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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O HOMEM - P.2 / Irving Wallace
O HOMEM - P.2 / Irving Wallace

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Não se trata de uma traição, se é isso que quer dizer, Julian -disse Leroy Poole rapidamente. - Temos uma pequena organização pública, mas a massa do icebergue escondida debaixo de água é a secção maior e mais efectiva. Eu sou um membro secreto, e o mes­mo sucede consigo. Nunca saberia que o era se Hurley não me tives­se escrito no outro dia a dar-me essa informação. Ninguém sabe nem nunca saberá, excepto o Hurley, o Valetti e eu. Quando nós entrámos para o grupo, jurámos fazer tudo o que nos ordenassem. A mim orde-naram-me que escrevesse panfletos de propaganda. Assim fiz. Depois ordenaram-me que pusesse o seu pai do nosso lado. Segui as or­dens e tentei. A si... a si ordenaram-lhe que permanecesse na Socie­dade Crispus, frequentasse a Assembleia de Estudantes deles em Nova Iorque, e assim fez. Depois foi designado para obter informa­ções internas para nós, acerca dos locais de sarilho, dos pontos fra­cos e fortes...

 

 

 

 

 

 

E tenho feito tudo isso, é isso que tenho estado a fazer, e é o suficiente - murmurou Julian.

Agora não, Julian - continuou Poole, inflexível. - Agora tem mais a fazer, porque a sua situação mudou. O seu pai é o presidente deste país. Você é o filho dele, e isso conta para alguma coisa. Você é um de nós e nós somos seus irmãos, e isso conta ainda mais. Vá ter com ele...

E se eu falhar, como lhe aconteceu a si? Sei que falharei, eu sei. O que acontecerá então?

Preocupar-nos-emos com isso depois. O que. eu quero saber é se vai abandonar o Hurley e o grupo. Vê-lo-á hoje? Falará com ele?

A voz de Julian saiu rouca. -Sim.

Muito bem. - Poole colocou as mãos sobre os joelhos e levan-tou-se. - A que horas estará na Estação Union?

Às 5 horas.

Lá estarei - disse Leroy Poole.

Dirigiu-se para a porta, mas a voz trémula de Julian chegou até ele antes de ter podido tocar na maçaneta.

Sr. Poole... tudo isto... tudo isto se deve manter em segredo.

Julian, por quem nos toma? É tão secreto como sempre o foi. Confie em Jeff Hurley. Ele é o maior negro que já alguma vez nasceu neste país. Ele é o nosso salvador, é o nosso futuro. Façamos apenas o que ele nos disse, cada um de nós, e talvez em breve sejamos livres, sem medo já de nada, sem medo de ninguém, sem medo de sermos secretos e que nos descubram. É assim, Julian. Vá ter com o seu pai e faça com que o seu primeiro acto como presidente seja um acto cora­joso, e então ele ficará na história e terá merecido dormir na cama de Lincoln - e o mesmo lhe sucederá a si.

Esperando que o presidente terminasse o telefonema, Sally Watson olhou furtivamente para o relógio de pulso. Eram 12 horas e 23 minutos. Estivera com o presidente quase oito minutos, falara quase todo o tem­po, e contudo não tinha a certeza de o ter impressionado. Tinha ainda sete minutos - dez, no máximo - para provar que poderia ser-lhe útil na Casa Branca. Ainda não recuperara o fôlego, depois do súbito telefone­ma de Leroy, da ida de automóvel até à Avenida da Pennsylvania, da passagem através da multidão dos jornalistas no vestíbulo da ala oci­dental, da imediata entrevista cara a cara com o novo presidente.

Tentou rever a primeira metade daquele importante encontro. A negrura dele não a desconcertara. Na verdade, ela achara até as suas feições bastante exóticas e o seu aspecto geral não desprovido de um certo interesse. O que a desconcertara fora o seu ar distante. As poucas perguntas que lhe fizera, sobre a sua educação e empre­gos anteriores, parecia não lhe terem sido dirigidas, mas ao mata-borrão que tinha à sua frente, na secretária. As respostas dela, cuida­dosamente pormenorizadas, seguras mas reservadas, bem expressas, pareceram passar-lhe por cima da cabeça. Ele mal olhara para ela. Não reagira a nada do que lhe dissera. Ela nem tinha bem a certeza se ele a teria escutado. Sally Watson não estava habituada à falta de aten­ção da parte dos homens fossem eles brancos ou pretos. Até mesmo O. C. costumava olhar para ela.

O presidente continuava ao telefone e ela sentia-se já preocupada. Seria a sua falta de atenção uma reticência natural, ou estaria preocupa­do com o seu horário tão cheio? Ou ter-se-ia aborrecido com ela? Não podia acreditar que o tivesse maçado. Fora calma e controlada, viva mas não pateta, e quando saíra de casa ia melhor do que nunca. Talvez que entre a sua casa e a Casa Branca, com toda aquela terrível pressa e tensão, tivesse ficado toda desarranjada.

Rápida e silenciosamente, enquanto tinha tempo, Sally Watson pegou na sua cara carteira de pele de crocodilo, tirou a caixa de pó-de-arroz esmaltada e abriu-a. 0 cabelo loiro e tufado continuava per­feitamente em ordem, sem um só cabelo fora do seu lugar. A pintura dos olhos conservava-se ainda fresca e intacta. Os lábios - possivel­mente tinham bâton a mais. Furtivamente, tirou um kleenex, levou-o à boca e apertou os lábios de encontro a ele. O espelho da caixa de pó--de-arroz felicitou-a pela melhoria. O último toque de Afrodite desapa­recera. O que ficara, esperava ela, era a modesta pudicícia.

Tornou a meter a caixa na mala e sentou-se direita na cadeira, à espera. O telefonema do Presidente Dilman parecia-lhe interminável. Cada minuto que ele estava ocupado com o telefone era um minuto que lhe era roubado. Poderia ele imaginar quão desesperadamente ela queria aquele emprego? Ela estaria «lá dentro». Estaria «lá em cima», na hierarquia do poder. Seria alguém. O círculo dos seus amigos invejá-la-ia. Arthur Eaton respeitá-la-ia infinitamente mais.

Devia conseguir o emprego. Todavia não tivera uma só indicação de que o Presidente Dilman a considerasse seriamente para ele. Cer­tamente que a mandara chamar, mas talvez tivesse sido para satisfazer Leroy Poole ou para dar manteiga ao pai. Um grande desencorajamento perturbou as suas grandes esperanças. Bem, de qualquer maneira -disse para consigo própria -, se dali nada resultasse, teria sido a pri­meira da multidão a vê-lo de perto, o estranho, o que andava na boca de todos. Teria um assunto de conversa e um chamariz de atenção para o próximo mês. Mas - oh, raios! - ela não queria um assunto de conversa. Queria uma ocupação real e uma identidade que a tornas­sem eleita para a vida contínua e para o amor de Arthur Eeaton.

Ouviu o auscultador do telefone cair no descanso e assustou-se. Então, para grande surpresa sua, deparou com o presidente Dilman a observá-la.

-       Desculpe a minha demora ao telefone, Miss Watson – disse ele. - Se Alexander Graham Bell não tivesse existido, penso que teríamos agora uma anarquia em vez de um governo democrático centralizado.

Ela sabia que o seu sorriso saíra forçado. Disse:

-       Já foi suficientemente amável da sua parte o ter-me recebido. Ele tinha um lápis na mão e, distraidamente, ia desenhando cír­culos num papel.

-       Tudo o que me disse até agora, Miss Watson, indica que pos­sui as condições requeridas para este tipo de trabalho. Mas devo acrescentar, para ser perfeitamente honesto, que tenho uma ou duas reservas quanto a si.

Ela sentiu-se fulminada, como se a tivessem condenado ao Infer­no sem lhe dizerem qual a razão. O desespero tornou-a mais ousada.

-       Que reservas, Sr. Presidente? Diga-me, por favor, o que tem em mente. Sinto-me tão perfeitamente adequada para o emprego que não consigo imaginar... - Agitou as mãos desamparadamente, mas então lembrou-se da cicatriz e virou o punho direito para baixo. - Não consigo imaginar ninguém que não veja quão útil eu poderia ser.

Dilman emitiu uma espécie de murmúrio - aprovado ou desa­provado do seu desabafo, ela não podia saber - e depois disse:

-       Muito bem, Miss Watson, não temos muito tempo, mas eu pre­ciso de preencher esta vaga e não devo cometer um erro. Para ser específico, as minhas reservas são três. Deixe-me expor-lhas.

Sally disse:

Sim, por favor - e conteve a respiração.

Em primeiro lugar - disse Dilman - tem saltado muito de um emprego para outro...

Porque nunca encontrei o que queria nem para que era mais qualificada - disse ela rapidamente. - Este é o emprego a que per­tenço.

Muito bem. Digamos que este é o emprego a que pertence. A segunda pergunta é: já alguma vez teve algum lugar semelhante a este de secretária social da Casa Branca?

Não exactamente, excepto na minha vida pessoal. É um lugar tão especial, o único do género nos Estados Unidos, que suponho que poucas raparigas tenham tal experiência. Mas conheci a maior parte das secretárias sociais da Casa Branca, desde Miss Laurel até Miss Tuckerman e Miss Baldridge, e acho que entrarei com tanta expe­riência como elas quando começaram. Posso trazer-lhe um dossier cheio de toda a espécie de confirmações, desde escolas de Este até Radcliffe, desde editores da Avenida do Parque até à Liga dos Juniores. Acho que sou atraente, bem-humorada, visto-me bem, tenho boas maneiras e boa educação. Tenho imaginação, gosto e adapto-me facilmente. Sei manejar e dirigir a correspondência, planear e presi­dir a um chá sem protocolo ou a um jantar de gala, vigiar a chefe do pessoal enquanto ela presta a sua colaboração. Já tenho feito isto.

Sr. Presidente, faço-o para o meu pai desde que a minha mãe se divor­ciou dele. A minha madrasta nunca entendeu muito destas coisas, e como eu entendo, sou eu que estou encarregada disso. Sabe há quanto tempo o meu pai está no Senado. Dá-se com toda a gente e toda a gente o conhece, e temos sido visitados por príncipes, marajás, em­baixadores, milionários e astronautas, e tenho sido eu quem os tem recebido, na maioria das vezes. Conhece o meu pai. Telefone-lhe e pergunte-lhe. Ele confirmará tudo o que acabo de dizer. Dilman sorriu.

Acho que não preciso de telefonar ao seu pai para isso, Miss Watson, mas talvez lhe devesse telefonar por outra razão - pela ter­ceira reserva que tenho.

Qual é?

Miss Watson, como negro nunca tive grande contacto com os meus colegas sulistas do Senado. O único por quem tenho alguma simpatia é pelo senador Watson e também a ele nunca o conheci bem. É um homem decente, um gentleman, mas é ainda um produ­to, um deputado de uma área, de uma população que considera as pessoas da minha raça inferiores. Que pensará o seu pai acerca do facto de a filha trabalhar como secretária social de um negro? Sabe ele, porventura, que se encontra agora aqui?

Não, não sabe, mas se soubesse não me teria impedido de vir, nem o teria sequer tentado. Ele deixa-me ter a minha liberdade. Não estamos de acordo acerca de muitas coisas, mas não gostamos me­nos um do outro por causa disso. Quanto ao que ele pensaria sobre o facto de eu ser a sua secretária social - acho que não lhe agradaria. Mas sou da opinião que não me daria a conhecer as suas objecções, nem a mim, nem a ninguém. Não interferiria. E sei que ele compreen­deria que a minha afeição por ele seria sempre uma coisa à parte da minha lealdade para com o meu patrão.

Fez uma pausa, vendo com que atenção Dilman ouvia cada uma das suas palavras, e depois continuou:

-       Sr. Presidente, o meu pai não está a oferecer-se para este em­prego. Eu estou. Embora ele seja um sulista esclarecido, tem ainda certos preconceitos antiquados. Eu não. Por favor, Sr. Presidente, seja justo e não deite as culpas dos pais sobre os filhos.

Sentiu que convencera Dilman naquele ponto, e a sua expressão receptiva confirmava-o.

- Acredito no que diz, Miss Watson - disse por fim. - Se existisse uma primeira dama na Casa Branca para me ajudar, sentir-me-ia seguro ao dar-lhe já o lugar. Não tendo uma primeira dama, tenho de entregar à mulher que contratar os deveres sociais de duas mulheres. Se ao me­nos houvesse alguém em Washington, além do seu pai, que me pudes­se assegurar que é absolutamente a pessoa indicada para...

Nesse instante veio-lhe a ideia.

Sei de alguém - disse ela.

Para a recomendar?

Sim. Bem, espero que o fará. Refiro-me ao ministro de Estado Eaton.

Finalmente conseguira impressioná-lo completamente. A reac­ção dele bem o evidenciou. E ela sabia porquê: não porque Eaton estava em segundo lugar no governo, mas porque tinha estilo. Nenhum negro, pensou ela, se atrevia a não aceitar um candidato que tivesse o apoio social do ministro de Estado.

- Ouçamos o que o ministro Eaton tem a dizer-me de si – disse Dilman. Estendeu a mão para o telefone branco interno. - Importa-se de ir, por um momento, para o escritório de Miss Foster? É mesmo ali, na porta atrás de si.

Sally pôde ouvir o presidente falar através da sua linha directa para o Ministério do Estado, enquanto saía do Escritório Oval e entra­va rapidamente no escritório de Miss Foster. Interrompeu o martelar da máquina de escrever desta para se apresentar e lembrar-lhe que já se conheciam de um breve encontro no jantar congressional da Casa Branca, havia dois anos. Depois, Sally permitiu a Miss Foster continuar o seu trabalho, enquanto passeava nervosamente pela pe­quena sala, fingindo interessar-se pelas fotografias emolduradas na parede e pelos títulos dos livros nas prateleiras.

Fizera tudo o que podia fazer e agora todo o seu futuro depen­dia das palavras de Arthur Eaton. Se ele dissesse sim, a sua vida tornar-se-ia nova e cheia de sentido. Se ele apenas dissesse talvez, a sua vida ficaria arruinada. Então matar-se-ia, pois não só teria perdi­do o emprego como saberia que tinha perdido Arthur.

A campainha do telefone de Miss Foster fez estremecer toda a sala, ou pelo menos assim pareceu a Sally. O seu coração batia desordenadamente. Miss Foster desligou o telefone e apontou para o escritório do presidente.

-       Pode voltar a entrar, Miss Watson.

Quando entrou, o presidente Dilman estava de pé junto à secre­tária.

Subitamente o seu rosto largo abriu-se num sorriso aberto e estendeu-lhe a mão.

-       Bem-vinda à Casa Branca, Miss Watson. O elogio e o entusi­asmo do ministro Eaton a seu respeito foram tão grandes que qua­se me sinto pouco digno de a contratar. Aparentemente constitui tudo o que eu poderia desejar, uma notável jovem que salvaguar­dará a minha vida social. Bem, sinto-me encantado.

Ela agarrou a mão dele com ambas as suas, apertando-a na sua excitação, fechando os olhos e murmurando:

-       Oh! Muito obrigado, muito obrigado, não se arrependerá deste dia. - Apetecia-lhe desmaiar, mas não sabia se de orgulho por ter conse­guido o prestigioso emprego ou se da confirmação do amor de Arthur.

Reparou que Dilman a conduzia para a porta que dava para o corredor. Tentou ouvir o que ele lhe dizia. Era algo sobre telefonar a Miss Foster no dia seguinte. Papéis de segurança, papéis de paga­mento, papéis de resumo, tudo para ser preenchido. Algo sobre ir ver o seu escritório na ala orierjtal, daí a um dia. Algo sobre entrar oficialmente para o emprego na segunda-feira. Muito obrigado, Miss Watson. Muito obrigada, Sr. Presidente.

Deslumbrada, encontrou-se a deslizar por entre os cubículos das secretárias junto do escritório de Flannerí, a caminhar pelo vestíbulo cheio da imprensa, notando que Reb Blazer e George Murdock a obser­vavam. Antes que estes pudessem perguntar alguma coisa, ela esca-pou-se, quase correndo, pelo caminho alcatroado do jardim da Casa Branca, passou pelas sentinelas e saiu para a Avenida da Pennsylvania.

Durante muito tempo caminhou nas nuvens, levada pelas fanta­sias da bem-aventurança, e, quando regressou aterra, estava na 15,a Rua, à vista do Teatro RKO de Keith. Só havia uma coisa que queria fazer ainda para completar aquele dia perfeito. Entrou numa cabina telefónica e fechou-se no seu casulo de vidro.

Ligou para DU 3-5600.

O Ministério do Estado. O sétimo andar. A telefonista-chefe. A secretária do ministro. Quem? Miss Watson? Um momento, por favor, vou ver se ele já saiu para almoçar.

-       Está, Sally?

Arthur, espero não vir interrompê-lo no meio de alguma confe­rência ou...

Que sucedeu, Sally?

Arthur, consegui o emprego! Nem posso ainda acreditar. O presidente disse que começo na segunda-feira. Vim agradecer-lhe. Não sei como o hei-de fazer.

-Você conseguiu o lugar porque o merece. Eu disse apenas ao presidente que pensava que ele não arranjaria ninguém igual em Washington. Disse-lhe para não a deixar escapar. Disse-lhe que, se tivesse sabido que você queria um emprego, eu próprio teria despe­dido metade das minhas raparigas para arranjar um lugar para si. Estou encantado, Sally. Você bem o sabe.

Arthur, quero fazer por si tudo o que puder.

Faça o seu trabalho.

Quero pagar-lhe o que lhe devo.

Hum... bem, minha querida, pode haver uma maneira, como sugeri da última vez que estivemos juntos. Sinto-me muito só em casa, à noite, especialmente à hora do jantar.

Convide-me, Artur, vá, convide-me.

Está convidada. Telefono-lhe amanhã para combinarmos a data.

Não se esquece desta vez?

Eu não me tinha esquecido, Sally. Tenho tido muito que fazer. Ainda tenho. Só agora, que é uma rapariga do governo, é que posso justificar o encontro como sendo de negócios e de prazer, conjunta­mente. Agora tenho que despachar-me, Sally. - Fez uma pausa. - Há apenas uma coisa que eu quero que faça por mim. Quando nos en­contrarmos quero que leve aquele vestido comprido branco. Sabe, aquele decotado. Adeus, Sally.

Quando ela saiu, flutuando, da cabina telefónica, estava mais certa do que nunca. Ainda seria uma espécie de primeira dama - não de Dilman, mas de Arthur Eaton.

Eram sete menos um quarto da tarde. O tráfego, tendo já passa­do a hora da saída dos empregos e de regressar a casa, era menor. O carro presidencial ia velozmente pelas ruas escuras, em direcção à casa de pedra castanha da Rua de Van Buren.

Nessa manhã, quando deixara a sua residência particular, o cami­nho levara o dobro do tempo a percorrer, e Douglass Dilman não imaginara então voltar lá tão depressa. Durante todo aquele dia, ocupado e cheio de preocupações, e eventualmente de aborrecimentos, tinha crescido nele a convicção de que devia regressar tão cedo quanto possível.

Por causa da segunda discussão que tivera com o filho, o seu horá­rio de entrevistas demorara mais que o previsto. O último visitante deixa­rão havia meia hora. Depois pedira a Edna que informasse Nat Abrahams, no Mayflower Hotel, que o jantar teria de ser adiado das oito horas para as oito e trinta. Antes de se ter ido embora, Edna confirmara a mudan­ça, acrescentando que a Sr9 Abrahams estava de cama com gripe e que o Sr. Abrahams viria sozinho.

Depois disso, Dilman telefonara directamente ao reverendo Paul Spinger.

Paul, Wanda já regressou do trabalho?

Está na cozinha. Posso chamá-la, Sr. Presidente.

Não. Prefiro não falar com ela ao telefone. Peça-lhe apenas para não sair daí. Quero falar-lhe a sós. Só por uns minutos.

Dir-lho-ei, Sr. Presidente. Que tal o primeiro dia na Casa Branca?

Na verdade nem sei, Paul. Tenho estado demasiado ocupado. Oiça, Paul, quero que a minha visita não seja divulgada. Percebe? Não é fácil de conseguir neste lado de cá, mas tenciono arranjar isso. Até já.

Depois de ter informado o secretário de Compromissos, Lucas, e o secretário da Imprensa, Flannery, que acabara, por aquele dia, e que passaria toda a noite nos seus apartamentos, Dilman saíra. Deparara com o agente do Serviço Secreto, Otto Beggs, o que o acompanhara nessa manhã da sua residência até à Casa Branca. Beggs estava à sua espera junto da colunata, para o acompanhar no curto trajecto até ao elevador do rés-do-chão. Dilman lembrou--se de que o rude agente estava na segunda metade do seu servi­ço, o que podia explicar a sua expressão aborrecida. Dilman lem-brou-se também de que Beggs o prevenira de que não podia ir para lado nenhum sozinho.

Enquanto caminhavam na noite fresca, ele considerara Beggs. Não seria fácil, dissera para consigo próprio, mas estava resolvido a ter essa importante visita particular. Quando entraram no rés-do-chão, Beggs virara à esquerda, mas Dilman virara à direita. Quase comica-mente, Beggs arrepiara caminho a correr, para se postar ao seu lado.

Dilman informara-o então que desejava fazer uma pequena visita à sua residência antes de jantar. Havia um assunto sobre direitos civis que tinha de discutir particularmente com o reverendo Spinger, o seu hóspe­de do andar de cima. Dilman insistira que não queria que a imprensa desse por esse encontro não previsto no seu horário. Portanto queria que se mantivesse o mínimo de medidas de segurança, para que a sua saída e entrada passassem despercebidas. Houvera uma pequena altercação nervosa de ambos os lados, e, por fim, Beggs consentira em reduzir a escolta de protecção para três agentes no carro, um polícia de moto à frente e outros atrás, sem pôr as sereias a tocar até terem deixa­do a área imediata à Casa Branca.

Ficara satisfeito com a rapidez e o silêncio com que o carro apa­recera e partira.

Durante o trajecto até à Rua de Van Buren, pensara que não pode­ria repetir aquela espécie de encontros muitas vezes. Apesar da facilida­de com que escapara da casa do presidente e dos seus olhos, havia sempre muitos outros, em toda a parte, a observar e a murmurar. Mais cedo ou mais tarde seria apanhado em flagrante. Não podia usar cons­tantemente Spinger como álibi. E, ao mesmo tempo, não se podia arris­car a que a sua amizade com Wanda Gibson pudesse ser tornada públi­ca. Não seria compreendida e seria mai interpretada. O ser um chefe do Executivo de cor já era suficientemente mau. Ser um presidente negro com uma senhora amiga mulata era impossível. Para sobreviver tinha de reforçar a sua imagem pública como o solitário. Fá-lo-ia menos amea­çador, menos domínio da publicidade, e faria com que o eleitorado res­sentido se sentisse mais seguro. Todavia aquele encontro pessoal com Wanda era imperativo. Se se desenvolvesse como ele esperava, o resul­tado resolveria tudo.

Dilman sentiu o carro parar e pela janela de trás pôde ver a sua adorada casa em estilo Vitoriano. A rua estava vazia, com excepção dos carros estacionados e de um rapaz negro com um cesto na mão, assobiando desafinadamente, enquanto se encaminhava para casa.

Beggs saiu do carro e Dilman seguiu-o. Reparou que os outros dois agentes que tinham saído do assento da frente se consultavam um ao outro em voz baixa. Enquanto se dirigia para a entrada, Dilman viu um agente plantar-se em frente da casa e o outro apressar-se em direcção às traseiras.

Quando Dilman chegou à porta de entrada, notou que Beggs vinha na sua peugada.

Dilman abriu a porta e disse:

-       Sr. Beggs, daqui em diante, preferia ir sozinho. Beggs replicou firmemente:

Desculpe, Sr. Presidente, mas não tenho licença para fazer isso.

Bem, não o posso deixar assistir à entrevista. É sobre um assun­to privado do governo.

Não me intrometerei, Sr. Presidente - prometeu Beggs. - Te­nho simplesmente de estar perto do local em que o senhor se encon­tra. Já assim é suficientemente arriscado.

Dilman pôde ver que não conseguia dissuadi-lo, e portanto en­colheu os ombros e entrou seguido de Beggs.

Atravessaram o vestíbulo e subiram as escadas para o primeiro andar. Quando aí chegaram, a porta abriu-se. O reverendo Spinger e a mulher, reparando na presença do agente do Serviço Secreto, saudaram-no formalmente como Sr. Presidente. Dilman apresentou Beggs e depois entrou na sala de estar acolhedora e antiquada. Quan­do se voltou para falar aos Spinger, ficou surpreendido e alarmado ao encontrar Beggs ainda atrás dele e dentro da sala.

-       Sr. Beggs - disse Dilman -, prometeu-me que eu poderia falar em particular.

A cara redonda de Beggs tomou uma expressão de desamparo apologético.

-       Daqui em diante já não o acompanho, Sr. Presidente. Perma­necerei apenas aqui do lado de dentro da porta.

Dilman franziu a testa e olhou para Spinger.

Reverendo, há algum sítio em que possamos falar em parti­cular?

Podemos ir para o meu escritório nas traseiras - respondeu Spinger.

Deixando que Spinger o conduzisse para fora da sala de estar, Dilman pôde ouvir Rose oferecer uma chávena de café a Beggs e este aceitar, agradecido, com a condição de a poder tomar no seu posto.

Dilman foi atrás do amigo até chegarem ao quarto de Wanda.

-       Ela está à espera - segredou Spinger.

Dilman acenou com a cabeça.

Paul, é melhor não regressar à sala. Eu disse ao agente que íamos ter uma conferência. Pode manter-se longe da vista dele ape­nas por uns momentos? Não demorarei.

Vou para o nosso quarto.

Dilman permaneceu imóvel até ver Spinger desaparecer, depois começou a bater à porta, mas parou imediatamente. Não queria que Wanda respondesse. Em vez disso, fez girar várias vezes a maçaneta da porta, matraqueando-a, e entrou.

Ela estava junto da janela, de costas voltadas, puxando o estore quando o ouviu entrar. Voltou-se lentamente, sorrindo, e o coração de Dilman acelerou-se à vista dela. Embora lhe tivesse telefonado todas as noites da semana anterior, do andar de baixo, havia uma eternidade que já não a via.

Permaneceu imóvel no canto oposto do quarto decorado com gosto, gozando a vista que ela lhe oferecia. Tinha a certeza de que não havia outra mulher na Terra que aos trinta e seis anos fosse ao mesmo tempo tão jovem e tão serenamente madura. O cabelo, cas­tanho, estava repuxado para trás, descobrindo-lhe o rosto fino, aber­to num sorriso de puro prazer. A blusa, fina e drapeada, moldava-lhe o peito pequeno e a saia travada e verde acentuava-lhe as pernas bem modeladas. Parecia mais alta do que os seis pés e três polega­das que media, e à vista era definitivamente mais mulata que branca. Dilman não se permitiu acreditar que a estava a escurecer aos seus olhos por assim a querer, e querer que o que planeara fosse possível.

Wanda Gibson foi a primeira a falar.

-       Doug, nem te posso dizer quão maravilhoso é... é ver-te. Ele atravessou o quarto e abraçou-a mais espontânea e fortemente, como havia meses o não fazia. Gozou o contacto suave das mãos dela no seu pescoço e beijou-a na face e depois nos lábios.

-       Wanda, nem supões quão... quão difícil tudo tem sido sem ti. Ela separou-se dele.

-       Estamos juntos neste momento. É o que importa. - Pegou-lhe na mão e conduziu-o até ao sofá em frente do aparelho de televisão portátil. - Como é que conseguiste escapar-te, Doug?

Sentaram-se ambos e ele disse:

-       Nem sei. O Serviço Secreto, os conselheiros, a imprensa, trazem-me sempre debaixo de olho, como se eu fosse um bicho de estimação. Raspei-me às escondidas. Não sei se o conseguirei uma segunda vez.

Ele sabia que os olhos dela tinham estado a estudar cada movi­mento do seu rosto.

Doug, tu não tens dormido - disse ela. - Vejo-o na tua cara.

Também não tenho comido, vivido ou pensado. Parece que de manhã à noite vou na crista de uma vaga, sempre a rolar, a rolar, e quando tento dormir continuo a rolar, como se não pudesse parar. Por que é que isto tinha de suceder-me a mim? Não sou o homem conveniente. Não estou à altura disto. Faço o possível para que nin­guém o veja, mas ando aterrado e confuso.

Doug, estás tão preparado para o cargo como qualquer outro homem. Já falámos acerca disso.

Na Câmara e no Senado era diferente - disse ele. - O que se fazia era uma responsabilidade compartilhada. Os nossos sins e nãos eram em coro e não em solo. Mas, como Harry Truman disse uma vez da secretária presidencial - o comboio pára aqui. É o final da linha, Wanda. Certamente que compreendo o que se passa. A legis­lação não tem mistérios. É a responsabilidade final que me arrasa. Voltamo-nos para entregar um documento a alguém para a decisão final, e sabes o que vemos? Não está lá ninguém. A nossa é a deci­são final. É o que é tão horrivelmente opressivo.

Não acho que seja essa a tua preocupação, Doug. Ele foi colhido de surpresa.

Não? Qual é então?

Wanda inclinou-se para ele, tirou-lhe um charuto da algibeira do casaco e começou a tirar-lhe o celofane.

-       A tua cor - disse ela simplesmente. - Entregou-lhe o charuto. - Vá, bem precisas dele. Além disso, eu gosto do cheiro. Pareces-te mais contigo e com os velhos tempos.

Ele arrancou a ponta do charuto com os dentes e ela acendeu-Iho. Olhou para ela através da primeira nuvem de fumo.

A minha cor - repetiu sombriamente.

Essa é a tua constante preocupação - disse Wanda. - Se fosses branco, provavelmente sentir-te-ias ao princípio um pouco perdido e desnorteado com o cargo, mas logo te adaptarias. Agora, o que tens tentado sempre esconder foi exposto a todas as pessoas do país e a todas as pessoas do mundo, e é isso que te aterroriza. Não o negues, Doug, porque é assim. Tens medo de não poderes cometer os erros usuais como qualquer ser humano. Tens medo de cometer erros negros em frente dos teus espectadores brancos.

A rudeza dela tomou-o de surpresa. Pôs-se imediatamente na defensiva.

Bem, há uma certa verdade no que dizes, mas acho que exa­geras, Wanda.

Eu compreendo o que sentes, Doug. Conheço os teus pontos fortes, e tu também os conheces, e portanto não vale a pena falar nisso. Não podes esconder por mais tempo que és preto, nem enterrando a cabeça na areia, nem misturando-te com a multidão, nem sendo um homem que só diz sim para que ninguém se lembre de que tens voz. Não discutirei esse teu ponto em relação à tua família ou em relação a mim, ou em relação ao teu trabalho no Congresso. Não é o momento para isso e eu não tenho o direito de falar sobre esse assunto quando te encontras agora tão submerso por outras exigências. Mas, Doug, eis-te aí, eis-te na Casa Branca e nada pode mudar tal facto. O mundo inteiro conhece a cor da tua pele, e, quer goste ou não, tem de a aceitar e, o que é ainda mais importante, o mesmo sucede contigo. Uma vez que aceites tal facto, poderás começar a agir como um ser humano. Então penso que não te sentirás tão perturbado.

Momentaneamente ele sentiu-se aborrecido com ela porque o que dizia era verdade e ele não queria a verdade, e muito menos vinda dela.

Agir como um ser humano? Achas porventura que alguém mo permitirá? Já não lês os jornais nem ouves a telefonia?

Doug, eu sei exactamente o que se passa. O nosso povo canta hinos de louvor a Moisés, conseguiu o seu Moisés, e isso é uma pressão injusta sobre ti. E os brancos mais azedos odeiam agora os negros mais do que nunca e perseguem-nos mais do que nunca para descarregarem o seu ódio neles, porque não te podem chegar. E os que estão no meio - eu escuto-os e ouço-os por acaso - não sabem o que pensar. Sentem-se ameaçados e inseguros porque a tua pre­sença fá-los sentir, pela primeira vez, como membros de uma mino­ria. Não acreditam que vás governar como um branco, como O. C, mas como um preto, e estão com medo que transformes a sua terra puramente branca e preciosamente cristã num continente negro. De­viam saber quão pouco têm a temer de ti.

Dilman concordou com a última frase. Lutou para conservar a sua dignidade e virilidade aos olhos dela.

-       Wanda, acredites ou não, eu só quero agora cumprir a minha tarefa, acabá-la, ver-me livre dela e regressar para donde vim. Contu­do, ninguém parece disposto a deixar-me fazer isso. Os negros que­rem isto e aquilo porque sou negro. Os brancos querem isto e aquilo porque não sou branco. O grupo de O. C. quer que eu seja O. O, quando eu não sou nada como ele. Tu queres que eu seja... que eu seja uma outra pessoa. Meu Deus, até o meu próprio filho...

Ele não acabou a frase, perdido na miséria, e ela aguardou e depois disse:

Viste o Julian?

Ele veio hoje ter comigo ao meu escritório. Eu precisava de falar com ele por causa das notas para ver se ele trabalhava mais para a faculdade, o que é agora mais importante do que nunca. Portanto, tive de escutar outra vez todo aquele negócio da escola negra contra a branca. Eu sei, Wanda, eu sei o que pensas, mas ele agora já lá está e tem de se sair bem. Disse-lhe que ele estava a gastar demasiado tem­po com a Sociedade Crispus e de menos consigo mesmo e com o seu futuro. Bem, fiquei convencido de que tudo tinha ficado assente entre nós, até que, subitamente a meio da tarde, me mandou dizer que tinha de falar novamente comigo sobre um assunto tão urgente que não podia esperar. Portanto tornei a recebê-lo. Nunca vi ninguém tão ilógi­co e agitado. Agora já não era a Sociedade Crispus que ele defendia, mas aqueles malditos Tumentes. Certamente que eles apanharam pela medida grande, lá no Mississipi. Mas não é um assunto federal.

Que é que ele queria que tu fizesses?

Queria que eu usasse a minha influência para conseguir que Nat Abrahams interviesse no caso. Deus bem sabe que o Nat se esforça por nos ajudar. Neste momento ele encontra-se ocupado em algo para seu próprio proveito. No seu escritório já disseram aos Tumerites que ele não se encontrava disponível neste momen­to. Eu não tenho o direito, quer como seu amigo, quer como presi­dente, de o influenciar. Julian nem me quis ouvir. Estava com a cabe­ça completamente perdida.

Dilman martelava com o punho de uma mão na palma da outra.

-       Eu não estava a perceber o que se apoderara dele, e então, antes de vir para aqui, parece-me que descobri. Penso que se deve ter encontrado por acaso, no segundo andar da Casa Branca, com aquele escritor que está a fazer a minha biografia, o Leroy Poole -ele fala a linguagem Crispus mas age como turnerite. Suspeito que seja amigo íntimo de Hurley. Poole é um jovem muito eloquente e persuasivo, e para alguém como o Julian, que é muito mais novo e tão impressionável, e que, ainda por cima, admira imenso os escri­tos de Poole, aquela linguagem turnerite deve tê-lo transtornado completamente. Tenho a certeza de que foi isso que provocou a tirada de Julian. De qualquer modo tive de ser firme com ele. Disse--Ihe não, e ponto final. Ele não gostou. Nem sei mesmo se teremos cortado as relações por algum tempo.

Wanda estendeu a mão e tocou no punho de Dilman.

Tenho muita pena, Doug. Ansiosamente, ele perguntou:

Concordas comigo acerca disto, não concordas? Wanda fez que sim com a cabeça.

-       Concordo. Eles estão a ser maltratados em Hattiesburg, mas não é um caso raro, embora seja injusto. A linguagem de Hurley não me agrada, assim como também não me agrada o que ele defende. O mesmo sucede com Paul Spinger.

Dilman levou um outro fósforo ao seu charuto.

Bem, já fizeste com que eu me sinta melhor. - Olhou rapida­mente para ela e depois disse: - É por isso que eu preciso de ti, Wanda. É essa uma das razões. Tu és a única pessoa franca e hones­ta com quem eu posso discutir os meus problemas, pessoais ou não. Foi por isso que vim, ainda hoje, ter contigo, por muito difícil que isso se apresentasse.

Por que querias ver-me, Doug?

Para te pedir um favor. - Ele esperou por uma pergunta imedia­ta, mas ela permaneceu calada. Então continuou: -Wanda, agora que sou... que sou presidente, torna-se impossível continuar a ver-te como antigamente. Sabes isso, não é verdade?

Sei, sim, Doug.

O acento de tristeza da voz dela acentuou o medo crescente que ele sentia de a perder. Disse:

-       Não te quero perder, Wanda. - E acrescentou: - Preciso de ti para me... para me empurrares para a frente. Wanda, encontrei uma solução, esta manhã. Estava a contratar uma rapariga branca sulista para minha secretária social...

Bem, foi preciso coragem.

É a filha do senador Watson. É a pessoa certa para o lugar. Levantará alguns comentários, mas faça eu o que fizer, havê-los-á sempre.

E a Diane Fuller?

Arranjei-lhe um outro emprego, secretária na secção da Im­prensa, no departamento de Miss Watson. Mas há ainda um par de vagas-chave, vagas de secretárias e vagas administrativas no pes­soal da Casa Branca. Tivemos vários pedidos de demissão, como podes calcular.

Pois.

Agora há essas vagas. - Fez uma pausa. - Wanda, quero que aceites um desses empregos.

Ela não pareceu surpreendida.

Isso foi bem pensado, Doug. Infelizmente eu já tenho um bom emprego.

Os Exportadores Vaduz? Wanda, isto é a Casa Branca. Já me disseste, pelo menos uma dúzia de vezes, que nãos gostas do teu patrão - como é que se chama aquele director? - Gar, Franz Gar. Bem, eis uma oportunidade para te veres livre dele. Sei que és bem remunerada na Vaduz, mas disseste-me que o teu trabalho é mecâ­nico e monótono e que não tens qualquer contacto com outras pes­soas. Na Casa Branca seria diferente. O emprego poderá não ser tão bem remunerado, mas eu poderia remediar isso dentro em breve. Seria um trabalho fascinante para ti. E, o que é mais importante, ser-me-ia de grande ajuda. Podia ver-te todos os dias. Podíamos falar um com o outro.

E ninguém saberia que éramos amigos? Que bonito - disse ela amargamente. - Que esperteza da tua parte, Doug. E que cora­gem, também. E se alguém descobrisse que eu era também a tua namorada?

Aquele ataque cáustico da parte dela perturbou-o.

Não te zangues, Wanda. Seria uma coisa temporária, um arran­jo temporário, como o meu próprio lugar. Mais tarde nós...

Não, obrigada - disse ela, categórica. - Até aqui as nossas relações, platónicas que fossem, têm pelo menos sido honestas. Mes­mo que isso implique não te ver, recuso-me a mudá-las. Não deixarei que o que existe entre nós se torne sub-reptício e de portas traseiras.

Wanda.

Absolutamente não, Doug. Estás a atravessar um período difícil e custa-me tornar-to ainda mais. Mas não me mudo para a casa de banho de Harding. Quando tiveres a coragem de me tornares a ver, sabes onde me podes encontrar, aqui ou noutro sítio qualquer, Doug, eu...

O ruído de alguém a bater ao de leve à porta interrompeu-a e fez com que Dilman se pusesse de pé.

-Sim? - respondeu.

A porta abriu-se parcialmente e o reverendo Spinger esgueirou--se para dentro e fechou-a atrás de si. Olhou de um para o outro.

Não têm estado a ouvir?

A ouvir o quê? - perguntou Dilman.

-       O barulho lá fora. - Dirigiu-se para a janela com o estore corrido. Dilman escutou. Ouviu então o que não pudera ouvir por estar demasiado empenhado na conversa com Wanda. Através das pare­des chegava até ele o som de muitas vozes.

-       Que se passa? - perguntou, apreensivo.

-       Não pude ver bem do nosso quarto - disse o reverendo Spinger. - Parece que está uma quantidade de pessoas a juntar-se na rua. Posso ver melhor daqui.

Colocou-se de encontro à parede e afastou ligeiramente o estore da parede. Por fim largou-o e abanou a cabeça.

-       Pelo que pude ver, devem estar lá fora umas duzentas pessoas. Está lá a imprensa, com certeza, pois pude ver a aparelhagem da televi­são; pode ver também mais alguns agentes do Serviço Secreto e, claro está, toda a vizinhança veio a correr.

A reacção imediata de Dilman foi de aborrecimento:

-       Como diabo descobriram que eu tinha vindo aqui?

O reverendo Spinger passou a mão pela sua sotaina de algo­dão.

-       Doug, você abdicou do que é privado quando prestou jura­mento como presidente. Tente o que tentar, não o recuperará no pró­ximo ano e cinco meses. Repetindo o que Voltaire nos disse, por outras palavras, o público é um monstro sem coração, e visto que você, Doug, não pode fazer o que ele sugeriu - encandear o monstro ou fugir dele - deve estar precavido contra ele em todos os minutos de cada dia.

As palavras do clérigo lembraram a Dilman a precária situação em que se encontrava. Viu Wanda de pé, a olhá-lo fixamente, e o seu aborrecimento transformou-se em perturbação e vergonha. Detestou--se pela sua fraqueza e por Wanda a conhecer. Contudo não podia ser outro, diferente do que sempre fora.

-       Wanda, tenho de ir. Verás... Diplomaticamente, Spinger saiu para o corredor.

Dilman aproximou-se dela e imediatamente, por um efeito de luz, a sua cor pareceu-lhe mais branca que mulata.

Estás a ver como são as coisas, minha querida. Só há uma solução, presentemente. Por favor reconsidera a minha solução de te empregares na...

Não, Doug. Esperarei pelo teu telefonema.

Ele quis implorar-lhe, mas ela afastara-se já dele e mantinha-se de costas voltadas.

-       Está bem - disse ele por fim. - Apenas, não me deixes.

Foi ter com o reverendo Spinger ao corredor. Enquanto se diri­giam para a sala de estar, Spinger disse, como para dar um apoio à ficção:

-       Esteve a conferenciar comigo.

Dilman acenou distraidamente com a cabeça.

-       Pois... a encorajar a Sociedade Crispus a cooperar com o governo para se resolver a questão dos direitos civis através de meios legais e para se juntar a nós quanto à condenação da violên­cia de ambos os lados.

Entraram na sala, e o reverendo Spinger disse:

-       Sim, isso resume tudo, Sr. Presidente.

Dilman dirigiu-se para a porta que Otto Beggs abrira. Parou em frente do seu guarda-costas.

Que é toda aquela barafunda lá em baixo?

A imprensa deu pela sua falta e deve ter descoberto onde o Sr. Presidente se encontrava. Na altura em que começaram a seguir-lhe o rasto, o chefe Gaynor pensou que isso atrairia a multidão. Portanto apressou-se logo a mandar para cá alguns agentes do Departamento da Casa Branca. Desculpe, mas nada tenho...

Não faz mal - disse Dilman.

Dilman voltou-se para se despedir do reverendo Spinger, quan­do, subitamente, Wanda Gibson irrompeu na sala.

-       Doug...! - Depois estacou, reparando, horrorizada, que não estavam sozinhos com os Spinger, mas que um estranho se encon­trava também na sala.

A maçã-de-adão de Dilman deu um salto. Pôde ver Beggs olhar fixamente para Wanda. Dilman sentiu-se submergir por uma onde de pânico. Tentou manter a voz calma.

Há ainda alguma coisa para esclarecer, Miss Gibson?

Não... não, Sr. Presidente - disse Wanda numa voz incaracte-rística.

Gostaria que me enviasse uma cópia das suas notas estenogra-fadas - disse Dilman. Acenou um adeus, depois atravessou rapida­mente o patamar e desceu as escadas seguido de Beggs.

Quando saiu para a noite, não foi o eco dos gritos dos repórte­res o que o enervou momentaneamente, mas as luzes dos projecto­res da televisão e das lâmpadas dos flashes. Para lá das luzes e do cordão formado pelos agentes do Serviços Secreto, distinguiu cen­tenas de rostos negros pertencentes à vizinhança e mãos a abanar e pôde ouvir gritos de encorajamento.

Sentiu uns dedos agarrarem-lhe num braço e foi com alívio que descobriu que pertenciam a Tim Flannery. A boca do secretário da Imprensa colou-se à sua orelha.

Sr. Presidente, não me deixe outra vez desta maneira. Alguém do escritório do chefe Gaynor espalhou a notícia. Não deixe que o entrevistem. Deixe-me ir aos microfones dizer-lhes que hoje é já muito tarde para responder a perguntas, mas que fará apenas uma breve declaração.

Muito breve, Tim.

Deixou que Flannery o precedesse na escada de pedra até aos três microfones. Pôde ouvir as perguntas gritadas:

-       Que esteve a fazer ali, Sr. Presidente?... Encontrou-se com Spinger a sós ou estavam lá outros chefes negros?... De que fala­ram?... Foi sobre os Turnerites, Sr. Presidente?

Flannery ergueu a mão e depois inclinou-se sobre os microfones.

-       Senhor, nada de perguntas. Guardem-nas para a conferência de Imprensa. O Presidente fará uma breve declaração e será tudo por esta noite.

Flannery pôs-se de lado e Dilman aproximou-se dos microfo­nes. Sentia-se rígido e hipócrita. Disse:

Amigos, porque o reverendo Spinger, chefe da Sociedade Crispus, se encontrava de cama com uma constipação, resolvi vir vê--lo. O nosso encontro foi em parte social e em parte dedicado a dis­cutir os assuntos internos imediatos acerca do problema dos direitos civis. Não tratámos de nenhum grupo negro em particular, além da Sociedade Crispus e do papel desta ao cooperar com o governo sobre o programa da legislação dos direitos civis.

Falaram acerca do Programa de Reabilitação das Minorias? -gritou um repórter.

Dilman olhou, confuso, para o semicírculo de homens e câma­ras à sua frente. Disse para os microfones:

-       Falámos acerca do projecto do M. R. R, entre muitos outros actos legislativos. Estamos de acordo ao acreditar que o progresso em direcção à igualdade só poderá ser atingido dentro do devido processo da lei e nunca através das acções violentas dos grupos de quaisquer raças que tomem a lei nas suas próprias mãos.

Houve um estrepitar de aplausos e, vindo de longe, um «fora» e um «huuuu...» de desaprovação.

-       O reverendo Spinger e eu falámos em particular e informal­mente acerca destes assuntos.*Num futuro próximo espero ter mais entrevistas com todos os chefes nacionais, negros ou brancos, que desejarem cooperar com o governo em manter a paz e em encontrar uma solução para os nossos mútuos problemas. E isto é tudo por esta noite, meus amigos... Não, nada de perguntas, ou daqui a pouco morrerei de fome.

Com Beggs e uma onda de outros agentes a abrir-lhe caminho, Dilman apressou-se em direcção ao carro e enfiou-se nele. Logo que se atirou para o banco de trás e que Beggs se sentou no seu banco móvel, o carro pôs-se em movimento. Disfarçadamente, Dilman bai­xou a cabeça mas levantou os olhos para olhar para as janelas ilu­minadas da sala do primeiro andar. Pôde distinguir ambos os Spinger numa. A outra janela estava vazia. Para o monstro sem coração do público, Wanda Gibson não existia.

Depois, recostando-se, Dilman apanhou Beggs a olhar para ele de um modo estranho. E então, com uma sensação de desânimo, percebeu que se podia estar em guarda contra o monstro, sempre em guarda, mas que no fim não haveria qualquer defesa possível. De qualquer maneira, em qualquer sítio, havia sempre alguém, e Beggs podia ser esse alguém, que deixaria passar o monstro. Perguntou a si próprio o que pensaria Beggs. Perguntou a si próprio se o monstro se soltaria e se o estrangularia.

Cerrou os olhos, e por detrás das pálpebras amaldiçoou a sua temeridade louca - e a sua cobardia.

Eram precisamente nove horas, reparou Nat Abrahams, quando entraram na casa de jantar familiar do primeiro andar da Casa Branca.

Enquanto um mordomo de libré lhes abria a porta do corredor principal e Dilman entrava na casa de jantar, Abrahams tornou a pen­sar que estranha experiência aquela era para ambos.

Tinham comido juntos em tantos sítios diferentes e pobres: nas cafetarias cheias do Pentágono e nas messes dos oficiais nas bases do Exército durante a Segunda Grande Guerra, em bistrots baratos na França e em bierstuben hostis, na Alemanha, em restaurantes self--service e em automáticos em Chicago e Detroit. Frequentemente, nos seus encontros no Midwest, quando Abrahams convidara Dilman, aquele tivera de fazer numerosos telefonemas preliminares para en­contrar um lugar decente para comer, em que o seu amigo negro fosse aceite e bem recebido. Incrivelmente, e passados poucos anos, ali estavam eles de novo juntos, jantando na Casa Branca, no primei­ro jantar de Dilman na primeira casa da Nação, como Presidente dos Estados Unidos, e Nat Abrahams como seu primeiro convidado.

Seguindo o dono da casa sobre o tapete de flores, Abrahams teve a oportunidade de examinar brevemente a casa de jantar fami­liar. As paredes eram amarelas e o tecto branco. À sua direita, um espelho convexo, com uma águia de ouro no topo, pendurado sobre o fogão de sala de mármore. À sua esquerda, um armário cheio de loiça da China, azul e dourada. Em frente, duas janelas que davam para a Avenida da Pensilvânia. Abrahams foi capaz de identificar dois retratos a óleo: um era certamente o Presidente John Tyler; o outro, reproduzido na águia que Sue comprara, era de um general-briga-deiro montado num cavalo preto, John Hartwell Cock, da Virgínia.

Chegaram à mesa de pedestal e Abrahams contou oito cadeiras de madeira trabalhada e estofos brancos à volta da mesma. O chefe de mesa da Casa Branca, um americano sulista, risonho, com um ca­saco curto preto e calças às riscas, segurava na cadeira do presidente, à cabeceira da mesa, e um criado de cor, de casaco branco, segurava na de Abrahams, ao lado da do presidente. Dilman sentou-se primei­ro e depois Abrahams seguiu-lhe o exemplo.

Abrahams podia observar que Dilman não estava à vontade: ajeitava nervosamente o fato, olhava para o lustre, para as flores do centro da mesa, depois para a mesa ostensivamente posta, para o clássico serviço de copos em forma de túlipa, para os elegantes pratos de Limoges, para as facas, os garfos e as colheres de prata. Enquanto serviam a sopa, numa terrina de prata, Dilman olhou inquiridoramente para Abrahams, como se não soubesse que colher usar em primeiro lugar. Abrahams sorriu, piscou o olho, desdobrou o guardanapo e colocou-o no colo. Dilman imitou-o.

Quando acabaram de servir a sopa, o chefe de mesa e o criado afastaram-se, e então Dilman disse:

-       Quem adivinharia que eu disse à Sr.ã Crail - a governanta ofi­cial - que queria um jantar familiar, sem espalhafato, absolutamente sem qualquer espalhafato? Olha só para isto. De qualquer modo, Nat, ganhei a batalha quanto à ementa. Ela estava resolvida a servir... deixa-me cá pensar... oh! sim... solha enrolada frita, peru assado com qualquer coisa chamada geleia celestial, batatas doces salteadas e sabe Deus que mais. Alegava ela que era a espécie de pequena ementa que O. C. apreciava para jantares íntimos. Mas eu não cedi. Disse-lhe: «O Sr. Abrahams é o meu mais velho amigo, e vamos co­mer o que sempre nos agradou comer, a espécie de comida depois da qual sempre gostámos de conversar.» Não sei que tal sairá, mas penso que será um razoável fac-símile dos velhos tempos.

Abrahams estivera a comer sopa.

-       Costeletas de vaca? - perguntou ele. Dilman sorriu.

-       Exactamente. A carne e uma salada com azeite e vinagre, uma caçarola de massa com fiambre, cenouras às rodas e... tira o cha­péu... filhos com molho de maçãs!

-Latkes - disse Abrahams, empregando a designação judaica.

-       Acho que não vão sair como as que a mãe de Sue costumava fazer. Oh! É verdade, e ainda o vinho tinto... têm cá os melhores anos do Bordéus, daquele que me faz sono. Precisamente como naquelas noites em que nos sentávamos entre o bar e a máquina de jogar, nos Campos Elísios.

Nessa altura apareceu um criado para deitar a água nos copos, seguido do chefe de mesa, e colocou a garrafa do vinho numa mesa ao lado. Dilman calou-se e comeu a sopa de tomate.

A sopa espessa agradou a Abrahams. Com excepção do incó­modo laço preto que Sue lhe fizera pôr, por ser apropriado para os sítios importantes, sentia-se descontraído. Quando o carro presiden­cial o fora buscar ao Hotel Mayflower, e o trouxera até ao pórtico sul da Casa Branca, sentira um ligeiro ataque de apreensão e pergun­tara a si próprio se lhe seria imposto algum protocolo e se Dilman seria como sempre fora. A sua apreensão dissipou-se no momento em que se encontraram e se abraçaram efusivamente.

Os meses decorridos depois do seu último encontro tinham visi­velmente mudado Dilman. Embora parecesse mais amigável, menos retraído do que quando era senador, Abrahams notara que os seus olhos tinham manchas vermelhas de cansaço e que a sua boca esta­va vincada por profundas rugas. Também arrastava mais os pés a andar, como uma pessoa de idade em convalescença depois de uma grande operação. Contudo, a semana que passara como presidente não o alterara interiormente, pois não apresentava qualquer sintoma de reserva ou desconfiança. Abrahams pensou que o amigo estava há demasiado pouco tempo no cargo para compreender totalmente tudo o que ele implicava. Parecia antes incerto quanto ao seu papel, como se tivesse sido deslocado para qualquer purgatório dantesco entre o Senado e a Casa Branca.

Depois das felicitações de Abrahams e das perguntas de Dilman acerca de Sue e dos miúdos, tinham subido no elevador até ao vestíbulo principal do primeiro andar. Houvera um lapso de segun­dos vazios, enquanto Dilman não soubera para onde levar Abrahams ou o que fazia a seguir, mas tal dificuldade fora resolvida pelo criado de quarto Beecher, que surgira então.

- Quase me esquecia, Nat, mas pedi a Beecher que nos levasse a dar uma volta pelo primeiro andar - dissera Dilman. - Já não me lembro bem dele e, além disso, o passeio abrir-nos-á o apetite.

Foram então conduzidos até à vasta sala leste com os seus drapeados dourados, os bancos ornamentados e o piano Steinway. (Beecher: «Cada um dos três lustres pesa oitocentas e cinquenta libras, tem cinquenta mil peças de cristal e todas as semanas são precisos dois homens para limpar cada um deles.») Foram à Sala Verde, onde viram o sofá de Daniel Webster, a cadeira de braços de Martha Washington e o relógio de James Monroe. (Beecher: «Reparem, por favor, no retrato do Presidente Eisenhower sobre aquela porta, no do Presidente Kennedy, aqui sobre esta, e, além, no do Juiz.») Foram conduzidos até à Sala Azul, com os seus forros de veludo, o relógio de ouro de Minerva e o busto branco de Washington. (Beecher: «As três janelas que dão para o relvado sul podem ser transformadas em portas, abrindo os painéis por baixo.») Foram conduzidos à Sala Ver­melha, com as suas paredes forradas de seda cerise, a mesa do pequeno-almoço de Jacqueline Kennedy e o sofá Império carmim. (Beecher: «Este retrato do Presidente Wilson foi pintado em Paris, em 1919, por um artista inglês, mas, como podem observar, está inacabado.»)

Quando chegaram à Sala de Jantar do Estado, enormíssima e cheia de correntes de ar, Nat Abrahams deixara de prestar atenção. Porque Dilman parecia absorvido em beber todos aqueles fragmentos de informações, Abrahams não quisera estragar o seu prazer lembran-do-lhe que já estivera anteriormente nessas salas por duas ocasiões. Da primeira vez, Abrahams e mais uma dúzia de procuradores envolvi­dos na questão dos direitos civis tinham sido convocados a Washing­ton pelo Presidente Kennedy para uma conferência de dois dias e tinham então visitado o rés-do-chão e o primeiro andar da Casa Bran­ca. Da segunda vez, Abrahams e os membros da Associação Jurídica Americana, que se encontravam então reunidos em Washington, tinham sido convidados para um cocktail oferecido pelo Presidente Lyndon Johnson e Abrahams tornara a fazer a mesma visita.

Durante o breve mandato de O. C, Abrahams não fora convida­do para a Casa Branca, pois apoiara a minoria do partido que se opusera à nomeação de O. C. e de Porter. Ainda que depois de O. C. ter sido eleito ele o tivesse apoiado, não fora perdoado. Abrahams suspeitara que isso fosse obra do ajudante de O. C, o governador Talley, conhecido pela sua fantástica memória (por pouco mais poderia ser conhecido), e que rotulara Abrahams como indiferente. De facto, Abrahams só votara em O. C. como o menor de dois males, e porque O. C. fizera outras promessas às inquietas minorias.

Bruscamente, a sua recordação daquela meia hora da visita foi cortada pelos criados a retirar os pratos da sopa vazios. Olhou para Dilman e disse:

-       Sabe, Sr. Presidente...

A reacção de Dilman foi imediata.

Acaba com isso. Queres que eu te trate por advogado Abrahams?

Estava apenas a pôr-te à prova - disse Abrahams, rindo. - Muito bem, Doug, é um jantar familiar. - Sentiu-se melhor, sentiu-se até muito bem quanto ao amigo e quanto àquela noite, e esfregou o nariz aquilino e o queixo proeminente dizendo: - la apenas dizer a pena que tenho de que Sue esteja a perder isto, não só de te ver como presidente - ela ficou tão excitada com o caso - mas de comer no meio de todo este esplendor. Ela podia manter a mãe calada e meter os miúdos na cama durante um mês a contar-lhes tudo isto.

Mas eu quero que Sue venha aqui assim que puder - disse Dilman. - Disseste que ela tinha apenas uma ligeira gripe.

O médico do hotel prometeu que dentro de um ou dois dias já estaria de pé.

Então quero que venham os dois cá jantar daqui a uns dias.

Pegou no copo de Bordéus e ergueu-o na direcção de Abrahams.

À tua saúde e ao teu novo futuro, Nat.

Abrahams ergueu o copo e disse:

-       Uma presidência feliz, Doug. Sair-te-ás bem. Beberam o vinho e depois Dilman disse:

-       Quero estar contigo e com Sue todo o tempo que vocês me pude­rem dispensar. Durante o dia estou ocupado que nem um castor e tenho imenso que fazer à noite, em casa, mas a maior parte das vezes comerei sozinho. Com o Julian na faculdade e... bem... não tenho ninguém com quem desabafar à vontade. Preciso de vocês dois, Nat.

la dizer mais qualquer coisa quando os criados entraram com as travessas e então calou-se. Abrahams compreendeu que Dilman não falaria enquanto qualquer membro do pessoal da Casa Branca esti­vesse próximo. Ele é prudente e está na defensiva, pensou Abrahams. Tem medo de deixar escapar alguma coisa que possa ser mal inter­pretada, segredada por detrás das escadas e ir criar boatos e pará­grafos em artigos inimigos. Bastante sensato, pensou Abrahams, decidindo cooperar com o amigo e ter cuidado com o que dizia até estarem sozinhos.

Enquanto lhes serviam a carne, as filhos e mais vinho, Dilman só falou uma vez.

-       Essas ervilhas, Nat, saboreia-as bem, porque estarás a digerir história. A Sr.? Crail disse-me que elas foram criadas no jardim de Teddy Roosevelt.

Depois de os criados se terem retirado, ambos comeram silencio­samente durante algum tempo. A certa altura, Abrahams disse com a boca cheia:

Hum!, as filhos não estão nada más, Doug. Estás a formar uma óptima cozinha à moda judaica.

Tenho a certeza de que isso os deve confundir. Isso e o facto de eu não gostar de melão. - Disse a última frase sem amargura, mas com cru humor. Continuou: - É verdade o que eu estava a dizer há bocado, Nat. Quero que tu e a Sue venham aqui tantas vezes quantas puderem. Este é o tempo mais solitário que já alguma vez enfrentei. Já é mau ser-se um presidente viúvo na Casa Branca, e para mais acidentalmente. Mas ser ainda de cor, torna...

Já chega de disparates - interrompeu Abrahams. - Não te esqueças de que sou apenas um mulato branco, cujo avô foi espan­cado até à morte, na Polónia. - Falara meio a brincar, mas subita­mente ficou sério. - Muitos presidentes brancos não têm sido po­pulares e têm-se sentido sós, Doug. Lembro-me de ter lido uma carta que R. H. Dana escreveu para um dos Adams, por volta de 1860, acerca do Presidente Lincoln, dizendo que «ele não tem admi­radores, nem quem o apoie entusiasticamente e por ele punha as mãos no fogo». Tenho a certeza de que durante algum tempo Lincoln se sentiu como se tivesse sido posto à margem da socie­dade e fechado nesta casa... Não esqueças que queremos estar contigo sempre que estiveres livre, o que não sucederá tantas ve­zes como pensas. E queremos estar contigo, não porque tenha­mos pena de ti, mas porque também nós precisamos de boa com­panhia.

Quanto tempo ficarás em Washington, Nat?

Uma ou duas semanas, talvez até um mês. Se tudo correr bem, tornarei a levar Sue, ficarei lá alguns dias a pôr as minhas coisas em ordem no escritório, e deixá-la-ei lá a tratar da questão da mobília. Ela provavelmente ficará lá com os miúdos até ao fim do semestre escolar. Eu regressarei a Washington e ela virá depois ter comigo.

Fez uma pausa. - Segundo o novo plano, ficarei a viver em Washington durante três anos.

Isso seria óptimo, Nat. - Dilman sorriu. - Viverás aqui ainda mais tempo do que eu. - Continuou a comer, lentamente, com um ar pensativo, Depois disse: - Acho que fiquei um pouco surpreendido quando me escreveste acerca da oferta de Avery Emmich e que pen­savas em a aceitar. Não te escrevi a pedir-te que me contasses o caso mais detalhadamente? Talvez não. Mas até mesmo o que me disseste na outra noite pelo telefone não me tornou a coisa inteira­mente clara.

Que queres dizer com isso, Doug?

Não se pode viver cá na Colina tanto tempo como eu sem se receber umas tantas informações acerca dos grandes negócios e das grandes empresas privadas. Não são muitos os que se tornam maiores que as Indústrias Águias. Nada há de mal nestas ou em qual­quer outra corporação, excepto que as Águias não são muito notá­veis por serem progressistas ou liberais. E parece-me que Emmich é uma espécie de réplica do Cornelius Vanderbilt, Astor e Gould. Sem­pre o considerei daqueles que se não importam com as pessoas. Talvez eu não tenha razão. De qualquer maneira, não consigo ajus-tar-te naquele enquadramento. As imagens mentais que tenho de ti e das Águias não se harmonizam. Sei que não tenho razão.

Abrahams pousou o garfo.

Tens razão, sim, Doug. Já pensei nisso tudo até a minha consci­ência ficar cansada. Doug, afinal a coisa resume-se nisto: tenho anda­do a observar as Águias, e se tivesse descoberto que eles eram escroques, dos autênticos, ou algum tipo especial de aldrabões, ou qualquer coisa do género, teria posto imediatamente todo o caso de lado. Eles não são nem melhores nem piores do que o resto das gran­des empresas americanas. A anatomia é a mesma de sempre - cabe­ça dura, nenhum coração, tudo mãos em mil ferramentas, automá­ticas, conservativas, com um objectivo apenas - lucros. Muito bem. É esta a democracia pela qual lutamos. As Indústrias Águias precisam de mim, de homens como eu, com o rótulo de liberais. E eu... eu pre­ciso de um patrão gordo, Doug, porque estou velho, tenho responsa­bilidades e já não posso arranjar um seguro de vida. Se o patrão deixar que eu engorde também, sem que me esfole, é um bom negócio.

Nenhum seguro de vida, disseste tu?

Abrahams pôde observar a expressão preocupada do rosto es­curo do amigo. Encolheu os ombros.

Estou a exagerar e a dramatizar as coisas. Não foi um verda­deiro ataque, mas só uma luz amarela que se acendeu a avisar-me para abrandar. E eu quero abrandar antes que ela se transforme em vermelha e me obrigue a parar de vez - morto. Não é nada de sério, não se trata de uma espada pendente sobre a minha cabeça, mas o caso é que amo Sue e os miúdos e quero comprar aquela quinta. Portanto estou a jogar pelo seguro. Vou passar três anos a fazer o que não me interessa particularmente para depois poder fazer cal­mamente o que me interessa. E é tudo, Doug.

Concordo inteiramente com a tua escolha - disse Dilman sole­nemente. - Eu faria exactamente o mesmo, no teu lugar. Já estiveste com o Gordon Olivier?

Duas vezes, por pouco tempo. Foi lá ao hotel. Estamos ainda a tentar chegar a um acordo quanto às minhas exigências mais recentes.

Que pensas dele? - perguntou Dilman.

Olivier? Não sei. Devo dizer que ele me espantou no primeiro encontro que tivemos. Eu sou sempre vítima de noções preconcebi­das de como as pessoas serão -já sei isso muito bem. De qualquer maneira a palavra associação sugere-me sempre um fulano gordo, manhoso, com maus costumes, cheio de notas, etc. Fiquei surpreen­dido ao achá-lo bastante arejado, literato, discreto, um notável advo­gado, um homem de família.

Dilman escutara atentamente cada palavra.

-       Sim, ele é tudo isso, Nat. E também é um pouco, só um pouco, daquilo que esperavas. Conheço-o por o ver entrar e sair dos meus escritórios da Colina, com conversas, informações gratuitas, bilhetes e convites gratuitos, e isto durante anos. Não tenho qualquer razão para não confiar nele ou não gostar dele. Já uma vez ou outra me foi útil. Mas, de qualquer modo, apesar de ele ser da Nova Inglaterra - penso que de Vermont -, não me esqueço de que pertence a uma companhia e que esta tem o seu quartel-general no Sul. Seja como for, não é nada que te deva preocupar, Nat. És mais arguto no que respeita às pessoas do que eu. Dominá-lo-ás bem.

Os criados tinham regressado e ocupavam-se afanosamente em retirar os pratos, as travessas vazias e os talheres sujos. Ambos esperaram que servissem o gelado e o café, para que pudessem estar de novo sós.

Algo entrara no espírito de Abrahams e não se ia embora. Embora soubesse que o amigo era sensível e reservado no que dizia respeito às suas relações pessoais, Abrahams sentia-se curioso e estava resolvido a investigar qualquer coisa. Acabou a sobremesa e, enquanto enchia o cachimbo e o acendia, disse, tão casualmente quanto possível:

-       Doug, tenho estado a pensar no que disseste há bocado acerca de estares sozinho e não pude deixar de pensar em alguém que men­cionaste várias vezes nas tuas cartas. Refiro-me à senhora a quem nos apresentaste - à Sue e a mim - quando jantámos em tua casa... a Miss Gibson, Wanda Gibson.

Dilman não levantou a cabeça do café.

Que te fez pensar nela?

Como te disse já, a tua solidão. Suspeitei - e a Sue também, na noite em que a conhecemos - que tu gostavas da rapariga.

E gosto - disse Dilman.

Ainda continuas a dar-te com ela? Eu não sei, pois haverá tal­vez um ano que não mencionas o nome dela.

Além de ti, ela é a pessoa que me está mais ligada. Até aqui temo-nos dado muito. Ela é fora do vulgar.

E bonita também - disse Abrahams - e pareceu-me sensata e inteligente.

Sim, é isso tudo. Agora não sei o que nos sucederá. Esta coisa da presidência caiu entre nós como uma grade de ferro. Isto é uma conversa apenas entre nós, Nat... mas tentei vê-la a sós esta noite, pela primeira vez desde que isto tudo aconteceu... foi um horror...

Quase de um fôlego, Dilman contou os detalhes dos seus esfor­ços, ao fim da tarde, para ver Wanda a sós em casa dos Spinger. Contou também a sua ideia de lhe oferecer um emprego na Casa Branca e da sua recusa categórica em o aceitar.

Foi tudo o que sucedeu - concluiu Dilman -, e eis-nos agora gostando um do outro e mais afastados do que nunca. Desejaria que ela não fosse tão orgulhosa. Daria tudo para que ela estivesse comigo na Casa Branca.

Tudo, Doug?

Dilman levantou vivamente a cabeça, semicerrando os olhos. Começou a responder, mas não continuou.

A área sensível - pensou Abrahams. - E depois: ou somos ami­gos em tudo ou em nada.

Podias tê-la aqui de um momento para o outro, Doug. Eram precisas apenas três palavras: «Queres casar comigo?» É o único antídoto para a solidão, Doug. Já lho pediste?

Não.

-       Está bem, não posso ir mais adiante. Dilman disse:

-       Se há alguém que tenha o direito de perguntar isso, és tu, Nat. Sei que só me queres ajudar. Mas não consigo ver bem o problema em profundidade, nem sequer dentro de mim próprio. Talvez um dia eu possa discuti-lo contigo. Tudo o que posso dizer-te... a única expli­cação que encontro é... bem... que não estou a ver-me com Wanda num grande e cerimonioso casamento de estado na Casa Branca. O ter um indivíduo de cor na Casa Branca já está a acarretar bastantes sarilhos. Talvez a coisa se acalme quando virem que estou só e inofen­sivo, não ameaçando ninguém. Mas um negro e a sua mulher nesta mansão sulista? Isso seria demasiado para todos eles... seria dema­siado, e eu não estou preparado para isso. Sei que é uma enfermidade vergonhosa que tenho, Nat, mas é uma enfermidade que eu não pos­so vencer, como se não tivesse uma perna e a quisesse obter por mi­nha livre vontade. Não tenho a força de carácter suficiente.

Embaraçado, Dilman procurou um charuto. Abrahams, obser-vando-o, inclinou-se para lho acender e tornou a encostar-se na ca­deira.

-       Doug - disse por fim Abrahams -, como posso eu repreender o Presidente dos Estados Unidos? Não posso. Mas posso repreender um dos meus melhores e mais velhos amigos. Portanto, vou fazê-lo.

Dilman resmungou.

Tenho estado a ouvir sermões todo o dia, do rapaz que está a escrever a minha biografia, do meu filho, de Wanda e de mim próprio. Não me importo de ouvir mais um, apesar de achar que o assunto já deve estar todo esgotado.

Tenho a certeza que sim - disse Abrahams. - Mas visto que vou desistir de fazer discursos jurídicos, gostaria de ouvir o som da minha voz numa questão semelhante, por uma última vez. - Bateu com o cachimbo na palma da mão, depois tornou a enchê-lo e a acendê-lo. - Doug, nunca houve um negro num lugar tão elevado, politicamente, como tu ocupas, em toda a história do nosso país. Sei tudo o que há a saber neste campo. A maior parte dos negros sente-se feliz com isso, mas muitos estão aterrados com a tua súbita exposi­ção e com o consequente ressentimento dos brancos. Tu és um des­tes. Os brancos que odeiam os negros estão duplamente inflama­dos, disso não resta a menor dúvida. Tu fizeste algo pior que casares com a irmã de cor, tu tornaste-te o chefe das suas plantações, o seu Massah, o seu coronel. O resto dos brancos sente-se como? Insegu­ro e irritado... digamo-lo assim. Se o país pudesse pronunciar-se agora, em dez segundos estarias no meio da rua. O país, porém, não o pode fazer, portanto tem de manter-se quieto até o mandato presidencial terminar. Mas, por muito ódio que haja lá fora, todos sabem que es­tás aqui pela lei, pela lei dos brancos. Nada pode alterar o facto histó­rico da tua ascensão. Tu és por direito o presidente deles, o nosso presidente.

«Muito bem; então como deverás proceder? Sendo apenas tu? O que és tu, afinal? Tenho a certeza de que o não sabes. Talvez eu também o não saiba, mas talvez tenha uma melhor ideia acerca dis­so do que tu próprio. Tu és o nosso presidente. Isso é um facto. És um cidadão americano. Isso é outro facto. És um negro americano. Isso é outro facto. Por causa da pigmentação da tua pele, és diferen­te de qualquer presidente da nossa história. Isso é outro facto. O que significa isso tudo para ti? Significa que ages como uma parte da minoria, como sendo agora o rei da Colina e pondo os pés na cara dos outros? Significa que ages como se soubesses que não convéns porque és diferente, e retiras-te e escondes-te? Ou significa que ages como um ser humano que herdou, contra a sua própria vontade, o cargo mais difícil do mundo, e que o sabes, e que os que estão lá fora o sabem, e que o vais desempenhar como qualquer ser humano desempenha qualquer cargo que tem?

Dilman tinha os olhos fixos num ponto para lá de Abrahams e roda­va o charuto nos dedos. Rodou-o até a folha de tabaco se escamar.

- Obrigado, Nat. Seria um bom discurso numa sala de audiên­cias do Norte, onde existe um ar benigno e razoável. Não é muito bom para aqui, onde sou um servo de uma massa de duzentos e trinta milhões de pessoas que nem sempre cumprem as leis ou obe­decem à razão. - Os seus olhos perturbados cruzaram-se com os de Abrahams. - A tua premissa não está assente em chão sólido, Nat. Precisas de mais um facto que te falta. Lá fora, mesmo para o melhor deles, eu não sou um ser humano. É assim. Não sou um ser humano.

Doug, pelo amor de Deus...

São os factos, Nat, dois advogados discutindo factos. Não que­res que eu seja um negro mesquinho, um negro servil, ou um negro de rosto branco. Queres que eu seja um ser humano que tem um emprego chamado presidente e que o desempenhe como um ser humano. Como posso fazer isso? Quem mo permitirá? Que sucede se eu fugir daqui um dia, secretamente, com Wanda como esposa, sem ninguém saber quem nós somos, e viajar pelo país? Que serei então? Um ser humano? Serei um nigger, como qualquer outro nigger- são todos iguais - no Sul e no Sudoeste, e um negro no Este, no Norte e no Oeste. É o que eu sou, Nat, quando ando a fazer de senador ou presidente. Sou um preto, nada mais. A linguagem do governo e organizações, como seja educação, emprego, acomodações públicas, bons alojamentos, não serve lá para fora. Usa-se uma linguagem bem mais simples, lá fora. E essa lingua­gem diz que se estiveres na bicha há uma hora, num mercado ou arma­zém, e que chegue a tua vez, e se então entrar um branco, este será servido em primeiro lugar. Diz que se tiveres a barriga apertada com fome e quiseres parar o carro no primeiro snack que vejas, não te valerá de nada porque não te deixarão entrar. Diz que se a tua mulher precisar de ir à casa de banho e não houver uma sala pública será muito melhor que ela tenha uma boa bexiga. Diz que se a tua garganta estiver seca, e quiseres uma coca-cola, apenas uma miserável coca-cola, não conse­guirás achar um único lugar que te venda uma. Diz que se estiveres exausto na estrada e quiseres parar para passar a noite algures, não haverá nenhum hotel ou motel que tenha um quarto vago, quando o peças. Diz o que Roy Wilkins costumava dizer: que todas as vezes que se abre a porta e se sai de casa, de manhã, até que se entra em casa e se fecha a porta, à noite, se corre o risco ou a certeza de se apanhar todos esses maus tratos e humilhações. Esta é a verdadeira lingua­gem lá de fora, Nat, e ela lembra-te, no caso de te sentires inclinado a esquecê-la, que não és um ser humano, não aqui, não agora, mas um preto, o que significa ser metade de um homem.

«Certamente que sou o presidente, Nat, mas eu não me esqueço, e ninguém mo deixará esquecer, de que sou um preto, ainda não qualifi­cado para ser um ser humano, e muito menos presidente. Sinta eu o que sentir, Nat, só posso agir de uma maneira, que é agir como criado de O. C. mantendo a casa em ordem enquanto ele estiver fora. É a velha história que eu costumava ouvir um sacerdote negro contar, quando era miúdo. Contava-a do púlpito. «Se disseres a um branco: Não se esque­ceu do seu chapéu? Ele dir-te-á: Nigger, vai buscá-lo!» É esse o meu emprego, Nat, ir buscar o chapéu de O. C.

Nat Abrahams sentia-se demasiado comovido, demasiado cheio de um complexo de culpa por ser branco, para poder discutir com Dilman. Sabia que devia aceitar o ponto de vista da realidade de Dilman, mas tentando alargá-lo, ajudá-lo a ver claramente o seu pa­pel e o seu futuro. Mas isso era impossível agora, depois daquela confissão. Durante anos, Dilman e ele tinham discutido abertamente o problema negro, e todavia não se recordava de outra altura em que tivesse ouvido o amigo falar tão apaixonadamente amargurado.

-       Está bem, Doug - disse Abrahams calmamente -, terás de ir buscar o chapéu de O. C. Mas há também um certo número de coi­sas que terás o direito de fazer, de instigar, de fazer pressão por tua própria iniciativa. Tens o direito...

Dilman ergueu pesadamente a mão.

Nat, eu não tenho mais direitos aqui do que tinha lá fora. Talvez até tenha menos. É provável que algum dia a coisa seja diferente. Mas isto aqui é assim. Julgas que não sei o que se passa? Julgas que não sei tudo o que há a saber acerca do novo Projecto da Lei de Sucessão que eles estão a tentar fazer aprovar? Porquê toda esta pressa da parte dos meus colegas da Colina? A razão é que eles não podem esquecer que eu sou negro e não confiam em mim, não que­rem que eu forme um Gabinete de cor, com um ministro de Estado preto que me possa suceder. E sabes uma coisa, Nat?... Eu não vou recusar tal Projecto. Não senhor.

Mas devias.

Não senhor. Também não vou assinar «Aprovado», mas não o vou recusar. Vou deixá-lo na minha secretária durante dez dias e um domingo, e deixarei que ele se faça lei sem o meu consentimento ou recusa. De qualquer maneira, até é possível que seja recusado pelo Supremo Tribunal. Mas eu farei o pequeno jogo deles para que se sintam mais seguros, para que saibam que não vou formar uma linha de sucessão com recrutas da Sociedade Crispus ou da N. A. A. C. R Vou deixá-los saber que eu sei qual é o meu lugar e que farei o que me é devido, quer me agrade ou não. Se o não fizesse, Nat, arranja­ria um sarilho para cada negro, não falando já em mim e na unidade do país.

Talvez tenha chegado já a altura para isso - disse Abrahams.

Essa altura não chegará enquanto a minha mulher não puder entrar em todas as casas de banho do país e enquanto um negro não puder entrar na Casa Branca por eleição popular. - Afastou-se da mesa. - A coisa podia ser pior, Nat. Ainda herdei de O. C. alguns bons membros no governo. Sei que o governador Talley não é muito esperto, mas faz com que as coisas sejam feitas. O ministro Eaton é poderoso, útil, e um gentleman. Tanto quanto posso dizer, o Gabine­te é bom. Quanto à legislação pendente, o projecto das minorias, a crise em África, penso que não errarei muito se escutar os conselhei­ros de O. C. Afinal eles também querem o que for melhor para o país.

Abrahams meteu o cachimbo na algibeira do casaco.

Todos querem o que for melhor para o país. Nem todos têm razão no que querem. - Tentou sorrir. - Lê os bons impressos, Doug. Há sempre bons impressos.

Não te preocupes, Nat. Talvez eu esteja a servir O. C, mas não posso carimbar o seu nome. Tem de ser o meu próprio nome assina­do em tudo. E eu leio sempre tudo o que assino.

Isso já não é mau - disse Abrahams. - Notou que Dilman bo­cejava e levantou-se. - Primeira sessão adiada, Doug. Será melhor que regresse para junto da pobre Sue e que tu vás dormir.

Também acho melhor, Nat. Sinto-me arrasado. Vou acompa-nhar-te até ao elevador.

Só mais tarde, sozinho no elevador, é que Nat Abrahams se sentiu aliviado por Sue não ter vindo ao jantar. Sabia que ela teria chorado.

Douglass Dilman encontrava-se só, na intimidade do Quarto de Lincoln, metido no seu grande pijama, enterrado na cadeira Vitoriana forrada de veludo vermelho, a acabar de beber o seu sherry e a tentar ler o Projecto do Programa de Reabilitação das Minorias.

Mas em vão. O dia fatigante, o jantar, o Bordéus e o sherry tinham--no posto sonolento. Atirou com o Projecto impresso para cima da mesa de tampo de mármore, colocou o cálice do sherry ao lado e tentou pensar no que Nat Abrahams dissera e no que ele próprio dis­sera também nessa noite. Estava demasiado cansado para se recor­dar com exactidão. A sua memória ia de Wanda a Julian, de Leroy Poole a Arthur Eaton, de Sally Watson a Clay Kemmler, ao Gabinete, e depois passava para lá deles, procurando repouso.

Ergueu-se da cadeira, apertou o cordão das calças do pijama e olhou para o relógio estilo Império. Já passava da meia-noite. Apagou o candeeiro, foi a chinelar apagar mais dois, parando uma vez para observar a cópia escrita à mão por Lincoln do Tratado de Gettysburg, do que depois desistiu por ver as letras a dançar-lhe diante dos olhos.

Bocejando, encaminhou-se para a gigantesca cama de pau-rosa, sentou-se nela, tirou as chinelas, enfiou-se entre os lençóis e esten­deu o braço para apagar o último candeeiro.

Na bem-vinda escuridão, deitou a cabeça na almofada.

Sentiu o sono invadi-lo rapidamente e o seu espírito cansado procurou um pensamento nobre como remate do dia, um pensamento elevado para comemorar aquela ocasião histórica única de um presi­dente preto prestes a passar a sua primeira noite na Casa Branca dos brancos.

Tentou evocar algo da sabedoria de Abe Lincoln, visto estar na cama deste. Procurou palavras... nobres... elevadas... históricas... maldade para ninguém... caridade para todos... firmeza na justiça... na justiça... na justiça.

O sono afugentou-lhe as ideias, e o que ficou foi a velha rima, cantada entre as choças... nobres... elevadas... históricas...

Nigger an' white man

Playin' seven-up; Nigger win de money -Skeered to pick' me up.

Desculpe... Mistah... Lincoln...

Virou-se na cama, enroscando-se debaixo dos grossos cober­tores brancos, procurando aproximar-se da segurança do esque­cimento nocturno. Teve ainda um momento lúcido antes de o sono trazer o vácuo.

Um pensamento momentâneo: «Que dura é esta cama, que dura, grande e branca, demasiado dura para um homem branco, demasiado grande para um homem pequeno, e contudo, talvez, talvez demasiado branca para um homem preto. Talvez...

Douglass Dilman, Presidente dos Estados Unidos, adormeceu por fim.

 

A bandeira, no poste da Casa Branca, já não se encontrava a meia haste.

Douglass Dilman sentira um pequeno choque interno quando Crystal, havia quinze minutos, lhe dera tal notícia, juntamente com o tabuleiro do pequeno-almoço, na Sala Oval amarela, do segundo andar. Ela descrevera orgulhosamente o acontecimento como teste­munha ocular: ontem, quando viera para o emprego, vira a bandeira, muito murcha, a meia haste; hoje, quando viera para o emprego, vira-a a ondear ao vento mesmo no topo da haste. Relatara a mudança como se fosse um importante acontecimento.

Recordando o rosto radiante de Crystal, agora enquanto bebia o café, Dilman chegou à conclusão de que ela tinha razão. O regresso da bandeira nacional à sua posição normal indicava que os trinta dias de luto nacional tinham terminado. Nesse dia, quatro semanas e dois dias após a sua entrada para o lugar, no começo do seu segundo mês como presidente, os seus compatriotas dariam meia volta. Cessariam de olhar para trás. Olhariam de novo para diante e deparariam com ele à sua frente. Começariam a olhar para ele, para ele e para mais nin­guém. Não que o não tivessem feito já, pensou acerbamente.

Veio-lhe ao espírito um artigo malicioso, num dos jornais mais sulistas de Zeke Miller: «Cidadãos, conservem a vossa bandeira a meia haste até ao fim do mandato de Dilman, não como sinal de luto por O. C, mas pela morte da nossa dignidade e elevação como Nação.» Mas agora, na verdade, Crystal viera dizer-lhe que o con­selho de Miller não fora seguido, que nesse dia a bandeira celebra­va, mais uma vez, no topo da haste, um presidente vivo.

Sim, pensou, hoje é um dia oficial. Todos olhariam para ele, o que não lhe agradava. Não estava pronto a enfrentar um juízo e um exame minucioso da parte deles.

Bebeu o café à pressa, sabendo que ia ter mais um dia muito ocupado e difícil, ainda mais difícil que os que o tinham precedido. Quando o telefone começou a tocar ao seu lado, não ficou surpre­endido. Ultimamente, Edna Foster costumava encetar as suas ma­nhãs com esses telefonemas do escritório, pois cada dia havia mais mensagens à espera da sua relutante chegada, como se fossem outros tantos imanes poderosos tentando puxá-lo para um dia que ele procurava evitar a todo o custo.

Com um suspiro, pousou a chávena no pires e levantou o aus­cultador, antes que o telefone tocasse pela terceira vez.

A voz de Edna Foster chegou até ele.

Depois de lhe ter assegurado que não o incomodava nada, que estava vestido e quase pronto para descer, escutou o inevitável.

Há várias mensagens, Sr. Presidente...

Sim, Miss Foster.

Grover lllingsworth telefonou tomado de pânico.

Dilman sentiu-se bem-humorado pela primeira vez nessa ma­nhã. Imaginar lllingsworth em pânico era mais difícil que imaginar um Príncipe Alberto de cera na Madame Tussalld tentando sacudir uma mosca do nariz. Desde que Kwame Amboko, o Presidente de Baraza, chegara, havia dois dias, o alto, bronzeado e distinto chefe do proto­colo tornara-se uma parte dominante da vida de Dilman. Tudo em lllingsworth era formidável - era de Back Bay, em Boston, o seu in­glês era tão correcto que até parecia ligeiramente estrangeiro, os seus fatos cinzentos às riscas tão imponentes como um uniforme militar, o seu conhecimento do Burke's Peerage e do Almanach de Gotha tão completo quanto a sua fluência em francês, alemão, italiano ou espa­nhol - e contudo Dilman não se sentia intimidado na sua presença. E nesse instante Dilman percebeu porquê: porque, como chefe de protocolo, lllingsworth considerava todos os chefes de Estado iguais, sem ter em conta a sua raça, religião ou passado. Quando se andou em aviões a jacto, em/eeps ou a cavalo na companhia de chefes de milhões de pessoas na Irlanda, em Espanha, na Nigéria, no Irão, na índia, no Japão, classificam-se pela sua posição na vida e não pela sua cor. Para lllingsworth, Dilman era mais um chefe de Estado como tantos outros, pretos ou amarelos, que ele conhecera e com quem lidara, e portanto estava perfeitamente à vontade com ele, o que fazia com que Dilman se sentisse descontraído e natural na sua compa­nhia. Mas imaginá-lo a telefonar tomado de pânico? Teria Miss Foster perdido a cabeça?

O que é que o aflige? - perguntou Dilman. - Passa-se alguma coisa?

É por causa do jantar de estado em honra do Presidente Amboko, hoje à noite. O Sr. Illingsworth sabe que a ementa já está estabelecida, mas acaba de descobrir que Amboko é vegetariano!

Dilman riu-se.

É tudo? Bem, é dizer à governanta para preparar uma refeição especial para Amboko. O que come um vegetariano além de ervas?

Já perguntei ao Sr. Illingsworth. Disse-me que ainda não tivera a oportunidade de se informar, mas que supõe que um vegetariano pode comer tudo o que no seu estado original não morda. De qual­quer modo, ele está muito inquieto por causa deste jantar de estado, visto que é o primeiro que o Sr. Presidente dá e porque Baraza é um problema, e...

Miss Foster, telefone imediatamente a Illingsworth, ponha-o em contacto com o ajudante de campo de Amboko, da Embaixada de Baraza, e que ele descubra exactamente o que o nosso hóspede come ou não come. Depois ele que o comunique a Miss Watson, que, por sua vez, falará com a Srã Crail e com o chefe. Ligue já para o Illingsworth, no Departamento do Novo Estado... eu espero.

Enquanto esperava, Dilman tentou rever os dois encontros que já tivera com Kwame Amboko. Infantilmente, esperara que os encon­tros fossem cordiais, vivos, mais fáceis do que os que tinha com os membros do seu próprio Gabinete, porque ambos, tanto ele como Amboko, eram pretos, e isso seria o suficiente para estabelecer um rápido laço de acordo e compreensão. Espantava-o o ter-se engana­do tão redondamente.

Achara Amboko um homem ainda muito novo, não devia ter mais de trinta e cinco anos, um jovem escolar e retraído, com cabelo preto e lanoso, olhos desconfiados por detrás de óculos sem aros, e um nariz chato, que parecia cobrir-lhe o rosto de orelha a orelha. A boca, pequena e redonda, de lábios moles, deixava ver um espaço de um quarto de polegada entre os dentes de cima. Embora o acento de Amboko fosse de Harvard, possuísse muitas lembranças agradáveis da sua estada nos Estados Unidos e tivesse tentado modelar a sua democracia recentemente independente segundo as linhas postas pela Constituição dos Estados Unidos, não parecera muito conven­cido de que os Estados Unidos fossem um amigo e protector inteira­mente digno de confiança.

Dilman pôde ver que Kwame Amboko não ficaria impressionado com a ascensão de um preto à presidência de uma Nação branca gigantesca, em que os de cor constituíam uma minoria. Amboko pare­cia sugerir, sem o dizer abertamente, que Dilman era apenas uma fachada de uma intriga branca. O africano insinuara que Dilman era um boneco a repetir as palavras dos brancos, e que portanto não poderia trazer mais compreensão aos problemas de uma Nação com­pletamente preta do que os seus patrões brancos.

Dilman só conseguira descobrir um elemento de ligação entre o Presidente Amboko e ele próprio. Tanto ele como o seu hóspede pareciam ser igualmente sensíveis às faltas de respeito da parte dos brancos. Mas mesmo esse elemento de ligação, que os poderia ter aproximado, era frouxo, porque as suas sensibilidades eram excita­das por feridas diferentes. Enquanto Dilman era sensível no que dizia respeito aos seus direitos humanos e democráticos como homem, Amboko era sensível no que dizia respeito à fraqueza do seu peque­no país e às ameaças do domínio estrangeiro. Para Dilman, o Presi­dente Amboko era como um prisioneiro de longa data, finalmente perdoado, sem acreditar na realidade da sua liberdade, olhando cons­tantemente, por cima do ombro, para as paredes cinzentas dentro das quais estivera encerrado, para se assegurar de que ninguém mais poderoso do que ele o estava a tentar agarrar, para o tornar a meter lá dentro. Quando Dilman mencionara isto a Sue e a Nat Abrahams, dois dias antes, Nat dissera:

«Sim, penso que todas as nações recentemente independentes se tornam automaticamente paranóicas e egocêntricas - pensam que estão todos contra elas, e só se interessam por si próprios. Não há muito tempo ainda, os Estados Unidos sofriam também desses ma­les de adolescência em crescimento.»

As conversas políticas de Dilman com Amboko não tinham leva­do a nenhum resultado concludente. Dilman fora branco acerca da necessidade de um compromisso. Incluiria a América no Pacto da União Africana, que fora ratificado pelo Senado, garantiria um auxílio econó­mico contínuo para ajudar a industrializar Baraza, se Amboko reprimis­se menos os comunistas nativos e a União Soviética. Dilman achava que isto era o mínimo que Amboko poderia fazer para ajudar os Esta­dos Unidos a acalmar a Rússia.

O Presidente Amboko resistira obstinadamente a este compro­misso. Era verdade que o Partido Comunista de Baraza era pequeno. Era verdade que não havia qualquer evidência de actividade subver­siva da parte da Embaixada Soviética em Baraza. Era verdade que não havia evidências concludentes de que os jovens nativos de Baraza, nos intercâmbios culturais com Moscovo, estivessem a rece­ber doutrinas e ideias marxistas. Apesar de tudo isso, o Presidente Amboko sentia que o seu país, naquele período de transição, consti­tuía um campo propício ao desenvolvimento do comunismo. Porque Amboko tinha abolido a lei dos chefes, tinha desfeito a antiga estrutu­ra social (o que espalhara tribos guerreiras pelas planícies verdejantes e através das densas florestas das cadeias de montanhas) e a subs­tituíra por assembleias ainda não efectivamente eleitas, reinava um certo descontentamento. Para mais, o rendimento em Baraza, por cabeça, era apenas de sessenta dólares por ano, e a industrialização ainda mal começara. Os pobres e os desempregados podiam ser facilmente voltados contra a democracia.

Acima de tudo, o Presidente Amboko não tinha confiança na União Soviética. Temia que a Rússia cobiçasse os recursos do seu pequeno país - o ouro, o minério de ferro, os diamantes - e que tentasse tornar a fechar o seu povo numa paliçada colonial. Recorda­ra a Dilman a experiência de um país seu vizinho, a Guiné. Depois de os Franceses terem deixado a Guiné em 1958, a nação, recentemente independente, tentada pela linguagem anticolonial da União Sovié­tica e pela sua oferta de um crédito económico, convidara a Rússia a ajudá-la. Passados três anos, a Guiné vira-se forçada a expulsar os Russos, porque soubera que a Embaixada Soviética andava a cons­pirar com os chefes nativos das associações contra o governo demo­craticamente eleito. O Presidente Amboko temia que o mesmo ocor­resse, se não estivesse já a ocorrer, em Baraza, e queria antecipar-se e evitar isso.

Tocado pela preocupação de Amboko, Dilman achara que não se devia deixar levar pelos problemas de uma pequena nação em detrimento da paz mundial. Tentara agir como O. C. teria agido. Insis­tira no compromisso, prometendo que Montegomery Scott, director do Departamento Central de Investigações, designaria um número suficiente dos seus agentes para Baraza, para manter uma vigilância oculta sobre qualquer actividade subversiva aí existente. Amboko con­cordara em pensar mais detalhadamente no assunto e dar a sua res­posta final a Dilman antes de regressar ao seu país. Dilman lembrou--se então de que aquele devia partir para Baraza depois do jantar de estado dessa noite.

Sr. Presidente - era Edna Foster de novo ao telefone. - Falei com o Sr. Illingsworth. Ele tomará conta de tudo.

Óptimo.

Há ainda duas mensagens de Leroy Poole. Quer discutir o últi­mo capítulo da biografia com o Sr. Presidente. Digo ao Sr. Lucas para lhe marcar uma entrevista?

Dilman tentou interpretar os telefonemas de Poole. Se tivesse sido apenas um, seria realmente provável que o escritor desejasse discutir o livro. Mas duas mensagens indicavam algo de mais urgen­te. Dilman suspeitava que fosse ainda por causa daquela história dos Turnerites. Para alguém que afirmava categoricamente não pertencer a esse grupo violento de acção directa, o interesse de Poole pela organização era incontestável. Havia três semanas instigara Julian a lutar com o pai. Havia uma semana, encurralara o pobre Nat Abrahams num canto do vestíbulo do Mayflower, mas nada conseguira obter dele. Agora, sem dúvida por causa da sentença do juiz Gage em Hattiesburg, tentava falar com Dilman uma vez mais.

Enquanto, provavelmente, o veredicto de «culpado» do juiz Gage, no julgamento do Mississipi, era tecnicamente exacto, a sua sentença fora injustamente dura e vingativa. Dois dias antes, na sala de audiên­cias sulistas, sentenciara todos os turnerites, incluindo também o cego, à prisão máxima de dez anos na Penitenciária de Parchman, no Esta­do do Mississipi, segundo o Artigo 2011 do Código Criminal do Esta­do. Embora a Sociedade Crispus tivesse concordado em rever as le­galidades do caso com vista a um recurso, os Turnerites estavam demasiado inflamados para terem paciência. A declaração de Jeff Hurley à imprensa, no dia anterior, fora uma ameaça desagradável, compreensível mas imprudente.

«Dizem-nos que isto é justiça e que devemos viver pela lei do país - anunciara Hurley. - Dizem-nos também para vivermos segun­do as palavras do Antigo Testamento, 'A Vingança é minha; eu repagarei, disse o Senhor'. Mas este Deus amedrontado e prudente não é o nosso Deus. Encontrámos um Deus melhor, um melhor guia, nas palavras de Nahum. 'O Senhor clama por vingança e está furio­so; o Senhor vingar-se-á dos seus inimigos'.»

Dilman deplorara a declaração irreflectida de Hurley. Tais pro­messas de ilegalidade davam ainda mais munições aos inimigos da raça negra e faziam com que a situação de Dilman se tornasse ainda pior. Não, ele não tornaria a discutir com o jovem Poole acerca da actividade turnerite. Havia outros meios de proceder, meios melho­res, dentro da lei, e lançaria mão deles quando achasse que tal era possível.

Miss Foster, telefone a Poole e diga-lhe que de momento estou demasiado ocupado - disse ele. - Poderemos falar acerca do livro... bem... diga-lhe que na próxima semana.

Acho que ele o queria ver ainda esta manhã.

Isso é impossível.

Muito bem, Sr. Presidente. Depois há ainda a carta do chanceler McKaye, o convite para Trafford. Tenho uma anotação no meu calen­dário que deve ser respondida hoje.

Dilman tinha-se esquecido completamente desse convite. O chanceler McKaye e os lentes da Universidade de Trafford tinham-lhe escrito a convidarem-no para o Dia dos Fundadores e a pedirem-lhe que aceitasse um grau honorário de Doutor em Filosofia e que fosse o principal orador naquela reunião de alunos e professores.

Até mesmo o filho pusera de lado o seu amuo para o felicitar e lhe pedir que comparecesse. Dilman evitara tomar qualquer decisão, mas agora tinha de a tomar. O seu instinto dizia-lhe que não fosse. Se não podia recusar o grau honorífico, devia recusar o convite para falar. Julian ficaria desapontado, até talvez preocupado, mas havia considerações mais importantes. Até à data evitara discursos públi­cos, aceitando as indicações dos conselheiros de O. C. em como tais discursos podiam ser inflamatórios, dissesse ele o que dissesse. Embora tivesse que dar a sua primeira conferência à imprensa nessa tarde, e ainda outras conferências depois, esse contacto com o pú­blico seria amortecido pelos repórteres. Quando chegasse a altura de falar em público, teria de o fazer, mas certamente que não seria inteligente fazer essa primeira aparição numa escola negra.

Miss Foster - disse Dilman -, escreva ao chanceler McKaye que me sinto comovido e contente por me oferecerem o grau hono­rário e que o aceitarei mais tarde, se puder, mas que lamento não poder aceitar o convite para falar no Dia dos Fundadores. Diga-lhe que o meu horário superlotado não me permite sair neste momento de Washington. Faça-o, faça-o tão diplomaticamente quanto possí­vel. Deixe a porta aberta para o futuro. Diga-lhe que talvez noutra ocasião, quando as coisas estiverem mais fáceis, eu possa fazer uma visita sem protocolo a Trafford. Diga-lhe que tenho plena consciência do bom trabalho que lá estão a fazer, e que não falo apenas como chefe Executivo mas como pai de um dos alunos. Você sabe como escrever tudo isso. Depois eu lerei a carta e assiná-la-ei ainda hoje. Mais alguma coisa?

O Sr. Flannery e o governador Talley acabam mesmo agora de chegar aqui. Estão prontos para o elucidar acerca da conferência à imprensa.

-       Diga-lhes para esperarem no meu escritório. Vou já para lá. Depois de ter desligado, Dilman pensou ainda em tomar uma

segunda chávena de café, mas desistiu da ideia por falta de tempo. Então levantou-se, compôs o casaco, pegou na pasta e saiu da Sala Oval amarela para o Grande Vestíbulo.

Quando se dirigia para o elevador, ouviu uma voz a chamá-lo. Voltou-se e viu Sally Watson agitando no ar um maço de papéis e encaminhando-se para ele. Mais uma vez a sua atenção foi atraída pelo vestido dela. A variedade das suas toilettes - não se lembrava de a ter visto com a mesma nas últimas três semanas - fascinava-o. Desta vez usava uma blusa creme e uma saia de cor magenta, caras e sem qualquer enfeite, as cores subtis contrastando agradavelmente com o seu cabelo loiro. Tinha mais aspecto de uma dona de casa do que de uma secretária, pensou Dilman, mas não se importou com isso. A princípio a sua notável beleza preocupara-o, para ago­ra essa sua beleza era como que parte integrante da beleza esta­dual da Casa Branca. Além disso, para alívio seu, com uma excep­ção, a imprensa não criticara o facto de ela ter sido escolhida para o lugar de secretária social. A excepção, já de esperar, fora Reb Blazer, que escrevera acerbamente que o novo presidente tentava desarmar o bloco sulista do Congresso com subornos, começando por contratar a filha do senador Hoyt Watson. O aborrecimento provo­cado em Dilman por esta observação gratuita fora afastado com a frase graciosa da própria Sally.

- Realmente, Sr. Presidente, acha que eu me pareço com um cavalo troiano sulista? - dissera ela a rir.

Todavia, a extravagância em Sally era rara. Uma das muitas sur­presas nela fora a sua seriedade. Dilman esperara um certo grau de frivolidade, numa jovem tão rica e mimada. Em vez disso, deparara-se-lhe uma ajudante social que se revelara pontual, séria, dedicada, cordata em trabalhar a qualquer hora, e que tinha a iniciativa de ultra­passar os limites do seu escritório da ala oriental para tratar dos com­promissos dele fora da Casa Branca. Uma ou duas vezes ele até qua­se se esquecera de ser prudente com ela acerca dos seus assuntos particulares.

À medida que ela se aproximava, era-lhe difícil conciliar aquele rosto jovem e angélico com algo que lhe chegara aos ouvidos. Umas noites atrás, Sue Abrahams transmitira-lhe o que a Sr. Gordon Oliver lhe contara: que Kay Varney Eaton estava fora da cidade havia já um estranhamente longo período de tempo e que o ministro de Estado procurara uma consolação na companhia de Miss Sally Watson. Sue Abrahams não repetira o boato pelo gosto de intrigar, mas para manter Dilman informado acerca de tudo o que ela ouvia por detrás das suas costas. Ela duvidava da veracidade do caso Arthur Eaton-Sally Watson, e ficara satisfeita quando Dilman o desmentira completamente. Este dissera que não podia conceber quaisquer relações amorosas entre um diplomata digno, circunspecto e já de certa idade, como Arthur Eaton, e uma rapariga solteira relativamente superficial, sem experiên­cia, e demasiado conhecida, como a filha do senador Watson. O que pensava Nat? Nat encolhera os ombros e trauteara uns versos da September Song, o que os fizera rir aos três sem ligar mais ao caso.

Agora, esperando que ela chegasse até ele, Dilman tornou a pensar no caso. Tudo era possível, claro está, mas naquela cidade de espiões profissionais não era provável que um estadista sofisti­cado de renome internacional se atrevesse a arriscar a sua reputa­ção com uma rapariga solteira. Improvável, disse novamente para consigo mesmo, e aceitou Sally Watson no seu prévio estado virginal e sem mácula.

Bom dia, Sr. Presidente - disse ela, tentando retomar o fôlego. - Preciso de si por uns minutos, por causa do jantar desta noite.

Desculpe, Miss Watson, mas isso não pode esperar? Já es­tou atrasado.

Então, só um minuto. Acho que não é assim tão importante, mas...

Está bem, Miss Watson. Importa-se de mo ir dizendo no cami­nho para o escritório?

Dirigiram-se para o elevador enquanto Sally verificava as notas nas diversas folhas de papel.

-       A plataforma está armada na Sala Este e está completamente decorada - disse ela. - Está muito bonita. Tive apenas de telefonar para o Hay-Adams e o Stetler Hilton e eles fizeram tudo. Estou impa­ciente por ouvir Heerbie Teele e adoro Libby Owens.

Entrando para o elevador, Dilman sentia-se menos entusiasma­do com o espectáculo que se seguiria ao jantar de estado do que a sua secretária social. Allan Noyes, o presidente do partido, fora o primeiro a sugeri-lo. Os seis famosos actores de Hollywood e Nova Iorque tinham apoiado de viva voz O. O e o partido, e tinham conse­guido arranjar uma pequena fortuna para ajudar a financiar a sua campanha eleitoral. Agora tinham sido os primeiros a oferecer-se para apoiar o novo presidente. As suas citações nas colunas artísticas tinham sido embaraçosamente extravagantes em elogios a Dilman, que ne­nhum deles conhecia.

Esse tipo de liberal de profissão, por muito sincero e bem inten­cionado que fosse, provocava sempre em Dilman uma sensação de mal-estar. Eles faziam demasiada questão em gostar de tudo que fosse preto, amarelo ou castanho, sem se importarem com o carác­ter ou o valor do objecto da sua afeição extrovertida. Quando o grupo artístico ouvira falar no primeiro jantar de estado de Dilman, oferece­ra imediatamente os seus serviços através de Noyes. Dilman ficara indeciso, preferindo que não houvesse qualquer espectáculo, ou então, pelo menos, que fosse algo mais conservador. Mas entretanto lllingsworth soubera que o Presidente Amboko era um inveterado apreciador de espectáculos e que gostaria muito de ver em carne e osso alguns dos seus ídolos do palco americano, o que levara Dilman a concordar com a ideia.

Dilman não pusera objecções a Trig Cunningham, a «estrela» forte e valente das mil e uma peripécias hípicas, ou a Besty Buckner, o sinuoso e nacional objecto de adoração, ou a Tilly Reyes, a senhora do corpo de borracha, ou a Rick Wade, o adolescente desequilibra­do da guitarra. Eram todos brancos. As suas objecções iam para os outros dois membros do grupo, Heerbie Teele, o cómico da língua afiada, conhecido pelos seus monólogos acerbos sobre a integração e pelo seu círculo de adoradores de jovens brancas, e Libby Owens, a magnífica cantora de blues. Eram ambos negros. Dilmannão os queria tão cedo, logo no primeiro dia depois de o luto nacional ter terminado. Mas o Presidente Amboko queria-os. E Sally Watson aparentemente também. E, consequentemente, eles ali estavam.

Sim, será interessante - encontrou-se a dizer. - Espero que eles sejam prudentes. O Presidente Amboko pode melindrar-se com certas piadas. - Queria referir-se a si próprio e não a Amboko, mas não se podia despir assim tanto diante daquela rapariga. Ele odiava piadas acerca de negros contadas pelos próprios e odiava canções negras cantadas em público pelos negros.

Oh! Não se preocupe, Sr. Presidente. Os assistentes do Sr. Illingsworth assistem, esta tarde, a um ensaio deles no Hilton. -Sally remexia no seu molho de papéis. - A rotina do jantar já foi final­mente estabelecida.

Vá, continue.

Com excepção dos convidados de honra, todos os outros che­garão pelo lado sul - entrarão pelo pórtico sul para o corredor do primeiro andar, onde estará a tocar a Banda da Marinha. Lá estarei com o meu pessoal para indicar a cada um o plano dos lugares e dar-Ihes os cartões de entrada. Depois seguirão para a Sala Este. Aí esta­rão vinte minutos, mais ou menos, antes da chegada do Sr. Presidente.

O elevador parara. Sally abriu rapidamente a porta e esperou que Dilman saísse, antes de o seguir. Dilman, cujo espírito andava à volta da conferência à imprensa, caminhou apressadamente, fazen­do com que Sally quase precisasse de correr para o acompanhar. Enquanto atravessavam a carpete vermelha do rés-do-chão, ela con­tinuou a falar.

-       O Presidente Amboko e a sua comitiva, acompanhados do Sr. Illingsworth entrarão pelo lado da Avenida da Pensilvânia – pelo pórtico norte - por volta das oito horas e cinco minutos. O Sr. Presi­dente recebê-los-á na Sala Oval amarela e terá então uns dez ou quinze minutos para conversar com o Presidente Amboko. Depois descerão todos pela escadaria. Os fotógrafos têm licença para tirar fotografias.

Isso é necessário?

Disseram-me que era o que O. C. e muitos outros antes dele costumavam fazer. - Ela olhou para Dilman, que acenou afirmativa­mente com a cabeça, e depois continuou. - A Banda da Marinha tocará Hail to the Chief, enquanto o Sr. Presidente conduzirá Amboko para a Sala Este. Então, visto que fomos forçados a combinar a recep­ção com o jantar, o Sr. Presidente, Amboko e a sua comitiva formarão a linha de recepção, e, à medida que os convidados desfilarem, diri-gir-se-ão para as suas mesas - uma principal e outras mais peque­nas - na Sala de Jantar do Estado e esperarão que o Sr. Presidente tome o seu lugar. O senhor fará o primeiro brinde, depois da sobre­mesa.

Um polícia da Casa Branca apressara-se a abrir a porta e Dilman saiu para o ar livre e Sally para o caminho da colunata que passava junto da piscina interior e ia dar aos escritórios executivos da ala oeste. Encheu os pulmões daquele ar frio e vivificante, olhou para o céu, de um azul metálico sem nuvens, e abrandou o passo.

Segundo o Sr. Illingsworth - dizia Sally -, depois do jantar o Sr. Presidente poderá conduzir o Presidente Amboko ao andar de cima para uma conversa particular na Sala Oval amarela, enquanto os ou­tros convidados irão para a Sala Vermelha, Verde ou Azul, para toma­rem o champanhe. Depois, o Sr. Presidente conduzi-lo-á para a Sala Este, para assistirem ao espectáculo. - Ela abrandou o passo à pro­cura de algo nos papéis, e Dilman marcou o seu passo pelo dela. - O total final... enviámos cento e quatro convites e cartões de entrada...

Vêm todos? - perguntou Dilman.

Noventa e seis aceitaram - respondeu ela. - Os outros, ou estão fora da cidade ou doentes ou... oh, sim há um convidado... não, dois... de que ainda não sei nada. O senador Bruce Hankins.

Eu já previa isso. Disse a Talley que não nos devíamos maçar com ele, mas ele quis brincar com a política.

A outra é Miss Wanda Gibson. Ela, o reverendo e a Sr§ Spinger foram convidados juntamente. Já recebi a resposta dos Spinger, mas dela não. - Ergueu os olhos. - Telefonarei a Miss Gibson...

Não - disse Dilman. Imediatamente, pelos olhos abertos e interrogadores de Saly, ele soube que pronunciara a ordem demasiado apressada e veementemente. Procurou rectificá-la. - Não precisa de se preocupar. Ela vive com os Spinger e tenho a certeza de que a aceitação dela estava incluída na destes.

-       Muito bem. - Mas ele notou que Sally estava relutante em dei­xar ficar a coisa por ali. Perguntou a si próprio se ela iria mais além. Ela disse: - Penso que conheço todos os convidados, pelo menos de vista, excepto a Miss... Miss Wanda Gibson. Visto que quero ser útil ao Sr. Presidente quanto possível - no que diz respeito a apresen­tações, fazer com que os estranhos se sintam à vontade, etc. -, have­rá alguma coisa que eu deva saber acerca dessa senhora?

Dilman amaldiçoou-se por ter posto o nome de Wanda na lista de convites. Sabia já o risco que corria ao fazê-lo. Fizera-o apenas para provar a Wanda que ele não tinha medo de a ver em público. Esperara perguntas da parte de lllingsworth, mas este nada perguntara, e agora a curiosidade de Sally Watson apanhara-o desprevenido.

Parou em frente das portas de vidro que davam para o Escritório Oval, retribuiu a saudação de um agente do Serviço Secreto, e depois encarou Sally tão à vontade quanto possível.

-       Não precisa de se preocupar com Miss Gibson - disse ele. - Como senador, encontrei frequentemente nela uma valiosa fonte de informação. Está empregada numa corporação do Liechtenstein, os Exportadores Vaduz, em Marylan. Penso que afirma delatem negó­cios com várias nações africanas, incluindo Baraza, e pensei que o Presidente Amboko e o seu embaixador... como diabo se chama ele?... Wamba, é isso, Wamba... que ela fosse mais uma pessoa com quem eles poderiam falar. É tudo. Não precisa de se maçar com ela esta noite. Os Spinger tomarão conta dela. E o Sr. Abrahams - já o conhe­ce - penso que também a conhece superficial e profissionalmente, e também dará a sua ajuda.

Reparou que alongara já demasiado a sua explicação e que Sally Watson o escutara com excessiva atenção. Então disse:

É tudo? Tenho de... Ela respondeu:

Bem, há ainda um par de pequenas...

-       Tome conta do resto, juntamente com o lllingsworth. Não tenho tempo para me preocupar agora por causa do jantar de logo à noite. Tenho de concentrar toda a minha atenção na conferência à imprensa. Desculpe-me, Miss Watson. Tem estado a fazer tudo maravilhosamente.

-       Muito obrigada. E peço-lhe desculpa, Sr. Presidente, se o inco­modei. Boa sorte, se me permite desejá-la.

Ele voltou-se para a porta de vidro mais próxima e viu Tim Flannery a mantê-la aberta. Agradeceu ao secretário da Imprensa e entrou no escritório, que estava agradavelmente aquecido. Talley, que estava a corrigir as páginas dactilografadas de um dossier, fez menção de se levantar, mas Dilman fez-lhe sinal para se deixar estar sentado.

Depois de ter tomado o seu lugar por detrás da secretária e de se ter desculpado do atraso, Dilman disse:

Bem, meus senhores, tenho feito o meu trabalho de casa nas últimas noites. O que se segue?

Isto - disse Talley, fechando o dossier e erguendo-o no ar. -Tentei antecipar todas as perguntas que lhe possam ser feitas na conferência à imprensa. Depois o Tim bebeu umas coisas com al­guns dos rapazes e colheu algumas informações do que se deve esperar. Elaborámos uma lista de perguntas, fizemo-las circular em todos os departamentos e cada um enviou respostas detalhadas sobre política, com um suplemento de factos e números. O Tim e eu condensámos tudo isso em cinco páginas dactilografadas. Pen­so não termos deixado escapar nada. - Levantou-se da cadeira e entregou o dossier a Dilman. - O Sr. Presidente tem tempo sufici­ente para as ler agora. A maior parte ser-lhe-ão familiares, mas se houver alguma coisa que não perceba, podemos discuti-la agora.

Dilman pegou no dossier com um ar preocupado.

E se eu não me recordar de qualquer número ou...

O Sr. Presidente não é obrigado a ter uma memória infalível - disse Talley. - O Tim estará sentado junto de si com o dossier e o Sr. Presidente poderá recorrer sempre a ele por causa de qualquer facto ou número alusivo.

Não parecerá isso digno de um amador na televisão? - per­guntou ele.

Flannery abanou a cabeça.

-       Nem por sombras. Fará do Sr. Presidente um ser falível e mortal e servirá para pôr os espectadores à vontade.

Dilman não se sentiu tranquilo. Tinha tido várias horas de dis­cussão acerca de como a sua conferência deveria ser apresentada ao público. Rejeitara uma enorme conferência de imprensa televisionada no auditório do New State Department Building por ser demasiado impessoal e por exigir talentos teatrais que sabia não possuir. Pensara então numa reunião sem protocolo na Sala do Tra­tado Indiano, do outro lado da rua. Flannery opusera-se a isso, ale­gando que Dilman não tinha ainda entrado em contacto com o povo americano ou com a maioria da imprensa, exceptuando numas bre­ves observações improvisadas ou declarações ditadas e que uma exposição completa constituía agora uma necessidade. Tinha che­gado a uma solução intermédia, havia apenas dois dias. Quarenta a cinquenta membros da imprensa seriam admitidos na Sala do Gabi­nete. As câmaras da televisão difundiriam o acontecimento. A atmos­fera seria confortável e familiar. Dilman faria uma série de novas declarações e depois responderia a perguntas talvez durante uns vinte minutos.

Dilman abriu o dossier. Na primeira página estava dactilografa­do em letras maiúsculas:

PARA O PRESIDENTE - RESUMO DA MANHÃ SOBRE A CONFERÊNCIA DE IMPRENSA

Quando virou a folha, ouviu Tim Flannery dizer:

Uma coisa, Sr. Presidente. - Ergueu a cabeça e Flannery pros­seguiu: - Verá uma estrela na margem da página e o nome de um jornal por baixo, em várias perguntas. Não há muitas, mas essas foram as que nós fixámos para termos a certeza de que seriam fei­tas. São as que achamos que o Sr. Presidente teria boas respostas para elas.

Já sabia que costumavam fazer isso - disse Dilman -, mas como o fazem? Os repórteres não se ressentem com o facto?

Mesmo nada - disse Flannery. - Dá-lhes mais notícias, mesmo que pensem que são controladas. São homens dos quais podemos depender. Fazem-nos um favor e, na altura própria, nós pagamos--Ihes com uma notícia exclusiva. A coisa não é muito óbvia. Ontem fui ter com um dos chefes representantes de um jornal de Nova Iorque, entre-guei-lhe uma pergunta escrita e disse-lhe: «Olhe, se fizer esta pergunta ao presidente, por suas próprias palavras, poderá conseguir uma res­posta interessante.» Ele olhou para a pergunta e disse: «Quer dizer que ele gostaria de fazer uma declaração oficial sobre isto?» Eu respondi: «Penso que sim. Será algo de sólido e definitivo.» Ele respondeu: «Está bem, Tim.» - Flannery sorriu para Dilman. - Temos trabalhado assim no passado, com excelentes resultados.

- Óptimo - disse Dilman. - Vocês dois façam o que quiserem até eu ter acabado de ler isto. Se eu fizer alguma pergunta não serei reti­cente. Hoje preciso de todas as indicações que conseguir obter.

Dilman examinou a segunda página do dossier. Por baixo do cabeçalho AS S/ INDICAÇÕES DE ABERTURA, havia uma lista con­cisa dos assuntos sobre que falaria na leitura do texto. A seguir, por baixo do título PERGUNTAS ACERCA DAS INDICAÇÕES DE ABERTURA E OUTROS ASSUNTOS (SE FOREM FEITAS), havia catorze pequenas perguntas. Voltando a folha, Dilman encontrou o cabeçalho PODERÁ RESPONDER COMO SEGUE, e aí encon­trou a repetição de cada pergunta possível, seguida por uma res­posta sugerida, muitas condensadas num só parágrafo. Isto ocu­pava quase duas páginas. O último título, designado ANTECEDENTES, continha números ligados às perguntas e res­postas e parágrafos apertados cheios de cotações e estatísticas dos departamentos do governo sobre as respostas sugeridas.

Regressando à segunda página, Dilman passou rapidamente uma vista de olhos pelo esboço da declaração preparada, cujo original se encontrava na sua pasta para ser lido perante os repórteres e as câma­ras de televisão. O tom geral era humilde e conciliador. Começaria por dizer que considerava bem-vinda aquela oportunidade de se encon­trar com os homens e mulheres dos quatro Estados, dos quais o elei­torado muito dependia para obter todas as informações respeitantes ao seu governo, e que esperava que eles agissem com o mesmo sen­tido de responsabilidade com que ele procuraria desempenhar o seu cargo. Nunca na nossa história, diria ele, esteve um presidente ou o público tão dependente das notícias no que diz respeito à exactidão e confiança. Citaria a frase de Thomas Jefferson: «A imprensa é o me­lhor instrumento para esclarecer o espírito do homem e para o aperfei­çoar como ser racional, moral e social.» Tim Flannery calculara que este preâmbulo adulador amaciaria os cínicos repórteres, fá-los-ia in­char de importância, fá-los-ia saber que havia um chefe Executivo que cooperaria com ele. Lembrando-se dos artigos de Reb Blaser e dos da sua espécie, Dilman sentia-se menos confiante no que dizia respei­to ao uso da adulação, mas gostava demasiado de Flannery para dis­cordar.

A seguir vinha a repetição de todas as declarações feitas por Dilman à imprensa no mês anterior. Não procurara subir à presidência, não o quisera, mas visto que era seu dever desempenhar o cargo, fá-lo-ia o melhor que pudesse. Era curto o espaço de tempo - esta frase esta­va sublinhada - em que desempenharia o papel de guardião das ideias de O. C. Como senador, deveria ele dizer, tinha sempre admi­rado e apoiado O. C, e citaria então a sua votação como congressis­ta. O país, devia afirmar, não se desviaria do caminho pacífico e prós­pero no qual o presidente anterior o tinha conduzido. Não teria ele já dado provas da sua boa fé ao reter todos os membros do Gabinete de O. C. e os seus conselheiros pessoais?

Perturbado, Dilman ergueu os olhos. Talley e Flannery encontra-vam-se do outro lado do Escritório Oval, inclinados sobre o fogão de sala, fumando e falando em voz baixa. Pensou em lhes dizer que aquelas notas de abertura não lhe agradavam. Pareciam demasiado humildes, como se estivesse a pedir desculpa à imprensa e aos duzen­tos e trinta milhões de americanos por terem um negro num lugar errado, como se estivesse a tranquilizar todos, que o facto de ele ser um membro da raça da minoria não os destruiria. Não teve porém coragem para o dizer, pois sabia,que aquelas palavras não eram de Flannery, mas pertenciam a uma linguagem de peritos brancos em política, como Talley, Eaton e os membros do Gabinete, e talvez eles soubessem o que conviria mais.

Concentrou-se no resto das notas de abertura, a maior parte das quais eram declarações oficiais: reunira-se com a Assembleia Nacio­nal do Espaço e tinham concordado em que dentro de três meses o foguetão Apollo lançaria um grupo de três astronautas em órbita; asse­gurara ao Brasil e à índia que não prosseguiriam com os voos A-1 sobre as suas fronteiras; mantinha-se detalhadamente informado acerca dos encontros do ministro de Estado Eaton com o embaixador Rudenco, e podia agora apenas informar que era provável que a Conferência do Roemer com o Presidente da União Soviética fosse reatada num outro lugar, provavelmente no continente europeu; tivera uma reunião com os chefes trabalhistas, os chefes da indústria do aço e o ministro Barnes, e tinha confiança de que a greve seria impedida; fora informado que Frank Valletti, o subchefe do Grupo dos Turnerites, era um membro do Partido Comunista e já mandara o Ministério da Justiça investigar o caso; escrevera uma carta para Annapolis, nomeando o jovem filho de O. C, Fred, para a Academia Naval, quando chegasse à idade de se tornar elegível.

Dilman desembrulhou um charuto, cortou-lhe uma ponta e acen-deu-o. Embora as notas de abertura fossem cheias de novidades, sabia que estas não eram suficientes e que Talley também o sabia. Fumando o charuto, Dilman passou os olhos pelas perguntas que lhe poderiam ser feitas, e depois examinou as respostas que lhe eram propostas.

Pergunta - Assinará o Projecto do Pacto da União Africana?

Resposta sugerida - Sim, asseguramos assim a nossa resolu­ção em apoiar os povos livres e os ideais democráticos em todo o mundo, etc.

Pergunta - Pode revelar os assuntos que discutiu com o Presi­dente Amboko, de Baraza, e relacioná-los com a A. U. R e com a recente Conferência do Roemer?

Resposta sugerida - Os encontros com o Presidente Amboko têm sido frutuosos e temos alcançado progresso em muitos campos. Concluiremos as nossas conversações depois do jantar de estado, hoje à noite. Haverá uma declaração conjunta do Presidente Amboko e minha acerca da sua partida amanhã.

Pergunta - Acha que, sendo negro, poderá alcançar melhores resultados em fazer com que as organizações activistas, como os Turnerites, passem a agir com mais moderação?

Resposta sugerida - Não acredito que a minha cor possa modifi­car quaisquer resultados de um lado ou de outro. Como senador e agora como presidente, tenho a certeza de que os meus pontos de vista sobre a actividade imoderada e a violência são bem conhecidos. Como o meu antecessor, acredito no progresso segundo as leis e atra­vés dos tribunais do país, no progresso como tem sido feito a favor dos negros americanos pela Sociedade Crispus e pela N. A. A. C. P.

Pergunta - Acredita que o Programa da Reabilitação das Minori­as aliviará a presente tensão e tenciona apoiar e assinar tal Projecto?

Resposta sugerida - Acredito que o R R. M. tem muito a oferecer às minorias deste país, mas, ao mesmo tempo, acho que este não deve fazer com que abrandemos os nossos esforços para obter a igualdade dos direitos civis para todos os homens e mulheres, etc. Estou ainda a estudar o Projecto, e, em breve, darei a conhecer os meus pontos de vista.

Dilman pousou o charuto e esfregou os olhos. A última pergunta era a única para a qual ele próprio tinha escrito a resposta. Notara agora que a declaração era ambígua e poderia satisfazer a imprensa.

-       Tim - chamou ele. - Acha que eles me vão encravar com o Projecto do R R. M.?

Flannery fez que sim com a cabeça.

-       É muito provável.

Talley afastou-se uns passos do fogão de sala.

Sr. Presidente, tenho a certeza de que evitará muitas pergun­tas traiçoeiras se apoiar simplesmente...

Governador - interrompeu Dilman. - Não estou a dizer que sou contra o Projecto. Mas é uma questão tão diabolicamente grande e importante que quero ter a certeza de que é certa... que aliviará a tensão...

Flannery disse:

Então, o que quer que lhe perguntem, limite-se a dizer que anda a consultar os seus conselheiros, procurando a melhor e a mais eficiente legislação possível. Diga-lhes assim uma coisa deste género.

Compreendo - disse Dilman.

Reviu rapidamente o resto das perguntas possíveis e das res­postas sugeridas. Com que frequência daria conferências de impren­sa? Havia uma estrela à frente desta. Tinha sido sugerida. Deveria dizer que esperava poder trocar ideias com a imprensa de duas em duas semanas, conforme as circunstâncias. Aprovara ele o novo selo comemorativo com a efígie de O. C? Também esta tinha uma estrela. Deveria dizer que fora ele próprio quem instigara a ideia do selo co­memorativo. Permitiria ele que o seu nome fosse dado como candi­dato à presidência na convenção do partido, em Baltimore, no ano seguinte? Esta não tinha estrela. Deveria dizer que tais considera­ções políticas eram ainda prematuras, que preferiria não fazer ain­da qualquer comentário acerca disso; podia apenas dizer que nun­ca tivera, nem tinha agora, qualquer ambição política para além do Congresso.

Havia mais umas perguntas e a última, quando a leu, fê-lo endi-reitar-se na cadeira. Pela primeira vez, o Projecto da Nova Lei de Suces­são, que daria ao Senado autoridade sobre ele, estava fria e audacio­samente diante dos seus olhos, não em impressão especulativa, mas como um facto apresentado pelos seus conselheiros.

Pergunta possível - Visto que o Projecto da Nova Lei de Suces­são deverá ser aprovado pelo Congresso, assiná-lo-á como lei ou pôr-lhe-á o seu veto?

Sem erguer a cabeça, pressentiu que o observador Talley sabia que ele tinha chegado à pergunta ainda não mencionada, e que, de certo modo, esta lhe era feita mais pelo seu pessoal do que pela imprensa.

Resposta sugerida - Já há muito que precisávamos de melho­res medidas de precaução no que se refere ao nosso sistema de sucessão presidencial. A possibilidade de mortes múltiplas na linha de sucessão, nesta época nuclear, é demasiado real para ser igno­rada. Aprovo o projecto proposto pelo senador Hankins como mais uma medida de segurança para salvaguardar toda a Nação.

A omissão saltou aos olhos de Dilman. Não havia uma palavra sobre o acrescentamento embaraçoso do Projecto, aquele que am­putava os seus poderes de demissão. Julgaria Talley, e os outros membros da imprensa estariam cegos, que não faziam perguntas acerca dele?

Pegou na caneta e olhou para Talley.

-       Governador, acerca desta última pergunta, penso que a res­posta que me sugeriram não será suficiente. Só diz respeito a três quartos do Projecto da Nova Lei de Sucessão. Com certeza que alguém irá fazer alguma pergunta sobre os parágrafos finais, e será melhor que eu esteja preparado.

Talley dirigiu-se para a secretária, seguido de Flannery, e Dilman ficou satisfeito ao ver que o seu ajudante estava corado de conster­nação.

Eu... nós não sabíamos o que o Sr. Presidente quereria dizer acerca disso - dizia Talley. - Nunca discutimos essa cláusula...

Porque ninguém a mencionou - disse Dilman. Encarou Flannery. - Tim, acho melhor ter qualquer coisa pronta para dizer acerca disso. Ora, deixem-me pensar... bem... tenho de pôr aqui uma nota que exa­minei a cláusula respeitante à transferência dos poderes de demissão do presidente sobre o seu Gabinete para o Senado, no caso especial de a sucessão ter descido abaixo do vice-presidente, e embora com­preenda o motivo que leva a tal medida - o desejo do Congresso de preservar o governo eleito - devo salientar que acho a cláusula de legalidade duvidosa e designada para enfraquecer o ramo executivo do governo. Deixarei que esse ponto duvidoso me ponha contra uma peça de legislação excelente nos outros pontos, ou aprová-la-ei? Não sei, Tim... governador... tenho medo que, se sugerir o veto, isso criará um tumulto, fará com que o bloco sulista do Congresso e os racistas de todo o país julguem que vou substituir o Gabinete de O. C. por um Gabinete inteiramente preto. Não posso permitir um suspiro de alívio.

Exactamente, a questão é essa, Sr. Presidente - disse Talley ansiosamente. - Toda a peça de legislação foi feita apenas para alivi­ar o medo...

Mas eu penso que a legislação é errada porque é anticonstitu-cional - disse Dilman. - Tomarei nota aqui que não posso dizer como agirei até ver em que condições o projecto final da Nova Lei de Sucessão chega à minha secretária. Então, se achar necessário aprová-lo para preservar a unidade nacional, assim o farei, depois de tornar conhecida a todo o país a minha opinião legal e a dos melhores advogados constitucionais.

Rabiscou rapidamente algumas frases no fim da última resposta sugerida.

Depois levantou a cabeça.

Pronto, isto deve manter todos satisfeitos... por agora.

Muito inteligente, Sr. Presidente - disse Talley, exalando um suspiro de alívio.

Dilman voltou a folha.

-       Deixe-me passar agora uma vista de olhos pelos antecedentes das minhas respostas...

Talley afastou-se apressadamente como se a sua proximidade pudesse fazer com que o presidente mudasse de ideias. Já tinha visto as cinco primeiras notas, quando a campainha do escritório de Miss Foster tocou.

Visto que lhe dissera que não atenderia quaisquer chamadas, excepto as urgentes, levantou logo o auscultador.

-       Sr. Presidente - disse Edna Foster com a voz a tremer -, o procurador-geral está aqui e diz que precisa de falar consigo imedia­tamente. Diz que é imperativo.

Mande-o entrar já. Desligou o telefone.

Clay Kemmler está cá. Aparentemente, algo crítico...

Podemos sair até que... - começou Flannery.

Dilman fez sinal a Flannery e a Talley para permanecerem onde estavam.

-       Não, não é preciso. Vejamos...

A porta de Edna Foster abriu-se de repelão, tornou a fechar-se, e o procurador-geral Kemmler entrou que nem um furacão, atirando com o chapéu para cima do sofá, ignorando Talley e Flannery, en­quanto se encaminhava na direcção do presidente. Dilman pôde ver que Kemmler tinha a perfeita imagem do mau humor. Os seus olhos muito juntos estavam semicerrados e pareciam deitar faíscas. Com a cabeça inclinada para trás e o queixo espetado para a frente, parecia um dragão em fúria trazendo bandarilhas nas costas.

-       Sr. Presidente, temos sarilho - anunciou irado, quase chocan­do com a secretária Buchanan. - Pensei que era melhor que o ouvis­se pessoalmente e não ao telefone, porque precisamos de tomar umas rápidas decisões. - Fez uma pausa, inclinou-se sobre a secretária e disse: - Aqueles malditos Turnerites já começaram com o seu pro­grama de desforra. Acabo mesmo agora de receber a notícia do Mississipi. Alguns dos assalariados de Hurley atravessaram Hattiesburg, agarraram o juiz Everett Gage, ameaçando-o com es­pingardas, e raptaram-no. Deixaram uma nota de resgate para os oficiais locais, estaduais e federais. Libertarão o juiz Gage quando o Mississipi libertar aqueles turnerites que foram sentenciados a dez anos de prisão. Agora, que diabo hei-de eu fazer?

Involuntariamente, Dilman estremecera quando Kemmler cuspira a palavra «raptaram-no». A ideia de que o seu povo, uma parte dele, tinha deixado de falar em termos de terror, para o praticar, envolven-do-o naquele acto de loucos, assustava-o.

Mas isso é digno de loucos - disse ele. - Tem a certeza de que Hurley é o responsável? Não posso acreditar.

Ele lá enviou uma mensagem de negação para os jornais de Birmingham e Jackson - mas quem poderá ser responsável por esta acção senão Hurley e os seus Turnerites? - perguntou Kemmler im­paciente. - É verdade que ele enviou uma declaração a negar que o seu grupo tivesse algo a ver com o caso, mas acrescentou qualquer coisa dizendo que não podia desaprovar que alguns dos seus com­panheiros negros procurassem lutar pelos seus direitos. Estamos a tentar localizá-lo para o interrogarmos, mas até aqui não consegui­mos nada. Todavia, quer ele o negue ou não, quer ele faça parecer o caso como uma acção individual ou não, foi algo que ele provocou. Não nos tem ele ameaçado com vingança e violência em todos os seus discursos? E quem diabo arriscaria a pele num acto destes, tentar libertar um magote de turnerites presos senão outros turnerites? Diante de Dilman surgiu uma leve esperança.

Tanto quanto sabe, o rapto foi praticado por individuais?

Tanto quanto sei, sim - disse Kemmler. - Mas, Sr. Presidente, não há quaisquer dúvidas no Ministério da Justiça de que este crime é um resultado directo da política enunciada pelos Turnerites.

Dilman olhou do procurador-geral para Talley e depois para Flannery, que se tinham aproximado, ambos profundamente pertur­bados. Dilman abanou a cabeça.

Bem, quer fosse um acto de individuais ou de uma organiza­ção - qualquer que seja -, como diabo esperam conseguir alguma coisa com ele?

Eu digo-lhe como - disse Kemmler. Afastou Flannery com um braço, deu a volta à secretária e inclinou-se sobre o presidente. -Todos os detalhes foram pensados. A nota de resgate anónima exige que os dez turnerites sejam libertos imediatamente da Penitenciária de Parchman e que sejam entregues a salvo em Tampico, o porto mexicano. Muito inteligente, pois sabemos todos quão pouco coo­perativo o governo mexicano tem sido, ultimamente, no que diz res­peito à extradição dos cidadãos, mexicanos, japoneses ou negros, fugitivos. Quando os turnerites fossem libertos e entregues em Tampico, os raptores prometeram que o juiz Gage seria devolvido são e salvo. É este o negócio.

Dilman procurou retomar a sua autoridade.

E o que é que isto tem que ver connosco? Pelo que me con­tou, é estritamente um caso estadual.

Não, Sr. Presidente, é um caso nosso - disse Kemmler enfati­camente, dando uma palmada na coxa. - Falei logo com o Lombardi e ordenei-lhe que pusesse o F. B. I. atrás deles, pois havia indica­ções de que a vítima estava a ser levada para a fronteira estadual. Agora há a prova concreta da parte do F. B. I. que o Gage foi levado do Mississipi para a Luisiana, e os raptores estão provavelmente a tentar levá-lo para o Texas e daí para o México. Isso faz com que o caso caia sob a nossa alçada. Diz respeito à lei de rapto de Lindbergh. É uma ofensa puramente federal.

Está bem, você é que está na chefia do caso - disse Dilman. -Está a fazer o que pode...

Meu Deus, Sr. Presidente - exclamou Kemmler, dando repeti­das palmadas na coxa com a agitação -, isto é apenas o começo. Não vê o que isto significa? Significa que Hurley, Valetti e todo o gru­po dos Turnerites - por muito que eles o neguem - estão a iniciar a sua política de olho-por-olho. Se os deixamos escapar desta, eles continuarão e tomarão a lei nas suas mãos. Todas as vezes que pude­rem proclamar uma injustiça praticada contra um negro, desforrar-se-ão com um rapto, deitando as culpas do seu acto para cima de individualidades desconhecidas e troçando de nós com a sua ino­cência como grupo. Não vê ao que isto conduzirá? À anarquia, ao crime que leva ao crime, com grupos de contra vigilantes galopando pelo país. Diabos me levem, teremos outra vez a guerra civil - mas duas vezes pior, pois desta vez serão os pretos contra os brancos -, a não ser que façamos qualquer coisa rapidamente.

Perturbado, os olhos baixos, Dilman fazia girar a ponta do cha­ruto entre os dedos.

Suponho que eu podia fazer uma espécie de apelo pessoal a Hurley para se juntar a nós para descobrir...

Não, isso nunca - disse Kemmler.

Talley fez estalar os dedos para atrair atenção.

Sr. Presidente, estou inclinado a concordar com o procurador--geral. Não pode tratar pessoalmente com um possível raptor, de igual para igual, trazendo-o para o seu nível, ou baixando-se a descer ao dele. As consequências...

Sou absolutamente contrário a qualquer espécie de acordo - interrompeu Kemmler. - A situação é demasiado explosiva. Não podemos permitir que um homem que está fora da lei, chefiando uma organização, decida o que é justo e injusto e aplique os seus próprios castigos. Não podemos ter dois governos, Sr. Presidente. Se há deslizes e delinquência do nosso lado, e infelizmente há mui­tos, acharemos meios de os corrigir - dentro do devido processo, mas nenhum grupo de activistas nos suplantará. - Endireitou-se, res­pirando com força, e depois continuou. - O F. B. I. apanhará em bre­ve os raptores, pode ter a certeza. Então poderemos provar a sua ligação com os Turnerites e persegui-los. Mas não podemos esperar, acredite-me. O que precisamos, Sr. Presidente, é de uma firme intervenção que ponha imediatamente termo à violência dos Turnerites. Deste modo desencorajará as ilegalidades de outros grupos activistas, pretos ou brancos. Tem hoje uma conferência com a imprensa, não é verdade? Aposto que aqueles cães dos repórteres persegui-lo-ão a si e a mim. Pois bem, penso que deve estar pronto para os receber e bater-lhes em cheio. Acho que lhes devia anunciar que o governo federal vai pôr-se imediatamente em campo para punir os culpados e desfazer o grupo dos Turnerites, e que qualquer pessoa que faça parte...

-       Um momento - interrompeu Dilman, rodando a sua cadeira giratória e virando-se de frente para Kemmler. - Eu não tenho o poder de banir qualquer sociedade ou organização privada dos Estados Unidos, seja os Turnerites ou o Ku Klux Klan, a não ser que...

-A não ser que se prove serem subversivos - concluiu Kemmler.

-       Isso é verdade. Bem, pois foi por prever uma situação destas que O. C. forçou o Congresso a aprovar o Acto de Controlo das Activida­des Subversivas. Ele e o Congresso sabiam que a multa de dez mil dólares e os cinco anos de prisão, se um comunista não se registas­se, não ia assustar ninguém. Foi por isso que O. C. fez pressão atra­vés deste acto mais forte - os chefes de qualquer organização da frente comunista envolvidos em actividades subversivas, em detrimen­to da Nação e contra a segurança do governo, podem ser punidos e a sociedade pode ser desfeita, e aqueles que não obedecerem...

-       Não precisa de me recitar a lei, Kemmler- interrompeu-o Dilman.

-       Eu votei a favor dela, no Senado. Só não percebo é o que é que o Acto de Controlo das Actividades Subversivas tem a ver com os Turnerites. Eles não...

Ai, isso é que tem! - exclamou Kemmler triunfalmente.

Os Turnerites... comunistas? - disse Dilman incrédulo. - Ora! Sei que anda a investigar essa notícia de um jornal acerca de um dos directores turnerite. Como é que ele se chama? ... Valetti, sim... como sendo um vermelho, mas...

Kemmler quase colou a sua cara à de Dilman.

-       Nós já investigámos acerca de Frank Valetti. Há anos que é membro do Partido Comunista. É também o segundo comandante de Hurley. Esse é o primeiro ponto. E eis o ponto número dois, o argumento concludente. Lá no Ministério da Justiça perguntámos a nós próprios donde é que os Turnerites obteriam o seu dinheiro. Quem os financiaria? Ou eram mantidos pela Sociedade Crispus, do que se duvidava, ou pelo Partido Comunista. Bem, estamos agora convenci­dos de que Valetti tem estado a levar o dinheiro dos comunistas para os Turnerites.

Dilman abanou vigorosamente a cabeça.

Isso não me convence. Soa-me a oco. Aceitar o facto que um membro do comando turnerite é um comunista é uma coisa, mas provar que os Turnerites, como grupo, fazem parte de uma conspira­ção para deitar abaixo o governo é outra - acho que ninguém engo­lirá essa.

Acha? - Clay Kemmler estava obviamente indignado. - Sr. Pre­sidente, desculpe-me, mas o seu povo há anos que está aberto à manipulação comunista. Lembra-se do que disse J. Edgar Hoover há uns anos atrás? Disse que os comunistas estavam a tentar dividir e enfraquecer a América pelo interior. Disse que eles estavam a tentar espalhar mal-entendidos, aproveitando-se da discórdia e inquietação existentes no nosso país. Disse ainda: «Isto é especialmente verdade no que diz respeito ao intenso movimento da igualdade dos direitos civis, porque os vinte milhões de negros americanos e todos os ou­tros envolvidos nesta luta constituem um importante alvo para a pro­paganda e subversão comunista.» Bem, pois é o que está a aconte­cer precisamente agora. Valetti e os comunistas estão a tentar utilizar os Turnerites para atingir os seus próprios fins, e Hurley e os Turnerites são suficientemente fanáticos para aceitarem qualquer ajuda para alcançar os seus objectivos.

Dilman olhou fixamente para Kemmler.

Ainda não me provou que os Turnerites sejam financiados por fundos comunistas.

Temos um dossier com uma anilha de altura sobre o Valetti, Sr. Presidente. É um homem sem qualquer experiência, cuja educação é igual a zero e que deposita no banco todos os anos uma quantia fantástica. De quem a recebe? De comunistas registados, aí está. E assim que o Valetti deposita esse dinheiro, este vai sendo levanta­do em grandes quantias de cada vez. Para onde vai? Será preciso dizê-lo?

Dilman segurou os braços da sua enorme cadeira verde e levan-tou-se. Observou Kemmler durante um momento e depois saiu de trás da secretária, começando a passear pelo escritório. Sabia que os outros três o observavam, esperando que ele falasse. Tentou falar. Tentou desesperadamente dominar os seus sentimentos como ne­gro e julgar friamente o que ouvira e o que pretendiam dele, empre­gando a sua faculdade crítica, ao mesmo tempo como advogado. Por fim, encarou-os.

Senhores, há uma coisa que eu sei neste momento: não tenciono fazer nada precipitadamente de que tenha de me arrepender mais tar­de. Desde que o acto mais forte do Controlo das Actividades Subversi­vas foi posto a funcionar registaram-se quinhentas organizações especí­ficas na lista do Ministério da Justiça. Tanto quanto é do meu conhecimento, nunca nenhuma foi perseguida e proibida segundo tal acto. Não é verdade?

Bem, sim, mas isso não quer dizer... - começou Kemmler.

Isso não quer dizer que tal proibição não possa ou não deva ser feita - disse Dilman. - Quando está em causa a segurança do país, se prove que o inimigo é culpado, assim se fará. Lembro-lhe, Sr. Procurador-Geral, que também sou formado em Direito, como o senhor, e digo-lhe que não estou convencido de possuirmos agora provas suficientes para invocar o Acto de Controlo Subversivo con­tra os Turnerites. Até eu ter a certeza absoluta, sem qualquer som­bra de dúvida, que Hurley e os Turnerites, como grupo, são respon­sáveis por esse rapto do Gage, e até eu ter a certeza que são financiados pelos comunistas, não os posso restringir, proibir ou dissolver.

Kemmler não conseguiu esconder a sua consternação.

Mas, Sr. Presidente... tem de fazer alguma coisa. Dilman encaminhou-se para a secretária.

E tenciono fazer. Quero resolver uma questão. E depois farei algo. Ligou para Edna Foster e pediu-lhe que ligasse para o reverendo Paul Spínger, no edifício da Sociedade Crispus. Permanecendo de pé, com o auscultador na mão, sugeriu aos outros que se pusessem à vontade. Talley e Flannery regressaram aos seus sofás, mas Clay Kemmler recusou sentar-se. Foi até às portas de vidro e ficou a olhar, mal-humorado, para o relvado sul.

Em menos de um minuto, a voz preocupada do reverendo Spinger saudava Dilman do outro lado da linha.

-       Reverendo - disse Dilman -, já sabe o que sucedeu em Hattiesburg?

Sim, Sr. Presidente, é horrível. Aqueles gangsters irresponsá­veis e loucos não podiam ter feito pior serviço à nossa causa.

Concordo consigo, reverendo. Dir-lhe-ei agora porque lhe tele­fonei. Aqui no escritório, ao pé de mim, encontra-se o procurador--geral, assim como o governador Talley e o Sr. Flannery. Temos esta­do a discutir acerca do rapto e das possíveis repercussões que poderá ter. Temos de estar preparados para agir. Reverendo, considera o rap­to como algo feito por um grupo isolado de exaltados, ou como algo instigado por Hurley e os Turnerites?

Sr. Presidente, isso é algo que não posso dizer. É claro que não recebemos aqui qualquer informação.

Muito bem, não sabe - Dilman olhou por cima do ombro para Kemmler, que permanecia ainda de costas para ele. - Reverendo Spinger, tocámos frequentemente neste assunto, mas nunca lhe pus a pergunta directamente. Agora vou fazê-la, e oficialmente. - Perce­beu que Kemmler se voltava para não perder uma palavra. Dilman concentrou toda a atenção no telefone. - Visto que muitos membros da Sociedade Crispus deixaram esta para formar os Turnerites, é im­perativo que saibamos que ligações têm, se as têm, com os Turnerites. Tenho...

Nenhumas, Doug, sabe isso bem. - Dilman podia distinguir uma forte emoção na voz de Spinger, enquanto o clérigo continuava. - Nós condenamos Hurley e as suas ameaças e actividades, do mes­mo modo que ele e o seu grupo nos condenam pela nossa aderên­cia ao procedimento legal, pelo nosso apoio ao Programa da Reabi­litação das Minorias, pelo nosso...

Então, reverendo, nega ter quaisquer ligações com os Turne­rites. Só mais duas perguntas finais. Alguma vez, ou de qualquer modo, a sua organização financiou os Turnerites?

A respeito, Doug, é um não absoluto. Nem agora nem anterior­mente, nunca.

Nunca. Muito bem. Agora a segunda pergunta. Tem alguma informação de quem está a financiar o grupo de Hurley?

Não possuo qualquer informação factual, Sr. Presidente - respon­deu Spinger, mais controlado. - Há um certo boato... sabe, Valetti, o...

Não estou interessado em boatos, reverendo. - Fez uma pau­sa e depois perguntou: - Já alguma vez se encontrou com Jefferson Hurley? Conhece-o?

-       Já apareci em várias plataformas de orador juntamente com ele, em uma ou duas reuniões e num programa de televisão, uma vez, e foi tudo.

-       Ele tem uma grande consideração por si, reverendo? Spinger emitiu um grunhido.

Ele acha-me um velho caquético e reaccionário, que já devia estar debaixo da terra há muito.

Estou a ver - disse Dilman. - Acha que o Hurley falaria consigo se lhe pedisse uma entrevista?

Não vejo por que não... sim, acho que falaria.

Muito bem, reverendo Spinger, vou contar-lhe o pé em que as coisas estão aqui. Quando sair hoje a notícia do rapto, esperamos uma boa dose de agitação e inquietação. Com base num depoi­mento que se encontra nas mãos do Ministério da Justiça, pediram-me que banisse os Turnerites...

Doug, não faça isso, não faça isso enquanto não tiver a certeza absoluta - pediu Spinger com fervor. - Nem imagina como isso po­derá afectar a comunidade negra. Poderá dar a impressão de que você está nas mãos de brancos vingativos, que o puseram branco por dentro, por assim dizer. Criaria uma reacção terrível contra si e a sua administração, e, pior ainda, criará uma corrente automática de simpatia por Hurley e os seus Turnerites. O nosso povo poderá considerá-los como uns pobres cães perseguidos, identificar-se com eles de uma maneira como nunca até aqui sucedeu. O nosso povo poderá começar a olhar a Sociedade Crispus como integrada na acção repressiva do governo e...

Espere, reverendo, eu não disse que ia desfazer os Turnerites. Disse apenas que isso está em consideração, até eu ter os factos, todos os factos. O reverendo tem tantas possibilidades de conseguir obter a verdade como eu. Quero que me faça um favor, se puder.

É só dizer, Sr. Presidente.

Dilman mediu cuidadosamente as suas palavras.

-       Reverendo Spinger, vou nomeá-lo meu representante oficial, o intermediário do presidente, para ir falar com Jefferson Hurley acerca deste assunto. - Enquanto falava, Dilman observava a reacção de aborrecimento de Kemmler, a expressão de espanto de Talley e a de aprovação de Flannery. Aproximou os lábios do bocal. - Reverendo, quero que localize o Hurley e que fale com ele pelo telefone, se não puder ser pessoalmente. Quero que descubra, o melhor que puder, se os Turnerites estão por detrás deste crime ou não. Se ele negar qual­quer cooperação no crime, como já o fez, quero que lhe diga exacta­mente o que o Ministério da Justiça tenciona fazer. E quero que lhe diga também que, se ele quiser provar que está inocente e manter a sua organização intacta, deve condenar publicamente o crime de Hattiesburg e apresentar-se para nos mostrar os seus registos finan­ceiros. Se ele fizer isto, prometo-lhe que não empregarei o Acto de Controlo das Actividades Subversivas. Se ele recusar, não prometo nada. Está preparado para cumprir esta missão, reverendo Spinger?

Estou sim, Sr. Presidente. Quando devo começar?

Neste preciso minuto, e relatar-me-á directamente o que des­cobrir. Boa sorte, reverendo.

Depois de desligar, permaneceu quieto, sabendo que os outros três se aproximavam da secretária. Dilman levantou a cabeça.

-       É tudo, por agora.

Kemmler mal conseguia conter o seu desagrado.

Está a cometer um erro, Sr. Presidente.

Pode ser que tenha razão - disse Dilman. - Penso que ainda seria um erro maior agir precipitadamente.

Talley colocara-se ao lado de Kemmler.

Sr. Presidente, continuo inclinado a concordar com o procura­dor-geral. Reconsidere, por favor. A entrevista de Spinger só atrasa­rá o inevitável. Poderá fazer com que a Administração pareça fraca e vacilante e... e pode até encorajar mais ilegalidades e actos de vio­lência - quero dizer, encorajar o Hurley a ir para a frente e a cometer mais crimes, porque estamos relutantes a agir e só falamos.

Terei de correr o risco, governador - olhou para Kemmler, que fervia ainda. - Dê vinte e quatro horas a Spinger - disse Dilman, num tom conciliador.

Então dê-me mais dois mil e quatrocentos agentes do F. B. I. -ripostou Kemmler. - Muito bem, faça como entender, Sr. Presidente. Eu irei sentar-me no meu escritório, de mãos cruzadas. A responsa­bilidade de tudo o que acontecer é sua.

Dilman teve uma sensação de abandono e desencorajamento, ao observar o procurador-geral dirigir-se a grandes passadas para fora do Escritório Oval.

Ao sentar-se de novo na cadeira, encontrou os olhos interrogadores de Tim Flannery. Dilman tocou com os dedos no dossier.

- Parece-me que temos de fazer revisões por causa da conferên­cia à imprensa. Que irão eles perguntar-me agora... e que deverei eu dizer?

Depois de ter feito a curva e parado o seu Ford alugado em frente do Capitólio, Nat Abrahams beijou a mulher, lembrou-lhe onde havia de ir buscá-lo e a que horas, e por último passou-lhe o volante do carro. Esperou que ela se afastasse e depois subiu lentamente as esca­das do Capitólio.

Embora soubesse que o facto de estar já há um mês em Washing­ton preocupava Sue, e embora sentisse a falta dos filhos tanto quanto ela, descobriu que não estava aborrecido ou impaciente por causa da sua prolongada demora. Mais do que nunca sentia que Washington era uma cidade estimulante. E o facto de Sue e ele terem tido a oportunida­de de jantar três vezes na Casa Branca depois da sua reunião privada com Doug Dilman tornava tal estada duplamente interessante. Certa­mente que, se as suas negociações com Gorden Oliver continuassem naquele passo de caracol, permitiria que Sue voltasse para Chicago e para os filhos nessa mesma semana. Tinha a certeza de que ele próprio não teria de se demorar mais.

A meia dúzia de encontros com Gorden Oliver tinham sido pro­veitosos. O que causara todo aquele atraso fora o facto de Oliver não possuir autoridade final para aprovar as exigências e revisões de Abrahams. Sempre que discutiam uma cláusula do contrato e que Abrahams pedia uma melhoria ou um esclarecimento acerca dela, Oliver prometia uma resposta imediata e depois desaparecia durante vários dias. Era claro para Abrahams que Oliver ia consultar não só a Corporação das Indústrias Águias, mas também Avery Emmich, em Atlanta. Abrahams suspeitava que Oliver até tinha ido, uma vez ou duas, ter com Emmich de avião. Depois Abrahams lera que Emmich estivera fora do país na semana anterior, o que explicava o último atraso. Apesar disso, Abrahams sentia que o seu último encontro com Oliver podia ter concluído o toma-lá-dá-cá preliminar. Esperava que, da próxima vez que se encontrasse com Oliver, houvesse cópias do contrato pron­tas para a sua aprovação. Então poderia levar Sue novamente para casa e ajudá-la a tratar das coisas todas, antes de trazerem a família para Washigton. Na realidade, até encorajara Sue a ocupar-se a procu­rar uma casa espaçosa para alugarem na cidade.

Não fora o telefonema de Oliver, na noite anterior, o que o surpreen­dera, mas o facto de Oliver lhe ter dito que o queria ver por causa de algo que não fazia parte do contrato.

- O contrato já pertence à rotina, Nat - dissera Gorden Oliver. -Encontra-se agora no escritório central para a revisão final e para ser dactilografado. Estará cá um destes dias. Pode-se considerar já como advogado das Indústrias Águias. Não, quero falar consigo, Nat, mas não é por causa do contrato. Aposto que estou tão farto dele como você; é por causa de algo pertencente às suas primeiras tarefas aqui em Washington. Trataremos disso quando nos encontrarmos ama­nhã. Por que não vai ter comigo à Câmara, ao vestíbulo privado do presidente, ao meio-dia? Deixarei o seu nome à polícia do Capitó­lio. - Abrahams aceitara o convite.

Encontrava-se agora onde tantas vezes estivera nos anos ante­riores, de pé à espera em frente do elevador do Capitólio. Quando este chegou, entrou nele juntamente com uma mulher e dois ho­mens. Em poucos segundos estava lá em cima. Passou pelo letrei­ro «Reservado aos Membros», dirigiu-se para as portas giratórias que davam para o vestíbulo do presidente, deu o seu nome ao polí­cia e deixaram-no entrar. Pensou no poder de um intermediário como Oliver, que tão facilmente conseguia que os seus amigos e associa­dos passassem aquele letreiro.

No comprido vestíbulo estavam apenas alguns visitantes que estudavam o mapa do tempo do Departamento do Comércio e os retratos emoldurados dos presidentes anteriores da Câmara e os de MacPherson ainda com uma fita preta. Nenhum dos visitantes era Gorden Oliver.

Intrigado, Abrahams virou à esquerda e entrou nas Salas de Lei­tura dos Membros, que corriam paralelamente ao vestíbulo. Viu um grupo de pessoas reunidas à volta de uma máquina telescritora, mas Gorden Oliver não se encontrava entre elas. Abrahams observou vá­rios deputados em pé diante das estantes dos jornais, lendo as pri­meiras páginas. Por um momento a atenção de Abrahams fixou-se nessas estantes de jornais que o fascinavam. Havia uma prateleira para cada um dos cinquenta Estados da União, e todos os dias os jornais das principais cidades de cada um deles eram pendurados nessas prateleiras. Abrahams parou em frente da prateleira com o letreiro MISS. Inclinando a cabeça, passou os olhos pela fila dos jor­nais de Greenville, Columbus, Vicksburg, Meridan, Natchez, Hatties-burg, Biloxi. A maior parte dos cabeçalhos eram datados já de há vários dias e eram dedicados à sentença do juiz Gage aplicada aos tumentes ou ao debate do Projecto do Programa de Reabilitação das Minorias na Câmara ou ao anúncio do primeiro jantar de estado de Dilman em honra de um seu colega preto africano. Dentro de dias a prateleira estaria com os cabeçalhos apregoando o rapto do juiz Gage praticado por terroristas negros e as promessas dos segregacionistas, que os jornais de Washington ostentavam havia apenas uma hora.

Nat Abrahams continuou através das Salas de Leitura dos Mem­bros, mas Gorden Oliver não estava em lado algum. Notou que um polícia do Capitólio o estava a observar e então dirigiu-se a ele e disse-lhe:

Sou Nat Abrahams. Fiquei de me encontrar aqui com o Sr. Gorden Oliver. Não o viu por aí?

Oliver? É um jornalista?

Não, é...

Sou novo no serviço - desculpou-se o polícia. - Deixe-me ir perguntar a outra pessoa.

Quando o polícia saiu da sala para o vestíbulo, Abrahams pare-ceu-lhe ouvir uma voz sua conhecida. Reconheceu a voz baixa e con­tida de Dilman, falando através dos zumbidos de um aparelho de tele­visão. O pequeno aparelho estava colocado numa mesa de leitura, e vários deputados tinham puxado cadeiras e observavam e escutavam. Nat Abrahams pôs-se por detrás deles, para ver como o amigo se es­tava a sair da sua primeira conferência à imprensa.

A imagem projectada no ecrã mostrava o Presidente Dilman sen­tado à mesa do Gabinete, ladeado por Fiannery e pelo governador Talley. Tinha chegado à última página do seu discurso preparado e lia nesse momento as declarações finais: que deplorava o rapto do juiz Gage, que o F. B. I. estava na peugada dos terroristas, que não havia ainda qualquer informação se o rapto fora um acto individual ou de uma organização, que já nomeara o reverendo Paul Spinger, chefe da Sociedade Crispus, como representante pessoal do presidente, e que Spinger iria investigar a possível participação de qualquer organização extremista no crime, e separar os factos dos boatos.

Quando a câmara se afastou para apanhar uma vista geral da cena, viu-se a bateria de microfones em frente do Presidente Dilman e depois os quarenta a cinquenta jornalistas com os seus lápis e blocos de notas, comprimidos à volta do lado oposto da mesa, e os fotógrafos tirando as suas fotografias.

Dilman pousou o seu discurso preparado e ergueu a cabeça. No ecrã da televisão as suas feições negróides pareciam mais largas e pretas do que na realidade eram.

Dilman disse, quase num sussurro:

-       E com isto dou por terminadas as minhas notícias. Têm algu­mas perguntas a fazer? Levantem as mãos, e o Sr. Flannery designá-los-á por ordem.

Como se fossem de marionetas movidas por cordéis, levanta-ram-se pelo menos uma dúzia de braços, e uma dúzia de mãos acenaram para serem reconhecidas. Flannery tomou conhecimen­to de cada uma com um aceno de cabeça e rabiscou os nomes numa folha de papel à sua frente. Quando acabou, Flannery cha­mou:

-       Sr. Blaser, do Citizen-Amerícan de Washington e da Associa­ção dos Jornais Miller.

Nat Abrahams percorreu com os olhos a massa de repórteres no ecrã da televisão, e então descobriu um homem baixo, atarraca­do, de meia idade, com uma grande cabeleira e uma cara desagra­dável. «A maior parte dos repórteres são-me indiferentes - dissera Dilman a Abrahams no último jantar que tinham tido juntos - mas aquele Reb Blaser é como um sapo num canteiro de flores.» Blaser acotovelava nesse momento a multidão dos repórteres para chegar até à mesa.

-       Sr. Presidente - começou Blaser, procurando esconder os seus modos azedos e impertinentes com uma linguagem untuosa-, acer­ca da sua declaração sobre aquele cobarde rapto praticado pelos Turnerites no Mississipi...

Com grande surpresa de Abrahams, Dilman inclinou-se para a frente e interrompeu-o.

-       Sr. Blaser, eu não anunciei que o rapto tivesse sido praticado por qualquer organização. Penso que tornei esse ponto claro. Não pode­mos fazer acusações até que a nossa investigação esteja completa.

Blaser teve um sorriso de desculpa.

Peço que me perdoe, Sr. Presidente. Penso... os nossos jor­nais receberam a informação de que o acto fora praticado por um grupo dos Tumentes...

Então devia passar essa informação ao Ministério da Justiça - disse Dilman implacavelmente. - Se não é ficção, aceitá-la-ão com prazer.

Ouviram-se umas risadas, mas, observando a cena na televisão, Nat Abrahams sentiu-se pouco à vontade. Dilman estava a permitir que o tentassem. Não se mantinha à distância. Abrahams disse a si próprio que devia dizer isso a Doug.

Emoldurado pelo ecrã da televisão, o rosto de Blaser perdera o sorriso untuoso.

-       Direi aos meus editores para seguirem o seu conselho, Sr. Pre­sidente. Entretanto, gostaria de lhe perguntar o que mandou investi­gar ao reverendo Spinger, no que diz respeito a este cobarde rapto. E também como espera obter factos objectivos de um chefe negro de um grupo revolucionário, que encara o caso com preconceitos bem conhecidos de todos.

A câmara voltou a fixar o rosto de Dilman e Abrahams sentiu-se aliviado ao vê-lo exteriormente impassível, a pensar cuidadosamente no que havia de dizer.

-       Nomeei o reverendo Spinger para esta missão - respondeu o presidente - porque achei que os raptores, se forem negros, quer sejam individuais ou membros de uma organização, confiariam mais nele do que em qualquer outra pessoa. Penso que o reverendo Spinger é a pessoa melhor qualificada para falar com alguém num caso como este e para ganhar a sua confiança. Quanto à sua ver­dadeira missão, penso que não é conveniente revelar o que lhe orde­nei, especialmente numa altura crítica como esta. Quando o procurador-geral e eu tivermos na mão todos os factos, actuaremos em conformidade, sem hesitações... O próximo?

Flannery chamou:

Sr. Paletta, do U. S. and World Report.

Sr. Presidente, acerca do Projecto da Nova Lei de Sucessão que se encontra nas suas mãos. Tenciona aprová-lo ou opor-lhe o veto?

Nat Abrahams sentiu alguém tocar-lhe no braço e voltou-se. Era o jovem polícia.

-       Senhor, desculpe tê-lo feito esperar, mas soube que o Sr. Oliver deixou uma mensagem para si. Está do outro lado da Sala Magna da Câmara, no vestíbulo dos magistrados. Disse para ir lá ter com ele. Quer fazer o favor de me seguir? Contrariado, Abrahams voltou as costas à conferência de Doug Dilman e seguiu o polícia para fora das Salas de Leitura e do vestíbulo, passou pelo elevador, atravessou a biblioteca e entrou pelas traseiras da enorme Sala dos Deputados da Câmara.

Andando tão silenciosamente quanto possível por detrás da últi­ma fila de bancos forrados de cabedal, Abrahams podia ver que dois terços da Câmara dos Deputados estavam ocupados com membros, alguns escutando o discurso do congressista Hightower, outros agru­pados em pequenos núcleos e segredando entre si, e outros ainda lendo o diário Congressional Record, encontrado nas bolsas por de­baixo dos assentos.

Abrahams sabia que o Projecto do Programa de Reabilitação das Minorias estavam no clímax do seu debate. O congressista Hightower, representante da oposição do distrito da Califórnia, apoi­ava vigorosamente o projecto dos trabalhos públicos e especialmen­te a aprendizagem dos incultos negros, dos porto-riquenhos e dos americanos descendentes de mexicanos.

-       Quando tivermos este Projecto aprovado - prometia o con­gressista- não teremos mais violências do género daquela que presenciámos agora em Hattiesburg, no Mississipi. A minoria dos nossos cidadãos gozará de uma lei de restituição para lhes pagar as perdas educacionais e financeiras que tiveram com a escravatura, a segregação e o servilismo. Serão treinados e instruídos. Terão empre­gos bem remunerados. Serão indemnizados pelo longo período de desigualdades que tiveram de sofrer. Satisfeitos deste modo, eles obterão a paz de espírito e nós teremos a paz da harmonia que acom­panha a justiça e o progresso económico.

Estão a apressar o Projecto, pensou Abrahams, e dentro de duas semanas, ou talvez menos, este estará sobre a secretária de Doug Dilman. Pobre Doug, pensou ele, quanto estes políticos o sobrecar­regam, e quão pouco tempo ele teve para se preparar para afrontar o dilúvio da legislação vital. Contudo, pensou Abrahams, se Doug se limitasse apenas a ir buscar o chapéu de O. C, como ele dissera, não precisaria de tomar decisões. Mas se quisesse arranjar um chapéu que lhe servisse e que fosse dele, então isso já seria outra coisa. Era uma pena, pensou Abrahams, pois se Doug Dilman permanecesse o servo de um fantasma, como ele insistia que tinha de ser, a sua agu­da inteligência e o seu justo juízo crítico seriam desperdiçados e a nação nunca saberia o que tinha perdido.

Abrahams olhou para cima, para a galeria da imprensa, por cima da tribuna do presidente da Câmara, e depois para as galerias públicas, que estavam quase cheias, e percebeu que o programa das minorias captara o interesse de toda a Nação. Era a legislação interna mais crucial dos últimos anos.

O polícia parara à espera de Abrahams e disse:

-       É ali naquela porta, senhor.

Abrahams agradeceu-lhe e agarrou o puxador da porta pensan­do que, embora já tivesse estado muitas vezes na Sala Magna da Câmara, nunca visitara os lendários vestiários, onde se supunha que as decisões nacionais eram secretamente tomadas.

Entrou no vestiário do partido, não sabendo o que o espera­va, e contudo encontrou menos do que supunha ir encontrar. O vestiário era estreito e mal iluminado. Junto às paredes alinha-va-se uma meia dúzia de sofás, emparelhando com outras tantas cadeiras de coiro, e depois a sala estendia-se pelas traseiras da Câmara, formando um ângulo. Na extremidade oposta estavam reunidos três homens em frente de um bar semicircular. Só quan­do Abrahams se aproximou mais deles é que reparou que se tratava de um inocente balcão de gelados e bebidas não alcoólicas, com muitos telefones ao pé.

Reconheceu logo Gorden Oliver, apesar de este se encontrar de costas para ele. O colarinho alto e engomado, o casaco sport de lã azul-marinho, as calças de flanela cinzenta e a bengala de metal cas­tanho (a sua marca de fábrica) eram inconfundíveis.

-       Gorden...

Oliver voltou-se instantaneamente, e então Abrahams pôde ver que os três homens observavam a conferência à imprensa, de Dilman, num aparelho de televisão.

-       Ora viva, Nat. Já começava a estar preocupado se você não se teria perdido no caminho. - Oliver estendeu-lhe a mão e depois apresentou-o. - Nat, quero apresentá-lo a dois dos nossos membros mais influentes da Câmara: o deputado Stockton, do Colorado, e o deputado Kramer, da Virgínia Ocidental... Senhores, este é Nathan Abrahams, a resposta das Águias a Rufus Choate.

Depois de lhe apertar a mão, o deputado Kramer disse:

-       Aqui o Gorden disse-nos que é um amigo íntimo do presiden­te, Sr. Abrahams.

Embaraçado, Abrahams respondeu:

-       Sim, conhecemo-nos durante a Segunda Grande Guerra. Esti­vemos juntos no Departamento da Advocacia.

O deputado Kramer arvorou um rosto severo.

-       Bem, se Dilman escapar desta hoje incólume, ganhará certa­mente um Coração de Púrpura. Estão a bombardeá-lo com pergun­tas há já vinte minutos.

Os olhos de Abrahams dirigiram-se para o ecrã da televisão onde estava fixa a imagem do rosto cansado de Dilman, ouvindo mais uma pergunta.

A maior parte das pessoas ainda não teve a oportunidade de o descobrir, mas o Presidente Dilman é extremamente inteligente - dis­se Abrahams lealmente. - Vi parte da conferência quando entrei na Câmara. Penso que os maneja bem. Quando se conseguiu fazer todo o caminho até ao Congresso, sendo negro, já se passou por piores inquirições. Ele sobreviverá.

Nós não dissemos que o não faria - disse Oliver apressada­mente. - Trata-se apenas que esta é a primeira vez que ele se expõe, e eles minaram-lhe cada polegada do caminho com dinamite. Você devia...

Atenção, Gorden - interrompeu o deputado Stockton, apon­tando para a televisão. - O repórter do Time-Life acaba de fazer-lhe uma pergunta acerca do Projecto das Minorias.

Os quatro homens fixaram a atenção em Dilman, que mordia o lábio inferior e passava os dedos pelo mata-borrão à sua frente.

-       Quer saber por que razão não me manifestei a favor do Progra­ma de Reabilitação das Minorias? - dizia ele. - Em resposta, lembro-Ihe que não me manifestei nem a favor nem contra ele. Tenho estado a examinar o Projecto. Tem muito a oferecer às minorias deste país e pode contribuir muito para a melhoria da nossa economia. Penso, po­rém, ao mesmo tempo, que será um erro considerar este projecto como remédio total para o problema da igualdade dos direitos civis. O pro­jecto poderá aliviar certas pressões exercidas em alguns sectores menos favorecidos da nossa população. Todavia, quer seja ou não aprovado como lei, tem de ser completado por esforços contínuos e incessantes para garantir a cada cidadão aquela igualdade de direitos que a nossa Constituição promete. Tenho seguido atentamente o deba­te do Projecto no Congresso, e aguardo para ver em que forma ele me será apresentado para assinar.

Gorden Oliver enterrou um cotovelo na coxa de Abrahams.

-       Prudente, Nat. O seu amigo está a jogar fria e prudentemente. Por um momento, Abrahams irritou-se, mas conteve-se e manteve os olhos fixos no ecrã, onde Flannery fizera um sinal a alguém fora da cena. Então o correspondente da Imprensa Internacional Unida disse:

-       Muito obrigado, Sr. Presidente.

A seguir, a primeira conferência à imprensa terminou. A imagem no ecrã dissolveu-se, apareceu a do selo presidencial, e o deputado Stockton desligou o aparelho.

O congressista do Colorado dirigiu-se então-a Abrahams.

Sr. Abrahams, visto que conhece pessoalmente o novo presi­dente, podia informá-lo da nossa parte, já que mais ninguém parece conseguir apanhá-lo, que esperamos que ele não perca muito tempo com este Projecto ou a pôr aquele Presidente de Baraza no seu devi­do lugar. Diga-lhe que isso é o que os rapazes do quarto das trasei­ras desejam.

Diga-lho o senhor mesmo - disse Abrahams secamente. -Tenho muita pena, mas a minha influência sobre o presidente é nula.

Gorden Oliver riu-se ruidosa e forçadamente.

-       Hiii! ... Nat, não leve a coisa tão a sério. Nenhum de nós está preocupado por causa do Dilman. Ele prometeu manter-se na pla­taforma do partido e seguir a política de O. C. Sabemos que desem­penhará bem a tarefa... Escute aqui, Nat, você nunca tinha estado neste local sagrado antes, pois não? Pois bem, vá dar uma olhadela ali adiante, para lá daqueles telefones, e o que vê? Uma maca e um estojo de primeiros-socorros. Sabe porquê? Desde que aqueles porto-riquenhos resolveram começar a praticar tiro ao alvo desde a gale­ria da Câmara, em 1954, e feriram cinco dos nossos membros, aqui os rapazes ficaram com medo que isso encorajasse mais aberturas de caça. Agora estão preparados... O que diz à ideia de irmos almo­çar? Eu estou faminto. Reservei uma mesa no Hotel Congressional, aqui ao pé... Até logo rapazes.

Gorden Oliver conduziu Abrahams para fora do vestiário, atra­vés da porta de trás da Sala Magna, onde se discutia ainda acerca do Projecto de Reabilitação das Minorias, através da Sala H-209, que ele informou ser o quartel-general do presidente da Câmara, através da Sala de Recepções e depois pelas escadas abaixo.

Saíram pela fachada este do Capitólio e começaram a andar sob o fraco sol do meio-dia em direcção ao Hotel Congressional.

-       São apenas uns dois quarteirões - disse Oliver.

Mas Abrahams notou em breve que os dois quarteirões iriam levar tanto tempo a percorrer como uma milha. Gorden Oliver conhe­cia toda a gente, e toda a gente o conhecia. Para ele, o saudar cada pessoa com um gesto de bengala não era o suficiente. Cada pessoa que encontravam - um fotógrafo do Partido Republicano, um homem das relações públicas da Assembleia Democrática, três polícias do Capitólio, dois senadores, quatro jovens e sorridentes secretárias que iam almoçar - era obrigada a parar, a ser apresentada a Abrahams, a ser mimoseada com qualquer anedota ou piada, antes de poder con­tinuar no caminho.

Enquanto caminhavam, nem Abrahams nem Oliver falavam de política ou de negócios. Os olhos deste examinavam todos os peões à procura de mais conhecimentos, enquanto ia enchendo Abrahams de histórias acerca de Washington e calúnias sobre congressistas antigos e recentes. Segundo Oliver, um congressista e a sua mulher, para pouparem dinheiro, tinham vivido num canto da cave da Câma­ra, até que os descobriram e os puseram na rua. Havia outro que, para viver, vendia fatos já feitos a prestações, nas suas horas livres. Havia um terceiro que ganhara grande reputação de trabalhador por ficar nos seus aposentos do edifício dos escritórios da Câmara de Rayburn muito depois de os colegas terem ido todos para casa, até que se descobriu que ele usava os aposentos para aí receber prosti­tutas.

-       E contudo o trabalho do governo aparece feito - disse Oliver, enquanto atravessavam a rua e entravam no modesto vestíbulo do Hotel Congressional. Depois de ter acenado com a bengala para o recepcionista e para dois congressistas que tinham entrado a seguir a eles, parou e acrescentou: - Só lhe quis mostrar, Nat, que você não irá lidar com vacas sagradas, mas com simples seres humanos que possuem a sua parte de fraqueza dos mortais. - Apontou com a bengala para uma tabuleta à direita do vestíbulo, que indicava o bar. -Quer beber alguma coisa antes de irmos comer, Nat? Abrahams olhou para o relógio.

Sue vem aqui buscar-me dentro de uma hora - disse ele. -Quer mostrar-me algumas casas que ela...

Então vamos à comida - disse Oliver.

Abrahams deixou que este lhe pegasse num braço e o guiasse através do corredor todo decorado com fotografias emolduradas de membros do Congresso. Entraram na espaçosa casa de jantar já quase toda cheia e foram conduzidos até uma mesa junto à janela que dava para o jardim do hotel.

Quando se sentaram e lhes deram a ementa, Oliver piscou o olho a Abrahams e disse:

A melhor mesa da sala, hem, Nat? As Indústrias Águias mar­cam sempre... Que vai comer?-Começou a recomendar pratos, mas Abrahams pediu apenas uma salada de alface e uma omeleta de cogumelos. Automaticamente, Oliver pediu um bife. - Temos conta aberta, sabe, Nat - lembrou a Abrahams.

Estou a fazer dieta - respondeu Abrahams. - Fico em melhor forma quando estou magro e com fome.

Bem, bem - disse distraidamente o outro, ocupado de novo em reconhecer rostos familiares. Começou a cumprimentar pessoas que se encontravam em outras mesas, chamando: «Ei, Mikel... Como vai isso, Jim?... Olá, Ruthie.» Depois pediu desculpa a Abrahams e, durante cinco minutos, com a bengala na mão, foi de mesa em mesa, terminando cada visita com uma estrondosa gargalhada.

Quando regressou para junto de Abrahams, que se encontrava já a comer a sua salada, deu apenas uma desculpa indirecta pela sua ausência.

A minha profissão consiste em contactos - explicou. - Em os fazer e em os manter.

Não tenho jeito para isso, Gorden.

Você? - disse Oliver, fingindo-se horrorizado. - Não se pode desperdiçar um génio como você em tal espécie de actividade. Os meus campos de acção são o Clube da Imprensa Nacional, o Clube de Golfe da Árvore Queimada, o Clube Metropolitano e aqui mesmo. Isso é bom para mim, mas não para si. Avery Emmich não lhe paga­ria o que lhe vai pagar - diabos, o meu salário é uma gorjeta comparado com o seu - por relações públicas. Ele aluga-lhe o seu cérebro, Nat, não a sua mão jovial.

-       Conquanto que isso fique bem esclarecido - disse Abrahams. À medida que o almoço prosseguia, Oliver ia falando menos e

parecia acabrunhado nos seus próprios pensamentos. Abrahams percorreu a sala de jantar com os olhos, tentando reconhecer alguns rostos que vira em jornais, e depois, acabando de comer a omeleta, olhou para cima, para o tecto amarelo e branco, e começou a pensar qual seria o móbil daquele almoço.

Enquanto Oliver bebia o seu Sanka e Abrahams bebia o seu chá quente, este decidiu saber se realmente o encontro nada tinha a ver com o contrato.

-       Gorden, ontem à noite você disse que me queria ver por causa das minhas primeiras tarefas aqui em Washington e não por causa do contrato. Tem mesmo a certeza disso?

O rosto redondo e bronzeado de Oliver ofereceu imediatamente uma expressão de tristeza por o motivo ser ainda posto em dúvida.

Nat, eu já lhe disse que o contrato passou à rotina. Estará pronto dentro em breve. O atraso foi causado pela visita de Emmich a Dallas para fazer um discurso perante a Associação Nacional dos Fabricantes.

Bem, é que gostaria de mandar Sue para casa, para prepa­rar tudo.

Mande-a, de qualquer modo mande-a. Mas será melhor que você fique cá para a leitura final do contrato e para o assinar. Depois poderá regressar a Chicago por uma semana e entregar as chaves.

Abrahams olhou para o relógio na parede.

-       Muito bem, Gorden. Então o que quer discutir comigo? Só já tenho quinze minutos.

Oliver bebeu o resto do seu Sanka e pousou a chávena.

Nat - disse ele. - Você ouviu o pequeno discurso que o con­gressista Stockton lhe fez no vestiário.

Sobre quê? Refere-se àquilo de o presidente não perder tempo com o Projecto das Minorias e com Baraza? Certamente que ouvi.

Bem, eu penso que ele está realmente preocupado com o Pro­jecto das Minorias. É um problema importante. Ninguém liga a esse pequeno campo de futebol africano, mas o Projecto das Minorias é outra coisa.

-       Importa-se a Rússia - disse Abrahams.

Oliver pegou na bengala que estava encostada à mesa e come­çou a desatarraxar-lhe a pega de metal.

Oh, você sabe o que eu quero dizer. O Projecto das Minorias é o que conta agora lá para os rapazes da Colina. Um movimento em falso pode fazer perder muitos votos. Isso é o que lhes interessa. -Fez uma pausa. - Sei que o que o Stockton disse o irritou um pouco, mas as intenções dele são boas. Ele tentou apenas dizer-lhe o que a maioria de ambos os partidos da Câmara pensa.

E por que mo havia de dizer a mim? - perguntou Nat Abrahams.

Porque ele ouviu dizer que você conhece o presidente e... - Então, como se quisesse impedir Abrahams de o interromper, Oliver começou a falar apressadamente: - Escute, Nat, os rapazes da Coli­na - sem contar com o bloco sulista -, os outros, não estão muito preocupados com Douglass Dilman. Ele tem-se comportado como deve ser. Tornou claro que se manteria na plataforma do partido e que escutaria o conselho das melhores cabeças do grupo de O. O Só há um facto inédito que lhes dá que pensar. A única legislação importante acerca da qual o presidente não fez qualquer comentário público ou particular foi o Projecto das Minorias, precisamente o pro­jecto em que ele deveria estar mais empenhado, pois é o único meio que possuímos para acalmar e pôr termo à inquietação racial neste país. Uma vez que seja transformado em lei, todas as lutas e de­monstrações cessarão. Não se repetirá o que se verificou hoje no Mississipi. Os negros estarão demasiado ocupados e prósperos para se queixarem. Teremos solidariedade. - Olhou pensativamente para Abrahams por uns momentos e depois perguntou: - Já alguma vez leu o R R. M.?

Não - respondeu Abrahams sem mais comentários. Sentia-se de novo vagamente irritado. Adivinhara logo o que Gorden Oliver pre­tendia e queria tornar-lhe a coisa difícil. - Não, repetiu, não li. Devia tê-lo feito?

Oliver atarraxou com força o cabo da bengala e tornou a encostá-la à mesa.

-       Apenas porque é uma peça vital da legislação dos trabalhos públicos e grande parte da sua tarefa nas Indústrias Águias será aconselhar Emmich sobre todos os novos projectos que afectem os seus interesses.

Abrahams estava cada vez mais resolvido a fazer a coisa difícil. Ergueu as sobrancelhas, ingenuamente.

-       O Projecto das Minorias interessa assim tanto a Emmich? Foi a vez de Oliver ficar irritado.

-       Realmente, Nat, você devia saber o que a aprovação deste Projecto pode significar para as Águias. Há um bolo federal de sete biliões de dólares - biliões, veja bem - para ser repartido pelas indús­trias particulares. As Águias querem a sua parte e estão prontas a vencer qualquer competição. E as Águias podem conseguir isso. Somos fortes no Sul, mais fortes lá, onde grande parte do dinheiro será gasto. Temos o dinheiro e o equipamento necessários para cons­truir essas escolas de treino de vocações, essas estradas, essas ca­ sas económicas, essas fábricas. Certamente que estamos preocupa­dos e interessados em tal caso, diabolicamente interessados. Não há nada mais importante para Emmich neste momento. Pensei que você soubesse isso.

Abrahams, de repente, sentiu-se parte daquele jogo.

Sabia isso, sabia. Estava apenas a obrigá-lo a ir para a frente. Queria descobrir até que ponto vocês estavam envolvidos nesta le­gislação.

Então sempre leu o Projecto?

Não, na verdade não li. Conheço as suas linhas gerais, mas nunca o li. Julguei que ainda não estivesse a trabalhar.

Bem, mas está, em certo sentido, está.

Então arranjarei uma cópia.

Não é preciso. - Oliver bateu complacentemente no peito. - Eu trouxe-lhe uma.

Então, ler a legislação pendente é uma das minhas primeiras tarefas aqui - disse Abrahams. - Missão número um é o R R. M., não é verdade? Muito bem. O que devo fazer depois de o ter lido? Dizer a Emmich que o acho fantástico? Ele já sabe isso. Dizer-lhe que acho que isto não o ajudará muito? Ele não quer ouvir isso. Então que lhe deverei dizer, Gorden?

Não tem de lhe dizer nada - disse Oliver, pouco à vontade. -É claro que ele quer a aprovação do Projecto. Penso que ele gostaria de saber que também você a quer.

Abrahams sentiu os músculos do pescoço retesarem-se involun­tariamente.

Que diferença pode fazer eu querê-la ou não?

Nat, você está a fazer-se difícil comigo. - Oiiver franziu o sobro­lho e olhou para a bengala. Pegou nela, pô-la no colo, e fê-la girar várias vezes antes de levantar os olhos. - Jesus, nós fazemos parte da mesma equipa. Obtemos o dinheiro da mesma mina. Temos am­bos de cumprir as nossas tarefas.

-       Acho que só me interessa saber qual é a minha. Oiiver examinou Abrahams rapidamente.

Harv Wickland, o chefe da maioria, acha que o partido pode fazer com que o Projecto passe na Câmara. Estará na secretária do presidente Dilman mais dia menos dia. Dilman é o único que preo­cupa Emmich e a todos nós. Ele constitui a única incógnita.

Ouviu-o dizer que queria ler o Projecto na sua forma final.

Ora, Nat, as modificações serão mínimas. Dilman já teve mais do que tempo para ler o Projecto e chegar a uma conclusão. Na verdade, o Emmich está muito preocupado. Ele acha que Dilman está agora a fazer o seu teste como novo presidente.

Quer dizer, o seu teste aos olhos das Indústrias Águias?

Bem, ele ou é por nós ou contra nós.

Abrahams sentiu-se desanimado perante uma tão restrita e egoís­ta visão de uma legislação que trazia consigo tantas implicações mais amplas.

Talvez Dilman ache que há mais coisas em jogo do que o facto de o Projecto ser bom ou mau para os grandes negócios.

Não sei - disse Oiiver. Depois acrescentou: - Talvez você sai­ba. Alguma vez o Presidente Dilman, afinal todos sabem que você já esteve várias vezes na Casa Branca, lhe disse o que realmente pen­sava acerca do R R. M.? Isso podia ajudar-nos muito. Emmich ficaria muito grato se pudesse saber...

Gorden, eu não sei se o presidente é a favor ou contra esse Projecto, mas mesmo que o soubesse, mesmo que ele o tivesse dis­cutido comigo, eu não lho diria. Tenho-o visitado como um velho amigo, e não como advogado inquiridor por conta das Indústrias Águias.

Touché - disse Oiiver com um sorriso torcido. - Fui alvejado e bem o merecia. Mas eu também tenho a minha tarefa, você sabe isso.

Abrahams amarfanhou o guardanapo e atirou-o para cima da mesa. Depois recuou a cadeira.

-       Gorden, eu sei o que você pretende. O R R. M. é o tipo de projecto das Indústrias Águias. Vocês querem ter a certeza de que, uma vez que passe em ambas as Câmaras, o presidente o aprovará. Vocês gostariam que eu fosse já ter com ele e descobrisse se o ten­ciona assinar. Se ele o fizer, vocês gostariam de ser os primeiros a sabê-lo, para que pudessem mais facilmente vencer os competido­res. Se ele estiver hesitante ou negativo, vocês gostariam que eu usas­se a minha influência a vosso... está bem, nosso... a nosso proveito. É nisto que este nosso almoço se resume, não é verdade?

Gorden Oliver quase sorriu de alívio. Mas depois, reparando na expressão dura do rosto de Abrahams, transformou o sorriso numa seriedade moderada. A sua prudência era óbvia.

-       Se pensa que Avery Emmich e eu lhe estamos a pedir, como sua primeira tarefa para nós, que vá usar a sua amizade com o presi­dente para fazer com que as Águias ganhem uns tantos milhões, engana-se redondamente. Não somos assim tão parvos, e não usa­mos tais tácticas. Não se trata disso. Tudo o que queremos é que você estude o projecto P. R. M. e que depois estude um pequeno trabalho que fizemos nas Águias acerca do Projecto, uma espécie de apreciação do seu valor na nossa economia e... e para a paz inter­na... - Meteu a mão dentro do casaco e tirou para fora um documen­to espesso e um memorando dobrado. Entregou-lhe o documento. - Aqui tem o texto do R R. M.

Abrahams abriu-o e leu o título: «Seja ele decretado pelo Sena­do e pela Câmara dos Deputados dos Estados Unidos da América reunidos em congresso - Secção 1. Este acto pode ser citado como o Programa de Reabilitação das Minorias.» Dobrou-o cuidadosa­mente.

Muito bem - disse calmamente.

E aqui tem uma apreciação concisa e um memorando dos pontos importantes do Projecto - disse Oliver, entregando as outras folhas dobradas. - Qualquer pessoa que leia isto verá em cinco mi­nutos como este Programa de cinco anos de trabalhos irá ajudar económica, social e educacionalmente os negros e todas as mino­rias e como os integrará, aumentando igualmente os interesses da maioria da comunidade branca. Pode ser breve, mas é completo, Nat. Verá como este Projecto poderá ser útil a cada um dos cinquen­ta Estados, designando nomes, factos e números. É irresistível.

Pegando também nesse documento, Abrahams meteu ambos na algibeira.

Vou lê-los. E depois?

Se o aprovar - e penso que o fará, pois a maior parte das pessoas o aprovaram, com excepção de um punhado de esquerdis­tas e de extremistas da direita -, desejaria que no-lo dissesse. De­pois, se a coisa se proporcionar, só se se proporcionar, compreende, desejaria que dissesse ao Presidente Dilman qual a sua opinião acer­ca do Projecto. Isso será absolutamente natural. Mas, Nat, mesmo que o não queira fazer, então... bem, pelo menos, peça-lhe que pas­se uma vista de olhos pela nossa pequena e patriótica apreciação de factos e números. Poderá ajudá-lo, se ele precisar. De qualquer modo, suspeito que ele está do nosso lado... Não me prometa nada, Nat. Quero apenas poder dizer a Avery Emmich que você está a estudar o caso e que fará o que julgar melhor para o país.

Para o país! - murmurou Abrahams, levantando-se rapidamente. - Entrarei em contacto consigo, Gorden. Obrigado pelo almoço.

Saindo da sala de jantar, Abrahams podia ver a cara preocupa­da de Oliver fingindo examinar a conta do restaurante, enquanto, pelo rabo do olho, observava o seu convidado e tentava esconder o que sentia.

Caminhando pejo corredor, Nat Abrahams sentia-se ferver de indignação, não por causa do esforço do idiota do intermediário em o utilizar para influenciar o chefe Executivo do país, que por acaso era um amigo seu, mas consigo próprio, por ter deixado, pela pri­meira vez em toda a sua vida, que o pusessem numa posição que poderia comprometer a sua honestidade como ser humano respon­sável.

Quando saiu do Hotel Congressional e atravessou para a esqui­na do edifício dos escritórios da antiga Câmara, onde combinara en-contrar-se com Sue, a sua cólera já se aplacara. O ar fresco e lumino­so não era só refrescante mas também estimulante, fazendo renascer o seu sentido adormecido da realidade.

O seu erro, constatou Abrahams, era que se agarrava constante­mente ao sabre do romantismo. Isso satisfazia o seu ego e a sua cons­ciência, mas fornecera-lhe uma fraca arma numa época progressista e mecanizada como aquela, uma arma que se mostrara inadequada para proteger a mulher, os filhos e o seu coração enfraquecido. Sabia, desde que começara as negociações com as Águias, que nao podia matar dragões com espadas e sabres antiquados, para salvar a sua família e a si próprio. Isto era um novo mundo, onde não se venciam dragões com cegas espadeiradas - eles eram muitos e demasiado grandes e ele era demasiado pequeno e mal armado - mas, em vez disso, devia discutir-se com eles, ceder um pouco, dar-lhes qualquer coisa para que eles dessem também. O que dissera o velho e esperto Edmund Burke? Que todos os governos, quase todos os benefícios e prazeres humanos, quase todas as virtudes e actos de prudência eram baseados em compromissos e trocas. Como o seu próprio avô costu­mava dizer, segurando-o em cima de um joelho ossudo: «Rapaz, dobra--te às vezes para que não te partas.» Ou, pensou agora Abrahams, para que não partas outros juntamente contigo, quando caíres.

Procurou o cachimbo na algibeira, encheu-o de tabaco que tirou da bolsa e acendeu-o. Não dera mais que uma fumaça quando avistou o Ford alugado e o rosto de Sue emoldurado no vidro do carro. Entrou para ele, beijou-a na cara e o Ford pôs-se em movimento. Perguntou--Ihe o que é que ela fizera durante aquele tempo e aonde iam, e ela começou a contar-lhe, mas ele mal a ouvia. Se nos temos de inclinar, pensava, até onde nos devemos dobrar?

Quando o carro virou uma esquina e o projectou de encontro à mulher, reparou que esta se calara e tentava estudá-lo enquanto guiava.

Que se passa, Nat? - perguntou.

Que se passa? Que te fez pensar... ?

Não ouviste uma palavra do que eu disse. Tens estado a um milhão de milhas daqui.

Ele tentou sorrir.

Só a alguns quarteirões, no Hotel Congressional, com o Gorden Oliver, rapaz errante entre o Mefistófeles, em Atlanta, e o Nat Fausto, aqui.

Então é isso - disse Sue. - Conta-me tudo sem omitires nem uma palavra.

Enquanto ela guiava, ele falou. Contou-lhe o que Oliver queria e como ele próprio reagira, tanto quanto podia contar num monólogo de dez minutos. Quando acabou, voltou a cabeça para ela. O seu lindo rosto, apenas com umas pequenas rugas na testa, estava gra­vemente fixo na estrada à sua frente.

E é tudo, Sue - disse ele. - Tudo espremido resta apenas isto, uma ordem de cima: vai lá e usa a tua influência para que Doug Dilman, acredite ele no que acreditar, aprove o Projecto das Minorias. Con-vence-o, faz com que ele assine, e terás ganho o teu salário, pago por Emmich e pela sua grande indústria.

Gorden Oliver não te disse isso por tantas palavras.

Disse-mo sem as palavras.

Ela continuou a olhar fixamente para a rua à sua frente.

Nat, talvez estejas a fazer uma tempestade num copo de água. Estás simplesmente a partir do princípio que tudo o que é bom para as Indústrias Águias é mau para o país, para Dilman, para ti próprio, e opões-te. Não poderá ser que o que eles querem possa também ser o que todos os outros querem e necessitam?

Bem... pode ser.

É provável que Doug Dilman aprove a maior parte do Projecto e o assine. Ele não te disse que o não faria, pois não?

Não, não disse.

Eu também leio os jornais, e do que tenho lido depreendo que quase toda a imprensa, as organizações políticas e o Congresso pare­cem estar empenhados nessa legislação.

-       Isso não implica, necessariamente, que ela seja certa. Sue olhou para ele de relance.

-       Mas também não implica que o não seja, querido. Penso que estás a colocar a tua hostilidade no lugar errado. Sentes-te culpado por abandonares a prática, por abandonares os miseráveis, por ires ganhar tanto dinheiro em tão pouco tempo. Sentes-te envergonhado e assim descarregas a culpa em cima das Águias, do Emmich, do Oliver e em cima de tudo o que eles propõem. Nat, tu és mais esperto do que isso. Estuda objectivamente toda essa papelada que tens no bolso, como se estudasses um processo legal. Depois decide qual a tua opinião. Se o R R. M. é um programa inteligente de compromis­so, fala em favor dele. E não há nada de mal em dizer a Doug que o aprovas, quer ele seja presidente ou não. Poderá até agradar-lhe dis­cutir isso contigo. Se o Projecto não te agradar, cala-te.

Ela tirou a mão direita do volante e pô-la sobre a do marido.

-       Nat, talvez seja bom para o país. Não te portes como um garo­to irado que tem de contrariar os pais em tudo para mostrar que é um homem. Tu és um homem, o melhor e o mais maravilhoso homem que existe à face da terra. Es um homem que pode servir ainda o público e a si próprio, enquanto protege ao mesmo tempo a sua pró­pria vida e a dos seus filhos. Don Quixote não era de carne e osso, querido, mas tu és. Também já não existem dragões. Freud espan-tou-os a todos. E tudo o resto são problemas humanos para serem resolvidos por seres humanos como tu, de um modo racional. Sei que o conseguirás e que assim procederás durante os próprios três anos.

A sua tirada literária, um reflexo tão exacto do seu próprio pen­samento uns momentos antes à esquina da rua, fez desaparecer o último vestígio da cólera de Abrahams. Esposas, pensou ele, maravi­lhosas esposas que cultivam o nosso espírito como nós cultivamos o delas até que o nosso e o delas sejam apenas um e o mesmo, até que a morte os separe. Ela divertia-o e ele amava-a, por ela própria e pela melhor parte dele que ela possuía, e desejou apertá-la de en­contro a si e abraçá-la.

Em vez disso, inclinou-se e beijou-a ao canto da boca. Ela pare­ceu ficar espantada, e depois contente.

- Hum - murmurou -, isso foi agradável, apesar de quase me ter feito chocar com aquele camião. - Depois acrescentou: - O que foi que provocou essa demonstração de afecto?

Ele continuou a sorrir-lhe. Ela nunca saberia o que o fizera agir assim. Também não interessava. Só lhe disse: - Porque tu sabes fazer belos discursos e porque és sensata, e porque pensas que eu sou um homem e porque te amo. Amar-te-ei sempre.

Recostou-se no assento, finalmente à vontade, tornou a acen­der o cachimbo e sentiu-se suficientemente forte para se dobrar um pouco, só um pouco, se fosse preciso.

Quando Otto Beggs avistou o néon quebrado e apagado da Esta­lagem do Caminho, à distância de um quarteirão, abrandou automati­camente o passo. Pela segunda vez naquela semana mentira a Gertrude acerca das horas do seu serviço para que pudesse sair de casa mais cedo, e, pela segunda vez naquela semana, regalava a hora da sua chegada à taberna porque sabia que Ruby Thomas lá estaria. De repen­te sentiu-se furtivo e pouco à vontade por causa do que previamente acontecera de uma maneira tão natural - bem, quase.

Com excepção daquelas vezes, na Coreia, que não contavam pois estava no exército numa situação perigosa e as minúsculas e submissas raparigas eram estrangeiras, e com excepção de quatro ou cinco vezes, em viagens de missões especiais pelo país, que não contavam pois estivera a beber nas horas de folga e as mulheres eram prostitutas e portanto não eram mulheres. Otto Beggs nunca enganara a mulher. Ele fazia questão e tinha orgulho em cumprir as suas responsabilidades de esposo e de pai, em se lembrar dos deve­res da sua posição no Serviço Secreto, e especialmente no dever extra que possuía por ter recebido a Medalha de Honra Congressional, e por nada mancharia a sua reputação. Olhava com superioridade (e uma pequena parcela de inveja) para os seus colegas que engana­vam as mulheres, orgulhoso de não haver qualquer oportunidade de um escândalo na sua vida.

Contudo, o que fazia com que desta vez Otto Beggs se sentisse furtivo pela primeira vez não era o facto de ter mentido a Gertrude (já lhe mentira havia dois dias), nem o de ter dito a Ruby Thomas que iria ter com ela (já lá fora três vezes antes), mas o facto de ter estado acordado várias horas, na noite anterior, pensando nela. Pior ainda, nessa mesma manhã, depois do almoço, com o livro piolhento de Austin diante de si na secretária, fora incapaz de estudar uma linha, porque só via Ruby nas páginas à sua frente, Ruby vestida (que era como qualquer mulher despida), Ruby nua (o que não se devia com­parar com coisa alguma deste mundo), Ruby abrindo os braços para ele (o que o excitara como se fosse um adolescente).

Era essa súbita obsessão dela e o pensar que ela podia não contrariar a realização dos seus sonhos que dava àquele encontro um significado especial e lhe refreava o passo. Porque agora não se tratava já, pelo menos para ele, de um encontro casual entre conhe­cidos de ocasião. Tratava-se de algo que lhe era estranho. Era a es­pécie de actividade sub-reptícia que ele condenava como sendo in­decente, quase antiamericana, e todavia compelia-o como uma força suficientemente poderosa para transtornar a sua vontade puritana e medo do perigo. Por muito que o seu espírito resistisse à tentação, o seu corpo habituara-se a esses encontros com Ruby. Porque, numa vida de desilusões, em que o ignoravam num emprego que ele ado­rava, em que era obrigado a degradar-se estudando uma carreira nova, anónima e sedentária que detestava, em que era reprovado pelas pessoas que lhe eram mais chegadas, em que cada vez mais o repudiavam como homem viril de acção, brilhava uma luz radiante de esperança - Ruby. Era Ruby quem admirava o seu físico, a sua posição, os seus sonhos. Ruby, que era jovem, magnífica e apaixo­nada (tinha ele a certeza). Não o surpreendia que não lhe pudesse resistir. O que na verdade o espantava era que a única luz radiante de esperança que iluminava aquela triste época da sua vida lhe viesse de alguém tão negra. Porque Ruby Thomas, de 24 anos, era negra.

Já ia a meio caminho do quarteirão, e o néon em frente da Esta­lagem do Caminho aparecia-lhe maior e mais destacado de encontro ao céu cinzento de chumbo do meio da tarde. Abrandou ainda mais o passo, pois precisava de mais tempo para pensar, para decidir se estava completamente louco ou se era simplesmente afortunado, para determinar se a mentira que dissera a Gertrude pela segunda vez em três dias valia o risco.

Havia já quase duas semanas - numa tarde como aquela, recor­dava ele - fora até à Estalagem do Caminho antes de ir para o tra­balho, para comprar cigarros. Uma vez diante da taberna mal ilumi­nada, revivendo o seu ressentimento contra os rapazes de cor que se tinham apropriado do seu lugar junto das máquinas de jogar, encaminhara-se para o bar em forma de ferradura para comprar os seus cigarros. Então, notando que estava com sede, sentara-se num dos bancos altos e pedira a Simon, um ex-pugilista que actualmen­te era criado de bar, que lhe servisse uma cerveja gelada.

Na altura em que o criado lhe pusera a cerveja diante, Ruby Thomas viera sentar-se num banco a seu lado, apontara para o copo dele e pedira o mesmo. Otto Beggs notara imediatamente duas coi­sas: a primeira era que aquela rapariga era a negra mais bonita que já vira em toda a sua vida; a segunda era que, apesar da sua reser­va, ela se devia interessar por ele, pois a maior parte dos bancos do bar estavam vazios e contudo ela escolhera deliberadamente sen­tar-se ao seu lado.

Ao princípio tentara ignorá-la, com medo que ela fosse uma prostituta. Tal receio porém desvanecera-se ao reparar no aspecto e nos modos dela. Estava vestida com uma bata branca e engoma­da - viria a saber mais tarde que ela era ajudante de um dentista e que se mudara havia pouco para a vizinhança - e tinha um ar fresco e resoluto.

Contra a sua própria vontade, e tão discretamente quanto possí­vel, ele examinara-a várias vezes da cabeça aos pés. Ela estava sentada, muito direita, no banco, com as pernas cruzadas, deixando ver um joelho. Ela era, dissera-lho o coração desordenado, de tirar a respiração. Desde que sofrera uma paixão à distância pela cantora Lena Horne, quando ainda frequentava a Universidade do Estado de Oregon, nunca conhecera outra rapariga de cor que o atraísse tão instantânea e totalmente. Esta tinha cabelo curto, sedoso e casta­nho, olhos grandes e amendoados, um nariz pequeno e pontiagudo e o lábio inferior carnudo. Calculara que ela não teria mais que cinco pés e duas polegadas e notou os seios firmes e pujantes debaixo do uniforme branco, e as coxas grossas apertadas na saia justa. E era preta, embora o espantasse que a sua cor ainda mais realçasse a sua beleza em vez de a diminuir.

Ela não falara e ele não falara, daquela primeira vez, até ele ter esvaziado o seu copo e ter pago a despesa. Então, de repente, ela voltara-se para ele e dissera: «Tenho a impressão de que sei quem o senhor é - Jesus, não havia de saber! - é o famoso Sr. Beggs, o herói do Serviço Secreto.» Ele corara de prazer e orgulho e gaguejara que não era nenhum herói mas que era na verdade Otto Beggs, agente do Serviço Secreto. Perguntara-lhe como sabia isso. Ela dissera-lhe que toda a gente da vizinhança o sabia - Jesus, ele era a grande cele­bridade da vizinhança - e que lho tinham mostrado na semana anteri­or. Pedira-lhe desculpa de se ter intrometido na sua vida - «Sei que já deve estar farto de ser uma celebridade» - mas queria poder gabar-se às outras raparigas do escritório que tinha falado com ele. Ele pergun­tara-lhe o nome e ela dissera-lho e dissera-lhe onde trabalhava, e ele dissera-lhe que esperava ter o prazer de a tornar a encontrar por ali e fugira para a rua iluminada (sentindo-se vivo e jovem como aquela jovem que deixara atrás de si).

Isto passara-se na semana anterior e fora a primeira vez. A se­gunda vez fora havia uns dias, também antes de ter ido para o em­prego, e dessa vez encontrou-a sentada no bar e ele tivera a cora­gem de ir sentar-se ao seu lado, dizendo-lhe uma piada que a fizera rir deliciada. Tinham conversado sem parar, durante talvez uns vin­te minutos, nessa segunda vez, até que ela tivera de regressar ao dentista.

Durante cinco dias consecutivos Otto Beggs viera à Estalagem do Caminho à procura de Ruby Thomas, mas não a encontrara. Fi­nalmente, como por acaso, perguntara a Simon o que fora feito dela e este explicara-lhe que o intervalo do café dela agora era mais cedo, que normalmente vinha ali às três horas em vez de vir às três e qua­renta e cinco. E assim, dois dias depois, instigado por essa informa­ção, Otto Beggs dissera a sua primeira pequena mentira a Gertrude. O seu serviço na Casa Branca começava às quatro horas e normal­mente ele saía de casa às vinte e cinco ou vinte para as quatro. Ao almoço dissera a Gertrude que o seu novo serviço começava às três horas, uma hora mais cedo, e que portanto teria de sair por volta das vinte para as três. Gertrude não fizera qualquer comentário, excepto quanto à sua preocupação de ele ter menos uma hora para se prepa­rar para os exames de compra e venda de propriedades. Prometera--Ihe então que recuperaria o tempo perdido à noite.

Assim, havia dois dias, fora até à Estalagem do Caminho e en­contrara Ruby no bar, como sabia que encontraria, e sentara-se ao seu lado e gozara uma meia hora inteira da sua companhia. Duran­te esse encontro, o melhor de todos, ficara a saber muitas coisas acerca de Ruby Thomas. Vivera na Luisiana e em Indiana, e era filha única. Conseguira frequentar o liceu ainda durante um ano, antes de ter de abandonar os estudos para ajudar a sustentar a família. Quisera porém ser uma pessoa educada e juntara dinheiro para se instruir em cursos pelo correio. Servira como modelo a fotógrafos -«mas quando aqueles rapazes brancos continuaram a insistir para que eu pousasse de um modo que não era próprio para se ver, toda nua, pensei para comigo que eles pretendiam algo mais que foto­grafias e mandei-os para onde eles deviam ir» - e assim deixara o emprego. Assegurara logo a Beggs que não era afectada - «tenho tanto amor nos ossos como qualquer rapariga normal» - mas não gostava de misturar o trabalho com o prazer.

Vira então um anúncio na revista Ebony e inscrevera-se num curso por correspondência que lhe daria um diploma de assistente de den­tista. O seu diploma, porém, viera a sabê-lo mais tarde, não era sufi­ciente para fazer dela uma assistente de dentista qualificada, mas apenas uma espécie de assistente do assistente, bem como recepcio­nista, empregada, telefonista e tudo no género. Já tivera três desses empregos, contando com o que tinha agora, e gostava de trabalhar para os dentistas, pois eles estavam tanto tempo de pé durante o dia que ficavam demasiado cansados para a perseguir à noite. Tomava o almoço no escritório para poder ter aquela pausa diária ao meio da tarde, pausa essa que lhe era indispensável para recobrar as ener­gias e para a tornar mais descansada para a noite. Alugara um apar­tamento agradável e não muito dispendioso a um quarteirão da Esta­lagem do Caminho, um apartamento mobilado, com entrada privativa, o que era importante para ela, pois não gostava que se intrometes­sem na sua vida. A sua única extravagância fora comprar recente­mente um gira-discos - pagá-lo-ia a prestações durante dezoito me­ses - e a sua paixão era coleccionar discos clássicos de jazz. Otto Beggs gostava de Jelly Roll Morton? Beggs nunca ouvira falar em Jelly Roll Morton, mas dissera a Ruby que nunca ouvira ninguém cantar melhor.

Mas o melhor de tudo fora o prazer que ela mostrara em escutar Beggs, em lhe fazer perguntas e em escutar as suas longas respos­tas, com os olhos em amêndoa fixos nos lábios dele. Quisera saber coisas acerca da sua vida e do seu trabalho no Serviço Secreto. E ele conseguira falar com ela mais facilmente do que com qualquer pes­soa havia muito tempo. Os últimos anos com Gertrude tinham-lhe abatido o orgulho em si próprio, e agora libertara o que abafava ha­via muito. Contara a Ruby a sua infância, os seus triunfos atléticos no Estado de Oregon, os seus anos na Coreia, a sua Medalha de Honra, os seus numerosos empregos, os seus anos no Serviço Secreto. Evitara falar-lhe acerca da família. Tudo o que contara a Ruby Thomas, todos os pequenos detalhes, todas as anedotas, até mesmo o con­teúdo dos seus queridos álbuns, a impressionara e admirara. «Que fenomenal!», exclamava ela. «Fez mesmo isso?» Acima de tudo tinha grande consideração pelo seu trabalho. Enquanto para Gertrude um agente do Serviço Secreto não era mais do que um guarda mal pago, para Ruby o papel de guardar o presidente era uma honra comparável à própria presidência.

Havia apenas uma questão que ofuscava as suas relações e que o perseguia obstinadamente. Era o facto de ela ser negra.

Havia muito que Otto Beggs se orgulhava da sua tolerância. Cer­tamente que os negros eram diferentes dos brancos, eram mais pre­guiçosos, mais falsos, menos espertos, mas, diabos, não se podia acusá-los de serem assim; bastava ver de onde eles vinham: da Áfri­ca e da escravidão nas plantações. Nunca se dera com negros, com excepção de Solly, que fazia parte da equipa de futebol no Oregon, e alguns outros no Exército, e não desgostava deles. É claro que não gostava muito de Prentiss, pois este obtivera o lugar de assistente do chefe do Departamento da Casa Branca, que, de direito, lhe perten­cia. Todavia, náo podia estar pessoalmente contra Prentiss por causa disso. Prentiss não metera para aí prego nem estopa. Se havia al­guém que tinha a culpa era o chefe Gaynor. Beggs não o podia ainda provar, mas de boa vontade apostaria que Gaynor tencionava pro­mover tantos agentes de cor quantos pudesse, o que era natural quan­do se jogava com a política. Quanto ao Presidente Dilman, Beggs não tinha uma opinião completamente formada acerca dele. No todo, não lhe agradava lá muito, disso tinha ele a certeza. Por outro lado, tam­bém não podia dizer que não gostasse inteiramente dele. Do que não gostava era de ter de andar atrás dos calcanhares de um negro para toda a parte. Beggs sabia que era mais esperto que Dilman, mais corajoso (como já o provara uma vez), e tinha mais personalida­de, e contudo era ver quanto aquele político pesado ganhava por ano e quanto ele próprio ganhava. E o pior de tudo era que, por causa daquele dinheiro miserável que ganhava, Beggs tinha o dever de arriscar a própria vida para proteger aquele homem de cor. Para alguém com a estatura, os dotes e a potência de Beggs tal situação era humilhante. Fossem lá imaginar Dilman a fazer alguma vez alguma coisa que merecesse a Medalha de Honra! Hem?!

Sem saber porquê, Beggs não se sentia à vontade ao pé dos negros, especialmente dos que faziam parte da sua vizinhança, donde até os seus pseudo-amigos Schearers tinham fugido. Quanto às mulhe­res negras, porém, os seus sentimentos eram mais brandos, embora ainda confusos. Afinal ele amara Lena Horne, na sua juventude, bem, quando era mais jovem. Gostara sempre de observar da janela do seu quarto as negras que passavam na rua. As jovens tinham um porte magnífico. E tinham um físico digno de homens heróicos. Algumas vezes, não muitas, antes de ter conhecido Ruby, alimentara alguns pensamentos selvagens sobre negras e os seus segredos. Mas então os seus pensamentos embrulhavam-se sempre porque às vezes pen­sava que elas lhe eram inferiores socialmente, que não eram suficien­temente boas para ele, com os seus segredos, aqueles tipos africa­nos, e que só os negros as sabiam manejar.

Várias vezes já recordara aquela noite em que escoltara o Presi­dente Dilman até à casa em que vivia o reverendo Spinger, e aquilo que sucedera antes de se terem ido embora, aquela rapariga de cor, já não muito nova mas esplêndida ainda, que viera a correr atrás de Dilman. O presidente chamara-lhe Miss Gibson e agira como se ela fosse uma secretária, o que provavelmente ela era, que tivesse toma­do notas sobre a conferência com Spinger, o que provavelmente ela fizera, porém Beggs não podia esquecer-se de que, quando ela apa­recera, tratara familiarmente por «Doug» o presidente. Beggs nunca ouvira uma secretária chamar o patrão pelo primeiro nome, especial­mente um patrão que era o Presidente dos Estados Unidos. Tentara recordar Miss Gibson exactamente como ela era, mas só se lembrava que era de cor clara, esbelta e nada má para a sua idade. Perguntava a si próprio se ela seria a secretária de Spinger e só chamara Dilman pelo primeiro nome apenas porque o conhecia já há muito tempo, ou se seria a amiga de Dilman e nada mais. Beggs achara este último pensamento tão pouco respeitador, tão comunista, especialmente para alguém no seu lugar, que o expulsara tanto quanto pudera do espírito e não ousara repetir tão frutuosa especulação, nem sequer a Gertrude.

Mas esse pensamento voltara-lhe ao espírito, num contexto dife­rente, na noite anterior, quando não conseguira adormecer e tivera aqueles sonhos ousados acerca de Ruby. Se Dilman, dissera ele a si próprio, era capaz de manejar uma rapariga - senhora - bonita e de cor, então ele, Otto Beggs, seria dez vezes mais capaz. Este senti­mento de superioridade trouxera alguma ordem à sua confusão e reforçara o seu ardor em relação a Ruby Thomas. Nem esperara pelo almoço para dizer a sua mentira a Gertrude. Dissera-lha logo, mal se sentara à mesa do pequeno-almoço.

Subitamente reparou que se encontrava em frente da Estalagem do Caminho. Tinham-se acabado os sonhos da noite anterior e igual­mente se tinham acabado os seus encontros acidentais. Estava ali, agora e hoje, porque assim o planeara. Deixara até o carro a Gertrude, fingindo-se amável e dizendo que tomaria o autocarro (porque o car­ro arrumado em frente da taberna durante tanto tempo podia ser pe­rigoso). Planeara tudo.

Entrou, passou pelas máquinas de jogar e dirigiu-se directamente para o bar.

Parou a meio do caminho. Havia três homens no bar, dois de cor e um trabalhador branco, mas nem sombra de Ruby. O seu de­sapontamento foi tão agudo como se tivesse recebido um murro.

Começara a andar em direcção ao criado do bar, Simon, que esta­va ocupado a limpar os copos, quando o esvoaçar de uma mão castanha lá ao longe lhe saltou à vista. Pôs-se em bicos dos pés, erguendo-se tanto quanto podia, e espreitou por cima da cabeça inclinada do criado do bar. A mão ficou parada no ar, e então ele pôde ver que pertencia a Ruby.

Beggs passou rapidamente por entre o bar e as mesas e cadei­ras até à divisória mais afastada da taberna. Ela estava à sua espera a um canto do compartimento escuro, percorrendo com um dedo a borda do seu copo vazio. O que o deixou perplexo não foi o facto de ela o esperar na intimidade de um compartimento, mas o não estar de uniforme branco.

Enquanto se introduzira desajeitadamente no compartimento, não conseguia tirar os olhos dela. Como a vira sempre vestida de unifor­me, nunca imaginara que qualquer outra indumentária diferente a pudesse tornar mais bonita. Nesse instante podia ver que se enga­nara, que ela adquiria uma nova dimensão. Vinha com uma blusa cor-de-rosa de chiffon, que deixava ver, quase indecorosamente, por baixo, o soutien de renda da mesma cor, que mal podia conter-lhe os seios. Tinha a cintura fortemente apertada com um cinto de flores vermelhas, sobre a saia igualmente vermelha. Estava absolutamente estonteante.

Ela sorriu-lhe afoitamente, deixando ver os dentes brancos e certos e uma covinha em cada face.

Tinha esperanças de que viesse, Otter - disse ela. (Da primeira vez que o Otto dele se transformara no Otter dela, ele sentira uma impressão lá dentro, lembrando-lhe que ele era branco e ela não, mas a intimidade do tratamento agradara-lhe logo, assim como lhe agradava agora.) - Porque - continuou ela - não queria fazer figura de parva; vim cá hoje especialmente para que você também viesse.

Ruby - disse ele. - Onde está o seu uniforme do costume?

O doutor adoeceu com gripe a noite passada e tivemos de dizer aos doentes para não virem hoje. Portanto hoje é feriado para todos nós, e aproveitei para arrumar o meu apartamento e fazer algumas compras de discos, mas pensando sempre vir até aqui, na esperan­ça de que também aparecesse.

Ele sentiu a cabeça andar-lhe à roda e as fantasias da noite ante­rior começaram a tomar forma real à luz do dia.

-       Isso foi muito simpático da sua parte, Ruby. Suponho que você saiba que eu... bem que eu tinha esperanças de a encontrar para tomarmos qualquer coisa juntos.

Assim você o tinha dito anteontem. Ele abriu as mãos.

Pois aqui estou - disse. - Já cá está há muito tempo?

Só o tempo de tomar uma bebida. Ele sentiu-se expansivo e rico.

Pois tome outra.

Também toma?

-Tenho de entrar de serviço dentro em pouco, mas... que diabo... uma cerveja nunca fez mal a ninguém. - Voltou-se, ergueu o braço e fez estalar os dedos. - Simon! Duas cervejas e também uns biscoitos.

Ela estendeu a mão para o seu casaco dobrado sobre o banco à procura de um cigarro, mas ele ofereceu-lhe um do seu maço e acen-deu-lho.

Ainda a noite passada estive a pensar em si, Otter.

Se foi algo mau, é melhor não me dizer.

Estive a pensar quanto desejo que você não se meta nessa coisa de vender propriedades. Talvez eu devesse estar calada, mas...

Não continue Ruby, por favor.

Ela fincou os cotovelos na mesa e olhou para ele.

Tenho estado a pensar que você é demasiado homem... Jesus, demasiado homem... para desistir de ser um herói e de proteger o nosso presidente, só por dinheiro. Ser um negociante rico não é mais importante do que o que você é.

Bem, não me creio assim tão importante, Ruby - de qualquer modo, obrigado -, mas penso na verdade que o emprego é realmen­te importante. Também penso, em parte, como você, só que o meu salário não se iguala ao que eu poderia obter com as propriedades.

Aposto que se lhe disser que vai deixar o lugar o Presidente Dilman lhe conseguirá rapidamente um aumento. Aposto que não o quererá perder.

Teve vontade de lhe dizer que Dilman provavelmente nem sabia da sua existência, mas não quis perder a importância que tinha aos olhos dela.

-       Talvez - concordou ele. - Você tem uma grande opinião sobre Dilman?

Começara a andar em direcção ao criado do bar, Simon, que esta­va ocupado a limpar os copos, quando o esvoaçar de uma mão castanha lá ao longe lhe saltou à vista. Pôs-se em bicos dos pés, erguendo-se tanto quanto podia, e espreitou por cima da cabeça inclinada do criado do bar. A mão ficou parada no ar, e então ele pôde ver que pertencia a Ruby.

Beggs passou rapidamente por entre o bar e as mesas e cadei­ras até à divisória mais afastada da taberna. Ela estava à sua espera a um canto do compartimento escuro, percorrendo com um dedo a borda do seu copo vazio. O que o deixou perplexo não foi o facto de ela o esperar na intimidade de um compartimento, mas o não estar de uniforme branco.

Enquanto se introduzira desajeitadamente no compartimento, não conseguia tirar os olhos dela. Como a vira sempre vestida de unifor­me, nunca imaginara que qualquer outra indumentária diferente a pudesse tornar mais bonita. Nesse instante podia ver que se enga­nara, que ela adquiria uma nova dimensão. Vinha com uma blusa cor-de-rosa de chiffon, que deixava ver, quase indecorosamente, por baixo, o soutien de renda da mesma cor, que mal podia conter-lhe os seios. Tinha a cintura fortemente apertada com um cinto de flores vermelhas, sobre a saia igualmente vermelha. Estava absolutamente estonteante.

Ela sorriu-lhe afoitamente, deixando ver os dentes brancos e certos e uma covinha em cada face.

Tinha esperanças de que viesse, Otter - disse ela. (Da primeira vez que o Otto dele se transformara no Otter dela, ele sentira uma impressão lá dentro, lembrando-lhe que ele era branco e ela não, mas a intimidade do tratamento agradara-lhe logo, assim como lhe agradava agora.) - Porque - continuou ela - não queria fazer figura de parva; vim cá hoje especialmente para que você também viesse.

Ruby - disse ele. - Onde está o seu uniforme do costume?

O doutor adoeceu com gripe a noite passada e tivemos de dizer aos doentes para não virem hoje. Portanto hoje é feriado para todos nós, e aproveitei para arrumar o meu apartamento e fazer algumas compras de discos, mas pensando sempre vir até aqui, na esperan­ça de que também aparecesse.

Ele sentiu a cabeça andar-lhe à roda e as fantasias da noite ante­rior começaram a tomar forma real à luz do dia.

-       Isso foi muito simpático da sua parte, Ruby. Suponho que você saiba que eu... bem que eu tinha esperanças de a encontrar para tomarmos qualquer coisa juntos.

Assim você o tinha dito anteontem. Ele abriu as mãos.

Pois aqui estou - disse. - Já cá está há muito tempo?

Só o tempo de tomar uma bebida. Ele sentiu-se expansivo e rico.

Pois tome outra.

Também toma?

-Tenho de entrar de serviço dentro em pouco, mas... que diabo... uma cerveja nunca fez mal a ninguém. - Voltou-se, ergueu o braço e fez estalar os dedos. - Simon! Duas cervejas e também uns biscoitos.

Ela estendeu a mão para o seu casaco dobrado sobre o banco à procura de um cigarro, mas ele ofereceu-lhe um do seu maço e acen-deu-lho.

Ainda a noite passada estive a pensar em si, Otter.

Se foi algo mau, é melhor não me dizer.

Estive a pensar quanto desejo que você não se meta nessa coisa de vender propriedades. Talvez eu devesse estar calada, mas...

Não continue Ruby, por favor.

Ela fincou os cotovelos na mesa e olhou para ele.

Tenho estado a pensar que você é demasiado homem... Jesus, demasiado homem... para desistir de ser um herói e de proteger o nosso presidente, só por dinheiro. Ser um negociante rico não é mais importante do que o que você é.

Bem, não me creio assim tão importante, Ruby - de qualquer modo, obrigado -, mas penso na verdade que o emprego é realmen­te importante. Também penso, em parte, como você, só que o meu salário não se iguala ao que eu poderia obter com as propriedades.

Aposto que se lhe disser que vai deixar o lugar o Presidente Dilman lhe conseguirá rapidamente um aumento. Aposto que não o quererá perder.

Teve vontade de lhe dizer que Dilman provavelmente nem sabia da sua existência, mas não quis perder a importância que tinha aos olhos dela.

-       Talvez - concordou ele. - Você tem uma grande opinião sobre Dilman?

Ela agitou a mão esguia e comprida.

-       Ai, Otter, eu não me preocupo muito com politiquices ou coi­sas do género. Como a minha mãe, que costumava dizer: «Querida, vive e deixa viver os outros, e não maces as pessoas com esses assun­tos profissionais.» Certamente que quero ter uma certa educação e ser esperta para que possa viver como deve ser e servir para um homem de jeito, mas não canso cá a minha cabeça com Dilman isto, Dilman aquilo. O que quero é passar o meu tempo o mais agradavel­mente possível e gozar os meus dias.

Beggs tentou avaliar o que ela dizia e perguntou a si próprio se quereria significar uma provocação da parte dela. Como não tinha a certeza, respondeu prudentemente:

-       É uma atitude inteligente, Ruby.

Vieram as bebidas, cada um bebeu a sua e depois ela disse:

-       É claro que o facto de eu não me ralar com politiquices não quer dizer que não me sinta fascinada com o seu emprego. Otter, o que fez anteontem quando saiu daqui e o que fez ontem?

Ele começou a falar, a falar sem interrupção, com excepção de um reverente «De certeza» ou de um «Não é fantástico?!» da parte dela, de vez em quando. Contou-lhe as suas actividades dos dois últimos dias. Falou-lhe dos colegas e das suas respectivas tarefas. Presenteou-a com a brilhante história do Serviço Secreto. Descreveu-lhe os escritórios da ala oeste, as pessoas e as suas vidas, e descreveu-lhe que secções da Casa Branca ele próprio já visitara, consigo sempre como fulcro dessas descrições.

Ela escutava-o apaixonadamente, bebendo e soltando exclama­ções de admiração.

O monólogo levou mais de meia hora, e quando Beggs o termi­nou sentia-se feliz e cheio de vida.

-      Meu Deus, Ruby, já deve estar farta de me ouvir. Devia ter-me feito parar.

Você é um bom professor, Otter. Estava a gostar muito de o ouvir. Ele bebeu o que restava da sua cerveja.

E você, Ruby? O que tem feito?

-       Nada, como já lhe disse, excepto que dormi esta manhã até muito tarde, para me recompor... nada, Otter...

Mas depois continuou a falar sobre a sua colecção de discos e o prazer que tivera em ir comprar alguns raros, de jazz, para juntar à sua colecção. Citou-lhe entusiasticamente nomes que ele mal conhe­cia ou que lhe eram totalmente desconhecidos, nomes místicos como Bix Beiderbecke, Joe Oliver, Fats Waller, Muggsy Spenier, Bunk Johnson. Falou-lhe acerca do/azz de Storyville, dos «St. Louis Blues» de Bessie Smits, e do arranjo com sinos do «Froggie Moore» por Oliver's Creole.

Depois de ter falado durante uns dez minutos, fez uma pausa.

-       Está a perceber, Otter? Não, não está, você não sente isto, você não é órfão dos blues. Precisa que o eduquem, Otter.

Ele engoliu.

Estou sempre pronto para isso, Ruby.

Homem, você até vai saltar quando ouvir o que eu comprei esta manhã... sabe o que foi?... um solo de piano por Jelly Roll tocan­do «As Pérolas». Tem de ouvir isso, tem de vir a minha casa ouvir o Duke Ellington e os seus Washtonians tocar «Noites de Chuva» -quando escutar, você não será mais o mesmo Otter, deixará de ser indiferente e aderirá completamente como Ruby Thomas.

Ele contivera a respiração enquanto ela falava. Depois deixou-a sair num repente.

-       Está a convidar-me para um concerto musical no seu aparta­mento, Ruby?

Os olhos em amêndoa de Ruby fixaram-no por um momento. Depois disse suavemente:

Será sempre bem-vindo, Otter. A verdade é que o meu apare­lho precisa de ser afinado, e como eu não tenho dinheiro para o man­dar consertar, e você me tinha dito que tem jeito para a mecânica...

Faço tudo o que quero com uma chave de parafusos, Ruby. Nunca mexi num gira-discos, mas aposto que ponho o seu bom em dois segundos. Levarei também umas cervejas e você poder-me-á dar a minha lição de jazz.

Ela empurrou o copo para o lado.

-       Tem muito que aprender. Quando é que quer lá ir?

Antes que ele pudesse responder, uma voz cava e sonora, vinda da esquerda, meteu-se de permeio. Virou a cabeça e viu um cliente negro, bem vestido, que entrara com um transístor na mão e se diri­gia para o bar. O som do rádio vinha no máximo, e a voz de um locutor ribombava: «deu hoje a sua primeira conferência à imprensa, na Sala do Gabinete da Casa Branca. O presidente Dilman disse muito pouco aos repórteres que eles não soubessem já. Evitou qualquer declaração directa acerca do Programa de Reabilitação das Mino­rias, mostrou-se evasivo quanto aos resultados das suas conversa­ções com o Presidente de Baraza e não fez qualquer comentário acer­ca do Projecto da Nova Lei de Sucessão. O presidente falou, porém, em recomeçar a conferência com os Russos. Foi assediado com perguntas acerca da nomeação do reverendo Paul Spinger, director da Sociedade Crispus, para investigar o electrificante rapto no Mississipi, do...».

Tão abruptamente como o noticiário da rádio o assaltara, assim o deixou de ouvir. Beggs pôde ver que Simon se inclinara sobre o balcão do bar para dizer qualquer coisa ao cliente, que então baixara o som do rádio.

Tornando a voltar-se para Ruby, Beggs reparou subitamente que tinha perdido completamente a noção das horas. O programa da rá­dio acerca da conferência de Dilman lembrou-lhe que tinha de entrar de serviço às quatro horas. Olhou para o relógio e ficou horrorizado ao ver que faltavam sete minutos para as quatro.

Ruby, que horas tem?

Cinco para as quatro.

Deus meu, tenho de ver se arranjo um táxi. - Levantou-se pre­cipitadamente e antes de sair do compartimento meteu a mão na algibeira, tirou o porta-moedas e pôs três dólares em cima da mesa. - Desculpe ter de a deixar assim, Ruby.

Ela sorriu.

-       Como já lhe disse, você tem um trabalho digno de um homem. Mas Otter, não respondeu à minha pergunta. Quando é que combi­namos para você ir visitar-me?

A pressa desapareceu dele como por encanto. Impulsivamente, inclinou-se e tocou-lhe na mão.

Assim que eu puder, Ruby. No meu primeiro dia de folga. Pode­mos encontrar-nos aqui, digamos, depois de amanhã, e combinare­mos então o dia.

Aqui estarei, Otter querido. - Ela voltou a mão, pegou-lhe nos dedos, acariciou-os e depois largou-os. - Estarei à sua espera.

Ele piscou-lhe um olho, começou a andar em direcção à porta, voltou-se uma vez para lhe acenar com a mão e depois saiu apressa­damente para a rua. Pela primeira vez, no Serviço Secreto, chegaria tarde ao emprego. Contudo estava-se nas tintas para o que Agajanian ou Gaynor pudessem dizer, ou até mesmo o que o Presidente Dilman pudesse pensar. Só lhe interessava o que Ruby Thomas lhe dissera: «Otter querido, estarei à sua espera.»

Avistando um táxi no fim do quarteirão, para lá se encaminhou cantarolando para si próprio. A rapariga dissera-lhe que o queria edu­car. Óptimo. Nada lhe calhava melhor. Atingira uma época na sua vida em que queria acção, acção e um pouco mais de sabedoria. O que quer que fosse que Dilman fizesse com aquela sua mulata, se o fazia, ele poderia fazer melhor, se quisesse.

- Para a Casa Branca, entrada da Rua da Pensilvânia - disse ao motorista. - Meio dólar de gorjeta se chegarmos lá em cinco minu­tos.

Lá ia ele outra vez rodando, rodando, Jelly Rolling, e tudo era bom mais uma vez, realmente bom.

Edna Foster e George Murdock jantaram cedo e apressada­mente no Chez François, na Avenida de Connecticut, perto da Rua H, e às cinco e meia saíram do modesto restaurante francês e dirigiram-se para a Praça Lafayette.

Aquele jantar apressado não agradara a Edna. Gostava de go­zar o tempo livre com George, quando conversavam e faziam con­fidências, e odiava todos os limites impostos aos seus jantares. Ulti­mamente estava cada vez mais sobrecarregada com trabalho, de modo que ficava frequentemente à noite para despachar o serviço para o dia seguinte. Não que o Presidente Dilman fosse mais exi­gente que O. C, pois, na verdade, ele até evitava chamá-la para lhe ditar qualquer coisa ou lhe dar qualquer trabalho especial. Não, não era por causa de Dilman, em si próprio, mas antes pela atmosfera de conflito e tensão que a sua presença criara no Escritório Oval. Parecia-lhe às vezes que a sua secretária se transformara num forte e a máquina de escrever numa metralhadora, um posto em terra estranha, tentando em vão sobreviver aos ataques de um possante inimigo.

Mais difícil ainda do que a atmosfera pesada era o problema concreto de já não ser somente a secretária pessoal do presidente. No tempo de O. C. trabalhava para ele e para mais ninguém. Com Dilman observara uma subtil mudança. Não trabalhava exclusivamente para o chefe Executivo, mas também para os seus ajudantes, o seu pessoal e aliados. Era como se uma dúzia deles não confiasse em Dilman para agir sozinho, num solo, e se introduzissem para formar um coro, para que houvesse menos probabilidades de se distinguir uma nota falsa. Edna fazia o que Dilman queria, o que era pouco, e também o que Talley, o general Faber e Eaton, para mencionar ape­nas três, queriam que fosse feito para Dilman.

Essa noite seria mais uma noite em que se ocuparia a reduzir a sobrecarga de trabalho em cima da sua secretária. Além disso, Dilman teria as suas últimas conferências com Kwame Amboko antes e de­pois do seu primeiro jantar de estado, e Flannery, os homens da rádio e os repórteres (como George) estariam por ali, no vestíbulo da im­prensa, o que não a aborrecia muito, pois estaria assim indirectamente a ajudar George.

Mas o que a perturbava, mais do que o jantar apressado, nesse momento, enquanto caminhavam de mãos dadas em direcção à pra­ça e à Casa Branca, era o humor de George. Tivesse os defeitos que tivesse - não existe ninguém perfeito, costumava dizer-lhe o pai, em­bora não custe tentar vir a sê-lo -, George Murdock estava sempre bem disposto e optimista. Era raro estar de mau humor. Quando se queixava, e geralmente fazia-o a brincar, não era por ganhar apenas cento e cinquenta dólares por semana no Sindicato dos Três Esta­dos, mas porque os doze jornais para que escrevia eram pequenos, obscuros, e portanto ninguém em Washington lia os seus artigos. Consequentemente não tinha entrada livre na Sala da Imprensa da ala oeste e não tinha lugar entre os seus colegas ou na Administra­ção. Este facto, juntamente com o ter de ser o seu próprio fotógrafo, às vezes consistia num aborrecimento para ele. A maior parte das vezes, porém, sentia-se contente com o seu trabalho, e vivia econo­micamente, tendo como extravagâncias a sua colecção de numis­mática, especialmente moedas indianas, e os presentes que com­prava a Edna.

Desde que tinham começado a sair juntos ela quisera ajudá-lo a vencer, porque instintivamente sabia que provavelmente se estava a ajudar a si própria a libertar-se de ficar solteirona e a melhorar as suas condições de vida. Embora o tivesse podido ajudar enorme­mente numerosas vezes, confiando-lhe o que os repórteres chama­vam histórias exclusivas, nunca o fizera. Segundo as suas rígidas normas, teria sido uma acção imoral e indigna. George fora sempre muito compreensivo e nunca fizera qualquer pressão sobre ela nes­se sentido. Às vezes ela desejara ardentemente confiar-lhe um segre­do umas horas ou dias antes de se tornar público, para que isso o pudesse beneficiar e o tornasse famoso. Nunca o fizera porém. A sua principal preocupação não era o facto de tal acto lhe poder custar o emprego que tanto ambicionara outrora, mas o poder fazer-lhe per­der o respeito aos olhos de George. Era claro que tinham discutido frequentemente acerca de O. C, mas normalmente apenas no que se relacionava com a sua política pública ou boatos conhecidos ou qualquer coisa que se passara no seu próprio trabalho. Contudo, desde que Dilman tomara conta do cargo este género de discussões tinha-se tornado mais raro, porque a sua intuição avisara-a de que Dilman era mais vulnerável a qualquer conversa descuidada e mais hostilizado pela imprensa.

Todavia, à sua maneira, Edna tentara ajudar George. Fizera saber a O. C. que estava noiva, que o seu namorado frequentava o vestí­bulo da ala oeste, para que O. C. desse conta da existência de George Murdock. E assim acontecera, pois em várias ocasiões George fora convidado para declarações reservadas a uma certa quantidade, seleccionada, dos veteranos da Casa Branca, e tinham-lhe pago via­gens pela Administração que de outro modo ele não poderia ter feito. Recentemente, sempre que via uma oportunidade começara também a mencionar o nome de George ao Presidente Dilman. («Se precisar de mim, Sr. Presidente, estarei a jantar com o meu noivo, George Murdock, do Sindicato dos Três Estados, na Estalagem do Portão de Ferro.») Nunca tivera a certeza se Dilman a ouvira.

Apesar de George nunca se queixar do seu pequeno salário, ela tinha a certeza de que eram as suas dificuldades económicas que o impediam de lhe falar em casamento. Com excepção da pequena quan­tia que ele conseguira colocar nalgumas acções, ela sabia que ele não ganhava o suficiente para juntar. Até que o conseguisse havia uma probabilidade mínima de ele a pedir em casamento. George deixara-a entrever uma leve esperança no horizonte distante. Dissera-lhe que tinha um tio Vítor, em Havai, rico, reformado, e com setenta e nove anos de idade. George era o seu favorito e não tinha dúvidas de que devia estar inscrito no seu testamento como herdeiro de uma considerável soma. Mas parecia que o sol de Waikiki tivera o condão de rejuvenescer o rio Vítor. Não tinha estado doente uma única vez desde que Edna começara a sair com George. Todavia era ainda uma esperança, uma possibilidade, alguma coisa.

Às vezes Edna sentia-se desesperar com a demora. Uma vez planeara para si própria ir ter com Tim Flannery, que era tão simpá­tico, e pedir-lhe que aceitasse George como assistente no Departa­mento de Imprensa. Ensaiara o pedido vezes sem conta, um pedido feito de palavras bonitas e comoventes. Quando se lhe deparou a ocasião, foi incapaz de pronunciar o seu discurso. Chegara à conclu­são de que Flannery teria de consultar O. C, e o que quer que este decidisse colocá-la-ia em má posição. Fazendo uso da sua posição confidencial.

E assim a sua vida sem rumo com George continuava na mes­ma, sem se avistar um caminho único a que fossem dar os dois cami­nhos separados das suas vidas. O pai costumava falar no caso pelo menos de dois em dois meses, nas suas cartas breves e estilizadas vindas da quinta de Milwaukee, mas ela nunca tentara explicar-lhe a situação, dizendo-lhe sempre que George e ela continuavam a ser bons amigos e subentendendo que se comportava sempre de modo a nunca comprometer ninguém da família.

De facto, a maior parte das vezes era ela e não George quem se sentia perturbada com as suas relações, aparentemente sem rumo. Tentara dar-lhe a entender, sem lho dizer abertamente, que ela era uma rapariga que precisava de muito pouco para viver e nada exi­gente. Tentara dizer-lhe que as únicas riquezas que desejava na vida eram alguém de quem gostar e uma casa decente, em que pudesse ter e educar os seus filhos. Teria ele alguma vez compreendido? Nun­ca lho mostrara. Quanto ela desejava dizer-lhe, se ao menos ele lhe desse a oportunidade, que estava pronta a mudar-se para o seu apar­tamento acanhado, pronta a continuar a trabalhar, pronta a economi­zar para terem uma família e um futuro! Era esta a sua visão prática do amanhã. Sabia que não era a dele, porém. Um homem que usava tacões para parecer mais alto, que se aborrecia com as suas man­chas de acne, que escrevia maravilhosamente mas que não era lido, um homem assim devia ser demasiado orgulhoso para ocupar um segundo lugar.

- Nessa noite - estava a escurecer, já não era dia, mas também não era ainda noite fechada - ela podia ver, pelo humor dele tão estranhamente deprimido, tão fechado e silencioso (ainda não pro­nunciara uma palavra durante todo o caminho), que até então fora o seu bom humor e vivacidade que os sustentara a ambos. Mas tal não sucedia naquele momento, naquela noite. A sua má disposição sal­tava aos olhos. Perguntava a si própria o que a causara, mas tinha medo de o saber.

Chegaram à praça. Ele largou-lhe a mão.

-       Um segundo, Edna. Acaba de sair a última edição do Citizen-American. Quero ver como o Zeke Miller trata no seu jornal a primei­ra conferência à imprensa do teu patrão.

Ela esperou enquanto ele se dirigia ao rapaz dos jornais. Gosta­va de observar George quando este estava afastado dela. O seu cabelo fino e louro estava sempre bem penteado, o seu nariz pontiagudo e o queixo recuado davam-lhe um ar intelectual - o que ele era - e o casaco de tweed, embora não fosse exactamente da última moda, conferia-lhe o aspecto do melhor da Fleet Street.

Ele regressou para junto dela com o jornal aberto, os olhos cinzentos percorrendo rapidamente as folhas de um lado ao outro, e depois de cima a baixo. Ela lembrou-se que ele era extremamente rápido a ler. Ouviu-o dar um estalo com a língua.

O que é, George? - perguntou ela.

O congressista Miller está a pôr as suas armas pesadas à vista - disse ele. - Olha só para os títulos do artigo de Reb Blaser.

Ele colocou-lhe a primeira página diante dos olhos, comparti­lhando o jornal com ela, uma intimidade que ela apreciou nessa noite. Ela tencionava apenas passar os olhos pela primeira página, pois esse género de notícias estava muito longe do seu espírito nessa altura, mas o título atraiu-lhe imediatamente a atenção.

Na primeira linha do título lia-se:

É a Casa Branca realmente preta?

Na segunda lia-se:

Dilman começou uma nova administração de cor.

Nas três linhas por cima do artigo de Reb Blaser lia-se:

O PRESIDENTE DESAFIA O PROCURADOR-GERAL

RECUSA AGIR CONTRA OS RAPTORES

TERRORISTAS DO JUIZ GAGE

NOMEIA O AMIGO NEGRO SPINGER PARA «INVESTIGAR»»

Os olhos de Edna percorreram os três parágrafos do artigo de Blaser. Blaser soubera de uma fonte «próxima do presidente» que o procurador-geral Clay Kemmler pedira a Dilman que banisse o grupo negro dos Turnerites, por estar por detrás do rapto do Mississipi e por ser sustentado pelos fundos do Partido Comunista. Aparente­mente o presidente rejeitara tal conselho, baseado em «factos bem conhecidos», e dera o primeiro passo para reduzir o brilhante Gabi­nete de O. C. ao «Gabinete do Tio Tom». Dilman nomeara o reveren­do Paul Spinger, um apologista negro, para sustentar a sua posição como «ficção» acerca dos raptores de cor. A mão preta de Dilman mostrara-se hoje, e estava a decorar a primeira e mais nobre casa da Nação com a sua própria tinta preta. O presidente não só menospre­zara o seu alto cargo e violara a confiança da Nação, ao tentar lidar com um conhecido criminoso subversivo como Jefferson Hurley, mas estava a lidar também «suavemente» com um colega africano, Kwame Amboko, e a arriscar a nossa coexistência pacífica com a Rússia; recusava apoiar aberta e totalmente o projecto das minorias de O. C., projecto esse que faria com que os negros pudessem «conseguir os seus direitos de cidadãos» em vez de cometerem crimes para atingi­rem esse fim, e mostrava-se «relutante» em assinar o Projecto da Nova Lei de Sucessão, que se encontrava na sua secretária, e que assegu­raria a cada americano que a mansão executiva permaneceria como o Presidente Washington a quisera e como o Presidente John Adams a conhecera.

Os olhos de Edna deslizaram até ao fim da história. Leu: «Hoje à noite, o presidente Dilman presidirá ao seu primeiro jantar de estado formal, exactamente na mesma sala em que está gravada a oração do presidente Adams: 'Peço aos Céus que abençoem esta casa e todos os que daqui em diante nela habitem. Que os Céus permitam que só homens honestos e sábios governem sob este tecto.' Pobre Adams! Esta noite o Presidente Dilman sentar-se-á de costas para esta oração, tendo como seu primeiro convidado de honra na nossa casa um africano que brinca com as nossas vidas. Como um conhe­cido congressista notou, «Nós, os da Colina, estamos preocupados por termos um Andrew Johnson preto na Casa Branca, alguém que não tem consideração pelos outros ramos do governo ou pelos de­sejos da maioria de todos os americanos decentes. Temos graves apreensões quanto ao futuro. Se os restantes dias do mandato de um ano e cinco meses de Dilman forem como o de hoje, então, para nossa desgraça, a América terá sido empurrada para uma época de infâmia que virá a ser conhecida como a sua Idade das Trevas!»

Edna Foster sentiu-se admirada com a violência da sua própria indignação, quando acabou de ler o artigo.

-       Que ousadia. Leste isto? Como «um conhecido congressista notou» - designando quem? Zeke Miller, está-se mesmo a ver!

George Murdock afastou o jornal e dobrou-o cuidadosamente:

-       Suponho que se trata de Miller, na realidade. Afinal, o jornal é uma brincadeira sua... mas há dúzias de outros que diriam o mesmo.

Edna não conseguiu dominar o tremor de protesto na sua voz.

-       Mas é terrível, é terrível, George. Tenho lido coisas más – o presidente insiste em ler tudo - mas isto, o de pintar a Casa Branca de preto, o criar um Gabinete do Tio Tom, é... é uma injúria indecen­te. Quem a escreveu devia ser processado. George, gostaria que não tornasses a comprar este jornal.

Ele pegara no braço de Edna, e quando a rua ficou desimpedida de tráfego, fê-la atravessar e entrar no Parque Lafayette. Ao passa­rem junto da estátua de Koxiusko, ele disse:

Discordo também disto, tanto como tu, Edna, bem o sabes. Mas que diabo, não posso dizer que culpo o Reb Blaser. Ele faz o que lhe mandam. Tem uma tarefa a cumprir, como todos nós. Posso, porém, dizer uma coisa, é que ele é um óptimo escritor.

Então por que não escreve para alguém decente? Penso que ele não tem qualquer desculpa...

Edna, sê razoável - implorou George Murdock. - Nós, os jorna­listas, tentamos ser verdadeiros e honestos à nossa maneira. O Blaser tem de ceder um pouco e o mesmo sucede comigo. Julgas que eu gosto de lançar os meus artigos como os lanço, apenas porque o meu patrão e as audiências são umas cabeças ocas conservadoras? E con­tudo tenho de o fazer. Tenho também a certeza de que tu não gostas de trabalhar à noite, fora das horas de trabalho. Todavia, tens de o fazer. Achas que o Dilman gosta mais de ler jornais como este do que eu? Não, mas tem de os ler, assim como eu tenho de os ler, para saber­mos o que se passa. O país é composto por muitas espécies de pes­soas, Edna, e temos de adaptar-nos a todas elas.

Pois bem, não me adaptarei a elas, se o puder evitar - disse Edna. A sua ira já era menor ao chegarem ao centro do parque.

A objectividade e o bom senso de George tinham sempre o poder de a acalmar, como lhe sucedia quando entrava no Parque Lafayette. Até mesmo enquanto escutara o que George lhe dizia, estivera sempre percorrendo com os olhos os troncos das árvores, para lá da relva artificialmente iluminada, à procura dos esquilos castanhos, dos par­dais e dos pombos, cuja vista tanto prazer lhe dava. Recordavam-lhe a quinta de Wisconsin e a sua infância, despovoada de conflitos e cheia de sonhos cor-de-rosa. Por fim avistou dois esquilos, um trepando pelo tronco nodoso de uma árvore, o outro seguindo-o, e sentiu-se ainda melhor. - Pobre presidente - disse. - Já estou a imaginá-lo a abrir o jornal amanhã de manhã ou antes do almoço. Tento sempre não o ver nessas ocasiões. Não suporto a... a expressão do seu rosto...

Como é?

Como é? Fica com o rosto semelhante ao daqueles negros a quem batem, no Sul: depois de terem afastado os cães, rodeiam-nos e dão-lhes pontapés... Lembro-me de uma série de fotografias de um de­les deitado no chão, a darem-lhe pontapés. A sua primeira expres­são de uma espécie de choque eléctrico, depois de dor, mas não dei­xando que eles a vissem, finalmente uma expressão de resignação, não deixando transparecer o sofrimento interno para não lhes con­ceder essa satisfação. É assim que fica o rosto do presidente quan­do lê os jornais. Não mostra muito o que lhe vai lá dentro. Mas detestava vê-lo ao raio X nesse momento.

George Murdock coçou uma face e depois a outra.

Acho que só podemos desejar que o teu patrão seja rijo por dentro, Edna. Esta vilania é apenas o princípio. Qualquer presidente é um alvo. Ele pediu o lugar e tem de se preparar...

O Presidente Dilman não pediu o lugar.

Pediu quando concorreu para o Senado, e pediu quando acei­tou ser presidente interino do Senado. Dilman é ainda um alvo maior do que os outros porque é preto sobre o branco e não é fácil de falhar. Tudo o que ele fizer será julgado não só pela sua sabedoria, mas pelo que significará vindo da parte de um negro. São as realidades da vida, Edna. Cada dia que passar ser-lhe-á mais penoso.

Ela olhou para George e pela primeira vez o sentido prático des­te não a acalmou.

Achas que sim?

Sem dúvida.

Ela preparou-se resolutamente para dizer o que formara no seu espírito.

-       Se for assim, George, então bem... talvez ele possa aguentar, mas eu não. Deixo o emprego.

Ele ficou tão espantado que parou de repente para olhar para ela, para avaliar até que ponto ela estava a falar a sério. A expressão preocupada do seu rosto convenceu-o. Pegou-lhe num braço.

Vem cá, por um minuto - disse ele. Conduziu-a até ao último banco, antes da Avenida da Pensilvânia. Depois de se terem sentado, disse: - Edna, pensava que essa questão de deixares o emprego já estava resolvida desde o primeiro dia, quando seguiste o meu con­selho e decidiste não pedir a demissão.

A questão nunca ficou completamente resolvida, George. Nes­se primeiro dia tomei a resolução de ficar porque tu me convenceste que ele precisava de ajuda e porque... tu bem o sabes... tive muita pena dele. Mas estou demasiado perto do que se passa e não o posso suportar. Como te poderei explicar?

Ela apertou as mãos uma de encontro à outra e olhou para o chão.

-       Já estou farta desta tensão mental, George. A posição já é suficien­temente dura, mesmo sem ele. Vou ser franca contigo. Não é que eu sofra todos os dias com ele, que sofra quando o fazem sofrer, como sucedia com O. C. Não. Sou... sou tão liberal como qualquer outra pes­soa, mas de qualquer maneira não me consigo identificar com ele do mesmo modo. Ele é tão diferente de mim. Sei que é horrível dizer isto, mas acho que a culpa é da cor dele, do seu passado, tão diferente do que tenho conhecido até aqui. Posso porém compreendê-lo. Portanto encontro-me fora dele, mas tenho de estar ali. É como uma tourada – ter de ir a uma tourada e estar a ver. Ele é o touro, praticamente indefeso, sem poder fazer nada, e os homens com as bandarilhas e os picadores com as lanças picam-no até lhe fazerem sangue, acirrando-o e magoando-o até ele estar cada vez mais fraco e depois vem o matador e final­mente enterra-lhe a espada no pescoço. Se eu tenho de estar perto a ver o que se passa, talvez não sinta em mim o que o touro sente, mas posso odiar o que vejo, toda aquela tortura antes de o matarem e o levarem dali para fora. Posso sentir-me revoltada e doente com tal es­pectáculo. Pois é o que sinto, George, quando estou naqueles escritóri­os com Dilman. Não posso suportar mais aquilo. Odeio só a ideia de ter de o ver amanhã.

George Murdock apertou-lhe a mão.

Edna, ele só tem de ocupar o cargo durante um ano e quatro meses. Certamente...

Quantos dias é isso? Quatrocentos, quatrocentos e oitenta ou mais? São quatrocentas e oitenta touradas. Não, George. Ele pode arran­jar outra pessoa que o ajude agora. Já está adaptado ao lugar. E eu poderei arranjar um emprego melhor, sem agonia, dactilografando para alguém que não tenha de se preocupar com mais nada além do volu­me das vendas ou dos competidores a vencer.

Não aguentarias um emprego desses depois de todos estes anos. Murcharias como uma flor sem água.

Edna Foster estremeceu. A palavra murchar fazia-a pensar em solteirona. Talvez essa fosse a ocasião de o experimentar também sobre esse assunto.

Poderia então fazer algo de mais interessante. Não to disse na altura, mas Hesper deu-me subtilmente a entender que se eu quises­se podia ir para Phoenix ajudá-la a ela e a Miss Laurel a tratar dos papéis e documentos de O. C. e da correspondência dela própria. Ela é...

Edna, isso não, não me podes deixar agora.

Ela olhou-o nos olhos, que se mostravam genuinamente ansio­sos, e sentiu uma onda de alívio.

George, isso é muito gentil da tua parte, mas...

Estou a falar a sério - disse ele, quase desesperado. - Não tenho o direito de te pedir que faças algo por mim. Sei isso perfeita­mente. Mas bem sabes que se não te tenho falado mais... mais seria­mente... acerca do futuro... é porque tenho estado a tentar firmar a minha posição, a melhorá-la.

Ela sabia que podia haver um momento de verdade, longe de todas as touradas.

-       George - disse ela com firmeza -, a meu ver acho que já tens uma posição suficientemente boa.

Nunca fora tão eloquente acerca dos seus desejos quanto ao futuro, e esperou a resposta dele com impaciência. Ele suspirou.

-       Talvez - disse ele. - Suponho que sempre desejei alcançar um ponto demasiado alto. Sabes bem o que sinto em relação a ti. Nada é demasiado bom parati. Talvez eu tenha querido de mais. Esta noite, se as coisas estivessem no pé em que estavam ontem... é provável que eu te dissesse mais do que te estou a dizer. Mas esta noite não posso, Edna. Apanhei hoje dois valentes murros, e estou muito perturbado cá por dentro.

Ela voltou-se de frente para ele. Ela sabia que algo de mau tinha acontecido. Por que não tentara saber qual a causa do seu mau humor logo desde o princípio?

Já suspeitara que tivesses alguma preocupação - disse ela. -Conta-me o que se passa, George. Talvez eu te possa ajudar.

Em primeiro lugar recebi esta manhã um telegrama de Honolulu. O senil patife do tio Vítor casou-se. Podes compreender isto? Depois de vinte anos de viuvez? Foi pescado por uma dama qualquer da sociedade da ilha. E casa-se com setenta e nove anos. Nunca pensei que o velho patife fosse tão doido. Bem, lá se desfez o sonho... adeus, sobrinho George. Aposto que neste momento já estão a elaborar o novo testamento.

George, por Deus, ainda estavas agarrado a esse castelo no ar? Eu nunca lhe dei a mínima importância.

Bem, não sei se contava com isto ou não. Mas de qualquer modo era sempre algo em que se podia pensar. Agora acabou--se. - Ficou um momento hesitante. - Esse não é o ponto capital, porém. Aconteceu uma coisa ainda pior.

O quê?

Ele passou as pontas dos dedos pelas faces ásperas.

-       Edna, perdi hoje três jornais. Eles... eles despediram-me. Tanto quanto pude perceber, não estou suficientemente «dentro». Viraram-se para os grandes serviços telegráficos em vez de manterem os seus próprios correspondentes. Pensam que os grandes, exclusivos ou não, estão mais perto lá de dentro.

Ela sentiu-se fraca, indefesa e ligeiramente culpada por ele não estar dentro.

Ficas ainda com nove jornais.

Por agora - disse ele - e com um salário reduzido.

Não percebo, George. Sei que ganharás menos, mas...

As unhas de George Murdock fincaram-se no banco, entre os joelhos.

-       O tom de toda a carta de Weidner- disse ele. - Há uma altura em que não se pode voltar para trás com os Três Estados. Se perco outro jornal, estou falido. Contratarão outro jornalista. Na realidade, se não conseguirem vender os meus artigos a outros é provável que esteja falido na mesma. Nem precisarei de ler nas entrelinhas. Ele escreveu: «Se não levanta essa coluna diária, se não aparece com alguma coisa quente em vez dessas coisas mornas e requentadas que escreve, teremos de passar em revista toda a situação. Não pos­so perceber por que não se está a sair melhor.» Depois diz algo sujo. - George Murdock olhou de soslaio para Edna com um ar preocupa­do. - Não sei se deva dizer-to.

Diz-mo, vá, diz-me tudo.

Ele escreveu: «Não posso perceber por que não se está a sair melhor. Afinal você namora a secretária pessoal de dois presidentes. Quem poderá ter uma melhor via de acesso para a Casa Branca, especialmente hoje em dia?» Raios o partam. Estás a ver?

Ela sentiu-se mal.

Oh, George, como pôde ele escrever uma coisa dessas!

Mas escreveu... Digo-te uma coisa, a minha vontade era des-pedir-me. Ora, aqui estamos nós a falar em demissões, quando isso é tudo o que tenho no espírito. A ousadia daquele patife, pensar, por um minuto sequer, que eu ousaria arriscar o respeito da única mulher decente que conheci em toda a minha vida para alcançar triunfos pessoais.

Ela quis agradecer-lhe a sua compreensão e amabilidade, mas foi retida por uma pesada âncora de fracasso, presa a uma corda de culpa.

Talvez eu devesse ter-te ajudado, George...

Edna, pára com isso. Tu não tens culpa nenhuma do que sucedeu.

O que quero dizer é que tu tens sido sempre tão maravilhoso, sabendo das minhas responsabilidades, o que a minha posição acarre­ta, e nunca te mostraste curioso. Portanto, talvez eu também tenha um pouco de culpa, George. Talvez tenha agido para nosso detrimento.

Esquece isso. Nem quero discutir tal facto.

És tão bom, George. As fugas de notícias existem, é preciso encarar tal coisa. Acontece todos os dias. Essa notícia do Blaser, que acabámos de ler. Kemmler e o presidente tiveram hoje uma discussão por causa do rapto. Mas foi secreta. Como é que o Blaser descobriu? Alguém lhe deve ter passado a notícia.

Podes apostar sobre a tua vida. Foi alguém lá do Ministério da Justiça. Até talvez o próprio Kemmler. Eles querem sempre fazer figu­ra, que falem deles. Todos os grandes correspondentes da impren­sa têm contactos com o interior, que eles utilizam e por quem são utilizados.

Com excepção de ti, por minha causa! - exclamou Edna. Resol­veu imediatamente o que devia fazer e disse-o: - Não te quero pena­lizado apenas porque me namoras. Vou andar com os olhos e os ouvidos bem abertos e se houver alguma coisa que... que não ponha em perigo a segurança... que eu saiba que, de qualquer modo, será transmitida antes... dir-te-ei primeiro. Prometo-te, George.

Já te disse... esquece isso - disse ele de mau modo. - Os Três Estados não são o único sindicato que existe. Procurarei outro. Cá nos arranjaremos. - Levantou-se. - Vamos, é melhor irmos andando.

Ela ergueu-se lentamente.

George - disse -, acho que vou manter o meu lugar na tourada.

Por minha causa, não - respondeu ele. - Não o faças por mim.

Por nossa causa - disse ela. - Quero-o fazer por nós.

Ele distendeu os lábios finos num sorriso, colocou o braço dela no dele e impeliu-a para a Avenida da Pensilvânia.

-       Isso é diferente - disse ele. - Fico muito contente com isso. Havemos de conseguir alguma coisa, os dois juntos.

Atravessaram, calados, a Avenida da Pensilvânia e entraram pelo portão aberto do jardim da Casa Branca, mostrando automaticamen­te os passes e cumprimentando os guardas da polícia, agora muito mais numerosos por causa do jantar de estado.

Ao chegarem ao vestíbulo da ala oeste, ouviram alguém correndo atrás deles. Edna olhou por cima do ombro e fez uma careta. Reb Blaser, esforçando as pernas atarracadas, chegara ao pé deles, com um sorriso na sua cara de rã.

Olá, Edna... George, meu velho... - disse arrastadamente. -Como vão os pombinhos? - Não esperou pela resposta, mas fez um gesto em direcção à entrada principal da Casa Branca, toda ilumina­da. - Parece que vai ser uma noite de arromba, hem?

Para pintar a Casa Branca de preto - disse Edna com indigna­ção.

Ora, o que é isso, Edna - disse Blaser, sorrindo sempre. - Te­nho um trabalho a fazer, é tudo. Na realidade, a maior parte do que escrevi até pode ser verdade, embora eu admita ter aumentado um pouco a coisa. Mas é o que Zeke quer. Não culpem ninguém por ser fiel ao patrão.

Antes que Edna pudessa responder, George Murdock disse apressadamente:

-       Foi um pouco duro, Reb, como você confessou, mas isso que disse do desacordo de Kemmler e Dilman é alguma coisa. Onde a conseguiu?

Blaser piscou um olho.

Conexões, George. É o que resulta de se ser escravo de um grande congressista. - Tinham chegado à porta da ala oeste e então pararam os três. - A propósito, George, o meu congressista mencio-nou-me o seu nome anteontem. Era para lho dizer mas esqueci-me.

O Zeke Miller pronunciou o meu nome? - perguntou George Murdock prudentemente.

Nem mais nem menos. Parece que um dos seus patrões lhe mandou uma cópia do artigo que você escreveu sobre o discurso do Miller acerca dos subsídios nas quintas. E ele gostou dele, gostou mesmo muito dele. «É um rapaz esperto, este Murdock, disse-me ele. Tem faro para as notícias. Trágamo-lo debaixo de olho.»

Isso foi simpático da parte de Miller - disse George Murdock.

Oh, ele não é tão mau como o pintam - disse Reb Blaser. -Diabos, ele é um homem de negócios de sucesso no Sul, e sabe bem de onde lhe sopra o vento. Sim senhor, ele tem uma boa impres­são de si, George.

Edna desviou o olhar do rosto repugnante de Blaser para o de George e não lhe agradou o modo como este engolia aquela lisonja melada, saboreando-a e gozando-a.

Disse rapidamente, ignorando Blaser:

Boa noite, George. Não trabalhes de mais. Até amanhã.

Sim... boa noite, Edna. Depois telefono-te.

Ela encaminhou-se para o vestíbulo, mas ao chegar à porta, vol-tando-se para deixar passar um correspondente, avistou George e Reb Blaser mais uma vez. A rã continuava a coaxar e George conti­nuava a escutar, ávido, deferente e contente. Por uns momentos de­sejou que George não estivesse ali, que fosse mais do que era, mas então viu que estava a ser injusta. Fora um dia mau para George e também para ela própria.

Precisava de fazer alguma coisa por ele. Mas o quê? Infeliz, entrou no vestíbulo para retomar o seu assento na «tou­rada».

A única emoção que Douglass Dilman sentiu ao colocarem-lhe à frente o prato da sobremesa foi uma profunda mortificação. Já sus­peitara o que estava a suceder, no princípio, quando ele e Kwame Amboko tinham recebido os hóspedes, de pé diante da parede da Sala Este, ele desconfortavelmente metido no seu já velho fato de cerimónia, com uma gravata branca nova, Amboko parecendo à von­tade, com o seu chapéu de seda às riscas azuis e brancas e com a sua capa a condizer sobre o fato. Dilman suspeitara que havia algo errado, pois tinham chegado ao fim demasiado depressa. Tenciona­ra chamar Sally Watson de parte e perguntar-lhe directamente o que se passava, mas ela estivera sempre ocupada, vendo-se por todo o lado o seu cabelo louro artisticamente apanhado, os seus ombros nus e o seu fato de noite comprido de cetim branco, e não consegui­ra chamar-lhe a atenção.

A sua suspeita interior só lhe fora totalmente confirmada quando chegara à enorme sala de jantar de Estado e tomara o seu lugar na cadeira dourada Queen Anne à cabeceira da grande mesa em for­ma de ferradura, com Kwame Amboko ao seu lado e a irmã mais velha deste do outro lado, e os hóspedes se sentaram à mesa princi­pal e nas quatro mesas mais pequenas perto da Sala Vermelha.

Assim que os convidados se tinham sentado, antes de os cria­dos terem invadido a sala de jantar, vindo da copa escondida por detrás do biombo chinês, Dilman soubera logo a verdade. Sally Watson comunicara-lhe nessa manhã que, dos cento e quatro convi­tes enviados, noventa e seis tinham sido aceites. O plano dos luga­res, que lhe fora mostrado por lllingsworth antes de se ter vestido, designava cinquenta e seis convidados para as três secções da mesa principal e quarenta distribuídos pelas quatro mesas mais pequenas. Noventa e seis convidados ao todo. E quando estes se sentaram, Dilman lembrou-se - quase que o esquecera com a excitação - que não era o comandante-chefe de Washington, mas apenas a humilde ordenança de O. C.

A humilhação invadira cada poro do seu ser: vergonha exposta perante o seu convidado de honra e a comitiva da África, perante a sua família oficial, perante os criados da Casa Branca. Fora testemu­nha de uma cena semelhante, duas vezes na sua vida, como espec­tador, quando vira o velho filme Sfe//a Dallas, na televisão, e quando vira o filme mudo The Gold Rush, com o patético Charlie Chaplin. De ambas as vezes ficara comovido porque, como negro, compreen­dera. Agora observava a mesma cena pela terceira vez, não como testemunha, mas como participante e objecto solitário desse dilacerante ostracismo.

Parecia que uma cadeira em cada duas da mesa, em forma de ferradura, estava vazia. As quatro mesas mais pequenas troçavam dele, com as suas vagas escancaradas. Noventa e seis convidados importantes tinham aceitado o convite para o seu primeiro jantar de estado. Não tinham aparecido mais de cinquenta. Para todos os efei­tos, Presidente dos Estados Unidos ou não, era ainda segregado, e a casa em que vivia era-o igualmente. Desse momento em diante, a noite protocolar tornara-se para ele num embaraço a ser tolerado e num pesadelo a ser vivido. Não se lembrava agora de um único prato que tivesse comido ou de qualquer coisa que Amboko lhe tivesse dito ou que ele tivesse respondido a Amboko.

Enterrando a colher na sobremesa, um gelado cuja forma era uma miniatura da Casa Branca, ergueu a cabeça, uma das poucas vezes em que o fizera durante o jantar, e os seus olhos deslizaram rapidamente pela sala. Queria ter a certeza de que não tinha sido ultra-sensível e se enganara, queria ter a certeza de que os lugares tinham estado todos ocupados. Mas eles ali estavam. Nada mudara. Mais de quarenta lugares estavam vazios.

O seu olhar passou por Nat Abrahams, depois voltou atrás e fixou-se no amigo. Nat, ajustando o laço, ergueu ligeiramente os dedos na sua direcção, numa comunicação secreta de compreen­são e apoio. O olhar furtivo de Dilman moveu-se para Rose e Paul Spinger e para o lugar vazio junto deles. Também isso era desolador, mas de um modo diferente. Wanda expusera claramente as suas condições. Viria à Casa Branca não como sua empregada, não como convidada de outra pessoa, mas apenas como sua própria convi­dada.

Lembrava-se que os Spinger tinham sido os últimos a chegar, Rose, obviamente atrapalhada, o marido preocupado. A linha de re­cepção já se quebrara e Dilman começara a falar com Amboko mais uma vez sobre assuntos diplomáticos, quando vira os Spinger e, pedindo desculpa, fora ao seu encontro.

Dirigira-se a Rose, procurando com os olhos alguém por detrás dela.

Seja bem-vinda, Rose. Onde está a Wanda?

Ela recusou, Doug. Ralhei com ela, mas... - Rose Spinger en­colhera os ombros. - Ela disse que você compreenderia.

O reverendo Spinger viera juntar-se a eles. Dilman inspecciona­ra o rosto do clérigo, procurando ler nele se lhe trazia alguma boa notícia, mas vira logo que nada havia digno de optimismo.

Recebi à bocado a sua mensagem, Paul - dissera Dilman. -Estava ainda à espera que Hurley lhe telefonasse. Pensei que a esta hora fosse a caminho, ao encontro dele. Que aconteceu?

Estaria a caminho se soubesse ao menos para onde - res­pondera Spinger tristemente. - Consegui apenas apanhar o Frank Valetti em Little Rock. Foi preciso usar de muitas artimanhas para descobrir onde ele se encontrava... e foi preciso uma dúzia de tele­fonemas para conseguir que ele me telefonasse. - Spinger olhara à sua volta para se certificar de que ninguém estava a escutar o que ele dizia e depois continuara mais baixo: - Tornei claro a Valetti que o estava a representar pessoalmente, mas ele já o sabia pelas de­clarações da rádio e da televisão. Disse-lhe que precisava de falar com Jefferson Hurley. Disse-lhe que iria ter com Hurley a qualquer sítio que ele quisesse, e sob quaisquer condições. Não valeu de nada. Valetti insistiu sempre que Hurley estava fora, numa viagem, e que não esperava receber notícias suas pelo menos durante os próximos dois ou três dias.

E quanto ao próprio Valletti? - perguntara Dilman. - Disse-lhe que então falaria com ele?

Disse... claro está que disse, Sr. Presidente. Disse-lhe que, já que ele era o subchefe do Grupo dos Tumentes, então talvez pudesse resolver o assunto tão bem como o Hurley. Disse-lhe que poderia ir esta noite ter com ele a Little Rock para conferenciarmos. - Spinger fizera uma pausa e abanara a cabeça. - Mostrou-se evasivo e... e como que desconfiado. Manteve-se firme em que só o Hurley podia falar pelo grupo e que Hurley não estava disponível. Insisti em que havia algumas perguntas a que ele podia responder. Respondeu-me positi­vamente que não, que não queria ser procurado e aborrecido pela imprensa e pelos investigadores federais, que só o perseguiriam sem quaiquer boa causa e que a minha ida lá só serviria para pôr toda a gente na sua peugada. Além disso, dissera ele, estava prestes a sair da cidade. Em resumo, pude ver que não havia qualquer esperança... Dilman, tomando consciência do tempo que estava a gastar lon­ge do seu convidado de honra, lançara rapidamente:

Paul, conseguiu saber alguma coisa dele?

Não havia mais nenhuma alternativa a tomar senão fazer as perguntas a Valetti pelo telefone. Disse-lhe que o Sr. Presidente ficara muito perturbado com o rapto de Hattiesburg. Disse-lhe que tanto o senhor como o procurador-geral queriam ter a certeza de que os Turnerites não tinham tomado parte nesse hediondo crime e que, se não tinham, beneficiaria muito a causa deles se Hurley condenasse publicamente tais actos de violência. Lembrei-lhe que o Ministério da Justiça estava a investigar os Turnerites assim como outras associa­ções semelhantes, por causa de possíveis filiações comunistas, e que eles evitariam qualquer acção repressiva da parte do Governo vindo voluntariamente ao Ministério da Justiça apresentar os registos dos membros e o livro de contas. Implorei-lhe que cooperasse. Pedi-lhe que fizesse com que Jefferson Hurley cooperasse. Pedi-lhe que... -Spinger parou, engoliu e olhou para os sapatos.

E que respondeu ele a isso, Paul?

Uma palavra, Sr. Presidente. Uma palavra crua de cinco letras. Não a posso repetir. Depois... depois desligou.

Dilman franzira a testa.

E foi tudo?

Foi tudo, Sr. Presidente. Tenho pena de ter sido mal sucedido, mas fiz tudo o que podia. Eles são um grupo mesquinho e fechado. Algures na nossa conversa, já perto do fim, deixei uma porta aberta. Disse a Valetti que ele ou o Hurley me poderiam telefonar a qualquer hora, em qualquer altura, se tivessem alguma mensagem para si.

Eles não telefonarão - disse Dilman. - Que pensa agora de tudo isto? Acha que os Turnerites sempre tomaram parte no rapto?

Não sabemos nada mais do que sabíamos esta manhã. Talvez sim, talvez não. Enquanto existirem estas dúvidas não vejo como os possa condenar.

Nem eu... Bem, Tim Flannery está lá em baixo, no seu escritó­rio, à espera de poder fazer alguma declaração. Quando tiver uma oportunidade, escape-se e telefone-lhe do hall de entrada. Diga-lhe o que me disse a mim e ainda que eu sugiro uma declaração que não obrigue a nada. Qualquer coisa como... que entrou em contacto com um alto oficial tumerite, que as conversações prosseguem - o grupo admite não ter sido cúmplice no caso de Hattiesburg - e entretanto o Departamento Federal de Investigação está a ser reforçado com mais homem para perseguirem os criminosos. Percebeu, Paul?

Sim, Sr. Presidente.

Agora acho melhor eu voltar para junto de Amboko. Mostra-se tão desejoso de cooperar como o Valetti. Mas que noite!

Recordou aquele fracasso, enquanto observava os Spinger do outro lado da sala de jantar de estado. Distraidamente, acabou de comer a sobremesa. O seu olhar desviou-se dos seus amigos para o lustre rebrilhante de lâmpadas em forma de chama, depois para bai­xo, para os centros das mesas cheios de flores, e finalmente para o prato vazio sobre a toalha branca de linho à sua frente.

Tinha esperança de que o seu rosto não revelasse a sua vergo­nha perante a censura em massa dos lugares vazios. Ele continuava a ser o parente de feições grotescas de orangotango, um dos niggers de Zeke Miller, que nem chegava a ser um cidadão de segunda clas­se. Não se podia impedir de ter consciência do retrato a óleo por cima do fogão de sala de mármore branco, mesmo por detrás de si: Abraham Lincoln. Seria que alguém, além dele próprio, Kwame Amboko, por exemplo, apreciaria a ironia de tal facto?

Olhou de soslaio para o seu hóspede e reparou que Amboko o observava pensativamente por detrás dos seus óculos sem aros.

Uma refeição maravilhosa - disse Amboko no seu acento de Harvard. - É uma pena que já tenha acabado.

Tem de cá voltar em breve, para outra - disse Dilman. Depois acrescentou - Convidá-lo-ei, se ainda cá estiver. - A uma ponta da mesa avistou um guardanapo erguido. Era o chefe do protocolo, lllingsworth, fingindo que limpava a boca mas, na verdade, fazendo--Ihe sinal que o jantar terminara e que havia mais uma formalidade antes do champanhe e dos divertimentos.

Mais uma formalidade... e então lembrou-se. Dilman empurrou rapidamente a cadeira para trás e levantou-se. O ruído dos talheres e das conversas cessou imediatamente. Todos os olhos na sala meio cheia se fixaram nele.

Dilman pegou na sua taça de champanhe e segurou-a, com mão pouco firme, diante de si:

-       Senhoras e senhores, quero brindar - anunciou ele - em nome do povo dos Estados Unidos à saúde e prosperidade do Presidente de Baraza, Kwame Amboko, e do povo da sua república livre.

Por toda a sala ouviram-se tilintar copos, associando-se a assembleia ao brinde oficial.

Dilman tornou a sentar-se, desajeitadamente, entornando um pouco de champanhe na toalha. Viu que Amboko estava já de pé, bebendo o seu champanhe e articulando na sua voz elegante:

-       Ao Presidente dos Estados Unidos da América e à república que ele representa retribuo os votos de boa saúde e prosperidade e - voltou-se de lado, erguendo a taça em direcção ao retrato de Lincoln - parafraseando a bênção e esperanças do nosso eman­cipador, que as nossas nações, com a ajuda de Deus, possam gozar de um novo nascimento de liberdade, para que o governo do povo, pelo povo e para o povo nunca desapareça da terra.

Dilman bebeu como toda a gente, e o champanhe pareceu-lhe curiosamente insípido. Tentara Amboko recordar aos brancos que se encontravam na sala que não só o seu primitivo país devia continuar a possuir a liberdade, com a ajuda da América, mas que a vasta América precisava de rever as suas próprias atitudes perante a liber­dade? Ou teria sido um mero discurso formal, dito apenas com os lábios a outro presidente?

Os brindes continuaram, da parte do ministro de Estado, Eaton, da parte do ministro da Defesa, Steinbrenner, que por sua vez eram retribuídos pelo ministro dos Negócios Estrangeiros de Baraza e pelo embaixador de Baraza, Wamba. Dilman respondia automaticamente a cada um, bebendo o insípido champanhe.

Por fim, os brindes terminaram. Levantou-se juntamente com Amboko e ambos observaram os convidados erguerem-se da mesa, as mulheres nos seus fatos compridos, sendo conduzidas pelos seus pares para a Sala Vermelha, para a Sala Azul e para a Sala Verde, para beberem mais champanhe.

De novo Dilman deu por Amboko a observá-lo. Sentiu-se cansa­do de todas as formalidades e do protocolo.

-       Bem, presidente Amboko - disse ele -, suponho que as regras dizem que devemos agora ir por uns minutos lá para cima para chegarmos à conclusão dos nossos problemas. Está pronto para subir as escadas?

-       Não é preciso - respondeu Amboko. - Já decidi. O que tenho a dizer posso dizê-lo aqui mesmo.

Dilman hesitou.

Muito bem. - Havia algo na expressão de Amboko, uma sim­patia, uma compreensão que ele nunca tinha visto antes. Pela pri­meira vez, ali, frente a frente - ambos isolados dos convidados que se retiravam -, não era um africano e o outro americano, mas eram dois negros lutando no mundo poderoso dos brancos.

Tentei dá-lo a entender no meu brinde - disse Amboko. - Serei mais explícito agora. - Permaneceu calado durante uns momentos, procurando as palavras exactas que desejava pronunciar e depois disse: - Vou arriscar-me a fazer o que me propõe. Quando regressar a Baraza abolirei todos os planos pendentes para reprimir o nosso Partido Comunista. Não porei quaisquer entraves à Embaixada Sovié­tica, nem proibirei o intercâmbio cultural com Moscovo. Em resumo, tentaremos manter uma sociedade aberta, mas bem vigiada, como vocês têm aqui. Mostrou boa vontade ao renovar o Pacto da União Africana e nós revelaremos a nossa boa fé dando-lhe o que necessita para negociar com os Russos, quando se encontrar com eles.

Dilman sentiu-se invadir por uma onda súbita de afeição por aquele jovem escolar.

Não pode imaginar quão feliz me sinto com as boas notícias que me dá, Presidente Amboko. Fico-lhe muito grato.

Permita que lhe sugira uma estratégia, Sr. Presidente. Não mencionemos a minha concessão na nossa declaração oficial: diga­mos apenas que as nossas conversações foram de grande utilida­de para ambos e que os acordos a que chegámos serão dados a conhecer conjuntamente, num futuro próximo. Isso permitir-me-á pôr a minha casa em ordem, quando regressar ao meu país. Equipá-lo-á também a si com algo inesperado, quando se encontrar frente a frente com o Primeiro-Ministro Kasatkin para negociarem. Está de acordo?

Estou - disse Dilman. Estava ainda espantado com a súbita mudança do chefe africano. Perguntava a si próprio o que levara Amboko a fazer uma concessão a que até tão recentemente se opu­sera.

Os olhos de Amboko tinham-se semicerrado por detrás dos ócu­los. Disse:

Talvez o Sr. Presidente esteja curioso acerca da minha revira­volta. Vejo que está perplexo com...

Estou curioso - disse Dilman apressadamente. - É claro que me sinto contente. A sua cooperação significa tanto para nós! Mas perguntava a mim próprio...

Eu digo-lhe - respondeu Amboko. - Vou falar-lhe francamente, como espero que falaremos sempre um com o outro daqui para o futuro. Até esta noite sentia-me relutante em confiar completamente em si. Até esta noite pensei que fosse um boneco nas mãos da «raça mestra» deste país. Perdoe-me, mas era isto o que eu pensava. En­tão, esta noite, tive consciência da verdade. Vi-o observar a sala, e observei-a também, e a verdade estava bem à vista.

Dilman sentiu a vergonha renascer-lhe no peito.

Refere-se às cadeiras, às cadeiras vazias?

Sim, meu amigo. Verifiquei que não era um deles, porque não lho permitiam. Vi que estava sozinho, devido à sua cor. Vi-o pela pri­meira vez como um preto igual a mim. Compreendi então que os nos­sos problemas eram um único e o mesmo. O problema da liberdade. O senhor tem de obter a sua liberdade aqui, assim como nós temos de manter a nossa na África. Tem de se convencer de que a democracia na América é real, assim como eu tenho de convencer-me que ela é possível em Baraza. Os convidados que não compareceram esta noi­te, a mágoa que eles lhe provocaram, o terem-me mostrado a batalha que se travava dentro de si, esses convidados ausentes foram os que influenciaram a minha decisão. Soube então que o Sr. Presidente me compreenderia sempre, assim como o meu povo e às nossas aspira­ções, porque, de certo modo, elas são as suas. Agora posso confiar em si. Agora posso regressar ao meu país e arriscar-me a deixar que o meu povo viva mais livremente, porque sei que nunca nos abandona­rá. Estou preparado para o ajudar porque acredito que estará sempre pronto a ajudar-me a mim também. Não porque somos ambos pretos, mas porque ambos conhecemos a servidão e temos em comum o desejo humano de não a tornarmos a suportar. - Sorriu, alargando ainda mais as suas largas narinas, e disse num tom amável: - Agrade­ça às cadeiras vazias, por muito que o tenham feito sofrer, por nos terem conduzido finalmente à amizade.

Amboko estendeu a sua mão de ébano, onde brilhava um anel com uma enorme safira, e Dilman apertou-a calorosamente na sua. Quis exprimir mais eloquentemente a sua gratidão, mas sentia-se demasiado comovido para o conseguir. Por fim disse:

-       Venha, Presidente Amboko, podemos dizer aos nossos visi­tantes que estamos prontos para um bem merecido descanso.

Confortados pelo acordo alcançado, os dois homens atravessa­ram a sala de jantar de estado e entraram na Sala Vermelha cheia de gente. Dilman avistou a figura gigantesca e impecável de Grover lllingsworth sobressaindo por entre a multidão dos bebedores de champanhe. Fez sinal ao chefe do protocolo.

-       Sr. lllingsworth - disse Dilman -, por que não instala o Presi­dente Amboko e a sua comitiva para assistirem ao nosso pequeno espectáculo? Na realidade pode ir conduzindo as pessoas para a Sala Este. - Dilman voltou-se para Amboko. - Não demoro um minu­to. Tenho de ir ter com o meu ministro de Estado e informá-lo do nosso acordo para que possa fazer imediatamente uma declaração conjunta à imprensa. Encontrará uma cópia desta, ainda esta noite, em Blair House, para a sua apreciação.

Satisfeito, Amboko reuniu a sua comitiva e seguiu lllingsworth para fora da Sala Vermelha. Enquanto outros começavam a dirigir-se para a porta e a multidão se tornava menos densa, Dilman olhou à sua volta à procura de Arthur Eaton. Avistou-o por fim a um canto da Sala, profundamente absorvido a falar com Sally Watson. Por um momento recordou o mexerico contado por Sue Abrahams acerca do par, e como o pusera de lado porque Eaton era demasiado circuns­pecto e velho para a filha do senador Watson. Mas agora, vendo-os tão juntos, tornou a considerar o que ouvira. Pareciam talhados um para o outro: Eaton, apesar das têmporas prateadas e dos cabelos brancos, tão parecido com um jovem aristocrata, bronzeado, perfei­to no seu fato de cerimónia, e Sally Watson, apesar do seu aspecto suave e inocente, tão parecida com uma dama experiente, no seu lindo porte e os ombros nus sobressaindo do rico vestido branco de noite. Pareciam ter sido feitos um para o outro. Dilman perguntou a si próprio onde estaria a mulher de Eaton nessa noite, e, se se encon­trava ainda na Florida, porque não regressara para aquela ocasião.

Hesitou em os separar, mas sabia que tinha de o fazer. Antes que pudessem ter-se movido, Eaton virou a cabeça na direcção de Dilman e este pôde chamá-lo. Eaton murmurou qualquer coisa à sua companheira e veio imediatamente ter com Dilman, com uma expres­são interrogadora no rosto.

Dilman conduziu o ministro de Estado até ao sofá vermelho estilo Império, junto à parede, onde podiam falar à vontade.

-       Já acabei a minha conversação com Amboko - disse Dilman. - Ele está de acordo com tudo... absolutamente com tudo. O rosto di­plomático de Eaton, habituado a não deixar transparecer o que lhe ia dentro, dessa vez não conseguiu esconder a sua surpresa.

-       Realmente? Esplêndido, Sr. Presidente. Como o conseguiu? Dilinan nunca permitiria que alguém como Eaton soubesse a

verdade. Respondeu:

Oh, falámos e falámos, e então, subitamente, há poucos minu­tos, ele cedeu. Disse que confiaria completamente em nós, para o protegermos do Partido Comunista do seu país e das intervenções soviéticas.

E assim faremos - disse Eaton. - Falarei amanhã com Monty Scott. Farei com que envie para lá os seus melhores detectives. Há algumas condições?

Nem uma- disse Dilman. Depois fez estalar os dedos, como se se lembrasse de algo. - Excepto isto. Ele quer que a nossa declaração à imprensa seja optimista, mas ambígua. Não quer que a sua conces­são seja tornada pública até que tenha tido tempo de regressar ao seu país e aí consolidar a sua posição. Pensa também que devíamos man-ter-nos calados quanto a esta concessão para que a possamos lançar de surpresa aos Russos como base de negociações.

Certamente, certamente - concordou Eaton levemente impa­ciente. - Sugeri desde o princípio que se conseguíssemos esse acor­do com Baraza o mantivéssemos secreto até à conferência com o Primeiro-Ministro Kasatkin. Quando Kasatkin começar a barafustar por causa da nossa renovação do Pacto da União Africana, damos-Ihe a conhecer esta concessão para provarmos a nossa boa vonta­de. Assinará o A. U. R?

Esta noite.

Excelente, Sr. Presidente. Recomeçarei imediatamente as ne­gociações para a continuação da Conferência do Roemer. Os Rus­sos parecem concordar em ter as conversações na França, em Chanttilly. Está também de acordo?

Perfeitamente.

Então pode considerar-se já a coisa como combinada.

Uma coisa, Sr. Ministro. - Dilman tinha consciência da maneira formal como tratava Arthur Eaton. Embora se esforçasse, não conse­guia chamar simplesmente Arthur a tão formidável pessoa. - Edna Foster e Tim Fiannery aguardam lá em baixo. Poderia escapar-se uns minu­tos e dar-lhes a notícia? Prometi a Amboko que lhe enviaria esta noite uma cópia da nossa declaração conjunta à imprensa, para Blair House. Se ele tiver algumas rectificações a fazer, poderemos incorporá-las ama­nhã de manhã. Pode dizer a Fiannery que comunique ao grupo da imprensa que pode ir para casa dormir algumas horas. Não temos nada para eles até às nove horas da manhã.

Farei isso imediatamente, Sr. Presidente. Vou lá acima e telefo­narei já a Edna e ao Tim. - Não se foi logo embora. Disse: - Penso que podemos concordar então que o seu primeiro jantar de estado foi um enorme sucesso.

Sob alguns aspectos - disse Dilman. Decidiu não acrescentar mais nada. - Agora é melhor que eu vá andando para a Sala Este. Podem estar à minha espera.

Não me demorarei - disse Eaton, e saiu da Sala sem olhar sequer para Sally Watson.

Sally Watson permanecera de pé, no canto da Sala Vermelha, observando Arthur Eaton sair para o hall principal, la concentrado e decidido, e portanto ela adivinhou que ele não ia ainda a caminho da Sala Este, para ver o espectáculo. Inquieta, permaneceu no mesmo lugar esperando que a Sala se esvaziasse completamente. Assim que viu o Presidente Dilman sair da Sala, pegou na saia, para maior liber­dade de movimentos, e apressou-se em direcção ao hall principal.

Ainda entreviu Arthur Eaton para lá dos pilares centrais quando ele se dirigia para a enorme escadaria que conduzia aos apartamentos privados do segundo andar. Com excepção do mordomo-chefe, do agente do Serviço Secreto Beggs e de um polícia da Casa Branca, não havia ninguém a observá-la quando se apressou através da arcada em direcção à escadaria. Aí encontrou mais dois agentes do Serviço Secreto que a cumprimentaram com galantaria. Por a estarem a obser­var, subiu as escadas com comedimento e dignidade.

O jantar de estado fora muito emocionante para ela por causa do seu sucesso e também do seu fracasso, embora a parte respeitante ao fracasso a fizesse sentir-se insegura quanto à sua posição como secre­tária social. Desde o instante, porém, em que Arthur Eaton fora ter com ela à Sala Vermelha, todos os pensamentos acerca do jantar se tinham desvanecido do seu espírito. Arthur - agora verdadeiramente o seu Arthur, o seu querido, visto que já estivera duas vezes sozinha com ele na sua casa de Georgetown e fora com ele, à meia-noite, de carro, até ao pequeno bar perto das Quintas da Normandia, na Estrada do Rio, em Potomac -, dominara todos os seus pensamentos. Arthur estava esplêndido nessa noite, e durante os minutos em que tinham estado juntos, considerando a importância dos hóspedes à volta deles, quase que estivera ousado. Suspeitara, pela sua atitude, que ele bebera mais do que o costume. Não se importara com isso, na realidade até gosta­ra, pois tal facto tomara-o mais aberto e romântico.

Ela recordou: ela troçara dele por causa da noite que tinham pas­sado juntos na semana anterior, na sua casa aconchegada no meio das árvores da Avenida Dumbarton. Depois do jantar, depois de a criada e de a cozinheira se terem ido embora, ele servira o brandy enquanto ela examinava a graciosa sala de estar Tudor, cheia de antiguidades e com os seus dois fogões. Sentira-se ébria de excitação nessa noite, e, seguindo a inspiração provocada pelo brandy, perguntara:

Arthur, não o quero embaraçar, mas onde está a sua mulher?

Na Florida - respondera ele calmamente.

Não... Não é isso... - a mão dela traçara um arco abrangendo a sala. - Não vejo um único retrato dela. Não é estranho?

Ele continuara impávido, sorrindo.

Mesmo nada, minha querida. Escondi-os todos nas gavetas, quando aqui veio da primeira vez. Lá continuam.

Oh! - Ficara a matutar no caso. - E se ela regressasse de repente a casa?

Sempre impassível, ele respondera:

-       Duvido que ela venha aqui nestes meses mais próximos.

Sally perguntara a si própria se eles estariam secretamente a tra­tar do divórcio, como o desejava. Não o maçara porém com isso, pois era ainda muito cedo para quaisquer respostas definitivas, e não as queria até que se lhe tivessem tomado indispensáveis.

-       Estou a perceber. Bem, é mais íntimo assim, deste modo. Não me agradaria tê-la aqui a fitar-me. Foi bem pensado, Arthur. Você pensa em tudo.

Ele viera sentar-se ao seu lado no sofá.

- Não quero nada que a possa distrair quando está comigo. Es­tas horas são demasiadamente importantes.

Ela estendera-lhe os braços e ele abraçara-a apaixonadamente, beijando-lhe as pálpebras, a testa, as orelhas e os lábios. Mas então o telefone especial do Pentágono viera interrompê-los. E fora tudo.

Na vez seguinte em que tinham estado juntos ele voltara a beijá-la, a acariciá-la dentro do carro estacionado no parque do café em Potomac, e tornara a fazê-lo quando a conduzira a casa, mas não fora mais além.

Ela desejava-o e estava pronta a satisfazer o desejo dele, quando ele quisesse. Ele nada lhe pedira ainda, pelo menos até essa noite na Sala Vermelha, quando estivera um pouco ébrio e ficara perturbado com o decote ousado do fato dela. Depois de ela ter troçado dele por causa de ter escondido as fotografias de Kay, tinham ficado ambos sérios. Sentia a falta dela todos os dias, murmurara-lhe ele. Queria vê-la mais, estar sozinho com ela, conhecê-la melhor. Ela esperara ansiosamente pelo convite último, mas nesse momento o Presidente Dilman roubara-lho.

Não podia desistir da sua preciosa conversa, da sua promessa em potência, e estava resolvida a levar a cena até ao fim. Talvez que o que Dilman lhe dissera lhe tivesse alterado a disposição e que agora já não fosse mais além com ela. Tinha de o saber. E assim, em vez de ter ido para a Sala Este, para ajudar a dirigir a distribuição dos lugares, como era seu dever como secretária social do Presidente Dilman, se­guiu Arthur Eaton até ao andar de cima.

Quando chegou ao vasto hall oeste do andar privado do presi­dente, parou sem saber para onde se dirigir. Não havia ninguém à vista, nem mesmo o criado de quarto. Perguntou a si própria em qual das quinze salas Arthur se encontrava, e se estaria a conferenciar com alguém ou estava sozinho. O champanhe fazia-lhe comichão nos olhos, reforçando o seu espírito de aventura, tornando-a mais corajosa.

Foi cautelosamente até à Sala Monroe, abriu uma frincha da porta e espreitou para dentro. A Sala estava vazia. Fechando a porta deva­gar, caminhou em direcção à Sala Oval amarela, e então, ao aproxi-mar-se dela, ouviu a voz dele. Parou junto à porta entreaberta, escu­tando e tentando perceber se Arthur falava com alguém na Sala ou ao telefone.

Ele dirigia-se a Tim - devia ser Tim Flannery - mas ela não conse­guia determinar se era ao secretário da Imprensa em pessoa ou ao telefone. Escutou ainda com mais atenção. Só se ouvia a voz de Arthur. Não tinha dúvidas agora. Era ao telefone. Diabos levassem a discri­ção.

Soltou as pregas da saia que segurava com a mão e espreitou para a fenda do decote a meio do peito, que era levantado pela arma­ção especial do fato. Segurou esta pela cintura e puxou-a uma pole­gada mais para baixo (era assim que devia ser) para que a curva do peito aparecesse como o seu mais atraente acessório. Tocando ao de leve no cabelo, para se assegurar de que todas as madeixas esta­vam no seu lugar, endireitou-se, abriu ousadamente a porta e entrou na Sala Oval amarela.

Ele encontrava-se de pé, encostado a um sofá, com o ausculta­dor na mão. Quando a viu, fez-lhe um gesto com a mão, sorrindo, mas continuou a escutar a voz do outro lado do fio. Subitamente, tapou o bocal com a mão e disse-lhe em voz baixa:

- É só um momento, querida.

Sally fechou a porta, e depois passeou pela Sala, mal ouvindo o que ele dizia, percebendo apenas que aparentemente ele acabara de ditar algo sobre Baraza e que estava a ouvir Flannery a repeti-lo e a sugerir revisões. Em cima de uma frágil mesa Luís XVI, notou uma pilha de três livros do Presidente, e, quando se inclinou para ler os títulos, achou-os estranhamente em desacordo com o mobiliário da Sala. Era a última edição do Congressional Staff-Directory, o outro Our CIA Defense, por Montegomery Scott, e o terceiro e último era um volume em segunda mão, desbotado e velho, My Bondage and Freedom, da autoria de Douglass Dil. Tirou este de sob os outros e abriu-o na página do título, onde se lia: «A Minha Servidão e a Minha Liberdade, Parte I - A Vida de um Escravo. Parte II - A Vida de um Homem Livre. Por Fredericke Douglass.» Fora editado em Nova Iorque e Auburn por Miller, Orton e Mulligan, em 1855. Sally virou a página, leu a extensa dedicatória e depois passou à página seguinte, onde, por cima do «Prefácio do Editor», estava uma inscrição em tinta azul--pálido, numa letra inclinada e indubitavelmente feminina: «Ao meu senador favorito - o primeiro Douglass ter-se-ia sentido orgulhoso do actual! Com eterna amizade, da W.» A data era do ano anterior, o dia e o mês dos anos do presidente, lembrava-se ela.

Sally examinou o «Com eterna amizade, W.», fechou o livro, levan­tou os outros, e tornou a colocá-lo no lugar em que estava. Foi até à parede à direita do fogão de sala, para observar mais uma vez os dois quadros de Cézanne, mas o seu espírito continuou a resolver a inscrição dedicada a Dilman. A sua curiosidade felina estendeu a garra: um W. feminino relacionado com o presidente. A Senhora Wickland, mulher do chefe da Maioria da Câmara? Não, impossível, com uma dedicatória pessoal como aquela. W.? De repente fez-se luz no seu espírito. W. de Wanda, Miss Wanda Gibson, a amiga dos Spinger, a quem Dilman convidara para o jantar de Estado dessa noite, e que nem respondera ao convite (grosseiro), nem aparecera, embora Dilman tivesse insistido que ela viria (interessante). Portanto Wanda Gibson, provavelmente Wanda, se era ela o W., era já amiga pessoal no dia dos seus anos, no ano anterior. Interessante!

Antes que pudesse ir mais além na sua linha de pensamento, sentiu umas mãos frescas e fortes nos seus ombros nus, e, voltando--se, encontrou-se frente a frente com Arthur Eaton.

-       Negócio concluído - disse ele. - Ainda bem que vieste ter comi­go, Sally.

Pensei que talvez precisasses de uma secretária. Ele segurou-lhe nos braços e apertou-os.

Talvez precise de alguém que precise de mim.

Eu tinha esperanças que assim fosse. Fiquei tão triste quando o presidente nos interrompeu. Estava tudo a correr tão bem...

Eu também tive pena, mas o caso era importante. Ele conseguiu a inteira cooperação da parte de Baraza. Não que fosse assim muito difícil. Mas temo que ele precisasse de algo afirmativo para restabele­cer o seu orgulho. Em toda a minha vida nunca tinha visto nada seme­lhante à rejeição social que se verificou hoje lá em baixo.

Foi terrível. Espero que ele não deite as culpas para cima de mim.

Para cima de ti? Disparate. Fizeste o que podias.

Juro que noventa e seis aceitaram - aceitaram. Sabes quantos vieram? Contei os cartões. Cinquenta e sete. Falei para o meu escri­tório precisamente antes do jantar para confirmar, e depois para Edna. Houve uma tal torrente de mensagens, telegramas, telefonemas, to­dos pedindo imensas desculpas, toda a gente adoecendo à última da hora. Eu nunca tinha visto uma epidemia destas devastar assim Washington. E o pior de tudo foi o cálculo cruel, a recusa à última hora, no último minuto, de modo que, quando compreendi o que na verdade se passava, já era demasiado tarde para retirar as cadeiras e os pratos. Foi absolutamente impossível, não houve tempo. Portanto elas lá ficaram, aquelas cadeiras embaraçosas. Tenho pena por ele. Foi uma cena humilhante. Virá amanhã nos jornais, podes ter a certe­za. Por muitos defeitos que ele tenha, não merecia isto.

-       A coisa também não me agrada - disse Eaton. – Quaisquer que sejam os pontos de vista de uma pessoa, há certos deveres so­ciais que deve cumprir. Temos uma geração de labregos grosseiros.

A palavra grosseiro trouxe-lhe ao espírito o que pensara havia uns minutos.

-       Pelo menos, os amigos dele vieram, os Spinger, os Abrahams, todos - excepto um.

Eaton ergueu as sobrancelhas.

-       Excepto um?

Sally saboreou o seu segredo.

-       Já alguma vez ouviste falar em Miss Wanda Gibson? Trabalha para os Exportadores Vaduz... Não, com certeza nunca ouviste. Pois bem, ela vive com os Spinger e, tanto quanto sei, é uma velha amiga do presidente. Este convidou-a para o jantar desta noite, e, como ela não respondesse ao convite, perguntei-lhe esta manhã o que devia fazer e ele lançou-se num grande discurso em como ela viria junta­mente com os Spinger. Não mostrou qualquer interesse pessoal em relação a ela. Disse-me que a companhia de exportação em que ela trabalhava tinha negócios com Baraza e que ela seria alguém com quem Amboko e Wamba se poderiam sentir à vontade. Pois bem, o presidente enganou-se. Miss Gibson não apareceu. E também, e isto não percebo eu, mas não me importo de to dizer, ele estava engana­do quanto à companhia Vaduz de Miss Gibson ter negócios com Baraza. Eu quis travar conversa com o embaixador Wamba antes do jantar e então mencionei-lhe a Vaduz e ele disse-me nunca ter ouvido falar em tal nome. Achas que o Wamba me estava a enganar? Ou que o presidente não sabia? Ou - eu reconheço que não devia dizer isto - que o presidente inventou apenas uma desculpa para convidar Miss Gibson?

As mãos de Eaton estavam ainda nos braços dela, e ele respon-deu-lhe sorrindo:

Não faço a mínima ideia, Sally, mas sei que tu és o melhor delegado que alguma vez o Departamento de Estado já teve na Casa Branca.

Arthur, não troces de mim. Só te quero ajudar. Farei tudo por ti.

Bem - disse ele casualmente -, alguns de entre nós dariam muito para descobrir que diabo o presidente pensa acerca do Pro­jecto das Minorias e de uns tantos outros assuntos.

-       Eu posso tentar saber - disse ela ansiosamente. Ele abanou-a ao de leve, de brincadeira.

-       Estava a brincar, Sally. Não precisamos de um detective secre­to na Casa Branca. Ambos trabalhamos com o presidente. Se fizer­mos bem o nosso trabalho já é o suficiente.

O sorriso desvaneceu-se dos seus lábios.

-       Prefiro-te como és, e não uma encarnação da Mata Hari.

Ela levou uma mão até ao pescoço dele e acariciou-o com a ponta dos dedos.

Arthur, há bocado estavas-me a dizer que sentias a minha falta - que me querias ver mais vezes, sozinha... Isso agradar-me-ia muito.

Neste momento só desejo beijar-te - respondeu ele.

Ela olhou para a porta da entrada com um ar preocupado, e depois para a porta da varanda à sua esquerda.

Vamos até lá fora por um minuto.

Vais ficar gelada.

Tu aqueces-me.

Ele largou-a e ela dirigiu-se para a primeira porta de madeira. Abriu-a, penetrou na escuridão da Varanda de Truman e esperou de pé. Ele dirigiu-se para ela por entre as sombras e ela precipitou-se nos seus braços, sentindo o peito fortemente apertado de encontro ao dele, enquanto os seus lábios eram acariciados e depois esmagados pelos dele. Permaneceram assim abraçados, por uns momentos, e quan­do os lábios dele libertaram os seus, ela disse, respirando com difi­culdade:

Amo-te, Arthur. Quero-te.

Esta noite - disse ele.

Esta noite.

Quando te despachares, vai directamente para minha casa. Não terás hoje de regressar à tua.

E os criados?

Saíram. Estaremos os dois sozinhos.

Sim, Arthur. - Sentia o coração a bater desenfreadamente, e, erguendo as mãos para lhe segurar o rosto, beijou-o rapidamen­te. - A noite de hoje terá um milhão de anos. - Afastou-se dele e pegou-lhe na mão. - É melhor descer, antes que dêem pela nossa falta... Não, espera, eu vou primeiro e depois vais tu... Estas horas vão-me parecer séculos. Amas-me, não amas, querido? Não te arre­penderás, prometo-te.

O Presidente Dilman encontrava-se impassivelmente sentado a meio da primeira fila de cadeiras da Sala Este, os braços descan­sando imóveis sobre os braços da poltrona, como se fossem os braços de uma esfinge, observando com desagrado o espectáculo dado pelos artistas de Hollywood e Manhattan.

Sentira-se bem disposto havia uma hora atrás, quando se senta­ra ao lado do Presidente Amboko à espera que os convidados ocu­passem os seus lugares. A sua boa disposição continuara quando o espectáculo começara com a orquestra de cinco elementos tocando uma selecção de canções de George M. Cohan, a última das quais, «Yankee Doodle Dandy».

Depois de a provocante cantora de blue, Libby Owens, ter canta­do em voz baixa e doce «St. Louis Blues», acompanhada pelo seu pianista, a boa disposição de Diiman começara a deteriorar-se. Assim como ele e tantos outros negros ressentiam a atitude dos brancos libe­rais que gostavam de se ostentar na sua companhia e mostrar o seu desejo de igualdade, falando-lhe indignada e exclusivamente acerca dos problemas dos negros, também ressentia aquele espectáculo. Os artistas brancos, desajeitadamente desejosos de mostrar a sua tole­rância (vê-se que estamos do seu lado companheiro), tinham sobre­carregado o seu programa com números negros sérios e humoristas e com canções igualmente negras. Dilman detestava tal espécie de con­descendência, por muito bem intencionada que fosse. Se o presiden­te fosse judeu, perguntou a si próprio, teriam aqueles mesmos artistas apresentado gracejos e canções judaicas?

Olhou aborrecido para o palco. Lá estava Herbie Teele, o cómi­co, empoleirado numa cadeira, com a cabeça de banda, com uma expressão de fingida solenidade no seu rosto familiarmente preto, escancarando a boca num sorriso, depois de cada onda de aplausos, fazendo rodopiar a bengala e despejando as suas histórias e anedotas meio azedas. Porquê Herbie Teele nessa noite? Porquê essa rotina especial? Teriam apresentado aquele mesmo programa a O. C, ao Juiz, a Lyndon Johnson, a John F. Kennedy? Dilman tinha as suas dúvidas.

Lançou um olhar a Amboko e depois aos outros membros da comitiva de Baraza, e estes pareceram-lhe estar a apreciar o espec­táculo. Riam-se com os rostos satisfeitos e as constantes erupções de riso vindas das filas de trás indicavam que Allan Noyes, o presi­dente do partido nacional, preparara bem a noite. Mais uma vez Dilman se censurou pela sua excessiva sensibilidade, mas não se podia impedir de sentir o que sentia, e portanto não valia a pena tentar sentir de outro modo.

Tentou dar mais atenção ao espectáculo.

Herbie Teele, boca elástica, dentes rebrilhando, estava no fim do seu número.

- Bem, tudo o que sou, tudo o que espero vir a ser, devo-o a um dos pioneiros humoristas, o meu colega afro-americano Dick Gregory - dizia Teele. - Ele foi para a prisão para me dar a oportunidade de vir aqui, à Casa Branca. Sejam quais forem os acontecimentos no Mississipi, eles não vão provocar uma lei proibindo as bebidas alcoó­licas. Portanto eu, assim como o velho Dick, não estou preocupado com o assunto. O presidente está a fazer o melhor que pode. Meteu o reverendo Spinger no caso e o reverendo é o único homem que conhe­ço que já concedeu mais impressões digitais que autógrafos. Os miú­dos lá no Sul costumavam coleccionar a sua assinatura nos mata-bor-rões da polícia. Quero acabar agora com mais uma menção ao meu protector Dick Gregory, pois, como ele costumava pensar, estava eu agora a pensar - Teele saltou da cadeira em que estava empoleirado, veio até à borda da plataforma e esfregou vigorosamente as faces -, e agora não seria uma boa piada se tudo isto não passasse de rolha queimada e se vocês todos tivessem estado a ser tolerantes para nada?

Bateu palmas, inclinou-se para trás e soltou uma sonora garga­lhada. A audiência por detrás de Dilman desatou também a rir e aplau­diu durante meio minuto, enquanto o audacioso Teele descia da plata­forma.

Dilman bateu palmas sem grande vontade e quando terminou, os dois lustres do tecto tinham diminuído de intensidade, e Libby Owens, na sua saia apertada e de cós alto, apareceu no meio do palco, enquanto o seu pianista de cor se esgueirava para o banco atrás do piano.

Ela puxou o microfone para si e anunciou numa voz gutural:

-       Para terminar o espectáculo, cantarei três canções espirituais negras, de autores desconhecidos.

Começou a cantar e a sala ficou imersa na penumbra e no silên­cio. Cantou:

/ onow mokn-rise, I know star-rise,

Lay dis body down,

I walk in the moonlight, I walk in the starlight,

To lay dis body down.

VII walk in lhe graveyard, VII walk through the graveyard

To lay dis body down.

VII lie in the grave and stretch out my arms...

Lay dis body down.

Os versos, melancólicos, comoveram Dilman, levaram-no para parte já quase esquecida da sua infância, e encontrava-se demasia­do perdido no passado distante para notar que alguém, quase de gatas, passara correndo pela primeira fila de cadeiras e se agachara a seus pés. Estremeceu e espantou-se ao deparar com Beecher, o criado de quarto, com um joelho em terra, à espera de poder dizer algo.

-       Sr. Presidente - sussurrou o criado -, o procurador-geral Kemmler está na Sala Azul. Precisa de o ver imediatamente. Diz que é urgente.

Dilman sentiu o coração bater mais aceleradamente. É urgente. Viera de tão longe, do berço inútil e embalador do passado, que não estava preparado para enfrentar as crises do mundo dos grandes.

Dilman sentiu um arrepio.

-       Diga-lhe que vou já.

O criado desapareceu tão silenciosamente como aparecera e Dilman esperou que Libby Owens acabasse de cantar. Quando a canção chegou ao fim e os aplausos estalaram de todos os lados, Dilman pediu desculpa a Amboko, levantou-se apressadamente, pas­sou pela frente dos convidados da primeira fila e dirigiu-se para a saída. Viu que primeiro Eaton e depois Nat Abrahams observavam a sua súbita partida e encolheu os ombros na direcção de ambos. Saiu para o vestíbulo principal precisamente na altura em que o piano vol­tava a fazer-se ouvir e Libby Owens cantava: Oh, Marydorítyou weep, don'tyou moan.

Assim que saiu a porta, Dilman viu-se imediatamente ladeado por dois agentes do Serviço Secreto.

-      Por que não ficam antes a vigiar o Presidente Amboko? – sugeriu Dilman. - Não haverá novidade comigo.

Apesar disso eles acompanharam-no pelo corredor até à entra­da da Sala Azul, onde estava Otto Beggs de guarda. Dilman retardou ligeiramente o passo, num desejo inconsciente de fugir àquela crise ainda sua desconhecida, e depois entrou na grande Sala, ouvindo a porta fechar-se nas suas costas.

Reparou que havia duas pessoas à sua espera. Robert Lombardi, o director do Departamento Federal de Investigação, tão calvo como uma bola de bilhar, e igualmente inflexível e fisicamente reboludo, passeava no meio da Sala, em pequenos mas rápidos passos. Não ostentava o seu usual e forçado sorriso público e tinha a testa coberta de suor. Mais afastado, com as mãos cruzadas atrás das costas, olhan­do através da janela, estava o procurador-geral, Clay Kemmler, ainda com o sobretudo vestido.

-       Meus senhores - disse Dilman, anunciando-se.

O passeio de Lombardi parou. Afastou-se deferentemente para um lado da Sala, enquanto Kemmler se virava, e, ao fazê-lo, a torre do monumento a Washington, ao longe, apareceu de tal modo que parecia sair-lhe da cabeça, fazendo com que ele se parecesse com um unicórnio levantado nas patas de trás. Kemmler adiantou-se ime­diatamente até ao meio da Sala, e Dilman, avançando ao seu encon­tro, pôde ver que os seus olhos brilhavam, mas que os lábios, uma fenda no seu rosto alcantilado, estavam severa e implacavelmente cerrados.

-       Sr. Presidente - disse ele -, sucedeu o que eu esperava. Assim que Bob Lombardi recebeu a notícia dos seus agentes e ma comuni­cou, vim imediatamente para aqui. Desculpe tê-lo incomodado, mas penso que concordará que a notícia é criticamente importante.

Dilman colocou os dedos na mesa para se apoiar e permaneceu imóvel.

-       Ainda não possuímos todos os detalhes - disse o procurador-geral Kemmler-, mas o conteúdo essencial da notícia é o seguinte: o rapto de Hattiesburg foi praticado por um grupo dos Turnerites, chefiado pelo próprio Jefferson Hurley. Depois assassinaram friamente o juiz Everett Gage e o F. B. I. prendeu o Hurley. Os outros compo­nentes do grupo conseguiram fugir. Mas temos o Hurley, apanhámo-lo e não nos escapará. Agora o Sr. Presidente não pode ter mais reservas.

Dilman esperou que tão sensacional notícia o penetrasse, balançando-se para a frente e para trás, amaldiçoando-se por não ter acreditado em Kemmler nessa manhã e, como consequência, ter feito com que o olhassem como um indeciso idiota - ou pior, como um preto com preconceitos.

-       Apanharam o Hurley? - repetiu pateticamente. - E assassina­ram na verdade o Gage? Que mais sabe?

Kemmler estendeu o queixo em direcção ao chefe do F. B. I.

-       Bob- disse ele.

Robert Lombardi regressou ao meio da Sala. O suor da testa invadira-lhe já a calva e a sua confirmação saiu numa voz anasalada.

Sr. Presidente, há uma meia hora aconteceu o seguinte: os meus homens seguiram a pista dos raptores desde o Mississipi, através da Louisiana, até ao Texas. Os raptores avançavam rapidamente, mas não era difícil segui-los, pois eram amadores e, com sua licença, eram pre­tos. Refugiaram-se num rancho qualquer antes de chegar a Beaumont, e os meus agentes armaram uma extensa rede para os apanhar. De­pois ouvíram-se dois tiros de pistola no rancho, e, por sorte, alguns dos meus homens encontravam-se perto. Lançaram o sinal de alerta, cercaram a quinta, apanharam o Jeff Hurley e encontraram o cadáver do juiz Everett Gage. O resto do grupo - ainda não sei quantos eram - conseguiu fugir. Hurley não o disse, mas tudo leva a crer que fos­sem mais dois.

Tem a certeza que foi o Hurley quem matou o juiz Gage? -perguntou Dilman.

Ele confessou, Sr. Presidente. Bem, ao princípio não, claro está. Imaginámos que ele tivesse ficado para trás mais um minuto para se desembaraçar de certas coisas - queimar alguns papéis e esconder a arma. Encontrámos o revólver. Faltavam duas balas no tambor, e foram precisamente duas as balas que encontrámos no corpo do velho juiz Gage, uma no peito e outra no abdómen. Os peritos dizem que as marcas das balas foram feitas pelo revólver de Hurley. Depois nós... nós fizemos um pouco de pressão em Hurley... ele é teimoso que nem um demónio... e finalmente ele acabou por confessar. Pos­suímos a confissão do crime assinada por ele. Bem, o que ele disse ao princípio foi que não pretendiam fazer mal a Gage, que não eram assassinos como o Gage e os seus companheiros sulistas - uma data de propaganda deste género - mas que ao tentarem esconder-se de nós até poderem continuar para o México descuidaram a vigi­lância ao prisioneiro. Gage conseguiu libertar as mãos, agarrar numa espingarda e, em vez de tentar fugir, preparou-se para os matar a todos. Nesse momento Hurley entrou no quarto e Gage disparou contra ele. Hurley disse que foi um caso de defesa própria, de defen­der a sua própria vida, e puxou instintivamente da pistola e disparou também atingindo Gage com os dois primeiros tiros. Lombardi abanou a cabeça.

-       Sr. Presidente, não devemos dar importância a esse género de desculpas. Ouvimos sempre essa mesma cantiga, lá no Departa­mento. Foi pura e simplesmente um crime, agravado com um rapto federal, atravessando duas linhas de Estados. Como Clay diz, o Hurley é a questão secundária. Foi apanhado, confessou, e é como se já estivesse enterrado. A questão principal, e é disso que o Departa­mento se orgulha, é que conseguimos provar que foi um complot e um crime do grupo Tumente. Visto que de qualquer modo sabemos que eles são um bando de vermelhos malditos, isto dá-nos o que desejávamos.

Dilman sentiu algo contrair-se no seu estômago e perguntou:

-       O que é que desejavam?

Kemmler estendeu o braço como para afastar Lombardi.

-       Deixe-me continuar, Bob. Isso pertence ao meu departamento. Sr. Presidente, eu expus-lhe o caso esta manhã. Disse-lhe que tínhamos provas de que Valetti, o homem número dois dos Turnerites, era um membro do Partido Comunista e um intermediário, financian­do violentos grupos raciais, como os Turnerites, para que cometes­ sem actos subversivos, para que criassem uma atmosfera de ódio e revolta neste país e nos enfraquecessem cá e lá fora. Disse-lhe que o primeiro grande crime deste género tinha sido praticado pelos Turnerites e pedi que se agisse imediatamente no sentido de os banir e impedir mais manifestações violentas. O Sr. Presidente achou que eu estava a ser precipitado. Eu disse indubitavelmente os Turnerites e o Sr. Presidente disse talvez os Turnerites. Queria mais provas an­tes de agir. Agora já as tem. Não pode ter mais dúvidas. Desejo invo­car imediatamente o Acto de Controlo das Actividades Subversivas. Esta é a nossa primeira oportunidade definida para mostrarmos a esses malditos revolucionários que a lei tem dentes. Temos de a usar e pôr termo à insurreição.

Durante a exposição, o espírito de Dilman previra as conse­quências que resultariam de invocar o Acto de Controlo. Colocaria um peso terrível sobre a sua raça. Pior ainda, e aí o seu cérebro legal e frio começou a trabalhar, daria um enorme golpe no caso da igual­dade de direitos, levantando um precedente que poderia ser mal usa­do. Contudo havia a lei e havia o crime contra a lei - Kemmler tinha razão acerca disso - e devia-se fazer justiça e a segurança nacional -a sua preocupação máxima devia ser preservada. Mas não devia haver qualquer erro, por muito pequeno que fosse. Lombardi tinha a repu­tação de ser desumanamente, se não sadicamente, anticomunista nos problemas internos dos Estados Unidos, o que estava errado em si próprio, mas fora frequentemente demasiado severo a interpretar qualquer coloração de uma opinião ou acção como vermelha, e consequentemente muitas das suas prisões tinham sido contraria­das por espíritos mais imparciais. Estaria ele agora a agir do mesmo modo? Estaria ele a ser honestamente patriota, ou estaria involun­tariamente a utilizar o caso para se erguer mais a si próprio no seu pedestal, como o mais alto funcionário público de lei e superpatriota?

Quanto a Clay Kemmler, também ele era ávido e ambicioso. Dilman, porém, não podia achar uma razão para o condenar por um mau jul­gamento ou vaidade desmedida. Kemmler fora um advogado de dis­trito, um juiz federal, um membro do Gabinete de O. C, sempre uma pessoa de uma reputação sem mancha. Contudo, ele mostrava-se impaciente, o que Dilman considerava imprudente, e possivelmente menos movido por considerações de um avanço político do que por uma visão absoluta do que era justo ou injusto. Era um homem para ser escutado, mas não para se ser dominado por ele, sem primeiro se ter pesado cada uma das suas palavras.

Dilman reflectia, revolvendo o seu dilema, não querendo saltar ou ser empurrado, e também não querendo cair.

-       Não estou preocupado acerca do Hurley como indivíduo – disse Dilman por fim. - É evidente que ele cometeu o crime de rapto. Terá cometido um homicídio premeditado ou um homicídio em defesa pró­pria? Isso será para os tribunais federais resolverem. Portanto, pode ver que também eu só esteja preocupado com a questão principal. Terá sido este crime um crime individual ou de uma organização? Ainda não...

-Por favor, Sr. Presidente, não recomece - interrompeu Kemmler. Pela primeira vez, o seu rosto rígido tinha uma expressão irada. Tentou em vão controlar-se. - Sr... Sr. Presidente... como pode ainda ter dúvi­das acerca de um crime tão claro e horrível como este? No nosso Ministério temos uma cópia de todas as declarações públicas de Hurley como chefe dos Turnerites. Mesmo que os seus objectivos fossem os melhores do mundo, dar a igualdade ao seu povo, ser o seu Moisés preto, não é o suficiente para se fazer tábua rasa do seu acto. Várias vezes, em público, ele prometeu a violência se os negros não conse­guissem o que pretendiam. Depois cometeu-se um crime de violência, rapto e assassínio confessado, e quem os praticou? Hurley e o seu bando. Fez o que pregara. O Sr. Presidente será capaz de dizer ao povo americano que duvida disto?

Dilman sentiu-se enfraquecer perante a ira do procurador--geral. Tentou desesperadamente fortificar-se com Blackstone e a Constituição.

-       Não duvido de nada, quando há factos que o provem. Na ver­dade, sou levado a acreditar que este é um crime turnerite, um crime organizado e planeado, e estou disposto a punir o grupo responsá­vel. Mas, Sr. Procurador-Geral, quando eu faço algo sem preceden­tes, algo que é necessário para nos proteger agora, apesar de poder acarretar consequências desastrosas, tenho de ter a certeza de que a razão está cem e não apenas noventa e nove por cento comigo. Ter-se-á o Grupo dos Turnerites reunido, planeado este crime e vota­do nele, e depois o Hurley e vários outros praticaram-no, represen­tando o grupo? Se assim é, então trata-se de uma subversão, e deve ser imediatamente punida. Ou - e aqui reside o meu um por cento de dúvida legal - terá o grupo Turnerite votado contra o rapto, como sendo impraticável e inflamatório, e o seu chefe, um exaltado em todo o sentido, foi com um ou dois cúmplices e praticou este acto hedion­do por sua própria conta? Tenho de saber se tal não sucedeu. Tenho de saber exactamente o que se passou pelo próprio Hurley ou pelos seus cúmplices, quando e se os apanharem, ou por qualquer outro membro turnerite que conseguirem interrogar, ou por algum docu­mento turnerite que apanharem. - Ergueu as mãos. - É este o meu ponto de vista, senhores.

Kemmler fuzilou-o com o olhar. Disse friamente:

E se não conseguirmos arranjar mais provas?

Verei então. Estudarei as descobertas do sr. Lombardi, o inter­rogatório de Hurley, e decidirei. Suponho que os deixarei invocar o Acto de Controlo. Mas até lá sugiro que não dêem quaisquer passos ou façam declarações precipitadas. - Fez um esforço para ganhar a amizade deles, para aplacar a sua cólera. - Escutem, senhores, apa­nharam o Hurley. Prossigam com isso. Anunciem-no. Quanto a banir a sua organização, dêem-me um dia ou dois para pensar, pelo me­nos até amanhã à noite...

Boa-noite, Sr. Presidente - disse Kemmler secamente. Vamos, Bob.

Manter-me-ei em contacto consigo - disse Lombardi a Dilman. - Boa-noite, Sr. Presidente.

Desolado, Douglass Dilman viu-os afastarem-se. Não só os desa­pontara como os enfurecera com a sua decisão. Acreditarim que ele era movido por uma verdadeira preocupação pela justiça, ou apenas por uma simpatia e parcialidade em relação a homens maltratados da sua própria raça? Sabia qual a resposta deles. Não estava tão seguro da sua.

Eles tinham-se ido, mas a porta permanecera aberta, e então reparou no volumoso Otto Beggs à espera para lhe poder falar.

Sr. Presidente - disse Beggs. - Temos uma chamada telefónica para si. Miss Foster diz que precisa de falar consigo. Quer recebê-la aqui?

Se faz favor.

Beggs fechou a porta e Dilman encaminhou-se com um passo cansado para o telefone azul em cima da mesa.

Pegou no auscultador. Ouviu a voz de Edna Foster, que parecia tão preocupada quanto ele se sentia.

-       Sr. Presidente - disse ela -, tenho Leroy Poole no outro telefo­ne. É já a sexta vez que ele telefona esta noite. Insiste em falar pesso­almente consigo. Parece tão frenético que...

Não - disse Dilman irritado. - Esta noite não tenho tempo para o aturar.

Sinto tê-lo incomodado - desculpou-se Edna Foster. - Não o teria feito se ele não tivesse dito que era de extrema importância, qualquer coisa acerca de Jefferson Hurley ter sido preso no Texas... não sei do que é que ele estaria a falar...

Pronto a desligar, Dilman apertou o auscultador na mão ao ouvir isto.

Um momento, Miss Foster. Disse que Leroy me quer falar acer­ca da prisão de Hurley?

Disse, sim, Sr. Presidente.

O cérebro de Dilman colocou esta informação ao lado de uma outra. As duas não se ajustavam. O que as trouxera ali ao mesmo tempo? Talvez a resposta a esta interrogação fosse a resposta à sua indecisão perante Kemmler e Lombardi.

-       Afinal sempre o atendo, Miss Foster. Ligue-o para aqui, se faz favor.

Por uns breves segundos o telefone emudeceu e depois a voz aguda e histérica de Leroy Poole fez-se ouvir.

Sr. Presidente, é o senhor... é... o Sr. Presidente?

Sim, Leroy, o que se passa?

As palavras jorraram como uma torrente.

Sr. Presidente... já sabe?... O F. B. I. apanhou o Jeff Hurley no Texas e acusa-o do assassínio do juiz Gage. Sr. Presidente, não pode consentir isso... foi um homicídio justificável... pode provar-se... até mesmo o rapto não foi exactamente isso... levaram o juiz para lhe fazerem ver as coisas, para lhe mostrar novas informações... mas depois o Gage tornou-se violento, pegou numa arma, tentou matar o Hurley e este fez o que qualquer homem faria no seu lugar... o que o senhor e eu também faríamos. Defendeu-se, agiu em defesa da sua própria vida. Esta é a verdade, juro-o. Se ainda não sabe, eles apa­nharam o pobre Hurley...

Leroy! - interrompeu Dilman, e o tom da sua voz pôs termo à histeria de Poole. - Leroy... já me contaram... Sei tudo isso... mas como é que você sabe?

Eu? Como é que sei? - Leroy Poole pareceu ficar atrapalhado. - Não compreendo. Que quer dizer?

Já vai saber o que quero dizer. Há apenas uns minutos que tomei conhecimento da morte do juiz Gage e da prisão do Hurley no Texas.

O casofoi-me comunicado pelo chefe do F. B. I. e pelo procurador-geral. Com excepção de nós três, aqui na Casa Branca, de uma meia dúzia de agentes do F. B. I. no Texas e de um par de amigos do Hurley que con­seguiram fugir a tempo, ninguém mais sabe deste incidente. Este não se pode ter dado há mais de uma hora. E a notícia acaba de chegar. Portanto, como é que você a sabe?

O telefone emudeceu como se não estivesse ninguém do outro lado da linha.

-       Leroy, está a ouvir? - disse Dilman. - Escute. Telefonou-me a pedir que ajudasse o Hurley. Se quer a minha ajuda, será melhor que me dê também a sua.

O outro lado da linha continuou mudo, mas agora Dilman podia ouvir a respiração oprimida de Poole.

-       Leroy, se não quer ver-se a si mesmo envolvido com o F. B. I. e estou a falar a sério, será melhor contar-me tudo. Será mais agradá­vel falar comigo do que com aqueles agentes. - Hesitou e depois prosseguiu rudemente. - Penso que já possuo todos os dados. Em­bora mo tivesse sempre negado, você pertence ao movimento Turnerite, não pertence? Aparentemente um membro secreto, não é verdade? Agora, muitas coisas que me disse fazem sentido. O Jeff Hurley é seu amigo, ou então o seu chefe, não é? E agora alguém entrou em contacto consigo... não o próprio Hurley, pois se encontra incomunicável neste momento... mas os outros, um dos seus cúm­plices no assassínio, ele ou eles entraram em contacto consigo, contaram-lhe o que sucedeu, estão desesperados, sabem que você me conhece e pediram-lhe que apelasse para mim. Não é verdade, Leroy?

Finalmente ouviu a voz desarticulada de Poole.

Sr.... Sr. Pre... sidente, juro pela minha mãe e por tudo o que é sagrado que um dos membros me telefonou, não sei quem, pois não se dizem nomes pelo telefone, e me contou simplesmente o que na verdade se passou com o Jeff Hurley e me pediu que o ajudasse para que a verdade fosse conhecida. É tudo o que sei, juro-o por Deus Todo-Poderoso.

Muito bem, acredito no que me diz, Leroy. Mas ainda não me disse o que eu pretendo saber. O rapto do juiz Gage foi praticado pelo seu grupo, pelos Turnerites, não foi?

E se fosse? Certamente que foi. Não pensa que um homem com o carácter moral e as ideias de Jeff Hurley agisse por qualquer vingança pessoal, pois não? Ele e os que o acompanharam concor­daram em abrir o caminho, em ser os primeiros como o John Brown, em dar um exemplo e não em mandar outros fazer o que eles própri­os não queriam fazer. Portanto fizeram-no pelos Turnerites... não rap­tar, mas apenas levar aquele magistrado perseguidor e injusto para um outro clima em que pudessem falar com ele acerca do seu aborto de justiça, fazer com que ele a anulasse ou admitisse que se engana­ra, fazer com que ele concordasse em ser o instrumento para libertar os nossos pobres rapazes. Não foi um acto de loucos, Sr. Presidente. Foi um acto de protesto da parte da única sociedade decente e incorrupta da América de hoje, fazendo algo para dramatizar a con­dição miserável e degradante de todos os homens, mulheres e crian­ças de cor deste país. O senhor... o senhor em especial... devia ser o primeiro a ver isso, Sr. Presidente. E poderá tornar-se o maior presi­dente da história, um herói do nosso povo, se sacudir todos esses patifes brancos à sua volta e interceder a favor de Jeff Hurley...

Dilman sentiu-se mal com o conhecimento da verdade, com a compreensão do que sucedera e do que tinha de fazer. A sua repug­nância por aquela verdade, pelas suas consequências, enchia cada osso do seu corpo com um entorpecimento crescente.

-       Leroy - disse Dilman extenuado -, o Hurley já não é o proble­ma. O problema é o grupo dos Turnerites, o vosso financiamento, o vosso programa - é esse o problema. Pode muito bem ficar a sabê-lo já. O Ministério da Justiça vai intentar uma acção legal contra vocês, para proibir as vossas actividades e banir e prender aqueles que resis­tirem.

Havia indignação na voz trémula de Poole.

Não... não pode deixar que eles façam isso.

Não tenho outra alternativa. Tem de ser.

Não, escute, senador... Sr. Presidente... não os deixe fazer uma coisa dessas. Se matar o Hurley e destruir aquilo por que ele lutou, matar-me-á a mim e a si próprio. De um gesto só atira-nos de novo para onde estávamos antes da guerra civil. Nunca alcançaremos a liberdade. Condene-nos agora e dará a vitória às cruzes de fogo e aos cães da polícia. Todos os grupos activistas terão de deixar de trabalhar e sair da rua para deixar o branco passar. Seremos de novo niggers, sem qualquer esperança a não ser aqueles burros velhos dos Tios Tom da Crispus e da. N. A. A. C. R Seremos de novo niggers, e quando quisermos a comida dos brancos, atirar-nos-ão uma casca de melancia como o Projecto de Reabilitação das Minorias, para que a nossa boca fique tão cheia que tenhamos de mantê-la fechada. Sr. Presidente, não faça isso, não continue a inclinar-se perante aqueles que o querem dominar, não nos venda, porque, se o fizer, não só nos matará como fará de cada um dos do nosso povo um inimigo seu e um inimigo do seu partido para toda a vida.

O aborrecimento perante a presunção ofensiva e a falta de res­peito do escritor dominou momentaneamente os sentimentos de cul­pa e os terrores de Dilman.

Já ouvi o suficiente, Leroy. Não posso perder mais tempo a falar consigo. Farei o que deve ser feito. Adeus e...

Não desligue, Sr. Presidente - gritou Poole do outro lado. -Tem a certeza, a certeza absoluta, de que nada poderá mudar a sua decisão?

Dilman hesitou, não pelo que Poole dissera, mas pela maneira como o dissera. Poole já não estava nem histérico nem frenético, nem sequer suplicante. Havia algo novo na sua voz, algo de manhoso, ou até mesmo de cruel. Talvez, disse Dilman a si próprio, estivesse a usar demasiado a sua imaginação.

Tinha ainda o auscultador na mão, e então aproximou mais o bocal.

Não, Leroy, nada pode mudar a minha decisão. Vou dar ordem ao Ministério da Justiça para cumprir imediatamente a lei. Nada mais lhe tenho a dizer.

Mas tenho eu - disse Leroy Poole. - Uma última coisa. Escute. Processe os Turnerites por subversão criminal e processará também o seu próprio filho. Está a ouvir-me? Processará o seu próprio filho. Talvez seja uma novidade para si, mas o Julian é um de nós. O Julian é um dos nossos membros secretos designado para a Sociedade Crispus, para obter as estatísticas privadas deles sobre casos de per­seguições brancas, como a informação que Hattiesburg era o lugar indicado para o começo da nossa cruzada. Se nos condenar...

Dilman apertou o telefone com tanta força que os nós dos dedos se tornaram brancos. A náusea que sentia na garganta não era de medo, mas de nojo. Disse:

-       Você não é melhor que o Hurley... é capaz de tudo... é um mentiroso sujo, querendo arrastar o meu rapaz para isto.

-       Sou mesmo? - disse Poole. - Muito bem, Grande Homem, pergunte-lho... e então veremos o que fará!

Desligou o telefone na cara de Dilman.

Douglass Dilman permaneceu imóvel, com o auscultador ainda junto da cara. O Kemmler e o Lombardi tinham razão, e Poole confir-mara-o. E tinham também razão acerca de outra coisa. Não havia lugar na América paraTurnerites, pretos ou brancos. Eram selvagens. Eram viciados. Não havia nenhuma táctica, por muito baixa que fos­se, que não lhes servisse. Rapto! Assassínio... E agora... chantagem com a sua família! Que Deus os amaldiçoasse a todos.

Ligou o telefone para a telefonista da Casa Branca e pediu-lhe que ligasse para Edna Foster.

Quando teve a secretária do outro lado da linha, disse-lhe:

Miss Foster, vou agora para baixo, para o meu escritório. Tele­fone ao procurador-geral Kemmler. Se ele ainda não tiver chegado a casa, deixe o recado a alguém. Diga a Kemmler que venha imediata­mente à Casa Branca. Diga-lhe que o presidente já tomou a sua deci­são e precisa de falar imediatamente com ele.

Sim, Sr. Presidente. É tudo?

Tudo? - perguntou a si próprio. Poderia ainda haver mais? Ocorreu-lhe algo. - Uma última coisa. Antes de se ir embora, Miss Foster... essa carta que escreveu para a Universidade de Trafford, recusando o convite... rasgue-a. Mudei de opinião. Escreva ao chanceler McKaye que considero um privilégio aceitar o grau honorífico e que aceito com prazer o convite para fazer a palestra principal. Informe-o de que não falarei apenas para os alunos e pro­fessores da Universidade, mas para toda a Nação, comunicando uma decisão política de importância nacional. Percebeu, Miss Foster?

Sim, Sr. Presidente.

E depois escreva uma pequena mensagem ao meu filho - ao Julian - dizendo-lhe que irei à Universidade no Dia dos Fundadores e que quero que ele esteja lá porque... porque depois da cerimónia preciso de falar-lhe em particular sobre um assunto que nos diz res­peito a ambos. Percebeu, Miss Foster? Agora será melhor que telefo­ne a Kemmler primeiro.

Desligou o telefone, foi até à porta, abriu-a e saiu para o corre­dor. O sempre presente Otto Beggs estava ainda de serviço.

-       O espectáculo já acabou? - perguntou Dilman.

-       Acabou há quinze minutos, Sr. Presidente. Prolongaram-no ainda, esperando que regressasse. Os convidados já se foram em­bora. Com excepção de um senhor.

Foi então que Dilman avistou Nat Abrahams enterrado num sofá vermelho no vestíbulo principal, fumando o seu cachimbo. Abrahams pôs-se de pé, fez um gesto com a mão e dirigiu-se para Dilman.

Achei melhor esperar mais um pouco - disse Abrahams quan­do se aproximou - no caso de precisares de um ouvido amigo. Fi­quei preocupado pelo modo como saíste da Sala Este. Posso-te aju­dar nalguma coisa, Doug?

Agradeço-te muito, Nat. Não há ninguém que me possa ajudar em nada, esta noite, excepto eu próprio - Dilman tentou esboçar um sorriso. - Acredita, Nat, preferia mil vezes falar contigo do que com o procurador-geral. Mas é com ele que tenho de me encontrar agora, lá em baixo.

Nat Abrahams acenou compreensivamente com a cabeça.

Então fica para a outra vez. - Não me quero intrometer, Doug, mas está tudo bem?

Nat, está tudo mal e temo que ainda vá ficar pior. Talvez te possa falar acerca disso um destes dias. De qualquer modo, o que é que cantou aquela rapariga há bocado? Ah, sim! - «Deitar-me-ei no túmulo e estenderei os braços» e «Deitarei este meu corpo». Era isso o que me apetecia fazer esta noite, Nat.

Ainda não chegou a altura, Doug.

Não, ainda não. ... Boa noite, Nat. E, Nat, não deixes que os teus miúdos cresçam para virem a ser presidentes. Merecem melhor. Lembra-te disso.

 

PARA SER ENTREGUE ÀS 11 HORAS

ESCRITÓRIO DA SECRETARIA DA IMPRENSA DA CASA BRANCA

A CASA BRANCA

Palestra do presidente na cerimónia do Dia dos Fundadores.

Universidade de Trafford, Nova Iorque, depois de receber um grau honorífico em Filosofia.

Foram distribuídas por este Escritório cópias deste discurso à imprensa da Universidade de Trafford.

«Chanceler McKaye, meus compatriotas:

«É com grande prazer que participo nesta 92a celebração da fundação desta vossa ilustre escola. Sinto-me imensamente grato com a distinção académica que me conferiram, não apenas por ter sido dada por uma universidade negra a alguém que é negro, mas por ter sido dada por uma instituição cujos programas e ensinamentos se ergueram acima dos estreitos limites do pensamento racial, a alguém que trabalha como um membro americano da nossa comunidade nacional e não como um membro afro-americano do nosso país.

«Na verdade, é acerca das nossas relações perante a Nação como um todo, como Americanos, e apenas acerca disso, que lhes desejo falar hoje. Todos têm consciência da agitação racial que per­corre o nosso país. Sabem todos que o Ministério da Justiça e eu temos estado a estudar as actividades das sociedades e organizações supergovernamentais e superamericanas, compostas de extre­mistas da direita e da esquerda, brancos e pretos, que são responsá­veis pela fomentação de agitações perigosas nestes críticos...»

Era uma manhã fresca e luminosa de Outono, e o Presidente Dilman, sentindo-se levemente ridículo com o seu barrete quadrado e a toga escura, encontrava-se confortavelmente sentado na platafor­ma ao ar livre e decoração com bandeiras, aquecendo-se ao sol, e só ouvindo parcialmente a introdução laudatória do chanceler Mckaye.

Com excepção do corpo da imprensa de Washington, predomi­nantemente branco e que estava sentado nas filas lá em baixo à sua esquerda, atarefadamente ocupado a ler e sublinhar as cópias do seu discurso, distribuídas havia poucos minutos por Tim Flannery, o mar de rostos que se estendia à sua frente e à sua volta era preto. Os professores, aqueles que ele podia ver claramente, pareciam interes­sados e hospitaleiros. A massa dos estudantes por detrás deles, com­pacta e em pé (e Julian provavelmente entre eles, pois recusara um lugar na plataforma), representava uma mancha de tinta escura, nem amigável nem hostil em relação a ele. O facto é que estavam ali, orde­nados e silenciosos, e Dilman achou isso um bom sinal.

Embora não fosse um bom juiz de multidões, Dilman calculava que deviam estar ali mais de 3000 pessoas, uma amplitude humana que enegrecia todo o pátio quadrangular e coberto de relva e os ca­minhos e as ruas que a ele conduziam. O que concedia uma dignida­de extra, até mesmo uma certa majestade, à cena eram os antigos edifícios de pedra, cobertos de hera, erguendo-se por detrás do audi­tório: o Edifício das Ciências Sociais, a Biblioteca de Medgar Evers, o Edifício da Faculdade de Direito, Garrison Hall, a assembleia dos es-tudantes.

A Universidade de Trafford era, repetiu ele a si próprio, uma es­cola bonita e resplandecente. Nunca compreenderia por que Julian não se adaptara a ela.

Moveu-se na cadeira para gozar melhor o sol, e ficou novamen­te surpreendido por não sentir qualquer tensão ou fadiga física. Cer­tamente que tinha toda a razão para se sentir cansado. Os seus de­veres administrativos dos últimos dias tinham sido extenuantes. Assinara o Pacto da União Africana, que fora aprovado previamente pelo Senado. Permitira que o insultante Projecto da Nova Lei de Suces­são se tornasse lei, não com a aprovação da sua assinatura, mas deixando-o estar na gaveta da sua secretária durante dez dias e um domingo, depois do que se tornara automaticamente lei. Fizera, atra­vés de Flannery, o seu único comentário acerca do Projecto: que não fora conscientemente capaz de o assinar ou, pelo contrário, de o reprovar. Já que duvidava da sua constitucionalidade, preferia que ele fosse uma lei da Câmara e do Senado até que fosse devidamente julgado pelo Supremo Tribunal.

Era certo que também tinha toda a razão de andar preocupado naqueles últimos dias. A sala da imprensa da Casa Branca e o seu pequeno Escritório Oval tinham-se enchido de relatórios enervantes sobre o julgamento de Jeff Hurley, os prós e os contras da possível dissolução do Grupo Turnerite, as últimas manifestações de violência racial em Raleigh, Fort Landerdale, Wichita, na Cidade de Oklahoma, em Cincinnati, Houston, San Diego, Oakland. Não fora com agrado que vira aproximar-se o dia daquela visita a Trafford, ocasião em que faria a sua declaração potencialmente explosiva e igualmente desa­gradável, em que se encontraria em particular com o filho.

Todavia ali estava, e não era tão mau como pensara. Sentia-se em paz. Sentia-se bem-vindo entre os seus. Era provável que o dis­curso fosse bem recebido. E quanto a Julian, que ele entrevira por uns momentos juntamente com a comissão de recepção, aquele ra­paz pequeno e reticente parecia completamente inapto para desem­penhar o papel violento que Leroy Poole lhe atribuíra. Contudo, pen­sava no caso, Dilman tinha uma dúvida: teria Poole ousado dizer uma mentira dessas, sabendo quão fácil lhe seria averiguá-la?

Subitamente ouviu as palavras «- apresento-lhes, senhoras e senhores, o Presidente dos Estados Unidos!»

Reparou que o rosto do Chanceler Mckaye estava voltado para ele, que soavam uns aplausos vindos das primeiras filas, e que a sua vez chegara finalmente.

Diiman levantou-se, aceitou o grau honorífico e o aperto de mão do chanceler. Depois subiu para a tribuna, tirou o discurso dactilo­grafado de debaixo da toga, colocou-o na estante junto aos microfo­nes e sorriu para o mar de rostos sérios à sua frente.

- Chanceler Mckaye, meus compatriotas - começou, não ouvindo a sua voz, mas apenas o seu eco na arena cercada de edifícios.

Sentiu que o princípio do discurso era bem aceite. Embora Talley, Flannery e Kemmler tivessem todos colaborado nele, tinham-no na verdade escrito todos, a terceira frase fora inserida por ele próprio, depois de uma discussão com Nat Abrahams. Tratava-se da frase acerca do seu orgulho em não ser honrado como um negro por uma universidade negra, mas em ser honrado como um cidadão america­no por uma escola distinta, cujo ensino se alargara e erguera acima do chauvinismo racial.

Depois, um pouco menos à vontade, mas mantendo uma voz firme e clara, entrou na parte da controvérsia do seu discurso. O que ele poderia dizer fora motivo de interrogações da parte da imprensa durante toda a semana. O que ele diria hoje seria oficial. Os conse­lheiros de O. C. tinham concordado em que a declaração fosse feita no seu discurso à Universidade de Trafford, porque a atmosfera seria intelectual e racional, e porque a audiência seria na sua grande maio­ria negra, orgulhosa dele e apta a aceitar o que ele dissesse.

Depois, à medida que os seus olhos deslizavam para as pala­vras seguintes, a sua voz tornou-se menos segura. Não estava habi­tuado a anunciar decisões destas em público. Mas ela ali estava, es­crita preto sobre branco, por debaixo dos microfones, já nas mãos da imprensa, e ele tinha de ler o que fora escrito. Controlando a voz, articulando cuidadosamente as palavras, lançou-se para a frente.

-       Sabem também que o Ministério da Justiça e eu temos estado a estudar as actividades destas sociedades e organizações supergovemamentais e superamericanas - leu ele - compostas de extremistas da direita e da esquerda, brancos e pretos, que são res­ponsáveis pela fomentação de agitações perigosas nestes tempos críticos, em que temos de preservar a unidade e a paz no país para sermos fortes no estrangeiro.

Reteve a respiração, e depois continuou.

-       Provocações extremas feitas ao nosso modo de vida, decidi­mos nós, têm de ser pronta e firmemente contrariadas por medidas extremas opostas dentro da lei. Crimes drásticos contra o nosso gover­no têm de ser contrariados e punidos por uma acção executiva drás­tica. Recentemente, qualquer que fosse a sua causa, ocorreu um deplorável crime em Hattiesburg, Mississipi. Um juiz de concelho foi raptado e levado através de duas linhas de estado, para obtenção de um resgate humano. O chefe do rapto foi apanhado pelo Departa­mento Federal de Investigação, e está agora nas mãos do tribunal, e o seu caso individual será julgado sem quaisquer preconceitos.

A preocupação do governo está, porém, concentrada nos factores que existem por detrás do próprio crime.

Já não erguia os olhos das palavras dactilografadas. Os seus olhos estavam pregados ao texto, que tão cuidadosamente fora pre­parado. Leu-o com calculado ênfase.

- Provas irrefutáveis, examinadas por espíritos objectivos, torna­ram claro que o crime federal não foi cometido por indivíduos irres­ponsáveis, mas foi um acto praticado por uma organização política. Sabemos agora que o rapto foi praticado pelo Grupo de Tumentes, que era financiado pelo Partido Comunista como o primeiro acto de uma estratégia premeditada para arruinar as nossas leis, o nosso país e tomar a administração da justiça nas suas próprias mãos. Tais actividades não podem ser permitidas num governo democrático do povo, para o povo e pelo povo. E assim, para pôr termo ao seu avan­ço canceroso, e com plena consciência da minha responsabilidade perante as nossas tradições de liberdades civis, aproveito esta oca­sião para anunciar aos meus compatriotas americanos que, invocan­do o Acto de Controlo das Actividades Subversivas contra a Socie­dade do Grupo dos Turnerites, será o mesmo dissolvido e banido; e qualquer actividade ulterior de qualquer espécie, praticada pelos seus membros, será considerada criminosa e punida segundo as leis.

Um leve estalido, um som semelhante ao do quebrar de uma casca de ovo, interrompeu Dilman e fê-lo erguer a cabeça. Viu logo que fora um ovo que viera esborrachar-se nos microfones, um ovo cru que derramava agora o seu conteúdo amarelo sobre as páginas do seu manuscrito.

Espantado, olhou para a audiência e viu que algo curioso se passava diante dos seus olhos. A massa negra, tão inerte, tão silen­ciosa, tornara-se viva como amibas que se separam e movem sob as lentes de um microscópio. Os dois terços da parte de trás da multidão avançavam, empurrando e tirando das suas cadeiras os professores e dignitários, que se encontravam na parte da frente do pátio.

De repente surgiram letreiros vermelhos, brancos e azuis por cima da multidão preta e animada. Afirmando a vista, Dilman conse­guiu ler a inscrição cruel e selvagem de um dos letreiros, depois de outro e de outro, e ainda de muito mais:

VAI PARA CASA, TIO TOM!... DESEJARIAS MAIS SER BRANCO QUE PRESIDENTE!... JUDAS NEGRO! DEVOLVE AS TRINTA MOEDAS!... DILMAN, LIMPA A ROLHA QUEIMADA! MOSTRA O TEU VER­DADEIRO ROSTO!... DOIS PATIFES - DILMAN E ZEKE MILLER!!

E, ameaçando-o com punhos pretos irados, que apareciam à frente, atrás e à volta dos cartazes, ele podia ouvir um coro único gritado pela horda enfurecida: «Abaixo o traidor Dilman! Abaixa o trai­dor Dilman! Abaixo o traidor Dilman!»

Petrificado, os olhos esbugalhados, a boca escancarada, Douglass Dilman viu subitamente o ar encher-se de objectos voado­res. Dúzias de ovos explodiram na plataforma à sua volta, de encon­tro à frente da tribuna; depois seguiram-se maçãs podres, ossos de galinha e cascas de melancia.

O coro, rouco de ódio, começou a fragmentar-se numa centena de gritos individuais de protesto, guinchos que vinham ressoar aos seus ouvidos: «Conseguiste, patife!... Estás-nos a colocar de novo na escravi­dão!... Idiota, canalha!... Dêem a Simon Legree o grau honorifico de branco!... Traidor!... Abaixo, abaixo, abaixo o Presidente Jim Crow!»

Instintivamente, recuou perante a fúria de protesto, erguendo os braços para proteger o rosto. Ouviu os apitos da polícia, e viu as manchas azuis das suas fardas, brandindo cacetes, e formando uma cadeia à volta dele para o proteger dos da sua raça. A plataforma de madeira ressoava agora com passos, o chanceler, os professores, os deões e os agentes do Serviço Secreto amontoavam-se à sua volta, para o salvar.

Alguém lhe segurava o ombro, puxando-o, e, ao virar a cabeça, viu que era o agente do Serviço Secreto Otto Beggs. Ao tentar falar, sentiu algo bater-lhe com força no queixo. Levou a mão livre à cara e retirou-a cheia de ovo e cascas de ovo. O golpe não lhe provocara qualquer dor física, somente dor psíquica, seguida de uma sensação de choque e de medo.

- Venha, venha, Sr. Presidente, vamos sair daqui para fora. É melhor levá-lo para um sítio seguro! - gritava Beggs.

Os seus pretorianos brancos tinham-no agora rodeado comple­tamente, quase que o levando ao colo para fora da plataforma, pelos degraus e através das linhas compactas de polícias e professores, até ao edifício principal da Universidade.

Uma vez ali, já sem fôlego, antes de ser empurrado para dentro do edifício, ainda se voltara para trás, desejando dizer algo à multi­dão enfurecida, desejando explicar por que anunciara o que anunciara, desejando explicar-lhe que seriam salvos no fim. Mas foi em vão. Viu a massa selvagem dos estudantes pretos brandindo os seus cartazes e vociferando epítetos acusadores, e a polícia, reforçada por tropas estaduais, ameaçando-os com os cacetetes, com pragas e os apitos.

Depois - nunca saberia como chegara até lá - encontrou-se no sofá de couro de escritório apainelado e de tecto alto do chanceler Mckaye. A rápida transição da desordem animalesca lá de fora para o escritório sossegado e silencioso deixara-o tonto e fraco. Pessoas conhecidas iam e vinham: Beggs limpando o ovo do seu queixo, o chanceler Mckaye pedindo desculpas sem fim, e o almirante Oates, com o seu estetoscópio e calmantes. Depois de o médico da Casa Branca ter corrido com todos os visitantes, excepto os absolutamen­te necessários, e de ele próprio ter também saído, Dilman recebeu Tim Flannery.

Tenho pena, tenho imensa pena do que sucedeu, Sr. Presidente - disse o secretário de Imprensa, metendo os dedos por entre o cabe­lo crespo e ruivo e coçando a cabeça. - Foi absolutamente inespera­do. Até mesmo os repórteres foram apanhados de surpresa.

O que é que eles dizem? - quis Dilman saber.

A maior parte pensa que foi tudo planeado pelos próprios Turnerites - disse Flannery.

Dilman pareceu reflectir.

-       Não, não me parece - disse por fim. - Acho que essa organiza­ção não seria suficientemente grande.

«Penso que todos nós julgámos mal os sentimentos negros aqui e em todo o país. Posso ver isso agora, depois do que se passou. Porque a Sociedade Crispus, a N. A. A. C. R e a Liga Urbana eram ainda da opinião de se ir devagar, estavam ainda a favor do projecto das minorias e contra as manifestações do género das dos Turnerites, nós pensámos que essa era a opinião da grande maioria negra. Mas enganámo-nos, Tim. Estes jovens negros, embora podendo não ser Turnerites, estão do lado deles, querem acção. O gradualismo não existe para eles. Revoltam-se contra os pais, que se acomodaram no sistema de segregação. Os jovens sentem-se desiludidos perante o passado recente. Os seus pais falharam. O Hurley e os seus chefes deram uma nova visão à autoridade paterna. E agora, sem pensar bem no caso, esperavam que o primeiro negro da presidência visse as coisas como eles as viam. E eu recusei. Pus-me ao lado dos pais deles e dos brancos que os muraram. Utilizei um instrumento legal para lhes cortar as pernas e tornar-lhes o objectivo mais difícil de atingir. Não tinham a certeza de que eu o fizesse, mas suspeita-vam-no, e vieram para aqui preparados, com os seus cartazes e dísticos, à espera. Acho que foi isto o que se passou, a verdade indiscutível.

Quer dizer alguma coisa desse género à imprensa? - pergun­tou Flannery. - Eles clamam todos por uma declaração.

Agora? Não, por Deus. Agora não é altura para racionalismos e explicações psicológicas. Deixemos que isto tudo se acalme e se extinga. Talvez possamos publicar qualquer coisa mais tarde.

Bem, manterei os correspondentes afastados - disse Flannery. - Dir-lhes-ei que o Sr. Presidente se encontra são e salvo e que terá uma declaração a fazer amanhã ou depois. Eles já estarão sufi­cientemente ocupados a tentar entrevistar alguns dos alunos manifes­tantes para descobrir o que os conduziu a isto.

-       Boa sorte para Reb Blaser - disse Dilman com uma careta. Flannery levantou-se.

Sr. Presidente, ainda não tenho a certeza absoluta de que esta demonstração represente o sentido de todos os negros. Penso que a maioria deles o apoiará, quando o projecto das minorias se tornar operatório.

Acho que verá então que se enganou - disse Dilman. - Verão no Projecto das Minorias um projecto dos brancos. Olhá-lo-ão como uma oferta de perdão, depois da declaração de hoje, reduzindo-lhes o seu direito de acção directa.

Talvez - disse Flannery.

Espero que talvez, Tim - disse Dilman. - Quando devemos sair daqui?

Depois do chá do chanceler e...

Cancele-o - disse Dilman. - Mckaye compreenderá.

Assim farei - disse Flannery. - Depois o Sr. Presidente queria falar, por uns breves momentos, com o seu filho.

É verdade. Ele está bem? É capaz de ir saber dele? Deixe-me aqui sozinho por uns minutos e depois mande-o cá.

Muito bem.

-       Tim, agradar-me-ia que me arranjasse algo para beber, nada de muito forte. Talvez um pouco de brandy ou um vinho qualquer.

Dilman estava já havia dez minutos sozinho quando Beggs abriu a porta para que o secretário da Imprensa tornasse a entrar. Flannery trazia na mão uma garrafa de cristal cheia e um copo de vinho. Pou­sou ambos sobre a mesa.

O deão da Faculdade de Direito arranjou-me isto - disse ele. - Xerez. Serve?

Optimamente.

A multidão está-se gradualmente a dispersar - disse Flannery.

Há alguém seriamente magoado?

Alguns narizes a sangrar, um pulso fracturado, e é tudo. A pro­pósito, alguém conseguiu localizar o Julian. Está no quarto com uns amigos. Está um pouco perturbado, como é natural, mas de resto encontra-se bem.

Estarei pronto para o receber dentro... dentro de quinze mi­nutos.

De novo, Dilman desembrulhou um charuto, preparou-o, mas es­tava tão distraído que se esqueceu de o acender. Pousou-o no cinzeiro e estendeu a mão trémula para a garrafa, mas reparou então que Flannery já lhe tinha deitado a bebida no copo. Pegou no copo com a mão direita, segurou esta com a esquerda, e bebeu o conteúdo.

Reflectiu acerca do que acabara de fazer. Incitara o seu povo, já tão gravemente maltratado, a apoiar as leis dos brancos. Afastara o seu apoio negro. Mas teria, em compensação, ganho o apoio bran­co, restaurado a confiança da maioria do povo na sua pessoa? Duvi-dava-o. O eleitorado branco provavelmente achava que ele agira re­lutantemente como os conselheiros de O. C. queriam que ele agisse. Tinha perdido muito, e ganho pouco.

Certamente que não era isto o que o preocupava e aborrecia. Se ele tivesse a certeza de que tinha razão, nada no mundo o pode­ria perturbar. O que o aborrecia desde o princípio era que os Turnerites só podiam ser condenados se fossem financiados pelo Partido Comunista. Ele, porém, não estava completamente seguro quanto a essa acusação. Aceitara o caso pouco consistente do Pro-curador-Geral Kemmler depois daquela má conversa ao telefone com aquele maldito do Leroy Poole, depois de ter sabido por este que o rapto do Mississipi fora inspirado pela política dos Turnerites, o que o assustara, e depois de ter ouvido aquela mentira sobre o filho, o que dera ênfase ao facto de que os membros daquele bando não recuariam em culpar inocentes para atingir os seus fins. Mas a parte racional do seu cérebro duvidava de que os Turnerites fossem literalmente subversivos, dedicados a derrubar o governo. A sua pele escura fazia-o saber o que todos os advogados do Ministério da Jus­tiça de Kemmler nunca compreenderiam, e o que aquela turba conflituosa, que lhe interrompera o discurso, compreendia: era que os Turnerites pretendiam derrubar a desigualdade. Agora era já tarde para tais reconsiderações. Se se tratava de uma injustiça, tinha de achar outros meios de a corrigir.

Acabara o seu Xerez, e então reparou com um sobressalto que não tinham passado apenas quinze minutos, mas trinta. Levantou-se de um salto, foi até à porta e abriu-a. Beggs, que estava plantado mesmo em frente da porta, voltou-se instantaneamente.

-       O meu filho já...? - Então avistou Julian, encolhido numa cadeira, com um ar infeliz. - Oh, olá, Julian. Entra.

Enquanto Julian passava por ele, saudando num murmúrio en­tre dentes, Dilman perguntou a Beggs:

Como é que vão as coisas?

Foi tudo abafado. Só andam agora por aí uns tolos, punhados deles.

Óptimo. Diga a Tim Flannery que mande vir o carro daqui a quinze minutos.

Fechou cuidadosamente a porta, e certificou-se de que ela ficava hermeticamente fechada, e depois voltou-se para o filho. Julian es­tava de pé junto da mesa, apertando o casaco de sport de encontro às calças cinzentas. O cabelo curto estava tão cheio de brilhantina como de costume e os seus olhos saídos estavam fixos na garrafa de Xerez.

Dilman apontou para a garrafa.

És servido?

Não.

Muito bem, então senta-te. Não temos muito tempo. Preciso de falar contigo.

Julian permaneceu de pé, numa atitude de desafio, mas, depois de Dilman se ter sentado no sofá de couro, o rapaz puxou uma cadei­ra para o pé da mesa e deixou-se cair nela.

Não sei acerca do que temos de falar - disse Julian mal-humorado.

Veremos... Estavas lá fora, no meio daquela turba?

Durante algum tempo. Quando os fulanos dos cartazes se começaram a infiltrar, decidi retirar-me. Fui para o meu quarto com dois amigos.

Sabias o que ia acontecer?

Se fizesse o que eles esperavam que não fizesse, sim, sabia que isto aconteceria. Os ânimos têm andado escaldados desde a prisão de Hurley.

-       Os outros estudantes têm-te causado dificuldades? Julian examinou as suas unhas polidas.

Nenhum em especial. Disse-lhes que não sabia o que o pai iria fazer. Disse-lhes que, se banisse os Turnerites, eu estava contra si e do lado deles.

Estou vendo.

Eu não tenho de escutar os brancos - disse Julian zanga­do. - Sou eu que tomo as minhas próprias decisões.

Dilman pegou no charuto intacto.

Talvez eu não escute nem os brancos nem os pretos. Talvez no meu lugar eu tenha uma maior responsabilidade. Talvez eu escute a Constituição.

Oh, claro!

Dilman sabia que não podia continuar naquela posição superior e pretenciosa. Estava a lidar com o filho, que mais uma vez estava desiludido consigo e a repudiar o parentesco entre ambos.

Sabes quais são os meus sentimentos perante a lei, Julian. Talvez ajudasses se os transmitisses aos teus amigos.

Ajudar a quem? - disse Julian. - Já me considerarei com muita sorte se encontrar alguém que me fale.

O coração de Dilman confrangeu-se. Pousou de novo o charuto.

Queres ser transferido daqui, Julian?

Há um mês atrás queria. Agora, não. Mostrar-lhes-ei que per­tenço a mim próprio.

Dilman soltou um suspiro. Chegara a altura. Não era uma boa altu­ra, mas talvez nunca houvesse uma melhor para dizer o que queria.

-       Tens a certeza de que só pertences a ti próprio, Julian? Tens a certeza disso?

Os olhos salientes de Julian deixaram de examinar as unhas dos dedos. Olhou desconfiadamente para o pai.

O que quer dizer com isso?

Prestaste algum juramento de fidelidade? Sei que pertences ao corpo dos estudantes da Sociedade Crispus...

Está a falar a sério? Eu entrei para a Sociedade ainda era miúdo.

-       E depois de teres crescido, não entraste para mais nada? Julian franziu o sobrolho, de novo desconfiado, enquanto

esfregava na carpete a ponta do sapato inglês pontiagudo.

-       Se não entrei para mais nada? Não percebo, pai. Dilman aproximou-se do filho.

-       Muito bem, vou pôr as cartas na mesa, Julian. Há uns dias atrás - na noite a seguir ao F. B. I. ter prendido o Hurley - recebi um telefonema daquele jovem que tu tanto admiras - do Leroy Poole - defendendo o caso de Jefferson Hurley como legítima defesa e pedindo-me para não banir os Tumentes. Disse-lhe que tinha de os ba­nir. Sabes o que ele me respondeu? - Observou atentamente o rosto desconfiado do filho. - Respondeu-me: Se processar os Turnerites por subversão criminal, processará o seu próprio filho! Disse ainda: O Julian é dos nossos, rouba informações à Sociedade Crispus para obter as estatísticas acerca de perseguições em lugares como Hattiesburg! Foi o que ele me disse.

Julian tinha uma expressão de raiva no rosto.

O Leroy Poole? Ele disse-lhe isso?

Isso e muito mais, Julian. Eu disse-lhe que ele era um sujo men­tiroso. Ele respondeu-me: Muito bem, pergunte ao Julian! - Dilman fez uma pausa. - Estou aqui, Julian, para to perguntar.

Perguntar-me o quê? Quer dizer que ainda deu ouvidos a esse porco imundo? A ele? Ele disse mesmo tudo isso?

Dilman sentiu-se aliviado com a indignação do rapaz.

-       Repeti quase textualmente o que ele disse. Já te disse que não acreditei nele. Vim aqui para ter a certeza.

Julian pôs-se de pé, torcendo furiosamente as mãos.

Aquele patife, aquele estupor!

Julian, eu não insistiria mais na coisa se ela não fosse tão im­portante para ambos. Foste alguma vez, mesmo por um dia ou por um minuto, um membro secreto do grupo dos Turnerites? Diz-me apenas sim ou não, e pronto.

-       Não, nunca. Juro-o. Já está satisfeito? Dilman levantou-se:

Não, não estou satisfeito. Mas sinto-me melhor. Sinto-me con­tente de teres tido o bom senso que eu sempre julguei que tivesses.

Nunca pertenci - disse Julian numa voz aguda - mas isso não quer dizer que não pense que eles é que têm razão e não o pai.

Isso não me interessa, Julian. Obrigado. Até à vista. Espero ver-te, em breve, em Washington.

Tentou dirigir-se para a porta, mas Julian cortou-lhe o caminho.

O pai pode ser o presidente ou o que quer que seja, mas há muitos que têm mais fé nas ideias de Jef Hurley do que nas suas.

Já te disse que isso não me interessa. - Desviou-se do filho e encaminhou-se para a porta.

Faria bem melhor se o interessasse! - gritou o filho.

Ele recusou-se a prosseguir naquela discussão. Viera ali para fazer ao filho uma única pergunta. Ouvira a resposta dele e esta fora satisfatória. Tal facto brilhava como uma jóia num dia desastroso. Não permitiria que essa minúscula pedra preciosa de felicidade fosse manchada tão rapidamente.

PARA SER ENTREGUE ÀS 20 HORAS

ESCRITÓRIO DO SECRETÁRIO DA IMPRENSA DA CASA BRANCA

A CASA BRANCA

O PRESIDENTE REGRESSOU DE NOVA IORQUE ÀS 18 E 30 HORAS. ESTEVE MEIA HORA EM CONFERÊNCIA COM O PROCURA­DOR KEMMLER E COM O MINISTRO DA EDUCAÇÃO, SAÚDE E BEM--ESTAR PÚBLICO, SR. CUMMINS, NO SEU ESCRITÓRIO.

ÀS 19 e 15 HORAS O PRESIDENTE ENCONTROU-SE COM O REVERENDO PAUL SPINGER E COM OS DIRECTORES DA SOCIE­DADE CRISPUS. A SEGUIR A ESTA REUNIÃO, O PRESIDENTE FEZ UMA DECLARAÇÃO IMPROVISADA À IMPRENSA.

«O triste incidente que ocorreu esta manhã na Universidade de Trafford, depois da notícia da dissolução do Grupo dos Turnerites, vem sublinhar a necessidade de cada cidadão americano estar alerta quanto aos perigos subversivos do extremismo, de onde quer que ele venha» -disse o Presidente Dilman ao corpo da imprensa da Casa Branca reuni­do à sua volta no vestíbulo da Ala Oeste, ao fim da tarde. Não mostrando quaisquer danos físicos provocados pelo episódio dos ovos em Trafford, o qual está a levantar controvérsias no estrangeiro, o presidente conti­nuou calmamente a dizer aos ouvintes que estava a tomar medidas para alinhar os negros moderados...

Uma voz vinda do canto mais afastado do quarto do motel bra­dou: «Calem-me esse estupor desse locutor!»

Poole levantou-se logo da cadeira e desligou a telefonia.

Metendo o pequeno transístor no bolso, voltou-se de frente para os outros, que estavam sentados ou deambulavam pelo quarto, que ele alugara na manhã a seguir à noite em que se lançara contra aquele patife do Dilman. Depois de ter revelado a Dilman que o rapto fora um acto oficial Turnerite e de lhe ter atirado com a notícia de que Julian era um membro secreto do grupo, começara a temer que Dilman mandas­se o F. B. I. atrás dele para colher mais informações. Sem perda de tempo, Poole pedira um carro emprestado e mudara-se, juntamente com toda a sua bagagem, do hotel no centro de Washington para aquele obscuro motel de 2.ã classe na Rua do Canal, perto do Boat House do Fletcher, a três milhas de Georgetown.

Desde então, Poole chegara à conclusão de que afinal não de­via estar a ser perseguido por causa de mais informações. O mais provável era que o presidente não tivesse contado a ninguém o tele­fonema do seu biógrafo, com medo de comprometer o filho. Por fim, Poole sentira-se suficientemente seguro para dar a conhecer o seu endereço a quem interessava. Um a um os restantes chefes dos Turnerites tinham comparecido para resolver o que poderia ser feito por Hurley e pela sobrevivência da sua organização.

Tinham chegado sete - sem contar com Poole - e estavam já reunidos havia pelo menos umas quatro horas, bebendo cerveja e comendo sanduíches de queijo e de fiambre. Tinham conversado, ti­nham discutido, tinham especulado, fazendo intervalos para escutar as notícias da telefonia, e agora chegara a altura de tomarem uma decisão.

Frank Valetti, o subchefe de Hurley, um produto de um casamento inter-racial negro-italiano, parecido com um bravo índio bronzeado (e era o mais persuasivo e sofisticado entre eles, com excepção do próprio Leroy Poole), tinha, de certo modo, presidido ao encontro. Já queimara os registos da sociedade e as minutas das reuniões. Dera conta do di­nheiro que tinham ainda e sugerira como deveria ser utilizado. Os votos tinham sido de sete contra um a favor da proposta de Valetti de que os fundos deviam ser entregues a um advogado branco esquerdista, um bom associado em Manhattan, para serem usados para reforçar a defe­sa de Jeff Hurley. O único oponente fora Burleigh Thomas, um dos dois homens que ajudara Hurley no rapto de Gage e que conseguira esca­par sem ser reconhecido. Burleigh Thomas, um musculoso e mal--humorado motorista de caminhões, de cabelo encarapinhado, um na­riz largo e achatado e uma voz incendiária, quisera que a maior parte dos restantes fundos tumentes fossem utilizados para fomentar mais violências às ocultas.

-       Jeff Hurley é já um porco morto, escaldado, sem pele e pronto a ser cozinhado - dissera Burleigh Thomas. - Por que lançar a massa pela janela fora? Deixemos que aqueles de nós que quiserem continuem e preguem mais umas tantas partidas àqueles fulanos brancos.

Valetti replicara logicamente que a dissolução feita por Dilman os deixara desorganizados, em perigo, e que qualquer resistência activista nessa altura seria pouco inteligente. Mais tarde, talvez, mas agora não. Leroy Poole acrescentara que Jeff Hurley ainda não esta­va morto, que havia meios de o salvar, que era o dever deles tentá-lo e fazer simultaneamente uma boa campanha de propaganda das suas ideias. Isso levaria o resto do dinheiro. E assim os votos tinham sido de sete contra um.

Chegara a altura de tomarem uma decisão.

Bem, malta - disse Valetti, descruzando as pernas e juntando as mãos -, acho que estamos de acordo em nos separar. O meu chefe foi-se. Os vossos registos foram-se. Os nossos fundos já têm para onde ir. Nada mais temos a fazer, pelo menos por agora.

Que tencionas fazer, Frank? - perguntou Poole.

Vou até ao estrangeiro, por algum tempo.

Até ao estrangeiro, escutem isso - troçou Burleigh Thomas. - Até ao estrangeiro, hem? Vais mas é a fugir cobardemente, queres tu dizer.

Valetti abanou a cabeça.

-       Não me metes medo, Burleigh, estamos ambos do mesmo lado. Sim, vou para o estrangeiro, porque não quero que os federais me macem ou me usem contra o Jeff Hurley. Além disso, quero arranjar alguma massa para a nossa causa, montes dela, e depois regressar e reorganizar algo novo.

Quem é que te dá as massas lá no estrangeiro? - resmungou Burleigh Thomas. - Quem diabo se importa connosco? Os que se importam não têm massas, e os que as têm estão-se nas tintas.

Acalma-te, Burleigh. - Os lábios de Valetti arreganharam-se num sorriso conhecedor de causa. - Cá tenho os meus meios. Sugiro que se reúnam com os nossos velhos amigos nas sociedades mais respeitáveis e façam o que puderem para lhes levantar o moral. Fa­çam apenas o melhor que puderem, e quando chegar a altura apro­priada regressarei e chamá-los-ei a vocês todos. Quanto a Jeff, acho que podemos confiar nos advogados para tentarem tudo o que pu­derem, e se eles nada conseguirem, podemos recorrer aqui ao Leroy para tentar pedir clemência ao presidente.

Eu não sei se o Dilman me quererá tornar a ver - disse Poole.

Tens nas tuas mãos o bastante para fazer com que ele te rece­ba. - Valetti piscou o olho. - É provável que um ou dois registos não tivessem sido queimados.

Burleigh Thomas pôs-se de pé e puxou as calças na cintura.

-       Eu nem cuspiria nesse idiota desse Dilman de barriga amarela, quanto mais ir-lhe pedir favores. Só o iria ver para uma única coisa, era para lhe partir as ventas. Ele é a causa de todos os nossos sari­lhos, digo-vo-lo eu. Eu já previa isto desde que e/e ocupou o lugar, e disse a Jeff Hurley, logo no princípio, que Dilman seria o nosso pior inimigo. Como já disse a Jeff, é melhor que estejamos preparados para lutar contra esse nigger branco tanto quanto contra os brancos fedorentos. Bem, rapazes, vocês bem podem ver que eu tinha razão, não é verdade? Olhem só para ele. Olhem para esse Dilman. Ele nem nos trata corno um político branco decente nos trataria, quanto mais como um negro nos devia tratar. Digo-vos uma coisa, daria o meu braço esquerdo para que O. C. fosse ainda presidente, ou até mesmo aquele yankee do Eaton, porque esses, ao menos, lembrar-se-iam do poder dos nossos votos e não nos mutilariam com esse negócio dos controlos subversivos. Mas Dilman... - Thomas fuzilou Poole com o olhar. - Preferia que o meu amigo Jeff Hurley morresse na cadeira eléctrica do que pedir qualquer favor a esse nigger do Dilman de barriga amarela.

Eu não preciso de pedir favores nenhuns ao Dilman - disse Leroy Poole com voz aflautada. - Como disse o Frank, temos outros meios para lidar com canalhas daquela espécie.

Pode afirmar que temos, mas não é a pedir favores - grunhiu Thomas. Olhou para os outros. - Muito bem, seus medricas, façam o que quiserem. Alguns de nós não vão desistir assim tão facilmente, não senhor. Não vamos deixar que nenhuma lei suja de controlo nos faça fugir à procura à de abrigo.

Não têm a mínima probabilidade de conseguirem alguma coisa - disse Frank Valetti. Pegou na gabardina e dirigiu-se para a porta. - Vou-me pôr a andar. Boa sorte para todos. Ainda obtere­mos algum dia o que Jeff e todos nós pretendemos, talvez até mui­to em breve. Boa noite.

Depois de Valetti se ter ido embora, os outros apertaram a mão a Poole e partiram, sozinhos ou aos pares. Por fim só ficaram na sala Burleigh Thomas e Leroy Poole.

Thomas enfiou o camisolão, enquanto Poole esperava. Este po­dia ver que o outro estava deliberadamente a demorar a operação, como se quisesse dizer algo.

Poole não se sentia à vontade. Constituía um motivo de espan­to para ele como é que uma organização que possuía um único objectivo a alcançar podia abranger dois homens tão diferentes como o Thomas e ele próprio. Para Poole os homens como o Thomas eram selvagens, primitivos demasiado brutos e demoníacos para apreciar os refinamentos da revolta e da liberdade, como acontecia consigo e com outros do seu género. Os Thomases eram os alvos mais fáceis para os brancos do género do Zeke Miller, do Bruce Hankins e do Everett Gage, os quais não acreditavam que tais seres estivessem preparados para uma igualdade civilizada. Quando se concorda em os soltar, abre-se a janela. Mas que acontecerá en­tão? Poderão primatas ignorantes, bárbaros, vingativos, viver livres juntamente com criaturas superiores, educadas e cumpridoras das leis?

Instantaneamente Poole se odiou por ter tais pensamentos. Recordou os seus exercícios mentais de todas as manhãs, e pensou que Burleigh Thomas merecia tanto a liberdade, por muito mal pre­parado que estivesse para a receber, como ele próprio, e então sen-tiu-se mais benevolente em relação ao motorista de caminhões.

Deu com Burleigh Thomas a observá-lo atentamente. Poole sentiu uma labareda de remorsos dentro de si.

Bem, Burleigh, desejo-lhe...

Leroy, que tenciona fazer a seguir?

Poole ficou surpreendido que o seu primitivo companheiro pudes­se ter tais preocupações.

A seguir? Bem, primeiro que tudo, tenho de arranjar dinheiro. Acho que vou acabar o meu livro, aquele que estou a escrever acer­ca de Dilman, para que me paguem o que me devem. E depois come­çarei a usar o meu púlpito, que é a minha máquina de escrever, a sério, para ver se entusiasmo um pouco mais a nossa gente. Parece--me que afinal, bem no coração, não passo de um pobre pregador.

Não é isso. Referia-me ao nosso movimento.

O que é que há a fazer? Tenho seguido o julgamento de Jeff Hurley. Já tive notícias da mãe dele, de Louisville, e dos seus outros parentes. Confiam em mim. Penso que os federais não darão a Jeff mais do que uma sentença forte, de assassínio ou qualquer coisa do género. Não devem querer mais sarilhos. Se for mais do que isso, terei de recorrer a Dilman. Tenho meios para fazer com que ele me receba. E pelo que sei, ele tem nas mãos o poder de salvar o Jeff. - Viu que Thomas não ficara satisfeito, e então lembrou-se. - O nosso movimen­to, perguntou você? Como o Frank Valetti disse, o procurador-geral e o Dilman deitaram-nos abaixo com um tiro. Acho que vou ficar quieto e fingir-me de morto até que parem de disparar.

Burleigh Thomas cobriu o cabelo crespo com um boné de lã.

Eu não - disse ele. - Há pelo menos dúzia e meia de nós que não vai ficar com os braços cruzados. Não, senhor. Vamos continuar para a frente, como o Jeff certamente quereria.

Desejo-lhe boa sorte, Burleigh, mas olhe que os dados são falsos. Valetti é um tipo muito esperto. Por que não faz o que ele sugeriu? Mantenha-se quieto até que...

O Valetti que vá para o diabo. Ele tem os seus amigos comu­nistas para se refugiar. Isso nada tem a ver connosco. Nós não temos nada nem ninguém à nossa espera. Só nos resta continuar a lutar. - Fez uma pausa e observou Poole, semicerrando os olhos. - Você é um gajo muito esperto, Leroy. Tenho-o ouvido. A si ainda não o con­seguiram vencer.

Ninguém me venceu, nem nunca me vencerá.

Acho que nós os dois não somos assim tão diferentes, excepto na educação. Conhecendo o Dilman como você o conhece, tenho quase a certeza de que concorda comigo em que ele é o pior cana­lha preto que existe à face da terra.

Em princípio, não posso dizer que não concordo consigo - anuiu Poole. - Contudo, o seu defeito não é ser mesquinho, mas sim medroso...

Sim, é um trémulo medricas. Mas, para mim, não há nada pior, porque isso faz com que ele ande só a correr à volta das pernas dos brancos, ladrando e pondo-se em pé nas patas traseiras sempre que eles fazem estalar os dedos. É como se ele tivesse medo de mostrar que nos conhece, como se quisesse provar que nunca nos viu, e então é duas vezes mais duro para connosco. Acho que até aquele maldito do Zeke Miller seria melhor...

Bem, bem, não será tanto assim, Burleigh.

Vai ver como eu tenho razão - insistiu Thomas. - Antes que o Dilman saia do lugar, estaremos todos nas plantações a apanhar algo­dão. Digo-lhe só isto: faça o que entender, mas há alguns de nós que não o vão deixar escapar. O que o Jeff começou, nós o terminare­mos. Vamos espremer aquele Dilman até que ele veja qual a diferen­ça entre o preto e o branco. - Thomas hesitou. - Tem a certeza de que não nos quer acompanhar?

Leroy Poole bateu na barriga.

-       Não fui feito para usar os músculos, Burleigh. Sou apenas um homem de palavras. E as palavras também podem ser punhos.

Thomas cerrou os punhos, semelhantes a dois pilões.

-       Não como estes, não há palavras que valham estes. Muito bem, Leroy, faça as coisas à sua maneira que eu as farei à minha. - Foi até à porta, segurou na maçaneta, mas voltou atrás antes de a abrir. – Talvez mude de opinião. Se mudar, eu estarei ainda aqui alguns dias. Se me quiser dizer alguma coisa, pode entrar em contacto comigo através da minha irmã. Ela é uma miúda fixe. Deixe-lhe uma mensagem na Estalagem do Caminho - é uma taberna na Rua 17 - a dizer-lhe que quer que eu lhe telefone. É só deixar uma mensagem à minha mana.

Quando ele abriu a porta, Poole exclamou:

Qual é o nome dela, Burleigh?

Ruby - e o apelido é igual ao meu -, Ruby Thomas. Ela sabe sempre onde eu estou.

PARA ENTREGA IMEDIATA

ESCRITÓRIO DO SECRETÁRIO DA IMPRENSA DA CASA BRANCA

A CASA BRANCA

SEGUINDO AS ORDENS DO MÉDICO DA CASA BRANCA, ALMI­RANTE OATES, O PRESIDENTE PASSARÁ O DIA A BORDO DO IATE PRESIDENCIAL FREDDIE BOY. O IATE PARTIU DA DOCA DA MARI­NHA DE WASHINGTON ÀS NOVE HORAS DA MANHA. COM EXCEP­ÇÃO DE UMA ENTREVISTA COM O MINISTRO DE ESTADO EATON SOBRE A PRÓXIMA CONFERÊNCIA COM O PRESIDENTE KASATKIN, E DE TER REVISTO O PROJECTO FINAL DO PROGRAMA DE REA­BILITAÇÃO DAS MINORIAS, QUE LHE FOI ENTREGUE PELO CON­GRESSO, O PRESIDENTE DEDICARÁ O DIA DE HOJE À PESCA NO ALTO MAR E AO REPOUSO.

Pela uma hora da tarde, Douglass Dilman soube que aquele passeio de barco fora um erro e que ia ser um outro fracasso.

Quando o almirante Oates lhe sugerira uma breve viagem náuti­ca para poder descansar durante um dia longe do seu escritório, espe­cialmente por causa da agitação suscitada pelo incidente ocorrido na Universidade de Trafford e da ligeira subida da sua tensão arterial, Dilman não fora capaz de rejeitar tal proposta. Achara que isso o faria parecer ridículo aos olhos do Governador Talley, do Ministro de Esta­do Eaton e de vários outros conselheiros que se encontravam no seu escritório nessa altura. Com fingido entusiasmo, concordara com o passeio. Não dissera a nenhum deles que, com excepção de uma única viagem de vapor nos Grandes Lagos e de várias travessias em ferryboat para o Staten Island, nunca pusera os pés num barco e nunca saíra para o alto mar em toda a sua vida.

A sua apreensão fora de certo modo aliviada de manhã cedo, depois de ter embarcado, de o comandante Chappell lhe ter dado as boas-vindas e de ter sido saudado pelos seis marinheiros no deck. Enquanto o iate - outrora baptizado por Eisenhower com o nome de Barbara Ann, por Kennedy com o de Honey Fitz e por fim por O. O com o de Freddie Boy - prosseguia no seu caminho pelo rio Anacostia abaixo e através da baía de Chesapeack, o almirante Rivard, o vete­rano chefe do pessoal da Marinha, levara-o a dar uma volta pelo barco.

Mal se dando conta do movimento do iate e dos rangidos das amarras, Dilman admirara o barco da popa à proa, de bombordo a estibordo - ou seria bombordo? Ficara tão confuso com a linguagem do almirante como se ele lhe falasse em latim ou hebraico. Acenando constantemente com a cabeça, para mostrar o seu prazer e compre­ensão, Dilman percorrera não só cada polegada do deck, mas tam­bém a cabina do comandante onde se encontrava o leme, e depois fora até às cabinas lá em baixo. Visitara a sala de jantar à proa, o quarto presidencial, com os dois beliches, e a atraente sala com a sua carpete verde, as cadeiras, o aparelho de televisão, o radiotelefone e as gravuras com motivos náuticos de Currier e de Ives.

Depois sentara-se confortavelmente numa cadeira de verga no deck. Tentara dar atenção ao ministro de Estado, enquanto este lhe fazia o relatório da sua recente conversa com o embaixador soviético Rudenko. Dilman assimilara por alto a essência dela- uma conferên­cia de três dias, no castelo de Chantilly, a vinte e seis milhas ao norte de Paris, culminando o último encontro com o banquete de despe­dida do presidente francês, oferecido no Palácio de Versalhes - e durante todo o tempo estivera hipnotizado pelo varão do iate que se levantava e baixava por detrás do ombro de Eaton. Dilman medira secretamente a distância a que o varão se erguia acima da linha do horizonte e se deslocava para baixo dela. O movimento ascendente abrangera duas polegadas de um céu perfeitamente azul e sem nu­vens. O movimento descendente abrangera três polegadas de água verde-mar. Quanto mais o seu estômago se contraía e a garganta lhe parecia subir até à boca, mais atento procurava estar à voz de Eaton.

Não sabia por quanto tempo ainda o ministro de Estado tencio­nava continuar, mas sentira-se grato quando Edna Foster o interrom­pera com uma mensagem vinda de terra. Depois disso, o comandan­te Chapell anunciara alegremente que já iam a navegar no Atlântico, em pleno mar alto, e que a cana de pesca estava pronta, à sua espe­ra, a bombordo. O facto de ter de transpor o obstáculo de localizar o bombordo (sem perguntar) através daquela baralhada flutuante e o enjoativo conhecimento de que baloiçavam no meio do oceano deram a Dilman a coragem para dizer que ainda não estava preparado para pescar.

-       Tenho ainda muito trabalho a fazer - alegara ele. O comandante insistira:

Sr. Presidente, não pode desperdiçar um dia quente e sem vento como este. Não há muitos anos, nesta época do ano, digo-lhe eu. Olhe só - o sol, nem uma brisa, o mar calmo como um espelho e umas percas à espera de serem pescadas.

Muito obrigado, comandante, irei assim que puder.

Escapara-se, fingindo ir à procura de Miss Foster, mas quando che­gara ao tombadilho fora interceptado por Sally Watson. O ar do mar tornava-a mais exuberante e bonita do que nunca. O cabelo loiro, repu­xado para trás, estava parcialmente coberto pelo capuz da camisola de riscas coloridas. As ancas, quando ela andava, moviam-se provocante­mente sob as calças brancas e justas.

Magnífico, não está? - perguntara ela jovialmente, tirando os ócu­los escuros.

Óptimo, óptimo - respondera ele.

Sinto-me absolutamente faminta. O ar salgado dá uma destas fomes! Mas não temos licença de almoçar enquanto o Sr. Presidente não descer. A comida já está na mesa.

Já o almoço? - dissera ele, e sentira o estômago contrair-se de novo. - Ainda é muito cedo para mim. Diga que vou almoçar mais tarde. Faça saber aos outros que podem descer.

Enquanto todos tinham ido para baixo, para serem servidos pe­los criados de casaco branco, Dilman ficara sozinho no deck. Senta-ra-se por algum tempo numa cadeira, sentindo-se quente no seu fato cinzento de lã, fechando os olhos ao leve baloiçar do iate, tentando não pensar no trabalho que o esperava na sala, perguntando a si próprio se Nat Abrahams teria recebido a sua mensagem a noite pas­sada e se poderia vir ter com ele.

Assim se passou rapidamente uma hora e, ao começar a ouvir os outros a conversar enquanto subiam para o deck, levantara-se. Não queria que o encontrassem enterrado numa cadeira, indisposto e murcho. Teria sido embaraçoso e não presidencial. O menos que podia fazer, decidira, era assumir uma pose mais acidental e apre­sentável. Caminhara inseguro até à amurada e encostara-se aos va­rões, fingindo uma atitude de profunda meditação.

E ali estava ele, à uma hora da tarde, sufocado pelo enjoo, extre­mamente tonto e cheio de pena de si próprio.

Pelo rabo do olho pode ver Arthur Eaton, tão elegante no seu casaco azul com botões de metal, nas suas calças imaculadamente brancas, com um lenço ao pescoço e um boné branco de marinhei­ro, ir ter com Sally Watson à proa, rindo, dizendo piadas, gozando aquele dia lindíssimo no mar. Pela primeira vez Dilman invejou Arthur Eaton, não porque Eaton fosse branco e ele preto, mas porque Eaton tivera a vantagem de ter sido educado naquele género de vida, fa­zendo parte integrante dela, pertencendo-lhe. Eaton nascera para o iate presidencial. Ele pertencia aos vapores das travessias.

Amargamente, desviou os olhos do par e fixou-os de novo no mar hostil. Como invejava os seus antecessores, aqueles presidentes na­turalmente marítimos como Franklin Roosevelt, John Kennedy e O. C, dotados de espírito de marinheiro, de classe e educação inatas - mas todos nascidos, todos, com aquelas qualidades desde o seu primeiro dia. Sentindo-se fraco, os ombros retesando-se com o erguer e baixar do varão, entregou-se aos lamentos a si próprio. Aquele maldito iate era apenas um símbolo de tudo o que era impossível. Não era justo crescer-se e viver-se uma vida ipteira como um proscrito, um exilado. E isto não se passava apenas com os negros, mas também com mui­tos brancos, brancos sem passado, sem dinheiro e sem educação. Não era justo viver-se e morrer-se mergulhado na inferioridade, no aca­nhamento e na estupidez, nunca sabendo ao certo que garfo ou que colher usar, nem conhecendo a etiqueta, ou os jogos para ocupar o tempo livre, não sabendo sky aquático ou pólo, ou aquela última dan­ça sul-americana, nunca tendo conhecido as sumptuosas reuniões fami­liares no dia de Natal ou no dia de Acção de Graças (com a mãe, a matriarca, e não com a mamã de dedos ásperos de lavar roupa), nun­ca tendo conhecido os laços das fundações de caridade e da velha escola e - suprema confiança, aceitação e segurança - nunca tendo conhecido iates.

Isto não se passava apenas com ele, um usurpador naquele sítio, um servo feito à imagem do patrão; isto passava-se com a maior parte das pessoas, para as quais não existe tempo livre, lutando exaus­tas para sobreviverem, para ganhar alguma coisa, até à altura do ataque de coração. Isto passava-se também com Nat, de certo modo; Nat, como ele próprio, sabendo que existe melhor. Nat em miúdo, esborrachando o nariz de encontro ao vidro da janela e sabendo tam­bém que não se possui o direito de admissão. Havia, na vida, injusti­ças ainda maiores do que esta, mas esta era uma das que ficava para sempre. Era como a pele, se ela era preta. Sentiu o estômago vir-lhe à boca e desejou vomitá-lo pela borda fora, mas fez um esforço para o empurrar para baixo, cerrou os dentes e lutou, para não mostrar o que era diante de Eaton, do almirante, das mulheres e de todos os Zeke Millers desta terra.

-       Senhor Presidente...

Voltou-se e deparou com o seu médico, o almirante Oates, a observá-lo.

Sente-se bem? - perguntou o médico.

Mas certamente.

A sua maçã-de-adão quase que nem o deixava falar.

Tenho estado a observá-lo. Pareceu-me um pouco incomo­dado.

Sinto-me muito cansado. É difícil sair-me assim repentina­mente de toda aquela confusão. Estou cansado.

Por que não vai até lá abaixo ao seu quarto, e não se deita um pouco? Eu pescarei em seu lugar.

Teve vontade de abraçar o médico por aquela ordem que lhe permitiria salvar a honra.

-       É uma boa ideia. Talvez vá tentar dormir um pouco. Começara a andar em direcção ao tombadilho, quando Oates lhe agarrou na mão. Sentiu o médico apertar-lhe qualquer coisa dura e quadrada de encontro à palma da mão. Olhou interrogativamente para Oates.

-       Deve-se usar isto juntamente com o cinto de segurança - dis­se o almirante Oates indo-se embora.

Dilman só abriu a mão para ver o que Oates lhe dera quando chegou ao fundo das escadas. Era uma pequena caixa de comprimi­dos. Voltou-a. No rótulo estava escrito: «Para o enjoo, uma drageia de quatro em quatro horas.» Doente como estava, sentiu-se recon­fortado, não só pela compreensão do médico, mas também peia sua discrição.

Entrando na cabina, Dilman tirou uma garrafa de prata do su­porte ao lado do beliche de baixo, encheu um copo de água e depois engoliu um comprimido de Dramamine com a água. Enjoado, segurou-se ao beliche superior e esperou pelo resultado da luta silenciosa que dentro dele se travava. Ou o comprimido conseguia passar a linha inimiga e salvá-lo-ia, ou o inimigo lançaria fora o comprimido e subjugá-lo-ia. Um comprimido levava de meia a uma hora para se dissolver e fazer efeito, lera ele numa revista qual­quer, e esperou, cheio de angústia e alagado em suor. Só dese­java deitar-se no beliche e morrer. A derrota seria demasiado gran­de e ele resistiu-lhe tenazmente.

Passados quinze minutos, ouvindo um bramido lá fora, arras-tou-se até à vigia para ver o que se passava. Então viu o barco da polícia Guadian, cheio de homens armados do Serviço Secreto, e entre eles o Beggs, cortando a água a uma distância de trinta jardas. Mais ao longe viu o que lhe pareceu ser a cabina de um iate de re­creio, aumentando cada vez mais. Deixou a vigia, uma vez mais ten­tado pelo beliche, e depois, resolvido a sobreviver de qualquer ma­neira, saiu do quarto.

Em menos de um minuto encontrava-se na sala presidencial do iate, onde o baloiçar do barco se fazia notar menos. Observou as paredes brancas da sala, as cortinas verdes e brancas com motivos náuticos, as cadeiras de um azul-marinho pálido, o quadro do Independence pendurado por cima da televisão. A sala estava tão graciosamente decorada como qualquer divisão da Casa Branca, e sentiu-se ali melhor, pois não ousaria sentir-se doente numa sala como aquela.

Vendo a sua pasta em cima de um sofá, dirigiu-se para ela, sen-tou-se pesadamente e dedicou-se à combinação que permitia abrir a fechadura de segurança dela. Havia apenas um espesso maço de folhas dactilografadas, preso com uma mola, dentro da pasta. Era o Projecto de Reabilitação das Minorias, aprovado pelo Senado e pela Câmara, e que se encontrava agora nas suas mãos, à espera da sua assinatura. Lera-o todo na noite anterior, tomara algumas notas e pusera alguns pontos de interrogação nas margens. Agora devia tor­nar a ler mais uma vez aquele Projecto de sete biliões de dólares e fazer o que era preciso ser feito, o que a maioria do seu pessoal, do Congresso, da América branca e da América preta parecia esperar que ele fizesse.

Abriu a mala para examinar o Projecto pela última vez, mas come­çou a ver as letras a dançarem-lhe diante dos olhos e sentiu o estômago a subir-lhe cada vez mais em direcção à garganta. Pousou o dossier na mesa e sufocou a náusea, apertando com força os braços do sofá, desejando possuir o estômago, o espírito e os ouvidos de marinheiro de F. D. R., de Kennedy ou de O. C. Depois as convulsões pararam e encostou-se para trás no sofá, sentindo-se vazio por den­tro, os braços moles ao longo do corpo, as pernas estendidas, rezan­do para que a Dramamine vencesse o inimigo e salvasse as ameias ameaçadas do seu bem-estar e da sua dignidade.

Meio deitado naquele estado de turpor, Dilman tentou afastar o seu espírito do mar para a terra. A sua memória procurou a Wanda, o Julian, a Mindy, a Aldora... pobre Aldora de há tantos anos atrás... correra tudo mal a partir do penúltimo dia da sua lua-de-mel, a cami­nho de casa através de Joplin, no Missouri... tinham entrado naquele bar de aspecto acolhedor para tomarem uma bebida ao fim da tarde, pois Aldora, desde o princípio, gostara sempre de uma bebida ao fim da tarde, e, enquanto a tomavam, aqueles dois jovens comerciantes bêbados tinham-se metido com ele; «hei estupor que andas fazendo aqui com uma das nossas raparigas brancas, hem estupor?»... E sa­bendo que eles estavam podres de bêbados, tentara explicar, não lutar, explicar que Aldora era de cor como ele e era sua noiva... e tentara sair dali, mas eles tinham-no agarrado, dizendo: «hei estupor, não sais assim daqui, não, não sais daqui com uma rapariga bran­ca...» e ele tentara soltar-se, até que eles o tinham atirado ao chão e lhe tinham batido, e Aldora começara a gritar... e os homens tinham--se ido por fim embora, praguejando e cambaleando... e ele e Aldora... o verdadeiro começo das complicações tinha sido então, mas não o verdadeiro começo, pois este começara quando ela nascera mais branca do que preta, pele clara, mas coração escuro... lançando a sua amargura ao destino, à vida, por a terem feito quase branca, mas não o suficiente, ressentindo a companhia dele, a sua pele escura... e a sua luta para lhe mostrar que não era nenhum pobre farrapo pre­to, mas um homem digno dela, um grande advogado, um grande político... Mas não valera de nada, porque aparecera Mindy, quase branca como ela, tão branca que tinha também os mesmos projec­tos que Aldora tivera e demasiado cedo os abandonara, e o despre­zo sempre crescente de Aldora por ele, escondendo e separando-o de Mindy, como se tivesse medo que ele contaminasse a filha... e depois Aldora quisera uma outra Mindy, para provar algo, talvez para fugir dele, mas também isso de nada valera... ainda pior... viera Julían, preto como o carvão, lembrando que o marido era preto e que ela era preta e que Mindy também era preta... e ele próprio tentando erguê-los por meio da política, para compensar o ser o alcatraz preto de Aldora e também o de Mindy... Mas era demasiado tarde para as erguer juntamente com ele, porque já ambas tinham fugido... Mindy, com a ajuda de Aldora, para um colégio branco particular no Colorado, o nome do qual ele nunca conseguira saber, e depois para o Este, o branco, branco Este... e Aldora fugindo também, para dentro de uma garrafa, uma garrafa por dia, tão isolada pelo vidro como um barco em miniatura dentro de uma grande garrafa... e ele tentando tudo para a alcançar e a ajudar a escapar, tentando até ir ter com ela den­tro da garrafa, mas em vão... até mesmo indo com ela para um quar­to de um sanatório, mas em vão... até que ela escapara, por fim, num caixão, para debaixo da terra, onde ninguém é quase branco, onde todos são iguais, em paz e iguais, possuidores de um só espírito, mortos, de uma só carne, mortos, de um só rosto, mortos. Aldora, desejosa de ser branca, de ser livre, no planeta subterrâneo do nada onde não existem os demónios do quase.

Ele invejou-a nesse momento, e quis escapar ao pesadelo per­sistente e sonolento, e agora tinha a Dramamine e escapou.

Passou pelo sono.

Uma eternidade? Uma hora? Por quanto tempo? Não sabia. Al­guém bateu à porta e chamou por ele, acordando-o.

Pestanejou e sentou-se direito no sofá, esfregando os olhos. En­goliu. A maçã-de-adão já se mexia à vontade. Sentia ainda uma espes­sura pegajenta na garganta, mas o enjoo e as tonturas tinham passa­do, levando consigo Aldora e aqueles horríveis anos.

-       Quem é? - gritou. Fez um esforço para acordar completa­ mente. - Quem está aí?

-Sr. Presidente...

Reconheceu a voz abafada de Miss Foster, e disse:

-       Entre, entre.

Ela meteu a cabeça na sala.

-       Sr. Presidente, o Sr. Abrahams está a bordo. Quer...?

-       Certamente, mande-o entrar. Tenho estado à espera dele. Ela deixou a porta aberta, e o som ténue e leve dos seus sapatos de sola de borracha afastou-se pelo corredor, sendo substituído, passados poucos segundos, pelo barulho sólido e pesado dos tacões de Abrahams.

Como ele próprio, lembrou-se Dilman com agrado, Nat Abrahams também não nascera para o mar ou para as casas senhoriais. O mar emaranhara o tufo de cabelo castanho de Abrahams, e o enorme casaco de tweed que ele trazia pendurado no braço, a gravata presa com um alfinete de ouro platinado, as calças pesadas de fazenda e os sapatos grossos e velhos faziam-no parecer um marinheiro de água doce à deriva numa jangada.

Ocorreu a Dilman, como já lhe ocorrera uma vez, havia muitos anos atrás, quanto o amigo se parecia com os esboços do perfil de Sherlock Holmes feitos por Frederic Don Steele, especialmente naquele momento em que Abrahams, depois de ter cumprimentado Dilman, ficara também de perfil, o rosto ossudo e semelhante ao de um falcão adornado com o cachimbo, o queixo proeminente e toda a admirável e fria sabedoria de grande detective. Poderia alguém imaginar um Sherlock Holmes náutico, ao sabor do vento e do mar? Era inconcebí­vel. Tão inconcebível, pensou Dilman, quanto Nat Abrahams e ele pró­prio a bordo daquele luxuoso iate. Com a presença de um aliado da terra firme, Dilman sentiu-se bem pela primeira vez. Sentiu-se tão res­tabelecido como se tivesse desembarcado em terra firme.

Abrahams atravessou a sala a grandes passadas, deixando atrás de si um rasto de fumo, apertou calorosamente a mão de Dilman e sentou-se numa cadeira ao seu lado.

Isto não está mal - disse ele, abrangendo a sala do iate com um gesto da mão. - Estás a gostar?

É um inferno de um barco, Nat - disse ele. - Foi isto que deve ter inspirado Edward Everett Hale a escrever The Man Without a Country. Já sei como é que Philip Nolan se sentia.

Abrahams observou-o atentamente.

Enjoado, Doug?

Comecei a ficar assim mal entrei nesta banheira - disse Dil­man. - Não fazes a menor ideia do que possa ser, Nat. Todos os meus conselheiros, oficiais e ajudantes lá em cima a respirarem deliciados o ar salgado. Todos a dizerem-me que está um dia maravi­lhoso, que o barco é fantástico, o oceano parece um espelho, e eu, só eu, titubeando por aí, tentando esconder-me deles, não os dei­xando ver que só me apetece vomitar. Não consegui comer nem consegui falar devidamente com Eaton. Tenho dedicado todos os minu­tos a esforçar-me por não vomitar. Acho que queria manter a minha posição de autoridade. Diz-me lá, como é que se pode ser coman-dante-chefe da Marinha e passar-se todo o maldito tempo do passeio com a cabeça dentro do lavatório? Eles nasceram para isso, aqueles lá em cima têm os estômagos treinados para isso. Como é que lhes posso dizer que o comandante deles nunca tinha visto um iate de perto, excepto nas páginas do Holiday, e que tudo o que o presidente fez hoje foi não vomitar? Não, não os consegui enganar nem por um segundo, Nat, nem o Eaton nem nenhum deles. Eles sabem que es­tou tão deslocado aqui como na Casa Branca...Como é que me sin­to? Sinto-me doente e envergonhado, mas agradeço-te o teres vindo ouvir as minhas lamentações.

Nat Abrahams, o cachimbo entalado entre os dentes, abanava a cabeça de tal modo que algumas faúlhas foram parar ao chão. Apa-gou-as com o pé e depois disse:

-       Doug, que estás a tentar provar? Sentes-te doente e envergo­nhado? Envergonhado por não estares habituado a iates e não pos­suíres um passado social? São Daniel, olha só para trás - o que é que Andrew Jackson, Zeck Taylor, Abe Lincoln e Harry Truman sabiam de iates, de Exeter ou Vale? E cumpriram bem a sua missão, disso podes tu ter a certeza. Estás doente, sentes-te doente? Bem, tu és patrão, e se não te sentes bem aqui aos saltos neste barco, o que tens a fazer é saíres dele. Diz-lhes que não gostas disto e que queres ir para casa. Desculpa-me dizer-te isto outra vez, mas por que tentar usar os sapa­tos de O. C, ou mesmo os de Arthur Eaton, se eles te apertam os pés? Tu podes ter os teus.

Dilman conseguiu sorrir por fim.

Obrigado, papá. Já me sinto melhor. Na realidade, acho até que não me desapetece uma boa bebida gelada. E tu?

Nada me poderia agradar mais... Deixa-te estar aí sentado, que eu preparo-as.

Abrahams foi até ao bar e preparou um bourbon com soda para Dilman e um whisky com gelo para ele. Depois de ter voltado para a sua cadeira e de terem bebido em silêncio, Dilman disse:

-       Melhor, muito melhor. - Pousou o copo meio cheio ao lado do Projecto do M. R. R e desapertou a gravata. - Deves-te sentir logra­do, Nat. Convidei-te para pescar...

Disparate.

Mas acho que o que eu queria era ter uma oportunidade para conversar contigo. Não temos tido muito tempo para isso ultimamen­te. Não nos vimos depois de aqueles rapazes de Trafford me terem utilizado para o tiro ao alvo, pois não?

Não. Também tenho estado ocupado. Levei a Sue para Chica­go, para arranjar as coisas. Enquanto espero pelo contrato final, te­nho sido apresentado aos teus legisladores. Oliver quase que já fez de mim um congressista honorífico. - Depois hesitou. - Trafford? A coisa deve ter sido dura para ti e para o Julian.

Foi mesmo. Mas não tinha por onde escolher. Pelas demons­trações que se vêem, acho que afastei toda a simpatia negra que possuía. Penso que foi isso o que mais me surpreendeu.

Ganhá-la-ás de novo, e em breve - disse Abrahams. - Assim que assines o Projecto das Minorias, terás setenta ou oitenta por cento da população negra ao teu lado. Nada do que fizeres poderá satisfa­zer os restantes, os extremistas. - O olhar de Abrahams pousou na mesa e depois em Dilman. - Já assinaste o Projecto de Reabilitação das Minorias, Doug?

Ainda não. Não sei. Suponho que era por isso que eu queria falar hoje contigo. Pescar, sim, acho que o que eu queria era lançar a linha e pescar a tua opinião. - Dilman pensou ver o amigo mexer-se pouco à vontade, e ficou intrigado. - A não ser que, claro está, não estejas particularmente interessado em falar do Projecto ou não o conheças suficientemente bem. Se...

Oh, eu já o li, Doug. Não te esqueças de que sou um novo Nat Abrahams, e que devo estar a par de toda a legislação pendente ou activa. E o Projecto das Minorias, encaremos a realidade, é o maior programa económico interno que passou pelo Congresso nestes últi­mos anos.

Dilman observou Abrahams a sacudir a cinza do cachimbo, tor­nar a enchê-lo e acendê-lo. Depois disse:

Não é o custo o que me preocuparia, se eu pudesse estar tão seguro quanto a gente de O. C. e o Congresso de que ele faria algum bem. Mas tenho a desconfortável sensação de que é uma espécie de - «dêem-lhes pão e ciro».

É mais do que isso - disse Abrahams, demasiado apressado. Segurando no cachimbo com os dentes, procurou qualquer coisa na algibeira. - Na verdade, até tenho aqui um pequeno resumo. Tirou umas folhas de papel dobradas e desdobrou-as. - Tenho aqui os pontos mais importantes do Projecto - factos e números, e algumas notas, projectando o seu efeito no país, considerado como um todo. Eu até sublinhei alguns dos seus aspectos mais duvidosos. Mas não há dúvida de que pode dar à nossa economia um grande avanço. - A sua voz tornara-se arrastada. Estendera-lhe os papéis. - Talvez gostasses de ler isto.

-       Mas certamente. - Dilman pegou neles e, como era uma maté­ria concisa, leu palavra por palavra, tendo consciência de que Nat Abrahams o vigiava nervosamente, exactamente do mesmo modo como Leroy Poole o costumava vigiar quando lia as páginas do ma­nuscrito do autor.

À medida que ia lendo, Dilman sentia-se cada vez mais espanta­do. A lógica estava ali, as estatísticas e autoridades estavam ali, mas havia algo real e importante que faltava. O que faltava era o Nat Abrahams que ele conhecia ou, meu Deus, julgava conhecer. Não estava ali a agudeza de espírito de Nat, nem o seu sentido humanitá­rio, nem a sua compreensão, nem a sua linguagem. Havia uma omis­são completa da questão central. Dilman esperava encontrá-la no fim. Mas quando lá chegou, ela não estava lá. Sentiu-se ludibriado e profundamente confuso.

Levantou os olhos, incapaz de esconder o seu desapontamento.

-       Tem o seu interesse. Mostra que o Programa é um sólido caso para aumentar a economia. Mas falta mostrar como cobrirá o fosso que separa os que não têm dos que têm.

Dilman não teve quaisquer dúvidas dessa vez: o seu amigo tor­nara-se, pouco à vontade, na cadeira. Abrahams pousou o copo que tinha na mão.

Bem, nós tomamos isso como certo.

Tomamos o quê como certo, Nat? - Dilman levantou-se. - Nós somos amigos... não leves a mal o que te vou dizer., não estou a criticar-te... mas isto é um Projecto das minorias. Para mim, isso é o ponto mais importante. Que farão os sete biliões de dólares pelas minorias, e não pela economia? Obter-se-á com esta soma a igualda­de para todos, ou apenas uma maior prosperidade para a indústria e trabalho? Com a breca, Nat, no meu próprio interesse, eu teria todas as razões para assinar o Projecto. Todos querem que eu o faça, e Deus sabe que preciso de todo o apoio que consiga agora, e é provável que o assine. Só que, obscuro como sou, indeciso como tenho sido, parece-me que falta um factor em todo o Projecto, como parece faltar no teu resumo. Falta a soma que queria designada para dar aos negros, porto-riquenhos, mexicanos, índios e japone­ses - consideremos agora apenas o caso dos negros -, falta a soma que lhes garantirá tudo o que eles realmente querem, a cidadania de primeira classe. Abrahams corara.

Doug... - começou ele.

Não, deixa-me acabar. Temos aqui sete biliões de dólares para a construção de estradas públicas, de escolas não segregadas, mas de frequência limitada, de barragens, de fábricas, para a conservação flo­restal e, claro está, um tratamento de preferência para que os negros façam o trabalho que isso implica e recebam o benefícios. Mas, Nat, apesar de todos aqueles projectos de direitos civis dos últimos anos, quando hoje falamos acerca do negro americano, falamos ainda de cinco direitos que lhe são negados-cinco e não um. O direito de traba­lhar, o de não ser o primeiro a ser despedido, o último a ser emprega­do e ser sempre destinado para os trabalhos manuais. Muito bem, este Projecto trata disso? E quanto aos outros quatro direitos? Dará realmente este Projecto o direito de os negros usarem as facilidades públicas? De terem uma educação de primeira categoria? De ocupa­rem casas não segregadas? De terem a liberdade de votar como qualquer outro americano? Não. Há umas pequenas migalhas, certa­mente. Juntemo-las. Que representam elas? Não segregação em edifícios construídos sob este Projecto. Salários mais elevados para os professores que trabalhem nos bairros pobres ou em escolas não segregadas, e alguns programas e bolsas de estudo gratuitas. Aloja­mento melhor e mais barato nas áreas subsidiadas pelo Projecto para aqueles que se mudaram para as vizinhanças mistas. E quanto ao votar, nada de específico, as patrióticas promessas e esperanças do costume. E eis tudo, e os nossos chefes negros estão prontos a acei­tar as migalhas, porque estão cansados de lutar pelo pão inteiro, e estão com fome há mais de um século. Eu compreendo isso. Mas sinto-me perturbado. Este Projecto poderá reabilitar financeiramente as minorias, mas não as erguerá até à igualdade completa. E, no fim de tudo, poderá ser apenas uma demora, e também não solucionar nada em relação à população branca. Contudo pode ser que eu es­teja enganado, terrivelmente enganado. Talvez as lutas se ganhem aos poucos de cada vez, e este Projecto dará ao meu povo um direi­to que ele desesperadamente quer. E quem sou eu para me preocu­par tanto, para estar assim indeciso, quando cérebros mais inteligen­tes apoiam totalmente este Projecto? Ainda assim - olhou fixamente Abrahams nos olhos e depois levantou no ar as folhas de papel que tinha na mão. - Parece-me injusto da minha parte o ter esperado que incluísses tudo isto no teu resumo, só porque me sentia coxo e que­ria uma muleta. O caso é que isto não me soa como se tivesse sido escrito por ti.

Dilman sentou-se e pegou no seu copo.

Nat Abrahams inclinou-se rapidamente para a frente e pegou nos papéis que estavam no colo de Dilman.

-       Não fui eu que o escrevi, Doug. Foram as Indústrias Águias. Foi o Avery Emmich. Foi o Gordell Oliver. Queriam que eu te transmi­tisse - primeira missão a cumprir - e eu assim fiz. Agora tenho vergo­nha de mim mesmo. Eu já sabia, na altura em que to entreguei, que nunca conseguiria fingir que isto tinha sido escrito por mim próprio.

Embaraçado, Dilman tentou fazê-lo parar.

-       Não penses mais nisso, Nat. Fizeste o que tinhas de fazer, e alguns pontos do resumo estão bem elaborados.

Abrahams levantou-se, rasgou as folhas ao meio, fez uma bola com elas e enfiou-a na algibeira das calças.

Cheira mal - disse simplesmente. - Nunca mais voltarei a fazer--te uma coisa destas, nunca mais concordarei com os outros acerca do que eles acreditam. Manter-me-ei em solo. Doug, tu tens razão, o Projecto das Minorias tem coisas boas e coisas más. É uma grande decisão que tens a tomar, e há um grande número de factores que tens de tomar em consideração, mas farás o que deves, para ti e para os outros. Ninguém te influenciará. Querias a minha opinião, e eu dar-ta-ei, se ainda a quiseres.

Certamente que quero, Nat. Com quem me poderei aconse­lhar?

Contigo mesmo. Mas deixa-me dizer-te a minha modesta opi­nião, e depois calar-me-ei... Doug, eu odeio este Projecto das Mino­rias. Odeio a pretensão que ele encerra. Todas as reservas que apon­taste são verdadeiras, pelo menos no que me diz respeito. O. C. e a maioria do Congresso inventaram esta legislação como medida de emergência. O país está dividido em dois - sempre esteve - mas estes últimos anos têm sido piores do que nunca. Revolução negra, e já era tempo. Portanto, como é que se abafa uma revolução, espe­cialmente se ela é justa? Pela força? Impossível na nossa democra­cia. Nem é bom pensar nisso. Cedendo a esses discriminados, dan-do-lhes justiça e fazendo uma verdadeira democracia? Difícil. A ignorância, o ódio cego, o medo injustificável e a política são dema­siados para haver um compromisso. Por suborno? O velho truque romano? É a única maneira. Portanto eles arranjaram este R R. M. Abafe-se a insurreição e compre-se a paz com dinheiro. O dinheiro é mais barato que a decência. Portanto aqui temos um suborno para comprar os negros. E os negros não conseguem resistir. Estão fra­cos, estão cansados da longa e brutal luta, e - como tu disseste -têm fome. Se tiveres de escolher entre três refeições completas por dia, dinheiro no banco e todas as maravilhas e vantagens do materia­lismo, contra esperar ao menos tangíveis vantagens da liberdade total, qual das duas escolherás? Assim a maior parte dos negros cedeu. E os brancos, as grandes cooperativas dos negócios e do trabalho - esses rejubilaram. Pagaram como revolucionários, limpa­ram as suas consciências culpadas e compraram a segurança. E ain­da muito mais, pois terão lucros, dando com uma mão caridosa e tirando com a outra.

«Todos se sentem contentes, ou quase todos, com excepção daquele punhado do teu povo que não se importaria de continuar com fome por mais algum tempo, para conseguir os cinco quintos do que lhes pertence, e não apenas um quinto, e com excepção dos liberais como eu que sabem e querem algo melhor para o teu povo, mas que, claro está, podem desprezar este Projecto porque têm a barriga cheia. Agora já ouviste tudo o que eu tinha para dizer, Doug, e não o leves muito em conta. Não sou eu que tenho de tomar a decisão. Não sou eu que tenho de me preocupar se fui prejudicar as minorias ou se impensadamente as ajudei a suportar o futuro próxi­mo. Não sou eu que tenho de me preocupar se a minha opinião pesa mais do que a de várias centenas de peritos. Não sou eu que tenho de me preocupar de como me sentirei se assinar ou o que me acon­tecerá a mim e ao país se o não fizer. Não leves muito em conta a minha opinião, a opinião do homem das Indústrias Águias com a barriga cheia, Doug. Eu disse-te tudo isto porque queria que soubes­ses que continuo a ser o homem que tu sempre conheceste. Quanto a ti, sei...

Ouviu-se uma pancada seca e a atenção de Dilman foi desviada para a porta da sala.

-       Pode entrar.

A porta abriu-se e Eaton entrou. Pareceu ficar desconcertado com a presença de Abrahams junto de Dilman, mas logo se recom­pôs. A sua maneira de se dirigir a Dilman era preocupada e amável.

-       Dei pela sua falta no deck, e só queria saber se estava bem, Sr. Presidente. Está tudo a correr conforme os seus desejos?

Dilman levantou-se e sorriu meio humoristicamente para o minis­tro de Estado.

Sr. Ministro, para lhe ser absolutamente franco, nada podia correr pior. Tenho estado enjoado...

Lastimo muito, Sr. Presidente.

...e embora tenha havido uma considerável melhoria, não me sinto ainda muito bem. Se sempre sou o comandante-chefe de todas as tropas em terra e de todos os barcos no mar, gostaria de dar a minha primeira ordem naval. Faça com que este maldito iate dê meia volta e me deposite, são e salvo, na abençoada terra de Deus.

A expressão do rosto de Eaton não acusou aprovação nem desa­provação.

Como queira, Sr. Presidente. Transmitirei imediatamente a sua ordem ao comandante Chappell.

E peça desculpa, por mim, aos nossos convidados por lhes interromper deste modo o passeio.

Eaton acenou com a cabeça e retirou-se apressadamente. Assim que a porta da cabina se fechou, Dilman virou-se para Nat Abrahams, sorriu-lhe abertamente e fez-lhe uma complicada vénia.

-Quetal, professor?

Abrahams sorriu.

-       Vais aprendendo. Apanhaste um vinte. Dilman tornara-se de novo sério.

-       Agora, do que eu preciso é de um vinte no mais importante, na ciência política. - Pegou no dossier do Projecto das Minorias e balançou-o pensativamente. - É claro que tudo depende de quem dá as notas, não é verdade?

Meteu o dossier na pasta, fechou-a, depois dirigiu-se a Abrahams e pegou-lhe num braço.

-       Não sei porquê, mas sinto-me melhor agora. Penso que está tudo a voltar ao seu lugar, anatomicamente falando. Estou pronto a ir pescar um pouco, se quiseres. Quem sabe, Nat, talvez até apanhe­mos algo de que nos orgulharemos...

PARA ENTREGA IMEDIATA

ESCRITÓRIO DO SECRETÁRIO DA IMPRENSA DA CASA BRANCA

O PRESIDENTE REQUEREU TEMPO ÀS PRINCIPAIS LINHAS DA TELEVISÃO E DA RÁDIO DESTA NOITE, PARA FAZER UMA COMUNICAÇÃO À NAÇÃO, ÀS DEZANOVE HORAS, ACERCA DO PROGRAMA DE REABILITAÇÃO DAS MINORIAS E DO PROJECTO RESPEITANTE AO MESMO PROGRAMA, QUE AGUARDA A SUA ASSINATURA. ESTE ESCRITÓRIO DISTRIBUIRÁ À IMPRENSA O TEXTO COMPLETO DA SUA DECLARAÇÃO, DEZ MINUTOS DEPOIS DE ELA TER IDO PARA O AR.

Embora fosse muito cedo para o governador Talley já ter chega­do para o seu encontro particular antes de os outros virem, para assistir à declaração televisionada do presidente, o ministro de Estado Arthur Eaton sentiu-se incapaz de permanecer sentado na solidão do seu escritório do sétimo andar, enquanto esperava.

Desde que recebera aquele ambíguo, mas indubitavelmente fre­nético, telefonema do governador Talley, vindo da Casa Branca havia dez minutos, Arthur Eaton ficara preocupado e nervoso. Não lhe agra­dara nem o tom, nem os subentendidos do breve telefonema de Talley. Aparentemente, mesmo estando sozinho no seu escritório da Casa Branca, Talley tivera medo de que alguém pudesse ouvir o que tinha para dizer. O que ele dissera, porém, fora suficientemente eloquente e cheio de significado.

Passeando de um lado para outro, Arthur Eaton reconstruiu o pouco que ouvira:

-       Arthur? Daqui fala Wayne Talley. Acabo de chegar do escritório de Edna Foster. O presidente não me quer receber. Devolveu-me, através de Miss Foster, o discurso que tínhamos escrito. Diz que escre­veu o seu.

O dele? O que é que você está a dizer, Wayne? Que disparate é esse? Você está a brincar comigo?

Arthur, juro-lhe...

Mas que diabo escreveu ele?

Arthur, é melhor não falarmos pelo telefone. Preciso vê-lo o mais depressa possível, antes dos outros. Posso ir ter consigo ao seu escritório?

Sim... não, espere... penso que será melhor irmos para um sítio mais retirado. Use a entrada da Rua E. Tome o meu elevador privado directamente para o oitavo andar. Darei ordem para que o deixem subir, assim como aos outros. Estarei à sua espera na Sala de Jantar de Madison... Que lhe parece, governador? Certamente que ele vai assinar o Projecto, não acha?

Penso que sim, ele não tem outra coisa a fazer. O que me preo­cupa é o que ele vai dizer sobre ele. Vou já para aí, Arthur. Até já.

Era tudo o que Eaton apurara, havia dez minutos.

O grau em que a notícia o tinha perturbado constituía uma sur­presa para ele. Fora treinado a prever o inesperado. Até mesmo os mestres internacionais do inesperado, como o Presidente Kasatkin, podiam ser antecipados. Estudavam-se os seus arcos de raciocínio, desde a curva do topo do que pode ser predito até à curva do fundo do que não pode ser predito, e se se sabiam os seus passados, am­bições e pressões, podia-se estar apto a dividi-los ao meio e a segurá--los em qualquer ponto do arco. Mas Dilman, aparentemente, pare­cia ser diferente de todos os outros homens.

Isto fora, então, parte do que tornara Arthur Eaton menos segu­ro e abalara a sua complacência superior. Era certo que tinha feito o estudo do novo presidente, um estudo ligeiro para falar verdade, mas, nessa altura, o homem parecera não ter quaisquer recursos subtis que requeressem um exame mais profundo. Dilman dera a impres­são, desde o princípio, de ser uma pessoa óbvia e simples de adivi­nhar, ou pelo menos assim parecera a Eaton, que possuía uma larga experiência de homens mais espertos e secretos.

Das três dúzias de requerimentos importantes que lhe tinham sido apresentados, Dilman concordara com todos; bem, todos excepto dois, e mesmo nesses dois obtivera-se dele, finalmente, o que se desejava. Era verdade que não assinara o Projecto da Nova Lei de Sucessão como lei, mas permitira francamente que ela se tor­nasse lei, apenas com o mais frouxo protesto legal. Ninguém se im­portara muito com isso, tendo em consideração a cor e a sensibilida­de de Dilman e a sua necessidade de não condenar publicamente um insulto legislativo. O facto era que ele concordara.

Depois, na invocação do Acto de Controlo das Actividades Sub­versivas, ele mostrara pouca resistência, evidenciada pela hesitação e demora. Contudo a sua hesitação, encarada racional e inteligente­mente, não podia ser considerada como inesperada. Tinham-lhe pe­dido que banisse um segmento da sua própria raça e sofresse a sua ira, e ele abstivera-se de o fazer tanto quanto lhe fora possível. Tam­bém o seu comportamento em relação aos Turnerites, se se encaras­sem esses assuntos como Eaton, era o resultado natural da sua personalidade. Várias vezes se mostrara receoso e incerto, e conse­quentemente indeciso e lento. Era simplesmente o seu estilo. No fim, sempre banira o grupo dos Turnerites, como estava previsto.

Mas aquele novo procedimento de havia dez ou quinze minutos não era usual. Até à data, a sua lentidão em assinar o Projecto do Programa de Reabilitação das Minorias não era inesperada, mas fa­zia parte do quadro. O seu súbito anúncio do dia anterior, antes de a reunião do Gabinete ter terminado, que decidira fazer uma comuni­cação à Nação acerca do Projecto constituíra uma pequena surpresa para Eaton e para todos os outros, apenas porque não esperavam um acto de impulso da parte de Dilman. Todavia, mais uma vez, era um desejo compreensível. Muitos presidentes, antes de aprovar uma legislação crucial, gostavam de explicar a sua esperança no que es­tavam afazer, mencionando certas reservas (como protecção da pró­pria política, no caso de algo sair errado ou de haver dissidentes), e para dramatizar os seus próprios papéis numa acção útil. Não, não era inesperado que Dilman, tendo consciência que o Projecto das Minorias era um projecto de O. C, quisesse colher algo da populari­dade de O. C. e ganhar as boas graças (quando ele delas tanto pre­cisava), projectando-se perante o público, em milhões de ecrãs de televisão, como um dos autores do formidável Projecto.

Fora mera rotina para os escritores e especiais conselheiros de O. C. ocupar o resto da tarde do dia anterior, depois da reunião do Gabinete, e a maior parte da noite, esboçando e moldando, na sua forma final, um discurso público, neste caso a declaração de quinze minutos acerca do Projecto das Minorias, explicando as suas virtu­des e a aprovação do próprio Dilman. Dilman sabia que eles estavam a preparar a sua declaração e não pusera quaisquer objecções. Tarde, na noite anterior, Dilman recebera o rascunho final e emendado das mãos de Talley, sem qualquer sinal de protesto, agradecendo até. E quanto à sugestão de Talley, que, se Dilman desejasse fazer algu­mas mudanças nesse dia, todos estariam prontos a ajudá-lo, Dilman aceitara-a também apreciativamente.

E agora, pela primeira vez, imprevisível: Dilman rejeitara o dis­curso deles a favor de um que ele próprio escrevera, que estava ain­da a escrever. Dera o primeiro sinal de acção decisiva, de indivi­dualidade, de independência, ignorando o conselho dos seus melhores... não, melhores não... dos seus conselheiros mais expe­rientes.

Eaton tentou penetrar o motivo que levara o presidente àquela pequena e estúpida rebelião. Esta não significava que Dilman se opu­nha aos desejos deles, de facto aos desejos do Congresso, do país e da sua própria raça, no que dizia respeito ao importante Projecto. Não, uma acção imprevista não implicava necessariamente que uma outra mais drástica se lhe seguisse. Tudo o que Dilman devia estar a fazer era escrever o discurso deles a seu modo. Um sensível homem de cor afirmava os seus direitos. Era o que se passava. Eaton podia ver agora a questão mais claramente. Não tomando em considera­ção aquela dimensão da cor do Presidente Dilman, Eaton quase er­rara na antecipação da sua conduta. A cor de Dilman fora largamente responsável pelo seu rápido servilismo, pela sua prontidão em con­cordar com tudo, pela sua indecisão. Essa mesma cor - pensou Eaton - devia ocasionalmente conduzi-io a qualquer acção imatura de própria afirmação, como se quisesse lembrar aos brancos à sua volta que era igual a eles, um homem com o seu próprio espírito. Era essa, certamente, a explicação completa. Dilman estava a cumprir o que eles queriam, quaisquer que fossem os seus escrúpulos, quanto ao Projecto de Reabilitação das Minorias, mas desejava lembrar-lhes que, embora tivesse de fazer o que lhe diziam, não permitiria que o mantivessem em completo desprezo. Em resumo - concluiu Eaton -, tem de se permitir, pelo menos, ao presidente que diga pelas suas próprias palavras o que os seus conselheiros querem que ele diga.

Eaton disse a si próprio que a sua análise fazia sentido. Congratu-lou-se por ter esclarecido o inigma. Reparou, porém, que continuava enervado. Porquê? Bem, diabo o levasse, qual fora o Presidente dos Estados Unidos que já alguma vez se lembrara de esconder o conteúdo de um discurso de política interna da máxima importância - neste caso, o mais importante da última década - de todos à sua volta?

Cansado de tentar resolver mistérios sem dados suficientes, im­paciente de saber os detalhes do encontro de Talley com Dilman, ou com a protectora Miss Foster, Arthur Eeaton saiu do escritório. Atra­vessou o escritório da sua estenógrafa - lembrando-se, nesta oca­sião, que combinara encontrar-se com Sally Watson em sua casa, depois do discurso, desgostoso com o facto de agora provavelmen­te se ter de demorar, e pensando que talvez fosse melhor telefonar--Ihe para lhe dizer que fosse mais tarde -, depois entrou na pequena sala de recepções e prosseguiu pela sala principal de recepções. Também aí a secretária estava vazia. Viu as horas. Eram seis horas e onze minutos. Já todos se tinham ido embora.

Nem todos, porém, reparou Eaton. Dois empregados passaram atarefadamente no corredor. O secretário-assistente Stover, em mangas de camisa, com um despacho debaixo do braço, acenou-lhe com a mão. À vista de tanta actividade, Eaton sentiu-se contente. Pelo menos ali, no seu domínio, não existiam mistérios e nada lhe era desconhecido. Sob as suas ordens, guiados pela sua inteligência e suportados por quinhentos milhões de dólares por ano, trabalhava um exército de sete mil especialistas dos negócios estrangeiros, mil dos quais trabalhavam durante a noite. Ele orgulhava-se de o seu palácio, o Edifício do Ministé­rio de Estado, nunca estar às escuras - como tão subitamente aconte­cera com a Casa Branca.

Nervosamente, para matar o tempo, Arthur Eaton vagueou pelo corredor. Voltou à direita, caminhando sobre a rica carpete azul, olhan­do abstractamente para os retratos emoldurados dos anteriores mi­nistros de Estado, pendurados na parede, e depois parou em frente da Sala 7228, a entrada para o seu próprio escritório pelo corredor. Observou as três palavras impressas no painel de madeira na sua porta. Diziam simplesmente: GABINETE DO MINISTRO. Pensou em quantas pessoas veriam diariamente essas três palavras e quão pou­cas compreenderiam a extensa natureza da sua responsabilidade, tocando, para trás, até O. C, tocando, para a frente, até cada cida­dão americano em qualquer parte, tocando até aquele subitamente secreto Escritório Oval da Avenida da Pensilvânia, nQ 1600.

Achou que já era tempo de Talley chegar.

Encaminhou-se rapidamente para o seu elevador particular e em breve subia em direcção ao oitavo andar, uma casa que era um tesouro de história, visitada por ninguém, excepto por ele próprio e os seus convidados.

Saindo do elevador, Eaton atravessou apressadamente a sala de estar, passou pelo bar e abriu as duas portas que davam para a pequena e mal iluminada Sala de Jantar de Madison, o esconderijo privado em que almoçava quase diariamente. Nenhuma das doze cadeiras à volta da mesa, ou das que estavam colocados diante da televisão, estava ocupada.

Aborrecido, Eaton atravessou a sala, entrou e atravessou tam­bém a sala de jantar adjacente e saiu para o terraço. O ar da noite estava frio e ele estremeceu ao senti-lo. Dirigiu-se à balaustrada e espreitou lá para baixo, para a Rua E, examinando a área entre os automóveis estacionados e o abrigo que cobria o caminho até ao seu elevador privado. Não se via ninguém.

Ergueu os olhos e avistou ao longe o Monumento à Memória de Lincoln, e por detrás deste a massa do Edifício do Pentágono. Notou que o ar que expirava se condensava em nuvens de vapor diante do seu rosto. Por que diabo o Talley estaria a demorar tanto? Bem, disse para consigo mesmo, não valia a pena arriscar-se a apanhar uma pneumonia para o ver chegar.

Trocou o terraço pelo interior aquecido do oitavo andar, e depois voltou para a Sala de Jantar de Madison. Ao entrar viu Wayne Talley precipitar-se para dentro da sala, despir o sobretudo de pêlo de camelo e atirá-lo para cima de uma cadeira juntamente com o chapéu.

Meu Deus, Wayne, até que enfim. - Eaton tentou fazer com que o seu mau humor não transparecesse na voz. - Onde é que esteve?

O tráfego - disse Talley quase sem fôlego. - Nem mesmo Moisés podia ter aberto o mar de carros, quanto mais um carro da Casa Branca.

O que aconteceu? - perguntou Eaton. - Tente recordar-se de tudo.

Quem me dera que houvesse muito mais para lhe contar, além do que já lhe disse ao telefone, mas não há - disse Talley. - Quando dei a Dilman o rascunho do discurso, ontem à noite, assegurei-lhe que estaria à disposição dele se me quisesse consultar acerca de quaisquer modificações. Respondeu-me que me estava muito grato, e pensei que o estivesse. Esperei toda a manhã no meu escritório, e nem uma palavra dele. Depois de almoço fui ter com Edna Foster e perguntei-lhe se o presidente não lhe perguntara por mim. Ela disse--me que não, que ele estava ocupado. Perguntei-lhe se ele tinha o discurso sobre a secretária. Respondeu-me que lhe parecera vê-lo lá. Disse-lhe que não se esquecesse de lhe dizer que eu estava à espera, no caso de ele querer fazer quaisquer modificações no últi­mo minuto. Ela disse-me que lhe diria. Pois bem, passou-se toda a tarde e nem uma palavra dele...

Não viu Dilman durante todo o dia? Quero dizer, por causa de qualquer outra coisa?

Nem sequer lhe pus os olhos em cima - lamentou-se Talley. -Penso que foi o primeiro dia em que tal coisa sucedeu. Bem, há uma hora e meia, se tanto, não consegui aguentar mais e voltei de novo ao escritório de Miss Foster e tornei a perguntar-lhe se ele lhe falara em mim. Ela disse-me que não, pelo menos que ela soubesse. Já estava a ser de mais, e então eu disse: «Edna, gostava de ver o pre­sidente.» E imagina o que ela me respondeu? Respondeu-me: «Des­culpe, governador Talley, mas ele cancelou todos os seus compro­missos e deu-me estritas ordens para que não o interrompessem!» Que tal, Arthur? Eu não gostei nada da resposta e portanto disse-lhe: «Mas com que diabo está ele tão ocupado?» Ela disse-me: «Na ver­dade não sei, excepto que tem passado toda a manhã e toda a tarde a escrever.» «A escrever?» Fiquei exasperado.

Eaton olhou aborrecido para o relógio.

-       Governador, importa-se de cortar os seus sentimentos e exas­perações e de se restringir ao que aconteceu? Dentro de poucos minutos já não estaremos sozinhos.

Magoado, Talley disse:

-       Credo, Arthur, estava apenas atentar... está bem, está bem... en­tão eu disse-lhe firmemente: «Edna, eu sou o ajudante dele, e se ele souber que estou aqui fora, provavelmente quererá ver-me. Portanto vá lá dentro, diga-lhe que fui eu quem a mandou e diga-lhe que eu gostaria de saber o que é que ele pensa do discurso e se gostaria de falar comi­go acerca dele!» Ela estava um bocado hesitante, mas eu insisti. Assim, ela foi lá dentro e eu esperei talvez durante um minuto. Depois ela re­gressou e sabe o que trazia na mão? Isto. - Wayne Talley meteu a mão na algibeira do casaco e tirou o rascunho dobrado do discurso que eles tinham preparado em comum para Dilman, na noite anterior. Talley des-dobrou-o e apontou para o rabisco no topo.

Eaton inclinou a cabeça e semicerrou os olhos, tentando deci­frar o rabisco. Hesitantemente, leu alto a anotação do presidente: «Obrigado pela maçada que lhes causei. D. D.» Eaton franziu o so­brolho e arrepanhou os lábios.

Pergunto a mim próprio se ele o terá mesmo lido.

Não sei - disse Talley. - Tudo o que sei é que Miss Foster mo meteu nas mãos e me disse: «O Presidente Dilman pediu-me que lhe dissesse que lhe agradecia o trabalho que isto lhe deu, mas que não precisará dele porque está a escrever o seu próprio discurso.» Fiquei tão abismado que exclamei: «Edna, por amor de Deus, não há memória de um presidente ter escrito um discurso seu. São pre­cisos escritores, verdadeiros escritores, e, neste caso, especialistas dos assuntos internos. Ninguém pode fazê-lo sozinho. Vai sair sem pés nem cabeça!» E ela disse-me: «Acho que não tem de se preo­cupar, governador. Ele não o fez completamente só. Quando eu lhe disse que estava aqui para o ajudar, ele respondeu-me que lhe dis­sesse que durante todo o dia tivera imensa ajuda de amigos seus!» Fiquei irritado e disse-lhe: «Pensei que me tivesse dito que ele não recebera ninguém hoje!» Ela respondeu: «E não recebeu, pelo me­nos através deste escritório ou do do Sr. Lucas. Mas pode ter-se encontrado com alguém nos seus aposentos, durante o almoço. Além disso, eu não lhe disse que ninguém falara com ele hoje. Hou­ve muitos telefonemas.» Não lhe podia perguntar a quem é que ele telefonara ou quem lhe telefonara a ele, portanto agradeci-lhe, fui confirmar junto do Lucas se ele não recebera nenhuns visitantes através do escritório dele - não recebera - e depois fui logo directa­mente para o meu escritório, para lhe telefonar. E é tudo, Arthur. O que acha?

Acho que não estou a gostar nada disto, e acho que o nosso presidente é um idiota - disse Eaton. - Pode fazer um sarilho dos diabos com isto tudo. Só posso rezar aos céus que ele seja suficientemente literato e lúcido para tornar claro ao povo o significado e o objectivo do Projecto.

-       Bem, eu já tive tempo para me acalmar, e já começo a ver o caso mais filosoficamente - disse Talley. - Que diferença faz o que ele diga acerca dele, conquanto que o assine? Só me aborrece o facto de ele nos ignorar. Além disso - Talley passou a mão pelo ma­nuscrito num gesto quase amoroso - era um pedaço de retórica tão bonito, teria erguido todo o Programa das Minorias ao alto. Deus meu, o que não teria O. C. podido fazer com isto. Escute só.

Começou a ler passagens do discurso rejeitado.

«Este magnífico programa federal segue no trilho da grande tra­dição americana da W. R A., no país, e do Plano Marshall, no estran­geiro, ambos marcas na estrada do nosso esforço democrático para estender uma mão forte e generosa àqueles dos nossos cidadãos que precisam dela, e para dar ajuda e conforto àqueles milhões que desejam o auxílio ao seu país, mesmo que se ajudem a si próprios. É com orgulho nos meus cidadãos, e com a maior confiança no nos­so futuro bem-estar e segurança, que eu aceito o Programa de Rea­bilitação das Minorias aprovado pelo Congresso e o assino aqui, pe­rante todos vós.» Talley levantou os olhos. - Nada mal, hem, Arthur? - Tornou a baixar a cabeça. - A parte que eu prefiro é esta: «Esse Projecto, meus compatriotas americanos, permanecerá como um monumento, mais duradoiro que o granito, à memória do nome do meu antecessor, o último presidente, que...»

-       Isso já chega, governador - interrompeu Eaton. - É uma perda de tempo. Tem tanto sentido agora como uma carta que nunca foi enviada. - Fez uma pausa, com o ouvido à escuta. - É o elevador?

Talley dobrou rapidamente o discurso e enfiou-o na algibeira. Deslizou até junto de Eaton.

Que lhes vamos dizer?

Nada, a não ser que Dilman lhe disse que estava a rever o nosso rascunho, e que não temos a menor ideia de como ele lhe alterará a linguagem. - Voltou a cabeça. - Olá, Allan... Boa noite, se­nador...

O chefe da maioria do Senado, John Selander, entrou na sala, seguido por Allan Noyes, presidente do partido. Minutos depois, Gorden Oliver, extremamente jovial e trazendo uma garrafa de Cutty Sark como passe de entrada, chegou juntamente com Harvey Wickland, o chefe da maioria da Câmara dos Deputados. Pouco de­pois, o ministro do Interior, Lionel Ruttenberg, foi o último a chegar.

Arthur Eaton descobriu que não estava com paciência para a usual conversa sobre banalidades, e afastou-se discretamente dos seus convidados para fumar e pensar. Quando consultou o relógio, faltavam apenas três minutos para o discurso começar.

Regressou para junto do grupo, atrasando-se enquanto Gorden Oliver acabava a última edição da sua interminável reserva de ane­dotas.

-       Estava à espera de transporte na esquina da Rua Montgomery - dizia Oliver - e quando o autocarro chegou, aquele senhor de pele escura trepou para ele, pagou o bilhete e dispôs-se a sentar-se no banco da frente. Então o motorista berrou-lhe: «Vá para a retaguarda do autocarro!» O homem disse: «Mas eu sou judeu.» Então o moto­rista berrou: «Saia já do autocarro!»

Riram todos estrepitosamente, e Oliver, sentindo-se encorajado, preparava-se para se lançar noutra história, quando Eaton disse com firmeza:

-       O presidente falará dentro de um minuto. Instalemo-nos. Enquanto Talley se apressava a ligar a televisão, a procurar o

canal mais claro, a ajustar o volume do som, os outros tomaram os seus lugares no semicírculo de cadeiras colocado em frente do ecrã. Eaton não se juntou a eles, mas encostou-se ao canto da mesa, com os braços cruzados sobre o peito.

O ecrã da televisão ostentava um reclame comercial, e depois houve um intervalo.

O senador Selander, recuando um pouco a cadeira e torcendo--se, segredou a Eaton:

O que significa aquilo que o Wayne me disse acerca de o pre­sidente estar a fazer consideráveis modificações na declaração que nós escrevemos? Pensei que ela fosse uma autêntica jóia. Tem a certe­za de que não faz a menor ideia que partes ele terá modificado?

Não faço a menor ideia, senador. Aparentemente foi uma coisa à última hora. Provavelmente deu mais importância às partes relati­vas aos direitos civis. Penso que ele está a tentar tornar a ganhar o favor dos negros. Mas para lhe falar com toda a honestidade, não sei... - Eaton descruzou os braços e apontou para a televisão. - Ora cá está. Em breve saberemos do que se trata.

Concentraram-se no ecrã, que agora ostentava o emblema pre­sidencial.

A recordação de Eaton das muitas vezes em que estivera no Escritório Oval, enquanto O. C. esperava para fazer um comunica­do à Nação, reproduziu o ecrã no seu espírito. Um ou dois minu­tos antes, os fotógrafos tinham saído da sala, e só tinham ficado quatro ou cinco câmaras de televisão e os seus operadores focando a figura maciça e sólida de O. C, sentado à secretária na grande cadeira de couro. Eaton recordou também, com um aperto de nostalgia, as pequenas coisas que preparavam O. C. para aquele momento: os grossos cabos das câmaras sobre os tapetes e sain­do pelas portas de vidro, até ao caminho das colonatas, onde se encontravam os homens do Serviço Secreto; o pano preto tapan­do as janelas por detrás do presidente; o pano de feltro castanho sobre a mesa, donde tinham sido temporariamente retirados os retratos emoldurados de Hesper e de Freddie; a estante sobre a secretária, segurando as folhas em que a declaração do presiden­te fora escrita; os dois membros do departamento da Imprensa, sentados fora da vista, à esquerda do presidente; o ecrã à sua direita, de frente para ele, para que pudesse ver a imagem projec­tada; as duas secretárias, à retaguarda, tendo na mão transcri­ções do discurso, para conferir as palavras ditas com as palavras escritas, e anotar a lápis todas as modificações que ele inserisse ou improvisasse.

-       Senhoras e senhores, o Presidente dos Estados Unidos.

No ecrã, o escudo presidencial foi substituído pela imagem do próprio presidente sentado à sua secretária. E para grande surpresa de Eaton, este verificou que tinha sucumbido inteiramente ao sortilé­gio da recordação. Pois não era O. C. quem estava na sua frente, mas um estranho preto. A câmara moveu-se até o ecrã ficar comple­tamente ocupado pelas feições largas de africano de Douglass Dilman. Essas feições, turvas e pouco nítidas devido ao seu negrume, con­trastavam com a claridade do seu fato e da camisa, mas condiziam com o negrume das suas mãos pousadas aos lados da estante. Pela primeira vez, em muitas semanas, Eaton sentiu a sua perda, a perda de toda a Nação, e sentiu-se profundamente amargurado pela de­mência da existência humana.

-       Boa noite, meus compatriotas.

Se não era O. C, pelo menos era um razoável fac-símile. Graças a Deus, pensou, que todos eles estavam ali vivos para fazer com que O. C. não estivesse completamente morto.

Por um esforço de vontade, pôs um ponto final ao que não podia ser. Escutou. O Presidente Douglass Dilman dirigia-se à Nação.

«Há uma semana chegou à minha secretária o projecto original, impresso em pergaminho, certificado e assinado pelo presidente actuante do Senado, que é popularmente conhecido como o Pro­grama de Reabilitação das Minorias. Requer apenas a minha assina­tura para se tornar lei... ou, pelo contrário, basta apenas eu enviá-lo de novo, não assinado, para a Câmara em que teve origem para instituir um veto presidencial.

«Até esta data não aprovei o Projecto nem o rejeitei, porque pre­cisei de tanto tempo quanto possível para considerar cada um dos seus aspectos, para pesar o seu custo em comparação com o seu valor para todos nós. Antes de comunicar a minha decisão, achei necessário discutir brevemente, com todos vós, certos aspectos do Projecto do Programa de Reabilitação das Minorias.

«A maioria da opinião é a favor deste Programa. Em cada cinco dos deputados do Congresso, quatro são a favor dele. São a favor, dizem eles, porque acham que este Programa pagará à minoria da população, em grande parte negra, os anos de privações, restau­rará a dignidade económica daqueles que a perderam devido à sua cor e porá fim à luta racial. Os chefes dos negócios, assim como os do trabalho, são a favor porque acreditam que o Programa marcará um progresso na economia nacional, trará prosperidade a todos e trará também a paz civil ao país. Até mesmo a maioria dos directo­res da organização negra são a favor do Projecto como uma medi­da de restituição que, em certo grau, repararia os danos causados por um século de escravidão e de segregação.

«Sem a preocupação de examinar cada ponto do Projecto, e exprimindo-me na linguagem mais simples, quais são os argumen­tos gerais a favor e contra o Programa de Reabilitação das Minorias?

«Aqueles que querem que eu assine este Projecto - e é, repito, a grande maioria - acreditam sinceramente que o dispersar de vários modos sete biliões de dólares das nossas taxas por um período de cinco anos pelas minorias raciais desprivilegidas desta Nação trará a paz interna aos Estados Unidos. Acham que o governo federal pode agora conseguir, por meio deste derramar maciço de dinhei­ro, o que os preconceitos da indústria particular e as restrições das corporações de trabalho impediram que se fizesse até aqui: tapar a brecha económica entre brancos e pretos. Acham que esta restitui­ção financeira feita ao homem de cor poderá reparar um século de opressão. E acham que, dando a igualdade económica aos vinte e três milhões de pretos da Nação, dando-lhes ordenados mais ele­vados, empregos ou melhores empregos, treino subsidiado, ocupan­do desse modo os seus espíritos e mãos, enchendo assim os seus estômagos, terão trazido a tranquilidade e a ordem, através do pro­cesso democrático, aos Estados Unidos.

«Todavia, há um menor e menos ruidoso número de america­nos, igualmente preocupados com as privações das minorias, igual­mente desejosos de trazer a tranquilidade e a ordem a este país, que acredita fortemente que esta Nação não pode conceder este Projec­to das Minorias, não pelo seu custo financeiro, mas porque deturpa­rá os nossos ideais, a nossa democracia e a nossa Constituição.

«Quais são os seus argumentos contra o Projecto? Pouco ten­des visto, na imprensa, acerca das suas discussões e reservas, e tendes ouvido poucos dos seus protestos nos tablados do Congres­so ou pela rádio. Com toda a justiça, as suas objecções devem ser ouvidas esta noite e tomadas em consideração por vós, assim como o já foram por mim.

«Os dissidentes acreditam que este Projecto é uma conspiração governamental para subornar os oprimidos mantendo-os silenciosos. Talvez traga a paz racial, mas a que preço da nossa integridade de­mocrática? A Constituição será transformada num livro de cheques. Teremos dado às nossas minorias não os direitos civis, não a igual­dade, mas um pagamento gigante para pôr fim ao seu clamor. Com este Projecto, o Negro não terá obtido o seu voto, a igualdade nas acomodações públicas, a sua dignidade como americano livre. Em vez disso, terá ganho emprego. Terá sido desviado da estrada difícil e escarpada que conduz ao lugar em que vivem os homens livres, para permanecer à beira da estrada, abaixo deles, distraído da finali­dade que procurava alcançar pelos dólares que subitamente se lhe depararam no caminho. E quando tiver gasto o dinheiro, onde se encontrará? Ainda muito longe da liberdade, e talvez incapaz de tor­nar a encontrar a estrada que trilhava.

«Sim, meus compatriotas, há homens razoáveis, tão decentes como vós e como eu, que acreditam no mais profundo da sua cons­ciência que não se podem substituir dólares pela dignidade da liber­dade. A fazer isso, nós tanto destruímos a humanidade daquele que dá como a do que recebe, nós tanto enfraquecemos a maioria como a minoria. E pior ainda, ao fazer isso, reforçamos a caricatura antiamericana do Tio Sam que corre pelo mundo, mostrando-o não como um homem, mas como uma efígie cunhada num dólar, um Tio Sam que oferece dinheiro ao seu povo em vez de amor, respeito e liberdade.

«Os proponentes do Programa de Reabilitação das Minorias acre­ditam que por meio de um bolso de sete milhões de dólares terão comprado tempo. Os oponentes do Programa perguntam: tempo para quê? E quanto tempo? Há os que acreditam que a ocasião para re­solver o problema das minorias é agora, por muito elevado que seja o custo em lutas e descontentamentos civis, e que o meio de o resol­ver não é através de enormes subornos federais, mas através do total apoio federal a qualquer ser humano que é tratado como menos que um americano e menos que um homem por causa da sua raça, reli­gião, cor ou origem nacional.

«Meus compatriotas, há algo a dizer a ambos os partidos, mas, como vosso presidente, só posso escolher um partido, e para mim chegou a altura da minha decisão. Dirigindo-me então a vós, não como alguém que tenha mais em conta as exigências dos brancos ou as dos pretos, não como alguém que exprima os desejos da maioria ou da minoria, mas antes dirigindo-me a vós como alguém que acre­dita que qualquer trabalho ou sacrifício vale a pena ser feito se vier reforçar as funções de uns Estados Unidos da América fortes e total­mente democratas, que se podem apresentar perante o mundo sem vergonha, e até com orgulho, por terem cumprido os nobres ideais sobre os quais foram fundados, eu por este meio participo aos meus ex-colegas do Congresso e aos meus compatriotas que não posso assinar o Programa de Reabilitação das Minorias.

«Esta noite, recuso este Projecto e torno a enviá-lo para a Câma­ra onde ele teve origem, com a esperança de que nunca mais, eu ou qualquer outro presidente, seja forçado a tomar em consideração um exemplo de legislação tão cínico, que pretenda que a liberdade tenha uma etiqueta com o seu preço.

«Precisamos, porém, de legislação poderosa que venha substi­tuir este Projecto. Precisamos de legislação que diga respeito à igual­dade, e não à tranquilidade, e na sua devida altura conto que...»

Antes que os grunhidos, os sopros e as exclamações iradas dos que se encontravam na Sala de Jantar de Madison pudessem abafar completamente o resto do discurso do presidente, Arthur Eaton deu um salto para a frente, praguejando em voz baixa, e desligou selvaticamente o aparelho de televisão.

Lívido e trémulo, assim permaneceu, de costas voltadas para os outros, incapaz de os encarar até ter recuperado a compostura. Ouviu Talley dizer:

Raios me partam, aquele canalha torpedeou-nos! Ouviu Oliver perguntar:

Aquele estupor, quem é que ele julga que é? Ouviu Noyes explodir:

O partido não pode permitir uma coisa destas! Ouviu o senador Selander predizer:

Ele conseguiu dividir o país, mesmo que vençamos o seu veto. Enquanto as vozes se iam tomando cada vez mais furiosas e descontroladas nas suas costas, Eaton tentou abstrair-se e reunir os seus pensamentos. Os seus primeiros pensamentos foram para O. C. O Projecto das Minorias deveria ser o monumento duradouro de O. C. Nessa noite, seguisse-se o que se seguisse, já não havia monumento. Até essa noite O. C. permanecera vivo, o seu governo permanecera vivo através das obras que ele instigara e através dos homens que ele deixara atrás de si para conseguirem que elas fos­sem cumpridas. Nessa noite, porém, um preto semianalfabeto, desa­fiando os desejos dos seus superiores e a maioria da Nação, espezinhara a moderação para se passar para o lado dos extremis­tas da sua raça. Nessa noite, um intruso, desejoso de poder, vendera a unidade nacional para erguer o seu orgulho pessoal.

Depois, infiltrando-se através do choque e da repugnância ini­ciais, Arthur Eaton começou a ver a implicação real de Dilman: não fora O. C. quem fora expulso do Escritório Oval da Casa Branca, pois O. C. não passava de um espírito, mas fora ele próprio, Arthur Eaton, o herdeiro de O. C, quem fora banido.

-       O que resta sem a lei do partido? - ouviu o congressista Wickland gritar nas suas costas. - Resta a anarquia, é o que resta!

Eaton ouviu a campainha do telefone do outro lado da sala. Con­tente por ter uma desculpa para fugir aos outros, foi atender. Reconhe­ceu logo a voz excitada e de sotaque sulista do outro lado.

Oh, olá, Zeke.

Arthur? - berrou o congressista Zeke Miller. - Que pensa de tudo isto? Não me diga. Você é demasiadamente gentieman para responder à minha pergunta. Deixe-me dizer-lhe o que eu próprio penso, Arthur. Eu não tenho medo de dizer a verdade. Sabe o que eu penso, Arthur? Penso que aquele negro nos prestou, a nós e ao país, o maior serviço de toda a história. Mostrou-nos que está pronto a deitar para o lixo todos os remos do governo, executivo, legislativo, judicial, todos, para se tornar no ditador negro, como aquele que tiveram uma vez em Haiti. Mostrou-nos as suas verdadeiras cores, mostrou que pretende fazer uma república preta exclusivamente para os seus irmãos negros - banindo os Turnerites, e depois mostrando--se ainda pior que...

Eaton estava com pouca paciência para o ouvir.

Zeque, ele já alienou os extremistas negros. E não será isto que lhe tornará a dar as suas boas graças. O que ele fez, qualquer que fosse a razão, foi simplesmente alienar quase todas as pessoas res­tantes. Penso que ele fez com que ficasse em seco e sozinho...

Ainda melhor! - gritou Zeke Miller. - Agora podemos vencê-lo facilmente. Agora está em campo aberto, e acabaram-se os corações piedosos para o proteger, acabou-se a máscara do pobre e oprimido Tom preto com o fim de ganhar as simpatias, e ficou apenas um gran­de touro negro, tão mesquinho quanto o próprio Mr. Hyde. Ele mos­trou a sua mão, a sua mão maligna, com aquele veto, Arthur, e fez uma embrulhada dos diabos para nós, os da Colina, e em todo o país. Ago­ra ele está em campo aberto e nós vamos pôr-nos também a desco­berto. Agora tem de se decidir, Arthur. Você não vai permitir que um nigger qualquer, ignorante e idiota, faça uma coisa destas à memória de O. C, manche o nosso grande amigo e arraste o país para um inferno, porque se propõe fazer de nós uma outra África. Arthur, você não vai permitir uma coisa dessas, pois não? Pelo país e pelo nosso prestígio, você tem de jogar do nosso lado. Temos de suportar isto juntos. Vamos colocar o velho Sambo na frigideira e aquecer-lhe bem o fundo, até que ele grite o bastante e nos peça que o tiremos de lá. Vou forçá-lo a demitir-se, a demitir-se por causa da sua incapacidade ou por causa de outra coisa qualquer, mas a demitir-se, e se ele recusar, vou obrigá-lo a demitir-se à força.

Como tenciona conseguir isso, Zeke?

Você verá. Observe e veja. Entretanto, os rapazes querem sa­ber, e eu quero saber, se você está do nosso lado.

Eaton disse:

Não nos precipitemos, Zeke. Deixemos o Dilman abrir a sua própria cova, durante mais algum tempo...

Isso leva muito tempo! - exclamou Milier. - Quero-o empurrar para dentro dela, antes que nós todos lá vamos parar também.

Bem, mas deixe-me pensar na coisa, deixe que todos nós pen­semos e toquemos de ouvido até...

Você pode tocar de ouvido. Lembre-se apenas do que esse ouvido ouviu esta noite a esse presidente negro. Só há dois partidos a tomar, Arthur: o dele ou o nosso. Você tem de estar no nosso. Con­to com você. Mais tarde teremos mais para si, Arthur, muito mais.

Embora nessa noite o congressista sulista o repugnasse menos do que era costume, Arthur Eaton sentiu-se aliviado quando desligou o telefone.

Voltou-se e deu de caras com Wayne Talley atrás de si.

Era o Zeke Milier - explicou Eaton.

Logo calculei - disse Talley. - O que é que ele pretende? Pôr o Dilman no olho da rua?

Algo parecido. Toda a espécie de argumentos ilógicos e im­praticáveis. Não se põe ninguém na rua pela simples razão de que não se está de acordo com ele.

Algumas vezes, põe-se - disse Talley. - Mas se não se põe ou não se pode pôr, pelo menos tenta-se controlá-lo.

Como é que o podemos controlar? Repare no que aconteceu hoje.

Arthur, quando uma pessoa se torna perigosa, é melhor isolá-la, para que ela não cause mais sarilhos. - Talley fez uma pausa significativa. - Certamente que não se lhe dá uma espingarda para as mãos. Percebe o que quero dizer?

Acho que sim, que percebo.

Talley olhou à sua volta, para se assegurar que os outros não estavam a escutar, e depois disse:

-       Arthur, se fosse eu não lhe mandava aquele relatório da C. I. A.

Não está a preocupar-se de mais? Pode não ter quaisquer consequências. Não tem uma avaliação muito alta.

De qualquer modo - insistiu Talley. - Dilman é irresponsável. Pode transformar um montículo numa montanha... antes de chegar­mos ao encontro máximo de Chantilly. Penso que temos de começar imediatamente, neste mesmo instante, a procurar manter a sede do governo onde ela deve estar.

Talvez você tenha razão.

Se o Zeke Miller é demasiado selvagem para si, então outra pessoa tem de fazer algo. Penso que nos compete a nós salvar o país.

O que dele resta depois de hoje à noite - disse Eaton amarga­mente. Ficou pensativo durante uns momentos e depois acrescentou: -Você tem razão, Wayne. Não temos outra alternativa. Dilman acaba de ter o seu justo julgamento em público. Pode ser honestamente julgado. É irresponsável, e portanto potencialmente perigoso. Se não o pode­mos punir, devemos procurar os meios para o conter. Essa deve ser a nossa política particular. Como você tão sucintamente definiu a coisa... nada de lhe fornecer uma espingarda; não lhe vamos dar uma outra oportunidade de abater de novo este país.

PARA ENTREGA IMEDIATA

ESCRITÓRIO DO SECRETÁRIO DA IMPRENSA DA CASA BRANCA

A CASA BRANCA

O PRESIDENTE ALMOÇA HOJE COM OS CHEFES DA MAIO­RIA E DA MINORIA DE AMBAS AS CÂMARAS DO CONGRESSO, PARA DISCUTIR O SEU VETO AO PROGRAMA DE REABILITAÇÃO DAS MINORIAS E DISCUTIR UM PROJECTO MELHORADO.

AQUI INCLUSO SEGUE O TEXTO COMPLETO DO TELEGRA­MA ENVIADO POR NIKOLAI KASATKIN, PRESIDENTE DA U.R. S. S., CONSTATANDO O SEU OPTIMISMO NO QUE DIZ RESPEITO À CON­FERÊNCIA DE CHANTILLY, A COMEÇAR DENTRO DE QUATRO DIAS. TAMBÉM AQUI INCLUSO SEGUE O TEXTO DA RESPOSTA DO PRE­SIDENTE DILMAN.

ÀS QUINZE HORAS, O PRESIDENTE ENCONTRAR-SE-Á COM O CHEFE DO SERVIÇO SECRETO, HUGO GAYNOR, PARA APRO­VAR CERTAS MEDIDAS ESPECIAIS DE SEGURANÇA, QUE ESTÃO SENDO PREPARADAS PARA A VIAGEM DO PRESIDENTE AO ES­TRANGEIRO.

Às quatro horas e quinze minutos de uma tarde nebulosa e hú­mida, uma hora em que normalmente estava de plantão entre o Escri­tório Oval do presidente e o Jardim das Rosas, Otto Beggs estava profunda e confortavelmente sentado entre as almofadas de espuma do sofá de Ruby Thomas e escutava o gira-discos de alta fidelidade, reparado por ele próprio havia uma hora.

Estava sem gravata e sem sapatos, e sentia-se cheio de uma sensualidade que havia muitos anos não sentia, de uma paixão cada vez mais aumentada pelo segundo gin tónico e pelo perfume sen­sual de Ruby junto de si. O ritmos insinuantes tinham também a sua influência, supunha ele, todos aqueles Bunk Johnson, Muggsy Spanier, King Oliver, Louis Armstrong, Jelly Roll Morton que ele fingia compreender, mas que só sentia.

Mas a grande parte da culpa cabia às bebidas. Usualmente, Otto Beggs só bebia cerveja, ou coca-cola, porque a sobriedade era uma pedra base do seu emprego, e uma parte integrante da sua devoção pela boa forma física. Só raras vezes se permitia um gin tónico (em férias, no Natal, nas grandes ocasiões, como o seu aniversário de casamento, ou quando recebia um aumento de ordenado, ou esco­lhia diversões depois de transferências para fora de Washington, mas nunca num vulgar dia de semana - e muito menos durante a tarde!). Mas nessa tarde, primeiro com um sentimento de culpa, depois, à medida que o gin fazia efeito, o seu gosto tomando-se menos medi­cinal e mais agradável, ele bebera, porque, na realidade, esta era uma «grande ocasião».

-       Em que pensa, Otter? - perguntou Ruby Thomas.

Ele olhou-a, fixando o cabelo preto e encaracolado, os olhos em amêndoa, a pele preta e perfeita, a blusa cor de laranja e decotada, os pés nus dobrados debaixo da saia. Respondeu:

-       Sinto-me demasiado descansado para pensar muito, Ruby. Está-se bem assim.

450

Eu também estou a gostar - disse ela. Pegou no copo com a sua bebida e esvaziou-o. - Hum, que bom! - Observou-o por cima do copo. - Espero que não se vá embora muito cedo, Otter, e me aban­done, quando eu me estava a divertir tanto. Não pode ficar até mais tarde?

Lembre-se do que eu lhe disse, Ruby. Hoje fiz feriado. Posso cá ficar todo o dia e toda a noite, se assim o quiser.

Se eu quiser? Minha mãe! Nunca me senti tão feliz, hem! - Pousou o copo. - Como conseguiu isso, Otter? Quero dizer, faltar assim todo o dia ao seu dever profissional? Já alguma vez tinha feito isto?

Nunca, Ruby. Há sempre uma primeira vez, se existe uma ra­zão suficientemente boa. Achei que você era uma razão suficiente­mente boa. Portanto, saí para o trabalho, arrumei o carro por detrás da Estalagem do Caminho, depois telefonei ao meu patrão e disse--Ihe que estava com dores de estômago e que precisava de ir ao médico. E pronto.

Pensou nesse telefonema que fizera a Lou Agajanian, e que, por ironia, fora atendido pelo negro Roscoe Prentiss, que fora promovido para a posição que de direito Ihfe pertencia. Se estivera hesitante an­tes de fazer o telefonema, o facto de Prentisse o ter atendido fortale-cera-lhe a resolução de fazer certas coisas a seu modo. Beggs disse­ra que não se sentia muito bem, que ia a caminho do médico, mas que era provável que no dia seguinte já estivesse bom.

Prentisse ficara obviamente aborrecido. Dez dos do Departa­mento da Casa Branca tinham sido despachados para Paris para investigar os arredores de Chantilly e de Versalhes. Dois outros esta­vam de cama com gripe. Não havia ninguém para substituir Beggs, além daquele novato, o Ross, que fora transferido do Departamento de Baltimore havia apenas uma semana e que não estava ainda familiarizado com a rotina da Casa Branca e com os hábitos do presidente. Talvez o médico dissesse que Beggs não tinha nada e ele pudesse ainda entrar de serviço, mesmo que fosse um pouco mais tarde. Por uns momentos Beggs hesitara - o serviço, o dever -mas depois o seu ressentimento contra Prentisse e Dilman tornara a acender-se: eram negros que o tinham rebaixado, que estavam ainda a tentar rebaixá-lo, a tentar afastá-lo de uma das suas rapari­gas. Fora-lhe tão difícil, mas continuara a insistir, numa voz lamentosa, que se sentia demasiado doente e que voltaria a telefonar a Agajanian nessa noite.

Enquanto se dirigia para o apartamento de Ruby pelas ruas traseiras, para ter a certeza de que nenhum vizinho o observava, pre-ocupara-se ainda um pouco, pois Agajanian poderia telefonar-lhe para casa e Gertrude ficaria a saber o ocorrido. Mas decidira que isso era improvável, pois dissera a Prentisse que estaria no médico o tempo necessário para um completo exame físico. Para mais, Agajanian encontrava-se demasiado ocupado para pensar nele. O novato, o Ross, poderia muito bem substituí-lo.

Decorrida meia hora após a sua chegada ao pequeno aparta­mento de Ruby, pela entrada particular que ela tão cuidadosamente lhe indicara, os restos do seu sentimento de culpa por faltar ao dever tinham-se desvanecido perante os dois gins generosamente ser­vidos e perante o caloroso e provocante acolhimento de Ruby.

Ela perguntara-lhe como é que ele conseguira arranjar-se para a vir ver, e ele dissera-lhe que, na verdade, não fora muito fácil, mas que todavia não fora tão difícil como ele esperara.

Vira que ela ficara contente, e, por sua vez, sentiu-se também contente com a sua independência agressiva. Aquilo valia todos os riscos. Ela era o bicho preto mais bonito que existia à face da terra, e ele encontrava-se sozinho com ela.

Ela disse-lhe:

-       Quer dizer, Otter, que é mais importante para si vir ver-me do que ao presidente? Quer dizer que não se importa de deixar o seu trabalho profissional para poder estar comigo?

O gin e o perfume dela misturavam-se agora na sua cabeça e tomaram-no ousado e despreocupado.

Minha jóia, não quereria estar em nenhuma parte do mundo senão aqui. Isto é tudo o que tenho sonhado de dia e de noite, estar assim contigo.

Hi! - exclamou ela, e subitamente pôs-se de joelhos e inclinou--se para ele. - Homem, o que me diz alegra-me muito e deixa-me toda revolvida por dentro... merece uma recompensa...

Com grande espanto seu, ela deitou-se toda sobre ele e come­çou a dar-lhe pequenos beijos na face. O esvoaçar dos seus lábios macios acordou-o. incapaz de se controlar mais, abraçou-a e, ma-nejando-a tão facilmente como se ela fosse uma planta flexível, puxou-a de encontro a ele e beijou com força a sua boca entreaberta. Ela respondeu ao beijo e ondeou o corpo entre os braços dele, até os movimentos das suas costas e dos lados dos seus seios sob as pal­mas das mãos dele quase o sufocarem.

Quando se afastou dele, os olhos imensamente abertos e fixos nele, tentando ambos retomar o fôlego, ela disse:

-       Homem, você é muito potente... faz com que a pobre Ruby fique toda a tremer dos pés à cabeça e...

-Querida...

Ela saiu do colo dele e deu a volta para o fixar solenemente.

Homem, sabe o que me está a fazer?

Ruby...

Certamente que é muito vigoroso, homem, faz com que eu fique ao rubro... é melhor que eu vá mudar de roupa... Quer que a pequena Ruby se vá mudar?

Espantado e um pouco assustado, Beggs disse:

Como queira, Ruby. Sim, será talvez melhor.

Hum! - exclamou ela. Saltou para fora do sofá, e depois, de repente, tornou a sentar-se no colo dele, de costas voltadas.

Desabotoe-me, querido, para que possa mudar de roupa.

Os seus dedos grossos lutaram desajeitadamente com os bo­tões, e foi com dificuldade que ele os conseguiu desapertar, mas por fim a blusa abriu-se, revelando os ombros pretos e macios, o rego da coluna vertebral e os colchetes do soutien. Ela virou a cabeça, deu--Ihe um beijo no nariz e pôs-se de pé, segurando castamente a parte da frente da blusa com a palma da mão.

Não me demoro nem um minuto. Quer pôr gelo nas bebidas?

Certamente.

Espere pela pequena Ruby... Oh, minha mãe! Gosto muito de ti, homem...

Ela afastou-se rapidamente, fazendo dançar as ancas e a saia, e entrou no quarto, deixando a porta entreaberta atrás de si.

Otto Beggs permaneceu sentado e imóvel. Ela fora-se, mas a fragrância do seu corpo envolvia-o ainda, penetrava-lhe nos poros e tornava ainda mais intenso o seu desejo dela. Ela dissera-lhe que se ia «mudar». O que quereria isso dizer? Que roupa poria? Ele tinha tido uma ideia. Contudo, fá-lo-ia ela? Seria possível? É claro que era possível. Ela dissera que estava ao rubro - querendo dizer, deduziu ele, que os seus instintos naturais, os seus instintos primitivos, ti­nham sido espicaçados por ele. O que faria uma rapariga de cor, como se comportaria ela, quando se sentia assim? Isso constituía, para ele, um mistério; todavia as suas grandes esperanças coloca­vam tal mistério num lugar secundário. Dentro em breve, se ele bem a compreendera, ele seria iniciado no clube - no clube das piadas cruas - de todos aqueles que tinham jogado com a sua sorte.

Levantou-se do sofá, foi até à pequena cozinha, deitou gelo nos copos e serviu as bebidas. Regressou à sala segurando na mão o copo dela, bebendo um golo do seu, e, subitamente, viu-a diante de si. Ali estava ela, e ele nunca vira coisa semelhante, excepto no cine­ma ou em revistas.

Ela posava, com a mão na anca, de pé entre a mesa de mosaico e o sofá.

Gosta, Otter? - perguntou ela, e ao rodopiar graciosamente sobre si mesma, as linhas pretas e definidas do seu corpo notaram-se claramente por debaixo do leve e comprido negligé cor-de-limão. -Tive de fazer esta extravagância para esta ocasião com o meu Otter.

Fica-lhe a matar - disse ele, embaraçado pela rouquidão da sua voz. - É um regalo para os olhos.

Está a brincar comigo... você, um herói desses, com montes de raparigas brancas sempre à sua volta...

Ele bebeu um gole de gin e protestou:

-       Nenhuma delas lhe chega aos calcanhares, Ruby. Você pare­ce uma estrela de cinema... não estou a brincar.

Ela sentou-se no sofá, cruzando as pernas uma sobre a outra, numa nova pose langorosa e observando-o. Ele colocou-lhe a bebi­da à frente e olhou para ela, para a carne de ébano que ia da gargan­ta ao rego do peito. Ela ergueu os braços e cruzou as mãos por de­trás da cabeça, e ele ficou hipnotizado pelo volume dos seus seios, já não tapados pelo soutien e dificilmente escondidos pelo negligé transparente.

Ela deu umas palmadas no sofá, no lugar ao seu lado.

-       Venha sentar-se aqui, Otter; então, já não me liga nenhuma? Como um autómato, ele passou entre o sofá e a mesa, e depois,

ousadamente, sentou-se ao lado dela, com um braço passado por detrás das suas costas e o copo na outra mão. Sem tentar olhar, podia distinguir as pequenas cuecas avermelhadas que ela tinha vestidas e a forma de uma coxa cruzada sobre a outra. Tentou levantar os olhos para o rosto dela, mas não pôde evitar que eles ficassem fixos nos seios proeminentes.

-       Trinta e oito - disse ela.

Ele ergueu rapidamente a cabeça.

-       O quê?

Ela pôs as mãos em concha debaixo do peito.

-       Número 38 - disse ela. - Pensei que soubesse exactamente. Ele ergueu o copo, que tremia, até ao seu rosto corado.

Você devia ser actriz, Ruby, ou algo semelhante. - Bebeu para reforçar as suas loucas esperanças.

Como lhe disse, já fui intrujada pelos rapazes brancos. Não gosto de andar a mostrar-me a toda a gente. Você... você é alguém especial, Otter...

Ela estendeu o braço, tirou-lhe, gentil mas firmemente, o copo da mão, pousou-o na mesa, enrolou-se junto dele, com a cabeça no seu ombro, desabotoou-lhe a camisa, meteu a mão por debaixo des­ta e acariciou-lhe o peito cabeludo.

Ele deixou cair o braço do sofá e colocou-o à volta dos ombros dela, escutando os sons guturais, semelhantes aos de um gato, que ela emitia. Não tinha bem a certeza do que devia fazer a seguir, atirar--se-lhe de mergulho e agarrá-la, ou dizer-lhe primeiro o que queria, ou proceder mais subtilmente e descobrir se o que ele pensava era o que ela pensava também. Se ele mostrasse abertamente o que que­ria e ela tivesse estado apenas a brincar, a coisa tornar-se-ia embara­çosa e arruinaria tudo. Tinha de ter a certeza absoluta. Havia também mulheres, até mesmo entre as pagas, que gostavam de ir devagar, e talvez ela fosse uma delas. Se fosse, ele não queria estragar a sua oportunidade. Havia tempo, muito tempo.

Por que me acha assim tão especial, Ruby? - perguntou ele, sentindo-se idiota. - Gostava que me dissesse, mas você deve ter conhecido montes de rapazes novos.

Não muitos, Otter, e nunca ninguém como você... É belo e forte... Jesus... Só se notam músculos... e um herói, com todas aque­las medalhas... Eu não sou nada, excepto ser 38 onde interessa...-Ela gostou da piada que acabara de dizer, e emitiu um risinho. - Sabe uma coisa, Otter? Ontem à noite estive a pensar. Você é demasiado importante, até mesmo para estar a perder tempo a guardar o Presidente dos Estados Unidos... sabia? É demasiado importante para andar a gastar tempo com um presidente medricas, que não é nem metade do homem que você é. É isso o que eu penso acerca de si, Otter. Você vale mais do que ele, disso tenho eu a certeza.

Muito obrigado pelo cumprimento, Ruby, mas ele é o Presidente dos Estados Unidos e ninguém é mais importante do que ele.

Hum! Você cheira muito bem... você é mais importante. Aquele negro da Casa Branca não é digno nem de lhe engraxar os sapatos.

Um pouco mais, pensou ele, um pouco mais daquela conversa, e ele teria a certeza e mergulharia.

-       Da última vez em que estivemos juntos não tinha quaisquer sentimentos em relação ao Presidente Dilman, para um lado ou para o outro. O que sucedeu desde então, Rubby? Não precisa de me responder - quem diabo se interessa por ele? -, excepto que eu jul­gava que você gostasse de ter um negro na...

De repente, ela tirou a mão do peito dele e voltou-se de lado, a sua voz macia tornando-se resoluta e estridente.

-       Já não gosto. Muito aconteceu com ele e connosco. Dilman não é suficientemente bom para ser negro, ou até mesmo para ser branco. Não é bom para nada. É um patife, é o que ele é. Veja como ele baniu os Turnerites, não erguendo um dedo sequer em defesa do pobre Jeff Hurley. Veja como ele até negou a lei das minorias à minha gente. Otter, esse homem que você guarda com a sua própria vida não presta para nada... tudo o que faz é mau...

Silenciosamente, Beggs amaldiçoou-se a si próprio por ter inci­tado uma conversa que pretendera apenas ser uma ponta para a sedução final. Agora, a julgar pela indignação que lia nos olhos dela, viu que a sua disposição era tudo menos sensual. Tentou desespera­damente arrepiar caminho.

-       Ruby, como você disse há pouco, ele não é suficientemente importante para nos ralarmos com ele. Pela parte que me toca, tam­bém não gosto dele, e não é por ele ser negro ou pelo que está a fazer aos negros - não sei muito acerca disso, excepto que os bran­cos também estão danados com ele por ter rejeitado o Projecto – a razão por que eu não gosto dele é por ser um fraco e um medricas. Isso é o principal. A banição não é obra dele, tão fraco ele é. E o veto, diabos, não revela lá muita coragem; ele ficou aterrado com a banição e tentou remediar...

Ruby abanou a cabeça.

-       Está a ser demasiado generoso, Otter... os meus amigos e parentes não pensam que o Dilman seja fraco... pensam que ele é mau, porque se ressente de ser preto, é o que é.

Havia a imaginação e havia a acção, e Otto Beggs já estava farto da primeira e estava pronto para a segunda. Baixou mais o braço que a rodeava e apertou-a contra si, sentindo o ceder esponjoso de um seio debaixo do negligé.

-       Ora, esqueça-o, Ruby. Ele não merece que você e os seus amigos se arreliem tanto por causa dele. Acredite-me, e você sabe quão bem eu o conheço, ele tem medo até da sua própria sombra, e é essa a razão por que ele age como age.

Ela parecia nem dar pelo braço, nem pela mão, nem pelo ardor crescente de Beggs. Endireitou-se um pouco.

O que quer dizer com «é essa a razão por que ele age como age»? Não me diga que ele não tem vergonha do seu próprio povo e que não está a agir contra nós. - O tom da voz dela era preocupado. - Sabe alguma coisa diferente, por estar junto dele? Não acreditarei em nada, excepto se você...

Ruby, escute. - Estava resolvido a terminar aquela conversa depressa. - Como já lhe disse, não tenho qualquer simpatia pelo fulano e não gosto que me obriguem a defendê-lo. Mas ao mesmo tempo não a quero ver assim perturbada e zangada sem qualquer razão. Portanto digamos a verdade, aqui entre nós, estritamente en­tre você e eu...

Certamente, juro que nada direi, Otter.

...e façamos com que fique de novo sossegada e contente, e que gozemos ambos a companhia um do outro. Poucas pessoas se podem gabar de conhecer o presidente tão de perto como eu. Não está de acordo?

Certamente, Otter, mas não acha que ele...?

Ele está tanto contra os negros como você, os seus amigos ou eu próprio. Ele só ressente o facto de ser presidente, de ser um pre­sidente de cor, e ele sabe-o e sente-o. Sabe que, faça o que fizer, haverá sempre um certo número de pessoas que pensam que ele não tem razão, simplesmente porque pertence à minoria. Sempre que eu me irrito contra ele e contra mim próprio por ter de gastar o meu rico tempo a guardá-lo, a guardar um homem que em nada contribui para nos melhorar, recordo umas tantas coisas que tenho visto e ouvido, e então, em vez de me sentir irritado, bem, tenho pena dele. É a verdade, Ruby, não estou a querer fazer-me valer aos seus olhos, mas eu, eu tenho pena dele. - Fez uma pausa. - Sabe por­quê? Porque apesar de se sentar onde F. D. R. e Rany e Ike e J. F. K. e Lyndon Johnson e o Juiz e O. C. se sentaram, ele continua a senxir que está sentado nas traseiras do autocarro, porque é aí que uma data de pessoas que o rodeiam lhe fazem sentir que devia estar. Nada conheço de política, mas tenho olhos e ouvidos. Certas pessoas es­tão a tentar correr com ele, e para tornar a coisa mais fácil exercem pressão sobre ele, fazendo-o sentir que não pertence, e ele sente isso e sofre que nem um cão, e é por isso que eu tenho pena dele. Ruby parecia curiosamente perturbada.

-       O que quer dizer com isso, Otter?

Beggs estava a ficar cada vez mais furioso com o tempo que aquilo estava a levar.

Muito bem, vou explicar-lhe rapidamente, e depois promete que se acabou a política e o Dilman, está bem?

Certamente, Otter, eu prometo. Mas o que quer dizer com...

Lembra-se daquele grande discurso que ele fez na outra noite, recusando o Projecto das Minorias que todos queriam? Eu estive de serviço junto da porta do seu escritório, que estava entreaberta, duran­te todo esse tempo.

«Pude ver e ouvir tudo. Devia tê-lo visto depois desse discurso, quase doente de nervosismo e preocupação. Depois houve uma data de telefonemas, aparentemente de altos funcionários do governo, e a maior parte deles deve ter sido horrível, chamando-lhe nomes e mandando-o para o diabo. De qualquer maneira, mais tarde, ouvi-o ao telefone com um amigo seu, um advogado de Chicago, e ouvi Dilman dizer - não exactamente por estas palavras, mas algo seme­lhante-«Não brinques, Nat, eles querem crucificar-me. Hátodauma raça de pessoas aqui à volta como eles, nem brancos nem pretos, mas puramente egoístas, pensando apenas nelas próprias e em mais ninguém, nem sequer no país. Eu podia ter-me tornado popular, um pouco popular, se tivesse continuado no caminho que tenho seguido durante toda a vida, mas pensei que, pelo menos uma vez, gostaria de ser eu próprio e fazer o que acho justo. Pensei que todos veriam que eu nada ganho em fazer mal. Não preciso de jogar com a política, pois não tenho de me preocupar em ser reeleito. Não é muito o tempo que terei de cá estar, portanto posso dar-me ao luxo de ser honesto. Imaginei que todos veriam isso, e que pensariam duas vezes acerca do veto, e que se sentassem e discutissem um verdadeiro projecto e não um suborno. Nunca pensei que eles me atacassem desta maneira. Nem posso repetir o que já me chamaram esta noite. Como é que se pode contactar com gente desta? Como é que se pode até contactar com alguém?» E ele continuou, Ruby, não exacta­mente por estas palavras, mas algo do género. Por Deus, nunca tive tanta pena dele como nessa ocasião, até que no...

Beggs reparou que Ruby estava agarrada ao seu braço e lho apertava com força.

Otter, isso aconteceu na realidade? Não posso ...

Pois está claro que aconteceu - respondeu Beggs. - Foi como da outra vez. Soube daquela vez em que ele deu o primeiro jantar oficial em honra do presidente africano, e em que metade dos convi­dados não apareceram? Pode imaginar o que foi? E foi verdade. Eu estava lá.

Oh, não - disse Ruby. Largou o braço de Beggs, pegou no copo e bebeu um grande trago.

Fascinado agora pelo modo como as palavras a afligiam e sen­tindo que havia alguma força e ascendência a ganhar sobre ela por esse meio, Otto Beggs prosseguiu:

-       Mais uma pequena coisa que eu lhe ia contar. No dia seguin­te, depois do discurso na televisão, aconteceu eu encontrar-me a sós com a secretária de Dilman, e esta estava um pouco perturbada com a maneira como o estavam a tratar pelo telefone e nos jornais, e começámos a falar acerca disso. Ela é uma rapariga branca, de Wisconsin, normalmente fria e imperturbável, mas nesse dia estava mais emocional, e, quando eu lhe disse que não era justo o modo como o presidente estava a ser atacado por causa da sua cor, ela respondeu-me que eu nem sabia metade de como ele realmente se sentia.

Ruby tinha os olhos pregados no copo que tinha na mão.

O que... o que queria ela dizer com isso, Otter?

Miss Foster, é como ela se chama. Ela disse-me que nunca se esqueceria do primeiro dia dele como presidente. Estava sozinha com ele, pela primeira vez, a planear entregar-lhe a sua demissão, e quando entrou no seu escritório reparou que estava uma porta aberta. Dirigiu-se para ela para a fechar, e ele não a deixou, não queria a porta fechada. Ela não percebeu o que se passava, e então ele con-tou-lhe que Eisenhower tivera outrora um conselheiro negro que re­parara que todas as raparigas brancas que tinham de entrar no seu escritório deixavam sempre uma porta aberta, como espécie de pro­tecção, enquanto estavam com ele, como se ele fosse um animal perigoso ou algum bandido. E assim Dilman adquiriu o hábito de ter uma porta aberta sempre que uma rapariga branca entrava e... - Com grande espanto de Beggs, Ruby saltara do sofá e postara-se, no can­to da sala, de costas voltadas para ele. - De qualquer modo - con­cluiu desastradamente - Miss Foster disse-me que nessa altura só lhe apeteceu chorar com pena dele, e fechou a porta e não pediu a demissão. Portanto, por muito mau que os seus amigos considerem Dilman...

Ele parou, e escutou.

Parecia incrível. Os ombros de Ruby tremiam, o rosto dela esta­va escondido nas mãos e soluçava.

Totalmente confuso, Otto Beggs levantou-se do sofá e apres-sou-se a ir ter com ela.

-       Ruby, mas que diabo... - Agarrou-a pelos braços, virou-a de frente e retirou-lhe as mãos dos olhos. Ela chorava, o rosto coberto da tinta dos olhos e das lágrimas.

Otter... Otter... Otter... - repetia ela incansavelmente. Ele abanou-a ligeiramente.

Ruby, que lhe sucedeu?

Ela engoliu, tentando controlar-se.

Otter, o diabo apoderou-se de mim e serei queimada diante de Jesus se não lho disser... Otter, acerca do que me disse, jura que...

Do que eu lhe disse? Só lhe disse a verdade sobre...

Deus do céu, fiz uma coisa terrível... acho que fiz... acho... não sei... mas estou preocupada... Jesus... estou preocupada... porque não quero que magoem o Presidente Dilman, se ele é como você diz.

Beggs sentiu o sangue subir-lhe à cabeça.

-       O que... o que quer dizer com isso? - Um arrepio de apreen­são, intensificado por um sentimento de culpa e medo, atravessou-Ihe o peito e os braços, fazendo-lhe eriçar a pele. - Como... como é que algo feito por si poderia magoar o presidente?

-       Otter... escute... eu não sabia nada, excepto que umas certas pessoas queriam que eu travasse conhecimento consigo já há muito tempo, logo que Dilman se tornou presidente, porque não gostavam que ele andasse a meter-se com os Turnerites, e, como eram da mi­nha gente, eu concordei. Mas, depois de o ter conhecido a si, você excitou-me tanto com as suas histórias e os seus feitos que me es­queci deles... depois, quando essa gente viu o Presidente Dilman destruir os Turnerites e o Hurley, ficou furiosa... e então !embraram-se de mim... e vieram perguntar-me se eu continuava a dar-me com Otter Beggs. Disse que sim, e eles pediram-me que fizesse com que você viesse hoje ao meu apartamento, que fizesse com que você faltasse ao emprego, porque não o queriam perto do presidente quando o vissem... Eu... Otter... não me lembro já de quem me disse isto... Otter... não faça essa cara, Otter... sei que há quem odeie o presidente como você nem pode supor... que o odeie desde o princípio, que o odeie verdadeiramente agora... e imaginando que seria difícil chegar até ele, consigo sempre à volta, um herói como você sempre pronto a disparar... Assim disseram-me que o mantivesse ocupado até que pudesse ver o presidente, quando ele acabar com o trabalho do es­critório e subir para...

Beggs ficou verde de raiva.

Sua desavergonhada. - Gritou ele, torcendo-lhe os braços. -Se me estás a mentir ou...!

Otter, Otter, estás-me a magoar... Otter, é verdade tudo o que te disse. Por que te havia da mentir?...

Ele continuou a apertar-lhe os braços.

-       Diabos te carreguem, quem são esses teus amigos... que pre­tendem eles...?

Não sei... não sei... juro-te por Deus... Ele soltou-lhe os braços raivosamente.

Devia matar-te... devia matar-te pelo que me fizeste...

-       Mas eu estava a gostar de ti, Otter... verdade, juro que é ver­dade...

Ele já não a ouvia.

Olhou para o relógio. Passavam dezasseis minutos das cinco horas. Quase todas as tardes o Presidente Dilman deixava o escri­tório às cinco horas e trinta minutos. Os amigos de Ruby queriam ver o presidente quando Beggs não estivesse ao pé dele, quando alguém menos experiente e hábil que Beggs lá estivesse, quando alguém novo lá estivesse. Só podia significar uma coisa, uma coisa horrível. Só tinha catorze minutos para interceptar Dilman ou pre­venir Agajanian.

Levantou os olhos e reparou que Ruby Thomas recuara até à porta do quarto, assustada, fixando-o com os olhos desmedidamente abertos.

-       Devia bater-te até te partir os ossos e depois entregar-te ao F. B. I. - vociferou ele. - O meu dever é bem mais importante do que tu, sua nojenta...

Virou-se, agarrou no casaco e na gravata e dirigiu-se rapidamente para a porta. Ela gritou:

-       Otter, eu preveni-te... não podes dizer que eu não te preveni... não deixes que lhe façam mal, por favor, Otter...!

Ele bateu com a porta e desceu os degraus dois a dois, enquanto ia enfiando o casaco. Quando se precipitou na rua, o seu primeiro instinto foi procurar uma cabina telefónica, telefonar a Gaynor, a Agajanian, a Prentisse ou a qualquer pessoa do Departamento, e pre­venir que não deixasse o presidente sair do escritório, rodeá-lo com uma dupla ou tripla guarda, e procurassem os loucos amigos de Ruby. Depois, subitamente, viu que lhe era impossível fazer tal telefonema. Perguntar-lhe-iam como soubera essa informação. Que lhes poderia responder? Que tivera um palpite? Que ouvira por acaso uma conver­sa? Não possuía prova nenhuma - excepto a verdade - Ruby - e se ousasse mencioná-la, e se ela fosse metida no caso, descobririam que ele não estivera doente, que tentara meter-se com ela, uma rapariga de cor. Seria o seu fim, o seu presente seria um escândalo e o futuro não existiria. Perderia o Serviço Secreto, Gertrude e os miúdos. Não, o telefonema estava fora da questão. Teria de ser ele próprio a fazê-lo.

Enquanto estivera a pensar, fora sempre andando, quase cor­rendo agora. Chegou à rua por detrás da Estalagem do Caminho como seu parque de estacionamento, saltou para o Nash Rambler, pô-lo em funcionamento, fez marcha atrás e saiu da rua para a avenida principal. Pôs o carro a toda a velocidade, passou uma luz amarela e dirigiu-se para a Casa Branca.

Acelerou o carro tanto quanto pôde naquela estrada que ele tan­tas vezes percorrera na sua vida, saltando as luzes, nem oihando para os sinais, serpenteando por entre o tráfego, sabendo que devia che­gar à Casa Branca antes de o presidente sair do Escritório Oval. Se algum polícia o mandasse parar, teria de lhe mostrar o seu cartão do Serviço Secreto e dizer que era uma emergência. Guiou no limiar da loucura, ignorando as buzinas zangadas e as pragas que o perse­guiam durante segundos e depois morriam na distância.

Tinha também intervalos de lucidez. Sabia que já não estava em­briagado, mas o seu hálito devia ainda tresandar a gin. Se entrasse no vestíbulo da Ala Oeste como um louco, semelhante a qualquer fugitivo de um filme de polícias e ladrões da televisão, e não se passasse lá nada por a história de Ruby Thomas não ser senão fumo, não só seria um motivo de riso no Serviço, mas ficaria em maus lençóis por estar ébrio em público. Decidido a impedir isto, meteu a mão na algibeira à procura das pastilhas de hortelã-pimenta que trazia sempre consigo, para chupar depois de ter bebido uma ou duas cervejas, e sentiu-se grato ao ver que ainda restava meio tubo. Soltou três pastilhas com a unha, e meteu-as na boca.

Com dificuldade, à medida que se aproximava do seu objectivo, tentou organizar os seus pensamentos. Aquela cabra preta ter-lhe-ia mentido? Era possível, se ela fosse louca, uma psicopata, uma esquizofrénica. Uma outra possibilidade: talvez - e odiou tal ideia, pois feria a sua sensibilidade - talvez ela o tivesse querido excitar, pelo gozo da coisa, e depois recuara, não querendo nada com ele, e quisera ver--se livre dele. Havia mulheres assim - que só queriam brincar e não iam mais além. E assim ela inventara aquela história para se livrar dele. Talvez. Mas, infelizmente, não fazia muito sentido. Afinal, lembrou-se Beggs, fora ele que a iniciara no assunto do Dilman, que suscitara a sua opinião, que a modificara, que trocara a parte emocional da sua feminilidade e do seu sentimento negro, e então ela fizera aquela con­fissão. Mais do que isso, não era provável que ela tivesse inventado uma mentira tão dramática e séria, sabendo tão bem que ele a podia tramar com as autoridades.

A não ser que ela fosse uma psicopata - não o parecia ser, nem procedia como tal, com excepção de toda aquela idiotice do Jelly Roll e de se andar a divertir com um branco como ele, que era um homem respeitável, casado e que nada lhe podia oferecer. Bem, não havia outra explicação para o que sucedera, excepto a pior. E a pior era: ela dissera a verdade. Alguém que ela conhecia pessoalmente estava a tramar algo contra o presidente, e usara-a para desviar o melhor atirador do Serviço Secreto.

A possibilidade de ela lhe ter dito a verdade tornava-o doente, e fazia-o automaticamente carregar mais no acelerador. Meu Deus, pensou, podia acontecer dentro de cinco minutos, o que quer que fosse podia estar a acontecer dentro de cinco minutos, e ele, Otto Beggs, galardoado com a Medalha de Honra, guarda-costas do Ser­viço Secreto, não só estaria ausente, faltando ao seu dever, incapaz de proteger a vida do presidente, mas teria, de certo modo, colabora­do inocentemente com os que pretendiam fazer mal ao presidente.

Durante um segundo sentiu-se tentado a parar o carro, correr a um telefone e, já que não podia revelar quem falava, fazer uma cha­mada anónima. Depois reconheceu que o tempo para isso já passa­ra. Havia sempre imensas chamadas desse género, que tinham de ser assentes e confirmadas, e antes que a sua pudesse ser seria­mente tratada, os cinco minutos, agora já menos que cinco, teriam passado. Além disso, mesmo que tivesse tempo, mesmo supondo que o presidente se tivesse atrasado no seu escritório, Beggs sabia que não conseguiria disfarçar a voz ao telefone. Não era bom actor (a paiavra actor associou-se imediatamente no seu espírito a John Wilkes Booth, de quem estava desconfortavelmente perto em infâ­mia nesse momento), e sabia que de nada serviria. Manteve o Rambler a cinquenta e cinco milhas por hora.

A possibilidade de um verdadeiro assalto ao presidente, até mes­mo uma tentativa de assassínio, cresceu nele, não o deixando mais, e tornou-se numa firme convicção. Aqueles eram uns tempos maus e instáveis. Beggs nunca vira na sua vida tantas pessoas falarem com tanto ódio - não satírica ou ironicamente, ou com irritação, mas mesmo com ódio - contra um chefe Executivo do país. Talvez em nenhuma das 132 salas da Casa Branca se sentisse ou conhecesse tão bem essa selvajaria como nas salas ocupadas pelo Serviço Se­creto. Nunca, em toda a sua história, a Secção das Buscas de Pro­tecção do Serviço Secreto se vira a braços com tanto trabalho. Des­de que o Presidente Dilman banira os Turnerites, e desde que ele recusara o Projecto das Minorias, havia provas de que oito de cada dez americanos estavam contra ele, e metade das cartas ameaçado­ras e obscenas que tinham chovido recentemente, e tinham sido enviadas para a Secção de Protecção, estavam ainda por ler, uma pilha gigantesca de cartas anónimas para serem analisadas segun­do a geografia, hábitos de escrita, truques de vocabulário, de modo que os assassinos potenciais pudessem ser identificados, observa­dos e apanhados.

Sempre que o chefe Gaynor achava que os seus agentes se estavam a tornar complacentes e frouxos na rotina, fazia-os ler excertos dessas cartas. A maior parte, admitia ele, eram inofensivas, escritas por cidadãos vulgarmente racionais que expandiam a sua fúria. Mas algumas, fazia-lhes ele notar, vinham de personalidades paranói­cas, com pouco contacto com a realidade, com crenças obsessivas, que com um apertar de gatilho podiam fazer do mal bem e salvar a Nação. Eram esses os tais, eles existiam. Oh, se existiam! Recordem--nos, avisaria Gaynor, recordem Richard Lawrence, John Wilkes Booth, Charles J. Guiteau, Leon F. Czolgosz, John Schrank, Giuseppe Zan­gara, Oscar Collazo, Griselio Torresola, até mesmo o enigmático Lee Harvey Oswald - recordem-nos e não se deixem enganar pela pre­ponderância de nomes estrangeiros. Eram na sua maioria america­nos, diria Gaynor, americanos que liam os jornais, que frequentavam os parques de diversões, que faziam compras, que celebravam os feriados, que economizavam o seu dinheiro, que comiam as suas refeições, que votavam no tempo'das eleições, que dormiam e acor­davam, que percorriam as ruas cheias da cidade e levavam consi­go instrumentos de destruição para abaterem grandes homens até ficarem do seu tamanho e a seus pés. Eles existiam. Eles agiam. Contem com o inesperado, diria Gaynor, nunca afrouxem, estejam prontos e preparados para competir com o que é súbito.

Otto Beggs avistou a Casa Branca do outro lado da rua. Ultra­passou um carro à tangente, afrouxando por causa da luz vermelha da Avenida da Pensilvânia, atravessou rapidamente a avenida e tra­vou ao chegar ao portão noroeste.

Começou a mostrar o passe, mas um polícia sorridente da Casa Branca fez-se sinal para entrar.

Hei, Otto. Que tal vai a vida? Outra vez condecorado?

Não há dúvida, condecorado! - gritou como resposta. - Não havia dúvida, com trinta peças de prata, pensou.

Guiou o carro pelo caminho dos automóveis, arrumou-o no pri­meiro lugar que viu e saiu do carro rapidamente. Reparou que não tinha ainda posto a gravata e que isso iria chamar a atenção, mas não havia tempo para a pôr. Devia-se apressar sem causar agitação, sem se deixar apanhar pela imprensa ou pelos colegas. Tinha de chegar rapidamente aonde ia, sem contudo causar pânico, para que não fizesse figura de parvo se fosse um falso alarme.

Enquanto se dirigia para o vestíbulo da Ala Oeste, olhou para o relógio. Se estava certo, eram cinco horas e trinta e dois minutos.

Como sempre àquela hora, o vestíbulo da imprensa estava cheio de repórteres. Passou apressadamente por eles, ignorando a curio­sidade despertada pelo seu aspecto algo desarranjado. Engoliu o que restava das pastilhas de hortelã-pimenta e atravessou rapida­mente a Sala de Leitura, mal respondendo à saudação do polícia que se encontrava a uma secretária, à esquerda. Passou pelos repór­teres sentados nos seus sofás e cadeiras de couro, passou pelo escritório de Tim Flannery, e entrou no corredor com o seu chão branco e preto.

Finalmente só, sem ninguém a observá-lo, passou a correr pela porta da Sala do Gabinete e pela porta de Miss Foster, até chegar à entrada do Escritório Oval do presidente, com uma corrente de ferro a obstruí-la, onde se encontrava de guarda o agente Winkler.

Hei, Otto - chamou o agente, - onde tens estado?

Tenho uma mensagem especial para o presidente. Onde é que ele está?

Meteu a cabeça no escritório. Estava vazio.

-       Saiu há cinco segundos para o andar de cima.

Beggs abriu a corrente com uma mão, enquanto com a outra desapertava o casaco.

-       Tenho de o ver, é uma mensagem importante - disse, atirando com a ponta da corrente ao colega.

Movendo-se agilmente para o seu tamanho, Beggs atravessou de um salto o escritório do presidente até à porta de vidro que estava ainda aberta para o Jardim das Rosas.

Lá fora, sentindo o coração aos saltos, parou, e à luz mortiça do crepúsculo percorreu com os olhos o terraço da colunata em forma de L que ligava os escritórios da Ala Oeste à entrada do rés-do-chão da Casa Branca. Não os viu logo, mas de súbito avistou-os, emergindo por de­trás de um pilar branco. Iam perto um do outro, enquanto caminha­vam, o Presidente Dilman à frente e depois o jovem agente Ross, um homem baixo, mais baixo que o presidente.

Era uma cena pacífica e serena, uma actividade tão familiar e rotineira como qualquer passeio que dera com Dilman, nos últimos dois meses. Nada de insólito, nada de inesperado, nada de suspeito.

Um falso alarme, graças a Deus, pensou Beggs, suspirando de alívio. O seu prazer foi apenas ensombrado pela recordação da cena com aquela cabra preta, que lhe fizera passar um quarto de hora dos diabos apenas para se ver livre dele.

Prestes a tornar a entrar no escritório, viu que o presidente tinha parado para mostrar algo respeitante à cerca que separava o cami­nho de cimento do jardim histórico.

Automaticamente, os olhos treinados de Otto Beggs examina­ram a cerca, depois ergueram-se para inspeccionar a Rotunda da Casa Branca e a Varanda de Truman do outro lado, depois baixaram--se para estudar a magnólia de Andrew Jackson, depois, casualmen­te, percorreram os canteiros de flores, o grupo das cadeiras vazias à volta da mesa de ferro do jardim, o jardineiro ocupado de joelhos a cavar um buraco para enterrar uma nova planta, o rectângulo do Jar­dim das Rosas à direita, o - e então ocorreu o insólito e o inesperado.

O pescoço de Beggs retesou-se. O seu olhar regressou ao jardi­neiro de calças verdes de azeitona, a cor destas quase que o confun­dindo com a magnólia. O jardineiro endireitou-se, pôs-se de pé esfre­gando as costas, depois baixou-se para apanhar a planta, e começou a andar devagar, afastando-se da magnólia, em diagonal, através do relvado e dirigindo-se para o local em que o presidente e Ross esta­vam ainda absorvidos na sua conversa hortícola.

Como se fosse levado pelo instinto, Beggs caminhou furtivamente para a sua esquerda, através do caminho de cimento, em direcção à esquina e à rampa que conduzia até onde o presidente e Ross se encontravam. Os olhos semicerrados de Beggs não largavam o jar­dineiro. De tão longe, não o podia distinguir bem, vendo apenas que era um negro atarracado e rude levando nos braços uma planta, à primeira vista totalmente absorvido no seu trabalho, dirigindo-se para o canteiro de crisântemos e para a colunata branca.

Uma cena inocente e pastoril, uma cena prosaica que podia ser diariamente observada do seu posto junto do escritório do presiden­te: os jardineiros, as suas plantas, as suas ferramentas, algo que se repetia todas as manhãs e tardes à luz do sol. Mas o espírito de Beggs trabalhava à medida que ele ia caminhando: estranheza número um, um jardineiro negro que lhe não era familiar, pois não se lembrava de nenhum jardineiro negro; não, estava enganado, havia um, negro, alto, magro e já velho, o oposto daquele tipo atarracado; contudo Dilman, sendo negro, podia ter contratado recentemente outro; es­tranheza número dois, um jardineiro a trabalhar ao crepúsculo, a poucos minutos do cair da noite, um jardineiro sozinho, quando to­dos os outros que ele conhecia se tinham já ido embora, um jardinei­ro plantando a uma hora em que nunca se planta, impossível.

Beggs chegara, sem ser visto, à colunata que agora o separava dos outros dois. Mesmo em frente de Beggs, Dilman e Ross conti­nuavam a conversar. Dilman escutando o novo agente do Serviço Secreto e o novo agente, de costas para o jardim, não dando pela presença de ninguém ali perto. E mesmo que Ross se voltasse e prosseguissem no caminho para o rés-do-chão, o agente não estava ainda suficientemente familiarizado com o pessoal e a rotina para perceber que aquele era um jardineiro desconhecido, ocupado a plan­tar a uma estranha hora. Ali estavam eles a conversar, o par que de nada suspeitava, ali mesmo em frente, à esquerda do canto da colunata. E à direita da colunata, a meio do jardim, à distância de uns cinquenta pés, o jardineiro negro tinha parado estranhamente, pou­sado a planta e metera a mão na algibeira das calças.

Ultraprudente ou não, Beggs tinha um risco a correr, um risco lançado pelo aviso idiota de uma cabra preta e reforçado por uma suspeita nascida do insólito.

Começou a descer a rampa e chamou:

-       Hei, Ross! Ross!

O Presidente Dilman levantou a cabeça, espantado, enquanto o novo agente se virava.

Beggs pôs a mão em forma de concha na boca.

-       O jardineiro atrás de si - detenha-o. Quem é ele?

Nem Ross nem o presidente ouviram a ordem dele, e então, por uma acção dos reflexos, e para grande espanto de Beggs, o novo agente deixou Dilman e começou a encaminhar-se rapidamente na direcção dele, com a cabeça inclinada para o lado e um dedo por detrás da orelha.

Durante um segundo, Beggs ficou petrificado de horror, incapaz de emitir um som. Era compreensível aquele reflexo de se aproximar para ouvir mais distintamente o que ele gritara, mas era um lapso que infringia a regra principal da protecção ao presidente. Com esse gesto, Ross deixara Dilman momentaneamente sozinho e desprotegido.

-       O quê? - gritou Ross, aproximando-se de Beggs. - O que é? Furioso contra a estupidez do novo agente, Beggs correu veloz­mente rampa abaixo, erguendo o punho no ar.

-       Diabos o levem, você não deve deixar o presidente sozinho! Disseque detivesse...

E então, quando já estava quase junto de Ross, pelo canto do olho viu o relâmpago do gesto, o gesto súbito.

O jardineiro negro extraíra um objecto da algibeira das calças e de um pacato cultivador transformara-se instantaneamente num agressor com um objectivo, saltando para a frente, correndo que nem uma seta através do relvado e do canteiro, galgando velozmente a distância que o separava do presidente.

A resposta de Beggs foi instantânea, tão rápida, positiva e imponderada como daquela vez na Coreia, numa memorável noite gelada. Beggs agarrou Ross por um ombro, atirou-o com força para o lado, de encontro à parede.

Enquanto a mão livre mergulhava no coldre e tirava o revólver, Beggs tropeçou, recuperou o equilíbrio, e depois desatou a correr pelo caminho em direcção ao presidente. Na sua frente, Dilman, a mão esfregando a nuca de espanto, permanecia imóvel, como se estivesse hipnotizado pela incrível acção de Beggs. À sua direita, convergindo igualmente sobre o presidente, Beggs distinguira o jar­dineiro negro correndo, escorregando na erva húmida, mas não per­dendo o equilíbrio e aproximando-se do presidente O objecto na sua mão, chocantemente vivo, agora, era um Luger que parecia crescer desmesurada e monstruosamente.

-       Para baixo! Deite-se! - gritou Beggs a Dilman.

A cabeça do presidente girou de Beggs para o som dos passos à sua esquerda. Quando viu a figura preta e sinistra com a sua arma na mão, indubitavelmente um assaltante brandindo uma pistola, precipi-tando-se do relvado através do canteiro animado de um propósito mortífero, Dilman gritou com a garganta estrangulada: - Não! - e co­briu o rosto com os braços.

-       Deite-se! - rugiu Beggs de novo.

Paralisado pelo medo, Dilman voltou apenas a cabeça e o tron­co desamparado e constituindo um alvo perfeito. Beggs encontrava-se apenas a quinze passos, quando o assassino atingiu o canteiro, apontando o Luger mergulhando no solo revolvido e fofo, enquanto premia o gatilho.

A explosão, tão perto, soou como um trovão aos ouvidos de Beggs. Viu a bala ir cravar-se na parede mesmo por cima da cabeça do presidente.

Durante um momento horripilante, impresso no espírito de Beggs, surgiu o quadro da junção dos três - assassino, vítima e protector. Horripilante, e loucamente feliz, os olhos brancos e dourados e os dentes brancos da cabeça do negro, por cima da cerca. Horripilante, tão indefeso e incrédulo como uma criança de ano prestes a deixar--se cair, os olhos esbugalhados e avermelhados do presidente, os braços erguidos e impotentes com as mangas demasiado curtas e ridículas. Horripilante, o próprio Beggs, à distância do comprimento de um homem, à distância da mortalidade, uma perna no ar, a outra de encontro ao cimento, a sua catapulta, o Beggs de Corvallis, o Beggs da Coreia, o que fora e não mais seria, o retrato colado e apertado nas páginas dos álbuns.

O momento horripilante cresceu e rebentou no ar, quando a erup­ção e a detonação jorraram simultaneamente.

Beggs jorrou como uma erupção, deu um salto pelo ar, os joe­lhos e as pernas indo esmagar o peito do presidente. A pistola do assassino, na extremidade de um braço que não tremia, surgiu por cima da cerca e disparou um estrondo veemente e ensurdecedor.

Por uma infinidade de tempo, Beggs sentiu-se subir cada vez mais alto com o estrondo, e depois precipitar-se para baixo, em per­nas, como se o corpo dobrado debaixo dele fosse os seus membros inferiores. Ouviu Dilman gemer quando se estatelaram no cimento, Dilman por baixo e dobrado, e ele por cima de Dilman.

Tentando levantar-se, Beggs sentiu a humidade do sangue no queixo de Dilman, o sangue a escorrer, empastando as suas próprias calças, numa perna, e sentiu a segurança do metal na palma da mão direita.

A repercussão do estrondo da pistola do assassino ressoava ainda dentro da sua cabeça. Pôs-se de lado, com a rapidez de um relâmpago, tentando não expor o presidente. Voltou-se no momento em que o assassino se punha de pé, abanando a pistola, erguendo--se hesitante, como se não tivesse a certeza de ter morto o presidente e estivesse resolvido a tentar de novo, quando apanhasse uma aberta. Tudo isto no espaço de um segundo. Quando o outro ergueu a pistola, firmando-a, o punho de Beggs deu um sacão ao revólver na sua mão. O seu orgulhoso reflexo da Medalha de Honra. O seu indicador apertou o gatilho tão instantânea e delicadamente como outrora puxara o polegar para fora da boca do filho de meses. A res­posta do seu revólver foi tão calma e firme como o gesto do seu dedo. Ouviu-se um cuspir metálico e abafado, um zumbido sibilante.

Não ficou surpreendido ao ver o rosto preto do assassino perder a sua expressão venenosa, abrir-se e alargar-se de espanto. Não fi­cou surpreendido ao ver os dedos do assassino abrirem-se como um leque, semelhantes aos de um boneco mecânico, até largarem o Luger, que ressoou ao cair no caminho de cimento. Não ficou surpre­endido ao ver a personagem à sua frente levar as mãos ao peito, como se quisesse abrir a camisa para deixar cair a mancha vermelha que se alargava, e depois deixar pender o queixo, para, em seguida, pouco a pouco, deixar escapar a vida, e depois amarrotar-se em di­recção ao chão, para baixo, até ficar reduzido a um monte amar­fanhado junto dos ramos da cerca.

Beggs voltou a cabeça ao som dos passos, tantos passos apres­sados. Indolente, desinteressado, viu-os aproximarem-se vindos de todos os lados, parecia-lhe que surgiam de toda a parte, da guarita do guarda, do Escritório Oval, da entrada por cima da rampa, e pro­vavelmente do rés-do-chão por detrás dele. A sua visão era pouco clara. Havia polícias - Ross, Prentisse e mais dúzia e meia dos rapa­zes de Gaynor, Miss Foster, Flannery, Talley e uma infinidade mais.

O marulhar das vozes, os gritos, os berros, as ordens, chega­vam até ele como se viessem de muito longe.

-       Vão buscar o médico... vão buscar o Oates... mesmo por ali, virando a esquina!

-Tirem o Beggs... tirem-no... levantem-no!

-       O presidente... está morto?

Era agradável a Beggs todas aquelas mãos, todo aquele cuida­do e atenção. Encontrou-se num cobertor, deitado de costas, olhan­do para cima, para uma multidão de rostos desfocados.

Ao longe ouviu a voz de Ross.

-       O jardineiro disparou, falhou, então o Beggs saltou sobre o presidente e atirou-o ao chão, enquanto o fulano tornava a disparar.

Então Beggs deu meia volta e matou-o com um tiro... o corpo esta além, chefe...

Pareceu-lhe ouvir a voz do almirante Oates não muito longe.

-       Sr. Presidente... Sr. Presidente... - Depois um silêncio. – Está vivo... penso que não foi atingido... o sangue não é dele... aqui, enfer­meira, dê-me os sais de amónia... Sr. Presidente, então, isso, assim está melhor.

Depois ouviu a voz do Presidente Dilman, fraca, mas irritada.

-       Eu estou bem. Deixem-me em paz. O Beggs, foi o Beggs quem recebeu o tiro em meu lugar. Vão lá e ajudem-no.

Beggs abriu os olhos. Que se passava com ele? Não conseguia distinguir bem as coisas. O rosto do almirante Oates flutuava diante dos seus olhos, um rosto menos taciturno porque não o via clara­mente. Ele dizia-lhe:

-       Calma, Sr. Beggs, deixe-me ver... Oh, sim, sim... vejam, foi na perna direita... está um pouco maltratada... Miss Foster! Mande vir uma ambulância para o levar imediatamente para o Hospital Walter Reed. Beggs, sente alguma dor? Não, não deve sentir. É do choque. Vou dar-lhe uma injecção...

Sentiu a picada da agulha e a sua extracção, mas não a dor; depois a sua atenção foi desviada pela voz do chefe Gaynor, algures atrás de si.

-       Sr. Presidente... sente-se bem, Sr. Presidente? É só para lhe dizer que o assassino está morto. Beggs matou-o com um tiro em cheio no peito. Tenho aqui a carteira dele... Burleigh L. Thomas, de 28 anos... licença de motorista de camiões... as cápsulas das balas... pertencente aos Turnerites... disso tenho eu a certeza... Isto, isto é o mapa da excur­são guiada através da Casa Branca. Pode ver-se nele a linha que ele traçou a tinta vermelha. Vê? Seguiu a excursão pelo rés-do-chão até lá acima, depois pela sala de jantar do Estado, e quando os outros passa­ram à Sala Vermelha, ele deve ter-se atrasado, escondeu-se na sala de jantar de Família... algo que sempre temêramos... Aparentemente devia levar o fato de jardineiro por debaixo do fato normal, mudou de fato, pegou em duas plantas... Hawkins diz que viu um homem de cor trans­portando umas plantas para o andar de baixo por volta das três e meia... Deve ter-se mantido ocupado, mas fora de vista até os jardineiros regu­lares se terem ido embora... Depois, procurando confundir-se com a magnólia, fingindo que jardinava, à sua espera... O quê? Não, Sr. Flannery, ainda não, dê-nos tempo para averiguarmos o caso. Teremos algo de definido para a imprensa, amanhã de manhã. Diga-Ihes apenas que foi feita uma tentativa de assassínio, que o presi­dente se encontra bem, completamente bem, e que o assaltante foi morto a tiro.

Beggs ouviu a voz de Dilman, emocionada, mas distinta.

-       Tim, faça com que Otto Beggs receba todo o mérito... ouviu? Todo o mérito. Almirante, quero que ele receba todos os cuidados possíveis de...

Alguém gritava:

-       Escreve-se: B-u-r-l-e-i-g-h, isso mesmo, Burleigh Thomas. Julgou ouvir a voz de Miss Foster, clara, mas muito longe.

-       A ambulância vem a caminho, Almirante! Como está o pobre Sr. Beggs?

Ouviu a voz distante de Oates.

-       Ele é um bravo. Graças a Deus que ainda existem homens destes.

Sentia-se aliviado, sem dor, demasiado cansado e sonolento para escutar.

Pensou: «Ouves, Gertrude? Ouves, Otis, Ogden? Um bravo.»

Pensou: «Tens razão, Ruby, o teu Otter é importante aqui. Um bravo.»

Pensou: «Ruby Thomas, Burleigh Thomas. Muito justo, Ruby, tudo claro.»

Pensou: «Vou morrer? Para salvar um nigger? Que coisa suja e piolhenta, diabos me levem.»

Pensou: «Todos os livros de história dirão: ele salvou um pre­sidente, um presidente. Nada mau, nada mau, hem, Gertie, minha jóia?»

Pensou: «Meu Deus, tende misericórdia deste pecador... meu Jesus, vede, nenhum homem tem um amor maior do que este... meu Salvador, não me lanceis na escuridão... deixai-me viver, por favor deixai-me viver para encher o álbum, por favor, obrigado, amém.»

PARA ENTREGA IMEDIATA

ESCRITÓRIO DO SECRETÁRIO DA IMPRENSA DA CASA BRANCA

A CASA BRANCA

O ALMIRANTE OATES, MÉDICO PARTICULAR DO PRESIDENTE, ANUNCIOU HOJE QUE, COM EXCEPÇÃO DE VÁRIAS CONTUSÕES NA CABEÇA E DE UM ESTADO GERAL DE FADIGA, O PRESIDENTE SE ENCONTRA DE EXCELENTE SAÚDE, A SEGUIR À TENTATIVA DE ASSASSÍNIO DE ONTEM. TODOS OS COMPROMISSOS DO PRESI­DENTE FORAM CANCELADOS, E ELE ENCONTRA-SE RETIDO NOS SEUS APOSENTOS PARA UM «DESCANSO MUITO PRECISADO». COMPARECERÁ TAMBÉM NA CONFERÊNCIA DE CHANTILLY COMO ESTAVA COMBINADO.

O ALMIRANTE OATES ANUNCIOU TAMBÉM QUE OTTO BEGGS, O AGENTE DO SERVIÇO SECRETO DA CASA BRANCA, CUJA AC­ÇÃO SALVOU A VIDA DO PRESIDENTE, PERMANECE NA LISTA «CRÍTICA» DO HOSPITAL CENTRAL DE WALTER REED. DENTRO DAS PRÓXIMAS QUARENTA E OITO HORAS SERÁ DECIDIDO SE A PERNA FERIDA DE BEGGS PODERÁ SER SALVA OU SE SERÁ NE­CESSÁRIO AMPUTÁ-LA.

AQUI INCLUSO VAI O TEXTO COMPLETO DOS DOIS BOLE­TINS MÉDICOS PASSADOS PELO ALMIRANTE OATES.

Edna Foster estava sentada sozinha num recanto sombrio da sala fracamente iluminada do Hotel Mayflower. Era o único ocupante da pequena e elegante sala àquela hora antes do cocktail, encon-trando-se perdida nos seus pensamentos enquanto acabava de be­ber o seu terceiro vodka Gibson.

Tinha combinado com George encontrar-se ali com ele às seis horas e um quarto. Aquele era o lugar de reunião preferido deles, algo para além dos seus meios, quando algum deles precisava de levantar o moral. Normalmente ela teria acabado o seu trabalho diá­rio, tomando um táxi, e chegando ali mais ou menos à hora combina­da, encontrando George já à sua espera.

Contudo, aquele dia fora tudo menos normal. Porque o presi­dente estivera indisposto sofrendo de hipertensão aguda provocada pelo horror da noite anterior, e se encontrava confinado aos seus aposentos, a carga de trabalho de Edna diminuíra e as suas horas de trabalho encurtaram. Os compromissos usuais de Dilman tinham sido desviados para outros escritórios e as suas próprias tarefas distri­buídas pelas outras secretárias da Casa Branca. Pelas quatro e meia da tarde a sua secretária estava vazia. Telefonara para o segundo andar e o presidente insistira para que ela saísse e aproveitasse para ir cedo para casa. Ela achara que era demasiado tarde para ir primei­ro ao seu apartamento antes de se encontrar com George, e que era demasiado cedo para ir já para o Mayflower. Decidira ir a pé até lá, gastando no caminho o tempo extra. Uma vez na rua, o ar demasia­do húmido e o céu demasiado nebuloso para os seus nervos esfrangalhados fizeram-lhe alterar imediatamente o que planeara. Soubera então o que queria. Sozinha ou acompanhada, queria em-briagar-se.

Agora, quarenta e cinco minutos mais tarde, o dedo pequeno da mão, excessivamente dobrado enquanto ingeria o resto do terceiro Gibson, ela sentia-se quente, resoluta e deliciosamente embriagada.

Um criado de casaco vermelho, grisalho e cortês como o mordomo de uma antiga família inglesa, deslizou pela sala, hesitou um momento, e depois adiantou-se e recolheu o copo de pé alto do cocktail.

-       Deseja outro, minha senhora?

Edna sentiu-se tentada, mas depois teve medo de se esquecer do que tão cuidadosamente preparara para dizer a George.

-       Acho que vou esperar, se não se importa. Estou à espera de um amigo.

Depois de o criado se ter afastado, abriu a mala e tirou dela a caixa de pó-de-arroz. Olhou para o espelho com desgosto. Era o que acontecia quando se compravam caixas baratas com espelhos bara­tos, disse para consigo mesma. O espelho barato estava sempre granuloso, marcando sempre mais a cara de uma pessoa do que ela merecia. Mas nessa altura ela estava demasiado inebriada para se enganar a si própria. Era uma boa caixa de pó-de-arroz, a melhor que já alguma vez possuíra, uma prenda da sua generosa tia de Madison. O espelho era óptimo. As rugas pertenciam, na verdade, ao seu próprio rosto, e por esses sulcos gravados na sua testa, sob os olhos, à volta da boca, ela não culpava o tempo, mas o patrão.

Uma pessoa não envelhece assim tanto num par de meses, diria qualquer cientista, excepto se há uma razão, do mesmo modo que se vê o cabelo de uma pessoa ficar todo branco de repente por cau­sa do que se passou. Eia tinha a sua razão, e essa chamava-se Douglass Dilman. Se se não era desumano, se se tinha metade de um coração, se se tinha pena até de um pobre animal, tinha de se sofrer enquanto se estivesse junto daquele presidente de cor, duran­te oito a dez horas por dia. Era como se Dilman fosse o filho de Gui­lherme Tell e ela lhe tivesse de segurar a maçã em cima da cabeça, e todos os Gesslers, ou como quer que se chamavam, disparassem as setas para atingir a maçã... Bem, bem, ninguém na realidade fazia pontaria à maçã, todos o procuravam atingir a ele, o presidente Tell, e muitas delas falharam o alvo e atingiram-na a ela, pois ela ali estava segurando a maçã. Exactamente como no exemplo da noite anterior. Aquele bruto daquele assassino do Thomas com a idiota da sua pis­tola. Bang. Bang. Bang. Falhou Dilman. Atingiu Beggs. Atingiu-a a ela. Pobre Dilman, vomitando a seguir. Como é que uma pessoa se sentiria, andando sempre por aí com uma maçã sobre a cabeça? Pobre Beggs, também. Por aquele ordenado. Ela não podia esque-cer-se de mandar aqueles selos estrangeiros para os rapazes. Mais do que todos, pobre Edna, pobre dela própria, secretária pessoal de um alvo, sendo atingida tantas vezes que finalmente o espelho da caixa de pó-de-arroz o revelava.

Perguntou a si própria por que razão as três bebidas a não ti­nham tornado completamente ébria. Ela sabia. Faziam lucro servin­do vodka doméstico, que era tão forte como água engarrafada. E por aquele preço. Que roubalheira!

Ali estava o espelho barato e granuloso. Empoou a testa, o na­riz, o queixo, depois deu uma penteadela nos cabelos castanhos e rebeldes, tentou dar um pouco de cor aos lábios, desistiu, fechou a caixa de pó-de-arroz e meteu-a na mala.

Levantou a cabeça e deparou com George a falar com o criado. Vinha elegante como de costume, mas pareceu-lhe mais baixo - se­ria possível? Sim, talvez tivesse gasto já as talonetes. Ele inclinou-se, beijou-a na testa, deu-lhe um pequeno apertão na mão e sentou-se em frente dela, empurrando o candeeiro da mesa para o lado.

Já estás há muito tempo à espera, querida? - perguntou ele.

George - disse ela, - vou pedir a demissão. - Soltou um solu­ço. - Vou pedir a demissão na próxima semana, quando regressar de Paris.

O pobre George não pareceu ficar exactamente espantado, mas antes enfadado.

Edna, já discutimos isso duas vezes...

E três vezes está fora da questão. O presidente pode conside-rar-me despedida.

George Murdock, arvorando um ar impaciente de alguém que pretendera falar de si próprio, mas que amavelmente perguntara pri­meiro como vai, e depois tivera de escutar toda uma lengalenga da companheira, disse:

Que se passa agora, Edna?

Não lês os jornais, George? Hum? A noite passada? A maior parte das secretárias cobriram as suas máquinas de escrever, fecha­ram as gavetas, lavaram a sua chávena de café e foram para casa como toda a gente. Eu, eu tive de ficar aterrada, mesmo à porta do meu escritório, o presidente ali no chão, Otto Beggs meio morto, aque­le Thomas completamente morto, um cadáver. Nunca me ensinaram na escola de secretárias que isso faria parte do meu trabalho. Não consegui dormir durante a maior parte da noite, George. Tomei três comprimidos para dormir e tive dez pesadelos. É por isso que estou com este terrível aspecto.

Ele estendeu o braço e tocou-lhe na mão.

Como quer que te sintas, querida, a mim pareces-me esplên­dida.

Obrigado, George, mas o que eu disse é a sério.

Os dedos dele largaram-lhe a mão e começaram a beliscar uma face sarabulhenta. Ela desejou que ele não fizesse isso. Ele disse:

-       Edna, coisas dessas acontecem. Têm acontecido desde que aquele fulano, o Lawrence, o pintor, disparou sobre o Presidente Jackson em 1835, e praticamente no mesmo sítio. Isso faz parte do cargo de presidente, o saber que certas pessoas não nos gramam e que algumas são chanfradas. Tenho a certeza de que o caso não constituiu uma surpresa para Dilman. Aquele Burleigh Thomas era um extremista enfrenesiado, e decidiu que Dilman estava a prejudi­car a causa negra. Portanto tomou o assunto nas suas próprias mãos.

Ninguém aprovou o caso. Até mesmo a imprensa anti-Dilman ficou consternada.

Os jornais são uns hipócritas, George. Desculpa-me por te dizer isto, mas é verdade. Para a próxima semana recomeçarão a sua campanha de ódio e inflamarão outro assassino. Não, George, desta vez é que é. Não tentes deter-me. Da primeira vez quis de-mitir-me porque sentia a falta de O. C. e não via como poderia trabalhar para um estranho. Da última vez tinha demasiadamente pena de Dilman, e sentia-me doente com o ódio que ele recebia de todos e o fazia sofrer. Mas desta vez é diferente. Ele está em perigo, e o mesmo sucede com todos à sua volta, e eu sinto-me aterrada.

Bem - disse Murdock. Encolheu os ombros; depois encostou--se, esperando resignadamente, enquanto o criado servia o Gibson e o whisky com soda.

Ambos pegaram nas suas bebidas e beberam uns goles, e en­tão, preocupada com o aborrecimento dele, ela disse:

Não fiques zangado comigo, George.

Não estou zangado contigo - disse ele asperamente. - Estou zangado comigo próprio.

Ela estava demasiado envolta em neblina para o compreender. Disse:

Por que é que não queres que eu saia daquele miserável em­prego? Nele eu não posso ajudar-te como qualquer namorada te devia ajudar. Cada vez que quero fomecer-te uma informação, sem pôr em perigo a segurança, emudeço, porque sei muito, sei de mais. Só te sou prejudicial, é o que é. Vês, até seria melhor para ti se eu tivesse outro emprego qualquer. O meu pai telefonou-me esta manhã de Milwaukee. Podes imaginar? Foi a primeira vez que tal sucedeu. Até ele quer que eu peça a demissão.

Não estou a dizer que devas continuar, Edna. - Ele bebeu, tossiu e pousou o copo. - Estava apenas a tentar ganhar um pouco de tempo para nós dois. Se alguma vez me passasse pela cabeça que te encontravas em perigo, eu próprio te tiraria daquele escritório, acredita-me.

Ela sentiu-se confortada, mas resoluta.

-       Obrigada, George. Acho, acho que tu não podes ver a minha posição como qualquer outra pessoa. Tu és um jornalista, e é natural que... que vejas o que aconteceu como se fosse uma história... como uma peça de teatro que não é real... mas se tivesses estado no Jar­dim ontem à noite, não como repórter...

-       Edna-disse ele.

A urgência trémula da sua voz fê-la parar.

O que é?

Edna, eu já não sou nem jornalista nem repórter. Estou desem­pregado. Ainda não tinha tido oportunidade de to dizer.

A sua preocupação consigo própria, ligada ao sonho do seu futuro, estoirou como um balão picado e dissolveu-se no ar. Ela olhou fixamente para ele.

-       Oh, George. - A sua mão pousou na manga dele. - Não

-       disse ela. - Despediram-te?

Ele agarrou-se ao seu amor-próprio com toda a força, como se este fosse uma bola de cristal.

Não exactamente, embora possa parecer que assim foi.

Involuntariamente, as suas finas narinas estremeceram. - Os três Estados perderam um outro dos meus jornais. Isso fez com que restassem apenas oito, e para mais os que menos me pagavam. Weidner chamou-me e disse-me que manter aquela coluna era uma perda - é um inferno, é o que é, mas isto foi o que ele disse - e que ia admitir alguém com mais nome. Fiquei fulo e até fui malcriado, perante tal ingratidão.

Fizeste bem, George.

Depois ele amansou um pouco e disse... - Murdock hesitou. -Ora, de que é que serve? Tomemos outra bebida. Bem preciso dela.

-       Pegou no copo, fez sinal ao criado para trazer outras bebidas, e bebeu o resto do whisky.

O que queres dizer com esse amansou? - perguntou Edna. No seu coração ela sabia o que viria a seguir e desejou fugir para não ouvir, mas era demasiado importante, toda a sua vida dependia disso.

Não vais gostar, portanto...

Por favor, George.

Ele disse: «É claro, há ainda aquela sua amiga mesmo lá den­tro. Se ela se tornasse uma fonte de informações para si, uma como todos os colunistas de nome têm, e você prometesse entregar um par de coisas interessantes dentro das próximas semanas, poderíamos reconsiderar a questão?» Eu respondi-lhe: «Nem pense nisso, Weidner. Não costumo misturar o trabalho com a minha vida pes­soal», e assim me despedi, precisamente há dois dias atrás.

Edna tinha contido a respiração. Depois deixou-a sair num jacto.

George, porque não aceitaste? Realmente, se eu tivesse sabi­do isso antes... George, eu posso ajudar sem prejudicar o presidente ou o meu emprego. Afinal, que poderá acontecer que o fira a ele ou a mim? Escuta, George, talvez eu possa fornecer-te agum exclusivo acerca da tentativa de assassínio, ou quando formos a Chantilly e Versalhes, talvez possa...

És muito boa, querida, mas isso de nada serviria agora. Já te disse que me despedi. Estou desempregado. Já não tenho a coluna. - Observou-a. - Não estejas com esse ar tão... tão trágico, Edna. Pode tirar-se um jornal a um tipo, mas não se pode tirar um tipo de um jornal. Sempre sou conhecido. Há algumas pessoas importantes que têm mais consideração por mim do que aquele idiota do Midwest. Tu própria ouviste o Reb Blaser dizer-me quanto o seu editor apre­ciou os meus artigos.

Tu não trabalharias para eles?

Eu trabalharei em qualquer lugar em que possa ser indepen­dente e possa escrever como me apetece. Isso inclui a cadeia do Miller ou qualquer outra. Que diabo, Edna. Prefiro trabalhar para um jornal reaccionário onde possa ter uma oportunidade de lhes dar um pouco de ar fresco do que para um jornal cujos leitores acreditam no que eu acredito e sabem o que eu sei.

Como sempre, a lógica infalível de George venceu Edna.

-       Tens razão, parece-me - disse ela.

Vieram as novas bebidas. Beberam em silêncio. Era maravilho­so, pensou ela, apesar de tudo, como ela se sentia positiva e lúcida.

Gozemos o presente - dizia George Murdock. - Roma ainda não ardeu. Deixa cá o teu George resolver as coisas. Arranjarei outro emprego.

E eu ajudar-te-ei! - exclamou ela. - Desta vez, fá-lo-ei, prome-to-te. É justo. Desta vez, todas as noites, contar-te-ei tudo o que pu­der do que se passa no escritório do presidente.

Edna, já te disse que não há necessidade disso. Além disso tu também te vais despedir, na próxima semana. Já te esqueceste?

Oh! - disse ela, perdendo o entusiasmo. - É verdade.

Ele continuou a olhar para ela, até ela se sentir pouco à vontade, e depois continuou a olhar para o whisky e disse calmamente:

-       Edna, quando nos sucedem coisas importantes, a nós, é como se mudasse... percebes o que quero dizer? É-se forçado a fazer um inventário... e é isso o que tenho feito nestes dois últimos dias: fazer um inventário. Tenho agora uma melhor imagem de mim próprio. Tenho sido demasiado conservador, não aproveitando as oportuni­dades que se me têm deparado, e para se conseguir algo na vida tem de se... bem... espetar o queixo e dizer-se a si próprio e a toda a gente «eu sou eu, sou alguém, mereço mais da vida e da minha car­reira, e vou obter o meu quinhão da vida, aconteça o que acontecer». Percebes o que quero dizer?

No espírito dela fizera-se o vácuo, mas disse obedientemente:

Sim, George.

A partir de hoje à noite vou começar de novo. Foi o que decidi. E o mesmo com o próximo emprego. Nada de procurar algo de segun­da categoria. Vou fazer pontaria ao topo. E o mesmo connosco, com nós os dois, nada de continuar à espera dos dobrões no fim do arco--íris. Vivamos para o presente, pois é a única coisa que temos certa, e entretanto vamos obtendo algo da vida. Percebes, querida?

Sim, George.

Não, não percebes - disse ele -, ou então não estarias aí sen­tada com esse ar desgraçado. - Pôs o copo de parte e inclinou-se através da mesa. - Edna, já me neguei a mim próprio o suficiente. Quero recomeçar do nada. Talvez não seja a altura indicada, ambos desempregados, mas talvez seja a melhor altura para se começar a viver. Edna, mal regresses de França, casamo-nos.

Ela mal ouvira o que ele dissera, o espírito ocupado com piedade de si próprio, com o Gibson diante dos olhos, e esteve quase a dizer «Sim, George», quando a compreensão abriu o caminho à força no seu cérebro nebuloso.

-       O quê? Que disseste? Desculpa, estava... estava a beber. Ele sorriu.

Eu disse, querida, que nos íamos casar. Desculpa ter-te feito esperar tanto tempo, mas se vou ser grande, pensar grande, tenho de mostrar que posso viver grande como...

Casar? - Ela estava quase a chorar. Poderia ser? Seria possí­vel? - George, eu... eu penso que vou morrer... disseste... querido, que queres casar comigo?

Ele continuou a sorrir.

E com mais ninguém, se me aceitares como marido. Assim que regresses...

Oh, George, nem estou em mim... vem cá, não me deixes cho­rar... estou tão emocionada, nunca me senti tão feiiz... e pensar... George, beija-me...

Ele percorreu, nervosamente, a sala com os olhos, assegurou--se de que estavam ainda sozinhos, pegou na cadeira em que estava sentado e moveu-se rapidamente à volta da mesa até ficar ao lado dela. Ela fungava enquanto aceitava o beijo dele.

Ainda não te ouvi dizer sim - murmurou ele.

Sim, sim, sim... um milhão de vezes sim. - Ela afastou-o ligeira­mente e observou-o interrogadoramente.

George, estás mesmo a falar a sério? Não quero acordar ama­nhã de manhã e descobrir que foi tudo um sonho... vamos mesmo casar-nos?

Vou pregar uma nota em ti para te lembrares e para todos verem. - Avistou o criado à porta e chamou: - Hei, mais dois iguais!

Oh, George, já bebi o suficiente. Não preciso...

Ainda não bebeste à saúde da futura Sr.ã Murdock.

Ela apertou ambas as mãos dele numa das suas e aconchegou-se de encontro à maravilhosa segurança dele.

Quando, querido, quando será?

Como te disse, assim que regressares de França. É claro que quererás dar a notícia a Dilman uma ou duas semanas antes... quero dizer, deves-lhe isso. Não deve ser fácil para um Presidente dos Estados Unidos substituir a sua secretária pessoal. Então podemos casar-nos. Combinaremos exactamente onde e como, e eu tenho de lado alguns cêntimos com que poderemos governar-nos, enquan­to não arranjarmos outros empregos... Com efeito, talvez até tu nunca mais tenhas de trabalhar, se eu conseguir arranjar rapidamente algo bom...

Ele tomara-se de novo solene, e ela apertou-lhe as mãos e disse:

-       Querido, não te preocupes. Não quero começar logo sendo um contrapeso. Quero deixar aquele emprego, mas não é uma coisa assim tão urgente. É claro que continuarei nele até tu estares coloca­do. É o menos que posso fazer. - Beijou-o no rosto. - Na verdade, insisto que assim seja.

Ela afastou-se dele e sentou-se na pose de grande dama, en­quanto lhes serviam as bebidas de celebração. Os seus olhos viam dois Gibsons - dois e meio -, dois criados, dois Georges; e a sala rodopiava. Nunca se sentira tão excitada, tão feliz, tão leve, tão lúcida de espírito. Ela já não era um ser à parte, um objecto desejável, um objectivo, um ideal. Ele pertencia-lhe, e ela pertencia-lhe a ele, e a fusão era milagrosa.

Depois de terem brindado, ela falara, falara, falara, sem ter a noção se o que dizia fazia sentido; falara da sua vida e esperanças, da vida e do futuro deles, e do que ela faria por ele e de como seria o casamento mais perfeito de todos os tempos.

Não sabia durante quanto tempo falara, excepto que a sua pri­meira bebida como futura Sr.a Murdock já desaparecera do copo, e que ela estava agora a falar muito a sério, muito prática, para lhe mostrar que ele não se enganara, pois ela faria da sua vida um Natal eterno.

Ela sabia que a sua língua estava encortiçada na boca, mas sabia também que naquela noite memorável ela lhe devia assegurar que ele não cometera um erro.

- Farei do nosso o melhor casamento que já existiu à face da terra, George, sem altercações como acontecia na minha família, ou de or­dens para aqui e para acolá como a minha amiga Dorothy, nada de infidelidades da parte de qualquer de nós como sucede com outros casais à nossa volta... do género dos Eatons. Não quererás andar atrás de outras mulheres, George, porque não terás necessidade disso. Terei sempre a casa lindamente arranjada, e educarei os nossos filhos de forma a serem as crianças mais bem educadas e elegantes, cozinhar-te-ei pratos estupendos e ajudar-te-ei no teu trabalho, serei encantadora com os teus amigos para que tenhas orgulho em mim. Ficarás surpreen­dido quando vires o que eu realmente sou, George, quão melhor sou... com melhor feitio, mais espirituosa, mais divertida... como quan­do me conheceste... lembras-te? Tenho andado pior recentemente e sabes bem porquê. Mas uma vez que tenhas o emprego adequado, o que seja perfeitamente adequado para ti... e não há pressa, George, não me demitirei enquanto não me disseres para o fazer... mas uma vez que estiveres estabelecido e contente então poderei atirar com o escritório da Casa Branca pelo ar. Verás como serei diferente, mais calma, mais delicada, com melhor aspecto, uma vez que me afaste daquele horrível emprego e daquele pobre e mísero homem para quem trabalho.

Tenho a certeza de que assim será, Edna - disse ele.

Podes ter a certeza disso - disse ela. - Uma vez que esteja livre para me dedicar a ti, para estar com o nosso género de pessoas, que são as mais felizes, como nós o seremos, e que deixe de estar atada a um negro atormentado, de coração partido e sem amigos, com os seus negros pensamentos, constantemente preocupado que o ma­tem, que nem sequer tem uma mulher que o console, porque esta bebeu até rebentar, cujo filho está em risco de chumbar na Faculda­de, cuja filha passa por uma branca... que anda tão preocupado com os seus problemas pessoais como ninguém pode imaginar, sem já contar com o que atura em público onde...

Ela reparou que a mão fresca do seu querido George estava sobre a dela, acariciando-a ternamente, enfiando os seus dedos nos dela como se estivessem já casados e juntos na cama.

Edna, que estás a dizer?

O que estou a dizer? - repetiu ela, não se lembrando.

Acerca de o presidente ter uma filha. Deves estar a confundir. Acabaram-se por hoje as bebidas. E se alguém, por acaso, estivesse a ouvir o que disseste?

George, deixa-te de brincadeiras. Não bebi mais do que tu. Estou completamente lúcida. Sei perfeitamente o que estou a dizer e não costumo inventar coisas, como fazem as outras esposas. Verás. É uma das qualidades que herdei do meu pai. Saberás sempre que a tua mulher só diz a verdade.

-Toda a gente sabe que Dilman tem aquelefilho na Faculdade, mas...

George, já te disse que eu nunca minto - disse ela indignada. -Ele tem também uma filha, mais velha que o Julian, mas é segredo, porque ela passa por ser branca em Nova Iorque, e portanto ele não a reconhece, ou ela a ele, não sei bem, e é por isso que ninguém sabe, mas é verdade. - Através dos seus olhos turvos, ela decidiu que ele não estava ainda convencido da sua integridade, e essa não era a maneira de se começar um casamento. - George, ele chama--Ihe Mindy, e Julian chama-lhe igualmente Mindy, mas o nome que ela usa é Linda, Linda Dawson.

Posso ver onde isso o afectaria - disse George amavelmente. - Só que é estranho alguém tão preto como o presidente ter uma filha, escondida algures, suficientemente branca para passar por uma branca.

Hormonas - replicou ela sabiamente. - Ou genes? - Examinou as múltiplas caras de George e tentou focá-lo. - Não estou a mentir nem a exagerar, George...

Eu também não disse isso.

Mas talvez o penses... Edna, estás tu a pensar, é o género de mulher que se embriaga, inventa histórias e me pode envergonhar em sociedade. Disseste que ele é preto e portanto como pode ter uma filha que passa por branca? Posso prová-lo, George. Escrevi-o, palavra por palavra, no meu diário. Sabias que eu tenho um diário? Comecei-o quando O. C. se mudou para a Casa Branca. Pensei que algum dia... não estou a pretender ser uma escritora como tu... mas no meu emprego... pensei que talvez algum dia o meu diário pudes­se pertencer à história. Não é muito, mas eu sou a secretária confi­dencial do presidente, de dois presidentes, e talvez algum dia, quan­do estivermos todos mortos, paguem aos nossos filhos um milhão de dólares por ele. Ouvem-se coisas destas.

Muito inteligente, Edna. Estou vendo que vou ter uma mulher inteligente. Apenas não me ponhas no teu diário.

Ela começou a rir e foi com esforço que parou.

É claro que estás lá, mas nada que não gostes. Tu e O. C. e o Presidente Dilman...

E Mindy Dilman, aliás Linda Dawson. Uma companhia muito exótica. - Levou a mão dela aos lábios, beijou-a e largou-a. - Foi o Dilman quem te contou tudo isso da família?

Céus, não... George, achas que podemos mandar vir apenas mais uma bebida para celebrar, uma bebida pequena... Dilman? Não, ele é fechado que nem uma ostra ou algo do género, e eu não o censuro por isso, não achas? Mas acerca da filha, soube-o dele, em parte, bem... eu não ando a escutar às portas, não penses isso... sou uma pessoa íntegra, cheia de... bem sabes... nunca te revelei infor­mações... não é verdade, George?

Nunca conheci ninguém com tanta integridade como tu, Edna.

Obrigado. Portanto, compreendes. Faz parte do meu empre­go fiscalizar as chamadas telefónicas do presidente, as de negó­cios, como fazia para O. O, escutando-as pela extensão e registan­do em estenografia o assunto para que ele pudesse ter um registo em que se basear. É um procedimento estandardizado. Portanto, sempre que Dilman faz um telefonema, eu tenho de escutar, excepto quando é algo realmente pessoal, como quando ele telefona a ve­lhos amigos como Nat Abrahams ou os Spinger ou a uma mulher que vive com estes chamada Gibson, ou ao filho, e então ele diz-me para sair da linha, pois é uma chamada pessoal, e eu assim faço. Bem, um dia destes estava a fiscalizar as chamadas, e talvez ele estivesse ocupado ou preocupado, não sei, mas telefonou ao filho e nada me disse... para sair da linha, quero eu dizer... talvez ele não soubesse ou se tivesse esquecido que eu estava na linha... e assim sucedeu, o presidente e o filho a falarem um com o outro, e quando eu ouvi o que diziam percebi que eu não devia estar a ouvir, mas fiquei embaraçada com o facto de sair da linha naquele momento e ele ouvir o clic e depois que ficasse desconfiado comigo para sem­pre. Portanto deixei-me estar durante todo o tempo e quando eles desligaram, eu desliguei também. Foi assim que eu fiquei a saber da existência da filha e de ela passar por uma branca, e acerca de ela ser como a mãe, a mulher de Dilman, que queria que ela fosse branca assim como ela própria queria ser branca. E porque Aldora, a mulher de Dilman, o não podia, meteu-se pela bebida - eu não acredito na bebida, excepto em sociedade, e tu George? - até se tornar numa alcoólica e ter de ir para aquele sanatório de Illinois -em Springfield - e depois morreu. Isto passou-se há já muitos anos. Não é horrível, George, como as pessoas destroem as suas própri­as vidas? As nossas nunca serão assim, pois não? Pela minha parte isso nunca sucederá, prometo-te.

Também eu to prometo.

Serei sempre a melhor das esposas, George, uma vez que me veja livre daquela horrível atmosfera.

Já és agora a melhor das esposas, querida. Tomemos só mais uma bebida para terminar. De acordo?

Beberam, e meia hora mais tarde comeram uns bolos e bebe­ram dois copos de café quente - ela estava decidida a provar a sua frugalidade de esposa - ao balcão do Café do Mayflower.

Depois passearam durante bastante tempo através do ar frio da noite, e George comprou-lhe um ramalhete de gardénias num lugar que estava aberto até tarde e onde estava calor, e depois caminharam através da Praça de Lafayette até ela sentir o frio e começar a ficar sóbria. Então, generosamente, atenciosamente, ele chamara um táxi e levara-a a casa. Por ser tão tarde e por ela se sentir tão maravilhosa­mente cansada e por ele estar resolvido a levantar-se cedo na manhã seguinte, para começar a procurar emprego adequado, ele não en­trou, não passando do vestíbulo do apartamento dela. Ela ficou nos braços dele durante um longo momento, e dessa vez, enquanto se beijavam, deixou que ele lhe acariciasse os seios tanto quanto quis, pois os seus seios e toda ela lhe pertenciam, e era uma sensação tão agradável, tão agradável...

Quando ele estava prestes a ir-se embora e ela já conseguia ver um George, e não dois ou três, Edna disse:

Acerca do que me disseste esta noite, George, falaste a sério, não falaste?

O mais sério possível, amor.

Acho que te devo ter aborrecido de morte, falando tanto, mas estava tão excitada. Não é todos os dias que uma rapariga é pedida em casamento e aceita. Espero não ter dito nada idiota ou... ou indis­creto. Disse?

Claro que não.

Bem, se disse, não faz mal, porque pertencemos agora um ao outro, e nada de segredos, nunca, prometido? Tu podes confiar-me tudo e eu posso confiar-te tudo. Não é assim, George?

Amor, daqui em diante tu já não és a Edna Foster e eu já não sou o George Murdock. Somos quase o senhor e a senhora Murdock, para todos os efeitos, e tudo o que dissermos um ao outro, e isto diz respeito a ambos, é secreto como uma conversa de travesseiro. De acordo?

De acordo. Amo-te, George. Um dia serás famoso, eu sei.

Não é isso que importa. Eu também te amo, e isso é tudo o que importa. Que faças uma óptima viagem até Paris, e não te apro­ximes daqueles franceses sedutores...

George, pateta...

...E quando regressares, eu cá estarei, com o anel de casa­mento e um emprego, um grande e verdadeiro emprego desta vez. Isso te prometo eu pela certa.

PARA ENTREGA ÀS 9 E 30 DA TARDE PELA HORA DE PARIS

ESCRITÓRIO DO SECRETÁRIO DA IMPRENSA DA CASA BRANCA NO ESTRANGEIRO

A EMBAIXADA DOS E.U., PARIS

SEGUE ESTA NOITE, APROXIMADAMENTE ÀS 11 HORAS, O TEXTO COMPLETO DO DISCURSO DO PRESIDENTE DILMAN A ENCERRAR OS CINCO DIAS DA CONFERÊNCIA DE CHANTILLY O PRESIDENTE PRONUNCIARÁ O SEU DISCURSO NO FIM DO BAN­QUETE DE ESTADO DADO EM SUA HONRA E DO PRIMEIRO-MI-NISTRO NIKOLAI KASATKIN DA UNIÃO SOVIÉTICA PELO PRESIDEN­TE DA FRANÇA NA SALA DOS ESPELHOS DO PALÁCIO DE VERSALHES, SIMULTANEAMENTE, O TEXTO DA RESPOSTA DO PRIMEIRO-MINISTRO KASATKIN SERÁ ENTREGUE NA EMBAIXA­DA SOVIÉTICA.

IMEDIATAMENTE APÓS O BANQUETE, O PRESIDENTE DILMAN REGRESSARÁ A PARIS, VINDO DE VERSALHES. PASSARÁ A NOITE NA SUA SUITE DO QUAI D'ORSAY, ANTES DE TOMAR O AVIÁO PARA WASHINGTON, NA MANHÃ SEGUINTE.

Embora a conferência de cinco dias tivesse sido bem sucedida, as longas horas tinham sido extenuantes, e Douglass Dilman tencio­nara regressar a Paris assim que ele próprio, o Primeiro-Ministro Kasatkin e o presidente francês tivessem terminado os seus discur­sos públicos. Mas quando as formalidades na Sala dos Espelhos tinham terminado, e o criado, de libré, ajudava Dilman a afastar a sua cadeira da mesa, o primeiro-ministro russo dirigiu-se-lhe insistente­mente:

- Sr. Presidente - dissera Kasatkin no seu inglês gutural, mas claramente compreensível -, não vai já para a cama, tão cedo, pois não? No meu país, diz-se que deitarmo-nos logo a seguir a termos comido e bebido muito é como se nos deitássemos no túmulo. Depois das festas, eu ando sempre durante trinta minutos no pátio inte­rior do Kremlin. Temos de ir gozar um pouco deste ar fresco dos magníficos jardins de Versalhes, não para observar como os tiranos viveram e construíram, mas para vivermos com saúde, agora que somos amigos e estamos de acordo.

Por um momento o espírito de Dilman recuou até aos cinco dias de argumentações, concessões e trocas no grande castelo cheio de correntes de ar de Chantilly. Embora o primeiro-ministro soviético tivesse sido geralmente razoável, os seus acessos ocasionais de mau humor tinham sido irritantes, como acontecera com a insistência das suas exigências relativas à liberdade dos comunistas nativos de Baraza e de outros países da A. U. R Também o seu sarcasmo esporádico fora aborrecido, como quando ele troçara de Dilman e de Eaton por encon­trarem um comunista debaixo da cama de cada americano.

-       Vocês banem os Tumentes com o pretexto de eles estarem a usar o bom ouro de Moscovo para vos deitar abaixo - dissera ele. - Vocês pensam que somos assim tão loucos que vamos gastar dinheiro com as vossas oprimidas minorias, para as incitar, quando elas têm mais ódio contra os vossos patrões capitalistas que nós temos ou alguma vez teremos? Bah! Quando vocês se vêem atrapalhados, ten­tam escapar e distrair a atenção das massas das vossas próprias deficiências, fazendo-as ver vermelhos no vosso próprio país ou em África.

Contudo, os escárnios e os acessos caprichosos de mau humor tinham sido menos do que Dilman esperara, e depois de Kasatkin ter falado para o Presidium e para a Pravda, para o seu país, mos-trara-se sempre pronto a negociar. Ele não era um cruzado fanáti­co, disso em breve se apercebera Dilman. Era um pragmático. Quan­do falava com a voz do comunismo, com a inteligência de Lenine, era perverso. Quando falava por si próprio, com a sua própria inte­ligência, era razoável.

Agora o russo fizera um convite amigável e espontâneo a Dilman, e este achou difícil resistir ou recusar o ardor brusco e directo do outro. Todavia Dilman sentia-se extremamente fatigado.

Bem - dissera Dilman hesitante -, eu tinha prometido ao Sr. Hlingsworth e ao ministro Eaton que tentaríamos regressar às...

Não se deve prometer nada àqueles que trabalham para nós, nós não lhes devemos nada - disse Kasatkin com uma severidade trocista. - Só devemos obediência à nossa saúde para bem fazer ao proletariado, ao povo que trabalha.

Dilman lançou um sorriso amarelo ao chefe russo.

Não estou assim tão certo de que o meu proletariado - ou o seu, para o caso tanto faz - seja tão unânime em se preocupar com a minha saúde.

Você fala pelo seu, e eu falarei pelo meu - disse o primeiro--ministro Kasatkin jovialmente. - Venha lá, Sr. Presidente, um pouco de ar, nós os dois, nada de conselheiros, especialistas ou de buro­cratas aduladores. Estamos cercados há cinco dias. Por uma noite, a última, estejamos sozinhos os dois juntos, um passeio social para cimentar as nossas duradoiras boas relações. O que são trinta minu­tos numa vida, afinal? E quem sabe? - Piscou ostensivamente o olho. -Os nossos trinta minutos podem significar mais para o mundo do que tudo o que realizemos em toda a nossa vida.

O russo parecia tão decidido a terminar o encontro numa nota amigável que Dilman não se pôde esquivar mais.

-       Muito bem - disse. - Vamos a esse pequeno passeio nos jardins. Arthur Eaton viera ter com eles no final da conversa, e parecia aborrecido, tentando indicar que discordava, mas Dilman evitou o olhar dele. Dilman tinha permitido ao russo segurá-lo por um braço, quando Eaton por fim protestou.

-       Sr. Presidente, temos de partir...

O primeiro-ministro Kasatkin sacudiu a mão na direcção de Eaton como se sacudisse uma mosca incómoda.

-Vá tomar mais um pouco de champanhe com os outros, Eaton. Ocupe-se com a minha bonita secretária, aquela acolá de cabelo loiro - a Natasha. Ela admira-o muito. Dê-me a mim e ao seu presi­dente, que somos ambos simples homens da rua com más manei­ras à mesa, uma oportunidade de discutir sozinhos assuntos terre­nos - como sejam os nossos filhos e as nossas hérnias. É só uma meia hora, Sr. Ministro.

E agora Dilman e Kasatkin atravessavam o pátio antigo do palácio do século XVII, passando pela Guarda Republicana em continência, precedidos e seguidos a pouca distância pelos agentes do Serviço Secreto dos Estados Unidos e da K. G. B. soviética.

Quando os dois chefes entraram nos jardins, Dilman viu que o Outono despira já as velhas árvores da sua folhagem verde. A noite, porém, estava suave, refrescante, e os repuxos de várias cores das fontes iluminadas emprestavam um ar festivo ao passeio.

Dilman indicou um caminho que seguia na direcção dos Trianons, e o primeiro-ministro russo acenou com a cabeça e virou para lá, enquanto os guardas que iam à frente deles mudavam rapidamente de rota. Pelo rabo do olho, Dilman tornou a espreitar, como tantas vezes fizera já durante os últimos cinco dias, para o seu companhei­ro soviético, e maravilhou-se com a familiaridade do seu rosto. Repa­rara desde o preciso momento do primeiro aperto de mão no grande castelo de Chantilly que o que havia em Kasatkin que em parte de­sarmara e cativara Dilman era a extraordinária semelhança do chefe russo com o velho Avô Schneider.

No panteão da memória de Dilman, a chama eterna mais bri­lhante era em honra do Avô Schneider. Quando Dilman tinha sete, oito e talvez nove anos, e vivia rodeado de miséria, pobreza, ira, desprovido de qualquer amor, excepto aquele que a mãe conse­guia arranjar forças e tempo para lhe dar, a única afeição e orienta­ção masculina que conhecera viera-lhe do Avô Schneider. O velho - embora mais tarde Dilman visse que ele não podia ser assim tão velho - não era na verdade um avô e o seu nome também não era Schneider. Ele era um emigrante judeu solteiro e um alfaiate (que em Jiddish se dizia schneider), e porque quando não se encontrava dobrado sobre a máquina de costura costumava sentar-se numa cadeira de baloiço, com um xaile pelas costas e os óculos na ponta do nariz a coser, tornara-se conhecido entre a vizinhança negra como o Avô Schneider, o que o tornara tão contente como se tivesse sido coroado.

Para a criança que era então Dilman, aquela loja minúscula e quente de alfaiate constituía a mansão encantada de um príncipe generoso. Sentado de pernas cruzadas aos pés do Avô Schneider, enquanto o velho lhe remendava as camisas, os calções ou as peú­gas, de graça, Dilman costumava escutar, de olhos arregalados, his­tórias de um ducado distante designado Bialystock, num reino cha­mado Polónia. Do Avô Schneider recebia ele, sem pagar, e em quantidades iguais, aforismos judaicos, pauzinhos de alcaçuz, histó­rias de Sholem Aleichem e de Tolstoi, rolos de canela e resumos de biografias de intelectuais como Emma Goldman, Lincoln Steffens, Elbert Hubbard e Arthur Brisbane.

Muitos anos mais tarde, Dilman pensava frequentemente que mais do que as privações materiais da sua juventude, mais do que a opressão exercida sobre a sua raça, mais do que o estímulo da mãe, fora a bondade mágica e o encorajamento daquele velho alfaiate que o enviara para os livros, para as escolas, para o direito e para tudo o que se tornara na vida. Durante os duros anos muitas coisas tinham desaparecido da memória de Dilman, ou se tinham desvanecido no seu subconsciente, mas não o Avô Schneider. O amor de Dilman pelo velho continuara sempre lá, ardendo luminosamente.

E fora essa a razão por que, embora tendo vindo para a conferên­cia de Chantilly tenso e preparado para ser agressivo, se abrandara ime­diatamente perante Nikolai Kasatkin: o rosto do primeiro-ministro sovié­tico e o do alfaiate emigrante, que tão queridamente lhe estava gravado na memória, eram quase um e o mesmo rosto. A partir daí, Dilman não pudera ser senão amigável, amável e atento perante Kasatkin que, de­sarmado, a maior parte das vezes correspondia no mesmo tom. Se a conferência de Chantilly entre dois poderes gigantes do mundo fos­se um sucesso, e se esse sucesso fosse algum dia registado por profes­sores sapientes em volumosos tomos históricos, porventura apareceria lá alguma menção no índice como «Schneider, Avô»?

Nessa noite, observando o primeiro-ministro Kasatkin caminhan­do a seu lado ao longo da vereda dos jardins de Versalhes, Dilman via ainda o perfil nodoso e de camponês do velho alfaiate sobrepon-do-se ao perfil do chefe russo, mas observou mais. Apesar dos seus sessenta anos, Kasatkin era mais alto, mais pesado, mais musculoso que aquele que habitava a memória de Dilman. O cabelo prateado de Kasatkin era também mais espesso, o seu nariz mais achatado, os aros dos óculos de aço inoxidável e não de ouro.

Kasatkin virou a cabeça, deu com Dilman a observá-lo e sorriu.

-       Sim, vejo que já conhece esta relíquia dinástica. Para mim, é a primeira visita. Mudou muito desde que aqui esteve, depois da Se­gunda Grande Guerra?

Dilman piscou os olhos.

Como sabe que eu já aqui tinha estado antes?

Não tenho tempo para estranhos - disse Kasatkin. - Devo, porém, conhecer um homem antes de aceitar encontrar-me com ele.

Na verdade, já aqui estive, em Versalhes, duas vezes, com um advogado de Chicago, meu amigo. Foi durante o período de libertação. Éramos oficiais da Divisão dos Advogados do Exército. - Procu­rou recordar-se. -Tanto quanto me lembro, não mudou muito, embo­ra eu não tenha a certeza de reconhecer tudo. Conhecia o caminho para o Petit Trianon- sabe, aquele pequeno palácio que Luís XV man­dou construir para a Madame Du Barry, e que depois o filho deu a Maria Antonieta - porque o meu amigo, um homem muito culto, me contou uma história fantasmagórica dos nossos dias, a qual eu nun­ca esqueci. Foi uma daquelas coisas que parece que se colam ao nosso espírito.

Dilman voltou-se para Kasatkin, enquanto continuavam no seu caminho.

-       Já alguma vez ouviu falar naqueles dois turistas, duas profes­soras inglesas, que aqui vieram na primeira tarde de 1901, e acerca das pessoas que encontraram e dos objectos que viram, que não existiam nessa altura nem agora mas que existiriam há um século atrás? Quero eu dizer, aquelas duas professoras, passeando pelos jardins de Versalhes, em 1901, como nós esta noite, regressaram, não se sabe como, ao passado, e observaram Versalhes como esta fora em 1789.

Kasatkin olhou fixamente para Dilman:

Certamente, meu amigo, que não acredita nessa história. Imediatamente Dilman se sentiu a fazer figura de parvo. Ali estava ele a falar com um graduado materialista e de cabeça dura da Academia Industrial de Moscovo, o patrão do Presidium da Assembleia Centrai do Partido Comunista russo, o ditador de duzentos e oitenta milhões de pessoas, com o qual passara quase uma semana a discutir acerca de acordos comerciais, mísseis, espaço exterior, Baraza, Berlim, índia, Brasil, paz e coexistência, e ali estava ele a contar-lhe uma experiência psíquica como se fosse tão real como os assuntos sobre os quais tinham discutido. Kasatkin devia pensar que ele estava doido, ou ébrio, ou algo ainda pior. O instinto de Dilman dizia-lhe que se referisse bem humoradamente à história e mudasse de assunto, mas a sua lealdade para com Nat Abrahams e para com a inteligência, a imaginação e a curiosidade de Nat não permitiu tal distorção. Não havia nada mais a fazer do que continuar para a frente, empenhar mais forças no que originalmente fora uma conversa ocasional e inocente.

Não tenho a presunção de dizer se é verdade ou não - disse Dilman. - Sei apenas que não passamos de insignificantes mortais, que desconhecemos de onde vimos, para onde vamos e porque aqui estamos. Também não tenho a certeza de que tudo aquilo que so­mos e que nos rodeia neste mundo possa ser compreendido peios nossos cinco sentidos. Como podemos estar certos de que sabe­mos tudo?

Os olhos manhosos de Kasatkin brilharam.

-       Será melhor que estejamos, meu amigo. - Depois acrescentou ironicamente. - Continue a sua história. Será algo que eu poderei contar aos meus netos quando eles não quiserem dormir. A prova, meu amigo - qual é a prova que essas suas solteironas tivessem ultrapassado a carreira do tempo e tivessem testemunhado aconteci­mentos do passado?

Rapidamente, para acabar depressa com aquilo, Dilman conti­nuou:

Ambas essas professoras, uma chamava-se Anne Moberly, a outra Jourdain, ensinavam na cidade de Oxford. Eram duas senho­ras inteligentes, sóbrias e conservadoras. Quando, durante umas fé­rias, vieram juntas a França, em 1901, e decidiram visitar Versalhes, os seus conhecimentos desta eram quase nulos, com excepção do que tinham lido no Guia Baedeker que consigo traziam. Durante o passeio que deram pelos jardins, depararam com franceses estranhamente vestidos, como se tivessem fatos de máscaras. Viram oficiais com casacos verdes e chapéus de três bicos. Anne Boberly achou o cenário artificial e sem vida, como se tivesse uma só dimen­são, sem uma brisa, uma luz ou uma sombra. Depois, e isto é impor­tante, atravessaram uma pequena ponte rústica por cima de uma ravina. E no relvado, em frente ali do Petit Trianon, avistaram uma senhora de ar aristocrático, com um grande chapéu de palha e uma saia de balão, pintando diante de um cavalete. Não imediatamente, mas depois, em Paris, começaram a discutir a qualidade sobrenatu­ral e espiritual do dia que aqui tinham passado e concluíram que tinham vivido uma aventura única, e começaram secretamente a fazer buscas.

Uma peça - disse Kasatkin. - Talvez tivessem visto actores a representar uma pequena peça.

Não, não houve nada disso. De qualquer modo, o facto é que as suas buscas duraram nove anos. Sabe o que descobriram? Não existia nenhuma ravina, nem nenhuma ponte em 1901, embora a tivessem atravessado juntas. O mapa dos jardins de La Motte, feito em 1783, também não mostrava a ravina e a ponte. Mas escute só isto... dois anos depois daquela aventura... o mapa original, feito por Mique, o arquitecto da rainha, do qual La Motte fizera uma cópia inexacta, foi descoberto na chaminé de uma casa qualquer francesa. Esse mapa original mostrava a ravina e a ponte que já não existiam. Além disso, por um retrato da autoria de Westmuller e pelo diário da costureira da rainha, em que dizia o que esta usava no Verão de 1789, as nossas duas professoras chegaram à conclusão de que a senhora de ar aristo­crático que pintava no relvado, em 1901, não era outra senão a pró­pria Maria Antonieta... E aqui tem a história... bem, apenas uma pe­quena parte... do que os peritos psíquicos chamaram o melhor caso autêntico de serialismo, recuando no tempo.

O primeiro-ministro Kasatkin permaneceu silencioso, enquanto passavam por uma velha ponte, e depois disse:

Divertido... muito divertido, Sr. Presidente, especialmente se se sonha em escapar às realidades actuais de um possível horror nuclear, sendo-se transportado para o passado de 1789. - Fez um curto gesto em direcção à paisagem coberta de neblina, às árvores e ao Petit Trianon. - A atmosfera convida à fuga. Mas é falso, é uma mentira que embala e adormece. A verdade reside na nossa ideia nuclear, no nosso poder para nos destruirmos um ao outro e à pró­pria vida. Porque nós, nós os dois, não podemos ser duas senhoras de idade refugiando-se no passado, Sr. Presidente. O passado mor­reu. Não existe hoje. Temo-nos apenas a nós próprios, temos esta noite e o futuro. A nossa única história é salvar e garantir a realidade do futuro.

Essa é uma outra história - disse Dilman com um sorriso - e está ainda por escrever.

Estamos a escrevê-la- disse Kasatkin, num tom que não admitia réplica. Aspirou profundamente o ar. - O tempo vai mudar. A França não pode ser saudável para homens vulgares, se nos pomos a ler o seu passado morto. Vamos, deixemos os Trianon e regressemos ao presente e ao futuro.

Kasatkin virou à esquerda, para um novo caminho que os levaria até aos carros que os esperavam. Os guarda-costas, tanto america­nos como russos, apressaram-se a dar a curva e a retomar a sua posição atrás dos dois chefes.

O primeiro-ministro tornou a falar:

Sr. Presidente, para lhe ser franco, gosto mais de si do que daquele que foi presidente antes de você. O outro era um estranho. Viera de uma vida que nunca conhecera a opressão ou a necessida­de, era como uma máquina estéril, e os ministros dele, como o seu ministro de Estado Eaton, não eram melhores. - Kasatkin levantou a mão. - Não proteste, nem defenda. Este é apenas o meu modo de o elogiar a si. Nós compreendemo-nos um ao outro porque ambos pertencemos já à extrema miséria, assim como a maior parte das pessoas do mundo. Quando uso a palavra desprivilegiado, sei que a sua experiência a define como eu a defino, e não por meio de núme­ros de estatísticas e relatórios.

Muito do que diz é verdade - começou Dilman.

Ainda não acabei de dizer o que pensava - disse o russo. - Mais do que qualquer presidente americano que veio antes de si, penso que compreende o meu povo e a mim próprio. Você está rodeado de uma facção reaccionária, uma classe de elite de capitalistas, interes­sada apenas na sua versão branca da liberdade e prosperidade. Olhan-do-nos a nós como comunistas, como inimigos, como ameaças para os interesses privilegiados e especiais em que navegam, assim como os consideram a vocês, negros, como inimigos, não lhes permitindo liberdade e prosperidade. Porque sofre e portanto compreende tal egoísmo, eu sinto que você e eu somos mais capazes...

Escutando, Dilman percebeu a estratégia de Kasatkin. O russo estava habilmente a tentar afastar Dilman da sua cidadania de ameri­cano, deixando-o como um cidadão negro de segunda classe, que estaria mais perto da Rússia do que do seu próprio país.

O primeiro-ministro Kasatkin permita-me que o interrompa - disse Dilman. - Eu sou um americano que por acaso é negro. Sou apenas uma pessoa e não duas que se possam separar. Tenho mais consciên­cia do que você da desigualdade e injustiça que existem no meu país. Todavia, tem-se feito um certo progresso e continua-se a fazê-lo. Outro­ra os nossos negros eram escravos. Agora são homens livres. Outros eram obrigados a viver em áreas completamente segregadas. Agora já não são. Outrora seria impossível para um homem de cor ser o chefe Executivo dos Estados Unidos. Agora... bem, aqui me vê.

Sim, pode considerar-se a si próprio como igual aos brancos no seu país, mas a elite reinante não pensa assim. Tenho lido a reacção contra os seus discursos e actos. A sua vida está em perigo cada segundo...

Foi um negro quem tentou matar-me - disse Dilman.

Porque acreditava que você estava a obedecer a patrões bran­cos - disse Kasatkin teimosamente. - Pode ser americano, muito bem - acrescentou ele. - Mas é também negro, diga lá o que disser. Tenho observado isso durante toda a semana. Que outra razão poderia ha­ver que justificasse o seu interesse apaixonado por aquela pequena nação tribal sem importância, na África?

Pela primeira vez nessa noite Dilman sentiu-se aborrecido.

Está a insinuar que o meu interesse por Baraza se radica mais no facto de eu ser negro do que no de eu ser americano? Se é isso o que quer dizer, está enganado, tremendamente enganado. Baraza escolheu, em plebiscito, viver sob o nosso sistema democrático e não sob o vosso, e eu tenho a obrigação de procurar que os seus desejos sejam salvaguardados e que nada do que registarem lhes seja imposto pela força.

Ora, não me venha dizer que eles sabem o que é melhor para eles. O que é na verdade e realmente essa Baraza? Oitenta tribos, cinquenta línguas primitivas, leprosos e esfomeados. Vocês garan-tem-lhes a liberdade, quando o que eles querem é comida. Dão-lhes jornais, estações de rádio, livros e electricidade, quando o que eles querem é trigo e víveres. Não importa, não importa - eles encontra­rão o seu próprio caminho, decidirão por eles próprios como nos aconteceu a nós na Rússia, numa semana de Outubro. Tudo o que eu quero dizer é que o vosso ex-presidente, sendo um capitalista branco americano, via-os pelo que eles eram, e via-os como pode­riam ser usados, como um penhor potencialmente rico para negociar e permutar. Você vê Baraza como um americano africano, e o seu interesse não está em proporção com o que aquele pequeno país vale. Mas não importa. Compreendi isso desde o princípio de Chantilly, até o admirei, e foi por esse motivo que não argumentei mais nas nossas negociações. Apreciei os seus sentimentos negros em si, assim como você deve apreciar os sentimentos de camponês em mim. Disse para comigo mesmo: Nikolai, deixa-o ter o bom senti­mento de defender os seus companheiros negros em Baraza, con­quanto que ele te deixe ter o bom sentimento de defender a liberda­de incondicional daqueles nativos que desejem o direito de apoiar os ideais do socialismo. Agora compreendemo-nos completamente um ao outro, não é verdade?

Caminhando através da luz e sombra dos jardins de Versalhes, Dilman escutara o russo com um sentimento crescente de desâni­mo. O abismo que os separava, e que quase fora fechado, parecia agora mais aberto do que nunca. Ele disse:

Desculpe, primeiro-ministro Kasatkin, mas continuo a não con­cordar com a sua análise a meu respeito e do meu interesse por Baraza. A minha cor não tem importância para o caso...

Não pode ser inconsciente da sua cor, Sr. Presidente - inter­rompeu Kasatkin. - Quando regressar à sua América, o que encontra à sua espera? Lutas raciais brutais a cada esquina, fúria, discórdia. Porquê? Porque não pratica nem quer praticar a democracia que os seus negociantes brancos tentam vender.

Dilman estava cansado de se manter na defensiva.

E você - respondeu ele -, você pratica o que vende? O verda­deiro comunismo? O sistema de organização social segundo o qual os bens são todos comuns? O sistema de Platão e de Karl Marx?

O sistema de Karl Marx, sim - disse o primeiro-ministro friamen­te. - E não só os bens em comum, mas a fraternidade, o respeito...

O senhor lê os nossos jornais, mas eu também leio os seus, primeiro-ministro Kasatkin. - Dilman tentou não elevar o tom de voz, mantê-lo razoável, salvar o que fora ganho durante aqueles cinco dias, mas fazer, porém, com que aquele adversário de cabeça de mula soubesse que ele conhecia perfeitamente que a Rússia não passava de uma utopia. - O senhor fala da sua fraternidade, da sua igualdade na Rússia. Tem vinte e três membros no seu Presidium, contudo nem um é georgiano, ulzbeck ou ucraniano. Nem um é ju­deu. Porquê tal discriminação? Porquê os constantes julgamentos por traição? Porquê apenas um partido político em vez de dois, três ou mais? Porquê a deposição ou morte dos que são contra o Parti­do? Porquê as perseguições de Molotov, Kaganovitch, Malenkov e Beria? Porquê não lojas puras e sinagogas para um quinto dos ju­deus de todo o mundo? Porquê o crescente anti-semitismo? Porquê as cargas de pancada e o ridículo dos estudantes africanos do Senegal e da Nigéria, na universidade estadual moscovita? Porquê essas infi­nitas revoltas rurais contra os preços fixos e as taxas? Porquê a polícia secreta K. G. B. e a M. V. D.? Porquê meia dúzia de Hungrias debaixo do vosso pé? Porquê milhares de pessoas a fugir de Berlim Leste, de todas as vossas províncias satélites, quando podem, se lá existe tan­ta fraternidade? Porquê as vossas massas a protestar contra o ves­tuário de qualidade inferior e várias famílias vivem como sardinhas em lata, enquanto membros importantes usam fatos bem feitos e vivem em dachas apalaçadas nos arredores de Moscovo? É esta a camara­dagem que vende, primeiro-ministro Kasatkin?

Parou, ofegante, e sentiu-se aliviado ao ouvir Kasatkin rir.

Bem, muito bem - dizia o russo -, foi um discurso digno de um verdadeiro filho dos barões ladrões. Julguei-o erradamente. Você acha que tem mais igualdade do que eu pensei. Bem, meu amigo, teríamos de permanecer aqui durante mais cinco dias para eu poder responder--Ihe e corrigi-lo, e no fim cada um ficaria na mesma. Esqueçamos as ideologias, as suas forças e as suas fraquezas. Concentremo-nos em coexistir em paz. Calámos muitas coisas durante estes últimos dias. Deixemos que tudo se mantenha calado.

É tudo o que desejo - disse Dilman.

Tinham chegado ao Palácio. À sua frente, os conselheiros e os ajudantes de ambos, e os convivas franceses, esperavam em grupos curiosos junto do exército de Citroèns reluzentes.

O primeiro-ministro Kasatkin parou.

-       O nosso último momento a sós, Sr. Presidente. - Estendeu-lhe a mão. - Nós manteremos a paz. Quanto a Baraza, tem a minha pro­messa de que não interferiremos como a sua gente.

Dilman apertou-lhe a mão.

-       Assegurarei a Kwame Amboko que não interferirá com a gente dele.

A pressão diminuiu e as mãos separaram-se. Enquanto cami­nhavam para a frente, afastando-se, Dilman recordou as duas profes­soras que tinham vindo uma vez a Versalhes. Invejou-lhes a sua fuga mágica até ao passado, onde tudo já tinha acontecido e onde o ter­ror do desconhecido não podia ter lugar, tão diverso do futuro realis­ta de Kasatkin, onde ameaçadoramente espreitava o amanhã e o depois de amanhã.

Dilman lamentava deixar o que ficava para trás, assim como lamentava o Avô Schneider, que afinal não estivera ao seu lado, e disse sem qualquer alegria:

-       Pronto, ministro Eaton, podemos ir para casa. Há lá muito que fazer.

 

A sua vida era tão cheia de telefonemas, de tantas e tão variadas pessoas, a todas as horas, sobre todos os assuntos, de tão variada urgência, que era surpreendente como mais um telefonema, por muito invulgar que fosse, podia ter aquele poder devastador de um terra­moto.

Tudo isto recordaria ele mais tarde.

Tinham passado cinco dias desde o seu regresso da Europa, e Douglass Dilman estava sentado à cabeceira da mesa da casa de jantar de família, no primeiro andar da Casa Branca, gozando o pri­meiro almoço não protocolar com o embaixador nas Nações Unidas, Slater, e os principais membros da delegação americana. Apesar da presença indispensável de Arthur Eaton, que mantinha uma atitude desaprovadora e excessivamente formal em relação a ele, desde que lançara o veto sobre o Projecto de Reabilitação das Minorias, a ami­zade dos seus colegas das Nações Unidas tornava a refeição agra­dável.

Dilman relatara detalhadamente todas as suas conversações de política externa com o primeiro-ministro Kasatkin. Os seus ouvintes tinham concordado em que a atmosfera se desanuviava e que a paz era provável e maravilhosa e que o presidente tinha alcançado um verdadeiro sucesso. Confortado com a unanimidade desta opinião favorável, Dilman teve apetite para se servir pela segunda vez de salmão no forno.

Fora então já quase no fim do almoço que Sally Watson surgira na sala e se dirigira rapidamente para ele. Enquanto o embaixador Slater desviava delicadamente a sua conversa do presidente para Eaton, Dilman inclinou-se para a sua secretária social, que, sem mais, se curvou até ao seu ouvido.

Um telefonema, Sr. Presidente - segredou ela. - Mas Foster diz que quem está ao telefone insiste que é importante...

Quem é?

Miss Foster não disse... excepto...

Então tenho a certeza de que pode esperar.

...excepto que é uma chamada pessoal de alguém dos Expor­tadores Vaduz.

O rosto preocupado de Dilman revelou imediatamente a sua reac­ção. Ele tinha a certeza de que tal reacção não passara despercebi­da a Miss Watson.

Sim - disse ele -, acho melhor atendê-la.

Quer que a transfira para aqui, ou...

Não, não. - Afastou a cadeira, pediu apressadamente descul­pa e seguiu Sally Watson através da casa de jantar do estado e de­pois pelo vestíbulo principal.

Ela conduziu-o até à Sala Vermelha. Aí, Miss Watson pegou no auscultador do telefone que estava em cima da mesa de tampo de mármore.

-       Miss Foster - disse ela - o presidente vai atender. Um mo­mento.

Dilman aceitou o auscultador.

-       Muito obrigado, Miss Watson. Por favor feche a porta quando se retirar.

Esperou. Assim que Sally Watson saiu da sala, ele voltou-se e disse:

-       Miss Foster? Pode ligar. Tomou a esperar.

Ficara preocupado com o telefonema. Nem uma só vez em todas aquelas semanas na Casa Branca Wanda Gibson lhe telefonara. Aquela era a primeira vez. Ultimamente ele mantivera vivas as suas ténues relações, tentando telefonar-lhe pelo menos uma vez por semana, ape­nas à noite, quando os Spinger estavam em casa para atender o tele­fone, evitando assim levantar suspeitas no espírito das telefonistas ou de quantas outras pessoas que o pudessem por acaso ouvir.

Agora ali estava Wanda, dirigindo-se-lhe abertamente. Era caso para se espantar. É claro que a mensagem não dizia que Miss Gibson estava ao telefone, nem que era alguém dos Exportadores Vaduz. Talvez Wanda estivesse doente, ou tivesse tido um acidente e alguém do escritório, ou o patrão, Franz Gar, o quisesse prevenir. Mas não, Wanda nunca terá dito a ninguém da firma que era amiga do presi­dente. Já estava confuso.

De repente chegou até ele a voz inconfundível de Wanda.

Sr. Presidente... fala o Sr. Presidente Dilman? Ele percebeu logo a sua hesitação.

Um segundo, não desligue - disse ele. - Miss Foster...

Sim, Sr. Presidente...

-       Uma chamada pessoal. Não é preciso assentar esta. Muito obrigado.

Esperou até ouvir o clic do telefone da sua secretária e depois ficou certo de estar a sós com Wanda.

Já está, Wanda.

Estamos sozinhos?

Absolutamente. - A tensão contida na voz dela perturbou-o. -Wanda, que se passa? Estás bem? Passou-se alguma coisa má?

Não sei, Douglass. Quis telefonar-te particularmente toda a manhã, mas era perigoso.

Perigoso? Que se poderia passar de perigoso numa manhã tão bonita como esta? Wanda, não...

Espera, Douglass, escuta. Tive de me conter até ao almoço, para poder sair sem ser notada. Estou agora na primeira cabina tele­fónica. Tanta coisa se... - Fez uma pausa como que para pôr em ordem os seus pensamentos, e depois a sua voz baixa e modulada fez-se ouvir, rápida mas muito clara. - O nosso escritório transfor-mou-se num autêntico caos esta manhã. O Sr. Gar convocara todas as associações da Vaduz de Nova Iorque, Savannah, Galveston e São Francisco. A tensão e a pressa eram tantas que acho que a maior parte deles se esqueceu de que eu estava ali. De qualquer maneira consegui perceber algumas coisas, e vi que elas te poderiam afectar e pensei que devias saber. - Tomou fôlego e depois continuou: -Douglass, o equipamento agrícola que os Exportadores Vaduz têm enviado nestes últimos meses para os seus armazéns no Liechtenstein não consiste inteiramente em equipamento agrícola, mas em armas: pistolas, metralhadoras, munições. A minha companhia usava ape­nas o Liechtenstein como cobertura. Na verdade as armas eram embarcadas para lá da Cortina de Ferro, para a Bulgária e a Albânia, e daí para certos países da África.

Referes-te a Baraza? Os comunistas estão a enviar armas para Baraza?

Ouvi mencionar primeiro para Baraza. Tenho quase a certeza absoluta.

Perturbado, Dilman disse:

E a tua companhia, os Exportadores Vaduz são na verdade uma frente comunista aqui na América?

Uma corporação comercial a trabalhar para a União Soviética. Tenho a certeza.

Wanda, já alguma vez tinhas tido alguma suspeita disso?

Nunca. Tudo explodiu esta manhã cedo. Apareceram de repen­te montes de pessoas, correndo por todos os lados como loucos, e a mim mandaram-me queimar uns duplicados de encomendas que tinham sido despachadas, primeiros duplicados de encomendas que eu nunca tinha visto, dactilografados por outra pessoa qualquer e guar­dados por Gar no cofre do seu escritório. Consegui ler primeiro os bocados, antes de os papéis serem queimados, e vi que a Vaduz em­barcava armas que iam parar a mãos comunistas, em portos africa­nos. Mas o principal...

Wanda, o que provocou o alerta para que eles destruíssem tudo esta manhã?

la mesmo agora dizer-te, Douglass. É o principal. Ouvi eles mencionarem a C. I. A. por duas vezes. Nessa altura já eu era toda ouvidos, mas acho que ninguém deu porque eu estivesse à escuta. Mas Gar disse que o informador deles sabia que o primeiro relatório especial da O I. A. te tinha sido enviado acerca da primeira organiza­ção comunista de armas, dentro ou à volta de Baraza, e que Vaduz agora estava provavelmente sob vigilância e tinha recebido ordens - de quem é que eu não sei - para tomar medidas de precaução. Talvez tudo isto não seja digno de confiança, Douglass, mas algo está a acontecer. Provavelmente tu já conheces toda a história e isto é idiotice da minha parte. Todos os relatórios da O I. A. te passam pelas mãos, certamente.

Deviam passar, Wanda, mas não tive conhecimento de nenhum relatório da C.I.A. como esse. Nada sei de uma organização de armas em volta de Baraza. Na realidade, agora mesmo estava a almoçar com os delegados das Nações Unidas e a dizer-lhes como os Rus­sos me prometeram não pôr lá as mãos.

Douglass, talvez... - o tom de voz de Wanda tomara-se insegu­ro. - Tenho a certeza de que não percebi nada disto mal, mas talvez esteja a interpretar mal o que ouvi e vi. É que ando tão preocupada contigo. Talvez devesses... quero dizer, não te baseies muito no que acabo de dizer, mas pelo telefone acho que...

Fizeste bem em me ter telefonado, Wanda. Se não houver nada acerca disso, melhor, nada se perdeu. Se, por outro lado, o que me relataste puder ser verificado... - O seu espírito seguiu nesse sentido procurando em todas as direcções, até que reparou que Wanda con­tinuava do outro lado da linha, numa cabina telefónica, preocupada e talvez amedrontada. - Wanda?

-Sim!

Agradeço-te muito o que fizeste. Vou verificar o caso imediata­mente. Há uma coisa que quero que me faças. Quero que peças a demissão da Vaduz e saias de lá o mais depressa que possas.

Eu já decidira fazer isso, mesmo que tudo isto não passasse de um falso alarme. Tenho medo deles, do que possa acontecer. Mesmo que eu tenha exagerado o que vi e ouvi, o dinheiro não vale a preocupação de lá continuar. Vou pedir a demissão ao Sr. Gar ainda esta noite. Douglass, agora tenho de ir. Aconteça o que acontecer, tem cuidado contigo.

Tem tu também cuidado, Wanda. Daria tudo para te ver. Bem... telefonar-te-ei esta noite... amanhã à noite o mais tardar.

Depois de ter desligado, Dilman permaneceu quieto no mesmo sítio. Sentia uma curiosa sensação de abandono e depois de inércia, provocada pelo desamparo. Tentou comparar esta reacção com a que tivera na noite em que lançara o veto ao Projecto de Reabilitação das Minorias. Nessa ocasião, depois do seu acto de revolta e da res­posta amarga que recebera, sentira que se separara da sua tripula­ção. Sentira-se sufocado, quase que esmagado pela terrível expe­riência de solidão. Transformara o barco do Estado numa barcaça aberta num mar revolto e não tinha a certeza de o poder conduzir a um porto seguro, sem ajuda. Mas o sentimento de solidão não o tinha então submergido. Continuara sempre para a frente. Tentara.

O caso agora era diferente. Se o perigo de que Wanda o preve­nira fosse real - ela não era do género de se tomar de pânico facilmente, de tomar boatos como factos ou de exagerar - então ele não se separara voluntariamente da sua tripulação, mas fora colocado à força na solidão abandonada de uma barcaça aberta por amotina­dos hostis. As próprias tripulações conspiraram contra ele para lhe roubarem o barco do estado e o deixar afundar.

Pela primeira vez ele compreendeu plenamente o que poderia estar a acontecer: ele era o presidente apenas de nome, enquanto os que o rodeavam, sem ele saber, iam ao leme, desempenhando as funções de alto comando.

Se tal era o caso - e agora sentia a sua força revigorada por uma cólera crescente -, ele não se deixaria ir abaixo e não deixaria que o mesmo sucedesse ao país, só porque mãos inimigas o tinham tenta­do empurrar pela borda fora e tinham tentado apoderar-se do contolo. Ele era ainda o Presidente dos Estados Unidos, possuía a autoridade total do ramo executivo e tinha ainda uma tripulação suficiente às suas ordens para usar essa autoridade.

Levantou o auscultador do telefone, identificou-se à telefonista da Casa Branca e mandou ligar para Edna Foster.

Miss Foster? Duas coisas. Confidencial. Contacte com Bob Lombardi, do F. B. I. Notifique-o de que quero ver os relatórios com­pletos sobre todas as organizações subversivas estrangeiras e em especial as que são suspeitas de constituírem frentes comunistas, localizadas nesta área próxima. Assentou?

Sim, Sr. Presidente...

Quero essa informação na minha secretária hoje, às duas e meia. Segunda coisa... - Ponderou o caso. Só se tinha encontrado duas vezes com o director do Departamento Central de Informações e nunca em particular. Perguntava a si mesmo se poderia confiar nele, ou se o director faria também parte da conspiração contra ele, se tal conspiração existisse, e depois decidiu que não tinha por onde esco­lher. Se não podia confiar na C. I. A., estava perdido de qualquer modo. - Entre em contacto com Montgomery Scott, do Departamento Central de Informações. Diga-lhe que eu quero ver todos os relató­rios diários originais e não editados, de todos os dias do passado mês, acerca de todos os países do Pacto da União Africana, espe­cialmente os que se relacionam com Baraza.

Sr. Presidente, se me permite, nós temos uma lista completa desses relatórios da C. I. A. no nosso...

Sei que temos cópias, Miss Foster. E sei que o ministro de Estado tem cópias igualmente. Mas eu preciso dos originais. Diga ao Scott que o quero ver pessoalmente, juntamente com os relatórios originais, no meu escritório, às três horas em ponto.

Terei de modificar o horário dos seus compromissos. E deixar--Ihe-ei algum tempo para descansar antes do jantar de hoje à noite.

Faça o que for preciso. Mas o Scott tem toda a prioridade. Compreendeu?

Desligou, e então lembrou-se que deixara a delegação das Na­ções Unidas nas mãos de Eaton. Não se sentia agora com disposi­ção para aturar os delegados, especialmente quando se sentia me­nos seguro acerca da durabilidade da paz mundial que parecera ficar estabelecida em Chantilly, mas tinha de regressar à casa de jantar. Pelo menos devia lembrar-lhes que ele era o presidente.

Atravessou rapidamente a Sala Vermelha, e ao estender a mão para abrir a porta reparou que esta não estivera completamente fe­chada durante a conversa telefónica. Devia avisar Miss Watson para que fosse menos precipitada e descuidada dali para o futuro. Não lhe agradaria que o criado de quarto ou qualquer outro criado tivesse ouvido a sua conversa com Wanda e a usasse depois como assunto dos seus mexericos.

Olhou através do enorme vestíbulo e lá ao longe viu uma rapari­ga de blusa branca e saia azul, apressando-se para o seu trabalho. Só quando ela dobrou a esquina e desapareceu da vista é que ele se lembrou de que Sally Watson usava uma blusa branca e uma saia azul. Era já tarde para a chamar e a repreender. Talvez não fosse de grande importância, tendo em consideração o que ele tinha no espí­rito e o que lhe traria a tarde que tinha na sua frente.

Embrenhado nos seus pensamentos, dirigiu-se de novo para a casa de jantar de família para retomar o seu lugar à cabeceira da mesa.

Edna Foster afastou as madeixas de cabelo castanho dos olhos, deixou o presidente de novo mergulhado na pilha de relatórios deixa­da pelo F. B. I. na sua secretária havia vinte minutos e regressou triste ao seu escritório, para acabar com a desagradável tarefa que tinha à sua frente.

Mal entrara no escritório, antes de ter tido tempo para se prepa­rar para o enfrentar, já Leroy Poole saltara da cadeira, com a testa coberta de suor, os olhos inchados e uma expressão interrogadora no rosto negro e porcino. Ela tentou fugir-lhe, abrigando-se atrás da secretária, mas ele perseguiu-a teimosamente e inclinou-se sobre a máquina de escrever.

-       O que é que ele disse, Miss Foster? - implorou Poole - Infor­mou o presidente de que o juiz federal daquele piolhoso tribunal do distrito sentenciou Jeff Hurley à morte, para ser executado na câmara de gás?

Edna Foster mexeu-se, pouco à vontade, na cadeira.

Sim, o presidente já soubera a notícia pelo Sr. Lombardi. -Aquela cena era-lhe odiosa e tentou evitar olhar para Poole. Era evidente que o pequeno e grotesco negro estivera a chorar toda a manhã, por causa da sentença de morte de um homem que nem sequer era da família. Um homem a chorar por causa de outro ho­mem. Isso embaraçava-a e fazia-a sentir-se ligeiramente mal.

Ele receber-me-á, ou estará ainda danado comigo? - pergun­tou Poole.

Edna teve um assomo de dignidade.

-       Na realidade não lhe posso dizer se o presidente está ou não danado consigo, como você diz, mas sei que não pode, absolutamente, vê-lo, nem por um minuto. Para lhe falar honestamente, este é um dos dias mais cheios que ele já tem tido. Isso posso eu garantir-lhe.

Leroy Poole pareceu mergulhar num pântano emocional, ace­nando repetidas vezes com a cabeça e depois dizendo com uma voz aflautada:

E acerca do meu pedido para ele alterar a sentença? Ele tem esse poder. Tenho novas provas e já preenchemos os requisitos a pedir clemência executiva no Ministério da Justiça. Se tenho de es­perar por todas essas investigações e recomendações do procura-dor-geral e do procurador do perdão, Jeff Hurley já está morto e en­terrado antes de a minha apelação chegar à secretária de Dilman. Disse-lhe isso?

Tudo isso, Sr. Poole. - Virou a folha do seu bloco de estenogra­fia. - Transmiti-lhe tudo o que me pediu e o presidente respondeu-me: «Tenho-o aqui palavra por palavra. Informe o Sr. Poole de que se dirija ao Ministério da Justiça, através das secções indicadas, por causa da sua apelação de clemência executiva no caso de Jeff Hurley. Pelo meu lado, pôr-me-ei pessoalmente em contacto com o procurador-geral Kemmler e pedir-lhe-ei que ponha de parte os formalismos burocráti­cos e que despache a apelação. Quando eu tiver nas minhas mãos as novas provas e a recomendação do procurador-geral, tornarei a rever a apelação e convocarei o Sr. Poole para lhe comunicar a minha deci­são final. Prometo-lhe que isto será feito antes de o Sr. Hurley ir parar à câmara de gás.» - Edna levantou os olhos. - É tudo...

A boca de Poole deixou escapar um sopro, como se fosse a boca de um balão, mas o seu rosto inchado, porém, não se esvaziou.

Muito bem, suficientemente justo - disse Poole. - Continuarei para a frente. Cuidarei que a apelação esteja em ordem. Oxalá que o presidente me chame e me comunique o seu perdão antes que o Jeff Hurley morra.

Tem a palavra do presidente, Sr. Poole.

Muito bem. Raios os partam, legalizando o assassínio do me­lhor e mais decente ser humano deste país. Não os deixarei e Dilman também não, uma vez que reveja os factos e escute o que eu tenho para dizer... Está bem, sei que está ocupada, Miss Foster. Não se esqueça de me telefonar.

Temporariamente apaziguado, Leroy Poole atravessou o escri­tório, passou a porta e desapareceu da sua vista, enquanto Edna Foster se deixava cair na sua cadeira rotativa com um suspiro de alívio. Pôs de lado o bloco de notas e esperou, perguntando a si mesma se o aperto por detrás dos olhos iria transformar-se numa outra dor de cabeça. Tudo estava a tornar-se cada vez pior, toda aquela tensão e todas aquelas pessoas, como ainda agora, um negro aqui, outro negro lá dentro, e toda a sua ira e pena de si própria.

Por que culpava de novo a cor de Dilman? Tentou pensar. Seria a tensão de Dilman ou seria simplesmente o desconforto de ser se­cretária de um negro? Até onde chegara desde aquele primeiro dia em que concordara trabalhar para Dilman, do mesmo modo que o fizera para O. C, havia já tanto tempo!

Intelectualmente, ela apoiava todas as coisas justas para os ne­gros, o seu direito de votar, de se sentarem como qualquer outra pessoa numa sala de aula, de serem iguais sob Deus e a Constitui­ção. Acreditava em todas as coisas justas, sem equívoco. Contudo, de um modo quase misterioso, as suas emoções continuavam a do­minar o intelecto, e em tais condições ela sentia que essa gente preta era uma gente ameaçadora e inferior. Ameaçadora porque o negro era uma cor ameaçadora, porque o negro significava o mal, como magia negra e lista negra. Ameaçadora porque por muito bom senso que se tivesse, quando se caminhava por uma rua, às escuras, sozi­nha, e se via um negro caminhando na nossa direcção, uma pessoa não se sentia segura, porque negra era a África e negra era a noite, significando não civilizado, significando esquecimento. E ilogicamente consideramo-los inferiores. Quando ia num autocarro e olhava pela janela e via um negro sentado ao volante de um carro grande e novo, ficava sempre admirada de que não fosse um motorista, ficava es­pantada e vagamente ressentida. Como podia uma pessoa inferior ter mais do que ela, que era branca, honesta, decente, educada e pura? Depois de tais pensamentos, levada pela vergonha, tentava recordar o que lera sobre as raças! Não eram povos inferiores, ape­nas tinham um aspecto diferente. Desesperadamente, evocava os nomes de Booker T. Washington, Carver e Bunche, mas isso de nada lhe valia.

Contrariada quando aquelas estúpidas secretárias sulistas se pu­nham a contar as suas anedotas, Edna melindrava-se também com isso e sentia-se superior apesar de não ter tantos preconceitos como elas. Nunca desceria tanto, pensava nessas alturas, até acreditar que os negros, por causa da sua cor, assim feitos pela vontade de Deus, eram mais criminosos, menos espertos, cheiravam pior do que os bran­cos. Sempre que se encontrava assim reforçada intelectualmente, os seus dias com Dilman eram mais fáceis, tratava-a com mais deferência e olhava-o com mais respeito, como se quisesse compensar os seus flutuantes preconceitos emocionais e os das suas amigas. Todavia nun­ca queria mostrar-se demasiado deferente em relação a Dilman, pois a tolerância era também uma forma de se sentir superior. Então, tentava tratar Dilman como tratava o George, o Drin Flannery ou qualquer outro homem branco. Mas, na verdade, não o conseguia, porque, por ser preto, a sua presença no Escritório Oval significava uma cons­tante ameaça de perigo para ele, para o país e para ela própria, e a sua inferioridade fazia uma confusão a todos, e de qualquer modo ela tinha a certeza de que o seu cheiro era diferente. Maldição. E então culpou George. Ele é que tinha a culpa das suas desgraças e da situação em que ela se encontrava.

Por causa de George é que ela ainda estava naquele horrível emprego. Era verdade que a sua proposta de casamento fora o ponto culminante de toda a sua vida. Por causa dela nem sequer gozara a viagem a França. Ali não estivera a trabalhar, estivera a sonhar acor­dada e a desejar ir para junto de George e para o casamento próxi­mo. Nem tivera tempo para visitar o Louvre. E depois de tudo isso, quando regressara, tão cheia de grandes esperanças, George não a fora esperar ao aeroporto, o que era de mais. Havia uma mensagem metida por debaixo da porta do seu apartamento, mais nada. Encon-trava-se em Nova Iorque a investigar um possível emprego. Regres­saria dentro de um ou dois dias com boas notícias. O um ou dois dias tinham-se transformado em quase uma semana, e os seus telefone­mas breves e enigmáticos nada a faziam esperar coisa mais concreta daquela viagem.

Havia menos de uma hora tinha recebido o seu telefonema diá­rio. Estava ainda em Nova Iorque, dissera. Não podia prometer estar de volta nessa noite ou no dia seguinte, mas talvez depois. Pela pri­meira vez ela não procurara esconder a sua irritação. Era essa a ma­neira de começar um casamento, ele em Nova Iorque ela em Wa­shington, não se vendo um ao outro durante dez ou onze dias? Para a pacificar, ele prolongara o telefonema mais do que o costume, fize­ra imensas insinuações acerca de um emprego fantástico, de um casamento rápido, etc. Isso apaziguara-a de certo modo, mas de­pois de ele ter desligado, a telefonista, a longa distância, ligara nova­mente para ela. O telefonema que acabara de receber fora feito numa cabina telefónica e a pessoa que o fizera esquecera-se de meter na caixa as moedas extra. Pagaria ela o que faltava? Certamente. Para onde devia enviar o dólar e os dez cêntimos? Para a Companhia dos Telefones de Trafford, Nova Iorque, foi a resposta. Não para a cidade de Nova Iorque? Não, para Trafford. Muito bem, para Trafford. Esta­vam duas pessoas junto da secretária Buchanan, parecendo estranhamente aumentadas pela lente através da qual ela espreitava. Uma era o Presidente Dilman, sentado, as feições fechadas num esforço de concentração, enquanto com um polegar gordo ia pas­sando as páginas de uma pilha de papéis que se encontrava à sua frente na secretária. A outra era Montgomerv Scott, em pé, inclina­do sobre Dilman, observando e falando e mordendo os lábios quan­do não falava.

Edna conhecia Montgomery Scott desde o dia em que O. C. o nomeara para director do Departamento Central de informações.

Nunca fora capaz de conciliar a sua aparência com a sua crónica. Scott usava o cabelo com uma risca ao meio e penteado para trás, de modo a disfarçar a careca. A sua barba à Van Dyke, porém, era espessa e em bico. No meio, o seu rosto, rosado, suave e sem idade, era inocente e aberto. De grande estatura, levemente curvado, usava um vulgar casaco sport e calças cinzentas escuras. O seu cachimbo de embutidos, uma prenda de qualquer potentado do Médio Oriente, dava mais ênfase ao seu aspecto sedentário e escolástico. Contudo, lembrava-se Edna, Scott fora outrora um agente activo da O. S. S. Later, enquanto na C. I. A. estivera envolvido no derrubamento do governo de Arbenz, na Guatemala, na instigação da espionagem aérea do U-2, na invasão do Suez, no assassínio de Trujillo. Com excepção da mordacidade da linguagem, do riso estrondoso e inconveniente e da barba, nada havia nele que indicasse que Scott era único. E con­tudo ele era o director dos actos heróicos (acções ousadas), com meio bilião de dólares de fundos (nunca referidos publicamente) e quinze mil empregados (raramente reconhecidos em público) à sua disposição em Langley, Virgínia e em todo o mundo. Os repórteres que o admiravam referiam-se a ele designando-o por «Gd. Scott», e os que não gostavam dele chamavam-lhe «Gd. Scott».

Edna Foster abriu a porta e entrou no Escritório Oval do presi­dente.

Os dois homens só ergueram os olhos quando ela chegou junto da secretária.

-       Olá, Edna - disse-lhe Montgomery Scott. - Há muito que a não via.

-       É verdade, muito prazer em o tornar a ver, Sr. Scott. Dilman apontou para o sofá ao pé da secretária.

-       Sente-se aqui, Miss Foster. Vou interrogar o Sr. Scott. É impor­tante, portanto, que tome nota de tudo. Transcreva-o depois e entregue-me isso pronto ainda hoje. É possível que o queira estudar esta noite, depois do jantar.

Edna sentou-se, puxou a saia para baixo e esperou com o bloco e o lápis na mão.

Alguma menção especial de segurança Sr. Presidente?

Uma cópia apenas para mim e para mais ninguém, com a indi­cação de «Extremamente Secreto». - Dilman indicou o sofá do outro lado da secretária.

Tenha a bondade de se sentar, Sr. Scott.

Com sua licença. - O director da C. I. A. deixou-se cair no sofá e ficou sentado numa posição semelhante a um anzol, acariciando a barda e depois massajando o cachimbo alaranjado na outra mão.

Comecemos, Miss Foster - disse Dilman por sobre o ombro, enquanto os seus olhos permaneciam fixos em Scott, depois de fa­zer girar a sua cadeira de couro até ficar de frente para ele. - Sr. Scott, vou dizer-lhe por que quis ver a lista original dos seus relatóri­os diários e por que o quis ver pessoalmente a si. Hoje, pouco depois da uma hora, soube de fonte particular que os Exportadores Vaduz, uma corporação de Liechtenstein com escritórios em Bethesda, são uma organização da Frente Comunista da União Soviética, operando ilegalmente, embarcando armas e munições através de Liechtenstein para os países da Cortina de Ferro e daí para a África. Tive a confir­mação disso agora na lista do F. B. I. sobre as organizações subver­sivas estrangeiras nesta área.

Oh, sim, Sr. Presidente, nós demos a pista ao F.B.I., há duas semanas - disse Scott, com evidente satisfação. - Diferentemente da Amtorg, os Vaduz são agentes inimigos não registados. Lombardi disse-me que já se encontram sob vigilância, mas a primeira prova concreta que chegou até nós do que se estava a passar veio dos nossos agentes em Baraza. Penso que o F. B. I. tenciona intervir um destes dias.

Amanhã - disse o Presidente Dilman. - O F. B. I. está a cercá--los e apanhá-los-á amanhã.

O espírito de Edna Foster, que se encontrava ainda ocupado com o mistério do estranho telefonema de George, libertou-se dele e entregou-se então ao novo mistério que estava a registar estenogra-ficamente no bloco sobre os joelhos. Enquanto o seu interesse se centrava nos dois homens que conversavam na sua frente, o seu lápis corria pelas linhas do papel, saltando e rabiscando.

-       Óptimo - dissera Montgomery Scott. Depois acrescentou: - É claro que o caso agora já não pertence só à C. I. A.

O Presidente Dilman inclinou-se para a frente.

-       Dir-lhe-ei até que ponto o caso pertence à C. I. A. e quão seria­mente me preocupa. Como soube que as armas Vaduz estavam a ser enviadas para a África, para a área de Baraza, para os nativos comunistas?

Scott endireitou-se no sofá.

Isso vem no relatório diário especial que lhe enviei. Como já lhe disse, lembro-me do dia exacto - faz amanhã duas semanas.

Sr. Scott, não recebi tal relatório da sua parte - disse carran­cudo o Presidente Dilman. - Não se encontra aqui na minha listas. Miss Foster trouxe-me a minha lista antes de o senhor vir, e eu pude ver o que já suspeitava. Na minha lista falta o relatório de um dia. Como disse, é o datado de há duas semanas atrás. Como é que isso é possível?

Montgomery Scott enfiara o cachimbo numa algibeira imensa e mantinha-se agora completamente erecto no sofá.

Não faço a mínima ideia, Sr. Presidente - disse ele. Depois estendeu o indicador para o segundo monte de folhas diante de Dilman. - De qualquer modo...

Devia estar na sua lista original da C. I. A., que acaba agora de trazer-me - disse o Presidente Dilman, completando a frase do direc­tor. - Pois bem, não está. Viu-me percorrer os seus relatórios origi­nais ainda há poucos minutos. Esse relatório diário falta aqui tam­bém. - Percorreu umas tantas folhas e depois disse: - Só encontrei um memorando azul, com a data e uma nota: «Talley, Eaton, para devolver.» - Levantou os olhos. - O que quer isto dizer?

Scott, que se tornara cada vez mais perturbado, súbito deu uma palmada na secretária.

É claro. Já me lembro. Seguindo o procedimento usual, nessa manhã enviei duas cópias pelo Langley, uma para o governador Talley lhe entregar a si e a outra para o ministro de Estado Eaton. Nesse mesmo dia, ao fim da tarde, Talley telefonou-me e disse-me que tanto o Sr. Presidente como o ministro Eaton estavam preocupados com o relatório e que desejavam toda a minha lista, incluindo o original do qual se tinham tirado duas cópias.

Não lhe parece isso estranho, Sr. Scott? - perguntou o Presi­dente Dilman.

Scott puxou pela barba.

-       Bem... sim... reconsiderando bem o caso, suponho que sim. Mas não vi nenhuma razão para o não fazer. Afinal, o Presidente Truman criou o nosso Departamento Central de Informações princi­palmente para lhe fornecer, a ele e aos futuros chefes executivos, informações vitais estrangeiras, não editadas, directas e não interpretadas. - Inclinou-se para a frente, semicerrando os olhos. - Está a querer dizer-me, Sr. Presidente, que embora o governador Talley e o ministro Eaton tivessem pedido tudo o que se relacionava com esse relatório diário sobre Baraza, em seu nome, o Sr. Presidente não viu nem a nossa cópia directa nem o original?

Não vi nada - disse o presidente Dilman - e até há duas horas atrás não sabia de nada. Foi por isso que o mandei chamar.

Não percebo - disse Scott, coçando o queixo através da bar­ba. - É claro, eu não posso envolver-me em política, mas, falando sob um ponto de vista puramente factual, acho que pode haver uma explicação simples e bastante compreensível da razão que levou o seu ajudante e o ministro de Estado a agir como agiram.

Pareceu reflectir no que ia dizer a seguir. Por fim, acrescentou:

-       Às vezes, um ministro de Estado ou qualquer outro chefe de departamento não entrega uma informação ao presidente até que esta seja totalmente confirmada ou simplesmente porque, nessa altura, o chefe do departamento acha que ela não tem importância. Não o pos­so jurar, mas disseram-me que durante a administração de Eisenhower o embaixador americano no México soube que Fidel de Castro era desde há muito um comunista e que recebera instruções para se apo­derar de Cuba e a converter num satélite da União Soviética. O relató­rio, extremamente secreto, foi enviado para Washington. Por que ra­zão foi posto de lado e nunca chegou às mãos do Presidente Eisenhower? Como resultado, o presidente e os seus ajudantes des­conheciam quase inteiramente as inclinações vermelhas de Castro. Abençoavam-no como um rebelde democrata, como sucedia com a maior parte dos americanos naquela época, apenas para virem a sa­ber mais tarde que, na verdade, ele era um boneco nas mãos da União Soviética. E o relatório original de aviso a Eisenhower? Quem sabe? Talvez alguém tivesse pensado que era demasiado idiota e não suficientemente digno de confiança para ser tratado seriamente.

O Presidente Dilman levantou a mão.

-       Sr. Scott, este relatório que falta, acerca de Baraza, e que não me chegou às mãos... acha que poderia ser justificavelmente consi­derado como idiota, ou não digno de confiança, ou não totalmente confirmado?

O director da C. I. A. tinha, segundo o que Edna Foster via, um ar muito pouco à vontade.

Sr. Presidente, eu acho realmente que não devo envolver-me nisso. Nós somos uma organização que procura e acha factos. In­vestigamos os factos, avaliamos a fonte e apresentamo-los ao seu julgamento e o Sr. Presidente decide o que há a fazer.

Muito bem - disse o Presidente Dilman -, então investigou os factos acerca desse relatório que falta sobre Baraza. Avaliou a fonte e eu por mim julgarei. Visto que prefiro não ir lá ter com Talley ou Eaton por causa do verdadeiro relatório, tenho de depender de uma outra pessoa para obter a informação que ele continha. Tem essa informa­ção de memória?

-Tenho, sim, Sr. Presidente.

Muito bem, então diga-ma.

A informação que recebemos foi precisamente esta: nas mon­tanhas, em toda a fronteira norte de Baraza, estão a organizar agora um exército rebelde nativo comunista. Armas dos Exportadores Vaduz têm ido para aí, juntamente com oficiais russos que estão a treinar esses comunistas africanos. A Embaixada Soviética na cida­de de Baraza financia e dirige essa organização secreta. Não sabe­mos ainda o tamanho dessa força comunista, ou até que ponto está a ser armada. Esta é ajnformação. Agora, deseja saber a fonte?

A fonte - disse Dilman.

A primeira informação chegou à nossa Embaixada na cidade de Baraza através de um aleijado comunista, um nativo. Para obser­var melhor o caso, o nosso agente secreto, chefe da C. I. A. em Baraza, recrutou um nativo treinado e esperto, que foi para o local, para a cena da organização. O nosso relatório de há duas semanas basea-va-se nessa fonte.

E a sua avaliação da confiança em tal fonte? - perguntou o Presidente Dilman.

Como sabe, Sr. Presidente, nós escalonamos todas as infor­mações obtidas numa escala que vai de um - significando positiva­mente de confiança - até seis - significando provavelmente de confi­ança. A maior parte dos relatórios a que damos mais atenção tem a escala 2, 3 e 4. O relatório sobre Baraza? Lembro-me exactamente da escala. Encontrava-se entre o 3 e 4, significando possivelmente de confiança, mas requerendo mais investigação.

Que fizeram depois disso? - perguntou o Presidente Dilman.

Ordenámos aos nossos homens de campo que continuassem à procura de informações.

Não é o suficiente - disse o Presidente Dilman com firmeza. Levantou-se, olhou para as janelas atrás de si e depois tornou a voltar-se lentamente para Scott. - O que quer que Talley ou Eaton tivessem determinado, quer eles tenham conservado essa informa­ção porque decidiram que não era importante ou porque não confia­ram em mim, não estou pronto a deixá-los usurpar os meus pode­res, os poderes deste cargo, e a tomarem as decisões por mim. Isto pode ser um caso muito sério, sério para além do que se possa julgar. Sr. Scott, eu persuadi o Presidente Amboko a relaxar a guar­da contra o comunismo, a dar aos Russos mais liberdade em Baraza. Há cinco dias atrás recebi do primeiro-ministro Kasatkin a promes­sa de que esta liberdade democrática que tínhamos imposto a Baraza não seria mal usada pela União Soviética. O que os outros sintam ou possam sentir acerca de Baraza, no nosso país, não me fará quebrar a minha promessa a Amboko ou a qualquer outro che­fe africano que confie e dependa de nós. Nem deixarei que a Rússia nos engane a nós, faça de nós parvos, nos faça tirar as mãos en­quanto eles se aprontam para dominar as nações africanas inde­pendentes e subdesenvolvidas através da intimidação e do terror, Sr. Scott.

Montgomery Scott pôs-se de pé.

Sim, Sr. Presidente.

Estamos atrasados e... é possível que Baraza se encontre em perigo e que nós nos encontremos em perigo. Quero recuperar o tempo perdido. Quero que duplique ou triplique o número dos agen­tes secretos da C. I. A. em Baraza, se necessário for, e imediatamente. Quero os fundos secretos duplicados e triplicados no que diz respeito a esta investigação. Daqui em diante quero que seja o senhor em pes­soa quem me traga todos os relatórios da C. I. A. Deixe que o Talley e o Eaton permaneçam de braços cruzados. Eu não ficarei. Quero um relatório final sobre Baraza que tenha a escala 1 ou 6. O que quer que resulte, quero a verdade e quero-a depressa!

Às dez horas e cinco minutos daquela noite, Sally Watson, fortificada por três Bloody Marys antes de jantar, por dois copos de vinho e um comprimido energético durante o jantar, a segunda taça de champanhe na mão depois do jantar, sentiu-se por fim com a co­ragem suficiente para levar a cabo o seu plano.

Com os ombros nus apoiados de encontro ao papel acetinado da parede da Sala Azul, Sally Watson permanecia afastada da multidão dos convidados militares. A recepção e jantar não protocolares oferecidos ao Pentágono, na sala de jantar de estado, decorrera como se previra. Não houvera desistência da última hora, nem ostracismo em relação a Dilman, visto que os militares precisavam do apoio do presidente. Agora os trinta e dois convidados, os homens cheios de fitas e medalhas nos seus uniformes castanhos, azuis, cinzentos e verdes, e as suas esposas em vestidos de meia cerimonia, saboreavam as bebidas no final do jan­tar, brandy ou champanhe.

Sally bebia e, atrav&eacu