Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O FADO DA SOMBRA / Filipe Faria
O FADO DA SOMBRA / Filipe Faria

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

Pela primeira vez em anos, nevara no vale de Asmodeon.

Para um leigo ou visitante, tal não constituiria qualquer surpresa, atendendo à latitude e à época, mas os monstruosos habitantes tinham sido apanhados desprevenidos. Embrutecidos ogroblins bramiram ini­cialmente, soprando ar frio através dos seus vesiculosos focinhos como animais assustados, estranhando sobremodo tão inesperado evento, mas cedo se recolheram nas suas cavernas ao longo das nevosas escarpas que circundavam o vale. O silêncio estava mais pesado que nunca, e a prole d’O Flagelo que agora se aninhava em recantos escuros sabia que tanto a calada como a inesperada queda de neve se deviam à ausência dos drahregs. Coletiva ou individualmente, o Primeiro Pecado sempre fora a alma e o coração de Asmodeon, e sem a fervilhante massa negra de vida por ele incorporada, o vale parecia frio e morto, assim como a fortaleza nele alojada. O lago de água salobra debaixo desta congelara, vedando as suas insondáveis profundezas escuras do resto do mundo com uma superfície de gelo tingido de branco e cinzento pelo pó cinéreo que os ventos arrastavam pelas encostas abaixo. O coração de Asmodeon dei­xara de bater, e apesar da sua sombria grandiosidade, a fortaleza mais se parecia com um esqueleto de pedra, congelado numa determinada posição nas vascas da sua morte. A díspar arquitetura e os diferentes tipos de pedra usados na sua construção apenas ajudavam à impressão, dando-lhe o ar de um cadáver meio decomposto nas partes que ainda não se encontravam revestidas de neve. Os pináculos e arcobotantes visí­veis lembravam ossos expostos, e os ruídos que o vento produzia ao pas­sar por entre os espaços mais lembrava o estertor de um obstinado moribundo.

A única isolada presença no vale a contrariar tal impressão encon­trava-se num ornado balcão que se projetava da talhada negra da fortaleza de Asmodeon, silenciosa e observante como as disformes gárgulas que a ladeavam. Uma desmedida capa adejava em seu redor ao sabor do vento, um revoluteante manto de sombra que se entornava do parapeito afora, agitando-se qual estandarte negro. Seltor contem­plava o cintilante céu invernal, imóvel e pálido a meio do negrume da sua capa e armadura de sombra dada forma, de olhos fitos nas estre­las. O seu semblante permanecia inalterado como o de uma estátua de mármore, inescrutável, misterioso e sempre seguro de si, mas havia uma pequena falha na perfeição alabastrina da sua face, uma discreta racha na testa que mal lhe franzia as sobrancelhas e que, não fosse pela sublimidade do rosto d’O Flagelo, passaria despercebida a olho nu. Seltor sentia dúvidas.

 

 

 

 

Era uma sensação à qual já não estava habituado, não desde que fora liberto de Ancalach, desde que saíra de um mundo de dor e agonia com um plano e uma nova determinação. A epifania que tivera en­quanto aprisionado mudara tudo e dera-lhe renovada confiança, e Seltor sabia que, embora o seu regresso não tivesse passado propria­mente despercebido, ainda tinha a surpresa do seu lado. Afinal, me­tade de quem estava ciente do seu retorno preferia não acreditar que tal fosse possível, e a outra metade continuava apegada a crenças obso­letas acerca das suas intenções, alheia aos seus verdadeiros propósitos. Tudo lhe correra de feição desde que regressara, e as peças do descon­juntado plano que urdira durante vinte excruciantes anos começavam por fim a encaixar. A filha de Aewyre Thoryn, a queda da Sirulia, a marcha dos drahregs, a morte dos deuses... e, contudo, agora que olhava para as estrelas, sentia uma pontada de dúvida, um mero grão de areia no oceano que era a sua resolução, mas que ameaçava cres­cer e formar um dique e vedar-lha. Matar os Novos Deuses fora de longe a sua mais drástica ação desde que fora liberto do jugo de Ancalach, e apesar de toda a sua confiança, Seltor sentia-se como diante de um precipício, onde um passo em falso poderia ser desas­troso, pois eles estavam certamente à espera...

— Meu... senhor? — veio a áspera voz de Nishekan interromper os seus pensamentos.

Seltor sorriu e virou ligeiramente a cabeça para o lado, embora não o suficiente para fitar o recém-chegado com os seus olhos de íris tão negras quanto as pupilas.

— Sim, meu bom Nishekan?

O Aesh’alan avançou a passos lentos e ponderados, de mãos enfia­das nas habituais mangas folgadas da sua toga cinzenta, e postou-se ao lado de Seltor, evitando humildemente olhar para o seu senhor. Seguiu-se um momento de desconfortável silêncio; desconfortável não pelo silêncio em si, pois Nishekan nunca fora o mais falador dos Aesh’alan, mas porque este parecia genuinamente não saber o que dizer, embora a vontade fosse evidente. Seltor estava ciente do quão estranhas as suas ações e a sua nova atitude poderiam parecer ao seu leal servo de longa data, mas sabia que nem mesmo ele compreende­ria se tentasse explicar. Nishekan sempre fora o seu favorito, devido à sua fidelidade canina e inteligência, e Seltor não tinha a mínima vontade de pô-las à prova.

— Algo te incomoda, Nishekan? — indagou Seltor, sacudindo graciosamente a cabeça para tirar da vista as mechas de cabelo com as quais o vento tentara tapar-lhe os olhos, devolvendo então a sua aten­ção às estrelas.

— Meu senhor... — Seltor tornou a sorrir. Nishekan raras vezes era capaz de iniciar ou dar continuidade a uma conversa sem o seu trato formal. — Perdoai a minha ousadia, mas... o que pretendeis fazer?

Alargando ligeiramente o sorriso, Seltor fechou os olhos, fungou divertido e cruzou os braços, raspando as peças da sua sombria arma­dura com um som de aço oleado.

— O que pretendo, meu Juízo? Salvar Allaryia — respondeu Sel­tor em tom prosaico, rindo guturalmente para consigo como se ciente da deliciosa ironia.

Tal como esperado, Nishekan permaneceu em silêncio, e embora estivesse de cara virada para a desolada paisagem em frente, Seltor sentiu os discretos olhos deste espreitarem para o lado, duas intrigadas manchas brancas a meio do negrume das suas olheiras e do sombreado provocado pelas suas salientes orlas orbitais.

— Salvar... Allaryia? — gralhou o Aesh’alan, surpreso.

— Bem entendido. O que julgavas tu que eu pretendia? Conquis­tar o mundo? Escravizar as raças afins? Isso não é possível, meu bom Nishekan, como o passado bem me ensinou, pobre iludido que eu era — explicou O Flagelo, para crescente incredulidade do seu circuns­tante. — Apercebi-me de muito, desde então. Aprendi mais ainda, e hoje sei e rejo-me pelo que devo fazer, não pelo que me criaram para fazer... Mas estou a confundir-te, não estou, meu bom Nishekan? Sê franco. Nunca esperei menos de ti.

— Confesso-me... intrigado... meu senhor — reconheceu o Aesh’alan a custo, temendo estar a ser impertinente. — Haveis... mudado.

— Vinte anos de dor e agonia deixam as suas marcas, meu Juízo.

— Haveis lançado os drahregs... em massa... — prosseguiu Nishe­kan. — Sem rumo... nem orientação... sem sequer... lhes conceder acesso... ao arsenal de Asmodeon. Haveis matado... os deuses. Dois dos vossos... Aesh’alan... traíram-vos... e nada haveis... feito. Não compreendo... meu senhor. Ajudai-me a...

— Poupa a pele da tua boca, meu bom Nishekan — interpelou-o Seltor, erguendo uma manopla negra como para estancar os fios de sangue que escorriam pelo queixo deste abaixo. Seltor sabia que as tiras de pele que selavam a boca do Aesh’alan lhe tornavam a fala difícil, e as palavras, dolorosas.

Obediente, Nishekan baixou a submissa cabeça, interpretando as palavras d’O Flagelo como um sinal de que fora longe demais na sua impertinência.

— Compreendo perfeitamente os teus receios, meu Juízo. Muito me espantaria se não lhes desses voz — assegurou-lhe Seltor, sem nunca deixar de olhar para as estrelas. — O êxodo dos drahregs foi uma necessidade, além de que não suporto a presença deles, quanto mais a sua companhia.

— Posso saber... a que se deve tal... necessidade? — ousou Nishekan.

— Digamos que eles são uma desculpa conveniente para os huma­nos e afins; bodes expiatórios, assim como eu, embora com o ônus adicional de serem vis, ignóbeis e dignos de pouco mais além de uma morte rápida — disse Seltor, para crescente surpresa de Nishekan. — Os deuses? Não foi nada pessoal; eles não passavam de um entrave.

— Um... entrave... meu senhor?

— Sim, um entrave. Um entrave ao verdadeiro potencial dos humanos. Apenas quando este se revelar, é que todos me darão a razão, mas é precisamente isso que eu pretendo evitar.

— Então por que... desencadear a hoste... dos drahregs...? — alvi­trou Nishekan, tentando em vão antecipar-se ao inescrutável raciocínio de Seltor.

— Eles deixarão em breve de ser uma ameaça, meu bom Nishekan — disse O Flagelo, não parecendo minimamente preocupado com a aparente condenação do seu poderio militar. — Menos relevantes ainda que o traidor do Othragon. Esse pobre iludido julga estar a rebelar-se, mas mesmo livre acabará por servir os meus propósitos. O Dilet, como bom humano venal, ainda assim surpreendeu-me pela negativa. Descontrolou-se. Não me renegou, mas agora não mais se incomoda sequer a fingir que os meus propósitos são mais importantes que os dele.

— Não os... castigareis? — O tom de voz de Nishekan tornou-se repentinamente mais agressivo, atiçado pela traição dos seus pares. Os malditos deviam as suas miseráveis vidas ao seu senhor, e como Braço e Perna d’O Flagelo, tinham o dever de servi-lo fielmente. Tamanha traição teria de ser forçosa e severamente punida. — São os vossos arautos. Podeis...

— ...servir-me deles como condutas, como tantas vezes fiz con­tigo? — interrompeu Seltor, referindo-se a uma das mais temidas habilidades dos Aesh’alan durante a Guerra da Hecatombe. — Não, meu bom Nishekan. Não posso. Não sem que a iniciativa parta deles.

— Os vossos... fiéis... certamente, alguém próximo... deles...

— Não é uma prioridade. Mas descansa, meu Juízo — assegurou-lhe O Flagelo —, ambos terão q que merecem, mais cedo ou mais tarde. E prefiro que sejam eles a vir ter comigo, a ir eu perder tempo em busca deles.

— E quanto a... Tannath? — lembrou-se Nishekan.

— Ah, o bom do Tannath — sorriu Seltor. — Segundo o que me foi dado a entender, andaste a mostrar-lhe uns segredos da fortaleza...

— Meu senhor... não pretendia...

— Não te preocupes. Não estou zangado. Antes pelo contrário, estou deveras interessado em saber o que advirá do confronto do nosso mais recente Aesh’alan com o seu inimigo declarado. Foi com esse fim, deduzo, que ele te veio pedir ajuda?

— Ainda não se... adaptou à sua... nova vida — explicou Nishe­kan. — A sua... mente... estava conturbada. Os pensamentos... de vin­gança... avivaram-lha.

— Tal como pensei. O eahan que acompanhou Aewyre Thoryn durante as suas viagens sempre me intrigou, e, a avaliar pela sua intem­pestiva relação com a bela eahanoir, sempre me pareceu que o Tannath traria à tona algo de... interessante... Mas estou a divagar — apercebeu-se Seltor. — Não te preocupes com o Tannath, nem com os outros dois. Cada um terá aquilo que merece, disso estou certo.

Nishekan não pareceu satisfeito, mas não se atreveria a contestar a vontade e a sapiência do seu senhor, por muito que os seus presentes modos o confundissem. Quedou-se silente por momentos, passando a mão macilenta pelo seu queixo ensangüentado, e esfregando-a à sua puída túnica cinzenta, maculada com velhas manchas acastanhadas de sangue. Seltor também não se pronunciou mais acerca do assunto, fitando as estrelas no céu com ar invulgarmente apreensivo, enquanto a sua capa batia como uma diáfana membrana negra ao vento.

— O Alto... Vulto? — indagou por fim Nishekan, incapaz de conter a torrente de perguntas que durante as últimas semanas havia marulhado na sua boca cosida como vagalhões de um mar impaciente.

— A bela Linsha? Está a sair-se bem — respondeu Seltor com um sorriso pleno de significado. — Nem tive de fazer grande coisa; apenas providenciar-lhe os meios para ela alcançar aquilo que pretendia.

— A jovem... feiticeira... tinha devaneios de... conquista? — per­guntou Nishekan.

— Não, apenas de poder — respondeu Seltor, descruzando um braço e abrindo a mão enquanto apoiava o cotovelo sobre o outro. Da palma da sua manopla formou-se a bruxuleante e sombria forma de uma trêmula criança encolhida numa posição fetal. — A Linsha teve um passado... complicado, e está mais que disposta a retribuir ao mundo o sofrimento que este lhe infligiu.

— Invadindo a... Wolhynia?

— Isso foi apenas um sinal da sua inteligência. Ela tem as mãos nas rédeas do poder, mas sabe que estas são frágeis. Como tal, tem de manter o povo ocupado... ou melhor, desviar a atenção deste para fora de Tanarch. E nada concentra melhor a atenção de um povo que um inimigo.

Em tais palavras Nishekan já conseguia reconhecer o seu senhor, embora este continuasse a tergiversar de uma forma que não lhe era de todo característica.

— Tinha um trauma com os sirulianos, a pobre rapariga, e uma vez obtidos os meios para lidar com eles, fê-lo de forma admiravel­mente decisiva — prosseguiu Seltor. — Finda a ameaça siruliana, impunha-se então encontrar outro inimigo, para que as atenções do povo permanecessem voltadas para o exterior, e a Wolhynia afigurou-se-lhe como o candidato ideal. Com tudo isso, os drahregs passaram praticamente impunes por duas, em breve três nações.

«Mas com que propósito?», foi a pergunta que ficou no ar, pois Nishekan não lhe deu voz. O seu senhor continuava a confundi-lo, e as suas palavras não eram as do todo-poderoso conquistador da Guerra da Hecatombe, o filho da maligna potestade Luris. O tempo que pas­sara aprisionado dentro de Ancalach evidentemente que o mudara muito, mas não fosse pela inegável aura de poder que ainda o rodeava, e o melífluo fascínio que as suas palavras exerciam, o Aesh’alan quase desconfiaria de que se encontrava na presença de um impostor, um engodo criado pelos inimigos d’O Flagelo.

Incerto, nada disse, e permaneceu em silêncio ao lado do seu senhor enquanto este olhava para as estrelas com ar de intensa concentração. Embora fitos no céu, os seus olhos negros estavam vazios, e neles pare­ciam passar imagens enquanto Seltor refletia, alheio às sedosas mechas de cabelo que o vento agitava diante deles. As insurretas e pastosas mechas do ninho de ratos que era o cabelo grisalho de Nishe­kan mal se mexiam, e este não parecia sentir frio, nem mesmo quando o vento lhe colava a puída túnica cinzenta ao escanzelado corpo. Não teria a prepotência de pensar que alguma vez conseguira deslindar os mais profundos desígnios do seu senhor, mas era o seu Juízo; e como lhe poderia valer, se não sabia sequer decifrar os seus objetivos apa­rentes?

Como se tivesse ouvido ou sentido as apreensões de Nishekan, Seltor piscou os olhos e despertou dos seus devaneios, raspando o som­brio aço da sua armadura ao ajustar os braços cruzados.

— Uma pergunta para ti, meu Juízo — disse. — Suponhamos que pretendo sarar uma lesão, lesão essa que limpei o melhor que pude e à qual apliquei os paliativos necessários. Porém, a lesão é crônica, infecta, e encontra-se num local delicado. Como tal, as minhas únicas opções são as seguintes...

As grisalhas sobrancelhas fiadas de Nishekan franziram-se, obscu­recendo-lhe mais ainda os olhos, e este dirigiu um olhar confundido ao seu senhor.

— Deixo a ferida sarar por si só, confiante no tratamento que lhe dei, arriscando que ela necrose? — conjecturou Seltor. — Ou lanceto-a de forma decisiva, eliminando qualquer potencial infecção, e dessa forma arriscando um sangramento mortal?

O Aesh’alan estranhou a pergunta, pois além de ser incaracte­risticamente dúbia da parte do seu senhor, este nunca lhe fizera per­guntas hipotéticas. Como Juízo d’O Flagelo e lorde interino de Asmodeon na ausência deste, cabia-lhe aconselhá-lo no melhor das suas capacidades, mas nunca antes lhe fora posta tão hipotética questão em tão leviano tom. Tão pouco era o tipo de questão que lhe agra­dasse, como homem eminentemente prático, mas era-lhe inconcebí­vel sequer manifestar o mínimo de relutância em responder a uma pergunta feita pelo seu senhor, por muito que esta o confundisse.

— Eu... — pigarreou, tentando ganhar tempo. — Qual o... vosso... maior interesse... meu senhor? Curar a... lesão... ou salvar... aquele que deduzo ser... o lesionado?

— Astuto como sempre, meu Juízo — elogiou Seltor, anuente. — É a lesão que mais me interessa, confesso.

— Assim sendo... e dado... que nunca fostes... meramente reativo... meu senhor... — aditou Nishekan de forma sugestiva, quase pro­vocadora. — Presumo que seria... do vosso... interesse... lancetar a lesão.

Seltor fungou, divertido, tornando a sorrir e virando-se para o Aesh’alan como para o medir com o seu olhar. Este, confrontado com os orbes negros que haviam contemplado o nascimento de nações e a morte de deuses, encolheu-se involuntariamente, não tanto devido a um gesto da sua parte, mas sobretudo à mera e avassaladora presença d’O Flagelo, que parecia reduzir tudo e todos em redor à sua banal e mundana insig­nificância. No entanto, quando as manoplas negras pousaram sobre os seus angulosos ombros magros, Nishekan não conseguiu evitar tremer, e viu-se um raro branco nos seus sombreados olhos raiados de vermelho quando este os arregalou ante tão inesperado e cúmplice gesto.

— Obrigado — agradeceu Seltor, apertando os ossos do seu servo e prendendo-o com o seu olhar capaz de sondar os mais profundos âmagos de uma alma, enraizando-lhe os pés no chão.

— Não mais... faço... que a minha... obrigação... meu senhor... — tartamudeou Nishekan, embora fosse difícil dizer se tal se deveria ou não às tiras de pele que lhe prendiam a boca.

— Sempre fiel, meu bom Nishekan — comentou Seltor, com um sorriso inesperadamente genuíno. — Sempre foste. O único, aliás. O Thirvex era mais servil, mas a tua lealdade nunca foi posta em causa, e eu, em troca... — continuou, inclinando a cabeça ligeiramente para o lado. — Cosi-te a boca.

— Um preço... que eu... de bom grado paguei... meu senhor.

— Mereces melhor — disse Seltor, erguendo uma mão, com a qual fez um curto aceno diante da cara de Nishekan, após o qual o largou e voltou a cruzar os braços, afastando-se como para lhe dar espaço.

O Aesh’alan sentiu um formigueiro nos seus lábios que fez com que levasse a sua mão cor de cinza à boca, e o que sentiu fê-lo boquear de surpresa. As pontas dos seus dedos de unhas amareladas e carco­midas passaram-lhe pelos lábios gretados, mas estes não mais estavam ligados pelas tiras de pele retesadas às quais havia muito se habituara.

— Meu... senhor... — praticamente gaguejou Nishekan, incrédulo e desacostumado a falar sem impedimentos. — O que...

— Estás livre, meu bom e fiel Nishekan — declarou Seltor.

— Livre.

— Mas... a Oblação...

— Liberto-te dela. A tua alma a ti pertence. És livre, Nishekan — reiterou O Flagelo, para crescente pasmo do Aesh’alan.

— Meu senhor... eu sirvo-vos...

— Não és como os drahregs, que me seguiam apenas porque a minha existência lhes dava um propósito — interrompeu-o Seltor, pontuando as suas subsequentes palavras com curtos passos, que o deixaram a um escasso palmo de distância do seu servo, olhando-o de cima e praticamente exalando-lhe na cara ao concluir: — Vales mais que isso. Sê livre. Vive.

Avassalado, Nishekan curvou a cabeça, emitindo um ruído que tanto podia ser um soluço de angústia como um arquejo de incrédulo alívio, por pouco não embatendo com a testa contra a couraça diante dele. Seltor tornou a afastar-se, virando-se novamente para a desolada paisagem do vale de Asmodeon e pousando as mãos no ornado para­peito do balcão. A seu lado, Nishekan não tirava as mãos da agora sarada boca, raspando o sangue seco dos cantos com as unhas e apar­tando a espaços os desabituados maxilares, que rangiam dolorosa­mente ante a sua ansiedade.

— Gostava de dizer que vem aí uma nova era, mas a verdade é que a Oitava ainda mal começou — disse Seltor, meio para consigo.

— Seja como for, agora não há como voltar atrás. Bem que posso tentar lancetar a lesão.

Vendo que Nishekan tão cedo não iria responder, Seltor afastou-se do parapeito, ergueu o canto da boca ante o pasmo do seu servo, e retirou-se do balcão. Aturdido, o Aesh’alan quase tropeçou na bainha da sua túnica ao ir em seu encalço, mas viu-se incapaz de acompanhar as decididas passadas metálicas de Seltor, que ecoavam pelo lúgubre corredor. Os ameaçadores fogaréus de ferro forjado ao longo das paredes alumiavam-se e apagavam-se à passagem do senhor da forta­leza, repetindo o processo com Nishekan enquanto este o seguia, trô­pego e com uma mão na boca enquanto esticava a outra numa vã tentativa de agarrar a capa negra que voluteava, deslizando sobre o piso de basalto.

— Meu... senhor...! Esperai...

— Esperei durante vinte anos, meu bom Nishekan, assim como tu — disse Seltor, sem se deter nem olhar para trás. — És livre, agora. Aproveita. Usa Asmodeon como bem entenderes.

— Asmodeon... é vossa! — insistiu Nishekan.

— É tua agora — declarou Seltor com um amplo gesto da mão direita. — A fortaleza e a terra. Faz delas o que melhor te aprouver. És tu agora o lorde de Asmodeon.

As palavras atingiram Nishekan com a força de um golpe, e este estacou, hirto, deixando cair a mão ensangüentada e revelando uma boca semiaberta de dentes acastanhados e delineados a vermelho. Seltor virou-se então num gesto dramático, fazendo com que a capa estalasse no ar num ruidoso semicírculo, que apagou os fogachos em seu redor, e que se dissolveu em fumarentas sombras.

— Caso algum dia necessites de alguma coisa, envia uma missiva à Linsha. Eu assegurar-me-ei de que ela te dará o que precisares — finalizou Seltor, que começava ele também a dissolver-se em sombras na escuridão do corredor. — Adeus, meu Juízo. Foste um servo sem igual.

Dito isto, O Flagelo tornou-se uno com a penumbra, e os ecos da sua sedutora voz ressoaram brevemente pelas galerias de Asmodeon. Nishekan agarrou-se desesperadamente a eles, tentando debalde conservar aquela que sabia instintivamente ser a última vez que o seu senhor poria os pés em Asmodeon. A revelação fora tão repentina e inexorável que, a par da última e milagrosa dádiva que O Flagelo lhe concedera, deixou o Aesh’alan em aturdido silêncio a meio do cor­redor, cercado pela opressiva escuridão que se abeirava da ilha de luz irradiada pelos dois únicos fogaréus acesos.


 

— ...e o rapaz sempre o sentiu. Sabia que havia algo de errado com o bobo, mas nunca o disse a ninguém, pois temia não ser levado a sério. Ou pior, ser castigado, pois o teu irmão não era de todo brando com ele — explicou Daveanorn, com ambas as mãos sobre os ombros do pajem.

O paladino estava com um aspecto lastimoso, de barba e bigode grisalho manchados com o sangue do nariz partido, que pouco mais era que um esparadrapo, e que lhe escurecera ambos os olhos em resultado da sua condição. As roupas, já de si pouco dignificantes para o seu posto, estavam elas também sujas de sangue, maculadas com a comida e bebida sobre as quais Daveanorn se rolara durante a sua violenta contenda com o paladino Cortun, e ficara com o colarinho rasgado. Por sua vez, o jovem pajem até estava apresentável, de túnica vermelha arranjada e calças amarelas nas quais não se via um único vinco, mas achava-se retraído e encolhido como uma criança envergo­nhada, parecendo sustido pelas grandes mãos fortes de Daveanorn aos seus ombros. Os eventos da noite tinham-no evidentemente abalado, não estava habituado a ter a atenção de mais que uma pessoa, e os olhos de todos os presentes na sala estavam fitos nele, sobretudo os do imponente ocupante do trono de Ul-Thoryn.

Aewyre estava sentado entre as protetoras patas douradas da esplendorosa águia de asas abertas que encimava o sólio, com uma das mãos sobre Ancalach — essa embainhada e pousada sobre as suas pernas, naquela que era claramente uma afirmação de poder em lu­gar da coroa que não lhe pertencia — e a outra encaixada no queixo. O jovem parecia um barão do submundo ascendido ao trono, com a barba e longos cabelos negros de um homem que estava claramente desabituado dos requintes da vida urbana, e olhos escuros aos quais fora roubado o fulgor da juventude, cuja dureza dava a entender que apenas se alumiariam com chispas de raiva. Praticamente não mudara de roupa desde a noite anterior, tendo tirado apenas a suada camisa verde que usara debaixo da túnica eahan que lhe salvara a vida. Esta tinha o colarinho manchado de sangue do agora ligado golpe no pes­coço do guerreiro, e Aewyre arregaçara as mangas porque as bainhas tinham elas também ficado tingidas com o sangue que escorrera por Ancalach abaixo. Sangue de cortesãos, como aqueles que se encontra­vam presentes na sala, nervosos e entreolhando-se com incertos olhos. Havia poucos archotes acesos no salão, e a escassa luz do entardecer filtrada pelas estreitas janelas pouco fazia para alumiar a atmos­fera, essa já de si pouco acolhedora. Mesmo os reis e heróis retratados nos frescos das paredes tinham um aspecto lúgubre, as suas cores, esba­tidas, e pareciam estar a olhar com ar acusador, como se aquilo que representavam tivesse sido aviltado pelos presentes.

Assim que Daveanorn parara de falar, instalara-se um tenso silêncio no salão real, no qual se ouvia o roçar de peças de roupa e as contritas tentativas de abafar tossidelas. Aewyre deixou-o durar um pouco mais que o necessário, pois era do seu interesse manter os cortesãos inquie­tos, tanto os de Ul-Thoryn como os de Lennhau. O que sucedera na noite anterior poderia facilmente ser visto como uma usurpação, e desencadear uma guerra civil; para não falar do sangue regencial der­ramado. Tylon Nehin estava morto, bem como a sua esposa e única descendente direta, e as conseqüências do sucedido ainda podiam vir a ser desastrosas para Ul-Thoryn, sobretudo tendo em conta que lorde Sunlar, o pai de Lhiannah, lhe declarara guerra.

— O rapaz saiu-se bem contra o bobo — comentou Aewyre, assim que achou oportuno quebrar o silêncio. — Como o fez ele?

O pajem não tinha como saber se estavam ou não a falar dele, pois não conseguia reunir a coragem para olhar diretamente para o amea­çador homem que se encontrava sentado no trono. Em vez disso, fixava o olhar na veia do musculoso antebraço do guerreiro, que se mexia ligeiramente enquanto este enrolava um tufo de barba com os dedos indicador e polegar.

— Smerunda, diz-lhe que fique a olhar para mim — pediu Davea­norn, olhando para a velha governanta por cima do ombro. Esta apro­ximou-se com uma série de curtas vênias, parecendo incerta quanto à conduta apropriada diante do irmão do seu senhor. Tocando no ombro do pajem, sorriu-lhe nervosamente, o que fez com que a sua boca e bochechas descaídas lhe enrugassem mais ainda a cara, e transmitiu-lhe as palavras de Daveanorn através de gestos.

— A Smerunda desenvolveu uma linguagem para falar com ele, mas o rapaz não tinha como falar com o resto do palácio — explicou o paladino, virando o pajem pelos ombros de forma a encará-lo. — Por isso, teve de aprender a ler a linguagem corporal das pessoas.

Repentinamente, Daveanorn desferiu um golpe com as costas da mão, com uma rapidez que refutava a sua idade e robustez, mas o rapaz conseguiu desviar-se a tempo. O inesperado gesto originou um tremor conjunto no salão, acompanhado de alguns arquejos, e até mesmo Aewyre se endireitou no trono, largando o tufo de barba que estivera a afagar. Por sua vez, o pajem afastou-se uns passos, de olhos castanhos bem abertos, e a governanta agarrou-o protetoramente pelos braços.

— Não é nada de sobre-humano, mas não é o que se espera de um rapaz magricela. O bobo tê-lo-ia certamente morto, mas inicialmente deve ter ficado tão surpreendido como todos estão neste momento — concluiu Daveanorn, pedindo desculpa ao rapaz com um gesto da mão.

— Claro — concordou Aewyre, expirando discretamente pelo nariz para abrandar os batimentos sobressaltados do seu coração, e encos­tando-se novamente ao trono. — E dizes tu que ele te contou que ouvia sussurros sinistros sempre que estava perto do bobo, Smerunda?

A mulher ficou tensa como uma presa acabada de ser avistada, e compôs o seu toucado branco com a mão antes de falar. Estava clara­mente nervosa na presença de Aewyre; todos menos Daveanorn pare­ciam atemorizados com a sua aparência, até mesmo os guardas, e Aewyre não os podia culpar.

— S... sim, meu senhor. Assim mo disse ele.

— Ele teve algum tipo de treino arcano? Alguém na família era um mago? — inquiriu Aewyre.

— Não... tanto quando sabemos, meu senhor. Filho de um bailio... bom rapaz... perfeitamente normal...

— Hum — murmurou Aewyre, observando o pajem, como um sargento a avaliar o potencial de um recruta. Não via como poderia fazer uso dos invulgares talentos do rapaz, mas o fato de ter sentido as verdadeiras intenções do bobo quando todos pareciam alheios a elas, significava que talvez lhe pudesse servir como uma arma, ou uma ferramenta. Ainda que de utilidade duvidosa, não estava disposto a abdicar de nada que lhe pudesse valer contra O Flagelo. Chegaria o dia em que a mais ínfima vantagem poderia vir a ser vital.

— Um bom rapaz... — repetiu Smerunda, agarrando o braço do pajem com mais força, atemorizada pelo olhar de Aewyre, que parecia estar a apreciar uma cabeça de gado.

— Sem dúvida — assentiu o guerreiro, e os austeros contornos da sua face suavizaram-se. — E salvou a vida do meu irmão. Daveanorn, fica ao teu cargo. Tomenno?

O grisalho senescal de Allahn Anroth deu um tímido passo em frente, e o pomo mexeu-se visivelmente debaixo da velha pele esticada da sua garganta. Os seus normalmente brandos e fidedignos olhos castanhos estavam bem abertos como os de um animal assustado, e torcia ansiosamente as mangas folgadas da sua túnica azul.

— Meu senhor...?

— Os cortesãos de Lennhau? Como estão? — perguntou o guer­reiro, ignorando propositadamente os representantes da vizinha corte que se encontravam no salão.

— Bem... — hesitou Tomenno, ajeitando a ponta do seu barrete vermelho. — Receosos... lorde Aewyre.

O senescal já antes o tratara por tal título, mas naquele momento soou-lhe forçado, desajustado, quase impróprio, e poucos foram os pre­sentes aos quais tal passou despercebido. Aewyre não fez caso.

— Receosos? — admirou-se Aewyre, inclinando-se ligeiramente para a frente e apoiando o cotovelo do braço livre sobre o lado da bai­nha de Ancalach. — Compreendo que os eventos da noite anterior os tenham abalado, tal como me abalaram a mim. Mas não devem temer quaisquer represálias de Ul-Thoryn, pois sei que não estiveram envol­vidos no que sucedeu.

— Evidentemente que não, lorde Aewyre... — acedeu o homem, estalando os lábios finos e vincados, em busca das palavras certas. — Mas como certamente compreendereis... uma detenção em mena­gem de tal ordem... não tem precedentes. E apresenta... desafios logís­ticos... de elevado grau...

— Tomenno, fala como gente, por favor — pediu Aewyre, belis­cando a cana do seu nariz de olhos cerrados, e passando a mão pela can­sada cara.

O senescal tossicou, torcendo um pouco mais as mangas nas mãos, e afetou um sorriso nervoso.

— Senhor, neste momento encontram-se, para todos os efeitos, deti­dos em Allahn Anroth mais de trinta membros da corte de Lennhau.

— Aewyre nem piscou os olhos, dando antes mostras de enfado. — Haveis proibido os vossos súditos de saírem do palácio, quando as suas responsabilidades, e sobretudo a presente situação, exigem que saiam o quanto antes, para que a situação não entre numa espiral descontrolada.

— É precisamente por essa razão que ninguém vai sair do palácio, Tomenno — disse Aewyre, percorrendo o salão com o olhar, do qual todos se desviaram. — Pelo menos por enquanto.

— Meu senhor...

— A situação é mais grave do que pensas, Tomenno. Mais grave do que algum de vocês possa pensar — acrescentou, fixando o olhar num grupo aleatório de caras, que se encolheram instintivamente, baixando as cabeças e cruzando as mãos. — Excede-vos a todos.

— Aewyre... — interveio Daveanorn. — É essa parte que...

— Eu já vos disse — silenciou-o Aewyre com um brusco e ríspido olhar. — A Lhiannah também. O meu irmão mandou-a prender devido à influência do bobo; ela estava a dizer a verdade. E vocês...

Os músculos dos maxilares de Aewyre mexeram-se debaixo da barba quando este mordeu os dentes para se calar, tremendo ligeira­mente com o jorro de fúria que por pouco não conseguiu conter. Lhiannah carregara o corpo do seu pai por meia Allaryia com o intuito de advertir Aereth, para que este soubesse da ameaça que todos em breve iriam enfrentar, para que todo Nolwyn se unisse, ainda que tem­porariamente, contra O Flagelo de Allaryia. O resultado fora porém desastroso, pois, de alguma forma, o maldito bobo conseguira conven­cer o seu irmão de que o corpo não passava de um embuste, e este mandara-o subseqüentemente queimar.

Aezrel Thoryn, o maior herói de Allaryia, ardera numa pira juntamente com o lixo do palácio, e a madeira resinosa do caixão que os sirulianos lhe tinham feito servira para atear as chamas. Aewyre estivera bastante perto de se descontrolar, partindo peças de mobília de considerável valor e ameaçando fisicamente os desafortunados cortesãos que então se encontravam presentes, antes de ser refreado por Daveanorn. O paladino também ficara abalado com a inesperada revelação, mas com o seu sangue-frio dera um exemplo que Aewyre sabia que teria de seguir em tal situação.

— Sei que é difícil de acreditar — suspirou o guerreiro. — Ausen­to-me durante um ano, mando trazer a Ul-Thoryn um corpo que digo ser do meu pai, e regresso a gritar que O Flagelo vem aí, que um dos seus servos corrompeu o meu irmão, e que agora se prepara para nos in­vadir. Sei que parece uma história, que todos preferem pensar que O Anátema pertence ao passado, mas ele regressou, e é bem real. Eu vi-o — quase sibilou Aewyre, indicando os seus olhos com os dedos. — Assim como a princesa Lhiannah e o general Worick. O Flagelo matou Aezrel Thoryn, o meu pai, o vosso senhor, e agora não nos ameaça só a nós. Toda Allaryia corre perigo, e não posso arriscar a guerra com uma cidade-estado. Com outra, isto é, já que o servo d’O Flagelo, que muitos de vocês viram durante a tragédia de ontem, conseguiu abrir as hostilidades entre Ul-Thoryn e Vaul-Syrith.

Ninguém se manifestou de forma alguma. Os cortesãos pareciam simplesmente esperar que Aewyre não olhasse para eles, mesmo os da sua própria corte.

— Iremos resolver a situação com Lennhau. Não vos quero como inimigos — assegurou o jovem —, mas não posso permitir que as notí­cias do sucedido se espalhem descontroladamente. Teremos de proceder com calma e ponderação, de forma a evitar uma guerra entre as nossas duas cidades. Tal seria desastroso, por isso peço a vossa paciência. Serão tratados com toda a cortesia em Allahn Anroth, mas de momento, não vos posso permitir que abandonem o palácio.

Nenhuma resposta.

— Podem sair — disse Aewyre, gesticulando com a mão e tor­nando a encostar-se ao trono. Houve um breve momento de hesitação, durante o qual era palpável a vontade de contestar a sua vontade, de manifestar o desagrado que muitos falhavam em ocultar, mas nenhum lennhês ousou fazê-lo, e os cortesãos saíram da sala de forma ordeira, escoltados por guardas arnesados.

— Vocês também — disse Aewyre aos membros da corte do seu palácio, arrependendo-se de seguida da sua brusquidão ao ver-lhes a surpresa na cara. — Bem sei que todos gostariam de voltar para as suas casas, e que têm assuntos importantes a tratar na cidade, mas o que ontem sucedeu não pode ser sabido. Ainda não, pois caso contrário tería­mos guerra civil em Ul-Thoryn. Se fizerem favor, então... — pediu, indicando as portas com a mão. — Daveanorn, Cado, Tomenno, fiquem.

Relutantes, incertos, os cortesãos fizeram como lhes fora dito, aban­donando a sala de forma ordeira, com grande rumor de saias e abas de túnicas a roçarem os coloridos ladrilhos que iam do estrado até à saída do salão. Smerunda levou o pajem pelo braço, e este olhou con­fuso em redor, parecendo tão distraído como num dia normal da corte. Na sala ficaram apenas Aewyre, Daveanorn, Tomenno e Cado Romical, o enxuto condestável de Ul-Thoryn. A presença dos guardas regenciais mal era registrável, pois estes permaneciam imóveis e encos­tados às paredes, de partasanas empunhadas, estóicos, altivos e cons­tantes a meio do turbilhão que eram as intrigas palacianas.

— Alguma dúvida quanto às instruções que vos dei? — perguntou o guerreiro, erguendo-se do trono com o impulso de quem estava farto de estar sentado. Houve um momento de hesitação, e Aewyre achou por bem reforçar as ordens.

— Daveanorn, ninguém entra ou sai do palácio. Usa o pajem para fazer toda e qualquer transação necessária com o exterior, quando não puderes ser tu a tratar pessoalmente dela — disse, puxando para trás as omoplatas e inclinando o pescoço para ambos os lados enquanto descia os degraus do estrado. — Os guardas podem atender às neces­sidades dos cortesãos, mas não têm autorização para falar com eles.

O paladino não parecia convencido, mas acenou afirmativamente com a cabeça.

— Tomenno, quero o pombal do palácio sob constante vigilân­cia — ordenou, reforçando as suas palavras com o indicador diante do nariz do senescal, que recuou ligeiramente a cabeça. — Ninguém o usa sem a minha permissão. E acabaram-se os banquetes; as refeições serão servidas nos aposentos dos cortesãos. Eles podem apenas passear nos pátios interiores, duas vezes por dia, sempre vigiados. Tens homens suficientes para cumprir estas ordens?

— Julgo que... bastarão... senhor — assegurou Tomenno, fazendo os possíveis por ocultar a sua incredulidade.

— Ótimo — disse Aewyre, apertando-lhe o ombro para aliviar a rispidez do seu tom. O gesto teve porém o efeito oposto no formal e pouco afável senescal, que se limitou a franzir a testa. — Deixo-te então entregue às tuas tarefas. Daveanorn, Cado, venham comigo.

Sem esperar por qualquer resposta, Aewyre dirigiu-se a longas passadas para as grandes portas do salão real, seguido pelo paladino e o condestável. Estava com evidente pressa de sair e ir a algum lugar, mas ainda se deteve diante de um dos guardas à entrada, semicerrando os olhos como quem estava a ter dificuldades em reconhecê-lo.

— Moreato? — disse, e o olhar átono do guarda quebrou-se, cru­zando-se com o do guerreiro. — És tu?

— Sou... lorde Aewyre — respondeu este, com uma voz algo pue­ril para um homem feito com tão imponente armadura. O sinal que tinha sobre o olho esquerdo delatara-o.

— Quando eu saí, ainda andavas tu às pauladas no pátio de treinos, moço imberbe! — recordou Aewyre, sorrindo pela primeira vez em dias. — Foste promovido?

— Sim, meu senhor... — respondeu o rapaz, incerto. — Lorde Aereth... nomeou-me...

— Bela armadura — comentou o guerreiro, dando duas pancadi­nhas com os nós do punho na esplendorosa couraça orlada com ouro e com uma águia nela cinzelada a filigrana. — Não te subiu à cabeça, pois não? Agora é que aquela lavadeira não te tira os olhos de cima, hã? Como se chamava ela?

— Oraisa... senhor — disse o jovem, e embora a sua boca estivesse tapada pela babeira em forma de bico de águia, a viseira deixou entre­ver os gestos faciais que delatavam um sorriso envergonhado.

— Exato, a Oraisa. Mas nada de te distraíres com ela durante o trabalho, hã?

— Jamais, senhor — assegurou o rapaz, roçando as placas do arnês ao endireitar-se com enfunado orgulho.

— Continua o bom trabalho, então — disse Aewyre, despedindo-se com uma palmada na couraça do rapaz e indicando a Daveanorn e Cado que o seguissem.

O paladino e o condestável trocaram olhares ao saírem portas fora. Aewyre sempre se dera bem com os guardas e soldados de Allahn Anroth, e ver que o jovem conservava essa sua faceta, mesmo após ter aparentemente mudado tanto, fez por aliviar os mais imediatos receios de ambos. Ainda assim, havia algo no seu porte de músculos defini­dos pela tensão e pelo sofrimento, na forma quase obsessiva como fazia questão de ter Ancalach na sua mão, ainda que embainhada, que dei­xava bem claro que aquele já não era o jovem despreocupado que os dois conheciam. Em silêncio, os três subiram uma das muitas escadas em caracol do palácio, e seguiram caminho por uma galeria com piso enfeitado por ladrilhos, que retratavam estilizadas águias vermelhas num fundo amarelo.

— Cado?

— Sim, meu senhor?

— A cidade tem de ficar de quarentena — disse Aewyre.

O condestável trocou olhares de sobrancelhas franzidas com Davea­norn.

— Tal como no palácio, ninguém pode entrar nem sair. Não pode­mos correr o risco de que a notícia da morte de Tylon se espalhe tão cedo.

Embora hesitante, Cado não tinha suficiente familiaridade com Aewyre para contrariá-lo, e olhou novamente para Daveanorn, desta vez a pedir auxílio. Este concordou e fez um gesto tranqüilizante com a mão.

— Às vossas ordens, meu senhor.

— É tudo, Cado — dispensou-o o guerreiro, sem sequer olhar para trás.

O condestável ainda abriu a boca para falar, mas faltaram-lhe as palavras e deixou-se ficar para trás. Daveanorn tornou a tranquilizá-lo com um gesto e passou de seguida a mão pela barba no seu queixo, inspirando fundo pela boca devido ao nariz ligado.

— Aewyre... — disse. — É impossível isolar uma cidade tão gran­de. A notícia acabará inevitavelmente por se espalhar. Valerá mesmo a pena deixar a população inquieta? Ou pior, dar-lhe mais um motivo para se amotinar?

— Ninguém se vai amotinar, se não souberem o que aconteceu. Daí o palácio...

— E quando irão sabê-lo, Aewyre? — insistiu o paladino, agora claramente desagradado.

Aewyre deteve-se e virou-se para encarar o seu antigo mentor, olhando-o com olhos que Daveanorn ainda reconhecia, mas não mais conhecia. O jovem perdera toda a gordura pueril dos membros e da cara, e nem mesmo a barba conseguia ocultar os traços de personali­dade entretanto nela vincados, certamente a custo de muitas provações e sofrimento.

— Mestre, não pensa que eu orquestrei tudo isto para depor o meu irmão e usurpar o trono, pois não? — perguntou, voltando ao velho título com o qual tratava o paladino, agora que já não se encontrava na presença de outros

Feita de tal forma, a pergunta era quase suspeita, mas havia nela um tom plangente que não era de todo o de um conspirador, e Davea­norn ficou aliviado por avistar em tão dura expressão os laivos de um rapaz assustado, que precisava de ajuda.

— Não, Aewyre. É claro que não — assegurou-lhe o paladino, apertando-lhe os ombros com força. — Mas tens de perceber que aquilo que queres fazer é drástico, para dizer pouco.

— Vêm aí tempos drásticos, que requererão ações drásticas — contrapôs Aewyre. — Quantas vezes tenho de repetir até que al­guém acredite? O Flagelo regressou!

— Eu acredito, Aewyre — tranquilizou-o o paladino, sacudindo-o ligeiramente pelos ombros. — Pela espada cruenta de Gilgethan, depois de ter visto o bobo, acredito. Mas muita gente terá dificuldade em fazer o mesmo, sobretudo os burgueses e restantes habitantes. A única preocupação deles é enfiarem dinheiro no bolso e meterem pão na mesa. Não souberam do corpo do teu pai. Não viram o que aconteceu ontem à noite. Têm memória curta. Para eles, O Flagelo não passa de uma história para assustar crianças. Percebes que será difícil justificar isso que estás a fazer, baseando-te numa ameaça fan­tástica que se encontra a meio continente de distância, não percebes?

Havia verdade e sensatez nas palavras de Daveanorn, e Aewyre sabia-o. Ainda tivera esperanças de que a mera menção d’O Flagelo deixasse a cidade em polvorosa, e que afirmar que este matara o seu pai bastaria para levar mesmo os camponeses a pegarem em foices para formarem um exército vindicante. Ao que parecia, as coisas não iriam ser assim tão fáceis.

— Sim... — reconheceu o guerreiro, esfregando a cara com a mão. — Estou tão cansado, mestre... Não podemos... não podemos dizer que os nossos espiões nos avisaram de que Vaul-Syrith enviou um assas­sino, por exemplo? Que... sei lá, que fugiu um prisioneiro importante?

— A do assassino não é má — reconheceu Daveanorn. — Seria inédito, mas daria para justificar deixar a cidade de quarentena durante uns dias. Semanas, talvez, se os arautos forem convincentes.

— Então diga ao Cado que lhes dê instruções nesse sentido — pediu Aewyre. — Recebemos notificação de que está iminente uma tentativa de assassinato. Quando as coisas tiverem acalmado, pensare­mos então numa forma de anunciar à cidade o que aconteceu. Está bem?

O paladino ainda hesitou, mas acabou por acenar com a cabeça.

— Mais alguma coisa, Aewyre? — perguntou, apercebendo-se de que o jovem precisava de descansar. Sabia que praticamente não dormira a noite da véspera, e apenas os deuses sabiam pelo que passara até chegar a Ul-Thoryn.

«Várias», sabia este. Tinha de falar com Aereth. Tinha de mandar ir buscar Layaline e os seus apontamentos. Tinha de enviar uma patrulha para ir buscar Kror ao esconderijo no qual o deixara. Tinha de chamar os homens destacados para procurarem Taislin, para saber se tinham ou não encontrado alguma pista do burrik. Tinha de deci­dir o que fazer com os corpos de Tylon e do séquito deste. Tinha de supervisionar os preparativos de guerra aos quais o seu irmão dera iní­cio. Não tinha era cabeça para mais nada.

— Não... por hoje é tudo — suspirou.

— Que vais fazer agora?

— Ter com os meus amigos — respondeu Aewyre, indicando uma porta vigiada por dois guardas ao fundo da galeria. — Fiquei meio ano sem os ver, sem saber se estavam vivos ou não. Agüenta o palácio por uma noite, mestre?

— Aguento-o o tempo que for preciso — garantiu Daveanorn, apertando-lhe os ombros uma última vez antes de os largar. — Vai descansar, rapaz.

Aewyre fez que sim com a cabeça, esboçando ainda um sorriso cansado ao seu antigo mentor antes de lhe virar as costas. Contudo, antes que conseguisse dar um passo, este tornou a agarrar-lhe o om­bro e virou-o bruscamente, esmagando-o de seguida com um sentido abraço. Inicialmente surpreso, Aewyre reciprocou com igual força, fazendo com que Daveanorn grunhisse de alívio ao dar-lhe palmadas na omoplata.

— Nem imaginas o meu alívio por te ver vivo, rapaz — sussurrou-lhe ao ouvido. — Pensei que nunca mais voltarias.

— Ainda bem que está aqui, mestre — retribuiu o jovem. — E obri­gado por confiar em mim.

— Vá, vai ter com os teus amigos — disse o paladino com ar sabi­do. — Amanhã falamos.

Aewyre sentiu no peito a reverberação do riso gutural de Davea­norn. Algo embaraçado, afastou-se do seu mestre e fez um sorriso envergonhado antes de lhe virar as costas, estugando o passo na direção da porta vigiada. A fungadela divertida do paladino foi abafada pelas ligaduras no seu nariz, e este voltou então por onde viera, aba­nando a cabeça.

— Há coisas que não mudam... — murmurou para consigo, per­mitindo-se ficar minimamente animado pelo pormenor.

Os dois guardas postados à porta levaram os punhos ao peito em roçagante saudação metálica, e Aewyre cumprimentou-os com um aceno da cabeça antes de entrar, aliviado pelo fato de estes não se sentirem intimidados com a sua presença. Embora tivesse mudado e aparentemente usurpado a autoridade do seu irmão, sempre cultivara boas relações com os homens de armas do palácio; fora confidente e companheiro de bebidas e partidas de dados com muitos, e estes confiavam nele. Era bom saber que os tinha e a Daveanorn do seu lado, pois precisaria sobretudo deles para cumprir os seus objetivos. A milícia e o exército eram outro assunto, mas ainda que Cado tivesse reservas acerca da presente situação, respeitava Daveanorn, e enquanto Aewyre tivesse o paladino do seu lado, tal bastaria por enquanto.

Os pensamentos do jovem abandonaram-no assim que este atra­vessou o limiar da porta e, mesmo antes de ver Lhiannah, associou prontamente o cheiro a azeite no ar ao hábito desta de tratar os cabe­los com ele sempre que podia. A princesa já se encontrava virada para a entrada, e antes mesmo de Aewyre fechar a porta, foi ao seu encontro em três rápidas passadas, cingindo-lhe o torso dolorido com os braços. O guerreiro empurrou a porta com o pé e retribuiu o abraço com força, enterrando a cara na melena de Lhiannah e filtrando entre afins odo­res o do azeite, que trazia memórias de outros tempos. Tempos compa­rativamente despreocupados, tempos nos quais se aventurara por Allaryia fora com os seus amigos, tempos nos quais, juntamente com eles, se julgara invencível.

Bons tempos, acerca de cujas reminiscências se permitiu delongar-se um pouco, sabendo que não mais se repetiriam.

Lhiannah gemeu baixinho no seu ombro, despertando-o para a presente realidade, e os dois afastaram-se ligeiramente, ainda com as mãos nos braços um do outro, para se poderem olhar. Aewyre tirou da cara de Lhiannah uma madeixa que se lhe soltara do rabo-de-cavalo, reparando que este enfatizava o rápido alastrar de uma mancha louro-acastanhada a alastrar-se das raízes dos cabelos até às pontas douradas. Pepitas áureas flutuavam nos olhos azuis, cujo branco cintilava com a ameaça de lágrimas, e Aewyre passou os dedos calejados pelas já longe de imaculadas feições da princesa. Não deixou de reparar que vestia uma túnica vermelha, tal como da primeira vez que a vira, e que a tinha cingida com um cinto, formando uma curta saia, tal como na estala­gem em Vau do Caar. As suas pernas torneadas estavam descobertas, e luziam com o tom de pele acabada de depilar, expondo as riscas esbran­quiçadas de algumas cicatrizes. Lhiannah não achara a altura apropriada para cuidados supérfluos, mas tivera de tomar banho para se lavar do sangue e das conseqüências de ter descido pelo tubo da latrina do Ni­nho, e Aewyre destacara umas assustadas aias para a ajudarem, entre as quais uma rapariga da corte de Lennhau, na qual Lhiannah insistira.

— Está... tudo bem? — perguntou a arinnir, quebrando o silêncio.

Aewyre ignorou a pergunta de circunstância, e os seus olhos des­ceram dos de Lhiannah para os lábios desta, ao mesmo tempo que a sua mão lhe deslizou pela cara até à nuca, puxando-a para si. Lhiannah não resistiu, semicerrando apenas os olhos.

— Não vão começar a comer-se um ao outro, pois não? — inter­veio a rude voz de Worick, quebrando impiedosamente o momento. Aewyre e Lhiannah afastaram-se e viraram-se para a frente em perfeita sintonia, com o guerreiro a esfregar um braço com a mão e a princesa a puxar a madeixa de cabelo solta para trás da orelha.

Worick encontrava-se sentado num tamborete à lareira, com um pedaço de chumbo sobre o joelho e um pequeno martelo e prego nas mãos, acompanhado pela aia lennhesa, essa encostada à parede, no bojo da escada em caracol adjacente ao pequeno quarto. A rapariga tinha as modestas mãos cruzadas sobre o colo, e baixou a cabeça assim que Aewyre e Lhiannah olharam na sua direção, o que não era difícil, dada a pequenez do quarto. Tratava-se de aposentos de segunda categoria para mensageiros e afins visitantes de menor importância, uma mera desculpa para ocupar espaços por preencher no palácio, mas, apesar de exíguos, eram suficientemente acolhedores, com lareira, cama e lava­tório, bem como uma janela com vista restrita para o pátio interior.

— Então, mostraste àqueles dom-fafes quem manda? — pergun­tou Worick, levantando-se e pousando os seus utensílios sobre o tam­borete, antes de esticar as atarracadas costas. Mexia-se com um certo vagar, dolorido como certamente estava, e as cicatrizes na sua cara enru­garam-lhe mais ainda a expressão quando franziu a testa. — Podias era ter feito uso da tua autoridade para arranjares uma cadeira com espaldar, irra!

— Vou ver o que posso fazer amanhã, mas não te preocupes — tranquilizou-o Aewyre. — Hoje vais para um quarto só teu.

— Hein? Como assim? — indagou Worick. Lhiannah olhou também para Aewyre, pouco entusiasmada com a idéia de se separarem agora que se tinham reencontrado, mas Aewyre fez-se desentendido.

— E tu, rapariga, estás bem?

Surpresa, a aia sobressaltou-se, levando a involuntária mão ao peito e baixando-a quase tão depressa, torcendo então envergonhadamente a saia do seu vestido amarelo com ambas.

— Eu... estou bem, lorde Aewyre. Muito obrigada por se inco­modar — respondeu a rapariga, tentando tapar a cara com a grossa trança castanha que lhe cingia a cabeça como um aro. Metade da corte dela fora chacinada, mas uma aia tinha de manter as aparências.

— Está à vontade, rapariga, não tens de ter medo de nada — sos­segou-a o guerreiro. — Ajudaste a princesa Lhiannah enquanto ela esteve aprisionada, e por tal estou-te muito grato. Sei que deves estar assustada, mas eu não desejo mal a nenhum dos teus conterrâneos.

— Sim, meu senhor — disse a rapariga com voz tíbia. Fora ata­cada por um cortesão ensandecido, e tinha equimoses roxas na cara, o que por si só era motivo suficiente para estar abalada. — Lorde Aewyre... se me permite...

— Sim?

— O... pajem de lorde Aereth? Não vai... não lhe vai fazer mal, pois não?

Aewyre ergueu a sobrancelha, olhando de relance para Lhiannah, que abanou discretamente a cabeça de ombros encolhidos.

— Que história é essa de eu ir para outro quarto? — achou Worick oportuno perguntar.

— O pajem? — disse Aewyre, ignorando-o.

— Sim... Sei que quisésteis falar com ele... que houve uma audiên­cia — prosseguiu a aia. — Não lhe vai acontecer nada, pois não... lorde Aewyre?

— Ora essa, rapariga, por quem me tomas? — indagou o guer­reiro, fazendo com que a aia baixasse novamente a envergonhada cabeça. — É claro que não lhe vai acontecer coisa alguma. Ele salvou o meu irmão, e vai ficar agora a cargo de lorde Daveanorn. Por que queres saber?

O rubor nas bochechas da rapariga fez-se notar mesmo na sua pele amorenada.

— Olha, outros que se querem comer. Mas isto é um palácio ou um bordel? — manifestou-se Worick. — E que história é essa do quarto?

— Não é história nenhuma, Worick. Vais ter um quarto só para ti — respondeu Aewyre, abrindo novamente a porta. — Destroçar, homens — disse por cima do ombro.

Do outro lado da porta, os dois guardas desencostaram-se da parede e giraram em si como autômatos em perfeita sincronia, apresentando-se ao seu senhor de partasanas aprestadas.

— Um de vocês que escolte o general Worick para os aposentos de lorde Allark. A rapariga deve voltar às divisões da corte de Lennhau.

— Allark? Quem é, e que vou fazer eu aos aposentos dele? — per­guntou Worick. — Pensava que o teu cirurgião era o único rabilas cá do palácio.

— Está morto, Worick. É o quarto do paladino de lorde Tylon — explicou Aewyre, sem grande paciência.

— Aewyre, eu estava a pensar em ficar com a rapariga à minha guarda... — disse Lhiannah.

— Ai está morto? Ah, então está tudo bem. Queres que o vá enfai­xar com os lençóis dele?

— Worick... — disse Aewyre, revirando os olhos. — Ficas com um quarto só para ti. Agora vai com os guardas. Quanto à rapariga, ama­nhã logo tratamos disso, Lhiannah.

Os guardas aguardaram, prontos a cumprir as ordens, e Worick olhou revezadamente para Aewyre e Lhiannah, até que inclinou a cabeça repetidamente para trás de sobrancelhas arqueadas, como quem percebia.

— Está bem... — disse de forma arrastada, balançando a cabeça enquanto ia buscar o seu martelo e armadura, essa amontoada numa desordenada pilha a um dos cantos do quarto. — Um quarto só para mim, então...

— Não precisas de levar isso tudo — disse Aewyre. — Amanhã podemos...

— O tanas é que não preciso. Neste palácio já fui atacado mais vezes que nas Estepes de Karatai. Até no banho! — barafustou Worick, agarrando o martelo com ambas as mãos e fazendo com o cabo deste e os seus braços uma liteira para levar as peças do seu arnês.

— A mim é que não me apanham desprevenido outra vez, ai não apa­nham, não.

Aewyre quis dizer algo mais, mas o thuragar passou entre ele e Lhiannah numa cacofonia de clangores e retinires, resmungando algo de ininteligível acerca de coelhos e túbaros cheios. A aia veio-lhe obe­dientemente atrás a passos curtos, caminhando cabisbaixa e com as mãos cruzadas sobre o colo, mas ergueu a cabeça para sorrir quando Lhiannah lhe afagou o braço antes de sair.

— Não quero ser perturbado por ninguém que não venha em nome de lorde Daveanorn, ou então o próprio — disse Aewyre aos guardas, que acenaram afirmativamente com as aquilinas barbudas. — Obri­gado, homens. Até amanhã, Worick.

— É bom que isto não seja uma partida do mafarrico... — disse o thuragar, antes de a porta lhe abafar a voz.

Aewyre ainda se apoiou no manipulo com a mão, não fosse Worick tentar entrar, mas relaxou ao ouvir os certamente ofensivos resmungos deste afastarem-se a par dos passos acerados de um dos guardas. Ainda com a mão apoiada na porta, olhou então para Lhiannah, que estava com uma perplexa expressão na cara de sobrancelhas franzidas.

— O Taislin...? — perguntou, olhando Aewyre dos pés à cabeça quando este se afastou da porta.

— Ainda não o encontraram. Mas tenho homens à procura dele — respondeu o jovem sucintamente ao acercar-se de Lhiannah.

— Achas que...

A boca de Aewyre silenciou a princesa, que arregalou os sobres­saltados olhos quando braços fortes a envolveram num quase sufocante amplexo. Antes mesmo de emitir um grunhido asfixiado, o guerreiro empurrou-a e meio tropeçou com ela até à parede, contra a qual Lhiannah bateu de costas e nuca, fazendo com que os dentes de ambos estalassem uns contra os outros. Os braços da princesa estavam aber­tos, e as mãos de dedos hirtos, mexendo-se incertas enquanto Aewyre fungava sofregamente na sua cara, sondando-lhe a boca com uma insaciável língua e amachucando-lhe os lábios com o seu anelo. Lhian­nah não conseguia sequer retribuir, tal era a voracidade, e as suas mãos acabaram por pousar sobre a cabeça do guerreiro, fincando-lhe os dedos nos cabelos e afastando-a com um arquejo de alívio.

— Não houve noite... — ofegou Aewyre, transbordando o seu desejo para os olhos de Lhiannah enquanto se fitaram. As mãos da princesa mantinham uma distância mínima entre as caras de ambos, mas os seus corpos estavam juntos, e o do guerreiro tremia, fremente. — Não houve uma única noite...

Lhiannah cedeu, e os dois tornaram a beijar-se avidamente, desta vez de forma recíproca. Ao sentir unhas cravarem-se nas suas costas através da camisa de seda de aranha, Aewyre começou a desafivelar o cinto da princesa ao mesmo tempo que descia com a boca para o pescoço de Lhiannah. Esta cerrou os olhos e sibilou através dos dentes num misto de dor e prazer, pois ainda tinha as marcas escuras dos dedos de Tylon, que a tentara estrangular na noite anterior. Em resposta, mordeu o lóbulo da orelha de Aewyre e enleou-lhe a bacia com uma perna, que o jovem prontamente agarrou pela coxa ao largar o cinto solto. Lhiannah cruzou então os braços a custo, dada a insis­tência do torso de Aewyre, e puxou a túnica sobre a cabeça, deixando os cabelos caírem como um véu louro sobre as caras de ambos, pois Aewyre tornou a beijá-la assim que a túnica saiu da frente.

— Desde que partimos de Aemer-Anoth, nunca parei de pensar em ti... — sussurrou o guerreiro no ouvido de Lhiannah, que virou a cara para o lado de olhos fechados e lhe agarrou as abas da túnica eahan, gemendo. — Só por esta noite, quero esquecer tudo o resto... rasgar-te as roupas e...

Lhiannah puxou a túnica eahan de Aewyre sobre a cabeça deste, conseguindo apenas vislumbrar a grande nódoa negra no esterno do guerreiro e a longa cesura diagonal que lhe atravessava o torso como um talabarte, antes de os corpos nus de ambos se fundirem, junta­mente com as suas bocas. Ávidos e arfantes, os dois arrastaram-se então ao longo da parede, batendo no lavatório e derrubando a bacia de latão que se encontrava sobre este, e que felizmente não clangorou pelo chão por estar cheia de água. Aewyre alçou então Lhiannah — que lhe envolveu o dorso com as pernas e o pescoço com os braços, pres­sionando-lhe a ligadura que tinha ao pescoço — e, virando-se, cam­baleou com ela até à cama, magoando a canela ao derrubar o tamborete pelo caminho. Caiu então sobre o leito e por cima da princesa, que manteve as pernas apartadas e ergueu as ancas, apertando o ereto corpo de Aewyre contra si com os braços.

O jovem tinha o peso do mundo nos seus ombros, mas achava que o mundo lhe devia uma singela noite na qual pudesse esquecer tudo o resto. Sabia que, com a madrugada, tudo se lhe abateria impiedosa­mente em cima: Kror, Seltor, Dilet, Aereth, Vaul-Syrith, Lennhau, talvez mesmo os seus próprios concidadãos de Ul-Thoryn; mas na­quele momento estava alheio a tudo. O calor da paixão que sentia der­retia-lhe a raiva fria que lhe corria nas veias, e a maciez das formas firmes de Lhiannah suavizavam-lhe a rigidez auto-imposta dos mem­bros pela primeira vez em meses, deixando o «tendão» a ranger, impo­tente.

Pela manhã, a senda da lâmina exigiria que retomasse a perigosa caminhada sobre o seu implacável gume, mas a noite era só sua. Podia bem ser a última, mas era só sua.


 

Acocorado, Quenestil observava de braços apoiados sobre os joe­lhos e dedos frios enclavinhados. Entre as pernas do eahan corria o diminuto ribeiro que ao longo dos anos cindira os dois barrancos aos seus lados, e o escasso fluir de água deste estava a ser parcialmente vedado pelo facão que nele se encontrava espetado. As pernas do shura já estavam quase dormentes, e não sentia o nariz pingar devido ao frio, mas este aguardava paciente e futilmente que algo, qual­quer coisa escorresse pelo minúsculo ribeiro e viesse de encontro à lâmina do seu facão. Ou que se desviasse dela, embora tal fosse difícil, dadas as dimensões do córrego. Não havia árvores em redor, nem arbustos folhudos, mas ainda assim Quenestil aguardava, paciente, alheio, quedo como a plácida natureza mortiça em seu redor.

Não esperara que a Mãe lhe desse qualquer resposta, mas não obs­tante viera tentá-lo, como tantas vezes antes fizera em busca de orien­tação: uma lâmina num curso de água, uma folha para lhe avaliar as ações através do gume. Desta vez, porém, não obteria qualquer res­posta, nenhuma indicação de que estava a proceder bem ou mal, e sabia-o bem. Se a Mãe tinha alguma resposta para lhe dar, desta feita não o iria fazer de forma tão prosaica. As circunstâncias exigiam reso­lução e ação, e não havia como aliviar tibiamente as suas dúvidas, não quando aquilo que devia fazer estava patente em todos os sinais que recebera. A sua vontade não mais era relevante — apenas aqui­lo que tinha de ser feito.

Conformado, acabou por desenclavinhar os dedos das mãos risca­das por cicatrizes roxas de frio e agarrou o cabo de madeira nodosa e alisada por anos de uso, crispando então nele os dedos e deixando-se estar acocorado e de braço esticado por momentos, durante os quais nem piscou os olhos. De seguida, começou a empurrar e a puxar o facão enterrado num repetido gesto de alavanca, como que hipnoti­zado pelo ruído triturante que a lâmina emitia nas rochas e na terra molhada.

— Quenestil? — veio a voz de Agtor interrompê-lo.

Sem sequer olhar para cima, o eahan arrancou o facão do regato, limpou-o às calças de couro e embainhou-o, levantando-se então com um indiferente grunhido de dor devido às pernas dormentes. Agtor observava-o do cimo de um dos barrancos, um vulto delineado pelo sol invernal nas suas costas, com ralos cabelos castanhos e grisalhos a abanarem ao vento.

— Oska quer saber quando vais exir — disse o wolhyno. Quenestil desenferrujara o seu Hjrutmalv nas últimas semanas, mas os dois tinham-se entretanto habituado a falar em Leochlan. — O Deadan e os eahan alvos querem falar contigo outrossim.

— Vou já — disse o shura, subindo a passos longos os toros de ma­deira apodrecida enterrados na vereda que dava para o prado de Hora­vog, coxeando à medida que o sangue tornava a correr nas suas pernas.

O dia estava frio e úmido, graças em parte à contribuição das ondas que borrifavam a quinta ao rebentarem contra a falésia, e o céu cor de chumbo pesava sobre quem caminhava por baixo dele. Agtor juntou-se a Quenestil, mantendo contudo a sua distância, como boa parte dos habitantes passara a fazer desde uns dias atrás. Havia algo nos olhos cinzentos do shura que aparentemente os intimidava, mas Quenestil não se dera sequer ao trabalho de inquirir a respeito, farto como estava de se ver permanentemente rodeado de pessoas assusta­das ou a esperarem que fizesse algo. Mesmo as ovelhas pareciam mais calmas que os habitantes, tosando placidamente a erva molhada e queimada pelo frio, enquanto estes formigavam em redor num agitado reboliço. Encontravam-se também presentes alguns homens de Knorl, indivíduos altos e espadaúdos com armas que o garding enviara para dissuadir eventuais ataques, tanto da parte de Skolsvein como dos skrimmen, embora fossem poucos para conter os segundos, caso estes decidissem mesmo atacar. Em todo o caso, ninguém lançou mais que um olhar de relance a Quenestil à passagem deste, e os que o fizeram baixaram logo a cabeça, como se arrependidos por lhe terem chamado a atenção.

Ihjseorn dera-lhe a entender que seria um vetor de mudança para os Fiordes, que a sua mera presença portava consigo alguma agitação, mas as pessoas olhavam-no como se fosse O Flagelo, e não propria­mente o salvador profetizado eras atrás. Quenestil não mais tinha quaisquer reservas, pois estas tinham-lhe sido aparadas pelos recen­tes eventos, mas por vezes não deixava de se questionar se aquilo que Ihjseorn desejava correspondia verdadeiramente à vontade ou aos desígnios dos restantes habitantes dos Fiordes. Ou isso, ou a profecia tornara-se demasiado assustadora, agora que a sua conclusão se mos­trava iminente.

— Agtor, os homens têm treinado com as armas tanarchianas?

— Como...? — indagou o wolhyno, surpreso pela abordagem. — Ah, sim. Todos os dias. O Deadan deixa-os aganados.

A resposta bastou ao eahan, que se limitou a concordar com a cabeça, sem dar con­tinuidade à conversa. Oska podia ter conseguido a sua aliança com Knorl, mas avizinhavam-se dias perigosos para Horavog e o resto dos Fiordes, e todo o cuidado era pouco. Tanarch ia invadir, os skrimmen andavam de atalaia após a morte da kuvamora, o garding Drull esperava certamente uma oportunidade para desapossar Oska da sua quinta, e Skolsvein, o lacaio deste, ansiava por poder levar tal aquisição a cabo. Ao refletir nisto, não pôde deixar de se lembrar que Slayra era cul­pada por um dos problemas, e, ao pensar na eahanoir, a sua pele fria formigou, comichosa com o afluxo de sangue que por baixo dela escorreu. Slayra envenenara a kuvamora apenas para poder fugir de Horavog, e assim que os skrimmen o soubessem, Quenestil duvidava de que o que quer que os tivesse até então refreado o continuasse a fazer. Um ato imperdoável, que deixara os habitantes da quinta e em especial, o shura em choque, absolutamente siderado e incapaz de rea­gir enquanto Oska se vira forçada a aceitar a de todo desinteressada solução proposta pela eahanoir, que se oferecera como dádiva ao pode­roso garding Knorl em lugar da defunta kuvamora. Fora um ato vil que teria certamente esperado de uma eahanoir, mas havia muito que não via Slayra apenas como uma representante da sua nefária raça. Apesar de tudo o que lhes acontecera aos dois, de tudo pelo que tinham passado, nunca teria conseguido conceber tal ato...

Mas então lembrava-se daquilo que ele próprio fizera, do olhar mortificado de Slayra ao vê-lo cobrir a kuvamora na palha como um cão, da dor patente nos olhos azul-claros da eahanoir, que toda a sua vida tinha certamente visto bem pior... e cerrava os punhos de impo­tente raiva, sentindo a pele tenra das cicatrizes esticar-se. Tivera sorte de não ter estropiado as mãos, pois o acesso de fúria quando do des­pertar do espírito do volverino em si deixara-o descontrolado, e Que­nestil desfizera uma das baias dos estábulos com os próprios punhos. Por muito difícil que fosse, achou por bem não pensar sequer em Slayra, cuja imagem tentara a custo bloquear da sua mente nos últi­mos dias, sem grande sucesso. Embora tivesse em grande parte igno­rado a eahanoir desde que tinham saído de Gul-Yrith, e por muito que lhe custasse admiti-lo, a súbita e inesperada ausência de Slayra deixara um vazio na sua vida, um vazio numa parte da sua alma que desconhecera ou deixara de crer existir. Sentira-se impotente ao vê-la partir, preso entre as suas responsabilidades para com os eahlan, cuja segurança dependia em grande parte da aliança com Knorl; a dívida que tinha para com Oska, que os acolhera; e a ainda inexplicável liga­ção que não podia negar sentir para com Slayra. Mais, os filhos que julgara serem seus e acerca dos quais agora não sabia o que pensar, tinham ficado eles também desamparados, pois Knorl certamente não aceitaria uma concubina com bebês ao colo, e Slayra deixara-os em Horavog. Sem ninguém para os amamentar, Oska tivera de mandar vir de uma das leitarias circundantes uma criada que recentemente dera à luz, pagando pelos seus serviços com pedras da lua de um dos vestidos de Eluana. Quenestil ainda tentara sugerir que as crianças fos­sem amamentadas com leite de animais, mas Oska recusara catego­ricamente a sugestão, alheia à paternidade dúbia das crianças, e dando a entender que os filhos do percursor das Vagas de Fogo mereciam melhor.

Agravado pelos seus próprios pensamentos e pela situação, Quenes­til estugou o passo com uma rosnadela de frustração, forçando Agtor a apressar-se para o acompanhar, e deixando-o para trás uma vez den­tro da habitação, pois este ficou na antessala de terra batida a tirar os tamancos sujos. O eahan não adotara tal hábito, mas ninguém lho chamara a atenção, especialmente agora que entrava na sala principal com um andar decidido e um olhar capaz de lapidar alguém até à morte. Na escura sala principal encontravam-se sobretudo mulheres, que fiavam e teciam à luz gordurosa das candeias, erguendo apenas de leve as cabeças, que prontamente baixaram à passagem de Que­nestil. Crianças wolhynas e eahlanas andavam em redor, sobre e de­baixo das bancadas de madeira ao longo das paredes, confundindo-se à primeira vista devido às cabeleiras brancas que partilhavam. Eram um exemplo de confraternização para os adultos, e distinguiam-se ape­nas pela forma como olhavam sem receio para o shura: as humanas com mãos na boca ou dedos no nariz, e as eahlanas, impávidas e serenas, de grandes olhos azul-escuros que já tinham visto mais que o que a sua tenra idade merecia. Infelizmente, por muito que quisesse, Que­nestil não tinha palavras de conforto para lhes dar, e deteve-se apenas ao passar pela rapariga que amamentava os dois bebês, com seu filho a dormir sobre as suas pernas.

Era uma jovem com ar cansado, de todo sem graça, com cabelos anelados de um louro esbatido, grandes olhos azuis e lábios finos. Os bebês mamavam sofregamente dos seus peitos, e como Quenestil se demorou diante da rapariga, esta entendeu mal as suas intenções e fez uma careta ao arrancar os dois para os apresentar àquele que julgava ser o pai deles. Quenestil ia dizer que não, mas as estrebuchantes cria­turas nos braços da rapariga fitaram-no brevemente, emitindo ruídos infantis, e ao contrário do que o eahan julgava, este deu consigo a retribuir o olhar: ambos os bebês tinham olhos azulados, mas os cabe­los daquela que devia ser a rapariga começavam a adquirir um laivo mais claro, ao contrário dos tufos de penas de corvo na cabeça do rapaz.

«O pai do Tannath era um eahan rúbido...», lembrou-se, porém, e com isto afastou-se de rompante, dirigindo-se ao fundo da sala, onde Oska, Hjlinar, Hanal, Eluana e Deadan o aguardavam num díspar conclave, com o gato da garding a passear-se entre as pernas de todos.

— Quenestil Anthalos — saudou-o Deadan, de cabeça e ombros sempre acima de quem o rodeava. Com o inevitável arnês vestido, adaptara contudo entretanto alguns adereços wolhynos à sua habitual indumentária, como a túnica de lã que usava sobre a armadura e as peles de ovelha aos ombros.

Quenestil retribuiu com um aceno da cabeça, que repetiu aos restantes presentes. Oska e Hjlinar retribuíram de igual forma, mas Hanal e Eluana tomaram a iniciativa de avançar, afetuosos e des­providos de qualquer complexo. O Patriarca pousou-lhe a compassiva mão sobre o ombro, e a sua mulher, que agora trajava um vulgar ves­tido e avental wolhynos, pegou-lhe pelas mãos com as suas. Nada disseram, pois já tinham dito tudo o que era possível dizer a alguém que tivesse passado por aquilo que o shura passara, mas a sua mera presença e gestos eram conforto quanto bastasse, e Quenestil ficou-lhes grato por tal.

— As minhas coisas estão prontas, Oska? — perguntou por cima do ombro de Eluana, sem qualquer intenção de se delongar.

A mulher fez que sim com a cabeça e ficou a olhar para o eahan como se estivesse à espera de que algo acontecesse, até que deu uma ligeira pancada com o pulso na barriga de Hjlinar, que se sobressal­tou e se apressou a ir buscar algo com ar ressentido. O filho da garding voltou então com um fardo de pele de ovelha, mantendo a cabeça intencionalmente baixa para que os cabelos arenosos lhe tapassem a borbulhenta cara. Sem nada dizer, pousou-o sobre uma das bancadas e desenrolou-o, revelando o equipamento de viagem que fora prepa­rado para Quenestil. Este acenou aprovadoramente com a cabeça, e pediu licença aos dois eahlan para se preparar, virando então as costas aos presentes enquanto remexia no equipamento.

— Oska, quando vão para Dalstirvirk? — perguntou, pegando e examinando o arco ocarr que tinha permanecido perto da fogueira nos últimos dias, para secar convenientemente.

— Quatro dias — respondeu a mulher, em cujas pernas o gato se roçava. Dalstirvirk era o local onde se congregava aquela que só podia ser definida como uma assembléia dos Fiordes. Os garding ou os repre­sentantes destes encontravam-se nele duas vezes por ano, acompa­nhados pelos seus séquitos, numa ocasião propícia a trocas, acordos e intrigas, sendo que este ano teriam algo bem mais importante a dis­cutir: a hostilidade dos skrimmen e a iminente invasão de Tanarch. Quenestil ficara inicialmente preocupado, pois não podiam deixar os eahlan para trás, e expô-los numa congregação pública era a seu ver arriscado, mas Oska assegurara-lhe de que a presença de Knorl era uma garantia de que Skolsvein não tentaria nada de ousado.

— Hum — respondeu, enfiando o arco no estojo de couro, que fora esfregado com gordura de foca para o proteger da intempérie. — E levam os Lasan e os outros?

— Sim. Ninguém lhes vai fazer mal — garantiu Oska com uma medida de confiança. — E quando as pessoas os virem, vão acreditar que as Vagas de Fogo se aproximam.

Quenestil duvidava de que fosse tão fácil assim, mas era certo que a presença dos feéricos eahan brancos daria peso aos argumentos de Oska, fossem eles quais fossem. Sabia-a uma mulher ambiciosa, e sabia que ela o via como uma mera arma ou ferramenta, mas desde que os seus intentos não perigassem os eahlan, deixá-la-ia jogar os seus jogos políticos. Era-lhe indiferente quem tinha mais ou menos poder nos Fiordes, mas se fosse forçado a escolher lados, apoiaria certamente a mulher que tanto o ajudara, ainda que o tivesse feito para contentar os seus próprios interesses.

— Quantos dias até Rostungflokt? — perguntou então, puxando uma luva de pele de foca e mexendo os dedos dentro dela.

— Cinco dias pelo trilho, sete pelas montanhas — disse Oska. — Mas se fosse...

— Sete dias vossos pelas montanhas são cinco para mim. Vai dar ao mesmo — interrompeu o eahan. — Prefiro não ser visto, não causar mais problemas.

Oska preparava-se para objetar, mas era verdade que Aggor, Hyrm e Hjolld — os rufias sobrinhos de Skolsvein — já tinham visto Quenestil, e as circunstâncias do seu encontro não tinham sido as mais amigáveis. Era de fato mais avisado passar despercebido até chegar a Rostungflokt.

— E uma vez lá chegado — prosseguiu o shura, pousando o pé sobre a bancada para revestir a sua bota com pele de foca, que de seguida atou —, digo ao garding de lá...

— Andvar — recordou-lhe Oska.

— Digo a esse Andvar que, se ele me emprestar um barco, tu cedes-lhe formalmente o dote da Yhtte, quando fores falar na assembléia em Dalstirvirk?

— Sim — respondeu a mulher, não sem algum desagrado. And­var casara-se com a sua filha alguns anos atrás, mas esta abortara, e o garding aproveitara para anular o casamento e ficar com o dote.

— Muito bem — assentiu Quenestil, baixando a perna e pousando a outra na bancada para repetir o processo. — Depois disso, se tudo correr bem, é melhor ir logo para Dalstirvirk, em vez de voltar para aqui, não?

— Sim. A assembléia de Dalstirvirk dura catorze dias.

— Devo ter tempo, então.

Estava só a ser otimista, pois não fazia idéia daquilo que o espe­rava em Eihroin, nem o que lá ia fazer ao certo. Ihjseorn fora vago, como sempre, e dera-lhe apenas a entender que seria na ilha que obte­ria todas as suas respostas. Duvidava porém de que as respostas bas­tariam por si só para mudar grande coisa, pelo menos à escala que o kahrkr implicara. Haveria certamente algo mais, algo que Ihjseorn desconhecia ou pura e simplesmente se recusava a explicar.

— Então e... — lembrou-se, acabando de atar a segunda peça de pele de foca e pousando a outra perna, evitando contudo virar-se para Oska para perguntar. — Os... bebês?

— Nós... — hesitou Oska pela primeira vez, baixando o tom de voz. — Eles não devem ficar em Horavog, Quenestil, nem mesmo com os homens de Knorl por cá. A viagem para Dalstirvirk não é longa, e lá ficam mais seguros. Se os skrimmen...

— Sim, sim... — tornou Quenestil a interromper, ajeitando as peles de volverino aos ombros antes de se virar novamente para os seus interlocutores. — As minhas provisões?

Oska fez sinal, e Yhtte veio com um odre e um bornal de couro nas mãos. Era mais alta que Quenestil, mas, à semelhança do irmão, mantinha a cabeça baixa, e mesmo ao fim de tantos dias de convivên­cia, continuava a evitar olhá-lo nos olhos. O shura não fez caso e agradeceu simplesmente ao pegar nas provisões, que alçou e ajustou aos ombros. Yhtte ficou de obedientes mãos cruzadas sobre o colo, de cara parcialmente coberta pela cortina ondulada dos seus longos cabelos louros, mas entre eles viam-se os seus olhos azuis fitos em Deadan, que tal como a tudo o resto, lhes parecia alheio.

— Bom, estou pronto — declarou Quenestil, também ele alheio às atenções da rapariga. Fitou os presentes um por um, ainda abrindo a boca para dizer algo, mas como nada lhe ocorreu, limitou-se a despedir-se com um aceno da cabeça, que apenas Oska retribuiu. — Adeus, então. Deadan, importas-te...

— Quenestil, espere — pediu Hanal, avançando um passo e pousando ambas as mãos sobre os ombros do shura, que se viu tomado de surpresa pelo gesto. Não mais se via tomado pela quase reverên­cia que ele e os companheiros haviam inicialmente sentido diante dos eahlan, mas ser tocado por um continuava sem dúvida a ser uma sen­sação singular. — Não queremos que vá assim.

— Patriarca, eu tenho de...

— Não, não é isso — assegurou-lhe o eahlan, enquanto a sua esposa se postava a seu lado, olhando compassivamente para Quenes­til. — Fará o que tem de fazer, não pretendemos interpor-nos entre si e o seu destino...

— Mas tão-pouco queremos que vá a encontro dele com tamanha raiva no coração — disse Eluana, agarrando-lhe a mão com os seus leni­tivos dedos. — É evidente que esta gente lhe dá grande importância, e a forma como lidar com esta situação pode bem vir a influenciar o espírito de toda esta terra.

Quenestil conseguiu esboçar um fraco sorriso ante a perceptivi­dade dos eahlan, aos quais explicara apenas por alto o pouco que percebera daquilo que Ihjseorn lhe contara. Tinham razão, mas em­bora não lhes quisesse dizê-lo, tais palavras vinham tarde e em má hora.

— Infelizmente, já é um pouco tarde para isso — lamentou, aper­tando conformadamente a mão de Eluana, cujos dedos deslizaram suavemente pela sua mão quando Quenestil se afastou, deixando con­tudo o braço estendido para prolongar ao máximo o apaziguador toque da eahlana.

Uma vez solto, agradeceu o gesto a Hanal com um novo aceno da cabeça, posto o que virou as costas antes que a despedida se tornas­se mais desconfortável ainda, fazendo sinal a Deadan para que o acom­panhasse. O Patriarca nada mais disse, limitando-se a suspirar de tristeza, e pousou antes as mãos sobre os ombros da sua esposa, que cruzou as suas diante do colo. Quenestil saiu então rapidamente da sala, ajeitando novamente ao ombro o odre e o bornal de couro, e o Ajuramentado seguiu-o com pesados passos acerados, deixando para trás uma série de trocas de olhares apreensivos. Agtor aparentou querer dizer algo à passagem de ambos, mas limitou-se a coçar a barba castanha sarapintada de prateado e fazer um gesto de boa viagem a Quenestil, que o aceitou com um silencioso e nada íntimo aceno da cabeça. Não tinha paciência para mais trocas de fúteis palavras e só queria fazer-se ao trilho o quanto antes.

— Que deseja de mim, Quenestil Anthalos? — perguntou Deadan assim que saíram do edifício.

«Bendito Deadan, sempre direito ao assunto como uma flecha», agradeceu Quenestil, grato por não ter de dar grandes justificações. O Ajuramen­tado recebera até bastante bem as notícias de que os eahlan iriam ficar a seu cuidado, e não se opusera minimamente à partida do shura. — Preciso de que faças o que tens feito até agora. Que sejas vigilante, e...

A expressão de Deadan manteve-se inalterada, dando a entender que não considerara sequer outra alternativa.

— Certo. Preciso de que tu agüentes a quinta até irem para Dalstirvirk. Gostava de te saber dizer quando voltarei, mas não faço idéia do que me espera aonde vou, e pode até ser que eu não chegue antes de a assembléia acabar.

— E se por acaso chegar? — indagou o Ajuramentado, de forma alguma preocupado com a sua responsabilidade.

— Não sei — admitiu Quenestil. — O Ihjseorn ou não sabe, ou então não me está a contar tudo, embora ache que ele desta vez foi honesto.

— É arriscado confiar cegamente nele...

— Não temos alternativa — interrompeu prontamente o shura, temendo que Deadan o desiludisse e se pusesse também ele com dúvi­das e especulações. — Não quero dizer que estejamos na mão do Ihjseorn, mas ele é o único que parece saber o que se está a passar... ou pelo menos o que aí vem, e o que eu posso fazer a respeito disso.

O jovem siruliano ficou a fitá-lo por breves momentos, durante os quais os duros olhos de ambos se solidarizaram mutuamente, ao son­darem a aspereza da alma que se escondia por detrás deles. Cor de aço azul ou cor de pedra, ambos tinham já visto demasiadas coisas que juraram nunca mais permitir que se repetissem, e eahan e humano sabiam que tanto um como o outro daria até ao último de si para esse propósito.

— Confiei em si até agora, Quenestil Anthalos, e ainda não falhou para comigo — assentiu o jovem siruliano. — Desejo-lhe sorte.

— Obrigado, Deadan — agradeceu o shura, apertando a forte mão revestida de aço que este lhe ofereceu. Os dois abanaram mútua e ligeiramente as mãos, parecendo não saber que mais dizer, e Quenes­til ainda se inclinou ligeiramente para a frente, como se tencionasse arriscar um abraço, mas os dois recuaram involuntariamente da idéia, largando as mãos como se tivessem sentido um choque.

— Então... boa sorte para ti também — desejou o eahan, pensando em mais alguma recomendação que pudesse dar, mas acabando apenas por franzir os lábios e despedir-se do siruliano com um brusco sacudir de cabeça antes de lhe virar as costas.

— Quenestil Anthalos?

— Sim? — respondeu o shura, virando-se novamente para Deadan.

— Quando voltar — o Ajuramentado fez questão de enfatizar a palavra, como se não equacionasse outra possibilidade —, o que poderemos esperar?

— O que podemos esperar...? — repetiu Quenestil, protelando a resposta da qual estava perfeitamente ciente, embora ainda não a tivesse aceitado. Para quem conseguia ouvir, esta era soprada pelos ventos dos Fiordes, sussurrada pelas ondas do mar, e o nome escrito na flecha do shura gritava por ela todos os dias. — Guerra, Deadan — acabou por responder. — Guerra como esta gente há muito não vê.

Com isto, Quenestil tornou a virar as costas a Deadan e retirou-se de vez, cada passo seu atentamente observado pelo Ajuramentado à medida que se ia afastando da quinta. Os homens que se encontravam a trabalhar no prado lançaram-lhe preces de boa viagem à sua pas­sagem — os que ousaram levantar a cabeça, pelo menos — e as ove­lhas assistiram impassivas à partida do eahan, que estugou o passo uma vez chegado ao escabroso caminho basáltico do trilho monta­nhoso que levava para fora de Horavog. Por muito má que a situação fosse, Quenestil não conseguiu evitar deixar-se levar pelo frêmito de liberdade que o acometeu de súbito. Não importava que o seu mundo tivesse sido virado do avesso, que Slayra o tivesse abandonado, e que estivesse cercado de inimigos. O mero fato de se lançar ao trilho sozi­nho, uno com a natureza, dava-lhe a ilusão de que estava livre das pesadas responsabilidades que lhe tinham andado a vergar as costas nas últimas semanas. Sentiu-se mais leve e, embora ciente de que tal não passava de uma ilusão, não deixava de tornar mais fácil arcar com o seu dever.

Tomado por um repentino surto de energia, Quenestil teve von­tade de correr, quase de gritar, mas conteve-se e limitou-se a subir o trilho a passos acelerados, ansioso por deixar Horavog para trás e tirar das suas costas os olhos que certamente o estavam a seguir. A liberdade chamava-o, e embora o eahan soubesse que provavelmente não iria durar, o chamamento era irresistível, e o dente de volverino pendente do seu colar parecia quase tremer de antecipação. Não olhou sequer para trás, e quase tocou com as mãos no íngreme trilho montanhoso, caminhando inclinado enquanto as suas botas raspavam sofregamente o cascalho negro.

Não foi senão quando chegou ao cimo da ladeira que se deteve, avistando um prontamente reconhecível vulto sobre um fragoso penhasco preto com vista para a quinta. Como era seu hábito, Ihjseorn observava, com o corpulento torso envolto pela capa de pele de urso branco, sacudida pelo vento que a tal altura já soprava com mais força. A distância que se encontravam era difícil dizer, mas pareceu a Quenestil ver uma expressão convencida na cara do kahrkr, embora este se limitasse a acenar-lhe com a cabeça. O punho da sua grande espada projetava-se do espaço entre as dobras da capa, enfatizando o propósito da sua presença ali, e Quenestil agradeceu-lhe pelo menos por isso, retribuindo relutantemente o aceno de cabeça. Saber que Horavog estaria em segurança durante a sua ausência acerbava mais ainda a fremência da sua redescoberta liberdade, e o eahan não esperou que Ihjseorn tomasse a iniciativa de lhe dizer algo, ajeitando então a correia do bornal ao ombro e puxando o capuz sobre a cabeça antes de se retirar sem se despedir.

O perigo não passara, e a situação iria certamente agravar-se antes de acalmar, mas nem mesmo isso desalentou Quenestil, que naquele particular momento se sentiu livre como havia muito não se sentia. Nem mesmo a ruptura da sua ligação com a Mãe, e a inesperada reve­lação de Ihjseorn acerca dos princípios do culto desta, conseguiram temperar o ânimo que lhe movia os membros. Pela primeira vez em semanas, Quenestil não pensou — deixou-se simplesmente levar pelo chamamento do ermo, e entrou num transe de marcha pautado pelos batimentos do seu coração e pelas tíbias palpitações da natureza hie­mal em redor. Por fim liberto do opressivo ambiente da quinta, da angustiante presença de tantas pessoas e do cheiro a medo destas, conseguiu esquecer Slayra, Tanarch, a kuvamora, os skrimmen, as Vagas de Fogo, tudo. Não iria durar, sabia-o perfeitamente, mas fazia questão de o aproveitar enquanto a sensação porfiasse.

— Guerra, Deadan... — repetiu para consigo, ciciando as palavras enquanto o vento lhe batia, frio, na cara, deixando que este as levasse. Por enquanto, pelo menos.


 

Allumno fora arrancado ainda jovem da sua aldeia durante tem­pos conturbados, forçosamente adotado por Zoryan quando os moorul lhe chacinaram boa parte da aldeia num combate contra este e contra Aezrel Thoryn, então a tocha viva da esperança de Allaryia. Presenciara muitos horrores pelos quais homens mais velhos e expe­rientes nunca teriam sequer sonhado passar, e contemplara em pri­meira mão o prelúdio e o desenvolvimento da Guerra da Hecatombe, tendo sido apenas poupado ao calamitoso clímax desta em Asmodeon. Ainda assim, considerava-se um homem marcado, por tudo o que vira e pela morte e destruição em desmedida escala que presenciara. Con­tudo, nada se comparava ao que naquele preciso momento se encon­trava diante dos seus olhos.

A hoste de drahregs que corria pela baixa do vale como uma tor­rente negra fazia o chão tremer, abalava o alobadado firmamento com o seu rouco borborejar, e a neve seca em redor apenas fazia com que o negrume da horda saltasse mais à vista, esta cercada pelo nevado, que se erguia como uma nuvem de poeira à sua volta. Escondido numa vertente boscosa, Allumno conseguiu apenas permanecer perfeita­mente quieto e de boca aberta enquanto contemplava a fúria da passagem do Primeiro Pecado. Nada alguma vez o teria preparado para semelhante visão, nem os mais exagerados relatos da Guerra da Hecatombe, nem os insistentes avisos do seu mestre Zoryan. A fer­vilhante horda pressagiava total e completa destruição, e deixara lei­ras de terra batida e devastada à passagem das suas grossas botas com tachas de ferro enferrujado. Era toda ela uma palpitante manta de afiados dentes arreganhados, mãos venosas crispadas nos punhos ásperos de espadas sequiosas, agressão mal contida e raiva prestes a ser desencadeada contra o mundo.

E, apesar ou precisamente por causa disso, estava a dar mostras de uma estupidez quase inconcebível.

Por incrível que parecesse, os dias que Allumno passara a acom­panhar o progresso da hoste tinham-no convencido de que esta avançava sem rumo, e que o fato de estar a ignorar em grande parte as investidas a ela dirigidas não se devia a qualquer estratégia. Simplesmente, o exército de drahregs estava a consumir-se por dentro, e a deixar que os seus inimigos aparassem gradualmente as suas fileiras. Era evidente que a fome e a doença grassavam entre a hoste, que ante um escrutínio mais detalhado revelava ser pouco mais que um aglomerado de drahregs, sem qualquer comando central ou estratégia definida. Já por mais que uma vez Allumno vira esquadrões de cavalaria wolhyna varrer a retaguarda da disforme horda, chaci­nando às dezenas todos e quaisquer drahregs extraviados ou isola­dos, sobretudo os doentes e feridos, entre os quais se incluíam velhos, mulheres e crianças. Vista de trás, a hoste mais parecia uma imensa procissão perseguida por implacáveis cavaleiros arnesados, que trovejavam através das débeis fileiras, ceifando vidas com espadas e lanças, e deixando para trás um fétido rasto de cadáveres negros de extremi­dades queimadas pelo frio. Os abutres-grifos laoneses tinham comido bem, ultimamente, mas se os eventos se continuassem a desenrolar ao presente ritmo, então o seu verdadeiro festim ainda estava para vir.

Não fossem os números comparativamente reduzidos da cavalaria da Wolhynia — que sempre fora uma nação maioritariamente de infantaria — bem como o tempo que esta levara a aperceber-se de que não seria necessário esconder-se nas cidades para fugir à inexorável horda, e o massacre teria até então sido bem maior. Allumno começara apenas a acompanhar o progresso da horda ao sair da Namuriqua, aterrado ao vê-la pela primeira vez, tal como provavelmente o teriam ficado os habitantes das terras pelas quais a hoste passara, mas já se dava conta do quão reduzida esta se encontrava, e do quão verdadeira­mente avassaladores os seus números iniciais deviam ter sido. O atrito dos agora certamente encorajados wolhynos fora sem dúvida um dos motivos por tão drástica redução, mas os principais responsáveis eram mesmo a fome e a doença. Uma vez saídos das suas terras, onde provavelmente já tinham montado um rudimentar sistema para se alimentarem com os parcos recursos de Asmodeon, e forçados a man­terem uma marcha constante rumo a lugar nenhum, os drahregs não tinham forma de subsistirem por meios convencionais. Não em pleno Inverno, não em território inimigo, e certamente não com inimigos a aglomerarem-se à sua volta. Allumno já vira batedores namuriqua­nos a perambularem pelo território, e os fogos que se avistavam à dis­tância a sul durante a noite davam a entender que Laone se preparava para se defender.

Que o Primeiro Pecado praticava o canibalismo, era do conheci­mento geral, e qualquer criança de aldeia teria ouvido pelo menos uma história de uma mãe drahreg que comia o filho, por este não ter conseguido roubar o balde de leite do celeiro. Porém, a sua reputação estava a ser levada a um extremo pela horda, que praticamente sub­sistia dos feridos, enfermos e de todos aqueles que não mais tinham forças para resistirem à depredação dos mais fortes. Drahregs morriam dia e noite às mãos dos seus, tombados por trás com uma pedra na nuca ou sutilmente degolados na calada, e seguidamente despe­daçados num esfaimado frenesi assim que caíam ao chão, estivessem ou não vivos. Seguia-se a isso uma luta pelos pedaços mais carnosos do morto, o que regra geral resultava em mais vítimas e barrigas um pouco mais cheias por mais um dia, até que a fome tornava a virar irmão contra irmão, e filho contra pai. Mães comiam crianças antes que outros o pudessem fazer, e estas perambulavam em redor, sempre em movimento, tementes dos adultos mas demasiado assustadas do mundo em redor para fugirem. As que estavam suficientemente deses­peradas para o fazer eram esmagadas pelos cascos da cavalaria wolhyna, que não estava disposta a discriminar ante tal ameaça.

Encolhido e de cenho franzido, Allumno observava com uma mão apoiada sobre a fria rocha do afloramento que o ocultava da hoste em baixo. O seu garrano castanho estava preso com uma peia debaixo de uma lapa, e comia da cevadeira que lhe pendia do focinho, esse coberto com uma manta para que não se assustasse com a hoste e para que os ruídos feitos por esta fossem minimamente abafados. Mais que inti­midado, o mago estava sobretudo intrigado com o comportamento dos drahregs: não conseguia compreender o porquê de continuarem a marchar em tais condições, perdendo centenas dos seus às mãos da intempérie, da fome e dos inimigos que os rodeavam, quando os seus números teriam sido suficientes para nivelarem uma nação...

— Não, pupilo — disse a voz de Zoryan na sua cabeça. — Podem ser numerosos, mas muitos são mulheres e crianças, e outros tantos não tiveram sequer qualquer experiência de combate.

— Podiam mesmo assim ter tomado uma cidade — redarguiu o mago com um toque de animosidade. Ainda não perdoara ao seu mestre o fato de este lhe ter ocultado a verdade. — Deixaram os exércitos de duas nações para trás, como o mestre bem viu no Pilar. Deixaram-nos para trás, quando podiam ter destruído pelo menos um no início, caso os tivessem empe­nhado em combate, mas é evidente que não o fizeram. Agora têm meio Norte no seu encalço.

— Estou tão confuso como tu, Allumno — admitiu o arquimago —, mas certamente haverá uma razão para os drahregs não estarem a lutar. O Flagelo tem um plano para eles... eu é que não consigo conceber o seu propósito.

— Nem eu, mestre. Só vejo uma horda de drahregs a dirigir-se à sua morte. Quererão chegar a Ul-Thoryn a qualquer custo?

— Não — disse Zoryan, sentindo a preocupação na voz do seu pupilo. — Isso seria impossível. Têm rios para atravessar, uma série de cidades pelo meio. Morreriam todos à fome antes de sequer lá chegarem.

Era também essa a opinião de Allumno, e aquilo em que o mago queria acreditar, mas não podia deixar de se sentir apreensivo. O Fla­gelo movera a sua primeira peça — ou pelo menos a primeira peça que o tinham visto a mover — e Allaryia fora apanhada totalmente desprevenida. A sua única esperança era que Lhiannah tivesse chegado sã e salva a Ul-Thoryn, e que Aereth tivesse dado a devida atenção aos seus avisos. Se assim tivesse sido, Nolwyn não seria apanhado de surpresa como as outras nações, e teria mais tempo para se preparar, caso as previsões do seu mestre não se confirmassem, o que, vendo a desaustinada marcha dos drahregs, não lhe parecia de todo impossível. O Primeiro Pecado caminhava como se acicatado por uma vontade invisível, e avançava com uma determinação tal, que nem mesmo o perigo iminente de se destruírem por dentro os parecia deter.

— Terá o Flagelo algum destino específico em mente? — questionou-se Allumno. — Fazer com que a horda ande mais depressa e sem parar de pouco servirá... as únicas nações que podiam verdadeiramente ter apanhado de sur­presa eram a Sirulia e Tanarch...

— Como disse, pupilo, estou tão admirado como tu. Só consigo imaginar que o Bastardo pretenda levar a guerra a Ul-Thoryn e esperar que o Aewyre morra nela. Neste momento, é ele o único capaz de o ameaçar...

— Ele e o Aereth — recordou Allumno, fazendo que sim com a cabeça enquanto tentava ligar as peças do monstruoso quebra-cabe­ças que contemplava. — Sim, destruindo Ul-Thoryn, livrar-se-á dos dois únicos seres vivos que o ameaçam. Ou então... será que pretende ir para a Cidadela da Lâmina?

Allumno sobressaltou-se ao tomar plena consciência de tal possibi­lidade, e Zoryan sentiu o arroubo de medo através da gema na testa do mago, que lhe transmitiu a emoção do seu pupilo como uma desa­gradável vibração.

— Achas, Allumno? Como poderia ele saber...?

— O Maldito está por todo o Pilar, mestre. Há poucas coisas que ele não possa saber, se assim o desejar — disse Allumno, alvoroçado. — Deuses, é para a Cidadela da Lâmina que eles vão! Ele quer matar o Aewyre!

Zoryan não podia confirmar nem desmentir tal possibilidade, e o seu silêncio alarmou mais ainda o mago, cuja gema lhe fulgiu na testa, alumiada pela agitação que lhe ia na alma enquanto mantinha a liga­ção com o seu mestre.

— Só pode ser isso! — disse Allumno em voz alta, mais para si que para o arquimago. — O Aewyre ainda deve estar na Cidadela, e o desgraçado quer matá-lo antes que ele descubra algo mais acerca da Essência da Lâmina.

— É... certamente possível, pupilo.

— Tenho de ir — disse Allumno sem mais delongas, rastejando para trás, para o abrigo do afloramento rochoso, antes de se levantar, longe da vista da horda.

— Espera, Allumno.

— O que foi, mestre? — perguntou o mago, algo agastado. O tom da sua voz atordoou Zoryan durante um breve momento de silêncio.

— Vais ter dificuldades em falar comigo nos próximos tempos... — sus­pirou o arquimago de forma etérea. — A situação no Pilar é mais grave do que eu pensava, agora que percebi por que razão a sombra estava nele tão revolta.

— Como assim, mestre?

— O Flagelo... verteu o seu sangue no Pilar.

— Como? — Transmitido através da gema que o ligava ao seu mes­tre, o assomo de medo de Allumno era quase palpável.

— Não o consigo explicar de outra forma. A Essência no Pilar está macu­lada, não ao ponto de se encontrar corrompida, mas sentem-se e vêem-se sutis filamentos de sombra a flutuarem por ela — esclareceu o arquimago. — Sinto neles a mácula de Seltor. O maldito está certamente a tentar enve­nenar-nos.

— Mas então... porque terei eu dificuldades em falar com o mestre?

— O Pilar está insistente, Allumno, e não só. Há certas... coisas que tenho de fazer.

— Coisas? — indagou o mago secamente.

— Não quero que te preocupes desnecessariamente, mas é algo que tenho de fazer. Temos de começar a pensar em outras formas de combater O Flagelo, para o caso de... o Aewyre não ser capaz.

— Outras formas...? Mas que vai o mestre...?

— Adeus, Allumno. Falaremos em breve.

— Mestre...? Espere, não...! — chamou Allumno em vão, aper­cebendo-se de que Zoryan se dissolvera novamente no Pilar ao deixar de sentir o zumbido que lhe tamponava os ouvidos sempre que falava com o seu mestre através da gema.

Allumno atirou o cajado ao chão com um ruído exasperado de dentes cerrados, farto como estava dos secretismos de Zoryan. Teve vontade de gritar de frustração, mas ficou-se por um irritado suspiro para não correr o risco de atrair atenções indesejadas, e ajoelhou-se para pegar novamente no seu cajado, quando sentiu um chofre sobre a cabeça, seguido de um ruído metálico quando algo bateu na pedra à sua frente. O mago virou-se de sobressalto para trás, batendo no ar com a capa, e viu três drahregs sobre a lapa debaixo da qual o seu cavalo se encontrava.

As criaturas tinham um ar deplorável, magras e com a pele negra das caras curtida pelo frio e pela fome, que a esticava sobre os malares. Dois deles tinham um volumoso crescimento encrespado debaixo das tranças sujas e empastadas, um dos quais com uma basta barba ara­mada, enquanto o terceiro ostentava uma calva tinhosa orlada por fia­pos enriçados. Os três tinham grotescas escarificações rituais mescladas com cicatrizes de combate, envergavam armaduras de couro imun­do com tachas e pregos nelas embutidos, e empunhavam lâminas de ferro sujo com serrilha e entalhes pouco práticos, que compensavam em intimidação aquilo que faziam perder em eficácia. Os pontos verme­lhos nos seus olhos negros brilhavam com uma faminta luz animalesca, e um deles chegou mesmo a lamber-se com uma língua amarelada ao olhar para Allumno, salivando de antecipação. O mago sentiu uma ligeira náusea ao contemplar o destino que os drahregs lhe reservavam, mas não teve tempo para mais, pois estes, ao verem a sua presa encur­ralada, não se demoraram sequer com táticas de matilha, e saltaram os três da lapa com famélicas rosnadelas, brandindo as armas como cutelos. O cavalo relinchou com os ruídos, retesando a peia nas suas pernas ao tentar afastar-se, e um dos drahregs dirigiu-se a ele enquanto os seus dois companheiros carregavam sobre Allumno.

Este, vendo a sua montaria em perigo, empunhou o cajado com as duas mãos e impeliu-o para a frente, projetando uma rajada cor de rubi da gema na ponta deste. A descarga de Essência atingiu o drahreg no flanco, e este berrou de dor ao rodopiar pelo ar e cair ao chão, fumegando da ilharga. O cavalo relinchou, assustado com o barulho e as luzes, e os dois outros drahregs detiveram-se momentaneamente, tomados de surpresa pela inesperada ofensiva arcana. Allumno apro­veitou a abertura para dar seguimento ao seu ataque, girando o cajado sobre a cabeça e levando de seguida a luzente ponta ao chão enquanto entoava palavras ocultas. O impacto abriu uma racha no afloramento, que espirrou eruptivos fragmentos de pedra numa linha reta na direção de um dos drahregs, que resguardou instintivamente a cara com um braço escanzelado, e gritou de surpresa dor. O outro, já recupe­rado, tornou a berrar ao investir agachado como um animal, percor­rendo a distância que o separava de Allumno com espantosa rapidez, forçando o mago a estender o braço de mão aberta diante dele e for­mar uma barreira com a Palavra.

O drahreg parou abruptamente, como se o ar diante do mago se tivesse tornado mais pesado, turvado pela refração de luz como num dia de calor, mas embora o seu ímpeto tivesse sido absorvido, não foi por isso que deixou de avançar. A testa de Allumno franziu-se e este arreganhou os dentes, ainda de mão aberta e estendida, tentando tra­var por completo os movimentos do adversário, mas o drahreg con­tinuava obstinada e lentamente a avançar, movido pela fome, raiva e desespero. Cravando o olhar pleno de ódio no mago, arreganhou os amarelados dentes de caninos afiados, e as veias do seu pescoço e membros magros palpitaram com o esforço. O confronto de vontades fazia o ar vibrar, mas Allumno viu do canto do olho que os dois outros drahregs se levantavam, e tentou antecipar-se-lhes, recolhendo subita­mente o ar e cancelando a barreira, o que fez com que o seu adversário mais direto arremetesse aos tropeções contra ele. O mago desviou-se e percutiu o drahreg na nuca com o cajado, girando em si e apontando a mão aberta ao que agora o atacava com cimitarra empunhada com ambas as mãos. Um rápido encantamento proferido fez com que as pontas dos seus dedos crepitassem de energia e que deles se projetasse uma estralejante esfera escarlate contra o agressor. Porém, esta atingiu o drahreg sem qualquer efeito, faiscando inofensivamente no peito deste ao dissolver-se, e Allumno mal teve tempo de amaldiçoar os res­quícios de Entropia que perduravam em Allaryia antes de o drahreg lhe cair em cima.

Conseguiu apenas reforçar o seu cajado com pura Essência, e com ele aparar o golpe de alfange, empunhando-o com ambas as mãos e de gema na testa a luzir. Foi quanto bastou para que o aço não se embebesse na madeira, embora por pouco, mas o impacto arrancou o cajado das mãos de Allumno e o drahreg deu seguimento ao golpe com um pontapé no peito deste, deitando-o por terra. Caindo mal de costas, o mago ficou momentaneamente sem ar, incapaz de fazer uso da Palavra, e o seu oponente ergueu o alfange sobre a cabeça, pronto a decepar uma perna ou um braço. Allumno teve então de sacrificar o seu corpo e canalizar pura Essência através do rubi na testa, cegando o drahreg com um clarão vermelho, do qual nem mesmo as pálpebras cerradas do mago o conseguiram proteger por completo. O drahreg rosnou e levou uma mão aos olhos, e Allumno abriu os seus, vendo uma aberta através dos pontos vermelhos na sua visão. Enfiou o pé entre as virilhas do drahreg, grunhindo ele também com a dor que o golpe causou à perna magoada, e virou-se de seguida de barriga para o chão, arrastando-se para perto do seu cajado. O drahreg cuja nuca golpeara erguia-se agora, zonzo, e o que atingira com uma rajada no flanco esquecera momentaneamente o seu cavalo, aproxi­mando-se com uma mão na ferida e a outra crispada no alfange ser­rilhado.

Com o coração a bater-lhe nos ouvidos, o mago proferiu um encan­tamento com voz sufocada, unindo-se ao drahreg atordoado com uma descarga elétrica que fez com que este estremecesse em des­controladas convulsões numa dança fumegante, antes de cair morto. A mortífera corrente contraíra os músculos do drahreg, impedindo-o de gritar, pois o mago tivera a presença de espírito de se livrar dele de forma expedita e silenciosa, mas os outros dois compensaram com berros seus ao investirem contra Allumno. Temendo que a horda inteira lhe caísse em cima com o barulho que aqueles desgraçados estavam a fazer, não se pôs com meias-medidas, e descreveu com o cajado um arco no ar, que formou um leque de chamas à sua frente e esbraseou ambos os drahregs, queimando-lhes as tranças, que arde­ram com um odor rançoso. Os dois recuaram como animais escal­dados, e Allumno estendeu então ambas as mãos, vociferando uma frase mais complexa com a Palavra, que fez com que duas outras des­cargas elétricas se soltassem das suas mãos, unindo-se cada uma a um drahreg e fazendo-o dançar de forma macabra e membros con­traídos como o primeiro. O mago pontuou a frase com uma enfática exclamação, que fez com que as descargas projetassem os seus ini­migos a uma curta distância pelo ar antes de tombarem, mortos e fumegantes.

Arfando, Allumno agarrou-se ao cajado com ambas as mãos e apoiou-se nele, cerrando os olhos e abanando a cabeça devido às ton­turas que o repentino uso de pura Essência lhe causara. Não havia no entanto tempo para descansar, pois o combate fora ruidoso, e o mago não se atreveu sequer a rastejar novamente para a ponta do afloramento para ver se a horda subia a vertente da montanha em sua procura. Sem mais demoras, passou apressadamente pelos corpos calcinados e fumegantes dos drahregs, moderando apenas o passo ao aproximar-se do seu cavalo, que enfreava aflitivamente a cabeça ainda coberta por uma manta. O animal estava bastante assustado, e apesar da sua pressa, Allumno teve de se acercar devagar dele, sussurrando ruídos aquie­tadores e aproximando-se de lado. Ao afagar-lhe a espádua, o cavalo estremeceu, mas algumas festas depois já estava suficientemente calmo para o mago lhe tirar a manta da cabeça. Ainda de olhos bem abertos e ar assustado, não fez contudo mais gestos bruscos enquanto Allumno lhe removia a peia e com ela atava o saco-de-dormir no qual dormira e no qual embrulhou apressadamente a sua panela e caneca, atando-o de seguida à sela. Não podia ir muito depressa, pois o terreno monta­nhoso era escarpado e perigoso, mas tinha de o descer rapidamente e criar o máximo de distância entre si e a horda antes de ir para a Cida­dela da Lâmina avisar Aewyre.

O seu protegido não tinha grandes hipóteses contra Seltor, a menos que tivesse entretanto aprendido a dominar a Essência da Lâmina, pelo que Allumno apenas poderia esperar que Aewyre tivesse aprendido o suficiente, pois agora teria de abandonar a Cidadela. A primeira jogada pertencera a’O Flagelo, que os conseguira surpreender a todos, e agora cabia-lhes anteciparem os seus próximos movimentos, uma tarefa que seria bem mais fácil se Zoryan não estivesse a ocultar-lhe o que andava verdadeiramente a fazer...

 

A noite caía em Ul-Thoryn, e as ruas da cidade estavam invulgar­mente sossegadas, praticamente desertas. Por decreto regencial, fora declarado o toque de recolher, e as vias eram patrulhadas por patrulhas invulgarmente grandes de guardas armados. Haviam sido destacados um igualmente invulgar número de pregoeiros, que correram a cidade de uma ponta à outra num único dia, repetindo as ordens do condes­tável Romical aos ouvidos das massas em todos os distritos: houvera uma tentativa de assassinato contra lorde Aereth, e como tal as portas da cidade estavam fechadas, o que significava que ninguém entraria nem sairia sem autorização regencial. Além disso, as ruas deveriam estar desocupadas durante a noite, e toda e qualquer atividade noturna estava desautorizada até ordem em contrário.

Embora surpresos, os habitantes de Ul-Thoryn acataram as ordens sem grandes reservas, não obstante se mostrassem naturalmente apreensivos, pois tentativas de assassinato era algo de que havia muito tempo não se ouvia falar na Pérola do Norte, não contra um alvo de tão grande relevo como o próprio regente, pelo menos. Contudo, e tal como seria de esperar, houve uma minoria que se mostrou algo mais refratária, e começou inevitavelmente a especular e a tecer teorias de conspiração. Por essa razão, os milicianos estavam autorizados a apreender quem encontrassem na rua, e andavam em numerosos gru­pos armados pelas vias e vielas da cidade, portando lanternas e anun­ciando o toque de recolher com sinos. À sua passagem acompanhada por latidos de cães e bufidos de gatos assustados, portas e adufas fechavam-se, e as luzes que por acaso ainda se encontravam acesas eram rapidamente apagadas. A cidade que raramente dormia fora enviada para a cama cedo, como alguns homens comentaram nas tabernas antes de estas serem forçosamente encerradas, obrigando-os a regressarem de má vontade para as suas respectivas casas, onde regra geral apagavam as luzes para que o dia seguinte chegasse cedo, e pudessem saber ao certo o que se estava a passar.

Uma e outra casa permaneceram com luzes acesas, incluindo al­gumas oficinas, cujos proprietários aproveitaram para trabalhar até mais tarde, visto que não haveria qualquer tempo de ócio naquela noite. Por essa razão, as ruas calcetadas dos artesãos eram dos poucos focos de vida em Ul-Thoryn, lugubremente iluminadas pela luz ama­relada que saía por entre as frestas das suas portas e janelas fechadas. Desde que não se tratasse de estabelecimentos de ócio, os milicianos não lhes davam importância e limitavam-se a anunciar o decreto regencial sempre que passavam por uma, não fosse o proprietário ter-se esquecido. Em resposta, a atividade no interior das lojas cessava momentaneamente, sendo apenas retomada quando as vozes dos guardas se ouviam ao longe. Havia quem estivesse nervoso, e era compreensível, pelo que os guardas não estranhavam quando isso acontecia, e acharam apenas normal quando continuaram a ouvir barulho ao passarem pela porta fechada de uma oficina, tomando o proprietário por um cidadão despreocupado ou distraído. Ninguém fez caso do retinir de metal que se ouvia através da porta, que seria perfeitamente de esperar de um estabelecimento com uma bigorna na insígnia sobre a porta.

Porém, se tivessem ouvido o sinistro riso que a porta abafava, teriam provavelmente ficado desconfiados. O interior da oficina de fer­reiro estava escuro, iluminado apenas pelas acesas labaredas da forja, que estremeciam de cada vez que se ouvia o fino repenicar de um mar­telo em metal. O estabelecimento fazia parte da moradia do ferreiro, como era costume em cidades da dimensão de Ul-Thoryn, mas este e a sua mulher e três filhos encontravam-se sentados à mesa de fer­ramentas, apesar da hora. Embora imóveis, os cinco estavam de coto­velos apoiados sobre a mesa, de cabeças curvadas, feições ensombradas e instrumentos de trabalho nas mãos, como se concentrados numa tarefa. Quem estava verdadeiramente ativo era o pequeno homem perto da forja, que martelava com afinco uma disforme peça de metal, cujos traços eram difíceis de reconhecer. De costas para o fogo, deixava apenas entrever as chagas escuras e a pele avermelhada da sua cara, que se contorcia a cada martelada que dava numa ambígua expressão de dor ou divertimento. Ria enquanto moldava a peça de metal presa por tenazes, ajeitando-a sobre a bigorna pentagonal, como se fosse uma grande piada que ninguém além dele percebia.

— ...o importante é não parar de rir, não é? — perguntou Dilet a ninguém em particular, rindo guturalmente. — Tempos negros vêm aí, e se perdermos a capacidade de rir, bem que podemos morrer já.

A família do ferreiro não se mexeu, e deles não veio qualquer resposta.

— O meu senhor não há de ter ficado satisfeito, não senhor — continuou o bobo, emitindo reprovadores estalidos com a língua. — Mandei os planos dele para a fossa, e agora estou numa bela confusão. Mas não faz mal, o que é preciso é não parar de rir, não é verdade?

Uma vez mais, a família mostrou-se pouco comunicativa.

— Há que ver sempre o lado mais caricato das coisas — recomen­dou Dilet, sendo coerente consigo mesmo, rindo ao erguer nas tena­zes a peça que estivera a moldar, virando-a de um lado para o outro. A rúbida luz da forja refletiu-se nos contornos daquela que parecia ser uma carantonha de ferro. — Uma princesa no tubo da latrina? Uma espada num organistro? E agora um bobo numa forja?

Dilet virou a carantonha e pô-la diante da sua face, observando a sala através dos orifícios desta para os olhos. Era uma peça diabólica, com um grande nariz, uma fresta denteada na forma de uma sorridente boca de ferro, uma perturbadora expressão e um par de cornos recur­vos de bode, que davam duas voltas em si.

— Um guerreiro no trono, e um teixo que ameaça cair sobre o ninho da águia, isto se o corcel amarelo não lho esmagar primeiro com os cascos — continuou Dilet, dirigindo-se então à mesa de ferramen­tas, sobre a qual pousou a máscara, apoiando de seguida as mãos nos ombros do ferreiro, que não se mexeu. — Que acha? Nada mal para um bobo, hum? Que me diz? — sussurrou ao ouvido do homem, indicando a máscara com um inclinar da cabeça. — As maçãs do rosto ficaram demasiado salientes, talvez. Mas dá-lhe um ar mais distinto, não?

Ao ver que o ferreiro não iria arriscar uma opinião, Dilet pegou na máscara e nos cabelos do homem, levantando-lhe a cabeça e aproxi­mando-lha da cara. Os olhos vítreos deste fitavam o vazio, mortos, contrastando de forma grotesca com o ricto que lhe fora trinchado nos lábios com dois sangrentos cortes transversais nos cantos da boca.

— Mas também, quem é você para falar. Provavelmente ficava todo contente se alguém lhe mandasse fazer uma panela — escarne­ceu Dilet, largando os cabelos do homem e deixando-o cair do banco.

O ferreiro estatelou-se no chão, e o fogo reluziu no sangue que entre­tanto se impregnara na mesa e que empapara a barba ao escorrer do lanho na sua garganta.

— Os homens normalmente temem aquilo que é feio e repug­nante, embora... — lembrou-se o bobo, levando o dedo a um lábio empolado por uma bolha branca. — Embora temam o meu antigo senhor, e ele seja um encanto para as senhoras.

Com um gesto teatral, Dilet virou-se para a forja, pondo nova­mente a máscara diante da cara queimada e olhando em redor de forma expressiva, como se a representar uma peça.

— Seja como for, a audiência não pode temer um bobo! — decla­rou, fazendo uma vênia, sempre com a máscara na cara. — A sua cara não deve causar asco, mas escárnio! Um bobo nunca pode parar de rir, ainda que a cabeça tenha sido usada como uma acha! Uma acha? Acha mesmo? Ha!

Divertido com o seu próprio trocadilho, Dilet pulou para cima da mesa de ferramentas, sem que uma delas sequer abanasse, coladas como estavam à madeira pelo sangue da família do ferreiro, que o bobo de seguida fitou revezadamente.

— Há que continuar a rir, não achai — perguntou à mãe, cujo corpete branco estava empapado de vermelho. — É claro que sim. A senhora está a rir, embora pareça ter arranjado os lábios com uma acha Ha! — gozou, empinando a cara da mulher com uma bofetada no queixo, que lho levantou, expondo-lhe a garganta cortada e o grotesco ricto na boca antes de esta cair também ela redonda no chão.

— O meu senhor vem aí! — proclamou Dilet ao erguer-se sobre a mesa, levando a cabeça e arqueando as costas para trás numa dra­mática postura com um braço estendido e o outro a manter-lhe a cara tapada com a máscara. — A minha alma está condenada ao eterno tormento quando eu morrer, um evento que Ele certamente fará os possíveis por apressar! Mas há que continuar a rir! Se não puder rir, mais vale matar-me já!

O bobo deu então uma pirueta em pleno ar, aterrando graciosa­mente entre o ferreiro e a mulher deste, após o qual fez nova vênia.

— Mas não, ainda há trabalho a fazer. Deixei o ninho da águia pelo postigo; fim mais inglório, ledo castigo! — declarou Dilet, cerrando um afetadamente indignado punho. — A águia merece uma última risada, alegre gargalhada, sufocante casquinada! A cortina não pode cair se a audiência não estiver a rir!

Exaltado, Dilet girou sobre si próprio e deu um pontapé na perna do banco de um dos filhos mortos do ferreiro, que caiu sobre o irmão ao seu lado, derrubando-o e ao terceiro antes de caírem os três numa pilha esfacelada.

— Sim, vão rolar no chão de tanto rir! Oh, se vão! Que nem porcos antes da chacina! — disse, acenando aprovadoramente com a cabeça ao contemplar a sua obra, apercebendo-se então contudo de algo. — Mas que pode um só bobo fazer, se todo um palácio quer com ele correr? Aos amigos deve recorrer!

Dito isto, Dilet saltitou para trás da forja, escondendo-se entre a lenha empilhada e a pedra numa posição acocorada, e o branco dos seus olhos viu-se nas aberturas da máscara enquanto olhava assustado em redor.

— Poucos estariam dispostos a ajudar um bobo, mas existe um que me pode Compreender. Escorraçado, renegado, debaixo da terra teve de se esconder — rimou, falando mais baixo, como se tivesse medo de que alguém o ouvisse. — Distante companheiro de armas, alma incompreendida; ao desobedecer ao nosso senhor, arriscou ele também a vida.

O lume da forja fazia bizarros jogos de luz e sombra com os cadáveres no chão, e Dilet olhou fascinado para eles, como só então se tivesse dado conta do seu valor artístico. Sempre com uma mão a manter a máscara diante da face, rastejou então para perto deles para os observar mais de perto, inclinando a cabeça de um lado para outro como um cão curioso.

— Dormi, boa gente, ao menos morreram a rir. Só é pena que não vejam o que ainda está para vir. Ninguém o deverá perder, nem que a noite decorra insone. Pois o próximo a entrar em cena será o meu amigo...

Sorrindo de forma macabra, Dilet desviou ligeiramente a máscara para o lado, fitando o vazio com malevolência e enrugando a parcial­mente exposta cara avermelhada e chagada.

— Othragon.

 

Aewyre e Lhiannah estavam enleados um no outro na cama, dei­tados de lado e parcialmente cobertos por lençóis úmidos e enru­gados. O jovem abraçava a arinnir por trás, cingindo-lhe a cintura com os braços e afagando-lhe a anca esquerda com o polegar, enquanto esta tinha a cabeça deitada sobre um braço e agarrava com a mão livre os de Aewyre. O guerreiro tinha a cabeça deitada sobre os cabelos louros espalhados pela almofada, inalando fundo enquanto respirava para encher os pulmões com o cheiro a azeite e folhas de bétula que deles emanava. Embora de olhos fechados, estavam ambos acordados, e como não tinham chegado a puxar as cortinas e a fechar convenien­temente a janela, esta manava sobre eles a luz baça de uma manhã de fim de Inverno.

Logo ao despertar, Aewyre ficara prontamente ciente do chama­mento da senda da lâmina, à qual se esquivara ao permitir-se uma noite a sós com Lhiannah. Sentia-se culpado até certo ponto por se ter desviado, ainda que temporariamente, do caminho que decidira tomar para poder vingar-se de Seltor. Sabia que era importante ater-se a ele, manter uma determinação inflexível de seguir sempre em frente, sem permitir que nada o distraísse, e que por uma noite falhara em tal propósito. Não só isso, sabia que do outro lado da porta o aguardava um mundo de problemas, bem como um inevitável confronto com o seu irmão, e que teria de tomar decisões importantes a respeito de assuntos nos quais teria preferido não se envolver. Sa­bia que muito poderia depender da forma como gerisse a inesperada situação, e que estava apenas a retardar o mais possível o início do dia, e não podia deixar de se sentir culpado por isso. Por outro lado, fora o próprio Allumno que em Aemer-Anoth lhe dissera que se devia agarrar ao que quer que sentia por Lhiannah, que isso poderia ser importante para ele e para o objetivo a que se propunha. Sempre crítico, o mago deixara-o então confuso com as suas palavras, e ainda hoje o o guerreiro não sabia bem a que ele se referia, mas o que era certo era que servia como uma desculpa conveniente para o seu momento de fraqueza na noite anterior.

Porém, começava a ser tempo de acordar, no mínimo, e as pálpe­bras de Aewyre abriram-se preguiçosamente a espaços, piscando enquanto se adaptavam à luz. Este mexeu os ombros, achegando-se mais ainda das costas de Lhiannah, que gemeu de forma sonolenta ao sentir o nariz do guerreiro roçar-lhe o pescoço. Os lençóis roçagaram uns nos outros enquanto as pernas de ambos se mexiam, estirando-se repentinamente quando as de Lhiannah se esticaram juntas, o que ocasionou um grunhido surpreso de Aewyre.

— Nem penses — disse a princesa, aconchegando-se ao seu pró­prio braço, ainda de olhos fechados. — Deixaste-me com um galo na última. Nem me apetece acordar, que sei que ele me vai doer.

— Bom dia — cumprimentou Aewyre com tom afetadamente ofendido, como se as suas intenções tivessem sido mal interpretadas.

— Bom dia — retribuiu a arinnir com um sorriso sabido, ainda sem abrir os olhos.

Aewyre ficou então simplesmente a admirar os contornos do cor­po de Lhiannah, continuando a afagar-lhe a anca com o polegar e pegando-lhe na mão com a sua outra. Os dois entrelaçaram os dedos e apertaram-nos com a força de quem se recusava a ser separado, inde­pendentemente do que pudesse acontecer.

— Que giro. Tens mãos grandes — comentou o guerreiro, virando a mão de Lhiannah de um lado para outro, admirando os longos dedos elegantes da princesa entrelaçados nos seus.

— Olha, obrigada, pela parte que me toca — respondeu Lhiannah, sarcástica e inibida pelos calos e cicatrizes que sabia neles ter.

— A sério. Parece a Manápula de Karasthan — riu o jovem gutu­ralmente, sorrindo ao ouvido de Lhiannah, que se descolou dele com um gemido ofendido, enterrando a cara na almofada.

— Mas não te preocupes — assegurou-lhe Aewyre com um tom maroto —, vais precisar dela.

Lhiannah desenterrou a cara da almofada e olhou para Aewyre por cima do ombro, de sobrancelhas franzidas e com a boca num entrea­berto meio-sorriso.

— Olha que convencido — disse. — Deves achar que é assim tão grande...

O sorriso de Aewyre desvaneceu-se, e as suas sobrancelhas assumi­ram um ângulo sério. Lhiannah fitou-o nos olhos, e então mordeu a ponta da língua, encolhendo o ombro diante da cara num gesto ame­ninado. Logo em seguida, o jovem lançou-se sobre ela, originando um guincho de surpresa da parte da princesa, que se debateu debaixo do peso de Aewyre enquanto este lhe beliscava a carne entre as costelas e a bacia, e lhe enfiava os dedos entre as primeiras. Lhiannah riu, batendo com as pernas e contorcendo-se com as cócegas, mas Aewyre não lhe deu tré­guas, ignorando as suas declarações de derrota por entre gargalhadas. Parou apenas quando as atividades da passada noite lhe cobraram o que lhes devia, privando-o de forças e fazendo com que quase caísse sobre Lhiannah. A arinnir bofou com o seu peso, e empurrou ligeiramente os ombros de Aewyre de olhos fechados e sobrancelhas franzidas.

— Uf — arquejou a meio de risos. — Pareces mais magro, mas continuas pesadão.

— A quem o dizes — suspirou o guerreiro, fechando um olho. — Acho que não vou conseguir andar esta manhã.

— Pudera — disse Lhiannah com um risinho cúmplice, passando o indicador pelo lábio inferior e queixo barbudo de Aewyre, que retri­buiu com os seus, passando-os pelas têmporas da arinnir.

Os dois ficaram simplesmente a olhar um para o outro por momen­tos, apreciando cada detalhe que mudara nas caras que havia meio ano não viam, e que sempre tinham acompanhado os pensamentos de ambos.

— Eu... — disse Aewyre, parecendo lembrar-se de algo. — Ontem não cheguei a... isto é, esqueci-me de... a pôr.

Ao ver a sobrancelha interrogadoramente franzida de Lhiannah, o guerreiro olhou para baixo para dar a entender a que se referia, pare­cendo sentir-se culpado.

— Ah... isso? — respondeu Lhiannah, surpreendentemente despreo­cupada. — Sim, eu... pois, nenhum de nós se lembrou. Deixa estar.

Admirado, Aewyre arqueou as sobrancelhas, mas a princesa limi­tou-se a abanar a cabeça, como se não tivesse importância.

— Tem certeza? — insistiu. — Foi mais que uma vez. O melhor é eu dizer à Smerunda para...

— Não, deixa estar — disse Lhiannah com um tranqüilo gesto da mão. — Eu falo com ela mais tarde. Tu... vais ter assuntos mais importantes a discutir.

O guerreiro continuou a não parecer convencido, mesmo quando Lhiannah lhe abraçou o pescoço e o usou para se puxar de encontro a ele.

— Na nossa primeira vez parecias mais preocupada com isso... — lembrou, recordando-se da violenta reação de Lhiannah ao acordar a seu lado na estalagem de Vau do Caar após uma noite ébria.

— Isso era diferente — afirmou Lhiannah, beijando de leve os lábios de Aewyre.

— Não vejo como.

Suspirando, Lhiannah largou o guerreiro e deixou-se cair sobre a al­mofada de cabeça para o lado, passando as mãos pelo cabelo despenteado.

— Oh, eu falo com a Smerunda, está bem?

— Pronto, pronto. Esqueci-me e fiquei preocupado, está bem? Não sei se os jardins deram as plantas certas este ano, mas a Sme­runda cultiva as suas. É sempre a ela que as raparigas vão, quando...

— Podemos mudar de assunto? — interrompeu Lhiannah, esten­dendo os braços ao longo do corpo e revirando os olhos.

— Pronto, está bem. Não se fala mais nisso — acedeu Aewyre, deitando-se ao lado de Lhiannah, demasiado cansado dos braços para neles se apoiar sobre ela. — De qualquer forma, acho que nem tinha forças para te agüentar, se te chateasses como da outra vez — reco­nheceu, passando a mão pela cara.

Lhiannah não respondeu, e os dois ficaram a olhar para o teto que, ao contrário da esmagadora maioria dos aposentos de Allahn Anroth, nem um mísero fresco tinha. A princesa virou a cabeça para Aewyre e, apercebendo-se de que se formara uma finíssima camada de gelo entre ambos, enlaçou-lhe a perna com a sua e pousou-lhe a mão sobre o peito, coçando os esparsos pêlos com as unhas.

— Pensaste mesmo em mim todas as noites? — perguntou, er­guendo as sobrancelhas quando Aewyre virou a cara para a mirar.

— Todas — disse este com toda a sinceridade, olhando contudo depois para cima. — Exceto talvez das vezes em que eu e o Kror dormimos juntos... au!

— Parvo — disse Lhiannah, puxando-lhe um dos pêlos do peito. — Então e essa Layaline, de quem tanto já ouvi falar?

— Tanto? — admirou-se Aewyre. — Mencionei o nome dela uma vez...

— Quando é que a vou conhecer?

— Hoje ainda. Mas para isso, teríamos de sair deste quarto, e não me apetece já... — disse o guerreiro, inclinando a cara para Lhiannah, que aproximou a sua para que se pudessem beijar.

— Não me estás... a esconder... nada? — perguntou a princesa entre ósculos.

— Ouvi dizer que os ciúmes escurecem o cabelo — disse Aewyre, rolando lentamente sobre um ombro para cima de Lhiannah en­quanto a beijava.

— Não fales do meu cabelo — disse a arinnir, trincando-lhe o lábio em represália, mas Aewyre não se deteve, e os seus beijos tor­naram-se mais profundos à medida que a sua mão deslizava pela curva da anca de Lhiannah, onde foi contudo agarrada ao começar a descer-lhe pela coxa. — Então e o não conseguires andar esta manhã?

— Não é andar que eu quero — meio arfou, meio disse Aewyre, insistente, tentando esmagar as objeções de Lhiannah com o seu peso. Esta correspondeu às cada vez mais fortes carícias do guerreiro, mas quando se tornaram demasiado insistentes, passou a mão por entre as caras de ambos e afastou a de Aewyre, mantendo-lhe a boca tapada com os dedos.

— Tenho uma idéia melhor — disse, rindo quando o guerreiro lhe começou a beijar as pontas dos dedos. — Essa barba? Pica. Vamos rapá-la.

Aewyre interrompeu o que estava a fazer, o seu corpo hirto devido aos antecipantes músculos retesados, e Lhiannah aproveitou para sorrir e esgueirar-se de debaixo dele, saindo da cama antes que o jovem percebesse sequer o que acontecera. Provocadora, espreguiçou-se de forma lânguida contra a janela, esticando os braços e ficando com a elegante silhueta delineada pela luz matinal. Olhou de seguida para um perplexo Aewyre por cima do ombro com um sorriso travesso, e foi então buscar a sua túnica vermelha ao chão. O guerreiro deixou-se estar na cama, olhando com ar desalentado para a estatuária nudez de Lhiannah antes de esta a cobrir com a túnica, sinalizando-lhe de seguida que se levantasse.

— Anda. Já é hora de saíres da cama — disse a arinnir, dirigindo-se ao lavatório. — Vamos pôr-te apresentável.

Aewyre deixou-se estar deitado uns momentos mais, olhando para Lhiannah de testa franzida e boca entreaberta, mas como não lhe ocor­reram palavras que pudessem expressar a sua confusão, preferiu evitar balbuciar e levantou-se simplesmente, espreguiçando-se ele também. Lhiannah olhou aprovadoramente para a sua nudez enquanto pre­parava os instrumentos de barbear e deixava água correr para a bacia do lavatório, mas virou a cara antes que Aewyre pudesse pensar que mudara de idéias.

— Traz o tamborete — disse, indicando de costas a peça de mobília com uma navalha.

Abanando a cabeça, o guerreiro vestiu as calças e assim fez, recor­dando-se das palavras de Worick na Cinta, quando tinham acabado de sair das Estepes de Karatai. O thuragar explicara-lhe que Lhiannah desde pequena que gostava de fazer a barba do pai, e que o ato se tornara um hábito que aparentemente lhe fizera falta desde que partira de Vaul-Syrith.

— Sabes que não é do meu interesse ficar apresentável — explicou Aewyre. — A barba e o cabelo ajudam à impressão de que não estou cá para brincadeiras...

— Disparate. Como se alguma vez fosses precisar de uma barba para te impores — contrapôs a princesa, verificando o gume da nava­lha. — Vá, senta-te. Isto não demora.

Resmungando, Aewyre trouxe o tamborete e deixou-se cair de nádegas sobre ele com um suspiro, batendo com as mãos nas coxas com força. Lhiannah pôs-lhe uma toalha aos ombros, penteou-lhe o cabelo para trás das orelhas com os dedos e umedeceu-lhe um pouco a barba.

— Se calhar devia cortar o cabelo também... — sugeriu, franzindo os lábios para o lado enquanto esticava uma das nesgas negras do guerreiro, que contudo abanou a cabeça.

— Deixa ao menos as pessoas habituarem-se à minha cara antes de ma transfigurares — pediu, pegando no pequeno espelho baço sobre o lavatório e fitando Lhiannah através dele.

— Como? — perguntou a arinnir, virando a cara para a esquerda para escutar com o ouvido bom.

— Deixa que se habituem à minha cara primeiro. Já me tomam por usurpador. Se me ponho a mudar de aparências de um dia para outro, ainda me chamam espião.

— Pronto, só a barba, então — conformou-se Lhiannah, alisando a barba perto da orelha de Aewyre. — Agora fica quieto, senão ainda arranjas outra cicatriz.

— Elas vêem-se debaixo desse barbalhame todo? — indagou o guerreiro, algo surpreso. Cerca de um ano atrás, a sua luta com a hara­han Hazabel deixara-o marcado por quatro riscos na face, as cicatrizes riscadas pelas afiadíssimas unhas da mulher.

— Vêem-se umas falhas, sim. Parece que a barba não te cresce em certos sítios, e fica-te pior ainda... — comentou Lhiannah, começando a rapar os pêlos com um ruído roçagante.

— Não gostaste mesmo nada do comentário acerca do teu cabelo, pois não?

— Não. E quem tem a navalha sou eu.

— Mas a minha espada é maior.

— Não gostaste mesmo nada do comentário acerca do tamanho, pois não? — retorquiu a arinnir, sorrindo com ar concentrado.

— Não é boa idéia deixar um homem pendurado e depois questio­nar a virilidade dele... — avisou Aewyre, baixando o espelho e olhando para cima. — Olha que ainda te amarro aos postes da cama, com ou sem barba.

— Hum — respondeu Lhiannah, ficando-se por um provocador gemido agradado. — Prefiro sem barba, nesse caso.

Aewyre riu guturalmente, e deixou a arinnir fazer o seu trabalho. Lhiannah não perdera o jeito entretanto, e os seus gestos eram precisos, raspando a barba negra da pele com um mínimo de desconforto.

— A situação não está muito boa, pois não? — perguntou a prin­cesa enquanto erguia o queixo de Aewyre com o dedo para o rapar.

— Não — admitiu o guerreiro, tentando não mexer demasiado a pele da cara. — O teu pai declarou-nos guerra, e se as notícias se espalha­rem, muito provavelmente teremos problemas com Lennhau também.

— Que idiotice. O Flagelo ameaça-nos a todos, e Nolwyn ainda entra em guerra civil. Este imbecil do teu irmão...

— Lhiannah... — advertiu Aewyre.

— O que foi? Tu viste e ouviste o que ele fez. É por culpa dele que...

— O Aereth é meu irmão. A culpa foi do maldito bobo.

— Ah, foi? Olha que não foi o bobo que me mandou prender, nem foi ele quem ameaçou partir-me as pernas, nem...

— Podemos mudar de assunto agora também? — interrompeu Aewyre, impaciente. Tinha o espelho baixo, mas sentiu que Lhiannah olhou indignadamente em frente, como se o pudesse ver. Esta nada disse, contudo, e após um frio momento retomou a barbeação, não mais tão delicada.

Aewyre também se manteve em silêncio, e os dois assim ficaram até Lhiannah terminar, após o qual espalhou um pouco de loção de camomila e lavanda nas mãos, esfregando-as e passando-as pela esca­nhoada cara do guerreiro.

— Pronto — disse a arinnir com certa frieza, tirando a toalha sal­picada de preto dos ombros de Aewyre e preparando-se para se afastar, mas o guerreiro pegou-lhe pela mão, virou-se de lado no tamborete e puxou-a para o seu colo, refreando-a com um abraço.

— Lhiannah... — disse, apertando com mais força quando esta revirou os olhos. — Eu sei... contaram-me que o Aereth fez muitas coisas más, a ti e a outros. Mas ainda há muita coisa por apurar, muita coisa que eu não posso acreditar que ele tenha feito por vontade pró­pria. Tu viste-o no jantar — recordou, sacudindo-a ligeiramente. — Ele ficou tão surpreso pelas ações do bobo como nós.

— Quanto ao que aconteceu na festa, não sei — reconheceu Lhian­nah, fitando Aewyre com ar sério —, mas sei o que me aconteceu a mim, por ordens do teu irmão. A mim e ao Worick.

— Não sabes se foi ele. O bobo...

— O bobo não o estava a controlar, Aewyre. As decisões foram dele.

— Lhiannah — instou o guerreiro, pegando-lhe pela cara. — A minha mãe está morta. O meu pai morreu. O Aereth é a única família que me resta.

As palavras deixaram a princesa desarmada, e embora esta não parecesse particularmente convencida, acabou por concordar de olhos fechados e com um suspiro.

— Mas eu também preciso de ti — continuou Aewyre, falando quase num sussurro. — Ul-Thoryn é agora da minha responsabili­dade, posso vir a entrar em guerra com duas cidades-estado, tenho as forças d’O Flagelo contra mim, e a minha única esperança de o poder derrotar passa por um drahreg que me odeia, e que agora não vai fazer o mínimo esforço para me ajudar. Preciso de ti ao meu lado, Lhiannah. Só os deuses sabem como eu preciso.

Os dois fitaram-se mutuamente, e o gelo que se começara a formar nas feições da arinnir desvaneceu-se, dando lugar a uma expressão afetuosa ao ver a dor que endurecera os anteriormente tão joviais olhos de Aewyre. Por breves momentos, o frio e implacável guerreiro de coração empedernido desapareceu, dando lugar a um rapaz assustado que muito perdera, e que se arriscava a perder mais ainda. Comovida, Lhiannah acariciou o lado da cara de Aewyre — que lhe agarrou na mão, apertando-a com força — e puxou-a delicadamente de encon­tro ao seu peito, afagando-lhe os cabelos enquanto lhe abraçava a cabeça.

— Na verdade, os deuses não parecem saber grande coisa nos últi­mos tempos — espantou-os uma aflautada voz vinda da janela. — Ainda não há três dias, estava um grupo de pessoas à porta da casa de um abade de Joral, gritando que as suas preces os tinham feito perder imenso dinheiro.

Antes mesmo de a voz parar de falar, já Aewyre e Lhiannah se tinham virado estremunhados na direção dela, por pouco não caindo ambos do tamborete. Lhiannah saltara mesmo do colo do guerreiro e batera desajeitadamente com o ombro na parede, espavorida por uma inesperada reminiscência do seu cativeiro no Ninho, e das visitas de Hepascar, o atormentador que por pouco não lhe quebrara o espí­rito. Porém, quem se encontrava aninhado à janela não era o maldito haghral, mas aquilo que parecia uma andrajosa criança com uma imunda coifa branca. A voz era no entanto inconfundível.

— Taislin? — disse a princesa em incrédula surdina, que Aewyre ecoou.

— Não deixem que eu vos interrompa — disse o burrik, descendo agilmente da janela e esfregando as mãos sujas e assadas. — Este palá­cio tem janelas que nunca mais acabam... passei ontem o dia inteiro a espreitar por elas, e só agora vos encontro. Sujei-me todo quando fui comer uns ovos de pombos, e ia sendo apanhado quando foram fechar o pombal...

— Oh, Taislin! — vociferou Lhiannah, correndo a encontro do burrik e ajoelhando-se para abraçá-lo com uma força tal, que este foi de encontro à parede.

— Uff! — sufocou Taislin de olhos arregalados. — Olha que vais sujar a tua túnica, estou todo borrado...

Aewyre aproximou-se ele também, a sua cara rachada por um crescente sorriso por ver por fim o seu pequeno amigo, dando-se apenas então conta da falta que a sua atitude despreocupada lhe fizera.

— Então, campeão? — disse, ajoelhando-se ele também e cobrin­do Lhiannah e o burrik com os seus braços. — Andavas por aí e não dizias nada? Estávamos preocupados contigo, seu estouvado.

— Então e que queriam que eu fizesse? — redarguiu Taislin assim que Lhiannah lhe permitiu respirar. — Esta aqui e o Worick provavelmente nem viram as instruções detalhadas que eu lhes dei­xei no fundo da latrina, ou então se as viram, fizeram porcaria e foram apanhados. Eu sabia lá o que um guarda me faria se me visse a andar por aí...

— Oh, seu... — riu Lhiannah com lágrimas nos olhos, esfregando-as com as costas do polegar e fungando enquanto falava. — Sim, o teu plano era genial. Nós é que não o soubemos seguir. Anda cá!

O renovado abraço fez com que Taislin emitisse um grunhido sufo­cado e tornasse a esbugalhar os olhos. Emagrecera bastante, mas ao contrário de em Aemer-Anoth, os seus orbes felinos tinham recupe­rado o brilho maroto que em grande parte os abandonara desde a morte de Babaki. Apesar da alegria propiciada pela sua inesperada aparição, era o próprio burrik o mais animado entre os três que se encontravam ali presentes, o único que ainda se comportava como se estivesse à espera da próxima aventura.

— Então e tu, Aewyre? Chegaste há muito tempo? Também nos podias ter avisado. Por acaso não estão os dois presos agora, não? Senão, ala convosco para as latrinas...

— Não, não — disse Aewyre, abanando a cabeça. — Já está tudo controlado no palácio. Ainda estamos a tentar perceber o que aconte­ceu ao certo, mas de momento estamos em segurança.

— Uf, ainda bem. A desculpa dos ratos já começava a ser um bocado forçada — disse o burrik, pousando as pequenas mãos nos bra­ços de Lhiannah. — Mas foi boa, hã? Andei à vontade por aí, nin­guém desconfiou de mim, e agora conheço as entranhas deste palácio como a palma da minha mão, embora isso de pouco sirva, de tão suja que ela está...

Lhiannah riu e tornou a abraçar Taislin, desta feita com mais con­tenção, mas as palavras do burrik preocuparam Aewyre quando este refletiu um pouco nelas.

— Espera aí — pediu, separando os dois. — Tu andaste mesmo por aí à vontade? Ninguém te vigiava?

— Hum-hum — respondeu Taislin, acenando com a deveras satis­feita cabeça. — Quer dizer, uma vez por outra fui acompanhado por um camareiro sorumbático, sobretudo quando andei pelos aposentos mais reservados. Mas também, quem desconfia de uma criança à cata de ratos?

O piscar de olho de burrik não convenceu Aewyre, cuja alegria esmoreceu ao começar a ponderar as implicações da presente situação.

— Isso é inadmissível — disse, erguendo-se, deixando os braços cair para os lados e batendo com as mãos nas ancas. Lhiannah e Tais­lin ficaram surpresos com a sua reação, mas o jovem simplesmente virou-lhes as costas e deu uns passos pelo quarto. — Já é mau que um haghral tenha andado a passear pelo palácio, e que o filho da puta do bobo tenha cá vivido sem que ninguém dele desconfiasse, mas en­fim, isso ainda se pode aceitar. Ninguém fazia idéia que isso poderia acontecer...

— Eu... — titubeou o burrik. — Bem, foi através da guilda dos rateiros...

— Mas deixarem alguém andar assim pelo palácio, ao ponto de conseguires organizar uma fuga? — interpelou Aewyre. — Pela espada cruenta de Gilgethan, eu tenho todas as forças de Asmodeon viradas contra mim, e os guardas... os meus guardas deixam desconhe­cidos passearem-se pelo palácio sem supervisão?

— Aewyre, a culpa não foi... — tentou Lhiannah refreá-lo, de mãos nos ombros de Taislin.

— Já é mau uma harahan poder entrar por qualquer janela — con­tinuou o guerreiro, apontando para a via de entrada de Taislin, cada vez mais exaltado. — Ou que uma maga qualquer possa controlar alguém com um olho tetro, como o fez contigo, Lhiannah. Lembras-te?

A arinnir lembrava-se de fato, mas Aewyre nem lhe deu tempo para responder.

— Porra para isto, não posso acreditar. As portas de Allahn Anroth estão mais abertas que as pernas de uma acólita de Assana! Fossos dos azigoth, como posso eu impedir que as notícias saiam do palácio, se até alguém disfarçado de rateiro entra aqui sem mais nem menos? Como posso eu dormir descansado, se o maldito bobo pode, sei lá, aparecer disfarçado de caudatário?

— Aewyre! — interveio Lhiannah com admirada firmeza. — As coisas vão mudar. Tu próprio te encarregaste disso.

O guerreiro limitou-se a bufar, beliscando a cana do nariz com uma mão na anca. Taislin olhava simplesmente com grandes olhos perple­xos, surpreso com a reação do seu amigo.

— Os guardas vão estar mais atentos agora. Manda-os andarem sempre aos pares, por exemplo. Diz aos serventes que ponham velas em cada janela durante a noite, se estás mesmo preocupado que enviem harahan contra ti...

— Eu fico de olho em ti, Aewyre — disse Taislin, baixinho. — Não deixo que nada te aconteça, nem à Lhiannah. Ao Worick se calhar ainda deixo que lhe aconteça alguma coisa pequena, mas nada de muito grave...

Aewyre soltou uma involuntária fungadela divertida e deixou a cabeça descair, abanando-a com as mãos nas ancas antes de a erguer novamente para olhar para o burrik.

— Tu és incrível — sorriu, fazendo então ademanes convidativos com a mão. — Anda cá.

Taislin aquiesceu, incerto, mas, assim que se aproximou, foi alçado no ar pelos fortes braços de Aewyre, que fizeram com que o abraço de Lhiannah parecesse uma carícia.

— Ainda bem que voltaste a ser como eras, campeão — disse ao pequeno ombro do burrik enquanto este grunhia de olhos arre­galados. — Nunca deixes de ser assim, que nós bem precisamos disso.

— Está... está bem... — sufocou o visado, esperneando, enquanto Lhiannah ria de braços cruzados. — Deixas-me respirar agora?

— Só se fores daqui para o banho — troçou o guerreiro, pon­tuando com um aperto adicional e pousando Taislin quando este concordou aflitivamente com a cabeça. — Cheiras a latrina e a pombo molhado.

— A culpa não é minha que sejam porcos aqui no palácio — escu­sou-se o burrik com ar ofendido, ajustando as suas roupas sujas. — Se limpassem os pombais mais vezes...

Aewyre tornou a rir de leve, e puxou a coifa do burrik até ao nariz deste, olhando para Lhiannah.

— Desculpem. Estes últimos meses foram... — suspirou, abanan­do de seguida a cabeça. — Mas não importa. Agora há muito trabalho a fazer, e fico feliz que os meus três amigos estejam comigo.

— Soubeste alguma coisa do Allumno? — lembrou-se Taislin, ajustando a coifa suja. — Ou do Quenestil e da Slayra? Não é bem a mesma coisa sem eles.

— Realmente, não — concordou Aewyre. — Mas não, não ouvi nada deles. O Quenestil e a Slayra provavelmente ainda estarão em Aemer-Anoth. O Allumno... só os deuses sabem por onde ele andará agora.

— Será que o bebê já nasceu? — questionou-se Taislin, virando-se para Lhiannah como se esta fosse uma autoridade na matéria. — Já lá vão uns bons meses...

— É capaz... — respondeu a princesa, encolhendo os ombros. — Só espero que esteja tudo bem com eles, e que os sirulianos não lhes tenham tirado o filho para o treinarem...

— Por falar em filho... — relembrou Aewyre, erguendo um indi­cador para Lhiannah de interrogadoras sobrancelhas arqueadas.

— Eu. Falo. Com ela — disse Lhiannah através de dentes cerrados e olhos esbugalhados.

— Falas com quem? — quis Taislin saber.

— Com a aia — despachou Aewyre o assunto, certo de que fizera valer o seu ponto de vista, indo de seguida pegar na sua camisa esten­dida no chão. — Agora vá, é melhor irmo-nos vestindo. Há muito que fazer.

Lhiannah e Taislin trocaram palavras entre si, mas estas passaram completamente despercebidas a Aewyre, que, ao exaltar-se, retomara inadvertidamente a senda da lâmina, ciente agora das dificuldades que o aguardavam. Conseguira por uma noite desligar a sua mente das preocupações que o perseguiam havia mais de meio ano, mas agora estas assomavam-se-lhe como uma torrente, alheando-o de tudo o resto. Porém, agora não mais estava sozinho. Não eram ele mais os seus seis companheiros, mas com Lhiannah, Worick e Taislin do seu lado, a sua tarefa já não parecia tão insuperável.

Aewyre não tinha ilusões: sabia que os dias de aventura tinham terminado, estava ciente de que era aos seus ombros que pesava a res­ponsabilidade de combater O Flagelo, e que ninguém a não ser ele próprio o poderia fazer. Ainda assim, não pôde deixar de se sentir mais confiante com os seus amigos ao seu lado.

 

Os Fiordes pareciam ter arrefecido, mas o mais certo era as baixas temperaturas deverem-se ao local onde Quenestil se encontrava: ani­nhado a poente de uma montanha e à borda de uma falésia borrifada pelas espumosas ondas do mar cor de aço que por ela entrava, formando uma desolada ria. Das encostas da montanha soprava um gélido terral, que se mesclava ao úmido vento do mar, resultando numa desagrada­velmente fria combinação. O céu estava alobadado e ameaçava mais neve, da qual ainda havia réstias aninhadas nas frestas e rochas em redor, mas a recente chuva limpara-a em grande parte, deixando apenas a escabrosa rocha negra a luzente descoberto, e um cheiro a pedra molhada no ar.

O eahan montara um austero acampamento debaixo do abrigo de um pedregulho, onde conseguira a custo fazer uma fogueira com a ma­deira à deriva que encontrara em redor. Nela assava um gorduroso naco daquela que parecia ser uma desmedida ave com patas pareci­das com as de um pato, maior que muitas águias que Quenestil vira, mas com um par de asas ridiculamente pequenas. O animal tinha um bico enorme, quase lhe chegara à bacia enquanto vivo, e apresentava lustrosas penas brancas e pretas, que o eahan entretanto depenara para fazer uso da penugem, essa sim útil. Não era trabalho que se fizesse bem com luvas, e Quenestil ficou com os dedos entorpecidos muito antes de chegar à penugem, que subseqüentemente empilhou entre a fogueira e a rocha para secá-la. Servir-lhe-ia para forrar as botas, que tinham passado por muito durante a sua caminhada nas montanhas, nas quais a pele de foca fora esfarrapada pela fragosa rocha vulcânica, e os inoportunos nevões por várias vezes o deixaram com pés molha­dos, obrigando-o a parar para que estes não gangrenassem.

A viagem fora mais complicada que o que esperara, e estava com um dia de atraso em relação à sua estimativa, o que o deixara deveras mal-disposto. Tinha os lábios gretados e feridos pelo frio, e entretinha-se a puxar a pele escamada com os dentes enquanto trabalhava, pas­sando de seguida a língua pelas feridas para sentir o sabor cóbreo do sangue. Por várias vezes deu consigo a praguejar em surdina enquanto trabalhava, fungando com ar incomodado e franzindo o também gre­tado nariz de narinas avermelhadas. Estava algo desabituado aos rigores do ermo, o que o irritava profundamente.

«Demasiadas semanas no mar, em cidades ou fortalezas, demasiados meses em estradas civilizadas», pensou para consigo, abanando a desapontada cabeça. Estava enferrujado, e sentia uma assustadora falta de sintonia com o meio que o rodeava, interpretando mal os sinais dos quais em tempos se dera conta a nível instintivo. Passara demasiado tempo no mundo dos humanos. E dos eahanoir.

Irritado, atirou a carcaça da ave para o chão e sacudiu as penas das mãos de dedos esbranquiçados, cruzando os braços e entalando-as nas axilas. Ficou nessa posição de pernas cruzadas, oscilando o torso para a frente e para trás enquanto esperava que o naco de carne assasse. As chamas eram fracas e fumarentas, pois a madeira estava úmida, e Quenestil arquejou impacientemente, irritado com toda a situação.

«Realmente, bem que posso trazer comigo as Vagas de Fogo, nem que seja para aquecer a porra das mãos.... »,ironizou, bufando de bochechas cheias e tornando a desopilar o nariz, embora interrompesse a funga­dela a meio ao ouvir um ruído atrás de si.

Os seus músculos contraíram-se como arames tensos, e o eahan rolou para o lado por cima do ombro, pegando no arco a meio do movimento e frechando-o antes de girá-lo na direção do barulho, cujo causador era um humano, que ergueu ambas as mãos ante a ameaça da seta.

— Quem vem lá? — exigiu o eahan saber antes mesmo de obser­var detalhadamente o intruso, falando com o tom abespinhado de quem sentia ter reagido de forma excessiva. Estava farto de ficar sobres­saltado de cada vez que outros se aproximavam sorrateiramente dele naquela terra, coisa que já acontecera por mais que uma vez, e sentiu-se novamente embaraçado por não ter ouvido mais cedo.

A indumentária do homem explicava em parte o sucedido, pois tal como Ihjseorn envergava uma cota de malha sobre as suas roupas e uma pele aos ombros, essa de lince, sendo que a cabeça do animal lhe servia de disforme fivela à cintura em vez de pender do ombro. Não tinha uma espada como o velho kahrkr, mas trazia ao cinto um facão maior ainda que o de Quenestil numa bainha que pendia hori­zontalmente, bem como duas machadas cruzadas na ilharga. De feições era bastante diferente de Ihjseorn, embora de idade semelhante: tinha a cara alongada e mais proporcionada, olhos azuis encovados debaixo de duas oblíquas orlas orbitais, nariz torto, uma cicatriz que lhe ia da maçã do rosto até ao lábio superior, e cabelo escanhoado cor de palha. De expressão não era particularmente amigável, e pareceu mais inco­modado pela reação de Quenestil do que pelo fato de estar a ser visado pela flecha de um arco recurvo.

— Paz. Sou Loevrik, o Lince. Baixa o arco.

Era também aparentemente mais peremptório e direto que Ihjseorn, o que até certo ponto agradou ao eahan, que tão farto de subterfúgios estava. O seu Hjrutmalv era correspondentemente mais ríspido e sucinto, mais fácil de compreender através da mímica que dos sons. Embora ainda atento, Quenestil baixou ligeiramente o arco, fitando atentamente o recém-chegado com os seus empedernidos olhos cinzentos, mas este parecia mais interessado no que estava a assar na fogueira, para a qual apontou.

— Apanhaste um skjagos — constatou com a típica informalidade dos wolhynos. — Dá para dois?

Fazer tal pergunta também já era um excesso de frontalidade, mas o shura ficou sem saber ao certo o que dizer, mantendo o arco baixo mas frechado, e o indivíduo pareceu tomar o seu silêncio como uma resposta afirmativa. Como tal, fez que sim com a cabeça e avançou para o abrigo de Quenestil, não parecendo minimamente preocupado com o fato de este estar armado, e acocorou-se ao lado do eahan sem sequer olhar para ele, mais interessado no cadáver da grande ave. Algo desconcertado, Quenestil acabou por enfiar a flecha na aljava e pou­sar o arco, retesando-se apenas novamente quando o homem enfiou a mão entre as peles, mas este apenas tirou delas aquilo que pareciam ser duas folhas de alface escuras e correentas, provavelmente líquenes, que faziam parte da dieta dos habitantes das zonas mais remotas da Wolhynia.

— Gordura. Tens? — perguntou Loevrik, só então olhando para o eahan, que viu refletido nos olhos dele um fogo que ardia por de­trás de uma fina barreira de gelo. A impressão era apenas reforçada pelas labaredas que realmente se refletiam nas íris azuis do homem, mas Quenestil notou algo mais nele, algo que não estivera tão patente em Ihjseorn. Os movimentos de Loevrik eram bruscos como os seus modos, e havia algo de forçado na sua postura relaxada, que traía uma tempestade interior à espera de ser solta.

— Eu... sim — acabou por responder, pegando numa tira de carne com uma grossa camada de gordura esbranquiçada, e entregando-a ao homem, que lha tirou da mão com um resmungo que tanto podia ser de agradecimento como de incômodo.

Quenestil não gostou, e levou mesmo a mão ao punho do facão quando o homem desembainhou o seu, mas este mal se deu conta e simplesmente pôs a sua arma sobre as fracas chamas da fogueira. Nem olhou para o eahan ao fazê-lo, e resmungou para consigo num pala­vrear ininteligível enquanto parecia esperar que a larga lâmina de gume único aquecesse.

— Então és tu que vais trazer as Vagas de Fogo? — perguntou Loevrik, olhando de escarnecedor relance para Quenestil. — A parte do cabelo, não pareces grande coisa.

Em vez de surpreso, Quenestil ficou irritado. Estava farto de ser puxado pelos chifres por pessoas que agiam como se soubessem sempre mais que ele, e recusou mostrar-se admirado por aquilo do qual o desconhecido aparentava estar inteirado.

— É? Pena. Eu até nem queria estar a fazer isto, mas os vossos escravos ruivos não vieram do mar, por isso parece que vão ter de se contentar comigo.

— Humpf — fungou o kahrkr, virando a lâmina sobre as laba­redas. — Lá temperamento tens, mas isso também qualquer lavadeira ruiva...

— Queres alguma coisa? — retribuiu Quenestil com uma inter­rupção sua, erguendo-se de punhos cerrados aos seus lados. — Não te conheço de lado nenhum, estou farto da tua laia e não estou nada bem-disposto. Diz o que tens a dizer, e põe-te a andar.

O homem não se levantou, mas embora permanecesse acocorado com a espada sobre a fogueira, houve ainda assim um momento de tensão quando os olhos de ambos se cruzaram novamente, desta vez rilhando uns nos outros como lâminas. Quenestil soube a nível instin­tivo não estar diante de um mero rufia ou vagabundo: o homem era claramente perigoso, e a tempestade que continha dentro de si amea­çava rebentar a qualquer instante.

— Mal-disposto? — depreciou o homem. — Depois de tudo o que te aconteceu, estás mal-disposto? Idiota.

Quenestil não podia acreditar no descaramento do homem, e ficou momentaneamente sem palavras e de incrédula boca aberta.

— Devias estar enfurecido. Possesso. Completamente ensandecido — disse Loevrik, pontuando o que dissera ao espetar o facão no meio da fogueira. — Devias ter disparado assim que me viste, espa­tifado a minha cabeça contra a rocha se eu ainda estivesse vivo, e pisar-me até eu parar de me mexer. Não basta trazeres a raiva contigo, tens de ser a própria raiva. Vagas já temos nós, desde sempre que as tivemos. É do maldito fogo que nós precisamos, mas como o podere­mos ter, se mesmo esta fogueira de madeira à deriva é mais quente que tu?

A inesperadamente sentida pergunta do homem deixou Quenestil com menos palavras ainda, e os dois ficaram a mirar-se até Loevrik decidir virar a cara, resmungando e abanando a cabeça enquanto tirava o seu facão da fogueira e via se já estava suficientemente quente.

— Tu... — disse o eahan, hesitante. — Conheces o Ihjseorn?

— Sim — respondeu o homem de má vontade, agora mais irritado que Quenestil. — Conheço esse velho sonhador. É um tolo que ainda acredita que as coisas simplesmente acontecem por si sós, sempre que vê algo que se pareça remotamente com as palavras ditas séculos atrás por velhas desdentadas.

— Então... — continuou o eahan, acocorando-se novamente ao dar-se conta do quão refrescante era para ele a prosaica atitude do kahrkr. — Não acreditas nas Vagas de Fogo?

— Acredito que, se encurralares uma raposa branca, ela ataca — disse Loevrik. — Acredito que o meu povo me exilou por medo, mas que o meu povo não é covarde. Acredito que um homem pode fazer a diferença. Só não acredito é que um estrangeiro meio perdido possa levar uma gente à guerra, se ainda por cima estiver em conflito con­sigo próprio.

Quenestil nada disse, ponderando a verdade das palavras do kahrkr. Este, vendo que o facão já estava suficientemente quente, não elaborou o assunto, passando em vez disso o pedaço de gordura sobre o lado da lâmina, sobre a qual começou a estrugir com um pouco ape­lativo odor.

— É melhor tirar a carne — disse, como se tivessem estado a falar de comida o tempo todo. — Ainda queima.

Sem responder, Quenestil assim fez, tirando o naco da fogueira, e Loevrik meteu os dois estranhos líquenes sobre a lâmina, usando-a como uma frigideira improvisada. O eahan preparou a carne para os dois, mais preocupado com o que o homem tinha para lhe dizer que com o fato de partilhar o jantar com um desconhecido. Loevrik murmurou um pouco mais para consigo enquanto inclinava o facão de um lado para outro, acrescentando um e outro pedaço de gordura à medida que esta ia escorrendo para a fogueira, onde chiava.

— Então e como pode um homem fazer a diferença? — indagou Quenestil num misto de curiosidade e sarcasmo.

— Tem de perceber a Mãe...

— Tu e o Ihjseorn parecem perceber a Mãe, seja lá o que isso for, mas não vos vejo a fazer grande coisa...

— Tem de perceber a Mãe, e corresponder minimamente às des­crições feitas pelas velhas desdentadas — continuou Loevrik, igno­rando a interrupção.

— Muito bem. E que me falta perceber, nesse caso? — inquiriu o eahan.

O kahrkr fungou desdenhosamente, arreganhou o nariz e cuspiu para o lado enquanto dava umas últimas voltas aos líquenes fritos.

— És um rotden — respondeu, tocando na orelha —, por isso deves achar que a Mãe representa só a rena a amamentar, a brisa fresca a soprar, e as flores a desabrochar, não?

— O espírito ao qual me uni é o do volverino — defendeu-se o shura. — Não me concentro muito no aspecto nutridor da Mãe...

— Tolo — rosnou Loevrik, oferecendo um líquen frito a Que­nestil. — Deves concentrar-te em todos os aspectos da Mãe, indepen­dentemente do animal ao qual te tenhas unido. Nunca deves sentir dúvidas. A Mãe não é como os deuses. Quem acredita nela não escreve livros que te dizem o que deves fazer, e podes estar certo de que não te diz que deves carpir como uma mulher quando se alivia o sofri­mento de um escravo às portas da morte.

Ihjseorn falara evidentemente com Loevrik; não havia outra maneira de este saber do sucedido com Engiv, o escravo que fora morto pelo kahrkr por alegada misericórdia, após o combate durante a cerimônia skrimmen.

— As manadas podem deixar os velhos e os feridos para trás, mas quem tem forma de ajudá-los deve...

— Tolo! — reiterou o kahrkr, trincando com força o ainda quente líquen frito e sacudindo a cabeça com um grunhido de raiva e dor, que lhe ruborizou as faces. Quenestil arqueou as sobrancelhas ante tão estranha mostra de exasperação. — O Urso não te explicou nada? Não viste a kuvamora? Uma fêmea tanto dá a vida pelas crias, como as come para sobreviver. O céu tanto nutre as árvores com chuva, como as fende e queima com relâmpagos. Cortas um pedaço da carne?

Talvez não o fizesse de propósito, mas a forma como Loevrik ia alternando de tom e assunto era desconcertante para Quenestil, que uma vez mais ficou a olhar para o kahrkr antes de fazer o que ele pedira. Cortou o naco em dois pedaços equânimes e ofereceu um ao seu inesperado comensal, que o aceitou sem agradecer. Os dois masti­garam então em silêncio; a carne sabia a peixe, e o líquen frito sabia a pouco mais que gordura, mas na agreste Wolhynia tanto um como o outro eram uma iguaria. O eahan ficou a remoer as palavras do humano enquanto mastigava, olhando ocasionalmente para este sem que o gesto fosse retribuído, pois Loevrik parecia desgostar do con­tato visual. Ihjseorn dissera-lhe de fato algo de semelhante a res­peito da Mãe, após terem presenciado o sacrifício de uma criança às mãos da kuvamora, mas Quenestil tinha dificuldade em crer que tal pudesse ser verdade. Ia simplesmente contra quase tudo em que sem­pre acreditara, ia contra a sua própria natureza.

Entretanto, começou a chover; pingos grossos que mais lembra­vam flocos de neve liqüefeitos. Loevrik resmungava enquanto comia, parecendo encontrar um bom motivo para tal em tudo o que via, e falava de forma demasiado entaramelada para Quenestil perceber se se referia ou não a ele. Ao contrário de Ihjseorn, porém, parecia menos interessado em que o eahan percebesse o que ele queria dizer, do que em saber que cumprira a sua obrigação, fosse ela qual fosse. Provavelmente teria os seus próprios desígnios, tal como todos os habitantes do ninho de tramóias que aparentemente eram os Fiordes dos Piratas.

«É impressionante», pensou. «Raça mais mutuamente destrutiva, só mesmo os drahregs.»

— Vais para Eihroin — afirmou mais que perguntou Loevrik, abrindo o seu cantil.

— Sim. O que me espera lá? — tentou o shura saber, pois Ihjseorn fora particularmente vago, e Quenestil não fazia idéia de com que se iria deparar.

— A verdade.

Quenestil suspirou, exasperado.

— A verdade acerca de quê? A verdade de quem?

— Para a Mãe não existe só uma verdade. Vocês, os rotden, é que sempre viram apenas uma — resmungou o wolhyno, bebendo um trago do seu cantil, que não partilhou. — Vêem o mundo como se fosse sempre Primavera, esquecem-se de que também existe o Inverno e preferem esconder-se como os ursos quando ele vem.

Quenestil preparava-se para contestar as suas palavras, mas nenhu­ma lhe saiu da boca quando a abriu, pois lembrou-se das últimas vezes que se sujeitara à avaliação da Mãe. Da última vez, esta não mani­festara de forma alguma a sua opinião, o que, à luz do que Loevrik dizia, significava que lhe era perfeitamente indiferente qual o cami­nho que o shura escolheria. Da penúltima vez que o fizera, em Vau do Caar, pouco tempo depois das suas aventuras em Alyun, a Mãe também o surpreendera ao aparentemente aprovar das suas ações, embora o próprio Quenestil então estivesse ciente de que tomara parte numa chacina indiscriminada, na qual fora um ativo participante. Na altura fizera-lhe uma certa confusão, pois embora os ditames da Mãe que lhe tinham sido ensinados não listassem a violência e a morte como algo de proibido para os seus servos, sempre tivera a impressão de que, caso em excesso, tal apenas os deixaria mais próximos de aber­rações como os drahregs. Um dos seus mentores, um druida cinzento humano, nunca confirmara nem desmentira tais opiniões, mas o seu subsequente encontro com o druida negro dos pântanos de Mooren­glade fora outra ocasião na qual os preceitos do shura foram confron­tados por uma fonte inesperada. Na altura nem se questionara como era possível que um druida continuasse a deter os poderes concedi­dos pela Mãe se, tal como então julgara, este ia contra tudo o que Ela representava.

Agora, porém, após ver o ritual da kuvamora, após ouvir as palavras de Ihjseorn e Loevrik, e após se ter por tantas vezes admirado com os seus rancorosos sentimentos de vingança que nutria para com toda uma nação...

— Porquê eu? — perguntou, arrependendo-se prontamente do seu tom quase plangente.

— Se perguntas isso, então não podes ser quem o Ihjseorn pensa que és — sentenciou Loevrik, falando de boca cheia. — Eihroin vai consumir-te, comer-te vivo. Queimar-te. Se puseres os pés na ilha com esses pensamentos na cabeça, não sobreviverás, e as Vagas de Fogo con­tinuarão a ser um sonho daquele velho tolo.

Devidamente repreendido, Quenestil ficou novamente a masti­gar em silêncio e o kahrkr fez o mesmo, contradizendo a gravidade das suas palavras com a sua atitude despreocupada. Tal como a ima­gem que pintava da Mãe, não parecia importar-se muito com o que o amanhã traria, nem com o que seria necessário fazer para que se­quer houvesse um amanhã. Não era uma forma de estar com a qual o eahan se conseguisse identificar, mas em retrospectiva, era o que as suas ações e emoções contraditórias até então o davam a entender, por muito que se debatesse com elas.

— Pensas demais — acusou-o Loevrik. — Se um lobo na Wolhy­nia fica a pensar se deve atacar a cria quando ela se afasta da mãe, ou esperar que ela se afaste mais um pouco, pode acabar por morrer à fome. Aqui, se ficas parado a pensar, morres ao frio. Tens de agir!

O kahrkr ilustrou o que queria dizer, batendo com as costas de uma mão na palma da outra, num gesto repentino que fez a fogueira tre­mer e que sobressaltou ligeiramente Quenestil. Algo irritado — sobre­tudo por reconhecer nas palavras do humano as que ele próprio proferira anos atrás, e aperceber-se do quão retido estava pelas suas incertezas — o eahan trincou o seu pedaço de carne e rasgou-a com os dentes, virando a cara ao seu interlocutor. Este não fez caso do gesto e continuou a comer a frugal refeição, olhando para a diminuta fogueira.

— Para a fossa com tudo isto... — rosnou Quenestil, mastigando em fúria. Loevrik ergueu uma sobrancelha, sem contudo tirar os olhos da fogueira. — Para a fossa com esta merda! — vociferou, erguendo-se de súbito e atirando o pedaço de carne contra a fogueira.

Os pedaços de madeira em brasa chisparam e fulgiram com o im­pacto, espalhando-se pelo chão, e Quenestil saiu de debaixo do abrigo do pedregulho com punhos cerrados. O olhar de Loevrik seguiu-o até se deter a alguns passos de distância, exposto à intempérie e aos sal­gados borrifos do mar, que rapidamente lhe umedeceram os cabelos.

— Maldito seja o dia em que dei com o Aewyre e os outros — disse em voz alta, mas de costas viradas para Loevrik. — Ele é meu amigo, e eu quis ajudá-lo naquela que eu sabia que iria ser uma viagem difícil, mas ao contrário dele, da Lhiannah ou do Taislin, eu estava perfeita­mente satisfeito com a minha vida...!

O kahrkr nada disse, ficando simplesmente a olhar para Quenestil enquanto mastigava a sua carne com uma placidez quase bovina. Por sua vez, este abanou a cabeça com um escarnecedor riso autodepre­ciativo.

— Perfeitamente satisfeito — reiterou, pingando água do nariz. — Vivia de acordo com os ditames da Mãe, ajudava a minha gente, e não lhes conseguia transmitir o quão enfadado no fundo estava... porra para isto!

Quenestil baixou a cabeça e olhou para o lado, vendo uma con­veniente pedra com cuja forma e posição implicou. Com um ruidoso grunhido de frustração, virou-se e chutou-a para o mar revolto, em cujas ondas azeradas desapareceu sem deixar rasto.

— E depois, no espaço de umas poucas semanas, apaixonei-me por uma eahanoir que mais tarde me traiu, chacinei humanos numa cidade à qual nunca devia sequer ter ido, e cortei a cabeça a um druida que, julgava eu, estava a deturpar os ensinamentos da Mãe, quando na verdade, segundo me deram a entender, representava apenas outra faceta dela.

Loevrik mastigou, e Quenestil apontou-lhe um acusador dedo.

— A culpa é vossa! Vocês, humanos, corrompem tudo aquilo em que tocam! Destroem o que pode ser bom para todos para sempre, se o mau vos beneficiar a vocês por algum tempo!

— É isso que o teu amigo faz? — pronunciou-se o wolhyno por fim, embora com ar desinteressado.

Quenestil caiu em si, e manteve o dedo apontado a Loevrik por trêmulos momentos, antes de usar a mão para puxar umas madeixas de cabelo molhado para trás, baixando-a e à cabeça de seguida.

— Não, ele não... — reconheceu, erguendo contudo a cabeça de dentes novamente cerrados. — Mas malditos sejam quase todos os outros que eu conheci durante as minhas viagens!

— Hum...?

— Um homem com cuja família partilhei comida enquanto tinha fome, traiu-nos com uma quadrilha de bandidos! Os humanos com os quais viajei de barco, atiraram-me ao mar! — quase gritou o eahan, apontando para além da falésia com um gesto brusco que soltou pin­gos de água do seu braço molhado.

Loevrik continuou a mastigar, embora de forma mais ponderada, quase meditabunda.

— Nem falo dos eahanoir; desses já sabia o que esperar, as histó­rias já dizem mal deles quanto baste. Mas não falam dos humanos, não dizem que estes por vezes conseguem ser piores que o pior eaha­noir! — raivejou Quenestil, reprimindo uma pequena parte sua que estava chocada com as suas próprias palavras. — Mentem, traem, matam-se uns aos outros... Em nome dos deuses, eu vi-os atraiçoarem e chacinarem a única defesa que Allaryia tinha contra as forças de Asmodeon! Mataram os sirulianos que estavam na fortaleza, e usaram os corpos dos outros como alvos para praticarem tiro ao arco! Ataca­ram-nos à traição, queimaram as suas casas, e ter-me-iam morto a mim e aos eahlan, se pudessem!

— Hum — murmurou Loevrik, como se soubesse tudo.

— Não ajas como se vocês fossem melhores! — acusou-o o eahan, aproximando-se dele. — Vocês não passam de uns pobres desgraçados, uns mendigos exilados para o fim do mundo, e mesmo assim conse­guem arranjar formas e motivos para se antagonizarem! A vida aqui vale menos que uma vara de pele de ovelha, embora eu já tenha visto mais ovelhas que pessoas! Como podem viver assim?! Como...?!

— Então se a vida é assim tão importante para ti — interrompeu Loevrik, esfregando gordura da boca —, por que queres tanto matar os tanarchianos que aí vêm?

— Não ouviste? — barafustou Quenestil. — Nunca perdoarei os malditos desgraçados pelo que fizeram. Nunca! Vou escorraçá-los, abatê-los como os animais raivosos que são, cauterizá-los como a uma ferida infectada...!

As palavras do eahan perderam-se numa desconexa rosnadela, e este agarrou os cabelos com força, puxando-os com vontade de os arrancar enquanto andava aos círculos. Loevrik fez ruídos com a língua e os lábios enquanto tentava tirar bocados de comida de entre os dentes e cruzou os braços, aguardando o retomar da diatribe. Porém, em vez de falar, Quenestil dirigiu-se repentinamente para debaixo do pedre­gulho, tirando uma flecha da sua aljava e empunhando-a diante da cara do kahrkr.

— A minha flecha tem o nome de toda uma nação — declarou, embora não houvesse nada escrito na haste. — Será isso sequer pos­sível, ou será uma promessa tão vazia quanto a que fiz à... eahanoir... à qual... disse o mesmo?

— Hum?

— Para a fossa com isto tudo, de que importa o que jurei? — ros­nou o shura, pegando na flecha com ambas as mãos, partindo-a sobre o joelho e atirando os pedaços para trás. — De que interessa isto tudo à Mãe, se pouca diferença lhe faz se eu planto uma semente, ou corto uma árvore?

— Hum — instou Loevrik, monocórdico.

— Para mim, é indiferente, já nada tenho a perder — declarou Quenestil, estendendo os braços para os lados e deixando-os bater ruidosamente contra as suas ancas. — Por mim, os filhos da puta tanarchianos podem arrasar esta terra desgraçada. Vou é lutar até ao fim das minhas forças para os impedir de tocarem nos eahlan, e para fazer com que paguem pelo que fizeram. Tudo o resto, incluindo tu e o Ihjseorn, o Guia que vos perca!

O eahan pontuou a sua última palavra com um brusco gesto ascen­dente do braço de mão aberta, virando de seguida as costas ao wolhyno e apoiando as mãos nas ancas enquanto se afastava de cabeça baixa. As suas narinas fremiam, as têmporas palpitavam-lhe, e todo o seu corpo era acalentado pelo fervor do seu alvoroço, deixando-o alheio ao frio molhado. Tinha uma brasa incandescente onde o seu coração devia estar, e levou uma mão à cara úmida, esfregando os pingos do nariz e fungando, uma fungadela que acabou por se tornar num prolongado suspiro, no qual soltou o resto do vapor que aparentemente havia muito tempo nele estava acumulado. Surpreendera-se a si próprio com o que dissera, e nunca teria imaginado que tais palavras pudessem sair da sua boca, independentemente do seu estado de espírito. Não soube o que pensar acerca delas, mas numa coisa Loevrik tinha razão: pensava demais havia já demasiado tempo. Chegara de fato a altura de agir e, findo o seu suspiro, sentiu-se bastante mais leve, como se tivesse acabado de se libertar de correntes que lhe tinham pesado aos ombros aquele tempo todo.

— Precisas de um barco — disse Loevrik prosaicamente.

— Hã? — exclamou Quenestil por cima do ombro. — É claro que preciso de um barco. Não consigo nadar até à maldita ilha, e mesmo que conseguisse, morreria de frio antes de lá chegar...

— Eu tenho um barco.

O eahan virou-se então, fitando Loevrik de cenho franzido. Este mantinha a sua expressão despreocupada de quem estava a ter uma conversa inconseqüente.

— Como assim, tu tens um barco? Eu vim até aqui para pedir um barco a Andvar...

— Não precisas de ir a Rostungflokt. É mais um dia de viagem, e há homens de Drull lá — explicou o kahrkr. — Foram convencê-lo a falar a favor de Skolsvein em Dalstirvirk.

Quenestil não compreendeu de imediato as implicações, momen­taneamente confuso com a saraivada de nomes, mas cedo se deu conta de que se tratava de uma conjuntura que em nada o favorecia.

— Maldição. E porque não mo disse o Ihjseorn...?

— O Urso não sabia. Este é o meu território.

O eahan achou interessante o pormenor de os kahrkr seguirem os mesmos padrões territoriais dos shuras, tal como os animais aos quais se tinham unido. Havia de fato bastantes semelhanças entre eles, mas essa era uma consideração para outra altura.

— Então tens um barco — disse. — E porque decidiste ajudar-me, assim de repente?

— Não foi de repente — afirmou Loevrik com o tom de quem falava sem grande paciência com uma criança. — O barco sempre esteve lá. Só quis saber se mais valia dá-lo, ou deixar-te ir a Rostungflokt para que te espetassem uma faca nas costas.

— O quê...?! — pasmou-se Quenestil, cerrando novamente os punhos.

— Podia ser que assim parasses de te lamuriar, e matasses toda a gente na quinta — prosseguiu o wolhyno despreocupadamente. — Mas parece que já acordaste, mais ou menos. E convém não matar muitos dos nossos, por imbecis que sejam, pois em breve vamos pre­cisar de todos os braços fortes que conseguirmos arranjar.

Quenestil fechou os olhos e abanou a cabeça.

— Então... acreditas ou não nas Vagas de Fogo?

— Acredito que Tanarch irá em breve desembarcar na nossa costa, e que os nossos homens precisam de mais motivos para lutar, além de defenderem as suas ovelhas — disse Loevrik, batendo com as mãos nos joelhos e levantando-se. — Acredito que os skrimmen nos juraram vingança pelo que aconteceu à kuvamora em Horavog, e que os ulkatr se juntarão a eles. É nisso que eu acredito, rotden, e é por isso que te vou dar um barco.

— És a pessoa mais incongruente que eu alguma vez conheci — observou Quenestil, retirando uma certa medida de satisfação ao ver pela primeira vez um perplexo franzir das sobrancelhas louras do homem.

— O teu Hjrutmalv é estranho. Ainda bem que não vais precisar dele em Eihroin.

— De que vou afinal precisar em Eihroin? — quis o eahan saber.

— Que respostas são essas de que o Ihjseorn falou? Isso de eu tornar-me o fogo que irá derreter o gelo...?

— As respostas são diferentes para cada um — respondeu Loevrik.

— O segredo é sobreviver a elas.

— Oh — disse Quenestil secamente, passando a mão pelos cabelos molhados. — Saberei quando chegar, então.

— Sim.

Um momento de silêncio, durante o qual o shura se acocorou para amontoar os pedaços de madeira que entretanto tinham esfriado. Loevrik tornou a sentar-se.

— Então e... o que vai acontecer quando eu voltar?

O kahrkr acenou com a cabeça, parecendo aprovar relutantemente a escolha de palavras de Quenestil.

— Guerra — respondeu. — Guerra como os Fiordes há muito não vêem.

Quenestil interrompeu o que estava a fazer por instantes, ouvindo nas palavras de Loevrik o eco das suas, e ergueu os olhos para o fitar da sua posição curvada sobre a pilha de madeira. O wolhyno não acu­sou nada no seu olhar, e o eahan acabou simplesmente por fungar num misto de espanto e divertimento, sacudindo os ombros, após o que retomou a tarefa. Os dois nada disseram até a fogueira começar nova­mente a arder, e mesmo então ficaram apenas sentados em lados opos­tos, escudados da chuva pelo pedregulho e de olhos fitos no pequeno mas reconfortante fogo.

— Obrigado — acabou o shura por dizer. — Acho eu.

Foi a vez de Loevrik fungar, embora nada espantado e menos ainda divertido.

— Se sobreviveres, rotden, a última coisa que vais querer fazer é agradecer-me.

 

Allumno cavalgava havia dias, orando a todos os deuses para que a sua montaria não partisse uma perna no acidentado terreno dos contrafortes que percorria. A sua pressa em contornar o braço montanhoso que se estendia da Cinta pelo Laone adentro por pouco não causara um grave acidente num barranco, no qual tanto o cavalo como o mago poderiam ter morrido. Porém, ter a horda de drahregs atrás de si acicatava-o e ao animal, e a urgência de chegar a Aewyre antes deles impelia-o a cavalgadas desenfreadas. Tinha dormido pouco nos últimos dias, justificando cada paragem com o cansaço do cavalo, e os olhos pesavam-lhe mais ainda que a cons­ciência, que o atormentava por ter deixado o seu protegido sozinho. A idéia não lhe agradara desde o princípio, e menos ainda agora que sabia que o seu mestre tentara apenas testá-lo. Um teste ridí­culo e desnecessário, tempo perdido que Allumno poderia ter gasto a ajudar e apoiar Aewyre, que levava aos jovens ombros o peso do mundo.

«É mesmo seu, mestre...», pensou o mago, na vã esperança de que o desde há dias silencioso Zoryan o pudesse ouvir. «Deixar um jovem insciente com um fardo destes entregue aos seus próprios meios...»

Allumno nunca guardara grandes ressentimentos para com Zoryan, embora este tivesse para todos os efeitos roubado a sua infância e tra­zido a destruição à sua aldeia. Sabia que o seu mestre sentia remorsos, e durante todos os seus anos de aprendizado tal bastara para apazi­guar qualquer rancor que pudesse ter sentido, mas a situação alterara-se dramaticamente, e para pior. O recente silêncio e as palavras vagas no lugar das confidencias em nada tinham ajudado, e Allumno não ansiava de todo pela próxima conversa com o seu mestre, temendo as palavras que poderiam vir a sair da sua boca.

De qualquer forma, não tivera tempo para se preocupar com tais considerações, e lembrava-se de Zoryan apenas quando a sua mente começava involuntariamente a divagar, hipnotizada pela passagem indistinta de árvores aos seus lados. A sua face estava arranhada por ramos de pinheiros, cujas agulhas se tinham entranhado no seu cabelo, e a orla da sua capa vermelha a esvoaçar ao vento estava suja de lama, assim como as suas botas. O cavalo não estava muito melhor e espu­mava dos arreios, suando copiosamente e respirando de forma ruidosa a cada três passos, com os quais arrancava torrões de terra e húmus. Allumno ia-o incitando, ciciando-lhe repetidas palavras de rouco encorajamento e batendo-lhe ocasionalmente com os calcanhares nos flancos. Não queria matar o animal de exaustão, mas a sua preocupa­ção para com Aewyre não lhe permitia perder um momento sequer, e era apenas a consciência de que levaria bastante mais tempo a chegar à Cidadela a pé que o impedia de levar o cavalo a ultrapassar os seus limites.

Todavia, o animal começou a desacelerar contra a sua vontade, e apesar da insistência do mago, este foi abrandando o galope, abanando a cabeça como se relutante em avançar. Ante as pancadas de calcanhar de Allumno, o cavalo soltou um relinchar refratário, e o mago repa­rou que os seus grandes olhos brancos estavam arregalados. Vendo que a sua montaria estava claramente assustada e que era inútil insistir, Allumno deixou-o abrandar, sussurrando-lhe palavras aquietadoras, dando-se então conta de algo que lhe passara despercebido a meio da desenfreada cavalgada: ruídos de combate.

O retinir de lâminas passava por entre as árvores, abafado pela cerração úmida que deixava as roupas molhadas e condensava a res­piração. Gritos de morte e violência vinham no seu encalço, urros bestiais que de humano tinham muito pouco, e que estavam a deixar o pobre garrano apavorado. Allumno deixou-o parar por completo, e afagou-lhe o pescoço enquanto lhe sussurrava ao ouvido, olhando ele também na direção dos ruídos. A primeira coisa que lhe veio à mente foi uma emboscada drahreg, e esse mesmo pensamento esporeou-o a agir, levando-o a passar a perna direita sobre a garupa do cavalo e a saltar do estribo, caindo primeiro com a perna esquerda. O ferimento que recebera em Moorenglade não o deixara coxo, mas o seu joelho direito nunca recuperara completamente, e obrigava-o a certos cuida­dos que entretanto já interiorizara. Tirou o seu cajado e uma corda de entre os alforjes do cavalo, usando-a para prender rapidamente o animal a uma árvore próxima, ciente de que este se podia ferir grave­mente caso algo o assustasse a sério. Não havia porém tempo para algo melhor, e o mago afagou o garrano uma última vez antes de ir ao encontro dos ruídos, que tinham entretanto aumentado de intensi­dade.

Empunhando o cajado com ambas as mãos, Allumno caminhou numa posição meio agachada, bafejando vaporosa apreensão e olhan­do em frente com o branco dos olhos bem visível, quase sem se atrever a piscá-los. O seu coração batia com força, a respiração acelerou quan­do a atmosfera lhe pareceu ficar mais pesada e abafada, e os ruídos começaram a soar mais claros e próximos. Não parou sequer para pen­sar se devia ou não envolver-se no que quer que se estava a passar, se valia a pena arriscar a vida quando estava já tão próximo do seu des­tino. A mera idéia de drahregs e a noção de que estava próximo da Cidadela da Lâmina fê-lo pensar em Aewyre, fê-lo imaginar os piores cenários possíveis que se poderiam estar a desenrolar além das árvores. Pé ante pé, foi avançando, sem se dar tempo a si mesmo para ponderar outra alternativa, e temendo ao mesmo tempo o que a névoa e os del­gados troncos escuros lhe poderiam revelar. Já estava suficientemente próximo para distinguir vultos em movimento no nevoeiro, que não era cerrado ao ponto de ocultar por completo o que se estava a passar, mas espesso o suficiente para dar à cena todo um ar onírico, como a reminiscência de uma batalha evocada pelas brumas da memória do local. As memórias tornaram-se contudo bem reais quando se ouviu o carnoso ruído de uma cutilada, e uma cabeça caiu no chão perto de Allumno, rolando-lhe até aos pés. Era de um drahreg, com escan­carada boca de dentes amarelados, esbugalhados olhos vermelhos como duas brasas mortiças, e negras tranças coladas umas às outras com o sangue que lhe corria do pescoço cortado. Veio acompanhada de vários urros e mais ruídos de aço contra aço, que se tornaram mais ruidosos como em reação à cabeça decapitada, e foi então que Allumno se viu verdadeiramente mergulhado na caótica contenda que ali se desenrolava.

O enevoado local era uma brenha com rochas e penedos expostos como ossos fraturados da montanha, e nele desenrolava-se um furio­so combate de lâminas cantantes. A brenha era cindida por um arroio, em cuja água coleava o sangue dos membros decepados e corpos ta­lhados em redor, e Allumno olhou à volta, agarrando o cajado com força. Viu apenas uma figura isolada a lutar contra vultos de cabelos entrançados e armas oscilantes, e que era aos pés e à volta desta que se encontrava empilhado o maior número de cadáveres. Era uma mulher, estava ferida e lutava com o que parecia ser uma arma de haste quebrada, que usava como uma acha-de-armas improvisada. Os dra­hregs atacavam-na com temerário abandono, arrojando dardos farpa­dos, investindo de machados em riste e urrando promessas de dor e morte em Olgur, a sua selvática língua. Um deles saltou mesmo de cima de um pedregulho sobre a mulher, empunhando um enorme alfange com ambas as mãos e levando-o atrás, só para ser cortado em dois em pleno ar por um golpe que esta desferiu, do qual emanou uma acerada reverberação. Allumno arregalou os olhos, reconhecendo a mulher como uma Lamelar, mas era evidente que as suas habilidades lhe começavam a falhar, pois os seus golpes eram cansados e lentos, e mesmo através da neblina dava para ver o vermelho do sangue de inú­meros ferimentos no seu corpo parcamente indumentado. A mulher vestia apenas uma peça de alça única, deixando o resto do seu torso ferido a descoberto, e apertadas calças de pele e botas altas, essas tam­bém riscadas de vermelho em várias partes. Tinha cabelos de um louro muito claro, esse realçado pelo sangue de um corte no escalpe, que lhe tingia madeixas de um vermelho-vivo, e estas oscilavam de um lado para o outro com a desesperada violência dos seus golpes.

Antes que Allumno pudesse agir, dois drahregs deram-se conta da sua presença, e elegeram-no como alvo igualmente legítimo, bra­dando roucamente ao carregarem sobre ele. O mago reagiu então, fazendo ecoar no ar as suas entoações arcanas, que desprenderam da sua mão um emaranhado de faiscantes gavinhas escarlates. Estas chia­ram em fervilhante contato com um dos drahregs, que urrou e caiu ao chão com a dor, mas o outro não hesitou um momento sequer. Allumno teve tempo de reparar que aqueles indivíduos não tinham o ar miserável dos drahregs que o tinham atacado dias atrás, e que pro­vavelmente iam ao encontro da horda, seguindo um sinistro chama­mento que tinha implicações mais graves que as que o mago e o seu mestre tinham imaginado.

Porém, teria de se preocupar com elas mais tarde, pois o drahreg surpreendeu-o, arremessando a cimitarra na sua direção. A arma guinou pelo ar na direção da sua cabeça e, sem tempo para pronun­ciar a Palavra, Allumno viu-se forçado a usar pura Essência através do cajado para formar um translúcido disco vermelho diante de si. A cimitarra embateu contra ele, embaciando a superfície vermelha com o impacto, e caiu ao chão com o aço a vibrar quando este se desvaneceu. O drahreg não se deixou desanimar, contudo, e desem­bainhou uma falcata sem perder um passo sequer, empunhando-a de braço levado atrás, pronto a escachar a cabeça do humano. Allumno vira tais armas no cerco de Aemer-Anoth, espadas curtas curvadas para a frente, com pesadas pontas que infligiam horrendos ferimentos, e não estava disposto a deixar o drahreg aproximar-se o suficiente para a usar. Entoou uma curta e enfática frase com a Palavra, estendendo a mão para a frente, e uma força invisível colidiu com o ombro do drahreg, desequilibrando-o e fazendo-o cambalear algumas passadas na diagonal. Contudo, este não abrandou, e atacou com redobrada fúria, agora a meros passos de Allumno, que se viu forçado a empu­nhar o cajado com as duas mãos diante de si, fazendo a gema na sua testa brilhar ao reforçá-lo com pura Essência. O seu adversário mordeu o isco e desferiu um possante corte com o intuito de despedaçar o cajado e talhar um dos braços do mago. O impacto retesou doloro­samente as articulações nos braços de Allumno, e o drahreg rosnou de surpresa, mas o ímpeto ainda assim empurrou o humano de costas contra uma árvore, deixando-o preso entre a madeira resinosa e o fre­mebundo monte de músculos e tendões que nada mais pareciam que­rer além de o fazer em pedaços. Os dois debateram-se com apenas o cajado entre eles, Allumno a manobrá-lo de forma a apertar a falcata contra o corpo do drahreg, e este a contorcer-se numa tentativa de o libertar para poder furar a barriga do mago.

Odiosos olhos vermelhos fitaram os semicerrados de Allumno, que ferrava os dentes ante a surpreendente força do adversário, sendo surpreendido por uma repentina cabeçada na testa. O golpe atingiu-o em cheio na gema, fazendo o crânio do mago ranger dolorosamente, mas o drahreg rosnou ele também de dor, ficando com a sangrenta marca da pedra na sua fronte. Allumno reagiu então por instinto, enterrando o joelho entre as pernas do adversário, que se curvou com um grunhido sufocado, permitindo ao mago manobrar o cajado de forma a ficar com uma ponta encostada à barriga da perna do drahreg e a outra ao ombro. Puxando uma e empurrando a outra com um grunhido de esforço, conseguiu derrubar o drahreg, fazendo-o cair de desamparadas costas no chão. Sem ar, o atordoado drahreg nada pôde fazer quando Allumno ergueu o cajado com ambas as mãos e lhe enfiou a ponta na garganta, que emitiu um estalido seco, seguido de um asfixiado chiar. Cambaleante, o mago afastou-se do moribundo adversário, por pouco não tropeçando nele devido à ligeira tontura que o acometeu e que o fez levar a mão à gema na sua testa, que palpitava com a dor da cabeçada. Sentiu-se desorientado por breves momentos, mas recuperou assim que ouviu outro chofre a rilhar no ar com um ruído acerado, que o impeliu à instintiva reação de se deixar cair.

Mesmo antes de as suas mãos tocarem as folhas mortas, ouviu a casca de uma árvore próxima ser talhada, seguida do respingar de grossos pingos nos fetos em redor e o baque surdo de carne morta a tombar. Allumno levantou a cabeça, em cuja cara escorriam peque­nas folhas molhadas, e viu que a mulher se debatia com quatro drahregs, os últimos. Estava gravemente ferida, sangrando de uma série de cortes na sua pele exposta, incluindo um entalhe feio no braço esquerdo, do qual pendia uma prega de pele debaixo de um bocado de osso à mostra. Tinha um farpão espetado abaixo das costelas, e a haste partida da sua arma estava escorregadia de sangue, que lhe corria pelo punho e pelo antebraço abaixo, espremido por entre os seus dedos pela força com a qual a mulher os crispava. A cruenta lâmina curva que brandia com antinatural destreza matara todos os drahregs que se encontravam no chão, cerca de vinte num rápido vislumbre, mas os quatro sobreviventes não pareciam intimidados, ou, se o esta­vam, escondiam-no bem com urros selvagens enquanto atacavam. A mulher aparou a espadeirada de um, deslizando a lâmina pela do adversário e pela garganta deste de seguida com uma passada lateral, cortando-lhe então os ligamentos do jarrete num desnecessário golpe, que o deitou por terra. Um outro atacou-a pelas costas, mas a mulher girou em si, desviou a cimitarra com um pontapé e decepou de se­guida o braço estendido com um golpe limpo, desferindo outros dois que tombaram o drahreg com espirros de sangue que se cruzaram no ar. O terceiro e o quarto atacaram em conjunto, um munido com um machado e o outro com uma lâmina que pouco mais era que um des­medido cutelo.

Allumno ainda ergueu uma mão para auxiliar a mulher, mas esta foi rápida de mais, defrontando os drahregs sem hesitação e indo ao seu encontro. A sua arma de haste partida varreu o ar à sua frente, estridulando contra as dos adversários, que se separaram para a pode­rem flanquear, jurando-lhe uma morte horrível em Olgur. A mulher não perdeu tempo com ameaças, e arremeteu contra o drahreg do cutelo, iludindo-o facilmente com uma finta, que lhe deixou a guarda aberta para uma implacável estocada com a lâmina em forma de foice da sua arma. O drahreg curvou-se com o aço frio a trespassar-lhe as entranhas, e a mulher aproveitou para rolar por cima das suas costas com os ombros, deixando a cabeça do adversário na trajetória da possante machadada que o outro desferiu e que escachou a cabeça do seu companheiro com um ruído crocante de dar a volta ao estômago. A cunha do machado ficou embebida no crânio desfeito, e o drahreg não a conseguiu soltar a tempo; a mulher aproveitou para pisar a haste com o pé esquerdo, e com a força com a qual o adversário a agarrava, foi bruscamente puxado de encontro ao joelho direito desta. O queixo embateu violentamente contra a rótula, e o ângulo do impacto partiu-lhe a cervical, fazendo o drahreg cair frouxamente ao chão.

Houve então paz e silêncio na enevoada brenha, quebrado apenas pelo exausto ofegar da mulher, que contemplava a mortandade em seu redor sobre pernas trêmulas. Allumno começou então a levantar-se, e o seu gesto chamou logo a atenção da mulher, cuja cara chicoteou na direção do mago, varrendo o ar com os cabelos louros empapados de sangue.

— Venho em paz — apressou-se Allumno a dizer, mas a única resposta da mulher foi baixar-se para agarrar a haste da arma que ainda estava enterrada na barriga do drahreg morto. — Espere...!

A mulher não se deteve, arrancando a sangrenta lâmina da carne morta do drahreg, e virando-se para o mago com esta empunhada atrás.

— Espere, eu não...!

A arma guinou no ar na sua direção, e a testa na fronte de Allumno luziu quando este teve novamente que canalizar pura Essência para formar um escudo diante de si. Porém, tal foi des­necessário, pois a lâmina rodopiou por cima da sua cabeça e enterrou-se em algo atrás do mago, algo que emitiu um grunhido sufocado, seguido do baque surdo de um corpo caído. Ainda no chão, Allumno olhou para trás por cima do ombro, e viu o drahreg que queimara com os seus filamentos arcanos, que agora jazia no chão, contorcendo-se agarrado ao cabo da haste enterrada no seu peito, a sua cimitarra jacente a seu lado. O mago ouviu outro corpo tombar, e olhou nova­mente em frente, vendo que a mulher estava caída no chão, arque­jando. Levantou-se prontamente e escorregou no chão molhado com água e sangue, esfregando na capa as mãos sujas de terra e folhas mortas, antes de se ajoelhar diante da mulher, que boqueava ruido­samente, agarrando o farpão espetado debaixo das suas costelas.

— Deuses... eu estou aqui para a ajudar. Não se mexa, por favor — pediu Allumno, deixando pender as incertas mãos. Para onde quer que olhasse, via feridas, muitas delas a precisarem de atenção urgente.

— Bêdum fergiêw... — disse a mulher num tom apologético, no que parecia ser Usgagg, a língua da Namuriqua. — Fergiêwd mi...

— Não entendo... — disse Allumno, admirado com o fato de a mulher estar tão parcamente vestida em tais condições climáticas. — Glottik, fala Glottik?

— Jõ... sim... — disse a mulher sem olhar para Allumno, come­çando a tremer de lábios esbranquiçados.

— Roupas. Não tem roupas? — perguntou o mago, desapertando a presilha da sua capa vermelha.

— Capa... tirei... lutar mais fácil...

A mulher guturalizava bastante os erres e tinha uma voz já de si rouca, mas o seu sotaque era perceptível. Allumno fez que sim com a cabeça enquanto a tapava com a capa, tentando levantá-la cuidadosa­mente pelo ombro para lhe resguardar as costas desnudas do chão molhado, mas esta emitiu um grunhido de dor.

— Está a entrar em choque — disse o mago para consigo, envol­vendo o antebraço cortado com uma dobra da capa para que não entrasse em contato com o chão sujo, e decidindo dar prioridade ao farpão espetado debaixo das costelas. A arma estava porém bem enterrada, e o mago desconfiou de que uma das barbelas se tinha encalhado numa costela, pois pareceu-lhe senti-lo roçar contra algo ao mexer nele. A mulher gemeu de dor, mas não se contorceu como o mago receara, para grande alívio deste, que contudo durou pouco, pois apercebeu-se de que ela dificilmente sobreviveria à noite que se avi­zinhava.

— Quem... — arquejou a mulher. — Quem é...?

— Sou Allumno. Estou aqui para a ajudar. Como se chama?

— Heldrada.

— Heldrada, consegue levantar-se? — perguntou, pousando-lhe a mão no ombro nervudo. — Aqui está demasiado frio e úmido. Tenho de a levar para um sítio mais quente.

— Sim, quente... — concordou Heldrada, acenando com a cabeça com um olhar vago.

A mulher tornou a surpreender Allumno ao levantar-se pelos seus próprios meios, embora os seus braços magros e musculados tremes­sem, e o fizesse com um grunhido contínuo e de ventre dobrado. O mago passou-lhe o braço por cima dos seus ombros e ajudou-a a andar, impressionado com a rigidez do corpo da mulher e com a força tendonal dos seus membros. A avaliar pelo seu desempenho durante o combate, só podia ser mesmo uma Lamelar, e Allumno estava intrigado quanto à razão de ela estar ali. A sua vontade foi perguntar-lhe por Aewyre, se sabia do seu paradeiro ou como ele estava, mas primeiro teria de se assegurar de que a mulher não lhe morreria nos braços.

Heldrada não lhe pesava muito aos ombros, as suas pernas susti­das por uma vontade indômita, mas era evidente que as forças se lhe esvaíam como o sangue que lhe escorria das inúmeras feridas. Ia bal­buciando à medida que andavam, umas vezes em Glottik, outras em Usgagg, e pareceu a Allumno que a mulher começava a delirar, pois por vezes referia nomes que desconhecia, olhando para ele. Limitou-se a ir fazendo que sim com a cabeça enquanto a encaminhava para o local onde deixara o seu cavalo, que felizmente não fugira com os ruídos da contenda. O animal emitiu um desconfiado relinchar, e o cheiro a sangue de Heldrada deixou-o nervoso, mas afastou-se sim­plesmente uns passos quando Allumno a pousou por perto, abanan­do a crina como se desaprovasse. O mago ignorou o cavalo, tentando apenas sossegá-lo, ciciando através dos dentes. Heldrada começava a respirar com dificuldade, pelo que decidiu remover-lhe a cinta de couro com rebordo duro e rebites de ferro que tinha à cintura, assim como a faixa de feltro com um anel dourado que lhe circundava o um­bigo. A mulher não protestou nem desconfiou das suas intenções, olhando apenas para Allumno enquanto arfava, parecendo reconhecer alguém nas suas feições.

— Desculpe, Alto Lamelar... — pediu ela, agarrando a manga do mago. — Eles eram tantos...

— Sim, eram muitos — concordou Allumno distraidamente antes de murmurar umas palavras que pegaram fogo a uns ramos que empi­lhara com a mão livre.

— O caminho da dor... ensinou-me bem... — continuou a mulher, cujos olhos de um azul líquido se desfocaram momentaneamente. — Consegui manter-me de pé... a dor deixou os meus membros em brasa... e com ela consegui matá-los a todos.

— Sim, todos — anuiu o mago, tirando da mochila os seus pacotes de ervas enquanto tentava acompanhar a conversa, manter Heldrada desperta e a falar. — Não sobreviveu um único.

— Mas agora... não conseguirei encontrá-lo... Alto Lamelar — lamentou-se a mulher, abanando a cabeça e ficando com umas ensangüentadas madeixas diante da cara.

— Quem? — inquiriu Allumno, vertendo um pouco de água do cantil num pequeno tacho, que pousou num tripé sobre a pequena fogueira. — Quem é que não vai conseguir encontrar?

— Eu pensei... pensei que ele tivesse ido para Suassone...

— Quem?

— Pensei que alguém... o tivesse visto lá. Na Cidadela... ninguém sabia para onde... ele queria ir...

— Ele quem, Heldrada? De quem está a falar? — insistiu o mago, polvilhando a água com algumas ervas e tirando de seguida da mo­chila um frasco com aguardente tanarchiana para desinfetar as feri­das que conseguisse.

— Ele tinha de pagar... Alto Lamelar — continuou Heldrada, parecendo não ouvir as suas palavras. Tinha os olhos fitos em Allumno, mas não parecia estar verdadeiramente a vê-lo. — Eu jurei... jurei que o perseguiria até o encontrar... e matá-lo...

— Quem?

Ao repetir a pergunta, Allumno verteu um pouco de aguardente sobre alguns cortes superficiais, certo de que mesmo uma gota sobre o horrendo ferimento no antebraço faria com que a mulher desmaiasse. Heldrada estremeceu ligeiramente e semicerrou os olhos, mas a dor que sentiu pareceu despertá-la dos seus devaneios, e fixou Allumno com os olhos assim que os abriu.

— Aewyre Thoryn — disse ela. — Ele matou-o... Alto Lamelar. E eu queria matá-lo... queria tanto matá-lo...

Chocado, Allumno deteve-se a meio de mais uma esfregadela com um pano ensopado em aguardente. Heldrada apercebeu-se da sua hesitação, e sobressaltou-o ao agarrar-lhe o pulso, pressionando-lhe a mão sobre um corte profundo na perna e inalando através dos dentes ao fazê-lo.

— A dor... — disse com um tom suplicante. — Eu preciso da dor... sem a dor, o frio... ahhhhsss! — exclamou, pressionando a ferida com mais força e fazendo os nós da mão de Allumno rangerem ao aper­tar-lha.

A custo, o mago conseguiu libertar-se, mas Heldrada estendeu a impetrante mão, soluçando de olhos fechados como alguém depen­dente a ser privado, e foi acometida por um ataque de tosse que salpi­cou a camisa de Allumno de sangue.

— Por favor... — quase implorou a mulher. — Preciso...

— Heldrada, eu quero ajudá-la — disse Allumno, molhando um pouco mais o pano —, mas tem de ficar quieta.

— A dor... por favor, está tanto frio...

— Eu sei, eu sei — assegurou o mago com uma hesitante mão sobre o estrebuchante corpo de Heldrada. — Mas eu assim não...

— Não... demasiado frio! — exclamou esta, agarrando de repente o farpão com ambas as mãos. Antes que Allumno a pudesse impedir, Heldrada arrancou o projétil de debaixo das suas costelas, gritando em agonia quando as farpas rasgaram carne e rasparam osso com um espirro de sangue. O cavalo relinchou de susto, empinando a cabeça.

— Pare! — vociferou Allumno, quando a mulher começou a espe­tar-se a si mesma com o farpão, puncionando a própria coxa.

O mago tentou em vão agarrar-lhe o braço direito de veias empo­ladas, mas Heldrada espetava a perna obstinadamente com ele, e pro­vavelmente espetá-lo-ia a ele também caso se metesse no caminho. Temendo que ela se mutilasse, Allumno pegou no cantil de aguar­dente e espremeu o seu conteúdo sobre a ferida aberta no braço esquerdo de Heldrada, encolhendo-se ante o tremendo grito que esta soltou. A mulher arqueou as costas em repentina e lancinante dor, e o seu berro ecoou pela montanha fora, levando o mago a olhar invo­luntariamente por cima do ombro, temendo que a horda o pudesse ter ouvido mesmo à distância que se encontrava. Porém, embora cruel, o seu truque foi eficaz, e o corpo de Heldrada relaxou com a brandura da inconsciência, pousando os braços dos lados e deixando o sangrento farpão cair. Allumno não perdeu um instante sequer e foi prontamente inspecionar a ferida deixada pela extração da arma, esmorecendo ao ver o buraco aberto que esta causara, e que se enchia de sangue.

— Oh, Acquon a cure... — orou o mago, perfeitamente ciente de que o tratamento dessa e das outras feridas em muito excedia as suas capacidades, e que Heldrada precisava de bem mais que ervas e calor: só mesmo um templo de Acquon ou um cirurgião como Thaddeo a poderia salvar. Iria morrer, e não havia nada que Allumno pudesse fazer para o impedir.

Já era de noite quando as pálpebras de Heldrada tremeram e esta despertou, a sua visão desfocada alumiada pela confortável fogueira que ardia diante de si, mas as dores que sentia por todo o corpo foram tornando as suas cercanias progressivamente mais nítidas. Estava embrulhada na capa de Allumno, que permanecia sentado a seu lado, e que pareceu despertar de um transe meditabundo ao reparar que a mulher acordara. Heldrada tentou falar, mas conseguiu apenas uma tosse molhada que lhe trouxe sangue aos cantos da boca, que o mago limpou com um prestimoso pano manchado de vermelho. A mulher fitou-o com os quase transparentes olhos azuis, não mais delirantes e com uma sutil ameaça por detrás deles, como o olhar fito de um gato que a qualquer momento podia atacar.

— Tratou de mim — disse com uma sugestão de desconfiança, tossindo um pouco mais e respirando com dificuldade. — Porquê?

— Porque estava ferida — respondeu Allumno prosaicamente.

— Que razão teria eu para não tentar ajudá-la?

— Nunca ninguém teve razão para me ajudar. — Para grande surpresa do mago, Heldrada agarrou-lhe a mão do pano pelo pulso, apertando-a com uma força que há muito a deveria ter abandonado.

— O que quer?

Allumno manteve a calma, certo de que, mesmo às portas da morte e desarmada, aquela mulher ainda era perigosa.

— Quero fazer-lhe perguntas. E, se tivesse morta, não me poderia dar respostas.

A sugestão de interesse ulterior pareceu mais plausível a Heldrada, que tossiu de boca fechada e largou o pulso do mago, deixando cair o braço quando o surto de força a abandonou. Allumno embebeu em água um dos poucos panos ainda limpos e com ele molhou a testa da mulher, que ardia, febril. Desinfetara tantas feridas quantas lhe fora humanamente possível, mas eram poucos os palmos de pele de Hel­drada que não estavam arranhados, cortados ou alanhados, e não pudera fazer muito mais além de limpá-los superficialmente e aplicar-lhes lenitivos. O braço mutilado envolvera-o apenas com cataplasmas, certo de que a mulher não viveria tempo suficiente para que este tivesse de ser amputado.

— E o que quer saber? — perguntou Heldrada com voz en­gasgada antes de tossir novamente. O sangue do ferimento do far­pão estava a infiltrar-se-lhe no pulmão, e Allumno não tinha uma cânula que lhe pudesse aliviar o desconforto. A sua respiração tor­nava-se cada vez mais custosa, agora que começava a respirar mais depressa.

— Disse que queria matar Aewyre Thoryn — relembrou-lhe Allumno, esfregando as bagas de suor nas têmporas de Heldrada. — Porquê?

— Porque quer saber? — inquiriu esta com tom novamente des­confiado.

— Sou de Nolwyn — disse o mago cautelosamente. Algo eviden­temente se passara entre a mulher e o seu protegido, e preferia não provocar quaisquer hostilidades. — Aewyre Thoryn é... o meu príncipe.

Heldrada ficou a olhar para Allumno, perscrutando a verdade das suas palavras enquanto este afetava um ar despreocupado ao espremer a água do pano.

— O Alto Lamelar morreu por causa de Aewyre Thoryn — disse por fim. — Trouxe a morte para a Cidadela da Lâmina. A Culpa veio por causa dele.

— A... culpa?

— O Alto Lamelar morreu por culpa de Aewyre Thoryn, porque ele a trouxe.

— A culpa? O Aewyre fez o Alto Lamelar... sentir-se culpado? — perguntou Allumno, julgando que Heldrada estava novamente a delirar.

— A Culpa! O Culpa! — tossiu esta roucamente. — O pai d’O Flagelo veio por causa dele!

Allumno empalideceu então. Conhecia as lendas, ouvira as his­tórias, mas jamais julgara que iria encontrar o próprio pai do Anátema durante a sua era. Nem mesmo o seu mestre, que defrontara Aesh’alan em batalha, nem ele alguma vez pensara sequer vir a defrontar-se com o pai do Segundo Pecado. Culpa, o humano que copulara com Luris, fecundando-a com a sua semente mortal e perdurando pelas eras afora com a inimaginável sensação de culpa, que o atormentava e ao mesmo tempo sustinha. O que poderia tal criatura querer com Aewyre?

— Culpa veio por causa do Aewyre? — duvidou de testa franzida, formando sulcos que partiam da gema nela embutida.

— Sim! O seu príncipe veio para a Cidadela, e trouxe a culpa com ele! — insistiu Heldrada, sendo então acometida por um tremendo ataque de tosse que lhe fez o corpo inteiro estremecer.

Sangue escorreu-lhe pelo queixo, e Allumno temeu que a mulher fosse sufocar, mas os tossidos acalmaram e esta deixou a prostrada cabeça cair, de peito a erguer-se a custo. O mago queria fazer-lhe mais perguntas, mas temia pelo frágil agarro de Heldrada à sua própria vida, e preferiu não a exaltar mais.

— Acalme-se, tente respirar... — disse, passando-lhe o pano pelos pronunciados malares da cara suada. A mulher abanava a cara com arquejos molhados, e surpreendeu Allumno ao lamber o pano.

— Água... — pediu, tossindo mais um pouco.

Allumno acedeu prontamente, vertendo um pouco do cantil num copo de lata e chegando-o delicadamente aos lábios secos de Hel­drada, que praticamente abocanhou a borda, sorvendo sequiosamente. Porém, engasgou-se logo ao primeiro golo, e foi acometida por um novo ataque de tosse, este mais violento ainda, no qual tossiu água sanguinolenta para o lado. De ventre dobrado, levou a mão ao feri­mento que Allumno cobrira como pudera, enfaixando-lhe a cintura, e continuou a tossir até revestir de vermelho a caruma no chão. O mago pouco mais pôde fazer além de segurá-la pelos ombros magros, ajudando-a de seguida a pousar novamente a cabeça na almofada que para ela fizera com um cobertor. Heldrada soltou um profundo e ir­regular suspiro, tremendo com umas seqüelas de tosse, e Allumno tirou-lhe alguns fios e mechas de cabelo úmidas da frente da cara, um gesto que lhe abriu os olhos, nos quais não mais se via o brilho belicoso que neles fulgira.

— Tenho frio — disse, estremecendo com um arrepio não pro­vocado pelas suas convulsões pulmonares. A sua voz soou pela pri­meira vez tíbia, enfraquecida, digna de pena, e o olhar que dirigiu ao mago era quase suplicante.

Comovido, este achegou-se de Heldrada sem sequer pensar, sentando-se de lado ao ombro desta e ajudando-a a pousar no seu colo. A mulher correspondeu ao seu gesto, aninhando-se no corpo de Allumno com os seus ombros ossudos e omoplatas salientes, e cobrindo-se com a capa e cobertor com os quais estava tapada. A sua respiração era laboriosa, e apesar do frio que dizia sentir, Allumno sentiu mesmo através das roupas que a mulher ardia de infecta febre. Allumno cobriu-os a ambos com o capote que tirara da sela, e envol­veu o trêmulo corpo de Heldrada com os braços, aos quais esta se agarrou como se fossem a sua âncora à vida.

— O calor, de que tanto precisamos, pode matar quando em excesso — disse esta, olhando para a fogueira. Allumno não percebeu, mas assentiu com um ruído gutural. — A dor sempre me protegeu, a dor era o meu refúgio...

Heldrada teve um novo ataque então, e Allumno sentiu pingos quentes sobre a sua mão, com a qual de seguida afagou os úmidos cabelos louros da mulher enquanto esta tossia, retesando os múscu­los das costas com a violência das suas convulsões. Quando acalmou, esfacelou-se sobre o colo do mago, soltando um profundo suspiro de cara para o lado. Allumno deu consigo a passar os nós dos dedos pela cara de Heldrada, afagando-lhe ternamente o malar, sentindo que era o mínimo que podia fazer.

— Mas não quero mais dor... — disse esta com voz débil e sufo­cada, virando ligeiramente a cara e olhando para cima para o mago. — Quero paz.

Allumno concordou, compreendendo o que queria dizer.

— É... mesmo isso que quer? — certificou-se com voz branda.

Heldrada fez que sim com a cabeça, tossicando com os dentes ver­melhos e os cantos da boca a escorrerem sangue. Suspirando, Allumno remexeu na sua sacola, tirando do interior desta um frasco que tomara a liberdade de preparar enquanto Heldrada estivera inconsciente, para o caso de ter de escolher entre prolongar o sofrimento da mulher ou pôr termo à sua dor.

— Tem de tossir, primeiro — advertiu o mago. — Com força. Se­não ainda se engasga.

Heldrada acenou novamente com a cabeça, fechando os olhos antes de inspirar fundo, o que provocou o mais violento ataque de tosse até então, contraindo-lhe o corpo com espasmos. A capa e o cobertor que a cobriam ficaram manchados de sangue, e Allumno teve de a segurar para que não caísse para a frente com o repelo dos tossidos. Quando parecia que a própria garganta já estava a sangrar do esforço, Heldrada caiu prostrada sobre o colo de Allumno, tremendo com uns últimos tossidos em seco enquanto o mago lhe afagava ternamente os cabelos.

— Pronto, pronto... — sossegou, destapando o frasco. — Tem a certeza de que quer que a dor acabe?

— Sim... — rouquejou a mulher, roçando a nuca no braço de Allumno ao acenar com a cabeça. — Chega de dor... só quero paz.

Sem mais uma palavra, o mago pegou-lhe pela nuca e chegou-lhe o frasco aos lábios ensangüentados, e a mulher bebeu o seu conteúdo num único trago, antes que começasse outra vez a tossir. Com um sus­piro, Heldrada deixou a mão de Allumno pousar-lhe a nuca nova­mente sobre o peito, e o seu corpo relaxou por fim. O mago nada disse, ficando simplesmente a afagar-lhe a cabeça enquanto Heldrada respi­rava a custo, aliviada com o lento entorpecimento que lhe começava a invadir as pernas. A cicuta que ingerira alastrou-se pelos seus mem­bros, e durante algum tempo ouviu-se apenas a sua pieira e o estalar dos gravetos na fogueira, enquanto Allumno lhe passava os dedos pelos cabelos, perdendo a noção do tempo.

Quando a respiração de Heldrada começou a abrandar, o mago olhou para baixo, e viu que os olhos cristalinos da mulher estavam virados para cima, fitando-o diretamente.

— Obrigada — sussurrou, incapaz de falar mais alto, respirando através de canais obstruídos de sangue.

Allumno permaneceu em silêncio, ficando simplesmente a olhar para Heldrada, preso pelo seu olhar que parecia não esmorecer, e que conservava um luzir líquido mesmo quando o brilho da vida dele se esvaneceu, correndo-lhe pelo canto da boca abaixo num fio de san­gue. O mago fechou-lhe as pálpebras com as pontas dos dedos, limpou-lhe o queixo com as costas da mão, e ficou de cabeça baixa com Heldrada nos seus braços. O calor da fogueira falhou em aquecê-lo, pois o mago sentia-se frio por dentro, bem como oprimido pela sensação de uma desgraça iminente de cujos sinais apenas agora se dava conta. O Alto Lamelar, morto, e o pai de Seltor à solta? Em nome dos deuses, o que fizera Aewyre?

 

Slayra não estava satisfeita.

Tudo o que fizera em Horavog fora com o intuito de sair da maldita quinta, ficar bem longe de Quenestil e, acima de tudo, pôr-se a salvo da iminente ameaça skrimmen. Horavog era um barco prestes a afun­dar-se, e Slayra não queria afogar-se com os ratos, mesmo que isso implicasse deixar os seus filhos para trás. A sua educação eahanoir levara a melhor, e a noção de que a prole não passava de um fardo foi mais fácil de aceitar, dado o comportamento e as ações de Quenestil. Eram os filhos de Tannath, sabia-o, embora raras vezes o tivesse admitido a si mesma, e nunca a Quenestil. Apesar de todas as suas precauções, uma das noites em Jazurrieh deixara-a com a semente do assassino, coisa que apenas descobrira durante a desolada viagem pela Latvonia. Manipulara Quenestil até certo ponto, não o podia negar, mas naquela tarde na jangada foi a única solução que lhe ocorreu. Fora um ato movido por medo, medo da reação do eahan quando descobrisse, e esperava dessa forma dar uma razão de ser à sua gravidez e, através dela, reforçar a sua união com Quenestil.

Poderia ter resultado; e resultara de fato, até Tannath ter aparecido em Gul-Yrith. Fora o princípio do fim, e agora não imaginava como poderia alguma vez ficar com Quenestil, não depois daquilo que fizera. Ainda não tinha a certeza se o eahan a associara ou não à morte da kuvamora por envenenamento, mas depois de tudo o que fora dito e feito, duvidava de qualquer forma de que mesmo a natureza de Que­nestil lhe permitisse perdoá-la. Não que Slayra estivesse muito pro­pensa a aceitar o perdão do shura, pois ela própria sentia-se traída: ver Quenestil com a kuvamora nos estábulos doera-lhe mais que qualquer golpe desferido por um dos seus conterrâneos. Sofrera muito em Jazur­rieh, mas fora um tormento esperado, enquanto nada a poderia ter pre­parado para ver o eahan montado sobre a sebosa humana, como dois cães no cio a revolverem-se na palha a feder a estrume. Sentira náuseas então, e a memória dessa particular imagem ainda hoje lhe deixava o estômago frio e apertado.

Porém, não era por esse motivo que estava insatisfeita, mas sim pelo fato de Knorl e o seu séquito se estarem agora a dirigir para Dalstirvirk, longe da segurança de Knorlvog. E porque o tempo estava frio e ventoso no campo de lava desabrigado que atravessavam, esse varrido por rajadas que desciam pelas montanhas abaixo, exaladas pelo pesado céu cinzento em cima. E porque as faixas que lhe apertavam os seios lhos magoavam e lhe tornavam difícil a respiração, malditas tetas de vaca lactante. Agora que não estava a amamentar, tivera de tomar algumas precauções, entre as quais umas ervas importadas ofe­recidas pela parteira de Knorlvog: salva, azeda e alsina, com as quais devia fazer um chá de cuja eficácia duvidava, mas que ainda assim tomava. As lições das mestras do deleite eahanoir afiguraram-se nova­mente úteis, após um ano inteiro a tentar esquecê-las. Em Jazurrieh, uma criança era uma de duas coisas: uma arma a afiar para o futuro, ou uma outra via através da qual um inimigo poderia atacar. Slayra certificara-se de que a segunda possibilidade não se poderia concre­tizar, afastando-se delas; e quanto à primeira, não tinha interesse em usá-las como arma contra Quenestil, até porque este não se parecia preocupar com elas.

Não importava. Estava agora longe do eahan, longe dos fardos que eram os bebês, que nem mesmo o seu propósito tinham servido — o de reforçar os laços entre ela e Quenestil. Longe dos sempre solícitos eahlan, longe do emocionalmente retardado Deadan, longe da quinta de velhos, mulheres e homens fracos. Knorl ao menos tinha homens fortes ao seu serviço, boa parte dos quais se encontravam no grupo que partira com o seu senhor, que fizera questão de que Slayra o acom­panhasse, deixando a sua mulher e restantes concubinas para trás. Com a desculpa de que dera à luz há pouco tempo, a eahanoir mantivera o garding satisfeito nos últimos dias através das massagens que lhe tinham sido ensinadas pelas mestras do deleite, mas desconfiava de que este cedo ou tarde acabaria por exigir mais, e Slayra não estava disposta a dar-lho. Fora ensinada a usar o seu corpo como uma arma em mais que uma forma para atingir os seus objetivos, mas era algo que preferia fazer apenas como último recurso. Knorl não era feio de todo, apesar da sua idade, mas Slayra ouvira dizer que batia nas suas concubinas por não poder bater na mulher, que era a filha dileta de um outro garding. Como tal, e como provavelmente acabaria por reagir se fosse agredida, era preferível i-lo aplacando com as mas­sagens, que eram na verdade por si sós capazes de levar um homem ao êxtase. Slayra não fazia parte das eshuranwe, a casta das prostitutas, mas enquanto assassina tivera de aprender alguns dos segredos do ofício, e estes tinham sem sombra de dúvida provado ser úteis em Knorlvog.

Uma gélida esfuziada de vento despertou a eahanoir dos seus pensa­mentos, arrepiando-a e obrigando-a a puxar o capuz para a frente. Slayra usava as roupas de uma comum wolhyna, tendo decidido ver-se livre das suas velhas, que queimara juntamente com as memórias que traziam. A sua nova indumentária era quente, mas pouco prática e algo restritiva: um vestido talar de lã branca e um avental azul, um pesado xale da mesma cor aos ombros, preso por um belo broche de ouro — a prenda que Slayra recebera após a primeira massagem, para grande indignação das outras concubinas — e uma espessa capa preta com capuz. Ainda assim, por muito estorvo que as roupas lhe causas­sem, sentia-se grata por elas naquele desolado campo de lava atapetado de neve, onde o vento lhe entorpecia a ponta do nariz, e onde mesmo com luvas de dedos ligados tinha de os ir mexendo para que estes não ficassem dormentes. Tais condições climáticas condiziam até certo ponto com o estado de espírito da eahanoir, que, não importava quantas camadas de roupa usasse, não mais deixara de se sentir fria por dentro desde que abandonara Horavog. O calor humano que a acompanhara desde que conhecera os companheiros esmorecera quando tivera de se separar deles, mas restara sempre algo com a presença de Quenestil, de longe o mais fulgente dos pontos de luz que a tinham levado a sair da escuridão. Agora que fora traída e aban­donada, a escuridão afigurava-se-lhe reconfortante, como os braços de uma mãe odiada que recebia de volta uma filha extraviada. Estava sozinha numa terra desconhecida, rodeada de homens que a viam como pouco mais que um buraco ambulante com duas pernas, e tinha aca­bado de ser arrancada do único local naquela maldita ilha onde lhe teria sido conveniente permanecer.

Knorlvog era mais abrigado ainda que Horavog, pois tinha um bra­ço de serranias adicional entre si e a quinta de Oska, que serviria como amortecedor contra a primeira investida dos skrimmen. Tinha também mais e melhores barcos que Horavog, e Slayra chegara até a persuadir um pescador que falava Leochlan a levá-la em segredo até Tanarch. Conseguira-o através de um encontro discreto num defumadouro de peixe durante a noite, no qual o presenteara com uma das suas mas­sagens. O rapaz ficara completamente tomado por ela, embora ciente de que, caso Knorl soubesse, podia perfeitamente ser executado, bem como Slayra. Estivera tudo bem encaminhado para uma fuga oportuna, e o barco do rapaz podia facilmente tê-la levado de volta a Tanarch ou mesmo à Wolhynia, onde arranjaria forma de se safar até descobrir aonde queria ao certo ir, algo no qual mal chegara a pensar. O impor­tante era sair dos Fiordes, ir para bem longe de Quenestil, dos skrim­men, e dos exércitos tanarchianos que aparentemente aí vinham. Porém, a decisão de Knorl de a levar estragara tudo, e Slayra tinha agora de ir ponderando as suas alternativas. Sabia que correra alguns riscos com o seu plano inicial, sobretudo ao optar por uma massagem no defumadouro em vez de um outro ato mais expedito, mas por algu­ma estranha razão, tal como com Knorl, não se sentia muito à vontade com essa alternativa. Pensara em justificá-lo como um ato de vingança para com Quenestil, mas nem mesmo dessa forma se conseguira con­vencer a fazê-lo. Era uma sensação invulgarmente pudica para Slayra, e a única justificação que lhe ocorria para tal atitude era algo no qual não lhe apetecia pensar. Não iria sequer pensar.

— Hettad — disse um dos homens, quebrando o silêncio que acom­panhava o grupo desde que tinham levantado o acampamento de manhã, quando o céu estivera rigorosamente igual ao plúmbeo firma­mento que naquela tarde lhes pesava sobre as cabeças.

Slayra ergueu a meditabunda cabeça a par de todos os outros, que durante a marcha tinham mantido os olhos no chão devido ao vento que lhes batia na cara, vendo que o guerreiro indumentado de cota de malha estava com a mão levantada e com a outra no punho da sua espada. Encontrava-se diante de um marco miliário feito de pedras empilhadas e parcialmente revestidas por uma camada de neve, sobre as quais crescia uma estranha espécie de musgo ou líquen peludo de cor avermelhada, e a eahanoir questionou-se por que razão o wolhyno quereria parar para notificá-los de algo tão banal... quando se deu conta de que a cor avermelhada se devia a sangue, e que o «musgo» eram escalpes empapados dele.

A grotesca e inesperada visão fez com que todos os que não ficaram a olhar para ela em horrorizado fascínio olhassem alarmados à volta, sondando o deserto e irregular campo de lava como se uma ameaça pudesse a qualquer momento saltar de uma das inúmeras fendas no solo. Os guerreiros levaram todos as mãos às armas, afastando-se do grupo e formando um assimétrico círculo em redor deste. Os homens armados representavam cerca de um quarto dos presentes no séquito, sendo os restantes criadas, cozinheiras e escravos ruivos, além de uns poucos homens de estatuto aparentemente mais elevado, a avaliar pelas roupas. Todos se recolheram dentro do círculo como um grupo de ovelhas assustadas, até que Knorl ergueu a mão e a voz para impor a ordem, bradando aquilo que pareciam ser insultos. O Hjrutmalv que Slayra entretanto aprendera chegava para pouco mais além de comu­nicação básica, mas percebeu que o garding dizia alguma coisa pouco elogiosa, outra coisa relacionada com os skrimmen, e que não deviam preocupar-se. Ninguém pareceu muito convencido, olhando com ar apreensivo para as nubladas vertentes das montanhas em cima, e Knorl rosnou que continuassem a avançar, agarrando alguns escravos pelos braços e impelindo-os a andar, desferindo um pontapé na perna daquele que parecia mais assustado. O senhor de Knorlvog estava armado como os seus guerreiros, vestido com um jaco de cota de malha e com uma espada embainhada à cinta, o que impunha o seu respeito. Os homens do garding emularam os seus gestos, e o grupo não tardou a seguir viagem, enquanto Knorl ficou parado diante do marco miliário, olhando-o não com receio, mas desprezo. Quando Slayra passou por ele, o homem desembainhou a espada e desferiu um golpe com o lado da lâmina no topo do marco, conseguindo apenas arrancar uma pedra e um escalpe, pelo que deu seguimento ao golpe com um forte pontapé. Cabeças viraram-se para trás quando o topo do marco miliário desmoronou, soterrando os ensangüentados escalpes debaixo das pedras que caíram, e só então Knorl foi atrás do grupo, embainhando a espada com um gesto de satisfação e compondo os cabelos castanhos de linha recuada. Slayra sentiu-o vir na sua direção, e, ao virar a cara, reparou que o wolhyno a olhava com um ar que achou delambido, mas ainda assim retribuiu com um meio-sorriso.

— Temos perigo, senhor? — perguntou, não tendo de fingir tanto assim para parecer preocupada.

— Não, dokrotda. — Era assim que Knorl a tratava. Slayra desco­nhecia o significado da palavra, mas o wolhyno dizia-a sempre com tom orgulhoso e proprietário, acompanhado de um sorriso lascivo e um brilho nos seus estreitos olhos azuis. — Os skrimmen tentam só assustar-nos.

«Olhando para os teus homens, parece que conseguiram», pensou Slayra. — Não é melhor ficar na casa, senhor?

— Não tenhas medo — disse Knorl, dando-lhe uma palmada na nádega à mão cheia, num gesto que fez com que a eahanoir desse um pulo de sobressalto. Esta lançou um olhar perigoso como uma lâmina ao garding, mas lembrou-se de o suavizar antes que este estranhasse. Havia aparências a manter. — Aqui estamos sozinhos.

Foi difícil mantê-las quando a mão de Knorl permaneceu na sua nádega ofendida, apertando-lha mesmo através da capa. Slayra enco­rajara tal comportamento, dele e dos outros homens, enquanto se tentara insinuar no quotidiano de Knorlvog, mas naquele momento teve vontade de lhe partir o pulso. Contudo, conseguiu fingir agrado, mordendo o lábio inferior e olhando Knorl dos cantos dos olhos com uma sobrancelha erguida.

— As mulheres não gostam de ti, dokrotda — acrescentou o homem. — És bonita demais para elas. Diferente demais. Comigo, aqui, estás mais segura.

Segura. Knorl parecia ter lido a sua mente. Fora em grande parte a sensação de segurança que a levara a permanecer com os companhei­ros, e posteriormente com Quenestil. Fora também em parte em busca dela que viera para Knorlvog, e era a falta dela que a fazia querer regressar. Knorl era sem dúvida um homem confiante, e os traços duros das suas alongadas feições de testa alta transmitiam-no, mas Slayra duvidava de que a sua quinta tivesse sido atacada durante a noite por um grupo de skrimmen e ulkatr. Slayra sentia-se exposta, e o fato de se encontrar num campo de lava aberto com as montanhas bem ao lado em nada ajudava essa sensação. Porém, duvidava de que insistir com o wolhyno desse frutos, e restava-lhe apenas esperar que a assembléia não demorasse muito tempo. Podia até ser que surgissem novas hipóteses, uma vez reunidos os garding dos Fiordes num único local, o que poderia abrir todo um rol de outras possibilidades.

Knorl tomou o seu silêncio como sinal de que conseguira tranqüi­lizar a sua concubina, e lançou-lhe um último sorriso promissor antes de avançar para a dianteira do grupo. Slayra fez uma careta desdenhosa às costas do seu novo senhor, ajeitando a capa num gesto indignado e olhando com ar desconfiado para as enevoadas montanhas ao seu lado. Os outros presentes viraram as caras quando a eahanoir passou o olhar por eles, menos as mulheres, que deixaram bem claro o quanto a desprezavam antes de desviarem elas também os olhos. Slayra suspirou, conformada. Desconfiava de que Knorlvog não passava de um grande galinheiro para Knorl, e que a atenção que este dedicara à sua mais recente galinha encrespara muitas penas: escravas, criadas, concubinas, e mesmo mulheres de outros homens. Knorl era um confiante e nada feio homem de apetites numa posição de poder, e isso notava-se.

«Perfeito. Morta por skrimmen ou por uma wolhyna ciumenta, Nem sei por onde hei-de escolher...»

Caída a noite, o grupo montou acampamento perto de uma fonte de água quente aninhada aos pés de um escabroso afloramento de rocha basáltica. Tal como o resto do terreno em redor, estava par­cialmente revestido por uma camada de neve, embora as bordas da fonte estivessem viçosas com erva crestada e pedregulhos úmidos malhados com líquenes. Os vapores convidativos eram impossíveis de resistir com o frio que viera com a cedia escuridão do Inverno que tar­dava a partir, e muitos aproveitaram para se lavar na fonte, alguns chegando mesmo a despir-se para se banharem. Os homens montaram as tendas ao abrigo de umas penhas, e Slayra não pôde deixar de reparar que, apesar da simplicidade dos abrigos — que não passavam de duas empenas cruzadas e lona oleada com gordura de foca, presa ao chão por pedras — tinham ainda assim a madeira dos remates cinzelada. Os Fiordes dos Piratas eram uma terra estranha, na qual os requintes da civilização se misturavam com os improvisos da sobre­vivência, e onde o poder era medido pelo número de ovelhas e pela qualidade das armas em igual medida. Eram pormenores importantes que a eahanoir teria de ter em conta, pois para sobreviver e escapar seria necessário saber mexer-se em sociedade entre os wolhynos.

As mulheres presentes não gostaram de vê-la sentada numa rocha a observar enquanto trabalhavam, e Slayra notou mais que um olhar azedo na sua direção, bem como uma série de comentários sussurrados entre cabeças achegadas, que a fitavam sub-repticiamente. Ignorou-as, pois não era do seu interesse criar conflitos, pelo menos por enquanto, e ficou simplesmente a raspar uma mancha de líquen da rocha sobre a qual se sentava. Os homens também a olhavam, embora por motivos bem diferentes, e Slayra retribuía o olhar de cada um, mantendo contato visual apenas durante tempo o suficiente para deixar cada um na dúvida, sem contudo dar motivos a Knorl para que este ficasse desconfiado. O garding ia também ele cruzando olhares com Slayra enquanto distribuía ordens, e o seu sorriso prometia uma noite de atividade, em antecipação da qual a eahanoir fingiu estar ansiosa.

«Ele vai querer festa hoje», previu Slayra, saltando da rocha com um suspiro, decidindo aproveitar para se lavar um pouco na água quente da fonte, apesar do odor a ovos podres que desta emanava.

Ajoelhando-se à beira da fumegante água, a eahanoir tirou as luvas e molhou os dedos exangues, que formigaram dolorosamente ao contato. Assim que começou a sentir a circulação regressar às pontas, aproximou a cara da água para lavá-la, quando de repente algo nela caiu, respingando Slayra e fazendo-a cair para trás como uma gata molhada. Igualmente como uma gata, a eahanoir levantou-se logo de seguida, compondo o vestido como se nada tivesse aconte­cido, mas lançou um olhar feroz aos homens que riram rudemente do sucedido. Porém, não foi nestes que os seus friamente raivosos orbes permaneceram, mas nas mulheres que afetavam um ar ino­cente enquanto continuavam a preparar a fogueira e o jantar. Knorl nada disse, ficando apenas a olhar enquanto Slayra se encaminhava na direção destas, que se fingiram intrigadas ao verem Slayra apro­ximar-se.

— Quem foi a engraçadinha? — perguntou num misto de Glottik e Hjrutmalv, que apenas fez com que as mulheres abanassem as cabeças com sorrisos escarnecedoramente divertidos.

Os homens continuavam a rir nas suas costas, e algumas das mu­lheres cruzaram os braços, como se estivessem a desafiá-la a fazer algo a respeito. A maior parte eram jovens criadas ruivas e sardentas, mas essas pareciam menos entretidas que as moçoilas wolhynas, entre as quais uma loura com ar mais velho e sabido. Estavam claramente a tentar estabelecer hierarquias naquela ramificação da capoeira de Knorlvog, e Slayra não estava disposta a deixá-las empoleirarem-se em cima dela.

— Quem meteu pedra em água? — tornou a perguntar, desta vez tentando ser mais clara, mas o seu parco domínio da língua fez apenas com que uma jovem de louros cabelos entrançados soltasse uma diver­tida fungadela.

Os homens riram um pouco mais, e os olhos de Slayra arderam sem chamas sobre o grupo de mulheres divertidas, aos pés das quais se encontravam pedras iguais à que fora atirada à água. As narinas da eahanoir fremiram, e esta deu um passo em frente, postando-se entre o grupo e diante da wolhyna mais velha, para gáudio dos homens. A mulher era bem mais velha que ela, mas os ares dos Fiordes faziam bem à pele, e tinha menos rugas que muitas com metade da sua idade. Os seus cabelos de um louro arenoso estavam presos numa pesada trança sobre o ombro, e formava covinhas nas bochechas com o seu sorriso petulante, olhando Slayra do cimo da sua superior altura. A eahanoir mostrou-lhe a mão de suja palma aberta, aparentemente para exibir uma ferida que fizera ao aparar a queda sobre a fragosa pedra do local. Porém, assim que os olhos da wolhyna se baixaram, Slayra cerrou o punho e plantou os nós na boca da mulher, rápida como uma cobra. As raparigas à volta de ambas sobressaltaram-se com o gesto e afastaram-se, algumas levando a mão ao peito de susto, enquanto a visada levou as suas à boca, curvando-se de olhos fechados com a dor. Por sua vez, os homens tentaram acicatar as mulheres com gritos e apupos, e Knorl ergueu as agradavelmente surpresas sobran­celhas. Slayra não estava porém interessada em sovar as raparigas para o entretenimento de ninguém, e ficou-se por um olhar de aviso geral a todas antes de lhes virar as costas, para grande desapontamento dos homens.

Porém, não foi necessário o renovado entusiasmo destes para Slayra perceber que a wolhyna mais velha ainda não aprendera a lição, pois ouviu passos raivosos atrás de si. Virou-se a tempo de agarrar a grande mão que vinha agarrar-lhe os cabelos, e torceu-lhe o pulso ao mesmo tempo que os seus dedos se engancharam perigosamente na laringe da mulher. Teve apenas tempo de se repreender mentalmente por se estar a expor de tal forma, mas fora uma reação instintiva, e não a pudera evitar. Era-lhe indiferente mostrar que não era propriamente indefesa, mas em nada lhe convinha expor-se como uma lutadora treinada, pelo que decidiu dar uma aberta à mulher, soltando-lhe a garganta e afrouxando o aperto no seu pulso. Esta aproveitou de imediato a vantagem oferecida, movida pela raiva e agora também pelo medo, pois sentira os dedos da eahanoir enterrarem-se na sua garganta, e agarrou-a pelos cabelos com uma mão, tentando esbofeteá-la com a outra. Slayra aparou os golpes, deixando apenas um ou dois rasparem-lhe a cabeça. Quando ouviu os homens aproximarem-se, meteu a mão na cara da wolhyna, enfiando-lhe os dedos nos olhos. Esta grunhiu, e parou de lhe tentar bater para afastar a mão da sua cara, que estava contorcida numa careta de raiva, com sangue a escor­rer-lhe do lábio inferior rebentado. Começou a praguejar numa voz histérica, debatendo-se com Slayra e berrando-lhe as suas certamente dolosas intenções na cara enquanto tentava derrubá-la com o seu peso superior. A eahanoir viu várias formas distintas de a inutilizar na posição na qual se encontravam, mas preferiu agüentá-la até que os homens chegassem, esperando que o seu desempenho não tivesse levantado suspeitas indevidas.

Não foi necessário esperar tanto, pois a mulher estremeceu repen­tinamente e estacou a olhar para Slayra com olhos bem arregalados.

Abriu a boca, mas dela pingou apenas um fio de saliva sangrenta, que lhe caiu sobre o peito, abaixo do qual se projetava a ponta de uma flecha.

Os homens gritaram em alarme, desembainhando as espadas quando outras flechas começaram a cair, uma delas atingindo um guerreiro no ombro, e as outras partindo-se contra a pedra em redor. Slayra ficou a olhar durante breves e paralisados momentos para a sangrenta ponta de obsidiana diante de si, até que a wolhyna desabou de repente sobre ela com o seu peso moribundo, desequilibrando-a e caindo sobre ela ao chão. A eahanoir conseguiu apenas desviar o corpo da mulher o suficiente para que esta não lhe caísse com a ponta da seta em cima, mas ficou ainda assim presa debaixo dela. Foi então que se ouviram os primeiros gritos dos skrimmen, quando estes surgiram da neve das montanhas, indumentados com peles de raposas brancas e armados com dardos. Vinham acompanhados de ulkatr, que soltaram rugidos ferinos antes de galgarem a vertente da montanha a passos largos, os seus vultos brancos parecidos com ferozes fantasmas ao lusco-fusco. As mulheres guincharam em pânico, e os homens que não estavam armados tentaram correr, mas Knorl impôs-se à confusão e berrou-lhes que se escondessem debaixo dos penedos do seu abrigo, uma ordem que foi prontamente acatada por todos menos Slayra e os guerreiros. A eahanoir estava presa debaixo do volumoso corpo da wolhyna morta, e mal conseguia ver o que se estava a passar enquanto se tentava libertar dela, distinguindo apenas vultos a saltarem do afloramento enquanto se sacudia de um lado para o outro. Aço mordeu carne, e os primeiros gritos fizeram-se ouvir, mesclando-se aos das afli­tas mulheres abrigadas e aos rugidos dos ulkatr. Um par de pés ater­rou mesmo pesadamente perto da sua cabeça, mas quem sobre eles andava foi prontamente ceifado por uma espadeirada, caindo com um baque morto ao lado da eahanoir.

Foi tudo muito rápido, e Slayra pensou em ficar quieta e esperar que a situação passasse, mas sentira-se desagradavelmente indefesa ao ter visto os pés, e preferiu sair de debaixo da wolhyna morta. Rastejou apressadamente sobre os cotovelos até um pedregulho, sentindo-se nua sem uma arma, uma sensação que a acompanhara desde que tivera de se ver livre dos estiletes antes de entrar em Knorlvog. Porém, não teve tempo de se abrigar, pois distinguiu entre os ruídos da refrega os cliques de unhas sobre pedra, e olhou por cima do ombro para ver um ulkatr investir sobre ela de dentes arreganhados e negras beiças espu­mantes. Não trazia armas consigo, mas as suas garras e caninos eram suficientemente letais, além de que trazia atadas ao antebraço direito as afiadas presas de uma morsa. Sem tempo para grande reação, a eahanoir virou-se de costas para o chão para receber a investida, erguendo os pés, mas o ulkatr atirou-se para cima deles, sofrendo um pontapé no focinho com uma perna mas afastando a outra com a mão esquerda, levando a direita atrás com o intuito de espetar as presas de morsa no peito da eahanoir. Conseguira com o primeiro golpe arranhar também Slayra, que mal teve tempo para sentir a dor das garras a rasgarem-lhe a saia e a pele da barriga da perna, pois viu a morte vir de cima. Agindo por puro instinto, aparou o golpe com ambas as mãos, cujos pulsos arderam com o impacto, deixando as presas de morsa a escassa distância da sua cara. Tentou bater repetidamente com o pé na cara da criatura, mas os seus pontapés eram amortecidos pela juba ou raspavam simplesmente pela cabeça do adversário, que a mexia como um animal à espera de morder enquanto rosnava. Por sua vez, Slayra contorcia-se no chão como uma gata assanhada, sentindo a pedra áspera morder-lhe as costas mesmo através da capa e das roupas, e sabia que nem mesmo com ambos os braços conseguiria suster a força animal do adversário.

Como tal, optou por parar de pontapear o ulkatr, e usou a perna para enlear o cotovelo do braço das presas de morsa, torcendo-o então. Obrigado a tal pela dor, o ulkatr deixou-se levar pelo movi­mento, mas a sua força e rapidez permitiram-lhe tirar o membro da posição de luxação ao contorcer-se com Slayra, que de repente se viu embrenhada numa luta corpo a corpo com a criatura. Não estava à altura da força animal desta, e sabia-o, mas pouco pôde fazer antes de ser esmagada pelo surpreendente peso do ulkatr, que era bem mais pequeno e aparentemente mais compacto que Babaki, e, antes de conseguir reagir, já eram só pêlos e garras por todo o lado. O ulkatr roncou-lhe ao ouvido, e a reação instintiva de Slayra foi dar-lhe uma cabeçada nos dentes com a nuca para que este não a mordesse. A criatura rosnou de dor e puxou-lhe os cabelos com força, expondo a garganta da eahanna para lha perfurar com as presas de morsa. Slayra estava com as pernas presas e um braço ocupado a fincar os dedos na mão que ameaçava arrancar-lhe o cabelo, e tinha apenas duas opções para o que estava livre: tentar impedir o iminente golpe, ou agredir a cara do ulkatr, que estava bem em cima do seu ombro. Optou pela segunda, sem tempo para sequer ponderar a futilidade da primeira, e bateu de palma aberta no nariz do adversário, que soltou uma aguda rosnadela de dor, suficiente para lhe parar o golpe a meio.

Em resposta, mordeu o ombro de Slayra, mas antes que as suas presas lhe pudessem furar a carne, a eahanoir arrancou instintivamente o broche que lhe prendia a capa aos ombros, espetando cegamente a sua longa e grossa agulha na cara do ulkatr. O ruído que este emitiu foi um misto de miado e rugido, e deixou Slayra surda do ouvido que se encontrava ao lado da boca escancarada. A criatura soltou-a, e a eahanoir deixou-se cair, atordoada, forçando-se contudo a rolar pelo chão para longe da ameaça, criando distância entre si e o ulkatr, que se contorcia de pé, com ambas as mãos sobre um olho, rosnando de dor e com sangue a escorrer-lhe por entre os dedos.

Uma forte machadada na cervical pôs fim ao seu sofrimento, e a criatura caiu morta ao chão, com o broche dourado a servir-lhe de grotesca pala dourada sobre o sangrento olho mutilado. O guerreiro de Knorl que desferira o golpe de dúbia misericórdia mal se deteve para ver se Slayra estava bem ou não, parecendo apenas interessado em eliminar os inimigos que se encontravam entre eles. A eahanoir ofegou, agarrando o ombro mordido enquanto olhava para a violenta contenda em redor, na qual os wolhynos grunhiam, desferindo pos­santes golpes com as cotas de malha a tilintarem, e os skrimmen e ulkatr saltavam em redor como cães vadios a assediarem lobos. Havia já vários mortos no chão, nenhum deles dos homens de Knorl, embora alguns destes estivessem visivelmente feridos, e a erva crestada em redor estava regada de sangue. O próprio Knorl encontrava-se embrenhado na luta, dançando de forma exímia entre os inimigos com a sua espada, uma dança abrupta e pouco refinada, mas deveras eficaz. Slayra sondou o terreno em redor, pensando numa forma de ajudar — mais por hábito adquirido durante as suas aventuras com Quenestil e os outros do que por genuína vontade de auxiliar os wolhynos — mas continuava desarmada, e com aquelas roupas não se iria meter numa luta aberta a menos que a tal fosse obrigada.

Não houve necessidade, contudo, pois antes que a eahanoir pudesse decidir a favor ou contra, a terra começou a tremer, e com ela as rochas e pedregulhos em redor. Neve foi espremida para fora de frestas rocho­sas, fendas estalaram, e a vaporosa superfície da fonte agitou-se como a de uma bacia a ser vascolejada. Homens e ulkatr perderam o equi­líbrio quando o íngreme solo tremeu, caindo ao chão e para cima uns dos outros numa confusão de membros esbracejantes e espadas a tilin­tarem em pedra. Slayra tropeçou ela também, segurando-se a uma áspera saliência próxima, que lhe arranhou as palmas das mãos quando a eahanoir nela se apoiou ao sentir o chão rebelar-se debaixo dos seus pés. A fonte começou a borbulhar, e a temperatura da água pareceu subir, o que se refletiu numa mais intensa emanação de vapores; esses com um bem mais pungente odor a ovos podres. Alarmados, os skrim­men e ulkatr começaram a bater em retirada, tendo os primeiros maior dificuldade em manter o equilíbrio, pois os seus aliados corriam sobre quatro patas pela ladeira acima. A sorte dos skrimmen foi o fato de os seus adversários wolhynos estarem demasiado ocupados a manterem-se de pé para irem no seu encalço, e estes acabaram por conse­guir escapar-se juntamente com os outros, correndo por entre pedras e calhaus que rolavam pela encosta abaixo. As mulheres abrigadas gritavam, abraçadas umas às outras como se o mundo lhes fosse desa­bar em cima, e os homens tentaram refugiar-se eles também, trope­çando uns nos outros. Slayra olhava à volta de olhos arregalados como um animal assustado, desesperadamente agarrada à saliência enquanto tentava compreender o que se estava a passar, temendo que a água em ebulição da fonte lhes jorrasse para cima numa furiosa torrente escal­dante.

Tal não veio a acontecer, pois os tremores cessaram tão depressa quanto tinham começado, e a água da fonte acalmou, soltando uma última nuvem de vapor que passou por todos os presentes como o pes­tilento suspiro de um colosso adormecido. O grupo não se mexeu durante os momentos de silêncio que se seguiram, esses apenas que­brados pelos ruídos dos últimos seixos que caíam pela encosta com pequenos ruídos pétreos, alguns para cima dos homens. Knorl acabou por dar o hesitante exemplo, erguendo-se de espada empunhada e per­guntando se todos estavam bem, enquanto olhava para os agora distantes skrimmen, que não se detiveram quando os tremores ces­saram e continuaram simplesmente a correr, até desaparecerem na escuridão. Os guerreiros levantaram-se eles também, uns tapando feri­das com as mãos e outros a coxearem de uma perna, e a eles seguiram-se os restantes homens e as mulheres. Estas começaram a chorar, ajoelhando-se diante do corpo da matrona que lutara com Slayra, en­quanto os homens olhavam com nojo e desprezo para os cadáveres de skrimmen e ulkatr em redor.

Slayra levantou-se ela também de pernas trêmulas, com a mão sobre o peito numa tentativa de acalmar o alvoroço do seu cora­ção. Sentira o bafo da morte na cara, uma sensação há qual já não estava habituada, e ainda tremia da sua breve contenda com o ulkatr. Knorl veio ter com ela, agarrando-a delicadamente pelo braço e inqui­rindo acerca do seu bem-estar, mas a eahanoir não o ouviu nem olhou para ele, limitando-se a acenar com a cabeça e cruzando os braços com força, como se estivesse com frio. O wolhyno anuiu e apertou-lhe o braço com reconfortante força, tratando então de impor alguma ordem à confusão que se instaurara no acampamento, e deixando Slayra entregue aos seus pensamentos.

«Não acredito nisto...», admirou-se a eahanoir. «Saio daquela quinta miserável para ficar bem longe de qualquer ameaça, e sou arrastada para fora dela para ser atacada por skrimmen, e para o chão se abrir debaixo dos meus pés?»

As narinas de Slayra expeliram uma fungadela de indignação, e ela soltou uma involuntária e arquejante risota, não querendo acreditar no que lhe estava a acontecer. Duas das raparigas que carpiam a morte da mulher mais velha notaram, e lançaram-lhe olhares plenos de ódio, que a eahanoir ignorou. Não conseguia sequer conceber o que aca­bara de se passar, o que poderia ter levado a terra a tremer, mas certa­mente não augurava nada de bom. Faria parte da vingança dos skrimmen? A kuvamora parecera ser detentora de uma medida de poder mágico, bem como uma ligação íntima com a terra; seria esta a retribuição do seu espírito vingativo?

«Palavra de honra...», pensou, virando a cara com um suspiro. «Para isto quase mais valia ter ficado em Horavog...»

 

— Podemos ficar aqui o dia todo, Aereth — disse Aewyre, encos­tado à parede de braços cruzados. — Eu tenho tempo.

Não era verdade; tinha imenso que fazer, mas não se sentia capaz de levar a cabo as suas tarefas enquanto não ouvisse da boca do seu irmão aquilo que verdadeiramente se passara durante a sua ausência. Aereth não parecia disposto a conversar, contudo, e permanecia encolhido a um canto da cela da masmorra, de ombro encostado ao bloco de pedra acolchoado que lhe servia de cama, agarrado às suas pernas e com o queixo apoiado sobre os joelhos. Ainda usava as nobres vestimentas que envergara para o fatídico jantar de aniversário da princesa Iollina, e o regaço da sua túnica vermelha estava escurecido por sangue seco. Não parecia incomodado por isso, muito menos disposto a falar, e limi­tava-se a olhar para um ponto indeterminado da escura cela.

Aewyre suspirou, descruzando os braços, cujas braceiras roçaram na régia couraça que Daveanorn lhe mandara trazer. Era uma bela peça de metal revestido com tecido vermelho, segmentada na zona ventral, e com uma águia de ouro nela emalhetada. As espaldeiras vermelhas tinham também elas águias áureas de asas abertas, cujas penas res­saíam das peças, e que seguravam uma capa vermelha debruada a ouro. Remontava a uma época na qual Nolwyn estivera unido debaixo da égide de um rei-guerreiro, e Aewyre não se sentia particularmente confortável com ela envergada, mas sabia que havia que manter as aparências.

— Já te disse que não te culpo por nada — assegurou. — Sei que o responsável foi o Dilet. Só quero que me digas o que se passou ao certo, como isto tudo veio a acontecer...

O seu irmão permaneceu silencioso, e o jovem dirigiu-se a ele, ajeitando Ancalach e sentando-se de lado diante dele no bloco de pedra. Aereth não cedeu ante o seu olhar, e a sua única reação foi um piscar de olhos. Embora ainda não havia duas noites tivesse sido o anfitrião do jantar entre duas cortes, estava com um aspecto lastimoso: tinha os olhos inchados e vermelhos, sombreados por atormentadas olheiras, e mesmo a sua farta barba negra parecia ter perdido o vigor, pesando-lhe na pele e baixando-lhe os cantos da boca.

— Como disse, tenho a tarde toda — insistiu Aewyre, enclavi­nhando os dedos e olhando para eles, poupando o seu irmão ao seu olhar. — Nem me importo de ficar aqui só a falar. Tu nem imaginas tudo o que aconteceu desde que parti...

As suas palavras falharam em capturar a atenção de Aereth, pelo que o jovem fez que sim com a cabeça, conformado com o silêncio.

— Pois bem. O primeiro erro cometi-o eu, ao sair do palácio. Sabias que O Flagelo estava alojado na Ancalach? — perguntou, indicando a espada embainhada com um gesto da cabeça. — Pois, o pai pensava que o tinha matado, mas afinal ele sempre esteve na espada, à espera. Eu parti para saber o que lhe tinha acontecido; se bem te lembras, nunca acreditei nas histórias de que ele tinha mor­rido...

A voz de Aewyre fraquejou por momentos, quando algo de seco lhe apertou a garganta. Já fizera as, pazes com a morte do seu pai, e embora esta o acompanhasse e atiçasse as brasas da raiva que o movia, não mais o afligia. Porém, o saber que o seu corpo fora queimado numa pira juntamente com dejetos do palácio, quase deixava o guerreiro fora de si de pesarosa fúria. Quando recebera a notícia pela primeira vez, quisera culpar o seu irmão, teria mesmo sido capaz de lhe bater se o tivesse visto na altura, mas entretanto convencera-se de que Aereth fora enganado por Dilet, tal como todos os outros, e que não tinha culpa. Em retrospectiva, a história de Lhiannah fora realmente difícil de engolir, e o fato de esta lhe ter contado que o seu irmão reagira com raiva era, a ver de Aewyre, uma circunstância atenuante. Significava que, a despeito da influência do bobo, o ter jul­gado que a memória do seu pai estava a ser aviltada fora quanto bas­tara para o levar a prender a princesa de uma cidade-estado vizinha. Isso queria dizer algo. Recusava-se a vê-lo de outra forma.

— Parti — prosseguiu. — Parti rumo a Asmodeon, para o procu­rar, mas a verdade é que também parti porque estava convencido de que poderia ter aventuras como as que o Allumno nos lia, lembras-te?

Não houve resposta.

— Daldagard do Machado Vermelho, Katasanios de Taygatar, A Torre de Kataya, Querillesh e os Gaviões Negros... — recordou o jovem com um efêmero meio-sorriso. — Estava convencido de que podia viver como eles, aventurar-me por Allaryia afora e retificar os males que encontrasse pelo caminho até Asmodeon. O Allumno veio comigo porque sabia... ele sabia que o nosso pai não tinha morrido, pois a alma dele está vinculada à Ancalach. Sabia que, se ele estivesse morto, teria regressado à lâmina, mas como não sentiu a presença dele nela, sabia que tinha de estar em algum lugar. Foi também por isso que decidiu acompanhar-me.

Pela primeira vez, pareceu conseguir a atenção de Aereth, cujos atormentados olhos se levantaram, fitando os do seu irmão. Aewyre deu duas ligeiras palmadinhas no pomo de Ancalach, que assentava embainhada sobre a cama de pedra.

— Ele está aqui, Aereth. O pai pode estar morto, mas continua conosco.

O regente não pareceu convencido, e tornou a baixar a cabeça, devolvendo o seu olhar ao vazio, mas Aewyre não se deixou desmo­ralizar.

— Pelas viagens fui encontrando outros como eu. Já conheceste a Lhiannah e o Worick: ela quis acompanhar-me porque... bem, na altura acho que o fez só porque queria fugir de casa. Ela não é bem como as pessoas pensam; julgam que ela teve uma vida boa e cheia de privilégios só porque é bonita, e que tem o mau feitio de uma rapariga mimada, mas a verdade é que a beleza dela muitas vezes lhe trouxe problemas. Sofreu muito em Vaul-Syrith por ser a filha bas­tarda de lorde Syndar. Julgo que o Sunlar até gosta dela, mas a mulher dele faz os possíveis para envenenar o relacionamento entre os dois; o Sologhn, o irmão ou meio-irmão dela, era o único verdadeiro com­panheiro que ela tinha, mas morreu novo, e ela ficou sozinha num palácio onde todos a desprezavam. É por isso que ainda hoje tem o feitio de uma javalina prenha, foi a única forma que arranjou de se defender.

Da parte de Aereth, nenhuma reação.

— O Worick é o protetor dela, e foi por isso que decidiu acom­panhá-la. Ele podia tê-la impedido de se juntar a nós, mas acho que percebeu que ela estava a definhar em Vaul-Syrith, e achou que o melhor que ela tinha a fazer era ir-se embora — disse Aewyre, apoian­do o queixo nos dedos enclavinhados e olhando para a parede. — Não é um thuragar típico, mas também, viveu com humanos durante tanto tempo, que se tornou mais suportável e um pouco menos má-rês. Não que tenha deixado de ser um velho sacana de maus fígados, mas é um bom companheiro, e ajudou-nos muito durante as nossas viagens.

Enlevado pelas memórias, Aewyre continuou a falar, sentindo-se reconfortado até certo ponto pelas reminiscências.

— Fomos encontrando outros. O Quenestil... lembras-te do Que­nestil? Falei-te muitas vezes dele, e acho que o viste uma vez em Edra­nil. — Aparentemente não, pois não houve resposta. — O Quenestil; o Taislin, que andou disfarçado de rateiro aqui pelo palácio; a Slayra, uma eahanoir que, vê lá tu, se juntou a nós porque se apaixonou pelo Quenestil, e que ficou grávida dele durante a viagem...

Apercebendo-se da caricata descrição, Aewyre sorriu novamente, soltando uma divertida fungadela.

— Heh. Agora que penso nisso, pareceu tudo uma brincadeira durante algum tempo: viajávamos por Nolwyn e pela fronteira com Thyr, lutávamos com alguns monstros, ficávamos todos partidos, descansávamos, discutíamos uns com os outros, e íamos em busca dos próximos. Ou então vinham eles ter conosco. Tudo muito giro. Até as pessoas começarem a morrer.

«A primeira foi uma rapariga chamada Nabella. Uma camponesa, daquelas que tu sempre disseste que eu acabaria por engravidar. Eu... — Aewyre hesitou, franzindo os lábios e arqueando as sobrance­lhas. — Apaixonei-me. Acho. Foi... foi algo...

Debatendo-se com as palavras, o jovem abriu as mãos para esfregar a cara, apertando-as de seguida e pousando nelas a boca.

— Não sei. Havia algo nela. De um dia para o outro, senti-me capaz de largar tudo só para ficarmos juntos. Foi tudo tão rápido... uma tolice, como naquelas histórias lamechas que a Smerunda nos contava, onde tudo acabava bem.

Aereth estalou os lábios secos, um ruído quase inaudível mas que deu alento a Aewyre.

— Mas esta não acabou. A Nabella morreu por minha culpa, por eu ter ido àquela cidade, convencido de que podia mudar tudo, punir os culpados e salvar os inocentes. Assim como o pai morreu por minha cul­pa, que achei por bem sair do palácio, convencido de que o poderia encon­trar e salvar o mundo. Que, na altura, nem sequer precisava de ser salvo.

Batendo com as mãos nos joelhos, Aewyre levantou-se, ajeitando a cinta da bainha, e dando uns passos na cela de cabeça baixa e mãos apoiadas nas ancas. Aereth seguiu-o com os olhos.

— Agora precisa — continuou o guerreiro. — O maldito regres­sou porque eu levei a Ancalach a Asmodeon, e agora está à solta. Matou o pai, e agora está a fazer sabem os deuses o quê, enquanto nós aqui em Nolwyn estamos à beira de uma guerra civil. Tudo por­que eu certo dia decidi levar a Ancalach e ir para Asmodeon procu­rar o pai. Como vês, Aereth — disse, virando-se para o seu irmão e pousando a mão no peito —, seja qual for o motivo pelo qual tu te estás a atormentar, nem de longe se compara àquilo que eu fiz.

O regente permaneceu sentado, silencioso e imóvel, mas Aewyre conseguira a sua atenção, e os dois fitavam-se agora com os olhos escuros herdados do pai de ambos.

— Se eu tivesse ficado quieto, se não me tivesse armado em herói... em parvo... nada disto teria acontecido. Nenhum dos servos d’O Fla­gelo poderia ter roubado a Ancalach, e o desgraçado permaneceria aprisionado para todo o sempre...

Abanando a desalentada cabeça, Aewyre esfregou os olhos, nos quais enterrou os frustrados dedos com um suspiro, e deixou-se ficar encostado à parede de braços cruzados, olhando para o chão. Aereth fitou o seu irmão com renovado interesse e uma expressão admirada na cara, e assim ficou durante aquilo que para ambos pareceu uma eternidade na escura cela, até que os olhos de Aewyre se levantaram quando ouviu um tossicar.

— Eu... — começou Aereth com uma voz rouca. — O bobo teve culpa de muita coisa, Aewyre.

Este fez que sim com a cabeça, pois era precisamente aquilo que quisera ouvir.

— Mas... ainda que ele não me tivesse influenciado... se a situa­ção tivesse mesmo sido... como ele me fez crer que era... não acho que tivesse reagido de outra forma.

As sobrancelhas de Aewyre franziram-se, desalentadas, mas o seu irmão ainda não terminara.

— O maldito deu-me bons conselhos — reconheceu o regente, menos reticente. — Sabia tudo o que se passava no palácio, parecia sem­pre prever o que ia acontecer a seguir... mas foi só quando a princesa Lhiannah e o general Worick vieram que... que eu perdi mesmo a cabeça. Que eu comecei a acreditar em tudo o que ele dizia. A pensar como ele.

— Mas porquê, Aereth? — quis Aewyre saber. — Porquê prender a Lhiannah, porquê começar uma guerra com Vaul...

— Não consegues mesmo compreender, Aewyre? — perguntou o regente caído com um tom amargurado na voz. — Vinte anos à espera do pai que nunca vi, tu e o Allumno, a única família que me resta, a desaparecerem sem mais nem menos... E, de repente, certo dia apa­rece a princesa que, segundo as notícias que nos foram chegando, se tinha juntado a ti... com uma carta com a assinatura do Allumno, e um cadáver putrefato que dizia ser o meu pai?!

Aereth conseguiu alvoroçar-se, surpreendendo o seu irmão com tão repentina alteração de humor.

— As relações com o Sunlar já não estavam boas, graças às maqui­nações do bobo por que eu me deixei levar, e quando a princesa veio com aquela história mirabolante... julguei que não passava de uma tramóia de Vaul-Syrith, que o Sunlar te tinha subornado e ao Allumno, ou algo parecido. Perdi a cabeça, Aewyre. Foi como se me tivessem cuspido na cara e na memória do pai. A partir de então, o desgraçado do bobo montou a minha raiva como um cavalo domado.

Aereth enterrou a lamentosa cara nas mãos, passando-as de seguida pelos espessos cabelos negros, que puxou com força. O seu irmão com­padeceu-se e foi a seu encontro, acocorando-se diante dele e pousando-lhe a mão sobre o ombro.

— O bobo ludibriou-nos a todos, Aereth — disse. — Até ao Allumno. Era mais do que nós alguma vez julgamos. Era um Aesh’alan; não te culpes por teres caído no engodo dele.

— Belo engodo. Fizeram de mim o que quiseram, ele e o Tylon — quase riu o regente. — Vê lá tu, até me convenceram a procurar filhos bastardos que eu pudesse ter tido sem o saber, para evitar eventuais disputas dinásticas nos tempos que aí vêm. Parece que encontraram uma e tudo, e fizeram questão de deixá-la com uma ama-de-leite len­nhesa. Nem sei o que pretenderiam com isso tudo...

— O Tylon está morto, Aereth. Já não...

— Está morto, pois. No meu salão. Debaixo do meu teto, enquan­to hóspede de honra, embora não tivesse vindo com boas intenções. E agora, para além da hoste de Sunlar que aí vem porque eu lhe apri­sionei a filha, ainda entramos em guerra com Lennhau também...

— Raios, Aereth, já te disse que a culpa não foi tua! — insistiu Aewyre com veemência, agarrando o seu irmão pelos ombros e sacu­dindo-o com certo vigor. — Isto foi tudo orquestrado pelo bobo, e tu não tiveste forças para lhe resistir! Homens melhores que tu e eu também não as tiveram; era um Aesh’alan, pelos deuses! Não precisas de ficar aqui a definhar na cela por isso!

O lábio de Aereth tremeu, e os olhos escuros deste brilharam com uma película lacrimosa.

— Ele matou-a, Aewyre... — disse com um pequeno soluço. — Era uma criança, uma criança que ele me convenceu a deflorar, e que matou como a uma porca na matança. Como pude ser tão cego? Tão estúpido...?

Aewyre ainda mexeu os lábios para falar, mas faltaram-lhe as palavras, pelo que se limitou a fazer que não com a cabeça e a abraçar Aereth, que retribuiu com força redobrada. Os dois irmãos deixaram-se então estar nos braços um do outro, sentindo uma até então ausente proximidade, reforçados os seus laços pelas tragédias que os tinham acometido a ambos. Foi Aereth quem tomou a iniciativa de afastar Aewyre, ficando contudo a agarrá-lo com força pelos braços enquanto o fitava.

— O pai? — fungou. — Como... como é que ele... o que disse?

— Perguntou por ti, e pela mãe — disse Aewyre, sentindo um súbito nó na garganta. — Morreu como sempre viveu. Como um guer­reiro. Salvou-nos a todos, e o maldito Flagelo só o matou porque... porque se serviu de mim como distração.

O guerreiro até então nunca verbalizara essa peculiar fonte de culpa, e não lhe foi menos difícil admiti-lo ao seu irmão do que a si mesmo. Aezrel empunhara Ancalach, e fora o combatente mais rápido e mortífero que o jovem alguma vez vira na sua vida, em nada ficando atrás ao próprio Anátema, que lutara com uma demoníaca graciosidade, célere como a sombra de um pássaro a voar. O seu pai fora distraído pela sua presença a meio do combate, e fora esse o ponto de viragem na contenda. Aereth nada disse, contudo, limitando-se a mirar o seu irmão sem qualquer acusação nos olhos, que se fecharam quando este suspirou com a gratidão que lhe percorreu o corpo ao saber por fim qual o destino do seu pai, ao fim de tantos anos. O alívio foi porém prontamente subs­tituído por um esmagador pesar, que levou Aereth a enterrar novamente a cara nas mãos, soluçando efusivamente com os ombros.

— Oh, Aewyre, que fiz eu? O pai... — lamentou-se, esmagado pela consciência daquilo que fizera. — O pai...

O jovem ajoelhou-se ao lado do seu irmão, pousando-lhe as compreensivas mãos por cima dos ombros.

— Eu sei, Aereth, eu sei... julgavas que era um engodo de Vaul-Syrith — disse. — Talvez eu tivesse pensado o mesmo, na tua posição. A culpa disto foi minha, não te...

— Tua, Aewyre? — retorquiu o regente com amargurados olhos lacrimejantes. — Tu fazes idéia... tu tens noção das coisas que o bobo me... que eu fiz?

— Aereth...

— Aereth nada! Pessoas morreram por minha causa, Aewyre, não só o Tylon, a mulher e a filha! E muitas mais ainda irão morrer, porque eu fui estúpido e cego, e me deixei levar por um maldito bobo!

Aewyre tentou chamar o seu irmão à razão, mas este não se deixou convencer.

— Guerra, Aewyre. Sabes há quanto tempo não temos guerra em Nolwyn? — quase sibilou o jovem regente. — Agora vamos tê-la, porque mandei prender a filha de um regente, e um outro morreu debaixo do meu teto, juntamente com a sua esposa, herdeira direta, e parte da sua corte.

— Não vamos ter guerra. Eu vou...

— Vais o quê, Aewyre? Procurar as cinzas do pai a meio do lixo queimado, e mostrá-las ao Sunlar e aos primos e sobrinhos do Tylon? Achas que eles assim perceberiam e nos levariam a sério?

— Aereth, não te preocupes com eles. Não deixo que eles...

— Não deixas... e quanto a toda a gente neste palácio que agora deve querer a minha cabeça? Hã? Que pensas fazer a respeito deles? Já não mereço a palma de Bellex, só o seu punho. A tua princesa bem pode entrar durante a noite de espada empunhada, e...

— Aereth! — vociferou o guerreiro, sacudindo o seu irmão pelos ombros com violência. — Pára! A culpa não foi tua!

Este não pareceu convencido, mas a brusquidão de Aewyre deixara-o suficientemente atordoado para parar de o interromper, pelo menos. Os pungentes olhos do seu irmão dilaceravam-lhe o empedernido cora­ção, conseguindo fazer nele correr o sangue há muito coalhado pela raiva fria que movia o guerreiro. Do outro lado da porta da cela, ouviram-se os passos nervosos de guardas, que porém pareceram acalmar ao per­ceberem que o breve momento de exaltação não passara disso.

— Vai tudo correr bem. Quem quiser tocar-te vai ter de passar por mim primeiro, e não tenho intenções de o permitir — assegurou. — Somos família, Aereth. És o único que me resta... só nos temos um ao outro, e eu preciso de ti.

As atormentadas rugas na face de Aereth desapareceram quando este relaxou a expressão, deixando nela apenas os vestígios dos vincos ao olhar para o seu irmão. Aewyre agarrou-o então pela cabeça e encos­tou a testa à dele num gesto fraternal.

— Percebeste? — perguntou, já com a voz mais branda. — Eu não vou deixar que nada te aconteça.

— Aewyre, tu não sabes o que eu...


— Sei que és o meu irmão — interrompeu-o o jovem, puxando-lhe os cabelos ao fincar neles os dedos, de forma a premir a testa de Aereth contra a sua. — O meu mano mais velho. E acredita que nunca precisei tanto de ti como agora.

As espessas sobrancelhas de Aereth franziram-se num misto de comoção e incredulidade, mas agarrou com força os braços de Aewyre, fungando ao fazer que sim com a cabeça.

— Ainda assim, é melhor ficares fora da vista de todos durante al­guns dias — aconselhou-o o guerreiro, afastando a cabeça para poder fitar o seu irmão diretamente. — Vou dizer-lhes que te ponham num lugar mais...

— Não — recusou-se Aereth, abanando a cabeça. — Eu... estou bem aqui.

— Nesta cela mofenta? Aereth, ao menos...

— É mais do que eu mereço. Tens coisas mais importantes a fazer.

Aewyre não ficou convencido, mas o seu irmão parecera-lhe sen­sato pela primeira vez desde que o vira, e decidiu não insistir mais no assunto por enquanto. Assentindo com a cabeça, largou Aereth e levantou-se, sem contudo quebrar contato visual com ele, um gesto que este retribuiu.

— Vou ter de falar contigo acerca de muitas coisas, Aereth — disse. — Vou precisar da tua ajuda, que, se este palácio já antes era um ninho de víboras, elas andam agora todas atiçadas.

— Sim — acedeu este, mostrando-se porém pouco confiante e parecendo encolher-se ante a sombra de Aewyre que a tocha da cela sobre ele espalhou.

Aewyre suspirou pelo nariz, conformado com o pequeno sucesso de ter conseguido fazer o seu irmão falar, e de ter conseguido chegar a ele. Pelo menos assim o esperava, pois sentira o desespero apoderar -se novamente de Aereth assim que se levantara, o que o fez hesitar. Todavia, o discreto tossicar de um guarda do outro lado da porta recor­dou-lhe que Aereth tinha razão: tinha de fato muito que fazer. Como tal, deu-se por satisfeito com a pequena vitória e ajeitou Ancalach à cinta, preparando-se para sair.

— Eu volto hoje ainda, Aereth — prometeu.

A única resposta foi um reticente aceno, e Aewyre ficou a olhar para o seu irmão, mas não lhe ocorreu nada mais, e decidiu que mais valia dar-lhe espaço e tempo. Fazendo que sim com a cabeça de lábios franzidos, virou-lhe então as costas e dirigiu-se para a porta, na qual bateu com o nó do indicador. Silencioso, Aereth seguiu-o com um olhar assombrado na sua cara sombreada pela trêmula chama da tocha, baixando-a assim que Aewyre olhou por cima do ombro. Chaves cho­calharam e a fechadura da porta estalejou antes de esta se abrir com vigilante relutância, revelando um nervoso guarda arnesado entre a fresta. Ainda a olhar por cima da espaldeira forrada a tecido vermelho da sua armadura, Aewyre suspirou ao ver o seu irmão novamente cabisbaixo e virou-se para o guarda.

— Mandem trazer algo quente para lorde Aereth comer — orde­nou quando lhe foi aberta a porta. — E digam que ninguém deve...

A voz do guerreiro foi esmorecendo à medida que o limiar da porta se ia estreitando, ficando abafada e imperceptível assim que esta se fechou com um enferrujado clique. Sozinho na bruxuleante obscuri­dade da cela, Aereth soergueu então novamente a cabeça, mas os despenteados cabelos pendiam-lhe diante da cara, deixando apenas entrever o quase maníaco branco dos seus olhos.

Aewyre caminhou a longas passadas pelos corredores, escoltado por dois rígidos guardas munidos de partasanas, cujas tripartidas lâminas tinham nelas uma águia gravada a ouro, com asas curvas que acompa­nhavam as suas formas. O palácio mudara bastante na sua ausência, sobretudo o ambiente, e, por muito vistosa que fosse, a nova indu­mentária dos guardas era o que menos saltava à vista. O ar cheirava a passado, e era quase palpável um distinto saudosismo pelas glórias de outras eras. Aewyre desconhecia o que o bobo pretendera alcançar com tudo aquilo, mas desconfiava de que quisera apenas usar Ul-Thoryn como a ponta da lança que pretendera cravar em Nolwyn. Se era ver­dadeiramente o filho do peão de Seltor que o seu pai matara antes do início da Guerra da Hecatombe, então era até certo ponto compreen­sível que desejasse a ruína da cidade e, por arrastamento, da nação da qual esta outrora fora capital.

A ironia da situação não passou despercebida ao jovem: o fato de ele e o bobo não passarem de filhos que queriam vingar os pais, mas era mais fácil e reconfortante vê-lo como o desprezível e insano ser­vente d’O Flagelo, que tentara corromper o seu irmão e que nada mais merecia além da morte. Havia outros mais merecedores da sua com­paixão, e Aewyre já não tinha tanta assim para dar, não depois de tudo o que lhe acontecera.

Os coloridos ladrilhos do corredor ecoavam com os pesados passos dos três, e o roçagar metálico dos arneses dos guardas reverberava pelas paredes de mármore liso daquela ala em particular. Ouvia-se pouco mais, pois Aewyre fora bastante claro com as suas ordens, nenhuma das quais encorajava grande atividade no palácio. Teria porém de ser um pouco mais indulgente, pois se Allahn Anroth estivesse demasiado silencioso, demasiadas pessoas poderiam começar a desconfiar dema­siado cedo. Já era mau estar a negar as audiências diárias aos burgue­ses; não valia a pena dar-lhes mais que falar além da fachada silenciosa e bem vigiada por guardas taciturnos, pois chegaria a altura em que a desculpa de estarem a desconfiar de uma possível tentativa de assas­sinato deixaria de funcionar. Aewyre conhecia o seu povo, e sabia que eram uma gente de brandos costumes, mas seria melhor não os pôr à prova.

«Pelo menos não já», pensou. «Não tão cedo.»

Contornando uma esquina truncada por um nicho no qual assen­tava um busto de mármore branco, Aewyre deu com o acesso secun­dário para a sala do trono, diante de cuja porta o aguardavam Lhiannah, Worick e seis guardas. A princesa deu-lhe um sorriso de boas-vindas, retribuído com um erguer do canto da boca do guerreiro, enquanto Worick se limitou a resmungar algo que, com algum otimismo, poderia ser visto como um cumprimento. O thuragar envergava o seu arnês completo, em todo o seu gasto e amolgado esplendor, e Lhiannah usava as mesmas roupas da noite anterior. O meio-sorriso de Aewyre acentuou-se com um olhar indiscreto às torneadas pernas de Lhiannah, mas desvaneceu-se ao dar-se conta da quantidade de guardas que ali estavam.

— Seis? — indagou de desagradadas sobrancelhas franzidas. — Que fazem seis de vocês aqui? O palácio não é suficientemente grande para vocês? Ou enfiaram toda a corte de Lennhau num único quarto, e deixaram um de vocês à porta?

Os guardas entreolharam-se com ar embaraçado, e Aewyre cruzou os braços para dar a entender que esperava uma resposta, fixando-os com o olhar. Worick grunhiu de surpresa perante a brusquidão do jovem, pois não estava de todo habituado a vê-lo assim, e olhou para Lhiannah em busca de esclarecimento.

— Então? Não têm nada a dizer? — insistiu Aewyre, firmando a boca numa severa linha.

— Lorde Aewyre... — acabou um dos guardas por dizer. — Dois de nós escoltaram a princesa Lhiannah, e outros dois o general Worick. Haveis-nos requisitado que andássemos sempre aos pares. Se as ordens mudaram entretanto, então peço-vos que desculpeis o nosso des­cuido...

Aewyre piscou os olhos uma, duas vezes, e então descruzou os bra­ços com um suspiro, revirando os olhos e semicerrando-os de seguida, ao coçar a nuca num gesto muito pouco autoritário.

— Desculpem, homens, não façam caso. Têm toda a razão — reco­nheceu, avançando de seguida para pousar as mãos sobre as espaldeiras de dois. — Fizeram bem. Mas agora podem ir, que não precisamos de seis guardas aqui, sim?

Os quatro homens que não se encontravam à porta assentiram e, feitas as obrigatórias saudações, retiraram-se de forma ordeira, cada par para seu lado. Aewyre ficou satisfeito por ver que as suas ordens estavam a ser cumpridas, embora talvez demasiado à letra, e virou-se então para Lhiannah e Worick, que pareciam algo incertos. O jovem franziu o intrigado cenho, mas prontamente percebeu que os dois não sabiam ao certo como agir diante dele à frente dos guardas.

— O Taislin, que é feito dele? — perguntou, passando por ambos, indicando-lhes que o seguissem com um gesto da cabeça.

— Disse que ia passar o dia inteiro na banheira — respondeu Lhiannah. — O coitado cheirava a latrina e a caca de pombo.

— Com sorte, pode ser que um dos guardas se lembre de o espe­tar... — comentou Worick.

— O quê? — exasperou-se Lhiannah.

— Esfregar. Eu disse esfregar.

Aewyre não pôde deixar de rir discretamente para consigo, sau­dando um dos guardas à porta enquanto o companheiro deste abria a porta. As saudades que tivera destes pequenos galhardetes...

— Como estão as coisas, homens? — perguntou.

— Calmas, lorde Aewyre — respondeu o guarda que mantinha a porta aberta.

O guerreiro agradeceu com um aceno da cabeça e entrou, seguido por Lhiannah e Worick, que conservava a sua mão sobre a praça do mar­telo sempre que se encontrava na presença de guardas do palácio. Tinha más memórias destes e guardava-lhes rancor, tendo jurado nunca mais ser apanhado desprevenido por outro daqueles rapazolas arnesados.

— Oh! Bom dia, lorde Aewyre — saudou o senescal Tomenno, que se encontrava sozinho perto do trono, esfregando as mãos com a ansiedade de um homem atarefado que não tinha que fazer. — Uma manhã deveras calma, como podeis ver. Desocupada, mesmo.

— Bom dia, Tomenno — saudou Aewyre, indo a seu encontro, com Worick e Lhiannah no seu encalço. — Alguma notícia da patru­lha que mandamos à residência da dama Nuncilia?

— Hum, sim, lorde Aewyre. Eles e as pessoas que requisitastes en­contram-se neste momento a caminho do palácio. Já o mesmo não pode ser dito dos burgueses cujas contribuições nos ajudam a mantê-lo...

O jovem suspirou de desafogo, demasiado aliviado para fazer caso do reparo de Tomenno.

— Estão bem, essas pessoas?

Tomenno pigarreou, apercebendo-se de que fora algo indelicado.

— Não sei, lorde Aewyre. Apenas fui informado de que se encontram a caminho, e que a dama Nuncilia quis vir...

— Não a deixaram vir, pois não?

— Não, embora certamente não por falta de insistência da parte da própria, segundo me foi dado a entender.

— Ainda bem. Não queria ter de a forçar a permanecer na cidade. Então e o...

— Por falar em forçar, lorde Aewyre — aproveitou Tomenno a deixa —, quais os vossos planos para lorde Aereth, se me permitis?

Lhiannah e Worick tinham estado a olhar em redor enquanto os dois conversavam, mas à menção do nome de Aereth, ambos estacaram e viraram os olhares na direção de Aewyre.

— Os meus planos? — gralhou o jovem. — Não tenho planos para com o meu irmão, Tomenno, o que estás a insinuar?

— Nada, meu senhor — assegurou-lhe o senescal, erguendo as inocentes mãos. — Mas lorde Aereth está numa masmorra, e...

— Metade da corte viu o que o bobo fez, Tomenno, e a outra metade viu-o conspirar com lorde Aereth este tempo todo, para não falar dos sobreviventes da corte de Lennhau, que provavelmente nada mais desejam que a sua morte. Talvez seja apropriado mantê-lo em segurança e fora das vistas durante algum tempo, não achais?

— Bem, perdoai-me, mas isso é discutível, lorde Aewyre — con­trapôs Tomenno. — Pode instigar uma sensação de insegurança, man­tendo o vosso irmão escondido. As pessoas podem começar a fazer perguntas...

— Pessoas? Que pessoas, Tomenno? — quis Aewyre saber, acer­cando-se de braços apartados do senescal, que se encolheu involun­tariamente ante a intimidante pose. — As víboras da corte já começam a sibilar?

— Não lhes chamaria isso, lorde Aewyre, mas...

— Inacreditável — interrompeu-o o jovem. — Estamos à beira de uma guerra, O Flagelo vem aí, e ainda conseguem arranjar tempo para andarem a maquinar...?

— Lorde Aewyre, tendes de compreender! — insistiu o velho senescal, cujo pomo lhe esticou a pele engelhada da garganta ao engo­lir em seco. — Haveis voltado do nada após uma ausência de mais de um ano, e na noite na qual regressais, temos um massacre em Allahn Anroth, e mandais prender o vosso irmão, nosso regente! Decerto entendereis que algumas pessoas se sintam... pouco à vontade com a situação.

As narinas de Aewyre fremiam, mas sabia que Tomenno tinha toda a razão. Parecia de fato que viera simplesmente usurpar o trono de Aereth, e havia pouco que pudesse fazer para provar o contrário, sobre­tudo aos intriguistas cortesãos de Ul-Thoryn, que aparentemente não tinham perdido demasiado tempo a lamentar os que tinham morrido algumas noites atrás.

— Sim, Tomenno, eu entendo — admitiu o guerreiro com um suspiro, recolhendo os braços e relaxando a postura. — Lorde Aereth sairá em breve da sua cela, e então logo veremos...

— Como? — interveio Worick, cuja rude voz ecoou de forma desagradável pelo salão. — Soltá-lo? No canil do palácio, espero...

Aewyre olhou por cima da espaldeira para o thuragar com uma expressão sombria, mas este não se deixou intimidar como o senescal.

— Estás doido, Aewyre? Eu e a Lhiannah íamos morrendo por causa desse nababo, e agora queres deixá-lo a passear à vontade?

— Não foi ele, foi o bobo — disse o jovem entre dentes com a voz tensa.

— Olha que não foi o bobo quem nos mandou prender, nem foi ele quem ameaçou partir as pernas da Lhiannah.

— Já disse que a culpa foi do bobo — persistiu Aewyre. — Ele ludibriou o meu irmão, manipulou-o...

— Aewyre — juntou-se Lhiannah —, sabes que não foi só isso...

— Já falamos disto hoje de manhã, Lhiannah — advertiu o guerreiro, erguendo a mão de palma virada para ambos. — O Aereth foi manipulado pelo bobo, assim como muitos outros no palácio, tal­vez até sem que estes disso se apercebessem.

O olhar que dirigiu a Tomenno foi pleno de significado, e o senes­cal tornou a engolir em seco com a acusação implícita.

— Lorde Aewyre, asseguro-vos de que...

— Poupa o fôlego, Tomenno. Conheço-te desde que brincava aos cavaleiros nos corredores do palácio, assim como conheço o meu irmão. Sei que nenhum de vocês traiu a cidade, e que tudo o que aconteceu aqui em Allahn Anroth foi por causa do bobo.

— Sim, acredito que o teu irmão dissesse isso — comentou Worick. Ao contrário daquilo que costumava fazer, Lhiannah não o repreendeu, parecendo concordar com ele.

— Aewyre, tu não ouviste as coisas que ele disse, não viste a forma como ele olhava para mim... — tentou a princesa.

— O bobo convenceu-o de que tu fazias parte de uma tramóia para desacreditá-lo e manchar a reputação do nosso pai. Se tivesse sido eu, talvez também tivesse reagido da forma como ele reagiu...

— Não, Aewyre. Não daquela...

— Vocês estão a ser tolos. O perigo era o bobo — manteve Aewyre, resoluto, virando as teimosas costas aos seus amigos. — O maldito era um Aesh’alan, ou será que já se esqueceram?

— Não é preciso um Aesh’alan para aquilo que ele fez — disse Worick, franzindo o lábio cicatrizado em amarga memória. — O teu irmão é um fraco, e homens fracos com poder são perigosos para quem os rodeia.

— Worick... — advertiu Aewyre, olhando em frente de punhos crispados.

— Ele que apodreça na sua cela, como tentou fazer com a Lhian­nah, para que saiba como ela se sentiu — continuou o thuragar, também ele irritado. — Ou isso, ou atirá-lo para dentro de uma latrina... ou melhor, cravar-lhe o espeto do meu martelo na barriga, a ver se ele também gosta...

— Ninguém! — bradou Aewyre, girando em si com uma brus­quidão tal, que a capa vermelha bateu no ar, e avançou de rompante sobre Worick, deixando um cerrado punho de tendões salientes e de trêmulo indicador diante do repolhudo nariz deste. — Toca no meu irmão.

O thuragar não se mexeu, mas Lhiannah sobressaltou-se e deu um passo em frente, pousando uma mão sobre a couraça do jovem e dei­xando a outra a postos para refrear Worick. Tal não foi necessário, pois este permaneceu onde estava, olhando para Aewyre através do indi­cador deste.

— Aewyre... — advertiu a princesa, tentando prender-lhe o olhar, que estava contudo cravado no do thuragar.

— Ninguém — reiterou o guerreiro, com uma calma que pres­sagiava uma tempestade emocional. — Estamos entendidos?

Humano e thuragar olharam-se durante alguns tensos momentos, e Lhiannah achou por bem pôr-se entre ambos, pois sabia que Worick jamais cederia, e que Aewyre não estava com disposição para tolerar a inflexibilidade do seu protetor. Porém, para grande surpresa sua, o thuragar deu mostras de rara empatia, e limitou-se a grunhir, virando o inconformado olhar. O gesto não passou despercebido a Aewyre, e este arrependeu-se prontamente da sua rispidez para com um amigo que não tinha visto durante meio ano, mas sabia que pedir-lhe des­culpa apenas o ofenderia, e optou por nada dizer. Com um suspiro, o jovem acenou com a cabeça e ficou-se por aí, olhando alternadamente para Lhiannah e para Tomenno, que aguardava, esfregando as expec­tantes mãos. Aewyre desabituara-se de ter de discutir as suas decisões, tendo atravessado meia Allaryia com um drahreg reservado, e uma mulher e uma criança que mal falavam a sua língua, e que além disso seguiam cada instrução sua incondicionalmente. Acostumara-se ao papel, e agora estava a sentir dificuldades em lidar com as opiniões de outros.

— O meu irmão não é um prisioneiro, Tomenno — disse por fim.

— Sei que parece mal eu ter assumido o controlo enquanto ele está numa cela, mas a situação é mais urgente que o que todos vocês pensam. O Flagelo vem aí, e eu não podia esperar que a corte decidisse o que fazer...

— O Flagelo... — disse Tomenno, olhando para cima e fazendo uma careta quando conteve a expressão que ia esboçar, emitindo um ruído condescendente ao ponderar o que dizer.

— Sim, Tomenno, O Flagelo — confirmou Aewyre, tentando manter a calma. — Ele e lorde Sunlar, com o qual não está de todo nos nossos interesses entrar em guerra. Nem com ele, nem com Len­nhau, que certamente mobilizará as suas forças assim que se souber o que aconteceu. Razão pela qual ninguém pode entrar ou sair da cidade.

— E será prudente, lorde Aewyre? — indagou o senescal. — Não seria porventura mais avisado enviar uma notificação de repúdio e condolências a Lennhau? Lorde Lancitario, o barão de Rossanete e irmão de lorde Tylon, é um homem irascível e... bem, apegado aos seus. Dizem que as últimas pessoas que macularam a honra da sua família tiveram de regar o seu jardim com o seu próprio sangue...

— E o que achas que ele faria ao mensageiro que lhe trouxesse a notícia de que um thuragar rebentou a cara do seu irmão à paulada? — contrapôs o jovem, apontando para Worick, que não pareceu mini­mamente perturbado pelo que fizera.

— Na verdade, isso até poderia jogar a nosso favor, lorde Aewyre...

— reparou o senescal com insídia na voz, coçando o queixo enquan­to parecia avaliar Worick com o olhar. — O general Worick serve lorde Sunlar, afinal de contas. Poderíamos porventura ligar a morte de lorde Tylon a Vaul-Syrith, e dessa forma desviar pelo menos parte das hostilidades para longe de Ul-Thoryn. Quem sabe, poderíamos mesmo obrigar lorde Sunlar a dividir as suas forças, o que certamente facilitaria...

— Ouviste uma palavra sequer daquilo que eu disse, Tomenno? — interpelou-o Aewyre secamente e de braços cruzados, antes mesmo que Worick se pudesse insurgir contra o fato de estar a ser usado como peça. Ainda assim, Lhiannah achou por bem pousar a mão sobre a espaldeira do thuragar, não decidisse este demonstrar ao senescal com o seu martelo como lorde Tylon morrera ao certo.

— Meu senhor...?

— Tu não percebes que é precisamente isso que eu quero evi­tar? — continuou o guerreiro. — As cidades-estado não podem entrar em guerra umas com as outras, não quando uma ameaça bem maior aí vem, uma ameaça que nos pode destruir a todos.

Ante a cara impávida e incrédula de Tomenno, Aewyre bafejou de frustração, atirando as mãos ao ar e deixando-as bater nas suas coxas.

— Continuas a achar que isto sou só eu a delirar? — exigiu saber. — Que decidi trazer um cadáver, dizendo que era do meu pai, e inventar o regresso d’O Flagelo para usurpar o trono do meu irmão?

— Lorde Aewyre, evidentemente...

— Responde, Tomenno! — quase vociferou o jovem, sobressaltan­do o velho senescal, que levou ao peito a mão maculada de castanho.

— Aewyre — interveio novamente Lhiannah, agarrando ambas as tensas mãos do jovem. — Ele não viu. Ele não estava lá.

Aewyre suspirou através das narinas, baixando a cabeça e de seguida acenando-a.

— Não, não estavas — concordou, olhando para Tomenno. — Só te posso pedir que acredites em mim, Tomenno. Em mim, na princesa Lhiannah e no general Worick. Nós vimos o que aconteceu, e sabemos o que está para vir, e é por isso que quero a todo o custo evitar o con­fronto com Vaul-Syrith, e ganhar tempo para saber como lidar com Lennhau.

— Tempo... lorde Aewyre?

— Sim, Tomenno. Tempo — insistiu o jovem. — Lorde Lancitario não vai acreditar no que temos para dizer, nem irá aceitar qualquer justificação. Ninguém em Lennhau acreditaria que a sua família real morreu no nosso palácio, e que nós não fomos de alguma forma res­ponsáveis.


O senescal deu-lhe relutante razão, inclinando a cabeça para o lado e encolhendo os ombros.

— Por isso precisamos de tempo. Temos de esperar, esperar que algo aconteça, algo que possa convencer todos os regentes de que não estamos a mentir ou a inventar — continuou Aewyre, cruzando o olhar com Lhiannah, que lhe sorriu fracamente, apertando-lhe as mãos de leve. — Até lá, nós preparar-nos-emos para o que aí vem e fare­mos os possíveis para aplacar lorde Sunlar quando ele chegar.

Tomenno percebeu que não valia a pena insistir e assentiu, cru­zando as conformadas mãos diante do colo.

— Pois muito bem, lorde Aewyre — disse, desopilando a garganta para começar de novo. — Que desejais de mim, então?

O guerreiro conseguiu sorrir fracamente, mas antes que pudesse dar as instruções a Tomenno, a grande porta da entrada foi ruidosa­mente aberta, e um grupo de guardas arnesados entrou na sala do trono, escoltando uma mulher que trazia uma criança na mão.

— Aewyre! — gritou Layaline com alívio na voz, passando a correr por entre os guardas e indo a encontro de Aewyre de braços abertos. Ive, a sua filha, foi-lhe atrás, correndo desajeitadamente com as peque­nas pernas e com dois dedos enfiados na boca.

Aewyre conseguiu apenas avançar um passo antes de Layaline lhe saltar para os braços, deixando cair a pasta de apontamentos que trou­xera nos braços, e prendendo-lhe o pescoço com um abraço de torno, ficando dependurada dele enquanto dava largas ao seu desafogo num misto de Glottik e Llorenc. Ive chegou pouco depois, abraçando-lhe a perna e falando ela também na sua língua com a sua vozinha des­dentada.

— Estás bem, Layaline? Estão bem as duas? — perguntou o guer­reiro com voz estrangulada e com os cabelos da rapariga quase a entra­rem-lhe pela boca.

— Oh, marsià, Àssana! — deu esta graças em Llorenc. — Sim, Aewyre, estamos bem! Estava tão... assolaièche!

— Eu também — admitiu Aewyre, abraçando a rapariga com umas palmadinhas nas costas, e encolhendo os ombros ao ver Lhiannah erguer a sobrancelha. — Posso pôr-te no chão agora?

Layaline riu e beijou a bochecha do guerreiro antes de este a pousar, e alisou o regaço da saia antes de olhar à volta para os restantes pre­sentes, que desconhecia. Nuncilia dera-lhe um vestido azul-escuro de tecido pregueado com decote pelos ombros, que lhe favorecia a roliça figura, e o cabelo castanho-escuro preso em dois bandós realçava-lhe a cara oval, que naquele momento luzia de alegria. Ao ver Lhiannah, a rapariga arquejou e levou as surpresas mãos à boca, arregalando os grandes olhos castanhos.

— Oh! Lhiannah? — perguntou.

— Layaline, esta é a princesa Lhiannah — apresentou Aewyre, afagando a cabeça de Làriana, que desenterrou a cara da sua coxa e ergueu os pequenos braços, pedindo colo. O jovem acedeu, pegando-lhe com um braço, e a criança abraçou-lhe o pescoço. — Lhiannah, estas são as minhas duas princesas.

— Olá... — cumprimentou a arinnir, mas Layaline foi a seu en­contro antes que conseguisse dizer mais que uma palavra, pegando-lhe pelas mãos e encolhendo os excitados ombros.

— O Aewyre falou-me muito de si! É tão bonita! — disse, olhan­do a princesa com fascínio e quase reverência.

— Bem... obrigada. Ele também me falou... de ti — agradeceu Lhiannah, admirada com tamanha efusão.

— Aquele é o Worick, um amigo meu — continuou Aewyre, indicando o thuragar, que Layaline presenteou com o seu sorriso de dentes pequenos.

— Quero chupar a tua verga — disse com uma destreinada mesura.

— Ei, já gosto dela — declarou o thuragar, anuindo com a aprovadora cabeça, sendo o único que não ficou a olhar boquiaberto para a rapariga. Mesmo os guardas que se aproximavam detiveram-se a meio passo, batendo na parede de silêncio que se erguera no salão, e que foi apenas quebrada pelo suspiro de Aewyre quando este levou a mão à cara.

— Aewyre, o que é que andaste a ensinar-lhe?! — perguntou Lhiannah, de estupefatas sobrancelhas franzidas.

— E que te ensinou ela a ti? Heim, heim — acrescentou Worick.

— Foi o proxeneta dela — tentou o jovem justificar-se. — Ele...

— Proxeneta? Mas não disseste que ela servia à mesa na taberna da Cidadela? — insistiu Lhiannah, cruzando os braços.

— Oh, pelo amor de Assana... — praguejou Aewyre em sur­dina, levando a cabeça atrás. — Lhiannah, não é o que parece. E pára de rir, Worick: a pobre rapariga acha que o que disse é um cumpri­mento.

— Lá isso é...

— Chega, Worick — disse o guerreiro, ajoelhando-se para pegar na pasta de couro na qual Layaline trouxera os apontamentos, com Làriana a oscilar divertida ao seu colo. — Estão aqui todos?

— Sim. Aquele senhor tem os livros — respondeu Layaline, apontando para um guarda com uma mochila ao ombro, e olhando alternadamente para os presentes com ar admirado. — Disse alguma coisa má?

— Não foi nada, Layaline. Depois falamos. Traz-me essa mochila, meu bom homem.

O guarda visado assim fez, deslizando a alça da mochila pela espaldeira do seu arnês, e avançando com a mochila numa mão e a partasana na outra.

— Houve um problema, lorde Aewyre — disse este ao entregar-lhe os livros.

— Sim?

Sem responder, o guarda olhou para um companheiro seu atrás de si, e só então Aewyre reparou que ali se encontravam dois grupos reunidos, não só o que tinha escoltado Layaline.

— Fomos ao local que nos indicou, lorde Aewyre — explicou o outro guarda, avançando um passo para se destacar do seu grupo.

— E...? — instou o jovem, pressentindo algo.

— Um banho de sangue, lorde Aewyre. Estavam todos mortos. O guerreiro sentiu os joelhos fraquejarem momentaneamente, e um afloramento quente espalhou-se do seu coração para o resto do torso, acalentando-lhe a face.

— Como...? — titubeou. — Mas e o... meu companheiro? Havia alguém com... duas espadas?

— Ninguém, lorde Aewyre. Estavam todos mortos, mas nenhum deles assim armado.

— O que se passa? — perguntou Worick, levando a mão ao mar­telo.

— O cabrão do drahreg... — praguejou Aewyre, crispando os dedos de uma mão nos cabelos ao lembrar-se do momento no combate com Dilet, no qual o «tendão» o abandonara repentinamente. — Algum rasto... alguma coisa?

— Encontramos pegadas sangrentas, mas o rasto perdia-se na rua, lorde Aewyre — explicou o guarda. — Ainda nos separamos em dois grupos para procurar em redor, mas não tivemos sorte...

— Tomenno, manda chamar o Daveanorn e o Cado — interrom­peu Aewyre, erguendo uma mão para o silenciar. — Homens, vou precisar de vocês.

Placas de arneses roçaram em uníssono quando os guardas acenaram voluntariosamente com as cabeças, e Aewyre pousou Làriana delicada mas rapidamente no chão, entregando de seguida a pasta a Layaline enquanto Tomenno se dirigia tão depressa à porta quanto as suas vestes largas e pernas idosas lho permitiam.

— Tenho que fazer agora, Layaline — explicou, apertando-lhe o braço num gesto reconfortante antes de olhar para Lhiannah. — Tratas dela e da criança?

— Irra, mas afinal o que se passa? — exigiu Worick saber quando Lhiannah fez que sim com a cabeça. — Tenho de começar a rachar crânios para me responderem, ou quê?

— O Kror escapou — explicou Aewyre. — Eu trouxe-o para a cidade e deixei-o num sítio seguro, e ele escapou...

— Mas escapou como? Pensava que vocês estavam os dois a tentar perceber como essa coisa da Essência da Lâmina funcionava...

— E estávamos. Mas ele... chegou à conclusão de que o principal interessado era eu — resumiu o guerreiro, agarrando o punho de Ancalach com força e olhando em frente para um ponto indeter­minado da parede da sala. Conseguiu alhear-se das vozes e movimentos à sua volta, concentrando-se única e exclusivamente no «tendão», que puxou debalde em busca de uma resposta que não veio. Havia apenas o longínquo chamamento, o sempre presente repto representado pela existência de Kror, que agora o invocava como uma dívida por saldar. «Maldição. Tinhas de fugir agora, desgraçado?»

 

A travessia até Eihroin decorrera sem grandes sobressaltos, apesar do mar encarneirado, e o barco de Loevrik aguentara-se bem. Quenestil não se sentia à vontade sem terra firme debaixo dos seus pés, uma sensação que lhe trazia más memórias da viagem para Tanarch, e remou apressadamente assim que avistou um ponto de aterragem à distância. Eihroin parecia ser pouco mais que um vulcão erguido das profunde­zas dos mares, uma disforme expansão de rocha negra atapetada com um esfarrapado manto branco de neve, que também lhe encimava o topo. Tinha as margens vigiadas por sinistros leixões da mesma cor e textura, sombrias sentinelas a cujos pés as ondas espumavam, e boa parte da margem consistia em fragosas falésias ameaçadoramente incli­nadas, que pareciam desafiar os incautos a aproximarem-se.

Quenestil ousou, e deixou o barco ser arrastado pelas ondas até uma praia rochosa, cujos seixos e pedregulhos rasparam violenta e ruidosa­mente contra o casco da embarcação antes de esta encalhar. A praia fora aparentemente originada pela fenda entre duas falésias, que des­pejara ao mar as pedras que as ondas haviam reduzido a areia negra, na qual o barco aterrou. Quenestil saltou prontamente borda fora, aliviado pela sensação de molhada firmeza debaixo dos seus pés, e puxou o barco para longe da água, procurando um local onde o pudesse esconder. O tempo estava frio e úmido à beira-mar, mas o esforço de remar deixara o eahan acalentado e de bochechas rúbi­das, e o ar que lhe saía pelo colarinho era quente. Encontrou uma reentrância a alguma distância do mar, onde a embarcação ficaria relativamente segura, e após empilhar alguns pedregulhos dentro dela para se certificar de que não seria arrastada para o mar, o eahan subiu por entre as rochas caídas da fenda. Estavam molhadas e escorregadias, mas a sua superfície era suficientemente áspera para que as solas das botas de Quenestil nelas não escorregassem.

Uma vez chegado ao topo da falésia, pôde então contemplar Eihroin em todo o seu desolado esplendor, e a primeira impressão que teve foi a da bizarra vaga de ar quente que o acometeu. Irregular e quebrado, o terreno aplainado em redor do vulcão que originara a ilha era pouco mais que uma vasta solfatara pontilhada por inúmeras fumarolas. O vapor que estas expeliam criava uma tênue neblina sobre as camadas de lava seca e pedra-pomes farelenta, coloridas num misto de preto e vermelho que dava à terra um ar infectado. A pouca vege­tação que se via em redor era o musgo que crescia em partes do terreno de rocha vulcânica, cobrindo as pedras como uma fofa carpete verde. Quenestil ficou a contemplar as suas cercanias do topo da falésia, mas o contraste entre o bafo frio que emanava do mar e o reconfortante calor exalado pelo interior da ilha fizeram-no espirrar, e o shura deci­diu encaminhar-se para o interior. Não sabia o que devia procurar ao certo, mas só o fato de não ter sido consumido nem comido vivo pela ilha, tal como Loevrik dissera, já não era mau.

«Parece deserta», pensou, olhando em redor enquanto andava, tor­cendo o nariz ante o desagradável odor a ovos podres que ali reinava. «Querem ver que se estavam só a tentar ver livres de mim?»

A hipótese já antes lhe ocorrera, que alguém desejara afastá-lo dos eahlan, mas simplesmente não fazia grande sentido. Ihjseorn esforçara-se demasiado por o convencer a ir a Eihroin, e havia de fato uma crença nos Fiordes que levava os habitantes a verem o local como algo de místico e profético. Porém, mesmo Asmodeon parecera menos sombrio que aquela ilha, e o eahan não conseguia imaginar o que ali poderia encontrar que o pudesse ajudar de alguma forma. A primeira vista não havia sinais sequer de vida animal, quanto mais de habitação, humana ou não, e o eahan ajoelhou-se, tirando uma luva para melhor sentir o terreno.

Tal como seria de esperar, o solo estava quente, e a aspereza da sua superfície transmitia perfeitamente o espírito do local. Quenestil con­centrou-se então, procurando a pulsação vital do terreno, e não soube dizer se deveria ficar aliviado ou apreensivo quando a sentiu. Havia vida na ilha, sim, e não era tão escassa quanto a aparência do local daria a entender. A impressão era vaga e tênue, e as batidas vitais, dis­tantes, pelo que não soube precisar ao certo de que consistiam, à parte de umas quantas aves à beira-mar. A sua curiosidade satisfeita, o eahan levantou-se e voltou a pôr a luva, olhando uma vez mais em redor em vã busca de sinais visíveis de vida.

— Então e agora...? — murmurou para consigo, passando os dedos pelos cabelos ruivos pesados com sebo, que o vento tinha dificuldade em abanar.

Deduziu que, a haver algo na ilha, seria perto do vulcão, e enca­minhou-se na direção da monolítica formação rochosa de encosta farelenta que dominava a paisagem. O chão estalava e desfazia-se debaixo dos seus pés, soltando pequenas nuvens de pó acinzentado à medida que o eahan andava, que acabaram por lhe revestir as pernas com uma fina camada cor de cinza. Uma vez chegado ao fim da bai­xada, a caminhada tornou-se mais prazenteira graças ao calor das fumarolas e ao musgo que lhe amortecia os passos, embora não menos perigosa, pois a carpete verde escondia buracos onde poderia facil­mente torcer um tornozelo ou partir uma perna. O cheiro a ovos podres nunca chegava a ser sufocante, mas era particularmente inten­so ao longo da solfatara, e ofendia o sensível nariz de Quenestil, que se sentiu tentado a lavar a cara ao passar por uma fonte de água quente. Porém, constatou ao ajoelhar-se que a temperatura da água borbu­lhante era tal, que provavelmente lhe escaldaria a mão. Ainda assim, era demasiado tentador não levar ao menos um pouco consigo, nem que fosse apenas para mais tarde aquecer as mãos ou desentorpecer os pés. Para esse efeito, pousou a mochila no chão e tirou dela a sua caça­rola, momento no qual uma sombra esvoaçou na orla da sua visão periférica. Quenestil virou-se bruscamente para trás, já com a mão no arco, mas o terreno em redor não ostentava quaisquer sinais de vida, era relativamente plano e desprovido de esconderijos. Ainda olhou à volta para se certificar, mas acabou por se convencer de que se tratara de uma emanação de fumo mais volumosa da solfatara, e tornou a ajoe­lhar-se diante da fonte, inclinando-se cuidadosamente à beira desta para passar a caçarola pela água.

Água essa que repentinamente se agitou, e da qual irrompeu um par de mãos e um fumegante corpo disforme, cuja súbita aparição fez Quenestil gritar de susto e tombar para trás, deixando cair a caçarola ao chão. O vulto que emergiu da água caiu ele também de barriga, como se tivesse saltado da fonte, emitindo um angustiante vagido enquanto esbracejava desajeitadamente como um peixe a sufocar, raspando as pedras em redor com os braços. Quenestil arrastou-se para trás com mãos e pés, tentando criar distância entre si e o seu assaltante. Esse, sem nunca deixar de vagir, levantou-se desajeitadamente, pingando água e fumegando como um naco de carne cozida ao avançar a passos trôpegos sobre Quenestil. O eahan vira muitas coisas durante as suas viagens, e enfrentara criaturas que muitos guerreiros expe­rientes provavelmente apenas teriam visto em pesadelos, mas o ser que agora dele se aproximava deixou-o estarrecido.

Teve inicialmente dificuldades em sequer reconhecer nele uma forma humanóide, pois a criatura tinha o que restava da pele colada à roupa, e o resto eram apenas listras esbranquiçadas de gordura entre largas fissuras de carne descolorada na face e nas mãos. Envergava uma cota de malha enferrujada, os seus olhos tinham cozido como ovos, e os lábios estavam rebentados, parte da razão pela qual o ruído que emitia era tão aflitivo aos ouvidos do eahan, que conseguiu recuperar do choque antes que o ser lhe caísse em cima. Erguendo-se e desembainhando o facalhão, o shura defrontou a criatura, que contudo não se mostrou intimidada com o aço e carregou sobre ele de fumegantes braços abertos, gotejando. O seu golpe foi desajeitado e falhou, mas pingou gotas escaldantes sobre a face de Quenestil, que grunhiu de dor antes de cravar a arma na coxa do adversário. Foi como espetar uma faca num naco de carne completamente cozido, e o adversário não pareceu sentir, pois logo de seguida oscilou ambos os braços e conseguiu atingir o eahan no ombro com um deles, derrubando-o com a força do golpe seco, cujo calor Quenestil sentiu mesmo através da roupa. Caindo ao chão de lado, mal teve tempo para se virar antes de o oponente se lançar sobre ele como um animal, forçando o eahan a plantar-lhe os pés no ventre e a aproveitar o seu trôpego ímpeto para o projetar sobre si. A criatura caiu com um baque surdo e molhado no chão, e o impacto interrompeu o seu constante gemido por uns instantes, mas não a impediu de se começar a levantar desajeitadamente logo de seguida. Quenestil fez o mesmo, deslizando a perna pelo chão e erguendo-se numa posição acocorada de facalhão empunhado.

«Mãe, o que é esta coisa?», questionou-se, distinguindo agora as fei­ções humanas da fumegante aventesma, cuja barba estava colada à pele cozida e descolorada da sua cara. Inicialmente lembrara-lhe o nekkr que enfrentara na Sirulia, mas era demasiado diferente, e aparente­mente menos atreito a falar, pois limitou-se a grunhir ao investir novamente.

O eahan desviou-se facilmente do novo golpe, ripostando com uma facada na axila do braço estendido, mas não foi novamente surpreen­dido e conseguiu evitar a resposta da criatura, que não pareceu mini­mamente incomodada. Lembrava-lhe os Fadados que enfrentara em Val-Oryth, mas parecia mais morto que vivo, mais ainda que estes, e duvidava de que a influência d’O Flagelo se estendesse até tão recôn­dita terra.

Quando a criatura avançou novamente sobre ele, Quenestil julgou captar uma sonoridade distintamente wolhyna nas palavras, mas era impossível distingui-las ao certo, dado os seus lábios rebentados e a língua cozida. Outro golpe fumegante, e o eahan cortou-lhe os tendões do braço com uma certeira cutilada, deixando-lhe lassos os dedos hirtos, mas a criatura tanto desferia golpes de punho fechado como de mão aberta, sem que com isso estes perdessem a força. Era movida por um antinatural vigor, e as suas escaldadas cordas vocais emitiam grunhidos de inexpressiva raiva enquanto golpeava cegamente em redor, atingindo o eahan sobretudo com as escaldantes gotas de água que dele pingavam, e que ardiam como agulhas em brasa ao contato com a pele. Quenestil não conseguia sequer conceber o sofrimento pelo qual o seu adversário devia ter passado, caso tivesse de fato mor­rido na fonte, mas este parecia determinado em partilhar da sua dor. Mantinha-se próximo do shura, praticamente ignorando o facalhão, e aparentava querer esmagá-lo entre os seus braços. Quenestil dançava entre os oscilantes braços, cortando e estocando em vão a carne cozida, e embora tivesse já desferido uma série de golpes incapacitantes e um corte à garganta, o ser não parava. A sua arremetida foi apenas inter­rompida quando o eahan lhe partiu o joelho flexionado com um pontapé certeiro, e conseguiu agarrar-se à pele de volverino que Quenestil tra­zia aos ombros, levando-o consigo ao chão ao cair.

De repente, o shura viu-se envolvido num escaldante abraço, e sen­tiu as suas narinas serem invadidas por um cheiro a carne molhada e condimentada com ovos podres. O seu adversário continuou a lamuriar-se no mesmo tom, sem qualquer triunfo na voz, apenas um perene gemido de raiva de alguém que se via incapaz de dar largas a ela em toda a sua plenitude. A escaldada pele do ser queimou a de Quenestil quando uma qualquer parte do corpo deste lhe passou pela bochecha, abrasando-lha com o seu calor molhado. Com um grito, o eahan esto­cou desesperadamente com o facalhão, vazando um dos olhos escalfados do oponente, e o seu golpe subsequente encalhou entre os dentes dos maxilares deste, rompendo-lhe a parede da boca. Não pareceu incomodá-lo, muito menos feri-lo, mas torcendo o facalhão, Quenes­til conseguiu virar-lhe a cara de forma a que o seu adversário não o pudesse ver e continuasse a esmurrar a esmo. Alguns dos seus golpes ainda o atingiram, e o mundo do eahan estremeceu a cada murro, cada qual impelido por uma raiva que não seria esperar de tão desajeitada criatura. O eahan desviou a cara de um deles, que rasgou pele e raspou osso na escabrosa pedra do chão, rachando-a perto da orelha de Que­nestil, que estrebuchou para libertar a perna, com a qual enganchou a cabeça do adversário. Largando o facalhão, o shura impeliu então o ser de cara contra o chão com um golpe de rins, sentindo as pedras morderem-lhe a coxa ao mesmo tempo que as vibrações de ossos e rocha a partirem-se lhe reverberaram pela tíbia. Imune à dor, o seu adversário não parou de se mexer, e o seu braço continuou a fustigar Quenestil, ardendo a cada golpe que desferia. O eahan rosnou de dor, e agiu movido pelo desespero e por puro instinto de sobrevivência. Agarrou o pulso do ser com uma mão e o cotovelo com a outra, usando de seguida o peso do seu corpo para lhe luxar o braço ao contorcer-se para se posicionar sobre as costas do adversário, separando-lhe por completo ambos os ossos do membro.

Uma vez por cima do oponente, Quenestil olhou rapidamente em redor enquanto este estrebuchava debaixo dele, tentando agarrá-lo com o braço bom enquanto arrastava p partido pelo chão. Era como estar sobre um quadril acabado de tirar de água a escaldar, e as pernas do eahan arderam só por estar sobre ele. Encontrou um pedregulho por perto, que pegou com ambas as mãos e ergueu sobre a cabeça, deixando cair bocados de terra musgosa e pequenas pedras sobre si. Com um grunhido de esforço e repulsa, o shura esmagou a nuca do ser com um enojante ruído crocante, mas nem por isso este deixou de se mexer, esperneando e esbracejando com gemidos abafados por dentes parti­dos e pedras na boca. O pedregulho desceu outra vez, e outra, e outra ainda, e continuou a descer até os membros escaldados pararem de se mexer, altura na qual a sua cabeça era pouco mais que uma papa vermelha no chão. Arquejando, Quenestil atirou para o lado o pedre­gulho com cabelos nele colados a sangue e saiu de cima do cadáver, sentindo agora a pele escaldada na cara dos golpes que recebera. Tropeçando, teve de se apoiar com a mão numa rocha próxima en­quanto se tentava recompor, vomitando em seco com um assomo de náusea que o deixou tonto por instantes. Quando se recompôs, foi arrancar o seu facalhão da pasta sanguinolenta à qual reduzira a cabeça do agora imóvel ser, que a avaliar pela indumentária, era ou fora em tempos um kahrkr. O que ali fazia e como fora reduzido a tal estado, eram perguntas para as quais Quenestil não tinha resposta, e limitou-se a limpar a lâmina do facalhão nas peles ainda quentes e ensopadas que este envergava, afastando-se então dele, já recuperado e novamente atento. O ataque fê-lo sentir-se um verdadeiro intruso na ilha, e estava ciente de que tinham feito bastante barulho durante a contenda, pelo que se ajoelhou, tirando novamente a luva para sentir o que a terra tinha para lhe dizer. Os seus olhos semicerraram-se quando se tentou concentrar, espalmando a mão na pedra quente e esperando que o alvoroço do seu coração acalmasse, para que pudesse sentir os bati­mentos da ilha. Já sabia que Eihroin era habitada, pois sentira as dis­tantes batidas vitais da primeira vez, mas a criatura da fonte apanhara-o completamente desprevenido, e queria certificar-se de que não haveria mais ameaças ocultas...

Os olhos cinzentos do eahan arregalaram-se então, pois as batidas eram agora bem distintas, pulsando como os corações de caçadores lançados em busca da presa. E vinham na sua direção.

Correndo desorientado, Quenestil procurou um espaço menos aberto na solfatara, um local onde melhor pudesse defrontar o que quer que aí vinha. Agachado como um animal sorrateiro, o eahan gal­gava por entre os vapores das fumarolas, acalentado por estas e pelo calor da perseguição. Ainda não vira nenhum dos seus novos algozes, mas sabia que vinham no seu encalço, e que eram demasiados para serem enfrentados em campo aberto. Ihjseorn e Loevrik tinham-se recusado a dizer-lhe o que o esperava em Eihroin, e Quenestil não fazia idéia acerca daquilo que estaria a enfrentar, restando-lhe apenas espe­rar que não fossem como o ser que irrompera da fonte. Já estava provado que as suas flechas e o seu facalhão de pouco serviam contra criaturas que não sentiam dor, e não lhe agradavam as suas hipóteses numa luta corpo a corpo com um bando de cadáveres escaldados. Fugir ou esconder-se era a melhor opção, embora duvidasse de que isso o levaria ao caminho para desencadear as Vagas de Fogo, mas naquele momento a prioridade era sobreviver. Nem mesmo os meses que passara com os seus audazes companheiros, enfrentando todo e qual­quer perigo de peito ufano, lhe travaram o básico instinto de sobre­vivência que agora o movia.

Passou por uma reentrância entre duas rochas, mas esta mal tinha espaço para nela se esconder, e o eahan continuou a correr em busca de um lugar onde pudesse no mínimo defender-se eficazmente. O enxofre que pairava no ar começava a colar-se à sua garganta en­quanto respirava, e conforme ia avançando pela solfatara adentro, a temperatura ia aumentando de volume. Arrependeu-se até certo ponto de não ter retrocedido para enfrentar o que aí vinha, mas preferia ter mais opções do que simplesmente o mar atrás das suas costas. Além disso, não iria tentar escapar da ilha, agora que lá chegara, ainda que não soubesse bem o que nela devia fazer.

Não foi senão quando o eahan se deparou com uma fresta alargada debaixo de uma lapa vulcânica que se deteve, curvando-se para a exa­minar. Era uma entrada subterrânea, da qual não emanava fumo, e apesar da apertada entrada, havia um degrau natural além desta, que se expandia no interior. Quenestil achou que seria um bom local para um se defender contra muitos, e agarrou-se à lapa para entrar por ela com as pernas, deslizando pela abertura adentro. Aterrando numa posição agachada, o eahan deixou-se estar quieto como um gato, res­pirando pelo nariz e percorrendo os seus arredores com olhos dardejantes. Estava sozinho naquela que afinal não era uma caverna, mas sim um túnel formado entre correntes de lava secas, que era iluminado por uma série de pequenas aberturas no teto, através das quais jorravam mortiços raios de luz. Havia nele traços de atividade que saltaram logo à atenta vista de Quenestil, que distinguiu facilmente a pedra alisada por vários passos, etos calhaus porosos distribuídos pelo chão num padrão que denotava influência bípede. O shura esperou até que o seu coração deixasse de palpitar antes de se levantar, olhando para cima como se pudesse ver o que se estava a passar no exterior. Não ouviu qualquer ruído fora do normal vindo do outro lado da abertura, e som algum provinha do túnel, a não ser o tênue borborejar de água à distância. Ainda assim, o eahan desembainhou o seu facalhão, fazendo ressoar pelas paredes o som do gume a raspar na bainha de madeira, só então avançando a prudentes passos. Queria certificar-se de que não havia companhia indesejada, e que o túnel não ia dar a outra saída, entalando-o potencialmente entre dois grupos de inimigos.

Atento, o eahan avançou agachado e de facalhão empunhado, dei­xando os seus olhos aclimatarem-se à luz ambiente. O túnel descia ligeiramente, e a temperatura ia aumentando em igual medida con­forme Quenestil avançava, o que só podia significar que se estava a aproximar de outra fonte de água quente. Sem grande vontade de combater outra criatura como a que acabara de enfrentar, o shura ain­da hesitou, ponderando voltar atrás, mas ao avistar uns rabiscos na parede, sentiu-se compelido a avançar. Os rabiscos eram na verdade toscos desenhos compostos sobretudo de linhas assimétricas, pintados com um pigmento vermelho sobre a irregular superfície áspera da pedra-pomes escura. Intrigado, Quenestil observou-os mais de perto, passando os dedos enluvados sobre eles. Pareciam retratar sobretudo figuras simples, com membros alongados e uma parca atenção ao detalhe, que denotava que não eram tidas em grande conta por quem os pintara. Nada levava a crer que não se tratava de humanos, a avaliar pelas armas parecidas com lanças ou espadas que alguns deles empu­nhavam. Ao longo da parede viam-se alguns deles embrenhados em combate, sem uma única figura feminina à vista, e desses havia uns poucos imersos naquilo que pareciam ser labaredas.

«Fogo...», ponderou Quenestil, percorrendo a pedra com os dedos, lembrando-se então de olhar por cima do ombro direito e prestar aten­ção, certificando-se de que ninguém se aproximava da entrada. Do exterior não veio qualquer ruído, e o eahan devolveu a sua atenção às pinturas, suficientemente intrigado para tentar pelo menos decifrar o seu significado geral.

Sobre os eleitos do fogo pairavam figuras que, com alguma liber­dade de expressão, poderiam ser consideradas animais, embora esti­vessem retratadas com mais precisão que os desenhos humanóides. Um deles parecia ser uma águia, uma figura na forma de um anzol com membros arqueados, dos quais caíam uma série de filamentos. Outra tinha formas vagamente canídeas, e seria provavelmente um lobo, a avaliar pela cauda e focinho alongado. Outra ainda lembrou a Quenestil um lince, devido ao pormenor das orelhas afiladas, e uma outra não podia ser outra coisa que não um urso, ananicando as res­tantes, exceto uma que aparentava ser um peixe, com uma proe­minente barbatana caudal.

«Shuras? Ou melhor, kahrkar...», deduziu o eahan, já que os homens estavam claramente associados aos animais que por eles tinham sido pintados.

Aliás, a um escrutínio mais atento, Quenestil reparou que os kahr­kar em questão apresentavam mais detalhes que os restantes, pintados com um instrumento mais fino que os dedos que tinham sido utili­zados para as outras figuras. O que se encontrava debaixo do lobo, por exemplo, ostentava orelhas sobre a cabeça e uma cauda entre as pernas, como se estivesse a usar a pele deste, e os outros tinham eles também ornamentos à semelhança dos animais. As ilustrações continuavam pela parede fora, prolongando-se pelo túnel adentro, e Quenestil seguiu-as atentamente, tentando decifrar a história que contavam.

Aqueles que deviam ser kahrkar apareciam de seguida desenhados em barcos, bem separados uns dos outros, como se para dar a entender que não se tinham lançado ao mesmo tempo ao mar. O montículo fumegante que aparentemente todos almejavam alcançar devia ser Eihroin, mas o que vinha a seguir era consideravelmente mais confuso. Figuras humanóides mas claramente não-humanas surgiram de repente, pintadas de forma bem mais detalhada, com fios sobre as cabeças, que Quenestil decifrou como jubas. Ulkatr, porventura? Explicaria os detalhes mais finos em alguns desenhos, que teriam provavelmente sido feitos com as afiadas unhas das criaturas. Viam-se na proximidade dos kahrkar, mas não pareciam estar a interagir com eles de forma aparente, enquanto estes estavam sentados ou ajoelhados, em audiência ou meditação, era difícil dizer. Mais confusos ainda eram contudo os seguintes desenhos, que ilustravam uma tem­pestade de relâmpagos, fogo, ondas altas no mar, e uma série de rabis­cos que Quenestil não conseguiu desvendar, mas que, de acordo com o contexto geral, deduziu que fossem representativos de um tremor de terra. Depois disso, tornava-se difícil interpretar as ilustrações, que pareciam misturar todos os elementos e os kahrkar.

«Ulkatr, é?», pensou, coçando a cabeça. «Bom, ao menos já sei o que poderei encontrar por aqui. Mas então e aquela coisa da fonte?»

Para se certificar, o shura reviu os desenhos desde o início, mas não encontrou nada que desse a entender que um dos kahrkar tinha mor­rido ou caído dentro de água quente. Ainda intrigado, Quenestil deu-se ainda assim por satisfeito por saber quais os verdadeiros habitantes da ilha; com ulkatr ao menos já era capaz de lidar. Deu uma última vista de olhos aos desenhos, procurando alguma referência a pessoas mortas em fontes quentes, prosseguindo com o seu caminho ao falhar em encontrar algo de útil. O túnel ainda se prolongava além da parca iluminação providenciada pelos buracos em cima, e ao fundo deste ouvia-se o som de água em cachão. Quenestil não tinha grande von­tade de enfrentar outra criatura daquelas num espaço apertado, mas estava decidido a explorar o túnel até ao fim, agora também por curio­sidade.

Alguns passos mais à frente, e o eahan começou a distinguir uma voz entre o ruído da água em cachão que vinha do fundo do túnel. O som fê-lo estacar abruptamente, e deixou o seu coração a bater mais depressa, levando-o a olhar instintivamente sobre o ombro, temendo ter sido encurralado. Ninguém vinha da entrada, contudo, e quem emitia o som não estava a tentar ser minimamente discreto, o que levou Quenestil a avançar sem receios de maior. Sempre agachado e de facalhão aprestado, o eahan desceu pelo túnel, cuja temperatura ia aumentando a cada passo seu, e em cujas paredes a estranha voz rever­berava com cada vez mais clareza. Parecia estar a falar em Hjrutmalv, embora fosse difícil distinguir as palavras, e o tom da voz de homem que as proferia soava exaltado. Quenestil semicerrou os olhos enquanto avançava, tentando sem grande sucesso perceber o que a voz dizia, até que, ao contornar uma curva no túnel, deparou com a câmara da qual esta provinha.

A fonte de água quente borbulhava num recesso na parede do túnel, diante da qual se encontrava um homem agachado e abraçado às per­nas. Quenestil estacou de imediato ao vê-lo, espreitando do contorno da curva do túnel, mas o homem não sentiu a sua presença, conti­nuando a olhar para a escaldante água. Tinha barba e cabelos em sujo e perfeito desalinho, salivando sobre a primeira enquanto abanava a cabeça em ato de aparente negação. Os seus olhos estavam vidrados e raiados de sangue, arregalando-se sobre as profundas e escuras olheiras de um homem que não dormia havia muitos dias, e os dedos com os quais puxava os cabelos estavam ensangüentados — arrancara aparente­mente as unhas, e as listras avermelhadas na pedra em redor davam a entender que fora ele o autor de tais ferimentos. Quenestil ficou retido em grotesco fascínio pelo homem, cujos cabelos grisalhos davam con­ta da sua já adiantada idade, e cujas roupas se assemelhavam às dos kahrkar que já vira: peles de um animal, neste caso as de um lobo, sobre cota de malha. Tinha uma espada à cintura, mas o estado da bainha desta denotava um uso desleixado nos últimos tempos, e a capa que estava despejada sobre o piso do túnel encontrava-se esfarrapada e manchada de lama preta ao longo das bordas.

— Grimdr... — murmurava o homem, cujas palavras Quenestil conseguia agora perceber. — Ah ar grimdr...

«Raiva?», pensou Quenestil, fitando com atenção o homem, que oscilava perigosamente sobre as pernas acocoradas diante da fonte, cuja água fumegava, convidativa. Vagas de Fogo, o caldeirão, os berros de fúria da criatura escaldada... para onde o enviara Ihjseorn?

Um ruído vindo da entrada do túnel fez com que o eahan olhasse bruscamente para trás, rachando um pouco da frágil pedra-pomes da parede com a mão que nela estivera apoiada. O bocado caiu ao chão com um seco ruído esfarelado, e o eahan viu por cima de ombro que sombras se mexiam ao fundo do túnel, antes de se virar novamente para o homem, cujos olhos maníacos estavam virados na sua direção.

Novamente tomado de assalto pelo instinto de sobrevivência, o eahan não hesitou e avançou de rompante pela sala adentro, esperando conseguir contornar o kahrkr. Este, porém, levantou-se com a rapidez de velhos tendões esticados que nem arames, desembainhando a sua espada com ambas as mãos e atacando Quenestil com um rouco brado colérico. O shura desviou-se do golpe, que cortou o ar com um afiado chofre, e antes que o homem pudesse desferir um revés, Quenestil penetrou pela sua guarda adentro para o estocar na barriga. Contudo, foi surpreendido quando este largou a espada com uma mão, percutindo-o na boca com as costas desta. A sua cabeça chicoteou para trás com o repelão, e o eahan cambaleou para o lado com joelhos trêmulos, momentaneamente cego pela escuridão que lhe cobrira os olhos quando do impacto. Bateu de costas contra a parede, e antes que con­seguisse sequer refazer-se, já o homem dava seguimento ao ataque com uma desenfreada arrancada, tencionando varar o shura contra a parede com a sua espada. Quenestil desviou-se a tempo, e a ponta da espada embateu estridulamente contra a parede, com um ruído que fez com que mesmo os seus dentes rangessem, e o homem tornou a berrar. De dor ou raiva, era difícil dizer, mas o eahan não estava disposto a descobri-lo da pior forma, e chutou o adversário no peito. Não foi um golpe particularmente forte, pois Quenestil desferira-o de uma posição que não lho permitira, mas o kahrkr estava desequilibrado, e o pon­tapé fê-lo cambalear para trás. O shura não lhe deu tempo para recu­perar, e impeliu-se da parede contra o homem, esbarrando de ombro contra ele; o impacto magoou-o mais que ao adversário devido à cota de malha deste, mas conseguiu fazer com que o kahrkr caísse aos trambolhões para dentro da fonte de água quente.

A sua queda foi aparatosa, e o pesado chapão na água foi aba­fado pelo agoniado grito do homem, cuja boca se encheu seguida­mente de água, que lhe queimou prontamente a língua. Quenestil ficou momentaneamente retido pelo horrífico espetáculo de mem­bros a chapinharem em escaldada angústia, mas não se deixou ficar por mais que uns instantes e foi a correr pelo túnel fora, sentindo claramente que estava a ser perseguido pelas sombras que avistara, embora não conseguisse ouvir as suas passadas no meio dos ruídos da cruciante morte do kahrkr. Não havia fundo à vista, e o eahan con­tinuou a correr, ponderando as suas hipóteses antecipadamente enquanto galgava o túnel, que começou a subir ligeiramente e a ficar mais fresco à medida que avançava. Porém, mesmo enquanto corria, parte de si gritava-lhe que parasse e confrontasse o que quer que o estava a perseguir, como tantas vezes fizera enquanto com os seus companheiros. Quenestil ainda hesitou um passo, levando a mão ao estojo do seu arco, mas assim que distinguiu as pesadas passadas e o clique de unhas em pedra dos seus perseguidores entre os agora distantes gritos do kahrkr, continuou simplesmente a fugir. Havia demasiado a depender dele para se atirar de cabeça contra o perigo como fizera ao lado de Aewyre, e aquela ilha era estranha e perigosa demais para se arriscar de tal forma, pelo que continuou a correr.

Por fim, chegou a uma íngreme rampa, que subia até um buraco orlado de ásperas e salientes formações vulcânicas, através do qual se via o pesado céu cinzento no exterior. A corrente de ar que sentira era causada pelo vento, que soprava um fino pó acinzentado pela abertura, tendo já revestido boa parte da rampa com uma camada cor de cinza. Sem hesitar, o eahan tirou o arco do estojo, passando-o por cima do ombro, enfiou uma flecha entre os dentes, e desatou a subir a rampa. Os rebor­dos afiados e a superfície áspera desta arranharam-lhe as botas, as luvas e mesmo os joelhos, mas Quenestil trepou-a como um volverino em fuga. Atrás de si ouviu roncos e rosnadelas, mas não se deteve a meio da subida para olhar para trás, e percorreu com saltos o que restava da distância até ao buraco, causando uma série de pequenos desmoronamentos pela rampa abaixo no seu encalço. Uma vez com as mãos na afiada borda, Quenestil içou-se para o exterior, alçando uma perna sobre a beira para sair numa posição que lhe permitisse ficar a olhar para baixo.

Tal como esperara, dois ulkatr surgiram em baixo, o seu pêlo branco contrastando com a obscuridade do túnel, e detiveram-se subi­tamente ao verem que estavam a ser observados. Os dois arreganharam os dentes e franziram os focinhos, preparando-se de seguida para subir, e Quenestil frechou prontamente o arco, aprestando-o contra os facílimos alvos em baixo, pronto a abater ambos os ulkatr antes que estes subissem sequer um quarto da rampa. Todavia, sem lhe dar tempo sequer a soltar a primeira flecha, o ruído de cascalho a cair por perto chamou-lhe a atenção, e o eahan permitiu-se um breve olhar sobre o ombro. Estava numa pequena bacia seca formada pela acumulação de água na vertente do vulcão, toda ela revestida com uma fina camada de pó cinzento, e sobre a borda encontrava-se um outro ulkatr... não, dois. Quenestil virou-se abruptamente de arco aprestado, ouvindo claramente os ruídos dos dois ulkatr que subiam a rampa, mas não lhes conseguiu dar atenção ao ver que havia bem mais que dois deles a observá-lo. A bacia estava rodeada de ulkatr, que o observavam ao longo da borda, imóveis, silenciosos, com jubas e rufos a abanarem ao vento; alguns de braços placidamente cruzados, outros com achas de armas de obsidiana empunhadas, mas todos de desalmados olhos pretos fitos em Quenestil.

 

Após enterrar Heldrada, Allumno deixara de esforçar tanto o seu cavalo, pois agora sabia que Aewyre não se encontrava na Cidadela da Lâmina, logo não mais estava em perigo iminente de ser atacado pela horda. Ainda assim, o saber que Culpa lá estivera, e que viera apa­rentemente em busca do seu protegido, não o deixara menos preo­cupado. Porém, não mais urgia que encontrasse Aewyre o quanto antes, e como tal, o mago permitiu-se algum tempo para observar a horda de drahregs que vinha no seu encalço. Embora ainda não tivesse conseguido descortinar o propósito do êxodo dos drahregs, estes nem por isso eram uma ameaça de somenos importância, e Allumno estava determinado a desvendar os intuitos d’O Flagelo, observando a hoste dos seus servos e acompanhando o seu progresso. Seriam informações que poderiam certamente interessar a Aewyre, que por aquela al­tura provavelmente estaria já a organizar o exército de Ul-Thoryn, e Allumno reservou alguns dias para testemunhar as ações do Primeiro Pecado enquanto este passava por Laone como uma insalubre tempes­tade sem rumo.

O que viu confundiu-o mais ainda. Os drahregs não se detinham em qualquer cidade, passando simplesmente por elas e devastando o campo em redor destas em busca de alimento. Espezinhavam searas, reduziam a ossos os parcos rebanhos que conseguiam apanhar, e nivelavam as aldeias e pequenas comunidades pelas quais passavam. O mago julgou inicialmente que se tratava de um fossado em grande escala, mas os drahregs estavam demasiado longe de qualquer refúgio para que assim fosse, além de que não dispunham de um mínimo de mobilidade. Não passavam de uma massa negra de destruição, que ninguém ainda atacara devido às suas dimensões, mas que muitos já combatiam numa guerra de atrito. A cavalaria wolhyna perseguira-os muito para além da fronteira com o Laone, antes de voltarem para trás com o sangue de centenas de drahregs nas suas lanças e cascos. Depois disso, a horda fora lenta e constantemente acossada pela cava­laria ligeira laonesa e pela namuriquana, que entretanto viera em auxí­lio. Allumno não conseguia compreender o que levava os drahregs a avançarem de forma tão irrefletida, morrendo às centenas, aos milha­res, comendo os seus feridos e enfermos a um ritmo tal, que a horda se estava a consumir por dentro enquanto era desgastada por fora. O mago assistira à passagem destes por entre vales e passagens estrei­tas, nos quais emboscadas de besteiros laoneses tinham feito chover a morte sobre as suas cabeças. Da parte dos drahregs, nenhuma reação, além de continuarem a arrastar-se sobre os cadáveres dos seus caídos, ou despedaçando-os para mais tarde os comerem. Vira uma surtida noturna sobre o caótico acampamento dos drahregs enquanto estes dormiam, exaustos, sem terem sequer acendido tochas ou destacado guardas de perímetro. Cavaleiros arnesados tinham lavrado sangrentas leiras por entre a adormecida horda, esmagando crianças debaixo dos pesados cascos dos seus corcéis e alçando adultos pelo ar com golpes das suas enormes lanças.

A horda estava a morrer uma morte lenta, agonizante e plena de sofrimento, e Allumno não conseguia conceber qual o objetivo que O Flagelo pretendera com ela alcançar. Nada daquilo fazia sen­tido: com uma horda de tais dimensões — que só podia ter deixado Asmodeon despovoada — Seltor podia ter deixado as principais cidades de Tanarch de joelhos. Uma vez consolidado seu domínio aí, faria então sentido seguir para a Wolhynia, que, embora por essa altura provavelmente avisada de antemão, teria certamente enfren­tado mais dificuldades que as que a horda causara ao simplesmente passar pelo seu território. Até agora, o máximo que conseguira fazer fora perturbar a paz de três nações, causar estragos pouco significantes em duas delas, e chamar a atenção de uma quarta antes de ter lidado de forma conclusiva com sequer uma das anteriores. Se o objetivo d’O Flagelo fora provocar a guerra, certamente que o con­seguira, embora esta não estivesse de todo a correr-lhe de feição. Estava a ser desastrosa, na verdade, pois, pelos cálculos visuais de Allumno, a horda fora reduzida para menos de metade. Embora ainda de números respeitáveis, não mais representava uma ameaça para uma nação, e as hostes laonesa e namuriquana que tinham acompanhado à distância o seu progresso pareciam cientes disso, pois tornavam-se cada vez mais ousadas nas suas investidas, e não mais temiam mostrar-se ao Primeiro Pecado, embora ainda se tivessem mostrado reticentes em empenhar os drahregs em batalha. Ainda eram muitos, e a sua reputação de ferocidade e selvajaria tornara-se quase mítica após a Guerra da Hecatombe, além de que a sua ululante procissão acom­panhada pelos gritos dos que morriam pelo caminho e pelos gemidos dos que sabiam que iriam morrer continuava a apresentar um espetáculo grotesco, no qual mesmo homens de armas arnesados hesita­vam em se embrenhar.

Observando tudo das montanhas, Allumno notara nos últimos dias que as hostes da Namuriqua e de Laone já se tinham juntado, a avaliar pelos díspares brasões que os soldados ostentavam. Já se habituara à sensação de desconforto criada pela proximidade dos drahregs, cuja mera presença parecia ofender o ambiente em redor e cujos números ainda causavam uma náusea de terror a quem os presenciava, mas recentemente instalara-se uma palpável tensão no ar. Os namuriquanos e laoneses pareciam estar apenas a aguardar a altura e o momento certos para desferirem o golpe de misericórdia no coração da horda, limitando-se a tentar orientar os drahregs para os pés das monta­nhas, onde seria certamente mais fácil encurralá-los. Estes, porém, marchavam obstinadamente para sul, rumo a Nolwyn, e Allumno julgou que poderiam de fato estar simplesmente a ir no encalço de Aewyre, ignorando tudo o resto. Era um plano suicida, e era bem pos­sível que nem um único drahreg conseguisse atravessar a fronteira, mas ao menos sempre fazia um certo sentido do ponto de vista d’O Flagelo. Afinal, Aewyre era o único que Ancalach protegeria contra o seu poder, e a Espada dos Reis era a única arma capaz de feri-lo; logo, era até compreensível que o Anátema estivesse disposto a exaurir o seu mais fiel recurso, se com isso conseguisse eliminar a única ameaça ao seu domínio sobre Allaryia. O mago duvidava de que o seu protegido fosse capaz de vencer O Flagelo em combate singular, mas não era inconcebível que, após o que lhe acontecera na Guerra da Hecatombe, este quisesse evitar todo e qualquer risco, e preferisse sacrificar a sua horda. Invadindo Nolwyn e atolando Ul-Thoryn de drahregs era uma forma segura de garantir que Aewyre deixaria de ser uma ameaça, e Seltor, além de constituir por si só o maior perigo que o continente alguma vez enfrentara, provavelmente disporia de outros recursos que pudessem substituir o Primeiro Pecado, embora certamente nunca em número...

Finalmente, num carregado dia de início de Primavera, como que para sinalizar o início da época de guerra, as forças laonesas e namuriquanas fizeram a sua jogada. As três forças tinham chegado a um local propício para uma batalha, e os humanos, vendo a debilitada e periclitante horda dos drahregs continuar a avançar sem qualquer atenção ao seu posicionamento, decidiram preparar a matança. O ter­reno era um vasto aveal recentemente lavrado, flanqueado por dois soutos, que provavelmente tinham sido um único bosque denso, antes de os lavradores os terem desbastado. Havia um ligeiro declive no ter­reno, que era irrigado por uns canais cavados, o que, juntamente com as chuvas recentes, deixara a terra arada algo lamacenta. A forma ligei­ramente côncava do campo e o fato de ser mais comprido do que largo tornava-o o local ideal para pinçar a horda com duas frentes de ataque, pois o terreno inclinado em muito favorecia cargas de cava­laria, da qual tanto laoneses como namuriquanos dispunham em abun­dância. Allumno viu soldados à distância vindos de sudoeste; os generais pretendiam evidentemente encurralar os drahregs e deixá-los na posição ideal para duas devastadoras cargas de cavalaria na frente e na retaguarda, com as quais esperavam quebrar a horda num único ataque fulminante. Para se certificarem de que esta não se dispersaria, os generais destacaram ainda umas unidades irregulares para os soutos, de forma a dissuadir os drahregs de tentarem escapar pelos bosques.

Allumno acompanhou os procedimentos do cimo de um penedo, do qual tinha uma vista privilegiada para o campo de batalha, e crispou os dedos de ambas as mãos no cajado. Não nutria particular sim­patia por namuriquanos ou laoneses, mas estava no interesse de todas as nações que a horda fosse exterminada, e o mago sentiu um nervoso borboletear no estômago enquanto aguardava. Sabia estar a assistir a um evento potencialmente decisivo, ao eventual quebrar do poderio de Asmodeon, mas havia algo na situação que lhe continuava a desa­gradar. Nada daquilo fazia sentido, por muitas razões e motivos que lhe tentasse dar. Drahregs serviam O Flagelo com o que neles passava por lealdade incondicional, e este tinha-os conduzido àquela que não podia ser outra coisa que não uma desmedida chacina em grande escala, sem quaisquer benefícios aparentes.

Os exércitos humanos não estavam com quaisquer compunções, e um começou a assumir posições na retaguarda da horda a nordeste enquanto o outro vinha de sudoeste numa apressada cavalgada, con­sistindo de cavaleiros namuriquanos acompanhados por vários troços de arcobalistários montados. Alheios a tudo e todos, os drahregs conti­nuavam a avançar, reduzindo o aveal lavrado a um lamaçal revolto à sua passagem. Detiveram-se apenas quando, algum tempo depois, viram por fim surgirem de sudoeste os arcobalistários montados, que se posicionaram para receber a horda e desmontaram, aprestando as suas armas com a precisão de anos de treino. Foram seguidos por uma rutilante fileira de cavaleiros, que formaram três linhas de batalha diante dos arcobalistários, sendo que as duas anteriores desmontaram, entregando as rédeas dos seus corcéis a escudeiros, e empunhando armas de haste como homens de armas apeados. Houve alguma confusão nas fileiras enquanto cavalos trocavam de mãos, homens de armas assumiam as suas posições atrás dos cavaleiros, e os arcobalis­tários recuavam um pouco mais pelo terreno inclinado, de forma a terem linhas de fogo abertas para o inimigo, mas o batalhão namuriquano acabou por conseguir apresentar uma frente de ataque con­sistente, que fez com que a horda detivesse por fim a sua inexorável marcha. Havia uma clara disparidade de números entre as duas fren­tes do exército que enfrentavam, mas os drahregs não mostraram von­tade de investir e tentar através dos seus números sobrepujar a menos numerosa frente namuriquana. A olho nu, Allumno diria que os exér­citos aliados deviam consistir em cerca de vinte e cinco mil homens, talvez mesmo trinta, enquanto a seviciada horda não chegava aos ses­senta, e desses ainda poderia haver uma porção de mulheres e jovens adultos, os que até então tivessem conseguido sobreviver. Nenhuma das nações tivera evidentemente tempo para destacar mais que o seu respectivo exército permanente, e provavelmente apenas os destaca­mentos regionais, o que significava que aquele nem era sequer um gambito desesperado da parte de dois monarcas aflitos. Fora apenas uma antecipação, uma manobra defensiva enquanto preparavam as suas forças, mas naquele momento parecia que a defesa se iria con­verter em ataque, e que bastaria por si só para eliminar decisivamente a ameaça.

Embora tivesse cessado a sua marcha, a horda não estava imóvel, pois havia nela sempre movimento, e estava sempre em furiosa atividade interna como um grande organismo revolto. Vários bradaram de raiva ou frustração, sobrepondo-se aos gemidos plangentes de outros, enquanto outros ainda olhavam em redor, como se só então se tivessem dado conta do seu predicamento. Os mais belicosos de entre eles desembainharam as armas e avançaram para a dianteira, forman­do um de todo altruísta círculo em redor dos seus. A meio da confu­são, houve as inevitáveis e fúteis tentativas de impor ordem, e assim que alguns tentaram assumir o comando, originaram logo sangrentos conflitos. Vários drahregs morreram antes que um ou outro conse­guissem destacar-se entre os demais, ostentando a cabeça recém-degolada de um pretendente, apenas então conseguindo fazer valer a sua autoridade. Havia entre o Primeiro Pecado alguns veteranos de guerra, e esses ordenaram que se começassem a abater as árvores dos soutos que ladeavam o campo, dando a entender que iriam assumir uma posição defensiva.

Muitos drahregs estavam armados, mas não eram muitos os que estavam adequadamente equipados para uma batalha, e desses menos ainda tinham o equipamento em condições. Faziam um triste con­traste com as hostes namuriquana e laonesa, com os seus cavaleiros de resplandecentes arneses e coloridas flâmulas a abanarem ao vento. Os soldados laoneses em particular, com as garridas cores das suas roupas e couraças forradas a tecido tingido, destacavam-se entre os demais, altos e altivos nas selas ornadas, como se num desfile antes do imi­nente ataque. Mesmo os cavalos pareciam afetar uma postura garbosa, protegidos pelos seus ricos caparazões canelados e testeiras ornadas com motivos florais. Do outro lado, os cavaleiros namuriquanos eram mais sóbrios, muito embora a quase desconcertante diversidade de brasões que ostentavam em estandartes, gonfalões e escudos os fizesse parecer mais coloridos ainda que os seus homólogos laoneses. Tal devia-se à conjuntura política da Namuriqua, cuja monarquia ofere­cera comendas às inúmeras companhias mercenárias que haviam atormentado a sua nação, convertendo-as em ordenanças semiautônomas, que em grande parte conservavam a sua identidade e tradi­ções. Tinham um ar menos festivo e mais intimidador, com bizarras couraças caneladas e cuneiformes, iguais às dos homens de armas apeados, que usavam também toneletes segmentados, tornando-os autên­ticos couraçados humanos. Os infantes de ambos os lados envergavam laudéis e solhas, empunhando armas de haste das mais variadas for­mas e feitios, com as cabeças protegidas por bacinetes e chapéus de ferro. Atrás deles, os besteiros laoneses e arcobalistários namuriquanos aguardavam, preparando as suas armas. Estes últimos em particular chamavam a atenção devido à força tênsil das suas armas com arco de aço, que precisavam de cabrestantes para serem aprestadas, e o manuseamento desses instrumentos em uníssono criava um enervante zum­bido.

Os drahregs apresentavam uma pouco convincente oposição ao metálico poderio militar que os cercava, sendo que a esmagadora maioria deles vestia apenas roupas e peles sujas. Outra grande parte envergava couro, alguns com placas de metal ou malhas de aros metá­licos neles cosidos, e contavam-se pelos dedos aqueles que ostenta­vam jacos de cota de malha enferrujada e de anéis quebrados. As armas que traziam estavam em mau estado devido à intempérie: facalhões, falcatas e machados na sua maioria, com insuficientes e demasiado pequenas lanças para se poderem verdadeiramente opor a uma carga de cavalaria. Alfanges e cimitarras eram as armas dos privilegiados, quase símbolos de autoridade dos veteranos de guerra entre o Primeiro Pecado, embora muitos com ar não menos experiente empunhassem machados, ou mesmo toscos martelos de guerra. Eram esses os que estavam a orientar a horda sem cadeia de comando definida, unidos pelo propósito comum da sobrevivência, agora que se viam encurra­lados. Os drahregs pareciam apenas então ter acordado para a realidade da sua situação, como se até à altura tivessem sido movidos por um cego frenesi coletivo.

«Que espécie de...?» Allumno franziu as sobrancelhas do alto do seu miradouro improvisado. A horda explodira em atividade como um formigueiro pisado, como se tivesse acabado de despertar, embora tivesse passado as últimas semanas a desafiar neve, chuva, doença e um constante assédio de forças montadas. Quem os tivesse até então observado, quase diria que os drahregs teriam simplesmente continua­do a avançar até embaterem com o batalhão que os fianqueara. Rea­giam agora tal como se alguém os tivesse despertado de um transe com um estalar de dedos, e se encontrassem numa inesperadamente desesperada situação.

Frenéticos, os drahregs seguiam as díspares instruções daqueles que de entre eles se impunham, falqueando as árvores dos soutos para construírem apressadamente abatis contra a cavalaria. As mulheres, os enfermos e as poucas crianças que restavam, tentavam desesperada-mente manter-se no centro, mas eram forçosamente empurradas para o exterior do círculo que se estava a formar aos poucos. Os generais laoneses e namuriquanos conferenciaram durante os preparativos, ponderando as suas opções contra uma força que não deixava de ser mais numerosa que eles. Algum tempo depois, Allumno viu um par de mensageiros lançarem-se a galope na direção de uns porta-estandartes, que ouviram as suas instruções e as transmitiram em voz alta. Uma trompa laonesa foi soada e uma auriflama namuriquana foi segui­damente oscilada. Cabeças de drahregs empertigaram-se e viraram-se ao ouvirem o sinal, que era a deixa dos besteiros e arcobalistários. Os primeiros avançaram em três fileiras: a dianteira ajoelhou-se, enristando as bestas sobre os joelhos; a segunda assumia as suas posições sobre a primeira; e a terceira permanecia atrás de armas carregadas, prontos a disparar enquanto os outros recarregavam. Do outro lado, os arcobalistários já tinham assumido as suas posições atrás dos cava­leiros e dos infantes, mais acima no terreno, e as suas temíveis armas estavam já assestadas à revolta massa negra que era o seu alvo.

Outro soar da trompa e uma oscilação diferente da auriflama, e o ar vibrou com o estalar de centenas de cordas, que deram lugar ao agudo assobio dos quadrelos. Seguiram-se os baques surdos de pontas de aço a trespassarem couro, pele, carne e osso, e chusmas de drahregs tombaram, mortos ou feridos. As arcobalistas em particular infligi­ram horrendos danos, projetando algumas vítimas pelo ar com o bru­tal impacto, e chegando mesmo a cravar o braço de um drahreg ao torso de outro. Uivos e gritos de dor e medo emanaram das fileiras da horda, mas foram cortados pela segunda impiedosa salva de qua­drelos, essa desfechada descompassadamente devido a uma descoordenação entre ambas as forças — havia aparentemente quem estivesse mais nervoso, e quisesse desbastar ao máximo a inumana horda, antes que esta decidisse atacar. Os comandantes drahregs berraram ordens urgentes, e quem tinha escudos colocou-os sobre as cabeças, tornando-se alvos para quem também desejava um, ou atraindo para si os mais fracos, que se ajoelhavam ou deitavam atrás deles, procurando proteção. De pouco lhes serviu, todavia, pois era como tentarem abrigar-se de uma chuva de ferro que atravessava escudos e cabeças, e outros tantos drahregs se juntaram aos caídos no chão, varados com quadrelos neles enterrados quase até aos volantes de couro.

Não havia arcos suficientes, e a maior parte dos drahregs tinha ape­nas farpões, dardos e machadas de arremesso. Estavam em campo aberto e expostos às mortíferas salvas dos seus inimigos, que, surriada após surriada, iam semeando o aveal com cadáveres. Vagidos de mori­bundos e gritos de agonia dos gravemente feridos faziam uma quase ensurdecedora cacofonia a meio da horda, sobre a qual a mortífera chuva não parava de rechinar. O Primeiro Pecado não tinha como ripostar, e reagiu como um animal cercado a ser acicatado: atacando. Atacando com raiva rúbida e dentes arreganhados, numa desorga­nizada turba negra que fez tremer o chão sob os seus passos e abalou o firmamento com o seu tonante brado. Mesmo à distância a que se encontrava da ação, Allumno sentiu também ele as entranhas frias ante a trovejante carga da horda, que se lançou de nua carne negra contra o aço daqueles que os atormentavam. Apesar de uma hesita­ção inicial, os generais laoneses e namuriquanos deram logo o sinal de atacar, agora que tinham os drahregs como os queriam. Trompas soaram e estandartes foram abanados, sinalizando o avanço da ansiosa cavalaria, que baixou as viseiras, enristou as lanças e esporeou as ansio­sas montarias. De ambos os lados do campo de batalha, as fileiras de cavaleiros de duas nações avançaram a trote em duas linhas de bata­lha, que cobriam quase toda a largura do aveal entre os soutos, sem dar qualquer margem de manobra aos drahregs. Estes continuaram a sua carga, pois os que vacilaram ante o avanço dos cavaleiros foram atropelados pelos seus companheiros, boa parte dos quais já tinham sido tomados pelo frenesi de batalha, acirrados pelos loucos berros aos seus ouvidos e pelo cheiro a medo que corria, castanho, pelas per­nas de muitos abaixo.

«Em nome dos deuses, vai ser uma chacina», pensou Allumno, que não conseguia conceber aquilo que estava a acontecer. O seu cavalo resfolegou, assustado com o tremendo ruído, mas o mago não lhe deu qual­quer atenção, incapaz de tirar os olhos do campo de batalha. Caiu-lhe sobre a testa uma ínfima gota de água, e Allumno mal se deu conta da chuva miúda que se começou a precipitar.

Os cavaleiros levantaram-se sobre as suas selas, de pernas flexionadas e pés bem assentes nos estribos, apoiando as costas nos arções das selas. Conforme se iam aproximando do inimigo, foram-se encouchando gradualmente, retesando-se para o impacto iminente. Os cavalos estugaram o trote, mas embora inclinado, o recentemente arado terreno não estava nas melhores condições, e os cavaleiros preferiram não galopar a toda a brida que os pesados caparazões dos corcéis lhe per­mitiam. Os drahregs continuavam a avançar em ambos os lados, dis­postos a enfrentarem de cara a tremenda colisão, deixando no meio os mais cuidadosos e medrosos, que avançavam mais devagar, esperando que os da dianteira absorvessem o impacto inicial. Alguns começa­ram mesmo a correr mais depressa que os cavalos, vendo que estes vinham na sua direção a um mero trote apressado, esperando sobre­pujá-los, mas conseguiram apenas apresentar uma frente de ataque mais fragmentada ainda. Ao verem isto, alguns cavaleiros tomaram a iniciativa de esporear novamente as montarias, ansiosos por mergu­lharem numa seara de carne pronta a desbastar, e vários lhes seguiram o exemplo. Os corcéis estropearam então furiosamente o chão com os seus cascos, galopando contra o Primeiro Pecado como um imparável vagalhão de aço. Alguns escorregaram ou caíram, mas os cavaleiros estavam de olhos fitos no inimigo, a sua visão restrita pelas estreitas viseiras dos seus elmos, e não se deram conta dos seus menos afor­tunados companheiros que se estatelaram no chão, rolando por ele abaixo com as suas montarias. Os generais de ambas as forças mordiam os lábios, aguardando o impacto de punhos cerrados, nutrindo ainda a esperança de conseguirem quebrar tão vasta horda com uma única e devastadora carga. Porém, estes viraram as caras para o lado em per­feita coordenação, ao ouvirem ser soprada uma trompa que não tinham autorizado. Um dos maiores batalhões de infantaria namuriquana avançou de alabardas em riste, ostentando um brasão de companhia e originando a confusão generalizada entre os seus aliados e conter­râneos. Ninguém percebeu porque avançavam eles, pois aparente­mente nenhum dos generais o ordenara, mas era agora tarde demais para os fazer voltar atrás.

As duas forças embateram então, e o choque fez o ar tremer com um troar de tempestade. Corpos desfeitos de drahregs voaram pelo ar, rodopiando como bonecos desossados, e as fileiras de cavalaria esboroaram por completo a frente de ataque inimiga, sulcando-a como uma relha de arado em solo virgem. A arrancada dos cavaleiros per­mitiu-lhes penetrar pelo vagalhão negro adentro, estraçalhando lanças e drahregs em igual medida, e moendo debaixo dos cascos ferrados dos seus corcéis aqueles que se escapavam. A força do seu impacto acabou por ser absorvida pela massa de corpos que contra eles se impelia, contudo, e os cavaleiros desembainharam então as espadas, dando início à parada de morte do cimo das suas selas. Nascidos para a guerra, os cavalos escoiceavam em redor e arrancavam caras à den­tada, mantendo-se em constante movimento e atirando ao ar os drah­regs que lhes tentavam segurar pelos arreios ou estribos. Entretanto, os seus cavaleiros espadeiravam de um lado da sela para o outro, escachando crânios e decepando membros num mar de carne negra e armas sujas e ferrugentas. Do outro lado passara-se praticamente o mesmo, com a diferença de que os homens de armas se preparavam apenas então para avançar. A nordeste, naquela que era para efeitos práticos a retaguarda, a peonagem namuriquana já avançava a passo apressado, para grande confusão dos que tinham ficado para trás. A hoste laonesa e namuriquana foi percorrida por um tremor de incerteza quando homens vacilaram e olharam para trás, para os generais ao cimo do terreno, que discutiam entre si.

A chuva que caía era quase imperceptível, meros lençóis poeiren­tos no ar que deixavam gotículas sobre os cabelos, que eram impla­cavelmente sacudidos durante o aceso combate que agora grassava entre as frentes dos dois exércitos. Os cavaleiros de ambos os lados começaram a sentir a pressão, e sinalizaram com as espadas cruentas que estava na altura de retrocederem, soando berros metálicos atra­vés das suas babeiras. Como uma máquina bem oleada, os cavaleiros espadeiraram um pouco mais em seu redor para ganharem espaço, e prepararam-se para retirar. Alguns foram apanhados a meio do movi­mento e puxados das selas por dezenas de mãos negras de unhas carcomidas, outros arrancados destas à machadada, mas a maior parte conseguiu posicionar-se para uma retirada em conjunto. Porém, o solo arado e enlameado pelo sangue de drahregs e chuva dificultou sobre­modo a manobra, fazendo com que os cascos de alguns cavalos der-rapassem, e causando a queda de outros tantos em ambas as frentes de batalha. Acervos de drahregs precipitaram-se sobre os cavaleiros como um revolto vagalhão negro, mas apanharam apenas torrões de terra e lama nas caras quando estes os retiraram estrategicamente, abrindo espaço para a carga de infantaria que se seguiria...

E que, para grande choque dos cavaleiros a nordeste, já estava quase em cima deles, de alabardas enristadas e expressões nada surpresas em rostos determinados. Subitamente confrontados com uma muralha de espinhos de aço virados na sua direção, os corcéis empinaram-se, relinchando de susto, e alguns dos que vinham atrás embateram contra eles. De repente, a cavalaria laonesa viu-se entre uma massiva arremetida de drahregs e uma barreira de infantes namuriquanos, que não tentaram sequer destroçar para lhes abrir caminho, avançando em vez disso sobre eles. Não os atacaram, mas a pressão do seu avanço deixou a cavalaria presa, e o Primeiro Pecado abateu-se sobre esta em vingativa fúria. Muitos cavaleiros tombaram antes sequer de se poderem virar, pois os seus agora assustados cavalos empinavam-se e corcoveavam em pânico, tornando-se alvos fáceis para a furiosa turba negra, na qual muitos cavaleiros se afundaram ao serem arrancados das selas. Completamente desorientados, alguns investiram contra os namuriquanos que os esta­vam a encurralar, mas estes estavam ostensivamente a tentar não os atacar, agitando as armas em gestos inúteis, mantendo apenas a cava­laria afastada de si, ou pressionando-os para trás com o peso dos seus números. Houve porém uma ala da fileira que, por ter conseguido efetuar a retirada numa compacta formação em arco, conseguiu contornar a muralha de alabardeiros, atropelando alguns pelo caminho. Todavia, ao passarem por eles e verem que o resto do exército se mexia em desassossegada confusão, a maior parte dos cavaleiros puxou as rédeas com força, virando-se novamente para trás. Apercebendo-se de que o resto dos seus camaradas não tinham passado pelos infantes, ficaram inicialmente confusos, virando as cabeças dos seus cavalos de um lado para o outro, enquanto estes espumavam dos arreios com olhos arregalados. Os generais tinham ordenado o avanço imediato da infan­taria, e os porta-estandartes oscilavam-nos freneticamente, mas algo se passava num dos batalhões namuriquanos da linha da frente, que se movia com inexplicável vagar, retardando o progresso dos outros. Trompas e trompetes clangoravam histericamente, e homens berravam ao longo das fileiras. Os namuriquanos não compreendiam o que os seus conterrâneos estavam a fazer, e começavam a ouvir-se gritos de traição e covardia da parte dos laoneses.

Na extremidade oposta do campo de batalha, as manobras tinham corrido de feição, com a cavalaria a retirar em duas ordeiras filas em arco ao longo das orlas dos soutos, abrindo espaço para os homens de armas. Estes haviam cumprido a sua função, carregando sobre os ensangüentados drahregs com um grito de guerra pela sua pátria e senhores, talhando as fileiras dos inimigos com golpes das lâminas das alabardas e empalando outros com os espetos destas. Embora não tão devastador, o impacto não fora menos mortífero que o da cavalaria, e renque após desorganizado renque de drahregs fora sucessivamente desbastado numa sangrenta ceifa. Porém, o ímpeto inicial não tardou a ser absorvido pela massa de drahregs, cujos números acabaram por reter o avanço dos homens de armas. Soberbamente protegidos e mais bem armados que a ralé inimiga, estes continuavam teimosamente a avançar contra a corrente de lâminas ferrugentas, hastes de armas partidas, e caras de sangrentas bocas hiantes, que eram trespassadas pelas pontas de lanças ou esmagadas por punhos cerrados de manoplas. Atrás destes, os arcobalistários pousaram as suas armas, resistindo à tentação de dispararem sobre as cabeças dos seus compatriotas. Vendo que algo correra evidentemente mal do outro lado da batalha, os comandantes das unidades concluíram que os homens de armas podiam vir a precisar do seu auxílio, e ordenaram aos seus homens que atacassem. Estes desembainharam as espadas e começaram a correr pelo lamacento terreno abaixo, anunciando-se com um grito de guerra.

Allumno observava tudo em crescente preocupação, olhando de uma ponta do campo de batalha à outra, torcendo o cajado nas ansiosas mãos. Algo estava mal na frente nordeste, algo correra horrivelmente mal. Não era concebível que tivesse havido tamanho mal-entendido, não ao ponto de um destacamento isolado de infantaria — e logo dos maiores — avançar antes de todos os outros, bloqueando a retirada da cavalaria. Nem que o batalhão que ia atrás deles estivesse visivelmente a marchar devagar, retardando o avanço dos outros. Não era o medo que os retinha, não daquela soldadesca de drahregs esfaimados, doen­tes, mal equipados e desesperados, por muito numerosos que estes fossem. A única coisa que fazia sentido eram os brasões fendidos, indi­cativos de uma aliança entre as casas ou companhias de ambos os batalhões, mas ainda assim o mago não conseguia acreditar naquilo que estava a ver. Como era possível? Confrontado com o Primeiro Pecado, como poderia alguém virar-se contra os seus em tal batalha, independentemente do lado da fronteira ao qual pertenciam? Seria obra d’O Flagelo?

A mera noção deu-lhe calafrios, que se espalharam pela sua espi­nha da mesma forma que a palpitante horda se expandia no campo de batalha em baixo. Os cavaleiros encurralados caíam ao chão, ficando parcialmente imersos em lama, e alguns morreram sufocados antes mesmo de as maças e os machados drahregs lhes amolgarem a arma­dura ao ponto de os esmagar por dentro. A medida que iam caindo, os infantes que os tinham sitiado pareceram despertar, começando então a desferir golpes de alabarda por entre os cavaleiros, matando os drahregs que passavam por cima dos corpos arnesados e cavalos tombados. Os animais nitriam de terror, esperneando desesperada-mente e partindo vários ossos antes de serem assolados. Imersos no frenesi de batalha, os drahregs despedaçavam tudo o que apanhavam no seu caminho, alguns com as bocas sangrentas de terem abocanhado membros ou bocados de carne arrancados. De botas completamente cobertas de lama e pernas sujas com fezes que por elas escorriam devido a medo ou disenteria, o Primeiro Pecado avançava em massa, parecendo totalmente desapegado da sua vida. Alguns cavaleiros tom­bados tinham conseguido levantar-se, e dançavam agora desesperada-mente entre os drahregs, empunhando as cruentas espadas com ambas as mãos. De arneses completamente enlameados, iam colidindo contra os inimigos, cortando tendões de pernas e talhando braços com golpes cegos, antes de serem fatalmente engolidos pelo mar de braços, pernas e lâminas sujas. Atrás deles, a infantaria tentava agora a custo reter o avanço da horda, fincando no enlameado chão os pés e os cabos das armas de haste. Drahregs morriam às dezenas, mas a massa de corpos continuava a pressionar os exércitos humanos, que começavam a ter dificuldades a caminhar e manobrar-se sobre a negra carpete de cadá­veres aos seus pés.

Na frente sudoeste da batalha, os homens de armas começavam eles também a acusar a tremenda pressão das desesperançadas massas de drahregs que contra eles arremetiam e debaixo das suas alabardas morriam. Em seu auxílio vieram os arcobalistários, envergando solhas de metal e chapéus de ferro, de espadas e broquéis empunhados, e o impacto da sua investida sobre o que passava pelos flancos da horda foi violento. A refrega aumentou então de intensidade, à medida que corpos mutilados iam tombando sobre um pântano de lama e sangue, e a ferócia do Primeiro Pecado esmorecia ante a fria realidade do aço que o foiçava impiedosamente. Os comandantes da frente sudoeste acharam que era aquele o momento para o golpe de misericórdia, e enviaram mensageiros para a cavalaria e para os homens de armas, ordenando aos primeiros que se posicionassem atrás dos segundos, aos quais foi ordenado que abrissem espaço no centro. A meio do caos da batalha, tais ordens foram difíceis de executar, mas as forças namuriquanas eram disciplinadas e bem oleadas por anos de disputas regio­nais. Com muitos berros e empurrões, os homens de armas começaram a abrir um espaço na sua retaguarda enquanto a dianteira ceifava as investidas drahregs. A cavalaria assumiu as suas posições, formando uma pequena e compacta cunha enquanto os seus corcéis resfolegavam e escarvavam o chão com os cascos, aguardando a ordem. Firmes, os homens de armas conseguiram não quebrar a fileira enquanto se ia apartando gradualmente. Os comandantes no cimo do terreno entreolharam-se, anuindo mutuamente em concordância, e deram o sinal aos mensageiros. Estes acenaram os estandartes às respectivas unidades, que tinham cada uma um mensageiro na retaguarda, e as ordens dos comandantes foram transmitidas a plenos pulmões.

A cavalaria avançou então num ponderado trote, tanto devido ao terreno lamacento como ao fato de a fileira de homens de armas ain­da não estar devidamente apartada. Porém, assim que se abriu uma brecha entre os seus compatriotas apeados, os cavaleiros esporearam impiedosamente as suas montarias, fazendo o chão tremer novamente com o estrupido dos seus cascos. Os drahregs estavam a sofrer dema­siada pressão ante a investida dos arcobalistários e o impiedoso propugnar dos homens de armas, e não conseguiram aproveitar a tempo a abertura. A cunha de cavaleiros foi então por esta adentro, atrope­lando alguns homens e derrubando outros tantos numa série de desor­ganizadas colisões, antes de penetrar a horda como uma torrente de aço. Os drahregs foram desbaratados pela investida, desfazendo-se ante o avanço da cavalaria como manteiga cortada por uma faca quente, o seu ímpeto totalmente despedaçado. Espadeirando freneticamente em redor, os cavaleiros foram distribuindo morte do alto das suas selas, dando aos homens de armas e arcobalistários o alívio temporário de que estes necessitavam para redobrarem os seus esfor­ços, conseguindo por fim empurrar para trás a arremetida do Primeiro Pecado, que começava a vacilar à medida que guerreiros calejados davam lugar a aterrorizados jovens imberbes que empunhavam desa­jeitadamente as armas dos caídos, e mesmo mulheres armadas de paus e pedras. Os namuriquanos massacravam-nos a todos indiscriminada­mente, vendo nada mais além do vermelho do sangue que lhes turvava os olhos e as odiosas caras negras de afiados dentes amarelados.

A batalha tornou-se num autêntico morticínio na frente sudoeste, mas a nordeste estava a suceder o impensável. A ala de cavalaria que conseguira esgueirar-se por entre a divisão de infantes namuriqua­nos e a horda de drahregs — vendo que os seus companheiros tinham sido apanhados naquela que só podia ter sido uma manobra de traição — investira contra o flanco dos seus aliados. Estes não tinham apa­rentemente esperado tão drástica reação, e o impacto da carga abalou a formação da infantaria, que se ressentiu e viu redobrados os esfor­ços dos desesperados drahregs. Os outros batalhões que vinham a cami­nho tomaram eles também a iniciativa de atacar, forçando o seu caminho através do batalhão que os tentava retardar, originando pequenas escaramuças. Não deram sequer tempo aos generais, a cujas ordens as trompas soavam e os estandartes oscilavam em vão. As suas forças estavam agora a lutar umas contra as outras e contra os drahregs, e o caos instaurara-se entre os comandantes e os seus séquitos. As forças que ainda não tinham sido dispostas mexiam-se nervosamente, agitadas, e alguns soldados começaram a quebrar as fileiras, avançando eles também por sua própria iniciativa. Os comandantes laoneses estavam a ter dificuldades em controlar os seus homens, e muitos tinham eles próprios vontade de ordenar uma carga contra os vis trai­dores. Além disso, as misturadas forças laonesa e namuriquana olhavam-se agora com desconfiança, e originaram-se algumas pequenas escaramuças entre os batalhões que se encontravam mais próximos. Os generais tiveram de enviar os seus prebostes para impedir que as hostes aliadas dessem início a um conflito interno, mas não lhes foi de todo fácil controlar os homens. A situação chegou a um ponto tal, que os generais mandaram soar as trompas em uníssono e ordenaram o avanço das tropas, achando preferível uma investida desorganizada ao tumulto que estivera prestes a rebentar entre os dois exércitos.

Allumno estava boquiaberto, e não queria acreditar naquilo que via. Com a batalha praticamente ganha desde o início, os exércitos aliados tinham conseguido virar-se um contra o outro, e permitir aos drahregs continuarem a avançar pela frente nordeste, enquanto os a sudoeste estavam a ser escorraçados por um número bem menor de homens. A horda estava a ser empurrada para nordeste pela determi­nada luta dos cavaleiros, arcobalistários e homens de armas namu­riquanos, mas tinham sido os seus infantes quem prendera a cavalaria laonesa do outro lado, desequilibrando dessa forma a batalha. O mago não conseguia conceber outra coisa que não uma rivalidade entre duas casas ou indivíduos, pois não lhe parecia que a disputa fosse entre os reis da Namuriqua e de Laone.

Entretanto, devido à chuva miúda, ao sangue e aos pesados passos de dezenas de milhares de botas, o aveal estava transformado num autêntico atoleiro. Humanos e drahregs caíam e morriam afogados na lama, esmagados pelo peso de amigos e inimigos que sobre eles também tombavam. Homens escorregavam e eram mortos com golpes na nuca, e outros ficavam atolados entre ambas as forças, que tentavam desesperadamente avançar no traiçoeiro terreno. Frentes de batalhões colidiam e ficavam encostadas umas às outras para evitarem cair e serem pisadas até à morte sobre o sangrento lamaçal, enquanto negros braços cansados se erguiam sobre cabeças, batendo futilmente em elmos de metal com as armas. Um e outro homem ou drahreg gritava e caía ao chão, golpeado nas pernas por um assaltante indistinto, e o seu lugar era rapidamente tomado por outro, enquanto ambos os lados tentavam destroçar a fileira oposta para poderem avançar. Os humanos tinham a vantagem, pois o terreno era inclinando a seu favor, mas os drahregs tinham a força dos números e do desespero por detrás deles. Além do mais, a frente nordeste estava enfraquecida pelas con­tendas espalhadas que nela ainda grassavam, nas quais laoneses comba­tiam namuriquanos, bradando acusações de traição. Dessa forma foi-lhes impossível posicionar as suas forças numa frente unida, e os drahregs estavam a conseguir ganhar terreno, embora a custo de rios de sangue. O seu avanço já era praticamente feito sobre um carpete de corpos, mas não porque estivessem a infligir grandes baixas, visto que a esmagadora maioria era do Primeiro Pecado. Agora que o combate estava a ser efetuado com as duas forças praticamente encostadas uma à outra, as mortes deviam-se sobretudo a asfixia, pois embora humano e drahreg estivessem praticamente cara a cara e conseguissem sentir o hálito um do outro por entre o cheiro a sangue, lama e suor, estavam demasiado apertados para conseguirem manusear as armas. Apesar do tempo frio e da chuva miúda, o calor era tremendo na frente de batalha, o que a tornava mais opressiva ainda para os combatentes, sobretudo os humanos, que se viram confrontados com o malsão odor de drahregs imundos e doentes.

A sudoeste a história era contudo diferente, pois o bem mais redu­zido número de namuriquanos conseguira não só repelir a frente drahreg que contra eles tinha investido, como agora os estavam a empurrar para trás. Desbaratado nessa frente, o Primeiro Pecado começou a recuar, alguns para os soutos, onde foram prontamente abatidos pelas unidades irregulares que os tinham aguardado ansio­samente, e outros de encontro à frente nordeste, onde a ilusão da segu­rança dos números os chamava. Implacáveis, os namuriquanos foram em seu encalço, e os cavaleiros esporearam as montarias, que suavam debaixo dos caparazões e espumavam das bocas, mas que de bom grado perseguiram o inimigo. Mudaram cedo de idéias, todavia, pois era-lhes impossível galopar com o terreno no estado em que estava, e os que tentaram mesmo assim caíram de forma inglória das selas. Os cavalos e os respectivos caparazões eram demasiado pesados para que estes conseguissem sequer andar a trote no lamaçal, e homens apeados andavam mais depressa que eles. Teve então de ser a infantaria a acos­sar os drahregs, e fê-los matando todos os que conseguia pelo caminho, filtrando ânimo do pânico do Primeiro Pecado. As mulheres, crianças e enfermos que se tinham resguardado no meio foram arrastadas pela retirada, algumas espezinhadas na lama ao serem derrubadas. A união das frentes da horda trouxe algum alento à nordeste, que conseguiu ganhar outros tantos passos com a pressão adicional, mas foi vanta­gem de pouca dura, pois a infantaria namuriquana caiu-lhes em cima logo de seguida.

A batalha acabou aí, com a horda completa e totalmente descorçoada, além de decisivamente pinçada entre duas frentes inimigas. Mesmo os namuriquanos e laoneses que combatiam entre si a nor­deste foram persuadidos pelos comandantes e prebostes a interrom­perem a sua contenda, e a virarem as suas hostilidades contra os drahregs. A partir de então, todos sabiam ser uma questão de tempo até o que restava da horda quebrar, o que veio a suceder pouco depois do impacto inicial. Com praticamente todos os seus guerreiros agora mortos, a hoste dos drahregs era constituída por pouco mais de inex­perientes jovens que ainda lutaram com ferocidade, alimentados pela força do desespero, mas quando esta lhes falhou, deu lugar ao pânico.

Vacilando como um só, o Primeiro Pecado cedeu, e foi lentamente esmagado entre duas prensas de aço dentadas num massacre sem precedentes. Vendo o inimigo de joelhos, os humanos abateram-se sobre ele com espadas a talharem em fúria, como se fosse aquela a sua última hipótese. Drahregs foram mortos às centenas, alagando a lama com sangue, e os homens de armas e infantes com cruentas armas e arneses sujos de vermelho e castanho avançavam impiedosamente sobre a grotesca manta de cadáveres. Mulheres drahregs eram puxadas pelos cabelos e as suas barrigas grávidas trespassadas por lâminas; as poucas crianças que restavam contorciam-se ou arrastavam-se cega­mente pela lama que lhes cobria os olhos, chorando aflitivamente antes de serem para sempre silenciadas. O aço era a única sentença, e os aliados não deram quartel nem fizeram prisioneiros.

Tudo foi muito rápido, mas mesmo após o fim da contenda prin­cipal, ainda se viam drahregs a correrem aos tropeções pelo aveal enla­meado, implacavelmente perseguidos pelas unidades dos batalhões que tinham acabado de tomar parte na batalha. O grosso do exército deixou-se ficar sobre a vasta mortualha negra aos seus pés, ofegando e dando graças aos deuses pela vitória, mas não houve celebrações. Não quando a nata da cavalaria namuriquana jazia parcialmente enter­rada na lama, com os seus garbosos tecidos coloridos a servirem-lhes de mortalhas salpicadas de sangue e sujidade. Não quando o bata­lhão de infantes namuriquanos que teve de agüentar a frente sozinho após encurralar os cavaleiros fora parcialmente enterrado no lamaçal durante o avanço drahreg, estando dele agora apenas algumas partes e armas à vista. Não quando as forças de Laone e da Namuriqua olha­vam agora umas para as outras debaixo da névoa causada pela fraca chuva que as borrifava, pingando dos rebordos de elmos e arneses. Todos estavam cientes de que haviam morrido muitos mais dos seus que aquilo que teria sido de esperar numa batalha contra tão desor­ganizado e debilitado inimigo, e os gemidos dos moribundos fizeram com que muitos crispassem os cansados dedos nas armas, algumas das quais com sangue humano a escorrer delas.

Allumno não soube como se sentir. Por um lado, estava aliviado por ter visto as costas do Primeiro Pecado serem quebradas, e por saber que estava terminada a ameaça que este representara. Por outro, aquilo que via no campo de batalha em baixo não augurava nada de bom para o Laone e para a Namuriqua, e para o resto de Allaryia por arrastamento. Eram duas nações poderosas, através das quais passavam importantes rotas de comércio, e uma guerra entre ambas teria certa­


mente conseqüências além-fronteiras. Seria porém mais preocupante se essa guerra viesse a desestabilizar Allaryia, e a facilitar uma eventual invasão das forças d’O Flagelo... não tivesse este aparentemente acabado de conduzir o grosso do seu poderio militar à sua própria morte.

«O que é que o maldito estará a planejar?», admirou-se o mago, diri­gindo-se ao seu cavalo sem que lhe ocorresse qualquer resposta apa­rente. «Tenho de chegar depressa a Nolwyn. O Aewyre tem de saber disto.»

 

O túnel estava quente e úmido, com uma pesada atmosfera sufo­cante. Na escuridão nada se via, além dos atarracados vultos que nele laboravam, cujos contornos suados eram alumiados pela amarelenta luz da lanterna pendente de uma das vigas. A ocasional faísca de golpes de picaretas e martelos alumiava determinadas faces barbadas, cujos vincos e rugas estavam delineados por suor e sujidade, e os agudos repiques de pedra contra metal ecoavam pelo túnel fora. Esca­vavam como se cientes das toneladas de pedra sobre as suas cabeças, resguardados pelos barrotes que eles próprios tinham montado, e a rocha diante deles quebrava e esfacelava-se ante os esforços dos thuragar.

Atrás destes, o túnel que tinham escavado abria-se numa câmara recentemente erigida, na qual outros thuragar se mantinham ocu­pados, tratando da distribuição de água para os que escavavam, refor­çando as vigas, e lapidando as paredes. Outros ainda limpavam a área com pás, empilhando pedras e cascalho em pequenos carrinhos, que os restantes empurravam sobre um carril que fora montado. Boa parte dos thuragar trabalhavam de tronco nu, devido ao calor que se fazia sentir nos apinhados túneis, mas havia entre eles guerreiros que envergavam arneses de elmos com visores cônicos levantados, grandes espaldeiras e tarjas com espetos no lugar de manoplas nas mãos es­querdas. Esses sopesavam e guardavam armas em grelhas de metal, sem contudo se darem ao trabalho de limpar aquelas que se tinham sujado com o pó das escavações. Todos eram orientados por um impo­nente thuragar, que à primeira vista se distinguia dos restantes apenas pela ausência de elmo, e pela enorme maça de rebordos afiados em cujo pomo tinha assentes as mãos, deixando a arma repousar de cabeça sobre o solo. Debaixo de um escrutínio mais atento, porém, notava-se mesmo à parca iluminação que o seu arnês estava cinzelado com incompreensíveis runas angulares, e que a luz nele se refletia em mais que uma cor, devido à liga metálica de que era aparentemente com­posto. Não só isso, mas também a quadrada cabeça careca do thuragar o distinguia dos outros, não só devido às farfalhudas sobrancelhas unidas e crescimentos pilosos entrançados no queixo, mas sobretudo por causa da ausência de um nariz. Em seu lugar encontravam-se as fossas nasais, rodeadas por tecido cicatrizado que lhe chegava até ao lábio superior, dando-lhe uma expressão arreganhada à boca enquanto observava o trabalho dos outros e os ia incentivando.

— Trabalhem, vermes da terra — disse Othragon na rocal lín­gua dos thuragar, que, falada na sua voz, soava mais áspera ainda, como duas pedras a serem raspadas uma contra a outra. — Traba­lhem como nunca antes trabalharam, pois a nossa hora está a chegar.

Os thuragar não responderam, continuando o seu lavor com cega determinação e fazendo o ar chispar com as faiscadas dos seus golpes de picareta.

— Em breve deixaremos o nosso casulo de rocha, e reivindicare­mos aquilo que o mundo superior nos deve — prosseguiu o Aesh’alan, cujas frases tinham a cadência de uma placa tectônica a rachar-se ir­regularmente. — Trazer-lhes-emos a escuridão que sempre foi nossa, e ouvi-los-emos gemer de medo, como os nossos ancestrais o fizeram antes de se tornarem mais fortes. Respirarão os bafientos gases das profundezas, enquanto nós encheremos os pulmões com o ar que nos foi negado. Comerão excrementos de morcego, enquanto nós nos banquetearemos com os frutos que eles roubam à terra que nos dá força. Sentirão o nosso aço frio nas entranhas, enquanto nós usufrui­remos do calor das suas mulheres.

Nenhum dos outros thuragar se pronunciou, e apesar do volume da sua voz, que ecoava pelo túnel e para além deste como um desa­bamento iminente, Othragon parecia estar a falar sozinho.

— A rocha parte o osso. O ferro corta a carne — continuou em tom de recital, batendo duas vezes no chão com a cabeça da sua maça, e aí sim os thuragar reagiram.

— A rocha parte o osso. O ferro corta a carne — ecoaram estes num monocórdico cântico, pautado pelo repique de metal contra pedra, cujo ritmo foi acelerando quando os thuragar se lançavam ao seu trabalho com redobrada fúria.

Othragon esboçou um esgar que nele poderia passar por um sor­riso, e olhou à sua volta com ar satisfeito. O túnel e a câmara estavam incrivelmente quentes com a frenética atividade, e além de estar a suar copiosamente debaixo do seu arnês, o Aesh’alan tinha manchas brancas de saliva seca nos cantos da boca, respirando através desta o pesado ar, que dava a impressão de poder ser cortado à faca. A atmos­fera pesava nos pulmões de todos, mas agora que os thuragar tinham entrado no ritmo, pouco ou nada seria capaz de detê-los. O suor corria em regatos por entre os contornos dos seus compactamente musculados corpos, deixando-lhes estrias negras de sujidade e ensopando-lhes as barbas, que se encaracolavam em pingantes pontas úmidas.

— A rocha parte o osso. O ferro corta a carne — continuaram em coro enquanto Othragon ia acenando com a cabeça, batendo ocasional­mente no chão com a cabeça da sua possante maça, cujo impacto retumbava pela câmara e nos peitos de todos os presentes, criando uma falsa sensação de urgência ao criar pequenas rachas nas paredes, que expeliam pó e cascalho.

Carrinho após carrinho de pedras era arrastado para fora da câmara à medida que os thuragar iam progredindo no novo túnel, e Othragon mantinha o implacável ritmo como um quartel-mestre, ciente dos limites dos seus guerreiros. Não queria exauri-los até à morte antes de sequer chegarem aos seus inimigos, pois o seu ataque não seria decisivo e ainda haveria muito para fazer, mas também, se algum deles morresse de exaustão, então era porque não merecia estar ali. O Aesh’alan e os seus seguidores iriam encabeçar a insurreição da Noite Infera, dar o exemplo que todos os thuragar deveriam seguir, e não admitiria fracos entre as suas fileiras. Não quando iriam empreender guerra contra os reinos humanos — primeiro Nolwyn, cuja queda pretendia precipitar, e com ela inflamar os subterrâneos, mobilizando as dormentes hostes thuragar para debaixo do estandarte que iria fazer com a pele e as roupas do regente nolwyno. Não quando as forças do seu antigo senhor provavelmente os tentariam exterminar assim que tivessem hipótese, assim que O Flagelo decidisse punir a sua traição, como não podia deixar de o fazer.

A escavação decorria com a precisão de um relógio, até que Othra­gon se deu conta de que passara algum tempo desde que vira pela última vez os thuragar dos carrinhos. Com a falha de uma das peças, as outras cedo se ressentiram, e o Aesh’alan teve de ordenar a todos que parassem quando os thuragar que escavavam começaram a ficar atulhados de escombros. Estes tentaram não se mostrar demasiado aliviados quando puderam pousar as picaretas, até porque todos sentiram a fúria que ema­nava de Othragon quando este olhou para trás para o túnel. Sabiam que o seu senhor esfolaria o thuragar que tivesse sido fraco ao ponto de vacilar em tão simples tarefa como empurrar um carrinho com pedras, e os responsáveis provavelmente também o sabiam, pois nem sequer res­ponderam quando o Aesh’alan chamou por eles. Os presentes entreolharam-se enquanto lambiam os lábios salgados de suor e esfregavam testas vincadas com os antebraços, sabendo que o castigo que se seguiria seria cruel e horrendo de ver. Othragon tratava os seus homens com um justo punho de ferro, mas esmagava impiedosamente aqueles que entre eles davam mostras de fraqueza ou insubordinação.

— Rakac, vai ver o que se passa — ordenou a um dos thuragar arnesados, indicando aos outros o túnel a ser escavado. — Vocês, aju­dem-nos a empilhar as pedras à entrada. Os outros continuem a escavar!

Os visados assim fizeram, retomando o trabalho com alento reno­vado pelo breve intervalo e pelo receio da reação de Othragon, que ficou a rilhar os dentes enquanto esperava que o thuragar arnesado voltasse. Quando isso não aconteceu, e as pedras se começaram a amon­toar em grandes pilhas, Othragon bateu com força com a maça no chão, berrando para que todos parassem. Os thuragar assim fizeram, e os sub­terrâneos ficaram então silenciosos pela primeira vez em dias. Othra­gon virou-se e olhou com uma expressão concentrada para o túnel do carril, do qual não provinha ruído algum, e no qual se via apenas até uma curva que fora feita para evitar um leito de rocha firme.

— Rakac? — chamou o Aesh’alan.

Não obteve qualquer resposta, mas ouviram-se então passos metá­licos, e a luz das lanternas projetou uma vacilante sombra que viu aproximar-se. Franzindo as bastas sobrancelhas, Othragon ergueu a maça e empunhou-a com ambas as mãos, um gesto que por si só dei­xou os outros nervosos, e os thuragar arnesados pegaram eles também nas suas armas. A sombra alongada que se projetava pelo túnel pare­cia cambalear, o que os ruídos dos escarpins a arrastarem-se pelo piso também davam a entender. Foi Rakac quem surgiu ao virar da curva, mas vinha desarmado e a cambalear de mão apoiada numa viga, com a outra agarrada à garganta. A luz não permitiu certezas, mas à medida que se ia aproximando, Othragon viu que o seu homem sangrava da fresta entre o gorjal e o elmo, e os seus olhos raiados de vermelho ar­regalaram-se de surpresa. A noção de que alguém tivera a ousadia de atacar os filhos dos subterrâneos no seu próprio ambiente deixou-o perplexo, mas a implicação de que esse alguém, estando ali, só podia estar ciente dos seus planos, deixou-o nervoso. Os seus homens senti­ram-no, e o momento de fraqueza causou um acesso de raiva a Othra­gon, que avançou um passo de arma ameaçadoramente empunhada.

— Quem ousai — rugiu, e as suas palavras reverberaram pelos túneis fora como um desabamento, fazendo com que Rakac se detivesse a meio caminho, como se tivesse embatido contra a sua voz.

O thuragar cambaleou então outros tantos passos, estendendo uma mão na direção do seu líder, antes de se estatelar de cara no chão com grande estardalhaço. Os outros ficaram a olhar para o corpo, que se contorceu com espasmos enquanto debaixo dele se ia formando uma poça de sangue escuro, mas Othragon manteve os olhos fitos no túnel, vendo uma nova sombra estender-se até ao leito de rocha. No silêncio que se seguiu à queda de Rakac, os thuragar ouviram uma distinta risadinha aproximar-se, e a estranheza de um para eles tão alienígena som deixou-os mais nervosos ainda. Othragon semicerrou os olhos e enclavinhou os dedos metálicos na haste da sua maça, avançando um passo para enfrentar quem quer que se estivesse a aproximar. Quando a figura surgiu da curva do túnel, porém, o Aesh’alan deteve-se, fran­zindo as agora meramente surpresas sobrancelhas.

— Tu? — rosnou ao reconhecer Dilet, embora a cara deste esti­vesse revestida por uma bizarra máscara com cornos recurvos.

— Eu — respondeu o bobo com voz metalizada pela carantonha, contornando o thuragar caído com um ruído enojado e executando uma afetada vênia.

Os dois falavam em Olgur, a língua de Asmodeon, e embora os restantes thuragar não compreendessem o que estavam a dizer, o mero som das palavras dava-lhes arrepios que tentaram ao máximo disfarçar. Dilet trajava díspares vestimentas coloridas e delicados sapatos de pon­tas reviradas, contrastando de forma quase violenta com os thuragar arnesados ou de sujo tronco nu. Não era muito mais alto que estes, mas ainda assim foi a primeira vez que o bobo se deparou uma situação na qual não era o mais baixo, e levou as mãos às ancas ao inclinar a cara para o lado, emitindo um intrigado ruído através da boca da máscara.

— Que giro. Lembrava-me de ti mais alto, Othragon...

Como língua, o Olgur não se adequava a frivolidades, e Othragon franziu o incomodado cenho.

— Que queres tu, seu imbecil? E porque mataste um dos meus homens?

— Oh, este? — inquiriu o bobo, olhando por cima do ombro para o agora imóvel thuragar, que jazia numa poça do seu próprio sangue. — Não foi por mal. Ele não gostou de ver os seus amigos empilha­dos no carrinho, e deve ter achado que fui eu o responsável, pois ten­tou espatifar-me a cabeça à martelada.

Othragon praguejou em surdina em Garogar, avançando de maça empunhada, mas Dilet ergueu ambas as mãos, abanando-as de forma dissuasora.

— Ui, ui, alto lá! — disse em Glottik. — Não vim para lutar. Os teus homens é que nem me deram oportunidade de falar.

— Dá-me uma razão para que a mereças — contrapôs Othragon, continuando a avançar e voltando a falar Olgur.

— Importas-te que nos fiquemos pelo Glottik? Sei que és capaz, e o meu Olgur está um pouco enferrujado, como não tenho falado com o nosso senhor...

— Que sabes tu do nosso senhor? — perdeu Othragon a com­postura ao levantar a voz e a maça, essa ligeiramente, avançando tam­bém um pesado passo.

— Calma, grandalhão! — disse Dilet jocosamente, erguendo mais ainda as mãos abertas. — Não borres essa tua linda armadura. Dizer ao nosso senhor que andas a desobedecer às ordens d’Ele seria a última coisa que eu faria.

— Tu...! — rosnou o Aesh’alan, sentindo uma grossa gota de suor escorrer-lhe entre as omoplatas.

— A última coisa que eu faria, não me ouviste? — redarguiu o bobo, parecendo divertido. — Não me lembrava de ti tão nervoso assim. Não estarás porventura com um peso na consciência, hmmm?

Embora sabendo que o bobo o estava a provocar abertamente e à frente dos seus homens, Othragon refreou a sua fúria, querendo pelo menos saber o que trouxera Dilet ali antes de lhe enfiar a cabeça pelos ombros adentro. Não lhe convinha fazê-lo antes de ter a certeza abso­luta de que este não viera a mando do seu senhor.

— Grwasrkak nrac... — disse um dos thuragar arnesados, fazendo roçar as placas da sua manopla ao crispar os dedos no cabo do martelo.

— E diz aí aos teus homens que parem de mastigar pedras en­quanto falamos — pediu Dilet, apontando para o culpado com a mão, na qual apareceu um punhal de onde serpenteavam filamentosas som­bras sibilantes. — A vossa língua áspera arranha-me os ouvidos, sobre­tudo quando sei que não estão a dizer coisas simpáticas sobre mim, e têm martelos na mão.

— Que queres tu? — perguntou Othragon, acalmado pela cons­ciência de que transmitira uma impressão de intranqüilidade diante dos seus homens.

— Não é matar os teus homens ou atrapalhar-te os planos, isso to posso garantir — assegurou Dilet, baixando por fim as mãos ao ver que Othragon não mais iria avançar, e embainhando o punhal. — Uma toupeirinha contou-me que andavas a esburacar o jardim de Ul-Thoryn, e eu achei que devia no mínimo vir cumprimentar o meu estimado camarada...

— Não zombes de mim, bobo — advertiu Othragon com um fio de saliva colado a uma das trancas do seu queixo. — Se não vieste em nome do nosso senhor, então diz o que vieste dizer, e pode ser que eu te deixe desapareceres da minha vista.

— Oh, vá lá, Othragon! — repreendeu-o Dilet, cruzando os fal­samente ofendidos braços. — Se eu te quisesse matar, atacar-te-ia en­quanto estivesses a dormir. Sabes bem que não te consigo vencer cara a cara.

— O que não te impediria de me traíres mais tarde — redarguiu o Aesh’alan, não se deixando convencer pela falsa lisonja.

— Trair-te? Para quê? Podia simplesmente servir como conduta para o nosso senhor, e deixar que ele arrancasse um pouco mais da tua cara — disse Dilet com um sorriso que ninguém viu.

— O nosso senhor prefere que outros façam o trabalho dele — escarneceu Othragon. — Podes perfeitamente trair-me com aquele que pretendes servir.

— O Aereth? Oh, o que havia entre nós já lá vai — disse Dilet com um abanão da mão. — Aliás, é por causa dele que eu estou aqui. Dele e do seu irmão.

— Aewyre Thoryn? Julgava que ele tinha partido.

— Estou a ver que também tens umas toupeirinhas que te andam a contar coisas... — disse o bobo.

— Humanos falam muito quando sentem um pouco de dor.

— Ah, conseguiste não chacinar toda a gente à vista numa das tuas incursões? Estou admirado.

— Chacinei-os a todos quando me disseram o que sabiam.

— Oh.

— Como sabias que era eu? — perguntou Othragon, agora mais intrigado que nervoso, embora os seus homens continuassem clara­mente à espera de uma palavra sua para se lançarem sobre Dilet.

— Tu não me tens mesmo em grande conta, pois não? — inquiriu este retoricamente. — Então não te lembras que o sugeriste uma vez ao nosso senhor? Atacar Nolwyn por baixo?

Othragon rosnou em resposta.

— Além do mais, só mesmo alguém que estivesse com ganas de entrar em guerra com Vaul-Syrith é que acreditaria que foram as for­ças de lorde Sunlar as responsáveis pelos ataques às aldeias — pros­seguiu o bobo, gesticulando expressivamente com as mãos. — Soube logo que tinhas sido tu, quando chegaram as notícias de que as populações tinham sido todas elas massacradas impiedosamente, sem qualquer aviso prévio de forças de cavalaria a serem mobili­zadas...

— Ainda não me disseste o que vieste aqui fazer.

— Olha, pois não — reconheceu Dilet em tom de surpresa, baten­do com a mão na máscara. — A conversa estava tão interessante que me esqueci.

— Começo a perder a paciência, bobo...

— Ui, não queremos isso — disse Dilet, abanando a cabeça. — Vim fazer-te uma sugestão, meu bom Othragon. Propor-te um acordo que nos beneficiaria a ambos, e dar-te conselhos que certamente te serão úteis. Vim fazer isso tudo pelo meu velho amigo, embora tenha evidentemente água no bico...

— Não somos amigos, bobo. Diz o que tens a dizer.

— Era só uma expressão. É claro que não somos amigos, mal fala­mos um com o outro, estava só a ser simpático.

— Bobo... — advertiu Othragon, o tom da sua voz agora genuina­mente perigoso.

— Pronto, pronto. É a queda de todo Nolwyn que almejas, não é? Tens andado a bater e a fugir para causar tensões e deixar os teus ini­migos nervosos, e agora queres atacar o coração de Ul-Thoryn para desestabilizar toda a região. É isso, não é?

Othragon não respondeu, emitindo apenas um desagradado ruído de assentimento.

— Então porque é que, em vez de estares a picar o coração com aguilhões à espera que ele sangre até à morte, não o trespassas de vez com uma única e decisiva estocada, hum?

— Explica-te.

Dilet anuiu com outro sorriso que mais ninguém pôde ver, e virou a cara ligeiramente para o lado, escudando-se do olhar de Othragon com a palma da mão.

— Esperto, o vosso líder — ciciou aos outros thuragar, baixando de seguida a mão e pigarreando com o punho fechado diante da boca. — Dizia eu? Ah, trespassar o coração de Ul-Thoryn. Era algo que gostarias de fazer, não?

O seu interlocutor inspirou fundo pelas suas fossas nasais, e o tre­mer da maça deste deu a entender que a sua paciência estava por um fio.

— Claro que gostavas. Morte aos humanos, que cuspiram em nós e nos atiraram para o buraco como a colheita da noite das latrinas, não é? — perguntou Dilet em falsa empatia, apontando de seguida para o seu peito com o indicador. — Eu sei como o podes fazer.

— Eu também. Escavamos túneis debaixo da cidade, matamos os seus habitantes em surtida e minamos os seus alicerces...

— Aguilhões! — interrompeu o bobo, batendo repetidamente no peito com os dedos da mão e rindo. — Estocada!

Para ilustrar o que queria dizer, esticou então os dedos unidos e espetou o peito com a mão hirta, emitindo o sufocado grunhido de alguém que acabara de morrer e contorcendo-se de forma teatral.

— Percebes? O teu plano é bom, não me entendas mal, mas eu sei de uma forma bem mais rápida de conseguir aquilo que tu queres.

— Estou à espera, bobo — disse Othragon, que ainda não baixara a arma. Nem ele nem os seus homens; esses agora com um misto de caras surpresas e hostis.

— E eu agradeço a tua paciência. Tenho a por vezes desagradá­vel tendência de me delongar... — reconheceu Dilet, pegando nos cornos recurvos da sua máscara e abanando a cabeça com infantis ruí­dos trêmulos. Quando parou, porém, a sua voz assumiu um tom sur­preendentemente sério. — Não precisas de te dar a tanto trabalho, Othragon. Existem túneis debaixo de Allahn Anroth.

— Debaixo de quê?

— Do palácio. Parece que afinal não estavas tão bem informado quanto isso...

— O que me interessa o palácio? — contrapôs Othragon, roçando as espaldeiras com um escarnecedor encolher de ombros. — Não quero mandar em Ul-Thoryn, quero regar os campos com o sangue da sua gente!

— Ora aí estava uma safra interessante — comentou o bobo em surdina dentro da máscara. — Othragon, Othragon, estás a ser dema­siado impetuoso. Corta a cabeça da águia, e vais ver como as galinhas ficam a correr às voltas como... bem, galinhas. Quando estão a correr são bem mais fáceis de matar, do que quando estão sentadas a chocar, e te dão bicadas se tentares tirar-lhes os ovos. Sabes o que são galinhas, não sabes? Por acaso comem disso nas cavernas?

Othragon piscou os porcinos olhos.

— Só dizes inanidades, bobo — declarou com desprezo.

— Oh, criatura! — suspirou Dilet, atirando os braços ao ar, o que originou uma série de sobressaltos entre os thuragar. — Eu vivi no palácio estes anos todos! Conheço-lhe as entranhas melhor que a palma da minha mão, talvez até melhor, que ela ficou toda calejada de fazer esta máscara!

O bobo ergueu a mão diante da sua cara, cerrando-a de seguida num punho fechado.

— Com um único ataque ao palácio, podes deixar Ul-Thoryn de joelhos, e as restantes cidades-estado em polvorosa. Pode até ser que se destruam uns aos outros, da forma como as coisas estão...

— Não os quero de joelhos, bobo. Quero fazer peias com as entra­nhas deles, para prender as escravas humanas que tomarei — disse Othragon, cerrando ele também o punho. — Quero deixá-los vivos, mas com todos os ossos do corpo quebrados, enquanto...

— ...bebes dos crânios deles e senta-los nus sobre estalagmites, certamente — interrompeu Dilet com gestos enfadados das mãos. — Já percebi que não é pela estratégia que te vou conseguir convencer. Então e se eu te dissesse que, atacando o palácio, podes conseguir assegurar a tua sobrevivência quando o nosso senhor vier ter uma conversinha contigo?

Uma vez mais, a expressão e a postura de Othragon traíram o receio que sentia, sabendo que estava pendente sobre a sua cabeça uma sen­tença de morte d’O Flagelo.

— Sim, eu disse quando, não se. Mas é claro que sabes disso, não sabes? Não precisas que eu to diga. — Dilet sorriu ante o silêncio do thuragar. — Tudo parecia seguro. Estavas certo de que, rodeado dos teus homens, eras invencível, não é? Mas agora que eu apareci aqui, sem que tu o esperasses, sentes-te mais inseguro, é ou não é verdade? Esmaga-me a cabeça, se eu estiver a mentir.

— Sou capaz de o fazer de qualquer forma, bobo — ameaçou Othragon por entre os dentes arreganhados, rangendo-os.

— Pronto, pronto, não se fala mais do assunto — recuou Dilet de mãos protetoramente estendidas, virando de seguida as costas de om­bros encolhidos, como se fizesse tenções de se ir embora. — Sei quando não sou desejado...

— Bobo! — ugou Othragon, cuja estentórea voz fez os corações de todos os presentes pararem por instantes, antes de bombearem logo de seguida jorros quentes de sangue pelos peitos. Mesmo Dilet estremeceu, desta vez não de forma jocosa, e olhou por cima do ombro. — Como... como é que posso assegurar a minha sobrevivência?


— Pensava que nunca mais perguntavas — disse o bobo em sur­dina, endireitando-se e compondo-se antes de se dirigir a Othragon com passos ponderados. — É que, como já te disse, o jovem Aewyre Thoryn voltou. E traz com ele Ancalach...

— De que é que o Flagício me serve, bobo? — indagou o thuragar, semicerrando os olhos. — Estás a aprontar alguma...?

— Não, meu bom Othragon, não estou — suspirou Dilet, condes­cendente. — Deixa-me acabar: eu tinha uma serva, Hazabel, que enviei atrás do jovem Aewyre, com o propósito de engravidar dele. Ora a boa da Hazabel era uma harahan...

Othragon franziu o cerrado cenho.

— ...e teve a infelicidade de ter uma filha, que me trouxe algum tempo depois. Infelicidade, porque o meu plano e o do nosso senhor era assegurarmos um herdeiro para o trono de Ul-Thoryn. Ou talvez até tenha sido felicidade, pois não me parece que um haghral passasse despercebido na corte — refletiu Dilet. — Qual o propósito do nosso senhor com isto tudo, isso já não to sei dizer, mas sei que passava por ter alguém debaixo do seu comando que pudesse empunhar a Ancalach.

— E como é que isso me pode ajudar? — quis Othragon saber, ignorando os murmúrios dos seus homens.

— Muito simples. A minha menina já cresceu, e é-me fiel — men­tiu Dilet. — E eu sei onde ela está. Tem o sangue dos Thoryn, e o Flagício protegê-la-á...

— Queres que eu ataque o palácio... para ser protegido por uma jovem humana? — indagou Othragon, incrédulo e irritado.

— Não, para ficares com o Flagício em tua posse — esclareceu o bobo, apaziguador. — É a única coisa capaz de ferir, ou mesmo matar o nosso senhor, e ele certamente pensaria duas vezes em vir ter uma conversinha contigo, se soubesse que a espada estava em tua posse.

A pele cicatrizada da cara de Othragon enrugou-se, como era cos­tume quanto este estava a refletir acerca de um assunto mais desa­gradável.

— Um pouco mais proveitoso do que lançarem-se sobre Ul-Thoryn como um bando de toupeiras raivosas, não? — sugeriu o bobo, cruzando os triunfantes braços.

— Porque é que vieste sugerir-me isso? — quis Othragon saber.

— Quanta desconfiança... somos camaradas de armas! — declarou Dilet congenialmente. — Porque não ajudaria eu o meu companheiro Aesh’alan?

O silêncio de Othragon foi expressivo.

— Pronto, está bem. É do meu interesse que tu e os teus homens nivelem o palácio.

— Porquê?

— Desobedeci às ordens do nosso senhor para me poder vingar de Aewyre e Aezrel Thoryn, e falhei — explicou Dilet. — Se vier a morrer por isso, o mínimo que ainda gostaria de fazer era com que os dois pagassem. Sozinho não o consigo, daí que tenha vindo dar-te conselhos, para que nos possamos ajudar um ao outro.

— E porque não ficas tu com o Flagício para te protegeres, se essa humana te é fiel a ti?

— Bah, eu não preciso dela para nada — afirmou o bobo. — Assim que Aewyre e Aezrel Thoryn estiverem mortos, ponho-me a andar, e o nosso senhor que venha à minha procura, se quiser. Já tu, meu bom Othragon — continuou, apontando para este de indica­dor oscilante —, tu és um alvo. As tuas ambições são um pouco mais megalômanas que as minhas, e acabarás por atrair a atenção de Asmodeon com as tuas incursões às terras humanas. É por isso que eu não me importo que fiques tu com a menina e a Ancalach. A única coisa que preciso de ti é da tua força e dos teus homens. Eu mostro-te onde podes atacar o palácio, tu matas uns humanos, eu mato outros, ficas depois protegido, e ficamos todos contentes. Que me dizes?

Fez a pergunta de braços abertos, inclinando a cabeça para o lado enquanto aguardava uma resposta. O olhar de Othragon não escondia minimamente o seu desagrado, mas fora indubitavelmente persuadido pelas palavras do bobo, a avaliar pela invulgar expressão pensativa da sua cara mutilada.

— Fala-me... desses túneis do palácio — disse, baixando por fim a enorme maça.

Embora ninguém o visse, Dilet sorriu.

 

Montados sobre cavalos, Aewyre e um destacamento de guardas arnesados percorriam as ocupadas vias de Ul-Thoryn, que naquela tarde de Equis estavam enevoadas com um incomodativo e persis­tente chuviscar. Ainda visível no ligeiramente nublado horizonte, o sol punha-se indolentemente, banhando os edifícios caiados e as pedras da calçada com um lume avermelhado. Os habitantes não se tinham deixado desanimar pelo tempo molhado, até porque a temperatura estava amena, e as ruas estavam ainda com a circulação que se esperava do fim de mais um ocupado dia. Talvez mais ainda, pois o vedar das portas da cidade deixara muitos cidadãos apreensivos, e estes levavam agora o seu descontentamento para as ruas e tabernas antes que soas­se o toque de recolher. Muitos abordaram o grupo em busca de satis­fações, mas os guardas disseram-lhes apenas que continuassem a andar, que a busca pelo assassino continuava, que não se preocupassem, e que em breve as portas da cidade seriam novamente abertas. Os cidadãos mostravam-se insatisfeitos com tais respostas, clamando que dias atrás lhes fora dito o mesmo, mas os guardas davam toques de calcanhares nos cavalos, obrigando-os a saírem do caminho e ordenando-lhes que continuassem a circular. Muitos vociferavam em protesto, e alguns proferiam mesmo impropérios na direção dos guardas, sendo igno­rados por eles e por Aewyre, que fazia por passar despercebido.

O jovem trajava as mesmas roupas e armadura dos seus homens, fazendo-se passar por um mero guarda seguindo a recomendação de Daveanorn, que não achara prudente estar a passear-se pelas ruas da cidade. Não achara prudente o sequer sair do palácio, mas sem Aewyre, os guardas estariam a procurar às cegas por Kror, seguindo a miríade de pistas e indicações que lhes tinham chegado de todos os cantos da cidade. Kror fora aparentemente avistado em meia Ul-Thoryn, pois havia relatos de figuras encapuzadas e com ligaduras de uma ponta da cidade à outra, sobretudo nos distritos mais pobres. A quarentena da cidade deixara a população ansiosa por que alguém encontrasse o assassino, e inúmeros pobres desgraçados tinham sido trazidos ao palácio, mortos, vivos ou quase mortos. A maior parte deles eram mendigos, estrangeiros com mau aspecto, ou bodes expiatórios de indivíduos sem escrúpulos que tinham feito uso da tensão que se vivia na cidade em proveito próprio. Muitos juraram a pés juntos ser o seu o assassino que procuravam, que o tinham apanhado a falar do palácio numa taberna, o malandro; ou que o tinham visto perto das muralhas, certamente a tentar escapar, o tratante. Aewyre ordenara a Daveanorn que os mandasse a todos embora, e que destacasse alguns homens para levar ao hospital os «assassinos» que ainda estivessem vivos.

Alguns dos pobres desgraçados estavam nos pensamentos de Aewyre enquanto este oscilava da sela do cavalo, com uma mão a agarrar as rédeas e a outra inutilmente pousada sobre a sua perna. Não podia dei­xar de se sentir culpado por ter causado a morte dessas pessoas, pois fora sua a idéia de espalhar o boato de que havia um assassino à solta na cidade, de forma a poder justificar o fechar das portas. Porém, havia pesos bem maiores na sua consciência, que facilmente abafavam tais pontadas de culpa, e tinha outras prioridades mais prementes que lamentar o falecimento de desconhecidos. Cada momento que passava fora de Allahn Anroth era mais tempo precioso que perdia, no qual podia estar a estudar e a rever os apontamentos que tirara do manual de Fèdac com a ajuda de Layaline. Contudo, estes de nada lhe serviriam sem Kror, muito embora este dificilmente estivesse agora disposto a ajudá-lo. Suspirando, Aewyre olhou para o céu que se via entre as qui­nas dos tetos de dois edifícios, piscando os olhos com as ínfimas gotas que lhe caíram sobre a cara através da abertura da barbuda que usava.

«Em nome de Gilgethan, será que nunca mais pára?», pensou, farto da chuva que o acompanhara desde Tanarch como uma nuvem sobre a sua cabeça, a par daquela que lhe enegrecia o espírito. Estivera tentado a permitir a Lhiannah, Worick e Taislin que o acompanhassem, pois a presença de ambos ajudava-o a lidar com a sua amargura, mas preferiu tê-los no palácio, no qual temia que apenas Daveanorn estivesse verda­deiramente do seu lado.

— Lorde Aewyre? — disse um dos guardas discretamente.

— Sim? — despertou o jovem, olhando na sua direção.

— Por onde devemos seguir? — perguntou o guarda, indicando a bifurcação da travessa pela qual tinham seguido.

O grupo encontrava-se no apertado espaço entre dois palacetes numa das zonas antigas da cidade, que se abria numa estreita viela cindida pela quina de outro edifício, com uma ruela deserta para cada lado e a alturas diferentes. Aewyre anuiu e, como não havia ninguém à vista, tirou a barbuda da cabeça, sentindo que esta podia de alguma forma interferir com o que queria fazer. Os guardas puxaram as rédeas dos cavalos para que estes se movessem e dessem espaço ao seu senhor, que passou a mão enluvada pelos cabelos antes de fechar os olhos para se concentrar. A já familiar tensão na sua cabeça intensificou-se assim que o «tendão» se deu conta do seu interesse, e Aewyre não resistiu ao seu repuxar, deixando-se levar pela ânsia do «tendão» ao ponto de este lhe causar um estremeção. Os guardas entreolharam-se enquanto Aewyre franzia a compenetrada testa, agarrando as rédeas com mais força em movimentos reflexivos. Confiavam mais em Aewyre do que no irmão deste, pois sempre tinham tido uma relação de maior proximidade com o benjamim de Ul-Thoryn, mas a situação era-lhes no mínimo estranha, e verem Aewyre concentrar-se como um místico ou vidente enquanto procuravam aquele que todos diziam ter sido enviado para assassinar o seu senhor, mas que aparentemente se queria vivo. Era uma missão no mínimo pouco ortodoxa, como aliás o era toda a situação desde o san­grento aniversário da falecida princesa Iollina, mas os guardas eram homens leais e obedientes, treinados desde tenra idade a não questio­narem ordens.

Tal como tantas vezes antes o fizera, Aewyre concentrou-se em Kror, recordando-se dos fluidos movimentos das suas dançantes cimitarras, que graças às intensas sessões de treino e mais intensos ain­da combates tinham ficado incutidos na sua mente e pele. O seu coração começou a bater mais depressa com as memórias e com a pro­ximidade do drahreg, que lhe trouxe às narinas um indistinto odor a ferro e sangue, e lhe eriçou os pêlos no pescoço. Vieram então os espe­rados silvo metálico e estridente entrechocar de duas lâminas na sua cabeça, que fizeram com que o jovem estremecesse e abrisse os sobres-saltados olhos, que de seguida piscou, levando uma mão à têmpora direita e abanando a cabeça. Já estava desabituado à sensação, e o «tendão» puxara com redobrada intensidade, alimentado pela tensão da caça e a antecipação de iminente confronto.

— Por ali — indicou o guerreiro, apontando para a ruela que descia.

— Vai dar a um dos canais — disse um dos guardas. — Tem muito por onde se esconder, lá.

— Eu encontro-o — afirmou Aewyre com a convicção de um mastim, enfiando novamente a barbuda sobre a cabeça. — Adiante, homens.

O grupo seguiu então viagem, e os cascos dos cavalos ecoaram asperamente pelas paredes dos edifícios que os ladeavam, avisando de antemão as pessoas que saíssem do seu caminho. As vias da zona antiga eram flexuosas e apertadas, apinhadas de bancas e pequenos estabe­lecimentos, em cujas insígnias de madeira os guardas montados quase batiam com as cabeças. A comparativamente pouca sujidade que nelas havia fora limpa pelas recentes chuvas, e as arredondadas pedras da calçada luziam, molhadas e escorregadias, o que levava a maior parte dos transeuntes a caminharem encostados às paredes, facilitando a passagem do grupo. Alguns cães ladraram à aproximação dos cavalos, mas de resto não houve grande interação com os habitantes locais, que evidentemente não se achavam com tanto direito a satisfações como os burgueses e cidadãos mais desafogados que tinham ido reclamar ao palácio. Sendo aquela área dedicada ao comércio local, os seus habitantes não estavam tão indignados quanto os comerciantes mais abastados, pelo menos por enquanto, e a passagem do grupo de guardas decorreu sem quaisquer percalços.

As ruas foram-se expandindo aos poucos, até que desembocaram na zona do canal, na qual o suave arrulho da água deslizava pelos tetos e paredes. Aewyre olhava fixamente em frente, temendo perder a impressão residual que lhe permitia ter uma noção de onde Kror se poderia encontrar. Não queria estar constantemente a lobrigar a sua localização através do «tendão», pois dessa forma o próprio drahreg saberia da sua proximidade, e poderia apenas continuar a fugir. O guerreiro sentia que Kror se estava a esconder em mais que um sentido, tentando ativamente escudar-se das intromissões psíqui­cas de Aewyre; a sensação era parecida com o passar uma lâmina embotada pelo polegar sempre que tentava apelar à ligação que os unia aos dois. Não sabia como o conseguira fazer, mas o drahreg relaxara literalmente a sua ponta do «tendão», deixando lasso o normalmente tenso elo que os unia, o que tornava bem mais difícil sentirem a pre­sença um do outro.

Por essas razões, Aewyre não se podia dar ao luxo de prestar aten­ção àquilo que o rodeava, mas ainda assim notou que parou de chover assim que saíram da ruela. A via na qual se encontravam não tinha muitos transeuntes, e passaram apenas por umas poucas bancas eri­gidas ao pé das características estátuas de mármore de Ul-Thoryn. A maior parte dos comerciantes limitou-se a saudar os guardas à pas­sagem destes, mas houve uns quantos que não resistiram a perguntar quando as portas da cidade seriam reabertas, se o patife já fora apanhado, e se por acaso não podiam dar uma palavrinha aos guardas dos portões, que havia uma remessa importante da qual estavam à espera. Esses últimos foram devidamente repreendidos, sobretudo os que insinuaram um eventual suborno, mas Aewyre recomendou através de gestos aos seus homens que se ficassem por aí, pois não havia motivo para causar mais tensões entre os cidadãos. Isso, e por­que não queria distrair-se com uma conversa prolongada ou uma detenção, temendo perder o rasto de Kror.

Prosseguindo, o grupo passou então por uma série de palacetes com galerias abertas, atrás de cujas colunas se reuniam grupos de homens em beberetes. Todos bem vestidos, bebiam e falavam em baixos tons conspirantes, alteando apenas a voz à passagem dos guardas, altura na qual abordavam assuntos inconseqüentes em tom descontraído. Aewyre e os guardas ignoraram-nos, a eles e às comadres que, agora que parará de chover, surgiam às janelas para trocarem impressões e queixarem-se da vida. A rua ao fundo da área residencial descia acentuadamente, formando uma rampa, e nela era mais perceptível a umidade que emanava do canal mais próximo. Aewyre ergueu a mão a meio caminho para que todos parassem, e aproveitou a visão pri­vilegiada que o alto da rampa lhe conferia para as casas em baixo e o resto da cidade que dali se estendia, concentrando-se na impressão deixada por Kror. Era como estimar a proveniência de um ruído do qual apenas se podia calcular a distância e direção geral, mas ao jovem bastava essa mínima noção para que o «tendão» se encarregasse do resto. Esquadrinhando os tetos chatos com terraços ou com empe­nhas de imbricadas telhas vermelhas, o jovem olhou em redor de olhos semicerrados, como se dessa forma conseguisse estreitar as hipóteses possíveis. Com o sol a pôr-se, começaram a surgir pequenos pontos de luz nos edifícios, à medida que lanternas e lâmpadas iam sendo acesas. Aewyre deteve-se ao avistar uma em particular, essa acesa atrás de uma janela lanceolada. O edifício era grande e marmóreo, destoando das restantes habitações não pela cor, mas pela harmoniosa arquitetura curvilínea e arciforme. Dele emanava uma tênue impressão apenas perceptível a Aewyre, que a sentia como a aproximação de algo afiado à cana do seu nariz.

— Aquele ali — indicou com um dedo revestido de aço. — Não é o templo de Acquon?

— É sim, lorde Aewyre — responderam três guardas ao mesmo tempo.

— Achais... que os clérigos dariam refúgio a um assassino? — per­guntou outro, ingênuo.

— Não, mas é lá que ele está — disse Aewyre secamente. — Duvido que ele se tivesse anunciado como tal à entrada, de qualquer forma.

Um dos homens fungou, divertido, e os outros morderam os lábios ante o embaraço do seu companheiro, que encolheu a cabeça para que o capacete lhe escondesse a vergonha que lhe corava a cara. Aewyre deu-se conta de que fora brusco — como tendia a acontecer sempre que estava perto de Kror, e sobretudo quando o «tendão» estava exci­tado — e virou-se na sela para o homem, pousando-lhe a mão sobre o braço e sobressaltando-o com tão confidente gesto.

— Desculpa... Alerano, não é? — O espantado guarda fez que sim com a cabeça. — Não és tu, é toda esta situação. Vamos só apa­nhar o desgraçado para podermos voltar para o palácio. Levo-vos a todos à cozinha depois, para bebermos uma caneca ou duas. Que me dizem?

Os homens estavam desabituados ao mundano trato de Aewyre, mas a sinceridade na voz deste era inconfundível, e todos fizeram que sim com as cabeças, uns mais hesitantes que outros.

— Então vá, vamos andando — incitou o jovem, tomando a dianteira do grupo.

O templo de Acquon encontrava-se a curta distância dali, numa rua apinhada de mendigos e enfermos, que eram sombreados pelo arcobotante que unia o templo ao edifício oposto. O local tinha um agradável odor a ervas, proveniente das duas cantareiras debaixo das duas arcaduras que ladeavam o pórtico,, nas quais se encontravam duas estátuas de santos da fé. Nenhum dos estropiados pediu esmolas aos guardas, tentando passar despercebidos, e estes ignoraram-nos en­quanto desmontavam e prendiam as rédeas dos cavalos aos anéis cravados nas paredes. Aewyre entregou as do seu e, sem esperar sequer que os seus homens acabassem de prender as montarias, dirigiu-se à entrada, tirando novamente a barbuda da cabeça e sacudindo-a, antes de alisar uma vez mais os cabelos com a mão. Os pedintes e enfermos abriram alas, tementes de uma qualquer infração que pudessem ter cometido e esquecido.

O interior do templo estava escuro, sobriamente iluminado por velas, agora que a luz do sol não mais passava pelos vitrais azula­dos nas paredes. Aewyre nunca antes estivera naquele templo em particular, mas não prestou qualquer atenção àquilo que o rodeava, perscrutando atentamente a nave com a barbuda sobraçada. Sentindo a proximidade de Kror, a sua visão periférica estava fosca, e o guer­reiro passou com os olhos por cima dos que estavam sentados nos bancos e homem que a ele se dirigiu, ignorando-o até ouvir a sua voz.

— ...alguma coisa, guarda?

— Saudações, uh... — hesitou o guerreiro, até ver as vestes brancas e azuladas em padrões sinuosos e o báculo com ondíflua ponta dou­rada. — Sacerdote. Procuro um homem.

— Deveras? Temos cá vários, não em pequena parte devido à qua­rentena da cidade, bem como à vossa intransigência quanto à entrada de bens necessários...

O tom do homem apanhou Aewyre desprevenido, conseguindo a sua atenção, e embora estivesse apenas a fazer-se passar por guarda, o jovem fitou-o num misto de surpresa e indignação.

— É precisamente por isso que procuramos um homem, e é do interesse de todos que o encontremos o quanto antes — retorquiu rispidamente.

— Perdoe-me — pediu o sacerdote, caindo envergonhadamente em si e levando a mão ao peito. — Têm sido dias... difíceis. Eu e os meus acólitos mal conseguimos dar entrada aos enfermos que nos vêm requisitar auxílio, e Acquon tarda em responder às nossas preces...

— Um problema comum aos restantes templos da cidade, segundo ouvi... — disse Aewyre, olhando por cima do ombro do sacerdote para as caras que se tinham virado para ver o que se passava. Havia vários homens e mulheres a orar nos bancos, mas nenhum estava enfaixado com ligaduras, e os que tinham algumas tinham também pele dema­siado clara.

— Não sei se devo retirar conforto ou apreensão disso — admitiu o sacerdote, cabisbaixo, não reparando sequer que Aewyre não olhava para ele. — Os artesãos deste distrito têm-se ressentido com o silêncio de Tharobar; os beleguins andam aflitos, pois a sua autoridade está a ser posta em causa, visto que se sabe que as suas preces a Bellex não estão a ser ouvidas... ou pelo menos se estão a ser ouvidas, não temos recebido qualquer resposta, nem tão-pouco um sinal do prazer ou desprazer dos nossos deuses...

— O homem — interrompeu Aewyre, relembrando o assunto em questão. — Onde acolhem os necessitados?

— Hum? Ah, ali... na nave lateral, guarda — respondeu o sacer­dote, indicando uma porta com dobradiças de palheta em forma de ondas.

— Obrigado — agradeceu o jovem, indo de encontro a esta sem sequer esperar pelos guardas, que só então entraram no templo.

— Lorde... — disse um destes, calando-se antes de revelar o nome de Aewyre. — Espere. Os outros ainda estão a...

O guerreiro ignorou-o e aos olhares das pessoas que estavam sentadas nos bancos, avançando a largas passadas até à porta, que abriu de rompante. A nave lateral era mais escura ainda, alumiada por tochas e com o piso revestido por palha, sobre a qual se encontravam deitados homens e mulheres em camastralhos com lençóis brancos, e urinóis de terracota entre cada um. Todos se sobressaltaram com a brusca entrada de Aewyre, cuja arnesada figura recortada à entrada os assustou mais ainda, levando muitos a cobrirem as caras com os lençóis. O sombrio olhar de Aewyre passou por todos antes de entrar para ver além da porta, mas uma acólita surgiu-lhe no caminho, arfando com a sinistra expressão da cara do jovem, que parecia pronto a matar a primeira pessoa que lhe aparecesse à frente.

— Posso... ajudá-lo, guarda? — perguntou, compondo a sua túnica azulada.

— Não — disse o guerreiro, sem sequer olhar para a cara da rapa­riga, pegando-lhe com tensa delicadeza pelo braço e tirando-a do seu caminho.

O resto dos enfermos reagiram de forma igualmente assustada, mas nenhum deles desatou a fugir. O «tendão» puxava com uma força tremenda, contudo, e Aewyre sentiu hirtos todos os músculos do seu corpo, enquanto o seu coração bombeava, antecipante.

— Passa-se alguma coisa, guarda? — perguntou a acólita, tor­cendo nervosamente as abas das suas folgadas mangas, e olhando com apreensão para os outros guardas que entraram seguidamente.

— Não se preocupe — disse um deles, tentando amenizar a situa­ção. — Estamos só à procura de...

— Filho da mãe! — berrou Aewyre, deixando cair a barbuda ao chão, no qual esta ressoou ruidosamente.

Todos se sobressaltaram com o berro, e ao fundo da nave viu-se um vulto correr tropegamente, pisando alguns dos enfermos e entornando o conteúdo de uns quantos urinóis. Aewyre lançou-se a correr no seu encalço, roçando furiosamente as placas do arnês umas contra as outras com os seus movimentos. Kror derrubou um acólito enquanto fugia, e atirou para trás de si um banco que havia à mão, colidindo de ombro contra a porta ao fundo da nave antes de a abrir e tornar a fechar.

— Não! Não desnudeis aço na casa de Acquon! — suplicou a rapariga quando os outros guardas iam no encalço do seu senhor, al­guns desembainhando as espadas.

Mulheres gritaram e homens imploraram por misericórdia, e um deles soergueu-se mesmo do camastralho de braços abertos, olhando para Aewyre com olhos febris e dizendo que recebia de bom grado o seu castigo. O guerreiro ignorou-o, empurrando para fora do seu caminho o acólito que se ergueu, raspando a parede com a espaldeira ao desequilibrar-se ligeiramente, e chutando com a greva o banco que Kror derrubara. Ao abrir a porta de escantilhão, viu dois acólitos encostados à parede com ar assustado, e que se encolheram mais ain­da contra esta ante a aproximação de Aewyre, que passou por eles a correr. O sangue rugia-lhe aos ouvidos, e a sua visão estava focada no vulto negro que virou a esquina a correr, sendo tudo o resto as indis­tintas paredes de um túnel. O grito surpreso e o clangor de metal que ouviu apenas o esporearam a correr mais depressa ainda, mas ao virar da esquina os seus pés derraparam, e o guerreiro estatelou-se de costas no chão, batendo com a cabeça. O baque surdo foi como um estampido nos seus ouvidos, mas Aewyre nada sentiu, e tentou levan­tar-se quase de seguida, mas as suas mãos escorregaram no piso mo­lhado, no qual um acólito derrubado olhava desoladamente para os cacos da ânfora que deixara cair, demasiado atrapalhado para se assustar com a presença de um guarda no coração dg templo. Além deste, Kror corria aos tropeções para outra porta, que Aewyre deduziu dar para o exterior. Algo a custo, pois a armadura tolhia-lhe os movi­mentos, o jovem conseguiu chegar à parede, agarrando-se ao alizar que a ornava, e servindo-se dele para se pôr de pé. Nesse preciso momento, os seus homens contornaram a esquina da qual viera, e der­raparam eles também pelo piso molhado, embatendo contra a parede e caindo uns em cima dos outros. Os que vinham atrás ainda conse­guiram parar a tempo, embora chocassem contra os que entre eles vinham na dianteira, empurrando-os para cima da pilha de compa­nheiros seus.

— Atrás dele! Sigam-me! — gritou Aewyre, correndo junto à parede de forma a evitar a poça de água e pisando a perna do acólito, que não saiu do seu caminho suficientemente depressa.

Os guardas bem que tentaram acatar as suas ordens, mas apenas os que estavam de pé foram capazes de o acompanhar, pois quando os res­tantes se conseguiram arrastar para fora da poça, já o seu senhor tinha chegado à porta, que Kror não fechara na sua pressa. A saída dava para um saguão no exterior, vedado por duas cercas de ferro, no qual os acólitos tinham uma série de vasos com ervas medicinais. Muitos esta­vam derrubados, a sua terra e conteúdo espalhados pelo piso ladrilhado, e as correntes de uma das cercas oscilavam quebradas das barras, enquanto a porta rangia das suas dobradiças. Aewyre escancarou-a com um pontapé, fazendo metal embater ruidosamente contra metal e cho­calhando as correntes no ar, correndo para a escura rua a que a porta dava acesso e olhando de um lado para o outro. Viu Kror meio a correr, meio a saltar coxeando ao fim da ruela, com ambos os seus alfanges nas mãos, e foi no seu encalço de dentes arreganhados, gritando aos seus homens que irrompiam da porta que o seguissem. A escura e aper­tada rua ecoou com os pesados passos da perseguição, e Kror olhou por cima do seu ombro, ciente de que, mesmo com o peso dos arneses, os seus algozes não tardariam a apanhá-lo. A sua aramada cabeleira estava eriçada como o pêlo de um gato sujo, e Aewyre ficou admirado com a velocidade à qual o drahreg corria, evidentemente movido pelo deses­pero, pois a sua perna não podia ter sarado tanto nos últimos dias. Kror galgava as ruas com passos saltitantes, passando por uma encruzilhada, duas, até que se viu forçado a virar à esquerda numa, com a inesperada aparição do canal a bloquear-lhe o caminho em frente.

— Lorde Aewyre, se nos separarmos e formos por esta rua, pode­mos encurralá-lo! — arquejou um dos guardas que vinham atrás de Aewyre, que olhou brevemente por cima do ombro, vendo que o homem apontava para uma das ruas à esquerda.

O guerreiro assentiu, apontando para o lado para indicar aos seus homens que seguissem a sugestão.

— Não se esqueçam! Quero-o vivo! — advertiu, estugando o passo de mão apoiada sobre o pomo de Ancalach, deixando-se levar pela ânsia do próprio «tendão». Não tinha quaisquer ânsias de se vingar de Kror, pois não nutrira o mínimo de simpatia pelo Cagado e pelos seus homens, cujo massacre muitas pessoas provavelmente até cele­brariam. Contudo, não deixava de ter trazido uma vez mais a morte a terceiros, tal como fizera no acampamento dos Cho Tirr, no refúgio dos Corações Quebrados, e na Cidadela da Lâmina, e essa angustiante sensação era apenas mais uma acha para a já de si roaz fogueira ateada pelo «tendão».

Uma vez chegado à via paralela ao canal, lançou-se numa desen­freada corrida pela íngreme via fora, sentindo já o cediço odor do suor de Kror, cujo surto de adrenalina começava a falhar-lhe, exaurido após ter movido as suas desacostumadas pernas até ali. Quando o drahreg viu os guardas irromperem inesperadamente de uma travessa lateral, cortando-lhe o caminho, viu-se forçado a parar, olhando à volta como um animal encurralado, empunhando os seus alfanges em gesto de desafio. Sem escapatória evidente, Kror saltou sobre um curto dique de alvenaria que atravessava o canal, e que levava a uma armaria de parede caiada que descarnara em partes, expondo feridas de tijolos. O dique em questão tinha três comportas elevadas, apenas uma das quais estava levantada, deixando correr a água do canal, enquanto das duas outras partiam condutas de madeira, uma das quais para uma azenha imóvel. No dique havia ainda três peças de madeira, em cujos eixos assentavam as pontas de ferro de varetas que controlavam a subida e a descida das comportas. Na sua pressa, Kror passou desajei­tadamente sobre estas, pisando uma das algo enferrujadas pontas de metal, que se partiu inesperadamente, desequilibrando o drahreg, que se estatelou dolorosamente de lado sobre a quina do canal. Ainda se conseguiu agarrar a uma das peças para evitar cair sobre as condutas de madeira, mas uma das suas pernas ainda se molhou na água que corria pelo canal. Os seus alfanges roçaram pedra enquanto o drahreg tentou desesperadamente endireitar-se, ouvindo a cada vez mais ruidosa aproximação dos guardas, mas acabou por desistir e preferiu deixar-se cair para a íngreme beira de tijolo da armaria, pela qual derrapou até assentar com os pés no rodízio. Este começara entretanto a rodar, pois quando Kror partira a ponta de uma das varetas, a com­porta do meio subira com a força da água, que agora corria pela con­duta de madeira, fazendo girar a azenha. O drahreg ergueu-se e viu uma janela fechada bem ao seu lado, enfiando prontamente nela a lâmina de um dos seus alfanges, com o qual arrombou as adufas. Porém, a janela estava reforçada com uma barra de ferro, e o drahreg não tinha maneira de entrar. Arfando, Kror viu Aewyre e os guardas surgirem à beira do canal, e um deles fez mesmo tenção de saltar para o dique, mas o guerreiro impediu-o, dizendo antes aos seus homens que cercassem o edifício e mandando um deles para o fundo da rua, não fosse o drahreg saltar para a água.

Vendo-se cercado, Kror fitou Aewyre com incandescentes orbes vermelhos imersos em negras poças de ódio, arreganhando-lhe os dentes amarelados. O tempo pareceu então tornar-se mais lento para ambos, os gritos dos guardas tornaram-se indistintos à sua volta, e os dois guerreiros expuseram as almas um ao outro como aço desembainhado, sabendo que qualquer companheirismo que pudesse ter prin­cipiado a germinar entre eles estava agora terminantemente morto. Os nervos de humano e drahreg entesaram-se nesse infindo instante no qual os seus olhos se cruzaram, e os corações de ambos bombearam sangue aos seus túmidos músculos, enchendo-os de escarlate fúria pres­tes a ser desencadeada em combate mortal. Uma força acerada manteve-os nas mesmas posições, até que, com a tensão liberta de um fio de arame acabado de rebentar, Kror explodiu em movimento, girando em si com alfanges empunhados e desferindo duas estocadas paralelas pela janela adentro.

Para grande surpresa de todos, o ar tremeu com um estrídulo ruí­do metálico, que fez com que os dentes dos presentes rangessem, e Aewyre contorceu-se de pé num tremendo espasmo que o fez perder o equilíbrio, obrigando-o a apoiar-se no muro que separava a rua do canal. O tempo retomou então o seu fluxo normal, e os guardas detiveram-se, surpreendidos pelo repentino vacilar do seu senhor, e mais surpreendidos ainda ao verem a barra da janela cair à água com as pontas perfeitamente cortadas. Kror também ficou algo surpreen­dido, mas recuperou antes dos humanos e enfiou-se pela janela aden­tro, ficando com as pernas a abanar antes de desaparecer no interior da armaria.

«Filho da mãe... como é que ele fez aquilo?», questionou-se Aewyre de perplexos olhos arregalados, inicialmente alheio às mãos que o ajudavam a levantar-se. — Como...?

— Lorde Aewyre, estais bem? — perguntou uma das preocupadas vozes atrás do guerreiro, cujos sentidos ainda estavam a recuperar da sobrecarga causada pela raiva de Kror.

— Sim... sim... larguem-me, vão atrás dele! — despertou então o guerreiro do seu breve transe, soltando-se das solícitas mãos. — Aliás, cerquem o edifício! Bloqueiem todas as portas e janelas!

Sem esperar que as suas ordens fossem acatadas, Aewyre desembainhou Ancalach e subiu até ao fundo da rua, contornando-a para poder chegar à entrada da armaria e passando as mesmas ordens aos guardas que estavam no seu caminho. O jovem nem ouviu as suas per­guntas, pois não conseguia concentrar-se noutra coisa senão no eco metálico que ainda ressoava nos seus ouvidos, e que dava a entender o quão verdadeiramente sedenta a Essência da Lâmina estava. Sedenta de sangue, seu ou de Kror, não importava — por muito que tivesse tentado evitá-lo ao longo dos decorridos meses, chegara por fim a hora de cruzar aço uma última vez com o drahreg. O seu pai... Assiòn... Lhiannah... nem mesmo as memórias dos dois primeiros e os recém-descobertos sentimentos pela terceira conseguiram demover Aewyre do seu propósito. Fosse ele ou não a última esperança de Allaryia, o único capaz de defrontar O Flagelo, a sua contenda com Kror teria de acabar ali, naquela noite, naquele preciso lugar.

A porta da armaria cedeu após dois violentos pontapés e uma desenfreada carga de ombro, que fez Aewyre cambalear até uma mesa na sala escura, sobre a qual apoiou as mãos, atirando para o chão uma série de objetos metálicos. Ouviu-se um grito vindo da sobreloja, mas Aewyre nem olhou para cima, deixando em vez disso os olhos habi­tuarem-se à escuridão até conseguir distinguir as escadas que davam para a oficina na cave, da qual vinham repiques e baques pétreos. Guardas entraram pela porta arrombada, tentando não se empur­rar uns aos outros na escuridão, mas Aewyre refreou o seu avanço com um tom firme e perigoso na voz.

— Ele é meu — disse, estendendo o braço de mão aberta, e com Ancalach firmemente empunhada na outra. — Vigiem só as entradas, acalmem os moradores. É uma ordem.

Perplexos com toda aquela situação, os guardas ainda assim fizeram como lhes fora dito, embora houvesse nos seus entreolhares uma clara intenção de desobedecer. Aewyre não se deu conta disso e avançou para as escadas com Ancalach empunhada por ambas as mãos, ignorando os gritos do proprietário e daquela que devia ser a sua família, que se alvoroçava nos quartos atrás das portas da sobreloja. Predatoriamente silencioso, o jovem desceu então até à cave da oficina, onde foi aco­lhido pela estrepitosa escuridão, cujo ar ressoava com o impacto de metal contra pedra. Atrás de si, ouviu a ruidosa troca de palavras entre os guardas e os moradores, que pareciam mais incomodados do que propriamente assustados — mais um sinal do estado de indulgente complacência no qual a cidade se encontrava, que todavia naquele momento não ocupava os pensamentos de Aewyre. Cada músculo no seu corpo estava tenso como um arame repuxado, o que era contra­producente, mas o jovem era impelido pela sensação de que relaxaria assim que avistasse o seu algoz, que aquilo não passava de mais um incentivo do «tendão». Aewyre olhou em vão à volta, mas a escassa luz da oficina provinha das frestas das janelas, e da abertura pela qual Kror ali entrara. Não bastava para ver, e os passos que dava fazia-os praticamente às cegas, e embora julgasse que estava em pé de igual­dade com Kror, teve a sensação de que o drahreg o observava, pronto a saltar-lhe em cima de alfanges em riste, pelo que se aproximou um pouco da parede.

— Sei que estás aí — disse em tom reptante. — Vem. Vamos acabar isto.

Não houve resposta, e Aewyre ponderou o seu próximo passo, procurando uma fonte de luz. Ao sentir o calor emanado por aquilo que parecia ser uma forja, o guerreiro teve uma idéia e aproximou-se dela, pegando pelo caminho num archote, mantendo as costas contra a parede e olhando a espaços para as escadas. Tenteando a forja meio às cegas, descobriu a pega da tampa que procurara, debaixo da qual se encontrava o brasido do labor do dia a meio do borralho. Aewyre soprou prontamente sobre ele, espalhando as cinzas pelo ar e atiçando as brasas, nas quais enfiou a ponta do archote, olhando por cima do ombro. O breve lume alaranjado das brasas permitiu-lhe ver alguns detalhes da oficina, mas Kror podia estar em qualquer uma das sombras, e o breve vislumbre de pouco mais serviu. Só quando o archote pegou fogo e o guerreiro o empunhou ao alto com a mão esquerda é que conseguiu ver bem o interior da oficina, cuja maqui­naria estava em pleno funcionamento, agora que a azenha rodava. O barulho que ressoava pelas paredes da sala provinha da subida e descida rítmica dos dois martinetes que nela imperavam, dois enor­mes martelos movidos a água montados numa imponente arma­ção de madeira, um dos quais com cabeça plana e a do outro em forma de cunha. Serviam para achatar e cortar aço para armaduras, mas naquele momento batiam inutilmente no balcão de pedra de­baixo de ambos, fazendo tremer os alicates e tenazes que sobre este se encontravam. Barris de folhas, chapas e placas de metal das mais variadas formas e feitios aguardavam o trabalho do dia seguinte, e vários rebolos giravam inutilmente nos seus eixos, também eles movidos pela força motriz da azenha. Aewyre estacou com o archote ao distinguir um vulto entre os movimentos dos rebolos, e enristou ligeiramente Ancalach com a outra mão quando o lume se refletiu no vermelho dos olhos deste.

O drahreg parecia estar a aguardá-lo, com ambos os alfanges empu­nhados mas de pontas baixas, e não mexeu um músculo sequer ao ser avistado. Por sua vez, Aewyre avançou a passos cautelosos, ainda com o archote numa mão e a espada na outra, mas Kror continuou sem esbo­çar qualquer movimento enquanto o seu adversário se aproximava, sem contudo tirar os olhos dos dele. Aewyre contornou a armação dos mar­tinetes, e cada movimento seu foi seguido em atento silêncio pelo drahreg, que apesar da perna estava orgulhosamente de pé numa pose de desafio. A tensão entre ambos era quase insuportável, exacerbada pelo ruidoso ambiente da oficina, e Aewyre atirou o archote ao chão para empunhar Ancalach com ambas as mãos, posicionando-a debaixo do queixo de Kror no seu campo de visão. A lâmina tremeu quando o jovem pareceu vacilar, retesando os maxilares antes de abrir a boca para falar.

— Ainda podemos descobrir o segredo da Essência da Lâmina — disse num esforçado momento de lucidez, embora não houvesse qualquer convicção nas suas palavras. — Larga as armas, e entrega-te.

Kror não se dignou sequer a responder, flexionando o joelho bom e avançando com a perna ferida ao assumir uma postura de combate com os alfanges dispostos de forma curvada atrás das suas costas, deixando-se convidativamente exposto.

— Seja — resignou-se o guerreiro, sabendo de antemão que o drahreg perdera a pouca confiança que alguma vez tivera nele, e que não o podia de forma alguma culpar por isso, por mais que o quisesse. Fizera aquilo que achara necessário ao traí-lo, mas não podia agora esperar que Kror acreditasse nas suas palavras.

O ruído dos martinetes pareceu então desvanecer-se, à medida que a percepção dos dois guerreiros se centrava um no outro e tudo o resto passava para segundo plano. O «tendão» puxava, triunfante, e os dois guerreiros corresponderam, arrastando os pés pelo chão enquanto se achegavam um do outro de aço faminto. Aewyre assumiu uma guarda baixa, não se deixando levar pela pose exposta de Kror. Ambos já se conheciam tão bem, de tal forma cientes das forças e fraquezas de cada um, que os momentos iniciais foram de hesitação, de ponderação quanto ao primeiro gesto a tomar. Aewyre começou com a sua já con­sagrada estratégia de manter o drahreg à distância, ameaçando-lhe as pernas com a ponta de Ancalach; enquanto este andava em círculos em seu redor em busca de uma abertura, alternando a postura dos seus braços e oscilando os alfanges. Houve porém algo de diferente na sua postura, mais tensa que aquilo que era habitual, e Kror estava a afas­tar-se em vez de tentar cortar distância entre ambos. Aewyre estra­nhou, mas antes que pudesse corresponder aos gestos do drahreg, este desferiu uma relampejante cutilada no ar, da qual emanou uma reverberação que passou com um chofre metálico por cima da cabeça do seu adversário. Antes que Aewyre pudesse sequer ficar pasmado com o que acabara de acontecer, a reverberação estraçalhou uma das vigas da oficina, e os barrotes do soalho começaram a ranger ameaçadoramente. Ouviram-se gritos vindos do piso de cima, e Aewyre deu as costas à parede com uma passada lateral de forma a poder manter Kror debaixo de olho e ver o que estava a acontecer. Para grande espanto seu, o drahreg desferira um corte com a precisão de um lenha-dor na viga, que cedeu na direção oposta à da entrada, fazendo com que o soalho do piso superior desmoronasse parcialmente sobre a porta. A destruição causada por um singelo golpe não deixou de sur­preender Aewyre, que viu mobília e paredes virem atrás dos escom­bros de tijolo, e teve de se encolher e escudar a cara quando uma nuvem de pó alaranjado e cacos lhe caíram em cima.

Tossindo e de olhos semicerrados, o guerreiro abanou a mão livre diante da cara, vendo então o buraco de orla irregular e entalhada no teto, e constatando que a entrada da oficina ficara completamente obstruída pelos escombros. As pessoas no andar superior ainda gri­tavam, agora devidamente assustadas, e ouviam-se do outro lado dos escombros as vozes dos guardas, que gritavam o nome de Aewyre em tons aflitos. O jovem ignorou-os, demasiado abismado com aquilo que vira para responder, e apenas despertou quando ouviu o suave arrastar das botas gastas de Kror pelo chão. O drahreg vinha na sua direção, agora com morte nos seus olhos.

— Matei aqueles homens que estavam comigo — disse com a voz rouca de quem passara a noite nas ruas do canal. — A culpa foi tua, e também vai ser tua se eu matar mais alguém.

— Tu... — disse Aewyre, olhando uma última vez para a des­truição. — Como é que tu...?

— Isto é entre nós — continuou o drahreg. — A Essência da Lâmina. É agora. Mais ninguém.

Kror rosnava mais do que falava, e só então Aewyre se deu conta do quão humano este se tornara aos seus olhos, do quanto se distan­ciara daquilo que tornava os drahregs as mais detestáveis criaturas de Allaryia. A cada passo que Kror dava, libertava-se de tais aparências como um animal molhado que se sacudia, assumindo a crua e selva­gem natureza do Primeiro Pecado.

— Kror, assim não! — suplicou a voz de Sassiras’s na cabeça deste. — A tua perna...!

— Não vaciles agora! — contrapôs Kerhex com uma nota de profunda satisfação na sua demoníaca voz. — Porque achas que a Essência da Lâmina te deu o poder para entrares aqui e ficares preso com este humano? É chegada a hora do combate derradeiro!

— O combate não será justo! Ele tem armadura, e tu estás fraco e ferido...!

— Sandices! — interrompeu o azigoth, sentindo a iminência do seu momento de triunfo. — Tu sempre sentiste que devias ter lutado, mas ele convencia-te a não o fazer! Ele teme-te, e quer enganar-te para poder roubar-te a Essência da Lâmina sem ter de lutar contigo!

— Não!

— Sim!

Como que acicatado pelo aceso debate entre ambas as vozes na sua cabeça, Kror arreganhou os dentes e crispou os dedos nos punhos dos seus alfanges, nos quais manteve um aperto de pulso relaxado para que estes vacilassem como cobras de aço nas suas mãos. Aproximando-se de Aewyre numa pose agachada, o drahreg não parecia minima­mente disposto a conceder a iniciativa ao humano, que retomou a guarda baixa e se afastou da parede, da qual lhe convinha conservar distância de forma a não bater nela com a longa lâmina de Ancalach. Um passo em arco de uma perna flexionada do drahreg, e Aewyre esticou ligeiramente a espada num gesto de provocação, à qual Kror respon­deu com um jogo de pés que não seria de esperar de alguém com a sua lesão. Recolhendo a perna aleijada, bateu em Ancalach com o seu alfange direito e trouxe-a novamente para a frente, conferindo peso à mortífera estocada que desferiu com a arma esquerda. Aewyre salvou-se apenas graças a uma brusca torção dos pulsos e ancas, que lhe deixou os braços cruzados diante da cara, dispondo Ancalach dia­gonalmente entre si e a ponta do alfange. A lâmina resvalou por pouco nos copos da Espada dos Reis, pois as espaldeiras e braçais do arnês de Aewyre tinham-lhe atrapalhado os movimentos. A posição era tudo menos vantajosa, e Aewyre recuou com uma rápida passada, desemaranhando os braços e estendendo-os e à espada para dissuadir Kror de avançar. Não era essa a intenção do drahreg, porém, e este levou novamente a perna aleijada atrás num gesto amplo, visando o joelho do adversário com um golpe que falhou, antes de se recompor e tornar a avançar numa clara tentativa de deixar Aewyre o mais pró­ximo possível da parede.

«Filho da mãe, já me tinha esquecido do quão rápido és...», pensou Aewyre, agora ciente do quanto subestimara as capacidades de Kror desde que Heldrada lhe ferira o joelho, tendo-se habituado a vê-lo mais como um fardo. Sabia que teria de corresponder à intensidade do drahreg se quisesse sair vivo dali.

O buraco no teto continuava a emanar gritos, e Aewyre ouviu os seus homens tentarem desobstruir a entrada com as suas próprias mãos, chamando pelo seu nome. Não lhes pôde dar atenção, pois Kror estava atento à mais pequena abertura e, ironicamente, podia bem vir a ser a armadura que o guerreiro usava a providenciar-lha. Não devido ao peso, mas ao tamanho e forma das grandes espaldeiras, que restrin­giam o movimento dos ombros de Aewyre, o que a seu ver o deixava em pé de igualdade com Kror, apesar do joelho ferido deste. O drahreg parecia ter-se apercebido disso mesmo, pois continuava a avançar ousadamente e com uma intensidade que o jovem nele havia já muito tempo não via. Mantendo a guarda baixa, Aewyre foi dando passadas laterais numa tentativa de se afastar da parede, ponderando quanto à abordagem a tomar para tirar partido das fraquezas de Kror, mas este ia-o acompanhando numa tensa dança compassada. Ambos eram guerreiros pacientes, e agora que estavam empenhados em combate, o «tendão» deixara de interferir e de os acicatar, limitando-se a assistir dos cantos mais recônditos da mente dos dois.

Foi Kror quem quebrou o impasse, avançando de rompante com dois estonteantes molinetes dos alfanges, e então as lâminas começa­ram a cantar, ressoando agudamente pelas paredes da oficina a meio do zumbido dos rebolos e dos baques dos martinetes. Golpes e con­tragolpes, fintas e paradas, os dois adversários percorreram todos os já intimamente familiares passos da sua dança mortífera, antecipando-se um ao outro, sem nunca descruzarem os olhos. O aço reluzia e retinia em seu redor, e cada movimento de um era correspondido pelo outro, como se de duas marionetes ligadas uma à outra se tratasse. Aewyre e Kror sentiam-se quase como dois parceiros de dança a ensaiarem uma coreografia já centenas de vezes repetida, na qual um sabia exatamente como o outro iria dar seguimento ao seu golpe, mas este sabia igualmente como o primeiro iria reagir de acordo, e assim se criou um novo impasse.

Quando deu por si, Aewyre já se encontrava no lado oposto da sala, perto dos rebolos, e assim que Kror ficou entre si e estes, a reação do guerreiro foi imediata e instintiva. Pisou o chão com força com a perna da frente, brandiu Ancalach e trouxe-a acima num iminente altabaixo. Kror não respondeu ao convite do torso exposto do guerreiro, e este avançou a perna esquerda, oferecendo o costado ao drahreg e mudando para uma guarda pendente. Agora com Ancalach de ponta virada para baixo, Aewyre inclinou o torso para a frente e flexionou a perna dianteira, estocando e conferindo alcance adicional ao seu golpe ao deixar uma mão deslizar pelo punho até ao pomo, empurrando-o com a outra. O golpe obrigou Kror a compensar para evitar a viperina ponta da Espada dos Reis, mas ao mesmo tempo fez por não recuar demasiado, temendo ficar preso contra os rebolos. Aewyre aproveitou e, fiando-se algo cegamente na proteção do seu arnês, avançou, girando em si e trazendo Ancalach em arco num golpe lateral. Kror não tirou proveito da ligeira abertura que o movimento lhe proporcio­nara, e aço embateu estridulamente contra aço quando a espada retiniu entre os dois alfanges cruzados. Aewyre cobriu então a distância que os separava com uma única larga passada, aproveitando o instante de indecisão de Kror, quando este se viu confrontado com as alternati­vas de recuar e ficar encostado aos rebolos, ou tentar de alguma forma ripostar ante o avanço do adversário. As lâminas de ambos roçaram umas nas outras, até que os copos encalharam, ficando entre os ofegantes corpos dos seus detentores quando estes fincaram os pés no chão em busca de equilíbrio. Humano e drahreg não se deixaram estar muito tempo em tão comprometedora posição, e cada um flexionou as pernas numa tentativa de sobrepujar o outro e empurrá-lo. Aewyre prevaleceu, não tanto graças à sua altura e peso superiores, mas devido à perna de Kror, que lhe falhou naquele preciso momento. O drahreg foi empurrado para trás e caiu de costas sobre a mesa lateral de um dos rebolos, e Aewyre caiu-lhe em cima, prendendo-o à mesa com o seu corpo, dando então início a uma furiosa contenda corpo a corpo, na qual cada um tentava afastar os braços do outro de forma a criar uma abertura para um golpe.

Houve muito pouco de técnica ou perícia enquanto os dois opo­nentes se debatiam, agarrando e torcendo pulsos, raspando gumes, arrastando os nós dos punhos nas caras um do outro e grunhindo de esforço. Kror surpreendeu Aewyre, usando a perna boa numa tentativa de prender o seu braço esquerdo enquanto o guerreiro tentava manter o alfange esquerdo do drahreg longe de si com Ancalach. O rebolo zumbia ao lado da cabeça de Kror, e as duas lâminas tremiam sobre ele numa disputa pela melhor posição para estocar. Já o braço esquerdo de Aewyre estava a ter maiores dificuldades, pois Kror enganchara-lho pelo cotovelo com a perna, e só os seus dedos crispados no pulso do drahreg lhe impediam de libertar o seu braço com um puxão da coxa. Contudo, o jovem estava a perder essa particular contenda, e os seus dedos começaram a deslizar pelo couro da braceira de Kror, cujo braço se retesou na antecipação de enfiar a ponta do seu alfange pela boca de Aewyre adentro. Os olhos do drahreg chispavam de ódio ver­melho, e este expelia saliva por entre os espaços dos seus dentes fer­rados enquanto respirava. Os de Aewyre estavam arregalados, e as veias nas suas têmporas palpitavam com o esforço, mas os seus dedos continuavam a deslizar pelo couro, e a ponta do alfange aproximou-se um pouco mais da sua cara, trêmula mas decisiva. Torceu as ancas e tentou sacudir Kror para fora da mesa, mas tinha o torso demasiado inclinado para conseguir alçar o drahreg, pelo que tentou em vez disso ameaçá-lo com Ancalach, torcendo-a e rilhando-a contra o gume do alfange numa tentativa de a soltar. Não conseguiu, pois na sua ten­tativa de manter o alfange esquerdo preso, deslizara a lâmina pelos copos deste até à base, de forma a ter mais força no manejo, e Kror mantinha-a firmemente presa. Arquejo após arquejo, a ponta acercava-se, cada vez mais próxima...

Aewyre fez então força para o lado oposto com Ancalach, desistindo de tentar chegar com a lâmina à garganta de Kror, e aproveitou a for­ça com que este lha sustinha com os copos do alfange, prendendo-a contra o rebolo. A pedra áspera rilhou contra a arma, jorrando faíscas ao ser ruidosamente desgastada pelo anciano aço desta, e Kror rosnou de dor e surpresa quando as faúlhas lhe picaram a pele da cara. Essa breve distração permitiu a Aewyre meter-se numa posição mais favo­rável e menos perigosa, mas a contorção de Kror acabou por o dese­quilibrar e fazer com que os dois caíssem ao chão. Com o peso superior conferido pelo arnês, Aewyre começou em vantagem, mas Kror debateu-se como um gato selvagem, batendo com punhos, cotovelos e mesmo a cabeça na armadura do humano, que procurava sobrepujar o adversário através do peso e da força. Plantando os pés na couraça de Aewyre, o drahreg conseguiu por fim libertar-se dele, empurrando-o para longe de si e erguendo-se numa animalesca posição agachada, antes de se lançar uma vez mais sobre Aewyre com rodopiantes al­fanges. Aewyre mal se conseguiu levantar a tempo para suster a tem­pestade de aço que sobre ele se abateu. A lufada de espadeiradas de ambos os lados via-se como pouco mais além de cintilações azeradas no ar, de tão rápidos que os golpes eram, e o retinir das três espadas pautava o ritmo da mortífera dança na qual os dois adversários esta­vam envolvidos. Acompanhavam-nos o constante zumbido dos rebolos e a profunda percussão dos martinetes, cujas batidas não se compara­vam porém aos retumbantes corações de ambos. Agora novamente de pé, tanto um como outro sentiram dificuldades em se impor, recor­rendo às habituais estratégias de manter a distância com Ancalach e tentar cobri-la para melhor uso poder fazer dos alfanges.

Após percorrerem boa parte da oficina num intenso para trás e para a frente, Aewyre e Kror afastaram-se brevemente um do outro, ofegan­tes. Os dois aproveitaram para baixar ligeiramente as armas e soltar alguns dedos para relaxar os braços e os pulsos enquanto se tentavam matar mutuamente com os olhos. Ainda não tinham sofrido um único corte, mas os seus membros e cabeças latejavam de pancadas que tinham recebido durante as suas contendas corpo a corpo, sobretudo os de Kror, que começava também a acusar os rigores da sua desconfortável viagem enquanto prisioneiro. O drahreg estava dorido, mal alimentado e com o peso de pelo menos uma noite sem sono nos olhos, e o surto de adrenalina que até ali o movera começava a escassear. Aewyre notou, dando-se então conta de que a ferocidade de Kror não se devera única e somente à raiva que lhe tinha, mas ao desespero. Vendo que o drahreg começava a fraquejar, vacilando sempre que se apoiava sobre a perna ferida, o guerreiro atacou-o impiedosamente, concentrando os seus golpes no lado direito, forçando dessa forma Kror a apoiar-se na perna esquerda para os aparar. Com as suas rápidas transições entre estocadas e posturas defensivas, o guerreiro não deixou Kror respirar sequer, ata­cando como um predador a cheirar o sangue da presa.

— Vai! Ataca! Agora, que ele está confiante! — praticamente berrava Kerhex na cabeça de Kror, completamente alheio ao fogo que escorria pelas veias dos braços deste e ao chumbo que lhe pesava nos pulmões.

— Diz-lhe que assim não! Há outra forma! — suplicou por sua vez Sassiras’s.

Ainda que concordasse com qualquer das divergentes opiniões dos dois, o drahreg já não tinha forças para agir de acordo com ne­nhuma delas. Estava fraco das semanas que passara a caminhar de muletas, e o esforço das vezes que tivera de combater sem elas fazia-se sentir agora. A adrenalina embotara-lhe a dor e o .cansaço até en­tão, mas o seu corpo não tinha muito mais para dar, e boa parte do pouco que lhe restava fora gasto com a intensidade do combate até então, que mesmo nas melhores condições lhe teria certamente cus­tado. Aewyre também ofegava, mas a vantagem ia do seu lado, pois estava repousado, bem alimentado, e sobretudo não passara parte de uma viagem de seis meses a muletas, e a reta final desta arrastado num carrinho de mão. Quando muito, a força dos seus ataques apenas redobrou, e Kror conseguia apenas ir recuando enquanto fazia o possível para se desviar ou defletir os fulminantes golpes fluidos de Ancalach com os seus alfanges. As suas vãs tentativas de ripostar resultaram apenas em contragolpes que o fizeram tropeçar, e um deles cortou-lhe mesmo o antebraço, abrindo a guarda do drahreg, que Aewyre penetrou com um pontapé no peito. Kror expeliu o ar dos pulmões num único e forçado bufido, cambaleando desajeitadamente para trás e com os alfanges quase pateticamente erguidos diante de si numa tentativa de se proteger.

Ancalach penetrou a frágil defesa, rompendo o couro da armadura de Kror na zona lateral do ventre e mordendo-lhe a carne com a ponta. O drahreg ainda reagiu num gesto de desespero, batendo em Ancalach com um alfange e, com uma rosnadela de raiva, girou em si, desfe­rindo um golpe lateral que lhe deixou as costas completamente expos­tas ao adversário. Aewyre foi surpreso pelo gesto, que o apanhou numa altura em que, na ânsia de terminar o combate com um golpe decisivo, acabara por se estender demasiado. Mal teve tempo para se amaldi­çoar pelo seu descuido, conseguindo apenas encolher a cabeça para dentro do gorjal da sua armadura e oferecer a espaldeira ao golpe, que nela resvalou, apenas não atingindo a cabeça do guerreiro porque o gume deslizou até à borda revirada da peça, encalhando nela. Tendo ouvido a morte tão perto, Aewyre reagiu de imediato, desferindo um maldoso corte no jarrete direito de Kror antes que este se pudesse endireitar, cortando-lhe os tendões e incapacitando-o decisivamente. O drahreg rosnou de dor, arqueando as costas, e afastou-se aos tropeções, oscilando os alfanges a esmo até embater de costas no balcão de pedra contra o qual os martinetes embatiam. Sem força nas pernas para se suster, as suas costas foram deslizando pela face do balcão.

Aewyre deteve-se então a curta distância do seu adversário, contemplando-o com Ancalach de ponta virada para baixo e as placas do arnês a roçarem umas nas outras devido à sua pesada respiração. Com uma perna ferida e a outra inutilizada, o drahreg já não tinha jogo de pés; provavelmente nem se conseguiria mexer. Estava acabado.

— Só para que saibas... — disse, ofegante. — Isto não me dá pra­zer nenhum.

Kror não respondeu, arquejando de dentes cerrados e de pernas inu­tilmente espalhadas pelo chão enquanto se apoiava com um cotovelo sobre o balcão e com o punho no piso, recusando-se terminantemente a largar os alfanges.

— Parece que a Essência da Lâmina se cansou de esperar... — cons­tatou, avançando um passo. — Ainda conseguimos ganhar bastante tempo, mas no fundo, era inevitável que isto acabasse por acontecer, com ou sem a tua perna aleijada. Sabes disso, não sabes?

Kror alçou-se para cima do balcão com a ajuda do braço, apoiando nele as omoplatas, sentindo nos ossos a vibração dos golpes dos marti­netes sobre a pedra.


— Para ti pode não significar nada, mas... desculpa ter-te enga­nado e... bem, traído — pediu o guerreiro, referindo-se ao incidente após a fuga de Arle. — Desculpa, mas eu preciso da Essência da Lâmina mais do que tu. Há demasiadas coisas a dependerem de mim...

— A sério...? — perguntou Kror num inesperado tom escarnecedor, deixando o arfante torso inclinado sobre o balcão enquanto descansava os braços descaídos, de cujas mãos pendiam os lassos al­fanges.

— Sim — respondeu o guerreiro, mexendo os dedos crispados no punho de Ancalach, pronto para desferir o golpe final. — Tenho de te matar para poder vingar o meu pai, e para que outros possam viver.

— Pena — disse o drahreg, com um sardônico sorriso no canto da boca, que fez com que Aewyre franzisse as sobrancelhas.

A sua expressão perplexa rapidamente se converteu numa de pânico, quando Kror apoiou os punhos sobre a pedra e alçou o resto do torso para cima do balcão, posicionando-se diretamente debaixo do martinete de cabeça chata. Aewyre não teve sequer tempo para pensar, e os seus músculos foram impelidos pelo pânico da iminência de ver as suas esperanças e as de Allaryia esmagadas debaixo do impiedoso metal do martelo. Saltando sobre Kror, o guerreiro ficou a agarrar Ancalach com uma mão apenas, empunhando-a em riste, e soltando a outra para amparar a sua queda. Ao cair pesadamente sobre o drahreg, o guerreiro teve apenas a presença de espírito para firmar o pulso e tentar manter a espada direita ao sentir o pomo arrastar-se pela pedra.

Quando o martinete desceu, o impacto foi forte, mas atingiu a ponta de Ancalach num ângulo perfeito, e a espada absorveu-o sem dobrar. O inquebrável metal da lâmina teve repercussões em todo o engenho, que começou a ranger e estalar, o que resultou na quebra das peças que não agüentaram o esforço. Pregos racharam madeira e esta estraçalhou-se com a tensão provocada pelo martinete bloqueado, que ficou a pender frouxa mas pesadamente sobre os dois guerrei­ros, esses ainda paralisados pela impressão de que iriam ser esmagados. Porém, assim que Kror constatou que tal não acontecera, começou imediatamente a estrebuchar debaixo do peso da armadura de Aewyre, revertendo o agarramento nos seus alfanges de forma a ficar com as pontas viradas para dentro, e tentando penetrar as fendas do arnês. Aewyre segurava Ancalach com uma aflita mão, tentando não a me­xer de forma a evitar que o pesado martinete que esta sustinha lhes caísse em cima, cobrindo a nuca com o antebraço livre numa tentativa de se resguardar dos golpes do drahreg.

— Está quieto, seu idiota! Ainda nos matas aos dois! — disse através de tensos dentes cerrados, encolhendo a cabeça no gorjal.

— Morre! — rosnou Kror asperamente, raspando o metal do arnês com as pontas dos seus alfanges.

— Isso! Se morreres, leva-o contigo! — incentivou Kerhex.

— Assim não, Kror! Que tem qualquer um de vocês a ganhar com isto? — quase implorou Sassiras’s.

— Nada! — reconheceu o azigoth. — Tu já nada tens a ganhar com esta situação! Bem te podes assegurar de que esse traidor também perde!

— Ainda podem ganhar os dois! Aquele livro tem qualquer coisa de certeza...!

— Mentiras! Tudo o que ele te contou não passaram de mentiras! Ele quer a Essência da Lâmina para si, só tinha era medo de te enfrentar! — exultou Kerhex.

Kror nem lhes deu atenção, demasiado ocupado a tentar furar um olho a Aewyre ou a descascar-lhe o escalpe. O jovem via-se forçado a pender para a esquerda com o seu ombro, tirando a mobilidade ao braço direito de Kror e agarrando-lhe o outro pelo pulso com o seu esquerdo, enquanto segurava Ancalach com o direito. Kror estorcegava-se, possesso, chegando mesmo a estalar os dentes diante da cara de Aewyre ao tentar arrancar o seu nariz à dentada. O jovem retribuiu com uma cabeçada, que também falhou o seu alvo, encolhendo-se novamente ao sentir o gume de um alfange raspar-lhe a orla da espaldeira.

— Pára! — disse, a sua voz abafada pelo gorjal, perfeitamente ciente de que Kror não se importaria minimamente se ambos morres­sem ali mesmo.

Ao sentir a ponta de um alfange roçar-lhe a nuca, o jovem teve de largar Ancalach, passando a mão direita por cima da cabeça e tentando agarrar às cegas o pulso do adversário. Conseguiu por sorte, e então ficou de barriga para cima sobre Kror, agarrando-lhe os pulsos com as mãos e sendo manipulado pelo adversário como uma marionete metálica enquanto este esbracejava numa tentativa de atingi-lo. A desa­jeitada contenda prolongou-se durante alguns tensos momentos, até que Ancalach, que se encontrava numa precária posição reta a suster o martinete, foi atingida pelos braços de ambos, e a ponta da lâmina deslizou agudamente pela cabeça do enorme martelo, que então caiu sobre o peito de Aewyre. O ímpeto não fora muito, visto que a peça não estava a ser impelida pelo mecanismo e percorrera uma curta distância ao cair, além de que a couraça absorveu a maior parte do choque, mas ainda assim humano e drahreg sentiram-se esmagados pelo impacto. Os dois soltaram sufocados bufidos, mas não sofreram danos de maior, ficando apenas e decididamente presos um ao outro debaixo do peso do martinete.

Kror estrebuchou inicialmente num assomo de pânico, temendo ser esmagado debaixo do seu inimigo, mas ao ver que a pressão não aumentava e que apenas se estava a cansar, deixou-se estar de braços estendidos, respirando a custo. Felizmente, o seu torso encontrava-se numa privilegiada posição entre as espaldeiras e o fraldão de Aewyre, que criavam algum espaço entre ele e a couraça, impedindo-o de sufocar. O guerreiro não tinha semelhantes preocupações, mas tão-pouco via forma de conseguir sair da situação, pois não via o que Kror estava a aprontar e tinha de manter o pescoço erguido, não fos­se o drahreg tentar morder-lhe o escalpe ou começar a dar-lhe cabe­çadas na nuca. Com o mecanismo partido, os rebolos tinham cessado de rodar e os martinetes estavam imóveis, e o interior da oficina ficara silencioso, tendo como único ruído de fundo a pesada respi­ração dos dois oponentes e aquele que devia ser o desesperado esca­var dos guardas do outro lado da porta, enquanto estes tentavam desobstruir a entrada.

«Perfeito», pensou o guerreiro, sentindo no pescoço o bafo quente e úmido de Kror. «Agora como é que saio daqui?»

Em resposta veio da janela o ruído de metal a raspar contra pedra, e foi nessa direção que Aewyre olhou, ficando surpreendido ao ver um dos seus homens arrastar-se por ela adentro, tendo removido as mais volumosas peças da sua armadura para conseguir entrar, incluin­do o elmo.

— Meu senhor? — perguntou, começando aflitamente a puxar-se para dentro da oficina ao ver o predicamento em que este se encon­trava. — Lorde Aewyre! Venham! Tirem as armaduras! Venham! — gritou em pânico, estatelando-se no piso ao praticamente impelir-se para o interior.

Aewyre sentiu um misto de alívio e desilusão com a inesperada ajuda, pois a mera presença de um dos seus homens significava que a vitória que estivera ao alcance da sua mão era agora nula. Ainda que a Essência da Lâmina tivesse perdido a paciência, nunca se tornaria um Portador se matasse Kror com ajuda externa...

— Meu senhor! Estais bem? — perguntou o aflito guarda, camba­leando desajeitadamente para os seus pés. — Em nome dos deuses, como...? É esse o assassino?

— Estou bem. Só preciso que me tirem esta coisa de cima — assegurou, acrescentando de seguida com um tom desiludido: — Tira-lhe as armas. E depois, enquanto esperamos que os outros cheguem, tapa-lhe a cara para eu poder pousar a cabeça, por favor.

As veias e os tendões do pescoço do jovem estavam já salientes de ter de suster a cabeça, e o guarda seguiu prontamente as instruções. Kror não resistiu muito, reconhecendo a futilidade da situação, e uma vez desarmado e com a cara coberta pelas manoplas do seu homem, Aewyre pôde por fim pousar a nuca, soltando um aliviado e frustrado suspiro.

«De volta ao mesmo», pensou, ignorando as perguntas do guarda, que mal ouviu. Kror forçara-o a agir, pois se tivesse morrido esma­gado debaixo do martinete, teria levado consigo a única esperança de Aewyre vencer Seltor. E agora que estava verdadeiramente inutilizado de ambas as pernas, não se conseguiria sequer opor a ele num com­bate justo, sentia-o. Mesmo o «tendão» afrouxara, como para lhe dar a entender que o combate acabara uma vez mais sem um vencedor. «Sacana esperto.»

Como se pudesse ouvir os seus pensamentos, Kror pronunciou-se através dos dedos das manoplas do guarda que lhe tapava a cara com força, torcendo-lhe o nariz e a boca, e obrigando-o a falar com lábios comprimidos.

— Se eu não fico com ela... — disse, referindo-se à Essência da Lâmina. — Tu também não.

 

Rodeado e mais que suplantado em número, Quenestil pouco mais pôde fazer além de ir olhando à sua volta de arco empunhado, desa­fiando o primeiro ulkatr a avançar e morrer. Estes não pareciam ter pressa em atacar, contudo, e permaneciam nas mesmas posições, obser­vando o eahan em absoluto silêncio. Virando-se para um lado e para outro, o shura não via qualquer fuga possível da bacia vulcânica na qual se encontrava, e a rampa pela qual subira estava agora bloqueada pelos dois ulkatr que por ela o tinham perseguido, e em cujo encalço pareciam vir outros. Eram esses dois os que se encontravam mais pró­ximos, mas tal como os outros, limitavam-se a olhar para Quenestil e não pareciam tencionar aproximar-se mais.

«Vamos! Estão à espera de que?», pensou o eahan para consigo, con­formado a vender cara a sua pele e de músculos retesados em ante­cipação. A sua respiração ainda não amainara desde que subira a rampa, e tinha a pele repuxada sobre os nós dos seus punhos debaixo das luvas rasgadas.

O estranho impasse prolongou-se durante aquilo que pareceu ser uma eternidade, e os braços de Quenestil começaram a arder com a tensão, mas nem mesmo a sua postura defensiva pareceu incentivar os seus algozes a avançarem. Não foi senão quando o eahan já julgava que os ulkatr tencionavam deixá-lo exaurir-se sozinho, que um deles se separou do grupo, desaparecendo atrás da borda da bacia. Quenes­til olhou novamente à sua volta, descrevendo apertados círculos com os pés, mas nenhum dos outros se mexeu, até que por fim um espé­cime particularmente corpulento deu os primeiros passos para descer. O shura visou-o imediatamente com o arco, retesando o fio, mas o ulkatr não se deixou intimidar e continuou a descer com as pernas de lado, vindo na sua direção. Em termos de pelagem e coloração era igual aos seus companheiros, com pêlo esbranquiçado e listras negras, orelhas com tufos, rufo facial e uma espessa juba curta entrançada. Usava um capelo de grossa pele de morsa aos ombros, mas fora isso caminhava nu e desarmado, ostentando com orgulho as cicatrizes peladas ao longo do seu torso. Não parecia vir com intenções agres­sivas, mas Quenestil não baixou a guarda, mantendo também debaixo de olho os outros dois ulkatr que tinham subido a rampa, aos quais entretanto se juntara outro par.

A criatura deteve-se a um mero passo de Quenestil, olhando-o com uma indecifrável expressão nas suas animalescas feições, que transmi­tiam um ar enganosamente ameaçador devido a um dos lábios ras­gados, que lhe expunham os caninos direitos. O ulkatr parecia ao mesmo tempo intrigado e enfadado, nada preocupado com a flecha assestada ao seu peito, e Quenestil baixou ligeiramente o arco à laia de benefício da dúvida, embora ainda pudesse perfeitamente atingir uma artéria na perna, caso necessário fosse. Os dois olharam-se então, e antes que Quenestil ponderasse perguntar se falava Hjrutmalv, o ulkatr tomou a iniciativa de quebrar o gelo.

— Pouhuar... kaelio? — rosnou, debatendo-se visivelmente com a frase, que lembrou ao eahan a língua falada pelos skrimmen. O seu aparato vocal parecia desadequado a emitir semelhantes sons, contudo, e era difícil ter a certeza.

— Não falo — respondeu Quenestil, abanando a cabeça. — Hjrut­malv?

O ulkatr emulou o gesto, olhando Quenestil de seguida dos pés à cabeça, como se o estivesse a avaliar, uma sensação à qual o shura se habituara nos Fiordes. Sentiu um afloramento de raiva no peito ao ser novamente apreciado como uma cabeça de gado, mas embora não con­seguisse evitar uma tensa exalação pelas narinas, estava perfeitamente ciente de que aquela não era a melhor altura para manifestar o seu desagrado. Porém, para grande surpresa sua, o ulkatr acabou sim­plesmente por sacudir a cabeça por cima do seu ombro, indicando ao eahan que o devia seguir, e virou-lhe as costas para subir a bacia. Desconcertado, Quenestil não se mexeu, olhando para trás para se certificar de que não se tratava de um engodo, mas os restantes ulkatr continuavam imóveis, mesmo os dois que tinham subido pela rampa. O que viera a seu encontro olhou por cima do ombro, repetindo o gesto anterior antes de continuar a andar, e Quenestil acabou por ir atrás dele, virando-se nova e bruscamente para trás quando os outros dois o começaram a seguir. As suas posturas estavam perfeitamente relaxadas, contudo, e não estavam sequer a disfarçar os seus gestos e intenções, nem sequer olhando para ele enquanto andavam, e o eahan limitou-se a fazer como lhe fora indicado. Embora ficasse com o arco na mão, acabou por se sentir ridículo a andar com ele e uma flecha empunhados enquanto subia a bacia, e guardou-os aos dois.

Uma vez chegado ao cimo da bacia, constatou que os ulkatr estavam a formar uma fila, e que se preparavam para subir o vulcão. A encosta deste tinha pouco onde assentar os pés, farelenta e escor­regadia, mas havia ao longo dela um irregular trilho basáltico para o qual o grupo se começou a encaminhar. Os restantes ulkatr olharam-no eles também com expressões que Quenestil apenas conseguiu definir como entediadas, sem um mínimo cintilar de curiosidade nos seus olhos escuros, caminhando como se aquilo de uma mera excursão se tratasse. Conformado, Quenestil foi-lhes atrás, ficando no meio da fila sem que ninguém trocasse palavra com ele, e foi então escoltado pelo seu bizarro séquito pela encosta do vulcão acima.

«Bom, desta confesso que não estava à espera», pensou. «Depois de toda aquela conversa sobre a raiva...»

Ao contrário do humano e da criatura inumana que encontrara, os humanóides que agora o acompanhavam pareciam tudo menos agitados, o que deixava o eahan algo incerto quanto às palavras de Loevrik. Afinal, que estava ele ali a fazer?

Alheios às suas dúvidas, os ulkatr continuaram a sua caminhada em silêncio, sem sequer falarem uns com os outros, raspando a pedra pomes com as garras dos seus pés cobertos pela pelagem lanosa que lhes caía das pernas. O terreno ficava mais sólido e escabroso à medida que iam subindo, todo ele rochas escuras entremeadas com um doen­tio vermelho, num tom que mais lembrava uma ferida necrosada. Quenestil olhou para trás, vendo a extensa solfatara desaparecer atrás da encosta conforme iam avançando, mas por alguma razão não se sentiu mais apreensivo ali — rodeado por selvagens humanóides que o poderiam esquartejar a qualquer momento — do que se sentira em baixo enquanto estivera a explorar as desconhecidas redondezas. Con­forme subiam, a temperatura descia, e a um ritmo que a de todo impressionante altitude do vulcão mal justificava, apesar do vento que se levantara pouco após o início da caminhada. Ia-se perdendo a impressão de calor latente que se sentia em baixo, e a própria pedra parecia ir esfriando à medida que a desnuda pedra de cor doentia dava lugar à neve, que foi espessando a cada passo que davam. Por norma, Quenestil perdia-se no ambiente que o rodeava enquanto caminhava, mas aquela paisagem desolada de vida calcinada e congelada tinha nele o efeito oposto, rejeitando a sua imersão nele, o que deixou o eahan desperto durante o estirão, que pareceu prolongar-se eternamente.

Sem nada melhor para fazer, foi olhando revezadamente para os ulkatr, que não lhe estavam a dar a mínima atenção, e cuja pelagem os protegia do frio que começava a fazer-se sentir. Havia neles um enfado quase rotineiro, como se Quenestil não tivesse sido o primeiro a ser apanhado naquela ilha, o que explicava o kahrkr que encontrara, mas pouco mais. Se não eram eles o desafio que o esperava na ilha, teria sido o kahrkr escaldado? Não fora uma luta propriamente fácil, mas tão-pouco justificava a reputação de Eihroin, e também não expli­cava as gravuras que o shura encontrara na caverna. Nessas, os ulkatr não pareciam ter interagido de forma alguma com os kahrkr que tinham visitado a ilha, mas estavam agora a escoltá-lo para um destino desconhecido, presumivelmente para o cerne do vulcão. Não era uma situação que lhe agradasse, mas se os humanóides o quisessem morto, já poderiam ter tratado do assunto, pelo que deveriam ter outras intenções... a menos que fosse uma morte ritual o seu objetivo.

A noção fez com que Quenestil hesitasse um passo e analisasse rapi­damente as possíveis vias de escape que tinha. Com ulkatr à sua frente e atrás, e uma no mínimo desagradável queda aos trambolhões pela alcantilada encosta abaixo, a sua única alternativa minimamente viá­vel seria surpreender e tirar do seu caminho os ulkatr que vinham na retaguarda. Estes eram contudo mais rápidos que ele, e numa corrida a descer apanhá-lo-iam facilmente, ainda que eventualmente conse­guisse matar um ou dois com o arco antes de lhe caírem em cima. Nenhuma das alternativas era particularmente vantajosa, mas antes que Quenestil pudesse decidir se eram ou não preferíveis à possibi­lidade de se vir cercado e ser subseqüentemente sacrificado, a escolta chegou a uma passagem entre as duas metades quebradas de um lençol de lava seca. Formavam um túnel no qual os ulkatr entraram antes que o shura conseguisse tomar uma decisão, e este teve de avançar com eles, entregando-se conformadamente às mãos do destino. Olhando para cima através do espaço entre o lençol quebrado, cons­tatou que o céu ruborizava e que estava a entardecer, o que, de acordo com a sua suspeita de um sacrifício ritual, não augurava nada de bom. Quenestil ficou mais apreensivo ainda quando a abertura desapareceu e entraram num escuro túnel basáltico, que subia até um tênue foco de luz na outra ponta. Cheirava a pedra molhada e a pêlo de animal, e o ruído que as unhas dos ulkatr faziam contra a pedra áspera ecoava pelas paredes enquanto andavam, acompanhando o grupo até à desembocadura do túnel, que ia dar diretamente ao cerne do vulcão. Para grande surpresa de Quenestil, o piso era de gelo e neve, e embora não tivesse visto cirros no céu durante a escalada ao vulcão, havia flocos brancos a flutuarem pelo ar, granindo de branco o cenário com o qual o eahan então se deparou.

Cercada pelas paredes do vulcão, aquela que devia ser uma caldeira estava revestida por uma camada de gelo coberta por neve, que tor­nava impossível dizer se se tratava de água de chuva congelada ou uma massa de gelo a tamponar o Caldeirão. Era uma área extensa, ao longo de cuja circunferência estavam erigidas uma série de estranhas habitações compostas dos ossos de um qualquer enorme animal, pro­vavelmente as tais baleias de que ouvira falar. Pouco mais que arma­ções de formas bizarras revestidas por peles, aparentemente alojavam uma pequena povoação de ulkatr, boa parte dos quais se encontrava fora delas, aguardando a chegada do grupo. Quenestil não viu crias entre eles, nem identificou nenhuma das figuras como uma fêmea, pois pareciam-lhe demasiado corpulentos e todos igualmente peludos. Em oposição a esses esparsos sinais de vida, o centro da caldeira estava desocupado, excetuando a presença daquilo que parecia ser um coreto — na verdade, pouco mais além de quatro grandes ossos cinzelados que se cruzavam em cima, atados nas pontas por fios de couro. Fora isso, o local resumia-se praticamente a uma expansão de gelo cir­cunscrita pelas rugosas paredes do vulcão, e a sua vazia amplitude deixou Quenestil mais relaxado, pois não era o local mais adequado para uma emboscada. Mesmo assim, não baixou a guarda quando a sua escolta o levou até ao agrupamento de ulkatr mais próximo, que o aguardavam com um ar ligeiramente mais interessado. Os seus nari­zes mexeram-se quando cheiraram o ar em busca do odor do eahan, que de alguma forma os pareceu convencer. Estavam apenas armados com as suas garras e presas e não transmitiam a mínima hostilidade, mas Quenestil não gostou de ver algumas armas de madeira, osso e obsidiana dentro das habitações, ou dependuradas dos ossos destas. Nem mesmo então trocaram uma única palavra entre si, limitando-se a olhar para o estranho enquanto as suas jubas e rufos iam ficando polvilhados com flocos de neve. O eahan não soube bem para que lado se virar e que cara fitar, pois nenhum dos presentes se destacava de entre os demais, e o ulkatr das cicatrizes não estava à vista. Todavia, quando Quenestil abriu a boca para dirigir palavra a todos os pre­sentes, estes viraram-se para trás ao ouvirem o ruído de peles a serem desajeitadamente puxadas de uma das habitações.

Dela saiu um monte de peles e penduricalhos, vergado debaixo dos quais se encontrava um ulkatr com um cajado de osso empunhado numa mão e o outro braço com a parte superior do crânio de uma morsa nele atravessado ao nível do antebraço, cosido à braceira de couro. Trazia às costas uma armação de rena igual à que a kuvamora usara, tinha a branca juba toda ela enrolada em pesadas e sujas tran­cas, e sobre as peles exibia bacias e espáduas de mais que um animal, formando um bizarro meio arnês ósseo que certamente lhe pesava. A figura cambaleou tropegamente na sua direção, esbracejando em gestos incomodados, como se antecipasse o ter de tirar os jovens e for­tes ulkatr da sua frente, mas estes abriram-lhe respeitosamente cami­nho, deixando-o passar e achegar-se a Quenestil. O eahan franziu ligeiramente o nariz ante o rançoso odor de pêlo sujo da velha criatura — o único cuja pelagem era verdadeiramente branca, na qual as listras negras sobressaíam sobremodo — mas não reagiu à sua aproximação, reconhecendo-o como a figura de autoridade que ali aparentemente era enquanto xamã.

O velho ulkatr ficou quase opressivamente próximo de Quenestil, farejando-o de forma brusca e ruidosa sem o mirar com os olhos, um dos quais tinha uma vítrea catarata. Faltavam-lhe dentes, a avaliar pelas depressões nos seus lábios, o que se veio a confirmar quando abriu a boca para falar, exalando um hálito pestilento da boca com cotos negros entre incisivos amarelados. O eahan não percebeu e fez que não com a cabeça, tentando não respirar pelo nariz enquanto a criatura o abordava. Esta mostrou-se insatisfeita com a resposta, e fez um gesto ascendente com a mão de unhas gastas, chocalhando os penduricalhos das suas peles ao sacudir a cabeça com um resfolego. Quenestil franziu as ruivas sobrancelhas, sem fazer idéia daquilo que o xamã poderia querer, e este emitiu um ruído exasperado, agarrando-o pela camisa com força.

O eahan reagiu, esbofeteando o braço do ulkatr, e foi prontamente segurado por outros dois. Julgando então confirmados os seus receios, o eahan debateu-se vigorosamente, pisando o pé de um dos ulkatr e enfiando o cotovelo no esterno do outro enquanto desembainhava o seu facalhão. O xamã afastou-se com ar incomodado enquanto uma chuva de braços listrados caiu sobre Quenestil numa tentativa de o refrear. Convencido de que pretendiam usá-lo como vítima sacrificial, o shura debateu-se ferozmente, usando pés, punho, joelhos e cotovelos quando o braço que empunhava o facalhão foi imobilizado por dois pares de mãos, fazendo vários ulkatr rosnarem agudamente, agarrados aos focinhos. Porém, não tardou a ser sobrepujado pelos números e ver-se sufocado entre um nó de braços peludos, alguns dos quais lhe apertaram o pulso até largar o facalhão, que se enterrou parcialmente na neve no chão ao cair. Quenestil continuou a debater-se, mas a força de meia dúzia de ulkatr restringia os seus movimentos, deixando-o a grunhir e arfar com as veias do pescoço a latejarem. O xamã tornou então a aproximar-se e estendeu a mão na direção do pescoço de Que­nestil, que tentou mordê-lo em desespero de causa, sendo de seguida agarrado em ambos os lados da cabeça por um par de mãos peludas, cujas garras se lhe fincaram nas têmporas e nos malares.

De narinas frementes e dentes arreganhados sobre o lábio inferior, o eahan fitou o xamã com fútil ameaça no seu olhar, e este enfiou-lhe os dedos no colarinho, puxando-lhe a camisa para baixo. Quenestil debateu-se com um derradeiro jorro de adrenalina, sacudindo o amon­toar de ulkatr que o sustinham, mas estes mantiveram-no firmemente imobilizado, e o xamã levou de seguida a mão ao retesado pescoço do shura, agarrando o seu colar e puxando-o até o fio de couro ficar rete­sado. Quenestil deixou momentaneamente de fazer força, ficando apenas de surpresos músculos tensos com o inesperado gesto, olhan­do ofegante para o velho ulkatr, que estudava atentamente para o dente de volverino agora na palma da sua mão.

— Karkkayu... — rosnou este, e Quenestil estreitou os olhos ao ouvir a palavra, a mesma que a kuvamora usara na sua presença ao ver o dente.

— Kuvamora? — indagou o eahan.

O xamã largou o colar, disse umas palavras que Quenestil não com­preendeu, e indicou aos outros que o soltassem, o que estes fizeram com prudente vagar. O shura não reagiu e esperou até que todos os ulkatr o tivessem largado antes de se ajoelhar para pegar lentamente no seu facalhão, que de seguida embainhou debaixo do olhar atento dos humanóides. Por sua vez, o xamã afastou-se, ordenando algo a um dos ulkatr e indicando ao eahan que o seguisse, o que este fez ape­nas após olhar desconfiadamente para os restantes, que se deixaram estar no mesmo sítio, serenos como se nada se tivesse passado, mesmo os que tinham sido por ele agredidos. O xamã dirigia-se à sua habi­tação, dentro da qual desapareceu por breves instantes após puxar desajeitadamente a pele da entrada. Do interior vieram ruídos apres­sados de alguém que remexia as suas posses, e Quenestil aguardou no exterior, ainda incerto quanto àquilo que ali dele se esperava. Os outros ulkatr permaneceram onde estavam, sem nunca tirarem os olhos das costas de Quenestil enquanto este esperava, flexionando os expectantes punhos e olhando um pouco mais à volta. Não havia outros sinais de vida na gélida caldeira, nem qualquer foco de atividade além do aglomerado de ulkatr que o observavam. Os meios de subsistência pareciam ser escassos e o ambiente da ilha era tudo menos acolhedor, o que, juntamente com a ausência de fêmeas e crias, fez com que o eahan duvidasse de que aquela fosse uma verdadeira povoação. Qual seria o propósito daqueles ulkatr, e porque o enviara Ihjseorn para ali, se até agora tudo indicava que estes estavam aliados com os skrimmen?

Entretanto, o indivíduo que fora buscar algo a mando do xamã veio na sua direção, postando-se ao lado de Quenestil enquanto esperava ele também que o xamã encontrasse aquilo que procurava. Quando o velho ulkatr por fim emergiu da sua periclitante habitação, trazia outros colares na sua mão livre, que estendeu na direção do eahan, chocalhando-os perto da cara deste enquanto rosnava palavras incom­preensíveis.

— Não percebo — disse o shura.

O xamã insistiu, agitando os colares com mais força dos seus fios de couro desgastado, e Quenestil olhou-os com mais atenção, vendo que deles pendiam uma série de dentes de animais. Não soube o que pensar, se aquilo seria uma ameaça ou uma advertência, mas não gos­tou das implicações de tal gesto e deixou isso bem claro na forma como olhou para o ulkatr. Por sua vez, este lançou-se numa autêntica dia­tribe, cujas palavras Quenestil não conseguia compreender, mas mesmo com o seu timbre animalesco era possível nelas descortinar um tom indubitavelmente desdenhoso. O eahan manteve a expressão enquanto o ulkatr ia falando, gesticulando fervorosamente numa vã tentativa de se fazer entender. Chegou mesmo a fazer desenhos na neve com a ponta do seu ossudo cajado, ilustrando as suas palavras com toscos e crípticos diagramas e indecifráveis figuras, tudo isto enquanto Quenestil ia fazendo que não com a cabeça, por falta de algo melhor para dizer. Ainda assim, o xamã insistiu, acocorando-se com uma mão agarrada ao cajado e usando a outra para apagar o que até então fizera, traçan­do desenhos mais ininteligíveis ainda com os dedos. Foi-lhe mais difícil distingui-los que aos desenhos que vira na parede do túnel, talvez devido à má visão ou debilidade dos dedos do velho xamã, que contudo continuou a rabiscar na neve com as garras, apontando para elas e para Quenestil alternadamente. Ao ver que este continuava a aba­nar negativamente a cabeça, o ulkatr desistiu com uma rosnadela, chutando neve sobre os rabiscos e achegando-se ao eahan de uma forma muito pouco respeitosa para com o espaço pessoal deste. Quenestil recuou ligeiramente o pescoço, puxando o queixo para dentro mas sem tirar os olhos dos do xamã, que o fitou com um brilho intenso no olho da catarata enquanto respirava ruidosamente pelo nariz achatado, fazendo as pontas dos cabelos do eahan agitarem-se.

— Tuula — rosnou, chocalhando os seus penduricalhos ao mexer a mão para perto da cara de Quenestil, deixando-a de dedos curvados e garras bem salientes debaixo do seu nariz enquanto os mexia. — Tuula pakaala...

— Não percebo... — repetiu Quenestil, enquanto o ulkatr subia e descia com o braço, emulando movimentos bruxuleantes e con­tinuando com a sua críptica ladainha. — Fogo? Yld?

Frustrado, o ulkatr sacudiu as trancas e dispensou Quenestil com um gesto brusco do braço, virando-lhe as costas e dirigindo-se nova­mente à sua habitação. Pelo caminho, pareceu dar instruções ao outro ulkatr que acompanhara os procedimentos, e esse assentiu, virando-se para o eahan e oferecendo-lhe o embrulho de pele que trazia nas mãos. Quenestil hesitou, mas acabou por aceitar, sendo-lhe de seguida indicado que seguisse o seu acompanhante antes que pudesse tentar ver de que se tratava ao certo a oferenda. O ulkatr caminhou calma­mente até ao coreto, sempre debaixo do olhar dos outros, que obser­vavam com a entediada familiaridade de quem já por várias vezes vira a mesma cena.

Não havia nada de particularmente distinto no coreto, nada no gelo e neve entre as costelas de baleia que divergisse do resto do cenário à volta. Mesmo quando se aproximou, Quenestil não foi capaz de deci­frar os símbolos cinzelados nos ossos, cuja antigüidade estava neles tingida a amarelo, mas era evidente que delimitavam um local de importância. Olhando à volta, o eahan confirmou que estava precisa­mente no centro da caldeira do vulcão, a uma distância respeitável de todas as habitações dos ulkatr. Não havia amuletos nem talismãs dependurados das costelas, nem quaisquer marcações rituais além das que tinham sido gravadas nos ossos, e a periclitante armação mais parecia vetada ao abandono. Quenestil tentou tocar numa das costelas para ver se nelas sentia algo mais, mas foi interrompido pelo ulkatr que o acompanhava, e que lhe indicou através de gestos que se sen­tasse ou ajoelhasse no meio das costelas. O eahan hesitou, mas não leu qualquer má intenção no inexpressivo olhar da criatura, que também não parecia estar a fazer aquilo pela primeira vez, e acabou por passar com a cabeça debaixo de um dos arcos formados pelos grandes ossos. Olhou em volta com a mão livre apoiada sobre uma costela e com o corpo fora do limiar, certificando-se de que a armação não poderia de alguma forma ser uma armadilha. Uma vez satisfeito, meteu-se entre os ossos e ajoelhou-se na neve, segurando ao colo o embrulho de couro enquanto aguardava as próximas instruções, que tardaram em vir. O ulkatr ficou aparentemente a vigiá-lo enquanto esperava que o xamã regressasse, e Quenestil foi olhando em redor, constatando que os restantes ulkatr permaneciam no mesmo sítio, sem qualquer intenção aparente de avançar ou de o cercar.

Quando o velho xamã por fim saiu do seu casebre, veio a coxear, pois não tinha consigo a bengala, empunhando em seu lugar uma lança com ambas as mãos. O couro do embrulho que Quenestil agarrava rangeu quando o eahan cerrou os punhos, tomado de novas suspeições de que toda a situação ainda poderia levar ao sacrifício ritual que suspeitara. A linguagem corporal dos ulkatr dizia o contrário, todavia, e o shura manteve-se alerta mas calmo quando o xamã veio a seu encontro. O seu olhar recaiu sobre a lança nas peludas mãos, intrigado pela quase reverência com a qual o xamã a segurava, e pela patente antigüidade daquela que, apesar do seu aspecto cerimonial, certamente também serviria como arma com grande facilidade. Tinha uma haste relativamente curta, e esta era feita de madeira com estranhos veios vermelhos, em cuja extremidade se encontrava cravada e atada uma ponta de obsidiana preta como piche. Debaixo desta pendiam fios de couro com contas de uma cor que lhe lembrou o âmbar que o druida azul lhe oferecera e a Slayra no fim da sua travessia até Tanarch.

O xamã ofereceu-lha estendida sobre ambas as mãos, erguendo-a ligeiramente para dar a entender que devia pegar nela, e Quenestil acedeu, agarrando a haste com dedos hesitantes. A madeira estava fria ao toque, mortiça como tudo o resto naquela desolada ilha, mas o gume da luzidia ponta de obsidiana era afiado o suficiente para descascar uma uva. O eahan questionou-se quanto ao que deveria fazer com ela, e ergueu o interrogador olhar ao xamã, que uniu os dois pu­nhos fechados, um sobre o outro, mexendo-os aos dois num movi­mento descendente.

— Enfiá-la no gelo? — indagou o shura de cenho franzido, bai­xando a ponta da lança como para confirmar.

O xamã fez que sim com a cabeça, mas antes que Quenestil pudesse fazer como lhe fora instruído, estendeu a mão na sua direção para o reter, indicando-lhe que esperasse com a palma aberta.

— O que foi agora? — indagou o eahan, sendo-lhe então indicado que abrisse o embrulho de couro que pousara no chão.

Quenestil assim fez, descobrindo uma posta de carne esbranquiçada orlada de castanho, cujo cheiro desprendido lhe bafejou a cara, acometendo-o com uma náusea. O eahan virou a cara de nariz enru­gado com o odor a peixe podre, mas a sua manifestação de desagrado não convenceu o velho ulkatr, que o instou a comer. Quenestil retri­buiu com um zangado olhar incrédulo, como se achassem que era estú­pido o suficiente para se deixar envenenar, mas o xamã repetiu o gesto, insistente. Por fim, fungando com tom desconfiado e olhando uma última vez para o grupo de ulkatr à distância, o eahan acabou por levar a odorífera posta à boca e trincou-a, esforçando-se por não respirar pelo nariz. Ajudou até ter de respirar, altura na qual o intragável sabor do peixe lhe contorceu a cara numa agoniada careta ao mastigar o rijo naco, que lhe vincou mais ainda a face quando o eahan engoliu. De boca aberta e língua de fora, Quenestil tossiu e vomitou em seco, temendo que o hediondo pedaço de podridão saísse por onde acabara de entrar, mas não foi por tal não chegar a acontecer que se sentiu aliviado. Olhou para o xamã de abespinhados olhos semicerrados, mas não havia qualquer divertimento no focinho deste, nem no do outro ulkatr que ali se encontrava. Antes pelo contrário, parecia mais sério ainda e incitava-o a comer o resto, rosnando impacientemente enquan­to o seu mais jovem conterrâneo se limitava a observar de braços cruzados com toda a naturalidade do mundo. O palato de Quenestil rebelava-se contra a noção de tornar a trincar o abjeto peixe, mas rapi­damente se tornou evidente que este fazia parte de alguma espécie de ritual, e o eahan acabou por suspirar de bochechas cheias e erguer novamente o pedaço de carne esbranquiçada. Ficou a olhar para ele durante uns enojados momentos antes de respirar bem fundo e o en­fiar na boca, rasgando e mal mastigando, limitando-se a engolir os pedaços sofregamente para não ter que sentir o sabor antes de ter tra­gado o naco inteiro. Os ulkatr acenaram com as cabeças em aprovação, e o mais jovem retirou-se por fim, deixando o xamã a observar Que­nestil enquanto o eahan tossia em seco de gatas, com olhos lacrimejantes e a pingar saliva da boca. Quando recuperou, esfregou os lábios com as costas da mão enluvada e olhou com cara enjoada para o velho ulkatr. Este não se compadeceu minimamente, e apontou para a lança, repetindo os gestos que davam a entender que devia espetá-la na neve. Quenestil respirou fundo para combater a náusea enquanto ponderava qual poderia ser o significado ritual de comer carne podre, mas o xamã insistiu como se estivesse a lidar com uma criança queixosa. Vendo que nada lhe seria explicado, e como estava ali para obter respostas, o shura acabou por aquiescer. Empunhou a lança com as duas mãos, ergueu-a sobre a cabeça e, com um último olhar dirigido ao xamã, cravou a lança no gelo com um grunhido, dei­xando-se então estar ajoelhado à espera de que algo acontecesse.

Nada. Nenhum ruído, nenhuma emboscada, nenhuma contração de vômito, nem sequer uma reação da parte do velho ulkatr, que se limi­tou a observar. Quenestil largou a haste, levou as mãos às ancas e retri­buiu com um olhar desconfiado, mas o xamã limitou-se a chocalhar os penduricalhos ao acenar aprovadoramente com a cabeça, virando-lhe então as costas e retirando-se como se a sua tarefa ali estivesse cumprida.

— Ei! — chamou o eahan, esfregando os olhos turvos com a mão, julgando tratar-se de lágrimas aquilo que o estava a ofuscar, mas a sua visão não melhorou. — O que...?

O mundo à sua volta tornou-se fosco, e, por mais que piscasse os olhos, não conseguia recuperar a nitidez, cuja falta não tardou a tra­duzir-se em ligeiras tonturas. De coração repentinamente retumbante, o eahan tentou desenterrar os joelhos da neve para se erguer, mas apenas conseguiu arrastá-los e à sua mão pela farelenta carpete branca, caindo de lado ao chão. A sua primeira impressão foi a de que fora de fato envenenado, e desembainhou desajeitadamente o facalhão num gesto preventivo, mas nenhum dos ulkatr se aproximava, e o xamã conti­nuava simplesmente a andar, embora agora houvesse dois dele. Quando o seu estômago se começou a rebelar, o eahan temeu mesmo o pior, sobretudo ao ouvir a sua própria voz soar-lhe arrastada e salivada enquanto praguejava e chamava em vão pelo velho ulkatr. A armação de costelas parecia estar a fechar-se sobre si, e Quenestil esperneou e esbracejou, tentando arrastar-se para fora dela, mas um violento vagado fê-lo cair de cara na neve, altura na qual o mundo pareceu girar à sua volta. Desorientado, o eahan levantou a pesada cabeça e esputou cuspe branco, que escorreu pelas mechas soltas de cabelo pendentes diante da sua cara, arrastado pelo peso dos cristais de gelo a ele colado. Sacudiu a cabeça numa derradeira tentativa de clarear a visão enquanto erguia o torso a custo com os braços, mas de nada lhe serviu e ficou apenas a olhar turvamente em frente de boca descaída. O sangue rugia-lhe aos ouvidos, bombeado pelas suas palpitantes têmporas, e a meio do seu delírio, Quenestil teve a impressão de que o ruído estava a aumentar de intensidade, e que a sua cabeça iria rebentar.

Porém, o ruído não provinha do interior dos seus ouvidos, mas de fora, e o shura ainda teve a presença de espírito para tentar focar o olhar além da armação de costelas. Embora aparecessem borrados na sua visão, os flocos de neve não mais pareciam estar simplesmente a flutuar, mas sim a serem violentamente arrastados por rajadas de vento, que Quenestil apenas então sentiu a sacudir os seus cabelos. Algo ecoava pelas pétreas paredes da caldeira, algo semelhante à distante marulha do oceano, na qual havia também uma meia voz de outros tantos ruídos, um burburinho afogado que ansiava por se libertar. Completamente desorientado e sem saber se estava ou não a delirar, o eahan conseguiu apenas erguer-se o suficiente para cair de costas ao chão de facalhão desajeitadamente empunhado. Os seus olhos toldados diziam-lhe que estava sozinho debaixo das costelas, mas os seus instintos sobrecarregavam-lhe os sentidos com a quase afli­tiva certeza de que havia algo mais na caldeira. Essa invisa presença não se revelou fisicamente, mas a sua manifestação era bem audível, aumentando de intensidade até ao retumbante bramido de um coro de ogroblins, aos quais se juntou o rugido de um temporal a desnudar a copa de uma floresta, e o rocal protesto de placas tectônicas enquanto rachavam e roçavam uma contra a outra.

Quenestil teve a impressão de que o solo tremia, mas não podia con­fiar no seu obnubilado discernimento, além de que os seus braços vacilavam por si sós com o esforço de o tentarem erguer. O que era certo era que o ar vibrava, e que o ruído começava a tornar-se ensur­decedor, restrugindo pelas costelas da armação e no peito do eahan enquanto o circundava como um predador a cheirar sangue. Sem saber para onde se virar, Quenestil arfava e ia-se arrastando em círculos em redor da lança, que permanecia serenamente ereta a meio do tumulto que aparentemente originara. Fustigado pelo vento e incapaz de ouvir os seus próprios grunhidos devido à tremenda cacofonia ambiente que assolava a caldeira, o shura agiu por ébrio instinto e saltou de braços estendidos contra a lança, conseguindo apenas estatelar-se de barriga sobre a neve ao calcular mal a distância. Teve igualmente dificuldade em agarrá-la da sua posição deitada, pois via mais que uma diante de si, até que por fim conseguiu crispar os dedos na haste, preparando-se para a arrancar da neve. Assim que o tentou, o atroador vórtice que varria a caldeira abateu-se sobre ele como a torrente de um dique acabado de rebentar. Quenestil sentiu o impacto do esmagador som como um tremendo golpe no peito, que lhe provocou um espasmo geral, deitando-o por terra e de costas arqueadas. A troante cacofonia tornou-se insuportável, e o berro de agonia do eahan uniu-se à mani­festação de inconcebível fúria que assolava a caldeira, e que fez com que os seus tímpanos estalassem, obstruindo os seus ouvidos com algo quente e pegajoso. De audição afogada pelo seu próprio sangue e respiração esmagada pelo peso do rugido que fazia o seu mundo tremer, Quenestil nada mais pôde fazer além de tentar abafar o intolerável clamor com o seu próprio grito enquanto se contorcia na neve. O es­forço foi porém em vão, pois o clamor era a sua voz, era o ar que o rodeava, era tudo. Ele próprio era o clamor, e por este foi clamado com um último espasmo que o deixou estendido debaixo da armação de osso, espumando da boca, de olhos esgazeados e com o sangue que lhe escorria dos ouvidos a tingir de vermelho a neve debaixo da sua cabeça.

Abatido o vagalhão de som, houve novamente paz na caldeira, cujo repentino silêncio deixou a zumbir os ouvidos dos ulkatr, que os destaparam das suas posições acocoradas junto às suas habitações. Os os­sos que as compunham rangeram ao reajustarem-se após tão violento abalo, e as peles deles pendentes pousaram como flâmulas agitadas por um vento moribundo, o que permitiu aos flocos de neve prossegui­rem com a sua harmoniosa queda. Alguns empilharam-se nos ombros do xamã quando este se levantou, soprando alguns para longe da sua cara ao suspirar pelo focinho quando viu o corpo caído de Quenestil à distância. Abanando a cabeça, o conformado xamã foi na direção das costelas para recolher mais um colar para a sua coleção, enquanto atrás de si os outros ulkatr se recompunham. Nenhum deles reparou no vulto que se ergueu na borda da caldeira, recortando-se contra as nuvens luzidias com o vermelho do céu do crepúsculo, no qual se começaram a agitar uns diáfanos fiapos verdes.

Quenestil perdeu a noção do ser. O único traço da sua identidade era o seu próprio grito a ecoar nos seus ouvidos, enquanto a sua indi­vidualidade se ia destrinçando pouco a pouco no infinito ciclone rugidor no qual voava. A arrebatadora fúria esmagava-o contra rochas em brasa cuspidas da terra em chamas, o ar pelo qual voava tremia com o perene bramido que abalava o próprio firmamento, fazendo com que este estalasse em raivejantes trovões, enquanto em baixo um inviso e imane coro de animais assustados e enraivecidos urrava, bramia e bramava a plenos pulmões. Sentindo mais do que propria­mente vendo aquilo que o rodeava, o eahan era pouco mais que uma aranha a meio de uma tormenta a céu aberto, desesperadamente agarrado à teia que era a sua individualidade enquanto esta lhe era metodicamente arrancada pela fereza da tempestade.

«Mãe a raiva o Fragor mata dilacera ajuda-me sangue terra treme Slayra fogo arde por favor Tanarch ódio Caldeirão maldito morram Ihjseorn desgraçados Tannath traidores...», soaram os descontrolados pensamen­tos de Quenestil, que mal os conseguiu ouvir a meio do seu contínuo grito de raiva e desespero. Mesmo assim, continuou a exercê-los, pois a sua mente ameaçava fraturar-se se os elos cognitivos que a uniam cedessem.

Era uma luta desesperada, a da isolada mente do shura contra toda a raiva do mundo, na qual Quenestil não passava um mero inseto a meio das incandescentes labaredas brancas de um incêndio que lhe queimava as asas. A sua vontade era forte, mas nem mesmo o espírito indômito do eahan conseguiria resistir por muito tempo às inexoráveis ondas de incontrolável fúria que sobre ele se abatiam sem folga. Uma série de imagens e memórias passou-lhe diante dos olhos, reminiscências da sua vida até então, recordações dispersas e fragmentadas que se erguiam das profundezas da sua vacilante mente como mãos desesperadas que o tentavam segurar à sanidade, só para serem cauterizadas pela imensa cólera que lhe ardia em cada fibra do seu ser.

Os seus pais... Fracos, que sempre o refrearam, impedindo-o de se expressar como os seus instintos o ditavam!

Quenestil...

Enadia... Sonsa sem personalidade, incapaz de sair de debaixo das saias da mãe, fraca com medo do mundo além de Edranil! Quenestil...

Aewyre... Idiota, que o arrastou pela lama na sua aventura tola, por pouco não os matando a todos!

Quenestil...

Slayra... Víbora traidora, aleivosa, disposta a enganá-lo com os filhos que tivera com Tannath, disposta a fazê-lo crer que eram seus!

Quenestil...

Babaki... esse fraco, esse...!

Quenestil...

Esse selvagem, esse guerreiro...

Quenestil...

Esse... amigo.

O fogo foi então apagado, a terra parou de tremer, e o céu cessou de rugir. A calmaria foi tão repentina e inesperada que a consciên­cia de Quenestil ficou a rodopiar pelo vazio, aturdida com a súbita privação sensorial. O eahan — ou aquilo que ali o representava — estava reduzido a trêmulos cacos após a sua vontade quase ter sido despedaçada, e nem sequer se conseguiu orientar na súbita ausência de qualquer sensação, quando meros instantes atrás estivera a ser sobrepujado em todos os sentidos por uma furial torrente. Era-lhe difícil pensar, reunir num todo coerente a pletora de sensações e pensamentos que ameaçavam explodir-lhe cabeça fora numa cascata de dolorosa libertação.

Quenestil?

A voz... tão familiar e reconfortante... Quenestil olhou em redor, mas estava num reino sensorial que ia além da simples visão e não conseguiu ver fiada, mas sentia uma presença. Uma presença distin­tamente amigável... e familiar.

— Babaki? — ouviu o eahan a sua incrédula voz perguntar.

Olá, meu amigo.

— Mas... — o choque permitiu a Quenestil recuperar alguma da sua esfiapada presença de espírito. — És mesmo tu?

Sem a ver, o shura sentiu que Babaki acenava a cabeça, emanando uma tranqüilidade que parecia completamente deslocada naquele local. Também a sua voz era mais sentida do que propriamente ouvida, aquietadoramente emanada sobre o seu ser.

— Como...?

Estás no Fragor, Quenestil. No rugido do predador, o estampido do trovão, onde a terra treme e as águas se revoltam...

— O Fragor? — interrompeu Quenestil, abalado mas ao mesmo tempo aquietado pela imaterial presença do antroleo. — Mas... tu morreste, Babaki. Eu vi-te morrer. Como vieste aqui parar?

O meu legado. Era o último dos sbakarex, e no fim juntei-me aos meus. A fúria que eu sempre combati era o meu destino.

O antroleo não perdera os seus modos algo floreados de falar, mas Quenestil estava demasiado abalado para se alegrar ou mesmo reconfortar com esse fato.

— Babaki, eu... eu lamento tanto...

Não te lamentes, meu amigo. Eu senti-me vazio quando aquela mulher me absorveu a fera em Jazurrieh, mas agora estou pleno uma vez mais, em paz comigo mesmo e em comunhão com os meus. Mas isso não é o mais importante agora. Tu não devias estar aqui.

 

— Como assim? Disseram-me que seria eu o percursor das Vagas de Fogo, e que seria aqui no Caldeirão onde eu encontraria as minhas respostas. Ninguém me falou de nenhum Fragor...

Então é verdade...

— O quê? De que é que estás a falar, Babaki?

O Fragor não te devorou. Desafiou-te apenas a domá-lo.

— Não percebo...

Há raiva dentro de ti, meu amigo. Mais raiva que eu alguma vez espera­ria sentir da tua parte, embora sempre te tivesses distinguido entre os teus, para bem ou para mal. Diz-me: vieste em busca de respostas, ou sabes aquilo que deves fazer?

Embora não lhe fosse fácil, Quenestil refletiu. Sentiu que o Fragor não se desvanecera, que aguardava simplesmente, pronto a rebentar quando menos se esperasse. O fogo não se apagara; fora a presença de Babaki que o tapara com uma manta molhada, sem contudo conseguir extinguir o ardor das brasas em baixo.

— Eu... sei o que devo fazer — afirmou o shura em esforço. — Os malditos tanarchianos mataram os nossos aliados, traíram-nos a’O Flagelo, causaram a morte dos eahlan que nos ajudaram, e agora invadem a terra daqueles que me acolheram, e que julgam que eu sou o seu salvador.

A presença de Babaki «ouvia» atentamente, escusando-se a mani­festar a sua opinião de forma sensorial, mas claramente intrigado com tudo o que aparentemente se passara desde a última vez que vira o seu amigo em vida.

— Sei o que devo fazer. Só não sei é como — concluiu o eahan, dando-se conta de que, contra a sua vontade, o choque estava lenta­mente a dar lugar à raiva. A fúria que o rodeava sentiu-o, e Quenestil apercebeu-se de que esta se mexeu sub-repticiamente em resposta, a borda de um rio que lambia o topo do dique que a sustinha, prestes a rachá-lo e a jorrar em dilúvio.

És tu então o percursor das Vagas de Fogo...

— Que sabes tu delas? — indagou o shura, ansioso por que al­guém seu conhecido e amigo lhe pudesse explicar definitivamente aquilo que se estava a passar.

Eu faço agora parte do Fragor, e o Fragor conhece o seu propósito. Anseia há muito por ser finalmente desencadeado no mundo.

— Mas... Vagas de Fogo, ou o Fragor?

O nome é irrelevante, meu amigo. Ambos são sinônimos de destruição em larga escala: o queimar da madeira podre, o chacinar do animal doente, o inundar da terra ressequida.

— Destruição em larga escala? Mas... — hesitou Quenestil. — Não é isso que eu quero. Apenas a vingança contra os malditos trai­dores tanarchianos.

O Fragor não escolhe alvos, Quenestil. Cabe ao seu percursor orientá-lo para onde achar mais adequado.

— Não percebo...

O Fragor é tudo aquilo que eu te disse, é o lado da Mãe que tu desconheces ou ignoras. Muitos o tentaram domar, mas não era a altura indicada, a Mãe desaprovou, e foram por ele consumidos.

— Quem? Aqueles kahrkar que eu vi na ilha? Aquele que saiu da fonte e o outro?

Não sei, Quenestil. Eu já não me encontro entre os vivos, não vejo o que se passa.

Babaki referiu-o casualmente, como para evitar que o eahan nu­trisse grandes esperanças por estar a falar com ele, e sentiu de fato uma onda de desânimo emanar da manifestação do seu amigo.

Estou presente, mas não estou contigo. Senti-te a lutar pela tua individua­lidade contra o Fragor, e consegui proteger-te com o eco do meu ser, mas não temos muito tempo. Queres saber como podes fazer o que deves?

— Eu... — hesitou o shura, ferrando a sua determinação a custo para conter tudo aquilo que queria dizer ao seu amigo, toda a torrente de emoções que nunca pudera verdadeiramente libertar após a morte deste. — Muito bem. Diz-me o que deve ser feito.

Seguiram-se uns momentos de silêncio ali impossíveis de medir, durante os quais a manifestação de Babaki pareceu ponderar, medi­tativa, emitindo apenas um tremor cavo daquilo que em circunstân­cias mais materiais seria certamente o seu peito. Quando por fim se pronunciou, fê-lo de forma tipicamente formal, embora num tom incaracteristicamente sobranceiro.

A Era do Lobo passou, e os serventes da Mãe estavam demasiado unidos enquanto alcatéia, e o percursor falhou.

As palavras de Babaki soaram imperiosas, providas de uma auto­ridade que não era a dele, mas Quenestil não interrompeu.

A Era do Urso passou, e os serventes da Mãe mostraram-se demasiado indolentes no seu tíbio sono invernal, e o percursor falhou.

A Era do Tubarão passou, e os serventes da Mãe atiçaram-se uns contra os outros com sede de sangue, e o percursor falhou.

A Era da Águia passou, e o orgulho dos serventes da Mãe subiu aos céus, e o percursor falhou.

Quenestil aguardou que Babaki continuasse, mas a frase seguinte tardou a vir, como se o antroleo se estivesse a debater com as palavras, ou com aquilo que estas iriam revelar ao seu amigo.


É chegada a Era do Volverino, na qual o predador solitário emboscará o poder do Homem, e precipitará a sua queda numa idade de tributações. A ár­vore podre tombará com o fogo dos céus, comida por vermes que por sua vez serão queimados pelas chamas, essas sufocadas pela torrente que as afogará. A cobra mudará de pele, as folhas mortas cairão, e a floresta será revitalizada pelas cinzas das árvores calcinadas pelas implacáveis chamas que varrerão o mundo.

Quenestil ficou boquiaberto com o que Babaki — ou pelo menos a voz deste — dizia. Com ou sem alegorias, as implicações das Vagas de Fogo iam aparentemente muito além daquilo que almejava fazer, o que assustou o eahan. A cólera à sua volta cheirou o seu receio, e começou a ouvir-se um indistinto e ominoso trovejar à distância.

A razão pela qual os shakarex se extinguiram foi porque os humanos domaram e entibiaram o Fragor quando da sua ascensão, forçando-o a reco­lher-se aqui, revelando-se apenas a espaços à espera do dia em que pudesse ser desencadeado. For esse motivo, a raiva que há em ti não arderá apenas contra aqueles dos quais te queres vingar. Farás com que esses paguem, sim, mas então dar-te-ás conta de que o fogo que desencadeaste se espalhará como as chamas num campo de trigo seco. Estás disposto a aceitar isso?

— Eu... — tornou Quenestil a hesitar, notando que a voz do seu amigo era novamente a dele. — Eu aprendi muitas coisas acerca dos humanos nas minhas viagens... e com o que muitos deles fizeram, não posso dizer que mereçam viver. Não todos, mas a maioria.

Alyun...?

— Lembras-te — alegrou-se Quenestil momentaneamente. — Foi o princípio. A partir de então, não fosse pelo Aewyre e pelos outros, ter-me-ia convencido de que os humanos são pouco melhores que os drahregs, senão mesmo piores à sua maneira.

E os... eahanoir?

Quenestil ponderou a sua resposta, temendo que Babaki pudesse eventualmente ressentir-se do fato de querer vingar-se de humanos e não daqueles que o tinham matado.

— Dos eahanoir... sabemos o que podemos esperar. Estão nas suas cidades, envolvidos nas suas intrigas, e... há que reconhecer que não fazem nada a menos que alguém entre no território deles, ou requisite os seus serviços. E são os humanos quem lhos requisitam.

Silêncio.

— O grupo da Slayra só me atacou porque eu os ataquei. E tu e eu derramamos sangue em Jazurrieh primeiro... — tentou o shura justificar, apercebendo-se do quanto o seu ódio pelos humanos agora excedia a sua antipatia racial para com os seus primos negros. — Por muito detestáveis que sejam, os eahanoir não passam de um incô­modo. Neste momento, nem sei qual será a maior praga no mundo: a dos humanos, ou a dos drahregs. Ao menos desses sabe-se o que se deve esperar, enquanto a humanidade se vai impondo lenta e insidiosamente sobre todas as outras raças. Correram com os thuragar de­baixo de terra, e foram cortando as florestas do meu povo até termos de subir às montanhas. Não contentes com isso, matam-se agora uns aos outros, rapinando as terras dos seus, agora que não têm outras raças às quais as possam roubar...

Embora já tivesse dito algo de semelhante a Loevrik, o eahan sur­preendeu-se a si próprio com a sua virulenta diatribe. O sucedido em Gul-Yrith e afastamento do contato humano dos seus amigos trou­xera à tona todos os seus ressentimentos raciais, e deixara nele fermentar todos os males que lhe tinham sido cometidos pelos humanos durante as suas viagens? O seu pai e os seus familiares e amigos em Edranil nunca tinham manifestado abertamente o seu desagrado pela sua presente condição — essa devida ao êxodo provocado pela gradual invasão hu­mana — mas Quenestil sempre viça neles a imensa tristeza que nunca deixara de lhes pesar na alma, embora cedo se tivessem adaptado ao seu novo meio. Se guardavam algum ressentimento, então escondiam-no bem, mas o shura tinha a certeza de que, caso tivessem abandonado a segurança da sua aldeia e se tivessem aventurado ao longo de ano e meio pelos domínios humanos, certamente sentiriam algo de semelhante à imensa raiva que lhe brotava do coração, ameaçando romper-lho.

Tens a certeza, então?

A pergunta de Babaki não era minimamente tendenciosa, nem o estava a julgar de forma alguma. Quenestil riu.

Quenestil?

— Desculpa... mas isto tem a sua piada — disse o eahan, ignorando o quase palpável reverberar do rugido ambiente, que ia aumentando gradualmente de volume. — Heh. Passei meses a tentar ajudar-te a controlares o animal, e agora estás tu a ensinar-me como me devo render a ele.

Quenestil sentiu o sorriso triste do antroleo, recordando-se perfei­tamente da expressão animalesca do seu amigo, que por vezes con­seguira ser mais humana que a de muitos humanos nas sinceras emoções que transmitia.

O Fragor é... diferente do animal. O animal não passava de um relâmpago na tempestade que o Fragor é, uma tempestade capaz de nivelar nações. É por isso que eu tenho de saber que estás verdadeiramente pronto.

— Qual é a pior coisa que pode acontecer? — quis o shura saber.

Enquanto shakarex, sempre estive intimamente ligado ao Fragor, mesmo sem o saber, A ti espera-te um destino igual ao de todos os outros que tentaram domar o Fragor, e falharam. Isto se não estiveres pronto.

— Compreendo. Vamos a isso, então.

Tens a certeza, Quenestil? Eu posso tentar abafar um pouco mais o Fragor, dar-te tempo para despertares voluntariamente do transe, agora que já não estás...

— Não, Babaki. Vim para aqui com um propósito.

Nada será como dantes...

— O antes já não está grande coisa — afirmou o eahan peremptoriamente. — Diz-me o que devo fazer.

Muito bem, meu amigo.

A rede protetora que envolvia Quenestil começou a dissipar-se, desfiando-se como se exposta à forte corrente de um rio, e Quenestil sentiu a raiva repuxar-lhe novamente os elos de sanidade que lhe uniam a mente.

Mais que ouvir o Fragor, mais que emitir o Fragor, há que ser o Fragor, sem que contudo te percas nele. Tens de saber quem são os teus verdadeiros ini­migos, pois de outra forma ele consumir-te-á...

A voz de Babaki distanciou-se, dando a entender a Quenestil que aquela luta era unicamente sua, e o eahan preparou-se para o arrebatador embate.

— Babaki? — chamou de inexistentes punhos cerrados.

Infelizmente, não te posso ajudar mais, meu amigo.

— Não é isso. Eu só... — vacilou, sentindo a aproximação do rugido como o de um predador que se preparava para lhe saltar para o dorso e arrancar-lhe a cervical à dentada. — A Slayra contou-me o que tu disseste antes de... antes de...

Sim?

— Obrigado. Por tudo. Nunca nos esqueceremos de ti... meu amigo.

Uma vez mais, e apesar da iminente explosão de cólera, Quenestil sentiu o calmo sorriso de Babaki, agora certo de que o seu amigo encontrara finalmente a paz que sempre almejara, rendendo-se ao seu destino. Tal como o eahan estava prestes a fazer.

Também nunca me esquecerei de vocês. Agradece à Slayra e aos outros por mim, se os tomares a ver. Adeus, Quenestil...

Com isto, a voz e a presença de Babaki foram-se, e então restou apenas a raiva, a tremenda raiva escarlate de hiantes mandíbulas salivantes e garras prontas a escalavrarem-lhe a mente. Desta vez, Que­nestil estava pronto, mas nem por isso o impacto foi menos devastador quando o Fragor se abateu sobre ele com a força do trovão. Todo o seu ser foi arrastado em remoinho por uma antinatural força que nada mais queria além de esquartejá-lo e à sua alma, romper-lhe a pele com os seus ossos fraturados e beber deles a sangrenta medula. A raiva de Quenestil esmorecia ante tamanho dilúvio de fúria, mas graças às palavras de Babaki, o shura sabia agora que não se devia tentar equiparar a ela, pois uma única vontade não poderia conter toda a cólera dos elementos. Em vez disso, abriu-se a ela, ofereceu-se como conduta, os olhos que jorrariam o fogo, o pé que faria a terra tremer, o sopro que arrojaria o vento, a mão que revoltaria a água.

O ensurdecedor coro de animais fez-se novamente ouvir, e o eahan ofereceu-se a eles como seu protetor, seu guardião. Quando a terra rosnou, prometeu regá-la com o sangue daqueles que a violavam. Quando o fogo rugiu, prometeu-lhe a madeira inquinada pelas mãos daqueles que a tinham abatido. Quando o ar tremeu, prometeu afogar o fogo que o conspurcava de fumo. Quando a água se encarneirou, prometeu deixá-la correr livre sobre as terras daqueles que a secavam. Um propósito para o Fragor, uma vontade para o canalizar, um receptáculo para a cólera que se iria abater sobre o mundo, tal como estava predestinado, tal como a Mãe o decretava.

Quenestil urrou então. Urrou como nunca antes urrara num misto de dor e êxtase enquanto a sua carne era queimada, os seus ossos que­brados, o seu sangue diluído e o seu ar forçosamente arrancado. Tudo era o Fragor, o fogo que lhe correu nas veias, a terra que lhe susteve os membros, o fôlego ciclônico que o alentou, o jorro de vida que lhe revestiu a pele. Incessantes, os rugidos, urros, bramidos e vagidos celebraram o seu sacrifício, regozijando com redobrada fúria num crescente frenesi que parecia impossível de se tornar mais clamoroso. Quando provou errada essa impressão, o mundo tremeu e rachou-se ao meio.

E então tudo ficou vermelho.

Quenestil estorcegou na neve, perculso, com estrias de saliva espumosa a escorrerem-lhe dos cantos da boca. As íris surgiram-lhe novamente nos olhos revirados, e o eahan soltou um longo e aflito arquejo ao por fim respirar ar em vez de pura fúria não-destilada. O mundo soava-lhe emudecido devido ao sangue quente nos seus ouvidos, e os tendões do seu corpo rangiam de dor, tendo sido esti­cados quase até ao limite com a violência do transe. O seu pescoço estava molhado da neve que lhe entrara pelo colarinho adentro, mas o sangue em brasa que lhe corria nas veias deixara-lhe a pele rubo­rizada e dessensibilizada ao frio. De barriga para o ar, constatou que ainda estava a nevar, e, através da armação de costelas, viu a feérica dança de luzes no céu, no qual lençóis verdes se expandiam e reco­lhiam, oscilando como se soprados pelo vento. Ao flexionar os dedos das mãos e dos pés numa tentativa de relaxar, deu-se conta de que o chão tremia, uma ligeira vibração que lhe reverberava pelos ossos, nos quais também sentiu o de outra forma imperceptível rachar do gelo em baixo. O eahan ergueu-se com um espasmo do torso, ofegando e levan­do um punhado de neve à cara para a resfriar, esfregando também a saliva branca da boca.

Foi então que viu o xamã morto no chão, de focinho virado para baixo e com uma mancha de sangue a alastrar-se da barriga, debaixo da qual tinha o braço preso. Os seus penduricalhos estavam espalhados pela neve, essa respingada com gotas vermelhas, e o seu cajado jazia derrotado a seu lado. Ao ver isto, Quenestil ergueu-se atabalhoada­mente de membros trêmulos, apoiando-se pesadamente na lança que cravara no gelo, e os ruídos emudecidos de um combate chegaram-lhe aos ouvidos ensangüentados. O eahan olhou na direção destes e, para grande surpresa sua, viu uma figura familiar cercada pelos ulkatr, dois dos quais se encontravam mortos a seus pés.

— Tannath... — disse para consigo, mal ouvindo a sua própria voz, mas esta não passou despercebida ao eahanoir, que olhou para o lado e o avistou.

Não mudara desde a última vez que o vira, com a sua jaqueta de couro preto segmentado e delineado a vermelho, calças com cerzidos safões dessa mesma cor, e botas afiveladas. Pareceu sorrir através da sua máscara negra, e a tatuagem vermelha parcialmente tapada pela pala em forma de gota que lhe cobria o olho esquerdo revelou-se quando os arregalou aos dois em falsa alegria, ignorando os inimigos que o rodeavam. Os ulkatr também o viram, e não fizeram qualquer tentativa, parecendo estranhamente hesitantes para quem excedia o seu inimigo em número. Tannath disse algo, mas àquela distância Quenestil não o conseguiu ouvir, e limitou-se a ajoelhar-se para pegar e embainhar o seu facalhão, arrancando de seguida a lança da neve e saindo de debaixo das costelas com esta em mãos. A máscara de Tan­nath tornou a esticar-se com um novo sorriso, e este mesclou-se à escuridão ambiente da caldeira com um revoluteante gesto da capa negra forrada a escarlate, saindo do círculo de ulkatr na forma de um semimaterial vulto sombrio, corporificando-se a uns dez passos do shura numa dramática pose com estilete e quebra-espadas empu­nhados a seus lados.

Os ulkatr não lhe foram atrás, toda a sua atenção unicamente focada em Quenestil, cuja presença os assombrava. O eahan não fez caso disso, ficando simplesmente a olhar para Tannath e para o meio que o rodeava, que lhe parecia estranhamente mais... vivo. Tal dife­rença também não passou despercebida aos ulkatr, que farejaram o ar como animais nervosos ao sentirem a diferença no ambiente da cal­deira. O ar estava quase elétrico, eriçando os pêlos de alguns; os tre­mores já eram perceptíveis aos seus pés nus, que estavam acostumados à monolítica quietude do gelo do seu lar; e fez-se sentir um calor que começou a originar finíssimas rachas no chão debaixo da neve.

— Por momentos, pensei que estes aqui tivessem feito o meu tra­balho por mim — disse Tannath, cuja voz Quenestil mal conseguia ouvir. — Ia caindo pelo vulcão abaixo quando houve aquele pande­mônio, e quando me levantei, já estavas tu estendido no chão.

O shura não respondeu, cruzando apenas olhares com o eahanoir enquanto ia olhando em redor sem qualquer expressão na cara. Estava calmo, embora o percuciente coração ameaçasse apartar-lhe as costelas, e praticamente apenas ouvisse as batidas deste nos ouvidos sangren­tos. A lança estava quente nas suas mãos, como se nos veios vermelhos desta corresse o sangue da terra, e a ponta de obsidiana luzia com todo o regozijo que era possível a uma pedra.

— Foi estranho, sabes? Eu usei uma coisinha em Asmodeon que me permitiu saber onde estavas, mas quando cheguei, já lá não te encontrei — explicou Tannath. — Só que eu... foi como se sentisse onde tu estavas. Ou melhor, foi como se algo me estivesse a chamar para aqui. Porventura sabes alguma coisa disso, humm?

Escusando-se a responder, Quenestil olhou para o chão, apercebendo-se da terra revolta debaixo do gelo, sentindo cada fenda como se a sua própria pele estivesse a gretar, cada rangido como se fossem os seus próprios tendões a protestar.

— Sem palavras? Eu achei que ficou muita coisa por dizer desde a última vez que nos encontramos — continuou o eahanoir, olhando para se certificar de que os ulkatr não iriam interferir. — Então e que é feito da Slayra? Deixaste-a sozinha com o meu filho?

Ainda que emudecidas, Quenestil ouviu as últimas palavras de Tan­nath, e os seus olhos cinzentos chisparam como dois pedaços de peder­neira sobre os quais deslizara um fuzil.

— Deixaste-a? Francamente, Quenestil, que desilusão! Confesso que, apesar de tudo, esperava mais de ti.

Não houve resposta, apenas um olhar transfixo capaz de fazer estalar pedra, e um indistinto rumor proveniente de debaixo do gelo sob os pés de todos. Sentindo o que estava para vir, os ulkatr começa­ram a recuar para o túnel pelo qual Quenestil chegara.

— Ao menos diz-me onde deixaste a Slayra, para eu a poder visitar depois de...

Tannath calou-se, apercebendo-se então ele também daquilo que se estava a passar, do subtil mover do gelo e da subitamente sobre­carregada atmosfera na caldeira, além da qual se viam fulgentes luzes verdes a dançarem a um ritmo elétrico no céu. Olhando em redor e semicerrando o olho azul-claro, o eahan negro abandonou a sua quase jocosa pose relaxada, e agachou-se ligeiramente, fitando o seu opo­nente com uma expressão bem mais séria. Quenestil correspondeu, enristando a lança num ponderoso gesto e virando a ponta na direção de Tannath, após o qual se originou à sua frente uma finíssima fenda, que engoliu neve enquanto se estendia sinuosamente na direção do eahanoir, passando por entre as pernas deste. Tannath olhou para baixo, arqueando as surpresas sobrancelhas, e quando tornou a erguer a cabeça viu os flocos de neve redemoinharem à volta de Que­nestil, em torno do qual se abriam outras tantas rachas no gelo, isto enquanto o céu se alumiava de verde num fantasmagórico espetáculo de luzes.

— Ora bem... — disse Tannath, fazendo ranger o couro das luvas com facas de arremesso nelas embainhadas, ao crispar os dedos nos punhos das armas. — Isto afinal ainda é capaz de vir a ser interes­sante...

 

Allumno cavalgava incansavelmente havia dias, aproveitando o bom tempo que se fizera sentir ultimamente. O seu garrano castanho molhava-lhe as calças com suor, e o mago sabia que estava a correr um risco ao esforçá-lo de tal forma, mas urgia mais que nunca que chegasse a Ul-Thoryn para avisar Aewyre, ou pelo menos certificar-se de que o jovem lá se encontrava. A ameaça do Primeiro Pecado fora deitada por terra, mas isso só poderia significar que O Flagelo tinha algo bem mais sinistro em mente para Allaryia; as outras possibi­lidades eram simplesmente inefáveis. Por mais que tentasse, o mago não conseguia conceber qual o motivo de Seltor enviar as suas forças para a sua própria destruição, deixando-o apenas com um punhado de ogroblins, ulkekhlens e afins servos seus, com os quais dificilmente conseguiria constituir um exército capaz de ameaçar as nações.

O único motivo que parecia minimamente plausível era abrir as hostilidades entre Laone e a Namuriqua, mas tal teria feito bem mais sentido se Seltor ainda tivesse um exército com o qual atravessar as terras das duas nações em guerra. Tal como Allumno viera a saber através de rumores após a batalha, o que nela acontecera fora também mais fortuito do que qualquer outra coisa: aparentemente, houvera duas casas namuriquanas em conluio contra um nobre laonês em par­ticular, tudo devido a um qualquer incidente num torneio. Os aldeões com os quais falara durante a sua viagem disseram-lhe que um conflito estivera a fermentar entre os três havia já muito tempo, e aparente­mente os nobres namuriquanos tinham visto a mobilização geral como a ocasião perfeita para a sua mesquinha vingança. Pelo que vira durante a batalha, deduziu que fora o próprio nobre laonês que avançara com os seus homens na primeira carga de cavalaria, e que o bata­lhão que avançara contra as indicações dos generais provavelmente pertenceria a um dos dois namuriquanos. O outro enviara de seguida os seus homens de forma a retardar o avanço de quem pudesse fazer tenções de ajudar a cavalaria contra a enchente de drahregs que sobre eles se abateu. Tanto retardaram, porém, que as forças aliadas não che­garam sequer a tempo de salvar a infantaria namuriquana, que entre­tanto fora ela também avassalada pelo Primeiro Pecado. Dessa forma, o segundo nobre laonês provavelmente conseguira lavar as mãos do sucedido, vingando-se do seu rival e certificando-se de que o seu «aliado» jamais o poderia delatar.

«É inacreditável...», admirou-se o mago, já depois de ter remoído longamente sobre o assunto.

Allumno presenciara muitos atos ignóbeis durante a sua vida, e aquele nem era dos mais calculistas, mas a altura e o local no qual fora levado a cabo eram de tal forma míopes e inconscientes, que exce­dia em escala todos aqueles de que o mago tinha memória. Confron­tado com uma horda de drahregs — ainda que seriamente debilitada — como podia alguém pensar em ajustar contas com um inimigo se esse lutava a seu lado? Quanto mais uma qualquer desconsideração feita num torneio tolo...

«Foi um erro. Eu devia ter avisado as cortes, em vez de andar a matar magos hipoteticamente venais» pensou para consigo. «Com todo o tempo que perdi a ser testado, podia ter calcorreado a Wolhynia e a Namuriqua, talvez mesmo Laone.»

Ainda que houvesse a possibilidade de não acreditarem nele, a palavra de Allumno, conselheiro de Ul-Thoryn, sempre teria mais peso que a de Aewyre, o príncipe rebelde que fugira de casa. Agora era tarde demais, contudo, e restava-lhe apenas reunir-se com o seu pro­tegido para ponderarem o próximo passo a seguir. Desconhecia os progressos que Aewyre conseguira eventualmente fazer na Cidadela da Lâmina, e se estava ou não apto a enfrentar Seltor caso fosse neces­sário, mas esse era um cenário que preferia ver como último recurso. Com ou sem Ancalach, enfrentar o próprio Flagelo homem-a-homem era uma noção quase inconcebível, além de que não imaginava como Aewyre poderia vir a defrontar o Bastardo diretamente, tendo este o poderio de Asmodeon à sua inteira — ainda que agora diminuída — disposição. O mago tentara por várias vezes contatar Zoryan durante os breves períodos de descanso que se permitira nos últimos dias, mas fora em vão. O arquimago não respondia nem se fazia sentir, igno­rando os chamamentos do seu pupilo ou incapaz de lhes dar atenção por algum motivo que Allumno desconhecia. Embora Zoryan o tivesse de fato avisado de que seria difícil contatá-lo de futuro, a sensação era imensamente frustrante, e Allumno achava estranho que o silêncio do seu mestre se estivesse a prolongar de tal forma, e logo na altura em que mais precisava dos seus conselhos.

Conformado, o mago continuou a cavalgar pela estrada fora, sin­grando pelas várzeas numa lufada de cascos e escarlate capa a abanar ao vento. Já passara por Neveria, e dirigia-se agora a Arle para poder atravessar o rio Olyf, sendo ambas as cidades separadas por campinas relativamente planas que em muito facilitavam a cavalgada do mago. Estava a aproximar-se da fronteira, mas ainda não fora incomodado por ninguém, o que se podia perfeitamente dever à invasão de drahregs, e nada mais avistara além de camponeses e vilões nas aldeias pelas quais passara. Ninguém lhe soubera dar grandes novidades além daquilo que Allumno já sabia, embora tivesse ouvido uns relatos interessantes acer­ca da polêmica fuga de um certo príncipe, que alegadamente matara alguns homens do barão Savincar antes de fugir da cidade. Allumno tinha a certeza de que Aewyre não cometera nenhum disparate parecido com Alyun, pois sabia que o seu protegido mudara desde Aemer-Anoth, o que só poderia significar que o barão de Arle tinha motivos ulteriores para o prender. Teria de estar de sobreaviso quando chegasse à cidade, e essa informação compensou todo o tempo que perdera a falar com camponeses, que pouco mais lhe souberam adiantar além de rumores e boatos, bem como relatos de um tremor de terra e uma peculiar história de fogo a cair do céu. Os primeiros eram credíveis, até porque Allumno sentira um na Namuriqua, e Zoryan explicara-lhe que estes se deviam à acirrada guerra entre os divaroth, uman e azigoth, sendo que esses últimos haviam sido reforçados pela sombra de Seltor. O Flagelo vertera o seu próprio sangue no Pilar, e os conflitos daí resultantes estavam a fazer com que os segmentos do Pilar girassem com uma irregularidade sem precedentes, o que estava sem dúvida a ter repercussões em Allaryia. Já o fogo a cair do céu parecia-lhe pouco provável, e apesar da insistência dos aldeões, Allumno não se deixou convencer de que se tratara de mais que uma mera estrela cadente, pois ele próprio avistara uma durante as suas viagens. Apesar de emotivos, os relatos que ouvira de algo a singrar pelo céu e a abalar a terra não tinham sido minimamente convincentes, e a menos que Seltor tivesse trazido de volta os Filhos do Caos, duvidava de que estivesse de alguma forma envolvido no assunto.

Estava a entardecer, e o mago não via nenhuma aldeia à vista, o que significava que teria de passar outra noite ao relento. Os seus ossos e articulações doíam-lhe dos rigores da viagem, e o interior das suas coxas estava assado devido às horas que passara na sela, o que não o deixava minimamente ansioso pelo anoitecer e mais uma des­confortável noite mal dormida ao frio. Embora estivesse perto da fronteira e da reta final da sua viagem, o mago resistiu à tentação de tentar cobrir a máxima distância possível até ao último raio de luz, pois temia que o garrano morresse de exaustão. O animal fora um confiável companheiro durante a sua longa jornada, e Allumno não queria sacrificá-lo nem ficar apeado, pelo que começou a puxar as rédeas e a emitir sons aquietadores. O garrano foi de bom grado encurtando o passo, respirando ruidosamente ao arrancar torrões de terra do chão enquanto travava a sua corrida. Quando por fim parou, o mago inclinou-se para a frente para lhe afagar o pescoço, olhando em volta em busca de um local onde pudesse montar acampamento. O terreno era relativamente plano e desprovido de árvores, e conti­nuava a não haver qualquer habitação à vista, nem nada que deixasse Allumno minimamente abrigado, pelo que este decidiu procurar um pouco mais. O garrano não protestou, tendo recuperado o fôlego, e retomou o passo a um ritmo lento e cansado, mantendo a cabeça baixa enquanto o seu cavaleiro oscilava de um lado para o outro na sela, também ele exausto da viagem.

Perdido nos seus pensamentos, Allumno tardou em reparar nos tênues ruídos de música que a ligeira brisa consigo trazia, até que se endireitou subitamente na sela, olhando novamente à sua volta. Conti­nuava a não haver nada à vista nas suas cercanias, mas agora que não mais tinha o vento a bater contra as suas orelhas e os ruídos dos cascos a reboarem-lhe no peito, conseguiu de fato discernir os alegres sons musicais que emanavam à distância. Intrigado, continuou a andar em frente, com o sol a pôr-se no horizonte plano, espalhando a sua longa sombra montada na direção das montanhas à distância. O vento aba­nava suavemente a erva que começava a ousar brotar do chão, enchendo o ar do crepúsculo com o seu suave sussurrar, mas não havia como os confundir com o ruído que agora lhe chegava aos ouvidos. Chegou a ficar algo desconfiado, recordando-se do encontro de Aewyre com selenn em Moorenglade, pois o local desabitado e a inespe­rada música eram características reveladoras dessas aleivosas criaturas. O crepúsculo era a hora delas, e tinham a reputação de não se coibirem de tentar capturar viajantes em espaços abertos, mas havia algo que destoava dos mitos que as rodeavam: a música não era de todo etérea ou encantadora, antes alegre e festiva, e faltavam as vozes chamativas que a costumavam caracterizar.

«Estranho...», pensou o mago, continuando a encaminhar-se na direção geral do som. Tirara o seu cajado do alforje da sela e empu­nhava-o por precaução, mas além da superstição e da estranheza da situação, não havia de fato grandes motivos para ficar alarmado. Não obstante, e embora nem mesmo o cavalo estivesse nervoso, preferiu não prescindir de uns mínimos cuidados.

A campina plana continuava apenas a sussurrar ao vento, que consigo trazia os cada vez mais próximos ruídos de música e vozes alegres. Allumno avistou um outeiro despido de vegetação a uma certa distância, detrás do qual os sons pareciam provir, e foi para lá que se encaminhou cautelosamente. O sol pôs-se a meio caminho, mas o mago ia-se sentindo mais reconfortado à medida que se aproximava, pois os ruídos eram claramente humanos, e embora parecessem algo deslocados, não havia neles motivo para qualquer desconfiança. Não só isso, mas agora que a noite estava a pousar o seu manto sobre a paisagem, reparou num lume de fogo que provinha também detrás do outeiro, e que aumentou de luminosidade como uma fogueira acabada de acender. Agora meramente intrigado, Allumno subiu o outeiro para ver de cima o que se estava a passar, estranhando a moleza da terra na qual o cavalo afundou os cascos, terra essa que parecia como que recentemente escavada, pois tinha nela traços de vegetação arran­cada e parcialmente enterrada. O garrano chegou mesmo a escorregar, mas embora cansado conseguiu compensar com as outras patas e man­teve-se de pé, subindo ponderosamente até ao cimo do outeiro, onde Allumno pôde ver o que se estava realmente a passar.

O outeiro não o era, mas sim um monte de terra revolta, resultante da cratera que havia aos pés deste, em redor da qual fora montado um autêntico arraial. Havia panos e toalhas espalhados pelo chão, pessoas de pé a dançarem à volta da grande fogueira que fora erguida enquanto outras tocavam música e riam. Allumno desconhecia os festivais da região, mas a Primavera estava suficientemente próxima para justificar tais festividades, embora continuasse a ser estranho terem escolhido precisamente aquele local, aparentemente tão longe de qualquer habi­tação humana. Todavia, mais estranha ainda era a cratera e os milhares de partículas azuladas que esvoaçavam pelo ar à volta desta como pirilampos. Perplexo com toda a situação, Allumno ficou simplesmente a olhar, ignorado pelos alegres vilões que dançavam e riam em baixo, homens e mulheres em igual medida e das mais variadas idades. Con­vencido de que não correria qualquer perigo, desmontou do cabisbaixo cavalo e ajoelhou-se no chão, passando por ele a mão enluvada e dei­xando a terra solta correr-lhe por entre os dedos.

«Pois... não é um outeiro», concluiu, esfregando os dedos e passando-os pela capa ao levantar-se. A elevação no terreno fora provocada por o que quer que ali tivesse caído e formado a cratera, mas nada mais havia saltava à vista além das partículas.

Allumno puxou então o cavalo pelas rédeas, e juntos desceram por onde tinham subido o outeiro que não o era. O mago ainda hesitou, mas o calor humano emanado pelos festivos vilões era demasiado convidativo para quem passara noites seguidas ao frio, além de que a alegria que daquela gente jorrava era um verdadeiro bálsamo para toda a desgraça e miséria que presenciara nos últimos tempos. Avançou com as rédeas do cavalo numa mão e o cajado na outra, esperando não parecer de alguma forma ameaçador, mas assim que as pessoas o viram foi prontamente recebido com sorrisos e braços abertos. Quem se dirigiu a ele foram duas mulheres com toucas e vestidos de cam­ponesas, que o agarraram pelos braços numa tentativa de o arrastarem para a dança.

— Vende! Sontos tuds a balai! — disse uma delas, de bochechas brancas afogueadas e flores entrançadas no cabelo.

— Eu, ah... — tartamudeou o mago, tomado de surpresa por tão hospitaleira recepção. — Tenho... tenho de prender o cavalo.

As duas mulheres insistiram, puxando Allumno pelas mangas com a ânsia de crianças desejosas de brincar, mas após algumas care­tas, sorrisos amarelos e muita linguagem gestual, o mago conseguiu persuadi-las a deixarem-no ao menos prender o corcel. Não deixaram contudo de mostrar a sua desilusão, fazendo beicinho antes de aparen­temente esquecerem o sucedido e regressarem ao círculo de dança­rinos. Allumno abanou a cabeça e piscou os olhos, confuso perante a situação e sentindo-se deslocado no meio de tanta e tão desenfrea­da alegria. Levou o cavalo até uma certa distância das festividades, não fossem os presentes tentar montá-lo ou algo parecido e, assim que encontrou um pequeno regato, prendeu-lhe as patas com a peia e cobriu-lhe o dorso com uma manta. Enquanto o animal bebia, Allumno agradeceu-lhe o esforço com umas festas no pescoço, olhan­do por cima do ombro para os intrigantes festejos. A maior parte das pessoas nem lhe prestara atenção, nem mesmo quando calhara ser avistado pelas duas mulheres, que agora rebuliam por entre homens a baterem animadas palmas. Assim que o cavalo se saciou, o mago dependurou-lhe a cevadeira do focinho para que pudesse repor as energias, deu-lhe uma última palmada de agradecimento na ganacha e dirigiu-se novamente ao inesperado festejo.

As pessoas continuaram sem lhe prestar grande atenção, e as que por acaso o avistavam eram rapidamente arrastadas por um parceiro de dança ou viam algo de mais divertido para fazer. Allumno circun­dou o grupo, olhando-os a todos com atenção, mas não viu neles nada fora do normal, além do fato de estarem a celebrar diante de uma cratera com partículas luminosas a esvoaçarem entre eles como dentes-de-leão azulados, numa campina a meio do nada e sem qualquer habitação humana à vista. Pareciam todos habitantes de uma aldeia, pois nenhum deles envergava roupas particularmente requintadas, e a avaliar pela familiaridade com que dançavam e riam uns com os outros, provavelmente proviriam da mesma comunidade. Cada vez mais curioso, o mago aproximou-se dos foliões, que estavam dema­siado ocupados com o seu descante para lhe darem atenção. Havia um grupo de homens a arranhar afincadamente as suas rabecas enquanto pisavam o chão, acompanhados por outros a baterem palmas num gesto de desafio aos que dançavam um rápido rigodão, lançando-os num crescendo de movimentos frenéticos. Pessoas caíam e riam, rolando pelo chão abraçadas umas às outras, levantando-se logo de seguida e retomando a dança com relva nos cabelos. Havia comes e bebes espalhados sobre toalhas no chão, alguns entretanto entorna­dos para maior gáudio ainda de quem sobre eles caíra, e não se via qualquer sinal de que aquelas pessoas tencionavam ali dormir, não havendo quaisquer sacos-cama ou tendas montadas nas imediações. Sorrindo a quem com ele olhares cruzava e desviando-se da ocasional ansiosa mão que o tentava puxar, Allumno passou pelos pândegos e aproximou-se da estranha cratera, diante da qual se ajoelhou. O que quer que ali tivesse caído, fizera-o num ângulo apertado, pois embora tivesse movido e terra e formado o outeiro que enganara o mago, mal derrapara no chão com o impacto e não chegara sequer a sulcar o solo. Mais intrigantes ainda eram sem dúvida as centenas, os milhares de partículas que aparentemente haviam despontado do objeto que ali caíra. Allumno tentou agarrar uma delas, mas todas se esquivavam fugazmente da sua mão num voo errático, parecendo flutuar ao som da música ambiente. Após algumas tentativas, o mago desistiu de ten­tar pegar nos corpúsculos e focou-se num em particular, que se deteve diante da sua face com uma oscilação que só podia ser descrita como curiosa. O cerne da partícula refletiu o fogo que ardia por perto, e reteve toda a concentração de Allumno, que a contemplou como se hipnotizado à medida que o seu brilho azul ia aumentando de inten­sidade. O fulgor do corpúsculo tornou-se quase incandescente, como se estivesse a arder por dentro, mas da parte do mago não houve qual­quer reflexo de virar a cara, e viu-se incapaz de tirar os olhos da pedra.

— Unia bensesse dia Nirilla! — ouviu uma súbita voz de homem nas suas costas, em cujas omoplatas duas mãos bateram amigavel­mente, sobressaltando Allumno e fazendo com que tirasse o olho da sua partícula.

— Nirille? — retorquiu o mago, surpreendendo-se a si próprio ao reagir com um sorriso a tamanha confiança. Não era fluente em Leriat, o dialeto regional da fronteira entre Nolwyn e Laone, mas este era perfeitamente compreensível para os habitantes de ambos os países. — Uma bênção da deusa?

— Sia — anuiu o homem. — Vendra balai!

— Sim, já... já vou — disse Allumno, sentindo de fato uma estranha atração para o círculo de dança que se formara.

— Vede o patrício! — disse outro homem num algo arranhado Glottik. Era um nolwyno de feições trigueiras e um espesso restolho de barba na cara, cuja pele morena se vincou num sorriso aberto ao espalmar ele também a mão na omoplata de Allumno. — Venha dan­çai, que as fèmelas andem todes a abanar!

— Eu... sim. É só um momento... — protelou o mago, dividido entre a sua curiosidade e desconfiança, estranhando o comportamento daquela gente mas ao mesmo tempo atraído pela descomplexada alegria que delas emanava.

— A dèa está connosques! — proclamou o jubilante nolwyno. — A dèa dessendeu e está connosques!

«A deusa desceu...?»

Felizmente, os dois homens não tardaram a perder o interesse nele e a descobrir alvos bem mais receptivos à sua atenção, posto o que o deixaram prontamente em paz. Allumno surpreendeu-se a si próprio com o impulso que o acometeu de ir atrás deles, estendendo mesmo a mão livre na direção dos foliões, quase a pedir-lhes que esperas­sem por ele. Caiu em si e cerrou o punho, olhando para ele como se este tivesse agido independentemente dos seus pensamentos.

«A deusa desceu? Mas afinal o que se está a passar aqui?», indagou-se o mago, pousando o punho e olhando para a partícula que con­tinuava a flutuar onde a deixara. Destacava-se entre as outras pelo fulgor que não a abandonara, e Allumno baixou ligeiramente a cabeça e semicerrou os olhos ao mirá-la novamente.

O azul leitoso do corpúsculo estava agora com uma consistência diferente, quase cerosa, embora continuasse a parecer imaterial. Segu­rando o cajado na dobra do braço, Allumno tirou a luva da mão direita para tentar tocar nela, mas embora fosse de alguma forma mais consistente que o ar, continuava a ser impossível tocar-lhe fisicamente. Agora verdadeiramente surpreso, o mago achegou-se dela de cara, ten­tando descortinar os segredos que se escondiam naquela singela partícula. Nada conseguiu deduzir da sua observação, mas estava certo de que nela havia algo, um qualquer poder oculto que ansiava por se libertar, um pirilampo preso dentro de um intangível boião. De fato, à medida que se concentrava no corpúsculo, ia-se apercebendo do mais que subtil zumbido emitido por este, dificilmente audível por entre a música. Inesperadamente, Allumno deu consigo a sorrir, embora a situação lhe suscitasse tudo menos alegria, e com isso o zum­bir da partícula tornou-se mais harmonioso e concordante, ficando em perfeita sintonia com ele.

«Porque é que estou tão contente?», questionou-se o confuso mago, notando então que o brilho do corpúsculo esmorecia. «Hum? Então e agora...?»

Sem qualquer aviso, o fulgor da partícula ganhou vida e faiscou para fora dela, espirrando pelo ar em ínfimas partículas de luminescente pó azul, que envolveram Allumno como um enxame de mos­quitos. O mago sobressaltou-se e caiu para trás sobre as nádegas, praguejando e esbracejando à volta da sua cabeça como se estivesse de fato a tentar afugentar insetos. Alguns dos foliões repararam no que aconteceu, mas nenhum deles se assustou e ouviram-se apenas risadas, que foram rapidamente afogadas pelo som da música e das vozes can­tantes. Nada mudou na cena, além do fato de Allumno estar agora sentado no chão de pasmados braços abertos, olhando em redor à procura do pó que não chegara a ver desaparecer.

— Que espécie de feitiçaria...? — invetivou, soltando uma involuntária risada que o fez ver o cômico nas presentes circunstâncias. Havia até uma medida de poesia naquela situação, no aglomerar de vilões e servos que ali celebravam algo de tão bizarro como um monte de dentes-de-leão luminosos caídos dos céus. Havia de fato motivos para celebrar; por que razão estaria ele tão sorumbático e pensativo?

Sentindo-se repentinamente leve e liberto, Allumno levantou-se e nem sequer limpou a capa com as mãos, dirigindo-se antes despreo­cupadamente a quem dançava. A situação que se vivia em Allaryia podia ser grave e imprevisível enquanto não soubesse quais eram os planos d’O Flagelo, mas não havia razão para turvar o ânimo daquela boa gente com a sua desconfiança. O melhor que tinha a fazer era mesmo juntar-se a eles na sua dança com os pirilampos azuis.

«E porque não? Vem aí a Primavera, a chuva vai terminar, e estou quase a chegar a Ul-Thoryn. Vai tudo correr bem!», pensou, sem sequer se aper­ceber do quase pateta sorriso que tinha agora estampado na cara. A sua expressão endurecera de tal forma nos últimos meses, que os cantos da sua boca lhe vincavam a pele curtida pelo vento e pelo frio.

Não foi por isso que foi menos bem recebido pelos foliões, que juntos celebraram efusivamente a chegada de um novo participante, assegurando-lhe de que tomara a decisão acertada com vigorosas palmadas nos ombros, acolhendo-o a meio de um círculo improvisado sem que ninguém estranhasse a gema na sua testa e as roupas sujas que trajava. O mago não era grande dançarino, e executou alguns desajeitados passos com volteios da capa, mas ninguém se pareceu importar e cedo se enlearam braços nos seus quando os presentes começaram um alegre ril. Allumno deu voltas e voltas nos braços de homens e mulheres, acompanhando as canções conforme podia e deixando-se imergir por completo no espírito da celebração. A deusa descera e estava entre eles, polvilhando-os com o pó divino da alegria. Se esse não era motivo para celebrar, que mais poderia ser?

— Balaide poura dèa! — cantarolavam todos em coro, acompa­nhados pelo hábil arranhar das rabecas. — Balaide poura Nirilla!

Allumno não venerava a deusa da arte, da música e da dança, como aliás mago algum venerava divindades, pois a vida daqueles que faziam uso da Palavra e com ela canalizavam Essência estava destinada a terminar no Pilar. Era esse o fado dos magos, que após a sua exis­tência física em Allaryia apenas podiam contar com a eterna paz de se unirem à Essência que fizera parte das suas vidas, e da qual se tor­navam subseqüentemente parte. Nada os proibia de serem religiosos, mas de nada lhes serviria, pois usar a Essência como o faziam deixava nos seus corpos e nas suas almas uma marca indelével, que os atraía irresistivelmente para o Pilar assim que soltavam o seu último suspiro.

Nada disso importava, porém, apenas a contagiante alegria que o rodeava, o alívio de poder livrar-se de tudo o que o oprimira numa explosão de movimento e som. A sensação de não ter de pensar antes de falar — de deixar as palavras fluírem-lhe livremente da boca sem as pesar, ponderar e avaliar, como sempre o fazia — foi sublime e libertadora. Allumno deixou-se perder no redemoinhante círculo de regozijo, rindo e cantando e abraçando quem com ele dançava en­quanto sorvia o calor humano como uma esponja, dando-se apenas então conta da falta que lhe fizera. Não tivera sequer a voz do seu mestre a acompanhá-lo nas últimas semanas, e a sua empedernida alma estalava agora como uma pedra gelada exposta a um repentino calor. Podia não conhecer aquelas pessoas de lado algum, mas o ânimo que as impelia a dançar era como um bálsamo para o mago, que a ele de bom grado se rendeu. O seu mundo andava à volta, e por ele pas­seavam-se dúzias de desconhecidas caras afogueadas e sorrisos abertos, tanto homens como mulheres, que juntos tomavam parte na festiva sinfonia com abandono. Alguns, poucos, deixavam-se cair ao chão, espraiados de barrigas para o ar enquanto ofegavam a olhar para o céu, murmurando epifânicas preces às estrelas. Outros arrastavam-se até às toalhas, onde comiam e bebiam com um gozo quase estival, compartindo os mantimentos espalhados em redor em despreocupada par­tilha. Vinho escorria por queixos e ensopava colarinhos, migalhas de bolos eram cuspidas com risadas engasgadas, e os convivas continua­vam a cantar de bocas descomplexadamente cheias.

Juntando a sua voz à dos outros, Allumno continuou a dançar e rodopiar até ficar tonto, altura na qual as suas pernas cansadas e esfoladas pela sela o traíram, cambando e fazendo com que caísse de forma muito pouco elegante. A sua queda foi ovacionada com grande apa­rato, e o mago bateu palmas enquanto se rolava no chão sobre a capa, rindo com a sua própria falta de jeito. Foi consolado por outros foliões, que trouxeram uma pipa de vinho destapada e a seguraram convidativamente inclinada sobre Allumno, que fez que sim com a cabeça e abriu a boca de olhos fechados. Quando o vinho começou a verter, chapinhou-lhe em todas as partes da cara menos a boca, e o mago cerrou os olhos com uma hiante risada, engasgando-se quando os seus improvisados servos por fim acertaram no alvo. A sua situação provocou uma gargalhada geral de boa índole entre os presentes, que apoiaram as mãos nos joelhos e apontaram para ele, anuindo em ges­tos de aprovação enquanto Allumno se encharcava a tentar beber o resto da pipa, que felizmente já estava praticamente no fim. Quando as últimas gotas pingaram sobre os olhos de Allumno, os homens largaram a pipa, deixando-a rolar vazia pelo chão, e alguns reuni­ram-se à volta do encharcado mago para o ajudarem a levantar-se, mas as mãos e os pulsos molhados de Allumno escorregavam, e este caiu repetidas vezes antes de o pegarem pelas roupas. Sem nada facilitar, o mago continuou a rir alegremente mesmo quando tornaram a deixa­do cair, fazendo com que batesse com a cabeça na terra pisada, após o qual ergueu as incrédulas mãos manchadas de vinho diante da sua cara. Foi nesse momento que caiu em si, e que toda a situação se ali­nhou como as peças de um quebra-cabeças diante dos seus olhos. As estrelas cadentes, a deusa caída à terra, o estranho silêncio dos deuses, a sombra no Pilar... «Não... não pode ser!»

As suas mãos e mangas tintas de vinho, tão parecido com sangue, o sangue negro d’O Flagelo que fora vertido no Pilar, cuja sombra se revolvia, acirrada, assim como as sombras dos homens que se curvavam sobre ele.

— Não! — vociferou o mago, esbracejando desajeitadamente e enxotando as mãos que o queriam ajudar.

Os homens afastaram-se, e Allumno virou-se de barriga para baixo e tentou rastejar para longe deles. Inicialmente surpresos com a sua reação, os foliões cedo o esqueceram e viraram as suas atenções para algo de mais animado, recomeçando a dançar e a cantar. Quem se encontrava no chão a comer, beber ou a recobrar o fôlego ainda olhou com ar algo desconcertado, como se o destoar da reação de Allum­no com o ambiente em redor os tivesse atingido fisicamente, mas também eles não tardaram a esquecer o sucedido e a retomar os ani­mados festejos. Por sua vez, Allumno arquejou enquanto rastejava para longe daquela gente possessa, sujando as mãos molhadas com terra, que se colava ao vinho na sua pele e se entranhava debaixo das suas unhas. Aliada ao júbilo que dele se apossara, a inesperada revelação deixara o mago não só atordoado e tonto, mas também desconfiado dos seus próprios sentidos, razão pela qual se quis afastar do foco de atividade dos foliões, do estranho enxame de corpúsculos flutuantes dos quais toda aquela loucura parecia emanar.

«Deuses...», pensou o mago, virando-se de lado e olhando por cima do ombro para a fogueira rodeada de pessoas a dançar. «Ele matou-os... as estrelas cadentes, o fogo do céu... ele matou-os! »

A situação era mais grave que ele ou o seu mestre poderiam ima­ginar, e talvez tivesse sido precisamente por esta razão que Zoryan se ausentara. Podia até explicar o silêncio do arquimago, embora nesse caso o tornasse mais preocupante ainda, pois se O Flagelo conseguira ou estava a conseguir matar os deuses, o que poderia estar fora do seu alcance no Pilar? As conseqüências eram inimagináveis, e quanto mais Allumno pensava nas implicações, mais contraído o seu estômago ficava, como que atado com força com as suas próprias entranhas. Tão apertado ficou, que logo de seguida o mago ergueu-se de escantilhão como se algo tenso tivesse rebentado dentro dele, arrancando relva do chão com mãos e pés e correndo na direção do seu cavalo. Sabia que o animal estava exausto, e que uma cavalgada a meio da noite o mata­ria, mas agora não havia mesmo tempo a perder. Tinha de cobrir a maior distância possível enquanto ele e o garrano fossem fisicamente aptos, nem que fosse preciso caminhar a pé e levar o animal pelas rédeas, só não podia era ficar parado. A enormidade da situação foi-lhe impossível de processar, e Allumno conseguia apenas agir em resposta, removendo a manta de cima do cavalo e montando a sela com gestos entorpecidos pelas mãos em estado de choque.

«Ob, deuses...», rogou o mago, mal se apercebendo da futilidade de semelhantes preces. O seu nervosismo era facilmente perceptível ao cavalo, que relinchou de leve com os rígidos e desajeitados gestos que lhe montavam a sela no dorso de pêlo úmido e amassado. «Porque não fala comigo, mestre? Porque não fala comigo...?»

 

O exército de Vaul-Syrith levara o seu tempo, mas chegara por fim às portas de Ul-Thoryn, trazendo nas suas costas um horizonte car­regado e sombrio. Lorde Sunlar mobilizara todos os seus barões, cujos estandartes serpenteavam ao vento naquele dia de tíbia Primavera, que parecia temer um último gesto de desafio do Inverno que tardava a acabar. Hostes da mais afamada cavalaria de Nolwyn alinhavam-se em fileiras à distância, poupadas ao pó graças às recentes chuvas, com lan­ças a ondularem como uma rutilante seara de aço soprada pela brisa. Os acampamentos de comerciantes e mercadores insatisfeitos que se tinham formado às portas da cidade nas últimas semanas tinham-se entretanto dispersado, temendo ser apanhados entre ambas as forças ou massacrados por associação com Ul-Thoryn. Havia já muito tempo que não era segredo aquilo que se estava a passar entre ambas as cidades-estado, com os rumores da traição do príncipe Aewyre e os relatos algo fantasiados da subsequente menagem da princesa Lhiannah, e todos estavam aterrorizados com a possibilidade de um derramamento de sangue. Os habitantes de Nolwyn tinham conhecido apenas a paz nos últimos vinte anos, e agora que o exército syrithiano por fim chegara, todos temiam o pior.

Aewyre encontrava-se montado numa agitada rua, acompanhado por Lhiannah, Worick, Daveanorn e uma escolta da sua guarda regencial. Poucos habitantes se encontravam dentro de casa, e quase todos tinham saído às ruas da cidade para saberem o que se estava a passar e o que iria ser feito a respeito. Numa metrópole das dimensões de Ul-Thoryn, as informações tardavam a chegar a todos os distritos, mas na tensa situação que atualmente se vivia, bastara um mero rumor para que a população se conglomerasse nas ruas antes mesmo de a milícia ser destacada para controlar a situação. Aewyre não desejava uma batalha, e tinha a certeza de que a conseguiria evitar. Na pior das hipóteses, os syrithianos levariam bastante tempo a posicionarem as suas forças, e de qualquer forma dificilmente conseguiriam cercar a vasta cidade. Tinha tempo, disso estava certo, daí que as suas únicas ordens haviam sido as de destacar a milícia para manter a população calma, e a guarda do palácio para as muralhas. Não mobilizara sequer os conscritos rurais, preferindo usados como forças de ordem nos arrabaldes de Ul-Thoryn para que a ameaça de guerra não encorajasse bandidos ou um êxodo em massa dos campos e aldeias. O Ábaco e as guildas de manufatura foram efusivas no apoio às suas diretivas, parecendo imensamente aliviadas por Aewyre não partilhar as idéias do seu irmão, que aparentemente os encostara à parede para conseguir aquilo que queria. Quem parecera algo desiludido fora o lente Saregna, o reitor da Academia Bélica de Ul-Thoryn, que evidentemente ansiara por poder pôr novamente em prática os seus ensinamentos; e sobretudo o grão-mestre Stafico da Ordem Bélica, que estivera perto de chamar herege a Aewyre. Ao que parecia, Gilgethan não estava a responder às preces dos seus fiéis, e Stafico vira na falta de vontade de Aewyre em empreender guerra o motivo para o silêncio do seu deus, que certamente estaria desiludido com o filho de Aezrel Thoryn.

Embora ainda não tivesse feito a declaração oficial, Aewyre come­çara a expor-se mais nos últimos dias, deixando que as notícias e os rumores circulassem por si sós, assegurado pelo condestável Romical de que a ameaça do exército de Vaul-Syrith iria impedir uma rebelião, pelo menos por enquanto. Desde que regressara com Kror a Allahn Anroth, o jovem mal tivera tempo para respirar, entre as conferências com o Ábaco, as discussões de estratégia com Daveanorn e Romical, pesquisar os apontamentos com Layaline, visitar ocasionalmente o seu ainda traumatizado irmão, gerir as duas cortes que se encontravam no palácio... Estava a fazer tudo menos preparar-se para enfrentar O Flagelo, a deixar-se distrair pelas burocracias do palácio, a assinar papéis e a premir sinetes em cera quando devia estar na cela de Kror pelo menos a manter viva a tensão do «tendão». O último combate entre ambos estragara-lhe talvez definitivamente as suas hipóteses de poder combater o drahreg, pois se já antes Kror não estivera no pleno das suas capacidades, agora estava verdadeiramente aleijado, com uma perna manca e a outra inutilizada. Aewyre não soube dizer se o atirar-se para debaixo do martinete fora ou não um gesto calculado, ou se pretendera apenas morrer e levar o seu adversário consigo, mas a ver­dade era que conseguira manter-se vivo e ao mesmo tempo arruinar os planos de Aewyre. Era uma possibilidade na qual preferia nem sequer pensar, concentrando-se antes na esperança de conseguir curar Kror, ou pelo menos deixá-lo em condições de combater, nem que tivesse de cortar os seus próprios tendões para os deixar em igual­dade de circunstâncias. O jovem mandara vir sacerdotes de Acquon ao palácio numa vã tentativa de sarar os ferimentos do drahreg, ou pelo menos amainá-los, mas tal como Gilgethan, Acquon também não estava a ouvir as súplicas daqueles que o veneravam. Sem outras alter­nativas, deixara-o ao capaz cuidado de Thaddeo — de entre os mor­tais, aquele que a ver de Aewyre mais poderia fazer pelo jarrete cortado de Kror — mas o cirurgião queixara-se da hostilidade e falta de cooperação do drahreg, pelo que Aewyre destacara dois homens da sua confiança para o acompanharem, não fosse Kror pôr-se com idéias. Já por várias ocasiões testemunhara a ferocidade do drahreg, a selvajaria animal que dele se apossava quando rodeado de inimigos, e pessoas tinham morrido por o ter subestimado: um erro que não tornaria a cometer.

— Aewyre? — ouviu a voz de Lhiannah chamar de leve.

— Sim? — despertou o jovem, olhando para a princesa que se en­contrava a seu lado, cercada como ele pela escolta de guardas que lhes abriam caminho e resguardavam dos mais insistentes cidadãos das ruas.

Lhiannah trajava uma túnica vermelha atada à cintura, parecida com a camisa que usara no dia em que a conhecera, e trazia as tornea­das pernas a descoberto, calçando um par de botas e complementando a indumentária com a tiara prateada encastoada entre um crescente com uma pedra-da-lua que os eahlan lhe tinham oferecido. Aewyre ainda insistira que usasse um vestido, não fosse lorde Sunlar pensar que a tinham tratado mal, mas a arinnir afirmara com um sorriso que seria precisamente isso que o seu pai pensaria se a visse de saias.

— Não te preocupes. O meu pai não tem medo da guerra, mas se tiver a escolha, prefere a paz — garantiu, erguendo então a sobrancelha e o canto da boca. — O que foi? Porque estás a sorrir?

Era verdade, mas Aewyre retificou prontamente a pouco apro­priada expressão da sua cara, pois teria de se manter sério e sereno se queria evitar a guerra entre ambas as cidades-estado. Ainda assim, não conseguia deixar de achar piada ao fortuito paralelismo da indu­mentária de Lhiannah, como que a sinalizar a plenitude do círculo que agora se fechava.

«Um novo início? Ou o começo do fim?», questionou-se, banindo pron­tamente tão funestos pensamentos da sua mente. — Nada. Lembrei-me só das tuas roupas, da primeira vez que nos vimos.

— As minhas roupas...?

— Sim. Ou melhor, da falta delas. Nem uns míseros coxotes nas pernas, se bem te lembras — acrescentou Aewyre com um sorriso maroto.

Lhiannah soltou uma leve e incrédula risada, abanando a cabeça.

— Não acredito que te lembres disso...

— Lembro-me pois — afirmou Aewyre, achegando o seu cavalo do da princesa e roçando-lhe a mão com a sua, antes de lha agarrar. — Entre outras coisas...

— Pois olha que aquilo de que eu me lembro melhor é de teres levado um valente pontapé na boca — recordou a rude voz de Worick, surgindo ao lado de Aewyre com o olhar fito em frente, mas fazendo questão de abalroar o cavalo do jovem com o seu. — Isso, e de eu te ter quase estrafegado no chão a seguir.

Aewyre abriu um pouco mais o. sorriso, grato por algo que o dis­traísse dos seus nefastos pensamentos.

— Então e achas que o terias conseguido antes de eu te esborrachar a cara ao murro?

— Pffft. Já nessa altura batias como uma menina — contrapôs o thuragar, passando o indicador pelo repolhudo nariz que então par­tira. — E a Lhiannah já tinha o Allumno batido, se por acaso tivesses sorte numa das tuas festinhas.

— Sim, se ele não me tivesse convencido de que tinha um feitiço pronto, quem sabe o que poderia ter acontecido? — questionou-se Lhiannah.

— Se, se, se... — gozou Aewyre. — Vocês são é maus perdedores.

— O mago fez batota — defendeu-se Worick.

— E desde quando te importas tu se uma luta foi justa ou não?

— Sempre que não ganho — respondeu o thuragar prosaicamente.

— Vocês também não ganharam — achou Lhiannah por bem retificar. — Acordamos tréguas.

— Sim, mas antes disso houve alguém que desceu do cavalo com o nariz todo empinado, achando-se demasiado fina para a ralé aos seus pés, e que acabou estendida no chão — relembrou Aewyre, olhando de esguelha para a princesa.

— Nariz empinado? Quem é que te mandou apalpares-me a perna? Tiveste sorte em eu descer, em vez de fazer o cavalo espezinhar-te.

— Estás satisfeito, Worick? — devolveu Aewyre a atenção ao thuragar. — Sentes-te mais à vontade com este tipo de conversa?

— Não, prefiro ver-vos a comerem-se um ao outro com os olhos — redarguiu este. — Pedras vos partam, será que não conseguem ao menos esperar que voltemos ao palácio? Está um exército do outro lado destas muralhas mal-amanhadas, e atrás delas espera-me o senhor que eu jurei servir, e que com toda a certeza gostaria de me pôr de pernas abertas sobre uma bigorna por eu ter desaparecido com a filha que ele deixou à minha guarda. Perdoem-me por não partilhar da vossa boa disposição. Talvez se eu tivesse galado alguém também me apetece­ria falar de roupas, mas o rabilas do cirurgião disse que eu não devo forçar essa parte do corpo...

— Worick! Mas o que é que...!

Lhiannah não chegou a terminar a frase, sendo interrompida pela mão que Aewyre pousou sobre o seu ombro, abanando a cabeça para lhe dar a entender que não valia a pena. A princesa bufou de indignação, mas acedeu e ficou simplesmente a torcer as rédeas com força, enquanto Aewyre fixou o seu olhar em frente, não mais sorridente. Alheado de tais emoções, Worick nada mais disse, deixando o seu cavalo afastar-se e remoendo os seus próprios receios enquanto trincava o lábio inferior e franzia o nariz.

— Aewyre — interveio Daveanorn ao ver a sua deixa, que apro­veitou para se postar ao lado do agora seu senhor.

— Sim? — replicou o jovem friamente.

— Já temos a confirmação. Lorde Sunlar veio mesmo com o seu exército. Não vai ser com um general que irás falar.

— Ainda bem.

— Aewyre, convém...

— Não se preocupe, mestre — interrompeu o guerreiro, fitando o seu paladino para aliviar um pouco a frieza das suas respostas. — Com isto consigo lidar. É só ser honesto.

Daveanorn não parecia convencido, mas estava aparentemente dispos­to a dar o benefício da dúvida ao politicamente inexperiente príncipe.

— Muito bem. E vós, princesa? Como achais que o senhor vosso pai irá reagir?

— Mal — disse Lhiannah secamente, olhando para a crina do cavalo. — Mas quando vir que eu estou bem, deve acalmar.

«Estamos confiantes, nós...», pensou o paladino para consigo, aba­nando a cabeça perante a situação e orando a Gilgethan para que este hoje não decidisse desembainhar a sua espada.

A escolta atravessava uma das várias pontes da cidade, uma impo­nente estrutura na qual tinham sido erigidos edifícios e lojas, cujos proprietários se encontravam todos no exterior para obterem satis­fações dos guardas que se aproximavam. Cumprindo as ordens de Aewyre, estes indicaram-lhes que circulassem e ignoraram as suas perguntas, sobretudo quando diziam respeito a quem estavam a escol­tar. O grupo deixava atrás de si um rio de rumores e sussurros, mas naquele momento Aewyre não estava particularmente preocupado com o que os cidadãos pudessem pensar. Em breve se lhes revelaria, e o encontro com Sunlar afigurava-se-lhe como o evento ideal ao qual dar seguimento com o anúncio de que regressara para retificar os problemas que o seu irmão inadvertidamente causara. Já tentara par­tilhar os seus planos com Aereth, mas este permanecia num emu­decido estado de choque, que apenas se parecia agravar a cada visita que Aewyre lhe fazia, deixando o jovem preocupado com a sua sani­dade. Aereth passava os dias sozinho na sua cela, e os guardas diziam que não era de todo infrequente apagar as velas que lhe davam e ficar a falar com a escuridão durante horas a fio. Era preocupante, e mais uma preocupação para o rol que pesava sobre o peito de Aewyre todas as manhãs quando o guerreiro se levantava a custo, deixando-o duro por dentro como o músculo que se retesa antes do impacto. Apenas a presença de Lhiannah a seu lado lhe aliviava um pouco a quase pé­trea rigidez de corpo e espírito que dele se apossava ao despertar, mas mesmo com o amparo da princesa era-lhe difícil suster o peso do mundo. Para além disso, tinha também de se debater diariamente com a sua resolução para com a senda da lâmina, cujo princípio traí­ra com todos os subterfúgios aos quais tivera de recorrer para gerir a cidade agora debaixo do seu controlo. Fizera perigar o seu compro­misso de tomar a via mais direta para a resolução dos obstáculos que se lhe deparassem, e isso mais a potencial invalidez de Kror fazia-o temer que o impensável acontecesse e a própria Essência da Lâmina o abandonasse e ao drahreg...

«Pela mão decepada de Kispryn, mas será que não consigo deixar de ser agourento?», censurou-se Aewyre, concentrando-se antes na tarefa que tinha em mãos.

Os companheiros e a escolta percorreram o resto do caminho até ao portão leste da cidade sem quaisquer incidentes, e os guardas do palácio que lá se encontravam mandaram prontamente erguer o des­medido rastrilho. Com um ranger metálico de correntes e o rilhar de engrenagens, as enormes puas de ferro saíram dos seus recessos no chão pela primeira vez em dias, e o ruído causou algum alvoroço nas casas adjacentes, sem que contudo alguém ousasse sair às ruas, pois quem ali vivia já sabia da existência de um exército inimigo no exterior. Os guardas da dianteira da escolta olharam para trás através das suas bar­budas como para pedir confirmação a Aewyre, que fez que sim com a cabeça, sinalizando a saída do grupo da cidade. Alguns dos guardas olharam para trás quando o rastrilho se fechou novamente nas suas costas, debatendo-se com um crescente receio que roia o seu sentido de dever, agora que se encontravam entre as muralhas e um exército inimigo às portas da cidade. Worick olhava num misto de deter­minação e ansiedade para os homens de Vaul-Syrith, alguns dos quais provavelmente tivera sob o seu comando, enquanto Lhiannah estava hirta e algo pálida, branqueando os nós dos dedos com a força com que agarrava as rédeas.

Aewyre observou a hoste com frieza, percorrendo-a de uma ponta à outra com o olhar, focando-se no grupo de cavaleiros que dela se separou, encaminhando-se na sua direção. Era lorde Sunlar, acom­panhado por aquele que devia ser o seu paladino e uma escolta da sua guarda regencial, que por cortesia não excedia em número aquela que vinha dos portões da cidade. Quatro dos cavaleiros seguravam as hastes de um palio enrolado, debaixo do qual os dois comandantes deveriam conferenciar, e Daveanorn suspirou de alívio.

— Ótimo. Quer falar. E vem com o paladino dele, Jestiban Kilune. O rapaz é sensato.

— É — concordou Worick. — Sempre teve a sensatez de não me desafiar abertamente na corte. Agora que lhe dei uma faca e lha encos­tei à minha garganta...

— Cala-te, Worick — disse Lhiannah rispidamente. — O Jestiban já é paladino e condestável. Porque haveria de querer ser general também?

— Porque haveria eu de te dar ouvidos se tu um dia me dissesses que querias ir para Asmodeon com um bodefe e um mago maluco só para fugires de casa? — retorquiu o thuragar sem sequer olhar para a princesa.

— E porque haveriam vocês de começar a discutir agora? — inter­veio Aewyre com a precisão de um corte de espada.

Embora de mau grado, os dois calaram-se e não insistiram na altercação, e o guerreiro deixou-os entregues aos seus tensos pensa­mentos, que na verdade com eles partilhava. Por muito que se tentasse convencer do contrário, o encontro com lorde Sunlar podia ser se não fundamental, então pelo menos de grande importância. Não se podia concentrar na Essência da Lâmina se estivesse em guerra, e não poderia sequer começar a pensar em apresentar uma frente unida contra as forças d’O Flagelo se as restantes nações vissem o exército de uma das cidades-estado de Nolwyn à sua porta. Convencer Sunlar seria sem sombra de dúvida um primeiro e importante passo, e se conseguisse que o senhor de Vaul-Syrith desse o exemplo às restantes cidades-estado, então teriam pelo menos as hostes meridionais a postos.

Alheio a tais considerações estratégicas, lorde Sunlar mandou os seus homens pararem a uma distância segura das muralhas da cidade, não demasiado longe das suas próprias forças e seguramente fora do alcance das inexistentes balistas ou trabuquetes de Ul-Thoryn. Os quatro cavaleiros formaram um quadrado à sua volta, erigindo o pa­lio que, dadas as condições atmosféricas, servia mais para dar um ar solene ao encontro do que propriamente para proteger os intervenientes do sol. Aewyre ajeitou então o cabelo, e passou por entre dois cavalos da sua escolta para tomar a dianteira do grupo. Envergava o regencial arnês forrado a tecido vermelho e com uma águia dourada nele emalhetada, e, com Ancalach à sua cintura, dispensava certa­mente quaisquer outros acessórios, visto que a Espada dos Reis era reconhecível mesmo apenas através do ornado punho. Daveanorn veio postar-se a seu lado, sussurrando ao jovem que se mostrasse firme mas não altivo, conselhos que Aewyre ignorou, anuindo distraidamente. Lhiannah fez ela também questão de ir para a frente, mas foi pronta­mente refreada por Worick, cujo cavalo trotou uns passos curtos para permitir ao thuragar segurar as rédeas do da princesa. Esta olhou indignadamente para o seu mentor, que lhe deu a entender que não seria prudente expor-se antes sequer da primeira abordagem, mas a arinnir arrancou-lhe obstinadamente a mão das rédeas e esporeou a sua montaria para que esta avançasse.

— Oh, pedras me partam! — praguejou Worick entre dentes, indo-lhe atrás. — Casmurra da cachopa!

A tensa aproximação dos homens de Ul-Thoryn foi atenta­mente observada pelos de Vaul-Syrith, dos quais dois cavaleiros se posicionaram ao lado das hastes do seu palio, segurando-as de braços estendidos. Os guardas de Aewyre perceberam a mensagem e olha­ram para o seu senhor, que acenou afirmativamente com a cabeça, indicando-lhes que fossem eles segurá-las. Dois deles assim fizeram, adiantando-se ao guerreiro e trocando olhares algo forçosamente ten­sos com os seus congêneres syrithianos, estando ambas as partes cien­tes de que aquele era mais um conflito entre regentes do que pro­priamente entre as duas cidades.

— Tem cuidado com o que dizes, Aewyre — insistiu Daveanorn sem tirar Sunlar da sua vista. — O teu irmão ofendeu-o gravemente.

O jovem limitou-se a acenar discretamente com a cabeça, os seus lábios premidos numa linha e os olhos bem abertos, impedidos de pis­car pela sua vontade enquanto mirava lorde Sunlar. O senhor de Vaul-Syrith já desmontara e aguardava debaixo do palio com o seu paladino, com o qual Aewyre já antes se cruzara na Latvonia. Como símbolo da proximidade cultural que a cidade tinha com a nação vizinha de Thyr, ambos usavam armaduras comparativamente leves para homens de armas de uma nação do Sul: Jestiban envergava uma brigandina forrada a tecido branco com gravuras amarelas, referentes ao corcel amarelo que era o brasão de Vaul-Syrith; e o seu senhor tra­java sobre a túnica de cota de malha uma bela jaqueta de argempel com padrões eqüestres, com uma capa amarela aos ombros na qual estavam também bordadas as armas da cidade que regia. Aewyre lem­brava-se da cara angular e dos intensos olhos escuros do paladino, que naquela altura pareciam contudo receosos, embora a expressão na sua escanhoada cara esculpida de um bloco de mármore estivesse tão fria e determinada quanto a do seu senhor. Esse, por sua vez, tinha todo o ar de um selvagem guerreiro das planícies thyranas, com os longos cabelos a darem-lhe pelos ombros, cãs entrançadas nas têmporas e ferozes olhos castanhos debaixo de sobrancelhas angulares. Prova­velmente devido às viagens, não tinha sequer a sua reputadamente meticulosa barba enfatizada pelos proeminentes maxilares, pois esta crescera-lhe entretanto como a do mais comum soldada em campanha, e aguardava de braços cruzados numa pose muito pouco senhoril. Tinham ambos espadas às cinturas, e os guerreiros syrithianos nem sequer se haviam incomodado a virar os escudos para fora em sinal de paz. Os arnesados homens de Ul-Thoryn não tinham essa preocupação, mas Daveanorn lembrara-se de ao menos lhes ordenar que embainhassem as espadas do lado direito, um gesto simbólico que passou desper­cebido ou foi simplesmente ignorado.

A poucos passos do palio, Aewyre puxou levemente as rédeas do cavalo e desmontou, oferecendo a mão a Lhiannah para a ajudar en­quanto Daveanorn e Worick desciam eles também das selas. As cica­trizes na face do thuragar estavam bem mais vermelhas que o que era habitual, ou então estava só particularmente pálido, e Aewyre ficou com a mão molhada ao agarrar a de Lhiannah, apertando-lha num gesto de reconforto que de pouco serviu. Não querendo delongar mais o inevitável, o guerreiro tomou então a iniciativa de avançar, passando por entre os seus homens e ficando cara-a-cara com lorde Sunlar, acompanhado de perto por Daveanorn e seguido por Lhiannah e Worick. Soprava uma brisa fria nos campos além da cidade, e houve quem tivesse dificuldade em reprimir os arrepios que acometeram alguns dos presentes.

— Lorde Sunlar — saudou o guerreiro, levando a mão ao peito e fazendo uma ligeira vênia. — Lorde Jestiban.

Daveanorn foi mais solícito na sua, mas os dois homens de Vaul-Syrith limitaram-se a acenar com as cabeças, dando mais atenção à tímida entrada de Lhiannah e Worick.

— Meu senhor... — saudou o thuragar com uma desabituada mesura.

— Pai... — disse Lhiannah por falta de termo mais adequado, cruzando as nervosas mãos sobre o colo.

Sunlar ficou a olhar sobretudo para a sua filha de braços cruzados, dispensando apenas um relance ao seu general e ignorando totalmente Aewyre e Daveanorn, que lhe deram tempo para compor as suas pala­vras. Quando estas tardaram, porém, Aewyre decidiu tomar ele a ini­ciativa.

— Lorde Sunlar, nós...

— A minha querela não é contigo, jovem príncipe — interrompeu o regente. — É com o teu irmão pusilânime que eu desejo falar.

Não era a forma mais cortês de iniciar diálogo, mas Aewyre reconhe­ceu os motivos que Sunlar tinha para estar indignado, não sendo sequer necessário o discreto olhar de advertência que Daveanorn lhe lançou.

— O meu irmão não se encontra apto, pelo que vim eu conferenciar convosco, para que possamos pôr termo a este conflito que só poderá prejudicar ambas as nossas cidades.

Sunlar sorriu, fungando em tom jocoso.

— Então é assim? Aereth manda trazer a minha filha como se nada fosse, envia o seu irmão para não correr ele riscos e tenta dissuadir-me de um confronto agora que a minha hoste se encontra as suas portas? — disse o regente em tom crescentemente exaltado. — O que julgava ele, que eu estava a brincar? Que estava a fazer ameaças vãs e que me ficaria por missivas indignadas?

— Meu senhor... — tentou Daveanorn temperar em vão.

— Eu não ameaço, jovem príncipe, eu cumpro! — rosnou Sunlar, cujos cabelos se agitaram com o vento que se levantou, à medida que as nuvens se conglomeravam e escureciam no horizonte. — O teu irmão capturou a minha filha para a usar como moeda de troca, virou o meu general contra mim, tentou minar a minha autoridade, amea­çou a minha cidade... e espera que eu retire com os meus homens só porque agora ficou com vontade de pedir tréguas?!

— Sunlar...! — rogou Worick, fazendo com que o seu senhor olhasse na sua direção com um brusco gesto da cabeça, que lhe sacu­diu a melena e as tranças.

— Para ti é «lorde Sunlar» ou «meu senhor», Worick de Taramon dos Veios de Ouro.

Humilhado, o thuragar vergou a custo a cabeça.

— Meu senhor, a situação... não é o que parece.

— Oh? Então e que te parece ela? — indagou o regente, virando o olhar para Lhiannah. — Ou a ti, filha, que ainda não disseste nada?

— Pai... — pronunciou-se por fim a princesa, engolindo em seco. — Por favor, ouve o que o Aewyre tem para dizer.

— Ai já é Aewyre, agora — constatou Sunlar. — Após vos ter encontrado na Latvonia, o Jestiban disse-me que tu e o príncipe esta­vam a... Como era, Jestiban?

— Investigar... a agitação causada pelos ocarr na Latvonia — recor­dou o paladino. — E a assegurar uma maior... proximidade entre as casas de Ul-Thoryn e Vaul-Syrith.

— Proximidade entre as casas... — repetiu Sunlar, anuindo. — Aereth Thoryn disse-me algo semelhante quando me convidou para um banquete, findo o qual me revelou que estivera em conluio com Lennhau numa de todo subtil indicação de que me deveria juntar a eles, ou eventualmente sofrer as conseqüências...

— Pai! — interrompeu-o desta vez Lhiannah. — Por favor, ouve o que o Aewyre tem a dizer!

Os lábios de Sunlar comprimiram-se então, mas o olhar da sua filha recordou-lhe o principal motivo pelo qual ali se encontrara, e o re­gente tornou a cruzar os braços e a olhar para Aewyre.

— Muito bem, jovem príncipe. Diz o que tens a dizer.

— Meu senhor, fomos todos ludibriados por um servo d’O Flagelo, que pretendia com este conflito criar a dissensão em Nolwyn — disse Aewyre, indo direito ao assunto sem mais delongas.

Conseguiu que Sunlar arqueasse a já de si angular sobrancelha, mas pouco mais.

— Manipulou o meu irmão, e através de subterfúgios na corte da nossa cidade, conduziu os eventos até esta desagradável situação — con­tinuou o guerreiro com o tom confiante de quem se convencera a si mesmo de algo. — Nunca foi a intenção do meu irmão entrar em guer­ra com Vaul-Syrith, nem sequer aliar-se a vós. Foi-lhe feito crer que havia contra ele uma conspiração, que começou com a minha partida e subsequente... envolvimento com a vossa filha. Os rumores de que havíamos sido vistos juntos foram distorcidos e considerados uma tramóia da minha parte, uma aliança que eu fizera com Vaul-Syrith para destronar lorde Aereth.

— Deveras? — interrompeu o regente. — Então e diz-me, jovem príncipe: por que razão não veio ele?

— Como referi, lorde Sunlar, o meu irmão não se encontra apto... — hesitou Aewyre pela primeira vez.

— Apto? Como assim? Está doente? Padeceu da covardia castanha quando soube que eu cá estava? Ou encontra-se impossibilitado de vir falar comigo cara a cara?

O semblante de Aewyre escureceu.

— Está sob menagem, lorde Sunlar — declarou. — Por minha ordem.

— Oh! — Sunlar descruzou os braços, firmando a sua postura. — Devo então deduzir que as suspeitas de lorde Aereth não eram de todo infundadas?

— Não, lorde Sunlar — disse o jovem num tom algo agastado.

— Eu não destronei o meu irmão. O que acontece é que, quando da minha chegada ao palácio com Ancalach, o servo d’O Flagelo revelou as suas cores e causou o pandemônio. Muitos cortesãos nossos mor­reram, e a então visitante corte de Lennhau foi quase dizimada, com lorde Tylon, a sua esposa e a princesa Iollina entre as baixas.

Sunlar não comentou, ciente da gravidade de tais notícias caso estas fossem verdadeiras.

— O meu irmão... responsabilizou-se pelo sucedido, e permanece em estado de choque. É por essa razão que não pode hoje aqui compa­recer — continuou Aewyre. — E é por essa razão que venho pedir­mos perdão em nome dele, e pedir-vos que, em vez de brandirdes a vossa espada contra as nossas muralhas, a empunheis a nosso lado.

— E porque haveríamos de o... fazer? — indagou Jestiban, pronunciando-se pela primeira vez.

— O Flagelo está de volta.

Aewyre ficou-se por aí, preferindo aguardar a reação de Sunlar e do seu paladino, que inicialmente se limitaram a piscar os olhos. Repe­tidamente, no caso de Jestiban. Seguiram-se uns desconfortáveis momentos de silêncio, nos quais o vento enfunou capas e deixou cabe­los em desalinho; as hostes de Vaul-Syrith mexeram-se como uma mas­sa nervosa, e os homens de Ul-Thoryn ajeitavam discretamente as espadas à cintura.

— Ficas-te por aí, jovem príncipe? — indagou Sunlar secamente.

— Esperas que acredite só porque o disseste?

— É verdade pai. Eu... eu vi-o! — disse Lhiannah, olhando para Worick à procura de apoio.

— Também eu, meu senhor — afirmou o thuragar. — Também eu não acreditaria, mas a verdade é que o vi. Vimo-lo todos em Asmodeon. Foi apenas por essa razão que regressei a Ul-Thoryn em vez de Vaul-Syrith.

— Basta! — vociferou o regente, erguendo a farta mão. — Não quero ouvir mais inanidades. Lorde Aewyre — disse, dirigindo-se a Aewyre pelo título pela primeira vez, embora o tom desse a entender que se devia a tudo menos respeito —, porque haveis partido de Ul-Thoryn?

O jovem não esperara que a conversa assumisse um tom tão pessoal, e hesitou novamente antes de responder, sentindo que a sua já de si frágil credibilidade esmorecia a cada batida do seu coração em silêncio.

— Parti para descortinar de uma vez por todas o destino do meu pai — prosseguiu por fim. — Sempre me recusei a acreditar nas histórias que diziam que ele tinha morrido durante a Guerra da Hecatombe, e...

— Partistes para as Estepes de Karatai, segundo me constou — tornou Sunlar a interromper, confirmando com Jestiban e olhando de seguida para Worick.

— Atravessei uma a caminho da outra — respondeu Aewyre, cer­rando e descerrando os punhos numa tentativa de se manter calmo.

— Apenas em Asmodeon poderia obter respostas, visto que todas as histórias diziam que o meu pai lá perecera...

— E achásteis por bem levar a Espada dos Reis.

O guerreiro pousou instintivamente a mão sobre o pomo de Ancalach, tendo-se esquecido do quão cobiçada ela era, bem como da vital importância desta.

— Sim. Agora a mim próprio me parece uma decisão tola e irrefletida, mas na altura senti a necessidade de me armar para tão perigosa viagem.

— Evidentemente — disse Sunlar com secura. — E a minha filha? Como entra ela nisso tudo?

— Isso... deveríeis perguntar-lhe vós mesmo, lorde Sunlar — redarguiu Aewyre, tirando a mão de cima de Ancalach para com ela indicar Lhiannah.

Sunlar não discordou, e fitou pela primeira vez a arinnir com a severidade inflamada pelo ferido amor paternal. Lhiannah esqueceu nesse momento todas as frases que memorizara, todas as palavras con­vincentes que preparara no caminho até ali, e viu-se de boca entreaberta mas incapaz de falar debaixo do olhar do pai, cuja falta tanto sentira mas cuja proximidade agora a aterrorizava como apenas um pai o conseguia fazer.

— Então, filha, não tens nada a dizer? — indagou o regente num tom algo contrito. — Desapareces um dia, mandas-me uma carta num cavalo a dizer que regressarás «oportunamente», e mais de um ano depois, encontro-te aqui com as pessoas que conspiraram contra mim?

— Sun... meu senhor — interveio Worick, vendo o palor da sua pro­tegida. — Sabes... sabeis bem que a Lhiannah não se sentia bem em Vaul-Syrith.

A expressão de Sunlar tornou-se mais severa, mas não interrompeu o thuragar, nem sequer olhou para ele.

— Sempre foi a indesejada, a bastarda da corte — continuou Worick, verbalizando aquilo que nunca antes ousara proferir diante do homem que servia. — Não havia lugar para ela no palácio: as rapa­rigas infernizavam-lhe a vida por não ser filha da vossa esposa, tinha de ser escondida sempre que havia alguma cerimônia, e os preten­dentes...

— Sim? — incitou Sunlar ante a hesitação de Worick. — Que tinham os pretendentes?

Aewyre estranhou a ênfase do regente, e notou que Lhiannah ficara mais pálida ainda, olhando para o pai com olhos de corça assus­tada. Worick tartamudeou um pouco, mas o seu senhor acabou por passar por cima do assunto.

— Decidiste então embarcar numa viagem para Asmodeon, só porque estavas enfadada com a vida no palácio? — continuou, man­tendo a filha implacavelmente presa com o olhar. — Porque te sentias sozinha? Ignorada? Desprezada?

— Pai, eu...

— Porque não falaste comigo, em vez de te ires embora?! — exal­tou-se Sunlar com dois bruscos gestos das mãos, que fizeram Lhiannah estremecer.

— De que é que servia falar? — lacrimejou a princesa. — Sempre falei contigo, sempre me disseste que não fazia mal, que um dia a Alnara iria gostar de mim, que todos iriam parar de sussurrar sempre que me viam, que eu podia andar à vontade no palácio!

As palavras de Lhiannah deram origem a outro momento de silên­cio, durante o qual soluçou tremulamente enquanto sentia o peso dos olhares de todos em cima de si. Aewyre quis dizer algo, mas aquela era uma situação para a qual não viera preparado, e nada disse até Sunlar retomar a palavra, agora com tom mais comedido.

— E por isso... fugiste de casa? Sentias-te mal em Vaul-Syrith... e foste para Asmodeon? — Não sabendo como responder, Lhiannah esfregou o nariz para parar de fungar. — E tu, Worick? Tinhas a responsabilidade de tomar conta dela, de a proteger. Como pudeste deixá-la fazer o que fez?

— Meu senhor... — disse o thuragar, engolindo em seco. — Não fiz nada além da minha obrigação: zelei pelo bem-estar da vossa filha.

— Indo com ela para Asmodeon?

— Ela definhava em Vaul-Syrith — porfiou Worick com deter­minação de pedra. — Estava a morrer uma morte lenta por dentro. Se tivésseis visto a vossa filha... nunca a vi tão viva como durante as nossas viagens. Lamento que ela tenha partido da forma como partiu, sem vos avisar antecipadamente ou pedir a vossa permissão... mas não lamento de todo que ela tenha partido.

Outro momento de silêncio, no qual se começaram a ouvir peque­nas gotas de chuva caírem sobre o dossel do palio. Aewyre sentiu que estava a assistir a uma disputa familiar, que não era de ;todo a direção na qual quisera orientar o encontro, mas para grande alívio seu, Sunlar deu-lhe novamente atenção.

— E vós, lorde Aewyre? Porque haveis levado a minha filha convosco?

— Eu... precisava de companheiros — disse o jovem, pigarreando de leve. — Sabia que seria uma viagem que eu e o conselheiro Allumno dificilmente conseguiríamos fazer sozinhos, por isso não recusei quando a vossa filha se ofereceu para se juntar a nós.

— E nem por um instante vos ocorreu as implicações que isso poderia ter? — perguntou Sunlar sem qualquer expressão na voz.

— O conselheiro Allumno aconselhou-me a não o fazer. E tam­bém o general Worick fez os possíveis para que a vossa filha não tomasse tal decisão de ânimo leve — referiu, indicando o thuragar para que este não ficasse demasiado mal visto. — Fomos os dois inconscientes, eu e a princesa Lhiannah, e por isso vos peço descul­pas, mas não é motivo para derramarmos sangue de nolwynos nesta terra.

Era demasiada informação de uma só vez, demasiadas justificações inverossímeis, demasiados nomes e demasiada emoção, mas Aewyre viera convicto de que a honestidade seria a única forma de persuadir Sunlar a não ordenar o ataque, e não lhe mentiria.

— O vosso paladino viu-nos na Latvonia. A vossa filha estava bem, e eu não me encontrava lá a mando do meu irmão — continuou, indicando Jestiban, que se limitou a dirigir o olhar para o seu senhor. — A nossa viagem teve o único propósito de descobrirmos o que verdadeiramente acontecera ao meu pai, e agora que o sabemos, as nossas prioridades são outras.

— Uma história muito... emotiva — disse Sunlar após breve pon­deração, fitando Aewyre, Lhiannah e Worick revezadamente. — Ima­ginativa, também, e conveniente.

— Lorde Sunlar, eu trouxe a vossa filha como ato de boa-fé. Não poderíeis ao menos dar-me ouvidos sem descartar prontamente o que digo como mentira?

— Boa-fé? — escarneceu o regente. — Ou medo por agora terem os meus homens às portas da vossa cidade?

— Lorde Sunlar...

— Basta, jovem príncipe — advertiu o regente com uma mão erguida. — Conseguistes convencer-me de que não haveis raptado a minha filha, e que ela não vos acompanhou contra a sua própria vontade. Mas não vai ser por referirdes o nome do vosso pai e O Fla­gelo que eu me deixarei impressionar como um comum camponês, e fingir que nada se passou!

— Lorde Sunlar, tendes de me ouvir! — agastou-se Aewyre de frustradas mãos erguidas e de dedos curvos.

— O sucedido na Latvonia com o barão Dorstyev, que comprome­teu seriamente as relações do seu feudo com Vaul-Syrith; a agitação provocada em Alyun, perturbando a rota do Portão do Norte e inter­ferindo nos laços comerciais diretos com a minha cidade... tudo con­venientemente longe de Ul-Thoryn, mas sempre com Vaul-Syrith como a principal lesada.

— Sunlar! — descuidou-se Worick. — Estás paranóico? Jestiban olhou o thuragar com uma expressão bem mais irada que a do seu senhor, que não interrompeu a sua observação.

— E, finda a vossa viagem, porquê voltarem prontamente para Ul-Thoryn, como me foi dado a entender?

Worick e Lhiannah contraíram-se por dentro, cientes agora da der­radeira importância da decisão que tinham tomado no porto de Sardin. Entre seguirem para Ul-Thoryn ou voltarem para casa, Lhiannah optara por cumprir a promessa que fizera a Aewyre, a de restituir o corpo de Aezrel à sua cidade, e agora essa mesma deliberação voltava para a atormentar de uma forma cruel e inesperada.

— Lorde Sunlar — insistiu Aewyre —, estou tão ciente como vós de que a nossa história parece inverossímil... nós próprios sentimos dificuldade em acreditar em tudo aquilo que presenciamos, mas é a verdade. O Flagelo regressou, e ameaça-nos a todos. Eu não vos estou a mentir, o vosso general não vos está a mentir, e a vossa filha certa­mente nunca vos mentiria...

— Que sabeis da minha filha, Aewyre Thoryn? — regougou o regente.

— Lorde Sunlar, um servo do próprio Flagelo esteve no meu palácio, na minha cidade, na terra que também é vossa! — vociferou então o jovem, perdendo por fim a paciência e causando uma quase imperceptível comoção generalizada entre os cavaleiros de ambos os lados. — Conspirou para nos virar uns contra os outros, quis fragilizar Nolwyn, para que as hostes do seu senhor...!

— Nolwyn não existe, jovem príncipe — interrompeu Sunlar uma vez mais. — Apenas Ul-Thoryn, Vaul-Syrith, e outras cidades que nada querem umas com as outras, além de dinheiro. Mas dizei-me, príncipe: quem era esse servo de que tanto falais, e como pôde ele apa­rentemente não só dispor dos recursos de Ul-Thoryn, como também manipular o próprio regente, hum?

Aewyre encolheu-se por dentro, mas sentiu que quando mais demorasse a dizê-lo, menos credível ainda seria.

— Dilet.

— Dilet? Quem é Dilet?

— O bobo.

Novo silêncio, durante o qual o dossel estalou ao vento, bojando para cima sobre as cabeças dos presentes.

— O... bobo — repetiu Sunlar.

— Sim.

O senhor de Vaul-Syrith olhou para Aewyre de cabeça ligeiramente inclinada para o lado, como se achasse que o jovem estava a fazer pouco dele.

— O servo d’O Flagelo era... o bobo?

— Filho do usurpador que regia Ul-Thoryn antes da chegada do meu pai — explicou Aewyre. — Esperou estes anos todos para se vingar, e vendeu a alma a’O Flagelo para o conseguir...

— O vosso pai também usurpou o trono. Não lhe pertencia por direito — relembrou Sunlar. — E pelo que vejo aqui, a usurpação parece correr no sangue da família.

— Meu senhor, com todo o respeito — rilhou Aewyre os den­tes —, isso não vo-lo admito.

Sunlar ergueu as angulares sobrancelhas ao ver que o cachorro afinal tinha dentes, e Jestiban avançou um passo em frente. Daveanorn fez o mesmo instintivamente, e mãos aproximaram-se dos punhos de espadas num momento em que a tensão alcançou o seu pico, amea­çando transbordar em violência.

— Pai, pára! — rogou Lhiannah interpondo-se entre este e Aewyre com as mãos estendidas na direção de ambos. — Por favor, ele está a dizer a verdade! Nós não estamos a tentar enganar-te!

A princesa reconheceu no semblante do seu pai a expressão que este assumia quando, como um selvagem cavalo obstinado, fincava os cascos no chão e se recusava a ser demovido. Trouxera o seu exército até ali com um pretexto, e ainda que este se tivesse revelado como equivocado, não estava disposto a retirar simplesmente ou a dar parte de fraco. Conhecendo bem tal disposição, Lhiannah achegou-se de Sunlar e agarrou-lhe a mão com as suas, afagando a aspereza de que tanta falta sentira.

— Por favor, não culpes o Aewyre pelo que se passou — pediu, prendendo os olhos de um castanho de madeira morta com os seus orbes azulados e sarapintados de pepitas douradas. Sem qualquer constrangimento, acrescentou em tom mais baixo: — Fui eu que quis partir, mas não por tua culpa. Senti tanta falta tua, paizinho...

O senhor de Vaul-Syrith pareceu comovido por momentos, preen­chidos com o som da chuva a tamborilar contra o dossel em cima e o leve retinir de gotas nos arneses dos cavaleiros de Ul-Thoryn. Unidos pela primeira vez em mais de um ano, pai e filha reconfortaram-se mutuamente com a presença um do outro, mas a expressão de Sunlar acabou por endurecer novamente, e este puxou Lhiannah para si, pousando-lhe um protetor braço sobre o ombro ao devolver a aten­ção a Aewyre.

— O vosso irmão está com sorte, lorde Aewyre — disse, evidente­mente não convencido de que Aereth não estava de alguma forma envolvido no assunto. — Irei retirar com os meus homens, mas que fique bem claro que doravante, Vaul-Syrith renega os já de si tênues laços que a unia a Ul-Thoryn.

— Lorde Sunlar, eu vim pedir o vosso apoio! — exasperou-se Aewyre. — Se as duas mais poderosas casas de Nolwyn não se con­seguirem unir ante a ameaça que aí vem, que esperança haverá para as restantes?

O regente olhou-o como se fosse alguma espécie de idiota de aldeia, semicerrando os olhos de boca entreaberta.

— Haveis sequer ouvido o que dissestes? Dai-vos por satisfeito por terdes conseguido a paz, príncipe, e por eu não desejar envolver-me pessoalmente no que quer que se esteja a passar do outro lado daquelas muralhas — disse Sunlar, para crescente desespero do jovem. — Não conteis comigo para qualquer aliança, lidai vós mesmos com essa «ameaça» de que falais. Ouso mesmo presumir que foi causada pelas vossas irrefletidas ações, seja ela o que for.

Derrotado, Aewyre suspirou pelo nariz, fez um gesto de desalento com as mãos e deixou-as bater contra as coxas, erguendo de seguida a cabeça para fitar diretamente o seu interlocutor.

— Como queirais, lorde Sunlar — disse, conformando-se com a esperança de que o regente certamente mudaria de idéias quando da vinda d’O Flagelo. Só esperava que por essa altura não fosse tarde demais. — Nada mais temos a discutir, então. Tréguas?

— Tréguas — acedeu Sunlar, não sem uma certa medida de má vontade, olhando então para Lhiannah e Worick. — Vou retirar-me com a minha filha e... o meu general. Alguma objeção, lorde Aewyre?

O jovem contara já ter Sunlar do seu lado quando chegassem a tal assunto, e agora que isso não se verificara, a situação afigurou-se-lhe bem mais delicada. Ainda agarrada ao pai, Lhiannah olhou aflita para Aewyre, enquanto Worick baixou a cabeça, sentindo nela imediata­mente o peso da sua decisão.

— Trazer a minha filha foi um gesto de boa-fé, como haveis dito? — quis Sunlar certificar-se, semicerrando os desconfiados olhos ao mesmo tempo que os seus homens se mexeram nervosamente. — Ou quisésteis apenas molificar-me para melhor me persuadir?

— Foi... um gesto de boa-fé, lorde Sunlar — disse Aewyre, de olhos postos em Lhiannah. — Mas a vossa filha é... importante para mim.

— Imagino. É uma valiosa moeda de troca.

O guerreiro cerrou os punhos, mas conteve a raiva que a refratária insistência do regente lhe causava.

— Ela é importante para mim — enfatizou. — E considero o general Worick um amigo, não um servo.

— Ainda bem para vós. Estou certo de que se darão muito bem — respondeu Sunlar sarcasticamente, dando a entender com um olhar que o thuragar estava proscrito. — Posso perdoar uma filha jovem, impulsiva e inconsciente, mas não um veterano de guerra que me deve a vida.

Worick manteve uma expressão estóica ante o solapamento anímico que as palavras do seu senhor lhe causavam, com costas direitas como uma viga de ferro e lábios comprimidos ao ponto de ficarem cobertos pela barba e bigode. Porém, nem mesmo o seu arnês o podia resguardar do impacto do degredo nelas implícito, e Lhiannah mani­festou por ele a dor que sentia, olhando para o seu pai de sobrancelhas franzidas em súplica. Sunlar não se deixou demover, e ordenou aos seus homens que se retirassem com o palio. Os cavaleiros de Vaul-Syrith foram então ter com os de Ul-Thoryn, que olharam para Aewyre para que este confirmasse com um resignado acenar da cabeça que entre­gassem as hastes aos seus congêneres. Estes retiraram-se lentamente, deixando Aewyre, Worick, Daveanorn e a escolta de Ul-Thoryn à chuva. Tencionavam acompanhar o seu senhor para que este subisse ao cavalo sem se molhar, mas Sunlar delongou-se um pouco mais a olhar para Aewyre com um braço a apertar Lhiannah contra si, repa­rando que este não tirava os olhos da sua filha nem parecia fazer tenções de se mexer.

— Tendes algo mais a acrescentar, lorde Aewyre? — perguntou, desconfiado.

Com a chuva a tamborilar-lhe sobre a couraça e as espaldeiras, o jovem ainda assim continuou a olhar para Lhiannah.

— A vossa filha é importante para mim, lorde Sunlar — repetiu. — Não lhe ireis perguntar aquilo que ela deseja verdadeiramente fazer?

Arrependeu-se de imediato do teor da sua pergunta, mas esta saíra-lhe sem que a pudesse refrear, instigada pelo medo de ver Lhiannah ser-lhe tirada. Esperava ter conseguido convencer Sunlar de que as suas intenções eram nobres, e os sentimentos pela sua filha, sinceros, mas falhara e agora tudo dependia da princesa.

Lhiannah olhou alternadamente para o seu pai e para Aewyre, cla­ramente dividida, algo pelo qual Aewyre não a culpava. Sentiu-se um covarde por a forçar a tomar tão custosa decisão, mas fora isso ou ceder ao impulso de desembainhar Ancalach e duelar Sunlar por ela, o que, juntamente com a morte de Tylon no seu palácio, comprometeria defi­nitivamente as suas intenções de apresentar uma frente nolwyna unida contra O Flagelo.

— Eu... — hesitou a arinnir, vendo a ansiedade da qual Aewyre procurava resguardar a sua face, esforçando-se por manter uma expres­são pétrea de cabelos molhados pela chuva e colados à testa em farripas. O seu pai, por sua vez, tinha apenas desprezo nela estampado, olhando para Aewyre como um pretendente de baixa classe.

— Aewyre... — sussurrou Daveanorn em nervosa surdina. — Pára com isto. Tu ainda...

— Hunf — escarneceu Sunlar, virando o ombro a Aewyre e quase arrastando Lhiannah consigo. — Anda, filha. Vamos...

O senhor de Vaul-Syrith ficou hirto quando Lhiannah lhe deslizou para fora do braço, afastando-o delicadamente com ambas as mãos. De incrédula mão estendida, Sunlar viu a sua filha dirigir-se a Aewyre, posicionando-se ao lado dele e agarrando-lhe o braço, não sem dor na expressão ao abanar a cabeça.

— Desculpa, pai... desculpa — pediu. — O Aewyre... ele é muito importante para mim também. E precisa de mim agora.

Atônito, Sunlar ficou a olhar boquiaberto para a sua filha, emulado por Jestiban e pelos seus não menos surpresos homens enquanto seguravam sobre a sua cabeça o agora ensopado palio.

— Lhiannah... — disse o estupefato regente, demasiado chocado para mostrar raiva ou tristeza, ou qualquer outra emoção além do mais profundo pasmo.

— Desculpa, pai... — repetiu a princesa com olhos cintilantes.

Lorde Sunlar nada disse durante aquilo que pareceu ser uma eter­nidade, encharcando os de Ul-Thoryn com a espera. A expressão assom­brada parecia ter-lhe ficado para sempre estampada na face, até que por fim se desvaneceu, dando lugar a um semblante de raiva gelada. As suas sobrancelhas angulares estreitaram-se numa linha sobre os seus olhos, o seu premido lábio inferior desapareceu, como que mordido, e os punhos crisparam-se aos seus lados, fazendo o couro ranger.

— Então... — disse finalmente. — A minha filha é... importante para vós?

Jestiban estava pronto para tudo, temendo a fúria mercurial que sabia poder vir a apoderar-se do seu senhor, que naquele momento olhava Aewyre como um dos muitos bisontes que caçara.

— Muito, lorde Sunlar — respondeu o jovem friamente, sem qualquer presunçoso tom de vitória na voz.

— Desejais porventura... tomá-la? Como esposa? — indagou, inclinando a trêmula cabeça para o lado. — Ou apenas... tomá-la? Como as leiteiras... lavadeiras... serviçais... — enumerou, subindo o tom de voz enquanto o fazia —, ...tecelãs... sacerdotisas... e mesmo camponesas, que tanta e justa fama vos dão?

— Fiz por merecer essa reputação — reconheceu o jovem. — Mas a Lhiannah...

— Como esposa, então? — meio arquejou Sunlar. — É a mão da minha filha que desejais... lorde Aewyre?

O tom de voz do regente assumira contornos estranhos, fazendo com que mesmo Jestiban se aproximasse para pousar uma mão no ombro do seu senhor, que o refreou, erguendo a mão de médio e indi­cador hirtos. Lhiannah apertou o braço de Aewyre, que, assim con­frontado, se viu forçado a responder.

— Com a vossa bênção, lorde Sunlar — disse. — Sim, gostaria de vos pedir a mão da vossa filha, quando tal fosse oportuno.

Pálido, o regente engoliu em seco, erguendo o queixo numa ten­tativa de manter a dignidade que sabia estar a esmorecer aos olhos de quem o via.

— Como esposa, então — declarou. — Com tudo o que do matri­mônio advém, incluindo o assegurar de uma descendência...

Aewyre estranhou os bizarros modos do regente e a mais bizarra ainda escolha de palavras, mas Lhiannah ficou branca como a cal ao perceber aonde Sunlar queria chegar.

— Pai... — praticamente implorou, abanando a cabeça.

— Há algo que devíeis saber, antes de tomar tão... certamente ponderada decisão.

— Meu senhor... — juntou-se Jestiban ao coro.

— É que a minha filha...

— Sunlar...! — tentou Worick intervir, arregalando os alarmados olhos.

— A minha filha não pode ter filhos — declarou, calando todos os presentes com o estampido surdo da revelação.

Lhiannah ficou com os lábios lívidos, e os seus dedos apertaram o braço de Aewyre com a rigidez de uma mão morta, mas o boquiaberto guerreiro mal se deu conta. Olhou para arinnir em busca de confir­mação, e viu que esta fitava o pai com um ar traído e absolutamente mortificado, incapaz de articular palavra. Sunlar nada mais disse, e a sua tensa postura traía uma profunda agitação interior, como se tivesse acabado de bater na filha e estivesse agora a contemplar o sangue no seu punho cerrado. Todo o seu corpo tremeu, e o regente acabou por virar as costas aos presentes num gesto brusco que lhe volteou a capa, dirigindo-se ao seu cavalo com passos tensos. Deu as ordens aos seus homens com um tom de voz cortante, incentivando a sua montaria a andar e subindo-lhe à sela já com o animal em movimento, esporeando-o de seguida e galopando para longe dali enquanto a sua guarda fazia os possíveis por o acompanhar.

Imóveis debaixo da chuva de fim de Inverno, Aewyre e os outros tentavam perceber aquilo que se passava, uns mais confusos que outros, sobretudo os guardas, que se sentiam assaz deslocados no meio de semelhante situação. O guerreiro levou algum tempo até fechar a boca, olhando então para Lhiannah, que seguia a cavalgada do seu pai sem sinal de vida nos olhos, pingando do nariz e do queixo. Tinha a túnica vermelha parcialmente colada ao corpo, e o seu cabelo empapado pela chuva escurecera como o céu e o seu ânimo, aderindo-se-lhe à cabeça e aos ombros como uma folha morta e molhada. Nem sequer piscava os olhos enquanto as gotas caíam sobre a espaldeira de Aewyre e lhe borrifavam a cara, mas assim que o jovem a tentou tocar, a expressão de Lhiannah contorceu-se numa máscara de angústia e esta virou-lhe as costas, correndo para o seu cavalo com um braço solto e o outro a tapar-lhe a cara.

— Lhiannah! — chamou Aewyre de mão estendida, mas Worick refreou-o, fazendo simplesmente que não com a cabeça quando o jovem olhou para ele.

— Worick, ela...!

— Deixa-a, rapaz — disse o thuragar. — Agora não.

Atordoado, Aewyre deixou-se convencer e não foi atrás da prin­cesa, incapaz de sequer ouvir o que Worick lhe dizia, devido ao eco das palavras de Sunlar na sua cabeça. Acabou por apenas observar en­quanto Lhiannah arrancava as rédeas do seu cavalo das mãos de um dos guardas, subindo atabalhoadamente à sela deste e galopando para longe do local a toda a brida, com chuva e lágrimas de vergonha a escorrerem-lhe da face. O corcel podia ter-se retirado do campo de batalha, mas a águia jazia agora nele desamparada, sem aliado e com menos esperança ainda do que antes, enquanto o Inverno se despe­dia com uma chuva, maculando o início de uma já de si nada aus­piciosa Primavera.

 

 

 

                                                             CONTINUA

 

 

 

Estilete e quebra-espadas embateram contra a dura madeira da lança de ponta de obsidiana, enquanto Tannath e Quenestil faziam espirrar neve aos seus pés com a sua fulminante dança de morte. O eahanoir procurava anular a vantagem de alcance do adversário, mantendo-se próximo dele com mortíferas ferroadas, mas o shura empunhava a sua nova arma como uma vara, aparando-lhos facilmente e evitando os restantes com golpes de rins e ancas. A cada golpe des­ferido, o gelo debaixo dos pés de ambos rachava como se os embates nele se refletissem, e o elétrico jogo de luzes verde-fluorescentes no céu parecia estar também a acompanhar os movimentos dos dois combatentes, que iam sendo polvilhados por flocos de neve enquanto lutavam.

Golpe, finta, parada, e o Aesh’alan esticou-se subitamente num contragolpe como uma cobra à primeira aberta. Quenestil recuou com a cabeça, transferindo o peso para a perna traseira ao mesmo tempo que enganchava a de Tannath com a dianteira. Conseguiu fazê-lo perder o equilíbrio com uma pancada da lança no golpe e desconcer­tou-o com um puxão da perna, deixando-o exposto a um golpe com a haste no torso, que derrubou o Aesh’alan. Antes sequer de o eahan negro cair ao chão, já o shura se preparava para o varar, mas Tannath contorceu-se como um gato e a ponta de obsidiana cravou-se no gelo. Com um grunhido, o eahanoir chutou Quenestil no estômago, afas­tando-o de si, e girou as pernas num movimento de hélice que espirrou neve para se pôr de pé, agachando-se novamente para receber a renovada acometida do adversário. A perícia de Quenestil com a lança surpreendera-o, pois desconhecia que a vara era outra das armas de eleição do eahan, e fora apanhado desprevenido pela investida inicial. Havia também algo de diferente nele, e algo de certamente estranho no ambiente que os rodeava, mas essas eram preocupações secundárias para Tannath, que, embrenhado no combate, nem ponderou os moti­vos pelos quais se sentira estranhamente chamado para aquele local.

 

 

 

 

Quenestil desferiu uma nova lançada, que Tannath evitou, apro­veitando para penetrar na guarda do eahan adentro quando este reco­lheu a lança, o que o expôs a um novo fustigo com a haste da arma, desta vez na parte de dentro do joelho. Novamente desequilibrado, Tannath quase não conseguiu desviar a cara do coto que veio direito à sua garganta, raspando-lhe a orelha ao falhar. O eahanoir passou então o braço por baixo da haste, agarrando-a com a mão para a prender contra o ombro, o que deixou as costelas de Quenestil expostas. Com um triunfante grunhido, o eahan negro estocou com o intuito de chegar ao coração, mas Quenestil relaxou simplesmente o aperto na haste, e passou-a por cima da cabeça, sofrendo dessa forma apenas uma incisão nas costelas. Com os braços agora cruzados numa pose muito pouco ortodoxa, o eahan soltou a mão direita, cerrando-a num punho fechado, e com ela desferiu um murro que partiu o nariz de Tannath debaixo da máscara deste. O crocante impacto coincidiu com o originar de uma grande fenda no gelo que pisavam, e no qual Tannath caiu de costas. A sua carne morta não se queixava de qualquer dor, mas a impressão residual de cartilagem desfeita entre os seus olhos atordoou mesmo assim o eahanoir, que contudo aproveitou o ímpeto da queda para rolar numa cambalhota para trás e pôr-se nova­mente de pé quase de imediato, vendo Quenestil já praticamente em cima de si.

O shura atacava como um predador com o cheiro de sangue nas frementes narinas, e o que lhe manchava as orelhas e maxilares de ver­melho dava-lhe um aspecto verdadeiramente possesso. Lutava em silêncio, emitindo apenas a ocasional rosnadela, mas cada movimento seu era um estalo, como se todos os tendões do seu corpo estivessem tensos, e os seus olhos davam mostras de um fogo interior que an­siava por lhe jorrar para fora em vorazes labaredas. Nunca antes o vira assim, nem em Jazurrieh, nem no seu combate nas ameias de Aemer-Anoth, onde...

 

 

                                                                                                   

 

 

              Voltar à “SÉRIE"

 

 

 

                                         

O melhor da literatura para todos os gostos e idades