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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O ÚLTIMO DIA / Glenn Kleier
O ÚLTIMO DIA / Glenn Kleier

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O ÚLTIMO DIA

Primeira Parte

 

                   Estúdios RMN de Televisão, Times Square, Nova York

                   16:38, sexta-feira, 24 de dezembro de 1999

— Jesus Cristo! — exclamou o primeiro homem.

— Mais ou menos — respondeu o segundo.

Os dois bem-vestidos executivos de televisão encontravam-se a sós, sentados numa suíte de edição da Rede Mundial de Notícias, enquanto uma série de bizarras cenas mudas se desenrolava no telão que ocupava toda a parede diante deles.

Bem no alto da tela aparecia o rosto sorridente de um homem de meia­ idade, olhos fervorosos e barba desgrenhada. Ele usava uma túnica esfarrapada. Seus cabelos compridos e pegajosos estavam empapados pelo sangue que pingava de uma coroa de arame farpado enferrujado assentada em sua cabeça. Quando a câmera se afastou, pôde-se ver uma cruz de madeira por trás de seus ombros. Ao fundo, uma placa de rua indicava "Via Crucis". Uma legenda na tela o identificava como "Douglas Bandy, ex-corretor da bolsa de São José, Califórnia".

O primeiro executivo assentiu em tom de admiração.

A seguir, surgiu no telão uma jovem família composta por cinco pessoas, também andrajosamente vestidas, sentadas sobre os desgastados paralelepípedos do que parecia ser um bazar antigo. Os membros da família estendiam as palmas das mãos para todo transeunte que passava e, finalmente, para a câmera de vídeo que os filmava. A legenda dizia: "A família Étien Dubois, oriunda de Orleans, França.”

Houve então um corte e o vídeo passou a mostrar a ampla paisagem de uma rodovia abarrotada de carros, ônibus, bicicletas e veículos de tração animal. Bem longe, ao fundo, via-se o contorno deformado de Jerusalém.

— É aqui que entramos com o material histórico — explicou o segundo executivo, com um refinado sotaque inglês.

Em consonância, surgiu na tela a cativante seqüência de imagens exibindo uma bela tapeçaria de parede bordada com esmero. Quando a câmera se aproximou, baixando lentamente ao longo de todo o mural, desdobrou-se uma história épica.

"As Catastróficas Peregrinações do Milênio de 999 d.C.", dizia o título na legenda. A seqüência abriu com abastadas famílias da Europa medieval doando suas posses aos pobres e partindo para a Terra Santa. Na viagem, essas pessoas se viam logo submetidas a terríveis provações. A tapeçaria mostrava cenas gráficas de saqueadores atacando, pilhando, estuprando, escravizando e assassinando os peregrinos. Os afortunados sobreviventes da jornada eram mostrados, em seguida, chegando sem nada à proibida Jerusalém dos muçulmanos, onde ficavam à míngua, em desolada frustração.

— Vamos colocar a narração na semana que vem — comentou o inglês — e, com isso, concluímos.

— Que obra notável! — reconheceu o colega, com uma expressão de admiração se espalhando em seu rosto. — Parece que o seu especial da virada do milênio vai ser um grande sucesso. O tempo de transmissão está vendendo muito bem pelo mundo inteiro.

— Havia alguma dúvida? — disse o inglês, fingindo surpresa. Seu associado soltou uma gargalhada curta e resfolegante.

— Vou lhe dizer uma coisa, Nigel. Quando você apresentou essa proposta pela primeira vez, muitos de nós, aqui nos Estados Unidos, achamos que você estava maluco. Quero dizer, formar equipes especiais de notícias, enviar esse pessoal para todos os cantos do mundo, a custos tão elevados, atrás de um bando de religiosos fanáticos! Eu cheguei a achar, seriamente, que a corporação levaria um banho nessa. Porém, mais uma vez você mostrou o seu jeito para criar notícia. Transformou essa loucura milenarista numa grande história internacional. E mais, se as coisas correrem tão bem quanto imaginamos, talvez possamos repeti-la no próximo ano, para a verdadeira virada do milênio.

— Para ser honesto — confessou Nigel — está aquém das minhas expectativas.

— O que você quer dizer com isso? — protestou o colega executivo. — O quadro não poderia ser mais perfeito. Sua cobertura do movimento milenarista durante os últimos seis meses... a insanidade crescente na Terra Santa, em Roma e em Salt Lake City! Toda essa especulação maluca acerca do que vai acontecer quando o odômetro mundial virar para o ano 2001. O telespectador não vai nunca se cansar de assistir. Você ficou anos-luz à frente das outras redes, Nigel. Você conseguiu prever uma coisa dessas!

O inglês ainda não estava convencido e balançava a cabeça lentamente.

— A história carece de substância. Esses fanáticos podem entreter, mas não têm credibilidade verdadeira para os nossos telespectadores. São um espetáculo secundário. Uma curiosidade. Eu tinha esperança de que acabássemos encontrando algo mais contundente.

— Como o quê? — quis saber o associado.

— Se pelo menos tivéssemos conseguido trazer uma das religiões de peso! Como opção, uma declaração sinistra do Papa teria sido excelente. Ou talvez a descoberta de mais um auspicioso pergaminho do mar Morto. O que a nossa reportagem precisa é do ímpeto de um drama. Algo que dê à noite um pouco mais de... impacto.

 

                 Observatório do Monte Ramon, deserto do Neguev, sul de Israel

                 23:57, sexta-feira, 24 de dezembro de 1999

Tarde da noite, quatro astrônomos japoneses estavam debruçados sobre uma série de monitores infravermelhos, espectroscópios e instrumentos ópticos, fitando o céu do terraço aberto do único observatório celeste de Israel.

Agasalhados contra o frio, os homens eram hóspedes especiais do Ministério da Ciência do país, em licença da Universidade de Kioto, no Japão. A latitude e a atmosfera seca do deserto no sul de Israel eram ideais para o estudo do maior fenômeno meteórico dos últimos dois mil anos, quando a Terra passava esta noite pelo cinturão de asteróides. Os astrônomos já haviam registrado centenas de encontros.

— Com toda essa atividade, dá até para pensar que alguns sobreviveriam à descida — falou em japonês um dos colegas, sem direcionar o comentário para ninguém em particular.

— Sem dúvida! — retrucou outro. — Seria interessante recolher uma amostra nova.

De fato, precisamente no sopé do monte Ramon havia marcas de várias crateras abertas por antigos meteoritos, únicos sítios desse tipo no Oriente Médio, espalhando-se por muitos quilômetros ao longo da grande fenda do vale do Neguev. Mas os cientistas não estavam interessados em coisas terrenas. Seus olhos se mantinham fixos no céu.

Inesperadamente, o mais idoso do grupo percebeu em seu instrumento um meteoro muito mais brilhante e maior do que o normal. Com os lábios trêmulos, ele se levantou de sua cadeira devagar, para confirmar o que via a olho nu. Uma vez assegurado, exclamou com bastante exaltação:

— Senhores, acho que teremos um impacto!

Ele e seus associados ficaram de queixo caído, fascinados, enquanto a luz aumentava rapidamente em brilho e intensidade. Vinha diretamente ao seu encontro, descrevendo uma trajetória plana com inclinação de aproximadamente trinta graus acima do horizonte, a leste. Os mais jovens ficaram encantados apenas o tempo suficiente para que o perigo fosse registrado, depois abandonaram seus postos abruptamente, para buscar o questionável abrigo embaixo de uma mesa ali perto. O astrônomo mais velho, entretanto, manteve sua posição, absorvendo avidamente cada detalhe, enquanto o objeto passava por cima do observatório.

Ao longo de sua trajetória de vôo através do Neguev, a massa de fogo iluminou uma larga faixa de montanhas altaneiras e desérticos vales. Sua passagem brilhante afugentou o gado dos nômades desnorteados, assustou um idoso casal de beduínos que viajava em uma carroça puxada a burro e despertou diversos acampamentos de peregrinos milenaristas que faziam uma pausa em seu caminho para a Cidade Santa de Jerusalém, onde celebrariam a passagem para o ano 2000.

O meteoro tampouco deixou de ser detectado pela Defesa Aérea de Israel. Simultaneamente à primeira imagem captada pelos astrônomos, o radar de um campo aéreo militar do país, localizado próximo à face sul da montanha, captou outra imagem.

— Caramba! — gritou um sentinela atônito, abruptamente retirado de sua complacência por um eminente clarão que surgiu em sua tela. Num instante as demais sentinelas estavam ao seu lado, fitando atentamente o objeto, cada qual achando difícil aceitar que a pacífica Jordânia fosse o aparente ponto de origem.

— Código D, hostil — deu o alarme um especialista em telemetria. Mas sem ter visto nada parecido antes, não foi capaz de fazer uma identificação apropriada. — Pequeno demais para ser um avião — considerou — rápido demais para ser um míssil de cruzeiro, baixo demais para ser um Scud.

O oficial de plantão, tentando freneticamente determinar a fonte invasora e descobrir sua localização, fez soar um alerta geral, escolhendo aeronaves e preparando baterias de mísseis Super-Patriot. Mas não havia tempo para interceptar o objeto, que já estava cruzando a fronteira e perdia altitude rapidamente.

 

                     Instituto de Pesquisas do Neguev, deserto do Neguev, sul de Israel

                     23:59, sexta-feira, 24 de dezembro de 1999

Firme e indiferentemente erguida sobre a rocha descorada pelo tempo e as areias vermelhas de um ermo desfiladeiro do deserto, uma imponente estrutura de vidro e aço se localizava diretamente no curso do meteoro.

Como se para direcionar o visitante que se aproximava, havia duas alas do complexo que convergiam, formando um grande V. Na interseção, situava-se uma enorme bolha geodésica, cuja superfície de vidro espelhado cor de bronze refletiu uma multiplicidade de bolas de fogo se aproximando.

"Instituto Israelense de Pesquisas no Neguev", denominavam-se as instalações, conforme as placas com os visíveis dizeres em inglês e hebraico. Durante anos a fio, os israelenses haviam afirmado tratar-se de um laboratório de biotecnologia, mas sabia-se que o centro era afiliado à Força de Defesa de Israel e a inteligência norte-americana e dos países vizinhos o tinham como um importante pólo de pesquisa e desenvolvimento militar. Totalmente cercado e protegido por patrulhas motorizadas, o instituto sobejava atividade.

Dentro do domo, havia um laboratório em múltiplas camadas de uma complexidade estonteante. A enorme infra-estrutura era composta de sete níveis separados, cada qual suspenso por um pilar central de apoio. Bastante afastado do domo, cada piso oferecia uma vista aberta, cinematográfica, do céu noturno.

O instituto dispunha de uma grande equipe de dedicados técnicos, que cuidavam de uma vasta rede de sistemas cibernéticos em camadas.

Extensos conjuntos de aparelhos eletrônicos do mais elevado padrão alimentavam bases de computadores em cada âmbito imediatamente abaixo, que interagiam com os níveis inferiores das intermináveis tubulações ocultas. Estas, por sua vez, filtravam fluidos claros para um substrato infindável de processadores, filtros, sistemas auxiliares e bioredes convolutas.

Finalmente, percorrendo seu caminho até o nível do solo, a refinada alquimia se encontrava com o único recebedor de toda essa ciência maciça: uma figura humana desnuda e praticamente imóvel, submersa em fluido âmbar-escuro, numa câmara retangular transparente e lacrada. A forma estática jazia de lado, enrodilhada em posição fetal, pernas recolhidas, braços aconchegados ao peito.

Mas a figura era muito maior do que um feto. O porte era delicado, adulto e feminino.

O corpo flutuava pálido e livre à luz branda dos refletores, sob a assistência de uma vastidão de monitores e cientistas. Toda a cabeça se encontrava envolta por um capacete de eletrodos e fios espiralados, assemelhando-se à de uma Medusa. Tais conexões passavam por um orifício ao fundo do receptáculo e prosseguiam em ramificações espalhadas, que se uniam com as várias tecnologias acima. Um tubo maior, da espessura de uma mangueira de jardim, saía do ventre em volteios, atravessava o topo da câmara e desaparecia num emaranhado de conexões mais ao alto.

Mais além da figura, deixadas de lado qual um par de protótipos abandonados, havia duas formas femininas idênticas, em câmaras de suporte semelhantes. Suas cabeças também estavam envoltas em capacetes, mas apenas parcialmente conectadas ao labirinto superior. Cada qual, entretanto, contava com mangueiras umbilicais, que se nutriam da grande rede placental.

Do outro lado do espécime em evidência, os cientistas concentravam suas atenções nos monitores, que exibiam imagens holográficas tridimensionais de um cérebro humano. Dentro deste viam-se treze aparelhos, distintamente não-orgânicos. Finas pastilhas quadradas com menos de um milímetro de tamanho, esses objetos estavam distribuídos pelas profundezas dos hemisférios cerebrais.

De cada aparelho partiam filigranas de fibras ultrafinas, que se entrelaçavam em minúsculas linhas. Estas se espalhavam através do tecido cerebral, varavam a ossatura superior e então migravam, sob o couro cabeludo, até um ponto de reunião numa pastilha maior, conectada à face posterior do crânio. Deste local em diante, um único fio espiralado emergia do couro cabeludo e atravessava o capacete, para se juntar aos mecanismos e monitores mais adiante. Ao lado dos monitores encontravam-se outros mostradores, inclusive telas EEG, que registravam marcações extremamente ativas.

— Meu Deus! Vejam só esta aqui! — Um administrador satisfeito chamou seus encarregados e eles vieram se maravilhar com o progresso de seu trabalho. — É um momento histórico, senhoras e senhores — alardeou ele, aproveitando-se da euforia para dar um apertão em uma atraente assistente que estava ao seu lado. — Estamos prestes a roubar uma página do Livro do Gênese!

Dentro da câmara central, a forma adormecida contorcia-se ocasionalmente, reminiscências do reflexo a estímulos de um bebê. Fora dela, um cavalheiro frágil, idoso, de cabelos brancos, trajando um jaleco de laboratório e gravata, debruçou-se para observar mais de perto. O vidro do recipiente refletiu seu cenho conturbado.

— O que foi que eu fiz!? — repreendeu-se ele, baixinho. — Deus que me perdoe! O que foi que eu fiz?!

Pouco antes do impacto da bola de fogo, houve um momento sincronizado, quando todos ali perceberam a auspiciosa presença, suspenderam as operações e voltaram-se, como que arrebatados em uníssono, para contemplar o espetáculo a que estavam fadados.

Desintegrando-se continuamente em sua descida de fogo, desfazendo-­se em nacos quentes que caíam sobre o chão do deserto, a massa central do objeto ainda tinha tamanho considerável quando penetrou pelo domo esférico do complexo. Rasgando diversas camadas de aparelhos cibernéticos que zumbiam, varou as profundezas das tubulações pulsantes e dos gânglios eletrônicos.

Houve uma pausa, como se toda a estrutura estivesse tomando fôlego e, em seguida, o topo do domo explodiu em uma branca concussão de naplan. As quatro camadas superiores e todas as pessoas ali presentes evaporaram-se instantaneamente. Enquanto as sirenes da defesa soavam tardiamente à distância, uma série de explosões menores, nos níveis inferiores, começava a gerar uma espessa fumaça negra.

Miraculosamente a subestrutura contendo as formas humanas permaneceu, por ora, intacta. O frágil homem de cabelos brancos, lutando desesperadamente em meio à fumaça ácida para livrar seus espécimes aprisionados, esbarrou de encontro à câmara e tombou.

Abandonadas pelos demais assistentes, seus sistemas de suporte desastrosamente interrompidos, as figuras dentro dos recipientes estavam se movimentando, cada vez mais; o espécime central, em particular, passou a se mexer muito, frenética e desajeitadamente, às voltas com o capacete, chutando as paredes laterais de sua câmara. Reagindo a um impulso eletrônico mais intenso vindo dos circuitos de cima, a figura vivenciou uma grande convulsão maligna, arqueou as costas e rompeu a parede da câmara com uma forte batida das pernas.

Do lado de fora do inferno, havia o caos dos mortos e moribundos. Frustradas por permanecerem detidas do lado externo ao perímetro da cerca, as patrulhas de segurança ficaram incapacitadas de qualquer ação, que não a de observar o desenrolar do terrível drama até o fim. Mais alto que o barulho das sirenes, os primeiros jatos de interceptação se fizeram ouvir cruzando os céus, embora tarde demais para qualquer coisa, além de descrever fúteis e amplos círculos acima do complexo atingido.

Empurrada pela abertura de uma parede rompida, uma forma feminina desnuda e ensangüentada debateu-se ao cair no chão. Os braços finos e brancos que a haviam jogado para fora hesitaram, mas logo se recolheram de volta para dentro.

Deixada estatelada sobre a poeira, a fugitiva abandonada, compelida pela fumaça e o calor, pôs-se a fincar as mãos no chão, desesperadamente, como garras, a fim de impulsionar-se para frente. Mal conseguira se arrastar para fora do alcance letal quando o restante da infra-estrutura cedeu e uma explosão final transformou em átomos grande parte do complexo, arremessando violentamente a vítima aterrorizada mais para longe. A forma sofrida logo se recuperou e retomou imediatamente a fuga desenfreada. Aparentemente inconsciente do rumo a tomar, esforçou-se por seguir adiante e, inadvertidamente, atravessou o portão principal, adentrando a escuridão da noite.

 

                           Complexo residencial Bem-Gurion, Jerusalém, Israel

                           11:05, sábado, 25 de dezembro de 1999

O telefone arrancou Jonathan Feldman do último sono tranqüilo que teria pela frente.

Tateando com uma das mãos no escuro em busca do aparelho e procurando seus óculos de armação de metal com a outra, ele derrubou estabanadamente a tigela de cereais que deixara pela metade na véspera.

Ele deu um tapa no interruptor para acender a luz e semicerrou os olhos míopes para enxergar melhor, vendo então, que o cereal e o leite haviam entornado bem dentro dos seus tênis Nike. Praguejando em profusão, Feldman escorou o telefone entre o ombro e o ouvido e colocou os óculos atabalhoadamente.

— Sim? — grasnou ele, vertendo os cereais do tênis de volta para a tigela.

— Jon, venha para cá. A Jordânia acaba de atingir uma instalação militar no Neguev!

Era a voz familiar, embora anormalmente excitada, de Breck Hunter, cinegrafista e amigo íntimo com quem Feldman trabalhava como correspondente de notícias no Oriente Médio para a RMN-TV.

— O quê?

— Faz mais ou menos uma hora. Daqui dá para ver o brilho no céu.

— A Jordânia?

— É o que está correndo pela faixa de rádio dos milicos — explicou Hunter. — Vamos para lá.

Ainda relativamente jovem, entrando na casa dos trinta, Feldman tinha um estilo claro de reportagem e uma presença desinibida diante das câmeras, que já haviam chamado a atenção de seus superiores hierárquicos na Rede Mundial de Notícias. Tais habilidades o haviam ajudado a conseguir esta prestigiosa incumbência, seu primeiro trabalho fora dos Estados Unidos.

Aos bocejos, Feldman empurrou os óculos para a testa, esfregou os olhos acinzentados e desfocados e deu tratos à bola.

— Tudo bem. Veja se nos consegue um passe. Eu pego você aí em cinco minutos.

Verificando as horas, ele ficou duplamente feliz por ter saído cedo da entediante festa de Natal do pessoal do escritório da RMN. Mas suas esperanças quanto ao evento mais promissor de hoje à noite, na embaixada dos Estados Unidos, ele se deu conta, pareciam cair por terra.

Seus instintos jornalísticos começaram a assomar. Por que a Jordânia? Perguntou para si mesmo. Por que um Estado árabe moderado e de poucos armamentos se arriscaria numa guerra contra uma potência militar como Israel? Ele revirou os papéis espalhados sobre sua escrivaninha em busca das chaves. E um ataque-surpresa não seria mais eficaz se fosse conduzido contra Rosh Hashanah? Isto aqui é um Estado judeu, pelo amor de Deus! Não é como Washington no Vale Forge.

Ele enfiou os pés nos tênis, fazendo uma breve pausa para praguejar contra a umidade, pegou a surrada jaqueta de couro que estava jogada por cima de uma cadeira e zuniu porta afora. Mais uma vez, sentiu-se grato por ter dormido de roupa.

Embora só estivesse ali como enviado havia poucos meses, o repórter já aprendera a se locomover com bastante presteza em Jerusalém. Dando a partida no Land Rover alugado, Feldman deixou o complexo residencial que ficava no centro da cidade e se dirigiu para o sul. Sua rápida passagem pelas ruas fazia subir em turbilhões a poeira, resultante de uma forte seca que se iniciara antes de sua chegada.

Ele achava fascinante a maneira como a noite transformava essa cidade estranha. As luzes brilhantes não faziam jus à antiguidade de Jerusalém e obscureciam a sua realidade. Aos olhos de um visitante, a iluminação artificial lançava sombras que davam à Cidade Santa uma falsa aparência de metrópole estável e próspera. Mas, conforme Feldman sabia, a verdade era, infelizmente, o inverso. Sob o véu de Jerusalém, jaziam as antigas origens de três soberbas religiões, com um histórico de violenta oposição entre si. Os judeus, os cristãos e os muçulmanos viviam de má vontade lado a lado em setores segregados da cidade, em meio à tensão e à desconfiança constantes. Presos a uma disputa eterna que datava de antes das Cruzadas, eles competiam num tríplice cabo-de-guerra ideológico pelo controle dos santuários sagrados da cidade.

Apesar de suas intensas diferenças e animosidades políticas, as três religiões eram surpreendentemente semelhantes. Afinal, haviam nascido do mesmo Deus, traçando sua linhagem teológica, desde quatro mil anos antes, a partir de uma fonte comum: Abraão, o grande patriarca. Para sua duradoura frustração, as três fés conviviam em inseparável comunhão na poeira do passado de Jerusalém, cada qual desempenhando um papel integral nos celebrados encontros históricos com a divindade da Cidade Santa.

À medida que, tateando, conduzia seu veículo pelos estreitos corredores do bairro central, Feldman precisava tomar cuidado para evitar mais um tipo de encontro religioso. Com o calendário aproximando-se inexoravelmente do ano 2000, Jerusalém encontrava-se repleta de visitantes milenaristas. Formados por centenas de cultos bizarros, os milenaristas sobrecarregavam a intolerante cidade com suas próprias cepas peculiares de fanatismo religioso.

Chegando perto do bloco residencial de Hunter, na periferia da cidade, Feldman finalmente conseguiu uma visão desimpedida do horizonte. Bem ao sul, ele distinguiu um clarão avermelhado do que presumiu ser o desastre do Neguev. Afastando uma sensação de déjà vu, ele prosseguiu até o pátio interno, onde Hunter o aguardava com uma câmera de vídeo e uma sacola de viagem a postos.

De altura acima da média e porte avantajado, Hunter estava usando um uniforme que havia sobrado dos dias mais impetuosos da cobertura da Operação Tormenta do Deserto. Jornalista respeitado, com um amplo currículo de cobertura em vídeo das matérias mais difíceis, ele observava o mundo através de seus apertados olhos azuis, sempre em estado de alerta.

Antes que o Rover pudesse parar por completo, Hunter jogou seu equipamento para dentro da traseira do veículo, saltou para o banco ao lado de seu colega, deu dois fortes tapas no painel, e eles partiram em velocidade em direção ao fulgor no céu.

— E aí, o que foi que você descobriu? — quis saber Feldman.

— Nada além do que eu lhe disse — retrucou o cinegrafista. — Parece que foi um ataque isolado. Nada mais foi atingido até o momento.

— Você confirmou se foi a Jordânia?

— Não. Mas é a opinião da Inteligência.

Jonathan Feldman, o profissional das palavras naquela equipe de dois, era atleticamente esbelto, com traços finos, nariz reto e comprido e brilhantes olhos acinzentados, que lhe conferiam um ar infantil dentro da moldura dos cabelos escuros sempre em desalinho. Um pouco mais velho, Hunter era robusto, afeito à vida ao ar livre, tinha cabelos claros e compleição alourada.

Sua familiaridade descontraída se embasava numa forte amizade que haviam desenvolvido durante o último ano, como integrantes de uma equipe de campo da RMN. Tinham trabalhado em estreita proximidade na cobertura de alguns dos muitos movimentos milenaristas que haviam saltado para um patamar de maior proeminência nos Estados Unidos.

Conforme ambos os repórteres logo aprenderam, muitas dessas seitas milenaristas já existiam na América e no resto do mundo havia décadas, aguardando pacientemente o novo milênio. Diversas delas, porém, só haviam começado a existir nos últimos anos.

A maioria desses cultos milenaristas tinha orientação religiosa, variando desde os enaltecedores, que viam o século XXI como o início de um sagrado reinado de Cristo, até os profetas do Apocalipse, que tinham a visão perpétua do Armagedon. Alguns grupos eram seculares; outros, mais metafísicos; e outros, ainda, meramente sociais ou políticos. E muitos permaneciam até agora sem se declarar, mas achavam que o milênio era uma desculpa excepcional para cair fora e reinventar o hedonismo do "viver o dia de hoje" da mítica década de 1960.

Desde grupos que montavam a milhares até vozes unitárias gritando na selva, havia uma filosofia milenarista para cada chamado interno, com mais de 297 organizações milenaristas distintas atualmente listadas na Internet.

Tornara-se óbvio para Hunter e Feldman, desde cedo, onde acabaria a maioria da atividade milenarista importante. Quando requisitaram inclusão na operação da RMN em Israel, os dois haviam manobrado para conseguir seus postos em Jerusalém. Havia sido uma providência oportuna. A cada dia que passava, os números desses cultos espalhados pelo mundo inteiro, como tantas colônias de lemingues, atingiam uma massa crítica e convergiam para a Terra Santa. E embora as maiores concentrações se aglomerassem em torno de Jerusalém, outros famosos locais bíblicos, como Nazaré, Belém, Monte Sinai e Meguido, também encontravam seus defensores.

 

                             Em algum lugar do deserto do Neguev, sul de Israel

                             1:20, sábado, 25 de dezembro de 1999

Três excitados astrônomos japoneses cruzavam as areias do deserto numa busca frenética atrás da estrela cadente. Já haviam esquecido o pobre associado, que, sendo hierarquicamente o mais baixo do grupo, fora deixado para trás, a fim de concluir seus experimentos.

De seu mirante no topo da montanha, eles haviam testemunhado, com clareza e horror, a colisão do meteorito com o instituto de pesquisa. Partiram imediatamente de carro, percorrendo o terreno áspero do fundo do vale formado pela fenda, tendo o enorme clarão alaranjado a servir-lhes de farol e guia. Ao longo do caminho, tiveram o prazer de assistir a um espetáculo constante de luz de meteoros, caças a jato e helicópteros cruzando o céu com regularidade no meio da noite.

Entretanto, a pouco mais de meio quilômetro de seu destino e completamente sem aviso, um beduíno magro, barbudo e curtido pelas intempéries da vida ao ar livre, vestindo uma túnica com capuz, surgiu diante dos fachos dos faróis do carro, acenando desesperadamente para que parassem.

Tirando um fino dele, o carro perdeu o controle e derrapou, rodopiando duas vezes até parar, levantando muita poeira. O nômade, aparentemente imperturbável pelo evento que causou, destrambelhou a falar com eles em árabe. O velho apontava ora para as chamas do complexo destruído mais adiante, ora para uma ravina perto.

Os astrônomos ficaram ainda mais excitados com a pressuposição de que o beduíno havia encontrado um pedaço do meteorito. Mas a excitação logo cedeu ao choque. Quando se apressaram a verificar o que havia na direção indicada, os faróis revelaram uma mulher nômade acocorada diante de uma forma humana imóvel, encolhida, sem roupas e deitada de lado, em posição fetal.

 

                     Em algum lugar ao sul de Jerusalém, Israel

                     1:42, sábado, 25 de dezembro de 1999

Na intricada topografia do sul de Israel, poucas eram as rodovias que iam direto para qualquer lugar. E embora o instituto de pesquisa ficasse a apenas setenta e cinco quilômetros ao sul de Jerusalém, Hunter e Feldman precisaram fazer um grande contorno. Os primeiros trechos foram cobertos rapidamente, devido à direção agressiva de Feldman.

— E aí, você ainda está pensando em largar a RMN quando isso tudo acabar? — Hunter levantou um assunto morto.

Feldman sorriu e voltou-se para o amigo com a sobrancelha erguida.

— Ei, caso você se lembre direitinho, "largar" não é exatamente a palavra que cabe aqui. O meu contrato termina quando essa história de milênio acabar.

Hunter balançou a cabeça, pois sabia bem do que se tratava.

— Porra! Bollinger me disse que pediu para você fazer parte da nossa equipe de projetos especiais na Costa Leste. Vamos comemorar, meu chapa! Vamos fazer muitas e boas lá em Nova York.

— Tentador! — disse Feldman, rindo do entusiasmo do amigo. — Mas não posso dispensar esse negócio em Washington... a chance de cobrir as eleições presidenciais! É uma oportunidade de fazer reportagens realmente sérias. A RMN é maluca demais para mim. Você sabe que eu sou conservador demais para me dar bem fazendo coberturas dessa ribalta toda!

Hunter encolheu os ombros largos.

— Eu simplesmente odeio a idéia de desfazermos uma boa equipe! Tem sido muito legal.

Feldman gesticulou com a cabeça, de acordo.

— É, tem sido muito bom trabalhar com você, Breck. Vou sentir saudades de você e da turma toda. É difícil acreditar que estou me encaminhando para o meu último dia.

À medida que eles iam percorrendo o ziguezagueante caminho em direção ao sul, o terreno ia ficando cada vez mais acidentado e a vegetação esparsa. Em meio ao ar puro e revigorante da noite, os dois repórteres começaram a distinguir os primeiros sinais das escabrosas montanhas do Neguev: maciças formações de calcário que se erguiam em antigas e elevadíssimas plataformas. Logo tiveram de deixar a rodovia principal na altura de um pequeno kibbutz no deserto, marcado no mapa como "Dehmoena", mas grafado como "Dimona" na placa da estrada. Uma situação comum neste país, que não dispõe de regras rígidas de ortografia. Hunter e Feldman estavam acostumados a tais inconsistências, mas, de qualquer maneira, o facho de luz gerado pelas labaredas dizia-lhes que era o lugar certo.

Encobertas por um desfiladeiro ao longo de três dos seus lados, levemente afundadas, estava praticamente impossível de enxergar as ruínas do complexo de qualquer ângulo que não fosse o leste. E até mesmo ao nível do solo a perspectiva não era satisfatória. Particularmente depois que os militares israelenses, espalhados por toda parte, passaram a manter os curiosos à distância! Os dois jornalistas não se surpreenderam ao ver que mais de cem milenaristas errantes haviam sido atraídos para o desastre.

— Merda! Não vai dar para pegar nada daqui — esbravejou Hunter, observando os israelenses manterem os curiosos bastante afastados da área do portão principal.

— Não vai, mesmo — concordou Feldman.

— E a milícia nunca vai deixar a imprensa passar — falou Hunter com base em experiência vivida.

— Especialmente se isto for mesmo um complexo militar às ocultas­ — acrescentou Feldman. — Mas temos de tentar.

Hunter assentiu.

— Por que você não vai tentar descobrir alguma coisa com os curiosos enquanto eu verifico o equipamento? Depois poderemos ir de carro até o portão principal e tentar conversar com o oficial encarregado.

Um grupo de cerca de vinte homens e mulheres parecia já estar ali fazia algum tempo. Ao lado de seu antigo ônibus escolar azul-desbotado, eles haviam montado um pequeno fogão de acampamento, sobre o qual se encontrava uma cafeteira escurecida pelo uso. Feldman caminhou até eles e se apresentou para um homem de barba desgrenhada, trajando calça de brim azul e sandálias, sentado ao chão e enrolado com um velho cobertor do exército norte-americano. Apesar da aparência desmazelada, o homem tinha um sorriso fácil e agradável e respondeu em inglês perfeito, com um leve sotaque alemão.

— Fredrich Vilhousen, de Hamburgo — disse ele.

— Turista ou peregrino? — começou Feldman, com sua abordagem padrão para os milenaristas.

— Somos Sentinelas do Domínio — explicou Vilhousen. — Uma das novas ordens européias de maior porte.

Feldman jamais ouvira falar neles.

— Estávamos no Tânger e viemos até Jerusalém no intuito de nos reunirmos ao nosso grupo principal para a Vinda. Fomos chamados para preparar o Seu Caminho e o Seu propósito...

— Desculpe-me, Fredrich — Feldman não tinha interesse algum em mais uma tirada acerca do Segundo Advento — neste exato momento, minha única preocupação é saber um pouco mais sobre o ataque aéreo aqui. Você viu quando aconteceu?

— Ataque aéreo? — O alemão exibiu um olhar intrigado. — Não houve ataque aéreo! Foi o Martelo de Deus, o Primeiro Sinal!

Feldman começou a balançar a cabeça em sinal afirmativo e a se afastar.

— Não foi ataque aéreo — insistiu o milenarista. — Nós vimos quando surgiu, vindo pelo céu, do leste, um astro incandescente e brilhante que iluminou todo o deserto. E depois ele acertou esse laboratório do mal. Justo, meu amigo!

Um míssil, então, concluiu Feldman consigo mesmo. Provavelmente um míssil de cruzeiro. Mas como é que a Jordânia conseguiu um desses?

— Tudo bem, obrigado! Ah, e boa sorte com a Vinda e tudo mais. ­

Feldman não era uma pessoa particularmente cínica, pelo menos não tanto quanto Hunter. Mas os últimos três meses de falatório evangélico o haviam esfalfado um pouco. Agora que se via às voltas com algo bem mais suculento, não estava disposto a estragar a história com uma guinada milenarista. Deu uma última olhada na direção dos Sentinelas do Domínio e virou-se para partir. Eles eram todos tão parecidos, esses milenaristas! Contudo, cada um era diferente. Pelo menos este grupo parecia um pouco mais submisso que a maioria. Das trinta e tantas seitas sobre as quais ele havia feito reportagens, gostara menos da turma do inferno e da danação. Os profetas do Juízo Final. Fanáticos a quem Feldman considerava mais para amedrontadores do que para gente sã de espírito.

Embora esses militantes do Juízo Final também fossem geralmente classificados no mesmo grupo dos milenaristas, percebeu Feldman, eles não podiam ser reconhecidos como tal. À guisa de precisão, conforme Feldman descobrira através de extensa pesquisa sobre o assunto, o milenarismo verdadeiro incluía apenas aqueles que acatavam literalmente o Livro das Revelações do Novo Testamento, capítulo vinte. Esta escritura proclamava que Cristo retornaria, fisicamente, para subjugar Satã e governar a Terra em paz, harmonia e felicidade, durante mil anos.

E desses milenaristas verdadeiros, havia mais subclassificações: os otimistas do pós-milênio, que acreditavam que Cristo traria paz à Terra no Último Dia através de Sua Igreja. E os pessimistas do pré-milênio, que acreditavam que a paz só viria através de uma batalha decisiva entre as forças de Cristo e as forças de Satã.

Embora também adeptos do Livro das Revelações, os profetas do Último Dia, ou "apocalípticos" como eram mais precisamente chamados, ­ tendiam a ver o milênio não como um começo, mas como um fim. Sua visão era a de um aniquilamento terrestre, no qual todos os que não acatassem textualmente suas estreitas interpretações da escritura pereceriam miseravelmente no fogo do inferno. Os crentes, por outro lado, seriam corporalmente escoltados em triunfo para o céu pelo próprio Cristo. Naturalmente, eram generalizações de tudo, pois havia um amplo espectro de ideologias envolvidas. Feldman já se deparara com muitas distinções sutis a separar as diferentes escatologias: as ramificações formais da teologia que lidavam com o fim do mundo e/ou o Segundo Advento.

Deixando os Sentinelas do Domínio com seus preparativos para o milênio, Feldman regressou ao Rover, onde Hunter estava colocando uma bateria nova na câmera de vídeo.

— O que eles viram se abater sobre o centro de pesquisa parece ser tanto a justa mão de Deus quanto um míssil de cruzeiro Tomahawk — relatou Feldman.

Hunter exibiu um sorriso de lábios apertados e grunhiu.

— E agora — propôs Feldman — que tal tentarmos a abordagem direta, hein?

E eles se encaminharam até o portão principal, para uma conversinha com o oficial de plantão.

— Parece que eles só estão deixando entrar o pessoal militar — observou Feldman, ao ver a massa de espectadores na área da entrada quando foram se aproximando.

Enquanto se esforçavam para chegar à frente da multidão, os repórteres perceberam um guarda da FDI encaçapando um milenarista, no intuito de espantá-lo para longe das barricadas improvisadas. O infeliz, despercebidamente, ultrapassara o perímetro de isolamento e tirara uma fotografia furtiva da confusão através da cerca de correntes interligadas.

A bem da verdade, uma fotografia tirada nas vizinhanças da cerca era pior do que uma tirada mais para trás, devido à proximidade das altas barrancas de proteção que cercavam o instituto pelo lado de dentro. Mesmo assim, o guarda intolerante confiscou a câmera do homem, esmigalhando­-a contra o chão com a coronha de seu rifle antes de, grosseiramente, afugentar dali o invasor.

Hunter, prudentemente, baixou do ombro sua câmera de vídeo, e os dois repórteres retornaram silenciosamente para o meio da multidão. Resolveram retirar-se para uma colina das redondezas, a fim de experimentar uma filmagem com lentes teleobjetivas. Não funcionou. O local de construção do complexo fora escolhido com esperteza. Simplesmente não havia de onde obter uma boa visão das ruínas. Os dois estavam prestes a se recolher quando, através da câmera de vídeo, Hunter percebeu uma pequena fila de veículos se aproximando por uma das estradas de acesso. Aproximando o foco da teleobjetiva, ele conseguiu identificar, iluminados pelo clarão alaranjado das ruínas em chamas, seis jipes Humvees e dois Land Rovers, carregando mais milícias israelenses e pessoal de apoio técnico.

— Jon, tive uma idéia! — exclamou Hunter, sem tirar os olhos do comboio, inconscientemente empurrando Feldman em direção ao carro.

— O... o quê? — gaguejou Feldman, enquanto cedia, vacilante, pois não estava preparado para seguir na direção que Hunter repentinamente escolhera.

— Eu dirijo e você faz exatamente o que eu disser...

Em meio à poeirada e face à dificuldade de avançar com seu comboio através do ajuntamento de espectadores, o destacamento militar não percebeu quando outro Land Rover se encaixou rápida e sutilmente no fim da fila. Vestindo sua jaqueta do uniforme da Tormenta do Deserto enquanto dirigia, Hunter quase atropelou um milenarista descuidado.

Aos palavrões, o cinegrafista tirou de sua sacola um chapéu de recruta, colocou-o sobre a cabeça de Feldman e empurrou em suas mãos uma prancheta de anotações.

— Agora — disse ele — assim que chegarmos ao portão, banque o oficial, com toda a seriedade. Eu vou passar correndo pelo guarda e, se ele vier de merda para cima de você, mostre essa prancheta e grite "Equipe de Isolamento" em hebraico. Entendeu?

Feldman abriu um sorriso e anuiu.

— Está bem, só que eu não sei falar hebraico.

— Como assim, você não sabe falar hebraico? — berrou Hunter. ­ — Você é meio judeu, não é? Eu já ouvi você falando hebraico antes.

— Eu só sei alguns palavrões em iídiche.

— Então, fale em inglês mesmo, pelo amor de Deus! O que não falta é consultor judeu trazido de fora para trabalhar por aqui. Eles vão ter que se convencer de que nós somos uma equipe de isolamento judaico-­americana.

O comboio começou a diminuir a velocidade. Os guardas olhavam cada veículo antes de mandá-lo prosseguir com um aceno ligeiro, mais preocupados em manter os curiosos civis à distância. Feldman estava no banco do carona, mais perto, portanto, da guarita do portão. Sem muito otimismo com relação à empreitada, ele não estava disposto a ser detido ou preso bem no meio do deserto no que deveria ser um tranqüilo dia de Natal.

Hunter diminuiu a marcha do Rover, só parando quando Feldman estava exatamente em frente ao posto da guarita. Feldman assumiu um ar de severidade e levantou os papéis da prancheta, enquanto o guarda estreitava os olhos diante dos formulários aparentemente sem sentido para ele. Hunter acelerou, o guarda abriu a boca para objetar, Feldman gritou "Equipe de Isolamento", e eles passaram.

— Não olhe para trás — advertiu Hunter, observando o olhar confuso do guarda, que se afastava em seu espelho retrovisor.

Se Hunter ficou tão surpreso quanto Feldman com o desenlace, isso ele não demonstrou.

Feldman sorriu consigo mesmo. Embora preferisse seguir as regras em tudo o que fazia, não deixava de apreciar o estilo brusco, mas eficaz, de Hunter. Eles já podiam voltar sua atenção para a fumaça negra que subia logo adiante, cuja fonte agora era visível.

— Pare ali no acostamento, naquela subida — apontou Feldman. ­— Vamos dar uma olhadinha nessa coisa.

Guiando o Rover até o topo de uma elevação dentro do terreno cercado, eles finalmente conseguiram uma boa visão de todo o desastre. A destruição era arrasadora. Normalmente, as instalações israelenses no deserto eram básicas e espartanas. Mas este complexo havia sido impressionante. Exceto pelas janelas quebradas, as alas em V do laboratório estavam intactas. O enorme domo, contudo, estava reduzido a uma concha destroçada, ainda esfumaçante e exalando gases quentes, que subiam para o céu na escuridão da noite.

Feldman se virou e viu Hunter já esquadrinhando todo o panorama com sua câmera de vídeo.

— Vamos fazer uma tomada rápida aqui — sugeriu Hunter, indicando uma posição para Feldman diante das ruínas, sem delongas. — Eu quero fazer logo uma boa tiragem, para o caso de nos perceberem aqui. — Ao concluir, ele tirou a fita da câmera e enfiou-a sob o banco dianteiro do carro.

Quando Hunter começou a rodar a segunda fita, uma equipe da guarda israelense avistou a câmera, subiu rapidamente a ladeira numa das viaturas e os confrontou. Os repórteres ficaram sob a mira das armas durante uma hora e meia, sendo levados de um oficial para outro, cada qual mais incerto que o anterior acerca de seus documentos de imprensa, que foram vistoriados repetidas vezes. Afinal, convencidos de que os dois não passavam de inconvenientes representantes da mídia, os israelenses confiscaram o que acharam ser a única fita de vídeo e escoltaram os repórteres em seu Rover para fora do complexo, liberando-os apenas quando já estavam bastante longe da cerca.

— Não tem problema — disse Hunter, sorrindo para Feldman, quando os dois já estavam a uma distância segura. — Vamos fazer a sua seqüência daqui, com o fogo ao fundo, e que a equipe de edição faça o que quiser com o pouco que filmamos.

Esgueirando-se de volta para a cerca em torno do perímetro do complexo o mais perto que foram capazes de ousar, Hunter ligou a câmera e acendeu as luzes, começando logo a rodar, enquanto Feldman, emoldurado por fumaça e labaredas, fazia um resumo geral da devastação.

— Eu sou Jon Feldman, para a RMN, falando diante do Instituto Israelense de Pesquisa do Neguev, ao sul de Israel, onde um ataque a míssil feito de surpresa no início da manhã de Natal destruiu as renomadas instalações de pesquisas militares...

Eles conseguiram enviar o pacote pronto para o escritório da RMN em Jerusalém a tempo de ser usado no noticiário do meio-dia. E graças a um dia fraco em termos de notícias, a conturbada e quase tacanha apresentação de um Feldman desgrenhado e barbado foi servida junto com o almoço de Natal para todo o mundo.

 

                            Vaticano, Roma, Itália

                             4:37, sábado, 25 de dezembro de 1999

Até então, o dia não havia sido muito bom para o Papa Nicolau VI. Cansado e sozinho com seus pensamentos em seus aposentos, o Santo Padre estivera acordado desde a meia-noite, tirado de seu sono por um estressante pesadelo de incêndio, morte e destruição, que o havia deixado com uma forte acidez estomacal.

De cenho franzido, o pontífice de cabelos grisalhos e ar paternal afastou as cortinas da janela de sua varanda, para ver mais uma vez as multidões que se aglomeravam na ampla praça de São Pedro. A chuva constante, ele tinha certeza, diminuíra consideravelmente o número de fiéis presentes à sua bênção anual do dia de Natal. Infelizmente, por conta disso, ele se via às voltas com uma quantidade desproporcional das peculiares seitas milenaristas que, fazia semanas, haviam transformado o Vaticano em sua Meca pessoal.

O reduzido número de fiéis era um desdobramento perturbador. Para este feriado sagrado, Nicolau dependia de um apoio maciço dos seus, a fim de afastar as atenções dos milenaristas e ajudar a obscurecer os cartazes e cânticos provocadores a respeito do Dia do Juízo Final e do Segundo Advento.

Na verdade, a mídia havia encorajado o assédio, pois proporcionara aos "romilenaristas", conforme o contingente romano viera a ser conhecido, o que eles mais desejavam: divulgação mundial. Todo serviço de notícias buscava superar o outro, desencavando as personalidades mais exóticas e heréticas que encontrasse. Conseqüentemente, a mídia estava atraindo para Roma os mais inusitados dos periféricos milenaristas que a Europa tinha para oferecer.

Embora Jerusalém fosse um centro muito mais vasto da atividade milenarista, a maioria dos repórteres preferia os confortos de Roma. Isso significava que os romilenaristas desfrutavam de acesso muito melhor a um número muito maior de repórteres. E para grande constrangimento de Nicolau, sendo ele o líder religioso mais proeminente do mundo, a mídia e os milenaristas haviam trazido essa zoeira tola e descabida diretamente para a sua porta.

Depois de muita procura por almas, o pontífice havia cancelado, relutantemente, uma viagem ao Oriente Médio, na qual faria uma convocação dramática no Monte Sinai com hierarcas judeus e muçulmanos. Pior ainda, vira-se forçado a adiar a divulgação de seu Decreto do Milênio, uma condenação ao materialismo com a qual Nicolau esperava fazer a conquista definitiva de seu novo Papado. Esse documento eclesiástico preparado com urgência e com o qual ele pretendia atender a uma obrigação sagrada e dar as boas-vindas a um milênio mais promissor, deveria ser divulgado no primeiro dia de janeiro. Agora, teria de esperar por uma atmosfera mais receptiva, tais eram as frustrações dos estranhos eventos que estavam acontecendo.

A situação só era tolerável porque o Papa e seu Colégio de Cardeais estavam perfeitamente cientes de que essa bizarra histeria religiosa teria curta duração. Tal qual o fenômeno bastante semelhante que ocorrera no ano de 999 d.C.

Desta feita, entretanto, com a sabedoria que advém de poder estudar um fato consumado, a Igreja não estava se preocupando com um problema duradouro. Quando o segundo milênio se transformasse no terceiro e o primeiro de janeiro tivesse passado, a atual praga milenarista, esses gafanhotos de mil anos, desapareceria tão eficiente e completamente quanto a sua predecessora.

O cansado pontífice mal podia esperar pelo ano-novo.

 

                                   Embaixada norte-americana, Tel Aviv, Israel

                                   21:13, sábado, 25 de dezembro de 1999

A embaixada norte-americana em Tel Aviv era uma impressionante edificação em estilo romano, com seis grandes colunas no topo de largos degraus de arenito. Um manobrista impecavelmente uniformizado relutou em receber o Rover de Feldman, por conta de toda a sujeira e areia que ele próprio nem percebera.

Houve calorosas acolhidas lá dentro quando os dois repórteres chegaram, despretensiosa, porém charmosamente, atrasados. Tendo perdido a programação noturna da RMN por estarem dormindo, nenhum dos dois estava ciente de que a sua reportagem do Instituto do Neguev fora a chamada principal. Seu primeiro grande furo de reportagem.

Subindo a ampla escadaria que levava ao saguão principal, Feldman e Hunter foram saudados com entusiasmo, tanto pelos rostos familiares de associados, quanto por novos rostos até então desconhecidos que os parabenizavam pelo status recém-conquistado. Evento genuinamente renomado, a festa natalina da embaixada norte-americana era originalmente celebrada em atenção aos membros e funcionários do consulado cristão que permaneciam no Estado judaico durante os dias santos. Mas a recepção de Natal se expandira e passara a incluir políticos e autoridades governamentais israelenses, bem como a mídia pertinente, empresários de maior relevância e muitos aquinhoados da área. Uma reunião da elite. Mesmo para o engenhoso e persistente Hunter, conseguir dois convites não havia sido um feito fácil.

Feldman não estava ali para matar as saudades de casa. Nem pelos notáveis quitutes e excelentes contatos de imprensa. Tanto para ele quanto para Hunter, o único chamariz do evento era a perspectiva de encontrar as atraentes jovens descomprometidas que deveriam estar presentes. E para o total agrado dos repórteres, os mexericos do escritório mostraram-se precisos, pelo menos uma vez. Dentre as centenas de seletos convidados para a noite de comemoração estavam algumas das mais belas e elegantes mulheres que os dois haviam encontrado desde sua chegada a esta terra estrangeira. Hunter e Feldman trocaram olhares de satisfação.

— Um verdadeiro tesouro de nubilidade — gracejou Hunter, forjando um tom sofisticado de fala. Ao localizar uma presa tentadora, o cinegrafista se afastou de Feldman, insinuando-se: "Ele é sexy e solteiro; está pronto para casar”!

Feldman sorriu e balançou a cabeça com uma leve sensação de inveja, enquanto observava o amigo se imiscuir prontamente na multidão. Era tão mais simples para Hunter. A vida amorosa de Feldman no Oriente Médio andava muito aquém do satisfatório. Isso se devia, em parte, à agitação do seu trabalho, no qual as oportunidades de notícias espontâneas e os prazos prementes deixavam pouco tempo livre para atividades sociais ou encontros mais significativos. Entretanto, vale dizer que as coisas aconteciam dessa maneira por ele ser muito mais seletivo do que Hunter.

Ao sair dos Estados Unidos, Feldman não deixara para trás nenhum interesse amoroso em especial. Não por falta de candidatas. Suas características de beleza física e honestidade, sua natureza afável e seu intelecto notável sempre atraíram muitas interessadas, mas ele nutria uma teimosia contra compromissos pessoais sérios, perspectiva que desenvolvera desde cedo, enquanto vivenciava a turbulência do casamento de seus pais.

Em conseqüência disso, embora apreciasse bastante a companhia de jovens inteligentes e bonitas, ele costumava evitar aproximações duradouras. Em lugar de permitir que um relacionamento novo e promissor decolasse, ele invariavelmente o fazia antes. Não por maldade ou por ter a intenção de causar alguma dor, mas como uma forma de auto-proteção. E hoje à noite, Feldman estava pronto para começar o ciclo vazio de novo.

Deveria ser bem mais fácil nesta ocasião, agora que se tomara uma celebridade do momento, mesmo que pouco à vontade. O ataque ao complexo do Neguev, é claro, era o assunto em pauta e o jovem repórter estava sob constante demanda. Especulações e boatos não faltavam, dizendo que o complexo era uma instalação militar secreta, onde pesquisas estranhas e extraordinárias haviam sido conduzidas. Todos queriam maiores informações e ninguém aceitava o fato de que Feldman estava relatando tudo o que sabia.

Mas ele estava mais interessado, no momento, em uma extraordinária pesquisa própria. Uma rápida olhadela pela multidão não foi suficiente para confirmar se uma interessante jovem, que ele certa feita conhecera, estava ali. Era um alvo à distância. Ela era estudante de pós-graduação em jornalismo, presumira ele. Essa pessoa intrigante atraíra sua atenção durante uma palestra que fora convidado a dar na Universidade de Tel Aviv fazia um mês.

Durante as perguntas e respostas, na sessão de encerramento, Feldman experimentara uma troca rápida, porém bastante animada, com uma bela mulher de olhos escuros e um leve sotaque francês. O debate remontara a uma diferença de opiniões quanto ao teor razoável de inclinações pessoais que um repórter deveria se permitir numa matéria.

Na opinião dela, os jornalistas ocidentais, "um clube dominado pelos homens", eram tão obcecados pela objetividade nas suas reportagens que saneavam as histórias de sua verdade. Ela havia proposto que os jornalistas não temessem posturas morais na cobertura de questões importantes e que desempenhassem papéis mais ativos na promoção de mudanças políticas e sociais positivas.

Feldman respondera dentro da linha padrão de que os fatos devem falar por si próprios e que a tarefa do repórter era meramente relatar, não interferir.

Sem que tivesse tal intenção, ele deixara nas mãos dessa jovem espirituosa a última palavra, o precipitado comentário acerca da "fraternidade jornalística não ter testosterona coletiva suficiente para pegar qualquer questão com firmeza". 

Mas não houvera malícia na fala da moça. Pelo contrário, houvera um certo quê de flerte, nem tão sutil assim, pegando-o fora do equilíbrio normal e fazendo-o desviar-se completamente do encadeamento de seu raciocínio. No intervalo que decorrera antes que Feldman pudesse se recompor, a gargalhada do público presente emendara em aplausos, ele recebera o agradecimento sumário do presidente da mesa e sua contrapartida feminina sumira no meio da multidão que se dispersava, Feldman não ficara tão constrangido assim pela afronta à sua masculinidade diante de uma centena de estudantes e professores. Não. Sentira-se, sim, fustigado, porque essa mulher o cutucara com ousadia no seu ponto jornalístico. Para ele, isso tomava as coisas consideravelmente mais pessoais.

E desafiadoras.

De olho atento na Mulher Misteriosa, refestelou-se no que, ele bem sabia, seria uma breve ribalta. Mais conversas sobre o ataque. Mais boatos acerca do que o complexo do Neguev realmente fora. Mais opiniões sobre quem teria sido o responsável pelo lançamento do míssil e como a Força de Defesa de Israel, que jamais permitia que qualquer agressão passasse sem uma resposta, poderia retaliar. E assim por diante.

Somente uma coisa poderia melhorar esse dia excepcional e de repente ela se materializou. Durante um brevíssimo instante antes de ser barrada em seu campo de visão, Feldman enxergou o objeto de sua fantasia. Num dos salões adjacentes, falando e rindo. Ainda mais bela do que ele se recordava! 

O cabelo estava diferente agora. Em lugar dos longos cachos escuros pendendo em cascata que ele tanto admirara, apresentava-se em pequenos fios anelados em selvagem desalinho, qual um ninho de corvo. Mas aqueles olhos e aquela perfeita cútis azeitonada eram inconfundíveis. Antes que ela voltasse a ficar fora de seu alcance visual, ele pôde perceber que era alta, esguia e estava impecavelmente vestida.

Feldman partiu, impaciente, abrindo caminho até chegar a ela. Apoderou-se dele uma rara sensação de um pânico brando quando, em meio a frustrantes distrações, ele percebeu que ela já não se encontrava na sala ao lado. Mas um breve reconhecimento da área revelou-a num saguão, entretida numa conversa íntima com um afetado empresário turco no Oriente Médio, cheio de ares importantes. O repórter se posicionou de forma a captar o olhar dela, mas a moça estava absorta na conversa.

Feldman aguardou, paciente, enquanto conversava despretensiosamente com alguns colegas, até que, percebendo o momento adequado, descartou-­se deles com perfeição e trocou olhares com a srta. Mistério.

Sabia exatamente como queria conduzir a situação. Fingindo raiva, ele se pôs de mãos à cintura, apertou os lábios, contraiu um olho enquanto levantava a sobrancelha do outro e apontou um dedo acusador para ela.

— Você! — ele fez o movimento com a boca, sem emitir voz, arregalou ambos os olhos em sinal de reconhecimento inequívoco, mantendo-se assim durante apenas o tempo exato, e depois deixou formar-se em seu rosto um sorriso para desarmá-la.

Ela retribuiu com um sorriso muito branco e cheio de auto-confiança. Aproximou-se de Feldman e estendeu-lhe sua delgada mão direita. Foi um sinal de que o turco estava dispensado e este, ressentido, logo desapareceu entre os convidados.

Feldman pegou-a pelo cotovelo e pelos dedos suaves, trazendo-a com firmeza para perto de si, de maneira a dizer-lhe que tinha algo pessoal para lhe comunicar. Ela não resistiu.

De forma a suplantar o barulho da conversa que os cercava, Feldman chegou os lábios ao ouvido dela. Seu aroma era suave e tinha o frescor da pureza, sem perfume. Ele sussurrou:

— Eu acabo de elevar o meu nível de testosterona ao máximo; portanto, você vai ter que ser simpática comigo.

Ela riu com apreciação, mas não apresentou desculpas. Pondo-se na ponta dos pés, sussurrou de volta ao ouvido dele:

— Depois de hoje, eu acho que o seu ego também chegou ao máximo. — mais uma vez, não ouve aspereza. Sua voz era brincalhona e seu leve sotaque francês, cativante.

Ela realmente o estava provocando, concluiu ele. Ao perceber que ainda segurava o braço dela com as duas mãos, ele a soltou, um pouco envergonhado. Contudo, ela não pareceu se importar e tampouco se retraiu.

— Qual é o seu nome?

— Anke Heuriskein.

— E está fazendo pós-graduação na Universidade de Tel Aviv?

— Mestrado em direito internacional.

— Direito? Pensei que fosse jornalismo.

— Não. Jornalismo foi a minha graduação. É divertido, mas não vejo muito futuro.

A afirmativa saiu factualmente, e Feldman não conseguiu distinguir se ela estava sendo sincera desta vez. Mas deve ter deixado isto claro através da expressão de seu rosto, pois ela sorriu de lado e acertou-lhe uma leve estocada nas costelas com um belo dedo indicador. Ele se deu conta de que ela tinha jeito para pegá-lo desarmado e resolveu ficar mais alerta no futuro. Virar o jogo também era válido, prometeu a si mesmo.

— E aí — disse ela, como isca — você ainda acha que os jornalistas não devem ser mais que processadores de texto, registrando eventos de forma impessoal?

— Você quer dizer, será que eu ainda sou partidário de um jornalismo imparcial, equilibrado, justo e honesto? — Ele já tinha esta resposta pronta fazia um mês.

— Não. Quero dizer, você não acha que um jornalista deve ter uma consciência social? Arcar com alguma responsabilidade pelas conseqüências de uma história sobre a sociedade?

— Eu não acho que seja apropriado um repórter influenciar as notícias, dar sua opinião sobre elas ou forjá-las, se é isso que você está perguntando — respondeu ele, impassível. — O trabalho do repórter é relatar os fatos. Pura e simplesmente.

— Mas as coisas nem sempre são puras e simples assim, ou será que são? — ronronou ela, afastando os olhos misteriosamente.

Feldman estava mais do que encantado. Enquanto ele afrouxava a gravata amarrotada como espaço de manobra, sua concentração foi interrompida pelo reaparecimento de Hunter no outro lado do salão, tentando chegar até ele.

Feldman interpretou o olhar sério do parceiro e soltou um gemido audível.

Hunter estava junto deles agora, reclinando-se para perto de Anke e apontando para Feldman com o polegar virado.

— Sinto muito me intrometer assim, mocinha, mas o sr. Celebridade aqui está sendo requisitado de novo no palanque.

Virando-se para Feldman, ele o pegou pelo bíceps direito.

— Acabei de receber um telefonema da sede. As coisas estão esquentando.

Feldman mordeu o lábio, assentiu e voltou-se, deparando com um olhar entretido no rosto perfeitamente azeitonado de Anke.

— Será que eu... — começou ele.

— Eu saio muito — interrompeu ela. — Por que eu não fico de ligar para você? — e começou a anotar o número do telefone de Feldman numa cadernetinha preta que retirara do bolso da jaqueta.

Relutando em afastar-se com o colega, Feldman ficou olhando, sem ter o que fazer, enquanto um arremedo de dom-juan prontamente se apresentava para preencher o vazio

 

                     Agência de notícias da RMN, Jerusalém, Israel

                     23:56, sábado, 25 de dezembro de 1999

Hunter e Feldman voltaram para a sede da RMN, onde encontraram os escritórios em verdadeira azáfama.

O diretor de notícias da área, Arnold Bollinger, logo percebeu os dois repórteres e fez sinal para que se reunissem num canto. Homem de seus cinqüenta e poucos anos, Bollinger era um tipo dedicado, um negro com soberbo tino para a notícia, de sólida constituição física e cabelos grisalhos. Tinha o rosto aberto e honesto, olhos grandes e sinceros. Embora pudesse achar Feldman e Hunter um pouco arrogantes e indisciplinados demais para o seu gosto, não deixava de apreciar o trabalho dos dois como algo inteligente e substancial. Hunter tinha a merecida reputação de um sujeito propenso a correr riscos. Feldman era uma influência estabilizadora, ainda que fosse facilmente induzido a perder seu rumo.

Mas Bollinger estava em êxtase com a reportagem do ataque ao complexo no deserto e mais do que disposto a deixá-los correr com uma grande história que parecia ter pernas próprias.

— Gente, nós estamos recebendo um retorno interessante — explicou, entregando a Feldman um punhado de papéis com dados selecionados.   Especialmente este daqui — disse ele, separando uma página em particular e apontando para dois nomes.

— Dr. Kiyu Omato... e dr. Isotu Hirasuma? — debateu-se Feldman com a nota. — Japoneses?

— Dois astrônomos do Japão, conduzindo algum tipo de estudo do lado de fora daquele grande observatório do Neguev — disse Bollinger. — Já fizemos um levantamento deles, são autênticos. Credenciais fortes. Assistiram à sua reportagem e estão aguardando aqui para conversar com vocês. Dizem-se testemunhas oculares e só falarão com vocês.

— Na verdade — Feldman expressou seu desejo em voz alta — eu gostaria de encontrar alguém de dentro daquele centro de pesquisa. E ficar sabendo que diabo era tão importante a ponto da Jordânia se arriscar a uma guerra para tirar de lá! Alguma informação nova, Arnie?

Bollinger balançou a cabeça.

— Nem mesmo as fontes da Inteligência norte-americana têm qualquer coisa definitiva. Pelo menos é o que eles estão dizendo. O melhor que se sabe até agora é que se tratava de um laboratório de biotecnologia. E embora os israelenses estejam berrando que foram os jordanianos, o Departamento de Estado não confirma.

Hunter entrou na especulação.

— Ora, a Jordânia, ou seja lá quem for, não mandaria um Scud para destruir uma cenoura transgênica. Só podia ser uma instalação militar... desenvolvimento de armas químicas ou biológicas.

Uma voz irreverente atrás deles se intrometeu.

— É, e vocês estavam por lá, passeando em cima dos destroços contaminados, sem proteção, totalmente expostos. — Era Cissy McFarland, coordenadora de projetos da RMN, que ouvira a conversa ao passar. Ela estava sempre pronta para dar um troco antigo aos dois repórteres. McFaladeira, conforme Hunter a chamava. Muito cheia de si para quem só tinha vinte e três anos, Cissy era uma das protegidas de Arnold Bollinger, com uma cabecinha brilhante e enaltecida e um futuro promissor pela frente na RMN.

Dito como piada, seu comentário sobre contaminação não deixou de abrir uma porta desagradável.

— Nem tão expostos assim – Hunter voltou-se, enquanto ela passava direto, ignorando-o.

— Ah, é! Vocês são dois dedicados focas da notícia, e burros — devolveu ela por cima do ombro, balançando a cabeleira loura e a saia de pregas em seu andar gingado, enquanto desaparecia na curva do corredor, deixando­-os para trás numa esteira de deboche.

Hunter sorriu, Feldman assumiu um ar de reflexão.

— Tudo bem, Arnie — disse Feldman, encerrando a reunião e partindo com o parceiro para as suas salas. — Vamos conversar com essas testemunhas oculares antes de darmos o dia por encerrado.

Feldman só queria um breve instante para tirar o agasalho, tomar um pouco de fôlego e sentar-se à sua mesa de trabalho, mas os dois japoneses que esperavam por eles estavam decididos. Reconheceram-no de vista e, acotovelando Hunter na pressa, começaram a curvar-se em reverências, ao mesmo tempo em que tagarelavam para o repórter da TV num turbilhão incompreensível.

A muito custo, Feldman conseguiu suas identidades: Kiyu Omato, professor titular da Universidade de Kioto, e seu assistente, Isotu Hirasuma.

O mais idoso não conseguiu se conter:

— Não! Míssil, não — declarou ele a Feldman, com um forte sotaque. — Meteorito.

Feldman fechou os olhos e deixou o queixo cair sobre o peito, decepcionado. Ele havia suposto que teria acesso a informações esclarecedoras sobre o ataque ao laboratório. Feldman levantou os olhos, mirando primeiro Hunter e, em seguida, os dois astrônomos sérios, que aguardavam ansiosamente uma resposta sua.

— Obrigado, gente! Aprecio sua opinião profissional, mas acho que ninguém vai aceitar essa sua teoria de meteoro, muito menos os israelenses.

— Não! Teoria, não. — O rosto ávido demonstrou preocupação, talvez até alarme. Ele tirou um lenço do bolso e o abriu, a fim de exibir um pedaço de rocha, disforme e enegrecida, mais ou menos do tamanho de uma bola de beisebol. — Meteorito! — repetiu ele, empurrando o objeto para Feldman, enquanto seu assistente sacudia vigorosamente a cabeça, confirmando a declaração do outro e sacava seu próprio lenço. — Ataque, não... acidente! Guerra agora, não!

O segundo astrônomo exibiu então uma maleta com mais fragmentos iguais e explicou, em inglês mais claro:

— Nós quatro vimos meteorito lá do observatório. Com nossos olhos, vimos meteorito atingir laboratório. Indo local do impacto, encontramos sobrevivente no deserto.

Os olhos de Feldman se arregalaram. Hunter levantou o olhar do pedaço do meteorito que observava despretensiosamente.

— Sobrevivente? — perguntaram em uníssono.

— Sim. Moça jovem do laboratório no deserto.

Hunter e Feldman já haviam decidido que o astrônomo mais jovem, com maior domínio do inglês de Sua Majestade, seria o melhor para entrevistarem. Feldman sacou um microfone e Hunter ligou a câmera.

Limpando a garganta, Hirasuma recomeçou.

— Nós três saímos do observatório para seguir meteoro. Mas pouco antes de chegar laboratório, passamos por gente do deserto...

— Beduínos? — sugeriu Hunter.

— Homem mais velho e mulher... com sobrevivente ferida.

— Então, vocês realmente viram o meteoro atingir o centro? — Feldman conduziu-os de volta ao ponto inicial, a fim de reestudar o relato deles.

— Sim.

— A que distância estavam?

— Talvez quinze quilômetros, mas noite muito clara. Vimos com binóculo explosão grande e pegamos carro para ir lá.

— Fale-me um pouco mais sobre essa sobrevivente — solicitou Feldman.

— Ela moça jovem. Talvez vinte anos.

— Sangrando muito e chocada — interveio o mais idoso. — Roupa arrancada com explosão. Tinha cheiro de fumaça. Não falava, não andava, só fazia som horrível. Olhar perdido.

— O que vocês fizeram com ela? — quis saber Feldman.

— Demos primeiros socorros — disse Hirasuma. — Homem e mulher não deixaram levar para hospital. Ajudamos colocar ela numa carroça e cobrimos com cobertor. Demos homem e mulher estojo primeiros socorros, comida, dinheiro. Eles foram embora e nós fomos procurar amostras meteorito.

— Quando vimos você no noticiário TV —acrescentou Omato — não pudemos deixar de contar fatos.

— Dr. Omato especialista! — insistiu o astrônomo mais jovem. — Ele não erra. Meteorito, sim; míssil, não! Guerra, não!

— Vocês acham que conseguem encontrar de novo o local onde depararam com a sobrevivente? — perguntou Feldman.

— Claro — responderam ambos.

Feldman e Hunter tomaram nota dos endereços e números de telefones e agradeceram aos dois cientistas, prometendo entrar em contato com eles no dia seguinte.

Aparentemente sem achar que tinham convencido os repórteres, os dois astrônomos demoraram a partir.

— Vocês vão contar para mundo? — sentiu-se o mais idoso compelido a perguntar mais uma vez.

— Vamos ver — respondeu Feldman, sem se comprometer, apertando-lhes as mãos e retribuindo-lhes as reverências, enquanto os dois se afastavam.

Ele conteve seus pensamentos até que os astrônomos tivessem desaparecido de vista, então se voltou para o parceiro com uma expressão cética.

— O que você acha?

Hunter, que estava com um olhar insípido perdido no espaço, jogando um pedaço do meteorito para cima, deu de ombros e comentou, indiferente:

— Acho que dá uma tremenda história para corrermos atrás. Eu adoraria chegar até essa sobrevivente... alguém que soubesse o que acontecia dentro daquele complexo.

 

                 Salão de Reuniões do Centro de Comando da FDI,

                 Campo de pouso militar israelense de UVDA,

                 sul do deserto do Neguev

                 1:37, domingo, 26 de dezembro de 1999

Em um centro da Força de Defesa de Israel localizado aproximadamente quarenta e cinco quilômetros ao sul do laboratório destruído no Neguev, os perturbados oficiais do alto-comando haviam se reunido para receber uma descrição pormenorizada do incidente. O chefe do estado-maior da FDI, general-de-divisão Mosha Zerim, homem distinto, de ombros retos, com sessenta e quatro anos de idade, escutara em silêncio solene o relato do último oficial.

O general, então, mandou que todos saíssem da sala, exceto uns poucos assessores confidenciais, recostou-se em sua cadeira e cruzou as pernas.

— Senhores, não preciso dizer da seriedade do assunto — foi o seu comentário introdutório. — O ministro da defesa, Tamin, está absolutamente furioso. Se o primeiro-ministro ou o parlamento israelense descobrir o que estava acontecendo, serão as nossas cabeças. Todas as nossas cabeças!

Após um silêncio prolongado, ele perguntou a um colega:

— Ben, você ouviu os relatos. O que acha que causou a explosão?

O general-de-brigada Benjamin Roth afastou os olhos de suas anotações e soltou um sonoro suspiro.

— Só pode ter sido um ataque, Mosha!

— Mas não há nada que prove isso, Ben — argumentou o comandante da Inteligência, David Lazzlo, elegante homem não muito alto, de meia-idade, cabelos louros agrisalhados, curtos e bem penteados, e olhos azuis. — Não há resíduos de explosivos. Não há fragmentos de ogivas de mísseis nem de bombas. Nossos sistemas de inteligência e os satélites norte-­americanos de reconhecimento não confirmam lançamento algum, sequer uma aeronave nas vizinhanças. Nada.

— Temos radares de interceptação pós-lançamento — interveio o general-de-exército Alleza Goene. — O míssil provavelmente foi lançado à distância, de um bombardeiro. E ainda é cedo demais para sabermos se há algum resíduo de explosivo. Além disso, a devastação foi tão completa que pode ter desintegrado quaisquer evidências. Ora, diabos, o local quase todo se evaporou! — Veterano e herói da guerra de 1967, Goene era um homem corpulento, forte, intimidante, com cinqüenta e sete anos de idade. Estava com o rosto corado e visivelmente impaciente diante da tendência mais reservada do grupo.

Lazzlo mostrou-se pouco à vontade com essa avaliação.

— Então como explicamos a enorme quantidade de detritos de minério de ferro puro que encontramos? — indagou. Depois de passar quase o dia inteiro supervisionando as investigações nas ruínas, tinha firmeza para opor­-se a um ataque de retaliação. — Está certo que parece incrível, mas não podemos excluir a possibilidade de um impacto causado por meteorito, conforme sugerem as evidências. Estamos atravessando um período ativo de chuvas de meteoros.

— Já existem coincidências demais e todas são muito convenientes, ora essa! — redargüiu Goene. — Há meses que a Síria e o Irã vêm fazendo perguntas sobre a natureza do complexo. Até os Estados Unidos suspeitam de nossos propósitos lá. E as probabilidades de um impacto calculado e cronometrado com tal perfeição, atingindo exatamente o centro do complexo durante as fases finais das atividades, vão bem além. E há também a trajetória desse "meteorito"... tão plana e sustentada que não poderia carecer de uma propulsão, conforme você está sugerindo.

— Goene está certo em tudo, menos num ponto — concluiu Roth. ­ Fomos atacados, mas não por um míssil, mas por um supercanhão, como o que o Iraque vinha desenvolvendo antes da Tormenta do Deserto. A Jordânia, presumo eu, descobriu o que estava acontecendo no centro e então, acobertada pela chuva de meteoros, usou um supercanhão oculto para arremessar um projétil de minério de ferro capaz de destruí-lo. A hipótese do canhão explicaria a ausência de um sistema de autopropulsão. E a Jordânia teria o argumento implausível, porém defensável, de que nós sofremos o impacto de um meteorito.

— Tudo isso é bastante convincente, senhores — aparteou David Lazzlo — só que as estimativas são de que esse projétil pesava um quarto de tonelada no momento do impacto. Qual é a tecnologia existente capaz de arremessar um objeto desse tamanho, sem autopropulsão, a uma distância de mais de trinta quilômetros, com uma trajetória dessas?

— Uma tecnologia não mais incrível do que a que nós criamos e perdemos naquele laboratório — rebateu um irritado Goene com uma lógica convincente, que calou Lazzlo de vez.

Dando um tempo para que as garras se retraíssem, o general Zerim, presidindo a reunião, apresentou o seu julgamento.

— Relutantemente, devo concordar com Ben e Alleza. A teoria do meteorito simplesmente não é crível. Querendo ou não, devemos apoiar a posição do ministro da defesa, Tamin. A linha oficial da FDI, e nossa determinação preliminar, é a de que isso foi um ataque não-provocado. Daremos prosseguimento às investigações até determinarmos a fonte, momento no qual aplicaremos um contra-ataque apropriado. Nossas forças permanecerão em alerta total até segunda ordem.

 

                   Ruínas do Instituto Israelense de Pesquisas do Neguev

                   Deserto do Neguev, sul de Israel

                   9:46, domingo, 26 de dezembro de 1999

Recebendo o apoio de Bollinger, Feldman e Hunter haviam retornado ao deserto na manhã seguinte, para se encontrar com as testemunhas oculares. Fora do perímetro das ruínas do laboratório, não havia o que ver à luz do dia que não estivesse aparente antes. A maioria dos milenaristas já fora embora, mas os militares israelenses estavam mais entrincheirados e inarredáveis do que nunca. A imprensa rival também estava no local.

Os jornais matutinos não acrescentaram nada ao que Feldman e Hunter já sabiam. Sem que nada tivesse mudado, a posição oficial da Força de Defesa de Israel era de que um míssil hostil fora lançado em ataque e ninguém ainda havia assumido a responsabilidade.

— E o danado desse ministro da defesa, o Shaul Tamin, nunca dará uma coletiva de imprensa quando se trata de questões da segurança israelense — reclamou Hunter em voz alta para Feldman. Ao avistarem o carro dos cientistas japoneses chegando, o cinegrafista jogou o jornal no banco traseiro e pulou para fora do Land Rover, para encontrá-los. — Precisamos de algo mais do que uma matéria requentada para darmos continuidade à nossa reportagem. Vamos ver o que os nossos amiguinhos cientistas têm a nos dizer.

Acompanhados dos quatro astrônomos, os repórteres formaram rapidamente uma caravana e, antes que as outras equipes de notícias chegassem a eles, já estavam em pleno deserto, seguindo para o leste.

Em menos de quinze minutos, os japoneses identificaram a ravina onde diziam ter encontrado a sobrevivente. Conforme o relato deles, havia invólucros de gaze e ataduras jogados fora, mato pisoteado, marcas de pneus de carro e carroça, além de pegadas deixadas sobre a areia cascalhenta. Mas não havia sinal da sobrevivente nem dos beduínos.

Uma hora de buscas pelas redondezas resultou apenas em um encontro com alguns bandos de peregrinos e mais vinte quilos do que os astrônomos diziam ser fragmentos do meteorito.

— O casal que acolheu a sobrevivente provavelmente seguiu em direção à estrada principal, para Jerusalém — conjeturou Hunter; em seguida, avisou aos japoneses que estavam dando a busca por encerrada.

Ainda achando que suas provas não haviam convencido Feldman e Hunter, os cientistas se mostraram ansiosos.

— Agora vocês vão para TV e contam verdade? — insistiu o velho cientista novamente.

— Vocês ajudaram bastante — falou Feldman para todos. — Vamos considerar a questão com a máxima seriedade.

Os astrônomos apresentaram agradecimentos em profusão e partiram em busca de mais fragmentos.

Depois de se separarem do outro grupo, Hunter sugeriu para Feldman:

— Por que a gente não volta até as ruínas e monta a câmera no mesmo ponto para gravar o seguimento?

— Tudo bem — concordou Feldman —, só que eu não sei bem como é que vamos lidar com a história. Você não está acreditando nessa porcaria de meteorito, está?

— De jeito nenhum, mas acho que é um seguimento e tanto, um presente dos céus. Os fanáticos vão ficar embasbacados o dia inteiro com a notícia.

Feldman não estava convencido.

— Eu não estou me sentindo nem um pouquinho à vontade com isso, Breck. Isso é coisa do nível da National Inquirer. Se levantarmos essa de meteorito, só estaremos legitimando os cultos do Apocalipse. Vai ser como se estivéssemos tocando a trombeta de Gideão.

— Não vai ser como se estivéssemos criando a reportagem, Jon — argumentou Hunter. — Esses astrólogos não são milenaristas, cara, eles são profissionais. E testemunhas oculares, não basta? Bollinger já verificou. Só estamos relatando a opinião de especialistas!

— Astrônomos — corrigiu-o Feldman, embora tivesse achado o deslize interessante. — Sei lá, Breck, nós temos que ser responsáveis nisso.

Hunter balançou a cabeça.

— Tudo bem, olhe aqui. Vamos lá para fazer duas tomadas, inclusive uma versão do meteoro. E quando voltarmos mandaremos examinar essas amostras. Se os resultados baterem, daremos andamento à história. Ou deixamos a decisão na mão do Bollinger, pelo menos. É justo? Porra, e se baterem? Estaremos evitando uma guerra.

Feldman deu de ombros.

— Meu Deus, eu odeio a idéia de pegar a única notícia de peso que cobrimos em três meses e transformar a coisa em jornalismo de tablóide! — Ele se levantou do banco do Land Rover, se espreguiçou e olhou para a fumaça que ainda emanava das ruínas. — Eu quero saber o que estava acontecendo ali. Quero encontrar aquela sobrevivente.

 

               Base militar da FDI em Dyan, Jerusalém, Israel

               10:00, domingo, 26 de dezembro de 1999

Sozinho em seu gabinete privativo, o general Goene estava taciturnamente compenetrado, quando foi interrompido por uma batida à porta. Um assistente entrou para anunciar que a RMN estava transmitindo novos desdobramentos da história do Instituto do Neguev. Aos impropérios, Goene dispensou o assistente com um gesto irritado e pegou o controle remoto.

Materializou-se em seu televisor um jovem bem-apessoado e barbeado, de cabelos escuros. O rapaz estava diante do portão principal do arruinado complexo do Neguev, segurando um grande pedaço de rocha preta na mão, enquanto a fumaça subia em espessas espirais ao fundo.

— ...relatos consubstanciados por duas autoridades independentes, — dizia o repórter, enquanto, nos cantos da tela, eram exibidas as fotografias de um geólogo da Universidade de Tel Aviv e um cientista de traços orientais. — O suposto ataque ao centro de pesquisas israelense pode ter sido causado, na verdade, por um fenômeno natural, o impacto de um meteorito.

O general carregou o semblante quando a reportagem especial passou para as entrevistas gravadas com as duas autoridades, que documentaram seus testemunhos com mais espécimes grandes do minério enegrecido.

— Ao procurar pelos fragmentos do meteorito — continuou o repórter — a equipe de astrônomos também deparou com o que acredita ser a única sobrevivente do desastre: uma mulher jovem, pouco mais de vinte anos, de baixa estatura, constituição pequena, cabelos escuros, apresentando ferimentos generalizados e que, possivelmente, se encontrava em estado de choque. Ela foi vista pela última vez ontem de manhã, próximo ao local da explosão, sob os cuidados de um casal de beduínos.

Praguejando em voz alta, Goene estatelou o controle remoto sobre sua mesa e pegou o telefone num gesto decidido.

— Ligue-me com Lazzlo — gritou ao aparelho, com os olhos fixos na reportagem seguinte, mas sem vê-la.

Um minuto depois, a voz do comandante da inteligência, David Lazzlo, o cumprimentou ao telefone. Goene ignorou a saudação de Lazzlo.

— Suponho que você tenha assistido ao noticiário? — esbravejou o general. — Eles entraram nessa sua babaquice de meteoro e já estão falando em um sobrevivente. Uma mulher em estado de choque. Deus sabe que informações ela vai abrir! Em que pé estamos com a contagem dos corpos? Se houve uma sobrevivente, quero saber exatamente de quem se trata e quero que a encontrem. Agora, porra!

 

                       Agência de notícias da RMN, Jerusalém, Israel

                       9:17, segunda-feira, 27 de dezembro de 1999

— Vocês acertaram bem no nervo, meus amigos! — Bollinger cumprimentou Hunter e Feldman na reunião de pauta. — A FDI está quicando com a sua história do meteorito. E a sobrevivente? Estão negando tanto que só pode ser verdade!

Eles nunca tinham visto o chefe tão entusiasmado.

— Acabamos de receber um telegrama oficial do ministro da defesa, Shaul Tamin — vangloriou-se Bollinger — exigindo pessoalmente uma retratação imediata. Tamin está divulgando números oficiais do governo, mostrando que as probabilidades de um objeto celeste atingir suas instalações são de mais de seis bilhões contra uma. Está acenando com uma represália à Jordânia. E a Jordânia está acusando Israel de auto-sabotagem, como uma trama para tirar as conversações de paz de seu curso.

— Existe algum pronunciamento da inteligência norte-americana quanto à causa da explosão? — perguntou Cissy.

— Nada — retrucou Bollinger. — Até o momento, os aliados não conseguiram uma explicação melhor que a do meteorito. Ninguém assumiu a responsabilidade. Até o Hezbollah e o Hamas se dizem inocentes, dessa vez.

— Talvez vocês achem interessante saber — Feldman apresentou mais um pormenor — que eu recebi um fax do dr. Ornato e seus colegas, reclamando que a FDI está tentando anular os seus vistos.

— Vou ligar para os nossos contatos no parlamento israelense e ver o que posso fazer — ofereceu-se Bollinger, carrancudo. — Mas a novidade é que — e o chefe da agência retomou o entusiasmo — os níveis de audiência da RMN estão subindo. Nossos índices estão varando o teto e nós acabamos de receber mais verbas e pessoal para podermos expandir nossas investigações.

Embora gratificado pela virada nos acontecimentos, Feldman não podia negligenciar os efeitos globais que a história do meteorito estava tendo. As previsões de um Segundo Advento estavam recebendo cada vez mais atenção pelo mundo afora e, para muitos, um significativo impulso de credibilidade O fervor milenarista estava se intensificando.

Mas havia ainda outra mudança, mais sutil, ocorrendo na psique milenarista coletiva. As atitudes tradicionalmente despreocupadas de chegada do ano-novo haviam se transmutado numa percepção mais soturna. Subitamente, a promessa/maldição do novo milênio estava mais tangível. E agora, a cada noite que se passava em Jerusalém, havia mais e maiores manifestações públicas, que se prolongavam noite adentro em torno de crepitantes fogueiras, estimuladas por sermões igualmente fervorosos. Para os milenaristas, o Último Dia se aproximava rapidamente. E o mundo assistia.

 

               Igreja Nacional do Reino Universal, Dallas, Texas

               22:30, quarta-feira, 29 de dezembro de 1999

O reverendíssimo Solomon T. Brady, DD, homem robusto, porém de pequena estatura, rosto corado e perfeito topete branco, estava furioso com a RMN. Odiava a atenção sensacionalista que a mídia concentrava sobre os ridículos milenaristas, enquanto sua fé legítima precisava pagar milhares de dólares por minuto para ter direito ao seu horário de divulgação vital.

Mais precisamente, estava irritado com o chamamento crescente que os milenaristas estavam exercendo sobre o seu próprio rebanho. Brady reconhecia plenamente que seus seguidores evangelistas eram vulneráveis a esse tipo de apelo apocalíptico. Mas, embora sua própria mensagem pudesse se favorecer um pouco com os temores de um Segundo Advento, ele não era tão oportunista ou óbvio a ponto de explorar a questão simplesmente porque o milênio se avizinhava.

Nem tão sem visão. Embora esses milenaristas estivessem desfrutando agora de seu dia ao sol, a noite não tardaria a chegar. Os cordeiros perdidos do reverendo Brady, quando chegasse o ano-novo, logo retornariam ao rebanho, mais leais e dedicados que nunca. Finalmente compreenderiam o que ele havia insistentemente pregado o tempo todo: que o cataclismo ocorreria numa ocasião que nenhum mortal poderia prever. Conforme afirmara Cristo.

Entretanto, nesse meio tempo, o reverendíssimo tinha de suportar o período mais difícil de seu ministério. Sua congregação, que chegara, em tempos idos, a quase oitocentos mil, contraíra-se de maneira substancial  ultimamente. A notícia de hoje era ainda pior. O reverendo Brady já sabia disso quando afastou os olhos de sua ampla mesa de mogno e os pousou no chefe de contabilidade que, plantado diante dele, trocava seguidamente o pé de apoio de maneira irritante. O contador chegara ao escritório de Brady tão despercebidamente quanto um agente funerário, para relutantemente apresentar um relatório dos últimos números das contribuições ao Reino Universal.

O reverendo Brady passou logo às últimas páginas, descobrindo que os recebimentos haviam baixado mais sete por cento além do decréscimo de cinco pontos da semana anterior. Enraivecido, ele rejeitou o documento, jogando-o sobre a mesa num gesto que arremessou sobre o chão de mármore o cinzeiro que o Reino Universal mandara fazer para comemorar o ano de 1988 ao custo de vinte e nove dólares. Sem dizer nada, Brady se virou para a janela e fixou os olhos no alvoroço do campus lá embaixo.

 

                     Monte da Ascensão, Jerusalém, Israel

                     17:30, sexta-feira, 31 de dezembro de 1999

O Monte da Ascensão era a maior elevação de Jerusalém, com seu cume quatrocentos metros acima do nível da cidade. Também conhecido como Monte das Oliveiras, na sua base se encontrava o sagrado Jardim de Gethsemane, onde Cristo fez a última mediação antes de Sua detenção e Crucificação. Entre Gethsemane e o Portal Dourado da cidade ficava o profundo e estreito Vale do Cedron, um enorme cemitério judeu.

A tradição judaica sustentava que quando o Messias viesse para Jerusalém no Dia do Juízo Final, Ele passaria sobre o Monte da Ascensão das Oliveiras, reuniria os mortos enterrados no Vale do Cedron e adentraria à Cidade Velha de Jerusalém através do Portal Dourado. Em desafio a tais preceitos, entretanto, os árabes haviam lacrado o portal com pedras fazia muitos anos.

Era a tarde da virada do milênio. Hunter, Feldman, Cissy e toda uma equipe da RMN haviam montado seus equipamentos em um apartamento do segundo andar, próximo ao topo do monte. Tiveram sorte em conseguir tal sede, pois eram poucas as áreas residenciais e comerciais por ali. Naquela região de poucas benfeitorias, a maioria das edificações era de locais religiosos, espalhados entre os pinheiros de Alepo, as oliveiras e o cerrado ralo. Dentre elas, havia santuários sagrados, tumbas, igrejas, templos e várias ruínas, que remontavam à época do rei Davi, passando pelas Cruzadas e os Templários.

A RMN alugara um apartamento inteiro para a noite, pagando uma quantia exorbitante para arcar com o desalojamento temporário dos moradores. A vista da varanda do apartamento era totalmente desimpedida até o ponto culminante do morro, a imponente torre da Igreja da Ascensão, cerca de cinqüenta metros para a esquerda. Foi precisamente desta torre, acreditavam os cristãos, que Jesus fez Sua Ascensão em triunfo para o céu.

Logicamente, então, era para ali que quase todos os milenaristas previam o retorno de Cristo.

Do pátio na base da torre da Igreja da Ascensão, as multidões de milenaristas escorriam ladeira abaixo, bem defronte do apartamento da RMN, atravessavam o Vale do Cedron e percorriam todo o trecho até os antigos portais da cidade. A eles se juntavam muçulmanos em números consideráveis, sem que cristãos nem judeus detivessem o monopólio do significado terminal desse monte. O Islã também previa que o Dia do Juízo Final ocorreria neste local.

— Não é exatamente a Times Square, hein? — gracejou Hunter, enquanto testava a câmera na multidão.

— Não — respondeu Feldman — é mais como a Central do Apocalipse.

Mais cedo naquele dia, Feldman e companhia haviam se misturado aos peregrinos, enviando cenas imparciais de entrevistas com milenaristas via satélite para os ávidos telespectadores do mundo inteiro. Agora que a multidão se adensara demais para que se pudesse trabalhar com algum grau de conforto, Feldman resolveu que era hora de se retirarem para o apartamento, acima do tumulto, a fim de que se alojassem todos para o clímax do evento “decisivo”.

Mesmo antes do presente celestial que fora o desastre do laboratório do Neguev, a RMN vinha consistentemente preparando o seu público mundial, direcionando-o para este momento com habilidade. E para hoje à noite, os produtores executivos da RMN haviam elaborado um programa especial. Inteligentemente, a cobertura seria coordenada com as diferenças de fusos horários. Assim que a meia-noite tivesse decorrido sem eventualidades em Jerusalém, eles passariam para Roma, com a transmissão ao vivo dos eventos da véspera do milênio nesta cidade. Depois de não materializado o Juízo Final ali, a cobertura se voltaria para a cidade de Nova York e, em seguida, para Salt Lake City, onde os últimos bastiões dos milenaristas estariam de dedos cruzados. Capitalizando assim em cima das mudanças de fusos, a RMN garantiria um rodízio de público, em âmbito mundial e horário nobre.

Tudo isso mexera com as inseguranças de Feldman. A perspectiva de acolher o público televisivo potencialmente maior do mundo era intimidante. Tal honraria lhe fora conferida de surpresa ainda naquela manhã, quando o apresentador previsto, que chegara ontem num vôo de Nova York, caíra de cama com uma forte gripe. Honraria ou não, já que estava razoavelmente certo de que nada apocalíptico aconteceria hoje à noite, Feldman precisava encarar o fato de que estaria presidindo o maior espetáculo teatral de todos os tempos. Uma despedida dos infernos para o seu último dia oficial na RMN!

— Pior que o Geraldo Rivera com o cofre do Al Capone — sugeriu Hunter, insensivelmente.

Mas, conforme a RMN calculara, a grandeza da inevitável decepção seria, por si só, digna de uma reportagem. Não faltariam milenaristas nadando contra a maré, racionalizando, para manter o nível de interesse da história. Independente disso, Feldman poderia se contentar em saber que, pouco depois, partiria para Washington, D.C., e para uma vida inteiramente nova na cobertura do preeminente mundo do noticiário político norte-americano.

Fora do apartamento alugado pela RMN, a noite foi chegando. Da varanda, observando a encosta da colina e a antiga terra dos israelitas, Feldman se impressionou diante da rapidez com que esse território árido se suavizava à luz róseo-púrpura do crepúsculo. Se houvesse uma noite para uma experiência religiosa, seria esta. Mas não para a destruição do mundo. Mais para uma tranqüila visitinha divina.

Exceto pelo ajuntamento de algumas nuvens ao sudoeste, o céu estava limpo, estrelado e firme. Pacato, a não ser pelos cânticos e sermões dos milenaristas, que tentavam solidificar suas posições junto a Deus.

Feldman vestiu um suéter e voltou para a varanda com uma xícara de café puro. Lá dentro, os preparativos haviam sido concluídos, Hunter e Cissy estavam novamente fazendo troça um do outro, enquanto Bollinger conversava com a sede e os demais integrantes da equipe haviam descido para um intervalo de descanso. Bocejando e se espreguiçando, Feldman não estava bem certo se ouvira alguém chamar por ele.

Outro chamado. Viera de algum ponto lá embaixo. Debruçando-se sobre a grade da varanda, ele esquadrinhou a multidão, antes de dar uma segunda olhada para a atraente imagem de Anke Heuriskein, que estava olhando para cima.

— Será que estou perturbando a sua meditação final? — perguntou ela, gritando.

— Não saia daí, eu desço já — berrou Feldman de volta, e se foi, depositando a xícara em cima do peitoril com tanta pressa que derramou café sobre o turbante de um homem semidesdentado lá embaixo. A pobre vítima, vasculhando a varanda misteriosamente vazia acima de sua cabeça com seus olhos escuros e cheios de raiva, praguejou em profusão, numa acrimoniosa língua do Oriente Médio.

Feldman ficou deleitado com sua boa sorte. Embora tivesse ficado com o número de seu telefone na festa da embaixada, Anke não chegara a ligar.

Por isso, ele buscara avidamente o número dela tanto no catálogo municipal quanto no da Universidade de Tel Aviv, mas o esforço fora em vão. Afinal, com o auxílio de um professor amigo seu, conseguira o que procurava. Mas só lhe valera para ouvir a mensagem de uma secretária eletrônica.

Deixara três recados: pedindo que ela ligasse; convidando-a para jantar; convidando-a para encontrá-lo no fechamento televisivo do ano, posto que a véspera do milênio seria o seu último dia oficial junto à RMN e que estaria de partida para os Estados Unidos logo depois. Fizera o último convite dias atrás e não tivera notícias dela desde então. Contudo, acreditava sinceramente que causara uma boa primeira impressão. Ele sentira a química.

Seus pés não estavam, de forma alguma, tão leves quanto seu coração, pois ele deu de encontro com penetras que se alojavam nas escadarias do prédio e quase sofreu uma queda feia. Imperturbável, forçou passagem até chegar ao meio da praça, com medo de perdê-la no meio da multidão. Mas ali estava ela, esperando por ele, com um sorriso pleno nos atraentes lábios sensuais. Ele ultrapassou a última barreira de gente e trouxe-a, num gesto protetor, para perto de si. Abraçando-a carinhosamente, conduziu-a de volta a um local seguro, resguardando-a do tumulto da multidão.

Atravessando novamente pelo meio da turba de desocupados na escadaria do prédio e chegando finalmente ao santuário do escritório de notícias improvisado pela RMN, ele fechou a porta, isolando o barulho e a balbúrdia. Voltou-se então para ela, com os olhos brilhando de deleite e adrenalina.

— Não achei que você tivesse recebido os meus recados — disse, ainda extenuado pelo vigor despendido.

— E não recebi, até ontem — explicou Anke. — É que eu moro em Jerusalém, sabe? Passei a semana toda aqui.

Bom sinal, pensou Feldman. Ela não o estava ignorando.

— Que bom ver você, Anke! Você está maravilhosa.

Estava mesmo. Seus cabelos espessos estavam agora lisos, puxados de leve para trás e presos por um único grampo. Ela não estava usando maquiagem, nem precisava. Tinha uma pele do tipo que reluz naturalmente e parece ter um bronzeado natural.

Feldman ficou intrigado, pois a cada vez que a via ela parecia diferente e, contudo, tão maravilhosamente igual. Havia uma versatilidade em sua beleza que ultrapassava qualquer dimensão. Hoje à noite, apresentava-se um pouco informal, com um ar levemente infantil. Ao olhar seu rosto, ele percebeu uma doçura, quase inocência, que a colocou num âmbito muito mais familiar do que o breve tempo em que se conheciam lhe poderia permitir.

— Então você mora aqui em Jerusalém? — confirmou Feldman. ­— Onde?

— No lado norte, mas tenho um apartamento em Tel Aviv, para ficar quando estou em aulas.

Solução muito dispendiosa, conjeturou Feldman.

— Como foi que você me encontrou aqui nesta multidão?

— Quando recebi os seus recados — e ela riu ao dizê-lo, talvez por ter­ se divertido com os recados estranhos de Feldman — tentei falar com você no escritório e me disseram que estaria fora o dia inteiro. Eles fizeram a gentileza de me informar onde encontrá-lo por aqui.

Por trás do ombro de Feldman ouviu-se a voz maliciosa de Breck Hunter.

— Ora, Anke, quer dizer que você resolveu passar as últimas horas do planeta Terra aqui conosco?

Anke olhou para trás de Feldman e sorriu.

— Claro! Parece que vocês estão com o melhor lugar na platéia.

— Com direito a serviço, também — acrescentou Cissy McFarland com um enorme saco de papel nas mãos, sendo apresentada em seguida. Ela convidou a recém-chegada para um jantar de quentinha.

A caminho da sala de jantar, onde estavam os demais integrantes da equipe, Cissy diminuiu o passo, cutucou Feldman com o cotovelo e sussurrou-lhe ao ouvido:

— Ela é maravilhosa. Onde foi que você a encontrou?

Feldman deu de ombros, simples e despretensiosamente, com um sorriso maroto.

Enquanto lanchavam sanduíches de baguetes, e graças à curiosidade incontida de Hunter e Cissy, Feldman conseguiu preencher importantes lacunas acerca da nova conhecida.

— Mas fale-nos um pouco sobre você, Anke — sugeriu Cissy.

— Pois é — intrometeu-se Hunter, sorrindo— essa coisa padrão. Sabe, a idade, o peso, as medidas.

Cissy atacou o cinegrafista mal-educado com um olhar ferrenho.

— Vou dar uma resposta parcial. — Anke riu, aparentemente sem se ofender. — Vinte e sete.

— E você é casada, noiva ou tem algum tipo de compromisso? — insistiu Hunter.

— Pare com isso, Hunter — protestou Feldman.

— Nenhuma das opções acima — respondeu Anke, com um sorriso bem-humorado.

Cissy veio em seu socorro.

— De onde você é, Anke? Será que eu percebi mesmo um sotaque francês?

— De Paris — disse ela. — Minha mãe é francesa, meu pai é americano.

— E por que você veio parar em Israel? — Hunter se recusava a ser deixado de lado.

— Vim para cá em 1997, para pegar uma vaga de professora assistente na Universidade de Tel Aviv. Estou fazendo a minha pós-graduação.

Hunter lançou um olhar furtivo e ligeiro para Feldman.

— Vamos ver então, Anke — resumiu ele —, já percebemos que você tem boa aparência, personalidade, tutano... talvez dinheiro, também, hein? Mas o que: eu não consigo entender... — e gesticulou com a colher de café na mão em direção a Feldman —... é o que foi que você viu nesse repórter maluco, desnutrido e mal pago!

Bollinger e os demais caíram na gargalhada.

Num leve gesto de anuência com a cabeça, pressionando os lábios para conter um sorriso, Anke olhou para o homem pouco à vontade que se encontrava ao seu lado.

— Ora — disse ela, provocativamente —eu diria que ele promete, como repórter, se ao menos conseguir demonstrar um pouco mais de consciência social. — E fez uma breve pausa diante do olhar de objeção no rosto dele. — Mas, sério mesmo — e seus olhos se fixaram nos dele — houve aquele relato maravilhoso que ele fez acerca do meteorito que teria destruído o Instituto do Neguev. Ora, aquilo foi jornalismo digno. Quem sabe, sr. Feldman — continuou ela, exibindo-lhe um sorriso de admiração — talvez tenha até evitado uma guerra.

O momento escolhido e a sinceridade do elogio pegaram Feldman totalmente desprevenido. Ele sentiu as bochechas esquentarem.

— Tudo bem — interveio Cissy mais uma vez — acho que a nossa convidada já suportou o bastante das nossas aguçadas técnicas de entrevistas para uma tarde. — Ela se dirigiu a Anke, em tom de desculpas: ­ — Você vai ter que perdoar as gracinhas retardadas do Hunter. Sabe, é que ele passou os anos básicos de sua formação na solitária de um asilo para filhos de mães solteiras e simplesmente não tem pontos de referência melhores.

Anke riu.

— Agora estou entendendo por que o sr. Hunter opera atrás das câmeras em vez de diante delas.

O comentário detonou uma série de chacotas proferidas contra Hunter, que aceitou sua rodada na berlinda com um amplo sorriso no rosto.

Encerrada a refeição, Bollinger fez uma última pergunta para Anke. Quis saber se ela tinha alguma preocupação excessiva com relação à possibilidade do mundo se acabar nas próximas três horas e trinta e cinco minutos. Ela disse que não.

Lá fora, sobre a colina, entretanto, a questão era completamente diferente. O barulho estava aumentando, o que atraiu Feldman e seus associados para a varanda, onde ficaram observando o andamento de atividades cada vez mais estranhas.

As tensões crescentes e o espaço reduzido aparentemente haviam levado diversos cultos incompatíveis a uma deflagrada oposição. Em alguns casos, o que começara como civilizadas discórdias em termos de teologia havia se degenerado em discussões aos berros e até trocas de socos, jogando fanático contra fanático, na disputa de quem estava certo.

— Ali, eu acho que Deus gosta do estilo daquele cara! — Feldman apontou, de brincadeira, para um círculo aberto por uma briga, onde um defensor da fé correu até outro e espatifou-lhe uma cadeira dobrável de jardim sobre a cabeça.

— É isso aí, quebrar a cabeça em nome de Cristo — zombou Hunter, e Anke lançou um olhar de desaprovação na direção dos dois repórteres.

— Ei, aqui! — gritou Hunter. — Onde está o binóculo?

A direita deles, um pequeno grupo de pessoas havia tirado as roupas e homens e mulheres se envolviam numa dança saltitante diante de uma fogueira ao som de uma flauta de Pã mal tocada.

— É mesmo — disse Hunter, fazendo uma grosseira imitação da fala de W.C. Fields — nus diante de Deus!

A polícia israelense estava ocupada, tentando retirar os criadores de caso dali discretamente, sem piorar a situação. Decerto, mais de um milenarista conheceria as agruras da cadeia hoje à noite!

Quando o aroma adocicado de maconha chegou à varanda, Bollinger bateu palmas e anunciou:

— OK, turma, vamos filmar um pouco disso aí.

A equipe, que estivera desocupadamente embevecida com tudo aquilo, entrou de estalo no movimento de busca e preparação de seus equipamentos, enquanto Hunter, bastante adiantado em relação aos demais, já estava colocando uma teleobjetiva em sua câmera, para fazer uma tomada em close dos nudistas.

Feldman esquadrinhou o grupo turbulento sentindo-se um pouco melhor acerca do potencial das notícias da noite.

— Sabe, Anke, acho que esta festa de Ano-Novo vai ser bastante diferente do que já vimos até hoje!

Ela baixou a vista na direção da multidão com um sorriso retorcido e balançou a cabeça, incrédula.

 

                         Monte da Ascensão, Jerusalém, Israel

                         22:00, sexta-feira, 31 de dezembro de 1999

Exatamente às dez da noite, horário de Jerusalém, ao vivo da cidade de Nova York, a RMN Internacional deu início ao seu segmento de notícias mundiais Millenium III. Enquanto Hunter se posicionava e aprontava a equipe de filmagens para receber a deixa para entrar ao vivo, Anke e Feldman encaminharam-se até um dos vários monitores de TV colocados perto da passagem para a varanda.

A equipe de notícias da RMN Internacional em Nova York abriu com uma nota geral sobre a atual saga milenarista, ilustrando a abrangência global do fenômeno com uma seleção de clipes documentários. Em seguida, passaram a um relato histórico.

Às dez e trinta da noite, horário de Jerusalém, o noticiário passou a abordar o crescimento dos movimentos neomilenaristas nos Estados Unidos e no exterior, desde o início da década de 1990 até o presente. Feldman observou com interesse um relato sobre um dos credos milenaristas de existência mais prolongada, a Sociedade da Torre de Vigília da Bíblia e do Trato.

Também se autodenominando Testemunhas de Jeová e sendo conhecidos por suas pregações fervorosas de porta em porta, estes milenaristas em particular davam a impressão de ter muita coisa em jogo hoje à noite. O dogma mais crucial de sua fé girava em torno da previsão de um Segundo Advento. A profecia se baseava em complexos cálculos bíblicos derivados na década de 1870, pelo fundador Charles Taze Russell. De acordo com uma passagem especial no Evangelho de Mateus, fora previsto e declarado que a geração de Testemunhas de Jeová viva no ano de 1914 não "pereceria" antes de ocorrido o Dia do Juízo Final.

Estando o mais jovem dessa geração com oitenta e tantos anos, o milênio se tornara um evento do tipo tudo-ou-nada para justificar a sua fé e a sua própria existência. De fato, seu atual líder espiritual e chefe do conselho diretor, Joshua Milbourne, que nascera em 1914, encontrava-se com a saúde debilitada por um sério comprometimento cardíaco. De uma forma ou de outra, para mais de seis milhões de adeptos da religião, o fim estava próximo.

A reportagem da RMN incluiu uma entrevista ao pé do leito de Joshua Milbourne, que assistia à transmissão em seu quarto privativo de hospital.

No decurso da entrevista, Milbourne mencionou que contava com diversos delegados das Testemunhas presentes no Monte da Ascensão. Estavam lá, em seu nome, para assegurar que ele próprio fosse um dos "144 mil designados pela Bíblia", os poucos escolhidos que governariam o céu como "reis e príncipes" na nova nação de Deus na Terra.

Bollinger enviou imediatamente dois de sua equipe à procura dos delegados de Milbourne.

A entrevista com Joshua Milbourne foi especialmente digna de nota porque a idosa Testemunha era um dos poucos líderes da igreja a proclamar oficialmente que o Dia do Juízo Final começaria à zero hora desta noite em Jerusalém. A RMN manteve um repórter ao lado de seu leito hospitalar, a fim de fazer um corte de volta ao sr. Milbourne para poder dar um prosseguimento do tipo "admitimos o erro".

O tempo passou ligeiro e Bollinger logo fez sinal para Feldman assumir sua posição na varanda e se preparar para entrar ao vivo. Uma luz vermelha começou a piscar e foi dada ordem de silêncio.

Feldman se preparou para uma presença marcante diante da câmera do lado de fora, à brisa noturna da Cidade Santa, tendo ao fundo o céu escuro e as fogueiras e círios de uma multidão irrequieta. Seu rosto esbelto, quase infantil, estava levemente tomado de emoção; sua aparência informalmente masculina, de camisa social aberta com um cardigã escuro. Durante o primeiro segmento ele fez comentários breves, apresentando o panorama estranho que se descortinava diante dele, enquanto a câmera se afastava para enquadrar o tumulto e a tensão nervosa das massas esfuziantes.

Logo estava encerrado o tempo de Feldman e o sinal ao vivo foi passado de volta à RMN Internacional, para uma tomada comparativa de Roma, Nova York e Salt Lake City. Quando se apagou a luz vermelha que indicava transmissão ao vivo, a equipe relaxou e Feldman saiu da varanda, sendo saudado com uma rodada de elogios.

A brisa estava aumentando um pouco e as nuvens, que Feldman avistara ao sul mais cedo, haviam se reunido, formando uma borrasca. A distância era grande demais para afetar a teletransmissão aqui, mas talvez produzisse vento suficiente para acrescentar uma pitada dramática.

Segundo sugestão de Feldman, Hunter começaria o segmento final com uma tomada fixa da tempestade em zoom. Surgiam relâmpagos ao fundo e Feldman poderia fazer um uso interessante da metáfora. Quando o relógio bateu 23:45, Feldman tornou a assumir sua posição na varanda, Bollinger sinalizou para que a câmera enquadrasse a borrasca e Feldman deu um rápido sorriso para Anke, que o retribuiu.

— Há uma tempestade se formando agora à noite sobre esta antiga Terra Santa — começou Feldman, à medida que a câmera deixava ao fundo as nuvens cerradas e enquadrava o jovem repórter. — Conforme todos testemunharam durante os últimos meses, vem ocorrendo um grande movimento espiritual em todo o globo, à espera da chegada do novo milênio, daqui a poucos minutos. Segundo as estimativas, há dois milhões de pessoas reunidas nesta região que acreditam firmemente que, em menos de quinze minutos, estaremos vivenciando um clímax final, ou talvez um novo início, para este mundo que conhecemos.

A câmera se afastou, desviando-se para a direita e incluindo a imagem de uma desmazelada mulher de meia-idade.

— Dentre essas pessoas, encontra-se Allissa Bateman, de Trenton, Nova Jersey. A sra. Bateman faz parte de uma seita religiosa cujos membros acreditam estar em comunhão com o arcanjo Gabriel, o precursor espiritual que servirá de arauto do Juízo, fazendo soar sua trombeta dourada à meia-noite.

Bollinger passou para o ângulo de outra câmera, a fim de melhor emoldurar a pequena mulher ao lado do alto Feldman. A tempestade que se formava ficou muito bem, despontando ao fundo por cima da mulher, propiciando um toque dramático perfeito.

— Sra. Bateman, depois de ter viajado milhares de quilômetros só para estar aqui hoje à noite, poderia dizer aos nossos telespectadores que tipo de atividade exercia e por que está aqui?

— Claro. Eu tenho quarenta e três anos, sou casada, tenho dois filhos, Bill e Tommy, e o meu marido, Frank, teve que ficar em casa com as crianças, por causa do emprego dele, é claro. — A sra. Bateman tagarelou um pouco sobre o seu próprio mensageiro espiritual durante mais alguns instantes e Feldman fechou rapidamente a entrevista, para preservar o impacto.

Cortando entre um entrevistado e outro, Bollinger passou para as câmeras que inspecionavam as massas nas ruas, que estavam ficando realmente emocionadas agora, com a aproximação do momento final. O vento mais forte gerara calafrios. A maioria estava de joelhos, rezando, chorando, cantando, desmaiando. As brigas e o antagonismo haviam cessado.

Bollinger verificou a hora, ainda faltavam doze minutos. Deu a deixa para o próximo entrevistado, um rapaz alto e esquálido, de cabelos raspados, vestindo uma túnica preta. Parecia um monge, exceto pelos crucifixos pendurados de cabeça para baixo nos lóbulos das orelhas e pelas pálpebras tatuadas para dar a impressão de que ele estava de olhos abertos. Muito Sodoma e Gomorra, pensou Feldman. Seria difícil agir corretamente com esse sujeito, mas o público iria adorar.

— E estamos aqui com o sr. Astarte. Estou pronunciando o seu nome corretamente?

— É Astarte, só — respondeu o homem solenemente. — Eu sou, sim, do Segundo Reino.

— E o que o Segundo Reino prevê para hoje à noite aqui, sr. Astarte?

— Só Astarte — insistiu ele. — Estamos aqui para a mudança do reino, uma nova era em que ocorrerá o ciclo natural e o senhor Lúcifer subirá ao Seu trono e governará durante os próximos dois mil anos.

— E essa transição será pacífica — quis saber Feldman — ou estaremos confrontando Armagedon aqui?

— Ainda não sabemos — informou Astarte ao mundo. — Precisamos estar preparados para resistências, mas o senhor Lúcifer vem a este reino por direito divino, e nada poderá evitá-lo. Se tivermos que lutar para salvaguardar sua passagem, que assim seja!

Junto com isso, houve uma forte trovoada à distância e Feldman tirou bom proveito do fato.

— Exatamente quando e onde ocorrerá essa transformação, sr. Astarte?

O "sr.” foi deliberado e Astarte pareceu aborrecido. Ele respondeu com paciência.

— Ocorrerá à meia-noite, é claro, e os sinais, como se pode ver — ele indicou a tormenta com um gesto da cabeça — já se fazem presentes sobre nós. Ainda não sabemos a maneira como a transição se dará.

— Muito bem, nós agradecemos a sua colaboração e vamos deixar que o senhor retorne ao seu grupo a tempo de pegar a transição. — Astarte fechou as pálpebras para a câmera, fez uma reverência afetada e partiu. Não havia dúvida, pensou Feldman consigo mesmo, este último entrevistado manteria os cristãos sentados diante de seus televisores o tempo suficiente para terem certeza de que o bem havia triunfado sobre o mal.

Mais cenas da multidão.

— E estamos chegando aos cinco minutos finais antes da virada do milênio — anunciou Feldman. O vento aumentara somente mais um pouquinho e, infelizmente, percebeu Feldman, a borrasca parecia isolada e ainda distante demais para trazer labaredas e enxofre de verdade para o melodrama.

A voz sussurrada de Bollinger chegou a Feldman por seu fone de ouvido.

— Jon, estamos com um daqueles delegados das Testemunhas a postos. Ele viu nossa transmissão em um televisor portátil e conseguiu chegar até aqui. Vamos colocá-lo em cena; prepare-se.

Atrás das luzes das câmeras, Feldman pôde distinguir um homem baixo, de cabelos revoltos, que estava sendo conduzido em sua direção. Sem perder o ritmo, Feldman logo anunciou que a RMN conseguira localizar uma das Testemunhas de Jeová anteriormente mencionadas, e o delegado foi encaminhado até a varanda.

— O seu nome, senhor? — indagou Feldman.

A Testemunha, um homem baixinho, barbudo e de olhar sério, que fez Feldman pensar numa miniatura de Rasputin, ergueu os olhos, estreitando­-os na direção do repórter, e disse numa voz surpreendentemente profunda:

— Eu sou John Jacob Maloney, da diretoria da Sociedade da Torre de Vigília da Bíblia e do Trato e delegado oficial para o Segundo Advento de Cristo.

— Sr. Maloney, fui informado de que está aqui em nome de Joshua Milbourne, representando as Testemunhas de Jeová. Poderia dizer aos nossos telespectadores exatamente o que acredita que estará testemunhando aqui hoje à noite?

Maloney deu um passo decidido em direção à câmera e fitou as lentes com a expressão fervorosa de um fanático de carteirinha.

— É chegada a hora; escutai-me aqueles de vós que tendes pouca fé. O Juízo de Deus se faz presente e é tarde demais para vos salvardes. Não quisestes escutar, não quisestes vos arrepender, não quisestes preparar o caminho do Senhor. E agora a Mão de Deus recai sobre vós. Este é o Último Dia. — Ele esbugalhou os olhos e agitou as mãos freneticamente acima da cabeça. — É a Abominação da Desolação e vós sereis castigados e marcados e amaldiçoados para sempre nos confins do inferno. Louvado seja o Nome do Senhor! Louvado seja o Paracleto de Kaborkah! Ó Senhor, em Vosso glorioso Nome...

Maloney discursava de forma tão frenética que, sem querer, expectorou na lente da câmera, o que forçou a equipe de produção a cortar para uma tomada à parte. A imagem dele falando com uma máquina inanimada tirou muito do tempero de seus comentários e conferiu a todo o encontro uma perspectiva lúdica.

Retomando o controle, Feldman colocou a mão firme e tranqüila sobre o ombro do profeta do apocalipse, enquanto o homenzinho, desnorteado, procurava em torno de si uma câmera funcionando.

— Obrigado, sr. Maloney! Posso ter a certeza de que contarei com os seus comentários mais tarde?

Maloney foi conduzido para fora da varanda e acompanhado até deixar o apartamento, ainda reclamando e discursando. A equipe de produção mal conseguia se conter. Era exatamente a euforia que a sede em Nova York queria exibir.

Feldman tomou a assumir sua posição no centro da varanda e iniciou a contagem regressiva de sessenta segundos para o novo milênio. Enquanto as câmeras e holofotes enquadravam a desassossegada cena, Feldman considerava o toque de doçura que seria acrescentado se tocassem Auld Lang Syne nos alto-falantes. Certamente seria bom perdoar e ser um pouco perdoado nesta noite. Mas ele sabia que o humor se perderia nesta reunião soturna.

A multidão entrou na contagem regressiva. E Feldman subitamente se deu conta de que, faltando menos de vinte e cinco segundos para a meia-­noite e estando todas as câmeras e equipes ocupadas com o público, ele agora tinha a oportunidade perfeita para roubar um beijo de Anke. Na virada do novo milênio, uma indelével ocasião romântica!

Quando os relógios batessem meia-noite, com as câmeras a explorar as reações das massas, seria a sua vez de pegá-la desprevenida, para variar! Feldman soltou o microfone da lapela e começou a se encaminhar para perto dela. Anke estava desatenta à presença dele, seus olhos cravados no mundo lá fora, vasculhando tudo com curiosidade.

Era o momento sagrado. Como se recebesse uma deixa, o vento esmoreceu. Pela primeira vez desde que se reunira, a multidão de irrepreensíveis milenaristas conteve o fôlego. O mundo conteve o fôlego. E em toda a Judéia houve um silêncio profundo e solene, culminando na batida da meia-noite com o forte clamor dos trovões distantes. Simultaneamente, repicaram os sinos da Igreja da Ascensão, junto com uma dúzia de contrapartes espalhados pela Cidade Santa, anunciando a chegada do século XXI.

Feldman talvez fosse a única pessoa presente cuja mente estava em outras coisas. Era o seu momento pessoal e sagrado. Quando se aproximou de Anke, ele apreciou quão verdadeiramente bela era ela. Tão viva! Tão insuspeita! Deve ter sido a emoção do momento, mas Feldman estava se sentindo leve. Estranho. Ele estava perdendo o equilíbrio. Assim como Anke e toda a equipe de produção ao seu redor. Todo o apartamento começou a sofrer um abalo e a estremecer violentamente.

Câmeras e luzes apoiadas sobre tripés começaram a saltar, a rodopiar, a desabar. A eletricidade foi cortada e houve uma ímpia explosão de gritos e pânico entre as massas espalhadas pela colina. Num retorno horrível à realidade, uma revelação de medo apossou-se de Feldman de uma forma que ele jamais sentira.

 

                             Subdivisão de Brookforest, Racine, Wisconsin

                             16:00, sexta-feira, 31 de dezembro de 1999

A meio mundo de distância dali, na tranqüila comunidade-dormitório de Brookforest, ainda era véspera do milênio, final da tarde, no fuso horário local.

Nevava um pouco, o que aumentaria a camada de vários centímetros acumulados que já recobriam a pitoresca área residencial de classe média. A iluminação das ruas e a de várias creches e colônias de férias já estava antecipadamente ligada, devido ao céu encoberto, às densas copas das árvores e ao crepúsculo precoce da estação.

Subitamente, a serenidade do inverno foi abalada pelo coro de gritos que irrompiam das casas de todo o bairro. Pela porta da frente de uma delas, uma mulher de meia-idade saiu correndo aos berros, apavorada, seguida de perto por seu cachorro, que uivava aterrorizado.

Michelle Martin cometera o erro de mudar do seu costumeiro programa vespertino de Oprah Winfrey para o espetáculo amplamente anunciado da RMN, Vigília da véspera do milênio. E agora, em lugar da festiva celebração do Ano-Novo que esperava, a tranqüila mãe de dois filhos, aos quarenta e sete anos de idade, acabara de ser assolada por seu medo maior.

A sra. Martin se esqueceu tanto dos chinelos quanto da neve, enquanto corria desabalada até o final da rua, para se encontrar com seus vizinhos igualmente atordoados.

— Que Deus nos ajude a todos! — disse aos prantos uma jovem mãe, estreitando seu filho em idade pré-escolar contra o peito.

— É o Anjo da Morte! — gritou o sr. Krazinski, um idoso aposentado. — É a última praga do Egito!

— É isso! — outro morador à beira da histeria fez a conexão. — Igual ao filme Os Dez Mandamentos! O Anjo da Morte está varrendo a Terra, executando o Juízo Final à meia-noite. Só temos oito horas até que ele nos atinja!

Michelle Martin empalideceu mais que a neve e caiu no chão.

Chorando e rangendo os dentes, vinte e poucas pessoas formaram um círculo de preces bem ali no meio da rua, ajoelhadas sobre a neve, a lama, o sal e as cinzas, implorando a misericórdia de seu Deus.

 

                               Monte da Ascensão, Jerusalém, Israel

                               00:02, sábado, 1º. de janeiro de 2000

Feldman estava absolutamente desorientado. Precisara de toda a sua concentração para se esticar até Anke e segurá-la, enquanto caíam no chão do apartamento. Ele a acolhera nos braços, deixando-a cair por cima e pressionando o rosto fortemente contra o dela.

Em seguida, tão inopinada e violentamente quanto haviam surgido, os tremores cessaram.

A terra estava calma outra vez. No salão escuro, mais alto que os gritos da multidão, ninguém se manifestou. Feldman, em chamados urgentes e resfolegantes, perguntou diversas vezes se Anke estava bem. Ela não respondeu, mas ele pôde sentir sua respiração acelerada e ela apertou-lhe os braços, que ainda a seguravam com força. Feldman receou afrouxar o abraço para que Anke não percebesse que ele estava tremendo.

— Estão todos bem? — Foi a voz de Bollinger, soando incerta.

Todos da equipe foram se apresentando, um por um. Pelas vozes, Feldman pôde concluir que muitos ainda estavam na varanda.

— É melhor vocês entrarem — advertiu. — Pode não haver segurança aí. — Num valente esforço para se acalmar, ele se sentou, ainda segurando Anke contra o colo, e começou a afagar-lhe os cabelos.

— O que aconteceu? — falou ela, finalmente, a voz apequenada e ansiosa.

— Terremoto — declarou Hunter. — Perdemos a eletricidade, mas estamos bem agora.

— Terremoto o cacete! — Era um dos integrantes da equipe que estava perto da varanda. — É melhor que todo cristão digno de sua alma tenha temor a Deus agora! — Diversas vozes concordaram e alguém começou a rezar o pai-nosso, com várias outras se agregando imediatamente à prece.

Outra pessoa acendeu um isqueiro, mas Hunter advertiu quanto a vazamentos de gás e a chama se apagou imediatamente. Instantes depois acharam uma lanterna, que ajudou a encontrar um holofote de lâmpada halógena à bateria. O salão empoeirado voltou a ficar iluminado por uma fantasmagórica luz azul.

Feldman enxergou dois integrantes da equipe perto da varanda, outra perto da janela e os demais espalhados pela sala. Bollinger estava debaixo de uma mesa, Hunter e Cissy estavam agachados, juntos, a um canto.

O barulho de sirenes e veículos de atendimento emergencial começara a chegar de fora, misturados à balbúrdia da multidão. Inconsoláveis gritos histéricos, choros angustiados e preces temerosas se uniram a coros triunfais de hinos e salmos em meio à gritaria revigorada dos profetas do Apocalipse.

— O que está acontecendo lá fora? — perguntou Bollinger aos membros da equipe que se encontravam na varanda.

Um deles parou de rezar e respondeu:

— Não dá pra ver muita coisa. Está tudo apagado. Tem muita gente se movimentando, muita agitação! Mas são poucos os prédios que estão pegando fogo, pelo que eu posso ver daqui.

Os cabelos de Anke haviam se desprendido do grampo e Feldman retirou várias mechas compridas e macias do rosto dela. Ela olhou para ele preocupada, sua expressão conturbada, os lábios firmemente apertados, ainda mantendo o braço dele num forte aperto.

Uma por uma, as orações dentro da sala foram cessando, e algumas pessoas começaram a achar que já era seguro se levantar. O apartamento estava em desordem total, mas Feldman percebeu que, embora houvesse rachaduras pelas paredes e teto, nenhuma tinha o aspecto demasiadamente sério. Ele ajudou Anke a se pôr de pé e, apoiando-a de lado, foram juntos até a varanda, para dar uma olhada lá fora.

Pelo menos na escuridão, os danos pareciam limitados.

— Talvez tenha sido só um aviso — foi o comentário esperançoso do cristão renascido da equipe, com a voz ainda trêmula. — Talvez por hora não haja mais nada.

— É por demais incrível! — gaguejou Bollinger.

— No mínimo, absolutamente! — subscreveu Cissy. Ela recostou a cabeça contra o peito de Hunter, fechando os olhos. Estivera chorando. Ao observá-la, Feldman levantou a vista e deu com o olhar pensativo e inabalável de Hunter. Eles trocaram olhares inquisitivos, até que Hunter deu de ombros, balançou a cabeça em sinal negativo e afastou os olhos, pousando-­os na varanda outra vez.

Um membro da equipe anunciou que os telefones estavam mudos. Os celulares ainda estavam funcionando, embora o alcance parecesse limitado à vizinhança mais próxima.

— Meu Deus! Aposto que o mundo inteiro está pirando agora — disse Bollinger. Ele estava começando a recobrar seus instintos jornalísticos. ­ Será que alguma das redes daqui já está de volta ao ar? — Ele apontou para um engenheiro: — Jimmy, vamos ver se conseguimos força para conexão com o satélite e vamos tentar conseguir alguma novidade fora daqui. Joe, onde é que você está? — A voz instável de Joe pôde ser ouvida de dentro do prisma da escada. — Joe, suba até o telhado e verifique a antena. Alguém veja se a Rádio Israel está no ar e se eles têm alguma notícia disso aqui.

— A Rádio Israel está muda — a resposta veio em breve.

— A antena está funcionando — avisou Joe de cima do telhado alguns minutos depois.

Quer por brilhantismo administrativo ou instinto rotineiro, as ordens firmes de Bollinger foram surtindo efeito. Todos, inclusive Anke, ajudaram a restaurar as operações. Recompondo-se com baterias e cabos, a equipe da RMN foi, mais uma vez, a primeira a apresentar uma reportagem. A transmissão carecia de imagem, e a qualidade de áudio estava precária, mas, impressionantemente, estavam de volta ao ar para a agência européia da RMN aos 00:42.

E se integraram a um mundo em alvoroço.

Hunter conseguiu fazer funcionar um monitor de TV via satélite e, com a equipe reunida em torno dele, uma imagem truncada e um áudio distorcido narraram a história. Durante quarenta e um minutos e quarenta e oito segundos, tudo que o mundo fora de Jerusalém sabia era que, na hora marcada do novo milênio, alguma calamidade sobrenatural acometera a Terra Santa. Exatamente como fora previsto havia tanto tempo, por tanta gente! Quarenta e um minutos e quarenta e oito segundos foi tempo suficiente para fomentar histeria em massa, suicídios, ataques cardíacos e insanidades variadas em escala global.

Por todo canto, catedrais, igrejas, sinagogas e templos foram assolados por hordas em debandada, buscando refúgio da ira de Deus. Muitos foram pisoteados, morrendo esmagados. Violência aleatória, saques e tumultos foram deflagrados, espontânea e imprevisivelmente, nas principais cidades do mundo.

Na Times Square, em Nova York, as turbas de foliões entraram em pânico nas ruas quando viram Jerusalém tremer, gritar e se apagar na escuridão total do enorme telão Jumbotron erguido no alto da praça. Na investida violenta que se seguiu dentro do metrô, centenas de desafortunados foram empurrados das plataformas congestionadas, indo cair sobre os trilhos eletrificados ou diante dos trens que chegavam. (Mais tarde, nessa mesma noite, inexplicavelmente, o globo iluminado no topo do Número Um da Times Square apagaria todas as luzes e se recusaria a descer para o Ano­ Novo.)

Feldman, de olhos fixos nessas incômodas cenas do caos, fez um esforço heróico para devolver o mundo à razão. Suprimindo as emoções que insistiam em borbotar, com a voz calma e serena, ele enviou pelos ares escuros dos céus a sua mensagem de reconforto desesperadamente aguardada por todos. Azafamados engenheiros na agência européia da RMN remendaram o áudio com imagens de arquivo da Cidade Santa, levando a reportagem às pressas para um mundo desenfreado.

 

                     Monte da Ascensão, Jerusalém, Israel

                     2:27, sábado, 1º. de janeiro de 2000

Feldman e equipe mantiveram suas transmissões até que as baterias se esgotaram, aproximadamente às duas e meia da madrugada, horário local. Dois dos homens de Bollinger haviam conseguido fazer limitadas expedições de sondagem pela cidade. Confirmaram, através do telefone celular, que os danos eram grandes em muitas áreas. Entretanto, dada a aparente magnitude do abalo, as baixas eram relativamente leves. Tudo isso havia sido devidamente transmitido para a agência européia.

Depois que tinham feito tudo o que podiam, depois que todos os equipamentos haviam sido arrumados e guardados nos furgões, Bollinger reuniu a exausta equipe e pediu sua atenção. Olhando para os rostos cansados, o diretor de notícias balançou a cabeça, reflexivo, sem conseguir acreditar.

— Pessoal, não posso ficar aqui e fingir que compreendo mais do que vocês o que aconteceu hoje à noite. Talvez amanhã, à luz do dia, tudo isso venha a fazer mais sentido. Depois de vinte e seis anos neste ramo, acho que não sou especificamente um tipo de pessoa religiosa, mas devo confessar que isso tudo me deixou profundamente assombrado também. De uma coisa eu sei: vocês foram extremamente profissionais e calmos o tempo todo e estou tremendamente agradecido a todos.

Ele olhou para Feldman que, exausto, estava escarrapachado na extremidade de um sofá com Anke.

— E não sei onde você encontrou essa moça impressionante, Jon, mas ela se integrou perfeitamente à trupe e todos lhe somos gratos, Anke.

Houve murmúrios simultâneos de agradecimento, ao que Anke respondeu com um leve sorriso.

— Mais umas coisinhas antes de levantarmos acampamento — concluiu Bollinger. — Estou certo de que pelo menos algumas de nossas transmissões foram recebidas com êxito. De qualquer forma, não há dúvida de que a sede está, neste exato instante, acrescentando material de apoio oriundo do Cairo. Enquanto estamos sem linhas telefônicas e eletricidade, é bom ficarmos perto de nossos celulares, mas usá-los com parcimônia, para não desperdiçarmos as baterias. Se as equipes de conserto restabelecerem os elos de comunicação externa, passarei pra vocês o que está acontecendo no resto do mundo. Caso contrário, vamos deixar marcada uma reunião de pauta no escritório às oito da manhã em ponto. E, Jon — Bollinger chamou Feldman para um canto — já que parece que a sua ida para os Estados Unidos pode ser um pouco adiada, talvez você considere a possibilidade de ficar mais alguns dias conosco, a fim de nos ajudar a encaminhar e resolver todos os desdobramentos.

— Tudo bem — concordou Feldman, gentilmente. — Eu não começo até a quinta-feira que vem mesmo! — Além disso, ele aproveitaria muito bem uma desculpa como aquela, que lhe conferia uma extensão de prazo junto à sua nova amiga.

Hunter estava na fila para falar com Feldman.

— Quer dizer que você vai ficar conosco um pouco mais, hein? Ótimo! Vamos precisar de você até que toda essa poeira tenha baixado.

— Só mais uns dias — confirmou Feldman.

Hunter assentiu.

— Vá na frente e leve o Rover para deixar Anke em casa, eu vou com Cissy no carro dela. E, ahn, talvez eu me atrase para a reunião de amanhã.

Feldman achou que havia entendido e anuiu. Já vinha percebendo, fazia algum tempo, a relação de proximidade entre Hunter e Cissy. E adorava a forma como os dois implicavam um com o outro impiedosamente com uma afeição subjacente. Entretanto, havia algo mais além do olhar introspectivo e intencional no rosto do cinegrafista. E isso não tinha nada a ver com Cissy.

Feldman levou mais de uma hora para cobrir os dois quilômetros e meio até a casa de Anke, escolhendo cuidadosamente o caminho morro abaixo por entre as hordas de pessoas e montoeiras de detritos espalhados pelas ruas.

Feldman não parava de se impressionar com aquela mulher notável. Ela se recuperara logo do alarme inicial e trabalhara incansavelmente junto ao resto da equipe no que lhe fora solicitado, a fim de conseguir levá-los de volta ao ar. Agora estava sentada, quieta, eventualmente interrompendo seus pensamentos íntimos para esboçar um rápido sorriso e indicar o caminho a seguir.

Felizmente, os estragos pareciam pequenos na zona norte da cidade. Quando chegaram diante do moderno conjunto branco onde ela morava, ele parecia intacto.

Anke virou-se para Feldman, ainda em seu assento, e colocou a mão sobre a dele.

— Jon, por favor, não entenda mal o que vou dizer...

Pronto! Ele sentiu o estômago dando um nó ao olhar para aquele rosto precioso. Parecia a introdução de uma despedida permanente. Não era comum ele estar do lado que era dispensado.

— Mas — ela soltou a segunda parte — eu moro sozinha e preferiria não ficar desacompanhada neste momento.

Ele estava no comprimento de onda errado e não registrou de imediato as palavras dela. Não disse nada e ela sentiu-se na incumbência de elaborar um pouco melhor o que estava dizendo.

— Sabe, tem um mezanino lá em cima e se você não se importar de ficar numa cama de campanha, eu posso acordá-lo a tempo para a sua reunião e preparar um bom café da manhã e você pode sair na hora que...

Finalmente Feldman retomou a velocidade, e seu coração também.

— Não, de forma alguma! Nem me passou pela cabeça deixar você sozinha agora — insistiu ele, saltando ligeiro do carro e jogando o embornal por cima do ombro.

 

                           Em algum lugar de Jerusalém, Israel

                           3:41, sábado, 1º. de janeiro de 2000

Nas tumultuadas ruas da cidade, Hunter nem pensara em dormir. Deixara Cissy em seu apartamento, resistindo à sua oferta insistente e tentadora de ficar, a fim de irem juntos para a reunião das oito da manhã. Em vez disso, decidira enfrentar as condições impossíveis da estrada de volta à sede da RMN, sozinho, prometendo a Cissy que retornaria com o café da manhã e o carro dela, a tempo para a reunião.

Depois de várias horas, Hunter chegou aos escritórios da RMN e encontrou o prédio relativamente pouco avariado, mas sem eletricidade. Acionando as baterias de reserva para emergências, foi para uma cabine de edição, revisar o videoteipe dos momentos que antecederam o terremoto, particularmente o segmento que apresentava a entrevista com o estranho satanista, Astarte. O interesse de Hunter se concentrou na tempestade eletrostática ao fundo e ele usou o dispositivo de definição óptica avançada do sistema de edição para aproximar a visão do entorno e aprimorar a imagem.

Em sua opinião, a tempestade fora bastante peculiar. Muito intensa e muito concentrada. Estacionária sobre um local durante um período prolongado. Mas, embora ele não tivesse prestado atenção específica na ocasião, ele não se lembrava de nenhum resquício da tormenta após o terremoto. Foi como se ela tivesse desaparecido totalmente junto com os tremores. Tudo isso perpassava como algo incoerente em sua cabeça enquanto ele estudava o vídeo.

Finalmente, quando surgiram os primeiros raios de sol, Hunter se deu conta. Ele deu um tapa na mesa. Parando a fita, com a lanterna na mão, correu para um enorme mapa de Israel pendurado na parede oposta da sala. Localizando o Monte da Ascensão, tentou orientar a vista que obtivera da varanda do apartamento. Antes de conseguir, foi distraído pelo ruído crescente de batidas na porta da frente do escritório.

Hunter não tinha muita tolerância para interrupções. Mas sua irritação logo se evaporou quando abriu a porta e deparou-se com uma jovem admirável, ao lado de dois acompanhantes aparentemente indignos dela. Era uma das equipes de apoio da RMN, trazida às pressas do Cairo, ficou sabendo o cinegrafista. Haviam chegado em grande estilo, viajando num microônibus de doze metros de comprimento com equipamento completo e auto-suficiente de vídeo.

 

                         Complexo residencial de Romema Ilit, Jerusalém, Israel

                         5:50, sábado, 1º. de janeiro de 2000

Em seu sonho, Feldman era criança de novo. Estava estudando catecismo com sua mãe, uma bela mulher de cabelos negros. Porém, por mais que tentasse, não conseguia se lembrar das lições e isso a deixou bastante decepcionada. Ele soltou um suspiro e tornou a olhar para o livro, mas o texto havia mudado.

Em lugar de catecismo, era o Talmude. Ele tornou a levantar os olhos e deu com o rosto do pai, desta vez. Franzindo o cenho, o pai falou rigidamente com o filho em iídiche, mas Feldman não compreendeu. O menino fechou os olhos, chorando, e ouviu a voz da mãe, acalentadora agora, reconfortante.

— Jon, Jon, está tudo bem, fique tranqüilo.

Ele abriu os olhos e o rosto agora era o de Anke. Seus cabelos escorriam até os ombros despidos de Feldman; uma camisola fina recobria-lhe delicadamente os seios. Ela estava sorrindo e sussurrando.

— Você estava tendo um pesadelo, Jon. Eu estava ouvindo lá de baixo.

A lua havia surgido, já passara do quarto crescente, e enchia o aposento com uma luz branda. Feldman sentiu-se acanhado.

— O que foi que eu disse?

Anke sorriu baixinho.

— Você estava chamando os seus pais. Primeiro "Mamãe"! depois "Papai"!

Feldman sorriu pesarosamente e balançou a cabeça, tentando desfazer­-se das desconfortáveis emoções, há muito enterradas, que seu sonho havia ressuscitado.

— Minha mãe era católica e meu pai, judeu — explicou ele. — Cada qual queria me criar dentro de sua própria fé, e isso causava muita tensão entre eles. Acho que eu estava revivendo um episódio desses.

— E como foi que seus pais resolveram o conflito? — indagou Anke, sentando-se na beirada da cama, ao lado dele.

— Não resolveram — respondeu Feldman. — Eles se divorciaram quando eu tinha nove anos.

— Você era filho único?

— Era.

— Deve ter sido terrível para você.

Ele olhou para a quase meia-lua lá fora.

— Eu me senti totalmente responsável por isso durante anos a fio. É a minha herança, por ser fruto das duas religiões sobre a face da Terra que mais culpa incutem no indivíduo.

— E com que fé você ficou?

— Nenhuma das duas. Acabei abrindo mão de ambas e optando pela independência. Virei agnóstico, na verdade. Mas estou curioso para saber o que foi que detonou essas lembranças agora. É a primeira vez que penso no assunto na última década. — E a primeira vez que discutia essa questão num lugar que não fosse o divã de seu psiquiatra durante a adolescência difícil.

— Também tive um sonho ruim — sussurrou Anke, afagando carinhosamente os cabelos de Feldman, assim como ele havia feito nela algumas horas antes. — Depois do que passamos ontem à noite, é até de se estranhar que tenhamos conseguido dormir.

Feldman se sentou, mais desperto agora, mas ainda muito cansado. A presença cálida de Anke perto dele, vestida naquela camisola simples, o estonteou. Ele pensou num comentário gentil para fazer frente aos seus pensamentos.

— Eu... eu queria lhe pedir desculpas, por tê-la acordado.

— De jeito algum — disse ela, de uma forma que o convenceu da sua sinceridade. Ela se levantou. — Já está quase na hora de levantar mesmo. Por que você não vai tomando logo o seu banho? Eu separei toalhas limpas para você e vou preparar o café da manhã.

Feldman concordou, livrou-se das cobertas e levantou-se, quando então percebeu que todas as suas roupas estavam empilhadas no chão. Num átimo, pegou o lençol de volta, mais uma vez embaraçado por aquela mulher desnorteante.

Anke virou-se para fazer o que dissera, como se nada tivesse acontecido. Mas ele ouviu aquela risada doce e baixinha que lhe era peculiar enquanto ela descia a escada.

Ele soltou um suspiro. Ela sempre parecia pegá-lo num momento desprevenido.

O dia estava clareando lá fora quando, depois de um banho revigorante, ele se sentou, vestido com as mesmas roupas amarrotadas, para fazer um soberbo desjejum de ovos com presunto.

Ela se sentou do lado oposto da mesa com torradas e suco e serviu-lhe mais um pouco de café.

— Mas, Jon, o que você acha que aconteceu de fato ontem à noite?

— Você é quem tem de me dizer.

Ele evitou responder à pergunta dela, mais propenso a descartar o assunto por ora. Desde que abandonara a religião em sua juventude, colocando a culpa disso no divórcio dos pais, sentia um vazio interior. Um buraco em sua alma. Isso, partindo-se da premissa que tivesse uma alma! Conseqüentemente, achava difícil confrontar a questão subjacente do que poderia ter ocorrido ou não na noite anterior.

Anke recostou-se em sua cadeira e deliberou durante um instante.

— Ora! — aventurou-se ela. — Honestamente, eu não sei o que pensar agora. Mas e se Deus... ou seja, se você acredita em Deus... estiver realmente nos comunicando algo?

— O que você quer dizer?

— Sabe, há coincidências demais no que ocorreu ontem à noite para que seja tudo simplesmente um evento natural, você não concorda? Gostando ou não, é uma possibilidade bastante real. E se, depois de todos esses séculos de silêncio, Deus estiver finalmente falando conosco outra vez? Talvez haja uma mensagem nisso. Ou o início de uma mensagem. Talvez a noite de ontem tenha sido uma chamada para acordarmos.

— E Deus estaria limpando a garganta? — Feldman precisava trazer um pouco de leveza para o assunto, mas, ainda desconhecendo a susceptibilidade de Anke, receou ter feito um comentário que soasse sacrílego.

Ela não se ofendeu; sorriu apenas.

— Talvez! Tudo que sei é que nunca tive tanto medo em minha vida. E não posso simplesmente ignorar o que aconteceu. E você?

Feldman rendeu-se aos seus sentimentos verdadeiros.

— Caramba! Eu não sei o que pensar, Anke. Durante alguns instantes lá, achei que talvez todos aqueles milenaristas, a quem eu sempre considerara uns idiotas, poderiam acabar tendo razão. Quer dizer, eu, esta alma perdida e ignorante, estaria fadado à maldição eterna por não ter fundamentos religiosos.

Ele compreendeu, de súbito, as raízes de seu pesadelo e tal percepção o atingiu em cheio. Encontrar um significado agora tinha implicações que o perturbaram.

Anke retorceu o rosto.

— Não sei se eu chegaria a aceitar alguma daquelas teologias milenaristas — disse ela. — Mas não dá simplesmente pra descartar a noite de ontem assim, dá?

— Talvez não — retrucou ele, devagar, ainda um tanto perturbado pela nova consciência — mas acho difícil acreditar que qualquer deidade inteligente marcaria Seu retorno aterrorizando Seu público. Acho que vou fazer o que Bollinger sugeriu. Esperar para ver como fica isso tudo à luz do dia.

Sua espera acabara. A aurora estava despontando. Feldman olhou para o relógio e se deu conta de que, com as ruas em estado tão precário, ficaria apertado passar em seu apartamento para trocar de roupa.

Anke já estava de pé.

— Pelo que entendi, você estará partindo de Israel em breve, de vez.

Feldman encolheu os ombros.

— É, sinto dizer que sim. Fui designado pela RMN para ficar temporariamente aqui. Tenho outro emprego esperando por mim nos Estados Unidos. — Quando ele fixou os olhos de Anke, começou a perder um pouco de entusiasmo pela nova e promissora carreira.

Ela assentiu, com uma expressão fugaz de decepção a se fazer notar em seu rosto.

— Ora, sr. Feldman — sorriu mais uma vez — não acho que conseguiremos esquecer esse reveillon em tão pouco tempo assim!

Feldman se levantou e caminhou na direção dela. Desta vez, não foi impedido de fazer o que desejava. O beijo foi longo, ultrapassando todos os prazos. Ele sentiu a terra tremer novamente. E saiu mais revigorado do que lhe permitiria aquela hora e meia de sono.

Dirigir pelas ruas cheias de muros e postes de luz caídos foi tarefa entediante. Ele deu uma parada rápida em seu apartamento para trocar de roupa. O jornal não estava na entrada. Feldman abriu a porta e notou, apreensivo, que seu refúgio bagunçado mal se comparava à casa bem-arrumada de Anke. Deu de ombros e assumiu o sério compromisso de dar um jeito no lugar assim que tivesse uma oportunidade.

Tirando a camisa, ele a jogou perto de uma cesta de roupas sujas no canto e puxou uma limpa da pilha de roupas que já haviam sido passadas, perto de sua cama. Quando pegou o embornal, o celular tocou. Era Hunter. O sinal estava ruim, mas não havia como deixar de perceber a excitação em sua voz.

— Porra, estou tentando ligar pra você há uma hora!

— Ué, o meu telefone estava ligado! — confirmou Feldman. — As células da área devem estar sobrecarregadas.

— Escute com atenção para o caso da ligação cair — disse Hunter, ofegante. — É incrível! Uma das equipes da RMN no Cairo chegou hoje de manhã, e fomos de carro até Belém. Você tem que chegar aqui agora. Essa nós perdemos, meu chapa!

— Belém? O que está acontecendo em Belém?

— O epicentro do terremoto foi lá. O mesmo lugar aonde vimos a tempestade de relâmpagos ontem à noite. Tem um monte de merda estranha acontecendo por aqui e eu vou lhe contar tudo, mas venha logo para cá antes que percamos esse furo.

— Tudo bem, tudo bem. Mas e o Bollinger e a nossa reunião?

— Não consegui falar com ele ainda, mas diga-lhe que consegui um seguimento do cacete para a história de ontem à noite. Venha para cá, com tudo e com todos, agora. Tem outra unidade móvel vindo do Cairo que já deve estar chegando ao escritório central. Vamos precisar deles, também. Quando você chegar aqui é só procurar um microônibus da RMN com uma antena parabólica. Está estacionado em frente à Muralha de Davi, na área aberta entre as ruas do Rei Davi e da Manjedoura, na zona norte da cidade. Se tivermos sorte, seremos os únicos representantes da mídia no local. Tchau! — Hunter desligou.

Caramba, será que esse cara não dorme nunca?, pensou Feldman, enquanto telefonava para Bollinger do carro. Mas os circuitos estavam todos atravancados. Cruzando as ruas de Jerusalém a muito custo, o repórter se surpreendeu ao ver diversos edifícios bastante danificados. A escuridão decerto obstruíra a visão dos estragos. Passando pela Cidade Velha, ele avistou enormes rachaduras na muralha antiga e sagrada do Portal Dourado. Balançando a cabeça diante do que via, ele se impacientou e tomou uma estrada rumo ao sul.

Belém ficava a pouquíssimo tempo de carro dali; era praticamente um subúrbio de Jerusalém, a apenas dez quilômetros de distância. Mas na esteira do terremoto, a viagem foi prolongada. Feldman tinha tempo de sobra para acionar o botão de rediscagem de seu celular. Finalmente, conseguiu falar com Cissy.

— Onde é que você está? — quis saber. — Estamos tentando fazer contato desde cedo!

— A caminho de Belém — informou ele.

— Onde? Você tem notícias do Hunter?

— Tenho, sim. Ele está em Belém.

— Que diabo ele está fazendo lá? Jimmy disse que ele partiu cedo com uma das equipes das unidades móveis do Cairo. Ele está com o meu carro e ficou de me apanhar para a reunião, aquele safado!

Feldman ouviu Cissy falando com alguém fora do telefone e Bollinger entrou na linha.

— Jon, o que é que está acontecendo?

— Arnie, Hunter me telefonou a pouco de Belém. Ele está lá com uma das unidades do Cairo. Pediu que toda a equipe vá pra lá agora. Disse que temos um tremendo furo de reportagem nas mãos, mas só se andarmos depressa.

— Qual é a história?

— Ele não teve tempo de me dar os detalhes, mas disse que Belém foi o centro do tremor e da tempestade de ontem. Disse que tem um monte de merda estranha acontecendo por lá.

As notícias devem ter atraído a atenção de Bollinger, mas ele pareceu irritado com a segunda rajada de informações.

— É melhor que seja coisa boa, Feldman! — advertiu. — Eu gostaria de alguns detalhes maiores do que "um monte de merda estranha" antes de arrastar a turma toda daqui para outro canto bem no meio de uma história.

— É só o que eu sei, Arnie, mas ele estava bastante decidido.

Bollinger se despediu, ainda reclamando. Feldman ligou o rádio do carro. Finalmente, a Rádio Israel estava outra vez no ar. Feldman teve que esperar a versão em inglês para escutar outras notícias assombrosas sobre a noite anterior. O pânico disseminado, global! A violência, a destruição, as mortes! Isto só vinha reforçar o argumento que dera mais cedo para Anke.

Subscrevendo o que dissera Hunter, a Rádio Israel também confirmou Belém como o epicentro de um violento terremoto, que chegara a sete vírgula um na escala Richter. A exceção de um tremor menor registrado em Roma, aparentemente nenhuma das outras cidades fortes dos milenaristas espalhadas pelo mundo sofrera qualquer desastre.

 

                       Belém, Israel

                       9:33, sábado, 1º. de janeiro de 2000

Chegando a Belém pelo norte, Feldman divisou uma pitoresca cidadezinha, na encosta de uma colina, com cerca de vinte mil habitantes, primordialmente árabes cristãos cujas famílias moravam ali há centenas de anos. Fora a origem étnica de seus habitantes, Belém pouco mudara desde o nascimento de Cristo. Nas esparsas campinas ondulantes que a circundavam, os pastores ainda conduziam seus rebanhos de cabras e ovelhas pelas estreitas vielas de paralelepípedos desgastados até o bazar do mercado central. Lado a lado com antigas estruturas históricas, novas edificações haviam sido aleatoriamente erigidas ao longo dos séculos. Construídas, porém, com as mesmas pedras de ocorrência local, a maioria mal se distinguia de suas predecessoras.

Mescladas a esse labirinto de habitações espremidas entre si, havia uma dúzia de elegantes torres de igrejas de arenito branco. Inclusa como a maior atração da cidade, a Igreja da Natividade, de mil e quatrocentos anos, localizada na Praça da Manjedoura sobre a gruta que o Mártir Estevão identificara no ano de 155 d.C. como o local exato do nascimento de Cristo.

Feldman se impressionou por não encontrar nenhum estrago visível causado pelo violento tremor da noite anterior. Em vez de uma cidade em estado calamitoso, ele a encontrou repleta de milenaristas. As lojas e os bares estavam abarrotados. Não havia indícios de interrupção dos serviços municipais básicos. Nem cordões de isolamento para consertos das redes de abastecimento. Tampouco equipes de atendimento emergencial revirando as ruínas.

As maiores concentrações de gente não se davam perto da venerada Praça da Manjedoura, no centro da cidade, conforme Feldman esperava encontrar, mas numa grande área pública, com ares de parque, situada na zona norte. Era circundada pelas Sderot do Rei Davi ao norte e Sderot da Manjedoura ao sul, que descreviam arcos interligados, sendo sderot a palavra para rua em hebraico. Perto de onde os dois arcos do bulevar se encontravam, Feldman avistou o microônibus da RMN, estacionado atrás de uma fileira de edificações de estuque.

Bateu à porta, uma trava se abriu, e ele foi saudado por um desconhecido de meia-idade e aspecto livresco, usando gravata e óculos de armação de tartaruga, que, por sua vez, o reconheceu imediatamente.

— Sr. Feldman, estávamos à sua espera.

Feldman ainda não estava acostumado ao seu status recém-adquirido.

— Que bom! Você conseguiu chegar. — A voz de Hunter veio de dentro da escuridão do interior do veículo.

Antes da porta se fechar, envolvendo-o numa cegueira temporária, Feldman enxergou Hunter sentado sobre uma mesinha perto de uma mulher muito atraente, também de óculos. Ela vestia um tailleur de listras finas com uma blusa de gola canoa. Seu rosto inteligente, emoldurado por cabelos lisos e escuros cortados retos na nuca e franja, estava destacado por uma perfeita maquiagem de modelo de passarela. Ao fundo, havia uma parede inteira de bruxuleantes monitores de TV.

Seus olhos logo se ajustaram à luz azulada.

— Jon — começou a falar Hunter— vou apresentá-lo a Erin Cross, especialista da RMN em história religiosa e antiguidade do Oriente Médio, e Robert Filson, editor de notícias sênior, a quem você acaba de conhecer.

Feldman sorriu e trocou apertos de mãos. Robert era macio, úmido e fraco. Erin era tranqüila e firme. Quando ela se esticou sobre a mesa para cumprimentar Feldman, o requintado decote da blusa propiciou uma inevitável exposição de seu colo.

— É um prazer conhecer o famoso sr. Feldman — disse ela numa voz de textura interessante, sorrindo, com o batom escuro a realçar-lhe o contraste da pele muito alva.

Um telefone pendurado à parede se acendeu, e Hunter advertiu para que todos o ignorassem.

— É o Bollinger de novo — grunhiu ele, com impaciência. — Vamos passar todas as informações assim que ele chegar aqui, mas chega de interrupções por ora! — Ele desconectou a tomada do aparelho.

Filson arqueou uma sobrancelha, mas Hunter não deu trela e mergulhou imediatamente em sua explicação.

— Ontem à noite, depois que deixei Cissy em casa, voltei para a sede, a fim de trabalhar numas coisinhas. Como todos os demais, acho que o peso disso tudo não havia assentado muito bem dentro de mim e eu queria rever as fitas que gravamos no início do tremor. Eu estava tentando encontrar o local exato daquela tempestade de relâmpagos quando esses dois — ele fez um gesto na direção de Erin e Filson — chegaram com a equipe deles, logo depois do romper da aurora. Eles têm um radioamador aqui e, na viagem do Cairo para cá, receberam um relatório da Turquia, dizendo que o epicentro do terremoto foi aqui em Belém, exatamente onde eu havia descoberto no mapa que teria sido o local da tempestade eletrostática.

Feldman interrompeu.

— Ué, e onde estão os estragos causados por aqui? Eu não vi nada quando entrei na cidade e Jerusalém está que é uma desgraça!

— De todas as estranhezas, essa é a menor — retrucou Hunter. ­— Depois de conectarmos tanto a tempestade de relâmpagos quanto o terremoto a Belém, tomamos a decisão unânime de vir até aqui para verificar. E valeu a pena. De montão! Olhe só.

Ele apontou para um dos monitores e todos se voltaram para ver.

— São trechos selecionados de um monte de coisas que filmamos hoje bem cedinho, aqui na Praça do Rei Davi — explicou Hunter. — Estamos no meio do processo de edição deste material. — Ele pegou um controle remoto na mesa e mostrou uma fita de vídeo. — Pois bem, agora dê uma olhadinha no monitor C.

Apareceram na tela as ruínas de um cercado antigo em formato retangular, feito de pedras, medindo pouco mais de um metro de altura com cinqüenta centímetros de comprimento por vinte e cinco de largura, aproximadamente.

— Isso aí é um tel arqueológico conhecido como Muralha de Davi ­— explicou Hunter, usando o termo hebraico para "sítio arqueológico", que aprendera antes com Erin Cross.

Feldman não entendeu bem, mas não quis interromper.

— A Muralha de Davi fica a um pulinho daqui, no lado oeste da praça — prosseguiu Hunter. — Existe todo tipo de escavações ocorrendo em torno dessa área.

A câmera descreveu uma curva e chegou a uma entrada aberta num ponto da muralha. Isolada no meio do pátio, havia uma cisterna cheia, escavada diretamente na rocha, com diâmetro de mais ou menos dois metros, da qual as pessoas retiravam água em jarras, garrafas e recipientes variados.

— Pronto, agora estamos no lado de dentro da muralha — narrava Hunter — e você está vendo o antigo e sagrado Poço de Davi.

Feldman, que esperava algo mais dramático, ajeitou-se impacientemente na cadeira. Mas Hunter não estava disposto a se apressar.

— Erin — dirigiu-se à moça ao seu lado — conte a e ele sobre o poço.

Erin, com uma das mais belas posturas que Feldman já vira, virou seu pescoço de cisne na direção dele e abriu um sorriso exibicionista.

— Com muito prazer! Sr. Feldman, tanto a muralha quanto o poço são os marcos históricos mais antigos de Belém, remontando ao ano de 1000 a.C., aproximadamente. O poço ainda fornece água potável para os moradores da região. Diz a lenda que, há três mil anos, um jovem pastor encheu seu cantil de pele de cabra com água desse poço e foi assistir ao exército dos israelitas bater­-se contra invasores filisteus. Supostamente, esse tal pastorzinho, que nasceu em Belém, cujo nome era Davi e que mais tarde se tornaria o maior rei de Israel na antiguidade, bebeu da água desse poço antes de enfrentar e derrotar o gigante filisteu, Golias.

Hunter interrompeu.

— Uma anedota e tanto para começar, hein? — Ele estava reluzindo de satisfação. — Agora, olhe para o monitor E, Jon.

Apertando um botão, Hunter trouxe à tela uma visão ampla da praça pública. A câmera estava voltada para o leste, no sentido oposto ao do poço. Distante cerca de trinta e cinco metros da entrada da Muralha de Davi encontrava-se um monte grande, parcialmente escavado, onde fora exposto um lance de escada de pedra. Os degraus conduziam a uma área aplainada no alto do monte, sobre a qual se viam as ruínas de uma portentosa colunata de pedra.

Feldman subentendeu tratar-se das ruínas de alguma estrutura antiga que já fora magnífica, como grande parte de Israel, com seus dias de glória há muito decorridos. Pouca coisa mais pôde distinguir, com as hordas de milenaristas se aglomerando por ali.

Erin deu prosseguimento à sua arqueologia.

— Estas são as ruínas do antigo templo israelita do Messias — disse ela — quase tão antigo quanto o Poço de Davi. Construído pelo rei Davi, conforme a lenda, para aguardar a chegada de outro grande monarca, que também beberia das águas desse poço.

Hunter se voltou para Feldman.

— Ontem à noite, segundo centenas de testemunhas oculares... e nós entrevistamos dúzias delas... durante a tempestade e o terremoto, um evento inacreditável ocorreu aqui.

— Na hora, só havia cerca de duas mil pessoas em torno desses santuários, basicamente o excesso de contingente das massas que estavam na Praça da Manjedoura. O grupo aqui presente era, em grande parte, controlado pela ordem milenarista conhecida como Samaritanos. O negócio dos Samaritanos era montar passeios pagos até Belém para os doentes e inválidos do mundo inteiro, com a idéia de que os pobres coitados poderiam se curar na ocasião do Segundo Advento.

Hunter se debruçou na direção de Feldman e colocou as palmas das mãos sobre a mesa.

— Daí que, entre os adeptos deles, havia um beduíno aleijado de quatorze ou quinze anos de idade. Supõe-se que ele e os pais tenham sido recolhidos no deserto por um grupo de Samaritanos vindo do sul. O rapaz foi trazido ontem até o Poço de Davi numa maca, todo enfaixado em ataduras, incapaz de andar ou se alimentar, sem ver, ouvir nem falar. Pelo menos, é o que todos juram.

Feldman estava começando a torcer para que aquilo não acabasse como uma história de milagre religioso.

— Depois de batizado o rapaz — continuou Hunter — ele e a família ficaram perto da Muralha de Davi, para as cerimônias que ocorreriam à noite e o garoto continuou na maca, aparentemente adormecido. Mais tarde, você se lembra, veio a tempestade. Próximo à meia-noite, surgiram muitos relâmpagos e começou a ventar... mas não chegou a chover e todo mundo saiu atabalhoadamente em busca de abrigo perto das edificações em torno da praça. Foi aí que várias pessoas perceberam que o rapaz fora deixado pra trás.

— Eles tinham deixado o menino na tempestade? — arfou Feldman, incrédulo.

— Tinham, sim. Parece que, com a proximidade da meia-noite sagrada e as vascas da tempestade, todo mundo entrou em pânico. À medida que os relâmpagos foram ficando muito fortes, algumas pessoas viram o rapaz iluminado ali no chão, mas antes que alguém tomasse coragem para ir buscá-lo, ele se levantou, de repente, arrancou fora as ataduras, entrou no cercado andando com os próprios pés, tirou água tranqüilamente do poço e bebeu. Então, com todo mundo gritando para que ele saísse dali e fosse para um abrigo qualquer, o rapaz foi caminhando devagarinho até o antigo templo. Nesse meio tempo, grande parte do pessoal, que nem percebeu o que estava acontecendo com o menino, fazia a grande contagem regressiva para a meia-noite. Mas ele simplesmente continuou andando direto para a escadaria e, quando chegou ao topo, deu meia-volta e ergueu os braços bem alto. Então, ecoou uma gritaria de comemoração ao novo milênio, uma berraria esfuziante e, de repente, houve um estrondo de eletricidade. Um raio deve ter caído bem perto dali. Todo mundo disse que atingiu o menino e se espalhou pela praça. Ao mesmo tempo, como que detonada pelo relâmpago ou algo assim, a terra começou a tremer, e você pode ver o que aconteceu.

Hunter ligou o monitor G, que exibiu um close da base do poço. Feldman viu o início de uma fissura aberta em ziguezague no chão. A câmera foi se afastando do poço, acompanhando a rachadura, que chegava até mais ou menos trinta centímetros em alguns pontos, à medida que se prolongava.

— Dizem que o chão simplesmente se abriu, conforme você pode ver aqui — explicou Hunter — desde o poço até a base do templo, subindo os degraus, separando-os até o topo, exatamente entre os pés do rapaz. E você consegue ver o que está gravado no degrau de cima? — Hunter mal conseguia se conter.

A câmera continuou, escada acima, acompanhando a fissura, que se fechava abruptamente no último nível. Desgastadas, mas perfeitamente visíveis na superfície do degrau em questão, havia inscrições em hebraico antigo. As duas primeiras letras estavam divididas pelo final da rachadura, mas ainda eram legíveis, embora que indecifráveis para Feldman.

— Exatamente onde dizem que o menino estava! — Hunter se inclinou para frente e encostou o dedo indicador na tela. — Aqui! É a palavra em hebraico antigo para "Messias", não é, Erin?

— É — confirmou Erin. — Escreve-se da direita para a esquerda. A pronúncia em hebraico é "Moshiach".

— E para culminar a história toda — Hunter bateu com as mãos espalmadas sobre a mesa — havia mais de duzentas e cinqüenta pessoas que se diziam enfermas e alegam ter se curado de suas mazelas quando o raio espocou. Pode ser bruxaria, Jon, mas é perfeito. Temos o fechamento dos fechamentos! O clímax que todos queriam ver! — Ele se recostou, exuberante. — Conseguimos uma figura genuína e afiançada do Messias!

Erin Cross entrou com suporte adicional.

— Não posso deixar de lhe dizer, sr. Feldman, que parece perfeito. Já conversamos com muita gente por aqui que alega ter se curado de todos os males, desde câncer até cegueira. E algumas evidências são bastante convincentes. Vai ser sensacional!

Feldman permanecera em silêncio durante a maior parte da exposição, com os cotovelos apoiados na mesa, o queixo nos polegares, e os dedos entrelaçados de encontro à boca. Mas seus olhos haviam traído o fascínio crescente.

— Isso é totalmente incrível, Breck — sussurrou ele, finalmente. — ­Absolutamente inacreditável. E esse rapaz, onde se encontra? Vocês já estiveram ou falaram com ele?

— Não — admitiu Hunter. — Os Samaritanos o estão escondendo, para protegê-lo, é o que dizem. Nem sabemos se ele ainda está em Belém. Mas estamos correndo atrás.

Filson, que até agora não havia participado da conversa, finalmente apresentou sua contribuição.

— Isso acrescenta um ótimo elemento de mistério à história toda, é claro — disse ele, no tom monocórdio de um participante da terceira geração. — Mas sem o rapaz, falta-nos o cerne da questão. E perderemos nosso furo, se outra rede o encontrar primeiro. Acho que devemos segurar este desdobramento e dedicar mais tempo a encontrar o rapaz. Caso contrário, estaremos nos arriscando a atrair o faro de todos os outros caçadores de notícias.

Feldman e Hunter trocaram olhares. Não ficou claro se Filson estava querendo fazer valer sua idéia ou se simplesmente expunha sua opinião. Muito embora não soubessem que tipo de autoridade ele podia ou não exercer na operação como um todo, os dois repórteres não estavam dispostos a deixar que um intrometido de fora viesse cortar-lhes o ímpeto.

— Eu confio na nossa equipe o suficiente para dar prosseguimento a esta história imediatamente — retrucou Feldman em tom direto e certeiro. — Especialmente com o acréscimo das suas duas equipes de craques da RMN! — Estava bajulando Filson, mas este não deu trela.

— Não se preocupe, Filson — assegurou-lhe Hunter — nós temos o pessoal e o faro, além de estamos correndo pela raia de dentro; dá para conseguir.

Eles não esperaram por uma aprovação. Levantaram-se de suas cadeiras e Feldman deu um sonoro tapa nas costas de Hunter.

— Você foi brilhante, meu camarada! Agora, por que não me leva para conhecer o lugar e me diz o que precisamos fazer para levar esta história a cabo?

Erin se levantou junto com eles, e Filson, que parecia ter algo a objetar, acabou fechando a boca, sem nada dizer.

Hunter sorriu para Feldman.

— Essa coisa toda está começando a fazer com que as eleições presidenciais pareçam historinha de criança, não está?

Feldman apenas sorriu.

Quando Bollinger chegou, furioso e ansioso, com sua equipe e o segundo grupo do Cairo, Hunter e Feldman haviam composto a seqüência de imagens e as linhas gerais do texto a ser apresentado. Em vez de explicarem qualquer coisa para o espumante chefe da agência, eles simplesmente o colocaram sentado diante de um monitor, juntamente com quantos membros da equipe couberam dentro do microônibus, e fizeram uma mostra ainda rudimentar do que seria o noticiário.

Com Feldman fazendo comentários ao vivo, a fita revelava metodicamente toda a bizarra história. O segmento final se concentrava nos beneficiários dos milagres que, alegava-se, ocorreram quando o raio espocou. Especialmente pungente era a seqüência fotográfica de uma menina paralítica do sul do Alabama, vitimada por um acidente de carro alguns anos antes. As fotografias escolhidas mostravam os destroços do carro no qual ela se ferira, imagens da menina com o corpo todo engessado, sentada numa cadeira de rodas.

E agora, depois dos eventos da virada do milênio, ela aparecia um pouco mais velha, com o rosto exuberante, caminhando a passos incertos com as duas pernas enfraquecidas, mas obviamente ativas. O júbilo e o êxtase religioso dos pais da menina eram extremamente tocantes. Totalmente convincentes.

A fim de apartar quaisquer errôneas interpretações de fim-de-mundo que esse acontecimento "milagroso" pudesse detonar, Feldman elaborara um final secular para a reportagem. Uma mensagem positiva de esperança e fé, e o extraordinário poder que a mente tem para a cura. Um otimismo renovador que desabonava os pleitos milagrosos dos Samaritanos e a chegada de um novo Messias. Mas Hunter insistira que a seqüência fechasse com um zoom lento em cima da palavra inscrita "Moshiach".

Houve um silêncio momentâneo dentro do microônibus abarrotado de gente e logo um murmúrio crescente de admiração, seguido por uma explosão de aplausos, que contou, inclusive, com os de Filson. Feldman fez uma reverência e estendeu os braços na direção de Hunter em deferência ao associado, que acatou o elogio com o sorriso de quem se sente gratificado.

Bollinger, cuja raiva fora totalmente invalidada, parecia tão aliviado quanto satisfeito.

— Breck — disse ele, exalando profundamente o ar dos pulmões e abrindo um sorriso largo — a RMN anda atrás de mim o dia inteiro, querendo detalhes do nosso prosseguimento, e tudo que eu tinha para prometer era "uma coisa e tanto"! Ainda bem que você não falhou, seu babaca! — Obviamente, ele sabia que Hunter vinha ignorando suas ligações.

— E agora — disse o chefe, esfregando as palmas das mãos com ligeireza — vamos ver se encontramos esse rapaz.

 

                               Belém, Israel

                               7:17, domingo, 2 de janeiro de 2000

Na manhã seguinte, Hunter e Feldman sequer tocaram no café da manhã que pediram no bar. Estavam absortos nas seções de hoje e de ontem do Times de Londres, transmitido eletronicamente, via satélite, direto para uma copiadora no microônibus da RMN.

Na parte inferior da primeira página de ontem, havia um artigo intitulado "Alarme Falso Gera Pânico do Apocalipse", com o subtítulo "Terremoto em Jerusalém Proclama o Novo Milênio".

Mas no jornal de hoje, a história fora alçada ao topo da primeira página: "Mundo Sobressaltado por Relatos de um Novo Messias!" O artigo vinha acompanhado de extensas narrativas sobre as agitações religiosas e de colunas inteiras que detalhavam os estranhos acontecimentos em Israel e pelo mundo afora. Feldman sentiu-se aliviado de ver que pelo menos não haviam ressurgido revoltas de maior monta nem mais violência.

Praticamente toda a seção principal de notícias estava dedicada à história. As organizações religiosas do mundo inteiro se encontravam em estado de confusão. As respostas oficiais diferiam bastante umas das outras, desde a denúncia direta do Colégio dos Cardeais Católicos de Roma, até a total acolhida de seitas como a dos Adventistas do Sétimo Dia e dos Mórmons. Muitas lideranças religiosas, como o Conselho Rabínico Judaico, adotaram uma postura de aguardar para ver.

Uma anedota interessante, observou Feldman, foi o relato de um leve tremor em Roma, com pequenos danos causados a um inestimável afresco de Michelangelo na capela Sistina e uma rachadura na pedra do altar principal da basílica de São Pedro. Entretanto, não houve ocorrências "sobrenaturais" em Salt Lake City.

Outra notícia pequena atraiu-lhe a atenção e o fez chamar Hunter para ver: Joshua Milbourne, chefe espiritual das Testemunhas de Jeová, que assistia em seu quarto de hospital ao programa da RMN sobre a virada do milênio, falecera naquela noite de um ataque cardíaco fulminante. A morte ocorreu, conforme o artigo, um minuto depois da meia-noite, horário do Oriente Médio, quando Milbourne presenciou o início do culminante terremoto.

— Ora — observou Hunter, secamente — acho que se pode dizer que ele viveu até o Segundo Advento e cumpriu a velha profecia. Isso vai dar para manter as Testemunhas de Jeová em atividade no ramo por mais um bom tempo.

Quando chegaram à reunião de pauta que ocorria do lado de fora do microônibus da RMN, Hunter e Feldman acenaram com a cabeça em reconhecimento a um executivo que lhes pareceu familiar, vestindo um fino conjunto europeu de terno e gravata, parado ao lado de Bollinger. Este, sem se aperceber da chegada dos dois, continuou seu monólogo para a equipe. Mas o novo visitante se destacou e os abordou por fora do agrupamento.

Feldman finalmente reconheceu quem era, ao apertar a mão firme de Nigel Sullivan, chefe da agência européia da RMN. Embora nunca tivessem se encontrado, o repórter conhecia e respeitava o homem que, em grande parte, era o responsável pela cobertura milenarista da RMN e por sua atual posição.

— É um prazer conhecê-lo, sr. Sullivan.

Sullivan exibiu um sorriso afetuoso e também apertou a mão de Hunter. Conduziu os sonolentos repórteres para a última fileira de cadeiras.

— Por favor, não há necessidade de ser formal comigo. Sou Nigel para vocês e para todos os demais — disse ele, com o sotaque aristocrático de um nobre inglês. Mas não houve arrogância ou distanciamento em sua fala. — Estou satisfeitíssimo por conhecê-los, afinal. Conforme dizia para Arnie e os seus associados, vocês vêm fazendo um trabalho maravilhoso por aqui. Simplesmente notável!

— Muito obrigado, senhor! — responderam os dois, ainda sem se sentir confortáveis o suficiente para acabar com a formalidade.

— Já foram informados de como o mundo está respondendo ao noticiário de ontem à noite? — perguntou Sullivan.

— Só sabemos o que lemos nos jornais matinais — respondeu Feldman.

Sullivan recostou-se na cadeira e olhou bem dentro dos olhos deles.

— Durante as duas últimas noites, tenho o prazer de lhes contar, a RMN, com a exuberante contribuição de sua equipe, dominou os índices de audiência nos noticiários mundiais com uma vantagem nunca dantes conseguida. Um total de setenta e um por cento! Trata-se de algo que não tem precedentes, além de ser praticamente inconcebível!

Feldman e Hunter se entreolharam, incrédulos, e depois deixaram que largos sorrisos brotassem em seus rostos.

— Isso aconteceu tão repentinamente e cresceu tanto — continuou Sullivan — que pegou todo mundo de surpresa! Neste exato momento, nenhuma outra rede chega aos nossos pés. Mas podem acreditar senhores, depois dessas duas últimas noites, todas elas estão fazendo um tremendo esforço para se equiparar.

Essa parte estava óbvia. De onde estavam sentados, eles podiam ver uma dúzia de veículos das redes concorrentes enfileirados em torno do quadrilátero onde menos de dez horas antes não havia nenhum. E uma boa quantidade de helicópteros de serviços de notícias, dentre os quais o de Sullivan, estacionados numa campina próxima.

— Jon — Sullivan dirigiu-se para Feldman e colocou uma das mãos sobre o ombro do repórter — estou sabendo que você aceitou um novo emprego nos Estados Unidos. E embora ciente de que talvez já seja tarde demais, eu gostaria de persuadi-lo a reconsiderar. Estou disposto a lhe oferecer um novo contrato com prazo em aberto, quadruplicando qualquer pacote de benefícios que tenham lhe oferecido. — Ele se virou para Hunter. — E estarei estendendo as mesmas cláusulas para o seu contrato vigente, Breck.

Os dois repórteres se entreolharam e piscaram.

— Queremos expandir nossa cobertura deste desdobramento — explicou Sullivan — mas queremos preservar a química e o estilo exclusivos que a equipe de vocês criou aqui. Vamos colocar várias equipes adicionais à sua disposição, para que vocês possam desenvolver uma reportagem de ponta sobre esse Messias. E estamos transformando o escritório de Jerusalém em um centro regional de notícias, expandindo as operações para mais três alas de espaço de trabalho e salas de conferência. Estou aqui para providenciar que os cavalheiros tenham tudo que precisam. É uma história e tanto, meus rapazes! Se soubermos lidar direitinho com ela, será a reportagem do século. Do milênio!

A meia dúzia de metros deles, Bollinger tinha acabado de fazer seus elogios ao seu pessoal e agora chamava Nigel Sullivan para se dirigir a       todos. Sullivan se levantou e os dois jornalistas fizeram o mesmo.

— Podemos almoçar juntos hoje, se vocês não tiverem nenhum compromisso, cavalheiros, e continuar a discutir o assunto nessa ocasião?

Os dois anuíram, agradeceram, e ele foi até a frente da área da reunião para dirigir os seus parabéns e estímulo aos demais integrantes da equipe.

Virando-se um para o outro, Feldman e Hunter eram as próprias imagens refletidas do entusiasmo contido.

— Puta merda, Feldman! — sussurrou Hunter.

— Puta merda, Hunter! — sussurrou Feldman de volta.

Finalmente Feldman estava se dando conta do potencial das circunstâncias em que se encontrava. Ele se deparara com uma oportunidade de categoria mundial. Um lugar onde se faziam prêmios Pulitzers e lendas. Um lugar que gerava livros e palestras e títulos de doutor honoris causa nos círculos acadêmicos mais conceituados. Era coisa de ponta. Não havia como recusar a chance, apesar do embaraço de ter que declinar de um cargo de distinção que tanto lutara para conseguir.

Contudo, enquanto se decidia a aceitar a generosa oferta de Sullivan, nos poucos segundos necessários para que todas essas grandes permutações ricocheteassem em sua mente, em algum lugar Feldman deparou com a noção de se concentrar no quadro maior. Qualquer que fosse a sua sorte, ele sabia que não poderia perder de vista a sua necessidade de compreender o que estava acontecendo aqui na Terra Santa.

Feldman foi arrancado de suas reflexões por um puxão na manga de sua camisa. Cissy McFarland chegara, transbordante e exaltada, sub-repticiamente por trás dos dois repórteres.

— Ainda bem que eu peguei esses dois bobões antes que tivessem uma chance de escapar — disse de chofre. — Sabem do que mais? — Ela tirou um cartão telefônico cor-de-rosa de dentro da aba da blusa e o agitou na frente deles.

— Seu peito tem uma mensagem guardada para nós? — arriscou-se Hunter.

Ela direcionou-lhe um olhar murcho e voltou-se para o sorridente Feldman como a única alternativa semi-racional.

— Consegui uma confirmação dos Samaritanos. Vão se encontrar com vocês daqui a uma hora, no hotel Estrela de Belém. Está aqui o número do quarto e os nomes dos líderes que irão recebê-los por lá. Se vocês descolarem uma exclusiva com o tal Messias, nós vamos conseguir mais um furo. 

 

                       Belém, Israel

                       11:28, segunda-feira, 3 de janeiro de 2000

Três discípulos dos Samaritanos de aparência pomposa ficaram reunidos com Feldman e Hunter durante quase uma hora. As coisas não correram muito bem para os dois repórteres. O principal obstáculo foi o próprio chefe dos Samaritanos, o primeiro-reverendo Richard Fischer.

Homem altivo, dogmático, arrogante, de cabelos grisalhos ondulados, nariz bojudo e marcas de acne espalhadas pelo rosto e pescoço, o reverendo falou a maior parte do tempo. Estava obviamente deleitado com a atenção que vinha recebendo e com poder que agora desfrutava por deter a custódia da propriedade da mídia mais valiosa sobre a face da Terra.

— Rapazes — dirigiu-se aos repórteres — embora eu admita que vocês da RMN talvez sejam a rede de maior audiência na cobertura desta história específica, como diretores do movimento Samaritano, nós, o Conselho da Liderança, não devemos demonstrar qualquer parcialidade. Tudo que podemos dizer a esta altura é que o Messias irá aparecer diante do público em futuro próximo. Onde e quando, não estou apto a lhes dizer, mas vocês e todos os seus colegas da mídia serão avisados no devido momento. — Ele se levantou, estendeu a mão carnuda e úmida e dispensou sumariamente seus convidados.

Assim que os repórteres saíram, um dos discípulos voltou-se para o primeiro-reverendo e exclamou em voz contrariada:

— Reverendo Dick, eu não entendo. Você deixou que o irmão Leroy vendesse a nossa fita de vídeo do Messias para a RMN há uma hora. Por que tivemos de manter isso em segredo? E o preço foi uma ninharia! Se tivéssemos aguardado, aposto que Feldman teria nos pagado uma fortuna.

Fischer apresentou para o colega um sorriso de quem sabe o que faz.

— Irmão Gerald, você não compreendeu a tática, de forma alguma. Deixar essa fita cair nas mãos da RMN foi o melhor investimento que poderíamos fazer. Ninguém deve saber que ela foi fornecida pelo Conselho da Liderança. Enquanto a RMN acreditar que a conseguiu através de uma barganha com um dos nossos confrades dos níveis inferiores, estaremos preservando a credibilidade dela. É preciso entender o cinismo da mídia, irmão. Eles são desconfiados e não vão deixar de questionar a autenticidade da fita, de qualquer maneira. Se tivesse partido diretamente de nós, isso só aumentaria o ceticismo deles.

O reverendo Fischer estava se fazendo entender para o seu correligionário menos esperto.

— Considere o fato de que a RMN detém agora os maiores índices de audiência, à frente de qualquer outra rede — prosseguiu. — Depois que eles levarem essa fita ao ar, estará assegurada uma congregação mundial em torno do Messias. Não teremos problema algum em atrair patrocinadores comerciais para a nossa investida seguinte. Além disso, assim estaremos garantindo o retorno máximo por parte de todas as redes, cada uma das quais se verá forçada a fazer as ofertas mais generosas em troca de acesso. E isso, irmão Gerald, é exatamente o que nos dará os meios financeiros necessários para exibir o Messias ao mundo de maneira apropriada.

Quando os dois repórteres estavam saindo do estacionamento do hotel, Cissy ligou para o telefone do carro e os chamou de volta ao microônibus com urgência. Feldman passou-lhe as informações sobre o fracasso da missão, mas ela não se decepcionou.

— Pode esquecer — consolou-o. — Espere até saber o que temos nas mãos.

Recebidos por Bollinger à porta, Feldman e Hunter foram levados para o interior do microônibus, para que assistissem a um vídeo, feito por amador, recém-adquirido.

— Isso aí — anunciou Bollinger numa excitação que não procurava esconder, apontando para uma imagem escura que surgia no monitor maior da parede — é a nossa próxima exclusiva.

Conseguido a custos reduzidíssimos, Hunter e Feldman ficaram sabendo, o tal prêmio lhes fora fornecido secretamente por um Samaritano dos escalões inferiores. A qualidade não era muito boa, a fita fora rodada à noite, à luz das lâmpadas de mercúrio dos postes. Mas os dois repórteres souberam imediatamente do que se tratava. Imagens tremidas, cheias de sombras e retículas, embranquecendo totalmente quando havia relâmpagos, este era o registro em vídeo do fenômeno ocorrido na virada do milênio na praça pública de Belém.

Filmada a uma distância de dez metros mais ou menos, a figura no vídeo era de pequena estatura, sua túnica esvoaçava contra o vento forte, e o rosto não se podia discernir. A cada lampejo dos raios, a imagem embranquecia e o operador ficava temporariamente cego, perdendo o enquadramento no visor da câmera, retomando-o depois atabalhoadamente.

Quando o vulto alcançou os degraus de pedra do templo e começou a subir, a câmera deu um close. Ao fundo, escutava-se o vozerio da multidão, elevando-se acima do zumbido do vento na contagem regressiva dos segundos que faltavam para a virada do século XXI. Chegando ao topo, a figura se virou na direção da câmera, contra o vento, ergueu os braços delgados para os céus e voltou-se para o Poço de Davi, do outro lado do pátio. Afinal, houve um breve momento vital de plenitude, quando o rosto foi iluminado por um relâmpago, tornando-se visível para a câmera.

Naquele instante, a contagem regressiva da multidão atingiu a meia-­noite, teve início uma tumultuosa saudação e então o vídeo foi prejudicado por um violento choque de luz brilhante, que cortou a imagem, deixando apenas uma tela enevoada, branca. O áudio, porém, não foi afetado e continuou emitindo o rugir do vento forte, os gritos aterrorizados e o eco dos trovões. Em seguida, um rumor profundo, que Feldman supôs ser o terremoto.

— Volte um pouco e vá para o ADO Plus — solicitou Hunter, apontando para um conjunto de instrumentos de efeitos especiais no painel de controle do vídeo. — Isole na tomada do rosto, use o ADO e melhore a imagem. — Mas Hunter não conseguiu se conter o tempo suficiente para que o técnico de edição seguisse as suas instruções. Empolgado, ele se aproximou e assumiu os controles por conta própria.

Feldman compartilhava do seu entusiasmo e observava atentamente, enquanto Hunter habilmente localizava o quadro exato que procurava: o momento em que o rosto estava em seu melhor ângulo, voltado cerca de três quartos na direção da câmera, um instante antes da imagem se perder devido ao clarão do raio.

Através da magia da manipulação eletrônica, Hunter ampliou a imagem e um sussurro de admiração escapou dos lábios dos espectadores. Embora a ampliação distorcesse a imagem a princípio, ainda era possível discernir claramente. Muito pálido, com um aspecto alienígena. A cada ajuste, a visão foi ficando mais nítida e bem definida, até que, finalmente, todos os traços estavam razoavelmente distintos.

Os olhos eram ousados, escuros, estáticos. O nariz era proeminente, românico. As maçãs do rosto eram ressaltadas, o maxilar, robusto. Os cabelos escuros tinham um comprimento mediano e esvoaçavam ao sabor do vento.

Havia uma intensidade de ira divina ali. Uma sobriedade julgadora, intimidante, angustiada. Mas embora o cenho estivesse franzido, os olhos apresentavam uma quase mágoa. Os lábios eram espessos e estavam entre­ abertos. Era um rosto jovem, mas havia nele uma sabedoria idosa. Era nobre, inteligente, autoritário.

— Puta merda! — arfou Hunter. — Aí está a figura do Messias para vocês!

E Feldman teve de concordar.

 

                       Subdivisão de Brookforest, Racine, Wisconsin

                       18:17, segunda-feira, 3 de janeiro de 2000

Michelle Martin estava cercada da família na sala íntima de sua casa, diante do aparelho de TV. Não estava disposta a assistir a mais um especial da RMN sem o máximo de apoio emocional que conseguisse angariar.

Ao lado dela no sofá estava Tom, seu marido há vinte e seis anos. Era um homem plácido, de constituição volumosa e sólida, com óculos de armação metálica e lentes grossas, que lhe deixavam os serenos olhos azuis duas vezes ampliados, subproduto de uma vida passada a analisar números na agência bancária do bairro. Sentado no chão aos seus pés estava Tom Júnior, rapaz de dezessete anos, ossatura desenvolvida, fiel reprodução do pai, sem o peso e os óculos.

Do outro lado da sra. Martin encontrava-se a filha, Shelley, vestindo um casaco folgado de moleton da Universidade de Wisconsin. Vinte anos, rosto vivaz, lembrava a mãe tanto na aparência quanto no temperamento nervoso. Escarrapachado na ponta do sofá, com a cabeça apoiada no colo da filha, encontrava-se o cachorro de estimação, animal de raça mista, tamanho mediano e orelhas caídas.

Todos estavam parados, com o olhar hipnotizado pelo televisor.

— O sr. Krazinski diz que esse rapaz é o arauto do Segundo Advento! — suspirou a sra. Martin. — Ele diz que o menino vai convocar o arcanjo Gabriel, que anunciará Cristo para o mundo!

— O velho Krazinski está tão desequilibrado quanto a conta bancária dele. — Tom Sênior soltou um riso sardônico. — Ele entrou no vermelho no banco seis vezes no mês passado.

— É — o filho soltou uma risadinha entrecortada. — Ele diz que os alienígenas andam roubando os cheques dele da Previdência Social!

— Shhhh! — reclamou a filha. — Eles vão mostrar a fita do Messias agora.

O ambiente ficou em silêncio quando o tenebroso vídeo começou a ser exibido na TV e as imagens da estranha seqüência de eventos da Praça do Rei Davi se desenrolaram num surreal chuvisco em preto-e-branco.

Quando a reportagem atingiu o clímax e a imagem distorcida do rosto do Messias começou a ser lentamente ampliada e corrigida, ficando o quadro final a encher a tela de forma tão espectral, tão ousada, tão poderosa e assoberbante, nem Michelle nem Shelley Martin conseguiram mais se conter.

Embora pai e filho tenham ficado de olhos arregalados e grudados na aparição na TV, mãe e filha (e milhões de pessoas iguais a elas pelo mundo afora) escorregaram para o chão e caíram de joelhos, embevecidas diante do Rosto de Deus.

O cachorro ganiu e saiu da sala em disparada.

 

                   Complexo residencial de Bem-Gurion, Jerusalém, Israel

                   10:41 terça-feira, 4 de janeiro de 2000

Feldman estava dormindo muito além de sua hora prevista para acordar. Sonhava novamente. Desta vez, ele estava patinando sobre uma enorme extensão de água, sozinho, numa corrida em clipes rápidos, com movimentos fortes e certeiros de suas pernas compridas. Lembrou-se dos invernos passados no estado de Ohio, quando saía com os amigos para patinar no gelo sobre um grande lago perto de seu alojamento.

Só que neste sonho fazia calor, mormaço, e o lago não estava congelado. Feldman deslizava sobre a superfície do mar aberto: o mar da Galiléia. Embora nunca tivesse ido lá, de alguma forma ele sabia qual era o lugar. Dirigia-se para a costa. Esquiando de pés descalços. O vento batia-lhe no rosto, o sol brilhava radiante no céu. A sensação era estimulante. Deslizava de lado, rodopiava, fazia curvas, escorregava, projetando-se como que por mágica através das marolas. Até que, por acaso, ele percebeu a presença de uma onda se formando logo atrás. Escura, amedrontadora, retumbante e imponente, vindo para cima dele.

Feldman endireitou a rota e acelerou o passo em direção à costa. Mas a onda foi crescendo, maciçamente, logo atrás, ganhando terreno. Era um vagalhão! Um maremoto!

Ele cruzava as ondas freneticamente. Não ousava olhar para trás. Nem precisava, pois foi engolfado pela sombra escura do paredão de água e envolvido por um estrondo ensurdecedor. Estava a poucos metros da segurança da praia quando o dilúvio desabou sobre ele, retorcendo-o num turbilhão entre os lençóis.

Ele se sentou de súbito na cama, ofegante, suado, mas tão aliviado por ter-se salvado que esboçou um sorriso. Até que percebeu o relógio sobre a cômoda. Desperdiçara preciosas horas de um dia reservado para passar com Aike.

 

                 Vaticano, Roma, Itália

                 18:06, terça-feira, 4 de janeiro de 2000

Sua Eminência Alphonse Bongiorno Litti, um dos cardeais de confiança que assessoravam o Papa, baixou a alavanca de bronze maciço de uma enorme porta entalhada em mogno e adentrou a resplandecente ante-sala do palácio residencial do Papa. Esperavam por ele, sentados em amplos e exageradamente estofados canapés de estilo francês do século XVII, o Papa Nicolau VI e Antonio Di Concerci, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, da igreja católica em Roma.

Litti era um homem de ar simpático, condescendente, com um metro e setenta de altura, a pele cor de oliva, corpulento, chegando à casa dos setenta. Seus grandes olhos castanhos, com proeminentes papos escuros a ressaltar-­lhes o aspecto naturalmente triste, eram separados por um nariz saliente. Seu cabelo era espiralado e mesclado. As batidas de seus sapatos sobre o piso de mármore atraíram a atenção de Di Concerci, que levantou os olhos, fez um breve aceno de cabeça para o colega que se aproximava e voltou à papelada que ele e o Papa estavam analisando.

Di Concerci, por outro lado, era de grande estatura, mas ágil, elegante e se movimentava com deliberação. Vigoroso aos setenta e um anos de idade, tinha o rosto alongado, digno, com maçãs proeminentes, olhos castanhos profundos e penetrantes. Por baixo do barrete vermelho-vivo, era possível enxergar seus cabelos brancos, cheios e ondulados.

Tarde demais para que Di Concerci percebesse, Litti respondeu ao aceno de maneira igualmente reservada e saudou seu pontífice com um respeitoso "Santidade".

— Buona sera, Alphonse — Nicolau constatou sua presença e acenou para que ele se sentasse na cadeira vazia à direita.

— Papa, parece cansado! — Litti demonstrou sua preocupação com a fisionomia surpreendentemente pálida e o ar abatido.

O pontífice conseguiu exibir um sorriso curto e afagou o braço do associado com um gesto reconfortante.

— Estamos atravessando um período muito cansativo, Alphonse.

Conforme era costume deles, um acólito entrou na sala para servir-lhes conhaque em taças de haste comprida. Nicolau pegou o seu, mas imediatamente o colocou sobre a mesinha de centro de marfim intricadamente entalhado à sua frente. Apoiou os cotovelos nos braços do canapé, o queixo na palma da mão esquerda, e focalizou o olhar numa das estatuetas cujas cabeças serviam de apoio para o tampo da mesinha.

— Já temos um levantamento completo dos danos causados pelo tremor? — perguntou.

— Temos sim, Santidade — respondeu monsenhor Litti. — Nada além do afresco na capela e o altar-mor na basílica. — Litti se referia ao Juízo Final, de Michelangelo, na parede ao fundo da capela Sistina e ao altar principal da basílica de São Pedro.

— Você verificou os estragos pessoalmente?

— Verifiquei, sim.

— E?

— A rachadura no afresco tem mais ou menos dois metros e meio de comprimento, chegando a três centímetros nos pontos de maior espessura. É profunda, mas surpreendentemente não se trata de um problema estrutural. Já o altar se dividiu em dois, mas não desmoronou. O peso de uma laje de mármore contra a outra o manteve erguido. Como medida de precaução, fizemos um apoio temporário no meio.

— É só isso?

— Isso é tudo que os engenheiros e eu conseguimos detectar.

O Papa ficou em silêncio e recostou-se na enorme poltrona, pressionando as pontas de dois dedos da mão esquerda contra a bochecha.

— E então, Alphonse, o que você acha de tudo isso?

O cardeal não sabia exatamente como responder. Não se sentia à vontade na presença de Di Concerci, em vista de um aguçado conflito de personalidades que se estabelecera anos antes. Ele tomou um gole de seu conhaque e aguardou um pouco, em busca de uma resposta que não fosse comprometedora.

— Não torne as coisas difíceis para mim hoje, Alphonse — Nicolau fez uma leve pressão. — Quero que você diga o que está pensando.

Litti deu uma olhada de soslaio para o rosto do Papa e percebeu uma sinceridade que não poderia decepcionar.

— Acho tudo isso bastante peculiar, Santidade — teve de admitir o cardeal. — Desde os estranhos eventos na Terra Santa até o tremor aqui em Roma, confesso, tenho a impressão de um certo quê sobrenatural permeando fatos.

Ele esperou algum tipo de reação de qualquer dos dois antes de prosseguir, mas Di Concerci estava olhando pela janela e Nicolau voltara a fixar os olhos na estatueta. Sem querer ser difícil desta feita, Litti continuou.

— Simplesmente não consigo conceber como coincidência os horários e a localização da tempestade e do tremor em Belém, Santo Padre. Para não mencionar a aparição dessa figura do Messias ou todos os milagres que alegam ter acontecido.

— Ou mesmo as estranhas ocorrências aqui no Vaticano... a ostensiva rachadura na parede da capela, surgindo exatamente na imagem do Juízo Final, de Michelangelo! Projetando-se desde os pés do Salvador em triunfo no céu até a Terra, onde as almas dos ressurretos estão sendo julgadas! Sem outra fissura qualquer, em lugar algum do mural!

— E depois o altar-mor da basílica, uma placa de mármore com trinta centímetros de espessura, dividindo-se exatamente no meio! E os outros objetos muito mais delicados ao redor sem um risco sequer!

Ponderando sobre a totalidade desses aparentes milagres, Litti baixou a voz para um sussurro reverente.   

— Santidade, eu acho que a Igreja precisa examinar essas circunstâncias com seriedade e muito cuidado. Com todas as premissas de que a maioria ou talvez todos esses eventos sejam sinais verdadeiros de Deus!

Litti fez silêncio e o Papa permitiu que se prolongasse o interlúdio de maneira considerável, sem exibir reação alguma à posição do cardeal, permanecendo, entretanto, em sua introspecção inquebrantável.

Afinal, sem alterar o olhar fixo, o Papa perguntou ao seu prefeito:

— E a sua análise, Antonio?

Di Concerci levantou-se lentamente da poltrona, deu vários passos em direção à enorme janela de caixilhos de chumbo mais perto de onde estava sentado e olhou para a amplidão da Praça de São Pedro e a multidão de milenaristas que ali se encontravam. Falou sem se voltar.

— Embora eu compreenda plenamente os impulsos do cardeal Litti e não possa discordar que os eventos certamente são peculiares, devo adotar uma postura mais pragmática, Papa.

Litti sentiu o rosto corar. Era exatamente por isso que desejava guardar seus comentários para depois do prefeito. Litti jamais compreendera a consideração do pontífice para com aquele homem.

Di Concerci virou-se e foi para o lado de Nicolau, tencionando excluir Litti sutilmente.

— Concordo que esses eventos mereçam um exame — continuou — mas não com base na premissa de que sejam sinais de Deus. Durante todo o século passado a Santa Igreja abordou corretamente todos esses ditos milagres e sinais com merecido ceticismo. E tal abordagem nos foi bastante útil. Neste caso específico, há inúmeras explicações alternativas, que não envolvem a intervenção divina.

A última afirmativa finalmente atraiu a atenção do Papa. Ele examinou o rosto impassível do prefeito.

Di Concerci continuou sua argumentação.

— Que um tremor possa ocorrer aqui coincidentemente com outro em Belém não é de todo implausível! Todo o Mediterrâneo, afinal, é uma única placa tectônica gigantesca. Talvez um tremor tenha detonado o outro. É também fato científico bem documentado que as tempestades eletromagnéticas podem ser geradas, e freqüentemente acompanham perturbações geológicas, tais como erupções vulcânicas e terremotos. E há também a possibilidade de que esses tremores, tanto o daqui quanto o de Belém tenham resultado de um esquema intencional e bem orquestrado. Uma trama elaborada, incluindo explosivos subterrâneos detonados por milenaristas desesperadamente empenhados em preservar os seus cultos e evitar embaraços.

Litti não conseguiu conter uma risadinha de desprezo. Di Concerci dedicou-lhe um olhar de perdão e tolerância e levantou uma questão.

— Cardeal Litti, você poderia demonstrar, sem sombra de dúvidas, que os danos causados à capela e à basílica não foram provocados pelo homem?

O cardeal sentiu vontade de arrasar o rival, mas não teve defesa efetiva contra o desafio. E o que fez foi contrapor uma pergunta aguçada.

— E como você explica, Di Concerci, a transformação do rapaz inválido no Poço de Davi? A fissura que se abriu entre os pés dele, estendendo-se do ponto em que se encontrava até o templo? As diversas curas milagrosas que resgataram centenas de espectadores enfermos na virada exata do milênio? Certamente não há como deixar de lado esses fenômenos com tanta facilidade!

Di Concerci não se desconcertou.

— Devo confessar, Alphonse, também achei as dramáticas transmissões televisivas do chamado Messias bastante impressionantes. Mas tive que deixar a razão prevalecer. Muito do que foi apresentado deve ser descontado como especulação e intriga, deveras ampliadas pelas testemunhas impressionáveis e a mídia oportunista. A substância que resta ainda fica sujeita a uma análise mais detalhada. Por exemplo, a questão do tal Messias: considerando-se as grandes emoções e expectativas que esses milenaristas haviam investido num Segundo Advento, não seria inevitável que pelo menos um deles sucumbisse a algum tipo de manifestação messiânica? É um distúrbio psicológico comum mesmo em épocas mais normais.

Continuou:

— Ou, o que é mais provável, isso tudo não poderia ser simplesmente uma farsa enorme e muito bem elaborada? Talvez o rapaz não fosse de fato doente. Um impostor bem treinado. Que mecanismo seria melhor do que um novo Messias para garantir vida prolongada a um elemento periférico de uma religião que, caso contrário, estaria fadada a desaparecer?

A autoconfiança extremada de Di Concerci estava corroendo Litti, que via claramente os esforços conscientes do prefeito para parecer razoável e sábio diante de Nicolau.

— Mas e a fissura? — objetou Litti. — As várias pessoas curadas de males arraigados? Não se pode afastar tudo através da racionalização, Di Concerci!

— Sinto muito, cardeal Litti, mas não percebeu que a dita fissura no poço não foi detectada no vídeo noturno? Só se tornou visível à luz do dia, numa filmagem feita muitas horas depois. Tempo bastante para que os Samaritanos escavassem uma fenda artificial. Ou talvez essa rachadura tenha sido construída antes da presumida transformação do rapaz, sendo tudo apenas um jogo de efeitos especiais, inteligentemente executado. E quanto às curas milagrosas que ocorreram, mais uma vez, tudo poderia, muito plausivelmente, fazer parte de uma fraude bem elaborada. Não obstante, partamos da premissa, por ora, de que algumas sejam válidas. Que alguns desses indivíduos estivessem realmente enfermos e tenham sido curados. Afora as doenças psicossomáticas, há que se perceber que muitas das curas alegadas por aí parecem girar em torno de problemas motores e neurológicos. A história da medicina está repleta de incidentes que envolvem vítimas de descargas de alta-voltagem acidentais, inclusive oriundas de raios, curadas instantânea e inexplicavelmente de males semelhantes.

— Entretanto, cardeal Litti — concedeu o prefeito — estou disposto a admitir que há um aspecto nisso tudo para o qual considero as explicações lógicas um tanto elusivas. Minha incerteza situa-se no horário e localização do terremoto em Belém. Embora eu não descarte a possibilidade de uma farsa, francamente não creio que uma ocorrência assim possa ter sido gerada pelo homem.

Litti sentiu-se um tanto aliviado, questionando-se quanto à possibilidade de Di Concerci estar de fato abrindo a mente pelo menos uma vez. Mas sua esperança foi destruída imediatamente.

— Não obstante — refraseou-se Di Concerci prontamente — assumindo que o horário e a localização do tremor seriam mesmo uma coincidência impressionante, não está fora do âmbito das possibilidades naturais. A cada ano ocorre um milhão de abalos sísmicos mensuráveis diferentes em todo o planeta. Um milhão! E a Terra Santa fica exatamente numa das zonas de falhas tectônicas mais ativas do mundo!

— Seu conhecimento de ciências é notável — interpôs-se Litti, sarcasticamente.

— Confesso, Alphonse — disse Di Concerci num tom apaziguador, que cheirava a condescendência — que eu também fiquei perturbado com as implicações desses últimos eventos. E, conseqüentemente, dediquei um tempo considerável a uma pesquisa das circunstâncias. Conforme expressei de início, há alternativas viáveis que precisam ser exploradas antes de nos arriscarmos a alarmar os fiéis e a compelir mais seguidores para as fileiras desses milenaristas irracionais.

Este último ponto ficou visivelmente marcado em Nicolau.

Di Concerci tornou a dirigir-se diretamente ao Papa.

— Papa, se houver algum sinal nisso tudo, ele certamente não está claro. Precisamos ser extraordinariamente cuidadosos na maneira como vamos responder; caso contrário, acabaremos reagindo exageradamente a uma das farsas mais embaraçosas, embora muito bem articulada, já perpetrada contra a Igreja. Acredito piamente que precisamos adotar uma postura firme e recomendo que publiquemos imediatamente as nossas considerações, baseadas nos argumentos que acabo de discorrer.

Litti percebeu a influência que a argumentação de Di Concerci estava exercendo. Em desespero, ele se levantou e apelou ao Papa.

— Papa, após dois mil anos de espera e preparação para um evento desta natureza, decerto que a Igreja católica, acima de todas as outras, precisa reconhecer os sinais de Deus! Esse rapaz bem poderia ser um João Batista, que veio para preparar o caminho para...

O Papa o fez parar de súbito com a mão estendida; recostou-se na sólida poltrona e fechou os olhos com força. Depois de algum tempo, ele se virou para Di Concerci.

— Você está certo, Antonio. Eu também deixei que as minhas emoções suplantassem a minha razão. Por favor, ande logo como isso. Peço que prepare uma carta Papal, a ser submetida a mim, para liberação até amanhã à tarde. Alphonse, eu gostaria que você desse início imediato aos consertos no afresco e no altar. Supervisione o trabalho pessoalmente e providencie para que seja concluído o mais rápido possível.

Litti ficou estarrecido.

— Mas, Santidade, e se os estragos forem mesmo um sinal de Deus? Não deveriam ser preservados, pelo menos temporariamente...

— É finito, Alphonse!

O ar e o tom de raiva contida em Nicolau foram manifestações que Litti Jamais testemunhara no pontífice antes. Abalado e acabrunhado, o cardeal fez uma reverência com a cabeça, tanto por aquiescência quanto para evitar o que, presumiu ele, seria a expressão de triunfo em seu adversário.

O Papa Nicolau VI, cansado e preocupado, dispensou os assessores e retirou-se para os seus aposentos. Antes de se preparar para dormir, ele foi sentar-se à ampla e ornamentada escrivaninha de seu estúdio. A mesma de onde seus antecessores haviam dirigido o curso das nações e dos reis, lançado as Cruzadas, livrado o mundo da apostasia malévola e dos hereges.

Apoiando o queixo sobre as mãos em concha, o Papa deixou-se perder em seus pensamentos, refletindo sobre os pontos de reforço da argumentação de Di Concerci. Nem o prefeito nem o cardeal faziam idéia de quão perto o pontífice chegara de compartilhar com eles um antiqüíssimo e sacrossanto segredo. Uma grave confidência que lhe fora passada muitas décadas antes. O quanto ele ansiava por se livrar do fardo que estivera carregando! Mas as palavras de esperança do prefeito propiciaram-lhe razão para reconsiderar. Talvez Di Concerci estivesse correto. Talvez Nicolau não precisasse romper a fé com essa confiança inviolável. Ainda não. Talvez não fosse necessário.

Nicolau pegou os óculos no bolso e os colocou. De uma corrente trançada em torno de sua cintura, tirou uma grande e intricada chave de ouro. Cuidadosamente, ele a inseriu na fechadura de uma porta lateral de sua escrivaninha, sentindo-a acionar os pesados tambores com suavidade. A porta foi destrancada e, do interior escuro, o Papa retirou um portfolio com capa de couro desbotado, presa por tiras também de couro. Ele depositou o volume sobre a mesa à sua frente.

Soltando as tiras, ele abriu o invólucro, revelando três coleções de documentos amarelecidos. Retirando a terceira delas e segurando-a com reverência nas pontas dos dedos ele se recostou na cadeira e pôs-se a lê-la atentamente, com o cenho profundamente conturbado diante de seu terrível conteúdo.

 

                 Agência de notícias da RMN, Jerusalém, Israel

                 11:15, quarta-feira, 5 de janeiro de 2000

Os boatos vinham se infiltrando desde cedo e a esta altura Bollinger estava convencido de sua precisão. Com base direta na balela dos milenaristas, dizia-­se que o Messias faria afinal sua esperada aparição pública. Depois de jejuar e meditar durante quatro dias e quatro noites nos desertos ao norte de Jericó, o Messias falaria de um ponto próximo à cidade estância de Tiberíades, na costa ocidental do mar da Galiléia. Amanhã, ao romper da aurora.

Feldman, Hunter, Erin Cross e uma equipe de produção foram despachados imediatamente para Tiberíades no helicóptero da RMN, a fim de se prepararem para quaisquer eventualidades que pudessem suceder. Sullivan, Bollinger, Cissy, Robert Filson e mais equipes tomariam um vôo em seguida, para se juntar a eles.

 

                     Tiberíades, Israel

                     3:30, quinta-feira, 6 de janeiro de 2000

Feldman acordou cedo e fez um desjejum de tâmaras, figos, romãs e suco de laranja. Estava acompanhado de Arnold Bollinger, Nigel Sullivan, Cissy McFarland e a trigueira e gregária dona da fazenda onde a RMN tivera a sorte extremada de conseguir alojamento. A julgar pelo aspecto soturno de Cissy, Feldman percebeu que ela também havia notado Erin Cross e Hunter escapulindo na noite passada para um passeio demorado pelas redondezas do litoral.

Feldman comeu apressadamente e pediu licença para ir caminhar um pouco e aproveitar o ar marinho. Contornando a lateral da casa, ele viu Hunter assobiando alegre, enquanto se ocupava em colocar seu equipamento de vídeo a bordo de um dos helicópteros. Erin Cross não se encontrava em lugar algum e o cabelo de Hunter parecia ter sido penteado com uma batedeira de ovos.

— Alô, maninho! — chamou Hunter, ao vê-lo por cima do ombro, enquanto se agachava para erguer uma caixa do chão.

— Alô, camarada! — Feldman retribuiu a saudação. — Parece que você teve uma noite agitada!

Hunter exibiu um sorriso espontâneo e concluiu seus afazeres, guardando a última peça do equipamento. Feldman colocou a mão sobre o ombro do parceiro.

— Ei, cara, acho que vamos ter um problema pela frente!

O cinegrafista se voltou para ele com um olhar indagativo.

— Chama-se Cissy. Esse negócio entre você e Erin deixou-a possessa.

Hunter soltou um suspiro, bateu a porta do compartimento de carga e depositou um olhar consternado no parceiro.

— Puxa, Jon! Pode acreditar, não é isso que eu quero.

— Eu sei que não — apiedou-se Feldman. — Mas achei que você e Cissy..., sabe, estava rolando alguma coisa. Vocês ficavam bem juntos.

Hunter deu de ombros.

— Eu amo essa menina, cara. Juro, ela é o máximo. Mas é como se estivéssemos dentro de casa, sabe? Eu não quero isso dentro do meu quintal. Restringe demais. Além disso, Bollinger me mataria. A Cissy é protegida dele, caramba!

Feldman ficou decepcionado. Não que isso fosse da sua conta, mas ele sempre tivera uma certa afeição por Cissy. Como o carinho de um irmão mais velho, acatando sua ousadia e petulância. Sem mencionar a lealdade e apoio que ela sempre dera, desapegadamente, a ele e Hunter.

— E Erin não está dentro do seu quintal? — indagou Feldman.

— Bem... talvez seja uma vizinha — esgueirou-se Hunter com um sorriso. Sem que seu raciocínio angariasse qualquer solidariedade, ele se mostrou indignado. — Caramba, Feldman! Esse negócio com Erin tem perna curta! Quanto tempo você acha que um piloto de câmeras como eu vai se agüentar com uma mulher como ela? Eu só estou indo no embalo, cara!

Feldman ficou em silêncio, estudando pensativamente o amigo, sem comentários. Hunter fez mais uma tentativa.

— Por que você quer me jogar pra cima da Cissy? Eu não sou legal para ela. Porra, Feldman, se tem alguém que pode entender isso, esse alguém é você. Nem eu nem você agüentamos ficar no mesmo relacionamento durante muito tempo. Eu fico de saco cheio e você fica com medo. Seja lá como for, eu e você estamos fadados a ser solteirões. Neste exato momento, cada um de nós arranjou uma boa opção... portanto, vamos comer, beber e curtir as gatas enquanto pudermos.

Feldman achou a cínica filosofia um tanto familiar, mas surpreendentemente deprimente. De certa forma, ele sempre tivera para si que, mais cedo ou mais tarde, os dois encontrariam as mulheres certas, que lhes ajudariam a superar as respectivas fraquezas. À parte suas próprias fobias, Feldman sabia que Hunter era melhor do que se permitia ser. Mas o corpulento cinegrafista talvez tivesse razão. Ele não estava preparado para um relacionamento sério.

— É, eu acho que entendo, Breck — concordou Feldman. — Mas veja se consegue facilitar as coisas para Cissy tanto quanto possível, está bem?

Hunter assentiu negligentemente e partiu para a casa da fazenda, a fim de tomar o seu café da manhã.

Feldman enfiou as mãos nos bolsos e tomou o caminho de pedestres ao largo do mar da Galiléia, sozinho com seus pensamentos. Logo no início, ouviu alguém chamando seu nome e voltou em passo acelerado na direção de um membro da equipe que o estava chamando. Os helicópteros já estavam com os motores ligados e aguardavam a hora de partir para o passeio matinal de reconhecimento.

Feldman entrou rapidamente na casa em busca de seu embornal e saiu às pressas, para se juntar a Sullivan, Bollinger, Hunter e Erin na cabine dos passageiros do primeiro helicóptero. O motor subiu de giro e eles decolaram, descrevendo uma ascendente inclinada em meio à escuridão imediatamente anterior ao romper da aurora, seguidos de perto pela segunda aeronave.

Logo as luzes de milhares de barcos ancorados à beira da orla marítima se descortinaram abaixo. E ao longo da costa, dezenas de milhares de acampamentos se estendiam por quilômetros a fio. No entanto, mal eles haviam iniciado o levantamento, a multidão começou a demonstrar sinais de alvoroço. Luzes se acenderam por todo canto. Buzinas e gritos, mais sonoros que o staccato das hélices do helicóptero, se fizeram ouvir.

— O que está acontecendo lá embaixo? — quis saber Bollinger.

Decorreram alguns instantes até que surgiu um padrão decifrável, mas, conforme ficou evidenciado pelos faróis em movimento, parecia que as massas estavam se dirigindo para o norte. Muitos barcos içaram suas âncoras e partiram ligeiro naquela direção.

— Vamos passar um rádio para as unidades móveis e ver se eles sabem de qualquer coisa — orientou Sullivan.

Chegou o relatório: os Samaritanos haviam anunciado publicamente, na Rádio Israel, que o Messias estaria fazendo uma aparição treze quilômetros ao norte dali, em uma colina denominada monte das Beatitudes, localizada às margens da rodovia que acompanhava o litoral. Assim que o piloto assumiu o rumo visado, Hunter saiu de seu assento e abriu o zíper de uma das sacolas do equipamento. Tirou dali uma enorme Steadicam, uma câmera giroscópia especial que permitia uma filmagem firme mesmo a bordo de um helicóptero sacolejante. Colocando-a sobre os ombros, Hunter acendeu uma luz, iluminando Feldman.

— Quando você quiser — avisou.

O jornalista pigarreou, ajustou a gravata e discorreu um breve resumo da situação. Depois que Feldman concluiu, Hunter fez sinal para o piloto baixar um pouco e amplificou a notícia com um vídeo impressionante da infinidade de faróis de carros lá embaixo: mais de um milhão de milenaristas, numa cruzada maciça em direção a um ponto de encontro com seu Messias.

 

                       Monte das Beatitudes, Israel

                       4:46, quinta-feira, 6 de janeiro de 2000

Visível a mais de cinco quilômetros de distância, a elevação era mais do que uma colina, fácil de localizar, iluminada por enormes lâmpadas de halogênio. À medida que foram se aproximando pelo ar, Feldman e companhia puderam divisar um grande palco elevado parecido com um altar, montado sobre o cume, para onde se dirigiam os potentes holofotes.

Se ainda existia qualquer dúvida sobre onde os Samaritanos haviam conseguido o capital para produzir evento tão sofisticado, ela foi logo sanada. Dispostos por toda a frente do palco, em pontos estratégicos espalhados por todo canto, havia emblemas de soberbos patrocinadores: IBM, Coca-Cola, Sony, Ford, Nike.

Distante mais ou menos quinze metros da multidão que já se formara, o altar estava protegido por uma cerca eletrificada.

— Baixamos ou ficamos aqui em cima? — quis saber o piloto. Outras aeronaves nas vizinhanças pareciam estar mantendo distância.

— Vamos deixar o outro helicóptero no ar para cobrir cenas da multidão e fazer tomadas panorâmicas do palco — sugeriu Sullivan — enquanto nós tentamos pousar do lado de dentro da cerca. Vamos ver se conseguimos permissão para umas tomadas em close e talvez até uma entrevista.

Eles escolheram um local o mais afastado possível do centro do palco, atentos à fiação elevada, e preocupados que o vento gerado pela hélice pudesse derrubar alguma das torres de iluminação ou qualquer equipamento de cena. Mas este era o menor dos problemas. Assim que os Samaritanos descobriram o que estava prestes a acontecer, uma dúzia de corpulentos guardas de segurança saiu de sob o palco, brandindo enormes cassetetes especiais para uso noturno.

O piloto retrocedeu e olhou para Sullivan, à espera de instruções. Fitando todos ao seu redor e encolhendo os ombros, Sullivan exclamou:

— Eles só podem nos mandar sair! Vamos tentar pousar; o que vocês acham?

O piloto desafiadoramente direcionou o pouso para cima dos guardas, o que fez com quem se espalhassem. Uma vez com o helicóptero em terra firme, Feldman se deu conta de que os irados guardas de segurança só se manteriam a distância até que as hélices começassem a diminuir a velocidade. Mas ele teve uma idéia.

— Nigel — gritou ao ouvido de Sullivan — mantenha os rotores perto da velocidade de decolagem. Neste ínterim eu vou lá falar com eles, enquanto Hunter vai fazendo algumas tomadas, só para prevenir.

Sullivan não tinha idéia melhor, de modo que eles abriram a porta de repente, e Feldman saiu para a zona neutra com o andar incerto de quem está no meio de um furacão. Ele tinha esperança de que o seu recém-adquirido status de celebridade pudesse lhe assegurar o acesso e chegou inclusive a detectar um traço de reconhecimento em pelo menos um guarda, a quem abordou.

— Jon Feldman, RMN Notícias — gritou ele, sob a ventania das hélices, exibindo de pronto as credenciais de jornalista. — Estou aqui para um encontro com Richard Fischer. — Era uma jogada. Pelo que Feldman sabia, Fischer nem sequer estava ali.

— Ninguém pode entrar aqui — o homenzarrão contrapôs, com um sotaque típico do sul dos Estados Unidos. — Ninguém. Nós enxotamos todos os outros helicópteros, mas vocês pousaram mesmo assim!

— Ora, mas eu falei com o reverendo Fischer pelo celular não faz quinze minutos — mentiu Feldman — e ele disse que me receberia, se eu conseguisse chegar aqui imediatamente. — Voltando-se para o helicóptero, Feldman fez sinal para o piloto desligar o motor, apontou para Hunter e acenou para que ele viesse.

O guarda piscou e olhou para um colega, que não ajudou em nada.

— Não saiam daqui, que eu vou falar com o sr. Fischer — resolveu ele, partindo em seguida.

Feldman pegou Hunter de imediato, dirigiu sua câmera para o segundo guarda e, com sua mais notória voz de apresentador, gritou:

— Muito bem, estamos falando ao vivo daqui do monte das Beatitudes, transmitindo para o mundo uma entrevista oficial sobre os detalhes da segurança dos Samaritanos. Imagens de Breck Hunter!

A câmera de vídeo e a perspectiva de uma exposição para o mundo inteiro congelaram momentaneamente os guardas. Hunter pegou a deixa de imediato e deu andamento a uma série de perguntas pessoais e elogios, enquanto Feldman escapulia para seguir atrás do guarda número um por baixo do enorme palco.

A estrutura parecia um labirinto de andaimes modulares de suporte à plataforma, situada a um pé-direito de quatro metros. Ali dentro, havia diversos trailers e, dentro de um deles, o repórter supôs estar escondido o Messias. Feldman alcançou o guarda no momento em que este, arfante, chegava a uma das unidades móveis e batia à porta.

— Reverendo Fischer — gritou ele — acho que estamos com um probleminha por aqui.

A porta foi aberta e a corpulenta figura de Richard Fischer preencheu o vão.

— O que está acontecendo, sr. Granger? Estamos ocupados.

— Eu posso falar por mim mesmo, obrigado, sr. Granger — assegurou­-lhe Feldman, revelando-se para o reverendo.

— O que está fazendo aqui, sr. Feldman? — disse Fischer, franzindo o semblante. — Não estamos deixando a mídia passar da cerca.

— Preciso falar com o senhor, reverendo, é importante.

Fischer assentiu para Granger, que saiu do caminho, mas não abandonou seu posto nem convidou Feldman para entrar.

— Seja breve, sr. Feldman, não posso dispor de muito tempo.

— Queremos filmar a aparição, reverendo Fischer. Trata-se de um evento de importância internacional e merece uma representação melhor do que simples imagens tomadas a quinze metros de distância, através de uma cerca de tela.

— Já temos um acordo fechado para uma cobertura de vídeo completa, profissional, sr. Feldman. Contratamos a nossa própria equipe de produção particular. Desta vez, se vocês quiserem uma boa visão do nosso Messias, terão de adquiri-la diretamente de mim, e não de um amador. Nossos preços serão razoáveis, é claro.

— Se estamos falando de indenizações, senhor, pode ficar tranqüilo; não só pagaremos pelas filmagens, como também colocaremos cópias completas ao seu inteiro dispor, para uso totalmente irrestrito. Além do mais, não vi nenhuma equipe de filmagem lá fora. E se eles não comparecerem ou se o trabalho deles não vingar? De toda maneira, não seria uma alternativa sábia providenciar um suporte profissional?

Fischer se empertigara ao ouvir falar de indenizações.

— Quanto vocês estariam dispostos a pagar, sr. Feldman?

— Preciso conseguir uma autorização, mas acho que poderia responder por, digamos, dez mil — sondou Feldman.

— Estamos falando do Messias, sr. Feldman! — grasnou Fischer, ofendido. — Nada menos do que trezentos mil! E quero todos os direitos sobre todas as filmagens depois de sua primeira transmissão. É pegar ou largar.

Feldman coçou a nuca e tomou uma decisão de desespero.

— Eu digo o seguinte, aceitamos a sua proposta de trezentos mil, mas não dá para atender ao pedido dos direitos de imagem. Se não detivermos todos os direitos sobre as fitas, elas não nos valem nada.

Fischer olhou para o relógio.

— Tudo bem — decidiu. — Mas quero um contrato escrito com este fim antes que vocês filmem uma imagem sequer. Entregue-o ao sr. Smead, no trailer número sete. E não deixe o seu pessoal atrapalhar nada. Não cheguem a menos de três metros do Messias. E não façam perguntas nem conversem com ninguém! Compreendeu?

— Perfeitamente. — Feldman apertou a mão de Fischer.

— Granger — Fischer chamou o seu guarda — vá com o sr. Feldman e cuide para que ele faça exatamente aquilo que combinamos. Qualquer deslize, pode tomar a câmera deles e mandá-los para fora daqui.

— Não há dúvida, sr. Fischer. — Granger lançou um olhar severo para Feldman, que partiu em passo acelerado na direção do helicóptero.

Granger seguiu-o de perto, resfolegante e com as faces coradas, para assumir a vigilância dos movimentos da RMN. Mandou os homens de volta a seus postos, avisando-os para que usassem as armas, se necessário fosse, a fim de evitar quaisquer outros pousos.

Feldman correu até onde Sullivan e Bollinger ansiosamente aguardavam.

— Espero não ter ultrapassado meus limites — explicou Feldman — mas fechei um compromisso de exclusividade para este evento por trezentos mil.

Bollinger arfou:

— Você o quê?

Sullivan acenou para que ele não prosseguisse.

— Fez bem, Jon. Vale dez vezes essa quantia para nós. O mais perto que qualquer outro concorrente vai poder chegar é até a cerca.

Entretanto, para o desafortunado restante da mídia hoje, até mesmo o ponto de observação de segunda categoria não era atingível. A multidão compacta, que se acotovelava perto da cerca eletrificada, estava espremida de encontro aos painéis de aviso amarelos a poucos palmos de distância, guardando zelosamente seus lugares. Os frustrados concorrentes da RMN ficaram relegados aos helicópteros pairando no ar ou às capotas dos veículos estacionados à distância.

Feldman percebeu um tom róseo assomando no horizonte ao fundo, por cima do cume da cadeia de montanhas ao leste. Faltavam poucos minutos para o romper do dia. Ele assumiu sua posição no palco, pouco abaixo do altar.

Havia escadas de metal montadas por detrás do palco, num aclive acentuado em direção à platéia. Atravessando o centro da plataforma principal, o lance chegava até o altar elevado. Neste momento, uma dúzia de pessoas começou a subir os degraus, para chegar aos assentos dispostos no nível em que Feldman se encontrava. Esses oficiantes compreendiam a hierarquia do Conselho da Liderança Samaritana, inclusive um radiante Richard Fischer, que acenou altaneiramente com um movimento de cabeça ao passar por Feldman. O Messias não se encontrava entre eles.

Os alto-falantes começaram a tocar música. Baixinho a princípio, mais alto logo em seguida. Uma gloriosa ária celestial, de alguma ópera desconhecida que Feldman já ouvira, mas que não foi capaz de identificar. Embora se desse conta de que essa exibição bem cronometrada e sofisticadamente orquestrada era fruto de um planejamento cuidadosamente elaborado para instigar fascínio e admiração, ele não pôde deixar de reconhecer sua eficácia. A atmosfera estava carregada e eminentemente sobrenatural.

Hunter assumiu sua posição de câmera um no solo, bem de frente para o palco, enquadrando o contorno do altar em silhueta contra o alvorecer. Bollinger deu o sinal de prioridade para Feldman e o repórter fez a chamada pelo seu microfone:

— OK, vamos entrar ao vivo para preparar o ambiente.

Mal ele começara sua introdução, entretanto, os potentes holofotes que iluminavam a encosta se apagaram de súbito e o volume da música aumentou. A multidão caiu em silêncio quando o sol subitamente despontou por trás do cume serrilhado das montanhas ao fundo, lançando um único raio dourado exatamente sobre a parte posterior do altar.

Como que alçada num túnel de luz, uma figura pequena e esguia subiu com firmeza pelo centro da escadaria, prosseguindo diretamente até o topo, onde parou e ficou imóvel atrás do altar.

Feldman conteve o fôlego.

É chegado o Senhor!

 

                     Monte das Beatitudes, Israel

                     6:21, quinta-feira, 6 de janeiro de 2000

A platéia maciça estava absolutamente imobilizada pela cena etérea, e assim permaneceu durante o curso de sessenta segundos completos, enquanto a música celestial chegava, num crescendo, ao final.

O esguio Messias estava vestido com uma túnica branca, comprida e folgada, com capuz, arrematada por um rolotê vermelho e purpúreo. Sua cabeça estava inclinada para frente, o rosto totalmente coberto pelo capuz que a luz da alvorada envolvia por trás.

Feldman, a equipe da TV e os milhões de espectadores assistiam, arrebatados e contendo o fôlego, enquanto a forma misteriosa começava a se apresentar, lentamente. A cabeça pendeu para trás. Os braços delgados se ergueram num movimento firme e seguro até apontarem para o céu. As mangas escorregaram graciosamente, descortinando uma pele opalescente. Os pequenos punhos cerrados se estenderam e as mãos abertas exibiram finos dedos de alabastro.

E afinal o capuz caiu, revelando um rosto angelical, radiante, sobrenatural, encantador. Inocente, despretensioso, infantil e belo. Todavia sábio, repleto de propósitos. Os olhos estavam fechados e a boca escancarada, exibindo dentes alinhados e perfeitamente brancos.

Feldman ficou estarrecido e depois encantado, ao perceber que esse movimento pungente e cativante não passara, na verdade, de um espreguiçamento e bocejo matinais. Entretanto, devido ao contraste de luz e sombras provocadas pelo sol e à distância dos observadores, Feldman duvidou que alguém mais tivesse sido capaz de distinguir tal fato.

Embora se tratasse, certamente, do mesmo rosto arrebatador que Feldman vira no vídeo rudimentar da virada do milênio, o impacto causado agora era totalmente diferente. Não havia os traços de dor, ira ou angústia que haviam perpassado através das escuras imagens do monitor de TV. Talvez fosse a falta de exatidão do aprimoramento computadorizado, mas este rosto não tinha nada daquela intensidade. Parecia até menos angular agora. Arrefecido. Doce.

Contudo, não perdera a sobrenaturalidade que lhe conferia a sua divindade. Era uma criatura impressionante. A pele era totalmente lisa, imaculada e literalmente vibrante em seu alvor puro e radiante. O rosto era perfeito em sua simetria; os grandes olhos eram escuros, bem plantados, com longos cílios negros a demarcá-los. O queixo era bem torneado, firme. O nariz, proeminente, tal qual o de um deus romano. Totalmente adequado.

A única imperfeição física a ofuscar essa visão incitante e imaculada eram uns estranhos filetes vermelhos que se faziam visíveis em alguns trechos raspados dos cabelos desgrenhados do Messias. Um corte de cabelo muito ruim.

Mas se aquele rosto era realmente o de um Messias, Deus havia feito uma piada cruel com o Seu ungido. Esta aparição estranha e surreal não era a de um rapaz, mas a de uma moça. E quando Feldman ouviu sua voz, teve certeza disso.

Olhando por cima da multidão, a Messias bradou numa voz clara, absorvente, autoritária, mas totalmente feminina:

— Vasheim aboteinu tovu lisanecha — anunciou ela em hebraico perfeito, que Feldman não compreendeu.

— Bism Elah atty laka — entoou ela em árabe perfeito, que o repórter tampouco entendeu.

— Em nome do Pai, venho até vocês — disse ela em inglês perfeito, e Feldman percebeu que a Messias estava repetindo o mesmo pensamento em várias línguas.

— Au Nom de Dieu notre Père, je viens à vous — continuou ela em francês.

Ela repetiu o processo em alemão, espanhol, russo, chinês, italiano e japonês, pegando o ritmo de um cântico que tocou fisicamente a multidão. Dez línguas distintas ao todo, gravadas em fita, e seu sotaque, em cada instância, foi perfeito. Concluindo um circuito, a Messias começou uma nova frase, retornando ao mesmo processo rítmico de traduções. Ela pontuava suas orações com movimentos decisivos dos braços e corpo.

O mundo recebeu o primeiro sermão da nova profetisa. Um breve discurso, que passou a ser conhecido como as Novas Beatitudes:

 

Em nome do Pai, eu venho até vocês.

Em nome da Verdade, eu venho até vocês.

Em nome da Revelação, eu venho até vocês.

Abençoados sejam aqueles que ouvem, pois compreenderão.

Abençoados sejam aqueles que vêem, pois a Nova Luz brilhará sobre vocês.

Abençoados sejam aqueles que resistem às convenções em nome da justeza, pois serão recompensados.

Abençoados sejam aqueles que buscam a Resposta dentro de si, pois conhecerão a mente de Deus.

Abençoados sejam aqueles que desafiam os poderosos em Meu nome, pois serão chamados de corajosos.

Abençoados sejam aqueles que não são egoístas, pois sua compensação será imensurável.

Abençoados sejam aqueles que são tolerantes, pois alcançarão a Unidade.

Abençoados sejam aqueles que salvaguardam os indefesos, pois conseguirão a vida eterna.

Abençoados sejam aqueles de bom coração, pois encontrarão conforto em si mesmos.

Rejubilem-se e exultem, porque sua recompensa é grande no céu; pois eles perseguiram igualmente os profetas que vieram antes. (Apoteose 4:6-19)

 

Houve um momento, perto do fim, em que a Messias, num apanhado visual da multidão, pousou os olhos nos de Feldman. Somente por um instante, de passagem, mas houve uma conexão. E mesmo no mais breve dos olhares, seus olhos escuros, serenos, com vários tons de azul, o penetraram de forma enervante.

Ele se sentiu simultaneamente tonto, confuso e invadido. Mas não teve oportunidade para refletir sobre a experiência. As mãos da Messias se ergueram aos céus como que a abençoar a multidão. E então a esbelta figura voltou-se abruptamente, deixando cair os braços e calmamente desceu as escadas, enquanto a multidão explodia.

O público maciço estava em êxtase. Rindo, chorando, rezando, totalmente saciado e tomado pelo arrebatamento desse momento religioso.

Feldman receou que a qualquer instante a insensata turba, em meio ao seu júbilo, pudesse avançar e abalar a razão divina de alguns dos fiéis mais desafortunados perto da cerca eletrificada, propiciando a Hunter uma rápida filmagem anedótica. Mas o povo ali reunido continuou a respeitar-se e não chegou a haver qualquer perigo.

Feldman achou que a maioria dos presentes estivera preparada desde o início para aceitar a figura deste Messias como o seu Salvador, independentemente de sua identidade sexual recém-revelada. O fato de ela ter conseguido superar as expectativas com tanta eficácia, entretanto, foi o que colocou a platéia nesse estado de euforia prolongada.

Mas nem todos da platéia. Havia ali alguns que não vieram dar as boas-vindas a um novo ícone religioso. Particularmente em se tratando de uma mulher. E estes deixaram o encontro com ceticismo, escárnio e desprazer.

Contudo, para todos os que testemunharam esse evento sem precedentes, não havia como negar que algo muito especial tinha acontecido ali.

 

                               Sede da RMN, Jerusalém, Israel

                               8:06, sexta-feira, 7 de janeiro de 2000

— Encontrei você! — disse um funcionário, aliviado, ao deparar com Feldman parado no carrinho do café. — Estamos procurando você por toda parte. Sullivan convocou uma sessão especial de estratégia na sala de conferência quatro.

Abandonando a xícara de café, um Feldman de ar cansado enveredou às pressas pelo corredor, sendo logo interceptado por outra funcionária, que esticou o pescoço para fora de uma porta e o chamou com a voz hesitante.

— Nem sei se devo incomodá-lo com isso — falou ela, repensando o que ia dizer, ao perceber o olhar atribulado no rosto de Feldman — mas estou com uma ligação interurbana do Japão... um sujeito que insiste em dizer que o conhece e que tem notícias importantes para lhe dar. Mal consigo entender o sotaque. — Ela olhou para o recado rabiscado que tinha nas mãos. — Um tal de dr. Omato?

— Vou atender. — Feldman interrompeu a correria e entrou para pegar o telefone que a moça lhe estendia.

— Alô, sr. Omato! Como vai? Já voltou para o Japão?

— Alô, sr. Feldman. Tudo bem. Voltei, sim; IDF deportou depois que aparecemos na TV.

— Que pena isso ter acontecido!

— Não tem problema. Nosso trabalho concluído. Mas eu tenho notícias mais importantes, agora. Sobre Messias!

Feldman estava tomando algumas notas desencontradas em seu bloco, mas neste momento o astrônomo contou com toda a sua atenção.

— O senhor tem novas informações sobre a Messias?

— Sim, sr. Feldman. Messias é mulher.

Feldman suspirou por dentro, voltando a atenção para o bloco de anotações.

— É, parece que isso já é um consenso geral.

— Não, sr. Feldman, quero dizer que Messias é mulher da queda do meteorito. Ela sobrevivente do deserto.

A ponta da caneta de Feldman rasgou o papel e ele aprumou a postura com um solavanco.

— O quê?!

— Sim, nós vimos na TV. Ela sobrevivente que ajudamos depois queda meteorito.

— Tem certeza, dr. Omato? Estava escuro. O senhor disse que a mulher estava ferida.

— Sim, positivo. Dr. Hirasuma também concorda. Dr. Somu também. Nós todos positivo.

— Tudo bem, excelente! Foi de grande ajuda. Os senhores nos ajudaram bastante. Posso pedir que alguém da nossa agência aí no Japão vá colher um depoimento seu?

— Sim, claro.

— Ótimo! Muito obrigado! Aguarde, por favor, que a minha assistente vai falar com o senhor.

Feldman entregou o telefone de volta para a funcionária, deixando-lhe instruções, e partiu para a reunião de estratégia, com a mente dando voltas.

— Ei, Jon, que bom você ter chegado! — saudou-o Sullivan quando ele entrou, já atrasado. — Só para sua informação, estamos tentando conseguir mais um encontro com Richard Fischer. Ele voltou para o hotel com a Messias num helicóptero alugado há poucos instantes.

Feldman arranjou um lugar à mesa entre Cissy e uma outra integrante da equipe.

— Os Samaritanos estão controlando todo o terreno do hotel agora­ continuou Sullivan. — Está cercado e solidamente protegido por guardas; eles não deixam ninguém entrar. Se conseguirmos fazer o nosso recado chegar até ele, vamos oferecer uma quantia vultosa por uma entrevista em particular com a Messias, que queremos que seja conduzida por você, naturalmente.

Feldman anuiu.

— Perfeito! — Sullivan mudou o tópico. — Agora vamos voltar à nossa conceituação sobre uma história alternativa de apoio para hoje à noite. Se todos preferirem a idéia de desenvolver uma análise do sermão da Messias, eu gostaria de sugerir, Jon, que você considerasse uma reportagem tendo Erin Cross como parceira de âncora. Na condição de nossa especialista em questões religiosas, Erin tem algumas boas sugestões a fazer.

Erin e Hunter estavam exultantes.

— Certamente — concordou Feldman e percebeu Cissy se remexendo na cadeira.

— Então, ao trabalho. — Sullivan esfregou as palmas das mãos. ­ Alguma pergunta antes de começarmos?

Feldman levantou um pouco a mão.

— Talvez isto já seja um ponto passivo, Nigel, mas estamos todos de acordo quanto ao fato da Messias ser realmente uma mulher?

Sullivan encolheu os ombros acima de um mar de cabeças que se agitavam em sinal de assentimento e afirmativas murmuradas.

— Não parece haver muitas dúvidas quanto a isso. — Ele sorriu. — E bastante atraente, para início de conversa! Talvez um tanto excêntrica, mas não deixa de ser impressionante, vocês não acham?

— Mas quem é ela e, em nome dos céus, de onde veio? — Bollinger apresentou a questão crucial.

— Acho que sei de onde ela veio — insinuou Feldman e todos os olhos rapidamente se concentraram nele. — Recebi um telefonema a poucos minutos do dr. Omato, o astrônomo japonês que nos ajudou antes. Ele e seus colegas estão convencidos de que a nossa pequena Messias é a sobrevivente desaparecida do desastre do Neguev, a mulher ferida que encontraram no meio do deserto. Já pedi à nossa agência japonesa que vá colher os seus depoimentos.

— Porra! — Hunter quebrou o silêncio, atônito. — Uma cientista maluca, abalada por uma explosão e com um complexo de Messias!

— Ou — disse Bollinger, que seguira uma mesma linha de raciocínio — possivelmente, uma vítima de amnésia, recolhida no meio do bafafá milenarista.

— Ou — extrapolou Cissy — uma vítima de amnésia, manipulada pelos Samaritanos.

— Acho que estamos chegando a alguma coisa aqui — agregou Sullivan. — Foi bom isso, Jon. Vamos reavivar a investigação do laboratório do Neguev. Vamos colocar as equipes três e quatro juntas nisso. E vamos deixar a história da Messias/sobrevivente de molho até vermos o que surge daí, está bem?

— Tentem conseguir uma lista do pessoal que estava trabalhando no laboratório naquela noite — sugeriu Bollinger. — Nomes, idades, descrição. Qualquer coisa para nos ajudar a identificá-la.

— Fiquem todos de antenas ligadas — instigou-os Sullivan. ­Decerto alguém que tenha trabalhado com ela já reconheceu o seu rosto na transmissão do noticiário. Ela não é um tipo tão comum assim, correto?

Não houve quem discordasse.

— Pois bem, e agora vamos passar à questão da reportagem de seguimento ao sermão de ontem. — Sullivan voltou-se para Erin Cross: — Erin, você faria a gentileza de compartilhar algumas de suas idéias-chave com Jon?

— Com prazer, Nigel. — Erin assumiu a palavra, fixou seu belo sorriso em Feldman e se aproximou de uma tela embutida na parede atrás de seu lugar à mesa.

— Passei boa parte da noite de ontem fazendo uma comparação abrangente das Novas Beatitudes com as originais — explicou ela, desenrolando a tela e revelando uma cópia impressa lado a lado dos dois sermões. — Por ora, vou poupá-los de uma avaliação mais técnica, pois há muitas...

— Graças a Deus! — sibilou Cissy, alto o suficiente para que quase todos na mesa percebessem.

— ... e resumir o que considero pontos subjacentes essenciais.

É importante observar como essas Novas Beatitudes diferem das originais em sua intenção. As Beatitudes de Cristo são elaboradas para inspirar e confortar os oprimidos e para promover a passividade e a humildade. As Novas Beatitudes, entretanto, parecem-nos conduzir numa direção distinta. A nova Messias estimula a mente aberta, a independência, a autoconfiança, a assertividade e o desprendimento individual. Uma postura mais pró-ativa, eu diria. Se há uma indicação de onde a Messias quer chegar com tudo isso, eu creio que se encontre na terceira linha de sua introdução.

Erin apontou para a tela e leu o verso em voz alta:

“Em nome da Revelação, eu venho até vocês”. É o uso desta palavra, “Revelação” que acho tão intrigante. É possível que, ao usar este termo, a Messias estivesse se referindo a João, o Livro das Revelações dos Apóstolos que, é claro, contém as mensagens apocalípticas descrevendo o fim do mundo e o Segundo Advento de Cristo. Por outro lado, com “Revelação”, a Messias poderia simplesmente estar insinuando que pretende revelar alguma coisa de significado espiritual, especial no futuro. Se assim for, o que poderia ser essa “Revelação” especial também permanece obscuro. Apesar do título que os Samaritanos conferiram a ela, ainda é impossível precisar o que essa mulher se considera. Será que ela acredita ser de fato uma verdadeira Messias... ou seja, alguém que, pessoalmente ungido por Deus, seria um líder espiritual? Ou será que ela se considera simplesmente uma profetisa, inspirada por Deus para propiciar vislumbres do futuro? De qualquer maneira, não há como negar que essa mulher está convencida de ser uma emissária de Deus.

Uma assessora da equipe ergueu a mão, timidamente.

— Eu sei que pode parecer ridículo, mas será que realmente devemos excluir a possibilidade de ela ser mesmo uma Messias genuína, uma pessoa sagrada enviada por Deus?

Hunter quase se engasgou com o seu café. Sullivan rapidamente o manteve calado.

— Nada disso! Vamos respeitar todos os pontos de vista nesta mesa.

O grande cinegrafista se desculpou e Erin abordou o tópico.

— Se partirmos da premissa de que ela é uma Messias verdadeira, então precisamos nos perguntar por quê. De que serviria a um ser supremo enviar uma mulher para divulgar a Sua mensagem? E por que Deus permitiria que ela imitasse a vida de Seu filho? Por que traçaria um paralelo às origens de Cristo com um nascimento em Belém, um Sermão da Montanha? Isso só viria a confundir a mensagem de Cristo; não faz sentido teológico, esta é a minha opinião.

— Mas talvez Deus tenha uma mensagem distinta para as mulheres? — sugeriu a moça.

— Pode ser! Ou talvez Deus esteja querendo equilibrar as coisas para as mulheres? — mais alguém se candidatou.

— Perfeito! — grunhiu Cissy, aborrecida. — Deus está dando uma de politicamente correto conosco!

Sullivan ergueu a mão para controlar o andamento da reunião.

— Sugiro que deixemos a filosofia para os filósofos e cuidemos das questões que estão em nossas mãos. Vamos, por gentileza, voltar a atenção para o desenvolvimento de uma reportagem substancial acerca dessas Novas Beatitudes polêmicas.

 

                           Vaticano, Roma, Itália

                           11:00, sexta-feira, 7 de janeiro de 2000

Nicolau ouvira tantas coisas acerca da polêmica do Novo Sermão da Montanha que ficara ansioso por vê-lo. Havia uma sensação de alívio nele agora. O consenso universal de que o dito Novo Messias era uma mulher retirara-lhe os temores subconscientes de que o mundo estivesse diante do Segundo Advento. Na melhor das hipóteses, ela não passaria de uma profetisa.

Não obstante, o Papa mandara fazer uma investigação sobre o passado do reverendo Richard Fischer. A pesquisa havia revelado que ele já fora camelô, acompanhando um circo itinerante, alcoólatra, andarilho e vendedor de Bíblias, antes de encontrar esse nicho entre os evangélicos. Isso daria ainda mais crédito à tradicional sabedoria do Vaticano de que o sensacionalismo da mídia em torno do Sermão da Montanha II de ontem não passava de uma bolação de marketing, elaborada com o fito de explorar o modismo vigente dos milenaristas.

Nicolau pedira ao seu respeitável confidente, o prefeito Antonio Di Concerci, que já assistira ao vídeo, para juntar-se a ele. Encontrando-se na ante-sala do pequeno cinema do palácio, eles entraram juntos, caminharam até metade do corredor e se sentaram lado a lado no salão vazio.

— Em que ponto se encontra o seu Decreto do Milênio, Santidade? — ­perguntou Di Concerci, para entabular uma conversa enquanto esperavam o início da fita. O cardeal se referia à esperada encíclica de Nicolau sobre o materialismo.

— Está concluído, Tony. Só estou aguardando a ocasião apropriada para divulgá-lo. Não vejo como ele possa receber a atenção merecida diante das atuais circunstâncias. Entretanto, agora que já cruzamos a tumultuada fronteira dessa barreira milenar com segurança, acho que devo torná-lo público na semana que vem.

O anfiteatro ficou às escuras e o vídeo começou. O pontífice foi inconscientemente atraído para frente quando surgiu a primeira imagem arrebatadora do monte contra os clarões do alvorecer ao fundo, todo iluminado por luzes brilhantes e cercado de multidões que se espalhavam encosta abaixo, em meio a bolsões de névoa ainda não dissipada.

Nicolau franziu o cenho. Não por desprazer, mas por maravilhar-se diante dos primeiros raios da manhã despontando no horizonte, irradiando­-se por detrás do palco. Ele cruzou as mãos bem apertadas, à medida que a música incitante foi atingindo o crescendo e a Messias deu início à sua marcha transcendente até o altar.

A primeira imagem clara da nova Messias o pegou bastante de surpresa.

— Ela é um anjo! — exclamou Nicolau em total apreciação, e Di Concerci olhou para ele, assentindo com seriedade.

O Papa deixou-se absorver pelo restante do vídeo. Ao final, depois de um período de silenciosa reflexão, Di Concerci falou:

— O Santo Padre não concordaria tratar-se de uma mulher?

Os olhos do Papa finalmente foram ao encontro dos olhos de seu assessor e ele respondeu em tom pensativo:

— Ora, sim! Não há dúvida de que é uma mulher. E com uma presença cativante!

— Tem um certo dom da oratória — teve de concordar Di Concerci. — Qual é a sua avaliação da possível autenticidade dela?

Nicolau tornou a olhar para a tela em branco, como se a resposta lá estivesse.

— Vim aqui bastante disposto a tachá-la de fraudulenta, Antonio­ — admitiu ele. — Certamente, sendo mulher, não pode ser um Messias. Mas talvez seja uma profetisa. Eu gostaria de compreender melhor a afiliação dela com esses Samaritanos, quem é de fato, e de onde vem. Existe uma qualidade etérea nela. É preciso saber um pouco mais, simplesmente.

— O que pensa dessa "Nova Luz" a que ela se refere, Santidade? Essa "Nova Revelação"?

— São esses os dois aspectos das suas Beatitudes que acho perturbadores — afirmou o Papa. — O restante de sua mensagem, pelo que pude perceber, é benigno e estimulante. Será interessante ver até que ponto ela vai levar isso adiante e o que vamos ouvir dela a seguir, se é que haverá alguma coisa nesse sentido. Precisamos manter os olhos atentos a esta situação, meu amigo.

— Concordo plenamente.

— Se essa mulher for fruto de alguma duplicidade — acrescentou Nicolau — devemos cortar o mal pela raiz logo. Quanto mais cedo o fizermos, mais rapidamente restauraremos a nossa congregação mundial à normalidade. Estou bastante preocupado com o estado da Sacrossanta Igreja neste exato momento, Tony. O apoio pelo mundo afora decaiu bastante, tanto espiritual quanto financeiramente. Nenhum evento nestes últimos cem anos gerou um impacto tão sério à Igreja quanto estes conturbados fenômenos milenaristas.

 

                        Sede da RMN, Jerusalém, Israel

                         8:49, segunda-feira, 10 de janeiro de 2000

A atração que Erin Cross despertou no público em sua bem-recebida divulgação da análise das Beatitudes não passou despercebida pelos altos escalões da RMN. Ela foi logo designada para diversas oportunidades de prosseguimento na semana seguinte, incumbida de acrescentar a sua experiência diante das câmeras, mais um passo na preparação de um futuro de maior visibilidade junto à emissora. Houve até falatório no sentido de que a RMN Internacional estava considerando a formação de uma parceria a longo prazo de Feldman e Cross: um atraente casal da mídia.

As notícias das investigações no laboratório do Neguev, entretanto, não eram tão boas. As equipes de pesquisa continuavam a ver baldados os seus esforços para descobrir dados pertinentes. Pior ainda, também careciam desdobramentos na frente messiânica. Nada surgira oriundo dos Samaritanos, que insistiam em não cooperar, e não se vira mais a angélica moça desde o eletrizante Sermão da Montanha de quinta-feira. Por falta de uma alternativa melhor, a mesma cobertura televisiva do Sermão e a popular análise das Beatitudes foram veiculadas pela RMN repetidamente durante todo o fim de semana. Todos os significados possíveis para a nova aparição messiânica já haviam sido explorados nas demais redes por todos os especialistas que se possa imaginar.

Em desespero, ao concluir a reunião de pauta pela manhã, Sullivan tomou a decisão de finalmente abrir a história da sobrevivente/Messias dos astrônomos japoneses.

— Mesmo que acabe se provando imprecisa — ele justificou — pelo menos pode exercer alguma pressão nos lugares certos e extrair alguns fatos de todo esse mistério.

 

                             Campo de pouso militar israelense de UVDA, sul do Neguev

                             21:16, segunda-feira, 10 de janeiro de 2000

O chefe do estado-maior, general-de-divisão Mosha Zerim, estava alarmado.

— Essa nova Messias é uma das pessoas do nosso instituto! — exclamou para os colegas. — Mas será possível? — Ele estava reunido em sua sala de conferências com o general-de-exército Alleza Goene, o comandante Benjamin Roth e o comandante da inteligência David Lazzlo. Todos os três haviam voado de pontos distintos em resposta às últimas reportagens da RMN.

— Não, Mosha — assegurou-lhe Benjamin Roth — estamos praticamente certos de que essa Messias, conforme ela é chamada, não é pessoa do nosso laboratório.

— Correto, Mosha — concordou Alleza Goene. — Chegamos ao extremo de fazer comparações eletrônicas de imagens da mulher com todas as integrantes do pessoal do instituto, inclusive as que não estavam de plantão durante o ataque, e nenhuma bate. Nenhuma. Essa Messias parece mais jovem do que todas as nossas funcionárias. Está no fim da adolescência ou talvez entrando na vida adulta e nenhuma das mulheres do instituto chegava perto em termos de estrutura óssea, altura, peso ou compleição.

— Quem é então essa misteriosa Messias? — perguntou Zerim.

— Ainda não sabemos — admitiu Roth, fazendo um gesto na direção de David Lazzlo, sentado à sua frente. — Colocamos o Departamento de Inteligência nisso, como uma solicitação de rotina do parlamento israelense, antes mesmo de ter surgido essa alegação da sobrevivente. Até agora, nada.

Lazzlo anuiu quanto a isso e acrescentou:

— Mas se ela for israelense, logo vamos identificá-la.

— As únicas testemunhas que dizem ter visto um sobrevivente são esses astrônomos japoneses — lembrou Goene a todos — os mesmos que começaram a boataria do meteorito que o nosso comandante da inteligência aqui tanto gosta!

Goene deu uma breve olhadela para Lazzlo e continuou.

— Já conduzimos um interrogatório completo dos japoneses e acreditamos que qualquer vítima com a qual eles possam ter tido contato deve ter se ferido fora dos limites do laboratório... talvez uma beduína. De qualquer modo, revogamos os seus vistos e os deportamos. Eles não serão mais um problema para nós.

Zerim sentiu-se um pouco mais tranqüilo.

— O ministro da defesa, Tamin, ficará aliviado ao ouvir isso. Alegações falsas advindas da mídia não têm conseqüência, mas sofreremos repercussões sérias tanto do primeiro-ministro quanto do parlamento israelense, caso não consigamos conter todos os aspectos relativos a essa maldita operação do Neguev.

— Então, há mais uma contingência a ser coberta — anunciou Lazzlo, e todos os olhos se voltaram para ele. — Precisamos considerar a possibilidade, por mais remota que seja, de que algum dos sujeitos dos testes tenha sobrevivido à explosão. Especialmente algum dos aprimorados.

Goene escarneceu.

— Devo ressaltar — explicou Lazzlo — que a idade aparente da nova Messias se aproxima da idade dos sujeitos dos testes. O sexo, está claro, é o mesmo. Se pretendemos “conter todos os aspectos relativos a essa maldita operação do Neguev” — repetiu Lazzlo as palavras de Mosha Zerim — então é preciso nos garantirmos contra a pior hipótese possível. E provar para o mundo inteiro a existência de um sujeito de testes aprimorado certamente seria a pior hipótese possível.

Zerim ficou olhando ora para Goene ora para Roth, alternando rapidamente, cada vez mais preocupado. Goene tamborilou com os dedos sobre o tampo da mesa e voltou-se para Lazzlo com indisfarçado desgosto.

— Agora você está indo além do ridículo. Se entendesse qualquer coisa acerca das limitações físicas dos sujeitos de teste, saberia que eles eram totalmente incapazes de escapar. Desde o momento da gestação, nenhum deles, especialmente os aprimorados, jamais saiu de sua câmara, nem foi desconectado de seu cordão umbilical. O sujeito principal da infusão não dera ainda o primeiro passo, nem engatinhara, na verdade. Estava nos estágios finais de um experimento extremamente delicado, totalmente incerto, com probabilidades muito maiores de fracasso do que de sucesso. Nem sabemos se conseguia ver, ouvir, falar ou funcionar com algum grau de normalidade. Mesmo partindo da premissa que algum deles pudesse ter sobrevivido à explosão inicial, como poderia escapar de seu tanque lacrado? Como teria conseguido sair das instalações do prédio? Ainda mais nos poucos segundos antes do laboratório se evaporar pelos ares? Não havia saídas próximas nos níveis inferiores. Não houve tempo hábil.

— General — respondeu Lazzlo, calmamente — fomos informados por testemunhas oculares que patrulhavam a área fora do perímetro da cerca que houve uma explosão retardada depois do impacto inicial. Os técnicos do nível inferior, caso não tenham sido imediatamente abalados pelos gases tóxicos, talvez tenham tido tempo suficiente para soltar um dos sujeitos de teste. Não seria parte dos instintos de um cientista tentar resgatar o produto final de cinco anos de desenvolvimento e milhões de ciclos de investimento? Talvez esse cientista tenha arrastado o sujeito de teste para fora através de uma ruptura na parede da estrutura e depois voltado para salvar outras pessoas, acabando por morrer na explosão final. Os beduínos que estivessem investigando o acidente poderiam ter deparado com o sobrevivente, conforme dizem os japoneses.

Já fora de si, Goene ficou pasmo diante da hipótese.

— Decerto você não está insinuando que essa tal Messias é o sujeito da infusão, está?

— Não — respondeu Lazzlo, acrescentando logo em seguida — embora isso não esteja fora do âmbito das possibilidades. Não há ninguém vivo para dizer que aspecto tinham os sujeitos de teste. Como vocês sabem muito bem, o projeto era altamente secreto. Alguns pesquisadores do instituto sequer conheciam a verdadeira natureza da operação. E os que sabiam não tinham permissão para levar trabalho para casa. Todo registro existente foi destruído com a explosão.

Mosha Zerim, que, intencionalmente, nunca tivera mais que uma simples conexão rudimentar com o projeto, estava ficando cada vez mais nervoso.

— Alleza, você e Ben estiveram várias vezes lá para vistoriar as operações. Vocês não examinaram os sujeitos?

Goene deu de ombros.

— Todas as vezes que estive por lá eles estavam com monitores craniais.

Zerim ficou estupefato.

— Você quer dizer que não dispomos de nenhum mecanismo para identificar um sujeito, caso algum deles tenha realmente sobrevivido?

— Sim, existe uma forma. — Benjamin Roth finalmente voltou a tomar parte na conversa. — Pelo menos, há uma maneira de identificar os dois sujeitos aprimorados e eles são os únicos que poderiam expor a operação. Se vocês bem se lembram, havia originalmente quatro embriões. Três deles receberam os implantes dos chips de biocircuitos de Leveque nos seus cérebros durante o quinto mês de desenvolvimento. O feto restante foi mantido sem alterações, para servir de controle. Um deles morreu em conseqüência do procedimento de implante, os demais sobreviveram, pelo menos até o ataque às instalações. Para identificar um sujeito aprimorado, é necessário apenas tirar uma chapa de raios X ou fazer uma tomografia CAT do crânio. O sujeito de controle não tinha esses dispositivos e pareceria normal, sem incorrer em ameaça alguma para nós.

Lazzlo, de olhos fixos na mesa durante toda essa conversa, virou-se para Goene e Roth.

— Vocês dois viram pelo menos o corpo dos sujeitos. Devem ter alguma idéia da altura, peso, feitio.

— Eles estavam imersos em fluidos de coloração escura — explicou Goene — em posição fetal. Seria impossível fazer uma estimativa com algum grau de precisão.

— Então, respondam o seguinte — falou Lazzlo — existe alguma coisa que vocês tenham visto naquelas câmaras que seja capaz de excluir a possibilidade de essa nova Messias ser um sujeito de testes?

Goene não estava preparado para abrir mão de sua posição.

— Lazzlo, você viu o noticiário. A mulher naquele palco falava doze línguas fluentemente. Com sotaque perfeito. Como é que alguém, nascido literalmente ontem, poderia conseguir tal feito?

Lazzlo fitou Goene de igual para igual e falou num tom inflexível:

— Facilmente. Se o processo de infusão foi bem-sucedido!

Houve um silêncio mortal e então Zerim cruzou as mãos, repousou-as sobre a mesa em frente e baixou a cabeça.

— Alleza. Ben. Algum de vocês viu qualquer coisa naquelas câmaras que pudesse excluir a possibilidade de essa Messias ser um dos sujeitos de teste?

Goene olhou dura e demoradamente para David Lazzlo.

— Não — disse ele, baixinho.

E Benjamin Roth disse a mesma coisa.

— Então, não temos escolha — declarou Zerim. — Tão logo isso possa ser providenciado, quero que essa Messias seja localizada e discretamente transportada para o Hospital Hadassah, em Jerusalém, para tirarmos uma chapa de raios X. Alleza, você fica encarregado desta operação e tome todo o cuidado para que ela seja conduzida com o máximo de sigilo. Obviamente, devido a toda a atenção e publicidade que a mídia vem dedicando a essa moça, vai ser preciso muito esforço para conseguir pegá-la sem ser notado. Caso você descubra que ela é um dos sujeitos aprimorados, mantenha-a resguardada sob sigilo absoluto até receber maiores instruções do ministro da defesa, Tamin.

Cansado, Mosha Zerim empurrou para trás a cadeira e se levantou. Os demais se levantaram com ele.

— Pode contar comigo — respondeu Goene.

Zerim sentiu um certo alívio por saber que não havia soldado mais eficiente ou capaz.

— Mais uma coisa, Mosha. — Benjamin Roth levantou por fim mais uma questão perturbadora. — Caso essa Messias venha mesmo a ser um dos nossos sujeitos aprimorados, estão nela os únicos neurochips de Leveque. Essa tecnologia não tem preço, para não falar em mais nada. A recuperação desses microchips ajudaria a reduzir parte do baque violento que estamos sofrendo com a perda do instituto.

Zerim reconheceu o ponto e eles saíram da sala. Ficando por último, Lazzlo colocou a mão sobre o ombro de Benjamin Roth, que estava em frente a ele, e o oficial mais idoso se voltou.

— Diga-me uma coisa, Benjamin — perguntou Lazzlo. — Será que esses microchips podem ser retirados sem ferir seriamente ou até matar a pessoa em que estão instalados?

Roth mirou o olhar ansioso do subordinado.

— Não sei, David. — Seu rosto se conturbou. — Sinceramente, eu não sei.

 

                         Sede da RMN, Jerusalém, Israel

                         9:46, terça-feira, 11 de janeiro de 2000

Um ex-seguidor descontente dos Samaritanos, chamado Thomas Brannan, entrou em contato com o escritório de Feldman, a fim de oferecer informações privilegiadas. Um bom resultado de qualquer trabalho de inteligência nestes dias iria parar direto nas mãos de quem fizesse a maior proposta e a RMN cultivara a reputação das maiores remunerações, pagas prontamente. Mas surpresa, neste caso, foi que o desgrenhado Samaritano que Feldman confrontou não estava interessado em dinheiro. Tratava-se, para ele, de uma questão moral.

— É tudo um simulacro, sr. Feldman — proferiu o angustiado ex­-Samaritano. — A Messias se foi.

Feldman ficou aturdido.

— Ela sumiu desde sexta-feira, depois do sermão. Eles a mantinham trancada num quarto, afastada de todos. Sem janelas, sob guarda constante. Então, eles entraram na sexta de manhã para dar-lhe o café da manhã e Ela havia desaparecido. Sem deixar vestígios. Eles não sabem como Ela saiu. A câmera de segurança mostra que Ela não passou pela porta. Acho que Ela ficou frustrada com toda a ganância e o mal, sr. Feldman. Acho que Ela desistiu de nós e voltou para o céu.

— Diga-me, sr. Brannan — indagou Feldman — o senhor passou algum tempo com a Messias? Falou com ela? Chegou a conhecê-la? Como ela é?

O homem levantou a vista para o alto e seus olhos pareceram vislumbrar outro mundo..

— Oh, sr. Feldman, Ela era maravilhosa! Incrível! Não havia como negar, Ela era divina. Celestial! Mas, não; eu não cheguei a conversar com Ela, sequer A vi muito... quase que só de passagem, enquanto eles A levavam de um canto para outro. Mas Ela era tão bela! Sua pele simplesmente reluzia. Mas o máximo era quando Ela olhava para você! Houve uma vez, a mais especial para mim, em que cheguei bem pertinho. Ela estava sendo levada pelo corredor até a van, para fazer o Sermão na Montanha, e eu A vi chegando e me ajoelhei, e ela olhou por cima de mim enquanto passava; Ela olhou através de mim, sr. Feldman. Seus olhos atravessaram o meu coração e Ela abriu toda a minha alma, me deixou nu e indefeso. E naquela fração de segundo, Ela me expurgou de tudo, juro por Deus! Eu fiquei trêmulo e fraco, amedrontado e cheio de felicidade, tudo ao mesmo tempo. Depois que Ela desapareceu, eles tentaram encobrir as coisas. Falaram que não contássemos nada para ninguém. Que Ela havia retornado. Que Ela mandara o reverendo Fischer continuar em Seu nome. E depois mudaram a história, dizendo que Ela ainda estava aqui, mas invisível, e só o reverendo era digno de vê-la. Eu só receio que não vá mais vê-la. Eu juro, preferiria morrer agora para estar com Ela, se Ela tiver voltado pro céu. Eu preferiria morrer!

— Sr. Brannan, o que o senhor pode me dizer sobre o vídeo da Messias que foi filmado na noite do terremoto? O senhor estava lá? Ele é genuíno?

— Pois eu estava lá. Só não vi quem fez o vídeo e nem vi a Messias. Eu estava no meio da multidão, embaixo de um toldo, esperando a tempestade passar, sabe? Mas já assisti ao vídeo e ele parece exatamente com o que estava acontecendo por lá. E vou lhe dizer uma coisa, eu tinha estado nos degraus daquele antigo templo durante o dia com os meus amigos e não tinha rachadura alguma no chão. Senti o terremoto e senti o raio. No dia seguinte, quando voltei, lá estava a fenda aberta desde o poço até o alto dos degraus. Isso foi mesmo verdade!

— Onde se encontrava o reverendo Fischer quando tudo isso estava acontecendo?

— O reverendo Fischer nem estava em Belém na ocasião, sr. Feldman. Estava numa suíte de hotel em Jerusalém, vendo-o na televisão. Mas como as linhas telefônicas pararam de funcionar, eles tiveram de ir até lá no dia seguinte para poder contar a ele o que estava acontecendo. Foi aí que apareceu o vídeo e o reverendo Fischer transferiu as coisas dele para o Hotel da Estrela.

— Então ele sabia do vídeo antes que nós o levássemos ao ar?

— Ah, sim. Nós todos o assistimos, mas o reverendo ficou com o controle.

— O senhor tem alguma idéia de onde veio a cópia da RMN?

— Não, senhor.

— O reverendo não ficou irritado quando viu a nossa cópia pirata?

— Isso eu realmente não sei. Que eu me lembre não se falou mais nada sobre isso.

Feldman gravou um vídeo do depoimento e Thomas Brannan se foi com o que pareceu ser um coração um pouco mais aliviado. Feldman sentiu alguma agitação em seu coração, também. Talvez, depois que essas novas revelações fossem ao ar, o reverendo Fischer finalmente se visse compelido a uma entrevista há muito devida.

 

                         Sede da RMN, Jerusalém, Israel

                         13:17, quinta-feira, 13 de janeiro de 2000

Assim que Feldman narrou sua história sobre o desaparecimento da Messias das mãos dos Samaritanos, começaram a surgir relatos por todo o país de pessoas alegando ter visto a Messias. Em Nazaré, numa sinagoga. Em Canaã, num casamento. No mar da Galiléia, caminhando sobre as águas, mais precisamente. Às vezes, aparecendo em mais de uma localidade ao mesmo tempo. Diziam que a Messias surgia em algum lugar e pregava para uma grande multidão, desaparecendo em seguida, sem mais nem por quê. E tornava a surgir noutro lugar qualquer.

E por todo canto, milagres. Muitos milagres. Cegueiras curadas, aleijões recuperados, pecados perdoados. Feldman colocava pouca fé nisso tudo. Muitos dos eventos que ele havia investigado mostraram-se consideravelmente aquém da credibilidade.

— Ei Hunter, talvez ela possa arranjar um cérebro para você! ­— escarneceu Cissy do outro lado da mesa durante a reunião matinal.

A princípio, Feldman achou que Cissy estava voltando ao seu velho eu gozador. Mas uma análise mais apurada revelou que ela estava falando muito a sério.        Hunter deu prosseguimento à brincadeira.

— Talvez a Messias queira se juntar ao fã-clube do Feldman!

O assunto era delicado para Feldman. Hunter estava impressionado com o número crescente de seguidores do repórter. A cada dia surgiam mais tietes (mocinhas adolescentes, em sua maioria) que se aglomeravam junto aos portões da sede da RMN, esperando para captar um relance do furtivo herói. E sempre que Feldman saía para entrevistas, formava-se logo um séquito de fãs. Ultimamente, ele dera para usar um chapéu e óculos escuros.

À parte o espetáculo paralelo, entretanto, havia um aspecto de muitos desses pretensos aparecimentos messiânicos que estava instigando a curiosidade de Feldman. Somadas a um punhado de amadorísticas fotografias da Messias, quase todas desfocadas e suspeitas, havia outras indicações mais reveladoras, vindas de supostas testemunhas, de que algo estava acontecendo. Isso sempre estava nos relatos acerca dos olhos intensos e safirinos da Messias. Ou, mais precisamente, no seu “olhar”. Um olhar arrebatador, penetrante e emocionalmente perturbador, que transfixava o alvo. Feldman conhecia aquele olhar em primeira mão, o que, pelo menos para ele, emprestava certa autenticidade aos estranhos relatos que vinha ouvindo.

 

                         Igreja Nacional do Reino Universal, Dallas, Texas

                         9:30, sexta-feira, 14 de janeiro de 2000

Quando sua secretária lhe trouxe a correspondência matinal, o reverendíssimo Solomon T. Brady parecia um homem prestes a ter um derrame. Seu rosto, normalmente corado, estava ainda mais ruborizado do que de hábito, e túmido. Só na semana anterior, ele tornara a ganhar os seis quilos de que tanto se orgulhava por haver perdido e as câmeras de seu ministério tele-evangélico o deixavam ainda mais gordo.

O reverendo fitou o maço de cartas durante um breve instante e logo se pôs a passá-las distraidamente em revista. A última semana fora devastadora, não apenas no sentido da queda das contribuições e de ter que reduzir de oito para duas horas mensais de transmissão dos serviços para os telespectadores. Mas também porque, pela primeira vez nos vinte e dois anos de existência da sua Igreja do Reino Universal, ele perdera o rumo. Não fazia a mínima idéia de como conter essa vexatória infecção milenarista.

O reverendo foi momentaneamente tirado de sua depressão pela insígnia da Igreja de Jesus Cristo dos Santos do Último Dia que apareceu num dos envelopes. Estava encomendado à sua atenção, do Templo Mórmon de Salt Lake City, estado de Utah. Ele o abriu e encontrou uma carta dizendo:

 

Prezado Líder Religioso:

Na condição de devida autoridade de uma reconhecida organização religiosa, Sua presença é respeitosamente solicitada na Primeira Convocação Interdenominacional das Crenças Religiosas do Terceiro Milênio, a se realizar em Salt Lake City, estado de Utah, no Centro de Convenções do Tabernáculo Mórmon, sexta-feira, sábado e domingo, respectivamente 4, 5 e 6 de fevereiro do ano 2000 de Nosso Senhor.

O importante propósito desta reunião é conclamar as lideranças religiosas, tanto em âmbito nacional quanto internacional, para abordar as polêmicas questões levantadas por recentes ocorrências na Terra Santa, eventos de significado para quase todos os estabelecimentos religiosos e que os afeta diretamente.

As questões que serão abordadas incluem:

- uma avaliação da autenticidade de uma nova presença messiânica;

- correlações bíblicas e realizações proféticas;

- o impacto de um novo dogma religioso sobre a unidade congregacional;

- novos potenciais para colaboração e associações interdenominacionais.

 

Todos os participantes ficam convidados a submeter tópicos adicionais para discussão, que deverão ser registrados e enviados nos formulários em anexo e serão incluídos na programação por ordem de chegada.

 

A carta prosseguia, dando detalhes relativos à inscrição, às acomodações e taxas de participação, que impressionaram ao reverendo Brady por serem descabidamente elevadas, atingindo o custo de dois mil dólares por cabeça. Não obstante, era o primeiro rasgo de esperança e talvez a última oportunidade que ele teria para encontrar respostas desesperadamente necessárias.

A possibilidade de formar uma rede com outras organizações religiosas que talvez estivessem vivenciando problemas semelhantes, por si só, valia o preço do ingresso. O reverendo enviou o seu formulário de inscrição através de um serviço de entrega rápida. Seu tópico para inclusão na programação: “O que uma seita não milenarista pode fazer no instável ambiente religioso de hoje para sustentar o interesse e as contribuições congregacionais?”

 

                                 Torres de Nordau, Tel Aviv, Israel

                                 17:50, sábado, 15 de janeiro de 2000

Tinha de acontecer, afinal. Outra rede corria o risco de estar no lugar certo, no momento certo.

Tendo tirado o dia de folga, Feldman estava deitado no sofá com Anke aconchegada em seus braços, dormitando, a televisão ligada, quando foi arrancado do sono pelo noticiário de uma estação concorrente.

— Há pouco, uma equipe de notícias da RUT registrou em videoteipe a presença de fato da reclusa Nova Messias. Trazemos agora ao vivo para vocês esta reportagem da Messias, do exclusivo centro de notícias da Rede Unida de Telecomunicações!

Feldman se ligou em alerta total. A equipe de notícias da RUT conseguira filmar os últimos minutos do que parecia ser uma visita espontânea da Messias a um jardim-de-infância no setor árabe de Jerusalém. A abertura do vídeo mostrava a Messias sentada sobre uma mureta baixa de pedras, ao lado de uma professora de aspecto matronal. Desta vez não havia dúvidas quanto à autenticidade. Era de fato a Messias, que parecia absolutamente radiante sob o sol da tarde.

Algumas criancinhas da escola riam e subiam em seu colo, enquanto outras da mesma faixa etária se mantinham sentadas perto dela, cantando ou conversando com ela. Começava a se formar uma multidão e os repórteres, aos gritos, faziam-lhe perguntas; mas ela os ignorava. A câmera foi se aproximando para um close, buscando melhores ângulos, sujeita aos trancos dos observadores alvoroçados.

A Messias, aparentemente perturbada pela invasão, finalmente voltou sua atenção para o operador da câmera e, com voz clara, proferiu em inglês perfeito:

— Por que vocês estão atrás de mim? — Ela estendeu a mão com graciosidade na direção da senhora ao seu lado: — Eis aqui uma história melhor, a de nossos idosos vulneráveis — e fez um gesto para as criancinhas em torno — e a de nossas crianças indefesas. Pois eu lhes digo: aquele que macula a inocência das crianças, aquele que se aproveita da fraqueza dos idosos, que seja banido para os abismos eternos! Vão e divulguem esta palavra.

Seus olhos escuros reluziram, seu cenho se curvou em severa advertência. Mas uma criança puxou uma ponta de sua túnica para atrair-lhe a atenção e, num relance do olhar, ela se distraiu e deixou-se arrebatar por um lampejo de carinho. Houve um murmúrio de aprovação do grupo que se formara em resposta às suas palavras, mas a Messias não se deteve. Passou as pernas para o lado oposto da mureta, tirando do colo as crianças, que protestaram vigorosamente. Neste momento, a multidão do outro lado da mureta se dividiu qual um mar que se abre para recebê-la em seu seio e logo se fechou protetoramente atrás dela.

Feldman sorriu. Talvez o tempo viesse a confirmar esse curioso episódio como nada mais que recônditas exacerbações auto-afirmativas de mais um fanático ilusionista. Mas por ora, pelo menos, a pequena e resoluta profetisa só estava acrescentando mais lustro à sua imagem.

 

                           Ruas de Jerusalém, Israel

                           Terceira semana de janeiro de 2000

Aparentemente, os integrantes da equipe de um filme documentário francês seriam os próximos a confrontar a intrigante Messias. Eles alegaram ter-se deparado com ela quando a jovem pregava para um pequeno grupo de peregrinos milenaristas em Wadi El Joz, Jerusalém, uma antiga fonte natural, que recentemente se esgotara devido à seca.

Infelizmente, o filme em suas câmeras sofreu uma desastrosa superexposição. Do encontro, a única prova concreta que os franceses conseguiram guardar ilesa para oferecer foi a fita de áudio. Uma rede francesa levou ao ar uma reportagem, que consistiu numa apresentação artística acompanhada pelo narrador e o áudio.

Segundo o relato, depois de avistar a Messias, a equipe cinematográfica fizera um discreto cerco ao grupo, para chegar sorrateiramente por trás dela. Um ousado cinegrafista, buscando o melhor ponto de observação disponível, subiu e sentou-se de pernas cruzadas na bacia do poço da fonte seca, pouquíssimos metros atrás da profetisa, sem que ela de nada suspeitasse. Ligando a câmera, ele sorriu e chamou-a abertamente em francês:

— Ei, minha bela Messiazinha! Dance para a câmera. Mostre uma pernoca, por favor.

Seus companheiros de equipe riram-se disso, mas aparentemente a Messias não achou a troça tão divertida. Interrompeu a palestra, voltou-se lentamente e cruzou os braços sobre o peito, sufocando-lhe os esgares com seu olhar penetrante.

— Sou o cálice que traz a bebida para a alma ressequida — respondeu ela, com argúcia, em francês — e você descarta a água pelo cálice.

Livrando-se dos efeitos dos olhos intimidantes, o cinegrafista tentou salvar a própria imagem junto aos colegas.

— Sou homem de sangue nas veias! — exclamou ele. — Gosto de mulheres. O que há de errado nisso? — Ele ressuscitou o sorriso.

Ela passou direto por ele, estudando-o.

— Você é como o homem à deriva no mar, que sacia a sede com água salgada. A princípio, o corpo parece satisfeito, mas logo a sede volta. E a cada vez que volta, vem mais rápida e forte do que antes. Cada gole leva apenas a outro, conduzindo-o à loucura.

Os relatos do que se seguiu estavam sujeitos a uma grande dose de ceticismo profissional. A reportagem alegava que, quando a profetisa se virou para partir, a fonte espontaneamente voltou à vida, lançando um jato de água gélida sobre o colo e a aparelhagem do repórter. Mais uma vez não houve prova desta anedota. De fato, a fonte tornara a jorrar água doce e limpa. E depois de beberem da fonte, todos os integrantes da equipe francesa, inclusive o cinegrafista, agora subjugado, comprovaram um rejuvenescimento espiritual e físico.

Em mais um desses encontros furtivos, a repórter de uma estação de TV de Atlanta, Geórgia, registrou em vídeo uma iluminadora descoberta para o domínio público. A repórter estava num quarto do segundo andar de um hotel em Jerusalém, de frente para a Praça Salah Ed-din, quando percebeu a Messias conduzindo uma multidão, a passo acelerado, pela rua abaixo. Debruçando-se na janela com sua câmera de vídeo em tempo de interceptar a profetisa, a repórter interpelou-a com gritos frenéticos:

— Quem é você? Sequer sabemos o seu nome. Você tem um nome?

Cercada por um séquito crescente, a jovem Messias parou, virou-se e protegeu os olhos do sol matinal com a mão.

— Tenho, sim — disse ela, quase hesitante, baixando a mão após localizar a repórter. — Eu tenho um nome. O nome que Deus escolheu para mim é Jeza. Meu nome é Jeza.

Ela se virou e desapareceu mais uma vez. Não houve concordância universal quanto à grafia correta do nome, pois ela não se incomodou em esclarecer. Daí em diante, passou a ser escrito “Jeeza”, “Jeze”, “Jesa” ou “Gisa”. Mas não houve discórdia quanto à pronúncia; era: “JEE—zuh” (Em inglês, exatamente a pronúncia da palavra Jesus, sem a articulação do s no fim). 

O encontro seguinte a ser documentado foi registrado por um jornalista do Times de Londres. Ele passeava despretensiosamente perto da sinagoga Hurva, no bairro judeu da Velha Jerusalém, quando uma pequena multidão começou a se formar na entrada do templo. Seguindo o seu instinto, ele correu para os fundos do prédio e conseguiu entrar por uma porta que não estava trancada.

Prosseguiu discretamente até a área congregacional da sinagoga, onde avistou a Messias sentada no chão, de pernas cruzadas, falando entusiasticamente para dez rabinos idosos. A essa altura, centenas de pessoas do lado de fora se espremiam contra as janelas para conseguir uma espiadela.

Antes de ser detectado e expulso, o jornalista conseguiu taquigrafar o que passou a ser conhecido como as Novas Alegorias Messiânicas de Jeza, cujo texto completo foi publicado na edição seguinte do Times. As edições posteriores apareceriam desta forma:

 

                 A PARÁBOLA DOS FILHOS DOS INVENTORES

 

Quando Jeza adentrou o templo, os principais rabinos reconheceram-Na e deram-Lhe as boas-vindas, dizendo: “Com que propósito nos honras com a Tua visita?" E Ela falou das escrituras com eles, impressionando a todos com sua sapiência e conhecimento. Então, eles indagaram: “És mesmo a Escolhida, a Nova Messias?" E Ela respondeu-lhes, dizendo: “Sou a Nova Mensageira”. “Sou a clareza em meio ao burburinho.”

"Então ensina-nos", disseram eles "e nós escutaremos." Então Ela ensinou-lhes, dizendo:

Havia dois inventores, cada um com um filho pequeno. E cada qual inventou uma máquina grande e complexa, que desempenhava bem as suas tarefas e que lhes rendia muito dinheiro.

Com o passar do tempo, os filhos viraram adultos e os inventores se aposentaram, entregando suas máquinas aos filhos, a quem disseram: Vá, use a sua máquina adequadamente que ela lhe garantirá o sustento. Então os filhos pegaram as invenções dos pais e as colocaram em uso. E durante algum tempo, as máquinas funcionaram como deveriam, rendendo a cada filho o seu sustento. Mas chegou o momento em que as peças se desgastaram e escangalharam e as grandes máquinas não funcionaram mais.

Então o primeiro filho foi ao pai e disse: Ora, a grande máquina quebrou e os meus clientes estão zangados. Deves consertá-la ou eu perderei tudo. Então o pai pegou as ferramentas e foi consertar a máquina.

O segundo filho também foi ao pai em busca de ajuda, mas o pai se negou, dizendo: És um homem agora, e isso é responsabilidade sua. Então o segundo filho, muito preocupado, voltou e trabalhou em sua máquina sozinho, perdendo muitos negócios, mas conseguindo restaurá-la depois de algum tempo.

Contudo, o primeiro filho jamais aprendeu a consertar a sua e quando chegou a hora da morte de seu pai, a máquina tornou a escangalhar e o primeiro filho perdeu tudo.

Mas o segundo filho aprendera por conta própria a manter a sua máquina funcionando. E, com o passar do tempo, ele conseguiu fazer melhorias que aprimoraram o funcionamento da máquina ainda mais do que seu pai conseguira.

Agora eu lhes pergunto, qual dos dois foi o pai melhor para o próprio filho? Aquele que generosamente ajudou ou o pai que fez o filho descobrir sozinho o funcionamento da grande máquina?

E os rabinos responderam a Ela: Ora, o segundo pai, que fez o filho descobrir o funcionamento da grande máquina. E Jeza lhes disse: Portanto, vocês também não devem ir somente ao Pai; sigam em frente e aprendam o funcionamento de Sua Grande Máquina, e façam melhorias. (Apoteose 12:5-16)

 

                       Palácio do Sanctum Officium,

                       Sede da Congregação para a Doutrina da Fé

                       da Sagrada Igreja Católica Romana, Vaticano, Roma, Itália

                       14:00, sexta-feira, 21 de janeiro de 2000

Trinta cardeais se ergueram de suas poltronas em torno da comprida mesa quando Nicolau VI adentrou o recinto. O pontífice depositou uma pilha de documentos sobre a mesa, retirou seus óculos da capa, encaixou-os sobre o nariz e assumiu o seu lugar à cabeceira da mesa.

— Que as bênçãos de Deus estejam convosco! — saudou-—os, e eles responderam no mesmo tom, assumindo os seus assentos.

Logo à esquerda do Papa estava Antonio Di Concerci, prefeito da Congregação. Di Concerci colocou diversos papéis diante de Nicolau, sem comentários, e depois tornou a examinar seus documentos. Nicolau recolheu os seus e passou a examiná-los.

Mais adiante na mesa e do lado oposto ao do cardeal Di Concerci, estava sentado o cardeal Alphonse Bongiorno Litti. Um pouco enrubescido, um pouco ansioso, Litti voltou-se para o ancião à sua direita, mas o cardeal estava ocupado com os seus próprios papéis. Litti girou na direção oposta, mas o vizinho também se ocupava com a leitura. Frustrado, Litti suspirou, cruzou os braços e ficou olhando para as estrias do mogno escuro do tampo ornamental.

Litti já lera o documento pousado sobre a mesa diversas vezes e sua reação jamais se abalara. O relatório fora preparado às pressas, a pedido do Papa, numa sessão secreta da Congregação sob os auspícios de Di Concerci, prefeito em exercício. Sua incumbência relevante: Uma Avaliação Preliminar da Suposta Nova Messias, com um Levantamento das Repercussões Atuais e Potenciais do Movimento Milenarista sobre a Estabilidade e o Bem-Estar da Sacrossanta Igreja e Sua Congregação Mundial.

O relatório foi bem ao estilo de Di Concerci. Para lá de dogmático, sem abertura nenhuma! Para Litti, as linhas finais traíam a postura mental do prefeito:

“Dado o exame superficial com o qual este fórum foi incumbido, deve-se concluir, por ora, que não há circunstâncias preternaturais cercando o surgimento de uma suposta Messias em Israel. Aceitando-se que vários incidentes e coincidências surpreendentes tenham ocorrido, em cada instância, uma explicação razoável pode ser apresentada com referência a causas naturais ou forjadas pelo homem.

Entretanto, consideramos a questão do desconforto vigente no seio da Congregação Mundial como algo verdadeiro, uma pressão de fato, e recomendamos que um inquérito formal e imediato seja conduzido para examinar essas questões com especificidade, e que seja emitida uma vox veritatis através da qual tais circunstâncias possam ser analisadas dentro de uma perspectiva abalizada para os fiéis.”

Após as discussões de hoje com a Congregação, o Papa deveria decidir pela condução ou não de um inquirendum, um inquérito oficial e secreto da Santa Sé. Uma inquisição com tal peso provavelmente resultaria em recomendações para uma encíclica ou um decreto Papal, a fim de esclarecer a posição da Igreja nesses assuntos de vulto.

A Congregação para a Doutrina da Fé, austera defensora da sagrada ortodoxia da Igreja católica, era precisamente a organização que se encarregaria da missão. Sua notória reputação e demonstrada capacidade para fazer aflorar fatos e verdades em assuntos morais poderia remontar aos idos de 1500, quando era mais conhecida como a Congregação da Inquisição.

Em torno da grande mesa, havia poucas dúvidas de que um inquirendum seria, de fato, autorizado. A questão real era o prazo em que um inquirendum poderia ser concluído e uma encíclica emitida para restaurar a ordem. E, de igual significância, quem ficaria encarregado de conduzir esse importante inquérito.

Alphonse Litti tinha a ardorosa esperança de que Nicolau lhe concedesse a distinta responsabilidade. Com esta finalidade, o cardeal já enviara uma longa carta pessoal a Nicolau, listando mais de dezoito sólidas razões que fundamentavam ser ele próprio a opção correta para encarregar-se da sagrada empreitada.

Mas, aparentemente, Nicolau estava pouco inclinado a uma prolongada discussão sobre o assunto.

— Irmãos — começou ele, e o tenebroso salão ficou no mais absoluto e atento silêncio. — Essa polêmica acerca de um possível Segundo Advento, ou a chegada de um Novo Messias, genuíno ou não, exige uma resposta calma e arrazoada desta Santa Sé, como a única fonte devidamente qualificada para tais questões. Todos nós reconhecemos que a própria existência da Igreja predica-se sobre o inevitável retorno de nosso Salvador. É o evento pelo qual ansiamos há dois milênios. Mas, tristemente, conforme essas ocorrências recentes evidenciaram, parecemos surpresos e despreparados para autenticá-lo. Embora a Igreja tradicionalmente se mova lenta e cautelosamente no exame de questões teológicas sérias como estas, infelizmente os recentes eventos na Terra Santa requerem resposta imediata e decisiva desta direção. Tenho orado com fervor nos últimos dias em busca de orientação e sabedoria neste processo. Creio que minhas preces tenham sido atendidas e agora estou decidido sobre como devemos prosseguir.

Litti tomou fôlego.

— Em vigor de imediato — declarou Nicolau — ordeno que esta Congregação inicie um inquirendum, a ser chefiado pelo cardeal prefeito Antonio Di Concerci, que teve um desempenho admirável na conclusão deste relatório preliminar.

Houve aclamação e aplausos dos colegas cardeais presentes no salão, mas não de Alphonse Litti, que permaneceu quieto, atônito e arrasado.

— E mais — continuou o Papa — ordeno que o inquérito receba a atenção total e ininterrupta de toda a Congregação, e que o rascunho final seja concluído e entregue para a minha revisão daqui a quatro semanas, no dia 18 de fevereiro.

O salão ficou imediatamente quieto outra vez. Tratava-se de um prazo sem precedentes nos domínios eclesiásticos, onde inquéritos substanciais como aquele costumavam exigir anos para que as suas minuciosas conclusões fossem atingidas.

— Reconheço o desvario do prazo — disse o Papa, respondendo ao silêncio — mas todos nós precisamos reconhecer o desvario desta crise. — E num tom mais baixo, quase falando para si: — Só peço que quatro semanas não seja um prazo longo demais!

— Será feito conforme vossas ordens, Santidade — assegurou Di Concerci. — Requisito vossa permissão para enviar delegados à Terra Santa imediatamente, para uma investigação das circunstâncias em primeira mão.

— É claro, Antonio — concedeu Nicolau. — Autorizo-o a fazer o que for necessário para se chegar à verdade mais absoluta acerca desta questão com a máxima brevidade possível. Se esta pessoa, Jeza, for de fato uma precursora do Segundo Advento conforme João Batista foi do Primeiro, precisamos ter isto esclarecido sem demora.

— Meus colegas cardeais. — Di Concerci levantou-se de sua poltrona para dirigir-se à assembléia. — Peço a toda a Congregação que permaneça aqui em conselho após nossa audiência com Sua Santidade. Desejo indicar os dirigentes dos respectivos subcomitês e estabelecer a estrutura para alcançarmos nossos objetivos.

Alphonse Litti, pálido e deprimido, sabia que sua voz conflitante e desfavorável não estaria entre os indicados. Sabia também que qualquer abertura para salvaguardar sua perspectiva dissidente estava rapidamente se fechando.

Pesaroso, Litti se levantou e estendeu a mão para segurar o processo em estado jacente.

— Com sua licença — começou ele, e o Papa exibiu um furtivo olhar de desagrado. — Como forma de contribuição ao progresso deste importante inquirendum, eu gostaria de trazer à atenção da Congregação o fato de que uma convocação das igrejas do mundo estará em andamento nos Estados Unidos nos dias 4, 5 e 6 de fevereiro. O propósito expresso dessa convenção é abordar exatamente as mesmas questões que buscamos elucidar aqui.

— Com vosso perdão, Santo Padre — interrompeu Di Concerci, impacientemente — mas o cardeal Litti já trouxe a questão dessa conferência para mim antes e eu já a investiguei. Está sendo sediada em Salt Lake City pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos do Último Dia, mórmons cuja crença, conforme sabeis, é profundamente milenarista. O cerne da convenção ­— acrescentou ele — será predominantemente milenarista e fundamentalista. Mal se ergue ao nível de uma convocação mundial e não deveríamos legitimizar o processo com nossa presença.

— Santidade — Litti ignorou Di Concerci e apelou diretamente para o Papa — vossas palavras foram exatamente de que cheguemos à verdade mais absoluta e com a máxima brevidade possível. — Ele lançou para Di Concerci um olhar marcante e desafiador antes de prosseguir. — O prefeito não teve a intenção, mas deixou de lado o fato de que as fés presbiteriana, luterana, unitarista e judaica, dentre outras, estarão todas representadas lá. Mesmo que haja poucas informações novas advindas desse conclave, que mal poderia haver? O inquirendum tiraria proveito pelo menos de conhecer as óticas dessas outras denominações.       

O Papa encolheu os ombros em deferência e disse para Di Concerci:

— Não vejo mal algum em que Alphonse vá a essa conferência, Antonio. — Erguendo-se de sua poltrona e com um sorriso patriarcal, acrescentou: — De qualquer forma, talvez isso mantenha vocês dois fora do caminho um do outro durante algum tempo! — Houve um riso de consideração dos presentes e o Papa se retirou, deixando a Congregação com os seus afazeres.

 

                               Sede da RMN, Jerusalém, Israel,

                               16:47, sexta-feira, 21 de janeiro de 2000

— Todos estão comendo do nosso prato — reclamou Bollinger, com veemência, para toda a equipe em sua reunião de fechamento da semana. — Como é que o repórter de uma TV lá de Kalamazoo pode deparar com Jeza, enquanto nós ficamos de mãos vazias durante duas semanas inteiras? Por onde é que vocês andam, caras? — gritou para os integrantes das equipes de rua, que estavam sentados com ar cansado. — E continuamos sem saber mais nada sobre aquele laboratório do Neguev do que sabíamos há três semanas! Mandamos vir seis equipes para cá, a um custo inacreditável, e não temos nada para mostrar! Quero mais busca, mais rastreadores, mais contato via celular. E quero que vocês voltem com alguma coisa de porte até segunda-feira de manhã ou parte da turma vai voltar para casa. Será que eu fui claro o suficiente?

Depois da desalentadora reunião de pauta, foi um desvio especialmente agradável para Feldman receber uma ligação de Anke, que normalmente não o incomodaria no escritório. Haviam-se passado quatro longos dias desde que ele a vira pela última vez e Feldman não estava lá muito ansioso por lhe contar que passaria o fim de semana trabalhando.

— Jon, desculpe-me por incomodá-lo no escritório.

— Não é incômodo algum. É bom ouvir uma voz amiga. Como é que você está?

— Na verdade, estou muito bem... por nós dois. Arranjei um contato para você no Instituto de Pesquisas do Neguev. E é coisa boa!

Feldman deu um pulo na cadeira, em êxtase.

— Está brincando! Não consigo acreditar! Você não faz idéia do quanto nós estamos precisando de uma dessas! Quem é?

— Agora não. Venha pra cá depois do trabalho e vamos comer uma boa comidinha caseira que eu lhe conto tudo. Temos uma reunião programada para amanhã de manhã. Só você e eu, sem câmeras. E, pelo amor de Deus, não conte a ninguém! Parece que tem muito mais coisa aí do que qualquer um de nós é capaz de imaginar!

O passeio de carro até Tel Aviv durou cinqüenta minutos, que passaram ligeiro, e Feldman chegou ansioso, muito antes de escurecer. Apesar da insistência dele, entretanto, Anke recusou-se a discutir negócios até que tivessem terminado o jantar. Eles comeram na varanda, sob a refrescante brisa marinha, saboreando siri e lagosta ao vapor, preparados por Anke ao nível da perfeição. Mais tarde, carinhosamente aconchegados um ao outro, enquanto um navio de luxo cruzava o mar à luz do crepúsculo diante de seus olhos, Feldman pegou Anke pelos ombros morenos e macios e virou-­a para si.

— Pois bem, agora — ordenou ele com uma rigidez transparente — já segurei a minha frustração o bastante. Conte-me imediatamente sobre essa sua fonte ou eu vou lhe dar umas boas palmadas.

Ela riu da impaciência nos olhos dele.

— Pode acreditar, Jon, está valendo a pena esperar. Eu só queria que você relaxasse um pouquinho antes. — Com o rosto brilhando de excitação, ela colheu as mãos dele entre as suas. — Na semana passada, quando voltei ao campus para assistir às aulas, peguei um exemplar do jornal universitário em busca de informações sobre o que havia acontecido durante o recesso de inverno. Fiquei chocada e aborrecida ao deparar com o obituário do dr. Jozef Leveque e ler um artigo sobre ele, que era um professor de biologia genética da universidade. Eu os conhecia muito bem, a ele e sua esposa, Anne. Sendo os dois da França como eu, tínhamos muito em comum. O artigo era peculiar, pois não apresentava a causa da morte, a data, nada. Ora, eu não fiz conexão alguma na hora, mas depois telefonei para Anne Leveque, para dar-lhe os pêsames. Conversamos um bocado e ela acabou me confidenciando que o marido morrera na explosão no instituto. Ela estava terrivelmente abalada com isso, é claro, coitada. Tentei fazer com que se abrisse um pouco, mas ela parecia muito nervosa, embora eu tivesse percebido a sua necessidade de falar com alguém. Quando lhe contei sobre nós dois, disse quem você era e tudo mais, ela ficou extremamente ansiosa e me fez jurar que eu não contaria nada a você. Deu uma desculpa qualquer e desligou. Achei que tinha sido o fim da história, mas hoje ela telefonou, dizendo que queria se encontrar com você e comigo amanhã de manhã e que era muito importante. Mas só eu e você, sem câmeras nem gravadores! Estava ligando de um telefone público porque achava que o da casa dela estava grampeado.

Feldman olhou para o navio que desaparecia lá longe no oceano e soltou um suspiro de apreciação.

— Você não faz idéia de como isso está chegando em boa hora! — Ele deu um forte abraço nela. — Quando nos encontramos?

— Às sete da manhã, amanhã.

Ele fingiu uma expressão preocupada.

— Então é melhor irmos cedo para a cama hoje, você não acha?

 

                                      Torres de Nordau, Tel Aviv, Israel

                                       7:00, sábado, 22 de janeiro de 2000

Anne Leveque chegou nervosa e prontamente na hora marcada. Anke convidou-a para entrar e apresentou-a a Feldman, a quem ela reconheceu de imediato.

— Você é tão bonito ao vivo quanto na TV — elogiou-o num inglês perfeito, e Feldman sorriu graciosamente.

A sra. Leveque era uma mulher cheia de vida e um ar de dignidade, de pouco mais de setenta anos de idade, supôs Feldman. Bem vestida, trazia os cabelos grisalhos penteados para trás e presos por um grampo dourado. Embora sorrisse com os lábios, seus olhos e sobrancelhas acinzentados exibiam uma expressão de eterna preocupação. Feldman assegurou-lhe que ela poderia confiar em Anke e nele.

Como se tivesse finalmente conseguido resolver seus conflitos internos, ela os fitou de perto durante alguns instantes, esticou as mãos para nelas tomar as deles e disse baixinho:

— Vocês formam um lindo casal. Jozef e eu éramos muito parecidos com vocês há muitos anos.

Feldman olhou de relance para Anke que, sentada bem junto dele, estava com grandes lágrimas nos olhos.

A sra. Leveque fez mais uma tentativa de um meio sorriso.

— Eu sei que posso confiar em vocês dois e vou fazer o que preciso fazer. — Ela voltou a ficar séria e fitou Feldman com decisão. — Jon, quero que você saiba que amo o meu país e não faria nada para prejudicá-lo. O que vou lhes contar daqui a pouco não se trata de uma traição a Israel. Está ligado a uma operação secreta da FDI e sequer o primeiro-ministro ou o parlamento israelense têm conhecimento. E isso faz com que a minha situação seja ainda mais séria, pois a operação é fora-da-lei.

Ela não conseguiu mais fitar Feldman nos olhos.

— Tenho vergonha de admitir para vocês que eu e meu falecido marido desempenhamos um papel de porte nisso tudo.

Feldman franziu o cenho e reclinou-se um pouco na cadeira.

— Conforme vocês sabem — prosseguiu a mulher— a FDI funciona sob o controle do ministro da Defesa, Shaul Tamin, que está diretamente envolvido nesta operação. Tamin é um homem impiedoso e o que vou dizer aqui me coloca em grande risco. Não obstante, pela segurança... e possivelmente pela vida... de alguém... muito importante para mim, eu preciso fazer isso. Devo expor algo que acredito piamente estar contra as leis de Deus e da natureza. Mas preciso contar com um juramento solene de vocês de que certos aspectos desta história, que vou apontar ao longo da narrativa, serão mantidos no mais rígido sigilo.

Os dois concordaram, solenemente. O que pareceu satisfazer a sra. Leveque, que se acomodou no sofá.

— É uma história complicada e preciso começar do princípio.

— Existe algum problema se eu tomar notas? — perguntou Feldman.

— Não, contanto que você não registre os nomes nem os detalhes que indicarei como envolvidos em situação delicada.

A sra. Leveque abriu sua grande bolsa a tiracolo e retirou um álbum com capa de pano envelhecido.

— Como sei que vocês não vão acreditar no que vou lhes contar agora, depois de terminar, vou lhes mostrar o diário de meu marido, que consubstanciará tudo. Vocês compreendem, é claro, que não poderei emprestar-lhes o diário. É tudo que me resta destes últimos anos estranhos ao lado de Jozef.

Feldman assentiu. A sra. Leveque segurou o diário com as duas mãos, como se estivesse tirando forças dele.

— Primeiro — começou ela —vocês precisam saber que conheci meu marido Jozef na Universidade de Colônia, em 1952, onde ambos cursávamos biologia. Nós nos apaixonamos e, depois de tirarmos nossos diplomas, Jozef conseguiu uma vaga para lecionar na Universidade de Tel Aviv. Nós nos casamos contra a vontade explícita dos meus pais... Eu sou católica devota e Jozef é judeu... e nos mudamos para cá, no verão de 1954.

Feldman observou com interesse que, diferente de seus próprios pais, os Leveque pareciam ter conciliado suas disparatadas convicções religiosas.

— Jozef logo conquistou uma vaga de pesquisador na universidade e eu também consegui uma vaga como professora. Em prol das nossas carreiras, decidimos abrir mão de filhos. Nossa filha, Marie, que nasceu em 1968, foi um acidente maravilhoso. Só depois que a tivemos foi que vimos o quanto nos faltava em nossas vidas. Marie foi a criança mais adorável, inteligente e feliz que qualquer pai ou mãe poderia desejar. Ela completava perfeitamente o amor que eu e Jozef sentíamos um pelo outro. Mas então, no início da primavera de 1992, minha única filha, minha bela e brilhante Marie, aos vinte e quatro anos de idade, quase foi morta num brutal e tresloucado ato de terrorismo, conduzido pelo Hezbollah perto do Muro na zona oeste de Jerusalém. Minha Marie jamais foi politizada. Ela era carinhosa, delicada, amável. Simplesmente estava numa inocente excursão no lugar errado, no momento errado. Um carro-bomba explodiu. Um estilhaço de granada a atingiu na nuca...

Feldman sentiu um nó no estômago.

Os olhos da sra. Leveque ficaram úmidos, mas ela manteve o autocontrole.

— Hoje, minha bela Marie jaz imóvel num leito, há oito anos. Em coma, sobrevivendo através de aparelhos, num quarto adaptado em nossa casa.

Ela soltou um profundo suspiro antes de prosseguir.

— Marie era a maior alegria de Jozef. Ele a cobria de amores, e essa tragédia sem sentido deixou-o desatinado. Mas em vez de deixar que ela o destruísse e em vez de aceitá-la como o desejo de Deus, ele a considerou um desafio. Decidiu conquistá-la. Era a natureza dele! A princípio, Jozef achou que poderia recuperar Marie... e agora vou abordar um assunto que deverá permanecer em sigilo.

Respeitosamente, Feldman baixou a caneta e o bloco de notas.

— O campo de pesquisas de Jozef na universidade era o de circuitos bio-eletrônicos, um campo híbrido da ciência, buscando maneiras de integrar tecidos nervosos com circuitos de microchips. Sua equipe de pesquisas havia desenvolvido um tipo de microchip no qual o tecido nervoso seria capaz de se desenvolver e mesclar, criando trilhas de nervos artificiais. O objetivo de Jozef era desenhar, por falta de um termo melhor, trechos de sistemas nervosos. Esses trechos seriam usados para ajudar a restaurar funções motoras em casos de paralisia, tais como os traumas mais graves da coluna vertebral. A idéia era inserir os trechos nas trilhas afetadas, de forma a reconectar nervos partidos ou danificados. Ativando áreas microscópicas individuais do chip, dizia a teoria, seria possível ligar ou desligar várias trilhas nervosas aleatórias através do chip. Por ensaio e erro, seria possível finalmente localizar todas as conexões corretas para ligar os impulsos cerebrais cabíveis aos músculos certos, de forma a fazer os membros voltarem a funcionar normalmente. Era uma pesquisa brilhante e muito promissora. Entretanto, por mais adiantado que estivesse o trabalho de Jozef, os ferimentos de Marie se provaram extensos demais para que ela pudesse ser beneficiada. Não havia esperança de conseguir restaurar as faculdades dela, mesmo que pudesse sair do coma, o que era improvável.

Aí ela permitiu que Feldman retomasse as suas anotações.

— Antes do acidente de Marie — continuou — um colega e grande amigo de muitos anos, dr. Giyam Karmi, oferecera a Jozef a diretoria de um departamento no Instituto Israelense de Pesquisas no Neguev, para conduzir avançados estudos genéticos em animais domésticos. Por motivos que só ficaram claros para mim mais tarde, Jozef achou que esta posição lhe permitiria acesso a equipamentos e tecnologias especializados que poderiam ser de alguma ajuda para Marie. Então, embora mantendo sua cadeira e suas pesquisas na universidade, no outono de 1994 Jozef assumiu o cargo no instituto e começou a trabalhar em proximidade com o dr. Karmi. Ao mesclarem suas especialidades distintas, juntamente com a de outros brilhantes cientistas do instituto, Jozef e Giyam desenvolveram vários processos geniais para acelerar o crescimento bovino.

— Supergado? — sugeriu Feldman.

— Não, não era supergado. Não era maior nem mais forte do que o gado comum. Só crescia mais rápido. Muito mais rápido. Chegando ao tamanho e peso ideais de forma muito mais eficiente e econômica do que com os cuidados convencionais da pecuária. O trabalho deles era impressionante. Anos-luz à frente de qualquer outro! Ora, o gado não era criado dentro dos métodos tradicionais. Não havia baias. Nem ração. Os animais eram gestados.

— Gestados? — Feldman indagou. — Como se faz nas incubadoras de ovos de galinha?

— Bem, não. Eles eram levados à maturação dentro de úteros artificiais.

Feldman e Anke trocaram olhares questionadores.

— O processo envolvia uma remoção cirúrgica dos embriões, que eram retirados da mãe de aluguel e transplantados individualmente para câmaras especiais de nutrição, cada qual preenchida com líquido amniótico e um sistema placentário. As câmaras eram manejadas por uma complexa rede de computadores que monitoravam automaticamente os fetos em desenvolvimento e administravam doses precisas de nutrientes, vitaminas, proteínas e hormônios, inclusive os de crescimento específicos dos bovinos e os fetais, além de estimulantes para promover o desenvolvimento de músculos amadurecidos e saudáveis, e outros compostos para acelerar o crescimento. Um crescimento inacreditavelmente rápido! Os embriões em amadurecimento eram mantidos sob tranqüilizantes durante todo o processo e podiam ser induzidos ao desenvolvimento até o tamanho adulto ideal em menos de cinco meses.

— Cinco meses! — exclamou Feldman. — Quer dizer dois meses no útero materno e três meses na incubadora?

— Não — ela retrucou, com algum orgulho na voz. — Quero dizer um total de cinco meses de gestação, incluindo o útero natural e o artificial. O processo de Jozef e seus associados explorava o crescimento acelerado que todos os fetos costumam vivenciar durante o último mês de desenvolvimento. E o multiplicava por seis.

— Caramba! — exultou Fedman, fora de si.

Pela primeira vez, Anne Leveque mostrou um sorriso por inteiro, genuíno.

— É. Uma rês que podia ser criada até a maturidade plena num ambiente todo automatizado, eficiente, inteiramente monitorado e controlado! Isenta de feridas ou doenças infecciosas! Com um pouco de tempo e outros aperfeiçoamentos, Jozef e Giyam poderiam ter feito do processo uma operação altamente compensadora em termos de custo/benefício. Um meio ideal de propiciar a este país de pastagens limitadas uma carne bovina magra, integral e de altíssima qualidade, a custos de produção drasticamente reduzidos.

— O que aconteceu? — perguntou Anke.

O rosto da sra. Leveque retomou a antiga e conhecida máscara de angústia.

— Eu jamais poderia ter imaginado que Jozef tinha um motivo oculto para a paixão que vertia incansavelmente em seu trabalho. Para ele, essa grande conquista era simplesmente um meio de nos restituir a nossa querida Marie.

— Não estou compreendendo — interpôs Feldman. — Se a condição de Marie era irreversível, não vejo como esse sistema de gestação artificial, por mais milagroso que pareça, pudesse ser aplicado.

— E agora chegamos à maldição de tudo! — A sra. Leveque falou como que se livrasse de um fardo tremendo. — A intenção de Jozef não era curar Marie, mas recriá-la!

Feldman e Anke ficaram estupefatos.

A sra. Leveque fez uma breve pausa, fitou as mãos apertadas uma contra a outra e prosseguiu.

— Vocês estão familiarizados com os recentes experimentos que obtiveram êxito na clonagem de mamíferos e primatas superiores?

Os dois assentiram.

— Pois bem — ela levantou o olhar, um brilho de orgulho prontamente estampado nos olhos — Jozef eclipsou todas essas conquistas notáveis... com mais de um ano de antecedência, eu diria. Seus métodos, entretanto, eram bem diferentes. Ele utilizou um procedimento que desenvolveu, chamado fertilização de corpo-lúteo.

Feldman franziu a testa, intrigado.

— Vou explicar. Se você já fez algum curso de biologia, há de se lembrar que durante os primeiros estágios da formação do ovo na fêmea humana, o óvulo imaturo passa por uma mudança que se chama diplóide. Ou seja, ele dobra de quarenta e seis cromossomos para noventa e dois. Em seguida, passa pela divisão haplóide. Ou seja, ele se divide em duas células de quarenta e seis cromossomos cada. Finalmente, num processo chamado meiose, divide-se pela última vez em quatro células de vinte e três cromossomos cada, todas contidas dentro de uma membrana comum. Duas dessas quatro células são maiores, uma das quais vencerá as outras e, eventualmente, se transformará em um óvulo maduro. As duas células menores são conhecidas como corpos-lúteos. Elas também contêm vinte e três cromossomos, mas muito pouco citoplasma... a substância que circunda o núcleo e compõe o bojo da célula.

Sem o citoplasma, esses corpos-lúteos são bastante semelhantes, em termos de composição, às células do esperma masculino. Nas condições certas, é possível reunir o corpo-lúteo com o óvulo maturado, produzindo um ovo completo, fertilizado. É um processo conhecido como fertilização de corpo-lúteo e os rebentos resultantes, se a gravidez chegar a termo, serão fêmeas, sempre idênticas à mãe. É o que se deve esperar, pois obviamente o bebê possuirá todos os cromossomos, exatamente os mesmos cromossomos, da mãe. Uma cópia carbono. A estratégia de Jozef era executar um procedimento de fertilização de corpo-lúteo com os óvulos de Marie, sem o meu conhecimento, pois ele sabia que eu jamais acataria uma coisa dessas. Em certos dias, quando eu estava trabalhando na universidade, Jozef dispensava a enfermeira de Marie para conduzir suas operações. Extraiu inúmeros óvulos de Marie, separou os corpos-lúteos no laboratório e executou as fertilizações in vitro. Subseqüentemente, em dezembro de 1995, Jozef implantou diversos óvulos fertilizados de volta no útero de Marie, quatro dos quais acabaram se desenvolvendo em fetos viáveis. Mais tarde, ele removeu todos os embriões através de uma cesariana e os instalou secretamente em câmaras de gestação especial no Instituto do Neguev.

Jozef tentou explicar a incisão em Marie como uma apendicectomia de emergência. Mas eu não me deixei enganar e ele acabou se abrindo e me contando a história toda. É minha vergonha eterna, mas devo admitir que, depois do choque e da descrença inicial, eu também acabei sendo atraída para a loucura dele. A idéia de ter minha Marie de volta, de ser capaz de olhar em seus olhos, de ouvir seu riso, de abraçá-la, normal, saudável, feliz de novo... minha filha angélica!... foi demais e eu não pude resistir! E eu não pude deixar de apoiar os planos de Jozef. Embora também deva admitir que vivia em constante medo da represália divina, um temor que, acho, agora está se esvaindo.

— Queira me desculpar, Anne — interrompeu Anke —, mas como é que os mesmos hormônios e métodos de gestação artificial desenvolvidos para o gado puderam ser usados em embriões humanos? E será que o pessoal do laboratório não iria detectar a diferença entre fetos humanos e bovinos?

— Jozef tinha tudo isso esquematizado, Anke. Para as suas câmaras especiais, ele alterou a endocrinologia, mudou os hormônios do crescimento de bovinos para humanos, ajustou nutrientes, proteínas e teores medicinais para que se adequassem. Substituiu novos programas computacionais, modificados especificamente para os sujeitos humanos. Devido à sua autoridade como diretor do instituto, ele conseguiu restringir o acesso às câmaras. Nós sabíamos que ele precisaria ser extremamente calculista para desenvolver a gestação de ao menos uma de nossas filhas (ou netas, talvez) até a maturidade adulta sem que isso fosse detectado. Mas estávamos dispostos a assumir o risco.

Feldman a interrompeu mais uma vez.

— Deixe-me ver se entendi corretamente: o seu marido usou hormônios do crescimento e pretendia conduzir uma gestação artificial dos fetos de sua filha até a maturidade?

— Correto.

— Mas por quê? Por que não remover simplesmente o bebê mais sadio no ponto equivalente aos nove meses e criá-lo normalmente?

— Estávamos dispostos a isso, caso necessário, mas enfrentávamos um problema que nem ao menos a inventividade de Jozef era capaz de resolver: tempo. Eu estava com trinta e sete anos de idade e Jozef com um a mais, quando tivemos Marie, em 1968. Já íamos com sessenta e dois quando ela se feriu e sessenta e seis quando Jozef introduziu os embriões de Marie nas câmaras gestacionais. Jozef não estava muito bem de saúde. Nós estávamos velhos demais. Não nos restava tempo suficiente para educar uma criança de maneira segura até a vida adulta da forma convencional.

— Mas eu tendo a achar — insistiu Feldman — que seria o mesmo que educar uma criança num corpo de adulto.

— Isto nos leva ao próximo e mais complicado aspecto da estratégia de Jozef. E mais uma vez adentramos o campo de pesquisas que precisam permanecer em sigilo.

Feldman mais uma vez deixou de lado a caneta e o bloco.

— Foi aí que Jozef se baseou em sua especialidade máxima. Ele não só desejava acelerar o crescimento físico de Marie, como também queria fazer o mesmo com a mente dela. A idéia e o mecanismo para isso lhe ocorreram vários anos antes, a partir de uma série de experimentos na universidade. Conforme eu mencionei antes, Jozef trabalhara com uma equipe de pesquisadores desenvolvendo circuitos de biomicrochips, um tipo de ponte artificial para fazer impulsos nervosos atravessarem áreas seccionadas do sistema nervoso central, ajudando a restabelecer os movimentos dos membros no tratamento de paralisias. Independente disso, ele também tinha conduzido testes em algumas aplicações alternativas para esta tecnologia de neurochips. Em vez de células neuromusculares, ele concentrou-se no tecido cerebral, que também é uma forma de tecido nervoso. Entretanto, ele sabia que as células cerebrais comuns... diferentes das células nervosas... não se espalhariam sobre a superfície do chip artificial porque, após o nascimento, as células cerebrais logo perdem a capacidade de se multiplicar.

Portanto, Jozef começou a fazer experiências com sujeitos fetais. Ovelhas. E a receptividade do tecido cerebral do feto mostrou-se ainda melhor do que com as aplicações neuromusculares. Implantando o chip logo no início do desenvolvimento fetal, Jozef descobriu que as células cerebrais cresciam prontamente por cima da superfície e se integravam ao circuito.

Mais interessante ainda foi ele ter descoberto que as células cerebrais neurais realmente se adaptavam ao circuito e aprendiam a responder a ele. A malha de células neurais que se formava sobre o chip agia como uma placenta informacional, permitindo que insumos permeassem entre o chip e as passagens neurais do cérebro. O cérebro podia incorporar insumos dos chips como se fossem um elemento natural, orgânico, sensorial do sistema nervoso. Todos os circuitos dos chips neurais tinham fiação. Fios microfinos do chip se estendiam de dentro do cérebro até o crânio, juntavam-se numa mecha única, saíam por um orifício na nuca do feto e iam para fora do abdômen da ovelha mãe. Enviando suaves impulsos elétricos para circuitos selecionados do neurochip, Jozef podia estimular artificialmente e identificar precisamente quais áreas do cérebro estavam conectadas a cada circuito específico.

Dependendo de onde o chip fosse inserido, os impulsos elétricos poderiam criar, por exemplo, respostas musculares isoladas na cauda ou na pata dianteira direita. Por ensaio e erro, Jozef acabaria aprendendo exatamente quais nervos controlavam quais funções.

Uma vez, num esforço impulsivo de demonstrar os seus resultados para mim, Jozef tocou uma fita da marcha de John Philip Sousa que ele tanto adorava e fez uma pobre ovelhinha dançar um passo bobo, repetitivo, através do ventre da mãe. — A sra. Leveque murmurou algumas notas e a melodia familiar se fez reconhecer imediatamente para Feldman, mesmo que ele não tivesse atinado com o nome.

— Será que esse tipo de procedimento — indagou Feldman — implantar um objeto estranho no cérebro e enviar impulsos elétricos através dele, não iria danificar o cérebro?

— Pelo que pudemos observar, não. O cérebro é muito tolerante a procedimentos invasivos durante o estágio fetal. Além disso, o cérebro funciona mesmo através de impulsos eletroquímicos, você sabe, como o seu meio natural de transmitir mensagens. Os embriões de ovelha que foram levados a termo após o implante pareciam perfeitamente normais, saudáveis e ativos após o nascimento.

— O que aconteceu com os experimentos? — perguntou Anke.

— Infelizmente, foi exatamente nessa época que aconteceu o acidente de Marie e Jozef interrompeu o trabalho abruptamente. Claro, vocês podem perceber que tivemos esperança de usar esta ciência maravilhosa para auxiliar Marie. Mas, mesmo que fosse possível para as células de seu cérebro adulto se integrarem ao neurochip, a parte destruída de seu tecido cerebral era tão grande que, em termos mentais, seria muito improvável que ela tornasse à normalidade.

Mais uma vez, as emoções afloraram na sra. Leveque e seus olhos se encheram de lágrimas.

— Mas, que Deus o perdoe, meu marido era um homem muito irredutível, e simplesmente se recusava a acreditar que havíamos perdido Marie. Ele não permitia que os fios e tubos fossem desconectados dela. E não desistia de sua obsessão de que, de alguma forma, com toda a sua inventividade e milagrosas tecnologias, ele seria capaz de vislumbrar uma forma de reverter a nossa tragédia. Foi essa obsessão que o levou a implantar os dispositivos de neurochips nos embriões de nossa filha. Foi sua resposta à nossa limitação de tempo. Queria usar esses neurochips para transmitir informações de sistemas computacionais cibernéticos diretamente nos cérebros em desenvolvimento. Infusão de inteligência, como ele chamava.

Jozef construiria o seu conhecimento à medida que os embriões fossem atravessando o período gestacional. Aceleraria suas mentes para que acompanhassem o ritmo de crescimento de seus corpos. Era a melhor esperança, e a única que tínhamos, de preparar nossas meninas a tempo de conviverem com um mundo que, por assim dizer, já as vitimara antes.

— Estou um pouco confuso com relação ao processo de aprendizado artificial— confessou Feldman.

— Não seria como nas experiências anteriores com ovelhas —­ explicou a sra. Leveque. — Jozef elaborara novos neurochips, muito mais sofisticados. Quando os quatro fetos de nossa filha haviam crescido o suficiente, Jozef escolheu três e implantou uma dúzia de neurochips nos centros auditivo, visual, espacial e processador de raciocínio do cérebro de cada criança.

E numa das meninas ele também implantou um tipo diferente de neurochip num ponto receptor cognitivo separado. Era um neurochip totalmente novo que ele desenvolvera. Continha um microtransmissor­ receptor exclusivo, capaz tanto de receber quanto de enviar sinais de comunicação. O aparelho ainda não havia sido testado de forma alguma e foi concebido quase como uma idéia posterior. A intenção de Jozef era equipar esta criança especial com uma fonte contínua de comunicação, com entrada e saída, mesmo depois do nascimento. Através deste chip, suas capacidades intelectuais seriam ilimitadas, movidas pela infindável fonte de eletricidade química natural do cérebro.

Com as duas filhas que tinham somente os neurochips regulares, pode-se perceber, a fiação de recebimento precisaria ser desconectada durante o processo do nascimento. Depois disso, os neurochips não funcionariam mais. O último embrião que sobrou, decidimos deixar completamente inalterado, para que, se algo desse errado com os procedimentos de alto risco e se Deus permitisse, ainda continuássemos com a bênção de uma filha adulta saudável. De mente infantil, talvez, mas saudável mesmo assim.

Assim sendo, permitimos que o feto inalterado servisse como controle do experimento. Exceto pela infusão de inteligência, ela vivenciou todo o processo com as irmãs. Usava o capacete de monitoramento e os eletrodos sobre o couro cabeludo... tudo. Tudo, menos os neurochips.

Mesmo que tivesse nascido com inteligência infantil, seu cérebro não teria sido infantil no desenvolvimento físico. Teria sido adulto, totalmente crescido e amadurecido, com muito mais capacidade de aprender do que o de uma criança. Especialmente com a ajuda de suas irmãs educadas artificialmente, que poderiam ajudá-la mesmo que eu e Jozef não pudéssemos mais.

Mas houve um problema quase de imediato. Logo após os procedimentos do implante, um dos nossos embriões sofreu uma hemorragia cerebral. Durante a noite, os monitores detectaram um sangramento interno no centro occipital do cérebro, e pela manhã nós a havíamos perdido. Mas, felizmente, as duas outras resistiram bem aos procedimentos e todas as três continuaram com o seu crescimento incrível, a uma velocidade cerca de sete vezes mais rápida que o normal.

— Com licença, Anne — interrompeu Anke — mas como Jozef poderia esperar infundir décadas de aprendizado normal e cotidiano através desses... desses sinais de computador. O conhecimento não é só quantitativo. É qualitativo. E temperado com coisas como emoção, interpretação e toda uma gama de experiências de polinização cruzada complexas demais para eu sequer tentar imaginar!

— É verdade, minha querida. Não esperávamos que a educação artificial lhes desse um conhecimento abrangente sobre a vida e o mundo. Haveria muitas lacunas a serem preenchidas após o nascimento. O diário de Jozef explica isto muito melhor do que eu, mas infelizmente não contém nenhum dos registros científicos. Foram todos perdidos na explosão.

De qualquer maneira, os vários neurochips nos deram a habilidade de sincronizar insumos para diferentes centros cerebrais ao mesmo tempo... audição, visão, raciocínio e assim por diante. Assim, nossas filhas poderiam vivenciar o mundo em três dimensões. Compreender como engatinhar e andar, por exemplo. E, então, nós aproveitaríamos esse conhecimento para treiná-las e instruí-las passo a passo para que elas viessem a compreender a fala e a linguagem. A identificar imagens e a se orientar no espaço. A adquirir a matemática, a geometria, e assim por diante.

— Como a realidade virtual? — perguntou Feldman.

— Só que com a realidade virtual há estímulos verdadeiros, físicos, que funcionam em harmonia com os impulsos táteis, visuais e auditivos. Com o sistema de Jozef, tudo ocorre na mente. Provavelmente algo como ter um sonho muito vívido. Após o nascimento, todos esses recursos pré-aprendidos permitiriam que as meninas se relacionassem mais fácil e rapidamente com o mundo real.

— Foram incluídas instruções religiosas nas infusões de inteligência? — indagou Feldman.

— Foram — respondeu a viúva. — A Bíblia, o Talmude e o Novo Testamento, é claro. Mas também os livros das outras grandes religiões — o Corão, a Torá, o Avesta e muitos mais. Cientes de que foi a intolerância religiosa que serviu de fundo ao ataque que feriu a nossa Marie, achamos importante que as nossas novas Maries tivessem uma compreensão de todas as principais doutrinas teológicas.

Feldman estava prestes a fazer mais uma pergunta à sra. Leveque quando ela ergueu uma das mãos para sinalizar um hiato. Colocou a outra mão sobre o coração e fechou os olhos.

Alarmados, Feldman e Anke levantaram-se de um pulo e se aproximaram dela.

— Você está passando mal, Anne? — perguntou Feldman.

Ela abanou a mão num gesto suave.

— Só... só um pouco cansada, acho.

— Quer tomar um pouco de água? — ofereceu Feldman.

— Ou comer alguma coisa? — sugeriu Anke.

A viúva abriu os olhos.

— O dia foi um pouco estressante para mim — admitiu ela. — Nunca falei disso para ninguém antes. Talvez se eu pudesse me deitar um pouco! Mas só um pouco. É importante que vocês escutem tudo o mais cedo possível, para que o mundo possa saber a verdade. Antes que essa tragédia piore ainda mais!

 

                         Torres de Nordau, Tel Aviv, Israel

                         10:00, sábado, 22 de janeiro de 2000

Bollinger atendeu, mal-humorado, ao telefonema de Feldman.

— Por onde é que você tem andado? — ralhou o chefe da agência de notícias. — Estamos procurando por você em todo canto. Por que não veio à reunião de hoje de manhã?

— Estou em Tel Aviv com Anke — tentou explicar Feldman. ­— Estou...

— Porra, Feldman! — explodiu Bollinger. — Você está se divertindo, enquanto o resto da equipe está se matando para conseguir furos de reportagem!

— Calma aí, Arnie — protestou Feldman — não é o que você está pensando. Estou aqui com um tremendo furo nas mãos, e é dos grandes! Você não vai nem acreditar! É algo que vai nos botar de uma vez por todas de volta na linha de frente.

O tom de Bollinger mudou instantaneamente, tornando-se mais curioso e propenso a desculpas.

— Ah, é? Sério? O que você conseguiu, Jon?

— Consegui um informante de dentro daquela instalação no Neguev — disse Feldman. — E é coisa de dar um nó na cabeça da gente.

— Cristo! Você está brincando! Que maravilha! Ora, essa! Então, desembuche logo.

— Não tenho a história completa ainda, Arnie. Mas estou em cima. Volto a falar direto com você logo mais.

— Mas...

— Pode confiar em mim. Eu preciso desligar agora.

— Mas...

Desligando, Feldman deixou o telefone fora do gancho, a fim de se assegurar que o descanso da sra. Leveque não seria perturbado. Mas não foi necessário. Naquele instante ela saiu do quarto, com um aspecto mais recomposto, e foi ter novamente com o repórter e Anke na sala de estar.

— Tem certeza de que está disposta para enfrentar isso, Anne? ­— perguntou Feldman. — Podemos adiar a conversa para uma ocasião mais propícia.

— Não, não! — A sra. Leveque abriu um leve sorriso e acariciou-lhe a mão. — Já estou me sentindo melhor. Além disso, é de importância vital que eu lhe conte o resto agora, por motivos que você logo vai entender.

Voltando à mesma cadeira de antes, a viúva retomou exatamente do ponto onde interrompera.

— Durante pouco mais de um ano, Jozef deu continuidade ao processo gestacional de nossas filhas, sem ser perturbado, numa área restrita do Instituto de Pesquisas no Neguev. Mas, com o passar do tempo, Jozef começou a utilizar cada vez mais a enorme capacidade computacional do laboratório. Para desenvolver e controlar adequadamente um processo de infusão cada vez mais complicado e delicado, ele se viu forçado a usurpar ainda mais tempo e memória do sistema central dos computadores.

Em última instância, isso começou a interferir nas plataformas de serviço que regulavam o programa de gestação dos bovinos. E, conseqüentemente, atraiu a curiosidade de Giyam Karmi que, naturalmente, quis conhecer os poderosos acréscimos que Jozef estava fazendo aos procedimentos com os bovinos. Afinal, depois de Jozef exaurir todas as desculpas possíveis, as coisas ficaram feias e Giyam, literalmente, precisou entrar à força no departamento. Quando descobriu a verdadeira natureza de nosso trabalho, Giyam ficou histérico, despediu Jozef imediatamente e se preparou para fechar os nossos sistemas.

Desesperado, Jozef apelou para o ministro da Defesa, Shaul Tamin. Jozef conhecera Tamin durante o curso universitário e prestara-lhe diversas consultorias para projetos da defesa durante um certo tempo. Mas após o acidente de Marie, tanto Jozef quanto eu fizemos um juramento solene de renunciar a qualquer pesquisa militar. Jozef se recusou a assessorar Tamin dali por diante e nós ficamos muitos anos sem vê-lo.

Mas não tínhamos mais a quem recorrer. Tamin era a única pessoa em posição capaz de oferecer ajuda a tempo. Assim, apesar de nossos votos, contamos ao ministro da Defesa tudo acerca do processo de infusão de Jozef e suas aplicações militares. E lhe falamos como a falta de visão de Giyam estava colocando aquela tecnologia em risco imediato.

— Queira me desculpar, Anne — interrompeu-a Feldman mais uma vez — mas eu não consigo ver nos experimentos de Jozef quaisquer aplicações para a defesa!

— Conforme Jozef mostrou, havia dois potenciais principais: primeiro, a possibilidade de infundir legiões de soldados israelenses com treinamento militar autônomo. Numa emergência, mesmo os civis, portando implantes de um transmissor-receptor, poderiam ser convocados, automaticamente, para uma infusão das últimas técnicas de aprendizado e treinamento de combate, sendo imediatamente ativados. Segundo, e mais importante, cada soldado disporia de recursos de comunicação em mão dupla, silenciosos e instantâneos, praticamente em todo canto, a qualquer hora.

Feldman assentiu, começando a compreender.

— Não é preciso dizer que isso traria enormes vantagens em termos de comunicação: mobilização instantânea e maciça das tropas, com resposta imediata aos comandos de último instante no próprio campo; mapas mentalizados, através dos quais cada soldado poderia ter sempre uma referência de sua posição e direcionamento; a habilidade de cada indivíduo distinguir imediatamente entre amigo e inimigo; transmitir prontamente coordenadas exatas para telemetria de artilharia; e assim por diante.

Ela fez uma pausa e baixou os olhos.

— A fim de salvar nossas filhas, Jozef e eu descumprimos o voto sagrado que fizéramos. Oferecemos a nossa tecnologia à FDI.

Sua testa se contraiu e ela chegou à beira das lágrimas.

— Estávamos tão tomados por nosso sonho, Jozef e eu, que não conseguíamos mais voltar atrás. Assistíramos ao crescimento de nossas três belas Maries, de bebês a crianças, tudo em menos de um ano! Espiáramos diariamente pelo vidro daquelas câmaras escuras, apreciando o sono de nossas filhas, sem podermos abraçá-las, acariciá-las ou beijá-las.

Devido ao seu ambiente estéril, só ousávamos encostar nelas quando absolutamente necessário. Para executar funções de manutenção, como a substituição dos monitores cranianos, ou a raspagem dos pontos de contato dos eletrodos com o couro cabeludo. Eram as únicas ocasiões em que podíamos ver seus rostinhos lindos. Não eram os momentos sentimentais que todos os pais costumam desfrutar com seus filhos, talvez, mas eram igualmente preciosos para nós. Nós as amávamos tanto! Seríamos capazes de vender nossas almas para salvá-las. Mas o que fizemos foi muito pior. E, por isso, Deus nos amaldiçoou.

Shaul Tamin fez uma proposta perversa a Jozef. Disse que o deixaria dar prosseguimento ao projeto mediante uma única condição: que Jozef concordasse em alterar o processo de infusão em curso para aplicações militares. A idéia era abominável e deixou-nos aterrorizados. Depois da horrível violência que nossa primeira Marie sofrera, era inconcebível transformarmos nossas filhas inocentes em soldados.

Precisávamos pensar em algo rapidamente ou tudo estaria perdido. Em desespero, Jozef fez um trato com Tamin. Um trato do demônio! Jozef sabia que o ministro da defesa estava mais interessado em nossa filha que portava o microchip especial de recepção-transmissão. No intuito de salvar as outras, Jozef percebeu que não tinha alternativa, além de entregá-la a Tamin. Cederíamos esta criança especial, e somente ela, para uma infusão de inteligência com propósitos militares. E retiraríamos a outra filha do processo de infusão e continuaríamos a sua gestação em separado, juntamente com sua irmã de controle. Tamin concordou com isso.

Anke e Feldman estavam aturdidos. Ninguém disse nada até que Feldman rompeu o silêncio.

— Será que a remoção da outra filha da transferência de inteligência não iria interromper o seu desenvolvimento mental?

— Iria, sim — confirmou a sra. Leveque. — Na ocasião em que Tamin assumiu o controle da nossa operação, ela estava com talvez sete anos de idade, intelectualmente. Teríamos iniciado o seu nascimento e o de sua irmã que não sofrera alterações exatamente naquele momento, mas Tamin insistiu que elas continuassem no processo de gestação. Foi assim que ele manteve Jozef preso ao projeto.

Obviamente, acabarmos com filhas adultas num processo de maturidade mental sustado a meio caminho era motivo de grande preocupação para nós, mas pelo menos achamos que teríamos mentes saudáveis com as quais trabalhar. Mentes não corrompidas pelos esquemas secretos e conspirações militares de Tamin!

Se Jozef e eu estávamos obcecados por nosso projeto, Shaul Tamin estava possuído. Para ele, este programa oferecia a Israel uma área de superioridade tática à qual nenhuma outra força militar conseguiria se igualar. Nem mesmo os Estados Unidos! Ele ficou completamente tomado pelo processo de infusão e suas aplicações, aparentemente ilimitadas. Fez com que a FDI assumisse total jurisdição sobre a operação, sob segurança e sigilo máximos. Os experimentos com bovinos foram interrompidos por prazo indefinido e, daquele ponto em diante, o enorme Instituto de Pesquisas no Neguev ficou totalmente dedicado ao seu projeto.

— O que aconteceu com o dr. Karmi? — perguntou Feldman.

— Uma vez que Tamin não gostava dele, Giyam foi tirado da diretoria. Foi um golpe terrível e eu sinto dizer que ele sucumbiu a um ataque cardíaco pouco tempo depois.

Feldman soltou um suspiro.

— Então, até que ponto vocês tinham chegado no processo todo quando ocorreu a explosão?

— Uma semana antes do fim — disse a viúva. — A codificação militar de nossa filha especial deveria ser concluída no final do mês passado. O nascimento dela e de suas duas irmãs estava marcado para o primeiro dia do novo milênio. — A sra. Leveque balançou a cabeça tragicamente. — Deus permitiu que chegássemos tão perto assim, depois de percorrermos tantos caminhos, até estarmos totalmente convencidos da viabilidade de nossos métodos. E então, sem aviso, Ele baixou Sua mão sobre nós em justa indignação, tirando-nos tudo num só instante!

Ela parou de falar e deixou os olhos se perderem no infinito durante um momento de introspecção, pousando-os em seguida, umedecidos, sobre Feldman.

— Mas Deus trabalha mesmo de formas misteriosas e eu jamais perdi a minha fé. Quinta-feira de manhã, dia 6 de janeiro, da maneira mais misteriosa que se possa imaginar, Deus restituiu algo que havia tomado de mim. Em seu noticiário no Monte das Beatitudes, Jon, eu vi no rosto da Nova Messias uma semelhança inegável com a minha Marie. Jeza, a única sobrevivente do desastre do Neguev, é minha filha.

Isso não foi surpresa para Feldman. No momento em que a sra. Leveque mencionou a raspagem de pequenos círculos no cabelo da filha para conectar os eletrodos, Feldman fez a correlação. Lembrou-se das marcas circulares no couro cabeludo da Messias quando ela surgiu no Monte das Beatitudes.

Mas diante da confirmação de suas suspeitas pela viúva, sua adrenalina não deixou de fluir. Mais um furo incrível! E o crédito deste iria para Anke. Ele apertou a mão dela.

— Você disse uma “semelhança” com Marie — observou Feldman. ­ — Ela não é idêntica à sua filha original? Entendi que elas tinham os mesmos cromossomos.

— E têm. Mas mesmo com gêmeos univitelinos, sempre há diferenças. Às vezes são bastante perceptíveis. Neste caso, as distinções foram bastante pronunciadas. Nos olhos, na voz, na postura.

— Então, queira me perdoar, Anne, mas não seria possível que esta Jeza fosse alguém que simplesmente lembrasse a sua filha muito de perto?

— Eu soube que era a minha Marie desde o instante em que a vi pela primeira vez, como só uma mãe é capaz de saber — respondeu ela, com a calma da convicção. A viúva então colocou sobre a mesinha do café o álbum que trazia nas mãos e abriu-o em páginas com fotografias de uma bela jovem de cabelos escuros. — Estas fotos foram tiradas antes do acidente, quando Marie tinha aproximadamente vinte e um anos de idade, a mesma que a sua nova prole teria agora.

Feldman e Anke certamente puderam ver a semelhança. A primeira Marie era indubitavelmente uma mulher atraente. Com traços muito próximos aos de Jeza. Mas a semelhança era mais familiar do que idêntica. A jovem das fotografias parecia mais uma irmã do que uma gêmea idêntica.

Na intenção de não ser indelicado, Feldman guardou a observação para si, mas viu que os olhos de Marie não eram, nem de longe, tão penetrantes ou autoritários! Ela era um pouco mais robusta, de compleição mais escura. Ocorreu-lhe que talvez a Messias fosse esta Marie, e mais ainda. Todas as melhores qualidades da Marie original, porém aprimoradas. Levadas à perfeição. Rosto, imagem, olhos. E a pele de Jeza! Absolutamente reluzente, angelical, perolada!

— Anne — comentou Feldman, depois de examinar as fotos — devo admitir que vejo uma grande semelhança, mas, honestamente, teria dificuldade para identificá-las como gêmeas idênticas. Os olhos, a compleição. Há uma diferença questionável aí.

A sra. Leveque assentiu com um gesto de compreensão.

— Além das freqüentes distinções amplamente encontradas entre gêmeos idênticos — explicou ela — é preciso considerar os efeitos que o nosso processo gestacional incomum teria sobre o corpo. A pele de todas as nossas filhas em processo gestacional possuía uma rara falta de pigmentação. Lembre-se, em toda a sua existência, elas jamais haviam sido expostas a um único raio de sol. Isso, somado ao líquido amniótico artificial, afetou-lhes a aparência da pele e dos olhos. É preciso reconhecer também, que toda pessoa normal, ao envelhecer, sofre os efeitos da gravidade e a contínua erosão que a vida exerce sobre as características físicas. Tais influências resultam em distribuições desiguais da gordura e ajudam a acentuar a assimetria do rosto e do corpo. Estes fatores responderiam por algumas das diferenças mais marcantes que você percebeu.

— Ainda assim — insistiu Feldman — como você pode ter certeza absoluta de que esta Jeza é uma das suas filhas do laboratório no Neguev?

A viúva Leveque ficou radiante de orgulho.

— Porque eu estive com ela.

A revelação pegou Feldman totalmente de surpresa.

— Você esteve com a Messias? Quando? Como?

— Na sexta-feira da semana passada, dia quatorze. Precisei deixar Marie sozinha em casa durante um breve período pela manhã para ir ao mercado. Passei somente meia hora na rua e, quando voltei, vi que a porta da frente estava escancarada. Eu sabia que a deixara bem fechada. Tive tanto medo que entrei correndo, sem ao menos considerar a possibilidade de que algum invasor estivesse Já dentro. Mas quando cheguei ao quarto de Marie, vi uma jovem vestida com uma túnica branca, ao pé da cama de Marie, simplesmente olhando para ela. Soube imediatamente quem era. Ela se virou para mim e deu um sorriso carinhoso... o sorriso da minha Marie... e disse: “Não tenha medo, pois eu venho do Pai”. Foi um choque muito grande; não consegui me conter e caí de joelhos diante dela, com os braços em torno de sua cintura, e chorei todas as lágrimas, toda a dor e toda a angústia que eu mantivera dentro de mim ao longo de todas as minhas tragédias. Ela abraçou a minha cabeça contra o seu corpo, afagou os meus cabelos e me trouxe tanto conforto e paz interior!

A idosa senhora fechou os olhos e deixou a cabeça pender para trás, revendo o momento com uma aura de total serenidade.

— Depois de algum tempo, ela me ajudou a levantar, e eu vi tanta sabedoria, paz e graça em seus olhos que não senti mais necessidade de chorar! Meu único pensamento na hora foi o de mantê-la ali comigo e me deliciar no amor da filha que eu reencontrara. Mas ela me falou que precisava ir. Implorei para que ficasse ao menos uma noite. Ela simplesmente disse: “Mulher, preciso cuidar dos assuntos de meu Pai”. Então ela tocou no meu rosto outra vez, tornou a dar aquele sorriso precioso e partiu. Levei no máximo um segundo ou dois para segui­-la, com certeza. Mas quando saí de casa, correndo ao seu encontro, ela já se fora. Sumira.        

— Anne — perguntou Feldman — tem alguma idéia de como Jeza ficou sabendo a seu respeito ou onde você morava?

— Eu realmente não sei. Talvez tenha sido outra das muitas coisas elétricas que Jozef implantou em sua memória com a infusão de inteligência. Não faço idéia de todas as informações com que ele a municiou. Mas pode inclusive ter sido algum tipo de cognição instintiva ou espiritual que a tenha levado à casa. Simplesmente, não sei! Há uma sabedoria muito mais profunda nela que não tenho como avaliar.

A viúva Leveque fechou os olhos mais uma vez e ficou em silêncio, tendo sido o tremendo desgaste emocional de sua história um dreno óbvio em luas energias. Depois de algum tempo, ela ergueu os olhos e sorriu.

— Quando você ligou para mim na semana passada, Anke — disse ela —, claro que, a princípio, eu não sabia que estava envolvida com Jon. Todos que tínhamos conexões com o Instituto no Neguev havíamos sido alertados pela FDI que as operações ali eram de sigilo absoluto e que as conseqüências por divulgar informações seriam severas. Quando você mencionou Jon e a RMN, percebi que falara demais e entrei em pânico.

— Então, depois de receber a visita de Jeza, mudou de idéia? — especulou Anke.

— Não. Foi depois que recebi a visita da FDI que percebi não ter alternativa alguma, a não ser falar com vocês.

— A FDI foi vê-la? — indagou Feldman. — Quando?

— Quinta-feira passada, pela manhã. O general Alleza Goene e alguns dos oficiais de seu gabinete.

— O que o general Goene queria, Anne?

— Eu nunca o tinha visto antes, embora tivesse escutado Jozef mencionar seu nome em conexão com o trabalho no Neguev. O general Goene era encarregado da segurança da operação e visitava as instalações ocasionalmente. Jozef cuidava para manter as coisas sempre em ordem. O general era um dos amigos íntimos de Tamin e também um indivíduo bastante intolerante, que levava as questões de segurança muito a sério.

Quando me visitou, ele se mostrou afável a princípio. Deu-me os pêsames pelas perdas que sofrera e fez-me uma série de perguntas sobre Jozef e as operações no Neguev. Primeiro me perguntou sobre registros ou anotações que Jozef acaso mantivesse em casa. Informei-lhe que todos os documentos desse tipo haviam sido classificados pela FDI e que Jozef tinha ordens de mantê-los todos guardados no laboratório. Não lhe falei sobre o diário. Mas ele estava particularmente interessado em minhas filhas. Queria saber se era viável que elas pudessem ter sobrevivido fora das câmaras de gestação na ocasião do acidente; se elas teriam sido capazes de ver ou andar na hora; que efeitos negativos a explosão e o curto-circuito no sistema de infusão poderiam ter exercido sobre elas tanto em termos mentais quanto físicos, e assim por diante.

Naturalmente, eu estava alerta e fiz-me de ignorante. Eu sabia que a minha filha que sobrevivera... Jeza... tinha de ter sido a escolhida para as infusões militares por causa de seu avançado desenvolvimento intelectual. Eu sabia que Goene iria querê-la de volta. E, é claro, eu estaria disposta a tudo para evitar isso. Em seguida, Goene me perguntou se eu vira a dita Messias na TV e se eu achava que ela tinha qualquer semelhança com os sujeitos de teste no Neguev. Eu disse que não via nada em comum, mas percebi que ele não acreditou em mim.

Ele começou a ser mais duro comigo e pediu fotografias de Marie, que eu me recusei a entregar. Então ele pediu para entrar no quarto de Marie para dar uma olhada nela e para que eu autorizasse um de seus homens a tirar fotos dela. Eu recusei, mas eles entraram no quarto mesmo assim. Tentei impedi-los, mas um dos oficiais me conteve. Depois, quando estava saindo, Goene me falou, sob pena de traição e perda da minha pensão e dos benefícios de acompanhamento prestados a Marie, que eu não devia dizer nada sobre o que aconteceu e levasse imediatamente a ele qualquer informação que eu obtivesse relativa à nova Messias.

E foi aí que eu decidi ligar para você, Anke. Sabendo o perigo que Jeza corre, devo protegê-la de alguma forma. A melhor maneira que conheço é através da voz clara e firme de Jon na televisão.

— Exatamente que perigos você acha que Jeza está correndo, Anne? ­ — perguntou Feldman.

A Sra. Leveque fixou os olhos em Feldman com bastante intensidade.

— Nada vindo de Shaul Tamin me surpreende, Jon. Ele é um homem muito frio e ambicioso. Posto que Jeza representa a prova viva de experimentos secretos e ilegais, acho que ela corre grande perigo. Tamin não quer que a verdade vaze. Pior ainda, ela carrega dentro de si uma tecnologia preciosa, que Tamin deseja muito.

— E ao contar esta história através de nós — resumiu Feldman — você acredita que Tamin se isentará de fazer qualquer coisa contra ela?

— Exato. Acredito que, uma vez que o mundo fique sabendo da conexão entre Jeza e a FDI, nem Tamin nem Goene terão a audácia de tomar qualquer atitude contra ela.

— Então, se a estou compreendendo bem, Anne — disse Feldman, para se reassegurar — você não vê problema algum se nós contarmos a sua história, contanto que mantenhamos a sua identidade e a de sua família em sigilo.

— Perfeito — ela retrucou. — Além de nós, creio que as únicas pessoas vivas que conhecem a história completa sobre o que acontecia naquele instituto são Shaul Tamin e o alto comando da FDI. E embora Tamin vá suspeitar de mim quando o seu relato vier a público, se você proteger a minha identidade, não haverá como ele provar nada. Mas há outras condições que também preciso estabelecer: devo insistir para que você não mencione a existência dos microchips ou da extraordinária ciência por trás da infusão de inteligência. A exposição dessas tecnologias proprietárias poderia resultar em sérias acusações criminais.

Devo insistir também para que você oculte os aspectos e objetivos militares do experimento, que eram, obviamente, confidenciais. A simples identificação da FDI como patrocinadora de pesquisas ilegais deve ser suficiente para proteger Jeza. Tampouco acho que seria bom para ela se o público viesse a saber que traz dentro de si algumas diretrizes militares sigilosas. Mas, além disso, tenho uma preocupação maior. Você sabe, Jeza não faz idéia da fonte de suas habilidades exclusivas... a rede de neurochips implantados em seu cérebro! Tremo só de pensar nos efeitos que uma revelação dessas teria sobre ela. O confronto da dura realidade de sua inteligência artificial e dos estranhos dispositivos dentro dela, só e despreparada, poderia ser devastador e perigoso.

— Compreendo — admitiu Feldman. — Mas Anne, acho importante que incluamos algum tipo de explicação razoável sobre a maneira como Jeza desenvolveu suas extraordinárias faculdades mentais. Há milhões de pessoas frenéticas por aí, acreditando que o conhecimento de Jeza é divino. Elas precisam saber a verdade. Haveria algum problema se fizéssemos a cobertura da infusão de inteligência em termos gerais apenas, sem mencionar os neurochips? Que tal se descrevêssemos o processo como sendo meramente algum tipo passivo de construção de memória... como fitas de áudio previamente gravadas, que são ouvidas através de fones de ouvido ou algo assim... e omitíssemos os detalhes?

— Compreendo o seu raciocínio — retrucou a viúva, ruminando os próprios pensamentos — mas eu preciso me assegurar de que isso seja abordado somente nos termos mais genéricos.

Ele indicou sua anuência com um aceno de cabeça.

— Pode confiar em mim.

Feldman fez um intervalo antes da pergunta seguinte, elaborando-a com muito cuidado.

— Anne, há só mais uma coisa que eu gostaria de esclarecer, por favor... A seu ver, depois de ter estado com ela, há alguma coisa que você tenha visto ou sentido que possa levá-la a crer que Jeza seja de fato um novo Messias, conforme a promessa do Velho Testamento? Ou, em sua opinião, essa crença messiânica da parte dela seria totalmente... ilusória?

Anne Leveque olhou para Feldman com um olhar inquisitivo e ele ficou ressabiado por talvez tê-la magoado.

— Está me perguntando se eu acho que Jeza é insana? — Ela falou com frieza, mas seu tom não demonstrou ofensa. — É uma pergunta, devo admitir, com a qual venho me debatendo. E não sei se já estou preparada para respondê-la. Mas posso dizer o seguinte: a jovem que conheci na última sexta-feira pela manhã não é a Marie que dei à luz e criei. Mesmo com todas as semelhanças físicas!

Aparentemente, Jeza se crê uma profetisa. E há muitos, decerto, que consideram isso uma loucura. Talvez seja! Como podemos saber que efeito o seu desenvolvimento não natural pode ter tido sobre ela? Quais são os resultados psicológicos de um isolamento prolongado naqueles tanques gestacionais desumanos? Todas aquelas horas de infusão crua e aterrorizante programação militar? Que danos mentais ela pode ter sofrido se os seus neurocircuitos foram sobrecarregados com a explosão? Qualquer dessas situações traumáticas, penso eu, teria sido suficiente para deixá-la completamente insana.

Considero como tudo isso possa ter-lhe causado um grande impacto. De repente, ei-la no mundo! Nascida adulta, com memória embutida, porém de formação incompleta! Exibindo dotes intelectuais incríveis, aparentemente divinos! Sem uma explicação melhor, porque ela não iria presumir que os seus talentos especiais vieram de Deus? Talvez aquele culto samaritano tenha implantado tais pensamentos em sua mente impressionável. Mas, então outra vez me pego pensando sobre esses impressionantes eventos sobrenaturais que a circundam. Ao vê-la, eu mesma senti algo inexplicavelmente espiritual e comovente. Portanto, quem diria se Deus não foi até aquele laboratório, em meio à Sua justa destruição, e conferiu a este precioso e inocente ser a tarefa de dar prosseguimento ao Seu propósito maior? Quanto ao fato de ser ela louca ou Messias, simplesmente não sei. Peço a Deus que não seja nem um nem outro! Peço que Jeza volte para mim como uma filha simplesmente, normal, doce e carinhosa, a quem eu possa amar e apreciar!

E mais algumas lágrimas escaparam-lhe dos olhos.

 

                               Agência de Notícias da RMN, Jerusalém, Israel

                               10:19, sábado, 29 de janeiro de 2000

Nigel Sullivan tomara a decisão visceral de se fixar na incrível revelação da verdadeira identidade de Jeza, a fim de que a história pudesse se desenvolver até o seu potencial máximo. Até Feldman o considerara um tolo a princípio, temendo que os fatos acerca das origens de Jeza pudessem vazar. Mas agora, uma semana depois, o brilhantismo do plano de Sullivan estava se tomando óbvio.

A fim de preservar o sigilo do projeto, a história fora desmantelada em diversas partes e divulgada para a sede em Nova York e várias estações da RMN por toda a Europa. Nenhuma indicação foi passada para as equipes de produção quanto à seqüência ou linha dos fatos. Durante o curso da semana, à medida que os vários segmentos iam sendo desenvolvidos de maneira independente, arquivos de computador, instruções e informações cruzavam o Mediterrâneo através de portadores secretos, para evitar a inteligência da Força de Defesa Israelense.

A reportagem da RMN não conteria nenhum vídeo inédito da Messias. Entretanto, graças à mágica das imagens eletrônicas, os artistas do computador da RMN haviam criado seqüências de vídeo digitalizadas que pareciam vivas. Isso foi conseguido através da utilização de vídeos da Messias já existentes, que foram transformados para que se desenvolvessem seqüências totalmente diferentes.

Seria uma apresentação de duas horas. As verdadeiras origens da nova Messias, uma reportagem exclusiva de Jonathan Feldman e da RMN Notícias, sendo as partes montadas em sua forma final na sede da teledifusora em Jerusalém.

Sob tremendas pressões de prazos, no meio de uma teleconferência com a central européia acerca de seqüências gráficas que faltavam, Feldman e Hunter, irritados, foram interrompidos pela insistente Cissy McFarland.

— Porra, Cissy, é melhor que seja coisa boa! — blasfemou Hunter, já irascível diante da disputa com os europeus. — Como você acha que nós vamos conseguir terminar esta merda até amanhã?

— Ora, talvez vocês nem tenham que terminar, seu babaca — gritou ela em resposta — se não lidarmos com um problema muito maior antes. A FDI está aqui, exigindo que mostremos o que pretendemos levar ao ar, porque senão o pessoal de lá vai mandar fechar tudo e confiscar os nossos equipamentos!

Feldman e Hunter ficaram estupefatos.

— Desde quando Israel é um Estado totalitário? — Feldman quis saber. — Eles não podem fazer isso!

— Essa bosta de divulgação prévia! — continuou Hunter com suas imprecações. — Jon bem que disse para o Bollinger não revelar tanta coisa! Ele tem sempre que ir atrás dos melhores índices — reclamou ele, para ninguém especificamente.

— Esqueça isso, Breck. — Feldman compreendeu a seriedade da situação. — É melhor você e Cissy soarem o alarma de silêncio e tirarem quaisquer fitas ou informações delicadas das suítes de edição e arquivarem tudo, por via das dúvidas. E é melhor andarem rápido.

Feldman correu para a sala de conferências, onde encontrou Sullivan, Bollinger e Robert Filson diante de quatro milicianos e do próprio general Alleza Goene. Sullivan, com o rosto vermelho, estava furioso.

— Isto é um ultraje! Onde está o seu mandado judicial? Isto é ilegal! — O crachá de bronze do general e as condecorações que lhe enchiam o peito brilhavam sobre a farda impecável.

— Eu não preciso de autorização — ele garantiu, virando-se quando Feldman adentrou o recinto.

— Com sua licença, general. sou Jon Feldman, o repórter que está chefiando esta histó...

— Eu sei exatamente quem você é — atalhou Goene.

Feldman pestanejou.

— Você é o responsável por esta onda de fanatismo milenarista. Você é quem leva as massas ao frenesi em cima dessa falsa Messias, sem pensar nas conseqüências, só para aumentar os índices da sua rede. Mas eu sou o responsável pela restauração da ordem. E é o que vou fazer, com todo e qualquer meio que se faça necessário. — Ele se voltou novamente para Sullivan: — Agora. Mostre-me o programa.

Feldman olhou para Sullivan em busca de uma deixa.

Sullivan, controlando-se, dirigiu-se a Feldman, sem tirar os olhos de Goene.

— O general aqui está com a impressão de que a reportagem que em breve levaremos ao ar sobre a Messias revelará alguns segredos de Estado. Mas quando eu lhe pergunto o que o leva a tais acusações, ele diz que não pode contar.

— General — perguntou Feldman, tentando tomar a ofensiva — o senhor está dizendo que essa pessoa que alegam ser a nova Messias está de algum modo conectada ao governo israelense ou à Força de Defesa?

O rosto de Goene tornou-se sombrio e as veias saltaram-lhe no pescoço.

— Vocês têm exatamente um minuto para me mostrar o programa.

— Arnie — instruiu Sullivan a Bollinger — quero que você ligue imediatamente para Levi Meir, no parlamento israelense e obtenha esclarecimentos sobre a solicitação do general.

— O parlamento israelense não tem voz nesta questão — redargüiu Goene, lívido. — Vocês têm quarenta e cinco segundos.

Bollinger, Sullivan e Filson haviam empalidecido, mas mantiveram suas posições.

— General— tentou Feldman mais uma vez — o senhor precisa saber que esta história não está sendo abordada daqui. Não se trata de uma reportagem ao vivo; é um especial produzido, montado em nossa sede européia e em Nova York para teledifusão mundial. Eu gravei os meus segmentos há dias e a tiragem já foi enviada para a Europa. O assunto precisa ser tratado com a nossa sede européia. .

— Que disparate! — contra-atacou Goene. — Nosso serviço de inteligência não interceptou nenhuma teletransmissão relevante, nem nada via satélite para a Europa. Vocês estão produzindo a reportagem aqui.

— Se quiser, posso levá-lo para visitar as nossas instalações e o senhor verá com seus próprios olhos. — Feldman continuou com a artimanha. — ­O nosso segmento foi concluído e enviado através de um portador particular há dias. Não temos nada para lhe mostrar.

Sullivan lançou um olhar de pânico para Feldman.

Goene não estava cedendo.

— Então eu vou vistoriar pelo menos o seu segmento. Pode me mostrar agora.

— Vou mostrar-lhe que não há nada aqui, mas não vou revelar-lhe o conteúdo da história — retrucou Feldman, com calma e serenidade. — E eu sou o único que conhece as identidades de minhas fontes. Além disso — acrescentou Feldman, jogando com a sorte — quaisquer providências que o senhor venha a tomar quanto a este escritório, certamente serão usadas pela nossa sede internacional para consubstanciar a reportagem... ligando aos desdobramentos a FDI, o ministro da defesa, Tamin, e o senhor pessoalmente!

O rosto de Goene ficou roxo de fúria com a afronta impertinente e os seus quatro guardas militares instintivamente assumiram uma postura mais ameaçadora. Sullivan fez uma careta diante do risco da jogada. Não obstante, apesar da raiva, Goene pareceu considerar este revés imprevisto.

Feldman percebeu a oportunidade de dar um fim ao confronto.

— General — ele disse em tom conciliador — se o senhor e seus homens se forem agora, sem maiores problemas, não vejo razão alguma para que consideremos este incidente. E nós lhes asseguramos que nenhuma menção sobre os senhores ou este encontro será feita no programa. Concorda, Nigel?

O general olhou para Sullivan, que anuiu com um simples gesto da cabeça. Goene esfregou a boca grosseiramente com a mão, agitando os olhos como que em busca de alguma alternativa.

Feldman jogara com a possibilidade de Tamin, preocupado com as aparências, ter mantido Goene de rédeas curtas. Se o general tivesse carta branca para usar a força e estivesse realmente confiante das acusações que fazia, ele provavelmente já teria arrasado os escritórios, sem aviso prévio.

Finalmente, os olhos de Goene pousaram nos de Feldman.

— Vou lhe avisando, se a RMN divulgar qualquer informação ou documentos sigilosos, ou se houver qualquer exposição de pesquisas governamentais de conteúdo suscetível na sua reportagem, vocês responderão a uma autoridade superior a mim. O resultado será a imediata expulsão de todos os funcionários da RMN de Israel e o confisco de todas as propriedades da rede no Estado. Entenderam?

Nem Feldman nem Sullivan disseram nada e, por fim, o general gesticulou carrancudamente para os seus homens e abandonou o recinto.

De dentro das suítes de edição, Cissy e uma aliviada equipe começaram a sair de seus nichos como criaturas da floresta após a tempestade, recuperando fitas e outros trabalhos em andamento de seus esconderijos criados às pressas.

Hunter, também aliviado, beliscou a enorme bochecha de Bollinger.

— Bingo! Acertamos mais um nervo, não foi, Arnie? — regozijou-se, deleitado, ao ver baldados os esforços dos militares.

Mas, infelizmente, conforme Bollinger explicou, o telefonema para as conexões simpatizantes da RMN no parlamento israelense nada assegurou. Com o vulto do movimento milenarista cada vez mais instável, a dinâmica da política de Israel estava mudando. A ameaça que se percebia à segurança e integridade pública criara um vácuo, no qual Shaul Tamin manobrava muito bem. O ministro da Defesa vinha expandindo seu poderio de forma discreta, porém constante, assegurando mais independência e conseguindo usurpar, com sucesso, a autoridade civil da administração Bem-Miriam. Corria que a RMN poderia vir a ficar em palpos de aranha, caso a nova reportagem se mostrasse desestabilizadora.

Sullivan convocou uma rápida reunião, relatou as circunstâncias e informou sobre as possíveis conseqüências, se o programa fosse ao ar conforme planejado. A equipe foi unânime no apoio, à exceção de Robert Filson.

— Estou com maus pressentimentos acerca disso tudo, pessoal ­— opinou ele. — Se a verdadeira questão aqui é de pontos de audiência, vamos considerar o que acontecerá, se eles fecharem a emissora. Sem novas coberturas da Messias, ficaremos absolutamente sem pontos. Isso para não mencionar as conseqüências extremamente desagradáveis de lidarmos com o sistema legal num país estrangeiro sob acusações de traição! Recomendo, com a máxima seriedade, que retardemos a apresentação do programa, a fim de estudarmos a situação.

A sala ficou em absoluto silêncio durante um momento, depois Hunter se pôs de pé, ergueu o braço e falou:

— Todos os que acham que Filson é um cagão de primeira, levantem as mãos.

Filson foi o único a se abster.

As equipes retomaram os seus afazeres, virando a noite no trabalho e terminando na madrugada de domingo. Cansados, mas satisfeitos, Feldman, Hunter e Erin Cross foram até o apartamento de Feldman para um descanso merecido, enquanto esperavam o anoitecer para o programa ir ao ar.

Apesar de suas importantes contribuições para o projeto, Anke, que veio de Tel Aviv para se unir ao grupo, não seria mencionada nos créditos. Feldman, por mais agradecido que estivesse, não quis correr o risco de envolvê-la, dadas as recentes atitudes da Força de Defesa israelense.

Tendo visto a reportagem ad nauseam durante a edição, quando o especial finalmente foi ao ar, Feldman e Hunter tenderam a julgá-lo mais pelo ponto de vista técnico e já haviam perdido um pouco da confiança nele. Poderia ser devido à falta de sono, mas o programa lhes pareceu um monte de invencionices absurdamente inacreditáveis. Eles não poderiam estar mais distantes da verdade.

O noticiário acabou valendo um Pulitzer para a RMN. O programa amplamente divulgado e esperado viria a tornar-se o mais assistido, reprisado, ouvido, falado, estudado, analisado, debatido, deplorado e elogiado da televisão.

Quando chegou ao fim o demorado noticiário, os casais caíram no sono na sala do apartamento, exaustos demais para empreender a caminhada até os quartos. Feldman desligou a TV com o controle remoto. Depois de alguns momentos, Hunter sussurrou no escuro:

— Sabe de uma coisa, se alguém estava a fim de criar uma confusão no mundo, não poderia ter escolhido uma época melhor do que o milênio ou um veículo melhor do que a figura de uma falsa Messias. Isso meio que faz a gente pensar, não é? Afinal, o que é que temos nas mãos aqui... um Messias ou um monstro do dr. Frankenstein?

Talvez eles já estivessem dormindo, mas ninguém respondeu.

 

                            Subdivisão de Brookforest, Racine, Wisconsin

                             12:00, domingo, 30 de janeiro de 2000

— Ah! O que foi que eu falei?! — disse Tommy Martin, implicando com a irmã da outra ponta do sofá, quando o esperadíssimo especial da RMN, As verdadeiras origens da nova Messias, chegou à sua perturbadora conclusão. Essa Jeza não passa de uma fraude! Uma impostora! Shelley, você é tããão impressionável!

— E você é o especialista? — disse a irmã, debochando. — Se em vez de ficar navegando pela Internet com esses seus amigos idiotas você lesse a Bíblia de vez em quando, talvez tivesse alguma noção. Essa reportagem não prova nada. Não havia nada ali para contradizer as profecias do Velho Testamento sobre o Segundo Advento. Ninguém disse o que Jeza é. Só de onde ela veio.

— Tommy, você tem andado enfiado nessa Internet de novo em vez de fazer os seus deveres de casa? — indagou Tom Sênior.

O garoto fez uma careta para a irmã e ficou calado.

Michelle Martin desligou a TV e tomou o lado da filha.

— Shelley tem razão, Tommy. Não se pode culpar a mulher por causa de sua origem. Ninguém pode escolher a forma de vir ao mundo.

Tommy esbravejou.

— Caia na real, mãe! Esse centro de pesquisa não era como o Jardim do Éden ou qualquer coisa assim. A tal mulher não veio de Deus. Ela é pré­-fabricada, produto de laboratório.

A sra. Martin franziu o cenho, sem querer aceitar a 1ógica.

— Não sei, mas tem alguma coisa especial nela. O jeito dela olhar! O jeito dela falar, se movimentar e se colocar! A força dela! Ela é tão... tão arrebatadora! É como se ela fosse... de outro mundo.

— Não estou nem aí se ela for de Marte! — declarou Shelley. — Jeza tem muito mais para dar do que qualquer outro pregador que eu já tenha visto!

— É! — atalhou o filho. — Acho que daria para colocá-la junto com David Koresh e Marshall Applewhite!

A Sra. Martin ficou olhando de um para o outro, confusa com a discussão deles.

O pai, impaciente, pegou o controle remoto e tomou a ligar a TV.

 

                   Complexo residencial de Ben Gurion, Jerusalém, Israel

                   02:12, segunda-feita, 31 de janeiro de 2000

Ele esticou suas longas pernas queimadas de sol e olhou para a caixa de areia no fim da raia. Uma multidão se alinhava ao longo da pista de corrida. Os juízes estavam na outra ponta com suas fitas métricas, aguardando-o. Ele firmou os pinos dos sapatos de corrida no asfalto para dar maior firmeza e mentalizou a chegada.

Feldman sabia que era um sonho, mas não conseguia sair dele. Estava na faculdade de novo, no meio de uma competição de atletismo, prestes a aventurar sua jovialidade numa desabalada corrida rasa e na explosão de um salto em distância.

A multidão se impacientava. Logo atrás, Feldman ouviu Hunter torcendo por ele, “Corra, Feldman, corra”. Feldman sentiu um nervosismo que não lhe era típico quando partiu para o salto. Mas suas pernas, que o conduziram ao longo dos quatro anos da faculdade numa bolsa de atletismo, estavam fortes e velozes como nunca. Lançaram-no num pulo espetacular. Acima, nuvens escuras baixavam ameaçadoramente. Abaixo, a caixa de areia se transformara num abismo largo e profundo, repleto de chamas e almas atormentadas, e ele se agitou no ar, alvoroçado, tomado de pânico.

Feldman acordou suando. Aconchegada ao seu lado, na parte de dentro do sofá, perdida entre as almofadas, Anke respirava lenta e constantemente. Seus cabelos longos e macios jaziam desmazelados sobre o rosto, do qual só se viam os lábios carnudos levemente entreabertos. Feldman sorriu e beijou­-os com ternura.

Saindo da beirada do sofá com cuidado, ele se levantou para ir ao banheiro. Mas quando passava justamente diante do telefone, este tocou bem alto, assustando-o. Ele o atendeu num rompante, na esperança de preservar o sono dos demais. Da outra extremidade da linha, veio uma voz de homem, séria, deliberada, insistente.

— Jon Feldman?

— Ahn, é.

— Por favor, me escute com atenção. Você só tem trinta minutos para cair fora do seu apartamento. Um destacamento miliciano da Força de Defesa de Israel está a caminho, para prender você e os seus associados.

— O quê?

— Escute o que estou dizendo: você precisa sair daí imediatamente e ir embora de Israel agora. Não use os aeroportos nem os trens. Pegue a auto-estrada 1 até a rota 30 para o leste em direção à Jordânia. É a saída mais rápida. Amã fica a apenas uns cem quilômetros. Com um pouquinho de sorte, dá para chegar em duas horas.

— Quem é que está falando? Como foi que você conseguiu o número do meu telefone?

A esta altura, os demais já se remexiam e Hunter estava de pé, tateando para encontrar o interruptor da luz.

— Sou um amigo e estou tentando ajudá-lo. Você não tem muito tempo.

— E Nigel Sullivan, Arnold Bollinger e o resto da minha equipe da RMN? O que aconteceu com eles?

— Eles também vão sofrer um cerco. Não ligue para eles do seu apartamento. Espere até chegar à estrada e use o telefone do carro. Não posso fazer mais do que já fiz. Confie em mim e vá. Boa sorte!

— Espere um minuto. Quem é você e como é que sabe disso tudo?

Feldman não ouviu mais nada além do ruído de discar.

— Vamos embora, gente — falou ele, chamando os demais — vamos dar o fora daqui, agora!

Recolhendo apenas o essencial, os casais partiram do apartamento para o Rover de Feldman e enfrentaram a noite. Hunter, sentado ao lado de Feldman no banco da frente, começou a digitar os números no telefone do automóvel para repassar o alerta.

— Anke — disse Feldman, mirando-a nos olhos pelo espelho retrovisor — você sabe que não tem que ir conosco. Você ainda está a salvo. Por ora, eles não têm nada que a ligue a mim.

Ela se inclinou para frente e apertou-lhe o ombro.

— Estou envolvida demais para parar agora. Quero estar com você para ajudar, se eu puder. Se você deixar.

Hunter interrompeu.

— Consegui falar com o Sullivan, gente. Ele disse para ficarmos calmos e irmos para o hotel Ambassador em Amã. Ele vai se encontrar conosco lá para decidirmos o que fazer depois. Provavelmente mandar todo mundo para o Cairo até que a coisa passe.

Ele tentou falar com Cissy em seguida, mas o telefone dela estava ocupado o tempo todo.

— Tem alguma coisa errada — concluiu. — Volte, Jon, temos de ir pegá-la.

Feldman meteu o pé no freio e fez um retorno acelerado. Dez minutos depois, o carro passava silenciosa e lentamente pelo apartamento de Cissy com os faróis apagados.

Chegaram tarde demais. Havia um jipe militar israelense estacionado diante do prédio. Feldman conduziu o Rover até um beco e parou para que eles pudessem ponderar sobre a situação.

— Merda! — esbravejou Hunter. — Eles a pegaram!

— Não havia ninguém no jipe — observou Erin. — Ainda devem estar lá no apartamento dela.

— Vamos, Feldman — pediu Hunter — vamos dar uma olhada. — E saiu do Rover, pegando uma chave de roda que se encontrava solta no porta­-malas.

Feldman saiu logo atrás, parando apenas o tempo suficiente para entregar as chaves a Anke e sugerir que ela ficasse no assento do motorista.

— Se nós nos metermos numa encrenca, vocês duas vão correndo até Amã e entrem em contato com Sullivan. Ele vai saber o que fazer.

Fora do complexo residencial, tudo estava tranqüilo. Não havia luzes acesas lá em cima.

— Está estranho, Jon — afirmou Hunter. — Poderia ser uma armadilha.

— É, se o telefone está ocupado, por que as luzes estão apagadas? ­ 

Apesar da ameaça potencial, nem se falou em voltar atrás. Eles subiram em silêncio, chegando a um pequeno patamar da escada que dava para o apartamento de Cissy.

— Não dá para ver porra nenhuma — sussurrou Hunter, levando as mãos em concha aos olhos, de rosto colado contra o vitral de iluminação ao lado da entrada da frente. — Vou bater.

— O quê?

— É, porra! Vamos bater. Tome. — Hunter entregou a Feldman a chave de roda e este se encostou à parede por trás da porta.

Hunter tamborilou com os dedos rapidamente e aguardou. Não houve resposta. Um pouco mais forte. Continuou sem resposta. Finalmente, deu um murro com força na madeira da porta e ouviu um grito reclamando do lado de dentro. A luz do hall de entrada se acendeu, a porta se abriu e Cissy, de cara inchada, olhou pela fresta que a corrente de segurança permitia abrir.

— Cissy! — sussurrou Hunter.

— Hunter, é você? — Cissy interpelou. — Que diabos você está fazendo aqui no meio da noite? Está bêbado?

— Cissy — sussurrou Hunter de novo — silêncio! Escute só, estamos numa tremenda enrascada. Os milicos estão atrás de nós. Têm mandados contra todo mundo; nós precisamos nos arrancar daqui. Agora!

Lá de dentro do apartamento veio uma voz abafada, notoriamente masculina.

— Ei, Cissy, o que é? Está tudo bem?

Hunter ficou atrapalhado e Feldman deu um passo à frente, baixando a arma.

— Feldman? — Cissy ainda espiava de dentro do vão de luz. — Você também está nessa?

— Cissy, escute. — sussurrou Feldman, insistente. — O que Hunter está dizendo é verdade. Achamos que a FDI está atrás de nós por causa da reportagem. Temos de ir embora daqui, ligeiro. Pegue só o essencial e vamos, por favor.

Hunter ainda estava coçando a cabeça mentalmente quando um rapaz grande, sem camisa e de cavanhaque espetado, destravou a porta e colocou o braço em torno de Cissy.

— O que está acontecendo? — perguntou ele outra vez. — o que é que esses palhaços estão querendo?

— Não é da sua conta, meu chapa! — retrucou Hunter. — Ela trabalha conosco e é um assunto confidencial. Vá passear.

O homem não retrocedeu.

— Vá passear você, seu babaca. — Ele se escorou e abriu a porta, dando um empurrão ameaçador no peito de Hunter.

— Responda só uma perguntinha, cara! Você é da FDI?

O homem se empertigou ainda mais e anunciou orgulhoso:

— Primeiro-sargento, seu babacão!

Qual um foguete, Hunter desferiu uma direita curta e arrasadora bem no queixo do soldado, que caiu para trás, desfalecido.

Cissy observou o combate, totalmente incrédula, e continuou olhando de um para o outro, gaguejando. Hunter a agarrou pelos ombros, olhou fundo nos olhos dela e deu-lhe um beijo à força:

— Eu não vou repetir. O Tamin está atrás de nós, e nós vamos nos mandar daqui agora. Enfie umas roupas numa bolsa e vamos embora.

Cissy retorceu o rosto para Feldman, que confirmou com um enfático aceno da cabeça, e ela finalmente aquiesceu.

Dois minutos depois, Hunter pegava a sacola numa das mãos, o braço dela na outra, e eles foram embora. Mas antes de saírem correndo, ela voltou um pesaroso olhar por cima do ombro para o seu soldado caído, soltou um suspiro e partiu com os dois a escoltá-la pela noite afora.

 

                           Hotel Ambassador, Amã, Jordânia

                           Manhã de segunda-feira, 31 de janeiro de 2000

Todos, menos um dos integrantes da equipe da RMN conseguiram escapar ao cerco de Tamin. Arnie Bollinger arriscou-se numa volta ao escritório para pegar alguns papéis importantes, mas a FDI estava à espreita e o prendeu de imediato.

Nesse ínterim, Feldman, Anke e o restante do pessoal da RMN haviam conseguido chegar a Amã, na Jordânia, em segurança. No caminho, Feldman tinha pensado em dar um telefonema para Anne Leveque, como medida de precaução. Mas seu aviso chegara tarde demais. Para sua grande raiva e espanto, ele ficara sabendo que a viúva já havia recebido outra visita de Goene. Desta vez, o general fora armado de um mandado de busca e vasculhara todo o apartamento até encontrar e confiscar o incriminador diário de seu falecido marido.

Por mais cansado que estivesse quando chegou a Amã, Feldman não conseguiu dormir. Sentia uma culpa devastadora por conta das conseqüências desastrosas de sua reportagem “As origens”. Contudo, as más notícias não paravam de chegar através dos breves noticiários da Rádio Israel.

Ficou claro que Tamin estava sofrendo crescentes pressões políticas em Jerusalém. Numa rara divulgação pelo rádio, o ministro da Defesa negou com veemência as acusações da RMN, referentes aos experimentos no Instituto do Neguev. Ele também defendeu suas repressoras atitudes policiais contra a RMN como sendo necessárias para salvaguardar inomináveis “assuntos de segurança de Estado”.

E então, em seu ato mais acintoso e descarado, o ministro da defesa anunciou uma caçada humana pela FDI, a fim de tomar a fugidia Messias sob “custódia protetora”.

Feldman ficou possesso. Conforme o repórter bem sabia, com o diário de Leveque na posse da FDI, a única prova restante para indiciar Tamin e Goene estava personificada, quase literalmente, na pessoa da pequena profetisa. Apesar da reportagem da RMN sobre “As origens”, a grande maioria dos seguidores de Jeza continuou ferrenhamente leal a ela. Muitos foram os que condenaram a reportagem, porém quase todos simplesmente ignoraram sua importância, acreditando que o fenômeno da virada do milênio no Poço de Davi purificou quaisquer possíveis contaminações oriundas dos experimentos laboratoriais; que o raio que caiu sobre as ruínas do templo foi o momento fundamental, quando Deus ungiu Jeza e a imbuiu de sua alma e missão. Para os fiéis sectários de Jeza, então, a presente ameaça à sua Messias era um ultraje intolerável, que exigia uma atitude forte e imediata.

Mas, afinal, vieram boas notícias. Talvez como sinal de apaziguamento para o parlamento israelense, a FDI acabou soltando Bollinger ao fim do dia, sem maiores acusações. Pouco depois o jornalista, exausto e sujo, foi recepcionado no aeroporto de Amã como um herói. A enorme multidão que o saudou era chefiada por uma cansada, mas entusiástica, equipe de notícias da RMN.

O recado que Bollinger trazia da FDI, entretanto, não era bom. A RMN estava banida de Israel por prazo indeterminado. Todas as suas propriedades haviam sido confiscadas por ordem direta de Shaul Tamin. Sullivan não teve alternativa, a não ser realocar todas as operações e todo o pessoal para a sede regional da RMN no Cairo, Egito, aguardando desdobramentos posteriores na Terra Santa.

 

                                   Centro Mórmon de Convenções, Salt Lake City, Utah

                                    08:42, sábado, 05 de fevereiro de 2000

Era a segunda manhã da primeira convocação quando, afinal, a reunião chegou ao seu tópico de interesse mais polêmico: "Uma Avaliação da Autenticidade de uma Nova Presença Messiânica". De um pedestal elevado diante do enorme auditório, um bispo mórmon, alto, esquálido, de óculos, conclamou a assembléia de mais de quinhentos líderes religiosos.

O encarregado de fazer a ansiosamente esperada apresentação central de hoje seria um jovem teólogo mórmon de sólida formação acadêmica, que foi apresentado como irmão Elijah Petway, uma proeminente autoridade nas correlações do Velho e do Novo Testamento. O irmão Petway era um homem baixo, magro, de compleição clara e escassos cabelos louros, rosto pequeno e olhos de um tom azul-pálido que piscavam mecanicamente por trás dos óculos de armação metálica.

Tomando avidamente o seu lugar ao pedestal, o irmão Petway apresentou-se radiante para o seu público atento.

— Meus caros irmãos e irmãs judaico-cristãos, muçulmanos e budistas! — começou ele, numa voz clara e precisa, em fina consonância com o seu físico. — Agradeço a todos pela oportunidade de trazer-lhes os resultados de meus exaustivos estudos.

Após uma explicação um tanto cansativa da metodologia e amplitude de sua pesquisa, Petway lançou-se ao cerne de suas descobertas: uma ladainha de paralelos, tanto óbvios quanto obscuros, traçados entre as escrituras do Velho e do Novo Testamento e as recentes ocorrências na Terra Santa. O bojo de suas correlações consistia de coisas como uma comparação do meteorito anteriormente alegado com a bíblica Estrela de Belém; semelhanças entre os astrônomos japoneses e os Reis Magos do Oriente; a significância da data de 25 de dezembro, na qual o instituto foi destruído, e assim por diante.

Ele concluiu com um pronunciamento polêmico.

— Está óbvio para todos agora, à luz das revelações da Rede Mundial de Notícias — sustentou — a reveladora natureza exclusiva e bíblica da natividade de Jeza. Conforme todos devem se lembrar, Jeza foi criada através de um processo concepcional conhecido como fertilização de corpo-lúteo. O processo precluiu a introdução do esperma nos órgãos reprodutores da doadora materna de Jeza. De fato, o procedimento não carece, de forma alguma, de gametas masculinos. Temos, portanto, uma concepção pura, virgem, e um nascimento virgem, no sentido mais verdadeiro.

Houve um burburinho de resmungos permeando a platéia, mas o entusiasmo de Petway não se deixou abater. Ele tomou bastante fôlego, com um ar satisfeito.

— Sinto que há uma conclusão inevitável a que esta assembléia deve chegar a partir do assoberbante corpo de evidências diretas e indiretas recém-apresentado. Eu gostaria de argumentar aqui que é irrelevante o fato de Jeza ter sido obra divina de concepção imaculada, ou de autoria humana através de fertilização artificial. Deus trabalha de maneiras estranhas. Se Ele toma a decisão de usar a insensatez do homem para atingir Seus próprios objetivos, quem somos nós para questionar?

Apresento também a opinião de que é irrelevante se o Novo Messias é masculino ou feminino. A aparente anomalia do sexo de Jeza não deve diminuir sua mensagem. Precisamos buscar o significado mais elevado de Deus ter escolhido uma mulher para representá-lo desta vez.

E, finalmente, digo também que, mesmo que só concordem com uma parte das impressionantes correlações que acabo de identificar, todos precisamos agora fazer a avaliação de que esta presença entre nós, esta criatura santificada, divina, conhecida como Jeza, não pode ser ninguém mais do que a única Filha direta de Deus: Jeza Cristo!

Pipocaram reações diversas entre os presentes, variando desde um cáustico ultraje até um aplauso de mera apreciação, passando a tumultuadas ovações de pé e entusiásticos "Aleluias". Um forte apoio emanou não apenas das seções milenaristas, mas também do contingente judeu, que se compunha de vários rabinos empolgados, inclusive o respeitado chefe do movimento ultra-ortodoxo Hasidic Lubavitcher, o rabino Mordachai Hirschberg, que levou a mão ao palpitante coração.

Petway vagou o pedestal, convencido da persuasão de seus argumentos. Certamente, à exceção de um discreto e tranqüilo cavalheiro sentado só a uma mesa distante, o irmão Petway acertara mais tacadas do que errara.

Captando cuidadosamente cada palavra num gravador, tomando notas com exatidão em seu bloco e sentindo-se completamente vindicado, encontrava­-se o revitalizado cardeal Alphonse Litti.

 

                                 Sede regional da RMN, Cairo, Egito

                                 10:03, domingo, 6 de fevereiro de 2000

Além da libertação de Arnie Bollinger são e salvo das mãos de Shaul Tamin, houve poucos desdobramentos para aliviar as crescentes frustrações de Feldman em seu exílio. Durante vários dias, afastados de toda a ação em Israel, ele e seus associados pouco tinham a fazer, além de passar o tempo na sede do Cairo, na esperança de que a RMN conseguisse restabelecer os seus vistos.

A fim de manter-se em dia com os eventos da manhã, Feldman e Anke sentaram-se em uma das cabines de edição vazias da RMN, examinando uma dúzia de monitores de TV espalhados na parede diante deles. Cada aparelho estava sintonizado em um canal diferente, sem volume, exceto por um, que por acaso despertou seu interesse.

Subitamente, Anke apontou para uma determinada tela. Feldman prontamente mudou para um programa em que um homem, mostrando­-se envolvido com o que estava fazendo, relatava o crescimento em âmbito mundial de duas seitas milenaristas antagônicas.

— A estonteante chegada da mística Jeza tem exercido um efeito polarizador sobre as centenas de credos milenaristas pelo mundo afora ­— explicou o repórter. — À luz dos recentes eventos, a maioria das seitas milenaristas adotou duas facções distintas, pró-Jeza e anti-Jeza. Dentre os milenaristas do bloco anti-Jeza, uma maioria tem se congregado sob a bandeira de uma organização de muito estardalhaço, conhecida como Guardiões de Deus. Na coalizão pró-Jeza, os adeptos vêm migrando para uma seita evangélica autodenominada Guardiões Messiânicos de Deus. Embora as duas facções representem extremos opostos do movimento milenarista, surpreende saber que já foram uma só.

— Porra! — exclamou Feldman. — Eu já cruzei com esse pessoal estranho dos Guardiões. São de dar medo!     

— Como assim? — perguntou Anke.

— Hunter e eu fizemos uma história com eles pouco antes da virada do milênio. Formam um culto de profetas do Apocalipse que alegam comunhão com a segunda ordem da hierarquia celestial... os arcanjos. Consideram-se soldados de Cristo... auto-indicados como escolta do Messias para o Segundo Advento. Estão numa de treinamento paramilitar, a fim de se prepararem para a batalha do Armagedon.

No monitor de TV, apareceu um grande grupo de homens, mulheres e crianças, todos reunidos em torno de uma fogueira. Muitos dos adultos portavam espadas e cassetetes cerimoniais, que brandiam acima de suas cabeças enquanto entoavam cânticos e orações. A voz do repórter anunciou ao fundo:

— Este grupo representa uma das seitas milenaristas mais antigas do mundo, com mais de mil anos de existência, desde antes da virada do milênio de 999 d.C.

A seqüência na tela foi substituída pelo vídeo de uma antiga pintura mural. As imagens desta pintura continham homens, mulheres e crianças, vestidos em túnicas, embarcando da Europa numa peregrinação para a Terra Santa.

— Antes de empreenderem a jornada para Jerusalém — explicou o repórter — esses primeiros Guardiões de Deus abriram mão de seus pertences pessoais, dedicando-se a vidas espartanas, orações e treinamento militar arregimentado. Seu objetivo juramentado era de servirem como protetores do Messias quando de Seu retorno no Último Dia. O fato de a seita ter sobrevivido à sua perigosa peregrinação à Terra Santa deveu-se, em grande parte, à sua ferrenha militância.

A câmera deu um close num trecho da pintura, concentrando-se numa flâmula trazida por um dos peregrinos adiante da procissão. Havia um único brasão gravado sobre a flâmula: dois fêmures humanos formando um T, com uma espada e um machado de batalha de cada lado. Havia palavras em latim descrevendo arcos dourados em cima e embaixo da cruz. Em cima lia-se “Custodes” e embaixo “Dei”. “Guardiões de Deus”.

O vídeo se desfez, tornando a um Guardião moderno que se ocupava em brandir sua espada numa encenação de luta contra o mal. Quando ele ficou de frente para a câmera, com a espada bem acima de sua cabeça, a imagem congelou e a câmera deu um close em seu peito, exibindo um brasão idêntico bordado sobre a túnica do Guardião.

— Os Guardiões de Deus de hoje — continuou o repórter — qual seus antecessores, são devotos soldados de Cristo para a batalha do Armagedon. Entretanto, no mês passado, com o surgimento de Jeza no monte das Beatitudes, os Guardiões sofreram uma amarga cisão com relação à validade dela como Messias. Incapazes de aceitar o sexo de Jeza, o corpo principal dos Guardiões declarou-a uma fraude. Criaram para si próprios um papel de liderança entre o conglomerado geral de seitas anti-Jeza. Em resposta a isso, os Guardiões pró-Jeza abriram dissidência para formar um movimento contrário, declarando o seu apoio a Jeza sob um nome expandido, os Guardiões Messiânicos de Deus, complementado por seu próprio distintivo heráldico. — Surgiu na tela uma bandeira com a nova insígnia dos Guardiões Messiânicos: as iniciais GMD prateadas, sobre um escudo amarelo com feixes de folhas de palmeira. — E, atualmente, os Guardiões Messiânicos parecem ter surgido como os porta-estandartes populares para todo o movimento pró-Jeza.

Feldman e Anke balançaram a cabeça um para o outro e ele mudou para outro noticiário. Este informava como a administração israelense de Ben­-Miriam, semicerrada pelas recentes atitudes de Tamin, ainda estava se ressentindo do fiasco de relações públicas. Pelo mundo afora, as embaixadas israelenses haviam sofrido piquetes conduzidos pelos descontentes do movimento pró-Jeza, que viam agourentas implicações bíblicas em toda e qualquer tentativa de prender a sua Messias. A situação se deteriorara em muitas áreas, chegando a ataques de fato a embaixadas e diversas explosões de bombas, incidentes instigados por uma crescente facção dos Guardiões Messiânicos.

— Não consigo entender como eles mantêm o Tamin como ministro da defesa — reclamou Feldman com a TV: — Eziah Bem-Miriam é um homem decente. Por que ele não se livra desse idiota e, com isso, dos seus problemas?

— A posição de Bem-Miriam não é forte o suficiente— explicou Anke. — Seu governo de coalizão é fraco demais e Tamin é poderoso, com amigos nos altos escalões. Derrubar Tamin vai exigir uma atitude do parlamento israelense e os amigos dele vão lutar. Receio que os tempos vindouros sejam árduos para Israel.

— E, enquanto isso — esbravejou Feldman — nós ficamos aqui de fora, sentados no banco de reserva, no meio do maior jogão do campeonato! — ­Ele voltou a cabeça para cima, clamando exasperadamente para os céus: — ­Ei, Treinador! Se você estiver aí em cima, está na hora de trazer o primeiro time de volta!

Foi como se a divina providência estivesse ouvindo. Neste exato momento, no lado oposto da cidade, vários integrantes da equipe de campo número três da RMN estavam casualmente fazendo compras numa das grandes feiras-livres do Cairo. Atraídos pelo barulho de uma montoeira de gente alvoroçada no meio da praça, eles foram abrindo caminho até que subitamente se depararam com a presença de ninguém mais do que a própria Messias. Jeza, circundada por uma multidão de adoradores em êxtase, se ocupava em consolar uma mãe hiper agitada e seu bebê chorão.

A equipe da RMN ficou boquiaberta. Ninguém suspeitara, nem de longe, que Jeza estivesse no Egito. A equipe foi correndo até a van para pegar os equipamentos e alertar a sede. Mas quando Feldman e companhia chegaram, a Messias já executara o seu peculiar ato de sumiço. Feldman, entretanto, sentiu-se grato pela inusitada boa-sorte que o colocara novamente na peleja. Jeza estava no Cairo. E, mais uma vez, a RMN detinha o furo de reportagem.

Embora a equipe tenha conseguido capturar somente a cena final do episódio em suas câmeras, o vídeo obtido não tinha preço. Nele, Jeza aparecia discursando em árabe para um público de adoradores, muitos dos quais de joelhos, com as testas encostadas ao chão em completa devoção.

Por meio do tradutor da equipe da RMN, Feldman ficou sabendo pelas testemunhas que o transcorrido ali fora mais um milagre de Jeza. Supostamente, uma mulher teria saído de casa, histérica, aos berros, dirigindo-se para o mercado com seu bebê sem vida nos braços. O bebê teria morrido durante o sono. Síndrome de morte súbita em bebês, presumiu Feldman. Por coincidência, a frenética mulher correu diretamente para Jeza, que fez com que ela parasse estendendo a mão e disse:

— Mulher, por que choras?

A pobre desesperada, incapaz de responder, simplesmente mostrou-lhe a criança, lívida, conforme as descrições. Em meio à agitação da feira, rapidamente formou-se um círculo de curiosos. Conta-se que Jeza pegou o bebê com os dois braços, aconchegou-o ao peito e fechou os olhos em oração. Então, subitamente, a criança teve um espasmo, tossiu e voltou à vida! A multidão, reconhecendo Jeza, caiu de joelhos e declarou-a profetisa de Alá. Jeza entregou a criança para a mãe no momento exato em que a RMN chegava ao local da cena.

O restante do que aconteceu, Feldman conseguiu ver ainda no mercado, pelo vídeo gravado. Ele deparou com o fulgurante rosto já familiar de Jeza voltando-se para dirigir-se à multidão.

A tradução de seus comentários, feitos em árabe:

— Por que se admiram? O que lucra esta criança se seu corpo é despertado, mas sua mente permanece adormecida? Eu lhes digo, o Verbo é vivo, mas há os que desejam sufocá-lo. Abram as suas mentes para o Verbo. Pois dentro de cada um de vocês, há a ressurreição. O poder e a glória e a compreensão!

E, em seguida, ela se dissipou na multidão.

Bem ao estilo de Jeza.

 

                         Igreja Nacional do Reino Universal, Dallas, Texas

                       18:30, domingo, 6 de fevereiro de 2000

O reverendo Solomon T. Brady voltou para casa com sentimentos conflitantes. Entretanto, não ficara insatisfeito com o comparecimento à convocação. Trouxera consigo uma intrigante idéia que talvez o ajudasse em sua luta para respaldar as contribuições esmorecidas.

O conceito se originara a partir de um correligionário evangélico de Raleigh, na Carolina do Norte, durante um seminário intitulado "O Impacto de Novos Dogmas Religiosos sobre a Unidade Congregacional". O cavalheiro, um ministro de programa de rádio, obtivera êxito na lida com os turbulentos eventos da atualidade usando a situação para, ininterruptamente, desafiar e estimular seu rebanho. Em vez de combater o crescente frenesi gerado pela popular Messias, ele o explorava.

O ministro instava seus ouvintes a apresentar diferentes óticas sobre a profetisa e sua mensagem. Sem tomar partido, comentava os pontos de vista e acrescentava um toque de moderação e autoridade aos tópicos discutidos. O despachado pregador descobriu que seus convocados também estavam dispostos a contribuir com verbas em troca da oportunidade de descarregar sua bílis espiritual, vez que todos pareciam ter uma opinião vigorosa a compartilhar acerca da profetisa. Embora tal formato fosse um afastamento radical da abordagem evangélica padrão, não deixava de manter os cofres cheios. Era uma estratégia que o reverendo Brady achou que experimentaria.

A idéia de uma linha direta com a Messias valia, por si só, o custo da convenção. Não que Brady não tivesse achado as demais sessões interessantes, embora preocupantes. Depois de aprender tantas coisas mais a respeito da tal Jeza, viu-se corroído por suspeitas de que ela pudesse ser genuína.

Expressaram-se pontos convincentes: Jeza, de fato, cumpriu muitas das antigas profecias pertinentes a um Messias e a um Segundo Advento. Cumpriu, também, muitas profecias modernas, tanto seculares quanto religiosas, que haviam sido proclamadas ao longo dos últimos anos acerca do milênio. Nostradamus. Edgar Cayce. Os rabinos Menachem Schneerson e Haim Shvuli. Todos previram para a virada do século XXI o surgimento de um líder religioso mundial apregoando o fim do mundo. E Jeza era obviamente a única figura em cena assim qualificada no momento indicado.

Entretanto, ao final da convocação, não se chegou a consenso algum quanto à verdadeira natureza dessa jovem incomum. Brady colocou-se consistentemente contra uma proclamação apoiada pelos mórmons de declará-la Ungida de fato. Bem como a maioria dos presentes. Foi como se ao votar contra ela, Brady pudesse de algum modo ajudar a fazê-la sumir. Ou pelo menos diminuir o impacto dela sobre ele e o seu ministério.

A única coisa sobre a qual os presentes conseguiram chegar a um acordo foi quanto a uma segunda convocação, a fim de continuarem os trabalhos, ­quatro semanas mais tarde, no mesmo local.

 

                             Sede regional da RMN, Cairo, Egito

                             9:00, segunda-feira, 7 de fevereiro de 2000

Feldman recebeu uma chamada urgente em sua mesa e saiu voando pela porta, parando apenas o tempo suficiente para tirar Hunter de sua sala.

— Jeza! — gritou para todos ao alcance de sua voz. — Ela está a mais ou menos dez minutos daqui, na Missão Cristã da Zona Leste, pregando. Vamos.

Chegando em tempo recorde, Feldman e Hunter foram recebidos pela funcionária que, mui dignamente, dera o aviso.

— Ela está ali faz uns vinte minutos!— exclamou a mulher, exultante, apontando para dentro de um enorme portão de ferro batido às suas costas. — E, ahn, estamos devendo mil dólares para esse menino, por ter me contatado. — Ao lado da funcionária, um garoto de cerca de dez anos estendia a mão imunda à frente de um largo sorriso.

— Tudo bem — concordou Feldman, olhando para o muro alto e as construções de pedra que delimitavam o terreno da missão. — Fique com ele que nós vamos acertar depois. Onde é que ela está?

— No pátio interno, em frente àquela igreja antiga de pedra. — A mulher apontou para a mesma direção genérica.

— Ótimo! — disse Feldman. — Mas desta vez vamos agir com inteligência. Não quero assustá-la. Só eu e Hunter vamos entrar. Quero todos os demais posicionados em cada portão e saída que houver. E quando ela se for, quero descobrir para onde vai... e como consegue escapar com tanta facilidade.

Escolhendo a melhor luz, uma câmera discreta e um microfone sem fio, os dois repórteres conduziram o Land Rover até o muro e usaram a capota como calço. Hunter se debruçou sobre o muro com a câmera em punho, enquanto Feldman entrava sorrateiramente no sítio da Missão.

Jeza estava falando para um grupo de cerca de cinqüenta pessoas dentro de um pequeno pátio. Ganhando terreno descontraidamente através da multidão, Feldman colocou seus óculos escuros e baixou a aba do boné, a fim de dificultar qualquer reconhecimento. Insinuando-se finalmente entre um homem troncudo e uma mulher corpulenta vestida num avental sujo, ele ficou a menos de dois metros de distância da jovem e esquiva profetisa.

Uma freira estava perguntando a ela:

— Você se diz Filha de Deus e Irmã de Jesus?

— Jesus é meu Irmão e Deus é meu Pai. — respondeu Jeza.

— Você só ouve Deus, ou O vê também? — perguntou outra freira.

— Em geral, Deus fala comigo. Mas quando medito, e quando rezo, eu O vejo.

— E como é Ele? — indagou a mesma freira, dando seguimento à sua primeira pergunta.

— Ele é todo beleza e bondade e enche meu espírito de satisfação ­— disse a Messias.

Feldman furtou uma olhadela na direção de Hunter e apontou para a sua orelha. Hunter indicou com os polegares erguidos que o áudio estava chegando alto e claro.

— Você é a Messias do Apocalipse? — perguntou nervosamente uma mulher com uma criança adormecida ao colo. — E o fim do mundo já está chegando?

— Sou a Messias da Nova Luz — respondeu Jeza — e um fim se aproxima!

— Armagedon ou o Êxtase? — quis saber a mulher, cada vez mais alarmada.

— Primeiro houve o Antigo Testamento — disse-lhe Jeza — no qual se ensinou ao homem a cobrar olho por olho e a ver Deus no temor. Então veio o Novo Testamento, no qual se ensinou ao homem a voltar a outra face e a ver Deus no amor. E agora há um Testamento Mais Novo. Um testamento no qual o homem poderá se erguer para ver Deus sob a Nova Luz.

Um leve murmúrio de alarme se espalhou pela multidão.

— O Êxtase! O Êxtase! — concluíram.

Embora soubesse que seria arriscado, Feldman não conseguiu mais resistir. Limpou a garganta.

— E como deveremos nos erguer? — perguntou a ela.

Jeza voltou-se lentamente e pousou seus penetrantes olhos de anil sobre o repórter. Apesar de estar preparado para isso, foi mais uma vez como se um vácuo lhe sugasse a consciência. Ele agarrou o ombro do homem troncudo ao seu lado, que, embora aborrecido, não deixou de tolerar a impertinência. Feldman se firmou e rapidamente afugentou a vertigem. Os óculos não haviam ajudado.

Jeza ainda não respondera. Ela contraiu o cenho, estudando Feldman, enquanto a multidão se voltava para ver a causa da interrupção. Feldman, já totalmente recobrado, praguejou contra si mesmo, achando ter estragado a sessão. Mas o cenho de Jeza afinal se descontraiu.

— Descreva-me o seu Deus — disse ela.

Feldman foi pego de surpresa e vasculhou a própria mente em busca dos primórdios de seu catecismo.

— Ahn, Deus é todo saber. Ele é, ahn... Ele é todo poder, é todo bem. Correto?

— Então vá, e seja igual — ela indicou.

— Mas como, Jeza? Como é que me torno igual a Deus?

— De todas as formas — ela retrucou. — Ao tentar ser todo saber, todo poder e todo bem, você não poderá violar lei de Deus alguma em sua busca.

Feldman se deu conta de que ela estava começando a se afastar, dando início ao seu número de sumiço novamente, e procurou uma forma de impedi-la.

— Acho que estou compreendendo sim, mas você poderia ser mais específica?

Pareceu tarde demais. Ela estava se afastando, movendo-se em direção ao portão da frente. Mas diminuiu a marcha, parou, voltou-se para ele e dirigiu-lhe aquele olhar penetrante mais uma vez.

— Você investiga, mas não aprende. Pergunta, mas não ouve. Bate à porta e, quando ela se abre, vira-se no sentido oposto. Abençoados sejam aqueles que não recebem respostas, mas ainda assim encontram a compreensão!

O dito foi sem malícia, mas, não obstante, feriu.

— Por favor — implorou ele — há muito mais que desejo saber!

— A hora não é chegada — respondeu ela e partiu, com o público atrás.

Feldman falou rapidamente pelo microfone remoto, a fim de alertar a equipe. Por cima das cabeças das pessoas em seu caminho, ele pôde distinguir o encarregado escancarando o portão da frente, com a equipe da RMN tomando apressadamente suas posições do outro lado.

Se a Messias sabia o que estava se desenrolando, não deu confiança. Com uma dúzia de câmeras zumbindo apontadas para ela, marchou resolutamente adiante, passou por todas, adentrou um beco, desceu um lance de escada e encarou o trânsito direto de uma movimentada avenida. Feldman e a equipe seguiram-na mal e parcamente, esforçando-se para manter seu passo, mas o fluxo de carros, ônibus, caminhões e bicicletas foi ameaça demasiada. Seria suicídio segui-la. Ela se foi.

 

                               Salão Oval, Washington, D.C.

                               9:00, quarta-feira, 9 de fevereiro de 2000

O normalmente implacável Allen Moore, quadragésimo terceiro presidente dos Estados Unidos, estava nervoso. A primária de New Hampshire da véspera lhe propiciara um revés totalmente inesperado.

A razão oficial para Moore retardar sua entrada na corrida presidencial fora a de se concentrar nas importantes responsabilidades de seu cargo e permanecer alheio às perturbações de campanha. A idéia era a de assumir uma postura distante, "presidencial".

New Hampshire era um estado que sua legenda levara com facilidade na última eleição e simplesmente se passara a assumir que Moore se sairia bem ali nas primárias, sem qualquer envolvimento direto, pessoal. As pesquisas respaldavam este raciocínio. Uma vitória garantida assim, dizia a teoria, o colocaria numa posição de confiança absoluta, sem impedimentos para continuar no rumo de uma nova indicação por seu partido.

Portanto, a conselho de seu diretor, Moore se abstivera da corrida presidencial até fins de janeiro, e se abstivera fisicamente do estado de New Hampshire, sem fazer qualquer campanha pessoal por lá. Isto permitiu que um jovem e ferrenho senador democrata, Billy McGuire, de Maryland, assentasse suas bases em New Hampshire e conquistasse muitos votos pragmáticos entre os eleitores da Nova Inglaterra.

Não que o senador McGuire tivesse ganhado realmente! Ele conseguira apenas trinta e oito por cento dos votos contra quarenta e três de Moore, com o saldo distribuído entre vários filhos prediletos. Mas a simples proximidade ao favorito Moore foi uma vitória para o ultra-direitista McGuire. A mídia agora estava categorizando Moore como "vulnerável".

— Uma virada fortuita, que merda! — O dirigente da campanha presidencial, Ed Guenther, se defendeu e consolou o presidente ao mesmo tempo. — Vamos arrasar McGuire em março, na Super-terça-feira, e acabar com ele de uma vez por todas!

O presidente Moore assentiu, querendo aceitar o quadro, mas permanecendo perfeitamente cônscio de que as instabilidades no Oriente Médio, ocorridas em má hora, bem poderiam funcionar contra ele, caso os eventos continuassem a causar impactos na precária economia norte­-—americana.

Brian Newcomb, presidente do Comitê de Reeleição Presidencial do Partido Democrata, que convocara a reunião, foi menos piedoso. Tinha plena consciência de que esse novo e influente fenômeno em seu partido, o crescente bloco milenarista, era um grupo instável.

— Infelizmente, Ed, as coisas não estão tão bem assim. Agora, os milenaristas vão ganhar coragem com isso. E não podemos nos arriscar a uma nova virada. Vamos retomar o nosso ímpeto, o que significa investir algumas das verbas, separadas para o outono, nestas primárias. É uma mudança custosa, que vai gerar descontinuidade no nosso plano de jogo.

Newcomb deixou por dizer uma máxima política óbvia: uma vez perdida, aquela aura mágica e especial da invencibilidade nunca é verdadeiramente recobrada.

Moore, um moderado, estava aborrecido com essa inesperada reviravolta dos fatos. Afinal, ele era razoavelmente popular, presidia uma economia estável - pelo menos até o advento dessa estranha Messias - e era considerado eminentemente reelegível pela maioria de seu partido. Os Republicanos, por outro lado, haviam colocado em campo um lote de candidatos particularmente apáticos neste ano eleitoral.

Moore se deu conta de que agora, mesmo que se saísse bem até o final das primárias, sua "perda" em New Hampshire certamente seria trazida à tona pela mídia de tempos em tempos, para acrescentar um toque dramático à corrida - uma nuvem negra que poderia persegui-lo até a chegada do mês de novembro.

 

                                 Aposentos dos cardeais, Vaticano, Roma, Itália

                                 7:00, quinta-feira, 10 de fevereiro de 2000

Alphonse Litti empurrou a cadeira para longe de seu computador de mesa e ficou observando, trêmulo, enquanto a última página de seu relatório era expelida pela impressora. Passara a noite acordado, mas desafiara a fadiga com a obstinação de um homem determinado. Nunca em sua vida estivera tão centrado em seu propósito. Nem tão só em sua vã esperança.

Desde que regressara da convocação, Litti estudara transcrições de todas as palavras ou frases enunciadas pela pequena profetisa. Retirara-se para os seus aposentos, consultando e comparando as escrituras com os registros de Jeza. Ao cabo de dois dias, o cardeal havia desenvolvido o que achava ser uma compreensão emergente da mensagem da jovem Messias. Alphonse Bongiorno Litti viu uma mensagem que falava forte e pessoalmente para si. Uma mensagem com duplo propósito de salvação e destruição.

O cardeal trabalhara ininterruptamente, compilando as percepções que tivera e preparando um documento de provocantes premissas e medonhas conclusões. Em menos de um mês, ele pretendia apresentar esse documento pessoalmente às denominações reunidas na segunda convocação dos mórmons, em Salt Lake City.

Mas, hoje, apresentaria o seu relatório ao prefeito Antonio Di Concerci.

E exigiria que fosse incluído na minuta do inquirendum da Congregação, a ser apresentada ao Papa no prazo de uma semana. Ciente do conteúdo inflamatório de seu trabalho, Litti percebia o risco que estava assumindo. Entretanto, sua consciência exigia que levasse isto até o fim, fosse este risco qual fosse. Só podia orar para que Deus lhe concedesse a habilidade de apresentar persuasivamente um argumento convincente.

Após esperar vinte minutos na ante-sala do prefeito, Litti foi anunciado pela secretária de Di Concerci e acompanhado até uma bem-decorada suíte particular. Ao entrar, deu-se conta de que, durante todos aqueles anos no Vaticano, jamais estivera no escritório de Di Concerci. E vice­-versa. Espaçoso, com pé-direito alto e forrado de bronze, vitrais nas janelas, cortinas de tecelagem espessa, candelabro de cristal, lambris de mogno escuro, prateleiras repletas de impressionantes volumes do chão até o teto, refinado tapete oriental, imenso conjunto de escrivaninha de mogno e poltrona de espaldar alto, o escritório de Di Concerci era uma imponente sede de autoridade.

— Cardeal Litti. — O prefeito saudou inexpressivamente o associado, sem se levantar. — Disponho apenas de poucos minutos, pois devo encontrar-me com os cardeais Thompson e Santorini no Museo Sacro.

— Peço desculpas por apresentar-me sem aviso prévio — desculpou­ se Litti — mas trata-se de uma questão de alguma importância. Trago aqui um relatório completo que une minha análise da convocação mórmon ao estudo em andamento da Congregação... acrescido de minha pesquisa pessoal. Creio que achará os resultados bastante esclarecedores.

— Tenho certeza, Alphonse — respondeu Di Concerci em tom de despedida. — Deixe-o com minha secretária e eu mesmo cuidarei dele.

Litti fincou pé.

— Passei três exaustivos dias e noites acordado trabalhando nisto, Di Concerci, e não vou aceitar que o desconsidere assim como um monte de pó! — O tom de sua voz foi surpreendentemente ríspido.

Di Concerci, apanhado desprevenido, sondou o colega de perto e reclinou-se em sua poltrona.

— Cardeal, com sua licença, devo dizer que a sua aparência está horrível. Está se sentindo mal?

— Somente em meu coração, prefeito. — Litti fitou o associado com um olhar inabalável. — Somente em meu coração.

Di Concerci se levantou e estendeu a mão para pegar o espesso envelope.

— Eu lhe asseguro, este documento receberá minha atenção pessoal assim que possível. Agora, preciso ir à minha reunião...

Mas Litti manteve o envelope firme em sua mão.

— Você e eu jamais nos encaramos nos olhos, cardeal — disse ele, erguendo os olhos à altura do colega de maior estatura. — E receio que não haja muita amizade entre nós. Não obstante, durante estes muitos anos em que nos conhecemos, jamais lhe pedi coisa alguma. Peço agora. Adie sua reunião e leia este documento. — Litti, que sequer se barbeara, corou, emocionado, com os olhos febris. — Por favor.

O prefeito franziu o cenho, perscrutou o rosto de Litti, refletiu durante alguns instantes e depois soltou um suspiro.

— Pois bem! Aguarde lá fora enquanto eu leio o relatório.

Litti soltou o envelope e saiu do escritório. Ao fechar as pesadas portas duplas, ouviu Di Concerci mandando a secretária cancelar a reunião, não perturbá-lo e levar um copo de água para o cardeal Litti.

Pouco mais de meia-hora depois, as portas do escritório de Di Concerci foram abertas. Litti girou a cadeira e deparou com o prefeito a estudá-lo atentamente, com o cenho ainda franzido e o rosto sombrio.

— Cardeal Litti, queira entrar, por favor.

Di Concerci acolheu o colega em seu escritório, fechou as portas e, sem dizer palavra, acompanhou-o até uma confortável poltrona. Foi então se sentar à sua escrivaninha, cruzou as mãos em cima do relatório de Litti e fitou-o, ainda calado.

Litti acalentou um lampejo de esperança. Pelo menos, parecia que o relatório fizera o prefeito pensar.

Tomando bastante fôlego, Di Concerci dirigiu o olhar para o de Litti. Numa voz surpreendentemente macia e suave, falou para o colega:

— É verdade, Alphonse, você e eu jamais nos vimos como amigos. Mas se você for capaz de desconsiderar esse infortúnio por um momento, eu gostaria de falar-lhe agora como se fosse seu amigo mais sincero.

Isto deixou Litti sobressaltado e ele relaxou, afrouxando os dedos cruzados que lhe mantinham as mãos firmemente unidas e recostando-se na poltrona.

— O que escreveu aqui, cardeal — disse Di Concerci, suavemente, correndo as mãos sobre o relatório — é, com toda a franqueza, heresia. Heresia destrambelhada, do mais alto grau! Este documento é o repúdio total à sua Igreja. É uma desfeita à sua vida inteira, à sua vocação, à sua devoção a Deus.

O cardeal Alphonse Litti sentiu o peso de suas piores expectativas recair sobre seu ser. Fechou os olhos com força, contendo lágrimas de conflito emocional, e repousou a cabeça contra o espaldar da poltrona. Tomou fôlego profundo e respondeu com a voz embargada:

— Sim, cardeal, você tem toda a razão. É um repúdio à minha Igreja. E a toda a minha vida. — Litti de repente aprumou-se em seu assento, com o rosto corado, e fitou Di Concerci. — Mas não à minha devoção a Deus! É por causa de meu grande amor a Deus, de minha inexaurível devoção a Deus, que estou disposto a sacrificar tudo, a fim de abrir os olhos da Igreja, os seus olhos, para a verdade! Para o verdadeiro desejo de Deus!

— Ainda não é tarde demais, Alphonse — apelou Di Concerci. ­— Devolverei este documento a você e o apagarei de minha mente. Você está obviamente muito cansado e exaurido. Precisa se afastar uns tempos para repousar. Férias lhe fariam um bem imenso...

— Não, cardeal. — Litti balançou a cabeça, resoluto. — Você tem de submeter este documento, inalterado e na íntegra, como se deve, à Congregação e a Nicolau.

Di Concerci mexeu os dedos e levou-os aos lábios, concedendo-se uma pausa para pensar, buscar um contra-argumento eficaz.

— Litti, pense só um instante. Se me fizer submeter este documento à apreciação, você será expulso da Congregação, talvez até perca o cardinalato. E se continuar com esses delírios, sem dúvida será excomungado. Você está jogando fora toda a sua carreira. Tudo! Pelo amor de Deus, homem, será que vale a pena?

A resposta de Litti foi calma, direta e deliberada.

— É pelo amor a Deus que faço isto. Basta entregar o meu relatório a Nicolau e à Congregação que eu me colocarei à disposição, caso alguém queira discuti-lo. Rogo apenas para que os outros olhos se mostrem mais abertos que os seus.

— Você abriu os meus olhos pelo menos para uma coisa, Alphonse — ­retrucou o prefeito com sobriedade. — Você abriu os meus olhos para a realidade de que esta auto-proclamada Messias, a tal Jeza, é uma mulher muito perigosa.

Litti se levantou devagar para partir, com as juntas e a mente a lhe doer.

— Você se lembra da virada do Ano-Novo do milênio, cardeal Di Concerci? — perguntou ele, sentido. — A primeira visão que o mundo teve de Jeza em meio à tempestade de raios? Cito-lhe Mateus, capítulo vinte e quatro, versículo vinte e sete: “Pois quando o raio surgir ao leste, dirigindo­-se invariavelmente para o oeste, também virá assim o Messias.”

Sem proferir palavra, Di Concerci inclinou-se para a direita e abriu as portas de vidro bisotado de um fino gabinete. Retirou um pequeno livro, de aspecto bastante envelhecido, encadernado por uma capa de cor vinho desbotada.

— E deixe-me citar-lhe algo deste volume, cardeal — disse ele, abrindo o livro com reverência sobre a mesa à sua frente. — Sabe o que é isto, Alphonse? — Não esperou resposta. — É um manuscrito original em latim do Evangelho de São João. Copiado à mão, pelos monges de Domrémy, Lorraine, como presente para Joana d'Arc. Está com a família Di Concerci há centenas de anos e me foi presenteado por meu pai quando assumi o cardinalato.

Delicadamente, ele passou as páginas, procurando uma passagem específica.

— Aqui, leio para você, nas próprias palavras de Cristo, João, capítulo dez, versículos quatorze a dezesseis. — Ele traduziu do latim: — “Sou o bom pastor e conheço os meus e os meus me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai; e entrego minha vida por minhas ovelhas. E outras ovelhas que tenho que não são deste rebanho. A elas também devo trazer, e elas devem ouvir minha voz, e haverá um rebanho e um pastor”. 

Ele fechou a capa cuidadosamente.

— Um rebanho, Alphonse. E somente um pastor. Jeza não pode ser o Senhor.

Resignado, Litti virou-se e dirigiu-se pesarosamente para a porta.

— Você está errado, Di Concerci — disse ele, voltando tristemente o olhar por cima do ombro. — Jeza é uma Messias. A segunda Messias. E Ela veio cumprir as profecias. Opor-se a Ela é opor-se à vontade de Deus. No fim, aqueles que A desafiarem serão destruídos. E o fim está mais próximo do que você pensa!

 

                     Porto marítimo de Said, Egito

                     18:32, sexta-feira, 11 de fevereiro de 2000

Depois que Jeza partiu da Terra Santa, as condições em Israel se acalmaram bastante, de forma que o caminho estava livre para Anke retornar aos seus estudos em Tel Aviv. E embora Anke não fosse ficar a uma distância tal que a impedisse de fazer visitas ocasionais, Feldman ainda assim achou a idéia de sua partida algo difícil.

Hoje, Feldman elaborara uma noite especial para ela. Fizera reserva num restaurante romântico, Delta do Nilo, na pitoresca região portuária de Said, às margens do Mediterrâneo. Durante o jantar à luz de velas, Feldman percebeu Anke incomumente quieta e indagou-lhe o porquê.

Ela o fitou com um olhar de incerteza.

— Fale — instigou-a Feldman, carinhosamente — não é típico de você estar tão tímida assim!

Ela riu.

— É um assunto que eu sei que você não se sente muito confortável para discutir, só isso.

— Esta noite, vale tudo — garantiu de.

Ela tomou fôlego.

— Jon, eu gostaria de saber o que você acha mesmo dessa tal Jeza. Apesar de tudo o que Anne Leveque nos contou, não consigo fugir à sensação de que há mais coisas por trás dela do que podem ser explicadas por essa ciência do neurochip, por mais impressionante que possa ser. E sei que você compartilha de alguns dos meus sentimentos. Posso ver isso em seu rosto a cada relato que você faz sobre ela. Isso também o deixa confuso, não é?

Não era o assunto romântico que Feldman havia achado que estava habitando a mente de Anke. Ele soltou um suspiro e olhou para a sua entrada, que subitamente perdera o atrativo.

— Tudo bem — disse ele, relutantemente honrando a garantia que lhe dera — tudo bem!

Fez uma pausa, organizando os pensamentos. Finalmente, olhou-a nos olhos.

— Não posso dizer que não tenha considerado a possibilidade de que ela talvez seja, bem, uma Messias de verdade — admitiu. — Realmente me deixa confuso... Sabe, se alguém resolve projetar uma pessoa para falar, agir e ter o aspecto de um ser divino, não vejo como possa acabar gerando uma criatura mais imponente do que Jeza. Talvez seja do sexo errado, talvez seja pequenina demais. Mas, com ela, isso não parece importar, não é mesmo? Não parece atrapalhar de forma alguma. A bem da verdade, é o contrário, só serve para aprimorar ainda mais a lengalenga divina! Torna-a ainda mais divina superar esses supostos obstáculos. Há, sim, uma certa força aí, e eu concordo com você, que parece vir de além do laboratório de ciências.

— E não posso dizer que tenho uma explicação plausível para todos os milagres que cobri em minhas reportagens, embora não deixe de haver uma boa quantidade deles que eu questionaria — apressou-se em acrescentar. — Mas devo confessar que toda essa experiência com Jeza é de tirar o equilíbrio; é até mesmo intimidante às vezes. Simplesmente não sei o que pensar disso tudo, Anke. Simplesmente não sei.

Ela contraiu o cenho, olhando absorta para ele.

— Jon — sussurrou ela baixinho — e se Jeza for mesmo uma Messias? E se estivermos mesmo adentrando os Últimos Dias? — Seu queixo estava tremendo.

Feldman se esticou por cima da mesa e tomou a mão dela entre as suas.

— É uma linha de pensamento que eu não ouso trilhar tão longe —­ falou. — Mas, mesmo que eu soubesse ao certo que estávamos enfrentando o Dia do Juízo Final, há uma coisa à qual devo me ater. Embora eu e você talvez não sejamos pessoas perfeitas, Anke, e embora não vivamos a religião da mesma forma que muita gente boa parece viver por aí, eu ainda colocaria nossa ética acima do melhor deles... milenaristas, clérigos, o que for! E eu não acho que um Deus de mentalidade justa vá ignorar isso, você acha?

Ela soltou o ar e relaxou.

— Mas, de fato, você não acredita realmente nela, acredita?

— Honestamente? — Ele deixou passar um prolongado instante, ficando progressivamente mais soturno e introspectivo. — Não, Anke, não vejo isso. Talvez porque não queira ver, mas, neste exato momento, não consigo aceitar.

Anke pareceu encontrar algum consolo nisso, fitando-o nos olhos com uma expressão de reafirmação.

Após o jantar, passeando ao sabor da brisa cálida da noite pelo abarrotado mercado popular ao longo do cais, Feldman e Anke andaram de mãos dadas, olhando descomprometidamente as lojas exóticas repletas de temperos, rolos de tecidos coloridos, artesanato e quinquilharias para turistas. Enquanto caminhavam, Feldman apreciava Anke pelo canto do olho, deleitado com sua alegria intrínseca, sua bondade, integridade e beleza.

Isso tudo começava a lhe dar uma noção de conforto. Finalmente, pela primeira vez em sua vida, Feldman se via entrando em um relacionamento amoroso com uma mulher. Sem espernear e ferir, sem ficar nervoso e cético! Mas de bom grado! Afinal, talvez tivesse conseguido romper com aquelas inibições irracionais, restritivas e primárias que um rapaz e seu terapeuta haviam combatido tão arduamente um dia.

Chegando a uma banca montada sobre a calçada, Anke parou para pegar um pequeno e intrigante item que lhe chamou a atenção. Era uma dessas novidades em livro infantil, com "olho mágico" e imagens holográficas do tipo que ora se vê, ora não se vê, escondidas em meio a padronagens visuais geradas por computador. Este livrinho, especificamente, continha imagens tridimensionais ocultas da profetisa Jeza.

Anke abriu o livro e, toda sorridente, levou-o de encontro ao nariz de Feldman e, em seguida, afastou-o devagar, até que o emaranhado de pontinhos, como que por um toque de mágica, materializou-se diante dos olhos dele no rosto arrebatador da Messias. Mas, subitamente, um estranho surto de desorientação começou a se apoderar do repórter. Uma sensação desagradável, inquietante. Ele se agarrou a Anke em busca de apoio.

Assustada, ela largou o livro, olhando para o rosto pálido dele.

— Jon, você está bem?

Ele cambaleou, inexplicavelmente estonteado, enquanto Anke tentava ansiosamente ampará-lo.

Esforçando-se para recuperar a compostura, Feldman teve uma súbita percepção. Ele soltou Anke e deu uma rápida meia-volta. Ali, a menos de dez metros de distância, em meio à multidão, fitando-o com aqueles olhos imperscrutáveis e profundos, estava Jeza, a Messias.

Tão logo a visão de Feldman foi atrapalhada pelos transeuntes, ela desapareceu. Mas não houve dúvida. Não se tratava de uma ilusão. Ele a vira. Ele a sentira.

 

                      Aposentos do Papa, Vaticano, Roma, Itália

                       19:15, sexta-feira, 11 de fevereiro de 2000

Nicolau VI estava sentado à sua ornamentada mesa, assinando documentos. Levantou os olhos quando ouviu alguém bater às portas abertas de seus aposentos.

— Pois não, Antonio, entre. — O Papa aguardava a visita.

Antonio Di Concerci, com uma pasta de couro em mãos, adentrou o recinto e saudou seu Papa, mas sem o sorriso habitual. Nicolau sinalizou para que tomasse assento, tirou os óculos de leitura e voltou-se na direção do prefeito.

— Você está com um aspecto particularmente pensativo agora à noite, Tony — observou o pontífice, com bom humor.

— E o seu aspecto está muito bom, Papa.

— Como vai o inquirendum?

— Dentro do programado, Santidade. O prazo será cumprido sem comprometimento da integridade de nosso trabalho, posso lhe garantir.

— Excelente! Então suponho que você queira me falar de outro assunto, não é isso?

— Quero, sim. Estou me debatendo com um dilema, Santo Padre. É sobre o cardeal Litti.

O Papa encheu o peito de ar, deixando cair o queixo e balançando a cabeça.

— Preciso falar-lhe confidencialmente, Santidade — prenunciou Di Concerci seus comentários.

Nicolau ergueu a vista, seu rosto mudando de aborrecido para apreensivo.

— Perfeitamente, Tony.

— Conforme já sabe, Papa, o cardeal Litti compareceu à conferência interdenominacional dos mórmons no fim-de-semana passado.

O Papa assentiu.

— Conforme Sua Santidade deve ter percebido, ele estava se comportando de maneira peculiar mesmo antes de partir.

— Correto — concordou o Papa. — Tenho me preocupado com Litti. Isso não é típico dele.

— Receio dizer que ele piorou consideravelmente desde que Sua Santidade esteve com ele pela última vez. Ele foi ao meu escritório ontem pela manhã, sem avisar, sem se barbear, desgrenhado, e exigiu uma audiência. Quando o informei de uma reunião previamente assumida com os cardeais Thompson e Santorini naquele mesmo horário, ele assumiu uma postura beligerante e insistiu que eu a cancelasse e imediatamente estudasse seus achados e opiniões sobre a conferência mórmon.

— O que você fez?

— Para ser franco, percebi o estado de sua mente um tanto instável e, em vez de provocá-lo ainda mais, concordei em fazer o que me pedia.

— E isso o acalmou?

— Ele insistiu em aguardar do lado de fora de meu escritório, enquanto eu lia o documento na íntegra.

Os olhos do pontífice se arregalaram e ele coçou o queixo.

— E qual era o conteúdo do relatório?

Di Concerci se recostou em sua cadeira, os lábios apertados, como se hesitasse em prosseguir.

— Fale, Antonio.

O prefeito colocou sua pasta de couro sobre o canto da mesa do pontífice, destravou os fechos e retirou um documento de várias páginas.

— Santidade, não sei de que outra forma descrever isto. — Ele colocou os papéis ao lado da pasta. — São os delírios de um fanático iludido. Litti enlouqueceu. Renunciou à Igreja. Reconhece na tal de Jeza a nova Messias e proclama que nossa destruição se faz iminente.

Nicolau se deixou afundar na cadeira, aturdido.

— Alphonse, um milenarista?

— Ele exige que a Igreja reconheça Jeza como a nova Messias e que apoiemos sua mensagem e missão... admitindo que ninguém possa determinar precisamente qual seja sua mensagem ou missão. E exige que este relatório seja incluído no inquirendum.

O Papa permaneceu recaído em sua cadeira, com o queixo apoiado na mão e os olhos distantes. Disse quase para si próprio, numa voz repleta de reminiscências:

— Este não é o Alphonse, você sabe. Lembro-me muito bem, faz muitos anos, quando cheguei ainda jovem e inocente, recém-formado pela Pontifícia Academia de Teologia. Alphonse foi um de meus primeiros amigos. Era despreocupado e tranqüilo. Muito diferente do que é agora. Temo por ele. Imagino se não seria um estágio de senilidade precoce.

Em seguida, ele acrescentou para Di Concerci:

— Quero que Alphonse consulte um médico imediatamente. Um check-up completo. Providencie isto, Tony.

— Pois não, Santo Padre, imediatamente. E quanto ao relatório dele?

Nicolau arfou.

— Deixe-o comigo. Mas posso lhe assegurar, não será incluído no inquirendum.

Depois que Di Concerci saiu, Nicolau deixou seus pensamentos conturbados devanearem um pouco até que finalmente retornaram ao esforço mal direcionado de Alphonse Litti, que resultara em quarenta e tantas páginas sobre um canto da antiga escrivaninha do Papa. Exatamente o mesmo onde repousara a petição de invalidação de casamento de Henrique VIII e o manifesto das Noventa e Cinco Teses de Martin Luther.

O pontífice se esticou, pegou os papéis e colocou-os dentro de um envelope liso, no qual escreveu "A. Litti". Da corrente presa à cintura, tirou uma grande chave de ouro e abriu o cofre lateral de sua escrivaninha. Antes de depositar o envelope ali, o Papa hesitou, reconhecendo dentro do cofre uma pasta de couro marrom desbotado. Então, jogou apressadamente o relatório de A. Litti lá dentro e fechou a porta.

 

                               Sede regional da RMN, Cairo, Egito

                               8:30, segunda-feira, 14 de fevereiro de 2000

Durante o fim-de-semana, Jeza tornou a ser avistada pelas equipes da RMN. Esta vez mostrou-se particularmente reveladora. Cissy, que já revira o vídeo na tarde de domingo com Bollinger e Sullivan, estava com a fita em mãos numa cabine de edição, aguardando a chegada de Feldman e Hunter para uma prévia das notícias do dia e seu desenvolvimento.

Hunter adentrou o recinto bem antes de Feldman e freou subitamente quando avistou Cissy sentada de pernas cruzadas na beira da mesa. Era a primeira vez que os dois ficavam totalmente a sós desde a noite do terremoto do milênio. Era tarde demais para que Hunter retrocedesse sem dar na vista nem parecer acovardado.

— Oi, Ciss — começou a dizer — o que está acontecendo? Ouvi dizer que conseguimos mais algumas filmagens quentíssimas...

— Ainda estou furiosa com você, Hunter! — disse ela entre os dentes, cruzando os braços para fazer par com as pernas.

— Mas por que isso?

— Por que isso? Por você ter apagado o cara com quem eu estava saindo, só por isso!

— O cara com quem você estava saindo? Porra, Cissy, estava saindo nada, ele era da FDI! Você sabe quem eles são: essa gente boa que botou o Arnie na cadeia!

— "Elezinho" não estava me ameaçando; tinha me levado para jantar, ora essa!

— "Elezinho"? — zombou Hunter. — Vou lhe contar uma coisa. Se você não tivesse se mandado conosco, em poucos instantes mais, o seu Elezinho e a turminha dele estariam enfiando essa sua carcaça sardenta dentro de um camburão. Você tem mais é que me agradecer!

— Eu não preciso que você cuide de mim, obrigadinha!

— Olhe aqui, Cissy, eu sei que você ainda está pirada comigo por conta da história da Erin...

— O quê! — explodiu ela, saltando da mesa e tendo um ataque de bater com os pés no chão. — Seu idiota cheio de si, convencido de uma figa!

Feldman chegou, mas não entrou, tendo parado ao ouvir as vozes alteradas. Estava acostumado às birras entre os dois, mas esta parecia ter ultrapassado o habitual. Infelizmente, ele precisava ter acesso à cabine para poder ver a nova fita de Jeza antes de se reunir com Bollinger e Sullivan. Olhou para o relógio, bateu com a ponta do pé no chão quando a altercação se intensificou, mas acabou retrocedendo a uma boa distância no corredor.

— Então — tentou se defender Hunter — só porque eu lhe dei um pouco de atenção depois do terremoto! Quero dizer, não aconteceu nada entre nós!

— Não aconteceu nada! — Ela ficou lívida. — Você me abraça com força, me dá um beijo no rosto e me diz um monte de coisas carinhosas. Você estava sendo um bom escoteiro, só isso, não é mesmo? Seu babaca! E não fazia nem duas horas que tinha me deixado — continuou ela, arengando — mas aí chega aquelazinha e você sai babando atrás dela que nem um elefante no cio! Seu nojento!

Feldman achava situações assim extremamente desgastantes. Elas reavivavam lembranças difíceis de suas fracassadas tentativas de quebrantar as discussões entre seus pais. Não obstante, algo precisava ser feito, e mais uma vez Feldman se sentiu responsável por intervir entre duas pessoas a quem amava. Mordeu o lábio, tomou coragem e forçou-se a voltar pelo corredor no sentido das vozes cada vez mais altas. Rostos ansiosos olharam-no pelas portas do escritório, oferecendo um apoio silencioso, enquanto ele prosseguia. Feldman, fazendo uma cara soturna, deixou bem claro que havia constatado a presença dos dois e continuou. Ao se aproximar da sala de exibição dos vídeos, ouviu Hunter protestando sem muita convicção, enquanto a voz de Cissy se avolumava.

— Então você acha que ela é sexy? Sexy? E que diabo você acha que eu sou, a madre Teresa? — gritou Cissy.

O queixo de Feldman se escancarou. Estupefato, ele revirou os olhos para cima e articulou com a boca: "Hunter, seu idiota!”

Subitamente, houve um barulho de vidro quebrando e um grito alarmado de Hunter. Feldman ficou sobressaltado por ter-se demorado tanto.

Voltou correndo para a sala, na esperança de chegar a tempo de evitar o homicídio que se avizinhava. Hunter, recolhido a um canto, saudou Feldman com um olhar de súplica desesperada, enquanto o café da jarra despedaçada escorria pela parede atrás dele. Cissy estava em pé, diante do cinegrafista acuado, com a última fita de vídeo de Jeza ameaçadoramente erguida em sua mão.

— Seu palhaço, filho da puta! — berrou Cissy.

Feldman correu e envolveu a mulher frenética em seus braços, resgatando tanto Hunter quanto a preciosa fita de vídeo. O apavorado cinegrafista viu ali a sua chance e, esgueirando-se por trás de Cissy, como o bom beque que já fora um dia, saiu do escritório, atravessou o corredor e não voltou a ser visto até o fim do dia.

Contendo a enraivecida e chorosa mulher em seus braços, Feldman consolou-a até que ela conseguiu se recompor. Erguendo os olhos para vê-lo, o rímel escorrendo por seu rosto sardento e ruborizado e o lábio inferior estendido e trêmulo, ela balbuciou:

— Não sei por que eu amo esse babaca, mas eu amo, e não consigo evitar. Eu me odeio!

Feldman ficou sentido por Cissy, que sempre fora uma boa amiga nos momentos mais impressionantes, mas preferiria estar a milhares de quilômetros de distância nesse instante. Viu nela o rosto angustiado de sua mãe, aquela contorcida expressão universal que forja um amor fracassado.

— Breck não é insensível assim por querer, Cissy. Ele é apenas um sujeito rude e desajeitado, que não consegue ser diferente. No fundo do coração, eu sei que ele acha maravilhas de você. Ficou bastante óbvio pela maneira como ele derrubou aquele milico no outro dia. Mas talvez não seja mesmo para vocês dois acontecerem, sabe?

Ela fez uma careta de angústia e desespero, estremeceu ao longo de mais um paroxismo e finalmente tornou a se compor.

— É, eu sei, eu sei. Só vou precisar de um pouco de tempo, e vai ser o bastante. Eu vou aprender a lidar com isso.

— Eu sei que vai, Ciss. Agora vamos, eu vou levar você de carro para casa. Tire o resto do dia para descansar; amanhã as coisas vão estar bem melhores! Você vai ver.

— Não — disse ela —, você tem uma reunião com o Sullivan. Eu já estou legal. Vou ao toalete das mulheres por um minutinho e depois vou embora em meu próprio carro. Pode ir, Jon. Eu estou bem. Não se preocupe.

Não se convencendo, Feldman não saiu enquanto não conseguiu tirar dela um sorriso. Rindo e chorando ao mesmo tempo, ela finalmente se recompôs.

— Então vá. Saia daqui — ordenou ele. — Eu ligo mais tarde para ver como você está, certo?

— Obrigada, Jon! — disse ela com a voz mais calma. — Você sempre foi bom para mim. — Ela pegou as mãos dele nas suas, ficou na ponta dos pés, beijou-lhe o rosto e foi embora.

Tirando alguns momentos para se recompor, Feldman dirigiu-se à máquina de café, sinalizando que estava tudo bem para os alarmados e apreensivos que encontrou pelo caminho. Ao passar pelo átrio, parou o tempo suficiente para ver Cissy dirigindo-se para o carro. Ela saiu guiando rápido, mas sem cometer imprudências, percebeu Feldman, aliviado.

Acomodando-se com sua caneca de café cheia na cabine de edição, Feldman chamou Sullivan para informá-lo de que estava pronto para a reunião.

— Que quebra-pau, hein! — deu a entender Sullivan. — Ela vai ficar bem, não vai?

— Acho que sim, Nigel — conjeturou Feldman. — Cissy é forte. Ela só precisa de tempo para se restabelecer. Vou ligar para ela mais tarde, para ver se está tudo bem.

— Puxa, eu nem fazia idéia de que eles tinham dificuldades desse tipo. Eu sei que os dois vivem se abalroando aqui e ali, mas nunca pensei que houvesse qualquer tipo de animosidade por trás disso. Todo o tempo de que ela precisar, é claro! E Breck?

Feldman deixou escapar com uma risadinha irônica:

— Porra! Ele deve estar jogando um vídeo-game em algum lugar por aí; já esqueceu tudo isso a esta altura. Sinto dizer que Breck não tem muita profundidade para coisas desse tipo.

— Tudo bem. E você?

— Eu estou bem, Nigel. Que tal pormos mãos à obra com relação a este vídeo novo?

Quando os outros chegaram, Feldman observou Erin Cross furtivamente, para ver se conseguia detectar qualquer reação quanto aos eventos da manhã, mas ela parecia estar totalmente indiferente à situação.

Antes de começarem, Bollinger passou para Feldman o histórico da fita que estavam prestes a ver.

— Esta filmagem foi feita na manhã de sábado, Jon, no campus da Universidade de Al-Azhar no centro da cidade. Recebemos um telefonema, mais ou menos às nove e meia, de que Jeza estava na área perto do Centro Acadêmico. Quando chegamos lá, um professor dera com ela e a convidara ao auditório para dirigir a palavra à sua turma. Nossa equipe conseguiu se infiltrar e foi para o fundo do salão, enquanto ela se ocupava em responder às perguntas. Você vai achar isso interessante. Foi uma das interações mais prolongadas até o momento.

O vídeo abria com Jeza de pé atrás de um pódio elevado, na parte inferior de um grande auditório em forma de cuia, à meia-luz. A Messias estava usando uma túnica comprida, simples, de algodão branco, arrematada com uma fita vermelha e púrpura nas pontas das mangas e na bainha. Iluminada por spots colocados ao alto, falando confortavelmente ao microfone, ela mantinha a platéia arrebatada.

O professor da turma, homem trigueiro, animado, de olhos escuros, barba e um turbante sobre a cabeça, era a única pessoa no palco com a Messias. Parecia estar moderando o simpósio, selecionando quem do público faria perguntas. O vídeo começava por uma pergunta feita por um clérigo de meia-idade, alto e magro, de batina escura.

— Jeza, queira me perdoar — disse ele, em tom educado — mas seus ensinamentos parecem contradizer muitos dos dogmas da Bíblia Sagrada. Você está acima da Bíblia?

— Onde estou — respondeu ela com a sua voz dominadora, contudo baixa e suave — é pela mão e vontade de Deus. Trago-lhes Sua Palavra na condição de Sua mensageira direta.

Após cada comentário dela, o salão vibrava com uma conversação em baixo volume, que rápida e respeitosamente se retraía diante da próxima pergunta a ser feita.

— Jeza? — Um estudante negro, vestindo uma túnica com bordados coloridos, foi reconhecido pelo professor da turma, que lhe concedeu a vez. — Seus ensinamentos parecem seguir a filosofia cristã, pois você se proclamou a Irmã de Jesus Cristo e a Filha de Deus. Você é, então, Deus, e deve ser venerada?

— Ninguém deve ser venerado, exceto o Deus Pai — respondeu ela.

— Você é superior a Jesus? — ele indagou.

— O gelo é superior à água? — respondeu ela de maneira prosaica, sem a menor inclinação em sua voz. — Ambos são o mesmo elemento em formas diferentes, para estações diferentes.

O professor da turma apresentou então uma pergunta própria.

— Jeza, você está proclamando uma nova religião ou é adepta de alguma teologia vigente?

— Trago-lhes vislumbres do desejo de Deus — respondeu ela. — A Nova Luz é a culminância de todas as religiões. É a meta natural à qual todas as religiões devem aspirar.

— Então, a qual religião devemos pertencer? — perguntou um rapaz com um brilhante turbante amarelo.

— O Senhor não os julgará por sua religião — respondeu ela. — Nem favorece uma religião em detrimento de outra, tampouco uma pessoa em detrimento de seu próximo. Será julgado cada homem, cada mulher e cada criança pelo nível alcançado em seu caminho de busca da perfeição pessoal sob a Nova Luz.

Um homem em trajes árabes, de pele áspera e aspecto enraivecido, de um pulo se levantou, com os olhos brilhando de emoção.

— Mas se você é a irmã de Jesus, você é judia. Então não é parcial com preferência aos judeus em detrimento dos árabes? O que tem a dizer ao libertário que perdeu seu lar para os judeus?

— Digo-lhe o seguinte: — respondeu ela, solenemente, com o rosto se ensombrecendo — as amargas divisões entre os árabes e os judeus são fonte de angústia constante para Deus! Como sou a filha do Todo-Poderoso, também sou irmã de Maomé. Acaso você não sabe que tanto árabes quanto judeus nascem da mesma raiz? Que ambos compartilham a mesma herança do patriarca Abraão? A mesma divindade cujo nome é tanto Alá quanto Javé? São irmãos aos olhos de Deus, qual todo outro povo sobre a face da Terra e, ainda assim, vocês se odeiam e derramam o sangue uns dos outros, qual inimigos mortais! Para vocês, que perseguem a violência a fim de retomar sua terra natal, saibam disso: suas questões são válidas, mas vocês próprios não o são! Os atos de terrorismo que executam são abomináveis aos olhos de Deus. Eu lhes digo, abandonem essa perseguição aos judeus... e aos palestinos, e às demais religiões e povos... que toda ela termine agora, para sempre. A menos que rejeitem tais atos de violência, Deus voltará Suas costas para vocês. Enquanto vocês e seus irmãos judeus não conseguirem se aproximar com amor e um verdadeiro desejo de reconciliação e união, nem um nem outro conhecerá uma terra natal pacífica!

O salão ficou absolutamente estático. Surpreso, o estonteado árabe retornou devagar ao seu assento.

Após um período de profundo silêncio, uma jovem estudante experimentou erguer a mão.

— Dona Messias, a senhora está aqui para fundar uma nova religião?

— A Nova Luz não é uma religião, tampouco uma lista de rituais. A Nova Luz é a compreensão através da qual cada um pode se esforçar no sentido do desejo de Deus para a humanidade.

O professor então perguntou:

— Qual é o desejo de Deus para a humanidade? E o que é exatamente a Nova Luz?

— Tudo está sendo revelado segundo o plano de Deus — ela retrucou. — Vocês devem observar e escutar.

Um rapaz negro, erguendo a mão animadamente no setor mais recuado da platéia, foi chamado a fazer sua pergunta e criou uma agitação quando rogou:

— Ó Messias, minha mãe está muito doente. Peço-lhe que, por favor, a cure.

O professor imediatamente correu para o centro do palco e avisou, com veemência, que quaisquer outras tentativas de suplicar à Messias intervenções ou favores pessoais levariam o indivíduo a ser retirado do auditório. Em seguida, ele convocou outro candidato a fazer sua pergunta. Entretanto, em uma notícia insubstancial lançada alguns dias depois, um jornal do Cairo alegava que a mãe do rapaz se recuperou na mesma hora, completa e inexplicavelmente, de uma doença tida como terminal.

Outra estudante apresentou uma pergunta que detonou sonoras gargalhadas.

— Messias, Deus é homem ou mulher?

Jeza não esboçou uma reação imprópria.

— Deus tanto é homem quanto mulher — disse ela, diretamente. — E a humanidade se separa de Deus por seus sexos.

A mesma estudante deu seguimento à pergunta.

— Você se refere a Deus como "Ele" e à humanidade como "homens” no coletivo. Não haveria aí uma preferência ou algo de sexista? Especial­mente sendo você própria uma mulher?

Assobios e gritinhos espocaram na platéia. Mas o professor assumiu uma expressão severa e o auditório caiu em silêncio imediatamente.

Jeza não hesitou em sua resposta.

— Talvez seja mais correto identificar Deus com um artigo neutro e ao coletivo dos seres humanos simplesmente como "humanidade". Mas tal não é o costume, e fugir ao tradicional no avançado da hora é mais uma questão acadêmica do que de propósito real. Para vocês, ater-se a estes termos como divisores é distrair-se do seu propósito, que é a unidade. Não obstante, se quiserem entender as escrituras conforme o desejo de Deus, é uma atitude sábia voltar atrás e eliminar a desigualdade, conforme esclarecerei para vocês nos dias vindouros.

— Você diz "no avançado da hora", Messias — observou o professor com a voz embargada. — Está prevendo o fim do mundo?

Houve uma sensível retenção de fôlego na platéia.

A própria Jeza postou-se solene e pensativa.

— Uma grande mudança está se avizinhando — respondeu ela, vagarosamente. — Ela demarcará tanto o fim quanto o começo. É preciso que se mantenham vigilantes e vocês conhecerão o plano de Deus.

Isso gerou uma enorme agitação na platéia e o professor precisou se colocar mais uma vez, a fim de restaurar a ordem. Ele escolheu outro indivíduo.

— Quais são as regras que devemos seguir na vida? — perguntou o estudante. — As dos Dez Mandamentos? O Talmude? As leis seculares de nossa nação?

— Todas essas e nenhuma dessas — respondeu ela, enigmaticamente. — Digo-lhes que através das eras, a palavra de Deus foi revelada muitas vezes ao homem. É a mesma palavra, falada em muitas línguas, escrita por muitas mãos. Para alguns, é a Bíblia. Para outros, o Corão. Para outros mais, a Torá. E existem ainda muitas outras formas. Assim como as margens de seu rio Nilo mudam a cada primavera em decorrência das repetidas inundações, também muda o sentido total da Palavra a cada iteração, tradução e interpretação. A fim de conhecer o caminho do Senhor, é preciso ouvir mais do que palavras.

— Mas, Messias — protestou outro clérigo, mostrando-se irritado e confuso. — Dediquei toda a minha vida a estudar as escrituras e os grandes teólogos. Você está dizendo que todo o meu trabalho foi em vão?

— Há muito que aprender com as escrituras — respondeu-lhe a Messias — mesmo que as traduções sejam precárias. Mas há pouco para se ganhar com os escritos dos teólogos, mesmo para quem os compreende perfeitamente. Pois há tantas interpretações da Palavra de Deus quantas religiões há sobre a face da Terra. E nenhuma delas é capaz de lhe dizer a verdade distinta que jaz em sua própria alma.

O clérigo persistiu.

— Decerto que os grandes e sábios estudiosos das religiões têm melhor discernimento e compreensão das complexas escrituras do que o homem comum!

Jeza não pareceu abalada pela tenacidade do homem. Voltou-se para a platéia como um todo e, em voz um pouco mais elevada, ofereceu-lhes uma metáfora que depois seria conhecida como:

 

                  A PARÁBOLA DO COZINHEIRO E DOS APRENDIZES

 

Eis que existia um cozinheiro que chefiava uma cozinha. Um dia ele chamou os aprendizes de cozinheiro e os reuniu em torno de si, dizendo: “Para a refeição desta noite, prepararei um banquete especial. Vão até o poço e recolham uma certa quantidade de água”. 

Então, o mais jovem dos aprendizes apressou-se em ir ao poço e logo voltou com uma grande jarra cheia de água límpida e pura, que colocou diante dos aprendizes mais experientes.

Ao ver a jarra de água, um destes disse ao mais novo: “Esta jarra não é grande o suficiente. Precisaremos de mais água para preparar um banquete assim. É preciso voltar ao poço”.

 Outro deles disse: “A água do riacho é mais fresca e aprimorará o sabor dos alimentos. Vá pegar água no riacho.”

E outro ainda disse: “Você derramou água no chão e não podemos preparar a refeição até que ela seja retirada.”

Neste momento, o chefe dos cozinheiros voltou à cozinha e, ao ouvir isto, pegou a jarra de água e a verteu sobre o chão, dizendo: “Antes que um banquete seja preparado, a cozinha precisa ser limpa.” E para o aprendiz mais jovem, ele disse: “Venha; enquanto eles cumprem esta tarefa, vou compartilhar com você os preparativos para a festança.”

Amém, Amém eu lhes digo: vão e encham suas jarras, sabendo que o Senhor Deus não se preocupa com o volume nem o conteúdo, mas os julgará por seu intuito. E a ninguém cabe julgar, exceto ao Próprio Pai.

(Apoteose 23:4—11)

 

Concluindo seu discurso, a Messias abençoou a platéia e desceu do pódio, aceitando a mão estendida do professor à medida que irrompia uma fuzilaria de flashes de câmeras fotográficas e aplausos. A platéia se comprimiu de encontro ao palco e Jeza foi rapidamente conduzida para uma saída por trás, desaparecendo de vista.

 

                           Condomínio Na-Juli, Cairo, Egito

                           1:30, terça-feira, 15 de fevereiro de 2000

Feldman foi acordado de súbito por uma batida de mão espalmada contra a porta de seu apartamento. Ele pegou o despertador, notou que já era muito tarde, pegou os óculos na mesa-de-cabeceira e saiu trôpego pelo corredor, enquanto vestia o roupão.

Tentando enxergar alguma coisa pelo olho-mágico, Feldman deparou com Hunter, todo desgrenhado, a cabeça recostada contra uma das pilastras da varanda, o rosto enfiado na jaqueta embolada e os braços estendidos ao longo do corpo.

— Breck! — Feldman girou a chave e abriu a porta. — Onde você esteve o dia inteiro? Passei o tempo todo tentando encontrá-lo!

— Entrei numa onda, amigão — falou com a voz arrastada, espiando pelo lado do bolo formado por sua jaqueta com um sorriso amarelo no rosto. — Será que estou sendo inoportuno?

Feldman forçou a vista sob a luz da varanda, coçou o rosto e deu um passo para o lado, indicando ao amigo que entrasse.

— Acho que sou um babaca, hein! — presumiu Hunter.

— Ora essa, Breck! Você não soube lidar muito bem com as coisas, não acha?

— Não, não soube mesmo! — ele admitiu, entrando no apartamento e se deixando despencar sobre uma cadeira. — Você viu a srta. Cissy? Ela está bem?

— Foi bom você perguntar. Está. Liguei à noitinha e ela está bem agora. Vai trabalhar amanhã. E você?

— Ahn, vou, sim. Mas talvez chegue um pouquinho atrasado.

Feldman soltou um suspiro.

— Estou me sentindo muito mal com essas coisas, Jon — confessou Hunter, abandonando seu verniz de irreverência. — Eu não tive a intenção de magoar a Cissy. Honestamente!

— Eu sei que não, Breck E, para ser franco, não acho que você tenha culpa pelo que aconteceu.

Hunter arqueou as sobrancelhas diante da absolvição inesperada.

— Não acha, não?

— Tudo bem, você costumava ter uns flertes com a Cissy. Mas até parece que você não flerta com a maioria das mulheres do escritório! E você nunca foi muito longe com nenhuma delas, pelo menos que eu saiba!

Hunter assentia com a cabeça, encorajadoramente, enquanto o amigo discorria.

— Mas então você e Cissy começaram a passar cada vez mais tempo juntos e as pessoas naturalmente passaram a ver vocês dois como um casal. Acho que Cissy começou a ver a situação dessa maneira também. E como a noite do terremoto foi uma tremenda experiência emocional, acho que isso selou a coisa para Cissy. Você cuidou dela, se preocupou com ela. Sabe...

— Jon, eu não passei a noite com ela na ocasião, nem nunca! Pelo amor de Deus, nunca aconteceu nada!

— Fisicamente, talvez não. Mas ela o ama, Breck

— Porra, eu também a amo, Jon, só que a minha libido está, digamos, temporariamente ocupada, sabe? Cacete, eu não devo o meu afeto a Cissy!

— É mais do que isso. — Feldman ponderou se deveria ou não adentrar nessa seara agora, mas devido às condições de Hunter, talvez o momento fosse adequado. — Você sabe que Cissy e Erin não se dão. É uma tacada dupla para Cissy o fato de você estar saindo com alguém de quem ela não gosta. E isso está acontecendo bem diante do nariz dela, diariamente.

— Ciúmes femininos! — disse Hunter, emitindo o comentário com um sorriso deturpado.

Feldman não estava deixando por menos para ele.

— Breck, há certas, ahn, idiossincrasias acerca da Erin que realmente afetam a Cissy. Erin é, ahn, sabe, diferente. — Ele tocou no assunto com uma certa picardia. — A maneira como ela se veste. A maneira como se exibe, por assim dizer.

Hunter se digladiou com esta observação durante um minuto, evitando o olhar acusador de Feldman.

— Você não entende, cara — respondeu ele, finalmente. O brilho abandonou seus olhos e ele mordeu o lábio inferior como se estivesse inseguro para prosseguir. — Não sei dos detalhes, Jon, porque ela não gosta de falar sobre isso, mas Erin teve muitos problemas quando era pequena. Um bocado de merda que não foi culpa dela, sabe?

Feldman contorceu o rosto, na dúvida do interesse que aquilo poderia ter.

— Ela é filha única. Fruto de um lar desfeito! A mãe dela tornou a se casar quando Erin tinha seis anos. Um ricaço da vida! Ele destratava a Erin de montão quando a mãe não estava por perto. Para compensar as coisas com a Erin e mantê-la calada, ele comprava roupas sofisticadas e jóias... trajes de princesa, vestidinhos de bailarina, camisolas glamourosas, esse tipo de merda! Era assim que ela esquecia os problemas. Vestia-se com roupinhas bonitas e fugia para um mundo de fantasia, onde tudo era melhor.

Feldman recompôs o semblante em solidariedade.

— Então você acha que agora ela odeia essa rotina de roupinhas bonitas porque fica associando às experiências ruins que passou?

— Pelo contrário! — Hunter deu de ombros. — Ela tem um fetiche por roupas. Sabe, um fetiche e tanto! Não dá para acreditar nas coisas que ela tem. Um quarto cheio! Ela escolhe as coisas nos catálogos que nem um jogador viciado num cassino. Manda vir de todos os cantos do mundo. Manda a conta para o padrasto; ela tem carta branca. Você precisa ir fazer compras com ela uma hora dessas, cara. Parece uma criança numa loja de doces! Como se não soubesse quem está a fim de ser hoje, então ela fica fazendo os outros experimentarem. Porra, ela chegou até a comprar um desses trajes de Jeza que os camelôs estão vendendo por todo canto, completo, com tinta luminosa e tudo mais! Não conseguiu resistir.

Feldman assentiu com um grau de compreensão acima da média. Todos tinham um mecanismo especial para lidar com os seus problemas mais obscuros. Para Feldman, tratava-se de erguer barreiras interpessoais. Para Erin, era como se ela estivesse perpetuamente tentando fugir de si mesma. Era uma triste descoberta, que faria Feldman aceitar melhor as suas excentricidades.

— Você vai ficar mais aliviado ao saber que Cissy já está totalmente sob controle. — Feldman trouxe a discussão de volta ao tópico principal. — Ela tentou ligar para você, sabe, para se desculpar.

— Tentou, é?

— Se eu fosse você, conversaria com ela amanhã, por telefone primeiro. Veja se consegue consertar um pouco a cerca, antes.

— É, vou ligar, sim. Ei, você se importaria se eu dormisse por aqui hoje?

Feldman deixou-se acomodar num sorriso de complacência e começou a tirar as almofadas do sofá.

De volta à sua própria cama, permaneceu acordado, enquanto o ronco de Hunter enchia o ambiente.

 

                   Sede regional da RMN, Cairo, Egito

                   9:30, quarta-feira, 16 de fevereiro de 2000

Na reunião matinal da equipe, as notícias foram boas. A última reportagem da RMN sobre o aparecimento de Jeza na universidade foi sensacional, atingindo recordes de audiência.

De repente, quando a reunião estava prestes a terminar, um cinegrafista de uma das equipes de campo entrou agitadíssimo na sala. Ele anunciou, esbaforido, mais um encontro com Jeza. E explicou, brandindo no ar o vídeo premiado, que menos de uma hora antes tivera a oportunidade de filmar um evento significativo com a Messias.

Este último desdobramento, ao que parecia, talvez viesse a se tornar um dos mais impressionantes relatos. A comprovar-se o alarde, a RMN teria registrado em fita o que parecia ser um milagre realizado por Jeza. Possivelmente três milagres, alegava o cinegrafista, enquanto todos se dirigiam atabalhoadamente para a sala de exibição.

A título de introdução ao seu vídeo, o cinegrafista explicou que ficara retido num sinal de trânsito de uma das áreas mais pobres do centro do Cairo. Sentado ao volante de seu carro, ele vira um menino de rua atravessar o cruzamento correndo, com uma flanela na mão. O garoto vinha em direção ao seu carro, obviamente no intuito de se oferecer para limpar o vidro em troca de uma gorjeta. Infelizmente, na pressa de garantir o freguês antes de qualquer outro concorrente, o menino passou na frente do furgão de entregas de uma padaria e foi atropelado.

Para completar a tragédia, o nome estampado na carroçaria do caminhão era, por acaso, o de uma empresa muçulmana da comunidade sunita, o que constituía uma infeliz circunstância, pois o acidente ocorreu num bairro predominantemente xiita. Resultou daí uma explosão instantânea de ira. Em questão de segundos, o furgão estava totalmente cercado pelos transeuntes e o desafortunado motorista foi arrastado para fora do veículo.

Nesse momento o repórter já havia empunhado sua câmera. A alarmante cena se materializou na tela da sala de exibição: ondas de pessoas surgindo magicamente do nada, atendendo ao clamor dos curiosos e se ajuntando no local do acidente. Assistindo ao desenrolar do drama, Feldman teve a certeza de que o entregador estava prestes a ser linchado até a morte. Mas justamente quando a multidão irada ia se fechando sobre o coitado, abriu-se de súbito uma fenda entre as pessoas mais distantes, que começaram a se afastar e recuar.

A imagem ficou descentralizada durante um breve instante, enquanto o cinegrafista subia na capota do carro, a fim de obter um ângulo melhor. Formava-se agora um buraco bem no meio da turba e ele pôde dar um close numa pequena mulher postada audaciosamente diante do ensangüentado motorista caído no chão. Era Jeza, claro, mas, com toda a gritaria, quase não se conseguia ouvir o que ela estava dizendo.

Ao reconhecer de quem se tratava, a multidão começou a se calar. Jeza parecia estar falando em árabe e apontava para o desenganado aos seus pés.

Desferindo um gesto súbito na direção do veículo, ela deu uma ordem. A multidão tornou a se afastar, abrindo passagem para um homem que, angustiado, trazia a vítima no colo. Certamente era o pai do menino atropelado, que agora jazia lívido, com os membros balançando ao léu, seu rosto oculto por um dos braços que o transportavam. Impossível dizer em que estado se encontrava, ou sequer se estava vivo!

Jeza falou com o pai, que se agachou à sua frente, balançando para a frente e para trás, aos berros, ainda com o menino prostrado em seu colo. Ela ergueu os braços para o céu e as mangas de sua túnica deslizaram, desnudando-lhe os alvos braços até a altura dos ombros. Ela proferiu um discurso, que se presume ter sido uma oração, e encerrou com a única palavra que Feldman reconheceu, "Alá".

Apesar da fúria incontida de momentos antes, a turba estava quieta agora, deixando entreouvir apenas os ruídos da cidade ao fundo. Jeza, também em silêncio, baixou os braços ao longo do corpo e ficou olhando fixamente para o menino. Todos fizeram o mesmo. Não tiveram que esperar muito. As pernas estremeceram. A cabeça se mexeu. O homem que trazia a criança ao colo afrouxou o abraço e mostrou o menino para a estarrecida platéia. Os olhinhos estavam abertos, virando-se para um lado e para o outro, intrigados e amedrontados.

A multidão irrompeu em gritos de "Alá! Alá! Alá!" Mãos se esticaram para tocar a profetisa. Mas ela as conteve, voltou suas próprias mãos para cima, baixou-as em seguida na direção do motorista e fez sinal para que todos retrocedessem. Agachando-se, Jeza pegou o homem pelo pulso e o ajudou a se levantar. A outra mão ela colocou sobre o ombro dele, firmando-o, falando momentaneamente com ele, para logo se voltarem os dois e caminharem juntos até o furgão.

Percorrendo o amplo corredor que se abrira para sua passagem, ela o conduziu pelo braço trêmulo. Parou diante da porta de correr do veículo, segurou a maçaneta e puxou-a vigorosamente, escancarando-a. Afastou delicadamente o motorista da frente e deu mais um rápido aviso.

Todos pararam, entreolharam-se durante alguns instantes e começaram a se esticar para o interior do furgão, como se suas mãos e punhos fossem brocas a perfurá-lo, com sofreguidão. Centenas de homens, mulheres e crianças lançaram-se na tarefa de pegar toda a mercadoria que pudessem carregar. Um homem encheu sua túnica e calça com tanto pão que, ao passar diante da câmera, estava praticamente se arrastando para conseguir andar sem rasgar a roupa nem deixar cair nenhuma bisnaga.

E, de repente, Feldman se deu conta de que Jeza não estava mais presente. Mesmo depois de rever a fita em câmera lenta, foi impossível perceber exatamente o que lhe acontecera, nem em que momento a Messias desaparecera. Ela estava lá e pouco depois, de maneira bastante implausível, havia sumido, abandonando o motorista que assistia, pasmo, à pilhagem de toda a sua carga.

Mas se o salvamento do motorista e a recuperação do menino eram dois milagres, restava ainda outro a ser testemunhado. A procissão de saqueadores continuou até que a fita de vídeo na câmera acabou, cerca de vinte minutos depois. Mas a mercadoria não, por mais que o povo retirasse cada qual o seu quinhão de dentro do pequeno furgão. Bisnagas, broas, bolos, biscoitos e doces, todo tipo de iguaria de forno fluía ininterruptamente porta afora, como que a encher todo bolso, manga de camisa, cós de calça e avental sôfrego que dali se aproximasse.

— A única coisa que ficou faltando — ressaltou Hunter — foram os peixes.

Embora nenhum dos três eventos pudesse ser apresentado de forma conclusiva como milagre, o novo vídeo não deixava de apresentar imagens fascinantes. A tentação de divulgar esse material como A fita dos Milagres provou-se comercialmente irresistível. Mal foi ao ar a primeira chamada do noticiário do meio-dia da RMN, o público começou a desarvorar de curiosidade. Grandes patrocinadores assomaram à rede de notícias com sofreguidão, mas esta de natureza diferente.

Trabalhando até tarde da noite para aprontar o vídeo Milagres, a ser apresentado em noticiário especial no dia seguinte, os membros da equipe da RMN foram cedendo à fadiga, um a um, até que todos se recolheram para dormir. Mas Feldman, empolgado e desperto, cheio de motivação, trabalhou até muito depois da meia-noite. Um aspecto da nova fita em particular o deixara intrigado o dia inteiro, mas ele não conseguira dedicar-lhe qualquer atenção até agora.

Sozinho no escuro da cabine de edição, ele mexia sem parar nos controles, tentando identificar o momento exato em que a Messias de fato sumia de vista. Talvez houvesse aí um quarto milagre. Concentrando-se no segmento da fita rodado pouco antes do instante em que Jeza desaparecia. Feldman examinou uma boa tomada em que a figura da Messias permanecia enquadrada, visível o tempo todo, conspícua, imersa num mar de observadores ao lado do furgão, até que se virava de súbito e parecia simplesmente evaporar-se.

Voltou a fita pela enésima vez, ampliou a visualização um pouco mais, deu um zoom na imagem granulada e burilou pacientemente com os controles, a fim de aprimorar a resolução do imaculado rosto da Messias. Quadro por quadro, foi avançando a fita até os últimos momentos em que ela olhou diretamente para a câmera, no exato instante anterior à virada, quando enfim se desvaneceu. Depois de algum esforço, ele conseguiu obter a melhor nitidez até então. Aí pôde enxergar seus traços dignificados e divinos com maior clareza. Aquele olhar infinito, capaz de deixar os nervos à flor da pele! Deveras atraído, viu-se mais uma vez subitamente arrebatado pela sensação inquietante, paralisadora e estonteante que passara a reconhecer muito bem.

Qual nas experiências anteriores, logo retomou o equilíbrio, impressionado pelo fato de que uma mera imagem de vídeo pudesse afetá-lo de maneira tão profunda. Mas, de repente, os cabelos de sua nuca se eriçaram. Suas mãos começaram a tremer. Faltou-lhe o fôlego e ele começou a girar vagarosamente sobre a cadeira. Ali, com a silhueta ressaltada no meio do vão da porta, calada e imóvel, encontrava-se a esbelta figura e envolvente presença de Jeza em pessoa.

Feldman ficou petrificado. Seu coração e sua mente dispararam. Iluminada por trás, ela estava com a aura de uma aparição. Feldman quase podia sentir as ondas de energia que ela irradiava.

— Venha comigo — foi tudo o que ela falou. Ele se levantou da cadeira e, em silêncio, pôs-se a seguir a moça imperiosa no seu passo acelerado corredor afora.

Como ela conseguira burlar o sistema de segurança e o vigia noturno para afinal entrar, ele não fazia idéia. Ela conduziu-o escada abaixo até a saída do prédio e os dois tomaram as ruas vazias.

Feldman nada questionou, contente por deixá-la comandar a situação. Seguindo-a de perto durante mais de uma hora, rumo ao oeste. Deixando a área urbana para trás, eles foram se aproximando do deserto, tomaram afinal uma trilha íngreme e sinuosa, que o deixou ofegante, e chegaram ao topo de um precipício, onde ela parou diante das primeiras luzes da manhã que surgiam lá embaixo, por trás da cidade do Cairo.

Jeza não estava arfante nem apresentava um indício sequer de transpiração. Virou-se para Feldman e, com um leve sorriso acolhedor, fez sinal para que se sentasse numa pedra grande e lisa. Depois dele, ela própria se sentou sobre uma pedra semelhante ali perto e ficou em paz, a contemplar a cidade.

Feldman não conseguia tirar os olhos dessa mulher extraordinária. Jamais estivera tão perto dela. Em tal proximidade, com os primeiros raios do sol da manhã a cingir-lhe o rosto, ela estava mais resplandecente do que nunca.

Ele se maravilhou mais uma vez com sua perfeição física. Não havia máculas, nem manchas ou rugas. Nem ao menos uma! Todos os seus traços eram primorosamente esculturais. Sua compleição, alva e luzidia. Seus olhos, tão claros e da cor da safira quanto o céu da noite que se esvaía.

Fitando Jeza agora sob o frescor matinal e recordando as circunstâncias bizarras de sua incubação artificial, ele se emocionou a ponto de sentir uma forte empatia por aquela desconhecida e seu isolamento.

Ela continuou sem nada dizer e Feldman estava determinado a esperar o quanto fosse necessário, a fim de evitar qualquer coisa que pudesse perturbar esse curioso relacionamento. Ficou acompanhando seu olhar incisivo a menear pelo cenário egípcio, absorvendo os extremos arquitetônicos de pirâmides antigas e arranha-céus contemporâneos. E quis saber o que se passava naquela mente alienígena e pré-fabricada.

Como que disposta a satisfazer as curiosidades dele, ela afinal se virou e apresentou-lhe um sorriso doce e reconfortante.

— Busco sua ajuda — disse ela, diretamente, com os olhos a invadi-lo, embora sem lhe causar os vertiginosos efeitos colaterais desta vez.

Seu olhar ainda era desconcertante. Afetava-o como um soro visual da verdade. Como se qualquer de seus pensamentos pudesse ser lido por ela instantaneamente. Em meio ao esforço de lidar com tal perturbação, Feldman conscientizou-se subitamente de algo mais. Ela nunca piscava. Pelo menos, não que ele tivesse percebido! Seu olhar era absolutamente inabalável.

Afastou tudo isso de sua mente e tentou concentrar-se na imprevisível solicitação.

— Minha ajuda? Hum, certamente! Claro! Como posso ajudá-la?

Ela começou a refletir.

— Já é quase o momento de deixar este lugar. Devo viajar para longe daqui durante um breve período e dar prosseguimento ao trabalho do Pai em outras terras. Você vai me auxiliar?

Feldman não entendeu bem o que ela queria.

— Auxiliá-la? Como?

— Providenciando transporte, acomodações e audiências com aqueles que preciso ver.

— Para onde você quer ir, quando deseja partir e com quem quer se encontrar?

— Minha primeira jornada será para a América, em duas semanas. Para me dirigir às religiões do mundo que se reúnem perto do grande lago de água salgada.

Ao que ela se referia, Feldman não tinha idéia.

— Claro — prometeu — eu farei isso, não tem problema. — Ele mal conseguiu se conter. Eis uma oportunidade para a RMN estabelecer um relacionamento direto com a celebridade mais famosa e procurada do mundo! Os benefícios e os índices de audiência eram incalculáveis.

— Quero falar com todos os representantes das religiões do mundo no último dia de seu encontro — acrescentou ela. — E também gostaria de lhe pedir para presenciar e registrar esses eventos.

Feldman abriu um amplo sorriso.

— Perfeitamente! Tomarei todas as providências de imediato. Agora, como faço para entrar em contato? Onde você se encontra? — Ele estava tentando agir informalmente, contendo o fôlego, na esperança de que ela lhe revelasse seu esconderijo.

— Eu o encontrarei aqui no romper do dia, daqui a uma semana, para saber dos seus planos.

— E se eu precisar entrar em contato com você nesse meio-tempo? ­— fez uma última tentativa.

— Não vou tornar a vê-lo antes de decorrida esta semana. — Ela disse isso como um fato, não uma decisão. — Preciso ir agora.

— Pois não! — concordou Feldman e os dois se puseram de pé.

Ele estendeu a mão para ela, que a apertou. A dela pareceu mínima dentro da dele. Tão cálida, tão lisa! Tão forte! Feldman tentou retirar sua mão, mas foi apanhado desprevenido pela sustentação do aperto dela. Jeza o estava segurando com firmeza. Não de uma forma ameaçadora, mas sim para assegurar um ponto.

— Você vai voltar só? — perguntou ela.

— Claro!

Ela mostrou-lhe o seu sorriso generoso mais uma vez e o soltou. Feldman começou a descer a trilha, absolutamente certo de que não a mais encontraria, quando se voltou para uma última espiada. Ela se fora.

 

                                 Os jardins do Vaticano, Roma, Itália

                                 14:15, sexta-feira, 18 de fevereiro de 2000

O cardeal Alphonse Litti estava sentado, pensativo e solitário, na beira do banco de pedra entalhada na Gruta de Lourdes, nos Jardins do Vaticano. Neste exato momento, a Congregação para a Doutrina da Fé se reunia com Nicolau VI, para apresentar o seu inquirendum formal.

Litti sabia que o seu relatório não se encontraria dentre aquelas páginas. Quatro dias antes, ele recebera das mãos de um portador uma epístola de Nicolau em resposta aos seus insistentes pedidos de uma audiência. Na carta, Nicolau expressava sua apreensão com a saúde de Litti e encomendava um exame completo pela equipe médica do Vaticano, seguido de férias prolongadas. Pelo tom, ficava óbvio que Nicolau estava ciente do relatório de Litti. E que o rejeitara.

O Papa não lhe concederia uma audiência, nem daria ao cardeal a permissão para comparecer à segunda convocação dos mórmons, em duas semanas.

Mas não havia mesmo nada no inquirendum formal que fosse surpreender o cardeal Litti. Conforme aludia o relatório preliminar, a determinação final da Congregação era de descrédito à legitimidade de Jeza como profetisa, muito menos como Messias. Faltando pouco para rotulá-la como fraude, a Congregação, ao pronunciar o solene julgamento da Sacrossanta Igreja, proclamou Jeza uma falsa testemunha da vontade de Deus. Na melhor das hipóteses, mal orientada, possivelmente ilusória.

O pontífice aprovou o documento do inquirendum na totalidade, elevou-­o ao status de encíclica e mandou que o despachassem com o selo Papal para todas as igrejas apostólicas, a fim de ser imediatamente distribuído para as suas congregações.

Daí por diante, os fiéis ficavam instruídos a não fazer caso dos ensinamentos de Jeza nem a lhe prestar atenção ou acolher suas palavras e feitos.

 

                         Sede regional da RMN, Cairo, Egito

                         10:12, sábado, 19 de fevereiro de 2000

A novidade do contato de Feldman com Jeza fez com que os altos escalões internacionais da RMN abrissem uma champanha e brindassem ao vitorioso rapaz que, sozinho, lhes garantira a liderança incontestável dos noticiários mundiais durante pelo menos três semanas.

Todas as engrenagens da RMN foram acionadas para os preparativos. Agora que compreendiam o que Jeza quisera dizer com as "religiões do mundo que se reúnem perto do grande lago de água salgada", não se poupariam despesas para assegurar-lhe o comparecimento em segurança à convocação dos mórmons. Equipes de advogados ficaram encarregadas dos aspectos legais do transporte internacional da nova Messias, de vez que ela não possuía um país oficial de origem: nem passaporte, nem certidão de nascimento, nem registros médicos.

Os advogados também teriam de lutar contra a onda de processos judiciais da mídia concorrente que decerto se seguiriam tão logo a RMN obtivesse dos mórmons um contrato de exclusividade para a cobertura do "Superbowl Sagrado", ímpio apelido que Feldman dera ao evento.

A segurança seria um pesadelo de proporções extraordinárias. Com os milhões de pessoas que indubitavelmente assomariam, as tarefas de levar Jeza para a cidade, conduzi-la até o pavilhão de convenções, tirá-la de lá e depois da cidade outra vez exigiriam muito esforço.

E embora a RMN tivesse desejado retardar a divulgação do evento o máximo possível, a fim de evitar interferências em seus preparativos, não havia como manter fechado o caldeirão com uma história desse porte fervilhando lá dentro. As informações vazaram rapidamente e a RMN se viu assolada por telefonemas, telegramas e bilhetes provenientes de toda parte do globo. Um comunicado que conseguiu escapar à avalanche de mensagens foi um recado da Casa Branca. O chefe da campanha presidencial, Edwin Guenther, solicitou uma ligação telefônica de Jon Feldman.

Absorto numa inflamada reunião a milhares de quilômetros de distância, Brian Newcomb, chefe do Comitê de Reeleição Presidencial do Partido Democrata, se pronunciava quanto ao audacioso plano em discussão.

— Fazer com que o presidente se encontre com esta charlatona é uma tolice — bradou para Guenther do outro lado do Salão Oval. — Não sabemos nada a seu respeito. Caramba, sequer sabemos se ela é uma mulher!

Guenther, absolutamente tranqüilo na linha de fogo, virou-se pacientemente para o seu presidente.

— Al, há momentos em que olhamos para uma oportunidade perdida no decorrer de uma campanha e ficamos com vontade de acertar um pontapé no próprio traseiro. Se perdermos esta, caramba, vamos ficar dando chutes na bunda um do outro até novembro! Veja só o que está acontecendo agora. Esse calouro do McGuire está ganhando nas pesquisas...

— É — interrompeu Newcomb — depois que você o deixou levar a melhor em New Hampshire por ter resolvido nos deixar fora das primárias durante tanto tempo!

Guenther ignorou o tapa.

— Mas veja de onde vem o apoio dele... dos fundamentalistas religiosos. Os milenaristas! Eles constituem vinte e sete por cento dos votos neste exato momento. Eles são os indecisos, Al, e são o ganha-pão de McGuire.

O presidente Allen Moore estava visivelmente intrigado, para espanto do chefe do seu comitê de campanha.

Guenther prosseguiu.

— Precisamos de algo para separar McGuire do bloco de eleitores dele, e que maneira melhor do que esse ídolo religioso na pessoa de uma mulher sexy, maravilhosa? Um encontro rápido, uns bons retoques fotográficos, manchetes nas primeiras páginas e cobertura da TV por todo canto! E podemos dar um jeito de evitar que McGuire sequer chegue perto dela.

— E como é, exatamente, que você propõe fazer isso? — desafiou Newcomb.

— Fácil! — retomou Guenther com um sorriso confiante se abrindo em seu rosto redondo. — A RMN e os mórmons precisarão descascar vários abacaxis até conseguirem trazer a mocinha para dentro do país. Ora, podemos colocar mais abacaxis no caminho, ou podemos eliminar todo e qualquer empecilho, dependendo do quanto eles estejam dispostos a cooperar conosco. Já fiz chegar um recado a Jon Feldman com esse propósito e estou bastante inclinado a acreditar que ele encontrará uma forma de nos incluir na sua programação.

— Mas isso não... — começou a falar Newcomb, mas o presidente o interrompeu com um gesto.

— Não, Brian, eu gosto disso — resolveu Moore. — Precisamos chegar aos milenaristas de alguma forma, e eu não estou vendo outra maneira de fazê-lo. Mas vamos usar a cabeça. Um encontro semi-privado. Nada onde a imprensa consiga nos arrastar para uma polêmica! Algo simpático e indistinto, sabe? Talvez aqui, em frente à lareira! Mas não vamos perder o controle dos fatos.

Guenther percebeu que o seu comandante-em-chefe estava começando a perceber o potencial ali contido.

— Que tal se trouxermos um deficiente físico — brincou — para ver o que ela é capaz de fazer com ele? Porra, não seria incrível se ela conseguisse curar alguém de verdade bem aqui no Salão Oval, em cadeia nacional?

 

                        Periferia do Cairo, Egito

                         5:30, quinta-feira, 24 de fevereiro de 2000

Feldman ficou uma hora inteira andando de carro a esmo, apenas para se certificar de que ninguém o estava seguindo. Levando em conta o aviso de Jeza para que fosse só, tanto ele quanto a RMN não queriam prejudicar a fabulosa oportunidade que tinham nas mãos. Estacionou o Land Rover a mais ou menos um quilômetro da colina onde vira Jeza pela última vez, pegou uma sacola de viagem no banco traseiro e percorreu o restante do caminho em passo acelerado, de olho na paisagem esparsa ao seu redor.

Verificando o relógio, ele subiu a ladeira na hora certa e chegou ao topo bem a tempo de encontrar a Messias sentada de pernas cruzadas em seu lugar habitual, em profunda meditação.

Sempre um apreciador das oportunidades de observar essa mulher fascinante, Feldman ficou parado, educadamente aguardando a atenção dela.

Ainda envolvida em seus pensamentos próprios, sem se virar, ela disse com sua voz tranqüila e reconfortante:

— Venha sentar-se aqui para orar comigo.

Feldman sentou-se desajeitadamente sobre a pedra que lhe fora designada ali perto e ela estendeu-lhe a mão. Ele envolveu a pequena mão na sua e fechou os olhos para acompanhá-la. Passados cinco minutos, Feldman começou a ficar impaciente e arriscou uma olhadela para a companheira. Ela permanecia imóvel e plácida em suas contemplações, de olhos ainda fechados, pacata e tranqüilamente. Entretanto, como se fosse capaz de detectar o olhar dele, falou:

— Obrigada por ter vindo! Que novidades me traz? — Ela abriu os olhos então e virou-se para ele com um sorriso acolhedor.

Talvez ele estivesse começando a se acostumar, mas o olhar dela teve menos impacto esta manhã.

— Boas notícias, Jeza! — respondeu Feldman, balançando a cabeça para clarear rapidamente as idéias. — Como você tem passado?

— Muito bem. Você também está bem — afirmou ela.

— Estou, sim — concordou Feldman, correspondendo ao sorriso. ­— Tomei providências para a nossa viagem; quer que eu lhe conte agora?

— Quero, sim.

— Partiremos no sábado, dia 4 de março, às oito horas da manhã, num Boeing 747 especialmente fretado. O avião está totalmente equipado com um quarto reservado para você. Ducha, cama e serviço de bordo inteiramente à sua disposição. Faremos um vôo sem escalas até Washington, D.C., onde pernoitaremos.

Ele interrompeu a narrativa aqui. Tratava-se de um empecilho que ele não sabia bem como abordar. Por ser a sua solução mais usual, entretanto, apelou para a verdade.

— Jeza, talvez você já esteja ciente disso, mas o fato de não ter documentos oficiais de identidade pode dificultar o seu traslado para outros países. A fim de garantir a sua entrada nos Estados Unidos, fui forçado a assumir um pequeno compromisso. Espero que você não se oponha.

Ela ficou calada, perscrutando as profundezas dele com seus olhos inquietantes.

— O presidente dos Estados Unidos quer conhecê-la. Ele deseja receber uma visita sua, quer que vocês tirem fotografias juntos, que você jante com ele e a sra. Moore e que passe a noite na Casa Branca. Você aceitaria o convite? — Feldman conteve o fôlego.

— Se é o que você deseja para mim — disse ela, sem refletir um momento sequer.

Feldman não estava preparado para uma concessão tão rápida assim e, por um breve instante, perdeu o fio de seus pensamentos.

— Ah, sim, que maravilha! Ora, isso simplifica bastante as coisas. Obrigado! Ah, então, partiremos para Salt Lake City na manhã seguinte bem cedinho, para dar tempo de você se apresentar ao meio-dia na convocação. É um ritmo um tanto acelerado, mas lhe parece aceitável?

— Sim. Fico agradecida pelo seu esforço.

— Há algumas outras coisas que serão exigidas de você, Jeza. Por exemplo, há certas vacinas e procedimentos profiláticos a que você deverá se submeter para preservar sua saúde durante a visita. Todos podem ser feitos por via oral, bastando você ingerir alguns remédios que eu trouxe comigo.

Jeza recebeu dele algumas pílulas, cápsulas e ampolas dentro de invólucros lacrados e, sem nada comentar, abriu-os, dispondo-os em seguida sobre a beirada da pedra onde estava sentada. Depois, pegou os remédios de uma só vez e jogou-os todos dentro da boca com um gesto rápido e preciso.

Feldman ficou estarrecido, receoso de que ela se engasgasse, e piscou para afugentar a surpresa quando Jeza se virou para ele tranqüilamente, aguardando as próximas instruções.

Ele não conseguiu conter uma risada, que ela correspondeu com um sorriso.

— Agora eu preciso tirar uma rápida fotografia sua — disse Feldman, retirando logo uma máquina Polaroid da bolsa e batendo prontamente alguns instantâneos. — E também preciso que você leia e assine alguns documentos. — Ele abriu um fichário e o colocou diante dela, indicando com um X as linhas onde deveria constar sua assinatura.

Ela não fez nenhuma moção de ler os documentos, mas pôs-se imediatamente a marcar as linhas com suas "assinaturas", que Feldman percebeu com bastante interesse tratarem-se de Estrelas de Davi perfeitamente desenhadas.

Devolvendo os papéis para Feldman, ela fitou-o inquisitivamente nos olhos.

— Por ora é só — informou ele. — Você quer fazer alguma pergunta?

— Não.

— Eu trouxe comigo alguns bolinhos doces e um pouco de café, se você quiser me acompanhar num pequeno desjejum — ofereceu Feldman, esperançoso de conseguir prolongar o encontro. Tirou da bolsa uma garrafa térmica e abriu uma merendeira convidativamente.

Jeza balançou a cabeça e se pôs de pé com agilidade.

— Fico agradecida, mas estou jejuando e preciso voltar agora para o deserto, a fim de concluir minhas preces matinais.

— Ora, então eu acho que voltaremos a nos ver no próximo sábado aqui, no mesmo horário? Ou... — estava empreendendo nova tentativa ­— você quer que eu a pegue em algum lugar?

— Estarei aguardando a sua chegada aqui com os primeiros sinais do amanhecer, nove dias a partir de hoje. Posso tratá-lo pelo primeiro nome?

— Claro! Claro! — retrucou ele, tentando desajeitadamente se levantar sem a ajuda das mãos, que estavam ocupadas com o café e um bolinho. — ­Pode me chamar de Jon.

— Obrigada, Jon! — disse ela, e percebendo a dificuldade dele, dispensou o aperto de mãos de praxe.

Tomando a sentar-se sobre a pedra para saborear o seu café da manhã, Feldman observou-a entrar no mato a passos lépidos, sua túnica e seus cabelos revoltos esvoaçando atrás dela. À medida que Jeza foi se distanciando, ele começou a se perguntar para onde ela ia e o que fazia. Os raios do sol matinal refletiam-se no chão do deserto, levantando ondas de ar quente na esteira de onde ela passava, criando distorções atmosféricas que em poucos instantes, ele seria capaz de jurar, a dissolveram no nada.

 

                       Aposentos do Papa, Vaticano, Roma, Itália

                       11:12, sexta-feira, 25 de fevereiro de 2000

Nicolau VI estava parado à janela de seu gabinete, olhando para as colunatas da Praça de São Pedro. Uma vista privilegiada de Roma, ainda que não lhe trouxesse consolo algum esta manhã.

Ao se aproximar dos aposentos Papais, o cardeal Antonio Di Concerci conseguiu ver seu pontífice através do vão da porta, mas parou antes do batente e, respeitosamente, anunciou sua chegada.

— Tony, por favor — o Papa o aguardava ansiosamente — que notícias você me traz de Alphonse?

— Não são boas, Santidade — retrucou o prefeito, taciturnamente. —­ Conforme já se sabe, ele abandonou os aposentos sem nada dizer. Todos os seus pertences pessoais, e somente os seus pertences pessoais, sumiram. Ontem ele zerou sua conta bancária no Vaticano e hoje, às sete e meia da manhã, um guarda suíço na praça o viu partir num táxi. Levava consigo três malas e um baú. Estamos procurando em todos os hotéis da cidade agora.

— Eu sugeriria que vocês experimentassem o aeroporto. — Nicolau soltou um suspiro profundo.

— Acha que ele saiu do país? — perguntou o prefeito.

— Acho que sim, Tony. Creio que ele foi atrás da obsessão de seguir essa falsa profetisa. Você estava a par do quanto ele fazia questão de comparecer à próxima convenção mórmon. Ao ficar sabendo que a tal Jeza apareceria por lá, tenho certeza, a tentação mostrou-se maior do que ele foi capaz de resistir. Especialmente no agitado estado mental em que se encontra! — O pontífice tornou a olhar pela janela, como que a procurar pelo seu cardeal perdido.

Contraindo o semblante, Di Concerci acompanhou o olhar de Nicolau.

— Receio que não vamos nos ver livres facilmente desse embuste sedutor, Papa.

Nicolau virou-se devagar e olhou perturbado para o seu prefeito.

— Sim, receio que nossa encíclica não tenha sido suficientemente bem recebida. Os atrativos dessa mulher são fortes demais para muitas pessoas. Estamos às voltas com sérias rebeliões em nossos contingentes... por todo canto, não só nos Estados Unidos. E não são apenas os nossos paroquianos, Tony — aprofundou-se o Papa. — Estamos perdendo padres, freiras e até uma certa quantidade de bispos. A mídia está nos dando a extrema-unção. Pode imaginar o que eles farão se ficarem sabendo da deserção de Alphonse? Perder um cardeal... membro da Cúria, ainda por cima!

— Sem dúvida, Santo Padre! — comiserou-se Di Concerci. — Não consigo dormir direito por causa disso.

— Eu também venho tendo dificuldades para dormir. E se por acaso caio no sono por alguns instantes, tenho sonhos atormentadores, que se repetem a toda hora e que não sei como explicar. Encontro uma certa figura furtiva, em diferentes formas. Ela vive nos arredores, está sempre por perto, mas sempre na periferia. Desaparece a um passo de mim; simplesmente dobra uma esquina e some. Uma silhueta familiar, só que não consigo ver-­lhe o rosto nem fazer a conexão correta para identificar quem é. Creio que Deus está me enviando um sinal, Tony, mas ainda não consigo lê-lo.

— Uma intervenção divina seria muito bem-vinda neste exato momento — concordou o cardeal. — Todos estamos rogando por uma orientação.

O Papa parou um instante, observando seu conselheiro atentamente.

— Tony, eu desejo lhe pedir um favor importante.

— Qualquer coisa que quiser, Santo Padre — retrucou Di Concerci.

— Tony, quero que você vá a essa segunda convenção interdenominacional nos Estados Unidos.

A expressão positiva de Di Concerci se evaporou.

— Tomara que você consiga convencer Alphonse a voltar. Mais do que isso, entretanto, quero que você tenha uma experiência em primeira mão e faça uma avaliação dessa misteriosa Jeza, essa moça que a tantos tem enfeitiçado, inclusive um dos nossos membros da Santa Sé. Mandei reservar um assento para você na mesa diretora. Eu gostaria que você e outro cardeal, de sua escolha, representassem a Cúria na convocação. Tomara que, enquanto estiver lá, você encontre Alphonse e o traga de volta à razão. — Nicolau colocou as mãos sobre os ombros de Di Concerci. — ­Traga Alphonse de volta, Tony. Traga-o de volta. Mais importante ainda, traga de volta com você uma resposta para este problema que se difunde e agrava mais a cada dia que passa.

 

                           Centro Mórmon de Convenções, Salt Lake City, Utah

                           9:00, quinta-feira, 2 de março de 2000

Como era de se esperar, os organizadores mórmons se mostraram mais do que receptivos aos preparativos da RMN. Jeza seria incluída no cronograma dos trabalhos no momento em que a RMN pedisse, durante o tempo que a RMN desejasse. A RMN também teria direitos exclusivos de cobertura para toda a convenção, com inclusões de horários programados para patrocinadores e anúncios comerciais, à exceção da fala de Jeza, que deveria ser transmitida ao vivo e sem interrupções.

Subseqüentemente, a atmosfera para esta alardeada Segunda Convocação Interdenominacional das Crenças Religiosas do Terceiro Milênio estava muito diferente da primeira. Em primeiro lugar, graças ao aviso do comparecimento da nova personalidade, a convocação angariara muito mais respeito e interesse pelo mundo afora. Literalmente da noite para o dia, os mórmons se viram atropelados por inúmeras solicitações de inscrições. Só na primeira hora depois que uma estação de rádio de Washington vazara os rumores sobre uma possível participação de Jeza na programação, os mórmons haviam recebido mais de quatrocentos mil pedidos do mundo inteiro, por telefone, fax, e-mail e telegrama, sem incluir aí as invasões feitas em pessoa ao próprio Pavilhão do Tabernáculo.

O "Superbowl Sagrado" era, inquestionavelmente, um evento de proporções épicas. A agitação nas comunidades religiosas do mundo era eletrizante. E, apesar de toda a lotação esgotada, milhões de ávidos peregrinos ainda convergiam para a cidade às margens do grande lago salgado.

Era tanta gente de fato, que o governador de Utah se viu forçado a encarregar a Guarda Nacional de fiscalizar o fluxo inédito de peregrinos.

Foram montadas barracas comunitárias e uma estrutura de preparo e distribuição de sopa, a fim de atender aos inúmeros desabrigados e aflitos que haviam afluído ao local somente para que pudessem estar perto de sua Salvadora. Carros, trailers e reboques faziam filas quilométricas ao longo das principais vias de acesso à região.

Pelos bulevares em torno do centro de convenções espalhavam-se camelôs, mascates espirituais e empreendedores religiosos de todos os matizes, vendendo de tudo, desde camisetas, cinzeiros e relógios com insígnias de Jeza, até sanduíches vegetarianos em prol dos animais de Jeza. Inclusive a prostituição, praticamente desconhecida desta Cidade Abençoada, chegara numa desforra oportunista. Para desespero da comunidade religiosa alguns dos andarilhos mercantilistas até se vestiram de forma a parecer-se com a figura da profetisa: com perucas de negras cabeleiras revoltas, o rosto com espessas e reluzentes camadas de pó-de-arroz branco, os olhos com lentes de contato azul-escuras e esvoaçantes túnicas brancas. De acordo com os boatos, os cambistas já estavam cobrando até duzentos c cinqüenta mil dólares por um lugar privilegiado no pavilhão, pagos de bom grado por abastados indivíduos com sérios problemas de saúde, que esperavam por uma cura milagrosa. A "Febre de Jeza" se espalhava por todo canto, conforme alardeavam inúmeros plásticos colados sobre os pára-choques de diversos veículos. Igrejas, templos e mosteiros montavam telões de TV em seus altares, propagandeando o evento em cartazes pendurados em suas marquises ao ar livre.

Foi nesta bizarra atmosfera circense que o cansado e emocionalmente exausto cardeal Alphonse Litti baixou, ao chegar de seu vôo transcontinental pela manhã. Na condição de convidado especial à primeira convocação e membro da prestigiosa Cúria católica romana, ele conseguira assegurar para si um cobiçado assento na primeira fila da platéia no pavilhão, exatamente em frente ao palco, logo atrás da mesa diretora. Entretanto, depois de despesa tão volumosa, haviam sobrado ao cardeal, parcos recursos para atender às suas necessidades de acomodação. Foi preciso contentar-se com um quartinho de pensão de terceira categoria, a diversos quarteirões de distância do centro de convenções.

Depois da corrida no táxi que o trouxera do aeroporto, parado sozinho diante da pensão com suas três malas de couro e o baú, o desempossado cardeal fez um levantamento da situação em que se encontrava. Trazia consigo seus únicos pertences no mundo. Quatro batinas pretas com bainhas púrpuras; dois mantos em vermelho e preto (um leve e um pesado); dois barretes vermelhos; seis camisas brancas; seis colarinhos eclesiásticos; um suéter preto; um escapulário; uma banda carmim; uma faixa púrpura; quatro conjuntos de roupas íntimas e dois pares de sapatos sociais pretos. Havia também sua preciosa coleção de livros e apostilas; souvenires e objetos pessoais variados; fotografias de seus pais e de sua infância.

Decerto que muitos cardeais tinham posses mais abundantes e melhores do que ele, Litti bem o sabia, mas o cardeal sempre levara o seu voto de pobreza a sério. Ainda um jovem padre, ao lado da mãe no hospital, quando ela fora abatida pela tuberculose, Litti prometera a São Judas Tadeu, santo do impossível, que se o bom apóstolo ao menos poupasse a vida de sua mãe, ele daria para a caridade metade de todo dinheiro que viesse a ganhar. Embora São Judas não tenha cumprido a parte que lhe cabia no acordo, Litti jamais abrira mão da sua.

Para o cardeal, esta viagem a Utah era, de diversas maneiras, uma jornada sem volta. O pacote todo, bilhete de entrada para a convocação, hotel, passagem de avião só de ida, etcetera, custara-lhe as economias de toda a vida: a minúscula herança de seu pai, que Deus o tenha; moedinhas amealhadas ao longo de quarenta e oito anos de servilismo mal pago e fiel à sua Igreja; e o fruto da penhora de seu anel de cardeal.

Para onde iria depois, Litti não fazia idéia. Tudo o que lhe restava na carteira eram 626.350 liras - mais ou menos quatrocentos dólares. Mas levava no coração a inabalável confiança de que aquilo que estava fazendo era o certo. E, para Alphonse Litti, isso era abastança suficiente.

Hoje também estava presente na cidade o reverendíssimo Solomon T. Brady, DD. Ele havia chegado um pouco mais cedo e estava hospedado num hotel substancialmente requintado, em estado de espírito consideravelmente melhor do que na convocação anterior. Embora tivesse ingressado em sua estratégia tele-evangélica para angariar fundos pouco antes, já conseguia prever o sucesso. Suas linhas telefônicas de chamadas pagas que funcionavam durante as vinte e quatro horas do dia, com conselheiros treinados sempre à disposição para atender as ligações e requisitar doações, estavam operando no auge de sua capacidade. As coisas pareciam ter retornado aos devidos lugares no Reino Universal.

E, comparecendo pela primeira vez à convocação, outro ministro televisivo aparecia em grande estilo. Chegando ao seu hotel de quatro estrelas numa limusine púrpura, ostentando um séquito de gente bonita, o elegante primeiro-reverendo Fischer, do Conselho de Liderança Samaritana, mudara recentemente seu nome de "Richard" para "Peter", a fim de refletir seu renovado papel de "Pescador de Homens".

Ainda condenando a revelação da RMN como caluniosa e ainda professando uma conexão íntima com a Messias, o reverendo Fischer, diziam, teria pago uma exorbitante quantia por dois assentos de primeira fila para si próprio e uma jovem loura pueril e atraente a quem ele se referia como "minha pobre orfãzinha".

 

                                         Periferia do Cairo, Egito

                                         5:45, sábado, 4 de março de 2000

Para sua incursão ao deserto, Feldman partira demasiadamente cedo, assolado pelo temor de que, desta vez, Jeza não estivesse esperando por ele.

Tratava-se de uma preocupação detonada por mais um daqueles irritantes sonhos que o vinham acometendo com tamanha regularidade, deixando-o perplexo.

Ao chegar à conhecida colina, estacionou seu Rover à base e subiu correndo, com o coração acelerado mais por conta da ansiedade do que do esforço físico em si. Fatidicamente, seus piores temores logo se confirmaram.

Nada de Jeza! E com a alvorada que já se fazia presente por trás do horizonte linear do deserto, não enxergou sinal dela em toda a vastidão que se descortinava.

Ele começou a examinar a humilhação e os prejuízos financeiros que essa ausência traria para si próprio e sua companhia. O mundo inteiro se desvelava à espera do grande evento, sendo Feldman o escolhido como mestre-de-cerimônias.

Recusando-se a reproduzir os termos de seu sonho, resistiu à tentação de chamar por Jeza ao léu. Resolveu que simplesmente esperaria, torcendo por sua chegada. Olhou para o relógio. Seis da manhã! Brotava a aurora. Ela afirmara que ali estaria junto com a primeira luz do dia. Ele cruzou os braços, impaciente.

— Bom dia! — falou baixinho uma voz por trás dele.

Feldman deu meia-volta, alvoroçado e aliviado ao mesmo tempo. Desta vez ela só poderia ter vindo pela mesma trilha que ele, logo atrás. Feldman simplesmente admitira que ela chegaria pelo deserto, pois fora a direção em que partira.

— Alô! — respondeu ele, encabulado, com um sorriso tímido. — Que bom ver você!

Ela correspondeu ao sorriso.

— Deixou suas malas ao pé da colina?

— Não tenho malas — explicou ela, simplesmente.

Feldman franziu o cenho e ficou pensando como ela conseguia se virar só com as roupas do corpo.

— Não importa — disse ele, alegremente. — Deus proverá! Ou pelo menos a RMN proverá. Já temos tudo de que você vai precisar, desde roupas até escova de dentes. Está pronta?

Ela assentiu.

— Pois bem, então! — Ele estendeu a mão, ela a pegou, e os dois desceram o morro juntos até o automóvel dele.

— Você já andou de carro antes? — perguntou ele, enquanto se dirigiam ao ponto marcado para tomarem o helicóptero que os conduziria ao aeroporto do Cairo.

— Não.

— E de helicóptero ou de avião?

— Não.

— Vai gostar — assegurou-lhe, embora não deixasse de se perguntar se essa implacável mulher teria alguma vez vivenciado alegria ou prazer verdadeiro. Jamais ouvira um riso seu. E embora ela sorrisse ocasionalmente, eram sempre sorrisos fugazes, que não convenciam de todo.

O helicóptero era uma precaução, por segurança. Bastaram rumores de que a Messias partiria do aeroporto do Cairo para que as multidões tivessem lotando as áreas públicas e os portões há dias! A maneira mais fácil de evitar quaisquer embaraços era levar a profetisa por via aérea, acima da massa de gente, e depositá-la direto à porta do avião.

As providências clandestinas da RMN para o vôo de Jeza, graças à cooperação total da Casa Branca, haviam sido bem orquestradas. O jato fretado estava parado, só e sem importunações, numa área deserta do aeroporto. Mas Feldman sabia que todo um contingente de pessoal de segurança da CIA estava espalhado indistintamente pelos arredores imediatos.

À parte os quatro membros da tripulação e duas aeromoças, Hunter e Cissy McParland eram os únicos passageiros que Feldman e a RMN haviam permitido a bordo. Feldman achara que pelo menos uma funcionária da RMN deveria estar a bordo, caso Jeza precisasse de alguma assistência pessoal durante o vôo. Em circunstâncias normais, Cissy teria sido a opção automática. Mas devido ao seu conhecido conflito com Hunter, fora preciso um esforço extraordinário da parte de Feldman para convencer os superiores hierárquicos da RMN. E isso só se deu depois que Cissy focalizou seus grandes olhos verdes em Feldman e fez uma jura de sangue que nem o próprio demônio seria capaz de provocá-la a ponto de causar um novo incidente.

Feldman também precisou extrair um voto solene de Hunter no sentido de não dizer nem fazer sequer uma besteira durante a viagem que pudesse gerar algum antagonismo com Cissy. Mas Feldman percebeu que essa questão não estava sob o controle possível de Hunter, de forma que tinha algumas outras considerações em mente quando a porta do jato foi fechada e ele e a profetisa tomaram seus luxuosos assentos no corpo central da aeronave. O jato foi imediatamente liberado para decolar, e logo eles estavam correndo pela pista e subindo em direção a um céu azul sem nuvens, dando início à longa viagem para a América.

 

                           Casa Branca, Washington, D.C.

                           7:20, sábado, 4 de março de 2000

Numa reunião durante o café da manhã no jardim de inverno da Casa Branca, os assessores de campanha Brian Newcomb e Edwin Guenther discordavam quanto à agenda presidencial do dia. Já haviam sido informados de que Jeza se encontrava em pleno vôo e que seu ambicioso plano estava em andamento. O presidente, que havia intencionado juntar-se a eles, fora retardado por um telefonema e insistira para que eles começassem sem a sua presença.

— É melhor que essa tramóia venha a angariar o apoio dos milenaristas — advertiu Newcomb, enquanto atacava um prato de ovos mexidos com bacon — porque nós estamos enfurecendo o resto da mídia com esse negócio de só deixarmos a RMN fazer a cobertura do jantar de hoje.

— Está tudo bem aqui — respondeu Guenther, confiante, batendo com a ponta do garfo sobre um enorme documento encadernado. — Cinco relatórios de pesquisa, independentes e distintos. Essa Jeza tem muita influência junto aos milenaristas! Tudo o que Al precisa fazer é ficar ao lado dela que nós vamos conseguir um aumento de dezessete a vinte por cento nos seus índices.

— Mais razão ainda para nos atermos ao plano de jogo — ressaltou Newcomb. — Bastaria trazê-la para almoçar aqui; mas um jantar formal e uma recepção? De uma hora para a outra? Vamos ter que matar muito tempo. O que não falta é oportunidade para que as coisas desandem. Nós não sabemos quase nada sobre a mulher. Já me disseram até que ela é maluca de carteirinha. Porra, essa menina pensa que é uma versão feminina de Jesus Cristo!

— Se ela é maluca, não é mais do que muitos dos fanáticos religiosos que já desfilaram pelo Salão Oval. — Guenther não se furtou a falar de boca cheia. — E nenhum deles nos trouxe benefício algum. Além do mais, uma visitinha de médico não adiantaria nada. Ela é importante demais! Fazê-la vir lá do outro lado do mundo até aqui para um almoço rápido e depois mandá-la embora daria a impressão de que Al é um caçador de votos superficial. Porra, o mundo inteiro está pensando que ela é Deus! E é melhor nós a tratarmos como tal.  

— Acho que estou ficando com medo — confessou Newcomb, esfregando o rosto. — Não vamos deixar que Jon Feldman se afaste. Pelo menos, parece que ele exerce algum controle sobre ela.

— É. Ele é um bom sujeito; cedeu a tudo que pedimos.

— Não que ele tivesse muita escolha, não é mesmo? — acrescentou Newcomb, rindo.

Guenther riu junto.     

— O poder da presidência!

— Mas eu fiquei sabendo que ele nos fez uma exigência — mencionou Newcomb.

— Ah, é? E qual foi?

— Ele nos fez prometer que não a colocaríamos na berlinda nem tentaríamos fazer com que ela realizasse algum milagre.

— Porra! — disse Guenther, fingindo-se desapontado. — Eu ia pedir que ela tirasse dez quilos da minha cintura e acrescentasse dez centímetros ao meu salsichão aqui!

Os dois caíram na gargalhada.

 

                               Sobrevoando o Atlântico

                              10:10, sábado, 4 de março de 2000

O enorme jato de quatro turbinas que a RMN fretara especialmente para esta viagem era de propriedade particular de um xeique do petróleo saudita. Além de oferecer luxuosos assentos de tamanho avantajado e estofados em couro, a aeronave passara por uma reforma, de modo a comportar um amplo e confortável aposento no compartimento frontal com uma enorme cama de casal, uma elegante sala de jantar e todos os apetrechos que têm os incalculavelmente ricos. Feldman ficara curioso quanto à reação que Jeza demonstraria diante de tanta extravagância e viu o vôo como uma oportunidade especial de obter maior discernimento acerca da natureza dela. Não se decepcionou. Mas ficou surpreso.

Desde o início da viagem, Feldman ficara um tanto aturdido pela inexplicável consciência e compreensão que Jeza tinha do seu entorno. Ao tentar ajudá-la com o cinto de segurança na hora da decolagem, por exemplo, percebeu que ela não precisava de instruções. O mesmo aconteceu com os ajustes eletrônicos do assento, a regulagem da saída do ar-condicionado, o direcionamento da luz individual do passageiro, ou o manuseio dos controles no braço da poltrona para escutar música nos fones de ouvido. Ela manejou todos os equipamentos com facilidade e eficiência, sem precisar de ajuda.

Ainda na parte inicial da viagem, Feldman também descobrira, ao tentar apontar algumas das localidades e cidades mais marcantes que estavam sobrevoando, que Jeza também estava em dia com a geografia. Depois ele dissertar para ela sobre diversas regiões do Mediterrâneo com ar professoral, por engano ele identificara a ilha de Sardenha como sendo a Sicília. Ela o corrigira com informalidade e ele subitamente se dera conta, profundamente desapontado, de que ela estivera o tempo inteiro tolerando educadamente sua tentativa amadorística de servir-lhe de guia turístico. Mais uma vez, ele subestimara de maneira considerável essa mulher inconcebível.

Sempre atento às suas obrigações para com a RMN e um mundo ávido por conhecer mais sobre a misteriosa Messias, Feldman concentrou seus esforços no sentido de tentar envolver Jeza em discussões reveladoras. Com resultados mistos! A princípio, ela respondeu à maioria de suas perguntas com um simples sim ou não e mostrou-se preocupada, pouco comunicativa. Dado que haveria tempo bastante para que Feldman tentasse entabular novas conversas, ele achou melhor não pressioná-la e acabou por deixá-la em paz.

Durante este período, Hunter e Cissy mantiveram-se fielmente afastados nos assentos à frente, dando privacidade a Jeza e Feldman. Ocasional e discretamente, Hunter se voltava e filmava alguns instantes da profetisa com uma lente de zoom. Embora não pudesse deixar de perceber algumas dessas ocorrências, Jeza tolerou-as.

Não foi antes de decorridas cinco horas de vôo que um acidente desconfortável, porém afortunado, acabou abrindo as portas para uma característica anedótica da Messias.

Em pleno vôo sobre o oceano Atlântico, Jeza e Feldman estavam adormecidos, cada qual em seu assento, lado a lado. Cissy estava abraçada a um travesseiro e enrolada em um cobertor perto de Hunter, que olhava insipidamente pela janela, entediado.

Resolvendo que seria a oportunidade perfeita para fazer algumas tomadas em close da profetisa, Hunter saiu de sua poltrona, passou por Cissy e esgueirou-se lentamente até o fundo da aeronave. Foi o mais perto da profetisa que ousou chegar desde que fora apresentado a ela.

Embora Hunter tivesse sido absolutamente silencioso ao se aproximar, Jeza, qual um felino, percebeu sua presença e se aprumou com a velocidade de um raio, petrificando-o com seus gélidos olhos azuis. Feldman foi arrancado de sua soneca. Deu-se conta, imediatamente, do que ocorrera, mas não fez idéia de como a Messias poderia reagir a esta intromissão em sua cara privacidade.

Antes que Feldman pudesse decidir o que dizer ou fazer, Hunter se recobrou do olhar penetrante que o dominara c, tentando improvisar uma saída, falou atabalhoadamente:

— Srta. Jeza, eu estava só querendo saber, ahn, se você não se importaria, ahn..., de me mostrar como faz para desaparecer no meio de uma multidão assim sem mais nem menos. Eu, ahn, não vou contar para ninguém, juro por Deus! — Ele se retraiu diante de tamanha profanação.

O olhar de pânico no rosto de Hunter era tão patético que Feldman oscilou incontrolavelmente entre laivos de constrangimento, medo e divertimento.

Lá na frente, de seu assento, Cissy McFarland estava mais segura de suas emoções. Estivera prestando atenção ao desenrolar do incidente com uma curiosidade nervosa e agora se encontrava com o rosto enfiado no travesseiro, estarrecida.

Durante tudo isso, Jeza permaneceu sentada, imóvel. Franzindo levemente o rosto, com os lábios contraídos e as emoções indecifráveis!

Passados alguns instantes, ela se inclinou um pouco para a frente e, deliberada e lentamente, ergueu o braço diante do rosto até acima da cabeça, quando a manga de sua túnica cobriu-lhe o rosto por inteiro, qual um mágico a encobrir um objeto que fará desaparecer em seguida.

Hunter se encolheu para trás, apreensivo.

De repente, ela deixou cair o braço, revelando a cabeça completamente coberta por um negro véu islâmico tradicional.

Truque infantil, simples, mas eficaz! Para desaparecer no meio de uma multidão, tudo o que a Messias precisava fazer era se abaixar, jogar o véu por cima da cabeça e, instantaneamente, se imiscuir entre as miríades de outras mulheres vestidas da mesma maneira. Ninguém teria como perceber. E mesmo que suspeitasse, nenhum cidadão do Oriente Médio que se digne, iria sequer considerar a possibilidade de atentar contra o recato e o pudor do véu.

Hunter não tardou em sinalizar com um breve aceno que havia compreendido, agradeceu à Messias entusiasticamente e dirigiu-se às pressas para o fundo da aeronave, a fim de ali ficar, mantendo-se o mais discreto possível durante um bom tempo.

Assim que Hunter saiu, Jeza tirou o véu, exibindo um leve sorriso. Feldman ficou aliviado e satisfeito de ver que a Messias, de fato, tinha senso de humor. Virou-se para Jeza, sorrindo.

— Sabe, é natural que as pessoas tenham curiosidade com relação a você, Jeza — começou dizendo. — Você é uma pessoa muito importante e pouco se conhece a seu respeito.

— Eu não sou importante — disse ela, soltando um suspiro. — A Palavra é importante.

— Mas você é importante! Se as pessoas devem acreditar na sua mensagem, elas precisam acreditar em você. Isso só acontecerá a partir do momento em que comecem a conhecê-la.

— A Palavra é por si só — ela devolveu, inabalavelmente. — Pouco se sabe a respeito dos escritores dos quatro Evangelhos, entretanto suas palavras são imortais.

Feldman inclinou-se para ela e olhou bem dentro das profundezas de seus olhos.

— Bem, pelo menos eu gostaria de saber mais a seu respeito, Jeza.

Ela estava dentro da mente dele outra vez. Da alma dele! Feldman se sentiu suspenso diante dela, sem peso, como um fantasma. Ela tornou a suspirar, aparentando estar decepcionada.

— Você já viu mais do que qualquer outro e, ainda assim, quer ver mais. Abençoados sejam os que não vêem e, contudo, crêem!

Retraído e confuso, Feldman deixou-se afundar na poltrona.

Jeza fechou os olhos para voltar ao sono e murmurou baixinho algo que, a Feldman, pareceu: "...em seus sonhos". Embora ele tivesse a certeza de não ter entendido direito!

Cerca de meia hora mais tarde, uma aeromoça veio avisá-los que o jantar seria servido e perguntou se Jeza e Feldman não gostariam de se refrescar um pouco antes de ir para a sala de refeições.

Hunter, voltando do exílio a que se impusera, observou Jeza vindo em sua direção, a caminho dos seus aposentos reservados. Ele se recolheu a um canto, concedendo-lhe amplo espaço para passar. Mas, ao perceber isso, Jeza se aproximou e perguntou se ele e sua companheira não gostariam de jantar com ela e Feldman. Sentindo-se redimido, Hunter aceitou prontamente.

Feldman aprendera, com as duas primeiras refeições no avião, que Jeza seguia uma dieta bastante rígida e parca. Quando uma das aeromoças lhes trouxera os menus do desjejum, Jeza não pedira nada além de água. Na hora do almoço, ela ignorara os pratos de carne vermelha e branca, atendo-se a uma salada apenas.

No jantar, ela se serviu somente de um prato de verduras cruas e pãezinhos; sem manteiga. O que dificultou as coisas para os demais, que ficaram tentados — e acabaram sucumbindo — pelos requintados aperitivos, entradas e sobremesas! Quando lhe indagaram se não se opunha a que alguém tomasse vinho, ela retrucou sem pensar:

— O próprio Cristo apreciava o vinho.

Mas ela mesma não tomou.

Não tendo experimentado qualquer contato pessoal prévio com Jeza, mas com uma comprida lista de perguntas a instigá-la, Cissy tentou cuidadosamente a sua vez.

— Jeza, com licença! Espero que não se importe com a minha pergunta, mas há uma questão que você suscitou diversas vezes, um ponto sobre o qual ainda paira muita apreensão e ansiedade pelo mundo todo. A sua chegada realmente significa que o Último Dia é iminente?

Levando um copo de água aos lábios, Jeza parou e tornou a colocá-lo sobre a mesa. Ficou algum tempo calada antes de responder.

— Que haja no mundo afinal alguma apreensão quanto ao desejo do Pai, concordo, é bom. O propósito de minha vinda é divulgar a Palavra de Deus e revelar Seu plano para toda a humanidade. Eu lhe digo que a destruição do mundo pode assumir diversas formas e que a humanidade atraiu para si o juízo de Deus. Aproxima-se um grande julgamento. E tudo em breve será revelado, no momento apropriado, não antes.

A revelação trouxe sobriedade à reunião. Seguiu-se um silêncio prolongado e as demais perguntas de Cissy perderam subitamente o frêmito. Finalmente, numa tentativa de desfazer o desalento e recobrar a conversa, Cissy perguntou:

— Jeza, você parece levar uma vida difícil. Sem casa, sem posses, sem amigos íntimos! Como consegue?

— Você diz que não tenho amigos? — redargüiu ela, mostrando-se genuinamente surpresa. — Mas onde quer que eu esteja, as pessoas abrem seus corações para mim. Generosamente elas me oferecem abrigo, alimento, roupas. E quando parto, vou-—me com amizade. Nada me falta — falou Jeza com sinceridade. — Como é que minha vida pode ser difícil?

— Mas você nunca se sente solitária? — persistiu Cissy. — Nunca sente vontade de contar com alguma companhia, uma família, uma vida normal à parte de toda a agitação e das multidões?

— Encontro paz em minha meditação — respondeu. — Minha missão não é buscar as gratificações mundanas. Cada um de nós está aqui por um propósito. E ao atendermos a esse propósito, também atingimos a felicidade pessoal.

Feldman abriu a boca para fazer uma pergunta intencionalmente carregada. Uma pergunta difícil e perigosa que ele sabia, em última instância, deveria fazer à nova Messias. Mas reconsiderou. Embora bastante tentado, não ousou arriscar-se agora. Talvez no vôo de volta, se acaso resolvessem tudo o que tinham pela frente.

Após o jantar, Cissy se ofereceu para mostrar a Jeza o vasto guarda-roupa que lhe haviam preparado, com sapatos e acessórios inclusos. Ela não se mostrou interessada.

— Vou lavar a minha túnica hoje à noite e ela estará limpa e seca pela manhã — preferiu.

— Mas nem os sapatos? — indagou Hunter. — É inverno em Washington, e lá faz frio!

Jeza pousou os olhos em suas surradas sandálias de couro e mostrou-se perfeitamente satisfeita.

— Bem! — tentou seduzi-la Cissy — pelo menos me deixe mostrar­-lhe algumas das túnicas novas que temos. Você vai conhecer muita gente importante na Casa Branca e deverá estar bem-vestida.

Hesitante, Jeza acompanhou Cissy para os aposentos reservados, e elas fecharam a porta atrás de si.

— Que tal uma ou duas rodadas de Hyper War? — Hunter desafiou o colega para um vídeo-game no telão de TV da sala de estar. — Isto aqui está muito bem montado!

Enquanto Cissy e Jeza estavam ocupadas, Feldman e Hunter travaram uma batalha tridimensional no espaço sideral. Ficaram tão absortos que só quando Hunter deu um giro em torno de si mesmo para comemorar a destruição de um dos interceptores interestelares de Feldman os dois se deram conta de que havia alguém parado atrás deles. Hunter parou e assobiou. Cissy, exultante, estendeu a mão para orgulhosamente exibir Jeza, desconcertada.

A Nova Messias estava vestida com outra túnica branca, simples e comprida. Mas, em lugar de algodão cru, esta era de um tecido macio e elegante, muito mais atraente. Presa à cintura por uma simples corda dourada, era um traje bem-cortado, com um modesto decote quadrado. Seus delicados pés estavam calçados por um novo par de sandálias, com bonitas fivelas douradas nas laterais.

Porém, o mais notável de tudo era o seu cabelo que, antes revolto, fora lavado, aparado e penteado. Escorria sedoso e reluzente ao longo de seu rosto, contornando-lhe a magnífica linha do maxilar.

— Ela não me deixou usar maquiagem — reclamou Cissy.

Nem precisava! Seus cílios negros e compridos ressaltavam os estratosféricos olhos azuis. Suas feições finamente traçadas realçavam o contraste entre o carmim profundo de seus lábios e a imaculada compleição de tom branco fluorescente.

Jeza fora obviamente forçada a tudo isso e mostrava desconforto cada vez maior diante dos olhares e comentários de apreciação.

— Prefiro a minha própria túnica — acabou declarando, já partindo de volta aos seus aposentos, mas Feldman não tardou em intervir.

— Por favor, não mude de roupa — pediu ele, cativantemente. — Você está tão bem, revitalizada! Depois de ver o que as mulheres usam em Washington, ficará grata.

Jeza não se mostrou convencida, mas Hunter, na intenção de aliviar a situação, interrompeu com mais uma de suas disparatadas conclusões errôneas.

— Ei, Jeza, aposto que você nunca experimentou isto aqui antes ­cantarolou ele. — Chama-se vídeo-game. Jogue um pouco. É divertido! Eu acabei de desintegrar cinco das espaçonaves do Jon, sem briga. — Ele se virou e, acionando o controle manual com ligeireza, enviou outra das armadas de Feldman para o esquecimento.

Jeza começou a direcionar para Hunter mais um daqueles olhares incrédulos, levemente contraídos, que ele parecia atrair. Em seguida, quase como que reconsiderando, pegou o controle da mão estendida de Hunter, virou-se para o vídeo e, de uma só vez, mais rapidamente do que os olhos foram capazes de acompanhar, aniquilou toda a frota espacial de Hunter. Ela devolveu imediatamente o controle a Feldman, que ficou estarrecido, deu meia-volta e, com um leve sorriso de quem acaba de se divertir estampado no rosto, retirou-se para o seu quarto.

Hunter só conseguiu ficar olhando para a tela, totalmente boquiaberto.

Jeza passou as demais horas de vôo em seu quarto, sozinha, meditando.

 

                                 Salt Lake City, Utah

                                 8:00, sábado, 4 de março de 2000

O cardeal Litti se levantara cedo à espera de mais um dia cheio na segunda convocação. Estava sentado no sofá no seu quarto da pensão, tomando chá e rezando. Mas no meio de seus pensamentos, o cardeal foi interrompido por uma batida à porta. Presumindo que fosse a arrumadeira, girou a chave e escancarou a porta. Mas não era ela.

— Olá, Alphonse! — irrompeu uma voz familiar, porém indesejada. — Podemos entrar?

— Di Concerci! Santorini! — engasgou-se Litti. — O que estão fazendo aqui?

Os dois cardeais entraram sem delonga, apesar de não terem sido convidados.

— Você está muito bem, cardeal Litti — saudou Silvio Santorini ao desnorteado colega.

— Cardeal? — questionou Litti. — Ainda tenho esse título?

— É claro — assegurou-lhe Di Concerci.

Litti perguntou o impossível.

— Será que vocês estão aqui porque Nicolau reavaliou o meu relatório?

— Não, cardeal— falou Di Concerci. — Estamos aqui para comparecer à convocação e também para falar-lhe sobre o seu retorno à Cúria. Talvez tenhamos sidos abruptos demais com você. Talvez você devesse ter recebido permissão para discutir as suas... interessantes teorias. Se estiver disposto a voltar conosco após a convocação, nós lhe asseguramos que terá uma oportunidade de apresentar o seu raciocínio. Venha, vamos tomar o café da manhã juntos e discutiremos isso em maiores detalhes.

Litti não se deu por vencido tão facilmente e emitiu uma breve risada insolente.

— Por favor, poupem-me a bajulação. A encíclica da Congregação acerca da Nova Messias está escrita e divulgada. É tarde demais para que minhas palavras tenham importância.

— Nunca é tarde demais, Alphonse — prometeu Santorini. — Por favor, reconsidere.

— Você acha que tomo as minhas decisões ao acaso, Silvio? — O rosto de Litti se enrubesceu de emoção. — Que eu simplesmente desisto de cinqüenta anos de serviços dedicados à minha Igreja? Abandono minha segurança, a única vida que conheço, para perseguir... — Litti conteve as lágrimas que lhe assomaram aos olhos tristes e sofridos.

Sabendo que estava desperdiçando seus esforços, ele se acalmou e mudou de assunto.

— Vocês ficarão aqui até o fim da reunião? Ficarão para ouvir a Messias falar?

— Ficaremos até o fim, Alphonse — comprometeu-se Di Concerci. — Estarei representando o Vaticano no painel dos dignitários.

— O quê! — gritou Litti, descrente. — Você tenta evitar que eu venha e depois vem roubar o assento que desejo! — Ele se virou e foi para perto da janela, no afã de aumentar a distância que o separava daqueles intrusos. Lá longe, as montanhas de cumes nevados jaziam serenas e eternas contra o fundo azul do céu.

— Antonio não roubou o seu lugar, Alphonse — tentou Santorini convencer o obstinado cardeal. — A convocação fez uma solicitação formal ao Vaticano no sentido de enviar um representante oficial para o painel. Nicolau estava considerando enviar você, mas eis que você abdicou de sua posição dentro da Congregação. Ausentou-se. Sequer tínhamos certeza se o encontraríamos aqui e só ontem à noite, quando chegamos, foi que soubemos.

— Não acredito — desafiou Litti. — Nicolau negou o meu pedido para vir. Por que iria reconsiderar?

— Isso não importa, Alphonse — Di Concerci pulou essa parte — estamos aqui para observar e avaliar essa dita Messias, que é exatamente o que você queria de nós o tempo todo.

Litti virou-se para encarar seu velho adversário mais uma vez.

— Cardeal Di Concerci, previno-o de que não será capaz de compreender sua mensagem, a menos que reajuste seu ângulo de visão. É preciso escutar com ouvidos virgens, sentir com coração puro, pensar com mente não adulterada. Lamentavelmente, prefeito, por conhecê-lo, devo dizer que tenho poucas esperanças com relação a você neste sentido. Mas caso ao menos um de vocês, depois de ouvir a Nova Messias, venha a se mostrar inclinado para a minha posição mesmo que levemente, voltem a me procurar, pois então conversaremos. Fora isso, não temos mais o que falar.

Diante disto, os dois emissários do Vaticano se retiraram. Litti tentou retomar suas preces, mas estava demasiadamente perturbado.

Descendo para o saguão, ainda no elevador, Silvio Santorini girou os olhos e balançou a cabeça para o colega.

— Ele está exatamente conforme você descreveu. Não é mais o mesmo. Isso é muito triste. E potencialmente constrangedor, caso ele venha a expressar suas idéias para qualquer representante da mídia que nos assolam constantemente por estas bandas. Talvez, nestas circunstâncias, não tenha sido sábio manter-lhe o título de cardeal. Se ele falar em público, pode ser tomado como representante de uma opinião da Cúria. Ou, na melhor das hipóteses, como indicador de uma cisão em nosso meio. Isso é perigoso.

— Concordo, meu amigo — retrucou o prefeito — mas o pontífice não saberia disso. Pelo menos, ainda não. Nicolau e Alphonse já foram muito próximos. Nicolau ainda tem esperanças de que nosso cardeal refratário venha a recobrar a razão. Pessoalmente, eu jamais achei que ele tivesse alguma.

Santorini assentiu.

— Você trouxe seus ouvidos virgens?

— Não tenho ouvidos que se deixem penetrar pelas palavras dessa falsa profetisa, isso eu posso lhe assegurar — gracejou Di Concerci. E os dois se deixaram levar por uma breve risada, enquanto saíam do elevador e desfrutavam do frescor matinal fora do hotel.

 

                           Aeroporto Internacional de Dulles, Washington, D.C.

                           14:15, sábado, 4 de março de 2000

Era uma bela e clara tarde de inverno. Bem no horário, o avião fretado pela RMN tocou na pista de pouso nas cercanias da capital dos Estados Unidos. A recepção para os passageiros que desembarcaram foi espetacular: centenas de milhares de pessoas quase histéricas, aos gritos, portando flores, cartazes e câmeras fotográficas, num ajuntamento que se espalhava a perder de vista, muito além do perímetro demarcado para segurança em torno do enorme aeroporto.

Teria sido impossível passar num comboio de automóveis pelo meio de tamanho congestionamento e, conforme o planejado, a administração Moore colocara um de seus helicópteros à disposição bem perto, de forma a retirá-los imediatamente e conduzi-los até a Casa Branca. Tudo que a imensa multidão conseguiu em troca de sua prolongada paciência foram intermitentes lampejos da minúscula Messias, à medida que ela se deslocava ao longo do paredão ambulante de agentes do Serviço Secreto.

Mas não havia como confundi-la. Seu fulgor a distinguia de todos em volta. Decepcionando Feldman, Jeza voltara à segurança da velha túnica de algodão cru e às desgastadas sandálias de couro. Seu cabelo, entretanto, com a aparência consideravelmente menos revolta do que Feldman estava acostumado a ver, brilhava ao sol da manhã, enquanto ela e os seus acompanhantes cruzavam a pista para chegar ao helicóptero, que já os esperava com os motores ligados e partiu com destino à Casa Branca assim que eles entraram.

Lá chegando, as boas-vindas foram ainda mais esfuziantes. A multidão era ainda maior. Havia, espalhados por toda a avenida Pensilvânia e quarteirões adjacentes, grupos de simpatizantes, seguidores, sofredores esperançosos, curiosos, bem como alguns bandos menores de contestadores isolados, que não detinham controle absolutamente algum sobre a massa de idólatras.

Em meio ao turbilhão de gente, havia flâmulas e cartazes em abundância, louvando Jeza como enviada divina, citando as escrituras, prevendo o fim do mundo. E uma das faixas que foi particularmente bem acolhida em todos os três noticiários noturnos das grandes redes: "Moore precisa de um milagre”!

Soltando do helicóptero, Feldman pegou Jeza delicadamente pelo braço, ajudando-a a descer e conduzindo-a pelo tapete vermelho ao longo das fileiras da guarda de fuzileiros navais em seus elegantes uniformes coloridos, todos em posição de sentido e com as espadas estendidas, uma banda de metais e uma formação de escoteiros em saudação à sua chegada. Ele percebeu que a banda tocava uma melodia familiar. E teve de sorrir. Era a mesma marcha composta por Sousa que Anne Leveque cantarolara para ele ao contar-lhe a história da ovelha dançante.

Infelizmente, Hunter e Cissy não poderiam parar para apreciar toda essa pompa e cerimônia. Sua responsabilidade seria a de comandar as equipes de câmeras da RMN alocadas dentro e ao redor da Casa Branca. E, com acesso a Feldman e à profetisa, Hunter e Cissy esperavam propiciar uma cobertura pessoal, mais íntima, do evento histórico.

Ao fim do túnel de militares estava o presidente e a primeira-dama, o vice-presidente e sua mulher, e inúmeros senadores, parlamentares, variadas personalidades de destaque, socialites, dignitários estrangeiros e autoridades burocráticas dos altos escalões. Todos sorriam em profusão. Feldman lançou um olhar para sua pequena acompanhante e ficou impressionado com a confiança e altivez que ela exibia. Nada, daquela cerimônia toda, a afetava um mínimo sequer. Ela não parecia impressionada, nem intimidada. Meramente curiosa.

Feldman segurou as mãos estendidas do presidente e da sra. Moore, em seguida as do vice-presidente e sua mulher. Trocando breves cumprimentos, Feldman logo os apresentou à mulher do momento. Jeza parou, mantendo-se ligeiramente recuada, e olhou indagativamente para cada um deles.

Pasmo diante da própria estupidez, Feldman deu-se conta do que estava por acontecer e entrou subitamente em pânico. Foi tarde demais. Não pôde fazer nada. Estonteados, ambos os casais foram vitimados pelo escrutínio de Jeza.

Feldman dirigiu-se rapidamente para a primeira-dama, que estava prestes a cair. Agentes do Serviço Secreto materializaram-se espontaneamente, como que surgidos do nada, reagindo numa azáfama confusa e desorientada, sem qualquer direcionamento ou noção do que fazer. O estranho evento foi colhido ao vivo por todas as câmeras, de todos os ângulos.

Felizmente, a comitiva presidencial se recuperou rapidamente. Depois de alguns instantes de compostura e sorrisos bem-humorados, o presidente saudou sua convidada especial e as apresentações prosseguiram. Quando eles começaram a caminhar para a mansão presidencial, Feldman se inclinou e sussurrou ao ouvido da Messias:

— Jeza, talvez você não se dê conta do que faz, mas quando olha fixamente para as pessoas, você as deixa bastante desconcertadas. É possível controlar isso?

Jeza virou-se e olhou para ele interrogativamente; não disse nada e continuou acompanhando a comitiva. Moore ainda estava balançando a cabeça e mencionou para sua mulher alguma coisa acerca dos gases do escapamento do helicóptero.

Ao entrar no saguão principal, o grupo se posicionou perto do centro do comprido corredor, com Feldman e Jeza situados entre a primeira família e a segunda. Formou-se uma fila de cumprimentos e, durante algumas horas, Feldman e Jeza se mantiveram ocupados, apertando mãos e trocando comentários com a infinita procissão de parvos privilegiados. Feldman percebeu, com um certo alívio, que, embora as pessoas ainda fossem afetadas pelos olhos de Jeza ao conhecê-la, as conseqüências agora pareciam menos severas, além de durarem menos.

Feldman não estava bem certo de como a Messias toleraria esta imposição. Ele não chegara a relatar-lhe as especificidades dos acertos que fizera com a Casa Branca. Explicara apenas que ela iria conhecer pessoas, jantar e passar a noite lá.

Durante a prolongada recepção, Feldman percebeu que Jeza raramente sorria, embora não demonstrasse estar contrariada. Devido à seqüência ininterrupta de pessoas, Feldman não teve oportunidade para indagar acerca de seu cansaço físico ou mental. Mas conseguiu captar relances de suas conversas.

A uma certa altura, o presidente pediu a opinião de Jeza sobre política, e ela respondeu:

— Deus e governo são muito semelhantes: não há paz para ambos, pois a sociedade está sempre em falta com as leis para ela estabelecidas.

Feldman ficou impressionado de ouvi-la conversar com dignitários estrangeiros em suas línguas maternas. Depois de ouvir apenas uma ou duas palavras em inglês com sotaque, Jeza imediatamente captava a língua certa e, para infinito deleite dos beneficiários, respondia-lhes precisamente no dialeto correto. Tudo sendo cuidadosamente captado pelo sempre atento Hunter e as equipes de câmeras da RMN! Uma das situações mostrou-se especialmente divertida. Um defensor público bastante proeminente em Washington, a quem Feldman reconheceu do noticiário nacional, aproximou-se de Jeza com uma tirada toda especial escondida na manga de seu elegante paletó.

— Srta. Jeza — ele saudou a Messias — creio que eu e você temos algo bastante em comum.

Jeza olhou-o fixamente, sem fazer comentário algum, e ele ficou temporariamente desequilibrado, tenteando para manter a linha de raciocínio.

— Sabe — recuperou-se ele — nós estamos no mesmo ramo, você e eu... o de salvar pessoas.

Jeza lançou-lhe um olhar crítico durante um breve instante e retrucou de chofre:

— Estamos; só que os meus meios de salvação não tiram das pessoas até o último centavo!

Uma gargalhada considerável irrompeu dentre os que ouviram o diálogo e o defensor público saiu de fininho, amuado.

Houve outro desses estranhos interlúdios do qual Feldman se apercebeu e cuja possível explicação não lhe viria senão semanas mais tarde. Uma das últimas pessoas na fila a cumprimentar Jeza foi uma freira bastante idosa, de aparência fragilizada e minúscula estatura, ainda menor do que a própria Jeza. Feldman reconheceu a enrugada e santificada fisionomia de madre Bernadette, a mundialmente famosa "Irmã dos Sofredores Silenciosos", renomada por uma vida de trabalho dadivoso, dedicada a cuidar dos enfermos e miseráveis da África. Aparentando hesitação, embora decidida, a trêmula freirinha pegou a mão estendida da Messias e a beijou, lançando-lhe timidamente um olhar de súplica.

— Doce Senhora — ela saudou a profetisa numa voz tão baixa quanto sua própria figura — venho implorar suas preces, não por mim, mas pelos meus pobres e abandonados bebês que se encontram enfermos e famintos numa terra distante.

Feldman viu o rosto de Jeza se conturbar e seus olhos perscrutarem a minúscula mulher. Então, segurando madre Bernadette pelos ombros esquálidos, Jeza se inclinou para bem perto e sussurrou algo em seu ouvido. Os olhos da freira se arregalaram e um sorriso começou a se espalhar pelas rugas de seu rosto, qual ondas eriçadas pelo vento soprando sobre a superfície do mar.

Jeza tornou a se erguer e a freira perguntou, bastante estimulada:

— Hoje?

A Messias sorriu e assentiu com um gesto da cabeça.

Madre Bernadette mal conseguia se conter:

— Agora mesmo?

O sorriso de Jeza se abriu ainda mais e ela tornou a assentir.

A freira fez uma semi-genuflexão desajeitada e o sinal-da-cruz. Curvando­-se repetidamente e agradecendo à profetisa, alternando entre sorrisos e olhos arregalados de entusiasmo e descrença, a freirinha se afastou e logo se dirigiu para a porta da frente da Casa Branca.

Feldman lançou um olhar contraído e inquisitivo para Jeza, que ela descartou com um leve sorriso e um volteio com os olhos, virando-se para cumprimentar o próximo visitante.

Após a recepção, Jeza e Feldman foram conduzidos à sala de jantar da Casa Branca, como convidados de honra, para um banquete oferecido a duzentas pessoas. Ao ser solicitada a fazer uma oração, Jeza ergueu os olhos, estendeu os braços à altura dos ombros, em súplica, e disse simplesmente:

— Ó Pai Celestial, que criastes o sol, a chuva e a terra para prover com abundância, abençoai estes alimentos para os nossos corpos, para que nós possamos nutrir nossas mentes e espíritos. — Houve uma rodada de aplausos e apreço que, à análise de Feldman, pareceram incômodos para a Messias.

Depois de servido o último prato, ainda antes da sobremesa, o presidente dos Estados Unidos se levantou de sua cadeira, ofereceu à Messias as boas-vindas oficiais ao seu país e, em seguida, propôs um brinde à "mulher mais famosa sobre a face da Terra". Jeza não compartilhou do brinde, atendo­-se meramente a baixar os olhos para o seu prato praticamente intocado, no que pareceu ser o mais absoluto constrangimento.

O presidente Moore permaneceu de pé e gentilmente requisitou:

— Jeza, estou certo de que todos os presentes gostariam de ouvir um pouco mais dos seus intrigantes pensamentos. Você se importaria de dizer algumas palavras?

Em voz baixa que a maioria foi incapaz de ouvir, ela retrucou:

— Minha mensagem é de Deus, não de governo.

Ao que Moore redargüiu:

— Sempre foi uma estimada crença minha que há um importante lugar para o lado espiritual dentro da política. E posso lhe dizer, com toda a certeza, que a sua inspiradora mensagem aqui seria bastante apreciada. O governo, por certo, só tem a se beneficiar com os seus discernimentos. — Voltando­-se com o intuito de dirigir-se também aos demais convidados, Moore acrescentou: — Todos concordam?

Feldman não conseguiu distinguir exatamente o que Moore estava tentando atingir com isso. Mas suspeitou que fosse um estratagema para obter boas passagens da Messias, a fim de usar em propaganda futura da campanha.

A resposta dos convivas foi surpreendente. Todos se puseram de pé, estimulando Jeza com aplausos e brados. Era compreensível que uma aura de expectativas estivesse sendo gerada durante toda a noite.

Jeza ficou de cabeça abaixada durante toda a aclamação. Seus cabelos escuros, realçados pelo reluzente halo dos candelabros e castiçais de cristal, encobriram-lhe o rosto. Feldman não conseguiu distinguir a expressão dela.

Mas a torcida por um discurso não esvaneceu e os convidados só começaram a se aquietar e retomar seus assentos quando, finalmente, Jeza se levantou. Quando tudo estava no mais absoluto silêncio, a Messias ergueu o rosto e Feldman pôde ver que ela estava cansada e angustiada. Mas tal estado logo passou quando ela reuniu suas forças e começou a falar numa voz assertiva, firme, que atraiu toda a atenção.

Espalhou-se um murmúrio de apreciação e deleite por todo o salão quando os atentos ouvintes deram-se conta de que eram a privilegiada platéia de uma das infreqüentes e celebradas alegorias da Messias. Esta viria, mais tarde, a ser conhecida como:

 

                             A PARÁBOLA DA FAZENDA E DOS FEITORES

 

Desta vez, Jeza veio para uma cidade na América, chamada Washington, perto do rio Potomac, onde Ela foi convidada para um grande banquete. Após a refeição, o anfitrião, que era a maior autoridade desta terra, disse-Lhe: “Jeza, você poderia falar-nos agora”?

E Jeza hesitou a princípio, pois os assuntos do governo não eram de Sua alçada. Mas os convivas insistiram e Ela, sem querer faltar com a cortesia, contou-lhes uma parábola:

Era uma vez um homem bom e honesto que saiu da segurança de sua terra natal e partiu para o campo, a fim de buscar a própria sorte. Ao longo de muitos anos de trabalho árduo, esse homem construiu, com os recursos da terra inóspita, uma grande fazenda, de muita fartura. Havia douradas plantações de trigo, cevada e milho; e verdes pastos com rebanhos de vacas e ovelhas em abundância.

Sucedeu-se, então, que o homem envelheceu e morreu e, por não ter herdeiros diretos, deixou a enorme fazenda para um jovem sobrinho, que morava na cidade. O sobrinho, que também era um homem bom e honesto como o tio, não tinha conhecimento algum de agropecuária e resolveu contratar um feitor para assegurar a prosperidade da fazenda.

Em breve, dois astutos capatazes que trabalhavam na fazenda vieram ter com ele, a fim de melhorar suas estâncias.

O primeiro disse ao sobrinho: Contrate-me como feitor de sua fazenda que eu protegerei sua propriedade e duplicarei as suas safras de grãos.

E o segundo disse: Contrate-me como feitor de sua propriedade que eu cuidarei de fazer prosperar sua fazenda e duplicarei os seus rebanhos.

Ora, o sobrinho ficou muito impressionado com isso e falou: Cada um de vocês tem experiência distinta. Portanto, contratarei os dois e a ambos confiarei os afazeres de minhas propriedades. Vocês terão partilha igual no controle da fazenda e nos lucros. Durante quatro anos trabalharão juntos no intuito de tornar mais produtiva a terra, findos os quais eu retornarei para julgar o seu aproveitamento.

O sobrinho então se foi e deixou a fazenda sob os cuidados daqueles homens. Mas logo em seguida os dois começaram a se esbarrar. O primeiro disse: Comprarei novos equipamentos e contratarei mais gente para melhorar a colheita de cereais. O segundo então falou: Comprarei mais gado e abrirei novas pastagens para melhorar os rebanhos.

Tentando sobressair-se ao outro, cada qual tomou vultoso empréstimo de capital em nome da fazenda, prevendo que o produto de seu trabalho garantiria a parcela maior dos lucros.

Mas no primeiro ano não houve estação chuvosa. Os campos secaram e as plantações murcharam. Os pastos esturricaram e o gado definhou. E a fazenda perdeu muito dinheiro.

No segundo ano, cada um deles, desejoso de compensar os prejuízos do primeiro ano, tomou novo empréstimo, a fim de instalar portentosos sistemas de irrigação. Mas no verão, os gafanhotos vieram e devoraram pastos e plantações, e novamente a empreitada fracassou.

Os dois feitores então conversaram: Temos grande responsabilidade aqui e a pressão é grande. Deveríamos receber mais pelos fardos que carregamos. E, assim, aumentaram seus proventos.

A cada ano que se seguiu, os dois tornaram a tomar novos empréstimos, a fim de assegurar seus frutos e aumentar seus proventos, mas a cada ano a ambição só serviu para reduzir-lhes o rendimento.

Ao fim do quarto ano, o sobrinho voltou à fazenda, deparando com seus outrora dourados campos de cereais totalmente devastados e seus primorosos rebanhos agora alquebrados e moribundos. A grande fazenda não era mais próspera, mas os credores estavam à porta, exigindo pagamento.

Tomado de ira, o sobrinho chamou à sua presença os dois falsos feitores e disse: Vocês se comprometeram comigo a proteger a terra e a duplicar os rendimentos. Vejam de que forma me atenderam. A grande fazenda está arruinada, e sua prosperidade, vocês a esbanjaram!    

Mas os dois se puseram a acusar um ao outro, dizendo: Minhas decisões foram sábias e eu teria cumprido com a minha parte não fosse pela tolice dele, cujo perdularismo causou este prejuízo.

Mas o sobrinho os desabonou, dizendo: Tolos vocês são, porém mais tolo ainda sou eu, pois o senhor é responsável por seu criado. De fato não fiz jus à confiança de meu tio e, portanto, perdi tudo.

E os convivas do banquete ficaram impressionados e perguntaram a Jeza: Qual é o significado desta parábola?

Em resposta, Ela disse: A grande fazenda é nossa nação. O sobrinho é seu povo. Os dois feitores são o Congresso. Se uma nação é dividida e corrompida em seu íntimo, cabe então ao povo a responsabilidade de resgatar ciosamente o comando e expulsar os falsos feitores.

Digo, pois, que os grandes tesouros demandam grande vigilância. E aquele que não consegue salvaguardar seus tesouros deve justamente perdê-los. (Apoteose 23:1—48)

 

Ao concluir, Jeza se inclinou para Feldman e perguntou se poderia se retirar agora, para a sua meditação noturna. A mesa estava em alvoroço com as reações à homilia de Jeza quando Feldman passou sua solicitação ao perplexo presidente. Moore levantou-se prontamente e acompanhou Jeza até um mordomo, que a conduziu ao seu quarto no andar de cima.

Feldman sorriu ao notar a polêmica que o sermão de Jeza detonara entre os convidados. Alguns deles, observou, acharam que a parábola era uma repreensão do eleitor que não conseguia se manter totalmente engajado no processo governamental. Outros acharam que era uma condenação ao sistema bipartidário ou aos deficitários orçamentos nacionais.

E houve quem achasse que a parábola era uma recriminação quase aberta à presente administração que sofrera recentemente uma série de acusações de suborno e corrupção. Felizmente a ambigüidade do sermão permitiria que os assessores especiais da Casa Branca coibissem facilmente esta interpretação e a avaliação oficial da precária noite foi que, em termos gerais, tudo correra bem para o presidente.

Totalmente exaurido, com a viagem marcada para o dia seguinte bem cedinho e um dia cheio pela frente no estado de Utah, Feldman em pouco tempo também pediu licença e recolheu-se aos seus aposentos. Tirando apenas o sobretudo e os óculos, deixou-se cair de bruços sobre a cama, arrancou os sapatos com os próprios pés e caiu em sono profundo.

O dia já estava quase rompendo quando ele despertou, assolado por mais um pesadelo. Tirou o paletó todo amarrotado, afrouxou a gravata e foi caminhar pelo corredor, a fim de esticar as pernas. A meio caminho viu que a porta do quarto de Jeza estava entreaberta. Aproximou-se na ponta dos pés, tentou escutar algum som e, em seguida, tamborilou com os dedos de leve sobre a porta. Não houve resposta.

— Jeza! — chamou em voz baixa pela fresta. — Você está acordada?

Nenhuma resposta. Ele abriu a porta cuidadosamente e deparou com uma cama vazia, que, aparentemente, não fora usada. A luz do banheiro estava apagada. Feldman retornou ao corredor e desceu para o andar de baixo, onde encontrou um serviçal de plantão.

— Se o senhor estiver procurando pela Messias — disse o idoso cavalheiro com certa reverência — irá encontrá-La no Jardim das Rosas. Passou quase toda a noite lá. — E apontou o caminho.

Descalço, Feldman abriu as duas bandas da porta e enfrentou o frio que fazia naquela manhã de março. Ainda estava escuro, havia apenas uma nesga de luz surgindo por trás do horizonte.

Suas meias logo se encharcaram na caminhada sobre o piso de lajotas molhadas pelo orvalho, mas Feldman não avistou Jeza em canto algum. Acompanhando as sebes, dobrou uma esquina e conseguiu detectar uma sombra difusa no outro lado do pátio, agachada perto de um arbusto.

Ao se aproximar, viu que Jeza estava entre ajoelhada e sentada sobre o chão frio. A metade superior de seu corpo estava reclinada sobre o assento de pedra de um banco do jardim diante de uma enorme roseira. Seu rosto estava enfiado nos braços, e ela parecia estar soluçando. Feldman correu para perto e deixou-se cair de joelhos ao seu lado, colocando a mão carinhosamente sobre suas costas. Sua túnica estava úmida e fria. Ao tocá-la, ele sentiu a delicadeza e a pequenez de seus ombros.

— Jeza, o que aconteceu? Você está bem? — Ele tentou aprumá-la e ela não resistiu. Ele a virou para si, afagando-lhe carinhosamente os cabelos e tirando-os de cima do rosto para poder enxergá-la.

Seus olhos estavam fechados, o cenho franzido e os lábios fortemente contraídos. Sua fisionomia estava tão pálida que ele teve a impressão de estar olhando para a escultura em mármore de uma deusa grega. Só que esta debulhava lágrimas de verdade.

— Jeza, doce Jeza! — Feldman secou-lhe os olhos com o lenço e acariciou-lhe os cabelos. Estavam tão macios quanto a penugem dos pássaros.

— O que aconteceu?

Afastando-se dele devagar, ela colocou uma das mãos sobre o banco de pedra e começou a se levantar. Feldman pôs-se de pé rapidamente para auxiliá-la. Segurou-lhe o braço para firmá-la, porém ela lhe pareceu impenetrável, olhando para a aurora distante, introspectiva e perturbada, embora já não chorasse.

— Minha alma está morta de tristeza — disse ela, em tom vazio. — O que deve ser não é da minha vontade, está predestinado. — E sem olhar para trás, ela deu um forte aperto com as duas mãos no braço de Feldman e fugiu dele, tomando o caminho de volta à casa.

 

                                   Salt Lake City, Utah

                                   8:00, domingo, 5 de março de 2000

O cardeal Litti já estava de pé muito antes do alvorecer, excitado demais para conseguir dormir. Era chegado o dia pelo qual ele tanto esperara. De banho tomado e barbeado com apuro, vestiu sua melhor batina, sua melhor camisa branca e seu melhor colarinho eclesiástico. Postando-se diante do espelho comprido, tentou encolher a cintura, já apertada pela faixa, mas percebeu que de pouco lhe servia e rendeu-se com um sorriso.

O cardeal estava de bom humor, ainda que um tanto nervoso. Tinha em conta que este dia iria colocá-lo diante de sua Nova Messias e muito provavelmente iria determinar o curso que ele seguiria pelo resto de sua vida. Colocou a capa vermelha e preta sobre os ombros e ajeitou meticulosamente um imaculado barrete vermelho sobre a cabeça.

— Agora — disse consigo mesmo, em tom de apreciação — estou pronto para encontrar meu criador!

No intuito de economizar os últimos dólares que lhe restavam, em vez de pegar um táxi, o cardeal optou por revigorar-se com uma caminhada até o centro de convenções. Foi um erro.

Diferente dos dois últimos dias, quando mesmo com as enormes multidões fora possível passar por elas, hoje a massa humana estava praticamente impenetrável. Já começava no saguão de seu hotel, atulhado de gente impaciente. Mas pior ainda era lá fora, onde o trânsito pelas calçadas era de pessoas comprimidas umas contra as outras. Ele se arrependeu de não ter reservado um táxi; mas agora, decerto, seria impossível.

Invocando toda a sua força de vontade, o determinado cardeal enveredou pela multidão e foi abrindo caminho devagar em direção ao longínquo Pavilhão do Tabernáculo. O percurso foi dificultado ainda mais porque o Departamento de Controle de Tráfego e Multidões da prefeitura montara um rígido esquema para deixar as ruas do centro da cidade desimpedidas para as intermináveis carreatas de limusines e batedores da polícia que passavam a todo instante. Os cordões de isolamento haviam sido colocados sobre as calçadas, em vez de alinhados com os meios-fios, estreitando sobremaneira o espaço reservado aos pedestres.

Muito embora a convocação só tivesse início marcado oficialmente para as dez horas da manhã, Litti se via, a cada instante, mais preocupado com suas probabilidades de sequer chegar lá. Se a multidão estava tão compacta assim a diversos quarteirões de distância, ele não conseguia imaginar a gravidade do congestionamento mais perto do centro de convenções. Palmeando o caminho centímetro por centímetro, ele foi se comprimir contra as barricadas, na esperança de avistar um táxi pelas imediações. Mas nenhum dos que passavam, parecendo rojões amarelos, lhe dava a menor importância. Finalmente, desesperado, Litti fechou os olhos e fez uma ardorosa prece para Jeza, implorando uma solução.