas, sem sinal de estarem habitadas. Dogherty estava a falar-lhe do seu dia, mas Neumann foi deixando gradualmente de o ouvir enquanto pensava na noite anterior.
Tinham-se abrigado apressadamente numa estação de metro como o resto das pessoas e esperado três horas na plataforma fria e húmida pelo aviso da sirene de que já era seguro sair. Ela dormiu durante um bocado, deixando cair a cabeça no ombro dele. Perguntou a si próprio se seria a primeira vez, em seis anos, que ela se sentia segura. Observou-a na escuridão. Era uma mulher espantosamente bonita, mas havia nela uma tristeza distante, talvez uma mágoa de infância, infligida por um adulto negligente. Ela mexeu-se enquanto dormia, perturbada por sonhos. Ele tocou nos caracóis que se espalhavam pelo seu ombro. Quando a sirene soou, ela acordou como um soldado em território inimigo - depressa, com os olhos subitamente
abertos e a mão a procurar a arma mais próxima. No caso dela, era a mala, onde Neumann presumiu que guardava uma pistola ou uma faca.
Falaram até ao amanhecer. Na verdade, ele falara e ela ouvira. Ela nunca falava, exceto para o corrigir quando ele cometia um erro ou contradizia alguma coisa que dissera horas antes. Ela tinha, obviamente, uma mente portentosa, capaz de armazenar grandes quantidades de informação. Não era de estranhar que Vogel tivesse tanto respeito pelas suas capacidades.
Uma madrugada cinzenta espalhava-se por Londres quando Neumann se esgueirou do apartamento dela. Movimentara-se como um homem que deixa a amante, olhando de relance sobre o ombro, perscrutando as caras dos transeuntes à procura de algo suspeito. Durante três horas, vagueou por Londres debaixo de uma chuvinha fria, mudando de direção repentinamente, entrando e saindo de autocarros, olhando para os reflexos das janelas. Decidiu que não estava a ser seguido e voltou para trás, em direção à estação de Liverpool Street.
Dentro do comboio, pousou a cabeça nas mãos e tentou dormir. Não caias no feitiço dela, tinha-o avisado Vogel, em tom de brincadeira, no último dia que passaram juntos na quinta. Mantém uma certa distância. Ela vive em sítios escuros onde tu não queres ir.
Neumann imaginou-a no apartamento, a escutá-lo, à luz fraca, quando ele lhe falara de Peter Jordan e daquilo que ela teria de fazer. Era a sua imobilidade desconcertante que mais o espantava, a maneira como as mãos estavam cruzadas no colo, a maneira como a cabeça e os ombros pareciam nunca se moverem. Apenas os olhos o faziam, saltitando à volta do quarto, deslocando-se de um lado para o outro da cara dele, percorrendo-lhe o corpo para cima e para baixo. Como holofotes. Por momentos, permitiu-se acalentar a fantasia de que ela o desejava. Mas naquele instante, enquanto Hampton Sands se desvanecia na escuridão atrás deles e o chalé de Dogherty lhes aparecia à frente, Neumann chegou a uma conclusão perturbante. Catherine não estava a olhar para ele daquela maneira porque o achava atraente, estava a decidir qual a melhor maneira de o matar se alguma vez precisasse de o fazer.
Neumann tinha-lhe dado uma carta quando se fora embora nessa manhã. Ela tinha-a posto de lado, demasiado aterrorizada para a ler. Naquele momento, com as mãos a tremerem, abriu-a e leu-a deitada
na cama.
Minha querida Anna,
Estou aliviado por saber que te encontras bem e em segurança. Desde que me deixaste toda a
luz da minha vida desapareceu. Rezo para que esta guerra acabe depressa
para que possamos estar juntos novamente. Boa noite, sonhos cor-de-rosa, pequenina.
O teu pai que te adora
Quando acabou de a ler, levou a carta para a cozinha, pegou-lhe fogo e atirou-a para o lava-louças. Chamejou por instantes e depois apagou-se rapidamente. Catherine
abriu a torneira e lançou as cinzas pelo cano abaixo. Suspeitava que fosse uma falsificação - que Vogel a tinha escrito para a manter na linha. O pai, temia ela, já estava morto. Voltou para a cama e ficou acordada na suave luz cinzenta da manhã, a ouvir a chuva a bater na janela. A pensar no pai, a pensar em Vogel.
DEZASSETE
GLOUCESTERSHIRE, INGLATERRA
- Parabéns, Alfred. Entra. Lamento que tenha tido de acontecer desta maneira, mas acabaste de te tornar um homem bastante rico.
Edward Kenton estendeu a mão como se estivesse à espera que Vicary se empalasse nela. Vicary agarrou a mão e apertou-a debilmente antes de passar rente a Kenton, em direção à sala da casa de estar do chalé da tia.
- Está um frio dos diabos lá fora, Alfred - disse Kenton enquanto Vicary examinava a sala.
Já não ia lá desde a guerra, mas nada tinha mudado.
- Espero que não te importes, mas acendi a lareira. Isto parecia uma câmara frigorífica quando cheguei. Também fiz chá. E há leite verdadeiro. Suponho que não se veja muito disso em Londres nesta altura.
Vicary tirou o casaco enquanto Kenton se dirigia para a cozinha. Não era realmente um chalé - isso era o que Matilda insistia em chamar-lhe. Na verdade, era uma casa grande, feita de pedra calcária de Cotswolds, com jardins espetaculares, rodeados por um muro alto. Ela morrera de uma apoplexia na noite em que Boothby atribuíra o caso a Vicary. Tinha planeado assistir ao funeral, mas fora convocado por Churchill nessa manhã, depois de Bletchley Park ter descodificado as mensagens de rádio alemãs. Sentiu-se horrivelmente mal por ter faltado à cerimónia. Matilda tinha-o criado praticamente, depois de a mãe dele morrer quando Vicary tinha doze anos. Tinham
continuado grandes amigos. Ela fora a única pessoa a quem ele falara da sua missão no MI5. O quefaes exatamente, Alfred? Apanho espiões alemães, tia Matilda.
Oh, que bom para ti, Alfred!
Portas envidraçadas davam para os jardins, mortos com o inverno. Às vezes, apanho espiões, tia Matilda, pensou ele. Noutras, eles levam a melhor.
Nessa manhã, Bletchley Park enviara a Vicary mais uma mensagem decifrada vinda de um agente no Reino Unido. Dizia que o encontro tinha sido um sucesso e que o agente tinha aceitado a missão. Vicary estava a perder a esperança em relação às hipóteses de apanhar os espiões. As coisas tinham piorado nessa manhã. Dois homens foram observados a encontrarem-se em Leicester Square e tinham sido detidos para interrogatório. Descobriram que o mais velho era um funcionário superior do Ministério do Interior e que o mais novo era o seu amante. Boothby tinha ficado louco de fúria.
- Como correu a viagem? - perguntou Kenton da cozinha, por cima do tilintar da louça e do barulho da água a correr.
- Bem - respondeu Vicary.
Boothby tinha permitido, relutantemente, que ele levasse um Rover emprestado da divisão dos Transportes.
- Não me consigo lembrar da última vez que fiz uma viagem relaxante pelo campo - disse Kenton. - Mas suponho que a gasolina e os automóveis são apenas algumas das regalias do teu novo emprego.
Kenton entrou na sala com um tabuleiro de chá. Era alto - tão alto como Boothby -, mas sem a mesma corpulência ou agilidade física. Usava óculos redondos demasiado pequenos para a cara e um bigode fininho que parecia ter sido desenhado com um lápis de sobrancelhas feminino. Pousou o chá na mesa à frente do sofá, deitou leite nas chávenas, como se fosse ouro líquido, e depois adicionou o chá.
- Meu Deus, Alfred, há quanto tempo?
Vinte e cinco anos, pensou Vicary. Edward Kenton era amigo de Helen. Até tinham saído juntos algumas vezes, depois de Helen ter acabado o noivado com Vicary. Por coincidência, tornara-se procurador de Matilda, dez anos antes. Vicary e Kenton tinham falado ao telefone várias vezes nos últimos anos, à medida que Matilda ia ficando
demasiado velha para tratar das coisas sozinha, mas era a primeira vez que se viam cara a cara. Vicary desejava que ele conseguisse concluir os negócios da tia morta sem o espectro de Helen a pairar sobre os procedimentos.
- Ouvi dizer que foste designado para o Ministério da Guerra
- disse Kenton.
- É verdade - retorquiu Vicary.
Bebeu meia chávena de chá de um só trago. Era delicioso, muito melhor do que aquela água desenxabida que serviam na cantina.
- O que fazes, exatamente?
- Oh, trabalho num departamento muito aborrecido, faço isto e aquilo - respondeu Vicary, sentando-se. - Desculpa, Martin, detesto apressar as coisas, mas tenho mesmo de voltar para Londres.
Kenton sentou-se à frente de Vicary e tirou uma série de papéis da mala de couro preta. Molhou a ponta do dedo indicador delgado e, cautelosamente, virou as páginas até chegar à adequada.
- Ah, cá está. Eu mesmo elaborei este testamento há cinco anos
- disse ele. - Ela distribuiu algum dinheiro e outras propriedades pelos teus primos, mas deixou-te a maior parte da herança.
- Não fazia ideia.
- Deixou-te a casa e uma grande soma de dinheiro. Ela era uma pessoa frugal. Gastava cuidadosamente e investia sabiamente - explicou Kenton, virando os papéis para Vicary a fim de que este os pudesse ler. - Aqui está o que vai ser teu.
Vicary estava estupefacto; não fazia a mínima ideia. Assim, o facto de ter faltado ao funeral por causa de uns espiões alemães
parecia-lhe ainda mais imoral. Alguma coisa lhe transpareceu na cara porque Kenton disse:
- É uma pena que não tenhas conseguido ir ao funeral, Alfred. Foi mesmo uma cerimónia bonita. Metade da aldeia estava lá.
- Queria ter vindo, mas surgiu uma coisa.
- Tenho alguns papéis para tu assinares para tomares posse da casa e do dinheiro. Se me deres um número de conta em Londres, posso transferir o dinheiro e fechar
as contas bancárias dela.
Vicary passou os minutos seguintes a assinar, em silêncio, uma pilha de documentos legais e financeiros. Quando chegou ao último, Kenton olhou para cima e disse:
- Feito.
- O telefone ainda está a funcionar?
- Sim, ainda agora o utilizei antes de chegares.
O telefone estava na escrivaninha de Matilda, na sala de estar. Vicary pegou no auscultador e olhou para Kenton.
- Martin, se não te importas, é oficial. Kenton forçou um sorriso.
- Não precisas de dizer mais nada, Alfred. vou arrumar a louça. Alguma coisa naquela troca de palavras aqueceu o lado vingativo
do coração de Vicary. A telefonista entrou em linha e ele deu-lhe o número da sede do MI5 em Londres. A ligação demorou alguns momentos a ser estabelecida. Uma telefonista do departamento atendeu e passou a chamada de Vicary para Harry Dalton. Harry atendeu, com a boca cheia de comida.
- O que é a comida hoje? - perguntou Vicary.
- Dizem eles que é um guisado de legumes.
- Alguma novidade?
- Por acaso, acho que sim. O coração de Vicary saltou.
- Tenho andado a remexer nas listas de imigração, só para ver se tínhamos deixado escapar alguma coisa.
As listas de imigração eram a base de toda a luta do MI5 contra os espiões alemães. Em setembro de 1939, quando Vicary ainda fazia parte do corpo docente do University College, o MI5 tinha-se servido dos registos de passaportes e de imigração como a principal ferramenta numa rusga gigantesca com vista a reunir todos os espiões e simpatizantes do nazismo. Os estrangeiros eram classificados em três categorias. Na categoria C, os estrangeiros tinham liberdade completa. Na categoria B, os estrangeiros eram submetidos a certas restrições; alguns não tinham autorização para terem automóveis ou barcos e eram impostos limites às suas movimentações dentro do país. Na categoria A, os estrangeiros eram considerados uma ameaça à segurança e, por isso, eram presos. Presumiu-se que todas as pessoas que tivessem entrado no país antes da guerra e não pudessem ser contabilizadas fossem espiões, tendo sido por isso caçadas. As redes de espionagem alemãs foram identificadas e destruídas praticamente da noite para o dia.
- Uma holandesa chamada Christa Kunst entrou no país em novembro de 1938, em Dover - continuou Harry. - Um ano mais tarde, o corpo dela foi encontrado numa vala rasa, num campo perto de uma aldeia chamada Whitchurch.
- E que tem isso de tão anormal, Harry?
- Tenho um mau pressentimento em relação a isso. O corpo estava em adiantado estado de decomposição quando foi desenterrado. A cara e o crânio tinham sido esmagados. Faltavam-lhe os dentes todos. Usaram o passaporte para fazer a identificação. Estava convenientemente enterrado com o corpo. Parece-me tudo demasiado certinho.
- E onde está o passaporte agora?
- No Ministério do Interior. Mandei um estafeta buscá-lo. Tem uma fotografia. Dizem que ficou bastante danificada enquanto esteve enterrada, mas deve valer a pena dar uma olhadela.
- Otimo, Harry. Não tenho a certeza se a morte dessa mulher tem alguma coisa que ver com este caso, mas, pelo menos, é uma pista.
- Certo, Alfred. A propósito, como correu o encontro com o advogado?
- Oh, apenas alguns papéis para assinar - mentiu Vicary.
De repente, sentiu-se bastante constrangido com a sua nova situação de independência financeira.
- Vou-me embora agora. Devo voltar ao gabinete mais para o final da tarde.
Vicary desligou quando Kenton entrou na sala de estar.
- bom, acho que está tudo - anunciou, entregando a Vicary um grande envelope castanho. - Os papéis estão todos aí, assim como as chaves. Incluí o nome e a morada do jardineiro. Ele terá todo o prazer em servir de zelador.
Vestiram os casacos, fecharam o chalé à chave e saíram. O carro de Vicary estava no caminho de entrada.
- Posso deixar-te em algum lado, Martin?
Vicary sentiu-se aliviado quando Kenton não aceitou o oferta.
- Falei com a Helen no outro dia - disse Kenton de repente. Vicary pensou: Oh, meu Deus.
- Disse-me que te vê de tempos a tempos, em Chelsea.
Vicary pensou se Helen teria falado a Kenton da tarde de 1940, em que ele tinha ficado a olhar para o carro dela a passar, como um colegial idiota. Mortificado,
Vicary abriu a porta do carro, batendo nos bolsos distraidamente, à procura dos óculos em meia-lua.
- Ela pediu-me para te mandar cumprimentos, por isso estou a dar-tos.
- Obrigado - respondeu Vicary, entrando no carro.
- E também mandou dizer que gostava de te ver um dia destes. Pôr a conversa em dia.
- Isso seria ótimo - exclamou Vicary, mentindo.
- Bem, que maravilha. Ela vem a Londres na próxima semana. Iria adorar almoçar contigo.
Vicary sentiu um aperto no estômago.
- À uma hora, no Connaught, de amanhã a uma semana - disse Kenton. - Fiquei de falar com ela mais tarde. Digo-lhe que vais lá estar?
A parte de trás do Rover estava tão fria como uma câmara frigorífica. Vicary sentou-se no grande banco de pele, com as pernas cobertas por uma manta de viagem, e ficou a ver passar os campos de Gloucestershire pela janela. Uma raposa vermelha atravessou a estrada e depois voltou a correr para dentro da cerca. Faisões gordos e sonolentos depenicavam os restos de um milheiral coberto de neve, com os seus casacos de penas enfunados para se protegerem do frio. Galhos de árvores nus riscavam
o céu limpo. À sua frente, abria-se um vale. Ao longe, os campos espraiavam-se como uma manta de retalhos amarrotada. O Sol afundava-se num céu salpicado de tons
de aguarela, violeta e cor de laranja.
Estava zangado com Helen. A sua parte rancorosa queria acreditar que o facto de estar a trabalhar para os serviços secretos britânicos fazia de alguma forma com
que ela o achasse mais interessante. A sua parte racional dizia-lhe que ele e Helen se tinham separado amigavelmente e que um almoço calmo poderia ser muito agradável. Pelo menos, seria uma distração bem-vinda à pressão do caso. Pensou: De que tens tanto medo? De te poderes lembrar que foste realmente feliz durante os dois anos em que ela fez parte da tua vida?
Afastou Helen do pensamento. O telefonema de Harry deixara-o intrigado. Por instinto, tratou o caso como um problema histórico. A sua especialidade era a história
europeia do século xix. Já tinha conquistado a aclamação da crítica pelo livro que escrevera sobre o colapso do equilíbrio do poder na Europa depois do Congresso de Viena, mas Vicary tinha uma paixão secreta pela história e mitologia da Grécia Antiga. Intrigava-o o facto de a maior parte dos estudos sobre essa época se basear em conjeturas: a imensa passagem do tempo e a falta de um registo histórico claro obrigavam a isso. Por exemplo, porque teria Péricles dado início à Guerra do Peloponeso contra Esparta, que acabou por levar à destruição de Atenas? Porque não aceitara as condições do seu maior rival e revogara o decreto de Megara? Teria sido levado
pelo medo da superioridade dos exércitos de Esparta? Teria acreditado que a guerra era inevitável? Teria embarcado numa aventura desastrosa no estrangeiro para aliviar
a pressão que sofria em casa?
Nesse momento, Vicary fazia perguntas semelhantes sobre o seu rival de Berlim, Kurt Vogel.
Qual era o objetivo de Vogel? Vicary acreditava que o objetivo de Vogel tinha sido criar uma rede de agentes adormecidos de elite, no início da guerra, e deixá-los infiltrados até ao momento culminante do confronto. Para que isso tivesse sucesso, tinha de se ter muito cuidado na maneira como se infiltrava o agente dentro do país. Obviamente, Vogel tinha feito isso; o simples facto de o MI5 não ter conhecimento do agente antes confirmava-o. Vogel teria tido de partir do princípio de que os registos de imigração e de controlo de passaportes seriam utilizados para procurar os seus agentes. Vicary teria partido sem dúvida desse princípio se os papéis estivessem invertidos. Mas o que aconteceria se a pessoa que entrou no país fosse dada como morta? Não haveria buscas. Era brilhante. Mas havia um problema - tinha de existir um corpo. Seria possível terem de facto assassinado alguém para trocar de lugar com Christa Kunst?
Os espiões alemães, regra geral, não eram assassinos. Na sua maioria, eram avarentos, aventureiros e fascistas mesquinhos, mal treinados e mal financiados. Mas se
Kurt Vogel tinha estabelecido uma
rede de agentes de elite, estes seriam mais motivados, mais disciplinados e, quase de certeza, mais implacáveis. Seria possível que um desses agentes implacáveis
e altamente treinados fosse uma mulher? Vicary só tinha tratado de um caso que envolvia uma mulher - uma rapariga alemã que conseguira um emprego como empregada
na casa de um almirante britânico.
- Pare na próxima aldeia - disse Vicary ao membro do ramo feminino da Marinha Real Britânica que conduzia o carro. - Preciso de telefonar.
A aldeia chamava-se Aston Magna - na verdade, um lugar sem lojas, apenas um aglomerado de chalés intercetado por um par de ruas estreitas. Um velho estava parado
à beira da estrada, com o cão.
Vicary baixou o vidro da janela do carro e disse:
- Olá.
- Olá.
O homem trazia umas botas de borracha e um casaco de tweed grosso que parecia ter, pelo menos, cem anos. O cão tinha três patas.
- Há algum telefone na aldeia? - perguntou Vicary.
O homem abanou a cabeça. Vicary era capaz de jurar que o cão também estava a abanar a dele.
- Ninguém se incomodou em arranjar um ainda.
A pronúncia do homem era tão carregada que Vicary tinha dificuldade em entendê-lo.
- E onde fica o telefone mais próximo?
- Será em Moreton.
- E onde é que isso fica?
- Siga por aquela estrada ali, depois do celeiro. Vire à esquerda na casa senhorial e siga as árvores até à próxima aldeia. É aí que fica Moreton.
- Obrigado.
O cão ladrou quando o carro arrancou velozmente.
Vicary serviu-se do telefone de uma padaria. Comeu uma sanduíche de queijo enquanto esperava que a telefonista estabelecesse a ligação com o gabinete. Queria partilhar
um pouco da sua nova riqueza e, por isso, pediu duas dúzias de scones para as datilógrafas e para as raparigas da divisão dos Registos.
Harry surgiu na linha.
- Não creio que tenha sido a Christa Kunst que desenterraram da vala em Whitchurch - disse Vicary.
- Então quem foi?
- Isso já é o seu trabalho, Harry. Contacte a Scotland Yard. Verifique se desapareceu alguma mulher por volta dessa altura. Comece por um raio de um par de horas
a partir de Whitchurch, depois amplie a zona, se for necessário. Quando eu voltar ao Ministério da Guerra, informo Boothby.
- E o que lhe vai dizer?
- Que estamos à procura de uma holandesa morta. Ele vai adorar.
DEZOITO
LESTE DE LONDRES
Encontrar Peter Jordan não iria ser um problema. Mas encontrá-lo da maneira certa seria.
As informações de Vogel eram fidedignas. Berlim sabia que Jordan trabalhava em Grosvenor Square, no Comando Supremo das Forças Expedicionárias Aliadas, mais conhecido como SHAEF. A praça era fortemente patrulhada por polícias militares, impenetrável a intrusos. Berlim tinha a morada de Jordan em Kensington e conseguira juntar uma enorme quantidade de informação sobre o seu passado. Só faltava saber todos os passos, minuto a minuto, da rotina diária dele em Londres. Sem isso, Catherine podia apenas deitar-se a adivinhar qual seria a melhor maneira de o abordar.
Ser ela própria a seguir Jordan estava fora de questão, por várias razões. Primeiro, tinha que ver com a sua segurança. Seria demasiado perigoso para ela perseguir um oficial americano pelo West End de Londres. Podia ser vista por um dos polícias militares ou até mesmo pelo próprio Jordan. Se os oficiais se sentissem especialmente diligentes nesse dia, podiam detê-la para um interrogatório. Uma pequena verificação poderia revelar que a verdadeira Catherine Blake tinha morrido trinta anos antes, com oito meses de idade, e que ela era uma agente alemã.
A segunda razão por que não devia seguir Peter Jordan era puramente prática. Era-lhe praticamente impossível fazer bem o trabalho sozinha. Mesmo que Neumann ajudasse, seria difícil. A primeira vez
que Jordan entrasse num carro militar, ela ficaria completamente perdida. Não podia entrar simplesmente num táxi e dizer Siga aquele carro militar americano. Os taxistas sabiam da ameaça que os espiões representavam para os oficiais aliados. O mais provável era ser levada diretamente para a esquadra de polícia mais próxima. Precisava de carros comuns para o seguir, homens desconhecidos para falarem com ele, homens que não dessem nas vistas para se manterem de guarda à porta de casa dele.
Precisava de ajuda.
Precisava de Vernon Pope.
Vernon Pope era uma das maiores e mais bem-sucedidas figuras do mundo do crime de Londres. Pope, juntamente com o irmão Robert, dirigia esquemas de proteção, salões de jogos ilegais, redes de prostituição e uma próspera operação de mercado negro. No início da guerra, Vernon Pope levara Robert às urgências do Hospital St. Thomas com uma ferida grave na cabeça sofrida durante a Blitz. Catherine examinou-o rapidamente, viu que tinha uma concussão e suspeitou que o crânio estivesse fraturado. Fez com que Robert fosse visto por um médico de imediato. Vernon Pope, agradecido, deixou-lhe um bilhete. Dizia: Se houver alguma coisa que possa faerpara lhe agradecer, por favor, não hesite em pedir.
Catherine guardou o bilhete. Estava na sua mala.
Estranhamente, o armazém de Vernon Pope sobrevivera ao bombeamento. Permanecera intacto, uma ilha arrogante rodeada de jardins de destruição. Catherine não se aventurara pelo East End em quase quatro anos. A devastação era chocante. Era difícil ter a certeza de que não estava a ser seguida. Restavam poucas portas onde se abrigar, não havia cabines telefónicas para simular chamadas, não havia lojas para pequenas compras, apenas montanhas sem fim de escombros.
Observou o armazém do outro lado da rua, com uma chuva miudinha e fria a cair. Estava de calças, camisola e um casaco de pele. As portas do armazém abriram-se e três camiões pesados saíram para a rua. Um par de homens bem vestidos voltou a fechar as portas rapidamente, mas, antes disso, Catherine conseguiu dar uma vista de olhos lá para dentro. Havia grande azáfama.
Um grupo de estivadores passou por ela, vindo do turno do dia. Seguiu-os por um momento e depois encaminhou-se para o armazém de Pope.
Havia um pequeno portão com uma campainha elétrica para entregas. Tocou à campainha, não obteve resposta, tocou outra vez. Catherine sentiu que estava a ser observada. Finalmente, o portão abriu-se.
- O que podemos fazer por si, 'morzinho?
Aquela voz agradável com a pronúncia cockney não condizia com a figura diante dela. Ele tinha, pelo menos, um metro e oitenta e cinco, cabelo preto cortado rente ao crânio e óculos pequenos. Vestia um fato cinzento dos caros, com uma camisa branca e uma gravata prateada. Os músculos dos braços preenchiam as mangas do casaco.
- Queria falar com o senhor Pope, por favor.
Catherine entregou o bilhete ao brutamontes. Ele leu-o rapidamente, como se já tivesse visto muitos iguais.
- vou perguntar ao patrão se ele tem um minuto para a atender. Entre.
Catherine entrou pelo portão e ele fechou-o atrás dela.
- As mãos bem levantadas, minha querida; linda menina. Não é nada de pessoal. O senhor Pope pede-o a toda a gente.
O homem de Pope revistou-a. Foi rápido, mas nada profissional. Arrepiou-se quando ele lhe passou as mãos pelo peito. Resistiu à vontade de lhe esmagar o nariz com o cotovelo. Ele abriu a mala, olhou lá para dentro e devolveu-a. Ela já estava à espera disso e tinha vindo desarmada. Sentia-se nua sem uma arma, vulnerável. Da próxima vez, traria uma faca.
Ele conduziu-a pelo armazém. Homens de fato-macaco carregavam caixotes de mercadorias para meia dúzia de carrinhas. No fundo do armazém, havia caixas desde o chão até ao teto, em cima de paletes de madeira: café, cigarros, açúcar e também barris de gasolina. Havia uma frota de motas brilhantes, estacionadas numa fila arrumada. Era óbvio que Vernon Pope tinha um negócio próspero.
- Por aqui, 'morzinho - disse o homem. - A propósito, o meu nome é Dicky.
Conduziu-a até um elevador de carga, fechou as portas e premiu o botão. Catherine tirou um cigarro da mala e meteu-o entre os lábios.
- Desculpe, querida - disse Dicky e abanou um dedo no ar, de modo negativo. - O patrão detesta cigarros. Diz que um dia vamos descobrir que isso nos mata. Além disso, aqui há gasolina e munições suficientes para nos fazerem ir pelos ares até Glasgow.
- E isso é dizer pouco - disse Vernon Pope que se levantou do confortável sofá de pele e começou a andar pelo escritório. Não era simplesmente um escritório, era mais um pequeno apartamento, com uma sala de estar e uma cozinha apetrechada de aparelhos modernos. Havia um quarto atrás de um par de portas em teca preta. Estas abriram-se, por breves instantes, e Catherine vislumbrou uma loura sonolenta, impacientemente à espera que a reunião acabasse. Pope serviu-se de outro uísque. Era alto e bonito, de pele pálida, cabelos claros cheios de brilhantina e olhos cinzentos glaciais. O fato estava muito bem feito e era discreto; podia ser usado por um executivo de sucesso ou por alguém que já nascera rico.
- Já me viste bem isto, Robert? Aqui a Catherine quer que nós gastemos três dias a perseguir um oficial da marinha americana pelo West End.
Robert Pope permaneceu à margem, a andar de um lado para o outro como um lobo cinzento nervoso.
- Isso não é propriamente o nosso tipo de trabalho, minha querida Catherine - disse Vernon Pope. - Além disso, e se os rapazes das secretas ianque ou britânica descobrem o nosso joguinho? com a polícia de Londres, lido eu bem. com o MI5, é outra história.
Catherine tirou um cigarro.
- Importa-se?
- Se tiver mesmo de ser. Dicky, dá-lhe um cinzeiro. Catherine acendeu o cigarro e pôs-se a fumar em silêncio durante
um momento.
- Eu já vi o equipamento que tem lá em baixo, no armazém. Podia montar facilmente o tipo de operação de vigilância de que estou a falar.
- E por que raio é que havia uma enfermeira voluntária do Hospital St. Thomas de querer montar uma operação de vigilância a um oficial dos Aliados, pergunto-te eu, Robert?
Robert Pope sabia que não era para responder à pergunta. Vernon Pope dirigiu-se à janela com o copo na mão. As cortinas do blackout estavam levantadas, o que lhe permitia ver os barcos a trabalharem para cima e para baixo no rio.
- Veja o que os alemães fizeram a este sítio - disse por fim. Costumava ser o centro do mundo, o maior porto à face da terra. E agora, olhe para ele: o raio de um terreno baldio. As coisas nunca mais serão as mesmas por aqui. A Catherine não trabalha para os alemães, pois não?
- Claro que não - respondeu ela calmamente. - As razões que me levam a segui-lo são estritamente pessoais.
- Ótimo. Sou ladrão, mas, ainda assim, patriota. - Fez uma pausa e depois perguntou: - Então para que é que quer que o sigamos?
-- Estou a oferecer-lhe um trabalho, senhor Pope. Francamente, o porquê das minhas razões não lhe diz respeito.
Pope virou-se e encarou-a.
-- Muito bem, Catherine. Você tem coragem. Gosto disso. Além disso, seria uma tonta se me contasse.
As portas do quarto abriram-se e a loura saiu de lá, vestindo um roupão de seda de homem, com cornucópias. Estava frouxamente atado na cintura, revelando um bom par de pernas e pequenos seios arrebitados.
- Vivie, ainda não acabámos - disse Pope.
- Tenho sede - exclamou ela, olhando de soslaio para Catherine enquanto se servia de um gim tónico. - Vais demorar muito mais tempo, Vernon?
- Não muito. Negócios, querida. Volta para o quarto.
Vivie voltou para o quarto, com as ancas a balançarem por baixo do roupão. Olhou de novo para Catherine, por cima do ombro, antes de fechar a porta suavemente.
- Linda rapariga - disse Catherine. - É um homem de sorte. Vernon Pope riu baixinho e abanou a cabeça.
- Às vezes, gostava de poder passar a minha sorte a outro homem. Houve um longo silêncio enquanto Pope andava de um lado para
o outro da sala.
- Estou metido numa data de coisas duvidosas, Catherine, mas não estou a gostar disto. Não estou a gostar mesmo nada disto.
Catherine acendeu outro cigarro. Talvez tivesse cometido um erro ao contactar Vernon Pope com aquela proposta.
- Mas vou fazê-lo. A Catherine ajudou o meu irmão e eu fiz-lhe uma promessa. Sou um homem de palavra. - disse, fazendo uma pausa e olhando-a de cima a baixo. - Além do mais, há qualquer coisa em si de que eu gosto. Muito.
- Fico contente por podermos fazer negócio, senhor Pope.
- Mas vai sair-lhe caro, 'morzinho. Tenho muitas despesas gerais. Tenho de pagar salários. Este tipo de coisa vai ocupar grande parte dos meus recursos.
- Por isso é que vim ter consigo - retorquiu Catherine, tirando um envelope de dentro da mala. - O que lhe parecem duzentas libras? Cem agora e cem quando me der as informações. Quero o comandante Jordan a ser seguido durante setenta e duas horas. Vinte e quatro horas por dia. Quero um relato minuto a minuto dos movimentos dele. Quero saber onde é que ele come, com quem se encontra e de que falam. Quero saber se ele costuma encontrar-se com alguma mulher. Consegue tratar disso, senhor Pope?
- Claro.
- Otimo. Então, contacto-o no sábado.
- E como é que posso entrar em contacto consigo?
- Por acaso, não pode.
Catherine pôs o envelope em cima da mesa e levantou-se. Vernon Pope sorriu agradavelmente.
- Bem me parecia que ia dizer isso. Dicky, acompanha a Catherine até à saída. Arranja-lhe um saco de mercearia. Café, açúcar, talvez um pouco de carne enlatada, se o carregamento já tiver chegado. Coisas boas, Dicky.
- Tenho um mau pressentimento em relação a isto, Vernon disse Robert Pope. - Talvez devêssemos desistir disto.
Vernon Pope odiava ser contestado pelo irmão mais novo. Na sua opinião, era ele que tratava das decisões de negócios e Robert tratava do que exigia músculos.
- Não é nada que não possamos fazer. Mandaste segui-la?
- Dicky e os rapazes trataram disso assim que ela deixou o armazém.
- Otimo. Quero saber quem é essa mulher e o que pretende.
- Talvez pudéssemos virar o jogo a nosso favor. Poderíamos obter favores da polícia se lhes contássemos, em segredo, o que é que ela anda a tramar.
- Não vamos fazer nada disso. Está entendido?
- Talvez devesses pensar mais em negócios do que em molhar o pincel.
Vernon virou-se para ele e agarrou-o pelo pescoço.
- Aquilo que eu faço não é da porra da tua conta. Além do mais, é muito melhor do que aquilo que tu e o Dicky fazem.
Robert corou visivelmente.
- Porque estás a olhar para mim dessa maneira, Robert? Pensas que não sei o que se passa?
Vernon soltou-o.
- Agora, faz-te à estrada, que é esse o teu lugar, e certifica-te de que Dicky não a perde de vista.
Catherine apercebeu-se de que estava a ser seguida dois minutos depois de ter saído do armazém. Já estava à espera disso. Homens como Vernon Pope não se mantêm tanto tempo no negócio se não forem cautelosos e desconfiados. Mas a perseguição era feita de um modo desastrado e amador. Afinal, Dicky tinha sido quem a recebera, a revistara e a levara para dentro. Ela conhecia a cara dele. Foi estúpido da parte deles terem-no posto a segui-la. Despistá-lo seria fácil.
Desceu até uma estação de metro, fundindo-se na multidão do fim da tarde. Atravessou o túnel e emergiu do outro lado da rua. Um autocarro estava ali parado. Entrou e sentou-se ao lado de uma senhora idosa. Através da janela embaciada, observou Dicky a correr pelas escadas acima, com o pânico estampado na cara.
Sentiu um pouco de pena dele. O pobre Dicky não tinha hipóteses contra um profissional e Vernon Pope ia ficar furioso. Mas ela não ia correr riscos: uma corrida de táxi, mais dois ou três autocarros e uma volta pelo West End antes de regressar ao apartamento.
De momento, acomodou-se no assento e aproveitou a viagem.
O quarto estava escuro quando Vernon entrou e, silenciosamente, fechou as portas. Vivie pôs-se de joelhos aos pés da cama. Vernon beijou-a furiosamente. Estava a ser mais bruto do que habitualmente. Vivie achava que sabia porquê. Deslizou a mão por dentro da parte da frente das calças dele.
- Oh, meu Deus, Vernon. Isto é para mim ou para aquela cabra? Vernon abriu o roupão de seda e puxou-o para baixo, fazendo-o
deslizar pelos ombros dela.
- Um bocadinho as duas coisas, na verdade - disse ele e beijou-a de novo.
- Tu querias possuí-la logo ali, no escritório. Vi isso na tua cara.
- Sempre foste uma rapariguinha muito perspicaz. Ela beijou-o novamente.
- Quando é que ela volta?
- No final da semana.
- E como é que se chama?
- Chama-se Catherine.
- Catherine - disse Vivie. - Que nome tão bonito. Ela é linda.
- Pois é - disse Pope distraidamente.
- Em que tipo de negócio é que está metida?
Pope contou-lhe a conversa que tinham tido; não havia segredos entre eles.
- Soa-me a sarilho. Acho que poderíamos tentar exercer alguma pressão sobre ela.
- És uma rapariga muito esperta.
- Não, só muito marota.
- Vivie, eu consigo perceber quando a tua mente está a trabalhar de modo maquiavélico.
Ela riu-se de maneira perversa.
- Tenho três dias para imaginar todas as coisas maravilhosas que podemos fazer com aquela mulher quando ela voltar. Agora, tira as calças, para eu te ajudar a acalmar essa dor.
Vernon Pope fez o que lhe mandaram.
Um momento depois, alguém bateu ao de leve à porta. Robert Pope entrou, sem esperar pela resposta. Uma brecha de luz iluminou parcialmente o local. Vivie olhou para cima, desavergonhada, e sorriu. Vernon explodiu de raiva.
- Quantas vezes é que tenho de te dizer para não entrares quando a porta estiver fechada?
- É importante. Ela escapou-se.
- Raios! E como é que isso aconteceu?
- Dicky jura que num minuto ela estava lá e, no minuto seguinte, já não estava. Desapareceu pura e simplesmente.
- Pelo amor de Deus!
- Ninguém consegue fugir ao Dicky. Ela é obviamente uma profissional. Temos de ficar o mais longe possível dela.
Vivie sentiu uma facada de pânico.
- Sai daqui e fecha a porta, Robert.
Quando Robert saiu, Vivie lambeu Vernon de modo provocante.
- Não vais fazer o que aquele mariconcozinho te disse, pois não, Vernon?
- Claro que não.
- Otimo -? disse ela. - Ora, onde é que nós estávamos?
- Oh, meu Deus - gemeu Vernon.
DEZANOVE LONDRES
Na manhã seguinte, muito cedo, Robert Pope e Richard Dicky Dobbs tiveram a sua estreia involuntária no mundo da espionagem em tempo de guerra, com uma vigilância improvisada e apressada ao comandante Peter Jordan que teria feito os vigias do MI5 ficarem verdes de inveja.
Tudo começou antes da madrugada húmida e gelada, quando o par chegou à casa eduardiana de Jordan, em Kensington, numa carrinha com painéis preta, carregada com caixas de comida enlatada na parte de trás e exibindo na parte lateral o nome de uma mercearia do West End. Esperaram lá até perto das oito horas, com Pope a dormitar e Dicky a mascar nervosamente um pão doce mal cozido e a beber café de um copo de papel. Vernon Pope tinha-o ameaçado com lesões corporais graves por causa da perseguição falhada à mulher na noite anterior. Não iria perder Peter Jordan de vista por nada deste mundo. Dicky, considerado o melhor condutor do mundo do crime de Londres, tinha jurado secretamente perseguir Jordan pelos relvados do Green Park se fosse preciso.
Mas tais peripécias automobilísticas não seriam necessárias, pois, às 7h55, um carro militar americano apareceu à porta de casa de Jordan e tocou a buzina. A porta
da casa abriu-se e apareceu um homem de estatura e constituição medianas. Usava um uniforme da marinha americana, um boné branco e um sobretudo escuro. Trazia pendurada
na mão uma pasta em couro fino. Desapareceu na parte de trás do
carro e fechou a porta. Dicky estava tão intensamente concentrado em Jordan que se esqueceu de ligar o motor. Quando tentou fazê-lo, pegou uma vez e foi abaixo. Amaldiçoou-o, ameaçou-o e bajulou-o antes de tentar outra vez. Desta vez, a carrinha pegou ruidosamente e a vigilância silenciosa a Peter Jordan começou.
Grosvenor Square iria apresentar-lhes o primeiro desafio. Estava apinhada de táxis, viaturas de serviço e oficiais aliados a deslocarem-se apressadamente em várias direções. O carro de Jordan atravessou a praça, entrou numa rua secundária adjacente e parou diante de um pequeno edifício sem identificação. Permanecer na rua era impossível. Havia veículos estacionados de ambos os lados e apenas uma via para o trânsito. Um polícia militar americano de capacete branco rondava para cima e para baixo, balouçando preguiçosamente o bastão. Pope saltou do carro e caminhou pela rua, para trás e para a frente, enquanto Dicky andava em círculos. Dez minutos depois, Jordan saiu do edifício com uma pasta pesada algemada ao pulso.
Dicky apanhou Pope e voltou para Grosvenor Square, chegando a tempo de ver Jordan a entrar pela porta da frente do quartel-general do SHAEF. Encontrou um lugar para estacionar, em Grosvenor Street, com um campo de visão desimpedido, e desligou o motor. Poucos minutos depois, tiveram um vislumbre do general Eisenhower a exibir um dos seus famosos sorrisos antes de desaparecer pela entrada.
Mesmo que tivesse sido treinado pelo MI5, Pope não poderia ter executado melhor as ações seguintes. Concluiu que não podiam vigiar o edifício apenas com um posto estático; era um complexo enorme, com diferentes entradas e saídas. Servindo-se de um telefone público, ligou para o armazém e pediu a Vernon três homens. Quando chegaram, colocou um atrás do edifício, em Blackburn Street, outro em Upper Brook Street e o terceiro em Upper Grosvenor Street. Duas horas depois, Pope ligou outra vez para o armazém e pediu três caras novas - não era seguro para civis demorarem-se pelas instalações americanas. Se Vicary e Boothby tivessem podido ouvir essa conversa, teriam provavelmente rido da ironia, pois, como qualquer supervisor e qualquer agente de campo bons, Vernon e Robert discutiram azedamente por causa dos recursos. No entanto, o que estava
em jogo era diferente. Vernon precisava de um par de homens bons para irem buscar um carregamento de café roubado e para tratarem de um comerciante que se tinha atrasado nos pagamentos de proteção.
Trocaram de veículos ao meio-dia. A carrinha da mercearia foi substituída por uma carrinha idêntica, com o nome de um serviço de lavandaria fictício estampado na parte lateral. Foi preparada tão rapidamente que a palavra lavandaria estava escrita lavandria e os sacos de roupa brancos, empilhados na parte de trás, estavam cheios de jornais velhos amassados. Às duas horas, trouxeram-lhes um termos de chá e um saco com sanduíches. Uma hora mais tarde, tendo acabado de comer e de fumar alguns cigarros, Pope começou a ficar cada vez mais nervoso. Jordan encontrava-se lá dentro há quase sete horas. Estava a ficar tarde. Todos os lados do edifício se encontravam sob vigia. Mas se Jordan saísse já na escuridão do blackout, seria quase impossível vê-lo. Mas, às quatro horas, quando a luz já quase tinha desaparecido, Jordan deixou o edifício pela porta principal, em Grosvenor Square.
Repetiu o mesmo circuito da manhã, mas ao contrário. Atravessou a praça em direção ao edifício mais pequeno, com a mesma pasta pesada algemada ao pulso, e entrou. Apareceu uns momentos depois, trazendo a pequena pasta que tinha de manhã. A chuva tinha parado e Jordan decidira, aparentemente, que seria uma boa ideia dar um passeio. Dirigiu-se para oeste, depois virou para sul em direção a Park Lane. Segui-lo de carrinha era impossível. Pope saltou da carrinha e foi atrás de Jordan ao longo do passeio, mantendo-se a alguns metros de distância.
Era mais difícil do que Pope imaginava. O grande hotel Grosvenor House, em Park Lane, tinha sido tomado por americanos e transformado em alojamento para oficiais. Dezenas de pessoas atolavam o passeio. Pope aproximou-se de Jordan para ter a certeza de que não o perdia ou confundia com outro homem. Um polícia militar olhou para Pope quando ele atravessou por entre a multidão, atrás de Jordan. Em algumas ruas do West End, os ingleses davam tanto nas vistas como aconteceria em Topeka, rio Kansas. Pope ficou tenso. Depois apercebeu-se de que não estava a fazer nada de mal. Estava simplesmente a andar pela rua no seu próprio país. Descontraiu-se
e o polícia militar olhou noutra direção. Jordan passou pelo Grosvenor House. Pope seguia atrás dele com grande cautela.
Pope perdeu-o em Hyde Park Corner.
Jordan desapareceu na multidão de soldados e civis britânicos à espera para atravessar a rua. Quando o sinal mudou, Pope seguiu um oficial da marinha americana, mais ou menos da altura de Jordan, ao longo de Grosvenor Place. Depois, olhou para baixo e apercebeu-se de que o oficial não trazia nenhuma pasta. Parou e olhou para trás, esperando que Jordan ali estivesse. Tinha desaparecido.
Pope ouviu uma carrinha a buzinar na rua e olhou para cima. Era Dicky.
- Ele está em Knightsbridge - disse Dicky. - Entra.
Dicky executou uma inversão de marcha perfeita no meio do zumbido do trânsito noturno. Pope avistou Jordan um momento mais tarde e suspirou de alívio. Dicky encostou e Pope saltou para fora da carrinha. Determinado a não perder o homem outra vez, Pope aproximou-se, ficando a poucos metros dele.
O Vandyke Club era um clube para oficiais americanos em Kensington, proibido a civis britânicos. Jordan entrou. Pope caminhou um pouco mais, passando pela porta de entrada, e depois voltou para trás. Dicky tinha encostado junto ao passeio, do outro lado da rua. Pope, sem fôlego e gelado, entrou na carrinha e fechou a porta. Acendeu um cigarro e acabou o resto do chá do termos. A seguir, disse:
- Da próxima vez que o comandante Jordan decidir atravessar Londres inteira, sais tu do carro e vais com ele, Dicky.
Jordan saiu quarenta e cinco minutos depois.
Pope pensou: Por favor, meu Deus, mais uma marcha forçada, não.
Jordan aproximou-se do passeio e apanhou um táxi.
Dicky ligou a carrinha e meteu-se cuidadosamente no trânsito. Seguir o táxi era fácil. Dirigiu-se para leste, passando por Trafalgar Square e entrando na Strand; depois de percorrer uma pequena distância, virou à direita.
- Assim está melhor - disse Pope.
Observaram Jordan a pagar ao taxista e a entrar no Savoy Hotel.
A grande maioria dos civis britânicos sobreviveu à guerra consumindo quantidades de alimentos que não ultrapassavam o nível da subsistência, à volta de cem gramas de carne e queijo por semana uns decilitros de leite, um ovo se tivessem sorte, iguarias como pêssegos ou tomates enlatados muito de vez em quando. Ninguém passava fome, mas poucos engordavam. Mas havia outra Londres, uma Londres de restaurantes elegantes e hotéis sumptuosos, que asseguravam um fornecimento estável de carne, peixe, vegetais, vinho e café no mercado negro e depois cobravam preços exorbitantes aos clientes pelo privilégio de um jantar. O Savoy Hotel era um desses estabelecimentos.
O porteiro usava um sobretudo verde, debruado a prata, e uma cartola. Pope passou por ele apressadamente e entrou. Atravessou o vestíbulo do Savoy e entrou no salão. Havia homens de negócios ricos reclinados em poltronas confortáveis, lindas mulheres em vestidos de noite à moda daqueles tempos de guerra, dezenas de oficiais americanos e britânicos de uniforme, aristocratas rurais vestidos de tweed e chegados do campo para passarem uns dias na cidade. Enquanto seguia Jordan pelo meio da multidão,
Pope sentia uma reação confusa àquele cenário de opulência. Os ricos do West End levavam uma bela vida, ao passo que os desfavorecidos do East End andavam esfomeados
e eram os que mais sofriam com os bombardeamentos. No entanto, ele e o irmão tinham feito fortuna no mercado negro. Descartou a disparidade como uma consequência infeliz da guerra.
Pope seguiu Jordan até ao bar do Savoy Grill. Jordan estava sozinho no meio da multidão, tentando, em vão, chamar a atenção do empregado para pedir uma bebida. Pope estava a poucos passos dele. Conseguiu chamar a atenção do empregado e pediu um uísque. Quando se virou, Jordan já estava acompanhado por um oficial da marinha americana muito alto, de cara vermelha e sorriso bem-humorado. Pope aproximou-se mais para poder ouvir a conversa.
O homem alto disse:
- Hitler devia vir aqui e tentar conseguir uma bebida numa sexta-feira à noite. De certeza que iria reconsiderar a ideia de querer invadir este país.
- Queres tentar a sorte no Grosvenor House? - perguntou Jordan.
- No Willow Run? Estás doido? O chefe de cozinha francês despediu-se no outro dia. Pediram-lhe que preparasse as refeições com as rações
e e ele recusou-se.
- Parece que é o último homem com juízo em Londres.
- Também acho.
- E o que é preciso fazer para se conseguir uma bebida neste sítio?
- Normalmente isto resulta: dois martínis, por amor de Deus! O empregado do bar olhou para cima, sorriu e pegou numa garrafa de Beefeater.
- Como está, senhor Ramsey.
- Olá, William.
Pope memorizou esse pormenor. O amigo de Jordan chamava-se Ramsey.
- Essa foi boa, Shepherd. Pope pensou: Shepherd Ramsey.
- Ajuda mesmo ser um palmo mais alto do que toda a gente.
- Fizeste reserva? Esta noite, não conseguimos mesmo entrar no Grill sem reserva.
- Claro que fiz, meu velho. A propósito, por onde raio andaste? Tentei ligar-te a semana passada. Deixei o telefone da tua casa tocar e tocar: não houve resposta. Também telefonei para o teu gabinete. Disseram que não podias atender. Liguei outra vez no dia seguinte, a mesma história. Que raio andavas a fazer para não poderes atender o telefone durante dois dias?
- Não tens nada que ver com isso.
- Ah, ainda estás a trabalhar naquele teu projeto?
- Deixa lá isso, Shepherd, ou dou-te uma tareia aqui mesmo, neste bar.
- Só em sonhos, meu caro. Além disso, se fizeres uma cena aqui, onde raio é que iremos tomar a nossa bebida? Nenhum estabelecimento decente iria aceitar um tipo como tu.
- Bem visto.
- Então, quando me vais contar em que é que andas a trabalhar?
- Quando a guerra acabar.
- Tão importante, ha?
- Sim.
- Bem, pelo menos um de nós anda a fazer alguma coisa importante - atirou Shepherd Ramsey, acabando a bebida. - William, mais dois, por favor.
- Vamos embebedar-nos antes do jantar?
- Só quero que descontraias, mais nada.
- Isto é o máximo que consigo descontrair. O que estás a planear, Shepherd? Conheço esse tom de voz.
- Nada, Peter. Jesus, tem calma.
- Conta-me. Sabes que detesto surpresas.
- Convidei umas pessoas para se juntarem a nós esta noite.
- Pessoas?
- Raparigas, na verdade. Por acaso, acabaram de chegar.
Pope seguiu o olhar de Jordan até à entrada do bar. Estavam lá duas mulheres, ambas jovens, ambas muito atraentes. As mulheres avistaram Shepherd Ramsey e Jordan e juntaram-se-lhes no bar.
- Peter, apresento-te a Barbara, mas todos lhe chamam Baby.
- Isso é compreensível. Prazer em conhecer-te, Barbara. Barbara olhou para Shepherd.
- Céus, tinhas razão! Ele é um borracho - disse ela com uma pronúncia da classe operária de Londres. - Vamos comer no Grill?
- Sim. De facto, a nossa mesa deve estar pronta.
O maítre d'hôtel indicou-lhes a mesa. Não havia maneira de Pope ouvir a conversa deles a partir do bar. Precisava de estar sentado na mesa mais próxima. Olhando pela entrada da sala de jantar, Pope conseguiu ver que a mesa ao lado da deles estava vazia, mas tinha um pequeno aviso de reserva. Não há problema, pensou ele. Rapidamente, atravessou o bar e saiu para a rua. Dicky estava à espera dentro da carrinha. Pope fez-lhe sinal para entrar no hotel. Dicky saiu da carrinha e atravessou a rua.
- O que se passa, Robert?
- Vamos jantar. Preciso que faças a reserva.
Pope mandou Dicky falar com o maítre d'hótel Da primeira vez que Dicky pediu uma mesa, o maítre d'hôtel abanou a cabeça, franziu
a testa e abanou as mãos a mostrar que não havia mesas. Foi então que Dicky se baixou e lhe sussurrou qualquer coisa ao ouvido que o fez ficar branco e começar a tremer. Momentos depois, estavam a sentá-los na mesa ao lado da de Peter Jordan e Shepherd Ramsey.
- O que lhe disseste, Dicky?
- Disse-lhe que se ele não nos desse esta mesa, eu lhe arrancava a maçã de Adão e a atirava para dentro daquela frigideira flamejante.
- Bem, o cliente tem sempre razão. É o que eu digo. Abriram as ementas.
- Vais começar pelo salmão fumado ou pelo patê defoiegras? perguntou Pope.
- Pelos dois, acho eu. Estou esfomeado. Não te parece que eles sirvam salsichas e puré, pois não, Robert?
- Nem pensar nisso. Experimenta o coq au vin. E agora cala-te para eu ouvir o que estes ianques estão a dizer.
Foi Dicky que os seguiu depois do jantar. Observou-os a enfiarem as duas mulheres dentro de um táxi e a começarem a andar pela Strand.
- Podias ao menos ter sido educado - disse Shepherd Ramsey.
- Desculpa, Shepherd. Não tínhamos muito que dizer um ao outro.
- E o que há para dizer? Tomas umas bebidas, ris-te um pouco, leva-la para casa e passas uma ótima noite na cama. Sem perguntas.
- Tive dificuldade em ultrapassar o facto de ela estar sempre a usar a faca para verificar o batom.
- Sabes o que ela te podia ter feito com aqueles lábios? E reparaste bem no que ela trazia por baixo do vestido? Meu Deus, Peter, aquela rapariga tem uma das piores reputações aqui em Londres.
- Peço desculpa se te desapontei, Shepherd, mas não estava interessado.
- Bem, e quando é que vais voltar a estar interessado?
- De que estás a falar?
- Há seis meses prometeste que ias começar a sair.
- Eu gostava de conhecer uma mulher adulta inteligente e interessante, mas não preciso que andes por aí à procura - lançou Jordan, acendendo um cigarro e abanando o fósforo furiosamente. - Ouve, Shep, desculpa. Mas é que...
- Não, tu tens razão. Não tenho nada que ver com isso. É só que a minha mãe morreu quando o meu pai tinha quarenta anos. Ele nunca voltou a casar. E o resultado disso foi que morreu sozinho e amargurado. Não quero que te aconteça a mesma coisa.
- Obrigado, Shepherd, não vai acontecer.
- Nunca vais encontrar outra mulher como Margaret.
- Diz-me algo que eu não saiba.
Jordan fez sinal a um táxi para parar e entrou.
- Posso dar-te boleia?
- Na verdade, já tenho um compromisso.
- Shepherd.
- Ela vai encontrar-se comigo no meu quarto daqui a meia hora. Não consegui resistir. Perdoa-me, mas a carne é fraca.
- Mais do que a carne. Diverte-te, Shep.
O táxi arrancou. Dicky afastou-se e procurou a carrinha. Passados uns segundos, Pope encostou ao passeio e Dicky entrou. Seguiram o táxi de regresso a Kensington, viram Peter Jordan entrar em casa e ficaram ali parados durante meia hora, à espera que o turno da noite chegasse.
VINTE LONDRES
Tinha sido a incapacidade de Alfred Vicary para reparar uma mota que o levara a ficar com o seu joelho estilhaçado. Aconteceu num dia glorioso de outono, no norte
da França e sem sombra de dúvida que foi o pior dia da sua vida.
Vicary tinha acabado uma reunião com um espião que penetrara nas linhas inimigas, num setor onde os britânicos planeavam atacar na madrugada do dia seguinte. O espião
tinha descoberto um enorme acampamento de soldados alemães. O ataque, se acontecesse como planeado, encontraria grande resistência. O espião deu a Vicary um bilhete escrito à mão sobre a força das tropas alemãs e o número de peças de artilharia que tinha visto. Também lhe deu um mapa que mostrava exatamente onde é que estavam acampados. Vicary guardou-os no seu alforge de couro e voltou para o quartel-general.
Vicary sabia que levava informações de importância vital, estavam vidas em jogo. Acelerou a fundo e seguiu perigosamente depressa pelo trilho estreito. Arvores grandes alinhavam-se de ambos os lados do caminho, com um dossel de ramos por cima da sua cabeça e a luz do Sol nas folhas de outono a criar um túnel cintilante de fogo. O caminho subia e descia, ritmicamente, por baixo dele. Por várias vezes, sentiu a vertigem emocionante provocada pela sua mota Rjídge a pairar no ar durante um segundo ou dois.
O chocalhar do motor começou a dezasseis quilómetros do quartel-general. Vicary abrandou. No quilómetro seguinte, o chocalhar
progrediu para um ruído alto. Mais um quilómetro e ouviu um barulho de metal a partir, seguido de um grande estrondo. O motor perdeu a força repentinamente e parou.
Sem o roncar da mota, o silêncio era opressivo. Inclinou-se e olhou para o motor. O metal oleado e quente e os cabos retorcidos não lhe diziam nada. Lembrava-se de ter pontapeado a mota e de ter pensado se a deixava ali na berma ou se a arrastava até ao quartel-general. Vicary agarrou-a pelo guiador e começou a empurrá-la num ritmo acelerado.
A luz da tarde diminuiu até se transformar num crepúsculo de um rosa frágil. Ainda estava a quilómetros do quartel-general. Se tivesse sorte, talvez encontrasse alguém do seu lado que lhe desse boleia. Se tivesse azar, podia encontrar-se cara a cara com uma patrulha de batedores alemães.
Quando o último raio de luz se extinguiu, começaram os disparos de artilharia. Os primeiros projéteis não causaram mossa, aterrando inofensivamente num campo. Os projéteis seguintes voaram por cima da cabeça de Vicary e bateram numa encosta. A terceira saraivada aterrou no trilho mesmo à frente dele.
Vicary nem se apercebeu do projétil que o feriu.
Quando recuperou a consciência às primeiras horas da noite, estava caído, a congelar, numa vala. Olhou para baixo e quase desmaiou quando viu o joelho, uma confusão
de ossos estilhaçados e sangue. Obrigou-se a rastejar para fora da vala e voltou para o trilho. Encontrou a mota e desmaiou ao lado dela.
Vicary acordou, na manhã seguinte, num hospital de campanha. Apercebeu-se de que o ataque tinha ido para a frente porque o hospital estava sobrelotado. Ficou deitado
na cama o dia inteiro, com a cabeça atordoada numa neblina sonolenta causada pela morfina, a ouvir os gemidos dos feridos. Ao cair da noite, o rapaz da cama ao lado
morreu. Vicary fechou os olhos para tentar calar o som do estertor da morte, mas não conseguiu.
Brendan Evans - o amigo de Cambridge que tinha ajudado Vicary a entrar para o Corpo dos Serviços Secretos - veio vê-lo na manhã seguinte. A guerra tinha-o mudado.
O seu ar de menino bonito desaparecera. Parecia um homem endurecido e algo cruel. Brendan puxou de uma cadeira e sentou-se ao lado da cama.
- A culpa é toda minha - disse Vicary. - Eu sabia que os alemães estavam à espera. Mas a minha mota avariou-se e eu não consegui arranjar aquela porcaria. E depois começaram os disparos de artilharia.
- Eu sei. Encontraram os papéis no teu alforge. Ninguém te ; culpa. Foi apenas o raio de um grande azar, só isso. Em qualquer caso, provavelmente não podias ter feito nada para reparar a mota.
Às vezes, Vicary ainda ouvia os gritos dos moribundos durante : o sono, mesmo agora, quase trinta anos depois. Nos últimos dias, os
sonhos tinham dado uma reviravolta, sonhava que tinha sido Basil Boothby a sabotar-lhe a mota.
Já leu alguma ve o dossiê de Vogel?
Não.
Mentiroso. Um perfeito mentiroso.
Vicary tentou abster-se das comparações inevitáveis entre o antes e o depois, mas era impossível. Não acreditava no destino, mas algo ou alguém lhe tinha dado uma
segunda oportunidade, uma oportunidade para se redimir do falhanço daquele dia de outono em 1916.
Vicary pensou que a festa no pub do outro lado da rua, em frente do quartel-general do MI5, o ajudasse a tirar o caso da cabeça. Mas não ajudou. Permaneceu à margem,
a pensar na França, contemplando a cerveja, a observar, enquanto outros oficiais namoriscavam as bonitas datilógrafas. Nicholas Jago estava a portar-se muito bem ao piano.
Foi sacudido do seu transe quando uma das rainhas da divisão dos Registos começou a cantar "I'll Be Seeing You". Era uma loura atraente, de lábios carmesim, chamada Grace Clarendon. Vicary sabia que ela e Harry tinham tido um caso bastante público no início da guerra. Vicary compreendia bem a atração. Grace era resplandecente, espirituosa e mais inteligente do que o resto das raparigas da divisão dos Registos. Mas também era casada e Vicary não aprovava. Não dizia a Harry o que achava; não era da sua conta. Pensou: Além disso, quem sou eu para me pôr com sermões em questões do coração? Suspeitava que tinha sido Grace que tinha dado a Harry as informações sobre Boothby e o dossiê Vogel.
Harry entrou no pub, embrulhado no sobretudo. Piscou o olho a Grace e, a seguir, dirigiu-se a Vicary e disse-lhe:
- Vamos voltar para o gabinete. Temos de falar.
- Ela chamava-se Beatrice Pymm. Vivia sozinha num chalé nos arredores de Ipswich - começou a dizer Harry enquanto subiam as escadas até ao gabinete de Vicary e depois de ter passado várias horas em Ipswich de manhã, a pesquisar o passado de Beatrice Pymm. Sem amigos, nem família. A mãe morreu em 1936. Deixou-lhe o chalé e uma soma razoável de dinheiro. Não tinha emprego. Não tinha namorados, nem amantes, nem sequer um gato. A única coisa que fazia era pintar.
- Pintar? - perguntou Vicary.
- Sim, pintar. As pessoas com quem falei disseram que ela pintava quase todos os dias. Saía de casa de manhã cedo, ia para o campo em redor e passava o dia todo a pintar. Um detetive da Polícia de Ipswich mostrou-me uns quantos quadros dela, paisagens. Muito bons, por acaso.
Vicary franziu a testa.
- Não sabia que tinha olho para a arte, Harry.
- Pensa que os rapazes de Battersea não sabem apreciar as coisas finas? Pois sempre lhe digo que a minha santa mãezinha me arrastava regularmente para a National Gallery.
- Peço desculpa, Harry. Por favor, continue.
- Beatrice não tinha carro. Ou ia de bicicleta, ou a pé, ou apanhava um autocarro. Costumava pintar durante horas, especialmente no verão, quando a luz era boa e perdia o último autocarro para casa. Os vizinhos viam-na chegar ao chalé a pé, já tarde, carregando o material de pintura. Dizem que passava a noite em sítios horríveis, só para apanhar o nascer do Sol.
- E o que é que eles acham que lhe aconteceu?
- A versão oficial da história: afogamento acidental. As coisas dela foram encontradas nas margens do Orwell, incluindo uma garrafa de vinho vazia. A polícia acha que ela bebeu demasiado, perdeu o equilíbrio, escorregou para dentro de água e se afogou. Não encontraram o corpo. Investigaram durante algum tempo, mas não conseguiram encontrar nenhuma prova que sustentasse outra teoria. Declararam a morte por afogamento acidental e fecharam o caso.
- Parece-me uma história muito plausível.
- Claro, pode ter acontecido dessa maneira. Mas duvido. Beatrice Pymm estava bastante familiarizada com aquela zona. Porque é que, nesse dia em particular, teria bebido demais e caído ao rio?
- E qual é a teoria número dois?
- A teoria número dois é a seguinte: ela foi apanhada pela nossa espia, ao entardecer, esfaqueada no coração e o corpo foi enfiado numa carrinha. As coisas dela foram deixadas na margem do rio para que parecesse um afogamento acidental. Na realidade, a
espiã atravessou parte do país com o corpo, mutilou-o e enterrou-o à
saída de Whitchurch.
Chegaram ao escritório de Vicary e sentaram-se. Vicary à secretária e Harry à frente dele. Harry recostou-se na cadeira e pôs os pés em cima da secretária.
- Isso são tudo suposições ou tem alguns factos que corroborem esta sua teoria?
- Metade uma coisa e metade a outra, mas tudo isto bate com a sua suspeita de que Beatrice Pymm foi assassinada com o objetivo de esconder a entrada da espia no país.
- Sou todo ouvidos.
- vou começar pelo cadáver. O corpo foi descoberto em agosto de 1939. Falei com o patologista do Ministério do Interior que o examinou. A julgar pela decomposição, calculou que tivesse estado enterrado durante seis a nove meses. Isso, já agora, é consistente com o assassinato de Beatrice Pymm. Os ossos da cara foram quase todos estilhaçados. Não havia dentes para comparar registos dentários. Não se podiam tirar impressões digitais porque as mãos estavam demasiado decompostas. Ele não conseguiu determinar a causa de morte. Mas encontrou uma pista interessante, um corte na parte inferior das costelas do lado esquerdo. Aquele corte era consistente com a hipótese de esfaqueamento no peito.
- E o Harry diz que a assassina pode ter usado uma carrinha? Que prova é que tem?
- Perguntei à polícia local se havia relatórios de crimes ou distúrbios em Whitchurch na noite em que Beatrice Pymm foi assassinada. Por coincidência, uma carrinha
foi abandonada e deliberadamente queimada nos arredores de uma aldeia chamada Alderton. Verificaram a matrícula da carrinha.
- Roubada em Londres dois dias antes. Vicary levantou-se e começou a passarinhar.
- Então, a nossa espiã está no meio de nenhures, com uma carrinha em chamas na berma da estrada. E para onde é que ela vai a seguir? O que é que ela faz?
- Vamos partir do princípio de que ela volta para Londres. Manda parar um dos carros ou camiões que passam e pede boleia. Ou talvez caminhe até à estação mais próxima
e apanhe o primeiro comboio para Londres.
- Demasiado arriscado - afirmou Vicary. - Uma mulher sozinha, no meio do campo a altas horas da noite, seria bastante invulgar. E é novembro, por isso, também está frio. Podia ser avistada pela polícia. O homicídio de Beatrice Pymm foi perfeitamente planeado e executado. A assassina não iria deixar ao acaso a sua própria fuga.
- E que tal uma mota na parte de trás da carrinha?
- Boa ideia. Verifique e veja se houve alguma mota roubada nessa altura.
- Ela conduz até Londres e livra-se da mota.
- Correto - concordou Vicary. - E quando a guerra rebenta, não procuramos uma holandesa chamada Christa Kunst porque julgamos erradamente que ela está morta.
- Um plano inteligente como o raio!
- Mais implacável do que inteligente. Veja bem, matar uma civil britânica inocente para esconder uma espiã. Ela não é uma espiã qualquer e Kurt Vogel não é um agente
de controlo qualquer. Estou convencido disso.
Vicary fez uma pausa para acender um cigarro.
- A fotografia levou a alguma pista?
- Nada.
- Acho que isso mata a nossa investigação por completo.
- Receio bem que tenha razão. vou fazer mais uns telefonemas agora à noite.
Vicary abanou a cabeça e disse:
- Tire o resto da noite. Vá lá para baixo, para a festa. - Depois acrescentou: - Passe algum tempo com a Grace.
Harry levantou os olhos.
- Como é que sabe?
- Este lugar está cheio de agentes dos serviços secretos, caso não tenha reparado. As coisas vão-se sabendo, as pessoas falam. Além do mais, vocês os dois não foram exatamente discretos. O Harry costumava deixar o número de telefone de casa de Grace à telefonista, caso eu andasse à sua procura.
Harry corou.
- Vá ter com ela, Harry. Ela sente a sua falta. Qualquer parvo vê isso.
; - Também sinto a falta dela. Mas ela é casada. Acabei tudo por-
que me sentia completamente reles.
- O Harry fá-la feliz e ela também o faz feliz. Quando o marido dela regressar a casa, se o marido dela regressar a casa, as coisas voltam ao normal.
- E como é que eu fico?
- Isso é consigo.
- Fico com o coração despedaçado, é como eu fico. Sou doido pela Grace.
- Então vá ter com a Grace e aproveite a companhia dela.
- Há outra coisa.
Harry contou-lhe o outro aspeto da culpa que sentia por causa do caso com Grace - o facto de estar em Londres a andar atrás de espiões enquanto o marido de Grace e outros homens arriscavam a vida nas forças armadas.
- Eu nem sei o que faria debaixo de fogo, como é que reagiria. Se seria um herói ou um cobarde. Também não sei se ando a contribuir para alguma coisa estando aqui. Consigo apontar cem nomes de outros detetives que são capazes de fazer o mesmo que eu. Às vezes, penso em entregar a Boothby a minha demissão e alistar-me.
- Não seja ridículo, Harry. Quando faz bem o seu trabalho, está a salvar vidas no campo de batalha. A invasão da França vai ser ganha ou perdida antes de o primeiro soldado chegar a pôr um pé numa praia francesa. Milhares de vidas dependem daquilo que o Harry faz. Se acha que não anda a fazer a sua parte, pense nisso
nestes termos. Além disso, preciso de si agora. É o único em quem posso confiar por aqui.
Por um momento, permaneceram sentados num silêncio estranho e embaraçoso, como os ingleses são propensos a fazer depois de partilharem pensamentos privados. Harry levantou-se, dirigiu-se para a porta e, a seguir, parou e voltou-se.
- Então e o Alfred? Porque não há ninguém na sua vida? Porque não desce até à festa e arranja uma mulher simpática com quem passar algum tempo?
Vicary bateu nos bolsos do peito à procura dos óculos em meia-lua e pô-los na cara.
- Boa noite, Harry - disse ele, com um pouco de firmeza a mais enquanto folheava uma pilha de papéis que tinha diante de si, na secretária. - Divirta-se na festa. Vejo-o amanhã de manhã.
Quando Harry saiu, Vicary pegou no telefone e marcou o número de Boothby. Ficou surpreendido por Boothby atender o próprio telefone. Quando Vicary lhe perguntou se não estava ocupado, Sir Basil quis saber se poderia ficar para segunda-feira de manhã. Vicary respondeu que era importante. Sir Basil concedeu-lhe uma audiência de cinco minutos e disse-lhe para subir imediatamente.
- Preparei este memorando para o general Eisenhower, o general Betts e o primeiro-ministro - disse Vicary quando terminou de informar Boothby das descobertas que Harry tinha feito nesse dia.
Entregou-o a Boothby, que permaneceu de pé com os pés ligeiramente afastados, como que para se equilibrar. Estava com pressa para se ir embora para o campo. A secretária tinha-lhe preparado uma pasta segura com material para ler no fim de semana e uma pequena mala em pele com objetos pessoais. Tinha um sobretudo sobre os ombros, com as mangas a abanarem dos lados.
- Na minha opinião, mantermo-nos calados sobre isto por muito mais tempo seria negligência, Sir Basil.
Boothby ainda estava a ler. Vicary sabia isso porque os lábios dele mexiam-se. Semicerrava tanto os olhos que estes tinham desaparecido
sob as sobrancelhas exuberantes. Sir. Basil gostava de fingir que continuava a ter uma visão perfeita e recusava-se a usar óculos à frente dos seus subordinados.
- Pensava que já tínhamos discutido isto, Alfred - disse Boothby, abanando a folha de papel no ar.
Um problema já discutido nunca deverá reaparecer, essa era uma das muitas máximas pessoais e profissionais de Sir Basil. Ficava irritado quando os subordinados levantavam questões já tratadas. A deliberação cuidadosa e as críticas posteriores eram características das mentes mais fracas. Sir Basil apreciava a capacidade de decisão rápida acima de tudo. Vicary passou o olhar pela secretária de Sir Basil. Estava limpa, reluzente e sem quaisquer papéis ou dossiês, um monumento ao estilo de gestão de Boothby.
-Já discutimos isto uma vez, Sir Basil - disse Vicary pacientemente -, mas a situação mudou. Parece que eles conseguiram introduzir um agente no país e esse agente encontrou-se com outro que já cá estava. Parece que a operação, qualquer que ela seja, está em curso. Guardarmos estas informações em vez de as transmitirmos é correr um grande risco.
- Disparates - atirou Boothby.
- Disparates, porquê?
- Porque este departamento não vai informar oficialmente os americanos e o primeiro-ministro de que é incapaz de desempenhar as suas funções. De que é incapaz de controlar a ameaça colocada por espiões alemães aos preparativos para a invasão.
- Isso não é uma razão válida para ocultar estas informações.
- É uma razão válida, sim, Alfred. Se eu digo que é, é porque é.
As conversas com Boothby assumiam normalmente as características de um gato a perseguir a própria cauda: contradições superficiais, bluffs e manobras de diversão, disputas para ver quem marcava mais pontos. Vicary juntou as mãos por baixo do queixo, circunspectamente, e fingiu que estudava o padrão do dispendioso tapete de Boothby. A sala estava em silêncio, à exceção do ruído das tábuas a rangerem sob o corpo musculoso de Sir Basil.
- Está disposto a enviar o meu memorando ao diretor-geral? perguntou Vicary num tom de voz o menos ameaçador possível.
- De forma nenhuma.
- Então, eu próprio estou disposto a ir falar diretamente com o diretor-geral.
Boothby inclinou-se e pôs a cara junto à de Vicary. Vicary, sentado no sofá fundo de Boothby, conseguiu sentir o cheiro do gim e dos cigarros no hálito dele.
- E eu estou preparado para o esmagar, Alfred.
- Sir Basil...
- Deixe que lhe recorde como o sistema funciona. O Alfred informa-me a mim e eu informo o diretor-geral. Já me informou e eu decidi que seria inapropriado passar esta mensagem ao diretor-geral nesta altura.
- Há ainda outra opção.
Boothby atirou a cabeça para trás como se tivesse sido esmurrado. Recuperou rapidamente a compostura e cerrou o maxilar numa carranca.
- Eu não respondo perante o primeiro-ministro, nem estou às ordens dele. Mas se o Alfred passar por cima do departamento e falar diretamente com Churchill, eu entrego-o a uma comissão de inquérito. Quando a comissão acabar de tratar de si, vão precisar dos registos dentários para identificarem o seu corpo.
- Isso é completamente injusto.
- É? Desde que tomou conta deste caso, tem sido um desastre atrás do outro. Meu Deus, Alfred, mais uns quantos espiões alemães a andarem à solta pelo país fora e já podem formar um clube de râguebi.
Vicary recusou-se a morder o isco.
- Se não vai apresentar o relatório ao diretor-geral, quero que o registo oficial deste caso contenha o facto de eu ter feito esta sugestão nesta altura e de o senhor a ter recusado.
Os cantos da boca de Boothby levantaram-se num sorriso lacónico. Proteger a própria pele era uma coisa que ele compreendia e apreciava.
- Já está a pensar no seu lugar na História, é, Alfred?
- O senhor é um completo filho da mãe, Sir Basil. E um incompetente também.
- Está a dirigir-se a um oficial superior, major Vicary!
- Acredite que eu percebi a ironia.
Boothby agarrou na pasta e na mala em pele e, a seguir, olhou para Vicary e disse-lhe:
- Tem muita coisa para aprender.
- Suponho que possa aprender consigo.
- E que raio quer isso dizer? Vicary levantou-se.
- Quer dizer que o senhor devia começar a pensar mais na segurança deste país e menos na sua promoção pessoal através de Whitehall.
Boothby sorriu descontraidamente, como se estivesse a tentar seduzir uma mulher mais nova.
- Mas, meu caro Alfred - disse ele -, eu sempre considerei que as duas coisas estão perfeitamente interligadas.
VINTE E UM
LESTE DE LONDRES
Na noite seguinte, Catherine Blake tinha uma faca de ponta e mola escondida na mala quando se apressou pelo passeio em direção ao armazém dos Pope. Exigira um encontro
a sós com Vernon Pope e, quando chegou ao armazém, não viu sinal dos homens dele. Parou junto ao portão e rodou o trinco. Estava destrancado, como Pope tinha dito que estaria. Abriu-o e entrou.
O armazém era um sítio cheio de sombras, a única iluminação vinha de um candeeiro pendurado num canto da divisão. Catherine encaminhou-se em direção à luz e encontrou o monta-cargas. Entrou, fechou a porta e carregou no botão. O elevador rugiu e depois subiu aos estremeções para o escritório de Pope.
O elevador parou num pequeno patamar com um par de portas pretas duplas. Catherine bateu e ouviu a voz de Pope do outro lado a dizer-lhe para entrar. Ele estava de pé, junto a um carrinho de bebidas, com uma garrafa de champanhe numa mão e um par de copos na outra. Estendeu um a Catherine quando ela atravessou a sala.
- Não, obrigada - disse ela. - vou só ficar um minuto.
- Eu insisto - respondeu ele. - As coisas ficaram um pouco tensas da última vez que estivemos juntos. Quero compensá-la.
- Foi por isso que me mandou seguir? - perguntou ela, aceitando o champanhe.
- Eu mando seguir toda a gente, querida. É por isso que ainda ando neste negócio. Os meus rapazes são bons nisso, como irá ver quando ler o relatório.
Estendeu um envelope na direção de Catherine e depois puxou-o para trás quando ela tentou agarrá-lo.
- Foi por isso que fiquei tão surpreendido quando conseguiu enganar o Dicky. Foi muito ardilosa: enfiar-se no metropolitano e depois saltar para dentro de um autocarro.
- Mudei de ideias - respondeu ela.
Bebeu um pouco do champanhe. Estava gelado e era excelente. Pope estendeu o envelope novamente e, desta vez, permitiu que Catherine o agarrasse. Ela pousou o copo
e abriu-o.
Era exatamente o que ela precisava, um relatório minuto a minuto
dos movimentos de Peter Jordan por Londres: onde trabalhava, os horários dele, os sítios onde comia e bebia, até o nome do amigo.
Enquanto ela acabava de ler, Pope tirou o champanhe do balde de gê o e encheu o copo dele outra vez. Catherine tirou o dinheiro da mala e pousou-o na mesa.
- Aqui está o resto - disse ela. - Acho que isto encerra o nosso assunto. Muito obrigada.
Estava a guardar o relatório sobre Peter Jordan na mala quando Pope se aproximou e lha tirou.
- Por acaso, minha querida Catherine, o nosso assunto ainda agora começou.
- Se é mais dinheiro que quer...
- Oh, eu quero mais dinheiro. E se não quer que eu ligue para a policia, vai dar-mo - atirou ele, dando mais um passo na direção de Catherine, apertando o corpo contra o dela e acariciando-lhe os seios. - Mas há mais uma coisa que quero de si.
As portas do quarto abriram-se revelando Vivie vestida apenas com uma camisa de Vernon, desabotoada até à cintura.
- Vivie, apresento-te a Catherine - disse Pope. - A encantadora Catherine concordou em passar cá a noite.
Não a tinham preparado para ocasiões como esta na escola para espiões da Abwehr, em Berlim. Ensinaram-na a contar tropas, a avaliar um exército, a usar o rádio, a reconhecer as insígnias das unidades e as caras dos oficiais superiores. Mas nunca a ensinaram a lidar
com um gangster londrino e a sua namorada pervertida, que tinham planeado passar a noite a fazer turnos com o corpo dela. Tinha a sensação de estar encurralada numa estúpida fantasia adolescente. Pensou: Isto não pode estar mesmo a acontecer. Mas estava a acontecer e Catherine não conseguia pensar em nada que tivesse aprendido no seu treino que a conseguisse tirar dali.
Vernon Pope conduziu-a pelas portas até ao quarto. Empurrou-a para o fundo da cama e sentou-se numa cadeira num dos cantos do quarto. Vivie pôs-se em pé à frente dela e desabotoou os últimos botões da camisa. Tinha seios pequenos e arrebitados e uma pele pálida que brilhava à luz opaca do quarto. Puxou a cabeça de Catherine até aos seios. Catherine alinhou no jogo depravado, levando o mamilo de Vivie à boca, enquanto pensava na melhor maneira de os matar aos dois.
Catherine sabia que, se se submetesse à chantagem, esta nunca mais acabaria. Os seus recursos financeiros não eram ilimitados. Vernon Pope conseguiria extorquir-lhe o dinheiro até ao último tostão muito rapidamente. E sem dinheiro ela seria inútil para eles. Decidiu que havia poucos riscos envolvidos; tinha-se dado ao cuidado de não deixar nenhum rasto visível. Pope e os homens dele não sabiam onde encontrá-la. Apenas sabiam que ela trabalhava como enfermeira voluntária no Hospital St. Thomas e lá Catherine tinha dado uma morada falsa. E também não teriam coragem de ir à polícia. A polícia iria fazer perguntas; e se respondessem com a verdade, teriam de admitir que tinham seguido um oficial da marinha americana por dinheiro.
Tudo isso implicava matar Vernon Pope o mais rápida e silenciosamente que lhe fosse possível.
Catherine levou o outro seio de Vivie à boca e chupou o mamilo até ele ficar duro. Vivie deixou cair a cabeça para trás e gemeu. Pegou na mão de Catherine e guiou-a pelo meio das pernas. Já estava quente e húmida. Catherine tinha-se desligado de qualquer emoção. Estava apenas a executar mecanicamente os movimentos para dar prazer físico àquela mulher. Não sentia medo nem repulsa, simplesmente tentava manter-se calma e pensar claramente. A pélvis de Vivie começou a mover-se contra os dedos de Catherine e, um momento depois, o corpo dela estremeceu com um orgasmo.
Vivie empurrou Catherine para a cama, montou em cima das ancas dela e começou a desabotoar-lhe os botões da camisola. Tirou-lhe o sutiã e massajou-lhe os seios.
Catherine viu Vernon levantar-se da cadeira e começar a despir-se. Foi a primeira vez que se sentiu nervosa. Não o queria em cima dela nem dentro dela. Ele era muito
capaz de ser um amante cruel e sádico. Podia magoá-la. De costas, com as pernas abertas, estaria vulnerável. Estaria também sujeita ao seu peso e força superiores.
Todas as técnicas de luta que tinha aprendido na escola da Abwehr dependiam da velocidade e da liberdade de movimentos. Se ela se visse presa por baixo do corpo
pesado de Vernon Pope, ficaria indefesa.
Catherine tinha de fazer o jogo deles. Melhor ainda: tinha de ser ela a controlá-lo.
Levantou os braços e agarrou nos seios de Vivie com as mãos e acariciou-lhe os mamilos. Conseguia ver Vernon a observá-las. Estava a comê-las com os olhos, a deleitar-se com a visão das duas mulheres a acariciarem-se uma à outra. Catherine puxou Vivie para ela e guiou-lhe a boca para os seios. Catherine pensou em como seria fácil agarrar-lhe na cabeça e torcer-lha até que o pescoço se partisse, mas seria um erro. Precisava de matar Pope primeiro. Depois disso, Vivie seria fácil.
Pope dirigiu-se para a cama e empurrou Vivie para o lado.
Antes que Vernon conseguisse deitar-se em cima dela, Catherine sentou-se e beijou-o. Pôs-se de pé enquanto a língua dele se agitava selvaticamente dentro da boca dela. Lutou contra a vontade de vomitar. Por instantes, considerou a possibilidade de permitir que ele fizesse amor com ela e matá-lo depois, quando estivesse sonolento e satisfeito. Mas ela não queria que aquilo se prolongasse mais do que o estritamente necessário.
Afagou-lhe o pénis. Ele gemeu e beijou-a com mais força.
Naquele momento, ele estava indefeso. Virou-o para que ficasse de costas para a cama.
Foi então que lhe deu uma joelhada violenta e maldosa nas virilhas.
Pope contorceu-se todo, tentando respirar, com as mãos entre as coxas. Vivie gritou.
Catherine girou e acertou com o cotovelo na cana do nariz dele. Conseguiu ouvir o som do osso e da cartilagem a partirem-se. Pope caiu no chão, aos pés da cama, com o sangue a jorrar-lhe das narinas. Vivie estava ajoelhada na cama, a gritar. Já não era uma ameaça para Catherine.
Virou-se e dirigiu-se rapidamente para a porta. Pope, ainda no chão, estendeu a perna.
Bateu violentamente no tornozelo direito de Catherine, fazendo com que ela tropeçasse nas próprias pernas. Catherine caiu no chão, com a forte queda a deixá-la sem fôlego. Viu estrelas, por momentos, e vieram-lhe as lágrimas aos olhos. Teve medo de perder os sentidos.
com grande esforço, conseguiu pôr-se de gatas e estava quase a levantar-se quando Pope lhe agarrou o tornozelo, apertando-o como um torno, e começou a arrastá-la para ele. Catherine rolou rapidamente para o lado e atirou com o salto do sapato ao nariz partido dele.
Pope gritou, cheio de dores, mas parecia que o aperto em volta do tornozelo dela ainda se tinha tornado mais forte.
Ela pontapeou-o uma segunda vez e depois uma terceira.
Finalmente, ele soltou-a.
Catherine pôs-se de pé e correu para o sofá onde Pope a fizera largar a mala. Abriu-a e a seguir abriu o fecho interior. A faca de ponta e mola estava lá. Pegou nela e carregou na mola. A lâmina foi ativada com um estalido.
Pope já estava em pé, a mergulhar na escuridão, com as mãos a procurarem-na. Catherine voltou-se e atacou selvaticamente com a arma. A ponta da lâmina abriu um golpe no ombro direito dele.
Pope apertou a ferida com a mão esquerda e gritou de dor quando o sangue começou a jorrar-lhe por entre os dedos. Tinha o braço à frente do peito, não havia maneira de lhe espetar a faca no coração. A Abwehr tinha-lhe ensinado outro método que a fazia arrepiar só de pensar nele. Mas tinha de o utilizar agora. Não havia escolha.
Catherine aproximou-se mais, puxou a faca para trás e depois enterrou-a no olho de Vernon Pope.
Vivie estava no canto do quarto, deitada no chão, em posição fetal, a chorar histericamente. Catherine agarrou-a pelo braço, pô-la em pé com um puxão e empurrou-a contra a parede.
- Por favor, não me faças mal.
- Não te vou fazer mal.
- Não me faças mal.
- Não te vou fazer mal.
- Prometo que não digo a ninguém, nem mesmo ao Robert. Juro.
- Nem à polícia?
- Não digo nada à polícia.
- Otimo. Eu sabia que podia confiar em ti.
Catherine acariciou-lhe o cabelo e tocou-lhe na cara. Vivie pareceu sossegar. O corpo dela perdeu as forças e Catherine teve de a agarrar para impedir que caísse no chão.
- Quem és tu? - perguntou Vivie. - Como é que lhe conseguiste fazer isto?
Catherine não disse nada, apenas lhe acariciou o cabelo enquanto a outra mão procurava a parte mais mole na base da caixa torácica. Os olhos de Vivie esbugalharam-se quando a faca lhe entrou no coração. Um grito de dor ficou preso na garganta e saiu como um gorgolejo baixinho. Morreu rápida e silenciosamente, com os olhos sem expressão a olharem para os de Catherine.
Catherine soltou-a. O movimento do corpo a escorregar pela parede abaixo arrancou a faca do coração. Catherine observou os destroços humanos à sua volta, o sangue. Meu Deus, em que é que me transformaram? A seguir, caiu de joelhos ao lado do cadáver de Vivie e vomitou violentamente.
Executou os rituais de fuga com uma calma surpreendente. Na casa de banho, lavou o sangue deles das mãos, da cara e da lâmina da faca. Não havia nada a fazer quanto ao sangue na camisola, a não ser escondê-lo debaixo do casaco de cabedal. Saiu da casa de banho, passou pelo corpo da mulher e foi até à divisão seguinte. Dirigiu-se para a janela e olhou para a rua. Pope, ao que parecia, tinha cumprido
a palavra dada. Não havia ninguém no exterior do armazém. De certeza que encontrariam o corpo dele de manhã e, quando o fizessem, viriam atrás dela. Por agora, pelo menos, estava segura. Agarrou na mala e tirou da mesa as cem libras em notas que tinha dado a Pope. Desceu no elevador, atravessou o armazém e embrenhou-se na noite.
VINTE E DOIS
LESTE DE LONDRES
O superintendente-chefe Andrew Kidlington, ao contrário da maior parte dos homens da sua profissão, evitava cenas de homicídio sempre que podia. Pregador secular na sua igreja local, já há muito perdera o gosto pelo lado mais macabro da profissão. Tinha reunido uma equipa de polícias absolutamente profissional e acreditava que o melhor era dar-lhe rédea livre. Tinha uma habilidade lendária para fazer mais deduções sobre um homicídio a partir de um bom dossiê do que pela visita ao local do crime, e certificava-se sempre de que cada pedaço de papel gerado pelo departamento lhe passava pela secretária. Mas não era todos os dias que alguém espetava
uma faca num homem como Vernon Pope. Aquilo era uma coisa que tinha de ver com os próprios olhos.
O polícia fardado que estava de guarda à entrada do armazém afastou-se para o lado quando Kidlington se aproximou.
- O elevador é mesmo ao fundo do armazém, senhor. Suba um andar. Há outro homem nesse patamar. Ele indica-lhe o caminho.
Kidlington atravessou o armazém devagar. Era alto e magro, com uma cabeleira espessa e grisalha e o ar de quem tem sempre más notícias a dar. Por causa disso, os seus homens tinham tendência para andarem de mansinho quando estavam perto dele.
Um jovem sargento chamado Meadows estava à espera dele no patamar. Meadows era demasiado vistoso para o gosto de Kidlington
e andava com muitas mulheres. Mas era um excelente detetive e tinha
a palavra promoção estampada na testa.
- Aquilo está muito feio ali dentro, senhor - disse Meadows.
Kidlington conseguia sentir o cheiro a sangue no ar quando Meadows o conduziu para dentro do escritório. O corpo de Vernon Pope jazia sobre um tapete oriental perto do sofá. O círculo escuro do sangue expandia-se para além do lençol cinzento que o cobria. Kidlington, apesar dos seus trinta anos na Polícia Metropolitana, ainda sentiu a bílis a subir-lhe à boca quando Meadows se ajoelhou junto do corpo e puxou o lençol para trás.
- Meu Deus! - exclamou Kidlington baixinho.
Fez uma careta e virou-se para o lado para se recompor.
- Nunca tinha visto nada assim - disse Meadows.
O cadáver de Vernon Pope estava deitado, nu e virado para cima, numa poça de sangue seco e preto. Para Kidlington, era óbvio que a ferida fatal só tinha sido provocada após uma violenta luta. Havia um grande corte irregular ao longo do ombro. O nariz tinha sido brutalmente partido. O sangue tinha escorrido das narinas para a boca, que se tinha aberto na morte, como se emitisse um último grito. Depois havia o olho. Kidlington teve dificuldade em olhar para aquilo. O sangue e o fluido ocular tinham escorrido pela cara abaixo. O globo ocular estava destruído e a pupila já não era visível. Era preciso uma autópsia para determinar a verdadeira profundidade da ferida, mas parecia ter sido o golpe fatal. Alguém tinha enfiado alguma coisa no olho e no cérebro de Vernon Pope.
Kidlington quebrou o silêncio:
- Hora aproximada da morte?
- Durante a noite de ontem, talvez logo no início.
- Arma?
- É difícil dizer. com certeza que não foi uma faca comum. Olhe para a ferida no ombro. As pontas da ferida são irregulares.
- Conclusão?
- Qualquer coisa afiada. Talvez uma chave de fendas ou um picador de gelo.
Kidlington observou o escritório.
O do Pope ainda está no carrinho das bebidas. A não ser que
o nosso assassino ande por aí com o seu próprio picador de gelo, duvido que seja essa a arma do crime - afirmou Kidlington, olhando outra vez para o corpo. - Eu diria que foi uma faca de ponta e mola. É uma arma que fura, não uma que corta. E isso explicaria tanto a ferida irregular no ombro como o ferimento perfurante e certeiro no olho.
- Certo, senhor.
Kidlington já tinha visto o suficiente. Levantou-se e indicou a Meadows que tapasse o corpo.
- A mulher?
- No quarto. Por aqui, senhor.
Robert Pope estava sentado no lugar do passageiro, pálido e a tremer visivelmente, enquanto Dicky Dobbs conduzia a carrinha a toda a velocidade em direção ao Hospital
St. Thomas. Tinha sido Robert a descobrir os corpos do irmão e de Vivie de manhã cedo. Tinha esperado por Vernon no café no East End onde tomavam o pequeno-almoço
todas as manhãs e ficou preocupado quando ele não apareceu. Foi buscar Dicky ao apartamento e foram ao armazém. Quando viu os corpos, gritou e pontapeou a mesa de
vidro.
Robert e Vernon Pope eram homens realistas. Sabiam que estavam num trabalho perigoso e que um deles ou os dois poderiam morrer ainda novos. Como todos os irmãos,
também discutiam, mas Robert Pope adorava o irmão mais velho mais do que tudo no mundo. Vernon tinha sido como um pai para ele, quando o próprio pai, um desempregado
alcoólico e abusivo, se foi embora para nunca mais voltar. Foi a maneira como ele morreu que o horrorizou mais: esfaqueado no olho e deixado no chão, nu. E Vivie,
uma inocente, esfaqueada no coração.
Era possível que as mortes fossem obra de um dos seus inimigos. O negócio dos Pope tinha prosperado durante a guerra e eles tinham estendido as suas atividades
para novos territórios. Mas aquilo não se parecia com nenhum assassinato feito por gangues que já tivesse visto. Robert suspeitava que tinha alguma coisa que ver
com
a mulher: Catherine, ou fosse lá qual fosse o raio do nome verdadeiro dela. Tinha feito um telefonema anónimo para a polícia - teriam de ser metidos ao barulho,
mais tarde ou mais cedo -, mas não confiava neles para encontrar o assassino do irmão. Isso faria ele sozinho. Dicky estacionou junto ao rio e entrou no hospital
por uma porta de serviço. Saiu de lá passados cinco minutos e voltou para a carrinha.
- Ele estava lá? - perguntou Pope.
- Sim. Ele acha que nos consegue arranjar isso.
- Quanto tempo?
- Vinte minutos.
Meia hora mais tarde, um homem magro, com uma cara chupada e uma farda de contínuo, saiu pelas traseiras do hospital e dirigiu-se para a carrinha rapidamente.
Dicky baixou o vidro da janela.
- Já o tenho, senhor Pope - disse ele. - Uma rapariga da receção deu-mo. Disse que era contra as regras, mas eu convenci-a. Mas prometi-lhe uma nota de cinco. Espero que não se importe.
Dicky estendeu a mão e o homem deu-lhe um papel. Dicky passou-o a Pope.
- bom trabalho, Sammy - disse Pope, olhando para o papel
- Dá-lhe o dinheiro, Dicky.
O homem aceitou o dinheiro, com uma expressão de desapontamento.
- Que se passa, Sammy? - perguntou Dicky. - Dez xelins, tal como prometi.
- Então e as cinco libras para a rapariga?
- Considera-as as tuas despesas operacionais - disse Pope.
- Mas, senhor Pope...
- Sammy, não queiras meter-te comigo neste momento. Dicky pôs a carrinha em movimento e acelerou, com os pneus
a chiarem.
- Qual é a morada? - perguntou Dicky.
- É em Islington. Mexe-te!
A senhora Eunice Wright, moradora no número 23 de Norton Lane, em Islington, era parecida com a casa: alta, estreita, cinquentona, toda ela robustez e maneiras vitorianas. Não sabia - nem nunca saberia, mesmo depois do horrível episódio - que a casa tinha sido usada como morada falsa por uma agente dos serviços secretos militares alemães chamada Catherine Blake.
Há já duas semanas que Eunice Wright estava à espera de um técnico para reparar a caldeira avariada. Antes da guerra, os hóspedes da sua bem dirigida pensão eram, na sua maioria, jovens que estavam sempre dispostos a ajudar quando alguma coisa corria mal com os canos ou com o fogão. Mas, naquele momento, todos os jovens estavam no exército. O seu próprio filho, que nunca lhe saía do pensamento, estava algures no Norte de África. Já não retirava nenhum prazer dos hóspedes - dois homens velhos que falavam imenso sobre a última guerra e duas raparigas do campo bastante tolas que tinham fugido da desolação da sua aldeia nas East Midlands para procurarem trabalho nas fábricas de Londres. Quando Leonard era vivo, era ele que tratava de todas as reparações, mas Leonard já estava morto há dez anos.
Estava à janela da sala de estar a bebericar chá. O silêncio reinava na casa. Os homens estavam lá em cima a jogar às damas. Tinha insistido para que eles jogassem sem baterem com as peças para não acordarem as raparigas, que tinham acabado de chegar do turno da noite. Aborrecida, ligou o rádio e ouviu o noticiário da BBC.
Quando parou à frente da casa, a carrinha pareceu-lhe estranha. Não tinha nada que a identificasse - não tinha o nome de nenhuma companhia pintado na parte lateral - e os dois homens sentados à frente não eram nada parecidos com nenhum técnico de reparações que ela já tivesse visto. O que estava ao volante era alto e robusto, com o cabelo cortado à escovinha e um pescoço tão grande que parecia que a cabeça estava simplesmente atarraxada aos ombros. O outro era pequeno, tinha cabelo escuro e parecia zangado com o mundo. A roupa deles também era estranha. Em vez das fardas tipo macacão dos operários, traziam fatos e, pelo aspeto, fatos muito caros.
Abriram as portas e saíram. Eunice reparou no facto de não carregarem ferramentas. Talvez quisessem observar os danos da caldeira antes de trazerem todas as ferramentas para dentro de casa. Estavam apenas a ser meticulosos, estavam a certificar-se de que apenas traziam as ferramentas necessárias para o trabalho. Estudou-os mais atentamente à medida que se aproximavam da porta da frente. Pareciam razoavelmente saudáveis. Por que razão não estariam no exército? Notou como olhavam por cima do ombro, para a rua, enquanto iam avançando, como se estivessem a tentar passar despercebidos. De repente, Eunice desejou que Leonard ali estivesse.
Bateram à porta de um modo nada educado. Ela pôs-se a pensar que os polícias deviam bater assim quando achavam que havia um criminoso atrás da porta. Bateram outra vez, com tanta força que os vidros da janela da sala abanaram.
Lá em cima, o jogo de damas parou.
Eunice foi até à porta. Pensou para si própria que não havia razão para ter medo, que apenas lhes faltavam as boas maneiras que eram comuns à maioria dos técnicos ingleses. Eram tempos de guerra. Os técnicos de reparação mais experientes estavam a prestar serviço militar, a trabalhar em bombardeiros ou fragatas. Os maus - como aqueles dois que estavam à porta - iam aguentando os empregos que tinham.
Abriu a porta devagar. Queria pedir-lhes que não fizessem barulho para não acordarem as raparigas. Nunca chegou a conseguir falar. O maior - o que não tinha pescoço - empurrou a porta para trás com o antebraço e depois tapou-lhe a boca com a mão. Eunice tentou gritar, mas o grito pareceu morrer-lhe na garganta e ela não conseguiu emitir praticamente nenhum som audível.
O mais pequeno encostou a cara ao ouvido dela e falou-lhe com uma serenidade que ainda a assustou mais.
- Dá-nos o que nós queremos, 'morzinho, e ninguém se magoa
- disse ele.
A seguir, afastou-a com um empurrão e começou a subir as escadas.
O sargento Meadows considerava-se uma autoridade menor no que dizia respeito ao gangue dos Pope. Sabia como faziam dinheiro
. legal e ilegalmente - e conseguia reconhecer a maior parte dos
membros do gangue pelo nome e pela cara. Por isso, quando ouviu a descrição dos dois homens que
tinham acabado de virar de pantanas uma pensão em Islington, acabou
os seus afazeres na cena do crime e dirigiu-se para lá a fim de ver o que se tinha passado com os próprios olhos. A primeira descrição correspondia a Richard Dicky
Dobbs, o principal capanga e pau para toda a obra dos Pope. A outra correspondia ao próprio Robert Pope.
Como era seu hábito, Meadows ia passarinhando pela sala de estar enquanto Eunice Wright, sentada rigidamente direita numa cadeira, voltava a contar toda a história
pacientemente, apesar de já o ter feito por duas vezes. A chávena de chá tinha sido substituída por um pequeno copo de xerez. A cara exibia a marca dos dedos do
agressor e ela tinha ficado com um galo na cabeça quando ele a tinha empurrado para o chão. Fora isso, não estava ferida com gravidade.
- E eles não lhe disseram o quê ou quem é que procuravam? perguntou Meadows, parando de andar de um lado para o outro o tempo suficiente para fazer a pergunta.
- Não.
- Trataram-se um ao outro pelo nome?
- Não, acho que não.
- E por acaso viu a matrícula da carrinha?
- Não, mas descrevi a carrinha a um dos outros agentes.
- É um modelo muito comum, senhora Wright. Receio que a descrição por si só não tenha grande valor para nós. vou mandar um dos nossos homens falar com a vizinhança.
- Lamento - disse ela, esfregando a parte de trás da cabeça.
- Está bem?
- Ele fez-me um galo muito feio na cabeça, aquele rufia!
- Talvez devesse ir ao médico. vou pedir a um dos agentes que lhe dê uma boleia quando tivermos terminado.
- Muito obrigada. É muito gentil da sua parte. Meadows agarrou na gabardina e vestiu-a.
- E disseram mais alguma coisa de que se lembre?
- Bem, disseram uma coisa - respondeu Eunice Wright, hesitando por um momento e corando. - Receio que a linguagem seja um bocadinho grosseira.
- Garanto-lhe que não me vou sentir ofendido.
- O mais pequeno disse: Quando eu encontrar aquela...
Fez uma pausa e baixou a voz, envergonhada por dizer aquelas palavras:
-Quando eu encontrar aquela cabra de merda, vou matá-la com as minhas próprias mãos.
Meadows franziu o sobrolho.
- Tem a certeza disso?
- Oh, sim. Quando é raro ouvirmos esse tipo de linguagem, é difícil esquecermo-nos.
- É bem verdade - exclamou Meadows, entregando-lhe o cartão de contacto. - Se se lembrar de mais alguma coisa, por favor, não hesite em ligar. Tenha um bom dia, senhora Wright.
- bom dia, senhor inspetor.
Meadows pôs o chapéu e dirigiu-se para a porta. Então eles andavam à procura de uma mulher. Se calhar, não eram os Pope, afinal de contas. Se calhar, eram apenas dois sujeitos à procura de uma rapariga. Talvez as descrições semelhantes fossem apenas uma coincidência. Meadows não acreditava em coincidências. Ia voltar ao armazém dos Pope e verificar se alguém tinha avistado uma mulher a andar por ali nos últimos tempos.
VINTE E TRÊS LONDRES
Catherine Blake partiu do princípio de que os oficiais aliados que conheciam o segredo mais importante da guerra tinham sido alertados para a ameaça representada pelos espiões. Que outra razão levaria o comandante Peter Jordan a algemar a pasta ao pulso para atravessar a pé Grosvenor Square? E também partiu do princípio de que os oficiais tinham sido avisados em relação a abordagens femininas. Mais no início da guerra, tinha visto um cartaz à entrada de um clube frequentado por oficiais britânicos. Mostrava uma loira voluptuosa, de grandes seios e com um vestido de noite decotado, à espera que um oficial lhe acendesse o cigarro. No fundo do póster, liam-se as palavras: Mantém-te calado, ela não é assim tão burra. Catherine achou que era a coisa mais ridícula que já tinha visto. Se havia mulheres assim - cabras que andavam por clubes ou festas a ouvir mexericos e segredos -, ela não tinha conhecimento. Mas suspeitava que essa doutrinação faria Peter Jordan desconfiar de uma mulher linda que começasse de repente a disputar a sua atenção. Ele também era um homem de sucesso, inteligente e atraente. Mostrar-se-ia muito criterioso em relação às mulheres com quem decidia passar tempo. A cena no Savoy, no outro dia, era a prova disso. Tinha-se zangado com o amigo Shepherd Ramsey por este lhe ter arranjado um encontro com uma rapariga estúpida e nova. Catherine teria de fazer a sua abordagem com muito cuidado.
E era essa a razão para se encontrar parada à esquina do Vandyke Club, com um saco da mercearia nos braços.
Eram quase seis horas. Londres estava envolta no blackout. O trânsito do final da tarde fornecia à justa a luz necessária para que ela conseguisse ver a entrada para o clube. Passados alguns minutos, saiu de lá um homem de estatura e constituição medianas. Era Peter Jordan. Parou um momento para abotoar o sobretudo. Se mantivesse a rotina do final da tarde, iria fazer a pé a pequena distância até casa. Se quebrasse a rotina e fizesse sinal a um táxi para parar, Catherine estaria sem sorte nenhuma. Seria obrigada a voltar no dia seguinte e a esperar com o saco da mercearia.
Jordan levantou a gola do sobretudo e começou a avançar na direção dela. Catherine Blake aguardou um momento e, a seguir, atravessou-se no caminho dele.
Quando chocaram, ouviu-se o som de papel a rasgar-se e de artigos de mercearia a cair no passeio.
- Peço desculpa. Não vi que estava aí. Por favor, deixe-me ajudá-la a levantar-se.
- Não, a culpa é minha. Infelizmente, não sei onde pus a minha lanterna para o blackout e tenho andado de um lado para o outro, perdida. Sinto-me mesmo parva.
- Não, eu é que tenho a culpa. Estava a tentar provar a mim mesmo que conseguia descobrir o caminho para casa no escuro. Oiça, tenho uma lanterna. Deixe-me acendê-la.
- Importa-se de a apontar para o passeio? Acho que as minhas rações estão a rebolar em direção ao Hyde Park.
- Agarre a minha mão.
- Obrigada. Já agora, quando quiser, pode parar de me apontar a luz à cara.
- Desculpe, é só que...
- Só que o quê?
- Esqueça. Acho que aquele pacote de farinha não sobreviveu.
- Não faz mal.
- Deixe-me ajudá-la a apanhar as coisas.
- Eu sou capaz. Obrigada.
- Não, eu insisto. E deixe-me arranjar-lhe outro pacote de farinha. Tenho imensa comida em casa. O meu problema é não saber o que fazer com ela.
- A marinha não lhe dá de comer?
- Como é que...
- Lamento informá-lo, mas o uniforme e o sotaque revelaram-no. Além disso, só um oficial americano é que seria suficientemente tolo para andar intencionalmente pelas ruas de Londres sem se servir de uma lanterna. Vivi aqui a vida inteira e mesmo assim não me consigo orientar durante o blackout.
- Por favor, deixe-me restituir-lhe as coisas que perdeu.
- É uma oferta muito gentil, mas não é necessário. Foi um prazer chocar contra si.
- Sim... sim, pois foi.
- Teria a amabilidade de me indicar para que lado fica a Brompton Road?
- É naquela direção.
- Muito obrigado.
Ela voltou-se e começou a afastar-se.
- Espere um minuto. Tenho outra sugestão. Ela parou de andar e virou-se.
-- E qual é ela?
- Gostaria de saber se lhe apeteceria tomar um copo comigo um dia destes.
Ela hesitou e depois disse:
- Não sei bem se quero beber um copo com um americano detestável que faz questão de andar pelas ruas de Londres sem lanterna. Mas suponho que, no fundo, pareça inofensivo. Por isso, a resposta é sim.
Afastou-se novamente.
- Espere, venha cá. Nem sequer sei o seu nome.
- É Catherine - gritou ela. - Catherine Blake.
- Preciso do seu número de telefone - disse Jordan sem saber o que fazer.
Mas ela já se tinha diluído na escuridão e desaparecido.
Quando Peter Jordan chegou a casa, entrou no escritório, pegou no telefone e marcou um número. Identificou-se e uma simpática voz feminina deu-lhe instruções para que não desligasse. Passado um momento, ouviu a voz, com sotaque inglês, do homem que conhecia apenas como Broome.


CONTINUA

ONZE
SELSEY, INGLATERRA
- Foi a coisa mais estranha que alguma vez vi, Mabel - disse Arthur Barnes à mulher ao pequeno-almoço naquela manhã.
Barnes tinha andado a passear, como fazia todas as manhãs, com a sua querida corgi Fionna pela zona do porto. Parte dele ainda estava aberta aos civis; grande parte tinha sido selada e designada como uma zona militar restrita. Toda a gente se interrogava sobre o que estavam os militares a fazer ali. Ninguém falava sobre isso. O alvorecer foi tardio nessa manhã - céu cinzento-escuro, chuva de vez em quando. Fionna estava sem trela, correndo de um lado para o outro das docas.
Fionna avistou a coisa primeiro, depois Barnes.
- O raio de um gigantesco monstro de betão, Mabel. Como um bloco de apartamentos deitado de lado.
Dois rebocadores estavam a empurrá-lo para o mar. Barnes trazia uns binóculos no casaco - uma vez, um amigo tinha visto a torre cónica de um submarino alemão e Barnes morria de vontade de ter também o vislumbre de um. Tirou os binóculos do casaco e levou-os aos olhos.
O monstro de betão trazia atracado a ele um barco com uma proa larga e achatada que cortava o mar agitado. Barnes analisou ao pormenor o lado de bombordo - Repara, Mabel, que é difícil destinguir o bombordo do estibordo - e descortinou um navio costeiro ligeiro, com um punhado de tipos militares no convés.
- Não queria acreditar, Mabel - contou ele enquanto acabava a última torrada. - Eles batiam palmas e aplaudiam dando abraços
uns aos outros e palmadinhas nas costas - revelou, abanando a cabeça. - Imagina só. Hitler tem o mundo debaixo das patas e os nossos rapazes ficam excitados porque conseguem pôr a flutuar um grande pedaço de cimento.
A gigantesca estrutura flutuante de betão, avistada por Arthur Barnes nessa sombria manhã de janeiro, tinha o nome de código de Phoenix. Tinha 60,96 metros de comprimento, 15,24 metros de largura e deslocava mais de 6000 toneladas de água. Estava planeado construírem-se mais de duzentas. Os seus interiores - invisíveis do ponto de observação privilegiado de Barnes em frente do porto eram um labirinto de câmaras vazias e válvulas para controlar a entrada da água, já que a Phoenix não tinha sido projetada para ficar à superfície por muito tempo. Fora projetada para ser rebocada através do canal da Mancha e afundada na costa da Normandia. As Phoenixes eram apenas uma componente de um enorme projeto dos Aliados para construírem um porto artificial em Inglaterra e rebocá-lo para a França no Dia D. O nome de código global para o projeto era Operação Mulberry.
Foi Dieppe que lhes ensinou a lição, Dieppe e os desembarques anfíbios no Mediterrâneo. Em Dieppe, local do raide desastroso dos Aliados à França, em agosto de 1942, os alemães negaram aos Aliados o uso do porto pelo maior tempo possível. No Mediterrâneo, destruíram os portos antes de os abandonarem, tornando-os impraticáveis durante longos períodos. Os planeadores da invasão concluíram que tentar capturar um porto intacto era impossível. Decidiram que os homens e o material deviam chegar a terra firme da mesma maneira - nas praias da Normandia.
O problema era o tempo. Estudos dos padrões meteorológicos ao longo da costa francesa mostravam que não se podia esperar que períodos de boas condições durassem mais do que quatro dias consecutivos. Assim, os planeadores da invasão tiveram de assumir que o material teria de chegar a terra firme durante uma tempestade.
Em julho de 1943, o primeiro-ministro Winston Churchill e uma delegação de trezentos oficiais partiram para o Canadá a bordo do
Queen Mary. Churchill e Roosevelt iam encontrar-se no Quebeque, em agosto, para aprovar os planos da invasão da Normandia. Durante a viagem, o professor J. D. Bernal, um distinto físico, fez uma demonstração espetacular numa das luxuosas casas de banho do navio. Deitou na banheira alguns centímetros de água, com o lado raso a representar as praias da Normandia e o lado mais fundo a baía do Sena. Bernal colocou vinte barcos de papel na banheira e utilizou uma escova para as costas a fim de simular condições tempestuosas. Os barcos afundaram-se imediatamente. Bernal encheu depois um colete salva-vidas, a que a RAF chamava Mae West, e atravessou-o na banheira de lado a lado como um quebra-mar. A escova para as costas foi outra vez usada para criar uma tempestade, mas desta vez os barcos sobreviveram. Bernal explicou que a mesma coisa iria acontecer na Normandia. Uma tempestade resultaria numa devastação: era necessário um porto artificial.
No Quebeque, os britânicos e os americanos concordaram em construir dois portos artificiais para a invasão da Normandia, cada um com a capacidade do grande porto de Dover. Dover demorou sete anos a construir; os britânicos e os americanos tinham cerca de oito meses. Era uma tarefa de dimensões inimagináveis. Cada Mulberry custou 20 milhões de libras. A economia britânica, paralisada por quatro anos de guerra, tinha que fornecer quatro milhões de toneladas de betão e aço. Seria necessário centenas de engenheiros de topo, bem como dezenas de milhares de trabalhadores especializados. Levar os Mulberries de Inglaterra para a França no Dia D iria requerer todos os rebocadores disponíveis no Reino Unido e na Costa Leste dos Estados Unidos.
A única tarefa igual à de construir os Mulberries seria a de os manter secretos - provado pelo facto de Arthur Barnes e a sua corgi Fionna ainda estarem à beira-mar quando o navio de cabotagem transportando a equipa de engenheiros britânicos e americanos acostou na doca. A equipa desembarcou e encaminhou-se para um autocarro que os esperava. Um dos homens separou-se do grupo e dirigiu-se para um carro oficial à espera para o levar outra vez para Londres. O condutor saiu do carro, abriu rapidamente a porta de trás e o comandante Peter Jordan entrou.
NOVA IORQUE: OUTUBRO DE 1943
Abordaram-no numa sexta-feira. Havia de se lembrar sempre deles como Laurel e Hardy; o gordo e atarracado americano, que cheirava a aftershave barato e à cerveja
e salsicha do seu almoço; o magro e delicado inglês, que apertou a mão a Jordan como se estivesse à procura do pulso. Na realidade, os nomes deles eram Leamann e
Broome - ou pelo menos era o que diriam os cartões de identificação que acenaram ao passarem por ele. Leamann disse que estava no Ministério da Guerra americano;
Broome, o inglês magro, murmurou qualquer coisa sobre estar ligado ao Ministério da Guerra britânico. Nenhum dos homens estava de farda - Leamann usava um fato castanho e coçado que estava muito esticado no estômago corpulento e apertado nas virilhas; Broome, um fato de corte elegante de um cinento-carvão, demasiado quente para o outono americano.
Jordan recebeu-os no seu magnífico escritório na Baixa de Manhattan. Leamann susteve pequenos arrotos enquanto admirava a espetacular vista de Jordan sobre as pontes do rio East; aponte de Brooklyn, aponte de Manhattan, o bairro de Williamsburg. Broome, que mostrava pouco interesse pelas coisas feitas pelo ser humano, comentava o tempo - um perfeito dia de outono, um céu aul cristalino, um brilhante pôr do Sol cor de laranja. Uma tarde para faer crer que Manhattan é o sítio mais espetacular
da Terra. Dirigiram-se para a janela a sul e conversaram enquanto observavam os cargueiros a entrarem e a saírem do porto de Nova Iorque.
- Fale-nos do trabalho que fa agora, senhor Jordan - disse Leamann com um ligeiro sotaque do sul de Boston.
Era um assunto sensível. Ainda era o engenheiro-chefe da Northeast Bridge Company, que ainda era a maior empresa de construção de pontes da Costa Leste. Mas o sonho de começar a sua própria empresa de engenharia tinha morrido com a guerra, tal como temera.
Parecia que Leamann tinha memorizado o seu curriculum e, nesse momento, recitava-o como se jordan tivesse sido nomeado para um prémio.
- Primeiro do seu ano no Rensse/aer Polytechnic Institute. Engenheiro do Ano em 1938. A Scientífic American diz que o senhor é o maior desde o fulano que inventou
a roda. O senhor é um caso muito sério, senhor Jordan.
Uma versão amplificada do artigo da Scientific American estava pendurada numa parede, numa elegante moldura preta. A fotografia que lhe tiraram naquela altura parecia
a de outro homem. Era mais magro agora - havia quem
dissesse que estava mais atraente - e, apesar de ainda não estar nos quarenta, salpicos grisalhos tinham aparecido nas fontes.
Broome, o inglês magro, estava a passear pelo escritório, escrutinando as fotografias e os modelos das pontes que a empresa tinha desenhado e construído.
- Tem muitos alemães a trabalhar aqui - disse Broome, como se fosse uma novidade paraJordan.
Uma verdade - alemães nos quadros de engenharia e alemães no pessoal administrativo. A própria secretária de
Jordan era uma mulher chamada Miss Hofer, cuja família
viera de Estugarda para a América quando ela era pequena. Ainda falava inglês com sotaque alemão. Foi então que, como que para provar a exatidão do comentário de
Broome, dois rapaces estafetas passaram pela porta de jordan a tagarelarem em alemão com sotaque de Berlim.
-Que tipo de inspeçoes de segurança lhes fizeram?
Era Eemann a falar outra vez. Jordan conseguia perceber que ele era um tipo qualquer de polícia, ou pelo menos tinha sido polícia noutra vida. Estava escrito no
corte modesto do fato puído e na expressão de determinação canina no seu rosto. Para Eeamann, o mundo estava cheio de pessoas más e ele era a única coisa que existia
entre a ordem e a anarquia.
- Não lhes fademos inspeçoes de segurança. Aqui construímos pontes, não bombas.
- E como sabem se eles não são simpatizantes do outro lado?
- Eeamann. Isso não é um nome alemão?
O rosto gordo de Eeamann fechou-se numa carranca.
- Irlandês, por acaso.
Broome parou a inspeção aos modelos de pontes rindo-se com a troca de palavras.
- Conhece um homem chamado Walker Hardegen? -perguntou ele a seguir. Jordan teve a impressão desconfortável de que tinha sido investigado.
- Penso que já conhece a resposta dessa pergunta. E sim, a família dele é alemã. Ele fala a língua e conhece o país. Tem sido de um valor incalculável para o meu
sogro.
-Quer dizer, o seu ex-sogro? -perguntou Broome.
- Mantivemo-nos muito chegados mesmo depois da morte da Margaret. Broome estava debruçado sobre outro modelo.
- Isto é uma ponte suspensa?
- Não, é um desenho de um arco de ponte. Não é engenheiro, pois não?
Broome levantou os olhos e sorriu como se achasse a pergunta de certo modo ofensiva.
- Não, claro que não. Jordan sentou-se à secretária.
- Muito bem, meus senhores, chegou a altura de me dizerem ao que vêm.
- Tem que ver com a invasão da Europa - disse Broome. - Podemos precisar da sua ajuda.
-Querem que eu construa uma ponte entre a Inglaterra e a França? bereuntou Jordan com um sorriso.
-Qualquer coisa parecida com isso - respondeu leamann. Broome estava a acender um cigarro. Soprou uma elegante nuvem defumo na direção do rio.
- De facto, senhor Jordan, não é nada parecido com isso.
DOZE LONDRES
Os céus desabaram num violento aguaceiro enquanto Alfred Vicary se apressava por Parliament Square em direção às Salas de Guerra Subterrâneas, o quartel-general de Winston Churchill debaixo dos passeios de Westminster. O primeiro-ministro tinha telefonado pessoalmente a Vicary, pedindo-lhe para o ver imediatamente. Vicary vestira rapidamente o uniforme e, com a pressa, abandonou o quartel-general do MI5 sem chapéu de chuva. Assim, a sua única defesa contra a investida da chuva gelada era acelerar o passo, com uma mão a apertar a gola do impermeável e a outra a segurar uma quantidade de dossiês sobre a cabeça, como um escudo. Passou apressadamente pelas estátuas contemplativas de Lincoln e Beaconsfield e, a seguir, completamente encharcado, apresentou-se à sentinela da Marinha Real, na porta reforçada com sacos de areia do número 2 de Great George Street.
O MI5 estava em pânico. Na noite anterior, duas mensagens descodificadas da Abwehr tinham chegado de Bletchley Park por correio motorizado. Confirmavam as piores suspeitas de Vicary - pelo menos dois agentes estavam em atividade no Reino Unido sem o conhecimento do MI5 e parecia que os alemães planeavam enviar mais um. Era um desastre. Vicary, depois de ler as mensagens com o coração apertado, telefonou para casa de Sir Basil e deu as notícias. Sir Basil contactou o diretor-geral e outros oficiais superiores envolvidos na
Operação Double Cross. À meia-noite, as luzes fervilhavam no quinto andar. Vicary estava agora à frente de um dos mais importantes casos da guerra. Tinha dormido menos de uma hora. A cabeça doía-lhe, tinha os olhos a arderem, os seus pensamentos iam e vinham cmflashes turbulentos e caóticos.
A sentinela deu uma vista de olhos à identificação de Vicary e fez-lhe sinal para entrar. Vicary desceu as escadas e atravessou o pequeno átrio. Ironicamente, Neville
Chamberlain mandara começar as obras nas Salas de Guerra Subterrâneas no dia em que regressou de Munique a declarar a paz no nosso tempo. Vicary pensava sempre naquele
lugar como um monumento subterrâneo ao fracasso da conciliação. Escudado por 1,22 metros de qmento reforçado com os velhos carris do elétrico de Londres, o labirinto
subterrâneo era considerado absolutamente à prova de bomba. As armas secretas mais vitais do governo britânico estavam albergadas ali, juntamente com o posto de
comando pessoal de Churchill.
Vicary percorreu o corredor, com os ouvidos cheios do matraquear das máquinas de escrever e do barulho de uma dúzia de telefones não atendidos. O teto baixo era
reforçado com a madeira de um dos barcos de guerra de Nelson. Um sinal avisava CUIDADO com A CABIÍÇA. Vicary, com um escasso metro e sessenta e oito, passou facilmente
por baixo dele. As paredes, outrora da cor da nata do Devonshire, tinham-se esbatido num bege baço como um jornal velho. Os soalhos estavam cobertos com um velho
linóleo castanho. Por cima, numa braçadeira da canalização de drenagem, Vicary podia ouvir o gorgolejar da canalização dos New Public Offices, à superfície. Apesar de o ar ser filtrado por um sistema de ventilação especial, cheirava a corpos sujos e a fumo de cigarro velho. Vicary aproximou-se de uma porta onde estava outra sentinela da Marinha Real em posição de descanso. A sentinela pôs-se em sentido quando Vicary passou, com o barulho dos calcanhares amortecidos por um tapete de borracha especial.
Vicary olhou para os rostos do pessoal que trabalhava, vivia, comia e dormia debaixo de terra na fortaleza do primeiro-ministro. A palavra pálidos não fazia justiça ao seu estado; eram habitantes das cavernas macilentos e cor de cera que se deslocavam rapidamente
pelo labirinto subterrâneo. Subitamente, o gabinete sem janelas de Vicary em St. James's Street já não parecia assim tão mau. Pelo menos, estava à superfície. Pelo menos, havia qualquer coisa parecida com ar fresco.
Os aposentos particulares de Churchill estavam localizados na sala 65A, contígua à sala de mapas e do outro lado do corredor da Sala de Comunicações Transatlânticas. Um assessor fez entrar de imediato Vicary, que foi recebido com os olhares gelados de um bando de burocratas que parecia estar à espera desde a última guerra. Era um espaço pequeno, grande parte dele ocupado por uma cama pequena feita com lençóis cinzentos do exército. Aos pés da cama, estava uma mesa com uma garrafa e dois copos. A BBC tinha instalado um microfone permanente para Churchill poder fazer a sua transmissão radiofónica na segurança da sua fortaleza subterrânea. Vicary reparou no pequeno sinal na sombra que dizia SILÊNCIO - NO AR. A sala continha apenas um item luxuoso, um humidifícador para os charutos Romeoj Julieta do primeiro-ministro.
Churchill, de roupão de seda verde e com o primeiro charuto do dia entre os dedos, estava sentado à sua pequena secretária. Manteve-se aí quando Vicary entrou na sala. Vicary sentou-se na borda da cama e fitou a figura à sua frente. Não era o mesmo homem que Vicary tinha visto naquela tarde de maio de 1940. Também não era a figura segura e bem-disposta das atualidades e dos filmes de propaganda. Era obviamente um homem que tinha trabalhado demais e dormido muito pouco. Acabava de regressar ao Reino Unido, tendo chegado do Norte de África poucos dias antes, onde tinha estado a convalescer depois de sofrer um pequeno ataque de coração e contrair uma pneumonia. Os olhos estavam raiados de vermelho, o rosto inchado e pálido. Esboçou um débil sorriso ao seu velho amigo.
- Olá, Alfred, como é que tem passado? - perguntou Churchill quando a sentinela da Marinha Real fechou cuidadosamente a porta.
- Bem, mas eu é que lhe devia estar a perguntar isso. O senhor é que tem estado sob pressão.
- Melhor do que nunca - retorquiu Churchill. - Ponha-me ao corrente dos factos.
- Intercetámos duas mensagens de Hamburgo para dois agentes alemães em atividade no Reino Unido - informou Vicary, entregando as mensagens a Churchill. - Como sabe, temos estado a agir na suposição de que tínhamos prendido, enforcado ou feito mudar de lado todos os agentes alemães a atuarem no Reino Unido. Isto é obviamente um grande golpe. Se os agentes transmitiram qualquer informação que contradiga o material que enviámos através da Operação Double Cross, os alemães vão suspeitar de tudo. E também julgamos que estão a planear introduzir um novo agente no país.
- E o que estamos a fazer para os deter?
Vicary informou Churchill das medidas que tinham tomado até
ao momento.
- Mas, infelizmente, senhor primeiro-ministro, as hipóteses de capturar o agente à entrada não são boas. Antigamente, no verão de
1940, por exemplo, quando eles estavam a introduzir espiões para a invasão, estávamos prontos para os capturar porque muitas vezes os alemães diziam aos agentes já em atividade no Reino Unido precisamente quando, onde e como os novos espiões iam entrar.
- E esses agentes estavam a trabalhar para nós como agentes duplos.
- Ou na cela de uma prisão, sim. Mas, neste caso, a mensagem para o agente em atividade era muito vaga, apenas uma frase codificada: executar procedimento de receção número um. Partimos do princípio de que diga tudo o que o agente precisa de saber. Infelizmente, a nós não nos diz nada. Apenas podemos adivinhar como é que o novo espião está a planear entrar no país. E, a não ser que tenhamos muita sorte, as hipóteses de o capturar são, no mínimo, escassas.
- Maldição! - praguejou Churchill, batendo com a mão no braço da cadeira.
Ergueu-se e serviu brandy para os dois. Olhou fixamente para dentro do copo, resmungando consigo próprio, como se se tivesse esquecido de que Vicary estava ali.
- Lembra-se da tarde em 1940 em que lhe pedi para vir trabalhar para o MI 5?
- Certamente, senhor primeiro-ministro.
- Eu tinha razão, não tinha?
- O que quer dizer?
- Tem passado o melhor tempo da sua vida, não tem? Olhe para si, Alfred, está um homem completamente diferente. Céus, eu queria ter o seu bom aspeto.
- Obrigado, senhor primeiro-ministro
- Tem feito um ótimo trabalho. Mas não vai significar nada se esses espiões alemães encontrarem o que procuram. Percebe isso, Alfred?
Vicary suspirou profundamente e respondeu:
- Percebo os riscos envolvidos, senhor primeiro-ministro.
- Quero-os detidos, Alfred, Quero-os esmagados.
Vicary pestanejou rapidamente e, inconscientemente, tocou no bolso do casaco à procura dos óculos em meia-lua. O charuto de Churchill tinha-se apagado na sua mão. Reacendendo-o, saboreou um momento de fumo tranquilo.
- Como está o Boothby? - perguntou Churchill por fim. Vicary voltou a suspirar.
- Como sempre, senhor primeiro-ministro.
- A dar apoio?
- Quer ser mantido a par de todos os passos que dou.
- Por escrito, suponho. Boothby é um defensor das coisas por escrito. O gabinete do homem produz mais papel que o Times, diabos o levem!
Vicary permitiu-se um ligeiro riso abafado.
- Nunca lhe disse isto, Alfred, mas tive as minhas dúvidas se conseguiria ter sucesso. Se o Alfred tinha verdadeiramente o que era preciso para agir no mundo dos serviços secretos militares. Oh, nunca duvidei que tivesse os miolos, a inteligência. Mas duvidei que possuísse a espécie de astúcia grosseira necessária para ser um bom agente dos serviços de secretos. Também duvidei que conseguisse ser suficientemente impiedoso.
As palavras de Churchill espantaram Vicary.
- Então porque está a olhar para mim assim, Alfred? E um dos homens mais decentes que alguma vez conheci. Normalmente, os homens que têm sucesso no seu tipo de trabalho são homens como
Boothby. Ele prendia a própria mãe se pensasse que isso beneficiava a sua carreira, ou apunhalava o inimigo pelas costas.
- Mas eu mudei, senhor primeiro-ministro. Fiz coisas que nunca pensei ser capaz de fazer. E também fiz coisas de que me envergonho.
Churchill pareceu perplexo.
- Vergonha?
- Quando se é contratado para limpar chaminés, fica-se com os dedos pretos - retorquiu Vicary. - Sir James Harris escreveu estas palavras quando foi ministro em Haia, em 1785. Detestava o facto de lhe pedirem para pagar subornos a espiões e informadores. Às vezes, quem me dera que ainda fosse assim tão simples.
Vicary lembrou-se da noite em setembro de 1940. Ele e a sua equipa tinham-se escondido no meio da urze no topo de uma escarpa sobranceira a uma praia rochosa da Cornualha, abrigados da chuva fria debaixo de um oleado preto. Vicary sabia que o alemão viria nessa noite; a Abwehr tinha pedido a Karl Becker para lhe preparar uma festa de receção. Ele não passava de um rapaz, lembrou-se Vicary, e, no momento em que atingiu a praia na sua balsa insuflável, estava meio morto de frio. Caiu nas mãos dos homens da Divisão Especial, balbuciando em alemão, feliz por estar vivo. Os documentos dele eram atrozes, as duzentas libras mal forjadas e o inglês limitado a umas poucas amabilidades bem ensaiadas. Era tão mau que Vicary teve de conduzir o interrogatório em alemão. O espião tinha sido encarregado de recolher informações sobre as defesas costeiras e, quando chegasse a invasão, de fazer sabotagem. Vicary concluiu que ele era inútil. Imaginou quantos mais iguais àquele teria Canaris - mal treinados, mal equipados e mal financiados, praticamente sem qualquer hipótese de sucesso. Manter o logro elaborado pelo MI5 requeria que executassem alguns espiões, portanto Vicary recomendou o seu enforcamento. Assistiu à execução na prisão de Wandsworth e nunca iria esquecer a expressão nos olhos do espião quando o carrasco lhe enfiou o capuz na cabeça.
- Tem de transformar o coração numa pedra, Alfred - disse Churchill num sussurro rouco. - Não temos tempo para sentimentos como vergonha ou compaixão, nenhum de nós, agora não. Tem
de deixar de lado quaisquer princípios que ainda possua, deixar de lado quaisquer sentimentos de compaixão que ainda possua, e fazer tudo o que for necessário para vencer. Isso ficou claro?
- Ficou, senhor primeiro-ministro.
Churchill aproximou-se, inclinou-se e falou num tom confessional:
- Há uma verdade infeliz acerca da guerra. Embora seja praticamente impossível que um só homem ganhe uma guerra, é inteiramente possível que um só homem a perca.
Churchill fez uma pausa e, a seguir, rematou:
- Para bem da nossa amizade, Alfred, não seja esse homem! Vicary, abalado com o aviso de Churchill, reuniu as suas coisas
e dirigiu-se para a porta. Abriu-a e saiu para o corredor. Na parede, o quadro da meteorologia, atualizado de hora a hora, indicava tempo chuvoso. Vicary ouviu Churchill atrás de si, sozinho no quarto subterrâneo, murmurando consigo próprio. Vicary levou uns instantes a perceber o que o primeiro-ministro estava a dizer.
- Maldito tempo inglês! - murmurava Churchill. - Maldito tempo inglês!
Por instinto, Vicary procurou pistas no passado. Leu e releu descodificações de mensagens enviadas por agentes no Reino Unido para operadores de rádio em Hamburgo. Descodificações de mensagens enviadas por Hamburgo para os agentes no Reino Unido. Histórias de casos, mesmo de casos em que ele próprio tinha estado envolvido. Leu o relatório final de um dos primeiros casos que tinha tratado, um incidente que terminara no norte da Escócia, num lugar adequadamente chamado Cape Wrath1. Leu a carta de recomendação que estava no seu processo, escrita de má vontade por Sir Basil Boothby, chefe de divisão, com cópia enviada para Winston Churchill, primeiro-ministro. Sentiu-se novamente cheio de orgulho.
Harry Dalton andava de um lado para o outro, entre o gabinete de Vicary
e a divisão dos Registos, como um batedor de estradas medieval, trazendo novos documentos
para um lado e devolvendo os
1 Cabo da Ira. (N. do T.)
antigos para o outro. Alguns agentes, cientes da tensão crescente no gabinete de Vicary, passavam pela sua porta em grupos de dois e três como automobilistas por
um acidente na estrada - olhos desviados, mas lançando rápidas e temerosas olhadelas. Quando Vicary acabava um love de dossiês, Harry perguntava: Alguma coisa? Vicary
fazia uma careta e respondia: Não, nada, raios!
Às duas horas daquela tarde, as paredes estavam a fechar-se sobre ele. Tinha fumado demasiados cigarros e bebido demasiadas chávenas de chá preto forte.
- Preciso de ar fresco, Harry.
- Saia daqui durante algumas horas. Fazia-lhe bem.
- vou dar um passeio, comer qualquer coisa, se calhar.
- Quer companhia?
- Não, obrigado.
Um chuvisco gelado, como o fumo de uma batalha próxima, caiu sobre Westminster enquanto Vicary caminhava ao longo do Embankment. Um vento cruelmente frio levantou-se do rio, fez retinir os sinais da rua temporários e em mau estado, e assobiou através de uma pilha de madeira despedaçada e tijolos partidos, onde antes se erguera um edifício esplêndido. Vicary deslocou-se rapidamente com o seu coxear mecânico, por causa do joelho rígido, com a cabeça baixa e as mãos mergulhadas nos bolsos do casaco. Pelo aspeto da sua cara, um transeunte podia deduzir que estava atrasado para uma reunião importante ou a fugir de alguma desagradável.
A Abwehr tinha apenas umas quantas maneiras de introduzir um agente no Reino Unido. Muitos eram postos em terra em barcos pequenos saídos de um submarino. Vicary tinha acabado de ler o relatório da captura dos agentes duplos com o nome de código Mutt e Jeff. Tinham chegado a terra num hidroavião, perto da aldeia de pesca de arenque MacDuff, em Moray Firth. Vicary já tinha pedido à Guarda Costeira e à Marinha Real para estarem particularmente vigilantes. Mas o litoral inglês estendia-se por muitos milhares de quilómetros, impossíveis de cobrir totalmente. Vicary sabia que as hipóteses de apanhar um agente numa praia escura eram escassas.
A Abwehr tinha introduzido espiões no Reino Unido de paraquedas. Era impossível ter em conta cada centímetro quadrado do espaço aéreo, mas Vicary tinha pedido à RAF para estar atenta a aeronaves isoladas.
A Abwehr tinha aterrado e desembarcado agentes na Irlanda e no Ulster. Para chegarem a Inglaterra tinham de apanhar o ferry. Vicary tinha pedido aos operadores do ferry em Liverpool para manterem debaixo de olho os passageiros desconhecidos: qualquer pessoa não familiarizada com a rotina da travessia de ferry, pouco à vontade com a língua ou com a moeda. Não lhes podia dar uma descrição porque não a tinha.
O passeio em andamento vivo e o tempo frio fizeram-lhe fome. Entrou numpub perto da estação de Victoria e pediu uma empada de legumes e meia caneca de cerveja.
Tem de transformar o coração numa pedra, dissera Churchill.
Infelizmente, já tinha feito isso há muito tempo. Helen. Era a filha mimada e atraente de um industrial próspero, e Vicary, apesar de saber que era um erro, apaixonara-se loucamente por ela. A relação começou a desfazer-se na tarde em que fizeram amor pela primeira vez. Por qualquer razão, o pai de Helen tinha lido corretamente os sinais; o modo como eles davam a mão no regresso do lago, a maneira como Helen tocava no cabelo já ralo de Vicary. Nessa noite, chamou Helen para uma conversa privada. Em nenhuma circunstância, ela seria autorizada a casar com o filho de um escriturário, que frequentara a universidade com uma bolsa de estudos. O pai de Helen ordenou-lhe que terminasse a relação tão rápida e discretamente quanto possível, e ela fez exatamente o que lhe tinha sido dito. Era esse tipo de rapariga. Vicary nunca a recriminou por isso e ainda a amava. Mas qualquer coisa se apagou nele nesse dia. Supôs que fosse a sua capacidade de acreditar. Perguntava-se se alguma vez a recuperaria.
É praticamente impossível que um só homem ganhe uma guerra.
Vicary pensou: Raios partam o Velho por pôr esse peso nos meus ombros.
A dona do pub, uma mulher corpulenta, apareceu ao pé da mesa.
- Estava assim tão mau, meu querido?
Vicary olhou para o prato. As cenouras e as batatas tinham sido empurradas para o lado e estivera a passear distraidamente a ponta da faca pelo molho da carne. Olhou para o prato com mais atenção e verificou que tinha traçado um mapa de Inglaterra na mistela castanha.
Perguntou a si mesmo: Onde é que aquele maldito espião irá aterrar?
- Estava bom - disse Vicary educadamente, entregando o prato. - Acho que não estava com tanta fome como pensava.
Na rua, Vicary levantou a gola do sobretudo e começou a voltar para o escritório.
E inteiramente possível que um só homem a perca.
Folhas mortas crepitavam no caminho de Vicary enquanto ele se apressava ao longo de Birdcage Walk. A última luz da tarde recuava lentamente. Na escuridão crescente, Vicary podia ver as cortinas do blackout fecharem-se como pálpebras nas janelas sobranceiras ao St. James's Park. Imaginou Helen numa das janelas a vê-lo apressar-se pelo passeio lá em baixo. Entrou numa feroz fantasia em que, resolvendo o caso, prendendo os espiões e ganhando a guerra, iria provar que era digno dela e ela o voltaria a aceitar.
Não seja esse homem.
Havia mais qualquer coisa que Churchill tinha dito; tinha-se queixado da chuva incessante. O primeiro-ministro, seguro no abrigo da sua fortaleza subterrânea, a queixar-se do tempo...
Vicary passou rapidamente pelo guarda do quartel-general do MI5, sem apresentar o distintivo de identificação.
- Conseguiu inspirar-se? - perguntou Harry quando Vicary voltou para o gabinete.
- Talvez. Se precisasse de meter de repente um espião no país, Harry, que caminho usava?
- Acho que vinha pelo leste... Kent, East Anglia e até mesmo pelo leste da Escócia.
- Exatamente o que pensei.
- E então?
- Se estivesse a montar uma operação rapidamente, que meio de transporte usava?
- Depende.
- Vá lá, Harry!
- Acho que escolhia um avião.
- E porque não um submarino... pôr o espião em terra com uma balsa?
- Porque é mais fácil arranjar um pequeno avião rapidamente do que um submarino precioso.
- Exato, Harry. E do que precisa para colocar um espião em Inglaterra por avião?
- bom tempo, para já.
- Certo outra vez, Harry.
Vicary agarrou subitamente no auscultador do telefone e esperou que a telefonista atendesse.
- Daqui fala Vicary. Ligue-me ao serviço meteorológico da RAF imediatamente.
Uma jovem atendeu um momento depois.
- Sim?
-- Daqui fala Vicary, do Ministério da Guerra. Preciso de uma informação sobre o tempo.
- Que tempo tão desagradável que estamos a ter, não é?
- Sim, sim - respondeu Vicary impacientemente - Quando é que vai melhorar a leste?
- Esperamos que o sistema atual se desloque para o mar alto amanhã à tarde, em qualquer altura.
- E vamos ter céu limpo?
- Cristalino.
- Raios!
- Mas não por muito tempo. Há outra frente atrás desta, a deslocar-se rapidamente pelo país para sudeste.
- E a que distância está?
- É difícil dizer. Provavelmente doze a dezoito horas.
- E depois disso?
- O país inteiro vai ficar encharcado na próxima semana... neve e chuva intermitente.
- Obrigado.
Vicary desligou o telefone e voltou-se para Harry.
- Se a nossa teoria for válida, o nosso espião vai tentar entrar no país de paraquedas amanhã à noite.
TREZE
HAMPTON SANDS, NORFOLK
A descida de bicicleta até à praia demorava normalmente cerca de cinco minutos. Ao fim da tarde, Sean Dogherty resolveu cronometrá-la apenas para ter a certeza.
Pedalou a uma cadência cuidadosa e sem pressas, com a cabeça inclinada para o vento refrescante vindo do mar. Desejou que a bicicleta estivesse em melhor estado.
Como a própria Inglaterra em tempo de guerra, estava gasta, batida, a precisar desesperadamente de manutenção. Chocalhava e chiava a cada volta dos pedais. A corrente precisava de óleo, que era escasso, e os pneus estavam tão carecas e remendados que até parecia que Dogherty se deslocava só nos aros.
A chuva diminuíra a meio do dia. Nuvens gordas e esfarrapadas flutuavam por cima da cabeça de Dogherty como balões de barragem a flutuarem nos seus ancoradouros. Atrás dele, o Sol punha-se no horizonte como uma bola de fogo. Os pântanos e as encostas brilhavam com uma bela luz cor de laranja.
Dogherty sentiu uma intensa excitação a crescer no seu peito. Não sentia nada igual desde a primeira vez que se tinha encontrado com o contacto da Abwehr em Londres, no início da guerra.
A estrada acabava num pequeno pinhal no sopé das dunas. Um sinal desgastado pelo mau tempo avisava que havia minas na praia. Dogherty, como toda a gente em Hampton Sands, sabia que não havia nenhuma. No cesto da bicicleta, Dogherty tinha colocado um recipiente
fechado com um litro de preciosa gasolina. Retirou o recipiente, empurrou a bicicleta para dentro do pinhal e encostou-a cuidadosamente a uma árvore.
Dogherty olhou para o relógio - exatamente cinco minutos.
Um trilho seguia pelo meio das árvores. Dogherty seguiu-o, com areia e agulhas secas de pinheiro por debaixo dos pés, e atravessou as dunas. O barulho da rebentação das ondas enchia o ar.
O mar abriu-se à frente dele. A maré tinha atingido o ponto mais alto duas horas antes. Naquele momento, já estava a vazar rapidamente e com força. À meia-noite, hora a que estava prevista a descida, iria haver uma larga faixa de areia seca e lisa ao longo da linha de água, perfeita para a aterragem em paraquedas de um agente.
Dogherty tinha a praia por sua conta. Voltou para os pinheiros e passou os cinco minutos seguintes a recolher lenha suficiente para três pequenas fogueiras de sinalização. Precisou de quatro viagens para levar a lenha para a praia. Verificou o vento - de nordeste, a uns trinta e três quilómetros por hora. Dogherty empilhou a madeira em linha reta, separando as pilhas umas das outras cerca de vinte metros, para indicar a direção do vento.
O crepúsculo estava a terminar. Dogherty abriu o recipiente da gasolina e regou a madeira. À noite, teria de esperar ao pé do rádio até receber o sinal de Hamburgo a avisar que o avião se estava a aproximar. Nessa altura, teria de descer até- à praia, acender as fogueiras e recolher o agente. Simples, se tudo corresse conforme planeado.
Dogherty começou a voltar para trás pela praia. Foi então que viu Mary parada no topo das dunas, uma silhueta recortada pelos últimos raios do pôr do Sol, com os braços cruzados debaixo do peito. O vento atirava-lhe o cabelo para a cara. Ele tinha-lhe dito na noite anterior, tinha-lhe dito que a Abwehr o tinha mandado recolher um agente. Tinha-lhe pedido para sair de Hampton Sands até estar tudo acabado, tinham amigos e família em Londres com quem ela podia ficar. Mary tinha recusado ir. Não lhe tinha dito uma palavra desde então. Andavam aos encontrões no pequeno chalé, num silêncio zangado, evitando entreolharem-se, com Mary a bater com os tachos no fogão e a partir pratos e chávenas por causa dos nervos abalados. Era como se tivesse ficado para o punir com a sua presença.
Quando Dogherty chegou ao topo das dunas, Mary tinha partido. Seguiu o caminho até ao sítio onde tinha deixado a bicicleta. Mary tinha-a levado. Mais um round na nossa guerra silenciosa, pensou Dogherty. Levantou a gola para se proteger do vento e voltou para o chalé.
Jenny Colville descobriu o lugar quando tinha dez anos - uma pequena depressão nos pinheiros, a algumas centenas de metros da estrada, abrigada do vento por um par de grandes rochas. Um esconderijo perfeito. Tinha construído um tosco fogão de acampamento, amontoando rochas num círculo e pondo uma pequena grelha de metal no topo. Colocou os elementos de uma fogueira - agulhas de pinheiro, erva seca das dunas, pequenos galhos caídos das árvores e chegou-lhes um fósforo. Soprou suavemente e um instante depois a fogueira ganhou vida.
Ela conservava uma pequena mala escondida debaixo das rochas, coberta com uma camada de agulhas de pinheiro. Afastou as agulhas e tirou-a de lá. Jenny abriu a tampa e retirou o que estava lá dentro: um cobertor de lã gasto, uma pequena panela de metal, uma caneca de esmalte lascada e uma caixa de chá seco e poeirento. Jenny desdobrou o cobertor e estendeu-o ao pé da fogueira. Sentou-se e aqueceu as mãos nas chamas.
Dois anos antes, um aldeão tinha descoberto as suas coisas e concluído que um vagabundo estava a viver na praia. Isso causou a maior agitação em Hampton Sands desde
o incêndio na St. John's Church, em 1912. Jenny manteve-se afastada durante algum tempo. Mas o escândalo acalmou rapidamente e ela pôde voltar.
As chamas morreram, deixando uma camada de brasas vermelhas incandescentes. Jenny encheu o bule com água de um cantil que trouxera de casa. Assentou a panela na
grelha e esperou que começasse a ferver, ouvindo o som do mar e do vento a assobiar entre os pinheiros.
Como de costume, o local exerceu a sua magia.
Começou a esquecer-se dos seus problemas - do pai.
Ao princípio da tarde, quando chegou a casa vinda da escola, ele estava sentado à mesa da cozinha, bêbado. Depressa se iria tornar beligerante, depois zangado e
depois violento. Iria descarregar na pessoa mais próxima; inevitavelmente, seria Jenny. Decidiu esquivar-se
à tareia antes que ela pudesse acontecer. Fez-lhe um prato de sanduíches pouco abundante e um bule de chá e colocou-os na mesa. Ele não disse nada, não mostrou nenhum
interesse em saber onde ela ia quando Jenny vestiu o casaco e se esgueirou pela porta.
A água ferveu. Jenny juntou-lhe o chá, tapou-a e tirou-a do lume. Pensou nas outras raparigas da aldeia. Estariam em casa a jantar com os pais, a falarem sobre os
acontecimentos do dia e não a esconderem-se nas árvores ao pé da praia, sem outra companhia que não o som das ondas e uma chávena de chá. Isso tinha-a tornado diferente,
mais velha, mais esperta. Tinha sido despojada da sua infância, do seu tempo de inocência, forçada a confrontar-se muito cedo na vida com o facto de o mundo poder
ser um sítio diabólico.
Meu Deus, porque é que ele me odeia tanto? O que é que eu alguma vez
fiz que o magoasse?
Mary tinha feito o seu melhor para explicar o comportamento de Martin Colville. Ele ama-te, tinha dito Mary vezes sem conta, mas está ferido, zangado e infeliz e
descarrega na pessoa de quem gosta mais.
Jenny tinha tentado pôr-se no lugar do pai. Lembrava-se vagamente do dia em que a mãe juntou as suas coisas e partiu. Lembrava-se do pai a implorar e a suplicar-lhe
que ficasse. Lembrava-se da expressão da cara dele quando ela recusou, lembrava-se do som do estilhaçar dos copos, dos pratos partidos, das coisas horríveis que
disseram um ao outro. Durante muitos anos, não lhe disseram para onde a mãe tinha ido, simplesmente não se falava disso. Quando Jenny perguntava ao pai, ele ia-se
embora num silêncio tempestuoso. Mary foi quem acabou por lhe dizer. A mãe tinha-se apaixonado por um homem de Birmingham e tido um caso com ele, vivendo juntos
desde então. Quando Jenny perguntou por que razão a mãe nunca a tinha tentado contactar, Mary não lhe pôde dar uma resposta. Para tornar as coisas piores, Mary disse
a Jenny que ela se tinha tornado a cara da mãe. Jenny não tinha provas disso - a última memória que tinha da mãe era a de uma mulher desesperada e zangada, com os
olhos inchados e vermelhos de chorar - e o pai tinha destruído todas as fotografias dela há muito tempo.
Jenny verteu o chá, apertando a caneca de esmalte junto do corpo para aquecer. Rajadas de vento agitavam o topo das árvores por
cima da sua cabeça. A Lua apareceu, seguida pelas primeiras estrelas. Jenny conseguia sentir que iria ser uma noite muito fria. Não iria poder ficar muito tempo.
Deitou dois pedaços de lenha para a fogueira e ficou a olhar para as sombras a dançarem nas rochas. Acabou o chá e enrolou-se numa bola, com a cabeça apoiada nas
mãos.
Imaginou-se noutro lugar qualquer, em qualquer sítio exceto Hampton Sands. Queria fazer algo grandioso e não voltar mais. Tinha dezasseis anos. Algumas das raparigas mais velhas das aldeias vizinhas tinham ido para Londres e para outras cidades grandes para aceitarem trabalhos que os homens tinham largado para irem para a guerra. Ela podia encontrar trabalho numa fábrica, servir à mesa, qualquer coisa.
Estava a começar a adormecer quando pensou ouvir um som perto da água. Por um momento, interrogou-se se haveria realmente vagabundos a viverem na praia. Assustada, Jenny pôs-se de pé. Os pinheiros acabavam nas dunas. Deslocou-se cuidadosamente pelo pinhal, pois tinha escurecido rapidamente, e iniciou a subida da areia. Parou no topo, com a vegetação da duna a dançar ao sabor do vento por baixo dos seus pés, e olhou na direção do som. Viu uma figura com um oleado, botas de mar e um chapéu impermeável com abas largas.
Sean Dogherty.
Parecia estar a empilhar madeira, a andar de um lado para o outro, a calcular alguma distância. Talvez Mary estivesse certa. Talvez Sean tivesse endoidecido.
Depois, Jenny descortinou outra figura no topo das dunas. Era Mary, ali de pé, ao vento, de braços cruzados, olhando para Sean em silêncio. A seguir, Mary voltou-se e foi-se embora silenciosamente sem esperar por Sean.
Quando Sean ficou fora de vista, Jenny apagou as brasas, guardou as suas coisas e pedalou de regresso a casa. O chalé estava vazio, frio e escuro quando chegou. O pai tinha saído, a lareira estava apagada há muito. Não havia nenhuma nota a explicar o seu paradeiro. Ficou acordada na cama durante algum tempo, a ouvir o vento, a rever a cena que tinha testemunhado na praia. Havia qualquer coisa muito errada naquilo, concluiu. Qualquer coisa muito errada mesmo.
- De certeza que podemos fazer mais qualquer coisa, Harry disse Vicary a andar de um lado para o outro do gabinete.
- Já fizemos tudo o que podíamos fazer, Alfred.
- Talvez devêssemos verificar outra vez com a RAF.
- Acabei de verificar com a RAF.
- Alguma coisa?
- Nada.
- bom, ligue para a Marinha Real...
- Acabei de falar para a Cidadela.
- E?
- Nada.
- Cristo!
- Tem de ser paciente.
- Não sou dotado de paciência natural, Harry.
- Já reparei.
- E quanto a...
- Liguei para oferry de Liverpool
- E então?
- Parado por causa do mar bravo.
- Então esta noite eles não vêm pela Irlanda.
- Não é muito provável.
- Talvez estejamos a abordar isto de uma perspetiva errada, Harry.
- O que quer dizer?
- Talvez devêssemos focar a nossa atenção nos dois agentes que já estão no Reino Unido.
- Estou a ouvir.
- Vamos voltar aos registos de passaportes e de imigração.
- Cristo, Alfred, eles não mudaram desde 1940. Juntámos todos os que achávamos que eram espiões e prendemos toda a gente de quem tínhamos dúvidas.
- Eu sei, Harry. Mas talvez haja alguma coisa em que não tenhamos reparado.
- Tal como?
- Diabos, como quer que eu saiba?
- Eu arranjo os registos. Mal não pode fazer.
- Talvez estejamos sem sorte, Harry.
- Alfred, conheci uma série de polícias com sorte no meu tempo.
- Sim, Harry?
- Mas nunca conheci um poli cia preguiçoso com sorte.
- Onde quer chegar, Harry?
- vou buscar os registos e fazer um bule de chá.
Sean Dogherty saiu do chalé pela porta das traseiras e percorreu o caminho até ao celeiro. Vestia uma camisola grossa e um oleado e trazia um candeeiro a petróleo. As últimas nuvens tinham desaparecido. O céu era um tapete azul-escuro carregado de estrelas, com uma Lua brilhante a três quartos. O ar estava dolorosamente frio.
Uma ovelha baliu quando ele abriu a porta do celeiro e entrou. O animal tinha-se enredado na cerca nesse dia. Na luta para se libertar, tinha arranjado maneira de cortar a pata e de abrir um buraco na cerca ao mesmo tempo. Naquele momento, estava deitada numa cama de feno no canto do celeiro.
Dogherty ligou o rádio e começou a mudar o penso, cantarolando serenamente para acalmar os nervos de ambos. Tirou o penso ensanguentado, substitui-o por um novo e prendeu-o de forma a ficar seguro.
Estava a admirar o seu trabalho quando o rádio crepitou, dando sinal de vida. Dogherty atravessou o celeiro a correr e colocou os auscultadores. A mensagem era breve. Enviou um sinal de confirmação e saiu do celeiro velozmente.
O percurso até à praia demorou menos de três minutos.
Dogherty desmontou no fim da estrada e puxou a bicicleta para dentro das árvores. Trepou as dunas, desceu pelo outro lado e correu ao longo da praia. As fogueiras de sinalização estavam intactas, prontas para serem acesas. Ao longe, conseguia ouvir o ronco baixo de um avião.
Pensou: Meu Deus, ele está mesmo a chegar.
Acendeu as fogueiras. Em poucos segundos, a praia resplandecia de luz.
Dogherty, agachado na vegetação das dunas, esperou que o avião aparecesse. O aparelho desceu sobre a praia e um momento depois um ponto preto saltou da parte de trás do avião. O paraquedas abriu-se com um estalido enquanto o avião virava e se dirigia para o mar alto.
Dogherty levantou-se da vegetação da duna e correu pela praia, O alemão fez uma aterragem perfeita, rolou e já estava a recolher o paraquedas preto quando Dogherty chegou.
- Deve ser o Sean Dogherty - disse ele num inglês perfeito de colégio particular.
- É verdade - respondeu Sean, espantado. - E você deve ser o espião alemão.
O homem franziu o sobrolho.
- Qualquer coisa do género. Oiça, meu velho, eu trato disto. Porque não apaga essas malditas fogueiras antes que o mundo inteiro saiba que estamos aqui?

SEGUNDA PARTE
CATORZE
PRÚSSIA ORIENTAL: DEZEMBRO DE 1927
Os veados estão a passar fome este inverno. Saem dos bosques e esgaravatam os prados em busca de comida. O grande macho está lá, ao pôr do Sol, com o nariz a furar
a neve por um bocado de erva congelada. Eles estão atrás de uma pequena elevação, Anna de barriga para baixo, o papá acocorado ao lado dela. Ele sussurra instruções,
mas ela não o ouve. Não precisa de instruções. Tinha estado à espera deste dia. Tinha-o imaginado. Tinha-se preparado para ele.
Ela está a introduzir as balas no cano da espingarda. É nova, a coronha lisa, sem um risco e a cheirar a óleo de limpar armas. É o seu presente de aniversário. Hoje quinze anos.
O veado também é o seu presente.
Tinha querido apanhar um veado antes, mas o papá recusara. "É uma coisa muito emocional, matar um veado", tinha-lhe dito em jeito de explicação. "É difícil de descrever.
Tens de experimentar e eu não deixo que isso aconteça até teres idade suficiente para compreender."
É um tiro difícil - cento e cinquenta metros, com vento lateral gelado e forte. A cara de Anna arde com o frio, o corpo estremece, os dedos ficaram entorpecidos
nas luvas. Coreógrafa o tiro na cabeça; aperta o gatilho suavemente, tal como na carreira de tiro. Exatamente como o papá lhe ensinou.
O vento sopra em rajadas. Ela espera.
Ergue-se sobre um joelho e coloca a espingarda em posição de disparar.
O veado, assustado com o barulho da neve a ser esmagada debaixo de Arma, levanta a enorme cabeça e vira-a na direção do som.
Rapidamente, ela vê a cabeça do macho na mira, tem em conta o vento lateral e dispara. A bala penetra no olho do macho e ele cai no prado branco de neve como uma
trouxa sem vida.
Ela baixa a arma e volta-se para o papá. Está à espera que ele esteja a sorrir, a aplaudir, que tenha os braços abertos para a acolher e lhe dizer quão orgulhoso
está. Em vez disso, a cara dele é uma máscara vazia enquanto olha primeiro para o veado morto e depois para ela.
- O teu pai sempre quis um filho, mas eu não lhe dei um - disse-lhe a mãe quando estava de cama a morrer de tuberculose, no quarto ao fundo do corredor. - Sê o que
ele quiser que tu sejas. Ajuda-o, Anna. Toma conta dele por mim.
Tinha feito tudo o que a mãe pedira. Tinha aprendido a andar a cavalo, a disparar e afazer tudo o que os rapaces fazem, só que melhor. Tinha viajado com o papá para
os postos diplomáticos. Na segunda-feira, vão partir para a América, onde o papá vai ser primeiro conselheiro.
Anna tinha ouvido falar dos gangsters na América a deslocarem-se nas ruas nos seus enormes carros pretos, a dispararem sobre toda agente que vissem. Se os gangsters
tentarem ferir o papá, ela vai dar-lhes um tiro nos olhos com a sua nova arma.
Nessa noite, deitam-se juntos na cama do papá, com uma grande quantidade de lenha a arder com intensidade na lareira. Lá fora, há uma tempestade. O vento ruge e as árvores batem na casa. Anna acha sempre que estão a tentar entrar porque têm frio. O fogo crepita e o fumo emite um cheiro quente e maravilhoso. Encosta a cara à do papá e põe os braços à volta do peito dele.
- Para mim, foi difícil a primeira vez que matei um veado - di ele como que a admitir uma falha. - Quase pus a minha arma de lado. Porque não foi difícil para ti,
minha querida Anna?
- Não sei, papá, simplesmente não foi!
- Tudo o que conseguia ver eram os olhos daquela maldita coisa afitarem-me. Uns enormes olhos castanhos. Belos. Depois vi a vida a abandoná-los e senti-me pessimamente.
Não consegui tirar a maldita coisa da cabeça durante uma semana.
- Não vi os olhos. Voltou-se para ela no escuro.
- O que viste? Ela hesitou.
- Vi a cara dele.
- A. cara de quem, querida? -pergunta ele, confuso. - A cara do veado?
- Não, papá, não a do veado.
- Anna, querida, de que raio estás a falar?
Ela quer desesperadamente dizer-lhe, dizer a alguém. Se a mãe ainda fosse viva, talvez lhe conseguisse dizer a ela. Mas não tem coragem para contar ao papá. Ficaria
louco. Não seria justo para ele.
- De nada, papá. Agora estou cansada - responde ela, beijando-o na cara. - Boa noite, papá. Sonhos cor-de-rosa.
LONDRES: JANEIRO DE 1944
Tinham passado seis dias desde que Catherine Blake recebera a mensagem de Hamburgo. Durante esse tempo, pensara muito e arduamente na hipótese de a ignorar.
Alfa era o nome de código de um ponto de encontro no Hyde Park, um caminho pelo meio de um pequeno bosque. Não conseguia evitar sentir-se inquieta com a ideia de ir para a frente com o encontro. O MI5 prendera dezenas de espiões desde 1940. De certeza que alguns desses espiões tinham contado tudo o que sabiam antes de irem ter com o carrasco.
Teoricamente, isso não devia fazer diferença no caso dela. Vogel prometera que com ela seria diferente. Teria procedimentos de rádio diferentes, procedimentos de encontro diferentes e códigos diferentes. Mesmo que todos os outros espiões em Inglaterra fossem presos e enforcados, não teriam maneira de chegar até ela.
Catherine desejou poder partilhar da confiança de Vogel. Ele estava a centenas de quilómetros, separado do Reino Unido pelo canal da Mancha, a voar às cegas. O mais pequeno erro podia levá-la à prisão ou à morte. Como o ponto de encontro, por exemplo. Estava uma noite terrivelmente fria; alguém a vaguear pelo Hyde Park ficava
automaticamente sob suspeita. Era um erro idiota, tão incaracterístico de Vogel. Devia estar sob grande pressão. Era compreensível. Aproximava-se uma invasão, toda a gente sabia disso. A única questão era quando e onde.
Sentia-se relutante em ir ao encontro por outra razão: receava ser arrastada para o jogo. Tinha-se habituado a viver confortavelmente
- talvez demasiado confortavelmente. A sua vida adquirira uma estrutura e uma rotina. Tinha um apartamento confortável, o seu trabalho de voluntariado no hospital e o dinheiro de Vogel para subsistir. Estava relutante em pôr-se em perigo nesta fase final da guerra. Não se achava de maneira nenhuma uma alemã patriótica. O seu disfarce parecia totalmente seguro. Podia esperar pelo fim da guerra e depois voltar para Espanha. Voltar para a grande estancia no sopé das colinas. Voltar para Maria.
Catherine entrou no Hyde Park. O trânsito da tarde em Kensington Road diluiu-se num zunido agradável.
Tinha duas razões para ir ao encontro.
A primeira era a segurança do pai. Catherine não se tinha voluntariado para trabalhar para a Abwehr como espiã, tinha sido forçada a fazê-lo. O instrumento de coerção
de Vogel era o pai dela. Tinha deixado claro que o pai seria prejudicado - preso, atirado para um campo de concentração, morto mesmo - se ela não aceitasse ir para
o Reino Unido. Se agora recusasse aceitar uma missão, a vida do pai ficaria certamente em perigo.
A segunda razão era mais simples - ela estava desesperadamente sozinha. Tinha sido destacada e isolada há seis anos. Os agentes vulgares podiam usar os seus rádios.
Tinham algum contacto com a Alemanha. Não lhe tinha sido permitido quase nenhum contacto. Era curiosa; queria falar com alguém que pertencesse ao seu lado. Queria
ser capaz de deixar cair o disfarce por alguns minutos apenas, de largar a identidade de Catherine Blake.
Meu Deus, pensou ela, mas eu já quase não me consigo lembrar do meu nome verdadeiro.
Decidiu ir ao encontro.
Caminhou ao longo da margem do lago Serpentine, vendo um bando de patos a apanhar peixe nas fendas do gelo. Seguiu o caminho em direção às árvores. A última luz tinha desaparecido; o céu era
um tapete de estrelas cintilantes. O blackout tinha uma coisa boa, pensou ela: podiam ver-se as estrelas à noite, mesmo no coração do West End.
Meteu a mão na carteira e procurou a coronha da sua pistola com silenciador, uma Mauser automática 6.35. Estava lá. Se alguma coisa parecesse fora do normal, usá-la-ia. Tinha feito uma promessa nunca se deixaria prender. A ideia de estar fechada numa fedorenta prisão britânica qualquer punha-a doente fisicamente. Tinha pesadelos com a sua própria execução. Via as caras risonhas dos ingleses antes de o carrasco lhe colocar o capuz preto na cabeça e a corda à volta do pescoço. Usaria o seu comprimido para se suicidar ou morreria a lutar, mas nunca deixaria que lhe tocassem.
Um soldado americano passou na direção contrária. Tinha uma prostituta agarrada a ele que lhe estava a esfregar as virilhas e a enfiar a língua no ouvido. Era uma cena habitual. As raparigas trabalhavam em Piccadilly. Poucas gastavam tempo ou dinheiro em quartos de hotel. Trabalho de parede, chamavam-lhe os soldados. As raparigas limitavam-se a levar os clientes para becos ou parques e a levantar as saias. Algumas mais ingénuas acreditavam que foder de pé evitava que ficassem grávidas.
Inglesas estúpidas, pensou Catherine
Meteu-se por entre o arvoredo e esperou que o agente de Vogel aparecesse.
O comboio da tarde de Hunstanton chegou à estação de Liverpool Street com meia hora de atraso. Horst Neumann recolheu o seu pequeno saco de viagem de couro da prateleira
da bagagem e juntou-se à fila dos passageiros que enchiam o cais. A estação estava num caos. Grupos de passageiros cansados vagueavam pelo terminal como vítimas de um desastre natural, com caras inexpressivas, desesperadamente à espera de comboios atrasados. Soldados dormiam onde lhes apetecia, com as cabeças apoiadas nos sacos de viagem. Alguns polícias do caminho de ferro fardados circulavam pelo meio da multidão, tentando manter a ordem. Todos os bagageiros eram mulheres. Neumann desceu para a plataforma. Pequeno, ágil, alerta, abriu caminho através da densa multidão.
Os homens junto à saída tinham autoridade estampada neles. Vestiam fatos amarrotados e usavam chapéu de coco. Interrogou-se se estariam à procura dele. Não havia maneira nenhuma de terem uma descrição sua. Instintivamente, enfiou a mão no interior do casaco, à procura da coronha da pistola. Estava lá, escondida no cós das calças. Procurou também a carteira, no bolso do peito. O nome no bilhete de identidade dizia James Porter. O seu disfarce era o de caixeiro-viajante de produtos farmacêuticos. Roçou pelos dois homens ao passar e juntou-se à multidão que se acotovelava em Bishopsgate.
A viagem, excetuando o inevitável atraso, tinha corrido sem problemas. Partilhara o compartimento com um grupo de jovens soldados. Durante algum tempo, tinham-lhe deitado olhares malévolos enquanto lia o jornal. Neumann calculava que qualquer jovem saudável e bem-parecido à paisana estaria sujeito a uma certa dose de desprezo. Disse-lhes que tinha sido ferido em Dunquerque e trazido para Inglaterra meio morto, a bordo de um rebocador de alto-mar - um dos barcos pequenos. Os soldados convidaram Neumann a juntar-se-lhes num jogo de cartas e ele dera-lhes uma tareia.
A rua estava escura como breu, com a única iluminação fornecida pelos faróis do trânsito do início da noite, que ia avançando pela rua, e pelas lanternas de blackout
que muitos transeuntes transportavam. Sentiu-se como se estivesse no meio de um jogo de crianças, a tentar realizar às cegas uma tarefa ridiculamente simples. Por duas vezes, chocou com um peão a caminhar na direção oposta. Outra vez, colidiu com uma coisa fria e dura e começou a desculpar-se antes de perceber que era um poste de iluminação.
Teve de se rir. De facto, Londres tinha mudado desde a sua última visita.
Nascera com o nome de Nigel Fox, em Londres, em 1919, filho de mãe alemã e pai inglês. Quando o pai morreu em 1927, a mãe voltou para a Alemanha e instalou-se em Dusseldorf. Um ano mais tarde, voltou a casar com um construtor rico chamado Erich Neumann, um disciplinador duro que não estava interessado em ter um enteado
chamado Nigel que falasse alemão com sotaque inglês. Mudou imediatamente o nome do rapaz para Horst, autorizou-o a usar o seu nome de família e inscreveu-o numa das mais duras escolas militares do país. Horst era muito infeliz. Os outros rapazes gozavam-no por causa do seu alemão deficiente. Pequeno, facilmente intimidável, vinha para casa a maior parte dos fins de semana com olhos negros e lábios cortados. A mãe sentia-se cada vez mais preocupada: Horst tinha-se tornado reservado e metido consigo mesmo. Erich achava que era bom para ele.
Mas quando Horst fez catorze anos, a sua vida mudou. Numa competição de atletismo aberta a todos, entrou nos 1500 metros com os calções da escola e descalço. Terminou muito abaixo dos cinco minutos, impressionante para um rapaz sem treino. Um treinador da federação nacional viu a corrida. Encorajou Horst a treinar e convenceu a escola a dar-lhe condições especiais.
Horst reviveu. Livre da escravidão das aulas de educação física da escola, passava as tardes a correr pelos campos e montanhas. Gostava de estar só, longe dos outros rapazes. Nunca tinha sido tão feliz. Tornou-se rapidamente um dos melhores atletas juniores do país em corrida e uma fonte de orgulho para a escola. Aderiu à Hitler Jugend
- a Juventude Hitleriana. De repente, rapazes que implicavam com ele nos anos anteriores procuravam a sua atenção. Em 1936, foi convidado a assistir aos Jogos Olímpicos em Berlim. Viu o americano Jesse Owens espantar o mundo ao ganhar quatro medalhas de ouro. Conheceu Adolf Hitler numa receção à Juventude Hitleriana e até lhe apertou a mão. Ficou tão entusiasmado que telefonou para casa para contar à mãe. Erich ficou imensamente orgulhoso. Sentado na tribuna, Horst sonhou com 1944, ano em que teria idade suficiente e rapidez suficiente para competir pela Alemanha.
A guerra iria mudar tudo isso.
Entrou para a Wehrmacht no início de 1939. A sua condição física e a atitude de lobo solitário chamaram a atenção dos Fallschirmjàger, a tropa paraquedista. Foi enviado para a escola de paraquedismo em Stendhal e aterrou na Polónia no primeiro dia da guerra. Seguiram-se a França, Creta e a Rússia. Obteve a sua Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro no fim de 1942.
Paris terminaria com os seus dias de paraquedismo. Uma noite, já tarde, foi a um bar tomar um brandy. Um grupo de oficiais das SS tomara conta da sala das traseiras
para uma festa privada. A meio da bebida, Neumann ouviu um grito vindo dessa sala. O francês atrás do balcão ficou petrificado, demasiado aterrado para investigar. Neumann atuou por ele. Quando abriu a porta, viu uma rapariga francesa em cima da mesa, com os braços e pernas presos por homens das SS. Um maior estava a violá-la e outro batia-lhe com um cinto. Neumann entrou a correr e aplicou um soco brutal na cara do major. A cabeça deste acertou na esquina de uma mesa: nunca recuperou a consciência.
Os outros homens das SS arrastaram-no para um beco, espancaram-no selvaticamente e deixaram-no à beira da morte. Passou três meses num hospital a recuperar. As lesões na cabeça foram tão severas que foi declarado incapaz para saltar de paraquedas. Por causa do seu inglês fluente, foi colocado num posto de escuta dos serviços secretos do exército, no norte de França, onde passou os dias sentado em frente de um recetor de rádio numa cabana limitada e claustrofóbica, a monitorizar comunicações via rádio com origem do outro lado do canal da Mancha, em Inglaterra. Era um trabalho escravo.
Foi então que apareceu o homem da Abwehr, Kurt Vogel. Tinha um aspeto doentio e cansado e, noutras circunstâncias, Neumann poderia ter pensado que ele era um artista ou um intelectual. Disse que procurava homens qualificados que quisessem ir fazer espionagem em Inglaterra. Disse que pagaria o dobro do ordenado de Neumann na Wehrmacht. Neumann estava completamente farto. Aceitou de imediato. Nessa noite, deixou a França e voltou para Berlim com Vogel.
Uma semana antes de ir para o Reino Unido, Neumann foi levado para uma quinta no distrito de Dahlem, mesmo à saída de Berlim, para uma semana de reuniões e de intensa preparação. As manhãs eram passadas no celeiro, onde Vogel tinha montado uma plataforma de saltos para Neumann treinar. Um salto real foi considerado fora de questão por razões de segurança. Também melhorou a sua habilidade com armas de fogo, que já era impressionante, e com métodos para matar silenciosamente. As tardes eram ocupadas com o essencial do trabalho de campo: saltos de treino, procedimentos especiais para encontros,
códigos e rádio. Algumas vezes, as instruções eram dadas apenas por Vogel. Outras vezes, este trazia o assistente, Werner Ulbricht. Neumann referia-se a ele, a brincar, como Watson, e Ulbricht aceitava-o com uma satisfação pouco comum nele. No final das tardes, com a luz do inverno a morrer sobre a paisagem coberta de neve da quinta, Neumann tinha autorização para correr durante quarenta e cinco minutos. Durante três dias, deixaram-no correr sozinho. Mas, no quarto dia, com a cabeça cheia dos segredos de Vogel, foi seguido à distância por um jipe.
As noites pertenciam a Vogel. Depois de uma ceia em grupo na cozinha da casa da quinta, Vogel levava Neumann para o estúdio e ensinava-o à lareira. Nunca usava notas, pois Vogel, como Neumann podia ver, tinha o dom da memória. Vogel falou-lhe de Sean Dogherty e dos procedimentos para o salto. Falou-lhe de uma agente chamada Catherine Blake. Falou-lhe de um agente americano chamado Peter Jordan.
Todas as noites, Vogel revia matéria antiga antes de adicionar outro nível de detalhe. Apesar da informalidade da atmosfera da quinta, o seu guarda-roupa nunca mudava: fato escuro, camisa branca e gravata escura. A voz dele era irritante como uma dobradiça enferrujada, mas captava a atenção de Neumann com a sua intensidade e singeleza de propósitos. Na sexta noite, satisfeito com o progresso do pupilo, Vogel até se permitiu um ligeiro sorriso, que rapidamente disfarçou com a mão direita, embaraçado com os seus dentes medonhos.
Entrar no Hyde Park pelo norte, tinha-lhe lembrado Vogel na última reunião. A partir de Bayswater Road. Era o que Neumann estava a fazer. Seguir o caminho até às árvores sobranceiras ao lago. Fazer uma passagem para ter a certeza de que o lugar está limpo. Fazer a aproximação numa segunda passagem. Deixá-la decidir se é para continuar. Ela saberá se é seguro. Ela é muito boa.
O homem baixo apareceu no trilho. Usava um sobretudo de lã e um chapéu de abas. Passou rapidamente, sem olhar para ela. Ela interrogou-se se estaria a perder o poder de atrair os homens.
Ficou à espera debaixo das árvores. As regras para os encontros eram específicas. Se o contacto não aparecer exatamente à hora marcada, ir-se embora e voltar no dia seguinte. Decidiu esperar mais um minuto e depois ir-se embora.
Ouviu os passos. Era o mesmo homem que tinha passado por ela um momento antes. Quase chocou com ela na escuridão.
- Penso que estou mesmo um pouco perdido - disse ele com um sotaque que ela não conseguiu identificar. - Pode indicar-me para que lado fica Park Lane?
Catherine olhou para ele com atenção. Ostentava um sorriso para todas as ocasiões, com os olhos azul-claros a brilharem por baixo da aba do chapéu.
Ela apontou para oeste.
- É para aquele lado.
- Obrigado.
Ele começou a afastar-se e depois voltou-se.
- Quem deve ascender à colina do Senhor? Ou quem deve ficar no seu lugar sagrado?
- Aquele que tem as mãos limpas, e um coração puro; Quem não tenha levado a alma à vaidade, nem tenha jurado falso.
Ele riu-se e disse:
- Catherine Blake, tão certo como eu estar vivo e a respirar. Porque é que não vamos a algum lado quente onde possamos falar?
Catherine procurou dentro da carteira e retirou a lanterna para o blackout.
- Tem uma coisa destas? - perguntou ela.
- Infelizmente, não.
- Isso é um erro estúpido. E erros estúpidos como esse podem matar-nos aos dois.
QUINZE LONDRES
Quando Harry Dalton ainda estava no Met1, era considerado um investigador meticuloso, arguto e implacável, que acreditava que nenhuma pista, por mais trivial que fosse, podia ser descartada. A sua grande oportunidade surgiu em 1936. Duas rapariguinhas tinham desaparecido de um pátio de recreio no East End e Harry foi destacado para a equipa especial de agentes a investigar o caso. Depois de três dias sem dormir e de intenso trabalho, Harry prendeu um vagabundo chamado Spencer Thomas. Harry dirigiu o interrogatório. No seu dia de descanso, chefiou uma equipa de busca a um lugar isolado junto ao estuário do Tamisa, onde Thomas lhe tinha dito que iria encontrar os corpos mutilados das raparigas. Nos dias que se seguiram, encontrou os corpos de uma prostituta em Gravesend, de uma criada em Bristol e de uma dona de casa em Sheffield. Spencer Thomas foi preso num manicómio para criminosos loucos. Harry foi promovido a inspetor.
Nada na sua experiência profissional o tinha preparado para um dia tão frustrante como o que estava a ter. Procurava um agente alemão, mas não tinha uma única pista ou orientação. O seu único recurso era telefonar às forças policiais locais e pedir relatórios de qualquer coisa fora do usual, de qualquer crime que pudesse ter sido
1 Abreviatura para Metropolitan Police Service of London: Serviço da Polícia Metropolitana de Londres. (N. do T.)
cometido por um espião em movimento. Não podia dizer-lhes que andava à procura de um espião, seria uma violação de segurança. Andava à pesca e Harry Dalton detestava pescar.
A conversa que Harry teve com um polícia de Evesham foi típica.
- Como disse que era o seu nome?
- Harry Dalton.
- A telefonar de onde?
- Do Ministério da Guerra em Londres.
- Estou a ver. E o que quer de mim?
- Quero saber se recebeu alguns relatórios de crimes que possam ter sido cometidos por alguém em fuga.
- Tais como?
- Tais como carros roubados, bicicletas roubadas, cupões de racionamento roubados, gasolina. Use a sua imaginação!
- Estou a ver.
- E?
- De facto, tivemos uma participação de uma bicicleta roubada.
- A sério? Quando?
- Esta manhã.
- Isso pode ser alguma coisa.
- As bicicletas são terrivelmente valiosas nos dias que correm. Tinha um traste velho a enferrujar no meu barracão. Tirei-a para fora, limpei-a um pouco, vendi-a a um cabo ianque por dez libras. Dez libras! Dá para acreditar? Aquela coisa não valia dez xelins.
- Isso é interessante. E quanto à bicicleta roubada?
- Aguente um minuto - como é que disse que era o seu nome?
- Harry.
- Harry. Aguente um minuto, Harry... George, ouvimos mais alguma coisa a respeito daquela bicicleta desaparecida em Sheep Street? Sim, essa... O que queres dizer com isso, ele encontrou-a? Onde é que ela estava, raios?.... No meio do pasto? E como é que lá foi parar, raios?... Ai fez? Meu Deus do céu! Ainda está aí, Harry?
- Ainda estou aqui.
- Lamento. Falso alarme.
- Não faz mal. Obrigado por ter procurado.
- Não há problema.
- Se ouvir alguma coisa...
- Será o primeiro a saber, Harry.
- Adeus.
Ao fim da tarde, tinha atendido dezenas de chamadas de polícias das zonas rurais, cada uma mais bizarra do que a outra. Um polícia de Bridgewater telefonou para comunicar uma janela partida.
- Parece um caso de roubo com arrombamento? - perguntou Harry
- Nem por isso.
- Porquê?
- Porque foi o vitral da igreja.
-Certo. Mantenham os olhos abertos.
Um polícia de Skegness informou que alguém tinha tentado entrar nu.mpub fora de horas.
- O homem que procuro pode não estar familiarizado com as leis de licenciamento inglesas - disse-lhe Harry.
- Então vou verificar isso com mais atenção.
- Ótimo. Mantenha-se em contacto. Voltou a telefonar vinte minutos mais tarde.
- Era apenas uma mulher aqui da terra à procura do marido. Um bêbado completo, lamento dizê-lo.
- Raios!
- Lamento, Harry, Não pretendia dar-lhe esperanças.
- Só que deu, mas obrigado por ter verificado isso.
Harry olhou para o relógio: quatro horas, mudança de turno na divisão dos Registos. Grace vinha trabalhar. Pensou: Talvez ainda consiga aproveitar alguma coisa deste dia. Desceu no elevador para a divisão dos Registos e encontrou-a a empurrar um carrinho metálico a transbordar de dossiês. Tinha cabelo curto louro-branco e o batom barato daqueles tempos de guerra, vermelho cor de sangue, dava-lhe um ar de se ter embonecado para um homem. Vestia uma camisola infantil de lã cinzenta e uma saia preta um pouco curta demais. As meias grossas não conseguiam esconder a forma das pernas longas e atléticas.
Ela viu Harry e sorriu-lhe calorosamente. No mundo da divisão dos Registos, Grace era a exceção. Vernon Kell, o fundador do Serviço, achava que só os membros da aristocracia ou os familiares de
agentes do MI5 eram de confiança para um trabalho tão delicado. Em resultado disso, a divisão dos Registos estava sempre povoada por um quadro de funcionárias debutantes muito belas. Grace era uma rapariga da classe média, filha de um professor de liceu. Viu Harry e sorriu calorosamente. Depois, apenas com uma olhadela de lado dos seus bonitos olhos verdes, disse-lhe para ir ter com ela a uma das pequenas salas secundárias. Juntou-se-lhe um momento depois, fechou a porta e deu-lhe um beijo na cara.
- Olá, Harry, querido. Como é que tens passado?
- Muito bem, Grace, é bom ver-te.
Tinha começado em 1940, durante um ataque aéreo noturno a Londres. Abrigaram-se juntos no metropolitano e de manhã, quando se ouviu o aviso de que estava tudo bem, ela levara-o para o seu apartamento e para a sua cama. Era atraente, de uma maneira não convencional, e uma amante arrebatada e desinibida - um agradável e conveniente escape da pressão da agência. Para Grace, Harry era alguém bondoso e meigo que ajudava a passar o tempo até que o marido voltasse do exército.
Podiam ter continuado assim durante toda a guerra. Mas passados três meses, Harry ficou subitamente esmagado pela culpa. O pobre desgraçado está a lutar pela vida no Norte de África e eu estou aqui, em Londres, a ir para a cama com a mulher dele. A culpa provocou nele uma crise ainda maior. Era jovem, talvez devesse estar no exército a arriscar a vida em vez de andar pelo Reino Unido a caçar espiões relativamente inofensivos. Disse a si próprio que o trabalho do MI5 era vital para o esforço de guerra - indispensável -, mas a incómoda dúvida persistiu. O que é que eu faria no campo de batalha? Pegava na minha arma e lutava ou encolhia-me num buraco de trincheira? Contou a Grace o que sentia na noite em que rompeu a ligação. Fizeram amor pela última vez, com beijos salgados das lágrimas. Maldita guerra, não parava ela de dizer. Nojenta, horrorosa e maldita guerra.
- Preciso de um favor, Grace - disse Harry em voz baixa.
- Olha-me só para ti, Harry. Não telefonas, não escreves, não me trazes flores. Depois apareces de repente e dizes que precisas de um favor - respondeu ela, sorrindo e beijando-o outra vez. - Está bem, do que precisas?
- Preciso de ver a lista de acessos a um dossiê. A cara dela fechou-se.
- Vá lá, Harry. Sabes que não posso fazer isso.
- Um homem da Abwehr chamado Vogel. Kurt Vogel.
Uma expressão de reconhecimento surgiu na cara dela e depois dissipou-se.
- Grace, não preciso de te dizer que estamos a trabalhar num caso muito importante.
- Eu sei que estás a trabalhar num caso importante, Harry. Todo o departamento anda a murmurar sobre isso.
- Quando Vicary desceu para ver o dossiê de Vogel, este tinha desaparecido. Foi falar com Jago e, dois minutos depois, tinha o raio da coisa nas mãos. Jago inventou uma história qualquer e disse que tinha sido posto fora do sítio.
Ela estava a esgravatar iradamente nos dossiês do carrinho. Agarrou num monte deles e começou a colocá-los nos respetivos lugares nas prateleiras.
- Eu sei isso tudo, Harry.
- E como é que sabes?
- Porque ele me culpou a mim. O filho da mãe escreveu uma carta de reprimenda e meteu-a no meu processo.
- Quem é que te culpou?
- Jago - sibilou ela
- Porquê?
- Para proteger a pele, claro.
Ela estava outra vez a esgravatar nos dossiês. Harry aproximou-se e pegou-lhe nas mãos para a fazer parar.
- Grace, eu preciso de ver aquela lista de acessos.
- A lista de acessos não te vai dizer nada. A pessoa que tinha o dossiê antes do Vicary não deixa pistas.
- Grace, por favor. Suplico-te.
- Gosto quando suplicas, Harry.
- Sim, eu lembro-me.
- Porque não apareces lá em casa uma noite destas para jantar? Passou a ponta do dedo pelas costas da mão de Harry. Estava
preta de selecionar dossiês.
- Sinto falta da tua companhia. Conversamos, damos umas gargalhadas, nada mais.
- Ia gostar disso, Grace.
Era verdade. Tinha imensas saudades dela.
- Se disseres a alguém onde é que arranjaste isto, Harry, juro por Deus que...
- Fica só entre nós.
- Nem ao Vicary - insistiu ela. Harry pôs a mão sobre o coração.
- Nem ao Vicary.
Grace pegou noutra mão-cheia de dossiês e, a seguir, olhou para ele. com os seus lábios vermelhos, articulou as iniciais BB.
- Como é possível que não tenha uma única pista? - perguntou Basil Boothby quando Vicary se enterrou no sofá fundo e muito confortável.
Sir Basil tinha pedido atualizações noturnas sobre o progresso da investigação. Vicary, conhecedor da paixão de Boothby por receber coisas escritas, sugeriu uma nota concisa, mas Sir Basil quis ser informado em pessoa.
Nessa noite, Boothby tinha um compromisso. Murmurara qualquer coisa sobre os americanos para explicar o facto de estar vestido formalmente quando Vicary entrou no gabinete. Enquanto falava, a sua mão enorme estava empenhada num esforço infrutífero para colocar um botão de punho de ouro no punho engomado da camisa. Sir Basil tinha um criado particular em casa para o auxiliar nessas tarefas fastidiosas. As informações de Vicary ficaram suspensas por um momento enquanto Boothby chamava a sua bonita secretária para o ajudar a vestir-se.
Isso deu a Vicary um momento para processar as informações que Harry lhe tinha dado. Tinha sido Sir Basil a tirar o dossiê de Vogel. Tentou lembrar-se da primeira conversa. O que tinha Sir Basil dito? A divisão dos Registos pode ter alguma coisa sobre ele.
A secretária de Boothby retirou-se silenciosamente. Vicary retomou o relato. Tinham homens a vigiar todas as estações de caminho
de ferro de Londres. Tinham as mãos atadas porque não havia nenhuma descrição dos agentes que deviam procurar. Harry Dalton tinha compilado uma lista dos locais que se sabia serem utilizados pelos agentes alemães para pontos de encontro. Vicary tinha homens a vigiar o maior número possível.
- Dava-lhe mais homens, Alfred, mas não há mais - disse Boothby. - Os vigias estão todos a fazer turnos duplos e triplos. O chefe dos vigias anda a queixar-se de que o Alfred está a dar cabo deles. O frio está a matá-los. Metade já foi apanhada pela gripe.
- Compreendo as dificuldades que os vigias estão a passar, Sir Basil. Estou a utilizá-los o mais sensatamente possível.
Boothby acendeu um cigarro e sorveu o seu gim com angustura enquanto andava de um lado para o outro da sala.
- Temos três agentes alemães à solta no país, fora do nosso controlo. Não preciso de lhe dizer como isto é grave. Se um desses agentes tentar contactar um dos nossos agentes duplos, vamos ter problemas. Todo o aparelho da Operação Double Cross estará em perigo.
- O meu palpite é que não vão tentar contactar outros agentes.
- E porque não?
- Porque acho que Vogel está a dirigir a sua própria operação. Acho que estamos a lidar com uma rede de espiões independente, de que nunca ouvimos falar.
- Isso é apenas um palpite, Alfred. Temos de lidar com factos.
- Já leu alguma vez o dossiê do Vogel? - perguntou Vicary o mais descontraidamente possível.
- Não.
E és um mentiroso, pensou Vicary.
- A julgar pela maneira como este caso se está a desenrolar, eu diria que Vogel manteve uma rede de agentes adormecidos no Reino Unido desde o princípio da guerra. Se tivesse de adivinhar, o agente principal atua em Londres, o subagente algures no interior, onde lhe seja possível acolher um agente rapidamente. O agente que chegou ontem à noite está de certeza aqui para informar o agente principal da missão que tem de realizar. Tanto quanto sabemos, até podem estar a encontrar-se neste preciso momento em que estamos aqui a falar. E nós estamos a ficar cada vez mais para trás.
- Interessante, Alfred, mas é tudo baseado em conjeturas.
- Conjeturas baseadas na experiência, Sir Basil. Na ausência de factos provados, receio que seja o nosso único recurso - retorquiu Vicary, hesitando depois, consciente
da reação que a sua próxima sugestão iria provavelmente gerar. - Entretanto, penso que devíamos marcar uma reunião com o general Betts para o informar dos desenvolvimentos.
A cara de Boothby transformou-se numa carranca zangada. O brigadeiro-general Thomas Betts era o chefe-adjunto dos serviços secretos do SHAEF. Alto, parecido com
um urso, Betts tinha um dos lugares menos invejados de Londres: garantir que nenhum das várias centenas de agentes americanos e ingleses que sabiam o segredo da
operação Overlord revelasse esse segredo ao inimigo, intencional ou não intencionalmente.
- Isso é prematuro, Alfred.
- Prematuro? Sir Basil, foi o senhor que o disse. Temos três espiões alemães à solta.
- Tenho de ir ao fundo do corredor informar o diretor-geral daqui a nada. Se lhe sugerir que comuniquemos as nossas falhas aos americanos, vai cair-me em cima sem dó nem piedade
- Tenho a certeza de que o diretor-geral não será muito duro consigo, Sir Basil - respondeu Vicary, sabendo que Boothby tinha convencido o diretor-geral de que era um elemento indispensável. Além de que dificilmente se poderá considerar uma falha.
Boothby parou de andar de um lado para o outro.
- E o que lhe chamaria?
- Um contratempo temporário. Boothby resfolegou e esmagou o cigarro.
- Não permito que manche a reputação deste departamento, Alfred. Não vou permiti-lo.
- Talvez haja mais uma coisa que deva considerar para além da reputação deste departamento, Sir Basil.
- O quê?
Vicary esforçou-se por sair do sofá fundo e macio.
- Se os espiões tiverem sucesso, podemos muito bem perder a guerra.
- bom, então faça qualquer coisa, Alfred.
- Obrigado, Sir Basil. Não há dúvida de que é um bom conselho.
DEZASSEIS LONDRES
De Hyde Park apanharam um táxi para EarPs Court. Pagaram ao taxista quando faltavam uns quatrocentos metros para o apartamento dela. Durante o pequeno trajeto a pé, voltaram para trás duas vezes e Catherine fingiu que fazia uma chamada de uma cabine telefónica. Não estavam a ser seguidos. A senhoria, de seu nome Hodges, estava à entrada quando chegaram. Catherine deu o braço a Neumann. A senhora Hodges lançou-lhes um olhar de desaprovação quando subiram as escadas.
Catherine estava relutante em levá-lo até ao apartamento. Tinha protegido ciosamente a sua localização e recusado dar a morada a Berlim. A última coisa de que precisava era de um agente do MI5 a bater-Ihe à porta a meio da noite. Mas encontrarem-se em público estava fora de questão: tinham muito para discutir e fazê-lo num café ou numa estação de comboios era muito perigoso.
Observou Neumann à medida que ele dava uma volta pelo apartamento. Conseguia perceber pelo passo preciso e pela economia de gestos que, em tempos, tinha sido soldado. O inglês dele era perfeito. Era evidente que Vogel o tinha escolhido cuidadosamente. Pelo menos, não tinha enviado um amador qualquer para a informar da missão. Ele dirigiu-se à janela da sala de estar, abriu as cortinas e olhou para baixo, para a rua.
- Mesmo que eles estejam lá fora, nunca os conseguirá descobrir - disse Catherine enquanto se sentava.
- Eu sei, mas faz-me sentir melhor se olhar - respondeu ele, afastando-se da janela. - Foi um dia longo. Sabia-me bem uma chávena de chá.
- Tem tudo o que precisa na cozinha. Sirva-se.
Neumann pôs água a ferver no fogão e depois voltou para a sala.
- Como é que se chama? - perguntou-lhe ela. - O seu nome verdadeiro.
- Horst Neumann.
- É soldado. Pelo menos, foi. Qual é o seu posto?
- Sou tenente.
Ela sorriu.
- Bem, eu tenho um posto mais elevado.
- Sim, eu sei... major.
- Qual é o seu nome de cobertura?
- James Porter.
- Deixe-me ver a sua identificação.
Ele entregou-lha. Ela examinou-a cuidadosamente. Era uma falsificação excelente. Devolveu-lha.
- É boa - disse ela. - Mas mostre-a apenas se for absolutamente necessário. Qual é a sua cobertura?
- Fui ferido em Dunquerque e saí do exército por invalidez. Agora, sou caixeiro-viajante.
- E onde está alojado?
- Na costa de Norfolk, numa aldeia chamada Hampton Sands. Vogel tem um agente lá chamado Sean Dogherty. É um simpatizante do IRA e tem uma pequena quinta.
- E como entrou no país?
- De paraquedas.
- Muito impressionante - disse ela com sinceridade.
- E Dogherty acolheu-o? Estava à sua espera?
- Sim.
- Vogel contactou-o por rádio?
- Presumo que sim.
- Isso quer dizer que o MI5 anda atrás de si.
- Penso que avistei dois dos homens deles na Liverpool Street.
- Isso faz sentido. De certeza que andam a vigiar as estações retorquiu ela, acendendo um cigarro. - O seu inglês é excelente. Onde o aprendeu?
Enquanto ele lhe contava a história, Catherine observou-o cuidadosamente, pela primeira vez. Era pequeno e bem constituído: talvez tivesse sido um adeta, um jogador de futebol ou um corredor de fundo. O cabelo era escuro, os olhos de um azul penetrante. Era, obviamente, inteligente - não como alguns dos imbecis que ela tinha conhecido na escola de espiões da Abwehr, em Berlim. Duvidava que alguma vez tivesse estado atrás das linhas inimigas como agente e, contudo, não mostrava quaisquer sinais de nervosismo. Ela tinha mais algumas perguntas antes de ouvir o que ele tinha para dizer.
- Como é que acabou neste tipo de trabalho?
Neumann contou-lhe a história: tinha sido membro dos Fallschirmjàger, tinha visto ação em tantos sítios que já nem se lembrava. Contou-lhe sobre Paris. Sobre a sua transferência para a unidade de escuta da Funkabwehr no norte da França. E, finalmente, sobre o seu recrutamento por Kurt Vogel.
- O nosso Kurt é muito bom a encontrar trabalho para os incansáveis - disse Catherine quando ele acabou. - Então, o que é que Vogel tem em mente para mim?
- Uma missão e depois acabou-se. De volta à Alemanha.
A chaleira chiou. Neumann foi à cozinha e ocupou-se do chá. Uma missão e depois acabou-se. De volta à Alemanha. E com um antigo e altamente competente paraquedista para a ajudar a escapar. Estava impressionada. Sempre assumira o pior, que quando a guerra acabasse seria esquecida no Reino Unido e forçada a defender-se sozinha. Os britânicos e os americanos, assim que a inevitável vitória chegasse, atirar-se-iam aos ficheiros capturados da Abwehr. Encontrariam o nome dela, aperceber-se-iam de que nunca estivera presa e viriam atrás dela. Essa era outra razão por que escondera tanta informação de Vogel, não queria deixar um rasto em Berlim para os inimigos a perseguirem. Mas era óbvio que Vogel queria que ela regressasse à Alemanha e tinha tomado medidas para que isso acontecesse.
Neumann voltou à sala de estar com um bule de chá e duas canecas. Pousou tudo em cima da mesa e sentou-se novamente.
Catheríne perguntou-lhe:
- Qual é o seu trabalho, para além de me informar da minha missão?
- Tudo o que precisar, basicamente. Sou o seu correio, o seu agente de apoio e o seu operador de rádio. Vogel quer que continue a não usar o rádio. Está convencido de que não é seguro. Apenas pode usar o rádio se precisar de mim. Contacta Vogel com um sinal combinado previamente e Vogel contacta-me a mim.
Ela assentiu com a cabeça e depois perguntou:
- E quando acabar tudo? Como é que vamos sair do Reino Unido? E, por favor, não me venha com algo do estilo heróico, como roubar um barco e navegar até França. Porque não é possível.
- Claro que não. Vogel arranjou-lhe um bilhete de primeira classe num submarino.
- Qual?
- O U-509.
- Onde?
- No mar do Norte.
- Isso é muito grande. Onde, exatamente?
- Em Spurn Head, na costa de Lincolnshire.
- Moro aqui há cinco anos, tenente Neumann. Eu sei onde fica Spurn Head. E como chegamos ao submarino?
- Vogel tem um barco e um capitão à nossa espera numa doca do rio Humber. Quando for hora de partir, eu contacto-o e ele leva-nos ao submarino.
Ela pensou: Então, Vogel tem um esquema de fuga montado de que nunca me falou.
Catherine bebericou o chá, observando Neumann por cima da borda da caneca. Era remotamente possível que ele fosse um homem do MI5 a fazer passar-se por um agente alemão. Ela podia entrar em joguinhos idiotas - como testar o alemão dele ou fazer-lhe perguntas sobre um pequeno café conhecido em Berlim -, mas, se ele fosse realmente do MI5, seria suficientemente esperto para evitar uma armadilha tão óbvia. Conhecia a gíria, sabia muita coisa sobre Vogel e a sua história parecia credível. Decidiu deixá-lo continuar. Quando Neumann estava prestes a falar, as sirenes de ataque aéreo soaram.
- Precisamos de levar isto a sério? - perguntou Neumann.
- Viu o edifício que está por trás deste?
Neumann tinha-o visto, uma pilha de tijolos partidos e madeira estilhaçada.
- Onde fica o abrigo mais próximo?
- Ao virar da esquina - respondeu ela, sorrindo-lhe. - Bem-vindo de volta a Londres, tenente Neumann.
Era o início da noite do dia seguinte quando o comboio de Neumann entrou na estação de Hunstanton. Sean Dogherty estava a fumar ansiosamente na plataforma quando ele saiu do comboio.
- Como é que correu? - perguntou Dogherty enquanto se dirigiam para a carrinha.
- Sem problemas.
Dogherty conduzia desconfortavelmente depressa pela estrada sinuosa e esburacada. Era um calhambeque velho, a necessitar urgentemente de uma revisão a julgar pelos barulhos que fazia. Os faróis tinham as proteções do blackout. Um feixe trémulo de uma luz amarela fraca tentava, em vão, iluminar a estrada. Neumann tinha a sensação de estar a percorrer uma casa estranha e escura, com apenas um fósforo como iluminação. Passaram por aldeias desertas e escuras
- Holme, Thornham, Titchwell -, sem luzes acesas, lojas e casas de campo completamente fechadas, sem sinal de estarem habitadas. Dogherty estava a falar-lhe do seu dia, mas Neumann foi deixando gradualmente de o ouvir enquanto pensava na noite anterior.
Tinham-se abrigado apressadamente numa estação de metro como o resto das pessoas e esperado três horas na plataforma fria e húmida pelo aviso da sirene de que já era seguro sair. Ela dormiu durante um bocado, deixando cair a cabeça no ombro dele. Perguntou a si próprio se seria a primeira vez, em seis anos, que ela se sentia segura. Observou-a na escuridão. Era uma mulher espantosamente bonita, mas havia nela uma tristeza distante, talvez uma mágoa de infância, infligida por um adulto negligente. Ela mexeu-se enquanto dormia, perturbada por sonhos. Ele tocou nos caracóis que se espalhavam pelo seu ombro. Quando a sirene soou, ela acordou como um soldado em território inimigo - depressa, com os olhos subitamente
abertos e a mão a procurar a arma mais próxima. No caso dela, era a mala, onde Neumann presumiu que guardava uma pistola ou uma faca.
Falaram até ao amanhecer. Na verdade, ele falara e ela ouvira. Ela nunca falava, exceto para o corrigir quando ele cometia um erro ou contradizia alguma coisa que dissera horas antes. Ela tinha, obviamente, uma mente portentosa, capaz de armazenar grandes quantidades de informação. Não era de estranhar que Vogel tivesse tanto respeito pelas suas capacidades.
Uma madrugada cinzenta espalhava-se por Londres quando Neumann se esgueirou do apartamento dela. Movimentara-se como um homem que deixa a amante, olhando de relance sobre o ombro, perscrutando as caras dos transeuntes à procura de algo suspeito. Durante três horas, vagueou por Londres debaixo de uma chuvinha fria, mudando de direção repentinamente, entrando e saindo de autocarros, olhando para os reflexos das janelas. Decidiu que não estava a ser seguido e voltou para trás, em direção à estação de Liverpool Street.
Dentro do comboio, pousou a cabeça nas mãos e tentou dormir. Não caias no feitiço dela, tinha-o avisado Vogel, em tom de brincadeira, no último dia que passaram juntos na quinta. Mantém uma certa distância. Ela vive em sítios escuros onde tu não queres ir.
Neumann imaginou-a no apartamento, a escutá-lo, à luz fraca, quando ele lhe falara de Peter Jordan e daquilo que ela teria de fazer. Era a sua imobilidade desconcertante que mais o espantava, a maneira como as mãos estavam cruzadas no colo, a maneira como a cabeça e os ombros pareciam nunca se moverem. Apenas os olhos o faziam, saltitando à volta do quarto, deslocando-se de um lado para o outro da cara dele, percorrendo-lhe o corpo para cima e para baixo. Como holofotes. Por momentos, permitiu-se acalentar a fantasia de que ela o desejava. Mas naquele instante, enquanto Hampton Sands se desvanecia na escuridão atrás deles e o chalé de Dogherty lhes aparecia à frente, Neumann chegou a uma conclusão perturbante. Catherine não estava a olhar para ele daquela maneira porque o achava atraente, estava a decidir qual a melhor maneira de o matar se alguma vez precisasse de o fazer.
Neumann tinha-lhe dado uma carta quando se fora embora nessa manhã. Ela tinha-a posto de lado, demasiado aterrorizada para a ler. Naquele momento, com as mãos a tremerem, abriu-a e leu-a deitada
na cama.
Minha querida Anna,
Estou aliviado por saber que te encontras bem e em segurança. Desde que me deixaste toda a
luz da minha vida desapareceu. Rezo para que esta guerra acabe depressa
para que possamos estar juntos novamente. Boa noite, sonhos cor-de-rosa, pequenina.
O teu pai que te adora
Quando acabou de a ler, levou a carta para a cozinha, pegou-lhe fogo e atirou-a para o lava-louças. Chamejou por instantes e depois apagou-se rapidamente. Catherine
abriu a torneira e lançou as cinzas pelo cano abaixo. Suspeitava que fosse uma falsificação - que Vogel a tinha escrito para a manter na linha. O pai, temia ela, já estava morto. Voltou para a cama e ficou acordada na suave luz cinzenta da manhã, a ouvir a chuva a bater na janela. A pensar no pai, a pensar em Vogel.
DEZASSETE
GLOUCESTERSHIRE, INGLATERRA
- Parabéns, Alfred. Entra. Lamento que tenha tido de acontecer desta maneira, mas acabaste de te tornar um homem bastante rico.
Edward Kenton estendeu a mão como se estivesse à espera que Vicary se empalasse nela. Vicary agarrou a mão e apertou-a debilmente antes de passar rente a Kenton, em direção à sala da casa de estar do chalé da tia.
- Está um frio dos diabos lá fora, Alfred - disse Kenton enquanto Vicary examinava a sala.
Já não ia lá desde a guerra, mas nada tinha mudado.
- Espero que não te importes, mas acendi a lareira. Isto parecia uma câmara frigorífica quando cheguei. Também fiz chá. E há leite verdadeiro. Suponho que não se veja muito disso em Londres nesta altura.
Vicary tirou o casaco enquanto Kenton se dirigia para a cozinha. Não era realmente um chalé - isso era o que Matilda insistia em chamar-lhe. Na verdade, era uma casa grande, feita de pedra calcária de Cotswolds, com jardins espetaculares, rodeados por um muro alto. Ela morrera de uma apoplexia na noite em que Boothby atribuíra o caso a Vicary. Tinha planeado assistir ao funeral, mas fora convocado por Churchill nessa manhã, depois de Bletchley Park ter descodificado as mensagens de rádio alemãs. Sentiu-se horrivelmente mal por ter faltado à cerimónia. Matilda tinha-o criado praticamente, depois de a mãe dele morrer quando Vicary tinha doze anos. Tinham
continuado grandes amigos. Ela fora a única pessoa a quem ele falara da sua missão no MI5. O quefaes exatamente, Alfred? Apanho espiões alemães, tia Matilda.
Oh, que bom para ti, Alfred!
Portas envidraçadas davam para os jardins, mortos com o inverno. Às vezes, apanho espiões, tia Matilda, pensou ele. Noutras, eles levam a melhor.
Nessa manhã, Bletchley Park enviara a Vicary mais uma mensagem decifrada vinda de um agente no Reino Unido. Dizia que o encontro tinha sido um sucesso e que o agente tinha aceitado a missão. Vicary estava a perder a esperança em relação às hipóteses de apanhar os espiões. As coisas tinham piorado nessa manhã. Dois homens foram observados a encontrarem-se em Leicester Square e tinham sido detidos para interrogatório. Descobriram que o mais velho era um funcionário superior do Ministério do Interior e que o mais novo era o seu amante. Boothby tinha ficado louco de fúria.
- Como correu a viagem? - perguntou Kenton da cozinha, por cima do tilintar da louça e do barulho da água a correr.
- Bem - respondeu Vicary.
Boothby tinha permitido, relutantemente, que ele levasse um Rover emprestado da divisão dos Transportes.
- Não me consigo lembrar da última vez que fiz uma viagem relaxante pelo campo - disse Kenton. - Mas suponho que a gasolina e os automóveis são apenas algumas das regalias do teu novo emprego.
Kenton entrou na sala com um tabuleiro de chá. Era alto - tão alto como Boothby -, mas sem a mesma corpulência ou agilidade física. Usava óculos redondos demasiado pequenos para a cara e um bigode fininho que parecia ter sido desenhado com um lápis de sobrancelhas feminino. Pousou o chá na mesa à frente do sofá, deitou leite nas chávenas, como se fosse ouro líquido, e depois adicionou o chá.
- Meu Deus, Alfred, há quanto tempo?
Vinte e cinco anos, pensou Vicary. Edward Kenton era amigo de Helen. Até tinham saído juntos algumas vezes, depois de Helen ter acabado o noivado com Vicary. Por coincidência, tornara-se procurador de Matilda, dez anos antes. Vicary e Kenton tinham falado ao telefone várias vezes nos últimos anos, à medida que Matilda ia ficando
demasiado velha para tratar das coisas sozinha, mas era a primeira vez que se viam cara a cara. Vicary desejava que ele conseguisse concluir os negócios da tia morta sem o espectro de Helen a pairar sobre os procedimentos.
- Ouvi dizer que foste designado para o Ministério da Guerra
- disse Kenton.
- É verdade - retorquiu Vicary.
Bebeu meia chávena de chá de um só trago. Era delicioso, muito melhor do que aquela água desenxabida que serviam na cantina.
- O que fazes, exatamente?
- Oh, trabalho num departamento muito aborrecido, faço isto e aquilo - respondeu Vicary, sentando-se. - Desculpa, Martin, detesto apressar as coisas, mas tenho mesmo de voltar para Londres.
Kenton sentou-se à frente de Vicary e tirou uma série de papéis da mala de couro preta. Molhou a ponta do dedo indicador delgado e, cautelosamente, virou as páginas até chegar à adequada.
- Ah, cá está. Eu mesmo elaborei este testamento há cinco anos
- disse ele. - Ela distribuiu algum dinheiro e outras propriedades pelos teus primos, mas deixou-te a maior parte da herança.
- Não fazia ideia.
- Deixou-te a casa e uma grande soma de dinheiro. Ela era uma pessoa frugal. Gastava cuidadosamente e investia sabiamente - explicou Kenton, virando os papéis para Vicary a fim de que este os pudesse ler. - Aqui está o que vai ser teu.
Vicary estava estupefacto; não fazia a mínima ideia. Assim, o facto de ter faltado ao funeral por causa de uns espiões alemães
parecia-lhe ainda mais imoral. Alguma coisa lhe transpareceu na cara porque Kenton disse:
- É uma pena que não tenhas conseguido ir ao funeral, Alfred. Foi mesmo uma cerimónia bonita. Metade da aldeia estava lá.
- Queria ter vindo, mas surgiu uma coisa.
- Tenho alguns papéis para tu assinares para tomares posse da casa e do dinheiro. Se me deres um número de conta em Londres, posso transferir o dinheiro e fechar
as contas bancárias dela.
Vicary passou os minutos seguintes a assinar, em silêncio, uma pilha de documentos legais e financeiros. Quando chegou ao último, Kenton olhou para cima e disse:
- Feito.
- O telefone ainda está a funcionar?
- Sim, ainda agora o utilizei antes de chegares.
O telefone estava na escrivaninha de Matilda, na sala de estar. Vicary pegou no auscultador e olhou para Kenton.
- Martin, se não te importas, é oficial. Kenton forçou um sorriso.
- Não precisas de dizer mais nada, Alfred. vou arrumar a louça. Alguma coisa naquela troca de palavras aqueceu o lado vingativo
do coração de Vicary. A telefonista entrou em linha e ele deu-lhe o número da sede do MI5 em Londres. A ligação demorou alguns momentos a ser estabelecida. Uma telefonista do departamento atendeu e passou a chamada de Vicary para Harry Dalton. Harry atendeu, com a boca cheia de comida.
- O que é a comida hoje? - perguntou Vicary.
- Dizem eles que é um guisado de legumes.
- Alguma novidade?
- Por acaso, acho que sim. O coração de Vicary saltou.
- Tenho andado a remexer nas listas de imigração, só para ver se tínhamos deixado escapar alguma coisa.
As listas de imigração eram a base de toda a luta do MI5 contra os espiões alemães. Em setembro de 1939, quando Vicary ainda fazia parte do corpo docente do University College, o MI5 tinha-se servido dos registos de passaportes e de imigração como a principal ferramenta numa rusga gigantesca com vista a reunir todos os espiões e simpatizantes do nazismo. Os estrangeiros eram classificados em três categorias. Na categoria C, os estrangeiros tinham liberdade completa. Na categoria B, os estrangeiros eram submetidos a certas restrições; alguns não tinham autorização para terem automóveis ou barcos e eram impostos limites às suas movimentações dentro do país. Na categoria A, os estrangeiros eram considerados uma ameaça à segurança e, por isso, eram presos. Presumiu-se que todas as pessoas que tivessem entrado no país antes da guerra e não pudessem ser contabilizadas fossem espiões, tendo sido por isso caçadas. As redes de espionagem alemãs foram identificadas e destruídas praticamente da noite para o dia.
- Uma holandesa chamada Christa Kunst entrou no país em novembro de 1938, em Dover - continuou Harry. - Um ano mais tarde, o corpo dela foi encontrado numa vala rasa, num campo perto de uma aldeia chamada Whitchurch.
- E que tem isso de tão anormal, Harry?
- Tenho um mau pressentimento em relação a isso. O corpo estava em adiantado estado de decomposição quando foi desenterrado. A cara e o crânio tinham sido esmagados. Faltavam-lhe os dentes todos. Usaram o passaporte para fazer a identificação. Estava convenientemente enterrado com o corpo. Parece-me tudo demasiado certinho.
- E onde está o passaporte agora?
- No Ministério do Interior. Mandei um estafeta buscá-lo. Tem uma fotografia. Dizem que ficou bastante danificada enquanto esteve enterrada, mas deve valer a pena dar uma olhadela.
- Otimo, Harry. Não tenho a certeza se a morte dessa mulher tem alguma coisa que ver com este caso, mas, pelo menos, é uma pista.
- Certo, Alfred. A propósito, como correu o encontro com o advogado?
- Oh, apenas alguns papéis para assinar - mentiu Vicary.
De repente, sentiu-se bastante constrangido com a sua nova situação de independência financeira.
- Vou-me embora agora. Devo voltar ao gabinete mais para o final da tarde.
Vicary desligou quando Kenton entrou na sala de estar.
- bom, acho que está tudo - anunciou, entregando a Vicary um grande envelope castanho. - Os papéis estão todos aí, assim como as chaves. Incluí o nome e a morada do jardineiro. Ele terá todo o prazer em servir de zelador.
Vestiram os casacos, fecharam o chalé à chave e saíram. O carro de Vicary estava no caminho de entrada.
- Posso deixar-te em algum lado, Martin?
Vicary sentiu-se aliviado quando Kenton não aceitou o oferta.
- Falei com a Helen no outro dia - disse Kenton de repente. Vicary pensou: Oh, meu Deus.
- Disse-me que te vê de tempos a tempos, em Chelsea.
Vicary pensou se Helen teria falado a Kenton da tarde de 1940, em que ele tinha ficado a olhar para o carro dela a passar, como um colegial idiota. Mortificado,
Vicary abriu a porta do carro, batendo nos bolsos distraidamente, à procura dos óculos em meia-lua.
- Ela pediu-me para te mandar cumprimentos, por isso estou a dar-tos.
- Obrigado - respondeu Vicary, entrando no carro.
- E também mandou dizer que gostava de te ver um dia destes. Pôr a conversa em dia.
- Isso seria ótimo - exclamou Vicary, mentindo.
- Bem, que maravilha. Ela vem a Londres na próxima semana. Iria adorar almoçar contigo.
Vicary sentiu um aperto no estômago.
- À uma hora, no Connaught, de amanhã a uma semana - disse Kenton. - Fiquei de falar com ela mais tarde. Digo-lhe que vais lá estar?
A parte de trás do Rover estava tão fria como uma câmara frigorífica. Vicary sentou-se no grande banco de pele, com as pernas cobertas por uma manta de viagem, e ficou a ver passar os campos de Gloucestershire pela janela. Uma raposa vermelha atravessou a estrada e depois voltou a correr para dentro da cerca. Faisões gordos e sonolentos depenicavam os restos de um milheiral coberto de neve, com os seus casacos de penas enfunados para se protegerem do frio. Galhos de árvores nus riscavam
o céu limpo. À sua frente, abria-se um vale. Ao longe, os campos espraiavam-se como uma manta de retalhos amarrotada. O Sol afundava-se num céu salpicado de tons
de aguarela, violeta e cor de laranja.
Estava zangado com Helen. A sua parte rancorosa queria acreditar que o facto de estar a trabalhar para os serviços secretos britânicos fazia de alguma forma com
que ela o achasse mais interessante. A sua parte racional dizia-lhe que ele e Helen se tinham separado amigavelmente e que um almoço calmo poderia ser muito agradável. Pelo menos, seria uma distração bem-vinda à pressão do caso. Pensou: De que tens tanto medo? De te poderes lembrar que foste realmente feliz durante os dois anos em que ela fez parte da tua vida?
Afastou Helen do pensamento. O telefonema de Harry deixara-o intrigado. Por instinto, tratou o caso como um problema histórico. A sua especialidade era a história
europeia do século xix. Já tinha conquistado a aclamação da crítica pelo livro que escrevera sobre o colapso do equilíbrio do poder na Europa depois do Congresso de Viena, mas Vicary tinha uma paixão secreta pela história e mitologia da Grécia Antiga. Intrigava-o o facto de a maior parte dos estudos sobre essa época se basear em conjeturas: a imensa passagem do tempo e a falta de um registo histórico claro obrigavam a isso. Por exemplo, porque teria Péricles dado início à Guerra do Peloponeso contra Esparta, que acabou por levar à destruição de Atenas? Porque não aceitara as condições do seu maior rival e revogara o decreto de Megara? Teria sido levado
pelo medo da superioridade dos exércitos de Esparta? Teria acreditado que a guerra era inevitável? Teria embarcado numa aventura desastrosa no estrangeiro para aliviar
a pressão que sofria em casa?
Nesse momento, Vicary fazia perguntas semelhantes sobre o seu rival de Berlim, Kurt Vogel.
Qual era o objetivo de Vogel? Vicary acreditava que o objetivo de Vogel tinha sido criar uma rede de agentes adormecidos de elite, no início da guerra, e deixá-los infiltrados até ao momento culminante do confronto. Para que isso tivesse sucesso, tinha de se ter muito cuidado na maneira como se infiltrava o agente dentro do país. Obviamente, Vogel tinha feito isso; o simples facto de o MI5 não ter conhecimento do agente antes confirmava-o. Vogel teria tido de partir do princípio de que os registos de imigração e de controlo de passaportes seriam utilizados para procurar os seus agentes. Vicary teria partido sem dúvida desse princípio se os papéis estivessem invertidos. Mas o que aconteceria se a pessoa que entrou no país fosse dada como morta? Não haveria buscas. Era brilhante. Mas havia um problema - tinha de existir um corpo. Seria possível terem de facto assassinado alguém para trocar de lugar com Christa Kunst?
Os espiões alemães, regra geral, não eram assassinos. Na sua maioria, eram avarentos, aventureiros e fascistas mesquinhos, mal treinados e mal financiados. Mas se
Kurt Vogel tinha estabelecido uma
rede de agentes de elite, estes seriam mais motivados, mais disciplinados e, quase de certeza, mais implacáveis. Seria possível que um desses agentes implacáveis
e altamente treinados fosse uma mulher? Vicary só tinha tratado de um caso que envolvia uma mulher - uma rapariga alemã que conseguira um emprego como empregada
na casa de um almirante britânico.
- Pare na próxima aldeia - disse Vicary ao membro do ramo feminino da Marinha Real Britânica que conduzia o carro. - Preciso de telefonar.
A aldeia chamava-se Aston Magna - na verdade, um lugar sem lojas, apenas um aglomerado de chalés intercetado por um par de ruas estreitas. Um velho estava parado
à beira da estrada, com o cão.
Vicary baixou o vidro da janela do carro e disse:
- Olá.
- Olá.
O homem trazia umas botas de borracha e um casaco de tweed grosso que parecia ter, pelo menos, cem anos. O cão tinha três patas.
- Há algum telefone na aldeia? - perguntou Vicary.
O homem abanou a cabeça. Vicary era capaz de jurar que o cão também estava a abanar a dele.
- Ninguém se incomodou em arranjar um ainda.
A pronúncia do homem era tão carregada que Vicary tinha dificuldade em entendê-lo.
- E onde fica o telefone mais próximo?
- Será em Moreton.
- E onde é que isso fica?
- Siga por aquela estrada ali, depois do celeiro. Vire à esquerda na casa senhorial e siga as árvores até à próxima aldeia. É aí que fica Moreton.
- Obrigado.
O cão ladrou quando o carro arrancou velozmente.
Vicary serviu-se do telefone de uma padaria. Comeu uma sanduíche de queijo enquanto esperava que a telefonista estabelecesse a ligação com o gabinete. Queria partilhar
um pouco da sua nova riqueza e, por isso, pediu duas dúzias de scones para as datilógrafas e para as raparigas da divisão dos Registos.
Harry surgiu na linha.
- Não creio que tenha sido a Christa Kunst que desenterraram da vala em Whitchurch - disse Vicary.
- Então quem foi?
- Isso já é o seu trabalho, Harry. Contacte a Scotland Yard. Verifique se desapareceu alguma mulher por volta dessa altura. Comece por um raio de um par de horas
a partir de Whitchurch, depois amplie a zona, se for necessário. Quando eu voltar ao Ministério da Guerra, informo Boothby.
- E o que lhe vai dizer?
- Que estamos à procura de uma holandesa morta. Ele vai adorar.
DEZOITO
LESTE DE LONDRES
Encontrar Peter Jordan não iria ser um problema. Mas encontrá-lo da maneira certa seria.
As informações de Vogel eram fidedignas. Berlim sabia que Jordan trabalhava em Grosvenor Square, no Comando Supremo das Forças Expedicionárias Aliadas, mais conhecido como SHAEF. A praça era fortemente patrulhada por polícias militares, impenetrável a intrusos. Berlim tinha a morada de Jordan em Kensington e conseguira juntar uma enorme quantidade de informação sobre o seu passado. Só faltava saber todos os passos, minuto a minuto, da rotina diária dele em Londres. Sem isso, Catherine podia apenas deitar-se a adivinhar qual seria a melhor maneira de o abordar.
Ser ela própria a seguir Jordan estava fora de questão, por várias razões. Primeiro, tinha que ver com a sua segurança. Seria demasiado perigoso para ela perseguir um oficial americano pelo West End de Londres. Podia ser vista por um dos polícias militares ou até mesmo pelo próprio Jordan. Se os oficiais se sentissem especialmente diligentes nesse dia, podiam detê-la para um interrogatório. Uma pequena verificação poderia revelar que a verdadeira Catherine Blake tinha morrido trinta anos antes, com oito meses de idade, e que ela era uma agente alemã.
A segunda razão por que não devia seguir Peter Jordan era puramente prática. Era-lhe praticamente impossível fazer bem o trabalho sozinha. Mesmo que Neumann ajudasse, seria difícil. A primeira vez
que Jordan entrasse num carro militar, ela ficaria completamente perdida. Não podia entrar simplesmente num táxi e dizer Siga aquele carro militar americano. Os taxistas sabiam da ameaça que os espiões representavam para os oficiais aliados. O mais provável era ser levada diretamente para a esquadra de polícia mais próxima. Precisava de carros comuns para o seguir, homens desconhecidos para falarem com ele, homens que não dessem nas vistas para se manterem de guarda à porta de casa dele.
Precisava de ajuda.
Precisava de Vernon Pope.
Vernon Pope era uma das maiores e mais bem-sucedidas figuras do mundo do crime de Londres. Pope, juntamente com o irmão Robert, dirigia esquemas de proteção, salões de jogos ilegais, redes de prostituição e uma próspera operação de mercado negro. No início da guerra, Vernon Pope levara Robert às urgências do Hospital St. Thomas com uma ferida grave na cabeça sofrida durante a Blitz. Catherine examinou-o rapidamente, viu que tinha uma concussão e suspeitou que o crânio estivesse fraturado. Fez com que Robert fosse visto por um médico de imediato. Vernon Pope, agradecido, deixou-lhe um bilhete. Dizia: Se houver alguma coisa que possa faerpara lhe agradecer, por favor, não hesite em pedir.
Catherine guardou o bilhete. Estava na sua mala.
Estranhamente, o armazém de Vernon Pope sobrevivera ao bombeamento. Permanecera intacto, uma ilha arrogante rodeada de jardins de destruição. Catherine não se aventurara pelo East End em quase quatro anos. A devastação era chocante. Era difícil ter a certeza de que não estava a ser seguida. Restavam poucas portas onde se abrigar, não havia cabines telefónicas para simular chamadas, não havia lojas para pequenas compras, apenas montanhas sem fim de escombros.
Observou o armazém do outro lado da rua, com uma chuva miudinha e fria a cair. Estava de calças, camisola e um casaco de pele. As portas do armazém abriram-se e três camiões pesados saíram para a rua. Um par de homens bem vestidos voltou a fechar as portas rapidamente, mas, antes disso, Catherine conseguiu dar uma vista de olhos lá para dentro. Havia grande azáfama.
Um grupo de estivadores passou por ela, vindo do turno do dia. Seguiu-os por um momento e depois encaminhou-se para o armazém de Pope.
Havia um pequeno portão com uma campainha elétrica para entregas. Tocou à campainha, não obteve resposta, tocou outra vez. Catherine sentiu que estava a ser observada. Finalmente, o portão abriu-se.
- O que podemos fazer por si, 'morzinho?
Aquela voz agradável com a pronúncia cockney não condizia com a figura diante dela. Ele tinha, pelo menos, um metro e oitenta e cinco, cabelo preto cortado rente ao crânio e óculos pequenos. Vestia um fato cinzento dos caros, com uma camisa branca e uma gravata prateada. Os músculos dos braços preenchiam as mangas do casaco.
- Queria falar com o senhor Pope, por favor.
Catherine entregou o bilhete ao brutamontes. Ele leu-o rapidamente, como se já tivesse visto muitos iguais.
- vou perguntar ao patrão se ele tem um minuto para a atender. Entre.
Catherine entrou pelo portão e ele fechou-o atrás dela.
- As mãos bem levantadas, minha querida; linda menina. Não é nada de pessoal. O senhor Pope pede-o a toda a gente.
O homem de Pope revistou-a. Foi rápido, mas nada profissional. Arrepiou-se quando ele lhe passou as mãos pelo peito. Resistiu à vontade de lhe esmagar o nariz com o cotovelo. Ele abriu a mala, olhou lá para dentro e devolveu-a. Ela já estava à espera disso e tinha vindo desarmada. Sentia-se nua sem uma arma, vulnerável. Da próxima vez, traria uma faca.
Ele conduziu-a pelo armazém. Homens de fato-macaco carregavam caixotes de mercadorias para meia dúzia de carrinhas. No fundo do armazém, havia caixas desde o chão até ao teto, em cima de paletes de madeira: café, cigarros, açúcar e também barris de gasolina. Havia uma frota de motas brilhantes, estacionadas numa fila arrumada. Era óbvio que Vernon Pope tinha um negócio próspero.
- Por aqui, 'morzinho - disse o homem. - A propósito, o meu nome é Dicky.
Conduziu-a até um elevador de carga, fechou as portas e premiu o botão. Catherine tirou um cigarro da mala e meteu-o entre os lábios.
- Desculpe, querida - disse Dicky e abanou um dedo no ar, de modo negativo. - O patrão detesta cigarros. Diz que um dia vamos descobrir que isso nos mata. Além disso, aqui há gasolina e munições suficientes para nos fazerem ir pelos ares até Glasgow.
- E isso é dizer pouco - disse Vernon Pope que se levantou do confortável sofá de pele e começou a andar pelo escritório. Não era simplesmente um escritório, era mais um pequeno apartamento, com uma sala de estar e uma cozinha apetrechada de aparelhos modernos. Havia um quarto atrás de um par de portas em teca preta. Estas abriram-se, por breves instantes, e Catherine vislumbrou uma loura sonolenta, impacientemente à espera que a reunião acabasse. Pope serviu-se de outro uísque. Era alto e bonito, de pele pálida, cabelos claros cheios de brilhantina e olhos cinzentos glaciais. O fato estava muito bem feito e era discreto; podia ser usado por um executivo de sucesso ou por alguém que já nascera rico.
- Já me viste bem isto, Robert? Aqui a Catherine quer que nós gastemos três dias a perseguir um oficial da marinha americana pelo West End.
Robert Pope permaneceu à margem, a andar de um lado para o outro como um lobo cinzento nervoso.
- Isso não é propriamente o nosso tipo de trabalho, minha querida Catherine - disse Vernon Pope. - Além disso, e se os rapazes das secretas ianque ou britânica descobrem o nosso joguinho? com a polícia de Londres, lido eu bem. com o MI5, é outra história.
Catherine tirou um cigarro.
- Importa-se?
- Se tiver mesmo de ser. Dicky, dá-lhe um cinzeiro. Catherine acendeu o cigarro e pôs-se a fumar em silêncio durante
um momento.
- Eu já vi o equipamento que tem lá em baixo, no armazém. Podia montar facilmente o tipo de operação de vigilância de que estou a falar.
- E por que raio é que havia uma enfermeira voluntária do Hospital St. Thomas de querer montar uma operação de vigilância a um oficial dos Aliados, pergunto-te eu, Robert?
Robert Pope sabia que não era para responder à pergunta. Vernon Pope dirigiu-se à janela com o copo na mão. As cortinas do blackout estavam levantadas, o que lhe permitia ver os barcos a trabalharem para cima e para baixo no rio.
- Veja o que os alemães fizeram a este sítio - disse por fim. Costumava ser o centro do mundo, o maior porto à face da terra. E agora, olhe para ele: o raio de um terreno baldio. As coisas nunca mais serão as mesmas por aqui. A Catherine não trabalha para os alemães, pois não?
- Claro que não - respondeu ela calmamente. - As razões que me levam a segui-lo são estritamente pessoais.
- Ótimo. Sou ladrão, mas, ainda assim, patriota. - Fez uma pausa e depois perguntou: - Então para que é que quer que o sigamos?
-- Estou a oferecer-lhe um trabalho, senhor Pope. Francamente, o porquê das minhas razões não lhe diz respeito.
Pope virou-se e encarou-a.
-- Muito bem, Catherine. Você tem coragem. Gosto disso. Além disso, seria uma tonta se me contasse.
As portas do quarto abriram-se e a loura saiu de lá, vestindo um roupão de seda de homem, com cornucópias. Estava frouxamente atado na cintura, revelando um bom par de pernas e pequenos seios arrebitados.
- Vivie, ainda não acabámos - disse Pope.
- Tenho sede - exclamou ela, olhando de soslaio para Catherine enquanto se servia de um gim tónico. - Vais demorar muito mais tempo, Vernon?
- Não muito. Negócios, querida. Volta para o quarto.
Vivie voltou para o quarto, com as ancas a balançarem por baixo do roupão. Olhou de novo para Catherine, por cima do ombro, antes de fechar a porta suavemente.
- Linda rapariga - disse Catherine. - É um homem de sorte. Vernon Pope riu baixinho e abanou a cabeça.
- Às vezes, gostava de poder passar a minha sorte a outro homem. Houve um longo silêncio enquanto Pope andava de um lado para
o outro da sala.
- Estou metido numa data de coisas duvidosas, Catherine, mas não estou a gostar disto. Não estou a gostar mesmo nada disto.
Catherine acendeu outro cigarro. Talvez tivesse cometido um erro ao contactar Vernon Pope com aquela proposta.
- Mas vou fazê-lo. A Catherine ajudou o meu irmão e eu fiz-lhe uma promessa. Sou um homem de palavra. - disse, fazendo uma pausa e olhando-a de cima a baixo. - Além do mais, há qualquer coisa em si de que eu gosto. Muito.
- Fico contente por podermos fazer negócio, senhor Pope.
- Mas vai sair-lhe caro, 'morzinho. Tenho muitas despesas gerais. Tenho de pagar salários. Este tipo de coisa vai ocupar grande parte dos meus recursos.
- Por isso é que vim ter consigo - retorquiu Catherine, tirando um envelope de dentro da mala. - O que lhe parecem duzentas libras? Cem agora e cem quando me der as informações. Quero o comandante Jordan a ser seguido durante setenta e duas horas. Vinte e quatro horas por dia. Quero um relato minuto a minuto dos movimentos dele. Quero saber onde é que ele come, com quem se encontra e de que falam. Quero saber se ele costuma encontrar-se com alguma mulher. Consegue tratar disso, senhor Pope?
- Claro.
- Otimo. Então, contacto-o no sábado.
- E como é que posso entrar em contacto consigo?
- Por acaso, não pode.
Catherine pôs o envelope em cima da mesa e levantou-se. Vernon Pope sorriu agradavelmente.
- Bem me parecia que ia dizer isso. Dicky, acompanha a Catherine até à saída. Arranja-lhe um saco de mercearia. Café, açúcar, talvez um pouco de carne enlatada, se o carregamento já tiver chegado. Coisas boas, Dicky.
- Tenho um mau pressentimento em relação a isto, Vernon disse Robert Pope. - Talvez devêssemos desistir disto.
Vernon Pope odiava ser contestado pelo irmão mais novo. Na sua opinião, era ele que tratava das decisões de negócios e Robert tratava do que exigia músculos.
- Não é nada que não possamos fazer. Mandaste segui-la?
- Dicky e os rapazes trataram disso assim que ela deixou o armazém.
- Otimo. Quero saber quem é essa mulher e o que pretende.
- Talvez pudéssemos virar o jogo a nosso favor. Poderíamos obter favores da polícia se lhes contássemos, em segredo, o que é que ela anda a tramar.
- Não vamos fazer nada disso. Está entendido?
- Talvez devesses pensar mais em negócios do que em molhar o pincel.
Vernon virou-se para ele e agarrou-o pelo pescoço.
- Aquilo que eu faço não é da porra da tua conta. Além do mais, é muito melhor do que aquilo que tu e o Dicky fazem.
Robert corou visivelmente.
- Porque estás a olhar para mim dessa maneira, Robert? Pensas que não sei o que se passa?
Vernon soltou-o.
- Agora, faz-te à estrada, que é esse o teu lugar, e certifica-te de que Dicky não a perde de vista.
Catherine apercebeu-se de que estava a ser seguida dois minutos depois de ter saído do armazém. Já estava à espera disso. Homens como Vernon Pope não se mantêm tanto tempo no negócio se não forem cautelosos e desconfiados. Mas a perseguição era feita de um modo desastrado e amador. Afinal, Dicky tinha sido quem a recebera, a revistara e a levara para dentro. Ela conhecia a cara dele. Foi estúpido da parte deles terem-no posto a segui-la. Despistá-lo seria fácil.
Desceu até uma estação de metro, fundindo-se na multidão do fim da tarde. Atravessou o túnel e emergiu do outro lado da rua. Um autocarro estava ali parado. Entrou e sentou-se ao lado de uma senhora idosa. Através da janela embaciada, observou Dicky a correr pelas escadas acima, com o pânico estampado na cara.
Sentiu um pouco de pena dele. O pobre Dicky não tinha hipóteses contra um profissional e Vernon Pope ia ficar furioso. Mas ela não ia correr riscos: uma corrida de táxi, mais dois ou três autocarros e uma volta pelo West End antes de regressar ao apartamento.
De momento, acomodou-se no assento e aproveitou a viagem.
O quarto estava escuro quando Vernon entrou e, silenciosamente, fechou as portas. Vivie pôs-se de joelhos aos pés da cama. Vernon beijou-a furiosamente. Estava a ser mais bruto do que habitualmente. Vivie achava que sabia porquê. Deslizou a mão por dentro da parte da frente das calças dele.
- Oh, meu Deus, Vernon. Isto é para mim ou para aquela cabra? Vernon abriu o roupão de seda e puxou-o para baixo, fazendo-o
deslizar pelos ombros dela.
- Um bocadinho as duas coisas, na verdade - disse ele e beijou-a de novo.
- Tu querias possuí-la logo ali, no escritório. Vi isso na tua cara.
- Sempre foste uma rapariguinha muito perspicaz. Ela beijou-o novamente.
- Quando é que ela volta?
- No final da semana.
- E como é que se chama?
- Chama-se Catherine.
- Catherine - disse Vivie. - Que nome tão bonito. Ela é linda.
- Pois é - disse Pope distraidamente.
- Em que tipo de negócio é que está metida?
Pope contou-lhe a conversa que tinham tido; não havia segredos entre eles.
- Soa-me a sarilho. Acho que poderíamos tentar exercer alguma pressão sobre ela.
- És uma rapariga muito esperta.
- Não, só muito marota.
- Vivie, eu consigo perceber quando a tua mente está a trabalhar de modo maquiavélico.
Ela riu-se de maneira perversa.
- Tenho três dias para imaginar todas as coisas maravilhosas que podemos fazer com aquela mulher quando ela voltar. Agora, tira as calças, para eu te ajudar a acalmar essa dor.
Vernon Pope fez o que lhe mandaram.
Um momento depois, alguém bateu ao de leve à porta. Robert Pope entrou, sem esperar pela resposta. Uma brecha de luz iluminou parcialmente o local. Vivie olhou para cima, desavergonhada, e sorriu. Vernon explodiu de raiva.
- Quantas vezes é que tenho de te dizer para não entrares quando a porta estiver fechada?
- É importante. Ela escapou-se.
- Raios! E como é que isso aconteceu?
- Dicky jura que num minuto ela estava lá e, no minuto seguinte, já não estava. Desapareceu pura e simplesmente.
- Pelo amor de Deus!
- Ninguém consegue fugir ao Dicky. Ela é obviamente uma profissional. Temos de ficar o mais longe possível dela.
Vivie sentiu uma facada de pânico.
- Sai daqui e fecha a porta, Robert.
Quando Robert saiu, Vivie lambeu Vernon de modo provocante.
- Não vais fazer o que aquele mariconcozinho te disse, pois não, Vernon?
- Claro que não.
- Otimo -? disse ela. - Ora, onde é que nós estávamos?
- Oh, meu Deus - gemeu Vernon.
DEZANOVE LONDRES
Na manhã seguinte, muito cedo, Robert Pope e Richard Dicky Dobbs tiveram a sua estreia involuntária no mundo da espionagem em tempo de guerra, com uma vigilância improvisada e apressada ao comandante Peter Jordan que teria feito os vigias do MI5 ficarem verdes de inveja.
Tudo começou antes da madrugada húmida e gelada, quando o par chegou à casa eduardiana de Jordan, em Kensington, numa carrinha com painéis preta, carregada com caixas de comida enlatada na parte de trás e exibindo na parte lateral o nome de uma mercearia do West End. Esperaram lá até perto das oito horas, com Pope a dormitar e Dicky a mascar nervosamente um pão doce mal cozido e a beber café de um copo de papel. Vernon Pope tinha-o ameaçado com lesões corporais graves por causa da perseguição falhada à mulher na noite anterior. Não iria perder Peter Jordan de vista por nada deste mundo. Dicky, considerado o melhor condutor do mundo do crime de Londres, tinha jurado secretamente perseguir Jordan pelos relvados do Green Park se fosse preciso.
Mas tais peripécias automobilísticas não seriam necessárias, pois, às 7h55, um carro militar americano apareceu à porta de casa de Jordan e tocou a buzina. A porta
da casa abriu-se e apareceu um homem de estatura e constituição medianas. Usava um uniforme da marinha americana, um boné branco e um sobretudo escuro. Trazia pendurada
na mão uma pasta em couro fino. Desapareceu na parte de trás do
carro e fechou a porta. Dicky estava tão intensamente concentrado em Jordan que se esqueceu de ligar o motor. Quando tentou fazê-lo, pegou uma vez e foi abaixo. Amaldiçoou-o, ameaçou-o e bajulou-o antes de tentar outra vez. Desta vez, a carrinha pegou ruidosamente e a vigilância silenciosa a Peter Jordan começou.
Grosvenor Square iria apresentar-lhes o primeiro desafio. Estava apinhada de táxis, viaturas de serviço e oficiais aliados a deslocarem-se apressadamente em várias direções. O carro de Jordan atravessou a praça, entrou numa rua secundária adjacente e parou diante de um pequeno edifício sem identificação. Permanecer na rua era impossível. Havia veículos estacionados de ambos os lados e apenas uma via para o trânsito. Um polícia militar americano de capacete branco rondava para cima e para baixo, balouçando preguiçosamente o bastão. Pope saltou do carro e caminhou pela rua, para trás e para a frente, enquanto Dicky andava em círculos. Dez minutos depois, Jordan saiu do edifício com uma pasta pesada algemada ao pulso.
Dicky apanhou Pope e voltou para Grosvenor Square, chegando a tempo de ver Jordan a entrar pela porta da frente do quartel-general do SHAEF. Encontrou um lugar para estacionar, em Grosvenor Street, com um campo de visão desimpedido, e desligou o motor. Poucos minutos depois, tiveram um vislumbre do general Eisenhower a exibir um dos seus famosos sorrisos antes de desaparecer pela entrada.
Mesmo que tivesse sido treinado pelo MI5, Pope não poderia ter executado melhor as ações seguintes. Concluiu que não podiam vigiar o edifício apenas com um posto estático; era um complexo enorme, com diferentes entradas e saídas. Servindo-se de um telefone público, ligou para o armazém e pediu a Vernon três homens. Quando chegaram, colocou um atrás do edifício, em Blackburn Street, outro em Upper Brook Street e o terceiro em Upper Grosvenor Street. Duas horas depois, Pope ligou outra vez para o armazém e pediu três caras novas - não era seguro para civis demorarem-se pelas instalações americanas. Se Vicary e Boothby tivessem podido ouvir essa conversa, teriam provavelmente rido da ironia, pois, como qualquer supervisor e qualquer agente de campo bons, Vernon e Robert discutiram azedamente por causa dos recursos. No entanto, o que estava
em jogo era diferente. Vernon precisava de um par de homens bons para irem buscar um carregamento de café roubado e para tratarem de um comerciante que se tinha atrasado nos pagamentos de proteção.
Trocaram de veículos ao meio-dia. A carrinha da mercearia foi substituída por uma carrinha idêntica, com o nome de um serviço de lavandaria fictício estampado na parte lateral. Foi preparada tão rapidamente que a palavra lavandaria estava escrita lavandria e os sacos de roupa brancos, empilhados na parte de trás, estavam cheios de jornais velhos amassados. Às duas horas, trouxeram-lhes um termos de chá e um saco com sanduíches. Uma hora mais tarde, tendo acabado de comer e de fumar alguns cigarros, Pope começou a ficar cada vez mais nervoso. Jordan encontrava-se lá dentro há quase sete horas. Estava a ficar tarde. Todos os lados do edifício se encontravam sob vigia. Mas se Jordan saísse já na escuridão do blackout, seria quase impossível vê-lo. Mas, às quatro horas, quando a luz já quase tinha desaparecido, Jordan deixou o edifício pela porta principal, em Grosvenor Square.
Repetiu o mesmo circuito da manhã, mas ao contrário. Atravessou a praça em direção ao edifício mais pequeno, com a mesma pasta pesada algemada ao pulso, e entrou. Apareceu uns momentos depois, trazendo a pequena pasta que tinha de manhã. A chuva tinha parado e Jordan decidira, aparentemente, que seria uma boa ideia dar um passeio. Dirigiu-se para oeste, depois virou para sul em direção a Park Lane. Segui-lo de carrinha era impossível. Pope saltou da carrinha e foi atrás de Jordan ao longo do passeio, mantendo-se a alguns metros de distância.
Era mais difícil do que Pope imaginava. O grande hotel Grosvenor House, em Park Lane, tinha sido tomado por americanos e transformado em alojamento para oficiais. Dezenas de pessoas atolavam o passeio. Pope aproximou-se de Jordan para ter a certeza de que não o perdia ou confundia com outro homem. Um polícia militar olhou para Pope quando ele atravessou por entre a multidão, atrás de Jordan. Em algumas ruas do West End, os ingleses davam tanto nas vistas como aconteceria em Topeka, rio Kansas. Pope ficou tenso. Depois apercebeu-se de que não estava a fazer nada de mal. Estava simplesmente a andar pela rua no seu próprio país. Descontraiu-se
e o polícia militar olhou noutra direção. Jordan passou pelo Grosvenor House. Pope seguia atrás dele com grande cautela.
Pope perdeu-o em Hyde Park Corner.
Jordan desapareceu na multidão de soldados e civis britânicos à espera para atravessar a rua. Quando o sinal mudou, Pope seguiu um oficial da marinha americana, mais ou menos da altura de Jordan, ao longo de Grosvenor Place. Depois, olhou para baixo e apercebeu-se de que o oficial não trazia nenhuma pasta. Parou e olhou para trás, esperando que Jordan ali estivesse. Tinha desaparecido.
Pope ouviu uma carrinha a buzinar na rua e olhou para cima. Era Dicky.
- Ele está em Knightsbridge - disse Dicky. - Entra.
Dicky executou uma inversão de marcha perfeita no meio do zumbido do trânsito noturno. Pope avistou Jordan um momento mais tarde e suspirou de alívio. Dicky encostou e Pope saltou para fora da carrinha. Determinado a não perder o homem outra vez, Pope aproximou-se, ficando a poucos metros dele.
O Vandyke Club era um clube para oficiais americanos em Kensington, proibido a civis britânicos. Jordan entrou. Pope caminhou um pouco mais, passando pela porta de entrada, e depois voltou para trás. Dicky tinha encostado junto ao passeio, do outro lado da rua. Pope, sem fôlego e gelado, entrou na carrinha e fechou a porta. Acendeu um cigarro e acabou o resto do chá do termos. A seguir, disse:
- Da próxima vez que o comandante Jordan decidir atravessar Londres inteira, sais tu do carro e vais com ele, Dicky.
Jordan saiu quarenta e cinco minutos depois.
Pope pensou: Por favor, meu Deus, mais uma marcha forçada, não.
Jordan aproximou-se do passeio e apanhou um táxi.
Dicky ligou a carrinha e meteu-se cuidadosamente no trânsito. Seguir o táxi era fácil. Dirigiu-se para leste, passando por Trafalgar Square e entrando na Strand; depois de percorrer uma pequena distância, virou à direita.
- Assim está melhor - disse Pope.
Observaram Jordan a pagar ao taxista e a entrar no Savoy Hotel.
A grande maioria dos civis britânicos sobreviveu à guerra consumindo quantidades de alimentos que não ultrapassavam o nível da subsistência, à volta de cem gramas de carne e queijo por semana uns decilitros de leite, um ovo se tivessem sorte, iguarias como pêssegos ou tomates enlatados muito de vez em quando. Ninguém passava fome, mas poucos engordavam. Mas havia outra Londres, uma Londres de restaurantes elegantes e hotéis sumptuosos, que asseguravam um fornecimento estável de carne, peixe, vegetais, vinho e café no mercado negro e depois cobravam preços exorbitantes aos clientes pelo privilégio de um jantar. O Savoy Hotel era um desses estabelecimentos.
O porteiro usava um sobretudo verde, debruado a prata, e uma cartola. Pope passou por ele apressadamente e entrou. Atravessou o vestíbulo do Savoy e entrou no salão. Havia homens de negócios ricos reclinados em poltronas confortáveis, lindas mulheres em vestidos de noite à moda daqueles tempos de guerra, dezenas de oficiais americanos e britânicos de uniforme, aristocratas rurais vestidos de tweed e chegados do campo para passarem uns dias na cidade. Enquanto seguia Jordan pelo meio da multidão,
Pope sentia uma reação confusa àquele cenário de opulência. Os ricos do West End levavam uma bela vida, ao passo que os desfavorecidos do East End andavam esfomeados
e eram os que mais sofriam com os bombardeamentos. No entanto, ele e o irmão tinham feito fortuna no mercado negro. Descartou a disparidade como uma consequência infeliz da guerra.
Pope seguiu Jordan até ao bar do Savoy Grill. Jordan estava sozinho no meio da multidão, tentando, em vão, chamar a atenção do empregado para pedir uma bebida. Pope estava a poucos passos dele. Conseguiu chamar a atenção do empregado e pediu um uísque. Quando se virou, Jordan já estava acompanhado por um oficial da marinha americana muito alto, de cara vermelha e sorriso bem-humorado. Pope aproximou-se mais para poder ouvir a conversa.
O homem alto disse:
- Hitler devia vir aqui e tentar conseguir uma bebida numa sexta-feira à noite. De certeza que iria reconsiderar a ideia de querer invadir este país.
- Queres tentar a sorte no Grosvenor House? - perguntou Jordan.
- No Willow Run? Estás doido? O chefe de cozinha francês despediu-se no outro dia. Pediram-lhe que preparasse as refeições com as rações
e e ele recusou-se.
- Parece que é o último homem com juízo em Londres.
- Também acho.
- E o que é preciso fazer para se conseguir uma bebida neste sítio?
- Normalmente isto resulta: dois martínis, por amor de Deus! O empregado do bar olhou para cima, sorriu e pegou numa garrafa de Beefeater.
- Como está, senhor Ramsey.
- Olá, William.
Pope memorizou esse pormenor. O amigo de Jordan chamava-se Ramsey.
- Essa foi boa, Shepherd. Pope pensou: Shepherd Ramsey.
- Ajuda mesmo ser um palmo mais alto do que toda a gente.
- Fizeste reserva? Esta noite, não conseguimos mesmo entrar no Grill sem reserva.
- Claro que fiz, meu velho. A propósito, por onde raio andaste? Tentei ligar-te a semana passada. Deixei o telefone da tua casa tocar e tocar: não houve resposta. Também telefonei para o teu gabinete. Disseram que não podias atender. Liguei outra vez no dia seguinte, a mesma história. Que raio andavas a fazer para não poderes atender o telefone durante dois dias?
- Não tens nada que ver com isso.
- Ah, ainda estás a trabalhar naquele teu projeto?
- Deixa lá isso, Shepherd, ou dou-te uma tareia aqui mesmo, neste bar.
- Só em sonhos, meu caro. Além disso, se fizeres uma cena aqui, onde raio é que iremos tomar a nossa bebida? Nenhum estabelecimento decente iria aceitar um tipo como tu.
- Bem visto.
- Então, quando me vais contar em que é que andas a trabalhar?
- Quando a guerra acabar.
- Tão importante, ha?
- Sim.
- Bem, pelo menos um de nós anda a fazer alguma coisa importante - atirou Shepherd Ramsey, acabando a bebida. - William, mais dois, por favor.
- Vamos embebedar-nos antes do jantar?
- Só quero que descontraias, mais nada.
- Isto é o máximo que consigo descontrair. O que estás a planear, Shepherd? Conheço esse tom de voz.
- Nada, Peter. Jesus, tem calma.
- Conta-me. Sabes que detesto surpresas.
- Convidei umas pessoas para se juntarem a nós esta noite.
- Pessoas?
- Raparigas, na verdade. Por acaso, acabaram de chegar.
Pope seguiu o olhar de Jordan até à entrada do bar. Estavam lá duas mulheres, ambas jovens, ambas muito atraentes. As mulheres avistaram Shepherd Ramsey e Jordan e juntaram-se-lhes no bar.
- Peter, apresento-te a Barbara, mas todos lhe chamam Baby.
- Isso é compreensível. Prazer em conhecer-te, Barbara. Barbara olhou para Shepherd.
- Céus, tinhas razão! Ele é um borracho - disse ela com uma pronúncia da classe operária de Londres. - Vamos comer no Grill?
- Sim. De facto, a nossa mesa deve estar pronta.
O maítre d'hôtel indicou-lhes a mesa. Não havia maneira de Pope ouvir a conversa deles a partir do bar. Precisava de estar sentado na mesa mais próxima. Olhando pela entrada da sala de jantar, Pope conseguiu ver que a mesa ao lado da deles estava vazia, mas tinha um pequeno aviso de reserva. Não há problema, pensou ele. Rapidamente, atravessou o bar e saiu para a rua. Dicky estava à espera dentro da carrinha. Pope fez-lhe sinal para entrar no hotel. Dicky saiu da carrinha e atravessou a rua.
- O que se passa, Robert?
- Vamos jantar. Preciso que faças a reserva.
Pope mandou Dicky falar com o maítre d'hótel Da primeira vez que Dicky pediu uma mesa, o maítre d'hôtel abanou a cabeça, franziu
a testa e abanou as mãos a mostrar que não havia mesas. Foi então que Dicky se baixou e lhe sussurrou qualquer coisa ao ouvido que o fez ficar branco e começar a tremer. Momentos depois, estavam a sentá-los na mesa ao lado da de Peter Jordan e Shepherd Ramsey.
- O que lhe disseste, Dicky?
- Disse-lhe que se ele não nos desse esta mesa, eu lhe arrancava a maçã de Adão e a atirava para dentro daquela frigideira flamejante.
- Bem, o cliente tem sempre razão. É o que eu digo. Abriram as ementas.
- Vais começar pelo salmão fumado ou pelo patê defoiegras? perguntou Pope.
- Pelos dois, acho eu. Estou esfomeado. Não te parece que eles sirvam salsichas e puré, pois não, Robert?
- Nem pensar nisso. Experimenta o coq au vin. E agora cala-te para eu ouvir o que estes ianques estão a dizer.
Foi Dicky que os seguiu depois do jantar. Observou-os a enfiarem as duas mulheres dentro de um táxi e a começarem a andar pela Strand.
- Podias ao menos ter sido educado - disse Shepherd Ramsey.
- Desculpa, Shepherd. Não tínhamos muito que dizer um ao outro.
- E o que há para dizer? Tomas umas bebidas, ris-te um pouco, leva-la para casa e passas uma ótima noite na cama. Sem perguntas.
- Tive dificuldade em ultrapassar o facto de ela estar sempre a usar a faca para verificar o batom.
- Sabes o que ela te podia ter feito com aqueles lábios? E reparaste bem no que ela trazia por baixo do vestido? Meu Deus, Peter, aquela rapariga tem uma das piores reputações aqui em Londres.
- Peço desculpa se te desapontei, Shepherd, mas não estava interessado.
- Bem, e quando é que vais voltar a estar interessado?
- De que estás a falar?
- Há seis meses prometeste que ias começar a sair.
- Eu gostava de conhecer uma mulher adulta inteligente e interessante, mas não preciso que andes por aí à procura - lançou Jordan, acendendo um cigarro e abanando o fósforo furiosamente. - Ouve, Shep, desculpa. Mas é que...
- Não, tu tens razão. Não tenho nada que ver com isso. É só que a minha mãe morreu quando o meu pai tinha quarenta anos. Ele nunca voltou a casar. E o resultado disso foi que morreu sozinho e amargurado. Não quero que te aconteça a mesma coisa.
- Obrigado, Shepherd, não vai acontecer.
- Nunca vais encontrar outra mulher como Margaret.
- Diz-me algo que eu não saiba.
Jordan fez sinal a um táxi para parar e entrou.
- Posso dar-te boleia?
- Na verdade, já tenho um compromisso.
- Shepherd.
- Ela vai encontrar-se comigo no meu quarto daqui a meia hora. Não consegui resistir. Perdoa-me, mas a carne é fraca.
- Mais do que a carne. Diverte-te, Shep.
O táxi arrancou. Dicky afastou-se e procurou a carrinha. Passados uns segundos, Pope encostou ao passeio e Dicky entrou. Seguiram o táxi de regresso a Kensington, viram Peter Jordan entrar em casa e ficaram ali parados durante meia hora, à espera que o turno da noite chegasse.
VINTE LONDRES
Tinha sido a incapacidade de Alfred Vicary para reparar uma mota que o levara a ficar com o seu joelho estilhaçado. Aconteceu num dia glorioso de outono, no norte
da França e sem sombra de dúvida que foi o pior dia da sua vida.
Vicary tinha acabado uma reunião com um espião que penetrara nas linhas inimigas, num setor onde os britânicos planeavam atacar na madrugada do dia seguinte. O espião
tinha descoberto um enorme acampamento de soldados alemães. O ataque, se acontecesse como planeado, encontraria grande resistência. O espião deu a Vicary um bilhete escrito à mão sobre a força das tropas alemãs e o número de peças de artilharia que tinha visto. Também lhe deu um mapa que mostrava exatamente onde é que estavam acampados. Vicary guardou-os no seu alforge de couro e voltou para o quartel-general.
Vicary sabia que levava informações de importância vital, estavam vidas em jogo. Acelerou a fundo e seguiu perigosamente depressa pelo trilho estreito. Arvores grandes alinhavam-se de ambos os lados do caminho, com um dossel de ramos por cima da sua cabeça e a luz do Sol nas folhas de outono a criar um túnel cintilante de fogo. O caminho subia e descia, ritmicamente, por baixo dele. Por várias vezes, sentiu a vertigem emocionante provocada pela sua mota Rjídge a pairar no ar durante um segundo ou dois.
O chocalhar do motor começou a dezasseis quilómetros do quartel-general. Vicary abrandou. No quilómetro seguinte, o chocalhar
progrediu para um ruído alto. Mais um quilómetro e ouviu um barulho de metal a partir, seguido de um grande estrondo. O motor perdeu a força repentinamente e parou.
Sem o roncar da mota, o silêncio era opressivo. Inclinou-se e olhou para o motor. O metal oleado e quente e os cabos retorcidos não lhe diziam nada. Lembrava-se de ter pontapeado a mota e de ter pensado se a deixava ali na berma ou se a arrastava até ao quartel-general. Vicary agarrou-a pelo guiador e começou a empurrá-la num ritmo acelerado.
A luz da tarde diminuiu até se transformar num crepúsculo de um rosa frágil. Ainda estava a quilómetros do quartel-general. Se tivesse sorte, talvez encontrasse alguém do seu lado que lhe desse boleia. Se tivesse azar, podia encontrar-se cara a cara com uma patrulha de batedores alemães.
Quando o último raio de luz se extinguiu, começaram os disparos de artilharia. Os primeiros projéteis não causaram mossa, aterrando inofensivamente num campo. Os projéteis seguintes voaram por cima da cabeça de Vicary e bateram numa encosta. A terceira saraivada aterrou no trilho mesmo à frente dele.
Vicary nem se apercebeu do projétil que o feriu.
Quando recuperou a consciência às primeiras horas da noite, estava caído, a congelar, numa vala. Olhou para baixo e quase desmaiou quando viu o joelho, uma confusão
de ossos estilhaçados e sangue. Obrigou-se a rastejar para fora da vala e voltou para o trilho. Encontrou a mota e desmaiou ao lado dela.
Vicary acordou, na manhã seguinte, num hospital de campanha. Apercebeu-se de que o ataque tinha ido para a frente porque o hospital estava sobrelotado. Ficou deitado
na cama o dia inteiro, com a cabeça atordoada numa neblina sonolenta causada pela morfina, a ouvir os gemidos dos feridos. Ao cair da noite, o rapaz da cama ao lado
morreu. Vicary fechou os olhos para tentar calar o som do estertor da morte, mas não conseguiu.
Brendan Evans - o amigo de Cambridge que tinha ajudado Vicary a entrar para o Corpo dos Serviços Secretos - veio vê-lo na manhã seguinte. A guerra tinha-o mudado.
O seu ar de menino bonito desaparecera. Parecia um homem endurecido e algo cruel. Brendan puxou de uma cadeira e sentou-se ao lado da cama.
- A culpa é toda minha - disse Vicary. - Eu sabia que os alemães estavam à espera. Mas a minha mota avariou-se e eu não consegui arranjar aquela porcaria. E depois começaram os disparos de artilharia.
- Eu sei. Encontraram os papéis no teu alforge. Ninguém te ; culpa. Foi apenas o raio de um grande azar, só isso. Em qualquer caso, provavelmente não podias ter feito nada para reparar a mota.
Às vezes, Vicary ainda ouvia os gritos dos moribundos durante : o sono, mesmo agora, quase trinta anos depois. Nos últimos dias, os
sonhos tinham dado uma reviravolta, sonhava que tinha sido Basil Boothby a sabotar-lhe a mota.
Já leu alguma ve o dossiê de Vogel?
Não.
Mentiroso. Um perfeito mentiroso.
Vicary tentou abster-se das comparações inevitáveis entre o antes e o depois, mas era impossível. Não acreditava no destino, mas algo ou alguém lhe tinha dado uma
segunda oportunidade, uma oportunidade para se redimir do falhanço daquele dia de outono em 1916.
Vicary pensou que a festa no pub do outro lado da rua, em frente do quartel-general do MI5, o ajudasse a tirar o caso da cabeça. Mas não ajudou. Permaneceu à margem,
a pensar na França, contemplando a cerveja, a observar, enquanto outros oficiais namoriscavam as bonitas datilógrafas. Nicholas Jago estava a portar-se muito bem ao piano.
Foi sacudido do seu transe quando uma das rainhas da divisão dos Registos começou a cantar "I'll Be Seeing You". Era uma loura atraente, de lábios carmesim, chamada Grace Clarendon. Vicary sabia que ela e Harry tinham tido um caso bastante público no início da guerra. Vicary compreendia bem a atração. Grace era resplandecente, espirituosa e mais inteligente do que o resto das raparigas da divisão dos Registos. Mas também era casada e Vicary não aprovava. Não dizia a Harry o que achava; não era da sua conta. Pensou: Além disso, quem sou eu para me pôr com sermões em questões do coração? Suspeitava que tinha sido Grace que tinha dado a Harry as informações sobre Boothby e o dossiê Vogel.
Harry entrou no pub, embrulhado no sobretudo. Piscou o olho a Grace e, a seguir, dirigiu-se a Vicary e disse-lhe:
- Vamos voltar para o gabinete. Temos de falar.
- Ela chamava-se Beatrice Pymm. Vivia sozinha num chalé nos arredores de Ipswich - começou a dizer Harry enquanto subiam as escadas até ao gabinete de Vicary e depois de ter passado várias horas em Ipswich de manhã, a pesquisar o passado de Beatrice Pymm. Sem amigos, nem família. A mãe morreu em 1936. Deixou-lhe o chalé e uma soma razoável de dinheiro. Não tinha emprego. Não tinha namorados, nem amantes, nem sequer um gato. A única coisa que fazia era pintar.
- Pintar? - perguntou Vicary.
- Sim, pintar. As pessoas com quem falei disseram que ela pintava quase todos os dias. Saía de casa de manhã cedo, ia para o campo em redor e passava o dia todo a pintar. Um detetive da Polícia de Ipswich mostrou-me uns quantos quadros dela, paisagens. Muito bons, por acaso.
Vicary franziu a testa.
- Não sabia que tinha olho para a arte, Harry.
- Pensa que os rapazes de Battersea não sabem apreciar as coisas finas? Pois sempre lhe digo que a minha santa mãezinha me arrastava regularmente para a National Gallery.
- Peço desculpa, Harry. Por favor, continue.
- Beatrice não tinha carro. Ou ia de bicicleta, ou a pé, ou apanhava um autocarro. Costumava pintar durante horas, especialmente no verão, quando a luz era boa e perdia o último autocarro para casa. Os vizinhos viam-na chegar ao chalé a pé, já tarde, carregando o material de pintura. Dizem que passava a noite em sítios horríveis, só para apanhar o nascer do Sol.
- E o que é que eles acham que lhe aconteceu?
- A versão oficial da história: afogamento acidental. As coisas dela foram encontradas nas margens do Orwell, incluindo uma garrafa de vinho vazia. A polícia acha que ela bebeu demasiado, perdeu o equilíbrio, escorregou para dentro de água e se afogou. Não encontraram o corpo. Investigaram durante algum tempo, mas não conseguiram encontrar nenhuma prova que sustentasse outra teoria. Declararam a morte por afogamento acidental e fecharam o caso.
- Parece-me uma história muito plausível.
- Claro, pode ter acontecido dessa maneira. Mas duvido. Beatrice Pymm estava bastante familiarizada com aquela zona. Porque é que, nesse dia em particular, teria bebido demais e caído ao rio?
- E qual é a teoria número dois?
- A teoria número dois é a seguinte: ela foi apanhada pela nossa espia, ao entardecer, esfaqueada no coração e o corpo foi enfiado numa carrinha. As coisas dela foram deixadas na margem do rio para que parecesse um afogamento acidental. Na realidade, a
espiã atravessou parte do país com o corpo, mutilou-o e enterrou-o à
saída de Whitchurch.
Chegaram ao escritório de Vicary e sentaram-se. Vicary à secretária e Harry à frente dele. Harry recostou-se na cadeira e pôs os pés em cima da secretária.
- Isso são tudo suposições ou tem alguns factos que corroborem esta sua teoria?
- Metade uma coisa e metade a outra, mas tudo isto bate com a sua suspeita de que Beatrice Pymm foi assassinada com o objetivo de esconder a entrada da espia no país.
- Sou todo ouvidos.
- vou começar pelo cadáver. O corpo foi descoberto em agosto de 1939. Falei com o patologista do Ministério do Interior que o examinou. A julgar pela decomposição, calculou que tivesse estado enterrado durante seis a nove meses. Isso, já agora, é consistente com o assassinato de Beatrice Pymm. Os ossos da cara foram quase todos estilhaçados. Não havia dentes para comparar registos dentários. Não se podiam tirar impressões digitais porque as mãos estavam demasiado decompostas. Ele não conseguiu determinar a causa de morte. Mas encontrou uma pista interessante, um corte na parte inferior das costelas do lado esquerdo. Aquele corte era consistente com a hipótese de esfaqueamento no peito.
- E o Harry diz que a assassina pode ter usado uma carrinha? Que prova é que tem?
- Perguntei à polícia local se havia relatórios de crimes ou distúrbios em Whitchurch na noite em que Beatrice Pymm foi assassinada. Por coincidência, uma carrinha
foi abandonada e deliberadamente queimada nos arredores de uma aldeia chamada Alderton. Verificaram a matrícula da carrinha.
- Roubada em Londres dois dias antes. Vicary levantou-se e começou a passarinhar.
- Então, a nossa espiã está no meio de nenhures, com uma carrinha em chamas na berma da estrada. E para onde é que ela vai a seguir? O que é que ela faz?
- Vamos partir do princípio de que ela volta para Londres. Manda parar um dos carros ou camiões que passam e pede boleia. Ou talvez caminhe até à estação mais próxima
e apanhe o primeiro comboio para Londres.
- Demasiado arriscado - afirmou Vicary. - Uma mulher sozinha, no meio do campo a altas horas da noite, seria bastante invulgar. E é novembro, por isso, também está frio. Podia ser avistada pela polícia. O homicídio de Beatrice Pymm foi perfeitamente planeado e executado. A assassina não iria deixar ao acaso a sua própria fuga.
- E que tal uma mota na parte de trás da carrinha?
- Boa ideia. Verifique e veja se houve alguma mota roubada nessa altura.
- Ela conduz até Londres e livra-se da mota.
- Correto - concordou Vicary. - E quando a guerra rebenta, não procuramos uma holandesa chamada Christa Kunst porque julgamos erradamente que ela está morta.
- Um plano inteligente como o raio!
- Mais implacável do que inteligente. Veja bem, matar uma civil britânica inocente para esconder uma espiã. Ela não é uma espiã qualquer e Kurt Vogel não é um agente
de controlo qualquer. Estou convencido disso.
Vicary fez uma pausa para acender um cigarro.
- A fotografia levou a alguma pista?
- Nada.
- Acho que isso mata a nossa investigação por completo.
- Receio bem que tenha razão. vou fazer mais uns telefonemas agora à noite.
Vicary abanou a cabeça e disse:
- Tire o resto da noite. Vá lá para baixo, para a festa. - Depois acrescentou: - Passe algum tempo com a Grace.
Harry levantou os olhos.
- Como é que sabe?
- Este lugar está cheio de agentes dos serviços secretos, caso não tenha reparado. As coisas vão-se sabendo, as pessoas falam. Além do mais, vocês os dois não foram exatamente discretos. O Harry costumava deixar o número de telefone de casa de Grace à telefonista, caso eu andasse à sua procura.
Harry corou.
- Vá ter com ela, Harry. Ela sente a sua falta. Qualquer parvo vê isso.
; - Também sinto a falta dela. Mas ela é casada. Acabei tudo por-
que me sentia completamente reles.
- O Harry fá-la feliz e ela também o faz feliz. Quando o marido dela regressar a casa, se o marido dela regressar a casa, as coisas voltam ao normal.
- E como é que eu fico?
- Isso é consigo.
- Fico com o coração despedaçado, é como eu fico. Sou doido pela Grace.
- Então vá ter com a Grace e aproveite a companhia dela.
- Há outra coisa.
Harry contou-lhe o outro aspeto da culpa que sentia por causa do caso com Grace - o facto de estar em Londres a andar atrás de espiões enquanto o marido de Grace e outros homens arriscavam a vida nas forças armadas.
- Eu nem sei o que faria debaixo de fogo, como é que reagiria. Se seria um herói ou um cobarde. Também não sei se ando a contribuir para alguma coisa estando aqui. Consigo apontar cem nomes de outros detetives que são capazes de fazer o mesmo que eu. Às vezes, penso em entregar a Boothby a minha demissão e alistar-me.
- Não seja ridículo, Harry. Quando faz bem o seu trabalho, está a salvar vidas no campo de batalha. A invasão da França vai ser ganha ou perdida antes de o primeiro soldado chegar a pôr um pé numa praia francesa. Milhares de vidas dependem daquilo que o Harry faz. Se acha que não anda a fazer a sua parte, pense nisso
nestes termos. Além disso, preciso de si agora. É o único em quem posso confiar por aqui.
Por um momento, permaneceram sentados num silêncio estranho e embaraçoso, como os ingleses são propensos a fazer depois de partilharem pensamentos privados. Harry levantou-se, dirigiu-se para a porta e, a seguir, parou e voltou-se.
- Então e o Alfred? Porque não há ninguém na sua vida? Porque não desce até à festa e arranja uma mulher simpática com quem passar algum tempo?
Vicary bateu nos bolsos do peito à procura dos óculos em meia-lua e pô-los na cara.
- Boa noite, Harry - disse ele, com um pouco de firmeza a mais enquanto folheava uma pilha de papéis que tinha diante de si, na secretária. - Divirta-se na festa. Vejo-o amanhã de manhã.
Quando Harry saiu, Vicary pegou no telefone e marcou o número de Boothby. Ficou surpreendido por Boothby atender o próprio telefone. Quando Vicary lhe perguntou se não estava ocupado, Sir Basil quis saber se poderia ficar para segunda-feira de manhã. Vicary respondeu que era importante. Sir Basil concedeu-lhe uma audiência de cinco minutos e disse-lhe para subir imediatamente.
- Preparei este memorando para o general Eisenhower, o general Betts e o primeiro-ministro - disse Vicary quando terminou de informar Boothby das descobertas que Harry tinha feito nesse dia.
Entregou-o a Boothby, que permaneceu de pé com os pés ligeiramente afastados, como que para se equilibrar. Estava com pressa para se ir embora para o campo. A secretária tinha-lhe preparado uma pasta segura com material para ler no fim de semana e uma pequena mala em pele com objetos pessoais. Tinha um sobretudo sobre os ombros, com as mangas a abanarem dos lados.
- Na minha opinião, mantermo-nos calados sobre isto por muito mais tempo seria negligência, Sir Basil.
Boothby ainda estava a ler. Vicary sabia isso porque os lábios dele mexiam-se. Semicerrava tanto os olhos que estes tinham desaparecido
sob as sobrancelhas exuberantes. Sir. Basil gostava de fingir que continuava a ter uma visão perfeita e recusava-se a usar óculos à frente dos seus subordinados.
- Pensava que já tínhamos discutido isto, Alfred - disse Boothby, abanando a folha de papel no ar.
Um problema já discutido nunca deverá reaparecer, essa era uma das muitas máximas pessoais e profissionais de Sir Basil. Ficava irritado quando os subordinados levantavam questões já tratadas. A deliberação cuidadosa e as críticas posteriores eram características das mentes mais fracas. Sir Basil apreciava a capacidade de decisão rápida acima de tudo. Vicary passou o olhar pela secretária de Sir Basil. Estava limpa, reluzente e sem quaisquer papéis ou dossiês, um monumento ao estilo de gestão de Boothby.
-Já discutimos isto uma vez, Sir Basil - disse Vicary pacientemente -, mas a situação mudou. Parece que eles conseguiram introduzir um agente no país e esse agente encontrou-se com outro que já cá estava. Parece que a operação, qualquer que ela seja, está em curso. Guardarmos estas informações em vez de as transmitirmos é correr um grande risco.
- Disparates - atirou Boothby.
- Disparates, porquê?
- Porque este departamento não vai informar oficialmente os americanos e o primeiro-ministro de que é incapaz de desempenhar as suas funções. De que é incapaz de controlar a ameaça colocada por espiões alemães aos preparativos para a invasão.
- Isso não é uma razão válida para ocultar estas informações.
- É uma razão válida, sim, Alfred. Se eu digo que é, é porque é.
As conversas com Boothby assumiam normalmente as características de um gato a perseguir a própria cauda: contradições superficiais, bluffs e manobras de diversão, disputas para ver quem marcava mais pontos. Vicary juntou as mãos por baixo do queixo, circunspectamente, e fingiu que estudava o padrão do dispendioso tapete de Boothby. A sala estava em silêncio, à exceção do ruído das tábuas a rangerem sob o corpo musculoso de Sir Basil.
- Está disposto a enviar o meu memorando ao diretor-geral? perguntou Vicary num tom de voz o menos ameaçador possível.
- De forma nenhuma.
- Então, eu próprio estou disposto a ir falar diretamente com o diretor-geral.
Boothby inclinou-se e pôs a cara junto à de Vicary. Vicary, sentado no sofá fundo de Boothby, conseguiu sentir o cheiro do gim e dos cigarros no hálito dele.
- E eu estou preparado para o esmagar, Alfred.
- Sir Basil...
- Deixe que lhe recorde como o sistema funciona. O Alfred informa-me a mim e eu informo o diretor-geral. Já me informou e eu decidi que seria inapropriado passar esta mensagem ao diretor-geral nesta altura.
- Há ainda outra opção.
Boothby atirou a cabeça para trás como se tivesse sido esmurrado. Recuperou rapidamente a compostura e cerrou o maxilar numa carranca.
- Eu não respondo perante o primeiro-ministro, nem estou às ordens dele. Mas se o Alfred passar por cima do departamento e falar diretamente com Churchill, eu entrego-o a uma comissão de inquérito. Quando a comissão acabar de tratar de si, vão precisar dos registos dentários para identificarem o seu corpo.
- Isso é completamente injusto.
- É? Desde que tomou conta deste caso, tem sido um desastre atrás do outro. Meu Deus, Alfred, mais uns quantos espiões alemães a andarem à solta pelo país fora e já podem formar um clube de râguebi.
Vicary recusou-se a morder o isco.
- Se não vai apresentar o relatório ao diretor-geral, quero que o registo oficial deste caso contenha o facto de eu ter feito esta sugestão nesta altura e de o senhor a ter recusado.
Os cantos da boca de Boothby levantaram-se num sorriso lacónico. Proteger a própria pele era uma coisa que ele compreendia e apreciava.
- Já está a pensar no seu lugar na História, é, Alfred?
- O senhor é um completo filho da mãe, Sir Basil. E um incompetente também.
- Está a dirigir-se a um oficial superior, major Vicary!
- Acredite que eu percebi a ironia.
Boothby agarrou na pasta e na mala em pele e, a seguir, olhou para Vicary e disse-lhe:
- Tem muita coisa para aprender.
- Suponho que possa aprender consigo.
- E que raio quer isso dizer? Vicary levantou-se.
- Quer dizer que o senhor devia começar a pensar mais na segurança deste país e menos na sua promoção pessoal através de Whitehall.
Boothby sorriu descontraidamente, como se estivesse a tentar seduzir uma mulher mais nova.
- Mas, meu caro Alfred - disse ele -, eu sempre considerei que as duas coisas estão perfeitamente interligadas.
VINTE E UM
LESTE DE LONDRES
Na noite seguinte, Catherine Blake tinha uma faca de ponta e mola escondida na mala quando se apressou pelo passeio em direção ao armazém dos Pope. Exigira um encontro
a sós com Vernon Pope e, quando chegou ao armazém, não viu sinal dos homens dele. Parou junto ao portão e rodou o trinco. Estava destrancado, como Pope tinha dito que estaria. Abriu-o e entrou.
O armazém era um sítio cheio de sombras, a única iluminação vinha de um candeeiro pendurado num canto da divisão. Catherine encaminhou-se em direção à luz e encontrou o monta-cargas. Entrou, fechou a porta e carregou no botão. O elevador rugiu e depois subiu aos estremeções para o escritório de Pope.
O elevador parou num pequeno patamar com um par de portas pretas duplas. Catherine bateu e ouviu a voz de Pope do outro lado a dizer-lhe para entrar. Ele estava de pé, junto a um carrinho de bebidas, com uma garrafa de champanhe numa mão e um par de copos na outra. Estendeu um a Catherine quando ela atravessou a sala.
- Não, obrigada - disse ela. - vou só ficar um minuto.
- Eu insisto - respondeu ele. - As coisas ficaram um pouco tensas da última vez que estivemos juntos. Quero compensá-la.
- Foi por isso que me mandou seguir? - perguntou ela, aceitando o champanhe.
- Eu mando seguir toda a gente, querida. É por isso que ainda ando neste negócio. Os meus rapazes são bons nisso, como irá ver quando ler o relatório.
Estendeu um envelope na direção de Catherine e depois puxou-o para trás quando ela tentou agarrá-lo.
- Foi por isso que fiquei tão surpreendido quando conseguiu enganar o Dicky. Foi muito ardilosa: enfiar-se no metropolitano e depois saltar para dentro de um autocarro.
- Mudei de ideias - respondeu ela.
Bebeu um pouco do champanhe. Estava gelado e era excelente. Pope estendeu o envelope novamente e, desta vez, permitiu que Catherine o agarrasse. Ela pousou o copo
e abriu-o.
Era exatamente o que ela precisava, um relatório minuto a minuto
dos movimentos de Peter Jordan por Londres: onde trabalhava, os horários dele, os sítios onde comia e bebia, até o nome do amigo.
Enquanto ela acabava de ler, Pope tirou o champanhe do balde de gê o e encheu o copo dele outra vez. Catherine tirou o dinheiro da mala e pousou-o na mesa.
- Aqui está o resto - disse ela. - Acho que isto encerra o nosso assunto. Muito obrigada.
Estava a guardar o relatório sobre Peter Jordan na mala quando Pope se aproximou e lha tirou.
- Por acaso, minha querida Catherine, o nosso assunto ainda agora começou.
- Se é mais dinheiro que quer...
- Oh, eu quero mais dinheiro. E se não quer que eu ligue para a policia, vai dar-mo - atirou ele, dando mais um passo na direção de Catherine, apertando o corpo contra o dela e acariciando-lhe os seios. - Mas há mais uma coisa que quero de si.
As portas do quarto abriram-se revelando Vivie vestida apenas com uma camisa de Vernon, desabotoada até à cintura.
- Vivie, apresento-te a Catherine - disse Pope. - A encantadora Catherine concordou em passar cá a noite.
Não a tinham preparado para ocasiões como esta na escola para espiões da Abwehr, em Berlim. Ensinaram-na a contar tropas, a avaliar um exército, a usar o rádio, a reconhecer as insígnias das unidades e as caras dos oficiais superiores. Mas nunca a ensinaram a lidar
com um gangster londrino e a sua namorada pervertida, que tinham planeado passar a noite a fazer turnos com o corpo dela. Tinha a sensação de estar encurralada numa estúpida fantasia adolescente. Pensou: Isto não pode estar mesmo a acontecer. Mas estava a acontecer e Catherine não conseguia pensar em nada que tivesse aprendido no seu treino que a conseguisse tirar dali.
Vernon Pope conduziu-a pelas portas até ao quarto. Empurrou-a para o fundo da cama e sentou-se numa cadeira num dos cantos do quarto. Vivie pôs-se em pé à frente dela e desabotoou os últimos botões da camisa. Tinha seios pequenos e arrebitados e uma pele pálida que brilhava à luz opaca do quarto. Puxou a cabeça de Catherine até aos seios. Catherine alinhou no jogo depravado, levando o mamilo de Vivie à boca, enquanto pensava na melhor maneira de os matar aos dois.
Catherine sabia que, se se submetesse à chantagem, esta nunca mais acabaria. Os seus recursos financeiros não eram ilimitados. Vernon Pope conseguiria extorquir-lhe o dinheiro até ao último tostão muito rapidamente. E sem dinheiro ela seria inútil para eles. Decidiu que havia poucos riscos envolvidos; tinha-se dado ao cuidado de não deixar nenhum rasto visível. Pope e os homens dele não sabiam onde encontrá-la. Apenas sabiam que ela trabalhava como enfermeira voluntária no Hospital St. Thomas e lá Catherine tinha dado uma morada falsa. E também não teriam coragem de ir à polícia. A polícia iria fazer perguntas; e se respondessem com a verdade, teriam de admitir que tinham seguido um oficial da marinha americana por dinheiro.
Tudo isso implicava matar Vernon Pope o mais rápida e silenciosamente que lhe fosse possível.
Catherine levou o outro seio de Vivie à boca e chupou o mamilo até ele ficar duro. Vivie deixou cair a cabeça para trás e gemeu. Pegou na mão de Catherine e guiou-a pelo meio das pernas. Já estava quente e húmida. Catherine tinha-se desligado de qualquer emoção. Estava apenas a executar mecanicamente os movimentos para dar prazer físico àquela mulher. Não sentia medo nem repulsa, simplesmente tentava manter-se calma e pensar claramente. A pélvis de Vivie começou a mover-se contra os dedos de Catherine e, um momento depois, o corpo dela estremeceu com um orgasmo.
Vivie empurrou Catherine para a cama, montou em cima das ancas dela e começou a desabotoar-lhe os botões da camisola. Tirou-lhe o sutiã e massajou-lhe os seios.
Catherine viu Vernon levantar-se da cadeira e começar a despir-se. Foi a primeira vez que se sentiu nervosa. Não o queria em cima dela nem dentro dela. Ele era muito
capaz de ser um amante cruel e sádico. Podia magoá-la. De costas, com as pernas abertas, estaria vulnerável. Estaria também sujeita ao seu peso e força superiores.
Todas as técnicas de luta que tinha aprendido na escola da Abwehr dependiam da velocidade e da liberdade de movimentos. Se ela se visse presa por baixo do corpo
pesado de Vernon Pope, ficaria indefesa.
Catherine tinha de fazer o jogo deles. Melhor ainda: tinha de ser ela a controlá-lo.
Levantou os braços e agarrou nos seios de Vivie com as mãos e acariciou-lhe os mamilos. Conseguia ver Vernon a observá-las. Estava a comê-las com os olhos, a deleitar-se com a visão das duas mulheres a acariciarem-se uma à outra. Catherine puxou Vivie para ela e guiou-lhe a boca para os seios. Catherine pensou em como seria fácil agarrar-lhe na cabeça e torcer-lha até que o pescoço se partisse, mas seria um erro. Precisava de matar Pope primeiro. Depois disso, Vivie seria fácil.
Pope dirigiu-se para a cama e empurrou Vivie para o lado.
Antes que Vernon conseguisse deitar-se em cima dela, Catherine sentou-se e beijou-o. Pôs-se de pé enquanto a língua dele se agitava selvaticamente dentro da boca dela. Lutou contra a vontade de vomitar. Por instantes, considerou a possibilidade de permitir que ele fizesse amor com ela e matá-lo depois, quando estivesse sonolento e satisfeito. Mas ela não queria que aquilo se prolongasse mais do que o estritamente necessário.
Afagou-lhe o pénis. Ele gemeu e beijou-a com mais força.
Naquele momento, ele estava indefeso. Virou-o para que ficasse de costas para a cama.
Foi então que lhe deu uma joelhada violenta e maldosa nas virilhas.
Pope contorceu-se todo, tentando respirar, com as mãos entre as coxas. Vivie gritou.
Catherine girou e acertou com o cotovelo na cana do nariz dele. Conseguiu ouvir o som do osso e da cartilagem a partirem-se. Pope caiu no chão, aos pés da cama, com o sangue a jorrar-lhe das narinas. Vivie estava ajoelhada na cama, a gritar. Já não era uma ameaça para Catherine.
Virou-se e dirigiu-se rapidamente para a porta. Pope, ainda no chão, estendeu a perna.
Bateu violentamente no tornozelo direito de Catherine, fazendo com que ela tropeçasse nas próprias pernas. Catherine caiu no chão, com a forte queda a deixá-la sem fôlego. Viu estrelas, por momentos, e vieram-lhe as lágrimas aos olhos. Teve medo de perder os sentidos.
com grande esforço, conseguiu pôr-se de gatas e estava quase a levantar-se quando Pope lhe agarrou o tornozelo, apertando-o como um torno, e começou a arrastá-la para ele. Catherine rolou rapidamente para o lado e atirou com o salto do sapato ao nariz partido dele.
Pope gritou, cheio de dores, mas parecia que o aperto em volta do tornozelo dela ainda se tinha tornado mais forte.
Ela pontapeou-o uma segunda vez e depois uma terceira.
Finalmente, ele soltou-a.
Catherine pôs-se de pé e correu para o sofá onde Pope a fizera largar a mala. Abriu-a e a seguir abriu o fecho interior. A faca de ponta e mola estava lá. Pegou nela e carregou na mola. A lâmina foi ativada com um estalido.
Pope já estava em pé, a mergulhar na escuridão, com as mãos a procurarem-na. Catherine voltou-se e atacou selvaticamente com a arma. A ponta da lâmina abriu um golpe no ombro direito dele.
Pope apertou a ferida com a mão esquerda e gritou de dor quando o sangue começou a jorrar-lhe por entre os dedos. Tinha o braço à frente do peito, não havia maneira de lhe espetar a faca no coração. A Abwehr tinha-lhe ensinado outro método que a fazia arrepiar só de pensar nele. Mas tinha de o utilizar agora. Não havia escolha.
Catherine aproximou-se mais, puxou a faca para trás e depois enterrou-a no olho de Vernon Pope.
Vivie estava no canto do quarto, deitada no chão, em posição fetal, a chorar histericamente. Catherine agarrou-a pelo braço, pô-la em pé com um puxão e empurrou-a contra a parede.
- Por favor, não me faças mal.
- Não te vou fazer mal.
- Não me faças mal.
- Não te vou fazer mal.
- Prometo que não digo a ninguém, nem mesmo ao Robert. Juro.
- Nem à polícia?
- Não digo nada à polícia.
- Otimo. Eu sabia que podia confiar em ti.
Catherine acariciou-lhe o cabelo e tocou-lhe na cara. Vivie pareceu sossegar. O corpo dela perdeu as forças e Catherine teve de a agarrar para impedir que caísse no chão.
- Quem és tu? - perguntou Vivie. - Como é que lhe conseguiste fazer isto?
Catherine não disse nada, apenas lhe acariciou o cabelo enquanto a outra mão procurava a parte mais mole na base da caixa torácica. Os olhos de Vivie esbugalharam-se quando a faca lhe entrou no coração. Um grito de dor ficou preso na garganta e saiu como um gorgolejo baixinho. Morreu rápida e silenciosamente, com os olhos sem expressão a olharem para os de Catherine.
Catherine soltou-a. O movimento do corpo a escorregar pela parede abaixo arrancou a faca do coração. Catherine observou os destroços humanos à sua volta, o sangue. Meu Deus, em que é que me transformaram? A seguir, caiu de joelhos ao lado do cadáver de Vivie e vomitou violentamente.
Executou os rituais de fuga com uma calma surpreendente. Na casa de banho, lavou o sangue deles das mãos, da cara e da lâmina da faca. Não havia nada a fazer quanto ao sangue na camisola, a não ser escondê-lo debaixo do casaco de cabedal. Saiu da casa de banho, passou pelo corpo da mulher e foi até à divisão seguinte. Dirigiu-se para a janela e olhou para a rua. Pope, ao que parecia, tinha cumprido
a palavra dada. Não havia ninguém no exterior do armazém. De certeza que encontrariam o corpo dele de manhã e, quando o fizessem, viriam atrás dela. Por agora, pelo menos, estava segura. Agarrou na mala e tirou da mesa as cem libras em notas que tinha dado a Pope. Desceu no elevador, atravessou o armazém e embrenhou-se na noite.
VINTE E DOIS
LESTE DE LONDRES
O superintendente-chefe Andrew Kidlington, ao contrário da maior parte dos homens da sua profissão, evitava cenas de homicídio sempre que podia. Pregador secular na sua igreja local, já há muito perdera o gosto pelo lado mais macabro da profissão. Tinha reunido uma equipa de polícias absolutamente profissional e acreditava que o melhor era dar-lhe rédea livre. Tinha uma habilidade lendária para fazer mais deduções sobre um homicídio a partir de um bom dossiê do que pela visita ao local do crime, e certificava-se sempre de que cada pedaço de papel gerado pelo departamento lhe passava pela secretária. Mas não era todos os dias que alguém espetava
uma faca num homem como Vernon Pope. Aquilo era uma coisa que tinha de ver com os próprios olhos.
O polícia fardado que estava de guarda à entrada do armazém afastou-se para o lado quando Kidlington se aproximou.
- O elevador é mesmo ao fundo do armazém, senhor. Suba um andar. Há outro homem nesse patamar. Ele indica-lhe o caminho.
Kidlington atravessou o armazém devagar. Era alto e magro, com uma cabeleira espessa e grisalha e o ar de quem tem sempre más notícias a dar. Por causa disso, os seus homens tinham tendência para andarem de mansinho quando estavam perto dele.
Um jovem sargento chamado Meadows estava à espera dele no patamar. Meadows era demasiado vistoso para o gosto de Kidlington
e andava com muitas mulheres. Mas era um excelente detetive e tinha
a palavra promoção estampada na testa.
- Aquilo está muito feio ali dentro, senhor - disse Meadows.
Kidlington conseguia sentir o cheiro a sangue no ar quando Meadows o conduziu para dentro do escritório. O corpo de Vernon Pope jazia sobre um tapete oriental perto do sofá. O círculo escuro do sangue expandia-se para além do lençol cinzento que o cobria. Kidlington, apesar dos seus trinta anos na Polícia Metropolitana, ainda sentiu a bílis a subir-lhe à boca quando Meadows se ajoelhou junto do corpo e puxou o lençol para trás.
- Meu Deus! - exclamou Kidlington baixinho.
Fez uma careta e virou-se para o lado para se recompor.
- Nunca tinha visto nada assim - disse Meadows.
O cadáver de Vernon Pope estava deitado, nu e virado para cima, numa poça de sangue seco e preto. Para Kidlington, era óbvio que a ferida fatal só tinha sido provocada após uma violenta luta. Havia um grande corte irregular ao longo do ombro. O nariz tinha sido brutalmente partido. O sangue tinha escorrido das narinas para a boca, que se tinha aberto na morte, como se emitisse um último grito. Depois havia o olho. Kidlington teve dificuldade em olhar para aquilo. O sangue e o fluido ocular tinham escorrido pela cara abaixo. O globo ocular estava destruído e a pupila já não era visível. Era preciso uma autópsia para determinar a verdadeira profundidade da ferida, mas parecia ter sido o golpe fatal. Alguém tinha enfiado alguma coisa no olho e no cérebro de Vernon Pope.
Kidlington quebrou o silêncio:
- Hora aproximada da morte?
- Durante a noite de ontem, talvez logo no início.
- Arma?
- É difícil dizer. com certeza que não foi uma faca comum. Olhe para a ferida no ombro. As pontas da ferida são irregulares.
- Conclusão?
- Qualquer coisa afiada. Talvez uma chave de fendas ou um picador de gelo.
Kidlington observou o escritório.
O do Pope ainda está no carrinho das bebidas. A não ser que
o nosso assassino ande por aí com o seu próprio picador de gelo, duvido que seja essa a arma do crime - afirmou Kidlington, olhando outra vez para o corpo. - Eu diria que foi uma faca de ponta e mola. É uma arma que fura, não uma que corta. E isso explicaria tanto a ferida irregular no ombro como o ferimento perfurante e certeiro no olho.
- Certo, senhor.
Kidlington já tinha visto o suficiente. Levantou-se e indicou a Meadows que tapasse o corpo.
- A mulher?
- No quarto. Por aqui, senhor.
Robert Pope estava sentado no lugar do passageiro, pálido e a tremer visivelmente, enquanto Dicky Dobbs conduzia a carrinha a toda a velocidade em direção ao Hospital
St. Thomas. Tinha sido Robert a descobrir os corpos do irmão e de Vivie de manhã cedo. Tinha esperado por Vernon no café no East End onde tomavam o pequeno-almoço
todas as manhãs e ficou preocupado quando ele não apareceu. Foi buscar Dicky ao apartamento e foram ao armazém. Quando viu os corpos, gritou e pontapeou a mesa de
vidro.
Robert e Vernon Pope eram homens realistas. Sabiam que estavam num trabalho perigoso e que um deles ou os dois poderiam morrer ainda novos. Como todos os irmãos,
também discutiam, mas Robert Pope adorava o irmão mais velho mais do que tudo no mundo. Vernon tinha sido como um pai para ele, quando o próprio pai, um desempregado
alcoólico e abusivo, se foi embora para nunca mais voltar. Foi a maneira como ele morreu que o horrorizou mais: esfaqueado no olho e deixado no chão, nu. E Vivie,
uma inocente, esfaqueada no coração.
Era possível que as mortes fossem obra de um dos seus inimigos. O negócio dos Pope tinha prosperado durante a guerra e eles tinham estendido as suas atividades
para novos territórios. Mas aquilo não se parecia com nenhum assassinato feito por gangues que já tivesse visto. Robert suspeitava que tinha alguma coisa que ver
com
a mulher: Catherine, ou fosse lá qual fosse o raio do nome verdadeiro dela. Tinha feito um telefonema anónimo para a polícia - teriam de ser metidos ao barulho,
mais tarde ou mais cedo -, mas não confiava neles para encontrar o assassino do irmão. Isso faria ele sozinho. Dicky estacionou junto ao rio e entrou no hospital
por uma porta de serviço. Saiu de lá passados cinco minutos e voltou para a carrinha.
- Ele estava lá? - perguntou Pope.
- Sim. Ele acha que nos consegue arranjar isso.
- Quanto tempo?
- Vinte minutos.
Meia hora mais tarde, um homem magro, com uma cara chupada e uma farda de contínuo, saiu pelas traseiras do hospital e dirigiu-se para a carrinha rapidamente.
Dicky baixou o vidro da janela.
- Já o tenho, senhor Pope - disse ele. - Uma rapariga da receção deu-mo. Disse que era contra as regras, mas eu convenci-a. Mas prometi-lhe uma nota de cinco. Espero que não se importe.
Dicky estendeu a mão e o homem deu-lhe um papel. Dicky passou-o a Pope.
- bom trabalho, Sammy - disse Pope, olhando para o papel
- Dá-lhe o dinheiro, Dicky.
O homem aceitou o dinheiro, com uma expressão de desapontamento.
- Que se passa, Sammy? - perguntou Dicky. - Dez xelins, tal como prometi.
- Então e as cinco libras para a rapariga?
- Considera-as as tuas despesas operacionais - disse Pope.
- Mas, senhor Pope...
- Sammy, não queiras meter-te comigo neste momento. Dicky pôs a carrinha em movimento e acelerou, com os pneus
a chiarem.
- Qual é a morada? - perguntou Dicky.
- É em Islington. Mexe-te!
A senhora Eunice Wright, moradora no número 23 de Norton Lane, em Islington, era parecida com a casa: alta, estreita, cinquentona, toda ela robustez e maneiras vitorianas. Não sabia - nem nunca saberia, mesmo depois do horrível episódio - que a casa tinha sido usada como morada falsa por uma agente dos serviços secretos militares alemães chamada Catherine Blake.
Há já duas semanas que Eunice Wright estava à espera de um técnico para reparar a caldeira avariada. Antes da guerra, os hóspedes da sua bem dirigida pensão eram, na sua maioria, jovens que estavam sempre dispostos a ajudar quando alguma coisa corria mal com os canos ou com o fogão. Mas, naquele momento, todos os jovens estavam no exército. O seu próprio filho, que nunca lhe saía do pensamento, estava algures no Norte de África. Já não retirava nenhum prazer dos hóspedes - dois homens velhos que falavam imenso sobre a última guerra e duas raparigas do campo bastante tolas que tinham fugido da desolação da sua aldeia nas East Midlands para procurarem trabalho nas fábricas de Londres. Quando Leonard era vivo, era ele que tratava de todas as reparações, mas Leonard já estava morto há dez anos.
Estava à janela da sala de estar a bebericar chá. O silêncio reinava na casa. Os homens estavam lá em cima a jogar às damas. Tinha insistido para que eles jogassem sem baterem com as peças para não acordarem as raparigas, que tinham acabado de chegar do turno da noite. Aborrecida, ligou o rádio e ouviu o noticiário da BBC.
Quando parou à frente da casa, a carrinha pareceu-lhe estranha. Não tinha nada que a identificasse - não tinha o nome de nenhuma companhia pintado na parte lateral - e os dois homens sentados à frente não eram nada parecidos com nenhum técnico de reparações que ela já tivesse visto. O que estava ao volante era alto e robusto, com o cabelo cortado à escovinha e um pescoço tão grande que parecia que a cabeça estava simplesmente atarraxada aos ombros. O outro era pequeno, tinha cabelo escuro e parecia zangado com o mundo. A roupa deles também era estranha. Em vez das fardas tipo macacão dos operários, traziam fatos e, pelo aspeto, fatos muito caros.
Abriram as portas e saíram. Eunice reparou no facto de não carregarem ferramentas. Talvez quisessem observar os danos da caldeira antes de trazerem todas as ferramentas para dentro de casa. Estavam apenas a ser meticulosos, estavam a certificar-se de que apenas traziam as ferramentas necessárias para o trabalho. Estudou-os mais atentamente à medida que se aproximavam da porta da frente. Pareciam razoavelmente saudáveis. Por que razão não estariam no exército? Notou como olhavam por cima do ombro, para a rua, enquanto iam avançando, como se estivessem a tentar passar despercebidos. De repente, Eunice desejou que Leonard ali estivesse.
Bateram à porta de um modo nada educado. Ela pôs-se a pensar que os polícias deviam bater assim quando achavam que havia um criminoso atrás da porta. Bateram outra vez, com tanta força que os vidros da janela da sala abanaram.
Lá em cima, o jogo de damas parou.
Eunice foi até à porta. Pensou para si própria que não havia razão para ter medo, que apenas lhes faltavam as boas maneiras que eram comuns à maioria dos técnicos ingleses. Eram tempos de guerra. Os técnicos de reparação mais experientes estavam a prestar serviço militar, a trabalhar em bombardeiros ou fragatas. Os maus - como aqueles dois que estavam à porta - iam aguentando os empregos que tinham.
Abriu a porta devagar. Queria pedir-lhes que não fizessem barulho para não acordarem as raparigas. Nunca chegou a conseguir falar. O maior - o que não tinha pescoço - empurrou a porta para trás com o antebraço e depois tapou-lhe a boca com a mão. Eunice tentou gritar, mas o grito pareceu morrer-lhe na garganta e ela não conseguiu emitir praticamente nenhum som audível.
O mais pequeno encostou a cara ao ouvido dela e falou-lhe com uma serenidade que ainda a assustou mais.
- Dá-nos o que nós queremos, 'morzinho, e ninguém se magoa
- disse ele.
A seguir, afastou-a com um empurrão e começou a subir as escadas.
O sargento Meadows considerava-se uma autoridade menor no que dizia respeito ao gangue dos Pope. Sabia como faziam dinheiro
. legal e ilegalmente - e conseguia reconhecer a maior parte dos
membros do gangue pelo nome e pela cara. Por isso, quando ouviu a descrição dos dois homens que
tinham acabado de virar de pantanas uma pensão em Islington, acabou
os seus afazeres na cena do crime e dirigiu-se para lá a fim de ver o que se tinha passado com os próprios olhos. A primeira descrição correspondia a Richard Dicky
Dobbs, o principal capanga e pau para toda a obra dos Pope. A outra correspondia ao próprio Robert Pope.
Como era seu hábito, Meadows ia passarinhando pela sala de estar enquanto Eunice Wright, sentada rigidamente direita numa cadeira, voltava a contar toda a história
pacientemente, apesar de já o ter feito por duas vezes. A chávena de chá tinha sido substituída por um pequeno copo de xerez. A cara exibia a marca dos dedos do
agressor e ela tinha ficado com um galo na cabeça quando ele a tinha empurrado para o chão. Fora isso, não estava ferida com gravidade.
- E eles não lhe disseram o quê ou quem é que procuravam? perguntou Meadows, parando de andar de um lado para o outro o tempo suficiente para fazer a pergunta.
- Não.
- Trataram-se um ao outro pelo nome?
- Não, acho que não.
- E por acaso viu a matrícula da carrinha?
- Não, mas descrevi a carrinha a um dos outros agentes.
- É um modelo muito comum, senhora Wright. Receio que a descrição por si só não tenha grande valor para nós. vou mandar um dos nossos homens falar com a vizinhança.
- Lamento - disse ela, esfregando a parte de trás da cabeça.
- Está bem?
- Ele fez-me um galo muito feio na cabeça, aquele rufia!
- Talvez devesse ir ao médico. vou pedir a um dos agentes que lhe dê uma boleia quando tivermos terminado.
- Muito obrigada. É muito gentil da sua parte. Meadows agarrou na gabardina e vestiu-a.
- E disseram mais alguma coisa de que se lembre?
- Bem, disseram uma coisa - respondeu Eunice Wright, hesitando por um momento e corando. - Receio que a linguagem seja um bocadinho grosseira.
- Garanto-lhe que não me vou sentir ofendido.
- O mais pequeno disse: Quando eu encontrar aquela...
Fez uma pausa e baixou a voz, envergonhada por dizer aquelas palavras:
-Quando eu encontrar aquela cabra de merda, vou matá-la com as minhas próprias mãos.
Meadows franziu o sobrolho.
- Tem a certeza disso?
- Oh, sim. Quando é raro ouvirmos esse tipo de linguagem, é difícil esquecermo-nos.
- É bem verdade - exclamou Meadows, entregando-lhe o cartão de contacto. - Se se lembrar de mais alguma coisa, por favor, não hesite em ligar. Tenha um bom dia, senhora Wright.
- bom dia, senhor inspetor.
Meadows pôs o chapéu e dirigiu-se para a porta. Então eles andavam à procura de uma mulher. Se calhar, não eram os Pope, afinal de contas. Se calhar, eram apenas dois sujeitos à procura de uma rapariga. Talvez as descrições semelhantes fossem apenas uma coincidência. Meadows não acreditava em coincidências. Ia voltar ao armazém dos Pope e verificar se alguém tinha avistado uma mulher a andar por ali nos últimos tempos.
VINTE E TRÊS LONDRES
Catherine Blake partiu do princípio de que os oficiais aliados que conheciam o segredo mais importante da guerra tinham sido alertados para a ameaça representada pelos espiões. Que outra razão levaria o comandante Peter Jordan a algemar a pasta ao pulso para atravessar a pé Grosvenor Square? E também partiu do princípio de que os oficiais tinham sido avisados em relação a abordagens femininas. Mais no início da guerra, tinha visto um cartaz à entrada de um clube frequentado por oficiais britânicos. Mostrava uma loira voluptuosa, de grandes seios e com um vestido de noite decotado, à espera que um oficial lhe acendesse o cigarro. No fundo do póster, liam-se as palavras: Mantém-te calado, ela não é assim tão burra. Catherine achou que era a coisa mais ridícula que já tinha visto. Se havia mulheres assim - cabras que andavam por clubes ou festas a ouvir mexericos e segredos -, ela não tinha conhecimento. Mas suspeitava que essa doutrinação faria Peter Jordan desconfiar de uma mulher linda que começasse de repente a disputar a sua atenção. Ele também era um homem de sucesso, inteligente e atraente. Mostrar-se-ia muito criterioso em relação às mulheres com quem decidia passar tempo. A cena no Savoy, no outro dia, era a prova disso. Tinha-se zangado com o amigo Shepherd Ramsey por este lhe ter arranjado um encontro com uma rapariga estúpida e nova. Catherine teria de fazer a sua abordagem com muito cuidado.
E era essa a razão para se encontrar parada à esquina do Vandyke Club, com um saco da mercearia nos braços.
Eram quase seis horas. Londres estava envolta no blackout. O trânsito do final da tarde fornecia à justa a luz necessária para que ela conseguisse ver a entrada para o clube. Passados alguns minutos, saiu de lá um homem de estatura e constituição medianas. Era Peter Jordan. Parou um momento para abotoar o sobretudo. Se mantivesse a rotina do final da tarde, iria fazer a pé a pequena distância até casa. Se quebrasse a rotina e fizesse sinal a um táxi para parar, Catherine estaria sem sorte nenhuma. Seria obrigada a voltar no dia seguinte e a esperar com o saco da mercearia.
Jordan levantou a gola do sobretudo e começou a avançar na direção dela. Catherine Blake aguardou um momento e, a seguir, atravessou-se no caminho dele.
Quando chocaram, ouviu-se o som de papel a rasgar-se e de artigos de mercearia a cair no passeio.
- Peço desculpa. Não vi que estava aí. Por favor, deixe-me ajudá-la a levantar-se.
- Não, a culpa é minha. Infelizmente, não sei onde pus a minha lanterna para o blackout e tenho andado de um lado para o outro, perdida. Sinto-me mesmo parva.
- Não, eu é que tenho a culpa. Estava a tentar provar a mim mesmo que conseguia descobrir o caminho para casa no escuro. Oiça, tenho uma lanterna. Deixe-me acendê-la.
- Importa-se de a apontar para o passeio? Acho que as minhas rações estão a rebolar em direção ao Hyde Park.
- Agarre a minha mão.
- Obrigada. Já agora, quando quiser, pode parar de me apontar a luz à cara.
- Desculpe, é só que...
- Só que o quê?
- Esqueça. Acho que aquele pacote de farinha não sobreviveu.
- Não faz mal.
- Deixe-me ajudá-la a apanhar as coisas.
- Eu sou capaz. Obrigada.
- Não, eu insisto. E deixe-me arranjar-lhe outro pacote de farinha. Tenho imensa comida em casa. O meu problema é não saber o que fazer com ela.
- A marinha não lhe dá de comer?
- Como é que...
- Lamento informá-lo, mas o uniforme e o sotaque revelaram-no. Além disso, só um oficial americano é que seria suficientemente tolo para andar intencionalmente pelas ruas de Londres sem se servir de uma lanterna. Vivi aqui a vida inteira e mesmo assim não me consigo orientar durante o blackout.
- Por favor, deixe-me restituir-lhe as coisas que perdeu.
- É uma oferta muito gentil, mas não é necessário. Foi um prazer chocar contra si.
- Sim... sim, pois foi.
- Teria a amabilidade de me indicar para que lado fica a Brompton Road?
- É naquela direção.
- Muito obrigado.
Ela voltou-se e começou a afastar-se.
- Espere um minuto. Tenho outra sugestão. Ela parou de andar e virou-se.
-- E qual é ela?
- Gostaria de saber se lhe apeteceria tomar um copo comigo um dia destes.
Ela hesitou e depois disse:
- Não sei bem se quero beber um copo com um americano detestável que faz questão de andar pelas ruas de Londres sem lanterna. Mas suponho que, no fundo, pareça inofensivo. Por isso, a resposta é sim.
Afastou-se novamente.
- Espere, venha cá. Nem sequer sei o seu nome.
- É Catherine - gritou ela. - Catherine Blake.
- Preciso do seu número de telefone - disse Jordan sem saber o que fazer.
Mas ela já se tinha diluído na escuridão e desaparecido.
Quando Peter Jordan chegou a casa, entrou no escritório, pegou no telefone e marcou um número. Identificou-se e uma simpática voz feminina deu-lhe instruções para que não desligasse. Passado um momento, ouviu a voz, com sotaque inglês, do homem que conhecia apenas como Broome.


CONTINUA

ONZE
SELSEY, INGLATERRA
- Foi a coisa mais estranha que alguma vez vi, Mabel - disse Arthur Barnes à mulher ao pequeno-almoço naquela manhã.
Barnes tinha andado a passear, como fazia todas as manhãs, com a sua querida corgi Fionna pela zona do porto. Parte dele ainda estava aberta aos civis; grande parte tinha sido selada e designada como uma zona militar restrita. Toda a gente se interrogava sobre o que estavam os militares a fazer ali. Ninguém falava sobre isso. O alvorecer foi tardio nessa manhã - céu cinzento-escuro, chuva de vez em quando. Fionna estava sem trela, correndo de um lado para o outro das docas.
Fionna avistou a coisa primeiro, depois Barnes.
- O raio de um gigantesco monstro de betão, Mabel. Como um bloco de apartamentos deitado de lado.
Dois rebocadores estavam a empurrá-lo para o mar. Barnes trazia uns binóculos no casaco - uma vez, um amigo tinha visto a torre cónica de um submarino alemão e Barnes morria de vontade de ter também o vislumbre de um. Tirou os binóculos do casaco e levou-os aos olhos.
O monstro de betão trazia atracado a ele um barco com uma proa larga e achatada que cortava o mar agitado. Barnes analisou ao pormenor o lado de bombordo - Repara, Mabel, que é difícil destinguir o bombordo do estibordo - e descortinou um navio costeiro ligeiro, com um punhado de tipos militares no convés.
- Não queria acreditar, Mabel - contou ele enquanto acabava a última torrada. - Eles batiam palmas e aplaudiam dando abraços
uns aos outros e palmadinhas nas costas - revelou, abanando a cabeça. - Imagina só. Hitler tem o mundo debaixo das patas e os nossos rapazes ficam excitados porque conseguem pôr a flutuar um grande pedaço de cimento.
A gigantesca estrutura flutuante de betão, avistada por Arthur Barnes nessa sombria manhã de janeiro, tinha o nome de código de Phoenix. Tinha 60,96 metros de comprimento, 15,24 metros de largura e deslocava mais de 6000 toneladas de água. Estava planeado construírem-se mais de duzentas. Os seus interiores - invisíveis do ponto de observação privilegiado de Barnes em frente do porto eram um labirinto de câmaras vazias e válvulas para controlar a entrada da água, já que a Phoenix não tinha sido projetada para ficar à superfície por muito tempo. Fora projetada para ser rebocada através do canal da Mancha e afundada na costa da Normandia. As Phoenixes eram apenas uma componente de um enorme projeto dos Aliados para construírem um porto artificial em Inglaterra e rebocá-lo para a França no Dia D. O nome de código global para o projeto era Operação Mulberry.
Foi Dieppe que lhes ensinou a lição, Dieppe e os desembarques anfíbios no Mediterrâneo. Em Dieppe, local do raide desastroso dos Aliados à França, em agosto de 1942, os alemães negaram aos Aliados o uso do porto pelo maior tempo possível. No Mediterrâneo, destruíram os portos antes de os abandonarem, tornando-os impraticáveis durante longos períodos. Os planeadores da invasão concluíram que tentar capturar um porto intacto era impossível. Decidiram que os homens e o material deviam chegar a terra firme da mesma maneira - nas praias da Normandia.
O problema era o tempo. Estudos dos padrões meteorológicos ao longo da costa francesa mostravam que não se podia esperar que períodos de boas condições durassem mais do que quatro dias consecutivos. Assim, os planeadores da invasão tiveram de assumir que o material teria de chegar a terra firme durante uma tempestade.
Em julho de 1943, o primeiro-ministro Winston Churchill e uma delegação de trezentos oficiais partiram para o Canadá a bordo do
Queen Mary. Churchill e Roosevelt iam encontrar-se no Quebeque, em agosto, para aprovar os planos da invasão da Normandia. Durante a viagem, o professor J. D. Bernal, um distinto físico, fez uma demonstração espetacular numa das luxuosas casas de banho do navio. Deitou na banheira alguns centímetros de água, com o lado raso a representar as praias da Normandia e o lado mais fundo a baía do Sena. Bernal colocou vinte barcos de papel na banheira e utilizou uma escova para as costas a fim de simular condições tempestuosas. Os barcos afundaram-se imediatamente. Bernal encheu depois um colete salva-vidas, a que a RAF chamava Mae West, e atravessou-o na banheira de lado a lado como um quebra-mar. A escova para as costas foi outra vez usada para criar uma tempestade, mas desta vez os barcos sobreviveram. Bernal explicou que a mesma coisa iria acontecer na Normandia. Uma tempestade resultaria numa devastação: era necessário um porto artificial.
No Quebeque, os britânicos e os americanos concordaram em construir dois portos artificiais para a invasão da Normandia, cada um com a capacidade do grande porto de Dover. Dover demorou sete anos a construir; os britânicos e os americanos tinham cerca de oito meses. Era uma tarefa de dimensões inimagináveis. Cada Mulberry custou 20 milhões de libras. A economia britânica, paralisada por quatro anos de guerra, tinha que fornecer quatro milhões de toneladas de betão e aço. Seria necessário centenas de engenheiros de topo, bem como dezenas de milhares de trabalhadores especializados. Levar os Mulberries de Inglaterra para a França no Dia D iria requerer todos os rebocadores disponíveis no Reino Unido e na Costa Leste dos Estados Unidos.
A única tarefa igual à de construir os Mulberries seria a de os manter secretos - provado pelo facto de Arthur Barnes e a sua corgi Fionna ainda estarem à beira-mar quando o navio de cabotagem transportando a equipa de engenheiros britânicos e americanos acostou na doca. A equipa desembarcou e encaminhou-se para um autocarro que os esperava. Um dos homens separou-se do grupo e dirigiu-se para um carro oficial à espera para o levar outra vez para Londres. O condutor saiu do carro, abriu rapidamente a porta de trás e o comandante Peter Jordan entrou.
NOVA IORQUE: OUTUBRO DE 1943
Abordaram-no numa sexta-feira. Havia de se lembrar sempre deles como Laurel e Hardy; o gordo e atarracado americano, que cheirava a aftershave barato e à cerveja
e salsicha do seu almoço; o magro e delicado inglês, que apertou a mão a Jordan como se estivesse à procura do pulso. Na realidade, os nomes deles eram Leamann e
Broome - ou pelo menos era o que diriam os cartões de identificação que acenaram ao passarem por ele. Leamann disse que estava no Ministério da Guerra americano;
Broome, o inglês magro, murmurou qualquer coisa sobre estar ligado ao Ministério da Guerra britânico. Nenhum dos homens estava de farda - Leamann usava um fato castanho e coçado que estava muito esticado no estômago corpulento e apertado nas virilhas; Broome, um fato de corte elegante de um cinento-carvão, demasiado quente para o outono americano.
Jordan recebeu-os no seu magnífico escritório na Baixa de Manhattan. Leamann susteve pequenos arrotos enquanto admirava a espetacular vista de Jordan sobre as pontes do rio East; aponte de Brooklyn, aponte de Manhattan, o bairro de Williamsburg. Broome, que mostrava pouco interesse pelas coisas feitas pelo ser humano, comentava o tempo - um perfeito dia de outono, um céu aul cristalino, um brilhante pôr do Sol cor de laranja. Uma tarde para faer crer que Manhattan é o sítio mais espetacular
da Terra. Dirigiram-se para a janela a sul e conversaram enquanto observavam os cargueiros a entrarem e a saírem do porto de Nova Iorque.
- Fale-nos do trabalho que fa agora, senhor Jordan - disse Leamann com um ligeiro sotaque do sul de Boston.
Era um assunto sensível. Ainda era o engenheiro-chefe da Northeast Bridge Company, que ainda era a maior empresa de construção de pontes da Costa Leste. Mas o sonho de começar a sua própria empresa de engenharia tinha morrido com a guerra, tal como temera.
Parecia que Leamann tinha memorizado o seu curriculum e, nesse momento, recitava-o como se jordan tivesse sido nomeado para um prémio.
- Primeiro do seu ano no Rensse/aer Polytechnic Institute. Engenheiro do Ano em 1938. A Scientífic American diz que o senhor é o maior desde o fulano que inventou
a roda. O senhor é um caso muito sério, senhor Jordan.
Uma versão amplificada do artigo da Scientific American estava pendurada numa parede, numa elegante moldura preta. A fotografia que lhe tiraram naquela altura parecia
a de outro homem. Era mais magro agora - havia quem
dissesse que estava mais atraente - e, apesar de ainda não estar nos quarenta, salpicos grisalhos tinham aparecido nas fontes.
Broome, o inglês magro, estava a passear pelo escritório, escrutinando as fotografias e os modelos das pontes que a empresa tinha desenhado e construído.
- Tem muitos alemães a trabalhar aqui - disse Broome, como se fosse uma novidade paraJordan.
Uma verdade - alemães nos quadros de engenharia e alemães no pessoal administrativo. A própria secretária de
Jordan era uma mulher chamada Miss Hofer, cuja família
viera de Estugarda para a América quando ela era pequena. Ainda falava inglês com sotaque alemão. Foi então que, como que para provar a exatidão do comentário de
Broome, dois rapaces estafetas passaram pela porta de jordan a tagarelarem em alemão com sotaque de Berlim.
-Que tipo de inspeçoes de segurança lhes fizeram?
Era Eemann a falar outra vez. Jordan conseguia perceber que ele era um tipo qualquer de polícia, ou pelo menos tinha sido polícia noutra vida. Estava escrito no
corte modesto do fato puído e na expressão de determinação canina no seu rosto. Para Eeamann, o mundo estava cheio de pessoas más e ele era a única coisa que existia
entre a ordem e a anarquia.
- Não lhes fademos inspeçoes de segurança. Aqui construímos pontes, não bombas.
- E como sabem se eles não são simpatizantes do outro lado?
- Eeamann. Isso não é um nome alemão?
O rosto gordo de Eeamann fechou-se numa carranca.
- Irlandês, por acaso.
Broome parou a inspeção aos modelos de pontes rindo-se com a troca de palavras.
- Conhece um homem chamado Walker Hardegen? -perguntou ele a seguir. Jordan teve a impressão desconfortável de que tinha sido investigado.
- Penso que já conhece a resposta dessa pergunta. E sim, a família dele é alemã. Ele fala a língua e conhece o país. Tem sido de um valor incalculável para o meu
sogro.
-Quer dizer, o seu ex-sogro? -perguntou Broome.
- Mantivemo-nos muito chegados mesmo depois da morte da Margaret. Broome estava debruçado sobre outro modelo.
- Isto é uma ponte suspensa?
- Não, é um desenho de um arco de ponte. Não é engenheiro, pois não?
Broome levantou os olhos e sorriu como se achasse a pergunta de certo modo ofensiva.
- Não, claro que não. Jordan sentou-se à secretária.
- Muito bem, meus senhores, chegou a altura de me dizerem ao que vêm.
- Tem que ver com a invasão da Europa - disse Broome. - Podemos precisar da sua ajuda.
-Querem que eu construa uma ponte entre a Inglaterra e a França? bereuntou Jordan com um sorriso.
-Qualquer coisa parecida com isso - respondeu leamann. Broome estava a acender um cigarro. Soprou uma elegante nuvem defumo na direção do rio.
- De facto, senhor Jordan, não é nada parecido com isso.
DOZE LONDRES
Os céus desabaram num violento aguaceiro enquanto Alfred Vicary se apressava por Parliament Square em direção às Salas de Guerra Subterrâneas, o quartel-general de Winston Churchill debaixo dos passeios de Westminster. O primeiro-ministro tinha telefonado pessoalmente a Vicary, pedindo-lhe para o ver imediatamente. Vicary vestira rapidamente o uniforme e, com a pressa, abandonou o quartel-general do MI5 sem chapéu de chuva. Assim, a sua única defesa contra a investida da chuva gelada era acelerar o passo, com uma mão a apertar a gola do impermeável e a outra a segurar uma quantidade de dossiês sobre a cabeça, como um escudo. Passou apressadamente pelas estátuas contemplativas de Lincoln e Beaconsfield e, a seguir, completamente encharcado, apresentou-se à sentinela da Marinha Real, na porta reforçada com sacos de areia do número 2 de Great George Street.
O MI5 estava em pânico. Na noite anterior, duas mensagens descodificadas da Abwehr tinham chegado de Bletchley Park por correio motorizado. Confirmavam as piores suspeitas de Vicary - pelo menos dois agentes estavam em atividade no Reino Unido sem o conhecimento do MI5 e parecia que os alemães planeavam enviar mais um. Era um desastre. Vicary, depois de ler as mensagens com o coração apertado, telefonou para casa de Sir Basil e deu as notícias. Sir Basil contactou o diretor-geral e outros oficiais superiores envolvidos na
Operação Double Cross. À meia-noite, as luzes fervilhavam no quinto andar. Vicary estava agora à frente de um dos mais importantes casos da guerra. Tinha dormido menos de uma hora. A cabeça doía-lhe, tinha os olhos a arderem, os seus pensamentos iam e vinham cmflashes turbulentos e caóticos.
A sentinela deu uma vista de olhos à identificação de Vicary e fez-lhe sinal para entrar. Vicary desceu as escadas e atravessou o pequeno átrio. Ironicamente, Neville
Chamberlain mandara começar as obras nas Salas de Guerra Subterrâneas no dia em que regressou de Munique a declarar a paz no nosso tempo. Vicary pensava sempre naquele
lugar como um monumento subterrâneo ao fracasso da conciliação. Escudado por 1,22 metros de qmento reforçado com os velhos carris do elétrico de Londres, o labirinto
subterrâneo era considerado absolutamente à prova de bomba. As armas secretas mais vitais do governo britânico estavam albergadas ali, juntamente com o posto de
comando pessoal de Churchill.
Vicary percorreu o corredor, com os ouvidos cheios do matraquear das máquinas de escrever e do barulho de uma dúzia de telefones não atendidos. O teto baixo era
reforçado com a madeira de um dos barcos de guerra de Nelson. Um sinal avisava CUIDADO com A CABIÍÇA. Vicary, com um escasso metro e sessenta e oito, passou facilmente
por baixo dele. As paredes, outrora da cor da nata do Devonshire, tinham-se esbatido num bege baço como um jornal velho. Os soalhos estavam cobertos com um velho
linóleo castanho. Por cima, numa braçadeira da canalização de drenagem, Vicary podia ouvir o gorgolejar da canalização dos New Public Offices, à superfície. Apesar de o ar ser filtrado por um sistema de ventilação especial, cheirava a corpos sujos e a fumo de cigarro velho. Vicary aproximou-se de uma porta onde estava outra sentinela da Marinha Real em posição de descanso. A sentinela pôs-se em sentido quando Vicary passou, com o barulho dos calcanhares amortecidos por um tapete de borracha especial.
Vicary olhou para os rostos do pessoal que trabalhava, vivia, comia e dormia debaixo de terra na fortaleza do primeiro-ministro. A palavra pálidos não fazia justiça ao seu estado; eram habitantes das cavernas macilentos e cor de cera que se deslocavam rapidamente
pelo labirinto subterrâneo. Subitamente, o gabinete sem janelas de Vicary em St. James's Street já não parecia assim tão mau. Pelo menos, estava à superfície. Pelo menos, havia qualquer coisa parecida com ar fresco.
Os aposentos particulares de Churchill estavam localizados na sala 65A, contígua à sala de mapas e do outro lado do corredor da Sala de Comunicações Transatlânticas. Um assessor fez entrar de imediato Vicary, que foi recebido com os olhares gelados de um bando de burocratas que parecia estar à espera desde a última guerra. Era um espaço pequeno, grande parte dele ocupado por uma cama pequena feita com lençóis cinzentos do exército. Aos pés da cama, estava uma mesa com uma garrafa e dois copos. A BBC tinha instalado um microfone permanente para Churchill poder fazer a sua transmissão radiofónica na segurança da sua fortaleza subterrânea. Vicary reparou no pequeno sinal na sombra que dizia SILÊNCIO - NO AR. A sala continha apenas um item luxuoso, um humidifícador para os charutos Romeoj Julieta do primeiro-ministro.
Churchill, de roupão de seda verde e com o primeiro charuto do dia entre os dedos, estava sentado à sua pequena secretária. Manteve-se aí quando Vicary entrou na sala. Vicary sentou-se na borda da cama e fitou a figura à sua frente. Não era o mesmo homem que Vicary tinha visto naquela tarde de maio de 1940. Também não era a figura segura e bem-disposta das atualidades e dos filmes de propaganda. Era obviamente um homem que tinha trabalhado demais e dormido muito pouco. Acabava de regressar ao Reino Unido, tendo chegado do Norte de África poucos dias antes, onde tinha estado a convalescer depois de sofrer um pequeno ataque de coração e contrair uma pneumonia. Os olhos estavam raiados de vermelho, o rosto inchado e pálido. Esboçou um débil sorriso ao seu velho amigo.
- Olá, Alfred, como é que tem passado? - perguntou Churchill quando a sentinela da Marinha Real fechou cuidadosamente a porta.
- Bem, mas eu é que lhe devia estar a perguntar isso. O senhor é que tem estado sob pressão.
- Melhor do que nunca - retorquiu Churchill. - Ponha-me ao corrente dos factos.
- Intercetámos duas mensagens de Hamburgo para dois agentes alemães em atividade no Reino Unido - informou Vicary, entregando as mensagens a Churchill. - Como sabe, temos estado a agir na suposição de que tínhamos prendido, enforcado ou feito mudar de lado todos os agentes alemães a atuarem no Reino Unido. Isto é obviamente um grande golpe. Se os agentes transmitiram qualquer informação que contradiga o material que enviámos através da Operação Double Cross, os alemães vão suspeitar de tudo. E também julgamos que estão a planear introduzir um novo agente no país.
- E o que estamos a fazer para os deter?
Vicary informou Churchill das medidas que tinham tomado até
ao momento.
- Mas, infelizmente, senhor primeiro-ministro, as hipóteses de capturar o agente à entrada não são boas. Antigamente, no verão de
1940, por exemplo, quando eles estavam a introduzir espiões para a invasão, estávamos prontos para os capturar porque muitas vezes os alemães diziam aos agentes já em atividade no Reino Unido precisamente quando, onde e como os novos espiões iam entrar.
- E esses agentes estavam a trabalhar para nós como agentes duplos.
- Ou na cela de uma prisão, sim. Mas, neste caso, a mensagem para o agente em atividade era muito vaga, apenas uma frase codificada: executar procedimento de receção número um. Partimos do princípio de que diga tudo o que o agente precisa de saber. Infelizmente, a nós não nos diz nada. Apenas podemos adivinhar como é que o novo espião está a planear entrar no país. E, a não ser que tenhamos muita sorte, as hipóteses de o capturar são, no mínimo, escassas.
- Maldição! - praguejou Churchill, batendo com a mão no braço da cadeira.
Ergueu-se e serviu brandy para os dois. Olhou fixamente para dentro do copo, resmungando consigo próprio, como se se tivesse esquecido de que Vicary estava ali.
- Lembra-se da tarde em 1940 em que lhe pedi para vir trabalhar para o MI 5?
- Certamente, senhor primeiro-ministro.
- Eu tinha razão, não tinha?
- O que quer dizer?
- Tem passado o melhor tempo da sua vida, não tem? Olhe para si, Alfred, está um homem completamente diferente. Céus, eu queria ter o seu bom aspeto.
- Obrigado, senhor primeiro-ministro
- Tem feito um ótimo trabalho. Mas não vai significar nada se esses espiões alemães encontrarem o que procuram. Percebe isso, Alfred?
Vicary suspirou profundamente e respondeu:
- Percebo os riscos envolvidos, senhor primeiro-ministro.
- Quero-os detidos, Alfred, Quero-os esmagados.
Vicary pestanejou rapidamente e, inconscientemente, tocou no bolso do casaco à procura dos óculos em meia-lua. O charuto de Churchill tinha-se apagado na sua mão. Reacendendo-o, saboreou um momento de fumo tranquilo.
- Como está o Boothby? - perguntou Churchill por fim. Vicary voltou a suspirar.
- Como sempre, senhor primeiro-ministro.
- A dar apoio?
- Quer ser mantido a par de todos os passos que dou.
- Por escrito, suponho. Boothby é um defensor das coisas por escrito. O gabinete do homem produz mais papel que o Times, diabos o levem!
Vicary permitiu-se um ligeiro riso abafado.
- Nunca lhe disse isto, Alfred, mas tive as minhas dúvidas se conseguiria ter sucesso. Se o Alfred tinha verdadeiramente o que era preciso para agir no mundo dos serviços secretos militares. Oh, nunca duvidei que tivesse os miolos, a inteligência. Mas duvidei que possuísse a espécie de astúcia grosseira necessária para ser um bom agente dos serviços de secretos. Também duvidei que conseguisse ser suficientemente impiedoso.
As palavras de Churchill espantaram Vicary.
- Então porque está a olhar para mim assim, Alfred? E um dos homens mais decentes que alguma vez conheci. Normalmente, os homens que têm sucesso no seu tipo de trabalho são homens como
Boothby. Ele prendia a própria mãe se pensasse que isso beneficiava a sua carreira, ou apunhalava o inimigo pelas costas.
- Mas eu mudei, senhor primeiro-ministro. Fiz coisas que nunca pensei ser capaz de fazer. E também fiz coisas de que me envergonho.
Churchill pareceu perplexo.
- Vergonha?
- Quando se é contratado para limpar chaminés, fica-se com os dedos pretos - retorquiu Vicary. - Sir James Harris escreveu estas palavras quando foi ministro em Haia, em 1785. Detestava o facto de lhe pedirem para pagar subornos a espiões e informadores. Às vezes, quem me dera que ainda fosse assim tão simples.
Vicary lembrou-se da noite em setembro de 1940. Ele e a sua equipa tinham-se escondido no meio da urze no topo de uma escarpa sobranceira a uma praia rochosa da Cornualha, abrigados da chuva fria debaixo de um oleado preto. Vicary sabia que o alemão viria nessa noite; a Abwehr tinha pedido a Karl Becker para lhe preparar uma festa de receção. Ele não passava de um rapaz, lembrou-se Vicary, e, no momento em que atingiu a praia na sua balsa insuflável, estava meio morto de frio. Caiu nas mãos dos homens da Divisão Especial, balbuciando em alemão, feliz por estar vivo. Os documentos dele eram atrozes, as duzentas libras mal forjadas e o inglês limitado a umas poucas amabilidades bem ensaiadas. Era tão mau que Vicary teve de conduzir o interrogatório em alemão. O espião tinha sido encarregado de recolher informações sobre as defesas costeiras e, quando chegasse a invasão, de fazer sabotagem. Vicary concluiu que ele era inútil. Imaginou quantos mais iguais àquele teria Canaris - mal treinados, mal equipados e mal financiados, praticamente sem qualquer hipótese de sucesso. Manter o logro elaborado pelo MI5 requeria que executassem alguns espiões, portanto Vicary recomendou o seu enforcamento. Assistiu à execução na prisão de Wandsworth e nunca iria esquecer a expressão nos olhos do espião quando o carrasco lhe enfiou o capuz na cabeça.
- Tem de transformar o coração numa pedra, Alfred - disse Churchill num sussurro rouco. - Não temos tempo para sentimentos como vergonha ou compaixão, nenhum de nós, agora não. Tem
de deixar de lado quaisquer princípios que ainda possua, deixar de lado quaisquer sentimentos de compaixão que ainda possua, e fazer tudo o que for necessário para vencer. Isso ficou claro?
- Ficou, senhor primeiro-ministro.
Churchill aproximou-se, inclinou-se e falou num tom confessional:
- Há uma verdade infeliz acerca da guerra. Embora seja praticamente impossível que um só homem ganhe uma guerra, é inteiramente possível que um só homem a perca.
Churchill fez uma pausa e, a seguir, rematou:
- Para bem da nossa amizade, Alfred, não seja esse homem! Vicary, abalado com o aviso de Churchill, reuniu as suas coisas
e dirigiu-se para a porta. Abriu-a e saiu para o corredor. Na parede, o quadro da meteorologia, atualizado de hora a hora, indicava tempo chuvoso. Vicary ouviu Churchill atrás de si, sozinho no quarto subterrâneo, murmurando consigo próprio. Vicary levou uns instantes a perceber o que o primeiro-ministro estava a dizer.
- Maldito tempo inglês! - murmurava Churchill. - Maldito tempo inglês!
Por instinto, Vicary procurou pistas no passado. Leu e releu descodificações de mensagens enviadas por agentes no Reino Unido para operadores de rádio em Hamburgo. Descodificações de mensagens enviadas por Hamburgo para os agentes no Reino Unido. Histórias de casos, mesmo de casos em que ele próprio tinha estado envolvido. Leu o relatório final de um dos primeiros casos que tinha tratado, um incidente que terminara no norte da Escócia, num lugar adequadamente chamado Cape Wrath1. Leu a carta de recomendação que estava no seu processo, escrita de má vontade por Sir Basil Boothby, chefe de divisão, com cópia enviada para Winston Churchill, primeiro-ministro. Sentiu-se novamente cheio de orgulho.
Harry Dalton andava de um lado para o outro, entre o gabinete de Vicary
e a divisão dos Registos, como um batedor de estradas medieval, trazendo novos documentos
para um lado e devolvendo os
1 Cabo da Ira. (N. do T.)
antigos para o outro. Alguns agentes, cientes da tensão crescente no gabinete de Vicary, passavam pela sua porta em grupos de dois e três como automobilistas por
um acidente na estrada - olhos desviados, mas lançando rápidas e temerosas olhadelas. Quando Vicary acabava um love de dossiês, Harry perguntava: Alguma coisa? Vicary
fazia uma careta e respondia: Não, nada, raios!
Às duas horas daquela tarde, as paredes estavam a fechar-se sobre ele. Tinha fumado demasiados cigarros e bebido demasiadas chávenas de chá preto forte.
- Preciso de ar fresco, Harry.
- Saia daqui durante algumas horas. Fazia-lhe bem.
- vou dar um passeio, comer qualquer coisa, se calhar.
- Quer companhia?
- Não, obrigado.
Um chuvisco gelado, como o fumo de uma batalha próxima, caiu sobre Westminster enquanto Vicary caminhava ao longo do Embankment. Um vento cruelmente frio levantou-se do rio, fez retinir os sinais da rua temporários e em mau estado, e assobiou através de uma pilha de madeira despedaçada e tijolos partidos, onde antes se erguera um edifício esplêndido. Vicary deslocou-se rapidamente com o seu coxear mecânico, por causa do joelho rígido, com a cabeça baixa e as mãos mergulhadas nos bolsos do casaco. Pelo aspeto da sua cara, um transeunte podia deduzir que estava atrasado para uma reunião importante ou a fugir de alguma desagradável.
A Abwehr tinha apenas umas quantas maneiras de introduzir um agente no Reino Unido. Muitos eram postos em terra em barcos pequenos saídos de um submarino. Vicary tinha acabado de ler o relatório da captura dos agentes duplos com o nome de código Mutt e Jeff. Tinham chegado a terra num hidroavião, perto da aldeia de pesca de arenque MacDuff, em Moray Firth. Vicary já tinha pedido à Guarda Costeira e à Marinha Real para estarem particularmente vigilantes. Mas o litoral inglês estendia-se por muitos milhares de quilómetros, impossíveis de cobrir totalmente. Vicary sabia que as hipóteses de apanhar um agente numa praia escura eram escassas.
A Abwehr tinha introduzido espiões no Reino Unido de paraquedas. Era impossível ter em conta cada centímetro quadrado do espaço aéreo, mas Vicary tinha pedido à RAF para estar atenta a aeronaves isoladas.
A Abwehr tinha aterrado e desembarcado agentes na Irlanda e no Ulster. Para chegarem a Inglaterra tinham de apanhar o ferry. Vicary tinha pedido aos operadores do ferry em Liverpool para manterem debaixo de olho os passageiros desconhecidos: qualquer pessoa não familiarizada com a rotina da travessia de ferry, pouco à vontade com a língua ou com a moeda. Não lhes podia dar uma descrição porque não a tinha.
O passeio em andamento vivo e o tempo frio fizeram-lhe fome. Entrou numpub perto da estação de Victoria e pediu uma empada de legumes e meia caneca de cerveja.
Tem de transformar o coração numa pedra, dissera Churchill.
Infelizmente, já tinha feito isso há muito tempo. Helen. Era a filha mimada e atraente de um industrial próspero, e Vicary, apesar de saber que era um erro, apaixonara-se loucamente por ela. A relação começou a desfazer-se na tarde em que fizeram amor pela primeira vez. Por qualquer razão, o pai de Helen tinha lido corretamente os sinais; o modo como eles davam a mão no regresso do lago, a maneira como Helen tocava no cabelo já ralo de Vicary. Nessa noite, chamou Helen para uma conversa privada. Em nenhuma circunstância, ela seria autorizada a casar com o filho de um escriturário, que frequentara a universidade com uma bolsa de estudos. O pai de Helen ordenou-lhe que terminasse a relação tão rápida e discretamente quanto possível, e ela fez exatamente o que lhe tinha sido dito. Era esse tipo de rapariga. Vicary nunca a recriminou por isso e ainda a amava. Mas qualquer coisa se apagou nele nesse dia. Supôs que fosse a sua capacidade de acreditar. Perguntava-se se alguma vez a recuperaria.
É praticamente impossível que um só homem ganhe uma guerra.
Vicary pensou: Raios partam o Velho por pôr esse peso nos meus ombros.
A dona do pub, uma mulher corpulenta, apareceu ao pé da mesa.
- Estava assim tão mau, meu querido?
Vicary olhou para o prato. As cenouras e as batatas tinham sido empurradas para o lado e estivera a passear distraidamente a ponta da faca pelo molho da carne. Olhou para o prato com mais atenção e verificou que tinha traçado um mapa de Inglaterra na mistela castanha.
Perguntou a si mesmo: Onde é que aquele maldito espião irá aterrar?
- Estava bom - disse Vicary educadamente, entregando o prato. - Acho que não estava com tanta fome como pensava.
Na rua, Vicary levantou a gola do sobretudo e começou a voltar para o escritório.
E inteiramente possível que um só homem a perca.
Folhas mortas crepitavam no caminho de Vicary enquanto ele se apressava ao longo de Birdcage Walk. A última luz da tarde recuava lentamente. Na escuridão crescente, Vicary podia ver as cortinas do blackout fecharem-se como pálpebras nas janelas sobranceiras ao St. James's Park. Imaginou Helen numa das janelas a vê-lo apressar-se pelo passeio lá em baixo. Entrou numa feroz fantasia em que, resolvendo o caso, prendendo os espiões e ganhando a guerra, iria provar que era digno dela e ela o voltaria a aceitar.
Não seja esse homem.
Havia mais qualquer coisa que Churchill tinha dito; tinha-se queixado da chuva incessante. O primeiro-ministro, seguro no abrigo da sua fortaleza subterrânea, a queixar-se do tempo...
Vicary passou rapidamente pelo guarda do quartel-general do MI5, sem apresentar o distintivo de identificação.
- Conseguiu inspirar-se? - perguntou Harry quando Vicary voltou para o gabinete.
- Talvez. Se precisasse de meter de repente um espião no país, Harry, que caminho usava?
- Acho que vinha pelo leste... Kent, East Anglia e até mesmo pelo leste da Escócia.
- Exatamente o que pensei.
- E então?
- Se estivesse a montar uma operação rapidamente, que meio de transporte usava?
- Depende.
- Vá lá, Harry!
- Acho que escolhia um avião.
- E porque não um submarino... pôr o espião em terra com uma balsa?
- Porque é mais fácil arranjar um pequeno avião rapidamente do que um submarino precioso.
- Exato, Harry. E do que precisa para colocar um espião em Inglaterra por avião?
- bom tempo, para já.
- Certo outra vez, Harry.
Vicary agarrou subitamente no auscultador do telefone e esperou que a telefonista atendesse.
- Daqui fala Vicary. Ligue-me ao serviço meteorológico da RAF imediatamente.
Uma jovem atendeu um momento depois.
- Sim?
-- Daqui fala Vicary, do Ministério da Guerra. Preciso de uma informação sobre o tempo.
- Que tempo tão desagradável que estamos a ter, não é?
- Sim, sim - respondeu Vicary impacientemente - Quando é que vai melhorar a leste?
- Esperamos que o sistema atual se desloque para o mar alto amanhã à tarde, em qualquer altura.
- E vamos ter céu limpo?
- Cristalino.
- Raios!
- Mas não por muito tempo. Há outra frente atrás desta, a deslocar-se rapidamente pelo país para sudeste.
- E a que distância está?
- É difícil dizer. Provavelmente doze a dezoito horas.
- E depois disso?
- O país inteiro vai ficar encharcado na próxima semana... neve e chuva intermitente.
- Obrigado.
Vicary desligou o telefone e voltou-se para Harry.
- Se a nossa teoria for válida, o nosso espião vai tentar entrar no país de paraquedas amanhã à noite.
TREZE
HAMPTON SANDS, NORFOLK
A descida de bicicleta até à praia demorava normalmente cerca de cinco minutos. Ao fim da tarde, Sean Dogherty resolveu cronometrá-la apenas para ter a certeza.
Pedalou a uma cadência cuidadosa e sem pressas, com a cabeça inclinada para o vento refrescante vindo do mar. Desejou que a bicicleta estivesse em melhor estado.
Como a própria Inglaterra em tempo de guerra, estava gasta, batida, a precisar desesperadamente de manutenção. Chocalhava e chiava a cada volta dos pedais. A corrente precisava de óleo, que era escasso, e os pneus estavam tão carecas e remendados que até parecia que Dogherty se deslocava só nos aros.
A chuva diminuíra a meio do dia. Nuvens gordas e esfarrapadas flutuavam por cima da cabeça de Dogherty como balões de barragem a flutuarem nos seus ancoradouros. Atrás dele, o Sol punha-se no horizonte como uma bola de fogo. Os pântanos e as encostas brilhavam com uma bela luz cor de laranja.
Dogherty sentiu uma intensa excitação a crescer no seu peito. Não sentia nada igual desde a primeira vez que se tinha encontrado com o contacto da Abwehr em Londres, no início da guerra.
A estrada acabava num pequeno pinhal no sopé das dunas. Um sinal desgastado pelo mau tempo avisava que havia minas na praia. Dogherty, como toda a gente em Hampton Sands, sabia que não havia nenhuma. No cesto da bicicleta, Dogherty tinha colocado um recipiente
fechado com um litro de preciosa gasolina. Retirou o recipiente, empurrou a bicicleta para dentro do pinhal e encostou-a cuidadosamente a uma árvore.
Dogherty olhou para o relógio - exatamente cinco minutos.
Um trilho seguia pelo meio das árvores. Dogherty seguiu-o, com areia e agulhas secas de pinheiro por debaixo dos pés, e atravessou as dunas. O barulho da rebentação das ondas enchia o ar.
O mar abriu-se à frente dele. A maré tinha atingido o ponto mais alto duas horas antes. Naquele momento, já estava a vazar rapidamente e com força. À meia-noite, hora a que estava prevista a descida, iria haver uma larga faixa de areia seca e lisa ao longo da linha de água, perfeita para a aterragem em paraquedas de um agente.
Dogherty tinha a praia por sua conta. Voltou para os pinheiros e passou os cinco minutos seguintes a recolher lenha suficiente para três pequenas fogueiras de sinalização. Precisou de quatro viagens para levar a lenha para a praia. Verificou o vento - de nordeste, a uns trinta e três quilómetros por hora. Dogherty empilhou a madeira em linha reta, separando as pilhas umas das outras cerca de vinte metros, para indicar a direção do vento.
O crepúsculo estava a terminar. Dogherty abriu o recipiente da gasolina e regou a madeira. À noite, teria de esperar ao pé do rádio até receber o sinal de Hamburgo a avisar que o avião se estava a aproximar. Nessa altura, teria de descer até- à praia, acender as fogueiras e recolher o agente. Simples, se tudo corresse conforme planeado.
Dogherty começou a voltar para trás pela praia. Foi então que viu Mary parada no topo das dunas, uma silhueta recortada pelos últimos raios do pôr do Sol, com os braços cruzados debaixo do peito. O vento atirava-lhe o cabelo para a cara. Ele tinha-lhe dito na noite anterior, tinha-lhe dito que a Abwehr o tinha mandado recolher um agente. Tinha-lhe pedido para sair de Hampton Sands até estar tudo acabado, tinham amigos e família em Londres com quem ela podia ficar. Mary tinha recusado ir. Não lhe tinha dito uma palavra desde então. Andavam aos encontrões no pequeno chalé, num silêncio zangado, evitando entreolharem-se, com Mary a bater com os tachos no fogão e a partir pratos e chávenas por causa dos nervos abalados. Era como se tivesse ficado para o punir com a sua presença.
Quando Dogherty chegou ao topo das dunas, Mary tinha partido. Seguiu o caminho até ao sítio onde tinha deixado a bicicleta. Mary tinha-a levado. Mais um round na nossa guerra silenciosa, pensou Dogherty. Levantou a gola para se proteger do vento e voltou para o chalé.
Jenny Colville descobriu o lugar quando tinha dez anos - uma pequena depressão nos pinheiros, a algumas centenas de metros da estrada, abrigada do vento por um par de grandes rochas. Um esconderijo perfeito. Tinha construído um tosco fogão de acampamento, amontoando rochas num círculo e pondo uma pequena grelha de metal no topo. Colocou os elementos de uma fogueira - agulhas de pinheiro, erva seca das dunas, pequenos galhos caídos das árvores e chegou-lhes um fósforo. Soprou suavemente e um instante depois a fogueira ganhou vida.
Ela conservava uma pequena mala escondida debaixo das rochas, coberta com uma camada de agulhas de pinheiro. Afastou as agulhas e tirou-a de lá. Jenny abriu a tampa e retirou o que estava lá dentro: um cobertor de lã gasto, uma pequena panela de metal, uma caneca de esmalte lascada e uma caixa de chá seco e poeirento. Jenny desdobrou o cobertor e estendeu-o ao pé da fogueira. Sentou-se e aqueceu as mãos nas chamas.
Dois anos antes, um aldeão tinha descoberto as suas coisas e concluído que um vagabundo estava a viver na praia. Isso causou a maior agitação em Hampton Sands desde
o incêndio na St. John's Church, em 1912. Jenny manteve-se afastada durante algum tempo. Mas o escândalo acalmou rapidamente e ela pôde voltar.
As chamas morreram, deixando uma camada de brasas vermelhas incandescentes. Jenny encheu o bule com água de um cantil que trouxera de casa. Assentou a panela na
grelha e esperou que começasse a ferver, ouvindo o som do mar e do vento a assobiar entre os pinheiros.
Como de costume, o local exerceu a sua magia.
Começou a esquecer-se dos seus problemas - do pai.
Ao princípio da tarde, quando chegou a casa vinda da escola, ele estava sentado à mesa da cozinha, bêbado. Depressa se iria tornar beligerante, depois zangado e
depois violento. Iria descarregar na pessoa mais próxima; inevitavelmente, seria Jenny. Decidiu esquivar-se
à tareia antes que ela pudesse acontecer. Fez-lhe um prato de sanduíches pouco abundante e um bule de chá e colocou-os na mesa. Ele não disse nada, não mostrou nenhum
interesse em saber onde ela ia quando Jenny vestiu o casaco e se esgueirou pela porta.
A água ferveu. Jenny juntou-lhe o chá, tapou-a e tirou-a do lume. Pensou nas outras raparigas da aldeia. Estariam em casa a jantar com os pais, a falarem sobre os
acontecimentos do dia e não a esconderem-se nas árvores ao pé da praia, sem outra companhia que não o som das ondas e uma chávena de chá. Isso tinha-a tornado diferente,
mais velha, mais esperta. Tinha sido despojada da sua infância, do seu tempo de inocência, forçada a confrontar-se muito cedo na vida com o facto de o mundo poder
ser um sítio diabólico.
Meu Deus, porque é que ele me odeia tanto? O que é que eu alguma vez
fiz que o magoasse?
Mary tinha feito o seu melhor para explicar o comportamento de Martin Colville. Ele ama-te, tinha dito Mary vezes sem conta, mas está ferido, zangado e infeliz e
descarrega na pessoa de quem gosta mais.
Jenny tinha tentado pôr-se no lugar do pai. Lembrava-se vagamente do dia em que a mãe juntou as suas coisas e partiu. Lembrava-se do pai a implorar e a suplicar-lhe
que ficasse. Lembrava-se da expressão da cara dele quando ela recusou, lembrava-se do som do estilhaçar dos copos, dos pratos partidos, das coisas horríveis que
disseram um ao outro. Durante muitos anos, não lhe disseram para onde a mãe tinha ido, simplesmente não se falava disso. Quando Jenny perguntava ao pai, ele ia-se
embora num silêncio tempestuoso. Mary foi quem acabou por lhe dizer. A mãe tinha-se apaixonado por um homem de Birmingham e tido um caso com ele, vivendo juntos
desde então. Quando Jenny perguntou por que razão a mãe nunca a tinha tentado contactar, Mary não lhe pôde dar uma resposta. Para tornar as coisas piores, Mary disse
a Jenny que ela se tinha tornado a cara da mãe. Jenny não tinha provas disso - a última memória que tinha da mãe era a de uma mulher desesperada e zangada, com os
olhos inchados e vermelhos de chorar - e o pai tinha destruído todas as fotografias dela há muito tempo.
Jenny verteu o chá, apertando a caneca de esmalte junto do corpo para aquecer. Rajadas de vento agitavam o topo das árvores por
cima da sua cabeça. A Lua apareceu, seguida pelas primeiras estrelas. Jenny conseguia sentir que iria ser uma noite muito fria. Não iria poder ficar muito tempo.
Deitou dois pedaços de lenha para a fogueira e ficou a olhar para as sombras a dançarem nas rochas. Acabou o chá e enrolou-se numa bola, com a cabeça apoiada nas
mãos.
Imaginou-se noutro lugar qualquer, em qualquer sítio exceto Hampton Sands. Queria fazer algo grandioso e não voltar mais. Tinha dezasseis anos. Algumas das raparigas mais velhas das aldeias vizinhas tinham ido para Londres e para outras cidades grandes para aceitarem trabalhos que os homens tinham largado para irem para a guerra. Ela podia encontrar trabalho numa fábrica, servir à mesa, qualquer coisa.
Estava a começar a adormecer quando pensou ouvir um som perto da água. Por um momento, interrogou-se se haveria realmente vagabundos a viverem na praia. Assustada, Jenny pôs-se de pé. Os pinheiros acabavam nas dunas. Deslocou-se cuidadosamente pelo pinhal, pois tinha escurecido rapidamente, e iniciou a subida da areia. Parou no topo, com a vegetação da duna a dançar ao sabor do vento por baixo dos seus pés, e olhou na direção do som. Viu uma figura com um oleado, botas de mar e um chapéu impermeável com abas largas.
Sean Dogherty.
Parecia estar a empilhar madeira, a andar de um lado para o outro, a calcular alguma distância. Talvez Mary estivesse certa. Talvez Sean tivesse endoidecido.
Depois, Jenny descortinou outra figura no topo das dunas. Era Mary, ali de pé, ao vento, de braços cruzados, olhando para Sean em silêncio. A seguir, Mary voltou-se e foi-se embora silenciosamente sem esperar por Sean.
Quando Sean ficou fora de vista, Jenny apagou as brasas, guardou as suas coisas e pedalou de regresso a casa. O chalé estava vazio, frio e escuro quando chegou. O pai tinha saído, a lareira estava apagada há muito. Não havia nenhuma nota a explicar o seu paradeiro. Ficou acordada na cama durante algum tempo, a ouvir o vento, a rever a cena que tinha testemunhado na praia. Havia qualquer coisa muito errada naquilo, concluiu. Qualquer coisa muito errada mesmo.
- De certeza que podemos fazer mais qualquer coisa, Harry disse Vicary a andar de um lado para o outro do gabinete.
- Já fizemos tudo o que podíamos fazer, Alfred.
- Talvez devêssemos verificar outra vez com a RAF.
- Acabei de verificar com a RAF.
- Alguma coisa?
- Nada.
- bom, ligue para a Marinha Real...
- Acabei de falar para a Cidadela.
- E?
- Nada.
- Cristo!
- Tem de ser paciente.
- Não sou dotado de paciência natural, Harry.
- Já reparei.
- E quanto a...
- Liguei para oferry de Liverpool
- E então?
- Parado por causa do mar bravo.
- Então esta noite eles não vêm pela Irlanda.
- Não é muito provável.
- Talvez estejamos a abordar isto de uma perspetiva errada, Harry.
- O que quer dizer?
- Talvez devêssemos focar a nossa atenção nos dois agentes que já estão no Reino Unido.
- Estou a ouvir.
- Vamos voltar aos registos de passaportes e de imigração.
- Cristo, Alfred, eles não mudaram desde 1940. Juntámos todos os que achávamos que eram espiões e prendemos toda a gente de quem tínhamos dúvidas.
- Eu sei, Harry. Mas talvez haja alguma coisa em que não tenhamos reparado.
- Tal como?
- Diabos, como quer que eu saiba?
- Eu arranjo os registos. Mal não pode fazer.
- Talvez estejamos sem sorte, Harry.
- Alfred, conheci uma série de polícias com sorte no meu tempo.
- Sim, Harry?
- Mas nunca conheci um poli cia preguiçoso com sorte.
- Onde quer chegar, Harry?
- vou buscar os registos e fazer um bule de chá.
Sean Dogherty saiu do chalé pela porta das traseiras e percorreu o caminho até ao celeiro. Vestia uma camisola grossa e um oleado e trazia um candeeiro a petróleo. As últimas nuvens tinham desaparecido. O céu era um tapete azul-escuro carregado de estrelas, com uma Lua brilhante a três quartos. O ar estava dolorosamente frio.
Uma ovelha baliu quando ele abriu a porta do celeiro e entrou. O animal tinha-se enredado na cerca nesse dia. Na luta para se libertar, tinha arranjado maneira de cortar a pata e de abrir um buraco na cerca ao mesmo tempo. Naquele momento, estava deitada numa cama de feno no canto do celeiro.
Dogherty ligou o rádio e começou a mudar o penso, cantarolando serenamente para acalmar os nervos de ambos. Tirou o penso ensanguentado, substitui-o por um novo e prendeu-o de forma a ficar seguro.
Estava a admirar o seu trabalho quando o rádio crepitou, dando sinal de vida. Dogherty atravessou o celeiro a correr e colocou os auscultadores. A mensagem era breve. Enviou um sinal de confirmação e saiu do celeiro velozmente.
O percurso até à praia demorou menos de três minutos.
Dogherty desmontou no fim da estrada e puxou a bicicleta para dentro das árvores. Trepou as dunas, desceu pelo outro lado e correu ao longo da praia. As fogueiras de sinalização estavam intactas, prontas para serem acesas. Ao longe, conseguia ouvir o ronco baixo de um avião.
Pensou: Meu Deus, ele está mesmo a chegar.
Acendeu as fogueiras. Em poucos segundos, a praia resplandecia de luz.
Dogherty, agachado na vegetação das dunas, esperou que o avião aparecesse. O aparelho desceu sobre a praia e um momento depois um ponto preto saltou da parte de trás do avião. O paraquedas abriu-se com um estalido enquanto o avião virava e se dirigia para o mar alto.
Dogherty levantou-se da vegetação da duna e correu pela praia, O alemão fez uma aterragem perfeita, rolou e já estava a recolher o paraquedas preto quando Dogherty chegou.
- Deve ser o Sean Dogherty - disse ele num inglês perfeito de colégio particular.
- É verdade - respondeu Sean, espantado. - E você deve ser o espião alemão.
O homem franziu o sobrolho.
- Qualquer coisa do género. Oiça, meu velho, eu trato disto. Porque não apaga essas malditas fogueiras antes que o mundo inteiro saiba que estamos aqui?

SEGUNDA PARTE
CATORZE
PRÚSSIA ORIENTAL: DEZEMBRO DE 1927
Os veados estão a passar fome este inverno. Saem dos bosques e esgaravatam os prados em busca de comida. O grande macho está lá, ao pôr do Sol, com o nariz a furar
a neve por um bocado de erva congelada. Eles estão atrás de uma pequena elevação, Anna de barriga para baixo, o papá acocorado ao lado dela. Ele sussurra instruções,
mas ela não o ouve. Não precisa de instruções. Tinha estado à espera deste dia. Tinha-o imaginado. Tinha-se preparado para ele.
Ela está a introduzir as balas no cano da espingarda. É nova, a coronha lisa, sem um risco e a cheirar a óleo de limpar armas. É o seu presente de aniversário. Hoje quinze anos.
O veado também é o seu presente.
Tinha querido apanhar um veado antes, mas o papá recusara. "É uma coisa muito emocional, matar um veado", tinha-lhe dito em jeito de explicação. "É difícil de descrever.
Tens de experimentar e eu não deixo que isso aconteça até teres idade suficiente para compreender."
É um tiro difícil - cento e cinquenta metros, com vento lateral gelado e forte. A cara de Anna arde com o frio, o corpo estremece, os dedos ficaram entorpecidos
nas luvas. Coreógrafa o tiro na cabeça; aperta o gatilho suavemente, tal como na carreira de tiro. Exatamente como o papá lhe ensinou.
O vento sopra em rajadas. Ela espera.
Ergue-se sobre um joelho e coloca a espingarda em posição de disparar.
O veado, assustado com o barulho da neve a ser esmagada debaixo de Arma, levanta a enorme cabeça e vira-a na direção do som.
Rapidamente, ela vê a cabeça do macho na mira, tem em conta o vento lateral e dispara. A bala penetra no olho do macho e ele cai no prado branco de neve como uma
trouxa sem vida.
Ela baixa a arma e volta-se para o papá. Está à espera que ele esteja a sorrir, a aplaudir, que tenha os braços abertos para a acolher e lhe dizer quão orgulhoso
está. Em vez disso, a cara dele é uma máscara vazia enquanto olha primeiro para o veado morto e depois para ela.
- O teu pai sempre quis um filho, mas eu não lhe dei um - disse-lhe a mãe quando estava de cama a morrer de tuberculose, no quarto ao fundo do corredor. - Sê o que
ele quiser que tu sejas. Ajuda-o, Anna. Toma conta dele por mim.
Tinha feito tudo o que a mãe pedira. Tinha aprendido a andar a cavalo, a disparar e afazer tudo o que os rapaces fazem, só que melhor. Tinha viajado com o papá para
os postos diplomáticos. Na segunda-feira, vão partir para a América, onde o papá vai ser primeiro conselheiro.
Anna tinha ouvido falar dos gangsters na América a deslocarem-se nas ruas nos seus enormes carros pretos, a dispararem sobre toda agente que vissem. Se os gangsters
tentarem ferir o papá, ela vai dar-lhes um tiro nos olhos com a sua nova arma.
Nessa noite, deitam-se juntos na cama do papá, com uma grande quantidade de lenha a arder com intensidade na lareira. Lá fora, há uma tempestade. O vento ruge e as árvores batem na casa. Anna acha sempre que estão a tentar entrar porque têm frio. O fogo crepita e o fumo emite um cheiro quente e maravilhoso. Encosta a cara à do papá e põe os braços à volta do peito dele.
- Para mim, foi difícil a primeira vez que matei um veado - di ele como que a admitir uma falha. - Quase pus a minha arma de lado. Porque não foi difícil para ti,
minha querida Anna?
- Não sei, papá, simplesmente não foi!
- Tudo o que conseguia ver eram os olhos daquela maldita coisa afitarem-me. Uns enormes olhos castanhos. Belos. Depois vi a vida a abandoná-los e senti-me pessimamente.
Não consegui tirar a maldita coisa da cabeça durante uma semana.
- Não vi os olhos. Voltou-se para ela no escuro.
- O que viste? Ela hesitou.
- Vi a cara dele.
- A. cara de quem, querida? -pergunta ele, confuso. - A cara do veado?
- Não, papá, não a do veado.
- Anna, querida, de que raio estás a falar?
Ela quer desesperadamente dizer-lhe, dizer a alguém. Se a mãe ainda fosse viva, talvez lhe conseguisse dizer a ela. Mas não tem coragem para contar ao papá. Ficaria
louco. Não seria justo para ele.
- De nada, papá. Agora estou cansada - responde ela, beijando-o na cara. - Boa noite, papá. Sonhos cor-de-rosa.
LONDRES: JANEIRO DE 1944
Tinham passado seis dias desde que Catherine Blake recebera a mensagem de Hamburgo. Durante esse tempo, pensara muito e arduamente na hipótese de a ignorar.
Alfa era o nome de código de um ponto de encontro no Hyde Park, um caminho pelo meio de um pequeno bosque. Não conseguia evitar sentir-se inquieta com a ideia de ir para a frente com o encontro. O MI5 prendera dezenas de espiões desde 1940. De certeza que alguns desses espiões tinham contado tudo o que sabiam antes de irem ter com o carrasco.
Teoricamente, isso não devia fazer diferença no caso dela. Vogel prometera que com ela seria diferente. Teria procedimentos de rádio diferentes, procedimentos de encontro diferentes e códigos diferentes. Mesmo que todos os outros espiões em Inglaterra fossem presos e enforcados, não teriam maneira de chegar até ela.
Catherine desejou poder partilhar da confiança de Vogel. Ele estava a centenas de quilómetros, separado do Reino Unido pelo canal da Mancha, a voar às cegas. O mais pequeno erro podia levá-la à prisão ou à morte. Como o ponto de encontro, por exemplo. Estava uma noite terrivelmente fria; alguém a vaguear pelo Hyde Park ficava
automaticamente sob suspeita. Era um erro idiota, tão incaracterístico de Vogel. Devia estar sob grande pressão. Era compreensível. Aproximava-se uma invasão, toda a gente sabia disso. A única questão era quando e onde.
Sentia-se relutante em ir ao encontro por outra razão: receava ser arrastada para o jogo. Tinha-se habituado a viver confortavelmente
- talvez demasiado confortavelmente. A sua vida adquirira uma estrutura e uma rotina. Tinha um apartamento confortável, o seu trabalho de voluntariado no hospital e o dinheiro de Vogel para subsistir. Estava relutante em pôr-se em perigo nesta fase final da guerra. Não se achava de maneira nenhuma uma alemã patriótica. O seu disfarce parecia totalmente seguro. Podia esperar pelo fim da guerra e depois voltar para Espanha. Voltar para a grande estancia no sopé das colinas. Voltar para Maria.
Catherine entrou no Hyde Park. O trânsito da tarde em Kensington Road diluiu-se num zunido agradável.
Tinha duas razões para ir ao encontro.
A primeira era a segurança do pai. Catherine não se tinha voluntariado para trabalhar para a Abwehr como espiã, tinha sido forçada a fazê-lo. O instrumento de coerção
de Vogel era o pai dela. Tinha deixado claro que o pai seria prejudicado - preso, atirado para um campo de concentração, morto mesmo - se ela não aceitasse ir para
o Reino Unido. Se agora recusasse aceitar uma missão, a vida do pai ficaria certamente em perigo.
A segunda razão era mais simples - ela estava desesperadamente sozinha. Tinha sido destacada e isolada há seis anos. Os agentes vulgares podiam usar os seus rádios.
Tinham algum contacto com a Alemanha. Não lhe tinha sido permitido quase nenhum contacto. Era curiosa; queria falar com alguém que pertencesse ao seu lado. Queria
ser capaz de deixar cair o disfarce por alguns minutos apenas, de largar a identidade de Catherine Blake.
Meu Deus, pensou ela, mas eu já quase não me consigo lembrar do meu nome verdadeiro.
Decidiu ir ao encontro.
Caminhou ao longo da margem do lago Serpentine, vendo um bando de patos a apanhar peixe nas fendas do gelo. Seguiu o caminho em direção às árvores. A última luz tinha desaparecido; o céu era
um tapete de estrelas cintilantes. O blackout tinha uma coisa boa, pensou ela: podiam ver-se as estrelas à noite, mesmo no coração do West End.
Meteu a mão na carteira e procurou a coronha da sua pistola com silenciador, uma Mauser automática 6.35. Estava lá. Se alguma coisa parecesse fora do normal, usá-la-ia. Tinha feito uma promessa nunca se deixaria prender. A ideia de estar fechada numa fedorenta prisão britânica qualquer punha-a doente fisicamente. Tinha pesadelos com a sua própria execução. Via as caras risonhas dos ingleses antes de o carrasco lhe colocar o capuz preto na cabeça e a corda à volta do pescoço. Usaria o seu comprimido para se suicidar ou morreria a lutar, mas nunca deixaria que lhe tocassem.
Um soldado americano passou na direção contrária. Tinha uma prostituta agarrada a ele que lhe estava a esfregar as virilhas e a enfiar a língua no ouvido. Era uma cena habitual. As raparigas trabalhavam em Piccadilly. Poucas gastavam tempo ou dinheiro em quartos de hotel. Trabalho de parede, chamavam-lhe os soldados. As raparigas limitavam-se a levar os clientes para becos ou parques e a levantar as saias. Algumas mais ingénuas acreditavam que foder de pé evitava que ficassem grávidas.
Inglesas estúpidas, pensou Catherine
Meteu-se por entre o arvoredo e esperou que o agente de Vogel aparecesse.
O comboio da tarde de Hunstanton chegou à estação de Liverpool Street com meia hora de atraso. Horst Neumann recolheu o seu pequeno saco de viagem de couro da prateleira
da bagagem e juntou-se à fila dos passageiros que enchiam o cais. A estação estava num caos. Grupos de passageiros cansados vagueavam pelo terminal como vítimas de um desastre natural, com caras inexpressivas, desesperadamente à espera de comboios atrasados. Soldados dormiam onde lhes apetecia, com as cabeças apoiadas nos sacos de viagem. Alguns polícias do caminho de ferro fardados circulavam pelo meio da multidão, tentando manter a ordem. Todos os bagageiros eram mulheres. Neumann desceu para a plataforma. Pequeno, ágil, alerta, abriu caminho através da densa multidão.
Os homens junto à saída tinham autoridade estampada neles. Vestiam fatos amarrotados e usavam chapéu de coco. Interrogou-se se estariam à procura dele. Não havia maneira nenhuma de terem uma descrição sua. Instintivamente, enfiou a mão no interior do casaco, à procura da coronha da pistola. Estava lá, escondida no cós das calças. Procurou também a carteira, no bolso do peito. O nome no bilhete de identidade dizia James Porter. O seu disfarce era o de caixeiro-viajante de produtos farmacêuticos. Roçou pelos dois homens ao passar e juntou-se à multidão que se acotovelava em Bishopsgate.
A viagem, excetuando o inevitável atraso, tinha corrido sem problemas. Partilhara o compartimento com um grupo de jovens soldados. Durante algum tempo, tinham-lhe deitado olhares malévolos enquanto lia o jornal. Neumann calculava que qualquer jovem saudável e bem-parecido à paisana estaria sujeito a uma certa dose de desprezo. Disse-lhes que tinha sido ferido em Dunquerque e trazido para Inglaterra meio morto, a bordo de um rebocador de alto-mar - um dos barcos pequenos. Os soldados convidaram Neumann a juntar-se-lhes num jogo de cartas e ele dera-lhes uma tareia.
A rua estava escura como breu, com a única iluminação fornecida pelos faróis do trânsito do início da noite, que ia avançando pela rua, e pelas lanternas de blackout
que muitos transeuntes transportavam. Sentiu-se como se estivesse no meio de um jogo de crianças, a tentar realizar às cegas uma tarefa ridiculamente simples. Por duas vezes, chocou com um peão a caminhar na direção oposta. Outra vez, colidiu com uma coisa fria e dura e começou a desculpar-se antes de perceber que era um poste de iluminação.
Teve de se rir. De facto, Londres tinha mudado desde a sua última visita.
Nascera com o nome de Nigel Fox, em Londres, em 1919, filho de mãe alemã e pai inglês. Quando o pai morreu em 1927, a mãe voltou para a Alemanha e instalou-se em Dusseldorf. Um ano mais tarde, voltou a casar com um construtor rico chamado Erich Neumann, um disciplinador duro que não estava interessado em ter um enteado
chamado Nigel que falasse alemão com sotaque inglês. Mudou imediatamente o nome do rapaz para Horst, autorizou-o a usar o seu nome de família e inscreveu-o numa das mais duras escolas militares do país. Horst era muito infeliz. Os outros rapazes gozavam-no por causa do seu alemão deficiente. Pequeno, facilmente intimidável, vinha para casa a maior parte dos fins de semana com olhos negros e lábios cortados. A mãe sentia-se cada vez mais preocupada: Horst tinha-se tornado reservado e metido consigo mesmo. Erich achava que era bom para ele.
Mas quando Horst fez catorze anos, a sua vida mudou. Numa competição de atletismo aberta a todos, entrou nos 1500 metros com os calções da escola e descalço. Terminou muito abaixo dos cinco minutos, impressionante para um rapaz sem treino. Um treinador da federação nacional viu a corrida. Encorajou Horst a treinar e convenceu a escola a dar-lhe condições especiais.
Horst reviveu. Livre da escravidão das aulas de educação física da escola, passava as tardes a correr pelos campos e montanhas. Gostava de estar só, longe dos outros rapazes. Nunca tinha sido tão feliz. Tornou-se rapidamente um dos melhores atletas juniores do país em corrida e uma fonte de orgulho para a escola. Aderiu à Hitler Jugend
- a Juventude Hitleriana. De repente, rapazes que implicavam com ele nos anos anteriores procuravam a sua atenção. Em 1936, foi convidado a assistir aos Jogos Olímpicos em Berlim. Viu o americano Jesse Owens espantar o mundo ao ganhar quatro medalhas de ouro. Conheceu Adolf Hitler numa receção à Juventude Hitleriana e até lhe apertou a mão. Ficou tão entusiasmado que telefonou para casa para contar à mãe. Erich ficou imensamente orgulhoso. Sentado na tribuna, Horst sonhou com 1944, ano em que teria idade suficiente e rapidez suficiente para competir pela Alemanha.
A guerra iria mudar tudo isso.
Entrou para a Wehrmacht no início de 1939. A sua condição física e a atitude de lobo solitário chamaram a atenção dos Fallschirmjàger, a tropa paraquedista. Foi enviado para a escola de paraquedismo em Stendhal e aterrou na Polónia no primeiro dia da guerra. Seguiram-se a França, Creta e a Rússia. Obteve a sua Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro no fim de 1942.
Paris terminaria com os seus dias de paraquedismo. Uma noite, já tarde, foi a um bar tomar um brandy. Um grupo de oficiais das SS tomara conta da sala das traseiras
para uma festa privada. A meio da bebida, Neumann ouviu um grito vindo dessa sala. O francês atrás do balcão ficou petrificado, demasiado aterrado para investigar. Neumann atuou por ele. Quando abriu a porta, viu uma rapariga francesa em cima da mesa, com os braços e pernas presos por homens das SS. Um maior estava a violá-la e outro batia-lhe com um cinto. Neumann entrou a correr e aplicou um soco brutal na cara do major. A cabeça deste acertou na esquina de uma mesa: nunca recuperou a consciência.
Os outros homens das SS arrastaram-no para um beco, espancaram-no selvaticamente e deixaram-no à beira da morte. Passou três meses num hospital a recuperar. As lesões na cabeça foram tão severas que foi declarado incapaz para saltar de paraquedas. Por causa do seu inglês fluente, foi colocado num posto de escuta dos serviços secretos do exército, no norte de França, onde passou os dias sentado em frente de um recetor de rádio numa cabana limitada e claustrofóbica, a monitorizar comunicações via rádio com origem do outro lado do canal da Mancha, em Inglaterra. Era um trabalho escravo.
Foi então que apareceu o homem da Abwehr, Kurt Vogel. Tinha um aspeto doentio e cansado e, noutras circunstâncias, Neumann poderia ter pensado que ele era um artista ou um intelectual. Disse que procurava homens qualificados que quisessem ir fazer espionagem em Inglaterra. Disse que pagaria o dobro do ordenado de Neumann na Wehrmacht. Neumann estava completamente farto. Aceitou de imediato. Nessa noite, deixou a França e voltou para Berlim com Vogel.
Uma semana antes de ir para o Reino Unido, Neumann foi levado para uma quinta no distrito de Dahlem, mesmo à saída de Berlim, para uma semana de reuniões e de intensa preparação. As manhãs eram passadas no celeiro, onde Vogel tinha montado uma plataforma de saltos para Neumann treinar. Um salto real foi considerado fora de questão por razões de segurança. Também melhorou a sua habilidade com armas de fogo, que já era impressionante, e com métodos para matar silenciosamente. As tardes eram ocupadas com o essencial do trabalho de campo: saltos de treino, procedimentos especiais para encontros,
códigos e rádio. Algumas vezes, as instruções eram dadas apenas por Vogel. Outras vezes, este trazia o assistente, Werner Ulbricht. Neumann referia-se a ele, a brincar, como Watson, e Ulbricht aceitava-o com uma satisfação pouco comum nele. No final das tardes, com a luz do inverno a morrer sobre a paisagem coberta de neve da quinta, Neumann tinha autorização para correr durante quarenta e cinco minutos. Durante três dias, deixaram-no correr sozinho. Mas, no quarto dia, com a cabeça cheia dos segredos de Vogel, foi seguido à distância por um jipe.
As noites pertenciam a Vogel. Depois de uma ceia em grupo na cozinha da casa da quinta, Vogel levava Neumann para o estúdio e ensinava-o à lareira. Nunca usava notas, pois Vogel, como Neumann podia ver, tinha o dom da memória. Vogel falou-lhe de Sean Dogherty e dos procedimentos para o salto. Falou-lhe de uma agente chamada Catherine Blake. Falou-lhe de um agente americano chamado Peter Jordan.
Todas as noites, Vogel revia matéria antiga antes de adicionar outro nível de detalhe. Apesar da informalidade da atmosfera da quinta, o seu guarda-roupa nunca mudava: fato escuro, camisa branca e gravata escura. A voz dele era irritante como uma dobradiça enferrujada, mas captava a atenção de Neumann com a sua intensidade e singeleza de propósitos. Na sexta noite, satisfeito com o progresso do pupilo, Vogel até se permitiu um ligeiro sorriso, que rapidamente disfarçou com a mão direita, embaraçado com os seus dentes medonhos.
Entrar no Hyde Park pelo norte, tinha-lhe lembrado Vogel na última reunião. A partir de Bayswater Road. Era o que Neumann estava a fazer. Seguir o caminho até às árvores sobranceiras ao lago. Fazer uma passagem para ter a certeza de que o lugar está limpo. Fazer a aproximação numa segunda passagem. Deixá-la decidir se é para continuar. Ela saberá se é seguro. Ela é muito boa.
O homem baixo apareceu no trilho. Usava um sobretudo de lã e um chapéu de abas. Passou rapidamente, sem olhar para ela. Ela interrogou-se se estaria a perder o poder de atrair os homens.
Ficou à espera debaixo das árvores. As regras para os encontros eram específicas. Se o contacto não aparecer exatamente à hora marcada, ir-se embora e voltar no dia seguinte. Decidiu esperar mais um minuto e depois ir-se embora.
Ouviu os passos. Era o mesmo homem que tinha passado por ela um momento antes. Quase chocou com ela na escuridão.
- Penso que estou mesmo um pouco perdido - disse ele com um sotaque que ela não conseguiu identificar. - Pode indicar-me para que lado fica Park Lane?
Catherine olhou para ele com atenção. Ostentava um sorriso para todas as ocasiões, com os olhos azul-claros a brilharem por baixo da aba do chapéu.
Ela apontou para oeste.
- É para aquele lado.
- Obrigado.
Ele começou a afastar-se e depois voltou-se.
- Quem deve ascender à colina do Senhor? Ou quem deve ficar no seu lugar sagrado?
- Aquele que tem as mãos limpas, e um coração puro; Quem não tenha levado a alma à vaidade, nem tenha jurado falso.
Ele riu-se e disse:
- Catherine Blake, tão certo como eu estar vivo e a respirar. Porque é que não vamos a algum lado quente onde possamos falar?
Catherine procurou dentro da carteira e retirou a lanterna para o blackout.
- Tem uma coisa destas? - perguntou ela.
- Infelizmente, não.
- Isso é um erro estúpido. E erros estúpidos como esse podem matar-nos aos dois.
QUINZE LONDRES
Quando Harry Dalton ainda estava no Met1, era considerado um investigador meticuloso, arguto e implacável, que acreditava que nenhuma pista, por mais trivial que fosse, podia ser descartada. A sua grande oportunidade surgiu em 1936. Duas rapariguinhas tinham desaparecido de um pátio de recreio no East End e Harry foi destacado para a equipa especial de agentes a investigar o caso. Depois de três dias sem dormir e de intenso trabalho, Harry prendeu um vagabundo chamado Spencer Thomas. Harry dirigiu o interrogatório. No seu dia de descanso, chefiou uma equipa de busca a um lugar isolado junto ao estuário do Tamisa, onde Thomas lhe tinha dito que iria encontrar os corpos mutilados das raparigas. Nos dias que se seguiram, encontrou os corpos de uma prostituta em Gravesend, de uma criada em Bristol e de uma dona de casa em Sheffield. Spencer Thomas foi preso num manicómio para criminosos loucos. Harry foi promovido a inspetor.
Nada na sua experiência profissional o tinha preparado para um dia tão frustrante como o que estava a ter. Procurava um agente alemão, mas não tinha uma única pista ou orientação. O seu único recurso era telefonar às forças policiais locais e pedir relatórios de qualquer coisa fora do usual, de qualquer crime que pudesse ter sido
1 Abreviatura para Metropolitan Police Service of London: Serviço da Polícia Metropolitana de Londres. (N. do T.)
cometido por um espião em movimento. Não podia dizer-lhes que andava à procura de um espião, seria uma violação de segurança. Andava à pesca e Harry Dalton detestava pescar.
A conversa que Harry teve com um polícia de Evesham foi típica.
- Como disse que era o seu nome?
- Harry Dalton.
- A telefonar de onde?
- Do Ministério da Guerra em Londres.
- Estou a ver. E o que quer de mim?
- Quero saber se recebeu alguns relatórios de crimes que possam ter sido cometidos por alguém em fuga.
- Tais como?
- Tais como carros roubados, bicicletas roubadas, cupões de racionamento roubados, gasolina. Use a sua imaginação!
- Estou a ver.
- E?
- De facto, tivemos uma participação de uma bicicleta roubada.
- A sério? Quando?
- Esta manhã.
- Isso pode ser alguma coisa.
- As bicicletas são terrivelmente valiosas nos dias que correm. Tinha um traste velho a enferrujar no meu barracão. Tirei-a para fora, limpei-a um pouco, vendi-a a um cabo ianque por dez libras. Dez libras! Dá para acreditar? Aquela coisa não valia dez xelins.
- Isso é interessante. E quanto à bicicleta roubada?
- Aguente um minuto - como é que disse que era o seu nome?
- Harry.
- Harry. Aguente um minuto, Harry... George, ouvimos mais alguma coisa a respeito daquela bicicleta desaparecida em Sheep Street? Sim, essa... O que queres dizer com isso, ele encontrou-a? Onde é que ela estava, raios?.... No meio do pasto? E como é que lá foi parar, raios?... Ai fez? Meu Deus do céu! Ainda está aí, Harry?
- Ainda estou aqui.
- Lamento. Falso alarme.
- Não faz mal. Obrigado por ter procurado.
- Não há problema.
- Se ouvir alguma coisa...
- Será o primeiro a saber, Harry.
- Adeus.
Ao fim da tarde, tinha atendido dezenas de chamadas de polícias das zonas rurais, cada uma mais bizarra do que a outra. Um polícia de Bridgewater telefonou para comunicar uma janela partida.
- Parece um caso de roubo com arrombamento? - perguntou Harry
- Nem por isso.
- Porquê?
- Porque foi o vitral da igreja.
-Certo. Mantenham os olhos abertos.
Um polícia de Skegness informou que alguém tinha tentado entrar nu.mpub fora de horas.
- O homem que procuro pode não estar familiarizado com as leis de licenciamento inglesas - disse-lhe Harry.
- Então vou verificar isso com mais atenção.
- Ótimo. Mantenha-se em contacto. Voltou a telefonar vinte minutos mais tarde.
- Era apenas uma mulher aqui da terra à procura do marido. Um bêbado completo, lamento dizê-lo.
- Raios!
- Lamento, Harry, Não pretendia dar-lhe esperanças.
- Só que deu, mas obrigado por ter verificado isso.
Harry olhou para o relógio: quatro horas, mudança de turno na divisão dos Registos. Grace vinha trabalhar. Pensou: Talvez ainda consiga aproveitar alguma coisa deste dia. Desceu no elevador para a divisão dos Registos e encontrou-a a empurrar um carrinho metálico a transbordar de dossiês. Tinha cabelo curto louro-branco e o batom barato daqueles tempos de guerra, vermelho cor de sangue, dava-lhe um ar de se ter embonecado para um homem. Vestia uma camisola infantil de lã cinzenta e uma saia preta um pouco curta demais. As meias grossas não conseguiam esconder a forma das pernas longas e atléticas.
Ela viu Harry e sorriu-lhe calorosamente. No mundo da divisão dos Registos, Grace era a exceção. Vernon Kell, o fundador do Serviço, achava que só os membros da aristocracia ou os familiares de
agentes do MI5 eram de confiança para um trabalho tão delicado. Em resultado disso, a divisão dos Registos estava sempre povoada por um quadro de funcionárias debutantes muito belas. Grace era uma rapariga da classe média, filha de um professor de liceu. Viu Harry e sorriu calorosamente. Depois, apenas com uma olhadela de lado dos seus bonitos olhos verdes, disse-lhe para ir ter com ela a uma das pequenas salas secundárias. Juntou-se-lhe um momento depois, fechou a porta e deu-lhe um beijo na cara.
- Olá, Harry, querido. Como é que tens passado?
- Muito bem, Grace, é bom ver-te.
Tinha começado em 1940, durante um ataque aéreo noturno a Londres. Abrigaram-se juntos no metropolitano e de manhã, quando se ouviu o aviso de que estava tudo bem, ela levara-o para o seu apartamento e para a sua cama. Era atraente, de uma maneira não convencional, e uma amante arrebatada e desinibida - um agradável e conveniente escape da pressão da agência. Para Grace, Harry era alguém bondoso e meigo que ajudava a passar o tempo até que o marido voltasse do exército.
Podiam ter continuado assim durante toda a guerra. Mas passados três meses, Harry ficou subitamente esmagado pela culpa. O pobre desgraçado está a lutar pela vida no Norte de África e eu estou aqui, em Londres, a ir para a cama com a mulher dele. A culpa provocou nele uma crise ainda maior. Era jovem, talvez devesse estar no exército a arriscar a vida em vez de andar pelo Reino Unido a caçar espiões relativamente inofensivos. Disse a si próprio que o trabalho do MI5 era vital para o esforço de guerra - indispensável -, mas a incómoda dúvida persistiu. O que é que eu faria no campo de batalha? Pegava na minha arma e lutava ou encolhia-me num buraco de trincheira? Contou a Grace o que sentia na noite em que rompeu a ligação. Fizeram amor pela última vez, com beijos salgados das lágrimas. Maldita guerra, não parava ela de dizer. Nojenta, horrorosa e maldita guerra.
- Preciso de um favor, Grace - disse Harry em voz baixa.
- Olha-me só para ti, Harry. Não telefonas, não escreves, não me trazes flores. Depois apareces de repente e dizes que precisas de um favor - respondeu ela, sorrindo e beijando-o outra vez. - Está bem, do que precisas?
- Preciso de ver a lista de acessos a um dossiê. A cara dela fechou-se.
- Vá lá, Harry. Sabes que não posso fazer isso.
- Um homem da Abwehr chamado Vogel. Kurt Vogel.
Uma expressão de reconhecimento surgiu na cara dela e depois dissipou-se.
- Grace, não preciso de te dizer que estamos a trabalhar num caso muito importante.
- Eu sei que estás a trabalhar num caso importante, Harry. Todo o departamento anda a murmurar sobre isso.
- Quando Vicary desceu para ver o dossiê de Vogel, este tinha desaparecido. Foi falar com Jago e, dois minutos depois, tinha o raio da coisa nas mãos. Jago inventou uma história qualquer e disse que tinha sido posto fora do sítio.
Ela estava a esgravatar iradamente nos dossiês do carrinho. Agarrou num monte deles e começou a colocá-los nos respetivos lugares nas prateleiras.
- Eu sei isso tudo, Harry.
- E como é que sabes?
- Porque ele me culpou a mim. O filho da mãe escreveu uma carta de reprimenda e meteu-a no meu processo.
- Quem é que te culpou?
- Jago - sibilou ela
- Porquê?
- Para proteger a pele, claro.
Ela estava outra vez a esgravatar nos dossiês. Harry aproximou-se e pegou-lhe nas mãos para a fazer parar.
- Grace, eu preciso de ver aquela lista de acessos.
- A lista de acessos não te vai dizer nada. A pessoa que tinha o dossiê antes do Vicary não deixa pistas.
- Grace, por favor. Suplico-te.
- Gosto quando suplicas, Harry.
- Sim, eu lembro-me.
- Porque não apareces lá em casa uma noite destas para jantar? Passou a ponta do dedo pelas costas da mão de Harry. Estava
preta de selecionar dossiês.
- Sinto falta da tua companhia. Conversamos, damos umas gargalhadas, nada mais.
- Ia gostar disso, Grace.
Era verdade. Tinha imensas saudades dela.
- Se disseres a alguém onde é que arranjaste isto, Harry, juro por Deus que...
- Fica só entre nós.
- Nem ao Vicary - insistiu ela. Harry pôs a mão sobre o coração.
- Nem ao Vicary.
Grace pegou noutra mão-cheia de dossiês e, a seguir, olhou para ele. com os seus lábios vermelhos, articulou as iniciais BB.
- Como é possível que não tenha uma única pista? - perguntou Basil Boothby quando Vicary se enterrou no sofá fundo e muito confortável.
Sir Basil tinha pedido atualizações noturnas sobre o progresso da investigação. Vicary, conhecedor da paixão de Boothby por receber coisas escritas, sugeriu uma nota concisa, mas Sir Basil quis ser informado em pessoa.
Nessa noite, Boothby tinha um compromisso. Murmurara qualquer coisa sobre os americanos para explicar o facto de estar vestido formalmente quando Vicary entrou no gabinete. Enquanto falava, a sua mão enorme estava empenhada num esforço infrutífero para colocar um botão de punho de ouro no punho engomado da camisa. Sir Basil tinha um criado particular em casa para o auxiliar nessas tarefas fastidiosas. As informações de Vicary ficaram suspensas por um momento enquanto Boothby chamava a sua bonita secretária para o ajudar a vestir-se.
Isso deu a Vicary um momento para processar as informações que Harry lhe tinha dado. Tinha sido Sir Basil a tirar o dossiê de Vogel. Tentou lembrar-se da primeira conversa. O que tinha Sir Basil dito? A divisão dos Registos pode ter alguma coisa sobre ele.
A secretária de Boothby retirou-se silenciosamente. Vicary retomou o relato. Tinham homens a vigiar todas as estações de caminho
de ferro de Londres. Tinham as mãos atadas porque não havia nenhuma descrição dos agentes que deviam procurar. Harry Dalton tinha compilado uma lista dos locais que se sabia serem utilizados pelos agentes alemães para pontos de encontro. Vicary tinha homens a vigiar o maior número possível.
- Dava-lhe mais homens, Alfred, mas não há mais - disse Boothby. - Os vigias estão todos a fazer turnos duplos e triplos. O chefe dos vigias anda a queixar-se de que o Alfred está a dar cabo deles. O frio está a matá-los. Metade já foi apanhada pela gripe.
- Compreendo as dificuldades que os vigias estão a passar, Sir Basil. Estou a utilizá-los o mais sensatamente possível.
Boothby acendeu um cigarro e sorveu o seu gim com angustura enquanto andava de um lado para o outro da sala.
- Temos três agentes alemães à solta no país, fora do nosso controlo. Não preciso de lhe dizer como isto é grave. Se um desses agentes tentar contactar um dos nossos agentes duplos, vamos ter problemas. Todo o aparelho da Operação Double Cross estará em perigo.
- O meu palpite é que não vão tentar contactar outros agentes.
- E porque não?
- Porque acho que Vogel está a dirigir a sua própria operação. Acho que estamos a lidar com uma rede de espiões independente, de que nunca ouvimos falar.
- Isso é apenas um palpite, Alfred. Temos de lidar com factos.
- Já leu alguma vez o dossiê do Vogel? - perguntou Vicary o mais descontraidamente possível.
- Não.
E és um mentiroso, pensou Vicary.
- A julgar pela maneira como este caso se está a desenrolar, eu diria que Vogel manteve uma rede de agentes adormecidos no Reino Unido desde o princípio da guerra. Se tivesse de adivinhar, o agente principal atua em Londres, o subagente algures no interior, onde lhe seja possível acolher um agente rapidamente. O agente que chegou ontem à noite está de certeza aqui para informar o agente principal da missão que tem de realizar. Tanto quanto sabemos, até podem estar a encontrar-se neste preciso momento em que estamos aqui a falar. E nós estamos a ficar cada vez mais para trás.
- Interessante, Alfred, mas é tudo baseado em conjeturas.
- Conjeturas baseadas na experiência, Sir Basil. Na ausência de factos provados, receio que seja o nosso único recurso - retorquiu Vicary, hesitando depois, consciente
da reação que a sua próxima sugestão iria provavelmente gerar. - Entretanto, penso que devíamos marcar uma reunião com o general Betts para o informar dos desenvolvimentos.
A cara de Boothby transformou-se numa carranca zangada. O brigadeiro-general Thomas Betts era o chefe-adjunto dos serviços secretos do SHAEF. Alto, parecido com
um urso, Betts tinha um dos lugares menos invejados de Londres: garantir que nenhum das várias centenas de agentes americanos e ingleses que sabiam o segredo da
operação Overlord revelasse esse segredo ao inimigo, intencional ou não intencionalmente.
- Isso é prematuro, Alfred.
- Prematuro? Sir Basil, foi o senhor que o disse. Temos três espiões alemães à solta.
- Tenho de ir ao fundo do corredor informar o diretor-geral daqui a nada. Se lhe sugerir que comuniquemos as nossas falhas aos americanos, vai cair-me em cima sem dó nem piedade
- Tenho a certeza de que o diretor-geral não será muito duro consigo, Sir Basil - respondeu Vicary, sabendo que Boothby tinha convencido o diretor-geral de que era um elemento indispensável. Além de que dificilmente se poderá considerar uma falha.
Boothby parou de andar de um lado para o outro.
- E o que lhe chamaria?
- Um contratempo temporário. Boothby resfolegou e esmagou o cigarro.
- Não permito que manche a reputação deste departamento, Alfred. Não vou permiti-lo.
- Talvez haja mais uma coisa que deva considerar para além da reputação deste departamento, Sir Basil.
- O quê?
Vicary esforçou-se por sair do sofá fundo e macio.
- Se os espiões tiverem sucesso, podemos muito bem perder a guerra.
- bom, então faça qualquer coisa, Alfred.
- Obrigado, Sir Basil. Não há dúvida de que é um bom conselho.
DEZASSEIS LONDRES
De Hyde Park apanharam um táxi para EarPs Court. Pagaram ao taxista quando faltavam uns quatrocentos metros para o apartamento dela. Durante o pequeno trajeto a pé, voltaram para trás duas vezes e Catherine fingiu que fazia uma chamada de uma cabine telefónica. Não estavam a ser seguidos. A senhoria, de seu nome Hodges, estava à entrada quando chegaram. Catherine deu o braço a Neumann. A senhora Hodges lançou-lhes um olhar de desaprovação quando subiram as escadas.
Catherine estava relutante em levá-lo até ao apartamento. Tinha protegido ciosamente a sua localização e recusado dar a morada a Berlim. A última coisa de que precisava era de um agente do MI5 a bater-Ihe à porta a meio da noite. Mas encontrarem-se em público estava fora de questão: tinham muito para discutir e fazê-lo num café ou numa estação de comboios era muito perigoso.
Observou Neumann à medida que ele dava uma volta pelo apartamento. Conseguia perceber pelo passo preciso e pela economia de gestos que, em tempos, tinha sido soldado. O inglês dele era perfeito. Era evidente que Vogel o tinha escolhido cuidadosamente. Pelo menos, não tinha enviado um amador qualquer para a informar da missão. Ele dirigiu-se à janela da sala de estar, abriu as cortinas e olhou para baixo, para a rua.
- Mesmo que eles estejam lá fora, nunca os conseguirá descobrir - disse Catherine enquanto se sentava.
- Eu sei, mas faz-me sentir melhor se olhar - respondeu ele, afastando-se da janela. - Foi um dia longo. Sabia-me bem uma chávena de chá.
- Tem tudo o que precisa na cozinha. Sirva-se.
Neumann pôs água a ferver no fogão e depois voltou para a sala.
- Como é que se chama? - perguntou-lhe ela. - O seu nome verdadeiro.
- Horst Neumann.
- É soldado. Pelo menos, foi. Qual é o seu posto?
- Sou tenente.
Ela sorriu.
- Bem, eu tenho um posto mais elevado.
- Sim, eu sei... major.
- Qual é o seu nome de cobertura?
- James Porter.
- Deixe-me ver a sua identificação.
Ele entregou-lha. Ela examinou-a cuidadosamente. Era uma falsificação excelente. Devolveu-lha.
- É boa - disse ela. - Mas mostre-a apenas se for absolutamente necessário. Qual é a sua cobertura?
- Fui ferido em Dunquerque e saí do exército por invalidez. Agora, sou caixeiro-viajante.
- E onde está alojado?
- Na costa de Norfolk, numa aldeia chamada Hampton Sands. Vogel tem um agente lá chamado Sean Dogherty. É um simpatizante do IRA e tem uma pequena quinta.
- E como entrou no país?
- De paraquedas.
- Muito impressionante - disse ela com sinceridade.
- E Dogherty acolheu-o? Estava à sua espera?
- Sim.
- Vogel contactou-o por rádio?
- Presumo que sim.
- Isso quer dizer que o MI5 anda atrás de si.
- Penso que avistei dois dos homens deles na Liverpool Street.
- Isso faz sentido. De certeza que andam a vigiar as estações retorquiu ela, acendendo um cigarro. - O seu inglês é excelente. Onde o aprendeu?
Enquanto ele lhe contava a história, Catherine observou-o cuidadosamente, pela primeira vez. Era pequeno e bem constituído: talvez tivesse sido um adeta, um jogador de futebol ou um corredor de fundo. O cabelo era escuro, os olhos de um azul penetrante. Era, obviamente, inteligente - não como alguns dos imbecis que ela tinha conhecido na escola de espiões da Abwehr, em Berlim. Duvidava que alguma vez tivesse estado atrás das linhas inimigas como agente e, contudo, não mostrava quaisquer sinais de nervosismo. Ela tinha mais algumas perguntas antes de ouvir o que ele tinha para dizer.
- Como é que acabou neste tipo de trabalho?
Neumann contou-lhe a história: tinha sido membro dos Fallschirmjàger, tinha visto ação em tantos sítios que já nem se lembrava. Contou-lhe sobre Paris. Sobre a sua transferência para a unidade de escuta da Funkabwehr no norte da França. E, finalmente, sobre o seu recrutamento por Kurt Vogel.
- O nosso Kurt é muito bom a encontrar trabalho para os incansáveis - disse Catherine quando ele acabou. - Então, o que é que Vogel tem em mente para mim?
- Uma missão e depois acabou-se. De volta à Alemanha.
A chaleira chiou. Neumann foi à cozinha e ocupou-se do chá. Uma missão e depois acabou-se. De volta à Alemanha. E com um antigo e altamente competente paraquedista para a ajudar a escapar. Estava impressionada. Sempre assumira o pior, que quando a guerra acabasse seria esquecida no Reino Unido e forçada a defender-se sozinha. Os britânicos e os americanos, assim que a inevitável vitória chegasse, atirar-se-iam aos ficheiros capturados da Abwehr. Encontrariam o nome dela, aperceber-se-iam de que nunca estivera presa e viriam atrás dela. Essa era outra razão por que escondera tanta informação de Vogel, não queria deixar um rasto em Berlim para os inimigos a perseguirem. Mas era óbvio que Vogel queria que ela regressasse à Alemanha e tinha tomado medidas para que isso acontecesse.
Neumann voltou à sala de estar com um bule de chá e duas canecas. Pousou tudo em cima da mesa e sentou-se novamente.
Catheríne perguntou-lhe:
- Qual é o seu trabalho, para além de me informar da minha missão?
- Tudo o que precisar, basicamente. Sou o seu correio, o seu agente de apoio e o seu operador de rádio. Vogel quer que continue a não usar o rádio. Está convencido de que não é seguro. Apenas pode usar o rádio se precisar de mim. Contacta Vogel com um sinal combinado previamente e Vogel contacta-me a mim.
Ela assentiu com a cabeça e depois perguntou:
- E quando acabar tudo? Como é que vamos sair do Reino Unido? E, por favor, não me venha com algo do estilo heróico, como roubar um barco e navegar até França. Porque não é possível.
- Claro que não. Vogel arranjou-lhe um bilhete de primeira classe num submarino.
- Qual?
- O U-509.
- Onde?
- No mar do Norte.
- Isso é muito grande. Onde, exatamente?
- Em Spurn Head, na costa de Lincolnshire.
- Moro aqui há cinco anos, tenente Neumann. Eu sei onde fica Spurn Head. E como chegamos ao submarino?
- Vogel tem um barco e um capitão à nossa espera numa doca do rio Humber. Quando for hora de partir, eu contacto-o e ele leva-nos ao submarino.
Ela pensou: Então, Vogel tem um esquema de fuga montado de que nunca me falou.
Catherine bebericou o chá, observando Neumann por cima da borda da caneca. Era remotamente possível que ele fosse um homem do MI5 a fazer passar-se por um agente alemão. Ela podia entrar em joguinhos idiotas - como testar o alemão dele ou fazer-lhe perguntas sobre um pequeno café conhecido em Berlim -, mas, se ele fosse realmente do MI5, seria suficientemente esperto para evitar uma armadilha tão óbvia. Conhecia a gíria, sabia muita coisa sobre Vogel e a sua história parecia credível. Decidiu deixá-lo continuar. Quando Neumann estava prestes a falar, as sirenes de ataque aéreo soaram.
- Precisamos de levar isto a sério? - perguntou Neumann.
- Viu o edifício que está por trás deste?
Neumann tinha-o visto, uma pilha de tijolos partidos e madeira estilhaçada.
- Onde fica o abrigo mais próximo?
- Ao virar da esquina - respondeu ela, sorrindo-lhe. - Bem-vindo de volta a Londres, tenente Neumann.
Era o início da noite do dia seguinte quando o comboio de Neumann entrou na estação de Hunstanton. Sean Dogherty estava a fumar ansiosamente na plataforma quando ele saiu do comboio.
- Como é que correu? - perguntou Dogherty enquanto se dirigiam para a carrinha.
- Sem problemas.
Dogherty conduzia desconfortavelmente depressa pela estrada sinuosa e esburacada. Era um calhambeque velho, a necessitar urgentemente de uma revisão a julgar pelos barulhos que fazia. Os faróis tinham as proteções do blackout. Um feixe trémulo de uma luz amarela fraca tentava, em vão, iluminar a estrada. Neumann tinha a sensação de estar a percorrer uma casa estranha e escura, com apenas um fósforo como iluminação. Passaram por aldeias desertas e escuras
- Holme, Thornham, Titchwell -, sem luzes acesas, lojas e casas de campo completamente fechadas, sem sinal de estarem habitadas. Dogherty estava a falar-lhe do seu dia, mas Neumann foi deixando gradualmente de o ouvir enquanto pensava na noite anterior.
Tinham-se abrigado apressadamente numa estação de metro como o resto das pessoas e esperado três horas na plataforma fria e húmida pelo aviso da sirene de que já era seguro sair. Ela dormiu durante um bocado, deixando cair a cabeça no ombro dele. Perguntou a si próprio se seria a primeira vez, em seis anos, que ela se sentia segura. Observou-a na escuridão. Era uma mulher espantosamente bonita, mas havia nela uma tristeza distante, talvez uma mágoa de infância, infligida por um adulto negligente. Ela mexeu-se enquanto dormia, perturbada por sonhos. Ele tocou nos caracóis que se espalhavam pelo seu ombro. Quando a sirene soou, ela acordou como um soldado em território inimigo - depressa, com os olhos subitamente
abertos e a mão a procurar a arma mais próxima. No caso dela, era a mala, onde Neumann presumiu que guardava uma pistola ou uma faca.
Falaram até ao amanhecer. Na verdade, ele falara e ela ouvira. Ela nunca falava, exceto para o corrigir quando ele cometia um erro ou contradizia alguma coisa que dissera horas antes. Ela tinha, obviamente, uma mente portentosa, capaz de armazenar grandes quantidades de informação. Não era de estranhar que Vogel tivesse tanto respeito pelas suas capacidades.
Uma madrugada cinzenta espalhava-se por Londres quando Neumann se esgueirou do apartamento dela. Movimentara-se como um homem que deixa a amante, olhando de relance sobre o ombro, perscrutando as caras dos transeuntes à procura de algo suspeito. Durante três horas, vagueou por Londres debaixo de uma chuvinha fria, mudando de direção repentinamente, entrando e saindo de autocarros, olhando para os reflexos das janelas. Decidiu que não estava a ser seguido e voltou para trás, em direção à estação de Liverpool Street.
Dentro do comboio, pousou a cabeça nas mãos e tentou dormir. Não caias no feitiço dela, tinha-o avisado Vogel, em tom de brincadeira, no último dia que passaram juntos na quinta. Mantém uma certa distância. Ela vive em sítios escuros onde tu não queres ir.
Neumann imaginou-a no apartamento, a escutá-lo, à luz fraca, quando ele lhe falara de Peter Jordan e daquilo que ela teria de fazer. Era a sua imobilidade desconcertante que mais o espantava, a maneira como as mãos estavam cruzadas no colo, a maneira como a cabeça e os ombros pareciam nunca se moverem. Apenas os olhos o faziam, saltitando à volta do quarto, deslocando-se de um lado para o outro da cara dele, percorrendo-lhe o corpo para cima e para baixo. Como holofotes. Por momentos, permitiu-se acalentar a fantasia de que ela o desejava. Mas naquele instante, enquanto Hampton Sands se desvanecia na escuridão atrás deles e o chalé de Dogherty lhes aparecia à frente, Neumann chegou a uma conclusão perturbante. Catherine não estava a olhar para ele daquela maneira porque o achava atraente, estava a decidir qual a melhor maneira de o matar se alguma vez precisasse de o fazer.
Neumann tinha-lhe dado uma carta quando se fora embora nessa manhã. Ela tinha-a posto de lado, demasiado aterrorizada para a ler. Naquele momento, com as mãos a tremerem, abriu-a e leu-a deitada
na cama.
Minha querida Anna,
Estou aliviado por saber que te encontras bem e em segurança. Desde que me deixaste toda a
luz da minha vida desapareceu. Rezo para que esta guerra acabe depressa
para que possamos estar juntos novamente. Boa noite, sonhos cor-de-rosa, pequenina.
O teu pai que te adora
Quando acabou de a ler, levou a carta para a cozinha, pegou-lhe fogo e atirou-a para o lava-louças. Chamejou por instantes e depois apagou-se rapidamente. Catherine
abriu a torneira e lançou as cinzas pelo cano abaixo. Suspeitava que fosse uma falsificação - que Vogel a tinha escrito para a manter na linha. O pai, temia ela, já estava morto. Voltou para a cama e ficou acordada na suave luz cinzenta da manhã, a ouvir a chuva a bater na janela. A pensar no pai, a pensar em Vogel.
DEZASSETE
GLOUCESTERSHIRE, INGLATERRA
- Parabéns, Alfred. Entra. Lamento que tenha tido de acontecer desta maneira, mas acabaste de te tornar um homem bastante rico.
Edward Kenton estendeu a mão como se estivesse à espera que Vicary se empalasse nela. Vicary agarrou a mão e apertou-a debilmente antes de passar rente a Kenton, em direção à sala da casa de estar do chalé da tia.
- Está um frio dos diabos lá fora, Alfred - disse Kenton enquanto Vicary examinava a sala.
Já não ia lá desde a guerra, mas nada tinha mudado.
- Espero que não te importes, mas acendi a lareira. Isto parecia uma câmara frigorífica quando cheguei. Também fiz chá. E há leite verdadeiro. Suponho que não se veja muito disso em Londres nesta altura.
Vicary tirou o casaco enquanto Kenton se dirigia para a cozinha. Não era realmente um chalé - isso era o que Matilda insistia em chamar-lhe. Na verdade, era uma casa grande, feita de pedra calcária de Cotswolds, com jardins espetaculares, rodeados por um muro alto. Ela morrera de uma apoplexia na noite em que Boothby atribuíra o caso a Vicary. Tinha planeado assistir ao funeral, mas fora convocado por Churchill nessa manhã, depois de Bletchley Park ter descodificado as mensagens de rádio alemãs. Sentiu-se horrivelmente mal por ter faltado à cerimónia. Matilda tinha-o criado praticamente, depois de a mãe dele morrer quando Vicary tinha doze anos. Tinham
continuado grandes amigos. Ela fora a única pessoa a quem ele falara da sua missão no MI5. O quefaes exatamente, Alfred? Apanho espiões alemães, tia Matilda.
Oh, que bom para ti, Alfred!
Portas envidraçadas davam para os jardins, mortos com o inverno. Às vezes, apanho espiões, tia Matilda, pensou ele. Noutras, eles levam a melhor.
Nessa manhã, Bletchley Park enviara a Vicary mais uma mensagem decifrada vinda de um agente no Reino Unido. Dizia que o encontro tinha sido um sucesso e que o agente tinha aceitado a missão. Vicary estava a perder a esperança em relação às hipóteses de apanhar os espiões. As coisas tinham piorado nessa manhã. Dois homens foram observados a encontrarem-se em Leicester Square e tinham sido detidos para interrogatório. Descobriram que o mais velho era um funcionário superior do Ministério do Interior e que o mais novo era o seu amante. Boothby tinha ficado louco de fúria.
- Como correu a viagem? - perguntou Kenton da cozinha, por cima do tilintar da louça e do barulho da água a correr.
- Bem - respondeu Vicary.
Boothby tinha permitido, relutantemente, que ele levasse um Rover emprestado da divisão dos Transportes.
- Não me consigo lembrar da última vez que fiz uma viagem relaxante pelo campo - disse Kenton. - Mas suponho que a gasolina e os automóveis são apenas algumas das regalias do teu novo emprego.
Kenton entrou na sala com um tabuleiro de chá. Era alto - tão alto como Boothby -, mas sem a mesma corpulência ou agilidade física. Usava óculos redondos demasiado pequenos para a cara e um bigode fininho que parecia ter sido desenhado com um lápis de sobrancelhas feminino. Pousou o chá na mesa à frente do sofá, deitou leite nas chávenas, como se fosse ouro líquido, e depois adicionou o chá.
- Meu Deus, Alfred, há quanto tempo?
Vinte e cinco anos, pensou Vicary. Edward Kenton era amigo de Helen. Até tinham saído juntos algumas vezes, depois de Helen ter acabado o noivado com Vicary. Por coincidência, tornara-se procurador de Matilda, dez anos antes. Vicary e Kenton tinham falado ao telefone várias vezes nos últimos anos, à medida que Matilda ia ficando
demasiado velha para tratar das coisas sozinha, mas era a primeira vez que se viam cara a cara. Vicary desejava que ele conseguisse concluir os negócios da tia morta sem o espectro de Helen a pairar sobre os procedimentos.
- Ouvi dizer que foste designado para o Ministério da Guerra
- disse Kenton.
- É verdade - retorquiu Vicary.
Bebeu meia chávena de chá de um só trago. Era delicioso, muito melhor do que aquela água desenxabida que serviam na cantina.
- O que fazes, exatamente?
- Oh, trabalho num departamento muito aborrecido, faço isto e aquilo - respondeu Vicary, sentando-se. - Desculpa, Martin, detesto apressar as coisas, mas tenho mesmo de voltar para Londres.
Kenton sentou-se à frente de Vicary e tirou uma série de papéis da mala de couro preta. Molhou a ponta do dedo indicador delgado e, cautelosamente, virou as páginas até chegar à adequada.
- Ah, cá está. Eu mesmo elaborei este testamento há cinco anos
- disse ele. - Ela distribuiu algum dinheiro e outras propriedades pelos teus primos, mas deixou-te a maior parte da herança.
- Não fazia ideia.
- Deixou-te a casa e uma grande soma de dinheiro. Ela era uma pessoa frugal. Gastava cuidadosamente e investia sabiamente - explicou Kenton, virando os papéis para Vicary a fim de que este os pudesse ler. - Aqui está o que vai ser teu.
Vicary estava estupefacto; não fazia a mínima ideia. Assim, o facto de ter faltado ao funeral por causa de uns espiões alemães
parecia-lhe ainda mais imoral. Alguma coisa lhe transpareceu na cara porque Kenton disse:
- É uma pena que não tenhas conseguido ir ao funeral, Alfred. Foi mesmo uma cerimónia bonita. Metade da aldeia estava lá.
- Queria ter vindo, mas surgiu uma coisa.
- Tenho alguns papéis para tu assinares para tomares posse da casa e do dinheiro. Se me deres um número de conta em Londres, posso transferir o dinheiro e fechar
as contas bancárias dela.
Vicary passou os minutos seguintes a assinar, em silêncio, uma pilha de documentos legais e financeiros. Quando chegou ao último, Kenton olhou para cima e disse:
- Feito.
- O telefone ainda está a funcionar?
- Sim, ainda agora o utilizei antes de chegares.
O telefone estava na escrivaninha de Matilda, na sala de estar. Vicary pegou no auscultador e olhou para Kenton.
- Martin, se não te importas, é oficial. Kenton forçou um sorriso.
- Não precisas de dizer mais nada, Alfred. vou arrumar a louça. Alguma coisa naquela troca de palavras aqueceu o lado vingativo
do coração de Vicary. A telefonista entrou em linha e ele deu-lhe o número da sede do MI5 em Londres. A ligação demorou alguns momentos a ser estabelecida. Uma telefonista do departamento atendeu e passou a chamada de Vicary para Harry Dalton. Harry atendeu, com a boca cheia de comida.
- O que é a comida hoje? - perguntou Vicary.
- Dizem eles que é um guisado de legumes.
- Alguma novidade?
- Por acaso, acho que sim. O coração de Vicary saltou.
- Tenho andado a remexer nas listas de imigração, só para ver se tínhamos deixado escapar alguma coisa.
As listas de imigração eram a base de toda a luta do MI5 contra os espiões alemães. Em setembro de 1939, quando Vicary ainda fazia parte do corpo docente do University College, o MI5 tinha-se servido dos registos de passaportes e de imigração como a principal ferramenta numa rusga gigantesca com vista a reunir todos os espiões e simpatizantes do nazismo. Os estrangeiros eram classificados em três categorias. Na categoria C, os estrangeiros tinham liberdade completa. Na categoria B, os estrangeiros eram submetidos a certas restrições; alguns não tinham autorização para terem automóveis ou barcos e eram impostos limites às suas movimentações dentro do país. Na categoria A, os estrangeiros eram considerados uma ameaça à segurança e, por isso, eram presos. Presumiu-se que todas as pessoas que tivessem entrado no país antes da guerra e não pudessem ser contabilizadas fossem espiões, tendo sido por isso caçadas. As redes de espionagem alemãs foram identificadas e destruídas praticamente da noite para o dia.
- Uma holandesa chamada Christa Kunst entrou no país em novembro de 1938, em Dover - continuou Harry. - Um ano mais tarde, o corpo dela foi encontrado numa vala rasa, num campo perto de uma aldeia chamada Whitchurch.
- E que tem isso de tão anormal, Harry?
- Tenho um mau pressentimento em relação a isso. O corpo estava em adiantado estado de decomposição quando foi desenterrado. A cara e o crânio tinham sido esmagados. Faltavam-lhe os dentes todos. Usaram o passaporte para fazer a identificação. Estava convenientemente enterrado com o corpo. Parece-me tudo demasiado certinho.
- E onde está o passaporte agora?
- No Ministério do Interior. Mandei um estafeta buscá-lo. Tem uma fotografia. Dizem que ficou bastante danificada enquanto esteve enterrada, mas deve valer a pena dar uma olhadela.
- Otimo, Harry. Não tenho a certeza se a morte dessa mulher tem alguma coisa que ver com este caso, mas, pelo menos, é uma pista.
- Certo, Alfred. A propósito, como correu o encontro com o advogado?
- Oh, apenas alguns papéis para assinar - mentiu Vicary.
De repente, sentiu-se bastante constrangido com a sua nova situação de independência financeira.
- Vou-me embora agora. Devo voltar ao gabinete mais para o final da tarde.
Vicary desligou quando Kenton entrou na sala de estar.
- bom, acho que está tudo - anunciou, entregando a Vicary um grande envelope castanho. - Os papéis estão todos aí, assim como as chaves. Incluí o nome e a morada do jardineiro. Ele terá todo o prazer em servir de zelador.
Vestiram os casacos, fecharam o chalé à chave e saíram. O carro de Vicary estava no caminho de entrada.
- Posso deixar-te em algum lado, Martin?
Vicary sentiu-se aliviado quando Kenton não aceitou o oferta.
- Falei com a Helen no outro dia - disse Kenton de repente. Vicary pensou: Oh, meu Deus.
- Disse-me que te vê de tempos a tempos, em Chelsea.
Vicary pensou se Helen teria falado a Kenton da tarde de 1940, em que ele tinha ficado a olhar para o carro dela a passar, como um colegial idiota. Mortificado,
Vicary abriu a porta do carro, batendo nos bolsos distraidamente, à procura dos óculos em meia-lua.
- Ela pediu-me para te mandar cumprimentos, por isso estou a dar-tos.
- Obrigado - respondeu Vicary, entrando no carro.
- E também mandou dizer que gostava de te ver um dia destes. Pôr a conversa em dia.
- Isso seria ótimo - exclamou Vicary, mentindo.
- Bem, que maravilha. Ela vem a Londres na próxima semana. Iria adorar almoçar contigo.
Vicary sentiu um aperto no estômago.
- À uma hora, no Connaught, de amanhã a uma semana - disse Kenton. - Fiquei de falar com ela mais tarde. Digo-lhe que vais lá estar?
A parte de trás do Rover estava tão fria como uma câmara frigorífica. Vicary sentou-se no grande banco de pele, com as pernas cobertas por uma manta de viagem, e ficou a ver passar os campos de Gloucestershire pela janela. Uma raposa vermelha atravessou a estrada e depois voltou a correr para dentro da cerca. Faisões gordos e sonolentos depenicavam os restos de um milheiral coberto de neve, com os seus casacos de penas enfunados para se protegerem do frio. Galhos de árvores nus riscavam
o céu limpo. À sua frente, abria-se um vale. Ao longe, os campos espraiavam-se como uma manta de retalhos amarrotada. O Sol afundava-se num céu salpicado de tons
de aguarela, violeta e cor de laranja.
Estava zangado com Helen. A sua parte rancorosa queria acreditar que o facto de estar a trabalhar para os serviços secretos britânicos fazia de alguma forma com
que ela o achasse mais interessante. A sua parte racional dizia-lhe que ele e Helen se tinham separado amigavelmente e que um almoço calmo poderia ser muito agradável. Pelo menos, seria uma distração bem-vinda à pressão do caso. Pensou: De que tens tanto medo? De te poderes lembrar que foste realmente feliz durante os dois anos em que ela fez parte da tua vida?
Afastou Helen do pensamento. O telefonema de Harry deixara-o intrigado. Por instinto, tratou o caso como um problema histórico. A sua especialidade era a história
europeia do século xix. Já tinha conquistado a aclamação da crítica pelo livro que escrevera sobre o colapso do equilíbrio do poder na Europa depois do Congresso de Viena, mas Vicary tinha uma paixão secreta pela história e mitologia da Grécia Antiga. Intrigava-o o facto de a maior parte dos estudos sobre essa época se basear em conjeturas: a imensa passagem do tempo e a falta de um registo histórico claro obrigavam a isso. Por exemplo, porque teria Péricles dado início à Guerra do Peloponeso contra Esparta, que acabou por levar à destruição de Atenas? Porque não aceitara as condições do seu maior rival e revogara o decreto de Megara? Teria sido levado
pelo medo da superioridade dos exércitos de Esparta? Teria acreditado que a guerra era inevitável? Teria embarcado numa aventura desastrosa no estrangeiro para aliviar
a pressão que sofria em casa?
Nesse momento, Vicary fazia perguntas semelhantes sobre o seu rival de Berlim, Kurt Vogel.
Qual era o objetivo de Vogel? Vicary acreditava que o objetivo de Vogel tinha sido criar uma rede de agentes adormecidos de elite, no início da guerra, e deixá-los infiltrados até ao momento culminante do confronto. Para que isso tivesse sucesso, tinha de se ter muito cuidado na maneira como se infiltrava o agente dentro do país. Obviamente, Vogel tinha feito isso; o simples facto de o MI5 não ter conhecimento do agente antes confirmava-o. Vogel teria tido de partir do princípio de que os registos de imigração e de controlo de passaportes seriam utilizados para procurar os seus agentes. Vicary teria partido sem dúvida desse princípio se os papéis estivessem invertidos. Mas o que aconteceria se a pessoa que entrou no país fosse dada como morta? Não haveria buscas. Era brilhante. Mas havia um problema - tinha de existir um corpo. Seria possível terem de facto assassinado alguém para trocar de lugar com Christa Kunst?
Os espiões alemães, regra geral, não eram assassinos. Na sua maioria, eram avarentos, aventureiros e fascistas mesquinhos, mal treinados e mal financiados. Mas se
Kurt Vogel tinha estabelecido uma
rede de agentes de elite, estes seriam mais motivados, mais disciplinados e, quase de certeza, mais implacáveis. Seria possível que um desses agentes implacáveis
e altamente treinados fosse uma mulher? Vicary só tinha tratado de um caso que envolvia uma mulher - uma rapariga alemã que conseguira um emprego como empregada
na casa de um almirante britânico.
- Pare na próxima aldeia - disse Vicary ao membro do ramo feminino da Marinha Real Britânica que conduzia o carro. - Preciso de telefonar.
A aldeia chamava-se Aston Magna - na verdade, um lugar sem lojas, apenas um aglomerado de chalés intercetado por um par de ruas estreitas. Um velho estava parado
à beira da estrada, com o cão.
Vicary baixou o vidro da janela do carro e disse:
- Olá.
- Olá.
O homem trazia umas botas de borracha e um casaco de tweed grosso que parecia ter, pelo menos, cem anos. O cão tinha três patas.
- Há algum telefone na aldeia? - perguntou Vicary.
O homem abanou a cabeça. Vicary era capaz de jurar que o cão também estava a abanar a dele.
- Ninguém se incomodou em arranjar um ainda.
A pronúncia do homem era tão carregada que Vicary tinha dificuldade em entendê-lo.
- E onde fica o telefone mais próximo?
- Será em Moreton.
- E onde é que isso fica?
- Siga por aquela estrada ali, depois do celeiro. Vire à esquerda na casa senhorial e siga as árvores até à próxima aldeia. É aí que fica Moreton.
- Obrigado.
O cão ladrou quando o carro arrancou velozmente.
Vicary serviu-se do telefone de uma padaria. Comeu uma sanduíche de queijo enquanto esperava que a telefonista estabelecesse a ligação com o gabinete. Queria partilhar
um pouco da sua nova riqueza e, por isso, pediu duas dúzias de scones para as datilógrafas e para as raparigas da divisão dos Registos.
Harry surgiu na linha.
- Não creio que tenha sido a Christa Kunst que desenterraram da vala em Whitchurch - disse Vicary.
- Então quem foi?
- Isso já é o seu trabalho, Harry. Contacte a Scotland Yard. Verifique se desapareceu alguma mulher por volta dessa altura. Comece por um raio de um par de horas
a partir de Whitchurch, depois amplie a zona, se for necessário. Quando eu voltar ao Ministério da Guerra, informo Boothby.
- E o que lhe vai dizer?
- Que estamos à procura de uma holandesa morta. Ele vai adorar.
DEZOITO
LESTE DE LONDRES
Encontrar Peter Jordan não iria ser um problema. Mas encontrá-lo da maneira certa seria.
As informações de Vogel eram fidedignas. Berlim sabia que Jordan trabalhava em Grosvenor Square, no Comando Supremo das Forças Expedicionárias Aliadas, mais conhecido como SHAEF. A praça era fortemente patrulhada por polícias militares, impenetrável a intrusos. Berlim tinha a morada de Jordan em Kensington e conseguira juntar uma enorme quantidade de informação sobre o seu passado. Só faltava saber todos os passos, minuto a minuto, da rotina diária dele em Londres. Sem isso, Catherine podia apenas deitar-se a adivinhar qual seria a melhor maneira de o abordar.
Ser ela própria a seguir Jordan estava fora de questão, por várias razões. Primeiro, tinha que ver com a sua segurança. Seria demasiado perigoso para ela perseguir um oficial americano pelo West End de Londres. Podia ser vista por um dos polícias militares ou até mesmo pelo próprio Jordan. Se os oficiais se sentissem especialmente diligentes nesse dia, podiam detê-la para um interrogatório. Uma pequena verificação poderia revelar que a verdadeira Catherine Blake tinha morrido trinta anos antes, com oito meses de idade, e que ela era uma agente alemã.
A segunda razão por que não devia seguir Peter Jordan era puramente prática. Era-lhe praticamente impossível fazer bem o trabalho sozinha. Mesmo que Neumann ajudasse, seria difícil. A primeira vez
que Jordan entrasse num carro militar, ela ficaria completamente perdida. Não podia entrar simplesmente num táxi e dizer Siga aquele carro militar americano. Os taxistas sabiam da ameaça que os espiões representavam para os oficiais aliados. O mais provável era ser levada diretamente para a esquadra de polícia mais próxima. Precisava de carros comuns para o seguir, homens desconhecidos para falarem com ele, homens que não dessem nas vistas para se manterem de guarda à porta de casa dele.
Precisava de ajuda.
Precisava de Vernon Pope.
Vernon Pope era uma das maiores e mais bem-sucedidas figuras do mundo do crime de Londres. Pope, juntamente com o irmão Robert, dirigia esquemas de proteção, salões de jogos ilegais, redes de prostituição e uma próspera operação de mercado negro. No início da guerra, Vernon Pope levara Robert às urgências do Hospital St. Thomas com uma ferida grave na cabeça sofrida durante a Blitz. Catherine examinou-o rapidamente, viu que tinha uma concussão e suspeitou que o crânio estivesse fraturado. Fez com que Robert fosse visto por um médico de imediato. Vernon Pope, agradecido, deixou-lhe um bilhete. Dizia: Se houver alguma coisa que possa faerpara lhe agradecer, por favor, não hesite em pedir.
Catherine guardou o bilhete. Estava na sua mala.
Estranhamente, o armazém de Vernon Pope sobrevivera ao bombeamento. Permanecera intacto, uma ilha arrogante rodeada de jardins de destruição. Catherine não se aventurara pelo East End em quase quatro anos. A devastação era chocante. Era difícil ter a certeza de que não estava a ser seguida. Restavam poucas portas onde se abrigar, não havia cabines telefónicas para simular chamadas, não havia lojas para pequenas compras, apenas montanhas sem fim de escombros.
Observou o armazém do outro lado da rua, com uma chuva miudinha e fria a cair. Estava de calças, camisola e um casaco de pele. As portas do armazém abriram-se e três camiões pesados saíram para a rua. Um par de homens bem vestidos voltou a fechar as portas rapidamente, mas, antes disso, Catherine conseguiu dar uma vista de olhos lá para dentro. Havia grande azáfama.
Um grupo de estivadores passou por ela, vindo do turno do dia. Seguiu-os por um momento e depois encaminhou-se para o armazém de Pope.
Havia um pequeno portão com uma campainha elétrica para entregas. Tocou à campainha, não obteve resposta, tocou outra vez. Catherine sentiu que estava a ser observada. Finalmente, o portão abriu-se.
- O que podemos fazer por si, 'morzinho?
Aquela voz agradável com a pronúncia cockney não condizia com a figura diante dela. Ele tinha, pelo menos, um metro e oitenta e cinco, cabelo preto cortado rente ao crânio e óculos pequenos. Vestia um fato cinzento dos caros, com uma camisa branca e uma gravata prateada. Os músculos dos braços preenchiam as mangas do casaco.
- Queria falar com o senhor Pope, por favor.
Catherine entregou o bilhete ao brutamontes. Ele leu-o rapidamente, como se já tivesse visto muitos iguais.
- vou perguntar ao patrão se ele tem um minuto para a atender. Entre.
Catherine entrou pelo portão e ele fechou-o atrás dela.
- As mãos bem levantadas, minha querida; linda menina. Não é nada de pessoal. O senhor Pope pede-o a toda a gente.
O homem de Pope revistou-a. Foi rápido, mas nada profissional. Arrepiou-se quando ele lhe passou as mãos pelo peito. Resistiu à vontade de lhe esmagar o nariz com o cotovelo. Ele abriu a mala, olhou lá para dentro e devolveu-a. Ela já estava à espera disso e tinha vindo desarmada. Sentia-se nua sem uma arma, vulnerável. Da próxima vez, traria uma faca.
Ele conduziu-a pelo armazém. Homens de fato-macaco carregavam caixotes de mercadorias para meia dúzia de carrinhas. No fundo do armazém, havia caixas desde o chão até ao teto, em cima de paletes de madeira: café, cigarros, açúcar e também barris de gasolina. Havia uma frota de motas brilhantes, estacionadas numa fila arrumada. Era óbvio que Vernon Pope tinha um negócio próspero.
- Por aqui, 'morzinho - disse o homem. - A propósito, o meu nome é Dicky.
Conduziu-a até um elevador de carga, fechou as portas e premiu o botão. Catherine tirou um cigarro da mala e meteu-o entre os lábios.
- Desculpe, querida - disse Dicky e abanou um dedo no ar, de modo negativo. - O patrão detesta cigarros. Diz que um dia vamos descobrir que isso nos mata. Além disso, aqui há gasolina e munições suficientes para nos fazerem ir pelos ares até Glasgow.
- E isso é dizer pouco - disse Vernon Pope que se levantou do confortável sofá de pele e começou a andar pelo escritório. Não era simplesmente um escritório, era mais um pequeno apartamento, com uma sala de estar e uma cozinha apetrechada de aparelhos modernos. Havia um quarto atrás de um par de portas em teca preta. Estas abriram-se, por breves instantes, e Catherine vislumbrou uma loura sonolenta, impacientemente à espera que a reunião acabasse. Pope serviu-se de outro uísque. Era alto e bonito, de pele pálida, cabelos claros cheios de brilhantina e olhos cinzentos glaciais. O fato estava muito bem feito e era discreto; podia ser usado por um executivo de sucesso ou por alguém que já nascera rico.
- Já me viste bem isto, Robert? Aqui a Catherine quer que nós gastemos três dias a perseguir um oficial da marinha americana pelo West End.
Robert Pope permaneceu à margem, a andar de um lado para o outro como um lobo cinzento nervoso.
- Isso não é propriamente o nosso tipo de trabalho, minha querida Catherine - disse Vernon Pope. - Além disso, e se os rapazes das secretas ianque ou britânica descobrem o nosso joguinho? com a polícia de Londres, lido eu bem. com o MI5, é outra história.
Catherine tirou um cigarro.
- Importa-se?
- Se tiver mesmo de ser. Dicky, dá-lhe um cinzeiro. Catherine acendeu o cigarro e pôs-se a fumar em silêncio durante
um momento.
- Eu já vi o equipamento que tem lá em baixo, no armazém. Podia montar facilmente o tipo de operação de vigilância de que estou a falar.
- E por que raio é que havia uma enfermeira voluntária do Hospital St. Thomas de querer montar uma operação de vigilância a um oficial dos Aliados, pergunto-te eu, Robert?
Robert Pope sabia que não era para responder à pergunta. Vernon Pope dirigiu-se à janela com o copo na mão. As cortinas do blackout estavam levantadas, o que lhe permitia ver os barcos a trabalharem para cima e para baixo no rio.
- Veja o que os alemães fizeram a este sítio - disse por fim. Costumava ser o centro do mundo, o maior porto à face da terra. E agora, olhe para ele: o raio de um terreno baldio. As coisas nunca mais serão as mesmas por aqui. A Catherine não trabalha para os alemães, pois não?
- Claro que não - respondeu ela calmamente. - As razões que me levam a segui-lo são estritamente pessoais.
- Ótimo. Sou ladrão, mas, ainda assim, patriota. - Fez uma pausa e depois perguntou: - Então para que é que quer que o sigamos?
-- Estou a oferecer-lhe um trabalho, senhor Pope. Francamente, o porquê das minhas razões não lhe diz respeito.
Pope virou-se e encarou-a.
-- Muito bem, Catherine. Você tem coragem. Gosto disso. Além disso, seria uma tonta se me contasse.
As portas do quarto abriram-se e a loura saiu de lá, vestindo um roupão de seda de homem, com cornucópias. Estava frouxamente atado na cintura, revelando um bom par de pernas e pequenos seios arrebitados.
- Vivie, ainda não acabámos - disse Pope.
- Tenho sede - exclamou ela, olhando de soslaio para Catherine enquanto se servia de um gim tónico. - Vais demorar muito mais tempo, Vernon?
- Não muito. Negócios, querida. Volta para o quarto.
Vivie voltou para o quarto, com as ancas a balançarem por baixo do roupão. Olhou de novo para Catherine, por cima do ombro, antes de fechar a porta suavemente.
- Linda rapariga - disse Catherine. - É um homem de sorte. Vernon Pope riu baixinho e abanou a cabeça.
- Às vezes, gostava de poder passar a minha sorte a outro homem. Houve um longo silêncio enquanto Pope andava de um lado para
o outro da sala.
- Estou metido numa data de coisas duvidosas, Catherine, mas não estou a gostar disto. Não estou a gostar mesmo nada disto.
Catherine acendeu outro cigarro. Talvez tivesse cometido um erro ao contactar Vernon Pope com aquela proposta.
- Mas vou fazê-lo. A Catherine ajudou o meu irmão e eu fiz-lhe uma promessa. Sou um homem de palavra. - disse, fazendo uma pausa e olhando-a de cima a baixo. - Além do mais, há qualquer coisa em si de que eu gosto. Muito.
- Fico contente por podermos fazer negócio, senhor Pope.
- Mas vai sair-lhe caro, 'morzinho. Tenho muitas despesas gerais. Tenho de pagar salários. Este tipo de coisa vai ocupar grande parte dos meus recursos.
- Por isso é que vim ter consigo - retorquiu Catherine, tirando um envelope de dentro da mala. - O que lhe parecem duzentas libras? Cem agora e cem quando me der as informações. Quero o comandante Jordan a ser seguido durante setenta e duas horas. Vinte e quatro horas por dia. Quero um relato minuto a minuto dos movimentos dele. Quero saber onde é que ele come, com quem se encontra e de que falam. Quero saber se ele costuma encontrar-se com alguma mulher. Consegue tratar disso, senhor Pope?
- Claro.
- Otimo. Então, contacto-o no sábado.
- E como é que posso entrar em contacto consigo?
- Por acaso, não pode.
Catherine pôs o envelope em cima da mesa e levantou-se. Vernon Pope sorriu agradavelmente.
- Bem me parecia que ia dizer isso. Dicky, acompanha a Catherine até à saída. Arranja-lhe um saco de mercearia. Café, açúcar, talvez um pouco de carne enlatada, se o carregamento já tiver chegado. Coisas boas, Dicky.
- Tenho um mau pressentimento em relação a isto, Vernon disse Robert Pope. - Talvez devêssemos desistir disto.
Vernon Pope odiava ser contestado pelo irmão mais novo. Na sua opinião, era ele que tratava das decisões de negócios e Robert tratava do que exigia músculos.
- Não é nada que não possamos fazer. Mandaste segui-la?
- Dicky e os rapazes trataram disso assim que ela deixou o armazém.
- Otimo. Quero saber quem é essa mulher e o que pretende.
- Talvez pudéssemos virar o jogo a nosso favor. Poderíamos obter favores da polícia se lhes contássemos, em segredo, o que é que ela anda a tramar.
- Não vamos fazer nada disso. Está entendido?
- Talvez devesses pensar mais em negócios do que em molhar o pincel.
Vernon virou-se para ele e agarrou-o pelo pescoço.
- Aquilo que eu faço não é da porra da tua conta. Além do mais, é muito melhor do que aquilo que tu e o Dicky fazem.
Robert corou visivelmente.
- Porque estás a olhar para mim dessa maneira, Robert? Pensas que não sei o que se passa?
Vernon soltou-o.
- Agora, faz-te à estrada, que é esse o teu lugar, e certifica-te de que Dicky não a perde de vista.
Catherine apercebeu-se de que estava a ser seguida dois minutos depois de ter saído do armazém. Já estava à espera disso. Homens como Vernon Pope não se mantêm tanto tempo no negócio se não forem cautelosos e desconfiados. Mas a perseguição era feita de um modo desastrado e amador. Afinal, Dicky tinha sido quem a recebera, a revistara e a levara para dentro. Ela conhecia a cara dele. Foi estúpido da parte deles terem-no posto a segui-la. Despistá-lo seria fácil.
Desceu até uma estação de metro, fundindo-se na multidão do fim da tarde. Atravessou o túnel e emergiu do outro lado da rua. Um autocarro estava ali parado. Entrou e sentou-se ao lado de uma senhora idosa. Através da janela embaciada, observou Dicky a correr pelas escadas acima, com o pânico estampado na cara.
Sentiu um pouco de pena dele. O pobre Dicky não tinha hipóteses contra um profissional e Vernon Pope ia ficar furioso. Mas ela não ia correr riscos: uma corrida de táxi, mais dois ou três autocarros e uma volta pelo West End antes de regressar ao apartamento.
De momento, acomodou-se no assento e aproveitou a viagem.
O quarto estava escuro quando Vernon entrou e, silenciosamente, fechou as portas. Vivie pôs-se de joelhos aos pés da cama. Vernon beijou-a furiosamente. Estava a ser mais bruto do que habitualmente. Vivie achava que sabia porquê. Deslizou a mão por dentro da parte da frente das calças dele.
- Oh, meu Deus, Vernon. Isto é para mim ou para aquela cabra? Vernon abriu o roupão de seda e puxou-o para baixo, fazendo-o
deslizar pelos ombros dela.
- Um bocadinho as duas coisas, na verdade - disse ele e beijou-a de novo.
- Tu querias possuí-la logo ali, no escritório. Vi isso na tua cara.
- Sempre foste uma rapariguinha muito perspicaz. Ela beijou-o novamente.
- Quando é que ela volta?
- No final da semana.
- E como é que se chama?
- Chama-se Catherine.
- Catherine - disse Vivie. - Que nome tão bonito. Ela é linda.
- Pois é - disse Pope distraidamente.
- Em que tipo de negócio é que está metida?
Pope contou-lhe a conversa que tinham tido; não havia segredos entre eles.
- Soa-me a sarilho. Acho que poderíamos tentar exercer alguma pressão sobre ela.
- És uma rapariga muito esperta.
- Não, só muito marota.
- Vivie, eu consigo perceber quando a tua mente está a trabalhar de modo maquiavélico.
Ela riu-se de maneira perversa.
- Tenho três dias para imaginar todas as coisas maravilhosas que podemos fazer com aquela mulher quando ela voltar. Agora, tira as calças, para eu te ajudar a acalmar essa dor.
Vernon Pope fez o que lhe mandaram.
Um momento depois, alguém bateu ao de leve à porta. Robert Pope entrou, sem esperar pela resposta. Uma brecha de luz iluminou parcialmente o local. Vivie olhou para cima, desavergonhada, e sorriu. Vernon explodiu de raiva.
- Quantas vezes é que tenho de te dizer para não entrares quando a porta estiver fechada?
- É importante. Ela escapou-se.
- Raios! E como é que isso aconteceu?
- Dicky jura que num minuto ela estava lá e, no minuto seguinte, já não estava. Desapareceu pura e simplesmente.
- Pelo amor de Deus!
- Ninguém consegue fugir ao Dicky. Ela é obviamente uma profissional. Temos de ficar o mais longe possível dela.
Vivie sentiu uma facada de pânico.
- Sai daqui e fecha a porta, Robert.
Quando Robert saiu, Vivie lambeu Vernon de modo provocante.
- Não vais fazer o que aquele mariconcozinho te disse, pois não, Vernon?
- Claro que não.
- Otimo -? disse ela. - Ora, onde é que nós estávamos?
- Oh, meu Deus - gemeu Vernon.
DEZANOVE LONDRES
Na manhã seguinte, muito cedo, Robert Pope e Richard Dicky Dobbs tiveram a sua estreia involuntária no mundo da espionagem em tempo de guerra, com uma vigilância improvisada e apressada ao comandante Peter Jordan que teria feito os vigias do MI5 ficarem verdes de inveja.
Tudo começou antes da madrugada húmida e gelada, quando o par chegou à casa eduardiana de Jordan, em Kensington, numa carrinha com painéis preta, carregada com caixas de comida enlatada na parte de trás e exibindo na parte lateral o nome de uma mercearia do West End. Esperaram lá até perto das oito horas, com Pope a dormitar e Dicky a mascar nervosamente um pão doce mal cozido e a beber café de um copo de papel. Vernon Pope tinha-o ameaçado com lesões corporais graves por causa da perseguição falhada à mulher na noite anterior. Não iria perder Peter Jordan de vista por nada deste mundo. Dicky, considerado o melhor condutor do mundo do crime de Londres, tinha jurado secretamente perseguir Jordan pelos relvados do Green Park se fosse preciso.
Mas tais peripécias automobilísticas não seriam necessárias, pois, às 7h55, um carro militar americano apareceu à porta de casa de Jordan e tocou a buzina. A porta
da casa abriu-se e apareceu um homem de estatura e constituição medianas. Usava um uniforme da marinha americana, um boné branco e um sobretudo escuro. Trazia pendurada
na mão uma pasta em couro fino. Desapareceu na parte de trás do
carro e fechou a porta. Dicky estava tão intensamente concentrado em Jordan que se esqueceu de ligar o motor. Quando tentou fazê-lo, pegou uma vez e foi abaixo. Amaldiçoou-o, ameaçou-o e bajulou-o antes de tentar outra vez. Desta vez, a carrinha pegou ruidosamente e a vigilância silenciosa a Peter Jordan começou.
Grosvenor Square iria apresentar-lhes o primeiro desafio. Estava apinhada de táxis, viaturas de serviço e oficiais aliados a deslocarem-se apressadamente em várias direções. O carro de Jordan atravessou a praça, entrou numa rua secundária adjacente e parou diante de um pequeno edifício sem identificação. Permanecer na rua era impossível. Havia veículos estacionados de ambos os lados e apenas uma via para o trânsito. Um polícia militar americano de capacete branco rondava para cima e para baixo, balouçando preguiçosamente o bastão. Pope saltou do carro e caminhou pela rua, para trás e para a frente, enquanto Dicky andava em círculos. Dez minutos depois, Jordan saiu do edifício com uma pasta pesada algemada ao pulso.
Dicky apanhou Pope e voltou para Grosvenor Square, chegando a tempo de ver Jordan a entrar pela porta da frente do quartel-general do SHAEF. Encontrou um lugar para estacionar, em Grosvenor Street, com um campo de visão desimpedido, e desligou o motor. Poucos minutos depois, tiveram um vislumbre do general Eisenhower a exibir um dos seus famosos sorrisos antes de desaparecer pela entrada.
Mesmo que tivesse sido treinado pelo MI5, Pope não poderia ter executado melhor as ações seguintes. Concluiu que não podiam vigiar o edifício apenas com um posto estático; era um complexo enorme, com diferentes entradas e saídas. Servindo-se de um telefone público, ligou para o armazém e pediu a Vernon três homens. Quando chegaram, colocou um atrás do edifício, em Blackburn Street, outro em Upper Brook Street e o terceiro em Upper Grosvenor Street. Duas horas depois, Pope ligou outra vez para o armazém e pediu três caras novas - não era seguro para civis demorarem-se pelas instalações americanas. Se Vicary e Boothby tivessem podido ouvir essa conversa, teriam provavelmente rido da ironia, pois, como qualquer supervisor e qualquer agente de campo bons, Vernon e Robert discutiram azedamente por causa dos recursos. No entanto, o que estava
em jogo era diferente. Vernon precisava de um par de homens bons para irem buscar um carregamento de café roubado e para tratarem de um comerciante que se tinha atrasado nos pagamentos de proteção.
Trocaram de veículos ao meio-dia. A carrinha da mercearia foi substituída por uma carrinha idêntica, com o nome de um serviço de lavandaria fictício estampado na parte lateral. Foi preparada tão rapidamente que a palavra lavandaria estava escrita lavandria e os sacos de roupa brancos, empilhados na parte de trás, estavam cheios de jornais velhos amassados. Às duas horas, trouxeram-lhes um termos de chá e um saco com sanduíches. Uma hora mais tarde, tendo acabado de comer e de fumar alguns cigarros, Pope começou a ficar cada vez mais nervoso. Jordan encontrava-se lá dentro há quase sete horas. Estava a ficar tarde. Todos os lados do edifício se encontravam sob vigia. Mas se Jordan saísse já na escuridão do blackout, seria quase impossível vê-lo. Mas, às quatro horas, quando a luz já quase tinha desaparecido, Jordan deixou o edifício pela porta principal, em Grosvenor Square.
Repetiu o mesmo circuito da manhã, mas ao contrário. Atravessou a praça em direção ao edifício mais pequeno, com a mesma pasta pesada algemada ao pulso, e entrou. Apareceu uns momentos depois, trazendo a pequena pasta que tinha de manhã. A chuva tinha parado e Jordan decidira, aparentemente, que seria uma boa ideia dar um passeio. Dirigiu-se para oeste, depois virou para sul em direção a Park Lane. Segui-lo de carrinha era impossível. Pope saltou da carrinha e foi atrás de Jordan ao longo do passeio, mantendo-se a alguns metros de distância.
Era mais difícil do que Pope imaginava. O grande hotel Grosvenor House, em Park Lane, tinha sido tomado por americanos e transformado em alojamento para oficiais. Dezenas de pessoas atolavam o passeio. Pope aproximou-se de Jordan para ter a certeza de que não o perdia ou confundia com outro homem. Um polícia militar olhou para Pope quando ele atravessou por entre a multidão, atrás de Jordan. Em algumas ruas do West End, os ingleses davam tanto nas vistas como aconteceria em Topeka, rio Kansas. Pope ficou tenso. Depois apercebeu-se de que não estava a fazer nada de mal. Estava simplesmente a andar pela rua no seu próprio país. Descontraiu-se
e o polícia militar olhou noutra direção. Jordan passou pelo Grosvenor House. Pope seguia atrás dele com grande cautela.
Pope perdeu-o em Hyde Park Corner.
Jordan desapareceu na multidão de soldados e civis britânicos à espera para atravessar a rua. Quando o sinal mudou, Pope seguiu um oficial da marinha americana, mais ou menos da altura de Jordan, ao longo de Grosvenor Place. Depois, olhou para baixo e apercebeu-se de que o oficial não trazia nenhuma pasta. Parou e olhou para trás, esperando que Jordan ali estivesse. Tinha desaparecido.
Pope ouviu uma carrinha a buzinar na rua e olhou para cima. Era Dicky.
- Ele está em Knightsbridge - disse Dicky. - Entra.
Dicky executou uma inversão de marcha perfeita no meio do zumbido do trânsito noturno. Pope avistou Jordan um momento mais tarde e suspirou de alívio. Dicky encostou e Pope saltou para fora da carrinha. Determinado a não perder o homem outra vez, Pope aproximou-se, ficando a poucos metros dele.
O Vandyke Club era um clube para oficiais americanos em Kensington, proibido a civis britânicos. Jordan entrou. Pope caminhou um pouco mais, passando pela porta de entrada, e depois voltou para trás. Dicky tinha encostado junto ao passeio, do outro lado da rua. Pope, sem fôlego e gelado, entrou na carrinha e fechou a porta. Acendeu um cigarro e acabou o resto do chá do termos. A seguir, disse:
- Da próxima vez que o comandante Jordan decidir atravessar Londres inteira, sais tu do carro e vais com ele, Dicky.
Jordan saiu quarenta e cinco minutos depois.
Pope pensou: Por favor, meu Deus, mais uma marcha forçada, não.
Jordan aproximou-se do passeio e apanhou um táxi.
Dicky ligou a carrinha e meteu-se cuidadosamente no trânsito. Seguir o táxi era fácil. Dirigiu-se para leste, passando por Trafalgar Square e entrando na Strand; depois de percorrer uma pequena distância, virou à direita.
- Assim está melhor - disse Pope.
Observaram Jordan a pagar ao taxista e a entrar no Savoy Hotel.
A grande maioria dos civis britânicos sobreviveu à guerra consumindo quantidades de alimentos que não ultrapassavam o nível da subsistência, à volta de cem gramas de carne e queijo por semana uns decilitros de leite, um ovo se tivessem sorte, iguarias como pêssegos ou tomates enlatados muito de vez em quando. Ninguém passava fome, mas poucos engordavam. Mas havia outra Londres, uma Londres de restaurantes elegantes e hotéis sumptuosos, que asseguravam um fornecimento estável de carne, peixe, vegetais, vinho e café no mercado negro e depois cobravam preços exorbitantes aos clientes pelo privilégio de um jantar. O Savoy Hotel era um desses estabelecimentos.
O porteiro usava um sobretudo verde, debruado a prata, e uma cartola. Pope passou por ele apressadamente e entrou. Atravessou o vestíbulo do Savoy e entrou no salão. Havia homens de negócios ricos reclinados em poltronas confortáveis, lindas mulheres em vestidos de noite à moda daqueles tempos de guerra, dezenas de oficiais americanos e britânicos de uniforme, aristocratas rurais vestidos de tweed e chegados do campo para passarem uns dias na cidade. Enquanto seguia Jordan pelo meio da multidão,
Pope sentia uma reação confusa àquele cenário de opulência. Os ricos do West End levavam uma bela vida, ao passo que os desfavorecidos do East End andavam esfomeados
e eram os que mais sofriam com os bombardeamentos. No entanto, ele e o irmão tinham feito fortuna no mercado negro. Descartou a disparidade como uma consequência infeliz da guerra.
Pope seguiu Jordan até ao bar do Savoy Grill. Jordan estava sozinho no meio da multidão, tentando, em vão, chamar a atenção do empregado para pedir uma bebida. Pope estava a poucos passos dele. Conseguiu chamar a atenção do empregado e pediu um uísque. Quando se virou, Jordan já estava acompanhado por um oficial da marinha americana muito alto, de cara vermelha e sorriso bem-humorado. Pope aproximou-se mais para poder ouvir a conversa.
O homem alto disse:
- Hitler devia vir aqui e tentar conseguir uma bebida numa sexta-feira à noite. De certeza que iria reconsiderar a ideia de querer invadir este país.
- Queres tentar a sorte no Grosvenor House? - perguntou Jordan.
- No Willow Run? Estás doido? O chefe de cozinha francês despediu-se no outro dia. Pediram-lhe que preparasse as refeições com as rações
e e ele recusou-se.
- Parece que é o último homem com juízo em Londres.
- Também acho.
- E o que é preciso fazer para se conseguir uma bebida neste sítio?
- Normalmente isto resulta: dois martínis, por amor de Deus! O empregado do bar olhou para cima, sorriu e pegou numa garrafa de Beefeater.
- Como está, senhor Ramsey.
- Olá, William.
Pope memorizou esse pormenor. O amigo de Jordan chamava-se Ramsey.
- Essa foi boa, Shepherd. Pope pensou: Shepherd Ramsey.
- Ajuda mesmo ser um palmo mais alto do que toda a gente.
- Fizeste reserva? Esta noite, não conseguimos mesmo entrar no Grill sem reserva.
- Claro que fiz, meu velho. A propósito, por onde raio andaste? Tentei ligar-te a semana passada. Deixei o telefone da tua casa tocar e tocar: não houve resposta. Também telefonei para o teu gabinete. Disseram que não podias atender. Liguei outra vez no dia seguinte, a mesma história. Que raio andavas a fazer para não poderes atender o telefone durante dois dias?
- Não tens nada que ver com isso.
- Ah, ainda estás a trabalhar naquele teu projeto?
- Deixa lá isso, Shepherd, ou dou-te uma tareia aqui mesmo, neste bar.
- Só em sonhos, meu caro. Além disso, se fizeres uma cena aqui, onde raio é que iremos tomar a nossa bebida? Nenhum estabelecimento decente iria aceitar um tipo como tu.
- Bem visto.
- Então, quando me vais contar em que é que andas a trabalhar?
- Quando a guerra acabar.
- Tão importante, ha?
- Sim.
- Bem, pelo menos um de nós anda a fazer alguma coisa importante - atirou Shepherd Ramsey, acabando a bebida. - William, mais dois, por favor.
- Vamos embebedar-nos antes do jantar?
- Só quero que descontraias, mais nada.
- Isto é o máximo que consigo descontrair. O que estás a planear, Shepherd? Conheço esse tom de voz.
- Nada, Peter. Jesus, tem calma.
- Conta-me. Sabes que detesto surpresas.
- Convidei umas pessoas para se juntarem a nós esta noite.
- Pessoas?
- Raparigas, na verdade. Por acaso, acabaram de chegar.
Pope seguiu o olhar de Jordan até à entrada do bar. Estavam lá duas mulheres, ambas jovens, ambas muito atraentes. As mulheres avistaram Shepherd Ramsey e Jordan e juntaram-se-lhes no bar.
- Peter, apresento-te a Barbara, mas todos lhe chamam Baby.
- Isso é compreensível. Prazer em conhecer-te, Barbara. Barbara olhou para Shepherd.
- Céus, tinhas razão! Ele é um borracho - disse ela com uma pronúncia da classe operária de Londres. - Vamos comer no Grill?
- Sim. De facto, a nossa mesa deve estar pronta.
O maítre d'hôtel indicou-lhes a mesa. Não havia maneira de Pope ouvir a conversa deles a partir do bar. Precisava de estar sentado na mesa mais próxima. Olhando pela entrada da sala de jantar, Pope conseguiu ver que a mesa ao lado da deles estava vazia, mas tinha um pequeno aviso de reserva. Não há problema, pensou ele. Rapidamente, atravessou o bar e saiu para a rua. Dicky estava à espera dentro da carrinha. Pope fez-lhe sinal para entrar no hotel. Dicky saiu da carrinha e atravessou a rua.
- O que se passa, Robert?
- Vamos jantar. Preciso que faças a reserva.
Pope mandou Dicky falar com o maítre d'hótel Da primeira vez que Dicky pediu uma mesa, o maítre d'hôtel abanou a cabeça, franziu
a testa e abanou as mãos a mostrar que não havia mesas. Foi então que Dicky se baixou e lhe sussurrou qualquer coisa ao ouvido que o fez ficar branco e começar a tremer. Momentos depois, estavam a sentá-los na mesa ao lado da de Peter Jordan e Shepherd Ramsey.
- O que lhe disseste, Dicky?
- Disse-lhe que se ele não nos desse esta mesa, eu lhe arrancava a maçã de Adão e a atirava para dentro daquela frigideira flamejante.
- Bem, o cliente tem sempre razão. É o que eu digo. Abriram as ementas.
- Vais começar pelo salmão fumado ou pelo patê defoiegras? perguntou Pope.
- Pelos dois, acho eu. Estou esfomeado. Não te parece que eles sirvam salsichas e puré, pois não, Robert?
- Nem pensar nisso. Experimenta o coq au vin. E agora cala-te para eu ouvir o que estes ianques estão a dizer.
Foi Dicky que os seguiu depois do jantar. Observou-os a enfiarem as duas mulheres dentro de um táxi e a começarem a andar pela Strand.
- Podias ao menos ter sido educado - disse Shepherd Ramsey.
- Desculpa, Shepherd. Não tínhamos muito que dizer um ao outro.
- E o que há para dizer? Tomas umas bebidas, ris-te um pouco, leva-la para casa e passas uma ótima noite na cama. Sem perguntas.
- Tive dificuldade em ultrapassar o facto de ela estar sempre a usar a faca para verificar o batom.
- Sabes o que ela te podia ter feito com aqueles lábios? E reparaste bem no que ela trazia por baixo do vestido? Meu Deus, Peter, aquela rapariga tem uma das piores reputações aqui em Londres.
- Peço desculpa se te desapontei, Shepherd, mas não estava interessado.
- Bem, e quando é que vais voltar a estar interessado?
- De que estás a falar?
- Há seis meses prometeste que ias começar a sair.
- Eu gostava de conhecer uma mulher adulta inteligente e interessante, mas não preciso que andes por aí à procura - lançou Jordan, acendendo um cigarro e abanando o fósforo furiosamente. - Ouve, Shep, desculpa. Mas é que...
- Não, tu tens razão. Não tenho nada que ver com isso. É só que a minha mãe morreu quando o meu pai tinha quarenta anos. Ele nunca voltou a casar. E o resultado disso foi que morreu sozinho e amargurado. Não quero que te aconteça a mesma coisa.
- Obrigado, Shepherd, não vai acontecer.
- Nunca vais encontrar outra mulher como Margaret.
- Diz-me algo que eu não saiba.
Jordan fez sinal a um táxi para parar e entrou.
- Posso dar-te boleia?
- Na verdade, já tenho um compromisso.
- Shepherd.
- Ela vai encontrar-se comigo no meu quarto daqui a meia hora. Não consegui resistir. Perdoa-me, mas a carne é fraca.
- Mais do que a carne. Diverte-te, Shep.
O táxi arrancou. Dicky afastou-se e procurou a carrinha. Passados uns segundos, Pope encostou ao passeio e Dicky entrou. Seguiram o táxi de regresso a Kensington, viram Peter Jordan entrar em casa e ficaram ali parados durante meia hora, à espera que o turno da noite chegasse.
VINTE LONDRES
Tinha sido a incapacidade de Alfred Vicary para reparar uma mota que o levara a ficar com o seu joelho estilhaçado. Aconteceu num dia glorioso de outono, no norte
da França e sem sombra de dúvida que foi o pior dia da sua vida.
Vicary tinha acabado uma reunião com um espião que penetrara nas linhas inimigas, num setor onde os britânicos planeavam atacar na madrugada do dia seguinte. O espião
tinha descoberto um enorme acampamento de soldados alemães. O ataque, se acontecesse como planeado, encontraria grande resistência. O espião deu a Vicary um bilhete escrito à mão sobre a força das tropas alemãs e o número de peças de artilharia que tinha visto. Também lhe deu um mapa que mostrava exatamente onde é que estavam acampados. Vicary guardou-os no seu alforge de couro e voltou para o quartel-general.
Vicary sabia que levava informações de importância vital, estavam vidas em jogo. Acelerou a fundo e seguiu perigosamente depressa pelo trilho estreito. Arvores grandes alinhavam-se de ambos os lados do caminho, com um dossel de ramos por cima da sua cabeça e a luz do Sol nas folhas de outono a criar um túnel cintilante de fogo. O caminho subia e descia, ritmicamente, por baixo dele. Por várias vezes, sentiu a vertigem emocionante provocada pela sua mota Rjídge a pairar no ar durante um segundo ou dois.
O chocalhar do motor começou a dezasseis quilómetros do quartel-general. Vicary abrandou. No quilómetro seguinte, o chocalhar
progrediu para um ruído alto. Mais um quilómetro e ouviu um barulho de metal a partir, seguido de um grande estrondo. O motor perdeu a força repentinamente e parou.
Sem o roncar da mota, o silêncio era opressivo. Inclinou-se e olhou para o motor. O metal oleado e quente e os cabos retorcidos não lhe diziam nada. Lembrava-se de ter pontapeado a mota e de ter pensado se a deixava ali na berma ou se a arrastava até ao quartel-general. Vicary agarrou-a pelo guiador e começou a empurrá-la num ritmo acelerado.
A luz da tarde diminuiu até se transformar num crepúsculo de um rosa frágil. Ainda estava a quilómetros do quartel-general. Se tivesse sorte, talvez encontrasse alguém do seu lado que lhe desse boleia. Se tivesse azar, podia encontrar-se cara a cara com uma patrulha de batedores alemães.
Quando o último raio de luz se extinguiu, começaram os disparos de artilharia. Os primeiros projéteis não causaram mossa, aterrando inofensivamente num campo. Os projéteis seguintes voaram por cima da cabeça de Vicary e bateram numa encosta. A terceira saraivada aterrou no trilho mesmo à frente dele.
Vicary nem se apercebeu do projétil que o feriu.
Quando recuperou a consciência às primeiras horas da noite, estava caído, a congelar, numa vala. Olhou para baixo e quase desmaiou quando viu o joelho, uma confusão
de ossos estilhaçados e sangue. Obrigou-se a rastejar para fora da vala e voltou para o trilho. Encontrou a mota e desmaiou ao lado dela.
Vicary acordou, na manhã seguinte, num hospital de campanha. Apercebeu-se de que o ataque tinha ido para a frente porque o hospital estava sobrelotado. Ficou deitado
na cama o dia inteiro, com a cabeça atordoada numa neblina sonolenta causada pela morfina, a ouvir os gemidos dos feridos. Ao cair da noite, o rapaz da cama ao lado
morreu. Vicary fechou os olhos para tentar calar o som do estertor da morte, mas não conseguiu.
Brendan Evans - o amigo de Cambridge que tinha ajudado Vicary a entrar para o Corpo dos Serviços Secretos - veio vê-lo na manhã seguinte. A guerra tinha-o mudado.
O seu ar de menino bonito desaparecera. Parecia um homem endurecido e algo cruel. Brendan puxou de uma cadeira e sentou-se ao lado da cama.
- A culpa é toda minha - disse Vicary. - Eu sabia que os alemães estavam à espera. Mas a minha mota avariou-se e eu não consegui arranjar aquela porcaria. E depois começaram os disparos de artilharia.
- Eu sei. Encontraram os papéis no teu alforge. Ninguém te ; culpa. Foi apenas o raio de um grande azar, só isso. Em qualquer caso, provavelmente não podias ter feito nada para reparar a mota.
Às vezes, Vicary ainda ouvia os gritos dos moribundos durante : o sono, mesmo agora, quase trinta anos depois. Nos últimos dias, os
sonhos tinham dado uma reviravolta, sonhava que tinha sido Basil Boothby a sabotar-lhe a mota.
Já leu alguma ve o dossiê de Vogel?
Não.
Mentiroso. Um perfeito mentiroso.
Vicary tentou abster-se das comparações inevitáveis entre o antes e o depois, mas era impossível. Não acreditava no destino, mas algo ou alguém lhe tinha dado uma
segunda oportunidade, uma oportunidade para se redimir do falhanço daquele dia de outono em 1916.
Vicary pensou que a festa no pub do outro lado da rua, em frente do quartel-general do MI5, o ajudasse a tirar o caso da cabeça. Mas não ajudou. Permaneceu à margem,
a pensar na França, contemplando a cerveja, a observar, enquanto outros oficiais namoriscavam as bonitas datilógrafas. Nicholas Jago estava a portar-se muito bem ao piano.
Foi sacudido do seu transe quando uma das rainhas da divisão dos Registos começou a cantar "I'll Be Seeing You". Era uma loura atraente, de lábios carmesim, chamada Grace Clarendon. Vicary sabia que ela e Harry tinham tido um caso bastante público no início da guerra. Vicary compreendia bem a atração. Grace era resplandecente, espirituosa e mais inteligente do que o resto das raparigas da divisão dos Registos. Mas também era casada e Vicary não aprovava. Não dizia a Harry o que achava; não era da sua conta. Pensou: Além disso, quem sou eu para me pôr com sermões em questões do coração? Suspeitava que tinha sido Grace que tinha dado a Harry as informações sobre Boothby e o dossiê Vogel.
Harry entrou no pub, embrulhado no sobretudo. Piscou o olho a Grace e, a seguir, dirigiu-se a Vicary e disse-lhe:
- Vamos voltar para o gabinete. Temos de falar.
- Ela chamava-se Beatrice Pymm. Vivia sozinha num chalé nos arredores de Ipswich - começou a dizer Harry enquanto subiam as escadas até ao gabinete de Vicary e depois de ter passado várias horas em Ipswich de manhã, a pesquisar o passado de Beatrice Pymm. Sem amigos, nem família. A mãe morreu em 1936. Deixou-lhe o chalé e uma soma razoável de dinheiro. Não tinha emprego. Não tinha namorados, nem amantes, nem sequer um gato. A única coisa que fazia era pintar.
- Pintar? - perguntou Vicary.
- Sim, pintar. As pessoas com quem falei disseram que ela pintava quase todos os dias. Saía de casa de manhã cedo, ia para o campo em redor e passava o dia todo a pintar. Um detetive da Polícia de Ipswich mostrou-me uns quantos quadros dela, paisagens. Muito bons, por acaso.
Vicary franziu a testa.
- Não sabia que tinha olho para a arte, Harry.
- Pensa que os rapazes de Battersea não sabem apreciar as coisas finas? Pois sempre lhe digo que a minha santa mãezinha me arrastava regularmente para a National Gallery.
- Peço desculpa, Harry. Por favor, continue.
- Beatrice não tinha carro. Ou ia de bicicleta, ou a pé, ou apanhava um autocarro. Costumava pintar durante horas, especialmente no verão, quando a luz era boa e perdia o último autocarro para casa. Os vizinhos viam-na chegar ao chalé a pé, já tarde, carregando o material de pintura. Dizem que passava a noite em sítios horríveis, só para apanhar o nascer do Sol.
- E o que é que eles acham que lhe aconteceu?
- A versão oficial da história: afogamento acidental. As coisas dela foram encontradas nas margens do Orwell, incluindo uma garrafa de vinho vazia. A polícia acha que ela bebeu demasiado, perdeu o equilíbrio, escorregou para dentro de água e se afogou. Não encontraram o corpo. Investigaram durante algum tempo, mas não conseguiram encontrar nenhuma prova que sustentasse outra teoria. Declararam a morte por afogamento acidental e fecharam o caso.
- Parece-me uma história muito plausível.
- Claro, pode ter acontecido dessa maneira. Mas duvido. Beatrice Pymm estava bastante familiarizada com aquela zona. Porque é que, nesse dia em particular, teria bebido demais e caído ao rio?
- E qual é a teoria número dois?
- A teoria número dois é a seguinte: ela foi apanhada pela nossa espia, ao entardecer, esfaqueada no coração e o corpo foi enfiado numa carrinha. As coisas dela foram deixadas na margem do rio para que parecesse um afogamento acidental. Na realidade, a
espiã atravessou parte do país com o corpo, mutilou-o e enterrou-o à
saída de Whitchurch.
Chegaram ao escritório de Vicary e sentaram-se. Vicary à secretária e Harry à frente dele. Harry recostou-se na cadeira e pôs os pés em cima da secretária.
- Isso são tudo suposições ou tem alguns factos que corroborem esta sua teoria?
- Metade uma coisa e metade a outra, mas tudo isto bate com a sua suspeita de que Beatrice Pymm foi assassinada com o objetivo de esconder a entrada da espia no país.
- Sou todo ouvidos.
- vou começar pelo cadáver. O corpo foi descoberto em agosto de 1939. Falei com o patologista do Ministério do Interior que o examinou. A julgar pela decomposição, calculou que tivesse estado enterrado durante seis a nove meses. Isso, já agora, é consistente com o assassinato de Beatrice Pymm. Os ossos da cara foram quase todos estilhaçados. Não havia dentes para comparar registos dentários. Não se podiam tirar impressões digitais porque as mãos estavam demasiado decompostas. Ele não conseguiu determinar a causa de morte. Mas encontrou uma pista interessante, um corte na parte inferior das costelas do lado esquerdo. Aquele corte era consistente com a hipótese de esfaqueamento no peito.
- E o Harry diz que a assassina pode ter usado uma carrinha? Que prova é que tem?
- Perguntei à polícia local se havia relatórios de crimes ou distúrbios em Whitchurch na noite em que Beatrice Pymm foi assassinada. Por coincidência, uma carrinha
foi abandonada e deliberadamente queimada nos arredores de uma aldeia chamada Alderton. Verificaram a matrícula da carrinha.
- Roubada em Londres dois dias antes. Vicary levantou-se e começou a passarinhar.
- Então, a nossa espiã está no meio de nenhures, com uma carrinha em chamas na berma da estrada. E para onde é que ela vai a seguir? O que é que ela faz?
- Vamos partir do princípio de que ela volta para Londres. Manda parar um dos carros ou camiões que passam e pede boleia. Ou talvez caminhe até à estação mais próxima
e apanhe o primeiro comboio para Londres.
- Demasiado arriscado - afirmou Vicary. - Uma mulher sozinha, no meio do campo a altas horas da noite, seria bastante invulgar. E é novembro, por isso, também está frio. Podia ser avistada pela polícia. O homicídio de Beatrice Pymm foi perfeitamente planeado e executado. A assassina não iria deixar ao acaso a sua própria fuga.
- E que tal uma mota na parte de trás da carrinha?
- Boa ideia. Verifique e veja se houve alguma mota roubada nessa altura.
- Ela conduz até Londres e livra-se da mota.
- Correto - concordou Vicary. - E quando a guerra rebenta, não procuramos uma holandesa chamada Christa Kunst porque julgamos erradamente que ela está morta.
- Um plano inteligente como o raio!
- Mais implacável do que inteligente. Veja bem, matar uma civil britânica inocente para esconder uma espiã. Ela não é uma espiã qualquer e Kurt Vogel não é um agente
de controlo qualquer. Estou convencido disso.
Vicary fez uma pausa para acender um cigarro.
- A fotografia levou a alguma pista?
- Nada.
- Acho que isso mata a nossa investigação por completo.
- Receio bem que tenha razão. vou fazer mais uns telefonemas agora à noite.
Vicary abanou a cabeça e disse:
- Tire o resto da noite. Vá lá para baixo, para a festa. - Depois acrescentou: - Passe algum tempo com a Grace.
Harry levantou os olhos.
- Como é que sabe?
- Este lugar está cheio de agentes dos serviços secretos, caso não tenha reparado. As coisas vão-se sabendo, as pessoas falam. Além do mais, vocês os dois não foram exatamente discretos. O Harry costumava deixar o número de telefone de casa de Grace à telefonista, caso eu andasse à sua procura.
Harry corou.
- Vá ter com ela, Harry. Ela sente a sua falta. Qualquer parvo vê isso.
; - Também sinto a falta dela. Mas ela é casada. Acabei tudo por-
que me sentia completamente reles.
- O Harry fá-la feliz e ela também o faz feliz. Quando o marido dela regressar a casa, se o marido dela regressar a casa, as coisas voltam ao normal.
- E como é que eu fico?
- Isso é consigo.
- Fico com o coração despedaçado, é como eu fico. Sou doido pela Grace.
- Então vá ter com a Grace e aproveite a companhia dela.
- Há outra coisa.
Harry contou-lhe o outro aspeto da culpa que sentia por causa do caso com Grace - o facto de estar em Londres a andar atrás de espiões enquanto o marido de Grace e outros homens arriscavam a vida nas forças armadas.
- Eu nem sei o que faria debaixo de fogo, como é que reagiria. Se seria um herói ou um cobarde. Também não sei se ando a contribuir para alguma coisa estando aqui. Consigo apontar cem nomes de outros detetives que são capazes de fazer o mesmo que eu. Às vezes, penso em entregar a Boothby a minha demissão e alistar-me.
- Não seja ridículo, Harry. Quando faz bem o seu trabalho, está a salvar vidas no campo de batalha. A invasão da França vai ser ganha ou perdida antes de o primeiro soldado chegar a pôr um pé numa praia francesa. Milhares de vidas dependem daquilo que o Harry faz. Se acha que não anda a fazer a sua parte, pense nisso
nestes termos. Além disso, preciso de si agora. É o único em quem posso confiar por aqui.
Por um momento, permaneceram sentados num silêncio estranho e embaraçoso, como os ingleses são propensos a fazer depois de partilharem pensamentos privados. Harry levantou-se, dirigiu-se para a porta e, a seguir, parou e voltou-se.
- Então e o Alfred? Porque não há ninguém na sua vida? Porque não desce até à festa e arranja uma mulher simpática com quem passar algum tempo?
Vicary bateu nos bolsos do peito à procura dos óculos em meia-lua e pô-los na cara.
- Boa noite, Harry - disse ele, com um pouco de firmeza a mais enquanto folheava uma pilha de papéis que tinha diante de si, na secretária. - Divirta-se na festa. Vejo-o amanhã de manhã.
Quando Harry saiu, Vicary pegou no telefone e marcou o número de Boothby. Ficou surpreendido por Boothby atender o próprio telefone. Quando Vicary lhe perguntou se não estava ocupado, Sir Basil quis saber se poderia ficar para segunda-feira de manhã. Vicary respondeu que era importante. Sir Basil concedeu-lhe uma audiência de cinco minutos e disse-lhe para subir imediatamente.
- Preparei este memorando para o general Eisenhower, o general Betts e o primeiro-ministro - disse Vicary quando terminou de informar Boothby das descobertas que Harry tinha feito nesse dia.
Entregou-o a Boothby, que permaneceu de pé com os pés ligeiramente afastados, como que para se equilibrar. Estava com pressa para se ir embora para o campo. A secretária tinha-lhe preparado uma pasta segura com material para ler no fim de semana e uma pequena mala em pele com objetos pessoais. Tinha um sobretudo sobre os ombros, com as mangas a abanarem dos lados.
- Na minha opinião, mantermo-nos calados sobre isto por muito mais tempo seria negligência, Sir Basil.
Boothby ainda estava a ler. Vicary sabia isso porque os lábios dele mexiam-se. Semicerrava tanto os olhos que estes tinham desaparecido
sob as sobrancelhas exuberantes. Sir. Basil gostava de fingir que continuava a ter uma visão perfeita e recusava-se a usar óculos à frente dos seus subordinados.
- Pensava que já tínhamos discutido isto, Alfred - disse Boothby, abanando a folha de papel no ar.
Um problema já discutido nunca deverá reaparecer, essa era uma das muitas máximas pessoais e profissionais de Sir Basil. Ficava irritado quando os subordinados levantavam questões já tratadas. A deliberação cuidadosa e as críticas posteriores eram características das mentes mais fracas. Sir Basil apreciava a capacidade de decisão rápida acima de tudo. Vicary passou o olhar pela secretária de Sir Basil. Estava limpa, reluzente e sem quaisquer papéis ou dossiês, um monumento ao estilo de gestão de Boothby.
-Já discutimos isto uma vez, Sir Basil - disse Vicary pacientemente -, mas a situação mudou. Parece que eles conseguiram introduzir um agente no país e esse agente encontrou-se com outro que já cá estava. Parece que a operação, qualquer que ela seja, está em curso. Guardarmos estas informações em vez de as transmitirmos é correr um grande risco.
- Disparates - atirou Boothby.
- Disparates, porquê?
- Porque este departamento não vai informar oficialmente os americanos e o primeiro-ministro de que é incapaz de desempenhar as suas funções. De que é incapaz de controlar a ameaça colocada por espiões alemães aos preparativos para a invasão.
- Isso não é uma razão válida para ocultar estas informações.
- É uma razão válida, sim, Alfred. Se eu digo que é, é porque é.
As conversas com Boothby assumiam normalmente as características de um gato a perseguir a própria cauda: contradições superficiais, bluffs e manobras de diversão, disputas para ver quem marcava mais pontos. Vicary juntou as mãos por baixo do queixo, circunspectamente, e fingiu que estudava o padrão do dispendioso tapete de Boothby. A sala estava em silêncio, à exceção do ruído das tábuas a rangerem sob o corpo musculoso de Sir Basil.
- Está disposto a enviar o meu memorando ao diretor-geral? perguntou Vicary num tom de voz o menos ameaçador possível.
- De forma nenhuma.
- Então, eu próprio estou disposto a ir falar diretamente com o diretor-geral.
Boothby inclinou-se e pôs a cara junto à de Vicary. Vicary, sentado no sofá fundo de Boothby, conseguiu sentir o cheiro do gim e dos cigarros no hálito dele.
- E eu estou preparado para o esmagar, Alfred.
- Sir Basil...
- Deixe que lhe recorde como o sistema funciona. O Alfred informa-me a mim e eu informo o diretor-geral. Já me informou e eu decidi que seria inapropriado passar esta mensagem ao diretor-geral nesta altura.
- Há ainda outra opção.
Boothby atirou a cabeça para trás como se tivesse sido esmurrado. Recuperou rapidamente a compostura e cerrou o maxilar numa carranca.
- Eu não respondo perante o primeiro-ministro, nem estou às ordens dele. Mas se o Alfred passar por cima do departamento e falar diretamente com Churchill, eu entrego-o a uma comissão de inquérito. Quando a comissão acabar de tratar de si, vão precisar dos registos dentários para identificarem o seu corpo.
- Isso é completamente injusto.
- É? Desde que tomou conta deste caso, tem sido um desastre atrás do outro. Meu Deus, Alfred, mais uns quantos espiões alemães a andarem à solta pelo país fora e já podem formar um clube de râguebi.
Vicary recusou-se a morder o isco.
- Se não vai apresentar o relatório ao diretor-geral, quero que o registo oficial deste caso contenha o facto de eu ter feito esta sugestão nesta altura e de o senhor a ter recusado.
Os cantos da boca de Boothby levantaram-se num sorriso lacónico. Proteger a própria pele era uma coisa que ele compreendia e apreciava.
- Já está a pensar no seu lugar na História, é, Alfred?
- O senhor é um completo filho da mãe, Sir Basil. E um incompetente também.
- Está a dirigir-se a um oficial superior, major Vicary!
- Acredite que eu percebi a ironia.
Boothby agarrou na pasta e na mala em pele e, a seguir, olhou para Vicary e disse-lhe:
- Tem muita coisa para aprender.
- Suponho que possa aprender consigo.
- E que raio quer isso dizer? Vicary levantou-se.
- Quer dizer que o senhor devia começar a pensar mais na segurança deste país e menos na sua promoção pessoal através de Whitehall.
Boothby sorriu descontraidamente, como se estivesse a tentar seduzir uma mulher mais nova.
- Mas, meu caro Alfred - disse ele -, eu sempre considerei que as duas coisas estão perfeitamente interligadas.
VINTE E UM
LESTE DE LONDRES
Na noite seguinte, Catherine Blake tinha uma faca de ponta e mola escondida na mala quando se apressou pelo passeio em direção ao armazém dos Pope. Exigira um encontro
a sós com Vernon Pope e, quando chegou ao armazém, não viu sinal dos homens dele. Parou junto ao portão e rodou o trinco. Estava destrancado, como Pope tinha dito que estaria. Abriu-o e entrou.
O armazém era um sítio cheio de sombras, a única iluminação vinha de um candeeiro pendurado num canto da divisão. Catherine encaminhou-se em direção à luz e encontrou o monta-cargas. Entrou, fechou a porta e carregou no botão. O elevador rugiu e depois subiu aos estremeções para o escritório de Pope.
O elevador parou num pequeno patamar com um par de portas pretas duplas. Catherine bateu e ouviu a voz de Pope do outro lado a dizer-lhe para entrar. Ele estava de pé, junto a um carrinho de bebidas, com uma garrafa de champanhe numa mão e um par de copos na outra. Estendeu um a Catherine quando ela atravessou a sala.
- Não, obrigada - disse ela. - vou só ficar um minuto.
- Eu insisto - respondeu ele. - As coisas ficaram um pouco tensas da última vez que estivemos juntos. Quero compensá-la.
- Foi por isso que me mandou seguir? - perguntou ela, aceitando o champanhe.
- Eu mando seguir toda a gente, querida. É por isso que ainda ando neste negócio. Os meus rapazes são bons nisso, como irá ver quando ler o relatório.
Estendeu um envelope na direção de Catherine e depois puxou-o para trás quando ela tentou agarrá-lo.
- Foi por isso que fiquei tão surpreendido quando conseguiu enganar o Dicky. Foi muito ardilosa: enfiar-se no metropolitano e depois saltar para dentro de um autocarro.
- Mudei de ideias - respondeu ela.
Bebeu um pouco do champanhe. Estava gelado e era excelente. Pope estendeu o envelope novamente e, desta vez, permitiu que Catherine o agarrasse. Ela pousou o copo
e abriu-o.
Era exatamente o que ela precisava, um relatório minuto a minuto
dos movimentos de Peter Jordan por Londres: onde trabalhava, os horários dele, os sítios onde comia e bebia, até o nome do amigo.
Enquanto ela acabava de ler, Pope tirou o champanhe do balde de gê o e encheu o copo dele outra vez. Catherine tirou o dinheiro da mala e pousou-o na mesa.
- Aqui está o resto - disse ela. - Acho que isto encerra o nosso assunto. Muito obrigada.
Estava a guardar o relatório sobre Peter Jordan na mala quando Pope se aproximou e lha tirou.
- Por acaso, minha querida Catherine, o nosso assunto ainda agora começou.
- Se é mais dinheiro que quer...
- Oh, eu quero mais dinheiro. E se não quer que eu ligue para a policia, vai dar-mo - atirou ele, dando mais um passo na direção de Catherine, apertando o corpo contra o dela e acariciando-lhe os seios. - Mas há mais uma coisa que quero de si.
As portas do quarto abriram-se revelando Vivie vestida apenas com uma camisa de Vernon, desabotoada até à cintura.
- Vivie, apresento-te a Catherine - disse Pope. - A encantadora Catherine concordou em passar cá a noite.
Não a tinham preparado para ocasiões como esta na escola para espiões da Abwehr, em Berlim. Ensinaram-na a contar tropas, a avaliar um exército, a usar o rádio, a reconhecer as insígnias das unidades e as caras dos oficiais superiores. Mas nunca a ensinaram a lidar
com um gangster londrino e a sua namorada pervertida, que tinham planeado passar a noite a fazer turnos com o corpo dela. Tinha a sensação de estar encurralada numa estúpida fantasia adolescente. Pensou: Isto não pode estar mesmo a acontecer. Mas estava a acontecer e Catherine não conseguia pensar em nada que tivesse aprendido no seu treino que a conseguisse tirar dali.
Vernon Pope conduziu-a pelas portas até ao quarto. Empurrou-a para o fundo da cama e sentou-se numa cadeira num dos cantos do quarto. Vivie pôs-se em pé à frente dela e desabotoou os últimos botões da camisa. Tinha seios pequenos e arrebitados e uma pele pálida que brilhava à luz opaca do quarto. Puxou a cabeça de Catherine até aos seios. Catherine alinhou no jogo depravado, levando o mamilo de Vivie à boca, enquanto pensava na melhor maneira de os matar aos dois.
Catherine sabia que, se se submetesse à chantagem, esta nunca mais acabaria. Os seus recursos financeiros não eram ilimitados. Vernon Pope conseguiria extorquir-lhe o dinheiro até ao último tostão muito rapidamente. E sem dinheiro ela seria inútil para eles. Decidiu que havia poucos riscos envolvidos; tinha-se dado ao cuidado de não deixar nenhum rasto visível. Pope e os homens dele não sabiam onde encontrá-la. Apenas sabiam que ela trabalhava como enfermeira voluntária no Hospital St. Thomas e lá Catherine tinha dado uma morada falsa. E também não teriam coragem de ir à polícia. A polícia iria fazer perguntas; e se respondessem com a verdade, teriam de admitir que tinham seguido um oficial da marinha americana por dinheiro.
Tudo isso implicava matar Vernon Pope o mais rápida e silenciosamente que lhe fosse possível.
Catherine levou o outro seio de Vivie à boca e chupou o mamilo até ele ficar duro. Vivie deixou cair a cabeça para trás e gemeu. Pegou na mão de Catherine e guiou-a pelo meio das pernas. Já estava quente e húmida. Catherine tinha-se desligado de qualquer emoção. Estava apenas a executar mecanicamente os movimentos para dar prazer físico àquela mulher. Não sentia medo nem repulsa, simplesmente tentava manter-se calma e pensar claramente. A pélvis de Vivie começou a mover-se contra os dedos de Catherine e, um momento depois, o corpo dela estremeceu com um orgasmo.
Vivie empurrou Catherine para a cama, montou em cima das ancas dela e começou a desabotoar-lhe os botões da camisola. Tirou-lhe o sutiã e massajou-lhe os seios.
Catherine viu Vernon levantar-se da cadeira e começar a despir-se. Foi a primeira vez que se sentiu nervosa. Não o queria em cima dela nem dentro dela. Ele era muito
capaz de ser um amante cruel e sádico. Podia magoá-la. De costas, com as pernas abertas, estaria vulnerável. Estaria também sujeita ao seu peso e força superiores.
Todas as técnicas de luta que tinha aprendido na escola da Abwehr dependiam da velocidade e da liberdade de movimentos. Se ela se visse presa por baixo do corpo
pesado de Vernon Pope, ficaria indefesa.
Catherine tinha de fazer o jogo deles. Melhor ainda: tinha de ser ela a controlá-lo.
Levantou os braços e agarrou nos seios de Vivie com as mãos e acariciou-lhe os mamilos. Conseguia ver Vernon a observá-las. Estava a comê-las com os olhos, a deleitar-se com a visão das duas mulheres a acariciarem-se uma à outra. Catherine puxou Vivie para ela e guiou-lhe a boca para os seios. Catherine pensou em como seria fácil agarrar-lhe na cabeça e torcer-lha até que o pescoço se partisse, mas seria um erro. Precisava de matar Pope primeiro. Depois disso, Vivie seria fácil.
Pope dirigiu-se para a cama e empurrou Vivie para o lado.
Antes que Vernon conseguisse deitar-se em cima dela, Catherine sentou-se e beijou-o. Pôs-se de pé enquanto a língua dele se agitava selvaticamente dentro da boca dela. Lutou contra a vontade de vomitar. Por instantes, considerou a possibilidade de permitir que ele fizesse amor com ela e matá-lo depois, quando estivesse sonolento e satisfeito. Mas ela não queria que aquilo se prolongasse mais do que o estritamente necessário.
Afagou-lhe o pénis. Ele gemeu e beijou-a com mais força.
Naquele momento, ele estava indefeso. Virou-o para que ficasse de costas para a cama.
Foi então que lhe deu uma joelhada violenta e maldosa nas virilhas.
Pope contorceu-se todo, tentando respirar, com as mãos entre as coxas. Vivie gritou.
Catherine girou e acertou com o cotovelo na cana do nariz dele. Conseguiu ouvir o som do osso e da cartilagem a partirem-se. Pope caiu no chão, aos pés da cama, com o sangue a jorrar-lhe das narinas. Vivie estava ajoelhada na cama, a gritar. Já não era uma ameaça para Catherine.
Virou-se e dirigiu-se rapidamente para a porta. Pope, ainda no chão, estendeu a perna.
Bateu violentamente no tornozelo direito de Catherine, fazendo com que ela tropeçasse nas próprias pernas. Catherine caiu no chão, com a forte queda a deixá-la sem fôlego. Viu estrelas, por momentos, e vieram-lhe as lágrimas aos olhos. Teve medo de perder os sentidos.
com grande esforço, conseguiu pôr-se de gatas e estava quase a levantar-se quando Pope lhe agarrou o tornozelo, apertando-o como um torno, e começou a arrastá-la para ele. Catherine rolou rapidamente para o lado e atirou com o salto do sapato ao nariz partido dele.
Pope gritou, cheio de dores, mas parecia que o aperto em volta do tornozelo dela ainda se tinha tornado mais forte.
Ela pontapeou-o uma segunda vez e depois uma terceira.
Finalmente, ele soltou-a.
Catherine pôs-se de pé e correu para o sofá onde Pope a fizera largar a mala. Abriu-a e a seguir abriu o fecho interior. A faca de ponta e mola estava lá. Pegou nela e carregou na mola. A lâmina foi ativada com um estalido.
Pope já estava em pé, a mergulhar na escuridão, com as mãos a procurarem-na. Catherine voltou-se e atacou selvaticamente com a arma. A ponta da lâmina abriu um golpe no ombro direito dele.
Pope apertou a ferida com a mão esquerda e gritou de dor quando o sangue começou a jorrar-lhe por entre os dedos. Tinha o braço à frente do peito, não havia maneira de lhe espetar a faca no coração. A Abwehr tinha-lhe ensinado outro método que a fazia arrepiar só de pensar nele. Mas tinha de o utilizar agora. Não havia escolha.
Catherine aproximou-se mais, puxou a faca para trás e depois enterrou-a no olho de Vernon Pope.
Vivie estava no canto do quarto, deitada no chão, em posição fetal, a chorar histericamente. Catherine agarrou-a pelo braço, pô-la em pé com um puxão e empurrou-a contra a parede.
- Por favor, não me faças mal.
- Não te vou fazer mal.
- Não me faças mal.
- Não te vou fazer mal.
- Prometo que não digo a ninguém, nem mesmo ao Robert. Juro.
- Nem à polícia?
- Não digo nada à polícia.
- Otimo. Eu sabia que podia confiar em ti.
Catherine acariciou-lhe o cabelo e tocou-lhe na cara. Vivie pareceu sossegar. O corpo dela perdeu as forças e Catherine teve de a agarrar para impedir que caísse no chão.
- Quem és tu? - perguntou Vivie. - Como é que lhe conseguiste fazer isto?
Catherine não disse nada, apenas lhe acariciou o cabelo enquanto a outra mão procurava a parte mais mole na base da caixa torácica. Os olhos de Vivie esbugalharam-se quando a faca lhe entrou no coração. Um grito de dor ficou preso na garganta e saiu como um gorgolejo baixinho. Morreu rápida e silenciosamente, com os olhos sem expressão a olharem para os de Catherine.
Catherine soltou-a. O movimento do corpo a escorregar pela parede abaixo arrancou a faca do coração. Catherine observou os destroços humanos à sua volta, o sangue. Meu Deus, em que é que me transformaram? A seguir, caiu de joelhos ao lado do cadáver de Vivie e vomitou violentamente.
Executou os rituais de fuga com uma calma surpreendente. Na casa de banho, lavou o sangue deles das mãos, da cara e da lâmina da faca. Não havia nada a fazer quanto ao sangue na camisola, a não ser escondê-lo debaixo do casaco de cabedal. Saiu da casa de banho, passou pelo corpo da mulher e foi até à divisão seguinte. Dirigiu-se para a janela e olhou para a rua. Pope, ao que parecia, tinha cumprido
a palavra dada. Não havia ninguém no exterior do armazém. De certeza que encontrariam o corpo dele de manhã e, quando o fizessem, viriam atrás dela. Por agora, pelo menos, estava segura. Agarrou na mala e tirou da mesa as cem libras em notas que tinha dado a Pope. Desceu no elevador, atravessou o armazém e embrenhou-se na noite.
VINTE E DOIS
LESTE DE LONDRES
O superintendente-chefe Andrew Kidlington, ao contrário da maior parte dos homens da sua profissão, evitava cenas de homicídio sempre que podia. Pregador secular na sua igreja local, já há muito perdera o gosto pelo lado mais macabro da profissão. Tinha reunido uma equipa de polícias absolutamente profissional e acreditava que o melhor era dar-lhe rédea livre. Tinha uma habilidade lendária para fazer mais deduções sobre um homicídio a partir de um bom dossiê do que pela visita ao local do crime, e certificava-se sempre de que cada pedaço de papel gerado pelo departamento lhe passava pela secretária. Mas não era todos os dias que alguém espetava
uma faca num homem como Vernon Pope. Aquilo era uma coisa que tinha de ver com os próprios olhos.
O polícia fardado que estava de guarda à entrada do armazém afastou-se para o lado quando Kidlington se aproximou.
- O elevador é mesmo ao fundo do armazém, senhor. Suba um andar. Há outro homem nesse patamar. Ele indica-lhe o caminho.
Kidlington atravessou o armazém devagar. Era alto e magro, com uma cabeleira espessa e grisalha e o ar de quem tem sempre más notícias a dar. Por causa disso, os seus homens tinham tendência para andarem de mansinho quando estavam perto dele.
Um jovem sargento chamado Meadows estava à espera dele no patamar. Meadows era demasiado vistoso para o gosto de Kidlington
e andava com muitas mulheres. Mas era um excelente detetive e tinha
a palavra promoção estampada na testa.
- Aquilo está muito feio ali dentro, senhor - disse Meadows.
Kidlington conseguia sentir o cheiro a sangue no ar quando Meadows o conduziu para dentro do escritório. O corpo de Vernon Pope jazia sobre um tapete oriental perto do sofá. O círculo escuro do sangue expandia-se para além do lençol cinzento que o cobria. Kidlington, apesar dos seus trinta anos na Polícia Metropolitana, ainda sentiu a bílis a subir-lhe à boca quando Meadows se ajoelhou junto do corpo e puxou o lençol para trás.
- Meu Deus! - exclamou Kidlington baixinho.
Fez uma careta e virou-se para o lado para se recompor.
- Nunca tinha visto nada assim - disse Meadows.
O cadáver de Vernon Pope estava deitado, nu e virado para cima, numa poça de sangue seco e preto. Para Kidlington, era óbvio que a ferida fatal só tinha sido provocada após uma violenta luta. Havia um grande corte irregular ao longo do ombro. O nariz tinha sido brutalmente partido. O sangue tinha escorrido das narinas para a boca, que se tinha aberto na morte, como se emitisse um último grito. Depois havia o olho. Kidlington teve dificuldade em olhar para aquilo. O sangue e o fluido ocular tinham escorrido pela cara abaixo. O globo ocular estava destruído e a pupila já não era visível. Era preciso uma autópsia para determinar a verdadeira profundidade da ferida, mas parecia ter sido o golpe fatal. Alguém tinha enfiado alguma coisa no olho e no cérebro de Vernon Pope.
Kidlington quebrou o silêncio:
- Hora aproximada da morte?
- Durante a noite de ontem, talvez logo no início.
- Arma?
- É difícil dizer. com certeza que não foi uma faca comum. Olhe para a ferida no ombro. As pontas da ferida são irregulares.
- Conclusão?
- Qualquer coisa afiada. Talvez uma chave de fendas ou um picador de gelo.
Kidlington observou o escritório.
O do Pope ainda está no carrinho das bebidas. A não ser que
o nosso assassino ande por aí com o seu próprio picador de gelo, duvido que seja essa a arma do crime - afirmou Kidlington, olhando outra vez para o corpo. - Eu diria que foi uma faca de ponta e mola. É uma arma que fura, não uma que corta. E isso explicaria tanto a ferida irregular no ombro como o ferimento perfurante e certeiro no olho.
- Certo, senhor.
Kidlington já tinha visto o suficiente. Levantou-se e indicou a Meadows que tapasse o corpo.
- A mulher?
- No quarto. Por aqui, senhor.
Robert Pope estava sentado no lugar do passageiro, pálido e a tremer visivelmente, enquanto Dicky Dobbs conduzia a carrinha a toda a velocidade em direção ao Hospital
St. Thomas. Tinha sido Robert a descobrir os corpos do irmão e de Vivie de manhã cedo. Tinha esperado por Vernon no café no East End onde tomavam o pequeno-almoço
todas as manhãs e ficou preocupado quando ele não apareceu. Foi buscar Dicky ao apartamento e foram ao armazém. Quando viu os corpos, gritou e pontapeou a mesa de
vidro.
Robert e Vernon Pope eram homens realistas. Sabiam que estavam num trabalho perigoso e que um deles ou os dois poderiam morrer ainda novos. Como todos os irmãos,
também discutiam, mas Robert Pope adorava o irmão mais velho mais do que tudo no mundo. Vernon tinha sido como um pai para ele, quando o próprio pai, um desempregado
alcoólico e abusivo, se foi embora para nunca mais voltar. Foi a maneira como ele morreu que o horrorizou mais: esfaqueado no olho e deixado no chão, nu. E Vivie,
uma inocente, esfaqueada no coração.
Era possível que as mortes fossem obra de um dos seus inimigos. O negócio dos Pope tinha prosperado durante a guerra e eles tinham estendido as suas atividades
para novos territórios. Mas aquilo não se parecia com nenhum assassinato feito por gangues que já tivesse visto. Robert suspeitava que tinha alguma coisa que ver
com
a mulher: Catherine, ou fosse lá qual fosse o raio do nome verdadeiro dela. Tinha feito um telefonema anónimo para a polícia - teriam de ser metidos ao barulho,
mais tarde ou mais cedo -, mas não confiava neles para encontrar o assassino do irmão. Isso faria ele sozinho. Dicky estacionou junto ao rio e entrou no hospital
por uma porta de serviço. Saiu de lá passados cinco minutos e voltou para a carrinha.
- Ele estava lá? - perguntou Pope.
- Sim. Ele acha que nos consegue arranjar isso.
- Quanto tempo?
- Vinte minutos.
Meia hora mais tarde, um homem magro, com uma cara chupada e uma farda de contínuo, saiu pelas traseiras do hospital e dirigiu-se para a carrinha rapidamente.
Dicky baixou o vidro da janela.
- Já o tenho, senhor Pope - disse ele. - Uma rapariga da receção deu-mo. Disse que era contra as regras, mas eu convenci-a. Mas prometi-lhe uma nota de cinco. Espero que não se importe.
Dicky estendeu a mão e o homem deu-lhe um papel. Dicky passou-o a Pope.
- bom trabalho, Sammy - disse Pope, olhando para o papel
- Dá-lhe o dinheiro, Dicky.
O homem aceitou o dinheiro, com uma expressão de desapontamento.
- Que se passa, Sammy? - perguntou Dicky. - Dez xelins, tal como prometi.
- Então e as cinco libras para a rapariga?
- Considera-as as tuas despesas operacionais - disse Pope.
- Mas, senhor Pope...
- Sammy, não queiras meter-te comigo neste momento. Dicky pôs a carrinha em movimento e acelerou, com os pneus
a chiarem.
- Qual é a morada? - perguntou Dicky.
- É em Islington. Mexe-te!
A senhora Eunice Wright, moradora no número 23 de Norton Lane, em Islington, era parecida com a casa: alta, estreita, cinquentona, toda ela robustez e maneiras vitorianas. Não sabia - nem nunca saberia, mesmo depois do horrível episódio - que a casa tinha sido usada como morada falsa por uma agente dos serviços secretos militares alemães chamada Catherine Blake.
Há já duas semanas que Eunice Wright estava à espera de um técnico para reparar a caldeira avariada. Antes da guerra, os hóspedes da sua bem dirigida pensão eram, na sua maioria, jovens que estavam sempre dispostos a ajudar quando alguma coisa corria mal com os canos ou com o fogão. Mas, naquele momento, todos os jovens estavam no exército. O seu próprio filho, que nunca lhe saía do pensamento, estava algures no Norte de África. Já não retirava nenhum prazer dos hóspedes - dois homens velhos que falavam imenso sobre a última guerra e duas raparigas do campo bastante tolas que tinham fugido da desolação da sua aldeia nas East Midlands para procurarem trabalho nas fábricas de Londres. Quando Leonard era vivo, era ele que tratava de todas as reparações, mas Leonard já estava morto há dez anos.
Estava à janela da sala de estar a bebericar chá. O silêncio reinava na casa. Os homens estavam lá em cima a jogar às damas. Tinha insistido para que eles jogassem sem baterem com as peças para não acordarem as raparigas, que tinham acabado de chegar do turno da noite. Aborrecida, ligou o rádio e ouviu o noticiário da BBC.
Quando parou à frente da casa, a carrinha pareceu-lhe estranha. Não tinha nada que a identificasse - não tinha o nome de nenhuma companhia pintado na parte lateral - e os dois homens sentados à frente não eram nada parecidos com nenhum técnico de reparações que ela já tivesse visto. O que estava ao volante era alto e robusto, com o cabelo cortado à escovinha e um pescoço tão grande que parecia que a cabeça estava simplesmente atarraxada aos ombros. O outro era pequeno, tinha cabelo escuro e parecia zangado com o mundo. A roupa deles também era estranha. Em vez das fardas tipo macacão dos operários, traziam fatos e, pelo aspeto, fatos muito caros.
Abriram as portas e saíram. Eunice reparou no facto de não carregarem ferramentas. Talvez quisessem observar os danos da caldeira antes de trazerem todas as ferramentas para dentro de casa. Estavam apenas a ser meticulosos, estavam a certificar-se de que apenas traziam as ferramentas necessárias para o trabalho. Estudou-os mais atentamente à medida que se aproximavam da porta da frente. Pareciam razoavelmente saudáveis. Por que razão não estariam no exército? Notou como olhavam por cima do ombro, para a rua, enquanto iam avançando, como se estivessem a tentar passar despercebidos. De repente, Eunice desejou que Leonard ali estivesse.
Bateram à porta de um modo nada educado. Ela pôs-se a pensar que os polícias deviam bater assim quando achavam que havia um criminoso atrás da porta. Bateram outra vez, com tanta força que os vidros da janela da sala abanaram.
Lá em cima, o jogo de damas parou.
Eunice foi até à porta. Pensou para si própria que não havia razão para ter medo, que apenas lhes faltavam as boas maneiras que eram comuns à maioria dos técnicos ingleses. Eram tempos de guerra. Os técnicos de reparação mais experientes estavam a prestar serviço militar, a trabalhar em bombardeiros ou fragatas. Os maus - como aqueles dois que estavam à porta - iam aguentando os empregos que tinham.
Abriu a porta devagar. Queria pedir-lhes que não fizessem barulho para não acordarem as raparigas. Nunca chegou a conseguir falar. O maior - o que não tinha pescoço - empurrou a porta para trás com o antebraço e depois tapou-lhe a boca com a mão. Eunice tentou gritar, mas o grito pareceu morrer-lhe na garganta e ela não conseguiu emitir praticamente nenhum som audível.
O mais pequeno encostou a cara ao ouvido dela e falou-lhe com uma serenidade que ainda a assustou mais.
- Dá-nos o que nós queremos, 'morzinho, e ninguém se magoa
- disse ele.
A seguir, afastou-a com um empurrão e começou a subir as escadas.
O sargento Meadows considerava-se uma autoridade menor no que dizia respeito ao gangue dos Pope. Sabia como faziam dinheiro
. legal e ilegalmente - e conseguia reconhecer a maior parte dos
membros do gangue pelo nome e pela cara. Por isso, quando ouviu a descrição dos dois homens que
tinham acabado de virar de pantanas uma pensão em Islington, acabou
os seus afazeres na cena do crime e dirigiu-se para lá a fim de ver o que se tinha passado com os próprios olhos. A primeira descrição correspondia a Richard Dicky
Dobbs, o principal capanga e pau para toda a obra dos Pope. A outra correspondia ao próprio Robert Pope.
Como era seu hábito, Meadows ia passarinhando pela sala de estar enquanto Eunice Wright, sentada rigidamente direita numa cadeira, voltava a contar toda a história
pacientemente, apesar de já o ter feito por duas vezes. A chávena de chá tinha sido substituída por um pequeno copo de xerez. A cara exibia a marca dos dedos do
agressor e ela tinha ficado com um galo na cabeça quando ele a tinha empurrado para o chão. Fora isso, não estava ferida com gravidade.
- E eles não lhe disseram o quê ou quem é que procuravam? perguntou Meadows, parando de andar de um lado para o outro o tempo suficiente para fazer a pergunta.
- Não.
- Trataram-se um ao outro pelo nome?
- Não, acho que não.
- E por acaso viu a matrícula da carrinha?
- Não, mas descrevi a carrinha a um dos outros agentes.
- É um modelo muito comum, senhora Wright. Receio que a descrição por si só não tenha grande valor para nós. vou mandar um dos nossos homens falar com a vizinhança.
- Lamento - disse ela, esfregando a parte de trás da cabeça.
- Está bem?
- Ele fez-me um galo muito feio na cabeça, aquele rufia!
- Talvez devesse ir ao médico. vou pedir a um dos agentes que lhe dê uma boleia quando tivermos terminado.
- Muito obrigada. É muito gentil da sua parte. Meadows agarrou na gabardina e vestiu-a.
- E disseram mais alguma coisa de que se lembre?
- Bem, disseram uma coisa - respondeu Eunice Wright, hesitando por um momento e corando. - Receio que a linguagem seja um bocadinho grosseira.
- Garanto-lhe que não me vou sentir ofendido.
- O mais pequeno disse: Quando eu encontrar aquela...
Fez uma pausa e baixou a voz, envergonhada por dizer aquelas palavras:
-Quando eu encontrar aquela cabra de merda, vou matá-la com as minhas próprias mãos.
Meadows franziu o sobrolho.
- Tem a certeza disso?
- Oh, sim. Quando é raro ouvirmos esse tipo de linguagem, é difícil esquecermo-nos.
- É bem verdade - exclamou Meadows, entregando-lhe o cartão de contacto. - Se se lembrar de mais alguma coisa, por favor, não hesite em ligar. Tenha um bom dia, senhora Wright.
- bom dia, senhor inspetor.
Meadows pôs o chapéu e dirigiu-se para a porta. Então eles andavam à procura de uma mulher. Se calhar, não eram os Pope, afinal de contas. Se calhar, eram apenas dois sujeitos à procura de uma rapariga. Talvez as descrições semelhantes fossem apenas uma coincidência. Meadows não acreditava em coincidências. Ia voltar ao armazém dos Pope e verificar se alguém tinha avistado uma mulher a andar por ali nos últimos tempos.
VINTE E TRÊS LONDRES
Catherine Blake partiu do princípio de que os oficiais aliados que conheciam o segredo mais importante da guerra tinham sido alertados para a ameaça representada pelos espiões. Que outra razão levaria o comandante Peter Jordan a algemar a pasta ao pulso para atravessar a pé Grosvenor Square? E também partiu do princípio de que os oficiais tinham sido avisados em relação a abordagens femininas. Mais no início da guerra, tinha visto um cartaz à entrada de um clube frequentado por oficiais britânicos. Mostrava uma loira voluptuosa, de grandes seios e com um vestido de noite decotado, à espera que um oficial lhe acendesse o cigarro. No fundo do póster, liam-se as palavras: Mantém-te calado, ela não é assim tão burra. Catherine achou que era a coisa mais ridícula que já tinha visto. Se havia mulheres assim - cabras que andavam por clubes ou festas a ouvir mexericos e segredos -, ela não tinha conhecimento. Mas suspeitava que essa doutrinação faria Peter Jordan desconfiar de uma mulher linda que começasse de repente a disputar a sua atenção. Ele também era um homem de sucesso, inteligente e atraente. Mostrar-se-ia muito criterioso em relação às mulheres com quem decidia passar tempo. A cena no Savoy, no outro dia, era a prova disso. Tinha-se zangado com o amigo Shepherd Ramsey por este lhe ter arranjado um encontro com uma rapariga estúpida e nova. Catherine teria de fazer a sua abordagem com muito cuidado.
E era essa a razão para se encontrar parada à esquina do Vandyke Club, com um saco da mercearia nos braços.
Eram quase seis horas. Londres estava envolta no blackout. O trânsito do final da tarde fornecia à justa a luz necessária para que ela conseguisse ver a entrada para o clube. Passados alguns minutos, saiu de lá um homem de estatura e constituição medianas. Era Peter Jordan. Parou um momento para abotoar o sobretudo. Se mantivesse a rotina do final da tarde, iria fazer a pé a pequena distância até casa. Se quebrasse a rotina e fizesse sinal a um táxi para parar, Catherine estaria sem sorte nenhuma. Seria obrigada a voltar no dia seguinte e a esperar com o saco da mercearia.
Jordan levantou a gola do sobretudo e começou a avançar na direção dela. Catherine Blake aguardou um momento e, a seguir, atravessou-se no caminho dele.
Quando chocaram, ouviu-se o som de papel a rasgar-se e de artigos de mercearia a cair no passeio.
- Peço desculpa. Não vi que estava aí. Por favor, deixe-me ajudá-la a levantar-se.
- Não, a culpa é minha. Infelizmente, não sei onde pus a minha lanterna para o blackout e tenho andado de um lado para o outro, perdida. Sinto-me mesmo parva.
- Não, eu é que tenho a culpa. Estava a tentar provar a mim mesmo que conseguia descobrir o caminho para casa no escuro. Oiça, tenho uma lanterna. Deixe-me acendê-la.
- Importa-se de a apontar para o passeio? Acho que as minhas rações estão a rebolar em direção ao Hyde Park.
- Agarre a minha mão.
- Obrigada. Já agora, quando quiser, pode parar de me apontar a luz à cara.
- Desculpe, é só que...
- Só que o quê?
- Esqueça. Acho que aquele pacote de farinha não sobreviveu.
- Não faz mal.
- Deixe-me ajudá-la a apanhar as coisas.
- Eu sou capaz. Obrigada.
- Não, eu insisto. E deixe-me arranjar-lhe outro pacote de farinha. Tenho imensa comida em casa. O meu problema é não saber o que fazer com ela.
- A marinha não lhe dá de comer?
- Como é que...
- Lamento informá-lo, mas o uniforme e o sotaque revelaram-no. Além disso, só um oficial americano é que seria suficientemente tolo para andar intencionalmente pelas ruas de Londres sem se servir de uma lanterna. Vivi aqui a vida inteira e mesmo assim não me consigo orientar durante o blackout.
- Por favor, deixe-me restituir-lhe as coisas que perdeu.
- É uma oferta muito gentil, mas não é necessário. Foi um prazer chocar contra si.
- Sim... sim, pois foi.
- Teria a amabilidade de me indicar para que lado fica a Brompton Road?
- É naquela direção.
- Muito obrigado.
Ela voltou-se e começou a afastar-se.
- Espere um minuto. Tenho outra sugestão. Ela parou de andar e virou-se.
-- E qual é ela?
- Gostaria de saber se lhe apeteceria tomar um copo comigo um dia destes.
Ela hesitou e depois disse:
- Não sei bem se quero beber um copo com um americano detestável que faz questão de andar pelas ruas de Londres sem lanterna. Mas suponho que, no fundo, pareça inofensivo. Por isso, a resposta é sim.
Afastou-se novamente.
- Espere, venha cá. Nem sequer sei o seu nome.
- É Catherine - gritou ela. - Catherine Blake.
- Preciso do seu número de telefone - disse Jordan sem saber o que fazer.
Mas ela já se tinha diluído na escuridão e desaparecido.
Quando Peter Jordan chegou a casa, entrou no escritório, pegou no telefone e marcou um número. Identificou-se e uma simpática voz feminina deu-lhe instruções para que não desligasse. Passado um momento, ouviu a voz, com sotaque inglês, do homem que conhecia apenas como Broome.


CONTINUA

ONZE
SELSEY, INGLATERRA
- Foi a coisa mais estranha que alguma vez vi, Mabel - disse Arthur Barnes à mulher ao pequeno-almoço naquela manhã.
Barnes tinha andado a passear, como fazia todas as manhãs, com a sua querida corgi Fionna pela zona do porto. Parte dele ainda estava aberta aos civis; grande parte tinha sido selada e designada como uma zona militar restrita. Toda a gente se interrogava sobre o que estavam os militares a fazer ali. Ninguém falava sobre isso. O alvorecer foi tardio nessa manhã - céu cinzento-escuro, chuva de vez em quando. Fionna estava sem trela, correndo de um lado para o outro das docas.
Fionna avistou a coisa primeiro, depois Barnes.
- O raio de um gigantesco monstro de betão, Mabel. Como um bloco de apartamentos deitado de lado.
Dois rebocadores estavam a empurrá-lo para o mar. Barnes trazia uns binóculos no casaco - uma vez, um amigo tinha visto a torre cónica de um submarino alemão e Barnes morria de vontade de ter também o vislumbre de um. Tirou os binóculos do casaco e levou-os aos olhos.
O monstro de betão trazia atracado a ele um barco com uma proa larga e achatada que cortava o mar agitado. Barnes analisou ao pormenor o lado de bombordo - Repara, Mabel, que é difícil destinguir o bombordo do estibordo - e descortinou um navio costeiro ligeiro, com um punhado de tipos militares no convés.
- Não queria acreditar, Mabel - contou ele enquanto acabava a última torrada. - Eles batiam palmas e aplaudiam dando abraços
uns aos outros e palmadinhas nas costas - revelou, abanando a cabeça. - Imagina só. Hitler tem o mundo debaixo das patas e os nossos rapazes ficam excitados porque conseguem pôr a flutuar um grande pedaço de cimento.
A gigantesca estrutura flutuante de betão, avistada por Arthur Barnes nessa sombria manhã de janeiro, tinha o nome de código de Phoenix. Tinha 60,96 metros de comprimento, 15,24 metros de largura e deslocava mais de 6000 toneladas de água. Estava planeado construírem-se mais de duzentas. Os seus interiores - invisíveis do ponto de observação privilegiado de Barnes em frente do porto eram um labirinto de câmaras vazias e válvulas para controlar a entrada da água, já que a Phoenix não tinha sido projetada para ficar à superfície por muito tempo. Fora projetada para ser rebocada através do canal da Mancha e afundada na costa da Normandia. As Phoenixes eram apenas uma componente de um enorme projeto dos Aliados para construírem um porto artificial em Inglaterra e rebocá-lo para a França no Dia D. O nome de código global para o projeto era Operação Mulberry.
Foi Dieppe que lhes ensinou a lição, Dieppe e os desembarques anfíbios no Mediterrâneo. Em Dieppe, local do raide desastroso dos Aliados à França, em agosto de 1942, os alemães negaram aos Aliados o uso do porto pelo maior tempo possível. No Mediterrâneo, destruíram os portos antes de os abandonarem, tornando-os impraticáveis durante longos períodos. Os planeadores da invasão concluíram que tentar capturar um porto intacto era impossível. Decidiram que os homens e o material deviam chegar a terra firme da mesma maneira - nas praias da Normandia.
O problema era o tempo. Estudos dos padrões meteorológicos ao longo da costa francesa mostravam que não se podia esperar que períodos de boas condições durassem mais do que quatro dias consecutivos. Assim, os planeadores da invasão tiveram de assumir que o material teria de chegar a terra firme durante uma tempestade.
Em julho de 1943, o primeiro-ministro Winston Churchill e uma delegação de trezentos oficiais partiram para o Canadá a bordo do
Queen Mary. Churchill e Roosevelt iam encontrar-se no Quebeque, em agosto, para aprovar os planos da invasão da Normandia. Durante a viagem, o professor J. D. Bernal, um distinto físico, fez uma demonstração espetacular numa das luxuosas casas de banho do navio. Deitou na banheira alguns centímetros de água, com o lado raso a representar as praias da Normandia e o lado mais fundo a baía do Sena. Bernal colocou vinte barcos de papel na banheira e utilizou uma escova para as costas a fim de simular condições tempestuosas. Os barcos afundaram-se imediatamente. Bernal encheu depois um colete salva-vidas, a que a RAF chamava Mae West, e atravessou-o na banheira de lado a lado como um quebra-mar. A escova para as costas foi outra vez usada para criar uma tempestade, mas desta vez os barcos sobreviveram. Bernal explicou que a mesma coisa iria acontecer na Normandia. Uma tempestade resultaria numa devastação: era necessário um porto artificial.
No Quebeque, os britânicos e os americanos concordaram em construir dois portos artificiais para a invasão da Normandia, cada um com a capacidade do grande porto de Dover. Dover demorou sete anos a construir; os britânicos e os americanos tinham cerca de oito meses. Era uma tarefa de dimensões inimagináveis. Cada Mulberry custou 20 milhões de libras. A economia britânica, paralisada por quatro anos de guerra, tinha que fornecer quatro milhões de toneladas de betão e aço. Seria necessário centenas de engenheiros de topo, bem como dezenas de milhares de trabalhadores especializados. Levar os Mulberries de Inglaterra para a França no Dia D iria requerer todos os rebocadores disponíveis no Reino Unido e na Costa Leste dos Estados Unidos.
A única tarefa igual à de construir os Mulberries seria a de os manter secretos - provado pelo facto de Arthur Barnes e a sua corgi Fionna ainda estarem à beira-mar quando o navio de cabotagem transportando a equipa de engenheiros britânicos e americanos acostou na doca. A equipa desembarcou e encaminhou-se para um autocarro que os esperava. Um dos homens separou-se do grupo e dirigiu-se para um carro oficial à espera para o levar outra vez para Londres. O condutor saiu do carro, abriu rapidamente a porta de trás e o comandante Peter Jordan entrou.
NOVA IORQUE: OUTUBRO DE 1943
Abordaram-no numa sexta-feira. Havia de se lembrar sempre deles como Laurel e Hardy; o gordo e atarracado americano, que cheirava a aftershave barato e à cerveja
e salsicha do seu almoço; o magro e delicado inglês, que apertou a mão a Jordan como se estivesse à procura do pulso. Na realidade, os nomes deles eram Leamann e
Broome - ou pelo menos era o que diriam os cartões de identificação que acenaram ao passarem por ele. Leamann disse que estava no Ministério da Guerra americano;
Broome, o inglês magro, murmurou qualquer coisa sobre estar ligado ao Ministério da Guerra britânico. Nenhum dos homens estava de farda - Leamann usava um fato castanho e coçado que estava muito esticado no estômago corpulento e apertado nas virilhas; Broome, um fato de corte elegante de um cinento-carvão, demasiado quente para o outono americano.
Jordan recebeu-os no seu magnífico escritório na Baixa de Manhattan. Leamann susteve pequenos arrotos enquanto admirava a espetacular vista de Jordan sobre as pontes do rio East; aponte de Brooklyn, aponte de Manhattan, o bairro de Williamsburg. Broome, que mostrava pouco interesse pelas coisas feitas pelo ser humano, comentava o tempo - um perfeito dia de outono, um céu aul cristalino, um brilhante pôr do Sol cor de laranja. Uma tarde para faer crer que Manhattan é o sítio mais espetacular
da Terra. Dirigiram-se para a janela a sul e conversaram enquanto observavam os cargueiros a entrarem e a saírem do porto de Nova Iorque.
- Fale-nos do trabalho que fa agora, senhor Jordan - disse Leamann com um ligeiro sotaque do sul de Boston.
Era um assunto sensível. Ainda era o engenheiro-chefe da Northeast Bridge Company, que ainda era a maior empresa de construção de pontes da Costa Leste. Mas o sonho de começar a sua própria empresa de engenharia tinha morrido com a guerra, tal como temera.
Parecia que Leamann tinha memorizado o seu curriculum e, nesse momento, recitava-o como se jordan tivesse sido nomeado para um prémio.
- Primeiro do seu ano no Rensse/aer Polytechnic Institute. Engenheiro do Ano em 1938. A Scientífic American diz que o senhor é o maior desde o fulano que inventou
a roda. O senhor é um caso muito sério, senhor Jordan.
Uma versão amplificada do artigo da Scientific American estava pendurada numa parede, numa elegante moldura preta. A fotografia que lhe tiraram naquela altura parecia
a de outro homem. Era mais magro agora - havia quem
dissesse que estava mais atraente - e, apesar de ainda não estar nos quarenta, salpicos grisalhos tinham aparecido nas fontes.
Broome, o inglês magro, estava a passear pelo escritório, escrutinando as fotografias e os modelos das pontes que a empresa tinha desenhado e construído.
- Tem muitos alemães a trabalhar aqui - disse Broome, como se fosse uma novidade paraJordan.
Uma verdade - alemães nos quadros de engenharia e alemães no pessoal administrativo. A própria secretária de
Jordan era uma mulher chamada Miss Hofer, cuja família
viera de Estugarda para a América quando ela era pequena. Ainda falava inglês com sotaque alemão. Foi então que, como que para provar a exatidão do comentário de
Broome, dois rapaces estafetas passaram pela porta de jordan a tagarelarem em alemão com sotaque de Berlim.
-Que tipo de inspeçoes de segurança lhes fizeram?
Era Eemann a falar outra vez. Jordan conseguia perceber que ele era um tipo qualquer de polícia, ou pelo menos tinha sido polícia noutra vida. Estava escrito no
corte modesto do fato puído e na expressão de determinação canina no seu rosto. Para Eeamann, o mundo estava cheio de pessoas más e ele era a única coisa que existia
entre a ordem e a anarquia.
- Não lhes fademos inspeçoes de segurança. Aqui construímos pontes, não bombas.
- E como sabem se eles não são simpatizantes do outro lado?
- Eeamann. Isso não é um nome alemão?
O rosto gordo de Eeamann fechou-se numa carranca.
- Irlandês, por acaso.
Broome parou a inspeção aos modelos de pontes rindo-se com a troca de palavras.
- Conhece um homem chamado Walker Hardegen? -perguntou ele a seguir. Jordan teve a impressão desconfortável de que tinha sido investigado.
- Penso que já conhece a resposta dessa pergunta. E sim, a família dele é alemã. Ele fala a língua e conhece o país. Tem sido de um valor incalculável para o meu
sogro.
-Quer dizer, o seu ex-sogro? -perguntou Broome.
- Mantivemo-nos muito chegados mesmo depois da morte da Margaret. Broome estava debruçado sobre outro modelo.
- Isto é uma ponte suspensa?
- Não, é um desenho de um arco de ponte. Não é engenheiro, pois não?
Broome levantou os olhos e sorriu como se achasse a pergunta de certo modo ofensiva.
- Não, claro que não. Jordan sentou-se à secretária.
- Muito bem, meus senhores, chegou a altura de me dizerem ao que vêm.
- Tem que ver com a invasão da Europa - disse Broome. - Podemos precisar da sua ajuda.
-Querem que eu construa uma ponte entre a Inglaterra e a França? bereuntou Jordan com um sorriso.
-Qualquer coisa parecida com isso - respondeu leamann. Broome estava a acender um cigarro. Soprou uma elegante nuvem defumo na direção do rio.
- De facto, senhor Jordan, não é nada parecido com isso.
DOZE LONDRES
Os céus desabaram num violento aguaceiro enquanto Alfred Vicary se apressava por Parliament Square em direção às Salas de Guerra Subterrâneas, o quartel-general de Winston Churchill debaixo dos passeios de Westminster. O primeiro-ministro tinha telefonado pessoalmente a Vicary, pedindo-lhe para o ver imediatamente. Vicary vestira rapidamente o uniforme e, com a pressa, abandonou o quartel-general do MI5 sem chapéu de chuva. Assim, a sua única defesa contra a investida da chuva gelada era acelerar o passo, com uma mão a apertar a gola do impermeável e a outra a segurar uma quantidade de dossiês sobre a cabeça, como um escudo. Passou apressadamente pelas estátuas contemplativas de Lincoln e Beaconsfield e, a seguir, completamente encharcado, apresentou-se à sentinela da Marinha Real, na porta reforçada com sacos de areia do número 2 de Great George Street.
O MI5 estava em pânico. Na noite anterior, duas mensagens descodificadas da Abwehr tinham chegado de Bletchley Park por correio motorizado. Confirmavam as piores suspeitas de Vicary - pelo menos dois agentes estavam em atividade no Reino Unido sem o conhecimento do MI5 e parecia que os alemães planeavam enviar mais um. Era um desastre. Vicary, depois de ler as mensagens com o coração apertado, telefonou para casa de Sir Basil e deu as notícias. Sir Basil contactou o diretor-geral e outros oficiais superiores envolvidos na
Operação Double Cross. À meia-noite, as luzes fervilhavam no quinto andar. Vicary estava agora à frente de um dos mais importantes casos da guerra. Tinha dormido menos de uma hora. A cabeça doía-lhe, tinha os olhos a arderem, os seus pensamentos iam e vinham cmflashes turbulentos e caóticos.
A sentinela deu uma vista de olhos à identificação de Vicary e fez-lhe sinal para entrar. Vicary desceu as escadas e atravessou o pequeno átrio. Ironicamente, Neville
Chamberlain mandara começar as obras nas Salas de Guerra Subterrâneas no dia em que regressou de Munique a declarar a paz no nosso tempo. Vicary pensava sempre naquele
lugar como um monumento subterrâneo ao fracasso da conciliação. Escudado por 1,22 metros de qmento reforçado com os velhos carris do elétrico de Londres, o labirinto
subterrâneo era considerado absolutamente à prova de bomba. As armas secretas mais vitais do governo britânico estavam albergadas ali, juntamente com o posto de
comando pessoal de Churchill.
Vicary percorreu o corredor, com os ouvidos cheios do matraquear das máquinas de escrever e do barulho de uma dúzia de telefones não atendidos. O teto baixo era
reforçado com a madeira de um dos barcos de guerra de Nelson. Um sinal avisava CUIDADO com A CABIÍÇA. Vicary, com um escasso metro e sessenta e oito, passou facilmente
por baixo dele. As paredes, outrora da cor da nata do Devonshire, tinham-se esbatido num bege baço como um jornal velho. Os soalhos estavam cobertos com um velho
linóleo castanho. Por cima, numa braçadeira da canalização de drenagem, Vicary podia ouvir o gorgolejar da canalização dos New Public Offices, à superfície. Apesar de o ar ser filtrado por um sistema de ventilação especial, cheirava a corpos sujos e a fumo de cigarro velho. Vicary aproximou-se de uma porta onde estava outra sentinela da Marinha Real em posição de descanso. A sentinela pôs-se em sentido quando Vicary passou, com o barulho dos calcanhares amortecidos por um tapete de borracha especial.
Vicary olhou para os rostos do pessoal que trabalhava, vivia, comia e dormia debaixo de terra na fortaleza do primeiro-ministro. A palavra pálidos não fazia justiça ao seu estado; eram habitantes das cavernas macilentos e cor de cera que se deslocavam rapidamente
pelo labirinto subterrâneo. Subitamente, o gabinete sem janelas de Vicary em St. James's Street já não parecia assim tão mau. Pelo menos, estava à superfície. Pelo menos, havia qualquer coisa parecida com ar fresco.
Os aposentos particulares de Churchill estavam localizados na sala 65A, contígua à sala de mapas e do outro lado do corredor da Sala de Comunicações Transatlânticas. Um assessor fez entrar de imediato Vicary, que foi recebido com os olhares gelados de um bando de burocratas que parecia estar à espera desde a última guerra. Era um espaço pequeno, grande parte dele ocupado por uma cama pequena feita com lençóis cinzentos do exército. Aos pés da cama, estava uma mesa com uma garrafa e dois copos. A BBC tinha instalado um microfone permanente para Churchill poder fazer a sua transmissão radiofónica na segurança da sua fortaleza subterrânea. Vicary reparou no pequeno sinal na sombra que dizia SILÊNCIO - NO AR. A sala continha apenas um item luxuoso, um humidifícador para os charutos Romeoj Julieta do primeiro-ministro.
Churchill, de roupão de seda verde e com o primeiro charuto do dia entre os dedos, estava sentado à sua pequena secretária. Manteve-se aí quando Vicary entrou na sala. Vicary sentou-se na borda da cama e fitou a figura à sua frente. Não era o mesmo homem que Vicary tinha visto naquela tarde de maio de 1940. Também não era a figura segura e bem-disposta das atualidades e dos filmes de propaganda. Era obviamente um homem que tinha trabalhado demais e dormido muito pouco. Acabava de regressar ao Reino Unido, tendo chegado do Norte de África poucos dias antes, onde tinha estado a convalescer depois de sofrer um pequeno ataque de coração e contrair uma pneumonia. Os olhos estavam raiados de vermelho, o rosto inchado e pálido. Esboçou um débil sorriso ao seu velho amigo.
- Olá, Alfred, como é que tem passado? - perguntou Churchill quando a sentinela da Marinha Real fechou cuidadosamente a porta.
- Bem, mas eu é que lhe devia estar a perguntar isso. O senhor é que tem estado sob pressão.
- Melhor do que nunca - retorquiu Churchill. - Ponha-me ao corrente dos factos.
- Intercetámos duas mensagens de Hamburgo para dois agentes alemães em atividade no Reino Unido - informou Vicary, entregando as mensagens a Churchill. - Como sabe, temos estado a agir na suposição de que tínhamos prendido, enforcado ou feito mudar de lado todos os agentes alemães a atuarem no Reino Unido. Isto é obviamente um grande golpe. Se os agentes transmitiram qualquer informação que contradiga o material que enviámos através da Operação Double Cross, os alemães vão suspeitar de tudo. E também julgamos que estão a planear introduzir um novo agente no país.
- E o que estamos a fazer para os deter?
Vicary informou Churchill das medidas que tinham tomado até
ao momento.
- Mas, infelizmente, senhor primeiro-ministro, as hipóteses de capturar o agente à entrada não são boas. Antigamente, no verão de
1940, por exemplo, quando eles estavam a introduzir espiões para a invasão, estávamos prontos para os capturar porque muitas vezes os alemães diziam aos agentes já em atividade no Reino Unido precisamente quando, onde e como os novos espiões iam entrar.
- E esses agentes estavam a trabalhar para nós como agentes duplos.
- Ou na cela de uma prisão, sim. Mas, neste caso, a mensagem para o agente em atividade era muito vaga, apenas uma frase codificada: executar procedimento de receção número um. Partimos do princípio de que diga tudo o que o agente precisa de saber. Infelizmente, a nós não nos diz nada. Apenas podemos adivinhar como é que o novo espião está a planear entrar no país. E, a não ser que tenhamos muita sorte, as hipóteses de o capturar são, no mínimo, escassas.
- Maldição! - praguejou Churchill, batendo com a mão no braço da cadeira.
Ergueu-se e serviu brandy para os dois. Olhou fixamente para dentro do copo, resmungando consigo próprio, como se se tivesse esquecido de que Vicary estava ali.
- Lembra-se da tarde em 1940 em que lhe pedi para vir trabalhar para o MI 5?
- Certamente, senhor primeiro-ministro.
- Eu tinha razão, não tinha?
- O que quer dizer?
- Tem passado o melhor tempo da sua vida, não tem? Olhe para si, Alfred, está um homem completamente diferente. Céus, eu queria ter o seu bom aspeto.
- Obrigado, senhor primeiro-ministro
- Tem feito um ótimo trabalho. Mas não vai significar nada se esses espiões alemães encontrarem o que procuram. Percebe isso, Alfred?
Vicary suspirou profundamente e respondeu:
- Percebo os riscos envolvidos, senhor primeiro-ministro.
- Quero-os detidos, Alfred, Quero-os esmagados.
Vicary pestanejou rapidamente e, inconscientemente, tocou no bolso do casaco à procura dos óculos em meia-lua. O charuto de Churchill tinha-se apagado na sua mão. Reacendendo-o, saboreou um momento de fumo tranquilo.
- Como está o Boothby? - perguntou Churchill por fim. Vicary voltou a suspirar.
- Como sempre, senhor primeiro-ministro.
- A dar apoio?
- Quer ser mantido a par de todos os passos que dou.
- Por escrito, suponho. Boothby é um defensor das coisas por escrito. O gabinete do homem produz mais papel que o Times, diabos o levem!
Vicary permitiu-se um ligeiro riso abafado.
- Nunca lhe disse isto, Alfred, mas tive as minhas dúvidas se conseguiria ter sucesso. Se o Alfred tinha verdadeiramente o que era preciso para agir no mundo dos serviços secretos militares. Oh, nunca duvidei que tivesse os miolos, a inteligência. Mas duvidei que possuísse a espécie de astúcia grosseira necessária para ser um bom agente dos serviços de secretos. Também duvidei que conseguisse ser suficientemente impiedoso.
As palavras de Churchill espantaram Vicary.
- Então porque está a olhar para mim assim, Alfred? E um dos homens mais decentes que alguma vez conheci. Normalmente, os homens que têm sucesso no seu tipo de trabalho são homens como
Boothby. Ele prendia a própria mãe se pensasse que isso beneficiava a sua carreira, ou apunhalava o inimigo pelas costas.
- Mas eu mudei, senhor primeiro-ministro. Fiz coisas que nunca pensei ser capaz de fazer. E também fiz coisas de que me envergonho.
Churchill pareceu perplexo.
- Vergonha?
- Quando se é contratado para limpar chaminés, fica-se com os dedos pretos - retorquiu Vicary. - Sir James Harris escreveu estas palavras quando foi ministro em Haia, em 1785. Detestava o facto de lhe pedirem para pagar subornos a espiões e informadores. Às vezes, quem me dera que ainda fosse assim tão simples.
Vicary lembrou-se da noite em setembro de 1940. Ele e a sua equipa tinham-se escondido no meio da urze no topo de uma escarpa sobranceira a uma praia rochosa da Cornualha, abrigados da chuva fria debaixo de um oleado preto. Vicary sabia que o alemão viria nessa noite; a Abwehr tinha pedido a Karl Becker para lhe preparar uma festa de receção. Ele não passava de um rapaz, lembrou-se Vicary, e, no momento em que atingiu a praia na sua balsa insuflável, estava meio morto de frio. Caiu nas mãos dos homens da Divisão Especial, balbuciando em alemão, feliz por estar vivo. Os documentos dele eram atrozes, as duzentas libras mal forjadas e o inglês limitado a umas poucas amabilidades bem ensaiadas. Era tão mau que Vicary teve de conduzir o interrogatório em alemão. O espião tinha sido encarregado de recolher informações sobre as defesas costeiras e, quando chegasse a invasão, de fazer sabotagem. Vicary concluiu que ele era inútil. Imaginou quantos mais iguais àquele teria Canaris - mal treinados, mal equipados e mal financiados, praticamente sem qualquer hipótese de sucesso. Manter o logro elaborado pelo MI5 requeria que executassem alguns espiões, portanto Vicary recomendou o seu enforcamento. Assistiu à execução na prisão de Wandsworth e nunca iria esquecer a expressão nos olhos do espião quando o carrasco lhe enfiou o capuz na cabeça.
- Tem de transformar o coração numa pedra, Alfred - disse Churchill num sussurro rouco. - Não temos tempo para sentimentos como vergonha ou compaixão, nenhum de nós, agora não. Tem
de deixar de lado quaisquer princípios que ainda possua, deixar de lado quaisquer sentimentos de compaixão que ainda possua, e fazer tudo o que for necessário para vencer. Isso ficou claro?
- Ficou, senhor primeiro-ministro.
Churchill aproximou-se, inclinou-se e falou num tom confessional:
- Há uma verdade infeliz acerca da guerra. Embora seja praticamente impossível que um só homem ganhe uma guerra, é inteiramente possível que um só homem a perca.
Churchill fez uma pausa e, a seguir, rematou:
- Para bem da nossa amizade, Alfred, não seja esse homem! Vicary, abalado com o aviso de Churchill, reuniu as suas coisas
e dirigiu-se para a porta. Abriu-a e saiu para o corredor. Na parede, o quadro da meteorologia, atualizado de hora a hora, indicava tempo chuvoso. Vicary ouviu Churchill atrás de si, sozinho no quarto subterrâneo, murmurando consigo próprio. Vicary levou uns instantes a perceber o que o primeiro-ministro estava a dizer.
- Maldito tempo inglês! - murmurava Churchill. - Maldito tempo inglês!
Por instinto, Vicary procurou pistas no passado. Leu e releu descodificações de mensagens enviadas por agentes no Reino Unido para operadores de rádio em Hamburgo. Descodificações de mensagens enviadas por Hamburgo para os agentes no Reino Unido. Histórias de casos, mesmo de casos em que ele próprio tinha estado envolvido. Leu o relatório final de um dos primeiros casos que tinha tratado, um incidente que terminara no norte da Escócia, num lugar adequadamente chamado Cape Wrath1. Leu a carta de recomendação que estava no seu processo, escrita de má vontade por Sir Basil Boothby, chefe de divisão, com cópia enviada para Winston Churchill, primeiro-ministro. Sentiu-se novamente cheio de orgulho.
Harry Dalton andava de um lado para o outro, entre o gabinete de Vicary
e a divisão dos Registos, como um batedor de estradas medieval, trazendo novos documentos
para um lado e devolvendo os
1 Cabo da Ira. (N. do T.)
antigos para o outro. Alguns agentes, cientes da tensão crescente no gabinete de Vicary, passavam pela sua porta em grupos de dois e três como automobilistas por
um acidente na estrada - olhos desviados, mas lançando rápidas e temerosas olhadelas. Quando Vicary acabava um love de dossiês, Harry perguntava: Alguma coisa? Vicary
fazia uma careta e respondia: Não, nada, raios!
Às duas horas daquela tarde, as paredes estavam a fechar-se sobre ele. Tinha fumado demasiados cigarros e bebido demasiadas chávenas de chá preto forte.
- Preciso de ar fresco, Harry.
- Saia daqui durante algumas horas. Fazia-lhe bem.
- vou dar um passeio, comer qualquer coisa, se calhar.
- Quer companhia?
- Não, obrigado.
Um chuvisco gelado, como o fumo de uma batalha próxima, caiu sobre Westminster enquanto Vicary caminhava ao longo do Embankment. Um vento cruelmente frio levantou-se do rio, fez retinir os sinais da rua temporários e em mau estado, e assobiou através de uma pilha de madeira despedaçada e tijolos partidos, onde antes se erguera um edifício esplêndido. Vicary deslocou-se rapidamente com o seu coxear mecânico, por causa do joelho rígido, com a cabeça baixa e as mãos mergulhadas nos bolsos do casaco. Pelo aspeto da sua cara, um transeunte podia deduzir que estava atrasado para uma reunião importante ou a fugir de alguma desagradável.
A Abwehr tinha apenas umas quantas maneiras de introduzir um agente no Reino Unido. Muitos eram postos em terra em barcos pequenos saídos de um submarino. Vicary tinha acabado de ler o relatório da captura dos agentes duplos com o nome de código Mutt e Jeff. Tinham chegado a terra num hidroavião, perto da aldeia de pesca de arenque MacDuff, em Moray Firth. Vicary já tinha pedido à Guarda Costeira e à Marinha Real para estarem particularmente vigilantes. Mas o litoral inglês estendia-se por muitos milhares de quilómetros, impossíveis de cobrir totalmente. Vicary sabia que as hipóteses de apanhar um agente numa praia escura eram escassas.
A Abwehr tinha introduzido espiões no Reino Unido de paraquedas. Era impossível ter em conta cada centímetro quadrado do espaço aéreo, mas Vicary tinha pedido à RAF para estar atenta a aeronaves isoladas.
A Abwehr tinha aterrado e desembarcado agentes na Irlanda e no Ulster. Para chegarem a Inglaterra tinham de apanhar o ferry. Vicary tinha pedido aos operadores do ferry em Liverpool para manterem debaixo de olho os passageiros desconhecidos: qualquer pessoa não familiarizada com a rotina da travessia de ferry, pouco à vontade com a língua ou com a moeda. Não lhes podia dar uma descrição porque não a tinha.
O passeio em andamento vivo e o tempo frio fizeram-lhe fome. Entrou numpub perto da estação de Victoria e pediu uma empada de legumes e meia caneca de cerveja.
Tem de transformar o coração numa pedra, dissera Churchill.
Infelizmente, já tinha feito isso há muito tempo. Helen. Era a filha mimada e atraente de um industrial próspero, e Vicary, apesar de saber que era um erro, apaixonara-se loucamente por ela. A relação começou a desfazer-se na tarde em que fizeram amor pela primeira vez. Por qualquer razão, o pai de Helen tinha lido corretamente os sinais; o modo como eles davam a mão no regresso do lago, a maneira como Helen tocava no cabelo já ralo de Vicary. Nessa noite, chamou Helen para uma conversa privada. Em nenhuma circunstância, ela seria autorizada a casar com o filho de um escriturário, que frequentara a universidade com uma bolsa de estudos. O pai de Helen ordenou-lhe que terminasse a relação tão rápida e discretamente quanto possível, e ela fez exatamente o que lhe tinha sido dito. Era esse tipo de rapariga. Vicary nunca a recriminou por isso e ainda a amava. Mas qualquer coisa se apagou nele nesse dia. Supôs que fosse a sua capacidade de acreditar. Perguntava-se se alguma vez a recuperaria.
É praticamente impossível que um só homem ganhe uma guerra.
Vicary pensou: Raios partam o Velho por pôr esse peso nos meus ombros.
A dona do pub, uma mulher corpulenta, apareceu ao pé da mesa.
- Estava assim tão mau, meu querido?
Vicary olhou para o prato. As cenouras e as batatas tinham sido empurradas para o lado e estivera a passear distraidamente a ponta da faca pelo molho da carne. Olhou para o prato com mais atenção e verificou que tinha traçado um mapa de Inglaterra na mistela castanha.
Perguntou a si mesmo: Onde é que aquele maldito espião irá aterrar?
- Estava bom - disse Vicary educadamente, entregando o prato. - Acho que não estava com tanta fome como pensava.
Na rua, Vicary levantou a gola do sobretudo e começou a voltar para o escritório.
E inteiramente possível que um só homem a perca.
Folhas mortas crepitavam no caminho de Vicary enquanto ele se apressava ao longo de Birdcage Walk. A última luz da tarde recuava lentamente. Na escuridão crescente, Vicary podia ver as cortinas do blackout fecharem-se como pálpebras nas janelas sobranceiras ao St. James's Park. Imaginou Helen numa das janelas a vê-lo apressar-se pelo passeio lá em baixo. Entrou numa feroz fantasia em que, resolvendo o caso, prendendo os espiões e ganhando a guerra, iria provar que era digno dela e ela o voltaria a aceitar.
Não seja esse homem.
Havia mais qualquer coisa que Churchill tinha dito; tinha-se queixado da chuva incessante. O primeiro-ministro, seguro no abrigo da sua fortaleza subterrânea, a queixar-se do tempo...
Vicary passou rapidamente pelo guarda do quartel-general do MI5, sem apresentar o distintivo de identificação.
- Conseguiu inspirar-se? - perguntou Harry quando Vicary voltou para o gabinete.
- Talvez. Se precisasse de meter de repente um espião no país, Harry, que caminho usava?
- Acho que vinha pelo leste... Kent, East Anglia e até mesmo pelo leste da Escócia.
- Exatamente o que pensei.
- E então?
- Se estivesse a montar uma operação rapidamente, que meio de transporte usava?
- Depende.
- Vá lá, Harry!
- Acho que escolhia um avião.
- E porque não um submarino... pôr o espião em terra com uma balsa?
- Porque é mais fácil arranjar um pequeno avião rapidamente do que um submarino precioso.
- Exato, Harry. E do que precisa para colocar um espião em Inglaterra por avião?
- bom tempo, para já.
- Certo outra vez, Harry.
Vicary agarrou subitamente no auscultador do telefone e esperou que a telefonista atendesse.
- Daqui fala Vicary. Ligue-me ao serviço meteorológico da RAF imediatamente.
Uma jovem atendeu um momento depois.
- Sim?
-- Daqui fala Vicary, do Ministério da Guerra. Preciso de uma informação sobre o tempo.
- Que tempo tão desagradável que estamos a ter, não é?
- Sim, sim - respondeu Vicary impacientemente - Quando é que vai melhorar a leste?
- Esperamos que o sistema atual se desloque para o mar alto amanhã à tarde, em qualquer altura.
- E vamos ter céu limpo?
- Cristalino.
- Raios!
- Mas não por muito tempo. Há outra frente atrás desta, a deslocar-se rapidamente pelo país para sudeste.
- E a que distância está?
- É difícil dizer. Provavelmente doze a dezoito horas.
- E depois disso?
- O país inteiro vai ficar encharcado na próxima semana... neve e chuva intermitente.
- Obrigado.
Vicary desligou o telefone e voltou-se para Harry.
- Se a nossa teoria for válida, o nosso espião vai tentar entrar no país de paraquedas amanhã à noite.
TREZE
HAMPTON SANDS, NORFOLK
A descida de bicicleta até à praia demorava normalmente cerca de cinco minutos. Ao fim da tarde, Sean Dogherty resolveu cronometrá-la apenas para ter a certeza.
Pedalou a uma cadência cuidadosa e sem pressas, com a cabeça inclinada para o vento refrescante vindo do mar. Desejou que a bicicleta estivesse em melhor estado.
Como a própria Inglaterra em tempo de guerra, estava gasta, batida, a precisar desesperadamente de manutenção. Chocalhava e chiava a cada volta dos pedais. A corrente precisava de óleo, que era escasso, e os pneus estavam tão carecas e remendados que até parecia que Dogherty se deslocava só nos aros.
A chuva diminuíra a meio do dia. Nuvens gordas e esfarrapadas flutuavam por cima da cabeça de Dogherty como balões de barragem a flutuarem nos seus ancoradouros. Atrás dele, o Sol punha-se no horizonte como uma bola de fogo. Os pântanos e as encostas brilhavam com uma bela luz cor de laranja.
Dogherty sentiu uma intensa excitação a crescer no seu peito. Não sentia nada igual desde a primeira vez que se tinha encontrado com o contacto da Abwehr em Londres, no início da guerra.
A estrada acabava num pequeno pinhal no sopé das dunas. Um sinal desgastado pelo mau tempo avisava que havia minas na praia. Dogherty, como toda a gente em Hampton Sands, sabia que não havia nenhuma. No cesto da bicicleta, Dogherty tinha colocado um recipiente
fechado com um litro de preciosa gasolina. Retirou o recipiente, empurrou a bicicleta para dentro do pinhal e encostou-a cuidadosamente a uma árvore.
Dogherty olhou para o relógio - exatamente cinco minutos.
Um trilho seguia pelo meio das árvores. Dogherty seguiu-o, com areia e agulhas secas de pinheiro por debaixo dos pés, e atravessou as dunas. O barulho da rebentação das ondas enchia o ar.
O mar abriu-se à frente dele. A maré tinha atingido o ponto mais alto duas horas antes. Naquele momento, já estava a vazar rapidamente e com força. À meia-noite, hora a que estava prevista a descida, iria haver uma larga faixa de areia seca e lisa ao longo da linha de água, perfeita para a aterragem em paraquedas de um agente.
Dogherty tinha a praia por sua conta. Voltou para os pinheiros e passou os cinco minutos seguintes a recolher lenha suficiente para três pequenas fogueiras de sinalização. Precisou de quatro viagens para levar a lenha para a praia. Verificou o vento - de nordeste, a uns trinta e três quilómetros por hora. Dogherty empilhou a madeira em linha reta, separando as pilhas umas das outras cerca de vinte metros, para indicar a direção do vento.
O crepúsculo estava a terminar. Dogherty abriu o recipiente da gasolina e regou a madeira. À noite, teria de esperar ao pé do rádio até receber o sinal de Hamburgo a avisar que o avião se estava a aproximar. Nessa altura, teria de descer até- à praia, acender as fogueiras e recolher o agente. Simples, se tudo corresse conforme planeado.
Dogherty começou a voltar para trás pela praia. Foi então que viu Mary parada no topo das dunas, uma silhueta recortada pelos últimos raios do pôr do Sol, com os braços cruzados debaixo do peito. O vento atirava-lhe o cabelo para a cara. Ele tinha-lhe dito na noite anterior, tinha-lhe dito que a Abwehr o tinha mandado recolher um agente. Tinha-lhe pedido para sair de Hampton Sands até estar tudo acabado, tinham amigos e família em Londres com quem ela podia ficar. Mary tinha recusado ir. Não lhe tinha dito uma palavra desde então. Andavam aos encontrões no pequeno chalé, num silêncio zangado, evitando entreolharem-se, com Mary a bater com os tachos no fogão e a partir pratos e chávenas por causa dos nervos abalados. Era como se tivesse ficado para o punir com a sua presença.
Quando Dogherty chegou ao topo das dunas, Mary tinha partido. Seguiu o caminho até ao sítio onde tinha deixado a bicicleta. Mary tinha-a levado. Mais um round na nossa guerra silenciosa, pensou Dogherty. Levantou a gola para se proteger do vento e voltou para o chalé.
Jenny Colville descobriu o lugar quando tinha dez anos - uma pequena depressão nos pinheiros, a algumas centenas de metros da estrada, abrigada do vento por um par de grandes rochas. Um esconderijo perfeito. Tinha construído um tosco fogão de acampamento, amontoando rochas num círculo e pondo uma pequena grelha de metal no topo. Colocou os elementos de uma fogueira - agulhas de pinheiro, erva seca das dunas, pequenos galhos caídos das árvores e chegou-lhes um fósforo. Soprou suavemente e um instante depois a fogueira ganhou vida.
Ela conservava uma pequena mala escondida debaixo das rochas, coberta com uma camada de agulhas de pinheiro. Afastou as agulhas e tirou-a de lá. Jenny abriu a tampa e retirou o que estava lá dentro: um cobertor de lã gasto, uma pequena panela de metal, uma caneca de esmalte lascada e uma caixa de chá seco e poeirento. Jenny desdobrou o cobertor e estendeu-o ao pé da fogueira. Sentou-se e aqueceu as mãos nas chamas.
Dois anos antes, um aldeão tinha descoberto as suas coisas e concluído que um vagabundo estava a viver na praia. Isso causou a maior agitação em Hampton Sands desde
o incêndio na St. John's Church, em 1912. Jenny manteve-se afastada durante algum tempo. Mas o escândalo acalmou rapidamente e ela pôde voltar.
As chamas morreram, deixando uma camada de brasas vermelhas incandescentes. Jenny encheu o bule com água de um cantil que trouxera de casa. Assentou a panela na
grelha e esperou que começasse a ferver, ouvindo o som do mar e do vento a assobiar entre os pinheiros.
Como de costume, o local exerceu a sua magia.
Começou a esquecer-se dos seus problemas - do pai.
Ao princípio da tarde, quando chegou a casa vinda da escola, ele estava sentado à mesa da cozinha, bêbado. Depressa se iria tornar beligerante, depois zangado e
depois violento. Iria descarregar na pessoa mais próxima; inevitavelmente, seria Jenny. Decidiu esquivar-se
à tareia antes que ela pudesse acontecer. Fez-lhe um prato de sanduíches pouco abundante e um bule de chá e colocou-os na mesa. Ele não disse nada, não mostrou nenhum
interesse em saber onde ela ia quando Jenny vestiu o casaco e se esgueirou pela porta.
A água ferveu. Jenny juntou-lhe o chá, tapou-a e tirou-a do lume. Pensou nas outras raparigas da aldeia. Estariam em casa a jantar com os pais, a falarem sobre os
acontecimentos do dia e não a esconderem-se nas árvores ao pé da praia, sem outra companhia que não o som das ondas e uma chávena de chá. Isso tinha-a tornado diferente,
mais velha, mais esperta. Tinha sido despojada da sua infância, do seu tempo de inocência, forçada a confrontar-se muito cedo na vida com o facto de o mundo poder
ser um sítio diabólico.
Meu Deus, porque é que ele me odeia tanto? O que é que eu alguma vez
fiz que o magoasse?
Mary tinha feito o seu melhor para explicar o comportamento de Martin Colville. Ele ama-te, tinha dito Mary vezes sem conta, mas está ferido, zangado e infeliz e
descarrega na pessoa de quem gosta mais.
Jenny tinha tentado pôr-se no lugar do pai. Lembrava-se vagamente do dia em que a mãe juntou as suas coisas e partiu. Lembrava-se do pai a implorar e a suplicar-lhe
que ficasse. Lembrava-se da expressão da cara dele quando ela recusou, lembrava-se do som do estilhaçar dos copos, dos pratos partidos, das coisas horríveis que
disseram um ao outro. Durante muitos anos, não lhe disseram para onde a mãe tinha ido, simplesmente não se falava disso. Quando Jenny perguntava ao pai, ele ia-se
embora num silêncio tempestuoso. Mary foi quem acabou por lhe dizer. A mãe tinha-se apaixonado por um homem de Birmingham e tido um caso com ele, vivendo juntos
desde então. Quando Jenny perguntou por que razão a mãe nunca a tinha tentado contactar, Mary não lhe pôde dar uma resposta. Para tornar as coisas piores, Mary disse
a Jenny que ela se tinha tornado a cara da mãe. Jenny não tinha provas disso - a última memória que tinha da mãe era a de uma mulher desesperada e zangada, com os
olhos inchados e vermelhos de chorar - e o pai tinha destruído todas as fotografias dela há muito tempo.
Jenny verteu o chá, apertando a caneca de esmalte junto do corpo para aquecer. Rajadas de vento agitavam o topo das árvores por
cima da sua cabeça. A Lua apareceu, seguida pelas primeiras estrelas. Jenny conseguia sentir que iria ser uma noite muito fria. Não iria poder ficar muito tempo.
Deitou dois pedaços de lenha para a fogueira e ficou a olhar para as sombras a dançarem nas rochas. Acabou o chá e enrolou-se numa bola, com a cabeça apoiada nas
mãos.
Imaginou-se noutro lugar qualquer, em qualquer sítio exceto Hampton Sands. Queria fazer algo grandioso e não voltar mais. Tinha dezasseis anos. Algumas das raparigas mais velhas das aldeias vizinhas tinham ido para Londres e para outras cidades grandes para aceitarem trabalhos que os homens tinham largado para irem para a guerra. Ela podia encontrar trabalho numa fábrica, servir à mesa, qualquer coisa.
Estava a começar a adormecer quando pensou ouvir um som perto da água. Por um momento, interrogou-se se haveria realmente vagabundos a viverem na praia. Assustada, Jenny pôs-se de pé. Os pinheiros acabavam nas dunas. Deslocou-se cuidadosamente pelo pinhal, pois tinha escurecido rapidamente, e iniciou a subida da areia. Parou no topo, com a vegetação da duna a dançar ao sabor do vento por baixo dos seus pés, e olhou na direção do som. Viu uma figura com um oleado, botas de mar e um chapéu impermeável com abas largas.
Sean Dogherty.
Parecia estar a empilhar madeira, a andar de um lado para o outro, a calcular alguma distância. Talvez Mary estivesse certa. Talvez Sean tivesse endoidecido.
Depois, Jenny descortinou outra figura no topo das dunas. Era Mary, ali de pé, ao vento, de braços cruzados, olhando para Sean em silêncio. A seguir, Mary voltou-se e foi-se embora silenciosamente sem esperar por Sean.
Quando Sean ficou fora de vista, Jenny apagou as brasas, guardou as suas coisas e pedalou de regresso a casa. O chalé estava vazio, frio e escuro quando chegou. O pai tinha saído, a lareira estava apagada há muito. Não havia nenhuma nota a explicar o seu paradeiro. Ficou acordada na cama durante algum tempo, a ouvir o vento, a rever a cena que tinha testemunhado na praia. Havia qualquer coisa muito errada naquilo, concluiu. Qualquer coisa muito errada mesmo.
- De certeza que podemos fazer mais qualquer coisa, Harry disse Vicary a andar de um lado para o outro do gabinete.
- Já fizemos tudo o que podíamos fazer, Alfred.
- Talvez devêssemos verificar outra vez com a RAF.
- Acabei de verificar com a RAF.
- Alguma coisa?
- Nada.
- bom, ligue para a Marinha Real...
- Acabei de falar para a Cidadela.
- E?
- Nada.
- Cristo!
- Tem de ser paciente.
- Não sou dotado de paciência natural, Harry.
- Já reparei.
- E quanto a...
- Liguei para oferry de Liverpool
- E então?
- Parado por causa do mar bravo.
- Então esta noite eles não vêm pela Irlanda.
- Não é muito provável.
- Talvez estejamos a abordar isto de uma perspetiva errada, Harry.
- O que quer dizer?
- Talvez devêssemos focar a nossa atenção nos dois agentes que já estão no Reino Unido.
- Estou a ouvir.
- Vamos voltar aos registos de passaportes e de imigração.
- Cristo, Alfred, eles não mudaram desde 1940. Juntámos todos os que achávamos que eram espiões e prendemos toda a gente de quem tínhamos dúvidas.
- Eu sei, Harry. Mas talvez haja alguma coisa em que não tenhamos reparado.
- Tal como?
- Diabos, como quer que eu saiba?
- Eu arranjo os registos. Mal não pode fazer.
- Talvez estejamos sem sorte, Harry.
- Alfred, conheci uma série de polícias com sorte no meu tempo.
- Sim, Harry?
- Mas nunca conheci um poli cia preguiçoso com sorte.
- Onde quer chegar, Harry?
- vou buscar os registos e fazer um bule de chá.
Sean Dogherty saiu do chalé pela porta das traseiras e percorreu o caminho até ao celeiro. Vestia uma camisola grossa e um oleado e trazia um candeeiro a petróleo. As últimas nuvens tinham desaparecido. O céu era um tapete azul-escuro carregado de estrelas, com uma Lua brilhante a três quartos. O ar estava dolorosamente frio.
Uma ovelha baliu quando ele abriu a porta do celeiro e entrou. O animal tinha-se enredado na cerca nesse dia. Na luta para se libertar, tinha arranjado maneira de cortar a pata e de abrir um buraco na cerca ao mesmo tempo. Naquele momento, estava deitada numa cama de feno no canto do celeiro.
Dogherty ligou o rádio e começou a mudar o penso, cantarolando serenamente para acalmar os nervos de ambos. Tirou o penso ensanguentado, substitui-o por um novo e prendeu-o de forma a ficar seguro.
Estava a admirar o seu trabalho quando o rádio crepitou, dando sinal de vida. Dogherty atravessou o celeiro a correr e colocou os auscultadores. A mensagem era breve. Enviou um sinal de confirmação e saiu do celeiro velozmente.
O percurso até à praia demorou menos de três minutos.
Dogherty desmontou no fim da estrada e puxou a bicicleta para dentro das árvores. Trepou as dunas, desceu pelo outro lado e correu ao longo da praia. As fogueiras de sinalização estavam intactas, prontas para serem acesas. Ao longe, conseguia ouvir o ronco baixo de um avião.
Pensou: Meu Deus, ele está mesmo a chegar.
Acendeu as fogueiras. Em poucos segundos, a praia resplandecia de luz.
Dogherty, agachado na vegetação das dunas, esperou que o avião aparecesse. O aparelho desceu sobre a praia e um momento depois um ponto preto saltou da parte de trás do avião. O paraquedas abriu-se com um estalido enquanto o avião virava e se dirigia para o mar alto.
Dogherty levantou-se da vegetação da duna e correu pela praia, O alemão fez uma aterragem perfeita, rolou e já estava a recolher o paraquedas preto quando Dogherty chegou.
- Deve ser o Sean Dogherty - disse ele num inglês perfeito de colégio particular.
- É verdade - respondeu Sean, espantado. - E você deve ser o espião alemão.
O homem franziu o sobrolho.
- Qualquer coisa do género. Oiça, meu velho, eu trato disto. Porque não apaga essas malditas fogueiras antes que o mundo inteiro saiba que estamos aqui?

SEGUNDA PARTE
CATORZE
PRÚSSIA ORIENTAL: DEZEMBRO DE 1927
Os veados estão a passar fome este inverno. Saem dos bosques e esgaravatam os prados em busca de comida. O grande macho está lá, ao pôr do Sol, com o nariz a furar
a neve por um bocado de erva congelada. Eles estão atrás de uma pequena elevação, Anna de barriga para baixo, o papá acocorado ao lado dela. Ele sussurra instruções,
mas ela não o ouve. Não precisa de instruções. Tinha estado à espera deste dia. Tinha-o imaginado. Tinha-se preparado para ele.
Ela está a introduzir as balas no cano da espingarda. É nova, a coronha lisa, sem um risco e a cheirar a óleo de limpar armas. É o seu presente de aniversário. Hoje quinze anos.
O veado também é o seu presente.
Tinha querido apanhar um veado antes, mas o papá recusara. "É uma coisa muito emocional, matar um veado", tinha-lhe dito em jeito de explicação. "É difícil de descrever.
Tens de experimentar e eu não deixo que isso aconteça até teres idade suficiente para compreender."
É um tiro difícil - cento e cinquenta metros, com vento lateral gelado e forte. A cara de Anna arde com o frio, o corpo estremece, os dedos ficaram entorpecidos
nas luvas. Coreógrafa o tiro na cabeça; aperta o gatilho suavemente, tal como na carreira de tiro. Exatamente como o papá lhe ensinou.
O vento sopra em rajadas. Ela espera.
Ergue-se sobre um joelho e coloca a espingarda em posição de disparar.
O veado, assustado com o barulho da neve a ser esmagada debaixo de Arma, levanta a enorme cabeça e vira-a na direção do som.
Rapidamente, ela vê a cabeça do macho na mira, tem em conta o vento lateral e dispara. A bala penetra no olho do macho e ele cai no prado branco de neve como uma
trouxa sem vida.
Ela baixa a arma e volta-se para o papá. Está à espera que ele esteja a sorrir, a aplaudir, que tenha os braços abertos para a acolher e lhe dizer quão orgulhoso
está. Em vez disso, a cara dele é uma máscara vazia enquanto olha primeiro para o veado morto e depois para ela.
- O teu pai sempre quis um filho, mas eu não lhe dei um - disse-lhe a mãe quando estava de cama a morrer de tuberculose, no quarto ao fundo do corredor. - Sê o que
ele quiser que tu sejas. Ajuda-o, Anna. Toma conta dele por mim.
Tinha feito tudo o que a mãe pedira. Tinha aprendido a andar a cavalo, a disparar e afazer tudo o que os rapaces fazem, só que melhor. Tinha viajado com o papá para
os postos diplomáticos. Na segunda-feira, vão partir para a América, onde o papá vai ser primeiro conselheiro.
Anna tinha ouvido falar dos gangsters na América a deslocarem-se nas ruas nos seus enormes carros pretos, a dispararem sobre toda agente que vissem. Se os gangsters
tentarem ferir o papá, ela vai dar-lhes um tiro nos olhos com a sua nova arma.
Nessa noite, deitam-se juntos na cama do papá, com uma grande quantidade de lenha a arder com intensidade na lareira. Lá fora, há uma tempestade. O vento ruge e as árvores batem na casa. Anna acha sempre que estão a tentar entrar porque têm frio. O fogo crepita e o fumo emite um cheiro quente e maravilhoso. Encosta a cara à do papá e põe os braços à volta do peito dele.
- Para mim, foi difícil a primeira vez que matei um veado - di ele como que a admitir uma falha. - Quase pus a minha arma de lado. Porque não foi difícil para ti,
minha querida Anna?
- Não sei, papá, simplesmente não foi!
- Tudo o que conseguia ver eram os olhos daquela maldita coisa afitarem-me. Uns enormes olhos castanhos. Belos. Depois vi a vida a abandoná-los e senti-me pessimamente.
Não consegui tirar a maldita coisa da cabeça durante uma semana.
- Não vi os olhos. Voltou-se para ela no escuro.
- O que viste? Ela hesitou.
- Vi a cara dele.
- A. cara de quem, querida? -pergunta ele, confuso. - A cara do veado?
- Não, papá, não a do veado.
- Anna, querida, de que raio estás a falar?
Ela quer desesperadamente dizer-lhe, dizer a alguém. Se a mãe ainda fosse viva, talvez lhe conseguisse dizer a ela. Mas não tem coragem para contar ao papá. Ficaria
louco. Não seria justo para ele.
- De nada, papá. Agora estou cansada - responde ela, beijando-o na cara. - Boa noite, papá. Sonhos cor-de-rosa.
LONDRES: JANEIRO DE 1944
Tinham passado seis dias desde que Catherine Blake recebera a mensagem de Hamburgo. Durante esse tempo, pensara muito e arduamente na hipótese de a ignorar.
Alfa era o nome de código de um ponto de encontro no Hyde Park, um caminho pelo meio de um pequeno bosque. Não conseguia evitar sentir-se inquieta com a ideia de ir para a frente com o encontro. O MI5 prendera dezenas de espiões desde 1940. De certeza que alguns desses espiões tinham contado tudo o que sabiam antes de irem ter com o carrasco.
Teoricamente, isso não devia fazer diferença no caso dela. Vogel prometera que com ela seria diferente. Teria procedimentos de rádio diferentes, procedimentos de encontro diferentes e códigos diferentes. Mesmo que todos os outros espiões em Inglaterra fossem presos e enforcados, não teriam maneira de chegar até ela.
Catherine desejou poder partilhar da confiança de Vogel. Ele estava a centenas de quilómetros, separado do Reino Unido pelo canal da Mancha, a voar às cegas. O mais pequeno erro podia levá-la à prisão ou à morte. Como o ponto de encontro, por exemplo. Estava uma noite terrivelmente fria; alguém a vaguear pelo Hyde Park ficava
automaticamente sob suspeita. Era um erro idiota, tão incaracterístico de Vogel. Devia estar sob grande pressão. Era compreensível. Aproximava-se uma invasão, toda a gente sabia disso. A única questão era quando e onde.
Sentia-se relutante em ir ao encontro por outra razão: receava ser arrastada para o jogo. Tinha-se habituado a viver confortavelmente
- talvez demasiado confortavelmente. A sua vida adquirira uma estrutura e uma rotina. Tinha um apartamento confortável, o seu trabalho de voluntariado no hospital e o dinheiro de Vogel para subsistir. Estava relutante em pôr-se em perigo nesta fase final da guerra. Não se achava de maneira nenhuma uma alemã patriótica. O seu disfarce parecia totalmente seguro. Podia esperar pelo fim da guerra e depois voltar para Espanha. Voltar para a grande estancia no sopé das colinas. Voltar para Maria.
Catherine entrou no Hyde Park. O trânsito da tarde em Kensington Road diluiu-se num zunido agradável.
Tinha duas razões para ir ao encontro.
A primeira era a segurança do pai. Catherine não se tinha voluntariado para trabalhar para a Abwehr como espiã, tinha sido forçada a fazê-lo. O instrumento de coerção
de Vogel era o pai dela. Tinha deixado claro que o pai seria prejudicado - preso, atirado para um campo de concentração, morto mesmo - se ela não aceitasse ir para
o Reino Unido. Se agora recusasse aceitar uma missão, a vida do pai ficaria certamente em perigo.
A segunda razão era mais simples - ela estava desesperadamente sozinha. Tinha sido destacada e isolada há seis anos. Os agentes vulgares podiam usar os seus rádios.
Tinham algum contacto com a Alemanha. Não lhe tinha sido permitido quase nenhum contacto. Era curiosa; queria falar com alguém que pertencesse ao seu lado. Queria
ser capaz de deixar cair o disfarce por alguns minutos apenas, de largar a identidade de Catherine Blake.
Meu Deus, pensou ela, mas eu já quase não me consigo lembrar do meu nome verdadeiro.
Decidiu ir ao encontro.
Caminhou ao longo da margem do lago Serpentine, vendo um bando de patos a apanhar peixe nas fendas do gelo. Seguiu o caminho em direção às árvores. A última luz tinha desaparecido; o céu era
um tapete de estrelas cintilantes. O blackout tinha uma coisa boa, pensou ela: podiam ver-se as estrelas à noite, mesmo no coração do West End.
Meteu a mão na carteira e procurou a coronha da sua pistola com silenciador, uma Mauser automática 6.35. Estava lá. Se alguma coisa parecesse fora do normal, usá-la-ia. Tinha feito uma promessa nunca se deixaria prender. A ideia de estar fechada numa fedorenta prisão britânica qualquer punha-a doente fisicamente. Tinha pesadelos com a sua própria execução. Via as caras risonhas dos ingleses antes de o carrasco lhe colocar o capuz preto na cabeça e a corda à volta do pescoço. Usaria o seu comprimido para se suicidar ou morreria a lutar, mas nunca deixaria que lhe tocassem.
Um soldado americano passou na direção contrária. Tinha uma prostituta agarrada a ele que lhe estava a esfregar as virilhas e a enfiar a língua no ouvido. Era uma cena habitual. As raparigas trabalhavam em Piccadilly. Poucas gastavam tempo ou dinheiro em quartos de hotel. Trabalho de parede, chamavam-lhe os soldados. As raparigas limitavam-se a levar os clientes para becos ou parques e a levantar as saias. Algumas mais ingénuas acreditavam que foder de pé evitava que ficassem grávidas.
Inglesas estúpidas, pensou Catherine
Meteu-se por entre o arvoredo e esperou que o agente de Vogel aparecesse.
O comboio da tarde de Hunstanton chegou à estação de Liverpool Street com meia hora de atraso. Horst Neumann recolheu o seu pequeno saco de viagem de couro da prateleira
da bagagem e juntou-se à fila dos passageiros que enchiam o cais. A estação estava num caos. Grupos de passageiros cansados vagueavam pelo terminal como vítimas de um desastre natural, com caras inexpressivas, desesperadamente à espera de comboios atrasados. Soldados dormiam onde lhes apetecia, com as cabeças apoiadas nos sacos de viagem. Alguns polícias do caminho de ferro fardados circulavam pelo meio da multidão, tentando manter a ordem. Todos os bagageiros eram mulheres. Neumann desceu para a plataforma. Pequeno, ágil, alerta, abriu caminho através da densa multidão.
Os homens junto à saída tinham autoridade estampada neles. Vestiam fatos amarrotados e usavam chapéu de coco. Interrogou-se se estariam à procura dele. Não havia maneira nenhuma de terem uma descrição sua. Instintivamente, enfiou a mão no interior do casaco, à procura da coronha da pistola. Estava lá, escondida no cós das calças. Procurou também a carteira, no bolso do peito. O nome no bilhete de identidade dizia James Porter. O seu disfarce era o de caixeiro-viajante de produtos farmacêuticos. Roçou pelos dois homens ao passar e juntou-se à multidão que se acotovelava em Bishopsgate.
A viagem, excetuando o inevitável atraso, tinha corrido sem problemas. Partilhara o compartimento com um grupo de jovens soldados. Durante algum tempo, tinham-lhe deitado olhares malévolos enquanto lia o jornal. Neumann calculava que qualquer jovem saudável e bem-parecido à paisana estaria sujeito a uma certa dose de desprezo. Disse-lhes que tinha sido ferido em Dunquerque e trazido para Inglaterra meio morto, a bordo de um rebocador de alto-mar - um dos barcos pequenos. Os soldados convidaram Neumann a juntar-se-lhes num jogo de cartas e ele dera-lhes uma tareia.
A rua estava escura como breu, com a única iluminação fornecida pelos faróis do trânsito do início da noite, que ia avançando pela rua, e pelas lanternas de blackout
que muitos transeuntes transportavam. Sentiu-se como se estivesse no meio de um jogo de crianças, a tentar realizar às cegas uma tarefa ridiculamente simples. Por duas vezes, chocou com um peão a caminhar na direção oposta. Outra vez, colidiu com uma coisa fria e dura e começou a desculpar-se antes de perceber que era um poste de iluminação.
Teve de se rir. De facto, Londres tinha mudado desde a sua última visita.
Nascera com o nome de Nigel Fox, em Londres, em 1919, filho de mãe alemã e pai inglês. Quando o pai morreu em 1927, a mãe voltou para a Alemanha e instalou-se em Dusseldorf. Um ano mais tarde, voltou a casar com um construtor rico chamado Erich Neumann, um disciplinador duro que não estava interessado em ter um enteado
chamado Nigel que falasse alemão com sotaque inglês. Mudou imediatamente o nome do rapaz para Horst, autorizou-o a usar o seu nome de família e inscreveu-o numa das mais duras escolas militares do país. Horst era muito infeliz. Os outros rapazes gozavam-no por causa do seu alemão deficiente. Pequeno, facilmente intimidável, vinha para casa a maior parte dos fins de semana com olhos negros e lábios cortados. A mãe sentia-se cada vez mais preocupada: Horst tinha-se tornado reservado e metido consigo mesmo. Erich achava que era bom para ele.
Mas quando Horst fez catorze anos, a sua vida mudou. Numa competição de atletismo aberta a todos, entrou nos 1500 metros com os calções da escola e descalço. Terminou muito abaixo dos cinco minutos, impressionante para um rapaz sem treino. Um treinador da federação nacional viu a corrida. Encorajou Horst a treinar e convenceu a escola a dar-lhe condições especiais.
Horst reviveu. Livre da escravidão das aulas de educação física da escola, passava as tardes a correr pelos campos e montanhas. Gostava de estar só, longe dos outros rapazes. Nunca tinha sido tão feliz. Tornou-se rapidamente um dos melhores atletas juniores do país em corrida e uma fonte de orgulho para a escola. Aderiu à Hitler Jugend
- a Juventude Hitleriana. De repente, rapazes que implicavam com ele nos anos anteriores procuravam a sua atenção. Em 1936, foi convidado a assistir aos Jogos Olímpicos em Berlim. Viu o americano Jesse Owens espantar o mundo ao ganhar quatro medalhas de ouro. Conheceu Adolf Hitler numa receção à Juventude Hitleriana e até lhe apertou a mão. Ficou tão entusiasmado que telefonou para casa para contar à mãe. Erich ficou imensamente orgulhoso. Sentado na tribuna, Horst sonhou com 1944, ano em que teria idade suficiente e rapidez suficiente para competir pela Alemanha.
A guerra iria mudar tudo isso.
Entrou para a Wehrmacht no início de 1939. A sua condição física e a atitude de lobo solitário chamaram a atenção dos Fallschirmjàger, a tropa paraquedista. Foi enviado para a escola de paraquedismo em Stendhal e aterrou na Polónia no primeiro dia da guerra. Seguiram-se a França, Creta e a Rússia. Obteve a sua Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro no fim de 1942.
Paris terminaria com os seus dias de paraquedismo. Uma noite, já tarde, foi a um bar tomar um brandy. Um grupo de oficiais das SS tomara conta da sala das traseiras
para uma festa privada. A meio da bebida, Neumann ouviu um grito vindo dessa sala. O francês atrás do balcão ficou petrificado, demasiado aterrado para investigar. Neumann atuou por ele. Quando abriu a porta, viu uma rapariga francesa em cima da mesa, com os braços e pernas presos por homens das SS. Um maior estava a violá-la e outro batia-lhe com um cinto. Neumann entrou a correr e aplicou um soco brutal na cara do major. A cabeça deste acertou na esquina de uma mesa: nunca recuperou a consciência.
Os outros homens das SS arrastaram-no para um beco, espancaram-no selvaticamente e deixaram-no à beira da morte. Passou três meses num hospital a recuperar. As lesões na cabeça foram tão severas que foi declarado incapaz para saltar de paraquedas. Por causa do seu inglês fluente, foi colocado num posto de escuta dos serviços secretos do exército, no norte de França, onde passou os dias sentado em frente de um recetor de rádio numa cabana limitada e claustrofóbica, a monitorizar comunicações via rádio com origem do outro lado do canal da Mancha, em Inglaterra. Era um trabalho escravo.
Foi então que apareceu o homem da Abwehr, Kurt Vogel. Tinha um aspeto doentio e cansado e, noutras circunstâncias, Neumann poderia ter pensado que ele era um artista ou um intelectual. Disse que procurava homens qualificados que quisessem ir fazer espionagem em Inglaterra. Disse que pagaria o dobro do ordenado de Neumann na Wehrmacht. Neumann estava completamente farto. Aceitou de imediato. Nessa noite, deixou a França e voltou para Berlim com Vogel.
Uma semana antes de ir para o Reino Unido, Neumann foi levado para uma quinta no distrito de Dahlem, mesmo à saída de Berlim, para uma semana de reuniões e de intensa preparação. As manhãs eram passadas no celeiro, onde Vogel tinha montado uma plataforma de saltos para Neumann treinar. Um salto real foi considerado fora de questão por razões de segurança. Também melhorou a sua habilidade com armas de fogo, que já era impressionante, e com métodos para matar silenciosamente. As tardes eram ocupadas com o essencial do trabalho de campo: saltos de treino, procedimentos especiais para encontros,
códigos e rádio. Algumas vezes, as instruções eram dadas apenas por Vogel. Outras vezes, este trazia o assistente, Werner Ulbricht. Neumann referia-se a ele, a brincar, como Watson, e Ulbricht aceitava-o com uma satisfação pouco comum nele. No final das tardes, com a luz do inverno a morrer sobre a paisagem coberta de neve da quinta, Neumann tinha autorização para correr durante quarenta e cinco minutos. Durante três dias, deixaram-no correr sozinho. Mas, no quarto dia, com a cabeça cheia dos segredos de Vogel, foi seguido à distância por um jipe.
As noites pertenciam a Vogel. Depois de uma ceia em grupo na cozinha da casa da quinta, Vogel levava Neumann para o estúdio e ensinava-o à lareira. Nunca usava notas, pois Vogel, como Neumann podia ver, tinha o dom da memória. Vogel falou-lhe de Sean Dogherty e dos procedimentos para o salto. Falou-lhe de uma agente chamada Catherine Blake. Falou-lhe de um agente americano chamado Peter Jordan.
Todas as noites, Vogel revia matéria antiga antes de adicionar outro nível de detalhe. Apesar da informalidade da atmosfera da quinta, o seu guarda-roupa nunca mudava: fato escuro, camisa branca e gravata escura. A voz dele era irritante como uma dobradiça enferrujada, mas captava a atenção de Neumann com a sua intensidade e singeleza de propósitos. Na sexta noite, satisfeito com o progresso do pupilo, Vogel até se permitiu um ligeiro sorriso, que rapidamente disfarçou com a mão direita, embaraçado com os seus dentes medonhos.
Entrar no Hyde Park pelo norte, tinha-lhe lembrado Vogel na última reunião. A partir de Bayswater Road. Era o que Neumann estava a fazer. Seguir o caminho até às árvores sobranceiras ao lago. Fazer uma passagem para ter a certeza de que o lugar está limpo. Fazer a aproximação numa segunda passagem. Deixá-la decidir se é para continuar. Ela saberá se é seguro. Ela é muito boa.
O homem baixo apareceu no trilho. Usava um sobretudo de lã e um chapéu de abas. Passou rapidamente, sem olhar para ela. Ela interrogou-se se estaria a perder o poder de atrair os homens.
Ficou à espera debaixo das árvores. As regras para os encontros eram específicas. Se o contacto não aparecer exatamente à hora marcada, ir-se embora e voltar no dia seguinte. Decidiu esperar mais um minuto e depois ir-se embora.
Ouviu os passos. Era o mesmo homem que tinha passado por ela um momento antes. Quase chocou com ela na escuridão.
- Penso que estou mesmo um pouco perdido - disse ele com um sotaque que ela não conseguiu identificar. - Pode indicar-me para que lado fica Park Lane?
Catherine olhou para ele com atenção. Ostentava um sorriso para todas as ocasiões, com os olhos azul-claros a brilharem por baixo da aba do chapéu.
Ela apontou para oeste.
- É para aquele lado.
- Obrigado.
Ele começou a afastar-se e depois voltou-se.
- Quem deve ascender à colina do Senhor? Ou quem deve ficar no seu lugar sagrado?
- Aquele que tem as mãos limpas, e um coração puro; Quem não tenha levado a alma à vaidade, nem tenha jurado falso.
Ele riu-se e disse:
- Catherine Blake, tão certo como eu estar vivo e a respirar. Porque é que não vamos a algum lado quente onde possamos falar?
Catherine procurou dentro da carteira e retirou a lanterna para o blackout.
- Tem uma coisa destas? - perguntou ela.
- Infelizmente, não.
- Isso é um erro estúpido. E erros estúpidos como esse podem matar-nos aos dois.
QUINZE LONDRES
Quando Harry Dalton ainda estava no Met1, era considerado um investigador meticuloso, arguto e implacável, que acreditava que nenhuma pista, por mais trivial que fosse, podia ser descartada. A sua grande oportunidade surgiu em 1936. Duas rapariguinhas tinham desaparecido de um pátio de recreio no East End e Harry foi destacado para a equipa especial de agentes a investigar o caso. Depois de três dias sem dormir e de intenso trabalho, Harry prendeu um vagabundo chamado Spencer Thomas. Harry dirigiu o interrogatório. No seu dia de descanso, chefiou uma equipa de busca a um lugar isolado junto ao estuário do Tamisa, onde Thomas lhe tinha dito que iria encontrar os corpos mutilados das raparigas. Nos dias que se seguiram, encontrou os corpos de uma prostituta em Gravesend, de uma criada em Bristol e de uma dona de casa em Sheffield. Spencer Thomas foi preso num manicómio para criminosos loucos. Harry foi promovido a inspetor.
Nada na sua experiência profissional o tinha preparado para um dia tão frustrante como o que estava a ter. Procurava um agente alemão, mas não tinha uma única pista ou orientação. O seu único recurso era telefonar às forças policiais locais e pedir relatórios de qualquer coisa fora do usual, de qualquer crime que pudesse ter sido
1 Abreviatura para Metropolitan Police Service of London: Serviço da Polícia Metropolitana de Londres. (N. do T.)
cometido por um espião em movimento. Não podia dizer-lhes que andava à procura de um espião, seria uma violação de segurança. Andava à pesca e Harry Dalton detestava pescar.
A conversa que Harry teve com um polícia de Evesham foi típica.
- Como disse que era o seu nome?
- Harry Dalton.
- A telefonar de onde?
- Do Ministério da Guerra em Londres.
- Estou a ver. E o que quer de mim?
- Quero saber se recebeu alguns relatórios de crimes que possam ter sido cometidos por alguém em fuga.
- Tais como?
- Tais como carros roubados, bicicletas roubadas, cupões de racionamento roubados, gasolina. Use a sua imaginação!
- Estou a ver.
- E?
- De facto, tivemos uma participação de uma bicicleta roubada.
- A sério? Quando?
- Esta manhã.
- Isso pode ser alguma coisa.
- As bicicletas são terrivelmente valiosas nos dias que correm. Tinha um traste velho a enferrujar no meu barracão. Tirei-a para fora, limpei-a um pouco, vendi-a a um cabo ianque por dez libras. Dez libras! Dá para acreditar? Aquela coisa não valia dez xelins.
- Isso é interessante. E quanto à bicicleta roubada?
- Aguente um minuto - como é que disse que era o seu nome?
- Harry.
- Harry. Aguente um minuto, Harry... George, ouvimos mais alguma coisa a respeito daquela bicicleta desaparecida em Sheep Street? Sim, essa... O que queres dizer com isso, ele encontrou-a? Onde é que ela estava, raios?.... No meio do pasto? E como é que lá foi parar, raios?... Ai fez? Meu Deus do céu! Ainda está aí, Harry?
- Ainda estou aqui.
- Lamento. Falso alarme.
- Não faz mal. Obrigado por ter procurado.
- Não há problema.
- Se ouvir alguma coisa...
- Será o primeiro a saber, Harry.
- Adeus.
Ao fim da tarde, tinha atendido dezenas de chamadas de polícias das zonas rurais, cada uma mais bizarra do que a outra. Um polícia de Bridgewater telefonou para comunicar uma janela partida.
- Parece um caso de roubo com arrombamento? - perguntou Harry
- Nem por isso.
- Porquê?
- Porque foi o vitral da igreja.
-Certo. Mantenham os olhos abertos.
Um polícia de Skegness informou que alguém tinha tentado entrar nu.mpub fora de horas.
- O homem que procuro pode não estar familiarizado com as leis de licenciamento inglesas - disse-lhe Harry.
- Então vou verificar isso com mais atenção.
- Ótimo. Mantenha-se em contacto. Voltou a telefonar vinte minutos mais tarde.
- Era apenas uma mulher aqui da terra à procura do marido. Um bêbado completo, lamento dizê-lo.
- Raios!
- Lamento, Harry, Não pretendia dar-lhe esperanças.
- Só que deu, mas obrigado por ter verificado isso.
Harry olhou para o relógio: quatro horas, mudança de turno na divisão dos Registos. Grace vinha trabalhar. Pensou: Talvez ainda consiga aproveitar alguma coisa deste dia. Desceu no elevador para a divisão dos Registos e encontrou-a a empurrar um carrinho metálico a transbordar de dossiês. Tinha cabelo curto louro-branco e o batom barato daqueles tempos de guerra, vermelho cor de sangue, dava-lhe um ar de se ter embonecado para um homem. Vestia uma camisola infantil de lã cinzenta e uma saia preta um pouco curta demais. As meias grossas não conseguiam esconder a forma das pernas longas e atléticas.
Ela viu Harry e sorriu-lhe calorosamente. No mundo da divisão dos Registos, Grace era a exceção. Vernon Kell, o fundador do Serviço, achava que só os membros da aristocracia ou os familiares de
agentes do MI5 eram de confiança para um trabalho tão delicado. Em resultado disso, a divisão dos Registos estava sempre povoada por um quadro de funcionárias debutantes muito belas. Grace era uma rapariga da classe média, filha de um professor de liceu. Viu Harry e sorriu calorosamente. Depois, apenas com uma olhadela de lado dos seus bonitos olhos verdes, disse-lhe para ir ter com ela a uma das pequenas salas secundárias. Juntou-se-lhe um momento depois, fechou a porta e deu-lhe um beijo na cara.
- Olá, Harry, querido. Como é que tens passado?
- Muito bem, Grace, é bom ver-te.
Tinha começado em 1940, durante um ataque aéreo noturno a Londres. Abrigaram-se juntos no metropolitano e de manhã, quando se ouviu o aviso de que estava tudo bem, ela levara-o para o seu apartamento e para a sua cama. Era atraente, de uma maneira não convencional, e uma amante arrebatada e desinibida - um agradável e conveniente escape da pressão da agência. Para Grace, Harry era alguém bondoso e meigo que ajudava a passar o tempo até que o marido voltasse do exército.
Podiam ter continuado assim durante toda a guerra. Mas passados três meses, Harry ficou subitamente esmagado pela culpa. O pobre desgraçado está a lutar pela vida no Norte de África e eu estou aqui, em Londres, a ir para a cama com a mulher dele. A culpa provocou nele uma crise ainda maior. Era jovem, talvez devesse estar no exército a arriscar a vida em vez de andar pelo Reino Unido a caçar espiões relativamente inofensivos. Disse a si próprio que o trabalho do MI5 era vital para o esforço de guerra - indispensável -, mas a incómoda dúvida persistiu. O que é que eu faria no campo de batalha? Pegava na minha arma e lutava ou encolhia-me num buraco de trincheira? Contou a Grace o que sentia na noite em que rompeu a ligação. Fizeram amor pela última vez, com beijos salgados das lágrimas. Maldita guerra, não parava ela de dizer. Nojenta, horrorosa e maldita guerra.
- Preciso de um favor, Grace - disse Harry em voz baixa.
- Olha-me só para ti, Harry. Não telefonas, não escreves, não me trazes flores. Depois apareces de repente e dizes que precisas de um favor - respondeu ela, sorrindo e beijando-o outra vez. - Está bem, do que precisas?
- Preciso de ver a lista de acessos a um dossiê. A cara dela fechou-se.
- Vá lá, Harry. Sabes que não posso fazer isso.
- Um homem da Abwehr chamado Vogel. Kurt Vogel.
Uma expressão de reconhecimento surgiu na cara dela e depois dissipou-se.
- Grace, não preciso de te dizer que estamos a trabalhar num caso muito importante.
- Eu sei que estás a trabalhar num caso importante, Harry. Todo o departamento anda a murmurar sobre isso.
- Quando Vicary desceu para ver o dossiê de Vogel, este tinha desaparecido. Foi falar com Jago e, dois minutos depois, tinha o raio da coisa nas mãos. Jago inventou uma história qualquer e disse que tinha sido posto fora do sítio.
Ela estava a esgravatar iradamente nos dossiês do carrinho. Agarrou num monte deles e começou a colocá-los nos respetivos lugares nas prateleiras.
- Eu sei isso tudo, Harry.
- E como é que sabes?
- Porque ele me culpou a mim. O filho da mãe escreveu uma carta de reprimenda e meteu-a no meu processo.
- Quem é que te culpou?
- Jago - sibilou ela
- Porquê?
- Para proteger a pele, claro.
Ela estava outra vez a esgravatar nos dossiês. Harry aproximou-se e pegou-lhe nas mãos para a fazer parar.
- Grace, eu preciso de ver aquela lista de acessos.
- A lista de acessos não te vai dizer nada. A pessoa que tinha o dossiê antes do Vicary não deixa pistas.
- Grace, por favor. Suplico-te.
- Gosto quando suplicas, Harry.
- Sim, eu lembro-me.
- Porque não apareces lá em casa uma noite destas para jantar? Passou a ponta do dedo pelas costas da mão de Harry. Estava
preta de selecionar dossiês.
- Sinto falta da tua companhia. Conversamos, damos umas gargalhadas, nada mais.
- Ia gostar disso, Grace.
Era verdade. Tinha imensas saudades dela.
- Se disseres a alguém onde é que arranjaste isto, Harry, juro por Deus que...
- Fica só entre nós.
- Nem ao Vicary - insistiu ela. Harry pôs a mão sobre o coração.
- Nem ao Vicary.
Grace pegou noutra mão-cheia de dossiês e, a seguir, olhou para ele. com os seus lábios vermelhos, articulou as iniciais BB.
- Como é possível que não tenha uma única pista? - perguntou Basil Boothby quando Vicary se enterrou no sofá fundo e muito confortável.
Sir Basil tinha pedido atualizações noturnas sobre o progresso da investigação. Vicary, conhecedor da paixão de Boothby por receber coisas escritas, sugeriu uma nota concisa, mas Sir Basil quis ser informado em pessoa.
Nessa noite, Boothby tinha um compromisso. Murmurara qualquer coisa sobre os americanos para explicar o facto de estar vestido formalmente quando Vicary entrou no gabinete. Enquanto falava, a sua mão enorme estava empenhada num esforço infrutífero para colocar um botão de punho de ouro no punho engomado da camisa. Sir Basil tinha um criado particular em casa para o auxiliar nessas tarefas fastidiosas. As informações de Vicary ficaram suspensas por um momento enquanto Boothby chamava a sua bonita secretária para o ajudar a vestir-se.
Isso deu a Vicary um momento para processar as informações que Harry lhe tinha dado. Tinha sido Sir Basil a tirar o dossiê de Vogel. Tentou lembrar-se da primeira conversa. O que tinha Sir Basil dito? A divisão dos Registos pode ter alguma coisa sobre ele.
A secretária de Boothby retirou-se silenciosamente. Vicary retomou o relato. Tinham homens a vigiar todas as estações de caminho
de ferro de Londres. Tinham as mãos atadas porque não havia nenhuma descrição dos agentes que deviam procurar. Harry Dalton tinha compilado uma lista dos locais que se sabia serem utilizados pelos agentes alemães para pontos de encontro. Vicary tinha homens a vigiar o maior número possível.
- Dava-lhe mais homens, Alfred, mas não há mais - disse Boothby. - Os vigias estão todos a fazer turnos duplos e triplos. O chefe dos vigias anda a queixar-se de que o Alfred está a dar cabo deles. O frio está a matá-los. Metade já foi apanhada pela gripe.
- Compreendo as dificuldades que os vigias estão a passar, Sir Basil. Estou a utilizá-los o mais sensatamente possível.
Boothby acendeu um cigarro e sorveu o seu gim com angustura enquanto andava de um lado para o outro da sala.
- Temos três agentes alemães à solta no país, fora do nosso controlo. Não preciso de lhe dizer como isto é grave. Se um desses agentes tentar contactar um dos nossos agentes duplos, vamos ter problemas. Todo o aparelho da Operação Double Cross estará em perigo.
- O meu palpite é que não vão tentar contactar outros agentes.
- E porque não?
- Porque acho que Vogel está a dirigir a sua própria operação. Acho que estamos a lidar com uma rede de espiões independente, de que nunca ouvimos falar.
- Isso é apenas um palpite, Alfred. Temos de lidar com factos.
- Já leu alguma vez o dossiê do Vogel? - perguntou Vicary o mais descontraidamente possível.
- Não.
E és um mentiroso, pensou Vicary.
- A julgar pela maneira como este caso se está a desenrolar, eu diria que Vogel manteve uma rede de agentes adormecidos no Reino Unido desde o princípio da guerra. Se tivesse de adivinhar, o agente principal atua em Londres, o subagente algures no interior, onde lhe seja possível acolher um agente rapidamente. O agente que chegou ontem à noite está de certeza aqui para informar o agente principal da missão que tem de realizar. Tanto quanto sabemos, até podem estar a encontrar-se neste preciso momento em que estamos aqui a falar. E nós estamos a ficar cada vez mais para trás.
- Interessante, Alfred, mas é tudo baseado em conjeturas.
- Conjeturas baseadas na experiência, Sir Basil. Na ausência de factos provados, receio que seja o nosso único recurso - retorquiu Vicary, hesitando depois, consciente
da reação que a sua próxima sugestão iria provavelmente gerar. - Entretanto, penso que devíamos marcar uma reunião com o general Betts para o informar dos desenvolvimentos.
A cara de Boothby transformou-se numa carranca zangada. O brigadeiro-general Thomas Betts era o chefe-adjunto dos serviços secretos do SHAEF. Alto, parecido com
um urso, Betts tinha um dos lugares menos invejados de Londres: garantir que nenhum das várias centenas de agentes americanos e ingleses que sabiam o segredo da
operação Overlord revelasse esse segredo ao inimigo, intencional ou não intencionalmente.
- Isso é prematuro, Alfred.
- Prematuro? Sir Basil, foi o senhor que o disse. Temos três espiões alemães à solta.
- Tenho de ir ao fundo do corredor informar o diretor-geral daqui a nada. Se lhe sugerir que comuniquemos as nossas falhas aos americanos, vai cair-me em cima sem dó nem piedade
- Tenho a certeza de que o diretor-geral não será muito duro consigo, Sir Basil - respondeu Vicary, sabendo que Boothby tinha convencido o diretor-geral de que era um elemento indispensável. Além de que dificilmente se poderá considerar uma falha.
Boothby parou de andar de um lado para o outro.
- E o que lhe chamaria?
- Um contratempo temporário. Boothby resfolegou e esmagou o cigarro.
- Não permito que manche a reputação deste departamento, Alfred. Não vou permiti-lo.
- Talvez haja mais uma coisa que deva considerar para além da reputação deste departamento, Sir Basil.
- O quê?
Vicary esforçou-se por sair do sofá fundo e macio.
- Se os espiões tiverem sucesso, podemos muito bem perder a guerra.
- bom, então faça qualquer coisa, Alfred.
- Obrigado, Sir Basil. Não há dúvida de que é um bom conselho.
DEZASSEIS LONDRES
De Hyde Park apanharam um táxi para EarPs Court. Pagaram ao taxista quando faltavam uns quatrocentos metros para o apartamento dela. Durante o pequeno trajeto a pé, voltaram para trás duas vezes e Catherine fingiu que fazia uma chamada de uma cabine telefónica. Não estavam a ser seguidos. A senhoria, de seu nome Hodges, estava à entrada quando chegaram. Catherine deu o braço a Neumann. A senhora Hodges lançou-lhes um olhar de desaprovação quando subiram as escadas.
Catherine estava relutante em levá-lo até ao apartamento. Tinha protegido ciosamente a sua localização e recusado dar a morada a Berlim. A última coisa de que precisava era de um agente do MI5 a bater-Ihe à porta a meio da noite. Mas encontrarem-se em público estava fora de questão: tinham muito para discutir e fazê-lo num café ou numa estação de comboios era muito perigoso.
Observou Neumann à medida que ele dava uma volta pelo apartamento. Conseguia perceber pelo passo preciso e pela economia de gestos que, em tempos, tinha sido soldado. O inglês dele era perfeito. Era evidente que Vogel o tinha escolhido cuidadosamente. Pelo menos, não tinha enviado um amador qualquer para a informar da missão. Ele dirigiu-se à janela da sala de estar, abriu as cortinas e olhou para baixo, para a rua.
- Mesmo que eles estejam lá fora, nunca os conseguirá descobrir - disse Catherine enquanto se sentava.
- Eu sei, mas faz-me sentir melhor se olhar - respondeu ele, afastando-se da janela. - Foi um dia longo. Sabia-me bem uma chávena de chá.
- Tem tudo o que precisa na cozinha. Sirva-se.
Neumann pôs água a ferver no fogão e depois voltou para a sala.
- Como é que se chama? - perguntou-lhe ela. - O seu nome verdadeiro.
- Horst Neumann.
- É soldado. Pelo menos, foi. Qual é o seu posto?
- Sou tenente.
Ela sorriu.
- Bem, eu tenho um posto mais elevado.
- Sim, eu sei... major.
- Qual é o seu nome de cobertura?
- James Porter.
- Deixe-me ver a sua identificação.
Ele entregou-lha. Ela examinou-a cuidadosamente. Era uma falsificação excelente. Devolveu-lha.
- É boa - disse ela. - Mas mostre-a apenas se for absolutamente necessário. Qual é a sua cobertura?
- Fui ferido em Dunquerque e saí do exército por invalidez. Agora, sou caixeiro-viajante.
- E onde está alojado?
- Na costa de Norfolk, numa aldeia chamada Hampton Sands. Vogel tem um agente lá chamado Sean Dogherty. É um simpatizante do IRA e tem uma pequena quinta.
- E como entrou no país?
- De paraquedas.
- Muito impressionante - disse ela com sinceridade.
- E Dogherty acolheu-o? Estava à sua espera?
- Sim.
- Vogel contactou-o por rádio?
- Presumo que sim.
- Isso quer dizer que o MI5 anda atrás de si.
- Penso que avistei dois dos homens deles na Liverpool Street.
- Isso faz sentido. De certeza que andam a vigiar as estações retorquiu ela, acendendo um cigarro. - O seu inglês é excelente. Onde o aprendeu?
Enquanto ele lhe contava a história, Catherine observou-o cuidadosamente, pela primeira vez. Era pequeno e bem constituído: talvez tivesse sido um adeta, um jogador de futebol ou um corredor de fundo. O cabelo era escuro, os olhos de um azul penetrante. Era, obviamente, inteligente - não como alguns dos imbecis que ela tinha conhecido na escola de espiões da Abwehr, em Berlim. Duvidava que alguma vez tivesse estado atrás das linhas inimigas como agente e, contudo, não mostrava quaisquer sinais de nervosismo. Ela tinha mais algumas perguntas antes de ouvir o que ele tinha para dizer.
- Como é que acabou neste tipo de trabalho?
Neumann contou-lhe a história: tinha sido membro dos Fallschirmjàger, tinha visto ação em tantos sítios que já nem se lembrava. Contou-lhe sobre Paris. Sobre a sua transferência para a unidade de escuta da Funkabwehr no norte da França. E, finalmente, sobre o seu recrutamento por Kurt Vogel.
- O nosso Kurt é muito bom a encontrar trabalho para os incansáveis - disse Catherine quando ele acabou. - Então, o que é que Vogel tem em mente para mim?
- Uma missão e depois acabou-se. De volta à Alemanha.
A chaleira chiou. Neumann foi à cozinha e ocupou-se do chá. Uma missão e depois acabou-se. De volta à Alemanha. E com um antigo e altamente competente paraquedista para a ajudar a escapar. Estava impressionada. Sempre assumira o pior, que quando a guerra acabasse seria esquecida no Reino Unido e forçada a defender-se sozinha. Os britânicos e os americanos, assim que a inevitável vitória chegasse, atirar-se-iam aos ficheiros capturados da Abwehr. Encontrariam o nome dela, aperceber-se-iam de que nunca estivera presa e viriam atrás dela. Essa era outra razão por que escondera tanta informação de Vogel, não queria deixar um rasto em Berlim para os inimigos a perseguirem. Mas era óbvio que Vogel queria que ela regressasse à Alemanha e tinha tomado medidas para que isso acontecesse.
Neumann voltou à sala de estar com um bule de chá e duas canecas. Pousou tudo em cima da mesa e sentou-se novamente.
Catheríne perguntou-lhe:
- Qual é o seu trabalho, para além de me informar da minha missão?
- Tudo o que precisar, basicamente. Sou o seu correio, o seu agente de apoio e o seu operador de rádio. Vogel quer que continue a não usar o rádio. Está convencido de que não é seguro. Apenas pode usar o rádio se precisar de mim. Contacta Vogel com um sinal combinado previamente e Vogel contacta-me a mim.
Ela assentiu com a cabeça e depois perguntou:
- E quando acabar tudo? Como é que vamos sair do Reino Unido? E, por favor, não me venha com algo do estilo heróico, como roubar um barco e navegar até França. Porque não é possível.
- Claro que não. Vogel arranjou-lhe um bilhete de primeira classe num submarino.
- Qual?
- O U-509.
- Onde?
- No mar do Norte.
- Isso é muito grande. Onde, exatamente?
- Em Spurn Head, na costa de Lincolnshire.
- Moro aqui há cinco anos, tenente Neumann. Eu sei onde fica Spurn Head. E como chegamos ao submarino?
- Vogel tem um barco e um capitão à nossa espera numa doca do rio Humber. Quando for hora de partir, eu contacto-o e ele leva-nos ao submarino.
Ela pensou: Então, Vogel tem um esquema de fuga montado de que nunca me falou.
Catherine bebericou o chá, observando Neumann por cima da borda da caneca. Era remotamente possível que ele fosse um homem do MI5 a fazer passar-se por um agente alemão. Ela podia entrar em joguinhos idiotas - como testar o alemão dele ou fazer-lhe perguntas sobre um pequeno café conhecido em Berlim -, mas, se ele fosse realmente do MI5, seria suficientemente esperto para evitar uma armadilha tão óbvia. Conhecia a gíria, sabia muita coisa sobre Vogel e a sua história parecia credível. Decidiu deixá-lo continuar. Quando Neumann estava prestes a falar, as sirenes de ataque aéreo soaram.
- Precisamos de levar isto a sério? - perguntou Neumann.
- Viu o edifício que está por trás deste?
Neumann tinha-o visto, uma pilha de tijolos partidos e madeira estilhaçada.
- Onde fica o abrigo mais próximo?
- Ao virar da esquina - respondeu ela, sorrindo-lhe. - Bem-vindo de volta a Londres, tenente Neumann.
Era o início da noite do dia seguinte quando o comboio de Neumann entrou na estação de Hunstanton. Sean Dogherty estava a fumar ansiosamente na plataforma quando ele saiu do comboio.
- Como é que correu? - perguntou Dogherty enquanto se dirigiam para a carrinha.
- Sem problemas.
Dogherty conduzia desconfortavelmente depressa pela estrada sinuosa e esburacada. Era um calhambeque velho, a necessitar urgentemente de uma revisão a julgar pelos barulhos que fazia. Os faróis tinham as proteções do blackout. Um feixe trémulo de uma luz amarela fraca tentava, em vão, iluminar a estrada. Neumann tinha a sensação de estar a percorrer uma casa estranha e escura, com apenas um fósforo como iluminação. Passaram por aldeias desertas e escuras
- Holme, Thornham, Titchwell -, sem luzes acesas, lojas e casas de campo completamente fechadas, sem sinal de estarem habitadas. Dogherty estava a falar-lhe do seu dia, mas Neumann foi deixando gradualmente de o ouvir enquanto pensava na noite anterior.
Tinham-se abrigado apressadamente numa estação de metro como o resto das pessoas e esperado três horas na plataforma fria e húmida pelo aviso da sirene de que já era seguro sair. Ela dormiu durante um bocado, deixando cair a cabeça no ombro dele. Perguntou a si próprio se seria a primeira vez, em seis anos, que ela se sentia segura. Observou-a na escuridão. Era uma mulher espantosamente bonita, mas havia nela uma tristeza distante, talvez uma mágoa de infância, infligida por um adulto negligente. Ela mexeu-se enquanto dormia, perturbada por sonhos. Ele tocou nos caracóis que se espalhavam pelo seu ombro. Quando a sirene soou, ela acordou como um soldado em território inimigo - depressa, com os olhos subitamente
abertos e a mão a procurar a arma mais próxima. No caso dela, era a mala, onde Neumann presumiu que guardava uma pistola ou uma faca.
Falaram até ao amanhecer. Na verdade, ele falara e ela ouvira. Ela nunca falava, exceto para o corrigir quando ele cometia um erro ou contradizia alguma coisa que dissera horas antes. Ela tinha, obviamente, uma mente portentosa, capaz de armazenar grandes quantidades de informação. Não era de estranhar que Vogel tivesse tanto respeito pelas suas capacidades.
Uma madrugada cinzenta espalhava-se por Londres quando Neumann se esgueirou do apartamento dela. Movimentara-se como um homem que deixa a amante, olhando de relance sobre o ombro, perscrutando as caras dos transeuntes à procura de algo suspeito. Durante três horas, vagueou por Londres debaixo de uma chuvinha fria, mudando de direção repentinamente, entrando e saindo de autocarros, olhando para os reflexos das janelas. Decidiu que não estava a ser seguido e voltou para trás, em direção à estação de Liverpool Street.
Dentro do comboio, pousou a cabeça nas mãos e tentou dormir. Não caias no feitiço dela, tinha-o avisado Vogel, em tom de brincadeira, no último dia que passaram juntos na quinta. Mantém uma certa distância. Ela vive em sítios escuros onde tu não queres ir.
Neumann imaginou-a no apartamento, a escutá-lo, à luz fraca, quando ele lhe falara de Peter Jordan e daquilo que ela teria de fazer. Era a sua imobilidade desconcertante que mais o espantava, a maneira como as mãos estavam cruzadas no colo, a maneira como a cabeça e os ombros pareciam nunca se moverem. Apenas os olhos o faziam, saltitando à volta do quarto, deslocando-se de um lado para o outro da cara dele, percorrendo-lhe o corpo para cima e para baixo. Como holofotes. Por momentos, permitiu-se acalentar a fantasia de que ela o desejava. Mas naquele instante, enquanto Hampton Sands se desvanecia na escuridão atrás deles e o chalé de Dogherty lhes aparecia à frente, Neumann chegou a uma conclusão perturbante. Catherine não estava a olhar para ele daquela maneira porque o achava atraente, estava a decidir qual a melhor maneira de o matar se alguma vez precisasse de o fazer.
Neumann tinha-lhe dado uma carta quando se fora embora nessa manhã. Ela tinha-a posto de lado, demasiado aterrorizada para a ler. Naquele momento, com as mãos a tremerem, abriu-a e leu-a deitada
na cama.
Minha querida Anna,
Estou aliviado por saber que te encontras bem e em segurança. Desde que me deixaste toda a
luz da minha vida desapareceu. Rezo para que esta guerra acabe depressa
para que possamos estar juntos novamente. Boa noite, sonhos cor-de-rosa, pequenina.
O teu pai que te adora
Quando acabou de a ler, levou a carta para a cozinha, pegou-lhe fogo e atirou-a para o lava-louças. Chamejou por instantes e depois apagou-se rapidamente. Catherine
abriu a torneira e lançou as cinzas pelo cano abaixo. Suspeitava que fosse uma falsificação - que Vogel a tinha escrito para a manter na linha. O pai, temia ela, já estava morto. Voltou para a cama e ficou acordada na suave luz cinzenta da manhã, a ouvir a chuva a bater na janela. A pensar no pai, a pensar em Vogel.
DEZASSETE
GLOUCESTERSHIRE, INGLATERRA
- Parabéns, Alfred. Entra. Lamento que tenha tido de acontecer desta maneira, mas acabaste de te tornar um homem bastante rico.
Edward Kenton estendeu a mão como se estivesse à espera que Vicary se empalasse nela. Vicary agarrou a mão e apertou-a debilmente antes de passar rente a Kenton, em direção à sala da casa de estar do chalé da tia.
- Está um frio dos diabos lá fora, Alfred - disse Kenton enquanto Vicary examinava a sala.
Já não ia lá desde a guerra, mas nada tinha mudado.
- Espero que não te importes, mas acendi a lareira. Isto parecia uma câmara frigorífica quando cheguei. Também fiz chá. E há leite verdadeiro. Suponho que não se veja muito disso em Londres nesta altura.
Vicary tirou o casaco enquanto Kenton se dirigia para a cozinha. Não era realmente um chalé - isso era o que Matilda insistia em chamar-lhe. Na verdade, era uma casa grande, feita de pedra calcária de Cotswolds, com jardins espetaculares, rodeados por um muro alto. Ela morrera de uma apoplexia na noite em que Boothby atribuíra o caso a Vicary. Tinha planeado assistir ao funeral, mas fora convocado por Churchill nessa manhã, depois de Bletchley Park ter descodificado as mensagens de rádio alemãs. Sentiu-se horrivelmente mal por ter faltado à cerimónia. Matilda tinha-o criado praticamente, depois de a mãe dele morrer quando Vicary tinha doze anos. Tinham
continuado grandes amigos. Ela fora a única pessoa a quem ele falara da sua missão no MI5. O quefaes exatamente, Alfred? Apanho espiões alemães, tia Matilda.
Oh, que bom para ti, Alfred!
Portas envidraçadas davam para os jardins, mortos com o inverno. Às vezes, apanho espiões, tia Matilda, pensou ele. Noutras, eles levam a melhor.
Nessa manhã, Bletchley Park enviara a Vicary mais uma mensagem decifrada vinda de um agente no Reino Unido. Dizia que o encontro tinha sido um sucesso e que o agente tinha aceitado a missão. Vicary estava a perder a esperança em relação às hipóteses de apanhar os espiões. As coisas tinham piorado nessa manhã. Dois homens foram observados a encontrarem-se em Leicester Square e tinham sido detidos para interrogatório. Descobriram que o mais velho era um funcionário superior do Ministério do Interior e que o mais novo era o seu amante. Boothby tinha ficado louco de fúria.
- Como correu a viagem? - perguntou Kenton da cozinha, por cima do tilintar da louça e do barulho da água a correr.
- Bem - respondeu Vicary.
Boothby tinha permitido, relutantemente, que ele levasse um Rover emprestado da divisão dos Transportes.
- Não me consigo lembrar da última vez que fiz uma viagem relaxante pelo campo - disse Kenton. - Mas suponho que a gasolina e os automóveis são apenas algumas das regalias do teu novo emprego.
Kenton entrou na sala com um tabuleiro de chá. Era alto - tão alto como Boothby -, mas sem a mesma corpulência ou agilidade física. Usava óculos redondos demasiado pequenos para a cara e um bigode fininho que parecia ter sido desenhado com um lápis de sobrancelhas feminino. Pousou o chá na mesa à frente do sofá, deitou leite nas chávenas, como se fosse ouro líquido, e depois adicionou o chá.
- Meu Deus, Alfred, há quanto tempo?
Vinte e cinco anos, pensou Vicary. Edward Kenton era amigo de Helen. Até tinham saído juntos algumas vezes, depois de Helen ter acabado o noivado com Vicary. Por coincidência, tornara-se procurador de Matilda, dez anos antes. Vicary e Kenton tinham falado ao telefone várias vezes nos últimos anos, à medida que Matilda ia ficando
demasiado velha para tratar das coisas sozinha, mas era a primeira vez que se viam cara a cara. Vicary desejava que ele conseguisse concluir os negócios da tia morta sem o espectro de Helen a pairar sobre os procedimentos.
- Ouvi dizer que foste designado para o Ministério da Guerra
- disse Kenton.
- É verdade - retorquiu Vicary.
Bebeu meia chávena de chá de um só trago. Era delicioso, muito melhor do que aquela água desenxabida que serviam na cantina.
- O que fazes, exatamente?
- Oh, trabalho num departamento muito aborrecido, faço isto e aquilo - respondeu Vicary, sentando-se. - Desculpa, Martin, detesto apressar as coisas, mas tenho mesmo de voltar para Londres.
Kenton sentou-se à frente de Vicary e tirou uma série de papéis da mala de couro preta. Molhou a ponta do dedo indicador delgado e, cautelosamente, virou as páginas até chegar à adequada.
- Ah, cá está. Eu mesmo elaborei este testamento há cinco anos
- disse ele. - Ela distribuiu algum dinheiro e outras propriedades pelos teus primos, mas deixou-te a maior parte da herança.
- Não fazia ideia.
- Deixou-te a casa e uma grande soma de dinheiro. Ela era uma pessoa frugal. Gastava cuidadosamente e investia sabiamente - explicou Kenton, virando os papéis para Vicary a fim de que este os pudesse ler. - Aqui está o que vai ser teu.
Vicary estava estupefacto; não fazia a mínima ideia. Assim, o facto de ter faltado ao funeral por causa de uns espiões alemães
parecia-lhe ainda mais imoral. Alguma coisa lhe transpareceu na cara porque Kenton disse:
- É uma pena que não tenhas conseguido ir ao funeral, Alfred. Foi mesmo uma cerimónia bonita. Metade da aldeia estava lá.
- Queria ter vindo, mas surgiu uma coisa.
- Tenho alguns papéis para tu assinares para tomares posse da casa e do dinheiro. Se me deres um número de conta em Londres, posso transferir o dinheiro e fechar
as contas bancárias dela.
Vicary passou os minutos seguintes a assinar, em silêncio, uma pilha de documentos legais e financeiros. Quando chegou ao último, Kenton olhou para cima e disse:
- Feito.
- O telefone ainda está a funcionar?
- Sim, ainda agora o utilizei antes de chegares.
O telefone estava na escrivaninha de Matilda, na sala de estar. Vicary pegou no auscultador e olhou para Kenton.
- Martin, se não te importas, é oficial. Kenton forçou um sorriso.
- Não precisas de dizer mais nada, Alfred. vou arrumar a louça. Alguma coisa naquela troca de palavras aqueceu o lado vingativo
do coração de Vicary. A telefonista entrou em linha e ele deu-lhe o número da sede do MI5 em Londres. A ligação demorou alguns momentos a ser estabelecida. Uma telefonista do departamento atendeu e passou a chamada de Vicary para Harry Dalton. Harry atendeu, com a boca cheia de comida.
- O que é a comida hoje? - perguntou Vicary.
- Dizem eles que é um guisado de legumes.
- Alguma novidade?
- Por acaso, acho que sim. O coração de Vicary saltou.
- Tenho andado a remexer nas listas de imigração, só para ver se tínhamos deixado escapar alguma coisa.
As listas de imigração eram a base de toda a luta do MI5 contra os espiões alemães. Em setembro de 1939, quando Vicary ainda fazia parte do corpo docente do University College, o MI5 tinha-se servido dos registos de passaportes e de imigração como a principal ferramenta numa rusga gigantesca com vista a reunir todos os espiões e simpatizantes do nazismo. Os estrangeiros eram classificados em três categorias. Na categoria C, os estrangeiros tinham liberdade completa. Na categoria B, os estrangeiros eram submetidos a certas restrições; alguns não tinham autorização para terem automóveis ou barcos e eram impostos limites às suas movimentações dentro do país. Na categoria A, os estrangeiros eram considerados uma ameaça à segurança e, por isso, eram presos. Presumiu-se que todas as pessoas que tivessem entrado no país antes da guerra e não pudessem ser contabilizadas fossem espiões, tendo sido por isso caçadas. As redes de espionagem alemãs foram identificadas e destruídas praticamente da noite para o dia.
- Uma holandesa chamada Christa Kunst entrou no país em novembro de 1938, em Dover - continuou Harry. - Um ano mais tarde, o corpo dela foi encontrado numa vala rasa, num campo perto de uma aldeia chamada Whitchurch.
- E que tem isso de tão anormal, Harry?
- Tenho um mau pressentimento em relação a isso. O corpo estava em adiantado estado de decomposição quando foi desenterrado. A cara e o crânio tinham sido esmagados. Faltavam-lhe os dentes todos. Usaram o passaporte para fazer a identificação. Estava convenientemente enterrado com o corpo. Parece-me tudo demasiado certinho.
- E onde está o passaporte agora?
- No Ministério do Interior. Mandei um estafeta buscá-lo. Tem uma fotografia. Dizem que ficou bastante danificada enquanto esteve enterrada, mas deve valer a pena dar uma olhadela.
- Otimo, Harry. Não tenho a certeza se a morte dessa mulher tem alguma coisa que ver com este caso, mas, pelo menos, é uma pista.
- Certo, Alfred. A propósito, como correu o encontro com o advogado?
- Oh, apenas alguns papéis para assinar - mentiu Vicary.
De repente, sentiu-se bastante constrangido com a sua nova situação de independência financeira.
- Vou-me embora agora. Devo voltar ao gabinete mais para o final da tarde.
Vicary desligou quando Kenton entrou na sala de estar.
- bom, acho que está tudo - anunciou, entregando a Vicary um grande envelope castanho. - Os papéis estão todos aí, assim como as chaves. Incluí o nome e a morada do jardineiro. Ele terá todo o prazer em servir de zelador.
Vestiram os casacos, fecharam o chalé à chave e saíram. O carro de Vicary estava no caminho de entrada.
- Posso deixar-te em algum lado, Martin?
Vicary sentiu-se aliviado quando Kenton não aceitou o oferta.
- Falei com a Helen no outro dia - disse Kenton de repente. Vicary pensou: Oh, meu Deus.
- Disse-me que te vê de tempos a tempos, em Chelsea.
Vicary pensou se Helen teria falado a Kenton da tarde de 1940, em que ele tinha ficado a olhar para o carro dela a passar, como um colegial idiota. Mortificado,
Vicary abriu a porta do carro, batendo nos bolsos distraidamente, à procura dos óculos em meia-lua.
- Ela pediu-me para te mandar cumprimentos, por isso estou a dar-tos.
- Obrigado - respondeu Vicary, entrando no carro.
- E também mandou dizer que gostava de te ver um dia destes. Pôr a conversa em dia.
- Isso seria ótimo - exclamou Vicary, mentindo.
- Bem, que maravilha. Ela vem a Londres na próxima semana. Iria adorar almoçar contigo.
Vicary sentiu um aperto no estômago.
- À uma hora, no Connaught, de amanhã a uma semana - disse Kenton. - Fiquei de falar com ela mais tarde. Digo-lhe que vais lá estar?
A parte de trás do Rover estava tão fria como uma câmara frigorífica. Vicary sentou-se no grande banco de pele, com as pernas cobertas por uma manta de viagem, e ficou a ver passar os campos de Gloucestershire pela janela. Uma raposa vermelha atravessou a estrada e depois voltou a correr para dentro da cerca. Faisões gordos e sonolentos depenicavam os restos de um milheiral coberto de neve, com os seus casacos de penas enfunados para se protegerem do frio. Galhos de árvores nus riscavam
o céu limpo. À sua frente, abria-se um vale. Ao longe, os campos espraiavam-se como uma manta de retalhos amarrotada. O Sol afundava-se num céu salpicado de tons
de aguarela, violeta e cor de laranja.
Estava zangado com Helen. A sua parte rancorosa queria acreditar que o facto de estar a trabalhar para os serviços secretos britânicos fazia de alguma forma com
que ela o achasse mais interessante. A sua parte racional dizia-lhe que ele e Helen se tinham separado amigavelmente e que um almoço calmo poderia ser muito agradável. Pelo menos, seria uma distração bem-vinda à pressão do caso. Pensou: De que tens tanto medo? De te poderes lembrar que foste realmente feliz durante os dois anos em que ela fez parte da tua vida?
Afastou Helen do pensamento. O telefonema de Harry deixara-o intrigado. Por instinto, tratou o caso como um problema histórico. A sua especialidade era a história
europeia do século xix. Já tinha conquistado a aclamação da crítica pelo livro que escrevera sobre o colapso do equilíbrio do poder na Europa depois do Congresso de Viena, mas Vicary tinha uma paixão secreta pela história e mitologia da Grécia Antiga. Intrigava-o o facto de a maior parte dos estudos sobre essa época se basear em conjeturas: a imensa passagem do tempo e a falta de um registo histórico claro obrigavam a isso. Por exemplo, porque teria Péricles dado início à Guerra do Peloponeso contra Esparta, que acabou por levar à destruição de Atenas? Porque não aceitara as condições do seu maior rival e revogara o decreto de Megara? Teria sido levado
pelo medo da superioridade dos exércitos de Esparta? Teria acreditado que a guerra era inevitável? Teria embarcado numa aventura desastrosa no estrangeiro para aliviar
a pressão que sofria em casa?
Nesse momento, Vicary fazia perguntas semelhantes sobre o seu rival de Berlim, Kurt Vogel.
Qual era o objetivo de Vogel? Vicary acreditava que o objetivo de Vogel tinha sido criar uma rede de agentes adormecidos de elite, no início da guerra, e deixá-los infiltrados até ao momento culminante do confronto. Para que isso tivesse sucesso, tinha de se ter muito cuidado na maneira como se infiltrava o agente dentro do país. Obviamente, Vogel tinha feito isso; o simples facto de o MI5 não ter conhecimento do agente antes confirmava-o. Vogel teria tido de partir do princípio de que os registos de imigração e de controlo de passaportes seriam utilizados para procurar os seus agentes. Vicary teria partido sem dúvida desse princípio se os papéis estivessem invertidos. Mas o que aconteceria se a pessoa que entrou no país fosse dada como morta? Não haveria buscas. Era brilhante. Mas havia um problema - tinha de existir um corpo. Seria possível terem de facto assassinado alguém para trocar de lugar com Christa Kunst?
Os espiões alemães, regra geral, não eram assassinos. Na sua maioria, eram avarentos, aventureiros e fascistas mesquinhos, mal treinados e mal financiados. Mas se
Kurt Vogel tinha estabelecido uma
rede de agentes de elite, estes seriam mais motivados, mais disciplinados e, quase de certeza, mais implacáveis. Seria possível que um desses agentes implacáveis
e altamente treinados fosse uma mulher? Vicary só tinha tratado de um caso que envolvia uma mulher - uma rapariga alemã que conseguira um emprego como empregada
na casa de um almirante britânico.
- Pare na próxima aldeia - disse Vicary ao membro do ramo feminino da Marinha Real Britânica que conduzia o carro. - Preciso de telefonar.
A aldeia chamava-se Aston Magna - na verdade, um lugar sem lojas, apenas um aglomerado de chalés intercetado por um par de ruas estreitas. Um velho estava parado
à beira da estrada, com o cão.
Vicary baixou o vidro da janela do carro e disse:
- Olá.
- Olá.
O homem trazia umas botas de borracha e um casaco de tweed grosso que parecia ter, pelo menos, cem anos. O cão tinha três patas.
- Há algum telefone na aldeia? - perguntou Vicary.
O homem abanou a cabeça. Vicary era capaz de jurar que o cão também estava a abanar a dele.
- Ninguém se incomodou em arranjar um ainda.
A pronúncia do homem era tão carregada que Vicary tinha dificuldade em entendê-lo.
- E onde fica o telefone mais próximo?
- Será em Moreton.
- E onde é que isso fica?
- Siga por aquela estrada ali, depois do celeiro. Vire à esquerda na casa senhorial e siga as árvores até à próxima aldeia. É aí que fica Moreton.
- Obrigado.
O cão ladrou quando o carro arrancou velozmente.
Vicary serviu-se do telefone de uma padaria. Comeu uma sanduíche de queijo enquanto esperava que a telefonista estabelecesse a ligação com o gabinete. Queria partilhar
um pouco da sua nova riqueza e, por isso, pediu duas dúzias de scones para as datilógrafas e para as raparigas da divisão dos Registos.
Harry surgiu na linha.
- Não creio que tenha sido a Christa Kunst que desenterraram da vala em Whitchurch - disse Vicary.
- Então quem foi?
- Isso já é o seu trabalho, Harry. Contacte a Scotland Yard. Verifique se desapareceu alguma mulher por volta dessa altura. Comece por um raio de um par de horas
a partir de Whitchurch, depois amplie a zona, se for necessário. Quando eu voltar ao Ministério da Guerra, informo Boothby.
- E o que lhe vai dizer?
- Que estamos à procura de uma holandesa morta. Ele vai adorar.
DEZOITO
LESTE DE LONDRES
Encontrar Peter Jordan não iria ser um problema. Mas encontrá-lo da maneira certa seria.
As informações de Vogel eram fidedignas. Berlim sabia que Jordan trabalhava em Grosvenor Square, no Comando Supremo das Forças Expedicionárias Aliadas, mais conhecido como SHAEF. A praça era fortemente patrulhada por polícias militares, impenetrável a intrusos. Berlim tinha a morada de Jordan em Kensington e conseguira juntar uma enorme quantidade de informação sobre o seu passado. Só faltava saber todos os passos, minuto a minuto, da rotina diária dele em Londres. Sem isso, Catherine podia apenas deitar-se a adivinhar qual seria a melhor maneira de o abordar.
Ser ela própria a seguir Jordan estava fora de questão, por várias razões. Primeiro, tinha que ver com a sua segurança. Seria demasiado perigoso para ela perseguir um oficial americano pelo West End de Londres. Podia ser vista por um dos polícias militares ou até mesmo pelo próprio Jordan. Se os oficiais se sentissem especialmente diligentes nesse dia, podiam detê-la para um interrogatório. Uma pequena verificação poderia revelar que a verdadeira Catherine Blake tinha morrido trinta anos antes, com oito meses de idade, e que ela era uma agente alemã.
A segunda razão por que não devia seguir Peter Jordan era puramente prática. Era-lhe praticamente impossível fazer bem o trabalho sozinha. Mesmo que Neumann ajudasse, seria difícil. A primeira vez
que Jordan entrasse num carro militar, ela ficaria completamente perdida. Não podia entrar simplesmente num táxi e dizer Siga aquele carro militar americano. Os taxistas sabiam da ameaça que os espiões representavam para os oficiais aliados. O mais provável era ser levada diretamente para a esquadra de polícia mais próxima. Precisava de carros comuns para o seguir, homens desconhecidos para falarem com ele, homens que não dessem nas vistas para se manterem de guarda à porta de casa dele.
Precisava de ajuda.
Precisava de Vernon Pope.
Vernon Pope era uma das maiores e mais bem-sucedidas figuras do mundo do crime de Londres. Pope, juntamente com o irmão Robert, dirigia esquemas de proteção, salões de jogos ilegais, redes de prostituição e uma próspera operação de mercado negro. No início da guerra, Vernon Pope levara Robert às urgências do Hospital St. Thomas com uma ferida grave na cabeça sofrida durante a Blitz. Catherine examinou-o rapidamente, viu que tinha uma concussão e suspeitou que o crânio estivesse fraturado. Fez com que Robert fosse visto por um médico de imediato. Vernon Pope, agradecido, deixou-lhe um bilhete. Dizia: Se houver alguma coisa que possa faerpara lhe agradecer, por favor, não hesite em pedir.
Catherine guardou o bilhete. Estava na sua mala.
Estranhamente, o armazém de Vernon Pope sobrevivera ao bombeamento. Permanecera intacto, uma ilha arrogante rodeada de jardins de destruição. Catherine não se aventurara pelo East End em quase quatro anos. A devastação era chocante. Era difícil ter a certeza de que não estava a ser seguida. Restavam poucas portas onde se abrigar, não havia cabines telefónicas para simular chamadas, não havia lojas para pequenas compras, apenas montanhas sem fim de escombros.
Observou o armazém do outro lado da rua, com uma chuva miudinha e fria a cair. Estava de calças, camisola e um casaco de pele. As portas do armazém abriram-se e três camiões pesados saíram para a rua. Um par de homens bem vestidos voltou a fechar as portas rapidamente, mas, antes disso, Catherine conseguiu dar uma vista de olhos lá para dentro. Havia grande azáfama.
Um grupo de estivadores passou por ela, vindo do turno do dia. Seguiu-os por um momento e depois encaminhou-se para o armazém de Pope.
Havia um pequeno portão com uma campainha elétrica para entregas. Tocou à campainha, não obteve resposta, tocou outra vez. Catherine sentiu que estava a ser observada. Finalmente, o portão abriu-se.
- O que podemos fazer por si, 'morzinho?
Aquela voz agradável com a pronúncia cockney não condizia com a figura diante dela. Ele tinha, pelo menos, um metro e oitenta e cinco, cabelo preto cortado rente ao crânio e óculos pequenos. Vestia um fato cinzento dos caros, com uma camisa branca e uma gravata prateada. Os músculos dos braços preenchiam as mangas do casaco.
- Queria falar com o senhor Pope, por favor.
Catherine entregou o bilhete ao brutamontes. Ele leu-o rapidamente, como se já tivesse visto muitos iguais.
- vou perguntar ao patrão se ele tem um minuto para a atender. Entre.
Catherine entrou pelo portão e ele fechou-o atrás dela.
- As mãos bem levantadas, minha querida; linda menina. Não é nada de pessoal. O senhor Pope pede-o a toda a gente.
O homem de Pope revistou-a. Foi rápido, mas nada profissional. Arrepiou-se quando ele lhe passou as mãos pelo peito. Resistiu à vontade de lhe esmagar o nariz com o cotovelo. Ele abriu a mala, olhou lá para dentro e devolveu-a. Ela já estava à espera disso e tinha vindo desarmada. Sentia-se nua sem uma arma, vulnerável. Da próxima vez, traria uma faca.
Ele conduziu-a pelo armazém. Homens de fato-macaco carregavam caixotes de mercadorias para meia dúzia de carrinhas. No fundo do armazém, havia caixas desde o chão até ao teto, em cima de paletes de madeira: café, cigarros, açúcar e também barris de gasolina. Havia uma frota de motas brilhantes, estacionadas numa fila arrumada. Era óbvio que Vernon Pope tinha um negócio próspero.
- Por aqui, 'morzinho - disse o homem. - A propósito, o meu nome é Dicky.
Conduziu-a até um elevador de carga, fechou as portas e premiu o botão. Catherine tirou um cigarro da mala e meteu-o entre os lábios.
- Desculpe, querida - disse Dicky e abanou um dedo no ar, de modo negativo. - O patrão detesta cigarros. Diz que um dia vamos descobrir que isso nos mata. Além disso, aqui há gasolina e munições suficientes para nos fazerem ir pelos ares até Glasgow.
- E isso é dizer pouco - disse Vernon Pope que se levantou do confortável sofá de pele e começou a andar pelo escritório. Não era simplesmente um escritório, era mais um pequeno apartamento, com uma sala de estar e uma cozinha apetrechada de aparelhos modernos. Havia um quarto atrás de um par de portas em teca preta. Estas abriram-se, por breves instantes, e Catherine vislumbrou uma loura sonolenta, impacientemente à espera que a reunião acabasse. Pope serviu-se de outro uísque. Era alto e bonito, de pele pálida, cabelos claros cheios de brilhantina e olhos cinzentos glaciais. O fato estava muito bem feito e era discreto; podia ser usado por um executivo de sucesso ou por alguém que já nascera rico.
- Já me viste bem isto, Robert? Aqui a Catherine quer que nós gastemos três dias a perseguir um oficial da marinha americana pelo West End.
Robert Pope permaneceu à margem, a andar de um lado para o outro como um lobo cinzento nervoso.
- Isso não é propriamente o nosso tipo de trabalho, minha querida Catherine - disse Vernon Pope. - Além disso, e se os rapazes das secretas ianque ou britânica descobrem o nosso joguinho? com a polícia de Londres, lido eu bem. com o MI5, é outra história.
Catherine tirou um cigarro.
- Importa-se?
- Se tiver mesmo de ser. Dicky, dá-lhe um cinzeiro. Catherine acendeu o cigarro e pôs-se a fumar em silêncio durante
um momento.
- Eu já vi o equipamento que tem lá em baixo, no armazém. Podia montar facilmente o tipo de operação de vigilância de que estou a falar.
- E por que raio é que havia uma enfermeira voluntária do Hospital St. Thomas de querer montar uma operação de vigilância a um oficial dos Aliados, pergunto-te eu, Robert?
Robert Pope sabia que não era para responder à pergunta. Vernon Pope dirigiu-se à janela com o copo na mão. As cortinas do blackout estavam levantadas, o que lhe permitia ver os barcos a trabalharem para cima e para baixo no rio.
- Veja o que os alemães fizeram a este sítio - disse por fim. Costumava ser o centro do mundo, o maior porto à face da terra. E agora, olhe para ele: o raio de um terreno baldio. As coisas nunca mais serão as mesmas por aqui. A Catherine não trabalha para os alemães, pois não?
- Claro que não - respondeu ela calmamente. - As razões que me levam a segui-lo são estritamente pessoais.
- Ótimo. Sou ladrão, mas, ainda assim, patriota. - Fez uma pausa e depois perguntou: - Então para que é que quer que o sigamos?
-- Estou a oferecer-lhe um trabalho, senhor Pope. Francamente, o porquê das minhas razões não lhe diz respeito.
Pope virou-se e encarou-a.
-- Muito bem, Catherine. Você tem coragem. Gosto disso. Além disso, seria uma tonta se me contasse.
As portas do quarto abriram-se e a loura saiu de lá, vestindo um roupão de seda de homem, com cornucópias. Estava frouxamente atado na cintura, revelando um bom par de pernas e pequenos seios arrebitados.
- Vivie, ainda não acabámos - disse Pope.
- Tenho sede - exclamou ela, olhando de soslaio para Catherine enquanto se servia de um gim tónico. - Vais demorar muito mais tempo, Vernon?
- Não muito. Negócios, querida. Volta para o quarto.
Vivie voltou para o quarto, com as ancas a balançarem por baixo do roupão. Olhou de novo para Catherine, por cima do ombro, antes de fechar a porta suavemente.
- Linda rapariga - disse Catherine. - É um homem de sorte. Vernon Pope riu baixinho e abanou a cabeça.
- Às vezes, gostava de poder passar a minha sorte a outro homem. Houve um longo silêncio enquanto Pope andava de um lado para
o outro da sala.
- Estou metido numa data de coisas duvidosas, Catherine, mas não estou a gostar disto. Não estou a gostar mesmo nada disto.
Catherine acendeu outro cigarro. Talvez tivesse cometido um erro ao contactar Vernon Pope com aquela proposta.
- Mas vou fazê-lo. A Catherine ajudou o meu irmão e eu fiz-lhe uma promessa. Sou um homem de palavra. - disse, fazendo uma pausa e olhando-a de cima a baixo. - Além do mais, há qualquer coisa em si de que eu gosto. Muito.
- Fico contente por podermos fazer negócio, senhor Pope.
- Mas vai sair-lhe caro, 'morzinho. Tenho muitas despesas gerais. Tenho de pagar salários. Este tipo de coisa vai ocupar grande parte dos meus recursos.
- Por isso é que vim ter consigo - retorquiu Catherine, tirando um envelope de dentro da mala. - O que lhe parecem duzentas libras? Cem agora e cem quando me der as informações. Quero o comandante Jordan a ser seguido durante setenta e duas horas. Vinte e quatro horas por dia. Quero um relato minuto a minuto dos movimentos dele. Quero saber onde é que ele come, com quem se encontra e de que falam. Quero saber se ele costuma encontrar-se com alguma mulher. Consegue tratar disso, senhor Pope?
- Claro.
- Otimo. Então, contacto-o no sábado.
- E como é que posso entrar em contacto consigo?
- Por acaso, não pode.
Catherine pôs o envelope em cima da mesa e levantou-se. Vernon Pope sorriu agradavelmente.
- Bem me parecia que ia dizer isso. Dicky, acompanha a Catherine até à saída. Arranja-lhe um saco de mercearia. Café, açúcar, talvez um pouco de carne enlatada, se o carregamento já tiver chegado. Coisas boas, Dicky.
- Tenho um mau pressentimento em relação a isto, Vernon disse Robert Pope. - Talvez devêssemos desistir disto.
Vernon Pope odiava ser contestado pelo irmão mais novo. Na sua opinião, era ele que tratava das decisões de negócios e Robert tratava do que exigia músculos.
- Não é nada que não possamos fazer. Mandaste segui-la?
- Dicky e os rapazes trataram disso assim que ela deixou o armazém.
- Otimo. Quero saber quem é essa mulher e o que pretende.
- Talvez pudéssemos virar o jogo a nosso favor. Poderíamos obter favores da polícia se lhes contássemos, em segredo, o que é que ela anda a tramar.
- Não vamos fazer nada disso. Está entendido?
- Talvez devesses pensar mais em negócios do que em molhar o pincel.
Vernon virou-se para ele e agarrou-o pelo pescoço.
- Aquilo que eu faço não é da porra da tua conta. Além do mais, é muito melhor do que aquilo que tu e o Dicky fazem.
Robert corou visivelmente.
- Porque estás a olhar para mim dessa maneira, Robert? Pensas que não sei o que se passa?
Vernon soltou-o.
- Agora, faz-te à estrada, que é esse o teu lugar, e certifica-te de que Dicky não a perde de vista.
Catherine apercebeu-se de que estava a ser seguida dois minutos depois de ter saído do armazém. Já estava à espera disso. Homens como Vernon Pope não se mantêm tanto tempo no negócio se não forem cautelosos e desconfiados. Mas a perseguição era feita de um modo desastrado e amador. Afinal, Dicky tinha sido quem a recebera, a revistara e a levara para dentro. Ela conhecia a cara dele. Foi estúpido da parte deles terem-no posto a segui-la. Despistá-lo seria fácil.
Desceu até uma estação de metro, fundindo-se na multidão do fim da tarde. Atravessou o túnel e emergiu do outro lado da rua. Um autocarro estava ali parado. Entrou e sentou-se ao lado de uma senhora idosa. Através da janela embaciada, observou Dicky a correr pelas escadas acima, com o pânico estampado na cara.
Sentiu um pouco de pena dele. O pobre Dicky não tinha hipóteses contra um profissional e Vernon Pope ia ficar furioso. Mas ela não ia correr riscos: uma corrida de táxi, mais dois ou três autocarros e uma volta pelo West End antes de regressar ao apartamento.
De momento, acomodou-se no assento e aproveitou a viagem.
O quarto estava escuro quando Vernon entrou e, silenciosamente, fechou as portas. Vivie pôs-se de joelhos aos pés da cama. Vernon beijou-a furiosamente. Estava a ser mais bruto do que habitualmente. Vivie achava que sabia porquê. Deslizou a mão por dentro da parte da frente das calças dele.
- Oh, meu Deus, Vernon. Isto é para mim ou para aquela cabra? Vernon abriu o roupão de seda e puxou-o para baixo, fazendo-o
deslizar pelos ombros dela.
- Um bocadinho as duas coisas, na verdade - disse ele e beijou-a de novo.
- Tu querias possuí-la logo ali, no escritório. Vi isso na tua cara.
- Sempre foste uma rapariguinha muito perspicaz. Ela beijou-o novamente.
- Quando é que ela volta?
- No final da semana.
- E como é que se chama?
- Chama-se Catherine.
- Catherine - disse Vivie. - Que nome tão bonito. Ela é linda.
- Pois é - disse Pope distraidamente.
- Em que tipo de negócio é que está metida?
Pope contou-lhe a conversa que tinham tido; não havia segredos entre eles.
- Soa-me a sarilho. Acho que poderíamos tentar exercer alguma pressão sobre ela.
- És uma rapariga muito esperta.
- Não, só muito marota.
- Vivie, eu consigo perceber quando a tua mente está a trabalhar de modo maquiavélico.
Ela riu-se de maneira perversa.
- Tenho três dias para imaginar todas as coisas maravilhosas que podemos fazer com aquela mulher quando ela voltar. Agora, tira as calças, para eu te ajudar a acalmar essa dor.
Vernon Pope fez o que lhe mandaram.
Um momento depois, alguém bateu ao de leve à porta. Robert Pope entrou, sem esperar pela resposta. Uma brecha de luz iluminou parcialmente o local. Vivie olhou para cima, desavergonhada, e sorriu. Vernon explodiu de raiva.
- Quantas vezes é que tenho de te dizer para não entrares quando a porta estiver fechada?
- É importante. Ela escapou-se.
- Raios! E como é que isso aconteceu?
- Dicky jura que num minuto ela estava lá e, no minuto seguinte, já não estava. Desapareceu pura e simplesmente.
- Pelo amor de Deus!
- Ninguém consegue fugir ao Dicky. Ela é obviamente uma profissional. Temos de ficar o mais longe possível dela.
Vivie sentiu uma facada de pânico.
- Sai daqui e fecha a porta, Robert.
Quando Robert saiu, Vivie lambeu Vernon de modo provocante.
- Não vais fazer o que aquele mariconcozinho te disse, pois não, Vernon?
- Claro que não.
- Otimo -? disse ela. - Ora, onde é que nós estávamos?
- Oh, meu Deus - gemeu Vernon.
DEZANOVE LONDRES
Na manhã seguinte, muito cedo, Robert Pope e Richard Dicky Dobbs tiveram a sua estreia involuntária no mundo da espionagem em tempo de guerra, com uma vigilância improvisada e apressada ao comandante Peter Jordan que teria feito os vigias do MI5 ficarem verdes de inveja.
Tudo começou antes da madrugada húmida e gelada, quando o par chegou à casa eduardiana de Jordan, em Kensington, numa carrinha com painéis preta, carregada com caixas de comida enlatada na parte de trás e exibindo na parte lateral o nome de uma mercearia do West End. Esperaram lá até perto das oito horas, com Pope a dormitar e Dicky a mascar nervosamente um pão doce mal cozido e a beber café de um copo de papel. Vernon Pope tinha-o ameaçado com lesões corporais graves por causa da perseguição falhada à mulher na noite anterior. Não iria perder Peter Jordan de vista por nada deste mundo. Dicky, considerado o melhor condutor do mundo do crime de Londres, tinha jurado secretamente perseguir Jordan pelos relvados do Green Park se fosse preciso.
Mas tais peripécias automobilísticas não seriam necessárias, pois, às 7h55, um carro militar americano apareceu à porta de casa de Jordan e tocou a buzina. A porta
da casa abriu-se e apareceu um homem de estatura e constituição medianas. Usava um uniforme da marinha americana, um boné branco e um sobretudo escuro. Trazia pendurada
na mão uma pasta em couro fino. Desapareceu na parte de trás do
carro e fechou a porta. Dicky estava tão intensamente concentrado em Jordan que se esqueceu de ligar o motor. Quando tentou fazê-lo, pegou uma vez e foi abaixo. Amaldiçoou-o, ameaçou-o e bajulou-o antes de tentar outra vez. Desta vez, a carrinha pegou ruidosamente e a vigilância silenciosa a Peter Jordan começou.
Grosvenor Square iria apresentar-lhes o primeiro desafio. Estava apinhada de táxis, viaturas de serviço e oficiais aliados a deslocarem-se apressadamente em várias direções. O carro de Jordan atravessou a praça, entrou numa rua secundária adjacente e parou diante de um pequeno edifício sem identificação. Permanecer na rua era impossível. Havia veículos estacionados de ambos os lados e apenas uma via para o trânsito. Um polícia militar americano de capacete branco rondava para cima e para baixo, balouçando preguiçosamente o bastão. Pope saltou do carro e caminhou pela rua, para trás e para a frente, enquanto Dicky andava em círculos. Dez minutos depois, Jordan saiu do edifício com uma pasta pesada algemada ao pulso.
Dicky apanhou Pope e voltou para Grosvenor Square, chegando a tempo de ver Jordan a entrar pela porta da frente do quartel-general do SHAEF. Encontrou um lugar para estacionar, em Grosvenor Street, com um campo de visão desimpedido, e desligou o motor. Poucos minutos depois, tiveram um vislumbre do general Eisenhower a exibir um dos seus famosos sorrisos antes de desaparecer pela entrada.
Mesmo que tivesse sido treinado pelo MI5, Pope não poderia ter executado melhor as ações seguintes. Concluiu que não podiam vigiar o edifício apenas com um posto estático; era um complexo enorme, com diferentes entradas e saídas. Servindo-se de um telefone público, ligou para o armazém e pediu a Vernon três homens. Quando chegaram, colocou um atrás do edifício, em Blackburn Street, outro em Upper Brook Street e o terceiro em Upper Grosvenor Street. Duas horas depois, Pope ligou outra vez para o armazém e pediu três caras novas - não era seguro para civis demorarem-se pelas instalações americanas. Se Vicary e Boothby tivessem podido ouvir essa conversa, teriam provavelmente rido da ironia, pois, como qualquer supervisor e qualquer agente de campo bons, Vernon e Robert discutiram azedamente por causa dos recursos. No entanto, o que estava
em jogo era diferente. Vernon precisava de um par de homens bons para irem buscar um carregamento de café roubado e para tratarem de um comerciante que se tinha atrasado nos pagamentos de proteção.
Trocaram de veículos ao meio-dia. A carrinha da mercearia foi substituída por uma carrinha idêntica, com o nome de um serviço de lavandaria fictício estampado na parte lateral. Foi preparada tão rapidamente que a palavra lavandaria estava escrita lavandria e os sacos de roupa brancos, empilhados na parte de trás, estavam cheios de jornais velhos amassados. Às duas horas, trouxeram-lhes um termos de chá e um saco com sanduíches. Uma hora mais tarde, tendo acabado de comer e de fumar alguns cigarros, Pope começou a ficar cada vez mais nervoso. Jordan encontrava-se lá dentro há quase sete horas. Estava a ficar tarde. Todos os lados do edifício se encontravam sob vigia. Mas se Jordan saísse já na escuridão do blackout, seria quase impossível vê-lo. Mas, às quatro horas, quando a luz já quase tinha desaparecido, Jordan deixou o edifício pela porta principal, em Grosvenor Square.
Repetiu o mesmo circuito da manhã, mas ao contrário. Atravessou a praça em direção ao edifício mais pequeno, com a mesma pasta pesada algemada ao pulso, e entrou. Apareceu uns momentos depois, trazendo a pequena pasta que tinha de manhã. A chuva tinha parado e Jordan decidira, aparentemente, que seria uma boa ideia dar um passeio. Dirigiu-se para oeste, depois virou para sul em direção a Park Lane. Segui-lo de carrinha era impossível. Pope saltou da carrinha e foi atrás de Jordan ao longo do passeio, mantendo-se a alguns metros de distância.
Era mais difícil do que Pope imaginava. O grande hotel Grosvenor House, em Park Lane, tinha sido tomado por americanos e transformado em alojamento para oficiais. Dezenas de pessoas atolavam o passeio. Pope aproximou-se de Jordan para ter a certeza de que não o perdia ou confundia com outro homem. Um polícia militar olhou para Pope quando ele atravessou por entre a multidão, atrás de Jordan. Em algumas ruas do West End, os ingleses davam tanto nas vistas como aconteceria em Topeka, rio Kansas. Pope ficou tenso. Depois apercebeu-se de que não estava a fazer nada de mal. Estava simplesmente a andar pela rua no seu próprio país. Descontraiu-se
e o polícia militar olhou noutra direção. Jordan passou pelo Grosvenor House. Pope seguia atrás dele com grande cautela.
Pope perdeu-o em Hyde Park Corner.
Jordan desapareceu na multidão de soldados e civis britânicos à espera para atravessar a rua. Quando o sinal mudou, Pope seguiu um oficial da marinha americana, mais ou menos da altura de Jordan, ao longo de Grosvenor Place. Depois, olhou para baixo e apercebeu-se de que o oficial não trazia nenhuma pasta. Parou e olhou para trás, esperando que Jordan ali estivesse. Tinha desaparecido.
Pope ouviu uma carrinha a buzinar na rua e olhou para cima. Era Dicky.
- Ele está em Knightsbridge - disse Dicky. - Entra.
Dicky executou uma inversão de marcha perfeita no meio do zumbido do trânsito noturno. Pope avistou Jordan um momento mais tarde e suspirou de alívio. Dicky encostou e Pope saltou para fora da carrinha. Determinado a não perder o homem outra vez, Pope aproximou-se, ficando a poucos metros dele.
O Vandyke Club era um clube para oficiais americanos em Kensington, proibido a civis britânicos. Jordan entrou. Pope caminhou um pouco mais, passando pela porta de entrada, e depois voltou para trás. Dicky tinha encostado junto ao passeio, do outro lado da rua. Pope, sem fôlego e gelado, entrou na carrinha e fechou a porta. Acendeu um cigarro e acabou o resto do chá do termos. A seguir, disse:
- Da próxima vez que o comandante Jordan decidir atravessar Londres inteira, sais tu do carro e vais com ele, Dicky.
Jordan saiu quarenta e cinco minutos depois.
Pope pensou: Por favor, meu Deus, mais uma marcha forçada, não.
Jordan aproximou-se do passeio e apanhou um táxi.
Dicky ligou a carrinha e meteu-se cuidadosamente no trânsito. Seguir o táxi era fácil. Dirigiu-se para leste, passando por Trafalgar Square e entrando na Strand; depois de percorrer uma pequena distância, virou à direita.
- Assim está melhor - disse Pope.
Observaram Jordan a pagar ao taxista e a entrar no Savoy Hotel.
A grande maioria dos civis britânicos sobreviveu à guerra consumindo quantidades de alimentos que não ultrapassavam o nível da subsistência, à volta de cem gramas de carne e queijo por semana uns decilitros de leite, um ovo se tivessem sorte, iguarias como pêssegos ou tomates enlatados muito de vez em quando. Ninguém passava fome, mas poucos engordavam. Mas havia outra Londres, uma Londres de restaurantes elegantes e hotéis sumptuosos, que asseguravam um fornecimento estável de carne, peixe, vegetais, vinho e café no mercado negro e depois cobravam preços exorbitantes aos clientes pelo privilégio de um jantar. O Savoy Hotel era um desses estabelecimentos.
O porteiro usava um sobretudo verde, debruado a prata, e uma cartola. Pope passou por ele apressadamente e entrou. Atravessou o vestíbulo do Savoy e entrou no salão. Havia homens de negócios ricos reclinados em poltronas confortáveis, lindas mulheres em vestidos de noite à moda daqueles tempos de guerra, dezenas de oficiais americanos e britânicos de uniforme, aristocratas rurais vestidos de tweed e chegados do campo para passarem uns dias na cidade. Enquanto seguia Jordan pelo meio da multidão,
Pope sentia uma reação confusa àquele cenário de opulência. Os ricos do West End levavam uma bela vida, ao passo que os desfavorecidos do East End andavam esfomeados
e eram os que mais sofriam com os bombardeamentos. No entanto, ele e o irmão tinham feito fortuna no mercado negro. Descartou a disparidade como uma consequência infeliz da guerra.
Pope seguiu Jordan até ao bar do Savoy Grill. Jordan estava sozinho no meio da multidão, tentando, em vão, chamar a atenção do empregado para pedir uma bebida. Pope estava a poucos passos dele. Conseguiu chamar a atenção do empregado e pediu um uísque. Quando se virou, Jordan já estava acompanhado por um oficial da marinha americana muito alto, de cara vermelha e sorriso bem-humorado. Pope aproximou-se mais para poder ouvir a conversa.
O homem alto disse:
- Hitler devia vir aqui e tentar conseguir uma bebida numa sexta-feira à noite. De certeza que iria reconsiderar a ideia de querer invadir este país.
- Queres tentar a sorte no Grosvenor House? - perguntou Jordan.
- No Willow Run? Estás doido? O chefe de cozinha francês despediu-se no outro dia. Pediram-lhe que preparasse as refeições com as rações
e e ele recusou-se.
- Parece que é o último homem com juízo em Londres.
- Também acho.
- E o que é preciso fazer para se conseguir uma bebida neste sítio?
- Normalmente isto resulta: dois martínis, por amor de Deus! O empregado do bar olhou para cima, sorriu e pegou numa garrafa de Beefeater.
- Como está, senhor Ramsey.
- Olá, William.
Pope memorizou esse pormenor. O amigo de Jordan chamava-se Ramsey.
- Essa foi boa, Shepherd. Pope pensou: Shepherd Ramsey.
- Ajuda mesmo ser um palmo mais alto do que toda a gente.
- Fizeste reserva? Esta noite, não conseguimos mesmo entrar no Grill sem reserva.
- Claro que fiz, meu velho. A propósito, por onde raio andaste? Tentei ligar-te a semana passada. Deixei o telefone da tua casa tocar e tocar: não houve resposta. Também telefonei para o teu gabinete. Disseram que não podias atender. Liguei outra vez no dia seguinte, a mesma história. Que raio andavas a fazer para não poderes atender o telefone durante dois dias?
- Não tens nada que ver com isso.
- Ah, ainda estás a trabalhar naquele teu projeto?
- Deixa lá isso, Shepherd, ou dou-te uma tareia aqui mesmo, neste bar.
- Só em sonhos, meu caro. Além disso, se fizeres uma cena aqui, onde raio é que iremos tomar a nossa bebida? Nenhum estabelecimento decente iria aceitar um tipo como tu.
- Bem visto.
- Então, quando me vais contar em que é que andas a trabalhar?
- Quando a guerra acabar.
- Tão importante, ha?
- Sim.
- Bem, pelo menos um de nós anda a fazer alguma coisa importante - atirou Shepherd Ramsey, acabando a bebida. - William, mais dois, por favor.
- Vamos embebedar-nos antes do jantar?
- Só quero que descontraias, mais nada.
- Isto é o máximo que consigo descontrair. O que estás a planear, Shepherd? Conheço esse tom de voz.
- Nada, Peter. Jesus, tem calma.
- Conta-me. Sabes que detesto surpresas.
- Convidei umas pessoas para se juntarem a nós esta noite.
- Pessoas?
- Raparigas, na verdade. Por acaso, acabaram de chegar.
Pope seguiu o olhar de Jordan até à entrada do bar. Estavam lá duas mulheres, ambas jovens, ambas muito atraentes. As mulheres avistaram Shepherd Ramsey e Jordan e juntaram-se-lhes no bar.
- Peter, apresento-te a Barbara, mas todos lhe chamam Baby.
- Isso é compreensível. Prazer em conhecer-te, Barbara. Barbara olhou para Shepherd.
- Céus, tinhas razão! Ele é um borracho - disse ela com uma pronúncia da classe operária de Londres. - Vamos comer no Grill?
- Sim. De facto, a nossa mesa deve estar pronta.
O maítre d'hôtel indicou-lhes a mesa. Não havia maneira de Pope ouvir a conversa deles a partir do bar. Precisava de estar sentado na mesa mais próxima. Olhando pela entrada da sala de jantar, Pope conseguiu ver que a mesa ao lado da deles estava vazia, mas tinha um pequeno aviso de reserva. Não há problema, pensou ele. Rapidamente, atravessou o bar e saiu para a rua. Dicky estava à espera dentro da carrinha. Pope fez-lhe sinal para entrar no hotel. Dicky saiu da carrinha e atravessou a rua.
- O que se passa, Robert?
- Vamos jantar. Preciso que faças a reserva.
Pope mandou Dicky falar com o maítre d'hótel Da primeira vez que Dicky pediu uma mesa, o maítre d'hôtel abanou a cabeça, franziu
a testa e abanou as mãos a mostrar que não havia mesas. Foi então que Dicky se baixou e lhe sussurrou qualquer coisa ao ouvido que o fez ficar branco e começar a tremer. Momentos depois, estavam a sentá-los na mesa ao lado da de Peter Jordan e Shepherd Ramsey.
- O que lhe disseste, Dicky?
- Disse-lhe que se ele não nos desse esta mesa, eu lhe arrancava a maçã de Adão e a atirava para dentro daquela frigideira flamejante.
- Bem, o cliente tem sempre razão. É o que eu digo. Abriram as ementas.
- Vais começar pelo salmão fumado ou pelo patê defoiegras? perguntou Pope.
- Pelos dois, acho eu. Estou esfomeado. Não te parece que eles sirvam salsichas e puré, pois não, Robert?
- Nem pensar nisso. Experimenta o coq au vin. E agora cala-te para eu ouvir o que estes ianques estão a dizer.
Foi Dicky que os seguiu depois do jantar. Observou-os a enfiarem as duas mulheres dentro de um táxi e a começarem a andar pela Strand.
- Podias ao menos ter sido educado - disse Shepherd Ramsey.
- Desculpa, Shepherd. Não tínhamos muito que dizer um ao outro.
- E o que há para dizer? Tomas umas bebidas, ris-te um pouco, leva-la para casa e passas uma ótima noite na cama. Sem perguntas.
- Tive dificuldade em ultrapassar o facto de ela estar sempre a usar a faca para verificar o batom.
- Sabes o que ela te podia ter feito com aqueles lábios? E reparaste bem no que ela trazia por baixo do vestido? Meu Deus, Peter, aquela rapariga tem uma das piores reputações aqui em Londres.
- Peço desculpa se te desapontei, Shepherd, mas não estava interessado.
- Bem, e quando é que vais voltar a estar interessado?
- De que estás a falar?
- Há seis meses prometeste que ias começar a sair.
- Eu gostava de conhecer uma mulher adulta inteligente e interessante, mas não preciso que andes por aí à procura - lançou Jordan, acendendo um cigarro e abanando o fósforo furiosamente. - Ouve, Shep, desculpa. Mas é que...
- Não, tu tens razão. Não tenho nada que ver com isso. É só que a minha mãe morreu quando o meu pai tinha quarenta anos. Ele nunca voltou a casar. E o resultado disso foi que morreu sozinho e amargurado. Não quero que te aconteça a mesma coisa.
- Obrigado, Shepherd, não vai acontecer.
- Nunca vais encontrar outra mulher como Margaret.
- Diz-me algo que eu não saiba.
Jordan fez sinal a um táxi para parar e entrou.
- Posso dar-te boleia?
- Na verdade, já tenho um compromisso.
- Shepherd.
- Ela vai encontrar-se comigo no meu quarto daqui a meia hora. Não consegui resistir. Perdoa-me, mas a carne é fraca.
- Mais do que a carne. Diverte-te, Shep.
O táxi arrancou. Dicky afastou-se e procurou a carrinha. Passados uns segundos, Pope encostou ao passeio e Dicky entrou. Seguiram o táxi de regresso a Kensington, viram Peter Jordan entrar em casa e ficaram ali parados durante meia hora, à espera que o turno da noite chegasse.
VINTE LONDRES
Tinha sido a incapacidade de Alfred Vicary para reparar uma mota que o levara a ficar com o seu joelho estilhaçado. Aconteceu num dia glorioso de outono, no norte
da França e sem sombra de dúvida que foi o pior dia da sua vida.
Vicary tinha acabado uma reunião com um espião que penetrara nas linhas inimigas, num setor onde os britânicos planeavam atacar na madrugada do dia seguinte. O espião
tinha descoberto um enorme acampamento de soldados alemães. O ataque, se acontecesse como planeado, encontraria grande resistência. O espião deu a Vicary um bilhete escrito à mão sobre a força das tropas alemãs e o número de peças de artilharia que tinha visto. Também lhe deu um mapa que mostrava exatamente onde é que estavam acampados. Vicary guardou-os no seu alforge de couro e voltou para o quartel-general.
Vicary sabia que levava informações de importância vital, estavam vidas em jogo. Acelerou a fundo e seguiu perigosamente depressa pelo trilho estreito. Arvores grandes alinhavam-se de ambos os lados do caminho, com um dossel de ramos por cima da sua cabeça e a luz do Sol nas folhas de outono a criar um túnel cintilante de fogo. O caminho subia e descia, ritmicamente, por baixo dele. Por várias vezes, sentiu a vertigem emocionante provocada pela sua mota Rjídge a pairar no ar durante um segundo ou dois.
O chocalhar do motor começou a dezasseis quilómetros do quartel-general. Vicary abrandou. No quilómetro seguinte, o chocalhar
progrediu para um ruído alto. Mais um quilómetro e ouviu um barulho de metal a partir, seguido de um grande estrondo. O motor perdeu a força repentinamente e parou.
Sem o roncar da mota, o silêncio era opressivo. Inclinou-se e olhou para o motor. O metal oleado e quente e os cabos retorcidos não lhe diziam nada. Lembrava-se de ter pontapeado a mota e de ter pensado se a deixava ali na berma ou se a arrastava até ao quartel-general. Vicary agarrou-a pelo guiador e começou a empurrá-la num ritmo acelerado.
A luz da tarde diminuiu até se transformar num crepúsculo de um rosa frágil. Ainda estava a quilómetros do quartel-general. Se tivesse sorte, talvez encontrasse alguém do seu lado que lhe desse boleia. Se tivesse azar, podia encontrar-se cara a cara com uma patrulha de batedores alemães.
Quando o último raio de luz se extinguiu, começaram os disparos de artilharia. Os primeiros projéteis não causaram mossa, aterrando inofensivamente num campo. Os projéteis seguintes voaram por cima da cabeça de Vicary e bateram numa encosta. A terceira saraivada aterrou no trilho mesmo à frente dele.
Vicary nem se apercebeu do projétil que o feriu.
Quando recuperou a consciência às primeiras horas da noite, estava caído, a congelar, numa vala. Olhou para baixo e quase desmaiou quando viu o joelho, uma confusão
de ossos estilhaçados e sangue. Obrigou-se a rastejar para fora da vala e voltou para o trilho. Encontrou a mota e desmaiou ao lado dela.
Vicary acordou, na manhã seguinte, num hospital de campanha. Apercebeu-se de que o ataque tinha ido para a frente porque o hospital estava sobrelotado. Ficou deitado
na cama o dia inteiro, com a cabeça atordoada numa neblina sonolenta causada pela morfina, a ouvir os gemidos dos feridos. Ao cair da noite, o rapaz da cama ao lado
morreu. Vicary fechou os olhos para tentar calar o som do estertor da morte, mas não conseguiu.
Brendan Evans - o amigo de Cambridge que tinha ajudado Vicary a entrar para o Corpo dos Serviços Secretos - veio vê-lo na manhã seguinte. A guerra tinha-o mudado.
O seu ar de menino bonito desaparecera. Parecia um homem endurecido e algo cruel. Brendan puxou de uma cadeira e sentou-se ao lado da cama.
- A culpa é toda minha - disse Vicary. - Eu sabia que os alemães estavam à espera. Mas a minha mota avariou-se e eu não consegui arranjar aquela porcaria. E depois começaram os disparos de artilharia.
- Eu sei. Encontraram os papéis no teu alforge. Ninguém te ; culpa. Foi apenas o raio de um grande azar, só isso. Em qualquer caso, provavelmente não podias ter feito nada para reparar a mota.
Às vezes, Vicary ainda ouvia os gritos dos moribundos durante : o sono, mesmo agora, quase trinta anos depois. Nos últimos dias, os
sonhos tinham dado uma reviravolta, sonhava que tinha sido Basil Boothby a sabotar-lhe a mota.
Já leu alguma ve o dossiê de Vogel?
Não.
Mentiroso. Um perfeito mentiroso.
Vicary tentou abster-se das comparações inevitáveis entre o antes e o depois, mas era impossível. Não acreditava no destino, mas algo ou alguém lhe tinha dado uma
segunda oportunidade, uma oportunidade para se redimir do falhanço daquele dia de outono em 1916.
Vicary pensou que a festa no pub do outro lado da rua, em frente do quartel-general do MI5, o ajudasse a tirar o caso da cabeça. Mas não ajudou. Permaneceu à margem,
a pensar na França, contemplando a cerveja, a observar, enquanto outros oficiais namoriscavam as bonitas datilógrafas. Nicholas Jago estava a portar-se muito bem ao piano.
Foi sacudido do seu transe quando uma das rainhas da divisão dos Registos começou a cantar "I'll Be Seeing You". Era uma loura atraente, de lábios carmesim, chamada Grace Clarendon. Vicary sabia que ela e Harry tinham tido um caso bastante público no início da guerra. Vicary compreendia bem a atração. Grace era resplandecente, espirituosa e mais inteligente do que o resto das raparigas da divisão dos Registos. Mas também era casada e Vicary não aprovava. Não dizia a Harry o que achava; não era da sua conta. Pensou: Além disso, quem sou eu para me pôr com sermões em questões do coração? Suspeitava que tinha sido Grace que tinha dado a Harry as informações sobre Boothby e o dossiê Vogel.
Harry entrou no pub, embrulhado no sobretudo. Piscou o olho a Grace e, a seguir, dirigiu-se a Vicary e disse-lhe:
- Vamos voltar para o gabinete. Temos de falar.
- Ela chamava-se Beatrice Pymm. Vivia sozinha num chalé nos arredores de Ipswich - começou a dizer Harry enquanto subiam as escadas até ao gabinete de Vicary e depois de ter passado várias horas em Ipswich de manhã, a pesquisar o passado de Beatrice Pymm. Sem amigos, nem família. A mãe morreu em 1936. Deixou-lhe o chalé e uma soma razoável de dinheiro. Não tinha emprego. Não tinha namorados, nem amantes, nem sequer um gato. A única coisa que fazia era pintar.
- Pintar? - perguntou Vicary.
- Sim, pintar. As pessoas com quem falei disseram que ela pintava quase todos os dias. Saía de casa de manhã cedo, ia para o campo em redor e passava o dia todo a pintar. Um detetive da Polícia de Ipswich mostrou-me uns quantos quadros dela, paisagens. Muito bons, por acaso.
Vicary franziu a testa.
- Não sabia que tinha olho para a arte, Harry.
- Pensa que os rapazes de Battersea não sabem apreciar as coisas finas? Pois sempre lhe digo que a minha santa mãezinha me arrastava regularmente para a National Gallery.
- Peço desculpa, Harry. Por favor, continue.
- Beatrice não tinha carro. Ou ia de bicicleta, ou a pé, ou apanhava um autocarro. Costumava pintar durante horas, especialmente no verão, quando a luz era boa e perdia o último autocarro para casa. Os vizinhos viam-na chegar ao chalé a pé, já tarde, carregando o material de pintura. Dizem que passava a noite em sítios horríveis, só para apanhar o nascer do Sol.
- E o que é que eles acham que lhe aconteceu?
- A versão oficial da história: afogamento acidental. As coisas dela foram encontradas nas margens do Orwell, incluindo uma garrafa de vinho vazia. A polícia acha que ela bebeu demasiado, perdeu o equilíbrio, escorregou para dentro de água e se afogou. Não encontraram o corpo. Investigaram durante algum tempo, mas não conseguiram encontrar nenhuma prova que sustentasse outra teoria. Declararam a morte por afogamento acidental e fecharam o caso.
- Parece-me uma história muito plausível.
- Claro, pode ter acontecido dessa maneira. Mas duvido. Beatrice Pymm estava bastante familiarizada com aquela zona. Porque é que, nesse dia em particular, teria bebido demais e caído ao rio?
- E qual é a teoria número dois?
- A teoria número dois é a seguinte: ela foi apanhada pela nossa espia, ao entardecer, esfaqueada no coração e o corpo foi enfiado numa carrinha. As coisas dela foram deixadas na margem do rio para que parecesse um afogamento acidental. Na realidade, a
espiã atravessou parte do país com o corpo, mutilou-o e enterrou-o à
saída de Whitchurch.
Chegaram ao escritório de Vicary e sentaram-se. Vicary à secretária e Harry à frente dele. Harry recostou-se na cadeira e pôs os pés em cima da secretária.
- Isso são tudo suposições ou tem alguns factos que corroborem esta sua teoria?
- Metade uma coisa e metade a outra, mas tudo isto bate com a sua suspeita de que Beatrice Pymm foi assassinada com o objetivo de esconder a entrada da espia no país.
- Sou todo ouvidos.
- vou começar pelo cadáver. O corpo foi descoberto em agosto de 1939. Falei com o patologista do Ministério do Interior que o examinou. A julgar pela decomposição, calculou que tivesse estado enterrado durante seis a nove meses. Isso, já agora, é consistente com o assassinato de Beatrice Pymm. Os ossos da cara foram quase todos estilhaçados. Não havia dentes para comparar registos dentários. Não se podiam tirar impressões digitais porque as mãos estavam demasiado decompostas. Ele não conseguiu determinar a causa de morte. Mas encontrou uma pista interessante, um corte na parte inferior das costelas do lado esquerdo. Aquele corte era consistente com a hipótese de esfaqueamento no peito.
- E o Harry diz que a assassina pode ter usado uma carrinha? Que prova é que tem?
- Perguntei à polícia local se havia relatórios de crimes ou distúrbios em Whitchurch na noite em que Beatrice Pymm foi assassinada. Por coincidência, uma carrinha
foi abandonada e deliberadamente queimada nos arredores de uma aldeia chamada Alderton. Verificaram a matrícula da carrinha.
- Roubada em Londres dois dias antes. Vicary levantou-se e começou a passarinhar.
- Então, a nossa espiã está no meio de nenhures, com uma carrinha em chamas na berma da estrada. E para onde é que ela vai a seguir? O que é que ela faz?
- Vamos partir do princípio de que ela volta para Londres. Manda parar um dos carros ou camiões que passam e pede boleia. Ou talvez caminhe até à estação mais próxima
e apanhe o primeiro comboio para Londres.
- Demasiado arriscado - afirmou Vicary. - Uma mulher sozinha, no meio do campo a altas horas da noite, seria bastante invulgar. E é novembro, por isso, também está frio. Podia ser avistada pela polícia. O homicídio de Beatrice Pymm foi perfeitamente planeado e executado. A assassina não iria deixar ao acaso a sua própria fuga.
- E que tal uma mota na parte de trás da carrinha?
- Boa ideia. Verifique e veja se houve alguma mota roubada nessa altura.
- Ela conduz até Londres e livra-se da mota.
- Correto - concordou Vicary. - E quando a guerra rebenta, não procuramos uma holandesa chamada Christa Kunst porque julgamos erradamente que ela está morta.
- Um plano inteligente como o raio!
- Mais implacável do que inteligente. Veja bem, matar uma civil britânica inocente para esconder uma espiã. Ela não é uma espiã qualquer e Kurt Vogel não é um agente
de controlo qualquer. Estou convencido disso.
Vicary fez uma pausa para acender um cigarro.
- A fotografia levou a alguma pista?
- Nada.
- Acho que isso mata a nossa investigação por completo.
- Receio bem que tenha razão. vou fazer mais uns telefonemas agora à noite.
Vicary abanou a cabeça e disse:
- Tire o resto da noite. Vá lá para baixo, para a festa. - Depois acrescentou: - Passe algum tempo com a Grace.
Harry levantou os olhos.
- Como é que sabe?
- Este lugar está cheio de agentes dos serviços secretos, caso não tenha reparado. As coisas vão-se sabendo, as pessoas falam. Além do mais, vocês os dois não foram exatamente discretos. O Harry costumava deixar o número de telefone de casa de Grace à telefonista, caso eu andasse à sua procura.
Harry corou.
- Vá ter com ela, Harry. Ela sente a sua falta. Qualquer parvo vê isso.
; - Também sinto a falta dela. Mas ela é casada. Acabei tudo por-
que me sentia completamente reles.
- O Harry fá-la feliz e ela também o faz feliz. Quando o marido dela regressar a casa, se o marido dela regressar a casa, as coisas voltam ao normal.
- E como é que eu fico?
- Isso é consigo.
- Fico com o coração despedaçado, é como eu fico. Sou doido pela Grace.
- Então vá ter com a Grace e aproveite a companhia dela.
- Há outra coisa.
Harry contou-lhe o outro aspeto da culpa que sentia por causa do caso com Grace - o facto de estar em Londres a andar atrás de espiões enquanto o marido de Grace e outros homens arriscavam a vida nas forças armadas.
- Eu nem sei o que faria debaixo de fogo, como é que reagiria. Se seria um herói ou um cobarde. Também não sei se ando a contribuir para alguma coisa estando aqui. Consigo apontar cem nomes de outros detetives que são capazes de fazer o mesmo que eu. Às vezes, penso em entregar a Boothby a minha demissão e alistar-me.
- Não seja ridículo, Harry. Quando faz bem o seu trabalho, está a salvar vidas no campo de batalha. A invasão da França vai ser ganha ou perdida antes de o primeiro soldado chegar a pôr um pé numa praia francesa. Milhares de vidas dependem daquilo que o Harry faz. Se acha que não anda a fazer a sua parte, pense nisso
nestes termos. Além disso, preciso de si agora. É o único em quem posso confiar por aqui.
Por um momento, permaneceram sentados num silêncio estranho e embaraçoso, como os ingleses são propensos a fazer depois de partilharem pensamentos privados. Harry levantou-se, dirigiu-se para a porta e, a seguir, parou e voltou-se.
- Então e o Alfred? Porque não há ninguém na sua vida? Porque não desce até à festa e arranja uma mulher simpática com quem passar algum tempo?
Vicary bateu nos bolsos do peito à procura dos óculos em meia-lua e pô-los na cara.
- Boa noite, Harry - disse ele, com um pouco de firmeza a mais enquanto folheava uma pilha de papéis que tinha diante de si, na secretária. - Divirta-se na festa. Vejo-o amanhã de manhã.
Quando Harry saiu, Vicary pegou no telefone e marcou o número de Boothby. Ficou surpreendido por Boothby atender o próprio telefone. Quando Vicary lhe perguntou se não estava ocupado, Sir Basil quis saber se poderia ficar para segunda-feira de manhã. Vicary respondeu que era importante. Sir Basil concedeu-lhe uma audiência de cinco minutos e disse-lhe para subir imediatamente.
- Preparei este memorando para o general Eisenhower, o general Betts e o primeiro-ministro - disse Vicary quando terminou de informar Boothby das descobertas que Harry tinha feito nesse dia.
Entregou-o a Boothby, que permaneceu de pé com os pés ligeiramente afastados, como que para se equilibrar. Estava com pressa para se ir embora para o campo. A secretária tinha-lhe preparado uma pasta segura com material para ler no fim de semana e uma pequena mala em pele com objetos pessoais. Tinha um sobretudo sobre os ombros, com as mangas a abanarem dos lados.
- Na minha opinião, mantermo-nos calados sobre isto por muito mais tempo seria negligência, Sir Basil.
Boothby ainda estava a ler. Vicary sabia isso porque os lábios dele mexiam-se. Semicerrava tanto os olhos que estes tinham desaparecido
sob as sobrancelhas exuberantes. Sir. Basil gostava de fingir que continuava a ter uma visão perfeita e recusava-se a usar óculos à frente dos seus subordinados.
- Pensava que já tínhamos discutido isto, Alfred - disse Boothby, abanando a folha de papel no ar.
Um problema já discutido nunca deverá reaparecer, essa era uma das muitas máximas pessoais e profissionais de Sir Basil. Ficava irritado quando os subordinados levantavam questões já tratadas. A deliberação cuidadosa e as críticas posteriores eram características das mentes mais fracas. Sir Basil apreciava a capacidade de decisão rápida acima de tudo. Vicary passou o olhar pela secretária de Sir Basil. Estava limpa, reluzente e sem quaisquer papéis ou dossiês, um monumento ao estilo de gestão de Boothby.
-Já discutimos isto uma vez, Sir Basil - disse Vicary pacientemente -, mas a situação mudou. Parece que eles conseguiram introduzir um agente no país e esse agente encontrou-se com outro que já cá estava. Parece que a operação, qualquer que ela seja, está em curso. Guardarmos estas informações em vez de as transmitirmos é correr um grande risco.
- Disparates - atirou Boothby.
- Disparates, porquê?
- Porque este departamento não vai informar oficialmente os americanos e o primeiro-ministro de que é incapaz de desempenhar as suas funções. De que é incapaz de controlar a ameaça colocada por espiões alemães aos preparativos para a invasão.
- Isso não é uma razão válida para ocultar estas informações.
- É uma razão válida, sim, Alfred. Se eu digo que é, é porque é.
As conversas com Boothby assumiam normalmente as características de um gato a perseguir a própria cauda: contradições superficiais, bluffs e manobras de diversão, disputas para ver quem marcava mais pontos. Vicary juntou as mãos por baixo do queixo, circunspectamente, e fingiu que estudava o padrão do dispendioso tapete de Boothby. A sala estava em silêncio, à exceção do ruído das tábuas a rangerem sob o corpo musculoso de Sir Basil.
- Está disposto a enviar o meu memorando ao diretor-geral? perguntou Vicary num tom de voz o menos ameaçador possível.
- De forma nenhuma.
- Então, eu próprio estou disposto a ir falar diretamente com o diretor-geral.
Boothby inclinou-se e pôs a cara junto à de Vicary. Vicary, sentado no sofá fundo de Boothby, conseguiu sentir o cheiro do gim e dos cigarros no hálito dele.
- E eu estou preparado para o esmagar, Alfred.
- Sir Basil...
- Deixe que lhe recorde como o sistema funciona. O Alfred informa-me a mim e eu informo o diretor-geral. Já me informou e eu decidi que seria inapropriado passar esta mensagem ao diretor-geral nesta altura.
- Há ainda outra opção.
Boothby atirou a cabeça para trás como se tivesse sido esmurrado. Recuperou rapidamente a compostura e cerrou o maxilar numa carranca.
- Eu não respondo perante o primeiro-ministro, nem estou às ordens dele. Mas se o Alfred passar por cima do departamento e falar diretamente com Churchill, eu entrego-o a uma comissão de inquérito. Quando a comissão acabar de tratar de si, vão precisar dos registos dentários para identificarem o seu corpo.
- Isso é completamente injusto.
- É? Desde que tomou conta deste caso, tem sido um desastre atrás do outro. Meu Deus, Alfred, mais uns quantos espiões alemães a andarem à solta pelo país fora e já podem formar um clube de râguebi.
Vicary recusou-se a morder o isco.
- Se não vai apresentar o relatório ao diretor-geral, quero que o registo oficial deste caso contenha o facto de eu ter feito esta sugestão nesta altura e de o senhor a ter recusado.
Os cantos da boca de Boothby levantaram-se num sorriso lacónico. Proteger a própria pele era uma coisa que ele compreendia e apreciava.
- Já está a pensar no seu lugar na História, é, Alfred?
- O senhor é um completo filho da mãe, Sir Basil. E um incompetente também.
- Está a dirigir-se a um oficial superior, major Vicary!
- Acredite que eu percebi a ironia.
Boothby agarrou na pasta e na mala em pele e, a seguir, olhou para Vicary e disse-lhe:
- Tem muita coisa para aprender.
- Suponho que possa aprender consigo.
- E que raio quer isso dizer? Vicary levantou-se.
- Quer dizer que o senhor devia começar a pensar mais na segurança deste país e menos na sua promoção pessoal através de Whitehall.
Boothby sorriu descontraidamente, como se estivesse a tentar seduzir uma mulher mais nova.
- Mas, meu caro Alfred - disse ele -, eu sempre considerei que as duas coisas estão perfeitamente interligadas.
VINTE E UM
LESTE DE LONDRES
Na noite seguinte, Catherine Blake tinha uma faca de ponta e mola escondida na mala quando se apressou pelo passeio em direção ao armazém dos Pope. Exigira um encontro
a sós com Vernon Pope e, quando chegou ao armazém, não viu sinal dos homens dele. Parou junto ao portão e rodou o trinco. Estava destrancado, como Pope tinha dito que estaria. Abriu-o e entrou.
O armazém era um sítio cheio de sombras, a única iluminação vinha de um candeeiro pendurado num canto da divisão. Catherine encaminhou-se em direção à luz e encontrou o monta-cargas. Entrou, fechou a porta e carregou no botão. O elevador rugiu e depois subiu aos estremeções para o escritório de Pope.
O elevador parou num pequeno patamar com um par de portas pretas duplas. Catherine bateu e ouviu a voz de Pope do outro lado a dizer-lhe para entrar. Ele estava de pé, junto a um carrinho de bebidas, com uma garrafa de champanhe numa mão e um par de copos na outra. Estendeu um a Catherine quando ela atravessou a sala.
- Não, obrigada - disse ela. - vou só ficar um minuto.
- Eu insisto - respondeu ele. - As coisas ficaram um pouco tensas da última vez que estivemos juntos. Quero compensá-la.
- Foi por isso que me mandou seguir? - perguntou ela, aceitando o champanhe.
- Eu mando seguir toda a gente, querida. É por isso que ainda ando neste negócio. Os meus rapazes são bons nisso, como irá ver quando ler o relatório.
Estendeu um envelope na direção de Catherine e depois puxou-o para trás quando ela tentou agarrá-lo.
- Foi por isso que fiquei tão surpreendido quando conseguiu enganar o Dicky. Foi muito ardilosa: enfiar-se no metropolitano e depois saltar para dentro de um autocarro.
- Mudei de ideias - respondeu ela.
Bebeu um pouco do champanhe. Estava gelado e era excelente. Pope estendeu o envelope novamente e, desta vez, permitiu que Catherine o agarrasse. Ela pousou o copo
e abriu-o.
Era exatamente o que ela precisava, um relatório minuto a minuto
dos movimentos de Peter Jordan por Londres: onde trabalhava, os horários dele, os sítios onde comia e bebia, até o nome do amigo.
Enquanto ela acabava de ler, Pope tirou o champanhe do balde de gê o e encheu o copo dele outra vez. Catherine tirou o dinheiro da mala e pousou-o na mesa.
- Aqui está o resto - disse ela. - Acho que isto encerra o nosso assunto. Muito obrigada.
Estava a guardar o relatório sobre Peter Jordan na mala quando Pope se aproximou e lha tirou.
- Por acaso, minha querida Catherine, o nosso assunto ainda agora começou.
- Se é mais dinheiro que quer...
- Oh, eu quero mais dinheiro. E se não quer que eu ligue para a policia, vai dar-mo - atirou ele, dando mais um passo na direção de Catherine, apertando o corpo contra o dela e acariciando-lhe os seios. - Mas há mais uma coisa que quero de si.
As portas do quarto abriram-se revelando Vivie vestida apenas com uma camisa de Vernon, desabotoada até à cintura.
- Vivie, apresento-te a Catherine - disse Pope. - A encantadora Catherine concordou em passar cá a noite.
Não a tinham preparado para ocasiões como esta na escola para espiões da Abwehr, em Berlim. Ensinaram-na a contar tropas, a avaliar um exército, a usar o rádio, a reconhecer as insígnias das unidades e as caras dos oficiais superiores. Mas nunca a ensinaram a lidar
com um gangster londrino e a sua namorada pervertida, que tinham planeado passar a noite a fazer turnos com o corpo dela. Tinha a sensação de estar encurralada numa estúpida fantasia adolescente. Pensou: Isto não pode estar mesmo a acontecer. Mas estava a acontecer e Catherine não conseguia pensar em nada que tivesse aprendido no seu treino que a conseguisse tirar dali.
Vernon Pope conduziu-a pelas portas até ao quarto. Empurrou-a para o fundo da cama e sentou-se numa cadeira num dos cantos do quarto. Vivie pôs-se em pé à frente dela e desabotoou os últimos botões da camisa. Tinha seios pequenos e arrebitados e uma pele pálida que brilhava à luz opaca do quarto. Puxou a cabeça de Catherine até aos seios. Catherine alinhou no jogo depravado, levando o mamilo de Vivie à boca, enquanto pensava na melhor maneira de os matar aos dois.
Catherine sabia que, se se submetesse à chantagem, esta nunca mais acabaria. Os seus recursos financeiros não eram ilimitados. Vernon Pope conseguiria extorquir-lhe o dinheiro até ao último tostão muito rapidamente. E sem dinheiro ela seria inútil para eles. Decidiu que havia poucos riscos envolvidos; tinha-se dado ao cuidado de não deixar nenhum rasto visível. Pope e os homens dele não sabiam onde encontrá-la. Apenas sabiam que ela trabalhava como enfermeira voluntária no Hospital St. Thomas e lá Catherine tinha dado uma morada falsa. E também não teriam coragem de ir à polícia. A polícia iria fazer perguntas; e se respondessem com a verdade, teriam de admitir que tinham seguido um oficial da marinha americana por dinheiro.
Tudo isso implicava matar Vernon Pope o mais rápida e silenciosamente que lhe fosse possível.
Catherine levou o outro seio de Vivie à boca e chupou o mamilo até ele ficar duro. Vivie deixou cair a cabeça para trás e gemeu. Pegou na mão de Catherine e guiou-a pelo meio das pernas. Já estava quente e húmida. Catherine tinha-se desligado de qualquer emoção. Estava apenas a executar mecanicamente os movimentos para dar prazer físico àquela mulher. Não sentia medo nem repulsa, simplesmente tentava manter-se calma e pensar claramente. A pélvis de Vivie começou a mover-se contra os dedos de Catherine e, um momento depois, o corpo dela estremeceu com um orgasmo.
Vivie empurrou Catherine para a cama, montou em cima das ancas dela e começou a desabotoar-lhe os botões da camisola. Tirou-lhe o sutiã e massajou-lhe os seios.
Catherine viu Vernon levantar-se da cadeira e começar a despir-se. Foi a primeira vez que se sentiu nervosa. Não o queria em cima dela nem dentro dela. Ele era muito
capaz de ser um amante cruel e sádico. Podia magoá-la. De costas, com as pernas abertas, estaria vulnerável. Estaria também sujeita ao seu peso e força superiores.
Todas as técnicas de luta que tinha aprendido na escola da Abwehr dependiam da velocidade e da liberdade de movimentos. Se ela se visse presa por baixo do corpo
pesado de Vernon Pope, ficaria indefesa.
Catherine tinha de fazer o jogo deles. Melhor ainda: tinha de ser ela a controlá-lo.
Levantou os braços e agarrou nos seios de Vivie com as mãos e acariciou-lhe os mamilos. Conseguia ver Vernon a observá-las. Estava a comê-las com os olhos, a deleitar-se com a visão das duas mulheres a acariciarem-se uma à outra. Catherine puxou Vivie para ela e guiou-lhe a boca para os seios. Catherine pensou em como seria fácil agarrar-lhe na cabeça e torcer-lha até que o pescoço se partisse, mas seria um erro. Precisava de matar Pope primeiro. Depois disso, Vivie seria fácil.
Pope dirigiu-se para a cama e empurrou Vivie para o lado.
Antes que Vernon conseguisse deitar-se em cima dela, Catherine sentou-se e beijou-o. Pôs-se de pé enquanto a língua dele se agitava selvaticamente dentro da boca dela. Lutou contra a vontade de vomitar. Por instantes, considerou a possibilidade de permitir que ele fizesse amor com ela e matá-lo depois, quando estivesse sonolento e satisfeito. Mas ela não queria que aquilo se prolongasse mais do que o estritamente necessário.
Afagou-lhe o pénis. Ele gemeu e beijou-a com mais força.
Naquele momento, ele estava indefeso. Virou-o para que ficasse de costas para a cama.
Foi então que lhe deu uma joelhada violenta e maldosa nas virilhas.
Pope contorceu-se todo, tentando respirar, com as mãos entre as coxas. Vivie gritou.
Catherine girou e acertou com o cotovelo na cana do nariz dele. Conseguiu ouvir o som do osso e da cartilagem a partirem-se. Pope caiu no chão, aos pés da cama, com o sangue a jorrar-lhe das narinas. Vivie estava ajoelhada na cama, a gritar. Já não era uma ameaça para Catherine.
Virou-se e dirigiu-se rapidamente para a porta. Pope, ainda no chão, estendeu a perna.
Bateu violentamente no tornozelo direito de Catherine, fazendo com que ela tropeçasse nas próprias pernas. Catherine caiu no chão, com a forte queda a deixá-la sem fôlego. Viu estrelas, por momentos, e vieram-lhe as lágrimas aos olhos. Teve medo de perder os sentidos.
com grande esforço, conseguiu pôr-se de gatas e estava quase a levantar-se quando Pope lhe agarrou o tornozelo, apertando-o como um torno, e começou a arrastá-la para ele. Catherine rolou rapidamente para o lado e atirou com o salto do sapato ao nariz partido dele.
Pope gritou, cheio de dores, mas parecia que o aperto em volta do tornozelo dela ainda se tinha tornado mais forte.
Ela pontapeou-o uma segunda vez e depois uma terceira.
Finalmente, ele soltou-a.
Catherine pôs-se de pé e correu para o sofá onde Pope a fizera largar a mala. Abriu-a e a seguir abriu o fecho interior. A faca de ponta e mola estava lá. Pegou nela e carregou na mola. A lâmina foi ativada com um estalido.
Pope já estava em pé, a mergulhar na escuridão, com as mãos a procurarem-na. Catherine voltou-se e atacou selvaticamente com a arma. A ponta da lâmina abriu um golpe no ombro direito dele.
Pope apertou a ferida com a mão esquerda e gritou de dor quando o sangue começou a jorrar-lhe por entre os dedos. Tinha o braço à frente do peito, não havia maneira de lhe espetar a faca no coração. A Abwehr tinha-lhe ensinado outro método que a fazia arrepiar só de pensar nele. Mas tinha de o utilizar agora. Não havia escolha.
Catherine aproximou-se mais, puxou a faca para trás e depois enterrou-a no olho de Vernon Pope.
Vivie estava no canto do quarto, deitada no chão, em posição fetal, a chorar histericamente. Catherine agarrou-a pelo braço, pô-la em pé com um puxão e empurrou-a contra a parede.
- Por favor, não me faças mal.
- Não te vou fazer mal.
- Não me faças mal.
- Não te vou fazer mal.
- Prometo que não digo a ninguém, nem mesmo ao Robert. Juro.
- Nem à polícia?
- Não digo nada à polícia.
- Otimo. Eu sabia que podia confiar em ti.
Catherine acariciou-lhe o cabelo e tocou-lhe na cara. Vivie pareceu sossegar. O corpo dela perdeu as forças e Catherine teve de a agarrar para impedir que caísse no chão.
- Quem és tu? - perguntou Vivie. - Como é que lhe conseguiste fazer isto?
Catherine não disse nada, apenas lhe acariciou o cabelo enquanto a outra mão procurava a parte mais mole na base da caixa torácica. Os olhos de Vivie esbugalharam-se quando a faca lhe entrou no coração. Um grito de dor ficou preso na garganta e saiu como um gorgolejo baixinho. Morreu rápida e silenciosamente, com os olhos sem expressão a olharem para os de Catherine.
Catherine soltou-a. O movimento do corpo a escorregar pela parede abaixo arrancou a faca do coração. Catherine observou os destroços humanos à sua volta, o sangue. Meu Deus, em que é que me transformaram? A seguir, caiu de joelhos ao lado do cadáver de Vivie e vomitou violentamente.
Executou os rituais de fuga com uma calma surpreendente. Na casa de banho, lavou o sangue deles das mãos, da cara e da lâmina da faca. Não havia nada a fazer quanto ao sangue na camisola, a não ser escondê-lo debaixo do casaco de cabedal. Saiu da casa de banho, passou pelo corpo da mulher e foi até à divisão seguinte. Dirigiu-se para a janela e olhou para a rua. Pope, ao que parecia, tinha cumprido
a palavra dada. Não havia ninguém no exterior do armazém. De certeza que encontrariam o corpo dele de manhã e, quando o fizessem, viriam atrás dela. Por agora, pelo menos, estava segura. Agarrou na mala e tirou da mesa as cem libras em notas que tinha dado a Pope. Desceu no elevador, atravessou o armazém e embrenhou-se na noite.
VINTE E DOIS
LESTE DE LONDRES
O superintendente-chefe Andrew Kidlington, ao contrário da maior parte dos homens da sua profissão, evitava cenas de homicídio sempre que podia. Pregador secular na sua igreja local, já há muito perdera o gosto pelo lado mais macabro da profissão. Tinha reunido uma equipa de polícias absolutamente profissional e acreditava que o melhor era dar-lhe rédea livre. Tinha uma habilidade lendária para fazer mais deduções sobre um homicídio a partir de um bom dossiê do que pela visita ao local do crime, e certificava-se sempre de que cada pedaço de papel gerado pelo departamento lhe passava pela secretária. Mas não era todos os dias que alguém espetava
uma faca num homem como Vernon Pope. Aquilo era uma coisa que tinha de ver com os próprios olhos.
O polícia fardado que estava de guarda à entrada do armazém afastou-se para o lado quando Kidlington se aproximou.
- O elevador é mesmo ao fundo do armazém, senhor. Suba um andar. Há outro homem nesse patamar. Ele indica-lhe o caminho.
Kidlington atravessou o armazém devagar. Era alto e magro, com uma cabeleira espessa e grisalha e o ar de quem tem sempre más notícias a dar. Por causa disso, os seus homens tinham tendência para andarem de mansinho quando estavam perto dele.
Um jovem sargento chamado Meadows estava à espera dele no patamar. Meadows era demasiado vistoso para o gosto de Kidlington
e andava com muitas mulheres. Mas era um excelente detetive e tinha
a palavra promoção estampada na testa.
- Aquilo está muito feio ali dentro, senhor - disse Meadows.
Kidlington conseguia sentir o cheiro a sangue no ar quando Meadows o conduziu para dentro do escritório. O corpo de Vernon Pope jazia sobre um tapete oriental perto do sofá. O círculo escuro do sangue expandia-se para além do lençol cinzento que o cobria. Kidlington, apesar dos seus trinta anos na Polícia Metropolitana, ainda sentiu a bílis a subir-lhe à boca quando Meadows se ajoelhou junto do corpo e puxou o lençol para trás.
- Meu Deus! - exclamou Kidlington baixinho.
Fez uma careta e virou-se para o lado para se recompor.
- Nunca tinha visto nada assim - disse Meadows.
O cadáver de Vernon Pope estava deitado, nu e virado para cima, numa poça de sangue seco e preto. Para Kidlington, era óbvio que a ferida fatal só tinha sido provocada após uma violenta luta. Havia um grande corte irregular ao longo do ombro. O nariz tinha sido brutalmente partido. O sangue tinha escorrido das narinas para a boca, que se tinha aberto na morte, como se emitisse um último grito. Depois havia o olho. Kidlington teve dificuldade em olhar para aquilo. O sangue e o fluido ocular tinham escorrido pela cara abaixo. O globo ocular estava destruído e a pupila já não era visível. Era preciso uma autópsia para determinar a verdadeira profundidade da ferida, mas parecia ter sido o golpe fatal. Alguém tinha enfiado alguma coisa no olho e no cérebro de Vernon Pope.
Kidlington quebrou o silêncio:
- Hora aproximada da morte?
- Durante a noite de ontem, talvez logo no início.
- Arma?
- É difícil dizer. com certeza que não foi uma faca comum. Olhe para a ferida no ombro. As pontas da ferida são irregulares.
- Conclusão?
- Qualquer coisa afiada. Talvez uma chave de fendas ou um picador de gelo.
Kidlington observou o escritório.
O do Pope ainda está no carrinho das bebidas. A não ser que
o nosso assassino ande por aí com o seu próprio picador de gelo, duvido que seja essa a arma do crime - afirmou Kidlington, olhando outra vez para o corpo. - Eu diria que foi uma faca de ponta e mola. É uma arma que fura, não uma que corta. E isso explicaria tanto a ferida irregular no ombro como o ferimento perfurante e certeiro no olho.
- Certo, senhor.
Kidlington já tinha visto o suficiente. Levantou-se e indicou a Meadows que tapasse o corpo.
- A mulher?
- No quarto. Por aqui, senhor.
Robert Pope estava sentado no lugar do passageiro, pálido e a tremer visivelmente, enquanto Dicky Dobbs conduzia a carrinha a toda a velocidade em direção ao Hospital
St. Thomas. Tinha sido Robert a descobrir os corpos do irmão e de Vivie de manhã cedo. Tinha esperado por Vernon no café no East End onde tomavam o pequeno-almoço
todas as manhãs e ficou preocupado quando ele não apareceu. Foi buscar Dicky ao apartamento e foram ao armazém. Quando viu os corpos, gritou e pontapeou a mesa de
vidro.
Robert e Vernon Pope eram homens realistas. Sabiam que estavam num trabalho perigoso e que um deles ou os dois poderiam morrer ainda novos. Como todos os irmãos,
também discutiam, mas Robert Pope adorava o irmão mais velho mais do que tudo no mundo. Vernon tinha sido como um pai para ele, quando o próprio pai, um desempregado
alcoólico e abusivo, se foi embora para nunca mais voltar. Foi a maneira como ele morreu que o horrorizou mais: esfaqueado no olho e deixado no chão, nu. E Vivie,
uma inocente, esfaqueada no coração.
Era possível que as mortes fossem obra de um dos seus inimigos. O negócio dos Pope tinha prosperado durante a guerra e eles tinham estendido as suas atividades
para novos territórios. Mas aquilo não se parecia com nenhum assassinato feito por gangues que já tivesse visto. Robert suspeitava que tinha alguma coisa que ver
com
a mulher: Catherine, ou fosse lá qual fosse o raio do nome verdadeiro dela. Tinha feito um telefonema anónimo para a polícia - teriam de ser metidos ao barulho,
mais tarde ou mais cedo -, mas não confiava neles para encontrar o assassino do irmão. Isso faria ele sozinho. Dicky estacionou junto ao rio e entrou no hospital
por uma porta de serviço. Saiu de lá passados cinco minutos e voltou para a carrinha.
- Ele estava lá? - perguntou Pope.
- Sim. Ele acha que nos consegue arranjar isso.
- Quanto tempo?
- Vinte minutos.
Meia hora mais tarde, um homem magro, com uma cara chupada e uma farda de contínuo, saiu pelas traseiras do hospital e dirigiu-se para a carrinha rapidamente.
Dicky baixou o vidro da janela.
- Já o tenho, senhor Pope - disse ele. - Uma rapariga da receção deu-mo. Disse que era contra as regras, mas eu convenci-a. Mas prometi-lhe uma nota de cinco. Espero que não se importe.
Dicky estendeu a mão e o homem deu-lhe um papel. Dicky passou-o a Pope.
- bom trabalho, Sammy - disse Pope, olhando para o papel
- Dá-lhe o dinheiro, Dicky.
O homem aceitou o dinheiro, com uma expressão de desapontamento.
- Que se passa, Sammy? - perguntou Dicky. - Dez xelins, tal como prometi.
- Então e as cinco libras para a rapariga?
- Considera-as as tuas despesas operacionais - disse Pope.
- Mas, senhor Pope...
- Sammy, não queiras meter-te comigo neste momento. Dicky pôs a carrinha em movimento e acelerou, com os pneus
a chiarem.
- Qual é a morada? - perguntou Dicky.
- É em Islington. Mexe-te!
A senhora Eunice Wright, moradora no número 23 de Norton Lane, em Islington, era parecida com a casa: alta, estreita, cinquentona, toda ela robustez e maneiras vitorianas. Não sabia - nem nunca saberia, mesmo depois do horrível episódio - que a casa tinha sido usada como morada falsa por uma agente dos serviços secretos militares alemães chamada Catherine Blake.
Há já duas semanas que Eunice Wright estava à espera de um técnico para reparar a caldeira avariada. Antes da guerra, os hóspedes da sua bem dirigida pensão eram, na sua maioria, jovens que estavam sempre dispostos a ajudar quando alguma coisa corria mal com os canos ou com o fogão. Mas, naquele momento, todos os jovens estavam no exército. O seu próprio filho, que nunca lhe saía do pensamento, estava algures no Norte de África. Já não retirava nenhum prazer dos hóspedes - dois homens velhos que falavam imenso sobre a última guerra e duas raparigas do campo bastante tolas que tinham fugido da desolação da sua aldeia nas East Midlands para procurarem trabalho nas fábricas de Londres. Quando Leonard era vivo, era ele que tratava de todas as reparações, mas Leonard já estava morto há dez anos.
Estava à janela da sala de estar a bebericar chá. O silêncio reinava na casa. Os homens estavam lá em cima a jogar às damas. Tinha insistido para que eles jogassem sem baterem com as peças para não acordarem as raparigas, que tinham acabado de chegar do turno da noite. Aborrecida, ligou o rádio e ouviu o noticiário da BBC.
Quando parou à frente da casa, a carrinha pareceu-lhe estranha. Não tinha nada que a identificasse - não tinha o nome de nenhuma companhia pintado na parte lateral - e os dois homens sentados à frente não eram nada parecidos com nenhum técnico de reparações que ela já tivesse visto. O que estava ao volante era alto e robusto, com o cabelo cortado à escovinha e um pescoço tão grande que parecia que a cabeça estava simplesmente atarraxada aos ombros. O outro era pequeno, tinha cabelo escuro e parecia zangado com o mundo. A roupa deles também era estranha. Em vez das fardas tipo macacão dos operários, traziam fatos e, pelo aspeto, fatos muito caros.
Abriram as portas e saíram. Eunice reparou no facto de não carregarem ferramentas. Talvez quisessem observar os danos da caldeira antes de trazerem todas as ferramentas para dentro de casa. Estavam apenas a ser meticulosos, estavam a certificar-se de que apenas traziam as ferramentas necessárias para o trabalho. Estudou-os mais atentamente à medida que se aproximavam da porta da frente. Pareciam razoavelmente saudáveis. Por que razão não estariam no exército? Notou como olhavam por cima do ombro, para a rua, enquanto iam avançando, como se estivessem a tentar passar despercebidos. De repente, Eunice desejou que Leonard ali estivesse.
Bateram à porta de um modo nada educado. Ela pôs-se a pensar que os polícias deviam bater assim quando achavam que havia um criminoso atrás da porta. Bateram outra vez, com tanta força que os vidros da janela da sala abanaram.
Lá em cima, o jogo de damas parou.
Eunice foi até à porta. Pensou para si própria que não havia razão para ter medo, que apenas lhes faltavam as boas maneiras que eram comuns à maioria dos técnicos ingleses. Eram tempos de guerra. Os técnicos de reparação mais experientes estavam a prestar serviço militar, a trabalhar em bombardeiros ou fragatas. Os maus - como aqueles dois que estavam à porta - iam aguentando os empregos que tinham.
Abriu a porta devagar. Queria pedir-lhes que não fizessem barulho para não acordarem as raparigas. Nunca chegou a conseguir falar. O maior - o que não tinha pescoço - empurrou a porta para trás com o antebraço e depois tapou-lhe a boca com a mão. Eunice tentou gritar, mas o grito pareceu morrer-lhe na garganta e ela não conseguiu emitir praticamente nenhum som audível.
O mais pequeno encostou a cara ao ouvido dela e falou-lhe com uma serenidade que ainda a assustou mais.
- Dá-nos o que nós queremos, 'morzinho, e ninguém se magoa
- disse ele.
A seguir, afastou-a com um empurrão e começou a subir as escadas.
O sargento Meadows considerava-se uma autoridade menor no que dizia respeito ao gangue dos Pope. Sabia como faziam dinheiro
. legal e ilegalmente - e conseguia reconhecer a maior parte dos
membros do gangue pelo nome e pela cara. Por isso, quando ouviu a descrição dos dois homens que
tinham acabado de virar de pantanas uma pensão em Islington, acabou
os seus afazeres na cena do crime e dirigiu-se para lá a fim de ver o que se tinha passado com os próprios olhos. A primeira descrição correspondia a Richard Dicky
Dobbs, o principal capanga e pau para toda a obra dos Pope. A outra correspondia ao próprio Robert Pope.
Como era seu hábito, Meadows ia passarinhando pela sala de estar enquanto Eunice Wright, sentada rigidamente direita numa cadeira, voltava a contar toda a história
pacientemente, apesar de já o ter feito por duas vezes. A chávena de chá tinha sido substituída por um pequeno copo de xerez. A cara exibia a marca dos dedos do
agressor e ela tinha ficado com um galo na cabeça quando ele a tinha empurrado para o chão. Fora isso, não estava ferida com gravidade.
- E eles não lhe disseram o quê ou quem é que procuravam? perguntou Meadows, parando de andar de um lado para o outro o tempo suficiente para fazer a pergunta.
- Não.
- Trataram-se um ao outro pelo nome?
- Não, acho que não.
- E por acaso viu a matrícula da carrinha?
- Não, mas descrevi a carrinha a um dos outros agentes.
- É um modelo muito comum, senhora Wright. Receio que a descrição por si só não tenha grande valor para nós. vou mandar um dos nossos homens falar com a vizinhança.
- Lamento - disse ela, esfregando a parte de trás da cabeça.
- Está bem?
- Ele fez-me um galo muito feio na cabeça, aquele rufia!
- Talvez devesse ir ao médico. vou pedir a um dos agentes que lhe dê uma boleia quando tivermos terminado.
- Muito obrigada. É muito gentil da sua parte. Meadows agarrou na gabardina e vestiu-a.
- E disseram mais alguma coisa de que se lembre?
- Bem, disseram uma coisa - respondeu Eunice Wright, hesitando por um momento e corando. - Receio que a linguagem seja um bocadinho grosseira.
- Garanto-lhe que não me vou sentir ofendido.
- O mais pequeno disse: Quando eu encontrar aquela...
Fez uma pausa e baixou a voz, envergonhada por dizer aquelas palavras:
-Quando eu encontrar aquela cabra de merda, vou matá-la com as minhas próprias mãos.
Meadows franziu o sobrolho.
- Tem a certeza disso?
- Oh, sim. Quando é raro ouvirmos esse tipo de linguagem, é difícil esquecermo-nos.
- É bem verdade - exclamou Meadows, entregando-lhe o cartão de contacto. - Se se lembrar de mais alguma coisa, por favor, não hesite em ligar. Tenha um bom dia, senhora Wright.
- bom dia, senhor inspetor.
Meadows pôs o chapéu e dirigiu-se para a porta. Então eles andavam à procura de uma mulher. Se calhar, não eram os Pope, afinal de contas. Se calhar, eram apenas dois sujeitos à procura de uma rapariga. Talvez as descrições semelhantes fossem apenas uma coincidência. Meadows não acreditava em coincidências. Ia voltar ao armazém dos Pope e verificar se alguém tinha avistado uma mulher a andar por ali nos últimos tempos.
VINTE E TRÊS LONDRES
Catherine Blake partiu do princípio de que os oficiais aliados que conheciam o segredo mais importante da guerra tinham sido alertados para a ameaça representada pelos espiões. Que outra razão levaria o comandante Peter Jordan a algemar a pasta ao pulso para atravessar a pé Grosvenor Square? E também partiu do princípio de que os oficiais tinham sido avisados em relação a abordagens femininas. Mais no início da guerra, tinha visto um cartaz à entrada de um clube frequentado por oficiais britânicos. Mostrava uma loira voluptuosa, de grandes seios e com um vestido de noite decotado, à espera que um oficial lhe acendesse o cigarro. No fundo do póster, liam-se as palavras: Mantém-te calado, ela não é assim tão burra. Catherine achou que era a coisa mais ridícula que já tinha visto. Se havia mulheres assim - cabras que andavam por clubes ou festas a ouvir mexericos e segredos -, ela não tinha conhecimento. Mas suspeitava que essa doutrinação faria Peter Jordan desconfiar de uma mulher linda que começasse de repente a disputar a sua atenção. Ele também era um homem de sucesso, inteligente e atraente. Mostrar-se-ia muito criterioso em relação às mulheres com quem decidia passar tempo. A cena no Savoy, no outro dia, era a prova disso. Tinha-se zangado com o amigo Shepherd Ramsey por este lhe ter arranjado um encontro com uma rapariga estúpida e nova. Catherine teria de fazer a sua abordagem com muito cuidado.
E era essa a razão para se encontrar parada à esquina do Vandyke Club, com um saco da mercearia nos braços.
Eram quase seis horas. Londres estava envolta no blackout. O trânsito do final da tarde fornecia à justa a luz necessária para que ela conseguisse ver a entrada para o clube. Passados alguns minutos, saiu de lá um homem de estatura e constituição medianas. Era Peter Jordan. Parou um momento para abotoar o sobretudo. Se mantivesse a rotina do final da tarde, iria fazer a pé a pequena distância até casa. Se quebrasse a rotina e fizesse sinal a um táxi para parar, Catherine estaria sem sorte nenhuma. Seria obrigada a voltar no dia seguinte e a esperar com o saco da mercearia.
Jordan levantou a gola do sobretudo e começou a avançar na direção dela. Catherine Blake aguardou um momento e, a seguir, atravessou-se no caminho dele.
Quando chocaram, ouviu-se o som de papel a rasgar-se e de artigos de mercearia a cair no passeio.
- Peço desculpa. Não vi que estava aí. Por favor, deixe-me ajudá-la a levantar-se.
- Não, a culpa é minha. Infelizmente, não sei onde pus a minha lanterna para o blackout e tenho andado de um lado para o outro, perdida. Sinto-me mesmo parva.
- Não, eu é que tenho a culpa. Estava a tentar provar a mim mesmo que conseguia descobrir o caminho para casa no escuro. Oiça, tenho uma lanterna. Deixe-me acendê-la.
- Importa-se de a apontar para o passeio? Acho que as minhas rações estão a rebolar em direção ao Hyde Park.
- Agarre a minha mão.
- Obrigada. Já agora, quando quiser, pode parar de me apontar a luz à cara.
- Desculpe, é só que...
- Só que o quê?
- Esqueça. Acho que aquele pacote de farinha não sobreviveu.
- Não faz mal.
- Deixe-me ajudá-la a apanhar as coisas.
- Eu sou capaz. Obrigada.
- Não, eu insisto. E deixe-me arranjar-lhe outro pacote de farinha. Tenho imensa comida em casa. O meu problema é não saber o que fazer com ela.
- A marinha não lhe dá de comer?
- Como é que...
- Lamento informá-lo, mas o uniforme e o sotaque revelaram-no. Além disso, só um oficial americano é que seria suficientemente tolo para andar intencionalmente pelas ruas de Londres sem se servir de uma lanterna. Vivi aqui a vida inteira e mesmo assim não me consigo orientar durante o blackout.
- Por favor, deixe-me restituir-lhe as coisas que perdeu.
- É uma oferta muito gentil, mas não é necessário. Foi um prazer chocar contra si.
- Sim... sim, pois foi.
- Teria a amabilidade de me indicar para que lado fica a Brompton Road?
- É naquela direção.
- Muito obrigado.
Ela voltou-se e começou a afastar-se.
- Espere um minuto. Tenho outra sugestão. Ela parou de andar e virou-se.
-- E qual é ela?
- Gostaria de saber se lhe apeteceria tomar um copo comigo um dia destes.
Ela hesitou e depois disse:
- Não sei bem se quero beber um copo com um americano detestável que faz questão de andar pelas ruas de Londres sem lanterna. Mas suponho que, no fundo, pareça inofensivo. Por isso, a resposta é sim.
Afastou-se novamente.
- Espere, venha cá. Nem sequer sei o seu nome.
- É Catherine - gritou ela. - Catherine Blake.
- Preciso do seu número de telefone - disse Jordan sem saber o que fazer.
Mas ela já se tinha diluído na escuridão e desaparecido.
Quando Peter Jordan chegou a casa, entrou no escritório, pegou no telefone e marcou um número. Identificou-se e uma simpática voz feminina deu-lhe instruções para que não desligasse. Passado um momento, ouviu a voz, com sotaque inglês, do homem que conhecia apenas como Broome.

 

 

 


CONTINUA