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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O IMPERADOR DEUS / Frank Herbert
O IMPERADOR DEUS / Frank Herbert

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A Saga do Planeta “Duna”

O IMPERADOR DEUS  

 

Em Rakis, que outrora havia sido o desértico planeta Arrakis, apelidado Duna, são encontrados os diários do filho do Muad'Dib, de inestimável valor arqueológico e cujas interpretações são contraditórias.

Relata-se então o governo de Leto II, o descendente do messias Paul Atreides, sobre o Império multigalático descrito em Duna. O passo decisivo de Leto em relação a todos os seus antecessores é o abandono da forma humana, e o conseqüente desprezo pelos princípios morais que atormentavam seu pai. Não só isso: o uso continuado da "especiaria", a melange - que, além dos efeitos psíquicos e de longevidade, tem uma importância estratégica ainda mais vasta, valeu-lhe uma presciência quase absoluta, um controle genético e uma memória que abarca toda a História, reunindo numa única identidade confusa todos os seus ancestrais. Com esse poder, Leto transforma-se num tirano preocupado com a idéia da divindade e com a possibilidade de controlar o Tempo.

Frank Herbert, que na série Duna já abordara os aspectos político-religiosos e psicológicos do messianismo, examina agora uma tirania semi-religiosa. A pergunta marcante dos livros anteriores - pode-se mudar a História? - desloca-se da profecia e da guerra para as disputas sobre a fé, a fidelidade, a crença. Ressalta-se que nas mitologias e nas religiões é a invenção que cria História, tanto no passado quanto no futuro. Misturando elementos da cultura islâmica e da sociedade medieval com outros da Antigüidade e dos primórdios do Cristianismo, Herbert dá uma chave para a compreensão das múltiplas forças que compõem e direcionam os caminhos de Duna (e também os nossos): guerras e intrigas, mas igualmente a capacidade de persuasão das palavras.

Esse fascínio que a ficção exerce, a mistura de fantasia e realismo que Frank Herbert explora com mestria nos seus livros, continua conquistando cada vez mais leitores em todo o mundo, já tendo a saga de Duna ultrapassado os doze milhões de exemplares vendidos em mais de catorze idiomas.

Quando eu estava escrevendo Duna não havia lugar em minha mente para preocupações quanto ao sucesso ou fracasso do livro. Só me preocupava com o que estava escrevendo. Seis anos de pesquisas tinham antecedido aquele dia em que me sentei para estruturar a história, e a tessitura das muitas camadas de tramas que planejara exigia um grau de concentração que eu nunca antes experimentara.

Devia ser uma história explorando o mito do Messias.

Devia produzir uma visão diferente de um planeta ocupado pelo homem como máquina energética.

Devia penetrar no funcionamento interligado da política e da economia.

Devia ser um estudo da previsão absoluta e de suas armadilhas.

Devia ter uma droga de expansão da consciência e revelar as conseqüências de uma dependência prolongada em relação a tal substância.

A água potável devia constituir uma analogia em relação ao petróleo e à própria água como substância cujo suprimento diminui a cada dia.

Devia ser um romance ecológico, portanto, com muitas nuanças, assim como uma história a respeito das pessoas e de suas preocupações humanas com os valores humanos.

E eu precisava monitorar todas essas coisas em cada estágio da criação do livro.

Não havia espaço em minha cabeça para pensar em outra coisa.

Seguindo-se à primeira edição, houve uma lenta resposta dos editores, que mais tarde se revelou imprecisa. Os críticos tinham malhado. E mais de 12 editores se haviam recusado a publicar o livro. Não houve publicidade, mas alguma coisa estava acontecendo lá fora.

Durante dois anos fui saturado de queixas de livrarias e leitores que não conseguiam encontrar o livro. The Whole Earth Catalog (Catálogo Integral da Terra) elogiou. E eu ficava recebendo telefonemas de pessoas me perguntando se estava iniciando alguma religião.

A resposta: "Meu Deus! Claro que não!”

O que estou descrevendo e a lenta concretização de um sucesso. Quando os três primeiros livros de Duna estavam prontos, já não havia mais dúvidas de que este era um trabalho popular - um dos mais populares em toda a história, disseram-me, com mais de 10 milhões de exemplares vendidos no mundo inteiro. Agora, o que a maioria das pessoas me pergunta é: "O que esse sucesso representa para você?”

Ele me surpreende, já que; não o esperava. Tampouco esperava o fracasso. Era um trabalho e eu o realizei. Certos trechos de O Messias de Duna e Os filhos de Duna foram escritos antes mesmo de eu terminar Duna. Eles tornaram-se mais vividos ao serem postos no papel, mas a história essencial permanecia intacta. Eu sou um escritor e estava escrevendo. O sucesso significava que eu poderia passar mais tempo escrevendo.

Olhando para trás agora, percebo que realizei a coisa certa instintivamente. Não se escreve objetivando-se o sucesso. Isso tira a sua atenção daquilo que está criando. Se você o está fazendo realmente, com toda a dedicação, então escrever é tudo.

Existe um pacto implícito entre você e o leitor. Se alguém entra em uma livraria e paga pelo seu livro com dinheiro duramente ganho (energia), devemos a essa pessoa algum entretenimento, e tanto quanto possamos dar.

Essa foi realmente a minha intenção o tempo todo...

 

 Parte I

Trecho de uma palestra de Hadi Benotto anunciando as descobertas em Dar-es-Balat, no planeta de Rakis:

Não apenas é um prazer para mim anunciar a vocês, nesta manhã, nossa descoberta desse maravilhoso depósito contendo, entre outras coisas, uma monumental coleção de manuscritos inscritos em papel de cristal riduliano. Também tenho orgulho em lhes dar nossos argumentos quanto à autenticidade dessas descobertas e lhes revelar por que acreditamos ter encontrado os diários originais de Leto II, o Imperador-Deus.

Primeiramente, permitam-me que lhes recorde os tesouros históricos que todos conhecemos pelo nome de Os diários roubados, volumes de conhecida antigüidade que, através dos séculos, têm sido tão valiosos para nos ajudar no entendimento de nossos ancestrais. Como todos sabem, Os diários roubados foram decifrados pela Corporação Espacial, e a Chave de Tradução da Corporação foi usada para traduzir os volumes recém-descobertos. Ninguém nega a antigüidade da Chave de Tradução da Corporação, e ela, apenas ela, traduz esses volumes.

Em segundo lugar, esses volumes foram impressos por um sistema Ixiano cuja criação é realmente antiga. E Os diários roubados não deixam dúvida de que esse foi de fato o método empregado por Leto II para registrar suas observações históricas.

Terceiro, e nós acreditamos que isto é igual, em importância, à descoberta do próprio depósito: o repositório desses diários é sem dúvida um artefato Ixiano. Uma criação tão primitiva e, no entanto, tão maravilhosa que certamente irá lançar um novo entendimento sobre a época histórica conhecida como "A Dispersão". Como era de se esperar, o depósito encontrava-se muito bem oculto. Ele foi enterrado a uma profundidade maior do que o mito ou a História Oral nos levaria a esperar, emitindo e absorvendo radiação de modo a simular as características naturais de suas cercanias. Um mimetismo mecânico que em si mesmo não constitui surpresa. O que surpreende nossos engenheiros, entretanto, é o modo como foi construído, usando métodos dos mais rudimentares e verdadeiramente primitivos.

Percebo que alguns de vocês se encontram tão excitados com isso como nós próprios ficamos. Acreditamos estar olhando para o primeiro Globo Ixiano, o não-espaço a partir do qual todos os aparelhos semelhantes se desenvolveram. Não se trata realmente do primeiro, mas acreditamos que deve ser "um" dos primeiros, incorporando os mesmos princípios do primeiro.

Permitam-me satisfazer sua óbvia curiosidade assegurando-lhes que serão conduzidos para uma breve inspeção do depósito dentro em pouco. Apenas solicitamos que mantenham silêncio quando estiverem lá dentro, pois nossos engenheiros e outros especialistas continuam a trabalhar na solução dos mistérios.

O que me conduz ao quarto ponto, e este pode ser o coroamento de nossas descobertas. É com uma emoção difícil de descrever que lhes revelo agora outra descoberta feita no local - gravações orais verdadeiras que se encontram rotuladas como tendo sido feitas por Leto II na voz de seu pai, Paul Muad'Dib. Uma vez que registros autenticados do Imperador-Deus se encontram guardados nos Arquivos das Bene Gesserit, nós lhes enviamos uma amostra de nossas gravações, todas elas feitas a partir de um antigo sistema de microbolha, com um pedido formal à Irmandade para que realizasse um teste de comparação. Restam-nos poucas dúvidas de que esses registros serão autenticados.

Agora, por gentileza, voltem sua atenção para os trechos traduzidos que lhes entregamos quando chegaram. Permitam-me que eu aproveite a oportunidade para me desculpar pelo peso. Ouvi alguns de vocês fazendo piadas a respeito. Nós usamos papel comum por uma razão prática - economia. Os volumes originais foram escritos em símbolos tão pequenos que precisam ser ampliados substancialmente antes de poderem ser lidos. De fato, isso exige mais de 40 volumes comuns, do tipo que vocês agora estão segurando, apenas para reproduzir o conteúdo de um cristal riduliano original.

Se o projetor... sim. Agora estamos projetando parte de uma página original na tela à sua esquerda. É da primeira página do primeiro volume. Nossa tradução aparece nas telas à direita. Chamo-lhes a atenção para a evidência interior, a poética vaidade das palavras, assim como o significado derivado da tradução. O estilo traduz uma personalidade que é coerente e identificável. Nós acreditamos que isso só pode ter sido escrito por alguém que possuía uma experiência direta de memórias ancestrais, por alguém que estivesse trabalhando para compartilhar a experiência extraordinária de vidas anteriores de um modo compreensível apenas àqueles que carecem desse dom.

Olhem agora para o significado real do conteúdo. Todas as referências estão de acordo com tudo que a história nos revelou a respeito de uma pessoa, a qual acreditamos seria a única capaz de ter deixado tal registro.

Temos outras surpresas para vocês. Tomei a liberdade de convidar um poeta bem conhecido, Rebeth Vreeb, para compartilhar esta plataforma conosco nesta manhã e ler, dessa primeira página, uma curta passagem de nossa tradução. É de nossa opinião que, mesmo em uma tradução, essas palavras assumem uma característica diferente quando lidas em voz alta. Queremos assim partilhar com vocês uma qualidade verdadeiramente extraordinária que descobrimos nesses volumes.

Senhoras e senhores, por gentileza, dêem boas-vindas a Rebeth Vreeb.

Da leitura de Rebeth Vreeb:

 

Eu lhes afirmo que sou o livro do destino.

As perguntas são o meu inimigo, pois minhas perguntas explodem! As respostas saltam para o ar como um bando de aves assustadas, escurecendo o céu com memórias das quais não consigo escapar. Não há uma só resposta, nenhuma é suficiente.

Que prismas relampejam quando penetro no campo terrível do meu passado! Sou uma lasca de pedra fechada em uma caixa.

A caixa gira e estremece. Sou atirado em uma tempestade de mistérios. E quando a caixa se abre eu retorno a esta presença como um estranho em terra primitiva.

Lentamente (lentamente, eu digo), reaprendo o meu nome.

Mas isso, apenas, não é conhecer-me.

Essa pessoa que tem meu nome, esse Leto que é o segundo a ser chamado assim, descobre outras vozes em sua mente, outros nomes, outros lugares. Oh, eu lhes prometo (assim como me prometeram) responder a um único nome. Se me chamarem Leto, eu responderei. O sofrimento faz isso possível. O sofrimento e mais uma coisa:

Eu seguro as rédeas!

Todas elas são minhas. Deixem-me imaginar um tópico - digamos... homens que morreram pela espada - e eu os tenho em toda a sua carnificina, cada imagem intacta, cada gemido, cada careta.

As alegrias de ser mãe. Eu penso e os leitos de parto são meus. Sorrisos de bebês desfilam em série, e assim os suaves balbucios de novas gerações. Os primeiros passinhos e as primeiras vitórias dos jovens são minhas para partilhar. Elas caem umas sobre as outras até que nada mais vejo senão igualdade e repetição.

"Mantenha isso tudo intacto", advirto a mim mesmo.

Quem poderá negar o valor de tais experiências, a riqueza de aprendizado através da qual eu visualizo cada novo instante?

Ah, mas isso é o passado.

Não compreendem?

É apenas o passado!

Esta manhã eu nasci num yurt na borda de uma planície num planeta que não mais existe. Amanhã nascerei alguém mais em outro lugar. Ainda não escolhi. Nesta manhã, entretanto... ah essa vida! Quando meus olhos aprenderam a localizar, olhei para a luz do sol e pisei na grama, e vi gente vigorosa indo e vindo nas suaves atividades de suas vidas. Onde... oh, para onde foi todo esse vigor?

 

- Os diários roubados

 

As três pessoas correndo para o norte, através das sombras do luar na Floresta Proibida, enfileiravam-se por quase meio quilômetro. O último corredor da fila estava menos de 100 metros à frente dos lobos D que os perseguiam. Os animais podiam ser ouvidos grunhindo e ofegando em sua avidez. Do modo como fazem quando estão com a presa à vista.

Com a Primeira Lua diretamente acima, a floresta estava bem iluminada, e embora essas fossem latitudes elevadas em Arrakis, ainda estava quente com o calor de um dia de verão. A brisa noturna, vinda do Último Deserto de Sareer, trazia o perfume de resinas e a umidade exalada pelo solo abaixo. De vez em quando uma brisa do Mar de Kynes, além do Sareer, flutuava no caminho dos corredores com seus odores de sal e peixes.

Por um capricho do destino, o último corredor chamava-se Ulot, o que na linguagem Fremen significa "Querido Extraviado". Ulot era de pequena estatura e com uma tendência à obesidade que colocara o peso extra de uma dieta em seu treinamento para essa aventura. Mesmo emagrecido para realizar essa carreira desesperada, seu rosto permanecia redondo, os grandes olhos castanhos vulneráveis numa sugestão de carne em demasia.

Para Ulot, tornara-se claro que não poderia correr muito mais. Ele ofegava e chiava. Ocasionalmente, tropeçava, mas não chamava seus companheiros. Sabia que não podiam ajudá-lo. Todos tinham feito o mesmo juramento, sabendo que não tinham defesas, exceto as velhas virtudes e lealdades dos Fremen. Isso permanecia verdadeiro, muito embora tudo que um dia se relacionara com os Fremen tivesse agora um caráter de museu - velhos recitais aprendidos em um Museu Fremen.

E era a lealdade dos Fremen que mantinha Ulot em silêncio, na perfeita compreensão do seu destino. Um belo exemplo dos antigos valores, e deveras lamentável pelo fato de nenhum dos corredores ter tido um conhecimento que não tivesse saído de livros e tradições orais a respeito das virtudes que adotavam.

Os lobos D corriam bem atrás de Ulot, gigantescas figuras cinzentas com quase a altura de um homem. Eles saltavam e ganiam em sua ferocidade, cabeças erguidas, olhos focalizados em suas presas traídas pelo luar.

Uma raiz prendeu o pé de Ulot e ele quase caiu. Isso lhe forneceu uma energia renovada. Ele disparou, ganhando talvez a distância do comprimento de um lobo sobre seus perseguidores. Seus braços moviam-se de modo ritmado, e ele respirava ruidosamente pela boca aberta.

Os lobos D não mudaram seu ritmo. Eram sombras prateadas avançando através dos verdes odores da floresta. Sabiam que haviam ganho, era-lhes uma experiência familiar.

Novamente Ulot tropeçou. Equilibrou-se de encontro a um arbusto e continuou sua ofegante carreira, as pernas tremendo, rebeladas contra tais exigências. Não havia mais energia para outra corrida.

Um dos lobos D, uma fêmea grande, avançou pelo flanco esquerdo de Ulot. Ele se desviou, saltando em seu caminho. Dentes enormes rasgaram-lhe o ombro, e Ulot cambaleou. Ainda assim, não caiu. O cheiro de sangue adicionou-se aos odores da floresta. Um macho pequeno agarrou-lhe o quadril direito e finalmente Ulot tombou gritando. A matilha o envolveu e seus gritos interromperam-se abruptamente.

Sem pararem para comer, os lobos D reiniciaram a perseguição. Suas narinas sondavam o chão da floresta - as brisas errantes no ar, sentindo o rastro quente de mais dois seres humanos em fuga.

O corredor seguinte na fila era chamado Kwuteg, nome antigo e honrado em Arrakis, nome dos tempos de Duna. Um ancestral seu havia servido no Sietch Tabr como Mestre dos Alambiques da Morte, mas isso era tão distante, mais de 3 mil anos no passado, que a maioria tinha dúvidas a respeito. Kwuteg corria com passadas longas e um corpo alto e esguio que parecia perfeitamente adequado para semelhante esforço. Seus longos cabelos negros fluíam de suas feições aquilinas. Assim como os companheiros, ele usava um traje de corrida negro, feito de algodão finamente trançado. Este revelava o movimento das nádegas e das coxas musculosas, o ritmo firme e profundo de sua respiração. Somente a passada de Kwuteg, marcadamente lenta, traía o fato de que ele havia ferido o joelho direito ao descer os precipícios feitos pelo homem que cercavam a cidadela-fortaleza do Imperador-Deus em Sareer.

Kwuteg ouvira os gritos de Ulot e o abrupto silêncio, depois os renovados ganidos de perseguição dos lobos D. Não permitiu que sua mente criasse a imagem de outro amigo sendo morto pelos monstros guardiões de Leto, mas a imaginação exerceu um encantamento sobre ele. Kwuteg pensou em uma maldição contra o tirano, mas não desperdiçou fôlego em pronunciá-la. Ainda restava uma chance de que pudesse alcançar o santuário do Rio Idaho. Kwuteg sabia o que seus amigos pensavam a respeito dele - até mesmo Siona. Sempre fora conhecido como um poupador. Mesmo quando criança ele reservava suas energias até o momento mais necessário, parcelando suas reservas como que por avareza.

A despeito do joelho ferido, Kwuteg acelerou o passo. Sabia que o rio estava próximo. O ferimento ultrapassara o limite da agonia, pulsando como uma chama que queimava toda a sua perna e o lado esquerdo do corpo. Conhecia os limites de sua resistência. Sabia também que Siona estava quase alcançando a água. O corredor mais rápido de todos, ela carregava o pacote fechado e nele as coisas que haviam roubado da fortaleza no Sareer. Kwuteg focalizou os pensamentos naquele embrulho enquanto corria.

"Salve-o, Siona! Use-o para destruí-lo!”

O ruído dos lobos D penetrou na consciência de Kwuteg. Eles estavam muito perto e ele agora sabia que não ia escapar.

"Mas Siona deve escapar!”

Arriscou uma olhada para trás e viu um dos lobos correndo para flanqueá-lo. O padrão de ataque imprimiu-se em sua consciência e, quando o lobo ao lado saltou, Kwuteg saltou também. Colocando uma árvore entre ele e a matilha, mergulhou por baixo do lobo do flanco e o agarrou por uma das pernas traseiras. Sem parar, segurando-o com ambas as mãos, ele girou o lobo cativo como um cajado que espalhou os outros. Descobrindo que a criatura não era tão pesada quanto esperava, e quase apreciando a mudança na ação, ele golpeou os atacantes com sua arma viva, num rodopio que derrubou dois deles com um quebrar de crânios. Infelizmente, não podia guardar-se por todos os lados. Um macho magro o atingiu pelas costas, lançando contra uma árvore e fazendo-o perder sua arma.

— Deus! — gritou ele.

A matilha o cercou e Kwuteg alcançou a garganta do lobo magro com seus dentes. Mordeu com cada grama de seu desespero final. O sangue do lobo esguichou em seu rosto, cegando.

Rolando sem ter qualquer noção de para onde ia, Kwuteg agarrou outro lobo. Parte da matilha se dissolveu numa turba, ganindo e rodopiando. Outra voltou-se contra os próprios companheiros feridos. Mas a maioria continuou sobre a vítima. Dentes rasgaram a garganta de Kwuteg de ambos os lados.

Siona também ouvira o grito de Ulot, e então o inconfundível silêncio, seguido pelos ganidos dos lobos que reassumiam a perseguição. Tamanho ódio a tomou que ela sentiu que poderia explodir. Ulot fora incluído nessa missão devido à sua habilidade analítica, sua capacidade para enxergar o todo a partir de umas poucas partes conhecidas. Fora Ulot que, tirando o indispensável ampliador de seu estojo, examinara os dois estranhos volumes que haviam encontrado com as plantas da Cidadela.

— Creio que é um código - dissera Ulot.

E Radi, pobre Radi, que fora o primeiro da equipe a morrer... Radi dissera:

— Não podemos nos permitir o peso extra. Jogue-os fora.

Ulot fora contra:

— Coisas sem importância não são ocultas desse modo.

Kwuteg se unira a Radi:

— Viemos em busca dos planos da Cidadela, e estamos com eles. Aquelas coisas são muito pesadas.

Mas Siona concordara com Ulot:

— Eu as carrego.

Isso terminara a discussão.

"Pobre Ulot.”

Todos sabiam que ele era o pior corredor da equipe. Ulot era lento na maioria das coisas, mas a clareza de sua mente não podia ser negada.

"Ele é confiável.”

Ulot fora confiável.

Siona controlou o ódio e usou sua energia para aumentar o passo. Árvores passavam como manchas à luz da lua. Havia penetrado no vazio sem tempo dos corredores, onde nada mais restava senão seus próprios movimentos, seu próprio corpo fazendo o que fora condicionado a fazer.

Os homens a achavam bonita quando corria, Siona sabia disso. Seu cabelo comprido era preso num coque para evitar que chicoteasse ao vento. Havia acusado Kwuteg de ser tolo quando ele se recusara a lhe copiar o estilo.

"Onde estará Kwuteg?”

Seu cabelo não era como o de Kwuteg. Tinha aquele castanho escuro que às vezes se confunde com o preto, mas que não é realmente preto, não como o de Kwuteg, de fato.

Na maneira como os genes ocasionalmente fazem, suas feições copiavam as de uma ancestral há muito tempo morta: rosto suavemente oval com boca generosa e olhos de alerta consciência acima do nariz pequeno. O corpo tornara-se magro pelos anos de corrida, mas ainda enviava fortes estímulos sexuais aos homens em torno dela.

"Onde estará Kwuteg?”

A matilha ficara em silêncio e isso a enchia de preocupação. Eles tinham feito isso antes de derrubar Randi. E fora o mesmo quando pegaram Setuse.

Disse a si mesma que o silêncio poderia significar outras coisas. Kwuteg também era silencioso e forte. O ferimento não parecera incomodá-lo muito.

Siona começou a sentir dor no peito, o final do fôlego, coisa que ela conhecia muito bem dos longos quilômetros de treinamento. O suor ainda se derramava em seu corpo, sob o fino traje de corrida. A mochila, com a preciosa carga fechada para a travessia do rio, encontrava-se bem presa em suas costas. Ela pensou nos planos da Cidadela ali dobrados.

"Onde será que Leto esconde sua reserva de especiaria?”

Tinha que ser em algum lugar dentro da Cidadela. Tinha que ser. Em algum lugar das plantas haveria um indício. A especiaria melange pela qual a Bene Gesserit, a Corporação e todos os outros tinham fome... esse era um preço que valia o risco.

E aqueles dois volumes cifrados. Kwuteg estivera certo em uma coisa: o papel de cristal riduliano era pesado. Mas ela compartilhara a excitação de Ulot. Alguma coisa importante estava oculta naquelas linhas em código.

Uma vez mais os ávidos ganidos de caça dos lobos soaram na floresta atrás dela.

"Corra, Kwuteg! Corra!”

Agora, bem diante dela, através das árvores, podia ver a larga faixa de clareira que bordejava o Rio Idaho. Vislumbrou o brilho da lua além da clareira.

"Corra, Kwuteg!”

Ansiava por ouvir um som da parte dele, qualquer som. Somente eles dois restavam agora, dos 11 que tinham iniciado a corrida. Nove haviam pago com suas vidas por essa aventura:

Radi, Aline, Ulot, Setuse, Inineg, Onemao, Hutye, Memar e Oala.

Siona pensou em seus nomes e por cada um deles enviou uma prece silenciosa aos velhos deuses, não ao tirano Leto. Em especial, rezou ao Shai-Hulud.

"Eu rezo ao Shai-Hulud que vive nas areias.

De repente saiu da floresta, encontrando-se no trecho de solo ceifado, brilhando ao luar. Bem adiante, além da estreita praia de seixos, a água chamava por ela. A praia parecia prateada contra o fluir oleoso.

Um grito alto, vindo de trás das árvores, quase a fez vacilar. Reconheceu a voz de Kwuteg acima dos sons selvagens dos lobos. Kwuteg gritando para ela sem mencionar o nome, um grito inconfundível com uma única palavra que resumia incontáveis conversas - uma mensagem de vida e morte.

— Corra!

Os sons da matilha transformaram-se numa terrível comoção, um frenesi de ganidos e rosnados, e nada mais se ouviu de Kwuteg. Sabia agora que ele gastara as últimas energias de sua vida.

"Retardando-os para me ajudar a escapar.”

Obedecendo ao grito de Kwuteg, ela disparou para a beira do rio e mergulhou de cabeça na água. O rio foi um choque enregelante depois do calor da corrida. Atordoou-a por um momento e ela se debateu para diante, lutando a fim de nadar e recuperar o fôlego. A mochila preciosa flutuava e batia na parte de trás de sua cabeça.

O rio Idaho não era largo naquele trecho, não tinha mais que 50 metros, fazendo uma curva suave, com um denteado de areia orlada de raízes e bancos luxuriantes de capim e juncos, onde a água se recusava a seguir as linhas retas projetadas pelos engenheiros de Leto. Siona sentiu-se mais forte ante o conhecimento de que os lobos D tinham sido condicionados para pararem na água. Suas fronteiras territoriais tinham sido traçadas, desse modo, o rio de um lado e a muralha do deserto do outro. Ainda assim, ela nadou os últimos metros sob a água e emergiu nas sombras de um banco, antes de se voltar e olhar para trás.

A matilha parara, enfileirando-se ao longo da margem - todos, exceto um, que descera até a beira do rio e se inclinava sobre as patas dianteiras quase dentro da correnteza. Ela o ouviu ganir.

Siona sabia que o lobo podia vê-la. Sem dúvida, os lobos D eram notáveis por seu agudo senso de visão. Eram localizadores na ancestralidade dos guardiões florestais de Leto, e ele os cruzava apurando o sentido da visão. Perguntou a si mesma se dessa vez os lobos quebrariam o condicionamento. Eles eram principalmente caçadores unidos. Se aquele na beira do rio entrasse na água, todos os outros poderiam segui-lo. Siona prendeu a respiração. Sentia a exaustão acumulada. Tinham atravessado quase 30 quilômetros, a metade disso com os lobos D nos calcanhares.

O lobo na beira do rio uivou e saltou de volta para se reunir aos companheiros. Ante algum sinal silencioso, eles se voltaram, retornando à floresta.

Siona sabia para onde iam. Os lobos D tinham permissão para comer qualquer coisa que abatessem na Floresta Proibida. Todos sabiam disso. Era o motivo pelo qual os lobos vagueavam na floresta - os guardiões do Sareer.

— Você pagará por isso, Leto — ela sussurrou. Era um som abafado, muito próximo do suave sussurro da água contra os juncos logo abaixo dela. — Você pagará por Ulot, por Kwuteg e por todos os outros. Você pagara.

Lançou-se para a frente com suavidade e flutuou na corrente até que seus pés encontraram a primeira praia estreita. Lentamente, arrastando o corpo fatigado, ela saiu da água e parou para verificar se os conteúdos fechados na mochila permaneciam secos. O selo não fora rompido. Ela olhou para aquilo por um momento, sob a luz do luar, então ergueu os olhos para a muralha da floresta do outro lado do rio.

"O preço foi pago. Dez amigos queridos.”

Lágrimas cintilaram em seus olhos, mas ela tinha a herança dos antigos Fremen e suas lágrimas foram poucas. A aventura através do rio, diretamente pela floresta, enquanto os lobos patrulhavam as fronteiras do norte, depois através do Último Deserto do Sareer e sobre as muralhas da Cidadela - tudo isso já assumia as nuanças de um sonho em sua mente... até mesmo a fuga dos lobos, que ela antecipara porque era certo que a matilha guardiã cruzaria a trilha dos invasores e estaria esperando... tudo um sonho. Era o passado.

"Eu escapei.”

Colocou o estojo na mochila fechada e a prendeu uma vez mais nas costas.

"Eu penetrei em suas defesas, Leto.”

Siona pensou então nos volumes cifrados. Tinha certeza de que alguma coisa oculta naquelas linhas em código abriria o caminho para a sua vingança.

"Eu vou destruí-lo, Leto!”

Não "nós o destruiremos!" Esse não era o caminho de Siona. Ela o faria sozinha.

Virou-se caminhando para os pomares além da margem ceifada do rio. Enquanto caminhava, repetia o juramento, acrescentando em voz alta o velho enunciado Fremen que terminava com seu nome completo:

— Siona Ibn Fuad al-Seyefa Atreides é quem o amaldiçoa, Leto. Você pagará por tudo!

 

O que se segue é uma tradução de Hadi Benotto dos volumes descobertos em Dar-es-Balat:

Eu nasci Leto Atreides II há mais de 3 mil anos padrão, medidos a partir do momento em que faço estas palavras serem impressas. Meu pai era Paul Muad'Dib. Minha mãe, sua consorte Fremen, Chani. Minha avó materna era Faroula, notável especialista em ervas entre os Fremen. Minha avó paterna foi Jessica, produto do projeto de procriação Bene Gesserit em sua busca por um elemento masculino capaz de compartilhar os poderes das Reverendas Madres da Irmandade. Meu avô materno foi Liet-Kynes, o planetólogo que organizou a transformação ecológica de Arrakis. Meu avô paterno foi O Atreides, descendente da casa de Atreus e possuidor de uma ancestralidade que recua diretamente até o original grego.

Basta dessas tolices!

Meu avô paterno morreu, como muitos bons gregos morreram, tentando matar seu inimigo mortal, o velho Barão Vladimir Harkonnen. Ambos agora repousam inconfortavelmente em minhas memórias ancestrais, e mesmo meu pai não está contente. Eu fiz o que ele temia fazer e agora sua sombra deve partilhar as conseqüências.

O Caminho Dourado o exige. E que é o Caminho Dourado?, você me pergunta.

É a sobrevivência da humanidade, nem mais, nem menos. Nós, que possuímos a presciência, que conhecemos as armadilhas em nossos futuros humanos, possuímos sempre essa responsabilidade.

Sobrevivência.

Como você se sente a respeito disso? Suas mesquinhas alegrias e mágoas, até mesmo seus enlevos e agonias, raramente nos preocupam. Meu pai tinha esse poder. Eu o possuo ainda mais forte. Nós podemos olhar, quando queremos, através dos véus do Tempo.

Este planeta Arrakis, a partir do qual dirijo meu Império multigaláctico, não é mais como era nos dias em que o conheciam como Duna. Naquele tempo o planeta inteiro era um deserto. Agora existe apenas um remanescente muito pequeno, o meu Sareer. O gigantesco verme da areia não vagueia mais livremente produzindo a especiaria melange. A especiaria! Duna era notado apenas como fonte da melange, a única fonte. Que substância extraordinária! Nenhum laboratório jamais foi capaz de reproduzi-la. E se trata da substância mais valiosa que a humanidade jamais encontrou.

Sem a melange para disparar a presciência linear dos Navegadores da Corporação, as pessoas só conseguem atravessar os parsecs a passo de tartaruga. Sem a melange, a Bene Gesserit não pode produzir Reveladoras da Verdade e Reverendas Madres. Sem as propriedades geriátricas da melange, as pessoas vivem e morrem de acordo com as escalas antigas: não mais que uns 100 anos de vida. Agora, a única especiaria existente é a que está guardada nos depósitos da Corporação e da Bene Gesserit, além de uns pequenos tesouros entre o que restou das Grandes Casas e do meu gigantesco depósito, que todos ambicionam. Como eles gostariam de poder me assaltar! Mas não se atrevem. Sabem que eu destruiria a todos antes de me render.

Não. Eles chegam aqui de chapéu na mão e esmolam por melange. Eu a forneço como recompensa e a nego como punição. E como eles me odeiam por isso.

Esse é o meu poder, eu lhes digo. E a minha dádiva.

Com ela eu criei a Paz. Eles desfrutaram de mais de 3 mil anos da Paz de Leto. Uma tranqüilidade imposta que a humanidade só conheceu por breves períodos antes da minha ascensão. E, caso tenham esquecido, estudem a Paz de Leto uma vez mais nestes meus diários.

Eu comecei estes registros no primeiro ano da minha administração, nos primeiros espasmos da minha metamorfose, quando era principalmente humano, até mesmo visivelmente humano. A pele da truta da areia que eu aceitei (e meu pai recusou) e que me deu uma força ampliada, além da virtual imunidade a ataques convencionais e ao envelhecimento - essa pele cobria uma forma ainda reconhecível como humana: duas pernas, dois braços, um rosto humano emoldurado nas dobras de pergaminho da pele de truta da areia.

Ah, aquele rosto! Ainda o possuo - a única pele humana que exponho ao universo. Todo o resto da minha carne permanece coberto pelos corpos unidos daqueles pequenos vetores da areia profunda que um dia poderão converter-se em gigantescos vermes da areia.

Algo que eles farão... algum dia.

Freqüentemente penso em minha metamorfose final, aquela semelhança de morte. Conheço o modo pelo qual ela virá, mas não conheço o momento nem os outros seres que dela tomarão parte. Essa é uma coisa que não posso saber. Só sei se o Caminho Dourado continua ou termina. E, enquanto faço com que estas palavras sejam registradas, o Caminho Dourado continua e, por isso, pelo menos, me sinto contente.

Não posso mais sentir os cílios da truta da areia sondando a minha carne, apreendendo a água do meu corpo dentro de suas barreiras placentárias. Somos virtualmente um corpo agora, elas são a minha pele e eu sou a força que as move como um todo... na maior parte do tempo.

Enquanto estou escrevendo isto, o todo pode ser considerado um tanto grosseiro. Meu corpo tem aproximadamente sete metros de comprimento e algo mais que dois metros de diâmetro, frisado na maior parte de sua extensão, com meu rosto Atreides posicionado na altura de um homem, em uma das extremidades.

Os braços e mãos (ainda bem reconhecíveis como humanos) vêm logo abaixo. As pernas e os pés? Bem, estes atrofiaram-se quase inteiramente. Apenas nadadeiras, é o que restou, e estas recuaram ao longo do meu corpo. Meu peso total é de aproximadamente cinco toneladas antigas. Acrescento esses detalhes porque agora sei que serão de interesse histórico.

Como faço para carregar comigo todo esse peso? Principalmente na minha Carreta Real, manufaturada pelos Ixianos. Estão chocados? As pessoas invariavelmente odeiam e temem os Ixianos ainda mais do que me temem ou odeiam. Melhor o diabo, vocês sabem. Pois quem sabe o que os Ixianos podem construir ou inventar? Quem sabe?

Eu decerto não sei. Não inteiramente.

Mas tenho certa simpatia pelos Ixianos. Eles acreditam tão fortemente em sua tecnologia, em sua ciência, em suas máquinas. E como acreditamos (não importa a razão), nos entendemos entre nós, os Ixianos e eu. Eles fizeram muitos engenhos para mim, e acreditam conquistar assim a minha gratidão. Estas próprias palavras que estão lendo são impressas por um artefato Ixiano, um ditadeiro, como é chamado. Se eu produzir meus pensamentos de modo adequado, o ditadeiro é ativado. Só faço pensar desta maneira e as palavras são impressas para mim em folhas de cristal riduliano com apenas uma molécula de espessura. Algumas vezes mando fazer cópias impressas num material de menor capacidade de permanência. Duas cópias desse tipo é que me foram roubadas por Siona.

Ela não é fascinante, a minha Siona? Na medida em que compreenderem sua importância para mim, vocês poderão indagar se eu realmente teria permitido que ela morresse lá na floresta. Não tenham dúvida quanto a isso. A morte é uma coisa muito pessoal, raramente interfiro com ela. Nunca no caso de alguém que deva ser testado, como é o caso de Siona. Eu a deixaria morrer em qualquer ocasião. Afinal, eu poderia produzir uma nova candidata em muito pouco tempo, da maneira como meço o tempo.

Mas até a mim ela fascina. Eu a observei lá na floresta. Observei-a através de meus engenhos Ixianos, e perguntando-me por que não previ essa aventura. Mas Siona é... Siona. Por isso não fiz qualquer movimento para deter os lobos. Estaria errado se o fizesse. Os lobos D não passam de uma extensão dos meus propósitos, e meus propósitos são os maiores predadores já conhecidos.

 

- Os diários de Leto II

 

O seguinte diálogo, de pouca extensão, é atribuído a um manuscrito chamado "O Fragmento de Welbeck". Aponta-se como autor Siona Atreides. Os participantes do diálogo são a própria Siona e seu pai, Moneo, que era (como todas as histórias revelam) majordomo e ajudante-chefe de Leto II. Data de uma época em que Siona ainda não atingira os 20 anos e estava sendo visitada pelo pai em seus alojamentos na Escola das Oradoras Peixes, na Cidade Festival de Onn, o maior centro populacional do planeta agora conhecido como Rakis. De acordo com os papéis de identificação do manuscrito, Moneo visitava sua filha em segredo para avisá-la de que se arriscava a ser destruída.

SIONA: Como sobreviveu com ele por tanto tempo, pai? Ele mata todos aqueles que se encontram perto dele. Todos sabem disso.

MONEO: Não! Você está errada. Ele não mata ninguém.

SIONA: Não precisa mentir a respeito dele.

MONEO: Eu não minto. Ele não mata ninguém.

SIONA: Então, como explica as mortes conhecidas?

MONEO: É o Verme que mata. O Verme é Deus. Leto vive no colo de Deus, mas ele não mata ninguém.

SIONA: Então, como você sobrevive?

MONEO: Eu sei reconhecer o Verme. Posso vê-lo em seu rosto e em seus movimentos. Sei quando o Shai-Hulud se aproxima.

SIONA: Ele não é o Shai-Hulud!

MONEO: Bem, essa era a maneira pela qual eles chamavam o Verme nos dias dos Fremen.

SIONA: Já li sobre isso. Mas ele não é o Deus do Deserto.

MONEO: Fique quieta, menina tola! Você não conhece nada sobre estas coisas.

SIONA: Sei que o senhor é um covarde.

MONEO: Quantas coisas você desconhece. Nunca se colocou lá, onde eu me coloco, e viu aquilo em seus olhos, nos movimentos de suas mãos.

SIONA: Que faz então quando o Verme se aproxima?

MONEO: Saio.

SIONA: Isso é prudente. Ele já matou nove Duncans Idahos, disso temos certeza.

MONEO: Eu lhe digo que ele não mata ninguém!

SIONA: E qual a diferença? Leto ou o Verme, eles são um só corpo agora.

MONEO: Mas são duas coisas distintas - Leto, o Imperador, e O Verme que é Deus.

SIONA: Você está louco!

MONEO: Talvez. Mas eu sirvo a Deus.

 

Eu sou o mais ardente observador de pessoas que já existiu. Eu as observo dentro de mim e do lado de fora. Passado e presente podem fundir-se em estranhas colocações dentro de mim. E enquanto a metamorfose continua em minha carne, coisas maravilhosas acontecem aos meus sentidos.

É como se eu visse tudo em dose. Tenho a audição extremamente aguda, assim como a visão, além de um olfato extraordinariamente sensível. Posso detectar e identificar feromônios a três partes por milhão. Eu sei, já testei isso. Você não pode esconder muita coisa dos meus sentidos. Creio que você ficaria horrorizado com o que posso detectar apenas pelo cheiro. Seus feromônios revelam-me o que você está fazendo ou se preparando para fazer. E gesto e postura! Certa vez fiquei olhando, durante metade de um dia, um velho sentado num banco em Arrakeen. Ele era um descendente de quinta geração de Stilgar, o Naib, e nem mesmo sabia disso. Observei o angulo do seu pescoço, as dobras da pele abaixo do queixo, os lábios rachados e a umidade em torno das narinas. Os poros atrás das orelhas e os fios de cabelo grisalho escapando por detrás do capuz de um antiquíssimo traje destilador. Nem uma vez ele detectou que estava sendo observado. Ah! Stilgar teria percebido num segundo ou dois. Mas esse velho estava apenas esperando por alguém que nunca chegou. Acabou por se levantar e sair. Estava muito rígido depois de todo aquele tempo sentado. Eu sabia que nunca mais o veria em carne e osso novamente. Ele estava muito perto da morte e sua água certamente seria desperdiçada. Bem, isso não importava mais.

 

- Os diários roubados

 

Leto pensava que fosse o lugar mais interessante de todo o universo, o lugar onde ele esperava a chegada de seu atual Duncan Idaho. Pela maioria dos padrões humanos, era um espaço gigantesco, o núcleo de uma intrincada série de catacumbas embaixo de sua Cidadela. Câmaras com 30 metros de altura e 20 de largura partiam como raios do eixo onde ele aguardava. Seu carro fora posicionado no centro de uma câmara circular abobadada, com 400 metros de diâmetro e 100 de altura no ponto mais elevado acima dele.

Ele achava essas dimensões tranquilizadoras.

Era início da tarde na Cidadela, mas a única luz na câmara vinha da disposição casual de alguns globos luminosos, presos a suspensores que flutuavam ajustados para um brilho laranja. A luz não penetrava muito longe dentro dos raios, mas as memórias de Leto lhe revelavam a posição exata de tudo que havia lá - a água, os ossos, a poeira de seus ancestrais e dos Atreides que haviam vivido e morrido desde os tempos de Duna. Todos eles se encontravam ali, ao lado de alguns recipientes de melange para criar a ilusão de que esse era todo o seu tesouro, se algum dia a situação chegasse a tal extremo.

Leto sabia por que o Duncan se aproximava. Idaho soubera que os Tleilaxu estavam fazendo outro Duncan, outro ghola criado segundo as especificações exigidas pelo Imperador-Deus. E este Duncan temia estar sendo substituído após quase 60 anos de serviço. Era sempre alguma coisa dessa natureza que iniciava a subversão dos Duncans. Um enviado da Corporação tinha aguardado Leto mais cedo para adverti-lo de que os Ixianos haviam entregue uma arma laser a esse Duncan.

Leto riu. A Corporação continuava extremamente sensível a qualquer coisa que pudesse ameaçar seu minguado suprimento de especiaria. Eles ficavam aterrorizados ao pensar que Leto constituía a última ligação com os vermes da areia, produtores dos suprimentos originais de melange.

"Se eu morrer longe da água, não haverá mais especiaria - nunca mais.”

Esse era o temor da Corporação. E seus historiadores-contabilistas asseguravam que Leto repousava sobre o maior suprimento de melange de todo o universo. Isso transformava os membros da Corporação em aliados quase confiáveis.

Enquanto aguardava, Leto executou, com os dedos e a mão, os exercícios de sua herança Bene Gesserit. As mãos eram seu orgulho. Debaixo da membrana cinzenta, da pele de truta da areia, seus longos dedos e polegares em oposição podiam ser usados como qualquer mão humana. Já as quase nadadeiras, que um dia haviam sido seus pés e suas pernas, eram mais uma inconveniência do que uma vergonha. Ele podia arrastar, rolar e lançar seu corpo com uma velocidade espantosa, mas algumas vezes caía sobre as nadadeiras, e então havia dor.

Que estaria retardando o Duncan?

Leto imaginava o homem vacilando, olhando de uma janela para o horizonte fluido do Sareer. O ar estava vivo com o calor do dia e, antes de descer à cripta, Leto vira uma miragem a sudoeste. O espelho do calor inclinara-se transmitindo uma imagem através da areia. Mostrara-lhe um bando de Fremen de Museu avançando diante de um Sietch de Exibição para instruir um grupo de turistas.

Era frio na cripta, sempre frio, a iluminação sempre reduzida. Os túneis que serviam de raios eram buracos escuros subindo e descendo em suaves gradientes para acomodarem a Carreta Real. Alguns túneis estendiam-se para além de falsas paredes através de muitos quilômetros. Passagens que Leto havia criado para si mesmo com ferramentas Ixianas - túneis de alimentação e caminhos secretos.

Enquanto antevia a próxima entrevista, um senso de nervosismo começou a crescer em Leto. Achou que essa era uma emoção interessante, que ele se acostumara a apreciar. Leto sabia que se tornara orgulhoso do atual Duncan e em si permanecia a esperança de que o homem sobrevivesse à próxima entrevista. Algumas vezes acontecia. Havia pouca probabilidade de que Duncan representasse uma ameaça mortal, embora isso devesse ser deixado ao acaso. Leto tentara explicar tal coisa a um dos primeiros Duncans... bem ali nessa mesma câmara.

— Você vai julgar estranho que eu, com os meus poderes, possa falar em sorte e acaso — Leto dissera.

O Duncan estava furioso.

— Você não deixa nada ao acaso. Eu o conheço!

— Que ingenuidade. A casualidade é a própria natureza do nosso universo.

— Não a casualidade! A discórdia. E você é o causador da discórdia!

— Excelente, Duncan. A discórdia é um grande prazer. E pelo modo como lidamos com a discórdia que afiamos nossa criatividade.

— Você não é nem mais humano! — Oh, como aquele Duncan estava furioso.

Leto achara tal acusação irritante, como um grão de areia no olho. Ele se agarrava aos vestígios de humanidade em sua personalidade com inegável rigidez, embora a irritação fosse o mais próximo que pudesse chegar da raiva.

— Sua vida está se tornando um clichê — acusou Leto.

Com isso o Duncan retirara um pequeno explosivo das dobras de seu manto. Que surpresa!

Leto adorava surpresas, mesmo perversas.

— Eis uma coisa que não previ! — disse ele para Duncan, que permanecia ali, estranhamente indeciso, agora que uma decisão lhe era absolutamente exigida.

— Isto poderia matá-lo — disse o Duncan.

— Sinto muito, Duncan. Causará um pequeno dano, não mais que isso.

— Mas disse que não previra isto! — A voz do Duncan tornara-se aguda.

— Duncan, Duncan, a previsão absoluta é que é igual à morte para mim. Como a morte é insuportavelmente aborrecida.

No último instante, o Duncan tentara atirar o explosivo para um lado, mas o material era muito instável e detonara cedo demais. O Duncan morrera. Ah, bem... os Tleilaxu sempre tinham outro em seus tanques axolotl.

Um dos globos luminosos acima de Leto começou a piscar. A excitação o dominou. Sinal de Moneo! O fiel Moneo alertando seu Imperador de que o Duncan estava descendo a cripta.

A porta do elevador humano, entre duas passagens no arco noroeste da câmara, se abriu. Duncan caminhou decidido, uma figura pequena na distância, mas os olhos de Leto discerniam até mesmo minúsculos detalhes — um amarrotado no cotovelo do uniforme, revelando que o homem estivera inclinado em algum lugar, com o queixo apoiado na mão. Sim, ainda havia marcas da mão no queixo. O odor do Duncan o precedeu: o homem estava saturado da própria adrenalina.

Leto permaneceu silencioso enquanto o Duncan se aproximava, observando detalhes. Esse Duncan ainda caminhava com o passo de um jovem, apesar de seu longo tempo de serviço. Ele podia agradecer por isso a uma pequena ingestão de melange. O homem usava o velho uniforme dos Atreides, preto com o falcão dourado do lado esquerdo do peito. Uma declaração interessante esta:

— Eu sirvo à honra dos velhos Atreides!

Seu cabelo ainda era um gorro negro de karakul, as feições fixas numa agudeza de rocha, com maçãs do rosto salientes.

"Os Tleilaxu criam bem os seus gholas", pensou Leto.

O Duncan carregava uma pequena valise de fibra marrom escura trançada, uma que ele carregara por muitos anos. Geralmente continha o material no qual ele baseava seus relatórios, mas hoje ela se avolumava com alguma carga mais pesada.

"A arma laser Ixiana.”

Idaho mantinha sua atenção no rosto de Leto enquanto caminhava. O rosto permanecia desconcertadoramente Atreides, feições esguias com olhos de um azul total, que os mais nervosos tomavam como uma intrusão física. Eles observavam bem de dentro do capuz cinzento de truta da areia que, Idaho sabia, podia desenrolar-se para a frente, protetoramente, num tremulante reflexo - um piscar do rosto em vez de um piscar de olhos. A pele era rosada dentro de sua moldura cinzenta. Era difícil evitar o pensamento de que o rosto de Leto era uma obscenidade, um fragmento perdido de humanidade preso dentro de alguma coisa totalmente alienígena.

Parando a apenas seis passos da Carreta Real, Idaho não tentou esconder sua furiosa determinação. Nem mesmo pensava se Leto sabia a respeito da arma laser. Esse Império se afastara em demasia da velha moralidade Atreides, tornara-se uma crença cega e impessoal que esmagava os inocentes em seu caminho. Tinha de acabar!

— Eu vim para lhe falar a respeito de Siona e de outras questões - disse Idaho. Colocou a valise numa posição em que pudesse tirar a arma laser com facilidade.

— Muito bem — a voz de Leto estava cheia de tédio.

— Siona foi a única que escapou, mas ela ainda possui uma base de companheiros rebeldes.

— Acha que não sei disso?

— Conheço sua perigosa tolerância para com os rebeldes! O que não conheço é o conteúdo daquele embrulho que ela roubou.

— Oh, isto. Ela tem as plantas completas da Cidadela.

Por apenas um instante, Idaho era o Comandante da Guarda de Leto, profundamente chocado com semelhante quebra na segurança.

— E você a deixou escapar com isso?

— Não, foi você.

Idaho estremeceu com essa acusação. Lentamente, o assassino recentemente decidido que agora havia nele recuperou sua predominância.

— É tudo que ela conseguiu? —  perguntou Idaho.

— Eu tinha dois volumes, cópias do meu diário, com as plantas. Ela roubou as cópias.

Idaho observou a face imóvel de Leto.

— O que havia nesses registros? Às vezes você diz que é um diário, às vezes que é uma história.

— Um pouco de ambos. Você poderia mesmo dizer que é um manual.

— Incomoda-lhe que ela se tenha apoderado desses volumes?

Leto permitiu-se um suave sorriso que Idaho aceitou como resposta negativa. Uma tensão momentânea ondulou através do corpo de Leto enquanto Idaho levava a mão à delgada pasta. Que seria: a arma ou os relatórios? Embora o núcleo do seu corpo possuísse uma poderosa resistência ao calor, Leto sabia que parte de sua carne era vulnerável a pistolas laser, especialmente o rosto.

Idaho tirou um relatório da valise e, antes mesmo de começar a leitura, os indícios já eram óbvios para Leto. Idaho estava buscando respostas, não fornecendo informações. Desejava obter uma justificativa para um curso de ação que já escolhera.

— Nós descobrimos um Culto de Alia em Giedi Prime — disse Idaho.

Leto permaneceu em silêncio enquanto Idaho contava os detalhes. "Que coisa chata." Deixou que os pensamentos vagueassem. Os adoradores de sua tia, há muito morta, só serviam nesses dias para provocarem um divertimento ocasional. Os Duncans, previsivelmente, viam tal atividade como uma espécie de ameaça subterrânea.

Idaho terminou a leitura. Seus agentes eram minuciosos, não havia como negar isso. Aborrecidamente minuciosos.

— Isso nada mais é que um ressurgimento de Isis — disse Leto. — Meus sacerdotes e sacerdotisas terão um bom passatempo suprimindo esse culto e seus seguidores.

Idaho sacudiu a cabeça como se respondesse a uma voz interior.

— A Bene Gesserit sabia a respeito desse culto — disse ele.

Isso interessava a Leto.

— A Irmandade nunca me perdoou por lhe tomar seu programa de procriação.

Leto escondeu seu ligeiro divertimento. Os Duncans eram sempre muito sensíveis às questões de procriação, embora alguns deles, ocasionalmente, ficassem disponíveis como reprodutores.

— Percebo — disse Leto. — Bem, as Bene Gesserit são todas mais do que levemente insanas, mas a loucura representa um caótico reservatório de surpresas. E algumas surpresas podem ser valiosas.

— Não consigo ver algum valor nisso.

— Acha que a Irmandade estava por trás do culto? — indagou Leto.

— Acho.

— Explique.

— Eles possuíam um templo. E o chamavam Santuário da Faca Cristalina.

— É mesmo?

— E sua principal sacerdotisa era chamada “A Guardiã da Luz de Jessica." Isso lhe sugere alguma coisa?

— É adorável! — Leto não ocultou seu divertimento.

— Que há de adorável nisso?

— Eles unem minha avó e minha tia em uma única deusa.

Idaho sacudiu a cabeça de um lado para o outro, sem compreender.

Leto permitiu-se uma pequena pausa interior, menos que o tempo de um piscar de olho. Sua avó dentro dele não apreciava particularmente esse culto de Giedi Prime. Ele precisou bloquear as memórias e suprimir-lhe a identidade.

— Que supõe que fosse o propósito desse culto? — indagou Leto.

— Óbvio. Uma religião rival para minar sua autoridade.

— Isso é simples demais. Sejam o que forem, as Bene Gesserits não são patetas.

Idaho aguardou uma explicação.

— Elas querem mais especiaria! —  exclamou Leto. — Mais Reverendas Madres.

— Assim, elas o aborrecem até que pague o preço que elas pedem?

— Estou desapontado com você, Duncan.

Idaho meramente olhou para Leto, que conseguiu produzir um suspiro, um gesto complicado, não mais intrínseco à sua nova forma. Os Duncans eram normalmente brilhantes, mas Leto calculou que a trama em que este se envolvera lhe afetara a percepção.

— Eles escolheram Giedi Prime como seu lar. Que é que isso lhe sugere? — perguntou Leto.

— Era uma fortaleza dos Harkonnen, mas isso é história antiga.

— Sua irmã morreu lá, vítima dos Harkonnen. É correto que os Harkonnen e Giedi Prime estejam unidos em seus pensamentos. Por que não mencionou isso antes?

— Não pensava que fosse importante.

Leto comprimiu a boca em uma linha estreita. A referência à irmã tinha perturbado Duncan. O homem sabia intelectualmente ser apenas o último de uma longa linhagem de renascidos, produtos dos tanques axlotl dos Tleilaxu e retirados das células originais que lá se encontravam. O Duncan não podia escapar de suas memórias recuperadas. Sabia que os Atreides o tinham salvo da escravidão dos Harkonnen.

"E seja lá o que eu for", pensou Leto, "ainda sou Atreides".

— Que está tentando dizer? —  exigiu Idaho.

Leto concluiu que era necessário um grito. E alto.

— Os Harkonnen eram acumuladores de especiaria!

Idaho recuou um passo.

Leto continuou em voz baixa:

— Existe um depósito de melange não-descoberto em Giedi Prime. E a Irmandade estava tentando descobri-lo, usando seus truques religiosos como cobertura.

Idaho estava envergonhado. Uma vez dita, a resposta parecia óbvia.

"E eu deixei de percebê-la", pensou.

O grito de Leto lançara-o novamente em seu papel de Comandante da Guarda Real. Idaho conhecia tudo a respeito da economia do Império, simplificada ao extremo: taxas de juros proibidas, dinheiro controlado. A única moeda exibia uma reprodução da face envolta de Leto: o Imperador-Deus. Mas tudo se baseava na especiaria, uma substância que, embora de valor enorme, continuava decrescendo em quantidade. Um homem podia carregar o preço de um planeta inteiro em sua bagagem de mão.

"Controle a cunhagem e as cortes. Deixe que a ralé possua o resto", pensou Leto. O velho Jacob Broom dissera isso, e Leto podia ouvir o velho rindo em seu interior. "As coisas não mudaram muito, Jacob.”

Idaho respirou fundo.

— O Bureau da Fé devia ser notificado imediatamente.

Leto permaneceu em silêncio.

Tomando isso como um indício para que continuasse, Idaho prosseguiu com seus relatórios, mas Leto ouvia com apenas uma fração de sua consciência. Era como um circuito de monitoração que apenas registrava as palavras de Idaho e suas ações, permitindo uma intensificação ocasional para um comentário interior.

E agora ele desejava falar a respeito dos Tleilaxu.

"Esse terreno é perigoso para você, Duncan.”

Mas abria uma nova linha para as reflexões de Leto.

"Os matreiros Tleilaxu ainda produzem meus Duncans a partir das células originais. Fazem uma coisa religiosamente proibida, tanto eles como eu sabemos disso. Eu não permito a manipulação artificial da genética humana. Mas os Tleilaxu aprenderam que eu aprecio os Duncans como Comandantes da minha Guarda. Não creio que eles apreciem o valor disso como divertimento. Diverte-me que o rio agora ostentando o nome de Idaho fosse certa vez uma montanha. Essa montanha não mais existe. Nós a demolimos a fim de obter material para as elevadas muralhas que envolvem meu Sareer.

"É claro que os Tleilaxu agora sabem que ocasionalmente utilizo os Duncans em meu próprio programa de procriação controlada. Os Duncans representam a força do mestiço...e muito mais. Cada fogo deve ter sua maneira de abafar.

"Era minha intenção unir este com Siona para fins de procriação, mas talvez isso não seja mais possível agora.”

"Ah! Ele quer que eu castigue severamente os Tleilaxu. Por que não pergunta diretamente? 'Está se preparando para me substituir?' "Sinto-me tentado a lhe dizer.”

Uma vez mais, a mão de Idaho entrou na bolsa. A introspecção monitorante de Leto não perdeu o movimento.

"A arma laser ou mais relatórios? São mais relatórios.”

"Este Duncan permanece cuidadoso. Não apenas quer ter certeza de que sou ignorante quanto à sua intenção, mas também quer mais provas de que sou indigno de sua lealdade. Fica hesitando por muito tempo. Sempre foi assim. Já lhe disse vezes sem conta que não usarei minha presciência para predizer o momento de minha saída desta antiga forma. Mas ele tem dúvidas. Sempre duvidou.”

"Esta câmara cavernosa engole a sua voz e, não fosse por minha sensibilidade, a umidade aqui existente bloquearia a evidência química de seus temores. Eu reduzo sua voz para fora da consciência imediata. Que chato se tornou este Duncan. Ele está recontando a história, a história da rebelião de Siona, sem dúvida para chegar a repreensões pessoais quanto à última escapada.”

“— Não se trata de uma rebelião ordinária — ele diz. "Tolo. Isso me leva de volta! Todas as rebeliões são ordinárias e de um tédio definitivo. É como se fossem copiadas de um mesmo padrão, uma igual à outra. Sua força impulsionadora é o vício da adrenalina e o desejo de obter poder pessoal. Todos os rebeldes são aristocratas de gabinete. É por isso que consigo convertê-los tão facilmente.”

"Por que os Duncans nunca me escutam realmente quando lhes falo a respeito disso? Já tive essa discussão com este mesmo Duncan. Foi um dos nossos primeiros desentendimentos e o tivemos aqui mesmo nesta cripta.”

"— A arte de governar exige que você nunca ceda a iniciativa aos elementos radicais — ele diz.”

"Que pedante. Radicais surgem a cada nova geração, e não se deve tentar evitar isso. Isso é o que ele quer dizer com 'ceder-lhes a iniciativa'. Ele deseja esmagá-los, suprimi-los, controlá-los, evitá-los. Ele é a prova viva de que existe pouca diferença entre a mente militar e a mente policial.”

"E eu lhe disse:

"— Os radicais só devem ser temidos quando se tenta suprimi-los. Você deve demonstrar-lhes que está disposto a utilizar o que de melhor eles possam oferecer.”

"— Eles são perigosos. Eles são perigosos! — Ele acha que repetindo isso pode criar alguma verdade. Lentamente, passo a passo, eu o levo através da minha concepção e ele chega mesmo a dar a impressão de estar ouvindo.”

"— Esta é a fraqueza deles, Duncan. Os radicais sempre vêem as questões em termos muito simples: preto e branco, bom e mal, eles e nós. E, ao abordarem questões complexas desse modo, abrem caminho para o caos. E a arte de governar, como você a chama, consiste no domínio do caos.

"— Ninguém pode lidar com todas as surpresas.

"— Surpresa? E quem está falando em surpresa? O caos não é surpresa. Ele possui suas características previsíveis. Por um motivo: ele afasta a ordem e reforça as forças que são opostas. Os extremos.

"Não é isso o que os radicais estão tentando fazer? Não estão tentando sacudir as coisas de modo a que possam assumir o controle?”

"— Isso é o que eles pensam que estão fazendo. Na verdade, estão criando novos extremistas, novos radicais e continuando um velho processo.

"— E que me diz de um radical que perceba as complexidades e venha a você desse modo?”

"— Esse não seria um radical. Seria um rival pela liderança.”

"— Mas o que você faz?”

"— Você entra em sociedade com ele ou então o mata. Foi assim que a luta pela liderança começou, em nível de grunhidos.”

"— Sim, mas e no caso de um messias?”

"— Como meu pai?”

"O Duncan não aprecia essa pergunta. Sabe que, de um modo muito especial, eu sou meu pai. Percebe que eu posso falar com a voz e a persona de meu pai, que as memórias são precisas, não-censuradas e inescapáveis.”

"Relutantemente, ele diz:”

"— Bem... se quer colocar assim.”

"— Duncan, eu sou todos eles e eu sei. Nunca houve um rebelde verdadeiramente abnegado por sua causa, apenas hipócritas - hipócritas conscientes ou inconscientes, dá tudo no mesmo.”

"Isso sacode um pequeno ninho de marimbondos entre minhas memórias ancestrais. Alguns deles jamais cederam na crença de que eles, e somente eles, possuíam a chave para solucionar todos os problemas da humanidade. Bem, nisso eram como eu. Posso concordar com eles mesmo quando lhes digo que o fracasso é a melhor prova.”

"Sou forçado a bloqueá-los, contudo. Não há sentido em me alongar entre eles. Não passam agora de lembranças sentimentais... enquanto este Duncan se coloca diante de mim com uma pistola laser.”

"Grandes Deuses! Ele me pegou distraído e está com a arma na mão, apontada para o meu rosto.”

— Você, Duncan? Até você me traiu?

"Até tu, Brutus?”

Cada fibra de consciência de Leto tornou-se totalmente alerta. Ele podia sentir seu corpo se contraindo. A carne de verme tinha vontade própria.

Idaho falou com escárnio.

— Diga-me, Leto, quantas vezes devo pagar o preço da lealdade?

Leto reconheceu a pergunta implícita: "Quantos de mim já houve?" Os Duncans sempre queriam saber isso. Cada Duncan fazia essa pergunta e nenhuma resposta lhe satisfazia. Eles duvidavam.

Em sua voz mais triste de Muad'Dib, Leto perguntou:

— Você não se orgulha de minha admiração, Duncan? Nunca se perguntou o que é que me faz desejá-lo como meu companheiro constante através dos séculos?

— Você sabe que sou o derradeiro tolo!

— Duncan!

A voz de um Muad'Dib furioso sempre conseguia desarmar Idaho. A despeito do fato de ele saber que nenhuma Bene Gesserit jamais dominara os poderes da Voz como Leto os dominara, era previsível que dançasse ao comando dessa voz. A arma laser tremulou em sua mão.

Foi o suficiente. Leto estava rolando para fora do carro e Idaho nunca o tinha visto mover-se desse modo. Nem mesmo suspeitara de que tal coisa pudesse acontecer. Para Leto, só eram necessárias duas coisas: uma ameaça real que o corpo de verme pudesse sentir e uma liberação desse corpo. O resto era automático, e a velocidade com que acontecia sempre assombrava o próprio Leto.

A arma laser era sua maior preocupação. Ela podia arranhá-lo bastante, mas poucos entendiam a capacidade de um corpo pré-verme para enfrentar o calor.

Leto atingiu Idaho enquanto rolava e a arma laser foi desviada ao disparar. Uma das inúteis nadadeiras que tinham sido as pernas e os pés de Leto enviou-lhe uma chocante descarga de sensações, golpeando-lhe a consciência. Por um instante, havia apenas dor. Mas o corpo de verme ficou livre para agir e os reflexos dispararam um violento paroxismo de espasmos. Leto ouviu o som de ossos quebrando-se e a arma laser foi atirada longe através do piso da cripta por um movimento descontrolado da mão de Idaho.

Rolando de cima de Idaho, Leto preparou-se para um novo ataque, mas já não havia necessidade. A nadadeira ferida ainda transmitia sinais de dor e ele sentiu que a ponta fora destruída. A pele de truta da areia já selara o ferimento e a dor diminuía para uma sensação latejante.

Idaho se mexeu. Era praticamente certo que fora mortalmente ferido. Seu peito parecia visivelmente esmagado. Havia uma agonia evidente quando ele tentava respirar, mas ainda assim abriu os olhos e fitou Leto.

"A persistência dessas possessões mortais!", pensou Leto.

— Siona — ofegou Idaho.

E Leto viu a vida abandoná-lo.

"Interessante", pensou. "Será possível que este Duncan e Siona... Não! Este Duncan sempre revelou um verdadeiro desdém pela insensatez de Siona.”

Leto subiu de volta à Carreta Real. Dessa vez fora por pouco. Havia pouca dúvida de que o Duncan estivera apontando para o cérebro. Leto sempre fora consciente de que suas mãos e seus pés eram vulneráveis, mas não permitira a ninguém saber que aquilo que um dia fora o seu cérebro não se encontrava mais associado ao rosto. Nem mesmo havia um cérebro de dimensões humanas, e sim dispersas agregações nodulares através de seu corpo. Não revelara tal coisa a ninguém, exceto a seus diários.

 

Oh, os panoramas que eu já vi! E as pessoas! As longínquas peregrinações dos Fremen e todo o resto. Até mesmo os antigos mitos da Terra. Oh, as lições de astronomia e intriga, as migrações, os vôos desordenados, as corridas de doer as pernas e os pulmões através de todos aqueles pontos do cosmo onde defendemos nossas possessões passageiras. Eu lhes digo que somos uma maravilha e minhas memórias não deixam dúvida a esse respeito.

 

- Os diários roubados

 

A mulher trabalhando na pequena escrivaninha de parede era muito grande para a cadeira estreita na qual se empoleirava. Fora dali era o meio da manhã, mas na câmara sem janelas, enterrada profundamente embaixo da cidade de Onn, havia apenas um globo luminoso colocado num canto, ao alto. Fora regulado para uma luz amarela cálida, mas a luz não conseguia compensar o cinzento utilitarismo da pequena sala. Paredes e teto eram cobertos com painéis retangulares, idênticos, de monótono metal cinzento.

Havia apenas uma outra peça de mobília: um estreito catre coberto por um cobertor cinzento. Era óbvio que nenhuma das duas peças de mobiliário tinham sido projetadas para aquela ocupante.

A mulher usava uma espécie de pijama azul-escuro de uma única peça que se esticava sobre os ombros largos enquanto ela se curvava sobre a escrivaninha. A luz do globo luminoso refletia-se no cabelo louro cortado curto e sobre o lado direito da face, enfatizando o queixo quadrado. Este movia-se com palavras silenciosas enquanto dedos grossos pressionavam cuidadosamente as teclas de um fino teclado sobre a mesa. Ela tratava com deferência uma máquina que primeiro lhe produzira assombro e depois uma excitação temerosa. Uma longa familiaridade ainda não conseguira eliminar qualquer das duas emoções.

Enquanto ela escrevia, as palavras iam aparecendo em uma tela oculta dentro do retângulo de parede, exposto pela escrivaninha ao se curvar para baixo.

"Siona continua seguindo um curso de ação que prevê violento ataque à Sua Sagrada Pessoa", ela escreveu. "Siona continua inabalável em seu declarado propósito. Ela me disse hoje que pretende entregar cópias de seus livros roubados a grupos cuja lealdade à Sua Pessoa não pode ser assegurada. Os beneficiários citados são a Bene Gesserit, a Corporação e os Ixianos. Ela diz que os livros contêm suas palavras cifradas e que com esse presente pretende ajudar na tradução de Suas Sagradas Palavras.

"Senhor, não sei que grandes revelações podem estar ocultas naquelas páginas, mas se elas contêm alguma coisa que ameace a Sua Sagrada Pessoa eu lhe suplico que me liberte do meu voto de obediência a Siona. Não compreendo por que o Senhor me fez tomar esse voto, e o temo.”

"Permaneço Sua serva fiel, Nayla.”

A cadeira estalou quando Nayla se reclinou para trás, pensando em suas palavras. O aposento mergulhou no isolamento quase desprovido de sons produzido pelo poderoso revestimento. Havia apenas a suave respiração de Nayla e um distante pulsar de maquinaria, sentido mais no piso do que no ar.

Nayla fitava a mensagem na tela. Destinada apenas aos olhos do Imperador-Deus, ela exigia mais do que uma sagrada sinceridade. Exigia uma candura profunda que Nayla achava exaustiva. Daí a pouco ela assentiu para si mesma e pressionou a chave codificadora das palavras, preparando-as para a transmissão. Curvando a cabeça, orou em silêncio antes de ocultar a escrivaninha dentro da parede. Essas ações, ela sabia, transmitiriam a mensagem. O próprio Deus tinha implantado um engenho físico dentro de sua cabeça, fazendo com que ela jurasse manter segredo e avisando-a de que poderia chegar a ocasião em que precisasse falar com ela através daquela coisa dentro do seu crânio. Nunca o fizera, mas Nayla suspeitava de que os Ixianos tinham construído o engenho. Aquilo tinha algo do jeito deles. Mas o próprio Deus fizera aquela coisa e portanto ela podia ignorar a suspeita de que houvesse um computador dentro dela, que aquilo pudesse ser algo proibido pela Grande Convenção.

"Não farás engenhos à semelhança da mente humana!”

Nayla estremeceu. Levantou-se, então, empurrando a cadeira para sua posição normal ao lado do catre. Seu corpo pesado e musculoso pressionou o fino traje azul. Ela transmitia um aspecto de deliberação contínua, suas ações eram as de alguém que se ajustava constantemente a uma grande força física. Voltou-se para a cama e estudou o local onde estivera a escrivaninha. agora havia apenas um painel cinzento e retangular, como os outros. Nenhum fiapo de tecido, nenhum fio de cabelo, nada ficara preso que pudesse revelar o segredo do painel.

Nayla respirou de modo profundo, restaurador, e saiu pela única porta do aposento para uma passagem cinzenta, fracamente iluminada por globos brancos amplamente espaçados. Os sons das máquinas eram mais altos ali. Virou para a esquerda e minutos depois estava com Siona numa câmara um pouco maior. No centro havia uma mesa onde as coisas roubadas da Cidadela tinham sido expostas. Dois globos luminosos prateados iluminavam a cena: Siona sentada à mesa com um assistente chamado Topri de pé ao lado dela.

Nayla nutria uma admiração relutante por Siona, mas Topri era um homem pelo qual não se podia sentir coisa alguma, exceto aversão. Era um sujeito gordo e nervoso, com olhos verdes esbugalhados, nariz chato e lábios finos acima de um queixo encovado. Topri guinchava ao falar.

— Olhe aqui, Nayla! Olhe o que Siona encontrou espremido entre as páginas destes dois livros.

Nayla fechou e trancou a única porta da câmara.

— Você fala demais, Topri —  advertiu Nayla. — Você é um tagarela. Como podia saber que eu estava sozinha naquela passagem?

Topri empalideceu e uma careta furiosa moldou-se em sua face.

— Temo que ela esteja certa —  disse Siona. — Que lhe fez pensar que eu desejava que Nayla conhecesse a respeito de minha descoberta?

— Você lhe confia tudo!

Siona voltou sua atenção para Nayla.

— Sabe por que eu confio em você, Nayla? — A pergunta foi feita numa voz destituída de qualquer emoção.

Nayla dominou um súbito temor. Teria Siona descoberto o segredo?

"Terei falhado ante meu Senhor?”

— Não tem nenhuma resposta para a minha pergunta? — indagou novamente Siona.

— Ter-lhe-ei dado motivos para pensar de outro modo? — perguntou Nayla.

— Isso não é causa suficiente para a confiança — disse Siona.

— Não existe uma coisa como a perfeição... não nos seres humanos ou nas máquinas.

— Então, por que confia em mim?

— Suas palavras e suas ações estão sempre em concordância. E essa é uma coisa maravilhosa. Por exemplo, você não gosta de Topri e nunca tentou esconder isso.

Nayla olhou para Topri, que pigarreou.

— Não confio nele — disse Nayla.

As palavras surgiram em sua mente e saíram sem reflexão. Só depois de falar foi que Nayla percebeu o verdadeiro núcleo de sua aversão: Topri trairia qualquer um em troca de ganho pessoal.

"Será que ela descobriu tudo a meu respeito?”

Ainda carrancudo, Topri disse:

— Não vou ficar aqui e aceitar suas ofensas. — Fez menção de sair, mas Siona ergueu a mão para contê-lo. Topri hesitou.

— Embora falemos com as velhas palavras dos Fremen e juremos nossa lealdade um ao outro, não é isso que nos mantém unidos — disse Siona. — Tudo é baseado no desempenho. Isso é tudo o que eu levo em consideração. Vocês dois estão entendendo?

Topri assentiu automaticamente, mas Nayla sacudiu a cabeça de um lado para o outro.

Siona sorriu para ela.

— Nem sempre você concorda com minhas decisões, não é, Nayla?

— Não — a resposta saiu forçada.

— E nunca tentou esconder sua discordância, mas ainda assim sempre me obedece. Por quê?

— Foi isso que jurei fazer.

— Mas eu tenho dito que isso não é suficiente.

Nayla sabia que estava transpirando, sabia que isso era revelador, mas não podia se mover. "Que devo fazer? Jurei a Deus que obedeceria Siona, mas não lhe posso dizer isso.”

— Deve responder a minha pergunta — insistiu Siona. — Eu lhe ordeno.

Nayla prendeu a respiração. Esse era o dilema que mais temia. Não havia maneira de escapar. Ela entoou uma prece silenciosa e falou em voz baixa.

— Jurei a Deus que lhe obedeceria.

Siona bateu as mãos de alegria e riu.

— Eu sabia disso!

Topri riu.

— Cale-se — ralhou Siona. —  Estou tentando ensinar uma lição a você. Você não acredita em nada. Nem mesmo em si próprio.

— Mas eu...

— Fique calado, já disse! Nayla crê. Eu acredito. Isso é o que nos une. A fé!

Topri estava abismado.

— Fé? Você acredita no...

— Não no Imperador-Deus, seu idiota! Nós acreditamos que um poder superior pedirá contas ao verme tirano. E nós somos esse poder superior.

Nayla respirou, trêmula.

— Está tudo em ordem, Nayla. Não me importa de onde você tira a sua força, desde que tenha fé.

Nayla conseguiu sorrir, o sorriso se ampliou. Nunca mais fora tocada pela sabedoria de seu Senhor. "Eu posso falar a verdade e ela só funciona para o Meu Deus!”

— Deixem-me mostrar-lhes o que encontrei nestes livros — disse Siona, indicando com um gesto algumas folhas de papel sobre a mesa. — Espremidas entre as páginas.

Nayla deu a volta à mesa e olhou para as folhas.

— Primeiro, temos isto.

Siona ergueu um objeto em que Nayla não tinha reparado. Era um fio fino de alguma coisa... e o que parecia ser uma.

— Uma flor? — indagou Nayla.

— Isso se encontrava entre duas páginas e nas páginas estava escrito isto.

Siona inclinou-se sobre a mesa e leu:

— Um fio do cabelo de Ghanima com uma flor-estrela que certa vez ela trouxe para mim.

Olhando para Nayla, Siona disse:

— Nosso Imperador-Deus se revela um sentimental. Essa é uma fraqueza que eu não esperava.

— Ghanima? — indagou Nayla.

— A irmã dele! Esqueceu sua História Oral.

— Oh, sim... A Prece para Ghanima.

— Agora escutem isto. — Siona pegou outra folha de papel e leu o que havia nela:

"Uma praia de areia tão cinzenta quanto uma face morta A maré verde reflete a ondulação das nuvens, Eu me coloco na borda escura e úmida.

E a espuma fria limpa meus dedos.

Sinto o cheiro dos fumos da madeira.”

Novamente Siona ergueu os olhos para Nayla.

— Isso é identificado como: "Palavras que escrevi quando me falaram da morte de Ghanima." Que vocês acham disso?

— Ele... ele amava a irmã.

— Sim! Ele é capaz de amar. Oh, sim! Agora ele é meu!

 

Algumas vezes eu me entrego a expedições que nenhum outro ser pode realizar. Mergulho interiormente através do eixo de minhas memórias. Como uma criança de escola contando uma viagem de férias, escolho o assunto. Vamos ver... mulheres intelectuais! Busco atrás no tempo através do oceano de minha ancestralidade. Sou como um grande peixe alado nas profundezas. A boca de minha consciência se abre e eu as engulo! Algumas vezes... algumas vezes caço pessoas específicas registradas em nossas histórias. Que alegria íntima é reviver a vida de alguém enquanto zombo das suas pretensões acadêmicas.

 

- Os diários roubados

 

Moneo desceu a cripta com uma triste resignação. Não havia meio de escapar aos deveres que agora lhe eram exigidos. O Imperador-Deus exigia um pequeno espaço de tempo para lamentar a perda de outro Duncan... mas a vida continuava... e continuava e continuava...

O elevador escorregou suavemente para baixo em sua soberba confiabilidade Ixiana. Uma vez, só uma vez, o Imperador-Deus havia gritado para seu majordomo:

— Moneo! Às vezes eu penso que você foi feito pelos Ixianos!

Moneo sentiu o elevador parar. A porta se abriu e ele olhou através da cripta para o volume sombrio da Carreta Real. Não havia qualquer indicação de que Leto tivesse reparado em sua chegada. Moneo suspirou começando a longa caminhada através da sala cheia de ecos. Havia um corpo no chão perto da Carreta. Nada de déja vu. A coisa era meramente familiar.

Uma vez, nos primeiros dias de serviço de Moneo, Leto dissera:

— Você não gosta deste lugar, Moneo. Posso ver isso.

— Não, Senhor.

Com apenas uma pequena sondagem de memória, Moneo pôde ouvir sua própria voz naquele passado tolo. E a voz do Imperador-Deus respondendo.

— Você não pensa num mausoléu como um lugar confortador, Moneo. Eu o vejo como uma fonte de força infinita.

Moneo relembrou-se de que ficara ansioso para mudar de assunto.

— Sim, meu Senhor.

Mas Leto insistira.

— Existem apenas alguns de meus ancestrais aqui. A água do Muad'Dib está aqui. Ghani e Harq al-Ada estão aqui, é claro, mas eles não são meus ancestrais. Não, se existe realmente alguma verdadeira cripta de meus ancestrais, eu sou essa cripta. Esta é principalmente para os Duncans e para os produtos do meu programa de procriação. Você virá para cá algum dia.

Moneo percebeu que tais recordações haviam retardado seu passo. Suspirou e andou um pouco mais depressa. Leto podia ser violentamente impaciente em certas ocasiões, mas ainda não emitia qualquer sinal. Moneo não considerou tal coisa como indício de que sua aproximação não estivesse sendo observada.

Leto encontrava-se com os olhos fechados e apenas seus demais sentidos registravam o avanço de Moneo através da cripta. Sua atenção estivera concentrada em pensamentos a respeito de Siona.

"Siona é minha ardente inimiga e não preciso das palavras de Nayla para confirmar isso. Siona é mulher de ação. Vive sobre a superfície de imensas energias que me enchem com fantasias de prazer. Não posso contemplar aquelas energias vitais sem um sentimento de êxtase. Elas são a razão de minha existência, a justificativa para tudo que fiz... até mesmo para o cadáver deste tolo Duncan agora diante de mim.”

Os ouvidos de Leto revelaram-lhe que Moneo ainda não atravessara metade da distância até a Carreta Real. O homem andava cada vez mais devagar e então, subitamente, recuperava o passo.

"Que presente Moneo me deu com sua filha", pensou Leto. "Siona é jovem e preciosa. Ela representa o novo, enquanto eu sou uma reunião do obsoleto, uma relíquia dos amaldiçoados, dos perdidos e extraviados. Sou os fragmentos da história, que mergulharam além das recordações de todos os nossos passados. Uma acumulação de refugos como jamais se imaginou.”

Leto fez as memórias desfilarem dentro dele e permitiu que observassem o que acontecera na cripta.

"As minúcias não minhas!”

Siona, porém... Siona era um quadro limpo sobre o qual ainda poderiam ser escritas coisas grandiosas.

"Eu guardo este quadro com infinito cuidado. Eu o estou preparando, limpando-o. Que pensaria o Duncan ao chamar pelo nome dela?”

Moneo aproximou-se do carro, confiante mas com todo cuidado. Certamente Leto não estava dormindo.

Leto abriu os olhos e os dirigiu para baixo, em direção a Moneo, que parara junto do cadáver. Nesse momento Leto achou um deleite observar o majordomo. Moneo usava um uniforme branco dos Atreides, sem qualquer insígnia, o que em si constituía um comentário sutil. O rosto dele, quase tão bem conhecido por Leto quanto seu próprio rosto, era todas as insígnias de que necessitava. Moneo esperou pacientemente e não houve mudança de expressão em suas feições simples e uniformes. O cabelo louro e grosso encontrava-se repartido ao meio igualmente. Bem lá dentro de seus olhos cinzentos, encontrava-se aquele caráter direto que costuma acompanhar o conhecimento de um grande poder pessoal. Era uma aparência que ele modificava apenas na presença do Imperador-Deus e, algumas vezes, nem mesmo ali. Nem uma vez ele olhou para o corpo no chão da cripta.

Como Leto continuasse em silêncio, Moneo pigarreou e disse:

— Encontro-me entristecido, meu Senhor.

"Estranho!", pensou Leto. "Ele sabe que sinto um verdadeiro remorso com relação aos Duncans. Moneo examinou meus registros e já viu um número suficiente deles mortos. Sabe que apenas 19 Duncans tiveram o que as pessoas geralmente consideram morte natural.”

— Ele tinha uma arma laser Ixiana — disse Leto.

O olhar de Moneo voltou-se diretamente para a pistola no piso da cripta, à sua esquerda, demonstrando com isso que já a tinha visto. Voltou depois sua atenção para Leto, percorrendo com o olhar todo o comprimento de seu grande corpo.

— Está ferido, meu Senhor?

— Sem conseqüências.

— Mas ele o feriu?

— Aquelas barbatanas me são inúteis. Terão desaparecido inteiramente dentro de mais 200 anos.

— Removerei o corpo deste Duncan pessoalmente, meu Senhor. Existe algo...

— A parte de mim que ele queimou reduziu-se inteiramente a cinzas. Vamos deixar que o vento a leve. É um fim adequado para as cinzas.

— Como o meu Senhor deseje.

— Antes de remover o corpo, desarme a arma laser e a coloque onde eu possa apresentá-la ao embaixador Ixiano. Quanto ao homem da Corporação, que nos advertiu a respeito dela, presenteie-o pessoalmente com 10 gramas de especiaria. Oh... e nossas sacerdotisas em Giedi Prime devem ser alertadas quanto a um depósito de melange oculto por lá, provavelmente um velho contrabando dos Harkonnen.

— Que deseja que façamos com ele quando o encontrarmos, Senhor?

— Use uma porção para pagar os Tleilaxu por um novo ghola, o resto deve ser acrescentado aos nossos suprimentos aqui na cripta.

— Senhor — Moneo reconheceu as ordens, acenando levemente com a cabeça, sem realmente curvar-se. Seu olhar encontrou o de Leto.

Leto sorriu, pensando: "Ambos sabemos que Moneo não sairá sem tocar diretamente no assunto que mais nos preocupa.

— Vi o relatório a respeito de Siona — disse Moneo.

O sorriso de Leto ampliou-se. Moneo lhe dava tanto prazer nesses momentos. Suas palavras transmitiam tantas coisas que não exigiam uma discussão aberta entre eles. Palavras e ações num alinhamento preciso, transmitindo a consciência mútua de que ele, é claro, espionava a respeito de tudo. Agora havia uma preocupação natural por sua filha, mas ainda assim ele desejava deixar bem entendido que sua preocupação para com o Imperador-Deus continuava superior a tudo. De sua própria passagem por uma evolução similar, Moneo conhecia com precisão a delicada natureza dos atuais problemas de Siona.

— Não a criei, Moneo? —  Leto perguntou. — Não controlei as condições de sua ancestralidade e de sua criação?

— Ela é minha única filha, minha única criança, Senhor.

— De certo modo ela me lembra o Harq al-Ada — disse Leto.

— Não parece haver nela muito de Ghani, embora isso tenha que estar presente de alguma forma. Talvez ela remonte aos nossos ancestrais no programa de Procriação da Irmandade.

— Por que diz isso, Senhor?

Leto refletiu. Haveria necessidade de que Moneo conhecesse esse detalhe particular a respeito de sua filha? Siona podia escapar à visão presciente algumas vezes. O Caminho Dourado permanecia, mas Siona se apagava. E no entanto... ela não era presciente. Ela era um fenômeno único e se sobrevivesse... Leto decidiu que não atrapalharia a eficiência de Moneo com informações desnecessárias.

— Relembre seu próprio passado —  ele disse.

— De fato, meu Senhor! E ela possui tamanho potencial. tão maior do que algum dia tive. Mas isso a faz perigosa também.

— E ela não ouvirá seus conselhos — observou Leto.

— Não, mas eu possuo um agente em sua rebelião.

"Deve ser Topri", pensou Leto.

Não era preciso presciência para saber que Moneo devia ter um agente plantado entre os rebeldes. Desde a morte da mãe de Siona, Leto conhecera com certeza crescente o curso das ações de Moneo. As suspeitas de Nayla apontavam para Topri. E agora Moneo exibia seus temores e revelava suas ações, oferecendo isso como o preço da contínua segurança de sua filha.

"Que pena que ele tenha tido apenas essa filha com aquela mulher.”

— Lembra-se de como o tratei em circunstâncias semelhantes — disse Leto. — Conhece as exigências do Caminho Dourado tão bem como eu.

— Mas eu era jovem e tolo, meu Senhor.

— Jovem e impetuoso, jamais um tolo.

Moneo sorriu sem graça ante esse cumprimento, seus pensamentos inclinando-se cada vez mais em direção à crença de que agora entendia as intenções de Leto. "E os perigos também!”

Alimentando sua crença, Leto disse:

— Sabe como adoro surpresas.

"Isso é verdade", pensou Leto. "Moneo sabe disso. Mas mesmo quando Siona me surpreende, ela me faz lembrar aquilo que eu mais temo — o tédio e a rotina que destruiriam o Caminho Dourado. Olhe como o tédio me colocou temporariamente à mercê do poder de Duncan! E Siona é o contraste através do qual encaro meus mais profundos temores.

A preocupação de Moneo quanto à minha segurança é bem justificada.”

— Meu agente continuará vigiando os novos companheiros dela, meu Senhor. Não gosto deles.

— Os companheiros dela? Eu mesmo tive tais companhias muito tempo atrás.

— Rebeldes, Senhor? — Moneo parecia genuinamente surpreso.

— Não me provei um amigo da rebelião?

— Mas Senhor...

— As aberrações do nosso passado são muito mais numerosas do que possa pensar!

— Sim, meu Senhor. — Moneo estava desconcertado, mas ainda assim curioso. E ele sabia que o Imperador-Deus algumas vezes se tornava loquaz após a morte de um Duncan. - Deve ter visto muitas rebeliões, Senhor.

Involuntariamente, os pensamentos de Leto mergulharam nas memórias erguidas por tais palavras.

— Ah, Moneo — ele murmurou. —  Minhas viagens pelos labirintos ancestrais memorizaram incontáveis lugares e eventos que eu nunca desejei ver repetidos.

— Posso imaginar suas jornadas interiores, Senhor.

— Não, não pode. Já vi povos e planetas, em tamanho número que eles perdem o significado até mesmo na imaginação. Oh, e as paisagens pelas quais passei. A caligrafia de estradas alienígenas vislumbrada desde o espaço e impressas em minha mais profunda visão interior. A escultura carcomida de desfiladeiros e penhascos, de galáxias que me transmitiram o conhecimento de que sou apenas um cisco.

— Não, Senhor, certamente que não é.

— Menos que um cisco! Já vi povos e suas sociedades inúteis através de tão repetitivas posturas que suas tolices me enchem de tédio, está me ouvindo?

— Não pretendia enfurecê-lo, meu Senhor — disse Moneo com humildade.

— Você não me enfurece. Algumas vezes me irrita, apenas isso. Não pode imaginar o que eu vi — califas e rajás, bashares, reis e imperadores, primitos e presidentes. Já os observei a todos. Cada chefe feudal. Cada pequeno faraó.

— Esqueça minha presunção, Senhor.

— Malditos romanos! — gritou Leto.

Ele falou para o seu interior, repetindo a maldição para os ancestrais. "Malditos romanos!”

A gargalhada deles o expulsou de sua arena interior.

— Não compreendo, Senhor —  arriscou Moneo.

— É verdade. Você não compreende. Os romanos transmitiram a doença faraônica como fazendeiros espalhando sementes para a próxima colheita —  césares, kaiseres, czares, imperadores... caseris... palatos... malditos faraós!

— Meus conhecimentos não abrangem todos esses títulos, Senhor.

— Eu posso ser o último da linha, Moneo. Reze para que assim seja.

— O que o meu Senhor ordenar.

Leto olhou para baixo na direção do homem.

— Nós somos os matadores do mito, você e eu, Moneo. Esse é o sonho que compartilhamos. E eu lhe asseguro, falando do trono olímpico de um Deus, que o governo é sempre um mito compartilhado. Quando o mito morre, assim morre o governo.

— Assim me ensinou, Senhor.

— Aquele homem-máquina, o Exército, criou nosso sonho atual, meu amigo.

Moneo pigarreou.

Leto reconheceu os pequenos sinais de impaciência da parte do majordomo.

"Moneo entende a respeito de exércitos. Sabe o sonho de tolo que foi a idéia de que os exércitos eram instrumentos básicos de governo.”

Como Leto continuasse em silêncio, Moneo caminhou até a pistola laser e a apanhou do frio chão da cripta. Começou a desmontá-la.

Leto o observava, pensando como essa minúscula cena representava a essência do mito do Exército. O Exército impulsionava a tecnologia porque o poder das máquinas parecia tão óbvio para os de visão curta.

"Aquela pistola laser não é mais que uma máquina. Mas todas as máquinas falham ou são superadas. Ainda assim, o Exército reza na catedral de tais coisas - ao mesmo tempo fascinado e temeroso. Olhem como as pessoas temem os Ixianos! Em suas entranhas, o Exército sabe que é um Aprendiz de Feiticeiro. Ele liberta a tecnologia e nunca mais consegue tornar a prender a mágica na garrafa.

"Eu lhes ensinei outra mágica.”

E Leto falou às bordas em seu interior:

"Estão vendo? Moneo desarmou o instrumento mortífero. Uma conexão partida aqui, uma pequena cápsula esmagada ali.”

Leto cheirou. Ele sentia os esteres de um óleo preservativo no cheiro da transpiração de Moneo.

Ainda falando ao seu interior, Leto acrescentou: "Mas o gênio não está morto. A tecnologia gera a anarquia. Ela distribui essas ferramentas ao acaso. E com elas a provocação para a violência. A habilidade de construir e usar instrumentos de destruição selvagem vai passando inevitavelmente para as mãos de grupos cada vez menores, até que o último desses grupos é um único indivíduo.”

Moneo retornou para um ponto abaixo de Leto, segurando a pistola laser, desmontada, informalmente na mão direita.

— Existe um boato em Parella e nos planetas de Dan a respeito de um jihad contra coisas como esta aqui.

Moneo ergueu a arma laser e sorriu, mostrando que conhecia o paradoxo implícito em tais coisas.

Leto fechou os olhos. As hordas dentro dele queriam argumentar, mas ele as calou pensando: "Jihads criam exércitos. O Jihad Butleriano tentou livrar nosso universo das máquinas que simulam a mente do homem. Os Butlerianos deixaram exércitos em seu rastro e os Ixianos ainda manufaturam engenhos questionáveis... pelos quais lhes agradeço. Qual é o anátema? A motivação para devastar, não importam os instrumentos.”

— Aconteceu — murmurou ele.

— Senhor?

Leto abriu os olhos.

— Irei para a minha torre — disse. — Preciso de mais tempo para lamentar o meu Duncan.

— O novo Duncan já se encontra a caminho — disse Moneo.

 

Você a primeira pessoa a encontrar meu diário em pelo menos 4 mil anos, cuidado. Não se sinta orgulhoso de sua privacidade ao ler as revelações do meu arquivo Ixiano.

Vai encontrar muita dor nelas. A não ser alguns vislumbres necessários para me assegurar de que o Caminho Dourado continuava, eu nunca desejei prescrutar além desses 4 milênios. Por isso não estou certo do que os eventos registrados em meus diários irão significar para a sua época. Apenas sei que meus diários caíram no esquecimento e que os acontecimentos que neles reconto terão sofrido indubitável distorção histórica através dos anos. Eu lhes asseguro que a habilidade de vislumbrar nosso futuro pode tornar-se tediosa. Mesmo sendo considerado um deus, como certamente o fui, isto pode converter-se num tédio derradeiro. A mim me ocorreu, mais de uma vez, que o tédio sagrado constitui razão suficiente para a criação do livre arbítrio.

 

- Inscrição no Depósito de Dar-es-Balat

 

"Eu sou Duncan Idaho.”

Isso era tudo que ele desejava saber com certeza. Não apreciava as explicações dos Tleilaxu ou suas "histórias". Mas os Tleilaxu haviam sido sempre temidos. Desacreditados e temidos.

Eles o haviam feito descer no planeta num pequeno ônibus espacial da Corporação, chegando pela linha do crepúsculo, com o brilho esverdeado da coroa solar aparecendo ao longo do horizonte enquanto mergulhavam na sombra do planeta. O espaço-porto não se parecera nem um pouco com qualquer coisa de que ele se lembrasse. Era maior e possuía um anel de prédios estranhos.

— Tem certeza de que aqui é Duna? — ele perguntara.

— Arrakis — corrigira sua escolta de Tleilaxu.

E eles o tinham levado apressadamente, dentro de um carro fechado, até esse prédio, em algum ponto do interior da cidade que chamavam de Onn, dando ao "n" uma crescente e estranha inflexão nasal. A sala na qual o deixaram tinha aproximadamente três metros quadrados, e na verdade não passava de um cubo. Não havia sinal de globos luminosos, mas o lugar se encontrava cheio de uma luz amarela e quente.

"Eu sou um ghola", disse para si mesmo.

Isso fora um choque, mas tinha que acreditar. Estar vivo sabendo que tinha morrido era prova suficiente. Os Tleilaxu haviam retirado células de sua carne morta e feito crescer um broto em seus tanques axlotl. E o broto se convertera em seu corpo através de um processo que o fizera sentir-se, de início, um estranho em sua própria carne.

Olhou para o próprio corpo. Estava vestido em calças marrons escuras e uma jaqueta de tecido grosso que lhe irritava a pele. Sandálias protegiam-lhe os pés. Exceto pelo corpo, isso era tudo que haviam lhe dado, uma parcimônia que revelava alguma coisa a respeito do caráter real dos Tleilaxu.

Não havia mobília na sala. Eles o haviam feito entrar através de uma única porta que não tinha maçaneta pelo lado de dentro. Olhou para o teto, à volta, na direção das paredes e da porta. A despeito do aspecto despido do lugar, sentia estar sendo vigiado.

— Mulheres da Guarda Imperial virão buscá-lo — eles haviam dito. E então tinham ido embora, sorrindo um para o outro.

Mulheres da Guarda Imperial?

A escolta dos Tleilaxu exibira um prazer sádico em expor suas habilidades na técnica de mudança de formas corporais. Ele nunca soubera, de um instante para o outro, que nova fôrma o fluxo plástico da carne deles iria apresentar.

"Malditos dançarinos faciais!”

Eles sabiam tudo a respeito dele, é claro, sabiam o quanto aqueles "capazes de assumir múltiplas formas" o desagradavam.

No que poderia acreditar vindo de Dançarinos Faciais? Muito pouco. Poderia crer em alguma coisa do que eles dissessem?

"Meu nome. Sei o meu nome.”

E tinha as suas memórias. Eles lhe haviam impresso a identidade. Supunha-se que gholas fossem incapazes de recuperar suas identidades originais. Mas os Tleilaxu haviam feito exatamente isso e ele fora forçado a crer porque entendia como fora feito.

No início, ele sabia, existira apenas um ghola plenamente desenvolvido, uma carne adulta sem nome ou memórias - um palimpsesto sobre o qual os Tleilaxu poderiam ter escrito qualquer coisa que tivessem desejado.

- Você é ghola - haviam dito.

Esse fora o seu único nome durante algum tempo. Ghola fora tratado como uma criança suscetível e condicionado para matar um homem em especial - um homem tão semelhante ao Paul Muad'Dib original, a quem ele servira e adorara, que Idaho agora suspeitava de que tivesse existido um outro ghola. Mas, se isso fosse verdade, como eles haviam obtido as células originais?

E alguma coisa nas células de Idaho se havia rebelado contra matar um Atreides. Ele se havia surpreendido, de faca na mão, com a forma amarrada de um pseudo-Paul olhando para ele em furioso terror.

Memórias tinham jorrado em sua consciência. Ele se lembrou ghola e se lembrou Duncan Idaho.

"Eu sou Duncan Idaho, mestre-espadachim dos Atreides.”

Agarrava-se a essas memórias enquanto esperava na sala amarela:

"Eu morri defendendo Paul e sua mãe em uma caverna-sietch, debaixo das areias de Duna. Fizeram-me retornar a este planeta, mas Duna não existe mais. Agora é apenas Arrakis.”

Tinha lido a história truncada que os Tleilaxu haviam fornecido, mas não acreditara nela. "Mais de 3.500 anos?" Quem poderia acreditar que sua carne permanecia após tamanho espaço de tempo? Exceto que... com os Tleilaxu era possível. Tinha que crer nos próprios sentidos.

— Houve muitos de você — seus instrutores haviam dito.

— Quantos?

— Lorde Leto fornecerá tal informação.

"Lorde Leto?”

A história dos Tleilaxu dizia que esse Lorde Leto era Leto II, neto do mesmo Leto a quem Idaho servira com devoção fanática. Mas esse segundo Leto (assim a história dizia) se havia transformado em alguma coisa... alguma coisa tão estranha que Idaho perdera a esperança de compreender a transformação.

Como poderia um ser humano converter-se lentamente num verme da areia? Como poderia qualquer criatura pensante viver por mais de 3 mil anos? Nem mesmo as mais loucas projeções da especiaria geriátrica permitiriam tamanho tempo de vida.

"Leto II, o Imperador-Deus?”

Não era para se acreditar na história dos Tleilaxu!

Idaho lembrava-se de uma criança estranha - gêmeos na verdade: Leto e Ghanima. Filhos de Paul, filhos de Chani, que morrera ao dar à luz. A história dos Tleilaxu dizia que Ghanima tinha morrido após uma vida relativamente normal, mas que o Imperador-Deus continuara vivendo, vivendo...

— Ele é um tirano — haviam dito seus instrutores. — Ordenou que o produzíssemos em nossos tanques axlotl e o enviássemos para o seu serviço. Nós não sabemos o que aconteceu aos seus predecessores.

"E aqui estou eu.”

Uma vez mais Idaho deixou que seu olhar percorresse as paredes nuas e o teto.

O som fraco de vozes penetrou em sua consciência. Olhou para a porta. As vozes eram abafadas, mas pelo menos uma delas soava feminina.

"Mulheres da Guarda Imperial?”

A porta girou para dentro, sobre dobradiças silenciosas, e duas mulheres entraram. A primeira coisa que lhe captou a atenção foi o fato de uma das mulheres usar uma máscara, um capuz sem forma, de um negro que devorava a luz. Ela podia vê-lo claramente através do capuz, Duncan bem o sabia, mas suas feições nunca se revelariam, nem mesmo ante os mais sutis instrumentos de penetração. Aquele capuz revelava que os Ixianos, ou seus herdeiros, ainda se encontravam operando no Império. Ambas as mulheres usavam também uniformes de uma só peça, com uma cor azul forte e o falcão símbolo dos Atreides bordado em vermelho sobre o seio esquerdo.

Idaho as observou enquanto fechavam a porta e se voltavam para ele.

A mulher mascarada tinha um corpo forte e volumoso. Caminhava revelando o cuidado ilusório de uma fanática por musculação profissional. A outra mulher era esguia e graciosa com olhos amendoados e feições bem-definidas numa ossatura saliente. Idaho teve a impressão de já tê-la visto em algum lugar, mas não conseguia fixá-la na memória. Ambas carregavam facas-agulhas em bainhas colocadas nos quadris, e alguma coisa na maneira como se movimentavam revelou a Idaho que essas mulheres seriam extremamente hábeis com tais armas.

A esguia falou primeiro.

— Meu nome é Luli. Permita-me que seja a primeira a lhe falar como Comandante. Minha companheira deve permanecer no anonimato. Nosso Senhor Leto o ordenou. Pode chamá-la de Amiga.

— Comandante? — ele indagou.

— É desejo de nosso Senhor Leto que comande sua Guarda Real —  disse Luli.

— É mesmo? Então vamos falar com ele a respeito disso.

— Oh, não! — Luli encontrava-se visivelmente chocada. — O Senhor Leto o chamará quando for a hora. Enquanto isso ele deseja que cuidemos do seu conforto e de sua satisfação.

— E eu devo obedecer?

Luli meramente sacudiu a cabeça, intrigada.

— Serei um escravo?

Luli relaxou e sorriu.

— De modo algum. É só que Lorde Leto tem preocupações enormes, que exigem sua atenção pessoal. Ele precisa encontrar tempo para vê-lo. Enviou-nos porque estava preocupado quanto ao seu Duncan Idaho. Esteve por longo tempo nas mãos sujas dos Tleilaxu.

"Tleilaxus sujos", pensou Idaho.

Isso pelo menos não tinha mudado.

Ele estava preocupado, entretanto, com uma referência em particular que surgira na explicação de Luli.

— Seu Duncan Idaho?

— Não é um guerreiro Atreides? —  indagou Luli.

Ela o tinha apanhado. Idaho assentiu com a cabeça, virando-a levemente para olhar a enigmática mulher mascarada.

— Por que está usando máscara?

— Não deve ser conhecido que eu sirvo ao Senhor Leto - disse ela numa voz que era um agradável contralto. Mas Idaho suspeitava de que isso também fosse uma ilusão produzida pela máscara.

— Então, por que se encontra aqui?

— O Senhor Leto confia em mim para verificar se você foi alterado pelos sujos Tleilaxu.

Idaho tentou engolir com uma garganta subitamente seca. Tal pensamento tinha-lhe ocorrido várias vezes a bordo do transporte da Corporação. Se os Tleilaxu podiam condicionar um ghola a tentar o assassinato de um amigo querido, que mais não poderiam plantar na psique da carne regenerada?

— Vejo que pensou a respeito disso — disse a mulher mascarada.

— Você é um mentat? — perguntou Idaho.

— Oh, não! — interrompeu Luli. — O Senhor Leto não permite o treinamento de mentats.

Idaho olhou para Luli e então voltou sua atenção para a mulher mascarada: "Sem mentats." A história dos Tleilaxu não havia mencionado este fato interessante. Por que Leto teria proibido os mentats? Certamente que a mente humana treinada nas super-habilidades da computação ainda possuiria seus usos. Os Tleilaxu lhe haviam assegurado que a Grande Convenção permanecia em vigor e que os computadores mecânicos continuavam banidos. Certamente essas mulheres teriam conhecimento de que os Atreides já tinham usado mentats.

— Qual é a sua opinião? — a mulher mascarada indagou. — Os sujos Tleilaxu mexeram com sua psique?

— Eu não... penso que tenham.

— Mas não tem certeza?

— Não.

— Não tema, Comandante Idaho — ela disse. — Temos meios de nos certificar e meios de lidar com tais problemas, se eles surgirem. Os sujos Tleilaxu tentaram tal coisa apenas uma vez e pagaram muito caro por seu erro.

— Isso é tranqüilizador. O Senhor Leto enviou-me alguma mensagem?

Luli respondeu:

— Ele nos mandou assegurá-lo de que ainda o ama, como os Atreides sempre o amaram. — Ela estava obviamente admirada com suas próprias palavras.

Idaho relaxou ligeiramente. Como um antigo servidor dos Atreides, soberbamente treinado por eles, achara muito fácil determinar várias coisas a partir desse encontro. Essas duas haviam sido fortemente condicionadas a uma obediência fanática. Se uma máscara especial podia esconder a identidade daquela mulher, haveria muitas outras cujos corpos seriam semelhantes. Tudo isso revelava perigos à volta de Leto que ainda exigiriam os velhos e sutis serviços de espiões e um imaginativo arsenal de armas.

Luli olhou para a companheira.

— Que me diz, Amiga?

— Ele pode ser levado à Cidadela — disse a mulher mascarada. — Este lugar não é bom. Os Tleilaxu estiveram aqui.

— Um banho quente e uma muda de roupa seriam agradáveis — disse Idaho.

Luli continuava olhando para a Amiga.

— Tem certeza?

— A sabedoria do Senhor não pode ser questionada — disse a mulher mascarada.

Idaho não gostava do tom de fanatismo na voz desta Amiga, mas se sentia seguro ante a integridade dos Atreides. Eles poderiam parecer cínicos e cruéis ante estranhos ou inimigos, mas ante sua própria gente eram justos e leais. Acima de tudo os Atreides eram leais à sua gente.

"E eu sou um deles" pensou Idaho. "Mas que terá acontecido ao eu que estou substituindo?" Sentia fortemente que essas duas não responderiam sua pergunta.

"Mas Leto responderá.”

— Podemos ir? — ele perguntou. — Estou ansioso para lavar de meu corpo o fedor dos sujos Tleilaxu.

Luli sorriu para ele.

— Venha. Eu mesma vou banhá-lo.

 

Os inimigos aumentam a sua força.

Os aliados a enfraquecem.

Eu lhes digo isso na esperança de que os ajude a compreender por que agi da maneira como agi, no pleno conhecimento de que grandes forças se acumulavam em meu Império com apenas um desejo - o de me destruir. Você que lêem estas palavras podem saber muito bem o que realmente aconteceu, mas eu duvido de que compreendam o porque.

 

- Os diários roubados

 

A cerimônia da "Exibição", pela qual os rebeldes iniciavam suas reuniões, arrastara-se interminavelmente para Siona. Ela sentara-se na fileira da frente e olhara para todos os lados, exceto para Topri, que conduzia a cerimônia a apenas alguns passos de distância. Essa sala, nos fossos de serviço abaixo de Onn, era uma que nunca tinham usado antes, mas tão semelhante a Outros lugares de reunião que poderia ter sido usada como modelo padrão.

"Sala de Reuniões dos Rebeldes - Classe B", ela pensou. Era um lugar oficialmente designado como câmara de armazenagem e seus globos luminosos fixos não podiam ser regulados fora de um brilho branco. A sala tinha aproximadamente 30 passos de comprimento e era ligeiramente menor em largura. Poderia ser alcançada através de uma série labiríntica de câmaras semelhantes, uma das quais se encontrava convenientemente repleta com um estoque de rígidas cadeiras de dobrar destinadas às pequenas câmaras onde dormia o pessoal de serviço. Dezenove dos companheiros de rebelião de Siona ocupavam agora essas cadeiras em torno dela, com algumas deixadas vagas para os possíveis retardatários.

O período escolhido fora entre meia-noite e as mudanças de pessoal do início da manhã, de modo a mascarar o fluxo extra de pessoas nos porões de serviço. A maioria dos rebeldes usava disfarces de operários do setor de energia - calças e casacos cinzentos, descartáveis. Alguns poucos, entre eles Siona, usavam o verde dos inspetores de maquinaria.

Na sala, a voz de Topri era insistente é monótona. Ele não guinchava enquanto conduzia a cerimônia. De fato, Siona tinha de admitir que ele era bom naquilo, especialmente com os novos recrutas. No entanto, desde a declaração franca de Nayla de que não confiava no homem, Siona passara a olhar para Topri de maneira diferente. Nayla era capaz de falar com uma ingenuidade cortante que arrancava os disfarces e as máscaras. E havia coisas que Siona descobrira a respeito de Topri desde aquela confrontação.

Ela voltou-se finalmente e olhou para o homem. A fria luz prateada não favorecia a pele pálida de Topri. Na cerimônia, ele usava a cópia de uma faca cristalina, uma cópia contrabandeada, comprada dos Fremen de Museu. Siona lembrou-se da transação enquanto olhava para a lâmina nas mãos de Topri. Fora uma idéia dele que parecera boa na ocasião. Ele a levara para um encontro num casebre nos limites da cidade, deixando Onn ao entardecer. Tinham esperado durante a noite até que a escuridão pudesse ocultar a vinda do Fremen de Museu. Os Fremen não deviam deixar seus alojamentos nos sietch sem uma dispensa especial recebida do Imperador-Deus.

Ela já estava quase desistindo quando o Fremen chegara, deslizando para fora da escuridão noturna enquanto sua escolta ficava para trás, guardando a porta. Topri e Siona estavam esperando sentados num banco tosco colocado de encontro à parede úmida de um aposento absolutamente simples. A única luz provinha de uma fraca tocha amarela suportada por uma vareta fincada na parede de barro em desagregação.

As primeiras palavras do Fremen encheram Siona de dúvidas.

— Trouxeram o dinheiro?

Ela e Topri tinham se levantado quando ele entrara. Topri não pareceu incomodado com a pergunta. Ele bateu na sacola embaixo de seu manto, fazendo-a tilintar.

— Eu tenho o dinheiro aqui.

O Fremen era uma figura enrugada, curvada e áspera, usando uma cópia de velhos mantos Fremen com algum traje lustroso por baixo, provavelmente sua versão de um traje destilador. O capuz estava puxado para a frente, sombreando-lhe as feições. A luz da tocha fez as sombras dançarem sobre seu rosto.

Ele olhou primeiro para Topri e então para Siona antes de tirar de debaixo de seu manto um objeto enrolado num pano.

— Esta é uma cópia verdadeira, embora seja feita de plástico — ele disse. — Não cortaria gordura endurecida.

Tirou a lâmina do envoltório e a exibiu.

Siona, que vira facas cristalinas apenas em museus e nos raros registros visuais antigos dos arquivos de sua família, sentiu-se curiosamente tocada pela visão da lâmina naquele lugar. Sentia alguma coisa atávica agindo sobre ela e imaginou aquele pobre Fremen de Museu, com sua faca cristalina de plástico, como um verdadeiro Fremen dos velhos dias. A coisa que ele exibia era subitamente a lâmina prateada de uma faca cristalina, brilhando nas sombras amareladas.

— Eu garanto a autenticidade da lâmina a partir da qual fizemos esta cópia — disse o Fremen. Falava numa voz baixa, que de algum modo se fazia ameaçadora pela ausência de ênfase.

Siona então ouviu o modo como ele carregava seu rancor numa manga de suaves vogais e ficou subitamente alerta.

— Tente alguma traição e nós o caçaremos como a um inseto —  advertiu ela.

Topri olhou-a espantado.

O Fremen de Museu pareceu encolher. A lâmina tremeu em sua mão, mas seus dedos de gnomo ainda se curvavam em torno dela, como se agarrassem uma garganta.

— Traição, senhora? Oh, não. Mas nos ocorreu que pedimos muito pouco por esta cópia. Pobre como ela pareça, sua fabricação e venda nos coloca à mercê de um terrível perigo.

Siona olhou furiosa para ele, pensando em antigas palavras Fremen da História Oral: "Uma vez que você adquire uma alma vendida, o Suk é a totalidade da sua existência.

— Quanto você quer? — perguntou ela autoritária.

Ele disse uma soma duas vezes maior que a anterior.

Topri deixou escapar uma exclamação de espanto.

Siona olhou para ele.

— Tem essa quantia?

— Não inteiramente, mas nós tínhamos concordado.

— Dê-lhe o que você tem, tudo —  disse Siona.

— Tudo?

— Não foi o que eu disse? Cada moeda daquela sacola. — Ela virou-se para o Fremen de Museu. — Você aceitará este pagamento!  — Não era uma pergunta e o velho a ouviu corretamente. Enrolou a lâmina no pano e a passou para ela.

Topri entregou a sacola de moedas e resmungou alguma coisa.

Siona dirigiu-se ao Fremen:

— Nós sabemos o seu nome. Você é Teishar, ajudante do Garun de Tuono. Você tem uma mentalidade suk e me faz estremecer vendo em que os Fremen se tornaram.

— Senhora, nós temos de ganhar a vida — ele protestou.

— Você não está vivo — disse ela. — Desapareça!

Teishar voltara-se e saíra correndo com a sacola de dinheiro segura junto ao peito.

A memória daquela noite não parecia agradável na mente de Siona enquanto ela observava Topri exibir a faca cristalina em sua cerimônia rebelde. "Não somos melhores do que Teishar", ela pensou "Uma cópia é pior do que nada." Topri brandia a estúpida lâmina sobre a cabeça enquanto se aproximava da conclusão da cerimônia.

Siona olhou para longe dele, fitando Nayla sentada à sua esquerda. Nayla olhou primeiro para uma direção e depois para outra. Dedicava especial atenção ao novo conjunto de recrutas no fundo da sala. Nayla não dava sua confiança com facilidade. Siona torceu o nariz quando o movimento do ar trouxe o cheiro de lubrificantes. As profundezas de Onn sempre cheiravam perigosamente "mecânicas"! Ela cheirou. E essa sala! Não apreciava esse lugar de reunião, podia facilmente, tornar-se uma armadilha. Guardas podiam bloquear os corredores externos e mandar patrulhas armadas. Este podia ser facilmente o lugar onde sua rebelião terminaria. E Siona estava duplamente incomodada pelo fato de que o local fora uma escolha de Topri.

"Um dos poucos enganos de Ulot", ela pensou. O pobre Ulot, morto, aprovara a admissão de Topri na rebelião.

— Ele é um funcionário subalterno nos serviços municipais. — Ulot explicara. — Topri pode encontrar muitos lugares úteis para nos encontrarmos e nos armarmos.

Topri chegara quase ao fim de sua cerimônia. Colocou a faca em sua caixa decorada e pôs a caixa no piso ao lado dele.

— Meu rosto é o meu juramento — ele disse, e voltou seu perfil para a sala, primeiro um lado, depois o outro. — Eu lhes mostro a minha face, de modo que me possam reconhecer em qualquer lugar e saber que sou um de vocês.

"Cerimônia estúpida", pensou Siona.

Mas ela não se atrevia a quebrar o padrão estabelecido. E quando Topri tirou uma máscara de gaze negra de um bolso e a colocou sobre a cabeça, ela tirou sua própria máscara e também a colocou. Todos na sala fizeram a mesma coisa, e se podia ouvir o ruído da movimentação. A maioria dos presentes havia sido alertada de que Topri trouxera um visitante especial. Siona prendeu o nó da máscara sobre a nuca, ansiosa por ver o visitante.

Topri caminhou até a única porta da sala. Houve um tumulto de metal batendo enquanto todos se levantavam e dobravam suas cadeiras, colocando-as de encontro à parede oposta à porta. Mediante um sinal de Siona, Topri bateu três vezes no painel da porta, esperou duas batidas vindas de fora e então bateu quarto vezes.

A porta se abriu e um homem alto, em traje oficial marrom-escuro, deslizou para dentro da sala. Não usava máscara, o rosto descoberto para que todos o vissem - um rosto magro e imperioso, com boca estreita, nariz fino e olhos castanho-escuros, profundos sob sobrancelhas espessas. Era um rosto reconhecido pela maioria dos ocupantes da sala.

— Meus amigos — disse Topri —, eu lhes apresento Iyo Kobat, o embaixador de Ix.

— Ex-embaixador — corrigiu Kobat. Sua voz era gutural e muito controlada. Ele tomou posição com as costas para a parede e de frente para as pessoas mascaradas na sala. — No dia de hoje recebi ordens de nosso Imperador-Deus para deixar Arrakis em desgraça.

— Por quê?

Siona fez a pergunta sem qualquer formalidade.

Kobat girou a cabeça num gesto brusco, um movimento rápido que fixou seu olhar no rosto mascarado.

— Houve um atentado contra a vida do Imperador. E ele traçou a origem da arma até minha pessoa.

Os companheiros de Siona abriram um espaço entre ela e o embaixador, claramente assinalando que a respeitavam.

— Então por que ele não o matou? — quis ela saber.

— Acho que ele está querendo dizer que eu não valho uma execução. Existe também o fato de que ele me usa agora para levar uma mensagem a Ix.

— Que mensagem? — Siona caminhou através do espaço aberto até parar a dois passos de Kobat. Reconheceu o apetite sexual do homem enquanto este lhe observava o corpo.

— Você é filha de Moneo — ele disse.

Uma tensão silenciosa explodiu dentro da sala. Por que ele revelava que a tinha reconhecido? Quem mais ele teria reconhecido ali? Kobat não parecia um tolo. Por que fizera isso?

— Seu corpo, sua voz e suas maneiras são bem-conhecidas aqui em Onn — disse ele. — Esta máscara é uma tolice.

Ela arrancou a máscara e sorriu para ele.

— Concordo. Agora responda a minha pergunta.

Ouviu Nayla caminhando para se colocar à sua esquerda. Mais dois auxiliares escolhidos por Nayla ficaram junto dela.

Siona viu o instante da conscientização atingir Kobat - sua morte aconteceria ali se ele falhasse em satisfazer suas exigências. Sua voz não perdeu o controle, mas ele falou mais lentamente, escolhendo as palavras com mais cuidado.

— O Imperador-Deus me disse que, tem conhecimento de um acordo entre Ix e a Corporação. Nós estamos tentando construir um amplificador mecânico daqueles... talentos de navegação da Corporação que atualmente dependem da melange.

— Nesta sala nós o chamamos O Verme — disse Siona. — Que faria sua máquina Ixiana?

— Vocês estão conscientes de que os Navegadores da Corporação necessitam da especiaria antes que possam ver o caminho seguro para a travessia?

— Vocês substituiriam os navegadores com essa máquina?

— Pode ser possível.

— E que mensagem deve levar aos seus com relação a essa máquina?

— Devo dizer aos meus que eles só podem prosseguir com o projeto se enviarem ao Imperador relatórios diários a respeito dos progressos obtidos.

Ela sacudiu a cabeça.

— Ele não precisa de tais relatórios! Essa é uma mensagem estúpida.

Kobat engoliu em seco, não mais ocultando seu nervosismo.

— A Corporação e a Irmandade estão excitadas com nosso projeto — ele disse. — Estão cooperando conosco.

Siona assentiu uma vez:

— E pagam por sua participação partilhando sua especiaria com Ix.

Kobat olhou furioso para ela.

— Trata-se de um trabalho dispendioso e nós precisamos de especiaria para testes comparativos com os Navegadores da Corporação.

— Isso é uma mentira e uma trapaça. Seu engenho nunca funcionará e O Verme sabe disso.

— Como se atreve a nos acusar de...

— Cale-se! Eu apenas lhe disse a verdadeira mensagem. O Verme está dizendo a vocês, Ixianos, para continuarem trapaceando a Corporação e a Bene Gesserit. Isso o diverte.

— Mas pode funcionar! — insistiu Kobat.

Ela meramente sorriu para ele.

— Quem tentou matar o Verme?

— Duncan Idaho.

Nayla emitiu um som ofegante. Houve outros pequenos sinais de surpresa através da sala, uma testa franzindo-se, uma inspiração súbita.

— E Idaho está morto? —  perguntou Siona.

— Nós presumimos que sim, mas o... ah, Verme recusa-se a confirmar.

— Por que presume que ele esteja morto?

— Os Tleilaxu enviaram outro ghola Idaho.

— Percebo.

Siona voltou-se e fez sinal para Nayla, que foi até uma extremidade da sala e retornou com um embrulho delgado enrolado em papel Suk cor-de-rosa. O tipo de papel que os lojistas usavam para embalar pequenas compras. Nayla entregou o embrulho a Siona.

— Esse é o preço do nosso silêncio — disse Siona, estendendo o embrulho para Kobat. — Foi por isso que permitimos que Topri o trouxesse aqui esta noite.

Kobat aceitou o embrulho, sem desviar sua atenção do rosto dela.

— Silêncio? — perguntou ele.

— Nós nos comprometemos a não informar a Corporação nem a Irmandade de que vocês as estão trapaceando.

— Nós não estamos trapa...

— Não seja tolo!

Kobat tentou engolir com a garganta seca. O significado das palavras dela tinha se tornado claro para ele: verdade ou não, se a rebelião espalhasse tal história todos acreditariam. Era o senso comum", como Topri se orgulhava de dizer.

Siona olhou para Topri, que esperava logo atrás de Kobat. Ninguém se unia a essa rebelião por motivos de "senso comum". Será que Topri não percebia que esse "senso comum" poderia traí-lo? Ela voltou sua atenção para Kobat.

— Que há no embrulho? — ele perguntou.

Alguma coisa em sua maneira de perguntar revelou a Siona que ele já sabia.

— Essa é uma coisa que estou enviando para Ix. Você a levará até lá para mim. São cópias de dois volumes que retiramos da fortaleza do Verme.

Kobat olhou para o embrulho em suas mãos. Era óbvio que ele queria largar a coisa, que essa sua aventura na rebelião o tinha carregado com um peso mais mortífero do que ele havia esperado. Lançou um olhar de escárnio para Topri, que foi como se tivesse verbalizado: "Por que você não me avisou?”

— O que... — ele voltou a encarar Siona e pigarreou. — O que há nestes... volumes?

— Sua gente pode nos dizer isso. Pensamos que são as próprias palavras do Verme, escritas num código que não podemos ler.

— E que os faz pensar...

— Vocês Ixianos são hábeis com tais coisas.

— E se fracassarmos?

Ela encolheu os ombros.

— Nós não os culparemos por isso. Todavia, se usarem estes volumes para qualquer outro propósito, ou deixarem de nos dar o relato total de uma descoberta...

— Como alguém pode ter certeza de que nos...

— Nós não vamos depender somente de vocês. Outros também receberão cópias. Acho que a Irmandade e a Corporação não hesitarão em tentar decifrar esses volumes.

Kobat colocou o embrulho debaixo do braço, pressionando-o contra seu corpo.

— Que a faz pensar que o... o Verme não conhece suas intenções... ou não sabe a respeito deste encontro?

— Eu penso que ele sabe de muitas coisas assim; pode até saber quem lhe retirou esses volumes. Meu pai acredita que ele é verdadeiramente presciente.

— Seu pai acredita na História Oral!

— Todos nesta sala acreditam nela. A História Oral não está em desacordo com a História Formal nas questões que são importantes.

— Então, por que o Verme não age contra você?

Ela apontou para o embrulho debaixo do braço de Kobat.

— Talvez a resposta esteja aí.

— Ou será que você e estes volumes cifrados não representam ameaça real para ele? — Kobat não ocultava seu ódio. Não apreciava ser forçado a tomar decisões.

— Talvez. Diga-me por que você mencionou a História Oral.

Uma vez mais Kobat sentiu a ameaça na voz.

— Ela diz que o Verme é incapaz de ter emoções humanas.

— Essa não é a razão — ela respondeu. — Você terá mais uma chance para me dizer a razão.

Nayla moveu-se mais dois passos para junto de Kobat.

— Eu... eu recebi instruções para rever a História Oral antes de vir aqui, aquela que sua gente... — ele encolheu os ombros.

— Que nós cantamos?

— Sim.

— Quem lhe disse isso?

Kobat engoliu em seco, dirigiu um olhar temeroso para Topri e então de volta para Siona.

— Topri? — ela perguntou.

— Eu achei que o ajudaria a nos compreender — disse Topri.

— E você lhe disse o nome de seu líder — acrescentou Siona.

— Ele já sabia! — A voz de Topri tinha reencontrado seu guincho.

— Que partes, em particular, da História Oral lhe mandaram rever? — indagou Siona.

— A... ah, linhagem Atreides.

— E agora você julga que sabe por que as pessoas se unem a mim na rebelião.

— A História Oral revela exatamente como ele trata a todos da linhagem Atreides! — exclamou Kobat.

— Ele nos dá um pouco de corda e então nos enforca? — indagou Siona, sua voz ilusoriamente calma.

— Isso foi o que ele fez com o seu próprio pai — disse Kobat.

— E agora ele está deixando que eu brinque de rebelião?

— Sou apenas um mensageiro —  lembrou Kobat. — Se me matar, quem levará sua mensagem?

— Ou a mensagem do Verme — disse Siona.

Kobat permaneceu em silêncio.

— Não creio que você compreenda a História Oral — ela disse. — E acho que você não conhece o Verme muito bem, nem compreende suas mensagens.

O rosto de Kobat ficou vermelho de raiva.

— O que evitará que você se torne como todos os outros Atreides, uma parte submissa e obediente do... —  Kobat interrompeu a frase, subitamente consciente do que a raiva o fizera dizer.

— Apenas mais um recruta para o círculo interno do Verme — disse Siona. — Como os Duncans Idaho?

Ela voltou-se e olhou para Nayla. Os dois auxiliares, Anouk e Taw tornaram-se subitamente alertas, mas Nayla permanecia impassível.

Siona acenou com a cabeça uma vez para Nayla.

Como haviam jurado fazer, Anouk e Taw tomaram posições bloqueando a porta. Nayla deu a volta para se postar junto ao ombro de Topri.

— Que... que está acontecendo? —  indagou Topri.

— Queremos saber tudo de importante que o ex-embaixador possa partilhar conosco — respondeu Siona. — Queremos a mensagem integral.

Topri começou a tremer. A transpiração surgiu na testa de Kobat. Ele olhou uma vez para Topri e então voltou sua atenção para Siona. Aquele único olhar foi como um véu arrancado, para que Siona percebesse nitidamente o relacionamento entre os dois.

Ela sorriu. Isso meramente confirmava o que já descobrira.

Kobat ficou imóvel.

— Pode começar — ordenou Siona.

— Eu... o que você...

— O Verme lhe deu uma mensagem particular para seus mestres. Quero ouvi-la.

— Ele... ele quer uma ampliação para sua carreta.

— Então espera crescer ainda mais. Que mais?

— Devemos enviar-lhe um grande suprimento de papel de cristal riduliano.

— Com que propósito?

— Ele nunca explica seus pedidos.

— Isso revela o uso de coisas que ele proíbe aos outros — ela disse.

Kobat disse amargamente:

— Ele nunca proíbe nada para si próprio!

— E vocês têm feito brinquedos proibidos para ele?

— Eu não sei.

"Ele está mentindo", pensou ela, mas preferiu não insistir nisso. Já era suficiente conhecer a existência de outra rachadura na armadura do Verme.

— Quem irá substitui-lo?

— Eles estão enviando uma neta de Malky — disse Kobat. — Deve lembrar-se de que ele...

— Nós nos lembramos de Malky — interrompeu Siona. — E por que uma neta de Malky se torna a nova embaixadora?

— Não sei. Mas isso foi ordenado mesmo antes que o Im... o Verme me mandasse partir.

— E o nome dela?

— Hwi Noree.

— Nós cultivaremos a amizade de Hwi Noree — disse Siona. — Você não vale a pena. Esta Hwi Noree pode ser diferente. Quando retornará a Ix?

— Imediatamente após o Festival, na primeira nave da Corporação.

— E que vai dizer aos seus superiores?

— A respeito do quê?

— Minha mensagem!

— Eles farão o que pede.

— Eu sei. Pode ir agora, ex-embaixador Kobat.

Kobat quase colidiu com os guardas da porta, em sua pressa para sair. Topri fez menção de segui-lo, mas Nayla o segurou pelo braço. Topri lançou um olhar de temor ao corpo musculoso de Nayla e então olhou para Siona, a qual esperou que a porta se fechasse atrás do embaixador Ixiano antes de falar.

— Essa mensagem não era meramente para os Ixianos, era para nós também — ela disse. — O Verme nos desafia e nos mostra as regras do combate.

Topri tentou soltar seu braço da pressão de Nayla.

— O que você...

— Topri! Eu também posso mandar uma mensagem. Diga ao meu pai para informar o Verme de que nós aceitamos.

Nayla soltou-lhe o braço e Topri esfregou o lugar onde ela o segurara.

— Certamente que não...

— Saia enquanto pode e nunca mais volte — advertiu Siona.

— Não está dizendo que sus...

— Eu lhe disse para sair. Você é desajeitado, Topri. Eu estive na escola de Oradoras Peixes durante a maior parte da minha vida. Ensinaram-me a reconhecer isso.

— Kobat está partindo. Que mal há em...

— Ele não apenas me conhecia. Ele sabia o que eu tinha roubado da Cidadela! Mas ele não sabia que eu iria mandar o embrulho para Ix com ele. Suas ações revelaram-me que o Verme deseja que eu envie esses volumes para Ix!

Topri afastou-se de Siona na direção da porta. Anouk e Taw abriram-lhe passagem, escancarando a porta. Siona seguiu-o com sua voz:

— Não argumente que foi o Verme que falou com Kobat a meu respeito e sobre o embrulho! O Verme não manda mensagens tolas. Informe-lhe que eu disse isso!

 

Há quem diga que eu não possuo consciência. Como são falsos, até consigo mesmos. Eu sou a única consciência que jamais existiu. Assim como o vinho retém o perfume do seu barril, assim eu mantenho a essência de minha gênese mais ancestral, e essa é a semente da consciência. É isso que me faz sagrado. Eu sou Deus porque sou o único que realmente conhece sua hereditariedade!

 

- Os diários roubados

 

As seguintes perguntas e respostas foram gravadas quando os Inquisidores de IX se reuniram no Grande Palácio com a candidata a Embaixadora na Corte de Lorde Leto:

INQUISIDOR: Você indicou que deseja falar conosco sobre as motivações de Lorde Leto. Fale.

HWI NOREE: Sua Análise Formal não é satisfatória para as questões que vou abordar.

INQUISIDOR: Que questões?

HWI NOREE: Eu me pergunto o que motivaria Lorde Leto a aceitar essa horrenda transformação, esse corpo de verme, essa perda de sua humanidade. Vocês afirmam meramente que ele fez isso em troca do poder e de uma vida longa.

INQUISIDOR: E isso não é bastante?

HWI NOREE: Pergunte a si mesmo se aceitaria tal pagamento por tão mesquinho retorno.

INQUISIDOR: De sua infinita sabedoria, diga-nos então por que Leto escolheu transformar-se em verme.

HWI NOREE: Será que alguém aqui duvida de sua habilidade para prever o futuro?

INQUISIDOR: Ora! Isso não é pagamento suficiente pela transformação?

HWI NOREE: Mas ele já tinha a habilidade da presciência, assim como seu pai, antes dele. Não! Sugiro que ele fez tal escolha desesperada porque viu em nosso futuro alguma coisa que tal sacrifício evitaria.

INQUISIDOR: E o que era essa coisa peculiar que ele viu em nosso futuro?

HWI NOREE: Eu não sei, mas me proponho descobrir.

INQUISIDOR: Você faz o tirano parecer um abnegado servo do povo!

HWI NOREE: Não é essa a característica proeminente da família Atreides?

INQUISIDOR: Assim a história oficial nos faz acreditar.

HWI NOREE: A História Oral o afirma.

INQUISIDOR: Que outras boas características você atribuiria ao Verme Tirano?

HWI NOREE: Boa característica, senhor?

INQUISIDOR: Característica de personalidade, então.

HWI NOREE: Meu tio Malky freqüentemente dizia que Lorde Leto era dado a ter grande tolerância para com companheiros selecionados.

INQUISIDOR: Enquanto outros companheiros ele executa sem qualquer razão aparente.

HWI NOREE: Creio que existem razões e meu tio Malky deduziu algumas delas.

INQUISIDOR: Forneça-nos algumas dessas deduções.

HWI NOREE: Ameaças desajeitadas à sua pessoa.

INQUISIDOR: Ameaças desajeitadas!

HWI NOREE: Ele não tolera a pretensão. Lembre-se da execução dos historiadores e a destruição de seus trabalhos.

INQUISIDOR: Ele não deseja que a verdade seja conhecida!

HWI NOREE: Ele contou ao meu tio Malky que eles mentiram a respeito do passado. E observe isso! Quem conheceria o passado melhor do que ele? Nós todos conhecemos o assunto de suas introspecções.

INQUISIDOR: Que prova temos de que seus ancestrais vivem todos em sua mente?

HWI NOREE: Eu não vou entrar nessa discussão inútil. Meramente direi que acredito na evidência fornecida pela crença de meu tio Malky, e em suas razões para tal crença.

INQUISIDOR: Nós lemos os relatórios de seu tio e os interpretamos de outro modo. Malky era muito amigo do Verme.

HWI NOREE: Meu tio o considerava o mais hábil diplomata do Império, um mestre na arte das conversações e um especialista em qualquer assunto que se possa citar.

INQUISIDOR: E seu tio não falava na brutalidade do Verme?

HWI NOREE: Meu tio o julgava o máximo em civilização.

INQUISIDOR: Eu perguntei a respeito de brutalidade.

HWI NOREE: Capaz de brutalidade, sim.

INQUISIDOR: Seu tio o temia.

HWI NOREE: Lorde Leto carece de inocência ou ingenuidade. Só deve ser temido quando finge tais coisas. Isso foi o que meu tio disse.

INQUISIDOR: Essas palavras são dele, realmente.

HWI NOREE: Mais do que isso! Malky disse: Lorde Leto deleita-se com a diversidade e o gênio surpreendente da humanidade. Ele é meu companheiro favorito.

INQUISIDOR: Dê-nos o benefício de sua suprema sabedoria: como interpreta essas palavras de seu tio?

HWI NOREE: Não zombe de mim!

INQUISIDOR: Nós não zombamos. Buscamos o esclarecimento.

HWI NOREE: Essas palavras de Malky, e muitas outras coisas que ele escreveu diretamente para mim, sugerem que Lorde Leto está sempre buscando a novidade e a originalidade, mas que é cauteloso quanto ao potencial destrutivo de tais coisas. Assim meu tio acreditava.

INQUISIDOR: Existe mais alguma coisa que deseje acrescentar quanto a essas crenças que compartilha com seu tio?

HWI NOREE: Não vejo qualquer razão para acrescentar coisa alguma ao que já disse. Sinto ter desperdiçado o tempo dos Inquisidores.

INQUISIDOR: Mas você não desperdiçou nosso tempo: está confirmada como Embaixadora na Corte de Lorde Leto, o Imperador-Deus do Universo Conhecido.

 

Vocês devem lembrar-se de que eu possuo internamente, ao meu alcance, cada habilidade e cada experiência conhecida em nossa história. Esse é o reservatório de energia no qual me alimento quando abordo a mentalidade da guerra. Se vocês nunca ouviram os gritos e os gemidos dos feridos e agonizantes, então não conhecem a guerra.

Eu já ouvi tais gritos em tamanho número que eles me perseguem. Eu mesmo já gritei no final de uma batalha. E sofri ferimentos de todas as épocas: ferimentos feitos com punhos, pedras e cajados. Com membros couraçados e espadas de bronze, maça e canhão. De espadas e armas laser à silenciosa asfixia da poeira atômica. De invasões biológicas que enegrecem a língua e afogam os pulmões ao esguicho rápido de chamas, ao trabalho silencioso de venenos lentos... e mais ainda que não contarei! Eu os vi e senti a todos. E àqueles que se atrevem a me perguntar por que me comporto da maneira como me comporto, eu respondo: Com minhas memórias, não posso fazer outra coisa. Não sou um covarde, e um dia já fui humano.

- Os diários roubados

 

Na estação quente, quando os controladores do satélite meteorológico eram forçados a lidar com ventos atravessando os grandes mares, o cair da tarde freqüentemente presenciava a queda de chuva nas extremidades do Sareer. Moneo, retornando de uma de suas inspeções periódicas ao perímetro da Cidadela, foi apanhado numa dessas pancadas súbitas. A noite caiu antes que ele alcançasse o abrigo, e uma guarda das Oradoras Peixes o ajudou a retirar sua capa úmida no portal sul. Era uma mulher corpulenta, de constituição rija, com o rosto quadrado, do tipo que Leto preferia para suas guardiãs.

— Aqueles malditos controladores do clima deviam ser obrigados a trabalhar melhor — disse ela enquanto pegava a capa.

Moneo assentiu rapidamente com a cabeça antes de começar a subida para seus alojamentos. Todas as Oradoras Peixes conheciam a aversão que o Imperador-Deus tinha por umidade, mas nenhuma delas fazia a distinção de Moneo.

“É o Verme que odeia a água”, pensou Moneo. “O Shai-Hulud anseia por Duna.”

Em seus aposentos, Moneo enxugou-se e vestiu roupas secas antes de descer para a cripta. Não havia razão para atrair o antagonismo do Verme. Uma conversa ininterrupta com Leto era necessária agora, uma conversa franca a respeito da pendente peregrinação à Cidade Festival de Onn.

Apoiando-se contra a parede do elevador que descia, Moneo fechou os olhos. Imediatamente a fadiga o dominou. Sabia não ter dormido o suficiente nos últimos dias, e não havia descanso à vista. Invejava a aparente liberdade de Leto quanto à necessidade do sono. Algumas horas de semi-repouso por mês pareciam o suficiente para o Imperador-Deus.

O cheiro da cripta e a parada do elevador arrancaram Moneo de seu cochilo. Ele abriu os olhos e fitou o Imperador-Deus sobre sua carreta no centro da Grande Câmara. Moneo empertigou-se e fez a caminhada familiar até aquela terrível presença. Como era de se esperar, Leto parecia alerta. Isso, pelo menos, era um bom sinal.

Leto ouvira o elevador se aproximando e viu Moneo despertar. O homem parecia cansado e isso era compreensível. A peregrinação a Onn estava próxima, com todas as obrigações cansativas referentes aos visitantes de fora do planeta, o ritual das Oradoras Peixes, os novos embaixadores, a mudança da Guarda Imperial, as aposentadorias e nomeações, e agora o novo ghola, Duncan Idaho, a ser encaixado na engrenagem bem-lubrificada do aparato imperial. Moneo ocupava-se com um número crescente de detalhes e começava a demonstrar sua idade.

“Deixe-me ver”, pensou Leto. “Moneo fará 180 anos de idade na semana após nosso regresso de Onn.”

Um homem poderia viver muitas vezes esse tempo se consumisse a especiaria, mas ele se recusava. Leto não tinha dúvidas quanto à razão: Moneo entrara naquela condição humana peculiar em que ansiava pela morte. Agora apenas esperava para ver Siona instalada no Serviço Real, a próxima diretora da Sociedade Imperial das Oradoras Peixes.

“Minhas huris”, como Malky costumava chamá-las.

E Moneo conhecia a intenção de Leto de unir Siona a Duncan. Era época.

Moneo parou a dois passos do carro e olhou para Leto. Alguma coisa em seu olhar fez Leto lembrar-se do rosto de um sacerdote pagão dos tempos da Terra, em dedicada súplica num santuário familiar.

— Senhor, passou muitas horas observando o novo Duncan — disse Moneo. — Terão os Tleilaxu alterado suas células ou sua psique?

— Ele está imaculado.

Um profundo suspiro fez Moneo estremecer. Não havia prazer nele.

— Faz objeção ao seu uso como reprodutor? — indagou Leto.

— Acho peculiar pensar nele ao mesmo tempo como ancestral e pai de meus descendentes.

— Mas ele me dá acesso a um cruzamento de primeira geração entre uma forma humana mais antiga e os atuais produtos de meu programa de procriação controlada. Siona está afastada 21 gerações de tal cruzamento.

— Não consigo perceber o propósito de tal coisa. Os Duncans são mais lentos e menos alertas do que qualquer um de sua guarda.

— Não estou procurando bons resultados individuais, Moneo. Você acha que não tenho consciência da progressão geométrica ditada pelas leis que governam meu programa de procriação?

— Já vi seu livro de estoque genético, Senhor.

— Então sabe que mantenho registro dos recessivos e os elimino. As chaves genéticas dominantes são meu objetivo.

— E as mutações, Senhor? — Havia uma nota de astúcia na voz de Moneo que fez com que Leto observasse o homem atentamente.

— Não discutiremos esse assunto, Moneo.

Leto observou Moneo recolocar sua armadura de cautela. “Como ele é extremamente sensível aos meus estados de espírito. Creio que ele possui algumas de minhas habilidades, embora elas operem no nível do inconsciente. Sua pergunta sugere que ele pode mesmo suspeitar do que conseguimos em Siona.”

Testando isso, Leto disse:

— Parece-me evidente que não compreende o que busco conquistar com meu programa de procriação.

Moneo pareceu animar-se.

— Meu Senhor sabe que tento perceber suas regras.

— As leis tendem a se tornar temporárias a longo prazo, Moneo. Não existe tal coisa como a criatividade governada por regras.

— Mas o Senhor mesmo falou em leis que governariam seu programa de procriação.

— O que acabei de lhe dizer, Moneo? Tentar encontrar regras para a criação é como tentar separar a mente do corpo.

— Mas alguma coisa está evoluindo, Senhor. Eu sei por mim mesmo!

“Ele sabe por si mesmo! Querido Moneo. Está tão perto.”

— Por que você sempre busca traduções absolutamente derivativas, Moneo?

— Eu o ouvi falar em evolução transiormacional, Senhor. Esse é o título em seu livro sobre genética. Mas e quanto à surpresa.

— Moneo! As regras mudam com cada surpresa.

— Senhor, não tem em mente nenhum aperfeiçoamento do estoque humano?

Leto olhou para ele pensando: “Se eu usar agora a palavra-chave, será que ele compreenderá?”

— Eu sou um predador, Moneo.

— Pred... — Moneo não chegou a terminar, sacudindo a cabeça.

Ele sabia o significado da palavra, mas esta em si o chocara. Estaria o Imperador-Deus brincando?

— Predador, Senhor?

— O predador melhora a espécie.

— Como pode ser, Senhor? O Senhor não nos odeia.

— Você me desaponta, Moneo. O predador nem sempre odeia sua presa.

— Os predadores matam, Senhor.

— Eu mato, mas não odeio. A presa sacia a fome. A presa é boa.

Moneo fitou o rosto de Leto em seu capuz cinzento. “Terei deixado de perceber a aproximação do Verme?”, admirou-se Moneo.

Temeroso, Moneo buscou os indícios. Não havia tremores no corpo, embaçamento no olhar ou contorcer das inúteis barbatanas.

— De que tem fome, Senhor? — arriscou Moneo.

— Anseio por uma humanidade verdadeiramente capaz de tomar decisões a longo prazo. Sabe qual é a chave para essa habilidade, Moneo?

— O Senhor o disse muitas vezes. É a habilidade de mudar de opinião. Mudar de ponto de vista.

— Mudar, sim. E você sabe o que quero dizer com longo prazo?

— Para o Senhor, longo prazo deve significar milênios.

— Moneo, até mesmo os meus milênios não passam de um ponto insignificante em relação ao Infinito.

— Mas sua perspectiva deve ser diferente da minha, Senhor.

— Em vista do Infinito, qualquer longo prazo definido se torna um curto prazo.

— Então, verdadeiramente, não existem regras, Senhor? — A voz de Moneo transmitia um fraco indício de histeria.

Leto sorriu para aliviar as tensões do homem.

— Talvez uma: as decisões tomadas a curto prazo tendem a fracassar a longo prazo.

Moneo sacudiu a cabeça, frustrado.

— Mas Senhor, sua perspectiva é...

— O Tempo se esgota para qualquer observador finito. Não existem sistemas fechados. Até mesmo eu apenas estico uma matriz finita.

Num movimento brusco, Moneo afastou sua atenção da face do Imperador, olhando as distâncias sugeridas pelos corredores do mausoléu. “Eu estarei lá algum dia. O Caminho Dourado poderá continuar, mas eu terminarei.” Isso não era importante, é claro. Apenas o Caminho Dourado que ele podia sentir em ininterrupta continuidade, apenas aquilo importava. Voltou a olhar para Leto, mas não para seus olhos completamente azuis. Haveria realmente um predador à espreita naquele corpo volumoso?

— Você não compreende a função de um predador — disse Leto.

As palavras chocaram Moneo, pois indicavam uma leitura de mente. Ele voltou seu olhar para os olhos de Leto.

— Você sabe intelectualmente que até mesmo eu sofrerei algum tipo de morte, algum dia — disse Leto. — Mas não acredita nisso.

— Como posso acreditar em algo que nunca testemunharei?

Moneo nunca se sentira mais solitário e temeroso. Que estaria fazendo o Imperador-Deus? “Eu desci aqui para discutir os problemas da peregrinação e para descobrir suas intenções com relação a Siona. Será que ele está brincando comigo?”

— Vamos falar sobre Siona — disse Leto.

“Leitura da mente outra vez!”

— Quando irá testá-la, Senhor? — A pergunta estivera aguardando diante de sua consciência por todo o tempo, mas, agora que a enunciara, Moneo a temia.

— Logo.

— Perdoe-me, Senhor, mas certamente sabe o quanto temo pelo bem-estar de minha única filha.

— Outros sobreviveram ao teste, Moneo. Você mesmo.

Moneo engoliu em seco, relembrando como havia sido sensibilizado para o Caminho Dourado.

— Minha mãe me preparou. Siona não tem mãe.

— Ela tem as Oradoras Peixes. Ela tem você.

— Acidentes acontecem, Senhor.

Lágrimas brotaram nos olhos de Moneo.

Leto afastou o olhar da direção dele, pensando: “Ele está dividido entre sua lealdade para comigo e seu amor por Siona. Como é tocante essa preocupação com a prole. Será que ele não vê que a humanidade inteira é minha única filha?”

Voltando sua atenção para Moneo, Leto disse:

— Você está certo ao observar que acidentes acontecem, mesmo em meu universo. Será que isso não lhe ensina coisa alguma?

— Senhor, apenas desta vez não poderia...

— Moneo! Certamente não está pedindo que eu delegue autoridade a uma administradora fraca.

Moneo recuou um passo.

— Não, Senhor. É claro que não.

— Então confie na força de Siona.

Moneo endireitou os ombros.

— Eu farei o que for preciso.

— Siona deve ser despertada para suas obrigações como uma Atreides.

— Sim, é claro, Senhor.

— Não é esse o nosso compromisso, Moneo?

— Não o nego, Senhor. Quando irá apresentá-la ao novo Duncan?

— O teste vem primeiro.

Moneo olhou para o piso frio da cripta.

“Ele olha para o chão com tanta freqüência”, pensou Leto. “O que ele pode ver no chão? As marcas milenares da minha carreta? Ah, não. — é nas profundezas que ele perscruta, nos reinos dos mistérios e tesouros que ele espera penetrar logo.

Uma vez mais Moneo ergueu o olhar para o rosto de Leto.

— Eu espero que ela aprecie a companhia do Duncan.

— Tenha certeza disso. Os Tleilaxu o trouxeram para mim em sua forma não-distorcida.

— Isso é tranqüilizador, Senhor.

— Sem dúvida já observou que seu genótipo é notavelmente atraente para as mulheres.

— Essa foi minha observação, Senhor.

— Existe algo naqueles olhos suaves e observadores, naquelas feições fortes e no cabelo negro e espesso como pêlo de cabra que positivamente derrete a psique feminina.

— Como o Senhor diz.

— Sabe que agora mesmo ele está com as Oradoras Peixes?

— Eu fui informado, Senhor.

Leto sorriu. É claro que Moneo fora informado.

— Elas o trarão logo para sua primeira visão do Imperador-Deus.

— Inspecionei pessoalmente a sala de audiências. Tudo está pronto, Senhor.

— Algumas vezes acho que você deseja me enfraquecer, Moneo. Deixe alguns desses detalhes para mim.

Moneo tentou ocultar a constrição do medo. Curvou-se e recuou.

— Sim, Senhor. Mas há algumas coisas que eu devo fazer.

Voltando-se, saiu apressado. Só quando já estava subindo no elevador foi que Moneo percebeu que tinha saído sem esperar a permissão.

“Ele deve saber o quanto estou cansado. Vai me perdoar.”

 

Teu Senhor conhece muito bem o que se encontra em teu coração. Sua alma é o bastante, hoje, como testemunha contra você. Eu não preciso de outros depoimentos. Tu não escutas a tua alma, e sim o teu ódio e a tua raiva.

 

- Lorde Leto a um penitente.

 

Da História Oral

 

A seguinte avaliação do estado do Império no ano 3508 do reinado de Lorde Leto foi retirada do Resumo de Welbeck. O original encontra-se nos Arquivos da Ordem Bene Gesserit. Uma comparação revela que o que foi subtraído não prejudica a precisão essencial do relato.

Em nome de nossa Sagrada Ordem, em sua inquebrantável Irmandade, este relato foi julgado confiável e digno de entrar em nossas crônicas.

As irmãs Chenoeh e Tawsuoko retornaram em segurança de Arrakis para nos trazerem a confirmação da execução de nove historiadores que desapareceram na Cidadela durante o ano de 2116 do reinado de Lorde Leto, fato de que há muito suspeitávamos. As irmãs relatam que os nove foram deixados inconscientes e em seguida queimados em piras feitas com seus próprios trabalhos publicados. Isso corresponde exatamente às histórias que circularam através do Império naquela ocasião. Os relatos da época foram julgados como tendo se originado do próprio Leto.

As irmãs Chenoeh e Tawsuoko trazem registros escritos do relato de uma testemunha, dizendo que, quando Lorde Leto foi procurado por outros historiadores, buscando notícias de seus companheiros, ele disse:

“Eles foram destruídos porque mentiram pretensiosamente. Não temam que minha ira caia sobre vocês devido a erros inocentes. Eu não gosto muito de criar mártires. Os mártires tendem a provocar eventos dramáticos no curso dos assuntos humanos.

O drama é um dos alvos da minha predação. Tremam apenas se criarem falsos relatos e se apoiarem orgulhosamente sobre eles. Vão embora agora e não mencionem mais isso.”

A evidência interna, no relato escrito a mão, identifica seu autor como Ikonicre, majordomo de Lorde Leto no ano 2116.

Deve-se dedicar atenção ao uso, por Lorde Leto, da palavra predação. Isso é altamente sugestivo em vista das teorias apresentadas pela Reverenda Madre Syaksa, de que o Imperador-Deus vê a si próprio como um predador no sentido natural.

A Irmã Chenoeh foi convidada a acompanhar as Oradoras Peixes no cortejo que seguiu uma das pouco freqüentes peregrinações de Lorde Leto. Em certo trecho ela foi chamada para caminhar ao lado da Carreta Real, podendo conversar com Lorde Leto em pessoa. Ela relata o diálogo como se segue:

Lorde Leto disse:

“Aqui, na Estrada Real, às vezes me sinto como se me colocasse sobre muralhas, protegendo-me contra os invasores.”

A Irmã Chenoeh disse:

“Ninguém o ataca aqui, Senhor.”

Lorde Leto disse:

“Sua Bene Gesserit me assalta por todos os lados. Mesmo agora, vocês buscam subornar minhas Oradoras Peixes.”

A Irmã Chenoeh diz que se preparou para a morte, mas que o Imperador-Deus apenas deteve sua carreta e olhou por sobre ela para o seu séquito. Ela conta que os outros pararam, aguardando na estrada em bem treinada passividade, todos mantendo respeitosa distância.

E Lorde Leto disse:

“Lá está minha pequena multidão e eles me dizem tudo. Não negue minha acusação.”

A Irmã Chenoeh disse:

“Eu não estou negando.”

Lorde Leto olhou então para ela e disse:

“Não tema por sua pessoa. É meu desejo que relate minhas palavras à sua Irmandade.”

A Irmã Chenoeh diz ter percebido então que Lorde Leto sabia tudo a respeito dela, a respeito de sua missão, seu treinamento como registradora oral, tudo. “Ele era como uma Reverenda Madre”, ela comentou. “Não era possível esconder-lhe coisa alguma.”

E Lorde Leto então lhe ordenou:

“Olhe para a minha Cidade Festival e me diga o que vê.”

A Irmã Chenoeh olhou para Onn e disse:

“Eu vejo a cidade a distância. Ela é bela à luz da manhã. Lá está a sua floresta à direita. Ela possui tantas tonalidades de verde que eu poderia passar o dia inteiro a descrevê-las. Para a esquerda e por toda a volta da Cidade, espraiam-se os jardins e as casas de seus servidores. Alguns deles parecem muito ricos e outros, muito pobres.”

Lorde Leto disse:

“Nós atravancamos esta paisagem! Árvores atravancam. Casas, jardins... Você não pode exultar ante novos mistérios em tal paisagem.”

A Irmã Chenoeh, estimulada pelas garantias de Leto, perguntou:

“E o Senhor realmente deseja os mistérios?”

Ele respondeu:

“Não existe liberdade espiritual externa em tal panorama. Não percebe isso? Não temos um universo aberto para partilhar aqui. Tudo é fechado... Portas, trancas, trincos!”

A Irmã Chenoeh indagou:

“Será que a humanidade não tem mais necessidade de privacidade ou proteção?”

Lorde Leto disse:

“Quando você voltar, diga a suas irmãs que eu vou restaurar a visão exterior. Uma paisagem como esta leva a pessoa a olhar para seu interior em busca de qualquer liberdade de espírito que possa encontrar dentro de si. E a maioria dos humanos não é suficientemente forte para encontrar liberdade no seu interior.”

A Irmã Chenoeh respondeu:

“Eu relatarei suas palavras com precisão, Senhor.”

Lorde Leto disse:

“Certifique-se disso. Diga a suas irmãs também que as Bene Gesserits, entre todas as pessoas, devem conhecer os perigos da procriação em busca de uma característica particular, à procura de um objetivo genético definido.”

A Irmã Chenoeh diz que essa era uma referência óbvia ao pai de Lorde Leto, Paul Atreides. Deve-se notar que nosso programa de procriação conquistou o Kwisatz Haderach uma geração mais cedo. Ao se tornar o Muad'Dib, líder dos Fremen, Paul Atreides escapou ao nosso controle. Não há dúvida de que ele era um macho com os poderes de uma Reverenda Madre, além de outros poderes pelos quais a humanidade ainda se encontra pagando um pesado preço. Como Lorde Leto disse:

“Vocês conseguiram aquilo que não esperavam. Vocês me conseguiram, o coringa do baralho. E eu consegui Siona.”

Lorde Leto recusou-se a esclarecer essa referência à filha de seu majordomo, Moneo. A questão está sendo investigada.

Nos outros assuntos de interesse para a Irmandade, nossas investigadoras forneceram-nos as seguintes informações sobre:

 

AS ORADORAS PEIXES

As legiões femininas de Lorde Leto elegeram suas representantes para comparecerem ao Festival Decenal em Arrakis. Três representantes estarão presentes para cada guarnição planetária. (Ver, em anexo, relação das escolhidas.) Como de costume, nenhum adulto do sexo masculino comparecerá, nem mesmo os consortes das oficiais Oradoras Peixes. A lista de consortes mudou muito pouco neste período do relatório. Acrescentamos os nomes, com informações genealógicas, onde era possível. Note-se que apenas dois nomes podem ser destacados como descendentes dos gholas Duncan Idaho. Nada há de novo que possamos acrescentar quanto às nossas especulações sobre o uso dos gholas em seu programa de procriação.

Nenhum de nossos esforços no sentido de formar uma aliança entre as Oradoras Peixes e a Bene Gesserit teve sucesso durante este período. Lorde Leto continua a aumentar o tamanho de certas guarnições. Também continua a enfatizar as outras missões das Oradoras Peixes, ao mesmo tempo em que desenfatiza suas missões militares. Isso teve o resultado esperado de aumentar a admiração, o respeito e a gratidão pela presença dessas guarnições em cada local. (Ver, em anexo, a relação das guarnições que aumentaram de tamanho. Nota do Editor: As únicas guarnições pertinentes eram as situadas nos planetas natais das Bene Gesserits, dos Ixianos e dos Tleilaxu. Não houve aumento do número de monitores da Corporação Espacial.)

 

CLERO

Exceto por algumas substituições e mortes naturais que estão enumeradas nos anexos, não houve mudanças significativas. Os consortes e os funcionários destacados para a realização de tarefas rituais permanecem poucos, seus poderes limitados pela contínua necessidade de consultar Arrakis antes de qualquer ação importante.

Na opinião da Reverenda Madre Syaksa e de algumas outras, a característica religiosa das Oradoras Peixes encontra-se em lento declínio.

 

PROGRAMA DE PROCRIAÇÃO

A não ser a inexplicada referência a Siona e à nossa falha com seu pai, nada temos a acrescentar com relação à nossa contínua monitoração do programa de procriação de Lorde Leto. Existem evidências de uma certa casualidade em seu plano, reforçadas pela declaração de Lorde Leto a respeito de “objetivos genéticos”, mas não temos certeza de que ele tenha sido sincero com a Irmã Chenoeh. Chamamos sua atenção para as muitas ocasiões em que ele ou mentiu ou mudou de direção drasticamente e sem qualquer aviso.

Lorde Leto continua a proibir nossa participação em seu programa de procriação. Suas monitoras em nossa guarnição de Oradoras Peixes permanecem inflexíveis quanto a eliminar nossos nascimentos a que fazem objeção. Somente os mais rigorosos controles nos permitiram manter o nível de Reverendas Madres durante este período do relatório. Nossos protestos não obtiveram resposta. E, em resposta a uma pergunta direta da Irmã Chenoeh, Lorde Leto disse:

“Agradeçam por aquilo que vocês tem.”

Esse aviso é notado aqui. Nós transmitimos uma graciosa carta de agradecimento a Lorde Leto.

 

ECONOMIA

A Irmandade continua mantendo sua solvência, mas as medidas de economia não podem ser afrouxadas. De fato, como precaução, novas medidas serão instituídas durante o próximo período de relatório. Essas medidas incluirão a redução dos usos rituais da melange e o aumento das taxas cobradas por nossos serviços normais. Esperamos dobrar as mensalidades para o ensino de mulheres das Grandes Casas durante os próximos quatro períodos de relatório. Vocês, portanto, ficam encarregadas de começar a preparar seus argumentos em defesa de tal procedimento.

Lorde Leto negou nossa petição no sentido de um aumento da nossa quota de melange. Nenhuma razão foi fornecida.

Nosso relacionamento com a Combine Honnete Ober Advancer Mercantiles permanece sólido. A CHOAM obteve, no período deste relatório, um cartel regional de Jóias Estelares, projeto do qual obtemos lucro substancial através de nossas atividades de assessoria e barganha. Os atuais lucros desse acordo devem ser mais que suficientes para compensar nossas perdas em Giedi Prime. O investimento em Giedi Prime foi cancelado.

 

GRANDES CASAS

Trinta e uma das antigas Grandes Casas sofreram desastres econômicos durante o período deste relatório. Somente seis conseguiram manter o status de Casa Menor. (Ver relação em anexo.) Essa continua a ser uma tendência geral, notada durante os mil anos passados, quando as antigas Grandes Casas foram perdendo gradualmente a sua importância. Deve-se notar que as seis que conseguiram evitar o desastre total eram todas fortes investidoras da CHOAM, e cinco dessas seis estavam profundamente envolvidas no Projeto das Jóias Estelares. A única exceção apresentava um portfolio diversificado, incluindo um investimento substancial em antigas peles de baleia de Caladan.

(Nossas reservas de arroz ponji quase dobraram neste período, à custa de nossas ações em peles de baleia. As razões para essa decisão serão revistas no próximo período.)

 

VIDA FAMILIAR

Como foi observado por nossas investigadoras durante os 2 mil anos precedentes, a homogeneização da vida familiar continua inalterada. As exceções são aquelas que devíamos esperar: a Corporação, as Oradoras Peixes, os Correios Reais e os mutáveis Dançarmos Faciais dos Tleilaxu (que ainda são híbridos, a despeito de todos os esforços no sentido de mudar tal condição), e nossa própria situação, é claro.

Deve-se notar que a estrutura familiar se torna mais e mais semelhante, não importando qual o planeta de residência, circunstância que não pode ser considerada acidental. Observamos aqui a emergência de um dos grandes desígnios de Lorde Leto. Mesmo as famílias mais pobres são bem alimentadas, é verdade, mas as condições da vida diária se tornam cada vez mais estáticas.

Lembro a vocês uma declaração de Lorde Leto que foi relatada há mais de oito gerações:

“Eu sou o único espetáculo que resta no Império.”

A Reverenda Madre Syaksa propôs uma explicação teórica para essa tendência, uma teoria que muitas entre nós estão começando a compartilhar. A RM Syaksa atribui a Lorde Leto um motivo baseado no conceito de despotismo hidráulico. Como sabem, o despotismo hidráulico só é possível quando a substância, ou condição sobre a qual a vida em geral se assenta de modo absoluto, pode ser controlada por uma força relativamente pequena e centralizada. O conceito de despotismo hidráulico originou-se quando o fluxo de água para irrigação aumentava as populações locais até um nível de dependência absoluta. Quando o fluxo da água era interrompido, as pessoas morriam em grande número.

Esse fenômeno tem se repetido muitas vezes ao longo da história humana, e não apenas com a água e os produtos da terra cultivada, mas também com combustíveis hidrocarbonados, tais como o petróleo e o carvão, os quais eram controlados através de oleodutos e outras redes de distribuição. Em certa época, quando a distribuição de eletricidade era efetuada apenas através de complicadas redes de fios estendidos através da paisagem, até mesmo esse recurso energético serviu de base para o despotismo hidráulico.

A RM Syaksa propõe que Lorde Leto está conduzindo o Império rumo a uma dependência cada vez maior em relação à melange. Vale notar que o processo de envelhecimento pode ser considerado uma doença para a qual a melange constitui um tratamento específico, embora não uma cura. A RM Syaksa sugere que Lorde Leto pode mesmo chegar ao ponto de introduzir uma nova doença que só possa ser curada com a melange. Embora essa possa parecer uma idéia extravagante, não deve ser inteiramente descartada como possibilidade. Coisas mais estranhas já aconteceram, e não devemos subestimar o papel da sífilis na história humana inicial.

 

TRANSPORTES/CORPORAÇÃO

O sistema de transporte por três modos, outrora peculiar a Arrakis (isto é: a pé, com as cargas pesadas montadas em catres erguidos por suspensores; pelo ar, via ornitópteros; e fora do planeta, através dos transportes da Corporação), tem passado a dominar mais e mais planetas do Império. A principal exceção permanece sendo Ix.

Atribuímos isso, em parte, a uma involução planetária de volta a estilos de vida sedentários e estáticos. E em parte como tentativa de copiar o padrão de Arrakis. A aversão generalizada a tudo que seja Ixiano não desempenha menor papel nessa tendência. E há também o fato de que as Oradoras Peixes promovem esse padrão como um meio de reduzir seu trabalho na manutenção da ordem.

A parte da Corporação Espacial nessa tendência repousa sobre a absoluta dependência de seus Navegadores com relação à melange. Por isso estamos mantendo uma vigilância minuciosa quanto ao esforço conjunto de Ix e da Corporação no sentido de desenvolverem um substitutivo mecânico para os talentos de predição dos Navegadores. Sem a melange ou algum outro meio de se projetar o curso de um heighliner, cada viagem transluz da Corporação arrisca-se a terminar em desastre. Embora não sejamos muito entusiásticas quanto a esse projeto Corporação-IX, há sempre uma possibilidade, e deveremos relatar a respeito disso assim que as condições o permitirem.

 

O IMPERADOR-DEUS

A não ser por um pequeno crescimento, notamos pouca mudança nas características físicas de Lorde Leto. A falada aversão à água não foi confirmada, embora o uso desse líquido como barreira contra os vermes da areia originais de Duna esteja bem documentado em nossos registros, da mesma forma que a morte da água, pela qual os Fremen matavam um pequeno verme para produzir a essência de especiaria empregada em suas orgias.

Existem evidências consideráveis para a crença de que Lorde Leto aumentou sua vigilância sobre Ix, possivelmente como conseqüência do projeto conjunto dos Ixianos com a Corporação. Certamente um sucesso nesse projeto reduziria seu domínio sobre o Império.

Ele continua a fazer negócios com Ix, comprando partes sobressalentes para a sua Carreta Real.

Um novo ghola Duncan Idaho foi enviado a Lorde Leto pelos Tleilaxu. Isso deixa claro que o ghola anterior está morto, embora as condições de sua morte não sejam conhecidas. Chamamos sua atenção para indicações anteriores de que o próprio Leto matou alguns de seus gholas.

Existem evidências crescentes de que Lorde Leto emprega computadores. Se ele está, de fato, desafiando suas próprias proibições e as prescrições do Jihad Butleriano, a posse de uma prova quanto a isso aumentaria nossa influência sobre ele, possivelmente ao ponto de possibilitar empreendimentos conjuntos que há muito temos contemplado. O controle soberano sobre nosso programa de procriação é ainda a nossa preocupação primordial. Continuaremos nossas investigações, tendo em mente, contudo, a seguinte advertência:

Como em cada relatório anterior a este, devemos considerar a presciência de Lorde Leto. Não resta dúvida de que sua habilidade de prever eventos futuros — habilidade oracular muito mais poderosa que a de qualquer um de seus ancestrais — ainda permanece o principal sustentáculo de seu controle político.

Nós não a desafiamos!

É nossa crença que ele conhece cada ação importante que planejamos bem antes de ela acontecer. Guiamos, portanto, pela regra de nunca ameaçar conscientemente sua pessoa ou o que possamos discernir de seu grande plano. Nossa maneira de aborda-lo continuará sendo:

“Diga-nos se o ameaçamos para que possamos desistir.”

E:

“Fale-nos de seu grande plano para que possamos ajudá-lo.”

Ele não nos forneceu nenhuma resposta nova a qualquer das duas perguntas durante este período.

 

OS IXIANOS

Além do Projeto conjunto Ix-Corporação, existe pouca coisa de importância para ser relatada. Ix está enviando um novo embaixador para a corte de Lorde Leto, uma certa Hwi Noree, neta de Malky, que um dia foi considerado um grande amigo do Imperador-Deus. A razão para a escolha dessa substituta não nos é conhecida, embora haja um pequeno corpo de evidências indicando que essa Hwi Noree foi criada para um propósito específico, possivelmente para ser a representante Ixiana na Corte. Também temos razão para acreditar que, exatamente como ela, Malky foi geneticamente preparado com esse objetivo oficial em mente.

Continuaremos a investigar.

 

OS FREMEN DE MUSEU

Essas relíquias degeneradas dos outrora orgulhosos guerreiros continuam a operar como a principal fonte de informações confiáveis sobre o que acontece em Arrakis.

Eles representam um importante item no orçamento para o nosso próximo período de relatório, de vez que suas exigências de pagamento estão aumentando e não nos atrevemos a antagonizá-los.

É interessante notar que, embora suas vidas tenham pouca semelhança com as de seus ancestrais, seu desempenho nos rituais Fremen e sua habilidade de imitar os antigos costumes permanecem impecáveis. Atribuímos isso à influência das Oradoras Peixes sobre o treinamento dos Fremen.

 

OS TLEILAXU

Não acreditamos que o novo ghola Duncan Idaho contenha qualquer surpresa. Os Tleilaxu continuam, a ser muito prejudicados pela reação de Lorde Leto à sua única tentativa de mudar a natureza celular e psíquica do original.

Um recente enviado dos Tleilaxu renovou suas tentativas de nos atrair a uma aventura conjunta, o alegado propósito sendo a produção de uma sociedade inteiramente feminina, sem a necessidade de machos. Por todas as razões óbvias, incluindo nossa desconfiança quanto a qualquer coisa oriunda dos Tleilaxu, respondemos com nossa habitual negativa educada. Nossa Comitiva ao Festival Decenal de Lorde Leto fará para ele um completo relatório a respeito disso.

Respeitosamente, subscrevemo-nos Reverendas Madres Syaksa, Yitob, Mamulut, Eknekosk e Akeli.

 

Estranho como possa parecer, as grandes lutas, como as que vocês percebem emergir da leitura de meus diários, nem sempre parecem visíveis aos seus participantes.

Muito depende do que as pessoas sonham na privacidade de seus corações. Sempre me preocupei em moldar os sonhos assim como as ações. Entre as linhas do meu diário, encontra-se a luta com a visão que a humanidade possui de si mesma — uma disputa suarenta num campo onde as motivações do nosso passado mais obscuro podem brotar de um reservatório inconsciente, tornando-se não apenas eventos com os quais temos de viver, mas eventos que precisamos enfrentar. É o monstro com cabeças de hidra que sempre nos ataca vindo de nosso lado cego. Eu rezo, portanto, para que, quando vocês tiverem atravessado sua porção do Caminho Dourado, a humanidade não seja mais como crianças inocentes dançando ao som de uma música que não podem ouvir.

— Os diários roubados

 

Nayla caminhava a um passo firme e regular enquanto subia a escadaria circular até a câmara de audiências do Imperador-Deus, no topo da torre sul da Cidadela. A cada vez que ela atravessava o arco sudoeste da torre, as estreitas janelas em fenda lançavam linhas de poeira dourada, bem-definidas, através do seu caminho. Ela sabia que a parede central, ao lado dela, ocultava um elevador Ixiano suficientemente grande para carregar o volumoso corpo de seu Senhor até a câmara de cima. Decerto seria grande o suficiente para carregar seu corpo relativamente pequeno, mas ela não se ressentia do fato de ter de usar as escadarias.

Através das fendas abertas, a brisa trazia até ela o cheiro queimado de pó de pedra da areia soprada. O sol baixo no horizonte incendiava de luz os flocos de mineral vermelho na parede interna, como pontos de rubi brilhante. Aqui e ali, ela lançava uma olhadela pelas janelas em fenda até as dunas lá embaixo. Mas nem uma vez parou para admirar as coisas que via a seu redor.

— Você possui uma paciência heróica, Nayla — dissera-lhe seu Senhor uma vez.

A lembrança dessas palavras a animava agora.

Dentro da torre, Leto seguia o progresso de Nayla subindo a longa escada circular que espiralava em redor do tubo Ixiano. Seu avanço era transmitido até ele por um engenho Ixiano que projetava a imagem dela, com um quarto do tamanho, numa região de foco tridimensional diretamente em frente de seus olhos.

“Com que precisão ela caminha”, pensou ele.

A precisão, ele sabia, vinha da apaixonada simplicidade da moça.

Ela usava as roupas azuis das Oradoras Peixes e um manto com capuz sem o falcão no peito. Uma vez passado o posto da guarda, no pé da torre, ela retirara a máscara cibus que ele exigia que usasse nessas visitas pessoais. Seu corpo volumoso, musculoso, era como o de muitas outras de suas guardiãs, mas o rosto não era como o de nenhuma outra em toda a sua memória — quase quadrado, com uma boca tão larga que parecia estender-se em torno das bochechas, ilusão causada pelos profundos vincos nos cantos. Os olhos dela eram de um verde pálido, o cabelo, cortado curto, da cor de marfim velho. Sua testa aumentava o efeito de um quadrado, quase chata com sobrancelhas pálidas que freqüentemente passavam despercebidas devido aos olhos constrangedores. O nariz era reto, uma linha rasa que terminava junto à boca de lábios finos.

Quando Nayla falava, suas grandes mandíbulas se abriam e se fechavam como as de algum animal primitivo. Sua força, conhecida por poucos fora do Corpo de Oradoras Peixes, era lendária aqui. Leto a vira erguer um homem de 100 quilos com uma só mão. Sua presença em Arrakis fora conseguida originalmente sem a intervenção de Moneo, embora o majordomo soubesse que Leto empregava suas Oradoras Peixes como agentes secretas.

Leto desviou o olhar da imagem em movimento e olhou, através da larga abertura ao seu lado, para o deserto ao sul. As cores das rochas distantes dançaram em sua percepção: marrom, dourado e âmbar profundo. Havia uma linha rosada num penhasco distante, a cor exata das penas da garça pequena. As garças não mais existiam, exceto na memória de Leto, mas ele podia colocar aquela pálida tira de pedra de cor pastel ante um olho interior, e era como se o pássaro extinto voasse diante dele.

A subida, ele sabia, devia estar começando a cansar até mesmo Nayla. Ela finalmente parou para descansar, detendo-se dois degraus além da marca de três quartos. O lugar preciso onde ela repousava todas as vezes. Era parte de sua precisão, uma das razões pelas quais ele a trouxera de volta de uma distante guarnição em Seprek.

Um falcão de Duna passou pela abertura ao lado de Leto, a apenas alguns comprimentos de asa da muralha da torre, sua atenção mantida nas sombras da base da Cidadela. Pequenos animais algumas vezes emergiam ali, Leto o sabia. No horizonte, além da rota do falcão, ele podia distinguir fracamente uma linha de nuvens.

Que coisas estranhas eram elas para o Velho Fremen que existia nele: nuvens em Arrakis, e chuva, e água a céu aberto.

Leto lembrou suas vozes interiores: “Exceto por este último deserto, o meu Sareer, a remodelação de Duna num Arrakis verdejante prosseguiu implacavelmente desde os primeiros dias do meu reinado.”

A influência da geografia na história fora geralmente despercebida, pensou Leto. Os seres humanos tendiam a observar mais a influência da história na geografia.

“Quem possui esta passagem de rio? Este vale verdejante? Esta península? Este planeta? Nenhum de nós.”

Nayla estava subindo uma vez mais, seu olhar fixo nas escadas que ainda devia suplantar. Os pensamentos de Leto voltaram-se para ela.

“De muitas maneiras, ela é a assistente mais útil que já tive. Eu sou o Deus dela. Ela me adora sem questionamentos. Mesmo quando eu, de brincadeira, ataco a sua fé, ela recebe isso meramente como um teste. E se julga superior a qualquer teste.”

Quando ele a enviara para participar da rebelião e lhe dissera para obedecer Siona em todas as coisas, ela não questionara. Quando Nayla duvidava, mesmo quando colocava suas dúvidas em palavras, seus próprios pensamentos eram suficientes para lhe restaurar a fé... ou tinham sido suficientes até então. Recentes mensagens, contudo, tinham deixado claro que Nayla precisava da Sagrada Presença para lhe restaurar a força interior.

Leto relembrava sua primeira conversa com Nayla, a mulher trêmula em sua avidez para satisfazê-lo:

— Mesmo que Siona a envie para me matar, você deve obedecer. Ela nunca deve perceber que você serve a mim.

— Mas ninguém pode matá-lo, Senhor.

— Mas você deve obedecer Siona.

— É claro, Senhor. Essa foi a sua ordem.

— Deve obedecê-la em todas as coisas.

— Eu o farei, Senhor.

“Outro teste. Nayla não questiona os meus testes. Ela os trata como a picadas de pulgas. Seu Senhor ordena? Nayla obedece. Não posso permitir que coisa alguma mude esse relacionamento.”

Ela teria dado uma soberba Shadout nos velhos dias, pensou Leto. Fora essa uma das razões pelas quais dera a Nayla uma faca cristalina, uma verdadeira faca cristalina preservada do Sietch Tabr. Pertencera a uma das esposas de Stilgar, e Nayla a usava numa bainha escondida debaixo de seus mantos, mais um talismã do que uma arma. Ele a dera no ritual original, cerimônia que o surpreendera ao evocar emoções que julgara para sempre sepultadas.

— Este é o dente do Shai-Hulud.

E lhe estendera a lâmina com suas mãos de pele prateada.

— Receba-a e você se tornará parte do passado e do futuro. Suje-a e o passado não lhe dará futuro algum.

Nayla aceitara a lâmina, depois a bainha.

— Tire o sangue de um dedo — Leto ordenara.

Nayla obedecera.

— Coloque a faca na bainha. E nunca a retire sem tirar sangue.

E novamente Nayla obedecera.

Agora, enquanto Leto observava a imagem tridimensional de Nayla se aproximando, suas reflexões sobre aquela antiga cerimônia eram tocadas pela tristeza. A menos que fosse fixada pela antiga maneira Fremen, a lâmina iria tornar-se cada vez mais quebradiça e inútil. Manteria a sua forma de faca cristalina durante a vida de Nayla, mas não duraria além disso.

“Eu joguei fora um fragmento do passado.”

Como era triste que as Shadout dos antigos dias se tivessem tornado as Oradoras Peixes de hoje. E uma verdadeira faca cristalina fora usada para unir mais fortemente um servo ao seu senhor. Ele sabia que alguns julgavam que as suas Oradoras Peixes eram de fato sacerdotisas — a resposta de Leto à Bene Gesserit.

— Ele cria uma nova religião — disseram as Bene Gesserits.

— Tolice. Eu não crio uma nova religião. Eu sou a religião!

Nayla entrou na torre-santuário e parou a três passos da carreta de Leto, a cabeça curvada em adequada subserviência.

Ainda em suas memórias, Leto disse:

— Olhe para mim, mulher!

Ela obedeceu.

— Eu criei uma sagrada obscenidade! Essa religião criada em torno de minha pessoa me desagrada!

— Sim, Senhor.

Os olhos verdes de Nayla, nas almofadas douradas de suas faces, olharam para ele sem questionamento, sem compreensão, sem a necessidade de qualquer resposta.

“Se eu a mandasse colher estrelas, ela sairia daqui e tentaria fazê-lo. Pensa que a estou testando uma vez mais. Creio que ela poderia enfurecer-me.”

— Essa maldita religião deve terminar comigo! — gritou Leto. — Por que eu desejaria deixar uma religião à solta entre minha gente? As religiões arruinam por dentro — impérios e indivíduos da mesma maneira! É tudo o mesmo.

— Sim, Senhor.

— As religiões criam radicais e fanáticos como você!

— Obrigada, Senhor.

A pseudo-ira de vida curta reafundou nas profundezas das suas memórias. Nada riscara a superfície dura da fé de Nayla.

— Topri enviou-me um relatório através de Moneo — disse Leto. — Fale-me a respeito desse Topri.

— Topri é um verme.

— Não é disso que você chama a mim quando está entre os rebeldes?

— Eu obedeço o meu Senhor em tudo.

“Touché!”

— Não vale a pena investir em Topri, então? — perguntou Leto.

— Siona o julgou corretamente. Ele é desajeitado. Diz coisas que outros irão repetir, expondo assim sua atuação no assunto. Segundos depois de Kobat começar a falar, ela já tinha a confirmação de que Topri era um espião.

“Todos concordam, até mesmo Moneo”, pensou Leto. “Topri não é um bom espião.”

A unanimidade divertia Leto. Essas maquinações insignificantes turvavam uma água que permanecia completamente transparente para ele. Os atores, entretanto, ainda serviam aos seus propósitos.

— Siona não suspeita de você? — perguntou Leto.

— Eu não sou desajeitada.

— Sabe por que a convoquei?

— Para testar a minha fé.

“Ah, Nayla. Quão pouco você sabe sobre testes.”

— Desejo sua avaliação sobre Siona. Quero vê-la em sua face e em seus movimentos, ouvi-la em sua voz — disse Leto. — Ela está pronta?

— As Oradoras Peixes precisam dela, Senhor. Por que o Senhor se arrisca a perdê-la?

— Forçar a questão é a maneira mais segura de perder aquilo que mais valorizo nela — disse Leto. — Ela deve vir a mim com todas as suas forças intactas.

Nayla abaixou a cabeça.

— Como o meu Senhor ordenar.

Leto reconheceu a resposta. Era a reação de Nayla a qualquer coisa que ela deixasse de entender.

— Será que ela vai sobreviver ao teste, Nayla?

— Como o meu Senhor descreve o teste... — Nayla ergueu os olhos para o rosto de Leto, encolheu os ombros. — Eu não sei, Senhor. Decerto que ela é forte. Foi a única que sobreviveu aos lobos. Mas ela é governada pelo ódio.

— Muito naturalmente. Diga-me, Nayla, que ela vai fazer com as coisas que roubou de mim?

— Topri não o informou a respeito dos livros que eles dizem conter as Suas Sagradas Palavras?

“Estranho como ela é capaz de colocar maiúsculas nas palavras apenas com a voz”, pensou Leto. Sua resposta foi áspera.

— Sim, sim. Os Ixianos possuem uma cópia e logo a Corporação e a Irmandade estarão trabalhando duramente nelas.

— Que são aqueles livros, Senhor?

— São as minhas palavras à minha gente. Quero que sejam lidas. O que desejo saber é o que Siona disse a respeito das plantas da Cidadela que ela levou.

— Ela diz que existe um grande tesouro em melange embaixo de sua Cidadela, Senhor. E que as plantas irão revelá-lo.

— As plantas não irão revelá-lo. Ela irá escavar?

— Ela busca ferramentas Ixianas para fazê-lo.

— Ix não irá fornecê-las.

— Existe tal tesouro em especiaria, Senhor?

— Sim.

— Há uma história sobre como o seu Tesouro é defendido. De que o próprio Arrakis seria destruído se alguém tentasse roubar a Sua melange. É verdade?

— Sim. E isso despedaçaria o Império. Nada sobreviveria: a Corporação, a Irmandade, Ix ou os Tleilaxu... nem mesmo as Oradoras Peixes.

Ela estremeceu e então disse:

— Eu não deixarei que Siona tente obter a Sua especiaria.

— Nayla! Eu lhe ordenei que obedecesse Siona em tudo. É dessa maneira que você me serve?

— Senhor? — indagou ela, temerosa de sua raiva, mais perto de perder a fé do que ele jamais vira: era a crise que ele havia criado, sabendo como deveria terminar. Lentamente, Nayla relaxou. Ele podia ver a forma de seus pensamentos como se ela os tivesse exibido em palavras luminosas.

“O teste final!”

— Você retornará ao encontro de Siona, e protegerá a vida dela como se fosse a sua própria — disse Leto. — Essa foi a tarefa que preparei para você e que você aceitou. Foi o motivo pelo qual você foi escolhida. É por isso que carrega a lâmina da casa de Stilgar.

A mão dela estendeu-se para a faca cristalina escondida debaixo do manto.

“Como é verdadeiro”, pensou Leto, “que uma arma pode prender uma pessoa a um padrão previsível de comportamento”.

Ele olhou fascinado para o corpo rígido de Nayla. Os olhos dela estavam vazios de tudo, exceto adoração.

“O derradeiro despotismo retórico... e eu o desprezo!”

— Vá, então! — gritou ele.

Nayla virou-se e fugiu da Sagrada Presença.

“Será que isto vale a pena?” — pensou Leto.

Mas Nayla dissera-lhe o que precisava saber. Ela havia renovado sua fé e revelado com precisão aquilo que Leto não podia encontrar na imagem de Siona, que já se esfumava. Os instintos de Nayla deviam ser considerados.

“Siona chegou ao ponto explosivo de que eu preciso.”

 

Os Duncans sempre acham estranho que eu escolha mulheres para as forças de combate, mas as minhas Oradoras Peixes são um exército temporário em todos os sentidos.

Embora possam ser violentas e perversas, as mulheres são profundamente diferentes dos homens em sua dedicação à batalha. O preço da gênese acaba por predispô-las a um comportamento mais protetor em relação à vida. E elas têm se revelado as melhores mantenedoras do Caminho Dourado; eu reforço isso em minhas especificações para o seu treinamento. Elas são poupadas por algum tempo das rotinas ordinárias. Eu lhes designo ações especiais com as quais poderão gozar com prazer o resto de suas vidas. Elas chegam à maturidade na companhia de suas irmãs, preparando-se para acontecimentos mais profundos. Aquilo que você compartilha em tal companheirismo sempre o prepara para coisas mais grandiosas. O ar da nostalgia cobre os dias delas entre suas irmãs, fazendo com que esses dias as transformem em algo diferente daquilo que eram. Essa é a maneira pela qual o hoje modifica a história. Nem todos os contemporâneos habitam o mesmo tempo. O passado está sempre mudando, mas poucos o percebem.

 

- Os diários roubados

 

Depois de enviar suas ordens às Oradoras Peixes, Leto desceu à cripta no cair da tarde. Achara melhor começar sua entrevista com o novo Duncan Idaho numa sala escura, onde o ghola pudesse ouvi-lo descrever a si próprio antes de realmente vê-lo no corpo pré-verme. Havia uma pequena sala lateral, escavada na rocha negra, fora da rotunda central da cripta, que era adequada para aquela necessidade. A câmara era suficientemente larga para acomodar Leto em sua carreta, mas o teto era baixo. A iluminação vinha de globos luminosos ocultos, os quais ele controlava. Havia apenas uma porta, mas em dois segmentos — um deles se abria amplamente para admitir a Carreta Real; o outro era um pequeno portal de dimensões humanas.

Leto fez a Carreta Real rolar para dentro da câmara, fechou o grande portal e abriu o menor. Preparou-se então para a sua provação.

O tédio era um problema crescente. O padrão dos gholas Tleilaxu vinha se tornando tediosamente repetitivo. Certa vez Leto enviara instruções advertindo os Tleilaxu para que não enviassem mais Duncans, mas eles sabiam que iriam desobedecê-lo nesse detalhe.

“Algumas vezes acho que eles fazem isso para manter viva a desobediência!”

Os Tleilaxu confiavam em algo importante que, eles sabiam, os protegia em outras questões.

“A presença de um Duncan satisfaz o Paul Atreides que existe em mim.”

Como Leto explicara a Moneo, nos primeiros dias da presença do majordomo na Cidadela:

— Os Duncans devem vir a mim com algo mais que a preparação dos Tleilaxu. Você deve cuidar para que minha gente suavize os Duncans e que as mulheres respondam a algumas de suas questões.

— Que questões elas poderão responder, Senhor?

— Elas sabem.

Moneo, é claro, havia aprendido tudo sobre esse procedimento com o correr dos anos.

Leto ouviu a voz de Moneo do lado de fora da sala escura e então o som da escolta de Oradoras Peixes, seguido pelos passos hesitantes do novo ghola.

— Após aquela porta — disse Moneo. — Estará escuro lá dentro e nós fecharemos a porta atrás de você. Pare logo depois da porta e espere que Lorde Leto fale com você.

— Por que vai estar escuro? — A voz do Duncan estava repleta de agressivos receios.

— Ele irá explicar.

Idaho foi empurrado para dentro da sala e a porta fechada atrás dele.

Leto sabia o que o ghola via: apenas sombras entre sombras e a escuridão onde nem mesmo a fonte de uma voz poderia ser determinada. Como de hábito, ele usou a voz de Paul Muad'Dib.

— Agrada-me vê-lo de novo, Duncan.

— Eu não posso vê-lo!

Idaho era um guerreiro, e um guerreiro ataca. Isso tranqüilizou Leto quanto ao fato de esse ghola ter sido completamente restaurado com relação ao original. O jogo de moralidade com o qual os Tleilaxu despertavam as memórias anteriores à morte no ghola sempre deixava algumas incertezas na mente deles. Alguns Duncans acreditavam ter ameaçado um verdadeiro Paul Muad'Dib. Este tinha tais ilusões.

— Eu ouço a voz de Paul, mas não posso vê-lo — disse Idaho. Não tentou ocultar sua frustração, deixando-a transparecer inteiramente em sua voz.

Por que um Atreides joga esse joga estúpido? Paul estava realmente morto, num passado distante, e esse era Leto, o portador das memórias renascidas de Paul... e das memórias de muitos outros! — caso se deva crer nas histórias dos Tleilaxu.

— Você foi informado de que é apenas o último de uma longa linha de duplicatas — disse Leto.

— Eu não tenho nenhuma dessas memórias.

Leto reconheceu a histeria na voz do Duncan, quase sem controle sob a bravura do guerreiro. As malditas táticas de restauração pós-tanque dos Tleilaxu tinham produzido o habitual caos mental. Esse Duncan tinha chegado num estado de quase choque, suspeitando fortemente estar louco. Leto sabia que os poderes mais sutis de transmissão de confiança seriam necessários para tranqüilizar o pobre coitado. Isso iria esgotar emocionalmente a ambos.

— Houve muitas mudanças, Duncan — disse Leto. — Uma coisa, entretanto, não mudou. Ainda sou um Atreides.

— Eles dizem que seu corpo é...

— Sim, isso também mudou.

— Os malditos Tleilaxu! Tentaram me levar a matar alguém. Eu... bem, ele se parecia com você. Subitamente me lembrei de quem eu era, e lá estava esse... Poderia ter sido um ghola Muad'Dib?

— O mimetismo de um Dançarino Facial, eu lhe asseguro.

— Ele falava e se parecia tanto com... Você tem certeza?

— Um ator, não mais que isso. Ele sobreviveu?

— É claro! Era assim que eles despertavam minhas memórias. Eles explicaram toda a maldita coisa. É verdade?

— É verdade, Duncan. Detesto isto, mas o permito pelo prazer de sua companhia.

“A vítima potencial sempre sobrevive”, pensou Leto. “Pelo menos com relação aos Duncans que eu vejo. Há sempre falhas, o falso Paul morto e os Duncans destruídos. Mas sempre existem mais células cuidadosamente preservadas do original.”

— E quanto ao seu corpo? — quis saber Idaho.

O Muad'Dib poderia retirar-se agora; Leto voltou a usar sua voz normal.

— Eu aceitei as trutas da areia como minha pele. Elas têm me modificado desde então.

— Por quê?

— Explicarei isso na ocasião devida.

— Os Tleilaxu disseram-me que parece um verme da areia.

— E o que minhas Oradoras Peixes disseram?

— Elas disseram que é Deus. Por que as chama de Oradoras Peixes?

— Um antigo conceito. As primeiras sacerdotisas conversavam com peixes em seus sonhos. Elas aprenderam coisas valiosas desse modo.

— Como sabe?

— Eu sou aquelas mulheres... e tudo que veio antes e depois delas.

Leto ouviu a garganta de Idaho engolir em seco, e então a declaração:

— Percebo a razão da escuridão. Está me dando tempo para me ajustar.

— Vocês sempre foram rápidos, Duncan.

“Exceto quando foram lentos.”

— Por quanto tempo tem sofrido essa mudança?

— Mais de 3.500 anos.

— Então, o que os Tleilaxu me contaram é verdade.

— Eles raramente se atrevem a mentir hoje em dia.

— Isso é um tempo muito longo.

— Muito longo.

— Os Tleilaxu... me copiaram muitas vezes?

— Muitas.

“É hora de você perguntar quantas, Duncan.”

— Quantos de mim?

— Deixarei que veja os registros por si mesmo, Duncan.

“E assim a coisa começa”, pensou Leto. Esse diálogo sempre parecia satisfazer aos Duncans, mas não havia como escapar à natureza da questão:

“Quantos de mim?”

Os Duncans não faziam distinções de carne, embora nenhuma memória mútua passasse entre gholas do mesmo estoque.

— Eu relembro minha morte — disse Idaho. — Lâminas dos Harkonnen, um monte delas tentando atingi-lo e a Jessica.

Leto restaurou momentaneamente a voz do Muad'Dib para um rápido jogo:

— Eu estava lá, Duncan.

— Eu sou um substituto, não é verdade? — indagou Idaho.

— É verdade — respondeu Leto.

— Como foi que os outros de mim... quero dizer, como eles morreram?

— Toda carne se desgasta, Duncan. Está nos registros.

Leto esperou pacientemente, imaginando por quanto tempo essa história suavizada satisfaria esse Duncan.

— Como você se parece realmente? — indagou Idaho. — Que é esse corpo de verme da areia que os Tleilaxu descreveram?

— Ele vai produzir algum tipo de verme da areia, um dia. Já está bem avançado na estrada da metamorfose.

— Que quer dizer com algum tipo?

— Eles terão mais gânglios. Serão conscientes.

— Não podemos contar com algum tipo de iluminação? Gostaria de vê-lo.

Leto comandou os holofotes e uma brilhante iluminação inundou a câmara. As paredes negras e as fontes de luz tinham sido preparadas para focalizarem a iluminação sobre Leto, tornando visíveis todos os detalhes.

Idaho percorreu com o olhar o corpo facetado, cinza-prata, notou o início da formação dos anéis do verme, os flexionamentos sinuosos... as pequenas protuberâncias que um dia haviam sido as pernas e os pés, uma delas de certo modo mais curta que a outra. E depois trouxe sua atenção de volta para os braços e mãos bem-definidos, erguendo o olhar para a face encapuzada, com sua pele rósea quase perdida na imensidão, um apêndice ridículo em tal corpo.

— Bem, Duncan — disse Leto. — Você foi avisado.

Idaho gesticulou, incapaz de falar, apontando para o corpo pré-verme.

Leto fez a pergunta por ele:

— Por quê?

Idaho assentiu com a cabeça.

— Ainda sou um Atreides, Duncan, e lhe asseguro com toda a honra de meu nome que houve razões que me compeliram a isso.

— Mas o que poderia...

— Você aprenderá com o tempo.

Idaho apenas sacudiu a cabeça de um lado para o outro.

— Não é uma revelação agradável — disse Leto. — Vai exigir que aprenda outras coisas primeiro. Confie nas palavras de um Atreides.

Através dos séculos, Leto descobrira que essa invocação da profunda lealdade de Idaho para com tudo que fosse Atreides sufocava a explosão imediata de perguntas mais pessoais. E uma vez mais a fórmula funcionou.

— Assim, devo servir aos Atreides novamente. Isso soa familiar, não soa?

— De muitos modos, velho amigo.

— Velho para você, talvez, mas não para mim. Como irei servi-lo?

— Minhas Oradoras Peixes não lhe disseram?

— Elas disseram que eu iria comandar a sua Guarda de elite, uma força escolhida entre elas. Não entendo isso. Um exército de mulheres?

— Preciso de um companheiro de confiança que possa comandar a minha Guarda. Você faz objeção?

— Por que mulheres?

— Existem diferenças de comportamento entre os sexos que tornam as mulheres extremamente valiosas nesse papel.

— Não está respondendo a minha pergunta.

— Você as julga inadequadas?

— Algumas delas parecem ser bem duras, mas.

— Outras foram, hummm... suaves com você?

Idaho corou.

Leto achou essa reação encantadora. Os Duncans estavam entre os poucos humanos dessa época capazes dessa reação. Era uma coisa compreensível, produto do treinamento inicial dos Duncans, de seu próprio senso pessoal de honra — muito cavalheiresco.

— Não vejo por que confia em mulheres para protegê-lo — disse Idaho, o sangue refluindo lentamente de suas faces. Ele olhou zangado para Leto.

— Mas sempre confiei nelas, assim como confio em você. Com minha vida.

— De que deveremos protegê-lo?

— Moneo e minhas Oradoras Peixes deverão atualizá-lo nesses assuntos.

Idaho mudou o apoio de um pé para o outro, seu corpo fazendo um meneio num ritmo rápido. Olhou à volta da sala, seus olhos não se focalizando em coisa alguma. Com o gesto abrupto de uma decisão súbita, voltou sua atenção para Leto.

— Como devo chamá-lo?

Era o sinal de aceitação pelo qual Leto estivera esperando.

— Lorde Leto serviria?

— Sim... meu Lorde. — Idaho olhou diretamente para os olhos, que tinham o azul total dos Fremen. — É verdade o que as suas Oradoras Peixes dizem?... que você tem memórias de...

— Nós estamos todos aqui, Duncan — respondeu Leto, na voz paternal de seu avô, e então: — Mesmo as mulheres estão aqui, Duncan. — E era a voz de Jessica, a avó paterna de Leto.

— Você os conhecia bem — disse Leto. — E eles a você.

Idaho respirou fundo, de modo trêmulo.

— Vai levar algum tempo para que eu me acostume com isso.

— Foi exatamente essa a minha reação inicial — disse Leto.

Uma explosão de riso sacudiu Idaho, e Leto achou que era mais do que a fraca piada merecia, mas permaneceu em silêncio.

Daí a pouco Idaho disse:

— Suas Oradoras Peixes deviam colocar-me num estado de disposição favorável, não?

— E tiveram sucesso?

Idaho estudou o rosto de Leto, reconhecendo as distintas feições Atreides.

— Vocês Atreides sempre me conheceram muito bem.

— Assim é melhor — disse Leto. — Você está começando a aceitar que eu não sou apenas um Atreides. Sou todos eles.

— Paul disse isso uma vez.

— Assim eu disse! — E com tanto da personalidade original quanto poderia ser transmitido em tom e característica da voz, era o Muad'Dib falando.

Idaho engoliu em seco e olhou para a porta da câmara.

— Você tirou alguma coisa de nós — ele disse. — Posso senti-lo. Aquelas mulheres... Moneo...

“Nós contra você”, pensou Leto. “Os Duncans sempre escolhem ficar do lado humano.”

Idaho voltou sua atenção para o rosto de Leto.

— Que foi que nos deu em troca?

— Por todo o Império, a Paz de Leto!

— É, eu posso ver que todos estão alegremente felizes! É por isso que precisa de um guarda pessoal.

Leto sorriu.

— Minha paz é realmente uma tranqüilidade forçada. E os seres humanos possuem uma longa história de reação à tranqüilidade.

— Assim, você nos deu as Oradoras Peixes?

— E uma hierarquia que você pode identificar sem qualquer erro.

— Um exército feminino — murmurou Idaho.

— A derradeira força de sedução masculina — explicou Leto.

— O sexo sempre foi uma forma de controlar a agressividade do macho.

— É isso que elas fazem?

— Elas previnem ou controlam os excessos, que levariam a uma violência mais dolorosa.

— E você deixa-as acreditarem que é um deus. Não creio que goste disso.

— A maldição da santidade é tão ofensiva para mim quanto o é para você!

Idaho franziu a testa. Não era a resposta pela qual tinha esperado.

— Que tipo de jogo está jogando, Lorde Leto?

— Um jogo muito antigo, mas com novas regras.

— As suas regras!

— Preferiria que eu tivesse entregue tudo de volta à CHOAM, à Landsraad e às Grandes Casas?

— Os Tleilaxu dizem que não existe mais Landsraad. Você não permite a verdadeira autogestão.

— Muito bem, eu poderia então sair de cena para que as Bene Gesserits assumissem. Ou talvez os Ixianos ou os Tleilaxu? Você preferiria que eu encontrasse um outro Barão Harkonnen para assumir o controle do Império? Diga o nome, Duncan, e eu abdicarei!

Ante essa avalancha de significados, Idaho sacudiu a cabeça de um lado para o outro.

— Nas mãos erradas — disse Leto -, o poder monolítico centralizado é um instrumento perigoso e volátil.

— E as suas mãos são as certas?

— Não tenho certeza quanto às minhas mãos, mas lhe digo uma coisa, Duncan: tenho certeza quanto às mãos daqueles que vieram antes de mim. Eu os conheço.

Idaho virou as costas para Leto.

“Que gesto fascinante, fundamentalmente humano”, pensou Leto. “A rejeição somada à aceitação de sua vulnerabilidade.”

Leto falou para as costas de Idaho.

— Você faz uma objeção honesta a que eu use as pessoas sem o conhecimento e o consentimento pleno delas?

Idaho voltou o perfil para Leto, depois virou a cabeça para fitar a face envolta nas dobras da truta da areia, inclinando-a um pouco para diante, de modo a enxergar o interior dos olhos totalmente azuis.

“Ele está me estudando”, pensou Leto. “Mas só tem um rosto através do qual me avaliar.”

Os Atreides ensinavam sua gente a conhecer os sinais sutis na face e no corpo, e Idaho era bom nisso. Mas a compreensão podia ser notada chegando sobre ele: aquilo estava além da sua capacidade.

Ele pigarreou.

— Qual seria a pior coisa que pediria de mim?

“Quão típico de um Duncan!”, pensou Leto. Este aqui era um exemplo clássico. Idaho daria sua lealdade aos Atreides, ao guardião de seu juramento, mas deixava claro que não iria além dos limites de sua própria moral como pessoa.

— Eu lhe pedirei para me guardar com todos os meios que forem necessários, e lhe pedirei para guardar o meu segredo.

— Que segredo?

— Que sou vulnerável.

— Que não é Deus?

— Não no sentido fundamental.

— Suas Oradoras Peixes falam a respeito de rebeldes.

— Eles existem.

— Por quê?

— Eles são jovens e não se convenceram de que meu caminho é o melhor. E muito difícil convencer os jovens de qualquer coisa. Eles já nascem sabendo tanto.

— Nunca ouvi um Atreides desdenhar os jovens desse modo.

— Talvez seja porque eu sou tão velho... uma velhice composta por muitas velhices. E minha tarefa se torna cada vez mais difícil a cada geração que passa.

— E qual é sua tarefa?

— Vai chegar a entendê-la enquanto prosseguirmos.

— E que acontece se eu falhar ante você? Suas mulheres me eliminam?

— Eu tento não pôr sobre minhas Oradoras Peixes o fardo da culpa.

— Mas o poria sobre mim?

— Se aceitar.

— Se achar que é pior que os Harkonnen, eu me voltarei contra você.

“Quão típico de um Duncan. Ele mede todo o mal em relação aos Harkonnen. Quão pouco ele conhece a respeito do mal.”

Leto disse:

— O Barão devorava planetas inteiros, Duncan. Que poderia ser pior do que isso?

— Devorar o Império.

— Eu estou prenhe do meu Império. E morrerei dando à luz a ele.

— Se eu puder acreditar nisso.

— Comandará minha Guarda?

— Por que eu?

— Você é o melhor.

— Trabalho perigoso, imagino. Foi assim que meus antecessores morreram, fazendo seu trabalho perigoso?

— Alguns deles.

— Eu gostaria de ter as memórias desses outros!

— Não poderia tê-las e ser fiel ao original.

— Mas quero aprender a respeito deles.

— Você aprenderá.

— Assim, os Atreides ainda precisam de uma lâmina afiada?

— Temos tarefas que apenas um Duncan Idaho pode fazer.

— Você diz que... nós... — Idaho engoliu em seco, olhou para a porta e então de novo para o rosto de Leto.

Leto falou para ele como o Muad'Dib teria falado, mas conservando sua própria voz:

— Quando nós subimos juntos para o Sietch Tabr pela última vez, você tinha minha lealdade e eu tinha a sua. Nada nisso mudou realmente.

— Esse foi seu pai.

— Esse fui eu! — A voz de comando do Muad'Dib, partindo do volume de Leto, sempre chocava os gholas.

Idaho sussurrou:

— Todos vocês... nesse único... corpo... — Ele se interrompeu, incapaz de prosseguir.

Leto permaneceu em silêncio. Este era o momento da decisão.

Daí a pouco Idaho se permitiu aquele sorriso temerário pelo qual os Duncans eram tão bem conhecidos.

— Então eu falarei para o primeiro Leto, e para Paul, aqueles que me conhecem melhor. Façam bom uso de mim, pois eu os amei.

Leto fechou os olhos. Tais palavras sempre o perturbavam. Ele sabia que era o amor que o deixava mais vulnerável.

Moneo, que estivera ouvindo, veio em seu socorro. Entrou e disse:

— Senhor, devo levar Duncan Idaho às guardas que ele irá comandar?

— Sim. — Essa única palavra era tudo que Leto conseguiria pronunciar.

Moneo pegou Idaho pelo braço e o levou.

“Bom Moneo”, pensou Leto. “Tão bom. Ele me conhece tão bem, mas não tenho a menor esperança de que ele jamais venha a me compreender.”

 

Eu conheço o mal em meus ancestrais porque sou cada uma daquelas pessoas. Esse equilíbrio é delicado ao extremo. Sei que poucos entre aqueles que lêem minhas palavras chegaram a pensar em seus ancestrais desse modo. Por acaso já lhes ocorreu que seus ancestrais foram sobreviventes, e que a própria sobrevivência às vezes envolve decisões selvagens, uma espécie de brutalidade lasciva que a humanidade civilizada se esforça duramente para suprimir. Que preço vocês pagariam por tal controle?

Vocês aceitariam a sua própria extinção?

 

— Os diários roubados

 

Enquanto se vestia para sua primeira manhã no comando das Oradoras Peixes, Idaho tentava fugir a um pesadelo. Aquilo o tinha despertado duas vezes, e em ambas as ocasiões ele saíra para a sacada, fitando o céu estrelado enquanto o sonho ainda rugia em sua cabeça.

Mulheres... mulheres desarmadas em armaduras negras... correndo ao encontro dele com aquele rugido, o som descerebrado de uma turba... acenando com mãos tintas de sangue vermelho... enquanto elas caíam sobre ele, as bocas abertas para exibir presas terríveis!

Naquele momento ele despertava.

A luz da manhã pouco fizera para afastar os efeitos do pesadelo.

Elas lhe haviam providenciado um quarto na torre norte. A sacada debruçava-se sobre uma vista de dunas, até um distante penhasco que parecia ter um vilarejo de casas de barro na sua base.

Idaho abotoou a túnica enquanto olhava para a paisagem.

“Por que Leto escolhe somente mulheres para o seu exército?”

Várias Oradoras Peixes, muito bonitas, se tinham oferecido para passar a noite com o novo comandante, mas Idaho as rejeitara.

Não era típico dos Atreides usar o sexo como instrumento de persuasão!

Olhou para o seu traje: um uniforme negro com filetes dourados e um falcão vermelho sobre o lado esquerdo do peito. Isso ao menos era familiar. Não havia insígnia de posto.

— Elas conhecem o seu rosto — dissera Moneo.

“Estranho homenzinho, aquele Moneo.”

Esse pensamento o trouxe de volta à realidade. A reflexão lhe dizia que Moneo não era pequeno. “Muito controlado, sim, mas não mais baixo do que eu.” Mas Moneo parecia encolhido, como se... dominado por uma estranha calma.

Idaho olhou em torno do quarto... sibarítico em sua atenção ao conforto — almofadas suaves, equipamentos ocultos por trás de painéis de madeira marrom envernizada. O banheiro era uma adornada exibição de azulejos, num tom azul-pastel, com uma combinação de banheira e chuveiro no qual seis pessoas poderiam tomar banho ao mesmo tempo. O lugar inteiro convidava ao descanso. Eram alojamentos onde você poderia permitir que seus sentidos se perdessem na lembrança de prazeres.

— Muito hábil — sussurrou Idaho.

Uma suave batida na porta foi seguida por uma voz feminina dizendo:

— Comandante? Moneo está aqui.

Idaho olhou para as cores queimadas de sol no penhasco distante.

— Comandante? — A voz foi um pouco mais alta.

— Entre — disse Idaho.

Moneo entrou, fechando a porta atrás de si. Usava túnica e calças de um branco cor de giz, que forçava os olhos a se concentrarem no rosto. Moneo olhou o interior do aposento.

— Então foi aqui que elas o colocaram. Aquelas malditas mulheres! Eu suponho que julgaram estar sendo gentis, mas deviam ser mais perspicazes.

— Como sabe do que eu gosto? — indagou Idaho. Mas ao fazer a pergunta percebeu o quanto era tola.

“Não sou o primeiro Duncan Idaho que Moneo já viu.”

Moneo apenas sorriu e encolheu os ombros.

— Não pretendia ofendê-lo, Comandante. Vai ficar com estes alojamentos, então?

— Gosto da vista.

— Mas não da mobília. — Era uma declaração, não uma pergunta.

— Isso pode ser mudado — disse Idaho.

— Cuidarei disso.

— Suponho que esteja aqui para explicar minhas tarefas.

— Até onde eu possa. Sei como tudo lhe deve parecer estranho, a principio. Esta civilização é profundamente diferente daquela que você conhecia.

— Percebo isso. Como meu... predecessor morreu?

Moneo encolheu os ombros. Parecia um gesto padrão, mas nada havia de displicente nele.

— Ele não foi suficientemente rápido para escapar a uma decisão que havia tomado — disse Moneo.

— Seja específico.

Moneo suspirou. Os Duncans eram sempre assim... muito exigentes.

— A rebelião o matou. Deseja saber os detalhes?

— Serão úteis para mim?

— Não.

— Quero um quadro completo dessa rebelião, mas primeiro: por que não há homens no exército de Leto?

— Ele tem você.

— Você sabe o que eu quero dizer.

— Ele tem uma teoria curiosa a respeito de exércitos. Eu discuti isso com ele em muitas ocasiões. Mas não prefere um desjejum antes que eu explique?

— Não podemos ter as duas coisas ao mesmo tempo?

Moneo virou-se em direção à porta e disse uma única palavra:

— Agora!

O efeito foi imediato e fascinante para Idaho. Uma tropa de jovens Oradoras Peixes enxameou pelo quarto. Duas delas retiraram cadeiras e uma mesa dobrável de trás de um painel e as colocaram na sacada. Outras arrumaram a mesa para duas pessoas. E outras trouxeram a comida: frutas frescas, pastéis quentes e uma bebida fumegante que cheirava fracamente a cafeína e especiaria. Tudo feito com a rápida e silenciosa eficiência, reveladora de uma longa prática. Depois saíram todas como tinham chegado. Sem nenhuma palavra.

Idaho encontrou-se sentado diante de Moneo, naquela mesa menos de um minuto depois do início dessa curiosa exibição.

— Toda manhã vai ser assim? — perguntou Idaho.

— Apenas se você quiser.

Idaho provou da bebida: café com melange. Reconheceu a fruta: uma suave variedade do melão de Caladan, chamada paradan.

“Meu favorito.”

— Você me conhece muito bem — disse Idaho.

Moneo sorriu.

— Nós tivemos alguma prática. Agora, quanto à sua pergunta.

— E à curiosa teoria de Leto.

— Sim. Ele diz que um exército totalmente masculino seria muito perigoso para a sua base civil.

— Isso é loucura! Sem o exército não haveria nenhuma...

— Conheço o argumento. Mas ele diz que o exército masculino é um resquício da função de seleção delegada aos machos não-reprodutores em grupos pré-históricos. Diz que é um fato curiosamente consistente serem sempre os machos mais velhos que enviavam os machos mais jovens para a batalha.

— Que ele quer dizer com função de seleção?

— Aqueles que estavam sempre no perímetro perigoso, protegendo o núcleo de machos reprodutores, fêmeas e jovens. Os primeiros a encontrarem qualquer predador.

— E como é que isso é perigoso para os... civis?

Idaho mordeu um bocado de melão e o achou perfeitamente maduro.

— Lorde Leto diz que, quando privado de um inimigo externo, o exército inteiramente masculino sempre se volta contra a sua própria população. Sempre.

— Lutando pelas fêmeas?

— Talvez. Mas é óbvio que ele não acredita que seja tão simples assim.

— Não acho que essa seja uma teoria curiosa.

— Ainda não a ouviu toda.

— Tem mais?

— Ah, sim. Ele diz que um exercito inteiramente masculino apresenta forte tendência a atividades homossexuais.

Idaho olhou furioso por cima da mesa para Moneo.

— Eu nunca...

— É claro que não. Ele está falando em sublimação, energias desviadas e todo o resto.

— Que resto? — Idaho estava irritado com o que via como um ataque à sua auto-imagem masculina.

— Atitudes de adolescentes, apenas rapazes juntos, piadas e peças executadas puramente para causar dor, lealdade dirigida unicamente aos companheiros de grupo... coisas dessa natureza.

Idaho falou friamente:

— E qual é sua opinião?

— Eu me lembro — Moneo virou-se, continuando a falar enquanto fitava o panorama — de uma coisa que já foi dita e que tenho certeza de ser verdadeira. Ele é cada soldado da história humana. Ofereceu à minha apreciação um desfile de exemplos — figuras de militares famosos que pareciam congelados na adolescência. Eu declinei da oferta. Já li a história por mim mesmo, com todo o cuidado, e reconheci a característica sozinho. — Moneo virou-se e olhou diretamente nos olhos de Idaho. — Pense nisso, Comandante.

Idaho orgulhava-se de sua honestidade e aquilo o atingia. Cultos de jovens e adolescentes preservados nos militares? Tinha o tom de algo verdadeiro. Havia exemplos em sua própria experiência...

Moneo assentiu.

— O homossexual, latente ou não, que mantém essa condição por motivos que poderiam ser considerados puramente psicológicos, tende a se comprazer com um comportamento de indução à dor — buscando-a para si mesmo ou infligindo-a a outros. Lorde Leto diz que isso remonta ao comportamento de seleção nos grupamentos pré-históricos.

— E você acredita nele?

— Acredito.

Idaho engoliu um pedaço de melão. Tinha perdido toda a sua doçura. Engoliu e largou a colher.

— Terei de pensar nisso — disse Idaho.

— É claro.

— Você não está comendo — observou Idaho.

— Eu me levantei antes da aurora e comi logo depois — respondeu Moneo, apontando para o prato. — As mulheres ficam me tentando continuamente.

— E costumam ter sucesso?

— Ocasionalmente.

— Você está certo. Eu acho essa teoria curiosa. Há mais alguma coisa?

— Oh, sim, ele diz que, quando livre das contenções homossexuais adolescentes, um exército masculino é essencialmente estuprador. O estupro é freqüentemente acompanhado do assassinato, e esse não é um comportamento favorável à sobrevivência.

Idaho ficou carrancudo e um pequeno sorriso percorreu a boca de Moneo.

— Lorde Leto diz que apenas a disciplina Atreides e os controles morais evitaram os piores excessos em sua época.

Um suspiro profundo estremeceu Idaho. Moneo reclinou-se no assento, pensando em algo que o Imperador-Deus dissera certa vez: “Não importa o quanto clamamos pela verdade. A autoconsciência é freqüentemente dolorosa. Não sentimos simpatia para com uma Reveladora da Verdade.”

— Aqueles malditos Atreides! — deixou escapar Idaho.

— Eu sou um Atreides — revelou Moneo.

— O quê?! — Idaho estava chocado.

— Seu programa de procriação — explicou Moneo. — Estou certo de que os Tleilaxu lhe mencionaram isso. Sou um descendente direto da união da irmã dele com Harq al-Ada.

Idaho inclinou-se por sobre a mesa.

— Diga-me então, Atreides, como é que as mulheres dão soldados melhores que os homens?

— Para elas é mais fácil o amadurecimento.

Idaho sacudiu a cabeça, perplexo.

— Elas possuem uma forma constrangedoramente física de passar da adolescência para a maturidade — explicou Moneo. — Como Lorde Leto costuma dizer: “Carregue uma criança em seu ventre durante nove meses e isso muda você.”

Idaho apenas se reclinou.

— E o que ele sabe a respeito disso?

Moneo meramente olhou para ele até Idaho relembrar a multidão que havia em Leto, masculina e feminina. A compreensão desabou sobre Idaho. Moneo viu aquilo, lembrando um comentário do Imperador-Deus: “Suas palavras o marcam com a aparência que você quer que ele tenha.”

Como o silêncio continuasse, Moneo pigarreou. Daí a pouco ele disse:

— A vastidão das memórias de Lorde Leto costuma deter minha língua também.

— E ele está sendo honesto conosco? — indagou Idaho.

— Acredito nele.

— Mas ele faz tantas... quero dizer, tome como exemplo esse programa de procriação. Há quanto tempo está sendo executado?

— Desde o início. Desde o dia em que ele o tomou das Bene Gesserits.

— E o que ele deseja com ele?

— Gostaria de saber.

— Mas você é...

— Um Atreides, e seu auxiliar chefe.

— Ainda não me convenceu de que um exército feminino é o melhor.

— Elas preservam a espécie.

Finalmente as frustrações e a raiva de Idaho tinham um alvo.

— Era isso que eu estava fazendo com elas naquela primeira noite? Procriando?!

— Possivelmente. As Oradoras Peixes não tomam precaução alguma contra a gravidez.

— Maldito! Eu não sou um animal que ele pode mandar de estábulo em estábulo como... como um...

— Como um garanhão?

— Sim!

— Mas Lorde Leto se recusa a seguir o padrão Tleilaxu de cirurgia genética e inseminação artificial.

— O que os Tleilaxu têm a ver com...

— Eles são uma lição objetiva. Mesmo eu posso perceber isso. Seus Dançarinos Faciais são híbridos, mais próximos de uma colônia de organismos do que dos seres humanos.

— Aqueles outros de... mim... algum deles foi reprodutor?

— Alguns. Você tem descendentes.

— Quem?

— Eu sou um deles.

Idaho fitou os olhos de Moneo, subitamente perdido num emaranhado de relacionamentos. E achou tais relacionamentos impossíveis de serem compreendidos. Moneo obviamente era muito mais velho do que... “Mas eu sou”... Qual deles seria verdadeiramente o mais idoso? Qual o ancestral e qual o descendente?

— Algumas vezes tenho problemas com isso, eu mesmo — consolou Moneo. — Se o ajuda, Lorde Leto me assegura que você não é meu descendente, não em qualquer sentido comum... Entretanto, você pode muito bem ser o pai de alguns dos meus descendentes.

Idaho sacudiu a cabeça de um lado para o outro.

— Algumas vezes penso que apenas o Imperador-Deus em pessoa pode entender estas coisas — disse Moneo.

— Isso é outra coisa — reclamou Idaho. — Esse negócio de divindade.

— Lorde Leto diz que criou uma sagrada obscenidade.

Essa não era a resposta que Idaho tinha esperado. “Que é que eu esperava? Uma defesa de Lorde Leto?”

— Sagrada obscenidade — repetiu Moneo. As palavras escapavam de sua língua com um estranho tom de zombaria.

Idaho olhou para ele avaliadoramente. “Ele odeia esse Imperador-Deus! Não... ele o teme. Mas não odiamos sempre aquilo que tememos?”

— Por que você acredita nele? — perguntou Idaho.

— Você pergunta se eu partilho da religião popular?

— Não! Mas ele?

— Acho que sim.

— Por quê? Por que você pensa assim?

— Porque ele diz que não deseja criar mais Dançarinos Faciais. Ele insiste em que seu estoque humano, uma vez separado aos pares, procrie do modo como sempre tem sido.

— E que diabo ele tem a ver com isso?

— Você me perguntou no que ele acredita. Acho que ele acredita no acaso. Creio que a casualidade é o seu deus.

— Isso é superstição!

— Considerando-se as condições do Império, uma superstição muito audaz.

Idaho olhou novamente com raiva para Moneo.

— Seus malditos Atreides — murmurou. — Vocês se atreveriam a qualquer coisa!

Moneo notou que havia desgosto misturado com admiração na voz de Idaho.

“Os Duncans sempre começam assim.”

Qual a mais profunda diferença entre nós, entre você e eu? Vocês já sabem. São estas memórias ancestrais. As minhas atingem-me num completo clarão de consciência.

As suas atuam pelo lado cego. Alguns chamam isso de instinto ou destino. Essas memórias aplicam suas alavancas sobre cada um de nós: naquilo que pensamos e naquilo que fazemos. Vocês se julgam imunes a tais influências? Eu sou Galileu. Eu me coloco aqui e lhes digo: “E no entanto ela se move.” E aquilo que se move exerce sua força de maneira que nenhum poder mortal jamais se atreveu a estimar. E eu estou aqui para me atrever a isso.

 

— Os diários roubados

 

— Quando era criança, ela me observava, lembra-se? Quando pensava que eu estava distraído, Siona me olhava como o falcão do deserto voando em círculo acima do refúgio de sua presa. Você mesmo mencionou isso.

Leto rolou seu corpo quarto de volta em sua carreta, enquanto falava. Isso trouxe seu rosto para mais perto de Moneo, que caminhava ao lado do veículo.

Era quase aurora na estrada do deserto, que seguia sobre a elevada cordilheira artificial, estendendo-se da Cidadela no Sareer até a Cidade Festival. Essa estrada do deserto seguia com a retidão de um feixe de laser até atingir o ponto em que se curvava amplamente, descendo por desfiladeiros em terraços até cruzar o Rio Idaho. O ar estava cheio das névoas espessas do rio, que rolava em seu distante clamor, mas Leto abrira a cobertura-bolha que fechava a frente de sua carreta. A umidade fazia seu corpo de verme comichar com um vago desconforto, mas havia nessa névoa o perfume suave das plantas do deserto, e suas narinas humanas o saboreavam. Ele ordenou que o cortejo parasse.

— Por que estamos parando, Senhor? — indagou Moneo.

Leto não respondeu. A carreta estalou enquanto ele erguia o corpo numa curva arqueada que levantou sua cabeça, permitindo-lhe olhar por sobre a Floresta Proibida até o Mar de Kynes, que cintilava prateado bem para a direita. Voltou-se para a esquerda e lá estavam os restos da Muralha Escudo, uma sombra baixa e sinuosa à luz da manhã. A cordilheira aqui fora erguida mais de 2 mil metros para envolver o Sareer e limitar a umidade do ar. Do seu ponto de vista, Leto podia enxergar até o distante desfiladeiro onde ele fizera erguer a sua Cidade Festival de Onn.

— É um capricho que me faz parar aqui — ele disse.

— Não deveríamos cruzar a ponte antes de repousarmos? — perguntou Moneo.

— Não estou repousando.

Leto olhou adiante. Depois de uma série de trechos de descida em serpentina, visíveis dali apenas como sombras sinuosas, a estrada elevada atravessava o rio numa ponte etérea, subia uma crista protetora e então descia para a cidade que, dessa distância, oferecia uma visão de agulhas cintilantes.

— O Duncan age de modo contido — comentou Leto. — Você teve aquela sua longa conversa com ele?

— Precisamente como era necessário, meu Senhor.

— Bem, faz apenas quatro dias. Eles geralmente levam mais que isso para se recuperarem.

— Ele tem andado ocupado com a sua Guarda, Senhor. Eles se ausentaram até muito tarde na noite passada.

— Os Duncans não apreciam a caminhada neste espaço aberto. Pensam em coisas que poderiam ser usadas para nos atacar.

— Eu sei, Senhor.

Leto virou-se e olhou diretamente para Moneo. O majordomo usava uma capa verde sobre o uniforme branco. Estava de pé ao lado da cobertura em forma de bolha aberta, exatamente no lugar no qual suas funções exigiriam que ficasse durante essas excursões.

— Você é muito esforçado, Moneo — disse Leto.

— Obrigado, Senhor.

Guardas e cortesãos mantinham uma distância respeitosa, bem atrás da carreta. A maioria tentava evitar até mesmo a aparência de estar escutando o que Leto e Moneo diziam. Não Idaho. Ele posicionara algumas das Oradoras Peixes em ambos os lados da Estrada Real, espalhando sua guarda. Agora permanecia olhando para a carreta. Usava um uniforme negro com bordados brancos, presente das Oradoras Peixes, como Moneo dissera.

— Elas gostam muito desse aí. Ele é bom no que faz.

— E o que ele faz, Moneo?

— Como assim? Guarda a sua pessoa, Senhor.

As mulheres da Guarda usavam uniformes verdes colantes, todos com o falcão vermelho dos Atreides sobre o seio esquerdo.

— Elas o vigiam muito de perto — comentou Leto.

— Sim, ele está ensinando a elas os sinais com as mãos. Diz que é o modo dos Atreides.

— Isso certamente é correto. Eu me pergunto por que o anterior não fez o mesmo.

— O Senhor não sabe?...

— Estou brincando, Moneo. O Duncan anterior não se sentiu ameaçado até que fosse muito tarde. Esse aí aceitou nossas explicações?

— Assim me disseram, Senhor. Ele começou bem no seu serviço.

— Por que ele carrega apenas aquela faca na bainha do cinturão?

— As mulheres o convenceram de que apenas as especialmente treinadas dentre elas devem portar pistolas laser.

— Sua cautela carece de fundamento, Moneo. Diga às mulheres que ainda é muito cedo para começarmos a temer esse ai.

— Como o meu Senhor ordena.

Era óbvio para Leto que o seu novo Comandante da Guarda não apreciava a presença dos cortesãos. Permanecia bem distante deles. A maioria, tinham lhe informado, era de funcionários públicos. Estavam vestidos da maneira mais luxuosa e elegante para esse dia em que podiam desfilar com todo o seu poder na presença do Imperador-Deus. Leto notava como os cortesãos deviam parecer tolos aos olhos de Idaho. Mas podia lembrar-se de outras exibições de luxo ainda mais tolas e achava que a exibição daquele dia podia representar uma melhoria.

— Já o apresentou a Siona? — perguntou Leto.

À menção de Siona, as sobrancelhas de Moneo imobilizaram-se numa contraída expressão de aborrecimento.

— Acalme-se — disse Leto. — Mesmo quando ela me espionava, eu a tratava com carinho.

— Sinto o perigo nela, Senhor. Às vezes tenho a impressão de que ela percebe meus pensamentos mais íntimos.

— A criança sabida conhece o pai.

— Não estou brincando, Senhor.

— Sim, vejo isso. Já notou como o Duncan está impaciente?

— Elas mandaram batedoras sondar a estrada, quase até a ponte.

— E que foi que encontraram?

— A mesma coisa que eu achei... um novo Fremen de Museu.

— Outra solicitação?

— Não fique zangado, Senhor.

Uma vez mais, Leto perscrutou adiante. Essa necessária exposição a céu aberto, a longa e majestosa jornada com todas as suas exigências rituais para tranqüilizar as Oradoras Peixes, tudo isso o perturbava. E agora outro suplicante!

Idaho avançou para se deter diretamente na frente de Moneo.

Havia uma aparência de ameaça nos movimentos de Idaho. “Decerto que não pode vir tão cedo”, pensou Leto.

— Por que paramos aqui, meu Senhor? — perguntou ele.

— Eu paro aqui com freqüência — respondeu Leto.

Era verdade. Ele se voltou e olhou para além da ponte etérea. O caminho serpenteava para baixo, saindo das alturas do canyon para a Floresta Proibida e daí através dos campos ao lado do rio. Leto freqüentemente se detinha ali para observar o nascer do sol. Mas havia algo de especial nessa manhã, no modo como o sol iluminava esse panorama tão familiar... alguma coisa que remexia em antigas memórias.

Os campos das Plantações Reais estendiam-se para além da floresta, de modo que, quando o sol se erguia sobre a extensa curva de terra, ele inundava de dourado os campos ondulantes de cereais. Esses campos lembravam a Leto a areia, as vastas dunas que um dia haviam marchado por esse mesmo solo.

“E que um dia marcharão uma vez mais.”

Os cereais não eram exatamente da cor âmbar brilhante de sílica de seu relembrado deserto. Leto olhou para trás, na direção das distâncias cercadas por penhascos de seu Sareer, seu santuário do passado. As cores eram distintamente diferentes. Dava tudo no mesmo, e quando ele olhou uma vez mais para a Cidade Festival, sentiu uma dor onde seus muitos corações uma vez mais se encontravam em mutação, reformando-se em sua lenta transformação para alguma coisa profundamente alienígena.

“Que há nesta manhã que me faz pensar em minha humanidade perdida?”, perguntou-se Leto.

Dentre todos no Cortejo Real olhando para o cenário familiar da floresta e dos campos de cereais, Leto sabia ser o único ainda capaz de pensar em uma paisagem tão rica quanto o bahr bela ma, o oceano sem água.

— Duncan — disse Leto —, está vendo lá, na direção da cidade? Aquilo era o Tanzerouft.

— A Terra do Terror? — Idaho revelou sua surpresa no rápido olhar que lançou para Onn e na maneira súbita como voltou a fitar Leto.

— O bahr bela ma — disse Leto. — Tem estado oculto sob um tapete de plantas por mais de 3 mil anos. De todos os que vivem em Arrakis hoje em dia, somente nós dois vimos o deserto original.

Idaho olhou na direção de Onn.

— Onde está a Muralha Escudo? — perguntou.

— A Fenda do Muad'Dib é bem ali, o lugar exato onde construímos a Cidade.

— Aquela linha de pequenas elevações, aquilo era a Muralha Escudo? Que aconteceu com ela?

— Você está em cima dela.

Idaho olhou para Leto, depois para a estrada e o que havia à sua volta.

— Senhor? Devemos continuar? — indagou Moneo.

“Moneo, com aquele reloginho tiquetaqueando em seu peito, é o estímulo ao dever”, pensou Leto. Havia visitantes importantes para ver e outros assuntos vitais. O tempo o pressionava. E ele não gostava quando seu Imperador-Deus falava com os Duncans sobre os velhos tempos.

Leto tornou-se subitamente consciente de que se detivera naquele lugar por mais tempo do que jamais o fizera. Os cortesãos e as guardas estavam gelados depois da caminhada no ar da manhã. Alguns tinham escolhido suas roupas mais para se exibirem do que para se protegerem.

“Mas afinal”, Leto pensou, “talvez a exibição seja uma forma de proteção”.

— Havia dunas — disse Idaho.

— Estendendo-se por milhares de quilômetros — concordou Leto.

Os pensamentos de Moneo se agitaram. Ele estava acostumado aos períodos de reflexão do Imperador-Deus, mas havia um sentimento de tristeza nesse dia. Talvez a morte recente de um Duncan. Leto às vezes deixava escapar informações importantes quando estava triste. Nunca se questionavam os caprichos ou os estados de espírito do Imperador-Deus, mas às vezes eles podiam ser usados.

“Siona terá de ser advertida”, pensou Moneo. “Se aquela jovem tola me ouvir!”

Ela estava mais rebelde do que já estivera. Muito mais. Leto havia dominado o seu Moneo, sensibilizado sua mente para o Caminho Dourado e os deveres legítimos para os quais ele fora criado. Mas os métodos usados com relação a Moneo não funcionariam com Siona. Em sua observação a respeito disso, Moneo aprendera coisas sobre seu treinamento que ele nunca antes suspeitara.

— Não vejo qualquer acidente geográfico identificável — estava dizendo Idaho.

— Bem ali — disse Leto, apontando. — Onde a floresta termina. Aquele era o caminho para a Rocha Partida.

Moneo procurou não ouvir as vozes. “Foi o fascínio básico pelo Imperador-Deus que finalmente me dominou.” Leto nunca deixava de surpreender e assombrar. Ele não era realmente previsível. Moneo olhou para o perfil do Imperador-Deus. “No que ele se tornou?”

Como parte de seus deveres iniciais, Moneo havia estudado os registros particulares da Cidadela, os relatos históricos da transformação de Leto. Mas a simbiose com a truta da areia permanecia um mistério que nem mesmo as próprias palavras de Leto poderiam decifrar. Se os registros eram confiáveis, a pele de truta da areia tornava seu corpo quase invulnerável ao tempo ou à violência. O núcleo do grande corpo frisado poderia mesmo absorver disparos de armas laser!

“Primeiro a truta da areia, depois o verme — tudo parte do grande ciclo que produzira a melange.” E esse ciclo encontrava-se dentro do Imperador-Deus... marcando a passagem do tempo.

— Vamos prosseguir — disse Leto.

Moneo percebeu que perdera alguma coisa. Saiu de seu devaneio e olhou para um sorridente Duncan Idaho.

— Costumávamos chamar isso de sonhar acordado — disse Leto.

— Sinto muito, Senhor — disse Moneo. — Eu estava...

— Você estava sonhando acordado, mas está tudo bem.

“O estado de espírito dele melhorou”, pensou Moneo. “Devo agradecer ao Duncan por isso. Creio.”

Leto ajustou sua posição na carreta, fechou parte da cobertura-bolha de modo a deixar apenas a cabeça livre. A carreta esmagou pequenas rochas no leito da estrada enquanto Leto a ativava.

Idaho tomou posição junto a Moneo, caminhando ao lado dele.

— Existem bulbos flutuadores sob a carreta, mas ele usa as rodas. Por quê? — perguntou Idaho.

— Agrada a Lorde Leto o uso de rodas em lugar da antigravidade.

— Que faz essa coisa funcionar? Como ele a dirige?

— Já perguntou a ele?

— Ainda não tive a oportunidade.

— A Carreta Real é de manufatura Ixiana.

— E que isso significa?

— Dizem que Lorde Leto ativa sua carreta e a controla unicamente pensando de determinado modo.

— Você não sabe?

— Esse tipo de perguntas não lhe agrada.

“Mesmo para aqueles que partilham de sua intimidade”, pensou Moneo, “o Imperador-Deus permanece um mistério.”

— Moneo! — chamou Leto.

— É melhor você voltar para as suas guardas — disse Moneo, gesticulando para que Idaho fosse para a retaguarda.

— Eu preferiria ficar na frente com elas — retrucou Idaho.

— Lorde Leto não quer isso! Agora volte.

Moneo correu para se colocar junto de Leto, ao lado da face do Imperador, notando que Idaho recuava através dos cortesãos até o círculo de guardas da retaguarda.

Leto olhou para Moneo.

— Acho que cuidou daquilo muito bem, Moneo.

— Obrigado, Senhor.

— Você sabe por que os Duncans querem ficar na frente?

— Certamente, Senhor. É onde a sua Guarda deveria ficar.

— E esse aí sente o perigo.

— Eu não o compreendo, Senhor. Não entendo por que faz essas coisas.

— Isso é verdade, Moneo.

 

O senso feminino de participação originou-se do modo familiar de compartilhar a vida em comum — o cuidado para com os jovens, a obtenção e o preparo do alimento, o partilhar das alegrias, do amor e das tristezas. As lamentações funerais originaram-se com as mulheres. A relegai-o tornou-se um monopólio feminino, que só foi arrancado das mãos das mulheres quando seu poder social se tornou muito importante. As mulheres foram as primeiras pesquisadoras e praticantes da medicina. Nunca houve qualquer equilíbrio claro entre os sexos porque o poder acompanha certas atividades, assim como o conhecimento.

 

— Os diários roubados

 

Para a Reverenda Madre Tertius Eileen Anteac, essa fora uma manhã desastrosa. Ela havia chegado a Arrakis junto com sua companheira Reveladora da Verdade Marcus Claire Luyseyal, ambas descendo com sua comitiva oficial menos de três horas atrás, na primeira lançadeira do heighliner da Corporação, flutuando em órbita estacionária. Primeiro haviam recebido quartos nos confins mais remotos do Quarteirão das Embaixadas, na Cidade Festival. E os quartos eram pequenos e não muito limpos.

— Um pouco menos do que isso e nós estaríamos acampando nas favelas — dissera Luyseyal.

E para completar lhes tinham sido negados instrumentos de comunicação. Todas as telas permaneciam apagadas, não importando quantos interruptores fossem acionados ou quantos controles de palma fossem girados.

Furiosa, Anteac se dirigira à corpulenta oficial comandante da escolta de Oradoras Peixes, uma mulher irada com a testa baixa e os músculos de um trabalhador braçal.

— Desejo queixar-me à sua Comandante!

— Não serão permitidas queixas na época do Festival — retrucara a amazona.

Anteac dirigira um olhar furioso à oficial, um olhar que, em seu rosto velho e cheio de vincos, costumava fazer hesitar até mesmo as suas companheiras Reverendas Madres.

A amazona meramente sorrira, dizendo:

— Eu tenho uma mensagem. Devo dizer-lhe que sua audiência com o Imperador-Deus foi transferida para a última posição.

A maior parte da comitiva Bene Gesserit tinha ouvido isso, e mesmo as que ocupavam os postos inferiores reconheceram o significado. Todas as quotas de especiaria seriam mantidas ou (Que Deus nos proteja!) canceladas dessa vez.

— Nós estávamos em terceiro lugar — disse Anteac, a voz extraordinariamente branda para aquelas circunstâncias.

— É uma ordem do Imperador-Deus!

Anteac reconheceu o tom de voz da Oradora Peixe. Desafiá-lo seria arriscar-se a sofrer violências.

“Uma manhã de desastres e agora isto!”

Anteac ocupava um banco baixo, encostado à parede de um quarto minúsculo, quase vazio, perto do centro de seus inadequados alojamentos. Ao lado havia um catre baixo, não melhor do que seria destinado a uma acólita! As paredes eram de um verde pálido, rugoso, e só havia um velho globo luminoso, tão defeituoso que só podia ser ajustado no amarelo. A sala dava mostras de ter sido uma câmara de armazenagem. Tinha cheiro de mofo. Arranhões e denteados marcavam o plástico negro do piso.

Alisando o manto aba negro sobre os joelhos, Anteac inclinou-se para a mensageira-postulante, que se ajoelhava, a cabeça curvada diretamente em frente da Reverenda Madre. A mensageira era uma criatura loura de olhos de corça, com a transpiração do medo e da excitação no pescoço e no rosto. Usava um manto cor de bronze, empoeirado com a sujeira das ruas ao longo da bainha.

— Você está certa, absolutamente certa? — Anteac falava com suavidade, tentando acalmar a pobre moça, que ainda tremia com a gravidade de sua mensagem.

— Sim, Reverenda Madre. — A garota continuava olhando para o chão.

— Repita uma vez mais — disse Anteac, e pensou: “Estou ganhando tempo. Eu a ouvi corretamente.”

A mensageira ergueu o olhar para Anteac, olhando direto em seus olhos totalmente azuis, como todas as acólitas e postulantes eram ensinadas a fazer.

— Como me foi ordenado, fiz contato com os Ixianos em sua Embaixada e apresentei suas saudações. Então perguntei se eles tinham alguma mensagem para que eu trouxesse.

— Sim, sim, garota! Vá ao âmago da questão.

A mensageira engoliu em seco.

— O porta-voz identificou-se como Othwi Yake, superior temporário na Embaixada e assistente do antigo embaixador.

— Você está certa de que não era um Dançarino Facial substituto?

— Nenhum dos sinais estava lá, Reverenda Madre.

— Muito bem, nós conhecemos esse Yake. Pode continuar.

— Yake disse que eles estavam esperando a chegada da nova...

— Hwi Noree, a nova Embaixadora. Sim, ela é esperada hoje.

A mensageira umedeceu os lábios com a língua.

Anteac fez uma anotação mental para mandar de volta essa pobre criatura a um programa de treinamento mais elementar. As mensageiras deviam ter melhor autocontrole, embora algum desconto devesse ser dado quanto à seriedade dessa mensagem.

— Ele então me pediu que esperasse — disse a mensageira. — Saiu da sala e voltou pouco depois com um Tleilaxu, um Dançarino Facial. Tenho certeza disso. Havia certos indícios de...

— Tenho certeza de que está certa, menina — disse Anteac. — Agora vá direto ao...

Anteac se interrompeu com a chegada de Luyseyal.

— Que história é essa que ouvi quanto a mensagens dos Ixianos e dos Tleilaxu? — ela perguntou.

— Esta garota está repetindo agora mesmo — disse Anteac.

— Por que não fui chamada?

Anteac olhou para sua companheira Reveladora da Verdade, pensando que Luyseyal poderia ser uma das melhores praticantes da arte, mas permanecia extremamente consciente do seu posto, Luyseyal era jovem, entretanto, com as sensuais feições ovais do tipo Jessica, e esses genes costumavam carregar uma natureza obstinada.

Anteac disse suavemente:

— Sua acólita disse que estava meditando.

Luyseyal assentiu com a cabeça, sentou-se no catre e disse à mensageira:

— Continue.

— O Dançarino Facial disse que tinha uma mensagem para as Reverendas Madres. E usou o plural — disse a mensageira.

— Ele sabia que haveria duas de nós desta vez — observou Anteac.

— Todo o mundo sabe disso — disse Luyseyal.

Anteac retornou sua plena atenção para a mensageira.

— Você entraria em transe-memória agora, menina, e nos daria as palavras exatas do Dançarino Facial?

A mensageira assentiu, agachou-se nos calcanhares e colocou ambas as mãos sobre o colo. Respirou fundo três vezes, fechou os olhos e arriou os ombros. Quando ela falou, sua voz tinha um tom nasal agudo.

— Diga às Reverendas Madres que ao cair desta noite o Império estará livre de seu Imperador-Deus. Nós atacaremos hoje, antes que ele alcance Onn. Não falharemos.

Uma inspiração profunda fez tremer a mensageira. Seus olhos se abriram e ela olhou para Anteac.

— O Ixiano, Yake, disse para que eu corresse com esta mensagem. Depois tocou as costas da minha mão esquerda daquele modo particular, convencendo-me ainda mais de que ele não era...

— Yake é um dos nossos — disse Anteac. — Diga a Luyseyal sobre a mensagem dos dedos.

A mensageira olhou para Luyseyal.

— Nós fomos invadidos por Dançarinos Faciais e não podemos nos mover.

Quando Luyseyal se sobressaltou e começou a se levantar. Anteac disse:

— Já tomei as medidas necessárias para guardar nossas portas. — Anteac olhou em seguida para a mensageira. — Você pode ir agora, garota. Desempenhou sua tarefa de maneira adequada.

— Sim, Reverenda Madre.

A mensageira ergueu seu corpo flexível com certa graça, mas não havia dúvida em seus movimentos de que ela conhecia a importância das palavras de Anteac. Adequado não era bem-feito.

Depois que a mensageira saiu, Luyseyal disse:

— Ela devia ter conseguido alguma desculpa para estudar a Embaixada e descobrir quantos Ixianos foram substituídos.

— Acho que não — discordou Anteac. — A esse respeito, ela agiu bem. Não, mas teria sido melhor se ela tivesse encontrado um modo de conseguir um relatório mais detalhado de Yake. Temo que o tenhamos perdido.

— A razão pela qual os Tleilaxu nos enviaram a mensagem é óbvia — disse Luyseyal.

— Eles vão realmente atacá-lo — disse Anteac.

— Naturalmente. E o que os tolos vão fazer. Mas eu me pergunto por que eles nos enviaram essa mensagem.

Anteac assentiu.

— Eles acham que não temos escolha agora senão nos juntarmos a eles.

— E se tentarmos advertir Lorde Leto, os Tleilaxu descobrirão nossas mensageiras e seus contatos.

— E se os Tleilaxu tiverem sucesso? — perguntou Anteac.

— Pouco provável.

— Não conhecemos seu verdadeiro plano, apenas a hora, mais ou menos.

— E essa garota, Siona, tem parte nisso? — perguntou Luyseyal.

— Fiz a mesma pergunta a mim mesma. Já ouviram o relatório completo da Corporação?

— Somente o resumo. Não é o bastante?

— Sim, com elevada probabilidade.

— Você deve ser cuidadosa com termos como elevada probabilidade — advertiu Luyseyal. — Não queremos ninguém pensando que é um Mentat.

O tom de Anteac foi ríspido.

— Presumo que não vai me revelar.

— Acha que a Corporação está certa a respeito dessa Siona? — indagou Luyseyal.

— Não tenho informação suficiente. Se eles estão certos, ela é algo de extraordinário.

— Como o pai de Lorde Leto era extraordinário?

— Um navegador da Corporação podia ocultar-se do olhar oracular do pai de Lorde Leto.

— Mas não de Lorde Leto.

— Li com cuidado o relatório completo da Corporação. Ela não apenas oculta a si mesma e as ações em torno dela, mas também...

— Ela se apaga. Ela se apaga da visão deles.

— Ela apenas — disse Anteac.

— E da visão de Lorde Leto também?

— Eles não sabem.

— Nós nos atreveríamos a fazer contato com ela?

— Não nos atreveríamos? — perguntou Anteac.

— Isso tudo pode ser discutível se os Tleilaxu... Anteac, devemos ao menos fazer uma tentativa de avisá-lo.

— Não temos equipamento de comunicação e agora há guardas Oradoras Peixes na porta. Elas deixam nosso pessoal entrar, mas não deixam sair.

— Devemos falar com uma delas?

— Já pensei nisso. Sempre podemos alegar que temíamos que fossem substitutos Dançarinos Faciais.

— Guardas na porta — murmurou Luyseyal. — Será possível que ele saiba?

— Tudo é possível.

— Sobre Lorde Leto, essa é a única coisa que você pode dizer com certeza? — comentou Luyseyal.

Anteac permitiu-se um leve suspiro enquanto se levantava do banco.

— Como sinto saudade dos velhos tempos, quando tínhamos toda a especiaria de que jamais pudéssemos precisar.

— Jamais era apenas outra ilusão — respondeu Luyseyal. — Espero que tenhamos aprendido bem esta lição, não importa de que maneira os Tleilaxu se saiam hoje.

— Qualquer que seja o resultado, eles o farão de modo grosseiro — resmungou Anteac. — Deuses! Não se encontram mais bons assassinos em parte alguma.

— Há sempre os gholas Idahos — disse Luyseyal.

— Que você disse? — Anteac olhou para a companheira.

— Existem sempre os...

— Sim!

— Os gholas são muito lentos de corpo — comentou Luyseyal.

— Mas não de mente.

— Em que está pensando?

— É possível que os Tleilaxu... não, nem mesmo eles poderiam ser tão...

— Um Dançarino Facial Idaho? — sussurrou Luyseyal.

Anteac assentiu mudamente.

— Tire isso de sua cabeça — disse Luyseyal. — Eles não poderiam ser tão estúpidos.

— Esse é um julgamento perigoso de se fazer quanto aos Tleilaxu — disse Anteac. — Devemos preparar-nos para o pior. Traga aqui uma daquelas guardas Oradoras Peixes!

 

O estado de guerra incessante dá origem a suas próprias condições sociais, que têm sido similares em todas as épocas. As pessoas entram num permanente estado de alerta para evitar ataques. E você presencia a regra absoluta do autocrata. Todas as coisas novas tornam-se perigosas regiões de fronteiras — novos planetas, novas áreas econômicas para explorar, novas idéias ou novos engenhos, visitantes — tudo é suspeito. O feudalismo se estabelece com firmeza, algumas vezes disfarçado como um politburo ou estrutura similar, mas sempre presente. A sucessão hereditária segue as linhas do poder. O sangue dos poderosos domina. Os vice-regentes do céu ou seus equivalentes apoderam-se das riquezas. E eles sabem que devem controlar seus herdeiros ou então o poder lentamente lhes escapará. Agora pode compreender a Paz de Leto?

 

— Os diários roubados

 

— As Bene Gesserits terão sido informadas de sua mudança na ordem das audiências? — indagou Leto.

Seu cortejo aproximava-se do primeiro corte na montanha que levaria ao trecho serpenteante da estrada, aproximando-se da ponte sobre o Rio Idaho. O sol encontrava-se no primeiro quarto da manhã e alguns cortesãos retiravam seus casacos. Idaho caminhava com uma pequena tropa de Oradoras Peixes no flanco esquerdo, seu uniforme começando a mostrar sinais de poeira e transpiração. Acompanhar a velocidade da peregrinação real era trabalho duro.

Moneo tropeçou e recuperou o equilíbrio.

— Elas foram informadas, Senhor.

A mudança não fora fácil, mas Moneo já aprendera a esperar erráticos desvios de direção em tempos de Festival. Ele mantinha prontos seus planos de contingência.

— Elas ainda estão solicitando uma Embaixada permanente em Arrakis? — indagou Leto.

— Sim, Senhor. Eu lhes dei a resposta habitual.

— Um simples não seria suficiente — disse Leto. — Elas não precisam mais ser lembradas de que abomino suas pretensões religiosas.

— Sim, Senhor.

Moneo mantinha-se apenas dentro da distância prevista, do lado da Carreta de Leto. O Verme encontrava-se muito presente esta manhã — os sinais corpóreos bem evidentes aos olhos de Moneo. Sem dúvida, era a umidade no ar. Isso sempre parecia atrair o Verme.

— A religião sempre conduz ao despotismo retórico — disse Leto. — Antes da Bene Gesserit, os jesuítas eram os melhores nisso.

— Jesuítas, Senhor?

— Certamente você os encontrou em suas histórias?

— Não tenho certeza, Senhor. Quem eram eles?

— Não importa. Você aprenderá o bastante sobre despotismo retórico num estudo da Bene Gesserit. É claro que elas não começam se iludindo com isso.

“As Reverendas Madres vão passar um mau pedaço”, Moneo disse a si mesmo. “Ele vai pregar diante delas. E elas detestam isso. Podemos ter sérios problemas.”

— Qual foi a reação delas? — perguntou Leto.

— Disseram-me que elas ficaram desapontadas, mas não insistiram no assunto.

E Moneo pensou: “É melhor que eu as prepare para mais desapontamentos. E elas terão de ficar longe das delegações de Ix e Tleilaxu.”

Moneo sacudiu a cabeça. Isso poderia levar a conspirações terríveis. Era melhor que o Duncan fosse advertido.

— Ele leva à profecia em proveito próprio e a justificativas para todos os tipos de obscenidades — disse Leto.

— Esse... despotismo retórico, Senhor?

— Sim! Ele oculta o mal por trás de muralhas de hipocrisia, que são a prova de qualquer argumento que possa ser apresentado contra. o mal.

Moneo mantinha um olhar cauteloso no corpo de Leto, notando o modo como as mãos se torciam, quase um movimento ao acaso, as contorções dos grandes segmentos. “Que farei se o Ver-me despertar aqui?” A transpiração surgiu na testa de Moneo.

— Ele se alimenta de significados deliberadamente distorcidos para desacreditar a oposição — continuou Leto.

— Tudo isso, Senhor?

— Os jesuítas chamavam isso de “segurar sua base de poder”. Isso conduz diretamente à hipocrisia, que é sempre revelada pela diferença entre ações e explicações. Elas nunca concordam.

— Devo estudar isso com mais cuidado, Senhor.

— E no final ele governa pela culpa, pois a hipocrisia traz a caça às bruxas e a exigência de bodes expiatórios.

— Isso é chocante, Senhor.

O cortejo circundou um canto onde a rocha fora aberta para vislumbrar a ponte a distância.

— Moneo, você está prestando bastante atenção em mim?

— Sim, Senhor, de fato.

— Estou descrevendo o instrumento que constitui a base do poder religioso.

— Eu reconheço isso, Senhor.

— Então, por que está com tanto medo?

— Conversas sobre o poder religioso me deixam pouco à vontade, Senhor.

— Porque você e as Oradoras Peixes o exercem em meu nome?

— É claro, Senhor.

— As bases do poder são muito perigosas por atraírem gente que é verdadeiramente insana, gente que busca o poder apenas pelo benefício do poder. Está me compreendendo?

— Sim, Senhor. É por isso que raramente atendo a pedidos para nomeações em seu governo.

— Excelente, Moneo!

— Obrigado, Senhor.

— À sombra de cada religião se abriga um Torquemada disse Leto. — Você nunca encontrou esse nome. Eu sei, pois fiz com que fosse expurgado de todos os registros.

— Por que fez isso, Senhor?

— Ele era uma obscenidade. Transformava em tochas vivas as pessoas que discordavam dele.

Moneo falou em voz baixa:

— Como fez com os historiadores que o enfureceram, Senhor?

— Está questionando os meus atos, Moneo?

— Não, Senhor!

— Bom. Os historiadores morreram pacificamente. Nenhum deles sentiu as chamas. Torquemada, entretanto, comprazia-se em dedicar ao seu deus os gritos de agonia de suas vítimas em chamas.

— Que horrível, Senhor.

O cortejo contornou outra curva e enxergou novamente a ponte. O vão não parecia mais próximo.

Uma vez mais Moneo observou seu Imperador-Deus. O Verme não parecia ter se aproximado mais, embora ainda continuasse perto. Moneo podia sentir a ameaça daquela imprevisível presença, a Sagrada Presença, que poderia matar sem aviso.

Ele estremeceu.

Qual teria sido o significado daquele estranho... sermão? Moneo sabia que poucos já tinham ouvido o Imperador-Deus falar assim. Era um privilégio e uma carga. Era parte do preço pago pela Paz de Leto. Geração após geração marchara a seu modo ordenado sob os preceitos daquela paz. Apenas o círculo interno da Cidadela conhecia todas as quebras pouco freqüentes daquela paz — os incidentes, quando as Oradoras Peixes eram enviadas numa previsão de violência:

“Previsão.”

Moneo olhou para Leto, agora silencioso. Os olhos do Imperador-Deus estavam fechados e uma aparência de meditação surgira em seu rosto. Esse era outro dos sinais do Verme — e um dos piores. Moneo estremeceu.

Será que Leto previra seus próprios momentos de louca violência? Fora a previsão de violência que enviava tremores de medo e espanto através do Império. Leto sabia onde devia colocar guardas para sufocar revoltas transitórias. Sabia antes que acontecessem.

Só pensar nessas coisas deixava seca a boca de Moneo. Havia ocasiões, Moneo acreditava, em que o Imperador-Deus podia ler qualquer mente. Oh, Leto empregava espiões. Uma ocasional figura envolta em mantos passava pelas Oradoras Peixes para subir a elevada torre de Leto ou descer em sua cripta. Espiões, sem dúvida, mas Moneo suspeitava de que fossem usados apenas para confirmar aquilo que Leto já sabia.

Como que para confirmar os temores na mente de Moneo, Leto disse:

— Não tente forçar um entendimento dos meus modos, Moneo. Deixe que o entendimento venha por si mesmo.

— Vou tentar, Senhor.

— Não, não tente. Diga-me em vez disso se já anunciou que não haverá mudanças nas quotas de especiaria?

— Ainda não, Senhor.

— Atrase o anúncio. Estou mudando de opinião. Você sabe, é claro, que haverá novas ofertas de subornos.

Moneo suspirou. As quantias a ele oferecidas como suborno já eram ridículas de tão altas. Leto, contudo, parecia divertir-se com tal escalada.

— Instigue-os — dissera antes. — Veja até que preço eles chegarão. Faça parecer que você pode ser subornado, afinal.

Agora, enquanto eles dobravam outra curva com vista para a ponte, Leto perguntou:

— A Casa Corrino ofereceu-lhe suborno?

— Sim, Senhor.

— Conhece a lenda que diz que um dia a Casa Corrino irá recuperar seus poderes ancestrais?

— Já ouvi, Senhor.

— Mate o Corrino. É tarefa para o Duncan. Nós o testaremos com isso.

— Tão cedo, Senhor?

— Ainda se sabe que a melange pode prolongar a vida humana. Deixe que seja conhecido que a especiaria também pode encurtar a vida.

— Como ordenar, Senhor.

Moneo conhecia essa resposta dentro de si. Era o modo como ele falava quando não podia verbalizar a profunda objeção que sentia. Também sabia que Leto entendia isso e se divertia. O divertimento o amargurava.

— Tente não ser impaciente comigo, Moneo — disse Leto.

Moneo suprimiu seu sentimento de amargura. A amargura trazia o perigo. Os rebeldes eram amargurados. E os Duncans ficavam amargurados antes de morrer.

— O tempo tem para o Senhor um significado diferente do que tem para mim — disse Moneo. — Eu desejava poder conhecer esse significado.

— Você poderia, mas não o fará.

 

Moneo ouviu a censura nas palavras e ficou em silêncio, voltando seus pensamentos para os problemas com a melange. Não era comum que Lorde Leto falasse na especiaria, e quando o fazia era para estabelecer quotas ou retirá-las, para conceder recompensas ou enviar as Oradoras Peixes atrás de algum tesouro recentemente revelado. O maior depósito remanescente de especiaria, Moneo o sabia, encontrava-se em algum lugar conhecido apenas do Imperador-Deus. Em seus primeiros dias no Serviço Real, Moneo fora coberto com um capuz e levado pelo próprio Leto ao longo de passagens serpenteantes que, Moneo sentira, encontravam-se debaixo da terra.

“Quando tirei o capuz estava num subterrâneo.”

O lugar o enchera de assombro. Grandes recipientes de melange empilhavam-se numa câmara gigantesca, cortada na rocha nua e iluminada por globos luminosos de um modelo antigo, com arabescos de metal em redor. A especiaria brilhava num azul radiante sob a fraca luz prateada. E o perfume — cheiro de canela amargo, inconfundível. Havia água gotejando num lugar próximo e suas vozes tinham ecoado dentro da pedra.

— Um dia, tudo isto terá acabado — dissera Lorde Leto.

Chocado, Moneo perguntara:

— E o que a Corporação e a Bene Gesserit farão então?

— O que estão fazendo agora, só que de modo mais violento.

Olhando à sua volta nessa gigantesca câmara subterrânea, com seu imenso estoque de melange, Moneo só conseguia pensar nas coisas que sabia estarem acontecendo por todo o Império naquele momento: — assassinatos sangrentos, ataques piratas, intriga e espionagem. O Imperador-Deus evitava o pior, mas o que permanecia já era suficientemente ruim.

— A tentação — sussurrou Moneo.

— A tentação, de fato.

— Não vai haver melange nunca mais, Senhor?

— Algum dia eu retornarei à areia. E serei a fonte da especiaria, então.

— O Senhor?

— E produzirei uma coisa igualmente maravilhosa — truta da areia de uma variedade híbrida e mais prolífica.

Trêmulo ante essa revelação, Moneo olhou para a figura obscurecida do Imperador-Deus que falava de tais maravilhas.

— A truta da areia — disse Lorde Leto. — Elas se unirão em grandes bolhas vivas que aprisionarão a água deste planeta no subsolo profundo. Exatamente como era nos tempos de Duna.

— Toda a água, Senhor?

— A maior parte dela. E dentro de 300 anos o verme da areia reinará aqui uma vez mais. E será um novo tipo de verme da areia. Eu lhe prometo isso.

— Como assim, Senhor?

— Ele possuirá uma consciência animal e uma nova esperteza. A especiaria será muito mais perigosa de se obter e bem mais arriscada de ser mantida.

Moneo olhara para o teto da caverna, sua imaginação sondando através da rocha até a superfície.

— Tudo deserto novamente, Senhor?

— Os cursos de água se encherão de areia. As plantações serão sufocadas e mortas. As árvores serão cobertas por grandes dunas móveis. E a morte da areia se espalhará até... até que um sinal sutil seja ouvido nas terras desoladas.

— Que sinal, Senhor?

— O sinal para o próximo ciclo, a vinda do Produtor, a chegada do Shai-Hulud.

— E ele será o Senhor?

— Sim! O grande verme da areia de Duna se erguerá uma vez mais das profundezas. E esta terra será novamente o domínio da especiaria e do verme.

— Mas e quanto às pessoas, Senhor? Todas as pessoas?

— Muitas vão morrer. As plantas nutritivas e a abundante vegetação destas terras ficarão ressecadas. Sem nutrição, os animais de corte morrerão.

— E todos passarão fome, Senhor?

— A subnutrição e as velhas doenças se espalharão sobre a terra, onde apenas os mais duros sobreviverão... os mais duros e os mais brutais.

— Precisa ser assim, Senhor?

— As alternativas são piores.

— Fale-me dessas alternativas, Senhor.

— Com o tempo, irá conhecê-las.

Enquanto caminhava ao lado do Imperador-Deus, sob a luz matutina de sua peregrinação para Onn, Moneo podia admitir apenas que tinha, de fato, aprendido os perigos alternativos.

Para a maioria dos dóceis cidadãos do Império, Moneo sabia, o firme conhecimento que ele mantinha em sua própria cabeça jazia oculto na História Oral, nos mitos e nas histórias extravagantes contadas pelos raros profetas loucos que surgiam num planeta ou em outro para conquistar um séquito de vida curta.

“Mas eu sei o que fazem as Oradoras Peixes.”

E ele sabia também a respeito de homens perversos, que se sentavam à mesa, saboreando iguarias raras, enquanto observavam a tortura de seus semelhantes.

Até que as Oradoras Peixes chegassem e a carnificina apagasse tais cenas.

— Eu apreciava o modo como sua filha me observava — disse Leto. — Ela era tão inconsciente de que eu sabia.

— Senhor, temo por ela! Ela é o meu sangue, minha...

— Minha também, Moneo. Não sou um Atreides? Você devia temer mais por si mesmo.

Moneo lançou um olhar temeroso ao longo do corpo do Imperador-Deus. Os sinais do verme permaneciam muito próximos. Moneo olhou para o cortejo seguindo pela estrada. Estavam agora em uma descida íngreme, as voltas da estrada curtas e escavadas nas altas muralhas de rochas empilhadas pela mão do homem que formavam a barreira de penhascos envolvendo o Sareer.

— Siona não me ofende, Moneo.

— Mas ela...

— Moneo! Aqui, em sua misteriosa cápsula, se encontra um dos maiores segredos da vida. Estar surpreso de que alguma coisa nova tenha acontecido, isso é o que eu desejo mais.

— Senhor, eu...

— Novo! Essa não é uma palavra radiante e maravilhosa?

— Se diz assim, Senhor.

Leto se viu forçado a lembrar então: “Moneo é uma de minhas criaturas. Eu o criei.

— Sua filha vale quase qualquer preço para mim, Moneo. Você deprecia os companheiros dela, mas pode haver um entre eles a quem ela ame.

Moneo deu uma olhada involuntária para trás, na direção do Duncan Idaho marchando entre a guarda. Idaho olhava para a frente como se tentasse sondar cada curva da estrada antes de chegarem a ela. Ele não gostava desse lugar, com suas altas muralhas de pedra para todo lado, lugares de onde poderia brotar um ataque. Idaho enviara batedoras lá para cima durante a noite e Moneo sabia que algumas delas ainda estariam rondando nas alturas. Havia ravinas também, lá na frente, antes que a marcha alcançasse o rio, e não havia guardas suficientes para serem colocados por toda parte.

— Nós confiaremos nos Fremen — dissera Moneo para tranqülizá-lo.

— Fremen? — Idaho não gostava do que tinha ouvido a respeito dos Fremen de Museu.

— Pelo menos eles podem soar um alarme contra intrusos — dissera Moneo.

— Você os viu e lhes pediu para fazerem isso?

— É claro.

Moneo não se atrevera a falar sobre Siona com Idaho. Haveria bastante tempo para isso mais tarde, mas agora o Imperador-Deus dissera uma coisa perturbadora. Teria havido uma mudança de planos?

Moneo voltou sua atenção para o Imperador-Deus e baixou seu tom de voz.

— Amar um companheiro, Senhor? Mas disse que o Duncan...

— Eu disse amar, não procriar com ele!

Moneo tremeu, pensando em como seu próprio casamento tinha sido arranjado, a maneira como fora arrancado de...

“Não! É melhor não seguir tais memórias!”

Tinha havido afeição, mesmo um amor verdadeiro... depois, mas nos primeiros dias.

— Está sonhando acordado novamente, Moneo.

— Perdoe-me, Senhor, mas quando fala de amor...

— Acha que não tenho pensamentos amorosos?

— Não é isso, Senhor, mas...

— Pensa que não tenho memórias de amor e procriação, hein?!

A carreta desviou-se na direção de Moneo, forçando-o a se esquivar, assustado pelo olhar furioso no rosto de Lorde Leto.

— Senhor, eu lhe suplico...

— Este corpo pode nunca ter conhecido tais carinhos, mas todas as memórias são minhas!

Moneo podia perceber os sinais do Verme tornando-se mais dominantes no corpo do Imperador-Deus, e não havia escapatória em reconhecer esse estado.

“Estou correndo grave perigo. Todos nós estamos.” Moneo tornou-se consciente de cada som à sua volta, os estalidos da Carreta Real, a tosse e as conversas em voz baixa no séquito, os pés na rodovia. Havia uma exalação de canela no Imperador-Deus. O ar ali, entre estas paredes de rocha, ainda guardava o frio da madrugada e havia umidade vinda do rio.

Estaria essa umidade atraindo o Verme?

— Escute-me, Moneo, como se a sua vida dependesse disto.

— Sim, Senhor — sussurrou Moneo, e ele sabia que a sua vida dependia do cuidado que tomasse agora, não apenas em ouvir, mas em observar.

— Uma parte de mim habita para sempre os subterrâneos irracionais — disse Leto. — Essa parte reage. Ela faz coisas sem se preocupar com a sabedoria ou a lógica.

Moneo assentiu com a cabeça, sua atenção colada no rosto do Imperador-Deus. Estariam seus olhos a ponto de esgazearem?

— Eu me vejo forçado a me desligar e observar essas coisas. Nada mais — disse Leto. — E tal reação poderia causar a sua morte. A escolha não é minha. Está me ouvindo?

— Eu o ouço, Senhor — sussurrou Moneo.

— Não existe algo como capacidade de escolha em tal acontecimento! Você meramente o aceita. Nunca irá entendê-lo ou conhecê-lo. Que me diz disso?

— Eu temo o desconhecido, Senhor.

— Mas eu não o temo. Diga-me por quê!

Moneo estivera esperando uma crise como essa, e agora que viera quase lhe dava as boas-vindas. Sabia que sua vida dependeria dessa resposta. Ele olhou para o Imperador-Deus, a mente voando.

— É por causa de todas as suas memórias, Senhor.

— Sim?

Uma resposta incompleta, então. Moneo lutou tentando encontrar palavras.

— Pode ver tudo aquilo que conhecemos... tudo como já foi... desconhecido! Uma surpresa para o senhor... uma surpresa deve ser apenas alguma coisa nova para que a conheça?

Enquanto falava, Moneo percebia ter colocado um defensivo ponto de interrogação em alguma coisa que deveria ter sido uma declaração atrevida, mas o Imperador-Deus apenas sorriu.

— Por tamanha sabedoria eu lhe concedo um pedido, Moneo. Que é que deseja?

O súbito alívio apenas abriu caminho para que outros temores emergissem.

— Seria possível eu trazer Siona de volta para a Cidadela?

— Isso fará com que eu a teste mais cedo.

— Ela deve ser separada de seus companheiros, Senhor.

— Muito bem.

— Meu senhor é gentil.

— Eu sou é egoísta.

O Imperador-Deus tirou os olhos de Moneo e ficou silencioso.

Olhando ao longo do corpo segmentado, Moneo observou que os sinais do Verme haviam diminuído de alguma forma. Isso tinha acabado bem, afinal, mas ele pensou nos Fremen com seus pedidos e o medo voltou.

“Aquilo foi um erro. Eles só vão provocá-lo novamente. Por que eu fui dizer que eles poderiam apresentar seu pedido?”

Os Fremen estariam esperando adiante, reunidos deste lado do rio com seus tolos papéis sendo acenados nas mãos.

Moneo marchou em silêncio, a apreensão aumentando a cada passo.

 

Por aqui a areia sopra

por aqui a areia sopra

Por aqui o homem rico espera

por aqui ele espera.

 

— A Voz do Shai-Hulud, Da História Oral

 

O relato de Irmã Chenoeh, encontrado em meio a seus papéis, depois de sua morte:

Eu obedeço tanto a meu juramento como Bene Gesserit quanto às ordens do Imperador-Deus, retirando estas palavras de meu relatório mas escondendo-as de modo a que possam ser descobertas depois da minha morte. Pois Lorde Leto me disse:

— Retorne às suas Superioras com a minha mensagem, mas por ora mantenha estas palavras em segredo. Minha ira visitará a sua Irmandade se você falhar.

Como a Reverenda Madre Syaksa me avisara antes de eu partir:

— Você não deve fazer coisa alguma que traga a ira dele sobre nós.

Enquanto eu caminhava ao lado de Lorde Leto, naquela curta peregrinação de que falei, pensei em lhe indagar a respeito de sua semelhança com uma Reverenda Madre.

Eu disse:

— Senhor, sei como uma Reverenda Madre adquire as memórias de suas ancestrais e de outras. Mas como foi com o Senhor?

— Foi uma adaptação de nossa história genética e o trabalho da especiaria. Minha irmã gêmea Ghanima e eu fomos despertados no ventre materno, colocados antes do nascimento na presença de nossas memórias ancestrais.

— Senhor... minha Irmandade chama isso de Abominação.

— E com toda a razão — disse Lorde Leto. — O número de ancestrais pode ser esmagador. E quem pode saber antes de acontecer que força irá comandar tal horda — o bem ou o mal?

— Senhor, como dominou tal força?

— Eu não a dominei — disse Lorde Leto. — Mas a persistência do modelo faraônico salvou a mim e a Ghani. Conhece esse modelo, Irmã Chenoeh?

— Nós da Irmandade somos bem instruídas em história, Senhor.

— Sim, mas vocês não pensam nisso como eu penso. Falo de uma doença de governo que foi apanhada pelos gregos, que a espalham pelos Romanos, os quais a distribuíram de maneira tão ampla e vasta que ela nunca morreu de todo.

— Meu Senhor fala através de enigmas?

— Não, não enigmas. Odeio essa coisa, mas ela nos salvou. Ghani e eu formamos poderosas alianças interiores com ancestrais que seguiam o modelo faraônico. Eles nos ajudaram a formar uma identidade mútua com aquela multidão há muito adormecida.

— Acho isso perturbador, Senhor.

— E realmente deve.

— Por que está me contando isso agora, Senhor? Nunca respondeu a uma de nós dessa maneira, não que eu saiba.

— Porque você me ouve bem, Irmã Chenoeh; porque irá me obedecer e porque nunca mais vou vê-la.

Lorde Leto pronunciou para mim essas estranhas palavras e então me indagou:

— Por que não perguntou a respeito do que Sua Irmandade chama de minha tirania insana?

Estimulada por essas palavras, arrisquei-me à dizer:

— Senhor, sabemos de algumas de suas sangrentas execuções. Elas nos perturbam.

Lorde Leto então fez uma coisa estranha. Fechou os olhos enquanto prosseguíamos e então disse:

— Como sei que você foi treinada para registrar precisamente quaisquer palavras que ouça, eu lhe falarei agora, Irmã Chenoeh, como se fosse uma página de um de meus diários. Preserve bem estas palavras porque não quero que sejam perdidas.

Asseguro agora à minha Irmandade que o que se segue são as palavras pronunciadas por Lorde Leto, exatamente como saíram de sua boca.

— Tenho certeza de que, quando não estiver mais aqui, presente de forma consciente entre vocês, quando estiver aqui apenas como uma terrível criatura do deserto, muitas pessoas me considerarão um tirano.

“É justo. Tenho sido um tirano.”

“Um tirano — não inteiramente humano, não louco, apenas um tirano. Mesmo os tiranos normais, porém, possuem motivos e sentimentos além daqueles que geralmente lhes são atribuídos por historiadores ingênuos, e pensarão em mim como um grande tirano. Assim, meus sentimentos e motivos serão um legado, o qual preservarei para que a história não os deturpe em demasia. A história possui um modo de ampliar certas características enquanto exclui outras.”

“As pessoas tentarão compreender-se e me enquadrar em suas palavras. Elas buscarão a verdade. Mas a verdade sempre carrega consigo a ambigüidade das palavras usadas para expressá-la.”

“Vocês não irão compreender-me. Por mais que tentem, só farão com que eu pareça mais distante, até que finalmente desaparecerei no eterno mito — um Deus Vivo, afinal!”

“É isso, está vendo? Não sou um líder, nem mesmo um guia. Um deus. Lembre-se disso. Sou inteiramente diferente de líderes e guias. Os deuses não precisam assumir a responsabilidade por coisa alguma, exceto a criação. Os deuses aceitam tudo e assim não aceitam coisa alguma. Os deuses devem ser identificáveis e ainda assim permanecer anônimos. Os deuses não precisam de um mundo espiritual. Meus espíritos habitam dentro de mim, respondendo ao meu mais leve chamado. Eu partilho disso com você porque me agrada fazê-lo. Aprendi com eles e através deles. Eles são a minha verdade.”

“Cuidado com a verdade, gentil Irmã. Embora muito procurada, a verdade pode ser perigosa para quem a busca. Os mitos e as mentiras tranquilizadoras são muito mais fáceis de se encontrar e de se crer. Se você encontra uma verdade, ainda que seja uma verdade temporária, ela pode exigir-lhe ajustamentos, mudanças dolorosas. Oculte as suas verdades dentro das palavras. A ambigüidade natural irá protegê-la, então. As palavras são muito mais fáceis de se absorver do que as agudas punhaladas délficas de mudos portentos. Com palavras você pode sempre gritar em coro: 'Por que não me avisaram?' “Mas eu os aviso. Eu a avisei, não com palavras, mas com um exemplo.”

“Inevitavelmente existirão palavras mais que suficientes. Você as registra em sua maravilhosa memória, agora mesmo. E algum dia meus diários serão descobertos... mais palavras. Eu a aviso para que leia minhas palavras a seu próprio risco. O movimento não-verbalizado de acontecimentos terríveis jaz logo abaixo de sua superfície.”

“Seja surda! Você não precisa ouvir e, ouvindo, não precisa lembrar. Como é tranqüilo poder esquecer. E como é perigoso!”

“Palavras, tais como as minhas, há muito têm sido reconhecidas por seu poder misterioso. Existe aqui um conhecimento secreto que pode ser usado para governar aqueles que se esquecem. As minhas palavras possuem a substância das mentiras e dos mitos com os quais os tiranos sempre contaram para manobrar as massas em favor de seus propósitos egoístas.”

“Está vendo? Compartilho tudo com você, até mesmo o maior mistério de todos os tempos, o mistério pelo qual governo minha vida. E eu o revelo a você em palavras.”

“O único passado que perdura encontra-se mudo dentro de você.”

O Imperador-Deus ficou em silêncio e eu me atrevi a perguntar:

— Essas são todas as palavras que o meu Senhor deseja que eu preserve?

— Essas são as palavras — disse o Imperador-Deus, e eu achei que ele parecia cansado, desanimado.

Ele tinha o tom de alguém que pronunciava seu derradeiro testamento. Lembrei-me de que ele dissera que nunca me veria novamente e fiquei temerosa, mas, graças a minhas mestras, esse temor não emergiu em minha voz.

— Lorde Leto — perguntei —, esses diários de que fala, para quem foram escritos?

— Para a posteridade, após o espaço de milênios. Eu personalizo aqueles leitores distantes, Irmã Chenoeh. Penso neles como primos distantes, cheios de curiosidade quanto à família. Estão absorvidos em revelar os dramas que só eu posso contar. Buscam conexões pessoais com suas próprias vidas. Querem os significados, a verdade!

— Mas nos advertiu contra a verdade, Senhor — eu disse.

— De fato! Toda a história é um instrumento maleável em minhas mãos. Oh, acumulei todos esses passados e possuo cada fato. E no entanto os fatos são meus para usá-los como queira, e mesmo ao usá-los com fidelidade à verdade que contêm eu as altero. Que estou lhe dizendo agora? Que é um diário? Palavras.

Novamente Lorde Leto ficou em silêncio e eu considerei a importância do que ele tinha dito, pesando-a contra a advertência da Reverenda Madre Syaksa, e diante de todas as coisas que o Imperador-Deus me falara anteriormente. Ele disse que eu era uma mensageira e assim senti estar sob sua proteção, podendo atrever-me mais que qualquer outra. Desse modo, perguntei:

— Lorde Leto, disse que não vai me ver outra vez. Isso quer dizer que está perto da morte?

Juro aqui, em meu registro desse evento, que Lorde Leto riu! E então disse:

— Não, gentil Irmã, é você que vai morrer. Você não viverá para ser uma Reverenda Madre. Mas não fique entristecida por isso, já que, com sua presença aqui hoje, ao levar minha mensagem para a sua Irmandade e ao preservar minhas palavras secretas, você conquistará uma importância ainda maior. Você se tornará parte integrante do mito. Nossos primos distantes rezarão a você para que interceda junto a mim.

Novamente Lorde Leto riu, mas era um riso suave, e ele sorriu para mim calorosamente. Eu acho difícil registrar isso com a precisão que estou acostumada a empregar em cada relato como este. Mas no momento em que Lorde Leto falou aquelas palavras terríveis para mim, senti um profundo laço de amizade com ele, como se algo físico tivesse saltado entre nós, unindo-nos de uma forma que as palavras não podem descrever inteiramente. E foi apenas no momento dessa experiência que compreendi o que ele tinha querido dizer com verdade não-verbalizada. Aquilo aconteceu e no entanto não posso descrevê-lo.

 

Nota do arquivista

Devido aos eventos intercalados, a descoberta desse registro particular é agora pouco mais que uma nota ao pé da página da história. Interessante por conter uma das mais antigas referências aos diários secretos do Imperador-Deus. Aqueles que desejam examinar mais profundamente esse registro devem buscar as referências no Arquivo de Registros sob o subtítulo Chenoeh, Sagrada Irmã Quintinus Violeta: Chenoeh, Relatório de e Rejeição à melange, Aspectos médicos da.

(Adendo: A Irmã Quintinius Violeta Chenoeh morreu no 53º ano de sua estada na Irmandade, a causa sendo descrita como incompatibilidade com a melange durante sua tentativa de alcançar o status de Reverenda Madre.)

 

Nosso ancestral Assur-nasir-apli foi conhecido como o mais cruel entre os cruéis. Ele se apoderou do trono matando o próprio pai e começando o reinado da espada.

Suas conquistas incluíram a região do Lago Urumia, que o conduziu a Commagene e Khabur. Seu filho recebeu tributo dos Shuitas, de Tiro, Sidon, Gebel e mesmo de Jehu, filho de Omri, cujo próprio nome despertava o terror entre milhares de pessoas. As conquistas que se iniciaram com Assurnasir-apli levaram exércitos para a Média e depois até Israel, Damasco, Edom, Arpad, Babilônia e Umlias. Será que alguém se lembra desses nomes e desses lugares agora? E já lhes dei indícios suficientes: tentem localizar o planeta.

 

— Os diários roubados

 

O ar estava estagnado nas profundezas do corte na montanha que conduzia a Estrada Real até o acesso plano à ponte sobre o Rio Idaho. A estrada virava para a direita sobre uma imensidão artificial de rocha e terra. Moneo, caminhando ao lado da Carreta Real, viu a tira pavimentada cruzando um estreito topo de penhasco até o rendado de plasteel constituído pela ponte, ainda distante um quilômetro.

O rio, profundo no abismo, curvava-se na direção deles à direita e corria reto através de cascatas múltiplas em direção ao lado distante da Floresta Proibida, onde as muralhas envolventes desciam quase ao nível da água. Lá, nas fronteiras de Onn, encontravam-se os pomares e jardins que ajudavam a alimentar a cidade.

Moneo, olhando para o distante trecho de rio, visível de onde ele caminhava, viu que o topo do canyon se encontrava banhado em luz, enquanto lá embaixo a água fluía nas sombras quebradas apenas pelo fraco tremular prateado das cascatas.

Diretamente à frente, a estrada que levava à ponte brilhava à luz do sol, as sombras negras de grotas escavadas pela erosão, em ambos os lados, projetando-se como setas a indicar o caminho correto. O sol que se erguia já aquecera o leito da rodovia. O ar tremulava acima numa advertência do dia que chegava.

“Estaremos em segurança na cidade antes que o calor chegue ao auge”, pensou Moneo.

Ele prosseguiu com a cansada paciência que sempre o dominava nesse ponto, seu olhar fixo adiante, na expectativa dos Fremen de Museu e sua petição. Eles surgiriam de uma das grotas de erosão, sabia ele, em algum lugar deste lado da ponte. Esse fora o acordo que fizera com eles. E o Imperador-Deus ainda mostrava indícios do Verme.

Leto ouviu os Fremen antes que qualquer um em sua comitiva os visse ou ouvisse.

— Escutem! — disse ele.

Moneo ficou totalmente alerta.

Leto rolou seu corpo na carreta, arqueando a frente para cima, erguendo-a para fora do cobertor-bolha e sondando adiante.

Moneo conhecia isso muito bem. Os sentidos do Imperador-Deus, muito mais agudos que os de qualquer um ao redor dele, tinham detectado um distúrbio adiante. Os Fremen estavam começando a caminhar ao longo da estrada. Moneo entrou novamente no passo habitual e se dirigiu até o limite de sua posição de trabalho. Ouviu-os, então.

Havia o som de pedras rolando.

E os primeiros Fremen surgiram saindo das grotas em ambos os lados da estrada, não mais que 100 metros adiante da comitiva real.

Duncan Idaho avançou correndo e se colocou caminhando ao lado de Moneo.

— Aqueles são Fremen? — indagou Idaho.

— Sim. — Moneo falou com a atenção voltada para o Imperador-Deus, que tinha abaixado seu volume de volta no carro.

Os Fremen de Museu enfileiraram-se ao longo da estrada, deixando cair seus mantos externos para revelar outros mantos por baixo, nas cores roxa e vermelha. Moneo soltou uma exclamação de espanto. Os Fremen estavam vestidos como peregrinos, com algum tipo de traje negro debaixo dos mantos coloridos. Os que se encontravam mais perto acenavam com rolos de papel, enquanto o grupo inteiro começava a cantar e dançar na direção do cortejo real.

— Um pedido, Senhor — os líderes gritavam. — Ouça nosso pedido.

— Duncan! — gritou Leto. — Tire-os do caminho!

As Oradoras Peixes avançaram através dos cortesãos ao grito de seu Senhor. Idaho acenou para que elas fossem em frente e começou a correr na direção da multidão que se aproximava. A Guarda formou uma falange com Idaho na ponta.

Leto fechou com um golpe a cobertura-bolha de sua carreta, aumentou a velocidade e gritou num rugido amplificado:

— Saiam do caminho! Saiam do caminho!

Os Fremen de Museu, vendo a Guarda avançar em sua direção e a carreta ganhar velocidade enquanto Leto gritava, pareceram abrir caminho no centro da estrada. Moneo, forçado a correr para acompanhar a carreta, e com sua atenção momentaneamente voltada para os passos apressados dos cortesãos atrás, viu a primeira mudança inesperada no programa dos Fremen.

Como se fosse uma única pessoa, a multidão cantante arrancou as capas de peregrinos para revelar uniformes negros, idênticos ao que era usado por Duncan Idaho.

“Que estão fazendo?”, perguntou-se Moneo.

Mesmo ao fazer a pergunta, Moneo já via a carne dos rostos que se aproximavam fluir para a condição de Dançarino Facial, cada rosto tornando-se uma cópia do de Duncan Idaho.

— Dançarinos Faciais! — alguém gritou.

Leto também fora distraído pela confusão dos eventos, os sons de muitos pés correndo na estrada, as ordens gritadas pelas Oradoras Peixes formando sua falange. Ele aplicara mais velocidade à sua carreta, fechando a distância entre si mesmo e as guardas, e começando a tocar um sino de aviso e soar a buzina de distorção da carreta. Um ruído intenso afogou a cena, desorientando mesmo algumas das Oradoras Peixes a ele condicionadas.

No instante em que os solicitantes abandonaram suas capas de peregrinos e começaram a manobra de transformação, seus rostos tornando-se semelhantes ao de Duncan Idaho, Leto ouviu o grito:

“Dançarinos Faciais!” Ele identificou a fonte, a esposa de um funcionário da Contabilidade Real.

A reação inicial de Leto foi de divertimento.

Guardas e Dançarinos Faciais colidiram entre si. Berros e gritos substituíram o cântico dos solicitantes. Leto reconheceu comandos de batalha dos Tleilaxu. Um círculo de Oradoras Peixes formou-se em torno da figura vestida de negro do seu Duncan. As guardas obedeciam à instrução, freqüentemente repetida por Leto, de que protegessem seu ghola comandante.

“Mas como elas irão diferenciá-lo dos outros?”

Leto fez a carreta quase parar. Podia ver Oradoras Peixes à esquerda, brandindo seus cassetetes atordoadores. A luz do sol refletiu-se nas lâminas das facas. E então veio o zumbido de pistolas laser, um som que a avó de Leto certa vez descrevera como “o mais terrível em nosso universo”. Mais berros e gritos roucos partiram da vanguarda.

Leto reagiu ante o primeiro som das armas laser. Desviou a Carreta Real para fora da estrada, indo para a direita, mudou de rodas para suspensores e lançou o veículo de volta, como um aríete, sobre um grupo de Dançarinos Faciais que tentava entrar na luta do seu lado. Fazendo uma curva estreita, golpeou mais alguns do outro lado, sentindo o impacto esmagador de carne contra plasteel, um esguicho de sangue vermelho, e então estava fora da estrada, dentro de uma grota de erosão. As encostas marrons serrilhadas da grota relampejaram em torno dele. Ele desviou o veículo para cima e depois mergulhou através do canyon do rio, até um elevado mirante cercado de rochas ao lado da Estrada Real. Lá ele parou e se virou, bem fora do alcance de lasers manuais.

“Que surpresa!”

O riso sacudiu seu grande corpo com tremulantes convulsões. Lentamente, o divertimento se esvaiu.

De seu ponto de vista, Leto podia ver a ponte e a área do ataque. Corpos jaziam em misturada desordem por todo o cenário e nas grotas ao lado. Ele reconheceu as roupas finas de cortesãos, os uniformes das Oradoras Peixes, o negro ensangüentado dos disfarces dos Dançarinos Faciais. Os cortesãos sobreviventes aglomeravam-se ao fundo, enquanto Oradoras Peixes corriam entre os corpos tombados, certificando-se de que os atacantes estavam mortos com um rápido golpe de faca em cada corpo.

Leto percorreu com o olhar toda a cena buscando o uniforme negro de seu Duncan. Não havia tal uniforme de pé. Nem mesmo um! Dominou um ímpeto de frustração, e então viu um aglomerado de guardas Oradoras Peixes entre os cortesãos e... uma figura nua.

“Nua!”

Era Duncan! “Nu! É claro!” O Duncan Idaho sem uniforme não era um Dançarino Facial.

Novamente o riso o fez estremecer. Surpresas de ambos os lados. Que choque não devia ter sido para os atacantes. Obviamente eles não se tinham preparado para tal reação.

Leto levou sua carreta de volta para a estrada, baixou as rodas em posição e rolou para a ponte. Cruzou a ponte com uma sensação de déja vu, consciente das incontáveis pontes em suas memórias, as travessias para observar o resultado de batalhas. Quando saiu da ponte, Idaho partiu do grupo de guardas e correu em direção a ele, pulando por sobre os corpos. Leto parou a carreta e olhou para o corredor nu. O Duncan parecia um soldado-mensageiro grego, correndo para relatar a seu comandante o resultado de uma batalha. A condensação da história atordoou as memórias de Leto.

Idaho escorregou parando ao lado da carreta. Leto abriu a cobertura-bolha.

— Dançarinos Faciais, cada um dos malditos! — disse Idaho ofegante.

Sem tentar esconder seu divertimento, Leto indagou:

— Quem teve a idéia de tirar seu uniforme?

— Eu! Mas elas não me deixaram lutar!

Moneo veio correndo com um grupo de guardas. Uma das Oradoras Peixes jogou um manto azul para Idaho, gritando:

— Estamos tentando salvar um uniforme completo de um dos corpos.

— Rasguei o meu — explicou Idaho.

— Algum dos Dançarinos Faciais escapou? — perguntou Moneo.

— Nenhum — respondeu Idaho. — Admito que suas mulheres são boas lutadoras, mas por que elas não me deixaram entrar na...

— Porque elas tinham instruções para protegê-lo — disse Leto. — Elas sempre protegem os mais valiosos...

— Quatro delas morreram tirando-me de lá! — disse Idaho.

— Nós perdemos mais de 30 pessoas ao todo, Senhor — disse Moneo. — Ainda estamos contando.

— Quantos Dançarinos Faciais havia? — perguntou Leto.

— Parece que havia uns 50 deles — disse Moneo, falando suavemente, uma aparência chocada em seu rosto.

Leto começou a rir.

— Por que está rindo? — quis saber Idaho. — Mais de 30 de nossa gente...

— Mas os Tleilaxu foram muito incompetentes — disse Leto. — Não percebe que apenas 500 anos atrás eles teriam sido muito mais eficientes, muito mais perigosos? Imagine-os tentando esta tola mascarada! E não prevendo sua brilhante resposta!

— Eles tinham pistolas laser — observou Idaho.

Leto torceu seus volumosos segmentos anteriores e apontou para um buraco fundido em sua cobertura, quase no meio do carro. Um asterisco de matéria derretida circundava o orifício.

— Eles atingiram vários outros pontos embaixo — explicou Leto. — Felizmente não danificaram nenhuma roda ou suspensor.

Idaho observou o orifício na capota, notando que ele se alinhava com o corpo de Leto.

— Eles não o atingiram? — perguntou.

— Oh, sim — respondeu Leto.

— Está ferido?

— Sou imune a pistolas laser — mentiu Leto. — Quando tivermos tempo, demonstrarei.

— Bem, eu não sou imune — disse Idaho. — E nem suas guardas. Cada um de nós deveria ter um cinturão-escudo.

— Os escudos estão banidos do Império — disse Leto. — É uma ofensa capital possuir um escudo.

— A questão dos escudos — arriscou Moneo.

Idaho pensou que Moneo estivesse pedindo uma explicação sobre escudos e disse:

— Os escudos desenvolvem um campo de força que repele qualquer objeto que tente penetrar com uma velocidade perigosa. Eles possuem um grande inconveniente. Se você atravessar um campo de força com um raio laser, a explosão resultante iguala a de uma grande bomba de fusão. O atacante e o atacado são destruídos.

Moneo apenas olhou para Idaho, que assentiu com a cabeça.

— Percebo por que foram banidos — continuou Idaho. — Presumo que a Grande Convenção contra os atômicos continue em vigor e funcionando bem.

— Funcionando ainda melhor, já que demos busca em todos os atômicos das Grandes Famílias e os removemos para um lugar seguro — disse Leto. — Mas não temos tempo para discutir tais questões aqui.

— Podemos discutir uma coisa — insistiu Idaho. — Caminhar aqui em campo aberto é muito perigoso. Deveríamos...

— Trata-se de uma tradição e devemos continuá-la — disse Leto.

Moneo inclinou-se bem junto de um dos ouvidos de Idaho e sussurrou:

— Está perturbando Lorde Leto.

— Mas...

— Já considerou o quanto é mais fácil controlar uma população que anda a pé? — perguntou Moneo.

Idaho virou-se de repente para olhar nos olhos de Moneo com súbita compreensão.

Leto aproveitou a oportunidade para começar a dar ordens:

— Moneo, cuide para que não fique nenhum vestígio do ataque por aqui. Nenhuma mancha de sangue, nenhuma roupa rasgada, nada.

— Sim, Senhor.

Idaho voltou-se ante o som de pessoas apinhando-se em torno deles, e viu que todos os sobreviventes, mesmo os feridos usando curativos de emergência, tinham se aproximado para ouvir.

— Todos vocês! — disse Leto, dirigindo-se à multidão em torno da carreta. — Nem uma palavra a respeito disso. Deixem que os Tleilaxu se preocupem. — Voltou-se para Idaho. — Duncan, como foi que esses Dançarinos Faciais entraram em uma região onde apenas os meus Fremen de Museu deviam andar livremente?

Idaho olhou involuntariamente para Moneo.

— É minha falha, Senhor — disse Moneo. — Fui eu que arranjei para que os Fremen apresentassem seu pedido aqui. Eu mesmo tranqüilizei Duncan Idaho quanto a eles.

— Lembro-me de você ter mencionado uma solicitação dos Fremen — disse Leto.

— Julguei que poderia diverti-lo, Senhor.

— Pedidos não me divertem, eles me aborrecem. E fico especialmente aborrecido com pedidos de pessoas cujo único propósito em meu esquema de coisas é preservar os antigos costumes.

— Senhor, foi apenas que me falou tantas vezes do tédio destas peregrinações a...

— Mas não estou aqui para aliviar o tédio dos outros!

— Senhor?

— Os Fremen de Museu não entendem coisa alguma a respeito dos velhos costumes. São apenas bons em executar os rituais. Isso naturalmente os aborrece, daí seus pedidos no sentido de se introduzirem mudanças. Isso é que me aborrece. Não permitirei mudanças. Agora, onde foi que soube a respeito desse suposto pedido?

— Dos próprios Fremen — disse Moneo. — Uma dele... — Ele se interrompeu, carrancudo.

— E os membros da delegação lhe eram conhecidos?

— É claro, Senhor. De outro modo eu...

— Eles estão mortos — disse Idaho.

Moneo olhou para ele sem compreender.

— As pessoas que você conhecia foram mortas e substituídas por Dançarinos Faciais imitadores — explicou Idaho.

— Eu tenho sido descuidado — comentou Leto. — Devia ter ensinado todos vocês a reconhecerem os Dançarinos Faciais. Isso será corrigido agora que eles se tornaram ousadamente tolos.

— Por que eles são tão ousados? — perguntou Idaho.

— Talvez para distrair nossa atenção de alguma outra coisa — comentou Moneo.

Leto sorriu para Moneo. Sob a ameaça de um perigo pessoal, a mente do majordomo funcionava bem. Ele falhara ante seu Senhor por confundir os Dançarinos Faciais, com sua mímica, com Fremen bem conhecidos. Agora Moneo sentia que a continuação de seus serviços dependeria das habilidades pelas quais o Imperador-Deus originalmente o escolhera.

— E agora temos tempo para nos prepararmos — disse Leto.

— Distrair-nos de quê? — quis saber Idaho.

— De outra trama de que eles participam — disse Leto. — Eles acham que vou puni-los severamente por isso, mas o núcleo dos Tleilaxu permanecerá seguro por causa de você, Duncan.

— Eles não pretendiam falhar aqui — comentou Idaho.

— Mas essa era uma contingência para a qual estavam preparados — disse Moneo.

— Eles acreditam que não os destruirei porque guardam as células originais do meu Duncan Idaho — opinou Leto. — Compreende isso, Duncan?

— E eles estão certos? — indagou Idaho.

— A abordagem deles é que está errada — disse Leto. Voltou sua atenção para Moneo. — Nenhum indício desse acontecimento deve seguir conosco para Onn. Novos uniformes, novas guardas para substituir as que foram mortas ou feridas... tudo de volta como estava.

— Existem mortos entre seus cortesãos, Senhor — observou Moneo.

— Substitua-os.

Moneo curvou-se.

— Sim, Senhor.

— E mande buscar uma nova cobertura para a minha carreta!

— Como o meu Senhor ordena.

Leto recuou alguns passos a carreta, virou-se e se dirigiu para a ponte, chamando Idaho:

— Duncan, você me acompanhará.

Lentamente a princípio, com a relutância pesando em cada movimento, Idaho deixou Moneo e os outros. Depois, aumentando o passo, ficou junto da bolha aberta da carreta, caminhando enquanto olhava para Leto.

— Que o perturba, Duncan? — perguntou Leto.

— Pensa mesmo em mim como o seu Duncan?

— É claro, exatamente como pensa em mim como o seu Leto.

— Por que não soube que esse ataque estava se aproximando?

— Através da minha presciência?

— Sim!

— Os Dançarinos Faciais não atraem minha atenção há longo tempo — disse Leto.

— Presumo que isso tenha mudado agora?

— De modo algum.

— Por que não?

— Porque Moneo estava certo. Não vou deixar que me distraiam.

— Eles poderiam realmente tê-lo morto aqui.

— Uma possibilidade diferente. Sabe, Duncan, poucos compreendem que desastre seria o meu fim.

— O que os Tleilaxu estarão tramando?

— Uma cilada, eu creio. Uma adorável cilada. Eles me enviaram um aviso, Duncan.

— Que aviso?

— Existe uma nova escalada nos motivos desesperados que impulsionam alguns dos meus súditos.

Deixaram a ponte, começando a subir até o mirante de Leto. Idaho caminhava em agitado silêncio.

No topo, Leto ergueu o olhar sobre os penhascos distantes, fitando a desolação do Sareer.

As lamentações daqueles em seu séquito que haviam perdido entes queridos continuavam na cena do ataque, além da ponte. Com sua audição aguda, Leto podia distinguir a voz de Moneo, advertindo-os de que o tempo para lamentar os mortos seria necessariamente curto. Eles possuíam outros entes queridos na Cidadela, e bem conheciam a ira do Imperador-Deus.

“As lágrimas terão desaparecido e os sorrisos cobrirão suas faces na hora em que chegarmos a Onn”, pensou Leto. “Eles acham que os desprezo! Que isso realmente importa? Esse é um incômodo momentâneo entre os de vida curta e pensamentos estreitos.”

A visão do deserto o acalmava. Ele não podia ver o rio no fundo do seu canyon, a partir desse ponto, sem se virar completamente e olhar para a Cidade Festival. O Duncan permanecia piedosamente silencioso ao lado da carreta. Voltando seu olhar ligeiramente para a esquerda, Leto enxergava a extremidade da Floresta Proibida. Contra esse vislumbre de um verdejante panorama, sua memória subitamente comprimiu o Sareer no minúsculo e fraco remanescente de um deserto planetário, que um dia fora tão poderoso que todos os homens o temiam, até mesmo os Fremen selvagens que nele andavam.

— É o rio — pensou Leto. — Se me voltar, verei aquilo que fiz.

O abismo feito pelo homem, através do qual o Rio Idaho escorria em corredeiras, era apenas uma extensão da fenda que Paul Muad'Dib explodira através da elevada Muralha Escudo para a passagem de suas legiões montadas em vermes. Onde a água fluía agora, o Muad'Dib conduzira seus Fremen saindo de uma tempestade de areia coriólis para entrar na história... “e terminar nisto”.

Leto ouviu os passos familiares de Moneo, os sons do majordomo esforçando-se para subir até o mirante. Moneo veio colocar-se ao lado de Idaho e fez uma pausa para recuperar o fôlego.

— Quanto tempo até que possamos prosseguir? — perguntou Idaho.

Moneo fez sinal para que ele ficasse calado e se dirigiu a Leto:

— Senhor, acabamos de receber uma mensagem de Onn. A Bene Gesserit manda avisar que os Tleilaxu irão atacar-nos antes que alcancemos a ponte.

Idaho resmungou.

— Não estão um pouco atrasadas?

— Não é falha delas — disse Moneo. — A capitão das Oradoras Peixes não acreditou nelas.

Outros membros do cortejo de Leto começaram a aparecer no nível do mirante. Alguns deles pareciam estar drogados, ainda em choque. As Oradoras Peixes caminhavam energicamente entre eles, comandando uma exibição de boa disposição.

— Remova a Guarda da Embaixada Bene Gesserit — disse Leto. — Envie esta mensagem para elas: diga-lhes que sua audiência ainda será a última, mas que não devem temer por isso. Diga-lhes que os últimos serão os primeiros. Elas identificarão a alusão.

— E quanto aos Tleilaxu? — indagou Idaho.

Leto mantinha sua atenção em Moneo.

— Sim, os Tleilaxu. Vou enviar-lhes um sinal.

— Sim, Senhor?

— Quando eu ordenar, e só quando eu ordenar, você fará com que o Embaixador Tleilaxu seja publicamente açoitado e expulso.

— Senhor!

— Você discorda?

— Se devemos manter isto em segredo... — Moneo olhou por sobre o ombro —, como vai explicar o açoite?

— Não explicaremos.

— Não daremos nenhuma razão?

— Nenhuma razão.

— Mas Senhor, as histórias e rumores que irão...

— Eu estou reagindo, Moneo! Deixe que eles conheçam a parte subterrânea de mim, que faz coisas sem o meu conhecimento, pois não possui os meios de conhecer.

— Isso causará um grande temor, Senhor.

Um riso amargurado escapou dos lábios de Idaho. Ele colocou-se entre Moneo e a carreta.

— Ele faz uma gentileza para com esse Embaixador. Já houve governantes que teriam executado o tolo em fogo lento.

Moneo tentou falar com Leto por sobre o ombro de Idaho.

— Mas Senhor, esse ato só confirmará ante os Tleilaxu que o Senhor foi atacado.

— Eles já sabem disso — respondeu Leto. — Mas não falarão a respeito.

— E quando nenhum dos atacantes retornar... — disse Idaho.

— Está compreendendo, Moneo? — perguntou Leto. — Quando marcharmos para dentro de Onn, aparentemente ilesos, os Tleilaxu acreditarão ter sofrido um completo fracasso.

Moneo olhou à sua volta para as Oradoras Peixes e os cortesãos que ouviam arrebatados essa conversa. Raramente qualquer um deles tinha ouvido tal diálogo revelador entre o Imperador-Deus e seus auxiliares mais imediatos.

— Quando meu Senhor dará o sinal para a punição do Embaixador? — perguntou Moneo.

— Durante a audiência.

Leto ouviu tópteros chegando, viu o cintilar do sol em suas asas e rotores e, quando focalizou com atenção, percebeu a nova capota para sua carreta pendurada embaixo de um deles.

— Faça com que essa capota danificada volte para a Cidadela e seja restaurada — ordenou Leto, ainda perscrutando os tópteros que se aproximavam. — Se alguém fizer perguntas, instrua aos artesãos para dizerem que é apenas rotina, outra capota arranhada pela areia que o vento sopra.

Moneo suspirou.

— Sim, Senhor. Será feito como ordena.

— Vamos Moneo, alegre-se — disse Leto. — Caminhe ao meu lado enquanto prosseguimos. — Virando-se para Idaho, Leto disse: — Escolha algumas guardas e sonde o caminho à frente.

— Acha que haverá outro ataque?

— Não, mas isso dará às guardas alguma coisa para fazer. E arranje um uniforme novo. Não quero você usando uma coisa que foi contaminada pelos sujos Tleilaxu.

Idaho saiu para obedecer.

Leto fez sinal para que Moneo chegasse mais perto, bem mais perto. Quando Moneo estava curvado sobre a carreta, o rosto a menos de um metro de Leto, este colocou a voz num tom muito baixo e disse:

— Existem algumas lições especiais aqui para você, Moneo.

— Senhor, sei que devia ter suspeitado que os Dançarinos...

— Nada de Dançarinos Faciais! Esta é uma lição para a sua filha.

— Siona? Em que ela poderia...

— Diga-lhe isto: de um modo frágil, ela é como a força dentro de mim, que age sem saber. Por causa dela eu me lembro de como é ser humano... e amar.

Moneo olhou para Leto sem compreender.

— Simplesmente lhe transmita essa mensagem — disse Leto.

— Não precisa tentar entendê-la. Apenas lhe diga minhas palavras.

Moneo recuou.

— Como meu Senhor ordena.

Leto fechou a cobertura em forma de bolha, transformando-a em uma unidade para que as equipes que se aproximavam nos tópteros pudessem substitui-la.

Moneo virou-se e olhou para as pessoas que esperavam na área plana do mirante. Notou então uma coisa que não tinha observado antes, uma coisa revelada pelo desarranjo nos trajes que algumas das pessoas ainda não tinham reparado. Alguns dos cortesãos se haviam equipado com delicados engenhos de auxílio à audição. Tinham escutado tudo. E tais engenhos só poderiam vir de Ix.

“Vou avisar ao Duncan e à Guarda”, pensou Moneo.

De algum modo, ele pensava nesta descoberta como um sintoma de decadência. Como eles poderiam proibir tais coisas quando a maioria dos cortesãos e Oradoras Peixes sabia, ou então suspeitava, de que o Imperador-Deus comerciava com Ix para obter tais máquinas proibidas?

 

Estou começando a odiar a água. A pele da truta da areia, que impele a minha metamorfose, já absorveu as sensibilidades do Verme. Moneo e muitas de minhas guardas conhecem essa aversão. Somente Moneo suspeita da verdade, de que isso marca um caminho importante. Posso sentir o meu fim, representado nisso, não breve como Moneo mede o tempo, mas suficientemente breve do modo como eu o suporto. A truta da areia buscava a água nos tempos de Duna, um problema para os primeiros estágios de nossa simbiose. A força de minha vontade controlava esse impulso então, e até que atingíssemos um tempo de equilíbrio. Agora devo evitar a água porque não há mais trutas da areia além das criaturas meio dormentes em minha pele. Sem truta da areia para trazer este mundo de volta para o deserto, o Shai-Hulud não emergirá; o verme da areia não pode desenvolver-se até que esta terra esteja ressequida.

Eu sou sua única esperança.

 

— Os diários roubados

 

Era o meio da tarde quando o Cortejo Real surgiu no declive final em direção aos bairros da Cidade Festival. Multidões enfileiravam-se ao longo das ruas para saudá-lo, sendo contidas por filas de robustas Oradoras Peixes em uniformes com a cor verde dos Atreides, seus cassetetes atordoantes cruzados e unidos.

Enquanto o Cortejo Real se aproximava, um rumor de gritos se ergueu da multidão. Então as guardiãs Oradoras Peixes começaram a entoar:

— Siaynoq! Siaynoq! Siaynoq!

Ao ecoar por entre os prédios elevados, a palavra cantada possuía um estranho efeito sobre a multidão, que não fora iniciada no seu significado. Uma onda de silêncio espalhou-se pelas avenidas apinhadas, enquanto as guardiãs prosseguiam o cântico. As pessoas olhavam, admiradas, para as mulheres armadas com bastões atordoantes que guardavam a passagem do Cortejo Real, as mulheres que cantavam com os olhos fixos no rosto de seu Senhor que passava.

Idaho, marchando com as guardas Oradoras Peixes, atrás da Carreta Real, ouvia o canto pela primeira vez e sentia o cabelo arrepiar em sua nuca.

Moneo seguia ao lado da carreta, sem olhar para a esquerda ou a direita. Ele certa vez indagara de Leto o significado da palavra.

— Eu dou às Oradoras Peixes apenas um ritual — dissera Leto.

Na ocasião eles estavam na câmara de audiências do Imperador-Deus, logo abaixo da praça central de Onn, com Moneo fatigado após um longo dia dirigindo o fluxo de dignitários que abarrotavam a cidade para as Festividades Decenais.

— Que tem o cantar daquela palavra a ver com isso, Senhor?

— O ritual é chamado de Siaynoq; O Banquete de Leto. Trata-se da adoração da minha pessoa na minha presença.

— Um ritual ancestral, Senhor?

— Era com os Fremen antes que eles fossem Fremen. Mas as chaves para os segredos do Festival morreram com os antigos. Somente eu as relembro agora. Eu recrio o Festival à minha própria maneira e para as minhas próprias necessidades.

— Então, os Fremen de Museu não usam esse ritual?

— Nunca. É meu e somente meu. Reservo-me o direito eterno sobre ele porque eu sou o ritual.

— É uma palavra estranha, Senhor. Nunca a tinha ouvido.

— Ela possui muitos significados, Moneo. Se eu lhe disser, manterá o segredo?

— Meu Senhor ordena!

— Nunca compartilhe com outro ou revele às Oradoras Peixes o que lhe vou dizer agora.

— Eu juro, Senhor.

— Muito bem. Siaynoq significa honrar aquele que fala com sinceridade. Significa a lembrança das coisas que foram ditas com sinceridade.

— Mas Senhor, sinceridade não significa que aquele que fala acredita.. tem fé no que está dizendo?

— Sim, mas Siaynoq também contém a idéia da luz que revela a realidade. Você continua a lançar essa luz naquilo que vê.

— Realidade... esse é um termo muito ambíguo, Senhor.

— De fato! Mas Siaynoq também significa fermentação porque a realidade — ou a crença de que você conhece uma realidade, o que é a mesma coisa — sempre provoca uma fermentação no universo.

— Tudo isso em uma única palavra, Senhor?

— E mais! Siaynoq também contém o chamado à oração e o nome do Anjo Registrador, Sihaya, que interroga os recentemente mortos.

— Uma grande carga para uma única palavra, Senhor.

— As palavras podem transportar qualquer carga que desejemos. Tudo que é necessário é uma concordância e uma tradição sobre a qual se apoiar.

— Por que não devo falar a esse respeito com as Oradoras Peixes, Senhor?

— Porque essa é uma palavra reservada para elas. Elas se ressentirão se eu a compartilhar com alguém do sexo masculino.

Moneo comprimia os lábios em uma linha fina ao se lembrar disso, marchando ao lado da Carreta Real para dentro da Cidade Festival. Muitas vezes ouvira as Oradoras Peixes cantarem ao Imperador-Deus em sua presença, desde aquela primeira explicação, e até mesmo adicionara seus próprios significados à estranha palavra.

“Ela significa mistério e prestígio. Significa poder. Invoca a licença para agir em nome de Deus.”

— Siaynoq! Siaynoq! Siaynoq!

A palavra tinha um som desagradável aos ouvidos de Moneo.

Encontravam-se agora bem no interior da cidade, quase na praça central. A luz do entardecer iluminava a Estrada Real por trás da procissão, clareando o caminho a ser percorrido. Ela dava um brilho aos trajes coloridos dos cidadãos. Brilhava nos rostos erguidos das Oradoras Peixes que margeavam o caminho.

Marchando com as guardas ao lado da carreta, Idaho dominou seus susto inicial enquanto o cântico continuava. Ele questionou uma das Oradoras Peixes a seu lado a respeito da palavra.

— Não se trata de uma palavra para homens — ela disse. — Mas algumas vezes o Senhor partilha Siaynoq com um Duncan.

“Um Duncan!” Ele indagara Leto a respeito anteriormente e não gostara das misteriosas evasões.

— Logo vai aprender sobre isso.

Idaho relegou o canto ao papel de ruído de fundo enquanto olhava à sua volta com a curiosidade de um turista. Em preparação para suas tarefas como Comandante da Guarda, Idaho fizera sondagens sobre a história de Onn, descobrindo que partilhava o perverso divertimento de Leto pelo fato de o rio que fluía por perto ter por nome Idaho.

Eles estavam em um dos grandes salões abertos da Cidadela naquela ocasião, o lugar arejado cheio da luz da manhã, as mesas amplas sobre as quais as arquivistas Oradoras Peixes tinham abertos os mapas do Sareer e de Onn. Leto rolara sua carreta sobre uma rampa que lhe permitia olhar para baixo e ver os mapas. Idaho estava diante de uma mesa coberta de mapas, na frente dele, estudando uma planta da Cidade Festival.

— Desenho peculiar para uma cidade — murmurou Idaho.

— Ela possui uma função básica: a visão pública do Imperador-Deus.

Idaho ergueu os olhos para o corpo segmentado na carreta, voltando o olhar para o rosto envolto nas dobras de truta da areia. Perguntava a si mesmo se algum dia acharia natural fitar aquela figura bizarra.

— Mas isso só acontece uma vez a cada 10 anos — disse Idaho.

— A Grande Comunhão, sim.

— E apenas a deixa fechada nesse intervalo?

— Lá ficam as embaixadas, os escritórios dos agentes comerciais, as escolas das Oradoras Peixes, o pessoal de serviços e manutenção, os museus e bibliotecas.

— Que espaço eles ocupam? — Idaho bateu no mapa com os nós dos dedos. — No máximo, um décimo da Cidade.

— Menos que isso.

Idaho deixou o olhar vaguear pensativamente sobre o mapa.

— Existem outros propósitos nesse projeto, meu Senhor?

— Ele é dominado pela necessidade de o público ver a minha pessoa.

— Deve haver trabalhadores administrativos, funcionários do Governo, até mesmo trabalhadores braçais. Onde é que eles vivem?

— Principalmente nos subúrbios.

Idaho apontou para o mapa.

— Essas fileiras superpostas de apartamentos?

— Observe as sacadas, Duncan.

— Todas à volta da praça. — Ele inclinou-se para olhar o mapa. — Esta praça tem dois quilômetros de largura!

— Note como as sacadas dos apartamentos são dispostas em degraus sucessivos até o anel das torres. E a elite fica alojada nas torres.

— E eles podem olhar para o Senhor lá embaixo na praça?

— Você não gosta disso.

— Não existe sequer uma barreira de energia para protegê-lo!

— E que alvo tentador eu não sou.

— Por que faz isso?

— Há um mito adorável no projeto de Onn. Eu estimulo e promovo esse mito. Diz que um dia houve um povo cujo governante devia caminhar entre seus membros uma vez por ano, na total escuridão, sem armadura ou armas. Esse governante mítico usava um traje luminescente enquanto fazia sua caminhada entre a multidão de súditos ocultos pela noite. E seus súditos... Eles se vestiam de preto para a ocasião, e nunca eram revistados para ver se portavam armas.

— E que isso tem a ver com o Senhor e com Onn?

— Bem, obviamente, se o governante sobrevivesse a tal caminhada, isso provava que ele era um bom governante.

— O Senhor não ordena buscas à procura de armas?

— Não abertamente.

— E acha que as pessoas o vêem representado nesse mito. Isto não era uma pergunta.

— Muitos o fazem.

Idaho olhou para a face de Leto, profunda em seu envoltório cinzento. Os olhos de azul sobre azul o fitaram sem expressão.

“Olhos de melange”, pensou Idaho. Mas Leto dissera que não mais consumia a especiaria. Seu corpo lhe fornecia toda a especiaria que seu vício exigisse.

— Você não aprecia minha sagrada obscenidade, minha tranqüilidade forçada — disse Leto.

— Não gosto de vê-lo brincando de deus!

— Mas um deus pode controlar um Império como um maestro conduz uma sinfonia, através de seus movimentos. Meu desempenho só é limitado pelo fato de eu estar restrito a Arrakis. Devo reger a sinfonia daqui.

Idaho sacudiu a cabeça e olhou uma vez mais para a planta da cidade.

— Que são esses apartamentos por trás das torres?

— Acomodações menos sofisticadas para visitantes.

— Eles não podem ver a praça.

— Ah, eles podem. Engenhos Ixianos projetam minha imagem nesses quartos.

— Enquanto o círculo interno o observa diretamente. Como é que entra na praça?

— Um palco de apresentação se ergue no centro para me exibir ao meu povo.

— E eles batem palmas? — Idaho olhou diretamente para os olhos de Leto.

— Eles têm permissão para aplaudir.

— Vocês Atreides sempre se viram como parte da história.

— Como você é astuto em entender o significado das palmas.

Idaho voltou sua atenção para a planta da cidade.

— E as escolas das Oradoras Peixes ficam aqui?

— Sob sua mão esquerda, sim. Essa é a academia à qual Siona foi enviada para receber instrução. Ela tinha 10 anos na ocasião.

— Siona... devo aprender mais a respeito dela — murmurou Idaho.

— E eu lhe asseguro que nada ficará no caminho desse desejo. — Enquanto marchava ao longo da Peregrinação Real, Idaho foi retirado do seu devaneio pela percepção de que o canto das Oradoras Peixes estava diminuindo. À sua frente, a Carreta Real iniciara sua descida para as câmaras embaixo da praça, rolando por uma longa rampa descendente. Idaho, ainda sob a luz do sol, olhou para cima e à volta, em direção às torres cintilantes — essa realidade para a qual os mapas não o tinham preparado.

Pessoas enchiam as sacadas do anfiteatro de prédios que circundava a praça, formando um anel. Pessoas silenciosas que observavam a procissão.

“Não há palmas entre os privilegiados”, pensou Idaho. O silêncio das pessoas nas sacadas encheu-o de um sinistro pressentimento.

Penetrou então na rampa-túnel cuja boca escondeu a praça. O canto das Oradoras Peixes desapareceu enquanto desciam para as profundezas. Mas o som dos pés marcando à sua volta era curiosamente ampliado.

A curiosidade substituiu o sentimento de presságio opressivo e Idaho olhou à sua volta. O tubo de piso plano era amplo e artificialmente iluminado. Era muito largo, e Idaho estimou que 20 pessoas poderiam marchar lado a lado para dentro das entranhas da praça. Não havia multidões saudando, apenas uma fileira de Oradoras Peixes, com amplo espaço entre elas, que não cantavam, contentando-se em observar a passagem do seu Deus.

A memória das plantas revelou a Idaho o esquema desse gigantesco complexo embaixo da praça — uma cidade particular dentro da Cidade, um lugar onde apenas o Imperador-Deus, seus cortesãos e as Oradoras Peixes poderiam entrar sem uma escolta. Todavia as plantas nada haviam sugerido a respeito das grossas pilastras, do senso de espaços imensos e bem-guardados, da estranha quietude quebrada pelo ruído de passos e o estalar da Carreta de Leto.

Idaho olhou de repente para as Oradoras Peixes enfileiradas ao longo do caminho e percebeu que suas bocas estavam se movendo em uníssono, formando uma palavra não-pronunciada por seus lábios. Ele reconheceu a palavra:

— Siaynoq.

— Outro Festival tão cedo? — indagou Lorde Leto.

— Faz 10 anos — disse o majordomo. — Você acha, por esse diálogo, que Lorde Leto demonstra ignorância da passagem do tempo?

 

— Da História Oral

 

Durante o período de audiências particulares que precedeu o Festival propriamente dito, muitos comentaram que o Imperador-Deus passou mais que o tempo programado com o novo Embaixador Ixiano, uma jovem mulher chamada Hwi Noree.

Ela foi trazida no meio da manhã por duas Oradoras Peixes, e as guardas ainda demonstravam a excitação do primeiro dia. A câmara particular de audiências, embaixo da praça, encontrava-se brilhantemente iluminada. A luz revelava um salão de 50 metros de comprimento por 35 de largura. Antigos tapetes Fremen decoravam as paredes, seus brilhantes padrões trabalhados em jóias e metais preciosos, todos combinados em tramas da inestimável fibra de especiaria. Predominavam os vermelhos sombrios que os Fremen tanto haviam apreciado. O piso da câmara era quase transparente, cenário para peixes exóticos moldados em cristal radiante. Debaixo do piso fluía uma corrente de água azul-clara, toda a sua unidade selada fora da câmara de audiência, mas excitantemente próxima de Leto, que repousava sobre uma elevação acolchoada na extremidade oposta à porta.

Sua primeira visão de Hwi Noree revelou uma extraordinária semelhança com seu tio Malky, mas os movimentos graves e a calma de suas passadas eram igualmente extraordinários em sua diferença. Mas ela tinha aquela pele escura, o rosto oval com as feições regulares. Plácidos olhos castanhos fitavam Leto e, onde o cabelo de Malky fora grisalho, o dela era de um marrom luminoso.

Hwi Noree irradiava uma paz interior que Leto sentia ampliar sua influência à volta dela enquanto se aproximava. Ela parou a 10 passos de distância, abaixo dele.

Havia nela um equilíbrio clássico, alguma coisa que não podia ser acidental.

Com crescente excitação, Leto percebeu uma sugestão das maquinações Ixianas nessa nova embaixadora. Eles estavam bem avançados em seu programa genético para cultivar tipos selecionados para funções específicas. E a função de Hwi Noree era perturbadoramente óbvia — encantar o Imperador-Deus e encontrar uma brecha em sua armadura.

A despeito disso, enquanto o encontro prosseguia, Leto se descobriu verdadeiramente apreciando a companhia dela. Hwi Noree estava de pé, no centro de uma poça de luz diurna, guiada para dentro da câmara por um sistema de prismas Ixianos. Eles enchiam a extremidade da câmara, onde Leto se posicionava, com uma luz dourada cujo centro era agora a Embaixadora, e que diminuía por trás do Imperador-Deus, onde se colocava uma curta fila de guardas Oradoras Peixes — 12 mulheres escolhidas por sua incapacidade de ouvir ou falar.

Hwi Noree usava um vestido simples de tecido roxo, enfeitado apenas por um colar de prata com um pingente estampado no símbolo de Ix. Sandálias suaves, da cor do vestido, surgiam debaixo da bainha.

— Você tem consciência — disse-lhe Leto — de que eu matei um de seus ancestrais?

Ela sorriu suavemente.

— Meu tio Malky incluiu essa informação em meu treinamento inicial, Senhor.

Enquanto ela falava, Leto percebeu que parte de sua educação havia sido conduzida pela Bene Gesserit. Ela possuía o modo típico delas de controlar suas respostas, de sentir os subtons ocultos em uma conversa. Podia notar, entretanto, que o revestimento Bene Gesserit fora uma coisa delicada, que nunca penetrara na suavidade básica de sua natureza.

— Disseram-lhe que eu abordaria esse assunto? — perguntou ele.

— Sim, Senhor. Sei que meu ancestral cometeu a temeridade de trazer uma arma até aqui e tentar feri-lo.

— Assim como fez seu antecessor imediato. Disseram-lhe isso também?

— Não soube senão quando aqui cheguei, Senhor. Eles foram tolos! Por que poupou meu antecessor?

— Não tendo poupado seu ancestral?

— Sim, Senhor.

— Kobat, seu predecessor, me era mais valioso como mensageiro.

— Então me disseram a verdade — comentou ela, e novamente sorriu. — Não se pode contar sempre em ouvir a verdade de nossos colegas e superiores.

A resposta foi tão completamente aberta que Leto não conseguiu suprimir um riso. Mas, mesmo enquanto ria, percebia que essa jovem mulher ainda possuía a Mente do Primeiro Despertar, a mente elementar que surgia com o primeiro choque de consciência do nascimento. Ela estava viva!

— Então, não me acusa de ter morto seu ancestral? — ele indagou.

— Ele tentou assassiná-lo! Disseram-me que o esmagou, Senhor, com o peso do seu próprio corpo.

— Verdade.

— E que em seguida voltou a arma dele contra a sua própria Sagrada Pessoa, para demonstrar que a arma era inútil... e se tratava da melhor pistola laser que nós Ixianos podemos produzir.

— A testemunha relatou corretamente — disse Leto.

E pensou: “O que demonstra até onde se pode confiar em testemunhas!” Do ponto de vista da precisão histórica, ele sabia ter voltado a arma laser apenas contra seu corpo segmentado, nunca contra seu rosto, mãos ou nadadeiras. O corpo pré-verme possuía uma extraordinária capacidade de absorver calor. A fábrica química dentro dele convertia calor em oxigênio.

— Nunca duvidei da história — disse ela.

— E por que Ix repetiu esse gesto tolo? — perguntou Leto.

— Eles não me disseram, Senhor. Talvez o próprio Kobat tenha assumido essa iniciativa sozinho.

— Penso que não. Ocorreu-me que sua gente desejava apenas a morte do assassino escolhido.

— A morte de Kobat?

— Não, a morte daquele que eles escolheram para empunhar a arma.

— E quem foi esse, Senhor? Não me disseram.

— Isso não tem importância. Recorda-se do que eu disse por ocasião da tolice cometida por seu ancestral?

— O Senhor ameaçou com uma punição terrível se tal violência penetrasse novamente em nossos pensamentos.

Ela abaixou o olhar, mas não antes que Leto vislumbrasse uma profunda determinação em seus olhos. Ela iria usar o melhor de suas habilidades para controlar a ira do Imperador.

— Eu prometi que nenhum de vocês escaparia à minha fúria — disse Leto.

Ela voltou a olhar para o rosto dele com um movimento súbito.

— Sim, Senhor. — E agora suas maneiras revelavam temor pessoal.

— Nenhum de vocês pode escapar de mim, nem mesmo aquela tola colônia que plantaram recentemente em... — E Leto recitou-lhe as coordenadas padrão de uma nova colônia que os Ixianos haviam instalado secretamente, bem além do que julgavam serem as fronteiras do Império.

Ela não demonstrou surpresa.

— Senhor, penso que foi porque os adverti de que tomaria conhecimento disso que fui escolhida como Embaixadora.

Leto estudou-a com mais cuidado. “Que é que temos aqui?”, perguntou-se. A observação dela fora sutil e penetrante. Os Ixianos, sabia ele, haviam julgado que a distância e os custos de transporte enormemente ampliados iriam isolar a nova colônia. Hwi Noree achara que não e o dissera. Mas ela julgava que seus mestres a tinham escolhido como Embaixadora por causa disso — como uma observação sobre a cautela Ixiana. Com ela eles acreditavam possuir uma amiga na corte, mas uma que também poderia ser vista como amiga de Leto. Ele assentiu enquanto o padrão tomava forma. Muito cedo em sua ascendência ele havia revelado aos Ixianos a localização exata do supostamente secreto Núcleo Ixiano, o coração da federação tecnológica que eles governavam. Fora um segredo que os Ixianos julgavam seguro devido aos subornos imensos que pagavam à Corporação Espacial. Leto descobrira através da dedução e da observação presciente — e também através da consulta a suas memórias, onde havia mais que uns poucos Ixianos.

Na ocasião, Leto advertira os Ixianos de que os puniria se agissem contra ele. Eles responderam com consternação e acusaram a Corporação de atraiçoá-los. Isso divertiu Leto, que reagiu com tamanha explosão de riso que os Ixianos ficaram intimidados. Ele então os informou, num tom frio e acusatório, de que não necessitava de espiões, traidores ou outros esquemas comuns de governo.

Eles não acreditavam que ele era um deus?

Por algum tempo depois disso, os Ixianos foram cooperativos ante seus pedidos. Leto não abusara do relacionamento. Suas exigências eram modestas — uma máquina para isso, um engenho para aquilo. Ele declarava suas necessidades e daí a pouco os Ixianos entregavam o brinquedo tecnológico desejado. Apenas uma vez eles haviam tentado entregar um instrumento violento disfarçado em uma de suas máquinas. Ele massacrara toda a delegação Ixiana antes que seus membros pudessem desembrulhar a coisa.

Hwi Noree esperava pacientemente enquanto Leto meditava. Nem o menor sinal de impaciência ela deixou escapar.

“Lindo”, pensou ele.

Em vista de sua longa associação com os Ixianos, essa nova atitude fazia os fluidos correrem mais rápido pelo corpo de Leto. Normalmente as paixões, crises e necessidades que o haviam impelido queimavam amortecidas agora. Ele freqüentemente dizia ter vivido além de sua época. Mas a presença de uma Hwi Noree revelava que ele ainda era necessário. Isso o satisfazia. Leto sentia ser até mesmo possível que os Ixianos tivessem obtido sucesso parcial com sua máquina para ampliar a presciência linear de um navegador da Corporação. Um pequeno blip no fluxo dos grandes acontecimentos poderia Ter-lhe escapado. Será que eles poderiam realmente criar tal máquina? Que maravilha não seria! Propositadamente, ele se recusava a usar o mínimo que fosse de seus poderes para a busca dessa possibilidade.

“Eu desejo ser surpreendido!”

Leto sorriu benignamente para Hwi.

— Como é que você foi preparada para me cortejar? — indagou. Ela nem piscou.

— Recebi um conjunto de respostas memorizadas para exigências particulares — ela disse. — Eu as aprendi porque me exigiam, mas não pretendo fazer uso delas.

“O que é exatamente que eles desejam?”, pensou Leto.

— Diga a seus mestres — ele disse — que você é precisamente o tipo certo de isca para se balançar na minha frente.

Ela curvou a cabeça.

— Se satisfaz ao meu Senhor.

— Sim, você o faz.

Ele se permitiu uma pequena sondagem temporal para examinar o futuro imediato de Hwi, traçando através dele as linhas do passado da moça. Hwi aparecia num futuro fluido, uma corrente cujos movimentos eram suscetíveis a muitas deflexões. Ela iria conhecer Siona, mas apenas de modo casual, a não ser que... As questões fluíram na mente de Leto. Um navegador da Corporação encontrava-se obviamente assessorando os Ixianos e ele sem dúvida já havia detectado a perturbação provocada por Siona no tecido do tempo. Será que o navegador realmente acreditava que poderia proporcionar segurança contra os poderes de detecção do Imperador-Deus?

A sondagem temporal levou vários minutos, mas Hwi não se inquietou. Leto olhou para ela cuidadosamente. Ela parecia atemporal — fora do tempo de um modo profundamente pacífico. Ele jamais havia encontrado um mortal comum capaz de esperar assim, diante dele, sem qualquer nervosismo.

— Onde foi que você nasceu, Hwi? — perguntou ele.

— No próprio Ix, meu Senhor.

— Quero dizer especificamente: o prédio, sua localização, seus pais, as pessoas em volta de vocês, seus amigos e sua família, sua educação, tudo isso.

— Nunca conheci meus pais, Senhor. Disseram-me que eles morreram quando eu ainda era uma criança muito pequena.

— E você acredita nisso?

— No início... é claro. Depois criei fantasias. Até imaginei que Malky fosse meu pai... mas... — Ela sacudiu a cabeça.

— Você não gostava do seu tio Malky?

— Não, não gostava. Mas o admirava.

— Minha reação, precisamente. Mas e quanto aos seus amigos e à sua educação?

— Meus professores eram especialistas, até mesmo algumas Bene Gesserits foram trazidas para me treinar em controle emocional e observação. Malky dizia que eu estava sendo preparada para grandes coisas.

— E seus amigos?

— Não creio que algum dia tenha tido amigos verdadeiros. Apenas pessoas que entravam em contato comigo para propósitos específicos de minha educação.

— E essas grandes coisas para as quais estava sendo treinada, alguma vez alguém falou a respeito?

— Malky disse que eu estava sendo preparada para encantá-lo, Senhor.

— Qual é sua idade, Hwi?

— Não sei minha idade exata. Suponho que esteja com uns 26. Nunca comemorei um aniversário. Só tomei conhecimento do que eram aniversários por acidente, uma de minhas professoras dando uma desculpa para sua ausência. Nunca mais tornei a ver aquela professora.

Leto sentiu-se fascinado por essa resposta. Suas observações transmitiam-lhe a certeza de que não tinham ocorrido intervenções dos Tleilaxu na carne Ixiana de Hwi.

Ela não tinha vindo de um tanque axlotl dos Tleilaxu. Por que o segredo, então?

— Seu tio Malky sabe a sua idade?

— Talvez. Mas não o vejo há vários anos.

— Ninguém jamais lhe disse quantos anos tinha?

— Não.

— Por que acha que é assim?

— Talvez eles achem que eu perguntaria se estivesse interessada.

— Então, por que não perguntou?

— A princípio pensei que houvesse algum registro em algum lugar. Procurei. Não havia nada. Raciocinei então que eles não iriam responder minha pergunta.

— Pelo que me revela a seu respeito, Hwi, essa resposta me satisfaz muito. Também sou ignorante quanto ao seu histórico, mas posso fazer uma suposição esclarecida quanto ao seu lugar de nascimento.

Os olhos dela focalizaram-se no rosto dele com uma intensidade carregada que não traduzia qualquer fingimento.

— Você nasceu dentro dessa máquina que seus senhores estão tentando aperfeiçoar para a Corporação — disse Leto. — Você foi concebida lá, do mesmo modo. Até pode ser que Malky fosse o seu pai. Isso não é importante. Você conhece essa máquina, Hwi?

— Não devia conhecê-la, Senhor, mas...

— Outra indiscrição da parte de uma de suas professoras?

— Da parte do meu próprio tio.

Uma gargalhada escapou de Leto.

— Que patife! — exclamou. — Que patife encantador!

— Senhor?

— Esta é sua vingança contra seus senhores. Ele não gostou de ter sido removido da minha corte. Na ocasião ele me disse que sua substituição era mais que uma tolice.

Hwi encolheu os ombros.

— Meu tio é um homem complexo.

— Ouça-me com cuidado, Hwi. Algumas de suas associações aqui em Arrakis podem ser perigosas para você. Eu a protegerei da maneira que puder. Está compreendendo?

— Creio que sim, Senhor. — Ela olhou para ele solenemente.

— Agora, uma mensagem para seus senhores. É evidente para mim que eles andaram ouvindo um Navegador da Corporação e que também se uniram aos Tleilaxu de um modo perigoso. Diga-lhes que seus propósitos são bem transparentes.

— Senhor, não tenho conhecimento do...

— Estou consciente do modo como eles a usaram, Hwi. Por essa razão, você pode dizer também a seus mestres que será a Embaixadora permanente em minha corte. Não receberei outro Ixiano. E se seus senhores ignorarem meu aviso, tentando alguma interferência posterior sobre meus desejos, eu deverei esmagá-los.

Lágrimas rolaram dos olhos de Hwi, escorrendo por sua face, mas Leto ficou grato por ela não se entregar a qualquer outro tipo de demonstração, tal como cair de joelhos.

— Eu já os avisei — ela disse. — Verdadeiramente o fiz. Eu lhes disse que deviam obedecê-lo.

E Leto podia ver que isso era verdade.

“Que criatura maravilhosa é esta Hwi Noree”, ele pensou. Ela parecia o símbolo da bondade. Obviamente gerada e condicionada para essa qualidade por seus mestres Ixianos, com o cálculo cuidadoso do efeito que isso teria sobre o Imperador-Deus.

Dentro de suas apinhadas memórias ancestrais, Leto podia vê-la como uma freira idealizada, amável e capaz do auto-sacrifício, toda sinceridade. Era sua natureza mais básica, o lugar onde ela vivia. Ela achava mais fácil ser verdadeira e aberta, capaz de obscurecer isso apenas para evitar o sofrimento de outros. Ele viu essa última tendência na mudança profunda que as Bene Gesserits tinham sido capazes de efetuar sobre ela. A verdadeira personalidade de Hwi permanecia aberta, sensível e naturalmente doce. Leto podia encontrar poucos traços de calculismo manipulativo nela. Ela parecia imediatamente impressionável e sensível, excelente ouvinte (outro atributo Bene Gesserit). Nada havia de abertamente sedutor nela, e no entanto esse exato detalhe a tornava profundamente atraente para Leto.

Como ele observara a um de seus primeiros Duncans, em ocasião semelhante:

— Você deve compreender este detalhe a meu respeito, uma coisa de que alguns obviamente suspeitam: por vezes é inevitável que eu tenha sensações ilusórias, o sentimento de que em algum lugar dentro desta forma mutante ainda existe um corpo humano adulto com todas as suas necessidades e funções.

— Todas, elas, Senhor? — o Duncan indagara.

— Todas! Sinto as partes desaparecidas do meu ser. Posso sentir minhas pernas, tão pouco notáveis e tão reais para os meus sentidos. Posso sentir o bombear de minhas glândulas humanas, algumas das quais nem mais existem. Posso até sentir os órgãos genitais que sei, intelectualmente, terem desaparecido séculos atrás.

— Mas certamente se sabe.

— O conhecimento não suprime tais sentimentos. As partes desaparecidas do meu ser ainda estão lá, nas minhas memórias pessoais e nas múltiplas identidades de todos os meus ancestrais.

Enquanto Leto olhava para Hwi, de pé diante dele, não lhe ajudava saber que não possuía mais um crânio, e que aquilo que um dia fora o seu cérebro se reduzira agora a uma maciça rede de gânglios espalhada por seu corpo pré-verme. Nada disso ajudava. Ainda podia sentir o cérebro doendo no lugar onde já repousara; ainda podia sentir o crânio pulsando.

Apenas por ficar diante dele, Hwi gritava a toda a sua humanidade perdida. Era demais para ele, que gemeu em desespero:

— Por que seus senhores me torturam?

— Senhor?

— Ao enviá-la!

— Eu seria incapaz de feri-lo, Senhor.

— Só por existir você me fere!

— Eu não sabia. — Lágrimas escorreram dos olhos dela. — Eles nunca me disseram o que estavam realmente fazendo.

Ele se acalmou e falou suavemente:

— Deixe-me agora, Hwi. Vá cuidar de seus deveres, mas volte rapidamente se eu a chamar!

Ela partiu com rapidez, mas Leto podia perceber que Hwi também estava torturada. Não havia engano na profunda tristeza que ela sentia pela humanidade que Leto havia sacrificado. Ela sabia o que Leto sabia: eles teriam sido amigos, amantes, companheiros naquele partilhar básico entre os sexos. Seus mestres tinham planejado para que soubesse.

“Os Ixianos são cruéis!”, pensou ele. “Eles sabiam qual seria a nossa dor.”

Hwi partira estimulada pelas memórias do seu tio Malky. Malky era cruel, mas Leto apreciara sua companhia. Malky possuíra todas aquelas virtudes esforçadas de sua gente e o suficiente de seus vícios para fazê-lo completamente humano. Malky tinha adorado a companhia das Oradoras Peixes de Leto. “Suas huris”, ele as tinha chamado, e Leto raramente podia pensar nas Oradoras Peixes, depois disso, sem relembrar o rótulo de Malky.

“Por que penso em Malky agora? Não é só por causa de Hwi. Devo indagar-lhe que incumbência seus mestres lhe atribuíram quando a enviaram para cá.”

Leto hesitou quando estava a ponto de chamá-la de volta.

“Ela me dirá se eu perguntar.”

Os embaixadores Ixianos sempre recebiam a incumbência de descobrir por que o Imperador-Deus tolerava Ix. Eles sabiam que não podiam ocultar-se dele. Essa estúpida tentativa de plantar uma colônia além de sua visão! Estariam testando seus limites? Os Ixianos suspeitavam de que Leto não necessitava realmente de suas indústrias.

“Eu nunca ocultei minha opinião a respeito deles. Disse isto a Malky:

“— Inovadores tecnológicos? Não! Vocês são criminosos científicos em meu Império!”

Malky rira.

Irritado, Leto acusara:

— Por que tentam ocultar laboratórios secretos e fábricas além das fronteiras do Império? Vocês não podem me escapar.

— Sim, Senhor — dissera ele rindo.

— Conheço a intenção de vocês: introduzir um pedacinho disso e um pouco daquilo em meus domínios imperiais. Desagregar! Causar dúvidas e questionamentos!

— O Senhor mesmo é um de nossos melhores fregueses!

— Não é isso que eu quero dizer, e você sabe disso, homem terrível!

— O Senhor gosta de mim porque sou um homem terrível. Eu lhe conto histórias a respeito do que fizemos lá fora.

— Eu sei disso sem precisar das histórias!

— Mas algumas das histórias são consideradas e outras, desacreditadas. Eu desfaço as suas dúvidas.

— Eu não tenho dúvidas!

O que só provocara mais riso em Malky.

“E eu devo continuar a tolerá-los”, pensou Leto. Os Ixianos operavam na terra incógnita da invenção criativa que havia sido proibida pelo Jihad Butleriano. Eles faziam seus engenhos à imagem da mente — a própria coisa que tinha provocado o massacre e a destruição do Jihad. Isso era o que eles faziam em Ix, e Leto só podia deixar que continuassem.

“Eu compro deles! Não poderia nem mesmo escrever meus diários sem seus ditadeiros para responder aos meus pensamentos não-verbalizados. Sem Ix eu não poderia esconder meus diários e seus impressores.

“Mas eles precisam ser lembrados do perigo daquilo que fazem!”

E a Corporação não podia ter o direito de esquecer. Isso era mais fácil. Mesmo enquanto os homens da Corporação cooperavam com Ix, eles nutriam forte desconfiança em relação aos Ixianos.

“Se essa nova máquina Ixiana funcionar, a Corporação terá perdido o monopólio das viagens espaciais!”

 

Do reservatório de memórias no qual posso beber à vontade emergem padrões. Eles são como outra linguagem que posso ver claramente Como os sinais sociais de alarme, que colocam as sociedades em posturas de ataque e defesa, eles são como palavras gritadas para mim. Como pessoa, você reage a ameaças à inocência e aos perigos que cercam as crianças indefesas. Sons, visões e cheiros inexplicados provocam instintos que você esqueceu possuir. Quando alarmado, você se agarra à sua linguagem nativa, porque todos os outros sons padronizados lhe soam estranhos. Você exige um vestuário aceitável por que um traje estranho lhe parece ameaçador. Esse é um sistema de retroalimentação em seu nível mais primitivo. são suas células recordando-se.

 

— Os diários roubados

 

As acólitas Oradoras Peixes que serviam como escudeiras nos portais da câmara de audiências de Leto trouxeram Duro Nunepi, o Embaixador Tleilaxu. Ainda era cedo para uma audiência e Nunepi estava sendo trazido fora da ordem anunciada, mas ele caminhava calmamente, com apenas um leve indício de aceitação resignada.

Leto esperava em silêncio, estirado ao longo de sua carreta sobre uma plataforma elevada na extremidade da câmara. Enquanto observava Nunepi se aproximando, suas memórias produziam uma comparação: um periscópio em forma de cobra deixando uma esteira quase invisível sobre a água. A memória trouxe um sorriso aos lábios de Leto.

Aquele era Nunepi — homem orgulhoso, de rosto duro, que subira através dos degraus dos postos de gerência dos Tleilaxu. Não sendo ele mesmo um Dançarino Facial, considerava os Dançarinos como seus servos pessoais; eles eram a água através da qual Nunepi se movia. Era preciso ser verdadeiramente perspicaz para enxergar sua esteira. Nunepi era um instrumento que deixara seus traços no ataque ao longo da Estrada Real.

Apesar de ser cedo, Nunepi usava todas as insígnias de embaixador — as calças pretas infladas e as sandálias negras com bordos dourados, a jaqueta vermelha, aberta no peito para revelar um peito peludo atrás do emblema Tleilaxu moldado em ouro e jóias.

Aos 10 passos de distância especificados, Nunepi parou e deixou seu olhar percorrer a fileira de Oradoras Peixes armadas, colocadas em arco em torno e atrás de Leto. Os olhos cinzentos de Nunepi pareciam brilhar com algum divertimento secreto quando ele voltou sua atenção para o Imperador e se curvou ligeiramente.

Duncan Idaho entrou então, com uma pistola laser presa na cintura, e tomou posição ao lado do rosto envolvido do Imperador-Deus.

A aparição de Idaho provocou um estudo cuidadoso da parte de Nunepi, uma avaliação que não produziu resultados agradáveis para o Embaixador.

— Acho os Dançarinos Faciais particularmente detestáveis — disse Leto.

— Eu não sou um Dançarino Facial, Senhor — disse Nunepi. Sua voz era baixa e educada, revelando apenas um leve indício de hesitação.

— Mas você os representa, e isso o transforma num motivo de aborrecimento — disse Leto.

Nunepi esperava uma declaração aberta de hostilidade, mas essa não era a linguagem da diplomacia, além de chocá-lo com uma ousada referência ao que se acreditava ser a força dos Tleilaxu.

— Senhor, ao preservar a carne do Duncan Idaho original e fornecer-lhe gholas restaurados à sua imagem e identidade, nós sempre presumimos...

— Duncan! — Leto olhou para Idaho. — Se eu lhe ordenasse, Duncan, você lideraria uma expedição para exterminar os Tleilaxu?

— Com prazer, meu Senhor.

— Mesmo que isso significasse a perda de suas células originais e de todos os tanques axlotl?

— Eu não acho a memória dos tanques agradável, meu Senhor, e não sou aquelas células.

— Senhor, como foi que o ofendemos? — indagou Nunepi.

Leto ficou carrancudo. Será que esse idiota incompetente esperava que o Imperador-Deus falasse abertamente de um recente ataque dos Dançarinos Faciais?

— Veio a meu conhecimento disse Leto — que você e sua gente têm espalhado mentiras a respeito daquilo que denominam “meus repugnantes hábitos sexuais”.

Nunepi ficou de boca aberta. A acusação era uma falsidade atrevida, completamente inesperada. Mas Nunepi percebeu que se negasse ninguém iria acreditar nele. O Imperador-Deus havia falado. Esse era um ataque de dimensões desconhecidas. Nunepi começou a falar enquanto olhava para Duncan Idaho.

— Senhor, se nós...

— Olhe para mim! — ordenou Leto.

Nunepi ergueu a cabeça num gesto súbito.

— Vou lhe dizer apenas esta vez — advertiu Leto. — Eu não tenho hábitos sexuais de qualquer espécie. Nenhum.

O suor escorreu no rosto de Nunepi. Ele olhou para Leto com a intensidade fixa de um animal numa armadilha. Quando afinal encontrou a voz, ela não era mais o instrumento baixo e controlado de um diplomata, mas uma coisa trêmula e cheia de terror.

— Senhor, eu... deve haver um engano...

— Fique quieto, seu Tleilaxu desprezível! — rugiu Leto. E então acrescentou: — Eu sou um vetor metamórfico do sagrado verme da areia, o Shai-Hulud! Eu sou o seu Deus!

— Perdoe-nos, Senhor — sussurrou Nunepi.

— Perdoá-los? — A voz de Leto estava cheia de um calmo raciocínio. — É claro que os perdôo. Essa é a função do seu Deus. Seu crime está perdoado. Mas a sua estupidez exige uma resposta.

— Senhor, se eu ao menos pudesse...

— Fique quieto! O fornecimento de especiaria para os Tleilaxu fica cortado por esta década. Vocês não receberão nada. Quanto a você, minhas Oradoras Peixes vão conduzi-lo agora até a praça.

Duas volumosas guardas avançaram segurando Nunepi nos braços. Elas olharam para Leto em busca de instruções.

— Na praça — disse Leto —, suas roupas devem ser arrancadas. E ele deverá ser açoitado publicamente: 50 chicotadas.

Nunepi debateu-se, seguro pelas guardas, a consternação em seu rosto transformando-se em raiva.

— Senhor, devo lembrá-lo de que sou Embaixador de...

— Você é um criminoso comum e deve ser tratado como tal. — Leto fez sinal com a cabeça para as guardas, que começaram a arrastar Nunepi.

— Eu queria que eles o tivessem matado! — gritou Nunepi furioso. — Eu queria...

— Quem? — bradou Leto. — Quem você desejaria que me tivesse morto? Não sabe que eu não posso ser morto?

Enquanto as guardas arrastavam Nunepi para fora da câmara, ele ainda gritava.

— Eu sou inocente! Eu sou inocente! — O protesto morreu na distância.

Idaho inclinou-se próximo de Leto.

— Sim, Duncan?

— Meu Senhor, todos os enviados temerão isso.

— Sim, estou ensinando uma lição sobre responsabilidades.

— Meu Senhor?

— Ser membro de uma conspiração, assim como de um exército, livra as pessoas do senso de responsabilidade pessoal.

— Mas isso vai causar problemas, meu Senhor. É melhor colocar guardas extras.

— Nem uma guarda a mais!

— Mas será um convite a...

— Será um convite à tolice militar.

— Isso é o que...

— Duncan, eu sou um professor. Lembre-se disso. Pela repetição, eu ensino uma lição.

— Que lição?

— A natureza basicamente suicida da tolice militar.

— Meu Senhor, eu não...

— Duncan, considere o inepto Nunepi. Ele constitui a essência de tal ensinamento.

— Perdoe minha estupidez, meu Senhor, mas não entendo esse detalhe a respeito dos militares.

— Eles acreditam que, ao arriscarem a vida, adquirem o direito a qualquer tipo de comportamento violento contra inimigos de sua própria escolha. Eles possuem a mentalidade do invasor. Nunepi não se acredita responsável por coisa alguma feita contra alienígenas.

Idaho olhou para o portal, onde as guardas tinham desaparecido com Nunepi.

— Ele tentou e perdeu, meu Senhor.

— Mas ele se desligou das restrições do passado e faz objeção quanto a pagar o preço.

— Para sua gente ele é um patriota.

— E como ele vê a si próprio, Duncan? Como um instrumento da história?

Idaho baixou a voz e se inclinou para mais perto de Leto.

— E em que o Senhor é diferente?

Leto riu.

— Ah, Duncan, como adoro a sua perspicácia. Você observou que eu sou o último estrangeiro. Não se pergunta se eu também não posso ser um perdedor?

— O pensamento já atravessou minha mente.

— Mesmo os perdedores podem abrigar-se no manto orgulhoso do passado, velho amigo.

— E o Senhor e Nunepi são semelhantes nesse ponto?

— As religiões de missionários militantes podem espalhar essa ilusão do passado nobre, mas poucos compreendem o perigo final para a humanidade: aquele falso senso de liberdade quanto à responsabilidade por suas próprias ações.

— Essas são palavras estranhas, meu Senhor. Como devo interpretá-las?

— Seu significado é aquele que lhe parecer. Será que é incapaz de ouvir?

— Eu tenho ouvidos, meu Senhor!

— Tem mesmo? Não consigo vê-los.

— Aqui, meu Senhor. Aqui e aqui! — Idaho apontou para as próprias orelhas enquanto falava.

— Mas elas não ouvem. Portanto, você não tem ouvidos, nem orelhas.

— Zomba de mim, meu senhor?

— Ouvir é ouvir. Aquilo que já existe não pode ser criado porque já existe. Ser é ser.

— Suas palavras são estranhas.

— São apenas palavras. Eu as pronuncio. Elas se vão. Ninguém as ouve, portanto elas não mais existem. Se elas não mais existem, talvez possam ser trazidas à existência de novo e, então, talvez alguém as ouça.

— Por que fica se divertindo comigo, meu Senhor?

— Eu não lhe dirijo nada senão palavras. E o faço sem medo de ofender porque aprendi que você não tem ouvidos.

— Eu não o compreendo, meu Senhor.

— Isso é o início da compreensão: a descoberta de alguma coisa que não entendemos.

Antes que Idaho pudesse responder, Leto fez um sinal com a mão para uma guarda nas proximidades. Ela passou a mão diante de um painel de controle cristalino numa parede atrás da plataforma do Imperador-Deus. Uma visão tridimensional de Nunepi sendo punido apareceu no centro da câmara.

Idaho desceu até o assoalho e olhou a cena de perto. Ela era mostrada de um ponto de vista um pouco elevado, olhando-se para a praça, e era completada com sons da multidão que se aglomerara aos primeiros sinais de excitação.

Nunepi estava amarrado a duas pernas de um tripé, os pés bem separados, os braços presos, unidos acima dele, quase no topo do tripé. Suas roupas tinham sido arrancadas do corpo e se encontravam rasgadas no chão em torno dele. Uma imensa Oradora Peixe mascarada erguia-se ao lado, tendo nas mãos um chicote improvisado, feito com uma corda de elacca que fora destrançada na extremidade para formar fios finos como arame. Idaho julgou reconhecer a mulher mascarada como sendo a Amiga de sua primeira entrevista.

Ante um sinal da oficial da Guarda, a Oradora Peixe mascarada avançou alguns passos e golpeou com o chicote de elacca num arco lancinante sobre as costas expostas de Nunepi.

Idaho estremeceu. A multidão deixou escapar um som de espanto.

Vergões apareceram onde o chicote o atingira, mas Nunepi permaneceu em silêncio.

Novamente o chicote desceu. O sangue apareceu nas linhas desse segundo golpe.

Uma vez mais o chicote cortou as costas de Nunepi. Mais sangue apareceu.

Leto sentiu uma longínqua tristeza. “Nayla é muito ardente” pensou. “Ela vai matá-lo e isso causará problemas.”

— Duncan! — chamou o Imperador.

Idaho voltou-se de sua observação fascinada no momento em que um grito se erguia da multidão: a resposta a um golpe particularmente sangrento.

— Mande alguém interromper o açoite depois de 20 chicotadas — instruiu Leto. — Faça com que anunciem que a magnanimidade do Imperador-Deus reduziu a punição.

Idaho ergueu a mão para uma das guardas, que assentiu e correu apressada para fora da câmara.

— Venha aqui, Duncan — chamou Leto.

Ainda sentido com o que julgava ser uma zombaria do Imperador a seu respeito, Idaho retornou para ficar ao lado de Leto.

— O que quer que eu faça — disse Leto —, apenas ensino uma lição.

Idaho usou sua força de vontade para não olhar novamente para a cena da punição de Nunepi. Seria esse o som de Nunepi gemendo? Os gritos da multidão feriam-lhe os ouvidos. Ele fitou os olhos de Leto.

— Existe uma pergunta em sua mente — disse Leto.

— Muitas perguntas, meu Senhor.

— Diga.

— Que lição está contida na punição daquele tolo? Que diremos quando formos indagados a respeito?

— Diremos que a ninguém é permitido blasfemar contra o Imperador-Deus.

— Uma lição sangrenta, meu Senhor.

— Não tão sangrenta como algumas outras que já ensinei.

Idaho sacudiu a cabeça de um lado para o outro em óbvio desalento.

— Nada de bom vai advir disso!

— Precisamente!

 

Safáris através de memórias ancestrais ensinam-me muitas coisas. Os padrões, ah, os padrões que surgem. Os liberais fanáticos são os que mais me perturbam. Eu desconfio dos extremos. Descubra um conservador e você encontrará uma pessoa que prefere o passado a qualquer futuro. Descubra um liberal e você encontrará um aristocrata de gabinete. É verdade! Os governos liberais sempre dão origem a aristocracias. As burocracias traem as verdadeiras intenções das pessoas que formam tais governos.

Desde o início, as pessoas pequenas que constituíam governos com promessas igualitárias em termos de cargas sociais viam-se subitamente nas mãos de aristocracias burocráticas. É claro, todas as burocracias seguem esse padrão, mas que hipocrisia encontrar isso até sob uma bandeira comunizada. Ah, enfim, se os padrões me ensinam alguma coisa, é que eles se repetem. Minha opressão de maneira alguma é pior que qualquer outra, e nela, pelo menos eu ensino uma nova lição.

 

— Os diários roubados

 

Já era noite escura no Dia das Audiências antes que Leto pudesse receber a delegação da Bene Gesserit. Moneo preparara as Reverendas Madres para o atraso, repetindo as palavras tranquilizadoras do Imperador-Deus.

Em seu relato, Moneo dissera:

— Elas esperam uma rica recompensa.

— Veremos — disse Leto. — Veremos. Agora diga-me o que o Duncan quis saber de você quando entrou.

— Ele queria saber se haviam mandado chicotear alguém antes.

— E que você respondeu?

— Que não havia registro de tal coisa, nem eu tinha jamais testemunhado tal punição.

— E qual foi a resposta dele?

— Que isso não era característico dos Atreides.

— Será que ele pensa que eu estou louco?

— Ele não disse isso.

— Houve mais alguma coisa nesse encontro. Que mais perturba o novo Duncan?”

— Ele encontrou a Embaixadora Ixiana, Senhor. Ele acha Hwi Noree atraente. Ele perguntou a respeito de...

— Isso deve ser evitado Moneo! Confio em você para que erga barreiras contra qualquer ligação entre o Duncan e Hwi.

— Meu Senhor o ordena.

— De fato! Vá agora e faça os preparativos para o nosso encontro com as mulheres da Bene Gesserit. Eu as receberei no Falso Sietch.

— Senhor, há algum significado para essa escolha do local de encontro?

— Apenas um capricho. Quando sair, diga ao Duncan que ele pode destacar uma tropa de guardas e patrulhar a Cidade em busca de qualquer problema.

Esperando pela delegação Bene Gesserit no Falso Sietch, Leto relembrava essa conversa, achando-a ligeiramente divertida. Podia imaginar as reações através da Cidade Festival ante a aproximação de um perturbado Duncan Idaho comandando uma tropa de Oradoras Peixes.

“Como o rápido silêncio dos sapos quando passa um predador.” Agora que se encontrava no Falso Sietch, Leto sentia-se satisfeito com a escolha. Um prédio de formato livre constituído por domos irregulares na extremidade de Onn, o Falso Sietch tinha quase um quilômetro de diâmetro. Fora o primeiro lar dos Fremen de Museu, e agora era sua escola, os corredores e câmaras patrulhados por alertas Oradoras Peixes.

O salão de recepções, onde Leto esperava, era um oval com 200 metros em sua dimensão mais longa, iluminado por globos luminosos gigantes que flutuavam num isolamento azul-everdeado, uns 30 metros acima do chão. A luz suavizava os tons marrons e as cores de bronze da rocha de imitação com que toda a estrutura fora construída. Leto esperava em uma projeção baixa, numa das extremidades da câmara, olhando para fora através de uma janela em forma de meio círculo, mais longa que o seu corpo. A abertura, quatro andares acima do solo, emoldurava uma vista que incluía um remanescente da antiga Muralha Escudo, preservado por suas cavernas na encosta do penhasco onde tropas Atreides haviam sido massacradas por atacantes Harkonnen. A luz gelada da Primeira Lua emprestava tons de prata aos contornos do penhasco. Fogueiras pontilhavam a encosta, as chamas revelando os locais onde os Fremen se atreviam a revelar sua presença. Fogos que piscavam para Leto quando pessoas passavam diante deles — Fremen de Museu exercendo seu direito de ocupar os recintos sagrados.

“Fremen de Museu”, pensou Leto.

Eles eram pensadores de raciocínio estreito fitando horizontes muito próximos.

“Mas por que devo fazer objeção? Eles são o que fiz deles.”

Então Leto ouviu a delegação Bene Gesserit. Elas cantavam ao se aproximarem, um som pesado, cheio de vogais.

Moneo precedeu-as com um grupo de guardas que tomou posição na mesma saliência onde Leto se colocara. Moneo ficou no piso da câmara, logo abaixo do rosto de Leto, olhou para o Imperador e então se voltou para o salão aberto.

As mulheres entraram em fila dupla, 10 delas lideradas por duas Reverendas Madres nos tradicionais mantos negros.

— Aquela à esquerda é Anteac, Luyseyal é a da direita — disse Moneo.

Os nomes trouxeram à memória de Leto palavras anteriores a respeito das Reverendas Madres, trazidas por um Moneo agitado e desconfiado. Moneo não gostava das bruxas.

— Ambas são Reveladoras da Verdade — dissera Moneo. — Anteac é muito mais velha que Luyseyal, mas esta última é considerada a melhor Reveladora da Verdade que as Bene Gesserit possuem. O senhor pode notar que Anteac tem na testa uma cicatriz, cuja origem fomos incapazes de determinar. Luyseyal é ruiva e parece extraordinariamente jovem para alguém da sua reputação.

Enquanto observava as Reverendas Madres se aproximando com seu séquito, Leto sentiu um rápido turbilhão em suas memórias. As mulheres usavam os capuzes colocados para diante, ocultando as faces. Auxiliares e acólitas caminhavam atrás a uma distância respeitosa... e tudo de modo a formar um conjunto. Alguns padrões nunca mudavam. Essas mulheres poderiam estar entrando num verdadeiro sietch, com Fremen de verdade esperando para honrá-las.

“Suas cabeças sabem aquilo que seus corpos negam”, pensou ele.

A visão penetrante de Leto detectou a cautela subserviente nos olhos delas, mas elas atravessaram a longa câmara como pessoas confiantes em seu poder religioso.

Satisfazia a Leto pensar que as Bene Gesserits possuíam apenas os poderes que ele permitia. As razões para sua indulgência lhe eram claras. De todas as pessoas em seu Império, as Reverendas Madres eram as que mais se assemelhavam a ele — limitadas às memórias de suas ancestrais do sexo feminino e às identidades femininas colaterais do seu ritual de herança. Ainda assim, cada uma delas existia, de certo modo, como uma multidão integrada.

As Reverendas Madres pararam à distância exigida de 10 passos da saliência onde Leto se encontrava. O séquito espalhou-se para ambos os lados.

Divertia a Leio saudar tais delegações usando a voz e a persona de sua avó Jessica. As Bene Gesserits esperavam isso e ele não as desapontou:

— Bem-vindas, Irmãs — disse ele.

A voz era um suave contralto, definitivamente os tons controlados e femininos de Jessica com apenas um ligeiro indício de zombaria — uma voz gravada e freqüentemente estudada na Irmandade.

Ao falar, Leto sentiu uma ameaça. As Reverendas Madres nunca ficavam satisfeitas quando ele as saudava desse modo, mas a reação agora trazia consigo tonalidades diferentes. Moneo também o sentiu e ergueu um dedo, fazendo sinal às guardas para ficarem mais perto de Leto.

Anteac falou primeiro:

— Senhor, nós observamos aquela exibição na praça esta manhã. Que ganha com tais demonstrações?

“Então é esse o tom que elas desejam”, pensou ele.

Falando com sua própria voz, Leto disse:

— Vocês se encontram temporariamente em minhas boas graças. Por que mudar isso?

— Senhor — disse Anteac —, nós ficamos chocadas por ter punido um Embaixador desse modo. Não podemos compreender o que ganha com isso.

— Eu não ganho nada. Sinto-me diminuído.

Luyseyal disse:

— Isso só pode reforçar as idéias de opressão.

— Eu me pergunto por que tão poucos já pensaram nas Bene Gesserits como opressoras — replicou Leto.

Anteac disse para a companheira:

— Se satisfizer ao Deus nos informar, ele o fará. Vamos passar os propósitos de nossa Embaixada.

Leto sorriu.

— Vocês duas podem chegar mais perto. Deixem suas auxiliares e se aproximem.

Moneo deslocou-se dois passos para a direita enquanto as Reverendas Madres caminhavam com seu característico modo deslizante até ficarem a três passos da saliência.

— É quase como se elas não tivessem pés! — queixara-se Moneo, certa vez.

Relembrando isso, Leto observou como Moneo vigiava com cuidado as duas mulheres. Elas eram ameaçadoras, mas Moneo não se atrevia a fazer objeção quanto a chegarem mais perto. O Imperador-Deus havia ordenado, assim seria.

Leto voltou sua atenção para as auxiliares, aguardando onde o séquito Bene Gesserit havia parado pela primeira vez. As acólitas usavam vestidos negros sem capuz. Ele notou pequenos indícios de rituais proibidos entre elas: um amuleto, uma pequena jóia, o canto colorido de um lenço cuidadosamente arranjado de modo a que mais cores pudessem ser exibidas. Leto sabia que as Reverendas Madres permitiam isso porque não mais podiam compartilhar a especiaria, como faziam no passado.

“Substitutos rituais.”

Tinha havido mudanças significativas nos últimos 10 anos. Uma nova parcimônia passara a fazer parte do pensamento da Irmandade.

“Elas estão se revelando”, Leto disse para si mesmo. “Os velhos, velhos mistérios ainda estão aqui.”

Antigos padrões que haviam permanecido dormentes nas memórias da Bene Gesserit por todos esses milênios.

“Agora eles emergem. Devo advertir minhas Oradoras Peixes.”

Ele voltou sua atenção para as Reverendas Madres.

— Vocês têm pedidos a fazer?

— Como é ser como o Senhor? — perguntou Luyseyal.

Leto piscou. Esse era um ataque interessante. Há mais de uma geração que elas não tentavam isso. Bem... por que não?

— Algumas vezes meu sonhos são bloqueados e redirecionados para estranhos lugares — ele respondeu. — Se minhas memórias cósmicas são como uma teia, como vocês duas indubitavelmente sabem, então imaginem as dimensões dessa minha teia e para onde tais memórias e sonhos poderão conduzir.

— O Senhor menciona nosso conhecimento indubitável — disse Anteac. — Por que não podemos unir nossas forças, afinal? Nós somos mais semelhantes do que diferentes.

— Eu preferiria unir-me àquelas Grandes Casas degeneradas, chorando suas riquezas perdidas de especiaria!

Anteac ficou quieta, mas Luyseyal apontou um dedo para Leto.

— Nós oferecemos uma comunidade!

— E eu insisto no conflito?

Anteac estremeceu.

— Costuma-se dizer que existe um princípio de conflito que se originou com a célula única e nunca se deteriorou.

— Certas coisas permanecem incompatíveis — concordou Leto.

— Então, como é que nossa Irmandade mantém sua comunidade? — indagou Luyseyal.

Leto endureceu a voz.

— Como bem sabe, o segredo da comunidade jaz na supressão dos incompatíveis.

— A cooperação pode guardar um valor enorme — disse Anteac.

— Para vocês, não para mim.

Anteac deu um suspiro.

— Então, Senhor, falaria a nós sobre as mudanças físicas em sua pessoa?

— Alguma pessoa além do Senhor devia ter o conhecimento e registrar tais coisas — comentou Luyseyal.

— Para o caso de alguma coisa terrível acontecer comigo? — perguntou Leto.

— Senhor! — protestou Anteac. — Nós na....

— Vocês me dissecam com palavras quando prefeririam usar instrumentos mais afiados — respondeu Leto. — A hipocrisia me ofende.

— Nós protestamos, Senhor — disse Anteac.

— De fato, vocês o fazem. Eu as ouço.

Luyseyal esgueirou-se mais alguns milímetros na direção da saliência, atraindo um olhar severo de Moneo, que olhou para Leto. A expressão de Moneo exigia ação, mas Leto o ignorou, curioso agora a respeito das intenções de Luyseyal. O sentimento de ameaça estava centrado nessa ruiva.

“Que há com ela?”, pensou Leto. “Poderia ser um Dançarino Facial, apesar de tudo?”

Não, nenhum dos sinais indicadores estavam presentes. Não, Luyseyal apresentava uma aparência estudadamente relaxada, nem a menor contorção em suas feições para testar os poderes de observação do Imperador-Deus.

— Não vai nos falar a respeito de suas mudanças físicas, Senhor? — perguntou novamente Anteac.

“Distração!”, pensou Leto.

— Meu cérebro está se tornando enorme — ele disse. — A maior parte do crânio humano já se dissolveu. Não existem mais limites precisos para o crescimento do meu córtex e do sistema nervoso que lhe é associado.

Moneo olhou espantado para Leto. Por que o Imperador-Deus estava cedendo informações tão vitais? Essas duas iriam comerciar com elas.

Mas ambas as mulheres pareciam fascinadas ante tal revelação, hesitantes em relação ao plano que tinham elaborado.

— E seu cérebro possui um centro? — indagou Luyseyal.

— Eu sou o centro — respondeu Leto.

— Uma localização? — perguntou Anteac.

Ela gesticulou vagamente para ele. Luyseyal deslizou alguns milímetros mais para perto da saliência.

— Que valor vocês colocam nas coisas que lhes revelo? indagou Leto.

As mulheres não demonstraram qualquer mudança de expressão, o que em si era um sinal. Um rápido sorriso percorreu os lábios de Leto.

— A mentalidade de mercador dominou vocês — ele disse. — Até mesmo a Bene Gesserit foi infectada pela mentalidade suk.

— Nós não merecemos tal acusação — disse Anteac.

— Mas vocês merecem. A mentalidade suk domina o meu Império. Os hábitos de mercador só foram ampliados e intensificados, pelas exigências dos nossos tempos. Todos nós nos tornamos comerciantes.

— Até mesmo o Senhor? — perguntou Luyseyal.

— Você tenta a minha ira — ele disse. — Você é especialista nisso, não é?

— Senhor? — A voz de Luyseyal era calma, mas completamente controlada.

— Não se deve confiar em especialistas — continuou Leto. — Os especialistas são mestres na exclusão, artífices no que é estreito.

— Nós esperamos ser as arquitetas de um futuro melhor — disse Anteac.

— Melhor que o quê? — perguntou Leto.

Luyseyal colocou-se mais uma fração de passo perto de Leto.

— Esperamos estabelecer nossos padrões através do seu próprio julgamento, Senhor — disse Anteac.

— Mas serão arquitetas. Irão construir paredes mais altas? Jamais se esqueçam, Irmãs, eu as conheço bem. Vocês são eficientes fornecedoras de antolhos.

— A vida continua, Senhor — disse Anteac.

— De fato! E assim também o universo.

Luyseyal colocou-se um pouquinho mais perto, ignorando o olhar fixo de Moneo.

Leto então sentiu o perfume e quase riu alto.

“Essência de especiaria!”

Elas tinham trazido um pouco de essência de especiaria. Conheciam as antigas histórias a respeito dos vermes da areia e a essência de especiaria, é claro. Luyseyal carregava o frasco. Ela pensava naquilo como um veneno específico para os vermes da areia. Isso era óbvio. Os registros da Bene Gesserit e a História Oral concordavam nesse ponto. A essência despedaçava o verme, causando sua dissolução e originando (ao fim) trutas da areia que produziam mais vermes da areia, etc., etc., etc.

— Há outra mudança em mim que vocês deviam conhecer — disse Leto. — Ainda não sou um verme da areia, não inteiramente. Pense em mim como uma coisa mais próxima de uma colônia de organismos com alterações sensoriais.

A mão esquerda de Luyseyal moveu-se quase imperceptivelmente em direção a uma dobra de seu vestido. Moneo percebeu e olhou para Leto em busca de instruções, mas Leto apenas retornou suas feições encapuzadas para os olhos de Luyseyal.

— A moda dos perfumes tem mudado — ele disse.

A mão de Luyseyal hesitou.

— Perfumes e essências — acrescentou ele. — Eu me lembro de que todos, até mesmo os cultos dos não-perfumes, são meus. As pessoas já usaram sprays debaixo do braço ou na virilha, de modo a mascarar seus odores naturais. Sabiam disso? É claro que vocês sabiam disso!

O olhar de Anteac moveu-se em direção a Luyseyal.

Nenhuma das mulheres se atrevia a falar.

— Instintivamente, as pessoas sabiam que seus feromônios as trairiam — acrescentou Leto.

As mulheres permaneciam imóveis. Elas o tinham ouvido. E, entre todas as pessoas do seu povo, as Reverendas Madres eram as mais bem equipadas para compreender a mensagem oculta em suas palavras.

— Vocês gostariam de minerar-me em busca das riquezas da minha memória — disse Leto com voz acusadora.

— Nós somos ciumentas, Senhor — confessou Luyseyal.

— Vocês entenderam mal a história da essência de especiaria. A truta da areia a sente apenas como água.

— Era apenas um teste, Senhor — revelou Anteac. — Apenas isso.

— Vocês iriam testar-me?

— Culpa de nossa curiosidade, Senhor — explicou Anteac.

— Eu também sou muito curioso. Coloque sua essência de especiaria na saliência ao lado de Moneo. Eu vou ficar com ela.

Lentamente, demonstrando com a firmeza de seus movimentos que não pretendia atacar, Luyseyal levou a mão debaixo do vestido e removeu uma pequena ampola que brilhava com uma radiação azul interior. Ela colocou a ampola suavemente na saliência. E em momento algum indicou que poderia tentar algum ato desesperado.

— Reveladora da Verdade, de fato — disse Leto.

Ela o favoreceu com uma fraca careta que poderia ter sido um sorriso e recuou para ficar ao lado de Anteac.

— Onde vocês conseguiram a essência de especiaria? — perguntou Leto.

— Nós a compramos dos contrabandistas — revelou Anteac.

— Não tem havido contrabandistas há mais de 2.500 anos.

— Não desperdice nada, não queira nada — citou Anteac.

— Percebo. E agora vocês devem reavaliar aquilo que julgam, como sua própria paciência, não é assim?

— Nós temos observado a evolução do seu corpo, Senhor — disse Anteac. — Nós pensamos... —

Ela se permitiu um pequeno encolher de ombros, o tipo de gesto permitido para o uso com relação a uma Irmã, nunca empregado de modo leviano.

Leto comprimiu os lábios em resposta.

— Não posso encolher os ombros — ele disse.

— Vai nos punir? — perguntou Luyseyal.

— Por me divertirem?

Luyseyal olhou para a ampola sobre a pedra.

— Eu jurei recompensá-las — disse Leto. — E assim o farei.

— Nós preferiríamos protegê-lo dentro de nossa comunidade, Senhor disse Anteac — Não busque uma recompensa tão grande.

Anteac assentiu com a cabeça.

— Comercia com os Ixianos, Senhor. Nós temos razões para crer que eles podem aventurar-se contra o Senhor.

— Eu não os temo mais do que temo a vocês.

— Certamente já ouviu falar no que os Ixianos estão fazendo — comentou Luyseyal.

— Moneo me traz uma cópia ocasional de uma mensagem trocada entre pessoas ou grupos de pessoas em meu Império. Eu ouço muitas histórias.

— Nós falamos a respeito de uma nova Abominação, Senhor! — disse Anteac.

— Vocês acreditam que os Ixianos possam produzir uma inteligência artificial? — ele indagou. — Consciente do modo como vocês são conscientes?

— Nós tememos isso, Senhor — disse Anteac.

— Quer me fazer acreditar que o Jihad Butleriano sobrevive entre as integrantes da Irmandade?

— Não confiamos no desconhecido que pode emergir de uma tecnologia-imaginativa — disse Anteac.

Luyseyal inclinou-se em direção a ele.

— Os Ixianos gabam-se de que sua máquina irá transcender ao Tempo, do mesmo modo como o Senhor.

— E a Corporação diz que há um caos de Tempo em torno dos Ixianos — zombou Leto. — Devemos temer toda a criação, então?

Anteac ficou rígida.

— Eu falo a verdade com vocês duas. Reconheço suas habilidades. Por que não reconhecem as minhas?

Luyseyal fez um aceno curto com a cabeça.

— Tleilaxu e Ix fazem alianças com a Corporação e buscam nossa plena cooperação.

— E vocês temem principalmente a Ix?

— Tememos qualquer coisa que não controlamos — disse Anteac.

— E vocês não me controlam.

— Sem o Senhor, as pessoas precisariam de nós! — afirmou Anteac.

— A verdade finalmente! — exclamou Leto. — Vocês vêm até mim como seu Oráculo e me pedem para acalmar seus temores.

A voz de Anteac era gelidamente controlada.

— Ix irá construir um cérebro mecânico?

— Um cérebro? Claro que não!

Luyseyal pareceu relaxar, mas Anteac permaneceu imóvel. Ela não estava satisfeita com o Oráculo.

“Por que será que a tolice se repete com uma precisão tão monótona?”, admirou-se Leto. Suas memórias ofereciam incontáveis cenas para se igualar a essa — cavernas, sacerdotisas e sacerdotes apanhados em sagrado êxtase, vozes portentosas transmitindo perigosas profecias em meio à fumaça de narcóticos sagrados.

Ele olhou para a ampola iridescente na plataforma ao lado de Moneo. Qual seria o valor atual daquela coisa? Enorme. Tratava-se da essência. Concentrado de riqueza concentrada.

— Vocês já pagaram o Oráculo — ele disse. — Diverte-me dar a vocês o valor completo.

Como as mulheres ficaram alertas!

— Ouçam-me! — disse ele. — O que vocês temem não é o que temem.

Leto apreciava o som dessa declaração. Suficientemente impressionante para qualquer Oráculo. Anteac e Luyseyal olharam para ele, suplicantes, respeitosas. Atrás delas, uma acólita pigarreou.

“Esta será mais tarde identificada e repreendida”, pensou Leto.

Anteac, a essa altura, já tivera tempo suficiente para ruminar as palavras de Leto. Ela disse:

— Uma verdade obscura não é uma verdade.

— Mas eu direcionei sua atenção corretamente — comentou Leto.

— Está nos dizendo para não temer uma máquina? — perguntou Luyseyal.

— Vocês têm o poder do raciocínio — disse ele. — Por que vir pedir a mim?

— Mas não possuímos os seus poderes — disse Anteac.

— Vocês se queixam então de que não sentem as ondas etéreas do Tempo. Vocês não sentem o meu continuum. E estão com medo de uma simples máquina!

— Então, não irá nos responder — queixou-se Anteac.

— Não cometam o erro de me julgar ignorante quanto aos modos da Sua Irmandade — ele disse. — Vocês estão vivas. Seus sentidos são delicadamente aprimorados. Eu não detenho isso, nem vocês.

— Mas os Ixianos brincam com a automação! — protestou Anteac.

— Peças distintas, bits finitos ligados uns aos outros — ele concordou. — Uma vez colocados em movimento, quem irá detê-los?

Luyseyal abandonou toda a pretensão ao autocontrole Bene Gesserit, uma perfeita demonstração de seu reconhecimento dos poderes de Leto. A voz dela quase guinchou:

— Sabe do que os Ixianos se gabam? De que a máquina deles irá prever as suas ações!

— E por que eu deveria temer isso? Quanto mais perto eles chegarem de mim, mais serão meus aliados. Eles não podem me conquistar, mas eu posso conquistá-los.

Anteac fez menção de dizer alguma coisa, mas se conteve quando Luyseyal lhe tocou o braço.

— Já se está aliado com Ix, Senhor? — perguntou Luyseyal. — Ouvimos dizer que teve uma longa conferência com o novo Embaixador deles, essa Hwi Noree.

— Não tenho aliados — respondeu ele. — Somente servos, estudantes e inimigos.

— E não teme essa máquina Ixiana? — insistiu Anteac.

— Será automação um sinônimo de inteligência consciente? — ele perguntou.

Os olhos de Anteac arregalaram-se e ficaram turvos enquanto ela recuava em suas próprias memórias. Leto sentiu-se fascinado ao pensar no que ela estaria encontrando dentro de sua própria multidão interior.

“Nós compartilhamos algumas dessas memórias”, pensou ele. Leto sentiu então a atração sedutora da comunhão com as Reverendas Madres. Seria tão familiar, tão protetora... e tão mortífera. Anteac estava tentando seduzi-lo uma vez mais.

Ela disse:

— A máquina não pode prever cada problema importante para os humanos. Essa é a diferença entre uma série de bits e um continuum não-interrompido. Nós temos este último. As máquinas ficam confinadas ao outro.

— Vocês ainda possuem o poder de raciocínio — disse Leto.

— Compartilhar! — exclamou Luyseyal.

Era uma ordem para Anteac, e isso revelou de modo bruscamente definido quem dominava nessa dupla — a jovem sobre a mais velha.

“Primoroso”, pensou Leto.

— A inteligência se adapta — disse Anteac. “Parcimoniosa com suas palavras, também”, pensou Leto, escondendo seu divertimento.

— A inteligência cria — disse Leto. — Isso significa que você deve lidar com respostas nunca antes imaginadas. Deve confrontar o novo.

— Tal como a possibilidade da máquina Ixiana — comentou Anteac. E não era uma pergunta.

— Não é interessante? — perguntou Leto. — Que ser uma soberba Reverenda Madre não seja o bastante?

Seu agudos sentidos detectaram uma contração de temor súbito em ambas as mulheres. Reveladoras da Verdade, de fato!

— Vocês têm razão em me temer — disse ele erguendo a voz. E perguntou: — Como sabem que estão realmente vivas?

Como ocorrera tantas vezes com Moneo, elas perceberam em sua voz as conseqüências mortíferas de uma falha em lhe responder corretamente. A Leto fascinou que ambas as mulheres olhassem Moneo antes de responder.

— Sou o espelho de mim mesma — disse Luyseyal, uma resposta pronta da Bene Gesserit que Leto achou ofensiva.

— Não preciso de ferramentas preestabelecidas para lidar com meus problemas humanos — disse Anteac. — Sua pergunta é frívola!

— Ah, ah! — riu Leto. — Você não gostaria de deixar a Bene Gesserit e se unir a mim?

Ele pôde percebê-la considerando e depois rejeitando o convite, mas ela não ocultou seu divertimento.

Leto olhou para a intrigada Luyseyal.

— Se a coisa cai fora de seus padrões, então você está lidando com inteligência, não com automação — ele disse. E pensou: “Esta Luyseyal nunca mais vai dominar a velha Anteac.”

Agora Luyseyal estava furiosa e não se importava em esconder isso. Ela disse:

— Há rumores de que os Ixianos lhe forneceram máquinas que simulam o pensamento humano. Se tem tão baixa opinião a respeito deles, por que...

— Não deviam deixar que ela saísse da Irmandade sem uma guardiã — disse Leto, dirigindo-se a Anteac. — Estará ela com medo de consultar suas próprias memórias?

Luyseyal empalideceu, mas continuou em silêncio.

Leto a observou friamente.

— O longo e inconsciente relacionamento de nossos ancestrais com as máquinas nos ensinou alguma coisa, não acha?

Luyseyal apenas olhou furiosa para ele, não estando pronta ainda para arriscar a vida num desafio aberto ao Imperador-Deus.

— Você diria que nós pelo menos conhecemos a atração das máquinas? — perguntou Leto.

Luyseyal assentiu.

— Uma máquina bem revisada pode ser mais confiável do que um servo humano — comentou Leto. — Podemos confiar em que as máquinas não se perderão em distrações emocionais.

Luyseyal encontrou sua voz:

— Isso significa que pretende remover a proibição Butleriana contra as máquinas abomináveis?

— Eu lhe asseguro — disse Leto, falando com uma voz gelada de desdém — que, se demonstrar mais uma vez tal estupidez, farei com que seja executada em público. Não sou o seu Oráculo!

Luyseyal abriu a boca e a fechou sem falar.

Anteac tocou o braço da companheira, enviando um rápido tremor através do corpo de Luyseyal. Anteac falou então suavemente, numa hábil demonstração da Voz:

— Nosso Imperador-Deus nunca desafiará abertamente as proscrições do Jihad Butleriano.

Leto sorriu para ela num suave cumprimento. Era um prazer tão grande ver uma profissional dando o melhor de si.

— Isso devia ser óbvio para qualquer inteligência consciente — ele disse. — Existem limites de minha própria escolha, lugares onde não vão interferir.

Ele podia ver ambas as mulheres absorvendo o golpe múltiplo de suas palavras, pesando os possíveis significados e intenções. Estaria o Imperador-Deus tentando distrai-las, focalizando suas atenções sobre os Ixianos enquanto manobrava em outra parte? Estaria dizendo à Bene Gesserit que chegara a ocasião de escolher partidos contra os Ixianos? Seria possível que suas palavras guardassem algo mais que motivações superficiais? Quaisquer que fossem suas razões, elas não podiam ser ignoradas. Leto era indubitavelmente a mais astuta criatura que o universo já produzira.

Ele olhou carrancudo para Luyseyal, sabendo que só poderia aumentar-lhe a confusão.

— Eu lhe aponto, Marcus Claire Luyseyal, uma lição das antigas sociedades supermecanizadas que você parece não ter aprendido. Os próprios engenhos condicionam os usuários a usarem uns aos outros, do mesmo modo como eles usam as máquinas.

Ele voltou sua atenção para Moneo.

— Moneo?

— Eu o vejo, Senhor.

Moneo curvou o pescoço sobre o séquito Bene Gesserit. Duncan Idaho acabara de entrar pelo portal, do outro lado do salão, e caminhava, através do piso aberto da câmara, em direção a Leto. Moneo não relaxou sua prontidão, sua desconfiança com relação às Bene Gesserit, mas reconhecera a natureza do discurso de Leto. “Ele está testando. Sempre testando.”

Anteac pigarreou.

— Senhor? E quanto à nossa recompensa?

— Vocês foram valentes — disse Leto. — Não há dúvida quanto às razões pelas quais foram escolhidas para esta embaixada. Muito bem, durante a próxima década eu manterei sua quota de especiaria no nível atual. E de resto ignorarei o que realmente pretendiam fazer com a essência de especiaria. Não estou sendo generoso?

— Muito generoso, Senhor — respondeu Anteac, e não havia o menor sinal de amargura na voz dela.

Duncan Idaho passou pelas mulheres e parou ao lado de Moneo para erguer os olhos na direção de Leto.

— Meu Senhor, existe um... — Ele se interrompeu, olhando para as Reverendas Madres.

— Fale abertamente! — ordenou Leto.

— Sim, meu Senhor. — Havia relutância, mas ainda assim ele obedeceu: — Fomos atacados na extremidade sudeste da Cidade, uma manobra diversionista, eu creio, pois agora há mais relatórios sobre violência na Cidade e na Floresta Proibida. Muitos grupos de ataques espalhados.

— Eles estão caçando os meus lobos — disse Leto. — Na floresta e na Cidade, estão caçando os meus lobos.

As sobrancelhas de Idaho contraíram-se numa expressão intrigada.

— Lobos na Cidade, meu Senhor?

— Predadores — disse Leto. — Lobos: para mim, não há diferença essencial.

Moneo abriu a boca, admirado.

Leto sorriu para ele, imaginando como era belo observar um momento de compreensão — quando um véu é puxado de diante dos olhos e a mente se abre.

— Eu trouxe uma grande força de guardas para proteger este lugar — disse Idaho. — Elas estão colocadas através da...

— Sei que você o faria — disse Leto. — Agora preste atenção enquanto lhe digo para onde enviar o resto de suas forças.

Enquanto as Reverendas Madres observavam admiradas, Leto expôs a Idaho os pontos exatos das emboscadas, detalhando o tamanho de cada força, e fornecendo até mesmo alguns pormenores específicos sobre o pessoal, o tempo exato, as armas necessárias, as precisas distribuições das tropas em cada local. A ampla memória de Idaho catalogou cada instrução. Ele estava muito absorto no recital para questionar, até que Leto ficou em silêncio. Uma aparência de intrigado temor surgiu em Idaho então.

Para Leto, era como se olhasse diretamente na consciência mais básica de Idaho para ler os pensamentos lá existentes. “Eu fui um soldado de confiança do Lorde Leto original”, Idaho estava pensando, “aquele Leto, o avô desse aí, salvou-me e me levou para sua casa como um filho. Mas mesmo que aquele Leto ainda tenha alguma existência nesse aí... esse não é ele”.

— Meu Senhor, por que precisa de mim? — perguntou Idaho.

— Por sua força e lealdade.

Idaho sacudiu a cabeça.

— Mas...

— Você obedece — disse Leto, e notou como essas palavras estavam sendo absorvidas pelas Reverendas Madres. A verdade, somente a verdade, pois elas são Reveladoras da Verdade.

— Porque tenho uma dívida para com os Atreides — disse Idaho.

— É aí que colocamos nossa confiança — disse Leto. — E Duncan?

— Meu Senhor? — A voz de Idaho revelava que ele encontrara um solo firme onde se apoiar.

— Deixe ao menos um sobrevivente em cada lugar — disse Leto. — De outro modo, nossos esforços serão desperdiçados.

Idaho assentiu uma vez, rapidamente, e partiu caminhando por onde tinha entrado. Leto pensou que seria necessário um olho extremamente sensível para perceber que esse Idaho que partia era diferente, muito diferente, daquele que tinha entrado.

Anteac disse:

— Esse é o resultado de chicotear aquele Embaixador.

— Exatamente — concordou Leto. — Conte isso cuidadosamente para a sua Superiora, a admirável Reverenda Madre Syaksa. Diga-lhe que prefiro a companhia dos predadores e não das presas. — Ele olhou para Moneo, que se colocava no foco das atenções. — Moneo, os lobos se foram da minha floresta. Eles devem ser substituídos por lobos humanos. Cuide disso.

 

                                                                                CONTINUA

 

                      

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